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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O OLHO DE GOLEM - P.2 / Jonathan Stroud
O OLHO DE GOLEM - P.2 / Jonathan Stroud

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O OLHO DE GOLEM

Segunda Parte

 

O avião de Nathaniel tinha a partida do aeroporto de Box Hill marcada para as seis em ponto. O seu carro oficial chegaria ao ministério uma hora antes, às cinco e meia. O que queria dizer que tinha aproximadamente meio dia para se preparar para a missão mais importante da sua curta carreira no Governo: a viagem a Praga.

A primeira tarefa era tratar do seu servo e indispensável companheiro de viagem. No regresso a Whitehall, encontrou uma câmara de chamado disponível e, batendo palmas, chamou mais uma vez Bartimaeus. Quando ele apareceu, libertara-se do disfarce de pantera, tendo retomado uma das suas formas favoritas: um rapaz jovem de pele escura. Nathaniel reparou que o rapaz não vestia a habitual saia ao estilo egípcio; pelo contrário, vinha suntuosamente embonecado com um terno de viagem de tweed já fora de moda, polainas, sobrecalças e, na cabeça, um inconveniente capacete de vôo de couro, com óculos e tudo, por apertar.

Nathaniel franziu o cenho.

— Para começar, pode dispensar tudo isso. Não vai voar.

O rapaz ficou magoado.

— Mas porquê?

— Porque vou viajar incógnito, e isso quer dizer sem demônios dançando pela alfândega.

— O quê, agora eles nos põem de quarentena?

— Os magos checos irão inspecionar todas as chegadas, à procura de magia, e submeterão um avião britânico ao exame mais minucioso de todos. Nenhum artefato, livro de magia ou demônio idiota conseguirá passar. Terei de ser um «comum» enquanto durar o vôo; você será chamado assim que eu chegar.

O rapaz levantou os óculos para melhor mostrar o seu ceticismo.

— Julguei que o Império Britânico é que mandava na Europa — disse. — Vocês invadiram Praga há anos. Como é que são eles a dizer o que fazer?

— Não dizem. Nós continuamos a controlar o equilíbrio do poder na Europa, mas, oficialmente, temos neste momento uma trégua com os Checos. Presentemente, estamos a garantir que não haja nenhuma incursão mágica a Praga. Por isso esta viagem tem de ser feita com sutileza.

— Por falar de sutileza... — O rapaz piscou-lhe o olho descaradamente. — Me saí muito bem há pouco, hã?

Nathaniel franziu os lábios.

— A que se refere?

— Então, portei-me muito bem esta manhã... Não reparou? Podia ter sido extremamente malcriado com os teus mestres, mas controlei-me para não te prejudicar.

— Sério? Achei que estava sendo irritante como sempre.

— Está me gozando, não? Fui tão seboso, os meus pés praticamente escorregavam para todo lado. Ainda sinto na boca o travo da falsa humildade. Mas é preferível a ser enfiado de novo no Globo Doloroso de Jessica. — O rapaz estremeceu. — Porém, a minha sebosidade durou apenas alguns minutos. Deve ser horrível adulá-los constantemente, como você faz, e saber que se podia acabar com o jogo quando nos apetecesse, e seguir o nosso caminho... Só que te falta a coragem para fazê-lo.

— Pode parar imediatamente. Não me interessa a tua opinião. — Nathaniel sabia que nada disso era verdade; os demônios lançavam com freqüência meias-verdades aos magos para desorientá-los. Mais valia se fazer de surdo aos ardis deles. — Além disso — acrescentou —, e para começar, Duvall não é meu mestre. Desprezo-o.

— E Whitwell é diferente, não? Não me pareceu que gostassem muito um do outro.

— Chega. Tenho que fazer a mala e preciso ir ao Ministério dos Negócios Estrangeiros antes de partir. — Nathaniel viu as horas. — Vou precisar novamente de você daqui a... doze horas, no meu hotel em Praga. Até eu voltar a te chamar, prendo-o aqui a um nexo. Mantenha-se silencioso e invisível, neste círculo, longe do conhecimento ou dos sentidos de todas as coisas sensíveis, até eu te chamar.

O rapaz encolheu os ombros.

— Já que tem de ser...

— Tem.

A figura no pentagrama brilhou e foi sumindo lentamente, como uma lembrança de um sonho. Quando sumiu de vez, Nathaniel aplicou dois feitiços de reserva, para evitar que alguém libertasse o djinni sem querer, caso fosse usar o círculo, e saiu às pressas. Esperavam-no algumas horas de grande correria.

Antes de ir para casa fazer a mala, Nathaniel passou pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, um edifício em nada diferente do Museu Britânico em tamanho, volume e imponência monótona. Aqui tinha lugar grande parte da administração quotidiana do Império, com os magos a transmitirem conselhos e instruções pelo telefone e por mensageiros aos seus congêneres em gabinetes menores espalhados pelo mundo. Enquanto subia os degraus até à porta giratória, Nathaniel olhou para o telhado. Mesmo nos três planos que conseguia observar, o céu por cima do edifício estava carregado de formas insubstanciais em grande confusão: correios apressados levando ordens em envelopes mágicos codificados, escoltados por demônios maiores. Como sempre acontecia, a mera escala do grande Império, que apenas podia ser captada em visões como esta, deixava-o aterrorizado e um pouco preocupado. Como conseqüência, teve alguma dificuldade com a porta giratória da entrada; empurrando vigorosamente no sentido errado, teve o azar de derrubar uma senhora idosa de cabelo grisalho no átrio do outro lado, a braçada de papéis que carregava espalhando-se pelo chão de mármore.

Depois de conseguir transpor a porta com êxito, Nathaniel avançou apressado e, com uma dúzia de desculpas atabalhoadas, ajudou a vítima a levantar-se, antes de empreender a tarefa de apanhar os papéis. Enquanto isso, e acompanhado de um disparo contínuo de queixumes esganiçados da velhota, viu uma esbelta figura familiar sair de uma porta do outro lado do átrio e atravessá-lo. Jane Farrar, a aprendiz de Duvall, como sempre elegante e de cabelo escuro brilhante.

O rosto de Nathaniel ficou escarlate; acelerou, frenético, mas havia muitos papéis para apanhar e o átrio não era grande. Muito antes de terminar, e enquanto a velhota continuava a dizer a Nathaniel o que pensava a seu respeito, Ms. Farrar chegara à cena. Avistou os sapatos dela pelo canto de um olho: estacara e observava. Conseguia imaginar perfeitamente o ar de divertido desprendimento dela.

Respirando fundo, levantou-se e enfiou os papéis nas mãos da velhota.

— Pronto. Mais uma vez, as minhas desculpas.

— Acho muito bom... seu fedelho descuidado, arrogante e pestilento...

— Sim, deixe-me ajudá-la a transpor aquela porta...

Com mão firme, fê-la rodar e, com um leve empurrão entre as omoplatas, pô-la apressadamente dali para fora. Sacudindo-se, virou-se e pestanejou, como se com enorme surpresa.

— Ms. Farrar! Nem imagina o prazer que é vê-la.

Ela esboçou um sorriso indolente e reservado.

— Mr. Mandrake. Parece-me um pouco esbaforido.

— Mesmo? Bem, tenho compromissos muito urgentes para esta tarde. E depois as pernas daquela pobre velhota cederam, de modo que tentei ajudá-la... — Os olhos frios dela avaliavam-no. — Bem... é melhor eu ir andando...

Fez menção de se desviar, mas Jane Farrar aproximou-se subitamente um pouco mais.

— Sei que está ocupado, John — disse-lhe —, mas adoraria interrogá-lo sobre uma coisa, se me é permitida tamanha ousadia. — Enrolava distraidamente uma comprida madeixa de cabelo preto num dedo. — Que sorte a minha. Estou tão satisfeita por termos nos encontrado fortuitamente. Constou-me que recentemente conseguiu chamar um djinni de quarto nível. É verdade mesmo? — Mirou-o com olhos escuros e grandes, transbordando de admiração.

Nathaniel recuou ligeiramente. Sentia-se talvez um pouco quente, sem dúvida lisonjeado, mas continuava a não estar nada interessado em discutir assuntos tão privados como a sua escolha de demônio. Era uma pena o incidente no Museu Britânico ter-se tornado público — agora a especulação sobre o seu servo iria espalhar-se. Mas não era nada sensato ser apanhado desprevenido: seguro, secreto, sólido. Esboçou um sorriso atormentado.

— É verdade. Não foi mal informada. Não é muito difícil, posso lhe garantir. Agora, se não se importa...

Jane Farrar soltou um pequeno suspiro e passou convenientemente uma madeixa para trás de uma orelha.

— Você é inteligente — disse ela. — Sabe, tentei fazer exatamente isso... invocar um demônio do quarto nível... mas devo estar me atrapalhando de alguma maneira, porque pura e simplesmente não consegui. Não vejo onde está o problema. Não poderia vir comigo agora, para revermos as fórmulas encantatórias? Tenho um círculo de chamado só para mim. É no meu apartamento, não muito longe daqui. É muito acolhedor; não seremos incomodados... — Inclinou a cabeça ligeiramente para um lado e sorriu. Tinha uns dentes muito alvos.

Nathaniel estava consciente de uma gota de suor que lhe escorria deselegantemente pela parte lateral da testa. Tentou puxar o cabelo para trás e limpar a testa no que esperava fosse um movimento casual. Sentia-se nitidamente estranho: langoroso, apesar de irritado e enérgico, tudo em simultâneo. Afinal, seria bastante fácil ajudar Ms. Farrar. Chamar um djinni era extremamente simples, quando já se fez isso algumas vezes. Não era nada de especial. Apercebeu-se de repente de que desejava bastante a gratidão dela.

Ela tocou-lhe de leve no braço, com dedos esguios.

— O que me diz, John?

— Hum... — Abriu e fechou a boca, carrancudo. Algo o retinha. Algo sobre o tempo, ou a falta dele. O que era? Viera ao ministério para... exatamente para o quê? Tinha muita dificuldade em recordar-se.

Jane fez um ligeiro beicinho.

— Está preocupado com a sua mestra? Ela nunca irá descobrir. E eu não contarei ao meu. Sei que não é suposto nós...

— Não é isso — respondeu ele. — Só que...

— Nesse caso... ?

— Não, tenho de fazer algo hoje... algo importante. — Tentou desviar os olhos dos dela; não conseguia se concentrar, era esse o problema, e o seu coração batia muito ruidosamente para a memória conseguir se fazer ouvir. Ela usava também uma fragrância encantadora, não a normal de sorveira-brava em creme, mas um perfume muito mais oriental, de essência de flores. Era muito agradável, mas um pouco intenso demais. O cheiro da proximidade dela confundia-o.

— Que coisa é essa? — indagou. — Talvez eu possa ajudá-lo.

— Hum, tenho de ir a um lugar... a Praga...

Ela aproximou-se ainda mais.

— Vai? Para quê?

— Investigar... hã... — Pestanejou, sacudiu a cabeça. Algo estava errado.

— Olhe — sugeriu ela —, poderíamos nos sentar e conversar. Poderia contar-me tudo o que está planejando.

— Acho...

— Tenho um encantador sofá comprido.

— Tem?

— Poderíamos nos instalar confortavelmente e beber limonada gelada e você me contaria tudo sobre esse demônio que chamou, esse Bartimaeus. Ficaria muito impressionada.

Quando ela proferiu o nome, soou na sua mente um pequeno sinal de aviso, que atravessou toda a sua confusão sensual. Como ela soubera o nome de Bartimaeus? Só poderia ter sido por Duvall, que por sua vez o ouvira naquela manhã na câmara de chamado. E Duvall — Duvall não era amigo dele. Haveria de querer entravar tudo o que Nathaniel fizesse, até a sua viagem a Praga... Olhou fixamente para Jane Farrar com crescente desconfiança. A consciência voltou com força e, pela primeira vez, percebeu que uma teia sensora emitia uma pulsação monótona no seu ouvido, avisando-o da presença de uma magia sutil sobre a sua pessoa. Uma Sedução, ou quiçá um Fascínio... Assim que lhe ocorreu, o reflexo do cabelo dela pareceu sumir um pouco, o brilho nos olhos dela tremulou e diminuiu.

— Eu... eu lamento, Ms. Farrar — disse em voz rouca. — O seu convite é muito gentil, mas tenho de recusar. Por favor, apresente os meus cumprimentos ao seu mestre.

Ela olhou-o em silêncio, a expressão de submissa admiração substituída, fugazmente, por um desprezo sem fundo. Um momento depois, a contida calma familiar voltara ao rosto de Jane Farrar. Sorriu.

— Ele os receberá de bom grado.

Nathaniel fez uma curta vênia e deixou-a. Quando olhou para o outro lado do átrio, ela já desaparecera.

Estava ainda um pouco desorientado com este encontro, cinco minutos depois, quando saiu de um elevador no terceiro andar do ministério, percorreu um largo corredor ecoante e chegou à porta do Subsecretário. Ajustou os punhos, compôs-se por um momento, bateu à porta e entrou.

Era um gabinete de teto alto e paredes forradas com painéis de carvalho; a luz entrava por janelas elegantemente afuniladas que davam para o trânsito congestionado de Whitehall. A sala era dominada por três mesas grandes de madeira, os seus tampos com faixas embutidas de couro verde pontilhado. Viam-se mapas de vários tamanhos desdobrados sobre elas: alguns de papel prístino, outros de velino antigo estalado, todos cuidadosamente presos com alfinetes às superfícies de couro dos tampos das mesas. Um homem careca e pequeno, o Subsecretário dos Negócios Estrangeiros, estava debruçado sobre um desses mapas, seguindo algum pormenor com o dedo. Ergueu o olhar e acenou afavelmente com a cabeça.

— Mandrake. Ótimo. Jessica disse-me que passaria por aqui. Entre. Tenho os mapas de Praga a postos para você.

Nathaniel avançou e colocou-se ao lado do Subsecretário, cuja estatura diminuta mal lhe chegava ao ombro. A pele do homem era castanho-amarelada, a cor do pergaminho manchado pelo sol, e tinha uma textura seca e poeirenta. Bateu com um dedo no mapa.

— Bem, isto é Praga: um mapa relativamente recente, como pode ver... mostra as trincheiras deixadas pelas nossas tropas na Grande Guerra. A princípio, estará familiarizado com a cidade, presumo.

— Sim, senhor. — A mente eficiente de Nathaniel acedeu sem esforço à informação relevante. — O Bairro do Castelo fica na margem ocidental do Vltava, a Cidade Velha na oriental. O velho bairro mágico ficava perto do castelo, não era, senhor?

— Exatamente. — O dedo deslocou-se. — Aqui, abraçando a colina. Era na Rua do Ouro que a maioria dos magos e alquimistas do Imperador estava instalada. Até os rapazes de Gladstone marcharem por ali, claro. Hoje em dia, os magos que os Checos possuem encontram-se instalados fora do centro da cidade, nos subúrbios. Por conseguinte, é praticamente desnecessário ir até às proximidades do Castelo. É lá que tudo acontece, creio. O outro antigo centro mágico — o dedo deslocou-se sobre o rio — é o Gueto, aqui. Foi lá que Liva criou os primeiros golems, na época de Rodolfo*. Outros deram seqüência à atividade nessa área até ao século passado, por isso imagino que seja lá, de todos os locais possíveis, que os conhecimentos adequados foram guardados. — Olhou para Nathaniel. — Tem consciência de que a missão está condenada de início, não tem, Mandrake? Se eles possuíam a capacidade de criar golems durante todo este tempo, por que não o terão feito? Deus sabe que os derrotamos freqüentemente combate. Não, não consigo entender.

 

* O Imperador Rodolfo II de Habsburgo (1576-1612). (NT)

 

— Estou apenas agindo de acordo com as informações recebidas, senhor — disse Nathaniel, respeitosamente. — Praga parece-me o local apropriado para começar. — O tom e postura neutros escondiam o fato de concordar inteiramente com tudo o que o Subsecretário dissera.

— Hum. Bem, você é que sabe. — A voz do Subsecretário deixou bem claro que achava que Nathaniel não sabia. — Agora... está vendo este maço? Contém o seu passaporte falso para a viagem. Irá viajar como Derek Smithers, um jovem aprendiz trabalhando para a Watt’s Wine Company de Marylebone. O maço contém documentos a confirmá-lo, caso a alfândega checa levante dificuldades.

— Derek... Smithers**, senhor? — Nathaniel não parecia muito entusiasmado.

 

** Em inglês, como substantivo comum: pequenos fragmentos, átomos. (NT)

 

— Sim. Foi o único nome que conseguimos arranjar. O desgraçado morreu de hidropisia o mês passado e tinha mais ou menos a sua idade; desde então, apropriamo-nos da identidade dele para serviço do governo. Portanto, vai oficialmente a Praga tendo em vista a importação da excelente cerveja deles. Coloquei uma lista de cervejarias no maço, para decorar durante o vôo.

— Sim, senhor.

— Muito bem. Acima de tudo, tem de ser muito prudente nesta missão, Mandrake. Não desperte de forma alguma as atenções sobre a sua pessoa. Se tiver de usar magia, faça-o discreta e rapidamente. Soube que tenciona usar um demônio. Nesse caso, mantenha-o sob controle.

— Claro, senhor.

— Os Checos não devem saber que é mago. Parte do nosso atual tratado com eles inclui um compromisso de não condução de quaisquer atividades mágicas nos territórios deles. E vice-versa.

Nathaniel carregou o cenho.

— Mas, senhor, ouvi dizer que os infiltradores checos têm estado ativos recentemente na Grã-Bretanha. Certamente estão a desrespeitar o tratado.

O Subsecretário olhou de soslaio para Nathaniel com ar irritado e bateu com os dedos no mapa.

— Precisamente. Eles não são nada dignos de confiança. Quem sabe, até podem estar por trás deste seu incidente com o golem.

— Nesse caso...

— Sei o que vai dizer, Mandrake. É claro que o que mais nos agradaria era entrar amanhã com os nossos exércitos na Praça Vencelau e mostrar aos Checos quem é que manda, mas neste momento não podemos fazê-lo.

— Por que não, senhor?

— Por causa dos rebeldes americanos. Infelizmente, estamos um nadinha pressionados neste momento. Não será por muito tempo. Vamos limpar os Ianques e depois voltaremos de novo a nossa atenção para a Europa. Mas agora não queremos nada que provoque distúrbios. Entendido?

— Perfeitamente, senhor.

— Além disso, também não estamos cumprindo a trégua de uma dúzia de maneiras. É a diplomacia. Na verdade, há dez anos que os Checos andam muito envaidecidos. As campanhas de Mr. Devereaux na Itália e na Europa Central foram inconclusivas, e o Conselho de Praga começou a procurar pontos fracos no nosso Império. Estão a atacar-nos tal como uma pulga morde um cão. Esqueça. Tudo se resolverá com o tempo... — O Subsecretário pôs uma expressão em que a dureza e a complacência se misturavam em partes iguais. Voltou a dar atenção ao mapa. — Ora bem, Mandrake — disse, cheio de energia —, suponho que vá querer um contato em Praga. Alguém que o ajude a orientar-se.

Nathaniel anuiu.

— Têm alguém lá, senhor?

— Temos. Um dos nossos melhores agentes... O nome dele é Harlequin.

— Harlequin... — Nathaniel imaginou uma figura esbelta e mascarada, movendo-se nas sombras com passos de dança, fazendo-se acompanhar de um ar carnavalesco e ameaçador...

— Efetivamente. É nome de código. Não posso revelar-lhe seu verdadeiro nome; possivelmente, nem ele mesmo saiba. Se está a visualizar um cavalheiro esbelto, mascarado, com roupas coloridas e ágil, é melhor desenganar-se. O nosso Harlequin é um homem gordo, idoso e de temperamento solene. Também gosta de se vestir de negro. — O Subsecretário esboçou um esgar de pura repugnância. — Praga faz isso às pessoas, se ficam por lá muito tempo. É uma cidade melancólica. Vários dos nossos agentes foram levados ao suicídio ao longo dos anos. Harlequin parece são de espírito, até agora, mas é um pouco mórbido nas suas suscetibilidades.

Nathaniel afastou o cabelo dos olhos.

— Estou certo de que não haverá problema, senhor. Como vou encontrá-lo?

— Hoje, à meia-noite, saia do seu hotel e dirija-se ao cemitério do Gueto. A propósito, fica aqui, Mandrake... vê? Sempre direto desde a Praça da Cidade Velha. Deverá usar uma boina mole com uma pena vermelho-sangue, e passear por entre as lápides. Harlequin o encontrará. Irá reconhecê-lo pela vela identificativa que leva.

— Uma vela identificativa.

— Isso mesmo.

— Mas como... É particularmente comprida ou torta, ou o quê?

— Ele não me forneceu essa informação.

Nathaniel ficou carrancudo.

— Queira desculpar, mas acho tudo isto um pouco... melodramático, não lhe parece, senhor? Ele não podia telefonar para o quarto do hotel depois de eu ter tomado uma ducha, e encontrar-se comigo lá embaixo, no restaurante?

O Subsecretário sorriu tristemente. Estendeu o maço a Nathaniel e dirigiu-se para trás da mesa mais distante, onde estava uma cadeira de couro com pelúcia, onde se sentou soltando um pequeno suspiro. Virou-a para as janelas, onde nuvens carregadas de chuva pairavam baixas sobre Londres. Chovia lá para o oeste: marcas difusas no céu caíam sobre as ondulações invisíveis da cidade. O Subsecretário ficou a olhar durante algum tempo, sem falar.

— Veja a cidade moderna — disse por fim —, construída segundo os padrões mais atuais. Repare nos edifícios orgulhosos de Whitehall: nenhum deles tem mais de cento e cinqüenta anos! É claro que existem ainda zonas de mau gosto, não reconquistadas... isso é inevitável, com tantos comuns por aqui... mas o coração de Londres, onde trabalhamos e vivemos, é inteiramente vanguardista. Uma cidade do futuro. Uma cidade digna de um grande império. O apartamento da sua Ms. Whitwell, Mandrake — um edifício excelente — exemplifica a tendência moderna. Deveria haver mais assim. Mr. Devereaux tenciona arrasar grande parte de Covent Garden no ano que vem, reconstruir todas aquelas casas com estrutura de madeira como visões gloriosas de concreto e vidro...

A cadeira virou-se para a sala; indicou os mapas.

— Já Praga... é completamente diferente, Mandrake. Para todos os efeitos, trata-se de um lugar curiosamente melancólico, muito nostálgico das glórias do seu passado desaparecido. Uma fixação mórbida em coisas que estão mortas e enterradas: os magos, os alquimistas, o grande Império Checo. Bem, qualquer médico lhe dirá que é uma perspectiva doentia... Se Praga fosse humana, seria internada num sanatório. Agora, digo sinceramente que, se quiséssemos, poderíamos obrigar Praga a libertar-se dos seus devaneios, Mandrake, mas nós não queremos. Não. É preferível manter a sua mente confusa e enigmática, em vez de lúcida e perspicaz, como Londres. E pessoas como Harlequin, que estão atentas ao que se passa e nos informam, têm de pensar da mesma maneira que os Checos. Senão, de que nos serviriam, hã? Harlequin é um espião acima da média, Mandrake. Daí as suas instruções coloridas. Sugiro que as siga à risca.

— Com certeza, senhor, me esforçarei ao máximo.

 

Vi logo que era Praga assim que me materializei. A ostentação degradada do lustre dourado que pendia do teto do quarto de hotel; as sancas ornamentadas e enegrecidas em volta das extremidades mais altas das paredes; as pregas empoeiradas do dossel por cima da cama de quatro colunas; o zumbido melancólico no ar — tudo apontava numa direção. Assim como a expressão de enorme inquietação no rosto do meu amo. Mesmo enquanto murmurava as últimas sílabas do chamado, olhava em volta do quarto como se em parte esperasse que ele se erguesse e lhe ferrasse uma dentada.

— Fez boa viagem? — inquiri.

Concluiu alguns elos protetores e saiu do círculo, fazendo-me sinal para que o imitasse.

— Nem um pouco. Havia ainda alguns vestígios mágicos quando passei na alfândega. Agarraram-me e levaram-me para uma sala cheia de correntes de ar nos fundos, onde tive de ser muito convincente; disse que o meu armazém de vinhos ficava mesmo ao lado de instalações do governo e que, esporadicamente, algumas fórmulas desviadas penetravam as paredes. Acabaram por engolir a história e deixaram-me em paz. — Pôs um ar carrancudo. — Não compreendo! Mudei todas as roupas antes de sair de casa para evitar que ficassem colados a mim quaisquer vestígios!

— As cuecas também?

Fez uma pausa.

— Oh... estava com pressa. Esqueci-me delas.

— Então foi isso. Ficaria surpreendido com o que se acumula lá embaixo.

— E olhe para este quarto — continuou o rapaz. — É suposto ser o melhor hotel que têm! Juro que não foi redecorado este século. Repare nas teias de aranha naquelas cortinas! Medonho. E consegue dizer qual era a cor do carpete? Eu não. — Deu um pontapé na cama, irritado; saiu de lá uma nuvem de pó. — E para que é esta coisa estúpida com quatro colunas? Por que não puseram um belo futon limpo ou algo assim, como em casa?

— Anime-se! Pelo menos terá onde dormir. — Investiguei uma porta lateral de aspecto proibitivo: abriu-se com uma chiadeira teatral revelando um banheiro ladrilhado de aspecto sujo, iluminado por uma única lâmpada. Uma monstruosa banheira com três pés espreitava a um canto; era daquelas onde as noivas são assassinadas, ou os crocodilos de estimação crescem até ficarem enormes, alimentados com carnes raras.35 Um sanitário igualmente imponente aguardava em frente, a corrente do reservatório de água pendendo do teto como uma corda de forca.36 Teias de aranha e bolor lutavam avidamente pelos domínios extremos do teto. Uma complexa série de canos de metal enrolava-se uns nos outros pela parede afora, ligando a banheira e o sanitário e parecendo exatamente os intestinos espalhados de um...

 

35 Eis uma das estranhas qualidades de Praga: algo na sua atmosfera, quiçá causado por cinco séculos de feitiçaria obscura, realça o potencial macabro de cada objeto, por mais mundano.

36 Estãovendo aonde quero chegar?

 

Fechei a porta.

— Pensando melhor, não me daria ao incômodo de espreitar lá para dentro. É apenas um banheiro. Nada de especial. Que tal a vista?

Deu-me um olhar fuzilante.

— Veja com seus próprios olhos.

Afastei as pesadas cortinas escarlates e olhei a encantadora vista para um enorme cemitério municipal. Filas ordenadas de lápides estendiam-se pela noite, guiadas por séries de árvores e arbustos sinistros. Lanternas amarelas penduradas a intervalos regulares libertavam uma luz lúgubre. Viam-se alguns indivíduos curvados e solitários a perambular pelos caminhos de cascalhos entre as lápides; o vento trazia os suspiros deles até à janela.

Fechei rapidamente as cortinas.

— Sim... Não é propriamente animador, tenho que admitir.

— Animador? Este é o local mais desolador onde jamais estive!

— Bem, o que é que esperava? Você é inglês. Está claro que te poriam num quarto imundo com vista para um cemitério.

O rapaz estava sentado a uma pesada escrivaninha, a inspecionar uns papéis num pequeno maço castanho. Falou distraidamente.

— Precisamente por esse motivo deveriam ter me dado o melhor quarto.

— Está me gozando? Depois do que Gladstone fez a Praga? Eles não esquecem, sabe?

Ergueu então o olhar.

— Isso foi guerra. Vencemos, justa e merecidamente. Com um mínimo de perda de vidas civis.

Nesta altura, eu era Ptolomeu, de pé junto às cortinas, de braços cruzados, olhando por minha vez para ele com ar carrancudo.

— Acha mesmo? — escarneci. — Vai dizer isso às pessoas dos subúrbios. Ainda reina a desolação, ali, no lugar onde as casas arderam.

— Oh, você é que sabe, certo?

— É claro que sei! Estive lá, não estive? A lutar pelos Checos, devo acrescentar. Ao passo que tudo o que você aprendeu foi forjado pelo Ministério da Propaganda de Gladstone após a guerra. Não me venha com lições, moleque.

Por um momento, pensei que ele fosse irromper numa das suas antigas fúrias. Depois, como que se tivesse desligado um botão dentro dele, ficou todo frio e despreocupado. Virou-se para os papéis, de rosto inexpressivo, como se o que eu dissera não interessasse e até o enfadasse. De certa forma, teria preferido a raiva.

— Em Londres — disse ele, quase de si para si —, os cemitérios ficam fora dos limites da cidade. É muito mais higiênico assim. Temos carros funerários especiais para levar os corpos. É o método moderno. Este lugar vive no passado.

Não respondi. Ele não merecia o benefício da minha sabedoria.

Durante cerca de uma hora, o rapaz analisou os papéis à luz de uma vela curta, fazendo pequenas anotações nas margens. Ignorou-me; ignorei-o, a não ser para enviar sutilmente uma brisa pelo quarto e fazer a vela derreter sobre o trabalho dele de forma irritante. Às dez e meia, desceu à recepção e, em checo perfeito, pediu que lhe levassem ao quarto um prato com borrego grelhado e uma garrafa de vinho. A seguir, pousou a caneta e virou-se para mim, puxando o cabelo para trás com a mão.

— Já sei! — disse-lhe das profundezas das suas quatro colunas, onde estava descansando —, já sei quem você me faz lembrar. Tenho estado a remoer desde que me chamou a semana passada. Lovelace! Mexe no cabelo tal e qual ele. Não consegue deixá-lo em paz.

— Quero falar sobre os golems de Praga — disse ele.

— É um sinal de vaidade... só pode. Toda essa brilhantina.

— Você viu os golems em ação. Que tipo de mago os usa?

— Calculo que seja também um sinal de insegurança. Uma constante necessidade de se aprumar.

— Foram os magos checos que os criaram? Um inglês poderia fazê-lo?

— Gladstone nunca mexia... no cabelo ou fosse no que fosse.

O rapaz pestanejou, mostrou interesse pela primeira vez.

— Conheceu Gladstone?

— Conhecer é um pouquinho forte. Vi-o de longe. Ele costumava estar presente durante a batalha, apoiado no seu Bordão, a ver as tropas semearem a carnificina; aqui em Praga, pela Europa... Como digo, ele era muito discreto; observava tudo, falava pouco; depois, quando chegava o momento, cada jogada era decisiva, ponderada. Nada parecido com os teus magos tagarelas de hoje.

— Sério? — Via-se que o rapaz estava fascinado. Não há prêmios para quem adivinhar quem ele estava imitando. — Portanto — prosseguiu —, você admirava-o, à sua maneira venenosa e demoníaca?

— Não. É claro que não. Ele era um dos piores. Os sinos das igrejas repicaram pela Europa ocupada quando ele morreu. Não queira ser como ele, Nathaniel, vai por mim. Além disso — ajeitei uma almofada poeirenta —, você ainda está muito longe disso.

Oh, ele encrespou-se ante aquelas palavras.

— Porquê?

— Está longe de ser suficientemente desagradável. Aí vem o teu jantar.

Uma pancada na porta anunciou a chegada de um criado de casaco preto e uma criada idosa, trazendo várias bandejas cobertas e vinho frio. O rapaz falou-lhes com cortesia suficiente, fazendo algumas perguntas sobre o traçado das ruas vizinhas e dando-lhes uma gorjeta pelo incômodo. Enquanto durou a visita deles, eu era um ratinho confortavelmente enroscado entre as almofadas; permaneci neste disfarce enquanto o meu amo engolia sofregamente a comida. Por fim, pousou o garfo, bebeu um último gole do copo e levantou-se.

— Ora bem — disse ele. — Não há tempo para conversas. São onze e um quarto. Temos que ir.

O hotel ficava em Kremencova, uma rua pequena na orla da Cidade Velha de Praga, não muito longe do grande rio. Saímos e seguimos para o norte pelas ruas iluminadas, avançando lenta e decididamente na direção do Gueto.

Apesar da ação destrutiva da guerra, apesar da dissolução em que a cidade mergulhara depois de seu Imperador ter sido morto e o seu poder transferido para Londres, Praga conservava ainda algo do mistério e grandiosidade de outrora. Até eu, Bartimaeus, por norma indiferente aos vários buracos infernais humanos onde fui aprisionado, tinha de reconhecer a sua beleza: as casas em tons pastel, com os seus telhados altos e íngremes de terracota, reunindo-se densamente em volta das flechas e campanários de um sem-fim de igrejas, sinagogas e teatros; o grande rio cinzento que passava serpenteando, atravessado por uma dúzia de pontes, cada uma criada segundo um estilo diferente pelo seu próprio grupo de djinn suados;37 no alto de tudo, o castelo dos imperadores, erguendo-se tristonho na sua colina.

 

37 Estive envolvido na construção da Ponte de Pedra, a mais nobre de todas, por altura de 1357. A tarefa foi realizada por nove de nós, conforme solicitado, numa única noite, firmando os alicerces com o sacrifício habitual: o sepultamento de um djinni. Ao raiar do dia, tiramos à sorte para ver a quem cabia a «honra». O pobre Humphrey ainda deve estar lá, chateado de morte, apesar de lhe termos dado um baralho de cartas para ajudar a passar o tempo.

 

O rapaz seguiu em silêncio. Não surpreendia, porém — raramente saíra de Londres em toda a sua vida. Calculei que estivesse a olhar aparvalhado à sua volta, de admiração.

— Que lugar mais aterrador — comentou. — As medidas de Devereaux para eliminar os bairros de lata vinham mesmo a calhar aqui — disse.

Olhei-o.

— Devo deduzir que a cidade áurea não é merecedora da tua aprovação?

— Bem... é tudo tão desordenado, não é?

Era verdade, pois à medida que vamos nos embrenhando na Cidade Velha, as ruas tornam-se mais estreitas e mais labirínticas, ligadas por um sistema capilar de caminhos e pátios laterais, onde os beirais das calhas se tornam tão pronunciados que a luz do dia mal consegue chegar à calçada lá embaixo. Provavelmente, os turistas acham encantadora esta coelheira; para mim, dada a minha perspectiva ligeiramente mais denigratória, personifica na perfeição a irremediável barafunda de todo o esforço humano. E para Nathaniel, o jovem mago inglês, acostumado às vias públicas imensas e brutais de Whitehall, era tudo um bocado acanhado demais, um bocado descontrolado demais.

— Aqui viveram grandes magos — recordei-lhe.

— Isso foi antes — respondeu com azedume. — Estamos no presente.

Atravessamos a Ponte de Pedra, com a sua decrépita torre velha na margem oriental; morcegos esvoaçavam em volta de suas vigas salientes, e a luz de velas tremulava nas janelas superiores. Mesmo a esta hora tardia, havia bastante trânsito nas ruas: um ou dois carros antigos, com capotas altas e estreitas e pesados tetos retráteis, atravessavam a ponte; muitos homens e mulheres a cavalo, também; outros levando bois pela mão ou conduzindo carroças de duas rodas cheias de legumes e barricas de cerveja. A maioria dos homens usava boinas pretas moles ao estilo francês, tendo a moda, sem dúvida, mudado desde o meu tempo aqui, tantos anos atrás.

O rapaz pôs uma expressão depreciativa.

— Agora me lembro. É melhor acabar já com esta charada. — Trazia uma pequena mochila de couro; remexia agora nela, tirando de lá uma grande boina mole. Continuando a remexer, saiu uma pena encaracolada e bastante machucada. Ergueu-a, de modo a que captasse a luz da lanterna.

— De que cor diria que é isto? — perguntou-me. Refleti.

— Não sei. Vermelho, acho.

— Que tipo de vermelho? Quero uma descrição.

— Hã, vermelho-tijolo? Vermelho-fogo? Vermelho-tomate? Vermelho-lagosta? Pode ser qualquer um ou todos.

— Nesse caso, não é vermelho-sangue? — Praguejou. — Tive tão pouco tempo, que foi o que consegui arranjar. Bem, terá que servir. — Enfiou a pena no tecido da boina e colocou o conjunto na cabeça.

— Qual é a finalidade disso? — inquiri. — Espero que não esteja tentando ser arrojado, porque parece um perfeito idiota.

— Isto é estritamente à serviço, garanto-lhe. A idéia não foi minha. Anda, é quase meia-noite.

Desviamo-nos então do rio, dirigindo-nos para o coração da Cidade Velha, onde o Gueto guardava os mais profundos segredos de Praga.38

 

38 No tempo de Rodolfo, em que o Sacro Império Romano estava no seu auge e seis afrits patrulhavam as recém-construídas muralhas de Praga, a comunidade judaica local fornecia ao Imperador a maior parte do seu dinheiro e uma boa parte da sua magia. Limitados por imposição aos becos apinhados e simultaneamente desmerecedores e merecedores da confiança da restante sociedade de Praga, os magos judeus tornaram-se poderosos durante algum tempo. Como os pogromes* e as calúnias contra o seu povo estavam a se tornar uma constante, a magia foi concebida sobretudo com um caráter defensivo — temos como exemplo o grande mago Liva, que criou o primeiro golem para proteger os Judeus tanto dos ataques dos humanos como dos djinn.

* Pogrom (do russo ??????) é um ataque violento maciço a pessoas, com a destruição simultânea do seu ambiente (casas, negócios, centros religiosos). Historicamente, o termo tem sido usado para denominar atos em massa de violência, espontânea ou premeditada, contra judeus e outras minorias étnicas da Europa.

 

As casas tornaram-se menores e decrépitas, todas tão juntas que algumas só se agüentavam pela proximidade das suas vizinhas. Tínhamos humores diametralmente opostos enquanto caminhávamos. A minha essência sentia-se estimulada pela magia que emanava das velhas pedras, pelas memórias dos meus feitos do passado. Nathaniel, ao contrário, parecia tornar-se cada vez mais carrancudo, murmurando e resmungando baixo do seu chapéu maior do que o normal, como um velho rabugento.

— Há alguma chance — sondei — de me dizer ao certo o que estamos fazendo?

Olhou para o relógio.

— Dez para a meia-noite. Tenho que estar no cemitério antigo quando os relógios começarem a dar as horas. Outro cemitério! Acha possível? Quantos existem neste lugar? Bem, há um espião que vai encontrar-se comigo lá. Me reconhecerá por esta boina; e irei reconhecê-lo pela sua... e passo a citar... «vela incomum». — Levantou uma mão. — Não me pergunte... Não faço a menor idéia. Talvez ele nos indique alguém que esteja informado sobre os golems.

— Acha que algum mago checo está na origem dos problemas em Londres? — inquiri. — Não é necessariamente assim, como sabe.

Ele anuiu, ou pelo menos mexeu bruscamente a cabeça baixo da boina gigante.

— Eu sei. Alguém do meio deve ter roubado o olho de barro da coleção de Lovelace; há um traidor em algum lugar em ação. Mas os conhecimentos para usá-lo devem ter vindo de Praga. Ninguém em Londres jamais fez isso. Talvez o nosso espião possa dar uma ajudinha. — Suspirou. — No entanto, duvido. Obviamente, alguém que se intitule «Harlequin» há muito que já passou do prazo.

— Tal como todos vocês, com os seus estúpidos nomes falsos. Mr. Mandrake. E o que eu faço, enquanto você se encontra com este cavalheiro?

— Mantenha-se escondido e vigie. Estamos em território inimigo, e não vou confiar em Harlequin nem em mais ninguém. Pronto, deve ser este o cemitério. É melhor mudar.

Tínhamos chegado a um pátio empedrado, rodeado por todos os lados de edifícios com pequenas janelas pretas. A nossa frente um lance de escadas, que conduzia a um portão de metal aberto fixo a um gradeamento em ruínas. Para lá dele erguia-se uma massa escura e denteada — as lápides mais elevadas do velho cemitério de Praga.

Este campo-santo teria pouco mais de cinqüenta por cinqüenta metros, de longe o menor da cidade. No entanto, fora usado sucessivamente durante muitos séculos, o que contribuíra para o seu aspecto característico. Na verdade, o mero peso das sepulturas neste espaço restrito levara a que os corpos fossem enterrados uns por cima dos outros, repetidamente, até a superfície do cemitério ter crescido cerca de dois metros em relação ao pátio circundante. As lápides acumulavam-se umas sobre as outras — as maiores pairando sobre as menores, as menores meio enterradas no solo. Com este desrespeito confuso da clareza e da ordem, o cemitério era exatamente o tipo de lugar que iria perturbar a mente estruturada de Nathaniel.39

 

39 Na verdade, também me causou algum arrepio, mas por motivos diferentes. A terra era muito forte aqui — o seu poder elevava-se para o ar, sugando-me as energias. Os djinn não eram bem-vindos; tratava-se de um local privado, sujeito a uma magia diferente.

 

— Bem, apresse-se — instou-me ele. — Estou à espera.

— Oh, então é isso que está fazendo? Não entendi muito bem, debaixo desse chapéu.

— Transforme-se numa cobra abominável ou num rato da peste, ou a criatura medonha da noite que quiser. Vou entrar. Prepare-se para me proteger, se necessário.

— Nada me dará maior prazer.

Desta vez, escolhi ser um morcego de orelhas compridas, asas duras, e a cabeça inchada. É um disfarce flexível, acho eu — move-se com rapidez, é silencioso e muito em harmonia com o espírito dos cemitérios à meia-noite. Esvoacei em direção à mancha deserta de pedras amontoadas. Como precaução inicial, inspecionei os sete planos: estavam suficientemente limpos, apesar de tão mergulhados em magia que cada um vibrava delicadamente com as memórias de feitos passados. Não notei quaisquer armadilhas ou sensores, conquanto alguns feitiços protetores em edifícios próximos dessem a entender que alguns magos moravam aqui ainda.40 Não havia ninguém nas imediações; a esta hora tardia, o emaranhado de caminhos estreitos do cemitério estava vazio, envolto em sombras negras. Postes enferrujados presos aos gradeamentos emitiam uma luz indiferente. Encontrei uma lápide saliente e pendurei-me elegantemente nela, fechando as asas. Inspecionei o caminho principal para o cemitério.

 

40 Eram defesas fracas. Um diabrete maneta teria conseguido passar. Como centro de magia, Praga estava um século atrasada.

 

Nathaniel transpôs o portão, os seus sapatos pisando delicadamente o caminho. Nesse preciso momento, começaram a ouvir-se os doze relógios das igrejas de Praga, assinalando o princípio dos segredos da meia-noite.41 O rapaz soltou um sonoro suspiro, sacudiu a cabeça com repugnância e começou a percorrer vacilantemente o caminho, com uma mão estendida, tateando por entre as pedras. Um mocho piou ali perto, possivelmente anunciando uma morte violenta, ou então comentando a dimensão ridícula do chapéu do meu amo. A pena vermelho-sangue agitava-se para cá e para lá, atrás da cabeça dele, brilhando tenuemente com a luz fraca.

 

41 Por motivos complexos possivelmente relacionados com a astronomia e o ângulo da órbita terrestre, é nos pontos gêmeos da meia-noite e do meio-dia que os sete planos mais se aproximam, permitindo aos humanos sensíveis vislumbrar a atividade que normalmente seria invisível para eles. Por conseguinte, nestas alturas fala-se muito de fantasmas, espectros, cães negros, sósias e demais almas do outro mundo — que são geralmente diabretes ou foliots a entregar recados disfarçados desta ou daquela maneira. Como a noite estimula particularmente a imaginação humana (conquanto fraca), as pessoas prestam menos atenção às aparições ao meio-dia, mas elas não deixam de estar presentes: figuras tremulantes vislumbradas na névoa produzida pelo calor, transeuntes que — vistos com olhos de ver — não têm sombra, rostos pálidos no meio de multidões que, quando olhamos diretamente, não se vêem em lugar nenhum.

 

Nathaniel diminuiu os passos. O morcego pendia, imóvel. O tempo passou muito lentamente, como sempre acontece quando se anda pelos cemitérios. Apenas uma vez se registrou movimento na rua abaixo do gradeamento: uma estranha criatura com quatro patas, dois braços e uma espécie de cabeça dupla saiu da noite. O meu amo avistou-a, estacou na dúvida. Passou por baixo de uma lanterna, afinal era um parzinho de namorados, as cabeças apoiadas uma na outra, os braços entrelaçados. Beijaram-se assiduamente, riram um pouco, seguiram rua afora. O meu amo ficou a vê-los desaparecer com uma estranha expressão no rosto. Acho que estava tentando demonstrar desdém.

A partir de então, os seus passos, nunca particularmente enérgicos, tornaram-se nitidamente indiferentes. Prosseguiu de forma despreocupada, todo curvado e embrulhado no seu casaco comprido preto, dando pontapés em pedras invisíveis. A sua mente não parecia estar no trabalho. Decidindo que ele precisava de um pouco de encorajamento, esvoacei e fiquei a pairar junto a uma lápide.

— Anime-se — disse-lhe. — Parece-me um pouco abatido. Ainda vai perder este tal Harlequin, se não tiver cuidado. Imagine que está numa missão romântica com alguma maga toda boa.

Não podia jurar — estava escuro e tudo — mas creio que deve ter corado. Interessante... Talvez a seu tempo este fosse um terreno fértil a explorar.

— É inútil — murmurou. — Quase meia-noite e meia. Se ele fosse aparecer, já teríamos visto algo. Acho... está me ouvindo?

— Não. — Os ouvidos apurados do morcego tinham detectado um som de raspar do outro lado do cemitério. Elevei-me um pouco mais, espreitando o escuro. — Pode ser ele. Pena a postos, Romeu.

Virei-me e voei baixo por entre as pedras, descrevendo uma curva para evitar a colisão direta com o que quer que vinha na nossa direção.

Por seu lado, o rapaz adotou uma postura mais ereta; com a boina inclinada sobre a orelha, as mãos descontraidamente atrás das costas, caminhava lentamente como se embrenhado em pensamentos profundos. Não deu mostras de ter percebido os sons arrastados cada vez mais persistentes, nem da estranha luz pálida que agora se aproximava dele por entre as lápides.

 

Pelo canto do olho, Nathaniel viu o morcego afastar-se em direção a um velho teixo, que, não se sabe como, conseguira sobreviver a séculos de sepulturas a um canto do cemitério. Um ramo particularmente seco proporcionava uma boa panorâmica do caminho. O morcego pousou debaixo dele e ficou pendurado, imóvel.

Nathaniel respirou fundo, compôs a boina e seguiu em frente o mais descontraidamente possível. Os seus olhos mantiveram-se permanentemente fixos em algo que se movia nas profundezas do cemitério. Apesar do intenso ceticismo que sentia em relação a toda aquela confusão, o frio úmido e a solidão daquele lugar ermo tinham-lhe afetado o humor. Contra a sua vontade, percebeu que o seu coração batia com esforço no peito.

O que via então diante de si? Uma luz pálida cadavérica a aproximar-se, de cor branca leitosa e esverdeada, manchando as pedras por onde passava com uma radiância doentia. Atrás dela vinha uma sombra móvel, curvada e trôpega, aproximando-se cada vez mais através das pedras.

Nathaniel semicerrou os olhos: não detectava qualquer atividade demoníaca nos três planos observáveis. Supostamente, esta coisa seria humana.

Por fim, o esmagar dos cascalhos indicou que a sombra abandonara o caminho. Não parou; foi avançando suavemente, um manto andrajoso ou então uma capa a agitar-se desoladoramente atrás. Quando se aproximou, Nathaniel reparou que saíam duas mãos desagradavelmente brancas da parte da frente da capa, segurando algo que libertava a fraca luz enfeitiçada. Fez um esforço por distinguir também um rosto, mas este escava escondido por um pesado capuz preto que curvava para baixo como uma garra de águia. Não se conseguia ver nada mais da figura. Convergiu a sua atenção para o objeto que segurava nas mãos pálidas, a coisa que libertava o estranho brilho branco. Era uma vela, firmemente enfiada num...

— Ugh! — disse, em checo. — Que nojo.

A figura estacou de imediato. Saiu uma voz aguda e fina de baixo do capuz.

— Olhe lá, o que raio vem a ser isto? — Tossiu às pressas; ouviu-se logo a seguir uma voz mais grave, mais lenta, no todo mais misteriosa: — Melhor dizendo, ao... que se refere?

Nathaniel repuxou os lábios num esgar.

— Essa coisa horrível que traz. É imunda.

— Cuidadinho! É um artigo poderoso.

— Não é higiênico, pode ter certeza. Onde arranjou isso?

— Eu mesmo o cortei de uma forca, à luz de uma Lua corcovada.

— Aposto que nem sequer foi conservado. Sim! Olhe... Tem uns pedaços caindo!

— Não tem nada. São gotas de cera da vela.

— Bem, pode ser, mas continua a ser errado andar por aí com isso. Sugiro que o jogue para trás daquelas lápides, depois lave as mãos.

— Tem noção — disse a figura, que assentara agora um punho na anca, da irritação — de que está se referindo a um objeto que tem o poder de mergulhar os meus inimigos num estupor e consegue detectar uma magia vigilante a cinqüenta passos? É um artigo valioso. Não vou jogá-lo fora.

Nathaniel abanou a cabeça.

— Deviam interná-lo. Esse tipo de comportamento não seria tolerado em Londres, pode ter certeza.

A figura teve um sobressalto repentino.

— Londres? O que isso tem a ver comigo?

— Bem, é o Harlequin, não é? O agente.

Uma longa pausa...

— É possível.

— Está claro que é. Quem mais andaria pelo cemitério a esta hora da noite? Não preciso ver essa coisa medonha a fazer de vela para saber que é o senhor, ou preciso? Além disso, está falar checo com pronúncia britânica. Mas chega de conversa! Preciso rapidamente de informações.

A figura levantou a mão que tinha livre.

— Um momento! Ainda não sei quem você é.

— Sou John Mandrake, ao serviço do governo. Como sabe muito bem.

— Isso não chega. Preciso de provas.

Nathaniel revirou os olhos.

— Está vendo isto? — Apontou para cima. — Uma pena vermelho-sangue.

A figura ponderou.

— Para mim parece vermelho-tijolo.

— É vetmelho-sangue. Ou será daqui a pouco, se não acabar com este absurdo e for ao que interessa.

— Bom... nesse caso, aceito. Mas, primeiro — a figura adotou uma postura misteriosa —, tenho que me certificar de que não há observadores entre nós. Afaste-se! — Ergueu o objeto na mão. Proferiu uma palavra. Imediatamente saiu de lá um fogo pálido que se projetou, tornando-se um arco de luz que pairou no ar entre eles. A outra ordem, e com súbito ímpeto, o arco expandiu-se, estendendo-se a ondular em todas as direções pelo cemitério. Nathaniel viu um morcego cair como uma pedra do seu poleiro numa árvore, precisamente antes da faixa de luz passar por lá. Não soube o que aconteceu ao morcego; o arco continuou para lá dos limites do cemitério e sumiu rapidamente.

A figura anuiu.

— É seguro falarmos.

Nathaniel apontou para a vela, que retomara as dimensões anteriores.

— Eu conheço esse truque. É um Círculo Iluminado, ativado por um diabrete. Não precisa das extremidades de um morto para consegui-lo. Esta coisa gótica é um truque, destinado a embasbacar os comuns. Comigo não funcionará, Harlequin.

— Talvez.... — Uma mão magra desapareceu dentro do capuz e coçou algo meditativamente. — Mesmo assim, acho que está sendo extremamente desagradável, Mandrake. Está ignorando as bases fundamentais da nossa magia. Não é tão limpa e pura quanto afirma. Sangue, ritual, sacrifício, morte... estão no centro de qualquer fórmula encantatória que proferimos. Se formos ver bem, todos nós dependemos da «coisa gótica».

— Aqui em Praga até pode ser — anuiu Nathaniel.

— Nunca se esqueça: o poder de Londres assenta no de Praga. Bom, vamos lá... — A voz de Harlequin tornou-se subitamente prática — O diabrete que me apareceu disse que estava aqui numa missão ultra-secreta. Qual é, e que informação pretende de mim?

Nathaniel falou rapidamente e com algum alívio, descrevendo os principais acontecimentos dos dias anteriores. O homem baixo do capuz escutou-o em silêncio.

— Um golem em Londres? — indagou, quando Nathaniel fez uma pausa. — Estão sempre a acontecer prodígios. Aí tem a sua coisa gótica a cair em cima de quem a criou, quer queira, quer não. Interessante...

— Interessante e compreensível? — perguntou Nathaniel, cheio de esperança.

— Lá isso não sei. Mas poderei ter alguns pormenores para você... Rápido! Abaixe-se! — Atirou-se para o chão com a rapidez de uma serpente; sem hesitar, Nathaniel fez o mesmo. Ficou com o rosto comprimido contra o solo do cemitério, ouvindo o som de botas altas a ecoar lá fora no empedrado. Chegou um leve cheiro de fumaça de cigarro, trazido pelo vento. Os sons sumiram. Passado mais ou menos outro minuto, o agente levantou-se devagar. — Patrulha — disse. — Felizmente, o sentido de olfato deles perde a força com aqueles cigarros que fumam; agora está tudo bem.

— Estava a dizer... — instigou Nathaniel.

— Sim. Em primeiro lugar, a questão do olho de golem. Há vários objetos desses guardados em repositórios mágicos pertencentes ao Governo checo. O Conselho de Praga impede qualquer acesso a eles. Tanto quanto sei, não têm sido usados para fins mágicos, mas possuem elevado valor simbólico, visto que os golems serviram para causar grandes estragos ao exército de Gladstone durante a primeira campanha européia dele. Há vários anos, uma dessas pedras foi roubada, e nunca se chegou a descobrir o culpado. Estou a especular... e não passa de especulação, repare bem... que esta pedra que falta é a que foi mais tarde encontrada na coleção do seu amigo Simon Lovelace.

— Desculpe — salientou Nathaniel com severidade —, mas ele não era meu amigo.

— Bem, neste momento ele não é amigo de ninguém, não é? Porque fracassou. Se tivesse vencido, vocês andariam a beber cada palavra dele e a convidá-lo para jantar. — O agente soltou uma longo e melancólico suspiro depreciativo de algum lugar dentro do capuz. — Segure isto um minuto, preciso de uma bebida.

— Ugh! É absolutamente frio e pegajoso. Apresse-se!

— Já vai. — As mãos de Harlequin remexiam dentro da capa de uma forma algo complexa. Um momento depois apareceram, segurando uma garrafa verde-escura com uma rolha de cortiça. Tirou a rolha e inclinou a garrafa para as profundezas do capuz. Ouviu-se um ruído de goladas, a que se seguiu um cheiro forte de álcool.

— Assim está melhor. — Lábios invisíveis deram um estalido, a rolha voltou à garrafa e esta regressou ao bolso. — Dê-me isso aqui. Não o estragou, não é? É um bocadinho frágil. Agora — prosseguiu Harlequin —, talvez Lovelace tencionasse usar o olho pessoalmente; nesse caso, o plano dele foi frustrado pela sua morte. Mas alguém, possivelmente um sócio dele — quem sabe? — roubou-o do nosso governo, e pelo visto pôs a coisa para funcionar... É aqui que tudo se complica.

— Precisariam também da fórmula formativa — afirmou Nathaniel. — É escrita num pergaminho e introduzida na boca do golem antes de ganhar vida. Essa foi a parte que ninguém soube em todos estes anos. Pelo menos, ninguém em Londres.

O agente anuiu:

— O segredo pode ter-se perdido; de igual modo, pode ainda ser conhecido em Praga, mas não estar sendo usado. O Conselho não quer enfurecer Londres no momento; os Ingleses são muito fortes. Preferem enviar espiões e pequenos grupos até Londres para trabalhar discretamente, recolher informações. Este seu golem... é uma jogada muito dramática para os Checos... Eles esperariam que se seguisse a invasão como conseqüência direta. Não, acho que andam à procura de um indivíduo, alguém a agir em prol dos seus próprios interesses.

— Nesse caso, onde procuro? — perguntou Nathaniel. Não pôde deixar de bocejar quando falou; estava acordado desde o incidente do Museu Britânico, na noite anterior. Fora um dia muito sobrecarregado.

— Tenho de ponderar... — O agente permaneceu perdido em pensamentos por alguns instantes. — Preciso de tempo para investigar. Nos encontraremos de novo amanhã à noite, altura em que lhe darei nomes. — Embrulhou-se no manto com um gesto dramático.

— Encontre-se comigo...

Nathaniel interrompeu-o.

— Espero que não vá dizer «à sombra da forca» ou «no Cais de Execução» ou algo medonho dessa natureza.

A figura endireitou-se.

— Que absurdo! Só a idéia!...

— Ainda bem.

— Ia sugerir os velhos poços da peste na Rua Hybernska.

— Não.

O agente pareceu bastante irritado.

— Está bem — resmungou. — Às seis horas na banca de cachorros-quentes na Praça da Cidade Velha. É suficientemente mundano para você?

— Servirá perfeitamente.

— Até lá, então... — Com um ondular da capa e um estalar dos joelhos escondidos, a figura virou-se e subiu o caminho do cemitério, a luz cadavérica a brilhar tenuemente ao longe. A luz acabou por desaparecer; apenas uma sombra fugaz e uma imprecação abafada quando ela bateu numa lápide indicaram que se fora de vez.

Nathaniel sentou-se numa lápide, à espera de que Bartimaeus aparecesse. O encontro fora satisfatório, conquanto um pouco irritante; agora tinha bastante tempo para descansar antes do final da tarde seguinte. A sua mente cansada divagou. Voltou-lhe a lembrança de Jane Farrar. Quão agradável fora tê-la tão perto... Afetara-o quase como uma droga. Carregou o cenho — claro, era como uma droga. Ela aplicara-lhe uma Sedução, não foi? E ele quase caíra, ignorando por completo os avisos do sensor. Como foi tolo.

Ou a garota quisera atrasá-lo, ou descobrir o que ele sabia. Fosse como fosse, estaria trabalhando para o mestre dela, Duvall, que, sem dúvida, não queria que a Administração Interna tivesse qualquer tipo de êxito neste assunto. Quando regressasse, por certo esperava-o mais hostilidade de idêntica natureza. Duvall, Tallow, Farrar... Nem sequer poderia contar com a sua mestra, Ms. Whitwell, se não apresentasse resultados.

Nathaniel esfregou os olhos. De repente, sentiu-se muito cansado.

— Caramba, está mesmo na lona. — O djinni estava sentado numa lápide em frente, no disfarce familiar de rapaz. Cruzara as pernas de maneira idêntica à de Nathaniel, e bocejava exageradamente.

— Estava fazendo o Ó há horas.

— Ouviu tudo?

— A maior parte. Perdi um bocado depois dele ter soltado aquele Círculo. Quase me acertou, e tive que proceder a ação evasiva. Ainda bem que as raízes daquela árvore tinham levantado algumas lápides. Pude mergulhar numa cavidade subterrânea enquanto a sonda passava. — O rapaz parou para sacudir um bocado de pó cinzento do cabelo.

— Não que eu recomende as sepulturas como local de esconderijo. Mas o ocupante desta em particular até que foi bastante hospitaleiro. Deixou-me ficar abraçado a ele por alguns momentos. — Piscou o olho, de malandragem.

Nathaniel estremeceu.

— Absolutamente horrível.

— Por falar disso — aludiu o djinni —, aquela vela que o sujeito trazia. Era realmente...?

— Sim. Estou tentando não pensar no assunto. Harlequin é mais do que meio-louco; mas também não admira, vivendo em Praga há tanto tempo. — Nathaniel levantou-se e abotoou o casaco. — Mas ele tem a sua utilidade: conta poder dar-nos alguns contatos amanhã à noite.

— Ótimo — disse o rapaz, apressando-se a abotoar o seu casaco de idêntico modo. — Talvez depois tenhamos um pouco de ação. A minha receita para os informantes é ou assá-los em fogo brando ou pendurá-los por uma perna de uma janela alta. Normalmente faz um checo contar tudo o que sabe.

— Não haverá nada disso, se pudermos evitar. — Nathaniel começou a descer o caminho do cemitério. — As autoridades não podem saber que estamos aqui, por isso não devemos atrair atenções sobre nós. Isso quer dizer que não haverá violência nem magia óbvia. Entendido?

— Claro. — O djinni sorriu largamente enquanto caminhavam lado a lado. — Você já me conhece.

 

Às nove e vinte e cinco, na manhã do grande ataque, Kitty descia uma rua secundária no West End londrino. Seguia rapidamente, quase correndo; o ônibus ficara retido no trânsito em Westminster Bridge, e estava ficando atrasada. Saltava-lhe nas costas uma pequena mochila; o cabelo esvoaçava atrás dela enquanto andava.

Às nove e meia em ponto, descomposta e um pouco esbaforida, Kitty chegou à porta privativa dos artistas no Coliseum Theatre, empurrou delicadamente e viu que estava aberta. Virou rapidamente a cabeça e olhou para a rua cheia de lixo; não viu nada, esgueirou-se lá para dentro.

Um corredor feio e sujo, cheio de baldes e construções de madeira obscuras, supostamente destinadas ao palco. Entrava um pouco de luz por uma janela imunda; pairava um cheiro forte de tinta no ar mofado.

Lá na frente havia outra porta. Obedecendo às instruções que memorizara, Kitty avançou até lá sem fazer barulho e passou a uma segunda sala, esta cheia de discretos expositores de trajes. O mofo do ar era maior. Havia restos do almoço de alguém — bocados de sanduíche e batatas fritas, xícaras de café meio cheias — espalhados em cima de uma mesa. Kitty entrou numa terceira sala e encontrou uma mudança súbita: havia um carpete espesso debaixo dos pés, e as paredes estavam forradas de papel. O ar cheirava agora levemente a fumaça e verniz. Estava próximo da fachada do teatro, nos corredores públicos.

Parou e pôs-se à escuta. Nem um som em todo o edifício vazio.

Todavia, algum lugar lá em cima, alguém aguardava.

Recebera as instruções naquela manhã, numa atmosfera de preparação febril. Mr. Pennyfeather decidira fechar a loja, e retirara-se para o armazém no porão, a fim de começar a selecionar o equipamento para o ataque. Todos os demais estavam igualmente ocupados, a reunir roupas escuras, a limpar ferramentas e, no caso de Fred, a treinar a pontaria com o punhal na privacidade do porão. Mr. Hopkins dera instruções a Kitty para o Coliseum. O misterioso benfeitor, dissera, escolhera o teatro fechado como local conveniente de encontro neutro, um lugar onde mago e comum poderiam estar em igualdade de circunstâncias. Ali lhe seria dada a colaboração de que necessitavam para arrombarem o túmulo de Gladstone.

Não obstante uma certa apreensão relativamente a toda a atividade, Kitty não podia deixar de se sentir entusiasmada com o nome. Gladstone. Haviam histórias aos montes sobre o seu esplendor. Amigo do Povo, Terror dos seus Inimigos... Profanar o seu túmulo era um ato tão impensável que a sua mente mal o compreendia. E, no entanto, se conseguissem, se voltassem para casa com os tesouros do Fundador, quantas maravilhas a Resistência ainda poderia realizar.

Caso fracassassem, Kitty não tinha quaisquer ilusões relativamente às conseqüências. O grupo estava a desmoronar-se. Pennyfeather envelhecia a olhos vistos: apesar da sua paixão, apesar da sua fúria, a sua força vacilava. Sem aquela orientação austera, o grupo se desfaria — voltariam todos às suas vidas monótonas debaixo da alçada dos magos. Mas, se detivessem a bola de cristal e a bolsa mágica, o que aconteceria então? Talvez os seus destinos pudessem inverter-se e conseguissem sangue novo para defender a causa deles. Só de pensar, ficou com o coração em sobressalto.

Mas primeiro tinha de se encontrar com o benfeitor desconhecido e obter o seu auxílio.

O corredor passava por uma série de portas semiabertas, através das quais Kitty conseguiu ver os domínios recônditos do auditório do teatro. Reinava o silêncio, cada som abafado pelo pesado carpete e o elegante papel em relevo nas paredes. O carpete era de um vermelho-vinho escuro, o papel de parede com riscas cor-de-rosa e terracota. Cartazes de teatro desbotados e lustres de latão rachados, que emitiam uma luz fraca, trêmula, eram a única decoração. Kitty caminhou rapidamente até chegar às escadas.

Subiu um comprido lance de degraus escuros e baixos em curva, depois — quase concluindo uma volta sobre si mesma — um segundo lance, seguiu por um corredor silencioso, até chegar finalmente a um lugar onde havia seis recantos cobertos por cortinas do lado esquerdo.

Cada um correspondia à entrada para os camarotes usados pelos magos, que davam para o palco.

Cada recanto tinha um número inscrito numa placa de latão por cima da cortina. Sem parar, Kitty dirigiu-se para o último recanto da fila. Era o número sete; o lugar onde o benfeitor estaria à espera.

Tal como todos os outros, tinha a cortina completamente corrida. Kitty parou do lado de fora, pôs-se à escuta, não ouviu nada. Caíra-lhe uma madeixa de cabelo sobre o rosto. Puxou-a para trás e, para dar sorte, tocou no berloque de prata no bolso. A seguir agarrou a cortina com firmeza e avançou lá para dentro.

O camarote estava vazio, com exceção de dois pesados cadeirões dourados virados para o palco. Fora puxada uma cortina do lado esquerdo, encobrindo o camarote do auditório lá embaixo. Kitty franziu o cenho de perplexidade e frustração. Teria se enganado no número, ou chegara na hora errada? Não. O mais provável era o benfeitor ter-se arrependido e não ter sequer comparido.

Havia um pequeno pedaço de papel pregado no braço de um dos cadeirões. Kitty avançou para soltá-lo. Nesse momento, percebeu uma ligeira deslocação de ar, um ruído muito tênue atrás de si. Levou a mão ao casaco. Sentiu uma pequena pressão aguda na nuca. Ficou estática.

Uma voz, calma e ponderada.

— Por favor, não tente virar-se, minha querida. A picada que sentiu é a ponta de um punhal fino, feito em Roma para os Bórgia. A agudeza não é a sua única qualidade... Há uma gota de veneno um dedo acima, na lâmina: caso toque na sua ferida, seguir-se-á a morte dentro de treze segundos. Menciono-o apenas para que observemos os devidos pormenores. Sem se virar, faça o favor de pegar na cadeira e alinhá-la de frente para a parede... Ótimo. Agora sente-se. Estarei sentado logo atrás de você, depois vamos conversar.

Kitty puxou a cadeira de frente para a parede, contornou-a lentamente e sentou-se com cuidado, sentindo sempre a ponta afiada no seu pescoço. Ouviu um roçar de tecido, o chiar de sapatos de couro, um suspiro suave quando alguém se sentou e descontraiu. Olhou para a parede e não disse nada.

Ouviu-se de novo a voz.

— Muito bem. Agora estamos prontos e espero que possamos chegar a um acordo. Compreenderá que as precauções que estou tomando aqui são meras proteções? Não lhe quero fazer mal.

Kitty continuava a olhar para a parede.

— Nem nós a você — disse com a naturalidade possível. — Todavia, nós também tomamos precauções.

A voz resfolegou.

— E quais são?

— Uma colega minha aguarda no exterior do teatro. Traz um pequeno saco de couro. Lá dentro estão seis demônios presos num gel explosivo. Creio ser uma arma de guerra eficaz, e pode arrasar um edifício inteiro. Roubamos recentemente de um armazém do Ministério da Defesa. Menciono-o para o impressionar: somos capazes de atos extraordinários. Mas também porque, se eu não regressar dentro de quinze minutos, a minha amiga ativará os diabretes e os arremessará para dentro do teatro.

Uma risada.

— Assim é que se fala, minha querida. Bem, nesse caso, temos de nos apressar. Como Mr. Hopkins sem dúvida lhe contou, sou um cavalheiro desocupado com muitos contatos entre os magos; eu próprio cheguei a me dedicar à arte. Todavia, tal como você, estou farto do domínio deles! — Entrou uma nota de ira na sua voz. — Devido a uma pequena discordância financeira, o Governo roubou-me a riqueza e as propriedades! Agora sou um pobre, quando em tempos dormi em sedas de Tashkent! É uma situação intolerável. Nada me daria maior prazer do que assistir à queda dos magos. Por isso decidi ajudar a vossa causa.

Estes comentários haviam sido proferidos com grande emoção; a cada ênfase, a ponta do punhal tocava na nuca de Kitty. Umedeceu os lábios.

— Mr. Hopkins disse que tinha informações valiosas para nós.

— Efetivamente, tenho. Deve compreender, não tenho qualquer simpatia pelos comuns cuja causa serve. Mas as vossas atividades desestabilizam os grandes do Governo, e isso me agrada. Bom, vamos ao que interessa. Hopkins explicou a natureza da proposta? — Kitty acenou cautelosamente. — Ora bem, através dos meus contatos, tive acesso aos documentos de Gladstone e estudei-os um pouco. Decifrando determinados códigos, descobri pormenores sobre a Pestilência que ele deixou a guardar os seus restos mortais.

— Parece-me uma defesa fraca para alguém com o poder dele — afirmou Kitty. — Se me é permitido afirmá-lo.

— É uma garota inteligente e opiniosa — observou a voz em tom de aprovação. — Quando Gladstone morreu, estava velho e fraco, muito debilitado, apenas capaz daquela fórmula simples. Mesmo assim, ela cumpriu a sua missão. Ninguém o incomodou, com receio de serem maculados pela Pestilência. No entanto, esta pode ser ultrapassada, se tomarem as devidas precauções. Posso dar-lhe essa informação.

— Por que haveríamos de confiar em você? — indagou Kitty. — Não compreendo. O que lucra com isto?

A voz não pareceu ofender-se com as perguntas.

— Se eu quisesse destruir o vosso grupo — disse pacificamente —, seria detida pela polícia mal pusesse a cabeça para fora destas cortinas. Além disso, já disse que quero assistir à queda dos magos. Mas tem razão, claro, penso lucrar algo nisto tudo. Quando vasculhei o arquivo de Gladstone, encontrei a lista das suas oferendas funerárias. Contém objetos de interesse para ambas as partes.

Kitty agitou-se um pouco no amplo cadeirão dourado.

— Levarei pelo menos dois minutos para deixar o edifício — disse. — Uma coisa lhe garanto: a minha amiga é muito pontual.

— Serei breve. Mr. Hopkins terá falado das maravilhas que a cripta encerra... Podem ficar com elas, armas mágicas e tudo. Dispenso-as; sou um homem de paz. Mas, na realidade, coleciono objetos incomuns, e ficaria grato em ter a capa de Gladstone, que foi dobrada e colocada sobre o seu sarcófago. Não possui propriedades mágicas, por isso não tem utilidade para vocês. Oh, e se o seu velho bordão de carvalho sobreviveu, gostaria também de tê-lo. Tem um valor mágico insignificante... acredito que o dotou de um pequeno feitiço para afastar os insetos, mas gostaria de tê-lo na minha humilde coleção.

— Se conseguirmos os outros tesouros — disse Kitty —, de bom grado lhe daremos esses.

— Muito bem, temos um acordo. Enriqueceremos ambos com ele. Aqui está o equipamento de que necessitam. — Com um ligeiro roçar, apareceu um pequeno saco preto no carpete. — Não o toque por enquanto. O saco contém um cofre e um martelo. Os protegerão da Pestilência. Lá dentro estão todas as instruções. Observem-nas, e viverão. Ouça com atenção — prosseguiu a voz —: esta noite, às onze e meia, os conservadores da abadia sairão. Vão até à porta dos claustros: me encarregarei de que fique aberta. Uma segunda porta barra o acesso à abadia propriamente dita; normalmente encontra-se fechada com duas fechaduras de encaixe e uma barra de tração medievais. Também as deixarei abertas. Entrem pela ala transversal norte e localizem a estátua de Gladstone. Por trás dela, aberta numa coluna, está a entrada do túmulo. Para o alcançarem, bastará rodar a chave.

Kitty agitou-se.

— A chave?

Caiu do ar algo pequeno e brilhante, que veio aterrar ao lado do saco. — Guardem-na bem — disse a voz — e lembrem-se de se protegerem com a minha magia antes de abrirem o túmulo, senão todo este enfastiante subterfúgio terá sido em vão.

— Nos lembraremos — garantiu Kitty.

— Ótimo. — Ouviu o som de alguém a levantar-se da cadeira. A voz falou por cima dela, muito próxima. — Nesse caso é tudo. Desejo-lhes sorte. Não se vire.

A sensação aguda na nuca diminuiu, mas tão delicada e furtivamente, que a princípio Kitty mal se apercebeu de que desaparecera. Esperou um minuto completo, sem se mexer, os olhos arregalados e fixos.

Por fim, perdeu a paciência.

Virou-se num único movimento fluido, o punhal já na sua mão.

O camarote estava vazio. E quando regressou ao corredor silencioso, a chave e o saco seguros na sua mão, não viu qualquer vestígio de ninguém nas proximidades.

 

A dada altura no passado remoto, muito antes dos primeiros magos chegarem a Londres, a grande igreja da Abadia de Westminster exercera poder e influência consideráveis sobre a cidade circundante. Construída ao longo dos séculos por uma dinastia de reis esquecidos, a abadia e os seus terrenos estendiam-se por uma ampla área, com uma população de monges eruditos que efetuavam os seus serviços, estudavam na biblioteca e trabalhavam nos campos. A igreja principal elevava-se a mais de trinta metros de altura, com torres achatadas que se erguiam a oeste e no centro do edifício, por cima do altar-mor. O monumento fora construído em pedra branca, que gradualmente ficara descolorada com a fumaça e as efusões mágicas que emanavam da cidade em expansão.

Os anos passaram; os reis foram destronados, para serem substituídos por uma sucessão de parlamentos, que se reuniam em Westminster Hall, não muito longe da abadia. A influência da igreja diminuiu lentamente, tal como as cinturas dos monges sobreviventes, que conheceram então tempos difíceis. Muitos dos anexos da abadia deterioraram-se, e apenas os claustros — quatro amplas galerias fechadas em volta de um quadrado central e aberto de relva — permaneciam em bom estado. Quando o Parlamento propriamente dito foi ocupado por uma nova autoridade — um grupo de magos poderosos que dispunha de pouco tempo para as tradições da Igreja — pareceu que a antiga abadia podia em breve ficar em ruínas.

Mas uma tradição salvou o edifício. Os maiores líderes do país, fossem eles reis ou ministros parlamentares, tinham desde há muito sido sepultados nas criptas da abadia. Inúmeros túmulos e memoriais amontoavam-se já entre as colunas da nave, enquanto o solo por baixo estava crivado de criptas e sepulcros. Os magos, que procuravam a fama eterna tal como qualquer rei que os antecedera, decidiram dar seqüência a esta prática: tornou-se uma questão de enorme honra para qualquer indivíduo ser enterrado dentro da igreja.

Os monges que restavam foram expulsos, instalando-se um pequeno clero para celebrar serviços litúrgicos esporádicos, e a abadia chegou à era moderna como pouco mais do que um gigantesco túmulo. Poucos comuns iam lá de dia, e à noite o próprio perímetro era evitado. Tinha uma reputação mórbida.

A segurança do edifício era, por conseguinte, comparativamente fraca. Na realidade, era muito improvável que o grupo fosse encontrar qualquer tipo de guarda quando, exatamente às onze e trinta, os primeiros elementos chegaram à porta dos anexos dos claustros, que não se encontrava trancada, e se esgueiraram lá para dentro sem fazer barulho.

Kitty quisera visitar a abadia durante as horas em que estava aberta a fim de fazer o reconhecimento adequado e ver o exterior do túmulo de Gladstone. Mas Mr. Pennyfeather proibira-a.

— Não devemos levantar suspeitas — dissera.

Na verdade, Kitty não precisava de se ter preocupado. Mr. Hopkins fora útil como sempre no decurso daquele dia longo e nervoso, desdobrando inúmeros mapas da abadia e espaço envolvente. Mostrara-lhes o traçado do caminho transversal, por baixo do qual se encontrava escondida a maior parte dos túmulos; mostrara-lhes os claustros cobertos, onde outrora os monges tinham estado sentados a ler ou, quando fazia mau tempo, dado pequenos passeios a pé. Mostrara-lhes as ruas circundantes, chamando a atenção para as casas dos guardas da Polícia Noturna e os percursos conhecidos das esferas de vigilância. Indicara as portas que se encontrariam abertas, e sugerira, no caso de patrulhas aleatórias, que se reunissem na abadia um por um. Fora tudo muito bem organizado por Mr. Hopkins.

— Só queria ter resiliência como vocês — referiu com pesar. — Assim poderia participar na missão.

Mr. Pennyfeather supervisionava Stanley, que transportava uma caixa de armas retirada do porão.

— Deixe, deixe, Clem! — exclamou. — Já fez a sua parte! O resto é conosco. Somos profissionais do roubo e da ação furtiva.

— O senhor desculpe — disse Kitty —, também vem?

O rosto do velho encheu-se de fúria.

— Claro! Será o momento áureo da minha vida! Como se atreve a sugerir o contrário? Acha que sou muito fraco?

— Não, não, senhor. Está claro que não. — Kitty voltou a debruçar-se sobre os mapas da abadia.

Naquele dia, o grupo fora invadido por enorme expectativa e inquietação; todos eles, até a normalmente plácida Anne, estavam mal-humorados e extremamente nervosos. Durante a manhã, distribuíra-se o equipamento e cada pessoa preparara o seu conjunto em silêncio. Quando Kitty voltou com as dádivas do benfeitor, Mr. Pennyfeather e Mr. Hopkins retiraram-se para o cômodo nos fundos da loja, a fim de estudarem as fórmulas encantatórias. Os outros vaguearam entre as tintas e os cavaletes, falando muito pouco. Anne preparou sanduíches para o almoço.

Naquela tarde, Kitty, Fred, Stanley e Nick foram até o porão exercitar as suas capacidades. Fred e Stanley atiraram, um de cada vez, discos de arremesso de uma viga, enquanto Nick envolveu Kitty numa simulação de luta com punhal. Quando regressaram, encontraram Mr. Hopkins e Mr. Pennyfeather ainda trancados em consultas. Às cinco e meia, num ambiente muito instável, Anne trouxe tabuleiros com chá e bolos de amêndoa. Uma hora depois, Mr. Pennyfeather saiu do cômodo dos fundos. Com grande determinação, serviu chá frio numa xícara.

— Deciframos a fórmula encantatória — anunciou. — Agora estamos verdadeiramente preparados. — Ergueu a xícara num brinde solene. — Ao que quer que esta noite possa trazer! A legitimidade está do nosso lado. Mostrem-se confiantes e entusiásticos, meus amigos. Se formos ousados e não vacilarmos, as nossas vidas nunca mais voltarão a ser as mesmas!

Bebeu, pousou decididamente a xícara no pires. Iniciaram-se as discussões finais.

Kitty foi a segunda do grupo a entrar nos anexos da abadia. Anne precedera-a em menos de um minuto. Olhou para a escuridão, ouvindo Anne respirar ali perto.

— Arriscamos uma luz? — murmurou.

— Lanterna de feixe fino — respondeu Anne. — Está comigo.

Um feixe fraco iluminou a parede em frente, depois, por breves instantes, o rosto de Kitty. Esta pestanejou e levantou uma mão.

— Abaixe-a — disse ela. — Não sabemos se há janelas.

Acocorando-se no chão de lajes, Anne fez incidir a lanterna à sua volta especulativamente, lançando uma luz fugaz sobre pilhas de latas de tinta, pás, ancinhos, um cortador-de-gramas novo e reluzente e vários outros instrumentos. Kitty tirou a mochila das costas, colocou-a diante de si e consultou o relógio.

— O próximo está para chegar — anunciou.

Como se em resposta, ouviu-se um tênue raspar em algum lugar lá fora, do outro lado da porta. Anne apagou a lanterna. Acocoraram-se no escuro.

A porta abriu-se e fechou-se, acompanhada do som de respiração pesada. O ar espalhou-se levemente pelo espaço, fazendo-se acompanhar de um forte cheiro de aftershave.

Kitty descontraiu.

— Olá, Fred — disse.

Em intervalos de cinco minutos, os restantes elementos do grupo foram chegando. O último a aparecer foi o próprio Mr. Pennyfeather, já cansado e sem fôlego. Deu uma ordem chiada:

— Frederick, Stanley! Acender... lanternas ! Não há... não há... janelas nesto cômodo. Não temos nada a recear.

À luz de duas lanternas potentes, os seis ficaram visíveis: todos traziam mochilas, todos se vestiam de preto. Mr. Pennyfeather pintara até a sua bengala de preto, e envolvera-lhe a ponta com um pedaço de pano. Apoiava-se nela naquele momento, inspecionando o grupo um por um, com lenta deliberação, reunindo os seus recursos.

— Muito bem — disse por fim. — Anne... equipamento para a cabeça, por favor.

Surgiram e distribuíram-se capuzes escuros de lã fechados, com aberturas somente para os olhos. Fred olhou o seu com desconfiança.

— Não gosto destas coisas — resmungou. — Arranham.

Mr. Pennyfeather estalou a língua de impaciência.

— Cabeças pretas por si só não serão suficientes esta noite, Frederick. É muito importante. Coloque-a. Muito bem, última verificação. Depois os claustros. Bem, Nicholas, você tem o cofre com o Manto Hermético.

— Tenho.

— E o martelo com o qual bater nele?

— Também.

— Frederick, tem o pé-de-cabra? Ótimo. E a tua útil série de punhais? Excelente. Stanley, corda e bússola; Kitty, fita adesiva, ataduras e ungüento. Bom, e a chave do túmulo está comigo. Quanto às armas... devíamos todos ter pelo menos um vidro mouler e uma esfera de elementos de alguma espécie. Muito bem.

Levou um instante a recuperar o fôlego.

— Duas coisas — acrescentou. — Antes de entrarmos. As armas só deverão ser usadas em última instância, se formos incomodados. Caso contrário, devemos ser discretos. Invisíveis. Se a porta da abadia estiver fechada, batemos em retirada. No próprio túmulo, localizamos os tesouros; irei dividi-los depois entre vocês. Encham as mochilas e regressem por onde entraram. Voltaremos a encontrar-nos nesto cômodo. Se algo correr mal, à primeira oportunidade, dirijam-se para a nosso porão. Evitem a loja. Se, por qualquer motivo, me acontecer algo, Mr. Hopkins continuará a dar-lhes instruções. Ele estará amanhã à tarde no Druid’s Coffee House. Alguma pergunta? Não? Nicholas, se não se importa...

Ao fundo do anexo havia uma segunda porta. Nick foi até lá e empurrou. Abriu-se; do outro lado estava a negrura azul-escura do ar livre.

— Vamos — disse Mr. Pennyfeather.

Entraram pela seguinte ordem: Nick, seguido de Kitty; depois Fred, Anne, Stanley e Mr. Pennyfeather na retaguarda.

Com o silêncio de morcegos, atravessaram os claustros, — manchas granuladas em movimento no manto de negrura. Faixas tênues de sombra mais clara assinalavam as janelas ogivais à direita deles, mas o pátio interior dos claustros era-lhes invisível. Não havia luar para lhes indicar o caminho. Os seus sapatos de sola de borracha roçavam as lajes de pedra com o delicado roçar de folhas caídas empurradas pelo vento. A bengala de Mr. Pennyfeather, abafada pela sua ponta almofadada, ia batendo no chão mais atrás. Lá à frente, a lanterna coberta de Nick oscilava silenciosamente da corrente comprida, fazendo incidir a luz junto ao chão como um fogo-fátuo; levava-a pendurada, abaixo do nível dos peitoris, com receio de olhos vigilantes.

Kitty contou os arcos ao passar. Após a oitava laje cinzenta, a luz-guia virou à direita, contornou os claustros. Acompanhou também a trajetória e continuou sem interromper o passo, voltando a contar os arcos. Um, dois... O peso da mochila fazia-lhe pressão nas costas; ouvia o seu conteúdo mexer-se. Esperava muito sinceramente que as esferas estivessem devidamente acondicionadas no seu invólucro de pano. Quatro, cinco... Automaticamente, reviu a posição das suas outras armas: uma faca no cinto, um disco de arremesso no blusão. Estes davam-lhe uma sensação de segurança muito maior do que qualquer arma mágica: não tinham sido maculados pelo toque de demônios.

Seis, sete... Estavam ao fundo do lado setentrional dos claustros. A luz-guia deu um puxão e abrandou. Kitty quase chocou com as costas de Nick, mas parou bem a tempo. Atrás, o roçar de pés prosseguiu por um momento; cessou.

Sentiu Nick virar a cabeça. A sua voz, proferida num semi-murmúrio:

— Porta da nave. Agora vamos ver.

Ergueu a lanterna, agitando-a diante de si por um instante. Kitty vislumbrou a superfície preta de uma porta antiga, bastante marcada e cravejada de pregos gigantes, as suas sombras saltando e rodando quando a iluminação passou. A luz desceu. Escuridão, silêncio, um leve escarafunchar. Kitty aguardou, passando os dedos pelo berloque no bolso. Imaginou os dedos de Nick a percorrerem os veios escuros e os pregos incrustados, procurando a fechadura gigante de metal. Ouviu um leve raspar, e os sons de esforço sustido e suprimido — pequenas arfadas e imprecações de Nick, o roçar do blusão dele. Estava sem dúvida em apuros.

— Vamos lá. — Um ligeiro tinido; luz difusa a espalhar-se pelas lajes. Nick baixara a lanterna até o chão e travava uma luta com as duas mãos com a fechadura. Bem atrás, quase sobre o ouvido dela, Kitty ouviu Fred soltar uma imprecação murmurada. Percebeu que, com a tensão, estava rangendo os dentes com tanta força que até lhe doeu o maxilar. O benfeitor teria se enganado? A porta continuava fechada? Se sim, estavam definitivamente encurralados. Era a sua única forma de entrar e a porta não podia ser destruída. Não deveriam arriscar qualquer tipo de explosão.

Algo roçou por ela; pelo cheiro soube que era Fred.

— Deixe-me experimentar. Chega para lá... — Mais barulho quando Nick se desviou, um breve escarafunchar, depois um grunhido de Fred. Seguiram-se de imediato um estalido sonoro e uma pancada surda, juntamente com um chiar de dobradiças enferrujadas. A voz de Fred continha um tom de satisfação.

— Achei que houvesse problema. Nem sequer estava presa.

Retomou a sua posição na fila; sem mais palavras, o grupo transpôs a porta e fechou-a atrás de si. E pronto, estavam na nave da Abadia de Westminster.

Nick colocou a tampa na sua lanterna, limitando-a a um ínfimo círculo de luz. Aguardaram alguns momentos, deixando que os olhos se adaptassem. A igreja não estava completamente às escuras: gradualmente, Kitty começou a vislumbrar as sombras fantasmagóricas das grandes janelas ogivais diante deles, estendendo-se pela parede da nave virada para o norte. Os seus contornos tornaram-se mais fortes, iluminados de fora por luzes distantes, incluindo as dos carros que passavam. Havia estranhas figuras retratadas nos vidros das janelas — mas a luz não era suficientemente forte para se verem com nitidez. Não chegava qualquer som das ruas lá fora; sentiu-se como se estivessem encerrados num casulo gigante.

Kitty distinguiu uma coluna de pedra perto de si, os seus domínios superiores perdidos nas janelas ogivais. Erguiam-se intervaladamente outras colunas pela nave, rodeadas perto das bases por manchas pretas volumosas, estranhamente proporcionadas e em grande número. Só de olhar para elas, sentiu uma dor nas entranhas: eram todas memoriais e túmulos.

Pancadas abafadas indicaram que Mr. Pennyfeather se deslocava. As suas palavras, apesar de murmuradas por baixo do capuz, despertaram uma série de ecos que se repercutiram, suspirando para cá e para lá, por entre as pedras.

— Vamos, rapidamente. Sigam-me.

Atravessaram o espaço aberto da nave, por baixo do teto oculto, atrás do brilho da luz. Mr. Pennyfeather ia na frente, o mais depressa que podia, os outros aglomerando-se atrás dele. Stanley seguia lentamente, para a esquerda. Quando passaram por um nó informe de negrura, ele ergueu a lanterna, curioso — e soltou um grito de medo. Saltou para trás; a luz oscilante projetou sombras que correram à volta deles. Repercussões do seu grito invadiram-lhes os ouvidos.

Mr. Pennyfeather virou-se; o punhal de Kitty saltou-lhe para a mão; surgiram discos de prata nas de Fred e Nick.

— O que é? — perguntou Kitty com voz sibilante, acima do bater do seu coração.

Uma voz plangente no escuro.

— Bem ao nosso lado... ali... um fantasma...

— Não existem fantasmas. Levanta a lanterna.

Com óbvia relutância, Stanley obedeceu. A sua luz trêmula mostrou um pedestal de pedra aninhado num recanto. Tinha um arco de lado, a partir do qual fora esculpido um esqueleto a sair, envolto em mortalhas e brandindo uma lança.

— Oh... — disse Stanley, com voz sumida. — É uma estátua.

— Idiota — murmurou Kitty. — É apenas o túmulo de alguém. Não podia ter gritado mais alto?

— Vamos lá. — Mr. Pennyfeather prosseguia já. — Estamos perdendo tempo.

Quando deixaram a nave e contornaram uma coluna larga para entrar no passagem transversal norte, o número de memoriais visíveis que enchia substancialmente as naves laterais aumentou. Nick e Stanley levantaram as lanternas para iluminar os túmulos; em algum lugar por estas bandas que deveria se encontrar o de Gladstone. Muitas das estátuas eram representações em tamanho natural dos magos mortos: estavam sentados em cadeiras talhadas, analisando pergaminhos desenrolados; apresentavam-se heroicamente com compridas togas esculpidas, os seus rostos pálidos de feições pronunciadas olhando sem ver para o grupo apressado. Uma carregava uma gaiola com uma tristonha rã lá dentro; esta mulher em particular fora retratada sorrindo. Apesar da sua férrea determinação, Kitty sentia-se enervada. Quanto mais depressa saíssem daquele lugar, melhor.

— Aqui — sussurrou Mr. Pennyfeather.

Uma modesta estátua de mármore branco — um homem de pé num pedestal redondo e baixo. Tinha a testa franzida, o seu rosto um modelo de preocupação austera. Vestia uma toga fluida e, por baixo dela, um traje antiquado com um colarinho alto engomado. As suas mãos estavam sobrepostas diante de si. Havia uma palavra no pedestal, gravada fundo no mármore:

 

               GLADSTONE

 

Bastou a reputação do nome para lançar o seu poder sobre eles. Afastaram-se da estátua, reunindo-se todos ali perto a uma distância respeitosa. Mr. Pennyfeather falou baixinho.

— A chave do túmulo encontra-se no meu bolso. A entrada é naquela coluna ali. Uma pequena porta de bronze. Kitty, Anne... vocês têm a vista mais apurada. Encontrem a porta e localizem a fechadura. De acordo — reprimiu um ataque de tosse —, de acordo com os registros, deveria estar do lado esquerdo.

Kitty e Anne contornaram a estátua e aproximaram-se da coluna, Anne apontando a sua lanterna de feixe fino lá à frente. Com passos cautelosos, deram a volta à coluna, até aparecer o brilho de metal dentro do círculo de luz. Acercaram-se. O painel de metal era pequeno, apenas um metro e meio de altura, e também estreito. Não apresentava qualquer ornamento, com exceção de uma fila de pequeníssimas tachas em volta das suas margens.

— Encontrei-a — murmurou Kitty. Um buraco minúsculo, na extremidade do lado esquerdo. Anne aproximou a lanterna; o buraco estava cheio de teias de aranha.

Mr. Pennyfeather levou os outros até lá: ficaram reunidos junto à coluna.

— Nicholas — disse —, prepare o Manto.

Durante cerca de dois minutos, Kitty ficou com eles na escuridão, respirando com força através das fibras de lã do capuz, esperando que Nick se preparasse. Esporadicamente, um zumbido abafado indicava a passagem de uma limusine em algum lugar de Parliament Square; de outro modo, reinava a calma — com exceção do som da tosse de Mr. Pennyfeather, abafado pelas suas luvas.

Nick pigarreou.

— Preparado. — Naquele momento, ouviram o ruído de sirenes, aumentando de intensidade, depois afastando-se desoladoramente por Westminster Bridge, mergulhando na noite. Foram sumindo. Por fim, Mr. Pennyfeather efetuou um breve aceno.

— Agora — disse. — Aproximem-se, senão o Manto não os protegerá.

Nem Kitty nem os outros precisaram de mais recomendações. Aglomeraram-se num círculo irregular, virados para dentro, os ombros tocando-se. No meio deles, Nick segurava um cofre simples de ébano; na outra mão empunhava um martelo pequeno. Mr. Pennyfeather anuiu.

— Tenho aqui a chave. Assim que o Manto nos cobrir, rodarei a chave na fechadura. Quando isso acontecer, fiquem quietos... aconteça o que acontecer.

Nick ergueu o martelo e fê-lo descer com força sobre a tampa do cofre de ébano. A tampa partiu-se ao meio; a precisão do estalido produzido ecoou como um tiro de pistola. Ergueu-se do cofre um feixe de partículas amarelas, rodopiando e cintilando com a sua própria luz. Rodaram em espiral por cima do grupo a uma altura de cerca de quatro metros, depois curvaram-se e desceram como a água de uma fonte, batendo no chão de pedra e desaparecendo nele. Continuaram a elevar-se partículas da caixa que se arquearam e caíram, formando uma tênue abóbada brilhante que os fechou no interior, como se dentro de uma cúpula.

Mr. Pennyfeather empunhou a minúscula chave dourada. Com grande rapidez, estendeu a mão, tendo o cuidado de que ela não ultrapassasse a extremidade da cúpula brilhante, e introduziu a chave na fechadura. Rodou-a, retirou a mão com a rapidez de uma cascavel.

Aguardaram. Ninguém mexeu um músculo. A parte lateral das faces de Kitty estava banhada de suor frio.

Sem fazer barulho, a pequena porta de bronze abriu para dentro. Do outro lado ficava um espaço negro, e nele surgiu uma ampola verde e luminosa, a pairar lentamente. Quando ficou ao nível da abertura, acelerou de repente, crescendo com um silvo peculiarmente repelente. Um instante depois, irrompeu uma nuvem verde do outro lado da passagem, iluminando todas as estátuas e memoriais como uma chama viva. O grupo encolheu-se dentro do Manto protetor enquanto a Pestilência queimava o ar em volta deles, elevando-se a metade da altura das paredes da passagem. Estavam seguros, desde que não ficassem fora da cúpula; mesmo assim, chegou-lhes às narinas um cheiro de tamanha corrupção e decomposição que fizeram um esforço tremendo para não vomitar.

— Espero — arfou Mr. Pennyfeather, enquanto a nuvem verde andava para trás e para frente — que a duração do Manto seja superior à da Pestilência. Se não, Stanley, receio que os próximos esqueletos venham a ser os nossos.

Fazia muito calor dentro do Manto. Kitty sentiu a cabeça começar a girar. Mordeu o lábio e tentou concentrar-se: desmaiar naquele momento seria sem dúvida fatal.

Subitamente, a Pestilência fundiu-se. A nuvem verde pareceu implodir, como se — na falta de vítimas — se visse obrigada a consumir a sua própria essência. Num instante, toda a passagem se iluminou com a sua luz insalubre; no seguinte, foi sugada até desaparecer e a escuridão voltar.

Decorreu um minuto. O suor escorria pelo nariz de Kitty. Ninguém mexeu um músculo.

Depois, abruptamente, Mr. Pennyfeather começou a rir. Era um som agudo, quase histérico, que buliu com os nervos de Kitty. Continha um tom de exultação levado ligeiramente para lá dos limites normais. Instintivamente, saltou para trás, afastando-se dele, e saiu do Manto. Sentiu um formigamento quando atravessou a abóbada amarela, depois passou. Olhou à sua volta por um minuto, depois respirou fundo.

— Bem, o túmulo está aberto — disse.

 

O final do dia aproximava-se cada vez mais; os proprietários das cafeterias menores nas ruas secundárias em volta da praça davam finalmente sinal de vida, acendendo os postes que pendiam de vigas nas portas e empilhavam as cadeiras que tinham estado espalhadas nas calçadas durante o dia. Ouviu-se um toque de sinos anunciando o cair da noite, que vinha de baixo das negras flechas da velha Igreja de Tyn, onde está sepultado o meu bom amigo Tycho,42 e as ruas murmuravam com o regresso da população de Praga para casa.

 

42 Tycho Brahe (1546-1601), mago, astrônomo e duelista, quiçá o menos ofensivo dos meus amos. Bem, na verdade, muito possivelmente o mais ofensivo, se fossem um dos contemporâneos humanos dele, visto que Tycho era um sujeito apaixonado, sempre a envolver-se em lutas e a tentar beijar as esposas dos amigos. Foi assim que perdeu o nariz, acidentalmente — cortado por um golpe de sorte durante um duelo por causa de uma mulher. Fiz-lhe um excelente substituto em ouro, juntamente com um pauzinho com uma delicada borla para dar lustre nas narinas, e com isso conquistei a sua amizade. A partir daí, chamava-me principalmente quando lhe apetecia uma boa conversa.

 

Durante grande parte do dia, o rapaz estivera sentado à uma mesa com uma toalha branca na esplanada de uma taberna, a ler uma sucessão de jornais checos e folhetos baratos. Se olhasse para cima, teria uma bela vista da Praça da Cidade Velha, na qual a rua ia desembocar doze metros à frente; se olhasse para baixo, teria uma vista ainda melhor de uma mistura de xícaras de café vazias e pratos com pedaços de salsicha e migalhas de pretzel* as relíquias do seu consumo vespertino.

 

* Variedade de biscoito salgado ou doce, pequeno e torcido, usado sobretudo pelos Alemães e acompanhado com cerveja. (NT)

 

Eu estava sentado à mesma mesa, com um grande par de óculos escuros e um casaco pretensioso semelhante ao dele. Como efeito simbólico, colocara um pretzel no meu prato e partira-o aos pedaços, para dar a impressão de que ia experimentá-lo. Mas é claro que não comi nem bebi nada.43

 

43 Com alguma freqüência, a comida dos mortais abafa a nossa essência. Se chegarmos a devorar seja o que for — como por exemplo, um humano — por via de regra, ainda deverá estar vivo, de forma a que a sua essência viva galvanize a nossa. Deste modo, evita-se o incômodo de ingerir ossos e carne, perfeitamente desnecessários. Desculpem — não desistiram de tomar o chá, não é?

 

A Praça da Cidade Velha era uma das maiores áreas abertas na parte oriental da cidade, um espaço irregular de empedrado brilhante, cheio de transeuntes e bancas de flores. Bandos de aves passavam indolentemente defronte das elegantes casas de cinco andares; saía fumaça de mil chaminés; era uma cena tão pacífica quanto se podia desejar, no entanto, eu não me sentia à vontade.

— Quer parar com a agitação? — O rapaz bateu com o folheto na mesa. — Não consigo me concentrar.

— É mais forte do que eu — respondi-lhe. — Estamos muito expostos, aqui.

— Relaxe... Não corremos qualquer perigo.

Olhei à minha volta furtivamente.

— Isso você é quem diz. Devíamos ter ficado no hotel.

O rapaz abanou a cabeça.

— Enlouqueceria se ficasse mais um minuto naquele pulgueiro. Não consegui pregar olho naquela cama por causa do pó. E uma tribo de percevejos banqueteou-se comigo toda a noite... Ouvia-os saltar de mim a cada vez que espirrava.

— Se tinha pó, devia ter tomado um banho.

Ficou embaraçado.

— Não me agradou nada aquela banheira. Parecia um bocado... esfomeada demais. Seja como for, Praga é bastante segura; já não existe quase nenhuma magia aqui. Não vi nada enquanto estivemos sentados aqui — nenhum diabrete, nenhum djinni, nenhuma fórmula — e estamos no centro da cidade! Provavelmente ninguém saberá o que é de verdade. Relaxe.

Encolhi os ombros.

— Se você diz. Eu é que não vou andar por aí correndo em volta das muralhas com soldados me espetando lanças no traseiro.

Ele não estava ouvindo. Voltara a pegar no folheto e lia-o com ar carrancudo. Voltei à minha ocupação vespertina: ou seja, verificar e tornar a verificar os planos.

Resumindo: o rapaz estava absolutamente certo — não tínhamos visto nada mágico o dia inteiro. Isto não queria dizer que as autoridades não estivessem representadas: alguns soldados de uniformes azul-escuros com botas altas reluzentes e bonés lustrosos44 haviam, andado sucessivamente pela praça. (Uma vez, tinham parado junto à mesa do meu amo e pedido que nos identificássemos; o meu amo exibira a sua identificação falsa, enquanto eu lançara um Brilho sobre eles, para se esquecerem do que me tinham solicitado, e foram-se embora.) Mas não tínhamos visto nada da parafernália mágica que era o procedimento normal em Londres: esferas de busca, foliots disfarçados de pombos, etc. ... Parecia tudo muito inocente.

 

44 Na prática, quanto mais aparatoso o uniforme, menos poderoso o exército. Na sua época áurea, os soldados de Praga usavam uniformes discretos com poucos enfeites; agora, para minha repugnância, exibiam imponentes adornos que pesavam uma tonelada: uma dragona aveludada aqui, um botão dourado extra ali. Era possível ouvir ao longe na rua as partes metálicas deles tilintarem como os guizos nas coleiras dos gatos. Comparem-se com os da Polícia Noturna de Londres: os seus uniformes tinham a cor do lodo do rio, no entanto, eles é que metiam medo.

 

No entanto, dito isto, senti magia forte em algum lugar nas vizinhanças, não muito longe do lugar onde estávamos, funcionando intensamente em todos os planos. Cada um vibrava com ela, particularmente o sétimo, que é normalmente de onde vem a maior parte das encrencas. Não nos era dirigida — todavia; mesmo assim, deixou-me nervoso, em particular porque o rapaz — sendo humano, jovem e arrogante — não sentia nada e insistia em fazer-se passar por turista. Não me agradava estar ao ar livre.

— Devíamos ter combinado encontrar-nos com ele num local ermo — insisti. — Este é muito público.

O rapaz suspirou.

— E dar-lhe a oportunidade de vir novamente vestido de vampiro? Não creio. Ele pode vestir um terno e gravata como os demais.

Aproximavam-se as seis horas. O rapaz pagou a conta e enfiou às pressas os folhetos e os jornais na mochila.

— Vamos então à banca de cachorros-quentes — disse. — Como sempre, fique para trás e proteja-me se acontecer algo.

— Muito bem, chefe. Desta vez não tem uma pena vermelha. E que tal uma rosa, ou uma fita no cabelo?

— Não, obrigado.

— Perguntei por perguntar.

Separamo-nos no meio da multidão; afastei-me, mantendo-me junto aos edifícios de um lado, enquanto o rapaz seguia em frente encaminhando-se para o meio da praça. Como a maior parte das pessoas que regressavam para casa se mantinha nas extremidades, fazia com que ele parecesse ligeiramente isolado. Um bando de pardais levantou voo do caminho empedrado próximo dos pés dele e afastou-se em direção aos telhados lá no alto. Inspecionei-os, cheio de ansiedade, mas não havia observadores escondidos no meio deles. Estava tudo bem, no momento.

Um cavalheiro com um bigode pequeno revirado nas pontas e natureza empreendedora prendera um fogareiro com rodas a uma bicicleta e pedalava em direção a um ponto vantajoso, próximo do meio da praça. Chegando lá, acendera as brasas, e assava salsichas picantes para os cidadãos famintos de Praga. Formara-se uma pequena fila, e nela o meu amo se colocou, olhando fortuitamente à sua volta, à espera de que Harlequin aparecesse.

Posicionei-me descontraidamente junto a uma das paredes do perímetro e observei a praça. Não me agradou: muitas janelas resplandecendo à luz do Sol poente — era impossível dizer quem poderia estar a espreitar por elas.

As seis horas chegaram e partiram. Harlequin não apareceu.

A fila para as salsichas foi diminuindo. Nathaniel era o último da fila. Avançava arrastando os pés, procurando trocados no bolso.

Verifiquei os transeuntes em todas as orlas distantes da praça. Um pequeno grupo conversava animadamente por baixo da Câmara Municipal, mas a maioria das pessoas seguia apressada para casa, entrando e saindo das ruas que desembocavam na praça.

Se Harlequin estava em algum lugar nas proximidades, não deu sinal.

A minha sensação de inquietação cresceu. Continuava a não haver magia visível, mas mantinha-se aquela impressão de zumbido em todos os planos.

Devido ao hábito, verifiquei cada saída de rua. Eram sete... Pelo menos, isso era bom: várias vias de fuga, caso houvesse necessidade.

Nathaniel era o segundo da fila agora. A frente dele estava uma garotinha, que pediu ketchup extra na sua salsicha.

Um homem alto atravessou a praça em passos largos. Vestia terno e usava chapéu; trazia uma sacola usada. Mirei-o de alto a baixo. Parecia possuir a altura certa para Harlequin, muito embora fosse difícil ter certeza.

Nathaniel ainda não reparara nele. Observava a garotinha que se afastava vacilante sob o peso do seu imenso cachorro-quente.

O homem encaminhava-se para Nathaniel, em passo rápido. Muito rápido, talvez — quase como se tivesse algum propósito invisível...

Comecei a avançar.

O homem passou perto por trás de Nathaniel sem olhá-lo. Seguiu em marcha rápida sobre o calçamento empedrado.

Descontraí novamente. Talvez o rapaz tivesse razão. Eu estava um pouco nervoso.

Nathaniel adquiria agora a sua salsicha. Pareceu discutir com o vendedor sobre a quantidade extra de couve fermentada.

Onde estava Harlequin? O relógio na torre da Velha Câmara Municipal indicava seis e doze. Ele estava muito atrasado.

Ouvi ao longe um tilintar, em algum lugar no meio dos peões, junto aos extremos da praça — tênue, rítmico, como os sinos nos trenós da Lapônia ouvidos ao longe na neve. Parecia vir de todos os lados ao mesmo tempo. Era-me familiar, no entanto, um pouco diferente de tudo o que tivesse escutado antes... Não conseguia situá-lo.

Depois vi as manchas de azul serpenteando por entre os transeuntes à entrada de cada uma das sete ruas, e compreendi. Botas batendo na calçada, o sol a reluzir em espingardas, parafernália de metal a tilintar nos peitos de metade das forças armadas de Praga ao abrirem caminho até aparecerem. A multidão recuou, as vozes subindo de tom, alarmadas. Os soldados estacaram subitamente; fileiras sólidas bloqueavam cada rua.

Eu corria já pela praça.

— Mandrake! — gritei. — Esquece o Harlequin. Temos de ir.

O rapaz virou-se, segurando o seu cachorro-quente. Percebeu então, pela primeira vez, os soldados.

— Ah — comentou —, que maçada!

— Acredite que é. E também não podemos ir pelos telhados. Estaremos igualmente em minoria ali.

Nathaniel ergueu o olhar, deparando-se com uma tribuna de honra de várias dúzias de foliots, que evidentemente haviam trepado nos telhados pelo outro extremo e estavam agora acocorados nas telhas e chaminés mais altas de cada casa na praça, olhando-nos com maus intuitos e fazendo gestos obscenos com as caudas.

O vendedor de cachorros-quentes vira os cordões do exército; com um grito de medo, saltara para o selim da sua bicicleta e guinara furiosamente no calçamento empedrado, deixando atrás de si um rastro de salsichas, couve fermentada e carvões incandescentes a sibilar.

— São apenas humanos — referiu Nathaniel. — Não estamos em Londres, não é? Vamos passar pelo meio deles.

Corríamos agora, em direção à rua mais próxima... Karlova.

— Achei que não queria que eu usasse qualquer violência ou magia óbvia — comentei.

— Esses escrúpulos já eram. Se os nossos amigos Checos querem começar algo, nós podemos... Oh.

Tínhamos ainda o ciclista à vista quando aquilo aconteceu. Como se louco de medo, sem saber o que fazer, efetuara duas investidas fortuitas para cá e para lá na praça; de repente, de cabeça baixa, os pés a pedalar, mudou de rumo, indo direito a uma das linhas do exército. Um soldado ergueu uma espingarda; ouviu-se um tiro. O ciclista teve um tremor, a cabeça tombou para o lado, os pés deslizaram dos pedais e saltaram e trepidaram pelo chão. Ainda levada pelo seu próprio ímpeto, a bicicleta continuou a avançar em grande velocidade, o fogareiro a fazer um ruído imenso atrás dela, acabando por colidir com a linha de rotura dos soldados e capotar, espalhando corpo, salsichas, carvões em brasa e couve fria sobre os homens mais próximos.

O meu amo estacou, arfando muito.

— Preciso de um Escudo — disse. — Já.

— Como queira.

Ergui um dedo, lancei o Escudo à nossa volta: pairou ali a brilhar, visível no segundo plano, um globo irregular em forma de batata que mudava de posição quando nos movíamos.

— Agora — ordenou o rapaz, furiosamente —, uma Detonação. Vamos abrir caminho à força.

Olhei para ele.

— Tem certeza mesmo? Estes homens não são djinn.

— Bem, arranje uma maneira de tirá-los dali. Machuque-os de leve, não me interessa. Desde que escapemos ilesos...

Um soldado desemaranhou-se da confusão de membros estendidos e fez pontaria rapidamente. Um tiro: uma bala assobiou por cima do espaço de trinta metros, atravessando o Escudo e voltando a sair, afastando, nesse ato, o cabelo no alto da cabeça de Nathaniel.

O rapaz deu-me um olhar fuzilante.

— É isso que chama de Escudo?

Fiz um esgar.

— Eles estão usando balas de prata.45 O Escudo não é seguro. Anda. — Virei-me, agarrei-o pelo cangote, e no mesmo movimento, efetuei a mudança que se impunha. A forma magra e elegante de Ptolomeu cresceu e encrespou-se; a sua pele transformou-se em pedra, o cabelo escuro como líquen verde. Em toda a praça, os soldados tiveram uma bela visão de uma gárgula trigueira de pernas arqueadas a correr a toda velocidade, arrastando a seu lado um adolescente irado.

 

45 Assim como a prata é extremamente venenosa para a nossa essência, também é capaz de atravessar muitas das nossas defesas mágicas como uma faca a cortar manteiga no Verão. Apesar de, atualmente, Praga se ter tornado fraca em magia, parecia não haver esquecido todos os velhos truques. Não que as balas de prata fossem usadas principalmente nos djinn nos velhos tempos — eram geralmente empregados num inimigo mais peludo.

 

— O que está fazendo? — protestou o rapaz. — Não temos saída por aqui!

A gárgula rangeu o seu bico córneo.

— Calado. Estou pensando.

O que era bastante difícil de fazer, com toda aquela confusão. Corri em direção ao centro da praça. Os soldados avançavam lentamente de todas as ruas, as espingardas a postos, batendo com as botas, as insígnias a chocalhar. Lá em cima, nos telhados, os foliots tagarelavam animadamente e começavam a aproximar-se, descendo as inclinações íngremes, as garras provocando estalidos nas telhas, como o som de mil insetos. A gárgula abrandou e estacou. Passaram por nós mais balas a zunir. Como seguia na retaguarda, o rapaz estava vulnerável. Passei-o para a minha frente; desceram sobre ele asas de pedra, bloqueando a linha de fogo. Tinha a vantagem acrescida de lhe abafar os protestos.

Uma bala de prata fez ricochete na minha asa, atingindo a minha essência com o seu toque venenoso.

Estávamos cercados de todos os lados: prata ao nível da rua, foliots lá no alto. O que só deixava uma opção. O caminho do meio.

Recolhi por breves instantes uma asa, levantei o rapaz para que ele pudesse ter uma visão rápida da praça.

— Olha bem — disse-lhe. — Qual das casas acha que tem as paredes mais finas?

Por um momento, ficou atarantado. Depois os seus olhos arregalaram-se.

— Você não está...

— Aquela ali? Com as persianas cor-de-rosa? Sim, é capaz de ter razão. Bem, vejamos...

E depois partimos, guinando no meio de uma chuva de balas — eu de bico esticado e olhos semicerrados; ele arfando, tentando encolher-se numa bola e escudar a cabeça com os braços, tudo ao mesmo tempo. A pé, as gárgulas conseguem atingir uma velocidade muito razoável, desde que batamos as asas enquanto corremos, e apraz-me dizer que deixamos uma fina trilha chamuscada nas pedras à nossa passagem.

Uma breve descrição do meu objetivo: um edifício peculiar de quatro andares, quadrado, amplo, com arcos altos na base a assinalar uma galeria comercial. Por trás dele erguiam-se as flechas ermas da Igreja de Tyn.46 O dono desta casa adorava-a. Cada janela tinha persianas gêmeas que haviam sido pintadas recentemente de um delicioso cor-de-rosa. Havia compridas floreiras baixas em cada parapeito, a transbordar de peônias branco-rosadas; cortinas de renda com babados pendiam castamente do lado de dentro de cada janela. Era tudo muito fuleiro. As persianas não chegavam propriamente a ter corações talhados na madeira, mas estavam perto.

 

46 Quase podia ouvir o velho Tycho a instigar-me. Como ele adorava um jogo! Uma vez apostou comigo a minha liberdade em como eu não conseguia atravessar o Vltava num único pulo num determinado dia. Se eu conseguisse, poderia fazer com ele o que quisesse. Claro, o cão astuto calculara de antemão a data das marés da Primavera. No dia marcado, o rio transbordou das margens e inundou uma zona muito superior à normal. Fui parar com os cascos dentro d’água, para enorme júbilo cruel do meu amo. Riu-se tão intensamente que até lhe caiu o nariz.

 

Os soldados avançaram, a correr, de duas ruas laterais; convergiam para nos barrar o caminho.

Os foliots saltaram das calhas e desceram em espiral com pára-quedas formados pela pele dos braços.

Pensei, depois de ponderar, fazer pontaria para o segundo andar, que era o que ficava no meio do caminho entre os nossos inimigos.

Corri, saltei, as minhas asas chiaram e bateram; duas toneladas de gárgula lançaram-se orgulhosamente no ar. Duas balas vieram ao nosso encontro; e também um pequeno foliot, que se antecipara aos seus companheiros, e descera na nossa direção. As balas vinham de ambos os lados; por sua vez, o foliot foi recebido por um punho de pedra, que o transformou em algo redondo e espalmado, assemelhando-se a uma frigideira de omeletes com ar ofendido.

Duas toneladas de gárgula bateram numa janela no segundo andar.

O meu Escudo continuava ativo. Por conseguinte, o rapaz e eu estávamos amplamente protegidos dos vidros e da madeira, dos tijolos e do estuque que explodiam em toda a nossa volta. O que não o impediu de gritar de aflição, que foi mais ou menos o que fez a velha sentada numa cadeira dentro da banheira quando passamos por ela a voar no ponto mais alto do nosso arco. Vislumbrei por breves instantes um quarto de dormir elegante, onde rendas ornamentais não tinham o devido realce; depois voltamos a sair da vida dela, atravessando rapidamente a parede do outro lado.

Fomos descendo sempre, pela sombra fresca de uma rua de trás numa tempestade de tijolos, através de um emaranhado de roupa lavada que alguém imprudente pendurara numa corda do lado de fora da janela. Aterramos pesadamente, a gárgula absorvendo a maior parte do impacto nas suas pernas ancestrais; o rapaz caindo do amplexo dela para a sarjeta.

Pus-me de pé com esforço; o rapaz fez o mesmo. A gritaria atrás de nós era agora abafada, mas os soldados e os foliots não tardariam muito a aparecer. Uma pequena rua conduzia ao coração da Cidade Velha. Sem uma palavra, a tomamos.

Meia hora depois estávamos afundados na exuberante vegetação sombria de um jardim descuidado, a recuperar o fôlego. Não se ouviram quaisquer sons de perseguição durante vários minutos. Há muito que eu retomara a forma mais discreta de Ptolomeu.

— Bem — disse eu. — Acerca daquela coisa de não despertar as atenções sobre as nossas pessoas. Que tal nos saímos?

O rapaz não respondeu. Olhava para algo agarrado com força nas mãos.

— Sugiro que esqueçamos Harlequin — sugeri-lhe. — Se ele tiver algum juízo, emigrará para as Bermudas depois de toda esta confusão. Nunca mais conseguirá encontrá-lo.

— Também não preciso — referiu o meu amo. — Além disso, não serviria de nada. Ele morreu.

— Hã? — A minha famosa eloqüência fora violentamente posta à prova pelos acontecimentos. Foi nesta altura que percebi que o rapaz continuava a segurar na mão o cachorro. Parecia um nadinha afetado por esta aventura, tendo a couve fermentada sido em grande parte substituída por uma camada espumosa de estuque, fragmentos de madeira, vidro partido e pétalas de flores. O rapaz olhava para ele com atenção.

— Olha, sei que está com fome — disse-lhe —, mas isso é ir um pouco longe demais. Deixe-me arranjar-lhe um hambúrguer ou algo parecido.

O rapaz abanou a cabeça. Com dedos empoeirados, abriu o pão.

— Isto — proferiu lentamente — é o que Harlequin nos prometeu. O nosso próximo contato em Praga.

— Uma salsicha?

— Não, tolo. Isto... — Retirou de baixo do cachorro um pequeno pedaço de cartão, um pouco dobrado e manchado de ketchup. — Harlequin era o vendedor de cachorros-quentes — prosseguiu. — Era esse o seu disfarce. E agora morreu pela sua pátria, por isso temos a missão de vingá-lo. Mas, primeiro... precisamos encontrar este mago.

Estendeu o cartão. Estavam rabiscadas nele cinco palavras:

 

               KAVKA RUA DO OURO, 13

 

Para meu imenso alívio, o rapaz parecia ter aprendido alguma coisa com a nossa escapada por um triz na Praça da Cidade Velha. Nunca mais vi o fortuito turista inglês; pelo contrário, durante o resto daquele fim de dia negro e desconfortável, deixou que o guiasse da forma mais adequada pelo labirinto de becos a desmoronar-se que era Praga — o avanço furtivo e meticuloso de dois espiões em território inimigo. Dirigimo-nos para o norte com infinita paciência, evitando as patrulhas a pé que irradiavam da praça, camuflando-nos por baixo de Ocultações ou, esporadicamente, entrando em edifícios abandonados para nos escondermos enquanto a soldadesca passava ruidosamente. Contamos com a ajuda da escuridão e a comparativa escassez de perseguição mágica. Havia alguns foliots a passear pelos telhados, lançando Pulsações de busca, mas desviei-as facilmente sem qualquer detecção. Além disso, não havia nada: nem semi-afrits à solta, nem djinni de qualquer capacidade. Os líderes de Praga estavam fortemente confiantes nas suas tropas desatentas, e tirei pleno partido disso. Menos de uma hora depois de termos iniciado a nossa fuga, havíamos atravessado o Vltava na traseira de um caminhão de legumes e dirigíamo-nos a pé por uma região de jardins em direção ao castelo.

Nos tempos áureos do Império, a colina baixa na qual se encontrava o castelo era iluminada, todos os dias ao crepúsculo, por mil lanternas; estas mudavam de cor e, esporadicamente, de posição, de acordo com o capricho do Imperador, lançando luzes multicoloridas sobre as árvores e as casas cravadas nas suas vertentes.47 Agora, as lanternas encontravam-se partidas e enferrujadas nos seus postes. À exceção de alguns pontos cor-de-laranja fracos que assinalavam as janelas, a Colina do Castelo erguia-se às escuras diante de nós, envolta pela noite.

 

47 Cada lanterna continha um casulo de vidro vedado no qual residia um diabrete irritável. O Lampadeiro-mor, um cargo oficial hereditário entre os magos da corte, percorria a vertente da colina todas as tardes, instruindo os seus cativos sobre as cores e a intensidade necessárias à noite que vinha chegando. Através da formulação sutil de cada ordem, as tonalidades alcançadas podiam ser discretas ou espetaculares, mas estavam sempre de acordo com o espírito da corte.

 

Chegamos finalmente à base de umas escadas de degraus empedrados. Lá em cima ficava a Rua do Ouro — avistei as suas luzes a brilhar alto sobre o cenário de estrelas, bem à beira da vertente negra e fria da colina. Junto ao fundo das escadas havia um muro baixo, e por trás deste encontrava-se uma pilha de estrume; deixei Nathaniel ali vigiando, enquanto voei, na pele de um morcego, num breve reconhecimento escada acima.

Os degraus do lado nascente tinham mudado pouco desde aquela época distante em que a morte do meu amo me libertara do seu serviço. Só por um golpe de sorte é que um afrit saltaria para agarrar o meu atual amo. As únicas presenças que consegui detectar foram três corujas gordas escondidas nas avenidas de árvores escuras de cada lado do caminho. Voltei a verificar; eram corujas mesmo no sétimo plano.

Ao longe, do outro lado do rio, a perseguição estava ainda em curso. Ouvia os apitos dos soldados a soar com deplorável inutilidade, som esse que provocou um frêmito na minha essência. Porquê? Porque Bartimaeus era muito rápido para eles, eis a razão; porque o djinni que procuravam estava já a milhas, voando por cima dos duzentos e cinqüenta e seis degraus da Colina do Castelo. E porque, em algum lugar à minha frente, no silêncio da noite, estava a fonte da perturbação que sentia ainda a vibrar em cada plano — a estranha atividade mágica não identificada. As coisas estavam ficando interessantes.

O morcego sobrevoou o volume desordenado da velha Torre Negra, outrora ocupada pela Guarda de Elite, mas agora o lar de apenas uma dúzia de corvos adormecidos. Mais além estava o meu objetivo. Uma rua, estreita e modesta, ladeada por uma série de humildes casebres — todos com chaminés altas e manchadas, janelas pequenas, fachadas com o estuque estalado e portas simples de madeira que davam diretamente para a rua. O local sempre fora assim, mesmo nos anos áureos. A Rua do Ouro funcionava segundo moldes diferentes.

Os telhados, sempre a fazer barriga, estavam agora irreparáveis — uma confusão de estruturas empenadas e telhas soltas. Instalei-me num friso saliente de madeira no casebre mais ao fundo e inspecionei a rua. Nos dias de Rodolfo, o mais ganancioso de todos os imperadores, a Rua do Ouro era um centro de grande esforço mágico, cujo objetivo era nada mais nada menos do que a criação da Pedra Filosofal.48 Cada casa estava alugada a um alquimista diferente e, durante algum tempo, os minúsculos casebres fervilharam de atividade.49 Mesmo depois de abandonada a demanda, a rua continuava a acolher magos estrangeiros que trabalhavam para os Checos. O Governo queria-os perto do castelo, onde podia estar de olho neles. E assim se manteve a situação, até à noite sangrenta em que as forças de Gladstone ocuparam a cidade.

 

48 A pedra mítica que se acreditava ter a capacidade de transformar metais-base em ouro ou prata. É claro que a sua existência é pura bobagem, como se poderia constatar inquirindo qualquer diabrete. Nós, djinn, podemos alterar o aspecto das coisas lançando uma Sedução ou uma Ilusão; mas mudar permanentemente a verdadeira natureza de algo é completamente impossível. Mas os humanos só ouvem o que lhes convém, e inúmeras vidas se perderam nesta busca inútil.

49 Vinham magos de todo o mundo conhecido — da Espanha, da Grã-Bretanha, da Rússia bloqueada pela neve, das orlas dos desertos índios — na esperança de receber a incalculável recompensa. Cada um dominava um cento de artes, cada um atormentava uma dúzia de djinn. Cada um obrigou os seus escravos durante anos a participar na grande demanda; e cada um, por sua vez, falhou redondamente. Uma por uma, as suas barbas ficaram grisalhas, as suas mãos fracas e paralisadas, as suas vestes desbotadas e descoloridas dos incessantes chamados e experiências. Um por um, tentaram desistir da sua posição, para constatarem que Rodolfo não os deixaria partir. Aqueles que tentaram fugir, encontraram os soldados à sua espera nas escadas do castelo; outros, ao arriscarem uma jogada mágica, descobriram um forte nexo em volta do castelo, vedando-os lá dentro. Não escaparam. Muitos acabaram nas masmorras; os restantes acabaram com as próprias vidas. Foi, para os espíritos como nós que assistiram a tudo, uma grande lição de moral: os nossos captores tinham sido vítimas das suas próprias ambições.

 

Presentemente, não residiam ali magos estrangeiros. Os edifícios eram menores do que me recordava, amontoados como as aves marinhas num promontório. Senti as velhas magias ainda entranhadas na alvenaria, mas muito pouca era nova. Exceto... O tênue tremor nos planos era agora mais forte, a sua origem muito próxima. O morcego olhou cuidadosamente à sua volta. O que conseguia ver?

Um cão a farejar um buraco ao fundo de uma parede velha. Uma janela iluminada orlada de cortinas finas; lá dentro, um velho curvado junto a uma fogueira. Sob a luz de um poste de rua, uma mulher jovem a caminhar cuidadosamente pelo calçamento empedrado com sapatos de salto alto, dirigindo-se talvez ao castelo. Janelas vazias, caixilhos fechados, buracos nos telhados e chaminés partidas. Lixo levado pelo vento. Uma cena animada.

E o número treze, no meio para quem descia a rua, um casebre indistinguível dos restantes na sua negrura e melancolia, mas com um nexo verde brilhante de força a rodeá-lo no sexto plano. Havia alguém lá dentro, e esse alguém não queria ser incomodado.

O morcego efetuou uma surtida rápida rua acima e rua abaixo, evitando cuidadosamente o nexo no lugar onde se curvava no ar. O resto da Rua do Ouro estava às escuras e tranqüilo, plenamente obcecado com as suas atividades do final do dia. Voltei rapidamente, até o fundo da colina, para chamar o meu amo.

— Encontrei a casa — anunciei. — Defesas ligeiras, mas acho que conseguiremos entrar. Depressa, enquanto não há ninguém por estas bandas.

Já afirmei antes, mas não há coisa pior do que os humanos quando se tem que convencê-los. O tempão que o rapaz levou a subir aqueles duzentos e cinqüenta e seis degraus, a quantidade de bufadas de irritação e pausas absolutamente injustificadas para respirar de que necessitou, a cor extraordinária que adquiriu — nunca vi nada assim.

— Devíamos ter trazido um saco de papel ou outra coisa qualquer — comentei com ele. — A tua cara brilha tanto que provavelmente se consegue ver da outra margem do Vltava. A colina nem sequer é muito íngreme.

— Que... Que... tipo de... defesas existem? — A sua mente só pensava em trabalho.

— Nexos fracotes — respondi. — Não há problema. Mas você não faz nenhum exercício físico?

— Não. Não tenho tempo. Muito ocupado.

— Claro. Agora é uma pessoa muito importante. Tinha-me esquecido.

Passados mais ou menos dez minutos tínhamos chegado à torre em ruínas e voltei a ser Ptolomeu. Assim disfarçado, fui na dianteira até um lugar onde se chegava à rua através de uma ligeira inclinação. Aqui, enquanto o meu amo arfava e chiava delicadamente encostado à parede, deparamo-nos com os casebres da Rua do Ouro.

— Que tremenda falta de condições — comentei.

— Sim. Deviam... deitá-las abaixo... e reconstruir do zero.

— Estava me referindo a você.

— Qual... qual é?

— A número treze? Aquela à direita, três mais adiante. Fachada de estuque branco. Quando tiver acabado de morrer, veremos o que podemos fazer.

Uma caminhada cautelosa pelas sombras da viela levou-nos até escassos metros da cabana. O meu amo achou melhor ir direto à porta da frente. Estendi um braço.

— Páre já aí. O nexo está bem à sua frente. Mais um bocadinho e o ativava.

Estacou.

— Acha que consegue entrar lá dentro?

— Não acho, rapaz. Sei. Já fazia este tipo de coisa quando a Babilônia ainda era um insignificante depósito de gado. Afaste-se. Observe para aprender.

Acerquei-me da frágil rede de filamentos brilhantes que nos bloqueava o caminho, aproximei a cabeça, inclinando-a. Escolhi um buraquinho entre os fios e soprei delicadamente por ele. Tinha um objetivo concreto: o minúsculo pedacinho de Sopro Obediente50 atravessou o buraco e ficou ali a pairar, nem entrando, nem se retirando. Era muito leve para ativar o alarme. O resto foi fácil; expandi o pedacinho aos poucos, delicadamente; quando cresceu, afastou os filamentos. Em escassos minutos, criara-se um enorme buraco redondo na rede, não muito acima do solo. Remodelei o Sopro dando-lhe a forma de um arco e atravessei-o despreocupadamente.

 

50 Um tipo de feitiço constituído por uma expiração de ar pela boca e um sinal mágico. Não tem, nem por sombras, nada a ver com o Gás Malcheiroso, que é criado de uma maneira completamente diferente.

 

— Pronto — disse. — É a sua vez.

O rapaz carregou o cenho.

— De fazer o quê? Continuo não vendo nada.

Com uma certa exasperação, retifiquei o Sopro de forma a torná-lo visível no segundo plano.

— Está satisfeito? — perguntei-lhe. — É só passar cuidadosamente por aquele arco.

Assim fez, mas sem parecer nada impressionado.

— Hum — disse. — Tanto quanto sei, é capaz de estar inventando tudo isto.

— Não tenho culpa dos humanos serem tão cegos — reploquei. — Mais uma vez, está duvidando da minha perícia. Cinco mil anos de experiência à tua disposição, e nem um simples obrigado. Muito bem. Se não acredita que existe um nexo aí, terei o maior prazer em acioná-lo para você. Verá como o mago Kavka sai logo correndo.

— Não, não. — Agora é que lhe dera a pressa. — Acredito em você.

— Tem certeza? — O meu dedo deslocou-se até às linhas brilhantes.

— Sim! Acalme-se. Agora, vamos nos aproximar sorrateiramente da janela e apanhá-lo desprevenido.

— Ótimo. Vai você primeiro.

Avançou ameaçadoramente, direto às linhas de um segundo nexo que eu não percebera.51 Ouviu-se pela casa uma sonora sirene, aparentemente constituída por uma dúzia de sinos e relógios de carrilhão. O barulho continuou por vários segundos. Nathaniel olhou para mim. Antes de qualquer um de nós reagir, o ruído foi interrompido, e ouviu-se um chocalhar atrás da porta da cabana. Esta escancarou-se e saiu de lá um homem de olhos esbugalhados com um barrete enfiado,52 a berrar furiosamente.

 

51 Era muito fino. Apenas no sétimo plano, o mais fino dos fios finos. Qualquer um podia não ter visto.

52 Ele não tinha apenas o barrete; vestia também outras roupas. Vejam bem, não se entusiasmem. Olhem, entrarei em pormenores mais tarde; é um momento de grande impacto narrativo.

 

— Eu te disse! — exclamou ele. — É muito cedo! Só estará pronto de madrugada! Por que não me deixa em p... Oh. — Reparou em nós pela primeira vez. — Mas que diabo é isto?

— Morno — respondi. — De modo que depende do seu ponto de vista. — Saltei para a frente e atirei-o ao chão. Num instante, as mãos dele estavam atrás das costas e magnificamente atadas com o cinto do seu roupão.53 Destinava-se a evitar quaisquer gestos rápidos das mãos que teriam chamado algo em seu auxílio.54 Tapei-lhe a boca com um bocado da camisa de Nathaniel, para não proferir ordens. Feito isto, coloquei-o de pé e empurrei-o lá para dentro antes que o meu amo tivesse sequer tempo de abrir a boca para dar uma ordem. Eis a rapidez com que um djinni consegue agir quando é necessário.

— Olhe para isso! — anunciei com orgulho. — Nem sequer foi necessária violência.

 

53 Vêem? Afinal ele também tinha um roupão. E pijama, aliás. Perfeitamente apresentável.

54 E ordinários também, que podiam ter escandalizado o moleque.

 

O meu amo pestanejou.

— Estragou a minha camisa — disse. — Rasgou-a no meio.

— Que pena — comentei. — Agora fecha a porta. Podemos discutir o assunto lá dentro.

Com a porta fechada, foi possível examinarmos cuidadosamente a nossa envolvente. A melhor maneira de descrever a casa de Mr. Kavka era com a expressão «esqualidez erudita». Todo o assoalho, e cada móvel lá dentro, estava cheio de livros e manuscritos soltos: em certos lugares formavam complexas camadas com muitos centímetros de espessura. Por sua vez, estes apresentavam-se cobertos com uma fina camada de pó, canetas e penas diversas, e inúmeras coisas escuras e acres, que tinham o aspecto desagradável de serem os restos dos almoços do mago acumulados ao longo dos últimos dois meses. Por baixo de tudo isto estava uma grande mesa de trabalho, uma cadeira, um sofá de couro e, a um canto, uma pia primitiva, retangular, com uma única torneira. Alguns pergaminhos desgarrados tinham ido também parar na pia.

Parecia que este piso do casebre continha um único cômodo. Uma janela ao fundo dava para a vertente da colina e a noite: as luzes da cidade lá embaixo brilhavam tenuemente através do vidro. Uma escada de mão em madeira entrava por um buraco no teto, supostamente um quarto de dormir. Não parecia que o mago tivesse efetuado aquele percurso nos últimos tempos: observando com mais atenção, os seus olhos estavam orlados de cinzento, as faces amarelas da fadiga. Estava também extremamente magro, erguendo-se numa postura curvada, como se toda a energia se tivesse escoado dele.

Também não era uma visão particularmente imponente — quer o mago, quer a sua sala. No entanto, era daqui que provinha o tremor nos sete planos: sentia-a mais forte do que nunca. Até os dentes se agitavam nas gengivas.

— Sente-o — ordenou o meu amo. — O sofá servirá. Tire aquele lixo do caminho. Isso mesmo. — Apoiou-se num canto da mesa de trabalho, uma perna no chão, a outra balançando descontraidamente. — Bem — prosseguiu, dirigindo-se brandamente ao seu prisioneiro em checo. — Não disponho de muito tempo, Mr. Kavka. Espero que resolva cooperar comigo.

O mago fitou-o com os seus olhos cansados. Encolheu os ombros de forma perceptível.

— Aviso-o — continuou o rapaz — de que sou um mago de grande poder. Controlo muitas entidades aterrorizantes. Este ser que vê diante de si — nesta altura endireitei os ombros e enchi o peito de ar ameaçadoramente —, não é senão o mais insignificante e menos impressionante dos meus escravos. — Resolvi curvar os ombros e espetar a barriga. — Se não me der a informação que pretendo, será pior para si mesmo.

Mr. Kavka emitiu um ruído incoerente; acenou com a cabeça e revirou os olhos.

O rapaz olhou para mim.

— O que acha que significa aquilo?

— Como é que eu vou saber? Sugiro que lhe tire a mordaça e descubra por si mesmo.

— Está bem. Mas se ele proferir uma sílaba de qualquer fórmula, destrua-o imediatamente! — O rapaz esboçou uma expressão de terrível malignidade acompanhando estas palavras, o que fez com que parecesse ter uma úlcera. Retirei a mordaça. O mago tossiu e cuspiu durante algum tempo. Não se revelou mais coerente do que antes.

Nathaniel bateu com os nós dos dedos num pedaço da mesa à mostra.

— Preste atenção, Mr. Kavka! Quero que escute com muita atenção todas as minhas perguntas. O silêncio, aviso-o já, não o levará a lugar nenhum. Para começar...

— Sei por que veio! — A voz irrompeu da boca do mago com toda a força de um rio a transbordar. Revelou-se provocadora, ofendida, infinitamente cansada. — Não precisa me dizer. É o manuscrito! Claro! Como poderia ser outra coisa, se tenho me dedicado inteiramente aos seus mistérios nos últimos seis meses? Consumiu a minha vida todo esse tempo; veja... Roubou-me a minha juventude! A minha pele enruga-se a cada traço da caneta. O manuscrito! Não podia ser outra coisa!

Nathaniel ficou surpreendido.

— Um manuscrito? Bem, é possível. Mas deixe-me escl...

— Jurei segredo — prosseguiu Mr. Kavka —, fui ameaçado de morte, mas o que me importa isso agora? Uma vez era suficiente. Duas... isso é impossível para um só homem. Veja como a minha energia secou... — Ergueu ambos os pulsos contra a luz; pareciam uns palitos trêmulos, a pele tão fina que a luz passava por entre os ossos. — Foi isso que ele me fez. Antes, transbordava de vida.

— Sim, mas o que...?

— Sei exatamente o que é — continuou o homem, falando como se o meu amo não existisse. — Um agente do Governo britânico. Esperava-o há algum tempo, muito embora, tenho de o admitir, não alguém tão jovem e irremediavelmente inexperiente. Se tivesse chegado um mês atrás, podia ter-me salvo. Assim sendo, significa muito pouco. Não me importo. — Soltou um suspiro sentido. — Está atrás de você, em cima da mesa.

O rapaz olhou para lá, estendeu a mão e pegou num papel. Quando o fez, gritou subitamente de dor; largou-o de imediato.

— Aahh! Está carregado! Um truque...

— Não revele a tua juventude e inexperiência — aconselhei. — Está me embaraçando. Não vê o que é aquilo? Qualquer um com olhos na cara poderá dizer que é o centro de toda a atividade mágica em Praga. Não admira que tomasse um choque. Use esse lenço espalhafatoso do teu bolso e analise-o melhor. Depois diga-me o que é.

Claro que eu já sabia. Não era a primeira vez que me deparava com uma coisa daquela. Mas gostei de ver aquele moleque empertigado tremer de medo, muito sobressaltado para desobedecer às minhas instruções, envolvendo a mão no seu lencinho de babados e voltando a pegar no documento com o maior cuidado. Era um manuscrito em grande escala, feito em carneira, sem dúvida esticado e seco de acordo com os métodos antigos — um espesso pergaminho creme, magnificamente alisado e fervilhando de poder. Este poder não lhe vinha do material, mas das palavras nele inscritas. Tinham sido escritas com uma tinta incomum, em partes iguais de vermelho e preto,55 e fluía magnificamente da direita para a esquerda, desde o pé da página em direção ao topo; linha após linha de complexas runas caligráficas. Os olhos do rapaz estavam arregalados de espanto. Sentia a arte, o trabalho que fora necessário àquela obra, mesmo que não conseguisse ler os sinais. Talvez pudesse ter expressado o seu espanto, se tivesse conseguido dizer uma palavra que fosse. Mas o mago, o velho Kavka, continuava a cantar como um canário, na verdadeira acepção da palavra.

 

55 Presumo que simbolizem o poder da terra (preto) e o sangue do mago (vermelho), que confere vida à terra. Mas trata-se de pura especulação: não sou versado na magia dos golems.

 

— Ainda não está concluído — disse. — Pode se ver isso. Falta acrescentar mais meia linha. Tenho pela frente uma noite inteira: uma noite que será a minha última, de qualquer forma, visto que ele certamente me matará, se a própria tinta não secar o meu sangue. Vê o espaço no alto... aquela pequena janela quadrada? Quem o contratou escreverá ali o seu próprio nome. É o único sangue de que ele precisa despender para controlar a criatura. Funciona muito bem para ele, oh, se funciona. Não tanto para o pobre Kavka.

— Qual é o nome dele? — indaguei. Era preferível ir direito ao assunto, acho eu.

— Quem me contratou? — Kavka soltou uma gargalhada... um som áspero, como uma velha ave louca. — Não sei. Nunca o vi.

O rapaz continuava a olhar fixamente para o manuscrito, confuso.

— Isto é para o golem... — disse lentamente. — Será colocado na sua boca para animá-lo. Ele vai dar o seu sangue vital ao papel, que alimentará o golem... — Ergueu o olhar para Kavka com o espanto horrorizado no rosto. — Por que está a fazer isto? — inquiriu. — Vai destruí-lo.

Esbocei um gesto urgente.

— Isso não nos interessa — intervim.

— Temos que descobrir quem é. O tempo está se esgotando e não tarda muito para a aurora.

Mas o mago falava novamente, uma tênue apatia no seu olhar a sugerir que já não nos via com clareza.

— Por causa de Karl, claro — disse ele. — E de Mia. Prometeram-me que regressariam sãos e salvos se eu criasse estas coisas. Tem de compreender que não acredito nisso, mas não posso desistir da única pontinha de esperança que me resta. Talvez ele cumpra a sua palavra. Talvez não. Provavelmente já estão mortos. — Teve um violento ataque de tosse. — Na verdade, receio que assim seja.

O rapaz não entendia nada.

— Karl, Mia? Não compreendo.

— São a única família que tenho — respondeu o mago. — Como é triste que se tenham perdido. Vivemos num mundo injusto. Mas quando nos surge um raio de luz, avançamos para ele... Até você, um maldito Bretão, o compreenderá. Não podia ignorar a única oportunidade que tinha de voltar a ver os rostos deles.

— Onde é que eles estão, a sua família? — indagou Nathaniel.

— Ah! — O mago agitou-se ante aquelas palavras; surgiu-lhe um ligeiro brilho nos olhos. — Como vou saber? Nalgum navio-prisão distante? Na Torre de Londres? Ou os seus ossos já foram queimados e enterrados? Isso é da sua jurisdição, rapaz inglês, àig-à-me. Você pertence ao Governo britânico, presumo?

O meu amo anuiu.

— A pessoa que procura não quer bem ao seu governo. — Kavka voltou a tossir. — Mas certamente... sabe disso. Foi o que o trouxe aqui. O meu governo me mataria, se soubesse o que fiz. Eles não querem que se crie um novo golem, ou poderá trazer outro Gladstone sobre Praga, brandindo aquele terrível Bordão.

— Presumo — disse o rapaz — que os seus familiares sejam espiões checos? Foram para a Inglaterra?

O mago acenou com a cabeça.

— E foram capturados. Não soube nada deles. Depois apareceu-me um cavalheiro, disse que o seu mandante os restituiria, vivos, se eu revelasse os segredos do golem, se eu criasse o pergaminho necessário. O que poderia eu fazer? O que faria qualquer pai?

Para variar, o meu amo ficou calado. Para variar, eu também. Olhei para o rosto e as mãos emaciadas de Kavka, os seus olhos mortiços, vi neles as infinitas horas debruçado sobre os livros e papéis, vi-o a empenhar a sua vida na página, na hipótese remota de poder ver a família ser-lhe restituída.

— O primeiro pergaminho foi concluído há um mês — disse Kavka. — Foi nessa altura que o mensageiro veio com novas exigências. Agora são necessários dois golems. Em vão argumentei que isso me destruiria, que não viveria para voltar a ver Mia e Karl... Ah, ele é cruel. Não quis dar-me ouvidos.

— Fale-nos desse mensageiro — pediu subitamente o rapaz —, e se os seus filhos estiverem vivos, devolverei-os. Garanto.

O moribundo fez um grande esforço. Os seus olhos focaram-se no meu amo; a sua obscuridade foi substituída por uma força penetrante. Avaliou Nathaniel cuidadosamente.

— É muito jovem para fazer semelhante promessa — murmurou.

— Sou um respeitado membro do Governo — referiu Nathaniel. — Tenho poder...

— Sim, mas será que se pode confiar em você? — Kavka soltou um suspiro profundo. — Afinal, é britânico. Vou perguntar ao seu demônio. — Não desviou os olhos de Nathaniel enquanto falou. — O que me diz? Ele é digno de confiança?

Enchi as bochechas de ar, soprei com força.

— Pergunta complicada. Ele é mago. Por definição, até venderia a própria avó em troca de sabão. Mas, ainda que remotamente, é menos corrupto do que alguns deles. Possivelmente. Um pouco.

Nathaniel olhou para mim.

— Obrigado por esse retumbante apoio, Bartimaeus.

— Não tem de quê.

Mas, para minha surpresa, Kavka acenava com a cabeça.

— Muito bem, deixo isso a cargo da sua consciência, rapaz. Seja como for, não viverei para ver nenhum deles. Na verdade, sinto-me esgotado. Não me interessa nada, nem você, nem tão-pouco ele... podem atirar-se à garganta um do outro enquanto toda a Grã-Bretanha é saqueada. Mas direi o que sei, e ficamos por aqui. — Começou a tossir debilmente, o queixo enterrado no peito. — Uma coisa lhes garanto: não concluirei este manuscrito agora. Não terão dois golems a animar as ruas de Londres.

— Ora, isso é que é uma pena — disse uma voz grave.

 

Nathaniel não saberia dizer ao certo como foi que ele chegou ali. Nenhum dos nexos externos fora ativado, e nenhum deles — Nathaniel, Kavka, ou mesmo Bartimaeus — o ouvira sequer entrar na casa. No entanto, ali estava ele, encostado descontraidamente à escada do sótão, os braços musculosos cruzados sobre o peito.

A boca de Nathaniel abriu-se. Não saíram palavras — nada a não ser uma arfada horrorizada de reconhecimento.

O mercenário barbudo. O assassino contratado por Simon Lovelace.

Depois da luta em Heddleham Hall dois anos antes, o mercenário escapara à captura. Os agentes do Governo tinham andado à procura dele por todo lado, na Grã-Bretanha e no Continente, mas sem êxito — nunca fora encontrado qualquer rastro. Com o tempo, a polícia desistira; o processo fora arquivado e a busca abandonada. Mas Nathaniel não conseguira esquecer. Ficara gravada na sua memória uma imagem terrível: o mercenário saindo das sombras do gabinete de trabalho de Lovelace levando o Amuleto de Samarcanda, o seu casaco manchado com o sangue de um homem assassinado. Durante anos, a imagem pairara como uma nuvem na mente de Nathaniel.

E agora o assassino encontrava-se à distância de dois metros, olhos frios observando cada um deles.

Tal como antes, irradiava uma vitalidade maligna. Era alto e musculoso, de olhos azuis e testa franzida. Parecia ter aparado um pouco a barba, mas usava o cabelo preto mais comprido, pelo meio das costas. As suas roupas eram negras como o azeviche: uma camisa solta, uma túnica acolchoada, calças largas por cima do joelho, botas altas que alargavam na barriga da perna. A sua confiança arrogante atingiu Nathaniel como um soco. Este teve consciência imediata da sua própria insignificante força, da fraqueza dos seus membros.

— Não se preocupe em apresentar-nos, Kavka — disse o homem. A sua voz era indolente, grave e lenta. — Nós três somos velhos conhecidos.

O velho soltou um suspiro longo e triste, difícil de interpretar.

— De qualquer forma, seria inútil. Não sei nenhum dos vossos nomes.

— Os nomes nunca foram problema para nós.

Se o djinni ficou sobressaltado, não deu mostras de tal.

— Pelo visto, voltaram a contratar os teus serviços — comentou.

As sobrancelhas escuras uniram-se.

— Eu disse que haveria de pagar por isso. E irá pagar. Tudo, rapaz.

Até este momento, Nathaniel estivera sentado na escrivaninha de Kavka, petrificado com o choque. Agora, num esforço concertado para mostrar alguma autoridade, deu um impulso e ficou ereto, de mãos nas ancas.

— Está preso — disse ele, olhando furiosamente para o mercenário enquanto falava.

O homem volveu o olhar com tamanha despreocupação sinistra que Nathaniel se sentiu encolher e acovardar no lugar onde estava. Em fúria, clareou a voz.

— Ouviu o que eu disse?

O braço do homem moveu-se (tão rapidamente que Nathaniel mal se apercebeu) e apareceu uma espada na sua mão. Apontou-a indolentemente na direção de Nathaniel.

— Onde está a tua arma, fedelho?

Nathaniel esticou o queixo em desafio e indicou Bartimaeus com um polegar trêmulo.

— Ali — disse. — Ele é um afrit unicamente às minhas ordens. Uma palavra minha e ele dará cabo de você.

O djinni pareceu um pouco confuso.

— Hã, sim — disse, com hesitação. — É verdade.

Surgiu um sorriso glacial por baixo da barba.

— Esta é a criatura que estava contigo da outra vez. Naquela ocasião já não conseguiu me matar. O que te faz pensar que teria mais sorte desta vez?

— Pratique e será mestre — respondeu o djinni.

— Quão verdade. — Outro movimento rápido, outra névoa à volta da sua pessoa... e na sua outra mão estava um disco de metal em forma de S. — Treinei muito com isto — replicou o mercenário. — Cortará a tua essência e não obstante regressará à minha mão estendida.

— Nessa altura já não lhe restaria uma mão com que apanhá-lo — afirmou Nathaniel. — Ele é rápido, o meu afrit. Como o ataque de uma cobra-capelo. Daria cabo de você antes dessa coisa sair da sua mão. — Olhou para o djinni e para o mercenário. Nenhum deles parecia muito convencido.

— Nenhum demônio é tão rápido quanto eu —— disse o mercenário.

— Sério? — replicou Nathaniel. — Então experimente.

Bartimaeus levantou um dedo apressado.

— Olhem aqui...

— Dá-lhe a tua melhor descarga.

— Sou muito capaz de fazê-lo.

— Veja o que lhe acontece.

— Eh, calminha — interveio o djinni. — Esta postura de machos assenta-lhes que nem uma luva, mas deixem-me de fora, por favor. Por que não experimentam o braço-de-ferro, ou comparam os bicípes ou algo assim? Liberariam as tensões.

Nathaniel ignorou-o.

— Bartimaeus — começou —, ordeno-te...

Naquele momento aconteceu algo inesperado. Kavka levantara-se.

— Fique onde está! — Os olhos do mercenário viraram-se, a ponta da espada deslocou-se.

Kavka não pareceu ter ouvido. Oscilou ligeiramente onde estava, depois avançou cambaleante, afastando-se do sofá, atravessando o chão cheio de papéis. Os seus pés descalços emitiam pequenos ruídos secos ao passarem por cima dos pergaminhos. Alcançara a mesa em dois passos. Um braço que era só osso estendeu-se e agarrou o manuscrito do golem na mão frouxa de Nathaniel. Recuou, segurando-o junto ao peito.

O mercenário fez menção de arremessar o disco, mas estacou.

— Pouse isso, Kavka! — bradou. — Pense na sua família... pense em Mia.

Kavka tinha os olhos fechados; vacilava novamente. Ergueu o rosto para o teto.

— Mia? Já a perdi.

— Conclua aquele papel esta noite, e a verá amanhã, juro!

Os olhos abriram-se. Estavam sem vida, mas lúcidos.

— O que importa? Estarei morto ao raiar do dia. A minha força vital já se escoou.

Surgira no rosto do mercenário uma expressão de intensa irritação. Não era o tipo de homem que apreciasse negociações.

— Quem me contratou garantiu-me que eles estão a salvo e bem — disse. — Podemos retirá-los da prisão esta noite e trazê-los de avião para Praga amanhã de manhã. Pense bem... quer que todo este trabalho seja desperdiçado?

Nathaniel olhou para o djinni. Mudava lentamente de posição. O mercenário não parecia ter percebido. Nathaniel pigarreou, procurando distraí-lo ainda mais.

— Não lhe dê ouvidos, Kavka — afirmou. — Ele está mentindo.

O mercenário deu um olhar fuzilante a Nathaniel.

— Foi uma enorme contrariedade para mim não terem sido apanhados esta tarde na praça. Tinha dado instruções muito concretas à polícia, no entanto, eles conseguiram estragar tudo. Eu devia ter-me encarregado pessoalmente de você.

— Sabia que estávamos ali? — inquiriu Nathaniel.

— Claro. Escolheu muito mal a ocasião. Mais um dia ou dois e teria sido irrelevante; voltaria para Londres com o manuscrito concluído. As tuas investigações teriam sido infrutíferas. Por isso, precisava mantê-lo ocupado. Daí ter alertado a polícia.

Os olhos de Nathaniel semicerraram-se.

— Quem lhe disse que eu viria?

— Quem me contratou, logicamente — respondeu o mercenário. — Eu avisei os Checos e eles seguiram aquele agente britânico insignificante o dia todo, sabendo que acabaria por levá-los até você. Infelizmente, estão convencidos de que veio a Praga para colocar uma bomba. Mas tudo isso é de menor importância agora. Eles desiludiram-me.

Enquanto falava, mantinha a espada e o disco estendidos, os seus olhos oscilando entre Nathaniel e o mago. Nathaniel sentia a cabeça num turbilhão — quase ninguém soubera da sua vinda a Praga, no entanto, o mercenário fora informado. O que queria dizer... Não, tinha de se concentrar. Viu Bartimaeus continuar a andar de lado aos poucos, sutil como um caracol. Um pouco mais e o djinni estaria fora do campo de visão, na posição certa para atacar...

— Vejo que encontrou outro reles traidor para substituir Lovelace — disse-lhe com secura.

— Lovelace? — As sobrancelhas do homem moveram-se, ligeiramente divertido. — Já naquela ocasião ele não era a pessoa principal que me contratara. Não passava de um ator secundário, um amador, muito ávido de sucesso. O meu amo encorajou-o, por assim dizer, mas Lovelace não era o seu único instrumento. Tampouco eu sou o seu único servidor neste momento.

Nathaniel estava fora de si com a fúria.

— Quem é ele? Para quem trabalha?

— Para alguém que paga bem. Isso é óbvio, sem dúvida. É um magozinho estranho.

Naquele momento, o djinni, que conseguira sair dos limites do olhar do mercenário, levantou a mão para atacar. Mas, no mesmo instante, Kavka agiu. Estivera todo aquele tempo de pé ao lado de Nathaniel, segurando nas mãos o pergaminho do golem. Então, sem uma palavra, os olhos fechados com força, retesou-se subitamente, e rasgou o manuscrito ao meio.

O efeito foi inesperado.

Brotou do pergaminho rasgado uma efusão de força mágica que sacudiu o casebre como um abalo de terra. Nathaniel foi atirado ao ar no meio de um turbilhão de objetos a voar: djinni, mercenário, mesa, sofá, papel, canetas, salpicos de tinta. Durante uma fração de segundo, Nathaniel conseguiu distinguir os três planos visíveis tremendo a níveis diferentes: tudo se multiplicou três vezes. As paredes estremeceram, o chão inclinou-se. A luz elétrica crepitou e apagou-se. Nathaniel foi atirado ao chão com toda a força.

A vibração atravessou as tábuas do assoalho, descendo à terra. A carga do manuscrito escoara-se. Os planos estabilizaram, as repercussões desapareceram. Nathaniel ergueu a cabeça. Ficara debaixo do sofá virado de pernas para o ar, a olhar na direção da janela. As luzes da cidade continuavam a brilhar através dela, mas, curiosamente, pareciam mais altas do que antes. Levou um momento para perceber o que sucedera. Toda a cabana se inclinara e encontrava-se bem à beira da colina. As tábuas do assoalho desciam gradualmente na direção da janela. Enquanto observava, muitos objetos pequenos foram escorregando, parando junto à parede inclinada.

O cômodo estava bastante escuro e cheio do roçar de papel que assentava suavemente. Onde estava o mercenário? Onde estava Bartimaeus? Nathaniel ficou muito quieto debaixo do sofá, os olhos arregalados como os de um coelho à noite.

Conseguia ver bastante bem Kavka. O velho mago estava deitado de costas na pia, inclinado, com uma dúzia de folhas de papel a descerem sobre si, qual mortalha improvisada. Mesmo daquela distância, Nathaniel conseguia ver que estava morto.

O peso do sofá pressionava com força uma das pernas de Nathaniel, prendendo-o ao chão. Quis muito deslocá-lo, mas sabia que era muito arriscado. Ficou quieto, observando e escutando.

Um passo; uma figura a surgir lentamente no campo de visão. O mercenário estacou ao lado do corpo na pia, inspecionou-o por um momento, soltou uma imprecação em voz baixa e foi remexer nos móveis espalhados junto da janela. Avançava lentamente, as pernas tensas por causa da inclinação do chão. Já não empunhava a espada, mas brilhava algo prateado na sua mão direita.

Não encontrando nada entre os escombros, o mercenário começou a subir em direção ao resto do cômodo, virando metodicamente a cabeça de um lado para o outro, os olhos semicerrados no escuro. Horrorizado, Nathaniel viu que ele se aproximava cada vez mais do sofá. Nathaniel não podia recuar: o sofá que o encobria também o aprisionava. Mordeu o lábio, tentando recordar as palavras de um chamado adequado.

O mercenário pareceu reparar pela primeira vez no sofá virado. Ficou muito quieto durante dois segundos. Depois, com o disco de prata na mão, flexionou os joelhos e acocorou-se para levantar o sofá da cabeça encolhida de Nathaniel.

E Bartimaeus surgiu atrás dele.

O rapaz egípcio flutuava por cima do chão inclinado; os seus pés pendiam inertes, a mão estendida. Havia uma auréola de prata em volta da sua forma, incidindo no pano branco em volta da sua cintura e brilhando sinistramente no seu cabelo. O djinni assobiou uma vez, um som bem-disposto. Numa mancha de movimento, o mercenário virou-se; o disco abandonou a sua mão; atravessou o ar silvando, penetrou a radiância ao lado de Bartimaeus e descreveu espirais pelo cômodo.

— Nah-nah, falhou — disse o djinni. Irrompeu um Inferno dos seus dedos e submergiu o mercenário onde se encontrava. Um bocado de chama envolveu a parte superior do seu corpo; soltou um grito, levando as mãos ao rosto. Avançou aos tropeções, iluminando o cômodo com uma radiância amarelo-avermelhada, que brotava dos seus dedos de fogo entrecruzados.

O disco silvante atingiu o ponto mais distante do cômodo; com uma mudança de timbre, voltou para trás, indo direito à mão do mercenário. No percurso, cortou o flanco do rapaz egípcio. Nathaniel ouviu o djinni soltar um grito; viu a forma do rapaz vacilar e tremer.

O disco regressou à mão em chamas.

Nathaniel libertou a perna do sofá; empurrou-o freneticamente de cima de si e, avançando aos tropeções pelo chão irregular, agarrou o homem pelos pés.

O rapaz egípcio desapareceu. No seu lugar, iluminado pelas chamas, um rato coxo correu para as sombras. O homem a arder perseguiu-o, piscando os olhos com o calor. As roupas enegreciam no seu corpo; o disco brilhava com uma tonalidade vermelha nos seus dedos.

Nathaniel tentou ordenar os pensamentos. A seu lado estava a escada do sótão, que tombara para se alojar em diagonal junto ao teto. Firmou-se nela.

O rato correu por cima do pergaminho envelhecido. O papel estalou com ruído debaixo das suas patas.

O disco cortou o pergaminho ao meio; o rato soltou um guincho e desviou-se para o lado.

Os dedos em chamas moveram-se; surgiram neles mais dois discos. O rato correu precipitada e freneticamente, mas não foi suficientemente rápido. Um disco alojou-se nas tábuas do assoalho, prendendo a cauda do rato sob um rebarba de prata. O rato debateu-se debilmente, tentando libertar-se.

O mercenário acercou-se. Ergueu uma bota fumegante.

Com um esforço furioso, Nathaniel conseguiu deslocar a escada do sótão, fazendo-a cair pesadamente sobre as costas do mercenário. Apanhado desprevenido, o homem desequilibrou-se e caiu de lado numa chuva de faíscas. Aterrou no chão da cabana, incendiando os manuscritos a toda sua volta.

O rato deu um grande impulso, soltou a cauda. Com um salto brusco, aterrou ao lado de Nathaniel.

— Obrigadinho, meu — arfou. — Viu como o posicionei para você?

Nathaniel olhava estupefato para a figura pesada, que retirava a escada de cima de si num espasmo de raiva, parecendo indiferente às chamas que o envolviam.

— Como é que ele consegue sobreviver? — cochichou. — O fogo cobre-o por completo. Está sendo consumido.

— Apenas as suas roupas, temo — disse o rato. — O corpo dele é praticamente invulnerável. Mas agora o temos junto à janela. Cuidado.

Ergueu uma patinha rosada. O homem barbudo virou-se e viu Nathaniel pela primeira vez. Mostrou os dentes, de raiva, levantou uma mão; faiscou ali algo prateado. Levou-a atrás...

E apanhou de frente com toda a força de um Furacão: veio diretamente da pata do rato, levantou-o do chão e atirou-o de encontro à janela, rodeado de uma cascata brilhante de vidro partido e montes de papel a arder que tinham sido arrancados do chão com ele. Mergulhou na noite, embrenhando-se cada vez mais nela, colina abaixo, a sua descida marcada pelas chamas que ainda lhe lambiam o corpo. Nathaniel viu-o ressaltar uma vez, ao longe, depois imobilizar-se.

O rato corria já pelo chão inclinado em direção à porta do casebre.

— Anda — gritou. — Acha que aquilo vai detê-lo? Temos cinco minutos, no máximo dez.

Nathaniel correu atrás dele até o exterior, passando por cima de pilhas de papel fumegante, ativando primeiro um nexo, depois o outro. A sirene dos alarmes elevou-se até o céu e arrancou os moradores da Rua do Ouro dos seus sonhos melancólicos, mas o rato e o rapaz estavam já para lá da torre em ruínas e desciam a correr as escadas do castelo como se todos os demônios já invocados clamassem atrás deles.

Ao final daquela manhã, com roupas lavadas, uma cabeleira postiça e exibindo um passaporte acabado de roubar, Nathaniel atravessou a fronteira checa para a Prússia controlada pelos Britânicos. Chegando de carona à cidade de Chemnitz numa caminhonete de padeiro, foi direto ao Consulado Britânico e explicou a sua situação. Fizeram-se telefonemas, confirmaram-se senhas e verificou-se a sua identidade. No meio da tarde, seguia a bordo de um avião que partiu do aeroporto local para Londres.

O djinni fora dispensado na fronteira, uma vez que o stress de um chamado prolongado estava a desgastar Nathaniel. Dormira muito pouco nos últimos dias. Fazia calor no avião e, apesar do desejo de meditar nas palavras do mercenário, o cansaço e o zumbido dos motores surtiram o seu efeito. Nathaniel adormeceu praticamente antes de decolar.

Foi acordado por uma comissária em Box Hill.

— Chegamos, senhor. Um carro o aguarda. Pediram para não se demorar.

Assomou às escadas e foi fustigado por uma chuva fria e miudinha. Uma limusine preta aguardava ao lado da pista de aterrisagem. Nathaniel desceu lentamente, ainda mal acordado. Esperara em parte encontrar a sua mestra ali, mas o banco traseiro estava vazio. O motorista levou a mão ao boné quando abriu a porta.

— Com os cumprimentos de Ms. Whitwell, senhor. — disse ele. — Tem de seguir imediatamente para Londres. A Resistência atacou no coração de Westminster, e... Bem, verá os resultados com os seus próprios olhos. Não há tempo a perder. Temos em mãos uma catástrofe sem precedentes.

Em silêncio, Nathaniel entrou no carro. A porta fechou-se atrás de si com um estalido.

 

O lance de escadas acompanhava o contorno da coluna por cima, descendo até o solo em círculos no sentido dos ponteiros do relógio. O corredor era estreito e o teto baixo. Até Kitty era obrigada a curvar-se, e Fred e Nick — que estavam praticamente dobrados — tiveram de descer de lado, parecendo dois caranguejos desajeitados. O ar estava abafado e cheirava mal.

Mr. Pennyfeather seguia na frente, a sua lanterna regulada para a iluminação mais forte. Todos os demais haviam feito o mesmo, o seu ânimo melhorando com a luz renovada. Agora que estavam em segurança debaixo do solo, era improvável que alguém os visse. A parte perigosa passara.

Kitty seguiu os passos arrastados de Nick, vindo Stanley logo atrás. Mesmo com a lanterna dele nas suas costas, as sombras pareciam decididas a acercar-se; corriam e saltavam incessantemente nos limites da sua visão.

Um número muito razoável de aranhas instalara os seus lares nas fendas de ambos os lados das escadas. Pelas imprecações de Mr. Pennyfeather, via-se que estava abrindo caminho através de uma barreira considerável de cem anos de teias de aranha.

A descida não demorou muito. Kitty contou trinta e três degraus, e depois transpunha o gradeamento de metal com dobradiças e entrava num espaço aberto, mal definido à luz das lanternas. Afastou-se para deixar Stanley sair também das escadas, depois tirou o capuz. Mr. Pennyfeather acabara de fazer o mesmo. O seu rosto apresentava-se ligeiramente afogueado, o círculo de cabelo grisalho espetado e em desalinho.

— Bem-vindos — murmurou em voz estridente e rouca — ao túmulo de Gladstone.

A primeira sensação de Kitty foi imaginar o mero peso do solo sobre si. O teto fora construído habilidosamente com blocos de pedra; com o passar dos anos, o alinhamento das pedras alterara-se. Saíam agora sinistramente para o centro da câmara, comprimindo a luz fraca como se quisessem extingui-la. O ar estava saturado, e a fumaça subia densamente em espiral das lanternas até o teto. Kitty percebeu que sustinha instintivamente cada respiração.

A cripta em si era relativamente estreita, talvez não mais de quatro metros de largura no ponto mais amplo; o comprimento era indeterminado, estendendo-se até à sombra para lá do brilho das luzes deles. O chão era de lajes e despido, com exceção de um denso tapete de bolor branco que, em certos lugares, subia até o meio das paredes. As laboriosas aranhas das escadas pareciam não se ter arriscado a transpor o gradeamento: não se via nenhuma teia.

Talhada na parede lateral da câmara, bem em frente da entrada, havia uma prateleira comprida, vazia, com exceção de três hemisférios de vidro. Apesar deste se encontrar sujo e rachado, Kitty conseguiu distinguir os restos de uma pequena coroa de flores secas dentro de cada um: lírios, papoulas e paus de rosmaninho antigos, salpicados de líquens salobros. As flores do enterro do grande mago. Kitty sentiu um arrepio e virou-se para o foco principal da atenção do grupo — o sarcófago de mármore, bem por baixo da prateleira.

Tinha três metros de comprido e mais de um de altura, esculpido com simplicidade, sem ornamentos ou inscrições de qualquer espécie, com excepção de uma placa de bronze que fora afixada no centro de um dos lados. A tampa, também de mármore, assentava por cima, apesar de Kitty achar que parecia ligeiramente de lado, como se a tivessem deixado ali às pressas e tivesse ficado por arrumar.

Mr. Pennyfeather e os outros estavam reunidos em volta do sarcófago, em grande excitação.

— É de estilo egípcio — dizia Anne. — Grandiosidade típica, querendo imitar os faraós. Porém, não apresenta hieróglifos.

— O que diz? — Stanley olhava intensamente para a placa. — Não consigo distinguir.

Mr. Pennyfeather semicerrava também os olhos.

— Está em alguma língua diabólica. Talvez Hopkins a conseguisse decifrar, mas ele não nos pode ajudar. Agora — endireitou-se e bateu com a bengala na tampa do sarcófago —, como é que vamos abrir isto?

A testa de Kitty franziu-se com repulsa e algo que se aproximava de apreensão.

— Temos mesmo que fazer isso? O que os leva a pensar que as coisas estão ali dentro?

O nervosismo de Mr. Pennyfeather revelou-se na sua ligeira irritação.

— Bem, dificilmente estarão espalhadas pelo chão... não acha, garota? O vampiro velho deverá ter querido tudo perto de si, mesmo na morte. O resto da sala está vazia.

Kitty insistiu.

— Vocês já verificaram?

— Ah! Uma perda de tempo! Anne, pega a lanterna e vá ver lá no fundo. Certifique-se de que não existem recantos no outro extremo. Frederick, Nicholas, Stanley, vamos precisar de toda a nossa força para levantar a tampa. Conseguem agarrá-la de lado? Talvez precisemos de uma corda.

Enquanto os homens estavam reunidos, Kitty ficou observando a atividade de Anne. Logo se tornou óbvio que Mr. Pennyfeather tinha razão. Após alguns passos, a lanterna de Anne iluminou a parede do fundo da câmara, uma superfície lisa de blocos de pedra. Passou a luz por ela algumas vezes, procurando nichos ou o contorno de portas, mas não se via nada. Encolhendo os ombros na direção de Kitty, voltou para o centro da câmara.

Stanley tirara a sua corda e avaliava uma extremidade da tampa.

— Vai ser difícil atá-la — observou, coçando a nuca. — Não consigo enrolá-la em volta de nada. E é muito pesada para levantar...

— Poderíamos arrastá-la para o lado — sugeriu Fred. — Vou tentar.

— Ná, é muito pesada. Pedra sólida.

— Pode não haver muito atrito — salientou Nick. — O mármore é bem liso.

Mr. Pennyfeather limpou o suor da testa.

— Bem, rapazes, vamos ter de experimentar. A única alternativa é acender uma esfera sobre ela, e isso poderia danificar os artigos. Se você, Fred, firmar as botas na parede, obteremos mais potência de alavanca. Agora, Nick...

Enquanto a discussão prosseguia, Kitty curvou-se para inspecionar a placa de bronze. Estava densamente coberta por pequenas marcas em forma de cunha, dispostas para formar o que seriam evidentemente palavras ou símbolos. Já não era a primeira vez que Kitty lamentava a sua própria ignorância. O conhecimento de escritas obscuras não era algo que se aprendesse na escola, e Mr. Pennyfeather recusara-se a deixar que o seu grupo estudasse os livros de fórmulas que haviam roubado. Perguntou-se desnecessariamente se o pai de Jakob teria conseguido ler aquela escrita, e o que ela lhe teria revelado.

— Kitty, saia do caminho, está bem? Linda menina. — Stanley agarrara um dos cantos da tampa, Nick encontrava-se no outro e Fred (que tinha uma extremidade toda para si) apoiara um pé na parede, bem por baixo da prateleira. Preparavam-se para o primeiro esforço. Mordendo o lábio ante o gracejo de Stanley, Kitty levantou-se e afastou-se, limpando o rosto na manga. O suor perolava-lhe a pele; o ar na cripta estava muito abafado.

— Vamos, rapazes! Empurrem! — Resfolegando do esforço, os homens meteram mãos à obra. Anne e Mr. Pennyfeather tinham erguido as lanternas à altura deles para iluminar os seus progressos. A luz incidiu em rostos contorcidos, dentes à mostra, testas a escorrer suor. Apenas por um momento, ouviu-se um tênue ranger acima dos gemidos deles.

— Pronto... descansem! — Nick, Fred e Stanley deixaram-se cair com exclamações entrecortadas. Mr. Pennyfeather aproximou-se a coxear, agarrando-lhes com força os ombros.

— Deslocou-se! Nítido movimento! Muito bem, meus rapazes! Ainda não se vê o interior, mas chegaremos lá. Façam uma pausa, depois voltaremos a tentar.

E assim foi. E novamente. A cada vez, as suas arfadas eram mais altas, os músculos distendendo-se com o esforço; a cada vez, a tampa deslizava um pouco mais, depois, obstinadamente, voltava a parar. Mr. Pennyfeather insistiu com eles, dançando à sua volta feito um demônio, quase se esquecendo de coxear, o seu rosto contorcido na luz oscilante.

— Empurrem... é isso! A nossa fortuna está a escassos palmos dos seus narizes, basta fazerem o esforço! Oh... raios, Stanley, empurra! Mais um pouco! Rebentem as costas, rapazes!

Pegando numa lanterna abandonada, Kitty passeou pela cripta vazia, raspando as solas de borracha no bolor branco, marcando o compasso. Foi até o fundo da câmara, quase até à parede, depois virou-se e voltou para trás.

Ocorreu-lhe algo, uma singularidade semidetectada que acenava vagamente no seu subconsciente. Por um momento, não conseguiu concluir do que se tratava, e os vivas soltados pelos outros após um empurrão particularmente bem sucedido voltaram a distraí-la. Girou nos calcanhares, olhando para a parede do fundo lá atrás, e levantou a lanterna.

Uma parede — nem mais nem menos.

Então o que era que... ?

O bolor. A ausência dele.

A toda a sua volta, debaixo dos pés, estendia-se o bolor branco; não havia uma única laje livre. E de ambos os lados as paredes tinham sido igualmente invadidas. O bolor estendia-se gradualmente em direção ao teto. Um dia, talvez, toda a sala estaria coberta por ele.

Todavia, na parede do fundo não havia vestígio de bolor. Os blocos estavam limpos, os seus contornos tão nítidos como se os construtores tivessem ido embora naquela mesma tarde.

Kitty virou-se para os outros.

— Eh...

— Isso mesmo! Só mais uma vez, rapazes! — Mr. Pennyfeather estava praticamente aos pulos. — Vejo agora um espaço no canto! Outro empurrão e seremos os primeiros a ver o velho Gladstone desde que arrecadaram os seus ossos!

Ninguém ouviu Kitty; ninguém lhe prestou a menor atenção.

Virou-se para a parede do fundo. Nenhum bolor... Não fazia sentido. Talvez aqueles blocos limpos fossem de um tipo de pedra diferente?

Kitty aproximou-se para tocar nos blocos; quando o fez, o seu sapato prendeu-se no chão irregular e caiu para a frente. Ergueu as mãos para se apoiar na parede — e foi parar do outro lado.

Um instante depois, bateu com força nas lajes do chão, raspando os pulsos e o joelho. A lanterna saltou-lhe da mão estendida a caiu ruidosamente ao lado dela.

Kitty fechou os olhos com força, da dor. O joelho latejava muito, e sentia todos os dedos dormentes devido ao choque da queda. Mas a sua sensação mais forte era a de perplexidade. Como fora que acontecera? Tinha certeza de que não batera na parede; no entanto, parecia tê-la atravessado como se não existisse.

Atrás de si um ranger medonho, seguido de um estrondo horrível, vários gritos de triunfo, e também, algum lugar no meio daquilo tudo, um grito de dor. Ouviu a voz de Mr. Pennyfeather.

— Muito bem, meus rapazes! Muito bem! Páre de se lamuriar, Stanley... não ficou muito machucado. Reúnam-se... Vamos olhar!

Tinham conseguido. Precisava ver. Rigidamente e cheia de dores, Kitty levantou-se apoiando-se nos quatro membros e estendeu a mão para a lanterna. Pôs-se de pé e, quando o fez, a luz da lanterna iluminou um pouco do espaço onde se encontrava.

A despeito de si mesma, a despeito do tempo que passara em campanha, a despeito de todas as vezes que escapara por um triz, das armadilhas, dos demônios e das mortes dos seus amigos, o choque do que via agora deixou-a novamente a arfar e a tremer como a criança na ponte de ferro tantos anos antes. As pulsações latejavam-lhe nos ouvidos, sentia a cabeça a girar. Ouviu uma lamúria longa, aguda e penetrante ecoar pela câmara, e deu um pulo, antes de perceber que brotara da sua própria boca.

Atrás de si, as comemorações ansiosas calaram-se subitamente. A voz de Anne.

— O que foi aquilo? Onde está Kitty?

Kitty continuava a olhar para a frente.

— Estou aqui — murmurou.

— Kitty!

— Onde está?

— O raio da garota... Terá subido as escadas? Nicholas, vai ver.

— Kitty!

— Estou bem aqui. No fundo. Não conseguem ver? — Não era capaz de levantar a voz; sentia a garganta muito apertada. — Estou aqui. E não estou sozinha...

O verdadeiro fim da câmara não estava muito mais longe do que o ilusório através do qual caíra, talvez apenas a três metros do lugar onde se encontrava. O bolor branco ignorara a falsa barreira e avançara direto por ali dentro: revestia as paredes e o chão, e o que estava no chão, e brilhava com uma auréola doentia à luz fria da lanterna dela. Mas apesar da espessa camada, não obscurecia os objetos dispostos numa fila certinha entre as paredes; a sua natureza era por demais evidente. Eram seis ao todo, deitados juntos, lado a lado, as cabeças inclinadas na direção de Kitty, os sapatos a desfazerem-se apontando para a parede do fundo da câmara, as mãos ossudas assentadas tranqüilamente nos peitos. As condições de isolamento da cripta haviam-se encarregado de que a carne não apodrecesse por completo; mirrara antes sobre os esqueletos, pelo que os maxilares dos crânios estavam repuxados para baixo devido ao retesamento da pele, conferindo-lhes expressões permanentes de terror descontrolado. A própria pele enegrecera como madeira fossilizada ou couro torturado. Os olhos estavam todos mirrados. Os seis vestiam roupas estranhas, trajes antiquados; botas pesadas cobriam os seus pés em repouso. A caixa torácica de um deles saía pela camisa. O cabelo mantinha-se exatamente como se em vida; brotava das cabeças medonhas como as ervas daninhas do rio. Kitty reparou que um dos homens tinha uma cabeleira com belos caracóis castanho-aloirados.

Os companheiros continuavam a chamar o nome dela; espantava-a tamanha estupidez.

 

— Estou aqui! — Com um esforço súbito, quebrou a inércia do choque, virando-se e gritando através da câmara. Nick e Anne estavam ambos próximo; ao som da voz dela, as suas cabeças viraram-se, mas os olhos permaneciam confusos e perplexos, passando por Kitty como se não estivesse lá. Kitty gemeu de exasperação e avançou para eles; quando o fez, uma estranha sensação efervescente percorreu-lhe o corpo.

Nick soltou um grito. Anne deixou cair a lanterna.

— É melhor verem isto — disse Kitty sobriamente; depois, como não respondessem: — O que diabo se passa com vocês?

A sua raiva arrancou Nick do choque.

— O-olhe para você — balbuciou. — Está meio dentro, meio fora da parede. — Kitty olhou para baixo; de fato, deste lado, a ilusão mantinha-se bastante firme: o estômago, o peito e a parte da frente do pé saíam das pedras como se tivessem sido cortados através dela. O corpo estava entorpecido nas margens onde a magia lhe tocava.

— Nem sequer brilha — murmurou Anne. — Nunca vi uma ilusão tão forte.

— Pode atravessar — afirmou Kitty, com um certo entorpecimento. — Há coisas aqui deste lado.

— Tesouro? — Nick era a ansiedade em pessoa.

— Não.

Em instantes, o resto do grupo aproximara-se da parede e, após uma certa hesitação, transpusera a ilusão, um após outro. As pedras não chegaram sequer a se agitar. Do outro lado, a barreira era completamente invisível.

Os seis olharam em silêncio e choque para os cadáveres iluminados.

— Sou a favor de sairmos já — propôs Kitty.

— Vejam o cabelo — murmurou Stanley. — E as unhas deles. Como são compridas.

— Estendidos como sardinhas numa lata...

— Como é qu’ acha... ?

— Sufocados, talvez...

— Vêem o peito dele... aquele buraco? Não teve origem natural...

— Não precisamos de nos preocupar. São muito antigos. — Mr. Pennyfeather falou com imensa segurança, destinada talvez a reconfortar-se tanto quanto os outros. — Reparem na cor da pele. Estão praticamente mumificados.

— Acham que é da época de Gladstone? — indagou Nick.

— Sem dúvida. O estilo das roupas prova-o. Finais do século XIX.

— Mas seis... Um para cada um de nós...

— Cale-se, Fred.

— Mas por que haveriam eles de estar... ?

— Alguma espécie de sacrifício, talvez...?

— Mr. Pennyfeather, ouça, temos realmente...

— Não, mas porquê escondê-los? Não faz sentido.

— Nesse caso, saqueadores de sepulturas? Sepultados vivos como castigo.

— ...Temos realmente de ir.

— Isso é mais provável. Mas, insisto, porquê escondê-los?

— E quem o fez? É então a Pestilência? Isso é que não compreendo. Se a ativaram...

— Mr. Pennyfeather! — Kitty bateu o pé e gritou; o barulho ecoou pela câmara. A discussão cessou bruscamente. Obrigou as palavras a saírem pela garganta comprimida. — Aqui há algo que desconhecemos. Uma espécie de armadilha. Deveríamos esquecer o tesouro e ir embora já.

— Mas estes ossos são antigos — frisou Stanley, adotando os modos decididos de Mr. Pennyfeather. — Acalme-se, garota.

— Não me venha com paternalismos, seu paspalho.

— Concordo com a Kitty — disse Anne.

— Mas, meus queridos — Mr. Pennyfeather colocou uma mão no ombro de Kitty e esfregou-o com falso bom humor —, isto é muito desagradável, concordo. Mas não devemos exagerar. Todavia, estes pobres homens morreram, foram colocados aqui há muito tempo, provavelmente enquanto o túmulo ainda estava aberto. Por isso a parede que os esconde não tem bolor, vêem? Cresceu tudo desde então. As paredes estavam limpas e novas quando eles foram ao encontro da morte. — Indicou os cadáveres com a bengala. — Pensem nisso. Estes rapazes foram deitados aqui antes do túmulo ser selado... Caso contrário, a Pestilência teria sido desencadeada quando eles entraram. E não foi, porque nós acabamos de vê-la e a dispersamos.

As suas palavras tiveram o condão de acalmar o grupo; houve alguns acenos e murmúrios de concordância. Mas Kitty abanou a cabeça.

— Temos seis homens mortos nos chamando a atenção — disse. — Seríamos tolos se os ignorássemos.

— Huh! Eles são antigos. — Pelo alívio na voz de Fred, parecia que tinha acabado de entender as implicações deste conceito. — Ossos velhos. — Esticou uma bota e tocou no crânio mais próximo com ironia; rolou para o lado, afastando-se do pescoço, e ficou a balançar nas lajes com o som suave de louça a bater uma na outra.

— Tem que aprender, minha querida Kitty, a ser menos emotiva — afirmou Mr. Pennyfeather, tirando um lenço do bolso e limpando a testa. — Já abrimos o sarcófago do velho diabo, e a terra não nos engoliu, não é? Venha ver, garota: ainda não viu. Um sudário de seda colocado com cuidado por cima... Só isso deve valer uma fortuna. Cinco minutos, Kitty. Cinco minutos é tudo do que precisamos para tirar aquele lençol e agarrar na bolsa e na bola de cristal. Não perturbaremos o sono de Gladstone por muito tempo.

Kitty nada disse; virou-se e atravessou, lívida, a barreira, voltando para a câmara. Não podia confiar em si mesma. A sua raiva era dirigida tanto à sua pessoa — pela sua própria fraqueza e medo irracional — como ao seu líder. As palavras dele pareciam-lhe condescendentes; muito naturais e fluentes. Mas não estava acostumada a fazer diretamente frente à vontade dele; e sabia qual o estado de espírito do grupo que o acompanhava.

O toc-toc-toc da bengala de Mr. Pennyfeather aproximou-se atrás de si. Vinha ligeiramente sem fôlego.

— Espero, minha querida Kitty, que me dê a honra... de guardar a bola de cristal... na sua mochila. Confio em você, sabe... confio implicitamente. Seremos todos fortes durante cinco minutos, depois abandonaremos este lugar amaldiçoado para sempre. Reúnam-se, e preparem as suas mochilas. A nossa fortuna espera-nos!

A tampa do sarcófago mantinha-se onde caíra, inclinada entre o túmulo e o chão. Uma parte de um canto partira-se com o impacto, e fora parar no meio do bolor. Havia uma lanterna alegremente acesa no chão, que não iluminava o interior negro do túmulo aberto. Mr. Pennyfeather colocou-se num extremo do sarcófago, encostou a sua bengala à pedra e agarrou-se ao mármore para se apoiar. Sorriu ao grupo e flexionou os dedos.

— Frederick, Nicholas... mantenham as suas lanternas erguidas. Gostaria de ver exatamente aquilo em que vou tocar. — Stanley soltou uma risada nervosa.

Kitty olhou para o fundo da câmara. Conseguia apenas vislumbrar no escuro o contorno impassível da parede falsa, o seu segredo medonho escondido lá atrás. Respirou fundo. Porquê? Não fazia sentido...

Voltou-se para o sarcófago. Mr. Pennyfeather inclinou-se, agarrou algo, e puxou.

 

O lençol de seda saiu do sarcófago quase silenciosamente, apenas com murmúrios secos muito tênues e uma delicada nuvem de pó castanho que irrompeu como os esporos de um licopérdon ao rebentarem. O pó rodopiou no círculo de luz das lanternas, depois assentou lentamente. Mr. Pennyfeather dobrou o lençol e colocou-o cuidadosamente no rebordo de mármore, e só então se inclinou e olhou lá para dentro.

— Baixem a luz — murmurou.

Nick obedeceu; todos inclinaram as cabeças, e olharam.

— Ahh... — O suspiro de Mr. Pennyfeather foi o de um gastrônomo sentado à mesa, com a refeição diante de si e sabendo que o prazer não tarda muito. Ecoou à sua volta um coro de arfadas e exclamações delicadas. Até os maus presságios de Kitty foram momentaneamente esquecidos.

Cada um deles conhecia o rosto como se fosse o seu. Toda a vida de Londres girava à sua volta, era uma presença inevitável em qualquer lugar público. Tinham visto a sua imagem mil vezes, em estátuas, memoriais, nos murais de beira de estrada. Surgia de perfil nos manuais escolares, nos impressos oficiais, nos cartazes e reclames erguidos em tapumes altos nos diversos mercados. Olhava-os, do alto de pedestais, com austera sobranceria, em metade das praças arborizadas, olhava-os fixamente de baixo, nas notas de cem libras tiradas amarrotadadas dos bolsos. No meio de toda a confusão, em todas as suas esperanças e ansiedades quotidianas, o rosto de Gladstone era uma companhia constante, espionando as suas vidinhas.

Ali, no túmulo, contemplaram o rosto com um frêmito de reconhecimento.

Fora feito, talvez, em ouro, levemente batido e delicadamente moldado; uma máscara fúnebre digna do fundador de um império. Enquanto o seu corpo arrefecia ainda, artífices habilidosos tinham tirado o retrato, feito o molde, deitado o metal líquido. Durante o enterro, a máscara fora colocada no rosto, uma imagem incorruptível a olhar eternamente para o escuro, enquanto a carne por baixo dela se decompunha. Era o rosto de um velho: nariz aquilino, lábios finos, faces descarnadas — em que os indícios de pelos permaneciam no ouro — e sulcado por mil rugas. Os olhos, bem fundos nas órbitas, tinham sido deixados em branco, o ouro recortado. Os buracos abertos fitavam escuramente a eternidade. O grupo, ao olhar boquiaberto, julgou que tinha diante de si o rosto de um imperador dos tempos antigos, envolto no seu poder terrível.

Havia em toda a volta da máscara uma almofada de cabelos brancos.

Fora deitado com muito cuidado, numa pose não muito diferente da dos corpos no anexo secreto, as mãos cruzadas sobre o estômago. Os dedos eram só osso. Vestia um terno preto, ainda abotoado, bastante esticado por cima das costelas, pendendo desagradavelmente nos outros lugares. Aqui e ali, vermes ou outros bichinhos laboriosos tinham iniciado o processo de decomposição do tecido, sendo visíveis pequenos pedaços brancos do outro lado. Os sapatos eram pequenos, pretos e estreitos, apresentando uma pátina adicional de pó por cima do couro baço.

O corpo assentava em almofadas de cetim vermelho, numa saliência alta que ocupava metade da largura do interior do sarcófago. Enquanto os olhos de Kitty se haviam detido na máscara de ouro, os dos outros tinham sido atraídos para a saliência bastante baixa de todo o comprimento.

— Reparem no brilho... — disse Anne, baixinho. — É incrível!

— Vale a pena levar tudo — referiu Stanley, sorrindo com ar estúpido. — Nunca vi semelhante aura. Algo aqui deve ser realmente forte, mas tudo tem poder... até a capa.

Sobre os joelhos, e cuidadosamente dobrada, encontrava-se uma veste preta e púrpura, com um pequeno pregador de ouro em cima.

— A Capa de Gala — sussurrou Mr. Pennyfeather. — O nosso amigo e benfeitor a quer. Pode ficar com ela. Reparem no resto...

E lá estavam, empilhados na prateleira de baixo: as maravilhosas oferendas funerárias que tinham vindo buscar. Havia um aglomerado de artigos em ouro, pequenas estatuetas com a forma de animais, caixas ornamentadas, espadas e punhais com jóias; uma série de globos de ônix preto; uma pequena caveira triangular de alguma criatura desconhecida; dois pergaminhos selados. Junto da cabeça encontrava-se algo pequeno e abobadado, coberto com um pano preto, agora cinzento de pó — supostamente, a profética bola de cristal. Próximo aos pés, entre uma garrafa com uma rolha em forma de cabeça de cão e um cálice baço, estava uma bolsa de cetim dentro de um recipiente de vidro. Ao lado havia um pequeno saco preto, fechado com uma fivela de bronze. A todo o comprimento do sarcófago, junto ao próprio corpo, uma espada de cerimônia e, a seu lado, um bordão de madeira enegrecida, simples e sem adornos, com exceção de um pentagrama talhado dentro de um círculo, no alto.

Apesar de não possuir os dons dos outros, Kitty conseguia sentir o poder que emanava deste conjunto. Praticamente vibrava no ar.

Mr. Pennyfeather recompôs-se com um sobressalto.

— Vamos passar à ação. Mochilas abertas e a postos. Levamos tudo. — Consultou o relógio e abriu a boca, surpreendido. — Quase uma hora! Já perdemos muito tempo. Anne, primeiro você.

Encostou o corpo à borda do sarcófago, esticando-se lá dentro e agarrando os objetos com ambas as mãos.

— Toma. Se não me engano, são egípcios... Aqui está a bolsa... Cuidado com ela, mulher! Mochila cheia? Muito bem... Stanley, toma o lugar dela...

Enquanto o sarcófago era despojado, Kitty manteve-se afastada, de mochila aberta, os braços pendendo ao lado do corpo. O mal-estar que a envolvera ao descobrir os corpos invadia-a mais uma vez. Continuava a olhar para a parede falsa e na direção das escadas de acesso, sentindo a pele formigar e arrepiada devido a receios imaginários. Esta ansiedade fazia-se acompanhar de um crescente pesar pela atividade noturna. Nunca os seus ideais — o desejo de ver os magos derrotados e o poder restituído aos comuns — tinham parecido tão divorciados da realidade do grupo de Mr. Pennyfeather. E quão grotesca era essa realidade! A pura ganância dos seus companheiros, os seus gritos excitados, o rosto vermelho e lustroso de Mr. Pennyfeather, o suave tinir dos objetos de valor à medida que iam desaparecendo dentro das mochilas estendidas — tudo aquilo se afigurava subitamente repugnante. A Resistência pouco mais era do que um bando de gatunos e ladrões de sepulturas — e ela era um deles.

— Kitty! Anda logo!

Stanley e Nick tinham enchido as mochilas e afastavam-se. Era a vez dela. Kitty acercou-se. Mr. Pennyfeather estava agora mais debruçado do que nunca, a cabeça e os ombros invisíveis dentro do sarcófago. Emergiu por breves instantes, entregou-lhe um pequeno vaso funerário e um frasco decorado com uma cabeça de cobra, e voltou e esticar-se.

— Toma... — A sua voz ecoou estranhamente dentro do túmulo. — Pegue a capa... e o bordão também. São ambos para o benfeitor de Mr. Hopkins, que... ufa!... tão bem nos orientou. Não consigo chegar às outras coisas deste lado; Stanley, pode substituir-me, por favor?

Kitty pegou o bordão e enfiou a capa na mochila, retraindo-se um pouco ao seu toque frio e levemente gorduroso. Viu Stanley içar-se para a beira do sarcófago e enfiar a metade superior do corpo lá dentro, tentando alcançar as profundezas enquanto as pernas se agitavam momentaneamente no ar. No outro extremo, Mr. Pennyfeather encostara-se à parede, limpando a testa.

— Só faltam algumas coisas — arfou. — Depois... Oh, diacho de rapaz! Por que não tem mais cuidado?

Talvez num excesso de entusiasmo, Stanley mergulhara de cabeça no sarcófago, deixando cair a lanterna no chão. Ouviu-se uma pancada surda.

— Seu tolo! Se quebrar alguma coisa... — Mr. Pennyfeather inclinou-se para espreitar lá dentro, mas não conseguiu ver nada no poço de negrura. Vinha lá de dentro uma barulheira intermitente, juntamente com sons de movimento descoordenado. — Endireite-se, com cuidado. Não danifique a bola de cristal.

Kitty recuperou a lanterna de onde se encontrava a rolar nas lajes, censurando entre dentes a estupidez de Stanley. Sempre fora um idiota, mas esta era impagável, mesmo para ele. Trepou pela tampa para segurar a lanterna por cima do sarcófago, mas saltou para trás em choque quando, com grande rapidez e subitamente, a cabeça de Stanley apareceu pela borda. O boné descera-lhe sobre o rosto, encobrindo-o por completo.

— Oops! — disse em voz estridente e irritante. — Que desastre, como fui desajeitado.

O sangue de Kitty fervia.

— O que pensa que está fazendo, assustando-me desse jeito? Isto não é uma brincadeira!

— Apresse-se, Stanley — disse Mr. Pennyfeather.

— Lamento muito. Lamento muito. — Mas Stanley não parecia lamentar nada. Não compôs o boné nem saiu do túmulo.

O estado de espírito de Mr. Pennyfeather tornou-se perigoso.

— Se não se mexer depressa, rapaz — gritou —, vai levar com a bengala.

— Mexer? Oh, isso eu posso fazer. — E dito aquilo, a cabeça de Stanley começou a abanar para cá e para lá de forma absurda, como se a um ritmo que só ele conseguia ouvir. Para estupefação de Kitty, voltou a desaparecer de vista, parou um momento, e tornou a surgir com uma risada. Parecia que Stanley sentia um prazer pueril nesta brincadeira; repetiu o movimento, acompanhando-o de gritos e exclamações diversas. — Agora estão me vendo! — exclamou, a sua voz abafada por trás do boné. — E agora... não!

— O rapaz enlouqueceu — comentou Mr. Pennyfeather.

— Sai daí imediatamente, Stanley — ordenou Kitty, num tom completamente diferente. Súbita e inexplicavelmente, o seu coração começara a bater mais depressa.

— Stanley, é comigo? — indagou a cabeça. — Stanley... Hum, agrada-me, e muito. Um nome bonito, genuinamente inglês. Mr. G iria gostar.

Fred estava agora junto de Kitty.

— Eh... — Os seus modos eram extremamente hesitantes. — Como foi que a voz dele mudou?

A cabeça imobilizou-se, depois inclinou-se provocadoramente para um lado.

— Ora bem — disse ela. — Boa pergunta. Será que alguém consegue adivinhar? — Kitty recuou um passo, lentamente. Fred estava certo. A voz já não se parecia nada com a de Stanley, se é que alguma vez parecera.

— Oh, não vá embora, garota. — A cabeça sacudiu-se vigorosamente de um lado para o outro. — Depois ficará tudo confuso. Deixe-me olhar bem para você. — Dedos esqueléticos, saindo de uma manga preta rasgada, ergueram-se do sarcófago. A cabeça inclinou-se para o lado. Com enorme cuidado, os dedos tiraram o boné do rosto e colocaram-no na cabeça inclinado sobre a orelha. — Assim está melhor — disse a voz. — Agora podemos nos ver com clareza.

Surgiu de baixo do boné um rosto com brilho de ouro que não era o de Stanley. Via-se em toda a volta uma cabeleira branca.

Anne soltou um gemido repentino e correu para as escadas. A cabeça esboçou um gesto de surpresa.

— É muito descaramento! Nem sequer fomos apresentados! — Com um puxão súbito de um pulso ossudo, saiu algo de dentro do sarcófago que se arremessou pelo ar. A bola de cristal caiu com um estalido ao fundo das escadas, atravessando-se diretamente no caminho de Anne. Ela gritou e caiu de costas no chão.

Todos os elementos do grupo tinham visto o vôo precipitado da bola. Todos a viram aterrar. Viraram-se então todos lentamente para o sarcófago, onde algo se levantava, de forma rápida e estranha, com um estalar de ossos. Ficou finalmente de pé, envolto em escuridão, sacudindo o pó do casaco e protestando sem cessar, como uma velha picuinha.

— Olhem para esta porcaria! Mr. G ficaria extremamente aborrecido. E os vermes destruíram a sua roupa de baixo. Há buracos até nos lugares onde o sol não brilha.

Curvou-se de repente e esticou um braço, dedos compridos de osso agarrando a lanterna caída do chão ao lado do sarcófago. Empunhou-a como um guarda-noturno, e observou-os um por um. As vértebras do pescoço arranhavam umas nas outras enquanto o crânio por trás da máscara se movia e a máscara fúnebre dourada brilhava, baça, dentro da sua auréola de cabelo branco comprido.

— Muito bem. — A voz por trás da máscara não tinha um tom uniforme. Mudava a cada sílaba, primeiro esganiçada como a de uma criança, depois grave e rouca; primeiro masculina, depois feminina, a seguir rosnando como um animal. Ou o falante não conseguia se decidir, ou adorava variar. — Muito bem — disse. — Ei-los aqui. Cinco almas solitárias, bem abaixo do solo, sem um lugar seguro para onde fugirem. Digam-me, como se chamam?

Kitty, Fred e Nick estavam de pé, imóveis, a meio caminho do gradeamento de metal. Mr. Pennyfeather encontrava-se mais atrás, colado com a parede por trás da prateleira. Anne era a mais próxima das escadas, mas estava estendida no chão, a soluçar silenciosamente. Nenhum deles foi capaz de responder.

— Oh, vamos lá. — A máscara dourada inclinou-se. — Estou tentando ser simpático. O que é excepcionalmente decente da minha parte, presumo, dado que fui acordado e encontrei um palhaço embasbacado de boné gigante a remexer nos meus pertences. Pior ainda... Vejam este rasgão no terno do enterro! Foi ele que o fez, de tanto puxar. As crianças de hoje são impossíveis. A propósito, em que ano estamos? Você. A garota. Aquela que não está miando. Responda!

Os lábios de Kitty estavam tão secos que mal conseguiu proferir as palavras. A máscara dourada acenou.

— Bem me parece que se passou muito tempo. Porquê? Por causa do tédio, dirão vocês. Sim, e não andariam longe da verdade. Mas também pela dor! Ah, nem acreditam o quanto custa! Foi de tal ordem que nem conseguia me concentrar, com a agonia e a solidão, e o barulho dos vermes a comerem no escuro. Teria enlouquecido alguém mais fraco. Mas não eu. Solucionei o problema da dor com os anos, e suportei o resto. E agora, com um pouco de luz e alguma companhia para conversar, não me importo de lhes dizer, sinto-me bem. — O esqueleto estalou um dedo ossudo e dançou de um lado para o outro. — Um pouco enferrujado... também não admira, faltam os tendões... mas há de passar. Todos os ossos presentes e no lugar certo? Confere. Todos os pertences também? Ah, não... — A voz tornou-se melancólica. — Vieram uns ratinhos e deram-lhes sumiço. Ratinhos malvados ... Agarro-os pelas caudas e arranco-lhes os bigodes.

Kitty fora introduzindo lentamente uma mão na sua mochila, por baixo da capa e outros objetos, para localizar a sua esfera de elementos. Tinha-a agora, agarrada na palma suada da sua mão. A seu lado, sentiu Fred fazer o mesmo, mas com menos precisão; temeu que os movimentos sussurrantes dele não tardasse a serem notados. Resolveu falar mais como uma manobra de distração do que com qualquer esperança verdadeira.

— Por favor, Mr. Gladstone — balbuciou —, temos todos os seus pertences aqui, e de bom grado os restituiremos tal como se encontravam.

Com um ranger desagradável, o crânio rodou 180 graus nas vértebras para olhar para trás. Não vendo nada, inclinou-se para o lado, de perplexidade, e tornou a girar.

— A quem se refere, garota? — perguntou ele. — A mim?

— Hã... sim. Achei...

— Eu... Mr. Gladstone? É louca, ou não tem nada dentro da cabeça?

— Bem...

— Olhe para esta mão. — Cinco dedos de osso foram levantados até à luz e rodaram num pulso protuberante. — Olhe para esta pélvis. Olhe para esta caixa torácica. — Em cada caso, os dedos afastaram tecido podre para permitirem um vislumbre de osso amarelo. — Olhe para este rosto. — Por um instante, a máscara de ouro foi levantada de lado e Kitty pôde ver o crânio, com os dentes à mostra e órbitas vazias. — Muito sinceramente, garota, acha que Mr. Gladstone parece estar vivo?

— Hã... nem por isso.

— «Nem por isso...» A resposta é NÃO! Não está. Porquê, perguntará. Porque morreu. Morreu há cento e dez anos e apodrece na sepultura. «Nem por isso.» Que tipo de resposta é essa? Vocês são realmente muito estúpidos, garota, você e os teus amigos. Por falar nisso... — Apontou um dedo ossudo para a placa de bronze na parte lateral do sarcófago. — Não sabe ler?

Muda, Kitty abanou a cabeça. O esqueleto levou os dedos à testa, com escárnio.

— Não sabem ler sumério e vão vasculhar no túmulo de Gladstone! Por isso não devem ter visto aquela parte de «deixar o Glorioso Líder repousar em paz»?

— Não, não vimos. Lamentamos muito.

— Ou as partes que falam do «guardião perpétuo», ou de «vingança cruel», ou de «não se aceitam desculpas»?

— Não, nada disso. — Pelo canto do olho, Kitty viu Fred baixar um pouco a sua mochila, a mão direita ainda escondida lá dentro. Agora estava pronto.

— Bem, o que se pode esperar, nesse caso? A ignorância colhe a sua própria recompensa que, neste caso, é uma morte desagradável. Os primeiros também pediram muitas desculpas. Deviam tê-los visto de joelhos e a berrar por misericórdia. São aqueles que estão ali. — Apontou com um dedo ossudo na direção da parede falsa. — Fizeram um bom trabalho, podem crer. Vieram depois de semanas. Um era o secretário particular de Mr. G, se bem me lembro, um espécime leal; conseguiu fazer uma duplicata da chave e afastou a Pestilência não se sabe como. Escondi-os, para ficar tudo limpinho, e se forem bonzinhos farei o mesmo com vocês. Não saiam daí.

O esqueleto passou uma perna rígida das calças por cima da parte lateral do sarcófago. Kitty e Fred trocaram um olhar. Como um só, tiraram as esferas de elementos das suas mochilas e arremessaram-nas no esqueleto. Irritado, levantou uma mão; algo invisível bloqueou a trajectória das esferas; caíram pesadamente no chão onde, em vez de explodirem, pareceram implodir com guinchos úmidos e patéticos, deixando apenas pequenas manchas pretas nas lajes.

— Na realidade, não posso deixar sujar isto aqui — afirmou o esqueleto em tom de censura. — No tempo de Mr. Gladstone, os convidados eram mais atenciosos.

Mr. Pennyfeather retirou um disco de prata da sua própria mochila; apoiando-se na bengala, atirou-o no esqueleto de lado. Cortou o antebraço do terno poeirento e cravou-se firmemente. A voz que emanou de trás da máscara dourada soltou um grito estridente.

— A minha essência! Senti isso. A prata é algo que realmente não posso tolerar. Diga-me se gosta de ser atacado propositadamente, seu velhaco? — Irrompeu da máscara um raio verde-vivo que atravessou o peito de Mr. Pennyfeather, atirando-o com força de encontro à parede. Caiu no chão, encolhido. O esqueleto soltou um grunhido de satisfação e virou-se para os outros. — Que lhe sirva de lição — disse.

Mas Fred movia-se novamente, retirando de locais ocultos na sua pessoa um disco de prata após outro e arremessando-os no mesmo piscar de olhos. O esqueleto abaixou-se no primeiro, saltou por cima do segundo e ficou com uma madeixa de cabelo grisalha rapada pelo terceiro. Saíra entretanto do sarcófago, e parecia ter redescoberto a capacidade de movimento; a cada salto e passo, ficava mais animado, até o seu contorno quase parecer em relevo.

— Isto é divertido! — exclamou, enquanto se esquivava e rodopiava. — Estou mesmo muito agradecido, rapaziada!

O estoque de mísseis de Fred parecia inesgotável; manteve uma chuva constante, enquanto Nick, Anne e Kitty recuavam firmemente em direção à escada. Logo foi disparado outro raio verde que atingiu Fred nas pernas, atirando-o de encontro ao chão. No momento seguinte estava de novo de pé, um pouco vacilante, franzindo o senho de dor, mas vivo e bem vivo.

O esqueleto estacou, surpreendido.

— Sim, senhor... — disse. — Resiliência natural. Desvia a magia. Não vejo isso desde Praga. — Bateu na boca dourada com um dedo ossudo. — O que vou fazer? Gostaria de saber. Deixem-me pensar... Ah! — Com um salto, voltara para o sarcófago e remexia lá dentro. — Sai daqui, Stanley; preciso arranjar... sim! Isso serve. — A sua mão reapareceu, empunhando a espada de gala. — Não envolve magia. Apenas uma porção de aço do império, resistente. Acha que pode desviar isto, seu pintinho? Vamos ver. — Ergueu a espada acima da cabeça e aproximou-se.

Fred não arredou pé. Tirou do blusão a sua navalha de ponta e mola; abriu-a com um pequeno ruído seco.

Kitty estava junto do gradeamento de metal, hesitante ao fundo das escadas. Nick e Anne tinham desaparecido lá para cima; ouvia a sua subida frenética. Olhou na direção de Mr. Pennyfeather, cuja resiliência lhe fora extremamente útil. Avançava para ela de gatinhas. Ignorando os seus instintos, que lhe gritavam que desse meia-volta e fugisse, regressou numa corrida à cripta funerária, agarrou Mr. Pennyfeather pelos ombros e, esforçando-se ao máximo, arrastou-o na direção das escadas.

Longe da vista, atrás de si, ouviu Fred soltar um resmungo de fúria. Houve um som sibilante, seguido de um impacto suave.

Kitty puxou Mr. Pennyfeather com uma força que ignorava possuir.

Transpôs o gradeamento e subiu os primeiros degraus. Conseguira entretanto pôr Mr. Pennyfeather de pé; ele agarrava ainda numa mão a bengala; a outra prendia-se firmemente ao blusão de Kitty. A sua respiração era rápida, superficial, difícil. Não conseguia falar. Nenhum deles tinha uma lanterna; seguiam na mais profunda escuridão. Kitty apoiava-se no bordão do túmulo. Tateava cada degrau.

Uma voz chamou, em algum lugar atrás e abaixo deles.

— Cu-co! Tem alguém aí em cima? Os ratinhos a correrem pelo lambri. Quantos ratinhos? Um ratinho... dois. Oh, não, e um deles é coxo.

O rosto de Kitty estava envolto em teias de aranha. A respiração de Mr. Pennyfeather era agora um queixume andante.

— Não querem vir fazer-me companhia? — implorou a voz. — Estou sozinho. Nenhum dos seus amigos quer falar também.

Sentiu o rosto de Mr. Pennyfeather próximo do seu ouvido.

— Eu... eu... tenho que descansar.

— Não. Continue a andar.

— Não consigo.

— Se vocês não descem, então... vou ter que subir! — Nas profundezas da terra, o gradeamento de metal chiou.

— Vamos lá.

Outro degrau. E mais outro. Não conseguia se lembrar de quantos eram; de qualquer forma, perdera a conta. Deviam estar quase chegando. Mas Mr. Pennyfeather abrandava; retinha-a como um peso morto.

— Por favor — murmurou ela. — Um último esforço.

Mas ele parara agora por completo; sentia-o acocorado nas escadas a seu lado, respirando com imensa dificuldade. Em vão lhe puxou pelo braço, em vão lhe suplicou que reagisse.

— Lamento, Kitty...

Ela desistiu; encostou-se aos degraus em espiral, tirou o punhal do cinto, e esperou.

Um roçar de tecido. Um barulho no escuro. Kitty ergueu o punhal.

Silêncio.

E depois, com uma arremetida súbita e um único grito arfante, Mr. Pennyfeather foi puxado para a escuridão. Num momento estava lá, no seguinte desaparecera, e algo pesado era arrastado dela e levado pelos degraus abaixo, pum, pum, pum.

Kitty ficou pregada ao chão durante talvez cinco segundos; depois avançou pelas escadas aos tombos, atravessou os véus das teias de aranha que se agitavam, como se eles não existissem, bateu sucessivamente na parede, tropeçou nos degraus irregulares; viu finalmente um retângulo de luz cinzenta lá na frente; foi até a obscuridade arejada da nave, onde as luzes da rua incidiam nas janelas e as estátuas dos magos olhavam implacavelmente tamanhos desespero e aflição do alto.

Correu pela passagem, por pouco não esbarrando em vários pedestais e chegando mesmo a colidir com uma fila de cadeiras de madeira; o som provocado pela sua queda ecoou por todo o espaço enorme. Passando por uma coluna, depois outra, abrandou e, com a entrada para o túmulo agora a uma boa distância atrás de si, entregou-se a um choro convulsivo.

Só então percebeu que devia ter dado a volta na chave.

— Kitty. — Uma voz débil nas sombras. O coração de Kitty batia com força no peito; com a faca estendida diante de si, recuou.

— Kitty, sou eu. — Um feixe fino de luz de lanterna. O rosto de Anne, pálido, de olhos cinzentos. Estava encolhida atrás de uma estante de leitura alta em madeira.

— Temos que sair. — A voz de Kitty estava falhando. — Para que lado fica a porta?

— Onde está Fred? E Mr. Pennyfeather?

— Para que lado fica a porta, Annie? Consegue lembrar-se?

— Não. Quero dizer, acho que talvez naquela direção. É tão difícil no escuro. Mas...

— Vamos lá, então. Apague a lanterna por hora.

Prosseguiu em corrida, Anne aos tropeções atrás de si. Nos primeiros momentos de pânico, Kitty limitara-se a correr sem pensar, sem qualquer sentido de direção. A culpa fora da negrura horrível no subterrâneo — embotara-lhe o cérebro, impedindo-a de pensar com clareza. Mas agora, apesar de ainda estar escuro e cheirar a mofo, pelo menos o ar era puro — ajudava-a a dominar o espaço, a orientar-se. Uma fila de janelas pálidas brilhava lá no alto: estavam novamente na nave, do lado contrário das porta para os claustros. Estacou; deixou que Anne a alcançasse.

— É logo ali do outro lado — disse em voz sibilante. — Avance com cuidado.

— Onde está...?

— Não faça perguntas. — Avançou mais alguns passos. — E Nick?

— Foi-se. Não o vi...

Kitty praguejou em voz baixa.

— Esquece.

— Kitty... larguei a minha mochila.

— Bem, isso agora não importa, não é? Perdemos tudo. — No momento em que o disse, percebeu subitamente de que segurava ainda o bordão do mago na mão esquerda. Ficou um pouco surpreendida; durante a fuga desesperada não dera sequer por ele. A mochila, com a capa e outros artigos de valor, perdera-se em algum lugar nas escadas.

— O que foi aquilo?

Imobilizaram-se, no centro no espaço negro da nave.

— Não ouvi...

— Algo a correr. Você não... ?

— Não... Não, não ouvi. Continue.

Mais alguns passos; sentiram uma coluna erguer-se diante delas. Kitty virou-se para Anne.

— Depois da coluna, vamos precisar da lanterna para encontrar a porta. Não sei até aonde avançamos.

— Está bem. — Naquele momento ouviu-se bem atrás um som rápido de arrastar. Guincharam ambas e correram em direções opostas. Kitty foi de encontro à coluna, perdeu o equilíbrio e caiu no chão. A faca saltou-lhe da mão. Pôs-se de pé o mais rapidamente que pôde, virou-se.

Escuridão; em algum lugar, um tênue raspar. A lanterna de feixe fino estava no chão, lançando um miserável raio de luz sobre a coluna. Não se via Anne em lugar nenhum.

Lenta, muito lentamente, Kitty recuou para trás da coluna.

A porta para o claustro ficava em algum lugar próximo, tinha certeza, mas não sabia exatamente onde. Continuando a segurar o bordão, avançou, de mão estendida, tateando o caminho às cegas em direção à parede sul da nave.

Para sua surpresa e alívio quase insuportável, os dedos tocaram em madeira tosca e o bafo frio de verdadeiro ar puro incidiu-lhe no rosto. A porta estava entreaberta; procurou-a às apalpadelas, desesperadamente, a fim de empurrá-la para o lado e esgueirar-se por ela.

Foi então que ouviu o ruído familiar; algo atrás dela na nave. O toc-toc-toc da bengala de um homem coxo.

Kitty não ousou respirar; permaneceu estática onde se encontrava, meio dentro meio fora da porta da abadia.

Toc, toc, toc. Um murmúrio muito tênue.

— Kitty... ajude-me...

Não podia ser. Não podia. Fez menção de sair para os claustros; estacou.

— Kitty... por favor... — A voz era fraca, os passos vacilantes. Fechou os olhos com força; respirou longa e prolongadamente, voltou para dentro.

Alguém avançava em passos arrastados pelo meio da nave, batendo hesitante com a bengala. Estava muito escuro para distinguir; parecia confuso, sem rumo, andando para cá e para lá, tossindo debilmente e chamando o nome dela. Kitty espreitou de trás de uma coluna, escondendo-se sempre que parecia virar-se para si. Tanto quanto podia ver, era a figura certa, o tamanho certo para ele; movia-se da forma certa. A voz também lhe parecia familiar, mas, não obstante tudo isto, tinha um pressentimento. A coisa estava a tentar apanhá-la, não havia dúvida. No entanto, não podia virar as costas e fugir, e nunca vir a saber ao certo se não deixara Mr. Pennyfeather ali, sozinho e ainda com vida.

Precisava da lanterna.

O magro feixe luminoso continuava a incidir redundantemente na coluna seguinte, a lanterna de Anne no mesmo lugar onde caíra. Kitty esperou até que a figura a coxear tivesse avançado mais um pouco pela nave, depois deslocou-se com uma furtividade felina, ajoelhou-se e pegou na lanterna. Apagou-a e recuou para o escuro.

A figura pareceu ter percebido o movimento. A meio da nave, virou-se, soltando um suspiro trêmulo.

— Tem... alguém aí?

Escondida atrás da coluna. Kitty não fez barulho.

— Por favor... aquilo não tarda a encontrar-me. — As pancadas recomeçaram. Foram se aproximando.

Kitty mordeu o lábio. Podia lançar-se numa corrida, de lanterna acesa; dar uma olhada e fugir. Mas o medo mantinha-a rígida, os seus membros recusavam-se a mover.

Toc, toc... depois, com um ruído surdo, ouviu a bengala bater nas pedras, seguida do impacto abafado de um corpo a cair no chão.

Kitty tomou uma decisão. Segurando a lanterna entre os dentes, retirou algo pequeno do bolso das calças: o berloque de prata da Avó Hyrnek, frio e pesado na sua mão. Agarrou mais uma vez a lanterna e saiu de trás da coluna. Acendeu a lanterna.

Bem ao lado dela, o esqueleto descontraidamente encostado à coluna, de mão na anca, a máscara de ouro a brilhar.

— Surpresa! — disse. E saltou sobre ela.

Com um grito, Kitty caiu de costas, largando a lanterna, enfiando o berloque de prata na direção da negrura que se precipitava. Um rodopiar de ar, um estalar de ossos, um grito rouco.

— Isso não vale. — A forma estacou abruptamente. Pela primeira vez, conseguiu ver-lhe os olhos: dois pontos vermelhos brilhantes, chispando de contrariedade.

Kitty recuou, segurando ainda o berloque de prata diante de si. Os dois olhos avançaram para ela, acompanhando o ritmo, mas rodando e guinando no escuro, enquanto agitava o berloque de um lado para o outro.

— Larga isso, garota — disse o esqueleto num tom de enorme contrariedade. — Queima-me. Deve ser de boa qualidade para fazê-lo, e é tão pequeno.

— Para trás — ordenou Kitty. Em algum lugar atrás de si ficava a porta para o claustro.

— Acha realmente que vou fazer isso? Recebi uma ordem, sabe. Na verdade, duas. Proteger os pertences de Gladstone, em primeiro lugar. Confere. Muito bem, Honorius. Aí não há problema. Destruir todos os invasores do túmulo, em segundo. Pontuação já obtida? Dez em doze. Nada mau, mas há de melhorar. E você, garota, é o número onze. — Atacou subitamente; Kitty sentiu os dedos ossudos baterem no escuro; com um grito, baixou-se, agarrada ao berloque. Houve um breve fluxo de faíscas verdes e um uivo animal.

— Au! Maldita seja! Larga isso!

— Acha que vou realmente fazer isso? — Kitty sentiu uma brisa fria atrás de si, recuou mais dois passos e quase colidiu com a porta aberta. Contornou-a, desceu o degrau e estava no claustro.

O esqueleto era uma forma sombria curvada na passagem em abóbada. Brandiu um punho.

— Devia ter trazido a minha espada para você, Kitty — disse. — Sou capaz de ir buscá-la. — Depois empertigou-se e inclinou a cabeça. Algo despertara a sua atenção.

Kitty recuou firmemente pelo corredor.

— As estrelas... tinha-me esquecido por completo. — A figura no arco deu um salto súbito e empoleirou-se numa saliência, erguendo o olhar para o céu. — Tantas... tão brilhantes e azul-pérola. — Mesmo do outro extremo do claustro, a vários metros de distância e recuando rapidamente, Kitty conseguia ouvi-lo a cheirar o ar e a murmurar de si para si, e a soltar gritinhos de fascínio e prazer. Parecia ter-se esquecido por completo dela.

— Adeus, pedra. Adeus, vermes. Quanta diferença! Adeus, bolor, adeus, silêncio poeirento da morte. Adeus a tudo. Tantas estrelas... E tanto espaço.

Kitty virou a esquina e deu uma corrida até à porta dos claustros.

 

A limusine de Nathaniel acelerou pela orla dos subúrbios da zona sul de Londres, uma região fortemente industrial, de construções de tijolo e fábricas de alquimistas, onde pairava permanentemente no ar um tênue smog vermelho em volta das casas e que brilhava maldosamente ao Sol poente. Para maior velocidade e conveniência, a via rápida dos magos desde o aeroporto fora erguida sobre represas e viadutos por cima do labirinto de bairros de lata poluídos. A estrada era pouco usada e só se viam em volta os telhados; por vezes, o carro parecia flutuar sozinho num mar de ondas de terra vermelha batida. Nathaniel olhou para esta enorme extensão, embrenhado em pensamentos.

O motorista era do tipo taciturno e, apesar dos melhores esforços de Nathaniel, tinha conseguido revelar pouco sobre a catástrofe da noite anterior.

— Não sei muito, senhor — disse ele. — Mas havia multidões reunidas na rua, à porta do meu apartamento, esta manhã. Grande pânico entre os comuns, senhor. Estavam muito assustados. Uma agitação.

Nathaniel inclinou-se para frente.

— Que tipo de agitação?

— Creio que um monstro está envolvido, senhor.

— Um monstro? Pode ser mais explícito? Não um homem grande de pedra, envolto em negrura?

— Não sei, senhor. Chegaremos à abadia dentro em breve. Os ministros vão reunir-se lá.

A Abadia de Westminster? Com grande insatisfação, Nathaniel recostou-se no banco e preparou-se para aguardar. Com o tempo tudo se esclareceria. Muito possivelmente, o golem voltara a atacar, e nesse caso, o seu relato dos acontecimentos em Praga seria aguardado com enorme ansiedade. Ordenou tudo o que sabia, tentando que fizesse algum sentido, ponderando os êxitos e os reveses num esforço para ver se saía a ganhar. Mas, ainda assim, vencia por uma escassa margem.

Do lado do crédito, desferira um rude golpe no inimigo: com a ajuda de Harlequin, descobrira a proveniência dos pergaminhos do golem e conseguira a sua destruição. Soubera do envolvimento do terrível mercenário barbudo e, por trás dele, de alguma outra figura umbrosa que, a acreditar nas palavras do mercenário, estivera também envolvida na conspiração de Lovelace, dois anos antes. A existência de semelhante traidor era uma notícia de peso. Em contrapartida, porém, Nathaniel não conseguira descobrir quem era o traidor. Claro, era difícil ver como isso seria possível, já que nem o próprio desventurado Kavka o sabia.

Aqui, Nathaniel agitou-se desconfortavelmente no banco, recordando a promessa precipitada que fizera ao mago. Os espiões checos, filhos de Kavka — ao que parecia — estariam ainda vivos numa prisão britânica. Se sim, seria extremamente difícil Nathaniel assegurar a sua libertação. Mas o que importava? Kavka estava morto! Agora já não tinha importância para ele, fosse de que maneira fosse. A promessa podia ser tranqüilamente esquecida. Não obstante a sua lógica definida, Nathaniel tinha dificuldade em afastar o assunto da mente. Abanou a cabeça, furioso, e voltou aos assuntos mais importantes.

A identidade do traidor era um mistério, mas o mercenário fornecera uma pista importante a Nathaniel. Quem o contratara sabia que Nathaniel ia a Praga, e dera instruções para o mercenário agir. Mas a missão de Nathaniel fora quase espontânea, e mantida muito discreta. Quase ninguém tivera conhecimento dela.

Quem, na realidade, tivera conhecimento? Nathaniel contou-os pelos dedos de uma mão. Ele próprio; Whitwell, claro — fora quem o enviara para lá; Julius Tallow — estivera presente na reunião. Depois havia o Subsecretário dos Negócios Estrangeiros, que informara Nathaniel antes do voo — Whitwell pedira-lhe que preparasse os mapas e documentos. E era tudo. A menos... esperem aí... uma ligeira incerteza importunava Nathaniel. Aquele encontro com Jane Farrar no átrio, em que ela usara a Sedução... Teria deixado escapar alguma coisa? Era tão difícil lembrar-se; a fórmula dela turvara-lhe a mente... Era inútil. Não conseguia se recordar.

Mesmo assim, a lista dos suspeitos era extraordinariamente pequena. Nathaniel mordeu a ponta de uma unha. Tinha de ser muito cuidadoso a partir de agora. O mercenário referira também algo mais: quem o contratara tinha muitos servidores. Se o traidor estava tão próximo como Nathaniel calculava naquele momento, tinha de ter cautela. Alguém entre os poderosos comandava o golem em segredo, orientando-o através do olho-espião. Não iriam querer que Nathaniel investigasse mais. Poderiam perfeitamente atentar contra a sua vida. Ia precisar que Bartimaeus andasse próximo de si.

Apesar destas preocupações, Nathaniel sentia-se relativamente satisfeito consigo mesmo quando os viadutos baixaram e o carro se aproximou do centro de Londres. Bem vistas as coisas, evitara que fosse libertado um segundo golem na capital, e isso seria sem dúvida motivo de amplos elogios. Seriam levadas a cabo investigações, e descoberto o traidor. A primeira coisa a fazer era informar Whitwell e Devereaux. Sem dúvida largariam tudo para atendê-lo.

Esta ditosa certeza começou a esmorecer um pouco antes mesmo do carro chegar a Westminster Green. Aproximando-se do Tamisa, Nathaniel começou a notar várias coisas incomuns: grupos de comuns de pé na rua, embrenhados a conferenciar; aqui e ali, o que pareciam escombros — chaminés esmagadas, pedaços de alvenaria e vidro partido. A própria Westminster Bridge estava cortada por um cordão da Polícia Noturna, os guardas a verificarem os passe-livres dos motoristas antes de dar passagem. Quando atravessaram o rio, Nathaniel viu fumaça densa erguendo-se de um escritório para os lados da foz: um mostrador de relógio de um dos lados do edifício fora esmagado, os ponteiros arrancados e cravados nas paredes. Outros grupos de espectadores andavam ociosamente pelo Embankment, em nítido desrespeito às leis da vadiagem.

O carro passou acelerado pelas Casas do Parlamento e chegou à enorme massa cinzenta da Abadia de Westminster, onde os últimos restos da satisfação de Nathaniel se dissiparam por completo. A relva diante do extremo ocidental estava coberta de veículos oficiais — ambulâncias, caminhonetes da Polícia Noturna, uma série de limusines reluzentes. Entre elas, encontrava-se uma com o estandarte dourado de Devereaux a agitar-se no capô. Até o Primeiro-Ministro estava ali.

Nathaniel desceu e, mostrando o seu cartão de identificação aos guardas à porta, entrou na igreja. Lá dentro, a atividade era intensa. Os magos da Administração Interna andavam pela nave com diabretes de serviço, medindo, registrando, examinando com minúcia, em busca de informações. Acompanhavam-nos dúzias de funcionários da Segurança e Policiais Noturnos de casaca cinzenta; a atmosfera fervilhava de conversas segredadas.

Uma mulher da Administração Interna reparou nele, fez-lhe um gesto com o polegar.

— Estão na passagem norte, Mandrake, junto ao túmulo. Whitwell aguarda-o.

Nathaniel olhou para ela.

— Qual túmulo?

Os olhos dela brilharam de desprezo.

— Oh, já vai ver. Já vai ver.

Nathaniel subiu a nave, o seu casaco preto pendendo inerte atrás. Invadiu-o uma enorme agitação. Um ou dois Policiais Noturnos estavam de guarda ao lado de uma bengala partida assentada nas lajes; riram abertamente na cara dele, quando passou.

Chegou à passagem norte, onde as estátuas dos grandes magos do Império se aglomeravam numa enorme quantidade de mármore e alabastro. Nathaniel já estivera ali muitas vezes, para contemplar os rostos dos sábios; foi com algum choque que viu que agora metade das estátuas estava desfigurada: as cabeças tinham sido arrancadas e colocadas ao contrário, os membros retirados; um feiticeiro com um chapéu particularmente grande estava virado de pernas para o ar. Tratava-se de um terrível ato de vandalismo.

Magos de ternos escuros amontoavam-se por todo o lado, efetuando testes e tomando notas. Nathaniel passeou por entre eles, estupefato, até chegar a um espaço aberto, onde, sentados num círculo de cadeiras, Mr. Devereaux e os seus ministros principais estavam reunidos. Encontravam-se todos presentes: o corpulento e carrancudo Duvall, a minúscula Malbindi, o malicioso Mortensen, o mastodôntico Fry. Jessica Whitwell também estava lá, a olhar para o ar, carrancuda, de braços cruzados. Numa cadeira, um pouco afastado dos outros, estava o amigo e confidente de Mr. Devereaux, o dramaturgo Quentin Makepeace, o seu rosto animado solene e ansioso. Estavam todos silenciosos, olhando para um grande globo luminoso que pairava vários metros acima das lajes. Era o visor redondo de uma esfera de vigilância, percebeu logo Nathaniel; naquele momento, mostrava o que parecia ser uma vista aérea de parte de Londres. Ao longe, e bastante desfocada, uma pequena figura saltava de telhado em telhado. Irrompiam pequenas explosões verdes no lugar onde aterrava. Nathaniel carregou o cenho, aproximou-se mais para ver melhor...

— Então, já acabou de perseguir sombras, foi? — Dedos amarelados agarraram-lhe a manga; Julius Tallow surgira ao seu lado, o nariz pronunciado espetado, as feições formando uma expressão de desagrado. — Já não era sem tempo. Parece que o diabo andou à solta por aqui.

Nathaniel libertou-se.

— O que se passa?

— Descobriu o misterioso cérebro por trás do golem? — A voz de Tallow transbordava de sarcasmo.

— Bem, não, mas...

— Que surpreendente. Talvez te interesse saber, Mandrake, que enquanto andou passeando no estrangeiro, a Resistência voltou a atacar. Não foi um golem misterioso, não foi um traidor misterioso a manipular poderes esquecidos, mas a mesma Resistência humana com que não tem conseguido lidar todo este tempo. Não contentes em destruir metade do Museu Britânico na outra noite, assaltaram o túmulo de Gladstone e libertaram um dos afrits dele. Que, como pode ver, anda agora todo satisfeito a passear pela cidade.

Nathaniel pestanejou, tentando absorver toda a informação.

— A Resistência fez isto? Como é que sabe?

— Porque encontramos os corpos. Nenhum golem de barro esteve envolvido, Mandrake. Pode desistir já dessa idéia. E em breve estaremos desempregados. Duvall...

Afastou-se. A mestra de Nathaniel, Jessica Whitwell, deixara a sua cadeira e encaminhava-se, magra e circunspectamente majestosa, para ele. Pigarreou.

— Minha senhora, preciso lhe falar com urgência. Em Praga...

— Culpo-o por isto, Mandrake. — Avançou ameaçadoramente para ele, os olhos chispando de fúria. — Em virtude de ter me distraído com as mentiras do teu demônio, revelamo-nos mais incompetentes do que nunca! Fui obrigada a fazer figura de tola e perdi a confiança do Primeiro-Ministro. Duvall ficou com o controle do meu departamento de Segurança esta manhã. E também encarregado das operações anti-Resistência.

— Lamento, minha senhora, mas ouça, por favor...

— Lamenta? Agora é tarde demais, Mandrake. A destruição do Museu Britânico já foi suficientemente ruim, mas isto foi a última gota. Duvall conseguiu precisamente o que pretendia. Os seus lobos estão por todo o lado agora e ele...

— Minha senhora! — Nathaniel não conseguiu conter-se. — Localizei o mago checo que criou o pergaminho do golem. Estava fazendo um segundo... para um traidor no nosso governo! — Ignorou as expressões de incredulidade de Tallow.

Ms. Whitwell olhou para ele.

— Quem é o traidor?

— Ainda não sei.

— Tem alguma prova da tua história? O pergaminho, por exemplo?

— Não. Foi tudo destruído, mas penso...

— Nesse caso — referiu Ms. Whitwell, com esmagadora peremptoriedade —, de nada me serve, e nem a você. Londres está tumultuada, Mandrake, e é preciso encontrar um bode expiatório. Tenciono distanciar-me de você... E se Mr. Tallow tiver juízo, fará o mesmo.

Deu meia-volta e dirigiu-se para a sua cadeira. Tallow seguiu-a, sorrindo a Nathaniel por cima do ombro. Após um momento de hesitação, Nathaniel encolheu os ombros e aproximou-se da esfera de vigilância a girar. O semi-afrit que retransmitia a imagem tentava aproximar-se da figura aos saltos nos telhados. A imagem ficou mais próxima; Nathaniel avistou um terno preto, cabelo branco, um rosto dourado... Depois, com a rapidez do pensamento, a figura disparou uma luz verde: com um clarão esmeralda, a esfera apagou-se.

Mr. Devereaux suspirou.

— Já é a terceira esfera destruída. Não tarda, e se esgotarão. Muito bem... alguns comentários ou informações?

Mr. Mortensen, o Ministro do Interior, levantou-se e puxou uma madeixa gordurosa para o couro cabeludo.

— Senhor, temos de agir de imediato contra este demônio. Se não o fizermos, o nome de Gladstone será arrastado pela lama! Ele não é o nosso maior líder? Aquele a quem devemos a nossa prosperidade, o nosso domínio, a confiança em nós mesmos? E agora o que é ele? Apenas um saco de ossos assassino a dançar sobre a nossa capital, deixando atrás de si um rastro de confusão! Os comuns não tardarão a perceber isto, sabe; e igualmente os nossos inimigos no estrangeiro. Sugiro...

Marmaduke Fry, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, falou.

— Temos tido vários casos de pânico generalizado, que nem toda a violência da polícia de Duvall conseguiu evitar. — Olhou de soslaio para o Chefe de Polícia, que resmungou, furioso.

— A criatura está evidentemente louca — acrescentou a Ministra da Informação, Ms. Malbindi —, e, como afirma Mortensen, isso só vem aumentar o embaraço da situação. Temos os restos do nosso Fundador a cabriolar pelos telhados, a pendurar-se nos mastros das bandeiras, a dançar no meio de Whitehall e, a acreditar nas nossas fontes, a saltar sucessivamente pelo mercado de peixe de Camberwell. A coisa insiste também em matar pessoas, aparentemente de forma aleatória. Ataca homens e garotas jovens; na sua maioria comuns, mas igualmente gente importante. Afirma que anda à procura dos «dois últimos», o que quer que isso possa significar.

— Os dois últimos sobreviventes do ataque — referiu Mr. Fry. — Isso é bem óbvio. E um deles tem o Bordão. Mas o nosso problema imediato é que os comuns saibam a quem pertence o cadáver que vêem.

Chegou das extremidades do grupo a voz gélida de Jessica Whitwell.

— Gostaria de ser esclarecida — afirmou. — Aquilo são realmente os ossos de Gladstone? Não será apenas um disfarce?

Ms. Malbindi arqueou duas sobrancelhas enfastiadas.

— É claro que são os ossos dele. Entramos no túmulo, e o sarcófago está vazio. Há muitos corpos lá embaixo, pode crer, mas o nosso Fundador desapareceu mesmo.

— Estranho, não é? — Mr. Makepeace falou pela primeira vez. — O afrit guardião encerrou a sua essência dentro dos ossos. Porquê? Quem sabe?

— Não importa o motivo. — Mr. Devereaux falou cheio de formalismo, batendo com um punho na palma da mão em concha. — A nossa primeira prioridade deve ser livrarmo-nos dele. Até ser destruído, a dignidade do nosso estado está irremediavelmente comprometida. Quero a criatura morta e os ossos de volta ao túmulo. Cada ministro principal deverá pôr um demônio no caso a partir desta tarde. Isto aplica-se a todos vocês. Os ministros secundários fracassaram manifestamente até agora. Afinal trata-se de Gladstone; aquela coisa tem algum poder. Entretanto, temos a considerar a questão do Bordão.

— Sim — afirmou Mr. Fry. — Isto acaba por ser muito mais importante. Com as guerras americanas a eclodirem...

— Não devemos permitir que chegue a mãos inimigas. Se os Checos souberem...

— Precisamente. — Seguiu-se um breve silêncio.

— Desculpem. — Nathaniel estivera a ouvir tudo em respeitoso silêncio, mas a sua frustração conseguia agora ser mais forte do que ele. — Estamos a falar do Bordão do Poder de Gladstone? O que ele usou para destruir Praga?

Mr. Devereaux fitou-o com frieza.

— Apraz-me registrar que finalmente se dignou a juntar-se a nós, Mandrake. Sim, trata-se do mesmo Bordão.

— Portanto, se soubessem as suas Palavras de Comando, poder-se-ia aproveitar as suas energias para novas campanhas?

— Nós... ou os nossos inimigos. De momento, desconhece-se o seu paradeiro.

— Com certeza? — inquiriu Helen Malbindi. — O... esqueleto, ou afrit, ou seja lá o que for... Ele já não tem o Bordão?

— Não. Traz uma mochila nas costas, que suspeitamos conter a maior parte dos tesouros de Gladstone. Mas o Bordão propriamente dito desapareceu. Um dos saqueadores da sepultura deve tê-lo.

— Fechei os portos e os aeroportos — referiu Mr. Mortensen. — As esferas andam a vigiar ao longo da costa.

— Perdoem-me — interveio Nathaniel —, mas, se este Bordão esteve sempre na abadia, por que não o utilizámos antes?

Vários dos magos agitaram-se nas cadeiras. Os olhos de Mr. Duvall chisparam.

— Isto é suposto ser uma reunião do Conselho dos principais, não uma creche.

— Um momento, Henry. — Mr. Devereaux parecia tão contrariado quanto os seus ministros, mas não deixou de falar cortesmente. — O rapaz tem razão. O motivo, Mandrake — disse ele —, é temer-se uma catástrofe como esta. No seu leito de morte, Gladstone jurou vingar-se de quem mexesse no seu túmulo, e todos sabemos que não era fácil desobedecer ao seu poder. Desconhece-se ao certo que feitiços criou ou demônios usou, mas...

— Efetuei uma investigação sobre o assunto — referiu Quentin Makepeace, interrompendo com um sorriso tranqüilo. — Gladstone sempre me interessou. No funeral, o túmulo foi selado com uma Pestilência lá dentro; um pequeno número poderoso, mas nada que não pudesse ser facilmente ultrapassado. Mas Gladstone tomara também algumas precauções para o seu sarcófago; fontes contemporâneas referem que a aura de magia que emana do seu corpo matou vários diabretes que seguravam as velas. Como se esse aviso não bastasse, pouco depois da sua morte, vários magos do seu governo ignoraram as proibições e resolveram ir buscar o Bordão. Neutralizaram a Pestilência, desceram ao túmulo: e nunca mais os viram. Os cúmplices que aguardavam no exterior ouviram algo fechar a porta do lado de dentro. Desde então nunca mais ninguém teve a insensatez de pôr à prova as defesas do velho. Até à noite passada.

— Acredita que isto foi obra da Resistência? — inquiriu Nathaniel. — Se ficaram corpos, eles deverão fornecer algumas pistas. Gostaria...

— Desculpe, Mandrake — interrompeu Duvall —, isso já não lhe compete. A polícia ficou responsável. Basta dizer que os Lobos Cinzentos irão levar a cabo as investigações. — O Chefe de Polícia virou-se para o Primeiro-Ministro. — Creio ser o momento de dizer umas palavras duras. Este rapaz, Mandrake, devia andar perseguindo a Resistência. Agora a Abadia de Westminster, local de repouso dos grandes, foi devassada e o túmulo de Gladstone profanado. O Bordão foi roubado. E o rapaz não tem feito nada.

Mr. Devereaux olhou para Nathaniel.

— Tem algo a dizer?

Por um momento, Nathaniel pensou relatar os acontecimentos em Praga, mas sabia que era inútil. Não tinha provas. Além disso, era mais do que provável que o traidor estivesse ali sentado, a observá-lo. Esperaria pela ocasião certa.

— Não, senhor.

— Estou decepcionado, Mandrake, profundamente decepcionado. — O Primeiro-Ministro virou-se. — Senhoras, cavalheiros — disse —, temos de seguir a pista dos restos mortais da Resistência e recuperar o Bordão. Quem o conseguir, será bem recompensado. Primeiro, temos de destruir o esqueleto. Reúnam os seus melhores magos daqui a — olhou para o relógio — duas horas. Quero tudo resolvido. Entendido? — Houve um murmúrio submisso de assentimento.

— Então este Conselho está terminado.

O ajuntamento de ministros deixou a abadia, Ms. Whitwell e Tallow ficando ansiosamente para trás. Nathaniel não fez menção de segui-los. «Muito bem», pensou, «também me distanciarei de vocês, seguirei as minhas investigações sozinho.»

Uma maga secundária estava sentada num banco na nave, a consultar o bloco de notas. Nathaniel endireitou os ombros e aproximou-se com toda a presunção que conseguiu reunir.

— Olá, Fennel — disse bruscamente. — Que coisa feia.

A mulher pareceu sobressaltada.

— Oh, Mr. Mandrake. Não sabia que ainda estava encarregado do caso. Sim, é uma história horrível.

Ele acenou na direção do túmulo:

— Descobriu alguma coisa sobre eles?

Ela encolheu os ombros.

— Nada de concreto. Os documentos do velho identificam-no como um tal Terence Pennyfeather. Tinha uma loja de materiais artísticos em Southwark. Os outros são muito mais jovens. Talvez trabalhassem com ele na loja. Ainda não sei os seus nomes. Ia precisamente a Southwark consultar os registros dele.

Nathaniel olhou para o relógio. Faltavam duas horas para a reunião. Tinha tempo.

— Vou contigo. Uma coisa, porém... — Hesitou, o seu coração a bater um pouco mais depressa. — Lá na cripta... havia uma garota entre eles... magra, com cabelo preto liso?

Fennel franziu a testa.

— Não entre os corpos que eu vi.

— Certo. Certo. Bom, vamos?

A corpulenta Polícia Noturna estava estacionada à porta de Pennyfeather, Materiais Artísticos, e magos de vários departamentos passavam o interior a pente fino. Nathaniel e Fennel mostraram os seus passe-livres. Ignoraram a procura de artefatos roubados que decorria à sua volta e começaram a inspecionar uma pilha de velhos livros de contabilidade que estavam por trás do balcão. Decorridos minutos, Fennel encontrara uma lista de nomes.

— É uma folha de salários — anunciou. — De dois meses. Podem ser todos da Resistência. Nenhum deles se encontra hoje aqui.

— Vamos ver. — Nathaniel observou-a rapidamente. Anne Stephens, Kathleen Jones, Nicholas Dreuw... Não lhe diziam nada. Espere... Stanley Hake e Frederick Weaver. Fred e Stanley, claro como água. Estava na pista certa, mas não havia aqui sinal de Kitty. Passou à folha de pagamentos do mês seguinte. O mesmo. Entregou o livro-mestre a Fennel, batendo com os dedos no balcão de vidro.

— Aqui tem outra, senhor.

— Não se preocupe. Já vi... Espere aí. — Nathaniel quase arrancou o papel das mãos de Fennel, observou-o com atenção, pestanejou, voltou a observar. Lá estava; a mesma lista, mas com uma única diferença: Anne Stephens, Kitty Jones, Nicholas Drew... Não havia dúvida: Kitty Jones, Kathleen Jones, uma e outra são a mesma pessoa.

Durante os muitos meses de busca, Nathaniel esquadrinhara os registros oficiais à procura de Kitty, e não encontrara nada. Era claro agora que andara sempre à procura do nome errado.

— Sente-se bem, Mr. Mandrake? — Fennel olhava-o com ansiedade.

Tudo se voltou a focar.

— Sim, sim, estou ótimo. Só que... — Sorriu-lhe, ajustou um punho. — Acho que acabo de ter uma boa idéia.

 

Foi o maior chamado conjunto em que me vi envolvido desde os tempos áureos de Praga. Materializaram-se mais ou menos quarenta djinn numa ampla câmara construída expressamente para o efeito nas entranhas de Whitehall. Como acontecia em todas essas coisas, era um assunto complexo, não obstante os melhores esforços dos magos. Eles estavam todos alinhados em filas ordenadas de pentagramas idênticos, vestindo os mesmos ternos escuros e proferindo as suas fórmulas encantatórias baixinho, enquanto os funcionários destacados anotavam os seus nomes em mesas ao lado. Nós, djinn, claro, estávamos menos preocupados com o decoro regimentar: chegamos com quarenta disfarces dos mais diversos, anunciando a nossa individualidade com cornos, caudas, bordas iridiscentes, espinhos e tentáculos; com cores que iam do negro obsidiana ao delicado amarelo dente-de-leão; com toda uma coleção de gritos e sons de animais; com uma magnífica variedade de nuvens e mau-cheiros sulfurosos. Como estava muito entediado, recorri a uma das minhas velhas preferidas, uma serpente alada com plumas de prata que se erguiam atrás da minha cabeça.56 A minha direita encontrava-se uma espécie de coisa-ave com pernas-muletas, à minha esquerda um misterioso miasma de fumaça verde-azulado. Atrás dele estava um grifo a babar-se e para lá dele — este mais desconcertante e ameaçador — um banco atarracado e imóvel. Estávamos todos virados de frente para os nossos amos, aguardando as nossas ordens.

 

56 A casa costumava vir abaixo com aplausos lá no Iucatan, onde era possível ver os sacerdotes a rolar pelos degraus da pirâmide ou a atirar-se em lagos infestados de crocodilos a fim de escaparem à minha influência hipnotizadora. Aqui, não teve propriamente o mesmo efeito sobre o rapaz. Em resposta à minha ameaça ondulante, bocejou, palitou os dentes com um dedo e começou a rabiscar notas num bloco. É impressão minha, ou hoje em dia os moleques já não se surpreendem com nada?

 

O rapaz mal me prestou atenção; estava muito ocupado a tomar notas.

— Hum! — A serpente de plumas de prata tossiu delicadamente. — Hu-um. — Continuava a não obter resposta. Estão vendo a má-criação? Chamam-nos, depois tomam-nos como certos. Tossi um pouco mais ruidosamente. — Hu-thaniel.

Houve reação. Levantou bruscamente a cabeça, depois virou-se para um lado e para o outro.

— Cale-se — disse entre dentes. — Podem ter ouvido.

— O que vem a ser tudo isto? — inquiri. — Julgava que era uma coisa de caráter particular. Afinal agora juntaram-se cada homem e o seu diabrete.

— Prioridade absoluta. Um demônio louco anda à solta. Precisamos destruí-lo.

— Não será a única coisa louca à solta. — Dei um estalido com a língua na direção da esquerda. — Repare no do fim. Assumiu a forma de um banco. Estranho... mas o seu estilo me agrada.

— Aquilo é um banco. Não há ninguém usando o pentagrama. Agora, ouça. Os acontecimentos estão se precipitando. A Resistência assaltou o túmulo de Gladstone, e libertou o guardião dos seus tesouros. Anda à solta por Londres, a fazer das suas. Irá eeconhecê-lo pelos ossos bolorentos e cheiro geral de decomposição. O Primeiro-Ministro quer vê-lo eliminado; por isso reuniu este grupo.

— Todos nós? Deve ser poderoso. É um afrit?57

 

57 Tivera alguns encontros imediatos com os afrits de Gladstone durante a sua guerra de conquista, e era justo afirmar que não estava nada ansioso por outro. Em geral, eram um bocado irritadiços, e os maus tratos deixavam-nos agitados e agressivos. Por isso, mesmo que este afrit tivesse começado pela adorável personalidade de um bebê amoroso (improvável), não teria melhorado após um século enfurnado num túmulo.

 

— Sim, é o que nos parece. Poderoso... e embaraçoso. A última vez foi visto a girar a pélvis de Gladstone no Desfile da Guarda Montada. Mas, escute, quero que faça algo mais. Se encontrar o de... o afrit, tente obter quaisquer informações relativamente à Resistência: em particular sobre uma garota chamada Kitty. Acho que ela pode ter fugido com um bordão precioso. Talvez a criatura possa fazer uma descrição.

— Kitty... — A língua da serpente agitou-se de um lado para o outro, pensativamente. Uma garota da Resistência com aquele nome já atravessara nossos caminhos antes. Se bem me lembrava, era um espécime irritante com calças grandes... Bem, pelo visto, passados alguns anos a irritabilidade não a abandonara.58 Recordei algo mais.

— Não foi ela quem te afanou a bola de cristal?

 

58 Até o momento, não obtivera qualquer informação sobre as calças.

 

Pôs a sua cara de buldogue-que-se-sentou-em- cima-de-um-espinheiro.

— É possível que sim.

— E agora ela afanou o Bordão de Gladstone... Isto é que é subir na vida.

— Não tinha nada de errado naquela bola de cristal.

— Não, mas tem que admitir que não foi por isso que a Europa se perdeu. Aquele Bordão é uma peça de trabalho formidável. E disse que esteve este tempo todo no túmulo de Gladstone?

— Pelo visto. — O rapaz olhou cuidadosamente à sua volta, mas todos os magos nas imediações estavam entretidos a transmitir as suas ordens aos respectivos escravos, gritando acima da miadeira geral. Inclinou-se para frente de forma conspiratória. — Isso é ridículo — murmurou. — Todo mundo tinha um pavor enorme de abrir o túmulo. E agora um grupo de comuns pôs em cheque o Governo inteiro. Mas tenciono descobrir a garota e corrigir a situação.

Encolhi o meu capelo.

— Ou ainda poderia desejar-lhe felicidades e deixá-la ir em paz.

— Para ela vender o Bordão a quem pagasse mais? Não me faça rir! — O meu amo acercou-se mais. — Acho que vou conseguir encontrá-la. E quando o fizer... bem, li muito sobre o Bordão. É poderoso, sim, mas as suas Palavras de Comando eram extremamente simples. Precisa de um mago forte para controlá-lo, mas nas mãos certas... Quem sabe o que se poderia alcançar com ele? — Endireitou-se, cheio de impaciência. — Mas o que vem a ser esta demora? Deveriam estar dando uma ordem geral de partida. Tenho coisas mais importantes a fazer.

— Estão à espera de que o Ranúnculo Amarelo ali ao fundo termine a sua fórmula.

— Quem? Tallow? Mas qual é a do idiota? Por que não se limita a chamar o seu macacóide verde?

— A julgar pela quantidade de incenso que usou, e o tamanho do livro que segura, vai sair algo grande.

O rapaz resmungou.

— Tentando impressionar à todos com um demônio de nível superior, presumo. Típico. Ele faria tudo para não perder os favores de Whitwell.

A serpente alada recuou violentamente.

— Calma aí com os cavalos!

— O que se passa agora?

— Foi a tua cara! Por um instante apresentou uma expressão sarcástica muito desagradável. Foi horrorosa.

— Não seja ridículo. Você é que é uma cobra gigante. Ando a aturar Tallow há tempo demais, é tudo. — Soltou uma imprecação. — Ele e todos os restantes. Não confio em ninguém aqui. A propósito... — Debruçou-se mais uma vez; a serpente abaixou a sua cabeça majestosa para ouvi-lo. — Vou precisar mais do que nunca da tua proteção. Ouviu o que disse o mercenário. Alguém do Governo britânico avisou-o de que íamos a Praga.

A serpente emplumada anuiu.

— Ainda bem que percebeu. Há muito que andava desconfiado. A propósito, já libertou os tais espiões checos?

A sua testa ensombrou-se.

— Dê-me uma oportunidade! Tenho coisas mais urgentes em que pensar. Alguém próximo do topo anda controlando o olho de golem, a causar problemas aqui. Podiam tentar silenciar-me.

— Quem sabia que ia a Praga? Whitwell? Tallow?

— Sim, e um alto funcionário do Ministério dos Negócios estrangeiros. Oh, e possivelmente Duvall.

— Aquele Chefe de Polícia peludo? Mas ele abandonou a reunião antes...

— Eu sei, mas a aprendiza dele, Jane Farrar, pode ter-me tirado a informação. — Era a luz, ou o rapaz corara um pouco?

— Tirado? Como assim?

Carregou o cenho.

— Ela usou uma Sedução e...

Para minha decepção, esta história interessante foi interrompida por uma ocorrência súbita e, para os magos reunidos, desconcertante. O mago amarelo entrançado, Tallow, que estava de pé num pentagrama no fim da fila, concluíra finalmente a longa e complexa invocação e, com uma flexão dos seus braços manchados, baixou o livro por onde lera.

Passaram alguns segundos; o mago esperou, respirando a custo, que o seu chamado fosse ouvido. De repente, começou a sair uma densa coluna de fumaça do meio do segundo pentagrama, pequenos ziguezagues amarelos de relâmpago a estralejarem no meio. Estava um bocado vulgar, mas muito bem feito à sua maneira.59

 

59 Vários de nós, que pairávamos por perto, tínhamos estado a semiobservar com o interesse desprendido de quem sabe. É sempre interessante vermos os estilos dos outros se temos oportunidade, uma vez que não sabemos quando poderemos arranjar uma nova dica sobre a apresentação. Agora, fiel à minha personalidade, pendo sempre para a sutileza e o requinte. Certo, com a esporádica serpente emplumada pelo caminho.

 

O mago arregalou os olhos, com um mau presságio; como acabou por se verificar. A fumaça cresceu numa forma preta musculosa com cerca de dois metros de altura e quatro braços que se agitavam.60 Arrastou-se lentamente em volta do perímetro do pentagrama, procurando pontos fracos.

E, para sua surpresa, encontrou um.61

 

60 Este aspecto sugeria que a carreira do djinni incluíra uma passagem pelo Hindu Kush.* É extraordinário como estas influências não nos abandonam.

 

* {Maciço da Ásia Central (Paquistão e sobretudo Afeganistão). (NT)}

 

61 As palavras de um chamado servem de reforços cruciais das runas e linhas desenhadas no chão. Criam faixas invisíveis de poder que envolvem o pentagrama, atando e voltando a atar, e saltando sobre si mesmas, até se formar uma fronteira intransponível. No entanto, basta uma palavra um tiquinho fora do lugar para deixar um ponto fraco fatal em toda a defesa. Como Tallow se preparava para descobrir.

 

Os quatro braços ficaram parados por um momento, como se em dúvida. Depois, surgiu uma pontinha de fumaça na base da figura que explorou a extremidade do pentagrama com enorme cuidado. Bastaram duas dessas tentativas. O ponto fraco foi detectado: um buraquinho na barreira encantatória. De imediato, o pseudópode avançou e começou a atravessar a brecha, reduzindo-se quase a um ponto ao passar, voltando a expandir-se do outro lado. A fumaça saía com cada vez maior rapidez; inchou e cresceu e tornou-se um volumoso tentáculo que correu avidamente pelo espaço até o outro pentagrama, onde o mago se encontrava petrificado de horror. Os rastros de rosmaninho e sorveira que ele colocara em volta das suas extremidades foram espalhados aos quatro ventos. A fumaça subiu em balão em volta dos seus sapatos, envolvendo-lhe rapidamente as pernas numa densa coluna preta. O mago emitiu alguns ruídos incoerentes nesta altura, mas não teve tempo para muito mais; a figura no primeiro pentagrama ficara agora reduzida a nada; toda a sua essência passara pela abertura e envolvia a presa. Em menos de cinco segundos, todo o mago, mais o seu terninho à riscas, tinha sido engolido pela fumaça. Saltaram vários raios de triunfo próximo da cabeça da coluna, que desceram depois até o chão como algo sólido, levando consigo o mago.

Um instante depois, ambos os pentagramas estavam vazios, com exceção de uma marca de queimado no lugar onde estivera o mago, e um livro calcinado a seu lado.

Reinava o silêncio estupefato em toda a câmara de chamado. Os magos ficaram emudecidos, os seus funcionários inertes e afundados nas respectivas cadeiras.

Depois todo o lugar irrompeu em barulho; aqueles magos que já tinham aprisionado devidamente os seus escravos, entre eles o meu amo, saíram dos pentagramas e reuniram-se em volta da marca de queimado, com cara de caso, e tagarelando. Nós, seres superiores, começamos uma conversa animada e aprovativa. Troquei alguns comentários com o miasma verde e a ave de pernas.

— Sério que gostei.

— Muito estilo.

— Sujeitinho sortudo. Via-se mesmo que nem queria acreditar.

— Bem, quantas vezes é que surge uma oportunidade destas?

— Muito raramente. Lembro-me de uma vez, lá em Alexandria. Havia um jovem aprendiz...

— O palerma deve ter pronunciado mal as ordens de fecho.

— Ou isso ou foi um erro de impressão. Viram como ele estava lendo diretamente de um livro? Bem, ele disse conligi em vez de torqui; eu ouvi.

— Não! Sério?! Erro de principiante.

— Exatamente. Aconteceu o mesmo com este jovem aprendiz que mencionei; esperou que o seu mestre se ausentasse, depois... Não, não vão acreditar nisso...

— Bartimaeus, preste atenção! — O rapaz voltara para o pentagrama, o casaco a esvoaçar atrás de si. Os outros magos faziam o mesmo, por todo o salão. Notava-se uma súbita atmosfera de intensidade eficiente em volta deles. Os meus companheiros escravos e eu viramo-nos com relutância para os nossos amos. — Bartimaeus — repetiu o rapaz, e a sua voz tremia —, faça conforme eu mandar; vá até lá fora e persiga o afrit renegado. Ordeno-lhe que só volte para mim quando ele tiver sido destruído.

— Está bem, tenha calma. — A serpente emplumada olhou-o com um ar semelhante a divertimento. Estava ficando nervoso e formal comigo, subitamente cheio de «ordenos» e «mandos», o que denotava bastante confusão. — O que se passa contigo? — perguntei. — Ficou em estado de choque. Achei que nem sequer gostava do fulano.

O rosto dele ruborizou-se.

— Cale-se! Nem mais uma palavra! Sou o teu amo, como se esquece com muita freqüência. Fará o que eu mandar!

Acabaram-se as confidências conspiratórias entre nós. O rapaz voltara aos seus antigos modos autoritários. Era estranho o que uma sacudida para a realidade era capaz de fazer.

Não fazia sentido conversar com ele quando estava com um humor assim. A serpente emplumada virou as costas, enrolou-se e, juntamente com os seus companheiros de escravatura, desapareceu da sala.

 

Era farta a atividade por cima dos telhados de Londres, naquele final de tarde. Além dos quarenta e tantos djinn resistentes, como eu, que, depois de abandonarem a câmara de Whitehall, tinham mais ou menos dispersado espontaneamente em todas as direções, o ar estava repleto de diabretes e foliots dos mais variados níveis de inépcia. Quase não existia uma torre ou bloco de escritórios que não tivesse um ou dois escondidos, à espreita, no alto.

Lá embaixo, marchavam batalhões da Polícia Noturna, passando as ruas a pente fino com alguma relutância, à procura de sinais do perigoso afrit. Em suma, a capital estava cheia de servidores do governo de todos os tipos. Era de estranhar que o afrit não tivesse sido logo encontrado nos primeiros segundos.

Despendi um pouco de tempo a vaguear descontraidamente pelo centro de Londres sob a forma de gárgula, sem qualquer plano concreto em mente. Como sempre, a tendência para me manter afastado do perigo rivalizava com o desejo de concluir a tarefa e apressar a minha libertação o mais rapidamente possível. Só que os afrits eram uns sujeitinhos extremamente traiçoeiros: muito difíceis de matar.

Passado um bocado, e não tendo nada melhor que fazer, sobrevoei um muito pouco apetitoso arranha-céu moderno — uma fantasia de um mago, construído em concreto e vidro — para falar com as sentinelas de serviço ali.

A gárgula pousou com a graciosidade de uma dançarino.

— Ei, vocês dois. O esqueleto passou por aqui? Falem. — Tratava-se de uma fórmula de relativa cortesia, dado que eram pequenos diabretes azuis... uma variante sempre difícil.

O primeiro diabrete falou de imediato.

— Sim.

Aguardei. Fez a continência e voltou a alisar a cauda. A gárgula soltou um suspiro cansado e tossiu ruidosamente.

— Bem, e quando foi que o viram? Para que lado se dirigiu?

O segundo diabrete interrompeu um exame detalhado dos dedos dos pés.

— Passou há cerca de duas horas. Não sei para onde foi. Estávamos muito ocupados nos escondendo. É louco, sabe.

— Em que direção?

O diabrete refletiu.

— Bem, todos vocês, espíritos superiores, são bastante desagradáveis, claro, mas na sua maioria são facilmente previsíveis. Este... diz coisas estranhas. Numa hora está satisfeito, e na outra... Bem, olhe o que fez ao Hibbet.

— Ele parece-me bastante contente.

— Este é Tibbet. Não apanhou o Tibbet. Nem a mim. Disse que ficaria para a próxima.

— A próxima?

— Sim, foi no máximo há cinco minutos. Primeiro pregou-nos um sermão chatérrimo, depois comeu um de nós. Cinco já se foram, faltam dois. Vou te dizer, a combinação de medo e tédio é difícil de ultrapassar. Acha que esta unha do pé está encravada?

— Não tenho competência na matéria. Quando é que o esqueleto volta?

— Dentro de dez minutos, se mantiver o horário atual.

— Muito obrigado. Finalmente, uma informação concreta. Vou esperar aqui.

A gárgula encolheu-se e reduziu-se, e tornou-se um diabrete azul apenas ligeiramente menos hediondo do que os outros dois. Posicionei-me antecedendo-os na direção do vento e sentei-me de pernas cruzadas numa saliência que dava para a linha do horizonte de Londres. Havia a hipótese de outro djinni ter alcançado o afrit antes dele voltar aqui, mas, se assim não fosse, eu teria hipótese. Ninguém entendia por que andava às voltas pela cidade; possivelmente a sua longa vigília no túmulo tirara-lhe o discernimento. De qualquer forma, havia bastante reforços na vizinhança: conseguia ver diversos outros djinn pairando nas imediações.

Enquanto esperava, ocorreram-me alguns pensamentos inúteis. Não havia dúvida, estavam acontecendo muitas coisas estranhas em Londres, tudo ao mesmo tempo. Primeiro, o golem andava a causar confusão, instigador desconhecido. Segundo, a Resistência invadira um túmulo de alta segurança e fugira com um artigo valioso. Terceiro, e uma conseqüência direta do segundo, tínhamos também um afrit destrambelhado à solta, provocando mais devastação. Tudo isto tinha um resultado: percebera o medo e a confusão entre os magos durante o chamado geral. Poderia tratar-se de coincidência? Achava improvável.

Não se afigurava plausível que um punhado de comuns conseguisse acessar o túmulo de Gladstone por si só. Calculei que alguém os teria instruído, dando-lhe alguns conselhos para conseguirem passar as primeiras salvaguardas e descer à cripta. Agora, ou essa mesma pessoa solícita não tinha conhecimento do guardião do túmulo, ou talvez ele (ou ela) tivesse; fosse como fosse, duvidava muito de que a garota Kitty e os seus amigos fizessem idéia do que os esperava.

Mesmo assim, conseguira sobreviver. E agora, enquanto os magos se uniam tentando apanhar o esqueleto errante de Gladstone, o temido Bordão andava à solta no mundo.62 Alguém ia tirar partido disto, e não me parecia que fosse a garota.

 

62 Na década de 1860, altura em que a saúde e o vigor extraordinários de Gladstone estavam a diminuir, a velha raposa dotara o seu Bordão de considerável poder, para acessá-lo mais facilmente. Acabara por conter diversas entidades, cuja agressão natural fora exagerada ao ser condensada num único nó do tamanho de um dedal dentro da madeira. A arma resultante era talvez a mais formidável desde os dias de glória do Egito. Avistara-a de longe durante as guerras de conquista de Gladstone, cortando a noite com jorros de luz em forma de foice. Tinha visto a silhueta do velho, estática, com a cabeça enfiada entre os ombros, segurando o Bordão, um e o outro os únicos pontos fixos nas parábolas de fogo. Tudo dentro do seu alcance — fortes, palácios, muralhas bem construídas — ele reduziu a pó; até os afrits se encolhiam de medo, diante do seu poder. E agora esta Kitty passou a mão nele. Duvidava de que ela soubesse ao certo no que se meteu.

 

Recordei a inteligência desconhecida que sentira a observar-me através do olho de golem, enquanto a criatura tentara matar-me no museu. Era possível, se analisasse o caso com frieza, imaginar também semelhante presença sombria por trás do trabalho na abadia. A mesma? Parecia mais do que provável.

Enquanto esperava, dediquei-me a uma série de especulações inteligentes que passo a referir,63 inspecionei automaticamente os planos, mantendo-me atento a confusões. E aconteceu então que, pouco depois, no sétimo plano, vislumbrei um brilho amorfo em aproximação na luz do entardecer. Andava de um lado para o outro por entre as chaminés, umas vezes vendo-se com toda a nitidez quando passava para as sombras, outras perdendo-se nos raios vermelhos das telhas iluminadas pelo sol. Nos planos dois a seis, o brilho era idêntico: não tinha uma forma óbvia. Era a aura de algo, sem dúvida — o rastro da essência de algo — mas era impossível distinguir. Experimentei o primeiro plano, e ali, completamente desprovido de cor pelo sol descendente, captei o primeiro vislumbre de uma forma de aspecto humano aos saltos.

 

63 Houve muitos pensamentos de uma inteligência incrível, com os quais não me darei ao trabalho de incomodar essas vossas lindas cabecinhas. Vão por mim, foram todos bons, incrivelmente bons.

 

Pulava de calha à cata-vento com a precisão de uma cabra montesa, balançando-se no alto, rodando como um pião, depois continuando a saltar. Ao aproximar-se, comecei a ouvir gritos estridentes, como os de uma criança excitada, que lhe irrompiam da garganta.

Os meus colegas diabretes foram tomados de uma ansiedade de última hora. Pararam de mexer nas unhas dos pés e de alisar as caudas e começaram a saltitar de um lado para o outro pelo telhado, tentando esconder-se uns atrás dos outros e encolhendo as barrigas numa tentativa de parecerem menos óbvios.

— Uh-oh — disseram. — Uh-oh.

Vi um ou dois dos meus colegas djinn seguirem a figura saltitante a uma distância prudente. Por isso ainda não tinham sido atacados, calculava eu. Talvez em breve viesse a descobrir. Avançava na minha direção.

Pus-me de pé, passei a cauda por cima do ombro para maior destreza, e esperei. Os outros diabretes corriam à minha volta, guinchando sem cessar. Acabei por estender um pé e pregar uma rasteira num deles. Os outros colidiram com ele e caíram por cima.

— Calados — protestei. — Procurem mostrar um pouco de dignidade. — Olharam-me em silêncio. — Assim está melhor.

— Sabe de uma coisa... — O primeiro diabrete acotovelou o outro, apontou para mim. — Ele podia ser o próximo.

— Sim. Talvez ele o apanhe desta vez. Seríamos salvos!

— Fique atrás dele. Rápido.

— Primeiro eu! Atrás de mim!

Seguiu-se uma exibição indigna de desordem e precipitação, enquanto lutavam entre si para se esconderem atrás das minhas costas, pelo que, nos momentos que se seguiram, estive muito ocupado a distribuir alguns tabefes bem merecidos, os seus ruídos ecoando pela cidade. No meio desta atuação, ergui o olhar; e ali, de pé, as pernas afastadas, num parapeito na beira da torre de apartamentos, nem a dois metros de distância, estava o afrit renegado.

Devo confessar que o seu aspecto me surpreendeu.

Não me refiro à máscara dourada, moldada segundo as feições do grande mago no momento da morte. Não me refiro ao cabelo fino levantado atrás pela brisa. Não me refiro às mãos esqueléticas assentadas descontraidamente nas ancas, nem às vértebras a espreitar por cima da gravata, nem ao terno do enterro, cheio de pó, pendendo muito mole da sua estrutura. Isso nada tinha de extraordinário: eu próprio já assumi a forma de esqueletos dúzias de vezes — todos nós já não o fizemos? Não, o que me surpreendeu foi a conscientização de que isto não era um disfarce, mas ossos verdadeiros, roupas verdadeiras e uma máscara de ouro verdadeiro por cima. A essência do próprio afrit estava invisível, escondida em algum lugar dentro dos restos mortais do mago. Não possuía forma própria — neste ou em qualquer dos outros planos. Nunca vira semelhante coisa.64

 

64 Uma constatação simples é o fato de, ao materializarmo-nos no mundo humano, termos de assumir uma determinada forma, nem que seja um pedaço de fumaça ou uma gota de líquido. Apesar de alguns de nós termos a capacidade de ser invisíveis nos planos inferiores, nos superiores somos obrigados a revelar um aspecto: faz parte do cruel aprisionamento criado pelos magos. Uma vez que não temos essa forma definida no Outro Lugar, o esforço para o fazermos é considerável e causa-nos dor; quanto mais tempo permanecermos aqui, pior é a dor, muito embora a mudança de forma possa aliviar temporariamente estes sintomas. Uma coisa que nós não fazemos é «possuir» objetos materiais: quanto menos tivermos a ver com as coisas terrenas, melhor, e, de qualquer forma, este processo é estritamente proibido, de acordo com os termos do nosso chamado.

 

O que quer que o esqueleto tivesse andado a tramar durante o dia, obrigara-o a despender, sem dúvida, bastante energia, uma vez que as roupas estavam significativamente estragadas: havia um rasgão muito moderno por cima do joelho,65 uma marca de queimado num ombro e um punho esfarrapado que mais parecia ter sido cortado por garras. Provavelmente, o meu amo teria pago bom dinheiro por aquele conjunto se o tivesse visto em alguma butique milanesa, mas era um sinal bastante preocupante num afrit que se preza. Contudo, os ossos por baixo do tecido pareciam bem conservados: as articulações dobravam-se com facilidade, como se tivessem sido oleadas.

 

65 Já não era tão moderno ver-se a rótula.

 

O esqueleto olhou para o monte de diabretes com a sua cabeça inclinada para um lado. Mantivemo-nos estáticos, boquiabertos, imobilizados no meio do nosso tumulto. Por fim, ele falou.

— Vocês estão se reproduzindo?

— Não — respondi. — Há apenas uma certa bagunça.

— Refiro-me ao número. Há dois a mais do que da última vez.

— Reforços — respondi. — Chamaram-me aqui para te ouvir falar. E ser comido, claro.

O esqueleto efetuou uma pirueta na borda do parapeito.

— Que encantador! — exclamou, todo jovial. — Que belo elogio à minha eloqüência e clareza! Vocês, diabretes, são mais inteligentes do que parecem.

Olhei para Tibbet e o seu amigo, que estavam ambos de pé, imóveis, boquiabertos e babando. Coelhos atraídos pelos faróis de um automóvel teriam olhado-os com desprezo.

— Eu não confiaria nisso — disse-lhe.

Em resposta à minha piada mordaz, o esqueleto gorjeou uma gargalhada e improvisou um sapateado com os braços levantados. Cerca de cinqüenta metros adiante, espreitando sorrateiramente por trás de uma chaminé como dois adolescentes matreiros, pude ver os outros djinn, aguardando e assistindo a tudo.66 Por isso calculei que tivéssemos os ossos de Gladstone bem cercados.

 

66 Um era o meu amigo do chamado em massa — a ave com pernas-muletas. O outro tinha a forma de um orangotango barrigudo. Em outras palavras, formas tradicionais genuínas; não estavam interessados em mexer em ossos bolorentos.

 

— Parece-me muito bem-disposto — observei.

— E por que não haveria de estar? — O esqueleto imobilizou-se, estalando os ossos dos dedos como castanholas, acompanhando o clímax do sapateado. — Estou livre! — exclamou. — Livre como um passarinho! Há coisa melhor que isso?

— Sim... tem razão. — O diabrete coçou a cabeça com a ponta da cauda. — Mas ainda está no mundo — retorqui-lhe lentamente. — Ou pelo menos, na minha perspectiva, está. Por isso não é completamente livre, não é? A liberdade só se alcança quando corta as amarras e volta para o lugar de onde veio.

— Eu costumava pensar assim — afirmou o esqueleto —, enquanto estava naquele túmulo malcheiroso. Mas agora não. Olhe para mim! Posso ir para onde quiser, fazer o que me apetecer! Se quiser olhar para as estrelas, posso olhar à vontade. Se quiser passear pelo meio das flores e das árvores, também posso fazê-lo. Se me apetecer agarrar num velho e atirá-lo ao rio, também não há problema! O mundo me chama: Dá-lhe, Honorius, e faz o que bem entender. Então, diabrete, eis o que eu chamo liberdade, não te parece?

Ao proferir estas palavras, esboçou uma espécie de avanço ameaçador na minha direção, os dedos emitindo pequenos espasmos para agarrar e uma luz vermelha assassina a brilhar de repente nas órbitas vazias por trás dos olhos da máscara dourada. Apressei-me a saltar para trás, ficando fora do alcance dele. Um instante depois, a luz vermelha sumira um pouco e o avanço do esqueleto tornou-se mais lento.

— Olhem esse pôr do Sol! — suspirou, como se falasse consigo mesmo. — Parece sangue e queijo derretido.

— Uma imagem encantadora — concordei. Não haja dúvida, aqueles diabretes tinham razão. O afrit era completamente louco. Mas, louco ou não, havia algumas coisas que continuavam a me intrigar. — Queira desculpar, Senhor Esqueleto — disse eu —, como humilde diabrete de compreensão limitada, será que poderia me esclarecer? Continua a acatar uma ordem?

Uma comprida unha curva apontou para a máscara dourada.

— Estão vendo-o? — inquiriu o esqueleto, e a sua voz estava agora carregada de melancolia. — A culpa é toda dele. Prendeu-me a estes ossos com o seu último sopro. Encarregou-me de protegê-los para sempre, e guardar também os seus pertences. Tenho aqui a maior parte deles... — Virou-se para mostrar uma mochila moderna que lhe pendia incongruamente das costas. — E também — acrescentou — destruir todos os invasores do seu túmulo. Olha, dez em doze não é nada mau, não é? Fiz o melhor que podia, mas aqueles que escaparam continuam me atormentando.

O diabrete foi melífluo.

— É excelente. Ninguém conseguiria fazer melhor. E suponho que os outros dois sejam ossos duros de roer, hã?

A luz vermelha voltou a brilhar; ouvi dentes a ranger por trás da máscara.

— Um era um homem, creio. Não vi. Era um covarde; fugiu enquanto os seus companheiros lutavam. Mas a outra... Ah, era uma fedelha ágil. Como gostaria de ter tido aquele pescoço branco entre os meus dedos. Mas... seria de esperar semelhante astúcia de alguém tão jovem? Ela tinha a mais pura prata na sua pessoa; fez sacudir os pobres ossos velhos do Honorius quando ele estendeu a mão para agarrá-la.

— Vergonhoso. — O diabrete abanou a cabeça, pesaroso. — E aposto que nem sequer te disse o nome.

— Ela não disse, mas ouvi-o... Oh, e por pouco não a apanhei também. — O esqueleto efetuou uma pequena dança de raiva. — Kitty é o seu nome e, quando a encontrar, Kitty irá morrer. Mas não tenho pressa. Tempo é o que não me falta. O meu amo morreu, e continuo a obedecer às ordens que me foram dadas, guardando os seus ossos velhos. Só estou levando-os comigo, é tudo. Posso ir para onde quiser, comer o diabrete que me apetecer. Em especial — os olhos vermelhos chisparam —, os faladores e cheios de opiniões.

— Hum. — O diabrete anuiu, de boca firmemente fechada.

— E quer saber o que tem de melhor? — O esqueleto rodopiou (vi, lá adiante, no telhado do prédio seguinte, os djinn esconderem-se atrás da chaminé) e inclinou-se para mim. — Não há dor!

— Hu-mmm? — Eu continuava a manter-me caladinho, mas tentei manifestar interesse suficiente.

— Pois é. Nenhuma, mesmo. Que é exatamente o que digo a qualquer espírito com quem cruzo. Estes dois — apontou para os outros diabretes, que tinham se enchido suficientemente de coragem para rastejarem até o outro extremo do telhado —, estes dois já o ouviram vezes sem conta. Você, não menos hediondo do que eles, também vai ter o privilégio de ouvir agora. Quero partilhar a minha alegria. Estes ossos protegem a minha essência: não tenho necessidade de criar a minha própria forma vulnerável. Escondo-me comodamente aqui dentro, como um pinto, dentro do meu ninho. Desta forma, o meu amo e eu estamos unidos em proveito mútuo. Obedeço à sua ordem, mas continuo a poder fazer o que me apetecer, todo feliz e sem dor. Não consigo entender como é que ninguém pensou nisso antes.

O diabrete quebrou o seu voto de silêncio.

— Está aqui uma explicação: possivelmente porque requer que o mago esteja morto? — sugeri. — A maior parte dos magos não vai querer fazer esse sacrifício. Eles não se importam que a nossa essência murche enquanto os servimos; na realidade, provavelmente preferem-no, uma vez que concentra as nossas mentes. E eles certamente não querem que andemos por aí a fazer tudo o que nos der na cabeça, não é?

A máscara de ouro prestou atenção à minha pessoa.

— Realmente é um diabrete muito impertinente — disse por fim. — Vou consumi-lo em seguida, visto que a minha essência requer alguma reserva.67 Mas o que afirma não deixa de fazer sentido. Na realidade, sou único. Infelizmente, já estive preso durante longos anos negros no túmulo de Gladstone, por isso agora sou o mais afortunado dos afrits. Doravante, vou andar pelo mundo, vingando-me com calma tanto dos humanos como dos espíritos. Talvez um dia, quando a minha vingança estiver saciada, regresse ao Outro Lugar... mas por enquanto não. — Deu uma arremetida súbita na minha direção; efetuei um mortal para trás, escapando por pouco, aterrando, vacilante, com a extremidade traseira na beira do parapeito.

 

67 Podia dizer-se que Honorius estava arrumado devido ao fato de não se ter dado ao trabalho de verificar os planos. Se o houvesse feito, teria visto que eu era um diabrete apenas nos primeiros três planos. Nos restantes, era Bartimaeus, em toda a minha imensa glória.

 

— Portanto, não te incomoda ter perdido o Bordão? — inquiri rapidamente, fazendo gestos frenéticos com a cauda aos djinn no telhado da frente. Estava na hora de pormos termo a Honorius e à sua megalomania.68 Pelo canto do meu olho, vi o orangotango coçar o sovaco. Ou era um sinal sutil que prometia ajuda rápida, ou então não me vira.

 

68 Devo dizer que os devaneios dele tinham o seu interesse, de uma forma algo estranha. Desde tempos imemoriais, cada um de nós, do marid mais duro de roer ao menor diabrete, tem sido amaldiçoado pelos problemas gêmeos da obediência e da dor. Temos que obedecer aos magos e dói fazê-lo. Em virtude da sentença de Gladstone, Honorius parecia ter encontrado uma saída para este mau hábito cruel. Mas, entretanto, perdera a sanidade. Quem poderia preferir ficar na Terra a voltar para casa?

 

— O Bordão... — Os olhos do esqueleto brilharam. — Sim, sinto algum remorso. Mas, o que importa? A garota Kitty o tem. Está em Londres; e mais cedo ou mais tarde hei de encontrá-la. — Animou-se. — Sim... E com o Bordão na minha mão, quem sabe o que poderia fazer. Agora fique quieto para que eu possa te devorar.

Estendeu calmamente uma mão, evidentemente não esperando mais resistência. Calculo que os outros diabretes tenham ficado quietos, aceitando o seu destino, não sendo um grupo capaz de decisões rápidas. Mas Bartimaeus tinha mais fibra, como Honorius se preparava para descobrir. Dei um pequeno pulinho por entre os braços estendidos, passei por cima e rasei a horrível cabeça branca, arrancando nesse ato a máscara fúnebre.69

 

69 Os meus seis dedos de diabrete vieram bem a calhar; cada um tinha uma pequena ventosa na extremidade.

 

Soltou-se facilmente, encontrando-se presa apenas por algumas madeixas esticadas do cabelo branco imundo do esqueleto. Honorius soltou um berro de surpresa e virou-se, a caveira sorridente toda à mostra.

— Dá isso aqui!

Como resposta, o diabrete afastou-se a dançar pelo telhado.

— Você não quer isto — gritei por cima do ombro. — Pertenceu ao teu amo e ele morreu. Ugh, e tinha uns dentes péssimos, não tinha? Olhe para aquele, pendurado por um fio!

— Devolva o meu rosto!

— O teu «rosto»? Isso não é conversa própria de um afrit. Ooops, lá se foi. Que desastrado. — Com toda a minha força, atirei-a como um pequeno frisbee* dourado pela borda do edifício, indo cair no vazio.

 

* Disco leve de plástico, em forma de prato, que os jogadores atiram entre si. (NT)

 

O esqueleto bradou de raiva e enviou três Detonações numa sucessão rápida, chamuscando o ar à minha volta. O diabrete deu um pinote e saltou, por cima, por baixo, sobre e até o parapeito mais abaixo, onde fiz uso imediato das minhas ventosas para me agarrar à janela mais próxima.

Deste ponto, voltei a acenar aos dois djinn que espreitavam junto à chaminé, e assobiei o mais estridentemente possível. É claro que a perícia de Honorius com as suas Detonações fora a razão da cautela anterior deles, mas fiquei aliviado ao ver a ave com pernas-muletas mudar de posição, seguindo com relutância o orangotango.

Ouvi o esqueleto empoleirar-se na borda por cima, virando o pescoço à minha procura. Os seus dentes estalaram e rangeram de raiva. Comprimi-me o mais que pude contra a janela. Como Honorius descobrira entretanto, um manifesto inconveniente de residir nos ossos era que não podia mudar de forma. Qualquer afrit genuíno teria ganho asas, lançando-se à minha procura, mas sem uma saliência perto ou telhado para onde saltar, o esqueleto estava limitado nos seus movimentos. Estaria sem dúvida a ponderar a próxima jogada.

Entretanto, eu, Bartimaeus, efetuei a minha. Muito sutilmente, deslizei pela parte lateral ao longo da janela, pela parede, e contornei a esquina do edifício. Ali, escalei-o de imediato e espreitei pela parte de cima do parapeito. O esqueleto continuava debruçado de forma precária. Visto de trás, parecia bem menos ameaçador do que de frente: tinha as calças esgarçadas e rasgadas, e pendiam tão catastroficamente que fui contemplado com uma visão indesejada do cócix dele.

Se se mantivesse mais um bocadinho naquela posição...

O diabrete subiu para o telhado e mudou para a forma da gárgula, que avançou nas pontas das patas, as palmas esticadas.

Foi então que o meu plano foi por água abaixo devido ao aparecimento súbito da ave e do orangotango (agora completo, com asas cor-de-laranja), que desceram defronte do esqueleto, vindos do céu. Cada um fez explodir magia — uma Detonação e um Inferno, para ser exato; os raios gêmeos bateram no esqueleto, atirando-o para trás e afastando-o do precipício. Com a rapidez de pensamento que me é característica, pus de parte a idéia e juntei-me a eles, escolhendo uma Convulsão para conferir uma certa variedade. Desceram faixas escuras tremulantes sobre o esqueleto, procurando desfazê-lo em pedaços, mas era inútil. O esqueleto proferiu uma palavra, bateu o pé, e os restos dos três ataques afastaram-se dele, murchando e sumindo.

Ave, orangotango e gárgula recuaram um pouco em todas as frentes. Aí vinha encrenca.

A caveira de Gladstone girou com alguma chiadeira para se dirigir a mim.

— Por que pensa que o meu amo me escolheu para ter a honra de habitar os seus ossos? Sou Honorius, um afrit de nono nível, invulnerável à magia de meros djinn. Agora... deixem-me em paz! — Arcos de força verde saíram a estralejar dos dedos do esqueleto; a gárgula saltou do telhado para evitá-los, enquanto a ave e o orangotango desceram do céu aos trambolhões.

Com um salto, o esqueleto aterrou num telhado baixo e foi-se embora da habitual forma animada. Os três djinn realizaram uma conferência às pressas no meio do ar.

— Não me agrada nada esta brincadeira — disse o orangotango.

— Nem a mim — corroborou a ave. — Vocês o ouviram. Ele é invulnerável. Lembro-me de uma vez, lá no velho Sião. Havia um afrit real, sabem...

— Ele não é invulnerável à prata — interrompeu a gárgula. — Ele próprio me disse.

— Pois, tampouco nós — protestou o orangotango. — Faz-me cair o pêlo.

— Nós não precisamos tocá-lo, não é? Venham comigo.

Uma descida rápida à via pública lá embaixo resultou num pequeno acidente, quando o motorista de um caminhão nos viu ao passar e se distraiu. Desagradável, mas podia ter sido pior.70

 

70 O caminão, que ia entregar um carregamento de melões em algum lugar, entrou pela vitrine de uma peixaria, provocando uma avalanche de gelo e halibutes que se espalharam pela calçada. A porta traseira do caminhão abriu-se e os melões saltaram para a rua, onde, seguindo uma inclinação natural, ganharam velocidade por ali abaixo. Várias bicicletas foram atiradas ao ar, ou obrigadas a guinar para a sarjeta, antes da descida dos melões ser travada por uma loja de objetos de vidro no sopé da colina. Alguns peões que conseguiram desviar-se dos mísseis rolantes acabaram por ser arremessados ao ar pela horda de gatos vadios que convergia para a peixaria.

 

O meu colega parou de indignação.

— Mas que bicho te mordeu? Será que nunca viu um orangotango?

— Com asas, possivelmente não. Sugiro que nos transformemos em pombos no primeiro plano. Agora, parta-me três daquelas barras. Não são de ferro, não é? Ótimo. Vou procurar uma joalheria.

Um exame rápido ao comércio do bairro revelou-se ainda melhor: uma verdadeira oficina de ourives que fazia trabalhos em prata, com uma vitrine cheia de jarros, canecas de cerveja, troféus de golfe e placas comemorativas que tinham manifestamente sido expostos com enorme desvelo. A ave e o orangotango, que tinham conseguido arrumar três grades compridas, recuaram amedrontados da vitrine, uma vez que a aura glacial da prata afetava a nossa essência bem no meio da rua. Mas a gárgula não tinha tempo a perder. Agarrei uma das barras, rangi os dentes e, saltando para a vitrine, parti o vidro.71 Com uma estocada rápida da barra, levantei uma grande caneca de cerveja em prata pela alça, e afastei-me da loja, ignorando os gritos queixosos que vinham lá de dentro.

 

71 Imaginem o desconforto da estreita proximidade de um fogo abrasador: era este o efeito que tanta prata tinha sobre mim — só que era frio.

 

— Vêem isto? — Balancei a caneca de cerveja na extremidade da barra diante dos meus companheiros estupefatos. — Uma lança. Agora precisamos de mais duas.

Foram necessários vinte minutos de vôos a baixa altitude para voltar a localizar o esqueleto. Até que foi fácil; bastava-nos seguir o som dos gritos. Parecia que Honorius redescobrira os prazeres de meter medo nas pessoas, e perambulava pelo Embankment, pendurando-se nos postes de iluminação pública e aparecendo de repente por trás do paredão do rio para assustar qualquer transeunte. Era uma atividade perfeitamente inofensiva, mas fora-nos atribuída uma missão coletiva, e isso significava que tínhamos que agir.

Cada um de nós dispunha de uma lança de fabricação caseira com o seu objeto de prata. A ave tinha uma taça de dardos pendurada na extremidade da sua barra, enquanto o orangotango, que passara dois minutos infrutíferos tentando equilibrar uma bandeja grande na ponta da sua, decidira-se finalmente por um suporte de torradas.

Instruíra-os às pressas na tática, e nos aproximamos do esqueleto como três cães pastores que enfrentam um carneiro obstinado. A ave voou pelo Embankment vinda do sul, o orangotango avançou do norte e eu ataquei-o da terra. O encurralamos na região da Agulha de Cleópatra.72

 

72 Agulha de Cleópatra; um obelisco egípcio de quinze metros, pesando cerca de 180 toneladas, que nada tem a ver com Cleópatra. Eu deveria saber, visto ter sido um dos operários que o erigiu para Tutmósis III, em 1475 a.C. Como o tínhamos largado na areia em Heliópolis*, fiquei bastante surpreendido ao vê-lo em Londres 3500 anos depois. Mas presumo que alguém o afanou. Hoje em dia já não se pode ter uma pequena distração.

 

[* Cidade egípcia situada no delta do Nilo. Juntamente com Tebas e Mênfis, fazia parte das três cidades sagradas. (NT)]

 

Honorius viu primeiro a ave. Disparou outro jato violento de poder, que passou por entre as suas pernas arqueadas e desfez um sanitário público. Entretanto, o orangotango aproximou-se e enfiou o suporte de torradas entre as omoplatas de Gladstone. Uma erupção de faíscas esverdeadas, um cheiro de pano queimado; o esqueleto deu um grande pulo no ar. Caiu por terra com um grito lancinante, correu na direção da rua, evitando por uma unha negra uma cacetada da minha caneca de cerveja que ia a caminho.

— Ahh! Seus traidores! — O ataque seguinte de Honorius passou rente à orelha da gárgula; no entanto, enquanto ele se esforçava por não perder de vista a minha estrutura em fuga, a ave aproximou-se furtivamente e fez-lhe cócegas no osso da perna com o troféu de dardos. Ao virar-se para enfrentar este novo perigo, o suporte de torradas voltou a funcionar. E assim sucessivamente. Por mais que o esqueleto se virasse e torcesse, uma ou outra arma de prata estava sempre em ação nas suas costas. Não tardou que os seus mísseis se tornassem irregulares, pela falta de força; estava mais interessado na retirada do que na batalha. Uivando e praguejando, fugiu pelo Embankment, cada vez mais perto do paredão do rio.

Aproximamo-nos os três com enorme cautela. Por um momento, não consegui descobrir por que me causava tanta estranheza. Depois fez-se luz: era uma perseguição, e, era eu quem perseguia. Normalmente era o inverso.

Em poucos minutos, tínhamos o esqueleto encurralado junto à base do obelisco. O crânio rodava freneticamente para a esquerda e para a direita, os pontos vermelhos brilhando, procurando vias de fuga.

— Honorius — disse-lhe —, esta é a tua última oportunidade. Compreendemos as tensões a que esteve sujeito. Se não consegue desmaterializar-se voluntariamente desses ossos, certamente um dos magos de hoje poderá te libertar do aprisionamento. Renda-se agora, e pedirei ao meu amo que procure a fórmula necessária.

O esqueleto soltou um grito agudo de desprezo.

— Pedir ao teu amo? Acha que será realmente assim tão fácil? Está em condições tão iguais? Duvido muito. Todos vocês estão sujeitos aos caprichos de amos humanos, e só eu estou livre!

— Está preso a um saco de ossos putrefatos — disse-lhe. — Olhe para você! Nem sequer pode se transformar numa ave ou num peixe para fugir.

— Estou em melhor estado do que você — replicou o esqueleto. — Há quantos anos anda trabalhando para eles? Pode mudar de forma quantas vezes quiser, mas continua a ser escravo, com ameaças e grilhetas a te prenderem às tarefas. Ooh, olha... agora sou um diabrete, e agora sou um diabo! O que importa? Grande coisa!

— Gárgula, melhor dizendo — murmurei. Mas apenas baixinho; ele tinha toda razão.

— Se tivesse uma oportunidade, por menor que fosse, estaria aqui comigo, a perambular por Londres à vontade, a ensinar umas coisas àqueles magos. Hipócrita! Eu te desafio! — As vértebras estalaram, o torso virou-se, ossos brancos ergueram-se e agarraram a coluna de granito. Com um impulso e uma arfada, o esqueleto de Gladstone trepava pelo obelisco, servindo-se dos antigos hieróglifos talhados para apoiar os pés.

Os meus companheiros e eu assistíamos à sua escalada.

— Para onde acha que ele vai? — perguntou a ave.

A gárgula encolheu os ombros.

— Ele não tem para onde ir — afirmei. — Está apenas a adiar o inevitável. — Falei em tom irado, visto que as palavras de Honorius tinham contido mais do que uma pontinha de verdade, e isso magoava-me. — Vamos acabar com ele.

Mas quando nos elevamos, de lanças em riste, os ornamentos de prata a brilhar escuros ao crepúsculo, o esqueleto atingira o alto da pedra antiga. Ali, ergueu-se desajeitadamente nos pés e levantou os braços andrajosos para oeste e o Sol poente. A luz incidiu no cabelo branco e dançou nas entranhas ocas do crânio. Depois, sem mais nenhum som, flexionou as pernas e lançou-se ao rio num gracioso salto de anjo.

O orangotango arremessou a lança atrás dele, mas não era realmente necessário.

Naquele final de dia, o Tamisa estava na maré alta e quase a transbordar; o esqueleto bateu na superfície lá embaixo e de imediato submergiu. Reapareceu apenas uma vez, seguindo para a foz, com a água a jorrar das órbitas, abrindo e fechando os maxilares, os ossos dos braços debatendo-se. Mas não emitiu qualquer som. Depois desapareceu.

Se o esqueleto foi levado diretamente para o mar, ou arrastado para a lama no fundo do Tamisa, os espectadores na margem não puderam afirmar. Mas Honorius, o afrit, juntamente com os ossos de Gladstone que o abrigavam, nunca mais foi visto.

 

Kitty não chorou.

Se os anos na Resistência não lhe tinham servido para mais nada, pelo menos haviam endurecido as suas emoções. Não valia a pena chorar naquele momento. Era tão grande a magnitude da catástrofe que as reações normais não se adequavam. Nem durante a crise na abadia, nem imediatamente depois, quando sustivera a sua fuga desesperada numa praça silenciosa, quilômetro e meio à frente, se permitira entregar à autocomiseração.

Era movida pelo medo, pois não conseguia acreditar que escapara do demônio. A cada esquina, recorrendo a velhas técnicas da Resistência, esperava trinta segundos, depois espreitava para o lugar de onde viera. Em cada ocasião, viu se na rua lá atrás nada a perseguia: apenas casas adormecidas, lanternas a tremular, avenidas de árvores silenciosas. A cidade parecia indiferente à sua existência; os céus estavam cheios de estrelas impassíveis e da Lua de rosto inexpressivo. Não andava ninguém ali fora, nas profundezas da noite, e nem sequer se viam esferas de vigilância.

Os seus pés fizeram o menor ruído possível ao correr pelas calçadas, procurando zonas de sombra.

Ouviu poucos sons: uma vez, um carro que passou a sussurrar numa rua perto dali; outra uma sirene distante; e outra ainda o choro fraco de um bebê num quarto de cima.

Continuava a levar o bordão na mão.

No seu primeiro abrigo precipitado — um porão em ruínas de um bloco de apartamentos, avistando-se ainda as torres da abadia — quase largara o bordão debaixo de um monte de escombros. Mas, por mais inútil que fosse — só serviria para matar insetos, segundo dissera o benfeitor, — era a única coisa que viera consigo do horror. Não podia largá-lo.

Descansou alguns minutos no porão, mas não se deixou adormecer. Ao raiar do dia, o centro de Londres estaria a fervilhar de policiais. Permanecer ali seria fatal. Além disso, se fechasse os olhos, temia o que pudesse ver.

Durante as horas mais escuras da noite, Kitty percorreu a margem oriental do Tamisa, antes de chegar a Southwark Bridge. Esta era a parte mais exposta e perigosa de todo o percurso, em particular porque levava consigo o bordão. Ouvira Stanley dizer que os objetos mágicos transmitiam a sua natureza àqueles com olhos para ver, e calculava que os demônios pudessem detectar o seu fardo do outro lado da água. Por isso, esperou durante muitos minutos nos arbustos ao lado da ponte, enchendo-se de coragem, antes de se dirigir apressadamente para o outro lado.

Quando a claridade da aurora começou a brilhar por cima da cidade, Kitty passou por baixo de um pequeno arco e entrou no pátio aberto onde ficava escondido o porão das armas. Era o único local que lhe ocorria para obter refúgio imediato, e premente a sua necessidade. Tropeçava nas pernas de cansaço; pior, começava a ver coisas — dardejos de movimento pelo canto dos olhos — que lhe deixavam o coração a bater com força. Não podia ir à loja de produtos artísticos — isso era evidente, com Mr. Pennyfeather jazendo agora (quão vivamente o imaginou) num monte, à espera de que as autoridades o encontrassem. Também não era sensato ir ao seu quarto alugado (Kitty voltou bruscamente ao assunto prático em mãos), visto que os magos investigariam a loja e descobririam a sua ligação e não tardariam a aparecer.

Encontrou, às cegas, a chave do porão; também às cegas a girou na fechadura. Sem parar para acender a luz elétrica, tateou o caminho através de uma série de corredores serpenteantes até chegar à divisão interior, onde o cano do teto continuava a pingar para o balde a transbordar. Aqui, largou o bordão, estendeu-se ao lado dele no chão de cimento e adormeceu.

Acordou no escuro e ali ficou, rígida e fria, por muito tempo. Depois levantou-se, procurou a parede e acendeu a única lâmpada elétrica. O porão estava exatamente igual à tarde da véspera — quando os outros também lá se encontravam. Nick a treinar os seus movimentos de combate, Fred e Stanley a atirarem discos. Conseguia ainda ver os buracos na trave onde se cravara o disco de Fred. Não lhes servira de nada.

Kitty sentou-se ao lado da pilha de toras e olhou para a parede em frente, as mãos inertes no colo. Sentia a cabeça mais desanuviada, porém bastante oca pela falta de comida. Respirou fundo e tentou concentrar-se no que deveria fazer. Era difícil, pois a sua vida levara uma grande reviravolta.

Durante mais de três anos, as suas energias e emoções tinham ajudado a construir a Resistência; agora, numa única noite, como se levado por uma torrente raivosa, acabara tudo. Por certo, fora uma construção pouco sólida, mesmo nos melhores momentos: nenhum elemento concordava plenamente com as estratégias, e as diferenças entre eles tinham-se agravado nos últimos meses. Mas agora não restava nada de nada. Os seus companheiros tinham desaparecido, e com eles os ideais que partilhavam.

Mas que ideais eram esses, afinal? Os acontecimentos na abadia não tinham mudado apenas o seu futuro, tinham igualmente transformado o seu sentido do passado. Parecia agora evidente a inutilidade de todos os atos. A inutilidade — e a loucura, também. Quando tentou recordar Mr. Pennyfeather, não viu o líder de princípios que seguira durante tanto tempo, mas pouco mais do que um saqueador ganancioso, de rosto congestionado e a suar à luz da lanterna, remexendo em locais abomináveis à procura de mais coisas nefastas.

O que haviam esperado alcançar? O que teriam realmente conseguido com os artefatos? Os magos não seriam derrubados, nem mesmo com uma bola de cristal. Não, haviam andado permanentemente a iludir-se. A Resistência não passava de uma pulga a morder as orelhas de um mastim: uma patada e era o fim.

Tirou do bolso o berloque de prata e olhou para ele, entorpecida. O presente da Avó Hyrnek salvara-a: nem mais, nem menos. Fora a mais pura das sortes ter sequer sobrevivido.

No seu íntimo, há muito que Kitty sabia que o grupo estava moribundo, mas a revelação de que pudesse extinguir-se tão facilmente não deixava de constituir um tremendo choque. Um único demônio atacara — e a resiliência deles reduzira-se a nada. Todas as palavras corajosas do grupo — todos os conselhos inteligentes de Mr. Hopkins, toda a gabarolice de Fred, toda a retórica inflamada de Nick — se revelaram inúteis. Kitty mal conseguia recordar os argumentos deles naquele momento: as suas lembranças tinham-se varrido completamente com os acontecimentos no túmulo.

Nick. O demônio dissera (Kitty não tinha qualquer dificuldade em recordar as palavras dele) que matara dez em doze intrusos. Tendo em conta as vítimas históricas, isso queria dizer que Nick também sobrevivera. A sua boca recuou num sorriso escarninho; ele saíra tão depressa que nem sequer percebera sua partida. Não se lembrava de tê-lo visto ajudar Fred, ou Anne, ou Mr. Pennyfeather.

Depois havia o astuto Mr. Hopkins... Ao pensar no estudioso de rosto malicioso, um frêmito de raiva percorreu Kitty. Onde ele estivera todo aquele tempo? Longe, a salvo. Nem ele, nem o misterioso benfeitor, o cavalheiro cuja informação sobre as defesas de Gladstone infelizmente se revelara muito deficiente, haviam ousado estar presentes no túmulo. Não fosse a influência deles sobre Mr. Pennyfeather nos últimos meses, o resto do grupo ainda estaria vivo naquela manhã. E qual fora a paga pelo sacrifício deles? Apenas um bocado de madeira com nós.

O bordão encontrava-se ao lado dela, no meio dos detritos, no chão. Num acesso súbito de raiva, Kitty levantou-se, pegou nele com ambas as mãos e desceu-o com força sobre o joelho. Para sua surpresa, apenas conseguiu uma vibração de ambos os pulsos: a madeira era muito mais forte do que parecia. Com um grito, arremessou-o à parede mais próxima.

Ainda mal começara, a raiva de Kitty já era substituída por um grande vazio. Seria talvez concebível que pudesse contactar Mr. Hopkins, a seu tempo. Discutirem um possível plano de ação. Mas não naquele dia. No momento, precisava de algo diferente, algo que combatesse a sensação de estar completamente sozinha. Precisava voltar a ver os pais.

A tarde ia já avançada quando Kitty saiu do porão para o pátio aberto e se pôs à escuta. Ouviu ao longe sirenes e um ou dois estrondos, trazidos pelo vento do centro de Londres, onde era nítido que algo estava acontecendo. Encolheu os ombros. Tanto melhor. Não seria incomodada. Trancou a porta, escondeu a chave e foi-se embora.

Apesar de não ir carregada — deixara o bordão no porão — Kitty levou muito tempo para fazer o percurso a pé até Balham, e os céus escureciam quando chegou ao familiar cruzamento de ruas perto da sua antiga casa. Agora estava mesmo cansada, doíam-lhe os pés e tinha fome. Além de duas maçãs roubadas de uma mercearia, não comera nada. O sabor imaginado dos cozidos da mãe começou a enrolar-se desesperadamente na língua, acompanhado de pensamentos sobre o seu antigo quarto, com a caminha confortável e o guarda-roupas com a porta que não fechava. Quanto tempo passara desde que não dormia ali? Anos, nesta altura. Nem que fosse apenas uma noite, de bom grado se voltaria a enroscar nela.

Caía o crepúsculo quando subiu a velha rua e, abrandando inconscientemente o passo, aproximou-se da casa dos pais. A luz estava acesa na sala: provocou-lhe um soluço entrecortado de alívio, mas igualmente uma pontada de ansiedade. Desatenta como a mãe era, não pressentiria que algo estava errado, não até Kitty ter chance de decidir o que fazer. Inspecionou-se no reflexo vazio da janela de um vizinho, compôs o cabelo em desalinho e sacudiu as roupas o melhor que pôde. Não havia nada a fazer quanto à sujeira nas mãos, nem aos papos debaixo dos olhos. Suspirou. Aproximou-se então, subiu os degraus até à porta e bateu. Deixara as chaves no seu quarto.

Após uma ligeira demora, durante a qual Kitty foi obrigada a bater novamente, apareceu na entrada uma elegante sombra familiar. Parou no meio do caminho, como se hesitasse em abrir a porta. Kitty bateu no vidro.

— Mãe! Sou eu.

Acanhadamente, a sombra acercou-se; a mãe entreabriu a porta e espreitou.

— Oh — disse. — Kathleen.

— Olá, mãe — saudou Kitty, sorrindo o melhor que podia. — Desculpe aparecer sem avisar.

— Oh. Sim. — A mãe não abriu mais a porta. Olhava para Kitty com uma expressão sobressaltada, ligeiramente desconfiada.

— Aconteceu alguma coisa, mãe? — perguntou Kitty, muito cansada para se preocupar.

— Não, não. Não é nada.

— Nesse caso, posso entrar?

— Sim... claro. — A mãe afastou-se para deixar Kitty entrar, apresentou uma face fria para receber um beijo, e fechou cuidadosamente a porta atrás dela.

— Onde está o pai? Na cozinha? Eu sei que é tarde, mas estou cheia de fome.

— Acho que talvez fosse melhor a sala, querida.

— Está bem. — Kitty passou da entrada para a pequena sala. Estava tudo tal e qual se lembrava: o carpete puído, já sem cor; o pequeno espelho por cima da lareira; o sofá já com um certo uso e a poltrona que o pai herdara do pai dele, juntamente com uma cobertura arrendada para proteger os apoios de cabeça. Na mesinha de café estava um bule fumegante e três xícaras. O pai encontrava-se sentado no sofá. Na poltrona em frente estava um homem jovem.

Kitty estacou. A mãe fechou a porta silenciosamente.

O homem jovem ergueu o olhar para ela e sorriu, e imediatamente Kitty se lembrou da expressão de Mr. Pennyfeather quando olhara para os tesouros do túmulo. Era um sorriso de satisfação pela posse, só muito a custo contido.

— Olá, Kitty — disse o homem jovem.

Kitty não respondeu. Sabia perfeitamente quem ele era.

— Kathleen. — A voz do pai mal se percebia. — Este é Mr. Mandrake. Do... do Ministério da Administração Interna, creio?

— Exatamente — afirmou Mr. Mandrake, sorrindo.

— Ele quer... — O pai hesitou. — Ele quer fazer-lhe umas perguntas.

Um queixume súbito soltou-se da boca da mãe dela.

— Oh, Kathleen! — exclamou. — O que andou fazendo?

Kitty continuou a não responder. Tinha um único disco de arremesso no blusão, mas de outro modo estava indefesa. Os seus olhos dirigiram-se rapidamente para as cortinas corridas sobre a janela. Era de guilhotina; podia sair por ali — se o pai tivesse oleado o fecho. Ou parti-la, em caso de emergência — a mesinha de café a atravessaria. Ou então havia a entrada, com uma série de saídas, mas a mãe estava de pé diante da porta.

O jovem indicou o sofá.

— Não quer sentar-se, Ms. Jones? — disse, cortesmente. — Podemos discutir os assuntos de uma forma agradável, se quiser. — Os cantos da sua boca contorceram-se. — Ou estará pensando em pular a janela?

Ao articular precisamente o que lhe ia no pensamento, o mago — intencionalmente ou não — apanhou Kitty desprevenida. Não era o momento oportuno. Corou, franziu os lábios e sentou-se no sofá, onde olhou para o mago com a maior calma possível.

Afinal, aquele é que era o tal Mandrake cujos servidores andavam a perseguir a Resistência há tantos meses... Devia ter adivinhado a profissão dele a milhas; as suas roupas eram reveladoras — um casaco comprido, um terno preto ridiculamente justo, sapatos de verniz. Um enorme lenço vermelho saía-lhe do bolso do casaco como um polipeiro de coral. O cabelo caía-lhe comprido em volta do rosto, magro e pálido. Kitty percebeu pela primeira vez quão jovem ele realmente era: ainda na adolescência, certamente não mais velho do que ela, talvez até bem mais novo. Para compensar, unira as mãos de maneira categórica, cruzara as pernas, sacudindo um pé com o movimento de uma cauda de gato de salão, e pusera um sorriso que teria sido urbano, não deixasse transparecer constantemente a sua ansiedade.

A juventude dele deu alguma confiança a Kitty.

— O que quer, Mr. Mandrake? — perguntou em tom de voz uniforme.

O mago estendeu a mão, pegou na xícara e no pires mais próximos e bebeu um gole de chá. Com manifesto cuidado, colocou o conjunto no braço da sua poltrona e arrumou-o com esmero. Kitty e os pais observaram-no em silêncio.

— Muito agradável, Mrs. Jones — disse por fim. — Uma bebida muito tolerável. Obrigado pela vossa condigna hospitalidade. — Esta observação foi recebida apenas com um pequeno soluço da mãe de Kitty.

Kitty não olhou para ela. O seu olhar estava fixo no mago.

— O que quer? — repetiu.

Desta vez, ele respondeu.

— Em primeiro lugar, dizer-lhe que, a partir deste momento, está detida.

— Qual a acusação? — Kitty sabia que a sua voz tremia.

— Ora bem, deixe-me ver... — Os dedos em flecha bateram uns nos outros, enumerando a lista. — Terrorismo; pertencer a um grupo de marginais; traição contra Mr. Devereaux, o seu governo e o Império; vandalismo, danificação intencional de propriedade; conspiração de assassínio; roubo maldoso; profanação de uma sepultura sagrada... Poderia continuar, mas só iria afligir a sua mãe. É profundamente lamentável que uns pais honestos e leais tenham sido amaldiçoados com uma filha como você.

— Não compreendo — respondeu Kitty monocordicamente. — São acusações graves. Onde estão as suas provas?

— Foi vista na companhia de criminosos conhecidos, membros da chamada Resistência.

— Vista? O que quer dizer isso? Quem o afirma?

— Kathleen, sua estúpida, conte-lhe a verdade — insurgiu-se o pai.

— Cale-se, pai.

— Estes criminosos conhecidos — prosseguiu o mago — foram encontrados esta manhã, mortos, numa cripta na Abadia de Westminster, que haviam previamente assaltado. Um deles era um tal Mr. Pennyfeather, para quem julgo que trabalhe.

— Sempre desconfiei de que ele não era boa gente — murmurou a mãe de Kitty.

Kitty respirou fundo.

— Lamento sabê-lo, mas não pode esperar que eu esteja informada sobre tudo aquilo em que o meu patrão se mete na sua vida privada. Terá de se esforçar mais, Mr. Mandrake.

— Nesse caso, nega que se reuniu fora de hora com este Pennyfeather?

— Certamente que sim.

— E os companheiros traidores dele? Dois jovens, que conhecidos pelos nomes de Fred e Stanley?

— Muitas pessoas trabalhavam a tempo parcial para Mr. Pennyfeather. Conhecia-as, mas não muito bem. Mais alguma coisa, Mr. Mandrake? Não creio que tenha provas seja do que for.

— Bem, já que insiste... — O mago recostou-se e sorriu. — Poderia perguntar-se por que motivo as suas roupas estão tão cheias de manchas verdes. Quase parece bolor de sepultura, quando vistas a uma certa luz. Poderia perguntar-se por que não se encontrava esta manhã na loja do seu patrão, quando era sua obrigação abrir as portas. Poderia hipoteticamente chamar-se a atenção para documentos que acabo de ler nos Arquivos Nacionais. Referem-se a um certo julgamento: Kathleen Jones contra Julius Tallow, um caso muito interessante. Possui antecedentes criminais, Ms. Jones. Foi multada numa quantia considerável por ataque a um mago. E depois, não de menos importância, há a testemunha que a viu receptar artigos roubados na companhia dos lamentavelmente falecidos Fred e Stanley; uma testemunha que atacou e abandonou, julgando-a morta.

— E quem é esta preciosa testemunha? — replicou Kitty. — Seja ela quem for, mente.

— Oh, acho que ela é muito fidedigna. — O mago soltou uma risada e afastou o cabelo dos lados do rosto. — Já se recorda?

Kitty olhou para ele inexpressivamente.

— Recordo do quê?

A testa do mago enrugou-se.

— Bem... de mim, claro.

— Você? Já nos tínhamos encontrado?

— Não se lembra? Bem, foi há vários anos; confesso que estava diferente, então.

— Menos presunçoso, talvez? — Kitty ouviu a mãe soltar um tênue gemido de aflição; o som surtiu muito pouco efeito sobre ela, como se tivesse sido proferido por um desconhecido.

— Não me afronte, garota. — O mago voltou a cruzar as pernas (com alguma dificuldade, devido à justeza das calças) e sorriu ligeiramente. — Mas.... por que não? Pode fazer os comentários baratos que quiser. Não influenciará em nada no seu destino.

Agora que o fim chegara, Kitty verificou que não tinha medo; apenas uma sensação acabrunhante de irritação ante o jovem empertigado sentado diante de si. Cruzou os braços e olhou-o diretamente.

— Muito bem — disse-lhe. — Esclareça-me.

O rapaz pigarreou.

— Talvez isto lhe refresque a memória. Há três anos, no Norte de Londres... Uma noite fria de Dezembro... Não? — Suspirou. — Um incidente num beco escuro?

Kitty encolheu os ombros, enfastiada.

— Tenho tido muitos incidentes em becos. Deve ter um rosto que se esqueça com facilidade.

— Ah, mas eu nunca esqueci o seu. — A raiva dele viera agora à superfície; inclinou-se para a frente, derrubando a xícara com um cotovelo e entornando o chá na poltrona. Os seus olhos brilharam de culpa por causa dos pais de Kitty. — Oh, lamento muito.

A mãe de Kitty acorreu ao local, limpando com um guardanapo.

— Não se preocupe, Mr. Mandrake! Por favor, não se preocupe.

— Como vê, Ms. Jones — prosseguiu o mago, levantando a xícara do braço da poltrona para que a mãe de Kitty pudesse limpar melhor em volta —, nunca a esqueci, muito embora a tenha visto apenas por um momento. Tampouco esqueci os seus colegas, Fred e Stanley, uma vez que foram eles que me roubaram, que tentaram me matar.

— Roubá-lo? — Kitty carregou o cenho. — O que eles levaram?

— Uma valiosa bola de cristal.

— Oh... — Uma vaga lembrança afluiu à mente de Kitty. — Era a criança naquele beco? O espiãozinho. Agora me lembro de você... e da sua bola de cristal. Era uma peça de péssima qualidade.

— Fui eu que a fiz!

— Nem sequer pudemos pô-la para funcionar.

Mr. Mandrake recompôs-se com dificuldade e falou com uma voz perigosamente controlada.

— Vejo que deixou de negar as acusações.

— Oh, sim — retorquiu Kitty, e nesse momento sentiu-se, de uma forma consciente, mais viva, como não acontecia há muitos meses. — É verdade, sim. Tudo o que disse e muito mais. Só lamento que tenha chegado tudo ao fim. Não, espere... nego uma coisa. Disse que o abandonei morto naquele beco. Não foi bem assim. Fred queria cortar-lhe a garganta, mas eu o poupei. Sabe-se lá porquê, seu delator miserável. Teria feito um grande favor ao mundo.

— Ela não sabe o que diz! — O pai pusera-se em pé de um salto entre ambos, como se o seu corpo quisesse proteger o do mago das palavras da filha.

— Oh, sabe, sim, sabe. — O rapaz sorria, mas os seus olhos dançavam de raiva. — Vamos, deixe-a falar.

Kitty mal fizera uma pausa para respirar.

— Desprezo-o e a todos os outros magos! Não querem saber de pessoas como nós! Existimos apenas para... lhes fornecer comida e limpar as casas e fazer as roupas! Trabalhamos como escravos nas suas fábricas e oficinas, enquanto vocês e os seus demônios vivem no luxo! Como aconteceu a Jakob! São todos uns insensíveis, malvados, impiedosos e vaidosos!

— Vaidosos? — O rapaz compôs a inclinação do lenço. — Que maravilhoso exagero. Estou apenas bem vestido. A apresentação conta, sabe?

— Nada conta para você... Largue-me, mãe. — Na sua fúria, Kitty pusera-se de pé; a mãe, meio louca de aflição, agarrava-a de lado. Kitty repeliu-a. — Oh — protestou —, se quer um conselho sobre a apresentação, essas calças estão muito justas.

— Sério? — O rapaz também se levantou, o casaco ondulando à sua volta. — Já ouvi o suficiente. Poderá aprimorar à vontade as suas opiniões sobre roupa masculina na Torre de Londres.

— Não! — A mãe de Kitty ajoelhou-se no chão. — Por favor, Mr. Mandrake...

O pai de Kitty levantara-se como se lhe doessem os ossos.

— Não há nada que possamos fazer?

O mago abanou a cabeça.

— Temo que a sua filha tenha escolhido o seu caminho há muito. Lamento-o por vocês, visto serem leais ao Estado.

— Foi sempre uma garota obstinada — afirmou o pai de Kitty em voz fraca —, mas nunca percebi que também fosse má. Devíamos ter aprendido com aquele incidente de Jakob Hyrnek, mas esperávamos que corresse tudo bem, a Íris e eu. E agora, com os nossos exércitos partindo para a guerra na América, e ameaças como nunca se viram por todos os lados, descobrir que a nossa filha é uma traidora e está enterrada até o pescoço no crime... Bem, estou desolado, pode crer que sim, Mr. Mandrake. Sempre tentei educa-la como deve ser.

— Evidentemente que sim — apressou-se o mago a afirmar. — Todavia...

— Costumava levá-la para assistir às paradas militares, para ver os soldados durante os festivais. Levei-a nos ombros no Dia do Império, quando as multidões em Trafalgar saudaram o Primeiro-Ministro durante uma hora. Pode não se lembrar, Mr. Mandrake, já que é tão jovem, mas foi uma ocasião grandiosa. E agora, essa minha filhinha foi-se, e no lugar dela está esta desordeira intratável, que não tem respeito pelos seus pais, pelos seus superiores... nem pelo seu país. — Tinha a voz embargada quando terminou.

— Realmente meu pai é um idiota — disse Kitty.

A mãe continuava semi-ajoelhada no chão, suplicando ao mago.

— A Torre não, Mr. Mandrake, por favor.

— Lamento, Mrs. Jones...

— Não tem importância. Mãe — Kitty não escondeu o seu desprezo —, pode levantar-se. Ele não vai me levar para a Torre. Não vejo como seja possível.

— Ah, é? — O rapaz parecia divertido. — Tem dúvidas?

Kitty olhou para os cantos distantes da sala.

— Parece estar sozinho.

Um leve sorriso.

— Isso é o que lhe parece. Ora bem, um carro oficial aguarda na rua seguinte. Vai acompanhar-me tranqüilamente?

— Não, Mr. Mandrake, não vou. — Kitty atirou-se para a frente; rodou um punho. Apanhou o rapaz no malar com um estalido seco; ele caiu estatelado na poltrona. Kitty passou por cima da mãe ajoelhada e dirigiu-se para a porta, mas um aperto firme no ombro a fez voltar-se. O pai: lívido, os olhos inexpressivos e fixos.

— Pai, largue-me! — Puxou-lhe a manga, mas a sua força era férrea.

— O que você fez? — Olhou-a como se fosse algo monstruoso, uma abominação. — O que fez?

— Pai... Largue-me. Por favor, largue-me.

Kitty debateu-se, mas o pai agarrou-a ainda com mais força. Da sua posição no chão, a mãe estendeu o braço para agarrar a perna de Kitty com indiferença, como se não soubesse se pretendia suplicar ou impedir. Na poltrona, o mago, que abanava a cabeça como um cão atordoado, virou o olhar para eles. Os seus olhos, quando se focaram, estavam cheios de rancor. Proferiu algumas sílabas ásperas numa língua estranha e bateu palmas. Kitty e os pais pararam de se debater; apareceu no ar um vapor salobro não se sabe de onde. No seu centro, uma forma escura: negro-azulada, com cornos esguios e asas duras, medindo-os com um sorriso maldoso.

O mago esfregou o maxilar, abriu-o e fechou-o.

— A garota — ordenou. — Agarre-a e não a solte. Pode puxar-lhe os cabelos com quanta força quiser.

A criatura respondeu com um som desagradável, bateu as asas e saiu voando do seu ninho de vapor. O pai de Kitty soltou um gemido baixo; a pressão no ombro de Kitty afrouxou. A mãe recuou rapidamente até à esquina do aparador e cobriu o rosto.

— Não consegue fazer melhor? — perguntou Kitty. — Um mouler! Por favor. — Estendeu uma mão e, antes que a criatura sobressaltada conseguisse sequer alcança-la, agarrou-a pelo pescoço, a fez girar algumas vezes em volta da sua cabeça e atirou-a na cara do mago, onde arrebentou com um som flatulento. Uma erupção de gotículas purpúreas malcheirosas salpicou-lhe o terno, o casaco e os acessórios envolventes. Ele gritou chocado; agarrando o lenço com uma mão, esboçou um gesto místico com a outra. Imediatamente apareceu no seu ombro um pequeno diabrete de rosto vermelho, que saltou para o aparador e abriu a boca. Saiu um jorro de chamas cor de laranja direto em Kitty, atingindo-a no peito e atirando-a de encontro à porta. A mãe gritou, o pai bradou. O diabrete cabriolou de triunfo...

...e parou, no meio. Kitty endireitava-se, sacudindo o blusão fumegante e olhando para o mago com um sorriso sinistro. Com um movimento rápido, tirou o seu disco de arremesso do blusão e brandiu-o; o mago, que se precipitara para ela em fúria, recuou apressadamente.

— Pode usar as calças justas que quiser, Mr. Mandrake — disse-lhe —, mas nem por isso deixa de ser um pretensioso insignificante. Se me seguir, mato-o. Adeus. Oh, e não se preocupem, mãe, pai — virou-se para olhar cada um calmamente —, não mancharei mais a sua reputação. Não voltarão a ver-me.

Dito aquilo, e deixando os pais, o mago e o diabrete a olharem fixamente para as costas dela, abriu a porta e saiu. Depois, encaminhou-se lenta e deliberadamente para a entrada e transpôs a porta da frente para a noite quente. Na rua, escolheu arbitrariamente uma direção e afastou-se, sem olhar para trás. Só depois de contornar a esquina mais próxima e ter começado a correr é que as lágrimas começaram finalmente a fluir.

 

A fúria de Nathaniel ante o fracasso do seu ataque não conheceu limites. Regressou a Whitehall de péssimo humor, incitando o motorista a velocidades cada vez maiores e batendo com o punho no banco de couro à mais ínfima demora. Dispensou o carro à porta da Administração Interna e, apesar do adiantado da hora, atravessou ruidosamente o pátio até o seu gabinete. Aqui, acendeu bruscamente as luzes, atirou-se para a cadeira e começou a pensar.

Enganara-se redondamente, e o mais humilhante era o fato de ter estado tão próximo do sucesso. Fizera muitíssimo bem em consultar os Arquivos Nacionais à procura do nome de Kathleen Jones: encontrara o original datilografado do julgamento dela — juntamente com o endereço de sua casa — em menos de uma hora. Fizera igualmente bem em ir a casa dos pais dela. Eram uns palermas maleáveis, os dois, e o seu plano inicial — levá-los à detenção da filha caso esta regressasse ao lar paterno, ao mesmo tempo que o informavam secretamente — teria funcionado na perfeição, não fosse a garota ter chegado mais cedo do que o previsto.

No entanto, até isso teria sido ótimo, se ela não evidenciasse inesperadamente algum tipo de defesa pessoal em relação aos demônios menores. Intrincado... É claro que eram óbvios os paralelismos com o mercenário; a verdadeira questão era se detinham poderes próprios ou resultavam de alguma fórmula. Os seus sensores não haviam detectado nada.

Se Bartimaeus tivesse estado com ele, poderia ter lançado alguma luz sobre a origem do poder da garota e talvez evitado a sua fuga. Era uma enorme pena o djinni encontrar-se noutra missão.

Nathaniel olhou para a manga do seu casaco, agora definitivamente marcada com restos do mouler. Murmurou uma imprecação. Insignificante pretensioso... Era difícil não admirar a força de caráter da garota. Não obstante, Kitty Jones iria pagar caro por aquele insulto.

Paralelamente à sua raiva, havia também algum constrangimento. Podia, com enorme simplicidade, ter solicitado apoio policial, ou pedido a Whitwell que providenciasse a colocação de uma esfera de vigilância junto à casa dos pais dela. Mas não o fizera. Quisera que o sucesso fosse exclusivamente seu. A recuperação do Bordão teria feito subir incomensuravelmente a sua posição — o Primeiro-Ministro o teria posto nos píncaros. Talvez fosse promovido, lhe fosse permitida a exploração dos poderes do Bordão... Duvall e Whitwell teriam ficado desconfortavelmente constrangidos.

Mas a garota fugira — e se alguém viesse a saber do seu fracasso, teria de se justificar. A morte de Tallow deixara os seus colegas irritadiços, agitados e ainda mais paranóicos do que o habitual. Não era uma boa ocasião para ser descoberto. Tinha de localizar a garota, e rapidamente.

Naquele momento, um zumbido no ouvido avisou-o da aproximação de magia. Ficou alerta e, um instante depois, viu aparecer Bartimaeus no meio de uma nuvem azul. Apresentava a forma de gárgula. Nathaniel esfregou os olhos e compôs-se.

— Então? Tem algo a informar?

— Muito prazer em te ver também. — A gárgula pousou, ajeitou a nuvem na forma de uma almofada, e sentou-se com um suspiro. — Sim. Veni, vidi, vici* e tudo isso. O afrit foi à vida. Estou estourado. Muito embora, possivelmente, não tanto como você. Está com um aspecto horrível.

 

* «Cheguei, vi e venci.» Palavras de Júlio César ao senado romano a propósito da sua vitória sobre o rei do Ponto (Suetonio, César, 37). (NT)

 

— Livrou-se do demônio? — Nathaniel animou-se. Era uma boa notícia. Teria muita relevância para Devereaux.

— É claro que sim. Afoguei-o no Tamisa. A notícia já se espalhou. E, a propósito, tinha razão... Foi a tal Kitty que afanou o Bordão. Já a apanhou? Não? Bem, é melhor parar de fazer caretas e começar a procurá-la. Eh... — A gárgula olhou mais de perto. — Tem uma nódoa negra na face. Alguém andou em confusão!

— Não andei, não. Não importa.

— Brigando como um moleque de rua! Foi por causa de uma garota? Uma questão de honra? Vamos lá, tem que me contar!

— Esquece, está bem? Ouça, estou satisfeito com o teu êxito. Agora temos de localizar a garota. — Nathaniel passou um dedo cuidadosamente pela nódoa negra. Doeu-lhe.

A gárgula suspirou.

— Falar é fácil. Diga-me, por onde quer que comece?

— Não sei. Preciso pensar. No momento está dispensado. Voltarei a chamá-lo de manhã.

— Muito bem. — A gárgula e a nuvem recuaram na direção da parede e desapareceram.

Quando voltou a ficar tudo sossegado, Nathaniel colocou-se ao lado da escrivaninha, embrenhado em pensamentos. A noite colava-se à janela do gabinete de trabalho; não vinha nenhum som lá de fora, da rua. Estava muito cansado; o corpo pedia-lhe cama. Mas o Bordão era muito importante para se perder tão facilmente. Tinha de conseguir localizá-lo. Talvez um livro de consulta pudesse...

Nathaniel sobressaltou-se com uma pancada súbita na porta do pátio.

Pôs-se à escuta, o coração a bater-lhe com força no peito. Mais três pancadas: suaves, mas decididas.

Quem faria uma visita àquela hora? Saltaram-lhe à mente visões do terrível mercenário; afastou-as, endireitou os ombros e aproximou-se da porta.

Umedecendo os lábios, rodou o puxador e escancarou a porta...

Havia um cavalheiro baixo e arredondado no degrau, piscando os olhos por causa da luz que jorrava do gabinete. Vestia um terno de veludo verde brilhante, polainas brancas e um casaco de viagem cor de malva apertado no pescoço. Na cabeça usava um pequeno chapéu de camurça. Sorriu da surpresa de Nathaniel.

— Olá, Mandrake, meu rapaz. Posso entrar? Já é um pouco tarde.

— Mr. Makepeace! Hum, sim. Faça o favor de entrar.

— Obrigado, meu rapaz, obrigado. — Com um saltinho e um pulo, Mr. Makepeace estava lá dentro. Tirou o chapéu e atirou-o pela sala, indo aterrar com enorme precisão num busto de Gladstone. Piscou o olho para Nathaniel. — Já temos a nossa conta dele, de uma maneira ou de outra, creio. — Rindo da sua pequena piada, Mr. Makepeace encaixou-se numa cadeira.

— É uma hora inesperada, senhor. — Nathaniel estava intrigado. — Posso servir-lhe algo?

— Não, não, Mandrake. Sente-se, sente-se. Vim só para uma conversinha. — Sorriu amplamente — Espero não ter vindo interromper o seu trabalho.

— Certamente não, senhor, estava precisamente pensando em ir para casa.

— Excelente idéia. «O sono é tão vital e às vezes custa tanto a chegar», como diz o Sultão na cena dos banhos... é o Segundo Ato, Terceira Cena de O Meu Amor é uma Donzela Oriental, claro. Viu-a?

— Receio que não, senhor. Era muito jovem. O meu mestre anterior, Mr. Underwood, não costumava ir muito ao teatro.

— Ah, é uma pena. — Mr. Makepeace abanou a cabeça, pesarosamente. — Com uma educação tão deficiente nessa área, admira-me que se tornasse um rapaz tão promissor.

— Mas vi Cisnes da Arábia claro, senhor — apressou-se Nathaniel a acrescentar. — Uma obra maravilhosa. Muito comovente.

— Hum. Vários críticos têm a chamado de minha obra-prima, mas estou confiante de que o meu próximo esforço irá suplantá-la. Tenho-me inspirado nos problemas na América e convergi a minha atenção para o Oeste. Um continente negro sobre o qual sabemos tão pouco, Mandrake. O título da minha presente obra é Saiotes e Carabinas; envolve uma jovem numa floresta interior... — Enquanto falava, Mr. Makepeace efetuou vários gestos complexos com as mãos; elevou-se entre as palmas das suas mãos uma difusão de faíscas cor-de-laranja que flutuaram e se estenderam para se posicionar nos cantos da sala. Assim que se imobilizaram, o dramaturgo interrompeu a frase e piscou o olho para Nathaniel. — Viu o que fiz, rapaz?

— Uma teia sensora, senhor. Para detectar olhos e ouvidos indiscretos.

— Precisamente. E, no momento, está tudo tranqüilo. Ora bem, não vim aqui para lhe falar da minha obra, por mais fascinante que seja. Queria sondá-lo... sendo um rapaz promissor... a respeito de uma determinada proposta.

— Muito me honraria ouvi-la, senhor.

— Inútil será dizer, claro — referiu Mr. Makepeace —, que o conteúdo desta conversinha ficará só entre os dois. Grande mal nos adviria se transpirasse uma palavra para lá destas quatro paredes. Você tem reputação de ter tanto de inteligente quanto de jovem e diligente, Mandrake; estou certo de que compreenderá.

— Claro, senhor. — Nathaniel compôs as suas feições numa máscara de atenção cortês. Por baixo desta, estava perplexo, conquanto lisonjeado. Nathaniel não fazia idéia do motivo que levara o dramaturgo a abordá-lo com tamanho secretismo. Era sobejamente conhecida a estreita amizade de Mr. Makepeace com o Primeiro-Ministro, mas Nathaniel nunca imaginara que o autor fosse sequer mago. Na verdade, depois de ter assistido a duas peças, achara-o improvável; muito pessoalmente, Nathaniel considerara-as obras de péssima qualidade.

— Em primeiro lugar, são devidas felicitações — disse Mr. Makepeace. — O afrit renegado desapareceu... e creio que o seu djinni teve parte ativa na eliminação dele. Muito bem! Pode ter certeza de que o PM o registrou com apreço. Na realidade, foi exatamente por causa disso que aqui vim esta noite. Talvez alguém da sua eficiência possa me ajudar num problema complicado.

Fez uma pausa, mas Nathaniel não se pronunciou. Era melhor ter cautela quando se faziam confidências a um desconhecido. Makepeace ainda não abrira o jogo.

— Esteve na abadia esta manhã — prosseguiu Makepeace — e ouviu o debate no Conselho. Não lhe terá certamente passado despercebido que o nosso amigo, o Chefe de Polícia, Mr. Duvall, obteve enorme influência.

— Sim, senhor.

— Como comandante dos Lobos Cinzentos, há muito que ocupa uma posição de considerável poder, e não esconde o seu desejo de obter ainda mais. Já aproveitou os atuais distúrbios para ganhar autoridade à custa da sua mestra, Ms. Whitwell.

— Percebi uma certa rivalidade — comentou Nathaniel. Achou aconselhável não adiantar mais.

— Palavras muito prudentes, Mandrake. Agora, como amigo pessoal de Rupert Devereaux, não me importo de lhe dizer que tenho seguido com enorme preocupação o comportamento de Duvall. Os homens ambiciosos são perigosos, Mandrake. Desestabilizam as coisas. Os indivíduos grosseiros, pouco civilizados, como Duvall — chocá-lo-á saber que nunca na vida assistiu a uma das minhas estréias — são os piores de todos, visto não terem respeito pelos seus colegas. Há anos que Duvall tem vindo a construir a sua base de poder, mantendo boas relações com o PM, ao mesmo tempo que vai enfraquecendo insidiosamente as outras figuras principais. Há muito que a sua ambição arrogante é óbvia. Acontecimentos recentes, como o malogrado falecimento do nosso amigo Tallow, transtornaram seriamente os nossos ministros principais, e talvez isso dê a Duvall novas oportunidades de aproveitamento. Na verdade... e não me importo de lhe dizer isto, Mandrake, visto ser tão invulgarmente inteligente e leal, com a quantidade de poder que Duvall detém, chego a temer uma rebelião.

Talvez devido aos seus antecedentes dramáticos, Mr. Makepeace possuía uma forma de falar peculiarmente espirituosa: a voz saía aflautada e trêmula, depois descia, tornando-se grave e ressoante. Apesar das cautelas, Nathaniel estava fascinado; aproximou-se mais.

— Sim, meu rapaz, ouviu bem: temo uma rebelião e, como amigo muito leal de Mr. Devereaux, estou ansioso por evitá-la. Ando à procura de aliados nesta matéria. Jessica Whitwell é poderosa, claro, mas não nos damos. Não é grande apreciadora de teatro. Mas você, Mandrake, faz mais o meu gênero. Tenho acompanhado a sua carreira já há algum tempo, desde aquele malogrado caso de Lovelace, na verdade, e acho que podíamos fazer uma bela dupla.

— É muita gentileza sua, senhor. — Nathaniel falou com lentidão. A sua mente estava em brasa: eis aquilo por que esperara: uma linha direta para o Primeiro-Ministro. Ms. Whitwell não era uma verdadeira aliada; deixara-o bem claro quando tencionara sacrificar a carreira dele. Bem, se agisse cautelosamente, poderia avançar rapidamente. Talvez não precisasse sequer da proteção dela.

Mas estava em território perigoso. Tinha de ficar com um pé atrás.

— Mr. Duvall é um adversário de peso — referiu com cautela. — É muito perigoso enfrentá-lo.

Mr. Makepeace sorriu.

— Quão verdadeiro. Mas já não fez algo nesse sentido? Creio que efetuou uma visita aos Arquivos Nacionais esta tarde... e depois partiu apressado para um endereço obscuro em Balham.

As palavras foram fortuitas, mas deixaram Nathaniel rígido do choque.

— Desculpe — balbuciou —, como foi que soube...?

— Sei de muitas coisas, meu rapaz. Como amigo de Mr. Devereaux, há muito que mantenho os olhos e os ouvidos abertos. Não fique tão preocupado! Não faço idéia do que anda tramando, apenas me pareceu uma iniciativa pessoal. — O sorriso dele alargou-se. — Duvall passou a ser encarregado das táticas contra-revolucionárias, mas não creio que o informou das suas atividades.

Era claro que Nathaniel não o fizera. Sentia a cabeça girar, precisava ganhar tempo.

— Hã, o senhor falou de uma forma de colaborarmos — disse. — O que tem em mente?

Quentin Makepeace recostou-se na cadeira.

— O Bordão de Gladstone — referiu. — É isso, sem tirar nem pôr. O assunto do afrit foi resolvido, e a maior parte da Resistência morreu também, segundo parece. Tudo bem. Mas o Bordão é um talismã poderoso; confere enorme poder ao seu portador. Posso adiantar-lhe que, neste preciso momento, Duvall está a envidar todos os esforços para encontrar a pessoa que o roubou. Se conseguir — o mago fitou Nathaniel diretamente, com os seus olhos azuis intensos —, pode decidir usá-lo pessoalmente, em vez de restituí-lo ao Governo. Acredito que a situação é tão grave quanto isso. Grande parte de Londres estaria ameaçada.

— Sim, senhor — respondeu Nathaniel. — Já li sobre o Bordão e creio que é possível acessar facilmente às suas energias através de algumas fórmulas encantatórias simples. Duvall poderia perfeitamente usá-lo.

— Efetivamente. E acho que deveríamos nos antecipar a ele. Se você encontrar o Bordão e o devolver pessoalmente a Mr. Devereaux, a sua posição sairá bastante fortalecida, e Mr. Duvall sofrerá um revés. Também ficarei contente, uma vez que o Primeiro-Ministro irá continuar a financiar as minhas obras a nível mundial. O que lhe parece esta proposta?

A cabeça de Nathaniel era um turbilhão.

— Um... plano interessante, senhor.

— Ótimo, ótimo. Então, estamos de acordo. Temos de agir rapidamente. — Mr. Makepeace inclinou-se para frente e bateu no ombro de Nathaniel.

Nathaniel pestanejou. No seu entusiasmo camaradesco, Makepeace estava a tomar como absolutamente certa a sua aceitação. A proposta era sedutora, claro, mas tinha dúvidas, sentia-se levado a reboque; precisava de um tempo para decidir o que fazer. No entanto, tempo era o que não tinha. O fato do mago ter conhecimento das suas atividades apanhara-o terrivelmente desprevenido, e não dominava a situação. Nathaniel tomou uma decisão relutante: se Makepeace sabia da sua visita a Balham, era inútil escondê-la.

— Já efetuei algumas investigações — afirmou constrangidamente —, e creio que o Bordão poderia estar nas mãos da garota, uma tal Kitty Jones.

O mago anuiu em aprovação.

— Vejo que não me enganei ao tê-lo em alta conta, Mandrake. Alguma idéia de onde ela possa estar?

— Eu... eu quase a apanhei na casa dos pais esta tarde, senhor. Eu... perdi-a por uma questão de minutos. Não acredito que tivesse o Bordão consigo na altura.

— Hum... — Mr. Makepeace coçou o queixo; não fez menção de interrogar Nathaniel sobre os pormenores. — E agora ela terá fugido. Será difícil de encontra-la... a menos que possamos faze-la sair do esconderijo. Prendeu os pais dela? Umas torturas devidamente anunciadas poderiam atrair a garota.

— Não, senhor. Pensei nisso, mas não eram muito chegados a ela. Não me parece que se entregasse por causa deles.

— Mesmo assim, é uma opção. Mas tenho outra idéia possível, Mandrake. Tenho um contato infiltrado no perigoso submundo londrino. Está relacionado com mais mendigos, ladrões e batedores de carteiras do que se conseguiria enfiar num teatro. Vou falar com ele esta noite; a ver se consegue nos informar de algo sobre esta Kitty Jones. Com um bocado de sorte, poderemos agir amanhã. Entretanto, sugiro que vá para casa e procure dormir. E, lembre-se, corremos um grande risco, meu rapaz, e Mr. Duvall é um rival perigoso. Nem uma palavra seja a quem for sobre este nosso pequeno acordo.

 

Meio-dia, e as sombras estavam no ponto mínimo. O céu lá em cima era azul-acinzentado, salpicado de nuvens simpáticas. O sol incidia satisfeito nos telhados do subúrbio. No geral, era uma hora morta, uma altura para empresas honestas e trabalhos decentes. Como se para prová-lo, passavam na rua alguns comerciantes laboriosos, empurrando carrinhos de mão de casa em casa. Tiravam os bonés para as velhinhas, faziam festas nas criancinhas, sorriam cortesmente enquanto mostravam os seus produtos. Faziam-se negócios, trocavam-se bens e dinheiro; os comerciantes iam-se embora assobiando cantigas.

Custava a acreditar que estivesse para acontecer algo de ruim.

Empoleirada nas profundezas do emaranhado de um sabugueiro recuado da rua, uma forma preta e curvada observava a cena. Como se fortuitamente, era um monte de penas sujas, com bico e patas salientes. Um corvo de tamanho médio: uma ave de mau e desleixado agouro. O animal mantinha os seus olhos injetados de sangue cravados nas janelas de cima de uma grande construção irregular, no outro extremo de um jardim cheio de ervas.

Mais uma vez eu matava o tempo, mas estava atento.

O que convém não esquecer nesta questão do chamado é que, a bem dizer, nunca temos culpa de nada. Se um mago nos obriga a uma tarefa, nós a fazemos — e rapidamente — senão levamos com o Fogo Abrasador. Com aquele tipo de sentença a pairar sobre a cabeça, não tardamos a pôr de lado quaisquer escrúpulos. Quer isto dizer que durante os cinco mil anos em que andara de um lado para o outro pela Terra, me vira involuntariamente envolvido numa quantidade de empresas mesquinhas.73 Não que isso me afete, claro, mas até djinn calejados como nós por vezes nos sentimos um pouco sujos com as coisas que somos obrigados a fazer.

 

73 Houve a lamentável derrubada de Akhenaton, por exemplo. Nefertiti nunca me perdoou por isso, mas o que eu podia fazer? A culpa foi dos Sumos Sacerdotes de Rá, não minha. Depois houve aquele caso constrangedor do anel mágico de Salomão, que um dos seus rivais me encarregou de afanar e atirar ao mar. Precisei de arranjar rapidamente argumentos sólidos naquela ocasião, posso garantir-lhes. Houve também todos os outros inúmeros assassinatos, raptos, roubos, calúnias, intrigas e logros... pensando bem, hoje em dia as missões genuínas e não mesquinhas são bem raras e só muito de quando em quando.

 

Em pequena escala, esta era uma dessas ocasiões.

O corvo estava pousado na sua árvore, todo enlameado, mantendo afastadas as outras aves através do expediente simples da libertação de um Fedor. Não queria qualquer companhia nessa altura.

Sacudi o bico ligeiramente desanimado. Nathaniel. O que se podia dizer? Apesar das nossas esporádicas74 divergências, chegara a ter esperanças de que ele pudesse estar ligeiramente distante do caminho normalmente seguido pelos magos. Revelara grande iniciativa no passado, por exemplo, e mais do que uma pontinha de altruísmo. Quase me parecera possível que conseguisse seguir o seu próprio caminho na vida, em vez de percorrer a velha estrada de poder/riqueza/notoriedade escolhida por todos os seus colegas.

 

74 Certo, está bem: eternas.

 

Mas fizera-o? Qual o quê!

Os sinais eram agora piores do que nunca. Possivelmente ainda transtornado por ter presenciado a morte do seu colega Tallow, o meu amo fora seco ao ponto da rudeza quando me chamara naquela manhã. Estava extremamente pálido e muito taciturno. Nada de conversa animada comigo, nada de finas amenidades. Não recebi qualquer elogio por ter me livrado do afrit renegado na noite da véspera e, apesar de ter mudado para umas formas femininas sedutoras, não consegui nem um só progresso da parte dele. O que recebi efetivamente, e sem demora, foi uma nova tarefa — daquelas que se encaixam perfeitamente na categoria de «desagradáveis e deploráveis». Era uma nova faceta de Nathaniel: pela primeira vez, descia a semelhantes profundezas, e tenho de confessar que isso me surpreendeu.

Mas ordens são ordens. Por isso ali estava, uma hora ou duas depois, pousado num arbusto em Balham.

Fazia parte das minhas instruções tentar usar da máxima discrição, e fora por isso que eu não entrara de rompante pelo teto.75 Sabia que a minha presa estava em casa e provavelmente lá em cima; por isso aguardei, com os meus olhos miudinhos fixos nas janelas.

 

75 Recusei este procedimento também por motivos estéticos. Detesto deixar confusão atrás de mim.

 

Não era uma casa de mago, esta. A tinta a cair, os caixilhos das janelas podres, as ervas daninhas a crescerem pelos buracos nas telhas do alpendre. Uma propriedade de tamanho considerável, é certo, mas degradada e um pouco triste. Havia até alguns brinquedos de criança enferrujados enterrados na erva de mais de trinta centímetros de altura.

Passada uma hora ou mais de imobilidade, o corvo começou a ficar nervoso. Muito embora o meu amo me tivesse pedido discrição, exigira também rapidez. Não tardaria a que eu tivesse de parar de matar o tempo e resolver de vez o assunto. Mas o ideal era esperar que a casa ficasse vazia, e a minha vítima sozinha.

Como se em resposta a esta necessidade, a porta da frente abriu-se de repente e saiu de lá uma mulher grande e descomunal, com um saco de compras de lona. Passou bem por baixo de mim e começou a descer a rua. Não me preocupei em tentar esconder-me. Para ela, eu era apenas uma ave. Não havia nexos, nem defesas mágicas, nem sinais de que alguém aqui pudesse ver para lá do primeiro plano. Em outras palavras, não se podia dizer que fosse um verdadeiro teste aos meus poderes. Toda a missão era sórdida do princípio ao fim.

Depois — um movimento numa janela. Um pedaço das cortinas de rendas cinzentas e empoeiradas foi afastado e um braço magro estendeu-se para soltar o fecho e empurrar o caixilho para cima. Era a minha deixa. O corvo levantou vôo e bateu as asas em direção ao jardim, qual par de culotes a esvoaçar ao vento. Pousou no parapeito da janela em questão e, com um arrastar das suas patas escamosas, avançou ao longo das cortinas sujas de renda até encontrar um pequeno rasgão vertical. O corvo enfiou a cabeça e espreitou lá para dentro.

A principal finalidade do cômodo era evidente pela cama encostada à parede do fundo: um edredon amarfanhado indicava que se encontrara ocupada até há pouco tempo. Mas a cama estava agora parcialmente obscurecida por uma quantidade colossal de pequenos tabuleiros de madeira, cada um subdividido em compartimentos. Alguns continham pedras semi-preciosas: ágata, topázio, opala, granada, jade e âmbar, todas facetadas, polidas e dispostas por tamanhos. Outros continham faixas de metal fino, ou pedaços de marfim esculpido, ou triângulos de tecido colorido. De um lado do quarto, fora montada uma bancada de trabalho tosca em todo o comprimento, e esta encontrava-se coberta com mais tabuleiros, juntamente com uma série de instrumentos esguios e frascos de cola malcheirosa. Num canto, cuidadosamente amontoada e identificada, uma pilha de livros com novas encadernações simples de couro de uma dúzia de cores. Marcas de lápis nas encadernações indicavam o lugar onde ia ser acrescentada uma ornamentação, e no centro da escrivaninha, banhada por um mar de luz proveniente de dois postes de pé alto, estava em curso uma dessas operações. Um volume gordo de pele de crocodilo castanha recebia um padrão de estrelas em minúsculas granadas vermelhas na capa da frente. Enquanto o corvo assistia do parapeito da janela, a última pedra levou um pingo de cola na parte inferior e foi colocada no lugar com uma pinça.

O jovem que eu viera buscar estava profundamente embrenhado no seu trabalho e, consequentemente, não dera pela minha presença. Vestia um roupão bastante usado e um pijama azul desbotado. Os seus pés, que se encontravam cruzados debaixo do banco, estavam cobertos com um enorme par de meias de dormir listradas. Tinha cabelo preto comprido — dava-lhe pelos ombros — e, numa escala de proporção cabelos/estado de gordura, a cabeleira de Nathaniel ficava manifestamente para trás. O ar no quarto cheirava fortemente a couro, a cola e ao odor do rapaz.

Bem, temos de aproveitar as ocasiões. Estava na hora de agir.

O corvo soltou um suspiro, agarrou a cortina de renda com o bico e, com um movimento rápido da cabeça, rasgou o tecido ao meio.

Desci para o parapeito interior e saltei para a pilha de livros mais próxima, no preciso instante em que o rapaz levantou a cabeça do seu trabalho.

Estava muito fora de forma: a carne pendia pesadamente à sua volta, e os seus olhos evidenciavam cansaço. Avistou o corvo e passou uma mão pelo cabelo de uma forma algo distraída. Perpassou-lhe no rosto uma expressão fugaz de pânico, depois mergulhou na resignação. Pousou a pinça em cima da mesa.

— Que tipo de demônio é você? — perguntou.

O corvo ficou ligeiramente embananado.

— Está usando lentes, ou quê?

O rapaz encolheu os ombros penosamente.

— A minha avó costumava dizer que os demônios apareciam sob a forma de corvos. E as aves normais não entram rasgando cortinas, não é?

Esta última parte era efetivamente verdade.

— Bem, se quer saber — disse-lhe —, sou um djinni de enorme antigüidade e poder. Falei com Salomão e Ptolomeu, e persegui os Povos do Mar* na companhia de reis. Presentemente, porém, sou um corvo. Mas chega de falar de mim. — Adotei um tom mais eficiente, prático. — Você é o comum Jakob Hyrnek? — Um aceno. — Ótimo. Prepare-se...

 

* Ou «Bárbaros do Norte», nome dado pelos Egípcios aos invasores indo-europeus que, vindos da zona do Mar Egeu, chegaram ao Próximo Oriente nos séculos XI-XII, todos os Estados foram afetados, alguns destruídos (Império Hitita, Ougarit). Os Egípcios repeliram-nos duas vezes. (NT)

 

— Sei quem te mandou.

— Hã... sabe?

— Há muito tempo que estava à espera disso.

O corvo piscou os olhos, surpreendido.

— Caramba. Eu só soube esta manhã.

— Faz sentido. Ele resolveu acabar o trabalho. — O rapaz enfiou as mãos fundo nos bolsos do roupão e suspirou pesarosamente.

Fiquei confuso.

— Resolveu? E que trabalho era este? Ouça... pare de suspirar como uma garota e explique-se.

— Matar-me, evidentemente — retorquiu Hyrnek. — Presumo que seja um demônio mais eficiente do que o último. Conquanto devo admitir que ele metia muito mais medo. Parece um bocado porco e magricela. E pequeno.

— Espera aí, um momento. — O corvo esfregou os olhos com a ponta de uma asa. — Deve haver aqui algum engano. O meu amo não sabia da tua existência até ontem. Ele mesmo me disse.

Foi a vez do rapaz se mostrar perplexo.

— Por que haveria Tallow de dizer isso? Está doido, ou quê?

— Tallow? — O corvo estava praticamente de olhos arregalados de tanta confusão. — Calma aí! O que ele tem a ver com isto?

— Ele mandou o macaco atrás de mim, claro. Por isso, presumi, muito naturalmente, que...

Levantei uma asa.

— Vamos recomeçar. Mandaram-me procurar Jakob Hyrnek nesta casa. Jakob Hyrnek é você, não é verdade? Certo. Até aqui, tudo bem. Agora, não sei nada sobre um macaco verde... e deixe que te diga, como quem não quer nada: o aspecto não interessa nada. Posso não estar muito apresentável neste momento, mas sou um pouco mais perverso do que aparento.

O rapaz anuiu, pesaroso.

— Bem que achei mesmo.

— Pode crer, meu. Sou mais desagradável do que qualquer macaco que possa vir a defrontar, convença-se disso. Agora, onde é que eu estava? Perdi o fio da meada... Oh, sim... Não sei nada sobre o macaco e muito menos fui chamado por Tallow. O que seria impossível, de qualquer forma.

— Porquê?

— Porque ele foi engolido por um afrit a noite passada. Mas não interessa...

Mas, para o rapaz, interessava. Ante esta notícia, o seu rosto iluminou-se: os olhos arregalaram-se, a boca curvou-se para cima e para fora num longo sorriso lento. Todo o seu corpo, que estivera curvado em cima do banco como um saco de cimento, começou de repente a endireitar e ganhou nova vida. Os seus dedos agarraram a extremidade da mesa com tanta força que as articulações estalaram.

— Ele morreu? Tem certeza?

— Vi com estes olhos. Bem... não foram bem estes. Na altura eu era uma serpente.

— Como foi que aconteceu? — Parecia deveras interessado.

— Um chamado que deu errado. O palerma leu mal as palavras, ou algo assim.

O sorriso de Hyrnek alargou-se.

— Ele estava lendo um livro?

— Um livro, sim... é geralmente onde se encontram as fórmulas encantatórias. Agora, por favor, podemos voltar ao assunto em mãos? Não tenho o dia todo.

— Está bem, mas estou-lhe muito grato pela informação. — O rapaz esforçou-se por se recompor, mas continuava a sorrir com uma expressão tola e a soltar pequenas risadas. Já estava me pondo doido.

— Olha, estou falando sério. Aviso-lhe que tenha cuidado... Oh, diabo! — O corvo dera um passo ameaçador em frente e enfiara a pata num frasco de cola. Após duas tentativas consegui atirá-lo para um canto do quarto, e comecei a limpar os dedos na esquina de um tabuleiro de madeira. — Agora ouça — disse furiosamente, ao mesmo tempo que raspava. — Vim aqui... não para te matar, como presumiu... mas para te levar, e advirto-o de que não deverá oferecer resistência.

Aquelas palavras incutiram-lhe algum senso.

— Levar-me? Para onde?

— Já vai ver. Faça o favor de se vestir? Não posso lhe dar muito tempo.

— Não. Não. Não posso! — De repente, ficara transtornado, esfregando a cara e coçando as mãos.

Tentei tranqüilizá-lo.

— Não te farei mal...

— Mas eu nunca saio. Nunca!

— Não tem escolha, filho. Agora, que tal umas calças? As do pijama estão muito largas e eu vôo com velocidade.

— Por favor. — Estava desesperado, suplicava. — Eu nunca saio. Não o faço há três anos. Olhe para mim. Olhe para mim. Vê?

Olhei para ele inexpressivamente.

— Então? É um bocado atarracado. Há piores do que você lá fora nas ruas, e resolveria o problema facilmente se fizesse exercício, em vez de ficar com o rabo colado na cadeira o dia todo. Não é vida para um rapaz em crescimento passar o tempo a gravar relevos em livros de fórmulas. Acabará também por te dar cabo da vista.

— Não... a minha pele! E as minhas mãos! Olhe para elas! São medonhas! — gritava agora, agitando as mãos diante do meu bico e afastando o cabelo do rosto.

— Desculpe, eu não...

— A coloração, claro! Olhe para ela! Por todo o corpo. — E, agora que o mencionava, reparei numa série de faixas verticais negro-acinzentadas que se estendiam pelo rosto e sobre as costas das mãos.

— Oh, isso — referi. — O que tem? Achei que tivesse feito de propósito.

Hyrnek soltou então uma espécie de gargalhada soluçada, deixando antever que estivera muito tempo mergulhado na solidão. Não lhe dei tempo para falar.

— Foi um Cilindro Negro, não foi? — prossegui. — Bem, as tribos de Bantos do Grande Zimbabue costumavam fazer isso — entre outras fórmulas — para parecerem mais atraentes. Era considerado muito chique um jovem noivo ter o corpo todo coberto com uma camada de riscas antes do casamento, e as mulheres também concordavam com isso, mas de uma forma mais localizada. Só os ricos se podiam permiti-lo, claro, pois os feiticeiros levavam couro e cabelo. De qualquer forma, do ponto de vista deles, está muito aceitável. — Fiz uma pausa. — Com exceção do teu cabelo, que está horroroso. Mas o do meu amo também está, e isso não o impede de andar por aí em plena luz do dia. Ora bem — no meio de tudo aquilo, parecera-me ouvir uma porta bater em algum lugar na casa —, está na hora de irmos. Receio que não haja tempo para as calças; terá que arriscar a tua sorte com as correntes ascendentes.

Saltei para a mesa. O rapaz saiu do banco, subitamente em pânico, e começou a recuar.

— Não! Deixe-me em paz!

— Lamento, não é possível. — Estava a fazer muito barulho; sentia movimento num cômodo lá embaixo. — Não me culpe, não tenho outra alternativa.

O corvo pulou para o chão e começou a mudar, atingindo um tamanho sinistro. O rapaz gritou, virou-se e foi de encontro à porta. Veio um grito de resposta do outro lado; parecia maternal. Ouvi passos pesados subindo as escadas a correr.

Jakob Hyrnek agarrara-se ao puxador, mas nem sequer chegou a gira-lo. Um bico dourado gigante desceu sobre a gola do seu roupão; garras de aço rodaram no carpete, cortando as tábuas por baixo. Foi levantado e sacudido, como uma cria indefesa pendendo das garras da mãe. Asas poderosas bateram uma vez, derrubando os tabuleiros e atirando as pedras preciosas de encontro às paredes. Uma rajada de vento; o rapaz saiu pela janela. Uma asa de penas escarlates estendeu-se para envolve-lo; vidro a partir-se por toda volta, ar frio a fustigar-lhe o corpo. Gritou, debateu-se como um louco — e desapareceu.

Alguém que chegasse à parede escancarada atrás de nós não teria visto nada, ouvido nada, exceto talvez a sombra de uma ave grande a passar rapidamente por cima da erva e alguns gritos distantes subindo em direção ao céu.

 

Naquela tarde, Kitty passou três vezes pelo Druids’ Coffee House. Nas duas primeiras ocasiões não viu nada nem ninguém de interesse, mas na terceira, a sua sorte mudou. Por trás de um ajuntamento de turistas europeus excitados, que ocupavam várias mesas isoladas, distinguiu a figura calma de Mr. Hopkins, tranqüilamente sentado sozinho, mexendo o seu expresso com uma colher. Parecia absorto na sua ocupação, colocando distraidamente cubo de açúcar atrás de cubo de açúcar na mistura escura, quase negra. Mas não tomou uma única gota.

Durante um longo tempo, Kitty observou-o das sombras da estátua no centro da praça. Como sempre, o rosto de Mr. Hopkins era suave e inexpressivo: Kitty não conseguiu perceber no que estaria a pensar.

A traição dos pais deixara Kitty mais exposta do que nunca, sem amigos e sozinha, e uma segunda noite de fome no porão convencera-a da necessidade de falar com o único aliado que tinha ainda esperança de encontrar. Nick, estava plenamente convencida, encontrar-se-ia muito bem escondido; mas Mr. Hopkins, sempre um pouco distanciado do resto da Resistência, podia ainda ser contactado.

E ei-lo, sem dúvida, ali, esperando no local combinado; no entanto, Kitty continuava a hesitar, cheia de incertezas.

Talvez não fosse estritamente por culpa de Mr. Hopkins que o assalto correra tão mal. Talvez nenhum dos documentos antigos que estudara mencionasse o servo de Gladstone. Todavia, Kitty não podia deixar de associar os seus conselhos cautelosos ao terrível desfecho no túmulo. Mr. Hopkins apresentara-os ao benfeitor desconhecido; ajudara a orquestrar todo o plano. A verdade é que a sua estratégia fora, no mínimo, calamitosamente deficiente; e, pior ainda — devido à sua imprudência, pusera-os a todos em perigo.

Com o desaparecimento dos outros, e os magos a persegui-la, restavam poucas opções a Kitty. Acabou por sair de trás da estátua e atravessar o calçamento empedrado até à mesa de Mr. Hopkins.

Sem o cumprimentar, puxou uma cadeira e sentou-se. Mr. Hopkins levantou a cabeça; os seus olhos cinzento-claros avaliaram-na. A sua colher emitiu umas pequenas batidinhas nas extremidades da xícara enquanto mexia. Kitty olhou para ele, impassível. Um empregado de mesa atarefado aproximou-se; Kitty fez um pedido apressado e esperou que ele se afastasse. Não disse nada.

Mr. Hopkins retirou a colher, bateu com ela na borda da xícara e pousou-a cuidadosamente na mesa.

— Já soube o que aconteceu — disse, bruscamente. — Há mais de um dia que ando à sua procura.

Kitty soltou uma gargalhada forçada.

— Não é o único.

— Deixe que lhe diga desde já — Mr. Hopkins calou-se quando o empregado voltou, colocando um batido e um bolo com cobertura diante de Kitty com um floreado, e partiu. — Deixe que lhe diga desde já que... lamento muito. Foi uma terrível tragédia. — Fez uma pausa; Kitty olhou para ele. — Se lhe serve de algum consolo, o meu... informante ficou profundamente transtornado.

— Obrigada — retorquiu Kitty. — Não serve.

— A informação que tínhamos... e que partilhamos aberta e integralmente com Mr. Pennyfeather... não mencionava um guardião — continuou Mr. Hopkins, imperturbável. — A Pestilência, sim, mas nada mais. Se soubéssemos, nunca teríamos aprovado semelhante esquema.

Kitty olhou para o seu batido; não confiava em si mesma para falar. De repente, sentiu-se muito mal.

Mr. Hopkins observou-a por um momento.

— Os outros todos estão...? — começou, depois parou. — É a única que...?

— Tudo me levaria a crer — respondeu Kitty com azedume — que, com uma rede de informação tão sofisticada como a sua, já soubesse neste momento. — Suspirou. — Nick também sobreviveu.

— Ah? Verdade? Ótimo, ótimo. E onde está Nick?

— Não faço a menor idéia. Nem me interessa. Ele fugiu, enquanto os outros lutavam.

— Ah. Estou vendo. — Mr. Hopkins voltou a brincar com a colher. Kitty olhou para o colo. Notava agora que não sabia o que lhe perguntar, que ele estava tão desorientado quanto ela. Era inútil: estava completamente sozinha.

— É claro que agora não interessa — começou Mr. Hopkins, e algo no tom dele levou Kitty a fitá-lo com dureza. — Atendendo à natureza da tragédia que ocorreu, é ilógico e irrelevante, claro, mas presumo... dados os perigos inesperados que encontrou, e o infortúnio de perder tantos dos seus admiráveis companheiros... que não conseguiu trazer nada de valor do túmulo?

Esta afirmação era tão incoerente e sinuosa que surtiu de imediato o efeito contrário ao pretendido pelo cauteloso interlocutor. Os olhos de Kitty arregalaram-se de incredulidade; suas sobrancelhas desceram lentamente numa expressão carrancuda.

— Tem razão — redarguiu com secura. — É irrelevante. — Comeu o bolo coberto em duas bocadas e bebeu um gole de batido.

Mr. Hopkins recomeçou a mexer o café.

— Mas, nesse caso, não trouxe nada? — insistiu. — Não conseguiu... — A voz dele diminuiu de intensidade.

Quando Kitty se sentara à mesa, tivera a intenção vaga de mencionar o Bordão a Mr. Hopkins; afinal, não lhe servia para nada, e era possível que o benfeitor, que o quisera para a sua coleção, pudesse efetuar algum pagamento em troca — a sua principal preocupação era arranjar dinheiro para sobreviver. Presumira, dadas as circunstâncias, que Mr. Hopkins fosse dar o assunto por encerrado; não contara que se atrevesse a interrogá-la tão descaradamente sobre o que trouxera do assalto. Pensou em Anne, ao serem perseguidas pela morte na nave às escuras, aflita por ter largado a mochila com os tesouros. Os lábios de Kitty formaram uma linha dura.

— Retiramos todo o conteúdo do túmulo — disse. — Mas não pudemos fugir. Talvez Nick conseguiu trazer algo; não sei.

Os olhos pálidos de Mr. Hopkins observaram-na.

— Mas você... não trouxe nada?

— Larguei a minha mochila.

— Ah. Claro. Estou vendo.

— Tinha lá dentro a capa, entre outras coisas. Terá de pedir desculpas ao seu informante; era um dos objetos que ele queria, não era?

O homem esboçou um gesto desprendido.

— Não me recordo. Por acaso não sabe o que foi feito do Bordão de Gladstone, não é? Creio que era realmente o que ele pretendia.

— Imagino que ficou por lá.

— Sim... Só que não foi mencionada a sua localização na abadia, nem qualquer indício de estar na posse do esqueleto que andou passeando por Londres.

— Então Nick levou-o... não sei. O que importa? Não é valioso, não é? Segundo me disse. — Kitty falou casualmente, mas ia observando o rosto do outro. Ele abanou a cabeça.

— Não. Precisamente. O meu informante irá ficar decepcionado, é tudo. Estava mesmo muito interessado nele, e teria pago uma quantia generosa para tê-lo nas suas mãos.

— Ficamos todos decepcionados — disse Kitty. — A maior parte de nós morreu. Ele vai ter de se conformar.

— Sim. — Mr. Hopkins tamborilou com os dedos na toalha; parecia estar a pensar. — Bem — afirmou, mais animado —, e você, Kitty? Quais são os seus planos agora? Onde está instalada?

— Não sei. Terei alguma idéia.

— Necessita de ajuda? Um lugar onde ficar?

— Não, obrigada. Seria melhor mantermo-nos afastados. Os magos localizaram a minha família; não quero que o senhor... ou o seu informante... corram qualquer risco. — Tampouco pretendia continuar a relacionar-se com Mr. Hopkins. A sua manifesta despreocupação com a morte dos companheiros dela alertara-a; agora só queria ficar o mais longe possível dele. — Na verdade — empurrou a cadeira para trás —, acho que vou embora.

— A sua preocupação faz-lhe jus. Obviamente, desejo-lhe muita sorte. Antes de ir, porém — Mr. Hopkins coçou o nariz, como se pensasse na forma mais adequada de expressar algo um pouco difícil —, acho que deveria saber algo que apurei junto de uma das minhas fontes. Afeta-a bastante de perto.

Kitty ficou a meio de se levantar.

— A mim?

— Receio que sim. Soube-o há pouco mais de uma hora. É muito secreto; a maior parte do Governo ainda não tem conhecimento. Um dos magos que a procura... o nome dele é John Mandrake, creio... tem andado a investigar o seu passado. Soube que há alguns anos uma Kathleen Jones compareceu nos Tribunais Judiciais, acusada de agressão.

— E depois? — O rosto de Kitty continuava impávido, mas o seu coração começara a bater depressa. — Isso foi há muito tempo.

— Efetivamente. Ao procurar nos arquivos do tribunal, ele descobriu que lançara um ataque não provocado a um mago principal, pelo qual foi multada. Ele pensa tratar-se de um dos primeiros ataques da Resistência.

— Que absurdo! — Kitty explodiu de fúria. — Foi um acidente! Nós não imaginávamos...

— Além disso — prosseguiu Mr. Hopkins —, ele sabe que não desencadeou este ataque sozinha.

Kitty sentou-se muito direita.

— O quê? Ele não pensa...

— Mr. Mandrake acredita — se está certo ou errado, isso talvez não interesse neste momento — que o seu amigo... ora, como era o nome dele?... Jakob qualquer coisa...

— Hyrnek. Jakob Hyrnek.

— Isso mesmo. Ele acredita que Master Hyrnek também está ligado à Resistência.

— Isso é ridículo...!

— Mesmo assim, esta manhã mandou o demônio dele buscar o seu amigo para ser interrogado. É uma pena, pensei que fosse deixa-la preocupada.

Kitty levou alguns segundos a recompor-se. Quando falou, foi com hesitação.

— Mas há anos que eu não vejo Jakob. Ele não sabe de nada.

— Mr. Mandrake irá sem dúvida acabar descobrindo.

Kitty sentia a cabeça a girar. Procurou arrumar as idéias.

— Para onde o levaram? A... a Torre?

— Espero, minha querida, que não esteja pensando em fazer alguma loucura — murmurou Mr. Hopkins. — Mr. Mandrake é considerado um dos jovens magos mais poderosos. Um rapaz talentoso, um dos favoritos do Primeiro-Ministro. Não seria aconselhável...

Kitty fez um esforço para não gritar. Cada momento que desperdiçassem, Jakob poderia estar a ser torturado; demônios piores do que o esqueleto poderiam estar a cercá-lo, a acicatá-lo com as suas garras... E ele estava completamente inocente; não tivera nada de nada a ver com isso. Como fora tola! Os seus atos irrefletidos nos últimos anos tinham acabado por pôr em perigo alguém por quem era capaz de dar a própria vida.

— Eu tentaria esquecer o jovem Hyrnek — dizia Mr. Hopkins. — Não pode fazer nada...

— Por favor — pediu. — É a Torre de Londres?

— Na realidade, não é. Seria essa a via normal. Mas parece-me que Mr. Mandrake está tentando fazer as coisas discretamente; para obter vantagem sobre rivais no Governo. Ele raptou o seu amigo em segredo, e levou-o para um esconderijo a fim de interroga-lo. É pouco provável que esteja fortemente guardado. Mas haverá demônios...

— Já conheço Mandrake — Kitty interrompeu-o furiosamente. Inclinara-se rapidamente para frente, tocando no copo de batido, que tombou, entornando o líquido na toalha. — Já o enfrentei, desafiei-o e fui-me embora sem olhar para trás. Se esse rapaz fizer mal a Jakob — disse —, se ele o magoar de alguma maneira, acredite em mim, Mr. Hopkins, mato-o com as minhas próprias mãos. A ele e a qualquer demônio que me apareça no caminho.

Mr. Hopkins levantou as mãos da toalha e baixou-as. Era um gesto que poderia ter o significado que se quisesse.

— Mais uma vez — insistiu Kitty. — Sabe onde fica esse esconderijo?

Os olhos cinzento-claros olharam-na fixamente durante algum tempo; depois pestanejaram.

— Sim — respondeu maliciosamente. — Por acaso sei o lugar.

 

Kitty nunca entrara no armazém secreto de Mr. Pennyfeather, mas sabia como funcionava o mecanismo da porta. Puxou a alavanca de metal escondida no meio dos detritos no chão do porão, empurrou simultaneamente os tijolos por cima da pilha de toras. A alvenaria deslocou-se para dentro com um movimento lento e pesado; notou-se logo um súbito cheiro químico e abriu-se uma fenda na parede.

Kitty esgueirou-se por ela e deixou que a porta se fechasse atrás de si.

A mais profunda negrura. Kitty ficou estática. Depois estendeu as mãos e tateou com hesitação de ambos os lados, procurando algum tipo de interruptor. Primeiro, para seu enorme horror, encontrou algo frio e peludo; no momento em que aquela mão recuou subitamente, a outra fechou-se em volta de um fio suspenso.

Puxou-o: um estalido, um zumbido; acendeu-se uma luz amarela suave.

O objeto peludo, percebeu de imediato com alívio, era o capuz de um velho casaco, pendurado num cabide. A seu lado pendiam três sacolas. Kitty escolheu a maior, passou a faixa pela cabeça e atentou no resto do cômodo.

Era uma câmara pequena, rodeada de prateleiras toscas de madeira do chão ao teto. Estavam aqui os restos da coleção de Mr. Pennyfeather: os artefatos mágicos que Kitty e o resto do grupo tinham conseguido roubar ao longo dos anos anteriores. Muitos objetos já haviam sido retirados para o assalto à abadia, mas restavam muitos ainda. Filas ordenadas de globos explosivos e vidros mouler dispostos lado a lado com uma ou duas esferas de elementos, paus de inferno, estrelas de arremesso em prata e outras armas de manejo fácil. Brilhavam intensamente com a luz: parecia que Mr. Pennyfeather as conservara bem polidas. Kitty imaginou-o a descer ao porão e a regozijar-se sozinho com a sua coleção. Por algum motivo, a idéia deixou-a enervada. Meteu mãos à obra, guardando o máximo possível de objetos na sacola.

A seguir havia uma série de punhais, estiletes e outras facas. Alguns conteriam magia; outros eram simplesmente muito afiados. Escolheu dois, enfiando um de prata num compartimento secreto no interior da bota direita, colocando o outro no cinto. Quando se endireitava, o blusão descia sobre ele, escondendo-o da vista.

Outra prateleira continha várias garrafas de vidro empoeiradas, de vários tamanhos, quase todas cheias de líquido incolor. Tinham sido levadas de casas de magos, mas a sua finalidade permanecia uma incógnita. Kitty deu uma olhada, depois prosseguiu.

A última série de prateleiras estava cheia de alto a baixo com objetos para os quais Mr. Pennyfeather não encontrara utilidade; joalheria, ornamentos, peças de vestuário, dois quadros da Europa Central, conjuntos de objetos velhos asiáticos, conchas e pedras de cores berrantes e estranhos padrões e sinuosidades. Stanley ou Gladys tinham detectado algum tipo de aura mágica em cada um, mas a Resistência não os conseguira ativar. Nesses casos, Mr. Pennyfeather limitara-se a guardá-los.

Kitty tencionara ignorar estas prateleiras mas, ao regressar à porta secreta, viu, meio escondido ao fundo, um pequeno disco baço, todo coberto de teias de aranha.

A bola de cristal de Mandrake.

Sem saber muito bem por que o fazia, Kitty pegou no disco e enfiou-o, com teias de aranha e tudo, no bolso interior do blusão. Depois voltou para a porta, que se abria deste lado com um puxador convencional. Rodou-o e saiu para o porão.

O bordão continuava no chão, o lugar para onde o atirara naquela manhã. Num impulso súbito, Kitty pegou nele e levou-o para o cômodo secreto. Apesar de não ter valor, os seus amigos haviam morrido ao recolhê-lo; o mínimo que podia fazer era guardá-lo em segurança. Largou-o num canto, deu uma última olhada no armazém da Resistência e apagou a luz. A porta chiou pesadamente até se fechar atrás dela enquanto avançava em grandes passadas pelo porão direto às escadas.

O esconderijo onde Jakob se encontrava detido ficava numa parte desolada da zona oriental de Londres, oitocentos metros ao norte do Tamisa. Kitty conhecia relativamente bem o local: era uma região de armazéns e baldios, tendo muitos sobrevivido aos bombardeamentos da Grande Guerra. A Resistência achara-a uma área útil para operar: tinham assaltado vários dos armazéns, e utilizado alguns dos edifícios abandonados como refúgios temporários. A presença dos magos era comparativamente menor, em especial depois de escurecer. Apenas algumas esferas de vigilância tendiam a passar nesta direção, e as que o faziam, podiam, de um modo geral, ser evitadas. Sem dúvida esta obscuridade fora precisamente a razão pela qual o mago Mandrake a escolhera também: queria conduzir o interrogatório sem ser incomodado.

Nestas circunstâncias, o plano de Kitty tinha duas vertentes. Se possível, retiraria Jakob da casa, usando as armas e a sua resiliência natural para manter afastados Mandrake e quaisquer demônios. Tentaria depois levá-lo para as docas, e ali tentar apanhar um barco para o Continente. No momento era inviável ficar em Londres. Se o resgate e a fuga se revelassem impossíveis, tinha uma alternativa menos agradável: tencionava entregar-se, desde que Jakob fosse libertado. Eram nítidas as implicações de tal ato, mas Kitty não hesitou. Vivera tempo demais como inimiga dos magos para estar agora apreensiva em relação às conseqüências. Escolhendo ruas secundárias, avançou lentamente pela zona oriental de Londres. Às nove horas, ouviu-se uma sirene lamurienta familiar vinda das torres da City: em resposta ao assalto à abadia duas noites antes, vigorava um recolher obrigatório. As pessoas passavam por ela de ambos os lados da rua, cabisbaixas, correndo para as suas casas. Kitty ignorou-as; não tinham conta as vezes que violara um recolher obrigatório. Mesmo assim, sentou-se num banco num pequeno parque deserto durante meia hora ou mais, à espera de que passasse a confusão. Era preferível não haver testemunhas quando se acercasse do seu objetivo.

Mr. Hopkins não inquirira sobre os seus planos, e não lhe dera quaisquer informações por livre vontade. Além do endereço, não queria mais nada que os ligasse. A insensível indiferença no café espantara-a. A partir de agora, contaria apenas consigo mesma.

As dez horas chegaram e passaram; a Lua surgira, alta e cheia por cima da cidade. Movendo-se cautelosamente com sapatos de sola de borracha, a sacola a pesar-lhe no ombro, Kitty correu pelas ruas desertas. Em vinte minutos chegara ao seu destino: uma rua pequena, sem saída, um beco, com pequenas oficinas fabris de ambos os lados. Colando-se às sombras na esquina, examinou cuidadosamente o terreno à frente.

A própria rua era estreita, iluminada apenas por dois postes, um deles alguns metros mais adiante da esquina de Kitty, o outro perto do fim da rua. Estes, e o luar branco que brilhava por cima, davam aos edifícios uma iluminação marginal.

As oficinas eram geralmente baixas, com um ou dois andares. Algumas delas estavam fechadas com madeira; outras tinham as portas e as janelas quebradas, apresentando-se negras e abertas. Kitty ficou a observá-las por um longo tempo, respirando no silêncio da noite. Tinha por norma nunca passar diante de espaços abertos e desconhecidos às escuras. Mas não via nem ouvia nada de estranho. Estava tudo muito sossegado.

Ao fundo da rua, para lá do segundo poste de iluminação pública, havia um prédio de três andares, um pouco mais alto do que os restantes. O térreo fora talvez em tempos uma espécie de garagem: apresentava uma abertura ampla para os veículos passarem, agora deficientemente coberta com rede. Por cima desta, janelas amplas e desoladas assinalavam escritórios antigos ou habitações particulares. Todas estas janelas estavam escuras e vazias — exceto uma, onde brilhava uma luz tênue.

Kitty não sabia qual dos edifícios nesta rua era o esconderijo de Mandrake, mas este — a única janela iluminada em toda a rua — despertou de imediato a sua atenção. Manteve os olhos fixos nela durante algum tempo, mas não conseguiu distinguir nada, a não ser, possivelmente, uma espécie de cortina ou pano colocado sobre ela. Estava muito longe para observar com clareza.

A noite estava fria; Kitty fungou e limpou o nariz na manga. O seu coração batia a custo no peito, mas ignorou os protestos dele. Estava na hora de agir.

Atravessou para a calçada defronte do primeiro poste de iluminação pública e avançou furtivamente: uma mão na parede, a outra pousando inerte na sacola. Os seus olhos nunca pararam: perscrutou a rua, os edifícios silenciosos, as janelas escuras lá em cima, a janela com cortina mais adiante. De tantos em tantos passos parava e punha-se à escuta, mas a cidade estava silenciosa, fechada em si mesma; prosseguiu.

Kitty passou então diante de uma das portas escancaradas; manteve os olhos firmes nela enquanto avançava, a pele da coluna a formigar. Mas nada se mexeu.

Agora estava suficientemente próxima para ver que a janela iluminada lá na frente estava tapada com um pedaço de pano sujo.

Evidentemente não era muito espesso, porque conseguiu distinguir uma sombra a passar lentamente por trás dele. O seu cérebro esforçou-se sem êxito por distinguir a imagem; era humana, até aí podia afirmar, mas era impossível adiantar mais do que isso.

Avançou um pouco mais pela rua, cautelosamente. Bem à sua esquerda havia uma porta partida, o interior um abismo de negrura sólida. Mais uma vez, Kitty encrespou-se e seguiu na ponta dos pés; mais uma vez, manteve os olhos firmemente fixos nela; e, mais uma vez, não viu nada que a alarmasse. O seu nariz agitou-se ante um odor tênue, um cheiro animal que vinha da casa deserta. Talvez gatos; ou um dos cães vadios que infestavam as zonas abandonadas da grande cidade. Kitty prosseguiu.

Aproximou-se do segundo poste de iluminação pública e observou com a sua luz o edifício ao fundo da rua. Do lado de dentro da esquina da ampla abertura da garagem, antes da cobertura de rede, via agora uma porta estreita na parede lateral. A esta distância parecia até ligeiramente aberta.

Muito bom para ser verdade? Talvez. Ao longo dos anos, Kitty aprendera a tratar com extrema cautela tudo o que parecesse muito fácil. Faria um reconhecimento de toda a zona antes de se arriscar finalmente a entrar por aquela porta tão convidativa.

Tornou a avançar, e nos cinco segundos seguintes viu duas coisas.

A primeira foi na janela iluminada. Por brevíssimos momentos, a sombra passou de novo por trás do pano, e desta vez o seu perfil era inequívoco. O seu coração sofreu um sobressalto; teve então a certeza. Jakob estava ali.

A segunda foi ao nível do térreo, um pouco mais à frente, do outro lado da rua. Aqui, o poste projetava a sua luz num círculo tosco, estendendo-se pela rua até à parede do edifício por trás. Esta parede apresentava uma janela estreita e, mais adiante, uma entrada de porta aberta, e Kitty reparou então, ao avançar um pouco mais, que a luz que penetrava pela janela se podia ver através da porta, estendendo-se numa diagonal plana pelo chão do interior. Reparou também — e isto a fez estacar a meio do passo — que, recortada com nitidez numa extremidade deste fragmento de luz, estava a silhueta de um homem.

Evidente que ele se comprimira todo contra a parede interior do edifício, fora do alcance da janela, porque só se viam mesmo em silhueta as extremidades da testa e do nariz. Eram feições bastante proeminentes — talvez se projetassem mais do que a pessoa em questão gostaria — as que saíam para a luz. Além disto, a sua emboscada estava funcionando extremamente bem.

Mal respirando, Kitty colou-se a parede. Com um peso acabrunhante, deu-se a percepção de que passara já por duas portas — ambas partidas e escancaradas — e havia pelo menos mais duas antes do fim da rua. Tudo indicava que cada uma pudesse conter um ocupante escondido. Mal chegasse à casa do fundo, a armadilha seria ativada.

Mas armadilha de quem? De Mandrake? Ou — este um pensamento novo e medonho — de Mr. Hopkins?

Kitty rangeu os dentes de fúria. Se continuasse, ficaria cercada; se recuasse, deixaria Jakob entregue ao destino que os magos planejassem. A primeira opção era talvez suicida, mas a segunda não podia ser tolerada fosse a que preço fosse.

Compôs a tira da sacola para que pendesse com maior facilidade sobre o ombro, e abriu-a. Agarrou na arma mais à mão — um pau de inferno — e avançou, mantendo os olhos fixos na silhueta na entrada da porta.

Não se mexeu. Kitty manteve-se junto à parede.

Saiu um homem de um lugar escondido bem à frente dela.

O seu uniforme cinzento-escuro misturava-se perfeitamente com a noite: apesar de bem visível, a sua forma alta e volumosa só parecia estar lá pela metade, um espírito saído das sombras. Mas a voz dele, áspera e grave, era bem real.

— É a Polícia Noturna. Está presa. Coloque o saco no chão e vire-se para a parede.

Kitty não deu resposta. Recuou lentamente, desviando-se para o meio da rua, afastando-se das entradas de portas abertas. O pau de inferno pesava pouco nos dedos dela.

O policial não fez menção de segui-la.

— É a sua última oportunidade. Fique onde está e deponha as suas armas. Se não obedecer, será abatida.

Kitty recuou ainda mais. Depois: um movimento à sua direita — a silhueta na entrada de porta. Pelo canto do olho, viu-a mudar de posição. Curvou-se para a frente e, quando o fez, as feições mudaram. O nariz protuberante começou a salientar-se de forma alarmante; o queixo subiu para acompanhar; a testa volumosa recuou; levantaram-se orelhas pontiagudas no alto do crânio, dobrando-se e agitando-se. Por um momento, Kitty chegou a vislumbrar a ponta de um focinho negro como o azeviche na janela iluminada, depois desceu para o chão, desaparecendo de vista.

A silhueta sumira da entrada de porta. Veio lá de dentro uma fungada e os sons de tecido a rasgar.

Kitty mostrou os dentes, volveu o olhar de novo para o policial na rua. Também se alterava: os ombros caíam para a frente, as roupas afastando-se dos pêlos cinzentos compridos que lhe irrompiam da espinha. Os seus olhos brilharam, amarelos, no escuro; os dentes bateram uns nos outros furiosamente enquanto a cabeça mergulhava nas sombras.

Kitty não precisou de mais; virou-se e fugiu.

Ao fundo da rua, algo com quatro patas avançava, no escuro, para lá do poste de iluminação pública. Viu os seus olhos ardentes e, ao engolir a custo, captou o seu fedor.

Estacou, momentaneamente indecisa. De uma entrada à direita dela saltou outra forma baixa e escura. Viu-a, mostrou os dentes e deu uma corrida na direção dela.

Kitty atirou o pau.

Caiu na calçada entre as patas dianteiras da criatura, abrindo-se e emitindo um fluxo alto de chamas. Um lamento, um guincho muito humano; o lobo empinou-se, as patas dianteiras socando como um pugilista o ar em fogo, e caiu de costas, contorcendo-se em retirada.

Kitty tinha já uma esfera — não sabia de que tipo — a postos na mão. Correu para a janela vedada que estava mais próxima, atirou a esfera através dela. Uma explosão de ar quase a levantou do chão; o vidro estilhaçou-se, caíram tijolos para a rua. Kitty saltou pelo espaço acabado de abrir, cortando a mão num bocado de vidro. Caiu de pé no cômodo interior.

Veio lá de fora um rosnar e o raspar de unhas no calçamento empedrado.

A frente de Kitty, num cômodo de outro modo vazio, umas escadas estreitas subiam na escuridão. Correu para elas, comprimindo a mão ferida contra o blusão para diminuir a dor do golpe.

Virou-se no primeiro degrau, ficando de frente para a janela.

Saltara um lobo pela abertura, de mandíbulas escancaradas. A esfera atingiu-o no meio do focinho.

Explodiu água no cômodo, atirando Kitty de encontro aos últimos degraus, cegando-a momentaneamente. Quando conseguiu abrir os olhos, a inundação escoava-se em volta dos seus pés, enchendo o ar de pequenos ruídos de golfadas e sucções. O lobo desaparecera.

Kitty correu escada acima.

O cômodo superior tinha várias janelas abertas: o luar cor de prata estendia-se pelo chão. Algo lá embaixo na rua uivou. Kitty procurou imediatamente por saídas; não encontrando nenhuma, praguejou, enfurecida. Pior, não podia cobrir a sua retaguarda: as escadas desembocavam diretamente no andar de cima — não havia alçapão ou outros meios de barrar o caminho. Veio lá de baixo o som de algo pesado a chapinhar na água baixa.

Recuando da abertura, Kitty aproximou-se da janela mais próxima. Estava velha e podre, a madeira em volta da vidraça solta do caixilho. Kitty deu-lhe um pontapé com uma bota. Desceram pelo ar madeira e vidro. Quase antes de se estilhaçarem na rua, subira já para a abertura, a luz prateada banhando-lhe o rosto, virara o pescoço para cima, procurando apoio para as mãos.

Lá embaixo, na rua, uma forma escura andava em círculos de boca aberta, patas pesadas a esmagar os fragmentos de vidro. Sentiu-a olhar para si, querendo que caísse.

Algo subiu as escadas com uma força tão prodigiosa que quase chocou com a parede da frente. Kitty avistou um lintel rugoso trinta centímetros acima da janela. Arremessou uma esfera para o cômodo, estendeu o braço e içou-se, as botas raspando no parapeito, os músculos a esticar, sentindo constantemente picadas de dor do golpe na palma da mão.

Uma explosão por baixo dela. Plumas de fogo verde-amareladas saíram em jato da janela por baixo das suas botas que resvalavam, e por um instante, a rua foi iluminada como se por um sol doentio.

A luz mágica extinguiu-se. Kitty agarrou-se à parede, procurando outro apoio. Avistou um, testou-o, achou-o seguro. Começou a subir. Um pouco mais acima havia um parapeito; para lá dele, talvez um telhado plano: este era o seu objetivo.

A falta de comida e de dormir tinham-lhe esgotado as energias; os braços e as pernas pareciam cheios de água. Passados dois minutos, parou para respirar.

Um arranhar e raspar por baixo de si; algo babando, curiosamente perto. Com cautela, os dedos cravando-se nos tijolos macios, Kitty olhou por cima do ombro, por todo o comprimento do corpo, para a rua enluarada distante. A meio caminho entre si e a calçada, vinha uma forma a subir rapidamente. Tendo em vista a escalada, alterara um pouco a forma lupina: as patas traseiras tinham-se transformado em dedos com garras compridas; as patas dianteiras animais haviam readquirido cotovelos humanos; os músculos tinham retomado a sua posição em volta dos ossos. Mas o focinho não mudara: a boca aberta, os dentes a brilhar à luz prateada, a língua pendendo e espumando de lado. Os seus olhos amarelos fitavam-na.

Esta visão quase fez Kitty desequilibrar-se e cair no vazio. Mas conseguiu comprimir-se contra os tijolos, suportar o peso com uma mão e enfiar a outra na sacola. Agarrou a primeira coisa que encontrou — uma esfera qualquer — e escolhendo rapidamente o alvo, largou-a na direção do seu perseguidor.

Brilhando ao rodopiar, a esfera falhou o dorso malhado por escassos centímetros; um instante depois, bateu na calçada, projetando breves jatos de chamas.

O lobo soltou um ruído gorgolejante no fundo da garganta. Continuou a subir.

Mordendo o lábio, Kitty retomou a escalada. Ignorando os protestos do corpo, trepou freneticamente, receando que a qualquer momento as garras lhe cravassem a perna. Ouviu as raspadelas do animal nos seus calcanhares.

O parapeito... Com um grito, içou-se para lá, tropeçou e caiu. A sacola ficara torcida debaixo de si; não podia alcançar seus mísseis.

Virou-se de costas. Nesse momento, a cabeça do lobo surgiu lentamente por cima da borda do parapeito, farejando avidamente o rastro de sangue que pingava da sua mão. Os seus olhos amarelos brilharam, olhando diretamente nos dela.

Os dedos de Kitty remexiam dentro da bota; retirou o punhal.

Pôs-se de pé com esforço.

Com um súbito salto fluido, o lobo pulou pela extremidade do parapeito para o telhado, acocorando-se um momento nas quatro patas, a cabeça baixa, os músculos tensos. Fitou Kitty pelo canto dos olhos, avaliando a força dela, decidindo se iria ou não saltar. Kitty agitou o punhal de um lado para o outro em aviso.

— Está vendo isto? — arfou. — É prata, sabe.

O lobo olhou de lado para ela. Lentamente, as suas patas dianteiras ergueram-se, o dorso corcunda alongando-se e endireitando-se. Agora estava de pé nas patas traseiras como um homem, elevando-se acima dela, oscilando para cá e para lá, pronto para o ataque.

A outra mão de Kitty procurou novo míssil na sacola. Sabia que não tinha muito...

O lobo saltou, cortando o ar com as garras, atacando com a boca vermelha. Kitty abaixou-se, virou-se e estocou na vertical com o punhal. O lobo emitiu um ruído curiosamente estridente, rodou um braço e atingiu Kitty dolorosamente no ombro. As garras cortaram a tira da sacola; esta caiu. Kitty voltou a atacar. O lobo saltou para ficar fora do alcance dela. Kitty imitou o movimento. O ombro latejava muito do golpe. O lobo apertava uma pequena ferida no flanco. Sacudiu melancolicamente a cabeça para ela. Parecia apenas ligeiramente incomodado. Andaram em roda durante alguns segundos, iluminados pelo luar prateado. Agora Kitty mal tinha força para levantar o punhal.

O lobo estendeu uma pata com garras e puxou a sacola pelo telhado, para bem longe do alcance de Kitty. Soltou uma risada grave e ressoante.

Um pequeno barulho atrás dela. Kitty arriscou um rápido virar de cabeça. Do outro lado do telhado plano, as telhas erguiam-se em diagonal na crista baixa de uma viga. Havia dois lobos escarranchados nela; enquanto olhava, iniciaram uma descida rápida e rasante.

Kitty tirou o segundo punhal do cinto, mas a mão esquerda tinha pouca força devido ao ferimento no ombro; os dedos mal conseguiam agarrar o cabo. Perguntou-se vagamente se deveria se atirar pela beira do telhado — uma morte rápida seria preferível às garras dos lobos.

Mas seria uma saída covarde. Causaria alguns estragos antes do fim.

Os três lobos avançavam para ela, dois nas quatro patas, um caminhando como um homem. Kitty afastou o cabelo dos olhos e ergueu os punhais pela última vez.

 

— Isto é realmente muito entediante — protestou o djinni. — Não vai acontecer nada.

Nathaniel interrompeu o seu circuito do cômodo.

— É claro que vai. Cale-se. Se eu quisesse a tua opinião, tinha pedido. — Estava consciente de que faltava convicção à sua voz. Olhou para o relógio para se tranqüilizar. — A noite ainda é uma criança.

— Sim, sim. Vejo que está muito confiante. Até já abriu um pequeno sulco no assoalho. E aposto que está cheiinho de fome também, visto que se esqueceu de trazer provisões.

— Não precisarei delas. A garota não tarda. Agora cale-se.

Do seu posto no alto de um velho guarda-roupas, o djinni, que retomara a forma de um jovem rapaz egípcio, estendeu os braços por cima da cabeça e bocejou extravagantemente.

— Todos os grandes planos de gênio têm os seus inconvenientes — disse. — Todos têm as suas pequenas falhas, que os fazem desmoronar-se. Está na natureza humana: nasceu imperfeito. A garota não virá; ficará à espera; não trouxe comida nenhuma; por conseguinte, você e o seu prisioneiro irão morrer de fome.

Nathaniel fez cara de poucos amigos.

— Não se preocupe com ele. Ele está bem.

— Na realidade, estou cheio de fome. — Jakob Hyrnek estava sentado numa cadeira decrépita a um canto do cômodo. Por baixo de um velho capote do exército, que o djinni encontrara num dos sótãos do esconderijo, vestia apenas o pijama e um par de meias de dormir gigantes. — Não tomei o café-da-manhã — acrescentou, balançando-se mecanicamente para trás e para a frente na sua cadeira periclitante. — Comeria qualquer coisa.

— Pronto, está vendo — frisou o djinni. — Ele está com larica.

— Não está, e se souber o que é bom para ele, também ficará calado. — Nathaniel voltou a andar de um lado para o outro, olhando o prisioneiro de soslaio. Hyrnek parecia já ter superado o medo do vôo, e uma vez que fora trancado de imediato na casa vazia, sem mais ninguém para vê-lo, a paranóia em relação ao rosto acalmara um pouco também. O cativeiro propriamente dito não parecia preocupá-lo muito, o que deixava Nathaniel ligeiramente perplexo; mas também, durante anos Hyrnek impusera a si próprio a reclusão. O olhar do mago vagueou na direção da janela, escondida por trás da faixa de tecido. Reprimiu um desejo de ir até lá e espreitar a noite. Paciência. A garota viria; era só uma questão de tempo.

— Que tal um jogo? — O rapaz em cima do guarda-roupa olhou para ele. — Eu poderia arranjar uma bola e um arco de ferro na parede e ensinar-lhes o jogo de bola dos Astecas. É muito divertido. Têm que usar os joelhos e os cotovelos para fazerem passar a bola pelo arco. É a única regra. Oh, e quem perder é sacrificado. Sou muito bom nele, como irão descobrir.

Nathaniel sacudiu uma mão, enfastiado.

— Não.

— E se fosse os Espiões?

Nathaniel expirou com força pelo nariz. Já era difícil manter a calma sem a tagarelice do djinni. Havia muita coisa em jogo, e era bom nem pensar nas conseqüências do fracasso.

Mr. Makepeace visitara-o cedo naquela manhã, em segredo, trazendo notícias. O seu contato no submundo estava convencido de que conseguiria ter acesso à fugitiva Kitty Jones e que seria possível fazê-la sair do esconderijo, se se encontrasse um engodo adequado. A mente rápida e inventiva de Nathaniel lembrara-se imediatamente do amigo de infância dela, Jakob Hyrnek, que fora mencionado nos registros do seu julgamento e a quem Kitty dera provas de lealdade. Pelo que Nathaniel pudera observar dela — aqui tocou com cuidado na mancha arroxeada no malar — a garota não recearia vir em auxílio de Hyrnek, se houvesse uma ameaça de perigo.

O resto era fácil. A captura de Hyrnek efetuara-se prontamente, e Makepeace informara ao seu contato. Agora só restava a Nathaniel aguardar.

— Psst. — Ergueu o olhar. O djinni chamava-o para junto de si, ao mesmo tempo que acenava e piscava o olho com furiosa confidencialidade.

— O que é?

— Chega aqui num instantinho. Para não ouvirem. — Indicou com a cabeça Hyrnek, que se balançava na sua cadeira um pouco mais ao fundo do cômodo.

Suspirando, Nathaniel acercou-se.

— Então?

O djinni abaixou a cabeça sobre a borda do guarda-roupa.

— Estava pensando — cochichou. — O que vai acontecer quando a tua rica Ms. Whitwell souber disto? Porque ela ignora que raptou o rapaz, não ignora? Não entendo qual é o teu jogo. Por norma, é um subalterno bem-comportado, um cãozinho de salão mimado que faz tudo para agradar.

A farpa foi certeira. Nathaniel mostrou os dentes.

— Esse tempo já acabou — disse. — Ela só vai descobrir depois de eu ter o Bordão e a garota fechados a sete chaves. Depois, terá de aplaudir, tal como os restantes. Estarei muito próximo de Devereaux e eles não terão outra alternativa senão ovacionar.

O rapaz endireitou-se e sentou-se de pernas cruzadas, com reminiscências de um escriba egípcio.

— Você não está fazendo isso sozinho — disse ele. — Alguém te ajudou a preparar tudo. Alguém que sabe onde encontrar a garota e dizer-lhe que estamos aqui, senão a estas horas você mesmo já a tinha caçado.

— Tenho contatos.

— Contatos que sabem muito sobre a Resistência, pelo visto. É melhor ter cuidado, Nat. Estas coisas podem não surtir o efeito pretendido. Aquele Chefe de Polícia peludo daria tudo para te ligar de alguma forma àqueles traidores. Se ele soubesse que está fazendo acordos com eles...

— Eu não estou fazendo acordos!

— Ooh. Isso foi um grito. Está agitado.

— Não estou, não. Estou só falando. Vou capturá-la, não vou? Só que quero fazer à minha maneira.

— Ótimo, mas quem é o teu contato? Como é que ele ou ela sabe tanto sobre a garota? Isso é que deveria estar se perguntando.

— Não é importante. E não quero falar mais sobre o assunto. — Nathaniel virou as costas. O djinni estava certo, claro: era surpreendente a facilidade com que Makepeace mergulhava no submundo. Mas o teatro era uma profissão de má fama; Makepeace devia conhecer todo o tipo de comuns estranhos (atores, bailarinos, escritores) que estariam apenas um degrau acima da marginalidade. Apesar de apreensivo com esta súbita nova aliança, Nathaniel sentia-se bastante feliz por colher os seus frutos, desde que tudo corresse bem. Mas ficaria numa posição difícil se Duvall ou Whitwell descobrissem que agira pelas costas deles. Era esse o grande risco que corria. Naquela manhã, ambos tinham perguntado por novidades sobre as suas atividades; mentira a ambos. E isso causava-lhe uma sensação de formigamento na nuca.

Jakob Hyrnek levantou uma mão queixosa.

— Desculpe, senhor?

— O que é?

— Por favor, Mr. Mandrake, estou ficando enregelado.

— Então levante-se e passeie. Mas quero essas meias estúpidas longe da minha vista.

Embrulhando-se bem no capote, Hyrnek começou a arrastar-se pelo cômodo, as meias de dormir listradas coloridas aparecendo debaixo do pijama.

— Custa a acreditar que alguém possa arriscar a sua vida por este espécime — comentou o djinni. — Se eu fosse mãe dele, virava a cara para o lado.

— Ainda não conheceu esta Kitty — retorquiu Nathaniel. — Ela virá por causa dele.

— Não virá. — Hyrnek aproximara-se agora da janela; escutara esta última parte da conversa. — Costumávamos ser chegados, mas já não somos. Não a vejo há anos.

— Mesmo assim — insistiu Nathaniel. — Ela virá.

— Não desde... que o meu rosto ficou desfigurado — prosseguiu o rapaz. A sua voz era um soluço, cheio de pena de si mesmo.

— Oh, tenha dó! — A tensão de Nathaniel explodiu em contrariedade. — O seu rosto está ótimo! Pode falar, não pode? Pode ver, não pode? Ouvir? Então, cale-se. Pare de se lamuriar. Já vi bem pior.

— Foi isso o que eu lhe disse. — O djinni levantou-se negligentemente e desceu do guarda-roupa sem fazer barulho. — Ele está muito irritado. Olha para a tua cara... também é permanente, e não tem medo de mostrá-la ao mundo. Ná, tanto num caso como no outro, o que estraga tudo é o cabelo. Já vi penteados mais bonitos na cauda de um texugo. Me dê só cinco minutos com uma tesoura...

Nathaniel revirou os olhos e tentou impor algum respeito. Agarrou Hyrnek pela gola e virou-o.

— Volte para a sua cadeira — ordenou com brusquidão. — Sente-se. Quanto a você — dirigiu-se ao djinni —, o homem do meu contato terá dado este endereço à garota há algumas horas. Nesta altura ela já estará a caminho, quase certamente com o Bordão, visto ser a sua arma mais poderosa. Quando ela começar a subir as escadas lá embaixo, ativará uma esfera sensora que nos alertará aqui em cima. Vai desarmá-la quando passar por aquela porta, entregar-me o Bordão e evitar que ela fuja. Entendeu?

— Claro como o dia, patrão. Já é a quarta ou a quinta vez que me ordena.

— Vê se não esquece. Agarra no Bordão. Isso é que importa.

— E eu não sei? Assisti à Queda de Praga, lembra-se?

Nathaniel resmungou e recomeçou a andar de um lado para o outro. Nesse momento, ouviu-se um barulho lá fora na rua. Virou-se para o djinni, de olhos arregalados.

— O que foi aquilo?

— Ouviu...? Olha, outra vez!

O djinni indicou a janela.

— Quer que vá espreitar?

— Não deixe que te vejam.

O rapaz egípcio aproximou-se de lado da janela; desapareceu. Um escaravelho rastejava por trás do pano. Brilhou uma luz forte em algum lugar do outro lado do vidro. Nathaniel saltitava ora num pé ora no outro.

— Então?

— Acho que a tua garota chegou. — A voz do djinni era fraca e distante. — Por que não dá uma olhada?

Nathaniel afastou o pano e olhou lá para fora, bem a tempo de ver um pequeno lençol de chamas erguer-se do solo no meio da rua. Extinguiu-se. Corriam muitas formas na rua anteriormente deserta — algumas com duas pernas, algumas com quatro, e outras que estavam manifestamente indecisas sobre o que fazer, mas continuavam a arrastar-se e coxear sob o luar intenso. Ouviu-se um estouro e um uivo. Nathaniel sentiu a cor esvair-se do rosto.

— Oh, diabo! — exclamou. — A Polícia Noturna.

Outra pequena explosão; o cômodo foi ligeiramente sacudido. Uma forma leve e ágil com duas pernas correu pela rua e saltou por um buraco acabado de abrir. Um lobo perseguia-a, e foi envolvido por outra explosão.

O escaravelho assobiou, satisfeito.

— Rico uso de uma esfera de elementos. A tua garota é boa. Mesmo assim, dificilmente conseguirá escapar de um batalhão inteiro.

— Quantos estão ali?

— Uma dúzia, talvez mais. Olha, estão avançando pelos telhados.

— Acha que vão apa... ?

— Oh, sim... e comê-la. Agora estão furiosos. Ferve-lhes o sangue.

— Está bem — Nathaniel afastou-se da janela. Tomara uma decisão. — Bartimaeus — disse —, vai lá fora buscá-la. Não podemos arriscar que a matem.

O escaravelho protestou de repulsa.

— Outro belo trabalho. Que maravilha. Olha lá, tem certeza? Estará desafiando a autoridade do Chefe de Polícia.

— Com sorte, ele não vai saber que sou eu. Leve-a para... — A mente de Nathaniel corria; estalou os dedos. — Aquela velha biblioteca... você sabe, aquela onde nos abrigamos quando os demônios de Lovelace andavam atrás de nós. Levarei o prisioneiro e encontramo-nos mais tarde. Só precisamos sair daqui.

— Estou contigo nessa. Muito bem. Afaste-se. — O escaravelho recuou do parapeito, afastando-se da janela, ergueu-se nas patas traseiras e agitou as antenas para o vidro. Um clarão intenso, um jato de calor; surgiu um buraco em viés na vidraça. O escaravelho abriu os élitros e saiu para a noite.

Nathaniel virou-se para o cômodo, bem a tempo de levar com uma cadeira na parte lateral do rosto.

Caiu por terra desajeitadamente, meio atordoado. Um olho a ver estrelas captou uma imagem distorcida de Jakob Hyrnek a atirar a cadeira para o lado e a correr para a porta. Nathaniel proferiu um comando em aramaico; apareceu um pequeno diabrete no seu ombro que soltou um raio direto nos fundilhos do pijama de Hyrnek. Ouviu-se um som de chamuscado rápido e um grito penetrante. Feito o trabalho, o diabrete desapareceu. Hyrnek estacou momentaneamente, agarrado ao rabo, depois continuou a avançar aos tropeções em direção à porta.

Nesta altura, Nathaniel pusera-se já de pé; atirou-se para a frente e desceu numa placagem desastrada; a sua mão estendida agarrou um pé com meia de dormir e puxou-o de lado. Hyrnek tombou; Nathaniel caiu-lhe em cima e começou a bater-lhe freneticamente na cabeça. Hyrnek respondeu na mesma moeda. Rolaram pelo chão durante um bocado.

— Que espetáculo deprimente.

Nathaniel imobilizou-se quando ia puxar o cabelo a Hyrnek. Olhou para cima da sua posição de bruços.

Jane Farrar encontrava-se na moldura da porta aberta, ladeada por dois corpulentos agentes da Polícia Noturna. Envergava o uniforme encrespado e o boné com pala dos Lobos Cinzentos e a expressão no seu olhar era manifestamente escarninha. Um dos agentes a seu lado emitiu um ruído gutural grave.

Nathaniel procurou mentalmente uma explicação que pudesse satisfazer, mas não encontrou nenhuma. Jane Farrar abanou a cabeça com pesar.

— Até onde descem os poderosos, Mr. Mandrake — disse. — Saia, se puder, de cima deste comum meio vestido. Está detido por traição.

 

Lobisomens na rua. Nathaniel do outro lado das portas. Qual vocês escolheriam? Para dizer a verdade, fiquei satisfeito por sair e poder apanhar um pouco de ar.

O comportamento dele afigurava-se cada vez mais desconcertante. Nos anos subsequentes ao nosso primeiro encontro, sem dúvida sob a tutela atenta de Whitwell, ele tornara-se um animalzinho bastante solícito, obedecendo cautelosamente às ordens, sempre de olho na promoção. Agora estava a expor-se muito, deliberadamente, a fazer coisas às escondidas e a correr grandes riscos com essa atitude. A idéia não provinha dele. Alguém estava empurrando-o para essa situação; alguém estava puxando os cordõezinhos. Nathaniel já me parecera muitas coisas, a maior parte delas indescritíveis, mas nunca se assemelhara tanto a um títere como agora.

E tudo já estava saindo muito errado.

A cena lá embaixo era caótica. Havia criaturas feridas espalhadas pela rua no meio de montes de tijolos e vidros partidos. Contorciam-se, uivavam agarravam os flancos, os seus contornos alterando-se a cada espasmo. Homem, lobo, homem, lobo... Eis o problema da licantropia*: é muito difícil de controlar. A dor e a emoção fortes fazem o corpo mudar.76

 

* Alienação mental em que o doente se julga transformado em lobo. (NT)

 

76 Esta falibilidade crônica é uma das razões dos lobisomens serem tão maltratados. Assim como o fato de serem vorazes, selvagens, sedentos de sangue e dificilmente domesticáveis. Lycaon da Arcádia criou o primeiro corpo de lobos como seus guardas pessoais, lá por altura de 2000 a.C. e, não obstante terem comido prontamente vários dos seus hóspedes, a moda de desempenharem uma função executória útil pegou depressa. Muitos governantes despóticos que recorriam à magia usaram-nos desde então, lançando complexas fórmulas de transformação sobre humanos bem musculosos, mantendo-os isolados e empreendendo por vezes programas de reprodução a fim de apurarem a raça. Tal como muitas outras coisas, foi Gladstone quem inaugurou a Polícia Noturna britânica; conhecia o seu potencial como instrumento de terror.

 

A garota derrubara uns cinco, pareceu-me, sem contar com o que a esfera de elementos esfrangalhara. Mas avançavam diversos outros pela rua, desnecessariamente, e outros, evidenciando pouca inteligência, entretinham-se a escalar os algerozes ou a procurar saídas de emergência para treparem.

Restariam vivos uns nove ou dez. Muitos para qualquer humano conseguir eliminar.

Mas ela continuava a lutar: via-a agora, uma figura pequena a rodopiar no telhado. Surgiu algo brilhante em cada mão — agitava-o para cima e para baixo em pequenas fintas e arremetidas desesperadas para manter afastados os três lobos. Mas a cada movimento, as formas pretas avançavam um pouco mais.

A despeito das suas muitas qualidades, um escaravelho não é grande coisa numa luta. Além disso, seria necessária uma hora para voar até lá e juntar-se à ação. Por isso, efetuei a mudança, sacudi as minhas enormes asas vermelhas duas vezes e estava sobre eles num ápice. As minhas asas taparam a lua, deixando os quatro combatentes no telhado mergulhados na mais profunda escuridão. Para ser mais convincente, soltei o grito medonho do roca quando desce sobre os elefantes para lhes arrebanhar as crias.77

 

77 Normalmente, elefantes indianos. As rocas viviam em ilhas isoladas no Oceano Índico, vindo com irregularidade ao continente em busca de presas. Os seus ninhos tinham um acre de largura, os seus ovos eram cúpulas brancas imensas, visíveis do outro lado do mar. Os adultos eram adversários formidáveis, e afundavam os navios enviados para pilhar os locais de nidificação, largando pedras de uma grande altura. Os califas pagavam quantias avultadas pelas penas de roca cortadas furtivamente do peito da ave adormecida.

 

Tudo isto surtiu o efeito apropriado. Um dos lobos saltou um metro para trás, o seu pêlo malhado eriçado de medo, e desapareceu pela borda do parapeito soltando um uivo. Outro empinou-se nas patas traseiras e levou um soco no diafragma com as garras curvas do roca: subiu pelo ar como uma bola de futebol fofa e desapareceu com um estrondo atrás de uma das chaminés.

O terceiro, que estava de pé numa imitação humana, foi mais ágil, mais vivo de pensamento. A chegada do roca apanhou também a garota de surpresa: abriu a boca maravilhada com o esplendor da minha plumagem, baixou os punhais. Sem um som, o lobo saltou-lhe à garganta.

Os dentes dele fecharam-se, soltando faíscas na noite.

A garota encontrava-se já a vários metros no ar e continuava a subir, suspensa nas minhas garras. O cabelo tapava-lhe o rosto, as pernas pendiam por cima do telhado, da rua e de todos os seus moradores em fuga precipitada, que diminuíam rapidamente de tamanho. Os ruídos de fúria e decepção ficaram para trás e vimo-nos subitamente sozinhos, suspensos bem acima das luzes infinitas da cidade, levados para cima pelas minhas asas protetoras, para um lugar de calma tranqüilidade.

— Au! Isso é a minha perna! Au! Ah! Maldita seja, isso é prata! Pára!

A garota espetava repetidamente um punhal na carne escamosa bem por cima das minhas garras. Pode acreditar? Esta mesma pata, registre-se, que a impedia de mergulhar numa destruição fuliginosa no meio das chaminés da zona oriental de Londres, vejam só. Fiz-lhe ver, com a minha elegância habitual.

— Não precisa praguejar, demônio — respondeu ela, desistindo por um momento. A sua voz era ora esganiçada, ora sumida devido ao vento. — E, agora, tanto faz. Quero morrer.

— Acredite, se pudesse, fazia-te a vontade... Pára com isso! — Outra pontada de dor, outra sensação esquisita na minha cabeça. A prata nos faz isso; se continuasse a insistir, cairíamos os dois. Sacudi-a vigorosamente até os seus dentes baterem uns nos outros e os punhais lhe saltarem das mãos. Mas nem assim desistiu: desatou então a torcer-se e a sacudir-se de um lado para o outro num esforço febril para se soltar de mim. O roca prendeu-a com mais força.

— Quer parar de te debater, garota? Não vou te largar, mas te enfiarei de cabeça para baixo na chaminé de um curtidor.

— Não me importo!

— Ou mergulho-te no Tamisa.

— Não me importo!

— Ou levo-te para a ETAR de Rotherhithe e...

— Não me importo, não me importo, não me importo! — Parecia apopléctica de raiva e de dor, e, mesmo com toda a minha força de roca, nada mais podia fazer para impedi-la de se soltar.

— Kitty Jones — admoestei-a, mantendo os olhos fixos nas luzes da zona norte de Londres; estávamos agora nos aproximando do nosso destino —, não quer voltar a ver Jakob Hyrnek?

Calou-se então, ficando inerte e pensativa e, durante um tempo, voamos num estado de abençoado silêncio. Aproveitei o intervalo para dar umas voltas, mantendo-me atento a esferas em perseguição. Mas estava tudo sossegado. Prosseguimos o vôo.

Ouviu-se uma voz de algum lugar por baixo da minha fúrcula. Era mais comedida do que antes, mas não perdera a intensidade.

— Demônio — disse —, por que não deixou que os lobos me devorassem? Sei o que é e que os teus amos tencionam matar-me do mesmo jeito.

— Não posso comentar o assunto — respondeu o roca. — Mas, se quiser, fique à vontade para me agradecer.

— Vai levar-me para ver Jakob agora?

— Sim. Se tudo correr conforme o planejado.

— E depois?

Fiquei calado. Fazia uma idéia jeitosa.

— Então? Fala! E diz a verdade... se for capaz.

Numa tentativa para mudar de assunto, o roca fingiu desdém.

— Se eu fosse você, teria cuidado, querida. Não é sensato fazer comentários maldosos quando se está suspensa a esta altitude.78

 

78 Conforme exemplificado por Ícaro, um dos primeiros pioneiros do vôo. Segundo Faquarl, que pelo visto não era uma fonte muito fidedigna, o mago grego Dédalo construiu um par de asas mágicas, abrigando em cada uma um foliot irascível. Estas asas foram testadas por Ícaro, um jovem louco e espitituoso, que fez comentários baratos sobre os foliots enquanto estava a várias centenas de metros por cima do Mar Egeu. Em protesto, eles largaram as penas uma por uma, atirando Ícaro e os seus gracejos para uma sepultura no mar.

 

— Hum, você não me vai largar. Acabou de afirmá-lo.

— Oh, sim. Afirmei mesmo. — O roca suspirou. — A verdade é que não sei o que tencionam fazer contigo. Agora cale essa boca por um minuto. Vou pousar.

Descemos pela escuridão, através de um oceano de luzes cor de laranja, até à rua onde o rapaz e eu tínhamos nos abrigado na noite do incêndio na casa de Underwood. A biblioteca em ruínas ainda estava lá: avistei o seu volume ensanduichado entre as luzes de lojas menores em volta. O edifício deteriorara-se um pouco mais de lá para cá, e havia um buraco considerável num lugar, onde uma enorme clarabóia de vidro cedera. O roca diminuiu a escala ao aproximar-se, avaliou cuidadosamente o ângulo, enfiou a garota no buraco, primeiro os pés, como se colocasse uma carta numa caixa de correio. Descemos para o espaço cavernoso, iluminado aqui e ali pelos raios de luar. Só quando estávamos a uma distância segura dos escombros no chão é que larguei o meu fardo.79 Caiu com um guincho e rolou um pouco.

 

79 Estávamos a cerca de dois metros. Bolas, ela era jovem e inquieta.

 

Pousei a alguma distância e avaliei-a como devia ser pela primeira vez. Era a mesma, sem dúvida — a garota no beco que tentara afanar o Amuleto. Parecia mais velha e mais fatigada agora, o seu rosto macilento e distorcido e a desconfiança nos olhos. Os últimos anos tinham sido duros para ela, pelo visto; os últimos minutos haviam sido positivamente cruéis. Um braço pendia inerte, o ombro golpeado e cheio de sangue. Mesmo assim, era nítida a provocação nela: levantou-se com cuidado e, de queixo empinado, olhou-me do outro lado de uma coluna de luz prateada.

— Isto não é grande coisa — disse com brusquidão. — Não pode me interrogar num lugar mais limpo? No mínimo estava contando com a Torre.

— É preferível aqui, vai por mim. — O roca afiava uma garra na parede. Não estava com grande disposição para conversas.

— Bem, apresse-se. Onde está Jakob? Onde estão os magos?

— Chegarão daqui a pouco.

— Daqui a pouco? Que tipo de organização é esta? — Assentou as mãos nas ancas. — Achei que fosse suposto vocês revelarem uma eficiência aterradora. Isto não passa de uma treta.

Levantei a minha cabeça emplumada.

— Agora ouça — disse-lhe. — Não se esqueça de que acabei de te salvar das garras da Polícia Noturna. Um pouco de gratidão não te faria nada mal, menina. — O roca raspou as patas no chão, ameaçadoramente, e fitou-a com o tipo de olhar que leva os marinheiros persas a saltarem borda afora.

Ela deu-me o tipo de olhar que coalha o leite.

— Vai te catar, demônio! Eu desafio à tua maldade. Não me mete medo!

— Não?

— Não. É apenas um diabrete sem préstimo. Tem umas penas sarnentas e cheias de bolor.

— O quê? — O roca procedeu a uma inspeção apressada. — Que absurdo! É o luar que lhe dão esse aspecto!

— Admira-me que ainda não tenham caído. Já vi pombos com melhor plumagem.

— Olha lá...

— Já destruí demônios com verdadeiro poder! — exclamou. — Acha que ia me deixar impressionar por um frango gigante?

O descaramento da garota!

— Este nobre roca — afirmei com veemente dignidade —, não é a minha única forma. Não passa de uma das centenas de milhares de aspectos que posso assumir. Por exemplo... — O roca empinou-se: transformei-me, numa rápida sucessão, num minotauro feroz de olhos injetados, a espumar pela boca; numa gárgula de granito, a abrir e a fechar as mandíbulas; numa serpente a agitar-se, cuspindo veneno; num fantasma a gemer; num cadáver ambulante; numa caveira asteca a flutuar, brilhando no escuro. Foi urna amostra heterogênea de perfídia,80 se me é permitido o comentário.

 

80 Conquanto não particularmente inventiva. Estava cansado e maldisposto.

 

— Então? — inquiriu a caveira com cara de poucos amigos. — Tem algo a dizer?

Ela engoliu em seco de forma audível.

— Nada mal — referiu —, mas todas essas formas são grandes e espalhafatosas. Aposto que não consegue ser discreto.

— É claro que consigo!

— Aposto que não é capaz de ficar pequenininho, suficientemente pequeno para... para caber ali naquela garrafa. — Apontou para a extremidade de uma garrafa de cerveja que saía de um monte de lixo, fitando-me sempre pelo canto do olho.

Aquela já tinha barbas! Já a haviam tentado comigo mais de cem vezes. A caveira oscilou lentamente de um lado para o outro e sorriu.81

— Boa tentativa, mas comigo nunca funcionou, nem antigamente.82 Agora — prossegui. — Por que não se senta e descansa? Pareces-me estourada.

 

81 Na verdade, eu já sorria, sendo sorrir uma das poucas coisas que as caveiras fazem muito bem mesmo.

82 Conhecem o truque. O inteligente mortal convence o djinni estúpido a enfiar-se na garrafa (ou outro espaço limitado), depois coloca uma rolha e recusa-se a deixá-lo sair a menos que ele lhe conceda três desejos, etc, etc. Não queriam mais nada. No entanto, por incrível que possa parecer, se o djinni entrar na garrafa de sua livre e espontânea vontade, esta armadilha tem realmente um certo grau de poder. Mas, hoje em dia, por menor e totó que seja, é pouco provável que o diabrete vá na conversa.

 

A garota fungou, franziu os lábios e cruzou os braços com dificuldade. Vi-a olhar à sua volta, avaliando as saídas.

— E não tente nada — adverti. — Senão leva com um cacete.

— Cuidado com essa língua, está bem? — Oh, como se melindrara. Em resposta, a caveira sumiu e apareceu Ptolomeu. Mudei sem pensar (era a minha forma preferida83) mas assim que o fiz, vi-a dar um pulo e recuar um passo.

 

83 Considerem-no um sinal de respeito pelo que ele fizera por mim.

 

— Você! O demônio do beco!

— Não se excite tanto. Não pode me culpar por aquela ocasião. Você me atacou.

Resmungou.

— É verdade. A Polícia Noturna quase me apanhou também.

— Deveria ter mais cuidado. Afinal, para que queria o Amuleto de Samarcanda?

A garota fez-se de desentendida.

— O quê? Oh, a jóia. Bem, era mágica, não era? Nós roubávamos artefatos mágicos naquela altura. Era esse o objetivo do nosso grupo. Roubar os magos, tentar usar as coisas deles. Uma estupidez. Uma grande estupidez. — Deu um pontapé num tijolo. — Au.

— Devo supor que já não comunga dessa política?

— Dificilmente. Uma vez que quase todos morreram.

— Exceto você.

Os olhos dela brilharam no escuro.

— Está mesmo convencido de que sobrevivo a esta noite?

Nisso ela tinha razão.

— Nunca se sabe — respondi-lhe com sinceridade. — O meu amo pode querer poupá-la. Ele já te salvou dos lobos.

Soltou um suspiro.

— O teu amo. Como é que ele se chama?

— Atende pelo nome de John Mandrake. — Estava proibido pela jura de dizer mais.

— Ele? Aquele parvalhão emproado!?

— Oh, então já o viu?

— Duas vezes. E da última enterrei-lhe um murro valente que até desmaiou.

— Sério? Não admira que ele não se desmanchasse. — Esta garota me agradava cada vez mais. Na verdade, ela era uma lufada de ar fresco. Em todos os longos séculos de labuta, passara pouquíssimo tempo na companhia de comuns — por instinto, os magos mantêm-nos na sombra e afastados dos homens e mulheres comuns. Posso contar o número de comuns com quem conversei convenientemente pelas garras de uma pata. É claro que, de um modo geral não é um processo gratificante — o equivalente a um golfinho a conversar com um caracol-do-mar — mas de vez em quando surge uma exceção. E esta Kitty Jones era umas delas. Agradava-me o seu estilo.

Estalei os dedos e fiz aparecer uma Iluminação que se foi alojar entre as vigas. Tirei uma tábuas e blocos de um monte de escombros próximo e formei com elas uma cadeira.

— Sente-se — disse-lhe. — Ponha-se à vontade. Isso mesmo. Então... bateu no John Mandrake, foi?

Ela falou com uma certa satisfação sinistra.

— Sim. Parece satisfeito.

Parei com as gargalhadas.

— Oh, nota-se muito?

— É estranho, dado que você e ele são aliados na maldade e executa cada capricho dele.

— Aliados na maldade? Eh, existe aqui uma certa relação amo/servo, sabia? Sou um escravo! Não tenho voto na matéria.

Franziu os lábios.

— Limita-se a acatar ordens, hein? Claro. Essa é uma ótima desculpa.

— Isso é porque desobedecer significa a destruição certa. Experimente levar com o Fogo Abrasador nos teus ossos... para ver se gosta.

Ela carregou o cenho.

— Isso parece-me mais uma desculpa esfarrapada. Está dizendo que todo o teu mal é realizado sem querer?

— Não o colocaria propriamente nesses termos, mas... sim. Desde o diabrete ao afrit, estamos todos sujeitos à vontade dos magos. Não podemos fazer nada a esse respeito. Eles nos têm à sua mercê. No momento, por exemplo, tenho que ajudar e proteger o Mandrake, quer queira, quer não.

— Patético. — Falara em tom decidido. — Absolutamente patético. — E, na verdade, ao ouvir-me dizer tudo isto, também assim me pareceu. Nós, escravos, temos vivido tanto tempo acorrentados que raramente falamos do assunto;84 só de ouvir a resignação na minha própria voz ficava com a essência doente até ao âmago. Procurei reforçar a minha vergonha com um acesso de mui justa indignação.

 

84 Apenas alguns, como o velho Faquarl, planejaram de forma aberta (e desnecessária) uma revolta. Mas há tanto tempo que vêm insistindo no assunto sem se verem resultados, que ninguém mais liga.

 

— Oh, nós respondemos — aleguei. — Apanhamo-os, se eles se descuidam, e entendemos mal as ordens sempre que podemos. Encorajamo-os a rivalizar uns com os outros, e fazemos com que se peguem. Carregamo-os de luxos até os seus corpos ficarem gordos e as suas mentes muito embotadas para perceberem sua queda. Esforçamo-nos ao máximo. O que é mais do que vocês, humanos, conseguem a maior parte das vezes.

Ao ouvir isto, a garota soltou uma estranha gargalhada entrecortada.

— O que acha que tenho tentado todos estes anos? Sabotar o Governo, roubar artefatos, destruir a cidade... tem sido tudo em vão. Poderia perfeitamente ter sido secretária, como queria a minha mãe. Os meus amigos foram mortos ou corrompidos e a culpa é de demônios como você. E não me venha dizer que não te agrada. Aquela coisa na cripta adorou cada segundo do... — O corpo dela estremeceu violentamente; calou-se, esfregou os olhos.

— Bem, há exceções — comecei. Depois desisti.

Como se tivesse rompido uma fina barreira, os ombros da garota foram sacudidos e de repente começou a chorar com grandes espasmos de dor. Fez isso muito silenciosamente, abafando o ruído com o punho, como se para me poupar do constrangimento. Não soube o que dizer. Era tudo muito estranho. Ela continuou por um longo tempo. Sentei-me de pernas cruzadas, um pouco distante, virando-lhe respeitosamente as costas e espreitando as sombras.

Onde estava o rapaz? Vamos lá, vamos lá. Estava demorando um bocado.

Patético. Absolutamente patético. Por mais que quisesse ignorá-las, as palavras dela torturavam-me no silêncio da noite.

 

Kitty recompôs-se finalmente. Os últimos sons de desespero diminuíram. Suspirou pesadamente. O edifício em ruínas estava escuro, à exceção de uma pequena área próxima do telhado onde as luzes mágicas brilhavam tenuemente. A sua radiância baixara. O demônio estava sentado ali perto, apresentando ainda a forma do jovem de pele escura vestido com uma saia enrolada. O seu rosto estava virado de lado, a luz projetando sombras angulares no pescoço fino e ombros nus curvados. Tinha um ar extremamente frágil.

— Se te serve de algum consolo — disse o demônio —, destruí o afrit da cripta. — Não se virou.

Kitty tossiu e endireitou as costas, afastando o cabelo dos olhos. Não respondeu de imediato. A sensação de desespero extremo que se apoderara dela quando o demônio a transportara pelos céus desaparecera agora, levada pelo súbito extravasar da dor pela perda dos amigos. Sentia um vazio por dentro e a cabeça oca. Mesmo assim, tentou reunir as idéias.

Fugir. Podia tentar fugir... Não, havia que considerar Jakob — esperaria por ele. Se ele viesse realmente... Franziu o cenho: contava apenas com a palavra do demônio nesse sentido. Talvez fosse melhor fugir... Virou a cabeça de um lado para o outro, procurando inspiração.

— Você o matou? — indagou distraidamente. — Como? — Havia umas escadas perto; estavam no primeiro piso, nesse caso. A maior parte das janelas estava tapada com tábuas.

— Atirei-o no Tamisa. Estava completamente louco, sabe, depois de tanto tempo. Prendera a sua essência aos ossos de Gladstone. Não queria, ou não podia, libertar-se. Um caso triste, mas enfim. Era uma ameaça para tudo: djinni ou humano, e fica melhor preso debaixo de centenas de metros de água.

— Sim, claro... — Parecia haver uma janela partida não muito longe dali; talvez pudesse saltar por ela. O demônio podia atacar com alguma magia enquanto corria, mas a sua resiliência iria ajudá-la. Depois estaria na rua, procuraria um esconderijo...

— Espero que não esteja pensando em fazer nada precipitado — afirmou o rapaz subitamente.

Kitty sobressaltou-se, sentindo-se culpada.

— Não.

— Está pensando em fazer alguma coisa, ouço-o na tua voz. Bem, não o faça. Não se preocupe em usar um ataque mágico. Já ando por aqui há muito tempo, sabe. Conheço bem as tuas defesas. Já vi tudo isso antes. Olha que eu te atiro um tijolo.

Kitty mordeu o lábio. Relutantemente, e apenas de momento, afastou da idéia a fuga.

— O que quer dizer, já viu antes? — indagou. — Está se referindo ao beco?

O rapaz olhou-a por cima do ombro.

— Bem, houve isso, claro; vocês resistiram razoavelmente a um Inferno de alta intensidade que lhes lancei. Mas estou a recuar mais no tempo, muito antes dos ricos magozinhos de Londres começarem a se envaidecer. Já o vi vezes sem conta. Acaba por acontecer, mais cedo ou mais tarde. Sabe, tendo em conta o que está em jogo, seria de esperar que aquele maldito Mandrake fizesse um esforço para chegar aqui, não te parece? Já estamos aqui há uma hora.

A testa de Kitty franziu-se.

— Quer dizer que já viu pessoas como eu antes?

— Claro! Dúzias de vezes. Hum, calculo que os magos não te deixem ler os livros de História... Não admira que seja tão tremendamente ignorante. — O demônio rodou o traseiro para ficar de frente para ela. — Como acha que se deu a queda de Cartago? Ou da Pérsia? Ou de Roma? Claro, havia já Estados inimigos prontos a tirar partido das fraquezas dos impérios, mas foram as divisões no seu meio que realmente as causaram. Rômulo Augústulo,* por exemplo, passou metade do reinado a tentar controlar o seu povo ao mesmo tempo que os Ostrogodos, com os seus grandes bigodes, iam avançando pela Itália. Os seus djinn já não conseguiam controlar a plebe, percebe? E porquê? Porque muitos deles tinham se tornado como você: resilientes à nossa magia. Detonações, Fluxos, Infernos... mal lhes chamuscavam as barbas. E é claro que o povo sabia, por isso exigira os seus direitos, exigira finalmente que os magos fossem derrubados. Era tanta confusão que quase ninguém deu pela horda bárbara senão quando já saqueara Roma. — O rapaz coçou o nariz. — De certa forma, penso que foi um alívio. Começar de novo e tudo isso. Durante muito tempo não houve magos na Cidade Eterna.

 

* Nascido em 461, foi o último imperador romano do Ocidente (475-476), deposto por Odoacro. (NT)

 

Kitty pestanejou. Tinha fracos conhecimentos de História, e os nomes e lugares estranhos diziam-lhe muito pouco, mas entendia perfeitamente as implicações.

— Está dizendo que a maior parte dos Romanos tinha resiliência à magia?

— Oh, não. Talvez cerca de trinta por cento. Em vários graus, claro. Não é preciso mais do que isso para se dar uma revolta jeitosa.

— Mas nós nunca conseguimos ser mais do que onze! E Londres é enorme.

— Onze por cento? Isso não é nada mau.

— Não. Onze. Era tudo.

O rapaz arqueou as sobrancelhas.

— Caramba, a sua política de recrutamento não deve ter sido famosa. Mas voltemos aos primeiros tempos. Quando foi que Gladstone se instalou de armas e bagagens? Mais ou menos há cento e cinqüenta anos? Bem, aí tem a resposta. A Resiliência à magia demora muito tempo a desenvolver-se na população em geral. Os magos governavam Roma há quinhentos anos antes de se darem as revoluções. Isso é uma grande quantidade de magia a invadir a cidade. Vai-se acumulando: nascem cada vez mais crianças com talentos de uma ou outra espécie. O que mais é que vocês conseguem fazer, por exemplo? Ver-nos?

— Não. — Kitty esboçou um esgar. — Anne e Fred conseguiam-no. Eu só... consigo sobreviver.

O rapaz sorriu.

— Isso já é um talento significativo. Conserve-o.

— Stanley também conseguia ver magia nas coisas... Foi assim que soubemos que tinha o colar.

— O quê? Oh, o Amuleto. Sim, esse tipo de visão é outra coisa. Bem, provavelmente neste momento existe todo o tipo de capacidades a borbulhar na população de Londres. Devem ser centenas de pessoas com poderes. Mas tem que se lembrar: a maior parte das pessoas não percebe sequer que possui uma capacidade. É preciso tempo para o conhecimento se divulgar. Como foi que descobriu?

Não foi preciso mais para Kitty se lembrar de que este rapazinho franzino, cortês e muito loquaz era, na realidade, um demônio, algo a ser desprezado e evitado. Abriu a boca para falar e hesitou. O rapaz revirou os olhos de contrariedade e levantou as mãos.

— Olhe, não pense que vou contar isto a alguém, muito menos ao meu amo. Não lhe devo nada. Mesmo assim, longe de mim obrigá-la a fazê-lo. Não sou mago. — Parecia bastante melindrado.

— Um demônio atingiu-me com um Cilindro Negro. — A sua pequena confidência apanhou Kitty de surpresa; percebeu que falara sem pensar.

— Oh, sim. O macaco de Tallow. Tinha me esquecido. — O rapaz espreguiçou-se indolentemente. — Bem, irá gostar de saber que Tallow já morreu. Um afrit apanhou-o. Em grande estilo, também. Não... não vou te contar os pormenores. A menos que me fale de você. O que aconteceu depois do Cilindro? — E Kitty, contrariamente à sua vontade, não tardou a narrar a sua história.

No fim, o demônio encolheu os ombros, pesaroso.

— Sabe, o problema com este Pennyfeather foi ser muito parecido com os magos, não foi? Ganancioso, agarrava e não largava. Queria manter tudo em segredo, só para si. Não admira que fossem só onze membros. Quando queremos fazer uma revolução, aconselho que se tragam as pessoas para o nosso lado. Todas aquelas explosões e roubos nunca iriam levá-los a lugar nenhum.

Kitty carregou o cenho. A confiança implícita nas afirmações do demônio era exasperante.

— Acho que não.

— É claro que não. O que conta é a educação. O conhecimento do passado. Por isso os magos dão uma educação tão fraca a vocês. Aposto que te encheram de aulas sobre a grandiosidade da Grã-Bretanha. — Soltou uma risada. — O curioso é que a crescente resiliência das pessoas também constitui uma surpresa para os magos. Cada império pensa que é diferente, pensa que não vai lhes acontecer. Esquecem as lições do passado, mesmo as recentes. Gladstone só chegou a Praga tão depressa porque metade do exército checo estava em greve na altura. Isso enfraqueceu seriamente o Império. Mas o meu amo e os seus amigos já esqueceram o fato. Não percebeu como conseguiu escapar ao mouler dele no outro dia. Por acaso, ele está levando uma eternidade para trazer Hyrnek até aqui. Começo a pensar que é capaz de lhe ter acontecido algo. Nada de fatal, infelizmente, ou já não me encontraria aqui.

Jakob. Kitty deixara-se envolver tanto pelas palavras do demônio que quase se esquecera de pensar no amigo. Corou. Estivera a conversar com o inimigo — um assassino, um raptor, um inumano hostil. Como pudera ter-se esquecido?

— Sabe — disse o demônio de uma forma algo compadecida —, estou curioso em relação a uma coisa. Por que veio à procura deste Hyrnek? Devia saber que era uma armadilha. Ele disse que não te via há anos.

— Não sabia. Mas é por minha culpa que ele está metido nesta confusão, não é? — Kitty falou rangendo os dentes.

— Si-i-m... — O demônio fez um esgar. — Só me parece estranho, é tudo.

— O que você pode saber sobre isso, demônio?! — Kitty estava branca de raiva. — É um monstro! Como se atreve sequer a imaginar o que sinto! — Estava tão furiosa que quase lhe apetecia bater.

O rapaz deu de ombros.

— Deixe-me dar-lhe um conselho amigo — referiu. — Diga-me, não gostaria que te chamassem «repugnante», não é? Bom, então, da mesma forma, ao dirigir-se a um espírito como eu, a palavra «demônio» é, muito sinceramente, um bocadinho desonroso para ambos. O termo correto é djinni, muito embora possa acrescentar adjetivos como «nobre» ou «resplandecente», se quiser. É apenas uma questão de boas maneiras. Mantém-se um ambiente simpático entre nós.

Kitty riu com aspereza.

— Ninguém é amigo de um demônio!

— Normalmente, não. Os diferenciais cognitivos são muito grandes. Mas Um sucedido. — Calou-se e ficou pensativo.

— Sim?

— Vai por mim.

— E quando foi isso?

— Oh, há muito tempo... Não interessa. — O rapaz egípcio encolheu os ombros.

— Está inventando.

Kitty ficou à espera, mas o rapaz inspecionava as unhas com atenção. Não prosseguiu.

Após uma longa pausa, foi ela a quebrar o silêncio.

— Então por que foi que Mandrake me salvou dos lobos? Não faz sentido.

O rapaz suspirou.

— Ele quer o Bordão. É óbvio.

— O bordão? Porquê?

— O que te parece? Poder. Ele está tentando obtê-lo antes dos outros. — A voz do rapaz era distante. Parecia estar de mau humor.

Fez-se luz no espírito de Kitty.

— Está dizendo que aquele bordão é importante?

— Claro. É de Gladstone. Você sabia disso, senão não teria assaltado o túmulo dele, não é?

Kitty reviu no seu subconsciente o camarote no teatro, e a chave de ouro a ser empurrada para junto dela. Ouviu a voz do benfeitor, mencionando o Bordão como se não tivesse qualquer importância. Viu os olhos cinzento-claros de Hopkins fitarem-na, ouviu a sua voz, baixa no meio da azáfama da cafeteria, perguntar pelo Bordão. Sentiu o mal-estar da traição.

— Oh. Não sabia. — Os olhos brilhantes do djinni observavam-na. — Tramaram em cima de você. Mas quem? O tal Hopkins?

A voz de Kitty mal se ouviu.

— Sim. E mais alguém... nunca lhe vi o rosto.

— Que pena. É quase certeza ser um dos magos principais. Agora, pode escolher à vontade. Um é tão mau como o outro. E há sempre mais alguém que faz o trabalho sujo por eles, djinni ou humano. — Pestanejou, como se tivesse tido uma idéia. — Não sabe nada sobre o golem, suponho? — A palavra não disse nada a Kitty: abanou a cabeça. — Bem me parecia. É uma criatura mágica grande e desagradável; tem andado a espalhar o caos por Londres nos últimos tempos. Alguém o controla, e adoraria saber quem. Quase me matou, para começar.

O rapaz pareceu tão incomodado quando proferiu estas palavras que Kitty quase sorriu.

— Julguei que era um nobre djinni de poder incrível — referiu. — Como foi que este golem te venceu?

— É resistente à magia, eis a razão. Suga-me a energia se eu me aproximar. Você teria mais chances de detê-lo do que eu. — Dito daquela maneira, até parecia a coisa mais ridícula do mundo.

Kitty levantou a cabeça.

— Muito obrigada.

— Falo sério. Um golem é controlado por um manuscrito escondido na sua boca. Se se aproximasse, e lhe arrancasse o papel, o golem voltaria para o seu amo e desintegrar-se-ia em barro. Vi-o acontecer uma vez, em Praga.

Kitty anuiu distraidamente.

— Isso não me parece muito difícil.

— Obviamente, teria que penetrar na negrura sufocante que paira ao seu redor...

— Oh... claro.

— E evitar os seus punhos fortes que são capazes de abrir um buraco no cimento...

— Ah.

— Além disso, não haveria mais problemas.

— Bem, se é assim tão fácil — inquiriu Kitty —, como é que os magos não o detiveram?

O djinni esboçou um sorriso frio.

— Porque precisariam de ser corajosos. Eles nunca fazem nada pessoalmente. Dependem de nós dia e noite. Mandrake dá-me uma ordem, eu obedeço. Ele fica sentado em casa e eu é que sofro as conseqüências. É assim que funciona.

A voz do rapaz envelhecera e estava cansada. Kitty anuiu.

— Parece complicado.

Um encolher de ombros.

— É assim que funciona. Não tenho escolha. Daí que quisesse saber por que veio em auxílio de Hyrnek. Falemos com franqueza, foi uma decisão estúpida, e não precisava tê-la tomado. Ninguém está te obrigando a nada. Equivocou-se, mas por razões nobres. Acredite em mim, é bom constatá-lo depois de aturar os magos há tanto tempo.

— Eu não me equivoquei — afirmou Kitty. — Há quanto tempo foi?

— Cinco mil anos ou mais. Aqui e ali. Vamos tendo uma folguinha ao longo dos séculos, mas mal cai um império, logo outro se levanta. A Grã-Bretanha é apenas o último.

Kitty espreitou as sombras.

— E, com o tempo, a Grã-Bretanha também acabará por cair.

— Sim. As fendas já são visíveis. Devia ler mais, iria perceber os padrões. Aha... alguém está lá embaixo. Finalmente...

O rapaz levantou-se. Kitty seguiu-lhe o exemplo. Chegaram então aos seus ouvidos sons arrastados, algumas imprecações abafadas pela escada acima. O seu coração começou a bater mais depressa. Perguntou-se, mais uma vez, se deveria fugir; e mais uma vez, reprimiu o instinto.

O djinni olhou para ela, sorriu. Os seus dentes brilharam muito brancos.

— Sabe, adorei a nossa conversa — disse. — Só espero que não me mandem matá-la.

Garota e demônio juntaram-se, à espera no escuro. Ouviam-se passos nas escadas.

 

Nathaniel foi escoltado a Whitehall numa limusine blindada, acompanhado de Jane Farrar e três agentes silenciosos da Polícia Noturna. Jakob Hyrnek estava sentado à sua esquerda, um policial à direita. Nathaniel reparou que o agente apresentava grandes rasgões e as calças do uniforme descosturadas, e que as unhas da sua enorme mão calosa estavam partidas. O ar tresandava a almíscar. Olhou para Jane Farrar, impassivelmente sentada no banco da frente, e deu consigo a pensar se também seria lobisomem. Tinha sérias dúvidas: parecia muito controlada, de constituição muito franzina. Mas, por outro lado, nunca se sabe.

Em Westminster Hall, Nathaniel e Jakob foram levados diretamente para a grande Câmara de Recepções, onde o teto brilhava com esferas de vigilância e o Primeiro-Ministro e os seus lordes estavam sentados em volta de uma mesa envernizada. Ao contrário do que era costume, não se viam travessas com guloseimas, o que atestava a manifesta gravidade da situação. Cada ministro tinha apenas uma humilde garrafa de água e um copo. O Chefe de Polícia ocupava agora a cadeira de honra ao lado do Primeiro-Ministro, o seu rosto a transbordar de satisfação. Ms. Whitwell fora relegada para um lugar nas margens. Nathaniel ignorou-a. Os seus olhos tinham-se fixado no Primeiro-Ministro, procurando sinais perceptíveis; mas Mr. Devereaux fitava a mesa.

Encontravam-se ali apenas os ministros principais. Mr. Makepeace não estava presente.

Os agentes da escolta fizeram a continência ao Chefe de Polícia Duvall e, a um sinal seu, abandonaram a sala. Jane Farrar avançou. Tossiu delicadamente.

Mr. Devereaux levantou a cabeça. Suspirou qual homem prestes a executar uma tarefa desagradável.

— Sim, Ms. Farrar? Tem algo a informar?

— Tenho, senhor. Mr. Duvall forneceu-lhe alguns pormenores?

— Ele mencionou algo sobre o assunto. Por favor, seja breve.

— Sim, senhor. Temos observado, há já alguns dias, as atividades de John Mandrake. Várias pequenas discrepâncias em questões recentes despertaram a nossa atenção: ele evidenciou uma certa indefinição e contradição nos seus atos.

— Protesto! — interrompeu Nathaniel o mais cortesmente possível. — O meu demônio destruiu o afrit renegado... Não posso ser acusado de indefinição nessa matéria.

Mr. Devereaux levantou uma mão.

— Sim, sim, Mandrake. Terá a sua oportunidade de falar. Entretanto, faça o favor de se calar.

Jane Farrar pigarreou.

— Se me é permitido desenvolver, senhor: nos últimos dias, Mandrake empreendeu por diversas vezes viagens solitárias através de Londres, numa altura de crise em que era necessário que todos os magos permanecessem em Westminster para receberem ordens. Esta tarde, quando partiu mais uma vez misteriosamente, mandamos esferas de vigilância segui-lo. O localizamos numa casa na zona oriental de Londres, onde se encontrou com o seu demônio e este jovem pouco recomendável. Instalaram-se ali, evidentemente à espera de alguém. Decidimos colocar agentes da Polícia Noturna nas proximidades. Ao final da tarde de hoje, uma garota aproximou-se da casa; intimada pelos nossos agentes, ofereceu resistência à detenção. Estava fortemente armada: houve dois mortos e quatro feridos na escaramuça. No entanto, os nossos agentes preparavam-se para efetuar a captura quando apareceu o demônio de Mr. Mandrake e ajudou a suspeita a fugir. Em face disto, senti que era meu dever prender Mr. Mandrake.

O Primeiro-Ministro bebeu um pequeno gole de água.

— Esta garota? Quem é?

— Acreditamos ser um membro da Resistência, senhor, uma sobrevivente do assalto à abadia. Parece evidente que Mandrake esteve em contato com ela durante algum tempo. Certamente a ajudou a fugir da justiça. Achei que se impunha levar o assunto à sua consideração.

— Efetivamente. — Os olhos negros de Mr. Devereaux miraram Nathaniel durante algum tempo. — Quando as suas forças a encontraram, a garota levava o Bordão de Gladstone?

Jane Farrar franziu os lábios.

— Não, senhor, não levava.

— Por favor, senhor, se me é permitido...

— Não é, Mandrake. Henry, deseja comentar?

O Chefe de Polícia não parava quieto na sua cadeira; inclinou-se então para frente, apoiando as mãos enormes e sapudas na mesa. Virou lentamente a cabeça de um lado para o outro, observando os restantes ministros um por um.

— Há muito tempo que tinha as minhas dúvidas em relação a este rapaz, Rupert — começou. — A primeira vez que o vi, disse para com os meus botões, «Este Mandrake tem talento, é certo, e dá mostras de ser empreendedor... mas também dissimulado; há algo de insondável nele.» Bem, agora conhecemos todos a sua ambição, como se insinuou nas boas graças da pobre Jessica, como ela lhe deu poderes na Administração Interna apesar da sua pouca idade. Por conseguinte, qual era a sua missão naquele cargo? Resolver o problema da Resistência, destruí-la se possível e tornar as ruas um lugar mais seguro para todos nós. O que aconteceu nos últimos meses? A Resistência foi ganhando cada vez mais força, e a sua campanha de terrorismo culminou na pilhagem do túmulo do nosso Fundador. Não têm fim, os ultrajes por eles cometidos: o Museu Britânico, os empórios de Piccadilly, a National Gallery — tudo foi atacado, e ninguém responsabilizado.

Nathaniel avançou, enfurecido.

— Conforme disse muitas vezes, isso nada teve a ver com... — Apareceu diante dele, no meio do ar, uma faixa verde-azeitona de uma substância gelatinosa que se enrolou em volta da cabeça, amordaçando-o dolorosamente. Mr. Mortensen baixou a mão.

— Continue, Duvall — disse.

— Obrigado. — O Chefe de Polícia fez um gesto largo. — Ora bem. A princípio, Ms. Farrar e eu pensamos que toda esta singular falta de sucesso se devia simplesmente a incompetência da parte de Mandrake. Depois começamos a estranhar: poderia haver mais qualquer coisa? Poderia este jovem talentoso e habilidoso estar envolvido em algo mais sinistro? Começamos a ficar de olho nele. Depois da destruição do museu, ele efetuou uma viagem repentina a Praga, onde — apesar dos seus movimentos serem um pouco vagos — estamos convencidos de que se encontrou com magos estrangeiros. Sim, bem pode ficar boquiaberta, Ms. Malbindi! Sabe-se lá que estragos este rapaz pode ter causado, que segredos pode ter revelado. No mínimo dos mínimos, um dos nossos melhores espiões em Praga... um homem que nos servira bem durante muitos anos... foi assassinado durante a visita de Mandrake.

Ante isto, muitos dos ministros começaram a murmurar entre si. Mr. Duvall bateu com os seus dedos espalmados na mesa.

— Mandrake tem andado a espalhar uma história mirabolante sobre os ataques a Londres, afirmando que um golem... sim, ouviu perfeitamente, Ms. Malbindi, um golem... poderia estar por trás deles. Por mais ridículo que pareça, ele deve ter iludido a pobre Jessica com bastante facilidade, e a história do golem serviu-lhe de pretexto para a visita a Praga. Voltou de lá sem provas das suas afirmações absurdas e, como acabamos de saber, tem, desde então, sido visto a encontrar-se com a Resistência e a desafiar a nossa polícia. Não há a menor dúvida de que pretende o Bordão de Gladstone; e pode até suceder que tenha levado os traidores ao túmulo. Sugiro que se escolte já Mr. Mandrake até à Torre para ser devidamente interrogado. Na realidade, proponho-me tratar pessoalmente do assunto.

Houve um murmúrio de assentimento. Mr. Devereaux encolheu os ombros. Dos outros ministros, Ms. Whitwell permaneceu em silêncio, de rosto impassível. O corpulento Ministro dos Negócios Estrangeiros, Fry, falou:

— Apoiado. Nunca gostei do rapaz. Tem o cabelo muito comprido e cara de insolente. Que métodos tem em mente, Duvall?

— Talvez o Poço do Remorso? Sugiro que ele fique suspenso lá dentro até o nariz a noite inteira. Normalmente isso costuma fazer os traidores falarem, se as enguias lhes deixarem as línguas.

Fry anuiu.

— Enguias. Agora me lembro. O que me dizem de um segundo jantar?

Mr. Mortensen inclinou-se para frente.

— E que tal o Cabrestante, Duvall? Revela-se com freqüência eficaz.

— Um Globo Doloroso é o método mais experimentado e comprovado, acho eu.

— Talvez umas horas em cada?

— Talvez. Posso levar o desgraçado, Rupert?

O Primeiro-Ministro esvaziou o ar das bochechas, recostou-se na sua cadeira. Falou com hesitação.

— Acho que sim, Henry. Acho que sim.

Mr. Duvall estalou os dedos; saíram das sombras quatro agentes da Polícia Noturna, cada um mais musculoso do que o anterior. Marcharam em passo certo pela sala, em direção ao prisioneiro, o que vinha na frente retirando do cinto umas algemas de prata. Ante este desenvolvimento, Nathaniel, que se debatera e gesticulara vigorosamente durante algum tempo, efetuou um protesto tão veemente que se escapou da mordaça um pequeno gemido abafado. O Primeiro-Ministro pareceu lembrar-se de algo.

— Um momento, Henry. Temos de deixar o rapaz defender-se. O Chefe de Polícia carregou o cenho de impaciência.

— Temos, Rupert? Cuidado. Ele é um pequeno diabo capcioso.

— Isso serei eu a decidir, pode ser? — Mr. Devereaux olhou para Mortensen, que esboçou um gesto relutante. A mordaça gelatinosa que envolvia a boca de Nathaniel dissolveu-se, deixando um travo amargo. Ele tirou o lenço do bolso e limpou a transpiração do rosto.

— Apresse-se, então — resmungou Duvall. — E atenção, nada de mentiras.

Nathaniel endireitou-se e passou a língua pelos lábios. Não viu senão hostilidade nos olhos dos magos principais, exceto — e esta era agora a sua única esperança — talvez, nos do próprio Mr. Devereaux. Detectou ali algo que poderia ter sido incerteza, misturado com extrema irritação. Nathaniel pigarreou. Há muito que se orgulhava da sua relação com o Primeiro-Ministro. Chegara o momento de pô-la à prova.

— Obrigado pela oportunidade de falar, senhor — começou. Tentou patentear um tom calmo e suave de confiança na voz, mas o receio apertava-lhe a garganta, e saiu esganiçada. Só a idéia da Casa da Persuasão, uma zona da Torre de Londres destinada a interrogar os prisioneiros, o deixava a tremer. Bartimaeus tinha razão: devido aos seus atos, ficara vulnerável aos seus inimigos. Precisava agora de convencê-los. — As insinuações de Mr. Duvall são infundadas — afirmou —, e Ms. Farrar está, para dizer o mínimo, muito ansiosa. Espero que ainda haja tempo de reparar os danos que causaram.

Ouviu Jane Farrar resfolegar discretamente em algum lugar ao lado dele. Mr. Duvall emitiu um resmungo de protesto que foi interrompido por um único olhar do Primeiro-Ministro. Um pouco mais encorajado, Nathaniel prosseguiu.

— A minha viagem a Praga e a questão da garota são dois assuntos completamente distintos, senhor. É verdade que estou convencido de que muitos dos ataques em Londres são obra de um golem; as minhas investigações nessa matéria ainda não terminaram. Entretanto, tenho estado a usar este jovem — indicou com a cabeça Hyrnek —, para obrigar a traidora Kitty Jones a sair do esconderijo. É um antigo amigo dela e calculei que pudesse vir resgatá-lo. Uma vez em meu poder, ela não tardaria a indicar-me o paradeiro do Bordão, que poderia depois entregar em suas mãos. A chegada dos lobos de Ms. Farrar destruiu por completo a minha emboscada. Conto que seja firmemente repreendida.

Jane Farrar soltou um grito de raiva.

— Os meus homens tinham a garota encurralada! O demônio dele levou-a.

— Claro. — Nathaniel era a urbanidade em pessoa. — Porque os seus homens teriam dado cabo dela. Estavam sedentos de sangue. Como chegaríamos depois ao Bordão?

— Eles eram Policiais Imperiais, prestam contas diretamente aqui a Mr. Duvall...

— Precisamente, e seria difícil encontrar organização mais cruel e imprevisível. — Nathaniel prosseguiu o ataque. — Admito que tenho agido com secretismo, senhor — afirmou com brandura, dirigindo-se apenas a Mr. Devereaux —, mas eu sabia tratar-se de uma operação delicada. A garota é teimosa e voluntariosa. Para localizar o Bordão, tive de avançar com cautela: tive de lhe propor, em troca, a segurança deste rapaz. Temi que a estupidez habitual de Mr. Duvall pudesse deitar tudo a perder. Como, infelizmente, veio a suceder.

Era digna de se ver, a fúria nos olhos do Chefe de Polícia. O seu rosto trigueiro estava da cor da beterraba, as veias no pescoço e nas mãos grossas como amarras, e as suas unhas (que pareciam ligeiramente mais compridas do que um instante antes) cravaram-se no tampo da mesa. Mal conseguia falar de tanta raiva.

— Guardas! Levem este jovem perverso. Eu já lhe trato da saúde.

— Está esquecendo-se de uma coisa, Henry. — Mr. Devereaux falou calmamente, mas era nítida a ameaça na sua voz. — Eu sou Juiz e Júri deste governo; sou eu que decido o destino de Mandrake. Não estou de modo algum satisfeito por ele ser o traidor que afirma. John — prosseguiu —, o seu demônio tem a garota, esta Kitty Jones, detida?

— Sim, senhor. — Era visível a tensão no rosto de Nathaniel. Ainda não estava livre; a sombra negra do Poço do Remorso continuava a pairar diante de si. Precisava avançar com cautela. — Mandei-a para um local sossegado, onde posso levar a cabo o meu plano. Espero que esta longa demora não estrague tudo.

— E tencionava devolver-me o Bordão? — Devereaux olhou-o pelo canto de um olho.

— Claro, senhor! Tinha esperança de vê-lo um dia colocado ao lado do Amuleto de Samarcanda, nos cofres-fortes do governo, senhor. — Mordeu o lábio, aguardou. Era este o seu trunfo, claro; ao recuperar o Amuleto, salvara a vida de Devereaux e não queria que o Primeiro-Ministro o esquecesse naquele momento. — Ainda posso fazê-lo, senhor — acrescentou. — Se levar este Hyrnek à garota, e prometer a segurança de ambos, acredito que ela não tardará a entregar-me o Bordão.

— E a garota? Ficará em liberdade?

Nathaniel sorriu afetadamente.

— De modo algum, senhor. Assim que eu tiver o Bordão, ela e Hyrnek podem ser interrogados à vontade. — O sorriso dele desapareceu depressa quando Jakob Hyrnek lhe desferiu um pontapé na canela.

— O rapaz é um grande mentiroso. — Mr. Duvall recuperara um pouco a compostura. — Por favor, Rupert, não vai deixar se levar...

— Tomei uma decisão. — O Primeiro-Ministro inclinou-se para frente, formando um arco com os dedos. — Mandrake revelou-se valioso e leal no passado; temos de lhe dar o benefício da dúvida. Vou acreditar na sua palavra. Deixá-lo recuperar o Bordão. Se o fizer, todo o seu secretismo será perdoado. Se não, aceitarei a versão dos acontecimentos de Henry e mandá-lo-ei para a Torre. Um acordo consensual? Estão todos satisfeitos? — Sorrindo, percorreu com o olhar a expressão de sombria decepção de Mr. Duvall, seguidamente a de quase doentia ansiedade de Nathaniel e voltou ao ponto de partida.

— Muito bem. Mandrake, pode ir. Agora, alguém falou em comida? Um pouco de vinho bizantino, para começar!

Uma brisa tépida encheu a sala. Avançaram escravos invisíveis, trazendo copos e garrafas de cristal cheios de vinho cor de alperce. Jane Farrar abaixou-se quando uma travessa com salsichas de veado lhe passou por cima da cabeça.

— Mas, senhor, certamente não vamos deixar Mandrake fazer isto sozinho!

— Sim... temos de enviar um batalhão de tropas! — Com a impaciência, Duvall bateu num copo que lhe ofereciam. — Seria um absurdo confiar nele.

Nathaniel ia já a meio caminho da porta. Apressou-se a voltar atrás.

— Senhor, trata-se de uma situação extremamente delicada. Um bando de brutamontes pode deitar tudo a perder.

Mr. Devereaux provava de um copo.

— Magnífico. A essência de Mármara... Bem, temos de chegar novamente a um acordo. Serão enviadas com Mandrake várias esferas de vigilância, para controlarmos os seus movimentos. Agora, podiam passar-me aquele cuscuz de aspecto delicioso?

Nathaniel prendeu Jakob Hyrnek com um elo invisível e, agarrando-o pelo braço, abandonou o salão. Não sentia entusiasmo. Conseguira afastar momentaneamente Duvall, mas, se não conseguisse o Bordão, em breve a situação iria complicar-se. Sabia que esgotara toda a benevolência que o Primeiro-Ministro pudesse ter para com ele, e era notória a aversão de todos os outros ministros. A sua carreira e a sua vida estavam presas por um fio.

Quando iam atravessando o átrio do salão, Ms. Whitwell avançou para interceptá-lo. Nathaniel deu-lhe um olhar implacável, mas não abriu a boca. Os seus olhos aquilinos cravaram-se nos dele.

— Pode ou não ter convencido o nosso caro Primeiro-Ministro — falou-lhe em tom áspero —, e pode ou não conseguir o Bordão, mas eu sei que tem estado a agir nas minhas costas, procurando ganhar terreno às minhas custas, e isso não te perdoarei. A nossa ligação termina aqui, e não te desejo nenhuma sorte. Pode apodrecer à vontade na Torre de Duvall, me é indiferente.

Afastou-se apressadamente, as suas roupas a roçar como folhas mortas. Nathaniel ficou algum tempo a olhar para ela; depois, apercebendo-se de que Hyrnek o fitava com uma sinistra expressão divertida nos olhos, recompôs-se e fez sinal ao grupo de motoristas que aguardava do outro lado do átrio.

Enquanto o carro avançava para o norte, apareceram quatro esferas de vigilância vermelhas por cima da entrada do átrio que partiram em silenciosa perseguição.

 

Vi logo o clima, assim que subiram as escadas. Li-o no sorriso forçado do rapaz Hyrnek e na relutância com que subiu cada degrau. Detectei-o na expressão fria e endurecida nos olhos do meu amo e na proximidade ameaçadora que vinha atrás do seu prisioneiro. Oh, sim, Nathaniel esforçava-se por que parecesse tudo muito natural e relaxado, tentando transmitir descontração à garota. Chamem-me intuitivo, mas não me parecia que as coisas fossem tão cor-de-rosa como ele queria que parecessem. Claro, o foliot invisível empoleirado nos ombros de Hyrnek, agarrando-lhe a garganta com as suas patas de unhas compridas, era também bastante revelador. As mãos de Hyrnek estavam presas ao lado do corpo, enroladas por uma fina cauda escamosa, pelo que não podia falar, gritar ou fazer qualquer tipo de gesto. Garras finas puxavam-lhe as bochechas, encorajando-o a manter o sorriso. O foliot estava também entretido a murmurar-lhe algo ao ouvido, e é pouco provável que fossem amenidades.85

 

85 Muitas vezes, os espíritos inferiores, como era o caso deste, são mesquinhos e vingativos, e aproveitam todas as oportunidades para causar desconforto a um humano à sua mercê, mencionando torturas e horrores afins. Outros têm uma lista infinita de piadas ordinárias. O pior é nunca se saber o que pode ganhar na rifa.

 

Mas a garota ignorava tudo isto. Soltou um pequeno grito quando viu Hyrnek surgir nas escadas e deu um passo involuntário em frente. O meu amo advertiu-a em alto e bom som:

— Por favor, afaste-se, Ms. Jones!

Ela ficou onde estava, mas não tirou os olhos do amigo.

— Olá, Jakob — disse.

O foliot afrouxou um pouco o aperto das garras, permitindo que o prisioneiro falasse.

— Viva, Kitty.

— Está ferido?

Uma pausa. O foliot fez cócegas no rosto de Hyrnek, advertindo-o.

— Não.

Ela esboçou um tênue sorriso.

— Eu... eu vim te salvar.

Um aceno rígido foi tudo o que obteve. As unhas do foliot haviam reposto a pressão. O falso sorriso de Hyrnek voltou, mas detectei o aviso desesperado nos seus olhos.

— Não se preocupe, Jakob — disse a garota com firmeza. — Hei de te tirar disto.

Bem, era tudo muito comovente, tudo muito pungente, e percebi que o afeto da garota pelo rapaz86 vinha mesmo a calhar ao meu amo. Observava o reencontro deles com uma ansiedade calculada.

 

86 Absolutamente inenarrável. Ele pareceu-me um pouco atado.

 

— Vim de boa-fé, Ms. Jones — disse-lhe, mentindo descaradamente. Pairando invisível à volta do pescoço de Hyrnek, o foliot revirou os olhos e soltou uma risada silenciosa.

Mesmo que eu tivesse querido avisar a garota, era impossível falar com ela estando o meu amo bem ali à minha frente.87 Além disso, ela não era o único problema. Percebi naquele momento as duas esferas vermelhas pairando alto nas vigas. Os magos observavam-nos à distância. Era inútil meter-me em confusão. Como sempre, fiquei a assistir pateticamente e aguardei as minhas ordens.

 

87 Não que o fosse fazer, claro. Os humanos e os seus assuntos mesquinhos nada têm a ver comigo. Se me fosse dada a opção de ajudar a garota ou desmaterializar-me logo de seguida, provavelmente ter-me-ia retirado com uma sonora gargalhada e uma gota de enxofre nos olhos dela. Por mais encantadora que ela fosse, nunca compensa um djinni aproximar-se das pessoas. Nunca. Ouçam a voz da experiência.

 

— Vim de boa fé — repetiu o meu amo. Estendera as mãos em sinal de paz, as palmas para cima e vazias.88 — Mais ninguém sabe que se encontra aqui. Estamos sós.

 

88 Quer dizer, o que era possível ver delas por baixo dos punhos folhudos.

 

Bem, aquilo era outra mentira. As esferas de vigia acotovelaram-se provocantemente por trás de uma viga, como se embaraçadas. O foliot esboçou uma expressão de falsa indignação. Os olhos de Hyrnek suplicavam à garota.

— E os lobos? — perguntou ela concisamente.

— Estão longe; mas procuram-na ainda, tanto quanto sei. — A boca dele sorriu. — Não me diga que quer mais uma prova das minhas intenções? — redarguiu. — Se não fosse eu, agora seria um monte de ossos num beco escuro.

— Da última vez que o vi não se mostrou tão atencioso.

— É verdade. — Nathaniel esboçou o que julgou ser um floreado cortês; com todo aquele cabelo e os punhos a agitar-se, até parecia que tropeçara. — Peço desculpas pela minha pressa naquela ocasião.

— Ainda tem intenção de me prender? Presumo que tenha sido por isso que raptou Jakob.

— Pensei que a levaria a aparecer, sim. Mas prendê-la? Muito sinceramente, isso depende de você. Talvez possamos chegar a um acordo.

— Desembuche.

— Mas primeiro... necessita de uma bebida ou de primeiros-socorros? Vejo que está ferida, e deve sentir-se cansada. Posso mandar o meu escravo — aqui estalou os dedos na minha direção — ir buscar o que precisar: comida, vinhos quentes, revitalizantes... E só pedir!

Ela abanou a cabeça.

— Não quero nenhuma das suas porcarias mágicas.

— Tem certeza que não necessita de nada? Ligaduras, bálsamos? Uísque? Bartimaeus consegue tudo num abrir e fechar de olhos.89

 

89 Mais uma vez, havia aqui um certo exagero, a menos que se tivesse um olho remeloso e particularmente reumático que demorasse muito a abrir. Recebida uma ordem concreta e com um afastamento parcial da incumbência em mãos, consigo desmaterializar-me e materializar-me noutro lugar, encontrar os objetos necessários e voltar, mas para tal serão necessários uns bons segundos — ou mais, se os objetos forem difíceis de localizar. Não sou capaz de fazer aparecer as coisas do nada. Seria um absurdo.

 

— Não. — Mantinha uma expressão endurecida, insensível às gentilezas dele. — Qual é a sua proposta? Presumo que queira o Bordão.

A compleição de Nathaniel mudou um pouco ao ouvir a palavra; talvez a franqueza dela o desconcertasse, raramente os magos são honestos e diretos. Ele anuiu lentamente.

— Você o tem? — O seu corpo estava rígido da tensão; não respirava.

— Tenho.

— É possível ir buscá-lo rapidamente?

— É.

Expirou então.

— Ótimo. Ótimo. Então aqui vai a minha proposta. Tenho um carro lá embaixo à espera. Leve-me até o local onde está o Bordão e confie-o aos meus cuidados. Assim que o tiver em segurança, você e Hyrnek recebem um salvo-conduto para onde quiserem. Esta anistia será válida por um dia. Presumo que queira deixar o país, e isso lhe dará tempo para fazê-lo. Pense cuidadosamente nas minhas palavras! É uma proposta generosa, feita a uma traidora não regenerada. Outros no Governo, como viu, não seriam tão generosos.

A garota não estava convencida.

— Que garantias tenho de que cumprirá a sua palavra?

Ele sorriu, sacudiu uma partícula de pó de uma manga.

— Nenhuma. Vai ter que confiar em mim.

— Altamente improvável.

— Tem outra escolha, Ms. Jones? Encontra-se encurralada. Um demônio selvagem guarda-a...

Ela olhou para um lado e para o outro, perplexa. Tossi.

— Sou eu.

— ...e terá também de lutar comigo — prosseguiu o meu amo. — Não voltarei a subestimá-la. Na verdade — acrescentou, quase como uma reflexão —, estou curioso em saber a origem das suas defesas mágicas. Muito curioso, mesmo. Onde foi arranjá-las? Quem lhe deu? — A garota não abriu a boca. — Se partilhar comigo esta informação — disse Nathaniel —, se falar com franqueza sobre o tempo que esteve na Resistência, farei mais do que libertá-la. — Avançou para ela, depois estendeu uma mão para lhe tocar no braço. Ela estremeceu, mas não se esquivou. — Também lhe posso dar riqueza — disse. — Sim, e posição social como nunca imaginou. Comuns como você: com inteligência, bravura e aptidão de sobra, podem obter cargos no seio do Governo, posições de verdadeiro poder. Isso não é segredo. Irá trabalhar diariamente com os grandes da nossa sociedade, e aprender coisas tais que lhe deixarão a cabeça a rodar. Posso tirá-la da vida monótona que leva, permitir-lhe vislumbrar o maravilhoso passado, os dias em que os imperadores-magos percorreram o mundo. Depois poderá fazer parte da nossa própria grande História. Quando vencermos as presentes guerras, por exemplo, iremos estabelecer uma nova Delegação Colonial na América, e iremos precisar de homens e mulheres inteligentes para fazerem valer a nossa vontade. Dizem que há lá vastas extensões por desbravar, Ms. Jones, terras sem nada nelas a não ser animais e alguns selvagens. Imagine-se: uma grande dama do Império...

Ela desviou-se então; a mão dele caiu-lhe do braço.

— Obrigada, mas não creio que isso me convenha.

Ele ficou carrancudo.

— É uma pena. E então a minha proposta inicial? Aceita-a?

— Quero falar com Jakob.

— Ele está ali. — Descontraidamente, o mago afastou-se um pouco. Recuei também. A garota abeirou-se de Hyrnek.

— Está realmente bem? — murmurou. — Está tão calado.

O foliot abrandou a pressão na garganta, mas flexionou as garras diante do rosto dele como delicado auxiliar de memória. Anuiu tenuemente.

— Estou ótimo. Ótimo.

— Vou aceitar a proposta de Mr. Mandrake. Tem alguma coisa a dizer?

Um sorriso muito fraquinho.

— Não, não Kathleen. Pode confiar nele.

Ela hesitou, anuiu, virou-se.

— Pois muito bem. Mr. Mandrake, presumo que não se queira demorar mais. Onde está o seu carro? Vou levá-lo ao Bordão.

Durante a viagem, Nathaniel era um misto completo de emoções. Excitação, agitação e medo puro enredavam-se muito pouco convidativamente no seu semblante; não conseguia estar quieto, agitando-se no banco, virando-se repetidas vezes para espreitar pelo vidro traseiro as luzes da cidade que passavam. Tratou a garota com uma combinação confusa de cortesia oficiosa e escárnio mal contido, tão depressa fazendo perguntas sôfregas como proferindo ameaças veladas logo a seguir. Em contraste, os outros ocupantes do veículo iam circunspectos e em silêncio. Hyrnek e Kitty olhavam rigidamente para frente (Hyrnek com o foliot ainda enrolado em volta do seu rosto), enquanto o motorista do outro lado do vidro fazia da Imperturbabilidade uma forma de arte.90 Eu — apesar de obrigado pela falta de espaço a assumir a forma de um estóico porquinho-da-índia acocorado entre a bota da garota e o porta-luvas — mantinha a minha habitual dignidade.

 

90 Um bloco de madeira usando um boné com pala teria mostrado maior entusiasmo e personalidade.

 

Atravessamos a noite londrina a bom ritmo. Não havia nada nas ruas. As estrelas começavam a sumir por cima dos telhados: a aurora aproximava-se rapidamente. O motor do carro zumbia desoladoramente. Longe da vista de Nathaniel, quatro luzes vermelhas balançavam e serpenteavam por cima do capô da limusine.

Em contraste com o meu amo, a garota parecia muito senhora de si. Ocorreu-me que ela sabia que ia ser traída — sejamos sinceros, não era necessário um cérebro de djinni para adivinhar — mas, não obstante, enfrentava calmamente o seu destino. O porquinho-da-índia anuiu pesarosamente de si para si. Admirava cada vez mais a determinação dela — e a graça com que a exercia. Mas vocês é que têm o livre-arbítrio. Eu não dispunha desse luxo neste mundo.

Seguindo as indicações da garota, avançamos para o sul atravessando a cidade, transpondo o rio e entrando num bairro popular de indústria e comércio ligeiros, onde habitações decrépitas arrendadas se erguiam à altura de três andares. Viam-se já algumas centenas de peões curvados, avançando para os primeiros turnos. Passaram dois semi-afrits enfadados, e uma vez um corpulento diabrete-mensageiro, carregando a custo uma encomenda gigante. Por fim, viramos numa viela estreita empedrada que passava sob um arco baixo e desembocava num pátio aberto deserto.

— Aqui. — A garota bateu no vidro divisório. O bloco de madeira encostou e ficou sentado sem se mexer, aguardando ordens. O resto de nós desceu, rígidos e frios à primeira luz da manhã. O porquinho-da-índia espreguiçou a sua essência e retomou a forma de Ptolomeu. Olhei à minha volta e vi as esferas de vigia pairando à distância.

Do outro lado havia filas de casas baixas e estreitas pintadas de branco, habitadas e um pouco decrépitas. Sem dizer uma palavra, a garota aproximou-se de uns degraus que davam para uma porta de porão. Empurrando Hyrnek à sua frente, Nathaniel seguiu-a. Eu vinha na retaguarda.

O meu amo olhou para mim por cima do ombro.

— Se ela tentar algum truque, mate-a.

— Terá que ser mais específico — insisti. — Que tipo de truques? Cartas, moedas, corda indiana... o quê?

Deitou-me um olhar fuzilante.

— Algo que viole o acordo que fiz com ela, com a intenção de me fazer mal ou ajudá-la a fugir. Está suficientemente claro?

— Como água.

A garota escarafunchava no escuro junto da porta; retirou uma chave de uma cavidade qualquer. Um instante depois a porta abriu-se com ruído. Sem uma palavra, entrou; nós três fomos atrás.

Demos voltas e mais voltas por uma série de caves labirínticas, Kitty, Hyrnek, Nathaniel e eu, um atrás do outro, como se formássemos uma monótona conga. Ela parecia conhecer bastante bem o caminho, acendendo interruptores de onde em onde, curvando-se sob arcos baixos que faziam com que o resto de nós batesse com as testas, sem nunca olhar para trás. Foi um percurso sinuoso; pus-me a pensar se a minha forma de minotauro não teria sido mais adequada.

Olhando para trás, vi o brilho de pelo menos uma esfera a seguir o nosso rastro. Continuávamos a ser observados de longe.

Quando a garota finalmente parou, foi num pequeno cômodo lateral afastado da parte principal do porão. Acendeu uma lâmpada fraca. O cômodo estava vazio, com exceção de uma pilha de toras lá no fundo, a um canto. Pingava água do teto, escorrendo em riachos pelo chão. Nathaniel franziu o nariz.

— Então? — perguntou bruscamente. — Não vejo nada.

A garota foi direto as toras; enfiou um pé em algum lugar debaixo da pilha. Uma chiadeira; abriu-se uma porção de alvenaria em frente dela, as sombras espreitando.

— Pare já aí! Não vai entrar. — Soltando Hyrnek pela primeira vez, o meu amo avançou precipitadamente, vindo colocar-se entre Kitty e a porta secreta. — Bartimaeus, vai lá dentro e me informe sobre o que encontrar. Se o Bordão estiver ali, traga-me.

Bem mais acanhadamente do que é meu costume, aproximei-me da porta e lancei um Escudo sobre mim, para o caso de quaisquer armadilhas. Quando me aproximei, senti um latejar de aviso em todos os sete planos, a indicação de magia poderosa lá na frente. Com cautela, enfiei a cabeça pela abertura e olhei à minha volta.

Era pouco mais do que um buraco acanhado, meio cheio com as traquitanas baratas que a garota e os amigos tinham afanado dos magos. Havia os habituais globos de vidro e recipientes de metal — tudo coisas de má qualidade, nenhuma delas com préstimo.91

 

91 Tal como os legumes enlatados nunca são tão bons nem nutritivos quanto o produto fresco, as esferas de elementos, os paus de inferno, ou qualquer outra arma formada a partir de um diabrete ou espírito dentro de um globo ou caixa, nunca são tão eficazes ou duradouros quanto as fórmulas aplicadas espontaneamente pelos próprios espíritos. No entanto, todos os magos usam e abusam deles — é muito mais fácil do que empreender o laborioso processo de chamado.

 

A exceção a esta regra era a peça encostada com indiferença no canto mais ao fundo, lutando por espaço com algumas lanças explosivas.

Quando avistara o Bordão ao longe, de cima dos telhados em chamas de Praga, ele estralejava com a força de uma tempestade. Os raios convergiam para ele de um céu dilacerado e ferido, a sua sombra estendendo-se por cima das nuvens. Uma cidade inteira subjugada diante da sua ira. Agora jazia sossegado e empoeirado e uma aranha tecera inocentemente uma teia entre o seu castão talhado e um recanto na parede.

Mesmo assim, a sua energia ainda estava latente lá dentro. A aura pulsava energicamente, enchendo o espaço (nos planos superiores) de luz. Semelhante objeto não era para brincadeiras, e foi com a ponta curva de um dedo e o polegar, à maneira relutante de alguém que retira uma lagarta de uma maçã, que levei o Bordão de Gladstone para fora do armazém secreto e o apresentei ao meu amo.

Oh, como ficou radiante! O alívio brotava simplesmente dele. Tirou-me e observou-o, e a aura da coisa iluminou os contornos do seu rosto com uma radiância uniforme.

— Mr. Mandrake. — Era a garota quem falava. Estava agora junto de Hyrnek, envolvendo-o com um braço de forma protetora. O foliot invisível mudara-se para o outro ombro de Hyrnek e olhava-a com profunda desconfiança. Talvez pressentisse a resiliência inata dela. — Mr. Mandrake — disse —, concluí a minha parte do acordo. Agora tem de nos libertar.

— Sim, sim. — O meu amo quase não desviou os olhos da apreciação do Bordão. — Claro. Tomarei as medidas adequadas. Vai arranjar-se uma escolta para vocês. Mas, primeiro, temos de sair deste lugar medonho.

Quando chegamos à superfície, a primeira luz matinal principiara a chegar aos cantos do pátio empedrado e incidia tenuemente nos cromados da limusine do outro lado da viela. O motorista permanecia sentado no seu banco, imóvel, olhando em frente; não dava mostras de se ter mexido todo o tempo que estivéramos ausentes. A garota voltou a tentar. Estava muito cansada; a sua voz não acalentava grande esperança.

— Não precisa de nos mandar escoltar daqui, Mr. Mandrake — disse. — Nós podemos perfeitamente ir sozinhos.

O meu amo acabara de subir os degraus segurando o Bordão. A princípio não pareceu que a tivesse ouvido; a sua mente estava distante, refletindo noutros assuntos. Pestanejou, parou a meio e cravou os olhos nela como se a visse pela primeira vez.

— O senhor fez uma promessa — disse a garota.

— Uma promessa... — Carregou vagamente o cenho.

— Libertar-nos. — Reparei que ela transferia sutilmente o peso para a parte da frente dos pés ao falar, preparando-se para qualquer movimento súbito. Tive curiosidade em saber o que estaria a tramar.

— Ah, sim. — Era capaz de ter havido uma altura, um ano ou dois atrás, em que Nathaniel honraria qualquer acordo feito. Consideraria indigno quebrar uma promessa, apesar da sua inimizade com a garota. Podia ser que, mesmo agora, parte dele ainda o detestasse fazer. Obviamente, hesitou por um momento, como se na dúvida. Depois vi-o olhar para as esferas vermelhas, que tinham saído do porão e pairavam mais uma vez lá em cima. Os seus olhos ensombraram-se. Os seus superiores observavam-no, e isso decidiu tudo.

Compôs um punho enquanto falava, mas a sua semelhança com os outros magos era agora mais profunda do que qualquer imitação exterior.

— As promessas feitas a terroristas não chegam a ser vinculativas, Ms. Jones — afirmou. — O nosso acordo é nulo. Será imediatamente interrogada e julgada por traição, e me encarregarei pessoalmente de acompanhá-la à Torre. Não tente nada! — O tom da sua voz subiu, em advertência; a garota introduzira uma mão no blusão. — A vida do seu amigo está por um fio. Sophocles, mostre-se! — O foliot sorridente nos ombros de Hyrnek abandonou a sua invisibilidade no primeiro plano, piscou o olho com insolência à garota e abriu e fechou a boca junto à orelha do prisioneiro, mostrando os dentes.

Os ombros da garota curvaram-se um pouco; parecia abatida.

— Muito bem — afirmou.

— A sua arma... o que quer que tenha no casaco. Retire-a. Devagar.

Ela hesitou.

— Não é uma arma.

A voz de Nathaniel tornou-se perigosa.

— Não posso estar a perder tempo! Mostre-a, senão o seu amigo ficará sem a orelha.

— Não é uma arma. É um presente. — Dito isto, estendeu a mão. Nos seus dedos estava algo pequeno, redondo, que brilhava com a luz. Um disco de bronze.

Os olhos de Nathaniel arregalaram-se.

— Isso é meu! A minha bola de cristal!92

 

92 Reconhecível pelo medonho acabamento exterior. O diabrete atrevido e preguiçoso lá dentro é ainda pior.

 

A garota anuiu.

— Devolvo-a. — Sacudiu o pulso. O disco saltou para o ar a rodopiar. Instintivamente, o vimos caindo: Nathaniel, o foliot e eu. Enquanto olhávamos, a garota agiu. As suas mãos estenderam-se e agarraram o foliot pelo pescoço escanzelado, arrancando-o dos ombros de Hyrnek. Foi apanhado de surpresa, exerceu menos pressão, as suas garras soltando estalidos no meio do ar, mas a cauda esguia enrolou-se em volta do rosto de Hyrnek, firme como um chicote, e começou a apertar. Ele gritou, agarrando a cauda.

Nathaniel recuava, acompanhando a voltas do disco. Segurava ainda o Bordão, mas a mão livre estava estendida, na esperança de agarrá-lo.

Os dedos da garota apertavam o pescoço do foliot; os olhos saíam-lhe das órbitas, a cara estava ficando roxa.

A cauda comprimiu-se na cabeça de Hyrnek.

Assisti a tudo com enorme interesse. Kitty estava a contar com a sua resiliência, com a capacidade de contrariar a magia do foliot. Tudo dependia da força dessa resiliência. Era bem possível que o foliot se voltasse a afirmar, esmagando o crânio de Hyrnek para depois ir tratar da saúde dela. Mas a garota era forte, e estava furiosa. A cara do foliot inchou; soltou um som recriminador. Atingira um ponto crítico. Com o som de um balão a arrebentar, o foliot transformou-se em vapor, cauda e tudo; dissipou-se no ar. Tanto Kitty como Hyrnek se desequilibraram, caindo por terra.

A bola de cristal aterrou em segurança na mão de Nathaniel. Ergueu o olhar e, pela primeira vez, apercebeu-se da situação. Os seus prisioneiros punham-se de pé, vacilantes.

Soltou um grito de contrariedade.

— Bartimaeus!

Tinha-me sentado tranqüilamente num pilar. Olhei para lá.

— Sim?

— Por que não fez nada para conter isto? Dei-lhe instruções rigorosas.

— Deu sim, deu mesmo. — Cocei a nuca.

— Disse-lhe para matá-la se ela tentasse alguma coisa!

— O carro! Anda! — A garota já se movia, arrastando Hyrnek atrás de si. Correram pelo calçamento empedrado em direção à limusine. Era mais legal assistir a isto do que a um jogo de bola asteca. Só me faltavam as pipocas.

— Então? — Estava incandescente de raiva.

— Disse-me para matá-la se ela violasse os termos do seu acordo.

— Sim! Fugindo... como está a fazer neste momento! Encarregue-se disso! O Fogo Abrasador...

Sorri, todo animado.

— Mas esse acordo é nulo e sem validade. Você mesmo o quebrou, ainda há dois minutos... de uma forma particularmente venenosa, se é que me faço entender. Por isso, ela não pode estar a quebrá-lo, não é? Ouça, se largasse esse Bordão, poderia arrancar mais facilmente os cabelos.

— Ahh! Rescindo todas as ordens anteriores e dou uma nova, que não pode interpretar mal! Impeça-os de partirem naquele carro!

— Oh, muito bem. — Tive de obedecer. Desci do pilar e parti em relutante e vagarosa perseguição.

Enquanto estivera dando suas ordens, Nathaniel e eu tínhamos observado o progresso frenético dos nossos amigos pela viela. A garota ia à frente; alcançara agora a limusine e escancara a porta do motorista, supostamente com a intenção de obrigá-lo a levá-los. O motorista, que em momento algum do processo mostrara o mais ínfimo interesse pelo nosso tumulto, continuava a olhar fixamente para frente. Kitty gritava agora com ele, dando ordens freneticamente. Puxou-lhe pelo ombro. Ele oscilou de forma flácida e resvalou do banco, batendo na garota sobressaltada, antes de cair de rosto para baixo nas pedras. Um braço pendia desencorajadoramente.

Durante alguns segundos, paramos todos o que estávamos a fazer. A garota ficou petrificada, talvez surpreendida pela sua própria força. Contemplei a notável ética laboral do operário britânico por excelência. Até o meu amo parara de espumar pela boca, de perplexidade. Aproximamo-nos todos.

— Surpresa! — Apareceu um rosto sorridente por trás do carro. Bem, sorria, na verdade... As caveiras, como sabemos, não sorriem propriamente. Não obstante, esta transpirava uma certa boa disposição irreprimível, que contrastava nitidamente com o cabelo branco escorrido salpicado de lodo do rio, com os andrajos pretos encharcados que lhe cobriam os ossos, com o cheiro fétido de cemitério que pairava agora na brisa.

— Uh-oh. — Fui de uma loquacidade ofuscante.

Com um estalar de ossos e um grito animado, Honorius, o afrit, saltou para a cobertura do motor do carro, de fêmures bambos, mãos na bacia, o crânio inclinado num ângulo desenvolto. Dali, emoldurado pela luz do novo sol, avaliou-nos um por um.

 

Durante os primeiros segundos Kitty deixou de estar na viela empedrada, deixou de respirar o ar matinal: voltara ao subterrâneo, vendo-se presa numa cripta negra, com o cheiro da morte no rosto e os amigos tombados diante dos seus olhos. O terror era o mesmo, assim como a sensação de impotência; sentiu a força e a determinação reduzidas a nada, como pedaços de papel consumidos pelo fogo. Mal conseguia respirar.

O seu primeiro sentimento foi de raiva do demônio Bartimaeus. A sua pretensão de ter destruído o esqueleto não passara de mais uma mentira. A seguir pensou em Jakob, que tremia a seu lado; ele ia morrer por causa dos seus atos, e sabia-o com uma certeza absoluta, odiando-se por isso.

A maior parte da roupa do esqueleto caíra; o pouco que restava pendia disformemente sobre os ossos branco-amarelados. Faltava a máscara de ouro; ardiam minúsculas chamas vermelhas nas órbitas negras. Por baixo, o sol infiltrava-se pelas costelas e saía pelos restos do casaco. As calças e os sapatos tinham desaparecido por completo. Mas a energia da criatura mantinha-se inalterada. Saltava ora num pé ora noutro com uma terrível sacudidela rápida e irregular.

— Vejam só que lindeza. — A voz animada soou cristalina como um sino por entre os dentes pendurados. — Tudo o que eu mais queria. Aqui estou, alegre como uma cotovia, apesar de uma certa umidade nas cartilagens, pronto para o trabalho. O que quero? Simplesmente seguir o rastro do meu pertence perdido, pegá-lo e voltar à minha vida. O que encontro? O meu Bordão... Sim! Em bom estado... Mas mais do que isso... Outros dois cordeirinhos para brincar... Dois cordeirinhos em quem pensei muito, enquanto andava pela água fria, muito fria do estuário, e as minhas belas roupas apodreciam nos ossos. Oh, não se mostre tão inocente, minha querida — a voz estridente baixou para um resmungo grave; a caveira inclinou-se na direção de Kitty —, você é um deles. O ratinho que perturbou o repouso do meu amo, que levou o bordão e acha próprio de uma senhora andar com prata perniciosa na mala. De você, tratarei no final.

O esqueleto endireitou-se com um salto, bateu com os metatarsos na cobertura do motor da limusine e apontou um dedo na direção de Bartimaeus, que continuava a apresentar o aspecto de um rapaz de pele escura.

— A seguir vem você — disse —, aquele que roubou o meu rosto. Aquele que me afogou no Tamisa. Oh, estou furibundo contigo.

Se estava ansioso, o demônio conseguia disfarçar muito bem.

— Não compreendo — afirmou com frieza. — Na verdade, estou um pouco desapontado. Importa-se de me dizer como chegou aqui?

A caveira mordeu o maxilar, enfurecida.

— Um mero acaso salvou-me — murmurou. — Enquanto era levado, indefeso, pela força das águas frias, frias e escuras, a ponta do meu cotovelo prendeu-se numa corrente enferrujada que subia de uma âncora no leito do rio. Num instante, agarrei a corrente com os dedos e o maxilar; lutei contra a força do oceano, trepei em direção à luz. Onde fui parar? Num velho batelão ancorado, que ali passava a noite. Enquanto a água cruel escorria dos meus ossos, a minha força voltou. O que eu queria? Vingança! Mas primeiro, o Bordão, para me devolver as forças. Caminhei pela margem noite e dia, farejando a sua aura como um cão... E hoje — a voz irrompeu num súbito prazer turbulento —, encontrei-o, segui-o até este pátio, esperei aqui no aconchego, com aquele sujeito no chão. — Indicou desinteressadamente o corpo do motorista com um dedo do pé. — Receio que não era um bom conversador.

Bartimaeus anuiu.

— Os humanos não são conhecidos pela sua inteligência. Muito tapados.

— E não é que são mesmo?

— De morte.

— Hum. Ei! — O esqueleto recompôs-se com indignação. — Está tentando mudar de assunto.

— De modo algum. Dizia que estava furibundo comigo.

— Pois. Onde é que eu estava?... Furibundo... Dois cordeirinhos, uma garota e um djinni... — Parecia ter perdido por completo o fio à meada.

Kitty apontou um dedo na direção do mago Mandrake.

— E então ele?

Mandrake deu um pulo.

— Nunca vi este excelente afrit em toda a minha vida! Ele não pode ter qualquer ressentimento contra mim.

As chamas brilharam nas órbitas da caveira.

— Só que você tem o meu Bordão. Isso não é pouca coisa. E mais... tenciona usá-lo! Sim! Não negue... É um mago!

A sua indignação era digna de se ver. Kitty pigarreou.

— Ele obrigou-me a roubá-lo — disse. — A culpa é toda dele. Toda. Ele também obrigou Bartimaeus a atacá-lo.

— Não me diga...? — O esqueleto deu atenção a John Mandrake. — Que interessante... — Inclinou-se novamente na direção de Bartimaeus. — Ela não está certa, não é? Aquele janota com o Bordão é mesmo o teu amo?

O rapaz egípcio ficou verdadeiramente atrapalhado

— Receio que sim.

— Tch. Não posso crer. Bem, não se preocupe. Mato-o... depois de te matar.

Enquanto falava, o esqueleto ergueu um dedo. Surgiu uma chama verde no lugar onde estivera o demônio, mas o rapaz desaparecera nesse meio tempo, dando saltos mortais pelo calçamento empedrado, caindo com ligeireza dentro de um caixote do lixo junto à casa mais próxima. Como se movidos por um único pensamento, Kitty, Jakob e John Mandrake viraram-se e correram, dirigindo-se para o arco que ia do pátio aberto até à rua do outro lado. Kitty foi a mais rápida, e quem primeiro se apercebeu do súbito enegrecimento da atmosfera, uma rápida absorção da luz da aurora em volta deles, como se alguma força a levantasse fisicamente do solo. Abrandou e parou. Fios finos de negrura agitavam-se e tateavam através do arco lá na frente e atrás deles vinha uma nuvem negra. Tapava completamente a vista, isolando o pátio do mundo exterior.

E agora? Kitty trocou um olhar desorientado com Jakob e espreitou por cima do ombro. O rapaz egípcio ganhara asas e sobrevoava o pátio, fora do alcance do esqueleto saltitante.

— Afastem-se daquela nuvem. — Era a voz de John Mandrake, baixa e trêmula. Estava perto deles, de olhos arregalados, recuando lentamente. — Acho que é perigosa.

Kitty escarneceu dele.

— Como se isso lhe importasse. — Não obstante, recuou.

A nuvem estendia-se na direção deles. Pairava um silêncio terrível em volta dela, e um cheiro avassalador de terra molhada.

Jakob tocou no braço de Kitty.

— Consegue ouvir...?

— Sim. — Passos pesados nas profundezas das sombras, algo a aproximar-se.

— Temos de sair daqui — afirmou ela. — Corre para o porão.

Viraram-se e subiram rapidamente os degraus que conduziam ao armazém subterrâneo de Mr. Pennyfeather. Do outro lado do pátio, o esqueleto, que estivera disparando raios de magia em vão sobre o demônio enérgico, apercebeu-se deles e bateu palmas. Um tremor, o calçamento foi sacudido. O lintel por cima da porta do porão abriu-se em dois, uma tonelada de alvenaria precipitou-se pelas escadas. A poeira assentou; a porta desaparecera.

Com um pulo e um salto, o esqueleto alcançou-os.

— Aquele maldito demônio é um tanto ágil demais — disse. — Mudei de idéia. Vocês dois são os primeiros.

— Porquê eu? — arfou Jakob. — Não fiz nada.

— Eu sei, meu filho. — As órbitas brilharam. — Mas está cheio de vida. E depois de todo o tempo debaixo da água, preciso realmente de energia. — Estendeu uma mão... e ao fazê-lo, percebeu, pela primeira vez, a nuvem negra que avançava pelo pátio, absorvendo a luz do ar. O esqueleto olhou para a negrura, o maxilar pendendo, sem saber o que fazer.

— Ora, ora — disse baixinho. — O que é isto?

Kitty e Jakob recuaram contra a parede. O esqueleto ignorou-os. Rodou a pélvis e endireitou o rosto, gritando algo numa língua estranha. A seu lado, Kitty sentiu Jakob estremecer.

— Aquilo era checo — murmurou. — Algo como: «Desafio-te!»

A caveira rodou 180 graus e olhou para eles.

— Dêem-me um minuto, crianças. Tenho um assunto pendente a resolver. Tratarei de vocês daqui a um nadinha. Não saiam daí.

Com os ossos a estalar, afastou-se, avançando em círculos até o centro do pátio, as órbitas fixas na nuvem volumosa. Kitty tentou dominar-se. Olhou à sua volta. A rua fora envolta pelas sombras, o Sol era um disco turvo que brilhava tenuemente no céu. A saída do pátio estava bloqueada pela negrura ameaçadora; em todos os outros lados, paredes sem vida e janelas cobertas com tábuas olhavam para baixo. Kitty praguejou. Se tivesse uma só esfera, poderia abrir caminho à força; assim sendo, estavam indefesos. Ratos numa ratoeira.

Um fluxo de ar a seu lado, uma figura em descida lenta. O demônio Bartimaeus encolheu as suas asas finas atrás das costas e baixou-lhe cortesmente a cabeça. Kitty estremeceu.

— Oh, não se preocupe — disse o rapaz. — As minhas ordens são para impedi-la de partir naquele carro. Se aproximar-se dele, terei de detê-la. De outro modo, faça o que quiser.

Kitty franziu o sobrancelha.

— O que se passa? O que é esta escuridão?

O rapaz suspirou, pesarosamente.

— Lembra-se daquele golem que mencionei? Apareceu. Alguém decidiu intervir. Não há prêmios para quem adivinhar porquê. Aquele maldito Bordão é a raiz de todos os nossos problemas. — Espreitou através do smog. — A propósito... O que é que ele...? Oh, não é possível. Digam-me que ele não... Ele está mesmo? Idiota.

— O que é?

— O meu querido amo. Está tentando ativar o Bordão.

Mais ou menos defronte deles, não muito longe da limusine, o mago John Mandrake recuara para junto de uma parede. Ignorando as atividades do esqueleto — que andava agora de um lado para o outro pelo calçamento, lançando insultos contra a nuvem que não parava de avançar — apoiara-se no Bordão, de cabeça baixa, os olhos aparentemente fechados, como se dormisse. Kitty julgou ver os lábios dele moverem-se, proferindo palavras.

— Isto não vai acabar nada bem — anunciou o demônio. — Se ele está tentando uma ativação simples, sem fórmulas de Reforço ou Amortecimento, vai meter-se numa boa. Ele ignora a quantidade de energia que o Bordão contém. No mínimo, vale por dois marids. Excesso de ambição, sempre foi esse o problema dele. — Sacudiu a cabeça, entristecido.

Kitty não compreendia muito do que se passava, nem estava minimamente interessada.

— Por favor... Bartimaeus... É esse o teu nome? Como podemos sair daqui? Consegue ajudar-nos? Poderia arrebentar uma parede.

Os olhos negros do rapaz avaliaram-na.

— E por que haveria de fazê-lo?

— Hã... Você... você não nos quer fazer mal. Tem estado apenas a acatar ordens... — Não parecia muito confiante.

O rapaz carregou o cenho.

— Sou um demônio malvado. Você mesma o disse. De qualquer forma, mesmo que eu quisesse ajudá-la, neste momento não convém atrair as atenções sobre nós. O nosso amigo afrit esqueceu-nos temporariamente. Lembrou-se do Cerco de Praga, em que golems como este causaram destruição entre as tropas de Gladstone.

— Ele está fazendo algo — murmurou Jakob. — O esqueleto...

— Sim. Baixem a cabeça. — Durante alguns momentos, a nuvem de negrura suspendera o seu avanço, como se avaliasse as palhaçadas do esqueleto que saltitava diante de si. Enquanto observavam, pareceu tomar uma decisão. Os fios finos avançaram na direção vaga de Mandrake e do Bordão. Foi então que o esqueleto agiu: levantou um braço. Disparou um feixe de luz pálida brilhante que colidiu com a nuvem. Ouviu-se uma pancada abafada, como se de uma explosão por trás de portas fortes; dispersaram fragmentos da nuvem negra em todas as direções, rodopiando e derretendo-se no calor subitamente renovado do sol matinal.

Bartimaeus emitiu um som apreciativo.

— Nada mau, nada mau. No entanto, não lhe servirá de nada.

Jakob e Kitty sustiveram a respiração. Viram aparecer no centro do pátio uma figura gigante, com forma humana, mas muito maior, entroncada e de membros grosseiros, uma cabeça colossal achatada assentada nos ombros. Parecia incomodada pela destruição da nuvem; agitou os braços desnecessariamente, como se tentasse reunir de novo a escuridão à sua volta. Falhada a tentativa, e ignorando zelosamente os gritos de triunfo do esqueleto, avançou pelo pátio com passos pesados.

— Hum, seria bom se Mandrake se apressasse com a sua invocação... — observou Bartimaeus. — Oh, lá vai Honorius outra vez.

— Para trás! — O grito do esqueleto ecoou pelo pátio. — O Bordão é propriedade minha! Desafio-te! Não o guardei cem anos para um covarde vir roubá-lo agora. Vejo-o a fitar-me por esse olho! Vou arrancá-lo e esmagá-lo com o meu punho! — Dito isto, disparou várias explosões de magia sobre o golem, que as absorveu sem qualquer efeito nocivo.

A figura de pedra continuou a avançar. Kitty conseguia ver agora com maior clareza os pormenores da cabeça: dois olhos falsos e por cima deles um terceiro, maior e mais definido, colocado no centro da testa. Este rodava para a esquerda e para a direita; brilhava como uma chama branca. A boca por baixo pouco mais era do que um buraco franzido, simbólico e inútil. Voltaram-lhe as palavras do demônio — algum lugar naquela boca terrível estava o papel mágico que dava poder ao monstro.

Um grito de desafio. Honorius, o afrit, apoplético ante o fracasso da sua magia, metera-se no caminho do golem que avançava. Um anão ao pé da figura enorme, o esqueleto flexionou os joelhos e saltou; ao fazê-lo, irromperam das suas mãos e boca energias mágicas. Aterrou diretamente no peito do golem, os braços ossudos rodeando o pescoço, as pernas envolvendo o torso. Brotavam chamas azuis nos lugares onde tocava. O golem estacou, ergueu uma mão maciça tipo cacetete e agarrou o esqueleto por uma omoplata.

Durante um longo momento, os dois adversários mantiveram-se presos, imóveis, no mais profundo silêncio. As chamas lambiam mais alto. Havia um cheiro de queimado, uma radiação do frio mais profundo.

Depois, em simultâneo — um som súbito, um pulsar de luz azul...

O esqueleto estremeceu.

Espalharam-se fragmentos de osso pelas pedras como uma queda de granizo.

— Estranho... — Bartimaeus estava sentado no chão, de pernas cruzadas. Tinha o ar de um espectador fascinado. — Aquilo foi realmente muito estranho. Honorius não precisava fazer isso, sabem? Foi absolutamente imprudente, um ato suicida... apesar de corajoso, claro. A despeito de estar louco, deveria saber que seria destruído, não lhes parece? Os golems negam a nossa magia, pulverizam a nossa essência, mesmo quando envolta em osso. Muito estranho. Talvez afinal ele estivesse farto deste mundo. Você compreende, Kitty Jones?

— Kitty... — Era Jakob, a puxar-lhe urgentemente pela manga. — O caminho está livre. Podemos nos mandar.

— Sim... — Deu outra olhada em Mandrake. De olhos fechados, continuava a recitar as palavras de alguma fórmula.

— Vamos lá...

O golem ficara estático desde a destruição do esqueleto. Voltava agora a mover-se. O seu olho verdadeiro brilhou, rodou, fixou-se em Mandrake e no Bordão.

— Parece que agora é a vez de Mandrake. — A voz de Bartimaeus era neutra, objetiva.

Kitty encolheu os ombros e começou a avançar lentamente atrás de Jakob, colada à parede.

Nesse momento, Mandrake ergueu o olhar. A princípio, pareceu alheio ao perigo que se aproximava; depois incidiu no golem que avançava. Estampou um sorriso no rosto. Empunhou o Bordão diante de si e proferiu uma única palavra. Uma luz nebulosa de rosas e púrpuras envolveu todo o Bordão, subindo em direção ao seu topo. Kitty estacou no avanço. Uma repercussão suave, um zumbido — como se de mil abelhas presas debaixo do solo — um tremor no ar; o solo foi sacudido de leve.

— Ele não pode ter conseguido — afirmou Bartimaeus. — Ele não pode tê-lo dominado. Não de primeira.

O sorriso do rapaz alargou-se. Apontou o Bordão de Gladstone na direção do golem, que estacou, hesitante. Giraram luzes coloridas em volta dos entalhes do Bordão; o rosto do rapaz ganhou vida com a sua radiância, e uma alegria terrível. Numa voz de comando grave, proferiu um feitiço complexo. O fluxo em volta do Bordão brilhou. Kitty semicerrou os olhos, desviando-os um pouco; o golem balançou-se nos calcanhares. O fluxo oscilou, crepitou, desceu pelo Bordão e pelo braço do mago. A sua cabeça foi arremessada para trás; viu-se fisicamente levantado do chão e atirado de encontro à parede atrás de si com uma pancada melancólica.

O rapaz ficou estatelado nas pedras, a língua de fora. O Bordão saltou-lhe da mão.

— Ah. — Bartimaeus anuiu sabiamente. — Ele não conseguiu dominá-lo. Bem que achei.

— Kitty! — Jakob já ia a alguma distância junto à parede. Gesticulava furiosamente. — Enquanto ainda é tempo.

A figura gigante de barro retomara o seu avanço majestoso em direção ao mago prostrado. Kitty fez menção de seguir Jakob, depois voltou-se para Bartimaeus.

— O que vai acontecer?

— Agora? Depois do pequeno erro do meu amo? Bastante simples. Você vai fugir. O golem vai matar Mandrake, pegar o Bordão e levá-lo ao mago que observa através daquele olho.

— E você? Não vai ajudá-lo?

— Nada posso contra o golem. Já experimentei uma vez. Além disso, quando ia fugindo ainda há pouco, o meu amo anulou todas as suas ordens anteriores — que incluíam a minha obrigação de protegê-lo. Se Mandrake morrer, eu fico livre. Não tenho qualquer interesse em ajudar o idiota.

O golem contornava agora a limusine, aproximando-se do corpo do motorista. Kitty voltou a olhar para Mandrake, desmaiado junto à parede. Mordeu o lábio e virou costas.

— Sabe, a maior parte do tempo eu não tenho livre-arbítrio — disse o demônio sonoramente atrás dela. — Quando o tenho, dificilmente ajo de forma a prejudicar-me, só se não puder. É isso que me torna superior a vocês, humanos desnorteados. Chama-se bom senso. De qualquer forma, pode ir embora — acrescentou. — É possível que a tua resiliência não funcionasse contra o golem. É revigorante ver-te fazer exatamente o que eu faria e afastar-se enquanto ainda pode.

Kitty expeliu o ar pelas bochechas e deu mais alguns passos. Voltou a olhar por cima do ombro.

— Mandrake não teria me ajudado — disse.

— Precisamente. É uma garota inteligente. Vá embora e deixe-o morrer.

Ela olhou para o golem.

— É muito grande. Nunca conseguiria dominá-lo.

— Especialmente depois dele passar para lá daquela limusine.

— Oh, que se lixe. — Kitty começou a correr, não na direção do aflito Jakob, mas pelo calçamento em direção ao pesado gigante. Ignorou a dor e o formigamento no ombro, ignorou os gritos de desespero do amigo; acima de tudo, ignorou as vozes na sua cabeça que escarneciam de si, avisando-a do perigo, da inutilidade da sua ação. Baixou a cabeça, aumentou a velocidade. Não era nenhum demônio, nenhum mago — era melhor do que eles. A ganância e o interesse pessoal não constituíam as suas únicas preocupações. Correu rapidamente por trás do golem, suficientemente próximo para ver as manchas irregulares na superfície da pedra, sentir o cheiro terrível de terra molhada que deixava atrás de si. Saltou para a cobertura do motor da limusine, avançou rapidamente pelo capô, ficando ao nível do torso do monstro.

Os olhos que não viam fitavam em frente, como os de um peixe morto; por cima deles, o terceiro olho cintilava com inteligência maligna. Cravara-se firmemente no corpo de Mandrake; não deu por Kitty, de lado, quando esta saltou com toda a força, aterrando no dorso do golem.

O extremo frio da superfície fê-la arfar de dor: apesar da sua resiliência, era o mesmo que mergulhar num rio gelado — o fôlego abandonou-a, cada nervo picava. Sentiu a cabeça oca do cheiro de terra, a bílis subir-lhe à garganta. Passou o braço bom pelo ombro do golem, agarrando-se desesperadamente. Cada passo ameaçava fazê-la cair.

Contara que o golem erguesse o braço para arrancá-la dali, mas isso não aconteceu. O olho não a via; o seu controlador não sentia o seu peso no corpo da criatura.

Kitty estendeu o braço ferido; o ombro latejou, fazendo-a gritar. Dobrou o cotovelo, tentou chegar à parte da frente do rosto, tateando a enorme boca aberta. Fora o que o demônio dissera: um manuscrito, um papel, alojado lá dentro. Os dedos apalparam a pedra gélida do rosto; revirou os olhos, quase desmaiando.

Era inútil. Não conseguia chegar à boca...

O golem parou. Subitamente, começou a curvar as costas. Kitty foi arremessada para a frente, quase de cabeça, por cima dos ombros da criatura. Teve um breve vislumbre da mão pesada lá embaixo a estender-se e a descer para o rapaz inconsciente: iria agarrá-lo pelo pescoço, parti-lo como um ramo.

O dorso continuava a dobrar-se. Kitty começou a escorregar; soltou-se. Os seus dedos bateram freneticamente na grande superfície plana do rosto e, de repente, caíram na cavidade da boca; entraram lá dentro. Pedra fria rugosa... pontas salientes que quase poderiam ter sido dentes... algo mais, de uma textura macia. Agarrou-o e, no mesmo instante, perdeu por completo o apoio no dorso da criatura. Foi atirada por cima do ombro dela, aterrando pesadamente em cima da figura estendida do rapaz.

Caiu de costas, abriu os olhos e gritou.

O rosto do golem estava bem por cima dela: a boca escancarada, os olhos que não viam, o terceiro olho fixo nela, vivo de fúria. Enquanto observava, a fúria diminuiu. A inteligência apagou-se. O olho na testa não passava de uma oval de barro, complexamente facetado, mas baço e sem vida.

Kitty ergueu a cabeça hirta, olhou para a mão esquerda.

Agarrava um rolo de pergaminho amarelo entre o indicador e o polegar.

A custo, Kitty apoiou-se nos cotovelos. O golem estava completamente estático, um punho a centímetros do rosto de John Mandrake. O trabalho em pedra estava estalado e esburacado; podia ter sido uma estátua. Já não irradiava o frio extremo.

— Louca. Absolutamente louca. — O rapaz egípcio estava de pé ao lado dela, de mãos nas ancas, abanando delicadamente a cabeça. — É tão louca quanto o afrit. Pelo menos — indicou o corpo do mago —, teve uma aterragem suave.

Viu, por trás do demônio, Jakob aproximar-se acanhadamente, de olhos arregalados. Kitty gemeu. O ferimento no ombro voltara a sangrar e doía-lhe cada músculo do corpo. Com enorme cuidado, endireitou-se e pôs-se de pé, içando-se com o apoio da mão estendida do golem.

Jakob não tirava os olhos de John Mandrake. O Bordão de Gladstone estava sobre o peito dele.

— Está morto? — Parecia esperançoso.

— Ainda respira, o que é uma pena. — O demônio suspirou; olhou de soslaio para Kitty. — Com os teus atos imprudentes, condenou-me a mais trabalhos forçados. — Olhou para o céu. — Teria uma conversinha contigo, mas antes haviam aqui umas esferas de busca. Acho que a nuvem do golem obrigou-as a se retirarem, mas voltarão... e em breve. Seria melhor ir embora rapidamente.

— Sim. — Kitty deu alguns passos, depois lembrou-se do pergaminho na sua mão. Com súbita repugnância, abriu os dedos; caiu no calçamento.

— E o Bordão? — perguntou Bartimaeus? — Poderia levá-lo, sabe. Não há ninguém para te impedir.

Kitty carregou o cenho, olhou para trás. Era um objeto formidável, até aí ela sabia. Mr. Pennyfeather teria ficado com ele. E Hopkins, o benfeitor, Honorius, o afrit, o próprio Mandrake também... Muitos outros tinham morrido por ele.

— Não me parece — retorquiu. — Não me serve de nada.

Voltou as costas, começou a coxear atrás de Jakob em direção ao arco. Esperara em parte que o demônio voltasse a chamá-la, mas não o fez. Em menos de um minuto, Kitty alcançara o arco. Quando o contornou, virou-se para trás e viu que o rapaz de pele escura continuava a olhá-la do outro lado do pátio. Um momento depois ele desapareceu de vista.

 

Um súbito choque gélido; Nathaniel arfou, falou incoerentemente, abriu os olhos. O rapaz egípcio estava debruçado sobre ele, baixando um balde a pingar. A água gelada entrou nos ouvidos, narinas e boca aberta de Nathaniel; tentou falar, tossiu, teve um vômito, voltou a tossir e virou-se de lado, consciente de uma dor violenta no estômago e um formigamento constante em cada músculo. Gemeu.

— Levante-se e mexa-se. — Aquela era a voz do djinni. Parecia extremamente animado.

Nathaniel levou uma mão trêmula à têmpora.

— O que aconteceu? Sinto-me... péssimo.

— Também aparenta, acredite em mim. Foi atingido por uma considerável descarga mágica através do Bordão. Os teus miolos e o teu corpo ficarão ainda mais embaralhados do que o de costume durante um bocado, mas é uma sorte estar vivo.

Nathaniel tentou sentar-se.

— O Bordão...

— As energias mágicas têm estado a sair gradualmente do seu sistema — prosseguiu o djinni. — A tua pele tem estado a fumegar lentamente e cada ponta do seu cabelo a brilhar. Um espetáculo formidável. A tua aura também ficou perturbada. Bem, é um processo delicado, livrar-se de uma carga assim. Quis acordá-lo logo, mas sabia que era preciso esperar várias horas para ter a certeza de que recuperaria em segurança.

— O quê?! Há quanto tempo foi?

— Cinco minutos. Fartei-me de esperar.

Recordações recentes refluíram à mente de Nathaniel.

— O golem! Eu estava tentando...

— Vencer um golem? Uma tarefa quase impossível para qualquer djinni ou mago, e é duplamente impossível quando se trata de manejar um artefato tão sutil e poderoso como esse Bordão. Fez mesmo muito bem em ativá-lo. Dê graças por não estar suficientemente carregado para te matar.

— Mas o golem! O Bordão!... Oh, não! — Subitamente horrorizado, Nathaniel percebeu as implicações. Com o desaparecimento de ambos, falhara redondamente, estaria impotente perante os seus inimigos. Com um esforço enorme, apoiou a cabeça nas mãos, mal se esforçando por reprimir os primórdios de um soluço.

Um dedo de pé duro e firme bateu-lhe bruscamente na perna.

— Se tivesse capacidade para olhar à tua volta — referiu o djinni —, talvez visse algo que te seria benéfico.

Nathaniel abriu os olhos, afastou os dedos. Olhou: o que viu praticamente o fez saltar do calçamento. A menos de meio metro do local onde se encontrava sentado, o golem erguia-se; estava curvado na sua direção, a mão enclavinhada tão próxima que quase lhe podia tocar, a cabeça caída com uma inclinação ameaçadora; mas a centelha de vida desaparecera por completo. Tinha tanto movimento quanto uma estátua ou um poste de rua.

E, encostado a uma das suas pernas, tão descontraidamente que quase passaria por uma bengala de aristocrata: o Bordão de Gladstone!

Nathaniel carregou o cenho e olhou, e carregou-o um pouco mais, mas a solução para este enigma escapava-lhe por completo.

— Se eu fosse você, fechava a boca — advertiu-o o djinni. — Um passarinho de passagem ainda é capaz de querer fazer o ninho aí.

Com dificuldade, já que os seus músculos pareciam água, Nathaniel pôs-se de pé.

— Mas como... ?

— Não é um mistério? — O rapaz sorriu. — Como é que acha que aconteceu?

— Deve ter sido eu, pouco antes de perder o controle. — Nathaniel anuía lentamente; sim, era a única solução possível. — Eu estava a tentar imobilizar o golem, e devo tê-lo conseguido, precisamente quando se deu a descarga. — Começou a sentir-se bastante melhor consigo mesmo.

O djinni suspirou longa e sonoramente.

— Tente de novo, filho. E que tal a garota?

— Kitty Jones? — Nathaniel perscrutou o pátio. Esquecera-se por completo dela. — Ela... ela deve ter fugido.

— Voltou a errar. Vou-te dizer, está bem? — O djinni cravou nele os seus olhos pretos. — Como idiota chapado que é, o que conseguiu foi desmaiar. O golem estava a aproximar-se, tencionando sem dúvida tirar-te o Bordão e esmagar-te a cabeça como um melão. Foi distraído...

— Pela tua pronta intervenção? — indagou Nathaniel. — Se sim, estou-lhe grato, Bartimaeus.

— Eu? Salvar-te? Por favor, algum conhecido meu pode estar nos ouvindo. Não. A minha magia é anulada pela do golem, lembra-se? Eu fiquei sentado, assistindo ao espetáculo. Na verdade... foi a garota e o amigo dela. Eles te salvaram. Espere... não desdenhe! Eu não minto. O rapaz distraiu-o enquanto a garota subia nas costas do golem, lhe arrancava o manuscrito da boca e o atirava no chão. Nesse meio tempo, o golem agarrou-a e ao rapaz... Incinerou-os em segundos. Depois a sua força vital escoou-se e acabou por ficar estático, a centímetros do teu miserável pescoço.

Os olhos de Nathaniel semicerraram-se, na dúvida.

— Absurdo! Não faz sentido!

— Eu sei, eu sei. Por que haveria ela de te salvar? Parece mentira, Nat, mas ela o salvou mesmo. E se acha que não é verdade, bem... É ver para crer. — O djinni levou uma mão atrás das costas, estendeu algo. — Eis o que ela lhe tirou da boca. — Nathaniel reconheceu de imediato o papel; era idêntico ao que vira em Praga, só que desta vez estava enrolado e selado com uma camada de cera preta espessa. Pegou nele lentamente, olhou para a boca aberta do golem e de novo para o papel.

— A garota... — Não conseguia encaixar. — Mas eu ia levá-la para a Torre; eu a persegui. Não... ela me mataria, não me salvaria a vida. Não acredito em você, djinni. Está mentindo. Ela está viva. Ela fugiu daqui.

Bartimaeus encolheu os ombros.

— Como queira. Foi por isso que ela te deixou o Bordão, quando estava desamparado.

— Oh... — Aquilo fazia sentido. Nathaniel ficou carrancudo. O Bordão era a menina dos olhos da Resistência. A garota nunca abriria mão dele voluntariamente. Talvez estivesse morta. Olhou de novo para o manuscrito. Ocorreu-lhe subitamente algo.

— De acordo com Kavka, o nome do nosso inimigo estará escrito no pergaminho — disse. — Vamos ver! Poderemos descobrir quem está por trás do golem.

— Duvido de que tenha tempo — referiu o djinni. — Cuidado, vai começar!

Com um melancólico silvo, irrompeu uma chama amarela da superfície do pergaminho. Nathaniel soltou um grito e atirou rapidamente o pergaminho fumegante para as pedras, onde trepidou e ardeu.

— Uma vez fora da boca do golem, a fórmula é tão forte que em breve se consome — prosseguiu Bartimaeus. — Esquece. Sabe o que acontece agora?

— Sim, mas mais do que isso. Primeiro volta para o seu amo. — Nathaniel olhou para o seu escravo com súbito discernimento. Bartimaeus arqueou uma sobrancelha, divertido.

— É capaz de ser interessante, não acha?

— Muito, mesmo. — Nathaniel sentiu um acesso de júbilo cruel.

— Tem certeza disto?

— Vi acontecer, há muito tempo, em Praga.

— Muito bem, nesse caso... — Passou pelos fragmentos fumegantes do pergaminho e foi a coxear até junto do golem, fazendo esgares da dor no flanco. — Ahh, dói-me realmente o estômago. Até parece que alguém me caiu em cima.

— Mistério.

— Não interessa. — Nathaniel pegou o Bordão. — Agora — disse, afastando-se mais uma vez do corpo do golem —, vamos ver.

As chamas extinguiram-se; o manuscrito ficara reduzido a cinzas que o vento levou. Pairava no ar um estranho odor sinistro.

— O sangue da vida de Kavka — informou Bartimaeus. — Foi-se todo agora. — Nathaniel fez um esgar.

Quando o último pedaço de papel desapareceu, um arrepio percorreu o corpo petrificado do golem; os braços oscilaram, a cabeça sacudiu-se espasmodicamente, o peito subiu, depois desceu. Ouviu-se um leve suspiro, como se um último sopro. Um momento de silêncio; o gigante de pedra continuava imóvel. Depois, com o estalar violento de uma velha árvore numa tempestade, o dorso enorme ergueu-se, o braço esticado pendeu junto ao flanco, o golem ficou mais uma vez ereto. A sua cabeça inclinou-se, como se mergulhada em pensamentos. Cravado na testa, o olho de golem estava parado, morto: a inteligência que o comandava já não residia ali. Mas o corpo continuava a mover-se.

Nathaniel e o djinni afastaram-se quando a criatura se virou e, com passos cansados, começou a arrastar-se pelo pátio. Ignorou-os. Seguia ao mesmo ritmo impiedoso de sempre; à distância, continha a mesma energia de antes. Mas estava já a ter lugar uma transformação: estendiam-se pequenas fendas pela superfície do corpo. Começavam no centro do torso, onde anteriormente a pedra fora lisa e forte, e partiam em direção aos membros. Pequenos pedaços de barro soltavam-se da superfície e caíam nas pedras atrás do gigante.

Nathaniel e o djinni seguiam na esteira do golem., O corpo de Nathaniel estava todo dolorido; servia-se do Bordão de Gladstone como muleta ao caminhar.

O golem passou por baixo do arco e deixou o pátio. Virou à esquerda na rua do outro lado, onde, ignorando as regras de trânsito, começou a marchar diretamente pelo eixo da via. A primeira pessoa a encontrá-lo foi um enorme comerciante careca, com os braços tatuados, que transportava um carrinho de mão com legumes variados, que soltou um deplorável guincho ao avistá-lo, enfiando-se atabalhoadamente por um beco transversal. O golem ignorou-o. Nathaniel e Bartimaeus idem. O pequeno cortejo continuou a avançar.

— Presumindo que o amo do golem é um mago principal — comentou Bartimaeus —, presumindo apenas, atenção, podemos estar a dirigir-nos para Westminster neste momento. É o centro da cidade. Isto vai causar uma certa agitação, sabe?

— Ainda bem — respondeu Nathaniel. — É exatamente o que pretendo. — A cada minuto que passava, o seu humor aligeirava-se e a ansiedade e o medo que se tinham acumulado nele durante as últimas semanas começavam a escoar-se. Estavam ainda confusos na sua mente os pormenores exatos da forma como escapara ao golem, mas isso tinha pouca importância naquele momento; depois do revés da noite anterior, em que toda a hierarquia dos grandes magos se virara contra ele e a ameaça da Torre pairara sobre a sua cabeça, sabia que estava livre, salvo mais uma vez. Tinha o Bordão (Devereaux cairia aos seus pés só por isso) e, melhor ainda, tinha o golem. Nenhum deles acreditara na sua história; agora iam ter de se jogar ao chão e pedir-lhe desculpas: Duvall, Mortensen e os restantes. Seria finalmente acolhido no seu círculo e, na verdade, pouco lhe importava se Ms. Whitwell iria ou não perdoá-lo. Nathaniel permitiu-se um sorriso rasgado enquanto avançava por Southwark, atrás do golem.

O destino de Kitty Jones era confuso, mas até nesse aspecto as coisas tinham corrido bem. Apesar de lógico e pragmático, Nathaniel sentia-se constrangido por ter faltado à promessa feita à garota. Fora inevitável, evidentemente — as esferas de vigilância observavam-nos, por isso não lhe pudera permitir que partisse em liberdade — mas o assunto pesara realmente um pouco na sua consciência. Agora não tinha de se preocupar. Ou porque quisera ajudá-lo (tinha ainda dificuldade em acreditar nisso) ou porque tentara fugir (mais provável), a garota fora desta para melhor, era inútil perder tempo a pensar nela. De certa forma, era de lamentar... Pelo que vira dela, parecia possuir energia, talento e força de vontade muito superiores à de qualquer um dos grandes magos, com as suas pequenas discussões infinitas e vícios tolos. De uma forma algo estranha, fizera com que Nathaniel se revisse um pouco nela, e quase chegava a lamentar o seu desaparecimento.

O djinni caminhava em silêncio ao lado dele, como se embrenhado em pensamentos. Não parecia muito disposto a falar. Sabe-se lá que devaneios estranhos e malévolos tinha um djinni. Era melhor nem sequer tentar adivinhar.

Enquanto prosseguiam, passavam por cima de pequenos pedaços de barro úmido. O golem estava a desfazer-se da sua matéria com crescente rapidez; eram visíveis buracos consideráveis na sua superfície, e o contorno dos seus membros era um pouco irregular. Deslocava-se no seu ritmo normal, mas com as costas ligeiramente curvadas, como se envelhecido e frágil.

A previsão de Bartimaeus de que o golem iria causar uma certa agitação revelava-se extraordinariamente correta a cada momento que passava. Seguiam agora firmemente por Southwark High Street, com as suas bancas de mercado e venda de têxteis, e aspecto geral de indústria de má qualidade. A medida que avançavam, os comuns iam dispersando aos gritos à frente, impelidos como gado com enorme e excessivo pânico do gigante que caminhava em grandes passadas. As pessoas entravam pelas lojas e casas, derrubando portas e partindo janelas na tentativa de fugir; umas quantas treparam nos postes de rua; várias das mais magras enfiaram-se nos esgotos, levantando as tampas dos coletores. Nathaniel ria baixinho. O caos não era de todo em todo lamentável. Era bom os comuns levarem um abanão, perderem a complacência. Deveriam ver o tipo de perigo do qual o Governo os protegia, compreender a magia malévola que os ameaçava de todos os lados. Assim, no futuro já dariam menos ouvidos a fanáticos como a Resistência.

Surgiu um grande número de esferas de vigilância por cima dos telhados e pairou silenciosamente sobre a rua, observando-os. Nathaniel compôs o rosto numa expressão de sobriedade, e olhou com o que esperava fosse compaixão superior pelas bancas derrubadas e rostos assustados a toda a volta.

— Os teus amigos estão nos observando — disse o djinni. — Acha que estão satisfeitos?

— O mais provável será terem inveja.

Quando passaram pelo terminal ferroviário de Lambeth e seguiram para oeste, o contorno do golem tornara-se nitidamente mais irregular, o seu caminhar trôpego mais exagerado. Um grande pedaço de barro, talvez um dedo, soltou-se e caiu, úmido, no chão.

Lá na frente estava Westminster Bridge. Parecia altamente improvável que o seu destino não fosse Whitehall. A mente de Nathaniel convergiu para os confrontos que adviriam. Seria um mago relativamente importante, disso não tinha a menor dúvida, alguém que soubera da sua viagem a Praga e enviara o mercenário atrás dele. O tempo o diria em breve.

O Bordão de Gladstone era confortável na sua mão; apoiava-se pesadamente nele, pois ainda lhe doía o flanco. Ao prosseguir, quase o olhou carinhosamente. Seria uma bofetada para Duvall e os outros. Makepeace ficaria muito satisfeito com o rumo que os acontecimentos haviam tomado.

Subitamente ficou carrancudo. Para onde iria agora o Bordão? Supostamente, seria colocado num dos cofres-fortes do governo até alguém necessitar usá-lo. Mas quem entre eles possuía a capacidade para fazê-lo — excetuando a sua pessoa? Recorrendo apenas a fórmulas de invocação improvisadas, quase conseguira usá-lo logo de cara! Iria dominá-lo facilmente, se surgisse a oportunidade. E depois...

Suspirou. Era uma tremenda pena não poder ficar com ele.

Mesmo assim, logo que voltasse às boas graças de Devereaux, tudo seria possível. Tinha de ter paciência. Aproveitar a oportunidade mal ela surgisse.

Viraram finalmente para uma pequena subida entre duas torres de observação de vidro e concreto, indo dar na própria Westminster Bridge. Do outro lado ficavam as Câmaras do Parlamento. O Tamisa cintilava pela manhã; pequenos barcos serpenteavam com a maré. Vários turistas saltaram a balaustrada ao verem o golem em decomposição e atiraram-se à água.

O golem continuava a avançar, os ombros caídos, os braços e as pernas cotos truncados que largavam barro em bocados consideráveis. O seu andar era manifestamente mais desconjuntado; as pernas oscilavam sem firmeza a cada passo. Como se soubesse que lhe restava pouco tempo, aumentara a velocidade, e Nathaniel e o djinni viram-se forçados a seguir a meio trote atrás dele.

Desde que tinham chegado à ponte, havia pouco trânsito na rua e Nathaniel viu então qual o motivo. No meio do caminho, uma pequena unidade nervosa da Polícia Noturna erguera um cordão. Consistia em postes de concreto, arame farpado e uma série de diabretes de segundo plano de ar selvagem, todos espinhas e dentes de tubarão, circulando no meio do ar. Quando avistaram o golem em aproximação, recuaram soltando guinchos estridentes. Um tenente da polícia avançou lentamente, deixando o resto dos seus homens hesitantes nas sombras dos postes.

— Alto lá! — bradou. — Está entrando numa zona controlada do governo. Estão proibidas efusões mágicas perigosas sob pena de rápida e terrível puni... — Com um grito semelhante a um cachorrinho, saltou para o lado, saindo do caminho do golem. A criatura levantou um braço, atirou um poste ao Tamisa e atravessou o cordão, deixando pequenos pedaços de barro pendurados no arame destruído. Nathaniel e Bartimaeus seguiam atrás, piscando animadamente o olho aos guardas amedrontados.

Atravessou a ponte, passou as torres de Westminster, chegou ao próprio gramado. Um grupo considerável de magos secundários — burocratas de rosto pálido dos ministérios de Whitehall — tinham sido alertados pelo barulho e vindo para a luz do dia, semicerrando os olhos. Enchiam as calçadas, amedrontados, quando o gigante trôpego, agora consideravelmente reduzido, parou por um momento na esquina de Whitehall, antes de virar, à esquerda, na direção de Westminster Hall. Várias pessoas aclamaram Nathaniel quando passou por elas. Acenou com uma mão régia.

— Eis o que andava a aterrorizar a cidade — gritou. — Vou devolvê-lo ao seu dono.

A sua resposta despertou enorme interesse; sozinhas e aos pares, depois numa massa impetuosa, as pessoas começaram a segui-lo, mantendo sempre uma distância de segurança.

A grande porta de entrada de Westminster Hall estava escancarada, tendo os porteiros fugido ao avistarem a criatura em aproximação e a multidão que a seguia. O golem entrou por ali, curvando-se um pouco debaixo do arco. Nesta altura, a sua cabeça perdera a maior parte da forma; derretera-se como uma vela pela manhã. A boca fundira-se com o torso; o olho oval talhado estava de lado, pendendo com ar embriagado no meio do rosto.

Nathaniel e o djinni entraram no átrio. Dois afrits de pele amarela, com cristas lilases, materializaram-se ameaçadoramente nos pentagramas do assoalho. Olharam para o golem e engoliram ruidosamente em seco.

— Pois é, eu não faria nada se fosse vocês — advertiu-os o djinni quando aquilo passou. — Só vão se machucar. Porém, cuidado com a retaguarda... Vem metade da cidade atrás de nós.

Estava chegando o momento. O coração de Nathaniel batia acelerado. Via para onde se dirigiam agora: o golem atravessava o corredor em direção à Câmara de Recepções, a que apenas os magos da elite tinham acesso. A sua cabeça girava com as implicações.

Saiu uma figura de um corredor lateral: ligeira, fardada de cinzento, com olhos verde-vivo ansiosos.

— Mandrake! Grande tolo! O que está fazendo?

Ele sorriu cortesmente.

— Bom dia, Ms. Farrar. Parece-me estranhamente agitada.

Ela mordeu o lábio.

— O Conselho mal pregou olho a noite inteira; agora reuniram-se mais uma vez e estão assistindo pelas esferas. O que vêem? Caos por toda Londres! Há um pandemônio em Southwark... tumultos, manifestações, destruição maciça de propriedade!

— Não é nada que os vossos estimados agentes não consigam controlar, tenho certeza. Além disso, estou apenas fazendo o que... me foi solicitado ontem à noite. Tenho o Bordão — exibiu-o —, e além disso, venho devolver algo ao seu legítimo proprietário. Seja ele quem for. Uups... aquilo era valioso, não era? — Lá na frente, o golem, ao entrar numa parte estreita do corredor, atirara ao chão um jarrão de porcelana chinesa.

— Será detido... Mr. Devereaux...

— Ficará satisfeito por conhecer a identidade do traidor. Assim como estas pessoas atrás de mim... — Não precisou de olhar por cima do ombro. O tumulto da multidão que os seguia era ensurdecedor. — Agora, se fizesse o favor de nos acompanhar...

Umas portas duplas lá na frente. O golem, agora pouco mais do que uma massa informe, tropeçando e guinando de um lado para o outro, irrompeu por ali. Nathaniel, Bartimaeus e Jane Farrar, com o primeiro espectador muito perto, seguiram atrás dele.

Como um só, os ministros do Governo britânico levantaram-se das cadeiras. Tinham diante deles, em cima da mesa, um suntuoso café-da-manhã, mas este fora afastado para o lado a fim de acomodar os nexos rodopiantes de várias esferas de vigilância. Numa, Nathaniel reconheceu uma vista aérea de Southwark High Street, com multidões avançando inquietas pelos escombros do mercado; noutra, viu as pessoas aglomerando-se em Westminster Green; numa terceira, uma imagem da própria câmara onde se encontravam.

O golem estacou no centro da sala. Fora um grande esforço arrebentar com as portas e parecia restar-lhe muito pouca energia. A figura destruída balançava-se. Já não tinha braços, as pernas juntando-se numa única massa fluida. Por alguns momentos, oscilou como se fosse cair.

Nathaniel observava com atenção os rostos dos ministros em volta da mesa: Devereaux, pálido de cansaço e do choque; Duvall, escarlate de fúria; Whitwell, as suas feições duras e fixas; Mortensen, de cabelo escorrido e em desalinho, sem brilhantina; Fry, mastigando ainda pacificamente os restos de uma ave; Malbindi, os seus olhos como pires. Para sua surpresa, viu, entre um aglomerado de ministros secundários que se encontrava a um canto, Quentin Makepeace e Sholto Pinn. Evidentemente, os acontecimentos daquele princípio de manhã tinham levado todos os importantes à sala.

Olhou os rostos um por um, não viu senão raiva e aflição. Chegou a recear que tivesse se enganado, que o golem fosse cair, sem se provar nada.

O Primeiro-Ministro pigarreou.

— Mandrake! — começou. — Exijo uma explicação para esta...

Calou-se. O golem dera uma guinada. Como bêbado, oscilou para a esquerda, na direção de Helen Malbindi, a Ministra da Informação. Todos os olhos o seguiram.

— Ainda pode ser perigoso! — O Chefe de Polícia Duvall parecia menos paralisado do que os restantes. Bateu no braço de Devereaux. — Senhor, temos de evacuar imediatamente a sala.

— Que bobagem! — Jessica Whitwell falou com aspereza. — Estamos todos conscientes do que vai acontecer. O golem regressa ao seu amo! Temos de ficar quietos e esperar.

Num silêncio de morte, viram a coluna de barro avançar com passos arrastados na direção de Helen Malbindi, que recuou, vacilante; logo o equilíbrio do gigante se alterou, tombando de lado e para a direita, sobre o tampo da mesa, na direção dos lugares de Jessica Whitwell e Marmaduke Fry. Whitwell não se mexeu um centímetro, mas Fry soltou um miado de medo, saltou para trás e engasgou-se com um osso que ainda mastigava. Caiu na sua cadeira, a arfar, de olhos esbugalhados e faces escarlates.

O golem virou-se para Ms. Whitwell; pairou sobre ela, grandes placas de barro a caírem sobre o assoalho de parquê.

Mr. Duvall soltou um grito.

— Temos a nossa resposta e não podemos perder mais tempo! Jessica Whitwell é a ama da criatura. Ms. Farrar, reúna os seus homens e escolte-a à Torre!

O monte de barro deu um estranho estremecimento. Inclinou-se subitamente — afastando-se de Ms. Whitwell, e dirigindo-se para o centro da mesa, onde Devereaux, Duvall e Mortensen estavam de pé. Os três recuaram um passo. O golem agora pouco mais alto era do que um homem, uma coluna de decomposição a desmoronar-se. Deslocou-se junto à borda da mesa e aqui voltou a parar, separado dos magos por um metro de madeira envernizada.

O barro caiu sobre o tampo da mesa. Depois, com horrível concentração, moveu-se, oscilando de um lado para o outro em espasmos fracos e dolorosos, como um torso sem membros a contorcer-se. Deslocou-se por entre os restos do café-da-manhã, afastando bandejas e ossos; bateu no nexo da esfera de vigilância mais próxima, que imediatamente tremeluziu e se apagou; arrastou-se sem hesitações na direção da forma imóvel do Chefe de Polícia, Henry Duvall.

Reinava agora o silêncio na sala, exceto o ruído tranqüilo da sufocação de Marmaduke Fry.

Mr. Duvall, de rosto lívido, recuou da mesa. Comprimiu-se contra a cadeira, que bateu na parede.

O barro deixara quase metade da substância restante no meio da confusão de pratos e talheres. Alcançou o lado oposto da mesa, empinou-se, balançou-se como uma minhoca, saltou para o chão. Com velocidade súbita, correu em frente.

Mr. Duvall saltou para trás, perdeu o equilíbrio, afundou-se na cadeira. Abriu e fechou a boca, mas não saiu qualquer som.

A massa sinuosa de barro chegou às suas botas altas. Reunindo a energia restante, ergueu-se numa torre rude e oscilante, vacilando por um instante sobre a cabeça do Chefe de Polícia. Caiu então sobre ele e, nesse momento, derramou os últimos vestígios da magia de Kavka. O barro partiu-se, fragmentando-se numa chuva de minúsculas partículas que salpicaram Duvall e a parede atrás de si e atirou uma pequena peça oval de matéria, que resvalou delicadamente pelo peito dele.

Silêncio na sala. Henry Duvall olhou para baixo, pestanejando através de um véu de barro. Do local onde se alojara, no seu colo, o olho de golem fitava-o sem ver.

 

A agitação que o desmascaramento de Henry Duvall pelo meu amo causou foi tão tumultuosa que até enfada relatar. Durante muito tempo reinou a confusão; a notícia espalhou-se em ondas desde a câmara dos magos, passando pelo coração de Whitehall e até às extremidades da cidade, onde nem os comuns mais reles deixaram de ficar surpreendidos. A queda de um dos grandes é sempre aguardada com enorme excitação, e esta não fugia à regra. Naquela mesma tarde, houve uma ou duas festas de rua improvisadas e, nas raras ocasiões em que ousaram dar a cara nas semanas subsequentes, os membros da Polícia Noturna foram tratados com manifesto escárnio.

Nos tempos mais próximos, a confusão esteve na ordem do dia. Foi preciso uma eternidade para prender Duvall — não que a culpa fosse dele, visto que ficara embananado com o rumo dos acontecimentos, e não oferecera resistência nem tentara fugir. Mas os malditos magos não perderam tempo a reclamar o lugar dele, e durante um bocado, brigaram como abutres por causa de quem tinha o direito de ficar encarregado da polícia. O meu amo não participou na rixa; os seus atos falavam por si mesmos.

No fim, os lacaios do Primeiro-Ministro invocaram um afrit gordo, que estivera timidamente escondido no átrio, longe do caminho do golem e, com a sua ajuda, conseguiram repor a ordem. Os ministros foram dispensados, Duvall e Jane Farrar detidos, e os espectadores excitados guiados até o exterior do edifício.93 Jessica Whitwell deixou-se ficar para o fim, proclamando estridentemente a sua parte no êxito de Nathaniel, mas, no fim, acabou por partir relutante. O Primeiro-Ministro e o meu amo ficaram a sós.

 

93 A esmagadora maioria saiu rapidamente e de forma ordeira. Alguns molengões tiveram de ser ajudados com a aplicação de Infernos nos seus traseiros. Uma série de jornalistas do The Times, descobertos a tomar nota pormenorizadamente do pânico dos magos, foram conduzidos a um local isolado, e os seus relatos canalizados num sentido mais favorável.

 

Não sei ao certo o que se passou entre eles, já que me mandaram ir lá para fora com o afrit, a fim de repor a ordem nas ruas. Quando regressei, algumas horas depois, o meu amo estava sentado sozinho numa sala adjacente, a tomar o café-da-manhã. Já não tinha o Bordão.

Reassumi o aspecto do minotauro, sentei-me na cadeira em frente e bati indolentemente com os cascos no chão. O meu amo olhou-me, mas não disse nada.

— Então? — comecei. — Tudo bem? — Um grunhido. — Estamos outra vez nas boas graças? — Um breve aceno. — Qual é o teu cargo agora?

— Ministro da Administração Interna. O ministro mais jovem de sempre.

O minotauro assobiou.

— Somos mesmo espertinhos.

— Acho que é um começo. Já não dependo de Whitwell, felizmente.

— E o Bordão? Conseguiu ficar com ele?

Uma expressão azeda. Espetou o garfo na morcela.

— Não. Foi para os cofres-fortes. Alegadamente, para «ficar salvaguardado». Ninguém está autorizado a usá-lo. — O seu rosto animou-se. — No entanto, pode sair de lá em tempo de guerra. Estava a pensar, talvez mais tarde nas campanhas americanas... — Bebeu um gole de café. — Não começaram muito bem, ao que tudo indica. Veremos. De qualquer forma, preciso de tempo para aperfeiçoar a minha abordagem.

— Pois, como ver se consegue pô-lo para funcionar.

Carregou o cenho.

— É claro que consigo. Apenas omiti duas cláusulas de restrição e uma fórmula encantatória direcional, é tudo.

— Por outras palavras, estragou tudo, meu. O que aconteceu a Duvall?

O meu amo mastigou pensativamente.

— Foi levado para a Torre. Ms. Whitwell voltou a chefiar a Segurança. Irá superintender o interrogatório dele. Passe-me o sal.

O minotauro obedeceu.

Se o meu amo estava satisfeito, eu também tinha motivos para o estar. Nathaniel prometera libertar-me assim que o assunto do misterioso atacante ficasse resolvido, e resolvido estava, indubitavelmente, muito embora eu achasse que um ou dois aspectos careciam de uma explicação. No entanto, não tinha nada a ver com isso. Aguardei extremamente confiante a minha dispensa.

E continuei a aguardar.

Passaram-se vários dias em que o rapaz esteve muito ocupado para dar ouvidos aos meus rogos. Assumiu o controle do seu departamento; esteve presente em reuniões de alto nível para discutir o caso de Duvall; mudou-se do apartamento da sua antiga mestra e, servindo-se do seu novo salário e de um presente do Primeiro-Ministro grato, adquiriu uma pomposa moradia numa praça cheia de árvores não muito longe de Westminster. Esta última exigiu que eu executasse uma série de tarefas dúbias, que não tenho tempo para pormenorizar aqui.94 Foi convidado para festas na residência do Primeiro-Ministro em Richmond, organizou reuniões sociais para os seus novos funcionários e passou os serões no teatro, assistindo a peças profundas pelas quais adquirira um gosto inexplicável. Era um estilo de vida febril.

 

94 Implicaram caiar, forrar com papel e utilizar abundantes fluidos de limpeza. E não digo mais.

 

Sempre que possível, relembrava-lhe as suas obrigações.

— Sim, sim — dizia, à saída de manhã. — Vou já tratar disso. Agora, vou precisar de uma vara* de seda cinzento-ostra para as cortinas do meu salão de recepções; efetue a compra no Fieldings, aproveite e traga mais duas almofadas. Também me vinham a calhar uns esmaltes de Tashkent no banheiro.95

— As tuas seis semanas — falei severamente —, estão quase terminando.

 

* Antiga medida de comprimento correspondente a um metro e dez centímetros. (NT)

 

95 Nisto, não divergia em nada de noventa por cento dos outros magos. Quando não tentavam apunhalar-nos pelas costas, passavam o tempo a rodear-se das coisas requintadas da vida. Em primeiro lugar na lista de desejos vêm as almofadas luxuosas, e é sempre o pobre djinni que tem de palmilhar. Os magos persas eram os mais extravagantes: tínhamos de trocar de palácios de uma região para outra da noite para o dia, construí-los em cima de nuvens — até debaixo de água. Houve um mago que quis o seu castelo feito de vidro sólido. Além do óbvio embaraço da privacidade, foi um erro irremediável. Construímos para ele num final de tarde e instalou-se lá, todo satisfeito. Na manhã seguinte, o Sol nasceu: as paredes serviram de lentes gigantes e os seus raios refractaram-se através deles com vigor. Ao meio-dia, o mago e toda a sua criadagem tinham ficado esturricados.

 

— Sim, sim. Agora, tenho realmente de ir.

Uma tarde, voltou mais cedo para casa. Eu estava no porão, a supervisionar a colocação dos azulejos na cozinha dele,96 mas parti a toda a velocidade para insistir mais uma vez no meu caso. Encontrei-o na sala de jantar, um espaço faustoso presentemente sem mobília. Olhava para a lareira vazia e as paredes frias e despidas.

 

96 Para ajudar a realizar a tarefa, ele presenteara-me com dois foliots que tinham o aspecto de órfãos abandonados. Tinham olhos redondos e eram suficientemente deploráveis para derreterem o coração mais empedernido. No entanto, eram também dados à preguiça. Assei-os em fogo brando e consegui de imediato a sua obediência.

 

— Precisa de um padrão adequado aqui — disse-lhe. — Papel de parede compatível com a tua idade. E que tal um motivo de carros, ou trens a vapor?

Ele foi até à janela.

— Duvall confessou hoje — disse finalmente.

— Isso é bom — comentei. — Não é?

Olhava para as árvores da praça.

— Acho que sim...

— Porque, com os meus poderes mágicos, detecto que não parece lá muito satisfeito.

— Oh... Sim. — Voltou-se para mim, forçando um sorriso. — Esclarece muitas coisas, mas a maior parte delas nós já sabíamos. Encontramos a oficina no porão da casa de Duvall, o buraco onde o golem foi feito, o cristal através do qual ele controlava o olho. Ele manobrava a criatura, sem dúvida.

— Está vendo?

— Hoje ele confessou tudo isso. Disse que há muito que queria alargar as suas funções, diminuir as de Ms. Whitwell e dos outros. O golem foi o método encontrado: espalhava o caos, destruía os outros ministros. Após alguns ataques, sem solução à vista e todo mundo confuso, Devereaux de bom grado lhe concedeu mais autoridade. A polícia recebeu mais poderes; Duvall conseguiu o cargo da segurança. Ali, estaria numa posição ideal para derrubar Devereaux, com o tempo.

— Parece-me bastante evidente — anuí.

— Não sei... — O rapaz comprimiu os cantos da boca. — Todos estão satisfeitos: Whitwell voltou às antigas funções, Devereaux e os outros ministros continuam com as suas festas ridículas, Pinn já está a reconstruir a sua loja. Até Jane Farrar foi libertada, dado não existirem provas de que tivesse conhecimento da traição do seu mestre. Estão todos felizes por poderem finalmente respirar de alívio. Mas não tenho certeza. Há algumas coisas que não fazem sentido.

— Como, por exemplo?

— Duvall afirmou não estar sozinho nisto. Diz que alguém o envolveu, um estudioso chamado Hopkins. Refere que este Hopkins lhe levou o olho do golem, o ensinou a usá-lo. Este Hopkins também o pôs em contato com o mercenário barbudo, e encorajou Duvall a mandá-lo a Praga para encontrar o mago Kavka. Quando comecei a investigar, Duvall contatou o mercenário em Praga e pediu-lhe que me detivesse. Mas Hopkins era o cérebro por trás de tudo. Isto parece-me ser verdade; Duvall não tinha inteligência suficiente para tratar de tudo sozinho. Era o líder de um bando de lobisomens, não um grande mago. Mas podemos encontrar este Hopkins? Não está em lugar nenhum. É como se não existisse.

— Talvez não exista.

— Talvez seja isso que os outros pensam. Calculam que Duvall esteja tentando transferir a culpa. E todos presumem que ele estava envolvido também na conspiração de Lovelace. O mercenário comprova-o, dizem. Mas não sei...

— Muito pouco provável — respondi. — Duvall ficou preso com os outros no grande pentagrama de Heddleham Hall, não ficou? Não fazia parte da conspiração. No entanto, tudo indica que Hopkins pudesse ter feito. Ele é a ligação, se conseguir encontrá-lo.

Suspirou.

— Isso é uma grande incerteza.

— Talvez Duvall saiba mais do que afirma. Ele podia abrir mais o jogo.

— Não neste momento. — O rosto do rapaz descaiu imperceptivelmente; de repente parecia cansado e velho. — Ao regressar à cela após o interrogatório desta tarde, transformou-se num lobo, venceu o guarda e escapou por uma janela com grades.

— E conseguiu fugir?

— Não propriamente. Estava no quinto piso.

— Ah.

— Isso mesmo. — O rapaz encontrava-se agora junto à enorme lareira, batendo com os dedos no mármore. — A outra questão é o assalto à Abadia de Westminster e a questão do Bordão. Duvall admitiu que mandara o golem roubar-me no outro dia — era uma oportunidade muito boa para ser desperdiçada, disse. Mas jurou que não tivera nada a ver com a Resistência, nem com o arrombamento do túmulo de Gladstone. — Bateu com os dedos na pedra. — Acho que terei de me dar por satisfeito, tal como os outros. Se ao menos a garota não tivesse morrido. Podia ter-nos contado mais...

Emiti uma espécie de ruído afirmativo, mas nada disse. O fato de Kitty estar viva era um mero pormenor — não valia a pena mencioná-lo. Tampouco o fato de ela me ter contado muita coisa sobre o assalto à abadia, e que um cavalheiro chamado Hopkins estivera de certa forma envolvido nele. Não me competia contá-lo a Nathaniel. Eu não passava de um humilde servo. Fazia apenas o que me mandavam. Além disso, ele não merecia.

— Você passou algum tempo com ela — referiu bruscamente. — Ela lhe contou muita coisa? — Fitou-me rapidamente, depois desviou o olhar.

— Não.

— Muito assustada, presumo.

— Au contraire*. Muito desdenhosa.

 

* Em francês no original: «pelo contrário». (NT)

 

Soltou um resmungo.

— Pena que fosse tão voluntariosa. Possuía algumas... qualidades admiráveis.

— Oh, reparou nelas, foi? Julguei que estivesse muito ocupado a renegar a tua promessa para lhe dar atenção.

As faces dele ruborizaram-se.

— Não tinha outra alternativa, Bartimaeus...

— Não me venha com essa de alternativa — repliquei. — Ela podia ter escolhido deixá-lo morrer.

Bateu o pé.

— Não vou permitir que critique os meus atos...

— Não são os atos. O que contesto é a tua moral.

— Muito menos a minha moral! Você é um demônio, lembra-se? Por que haveria de se importar?

— E não importa! — Eu estava agora de pé, de mãos nas ancas. — Não importa nada mesmo. O fato de uma humilde comum ser mais honrosa do que você jamais será não é coisa que me diga respeito. Faça o que te apetecer.

— Farei!

— Ótimo!

— Ótimo!

Durante alguns momentos demos largas à nossa fúria desmedida, prontos para a briga como cão e gato, mas, lá no nosso íntimo, não estávamos muito dispostos a isso.

Após um intervalo em que ele olhou fixamente para o canto da lareira e eu fitei uma fenda no teto, o rapaz quebrou o silêncio.

— Se te interessa — resmungou —, falei com Devereaux e libertei os filhos de Kavka da prisão. Já regressaram a Praga. Fiquei devendo alguns favores para consegui-lo, mas não deixei de fazê-lo.

— Que nobre da tua parte. — Não me apetecia nada dar-lhe palmadinhas nas costas.

Ele ficou carrancudo.

— De qualquer forma, eram uns miseráveis espiões. Não valia a pena ficarmos com eles.

— Claro. — Novo silêncio. — Bem — disse eu finalmente. — Tudo está bem quando acaba bem. Conseguiu tudo o que queria. — Indiquei o cômodo vazio. — Olhe para o tamanho deste lugar! Pode enchê-lo com toda a seda e prata que quiser. Não apenas isso, está mais poderoso do que nunca, o Primeiro-Ministro voltou a ficar em dívida para contigo e saiu da alçada de Whitwell.

Pareceu-me ter ficado um pouco mais animado.

— É verdade.

— Claro, também está completamente sozinho e sem amigos — prossegui —, e todos os teus colegas o temem e hão de querer prejudicá-lo. E se tornar-se muito poderoso, o Primeiro-Ministro entrará em paranóia e arranjará um pretexto para correr contigo. Mas, por outro lado, quem não tem problemas?

Deu-me um olhar sinistro.

— Que visão encantadora.

— Estou cheio deles. E, se não quer mais, aconselho que me dispense imediatamente. As tuas seis semanas terminaram e isso assinala o fim da minha presente escravidão. Dói-me a essência e estou farto de emulsão branca.

Esboçou um súbito aceno brusco.

— Muito bem — disse. — Honrarei o nosso acordo.

— Hã? Oh. Certo. — Fiquei um pouco surpreso. Muito sinceramente, estava à espera da habitual discussão antes dele concordar em deixar-me ir. É o mesmo que fazer uma compra num bazar oriental: o regateio está sem dúvida na ordem do dia. Mas talvez o meu amo estivesse se remoendo pela traição à garota.

Fosse qual fosse a razão, conduziu-me em silêncio ao seu gabinete de trabalho no segundo piso da casa. Estava enfeitado com os pentagramas e a parafernália básicos.

Concluímos o processo inicial num silêncio sepulcral.

— Para tua informação — disse-me maliciosamente, enquanto eu estava dentro do pentagrama —, não me deixa completamente sozinho. Esta noite vou ao teatro. O meu bom amigo Quentin Makepeace convidou-me para a estréia de gala da sua última peça.

— Não poderia ser mais excitante.

— É. — Saiu-se pessimamente a fingir que estava satisfeito. — Então, está pronto?

— Estou. — Efetuei uma continência formal. — Despeço-me do mago John Mandrake. Que viva muitos anos e nunca mais me volte a chamar... A propósito, reparou em alguma coisa?

O mago estacou de braços erguidos, a fórmula a postos.

— O quê?

— Eu não disse «Nathaniel». Isso é porque agora te vejo mais como Mandrake. O rapaz que era Nathaniel está desaparecendo, quase se foi.

— Ótimo — disse com secura. — Vejo que ganhou juízo finalmente. — Pigarreou. — Pronto. Adeus, Bartimaeus.

— Adeus. — Ele falou. Eu fui. Não tive tempo de dizer que ele não entendera patavina.

 

Mrs. Hyrnek despedira-se frente à alfândega, e Kitty e Jakob caminharam juntos pelo cais. O barco estava quase partindo; saía fumaça das chaminés e uma brisa forte enfunava as velas. Os últimos viajantes subiam por um deque coberto com um toldo alegre, próximo da proa, enquanto mais à frente um grupo de homens levava a bagagem para bordo. Gaivotas roucas descreviam círculos no céu.

Jakob usava um chapéu branco de aba larga, bastante puxado para frente para lhe cobrir o rosto, e um terno de viagem castanho-escuro. Segurava uma pequena mala de couro numa mão enluvada.

— Tem os documentos contigo? — perguntou Kitty.

— Pela décima vez, sim. — Continuava um pouco triste depois de se despedir da mãe, e isso tornava-o irascível.

— Não é uma viagem longa — afirmou Kitty, tranqüilamente. — Chegará lá amanhã.

— Eu sei. — Puxou a aba do chapéu. — Acha que consigo passar?

— Oh, sim. Eles não andam à nossa procura, não é? O passaporte é apenas uma precaução.

— Hum. Mas com o meu rosto...

— Eles nem olharão duas vezes. Confie em mim.

— Está certo. Tem certeza de que não quer...?

— Sempre poderei encontrá-lo. Vai entregar a mala àquele sujeito?

— Acho que sim.

— Então apresse-se. Eu espero. — Com uma ínfima hesitação, afastou-se. Kitty viu-o passar lentamente pelas multidões apressadas, e agradou-lhe registrar que nem sequer olhavam para ele. Soou a sirene do navio e em algum lugar perto tocou uma campainha. O cais fervilhava agora de atividade, com marinheiros, carregadores e negociantes passando apressados, com as últimas ordens para dar, cartas e pacotes a serem trocados. No convés do navio, muitos dos embarcados estavam de pé junto à amurada, os rostos brilhantes de excitação, falando satisfeitos uns com os outros numa dúzia de línguas. Homens e mulheres de terras distantes — da Europa, África, Bizâncio e do Oriente... O coração de Kitty bateu apressado ante a idéia, e suspirou. Desejava, e muito, reunir-se a eles. Bem, talvez acabasse por fazê-lo. Primeiro tinha outros assuntos a resolver.

Naquela terrível manhã haviam fugido, os dois, para a fábrica dos Hyrnek, onde os irmãos de Jakob os esconderam numo cômodo desativado, por trás de uma das máquinas impressoras. Aqui, no meio do barulho e do ar abafado e do fedor de couro, as feridas de Kitty foram tratadas e as forças de ambos recuperadas. Entretanto, a família Hyrnek preparara-se para as inevitáveis repercussões, para as buscas e as multas. Passou um dia. A polícia não apareceu. Chegou a notícia da marcha do golem por Londres, da queda de Duvall, da promoção do rapaz Mandrake. Mas sobre eles — os fugitivos — não constou nada de nada. Não houve buscas, nem represálias. Todas as manhãs chegavam à fábrica as habituais encomendas dos magos. Era muito estranho. Kitty e Jakob pareciam ter sido esquecidos.

No final do segundo dia teve lugar uma reunião no cômodo secreto. Apesar da aparente indiferença das autoridades, a família achava que não era nada seguro Jakob e Kitty permanecerem em Londres. Jakob em particular, facilmente identificável pelo seu aspecto, estava vulnerável. Nã