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O Outono do Patriarca / Gabriel Garcia Marquez
O Outono do Patriarca / Gabriel Garcia Marquez

 

 

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O Outono do Patriarca

 

Durante o fim-de-semana os urubus enfiaram-se pelas varandas da casa presidencial, desfizeram à bicada as redes de arame das janelas e remexeram com as asas o tempo estancado no interior e na madrugada de segunda-feira a cidade acordou do seu letargo de séculos com uma morna e mole brisa de morto grande e de apodrecida grandeza. Só então nos atrevemos a entrar sem investir contra as carcomidas muralhas de pedra fortificada, como queriam os mais resolutos, nem desquiciar com juntas de bois a entrada principal, como outros propunham, pois bastou que alguém os empurrasse para que cedessem nos gonzos os portões blindados que nos tempos heróicos da casa tinham resistido às bombardas de William Dampier. Foi como penetrar no espaço de outra época, porque o ar era mais ténue nos poços de escombros do vasto covil do poder, e o silêncio era mais antigo, e as coisas eram custosamente visíveis na luz decrépita. Ao longo do primeiro pátio, cujos ladrilhos tinham cedido à pressão subterrânea das plantas daninhas, vimos o alojamento em desordem da guarda fugitiva, as armas abandonadas nos armeiros, o comprido refeitório de longas tábuas toscas com os pratos de restos do almoço dominical interrompido pelo pânico, vimos o telheiro na penumbra onde tinham sido os gabinetes civis, os cogumelos de cores e os lírios pálidos entre os requerimentos por despachar, cujo curso ordinário tinha sido mais lento do que as vidas mais áridas, vimos no centro do pátio a pia baptismal onde tinham sido cristianizadas com sacramentos marciais mais de cinco gerações, vimos ao fundo a antiga cavalariça dos vice-reis transformada em cocheira, e vimos entre as camélias e as borboletas a berlinda dos tempos do ruído, a camioneta da peste, o coche do ano do cometa, o automóvel fúnebre do progresso dentro da ordem, a limusina sonâmbula do primeiro século de paz, to- dos em bom estado sob a teia de aranha poeirenta e todos pintados com as cores da bandeira. No pátio seguinte, atrás de uma grade de ferro, estavam os roseirais, nevados de pó lunar, a cuja sombra dormiam os leprosos nos tempos grandes da casa, e tinham proliferado tanto no abandono que mal sobrava um resquício sem odor naquele ar de rosas revolvido com a pestilência que nos chegava do fundo do jardim e a emanação de galinheiro e o fedor de bosta e fermentos de urinas de vacas e soldados da basílica colonial convertida em estábulo de ordenha. Abrindo caminho através do matagal asfixiante, vimos a galeria de arcadas com vasos de cravos e ramagens de camélias e trinitárias onde ficavam os casebres das concubinas, e, pela variedade dos resíduos domésticos e a quantidade das máquinas de coser pareceu-nos possível que ali tivessem vivido mais de mil mulheres com as suas récuas de sete-mesinhos, vimos a desordem de guerra das cozinhas, a roupa apodrecida ao sol nos tanques de lavar, a sentiria aberta da latrina comum de concubinas e soldados, e vimos no fundo os salgueiros babilónicos que tinham sido transportados vivos da Ásia Menor em gigantescos invernadouros de mar, com o seu próprio solo, a sua seiva e o seu chuviscar, e ao fundo dos salgueiros vimos a casa civil, imensa e triste, por cujas gelosias esborceladas continuavam a enfiar-se as auras. Não tivemos de forçar a entrada, como tínhamos pensado, pois a porta central pareceu abrir-se ao simples impulso da voz, de modo que subimos ao piso principal por uma escada de pedra lisa, cujas tapeçarias de ópera tinham sido trituradas pelos cascos das vacas, e do primeiro vestíbulo até aos quartos de dormir privados vimos os gabinetes e as salas oficiais em ruínas por onde andavam vacas impávidas a comer as cortinas de veludo e a mordiscar o cetim dos cadeirões, vimos quadros heróicos de santos e militares arremessados ao chão entre móveis quebrados e pastas recentes de bosta de vaca, vimos uma sala de jantarada pelas vacas, a sala de música profanada por destroços de vacas, as mesinhas de dominó destruídas e as pradarias das mesas de bilhar pastadas pelas vacas, vimos abandonada a um canto a máquina do vento, a que falsificava qualquer fenómeno dos quatro quadrantes da rosa-dos-ventos, para que as pessoas da casa suportassem a nostalgia do mar que se fora, vimos gaiolas de pássaros penduradas por todos os lados e ainda cobertas com os panos de dormir de alguma noite da semana anterior, e vimos pelas janelas numerosas o extenso animal adormecido da cidade ainda inocente da segunda-feira histórica que começava a viver, e para além da cidade, até ao horizonte, vimos as crateras mortas de ásperas cinzas de lua da planura sem fim onde tinha estado o mar. Naquele recinto proibido que muito poucas pessoas de privilégio tinham logrado conhecer, sentimos pela primeira vez o odor de carnaz dos urubus, percebemos a sua asma milenária, o seu instinto premonitório, e guiando-nos pelo vento de putrefacção do bater das suas asas encontrámos na sala de audiências os cascões bichosos das vacas, os seus quartos traseiros de animal feminino várias vezes repetidos nos espelhos de corpo inteiro, e então empurrámos uma porta lateral que dava para um gabinete dissimulado numa parede, e ali o vimos a ele, com o uniforme de cotim sem insígnias, as polainas, a espora de ouro no calcanhar esquerdo, mais velho do que todos os homens e do que todos os animais velhos da terra e da água, e estava caído no chão, de barriga para baixo, com o braço direito dobrado por debaixo da cabeça, para que lhe servisse de almofada, como tinha dormido noite após noite durante todas as noites da sua longuíssima vida de déspota solitário. Só quando o virámos para ver-lhe a cara compreendemos que era impossível reconhecê-lo, mesmo que não estivesse carcomido de auras, porque nenhum de nós o tinha visto nunca, e, embora o seu perfil estivesse em ambos os lados das moedas, nos selos de correio, nas etiquetas dos depurativos, nas fundas herniárias e nos escapulários e até a sua litografia emoldurada com a bandeira no peito e o dragão da pátria estivesse exposta a toda a hora em toda a parte, sabíamos que eram cópias de cópias que já se consideravam infiéis nos tempos do cometa, quando os nossos próprios pais sabiam quem ele era porque tinham ouvido contar aos seus, como estes aos deles, e desde crianças nos acostumaram a acreditar que ele estava vivo na casa do poder porque alguém tinha visto acenderem-se os globos de luz numa noite de festa, alguém tinha contado que vira os olhos tristes, os lábios pálidos, a mão pensativa que ia dizendo adeuses de ninguém através dos ornatos de missa do automóvel presidencial, porque num domingo de havia muitos anos tinham levado o cego ambulante que recitava os versos do esquecido poeta Rubén Darío por cinco centavos e tinha voltado feliz com uma batelada legítima que lhe pagaram por um recital que tinha dado só para ele, embora não o tivesse visto, claro está, não porque fosse cego mas porque nenhum mortal o tinha visto desde os tempos do vómito negro, e, no entanto, sabíamos que ele estava ali, sabíamos porque o mundo continuava, a vida continuava, o correio chegava, a banda municipal tocava o desfile de valsas patetas dos sábados sob as palmeiras poeirentas e os candeeiros lânguidos da Plaza de Armas, e outros músicos velhos substituíam na banda os músicos mortos. Nos últimos anos, quando não voltaram a ouvir-se ruídos humanos nem cantos de pássaros no interior e se fecharam para sempre os portões blindados, sabíamos que havia alguém na casa civil porque de noite se viam luzes que pareciam de navegação através das janelas do lado do mar, e os que se atreveram a aproximar-se ouviram tropéis de cascos e suspiros de animal grande por detrás das paredes fortificadas, e numa tarde de janeiro tínhamos visto uma vaca a contemplar o crepúsculo da varanda presidencial, imagine-se, uma vaca na varanda da pátria, que coisa tão iníqua, que país de merda, mas fizeram-se tantas conjecturas de como seria possível uma vaca chegar a uma varanda se toda a gente sabia que as vacas não trepavam pelas escadas, e muito menos se eram de pedra, e ainda menos se estavam alcatifadas, que no fim ficámos sem saber se na verdade a vimos ou se dava o caso de passarmos uma tarde pela Plaza de Armas e termos sonhado a andar que tínhamos visto uma vaca numa varanda presidencial onde nada se tinha visto nem havia de ver-se outra vez em muitos anos até ao amanhecer de uma última sexta-feira quando começaram a chegar os primeiros urubus que levantaram de onde estavam sempre a dormitar na cortuja do hospital dos pobres, vieram mais terra adentro, vieram em revoadas sucessivas do horizonte do mar de poeira onde tinha sido o mar, voaram um dia inteiro em círculos lentos sobre a casa do poder até que um rei com plumas de noiva e colar encarnado emitiu uma ordem silenciosa e começou aquele destroçar de vidros, aquele vento de morto grande, aquele entrar e sair de urubus pelas janelas como apenas era concebível numa casa sem autoridade, de modo que também nós nos atrevemos a entrar e encontrámos no santuário deserto os escombros da grandeza, o corpo debicado, as mãos lisas de donzela com o anel do poder no osso anelar, e de todo o corpo brotavam-lhe líquenes minúsculos e animais parasitários do fundo do mar, sobretudo das axilas e das virilhas, e tinha a funda de lona no testículo herniado que era a única coisa que os urubus tinham evitado apesar de ser tão grande como um rim de boi, mas nem sequer nessa altura nos atrevemos a acreditar na sua morte porque era a segunda vez que o encontravam naquele gabinete, só e vestido, e morto pelos vistos de morte natural durante o sono, como estava anunciado desde há muitos anos nas águas premonitórias dos alguidares das pitonisas. Da primeira vez que o encontraram, no princípio do seu outono, a nação estava ainda suficientemente viva para que ele se sentisse ameaçado de morte até na solidão do seu quarto de dormir, e no entanto governava como se se soubesse predestinado a não morrer nunca, pois aquilo não parecia então uma casa presidencial mas um mercado onde era preciso abrir caminho por entre ordenanças descalças que descarregavam burros de hortaliças e cestas de galinhas nos corredores, saltando por cima de comadres com afilhados famélicos que dormiam em pelotão nas escadas para esperar o milagre da caridade oficial, era preciso evitar as correntes de água suja das concubinas desbocadas que trocavam por flores novas as flores nocturnas das floreiras e esfregavam o chão e cantavam canções de amores ilusórios ao compasso dos ramos secos com que batiam as tapeçarias às varandas, e tudo aquilo entre o escândalo dos funcionários vitalícios que encontravam galinhas a porem nas gavetas das secretárias, e tráficos de putas e soldados nas retretes, e alvoroços de pássaros, e brigas de cães vadios no meio das audiências, porque ninguém sabia quem era quem nem da parte de quem naquele palácio de portas abertas dentro de cuja desordem descomunal era impossível estabelecer onde estava o Governo. 0 homem da casa não só participava daquela confusão de feira, como ele próprio a promovia e comandava, pois assim que se acendiam as luzes do seu quarto de dormir, a alvorada da guarda presidencial mandava o aviso do novo dia ao vizinho quartel do Conde, e este repetia-o para a base de San Jerónimo, e esta para a fortaleza do porto, e esta voltava a repeti-lo para as seis alvoradas sucessivas que acordavam primeiro a cidade e a seguir todo o país, enquanto ele meditava na retrete portátil tentando apagar com as mãos o zumbido dos ouvidos, que nessa altura começava a manifestar-se, e vendo passar a luz dos navios pelo volúvel mar de topázio que naqueles tempos de glória estava ainda defronte da sua janela. Todos os dias, desde que tomara posse da casa, tinha vigiado a ordenha nos estábulos para medir com a sua mão a quantidade de leite que as três carroças presidenciais haviam de levar aos quartéis da cidade, tomava na cozinha uma malga de café negro com caçabe sem saber muito bem para onde o arrastavam os caprichos da nova jornada, atento sempre à tagarelice da criadagem que eram as pessoas da casa com quem falava a mesma linguagem, cujas lisonjas sérias mais estimava e cujos corações melhor decifrava, e um pouco antes das nove tornava um banho lento de águas de folhas fervidas no tanque de granito construído à sombra das amendoeiras do seu pátio privado, e só depois das onze conseguia sobrepor-se à angústia do amanhecer e enfrentava os acasos da realidade. Antes, durante a ocupação dos fuzileiros, fechava-se no gabinete para decidir o futuro da pátria com o comandante das tropas de desembarque e assinava todo o género de leis e mandatos com a impressão do polegar, pois nessa altura não sabia ler nem escrever, mas quando o deixaram só outra vez com a sua pátria e o seu poder não voltou a empeçonhar o sangue com a modorra da lei escrita, passando a governar de viva voz e de corpo presente a toda a hora e em toda a parte com uma parcimónia rupestre, mas também com uma diligência inconcebível para a sua idade, assediado por uma multidão de leprosos, cegos e paralíticos, que suplicavam das suas mãos o sal da saúde, e políticos letrados e aduladores impávidos que o proclamavam corrector dos terramotos, dos eclipses, dos anos bissextos e de outros erros de Deus, arrastando pela casa toda as suas grandes patas de elefante na neve enquanto resolvia problemas de Estado e assuntos domésticos com a mesma simplicidade com que ordenava que tirem-me esta porta daqui e ponham-na acolá, e tiravam-na, que tornem-me a pô-la, e tornavam, que o relógio da torre não desse o meio-dia ao meio-dia, mas sim às duas, para que a vida parecesse mais longa, e cumpria-se, sem um momento de vacilação, sem uma pausa, excepto à hora mortal da sesta em que se refugiava na penumbra das concubinas, escolhia uma por assalto, sem a despir nem despir-se, sem fechar a porta, e no recinto da casa ouvia-se então o seu ofegar sem alma de marido urgente, o tilintar anelante da espora de ouro, o seu chorozinho de cão, o espanto da mulher que desbaratava o seu tempo de amor a tentar esquivar-se ao olhar esquálido dos sete-mesinhos, os seus gritos de ponham-se daqui para fora, vão brincar para o pátio que isto não é para as crianças verem, e era como se um anjo atravessasse o céu da pátria, extinguiam-se as vozes, cessou a vida, toda a gente ficou petrificada com o indicador nos lábios, sem respirar, silêncio, o general está na caça, mas aqueles que melhor o conheciam não confiavam nem sequer na trégua daquele instante sagrado, pois parecia sempre que se desdobrava, que o viram a jogar dominó às sete da noite e ao mesmo tempo tinham-no visto a pegar fogo às bostas de vaca para afugentar os mosquitos na sala de audiências, nem ninguém alimentava ilusões enquanto não se apagavam as luzes das últimas janelas e se ouvia o barulho estrepitoso das três aldrabas, dos três ferrolhos, das três tranquetas do quarto presidencial, e ouvia-se o baque do corpo ao tombar de cansaço no chão de pedra, e a respiração de criança decrépita que se ia tornando mais profunda à medida que a maré subia, até que as harpas nocturnas do vento aquietavam as cigarras dos seus tímpanos e um largo golpe de mar de espuma arrasava as ruas da bafienta cidade dos vice-reis e dos bucaneiros e irrompia na casa civil por todas as janelas como um tremendo sábado de Agosto que fazia crescer percebes nos espelhos e deixava a sala de audiências à mercê dos delírios dos tubarões e excedia os níveis mais altos dos oceanos pré-históricos, e transbordava a face da Terra, e o espaço e o tempo, e só ficava ele só a flutuar de barriga para baixo na água lunar dos seus sonhos de afogado solitário, com o uniforme de cotim de soldado raso, as polainas, a espora de ouro, e o braço direito dobrado sob a cabeça para servir de almofada. Aquele estar simultâneo em toda a parte durante os anos pedregosos que precederam a sua primeira morte, aquele subir enquanto descia, aquele extasiar-se no mar enquanto agonizava de maus amores não eram um privilégio da sua natureza, como proclamavam os seus aduladores, nem uma alucinação multitudinária, como diziam os seus críticos, era, sim, a sorte de contar com os serviços íntegros e a lealdade de cão de Patricio Aragonés, o seu sósia perfeito, que tinha sido encontrado sem que ninguém o procurasse quando lhe vieram com a novidade meu general de que andava um falso coche presidencial pelas povoações de índios a fazer um próspero negócio de suplantação, que tinham visto os olhos taciturnos na penumbra mortuária, que tinham visto os lábios pálidos, a mão de noiva sensível com uma luva de cetim que ia deitando punhados de sal aos doentes ajoelhados na rua, e que atrás do coche iam dois falsos oficiais a cavalo a cobrar em metal sonante a graça da saúde, imagine meu general, que sacrilégio, mas ele não deu nenhuma ordem contra o suplantador, antes tinha pedido que o levassem em segredo à casa presidencial com a cabeça metida num saco de serapilheira para que não fossem confundi-lo, e então sofreu a humilhação de ver-se a si próprio em semelhante estado de igualdade, catano, não é que este homem sou eu, disse, porque era realmente como se fosse, ressalvada a autoridade da voz, que o outro não conseguiu imitar nunca, e a nitidez das linhas da mão onde a curva da vida se prolongava sem estorvos em torno da base do polegar, e se não o mandou fuzilar naquele instante não foi pelo interesse de mantê-lo como suplantador oficial, pois isso ocorreu-lhe mais tarde, mas porque o inquietou a ilusão de que as cifras do seu próprio destino estivessem escritas na mão do impostor. Quando se convenceu da vacuidade daquele sonho à Patricio Aragonés tinha sobrevivido impassível a seis atentados, tinha adquirido o costume de arrastar os pés achatados a pancadas de maço, zuniam-lhe os ouvidos e cantava-lhe a hérnia do escroto nas madrugadas de Inverno, e tinha aprendido a tirar e a pôr a espora de ouro como se as correias se lhe enredassem só para ganhar tempo nas audiências resmungando catano para estas fivelas que os ferreiros da Flandres fabricam que nem para isso servem, e de zombeteiro e linguarudo que tinha sido quando soprava garrafas no forno do pai tornou-se meditativo e sombrio e não dava atenção ao que lhe diziam, antes esquadrinhava com os olhos a penumbra para adivinhar o que não lhe diziam, e nunca respondeu a uma pergunta sem antes perguntar por seu turno e o senhor que acha e de folgazão e fura-vidas que tinha sido no negócio de vender milagres tornou-se diligente até ao tormento e andarilho implacável, tornou-se mesquinho e rapace, resignou-se a amar por assalto e a dormir no chão, vestido, de barriga para baixo e sem almofada, e renunciou às suas filáucias precoces de identidade própria e a toda a vocação hereditária de veleidade dourada de simplesmente soprar e fazer garrafas, e afrontava os mais tremendos riscos do poder colocando primeiras pedras onde nunca havia de colocar-se segunda, cortando fitas inaugurais em terra de inimigos e suportando tantos sonhos passados por água e tantos suspiros reprimidos de ilusões impossíveis ao coroar quase sem tocá-las tantas e tão efémeras e inatingíveis rainhas de beleza, pois tinha-se conformado para sempre com o destino rasteiro de viver um destino que não era o seu, embora não o tivesse feito por codícia nem convicção, mas sim porque ele lhe trocara a vida pelo emprego vitalício de impostor oficial com um ordenado nominal de cinquenta pesos mensais e a vantagem de viver como um rei sem a calamidade de sê-lo, que mais queres. Aquela confusão de identidades atingiu o auge numa noite de ventos compridos em que ele encontrou Patricio Aragonés a suspirar em direcção ao mar no vapor fragrante dos jasmins e lhe perguntou com um alarme legítimo se não lhe tinham deitado acónito na comida que andava ao pairo e como que atravessado por um mau ar, e Patricio Aragonés respondeu-lhe que não meu general, que o problema era pior, que no sábado tinha coroado uma rainha de Carnaval e tinha dançado com ela a primeira valsa e agora não encontrava porta para sair daquela recordação, porque era a mulher mais formosa da Terra, daquelas que não foram feitas para qualquer, meu general, se o senhor a visse, mas ele replicou com um suspiro de alívio que ora que catano, isso são coisas que acontecem aos homens quando estão com falta de mulher, propôs-lhe que a sequestrasse como fizera com tantas mulheres bonitas que tinham sido suas concubinas, meto-ta à força na cama com quatro homens da tropa que a agarrem pelos pés e pelas mãos enquanto tu te avias com o suco da barbatana, que catano, comê-la como quem capa um bezerro, disse-lhe, até as mais apertadas se revolvem de raiva ao princípio e depois suplicam-nos que não me deixe assim meu general como um triste jambo com o caroço solto, mas Patricio Aragonés não queria tanto, o que ele queria era mais, queria que gostassem dele, porque esta é daquelas que sabem a quantas andam, há-de ver que o senhor mesmo vai ver quando a vir, de maneira que ele lhe indicou como fórmula de alívio os caminhos nocturnos dos quartos das suas concubinas e autorizou-o a usá-las como se fosse ele mesmo, de assalto e à pressa e com a roupa vestida, e Patricio Aragonés submergiu-se de boa-fé naquele lodaçal de amores emprestados julgando que com eles iria amordaçar os seus anelos, mas era tanta a sua ansiedade que às vezes se esquecia das condições do empréstimo, desapertava a braguilha por distracção, demorava-se em pormenores, tropeçava por descuido nas pedras ocultas das mulheres mais carecidas, desentranhava-lhes os suspiros e fazia-as rir de espanto nas trevas, que mariola, meu general, diziam-lhe, depois de velho é que está a ficar esfomeado, e desde então nenhum deles nem nenhuma delas soube nunca qual dos filhos de quem era filho de quem, nem com quem, pois também os filhos de Patricio Aragonés como os seus nasciam de sete meses. Foi assim que Patricio Aragonés se tornou o homem essencial do poder, o mais amado e talvez também o mais temido, e ele dispôs de mais tempo para se ocupar das forças armadas com tanta atenção como ao princípio do mandato, não porque as forças armadas fossem o apoio do seu poder, como julgávamos todos, mas sim pelo contrário, porque eram o seu inimigo natural mais temível, de maneira que fazia acreditar a uns oficiais que eram vigiados por outros, baralhava-lhes as situações para impedir que conspirassem, dotava os quartéis de oito cartuchos de salva por cada dez legítimos e mandava-lhes pólvora misturada com areia da praia enquanto ele mantinha o arsenal bom ao alcance da mão num depósito da casa presidencial cujas chaves transportava numa argola com outras chaves sem cópias de outras portas que mais ninguém podia franquear, protegido pela sombra tranquila do meu compadre de toda a vida o general Rodrigo de Aguilar, um artilheiro da academia que era, além disso, o seu ministro da Defesa e, ao mesmo tempo, comandante das guardas presidenciais, director dos serviços de segurança do Estado e um dos muitos poucos mortais que estivessem autorizados a ganhar-lhe uma partida de dominó, porque tinha perdido o braço direito tentando desmontar uma carga de dinamite minutos antes de a berlinda presidencial passar pelo local do atentado. Sentia-se tão seguro com o amparo do general Rodrigo de Aguilar e a assistência de Patricio Aragonés, que começou a descurar os seus presságios de conservação e foi-se tornando cada vez mais visível, atreveu-se a passear pela cidade com um ajudante de campo apenas num coche sem insígnias contemplando por entre as cortinas a catedral arrogante de pedra dourada que tinha declarado por decreto a mais bela do mundo, espreitava as mansões antigas de alvenaria com pórticos de tempos adormecidos e girassóis voltados para o mar, as ruas empedradas com cheiro a pavio do bairro dos vice-reis, as meninas lívidas que faziam rendas de bilros com uma decência inelutável entre os vasos de cravos e os cachos de amores-perfeitos da luz das varandas, o convento axadrezado das biscainhas com o mesmo exercício do clavicórdio às três da tarde com que tinham celebrado a primeira passagem do cometa, atravessou o labirinto babélico do comércio, a sua música mortífera, os pendões de bilhetes de lotaria, os carrinhos de garapa, as fiadas de ovos de iguaria, as barracas de quinquilharias dos turcos descoradas pelo sol, a tela pavorosa da mulher que se tinha transformado em lacrau por desobedecer aos pais, a viela de miséria das mulheres sem homens que saíam nuas ao entardecer para comprar corvinas azuis e pargos cor-de-rosa e para trocarem insultos com as hortaliceiras enquanto a roupa lhes secava nas varandas de madeiras bordadas, sentiu o vento de mariscos podres, a luz quotidiana dos pelicanos ao voltar da esquina, a desordem de cores das barracas dos negros nos promontórios da baía, e logo a seguir, lá está, o porto, ai, o porto, o molhe de pranchões de esponja, o velho couraçado dos fuzileiros mais comprido e mais sombrio do que na realidade, a estivadora negra que se afastou demasiado para dar passagem ao cochezinho espavorido e se sentiu tocada de morte pela visão do ancião crepuscular que contemplava o porto com o olhar mais triste do mundo, é ele, exclamou assustada, viva o valente, viva, gritavam os homens, as mulheres, as crianças que saíam a correr das tabernas e das tascas de chineses, viva, gritaram os que travaram as patas dos cavalos e bloquearam o coche para apertar a mão do poder, uma manobra tão certeira e imprevista que ele mal teve tempo de afastar o braço armado do ajudante de campo repreendendo-o com voz tensa, não seja pateta, tenente, deixe-os gostar de mim, tão exaltado com aquele arrebatamento de amor e com outros semelhantes dos dias seguintes que o general Rodrigo de Aguilar se viu e desejou para tirar-lhe da cabeça a ideia de se passear num coche descoberto para os patriotas da pátria poderem ver-me de corpo inteiro, que catano, pois ele nem sequer suspeitava de que o assalto do porto tinha sido espontâneo mas que os seguintes foram organizados pelos próprios serviços de segurança para o comprazer sem riscos, tão engulosinado com os ares de amor das vésperas do seu outono que se atreveu a sair da cidade depois de muitos anos, voltou a pôr em marcha o velho comboio pintado com as cores da bandeira que marinhava pelas cornijas do seu vasto reino de pesadelo, abrindo passagem por entre ramadas de orquídeas e balsaminas amazónicas, alvoroçando micos, aves-do-paraíso, leopardos adormecidos sobre os carris, até às povoações glaciais e desertas do seu ermo natal em cujas estações o esperavam com bandas de músicas lúgubres, tocavam-lhe sinos de morto, mostravam cartazes de boas-vindas ao conterrâneo sem nome que está sentado à direita da Santíssima Trindade, recrutavam-lhe índios dispersos nos arredores que desciam para conhecer o poder oculto na penumbra fúnebre da carruagem presidencial, e os que conseguiam aproximar-se não viam nada para além dos olhos atónitos atrás dos vidros poeirentos, viam os lábios trémulos, a palma de uma mão sem origem que acenava lá do limbo da glória, enquanto alguém da escolta tentava afastá-lo da janela, tenha cuidado, meu general, a pátria precisa de si, mas ele replicava entre sonhos, não te preocupes, coronel, esta gente gosta de mim, a mesma coisa no comboio dos ermos que no barco fluvial de roda de madeira que ia deixando uma esteira de valsas de pianola por entre a fragrância doce de gardénias e salamandras podres dos afluentes equatoriais, evitando carcaças de dragões pré-históricos, ilhas providenciais onde as sereias iam parir, entardeceres de desastres de enormes cidades desaparecidas, até aos casarios ardentes e desolados cujos habitantes assomavam à beira-rio para ver o barco de madeira pintado com as cores da pátria e mal conseguiam distinguir uma mão de ninguém com uma luva de cetim que acenava da janela do camarote presidencial, mas ele via os grupos da margem que agitavam folhas de malanga, (1) à falta de bandeiras, via os que se deitavam à água com uma anta viva, um inhame gigantesco como uma pata de elefante, um cesto de galinhas do mato para a panela do cozido presidencial, e suspirava comovido na penumbra eclesiástica do camarote, olhe como eles vêm, capitão, veja como eles gostam de mim. Em Dezembro, quando o mundo do Caribe se tornava de vidro, subia no coche pelas cornijas de rochas até à casa encarrapitada no cume dos recifes e passava a tarde a jogar dominó com os antigos ditadores de outros países do continente, os pais destronados de outras pátrias a quem ele tinha concedido asilo ao longo de muitos anos e que agora envelheciam na penumbra da sua misericórdia sonhando com o barco quimérico da segunda oportunidade nas cadeiras dos terraços, falando sozinhos, morrendo mortos na casa de repouso que ele tinha construído para eles na varanda do mar depois de tê-los recebido todos como se fossem um só, pois todos apareciam de madrugada com o uniforme de gala que tinham posto do avesso por cima do pijama, com um baú de dinheiro saqueado do tesouro público e uma mala com um estojo de condecorações, recortes de jornais colados em velhos livros de contabilidade e um álbum de fotografias que lhe mostravam na primeira audiência como se fossem as credenciais, dizendo ora veja, general, este sou eu quando era tenente, aqui foi no dia da tomada de posse, aqui foi no décimo sexto aniversário da subida ao poder, aqui, ora veja, general, mas ele concedia-lhes asilo político sem dar-lhes atenção de maior nem revistar credenciais por- que o único documento de identidade de um presidente derrubado deve ser a certidão de óbito, dizia, e com o mesmo desprezo escutava o discursozinho ilusório de que aceito por pouco tempo a sua nobre hospitalidade enquanto a justiça do povo não pede contas ao usurpador, a eterna fórmula de solenidade pueril que pouco depois escutava ao usurpador, e a seguir ao usurpador do usurpador como se os espertalhões das dúzias não soubessem que neste negócio de homens quem cai cai e acabou-se, e hospedava todos por uns meses na casa presidencial, obrigava-os a jogarem dominó até despojá-los do último cêntimo, e então levou-me pelo braço até à varanda do mar, ajudou-me a lamentar-me desta vida lixada que só caminha para uma banda só, consolou-me com a ilusão de que fosse para ali, olhe, ali, naquela casa enorme que parecia um transatlântico encalhado no cume dos recifes onde tenho para si um aposento com muito boa luz e boa comida, e muito tempo para esquecer junto de outros companheiros de desgraça, e com um terraço marinho onde ele gostava de sentar-se nas tardes de Dezembro, não tanto pelo prazer de jogar o dominó com aquela cáfila de inúteis mas para desfrutar da dita mesquinha de não ser um deles, para ver-se ao espelho de exemplo da miséria deles enquanto ele chapinhava no lamaçal grande a felicidade, sonhando sozinho, perseguindo em bicos de pés com um mau pensamento as mulatas mansas que varriam a casa civil na penumbra do amanhecer, farejava o seu rasto de dormitório público e brilhantina de drogaria, espreitava a ocasião de encontrar-se com uma sozinha para fazer amores de galo atrás das portas dos gabinetes, enquanto elas se desmanchavam a rir na sombra, que patife, senhor general, tão crescido e ainda tão esfomeado, mas ele ficava triste depois do amor e punha-se a cantar para se consolar onde ninguém o ouvisse, fálgida lua do mês de Janeiro, repara como estou triste no patíbulo da tua janela, cantava, tão seguro do amor do seu povo naqueles Outubros sem maus presságios que pendurava uma rede no pátio da mansão dos subúrbios onde vivia a sua mãe Bendición Alvarado e dormia a sesta à sombra dos tamarindos, sem escolta, sonhando com os peixes erráticos que navegavam nas águas coloridas dos quartos de dormir, a pátria é a melhor coisa que se inventou, mãe, suspirava, mas nunca esperava a réplica da única pessoa no mundo que se atreveu a repreendê-lo por causa do cheiro a cebolas velhas das axilas, antes regressando à casa presidencial pela porta principal exaltado com aquela estação de milagre do Caribe em janeiro, aquela reconciliação com o mundo ao cabo da velhice, aquelas tardes violáceas em que tinha feito as pazes com o núncio apostólico e este o visitava sem audiência para tentar convertê-lo à fé de Cristo enquanto tomavam chocolate com biscoitos, e ele alegava, morto de riso, que, se Deus é tão bestial como o senhor diz, diga-lhe que me tire este resmungo que me zune ao ouvido, dizia, desabotoava os nove botões da braguilha e mostrava-lhe a hérnia descomunal, diga-lhe que me desinche esta criança, dizia, mas o núncio pastoreava-o com um longo estoicismo, tentava convencê-lo de que tudo o que é verdade, diga-se o que se disser, provém do Espírito Santo, e ele acompanhava-o até à porta com as primeiras lâmpadas, morto de riso como raramente o tinham visto, não gaste pólvora em urubus, padre, dizia ele, para que é que me quer convertido se de qualquer maneira faço o que os senhores querem, ora que catano. Aquele remanso de placidez depressa se quebrou no galinheiro de um baldio remoto quando um galo carniceiro arrancou a cabeça ao adversário e a comeu às bicadas perante um público enlouquecido de sangue e uma charanga de bêbedos que celebrou o horror com músicas festivas, porque ele foi o único que registou o mau presságio, sentiu-o tão nítido e iminente que ordenou em segredo à sua escolta que prendesse um dos músicos, aquele, o que está a tocar o bombardino, e com efeito descobriram-lhe uma escopeta de cano serrado e confessou sob tortura que pensava disparar sobre ele na confusão da saída, claro, era mais que evidente, explicou ele, porque eu olhava para toda a gente e toda a gente olhava para mim, mas o único que não se atreveu a olhar para mim nem uma única vez foi esse cabrão do bombardino, pobre homem, e no entanto ele sabia que não era aquela a razão última da sua ansiedade, pois continuou a senti-la nas noites da casa civil mesmo depois de os seus serviços de segurança lhe terem demonstrado que não havia motivos de inquietação, meu general, que estava tudo em ordem, mas ele tinha-se aferrado a Patricio Aragonés como se fosse ele próprio desde que padecera o presságio do galinheiro, dava-lhe a comer da sua própria comida, dava-lhe a beber do seu próprio mel de abelha com a mesma colher para morrer ao menos com o consolo de morrerem ambos juntos se as coisas estivessem envenenadas, e andavam como fugitivos por aposentos esquecidos, caminhando sobre as tapeçarias para que ninguém reconhecesse os seus largos passos furtivos de elefantes siameses, navegando juntos na claridade intermitente do farol que se metia pelas janelas e inundava de verde de trinta em trinta segundos os aposentos da casa através do fumo de bosta de vaca e dos adeuses lúgubres dos barcos nocturnos nos mares adormecidos, passavam tardes inteiras a contemplar a chuva, a contar andorinhas como dois amantes vetustos nos entardeceres lânguidos de Setembro, tão apartados do mundo que ele próprio não se apercebeu de que a sua luta feroz para existir duas vezes alimentava a suspeita contrária de que existia cada vez menos, que jazia num letargo, que a guarda tinha sido redobrada e era proibida a entrada e a saída a quem quer que fosse na casa presidencial, que todavia alguém tinha logrado iludir aquele filtro severo e tinha visto os pássaros calados nas gaiolas, as vacas a beberem na pia baptismal, os leprosos e os paralíticos a dormirem nos roseirais, e toda a gente estava ao meio-dia como se esperasse pelo amanhecer porque ele tinha morrido como estava anunciado nos alguidares de morte natural durante o sono mas os altos comandos adiavam a notícia enquanto tentavam dirimir em conciliábulos sangrentos as suas disputas atrasadas. Embora ignorasse esses boatos ele tinha consciência de que alguma coisa estava a ponto de acontecer na sua vida, interrompia as lentas partidas de dominó para perguntar ao general Rodrigo de Aguilar como vão as coisas compadre, tudo sob controlo meu general, a pátria estava em sossego, espiava sinais premonitórios nas piras funerárias das pastas de bosta de vaca que ardiam nos corredores e nos poços de águas antigas sem encontrar nenhuma resposta à sua ansiedade, visitava sua mãe Bendición Alvarado na mansão dos subúrbios quando o calor amainava, sentavam-se a apanhar o fresco da tarde debaixo dos tamarindos, ela na sua cadeira de baloiço de mãe, decrépita mas com a alma inteira, a deitar punhados de milho às galinhas e aos pavões que debicavam no pátio, ele na poltrona de vime pintada de branco, abanando-se com o chapéu, perseguindo com um olhar de fome velha as mulatas grandes que lhe levavam as águas frescas de fruta de cores para a sede do calor, senhor general, pensando minha mãe Bendición Alvarado se soubesses que já não posso com o mundo, que a minha vontade era partir sei lá para onde, mãe, para longe de tanto sofrimento, mas nem sequer à mãe mostrava o interior dos suspiros regressando sim com as primeiras luzes da noite à casa presidencial, enfiando pela porta de serviço e ouvindo ao passar pelos corredores o bater de tacões das sentinelas que o iam cumprimentando nada de novo, meu general, tudo em ordem, mas ele sabia que não era verdade, que o enganavam por hábito, que lhe mentiam por medo, que nada era genuíno naquela crise de incerteza que estava a amargar-lhe a glória e lhe tirava até a antiga vontade de mandar desde a tarde aziaga do galinheiro, permanecia até muito tarde estirado de barriga para baixo do chão, sem dormir, ouviu pela janela aberta do mar os tambores longínquos e as gaitas tristes que celebravam qualquer casamento de pobres com o mesmo alvoroço com que teriam celebrado a sua morte, ouviu o adeus de um navio perdulário que largou às duas sem autorização do capitão, ouviu o ruído de papel das rosas que se abriram ao amanhecer, suava gelo, suspirava sem querer, sem um momento de sossego, pressentindo com um instinto bravio a iminência da tarde em que regressava da mansão dos subúrbios e foi surpreendido por um tropel da multidão na rua, um abrir e fechar de janelas e um pânico de andorinhas no céu diáfano de Dezembro e entreabriu a cortina do coche para ver o que se passava e disse para consigo, com um terrível sentimento de alívio, vendo os balões vermelhos e verdes, os balões amarelos como grandes laranjas azuis, os inúmeros balões errantes que levantaram voo por entre o espanto das andorinhas e flutuaram um instante na luz de cristal das quatro e depressa rebentaram numa explosão silenciosa e unânime e soltaram milhares e milhares de folhas de papel sobre a cidade, uma tempestade de panfletos voa- dores que o cocheiro aproveitou para se escapulir do tumulto do mercado público sem que ninguém reconhecesse o coche do poder, porque toda a gente estava às rebatinhas dos papéis dos balões, meu general, gritavam-nos nas varandas, repetiam de memória abaixo a opressão, gritavam, morte ao tirano, e até as sentinelas da casa presidencial liam em voz alta pelos corredores a união de todos sem distinção de classes contra o despotismo de séculos, a reconciliação patriótica contra a corrupção e a arrogância dos militares, fim ao sangue, gritavam, fim à pilhagem, o país inteiro despertava do torpor milenário no momento em que ele entrou pela porta da cocheira e deparou com a terrível novidade, meu general, de que tinham ferido de morte Patricio Aragonés com um dardo envenenado. Anos antes (numa noite de maus humores), tinha proposto a Patricio Aragonés que jogassem a vida à cara ou coroa, se sair cara morres tu, se sair coroa morro eu, mas Patricio Aragonés fez-lhe ver que iam morrer empatados porque todas as moedas tinham a cara de ambos em ambos os lados, propôs-lhe então que jogassem a vida na mesa de dominó, vinte partidas para ver quem ganha mais, e Patricio Aragonés aceitou com muita honra e com muito gosto, senhor general, desde que me conceda o privilégio de poder-lhe ganhar, e ele aceitou, de acordo, de modo que jogaram uma partida jogaram duas, jogaram vinte, e ganhou sempre Patricio Aragonés, pois ele só ganhava porque era proibido ganharem-lhe, travaram um combate longo e encarniçado e chegaram à última partida sem que ele ganhasse uma, e Patricio Aragonés limpou o suor com a manga da camisa suspirando lamento do fundo da alma, senhor general, mas eu não quero morrer, e então ele pôs-se a recolher as pedras, colocava-as por ordem dentro da caixinha de madeira ao mesmo tempo que dizia como um mestre-escola cantando uma lição que ele tão-pouco tinha razões para morrer à mesa de dominó e não na sua hora e no seu sítio de morte natural durante o sono, como lhe tinham predito desde o princípio dos seus tempos os alguidares das pitonisas, e nem sequer assim, pensando bem, porque Bendición Alvarado não me pariu para fazer caso dos alguidares, e sim para mandar, e ao fim e ao cabo eu sou quem sou, e não tu, de maneira que dá graças a Deus por isto não passar de um jogo, disse-lhe a rir, sem ter imaginado naquela altura nem nunca que aquela brincadeira terrível havia de ser verdade na noite em que entrou no quarto de Patricio Aragonés e o encontrou confrontado com as urgências da morte, sem remédio, sem nenhuma esperança de sobreviver ao veneno, e ele cumprimentou-o da porta com a mão estendida, Deus te salve, valente, grande honra é morrer pela pátria. Acompanhou-o na lenta agonia, os dois sozinhos no quarto, dando-lhe com a mão as colheradas de alívio para a dor, e Patrício Aragonés tomava-as sem gratidão dizendo-lhe entre cada colherada aqui o deixo por pouco tempo com o seu mundo de merda, senhor general, porque o coração me diz que nos vamos ver muito em breve nas profundezas do Inferno, eu mais torcido que uma enguia com este veneno e o senhor com a cabeça na mão à procura de lugar para a pôr, diga-se sem o mais pequeno respeito, senhor general, porque agora posso dizer-lhe que nunca gostei de si como o senhor imagina e, pelo contrário, desde o tempo dos flibusteiros em que tive o azar de cair nos seus domínios ando a rezar para que o matem, mesmo que seja de uma boa maneira, para me pagar esta vida de órfão que me deu, primeiro achatando-me as patas com mãos de pilão para que ficassem de sonâmbulo como as suas, depois atravessando-me os tomates com sovelas de sapateiro para se me criar a hérnia, depois pondo-me a beber terebentina para eu me esquecer de ler e escrever com tanto trabalho como custou à minha mãe ensinar-me, e sempre a obrigar-me a fazer os ofícios públicos que o senhor não se atreve a fazer, e não porque a pátria precise de si vivo, como o senhor diz, mas porque ao mais pintado se lhe gela o cu ao coroar uma puta da beleza sem saber de que lado lhe vai rebentar a morte, diga-se sem o mais pequeno respeito, senhor general, mas ele não se importava com a insolência e sim com a ingratidão de Patricio Aragonés que pus a viver como um rei num palácio e que te dei o que nunca ninguém deu a ninguém neste mundo até te emprestei as minhas próprias mulheres, embora o melhor seja não falarmos disso, senhor general, que vale mais ser capado a martelo do que andar a derrubar mães pelo chão como se se tratasse de ferrar novilhas, só que essas pobres bastardas sem coração nem sequer sentem o ferro nem esperneiam nem se retorcem nem se queixam como as novilhas, nem deitam fumo pelos quadris nem cheiram a carne chamuscada que é o menos que se pode pedir às boas mulheres, em vez disso põem a jeito os corpos de vacas mortas para um indivíduo cumprir o seu dever enquanto elas continuam a descascar batatas e a gritar às outras que faz-me o favor de deitares uma olhadela à cozinha enquanto eu me despacho aqui que se me queima o arroz, só a si é que cabe na cabeça que essa coisa seja amor, senhor general, porque é a única coisa que conhece, diga-se sem o mais pequeno respeito, e então ele começou a berrar que te cales ou vais pagar caro, mas Patricio Aragonés continuou a dizer sem a menor intenção de troça que para que é que eu me hei-de calar se o mais que pode fazer é matar-me e já me está a matar, o melhor é aproveitar agora para ver a cara à verdade, senhor general, para que saiba que nunca ninguém lhe disse o que pensa de verdade e que todos lhe dizem é o que sabem que o senhor quer ouvir enquanto lhe fazem vénias pela frente e lhe fazem gaifonas por trás, agradeça ao menos a casualidade de eu ser o homem que mais pena de si tem neste mundo porque sou o único que se parece consigo, o único que tem a honradez de lhe chapar na cara o que toda a gente diz, que o senhor não é presidente de coisa nenhuma nem está no trono pelos seus canhões, foram mas é os ingleses que o sentaram e os gringos que o sustiveram com o par de colhões do seu couraçado, que eu bem o vi a remexer-se de cá para lá e de lá para cá sem saber por onde começar a mandar de medo quando os gringos lhe gritaram que aqui te deixamos com o teu bordel de pretos a ver como é que te desenrascas sem nós, e se não se apeou da cadeira desde essa altura nem se apeou nunca não será porque não queira mas porque não pode, reconheça, porque sabe que no momento em que o virem na rua vestido de mortal lhe hão-de cair em cima como cães para o fazerem pagar isto pela matança de Santa Maria del Altar e mais isto pelos presos que atiram para os fossos da fortaleza do porto para os crocodilos os comerem vivos, e mais isto pelos que esfolam vivos e depois mandam a pele às famílias para servir de exemplo, exemplo dizia, repescando do poço sem fundo dos seus rancores atrasados, o rol de recursos atrozes do seu regime de infama, até não conseguir já dizer-lhe mais porque um ancinho de fogo lhe rasgou as entranhas, tornou a amolecer-se-lhe o coração e terminou sem intenção de ofensa, mas, pelo contrário, quase de súplica que olhe que estou a falar a sério, senhor general, aproveite agora que estou a morrer para morrer comigo, ninguém tem mais autoridade para lhe dizer do que eu porque nunca tive a pretensão de me parecer com ninguém e muito menos de ser um prócere da pátria, mas sim um triste soprador de vidros para fazer garrafas como o meu pai, atreva-se, senhor general, não dói tanto como parece, e disse-lho com um ar de tão serena verdade que a ele não lhe chegou a raiva para responder, antes tentou sustê-lo na cadeira quando viu que começava a torcer-se e agarrava as tripas com as mãos e soluçava com lágrimas de dor e vergonha, que tristeza, senhor general, mas estou todo cagado, e ele julgou que o dizia em sentido figurado querendo dizer que estava a morrer de medo, mas Patricio Aragonés respondeu-lhe que não, quero dizer que estou cagado, cagado, senhor general, e ele conseguiu suplicar-lhe que te aguentes Patricio Aragonés, aguenta-te, nós os generais da pátria temos de morrer como os homens, mesmo que nos custe a vida, mas disse-o demasiado tarde, porque Patricio Aragonés tombou de bruços e caiu-lhe em cima esperneando de medo e ensopado de merda e de lágrimas. No gabinete contíguo à sala de audiências teve de desencascar o corpo com esfregão e sabão para lhe retirar o mau cheiro da morte, vestiu-o com a roupa que tinha vestida, pôs-lhe a funda de lona, as polainas, a espora de ouro no calcanhar esquerdo, sentindo à medida que o fazia que se ia tornando o homem mais solitário da Terra, e por último apagou todos os vestígios da farsa e prefigurou na perfeição até aos mais ínfimos pormenores o que tinha visto com os seus próprios olhos nas águas premonitórias dos alguidares, para que ao amanhecer do dia seguinte as varredoras da casa encontrassem o corpo como o encontraram caído de borco no chão do gabinete, morto pela primeira vez de falsa morte natural durante o sono com o uniforme de cotim sem insígnias, as polainas, a espora de ouro, e o braço direito dobrado por debaixo da cabeça para servir de almofada.

 

Também daquela vez não se divulgou a notícia imediatamente, ao contrário do que ele esperava, tendo, pelo contrário, decorrido muitas horas de prudência, de averiguações sigilosas, de convénios secretos entre os herdeiros do regime que tentavam ganhar tempo desmentindo o boato da morte com toda a espécie de versões contrárias, trouxeram para a rua do comércio a sua mãe Bendición Alvarado para que comprovássemos que não estava com cara de luto, vestiram-me com um vestido às flores como se fosse um macaco-aranha, senhor, fizeram-me comprar um chapéu de guacamaio para toda a gente me ver feliz, fizeram-me comprar quantos trastes encontrávamos nas lojas, apesar de eu lhes dizer que não, senhor, que não era altura para comprar, mas sim para chorar, porque até eu julgava que era mesmo o meu filho que tinha morrido, e obrigavam-me a sorrir à força quando as pessoas me tiravam retratos de corpo inteiro porque os militares diziam que era preciso fazê-lo pela pátria ao mesmo tempo que ele perguntava a si próprio confundido no seu esconderijo que aconteceu no mundo que nada se alterava com a patranha da sua morte, como é que o Sol tinha nascido e tinha voltado a nascer sem tropeçar, porque este ar de domingo, mãe, porquê o mesmo calor sem mim, perguntava a si próprio assombrado, quando soou um tiro de canhão intempestivo na fortaleza do porto e começaram os dobres dos sinos mestres da catedral e subiu até à casa civil o tropel das multidões que se erguiam do marasmo secular com a maior notícia do mundo, e então entreabriu a porta do quarto de dormir e viu-se a si próprio em câmara-ardente mais morto e mais ornamentado que todos os papas mortos da cristandade, ferido pelo horror e pela vergonha do seu próprio corpo de homem militar deitado entre as flores, a cara lívida de pó, os lábios pintados, as duras mãos de menina impávida sobre o peitoral blindado de medalhas de guerra, o fragoso uniforme de gala com os dez sóis crepusculares de general do universo que alguém lhe tinha inventado depois da morte, o sabre de rei de baralho de cartas que nunca tinha usado, as polainas de verniz com duas esporas de ouro, a vasta parafernália do poder e as lúgubres honras marciais reduzidas ao seu tamanho humano de maricas jazente, catano, é impossível que aquilo seja eu, disse consigo próprio, enfurecido, não é justo, catano, disse para consigo, contemplando o cortejo que desfilava em redor do seu cadáver, e por um instante esqueceu os propósitos turvos da farsa e sentiu-se ultrajado e diminuído pela incidência da morte ante a majestade do poder, viu a vida sem ele, viu com uma certa compaixão como eram os homens desamparados da sua autoridade, viu com uma inquietude recôndita os que só tinham vindo para decifrar o enigma de se era mesmo ele ou não era ele, viu um velho que lhe fez um cumprimento maçónico dos tempos de guerra federal, viu um homem vestido de luto que lhe beijou o anel, viu um colegial que lhe pôs uma flor, viu uma peixeira que não pôde resistir à verdade da sua morte e esparramou pelo chão a canastra de peixes frescos e se abraçou ao cadáver perfumado chorando aos gritos que era ele, Deus meu, que vai ser de nós sem ele, chorava, afinal era ele, gritavam, era ele, gritou a multidão sufocada pelo sol da Plaza de Armas, e então interromperam-se os dobres e os sinos da catedral e os de todas as igrejas anunciaram uma quarta-feira de júbilo, estalaram foguetes festivos, petardos de glória, tambores de libertação, e ele viu os grupos de assalto que se introduziram pelas )anelas ante a complacência calada dos guardas, viu os cabecilhas ferozes que dispersaram à paulada o cortejo e atiraram ao chão a peixeira inconsolável, viu os que se encarniçaram com o cadáver, os oito homens que o tiraram do seu estado imemorial e do seu tempo quimérico de agapantos e girassóis e o levaram de rastos pelas escadas, os que desbarataram o recheio daquele paraíso de opulência e infelicidade que acreditavam destruir para sempre, destruindo para sempre o covil do poder, derrubando capitéis dóricos de cartão-pedra, cortinas de veludo e colunas babilónicas coroadas com palmeiras de alabastro, atirando gaiolas de pássaros pelas )anelas, o trono dos vice-reis, o piano de cauda, despedaçando criptas funerárias de cinzas de próceres ignotos e gobelinas de donzelas adormecidas em gôndolas de desilusão e enormes óleos de bispos e militares arcaicos e batalhas navais inconcebíveis, aniquilando o mundo para que não ficasse na memória das gerações futuras nem sequer uma recordação ínfima da estirpe maldita dos homens de armas, e depois espreitou para a rua por entre as frinchas das persianas, para ver até onde chegavam os estragos da defenestração e com um só olhar viu mais infâmia e mais ingratidão de quantas tinham visto e chorado os meus olhos desde que nasci, mãe, viu as suas viúvas felizes que abandonavam a casa pelas portas de serviço levando de cabresto as vacas dos meus estábulos, levando os móveis do Governo, os frascos de mel das tuas colmeias, mãe, viu os seus sete-mesinhos a fazerem música de júbilo com os utensílios de cozinha e com os tesouros de cristalaria e os serviços de mesa dos banquetes de pontifical cantando como um pregão morreu o meu papá, viva a liberdade, viu a fogueira acesa na Plaza de Armas para queimar os retratos oficiais e as litografias de almanaques que tinham estado a toda a hora e em toda a parte desde o princípio do seu regime, e viu passar o seu próprio corpo arrastado que ia deixando pela rua um sulco de condecorações e charlateiras, botões de dólman, fiapos de brocados e passamanaria de alamares e borlas de sabres de baralho de cartas e os dez sóis tristes de rei do universo, mãe, olha como me puseram, dizia, sentindo na própria carne a ignomínia das cuspidelas e os bacios de doentes que lhe despejavam das varandas ao passar, horrorizado pela ideia de ser esquartejado e digerido pelos cães e pelos urubus entre os uivos delirantes e os estrondos de pirotecnia do carnaval da minha morte. Quando o cataclismo passou continuou a ouvir músicas remotas na tarde sem vento, continuou a matar mosquitos e a tentar matar com as mesmas palmadas as cigarras dos ouvidos que o estorvavam para pensar, continuou a ver o lume dos incêndios no horizonte, o farol que o mosqueava de verde de trinta em trinta segundos por entre as frinchas das persianas, a respiração natural da vida diária que voltava a ser a mesma à medida que a sua morte se convertia noutra morte mais como tantas do passado, a torrente incessante da realidade que o ia arrastando até à terra-de-ninguém da compaixão e do esquecimento, catano, merda para a morte, exclamou, e então abandonou o esconderijo exaltado pela certeza de que a sua hora grande tinha soado, atravessou os salões saqueados arrastando as densas patas de aparição por entre os destroços da sua vida anterior nas trevas cheirando a flores moribundas e a pavio de enterro, empurrou a porta do salão do Conselho de Ministros, ouviu através do ar de fumo as vozes extenuadas em redor da comprida mesa de nogueira, e viu através do fumo que estavam lá todos os que ele tinha querido que estivessem, os liberais que tinham vendido a guerra federal, os conservadores que a tinham comprado, os generais do comando supremo, três dos seus ministros, o arcebispo primaz e o embaixador Schriontrier, todos juntos numa única tramóia invocando a união de todos contra o despotismo de séculos para repartirem entre todos o saque da sua morte, tão absortos nos abismos da cobiça que ninguém deu pela aparição do presidente insepulto, que vibrou uma só pancada com a palma da mão na mesa e gritou então é assim! e não teve de fazer mais nada, pois quando tirou a mão da mesa já tinha passado o estampido de pânico e só restavam no salão vazio os cinzeiros a transbordar, as chávenas de café, as cadeiras derrubadas, e o meu compadre de toda a vida o general Rodrigo de Aguilar de uniforme de campanha, minúsculo, impassível, afastando o fumo com a única mão para lhe indicar que se atirasse ao chão meu general que agora é que a coisa começa, e ambos se atiraram para o chão no momento em que começou em frente da casa o júbilo de morte da metralha, a festa carniceira da guarda presidencial que cumpriu com muito gosto e muita honra, meu general, a sua ordem feroz de que não escapasse ninguém vivo do conciliábulo da traição, varreram com rajadas de metralhadora os que tentaram escapulir-se pela porta principal, caçaram como pássaros os que se atiravam pelas janelas, estriparam com granadas de fósforo vivo os que conseguiram iludir o cerco e se refugiaram nas casas vizinhas e acabaram com os feridos de acordo com o critério presidencial de que todo o sobrevivente é um mau inimigo para toda a vida, enquanto ele continuava deitado de borco no chão a dois palmos do general Rodrigo de Aguilar suportando a saraivada de vidros e argamassa que se enfiava pelas janelas com cada explosão, murmurando sem pausas como se estivesse a rezar, pronto, compadre, pronto, acabou-se a brincadeira, de agora em diante vou mandar eu sozinho sem cães que me ladrem, é uma questão de ver amanhã cedo o que presta e o que já não presta de toda esta balbúrdia e se por acaso faltar sítio para sentar compram-se para já seis tamboretes de couro dos mais baratos, compram-se umas esteiras de folha de palmeira e põem-se por aqui e por ali para tapar os buracos, compram-se mais dois ou três trastes e pronto nem pratos nem colheres nem nada, tudo isso vou buscá-lo aos quartéis porque não vou ter mais pessoal militar, nem oficiais, que catano, só servem para aumentar o gasto de leite e quando há chatice, é o que se vê, cospem na mão que lhes dá de comer, fico só com a guarda presidencial que é gente às direitas e valente e não volto a nomear nem gabinete de Governo, que catano, só um bom ministro da Saúde, que é a única coisa que é preciso na vida, e, quando muito, outro com boa letra para o que for preciso escrever, e assim pode-se alugar os ministérios e os quartéis e fica-se com esse dinheiro para o serviço, que aqui o que é preciso não é gente, mas sim dinheiro, arranjam-se duas boas criadas, uma para a limpeza e a cozinha, e outra para lavar e passar a ferro, e eu próprio para tratar das vacas e dos pássaros quando os houver, e acabou-se a pouca-vergonha das putas nas retretes e dos leprosos nos roseirais e dos doutores de letras que sabem tudo e dos políticos sábios que tudo vêem, que ao fim e ao cabo isto é uma casa presidencial e não um bordel de pretos como disse o Patricio Aragonés que os gringos disseram, e eu sozinho chego e sobro para continuar a mandar até tornar a passar o cometa, e não uma vez mas dez, porque este que aqui está não faz tenção de morrer nunca mais, que catano, que morram os outros, dizia, falando sem pausas para pensar, como se recitasse de memória, porque sabia desde a guerra que falando em voz alta espantava-se o medo das cargas de dinamite que sacudiam a casa, fazendo planos para amanhã de manhã e para o século que entrava ao entardecer até que soou na rua o último tiro de misericórdia e o general Rodrigo de Aguilar se arrastou coleando e ordenou pela janela que trouxessem os carros do lixo para levar os mortos e saiu do salão dizendo que passe bem a noite, meu general, boa noite, compadre, respondeu ele, muito obrigado, deitado de borco no mármore funerário do salão do Conselho de Ministros, e a seguir dobrou o braço direito para servir-lhe de almofada e adormeceu instantaneamente, mais só do que nunca, embalado pelo rumor do sulco de folhas amarelas do seu outono de mágoa que naquela noite tinha começado para sempre nos corpos fumegantes e nos charcos de luas coloridas do massacre. Não teve de tomar nenhuma das disposições previstas, pois o exército desbaratou-se por si, os soldados dispersaram, os poucos oficiais que resistiram até à última hora nos quartéis da cidade e noutros seis do país foram aniquilados pelos guardas presidenciais com a ajuda de voluntários civis, os ministros sobreviventes exilaram-se ao amanhecer e apenas ficaram os dois mais fiéis, um que aliás era o seu médico particular e outro que era o melhor calígrafo da nação, e não teve de dizer que sim a nenhum poder estrangeiro porque as arcas do Governo transbordaram de anéis matrimoniais e diademas de ouro arrecadados por partidários imprevistos, nem teve de comprar esteiras nem tamboretes de couro dos mais baratos para remendar os estragos da defenestração, pois antes que acabassem de pacificar o país estava restaurada e mais sumptuosa que nunca a sala de audiências, e havia gaiolas de pássaros por todos os lados, guacamaios desbocados, periquitos reais que cantavam nos poleiros sim a Espanha não a Portugal, mulheres discretas e serviçais que mantinham a casa tão limpa e tão arrumada como um navio de guerra, e entravam pelas janelas as mesmas músicas de glória, os mesmos petardos de alvoroço, os mesmos sinos de júbilo que tinham começado a celebrar a sua morte e continuavam a celebrar a sua imortalidade, e havia uma manifestação permanente na Piaza de Armas com gritos de adesão eterna e grandes cartazes de Deus que ressuscitou ao terceiro dia de entre os mortos, uma festa sem fim que ele não teve de prolongar com manobras secretas como fizera noutros tempos, pois os assuntos do Estado resolviam-se por si, a pátria andava, o Governo era ele só, e ninguém entorpecia nem por palavras nem por obras os recursos da sua vontade, porque estava tão sozinho na sua glória que já nem inimigos lhe restavam, e estava tão grato ao meu compadre de toda a vida o general Rodrigo de Aguilar que não voltou a inquietar-se com o gasto de leite e, pelo contrário, mandou formar no pátio os soldados rasos que se tinham distinguido pela sua ferocidade e sentido do dever, e, designando-os com o dedo, segundo os impulsos da sua inspiração, promoveu-os aos postos mais elevados sabendo perfeitamente que estava a restaurar as forças armadas que haviam de cuspir na mão que lhes dera de comer, tu a capitão, tu a major, tu a coronel, qual quê, tu a general, e todos os outros a tenentes, que catano, compadre, aqui tens o teu exército, e estava tão comovido pelos que tinham sofrido com a sua morte que mandou trazerem-lhe o ancião da saudação maçónica e o cavalheiro de luto que lhe beijara o anel e condecorou-os com a medalha da paz, mandou trazerem-lhe a peixeira e deu-lhe aquilo que ela disse que mais necessitava que era uma casa com muitos quartos para viver com os seus catorze filhos, mandou trazerem-lhe a estudante que lhe pusera uma flor no cadáver e concedeu-lhe a coisa que eu mais desejo neste mundo, que era casar-se corri um homem do mar, mas, apesar daqueles actos de alívio, o seu coração aturdido não teve um instante de sossego enquanto não viu amarrados e cuspidos na parada do quartel de San Jerónimo os grupos de assalto que tinham entrado a saque na casa presidencial, reconheceu-os um a um com a memória inapelável do rancor e foi-os separando em grupos diferentes segundo a intensidade da culpa, tu aqui, o que comandava o assalto, vocês ali, os que atiraram ao chão a peixeira inconsolável, vocês aqui, os que tinham tirado o cadáver do ataúde e o levaram de rastos pelas escadas e pelos lamaçais, e todos os restantes deste lado, cabrões, embora, na realidade, não lhes interessasse o castigo, mas sim demonstrar a si próprio que a profanação do corpo e o assalto da casa não tinham sido um acto popular espontâneo, mas sim um negócio infame de mercenários, de maneira que se encarregou de interrogar os cativos de viva voz e de corpo presente para conseguir que lhe dissessem às boas a verdade ilusória de que o seu coração precisava, mas não o conseguiu, mandou pendurá-los de uma trave horizontal como papagaios atados de pés e mãos e de cabeça para baixo durante muitas horas, mas não o conseguiu, mandou deitar um ao fosso do pátio e os outros viram-no esquartejado e devorado pelos crocodilos, mas não o conseguiu, escolheu um do grupo principal e mandou esfolarem-no vivo na presença de todos e todos viram a pele tenra e amarela como uma placenta recém-parida e se sentiram empapados com o caldo quente do sangue do corpo em carne viva que agonizava dando saltos nas pedras do pátio, e então confessaram o que ele queria, que lhes tinham pago quatrocentos pesos de ouro para arrastarem o cadáver até ao vazadouro do mercado, que não queriam fazê-lo nem por paixão nem por dinheiro porque não tinham nada contra ele, e muito menos se já estava morto, mas que numa reunião clandestina onde encontraram até dois generais do comando supremo os tinham amedrontado com toda a espécie de ameaças e foi por isso que o fizemos, meu general, palavra de honra, e então ele exalou uma baforada de alívio, ordenou que lhes dessem de comer, que os deixassem descansar essa noite e que pela manhã deitem-nos aos crocodilos, pobres rapazes enganados, suspirou, e regressou à casa presidencial com a alma liberta dos cilícios da dúvida, murmurando que está visto catano, está visto, esta gente gosta de mim. Resolvido a dissipar até o remorso das inquietações que Patrício Aragonês lhe tinha semeado no coração, decidiu que aquelas torturas fossem as últimas do seu regime, mataram os crocodilos, desmantelaram as câmaras de tortura em que era possível triturar osso por osso até todos os ossos sem matar, proclamou uma amnistia geral, antecipou-se ao futuro com a lembrança mágica de que a chatice deste país é sobrar demasiado tempo às pessoas para pensarem e procurando a maneira de mantê-las ocupadas restaurou os jogos florais de Março e os concursos anuais de beleza, construiu o maior estádio de futebol e atribuiu à nossa equipa o lema de vitória ou morte e ordenou que se estabelecesse em cada província uma escola gratuita para ensinar a varrer, cujas alunas fanatizadas pelo estímulo presidencial continuaram a varrer as ruas depois de varrerem as casas e depois as estradas e os caminhos secundários, de maneira que os montões de lixo eram levados e trazidos de uma província para outra sem saber o que fazer com eles em procissões oficiais com a bandeira da pátria e grandes cartazes de Deus proteja o puríssimo que vela pela limpeza da nação, enquanto ele arrastava as lentas patas de animal meditativo em busca de novas fórmulas para entreter a população civil, abrindo caminho por entre os leprosos e os cegos e os paralíticos que suplicavam das suas mãos o sal da saúde, baptizando com o seu nome na fonte do pátio os filhos dos afilhados entre os aduladores impávidos que o proclamavam o único porque nessa altura não contava com o concurso de ninguém igual a ele e tinha de desdobrar-se num palácio de mercado público onde chegavam diariamente gaiolas e gaiolas de pássaros inverosímeis desde o momento que transpirara o segredo de que a sua mãe Bendición Alvarado tinha o ofício de passarinheira, e embora umas as mandassem por adulação e outras as mandassem por brincadeira não restou ao fim de pouco tempo um espaço disponível para pendurar mais gaiolas, e queria atender tantos assuntos públicos ao mesmo tempo entre as multidões dos pátios e os gabinetes não se conseguia distinguir quem eram os servidores e quem eram os servidos, e derrubaram-se tantas paredes para aumentar o mundo e rasgaram-se tantas janelas para ver o mar que o simples facto de passar de um salão a outro era como aventurar-se pela coberta de um veleiro à garra num Outono de ventos desencontrados. Eram os alísios de Março que tinham entrado sempre pelas janelas da casa, mas agora diziam-lhe que eram os ventos da paz, senhor general, era o mesmo zumbido dos tímpanos que tinha desde há anos, mas até o seu médico lhe tinha dito que era o zumbido da paz, senhor general, pois desde que o encontraram morto pela primeira vez todas as coisas da terra e do céu se converteram em coisas da paz, senhor general, e ele acreditava, e tanto o acreditava que voltou a subir em Dezembro à casa dos despenhadeiros para consolar-se na desgraça da irmandade de antigos ditadores nostálgicos que interrompiam a partida de dominó para lhe contarem que eu era, por exemplo, o carrão e os conservadores doutrinários eram o dobre de três, só que eu não tomei em conta a aliança clandestina dos maçónicos e dos padres, quem é que se havia de lembrar disso, catano, sem se preocupar com a sopa que coalhava no prato enquanto um deles explicava que, por exemplo, este açucareiro era a casa presidencial, aqui, e o único canhão que restava ao inimigo tinha um alcance de quatrocentos metros com vento a favor, aqui, de maneira que se os senhores me vêem neste estado é apenas por um azar de oitenta e dois centímetros, quer dizer, e até os mais couraçados pelo obstáculo do exílio malgastavam as esperanças espreitando no horizonte os navios da sua terra, conheciam-nos pela cor do fumo, pela ferrugem das sereias, desciam ao porto por entre a chuva miudinha das primeiras luzes em busca dos jornais que os tripulantes tinham usado para embrulhar a comida que atiravam pela borda fora, encontravam-nos nos caixotes do lixo e liam-nos de trás para a frente e da frente para trás até à última linha para prognosticarem o futuro da sua pátria através das notícias de quem tinha morrido, quem se tinha casado, quem tinha convidado quem e quem não tinham convidado para uma festa de aniversário, decifrando o seu destino segundo o rumo de uma nuvem grossa que ia descarregar-se sobre o seu país numa tempestade de apocalipse que havia de fazer transbordar os rios que haviam de rebentar os diques das represas que haviam de devastar os campos e espalhar a miséria e a peste nas cidades, e nessa altura hão-de vir suplicar-me que os salve do desastre e da anarquia, hão-de ver, mas enquanto esperavam a grande hora tinham de chamar de parte o desterrado mais jovem e pediam-lhe o favor de me enfiar a agulha para remendar estas calças que não quero deitar fora pelo seu valor estimativo, lavavam a roupa às escondidas, afiavam as navalhas de barba que os recém-chegados tinham usado, fechavam-se no quarto a comer para os outros não descobrirem que estavam a viver de restos, para não lhes verem a vergonha das calças manchadas pela incontinência senil, e na quinta-feira mais inesperada púnhamos a um as condecorações presas com alfinetes na última camisa, envolvíamos o corpo na sua bandeira, cantávamos-lhe o seu hino nacional e despachavam-no para governar esquecimentos no fundo do despenhadeiro sem mais lastro que o seu próprio coração erodido e sem deixar mais vazios no mundo que uma cadeira de balneário no terraço sem horizontes, onde nos sentávamos a jogar as coisas do morto, no caso de deixarem alguma coisa, meu general, imagine, que vida de civis depois de tanta glória. Noutro Dezembro longínquo, quando se inaugurou a casa, ele tinha visto daquele terraço o regueiro de ilhas alucinadas das Antilhas que alguém lhe ia apontando com o dedo na vitrina do mar, tinha visto o vulcão perfumado da Martinica, ali, meu general, tinha visto o seu hospital de tuberculosos, o negro gigantesco com uma blusa de renda que vendia molhos de gardénias às esposas dos governadores no átrio da basílica, tinha visto o mercado infernal de Paramaribo, ali meu general, os caranguejos que se escapuliam do mar pelas retretes e trepavam para as mesas das casas de gelados, os diamantes incrustados nos dentes das avós negras que vendiam cabeças de índios e raízes de gengibre sentadas nas suas nádegas incólumes sob a sopa da chuva, tinha visto as vacas de ouro maciço adormecidas na praia de Tanaguarena, meu general, o cego visionário de La Guayra que levava dois reais para espantar a perua da morte com um violino de uma só corda, tinha visto o Agosto abrasador de Trinidad, os automóveis a andarem ao contrário, os hindus verdes que cagavam em plena rua defronte das suas lojas de camisas de bichos-da-seda vivos e mandarins talhados na mandíbula inteira do elefante, tinha visto o pesadelo de Haiti, os seus cães azuis, o carro de bois que recolhia os mortos da rua ao amanhecer, tinha visto renascer as túlipas holandesas nos tanques de gasolina de Curazao, as casas de moinhos de vento com telhados para a neve, o transatlântico misterioso que atravessava o centro da cidade por entre as cozinhas dos hotéis, tinha visto o curral de pedras de Cartagena de índias, a sua baía fechada com uma corrente, a luz parada nas varandas, os cavalos esquálidos das carruagens de praça que ainda bocejavam pela ração dos vice-reis, o seu cheiro a merda, meu general, diga lá se não é grande o mundo inteiro, e realmente era, e não apenas grande mas também insidioso, pois se ele subia em Dezembro até à casa dos recifes não era para conversar com aqueles prófugos que detestava como a sua própria imagem no espelho das desgraças, mas sim para estar ali no instante de milagre em que a luz de Dezembro transbordasse do leito e pudesse ver-se outra vez o universo completo das Antilhas, desde Barbados até Vera Cruz, e então esqueceu-se de quem tinha o dobre de três e assomou ao miradouro para contemplar o regueiro de ilhas lunáticas como crocodilos adormecidos no lago do mar, e, contemplando as ilhas, evocou outra vez e viveu de novo a histórica sexta-feira de Outubro em que saíra do quarto ao amanhecer e dera por que toda a gente na casa presidencial tinha enfiado um barrete de cor, as concubinas novas varriam os salões e mudavam a água das gaiolas com barretes de cor, que os ordenhadores nos estábulos, as sentinelas nos seus postos, os paralíticos nas escadas e os leprosos nos roseirais passeavam com barretes de cor de domingo de Carnaval, de maneira que se dispusera a averiguar o que havia acontecido no mundo enquanto dormia para que as pessoas da sua casa e os habitantes da cidade andassem a exibir barretes de cor e a arrastar por todo o lado uma réstia de cascavéis, e por fim encontrara quem lhe contasse a verdade, meu general, que tinham chegado uns forasteiros que tagarelavam em língua castelhana pois não diziam o mar mas a mar e chamavam papagaios aos guacamaios, almadias às canoas e azagaias aos arpões, e que, tendo visto que saíamos a recebê-los, nadando em redor dos seus navios, encarrapitavam-se na mastreação e gritavam uns para os outros que olhem que bem feitos, de mui fermosos corpos e mui boas caras, e os cabelos grossos e quase como crinas de cavalos, e tendo visto que estávamos pintados para não ficarmos sem pele com o sol alvoroçaram-se como periquitos molhados gritando que reparem que eles se pintam de preto, e eles são da cor dos canários, nem brancos nem pretos, e eles isto e mais aquilo, e nós não percebíamos por que catano se divertiam tanto connosco, meu general, se estávamos tão naturais como as nossas mães nos pariram e em compensação eles estavam vestidos como a dama de paus, apesar do calor, que eles dizem a calor como os contrabandistas holandeses, e têm o cabelo arramado como as mulheres, embora sejam todos homens, que delas não vimos nenhuma, e gritavam que não percebíamos em língua de cristãos, e depois vieram ter connosco com as suas canoas a que eles chamam almadias, como disse, e admiravam-se de os nossos arpões terem na ponta uma espinha de sável, a que eles chamam dente de peixe, e trocavam-nos tudo o que tínhamos por estes barretes de cor e estas fiadas de pepitas de vidro que nós púnhamos ao pescoço para lhes sermos amáveis, e também por estas soalhas de latão das que valem um maravedil e por salvas e espelhos e outras miudezas da Flandres, das mais baratas, meu general, e como vimos que eram bons servidores e de bom engenho fomo-los levando até à praia sem que dessem conta, mas a chatice foi que entre o troque-me isto por aquilo e eu troco-lhe isto por aqueloutro armou-se um cambalacho dos tomates e daí a pouco toda a gente estava a cambalachar os papagaios, o tabaco, as bolas de chocolate, os ovos de iguaria, tudo quanto Deus criou, pois tudo aceitavam e davam de boa vontade aquilo que tinham, e até queriam trocar um de nós por um gibão de veludo para nos mostrarem nas Europas, imagine o meu general, que desaforo, mas ele estava tão confundido que não logrou compreender se aquele assunto de lunáticos era da incumbência do seu Governo, de maneira que voltou ao quarto de dormir, abriu a janela do mar para ver se por acaso descobria uma luz nova para perceber o imbróglio que tinham contado, e viu o couraçado de sempre que os fuzileiros tinham abandonado no molhe, e para além do couraçado, fundeadas no mar tenebroso, viu as três caravelas.

 

Da segunda vez que o encontraram carcomido pelos urubus no mesmo gabinete, com a mesma roupa e na mesma posição, nenhum de nós era suficientemente velho para lembrar o que acontecera da primeira vez, mas sabíamos que nenhuma evidência da sua morte era terminante, pois havia sempre outra verdade atrás da verdade. Nem sequer os menos prudentes nos conformávamos com as aparências, porque muitas vezes se tinha dado como certo que estava prostrado de epilepsia e caía do trono no decurso das audiências torcido de convulsões e deitando espuma de fel pela boca, que perdera a fala de tanto falar e tinha ventríloquos ocultos por detrás das cortinas para fingir que falava, que lhe estavam a sair escamas de sável por todo o corpo como castigo pela sua perversão, que no fresco de Dezembro a hérnia lhe cantava canções de marinheiros e só conseguia andar com a ajuda de um carrinho ortopédico no qual punha o testículo herniado, que uma camioneta militar tinha metido à meia-noite pelas portas de serviço um caixão com equinos de ouro e cordões de púrpura, e que alguém tinha visto Leticia Nazareno desfazendo-se em pranto no jardim da chuva, mas quanto mais certos pareciam os rumores da sua morte mais vivo e autoritário o víamos aparecer na ocasião menos esperada para impor ao nosso destino outros rumos imprevisíveis. Teria sido muito fácil deixarmo-nos convencer pelos indícios imediatos do anel do selo presidencial ou pelo tamanho sobrenatural dos seus pés de caminhante implacável ou pela rara evidência do testículo herniado que os urubus não se atreveram a picar, mas houve sempre alguém que tivesse recordações de outros indícios iguais noutros mortos menos graves do passado. Tão-pouco o escrutínio meticuloso da casa forneceu qualquer elemento válido para estabelecer a sua

identidade. No quarto de dormir de Bendicíón Alvarado, de quem mal recordávamos a fábula da sua canonização por decreto, encontrámos algumas gaiolas de portas arrombadas com ossinhos de pássaros petrificados pelos anos, vimos um cadeirão de vime mordiscado pelas vacas, vimos estojos de aguarelas e copos de pincéis dos que as passarinheiras usavam para venderem nas feiras outros pássaros descoloridos, fazendo-os passar por verdilhões, vimos uma talha com um molho de erva-cidreira que tinha continuado a crescer no esquecimento cujos ramos trepavam pelas paredes e assomavam pelos olhos dos retratos e saíram pela janela e tinham acabado por enredar-se na folhagem silvestre dos pátios traseiros, mas não achámos nem o menos significativo rasto de que ele alguma vez tivesse estado nesse quarto. No quarto nupcial de Leticia Nazareno, de quem tínhamos uma imagem mais nítida não apenas porque tinha reinado numa época ma is recente mas também pelo estrépito dos seus actos públicos, vimos uma cama apropriada para desaforos de amor com o toldo bordado convertido num ninho de galinhas, vimos nas arcas as sobras das traças das estolas de raposa azul, as armações de arame das saias de balão, o pó glacial das saias de amazona, os espartilhos de rendas de Bruxelas, os botins de homem que usava para trazer por casa e os sapatinhos de cetim de tacão alto e presilha que usava para receber, os balandraus ralares com violetas de feltro e cintos de tafetá dos seus esplendores funerários de primeira dama e o hábito de noviça de um algodão grosseiro como o couro de um carneiro cor de cinza, com que a tinham trazido sequestrada da Jamaica dentro de um caixote de cristalaria de festa para a sentarem no seu trono de presidenta escondida, mas tão-pouco naquele quarto achámos vestígio algum que permitisse estabelecer ao menos se aquele sequestro de corsários tinha sido inspirado pelo amor. No quarto presidencial, que era o local da casa onde ele passou a maior parte dos últimos anos, encontrámos apenas uma cama de campanha por usar, uma latrina portátil daquelas que os antiquários traziam das mansões abandonadas pelos fuzileiros, um cofre de ferro com as suas noventa e duas condecorações e uma farda de pano cru sem insígnias como a que o cadáver tinha, perfurada por seis projécteis de grosso calibre que tinham feito estragos de incêndio ao entrar pelas costas e sair pelo peito, o que nos fez pensar que era verdadeira a lenda corrente de que o chumbo disparado à traição o atravessava sem fazer-lhe mal, que o disparado de frente lhe fazia ricochete no corpo e se virava contra o agressor, e que só era vulnerável às balas de misericórdia disparadas por alguém que lhe quisesse tanto que fosse capaz de morrer por ele. Ambos os uniformes eram demasiado pequenos para o cadáver, mas nem por isso descartámos a possibilidade de serem dele, pois também se disse em tempos que ele tinha continuado a crescer até aos cem anos e que aos cento e cinquenta tinha tido uma terceira dentição, se bem que realmente o corpo furado pelos urubus não fosse maior do que um homem de estatura mediana dos nossos dias e tivesse uns dentes sãos, pequenos e rombos, que pareciam dentes de leite, e tivesse uma pele cor de fel polvilhada de sinais de decrepitude sem uma única cicatriz e com bolsas vazias por todos os lados como se tivesse sido muito gordo noutra época, restavam-lhe apenas as concavidades vazias dos olhos, que tinham sido taciturnos, e a única coisa que não parecia de acordo com as suas proporções, à parte o testículo herniado, eram os pés enormes, quadrados e chatos com unhas rochosas e retorcidas de gavião. Ao contrário da roupa, as descrições dos seus historiadores ficavam-lhe largas, pois os textos oficiais das escolas infantis referiam-no como um patriarca de tamanho descomunal que nunca saía de casa porque não cabia pelas portas, que amava as crianças e as andorinhas, que conhecia a fala de alguns animais, que tinha a virtude de antecipar-se aos desígnios da natureza, que adivinhava o pensamento olhando simplesmente alguém nos olhos e conhecia o segredo de um sal de virtude para sanar as chagas dos leprosos e fazer andar os paralíticos. Embora todo o rasto da sua origem tivesse desaparecido dos textos, pensava-se que era um homem dos páramos pelo seu desmesurado apetite do poder, pela natureza do seu Governo, pela sua conduta lúgubre e pela inconcebível maldade do coração com que vendeu o mar a uma potência estrangeira e nos condenou a viver defronte desta planura sem horizonte de áspero pó lunar cujos crepúsculos sem fundamento nos doíam na alma. Calculava-se que no decurso da sua vida devia ter tido mais de cinco mil filhos, todos sete-mesinhos, das incontáveis amantes sem amor que se sucederam no seu orgulho enquanto esteve em condições de comprazer-se com elas, mas nenhum ficou com o seu nome nem com o seu apelido, excepto o que teve de Leticia Nazareno, que foi nomeado general de divisão com jurisdição e comando no momento de nascer, porque ele considerava que ninguém era filho de ninguém salvo da mãe, e só dela. Esta certeza parecia válida inclusivamente para ele, pois sabia-se que era um homem sem pai como os déspotas mais ilustres da história, que o único parente que se lhe conheceu e talvez o único que teve foi a sua mãe da minha alma Bendición Alvarado, a quem os textos escolares atribuíam o prodígio de tê-lo concebido sem concurso de varão e de ter recebido num sonho as chaves herméticas do seu destino messiânico e a quem ele proclamou por decreto matriarca da pátria com o agrupamento simples de que mãe há só uma, a minha, uma estranha mulher de origem incerta, cuja simplicidade de alma tinha sido o escândalo dos fanáticos da dignidade presidencial nas origens do seu regime, porque não podiam admitir que a mãe do chefe do Estado pendurasse ao pescoço uma almofadinha de cânfora para preservar-se de todo o contágio e tentasse espetar o caviar com garfo e caminhasse como uma pata choca com os sapatos de verniz, nem podiam aceitar que tivesse uma colmeia no terraço da sala de Música, ou criasse pavões e pássaros pintados com aguarelas nos gabinetes oficiais ou pusesse os lençóis a secar na varanda dos discursos, nem podiam suportar que tivesse dito numa festa diplomática que estou cansada de rogar a Deus que derrubem o meu filho, porque isto de viver na casa presidencial é como estar todo o dia com a luz acesa, senhor, e tinha-o dito com a mesma verdade natural com que um dia da pátria abriu caminho por entre a guarda de honra com uma cesta de garrafas vazias e se abeirou da viatura presidencial que iniciava o desfile do jubileu entre o estrépito das ovações e os hinos marciais e as tempestades de flores, e enfiou a cesta pela janela do carro e gritou ao filho que já que passas por lá aproveita para devolver estas garrafas na loja da esquina, pobre mãe. Aquela falta de sentido histórico havia de ter a sua noite de esplendor no banquete de gala com que comemorámos o desembarque dos fuzileiros sob o comando do almirante Higginson, quando Bendición Alvarado viu o filho de uniforme de cerimónia com as medalhas de ouro e as luvas de cetim que continuou a usar durante o resto da vida e não conseguiu reprimir o impulso do seu orgulho materno e exclamou em voz alta perante o corpo diplomático em força que se eu soubesse que o meu filho vinha a ser presidente da República tinha-o, mandado à escola, senhor, tal não seria a vergonha que desde então desterraram-na para a mansão dos arredores, um palácio de onze quartos que ele tinha ganho numa noite de fortuna aos dados quando os caudilhos da guerra federal repartiram entre si à mesa de jogo o esplêndido bairro residencial dos conservadores em fuga, só que Bendición Alvarado desprezou os ornamentos presidenciais que me fazem sentir como se fosse a mulher do Sumo Pontífice e preferiu as residências de serviço junto das seis criadas descalças que lhe tinham atribuído, instalou-se com a sua máquina de coser e as suas gaiolas de pássaros pintalgados num caramanchão esquecido onde o calor nunca chegava e era mais fácil enxotar os mosquitos das seis, sentava-se a coser defronte da luz ociosa do pátio grande e do ar medicinal dos tamarindos enquanto as galinhas andavam extraviadas pelos salões e os solda- dos da guarda espiavam as criadas nos aposentos vazios, sentava-se a pintar verdilhões com aguarelas e a lamentar-se com serviçais da desgraça do meu pobre filho que os fuzileiros tinham transferido para a casa presidencial, tão longe da mãe, senhor, sem uma esposa solícita que o assistisse à meia-noite se ele acordasse com uma dor, e com a chatice daquele emprego de presidente da República com um ordenado indecente de trezentos pesos por mês, pobre filho. Ela sabia bem o que dizia, porque ele visitava-a todos os dias na altura em que a cidade chapinhava no lodo da sesta, levava-lhe as frutas açucaradas de que ela tanto gostava e valia-se da ocasião para desabafar com ela da sua amarga condição de testa-de-ferro de fuzileiros, contava-lhe que tinha de escamotear entre os guardanapos as laranjas de açúcar e os figos em calda, porque as autoridades de ocupação tinham contabilistas que tomavam nota nos livros até dos restos dos almoços, queixava-se que no outro dia chegou à casa presidencial o comandante do couraçado com uma espécie de astrónomos de terra firme que tiraram as medidas a tudo e nem sequer se dignaram cumprimentar-me, mas, pelo contrário, me passavam a fita métrica por cima da cabeça ao mesmo tempo que faziam os seus cálculos em inglês e me gritavam ao intérprete que saísse da frente, e ele saía, que se tirasse da luz, e ele tirava-se, que põe-te onde não estorves, catano, e ele não sabia onde havia de pôr-se para não estorvar, porque havia medidores a medir mesmo o tamanho da luz das varandas, mas isso não tinha sido o pior, mãe, e sim terem-lhe posto na rua as duas últimas concubinas raquíticas que lhe restavam porque um almirante tinha dito que não eram dignas de um presidente, e andava realmente tão falto de mulher que algumas tardes fazia de conta que ia à mansão dos arredores, mas a mãe sentia-o a perseguir as serviçais na penumbra dos quartos de dormir, e era tal o seu desgosto que alvoroçava os pássaros nas gaiolas para que ninguém se apercebesse das penúrias do filho, fazia-os cantar à força para que os vizinhos não dessem pelo barulho do assalto, pelo opróbrio da resistência, pelas ameaças reprimidas de esteja quieto, senhor general, senão conto à sua mãezinha, e perturbava a sesta dos verdilhões obrigando-os a afadigarem-se para que ninguém ouvisse o seu ofegar sem alma de marido urgente, a sua desgraça de amante vestido, o seu choramingar de cão, as suas lágrimas solitárias que iam como que anoitecendo, como que apodrecendo de desgosto com o cacarejar das galinhas alvoroçadas nos quartos de dormir por aqueles amores de emergência no ar de vidro líquido e no Agosto sem Deus das três da tarde, meu pobre filho. Aquele estado de escassez havia de durar até que as forças de ocupação abandonaram o país, enxotadas por uma peste quando ainda faltavam muitos anos para se cumprirem os termos do desembarque, separaram em peças numeradas e meteram em caixotes de tábuas as casas dos oficiais, arrancaram inteiros os prados azuis e levaram-nos enrolados como se fossem alcatifas, embrulharam as cisternas de encerado das águas estéreis que lhes mandavam da terra deles para que os bichos dos nossos afluentes não os comessem por dentro, desmantelaram os seus hospitais brancos, dinamitaram os quartéis para que ninguém soubesse como tinham sido feitos, abandonaram no molhe o velho couraçado de desembarque por cuja coberta se passeava nas noites de junho o fantasma de um almirante perdido na tempestade, mas antes de levarem nos seus comboios voadores aquele paraíso de guerras portáteis impuseram-lhe a ele a medalha de boa vizinhança, renderam-lhe honras de chefe de Estado e disseram-lhe em voz alta para que toda a gente ouvisse que aqui te deixamos com o teu bordel de pretos para ver como é que te desenrascas sem nós, mas foram-se embora, mãe, catano, tinham-se ido embora, e pela primeira vez desde os seus tempos cabisbaixos de boi de ocupação subiu as escadas governando de viva voz e de corpo presente através de um tumulto de súplicas para que restabelecesse as lutas de galos, e ele mandava, está bem, que permitisse outra vez o voo dos cometas e tantos outros divertimentos que os fuzileiros tinham proibido, e ele mandava, está bem, tão convencido de ser ele o dono de todo o seu poder que inverteu as cores da bandeira e substituiu o barrete frígio do escudo pelo dragão vencido do invasor, porque finalmente somos cães de nós mesmos, mãe, viva a peste. Bendición Alvarado lembraria toda a vida aqueles sobressaltos do poder e outros mais antigos e amargos da miséria, mas nunca os evocou com tanta tristeza como depois da farsa da morte quando ele andava a chapinhar no pântano da prosperidade enquanto ela continuava a lamentar-se com quem lhe desse ouvidos que não vale a pena ser a mamã do presidente e não ter nada no mundo além desta triste máquina de coser, lamentava-se de que ali onde o vêem com a sua carruagem de cordões de ouro o meu pobre filho não tinha sequer um buraco na terra para cair morto depois de tantos e tantos anos de servir a pátria, senhor, não é justo, e não continuava a lamentar-se por costume nem por engano, mas sim porque ele já não a fazia partícipe dos seus quebrantos nem se precipitava como dantes a compartilhar com ela os melhores segredos do poder, e tinha mudado tanto desde os tempos dos fuzileiros que parecia a Bendición Alvarado que estava mais velho do que ela, que a tinha deixado atrás no tempo, sentia-o tropeçar nas palavras, enredavam-se-lhe as contas da realidade, às vezes babava-se, e tinha-a assaltado uma compaixão que não era de mãe, mas de filha, quando o viu chegar à mansão dos arredores carregado de embrulhos que se desesperava por abrir todos ao mesmo tempo, rebentava os cordéis com os dentes, partiam-se-lhe as unhas com as cintas metálicas antes que encontrasse a tesoura na cesta da costura, tirava tudo às mãos cheias do matagal de restos, afogando-se nas ânsias do seu voo, olhe que coisas tão boas, mãe, dizia, uma sereia viva num aquário, um anjo de corda que voava pelos aposentos dando as horas com um sino, um búzio gigante em cujo interior não se ouvia o marulhar e o vento dos mares mas sim a música do hino nacional, que coisas tão porreiras, mãe, veja lá como é bom não ser pobre, dizia, mas ela não lhe alimentava o entusiasmo, pondo-se, pelo contrário, a mordiscar os pincéis de pintar verdilhões para que o filho não notasse que se lhe estilhaçava o coração de pena evocando um passado que ninguém conhecia como ela, recordando quanto lhe tinha custado a ele manter-se na cadeira em que estava sentado, e não nestes tempos de agora, senhor, não nestes tempos fáceis em que o poder era uma matéria tangível e única, um berlinde na palma da mão, como ele dizia, mas quando era um sável fugitivo que nadava sem deus nem lei num palácio dos arrabaldes, perseguido pela cáfila voraz dos últimos caudilhos da guerra federal que me tinham ajudado a derrubar o general e poeta Lautaro Mufloz, um déspota ilustrado que Deus tenha na sua santa glória com os seus missais de Suetónio em latim e os seus quarenta e dois cavalos de sangue azul, mas em troca dos seus serviços de armas tinham-se apoderado das fazendas e gados dos antigos senhores proscritos e tinham repartido entre si o país em províncias autónomas, com o argumento inapelável de que o federalismo é isto, meu general, foi por isto que derramámos o sangue das nossas veias, e eram reis absolutos nas suas terras, com as suas leis próprias, as suas festas nacionais pessoais, o seu papel-moeda assinado por eles próprios, os seus uniformes de gala guarnecidos de pedras preciosas e dólmanes de alamares de ouro e tricórnios com penachos de caudas de pavão copiados de antigos cromos de vice-reis da pátria antes dele, e eram rústicos e sentimentais, senhor, entravam na casa presidencial pela porta principal sem licença de ninguém, porque a pátria é de todos, meu general, foi por isso que sacrificámos a vida por ela, acampavam na sala de festas com os seus serralhos paridos e os animais de criação dos tributos de paz que exigiam ao passar por todos os lados para que nunca lhes faltasse de comer, levavam uma escolta pessoal de mercenários bárbaros que em vez de botas envolviam os pés em restos de trapos e mal sabiam exprimir-se em língua cristã, mas eram sábios em truques de dados e ferozes e destros no manejo das armas de guerra, de modo que a casa do poder parecia um acampamento de ciganos, senhor, tinha um cheiro denso de enchente de rio, os oficiais do estado-maior tinham levado os móveis da República para as suas propriedades, jogavam ao dominó os privilégios do Governo, indiferentes às súplicas da sua mãe Bendición Alvarado, que não tinha um momento de repouso, tentando varrer tanto lixo de feira, tentando pôr um pouco de ordem que fosse no naufrágio, pois era a única que tinha procurado resistir ao envilecimento irredimível da gesta liberal, só ela tinha procurado expulsá-los à vassourada quando vira a casa pervertida por aqueles réprobos de má vida que disputavam entre si as poltronas do comando supremo em altercações de jogos de cartas, vira-os fazerem negócios de sodomia atrás do piano, vira-os a cagarem nas ânforas de alabastro, apesar de tê-los advertido de que não senhor que não eram retretes portáteis, mas sim ânforas recuperadas dos mares de Paritelária, mas eles insistiam que eram bacios de ricos, senhor, não houve divino capaz de impedir que o general Adriano Guzmán assistisse à festa diplomática dos dez anos da minha subida ao poder, embora ninguém tivesse podido imaginar o que nos esperava quando apareceu na sala de baile com um austero uniforme de linho branco escolhido para a ocasião, apareceu sem armas, tal como me tinha prometido sob palavra de militar, com a sua escolta de prófugos franceses vestidos à civil e carregados de antúrios de Caiena, que o general Adriano Guzmán distribuiu um por um entre as esposas dos embaixadores e ministros, depois de solicitar com uma reverência a autorização dos maridos, pois assim lhe tinham dito os seus mercenários que era de bom tom em Versalhes e assim o tinha cumprido com um raro engenho de cavalheiro, e depois permaneceu sentado a um canto da festa com a atenção fixa no baile e aprovando com a cabeça, muito bem, dizia, dançam bem estes janotas das Europas, dizia, a César o que é de César, dizia, tão esquecido na sua poltrona que só eu me apercebi de que um dos seus ajudantes de campo lhe tornava a encher a taça de champanhe depois de cada golada, e à medida que as horas passavam tornava-se mais tenso e sanguíneo do que era ao natural, desapertava um botão do dólman ensopado de suor cada vez que a pressão de um arroto reprimido lhe subia até aos olhos, soluçava de torpor, mãe, e de repente levantou-se com muita dificuldade numa pausa do baile e acabou de desapertar os botões do dólman e a seguir desapertou os da braguilha e ficou aberto de cima a baixo, espargindo os decotes perfumados das senhoras de embaixadores e ministros com o seu murcho tubo de urubu, ensopava com a sua ácida urina de bêbedo de guerra os delicados regaços de musselina, os espartilhos de brocados de ouro, os leques de avestruz, cantando, impassível, no meio do pânico, que sou o amante desairoso que rega as rosas do teu vergel, oh, rosas primorosas, cantava, sem que ninguém se atrevesse a sustá-lo, nem sequer ele, porque eu sabia-me com mais poder do que cada um deles, mas com muito menos do que dois deles confabulados, ainda inconscientes de que ele via os outros como eram enquanto os outros nunca lograram vislumbrar o pensamento oculto do ancião de granito cuja serenidade era quase semelhante à sua prudência sem escolhos e à sua incomensurável disposição para esperar, só víamos os olhos lúgubres, os lábios hirtos, a mão de donzela pudica que nem sequer estremeceu no punho do sabre no meio dia de horror em que lhe vieram com a novidade de que o comandante Narciso López, doente de maríjuana verde e de aguardente de anis, enfiou na retrete um galante da guarda presidencial e o excitou a seu bel-prazer com recursos de mulher sabida e depois o obrigou a que mo metas todo, catano, é uma ordem, todo, meu amor, até às tuas bolinhas de ouro, chorando de dor, chorando de raiva, até que se encontrou consigo mesmo vomitando de humilhação a quatro patas com a cabeça metida nos vapores fétidos da latrina, e então levantou no ar o galante adónico e trespassou-o com uma lança das planuras como uma borboleta na gobelina primaveril da sala de audiências, sem que ninguém se atrevesse a desenterrar-lha durante três dias, pobre homem, porque ele não fazia nada mais do que não fosse vigiar os seus antigos companheiros de armas para que não se confabulassem, mas sem atravessar-se nas suas vidas, convencido de que eles próprios iam exterminar-se entre si antes de lhe virem com a novidade, meu general, de que o general Jesucristo Sárichez tivera de ser morto à cadeirada pelos membros da sua escolta quando lhe deu um ataque de raiva má por causa duma mordedura de gato, pobre homem, mal se descuidou da partida de dominó quando lhe sopraram ao ouvido a novidade, meu general, de que o general Lotario Sereno se tinha afogado porque o cavalo morrera de repente quando atravessava um rio a vau, pobre homem, mal pestanejou quando lhe vieram com a novidade, meu general, de que o general Narciso López meteu um toco de dinamite no cu e estoirou com as entranhas por vergonha da sua pederastia invencível, e ele dizia pobre homem como se nada tivesse a ver com aquelas mortes infames e para todos ordenava o mesmo decreto de honras póstumas, proclamava-os mártires caídos em actos de serviço e enterrava-os com funerais magníficos na mesma altura no panteão nacional, porque uma pátria sem heróis é uma casa sem portas, dizia, e, quando ficaram apenas seis generais de guerra em todo o país, convidou-os para festejar o seu aniversário com uma farra de camaradas no palácio presidencial, a todos juntos, senhor, inclusivamente o general Jacinto Algarabía, que era o mais obscuro e matreiro, que se gabava de ter um filho da própria mãe, e só bebia álcool de madeira com pólvora, sem ninguém além de nós na sala de festas como nos bons tempos, meu general, todos sem armas como irmãos de leite, mas com os homens das escoltas amontoados na sala contígua, todos carregados de presentes magníficos para o único de nós que soube compreender-nos a todos, diziam, querendo dizer que era o único que tinha sabido manejá-los, o único que conseguira desentranhar da sua remota guarida dos ermos o legendário general Saturno Santos, um índio puro, incerto, que andava sempre como a puta da minha mãe me pariu com a pata no chão, meu general, porque nós, os homens decididos, não podemos respirar se não sentirmos a terra, tinha chegado envolto numa manta estampada com animais estranhos de cores intensas, chegara sozinho, como andava sempre, sem escolta, precedido por uma aura sombria, sem mais armas além da cataria, que se negou a tirar do cinto porque não era uma arma de guerra, mas sim de trabalho, e trouxe-me de presente uma águia amestrada para lutar em guerras de homens, e trouxe a harpa, mãe, o instrumento sagrado cujas notas conjuravam a tempestade e apressavam os ciclos das colheitas e que o general Saturno Santos pulsava com uma arte do coração que despertou em todos nós a nostalgia das noites de horror da guerra, mãe, alvoroçou-nos o cheiro a sarna de cão da guerra, revolveu-nos na alma a canção de guerra da barca de ouro (2) que deve conduzir-nos, cantavam-na em coro com toda a alma, mãe, da ponte regressei banhado em lágrimas, cantavam, ao mesmo tempo que comeram um pavão com ameixas e meio leitão, e cada um bebia da sua garrafa pessoal, cada um do seu próprio álcool, todos menos ele e o general Saturno Santos, que não provaram uma única gota de licor em toda a vida, nem fumaram, nem comeram mais do que o indispensável para viver, cantaram em coro em minha honra a serenata matinal que o Rei David cantava, cantaram chorando todas as canções de parabéns por aniversários que se cantavam antes do cônsul Hanemann nos vir com a inovação meu general do fonógrafo de altifalante com o cilindro do happy birthday, cantavam meio adormecidos, meio mortos da borracheira, sem se preocuparem mais com o ancião taciturno que ao bater da meia-noite despendurou a lanterna e foi revistar a casa antes de se deitar, de acordo com o seu costume de quartel, e viu pela última vez, ao passar de regresso pela sala de festas, os seis generais amontoados no chão, viu-os abraçados, inertes e plácidos, ao amparo das cinco escoltas que se vigiavam entre si, porque, embora adormecidos e abraçados, temiam-se uns aos outros quase tanto como cada um deles o temia a ele e como ele temia dois deles confabulados, e ele tornou a pendurar a lanterna no umbral e correu os três ferrolhos, as três tranquetas, as três aldrabas do quarto, e deitou-se no chão, de barriga para baixo, com o braço direito no lugar da almofada, no instante em que os alicerces da casa foram abalados com a explosão compacta de todas as armas das escoltas disparadas ao mesmo tempo, uma vez, catano, sem um ruído intermédio, sem um lamento, e outra vez, catano, e pronto, acabou-se a festa, ficou apenas uma atmosfera de pólvora no silêncio do mundo, ficou apenas ele a salvo para sempre da inquietação do poder quando viu aos primeiros alvores do novo dia as ordenanças de serviço chapinhando no pântano de sangue da sala de festas, viu sua mãe Bendición Alvarado estremecida por uma vertigem de horror ao comprovar que as paredes ressumavam sangue por mais que as secassem com cal e cinza, senhor, que as alcatifas continuavam a jorrar sangue, por muito que torcessem, e quanto mais sangue fluía a rodos por corredores e gabinetes mais se desesperavam para lavá-lo, a fim de dissimular o tamanho do último massacre dos herdeiros da nossa guerra, que, segundo a proclamação oficial, foram assassinados pelas suas próprias escoltas enlouquecidas, e cujos corpos envoltos na bandeira da pátria saturaram o panteão dos próceres em funerais de bispo, pois nem sequer um homem da escolta tinha escapado com vida da armadilha sangrenta, ninguém, meu general, excepto o general Saturno Santos, que estava couraçado com as suas fiadas de escapulários e conhecia segredos de índios para mudar de natureza segundo a sua vontade, maldição, podia transformar-se em tatu ou em lago, meu general, podia converter-se em trovão, e ele soube que era verdade porque os seus batedores mais astutos tinham-lhe perdido o rasto desde o último Natal, os cães de caça ao tigre mais treinados procuravam-no em sentido contrário, tinha-o visto encarnado pelo rei de espadas nos baralhos das suas pitonisas, e estava vivo, dormindo de dia e viajando de noite por desfiladeiros de terra e de água, mas ia deixando um rasto de orações que transtornava o discernimento dos perseguidores e fatigava a vontade dos seus inimigos, mas ele não renunciou à busca nem um instante do dia e da noite durante anos e anos até muitos anos depois, que viu pela janelinha do comboio presidencial uma multidão de homens e mulheres com os filhos e os animais e os utensílios de cozinha, como tinha visto tantas atrás das tropas da guerra, viu-os desfilar sob a chuva levando os seus feridos em macas penduradas de um pau atrás de um homem muito pálido com uma túnica de estopa que diz que é um enviado, meu general, e ele deu uma palmada na testa e disse para consigo aí está, catano, e ali estava o general Saturno Santos mendigando a caridade dos peregrinos com os feitiços da sua harpa já sem cordas, estava miserável e sombrio, com um chapéu de feltro gasto e um poncho em farrapos, mas mesmo naquele estado de misericórdia não foi tão fácil de matar como ele pensava e, pelo contrário, tinha degolado com a cataria três dos seus melhores homens, tinha enfrentado os mais corajosos com tanto valor e tanta habilidade que ele mandou parar o comboio em frente ao triste cemitério do despovoado onde o enviado predicava, e toda a gente se afastou num estampido quando os homens da guarda presidencial saltaram do vagão pintado com as cores da bandeira de armas prontas a disparar, ninguém ficou à vista, excepto o general Saturno Santos, junto da sua harpa mítica com a mão crispada no cabo da cataria, e estava como que fascinado pela visão do inimigo mortal que apareceu na boleia do vagão com o uniforme de cotim sem insígnias, sem armas, mais velho e mais remoto do que se estivéssemos cem anos sem nos vermos, meu general, pareceu-me cansado e sozinho, com a pele amarelenta dos maus fígados e os olhos propensos às lágrimas, mas tinha o resplendor lívido de quem não só era dono do seu poder como também do poder disputado aos seus mortos, de maneira que me dispus a morrer sem resistir porque lhe pareceu inútil contrariar um ancião que vinha de tão longe sem mais razão nem mais méritos do que o apetite eterno de mandar, mas ele mostrou-lhe a palma da mão de raia e disse Deus te salve, valente, a pátria merece-te, pois sabia desde sempre que contra um homem invencível só restavam as armas da amizade, e o general Saturno Santos beijou a terra que ele tinha pisado e suplicou-lhe a graça de permitir-me que o sirva como o meu general mandar enquanto tiver virtude nestas mãos para fazer cantar a cataria, e ele aceitou, muito bem, e fê-lo seu guarda-costas, com a única condição de que nunca te ponhas atrás de mim, converteu-o em seu cúmplice de dominó e entre ambos depenaram a quatro mãos muitos déspotas em desgraça, metia-o descalço na carruagem presidencial e levava-o às recepções diplomáticas com aquele hálito de tigre que punha os cães em alvoroço e causava vertigens às esposas dos embaixadores, pô-lo a dormir atravessado à frente da porta do seu quarto para aliviar o medo de dormir quando a vida se tornou tão áspera que tremia ante a ideia de se encontrar só entre as pessoas dos sonhos, manteve-o a dez palmos da sua confiança durante muitos anos, até que o ácido úrico lhe entorpeceu a virtude de fazer cantar a catana e lhe pediu o favor de mate-me o meu general mesmo, para não dar a outro o prazer de matar-me sem nenhum direito, mas ele mandou-o morrer com uma pensão de boa reforma e uma medalha de gratidão no lugarejo de ladrões de cavalos do descampado em que tinha nascido e não conseguiu reprimir as lá- grimas quando o general Saturno Santos pôs de lado o pudor para lhe dizer, desfeito em pranto, que, como vê, meu general, até a nós, os machos mais destemidos, nos chega a hora de sermos maricas, que diabo de coisa. De modo que ninguém compreendia melhor que Bendición. Alvarado o alvoroço pueril com que ele se desforrava dos tempos maus e a falta de sentido com que desperdiçava as ganâncias do poder para ter em velho o que lhe faltara em criança, mas fazia-lhe raiva que abusassem da sua inocência prematura para lhe venderem aquelas bugigangas de gringos que não eram tão baratas nem requeriam tanto engenho como os pássaros fingidos que ele não conseguia vender a uma porção de gente por aí além, está certo que gozes a vida, dizia, mas pensa no futuro, que não te quero ver a estenderes o chapéu à caridade à porta de uma igreja se amanhã ou depois, que Deus não o permita, te tiram da cadeira em que estás sentado, se ao menos soubesses cantar, ou se fosses arcebispo, ou navegante, mas tu não passas de um general, de maneira que não serves para mais nada senão para mandar, aconselhava-lhe que enterres num sítio seguro o dinheiro que te sobra do Governo, onde ninguém além dele pudesse encontrá-lo, para o caso de sair disparado como aqueles pobres presidentes de parte nenhuma que pastoreavam o esquecimento mendigando adeuses de barcos na casa dos recifes, põe os olhos neles, dizia-lhe, mas ele não lhe dava ouvidos e, pelo contrário, prostrava-a no desconsolo com a fórmula mágica de sossegue mãe, esta gente gosta de mim. Bendición AI- varado havia de viver muitos anos a lamentar-se da pobreza, discutindo com as criadas por causa das contas do mercado e até passando sem almoçar para economizar, sem que ninguém se atrevesse a revelar-lhe que era uma das mulheres mais ricas da Terra, que tudo o que ele acumulava com os negócios do Governo registava-o em nome dela, que não só era dona de terras desmedidas e gados como também dos eléctricos locais, e dos correios e do telégrafo e das águas da nação, de maneira que cada barco que navegava pelos afluentes amazónicos ou pelos mares territoriais tinha de pagar-lhe direitos de aluguer que ela ignorou até à morte, como ignorou durante muitos anos que o filho não andava tão desvalido como ela supunha quando chegava à mansão dos subúrbios perdendo o fôlego ante a maravilha dos brinquedos da velhice, pois, além do imposto pessoal que percebia por cada cabeça de gado que se criava no país além da paga dos seus favores e dos presentes de interesse que os partidários lhe mandavam, tinha concebido e estava a explorar desde há muito um sistema infalível para ganhar a lotaria. Eram os tempos que sucederam à sua falsa morte, os tempos do ruído, senhor, que não se chamaram assim como muitos julgávamos pelo estrondo subterrâneo que se sentiu em toda a pátria numa noite do mártir São Heraclito e do qual nunca houve uma explicação certa, mas sim pelo estrépito perpétuo das obras empreendidas que se anunciavam desde os alicerces como as maiores do mundo e, no entanto, nunca chegavam ao fim, uma época plácida em que ele convocava os conselhos de Governo enquanto fazia a sesta na mansão dos subúrbios, deitava-se na rede abanando-se com o chapéu sob as ramagens doces dos tamarindos, ouvia com os olhos fechados os doutores de palavra fácil e bigodes engomados que se sentavam a discutir em torno da rede, pálidos de calor dentro das labitas de fazenda e dos colarinhos de celulóide, os ministros civis que tanto detestava, mas que tinha voltado a nomear por conveniência e aos quais ouvia discutir assuntos de Estado entre o escândalo dos galos que perseguiam as galinhas no pátio e o apito contínuo das cigarras e o gramofone insone que cantava na vizinhança a canção de Susana vem Susana, de repente calavam-se, silêncio, o general tinha adormecido, mas ele bramava sem abrir os olhos, sem deixar de ressonar, não estou a dormir seus patetas, continuem, e continuavam, até que ele saía tenteando de entre as teias de aranha da sesta e sentenciou que no meio de tantas patetices o único que tem razão é o meu compadre o ministro da Saúde, catano, acabou-se esta gaita, e acabava-se, conversava com os seus ajudantes pessoais, fazendo-os acompanharem-no para um lado e para outro enquanto comia em andamento com o prato numa mão e a colher na outra, despedia-os nas escadas com uma displicência de façam os senhores o que lhes apetecer, que ao fim e ao cabo quem manda sou eu, ora que catano, passou-lhe a veneta de perguntar se queriam ou se não queriam, ora que catano, cortava fitas inaugurais, mostrava-se em público de corpo inteiro assumindo os riscos do poder como não tinha feito em épocas mais calmas, ora que catano, jogava intermináveis partidas de dominó com o meu compadre de toda a vida o general Rodrigo de Aguilar e o meu compadre o ministro da Saúde, que eram os únicos que tinham suficiente confiança com ele para lhe pedirem a libertação de um preso ou o perdão para um condenado à morte, e os únicos que se atreveram a pedir-lhe que recebesse em audiência especial a rainha de beleza dos pobres, uma criatura incrível daquele charco de misérias a que chamávamos o bairro das brigas de cães, porque todos os cães do bairro andavam a brigar na rua desde havia muitos anos sem um momento de trégua, um reduto mortífero em que as patrulhas da guarda nacional não entravam porque as deixavam em coiro e desarmavam os carros nas suas peças originais com um único passe de mãos, onde os pobres burros perdidos entravam caminhando por um extremo da rua e saíam pelo outro feitos uma carga de ossos, comiam assados os filhos dos ricos, meu general, vendiam-nos no mercado transformados em linguiças, imagine, pois ali tinha nascido e ali vivia Manuela Sárichez da minha desgraça, uma calêndula de monturo cuja beleza inverosímil era o espanto da pátria, meu general, e ele sentiu-se tão intrigado com a revelação que se tudo isso é verdade, como os senhores dizem, não só a recebo em audiência especial como danço a primeira valsa com ela, ora que catano, que escrevam isso nos jornais, ordenou, estas gaitas encantam os pobres. Contudo, na noite a seguir à audiência, enquanto jogavam o dominó, comentou com uma amargura certa ao general Rodrigo de Aguilar que a rainha dos pobres não valia nem o trabalho de dançar com ela, que era tão vulgar como tantas Manuelas Sárichez de bairro da lata com o seu vestido de ninfa de enfeites de musselina e a coroa dourada com jóias de fancaria e uma rosa na mão sob a vigilância de uma mãe que cuidava dela como se fosse de ouro, de maneira que ele lhe tinha concedido tudo quanto ela queria, que não era mais do que luz eléctrica e água corrente para o seu bairro das brigas de cães, mas advertiu que era a última vez que recebo uma missão de súplicas, ora que catano, não volto a falar com pobres, disse, sem terminar a partida, bateu com a porta, foi-se embora, ouviu as batidas de metal das oito, deu a ração às vacas nos estábulos, mandou levarem para cima as bostas, revistou toda a casa ao mesmo tempo que comia a andar com o prato na mão, comia carne guisada com feijões, arroz branco e fatias de banana verde, contou as sentinelas desde o portão de entrada até aos quartos de dormir, estavam completas e nos seus postos, catorze, viu o resto da sua guarda pessoal a jogar dominó no posto do primeiro pátio, viu os leprosos deitados entre os roseirais, os paralíticos nas escadas, eram nove horas, colocou numa janela o prato de comida por acabar e encontrou-se às apalpadelas na atmosfera de lama das barracas das concubinas que dormiam até três com os seus sete-mesinhos numa mesma cama, encavalitou-se em cima dum montão que cheirava a guisado do dia anterior e afastou para cá duas cabeças e para lá seis pernas e três braços sem perguntar a si mesmo se alguma vez saberia quem era quem ou qual foi a que no fim o amamentou sem acordar, sem sonhar com ele, nem de quem tinha sido a voz que murmurou adormecida de outra cama que não se apresse tanto, senhor general, que os meninos assustam-se, regressou ao interior da casa, passou revista às tranquetas das vinte e três janelas, deitou fogo às pastas de bosta de cinco em cinco metros desde o vestíbulo até aos quartos particulares, sentiu o cheiro do fumo, recordou-se de uma infância improvável que poderia ser a sua que só evocava naquele instante quando o fumo começava e esquecia para sempre, regressou apagando as luzes ao contrário desde os quartos de dormir até ao vestíbulo e tapando as gaiolas dos pássaros adormecidos que contava antes de os tapar com pedaços de pano, quarenta e oito, percorreu outra vez toda a casa com uma lanterna na mão, viu-se a si próprio um por um até catorze generais caminhando com a lanterna acesa nos espelhos, regressou aos dormitórios da guarda presidencial, apagou-lhes a luz, boa noite, meus senhores, revistou os gabinetes públicos do andar inferior, as antecâmaras, as casas de banho, atrás das cortinas, debaixo das mesas, não havia ninguém, puxou do molho de chaves que era capaz de distinguir ao tacto de uma por uma, fechou os gabinetes, subiu ao andar principal revistando os quartos quarto por quarto e fechando as portas à chave, retirou o boião de mel do seu esconderijo por detrás de um quadro e tomou as duas colheradas de antes de se deitar, pensou na mãe adormecida na mansão dos subúrbios, Bendición. Alvarado no seu torpor de adeuses entre a erva-cidreira. e o orégão com uma mão de passarinheira exangue pintora de verdilhões como uma mãe morta de flanco, que passe bem a noite, mãe, disse, muito boa noite, filho, respondeu a dormir Bendición Alvarado na mansão dos subúrbios, pendurou em frente do quarto de dormir a lanterna de gancho que deixava presa na porta enquanto dormia com a ordem terminante de que nunca a apaguem porque aquela era a luz para sair a correr, bateram as onze, inspeccionou a casa uma última vez às escuras, para o caso de alguém se ter infiltrado julgando-o adormecido, ia deixando o rasto de pó do sulco de estrelas da espora de ouro nas alvas fugazes de rajadas verdes das aspas de luz das voltas do farol, viu entre dois instantes de claridade um leproso sem rumo que caminhava a dormir, travou-lhe o passo, levou-o pela sombra sem lhe tocar iluminando-lhe o caminho com as luzes da sua vigília, pô-lo nos roseirais, voltou a contar as sentinelas na escuridão, regressou ao quarto de dormir, ia vendo, ao passar em frente das janelas, um mar igual em cada janela, as Caraíbas em Abril, contemplou-o vinte e três vezes sem se deter e era sempre como sempre em Abril como um lodaçal dourado, ouviu a meia-noite, com o último bater dos martelos da catedral sentiu a torcedura dos assobios ténues do horror da hérnia, não havia qualquer outro ruído no mundo, ele só era a pátria, correu as três aldrabas, os três ferrolhos, as três tranquetas do quarto, urinou sentado na latrina portátil, urinou duas gotas, quatro gotas, Sete gotas difíceis, deixou-se cair de borco no chão, adormeceu instantaneamente, não sonhou, eram três menos um quarto quando acordou empapado de suor, estremecido pela certeza de que alguém o tinha olhado enquanto dormia, alguém que tinha tido a virtude de se introduzir sem retirar as aldrabas, quem vive, perguntou, não era ninguém, fechou os olhos, voltou a sentir que o olhavam, abriu os olhos para ver, assustado, e nessa altura viu, catano, era Manuela Sárichez, que andava pelo quarto sem retirar os ferrolhos porque entrava e saía a seu bel-prazer atravessando as paredes, Manuela Sárichez, da minha má hora com o vestido de musselina e a brasa da rosa na mão e o odor natural de alcaçuz da sua respiração, diz-me que não és tu, diz-me que este desmaio de morte não é o marasmo de alcaçuz da tua respiração, mas era ela, era a rosa dela, era o seu hálito morno que perfumava o clima do quarto como um baixio obstinado com mais domínio e mais antiguidade do que o ofego do mar, Manuela Sárichez da minha perdição, que não estavas escrita na palma da minha mão, nem nas borras do meu café, nem sequer nas águas da minha morte dos alguidares, não gastes o meu ar de respirar, o meu sono de dormir, o recinto da escuridão deste quarto onde nunca tinha entrado nem havia de entrar uma mulher, apaga-me essa rosa, gemia, ao mesmo tempo que gatinhava em busca do interruptor da luz e encontrava Manuela Sánchez da minha loucura em lugar da luz, catano, porque hei-de encontrar-te se não te perdeste de mim, se quiseres leva a minha casa, a pátria inteira com o seu dragão, mas deixa-me acender a luz, lacrau das minhas noites, Manuela Sárichez da minha hérnia, filha da puta, gritou, julgando que a luz o libertava do feitiço, gritando que a levem, que a deixem sem mim, que a atirem das ribanceiras com uma âncora ao pescoço, para que ninguém volte a padecer o fulgor da sua rosa, ia-se esganiçando de pavor pelos corredores, chapinhando nos pastéis de bosta da escuridão, perguntando a si próprio, aturdido, o que se passava no mundo que devem ser oito horas e toda a gente dorme nesta casa de vadios, levantem-se, cabrões, gritava, acenderam-se as luzes, tocaram a alvorada às três, repetiram-na na fortaleza do porto, na guarnição de San Jerónimo, nos quartéis do país, e havia um estrépito de armas assustadas, de rosas que se abriram quando ainda faltavam duas horas para o sereno, de concubinas sonâmbulas que sacudiam passadeiras sob as estrelas e destapavam as gaiolas dos pássaros adormecidos e trocavam por flores dessa noite as flores tresnoitadas das floreiras, e havia um tropel de pedreiros que construíam paredes de emergência e desorientavam os girassóis colando sóis de papel dourado nos vidros das janelas para não se ver que ainda era noite no céu e era domingo vinte e cinco na casa e era Abril no mar, e havia um escândalo de chineses lavadeiros que tiravam das camas os últimos adormecidos para levarem os lençóis, cegos premonitórios que anunciavam amor onde não o havia, funcionários viciosos que encontravam galinhas pondo os ovos de segunda-feira quando os de ontem ainda estavam nas gavetas dos arquivos, e havia um bulício de multidões aturdidas e brigas de cães nos conselhos de Governo convocados de urgência enquanto ele abria caminho deslumbrado pelo dia repentino entre os aduladores impávidos que o proclamavam decompositor da madrugada, comandante do tempo e depositário da luz, até que um oficial do comando supremo se atreveu a detê-lo e se perfilou diante dele com a novidade, meu general, de que ainda são só duas e cinco, outra voz, três e cinco da madrugada, meu general, e ele atravessou-lhe a cara com as costas ferozes da mão e uivou com todo o peito assustado para que o ouvissem no mundo inteiro, são oito, catano, oito, disse, ordem de Deus. Bendición Alvarado perguntou-lhe, ao vê-lo entrar na mansão dos subúrbios, de onde vens com essa cara que parece que foste picado por uma tarântula, que fazes com essa mão no coração, disse, mas ele deixou-se cair na poltrona de vime sem lhe responder, mudou a mão de lugar, tinha voltado a esquecê-la quando a mãe o apontou com o pincel de pintar verdilhões e perguntou assombrada se ele se)julgava de verdade o Coração de Jesus com esses olhos lânguidos e essa mão no peito, e ele escondeu-a, ofuscado, merda, mãe, bateu com a porta, foi-se embora, ficou a dar voltas à casa com as mãos nos bolsos, para que elas não se pusessem por si sós onde não deviam, contemplava a chuva pela janela, viu a água resvalar pelas estrelas de papel de bolachinhas e as luas de metal prateado que tinham posto nos vidros para que parecessem oito da noite às três da tarde, viu os soldados da guarda transidos no pátio, viu o mar triste, a chuva de Manuela Sárichez na tua cidade sem ela, o terrível salão vazio, as cadeiras postas ao contrário em cima das mesas, a solidão irreparável das primeiras sombras de outro sábado efémero de outra noite sem ela, catano, se ao menos me livrassem desta bebedeira que é o que mais me dói, suspirou, sentiu vergonha do seu estado, repassou os sítios do corpo onde pôr a mão errante que não fosse o coração, colocou-a por fim na hérnia apaziguada pela chuva, era igual, tinha a mesma forma, o mesmo peso, doía o mesmo, mas era ainda mais atroz como ter o próprio coração em carne viva na palma da mão, e só então percebeu o que tantas pessoas de outros tempos lhe tinham dito, que o coração é o terceiro colhão, meu general, catano, afastou-se da janela, deu voltas na sala de audiências com a ansiedade sem recursos de um presidente eterno com uma espinha de peixe atravessada na alma, encontrou-se na sala do Conselho de Ministros, ouvindo, como sempre, sem perceber, sem ouvir, padecendo uma informação soporífera sobre a situação fiscal, de repente aconteceu qualquer coisa no ar, o ministro das Finanças calou-se, os outros olhavam para ele pelas frinchas de uma couraça gretada pela dor, viu-se a si próprio inerme e só na extremidade da mesa de nogueira, com o semblante trémulo por ter sido descoberto em plena luz no seu estado de lástima de presidente vitalício com a mão no peito, queimou-se-lhe a vida nas brasas glaciais dos minuciosos olhos de ourives do meu compadre o ministro da Saúde, que pareciam examiná-lo por dentro, ao mesmo tempo que dava voltas à corrente do relogiozinho de ouro do colete, cuidado, disse alguém, deve ser uma pontada, mas já ele tinha posto a mão de sereia endurecida de raiva na mesa de nogueira, recobrou a cor, cuspiu com as palavras uma rajada mortífera de autoridade, isso era o que os senhores queriam que fosse, uma pontada, cabrões, continuem, e continuaram, mas falavam sem se ouvirem pensando que devia estar a acontecer-lhe alguma coisa grave para ficar com tanta raiva, cochicharam-no, correu o rumor, apontavam para ele, vejam como ele está aflito que até tem de se agarrar ao coração, rebentaram-lhe as costuras, murmuravam, propalou-se a versão de que tinha mandado chamar de urgência o ministro da Saúde e que este o encontrara com o braço direito Posto como uma pata de cordeiro sobre a mesa de nogueira e lhe ordenara que mo corte, compadre, humilhado pela sua triste condição de presidente banhado em lágrimas, mas o ministro respondeu-lhe que não, general, não cumpro essa ordem nem que me fuzile, disse-lhe, é uma questão de justiça, general, eu valho menos do que o seu braço. Estas e muitas outras versões do seu estado iam-se tornando cada vez mais intensas à medida que ele media nos estábulos o leite para os quartéis vendo como se erguia no céu a terça-feira de cinzas de Manuela Sárichez, mandava tirar os leprosos dos roseirais para não empestarem as rosas da tua rosa, procurava os lugares solitários da casa para cantar sem ser ouvido a tua primeira valsa da rainha, para que não me esqueças, cantava, para que sintas que morres se me esqueceres, cantava, submergia-se na lama dos quartos das concubinas tentando encontrar alívio para o seu tormento, e pela primeira vez na sua longa vida de amante fugaz desenfreavam-se-lhe os instintos, demorava-se em pormenores, arrancava suspiros às mulheres mais frias, uma vez e outra vez, e fazia-as rir de espanto nas trevas, não tem vergonha, senhor general na sua idade, mas ele estava farto de saber que aquela vontade de (3) resistir eram ilusões que alimentava para si mesmo para perder o tempo, que cada salto da sua solidão, cada tropeço da sua respiração, o aproximavam sem remissão da canícula das duas da tarde iniludível em que fora suplicar pelo amor de Deus o amor de Manuela Sárichez no palácio do monturo do teu reino feroz do teu bairro das brigas de cães, fora vestido à paisana, sem escolta, num automóvel de praça que se escapuliu aos estoiros pelo vapor de gasolina rançosa da cidade prostrada no letargo da sesta, iludira o fragor asiático das íngremes travessas do comércio, vira o mar grande de Manuela Sárichez da minha perdição com um alcatraz solitário no horizonte, vira os eléctricos decrépitos que vão até à tua casa e ordenara que os substituam por eléctricos amarelos de vidros fumados com um trono de veludo para Manuela Sárichez, vira os balneários desertos dos teus domingos de mar e ordenara que pusessem barracas para vestiários e uma bandeira de cor diferente segundo os humores do tempo e uma rede de aço numa praia reservada para Manuela Sárichez, vira as casas de campo corri terraços de mármore e prados pensativos das catorze famílias que ele tinha enriquecido com os seus favores, vira uma casa de campo maior com repuxos giratórios e vitrais nas varandas onde te quero ver a viver para mim, e expropriaram-na de assalto, decidindo a sorte do mundo à medida que sonhava com os olhos abertos no banco traseiro do automóvel de latas soltas, até que se acabou a brisa do mar e acabou-se a cidade e enfiou-se pelas frinchas das janelas o fragor luciferino do teu bairro das brigas de cães onde ele se viu e não acreditou no que via, pensando, minha mãe Bendición Alvarado olha para onde eu estou sem ti, ampara-me, mas ninguém reconheceu no tumulto os olhos desolados, os lábios débeis, a mão lânguida no peito, a voz de falar durante o sono do bisavô assomado aos vidros partidos com um fato de linho branco e um chapéu de capataz que andava a averiguar onde vive Manuela Sárichez da minha vergonha, a rainha dos pobres, minha senhora, a da rosa na mão, perguntando a si próprio assustado onde podias viver naquele atropelo de nós de espinhaços eriçados de olhares satânicos de mandíbulas sangrentas do regueiro de uivos fugitivos com o rabo entre as pernas da carnificina de cães que se esquartejavam às dentadas nos lamaçais, onde estava o cheiro a alcaçuz da tua respiração neste trovão contínuo de altifalantes de filha da puta serás tu tormento da minha vida dos bêbedos postos fora do matadouro das tabernas a pontapé, onde te terás perdido na farra sem fim do maranguango e da burundanga' e do gordo lobo (4) e da manta de bandera (5) e da tremenda salsicha de entre pernas e do centavo preto de brinde no delírio perpétuo do paraíso mítico do Negro Adáti (6) e do Juanito Trucupey, (7) catano, qual é a tua casa de morar nesta confusão de paredes escalavradas de cor amarela de ahuyama (8) com sanefas debruadas de batina de bispo com janelas de verde-periquito com tabiques de azul de bolas de anil para branquear com pilares cor-de-rosa da tua rosa na mão, que horas serão na tua vida se estes desmerecidos desconhecem as minhas ordens para que agora sejam três, e não oito da noite de ontem, como parece neste inferno, qual és tu destas mulheres que cabeceiam nas salas vazias a abanarem-se com as saias esparramadas nas cadeiras de balouço respirando de calor por entre as pernas enquanto ele perguntava através dos vãos da janela onde vive Manuela Sárichez da minha raiva, a do vestido de espuma com luzes de diamantes e o diadema de ouro maciço que ele lhe tinha oferecido no primeiro aniversário da coroação, já sei quem é, senhor, disse alguém na confusão, uma mamuda com o rabo grande que julga que é a mãe da gorila, vive ali, senhor, ali, numa casa como as outras, pintada de cor berrante, com a pegada fresca de alguém que tinha escorregado numa pasta de caca de cão no degrau da entrada, uma casa de pobres tão diferente de Manuela Sárichez na poltrona dos vice-reis que custava um bocado acreditar que fosse aquela, mas era aquela, minha mãe Bendición Alvarado das minhas entranhas, dá-me a tua força para entrar, mãe, porque era aquela, tinha dado dez voltas ao quarteirão enquanto recobrava fôlego, tinha batido à porta com três pancadas dos nós dos dedos que pareceram três súplicas, tinha esperado na sombra ardente da soleira sem saber se o mau ar que respirava estava pervertido pela reverberação do sol ou pela ansiedade, esperou sem pensar sequer no seu próprio estado até que a mãe de Manuela Sárichez o mandou entrar para a fresca penumbra a cheirar a resíduos de peixe da sala ampla e nua de uma casa adormecida que era maior por dentro do que por fora, examinava o recinto da sua frustração do tamborete de couro em que se tinha sentado enquanto a mãe de Manuela Sárichez a acordava da sesta, viu as paredes escorridas de sulcos de chuvas antigas, um sofá rasgado, outro dos tamboretes com fundos de couro, um piano sem cordas ao canto, e mais nada, catano, sofrer tanto para esta porcaria, suspirava, quando a mãe de Manuela Sárichez regressou com uma cestinha de lavores e sentou-se a fazer renda enquanto Manuela Sárichez se vestia, se penteava, calçava os seus melhores sapatos para receber com a devida dignidade o ancião imprevisto que perguntava a si próprio perplexo onde estarás Manuela Sárichez da minha infelicidade que venho à tua procura e não te encontro nesta casa de mendigos, onde estará o teu cheiro de alcaçuz nesta pestilência de restos do almoço, onde estará a tua rosa, onde o teu amor, tira-me do calabouço destas dúvidas de cão, suspirava, quando a viu aparecer à porta interior como a imagem de um sonho reflectida no espelho de outro sonho com um vestido de étamine de quarto de real a jarda, o cabelo apanhado a correr com uma travessa, os sapatos rotos, mas era a mulher mais bela e mais altiva da Terra com a rosa acesa na mão, uma visão tão deslumbrante que ele mal conseguiu domínio para se inclinar quando ela o cumprimentou com a cabeça levantada, Deus guarde Vossa Excelência, e sentou-se no sofá, defronte dele, onde os eflúvios da sua catinga fétida não a alcançassem, e então atrevi-me a olhar para ele de frente pela primeira vez, fazendo girar com dois dedos a brasa da rosa, para que se me não notasse o terror, perscrutei sem piedade os lábios de morcego, os olhos mudos que pareciam olhar-me do fundo de um lago, a pele glabra, de torrões de terra amassados com óleo de fel que se tornava mais retesada e intensa na mão direita do anel do selo presidencial exausta no joelho, o seu fato de linho esquálido como se dentro dele não estivesse ninguém, os seus enormes sapatos de morto, o seu pensamento invisível, o seu poder oculto, o ancião mais antigo da Terra, o mais temível, o mais aborrecido e o menos compadecido da pátria, que se abanava com o chapéu de capataz, contemplando-me em silêncio da sua outra margem, Deus meu, que homem tão triste, pensei assustada, e perguntou sem compaixão em que posso servi-lo, Excelência, e ele respondeu com um ar solene que venho só pedir-lhe um favor, Majestade, que receba esta visita. Visitou-a sem descanso durante meses e meses, todos os dias nas horas mortas de calor em que costumava visitar a mãe para que os serviços de segurança julgassem que estava na mansão dos subúrbios, porque só ele ignorava que toda a gente sabia que os atiradores do general Rodrigo de Aguilar o protegiam agachados nos terraços, endemoninhavam o trânsito, desocupavam à coronhada as ruas por onde ele tinha de passar, mantinham-nas vedadas para que parecessem desertas desde as duas até às cinco, com ordens de atirar a matar se alguém tentasse assomar às varandas, mas até os menos curiosos arranjavam maneira de espiar a passagem do automóvel presidencial pintado de carro de praça com o ancião canicular escondido à paisana dentro do fato de linho inocente, viam a sua palidez de órfão, o seu semblante de ter visto amanhecer muitos dias, de ter chora- do escondido, de não lhe importar já o que pensassem da mão no peito, o arcaico animal taciturno que ia deixando um rasto de ilusões de olhem como ele vai que já não pode com a alma no ar vidrado de calor das ruas proibidas, até que as suposições de doenças estranhas se tornaram tão ruidosas e múltiplas que acabaram por tropeçar com a verdade de que ele não estava em casa da mãe, mas sim na sala em penumbra do remanso secreto de Manuela Sárichez, sob a vigilância implacável da mãe, que tricotava sem respirar, pois era para ela que comprava as máquinas engenhosas que tanto entristeciam Bendición Alvarado, tentava seduzi-la com o mistério das agulhas magnéticas, das tempestades de neve do Janeiro cativo dos pesa-papéis de quartzo, dos aparelhos de astrónomos e boticários, dos pirógrafos, manómetros, metrónomos e giroscópios que ele continuava a comprar a quem quisesse vender-lhos, contra a opinião da mãe, contra a sua própria avareza de ferro, e só pela felicidade de gozá-los com Manuela Sárichez, punha-lhe junto ao ouvido o búzio patriótico que não tinha dentro o marulhar das vagas, mas sim as marchas militares que exaltavam o seu regime, aproximava dos termómetros a chama do fósforo para veres subir e descer o mercúrio opressivo do que penso por dentro, contemplava Manuela Sárichez sem lhe pedir nada, sem expressar-lhe as intenções, oprimindo-a, pelo contrário, em silêncio com aquelas ofertas dementes para tentar dizer-lhe com elas o que não era capaz de dizer, pois só sabia manifestar os seus anseios mais íntimos com os símbolos visíveis do seu poder descomunal, como no dia dos anos de Manuela Sárichez, em que lhe tinha pedido que abrisse a janela e ela abriu-a e fiquei petrificada de pavor ao ver o que tinham feito do meu pobre bairro das brigas de cães, vi as brancas casas de madeira com janelas de tela e terraços de flores, os prados azuis com repuxos de águas giratórias, os pavões, o vento de insecticida glacial, uma réplica infame das antigas residências dos oficiais de ocupação, que tinham sido decalcadas de noite e em silêncio, tinham degolado os cães, tinham expulso de suas casas os antigos habitantes, que não tinham direito de ser vizinhos de uma rainha, e tinham-nos mandado apodrecer para outro monturo, e assim tinham construído em multas noites furtivas o novo bairro de Manuela Sárichez para que tu o visses da tua janela no dia da santa do teu nome, aí o tens, rainha, para que cumpras muitos anos felizes, para ver se estes alardes de poder conseguiam amolecer a tua conduta cortês, mas invencível, de não se aproxime de mais, Excelência, que está ali a minha mamã com as aldrabas da minha honra, e ele sufocava nos seus anseios, engolia a raiva, bebia em golos lentos de avô a água de guanabana (9) fresca de piedade que ela preparava para dar de beber ao sedento, suportava a pontada do gelo nas fontes para que não lhe descobrissem as imperfeições da idade, para que não gostes de mim por compaixão, depois de ter esgotado todos os recursos para que gostasse dele por amor, deixava-o tão só quando estou contigo que não me resta coragem nem para estar, agonizando por roçá-la que fosse com a respiração antes que o arcanjo de tamanho humano voasse dentro de casa tocando o sino da minha hora mortal, e ele conquistava um último sorvo da visita enquanto guardava os brinquedos nos estojos originais para que o caruncho do mar não os transforme em pó, só um minuto, rainha, levantava-se de agora até amanhã, toda uma vida, que coisa, mal lhe sobrava um instante para olhar pela última vez a donzela inacessível que ao passar do arcanjo tinha ficado imóvel com a rosa morta no regaço enquanto ele partia, escapulia-se entre as primeiras sombras tentando ocultar uma vergonha de domínio público que toda a gente comentava na rua, propalava-a uma canção anónima que todo o país conhecia menos ele, até os papagaios cantavam nos pátios afastem-se mulheres que aí vem o general chorando verde com a mão no peito, olhem como vai que já nem pode com o seu poder, que está a governar adormecido, que tem uma ferida que não se lhe fecha, aprenderam-na os papagaios vadios de tanto a ouvirem cantar aos papagaios cativos, aprenderam-na os periquitos e as pegas e levaram-na em bandos até mais além dos confins do seu desmesurado reino de pesadelo, e em todos os céus da pátria se ouviu ao entardecer aquela voz unânime de multidões fugitivas que cantavam que aí vem o general dos meus amores deitando caca pela boca e deitando leis pela popa, uma canção sem fim a que toda a gente e até os papagaios acrescentavam estrofes para enganar os serviços de segurança do Estado que tentavam capturá-la, as patrulhas militares apetrechadas para a guerra rebentavam cancelas nos pátios e fuzilavam os papagaios subversivos nos galhos, deitavam punhados de periquitos vivos aos cães, declararam o estado de sítio, tentando extirpar a canção inimiga, para que ninguém descobrisse o que toda a gente sabia, que era ele que deslizava como um prófugo do entardecer pelas portas de serviço da casa presidencial, atravessava as cozinhas e desaparecia entre o fumo das bostas dos quartos particulares até amanhã às quatro, rainha, até todos os dias à mesma hora em que chegava a casa de Manuela Sárichez carregado de tantos presentes insólitos que tinha tido de apoderar-se das casas vizinhas e derrubar paredes divisórias para ter onde pô-los, de maneira que a sala original ficou convertida num armazém imenso e sombrio onde havia incontáveis relógios de todas as épocas, havia todo o tipo de gramofones, desde os primitivos de cilindro até aos de diafragma de espelho, havia inúmeras máquinas de coser de manivela, de pedal, a motor, quartos inteiros de galvanómetros, farmácias homeopáticas, caixas de música, aparelhos de ilusões de óptica, vitrinas de borboletas dessecadas, herbários asiáticos, laboratórios de fisioterapia e educação corporal, máquinas de astronomia, ortopedia e ciências naturais, e todo um mundo de bonecas com mecanismos ocultos e virtudes humanas, quartos fechados em que ninguém entrava nem sequer para varrer, porque as coisas ficavam onde as tinham posto quando as traziam, ninguém queria saber delas e muito menos Manuela Sárichez, pois não queria saber de nada deste mundo desde o sábado negro em que me sucedeu a desgraça de ser rainha, naquela tarde acabou-se o mundo para mim, os seus antigos pretendentes tinham morrido um após outro, fulminados por colapsos impunes e doenças inverosímeis, as suas amigas desapareciam sem deixar rasto, tinham-na levado sem lhe mexerem para um bairro de estranhos, estava só, vigiada nas suas intenções mais ínfimas, cativa de uma partida do destino na qual não tinha coragem para dizer que não nem tão-pouco tinha coragem suficiente para dizer que sim a um pretendente abominável que a perseguia com um amor de asilo, que a contemplava com uma espécie de estupor reverente, abanando-se com o chapéu branco, ensopado em suor, tão longe de si mesmo que ela perguntara a si própria se ele a via realmente ou se era apenas uma visão de espanto, tinha-o visto a titubear em plena luz, tinha-o visto mastigar os sumos de frutas, tinha-o visto cabecear de sono na poltrona de vime com o copo na mão quando o zumbido de cobre das cigarras tornava mais densa a penumbra da sala, tinha-o visto ressonar, cuidado, Excelência, disse-lhe, ele acordava sobressaltado murmurando que não, rainha, não tinha adormecido, estava só com os olhos fechados, dizia, sem se aperceber de que ela lhe tinha tirado o copo da mão para não lhe cair enquanto dormia, tinha-o entretido com astúcias subtis até à tarde incrível em que ele chegou a casa sufocando-se com a notícia de que hoje trago-te o maior presente do universo, um prodígio do céu que vai passar esta noite às onze zero seis, para que tu o veias, rainha, só para que tu o vejas, e era o cometa. Foi uma das nossas grandes datas de desilusão, pois desde havia tempo tinha-se divulgado uma notícia, como tantas outras, de que o horário da vida dele não estava submetido às normas do tempo humano, mas sim aos ciclos do cometa, que ele tinha sido concebido para o ver uma vez, mas que não havia de vê-lo segunda, apesar dos augúrios arrogantes dos seus aduladores, de maneira que tínhamos esperado como quem esperasse a data de nascer a noite secular de Novembro em que se prepararam as músicas de satisfação, os sinos de júbilo, os foguetes de festa que pela primeira vez num século não rebentavam para exaltar a sua glória, mas sim para esperar as onze batidas de metal das onze que haviam de assinalar o termo dos seus anos, para celebrar um acontecimento providencial que ele esperou no terraço da casa de Manuela Sárichez, sentado entre ela e a mãe, respirando com força para que não lhe sentissem as pressas do coração sob um céu hirto de maus presságios, aspirando pela primeira vez o hálito nocturno de Manuela Sárichez, a intensidade da sua intempérie, o seu ar livre, sentiu no horizonte os tambores de esconjuro que saíam ao encontro do desastre, escutou lamentos longínquos, os rumores de lodo vulcânico das multidões que se prosternavam de terror ante uma criatura alheia ao seu poder que tinha precedido e havia de transcender os anos da sua idade, sentiu o peso do tempo, padeceu por um instante a desdita de ser mortal, e viu-o então, ali está, disse, e ali estava, porque ele conhecia-o, tinha-o visto quando passara para o outro lado do universo, era ele mesmo, rainha, mais antigo do que o mundo, a dolorida medusa de lume do tamanho do céu que a cada palmo da trajectória regressava um milhão de anos à sua origem, ouviram o zumbido de flocos de papel de estanho, viram o seu rosto atribulado, os seus olhos inundados de lágrimas, o rasto de venenos gelados da sua cabeleira desgrenhada pelos ventos do espaço que ia deixando no mundo uma esteira de pó radiante de escombros siderais e amanheceres demorados por luas de alcatrão e cinzas de crateras de oceanos anteriores às origens do tempo da Terra, aí o tens, rainha, murmurou, olha bem para ele, que não voltaremos a vê-lo até daqui a um século, e ela persignou-se, aterrada, mais formosa do que nunca, sob o resplendor de fósforo do cometa e com a cabeça nevada pelo chuvisco ténue de escombros astrais e sedimentos celestes, e foi nessa altura que aconteceu, minha mãe Bendición Alvarado, aconteceu que Manuela Sárichez tinha visto no céu o abismo da eternidade e tentando agarrar-se à vida estendeu a mão no vazio e o único ponto de apoio que encontrou foi a mão indesejável com o anel presidencial, a sua morna e tersa mão de rapina cozinhada ao rescaldo do fogo lento do poder. Foram muito Poucos os que se comoveram com o transcurso bíblico da medusa de lume que espantou os veados do céu e fumigou a pátria com um rasto de pó radiante de escombros siderais, pois até os mais incrédulos estavam suspensos daquela morte descomunal que havia de destruir os princípios da cristandade e implantar as origens do Terceiro Testamento, esperámos em vão até ao amanhecer, regressámos a casa mais cansados de esperar do que de não dormir pelas ruas de fim de festa, onde as mulheres da madrugada varriam o lixo celeste dos resíduos do cometa, e nem sequer então nos resignávamos a acreditar que fora verdade que nada tinha acontecido, mas pelo contrário, pois os órgãos oficiais proclamaram a passagem do cometa como uma vitória do regime contra as forças do mal, aproveitou-se a ocasião para desmentir as suposições de doenças estranhas com actos inequívocos da vitalidade do homem do poder, renovaram-se as consignas, tornou-se pública uma mensagem solene em que ele tinha expressado a minha decisão única e soberana de que estarei no meu posto ao serviço da pátria quando o cometa voltar a passar, mas, em compensação, ele ouviu as músicas e os foguetes como se não fossem do seu regime, ouviu sem se comover o clamor da multidão concentrada na Plaza de Armas com grandes cartazes de glória eterna ao benemérito que há-de viver para o contar, não lhe importavam os obstáculos do Governo, delegava a sua autoridade em funcionários inferiores atormentado pela recordação da brasa da mão de Manuela Sárichez na sua mão, sonhando viver de novo aquele instante feliz, ainda que se torcesse o rumo da natureza e se estropiasse o universo, desejando-o com tanta intensidade que acabou por suplicar aos seus astrónomos que lhe inventassem um cometa de Pirotecnia, um luzeiro fugaz, um dragão de fogo, qualquer engenho sideral que fosse suficientemente aterrorizante para causar uma vertigem de eternidade a uma mulher formosa, mas a única coisa que conseguiram encontrar nos seus cálculos foi um eclipse total do Sol para quarta-feira da próxima semana, às quatro da tarde, meu general, e ele aceitou, muito bem, e foi uma noite tão verídica em pleno dia que se acenderam as estrelas, murcharam as flores, as galinhas recolheram-se e intimidaram-se os animais de melhor instinto premonitório, enquanto ele aspirava o hálito crepuscular de Manuela Sárichez, que se lhe ia tornando nocturno à medida que a rosa languidescia na sua mão devido ao engano das sombras, aí o tens, rainha, é o teu eclipse, mas Manuela Sárichez não respondeu, não lhe tocou a mão, não respirava, parecia tão irreal que ele não conseguiu suportar o seu anseio e estendeu a mão na escuridão para tocar a mão dela, mas não a encontrou, procurou-a com a polpa dos dedos no sítio onde tinha estado o cheiro dela, mas tão-pouco a encontrou, continuou a procurá-la com as duas mãos pela casa enorme, esbracejando com os olhos abertos de sonâmbulo nas trevas, perguntando a si mesmo, dolorido, onde estará Manuela Sárichez da minha desventura que te procuro e não te encontro na noite desventurada do teu eclipse, onde estará a tua mão inclemente, onde estará a tua rosa, nadava como um mergulhador extraviado num lago de águas invisíveis em cujos aposentos encontrava flutuando as lagostas pré-históricas dos galvanómetros, os caranguejos dos relógios de música, os lavagantes das tuas máquinas de artifícios ilusórios, mas, em compensação, não encontrava nem o hálito de alcaçuz da tua respiração, e à medida que se dissipavam as sombras da noite efémera ia-se-lhe acendendo na alma a luz da verdade e sentiu-se mais velho do que Deus na penumbra do amanhecer das seis da tarde da casa deserta, sentiu-se mais triste, mais só do que nunca na solidão eterna deste mundo sem ti, minha rainha, perdida para sempre no enigma do eclipse, para todo o sempre, porque nunca no resto dos longuíssimos anos do seu poder voltou a encontrar Manuela Sárichez da minha perdição no labirinto da sua casa, esfumou-se na noite do eclipse, meu general, diziam-lhe que a viram num baile deplenas (10) de Porto Rico, no sítio onde cortaram a Elena meu general, mas não era ela, que a viram na farra do velório do Papá Montero, zumba canalla rumbero (11) mas tão-pouco era ela, que a viram no tiquiquitaque de Barlovento sobre a mina, na cumbiamba (12) de Aracataca, no bonito vento do tamborito (13) do Panamá, mas nenhuma era ela, meu general, foi para o catano, e se nessa altura não se abandonara ao alvedrio da morte não tinha sido porque lhe faltasse raiva para morrer, mas porque sabia que estava condenado sem remédio a não morrer de amor, sabia-o desde uma tarde dos princípios do seu império, em que recorrera a uma pitonisa para lhe ler nas águas de um alguidar as chaves do destino que não estavam escritas na palma da mão, nem nas cartas, nem nas borras do café, nem em nenhum outro meio de averiguação, só naquele espelho de águas premonitórias em que se vira a si próprio morto de morte natural durante o sono do gabinete contíguo à sala de audiências, e vira-se caído de borco no chão como tinha dormido todas as noites da vida desde o nascimento, com o uniforme de cotim sem insígnias, as polainas, a espora de ouro, o braço direito dobrado debaixo da cabeça, para lhe servir de almofada, e numa idade indefinida entre os cento e sete e os duzentos e trinta e dois anos.

 

Assim o encontraram nas vésperas do seu outono, quando o cadáver era, na realidade, o de Patricio Aragonés, e assim voltámos a encontrá-lo muitos anos mais tarde numa época de tantas incertezas que ninguém podia render-se à evidência de que fosse seu aquele corpo senil carcomido pelos urubus e sujeito à praga de parasitas do fundo do mar. Na mão enchouriçada pela putrefacção não restava então nenhum indício de que tivesse estado alguma vez no peito devido aos desaires de uma donzela improvável dos tempos do ruído, nem tínhamos encontrado qualquer rasto da sua vida que pudesse conduzir-nos ao estabelecimento inequívoco da sua identidade. Não nos parecia insólito, claro está, que isto acontecesse nos nossos anos, se até nos seus de maior glória havia motivos para duvidar da sua existência, e se os seus próprios sicários careciam de uma noção exacta da idade dele, pois houve épocas de confusão em que parecia ter oitenta anos nas rifas de beneficência, sessenta nas audiências civis e até menos de quarenta nas celebrações das festas públicas. 0 embaixador Palmerston, um dos últimos diplomatas que lhe apresentaram cartas credenciais, contava nas suas memórias proibidas que era impossível conceber uma velhice tão avançada como a dele ou um estado de desordem e abandono como o daquela casa de Governo, em que chegou a ser preciso abrir caminho por entre uma esterqueira de papéis rasgados e caca de animais e restos de comida de cães adormecidos nos corredores, ninguém me deu razão de coisa nenhuma em tesourarias e gabinetes e tive de valer-me dos leprosos e dos paralíticos que já tinham invadido os primeiros quartos particulares e me indicaram o caminho da sala de audiências, onde as galinhas debicavam os trigais ilusórios das gobelinas e uma vaca rasgava, para comer, a tela do retrato de um arcebispo, e imediatamente me apercebi de que ele estava surdo como uma porta, não só porque lhe perguntava uma coisa e ele me respondia outra, mas também porque se lamentava de os pássaros não cantarem quando, na verdade, se tornava difícil respirar com aquela gritaria de pássaros, que era como atravessar um monte ao amanhecer, e ele interrompeu subitamente a cerimónia das cartas credenciais com o olhar lúcido e a mão em concha atrás da orelha apontando pela janela a planície de pó onde tinha estado o mar e dizendo com uma voz de acordar mortos que escute esse tropel de mulas que vem por ali, escute, meu caro Stetson, é o mar que regressa. Era difícil admitir que aquele ancião irreparável fosse o mesmo homem messiânico que nas origens do seu regime aparecia nas aldeias às horas mais inesperadas sem mais escolta do que um camponês descalço com uma cataria e um reduzido séquito de deputados e senadores que ele próprio designava com o dedo, segundo os impulsos da sua digestão, informava-se sobre o rendimento das colheitas e o estado de saúde e a conduta das pessoas, sentava-se numa cadeira de balouço de cipó à sombra dos troncos de mangueira da praça, abanando-se com um chapéu de capataz que usava nessa altura, e, embora parecesse adormentado pelo calor, não deixava por esclarecer um único pormenor de tudo aquilo de que conversava com os homens e mulheres que tinha convocado em seu redor, chamando-os pelos nomes e apelidos como se tivesse dentro da sua cabeça um registo escrito dos habitantes e dos números e dos problemas de toda a nação, de maneira que me chamou sem abrir os olhos, chega aqui Jacinta Morales, disse-me ele, conta-me o que é feito do rapazinho a quem ele próprio tinha ralhado no ano anterior para que tomasse um frasco de óleo de rícino, e tu, Juan Prieto, disse-me ele, como vai o teu touro de cobrição que ele próprio tinha tratado com orações de peste para que lhe caíssem os bichos das orelhas, e tu Matilde Peralta, vamos lá a ver o que é que me dás por te devolver inteiro o fugitivo do teu marido, aqui o tens, arrastado pelo pescoço com uma corda e advertido por ele em pessoa que havia de apodrecer no cepo de companhia da próxima vez que tentasse abandonar a esposa legítima, e com o mesmo sentido do governo imediato tinha ordenado a um magarefe que cortasse as mãos em espectáculo público a um tesoureiro pródigo, e arrancava os tomates de uma horta privada e comia-os com veleidades de bom conhecedor em presença dos seus agrónomos, dizendo que a esta terra falta-lhe muito cagalhão de burro macho, deitem-lho por conta do Governo, ordenava, e interrompeu o passeio cívico e gritou-me pela janela, rindo a bandeiras despregadas, olha a Lorenza López, como vai essa máquina de coser que ele me tinha oferecido havia dez anos, e eu respondi-lhe que já deu a alma ao Criador, senhor general, veja lá, as coisas e as pessoas não são feitas para durar toda a vida, mas ele replicou que, pelo contrário, o mundo é eterno, e então pôs-se a desarmar a máquina com uma chave de fendas e uma almotolia, indiferente à comitiva oficial que o esperava no meio da rua, às vezes notava-se-lhe o desespero nos ofegos de touro e besuntou-se até à cara corri óleo de motor, mas ao fim de quase três horas a máquina voltou a coser como nova, pois naquela época não havia uma contrariedade da vida quotidiana, por insignificante que fosse, que não tivesse para ele tanta importância como o mais grave dos assuntos de Estado e acreditava de boa-fé que era possível repartir a felicidade e subornar a morte com artimanhas de soldado. Era difícil admitir que aquele ancião irreparável fosse o único saldo de um homem cujo poder tinha sido tão grande que uma vez perguntara que horas são e tinham-lhe respondido as que o meu general ordenar, e era verdade, pois não só alterava os tempos do dia como melhor conviesse aos seus assuntos como mudava as festas de guarda de acordo com os seus planos para percorrer o país de feira em feira com a sombra do índio descalço e os senadores lutuosos e os cestos de galos esplêndidos que enfrentavam os mais bravos de cada praça, ele próprio reunia as apostas, fazia estremecer de riso o cimento da pista da luta de galos porque todos nos sentíamos obrigados a rir quando ele soltava as suas estranhas gargalhadas de caixa de rufo, que ressoavam por cima da música e dos foguetes, sofríamos quando estava calado, rebentávamos numa ovação de alívio quando os galos dele fulminavam os nossos, que tinham sido tão bem treinados para perder que nenhum nos deixou ficar mal, excepto o galo da desgraça de Dionisio Iguarári, que fulminou o cinzento do poder num assalto tão limpo e certeiro que ele foi o primeiro a atravessar a pista para apertar a mão do vencedor, és um valente, disse-lhe de boa mente, agradecido por alguém lhe ter feito enfim o favor de uma derrota inócua, quanto não daria eu por ter esse colorido, disse-lhe, e Dionisio Iguarári respondeu-lhe, trémulo, que é seu, senhor general, com muita honra, e regressou a casa por entre os aplausos da aldeia em alvoroço e a confusão da música e dos petardos, mostrando a toda a gente os seis galos de raça que ele lhe tinha oferecido em troca do colorido invicto, mas naquela noite fechou-se no quarto e bebeu sozinho uma cabaça de rum da cana e enforcou-se com a corda da rede de dormir, pobre homem, pois ele não tinha consciência do regueiro de desastres domésticos que as suas aparições de Júbilo provocavam, nem do rasto de mortos indesejados que deixava à passagem, nem da condenação eterna dos partidários em desgraça, aos quais chamara por um nome enganado diante de sicários solícitos, que interpretavam o erro como um sinal deliberado de desafecto, andava por todo o país com o seu estranho andar de tatu, como o seu rasto de suor bravo, com a barba atrasada, aparecia sem nenhum aviso numa cozinha qualquer com aquele ar de avô inútil que fazia as pessoas da casa tremerem de terror, bebia água da talha com a totuma (14) de servir, comia na própria panela de cozinhar, tirando a comida com os dedos, demasiado jovial, demasiado simples, sem suspeitar que aquela casa ficava marcada para sempre com o estigma da sua visita, e não se comportava daquela maneira por cálculo político nem por necessidade de amor, como sucedera noutros tempos, mas porque era essa a sua maneira de ser natural quando o poder não era ainda o lamaçal sem margens da plenitude do Outono, mas sim uma torrente de febre que víamos brotar diante dos olhos das suas nascentes primárias, de maneira que bastava ele apontar com o dedo as árvores que deviam dar frutos e os animais que deviam crescer e os homens que deviam prosperar, e tinha ordenado que tirassem a chuva de onde estorvava as colheitas e a pusessem em terra de sequeiro, e assim tinha sido, senhor, eu bem o vi, pois a sua lenda tinha começado muito antes de ele próprio se julgar dono de todo o seu poder, quando estava ainda à mercê dos presságios e dos intérpretes dos seus pesadelos, e interrompia de súbito uma viagem recém-iniciada porque ouvira piar a coruja sobre a cabeça e alterava a data de uma aparição em público porque a sua mãe Bendición Alvarado encontrara um ovo com duas gemas, e liquidou o séquito de senadores e deputados solícitos que o acompanhavam a toda a parte e pronunciavam por ele os discursos que nunca se atreveu a pronunciar, ficou sem eles porque se viu a si próprio na casa grande e vazia de um sonho mau circundado por uns homens pálidos de labitas cinzentas que o espicaçavam sorrindo com facas de carniceiro, acossavam-no com tal sanha que para qualquer lado que voltasse o olhar deparava com um ferro preparado para feri-lo na cara e nos olhos, viu-se encurralado como uma fera pelos assassinos silenciosos e sorridentes que disputavam entre si o privilégio de tomar parte no sacrifício e gozar no seu sangue, mas ele não sentia raiva nem medo, e sim um alívio imenso que se ia tornando mais fundo à medida que a vida se lhe esvaía, sentia-se ingrávido e puro, de maneira que ele também sorria enquanto o matavam, sorria por eles e por ele no recinto da casa de sonho, cujas paredes de cal viva se tingiam dos salpicos do meu sangue, até que alguém que era seu filho no sonho lhe deu um golpe na virilha, por onde se me escapou o único ar que me restava, e então tapou a cara com a manta empapada do seu sangue, para que nenhum dos que não tinham podido conhecê-lo vivo o conhecesse morto e caiu sacudido pelos estertores de uma agonia tão verídica que não pôde reprimir a urgência de contá-la ao meu compadre o ministro da Saúde e este acabou de o consternar com a revelação de que aquela morte tinha acontecido já uma vez na história dos homens, meu general, leu-lhe o relato do episódio num dos memoriais chamuscados do general Lautaro Mufloz, e era idêntico, mãe, tanto que no decurso da leitura recordou qualquer coisa que tinha esquecido ao acordar e era que, enquanto o matavam, se abriram de repente e sem vento todas as janelas da casa presidencial, que, na realidade, eram tantas quantas as feridas do sonho, vinte e três, uma coincidência aterrorizante que culminou naquela semana com um assalto de corsários ao Senado e ao Tribunal ante a indiferença cúmplice das forças armadas, arrancaram pelos alicerces a augusta casa dos nossos próceres primitivos, cujas chamas se viram até altas horas da noite da varanda presidencial, mas ele não se alterou com a novidade, meu general, de que nem sequer tinham deixado as pedras dos alicerces, prometeu-nos um castigo exemplar para os autores do atentado, que nunca apareceram, prometeu-nos reconstruir uma réplica exacta da casa dos próceres, cujos escombros calcinados permaneceram até aos nossos dias, nada fez para dissimular o terrível exorcismo do sonho mau e, pelo contrário, valeu-se da ocasião para liquidar o aparelho legislativo e judicial da velha República, asfixiou de honrarias e fortuna os senadores e deputados e magistrados judiciais que já não lhe eram necessários para salvar as aparências das origens do seu regime, desterrou-os para embaixadas felizes e remotas e ficou sem mais séquito do que a sombra solitária do índio da cataria, que não o abandonava um instante, provava-lhe a comida e a água, guardava a distância, vigiava a porta enquanto ele permanecia em minha casa, alimentando a versão de que era meu amante secreto, quando, na realidade, me visitava até duas vezes por mês para me consultar nas cartas durante aqueles muitos anos em que ainda se julgava mortal e tinha a virtude da dúvida e sabia enganar-se e confiava mais nos baralhos do que no seu instinto rústico, chegava sempre tão assustado e velho como da primeira vez que se sentou defronte de mim e sem dizer uma palavra me estendeu aquelas mãos cujas palmas lisas e tensas como a barriga de um sapo nunca tinha visto nem havia de ver outra vez na minha muito longa vida de perscrutadora de destinos alheios, pôs as duas ao mesmo tempo sobre a mesa, quase como a súplica muda de um desesperado, e pareceu-me tão ansioso e sem ilusões que não me impressionaram tanto as suas palmas das mãos áridas como a sua melancolia sem alívio, a debilidade dos lábios, o seu pobre coração de ancião carcomido pela incerteza, cujo destino não só era hermético nas mãos como em quantos meios de averiguação conhecíamos à data, pois assim que ele cortava o baralho as cartas tornavam-se poços de águas turvas, as borras do café no fundo da chávena por onde tinha bebido misturavam-se, esfumavam-se as chaves de tudo o que tivesse a ver com o seu futuro pessoal, com a sua felicidade e a fortuna dos seus actos, mas, em compensação, eram diáfanas sobre o destino de quem quer que tivesse alguma coisa a ver com ele, de maneira que vimos sua mãe Bendición Alvarado a pintar pássaros de nomes estrangeiros numa idade tão avançada que mal se podia distinguir as cores através de um ar rarefeito por uni vapor pestilencial, pobre mãe, vimos a nossa cidade devastada por um ciclone tão terrível que não merecia o seu nome de mulher, vimos um homem com uma máscara verde e uma espada na mão e ele perguntou angustiadamente em que lugar do mundo estava e as cartas responderam que todas as terças-feiras estava mais próximo dele do que nos outros dias da semana, e ele disse ali... sim?!... e perguntou de que cor são os olhos dele, e as cartas responderam que tinha um da cor da garapa a contraluz e o outro nas trevas, e ele disse ah... sim?!... e perguntou quais eram as intenções desse homem, e aquela foi a última vez que lhe revelei até ao fim a verdade das cartas, porque lhe respondi que a máscara verde era de perfídia e da traição, e ele disse ah... sim?!.... com uma ênfase de vitória, já sei quem é, catano, exclamou, e era o coronel Narciso Miraval, um dos seus ajudantes mais próximos, que dois dias depois disparou um tiro de pistola no ouvido sem qualquer explicação, pobre homem, e assim ordenavam a sorte da pátria e se antecipavam à sua história de acordo com as adivinhações das cartas, até que ele ouviu falar de uma vidente única que decifrava a morte nas águas inequívocas dos alguidares e foi procurá-la em segredo por desfiladeiros de mulas, sem mais testemunhas além do anjo da cataria, até ao rancho do páramo onde vivia com uma bisneta que tinha três crianças e estava prestes a parir outra de um marido morto no mês anterior, encontrou-a tolhida e meio cega no fundo de uma alcova quase às escuras, mas, quando ela lhe pediu que pusesse as mãos em cima do alguidar, as águas iluminaram-se de uma claridade interior suave e nítida, e então viu-se a si próprio, idêntico, deitado de borco no chão, corri o uniforme de cotim sem insígnias, as polainas e a espora de ouro, e perguntou que lugar era aquele, e a mulher respondeu, examinando as águas adormecidas, que era um quarto não maior do que este, com qualquer coisa que se vê aqui que parece uma escrivaninha e uma ventoinha eléctrica e uma janela para o mar e estas paredes brancas com quadros de cavalos e uma bandeira com um dragão, e ele voltou a dizer ah... sim?!.... porque tinha reconhecido sem margem para dúvidas o gabinete contíguo à sala de audiências, e perguntou se havia de ser de má maneira ou de doença má, e ela respondeu que não, que havia de ser durante o sono e sem dor, e ele disse ah... sim?!!... e perguntou-lhe, tremendo, quando havia de ser e ela respondeu-lhe que dormisse com calma, porque não havia de ser antes de fazeres a minha idade, que eram cento e sete anos, mas também não depois de mais de cento e vinte e cinco anos, e ele disse ah... sim?!..., e então assassinou a velha doente na rede para que ninguém mais conhecesse as circunstâncias da sua morte, estrangulou-a com a correia da espora de ouro, sem dor, sem um suspiro, como um verdugo mestre, apesar de ter sido o único ser deste mundo, humano ou animal, a quem concedeu a honra de matar pelas próprias mãos, quer na paz quer na guerra, pobre mulher. Semelhantes evocações dos seus fastos de infarma não lhe remordiam na consciência nas noites do Outono, pelo contrário, serviam-lhe de fábulas exemplares do que deveria ter sido e não era, sobretudo quando Manuela Sárichez se esfumou nas sombras do eclipse e ele queria sentir-se outra vez na flor da sua barbárie para arrancar de si a raiva da partida que lhe fermentava nas tripas, deitava-se na rede sob os cascavéis do vento dos tamarindos a pensar em Manuela Sárichez com um rancor que lhe perturbava o sono enquanto as forças de terra, mar e ar a procuravam sem achar rastos até aos confins ignotos dos desertos de salitre, onde catano te meteste, interrogava-se, onde catano pensas enfiar-te que o meu braço não te alcance para ficares a saber quem é que manda, o chapéu no peito tremia-lhe com os ímpetos do coração, ficava extasiado de cólera sem atender à insistência da mãe que tentava averiguar porque é que não falas desde a tarde do eclipse, porque é que olhas para dentro, mas ele não lhe respondia, foi-se embora, merda, mãe, arrastava as patas de órfão sangrando gotas de fel com o orgulho ferido pela amargura irredimível de que estas porcarias acontecem-me por me ter transformado no pateta que sou, por já não ser o árbitro do meu destino, como era dantes, por ter entrado na casa de uma gaja com autorização da mãe, e não como tinha entrado na fazenda fresca e silenciosa de Francisca Linero, no arrabalde dos Santos Higuerones, quando ainda era ele em pessoa, e não Patricio Aragonés, quem mostrava a cara visível do poder, tinha entrado sem sequer bater às aldrabas, obedecendo aos caprichos da sua vontade ao compasso do bater das onze no relógio de pêndulo, e eu senti o metal da espora de ouro desde o terraço do pátio e compreendi que aqueles passos de mão de pilão com tanta autoridade nos ladrilhos do pavimento não podiam ser outros senão os dele pressenti-o de corpo inteiro antes de o ver aparecer no vão da porta do terraço interior onde o alcaravão cantava as onze entre os gerânios de ouro, cantava o verdilhão aturdido pela acetona fragrante dos cachos de bananas pendurados no beiral, brilhava a luz da aziaga terça-feira de Agosto entre as folhas novas dos bananais do pátio e o corpo do veado jovem que o meu marido Poncio Daza tinha caçado ao amanhecer e pusera a escorrer o sangue pendurado pelas patas junto aos cachos de bananas tigradas pelo mel interior, vi-o, maior e mais sombrio do que num sonho, com as botas sujas de lama e o casaco de caqui ensopado de suor e sem armas no cinto, mas amparado pela sombra do índio descalço, que permaneceu imóvel atrás dele com a mão apoiada no cabo da cataria, vi os olhos iniludíveis, a mão de donzela adormecida que arrancou uma banana do cacho mais próximo e a comeu com ansiedade e a seguir comeu outra e mais outra, mastigando-as de ansiedade com um barulho de pântano de toda a boca sem afastar a vista da provocativa Francisca Linero, que o olhava sem saber o que fazer, com o seu pudor de recém-casada, porque ele tinha vindo para satisfazer a sua vontade e não havia outro poder maior que o dele para impedi-lo, mal senti a respiração de medo do meu marido, que se sentou ao meu lado, e ambos permanecendo imóveis com as mãos dadas e os dois corações de postal ilustrado assustados em uníssono sob o olhar tenaz do ancião insondável, que continuava a dois passos da porta comendo uma banana atrás de outra e atirando as cascas para o pátio por cima do ombro, sem ter pestanejado uma única vez desde que começou a olhar para mim, e só quando acabou de comer o cacho inteiro e ficou o rebento pelado junto do veado morto fez um sinal ao índio descalço e ordenou a Poncio Daza que fosse ali um momento com o meu compadre da faca, que tem de tratar de um assunto contigo, e, embora eu estivesse a morrer de medo, conservava lucidez suficiente para me aperceber de que o meu único recurso de salvação era deixá-lo fazer comigo tudo o que lhe apeteceu na mesa de comer, mais ainda, ajudei-o a encontrar-me entre as rendas das saias, após o que me deixou sem fôlego com o seu cheiro a amoníaco e rasgou-me as cuecas com um golpe de garras e procurava-me com os dedos no sítio onde não era enquanto eu pensava, aturdida, Santíssimo Sacramento, que vergonha, que pouca sorte, porque naquela manhã não tinha tido tempo de me lavar, por estar dependente do veado, de maneira que ele satisfez por fim a sua vontade ao cabo de tantos meses de assédio, mas fê-lo depressa e mal, como se fosse mais velho do que era, ou muito mais novo, estava tão aturdido que mal me dei conta quando cumpriu o seu dever como melhor pôde e desatou a chorar com umas lágrimas de urina quente de órfão grande e sozinho, chorando com uma aflição tão funda que não só senti pena dele como de todos os homens do mundo e comecei a coçar-lhe a cabeça com a polpa dos dedos e a consolá-lo, dizendo que não era caso para tanto, senhor general, a vida é longa, ao mesmo tempo que o homem da cataria levou Poncio Daza ao interior dos bananais e o retalhou em fatias tão finas que foi impossível recompor o corpo disperso pelos porcos, pobre homem, mas não havia outro remédio, disse ele, porque havia de ser um inimigo mortal para toda a vida. Eram imagens do seu poder que lhe chegavam de muito longe e lhe exacerbavam a amargura de quanto lhe tinham aguado a salmoura do poder, se nem sequer lhe servia para conjurar os malefícios de um eclipse, estremecia-o um fio de bílis preta na mesa de dominó ante o domínio gelado do general Rodrigo de Aguilar, que era o único homem de armas a quem tinha confiado a vida desde que o ácido úrico cristalizara as junturas do anjo da cataria, e, no entanto, perguntava a si próprio se tanta confiança e tanta autoridade delegadas numa só pessoa não teriam sido a causa da sua infelicidade, se não era o meu compadre de toda a vida quem o tinha transformado em boi para tentar tirar-lhe o coiro de caudilho de rua, a fim de o converter num inválido de palácio incapaz de conceber uma ordem que não estivesse cumprida de antemão, pelo invento mas são de mostrar em público uma cara que não era a sua, quando o índio descalço dos bons tempos chegava e sobrava, sozinho, para abrir caminho à catanada através das multidões gritando afastem-se, cabrões, que vem aqui o que manda, sem poder distinguir naquele matagal de ovações quem eram os bons patriotas e quem eram os matreiros, porque ainda não tínhamos descoberto que os mais tenebrosos eram os que mais gritavam viva o valente, porra, viva o general, e em compensação agora não lhe chegava a autoridade das suas armas para encontrar a rainha de má morte que tinha iludido o cerco infranqueável dos seus apetites senis, catano, arremessou as pedras ao chão, deixava as partidas a meio, sem motivo visível, deprimido pela revelação instantânea de que tudo acabava por encontrar o seu lugar no mundo, tudo menos ele, consciente pela primeira vez da camisa ensopada de suor ainda tão cedo, consciente do fedor de carniça que subia com os vapores do mar e do doce silvo de flauta da hérnia torcida pela humidade do calor, é o ar abafado, disse para consigo sem convicção, tentando decifrar da janela o invulgar estado da luz da cidade imóvel, cujos únicos seres vivos pareciam ser os bandos de urubus que fugiam espavoridos das cornijas do hospital de pobres e o cego da Plaza de Armas que pressentiu o ancião trémulo na janela da casa civil e lhe fez um sinal premente com a bengala e lhe gritava qualquer coisa que ele não conseguiu perceber e que interpretou como um símbolo mais naquele sentimento opressivo de que qualquer coisa estava prestes a acontecer, e, no entanto, repetiu para consigo, pela segunda vez, que não, no fim da longa segunda-feira de desalento, é o ar abafado, disse com os seus botões, e adormeceu rio mesmo instante, embalado pelas arranhadelas da chuva miudinha nos vidros de névoa dos filtros do dormitar, mas depressa acordou assustado, quem vive, gritou, era o seu próprio coração oprimido pelo silêncio estranho dos galos ao amanhecer, sentiu que o barco do universo tinha chegado a um porto enquanto dormia, flutuava num caldo de vapor, os animais da terra e do céu que tinham a faculdade de vislumbrar para além dos presságios toscos e das ciências mais bem fundamentadas dos homens estavam mudos de terror, acabou-se o ar, o tempo mudava de rumo, e ele sentiu ao soerguer-se que o coração se lhe dilatava a cada passo e que lhe estoiravam os tímpanos e escorreu-lhe uma matéria fervente pelas narinas, é a morte, pensou, com o dólman empapado de sangue, antes de tomar consciência de que não, meu general, era o ciclone, o mais devastador de quantos fragmentaram num rasto de ilhas dispersas o antigo reino compacto das Caraffias, uma catástrofe tão sigilosa que só ele a tinha detectado com o seu instinto premonitório muito antes de começar o pânico dos cães e das galinhas, e tão intempestiva que mal houve tempo de encontrar um nome de mulher na desordem de oficiais aterrorizados que me vieram com a novidade de que agora é que foi verdade, meu general, este país foi para o catano, mas ele ordenou que firmassem portas e janelas com tábuas de barcos, amarraram as sentinelas nos corredores, fecharam as galinhas e as vacas nos gabinetes do primeiro andar, pregaram cada coisa no seu lugar desde a Plaza de Armas até ao último limite do seu aterrorizado reino de pesadelo, a pátria inteira ficou ancorada no seu lugar, com a ordem inapelável de que ao primeiro sintoma de pânico disparem duas vezes para o ar e à terceira atirem a matar, e, contudo, nada resistiu à passagem do tremendo cutelo de ventos giratórios que cortou de um talho perfeito os portões de aço blindado da entrada principal e levou as minhas vacas pelos ares, mas ele não se apercebeu, no feitiço do impacte, de onde viera aquela confusão de chuvas horizontais que dispersavam no seu espaço uma saraivada vulcânica de escombros de varandas e animais das selvas do fundo do mar, nem teve suficiente lucidez para pensar nas proporções tremendas do cataclismo, andava, sim, no meio do dilúvio, a perguntar a si próprio, com o sabor de almíscar do rancor, onde estarás Manuela Sárichez da minha má saliva, catano, onde te terás metido, que este desastre da minha vingança te não alcance. Na estagnação de placidez que sucedeu ao furacão achou-se só com os seus ajudantes mais próximos, navegando numa barcaça a remos na sopa de destroços da sala de audiências, saíram pela porta da cocheira remando sem estorvos por entre os cabos das palmeiras e dos candeeiros arrasados da Plaza de Armas, entraram na lagoa morta da catedral e ele voltou a sofrer por um instante o lampejo clarividente de que não tinha sido nunca nem seria nunca dono de todo o seu poder, continuou mortificado pelo sereno daquela certeza amarga, enquanto a barcaça tropeçava com espaços de diferente densidade, segundo as mudanças da luz dos vitrais na folhagem de ouro maciço e os cachos de esmeraldas do altar-mor e as lajes funerárias de vice-reis enterrados vivos e arcebispos mortos de desencanto e o promontório de granito do mausoléu vazio do almirante do mar Oceano, com o perfil das três caravelas que ele tinha mandado construir para o caso de querer que os seus ossos repousassem entre os nossos, saímos pelo canal do presbitério até um pátio interior transformado num aquário luminoso, em cujo fundo de azulejos erravam os cardumes de percas entre as hastes de nardos e os girassóis, sulcámos os leitos tenebrosos da clausura do convento das biscainhas, vimos as celas abandonadas, vimos o clavicórdio à deriva na alverca íntima da sala de canto, vimos no fundo das águas adormecidas do refeitório a comunidade completa de virgens afogadas nos seus lugares de comer, em frente da longa mesa servida, e viu, ao sair pelas varandas, o extenso espaço lacustre sob o céu radioso onde tinha estado a cidade e só então acreditou que era correcta a novidade, meu general, de que este desastre tinha acontecido no mundo inteiro, só para me livrar do tormento de Manuela Sárichez, catano, que cruéis são os métodos de Deus comparados com os nossos, pensava, comprazido, contemplando o lodaçal turvo onde tinha estado a cidade e em cuja superfície sem limites flutuava todo um mundo de galinhas afogadas e não sobressaíam senão as torres da catedral, o foco do farol, os terraços de sol das mansões de cantaria do bairro dos vice-reis, as ilhas dispersas das colinas do antigo porto negreiro, onde estavam acampados os náufragos do furacão, os últimos sobreviventes incrédulos que contemplámos à passagem silenciosa da barcaça pintada com as cores da bandeira por entre os sargaços dos corpos inertes das galinhas, vimos os olhos tristes, os lábios melancólicos, a mão pensativa que fazia sinais da cruz de bênção para que as chuvas parassem e brilhasse o Sol, e devolveu a vida às galinhas afogadas, e ordenou que as águas baixassem e as águas baixaram. No meio dos sinos de júbilo, dos foguetes de festa, das músicas de glória, com que se celebrou a primeira pedra da reconstrução, e no meio dos gritos da multidão que se concentrou na Plaza de Armas para glorificar o benemérito que pôs em fuga o dragão do furacão, alguém o agarrou pelo braço para trazê-lo à varanda, pois agora, mais do que nunca, o povo precisa da sua palavra de alento, e, antes que pudesse evadir-se, sentiu o clamor unânime que lhe penetrou nas entranhas como um vento de mau mar, viva o valente, pois desde o primeiro dia do seu regime conheceu o desamparo de ser visto por toda uma cidade ao mesmo tempo, petrificaram-se-lhe as palavras, compreendeu, num lampejo de lucidez mortal, que não tinha ânimo nem nunca o teria para assomar de corpo inteiro ao abismo das multidões, de maneira que na Plaza de Armas só percebemos a imagem efémera de sempre, o fantasma de um ancião intangível vestido de cotim, que distribuiu uma bênção silenciosa da varanda presidencial e desapareceu imediatamente, mas aquela visão fugaz bastava-nos para sustentar a confiança de que ele estava ali, velando a nossa vigília e o nosso sonho sob os tamarindos históricos da mansão dos subúrbios, estava absorto na cadeira de balouço de vime, com o copo de limonada intacto na mão ouvindo o barulho dos grãos de milho que a sua mãe Bendición Alvarado arremessava com a colher de abóbora seca, vendo-a através da reverberação do calor das três quando agarrou numa galinha cinzenta e a meteu debaixo do braço e lhe torcia o pescoço com uma certa ternura, ao mesmo tempo que me dizia, com uma voz de mãe, olhando-me nos olhos, que estás a ficar tuberculoso de tanto pensar sem te alimentares bem, fica para comer esta noite, suplicou, procurando seduzi-lo com a tentação da galinha estrangulada que sustinha com ambas as mãos, para que não se lhe escapasse nos estertores da agonia, e ele disse que está bem, mãe, fico, ficava até ao anoitecer, com os olhos fechados na cadeira de balouço de vime, sem dormir, embalado pelo suave odor da galinha a cozer na panela, suspenso do curso das nossas vidas, pois a única coisa que nos dava segurança sobre a terra era a certeza de que ele estava ali, invulnerável à peste e ao ciclone, invulnerável à partida de Manuela Sárichez, invulnerável ao tempo, consagrado à felicidade messiânica de pensar para nós, sabendo que nós sabíamos que ele não havia de tomar por nós nenhuma determinação que não tivesse a nossa medida, pois ele não tinha sobrevivido a tudo pela sua coragem inconcebível nem pela sua infinita prudência, mas sim porque era o único de nós que conhecia o tamanho real do nosso destino, e até aí tinha chegado, mãe, tinha-se sentado a descansar no termo de uma árdua viagem na última pedra histórica da remota fronteira oriental, onde estavam esculpidos o nome e a data do último soldado morto em defesa da integridade da pátria, tinha visto a cidade lúgubre e glacial da nação contínua, vi a eterna chuva miudinha, a bruma matinal com cheiro a fuligem, os homens vestidos de cerimónia nos carros eléctricos, os enterros de linhagem nas carruagens góticas de percherões brancos com morriões de plumas, as crianças dormindo envolvidas em jornais no átrio da catedral, catano, que gente tão estranha, exclamou, parecem poetas, mas não eram, meu general, são os godos no poder, disseram-lhe, e tinha regressado daquela viagem exaltado pela revelação de que não há nada que se compare a este vento de goiabas podres e este fragor de mercado e este profundo sentimento de pesadelo ao entardecer desta pátria de miséria cujos limites não havia de transpor nunca, e não porque tivesse medo de mexer-se da cadeira em que estava sentado, segundo diziam os seus inimigos, mas porque um homem é como uma árvore do monte, mãe, como os animais do monte, que não saem da toca senão para comer, dizia, evocando com a lucidez mortal do sono ligeiro da sesta a soporífera quinta-feira de Agosto de havia tantos anos, em que se atrevera a confessar que conhecia os limites da sua ambição, tinha-o revelado a um guerreiro de outras terras e de outra época que recebera a sós na penumbra ardente do gabinete, era um jovem tímido, aturdido pela soberba e marcado desde sempre pelo estigma da solidão, que tinha permanecido imóvel à porta sem se decidir a franqueá-la, até que os olhos se lhe acostumaram à penumbra perfumada por um braseiro de glicínias no calor e conseguiu distingui-lo a ele sentado na poltrona giratória com o punho imóvel na mesa nua, tão quotidiano e descolorido que não tinha nada que ver com a sua imagem Pública, sem escolta e sem armas, com a camisa empapada por um suor de homem mortal e com folhas de salva coladas nas fontes, para a dor de cabeça, e só quando me convenci da verdade incrível de que aquele velho enferrujado era o mesmo ídolo da nossa meninice, a encarnação mais pura dos nossos sonhos de glória, só então entrou no gabinete e se apresentou pelo nome, falando com a voz clara e firme de quem espera ser reconhecido pelos seus actos, e ele apertou-me a mão com uma mão doce e miserável, uma mão de bispo, e prestou uma atenção espantada aos sonhos fabulosos do forasteiro, que queria armas e solidariedade para uma causa que é também a sua, Excelência, queria assistência logística e suporte político para uma guerra sem quartel que varresse de uma vez por todas com os regimes conservadores do Alasca até à Patagónia, e ele sentiu-se tão comovido com a sua veemência que lhe tinha perguntado porque é que andas nesta porcaria, catano, porque é que queres morrer, e o forasteiro tinha-lhe respondido, sem um vestígio de pudor, que não há glória mais elevada do que morrer pela pátria, Excelência, e ele replicou-lhe sorrindo de pena que não sejas pateta, rapaz, a pátria é estar vivo, é isto, disse, e abriu o punho que tinha apoiado na mesa e mostrou-lhe na palma da mão este berlindezinho que é qualquer coisa que se tem ou não se tem, mas que só tem quem o tem, rapaz, a pátria é isto, disse, ao mesmo tempo que o despedia com palmadinhas nas costas, sem dar-lhe nada, nem sequer o consolo de uma promessa, e ao ajudante de campo que lhe fechou a porta ordenou que não voltassem a perturbar esse homem que acaba de sair, nem sequer percam o tempo a vigiá-lo, disse, tem febre nos canhões, não presta. Não voltámos a ouvir-lhe aquela frase até depois do ciclone, quando promulgou uma nova amnistia para os presos políticos e autorizou o regresso de todos os desterrados, excepto os homens de letras, claro, esses, nunca, disse, têm febre nos canhões como os galos finos quando estão a emplumar, de maneira que não prestam para nada a não ser quando prestam para alguma coisa, disse, são piores do que os políticos, piores do que os padres, imaginem, mas que venham os restantes, sem distinção de cor, para que a reconstrução da pátria seja uma empresa de todos, para que ninguém deixasse de comprovar que ele era outra vez o dono de todo o seu poder, com o apoio feroz de umas forças armadas que tinham voltado a ser as de antigamente desde que ele repartira entre os membros do comando supremo os carregamentos de provisões e medicamentos e os materiais de assistência pública de auxílio externo, desde que as famílias dos seus ministros faziam domingos de praia nos hospitais desmontáveis e nas tendas de campanha da Cruz Vermelha, vendiam ao Ministério da Saúde os carregamentos de plasma sanguíneo, as toneladas de leite em pó que o Ministério da Saúde voltava a vender, pela segunda vez, aos hospitais dos pobres, os oficiais do estado-maior trocaram as suas ambições pelos contratos de obras públicas e os programas de reabilitação empreendidos com o empréstimo de emergência que o embaixador Warren concedeu a troco do direito de pesca sem limites dos navios do seu país nas nossas águas territoriais, ora que catano, só quem o tem é que o tem, dizia de si para si, lembrando-se do berlinde de cores que mostrara àquele pobre sonhador de quem nunca mais se soube nada, tão exaltado com a empresa da reconstrução de que se ocupava de viva voz e de corpo presente, até aos pormenores mais ínfimos, como nos tempos originais do poder, chapinhava nos pântanos das ruas com um chapéu e umas botas de caçador de patos, para que não se fizesse uma cidade diferente da que ele tinha concebido para sua glória nos seus sonhos de afogado solitário, ordenava aos engenheiros que tirem-me estas casas daqui e ponham-nas ali, onde não estorvem, e tiravam-nas, que aumentem dois metros a essa torre, para que se possam ver os barcos no mar alto, e aumentavam-na, que virem-me ao contrário o curso deste rio, e voltavam-no, sem um obstáculo, sem um vestígio de desalento, e andava tão aturdido com aquela restauração febril, tão absorto no seu empenho e tão desapercebido de outros assuntos menores do Estado que deu de caras com a real Idade quando um ajudante de campo distraído comentou para ele, por engano, o problema das crianças e ele perguntou, das nuvens, quais crianças, as crianças, meu general, mas quais, catano, porque até então tinham-lhe ocultado que o exército mantinha sob custódia secreta as crianças que tiravam os números da lotaria com medo de que contassem por que razão ganhava sempre o bilhete presidencial, aos pais que reclamavam responderam que não era verdade, enquanto concebiam uma resposta melhor, diziam-lhes que eram patranhas de apátridas, calúnias da oposição, e aos que se amotinaram defronte de um quartel rechaçaram-nos com cargas de morteiro e houve uma matança pública que também lhe tínhamos ocultado, para não o aborrecer, meu general, pois a verdade é que as crianças estavam encerradas nas criptas da fortaleza do porto, nas melhores condições, com um moral excelente e muito boa saúde, mas a chatice é que agora não sabemos o que lhes havemos de fazer, meu general, e eram para aí uns dois mil. 0 método infalível para ganhar a lotaria tinha-lhe ocorrido a ele sem procurar, observando os números embutidos das bolas de bilhar, e tinha sido uma ideia tão simples e deslumbrante que ele próprio não podia acreditar quando viu a multidão ansiosa que fazia transbordar a Plaza de Armas a partir do meio-dia, deitando as contas antecipadas ao milagre sob o sol abrasador, com clamores de gratidão e cartazes pintados de glória eterna ao magnânimo que distribui a felicidade, vieram músicos e acrobatas, tabernas e barracas de fritos, roletas anacrónicas e descoradas lotarias de animais, escombros de outros mundos e outros tempos que vadiavam nos contornos da fortuna, tentando medrar com as migalhas de tantas ilusões, abriram a varanda às três, mandaram subir três crianças com menos de sete anos, escolhidas ao acaso pela própria multidão, para que não houvesse dúvidas da honestidade do método, entregaram a cada criança um saco de cor diferente, depois de se verificar perante testemunhas qualificadas que havia dez bolas de bilhar numeradas de um a zero dentro de cada saco, atenção, senhoras e senhores, a multidão não respirava, cada menino com os olhos vendados vai tirar uma bola de cada saco, primeiro o menino do saco azul, depois o do vermelho e por último o do amarelo, um após outro os meninos metiam a mão no seu saco, sentiam no fundo nove bolas iguais e uma bola gelada, e, cumprindo a ordem que lhes tínhamos dado em segredo, retiravam a bola gelada, mostravam-na à multidão, cantavam-na, e assim tiravam as três bolas mantidas em gelo durante vários dias com os três números do bilhete que ele tinha reservado, mas nunca pensámos que as crianças podiam contar, meu general, tinha-nos ocorrido tão tarde que não tiveram outro recurso que escondê-los aos grupos de três, e depois aos grupos de cinco, e depois aos grupos de vinte, imagine, meu general, pois, puxando pelo fio à meada, ele acabou por descobrir que todos os oficiais do alto comando das forças de terra, mar e ar estavam implicados na pesca milagrosa da lotaria nacional, ficou a saber que as primeiras crianças subiram à varanda presidencial com a anuência dos pais e, inclusivamente, treinadas por eles na ciência ilusória de conhecer pelo tacto os números embutidos no marfim, mas que as seguintes foram obrigadas a subir pela força, porque tinha sido divulgado o rumor de que as crianças que subiam uma vez não voltavam a descer, os pais escondiam-nas, sepultavam-nas vivas enquanto passavam as patrulhas de assalto que as procuravam à meia-noite, as tropas de emergência não estabeleciam um cordão em torno da Plaza de Armas para canalizar o delírio público, como lhe diziam a ele, mas sim para manter em ordem as multidões que tocavam como récuas de gado com ameaças de morte, os diplomatas que tinham solicitado audiência para interceder no, conflito tropeçaram com o absurdo de que os próprios funcionários lhes davam como certas as lendas das suas doenças estranhas, que ele não podia recebê-los porque lhe tinham proliferado sapos na barriga, que não podia dormir senão de pé para não se ferir com as cristas de iguaria que lhe cresciam nas vértebras, tinham-lhe escondido as mensagens de protestos e súplicas do mundo inteiro, tinham-lhe ocultado um telegrama do Sumo Pontífice no qual expressava a nossa angústia apostólica pelo destino dos inocentes, não havia espaço nas prisões para mais padres rebeldes, meu general, não havia mais crianças para o sorteio de segunda-feira, catano, que sarilho em que nos metemos. Contudo, ele não mediu a verdadeira profundidade do abismo enquanto não viu as crianças atascadas como reses de matadouro no pátio interior da fortaleza do porto, viu-as sair das criptas numa disparada de cabras ofuscadas pelo deslumbramento solar, depois de tantos meses de terror nocturno, tresmalharam-se na luz, eram tantas ao mesmo tempo que ele não as viu como duas mil crianças separadas, mas sim como um imenso animal sem forma que exalava um cheirete impessoal de pele crestada do sol e fazia um rumor de águas profundas e cuja natureza múltipla o punha a salvo da destruição, porque não era possível acabar com semelhante quantidade de vida sem deixar um rasto de horror que havia de dar a volta à Terra, catano, não havia nada a fazer, e com aquela convicção reuniu o alto comando, catorze comandantes trémulos que nunca foram tão temíveis porque nunca estiveram tão assustados, passou o tempo que quis a perscrutar os olhos de cada um, um a um, e então compreendeu que estava sozinho contra todos, de maneira que permaneceu de cabeça erguida, endureceu a voz, exortou-os à unidade, agora mais do que nunca, pelo bom nome e pela honra das forças armadas, absolveu-os de toda a culpa com o punho cerrado em cima da mesa, para que não lhe conhecessem o tremor da incerteza, e ordenou-lhes, em consequência, que continuassem nos seus postos a cumprir as suas obrigações com tanto zelo e tanta autoridade como sempre tinham feito, porque a minha decisão superior e irrevogável é que aqui não aconteceu coisa nenhuma, suspende-se a sessão, eu tomo a responsabilidade. Como simples medida de precaução, tirou as crianças da fortaleza do porto e mandou-as em camionetas nocturnas para as regiões menos habitadas do país, enquanto ele enfrentava o temporal desencadeado pela declaração oficial de que não era verdade, não só não havia crianças em poder das autoridades como não restava um único preso de qualquer tipo nas prisões, a falsidade do sequestro em massa era uma infâmia de apátridas para perturbar os ânimos, as portas do país estão abertas para que se estabeleça a verdade, que venham procurá-la, e vieram, velo uma comissão da Sociedade das Nações, que removeu as pedras mais ocultas do país e interrogou como quis quem quis com tanta minúcia que Bendición Alvarado havia de perguntar quem eram aqueles intrusos vestidos de espiritistas que entraram em sua casa procurando duas mil crianças debaixo das camas, no cesto da costura, nos frascos de pincéis, e que no fim deram fé pública de que tinham encontrado as prisões fechadas, a pátria em paz, cada coisa no seu lugar, e não tinham descoberto nenhum indício para confirmar a suspeita pública de que se tivessem violado por intenções ou por actos por acção ou omissão os princípios dos direitos humanos, durma sossegado, senhor general, partiram, ele despediu-se deles à janela com um lenço de bainhas bordadas e com a sensação de alívio de alguma coisa que terminava para sempre, adeus, patetas, mar tranquilo e feliz viagem, suspirou, acabou-se a chatice mas o general Rodrigo de Aguilar lembrou-lhe que a chatice não se tinha acabado porque ainda há as crianças, meu general, e ele deu uma palmada na testa, catano, tinha-se esquecido completamente, que havemos de fazer das crianças. Tentando libertar-se daquele mau pensamento enquanto lhe ocorria uma fórmula drástica, tinha mandado tirar as crianças do esconderijo da selva e levaram-nas em sentido contrário para as províncias das chuvas perpétuas, onde não houvesse ventos inconfidentes que divulgassem as suas vozes, onde os animais da terra apodreciam a andar e cresciam lírios nas palavras e os polvos nadavam entre as árvores, tinha ordenado que as levassem para as grutas andinas das névoas perpétuas, para que ninguém soubesse onde estavam, que as mudassem dos turvos novembros de putrefacção para os fevereiros de dias horizontais, para que ninguém soubesse quando estavam, mandou-lhes drageias de quinino e mantas de lã quando soube que tiritavam de febres, porque estiveram dias e dias nos arrozais com lama até ao pescoço, para que os aviões da Cruz Vermelha não as descobrissem, tinha mandado tingir de cor a claridade do sol e o resplendor das estrelas para as curar da escarlatina, tinha-as mandado fumigar do ar com pós insecticidas para que o pulgão dos bananais não as comesse, mandava-lhes chuvas de caramelos e nevões de gelados dos aviões e pára-quedas carregados de brinquedos de Natal, para as ter satisfeitas enquanto não lhe ocorria uma solução Mágica, e assim se foi pondo a salvo do malefício da sua lembrança, esqueceu-as, submergiu-as no pântano desolado de incontáveis noites iguais das suas insónias domésticas, ouviu as batidas metálicas das nove, tirou as galinhas que dormiam nas cornijas da casa civil e levou-as para o galinheiro, não tinha acabado de contar os animais adormecidos nos andaimes quando entrou uma mulata de servir para recolher os ovos, sentiu a reverberação da sua idade, o rumor do espartilho, atirou-se para cima dela, tenha cuidado, senhor general, murmurou ela, tremendo, que se quebram os ovos, que se quebrem, ora que catano, disse ele, derrubou-a com um golpe de garras, sem despi-la nem despir-se, perturbado pelas ânsias de se escapar da glória impossível de agarrar desta terça-feira nevada de merdas verdes de animais adormecidos, resvalou, despenhou-se na vertigem ilusória de um precipício sulcado por franjas lívidas de evasão e eflúvios de suor e suspiros de mulher boa e enganosas ameaças de esquecimento, ia deixando na queda a curva do tilintar anelante da estrela fugaz da espora de ouro, o rasto de caliça. do seu ofegar de marido urgente, o seu chorozinho de cão, o seu terror de existir através do fulgor e do trovão silencioso da deflagração simultânea da centelha da morte, mas no fundo do precipício estavam outra vez os restolhos cagados, o sono insone das galinhas, a aflição da mulata que se endireitou com o vestido manchado do melaço amarelo das gemas, lamentando-se que está a ver o que eu lhe dizia, senhor general, quebraram-se os ovos, e ele resmungou tentando domar a raiva de outro amor sem amor, toma nota de quantos eram, disse, desconto-tos no ordenado, foi-se embora, eram dez horas, examinou uma a uma as gengivas das vacas nos estábulos, viu uma das suas mulheres torcida com dores no chão da sua barraca e viu a parteira que lhe tirou das entranhas uma criança fumegante com o cordão umbilical enrolado ao pescoço, que nome lhe pomos, senhor general, o que lhes der na veneta, respondeu, eram onze horas, como todas as noites do seu regime contou as sentinelas, passou revista às fechaduras, tapou as gaiolas dos pássaros, apagou as luzes, era meia-noite, a pátria estava em paz, o mundo dormia, dirigiu-se para o quarto pela casa em trevas através das pás de luz dos amanheceres fugazes das voltas do farol, pendurou a lanterna de sair à pressa, correu as três aldrabas, os três ferrolhos, as três tranquetas, sentou-se na latrina portátil e, ao mesmo tempo que espremia a urina exígua, acariciava a criança inclemente do testículo herniado até que se lhe endireitou a torcedura, adormeceu-lhe na mão, a dor parou, mas regressou logo a seguir, com um relâmpago de pânico quando entrou pela janela uma rabanada de um vento de além dos confins dos desertos de salitre e espargiu pelo quarto a serradura de uma canção de multidões ternas que perguntavam por um cavaleiro que foi para a guerra, que suspiravam que dor, que desgosto, que subiram a uma torre para ver quem vinha que o viram voltar que já voltou, que bom, numa caixa de veludo, que dor, que pesar, e era um coro de vozes tão numerosas e distantes que ele teria adormecido com a ilusão de que eram as estrelas que estavam a cantar, mas soergueu-se iracundo, chega, catano, gritou, ou elas ou eu, gritou, e foram elas, pois antes do amanhecer ordenou que metessem as crianças numa barcaça carregada de cimento, levaram-nas a cantar até aos limites das águas territoriais, fizeram-nas voar com uma carga de dinamite, sem lhes dar tempo de sofrer, enquanto continuavam a cantar, e quando os três oficiais que executaram o crime se perfilaram diante dele com a novidade, meu general, de que a sua ordem tinha sido cumprida, promoveu-os dois postos e condecorou-os com a medalha de lealdade, mas a seguir mandou-os fuzilar sem honra, como a delinquentes comuns, porque há ordens que se podem dar mas não se podem cumprir, catano, pobres crianças. Experiências tão duras como essa confirmavam a sua muito antiga certeza de que o inimigo mais temível estava dentro do próprio na confiança do coração, que os próprios homens que ele armava e engrandecia para que sustentassem o seu regime acabavam cedo ou tarde por cuspir na mão que lhes dava de comer, ele aniquilava-os com um golpe de garras, ia buscar outros ao nada, promovia-os aos mais altos postos apontando-os com o dedo, segundo os impulsos da sua inspiração, tu a capitão, tu a coronel, tu a general, e todos os restantes a tenentes, que catano, via-os crescer dentro dos uniformes até rebentarem as costuras, perdia-os de vista, e um acaso como a descoberta de duas mil crianças sequestradas permitia-lhe descobrir que não era só um homem que lhe tinha falhado, mas sim todo o alto comando das forças armadas, que só me servem para aumentar o gasto de leite e na altura das complicações cagam no prato em que acabaram de comer, eu, que os pari a todos, catano, que os arranquei das minhas costelas, tinha conquistado para eles o respeito e o pão, e, no entanto, não tinha um instante de sossego tentando pôr-se a salvo da sua ambição, aos mais perigosos mantinha-os mais próximos para melhor os vigiar, aos menos audazes mandava-os para guarnições da fronteira, era por eles que tinha aceite a ocupação dos fuzileiros, mãe, e não para combater a febre-amarela, como tinha escrito o embaixador Thompson no comunicado oficial, nem para que o protegessem da inconformidade pública, como diziam os políticos desterrados, mas sim para que ensinassem os nossos militares a serem pessoas decentes, e assim foi, mãe, a cada um o que lhe pertence, eles ensinaram-nos a andar calçados, a limparem-se com papel, a usar preservativos, foram eles que me ensinaram o segredo de manter serviços paralelos para fomentar rivalidades de distracção entre a tropa, inventaram-me o gabinete de segurança do Estado, a agência-geral de investigação, o departamento nacional de ordem pública e tantas outras porcarias que nem eu mesmo me lembrava, organismos iguais que ele fazia aparecer como diferentes para reinar com maior sossego no meio da tempestade, fazendo crer a uns que eram vigiados pelos outros, revolvendo-lhes com areia de praia a pólvora dos quartéis e emaranhando a verdade das suas intenções com simulacros da verdade contrária, e, no entanto, faziam levantamentos, ele irrompia nos quartéis mastigando espumaradas de bílis, gritando que afastem-se, cabrões, que vem aqui quem manda, ante o espanto dos oficiais, que faziam provas de pontaria com os meus retratos, que os desarmem ordenou, sem se deter, mas com tanta autoridade de raiva na voz que eles próprios se desarmaram, que tirem essa roupa de homens, e tiraram-na, revoltou-se a base de San Jerónimo, meu general, ele entrou pela porta principal arrastando as suas grandes patas de ancião dolorido através de uma fila dupla de guardas insurrectos que lhe prestaram honras de general comandante supremo, apareceu na sala do comando rebelde, sem escolta, sem uma arma, mas gritando com uma deflagração de poder que atirem-se para o chão de barriga para baixo que chegou aqui aquele que tudo pode, por terra, malparidos, dezanove oficiais de estado-maior atiraram-se para o chão, de barriga para baixo, passearam-nos comendo terra pelas aldeias do litoral, para que vejam o que vale um militar sem uniforme, filhos da puta, ouviu por cima dos outros gritos do quartel amotinado as suas próprias ordens inapeláveis de que fuzilem pelas costas os promotores da rebelião, exibiram os cadáveres pendurados pelos tornozelos de dia e de noite, para que ninguém ficasse sem saber como acabavam os que cospem em Deus, espertalhões, mas a chatice não se acabava com essas purgas sangrentas porque ao menor descuido voltava a deparar com a ameaça daquele parasita tentacular que julgava ter cortado pela raiz e que voltava a proliferar nos galernos do seu poder, à sombra dos privilégios forçosos e das migalhas de autoridade e da confiança de interesse que tinha de conceder aos oficiais mais bravos, ainda que contra vontade, porque lhe era impossível manter-se sem eles, mas também com eles, condenado para sempre a viver respirando o mesmo ar que o asfixiava, catano, não era justo, como tão-pouco era possível viver com o sobressalto perpétuo da pureza do meu compadre o general Rodrigo de Aguilar, que tinha entrado no meu gabinete com cara de morto, ansioso por saber o que aconteceu com aquela história das crianças do meu primeiro prémio, que toda a gente diz que as afogámos no mar, e ele disse, sem se alterar, que não acreditasse em mentiras de apátridas, compadre, as crianças estão a crescer na paz de Deus, disse-lhe, todas as noites as ouço cantar por aí, disse, apontando com um círculo amplo da mão um sítio indefinido do universo, e deixou o próprio embaixador Evans envolvido numa aura de incerteza quando lhe respondeu, impassível, que não sei de que crianças está a falar, se o próprio delegado do seu país junto da Sociedade das Nações tinha dado fé pública de que as crianças das escolas estavam completas e de saúde, catano, acabou-se essa porcaria, e, no entanto, não conseguiu impedir que o acordassem à meia-noite com a novidade, meu general, de que se tinham revoltado as duas maiores guarnições do país e, além disso, o quartel do Conde, a dois quarteirões da casa presidencial, uma insurreição das mais temíveis, encabeçada pelo general Bonivente Barboza, que se tinha entrincheirado com mil e quinhentos homens muito bem armados e bem abastecidos com equipamentos comprados de contrabando através de cônsules afectos aos políticos da oposição, de maneira que as coisas não estão para graças, meu general, agora é que vamos para o caraças. Noutra época aquela subversão vulcânica teria sido um estímulo para a sua paixão pelo risco, mas ele sabia, melhor do que ninguém, qual era o peso verdadeiro da sua idade, que mal lhe chegava a vontade para resistir aos estragos do seu mundo secreto, que nas noites de Inverno não conseguia dormir sem antes aplacar na concha da mão com um arrulho de ternura de dorme, minha jóia, o menino de assobios de dor do testículo herniado, que se lhe esgotavam os ânimos sentado na retrete, empurrando a alma gota a gota, como através de um filtro entorpecido pelos limos de tantas noites de urinar solitário, que se lhe descosiam as recordações, que não conseguia de ciência certa conhecer quem era quem, nem da parte de quem, à mercê de um destino iniludível naquela casa de desgosto que há tempo teria trocado por outra, longe daqui em qualquer cemitério de índios onde ninguém soubesse que tinha sido presidente único da pátria durante tantos e tão longos anos que nem ele próprio os tinha contado, e, no entanto, quando o general Rodrigo de Aguilar se ofereceu como mediador para negociar um compromisso decoroso com a subversão, não se encontrou com o ancião tonto que adormecia nas audiências, mas sim com o antigo carácter de bisonte, que, sem pensar um instante, respondeu que nem por sombras, que não se ia embora, conquanto não fosse questão de ir ou não ir embora, mas sim que toda a gente está contra nós, meu general, até a Igreja, mas ele disse que não, a Igreja está com quem manda, disse, os generais do alto comando reunidos desde havia quarenta e oito horas não tinham logrado chegar a acordo, não faz mal, disse ele, vais ver como se decidem quando souberem quem lhes paga mais, os dirigentes da oposição civil tinham mostrado, por fim, a cara e conspiravam em plena rua, melhor, disse ele, pendura um em cada candeeiro da Plaza de Armas, para que saibam quem é aquele que tudo pode, não há maneira, meu general, o povo está com eles, mentira, disse ele, o povo está comigo, de maneira que daqui não me tiram, a não ser morto, decidiu, esmurrando a mesa com a sua rude mão de donzela, como apenas fazia nas decisões finais, e adormeceu até à hora da ordenha, em que deparou com a sala de audiências convertida em esterqueira, pois os insurrectos do quartel do Conde tinham catapultado pedras que não deixaram um vidro intacto na galeria oriental e bolas de fogo que se enfiavam pelas janelas quebradas e mantiveram a população da casa em situação de pânico durante a noite inteira, se o meu general tivesse visto, não pregámos olho a correr de um lado para outro com mantas e baldes de água, para abafar os charcos de incêndio que se acendiam nos cantos mais inesperados, mas ele mal dava atenção, já lhes disse que não façam caso deles, dizia, arrastando as suas patas de túmulo pelos corredores de cinzas e farrapos de alcatifas e gobelinas chamuscadas, mas vão continuar, diziam-lhe, tinham mandado dizer que as bolas em chamas eram só um aviso, que depois viriam as explosões, meu general, mas ele atravessou o jardim sem dar ouvidos a ninguém, aspirou nas últimas sombras o rumor das rosas acabadas de nascer, a desordem dos galos no vento do mar, que fazemos, senhor general, já lhes disse que não façam caso deles, catano, e foi como todos os dias àquela hora vigiar a ordenha, de maneira que os insurrectos do quartel do Conde viram aparecer, como todos os dias àquela hora, a carroça de mulas com os seis tonéis de leite do estábulo presidencial, e ia na boleia o mesmo carroceiro de toda a vida com a mensagem oral de que aqui lhes manda este leite o meu general embora continuem a cuspir na mão que lhes dá de comer, gritou-o com tanta inocência que o general Bonivento Barboza deu ordem para que recebessem o leite com a condição de que antes o carroceiro o provasse, para terem a certeza de que não estava envenenado, e então abriram-se os portões de ferro e os mil e quinhentos rebeldes assomados às varandas interiores viram entrar a carroça até ao centro do pátio empedrado, viram a ordenança que subiu à boleia para dar o leite a provar ao carroceiro, viram-no destapar o primeiro tonel, viram-no a flutuar no remanso efémero de uma deflagração deslumbrante, e não viram mais nada pelos séculos dos séculos no calor vulcânico do lúgubre edifício de argamassa amarela no qual não houve nunca uma flor, cujos escombros ficaram suspensos um instante no ar pela explosão tremenda dos seis tonéis de dinamite. Pronto, suspirou ele na casa presidencial, estremecido pelo hálito sísmico que desbaratou quatro casas mais em redor do quartel e quebrou a cristalaria nupcial dos armários, mesmo extramuros da cidade, pronto, suspirou, quando as camionetas do lixo tiraram dos pátios da fortaleza do porto os cadáveres de dezoito oficiais, que foram fuzilados a dois e dois, para poupar munições, pronto, suspirou, quando o general Rodrigo de Aguilar se perfilou diante dele com a novidade, meu general, de que já não havia outra vez espaço nas prisões para presos políticos, pronto, suspirou, quando começaram os sinos de júbilo, os foguetes de festa, as músicas de glória que anunciaram o advento de outros cem anos de paz, pronto, catano, acabou-se esta porcaria, disse, e ficou tão convencido, tão descuidado de si próprio, tão negligente da sua segurança pessoal, que uma manhã atravessava o pátio de regresso da ordenha e falhou-lhe o instinto para ver a tempo o falso leproso que se ergueu de entre os roseirais para travar-lhe o passo na lenta chuva miudinha de Outubro e só viu demasiado tarde o brilho instantâneo do revólver azulado, o indicador trémulo que começou a apertar o gatilho, quando gritou, com os braços abertos, oferecendo-lhe o peito, atreve-te, cabrão, atreve-te, deslumbrado pelo espanto de ter chegado a sua hora contra as premonições mais lúcidas dos alguidares, dispara, se tens colhões, gritou, no instante imperceptível de vacilação em que se acendeu uma estrela lívida no céu dos olhos do agressor, murcharam-lhe os lábios, tremeu-lhe a vontade, e então ele descarregou-lhe os dois punhos de maço nos tímpanos, derrubou-o de um golpe, aturdiu-o, no chão com uma patada de mão de pilão na mandíbula, ouviu de outro mundo o alvoroço da guarda, que acorreu aos seus gritos, passou através da deflagração azul do trovão contíguo das cinco explosões do falso leproso retorcido num lago de sangue que tinha disparado no ventre as cinco balas do revólver, para que os temíveis interrogadores da guarda presidencial não o apanhassem vivo, ouviu por sobre os outros gritos da casa alvoroçada as suas próprias ordens inapeláveis de que esquartejassem o cadáver, para servir de aviso, retalharam-no todo, exibiram a cabeça macerada com sal de pedra na Plaza de Armas, a perna direita no confim oriental de Santa Maria del Altar, a esquerda no ocidente sem limite dos desertos de salitre, um braço nos páramos, o outro na selva, os pedaços do tronco fritos em banha de porco e expostos dia e noite até que ficaram no osso limpo a toda a largura e a todo o azarado e difícil deste bordel de pretos, para que ninguém ficasse sem saber como acabam os que levantavam a mão contra o seu pai, e, ainda verde de raiva, partiu por entre os roseirais que a guarda presidencial expurgava de leprosos à ponta de baioneta, para ver se finalmente mostram a cara, espertalhões, subiu ao andar principal afastando aos pontapés os paralíticos, para ver se finalmente aprendem quem foi que pôs as vossas mães a parir, filhos da puta, atravessou os corredores gritando que se afastem, catano, que vem aqui o que manda, por entre o pânico dos funcionários e dos aduladores impávidos, que o proclamavam o eterno, deixou ao longo da casa o rasto do sulco de pedras do seu ofegar de forno, desapareceu na sala de audiências como um relâmpago fugitivo em direcção aos aposentos particulares, entrou no quarto, fechou as três aldrabas, as três traquetas, os três ferrolhos, e tirou com a ponta dos dedos as calças que tinha vestidas, ensopadas de merda. Não conheceu um momento de descanso, farejando em redor para encontrar o inimigo oculto que tinha armado o falso leproso, pois sentia que era alguém ao alcance da sua mão, alguém tão próximo da sua vida que conhecia os esconderijos do seu mel de abelhas, que tinha olhos nas fechaduras e ouvidos nas paredes a toda a hora e em toda a parte, como os meus retratos, uma presença volúvel que assobiava nos alísios de janeiro e o reconhecia do rescaldo dos jasmins nas noites de calor, que o perseguiu durante meses e meses no espanto das insónias arrastando as suas pavorosas patas de aparição pelos quartos mais ocultos da casa em trevas, até uma noite de dominó em que viu o presságio materializado numa mão pensativa que encerrou o jogo com o dobre de cinco, e foi como se uma voz interior lhe tivesse revelado que aquela mão era a mão da traição, catano, é este, disse para consigo, perplexo, e então ergueu a vista através do jorro de luz do candeeiro pendurado no centro da mesa e encontrou-se com os formosos olhos de artilheiro do meu compadre da alma, o general Rodrigo de Aguilar, que chatice, o seu braço forte, o seu cúmplice sagrado, não era possível, pensava, tanto mais dolorido quanto mais a fundo decifrava a urdidura das falsas verdades com que o tinham entretido durante tantos anos para ocultar a verdade brutal de que o meu compadre de toda a vida estava ao serviço dos políticos de fortuna que ele tinha tirado por conveniência das profundezas mais obscuras da guerra federal e tinha enriquecido e encandeado de privilégios fabulosos, tinha-se deixado usar por eles, tinha-lhes tolerado que se servissem dele para se envaidecerem até onde não sonhou a antiga aristocracia varrida pelo sopro irresistível da ventaneira liberal, e ainda queriam mais, catano, queriam o lugar de eleito de Deus, que ele tinha reservado para si, queriam ser eu, malparidos, com o caminho alumiado pela lucidez glacial e a prudência infinita do homem que mais confiança e mais autoridade tinha logrado acumular sob o seu regime, valendo-se da intimidade de ser a única pessoa de quem ele aceitava papéis para assinar, fazia-o ler em voz alta as ordens executivas e as leis ministeriais que só eu podia expedir, indicava-lhe as emendas, assinava com a polpa do polegar e punha debaixo do selo o anel que então guardava numa caixa-forte, cuja combinação ninguém além dele conhecia, à sua saúde, compadre, dizia-lhe sempre, ao entregar-lhe os papéis assinados, aqui tem para se limpar, dizia-lhe a rir, e era assim que o general Rodrigo de Aguilar tinha logrado estabelecer outro sistema de poder dentro do poder tão dilatado e frutuoso como o meu, e não satisfeito com isso tinha promovido na sombra a insurreição do quartel do Conde, com a cumplicidade e assistência sem reservas do embaixador Norton, o seu companha de putas holandesas, o seu mestre de esgrima, que tinha passado as munições de contrabando em barricas de bacalhau da Noruega, protegidas pela franquia diplomática, enquanto me embalsamava na mesa de dominó com as velas de incenso de que não havia governo mais amigo nem mais justo e exemplar do que o meu, e eram também eles que tinham posto o revólver na mão do falso leproso,)juntamente com estes cinquenta mil pesos cortados ao meio que encontrámos enterrados em casa do agressor, e cujas restantes metades lhe seriam entregues depois do crime pelo meu próprio compadre de toda a vida, mãe, veja lá que porcaria tão triste, e, no entanto, não se resignavam ao fracasso, pelo contrário, tinham acabado por conceber o golpe perfeito sem derramar uma gota de sangue, nem sequer do seu, meu general, pois o general Rodrigo de Aguilar tinha acumulado testemunhos do maior crédito de que eu passava a noite sem dormir a conversar com as floreiras e com os óleos dos bispos e dos próceres na casa em trevas, que punha o termómetro às vacas e lhes dava a comer fenacetina, para lhes baixar a febre, que tinha mandado construir um túmulo de honra para um almirante do mar Oceano, que não existia a não ser na minha imaginação febril, quando eu próprio vi com estes olhos misericordiosos as três caravelas fundeadas defronte da minha janela, que tinha desbaratado os fundos públicos no vício irreprimível de comprar aparelhos de engenho e até tinha querido que os astrónomos perturbassem o sistema solar para comprazer uma rainha de beleza que só tinha existido nas visões do seu delírio, e que num ataque de demência senil tinha mandado meter duas mil crianças numa barcaça carregada de cimento, que foi dinamitada no mar, imagine o senhor, que filhos da puta, e era com base naqueles testemunhos solenes que o general Rodrigo de Aguilar e o estado-maior das guardas presidenciais em bloco tinham decidido interná-lo no asilo de anciãos ilustres dos despenhadeiros à meia-noite do primeiro de Março próximo, durante o jantar anual do Santo Angel Custódio, patrono dos guarda-costas, ou seja, dentro de três dias, meu general, imagine, mas, apesar da iminência e do tamanho da conspiração, ele não fez nenhum gesto que pudesse suscitar a suspeita de que tinha descoberto, pelo contrário, à hora prevista recebeu como todos os anos os convidados da sua guarda pessoal e fê-los sentar à mesa do banquete a tomar aperitivos, enquanto não chegava o general Rodrigo de Aguilar para fazer o brinde de honra, conversou com eles, riu com eles, um após outro, em distracções furtivas, os oficiais olhavam para os relógios, levavam-nos ao ouvido, davam-lhes corda, era meia-noite menos cinco, mas o general Rodrigo de Aguilar não chegava, havia um calor de caldeira de barco perfumado de flores, cheirava a gladíolos e a túlipas, cheirava a rosas vivas na sala fechada, alguém abriu uma janela, respirámos, olhámos para os relógios, sentimos uma rajada ténue do mar com um cheiro de guisado fresco de comida de grandes ocasiões, todos suavam menos ele, todos padecemos o ar abafado do instante sob o lume intacto do animal vetusto que pestanejava com os olhos abertos num espaço próprio reservado noutra época do mundo, à vossa saúde, disse, a mão inapelável de lírio lânguido voltou a levantar o copo com que tinha brindado toda a noite sem beber, ouviram-se os ruídos viscerais dos mecanismos dos relógios no silêncio de um abismo final, era meia-noite, mas o general Rodrigo de Aguilar não chegava, alguém tentou levantar-se, com licença, disse, ele petrificou-o com o olhar mortal de que ninguém se mexa, ninguém respire, ninguém viva sem a minha autorização até que acabaram de soar as doze badaladas, e então abriram-se as cortinas e entrou o egrégio general de divisão Rodrigo de Aguilar numa bandeja de prata, deitado a todo o comprimento sobre uma guarnição de couve-flor e louro, macerado em especiarias, corado ao forno, enfeitado com o uniforme de cinco amêndoas de ouro das ocasiões solenes e os cordões do valor sem limites na manga do antebraço, catorze libras de medalhas no peito e um raminho de salsa na boca, pronto para ser servido num banquete de camaradas pelos cortadores oficiais ante a petrificação de horror dos convidados, que presenciámos sem respirar a requintada cerimónia do esquartejamento e da distribuição, e quando houve em cada prato uma dose igual de ministro da Defesa com recheio de pinhões e ervas aromáticas, ele deu a ordem de começar, bom proveito, meus senhores.

 

Tinha torneado tantos escolhos de desordens telúricas, tantos eclipses aziagos, tantas bolas de fogo no céu, que parecia impossível que alguém do nosso tempo confiasse ainda em prognósticos de baralhos de cartas referentes ao seu destino. No entanto, enquanto prosseguiam os trâmites para compor e embalsamar o corpo, até os menos cândidos esperávamos, sem o confessar, o cumprimento de predições antigas, como que no dia da sua morte o lodo dos lamaçais havia de regressar pelos seus afluentes até às nascentes, que havia de chover sangue, que as galinhas poriam ovos pentagonais, que o silêncio e a escuridão voltariam a estabelecer-se no universo, porque aquele havia de ser o fim da criação. Era impossível não acreditar nisso, quando os poucos jornais que ainda se publicavam continuavam consagrados a proclamar a sua eternidade e a falsificar o seu esplendor com material de arquivo, mostravam-no-lo diariamente no tempo estático do primeiro plano, com o uniforme tenaz de cinco sóis tristes dos seus tempos de glória, com mais autoridade e diligência e melhor saúde do que nunca, apesar de que havia muitos anos que tínhamos perdido a conta dos anos dele, voltava a inaugurar nos retratos de sempre os monumentos conhecidos ou instalações de serviço público que ninguém conhecia na vida real, presidia a actos solenes que se diziam de ontem e que, na realidade, se tinham celebrado no século anterior, embora soubéssemos que não era verdade, que ninguém o tinha visto em público depois da morte atroz de Leticia Nazareno, quando ficou só naquela casa de ninguém ao mesmo tempo que os assuntos do Governo quotidiano continuavam a marchar sozinhos e só pela inércia do seu poder imenso de tantos anos, fechou-se até à morte no palácio desproporcionado, de cujas janelas mais altas contemplávamos, com o coração oprimido, o mesmo anoitecer lúgubre que ele devia ter visto tantas vezes do seu trono de ilusões, víamos a luz intermitente do farol que inundava com as suas águas verdes e lânguidas os salões em ruínas, víamos os candeeiros de pobres dentro da casca de ovo do que foram antigamente os recifes de vidros solares dos ministérios que tinham sido invadidos por hordas de pobres quando as barracas de cores das colinas do porto foram desbaratadas por outro dos nossos tantos ciclones, víamos em baixo a cidade dispersa e fumegante, o horizonte instantâneo de relâmpagos pálidos da cratera de cinza do mar vendido, a primeira noite sem ele, o seu vasto império lacustre de anémonas de paludismo, as suas aldeias de calor nos deltas dos afluentes de lodo, as ávidas cercas de arame das suas províncias privadas, onde proliferava, sem conta nem medida, uma espécie nova de vacas magníficas que nasciam com a marca hereditária do ferro presidencial. Não só tínhamos acabado por acreditar de verdade que ele estava concebido para sobreviver ao terceiro cometa, como essa convicção nos tinha infundido uma segurança e um sossego que julgávamos dissimular com todo o tipo de piadas sobre a velhice, atribuíamos-lhe a ele as virtudes senis das tartarugas e os hábitos dos elefantes, contávamos nas tabernas que alguém tinha anunciado ao conselho de Governo que ele tinha morrido e que todos os ministros se olharam assustados e perguntaram a si próprios, assustados, agora quem é que lhe vai dar a notícia a ele, ah, ah, ah, quando a verdade era que ele não se teria importado muito se o soubesse nem teria ficado muito certo de aquela piada de rua ser verdadeira ou falsa, pois nessa altura ninguém sabia senão ele que só lhe restavam nas frestas da memória uns quantos fiapos soltos dos vestígios do passado, estava só no mundo, surdo como uma porta, arrastando as suas densas patas decrépitas por gabinetes sombrios onde alguém de labita e colarinho de goma lhe tinha feito um sinal enigmático com um lenço branco, adeus, disse-lhe ele, o equívoco transformou-se em lei, os funcionários da casa presidencial tinham de pôr-se de pé com um lenço branco quando ele passava, as sentinelas nos corredores, os leprosos nos roseirais, despediam-se dele ao passar com um lenço branco, adeus, meu general, adeus, mas ele não ouvia, não ouvia nada desde os lutos crepusculares de Leticia Nazareno, quando pensava que estava a gastar-se a voz dos pássaros das gaiolas de tanto cantarem e dava-lhes de comer do seu próprio mel de abelhas, para que cantassem mais alto, deitava-lhes gotas de cantorina no bico, com uma pipeta, cantava-lhes canções de outra época, fálgida lua do mês de janeiro, cantava, pois não se apercebia de que não eram os pássaros que estavam a perder a força da voz, mas sim ele que ouvia cada vez menos, e uma noite o zumbido dos tímpanos quebrou-se em pedaços, acabou-se, ficou transformado num ar de argamassa por onde passavam a custo os lamentos de adeuses dos bosques ilusórios das trevas do poder, passavam ventos imaginários, algazarras de pássaros interiores que acabaram por consolá-lo do abismo do silêncio dos pássaros da realidade. As poucas pessoas que então tinham acesso à casa presidencial viam-no na cadeira de balouço de vime vencendo o ar abafado das duas da tarde sob o telheiro de trinitárias, tinha desabotoado o dólman, tinha tirado o sabre com o cinto das cores da pátria, tinha tirado as botas, mas deixava calçadas as meias de púrpura, das doze dúzias que lhe mandara o Sumo Pontífice, dos seus fabricantes privados, as meninas de um colégio vizinho que se encarrapitavam pelos taipais traseiros onde a guarda era menos rígida tinham-no surpreendido muitas vezes naquele torpor insone, com folhas medicinais coladas nas fontes, mosqueado pelos charcos de luz do telheiro num êxtase de rala de barriga para o ar no fundo de um lago, guanabano velho, gritavam-lhe, ele via-as distorcidas pela bruma da reverberação do calor, sorria-lhes, acenava-lhes com a mão sem a luva de cetim, mas não as ouvia, sentia o fedor do lodo de camarões da brisa do mar, sentia o debicar das galinhas nos dedos dos Pés, mas não sentia o trovão luminoso das cigarras, não ouvia as meninas, não ouvia nada. Os seus únicos contactos com a realidade deste mundo eram nessa altura uns quantos fiapos soltos das suas recordações mais importantes, só elas o mantiveram vivo depois de ter-se despojado dos assuntos do Governo e ficar a nadar no estado de inocência do limbo do poder, só com elas defrontava o sopro devastador dos seus anos excessivos, quando deambulava ao anoitecer pela casa deserta, escondia-se nos gabinetes apagados, arrancava as margens dos memoriais e neles escrevia com a sua letra floreada os resíduos sobrantes das últimas recordações que o preservavam da morte, uma noite tinha escrito que chamo-me Zacarias, tinha-o voltado a ler sob o resplendor fugitivo do farol, tinha-o, lido outra vez muitas vezes e o nome tantas vezes repetido acabou por parecer-lhe remoto e alheio, que catano, disse para consigo, fazendo a tira de papel em pedaços, eu sou eu, disse para consigo, e escreveu noutra tira que tinha feito cem anos lá para os tempos em que o cometa voltou a passar, embora então não tivesse a certeza de quantas vezes o tinha visto passar, e escreveu de memória noutra tira mais comprida honra ao ferido e honra aos fiéis soldados que morte encontraram por mão estrangeira, pois houve épocas em que escrevia tudo o que pensava, tudo o que sabia, escreveu num cartão e pregou-o com alfinetes na porta de uma retrete que era proibido fazer porcarias nas casas de banho, porque tinha aberto aquela porta por engano e tinha surpreendido um oficial de alta patente a masturbar-se de cócoras em cima da latrina, escrevia as poucas coisas que recordava para ficar seguro de nunca as esquecer, Leticia Nazareno, escrevia, minha única e legítima esposa, que o tinha ensinado a ler e escrever na plenitude da velhice, fazia esforços por evocar a sua imagem pública, queria voltar a vê-la com a sombrinha de tafetá com as cores da bandeira e a sua estola de rabos de raposa prateada de primeira dama, mas só conseguia recordá-la nua às duas da tarde, sob a luz de farinha do mosquiteiro, lembrava-se do lento repouso do teu corpo manso e lívido no zumbido da ventoinha eléctrica, sentia as tuas mamas vivas, o teu cheiro de cadela, o humor corrosivo das tuas mãos ferozes de noviça, que cortavam o leite e oxidavam o ouro e murchavam as flores, mas eram boas mãos para o amor, porque só ela tinha alcançado o triunfo inconcebível de que tires as botas, que me sujas os lençóis de cânhamo, e ele tirava-as, que tires as armaduras, que me magoas o coração com as fivelas, e ele tirava-as, que tires o sabre, e a funda, e as polainas, que dispas tudo, minha vida, que não te sinto, e ele despia-se todo para ti como nunca tinha feito antes nem havia de fazer nunca com nenhuma mulher, depois de Leticia Nazareno, meu único e legítimo amor, suspirava, escrevia os suspiros nas tiras de memoriais amarelentos, que enrolava como se fossem cigarros, para escondê-los nas fendas mais imprevisíveis da casa, onde só ele pudesse encontrá-los, para se lembrar de quem era ele próprio quando já não pudesse lembrar-se de nada, onde ninguém os encontrou nunca quando, inclusivamente, a imagem de Leticia Nazareno acabou de escorrer pelos escoadouros da memória e só ficou a recordação indestrutível da mãe Bendición Alvarado nas tardes de adeuses da mansão dos subúrbios, a sua mãe moribunda que chamava as galinhas fazendo soar os grãos de milho numa totuma, para que ele não se apercebesse de que estava a morrer, que continuava a levar-lhe os sumos de frutas à rede pendurada entre os tamarindos, para que ele não suspeitasse de que mal podia respirar de dores, a mãe que o tinha concebido sozinha, que o tinha parido sozinha, que andou a apodrecer sozinha até que o sofrimento solitário se lhe tornou tão intenso que foi mais forte do que o orgulho e teve de pedir ao filho que me vejas as costas para ver por que razão sinto este ardor de brasas que não me deixa viver, e tirou a camisola, voltou-se, e ele contemplou com um horror silente as costas maceradas pelas úlceras fumegantes, em cuja pestilência de polpa de goiaba rebentavam as borbulhas minúsculas das primeiras larvas dos vermes. Maus tempos aqueles, meu general, não havia segredos de Estado que não fossem do domínio público, não havia ordem que se cumprisse de ciência certa desde que foi servido em mesa de gala o cadáver requintado do general Rodrigo de Aguilar, mas a ele não lhe importava, não lhe importavam os obstáculos do poder durante os meses amargos em que a mãe apodreceu a fogo lento num quarto contíguo ao dele, depois de os médicos mais entendidos em flagelos asiáticos opinarem que a sua doença não era a peste, nem a sarna, nem o pian, (15) nem nenhuma outra praga do Oriente, mas sim algum malefício de índios que só podia ser curado por quem o tivesse infundido, e ele compreendeu que era a morte e fechou-se a cuidar da mãe com uma abnegação de mãe, fico a apodrecer com ela, para que ninguém a visse a cozinhar-se no seu caldo de larvas, ordenou que levassem as galinhas dela para a casa civil, levaram-lhe os pavões, os pássaros pintados, que andavam a seu bel-prazer por salões e gabinetes, para que a mãe não sentisse a falta das coisas campestres da mansão dos subúrbios, ele próprio queimava os troncos de urucueiro no quarto, para que ninguém se apercebesse do fedor de morte da mãe moribunda, ele próprio aliviava com cremes germicidas o corpo colorido de mercurocromo, amarelo do ácido pícrico, azul de metileno, ele próprio besuntava de bálsamos turcos as úlceras fumegantes, contra a opinião do ministro da Saúde, que tinha horror aos malefícios, que catano, mãe, se morrermos juntos, tanto melhor, dizia, mas Bendición Alvarado tinha consciência de que era a única que estava a morrer e tentava revelar ao filho os segredos de família que não queria levar para o túmulo, contava-lhe como deitaram a sua placenta aos porcos, senhor, como foi que nunca pôde estabelecer qual de tantos vagabundos foragidos tinha sido o teu pai, tentava dizer-lhe para a história que o tinha gerado de pé e sem tirar o chapéu, por causa do tormento das moscas metálicas das crostas de melaço fermentado do quarto das traseiras de uma taberna, tinha-o parido mal, num amanhecer de Agosto, no saguão de um mosteiro, tinha-o reconhecido à luz das harpas melancólicas dos gerâmos e tinha o testículo direito do tamanho de um figo e esvaziava-se como um fole e exalava um suspiro de gaita com a respiração, desembrulhava-o dos trapos que as noviças lhe ofereceram e mostrava-o nas praças de feira, para o caso de encontrar alguém que conhecesse algum remédio melhor, e sobretudo mais barato, que o mel de abelhas, que era a única coisa que lhe recomendavam para a sua malformação, entretinham-na com fórmulas de alívio, que não devemos antecipar-nos ao destino, diziam-lhe que, ao fim e ao cabo, o menino era bom para tudo menos para tocar instrumentos de sopro, diziam-lhe, e só uma adivinha de circo se deu conta de que o recém-nascido não tinha linhas na palma da mão e isso queria dizer que tinha nascido para rei, e assim era, mas ele não lhe dava atenção, suplicava-lhe que dormisse sem escarafunchar no passado, porque se lhe tornava mais cómodo acreditar que aqueles deslizes da história pátria eram delírios da febre, durma mãe, suplicava-lhe, cobria-a dos pés à cabeça com um lençol de linho dos muitos que tinha mandado fazer de encomenda, para não lhe magoar as chagas, punha-a a dormir de lado com a mão no coração, consolava-a dizendo-lhe que não se lembre de coisas tristes, mãe, seja como for, eu sou eu, durma descansada. Tinham sido inúteis as muitas e árduas diligências oficiais para aplacar o rumor público de que a matriarca da pátria estava a apodrecer em vida, divulgavam comunicados clínicos inventados, mas os próprios estafetas das proclamações confirmavam que era verdade o que elas desmentiam, que os vapores da corrupção eram tão intensos no quarto da moribunda que tinham enxotado os próprios leprosos, que degolavam carneiros para lhe dar banho em sangue fresco, que retiravam lençóis ensopados de uma matéria furta-cores que lhe fluía das chagas e, por muito que as lavassem, não conseguiam devolver-lhes o esplendor original, que ninguém tinha tornado a vê-lo a ele nos estábulos de ordenha nem nos quartos das concubinas, onde sempre o tinham visto ao amanhecer, mesmo nos piores tempos, o próprio arcebispo primaz se tinha oferecido para ministrar os últimos sacramentos à moribunda, mas ele tinha-o imobilizado à porta, ninguém está a morrer, padre, não acredite em boatos, disse-lhe, compartilhava a comida com a mãe no mesmo prato, com a mesma colher, apesar do ar de dispensário de peste que se respirava no quarto, dava-lhe banho antes de deitá-la, com o sabão do cão, agradecido ao mesmo tempo que o coração lhe parava de desgosto pelas instruções que ela dava com os últimos farrapos de voz sobre o cuidar dos animais depois da sua morte, que não tirassem as penas aos pavões para fazer chapéus, sim, mãe, respondia ele, e dava-lhe uma demão de creolina pelo corpo todo, que não obriguem os pássaros a cantarem nas festas, sim, mãe, e ele envolvia-a no lençol de dormir, que tirem as galinhas dos ninhos quando estiver a trovejar, para não chocarem basiliscos, sim, mãe, e deitava-a com a mão no coração, sim, mãe, durma descansada, beijava-a na testa, dormia as poucas horas que lhe restavam estirado de barriga para baixo, ao pé da cama, dependente do pairo do seu sono, dependente dos delírios intermináveis, que se iam tornando mais lúcidos à medida que se aproximavam da morte, aprendendo com as suas fúrias acumuladas de cada noite a suportar a fúria imensa da segunda-feira de dor em que foi acordado pelo silêncio terrível do mundo ao amanhecer e era que a sua mãe da minha vida Bendición Alvarado tinha deixado de respirar, e então desembrulhou o corpo nauseabundo e viu, no resplendor ténue dos primeiros alvores, que havia outro corpo idêntico com a mão no coração estampado de perfil no lençol, e viu que o corpo estampado não tinha gretas de peste nem estragos de velhice, mas, pelo contrário, era maciço e teso como se fosse pintado a óleo de ambos os lados do sudário e exalava uma fragrância natural de flores delicadas que purificou o ambiente de hospital do quarto e, por muito que o esfregassem com caliça e o fervessem em lixívia, não conseguiram apagá-lo do lençol, porque estava integrado pelo direito e pelo avesso na própria matéria do linho, e era linho eterno, mas ele não tinha tido serenidade para medir a dimensão daquele prodígio e, em vez disso, abandonou o quarto batendo com a porta com um fragor que soou como um disparo no interior da casa, e então começaram os sinos de luto na catedral e depois os de todas as igrejas e depois os de toda a nação, que dobraram sem pausa durante cem dias, e os que acordaram com os sinos compreenderam sem ilusões que ele era outra vez dono de todo o seu poder e que o enigma do seu coração oprimido pela raiva da morte se levantava com mais força do que nunca contra as veleidades da razão e da dignidade e da indulgência, porque a sua mãe da minha vida Bendición Alvarado tinha morrido naquela madrugada de segunda-feira vinte e três de Fevereiro e um novo século de confusão e de escândalo principiava no mundo. Nenhum de nós era suficientemente velho para dar testemunho daquela morte, mas o aparato dos funerais tinha chegado até ao nosso tempo e tínhamos notícias verídicas de que ele não voltou a ser o mesmo de antigamente durante o resto da vida, ninguém teve o direito de perturbar-lhe as insónias de órfão durante muito mais que os cem dias de luto oficial, ninguém o voltou a ver na casa de dor, cujos limites tinham transbordado pelas ressonâncias imensas dos sinos fúnebres, não se davam mais horas do que as do seu luto, falava-se com suspiros, a guarda doméstica andava descalça como nos anos originais do seu regime e só as galinhas puderam fazer o que quiseram na casa proibida, cujo monarca se tinha tornado invisível, sangrava de raiva na cadeira de balouço de vime enquanto a sua mãe da minha alma Bendición Alvarado andava por esses descampados de calor e miséria dentro de um caixão cheio de serradura e gelo picado para que não apodrecesse mais do que estivera em vida, pois tinham transportado o corpo em procissão solene até aos confins menos explorados do seu reino, para que ninguém ficasse sem o privilégio de honrar a sua memória, levaram-no com hinos de ventos de crespões escuros até às estações dos páramos, onde o receberam com as mesmas músicas lúgubres, as mesmas multidões taciturnas que noutros tempos de glória tinham vindo conhecer o poder oculto na penumbra do vagão presidencial, exibiram o corpo no mosteiro de caridade onde uma passarinheira nómada no princípio dos tempos tinha parido mal um filho de ninguém que chegou a ser rei, abriram os portões do santuário pela primeira vez num século, soldados a cavalo arrebanhavam magotes de índios nas aldeias, arriavam-nos sequestrados, metiam-nos à coronhada na vasta nave atormentada pelos sóis gelados dos vitrais, onde nove bispos de pontifical cantavam ofícios de trevas, dorme em paz na tua glória, cantavam os diáconos, os acólitos, descansa nas tuas cinzas, cantavam, lá fora chovia nos gerânios, as noviças distribuíram garapa com pães de defunto, venderam costeletas de porco, rosários, frascos de água benta, sob as arcadas de pedra dos pátios, havia música nas tabernas, havia pólvora, dançava-se nos saguões, era domingo, agora e sempre, eram anos de festa nos atalhos de prófugos e nos desfiladeiros de neve por onde a sua mãe da minha morte Bendición Alvarado tinha passado em vida perseguindo o filho entusiasmado com a veneta federal, pois ela tinha cuidado dele na guerra, tinha impedido que as mulas da tropa o espezinhassem quando ele caía por terra enrolado numa manta, sem sentidos, dizendo disparates por causa das febres terçãs, ela tinha tentado inculcar o seu medo ancestral dos perigos que espreitam a gente dos páramos nas cidades do mar tenebroso, tinha medo dos vice-reis, das estátuas, dos caranguejos que bebiam as lágrimas dos recém-nascidos, tinha tremido de pavor ante a majestade da casa do poder, que conheceu através da chuva na noite do assalto sem ter imaginado então que era a casa onde havia de morrer, a casa de solidão onde ele estava, onde perguntava a si próprio com o calor da raiva, estirado de barriga para baixo no chão, onde catano te meteste, mãe, em que confusão de mangais se terá enredado o teu corpo, quem te enxota as borboletas da cara, suspirava, prostrado de dor, enquanto a sua mãe Bendición Alvarado navegava sob um pálio de folhas de bananeira entre os vapores nauseabundos dos lodaçais para ser exibida nas escolas públicas dos confins da selva, nos quartéis dos desertos de salitre, nas cabanas de índios, mostravam-na nas casas principais, juntamente com um retrato de quando era nova, era lânguida, era bonita, tinha posto um diadema na testa, tinha posto uma gola de rendas contra vontade, tinha deixado porem-lhe pó de talco na cara e bâton nos lábios, dessa única vez, puseram-lhe uma túlipa de seda na mão, para que a mantivesse assim, assim não, minha senhora, assim, descuidada no regaço, quando o fotógrafo veneziano dos monarcas europeus lhe tirou o retrato oficial de primeira dama que mostravam juntamente com o cadáver como prova final contra qualquer suspeita de suplantação, e eram idênticos, porque nada se tinha deixado ao acaso, o corpo ia sendo reconstruído em diligências secretas à medida que o cosmético se lhe desfazia e a pele gretada de parafina se lhe derretia com o calor, tiravam-lhe o musgo das pestanas nas épocas de chuva, as costureiras militares mantinham o vestido de morta como se tivesse sido posto ontem e conservavam em estado de graça a coroa de flor de laranjeira e o véu de noiva virgem que nunca teve em vida, para que ninguém neste bordel de idólatras se atrevesse a repetir alguma vez que és diferente do retrato, mãe, para que ninguém esqueça quem é que manda pelos séculos dos séculos até nos casarios mais indigentes dos médãos da selva, onde ao cabo de tantos anos de esquecimento viram voltar à meia-noite o vetusto barco fluvial de roda de madeira com todas as luzes acesas e o receberam com tambores pascais, julgando que tinham voltado os tempos de glória, viva o valente, gritavam, bendito o que vem em nome da verdade, gritavam, deitavam-se à água com os tatus nutridos, com uma ahuyama do tamanho de um boi, encarrapitavam-se na balaustrada de embutidos de madeira, para prestar tributos de submissão ao poder invisível cujos dados decidiam a sorte da pátria e ficavam sem fôlego ante o catafalco de gelo picado e sal de pedra repetido nos espelhos atónitos da sala de jantar presidencial, exposto ao juízo público sob os ventiladores de pás do arcaico barco de recreio que andou meses e meses por entre as ilhas efémeras dos afluentes equatoriais, até que se extraviou numa idade de pesadelo em que as gardénias tinham o uso da razão e as iguarias voavam nas trevas, o mundo acabou, a roda de madeira encalhou em areias de ouro, quebrou-se, fundiu o gelo, corrompeu-se o sal, o corpo tumefacto ficou a flutuar ao sabor da corrente numa sopa de serradura, e, no entanto, não apodreceu, mas muito pelo contrário, meu general, pois nessa altura vimo-la abrir os olhos e vimos que as suas pupilas eram diáfanas e tinham a cor do acónito em janeiro e a sua mesma virtude de pedra lunar, e até os mais incrédulos tínhamos visto embaciar-se a tampa de vidro do catafalco com o vapor do seu hálito e tínhamos visto que dos seus poros emanava um suor vivo e fragante, e vimo-la sorrir. 0 meu general não pode imaginar como aquilo foi, foi o descalabro, vimos parir as mulas, vimos crescerem flores no salitre, vimos os surdo-mudos aturdidos pelo prodígio dos seus próprios gritos de milagre, milagre, fizeram o vidro do ataúde em pó, meu general, e por pouco não retalharam o cadáver para repartirem as relíquias, de maneira que tivemos de recorrer a um batalhão de granadeiros contra o fervor das multidões frenéticas que estavam a chegar em tumulto da sementeira de ilhas das Caraíbas, cativadas pela notícia de que a alma da sua mãe Bendición Alvarado tinha obtido de Deus a faculdade de contrariar as leis da natureza, vendiam fios da mortalha, vendiam escapulários, águas das costas dela, estampazinhas com o seu retrato de rainha, mas era uma turbamulta tão descomunal e aturdida que mais parecia uma torrente de bois indómitos cujos cascos devastavam tudo o que encontravam na passagem e faziam um estrondo de tremor de terra que até o meu general pode ouvir daqui, se escutar com atenção, ora ouça, ele pôs a mão em concha atrás do ouvido que lhe zumbia menos, e então ouviu, minha mãe Bendición Alvarado, ouviu o trovão sem fim, viu o lodaçal em ebulição da vasta multidão dilatada até ao horizonte do mar, viu a torrente de velas acesas que arrastavam outro dia mais radioso dentro da claridade radiosa do meio-dia, pois a sua mãe da minha alma, Bendición Alvarado, regressava à cidade dos seus antigos terrores como tinha chegado da primeira vez, com a marabunta da guerra, com o cheiro a carne crua da guerra, mas liberta para sempre dos riscos do mundo, porque ele tinha mandado arrancar das cartilhas das escolas as páginas sobre os vice-reis, para que não existissem na história, tinha proibido as estátuas que te perturbassem o sono, mãe, de maneira que agora regressava sem os seus medos congénitos aos ombros de uma multidão de paz, regressava sem ataúde, a céu aberto, num ar vedado às borboletas, esmagada pelo peso do ouro dos ex-votos que lhe tinham pendurado na viagem interminável desde os confins da selva através do seu vasto e convulso reino de pesadelo, escondida sob o montão de muletazinhas de ouro que lhe penduravam os paralíticos curados, das estrelas de ouro dos náufragos, dos meninos de ouro das estéreis incrédulas que tinham tido de parir de emergência atrás das moitas, como na guerra, meu general, navegando à garra no centro da torrente arrasadora da mudança bíblica de toda uma nação que não encontrava onde pôr as suas baterias de cozinha, os seus animais, os restos de uma vida sem mais esperanças de redenção do que as mesmas orações secretas que Bendición Alvarado rezava durante os combates para desviar a rota das balas que disparavam contra o filho, como ele tinha vindo no tumulto da guerra com um trapo de cor na cabeça a gritar nos intervalos dos delírios das febres viva o Partido Liberal, catano, viva o federalismo triunfante, godos de merda, embora arrastado, na realidade, pela curiosidade atávica de conhecer o mar, só que a multidão de miséria que tinha invadido a cidade com o corpo da sua mãe era muito mais turbulenta e frenética que quantas devastaram o país na aventura da guerra federal, mais voraz que a marabunta mais terrível que o pânico, a mais tremenda que os meus olhos tinham visto em todos os dias dos inumeráveis anos do seu poder, o mundo inteiro, meu general, olhe, que maravilha. Convencido pela evidência, saiu por fim das brumas do seu luto, saiu pálido, duro, com um fumo negro no braço, resolvido a utilizar todos os recursos da sua autoridade para conseguir a canonização de sua mãe Bendición Alvarado com base nas provas esmagadoras das suas virtudes de santa, mandou a Roma os seus ministros letrados, voltou a convidar o núncio apostólico para tomar chocolate com biscoitos nos poços de luz do telheiro de trinitárias, recebeu-o em família, ele deitado na rede, sem camisa, a abanar-se com o chapéu branco, e o núncio sentado defronte dele, com a chávena de chocolate ardente, imune ao calor e ao pó, dentro da aragem de alfazema da sotaina dominical, imune ao desalento do trópico, imune às cagadelas dos pássaros da mãe morta que voavam à solta nos poços de água solar do telheiro, bebia em goles medidos o chocolate de baunilha, mastigava os biscoitos com um pudor de noiva, tentando demorar o veneno iniludível do último sorvo, rígido na poltrona de vime que ele não concedia a ninguém, só a si, padre, como naquelas tardes cor de malva dos tempos de glória em que outro núncio velho e cândido tentava convertê-lo à fé de Cristo, com adivinhações escolásticas de Tomás de Aquino, só que agora sou eu que o chamo a si para o converter, padre, as voltas que o mundo dá, porque creio, embora na verdade não acreditasse em nada deste mundo nem de nenhum outro, excepto em que a sua mãe da minha vida tinha direito à glória dos altares pelos méritos próprios da sua vocação de sacrifício e da sua modéstia exemplar, tanto que ele não baseava a sua solicitação nos espaventos públicos de que a Estrela Polar se movia no sentido do cortejo fúnebre e os instrumentos de cordas tocavam sozinhos dentro dos armários quando sentiam passar o cadáver, mas baseava-a, sim, na virtude deste lençol que desdobrou a todo o pano no esplendor de Agosto, para que o núncio visse o que, com efeito, viu impresso na textura do linho, viu a imagem da sua mãe Bendición Alvarado sem vestígios de velhice nem estragos da peste deitada de perfil com a mão no coração, sentiu nos dedos a humidade do suor eterno, aspirou a fragrância de flores vivas no meio do escândalo dos pássaros alvoroçados pelo sopro do prodígio, está a ver que maravilha, padre, dizia ele, mostrando o lençol do direito e do avesso, até os pássaros a conhecem, mas o núncio estava absorto no tecido com uma atenção incisiva que tinha sido capaz de descobrir impurezas de cinza vulcânica na matéria trabalhada pelos grandes mestres da cristandade, tinha conhecido as gretas de um carácter e até as dúvidas de uma fé pela intensidade de uma cor, tinha sofrido o êxtase da esfericidade da Terra estendido de barriga para o ar sob a cúpula de uma capela solitária de uma cidade irreal, onde o tempo, em lugar de transcorrer, flutuava, até que conseguiu coragem para afastar os olhos do lençol ao cabo de uma contemplação profunda e declarou, com um tom doce mas irreparável, que o corpo estampado no linho não era um recurso da Divina Providência para nos dar mais uma prova da sua misericórdia infinita, nem isso nem pouco mais ou menos, Excelência, era a obra de um pintor muito destro nas boas e malas-artes que tinha abusado da grandeza de coração de Sua Excelência, porque aquilo não era óleo, mas sim tinta doméstica da mais indigna, betume de pintar janelas, Excelência, sob o aroma das resinas naturais que tinham dissolvido na tinta permanecia ainda o sereno bastardo da terebintina, permaneciam crostas de gesso, permanecia uma humidade persistente que não era o suor do último calafrio da morte, como lhe tinham feito acreditar a ele, mas sim a humidade de artifício do linho saturado de óleo de linhaça e escondido em lugares escuros, acredite que lamento muito, concluiu o núncio, com um pesar legítimo, mas não conseguiu dizer mais diante do ancião granítico que o observava da rede sem pestanejar, que o tinha ouvido do lodo dos seus lúgubres silêncios asiáticos sem sequer mexer a boca para contradizê-lo, apesar de ninguém melhor do que ele conhecer a verdade do prodígio secreto do lençol em que eu mesmo te envolvi com as minhas próprias mãos, mãe, eu assustei-me com o primeiro silêncio da tua morte, que foi como se o mundo tivesse amanhecido no fundo do mar, eu vi o milagre, catano, mas, apesar da sua certeza, não interrompeu o veredicto do núncio, apenas pestanejou duas vezes sem fechar os olhos, como as iguanas, apenas sorriu, está bem, padre, suspirou no fim, será como diz, mas a virtude que carrega com o peso das suas palavras, repito-lhe letra por letra para que não se esqueça disso durante toda a sua longa vida que o senhor carrega com o peso das suas palavras, padre, eu não me responsabilizo. 0 mundo permaneceu num torpor durante aquela semana de maus presságios em que ele não se levantou da rede nem para comer, enxotava com o leque os pássaros amestrados que lhe pousavam no corpo, enxotava as manchas de luz das trinitárias, pensando que eram pássaros amestrados, não recebeu ninguém, não deu uma ordem, mas a força pública manteve-se impassível quando as turbas de fanáticos a soldo assaltaram o Palácio da Nunciatura Apostólica, saquearam o museu de relíquias históricas, surpreenderam o núncio a fazer a sesta no remanso do jardim interior, arrastaram-no nu para a rua, cagaram-lhe em cima, meu general, imagine, mas ele não se mexeu da rede, nem sequer pestanejou quando lhe vieram com a novidade, meu general, de que andavam a passear o núncio num burro pelas ruas do comércio sob um aguaceiro de águas de lavar louça que despejavam das varandas, gritavam-lhe frei barrigana, Miss Vaticano, deixai vir a mim as criancinhas, e só quando o abandonaram meio morto na esterqueira do mercado público ele se soergueu na rede, afastando os pássaros às palmadas, apareceu na sala de audiências, afastando às palmadas as telas de aranha do luto com o fumo negro no braço para que pusessem o núncio numa jangada de náufrago com provisões para três dias e o deixassem ao sabor das correntes na rota dos cruzeiros da Europa, para que toda a gente saiba como acabam os forasteiros que levantam a mão contra a majestade da pátria, e que até o papa aprenda, a partir de agora e para sempre, que poderá ser muito papa em Roma com o anel no dedo na poltrona de ouro, mas que aqui eu sou aquele que sou, catano, sotainas de merda. Foi um recurso eficaz, pois antes do fim do ano instaurou-se o processo de canonização da sua mãe Bendición Alvarado, cujo corpo incorrupto foi exposto à veneração pública na nave principal da basílica primaz, cantaram glória nos altares, anulou-se o estado de guerra que ele tinha proclamado contra a Santa Sé, viva a paz, gritavam as multidões na Plaza de Armas, viva Deus, gritavam, ao mesmo tempo que ele recebia em audiência solene o auditor da Sagrada Congregação do Rito e promotor e postulador da fé, Monsenhor Demetrio Aldous, conhecido como o Eritreu, a quem tinha sido encomendada a missão de esquadrinhar a vida de Bendición Alvarado até que não ficasse o menor rasto de dúvida na evidência da sua santidade, até onde quiser, padre, disse-lhe ele, retendo-lhe a mão na sua, pois tinha experimentado uma confiança imediata naquele abissínio citrino que amava a vida sobre todas as coisas, comia ovos de iguaria, meu general, encantavam-no as lutas de galos, a lábia das mulatas, a cumbía, (16) como a nós, meu general, a mesma gaita, de maneira que as portas mais bem guardadas se abriram sem reservas por ordem sua para que o escrutínio do advogado do Diabo não encontrasse obstáculos de nenhuma índole, porque nada havia oculto como nada havia invisível no seu desmesurado reino de pesadelo que não fosse uma prova irrefutável de que a sua mãe da minha alma, Bendición, Alvarado, estava predestinada à glória dos altares, a pátria é sua, padre, aí a tem, e ali a teve, claro está, a tropa armada impôs a ordem no Palácio da Nunciatura Apostólica, defronte do qual permaneciam as filas incontáveis de leprosos curados que vieram mostrar a pele recém-nascida sobre as chagas, os antigos inválidos, vieram mostrar a fortuna os que tinham enriquecido na roleta porque Bendición Alvarado lhes revelava os números em sonhos, os que tiveram notícias dos seus desaparecidos, os que encontraram os seus afogados, os que nada tinham tido e agora tinham tudo, vieram, desfilaram sem parar pelo ardente gabinete decorado com os arcabuzes de matar canibais e as tartarugas pré-históricas de Sir Walter Raleigh, onde o Eritreu incansável ouvia todos sem perguntar, sem intervir, ensopado em suor, alheio à peste da humanidade em decomposição que se ia acumulando no gabinete de ar rarefeito pelo fumo dos seus cigarros, dos mais ordinários, tomava notas minuciosas das declarações das testemunhas e fazia-as assinar aqui, com o nome completo ou com uma cruz, ou como o meu general, com a ponta do dedo, fosse lá como fosse, mas assinavam, entrava o seguinte, era como o anterior, eu estava tuberculoso, padre, dizia, eu estava tuberculoso, escrevia o Eritreu, e agora ouça como canto, eu era impotente padre, e agora veja só como ando todo o dia, eu era impotente, escrevia com tinta indelével, para que a sua escrita rigorosa estivesse a salvo de emendas até ao termo da humanidade, eu tinha um animal vivo dentro da barriga, padre, eu tinha um animal vivo dentro da barriga, escrevia sem piedade, intoxicado de café amargo, envenenado do tabaco rançoso do cigarro que acendia com a beata do anterior, o peito aberto como um remador, meu general, que padre tão porreiro, sim senhor, dizia ele, muito porreiro, a cada um o que lhe pertence, trabalhando sem parar, sem comer nada, para não perder tempo, até noite bem dentro, mas nem então se entregava ao descanso, aparecendo, pelo contrário, acabado de tomar banho nas tabernas do molhe com a sotaina de algodão emendada com remendos quadrados, chegava morto de fome, sentava-se na comprida mesa de tábuas a compartilhar o cozido de bocachico (17) com os estivadores, esquartejava o peixe com os dedos, triturava até as espinhas com aqueles dentes luciferinos que tinham a sua própria luz na escuridão, bebia a sopa pela borda do prato, como os campónios, meu general, só queria que o visse, confundido com o turbilhão humano dos veleiros desastrados que zarpavam carregados de macacos-aranhas e banana verde, carregados de remessas de putas esverdeadas para os hotéis de vidro de Curaçao, para Guantánamo, padre, para Santiago de los Caballeros, que nem sequer tem mar para lá chegar, padre, para as ilhas mais belas e mais tristes do mundo, com as quais continuávamos a sonhar até aos primeiros resplendores da madrugada, padre, lembre-se de como ficávamos diferentes quando as escunas partiam, lembre-se do papagaio que adivinhava o futuro na casa da Matilde Arenales, dos caranguejos que saíam a andar dos pratos de sopa, do vento de tubarões, dos tambores remotos, da vida, padre, da cabrona da vida, rapazes, porque ele fala como nos, meu general, como se tivesse nascido no bairro de brigas de cães, jogava à bola na praia, aprendeu a tocar acordeão melhor do que os valentes natos, cantava melhor do que eles, aprendeu a língua floreada dos vaporínos e aldrabava-os em latim, embebedava-se com eles nos tugúrios de maricas do mercado, brigou com um deles porque falou mal de Deus, envolveram-se à trolha, meu general, que fazemos, ele ordenou que ninguém os separe, fizeram roda em torno deles, ganhou, ganhou o padre, meu general, eu já sabia, disse ele, satisfeito, é um valente, e menos frívolo do que toda a gente imaginava, pois naquelas noites turbulentas averiguou tantas verdades como nas jornadas esgotantes do Palácio da Nunciatura Apostólica, muito mais do que na tenebrosa mansão dos subúrbios, que tinha explorado sem autorização numa tarde de grandes chuvas, em que julgou iludir a vigilância insone dos serviços da segurança presidencial, esquadrinhou-a até ao último resquício, ensopado pela chuva interior das goteiras do telhado, apanhado pelos pântanos de malanga' e pelas camélias venenosas dos quartos de dormir esplêndidos que Bendición Alvarado abandonava à felicidade das criadas, porque era boa, padre, era humilde, punha-as a dormir em lençóis de percal enquanto ela dormia em cima da esteira nua num catre de quartel, deixava-as vestirem os seus vestidos de domingo de primeira dama, perfumavam-se com os seus sais de banho, retouçavam nuas com as ordenanças nas espumas de cor das banheiras de peltre com patas de leão, viviam como rainhas enquanto ela passava a vida a pintalgar pássaros, a cozinhar as suas papas de milho com legumes no fogareiro de lenha e a cultivar plantas medicinais para as emergências dos vizinhos, que a  acordavam à meia-noite com estou com um espasmo intestinal, minha senhora, e ela dava-lhes a mastigar sementes de mastruço, que o afilhado tem o olho torto, e ela dava-lhe um vermífugo de epazote, que estou a morrer, minha senhora, mas não morriam porque ela tinha a saúde nas mãos, era uma santa viva, padre, andava no seu próprio espaço de pureza naquela mansão de prazer onde tinha chovido impiedosamente desde que a levaram à força para a casa presidencial, chovia sobre os lotos do piano, sobre a mesa de alabastro da sala de jantar sumptuosa que Bendición Alvarado nunca utilizou, porque é como uma pessoa sentar-se a comer num altar, imagine, padre, que pressentimento de santa, mas, apesar dos testemunhos febris dos vizinhos, o advogado do Diabo encontrou mais vestígios de timidez do que de humildade entre os escombros, encontrou mais provas de pobreza de espírito do que de abnegação entre os Neptunos de ébano e os pedaços de demónios nativos e anjos militares que flutuavam no mangal das antigas salas de baile, e, em compensação, não encontrou o menor rasto desse outro Deus difícil, uno e trino, que o tinha mandado das ardentes planuras da Abissínia para procurar a verdade onde nunca tinha estado, porque não encontrou nada, meu general, mas o que se diz nada, que chatice. No entanto, Monsenhor Demetrio Aldous não se conformou com o escrutínio da cidade e pelo contrário trepou no lombo de uma mula pelos limbos glaciais do páramo, tentando encontrar as sementes da santidade de Bendición Alvarado onde a sua imagem não estivesse ainda pervertida pelo resplendor do poder, surgia de entre a névoa embrulhado numa manta de salteador e com umas botas de sete léguas como uma aparição satânica que ao princípio suscitava o medo e depois o espanto e por último a curiosidade dos forasteiros, que nunca tinham visto um ser humano daquela cor, mas o astuto Eritreu incitava-os a tocarem-lhe para os convencer de que não largava alcatrão, mostrava-lhes os dentes nas trevas, embebedava-se com eles comendo queijo à mão e bebendo chicha' da mesma totuma, para conquistar-lhes a confiança, nas tabernas lúgubres dos arredores, onde nos alvores de outros séculos tinham conhecido uma passarinheira de solenidade rebaixada pela carga de disparate das grades de pintos pintados de rouxinóis, tucanos de ouro, hocos disfarçados de pavões para enganar montanheses nos domingos fúnebres das feiras do páramo, sentava-se ali, padre, ao calor dos fogões, esperando que alguém lhe fizesse a caridade de ir para a cama com ela nos fiapos de melaço do quarto das traseiras da taberna, para comer, padre, apenas para comer, porque ninguém era tão rústico que lhe comprasse aqueles mamarrachos de pacotilha que desbotavam com as primeiras chuvas e se desfaziam ao andarem, só ela era tão cândida, padre, santa bendição dos pássaros, ou dos páramos, como se quiser, pois ninguém sabia de ciência certa qual era o seu nome de então nem quando começou a chamar-se Bendición Alvarado, que não devia ser o seu nome de origem, porque não é nome destas paragens, mas sim de gente do mar, que chatice, até isso tinha averiguado o escorregadio fiscal de Satanás, que tudo descobria e desenterrava, apesar dos sicários da segurança presidencial, que lhe enredavam o fio à meada da verdade e lhe punham obstáculos invisíveis, que acha, meu general, será preciso precipitá-lo num despenhadeiro, será preciso escorregar-lhe a mula, mas ele impediu-o, com a ordem pessoal de o vigiarem mas preservando a sua integridade física repito preservando integridade física permitindo absoluta liberdade todas facilidades cumprindo sua missão por mandato inapelável desta autoridade máxima obedeça-se cumpra-se, assinado, eu, e insistiu, eu mesmo, consciente de que com aquela determinação assumia o risco terrível de conhecer a imagem verídica de sua mãe Bendición Alvarado nos tempos proibidos em que ainda era nova, era lânguida, andava envolta em farrapos, descalça, e tinha de comer pelo baixo-ventre, mas era bela, padre, e era tão cândida que completava os papagaios mais baratos com caudas de galos finos, para os fazer passar por guacamaios, reparava galinhas inutilizadas com plumas de leques de pavão para as vender como aves-do-paraíso, ninguém acreditava, claro, ninguém caía por inocência nas trápulas da passarinheira solitária que sussurrava entre a névoa dos mercados dominicais vamos a ver quem disse um e leva-a grátis, pois toda a gente a recordava no páramo pela sua ingenuidade e pela sua pobreza, e, no entanto, parecia impossível demonstrar a sua identidade, porque nos arquivos do mosteiro onde a tinham baptizado não se encontrou a folha do registo de nascimento e, em compensação, encontraram-se três diferentes do filho e em todas era ele três vezes diferente, três vezes concebido em três ocasiões diferentes, três vezes malparido pela graça dos artífices da história pátria, que tinham enredado os fios da realidade para que ninguém pudesse decifrar o segredo da sua origem, o mistério oculto de que só o Eritreu conseguiu fazer o rastreio, afastando os numerosos enganos sobrepostos, pois tinha-o vislumbrado, meu general, tinha-o ao alcance da mão quando soou o disparo imenso que continuava a repercutir nos espinhaços cinzentos e nas azinhagas profundas da cordilheira e ouviu-se o interminável uivo da mula despenhada que ia caindo numa vertigem sem fundo desde o cume das neves perpétuas através dos climas sucessivos e instantâneos dos cromos de ciências naturais do precipício e o nascimento exíguo das grandes águas navegáveis e as cornijas escarpadas por onde os doutores sábios da expedição botânica trepavam no dorso de mulas e as mesetas de magnólias silvestres onde pastavam as ovelhas de lã escassa que nos proporcionavam sustento generoso e abrigo e bom exemplo e as mansões dos cafezais com as suas grinaldas de papel nas varandas solitárias e os seus doentes intermináveis e o fragor perpétuo dos rios turbulentos dos limites arcifinios onde começava o calor e havia ao entardecer umas rajadas pestilentas de morto velho, morto à traição, morto sozinho nas plantações de cacau de grandes folhas persistentes e flores encarnadas e frutos de bago cujas sementes se utilizavam como principal ingrediente do chocolate e o sol imóvel e o pó ardente e a cucurbíta pepo e a cucurbita melo (17) e as vacas magras e tristes do departamento do Atlântico na única escola de caridade a Duzentas léguas em redor e a exaltação da mula ainda viva que se estripou com uma explosão de guanábano suculento entre as matas de bananas e os frangos espantados do fim do abismo, catano, abateram-no no desfiladeiro, meu general, tinham-no caçado com uma espingarda de tigre no desfiladeiro da Ãnima Sola, apesar do amparo da minha autoridade, filhos da puta, apesar dos meus telegramas terminantes, catano, mas agora vão ficar a saber quem é quem, roncava, mastigava espuma de fel, não tanto pela raiva da desobediência como pela certeza de que alguma coisa grande lhe ocultavam para se terem atrevido a contrariar as centelhas do seu poder, vigiava o alento dos que o informavam porque sabia que só quem conhecesse a verdade teria coragem para lhe mentir, esquadrinhava as intenções secretas do comando supremo, para ver qual deles era o traidor, tu que eu tirei do nada, tu que eu pus a dormir numa cama de ouro depois de te ter encontrado por terra, tu a quem salvei a vida, tu que comprei por mais dinheiro do que qualquer outro, todos vocês, filhos de má mãe, pois só um deles podia atrever-se a desrespeitar um telegrama assinado com o meu nome e referendado com o lacre do anel do seu poder, de maneira que assumiu o comando pessoal da operação de recuperação com a ordem irrepetível de que num prazo máximo de quarenta e oito horas encontrem-no vivo e trazem-mo e se o encontrarem morto trazem-mo vivo e se não o encontrarem trazem-mo, uma ordem tão inequívoca e temível que antes do prazo previsto vieram-lhe com a novidade, meu general, de que o tinham encontrado nas moitas do precipício, com as feridas cauterizadas por flores de ouro dos frailejones, (18) mais vivo do que nós, meu general, são e salvo pela virtude da sua mãe Bendición Alvarado, que uma vez mais dava mostras da sua clemência e do seu poder na própria pessoa que tinha tentado manchar a sua memória, trouxeram-no para baixo por atalhos índios numa rede pendurada num pau com uma escolta de granadeiros e precedido por um aguazil a cavalo, que tocava uma campainha de missa de festa, para que toda a gente soubesse que isto é assunto daquele que manda, puseram-no no quarto de convidados de honra da casa presidencial, sob a responsabilidade imediata do ministro da Saúde, até que conseguiu pôr termo à terrível sindicância escrita por sua própria mão e referendada com as suas iniciais na margem direita de cada um dos trezentos e cinquenta fólios de cada um destes sete volumes, que assino com o meu nome e a minha rubrica e garanto com o meu selo aos catorze dias do mês de Abril deste ano da graça de Nosso Senhor, eu, Demetrio Aldous, auditor da Sagrada Congregação do Rito, postulador e promotor da Fé, por mandato da Constituição Imensa e para esplendor da justiça dos homens na Terra e maior glória de Deus nos Céus, afirmo e demonstro que esta é a única verdade, toda a verdade e nada mais do que a verdade, Excelência, aqui a tem. Ali estava, com efeito, cativa em sete bíblias lacradas, tão iniludível e brutal que só um homem imune aos feitiços da glória e alheio aos interesses do seu poder se atreveu a expor em carne viva perante o ancião impassível que o ouviu sem pestanejar abanando-se na cadeira de balouço de vime, que apenas suspirava depois de cada revelação mortal, que apenas dizia ah... sim?!... cada vez que via acender-se a luz da verdade, ah... sim?!.... repetia, enxotando com o chapéu as moscas de Abril alvoroçadas pelos restos do almoço, engolindo verdades inteiras, amargas, verdades como brasas que lhe ficavam a arder nas trevas do coração, pois tinha sido tudo uma farsa, Excelência, um aparato de farândola que ele próprio montara sem o propor quando decidira que o cadáver da sua mãe fosse exposto à veneração pública num catafalco de gelo muito antes que alguém pensasse nos méritos da tua santidade e só para desmentir a maledicência que estavas apodrecida antes de morrer, um engano de circo em que ele mesmo tinha incorrido sem saber a partir do momento em que lhe vieram com a novidade, meu general, de que a sua mãe Bendición Alvarado estava a fazer milagres e tinha ordenado que levassem o corpo em procissão magnífica até aos rincões mais ignotos do seu vasto país sem estátuas para que ninguém ficasse sem conhecer o prémio para as tuas virtudes depois de tanto amor sem graça, embora nunca me tivesse passado pela cabeça que aquela ordem se havia de converter na patranha dos falsos hidrópicos a quem pagavam para que perdessem a água em público, tinham pago duzentos pesos a um falso morto que saiu da sepultura e apareceu a caminhar de joelhos entre a multidão espantada, com o sudário em farrapos e a boca cheia de terra, tinham pago oitenta pesos a uma cigana que fingiu parir em plena rua um feto de duas cabeças como castigo por ter dito que os milagres eram um negócio do Governo, e lá isso eram, não havia uma única testemunha que não fosse paga a dinheiro, uma confabulação de ignomínia que, no entanto, não tinha sido tramada pelos seus aduladores com o propósito inocente de o satisfazer, como supôs Monsenhor Demetrio Aldous nos seus primeiros escrutínios, não, Excelência, era um sujo negócio dos seus prosélitos, o mais escandaloso e sacrílego de quantos tinham proliferado à sombra do seu poder, pois os que inventavam os milagres e compravam as testemunhas de mentiras eram os mesmos sequazes do seu regime que fabricavam e vendiam as relíquias do vestido de noiva morta da sua mãe Bendición Alvarado, ah... sim?!.... os mesmos que imprimiam as estampazinhas e cunhavam as medalhas com o seu retrato de rainha, ah... sim?! ... , os que tinham enriquecido com os anéis do cabelo, dela, ah  .. sim?!.... com os frasquinhos da água das suas costas, ah... sim?! .... com os sudários de diagonal onde pintavam com betume de portas o tenro corpo de donzela adormecida de perfil com a mão no coração e que eram vendidos à jarda nos quartos dos fundos dos bazares dos hindus, uma patranha descomunal sustentada na suposição de que o cadáver continuava incorrupto ante os olhos ávidos da multidão interminável que desfilava pela nave principal da catedral, quando a verdade era bem diferente, Excelência, era que o corpo de sua mãe não estava conservado pelas suas virtudes nem pelos remendos de parafina e pelos enganos de cosméticos que ele tinha decidido por simples soberba filial, mas sim que estava dessecado mediante as piores artes de taxidermia, tal como os animais póstumos dos museus de ciências, como ele comprovou com as minhas próprias mãos, mãe, destapei a urna de cristal cujos emblemas funerários se desfaziam com o hálito, tirei-te a coroa de flores de laranjeira do crânio bolorento cujos duros cabelos de crinas de poldra tinham sido arrancados pela raiz fibra por fibra, para serem vendidos como relíquias, tirei-te de entre os filamentos de revertidos farrapos de noiva e os resíduos áridos e os entardeceres difíceis do salitre da morte e mal pesavas mais que uma cabaça ao sol e tinhas um cheiro antigo de fundo de baú e sentia-se dentro de ti um desassossego febril que parecia o rumor da tua alma e eram as tesouradas das traças que te carcomeram por dentro, os teus membros desfaziam-se sozinhos quando quis suster-te nos braços porque te tinham esvaziado as entranhas de tudo o que susteve o teu corpo vivo de mãe feliz adormecida com a mão no coração e tinham-te voltado a encher com trapos de maneira que não restava de quanto foi teu mais do que uma casca de folhados poeirentos que se esmigalhou assim que a levantei no ar fosforescente dos pirilampos dos teus ossos e mal se ouviu o ruído de saltos de pulga dos olhos de vidro nas lajes da igreja crepuscular, transformou-se em nada, era um sulco de escombros de mãe demolida que os aguazis recolheram do chão com uma pá para o deitar outra vez de qualquer maneira dentro do caixão diante da impavidez monolítica do sátrapa indecifrável cujos olhos de iguaria não deixaram transparecer a menor emoção nem sequer quando ficou a sós na berlinda sem insígnias com o único homem deste mundo que se tinha atrevido a pô-lo defronte do espelho da verdade, ambos contemplavam através da bruma das janelas as hordas de indigentes que repousavam da tarde cálida na fresca dos portais onde antes se vendiam folhetins de crimes atrozes e amores infelizes e flores carnívoras e frutos inconcebíveis que comprometiam a vontade e onde agora só se sentia o rebuliço ensurdecedor do adelo de relíquias falsas das roupas e do corpo da sua mãe Bendición Alvarado, ao mesmo tempo que ele sofria a impressão nítida de que Monsenhor Demetrio Aldous tinha interferido no seu pensamento quando afastou a vista das turbas de inválidos e murmurou que, no fim de contas, algo de bom ficava do seu escrutínio e era a certeza de que esta pobre gente gosta de Sua Excelência como da própria vida, pois Monsenhor Demetrio Aldous tinha vislumbrado a perfídia dentro da própria casa presidencial, tinha visto a cobiça na adulação e no servilismo matreiro entre os que medravam ao abrigo do poder, e tinha conhecido, em compensação, uma nova forma de amor nas récuas de indigentes que não esperavam nada dele porque não esperavam nada de ninguém e professavam uma devoção terrestre que se podia colher com as mãos e uma fidelidade sem ilusões que bem quiséramos nós para Deus, Excelência, mas ele nem sequer pestanejou perante o assombro daquela revelação que noutro tempo lhe teria crispado as entranhas, nem sequer suspirou, ao contrário, meditou para si mesmo com uma inquietação recôndita que era só o que faltava, padre, só faltava que ninguém gostasse de mim, agora que o senhor vai desfrutar a glória da minha infelicidade sob as cúpulas de ouro do seu mundo falaz, ao passo que ele ficava com a carga imerecida da verdade sem uma mãe solícita que o ajudasse a sobrelevá-la, mais só do que a mão esquerda nesta pátria que não escolhi por minha vontade, mas que me deram já feita como o senhor a viu que é, como foi desde sempre com este sentimento de irrealidade, com este cheiro a merda, com esta gente sem história que não acredita em nada que não seja a vida, esta é a pátria que me impuseram sem me perguntarem, padre, com quarenta graus de calor e noventa e oito de humidade na sombra capitonada da berlinda presidencial, respirando pó, atormentado pela perfídia da hérnia que produzia um ténue assobio de cafeteira nas audiências, sem ninguém com quem perder uma partida de dominó, nem ninguém que acredite na verdade, padre, ponha-se no meu lugar, mas não o disse, suspirou imperceptivelmente, apenas pestanejou instantaneamente e suplicou a Monsenhor Demetrio Aldous que a conversa brutal daquela tarde ficasse entre nós, o senhor não me disse nada, padre, eu não sei a verdade, prometa-mo, e Monsenhor Demetrio Aldous prometeu-lhe que é claro que Vossa Excelência não conhece a verdade, palavra de homem. A causa de Bendición Alvarado foi suspensa por insuficiência de provas, e o edicto de Roma foi divulgado dos púlpitos com autorização oficial juntamente com a determinação do Governo de reprimir qualquer protesto ou tentativa de desordem, mas a força pública não interveio quando as hordas de peregrinos indignados fizeram fogueiras na Plaza de Armas com os portões da basílica primaz e destruíram à pedrada os vitrais de anjos e gladiadores da Nunciatura Apostólica, deram cabo de tudo, meu general, mas ele não se mexeu da rede, cercaram o convento das biscainhas para as deixar perecer sem recursos, saquearam as igrejas, as casas de missões, desfizeram tudo o que tinha a ver com os padres, meu general, mas ele permaneceu imóvel na rede sob a penumbra fresca das trinitárias, até que os comandantes do seu estado-maior em peso se declararam incapazes de apaziguar os ânimos e restabelecer a ordem sem derramamento de sangue, como se tinha combinado, e só então se endireitou, apareceu no gabinete ao cabo de tantos meses de negligência e assumiu de viva voz e de corpo presente a responsabilidade solene de interpretar a vontade popular mediante um decreto que concebeu por inspiração própria e ditou por sua conta e risco, sem prevenir as forças armadas nem consultar os seus ministros, e em cujo artigo primeiro proclamou a santidade civil de Bendición. Alvarado por decisão suprema do povo livre e soberano, designou-a padroeira da nação, curadora dos enfermos e mestra dos pássaros e declarou-se feriado nacional a data do seu nascimento, e no artigo Lundo declarou-se o estado de guerra entre esta nação e as potências da Santa Sé, com todas as consequências que para estes casos estabelecem os direitos das gentes e os tratados internacionais em vigor, e no artigo terceiro ordenou-se a expulsão imediata, pública e solene do senhor arcebispo primaz e a consequente dos bispos, dos prefeitos apostólicos, dos padres e das freiras e de todas as pessoas nativas ou forasteiras que tivessem algo a ver com os assuntos de Deus em qualquer condição e a qualquer título dentro dos limites do país e até cinquenta léguas marítimas dentro das águas territoriais, e ordenou-se no artigo quarto e último a expropriação dos bens da Igreja, dos seus templos, dos seus conventos, dos seus

colégios, das suas terras de trabalho, com a sua dotação de ferramentas e animais, dos engenhos do açúcar, das fábricas e oficinas, bem como de tudo quanto lhe pertencesse na realidade, ainda que estivesse registado em nome de terceiros, os quais bens passavam a fazer parte do património póstumo de Santa Bendición Alvarado dos pássaros para esplendor do seu culto e grandeza da sua memória, desde a data do presente decreto, ditado de viva voz e assinado com o selo do anel desta autoridade máxima e inapelável do poder supremo, obedeça-se e cumpra-se. No meio dos foguetes de júbilo, dos sinos de glória e das músicas de alegria com que se celebrou o acontecimento da canonização civil, ele ocupou-se de corpo presente de que o decreto fosse cumprido sem manobras equívocas, para se assegurar de que não o fariam vítima de novos enganos, voltou a agarrar as rédeas da realidade com as suas firmes luvas de cetim, como nos tempos da glória grande, em que as pessoas lhe travavam o passo nas escadas para lhe pedirem que restaurasse as corridas de cavalos na rua e ele dava ordem, está bem, e aparecia nas cabanas mais miseráveis a explicar como deviam deitar-se as galinhas nos ninhos e como se castravam os bezerros, pois não se tinha conformado com a verificação pessoal das minuciosas actas de inventários dos bens da Igreja, antes dirigindo as cerimónias formais de expropriação, para que não ficasse nenhum resquício entre a sua vontade e os actos cumpridos, cotejou as verdades dos papéis com as verdades enganosas da vida real, vigiou a expulsão das comunidades mais importantes às quais se atribuía o propósito de levar escondidos em sacos de duplo fundo e espartilhos manhosos os tesouros secretos do último vice-rei que permaneciam sepultados em cemitérios de pobres, apesar do encarniçamento com que os caudilhos federais os tinham procurado nos longos anos de guerras, e não só ordenou que nenhum membro da Igreja levasse consigo mais equipagem do que uma muda de roupa como decidiu sem apelo que fossem embarcados nus como as mães os pariram, os rudes padres de aldeia a quem vinha a dar no mesmo andarem vestidos ou em pelota, desde que lhes mudassem o destino, os prefeitos de terras de missões devastados pela malária, os bispos imberbes e dignos, e atrás deles as mulheres, as tímidas irmãs da caridade, as missionárias silvestres acostumadas a desbravar a natureza e a fazer brotar legumes no deserto, e as biscainhas esbeltas tocadoras de clavicórdio e as saleslanas de mãos finas e corpos intactos, pois até em pêlo, como tinham sido deitadas ao mundo, era possível distinguir as suas origens de classe, a diversidade da sua condição e a desigualdade do seu ofício à medida que desfilavam por entre sacos de cacau e fardos de bagre salgado no imenso armazém da alfândega, passavam num tumulto giratório de ovelhas sobressaltadas com os braços em cruz sobre o peito, tentando esconder a vergonha de umas com as das outras perante o ancião, que parecia de pedra sob as ventoinhas de pás, que as fitava sem respirar, sem mexer os olhos do espaço fixo por onde tinha de passar sem remédio a torrente de mulheres nuas, contemplou-as impassível, sem pestanejar, até não restar uma única no território da nação, pois estas foram as últimas, meu general, e, no entanto, ele recordava apenas uma que tinha separado com um simples golpe de vista do tropel de noviças assustadas, distinguiu-a entre as outras, apesar de não ser diferente, era pequena e maciça, robusta, de nádegas opulentas, de mamas grandes e cegas, de mãos grosseiras, de sexo abrupto, de cabelos cortados com tesouras de poda, de dentes separados e firmes como machados, de nariz pequeno, de pés chatos, uma noviça medíocre, como todas, mas ele sentiu que era a única mulher na manada de mulheres nuas, a única que ao passar defronte dele sem o olhar deixou um rasto escuro de animal de monte que levou consigo o meu ar de viver e mal teve tempo de mudar o olhar imperceptível para a ver segunda vez para todo o sempre quando o oficial dos serviços de identificação encontrou o nome por ordem alfabética na lista e gritou Nazareno Leticia, e ela respondeu com voz de homem, presente. Assim a teve para o resto da vida, presente, até que as últimas nostalgias se lhe escorreram pelas gretas da memória e só permaneceu a imagem dela na tira de papel em que tinha escrito Leticia Nazareno da minha alma vê no que me tornei por ti, escondeu-a na fenda onde guardava o mel das abelhas, relia-a quando sabia que não era visto, voltava a enrolá-la depois de reviver por um instante fugaz a tarde imemorial de chuvas radiantes em que o surpreenderam com a novidade, meu general, de que te tinham repatriado em cumprimento de uma ordem que ele não deu, pois nada havia feito além de murmurar Leticia Nazareno ao mesmo tempo que contemplava o último cargueiro de cinza que se fundiu no horizonte, Leticia Nazareno, repetiu em voz alta, para não esquecer o nome, e isso tinha bastado para que os serviços da segurança presidencial a sequestrassem do convento da jamaica e a trouxessem amordaçada e com uma camisa-de-forças dentro de uma caixa de pinho com cordéis lacrados e letreiros de alcatrão de frágil do not drop thís síde up e uma licença de exportação em regra com a devida franquia consular de duas mil e oitocentas taças de champanhe de cristal legítimo para a garrafeira presidencial, embarcaram-na de regresso no porão de um barco carvoeiro e puseram-na nua e narcotizada na cama de capitéis do quarto de convidados de honra como ele havia de recordá-la às três da tarde sob a luz de farinha do mosquiteiro, tinha o mesmo sossego de sono natural de outras tantas mulheres inertes que o tinham servido sem as solicitar e que ele tinha feito suas naquele quarto sem as acordar sequer do letargo de luminal e atormentado por um terrível sentimento de desamparo e de derrota, só que em Leticia Nazareno não tocou, contemplou-a adormecida com uma espécie de assombro infantil, surpreendido de quanto tinha mudado desde que a vira nos armazéns do porto, tinham-lhe frisado o cabelo, tinham-na depilado por completo até aos resquícios mais íntimos e tinham-lhe envernizado de encarnado as unhas das mãos e dos pés e tinham-lhe posto bâton nos lábios e carmim nas faces e almíscar nas pestanas e exalava uma fragrância doce que acabou com o teu rasto escondido de animal de monte, que chatice, tinham-na deitado a perder tentando compô-la, tinham-na tornado tão diferente que ele não conseguia vê-la nua debaixo dos cosméticos toscos ao contemplá-la submersa no êxtase de lumínal, viu-a vir à superfície, viu-a acordar, viu-a vê-lo, mãe, era ela, Leticia Nazareno do meu desconcerto, petrificada de terror ante o ancião pétreo que a contemplava sem clemência através dos vapores ténues do mosquiteiro, assustada pelos propósitos imprevisíveis do seu silêncio, porque não podia imaginar que, apesar dos seus anos incontáveis e do seu poder sem medida, ele estava mais assustado do que ela, mais só, mais sem saber o que fazer, tão aturdido e inerme como estivera a primeira vez que fora homem com uma mulher de soldados que surpreendera à meia-noite a tomar banho num rio e cuja força e tamanho tinha imaginado pelos seus ofegos de égua depois de cada mergulho, ouvia o seu riso escuro e solitário na escuridão, sentia o regozijo do seu corpo na escuridão, mas estava paralisado de medo porque era ainda virgem, embora fosse já tenente de artilharia na terceira guerra civil, até que o medo de perder a oportunidade fora mais decisivo do que o medo do assalto, e então metera-se na água com tudo o que tinha posto, as polainas, a mochila, a faca de mato, a escopeta de ouvido, ofuscado por tantos estorvos de guerra e tantos terrores secretos que a mulher julgara a princípio que era alguém que se tinha metido a cavalo na água, mas a seguir apercebera-se de que não passava de um pobre homem assustado e acolhera-o no remanso da sua misericórdia, levara-o pela mão na escuridão do seu aturdimento, porque ele não conseguia encontrar os caminhos na escuridão do remanso, indicava-lhe com voz de mãe na escuridão que te agarres com força aos meus ombros para a corrente não te fazer cair, que não se acocorasse dentro de água, mas que te ajoelhes com força no fundo, respirando devagar para que o fôlego te chegue, e ele fazia o que ela lhe indicava com uma obediência pueril, pensando minha mãe Bendición Alvarado como catano se arranjarão as mulheres para fazer as coisas como se as estivessem a inventar, como farão para serem tão homens, pensava, à medida que ela o ia despojando da parafernália inútil de outras guerras menos temíveis e desoladas do que aquela guerra solitária com a água pelo pescoço, tinha morrido de terror ao amparo daquele corpo cheiroso a sabão de pinho quando ela acabou de tirar-lhe as fivelas das duas correias e lhe desapertei os botões da braguilha e fiquei crispada de horror porque não encontrei o que procurava, mas sim o testículo enorme a nadar como um sapo na escuridão, largou-o assustada, afastou-se, vai ter com a tua mamã para te trocar por outro, disse-lhe, tu não prestas, pois tinha-o derrotado o mesmo medo ancestral que o manteve imóvel diante da nudez de Leticia Nazareno, em cujo rio de águas imprevisíveis não havia de meter-se, nem com tudo o que tinha posto, enquanto ela não lhe prestasse o auxílio da sua mi- sericórdia, ele próprio a cobriu com um lençol, tocava-lhe no gramofone, até que o cilindro se gastou, a canção da pobre Delgadina desonrada pelo amor do pai, mandou-lhe pôr flores de feltro nas floreiras para não murcharem como as naturais com a má virtude das suas mãos, fez tudo o que lhe vinha à cabeça para a tornar feliz, mas manteve intacto o rigor do cativeiro e o castigo da nudez, para que ela percebesse que seria bem atendida e bem amada, mas que não tinha nenhuma possibilidade de escapar àquele destino, e ela compreendeu-o tão bem que na primeira trégua do medo lhe tinha ordenado, sem pedir por favor, senhor general, que me abra a janela para entrar um pouco de fresco, e ele abriu-a, fechou-a, cumpria as ordens dela como se fossem de amor tanto mais obediente e seguro de si próprio quanto mais próximo se sabia da tarde de chuvas radiantes em que deslizou para dentro do mosquiteiro e se deitou vestido junto dela sem a acordar, participou a sós durante noites inteiras dos eflúvios secretos do corpo dela, respirava o seu odor de cadela montanhesa que se foi tornando mais cálido com o andar dos meses, brotou-lhe o musgo do ventre, acordou sobressaltada gritando que saia daqui, senhor general, e ele levantou-se com a sua parcimónia densa, mas voltou a deitar-se junto dela enquanto dormia e assim a desfrutou sem lhe tocar durante o primeiro ano de cativeiro, até que ela se habituou a acordar ao lado dele sem perceber até onde corriam os leitos ocultos daquele ancião indecifrável que tinha abandonado as lisonjas do poder e os encantos do mundo para se consagrar à sua contemplação e ao seu serviço, tanto mais desconcertada quanto mais próximo ele se sabia da tarde de chuvas radiantes em que se deitou em cima dela como se tinha metido na água com tudo o que tinha posto, o uniforme sem insígnias, as correias do sabre, o molho de chaves, as polainas, as botas de montar com a espora de ouro, um assalto de pesadelo que a acordou aterrorizada, tentando tirar de cima aquele cavalo guarnecido de recordações de guerra, mas ele estava tão resolvido que ela decidiu ganhar tempo com o recurso último de que tire as armaduras, senhor general, que me magoa o coração com as argolas, e ele tirou-as, que tirasse a espora, senhor general, que me está a ferir os tornozelos com a estrela de ouro, que tirasse o molho de chaves do cinto, que me estorva o osso da anca, ele acabava por fazer o que ela mandava, embora precisasse de três meses para conseguir que ele tirasse as correias do sabre que me estorvam para respirar e outro mês para as polainas que me partem a alma com as fivelas, era uma luta lenta e difícil em que ela o demorava sem o exasperar e ele acabava por ceder para a satisfazer, de maneira que nenhum dos dois soube nunca como foi que aconteceu o cataclismo final pouco depois do segundo aniversário do sequestro, quando as suas tépidas e delicadas mãos tropeçaram por casualidade nas pedras ocultas da noviça adormecida, que acordou perturbada por um suor pálido e um tremor de morte e não tentou tirar nem por boas nem por malas-artes o animal extraviado que tinha em cima e, pelo contrário, acabou por comovê-lo com a súplica de que tires as botas que me sujas os lençóis de cânhamo e ele tirou-as conforme pôde, que tires as polainas, e as calças, e a funda, que te dispas todo, minha vida, que não te sinto, até que ele próprio não soube quando ficou como só a mãe o tinha conhecido à luz das harpas melancólicas dos gerânios, liberto do medo, livre, transformado num bisonte de lide que na primeira investida demoliu tudo quanto encontrou na passagem e se atirou de bruços para um abismo de silêncio onde apenas se ouvia o ranger de madeiras de barcos dos dentes apertados de Nazareno Leticia, presente, tinha-se agarrado ao seu cabelo com todos os dedos para não morrer sozinha na vertigem sem fundo em que eu morria, solicitado ao mesmo tempo e com o mesmo ímpeto por todas as urgências do corpo, e no entanto esqueceu-a, ficou só nas trevas à procura de si próprio na água salobra das suas lágrimas, senhor general, no fio manso da sua baba de boi, senhor general, no assombro do seu assombro de minha mãe Bendición Alvarado como é possível ter vivido tantos anos sem conhecer este tormento, chorava, aturdido pelas ânsias dos rins, pela série de petardos das tripas, pelo dilaceramento de morte do tentáculo mole que lhe arrancou de raiz as entranhas e o transformou num animal degolado cujos saltos agónicos salpicavam os lençóis de neve com uma matéria ardente e ácida que perverteu na sua memória o ar de vidro líquido da tarde de chuvas radiantes do mosquiteiro, pois era merda, senhor general, a sua própria merda.

 

Pouco antes do anoitecer, quando acabámos de retirar as crostas apodrecidas das vacas e pusemos um pouco de arranjo naquela desordem de fábula, ainda não tínhamos conseguido que o cadáver se parecesse com a imagem da sua lenda. Tínhamo-lo raspado com ferros de escamar peixe, para tirar-lhe a rétnora de fundos do mar, lavámo-lo com creolina e sal de pedra, para lhe recobrir as marcas da putrefacção, empoámos-lhe a cara com fécula, para esconder os remendos de estopa e os poços de parafina com que tivemos de restaurar-lhe a cara espicaçada de pássaros de esterqueira, devolvemos-lhe a cor da vida com retoques de carmim e bâton de mulher nos lábios, mas nem sequer os olhos de vidro incrustados nas órbitas vazias lograram impor-lhe o semblante de autoridade que era preciso para o expor à contemplação das multidões. Entretanto, no salão do Conselho de Governo invocávamos a união de todos contra o despotismo de séculos para repartir em partes iguais o saque do seu poder, pois todos tinham regressado ao conjuro da notícia sigilosa mas incontível da sua morte, tinham regressado os liberais e os conservadores, reconciliados no rescaldo de tantos anos de ambições postergadas, os generais do alto comando que tinham perdido o oriente da autoridade, os três últimos ministros civis, o arcebispo primaz, todos os que ele não teria querido que estivessem estavam sentados em redor da longa mesa de nogueira, tentando pôr-se de acordo sobre a forma como se devia divulgar a notícia daquela morte, para Impedir a explosão prematura das multidões na rua, primeiro um boletim número um ao meio da primeira noite sobre um ligeiro percalço de saúde que tinha obrigado a cancelar os compromissos públicos e as audiências civis e militares de Sua Excelência, depois um segundo boletim médico em que se anunciava que o ilustre enfermo se tinha visto obrigado a permanecer nos seus aposentos particulares em consequência de uma indisposição própria da sua idade, e, por último, sem nenhum aviso, os dobres rotundos dos sinos da catedral ao amanhecer radioso da cálida terça-feira de Agosto de uma morte oficial que ninguém havia de saber nunca de ciência certa se era realmente a sua. Encontrávamo-nos inermes ante essa evidência, comprometidos com um corpo pestilento que não éramos capazes de substituir no mundo, porque ele se tinha recusado nas suas instâncias senis a tomar qualquer determinação sobre o destino da pátria depois dele, tinha resistido com uma invencível obstinação de velho a todas as sugestões que lhe foram feitas desde que o Governo se mudou para os edifícios de vidros solares dos ministérios e ele ficou a viver sozinho na casa deserta do seu poder absoluto, encontrávamo-lo a andar em sonhos, a esbracejar entre os destroços das vacas sem ninguém a quem dar ordens que não fossem os cegos, os leprosos e os paralíticos, que não estavam a morrer de doença mas sim de velhice nas ervas daninhas dos roseirais, e, no entanto, era tão lúcido e teimoso que não tínhamos conseguido nada dele além de evasivas e adiamentos cada vez que lhe apresentávamos a urgência de ordenar a sua herança, pois dizia que pensarmos no mundo depois de nós próprios era uma coisa tão nefasta como a própria morte que catano, se ao fim e ao cabo, quando eu morrer, hão-de voltar os políticos para repartir esta merda como no tempo dos godos, vocês vão ver, dizia, hão-de voltar a repartir tudo entre os padres, os gringos, e os ricos, e nada para os pobres, claro, porque esses hão-de estar sempre tão fodidos que no dia em que a merda tiver algum valor os pobres hão-de nascer sem eu, vocês vão ver, dizia, citando alguém dos seus tempos de glória, troçando inclusivamente de si próprio quando nos disse, abafado de riso, que por três dias que ia estar morto não valia a pena levá-lo a Jerusalém para o enterrar no Santo Sepulcro, e pondo termo a todo e qualquer desacordo com o argumento final de que não importava que uma coisa de então não fosse verdade, que catano, com o tempo há-de ser. Tinha razão, pois na nossa época não havia ninguém que pusesse em dúvida a legitimidade da sua história, nem ninguém que tivesse podido demonstrá-la ou desmenti-la, se nem sequer éramos capazes de estabelecer a identidade do seu corpo, não havia outra pátria que a feita por ele à sua imagem e semelhança com o espaço mudado e o tempo corrigido pelos desígnios da sua vontade absoluta, reconstituída por ele desde as origens mais incertas da sua memória enquanto vagueava sem rumo pela casa das infâmias na qual nunca dormiu uma pessoa feliz, enquanto deitava grãos de milho às galinhas que debicavam em redor da sua rede e exasperava as serviçais com as ordens desencontradas de que me tragam uma limonada com gelo picado, que abandonava intacta ao alcance da mão, que tirassem essa cadeira daí e a pusessem ali e voltassem a pôr outra vez no seu lugar, para satisfazer dessa forma minúscula os rescaldos tépidos do seu imenso vício de mandar, distraindo os ócios quotidianos do seu poder com rastreio paciente dos instantes efémeros da infância remota enquanto cabeceava de sono sob a ceiba do pátio, acordava de repente quando conseguia agarrar uma recordação como uma peça do quebra-cabeças sem limites da pátria antes dele, a pátria grande, quimérica, sem margens, um reino de mangais com jangadas lentas e precipícios anteriores a ele quando os homens eram tão valentes que caçavam caimões à mão atravessando-lhes uma estaca na boca, assim, explicava-nos com o indicador no palato, contava-nos que numa sexta-feira Santa tinha sentido o malefício do vento e o cheiro a caspa do vento e vira as enormes nuvens de lagostas que turvaram o céu do meio-dia e iam cortando como tesouras tudo quanto encontravam ao passar e deixaram o mundo tosquiado e a luz em farrapos como nas vésperas da criação, pois ele tinha vivido aquele desastre, tinha visto uma fileira de galos sem cabeça pendurados pela patas a esvaírem-se em sangue gota a gota no beiral de uma casa de calçada grande e desarrumada onde acabava de morrer uma mulher, tinha ido pela mão de sua mãe, descalço, atrás do cadáver esfarrapado que levaram a enterrar sem caixão em cima duma padiola de carga açoitada pela nevada de lagosta, pois assim era a pátria de então, não tínhamos sequer caixões de mortos, nada, ele tinha visto um homem que tentou enforcar-se com uma corda já usada por outro enforcado na árvore de uma praça de aldeia e a corda apodrecida rebentou antes de tempo e o pobre homem ficou a agonizar na praça, para horror das senhoras que saíram da missa mas não morreu, reanimaram-no à paulada sem se darem ao trabalho de averiguar quem era, pois naquela época ninguém sabia quem era quem se não o conhecessem na igreja, meteram-no pelos tornozelos entre os dois pranchões do cepo de companhia e deixaram-no exposto dia e noite juntamente com os outros companheiros de penas, pois assim eram aqueles tempos de godos em que Deus mandava mais do que o Governo, os maus tempos da pátria antes de ele dar a ordem de cortarem as árvores das praças das aldeias para impedir o terrível espectáculo dos enforcados dominicais, tinha proibido o cepo público, os enterros sem caixão, tudo quanto pudesse despertar na memória as leis de ignomínia anteriores ao seu poder, tinha construído o comboio dos páramos para acabar com a infâmia das mulas aterrorizadas nas cornijas dos precipícios levando às costas os pianos de cauda para os bailes de máscaras das fazendas de café, pois ele tinha visto também o desastre dos trinta planos de cauda desfeitos num abismo e dos quais tanto se tinha falado e escrito, até no exterior, embora só ele pudesse dar um testemunho verídico, tinha assomado à janela por casualidade no instante preciso em que a última mula resvalou e arrastou as restantes para o abismo, de maneira que só ele tinha ouvido o uivo de terror da récua despenhada e o acorde sem fim dos planos que caíram com ela, tocando sozinhos no vazio, precipitando-se até ao fundo de uma pátria que então era como tudo antes dele, vasta e incerta, até ao extremo de que era impossível saber se era de noite ou de dia naquela espécie de crepúsculo eterno da neblina de vapor cálido das azinhagas profundas, onde se despedaçaram os pianos importados da Áustria, ele tinha visto isso e muitas outras coisas daquele mundo remoto, embora nem ele próprio tivesse podido precisar, sem lugar para dúvidas, se realmente eram recordações próprias ou se as tinha ouvido contar nas más noites de febres das guerras ou se por acaso não as tinha visto nas gravuras dos livros de viagens diante de cujas estampas permaneceu em êxtase durante as multas horas vazias das calmarias do poder, mas nada disso importava, que catano, hão-de ver que com o tempo há-de ser verdade, dizia, consciente de que a sua infância real não era aquele lodo de evocações incertas que só recordava quando começava o fumo das bostas e esquecia para sempre, mas sim que, na realidade, tinha vivido no remanso da minha única e legítima esposa Leticia Nazareno que o sentava todas as tardes das duas às quatro num tamborete escolar sob a pérgula de trinitárias para o ensinar a ler a escrever, ela tinha posto a sua tenacidade de noviça nessa empresa heróica e ele correspondeu-lhe com a sua terrível paciência de velho, com a terrível vontade do seu poder sem limites, com todo o meu coração, de maneira que cantava com toda a alma a tia ata o papá dá a papa tapa a pipa, cantava sem se ouvir e sem que ninguém o ouvisse entre a bulha dos pássaros alvoroçados da mãe morta que achei uma chave de chapa no chão, a mamã anima o menino, Cecília vende cera cerveja cevada cebolas cerejas cereais e toucinho, a Cecília vende tudo, ria, repetindo no fragor das cigarras a lição de leitura que Leticia Nazareno cantava ao compasso do seu metrónomo de noviça, até que o espaço do mundo ficou saturado das crianças da tua voz e não houve no seu vasto reino de pesadelo outra verdade que não fossem as verdades exemplares da cartilha, não houve mais nada que bota na bola, o bebé berra de birra, a bonita bata de Otília, as lições de leitura que ele repetia a toda a hora e em toda a parte, como os seus retratos, mesmo em presença do ministro do Tesouro da Holanda, que perdeu o rumo de uma visita oficial quando o ancião levantou a mão com a luva de cetim nas trevas do seu poder insondável e interrompeu a audiência para o convidar a cantar comigo a minha mamã ama-me, o escravo esteve três meses no deserto, a dama come tomate, imitando com o indicador o compasso do metrónomo e repetindo de memória a lição de terça-feira com uma dicção perfeita, mas com tão mau sentido da oportunidade que a entrevista acabou como ele tinha querido, com o adiamento das letras holandesas para uma ocasião mais propícia, para quando houvesse tempo, decidiu perante o assombro dos leprosos, dos cegos, dos paralíticos, que se levantaram ao amanhecer entre os matagais nevados dos roseirais e viram o ancião de trevas que concedeu uma bênção silenciosa e cantou três vezes com acordes de missa solene eis o rei que respeita a lei, cantou, o adivinho dedica-se à bebida, cantou, o farol é uma torre muito alta com um foco luminoso que orienta à noite os navegantes, cantou, consciente de que nas sombras da sua felicidade senil não havia mais tempo do que o de Leticia Nazareno da minha vida no caldo de camarões dos retouços sufocantes da sesta, não havia mais ânsias do que as de estar nu contigo na esteira empapada de suor sob o morcego cativo da ventoinha eléctrica, não havia mais luz do que a das tuas nádegas, Leticia, nada mais do que as tuas tetas totémicas, os teus pés de pata, o teu raminho de arruda para um remédio, os janeiros opressivos da remota ilha de Antigua, onde vieste ao mundo numa madrugada de solidão sulcada por um vento ardente de lodaçais apodrecidos, tinham-se encerrado no aposento de convidados de honra com a ordem pessoal de que ninguém se aproxime a cinco metros dessa porta que vou estar muito ocupado a ler e a escrever, de maneira que ninguém o interrompeu nem sequer com a novidade, meu general, de que o vómito negro estava a fazer estragos na população rural enquanto o compasso do meu coração se adiantava ao metrónomo pela força invisível do teu cheiro de animal do monte, cantando que o lente lê o livro amarelo, a erva verga ao vento de Inverno, Otília lava o lenço no lago, vento escreve-se com vê de vaca, cantava, enquanto Leticia Nazareno lhe afastava o testículo herniado para lhe limpar os restos de caca do último amor, submergia-o nas águas lustrais da banheira de peltre com patas de leão e ensaboava-o com sabão reuter e esfregava-o com trapos e enxugava-o com água de folhas fervidas, cantando a duas vozes com jota escreve-se jeropiga, jerico e jeito, besuntava-lhe as bisagras das pernas com manteiga de cacau, para lhe aliviar as queimaduras da funda, empoava-lhe com ácido bórico a estrela murcha do cu e dava-lhe nalgadas de mãe terna pelo teu mau comportamento com o ministro holandês, plás, plás, pediu-lhe como penitência que permitisse o regresso ao país das comunidades de pobres, para que voltassem a encarregar-se de orfanatos e hospitais e outras casas de caridade, mas ele envolveu-a na aragem lúgubre do seu rancor implacável, nem por sombras, suspirou, não havia forças deste mundo ou do outro que o fizessem contrariar uma determinação tomada por ele mesmo de viva voz, ela pediu-lhe nas asmas do amor das duas da tarde que me concedas uma coisa, minha vida, só uma, que regressassem as comunidades dos territórios de missões que trabalhavam à margem das veleidades do poder, mas ele respondeu-lhe nas ânsias dos seus ofegos de marido urgente que nem por sombras, meu amor, antes morto do que humilhado por essa cáfila de saias que selam os índios em vez das mulas e distribuem colares de vidros de cor em troca de anéis do nariz e arrecadas de ouro, nem por sombras, protestou, insensível às súplicas de Leticia Nazareno da minha infelicidade, que tinha cruzado as pernas para lhe pedir a restituição dos colégios confessionais confiscados pelo Governo, a desamortização dos bens de mão morta, dos trapiches de cana, dos templos transformados em quartéis, mas ele virou-se de cara para a parede, disposto a renunciar mais facilmente ao tormento insaciável dos teus amores lentos e abissais do que a dar o braço a torcer a favor desses bandoleiros de Deus que durante séculos se alimentaram com os fígados da pátria, nem por sombras, decidiu, e, no entanto, voltaram, meu general, regressaram ao país pelas frinchas mais estreitas as comunidades de pobres, de acordo com a sua ordem confidencial de que desembarcassem sem ruído em enseadas secretas, pagaram-lhes indemnizações desmesuradas, restituíram-se sobejamente os bens expropriados e foram abolidas as leis recentes do casamento civil, do divórcio vincular, da educação laica, tudo quanto ele tinha disposto de viva voz nas raivas da festa de zombarias do processo de santificação da sua mãe Bendición Alvarado, que Deus tenha no seu santo reino, que catano, mas Leticia Nazareno não se conformou com tanto e, pelo contrário, pediu mais, pediu-lhe que ponhas o ouvido no meu baixo-ventre para ouvires cantar a criança que está a crescer lá dentro, pois ela tinha acordado a meio da noite sobressaltada por aquela voz profunda que descrevia o paraíso aquático das tuas entranhas sulcadas de entardeceres cor de malva e ventos de alcatrão, aquela voz interior que lhe falava dos pólipos dos teus rins, do aço brando das tuas tripas, do âmbar tépido da tua urina adormecida nas suas nascentes, e ele pôs-lhe no ventre o ouvido que lhe zumbia menos e ouviu o borbulhar secreto da criança viva do seu pecado mortal, um filho dos nossos ventres obscenos que há-de chamar-se Emanuel que é o nome pelo qual os outros deuses conhecem Deus, e há-de ter na testa a mancha branca da sua origem egrégia e há-de herdar o espírito de sacrifício da mãe e a grandeza do pai e o seu mesmo destino de condutor invisível, mas havia de ser a vergonha do céu e o estigma da pátria pela sua natureza ilícita enquanto ele não se decidisse a consagrar no altar o que tinha envilecido na cama durante tantos e tantos anos de contubérnio sacrílego, e então abriu caminho por entre as espumas do antigo mosquiteiro de bodas com aquele resfolegar de caldeira de barco que lhe saía do fundo das terríveis raivas reprimidas, gritando nem por sombras, antes morto do que casado, arrastando as grandes patas de noivo escondido pelos salões de uma casa alheia, cujo esplendor de outra época tinha sido restaurado, depois do longo tempo de escuridão do luto oficial, os apodrecidos crespões de semana de festa tinham sido arrancados das cornijas, havia luz de mar nos aposentos, flores nas varandas, músicas marciais, e tudo aquilo em cumprimento de uma ordem que ele não tinha dado, mas que sem a menor dúvida foi uma ordem sua, meu general, visto que tinha a decisão tranquila da sua voz e o estilo inapelável da sua autoridade, e ele aprovou, está bem, e tinham voltado a abrir-se os templos encerrados, e os claustros e cemitérios tinham sido devolvidos às suas antigas congregações, por outra ordem sua que tão-pouco tinha dado, mas aprovou, está bem, tinham-se restabelecido os antigos feriados de guarda e os costumes da Quaresma e entravam pelas varandas abertas os hinos de júbilo das multidões que anteriormente cantavam para exaltarem a sua glória e agora cantavam ajoelhadas sob o sol ardente para celebrarem a boa nova de que tinham trazido Deus num barco, meu general, a sério, tinham-no trazido por ordem tua, Leticia, por uma lei de alcova, como tantas outras que ela expedia em segredo sem se consultar com ninguém e que ele aprovava em público para que não parecesse aos olhos de ninguém que tinha perdido os oráculos da sua autoridade, pois eras tu a potência oculta de todas aquelas procissões que ele contemplava espantado das janelas do quarto até mais além do que tinham chegado as hordas fanáticas da sua mãe Bendición Alvarado, cuja memória havia sido exterminada do tempo dos homens, tinham espargido ao vento os farrapos do vestido de noiva e o amido dos seus ossos e tinham voltado a pôr a lápida ao contrário na cripta, com as letras para dentro, a fim de que não perdurasse sequer a notícia do seu nome de passarinheira em repouso, pintora de verdilhões até ao fim dos tempos, e tudo isto por ordem tua, porque eras tu quem o tinha ordenado, para que nenhuma outra memória de mulher fizesse sombra à tua memória, Leticia Nazareno da minha desgraça, filha da puta. Ela tinha-o modificado numa idade em que ninguém se modifica, a não ser para morrer, tinha conseguido aniquilar com recursos de cama a sua resistência pueril que nem por sombras, antes morto do que casado, tinha-o obrigado a pôr a tua funda nova que vê só como soa como um choca-lho de ovelha desgarrada na escuridão, obrigou-o a calçar as tuas botas de verniz de quando dançara a primeira valsa com a rainha, a espora de ouro do calcanhar esquerdo que o almirante do mar Oceano lhe tinha oferecido para que usasse até à morte como sinal da mais alta autoridade, o teu dólman de cordões e borlas de passamanaria e dragonas de estátua, que não tinha voltado a vestir desde os tempos em que ainda se podiam vislumbrar os olhos tristes, o queixo pensativo, a mão taciturna com a luva de cetim atrás das janelas da carruagem presidencial, obrigou-o a pôr o teu sabre de guerra, o teu perfume de homem, as tuas medalhas com o cordão da ordem dos cavaleiros do Santo Sepulcro que o Sumo Pontífice te mandou por ter devolvido à Igreja os bens expropriados, vestiste-me como um altar de feira e levaste-me de madrugada pelos meus próprios pés à sombria sala de audiências cheirando a velas de morto pelos galhos de flor de laranjeira nas janelas e os símbolos da pátria pendurados nas paredes, sem testemunhas, já ungido ao jugo da noviça escaiolada com a sala de linho sob as auras de musselina para sufocar a vergonha de sete meses de desenfreamentos ocultos, suavam no torpor do mar invisível que farejava sem sossego ao redor do tétrico salão de festas cujos acessos tinham sido proibidos por ordem sua, as janelas tinham sido entaipadas, tinham exterminado todo e qualquer rasto de vida na casa, para que o mundo não conhecesse nem o menor rumor da enorme boda escondida, mal podias respirar de calor por causa do aperto do varão prematuro que nadava entre os líquenes de trevas dos médãos das tuas entranhas, pois ele tinha resolvido que fosse varão, e era-o, cantava no subsolo do teu ser com a mesma voz de nascente invisível com que o arcebispo primaz vestido de pontifical cantava glória a Deus nas alturas para que não o ouvis- sem nem as sentinelas meio adormecidas, com o mesmo terror de búzio perdido com que o arcebispo primaz encomendou a alma ao Senhor para perguntar ao ancião imperscrutável o que ninguém até então nem depois, até à consumação dos séculos, se ti- vera atrevido a perguntar-lhe se aceitas por esposa Leticia Nazareno, e ele mal pestanejou, sim, mal lhe soaram no peito as medalhas de guerra devido à pressão oculta do coração, mas havia tanta autoridade na sua voz que a terrível criança das tuas entranhas se revolveu por completo no seu equinócio de águas densas e corrigiu o oriente e encontrou o rumo da luz, e então Leticia Nazareno dobrou-se sobre si mesma, soluçando meu pai e senhor compadece-te desta tua humilde serva que muito se comprazeu na desobediência às tuas santas leis e aceita com resignação este castigo terrível, mas mordendo ao mesmo tempo a mitene de renda para que o barulho dos ossos desarticulados não delatasse a desonra oprimida pela saia de linho, pôs-se de cócoras, esquartejou-se no charcho fumegante das suas próprias águas e retirou de entre as confusões de musselina o feto setemesinho, que tinha o mesmo tamanho e o mesmo ar de desamparo de animal por cozer que um vitelo nado morto, levantou-o com as mãos, tentando reconhecê-lo à luz turva das velas do altar improvisado, e viu que era um varão, tal como tinha ordenado, meu general, um varão frágil e tímido que havia de usar sem honra o nome de Emanuel, como estava previsto, e nomearam-no general de divisão, com jurisdição e comando efectivos a partir do momento em que ele o pôs em cima da pedra dos sacrifícios e lhe cortou o umbigo com o sabre e o reconheceu como o meu único e legítimo filho, padre, baptize-mo. Aquela decisão sem precedentes havia de ser o prelúdio de uma nova época, o primeiro anúncio dos maus tempos em que o exército fazia cordões nas ruas antes da madrugada e obrigava a fechar as janelas das varandas e desocupava o mercado à coronhada, para que ninguém visse a passagem fugitiva do carro flamante com lâminas de aço blindado e puxadores de ouro da escuderia presidencial, e os que se atreviam a espreitar dos terraços proibidos não viam, como noutro tempo, o militar milenário com o queixo apoiado na mão pensativa da luva de cetim através das janelas bordadas com as cores da bandeira, mas sim a antiga noviça rechonchuda com o chapéu de palha com flores de feltro e a fiada de raposas azuis que pendurava ao pescoço, apesar do calor, víamo-la descer defronte do mercado público nas quartas-feiras, ao amanhecer, escoltada por uma patrulha de soldados de guerra levando pela mão o minúsculo general de divisão de não mais de três anos, o qual era impossível acreditar, pela sua graça e languidez, que não fosse uma menina disfarçada de militar com a farda de gala com cordões de ouro que parecia crescer-lhe no corpo, pois Leticia Nazareno tinha-lha vestido desde antes da primeira dentição, quando o levava no berço de rodas a presidir aos actos oficiais em representação do pai, levava-o nos braços quando passava revista às suas tropas, levantava-o por cima da cabeça, para que recebesse a ovação das multidões no estádio de futebol, amamentava-o no automóvel descoberto durante os desfiles das festas nacionais, sem pensar nas zombarias íntimas que suscitava o espectáculo público de um general de cinco sóis agarrado com um êxtase de bezerro órfão ao bico do peito da mãe, assistiu às recepções diplomáticas a partir do momento em que esteve em condições de tratar de si próprio, e então levava, além da farda, as medalhas de guerra, que escolhia a seu bel-prazer no estojo de condecorações que o pai lhe emprestava para brincar, e era um menino sério, pouco vulgar, sabia estar em público desde os seis anos, sustendo na mão o copo de sumo de frutas, em vez de champanhe, enquanto falava de assuntos de adulto com uma propriedade e uma graça naturais que não tinha herdado de ninguém, embora mais de uma vez tenha acontecido que uma grande nuvem escura atravessou a sala de festas, o tempo parou, o delfim pálido investido dos mais altos poderes tinha sucumbido ao torpor, silêncio, sussurravam, o general pequenino está a dormir, tiraram-no em braços dos seus ajudantes de campo através dos diálogos truncados e dos gestos petrificados da audiência de sicários de luxo e senhoras pudicas que mal se atreviam a murmurar, reprimindo o riso da modorra atrás dos leques de plumas, que horror, se o general soubesse, porque ele deixava prosperar a crença que ele próprio tinha inventado de que era alheio a tudo o que acontecia no mundo que não estivesse à altura da sua grandeza, fossem os desplantes públicos do único filho que tinha aceitado como seu entre os incontáveis que tinha gerado, ou as atribuições desmedidas da minha única e legítima esposa Leticia Nazareno, que chegava ao mercado nas quartas-feiras ao amanhecer, levando pela mão o seu general de brinquedo no meio da escolta buliçosa de criadas de quartel, e ordenanças de assalto, transfigurados por esse estranho resplendor visível da consciência que precede o nascimento iminente do Sol nas Caraffias, mergulhavam até à cintura na água pestilenta da baía para entrarem a saque nos veleiros de velas remendadas que fundeavam no antigo porto negreiro estivados com flores da Martinica e fateixas de gengibre de Paramaribo, arrasavam à passagem a pesca viva numa rebatinha de guerra, disputavam-na aos porcos com coronhadas em redor da antiga báscula de escravos ainda em serviço, onde noutra quarta-feira de outra época da pátria antes dele tinham arrematado em hasta pública uma senegalesa cativa que custara mais do que o seu próprio peso em ouro pela sua formosura de pesadelo, deram cabo de tudo, meu general, foi pior do que a lagosta, pior do que o ciclone, mas ele permanecia impassível perante o escândalo crescente de que Leticia Nazareno irrompia, como ele próprio não se teria atrevido a fazer, na galeria pintalgada do mercado de pássaros e legumes perseguida pelo alvoroço dos cães vadios, que ladravam assustados aos olhos de vidro atónitos das raposas azuis, movimentava-se com um domínio procaz da sua autoridade entre as esbeltas colunas de ferro bordado sob os galhos de ferro com grandes folhas de vidros amarelos, com maçãs de vidros rosados, com cornucópias de riquezas fabulosas da flora de vidros azuis da gigantesca abóbada de luzes, onde escolhia as frutas mais apetitosas e os legumes mais tenros, que, no entanto, murchavam no instante em que ela os tocava, inconsciente da má virtude das suas mãos, que faziam crescer o bolor no pão ainda morno e tinham enegrecido o ouro da sua aliança de casamento, de maneira que soltava impropérios contra as vendedeiras por terem escondido as melhores provisões e só terem deixado para a casa do poder esta miséria de mangos de porcos, gatunas, esta ahuyama que soa por dentro como uma cabaça de música, malparidas, esta merda de costeletas com sangue bichoso que se vê à légua que não são de vaca, mas sim de burro morto de peste, filhas de má mãe, esganiçava-se, enquanto as criadas com as suas canastras e as ordenanças com as suas artesãs de bebedouro arrasavam tudo o que de comer havia à vista, os seus gritos de corso eram mais estridentes do que o fragor dos cães enlouquecidos pela humidade de esconderijos nevados das caudas das raposas azuis que ela mandava trazer vivas da ilha do príncipe Eduardo, mais feridores do que a réplica sangrenta dos guacamaios desbocados, cujas donas lhes ensinavam em segredo o que elas próprias não podiam dar-se ao prazer de gritar letícia ladra, freira puta, guinchavam-no encarrapitadas nos galhos de ferro da folhagem de vidros de cores empoeiradas do domo do mercado, onde se sabiam a salvo do sopro de devastação daquela briga de bucaneiros que se repetiu todas as quartas-feiras ao amanhecer durante a infância buliçosa do minúsculo general de fancaria, cuja voz se tornava mais afectuosa e os ademanes mais doces quanto mais homem tentava parecer, com o seu sabre de rei de baralho de cartas, que ainda lhe arrastava ao andar, mantinha-se imperturbável no meio da rapina, mantinha-se sereno, altivo, com o decoro inflexível que a mãe lhe tinha inculcado, para que merecesse a flor da estirpe que ela própria delapidava no mercado com os seus ímpetos de cadela raivosa e os seus impropérios de turca sob o olhar incólume das velhas negras de turbantes de trapos de cores radiosas que suportavam os Insultos e contemplavam o saque abanando-se sem pestanejar, com uma quietude abissal de ídolos sentados, sem respirar, ruminando bolas de tabaco, bolas de coca, remédios de temperança que lhes permitiam sobreviver a tanta ignomínia enquanto passava o assalto feroz da marabunta e Leticia Nazareno abria caminho com o seu militar de pacotilha através dos lombos eriçados dos cães frenéticos e gritava da porta mandem a conta ao Governo, como sempre, e elas apenas suspiravam, Deus meu, se o general soubesse, se houvesse alguém capaz de lhe contar, enganadas na ilusão de que ele continuou a ignorar até à hora da morte o que toda a gente sabia, para maior escândalo da sua memória, que a minha única e legítima esposa Leticia Nazareno tinha desguarnecido os bazares dos hindus dos seus terríveis cisnes de vidro e espelhos com molduras de búzios e cinzeiros de coral, despojava de tafetás mortuários as lojas dos sírios e levava às mãos cheias as séries de peixinhos de ouro e as figas de protecção dos ourives ambulantes da Rua do Comércio, que lhe gritavam na cara que és mais raposa que as letícias azuis que levava penduradas ao pescoço, acarretava com tudo o que encontrava no caminho, para satisfazer a única coisa que lhe restava da sua antiga condição de noviça, que era o seu mau gosto pueril e o vício de pedir sem necessidade, só que nessa altura não tinha de mendigar pelo amor de Deus nos saguões perfumados de jasmins do bairro dos vice-reis e, pelo contrário, carregava em carruagens militares tudo quanto lhe satisfazia a vontade, sem mais sacrifícios da sua parte que a ordem peremptória de que mandem a conta ao Governo. Era a mesma coisa que dizer que fossem pedir a conta a Deus, porque ninguém sabia desde então se ele existia de ciência certa, tinha-se tornado invisível, víamos os muros fortificados na colina da Plaza de Armas, a casa do poder com a varanda dos discursos lendários e as janelas de cortinas de renda e vasos de flores nas cornijas, que de noite parecia um barco a vapor navegando no céu, não só de qualquer sítio da cidade como também de sete léguas no mar depois de a terem pintado de branco e iluminado com globos de vidro para celebrar a visita do conhecido poeta Rubén Darío, embora nenhum desses sinais demonstrasse de ciência certa que ele estava lá, pelo contrário, pensávamos com boas razoes que aqueles alardes de vida eram artifícios militares para tentar desmentir a versão generalizada de que ele tinha sucumbido a uma crise de misticismo senil, que tinha renunciado aos fastos e vaidades do poder e que tinha imposto a si próprio a penitência de viver o resto dos seus anos num tremendo estado de prostração com cilícios de privações na alma e toda a espécie de ferros de mortificação no corpo, sem outra coisa além de pão de centeio para comer e água de poço para beber, nem nada mais para dormir do que as lajes do solo nu numa cela de clausura do convento das biscainhas, até expirar o horror de ter possuído contra sua vontade e ter fecundado de varão uma mulher proibida, que só porque Deus é grande não tinha recebido ainda as ordens maiores, e, no entanto, nada tinha mudado no seu vasto reino de pesadelo porque Leticia Nazareno tinha as chaves do seu poder e bastava-lhe dizer que ele mandava dizer que mandem a conta ao Governo, uma fórmula antiga que ao principio parecia muito fácil de evitar, mas que se foi tornando cada vez mais temível, até que um grupo de credores resolutos se atreveu a apresentar-se ao cabo de muitos anos com uma mala de facturas pendentes no posto da guarda da casa presidencial e deparámos com o espanto de que ninguém nos disse que sim nem que não, em lugar do que nos mandaram com um soldado de serviço a uma discreta sala de espera onde nos recebeu um oficial de marinha muito amável, muito novo, de voz pausada e ademanes sorridentes, que nos ofereceu uma chávena de café fraco e fragrante das colheitas presidenciais, mostrou-nos os gabinetes brancos e bem iluminados com redes metálicas nas janelas e ventoinhas de pás no tecto, e era tudo tão diáfano e humano que uma pessoa perguntava a si própria, perplexa, onde estava o poder daquele ar cheiroso a remédio perfumado, onde estava a mesquinhez e a inclemência do poder na consciência daqueles escrivães de camisas de seda que governavam sem pressa e em silêncio, mostrou-nos o patiozinho interior cujos roseirais tinham sido podados por Leticia Nazareno para purificar o sereno da madrugada da má recordação dos leprosos e dos cegos e dos paralíticos que foram mandados morrer de esquecimento em asilos de caridade, mostrou-nos o antigo barracão das concubinas, as máquinas de coser ferrugentas, os catres de quartel onde as escravas do serralho tinham dormido até em grupos de três em celas de opróbrio, que iam ser demolidas para se construir no seu lugar a capela privada, mostrou-nos duma janela interior a galeria mais íntima da casa civil, o telheiro de trinitárias douradas pelo sol das quatro na cancela de açajores de ripas verdes, onde ele acabava de almoçar com Leticia Nazareno e a criança, que eram as únicas pessoas que tinham autorização para se sentarem com ele à mesa, mostrou-nos a ceiba lendária a cuja sombra penduravam a rede de linho com as cores da bandeira, onde ele fazia a sesta nas tardes de mais calor, mostrou-nos os estábulos de ordenha, as queijarias, os favos de mel, e, ao regressar pelo caminho que ele percorria ao amanhecer para assistir à ordenha, pareceu fulminado pela centelha da revelação e apontou-nos com o dedo a pegada de uma bota na lama, reparem, disse, é uma pegada dele, ficámos petrificados contemplando aquela impressão de uma sola grande e larga que tinha o esplendor e o domínio em repouso e o cheiro de sarna velha do rasto de um tigre acostumado à solidão, e nessa pegada vimos o poder, sentimos o contacto do seu mistério com muito mais força reveladora do que quando um de nós foi escolhido para o ver a ele de corpo presente porque os grandes do exército começavam a revoltar-se contra a adventícia que tinha logrado acumular mais poder do que o alto comando, mais do que o Governo, mais do que ele, pois Leticia Nazareno tinha chegado tão longe com as suas presunções de rainha que o próprio estado-maior presidencial assumiu o risco de franquear a passagem a um dos senhores, só a um, para tentar que ele tivesse ao menos uma ideia íntima de como andava a pátria nas suas costas, meu general, e foi assim que o vi, estava sozinho no abafado gabinete de paredes brancas com gravuras de cavalos ingleses, estava deitado para trás na poltrona de molas, debaixo da ventoinha de pás, com a farda de cotim branco e enrugada com botões de cobre e sem insígnias de espécie nenhuma, tinha a mão direita com a luva de cetim em cima da secretária de madeira, onde nada havia além de três pares iguais de óculos muito pequenos com armações de ouro, tinha por detrás uma vitrina de livros cheios de pó, que mais pareciam livros maiores de contabilidade encadernados de pele humana, tinha à direita uma janela grande e aberta, também com rede metálica, através da qual se via a cidade inteira e todo o céu, sem nuvens nem pássaros, até ao outro lado do mar, e eu senti um grande alívio porque ele mostrava-se menos consciente do seu poder do que qualquer dos seus partidários e era mais doméstico do que nas fotografias e também mais digno de compaixão, pois todo ele era velho e penoso e parecia minado por uma doença insaciável, tanto que não teve forças para me dizer que me sentasse e, em vez disso, indicou-me com um gesto triste de luva de cetim, ouviu as minhas razões sem olhar para mim, respirando com um assobio ténue e difícil, um assobio recôndito que deixava no aposento um cheiro de creosoto, concentrado a fundo no exame das contas que eu apresentava, com exemplos de escola, porque ele não lograva conceber noções abstractas, de maneira que comecei por lhe demonstrar que Leticia Nazareno nos estava a dever uma quantidade de tafetá igual a duas vezes a distância marítima a Santa Maria del Altar, ou seja, 190 léguas, e ele disse ah... sim?!... como se para si próprio, e acabei por lhe demonstrar que o total da dívida, com o desconto especial para Sua Excelência, era igual a seis vezes o primeiro prémio da lotaria em dez anos, e ele voltou a dizer ah... sim?!... e só então me olhou de frente, sem os óculos, e pude ver que os olhos dele eram tímidos e indulgentes e só então me disse, com uma voz estranha de harmónio, que as nossas razões eram claras e justas, a cada um o que lhe pertence, disse, que mandem a conta ao Governo. Assim era, na realidade, pela época em que Leticia Nazareno o tinha voltado a fazer desde o princípio, sem os escolhos montanheses de uma mãe Bendición Alvarado, tirou-lhe o hábito de comer a andar com o prato numa mão e a colher na outra e comiam os três numa mesinha de praia sob o alpendre de trinitárias, ele defronte do menino e Leticia Nazareno entre os dois a ensinar-lhes as normas de urbanidade e de boa saúde no comer, ensinou-os a manterem a espinha dorsal apoiada no espaldar da cadeira, o garfo na mão esquerda, a faca na direita, mastigando cada pedaço quinze vezes de um lado e quinze vezes do outro, com a boca fechada e a cabeça direita sem fazer caso dos seus protestos de que tantos requisitos pareciam coisas de quartel, ensinou-lhe a ler depois do almoço o jornal oficial em que figurava ele próprio como patrono e director honorário, punha-lho nas mãos quando o via reclinado na rede à sombra da ceiba gigantesca do pátio familiar, dizendo-lhe que não era concebível que um chefe de Estado não estivesse ao corrente do que se passava no mundo, punha-lhe os óculos de ouro e deixava-o a chapinhar na leitura das suas próprias notícias enquanto ela adestrava o menino no desporto de noviças de lançar e apanhar uma bola de borracha, enquanto ele se encontrava a si próprio em fotografias tão antigas que muitas delas não eram suas, mas sim de um antigo sósia que tinha morrido por ele e de cujo nome não se lembrava, encontrava-se presidindo aos Conselhos de Ministros de terça-feira, aos quais não assistia desde os tempos do cometa, inteirava-se de frases históricas que lhe atribuíam os seus ministros letrados, lia cabeceando na modorra das grandes nuvens errantes das tardes de Agosto, submergia-se a pouco e pouco na papa de suor da testa, murmurando que merda de jornal, não percebo como é que as pessoas o suportam, mas alguma coisa devia ficar-lhe daquelas leituras sem graça porque acordava do sono curto e ténue com alguma ideia nova inspirada nas notícias, mandava ordens aos seus ministros por Leticia Nazareno, respondiam-lhe por ela tentando vislumbrar-lhe o pensamento pelo pensamento dela, porque tu eras o que eu tinha querido que fosses, a intérprete dos meus mais altos desígnios, tu eras a minha voz, eras a minha razão e a minha força, era o seu ouvido mais fiel e mais atento no rumor de lavas perpétuas do mundo inacessível que os assediava, embora, na verdade, os últimos oráculos que regiam o seu destino fossem os letreiros anónimos escritos nas paredes das casas de banho do pessoal de serviço, nos quais decifrava as verdades recônditas que ninguém se houvera atrevido a revelar-lhe, nem sequer tu, Leticia, lia-os ao amanhecer de regresso da ordenha, antes que as ordenanças da limpeza os apagassem, e tinha dado ordens para caiarem diariamente as paredes das retretes, para que ninguém resistisse à tentação de desabafar os seus rancores ocultos, ali conheceu as amarguras do alto comando, as intenções reprimidas dos que medravam à sua sombra e o repudiavam pelas costas, sentia-se dono de todo o seu poder quando conseguia penetrar um enigma do coração humano no espelho revelador do papel da canalha, voltou a cantar ao cabo de tantos anos contemplando através das brumas do mosquiteiro o sono matinal de baleia em seco da sua única e legítima esposa Leticia Nazareno, levanta-te, cantava, são seis horas do meu coração, o mar está no seu lugar, a vida continua, Leticia, a vida imprevisível da única das suas tantas mulheres, que tinha conseguido tudo dele menos o privilégio fácil de que amanhecesse com ela na cama, pois ele partia depois do último amor, pendurava a lanterna de sair à pressa no lintel do seu quarto de solteiro velho, corria as três aldrabas, os três ferrolhos, as três tranquetas, deitava-se de barriga para baixo no chão, sozinho e vestido, como tinha feito todas as noites antes de ti, como fez sem ti até à última noite dos seus sonhos de afogado solitário, regressava depois da ordenha ao teu quarto a cheirar a animal da escuridão, para continuar a dar quanto quisesses, muito, mais do que a herança sem medida da sua mãe Bendición Alvarado, muito mais do que algum ser humano tinha sonhado sobre a Terra, não só para ela como também para os seus parentes inesgotáveis, que chegavam vindos das restingas incógnitas das Antilhas, sem outra fortuna do que a pele que tinham em cima, nem mais títulos do que os da sua identidade de Nazarenos, uma família rude de varões intrépidos e mulheres afogueadas pela febre da cobiça, que tinham tomado de assalto as salinas, o tabaco, a água potável, os antigos privilégios com que ele tinha contemplado os comandantes das diferentes armas, para mantê-los afastados de outra espécie de ambições, e que Leticia Nazareno lhe tinha ido arrebatando a pouco e pouco por ordens dele, que ele não dava mas aprovou, está bem, tinha abolido o sistema bárbaro de execução por esquartejamento com cavalos e tinha tentado substituí-lo pela cadeira eléctrica, que o comandante do desembarque lhe tinha oferecido para que também nós desfrutássemos do método mais civilizado de matar, tinha visitado o laboratório de horror da fortaleza do porto, onde escolhiam os presos políticos mais exaustos para se treinarem no manejo do trono da morte, cujas descargas absorviam o total da potência eléctrica da cidade, conhecíamos a hora exacta da experiência mortal porque ficávamos um instante nas trevas com a respiração truncada de horror, guardávamos um minuto de silêncio nos bordéis do porto e tomávamos um copo pela alma do sentenciado, não uma mas multas vezes, pois a maioria das vítimas ficavam presas nas correias da cadeira, com o corpo enchouriçado e deitando fumo de carne assada, mas ainda resfolegando de dor, até que alguém tivesse a piedade de acabar de matá-los a tiro depois de várias tentativas frustradas, tudo para te comprazer, Leticia, por ti tinha desocupado os calabouços e autorizou de novo o repatriamento dos seus inimigos e promulgou um decreto de Páscoa para que ninguém fosse castigado por divergências de opinião nem perseguido por assuntos do seu foro íntimo, convencido de alma e coração na plenitude do seu outono de que até os seus adversários mais encarniçados tinham direito a compartilhar da placidez de que ele gozava nas noites absortas de janeiro com a única mulher que mereceu a glória de vê-lo sem camisa e com as cuecas compridas e a enorme hérnia dourada pela lua no terraço da casa civil, contemplavam juntos os salgueiros misteriosos que por ocasião daquele Natal lhes mandaram os reis da Babilónia, para que os semeassem no jardim da chuva, desfrutavam do sol estilhaçado através das águas perpétuas, gozavam da Estrela Polar enredada nas suas ramagens, esquadrinhavam o universo dos números do rádio interferido pelos assobios de brincadeira dos planetas fugitivos, ouviam juntos o episódio diário dos folhetins radiofónicos de Santiago de Cuba, que lhes deixava na alma o sentimento de angústia de se amanhã ainda estaremos vivos para saber como se compõe esta desgraça, ele brincava com o menino antes de o deitar, para lhe ensinar tudo o que era possível saber sobre o uso e manutenção das armas de guerra, que era a ciência humana que ele conhecia melhor do que ninguém, mas o único conselho que lhe deu foi que nunca desse uma ordem se não estiveres certo de que a vão cumprir, fez-lho repetir tantas vezes quantas achou necessárias para que a criança não esquecesse nunca que o único erro que um homem investido de autoridade e comando não pode cometer nem uma única vez em toda a vida é dar uma ordem que não esteja certo de que será cumprida, um conselho que era mais de avô escaldado do que de pai sábio e que o menino jamais teria esquecido, mesmo que tivesse vivido tanto como ele, porque lho ensinou ao mesmo tempo que o preparava para disparar pela primeira vez, aos seis anos de idade, um canhão de recuo a cujos estampidos de catástrofe atribuímos a pavorosa tempestade seca de relâmpagos e trovões vulcânicos e o tremendo vento polar de Comodoro Rivadavia, que virou do avesso as entranhas do mar e levou pelos ares um circo de animais acampado na praça do antigo porto negreiro, pescávamos elefantes nas tarrafas, palhaços afogados, girafas empoleiradas nos trapézios pela fúria do temporal,  que só por milagre não meteu a pique o barco bananeiro em que chegou poucas horas depois o jovem poeta Félix Rubén García Sarmiento, que havia de tornar-se famoso com o nome de Rubén Darío, por felicidade o mar aplacou-se às quatro, o ar lavado encheu-se de formigas voadoras e ele assomou à janela do quarto e viu ao socairo das colinas do porto o barquinho branco adornado a estibordo e com a mastreação desmantelada navegando sem riscos no remanso da tarde purificada pelo enxofre da tempestade, viu o capitão no castelo da popa dirigindo a manobra difícil em honra do passageiro ilustre de casaca de fazenda escura e colete de trespasse, a quem ele não ouviu mencionar até à noite do domingo seguinte, quando Leticia Nazareno lhe pediu a graça inconcebível de que a acompanhasse ao sarau lírico do Teatro Nacional, e ele aceitou sem pestanejar, está bem. Tínhamos esperado três horas de pé na atmosfera de vapor da plateia sufocados pela vestimenta de gala que nos exigiram de urgência à última hora, quando, finalmente, se iniciou o hino nacional e nos voltámos a aplaudir para o camarote assinalado com o escudo da pátria, onde apareceu a noviça anafada do chapéu de plumas frisadas e das caudas de raposa nocturnas sobre o vestido de tafetá, sentou-se, sem cumprimentar, junto do infante de uniforme de noite que tinha respondido aos aplausos com o lírio de dedos vazios da luva de cetim apertada no punho, como a mãe lhe tinha dito que os príncipes doutra época faziam, não vimos ninguém mais no camarote presidencial, mas durante as duas horas do recital suportámos a certeza de que ele estava ali, sentíamos a presença invisível que vigiava o nosso destino, para que não fosse alterado pela desordem da poesia, ele regulamentava o amor, decidia a intensidade e o termo da morte num recanto do camarote envolto na penumbra, de onde viu sem ser visto o minotauro espesso, cuja voz de centelha marinha o arrancou pelos ares do seu lugar e o deixou a flutuar sem autorização sua no trono de ouro dos claros clarins dos arcos triunfais de Martes e Minervas de uma glória que não era a sua, meu general, viu os atletas heróicos dos estandartes, os negros mastins de prisão, os fortes cavalos de guerra de cascos de ferro, os piques e lanças dos paladinos de grosseiros penachos que levavam cativa a estranha bandeira, para honra de umas armas que não eram as suas, viu a tropa de jovens feros que tinham desafiado os sóis do rubro Verão, as neves e ventos do gélido Inverno, a noite e o orvalho e o ódio e a morte, para esplendor eterno de uma pátria imortal maior e mais gloriosa do que todas quantas ele tinha sonhado nos longos delírios das suas febres de guerreiro descalço, sentiu-se pobre e minúsculo no estrondo sísmico dos aplausos que ele aprovava na sombra, pensando, minha mãe Bendición Alvarado a isto é que se chama desfile, e não às merdas que esta gente me organiza, sentindo-se diminuído e só, oprimido pelo sopor e pelos mosquitos e pelas colunas de betume de ouro e de veludo desbotado do camarote de honra, catano, como é possível que este índio possa escrever uma coisa tão bela com a mesma mão com que limpa o cu, dizia de si para si, tão exaltado pela revelação da beleza escrita que arrastava as grandes patas de elefante cativo ao compasso dos toques marciais dos timbaleiros, dormitava ao ritmo das vozes de glória do canto sonoro do cálido coro que Leticia Nazareno recitava para ele à sombra dos arcos triunfais da ceiba do pátio, escrevia os versos nas paredes das retretes, estava a tentar recitar de memória o poema completo no Olimpo tépido de merda de vaca dos estábulos de ordenha quando a terra tremeu com a carga de dinamite que rebentou antes de tempo na mala do automóvel presidencial estacionado na cocheira, foi terrível, meu general, uma conflagração tão potente que muitos meses depois ainda encontrávamos por toda a cidade as peças retorcidas do automóvel blindado que Leticia Nazareno e o menino deviam usar uma hora mais tarde para irem às compras de quarta-feira, pois o atentado era contra ela, meu general, sem dúvida nenhuma, e então ele deu uma palmada na testa, catano, como é possível que não o tivesse previsto, que fora feito da sua clarividência lendária se desde há tantos meses que os letreiros das casas de banho não eram dirigidos contra ele, como sempre, nem contra algum dos seus ministros civis, mas eram, sim, inspirados pela audácia dos Nazarenos, que tinham chegado ao ponto de mordiscar as prebendas reservadas ao alto comando, ou pelas ambições dos homens da Igreja que obtinham do poder temporal favores desmedidos e eternos, ele tinha observado que as diatribes inocentes contra sua mãe Bendición Alvarado se tinham tornado impropérios de arara, pasquins de rancores ocultos que amadureciam na impunidade tépida das retretes e acabavam por sair à rua como tinha acontecido tantas vezes com outros escândalos menores, que ele próprio se encarregava de precipitar, embora nunca pensasse nem tivesse podido pensar que fossem ferozes ao ponto de porem dois quintais de dinamite dentro da própria cerca da casa civil, espertalhões, como é possível que ele andasse tão absorto no êxtase dos bronzes triunfais que o seu olfacto requintado de tigre excitado pelo gosto de carne humana não tivesse reconhecido a tempo o velho e doce odor do perigo, que chatice, reuniu de urgência o alto comando, catorze militares trémulos que ao cabo de tantos anos de canal ordinário e ordens em segunda mão voltávamos a ver a duas braças de distância o ancião incerto cuja existência real era o mais simples dos seus enigmas, recebeu-nos sentado na cadeira tronal da sala de audiências, com a farda de soldado raso a cheirar a mijo de raposa e uns óculos muito finos de ouro de lei que não conhecíamos nem nos seus retratos mais recentes, e era mais velho e mais remoto do que alguém teria podido imaginar, excepto as mãos lânguidas sem as luvas de cetim, que não pareciam as suas mãos naturais de militar, mas sim as de alguém muito mais jovem e compassivo, tudo o resto era denso e sombrio, e quanto mais o reconhecíamos mais evidente se tornava que apenas lhe restava um último sopro para viver, mas era o sopro de uma autoridade inapelável e devastadora que a ele próprio custava manter dentro dos limites como ao azougue de um cavalo desenfreado, sem falar, sem mexer sequer a cabeça, enquanto lhe prestávamos honras de general comandante supremo e acabámos por nos sentarmos defronte dele nas poltronas dispostas em círculo, e só então tirou os óculos e começou a escutar-nos com aqueles olhos meticulosos que conheciam os esconderijos de doninha das nossas segundas intenções, perscrutou-os sem clemência, um a um, levando todo o tempo que lhe era necessário para estabelecer com precisão quanto cada um de nós tinha mudado desde a tarde de brumas da memória em  que os tinha promovido aos postos mais elevados, apontando-os com o dedo segundo os impulsos da sua inspiração, e à medida que os esquadrinhava sentia crescer a certeza de que entre aqueles catorze inimigos recônditos estavam os autores do atentado, mas ao mesmo tempo sentiu-se tão só e indefeso frente a eles que apenas pestanejou, apenas levantou a cabeça para os exortar à unidade, agora mais do que nunca, para o bem da pátria e a honra das forças armadas, recomendou-lhes energia e prudência e impôs-lhes a honrosa missão de descobrirem sem contemplações os autores do atentado para os submeter ao rigor sereno da justiça marcial, é tudo, meus senhores, concluiu, farto de saber que o autor era um deles, ou eram todos, ferido de morte pela convicção iniludível de que a vida de Leticia Nazareno não dependia então da vontade de Deus, mas sim da sabedoria com que ele lograsse preservá-la de uma ameaça que tarde ou cedo havia de cumprir-se sem remédio, maldição. Obrigou-a a cancelar os compromissos públicos, obrigou os seus parentes mais vorazes a despojarem-se de todos os privilégios que pudessem interferir com as forças armadas, aos mais compreensivos nomeou-os cônsules de mão livre e aos mais encarniçados encontrávamo-los a flutuar nos mangais de valetas dos esgotos do mercado, apareceu sem se anunciar ao fim de tantos anos no seu cadeirão vazio do Conselho de Ministros, disposto a pôr um limite à infiltração do clero nos assuntos do Estado, para te ter a salvo dos teus inimigos, Leticia, e, no entanto, tinha voltado a sondar profundamente o alto comando depois das primeiras decisões drásticas e estava convencido de que sete dos comandantes lhe eram leais sem reservas, além do general-chefe, que era o mais antigo dos seus compadres, mas ainda carecia de poder contra os outros seis enigmas que lhe alongavam as noites com a impressão iniludível de que Leticia Nazareno estava já marcada pela morte, estavam a matá-la entre as mãos, apesar do rigor com que mandava provar a comida dela a partir do momento em que encontraram uma espinha de peixe dentro do pão, comprovavam a pureza do ar que ela respirava, porque ele tinha temido que lhe pusessem veneno na bomba doflit, via-a pálida na mesa, sentia-a ficar sem voz a meio do amor, atormentava-o a ideia de que lhe pusessem micróbios do vómito negro na água de beber, vitríolo no colírio, subtis engenhos de morte que lhe amargavam cada instante daqueles dias e o acordavam a meio da noite com o pesadelo vívido de que Leticia Nazareno se tinha esvaído em sangue durante o sono por causa de um malefício de índios, aturdido por tantos riscos Imaginários e ameaças verídicas que a proibia de sair à rua sem a escolta feroz de guardas presidenciais instruídos para matarem sem causa, mas ela saía, meu general, levava o menino, ele sobrepunha-se ao mau presságio para os ver entrarem no novo automóvel blindado, despedia-se deles com sinais de esconjuro de uma varanda interior, rezando minha mãe Bendición Alvarado protege-os, faz que as balas ricocheteiem no espartilho dela, amansa o láudano, mãe, endireita os pensamentos tortos, sem um momento de sossego enquanto não voltava a sentir as sereias da escolta da Plaza de Armas e via Leticia Nazareno e o menino a atravessarem o pátio com as primeiras luzes do farol, ela voltava agitada, feliz no meio da custódia de guerreiros carregados de pavões vivos, de orquídeas de Envigado , de fiadas de lampadazinhas de cores para as noites de Natal, que já se anunciavam na rua com letreiros de estrelas luminosas ordenados por ele para dissimular a ansiedade, recebia-a na escada para sentir-te ainda viva no ressaibo de naftalina das caudas de raposas azuis, no suor ácido das tuas mechas de inválida, ajudava-te a levar os presentes para o quarto, com a estranha certeza de estar a consumir as últimas migalhas de um alvoroço condenado que teria preferido não conhecer, tanto mais desolado quanto mais convencido estava de que cada recurso que concebia para aliviar aquela ansiedade insuportável, cada passo que dava para a conjurar o aproximava sem piedade da pavorosa quarta-feira da minha desgraça em que tomou a decisão tremenda de que acabou-se, catano, o que tiver de ser que seja depressa, decidiu, e foi como uma ordem fulgurante que não tinha acabado de conceber quando dois dos ajudantes de campo irromperam no gabinete com a novidade terrível de que Leticia Nazareno e o menino tinham sido esquartejados e comidos aos bocados pelos cães vadios do mercado público, comeram-nos vivos, meu general, mas não eram os mesmos cães de rua de sempre, mas sim uns animais de rapina com uns olhos amarelos atónitos e uma pele lisa de tubarão que alguém tinha atiçado contra as raposas azuis, sessenta cães iguais que ninguém soube quando saltaram de entre as bancadas de legumes e caíram em cima de Leticia Nazareno e do menino, sem nos dar tempo de disparar com medo de matá-los a eles, que parecia que se estavam a afogar juntamente com os cães num torvelinho de inferno, só víamos os fantasmas instantâneos de umas mãos efémeras estendidas para nós enquanto o resto do corpo ia desaparecendo aos pedaços, víamos umas expressões fugazes que às vezes eram de terror, outras vezes eram de pena, e outras de júbilo, até que acabaram por desaparecer no remoinho da rebatinha e só ficou a flutuar o chapéu de violetas de feltro de Leticia Nazareno ante o horror impassível das hortaliceiras totémicas salpicadas de sangue quente, que rezavam Deus meu, isto não seria possível se o general não o quisesse, ou, pelo menos, se não o soubesse, para desonra eterna da guarda presidencial, que só pôde recuperar sem disparar um tiro os ossos dispersos entre os legumes ensanguentados, mais nada, meu general, a única coisa que encontrámos foram estas medalhas do menino, o sabre sem as borlas, os sapatos de couro de Leticia Nazareno, que ninguém sabe por que razão apareceram a boiar na baía para aí a uma légua do mercado, o colar de vidros de cores, o porta-moedas de malha de almofre que aqui lhe entregamos nas suas próprias mãos, meu general, juntamente com estas três chaves, a aliança de casamento de ouro enegrecido e estes cinquenta centavos em moedas de dez, que puseram em cima da secretária, para ele contar, e mais nada, meu general, era tudo quanto restava deles. Para ele teria vindo a dar no mesmo que restasse mais, ou que restasse menos, se tivesse sabido na altura que não eram muitos nem muito difíceis os anos que lhe seriam precisos para exterminar até ao último vestígio da recordação daquela quarta-feira inevitável, chorou de raiva, acordou a gritar de raiva, atormentado pelos latidos dos cães que passaram a noite nas cadelas do pátio, enquanto ele decidia que fazemos deles, meu general, perguntando a si próprio, aturdido, se matar os cães não seria outra maneira de matar novamente nas suas entranhas Leticia Nazareno e o menino, mandou derrubar a cúpula de ferro do mercado de legumes e construir em seu lugar um jardim de magnólias e codornizes, com uma cruz de mármore com uma luz mais alta e mais intensa que a do farol, para perpetuar na memória das gerações futuras até ao fim dos séculos a recordação de uma mulher histórica que ele próprio tinha esquecido muito antes que o monumento fosse demolido por uma explosão nocturna que ninguém reivindicou, e as magnólias foram comidas pelos porcos e o jardim memorável ficou transformado numa esterqueira de lodo pestilento, que ele não conheceu não só porque tinha ordenado ao motorista presidencial que evitasse a passagem pelo antigo mercado de legumes, mesmo que tenhas de dar a volta ao mundo, como porque não voltou a sair à rua a partir do dia em que mandou os gabinetes para os edifícios de vidros solares dos ministérios e ficou sozinho com o pessoal mínimo para viver na casa desmantelada onde não restava então, por ordem sua, nem o vestígio menos visível das tuas urgências de rainha, Leticia, ficou a vaguear na casa vazia sem mais ofício conhecido do que as consultas eventuais dos altos comandos ou a decisão final de um conselho de ministros difícil ou as visitas perniciosas do embaixador Wilson, que costumava ficar a fazer-lhe companhia até bem entrada a tarde sob a folhagem da ceiba e lhe levava caramelos de Baltimore e revistas com cromos de mulheres nuas, para tentar convencê-lo a dar-lhe as águas territoriais por conta das amortizações descomunais da dívida externa, e ele deixava-o falar, aparentava ouvir menos ou mais do que na realidade ouvia, segundo as suas conveniências, defendia-se da sua lábia ouvindo o coro da pintada paradinha no verde limão na vizinha escola de meninas, acompanhava-o até às escadas com as primeiras sombras, tentando explicar-lhe que podia levar tudo o que quisesse, menos o mar das minhas janelas, imagine, o que faria eu sozinho nesta casa tão grande se não pudesse vê-lo, agora como sempre, a esta hora, como um pântano em chamas, que faria sem os ventos de Dezembro que se enfiam a ladrar pelos vidros quebrados, como poderia viver sem as rajadas verdes do farol, eu, que abandonei os meus páramos de neve e me enfronhei a agonizar de febres no tumulto da guerra federal, e não julgue o senhor que o fiz pelo patriotismo que vem no dicionário, nem por espírito de aventura, nem muito menos porque me interessassem a ponta de um corno os princípios federalistas que Deus tenha no seu santo reino, não, meu caro Wilson, fiz tudo isso para conhecer o mar, de maneira que pense noutra coisa, dizia, despedia-se dele na escada, com uma palmadinha no ombro, regressava acendendo os candeeiros dos salões desertos dos antigos gabinetes onde uma dessas tardes encontrou uma vaca extraviada, enxotou-a para as escadas e o animal tropeçou nos remendos das alcatifas e enfiou de bruços e caiu a rebolar e partiu o pescoço nas escadas, para glória e sustento dos leprosos, que se precipitaram a esquartejá-la, pois os leprosos tinham voltado depois da morte de Leticia Nazareno e estavam outra vez com os cegos e os paralíticos, esperando das mãos dele o sal da saúde nos roseirais silvestres do pátio, ele ouvia-os cantar em noites estreladas, cantava com eles a canção de Susana vem Susana dos seus tempos de glória, assomava às clarabóias do celeiro às cinco da tarde para ver a saída das meninas da escola e ficava extasiado com as fardas azuis, com as meias de semimenina, semimulher, as tranças, mãe, fugíamos assustadas dos olhos de tuberculoso do fantasma que nos chamava por entre os barrotes de ferro com os dedos rotos da luva de pano, menina, menina, chamava-nos, anda cá, para eu te apalpar, via-as escaparem-se, espavoridas, pensando minha mãe Bendición Alvarado, que jovens são as de agora, ria-se de si próprio, mas voltava a reconciliar-se consigo mesmo quando o seu médico pessoal o ministro da Saúde lhe examinava a retina com uma lupa cada vez que o convidava para almoçar, contava-lhe o pulso, queria obrigá-lo a tomar colheradas de fósforo-ferrero para me tapar os sumidouros da memória, que chatice, colheradas, a mim, que não tive mais percalços na vida do que as terçãs da guerra, bardamerda, doutor, ficou a comer só na mesa solitária de costas voltadas para o mundo, como o erudito embaixador Maryland lhe tinha dito que comiam os reis de Marrocos, comia com o garfo e a faca e a cabeça erguida, de acordo com as normas severas de uma professora esquecida, percorria a casa inteira procurando os frascos de mel, cujos esconderijos se lhe perdiam passadas poucas horas, e encontrava por engano as mortalhas de margens de memoriais que escrevia noutra época, para não esquecer nada quando já não pudesse recordar-se de nada, leu num que amanhã é terça-feira, leu que havia um número no teu branco lenço, rubro número de um nome que não era o teu, meu dono, leu intrigado Leticia Nazareno da minha alma vê como fiquei sem ti, lia Leticia Nazareno por todos os lados, sem poder perceber que alguém fosse tão desgraçado que deixasse aquele sulco de suspiros escritos, e, no entanto, era a minha letra, a única caligrafia de mão esquerda que se encontrava então nas paredes das casas de banho onde escrevia, para se consolar, viva o general, viva, catano, curado de raiz da raiva de ter sido o mais débil dos militares de terra, mar e ar por causa de uma pródiga da clausura, da qual não restava senão o nome escrito a lápis em tiras de papel, como ele tinha resolvido quando nem sequer quis tocar nas coisas que os ajudantes de campo puseram em cima da secretária e ordenou, sem olhar para elas, que levem esses sapatos, essas chaves, tudo quanto pudesse evocar a imagem dos seus mortos, que pusessem tudo o que foi deles dentro do quarto das suas sestas desaforadas e entaipassem as portas e as janelas com a ordem final de não entrar nesse quarto nem por ordem minha, catano, sobreviveu ao calafrio nocturno dos uivos dos cães acorrentados no pátio durante muitos meses, porque pensava que qualquer mal que lhes fizesse podia doer aos seus mortos, abandonou-se na rede, tremendo com a raiva de saber quem eram os assassinos do seu sangue e ter de suportar a humilhação de vê-los na sua própria casa porque naquele momento carecia de poder contra eles, tinha-se oposto a qualquer espécie de honras póstumas, tinha proibido as visitas de pêsames, o luto, esperava a sua hora balouçando-se de raiva na rede à sombra da ceiba tutelar, onde o meu último compadre lhe tinha expressado o orgulho do alto comando pela serenidade e ordem com que o povo se tinha resignado à tragédia, e ele apenas sorriu, não seja pateta, compadre, qual serenidade nem qual ordem, o que se passa é que não se ralaram a ponta de um corno com esta desgraça, repassava o jornal de trás para a frente e da frente para trás, procurando qualquer coisa além das notícias inventadas pelos seus próprios serviços de imprensa, mandou porem-lhe o rádio ao alcance da mão para ouvir a mesma notícia, de Vera Cruz até Riobamba, que as forças da ordem estavam na pista segura dos autores do atentado, e ele murmurava claro que sim, filhos da tarântula, que os tinham identificado sem a mais pequena dúvida, claro que sim, que os tinham encurralado com fogo de morteiro numa casa de tolerância dos arredores, aí está, suspirou, pobre gente, mas permaneceu na rede sem transparecer nem uma luz da sua malícia, rezando minha mãe Bendición Alvarado dá-me vida para esta desforra, não me largues da tua mão, mãe, inspira-me, tão seguro da eficácia da súplica que o encontrámos refeito da sua dor quando os comandantes do estado-maior responsáveis pela ordem pública e pela segurança do Estado viemos comunicar-lhe a novidade de que três dos autores do crime tinham sido mortos em combate com a força pública e os outros dois estavam à disposição do meu general nos calabouços de San Jerónimo, e ele disse ah... sim?!... sentado na rede com o jarro de sumo de fruta, do qual nos serviu um copo a cada um com pulso sereno de bom atirador, mais sábio e solícito do que nunca, até ao ponto de ter adivinhado a minha ânsia de acender um cigarro e deu-me a autorização que não tinha concedido até então a nenhum militar em serviço, debaixo desta árvore somos todos iguais, disse, e ouviu sem rancor o relatório minucioso do crime do mercado, como tinham sido trazidos da Escócia em remessas separadas oitenta e dois cães de fila recém-nascidos, dos quais tinham morrido vinte e dois no decurso da criação e sessenta tinham sido mal educados para matar por um mestre escocês que lhes inculcou um ódio criminal não só contra as raposas azuis como contra a própria pessoa de Leticia Nazareno e o menino, valendo-se destes artigos de vestuário, que tinham subtraído a pouco e pouco dos serviços de lavandaria da casa civil, valendo-se deste espartilho de Leticia Nazareno, deste lenço, destas meias, desta farda completa do menino, que exibimos diante dele para que os reconhecesse, mas só disse ah... sim?! ... sem olhar para eles, explicámos-lhe como os sessenta cães tinham sido treinados, inclusivamente, para não ladrar quando não deviam, habituaram-nos ao sabor da carne humana, mantiveram-nos fechados sem nenhum contacto com o mundo durante os anos difíceis da aprendizagem numa antiga fazenda de chineses a sete léguas desta cidade capital, onde tinham imagens de tamanho  humano com roupas de Leticia Nazareno e do menino, que os cães conheciam, além disso, por estes retratos originais que lhe mostrámos colados num álbum, para que o meu general aprecie melhor a perfeição do trabalho que esses bastardos tinham feito, a cada um o que é devido, mas ele só disse ali... sim?!.... sem olhar para eles, explicámos-lhe, finalmente, que os sindicatos não actuavam por conta própria, claro, mas que eram agentes de uma irmandade subversiva com base no estrangeiro, cujo símbolo era esta pena de ganso cruzada com uma faca, ah... sim?!.... todos eles fugitivos da justiça penal militar por outros delitos anteriores contra a segurança do Estado, estes três que são os mortos cujos retratos lhe mostrámos no álbum com o número da respectiva ficha policial pendurada ao pescoço, e estes que são os vivos encarcerados à espera da decisão última e inapelável do meu general, os irmãos Mauricio e Gumaro Ponce de León, de 28 e 23 anos, o primeiro desertor do exército, sem ocupação nem domicílio conhecidos e o segundo mestre de cerâmica na escola de artes e ofícios, e perante os quais os cães deram tais mostras de familiaridade e alvoroço que isso teria bastado como prova de culpa, meu general, e ele só disse ah... sim?!.... mas citou com honras em ordem do dia os três oficiais que levaram a cabo a investigação do crime e impôs-lhes a medalha de mérito militar por serviços à pátria, no decurso de uma cerimónia solene, na qual constituiu o conselho de guerra sumário que julgou os irmãos Maurício e Gumaro Ponce de León e os condenou à morte por fuzilamento dentro das quarenta e oito horas seguintes, a menos que obtivessem o benefício da sua clemência, meu general, o meu general manda. Permaneceu absorto e sozinho na rede, insensível às súplicas de graça do mundo inteiro, ouviu no rádio o debate estéril da Sociedade das Nações, ouviu insultos dos países vizinhos e algumas adesões distantes, ouviu com igual atenção as razões tímidas dos ministros partidários da piedade e os motivos estridentes dos partidários do castigo, recusou-se a receber o núncio apostólico com uma mensagem pessoal do papa, na qual expressava a sua inquietação pastoral pela sorte das duas ovelhas tresmalhadas, ouviu as comunicações de ordem pública de todo o país alterado pelo seu silêncio, ouviu tiros remotos, sentiu o tremor de terra da explosão sem origem de um barco fundeado na baía, onze mortos, meu general, oitenta e dois feridos e o navio fora de serviço, muito bem, disse ele, contemplando da janela do quarto a fogueira nocturna na enseada do porto, enquanto os dois condenados à morte começavam a viver a noite das suas vésperas na capela-ardente da base de San Jerónimo, ele recordou-os àquela hora como os tinha visto nos retratos com as sobrancelhas eriçadas da mãe comum, recordou-os trémulos, sós, com as tabuletas dos números sucessivos penduradas ao pescoço, sob a lâmpada sempre acesa da cela de agonia, sentiu-se pensado por eles, soube-se necessitado, requerido, mas não tinha feito um gesto mínimo que permitisse vislumbrar o rumo da sua vontade quando acabou de repetir os actos de rotina de uma jornada mais na sua vida e se despediu do oficial de serviço que havia de permanecer de vigia defronte do quarto, para levar o recado da sua decisão a qualquer hora que ele a tomasse antes dos primeiros alvores, despediu-se ao passar, sem olhar para ele, boas noites, capitão, pendurou a lanterna no lintel, correu as três aldrabas, os três ferrolhos, as três tranquetas, submergiu-se de barriga para baixo num sono alerta através de cujos tabiques frágeis continuou a ouvir os latidos ansiosos dos cães no pátio, as sereias das ambulâncias, os petardos, as rajadas de música de alguma festa equívoca na noite intensa da cidade, apanhada de surpresa pelo rigor da sentença, acordou com os sinos da meia-noite na catedral, voltou a acordar às duas, voltou a acordar antes das três com o crepitar da chuva miudinha nas redes das janelas, e então levantou-se do chão com aquela enorme e árdua manobra de boi, primeiro as ancas e depois as patas dianteiras e por último a cabeça aturdida com um fio de baba nos beiços e ordenou em primeiro lugar ao oficial de serviço que levassem esses cães para onde eu não os possa ouvir, a cargo do governo até à sua extinção natural, ordenou em segundo lugar a libertação sem condições dos soldados da escolta de Leticia Nazareno e do menino, e ordenou finalmente que os irmãos Mauricio e Gumaro Ponce de León fossem executados assim que for conhecida esta minha decisão suprema e inapelável, mas não no muro de fuzilamento, como estava previsto, e sim que fossem submetidos ao castigo em desuso do esquartejamento com cavalos e os seus membros fossem expostos à indignação pública e ao horror nos locais mais visíveis do seu desmesurado reino de pesadelo, pobres rapazes, enquanto ele arrastava as suas grandes patas de elefante mal ferido suplicando de raiva minha mãe Bendición. Alvarado, assiste-me, não me largues da tua mão, mãe, permite-me encontrar o homem que me ajude a vingar este sangue inocente, um homem providencial que ele tinha imaginado nos desvarios do rancor e que procurava com uma ansiedade irresistível nas profundezas dos olhos que encontrava ao passar, tentava descobri-lo acaçapado nos registos mais subtis das vozes, nos impulsos do coração, nas frinchas menos usadas na memória, e tinha perdido as ilusões de o encontrar quando se descobriu a si próprio fascinado pelo homem mais deslumbrante e altivo que os meus olhos tinham visto, mãe, vestido como os godos de antigamente com um casaco Henry Pool e uma gardénia na botoeira, com umas calças Pecover e um colete de brocados com reflexos de prata que tinha exibido com a sua elegância natural nos salões mais difíceis da Europa, cabresteando com uma trela um dobermann taciturno do tamanho de um novilho com olhos humanos, José Ignacio Saenz de la Barra, para servir Vossa Excelência, apresentou-se, a última vergôntea solta da nossa aristocracia demolida pelo vento arrasador dos caudilhos federais, varrida da face da pátria com os seus áridos sonhos de grandeza e as suas mansões vastas e melancólicas e o seu sotaque francês, um esplêndido cabo de raça sem mais fortuna do que os seus trinta e dois anos, sete línguas, quatro recordes de tiro aos pombos em DauviIle, sólido, esbelto, cor de ferro, cabelo mestiço com risco ao meio e uma madeixa branca pintada, os lábios de linha da vontade eterna, o olhar resoluto do homem providencial que fingia jogar o críquete com a bengala de cerejeira, para que lhe tirassem uma fotografia a cores como fundo de primaveras idílicas das gobelinas da sala de festas, e no instante em que ele o viu exalou um suspiro de alívio e disse para consigo é este, e era aquele. Pôs-se ao seu serviço com o compromisso simples de que o senhor entrega-me um orçamento de oitocentos e cinquenta milhões sem eu ter de prestar contas a ninguém e sem mais autoridade acima de mim do que Vossa Excelência e eu entrego-lhe no decurso de dois anos as cabeças dos assassinos reais de Leticia Nazareno e do menino, e ele aceitou, muito bem, convencido da sua lealdade e eficácia ao cabo das multas provas difíceis a que o tinha submetido para perscrutar-lhe as anfractuosidades do ânimo e conhecer os limites da sua vontade e as gretas do seu carácter antes de decidir-se a pôr-lhe nas mãos as chaves do seu poder, submeteu-o à prova final das partidas inclementes de dominó, nas quais José Ignacio Saenz de Ia Barra se impôs a temeridade de lhe ganhar sem autorização, e ganhou, pois era o homem mais valente que os meus olhos tinham visto, mãe, tinha uma paciência sem esquinas, sabia tudo, conhecia setenta e duas maneiras de preparar o café, distinguia o sexo dos mariscos, sabia ler música e escrita para cegos, ficava a olhar-me nos olhos, sem falar, e eu não sabia o que fazer diante daquele rosto indestrutível, daquelas mãos ociosas apoiadas no castão da bengala de cerejeira, com uma pedra de águas matinais no anelar, aquele canzarrão deitado aos seus pés, vigilante e feroz dentro do invólucro de veludo vivo da sua pele adormecida, aquela fragrância de sais de banho do corpo imune à ternura e à morte do homem mais formoso e com maior domínio que os meus olhos viram quando teve a valentia de me dizer que eu não era militar senão por conveniência, porque os militares são precisamente o contrário do senhor general, são homens de ambições imediatas e fáceis, interessa-lhes mais o comando do que o poder e não estão ao serviço de nada, mas sim de alguém, e por isso era tão fácil utilizá-los, disse, sobretudo uns contra os outros, e nada mais me ocorreu senão sorrir persuadido de que não teria podido ocultar o seu pensamento diante daquele homem deslumbrante a quem deu mais poder do que alguém teve sob o seu regime depois do meu compadre o general Rodrigo de Aguilar, que Deus tenha em sua santa mão, fê-lo dono absoluto de um império secreto dentro do seu próprio império privado, um serviço invisível de repressão e extermínio que não só carecia de identidade oficial como inclusivamente era difícil acreditar na sua existência real, pois ninguém respondia pelos seus actos, não tinha um nome, nem um sítio no mundo, e, no entanto, era uma verdade pavorosa que se tinha imposto pelo terror sobre os outros órgãos de repressão do Estado a partir de muito antes que a sua origem e a sua natureza impalpável fossem estabelecidas de ciência certa pelo alto comando, nem o senhor próprio previu o alcance daquela máquina de horror, meu general, nem eu próprio pude suspeitar que no instante em que aceitou o acordo fiquei à mercê do encanto irresistível e da ânsia tentacular daquele bárbaro vestido de príncipe que me mandou à casa presidencial um fardo de piteira que parecia cheio de cocos e ele ordenou que o ponham para aí onde não estorve, num armário de papéis de arquivo embutido na parede, esqueceu-se dele, e ao fim de três dias era impossível viver por causa do fedor a morte que atravessava as paredes e embaciava de um vapor pestilento os espelhos, procurávamos o pivete na cozinha e encontrávamo-lo nos estábulos, enxotavam-no com defumações dos gabinetes e saía-lhes ao encontro na sala de audiências, saturou com os seus eflúvios de roseiral de podridão os resquícios mais recônditos onde não chegaram nem escondidos noutras fragrâncias os hálitos mais ténues da sarna dos ares nocturnos da peste, e estava, em compensação, onde menos o tínhamos procurado, no fardo que parecia de cocos que José Ignacio Saenz de Ia Barra tinha mandado como primeiro abono do acordo, seis cabeças cortadas, com o atestado de óbito respectivo, a cabeça do patrício cego da Idade da Pedra Dom Nepomuceno Estrada, noventa e quatro anos, último veterano da grande guerra e fundador do Partido Radical, morto, segundo certidão anexa, em catorze de Maio em consequência de um colapso senil, a cabeça do doutor Nepomuceno Estrada de la Fuente, filho do anterior, cinquenta e sete anos, médico homeopata, morto, segundo certidão anexa, na mesma data que seu pai, em consequência de uma trombose coronária, a cabeça de Eliécer Castor, vinte e um anos, estudante de Letras, morto, segundo certidão anexa, em consequência de diversos ferimentos de arma perfurante, numa briga de taberna, a cabeça de Lídice Santiago, trinta e dois anos, activista clandestina- na, morta segundo certidão anexa em consequência de um aborto provocado, a cabeça de Roque Pinzón, aliás jacinto 0 Invisível, trinta e oito anos, fabricante de balões de cores, morto na mesma data que a anterior, em consequência de uma intoxicação etílica, a cabeça de Natalício Ruiz, secretário do movimento clandestino Dezassete de Outubro, trinta anos, morto, segundo certidão anexa, em consequência de um tiro de pistola que disparou no palato por uma desilusão amorosa, seis no total, e o correspondente recibo, que ele assinou com a bílis revolvida pelo odor e pelo horror, pensando minha mãe Bendición Alvarado este homem é um animal, quem teria imaginado com os seus ademanes místicos e a sua flor na botoeira, ordenou-lhe que não me mande mais peças de talho. Nacho, a sua palavra chega-me, mas Saenz de Ia Barra respondeu-lhe que aquele era um negócio de homens, senhor general, se o senhor general não tem fígados para ver a cara à verdade, aqui tem o seu ouro e tão amigos como sempre, que chatice, por muito menos do que isso teria ele mandado fuzilar a própria mãe, mas mordeu a língua, não é caso para tanto, Nacho, disse, cumpra o seu dever, de maneira que as cabeças continuaram a chegar naqueles tenebrosos fardos de piteira que pareciam de cocos e ele mandava, com as tripas revolvidas, que os levem para longe daqui, enquanto pedia para lhe lerem os pormenores das certidões de óbito para assinar os recibos, muito bem, tinha assinado por novecentas e dezoito cabeças dos seus opositores mais encarniçados na noite em que sonhou que se via a si próprio transformado num animal de um só dedo que ia deixando um rasto de impressões digitais numa planície de cimento fresco, acordava com um ressaibo de fel, iludia o desgosto da madrugada fazendo contas de cabeça na estrumeira de recordações acres dos compartimentos de ordenha, tão abstraído nas suas cavilações de velho que confundia o zumbido dos tímpanos com o rumor dos insectos na erva apodrecida, pensando minha mãe Bendición Alvarado como é possível que sejam tantas e ainda não chegavam as dos verdadeiros culpados, mas Saenz de la Barra tinha-lhe feito notar que por cada seis cabeças produzem-se sessenta inimigos e por cada sessenta produzem-se seiscentos e depois seis mil e depois seis milhões, todo o país, catano, nunca mais acabamos, e Saenz de Ia Barra replicou-lhe, impassível, que dormisse tranquilo, senhor general, havemos de acabar quando eles acabarem, que extraordinário. Nunca teve um instante de incerteza, nunca deixou um resquício para uma alternativa, apoiava-se na força oculta do dobermann em eterna espreita, que era a única testemunha das audiências, apesar de que ele tentou impedi-lo desde a primeira vez em que viu chegar José Ignacio Saenz de Ia Barra cabresteando o animal de nervos azougados, que só obedecia à mestrança imperceptível do homem mais galhardo, mas também o menos complacente, que os meus olhos tinham visto, deixe esse cão lá fora, ordenou, mas Saenz de Ia Barra respondeu-lhe que não, senhor general, não há um lugar do mundo onde eu não possa entrar que não entre Lord Kõchel, de maneira que entrou, permanecia adormecido aos pés do dono enquanto faziam contas de rotina de cabeças cortadas, mas endireitava-se com um hálito anelante quando as contas se tornavam ásperas, os seus olhos femininos estorvavam-me para pensar, estremecia-me a sua respiração humana, vi-o levantar-se de repente com o focinho fumegante com borbulhar de marmita quando ele deu um murro de raiva na mesa porque encontrou no saco de cabeças a de um dos seus antigos ajudantes de campo, que, além disso, fora seu compincha de dominó durante muitos anos, catano, acabou-se esta porcaria, mas Saenz de Ia Barra convencia-o sempre, não tanto com argumentos como com a sua doce inclemência de domador de cães bravos, repreendia a si próprio a submissão ao único mortal que se atreveu a tratá-lo como a um vassalo, revoltava-se a sós contra o seu império, decidia sacudir-se daquela servidão, que pouco a pouco ia saturando o espaço da sua autoridade, esta porcaria vai acabar agora mesmo, catano, dizia, que ao fim e ao cabo Bendición Alvarado não me pariu para cumprir ordens, e sim para mandar, mas as suas determinações nocturnas fracassavam no instante em que Saenz de Ia Barra entrava no gabinete e ele sucumbia ao deslumbramento dos modos ténues da gardénia natural, da voz pura, dois sais aromáticos, dos pares de esmeraldas, dos punhos de parafina, da bengala serena, da formosura séria do homem mais apetecível e mais insuportável que os meus olhos tinham visto, não é caso para tanto, Nacho, reiterava-lhe, cumpra o seu dever, e continuava a receber os fardos de cabeças, assinava os recibos sem olhar para eles, afundava-se sem ter onde se agarrar nas areias movediças do seu poder, interrogando-se a cada passo de cada amanhecer de cada mar que se passa no mundo, que devem ser onze horas e não há uma alma nesta casa de cemitério, quem vive, perguntava, só ele, onde estou, que não me encontro, dizia, onde estão as récuas de ordenanças descalças que descarregavam os burros de hortaliças e as grades de galinhas nos corredores, onde estão os charcos de água suja das minhas mulheres linguareiras que substituíam por flores novas as flores nocturnas das floreiras e lavavam as gaiolas e sacudiam alcatifas às varandas, cantando ao compasso das vassouras de ramos secos a canção de Susana vem Susana, teu amor quero gozar, onde estão os meus sete-mesinhos esquálidos que cagavam atrás das portas e pintavam dromedários de urina nas paredes da sala de audiências, que é feito do meu escândalo de funcionários que encontravam galinhas a pôr nas gavetas das secretárias, do meu tráfico de putas e soldados nas retretes, do desplante dos meus cães vadios que perseguiam, ladrando, os diplomatas, quem me tornou a tirar os meus paralíticos das escadas, os meus leprosos dos roseirais, os meus aduladores impávidos de todos os lados, mal enxergava os seus últimos compadres do alto comando atrás da cerca compacta dos novos responsáveis pela sua integridade pessoal, mal lhe davam ocasião de intervir nos conselhos dos novos ministros, nomeados a instâncias de alguém que não era ele, seis doutores de Letras de labitas fúnebres e colarinhos revirados que se antecipavam ao seu pensamento e decidiam os assuntos do Governo sem os discutirem comigo, quando, no fim de contas, o Governo sou eu, mas Saenz de Ia Barra explicava-lhe impassível que o senhor general não é o Governo, o senhor general é o poder, aborrecia-se nos serões de dominó, até quando defrontava os adversários mais destros, pois não conseguia perder uma partida, por mais que tentasse os truques mais sábios contra si próprio, tinha de submeter-se aos desígnios dos provadores que lhe sopeteavam a comida uma hora antes de ele a comer, não encontrava o mel de abelhas nos seus esconderijos, catano, este não é o Poder que eu queria, protestou, e Saenz de Ia Barra replicou-lhe que não há outro, senhor general, era o único poder possível no letargo de morte do que tinha sido noutros tempos o seu paraíso do mercado dominical e no qual então não tinha outro oficio além de esperar que fossem quatro horas para ouvir no rádio o episódio diário do folhetim de amores estéreis da emissora local, ouvia-o na rede, com o copo de sumo de frutas intacto na mão, ficava a flutuar no vazio da emoção com os olhos húmidos de lágrimas, pela ansiedade de saber se aquela menina tão nova ia morrer e Saenz de Ia Barra averiguava que sim, senhor general, a menina morre, pois que não morra, catano, que continue viva até ao fim e que se case e tenha filhos e envelheça como toda a gente, e Saenz de Ia Barra mandava modificar o libreto para o satisfazer com a ilusão de que mandava, de maneira que ninguém voltou a morrer por ordem sua, casavam-se noivos que não se amavam, ressuscitavam-se personagens enterradas em episódios anteriores e sacrificavam-se os vilões antes de tempo, para satisfazer o meu general, toda a gente era feliz por ordem sua, para que a vida lhe parecesse menos inútil quando revistava a casa ao bater metálico das oito e descobria que alguém antes dele tinha mudado a ração às vacas, tinham-se apagado as luzes no quartel da guarda presidencial, o pessoal dormia, as cozinhas estavam arrumadas, o chão limpo, as mesas dos magarefes esfregadas com creolina, sem um rasto de sangue, tinham um cheiro de hospital, alguém tinha fechado as tranquetas das janelas e tinha posto os cadeados nos gabinetes, apesar de ser só ele quem tinha o molho de chaves, as luzes iam-se apagando uma a uma antes de ele tocar nos interruptores, desde o primeiro vestíbulo até ao seu quarto, caminhava na escuridão arrastando as suas densas patas de monarca cativo através dos espelhos escuros, com calços de veludo na única espora, para que ninguém seguisse a pista da sua estrela de serradura de ouro, ia vendo ao passar o mesmo mar pelas janelas, as Caraffias em Janeiro, contemplou-o sem se deter vinte e três vezes e era sempre, como sempre em janeiro, como um pântano florido, assomou ao quarto de Bendición Alvarado, para ver se ainda estavam no seu lugar a herança de erva-cidreira, as gaiolas de pássaros mortos, a cama de dor em que a mãe da pátria suportara a sua velhice de podridão, passe uma boa noite, murmurou, como sempre, embora ninguém lhe respondesse desde havia tanto tempo, muito boa noite, filho, dorme com Deus, dirigia-se ao seu quarto com a lanterna de sair às pressas, correndo, quando sentiu o calafrio das brasas atónitas das pupilas de Lord Kõchel na sombra, percebeu uma fragrância de homem, a densidade do seu domínio, o fulgor do seu desprezo, quem vive, perguntou, embora soubesse quem era, José Ignacio Saenz de Ia Barra em traje de cerimónia, que vinha lembrar-lhe que era uma noite histórica, doze de Agosto, senhor general, a data extraordinária em que estávamos a comemorar o primeiro centenário da sua subida ao poder, de maneira que tinham vindo visitantes do mundo inteiro, cativados pelo anúncio de um acontecimento ao qual não era possível assistir mais de uma vez no decurso das vidas mais longas, a pátria estava em festa, toda a pátria, menos ele, pois, apesar da insistência de José Ignacio Saenz de la Barra para que vivesse aquela noite memorável no meio do clamor e do fervor do seu povo, ele correu mais cedo do que nunca as três aldrabas do calabouço de dormir, correu os três ferrolhos, as três tranquetas, deitou-se de barriga para baixo nos ladrilhos nus com a tosca farda de cotim sem insígnias, as polainas, a espora de ouro, e o braço direito dobrado debaixo da cabeça, para lhe servir de almofada, como havíamos de o encontrar carcomido pelos urubus e enxameado de animais e flores do fundo do mar, e através da bruma dos filtros do sono ligeiro percebeu os foguetes remotos da festa sem ele, percebeu as músicas de júbilo, os sinos de alegria, a torrente de lodo das multidões que tinham vindo exaltar uma glória que não era a sua, enquanto ele murmurava mais absorto do que triste minha mãe Bendición Alvarado do meu destino, cem anos já, catano, cem anos já, como o tempo passa.

 

Ali estava, pois, como se tivesse sido ele, embora não o fosse, deitado na mesa de banquetes da sala de festas, com o esplendor feminino de papa, morto entre as flores com que se tinha desconhecido a si próprio na cerimónia de exibição da sua primeira morte, mais temível morto do que vivo, com a luva de cetim recheada de algodão sobre o peito blindado de falsas medalhas de vitórias imaginárias de guerras de chocolate inventadas pelos seus aduladores impávidos, com a fragorosa farda de gala e as polainas de verniz e a única espora de ouro que encontrámos na casa e os dez sóis tristes de general do universo que lhe impuseram à última hora, para lhe darem uma hierarquia maior do que a da morte, tão imediato e visível na sua nova identidade póstuma que pela primeira vez se podia acreditar sem dúvida alguma na sua existência real, embora, na verdade, ninguém se parecesse menos com ele. Ninguém era tanto o contrário dele como aquele cadáver de vitrina que à meia-noite continuava a cozer no fogo lento do espaço minucioso da câmara-ardente, enquanto no salão contíguo do Conselho de Governo discutíamos, palavra por palavra, o boletim final com a notícia que ninguém se atrevia a acreditar, quando nos acordou o barulho dos camiões carregados de tropa com armamento de guerra, cujas patrulhas sigilosas ocuparam os edifícios públicos a partir da madrugada, estenderam-se no chão em posição de tiro sob as arcadas na rua do comércio, esconderam-se nos saguões, vi-os a instalarem metralhadoras de tripé nos terraços do bairro dos vice-reis, quando abri a varanda da minha casa ao amanhecer, procurando onde pôr o molho de cravos encharcados que acabava de cortar no pátio, vi debaixo da varanda uma patrulha de soldados sob o comando de um tenente que ia de porta em porta ordenando o encerramento das poucas lojas que começavam a abrir na rua do comércio, hoje é feriado nacional, gritava, ordem superior, atirei-lhes um cravo de varanda e perguntei o que se passava que havia tantos soldados e tanto barulho de armas por todo o lado e respondeu-me que vê lá, menina, que nós também não sabemos, deve ter sido o morto que ressuscitou, disse, morto de riso, pois ninguém se atrevia a pensar que tivesse acontecido uma coisa de tanto aparato, mas, pelo contrário, pensávamos que depois de muitos anos de negligência ele tinha voltado a pegar nas rédeas da sua autoridade e estava mais vivo do que nunca, arrastando outra vez as suas grandes patas de monarca ilusório na casa do poder, cujos candeeiros tinham voltado a acender-se, pensávamos que era ele que tinha feito sair as vacas que andavam a retouçar nas gretas dos ladrilhos da Plaza de Armas, onde o cego sentado à sombra das palmeiras moribundas confundiu os cascos com botas de militares e recitava os versos do feliz cavaleiro que chegava de longe vencedor da morte, recitava-os a plenos pulmões e com a mão estendida às vacas, que trepavam a comer as grinaldas de balsaminas do coreto, por causa do costume de subir e descer escadas para comer, ficaram a viver entre as ruínas das musas coroadas de camélias silvestres e os macacos pendurados das liras dos escombros do Teatro Nacional, entravam mortas de sede com um estrépito de vasos de nardos na penumbra fresca dos saguões do bairro dos vice-reis e submergiam os focinhos abrasados no tanque do pátio interior, sem que ninguém se atrevesse a incomodá-las, porque conhecíamos a marca congénita do ferro presidencial, que as fêmeas tinham nas ancas e os machos no pescoço, eram intocáveis, os próprios soldados lhes davam prioridade nas passagens estreitas da rua do comércio, que tinha perdido o seu fragor antigo de infernal mercado marroquino, restava apenas um podre douro de costelames partidos e mastreações desmanchadas nos charcos de miasmas ardentes onde tinha sido o mercado público, quando ainda tínhamos o mar e as escunas encalhavam entre as bancas de legumes, restavam os lugares vazios do que tinham sido nos seus tempos de glória os bazares dos hindus, pois os hindus tinham partido, nem agradeceram, meu general, e ele gritou, que catano, aturdido pelas suas últimas rabugices senis, que se ponham a mexer e vão limpar merda de ingleses, gritou, partiram todos, surgiram em seu lugar os vendedores ambulantes de amuletos de índios e antídotos de cobras, as frenéticas tabernas de discos com camas de aluguer nas traseiras, que os soldados desfizeram à coronhada, ao mesmo tempo que os ferros da catedral anunciavam o luto, tudo tinha acabado primeiro do que ele, tínhamo-nos extinguido até ao último sopro na espera de que algum dia fosse verdade o boato reiterado e sempre desmentido de que tinha por fim sucumbido a qualquer das suas multas doenças de rei, e, no entanto, não acreditávamos agora que era verdade, e não porque na realidade não acreditássemos, mas sim porque já não queríamos que fosse verdade, tínhamos acabado por não perceber como seríamos sem ele, o que seria das nossas vidas depois dele, não podia conceber o mundo sem o homem que me tinha feito feliz aos doze anos, como nenhum outro o tornou a conseguir desde as tardes de há tanto tempo em que saíamos da escola às cinco e ele espreitava pela clarabóia do estábulo as meninas de farda azul de gola de marinheiro e uma só trança nas costas, pensando minha mãe Bendición Alvarado como são belas as mulheres na minha idade, chamava-nos, víamos os seus olhos trémulos, a mão com a luva de dedos rotos que tentava cativar-nos com o guizo de caramelo do embaixador Forbes, todas corriam, assustadas, todas, menos eu, fiquei sozinha na rua da escola quando soube que ninguém me estava a ver e tentei alcançar o caramelo e então ele agarrou-me pelos pulsos com um terno golpe de garra de tigre e levantou-me sem dor no ar e passou-me pela clarabóia com tanto cuidado que não me amarrotou nem uma prega do vestido e deitou-me no feno perfumado de urinas rançosas, tentando dizer-me qualquer coisa que não lhe saía da boca árida, porque estava mais assustado do que eu, tremia, viam-se-lhe na casaca as batidas do coração, estava pálido, tinha os olhos cheios de lágrimas, como não as teve por mim nenhum outro homem em toda a minha vida de exílio, tocava-me em silêncio, respirando sem pressa seduzia-me com uma ternura de homem que nunca voltei a encontrar, fazia-me sair os bicos do peito, metia-me os dedos pela borda das cuecas, cheirava os dedos, dava-mos a cheirar, cheira, dizia, é o teu cheiro, não voltou a precisar dos caramelos do embaixador Baldrich para que eu me metesse pelas clarabóias do estábulo para viver as horas felizes da minha puberdade com aquele homem de coração triste e são que me esperava sentado no feno com uma bolsa de coisas de comer, ensopava com pão os meus primeiros molhos de adolescente, metia-me as coisas por ali antes de as comer, dava-mas a comer, metia-me os talos de espargos para os comer marinados com a salmoura dos meus humores íntimos, gostosa, dizia, sabes a porto, sonhava com comer os meus rins cozidos nos seus próprios caldos amoniacais, com o sal das tuas axilas, sonhava, com a tua urina morna, retalhava-me dos pés à cabeça, temperava-me com sal de pedra, pimenta picante e folhas de louro e deixava-me cozer a fogo lento nas malvas incandescentes dos entardeceres efémeros dos nossos amores sem futuro, comia-me dos pés à cabeça com uma ânsia e uma generosidade de velho que nunca mais voltei a encontrar em tantos homens apressados e mesquinhos que tentaram amar-me sem conseguirem no resto da minha vida sem ele, falava-me dele próprio nas digestões lentas do amor, enquanto tirávamos de cima os focinhos das vacas que tentavam lamber-nos, dizia-me que nem ele próprio sabia quem ele era, que estava farto de meu general até aos colhões, dizia sem amargura, sem nenhum motivo, como se falasse sozinho, flutuando no zumbido contínuo de um silêncio interior que só era possível romper aos gritos, ninguém era mais prestável nem mais sábio do que ele, ninguém era mais homem, tinha-se transformado na única razão da minha vida aos catorze anos, quando dois militares da mais alta patente apareceram em casa dos meus pais com uma mala atafulhada de dobrões de ouro e me meteram a meio da noite num navio estrangeiro, com toda a família e com a ordem de não regressar ao território nacional durante anos e anos, até que rebentou no mundo a notícia de que ele tinha morrido sem saber que eu passei o resto da vida morrendo por ele, deitava-me com desconhecidos na rua, para ver se encontrava um melhor do que ele, regressei envelhecida e amargurada com esta récua de filhos que tinha parido de pais diferentes, com a ilusão de que eram dele, e, em compensação, ele tinha-a esquecido ao segundo dia que não a viu entrar pela clarabóia dos estábulos de ordenha, substituía-a por uma diferente todas as tardes, porque por essa altura já não distinguia muito  bem quem era quem no tropel de meninas de colégio de fardas iguais que lhe deitavam a língua de fora e lhe gritavam velho tonto quando tentava cativá-las com os caramelos do embaixador Rumpelmayer, chamava-as sem discriminar, sem perguntar nunca a si próprio se a de hoje tinha sido a mesma de ontem, recebia-as a todas por igual, pensava em todas como se fosse uma só, ao mesmo tempo que ouvia, meio adormecido na rede, as razoes sempre iguais do embaixador Streimberg, que lhe tinha oferecido uma corneta acústica igual à do cão da voz do dono com um dispositivo eléctrico de amplificação, para que ele pudesse ouvir uma vez mais a pretensão insistente de levar as nossas águas territoriais à conta das amortizações da dívida externa e ele repetia o mesmo de sempre, que nem por sombras, meu caro Stevenson, tudo menos o mar, desligava o audiofone eléctrico para não continuar a ouvir aquele vozeirão de criatura metálica que parecia voltar o disco para lhe explicar outra vez o que tanto me tinham explicado os meus próprios peritos sem rodeios de dicionário, que estamos completamente de tanga, meu general, esgotámos os nossos últimos recursos, sangrados pela necessidade secular de aceitar empréstimos para pagar as amortizações da dívida externa desde as guerras da independência e depois outros empréstimos para pagar os juros das amortizações atrasadas, sempre em troca de qualquer coisa, meu general primeiro o monopólio da quina e do tabaco para os Ingleses, depois o monopólio do cauchu e do cacau para os Holandeses, depois a concessão do caminho-de-ferro dos páramos e da navegação fluvial para os Alemães, e tudo para os gringos pelos acordos secretos que ele não conheceu senão depois do derrube de estrépito e da morte pública de José Ignacio Saenz de Ia Barra, que Deus tenha a assar a fogo vivo nos caldeirões dos seus profundos Infernos, não nos restava nada, senhor general, mas ele tinha ouvido dizer o mesmo a todos os seus ministros do Tesouro desde os tempos difíceis em que declarara a moratória dos compromissos contraídos com os banqueiros de Hamburgo, a esquadra alemã tinha bloqueado o porto, um couraçado inglês disparou um tiro de canhão de aviso que abriu uma brecha na torre da catedral, mas ele gritou que caguei para o rei de Londres, antes mortos do que vendidos, gritou, morra o Kaiser, salvo no instante final pelos bons ofícios do seu cúmplice de dominó, o embaixador Charles W Traxier, cujo Governo se constituiu garante dos compromissos europeus em troca de um direito de exploração vitalícia do nosso subsolo, e desde essa altura estamos como estamos a dever as próprias cuecas que temos vestidas, meu general, mas ele acompanhava até às escadas o eterno embaixador das cinco e despedia-se dele com uma palmadinha no ombro, nem por sombras, meu caro Baxter, antes morto do que sem mar, angustiado pela desolação daquela casa de cemitério onde não se podia caminhar sem tropeçar, como se fosse por debaixo de água desde os tempos malvados daquele José Ignacio Saenz de Ia Barra do meu erro, que tinha cortado todas as cabeças do género humano menos aquelas que devia cortar dos autores do atentado de Leticia Nazareno e do menino, os pássaros resistiam a cantar nas gaiolas por muitas gotas de cantorina que ele lhes deitasse no bico, as meninas da escola contígua não tinham voltado a cantar a canção do recreio da pintada paradinha no verde limão, a vida esvaía-se-lhe na espera impaciente das horas de estar contigo nos estábulos, minha menina, com as tuas maminhas de coroço e a tua coisinha de amêijoa, comia sozinho sob o telheiro de trinitárias, flutuava na reverberação do calor das duas debicando o sono da sesta, para não perder o fio do filme da televisão, em que tudo acontecia por ordem sua, ao contrário da vida, pois o benemérito que tudo sabia nunca soube que desde os tempos de José Ignacio Saenz de Ia Barra lhe tínhamos instalado primeiro um transmissor individual para os folhetins radiofónicos e depois um circuito fechado de televisão para que só ele visse os filmes arranjados a seu gosto, nos quais só morriam os vilões, o amor prevalecia contra a morte, a vida era um sopro, fazíamo-lo feliz com o engano como o foi tantas tardes da sua velhice com as meninas de farda, que o teriam satisfeito até à morte se ele não tivesse tido o azai de perguntar a uma delas que é que te ensinam na escola e eu respondi-lhe a verdade, que não me ensinam coisa nenhuma, senhor, eu o que sou é puta do porto, e ele obrigou-me a repetir, para o caso de não ter percebido bem o que leu nos meus lábios e eu repeti-lhe com todas as letras que não sou estudante, senhor, sou puta do porto, os serviços de saúde tinham-lhe dado banho com creolina e esfregão, disseram-lhe que vestisse esta farda de marinheiro e estas meias de menina-bem e que passasse por esta rua todas as tardes às cinco, não só eu mas todas as putas da minha idade recrutadas e desencascadas pela polícia sanitária, todas com a mesma farda e os mesmos sapatos de homem e estas tranças de crinas de cavalo, que repare que se tiram e que se põem com uma travessa, disseram-nos que não se assustem, que é um pobre avô pateta que nem sequer as vai comer, faz-lhes é exames de médico com o dedo e chupa-lhes as mamas e mete-lhes coisas de comer pela raia, enfim, tudo o que o senhor me faz quando eu venho, que nós a única coisa que tínhamos a fazer era fechar os olhos de vontade e dizer meu amor, meu amor, que é o que o senhor gosta, foi isso que nos disseram e até nos fizeram ensaiar e repetir tudo desde o princípio, antes de nos pagarem, mas eu acho que é chatice a mais tanta banana madura na pássara e tanta malanga cozida na peida pelos quatro míseros pesos que nos ficam depois de nos descontarem o imposto de sanidade e a comissão do sargento, que catano, não é justo desperdiçar tanta comida por baixo quando uma pessoa nem sequer tem que comer por cima, disse envolta na aura lúgubre do ancião insondável, que ouviu a revelação sem pestanejar, pensando minha mãe Bendición Alvarado porque me mandas este castigo, mas não fez um gesto que denunciasse a sua desolação, empenhando-se, sim, em toda a espécie de averiguações sigilosas até descobrir que, efectivamente, o colégio de raparigas contíguo à casa civil tinha sido fechado desde há muitos anos, meu general, o próprio ministro da Educação tinha proporcionado os fundos, de acordo com o arcebispo primaz e a associação de pais, para construir o novo edifício de três andares frente ao mar, onde as infantas das famílias de grandes pesporrências ficaram a salvo das espreitadelas do sedutor crepuscular, cujo corpo de sável encalhado de barriga para o ar na mesa de banquetes começava a perfilar-se contra as malvas lívidas do horizonte de crateras lunares da nossa primeira aurora sem ele, estava ao abrigo de tudo entre os agapantos orvalhados, livre, por fim, do seu poder absoluto, ao cabo de tantos anos de cativeiro recíproco que se tornava impossível distinguir quem era vítima de quem naquele cemitério de presidentes vivos que tinham pintado de branco de túmulo por dentro e por fora, sem me consultarem, e ordenando, pelo contrário, sem o reconhecerem, que não passe por aqui, senhor, que nos mancha a cal, e ele não passava, fique no andar de cima, senhor, que lhe pode cair um andaime em cima, e ele ficava, aturdido pelo estrépito dos carpinteiros e pela raiva dos pedreiros, que lhe gritavam que se afaste daqui, seu velho tonto, que se caga todo nesta confusão, e ele afastava-se, mais obediente do que um soldado nos duros meses de uma restauração inconsulta que abriu janelas novas aos ventos do mar, mais só do que nunca sob a vigilância feroz de uma escolta cuja missão não parecia ser a de o proteger, mas sim de o vigiar, comiam metade da sua comida para impedir que o envenenassem, mudavam-lhe os esconderijos do mel de abelha, calçavam-lhe a espora de ouro como aos galos de rinha, para não lhe tilintar ao andar, que catano, toda uma série de astúcias de vaqueiros que teriam feito morrer a rir o meu compadre Saturno Santos, vivia à mercê de onze fortalhaços de casaco e gravata que passavam o dia a fazer acrobacias japonesas, mexiam num aparelho de luzes verdes e coloridas que se acendem e apagam quando alguém tem uma arma num raio de cinquenta metros, E andamos pela rua como se fôssemos fugitivos em sete automóveis iguais, que mudavam de lugar adiantando-se uns aos outros no caminho, de maneira que nem eu próprio sei em qual é que vou, que catano, um gasto inútil de pólvora em gado miúdo porque ele tinha afastado as cortinas para ver as ruas ao cabo de tantos anos de clausura e viu que ninguém se alterava com a passagem sigilosa dos automóveis fúnebres da caravana presidencial, viu os recifes de vidros solares dos ministérios, que se erguiam mais altos do que as torres da catedral, e tinham tapado os promontórios de cores das barracas dos negros nas colinas do porto, viu uma patrulha de soldados que apagavam uma inscrição recente escrita a brocha larga numa parede e perguntou o que dizia e responderam-lhe que glória eterna ao artífice da pátria nova, embora ele soubesse que era mentira, claro, senão não a apagavam, que catano, viu uma avenida de coqueiros tão larga como seis com bermas de maciços de flores até ao mar onde tinham estado os lodaçais, viu um subúrbio de vivendas repetidas com pórticos romanos e hotéis com jardins amazónicos onde tinha estado a esterqueira do mercado público, viu os automóveis atartarugados nas serpentinas de labirintos das auto-estradas urbanas, viu a multidão embrutecida pela canícula do meio-dia no passeio do sol, ao mesmo tempo que no passeio oposto não havia ninguém além dos cobradores sem ofício do imposto sobre o direito de andar pela sombra, mas ninguém estremeceu daquela vez com o presságio do poder oculto no féretro refrigerado do automóvel presidencial, ninguém reconheceu os olhos de desencanto, os lábios ansiosos, a mão desvalida que ia dizendo adeuses sem destino através da gritaria dos pregões de jornais e amuletos, dos carrinhos de gelados, dos pendões da lotaria de três números, do fragor quotidiano do mundo da rua, alheios à tragédia íntima do militar solitário que suspirava de nostalgia, pensando minha mãe Bendición Alvarado que foi feito da minha cidade, onde está a viela de miséria das mulheres sem homens que saíam nuas ao entardecer para comprar corvinas azuis e pargos cor-de-rosa e insultar as hortaliceiras enquanto a roupa lhes secava nas varandas, onde estão os hindus que cagavam à porta das suas barracas, onde estão as suas mulheres lívidas que enterneciam a morte com canções de pena, onde está a mulher que se tinha transformado em lacrau por desobedecer aos pais, onde estão as tabernas dos mercenários, os seus riachos de urina fermentada, o ar quotidiano dos pelicanos ao virar da esquina, e, de repente, ai, o porto, onde está ele, se era aqui, que é feito das escunas dos contrabandistas, da sucata de desembarque dos fuzileiros, do meu cheiro a merda, mãe, que se passava no mundo que ninguém conhecia a mão fugitiva de amante no esquecimento que ia deixando um rasto de adeuses inúteis da janela de vidros virados de um comboio inaugural, que atravessou apitando as semeaduras de ervas de cheiro do que foram antigamente os pântanos de estridentes pássaros de malária dos arrozais, passou espantando multidões de vacas marcadas com o ferro presidencial através de planuras inverosímeis de pastagens azuis, e no interior forrado de veludo eclesiástico do vagão de responsos do meu destino irrevogável ele ia perguntando a si próprio onde estava o meu velho comboiozinho de quatro patas, catano, as minhas ramadas de anacondas e balsaminas venenosas, o meu alvoroço de macacos, as minhas aves-do-paraíso, a pátria inteira com o seu dragão, onde estão, se eram aqui, as estações de índias taciturnas com chapéus ingleses que vendiam animais de calda de açúcar pelas janelas, vendiam batatas recheadas de creme, mãe, vendiam gatinhas coradas em manteiga amarela sob os arcos de dísticos de flores de glória eterna ao benemérito que ninguém sabe onde está, mas, sempre que ele protestava que aquela vida de prófugo era pior do que estar morto, respondiam-lhe que não, meu general, era a paz na ordem, diziam, e ele acabava por aceitar, está bem, uma vez mais deslumbrado pelo fascínio pessoal de José Ignacio Saenz de Ia Barra do meu desmame que tantas vezes tinha degradado e cuspido na raiva das insónias, mas voltava a sucumbir diante dos seus encantos mal entrava no gabinete com a luz do sol cabresteando aquele cão com olhar de gente que não abandona sequer para urinar e, além disso, tem nome de gente, Lord Kõchel, e mais uma vez aceitava as suas fórmulas com uma mansidão que o sublevava contra si próprio, não se preocupe Nacho, admitia, cumpra o seu dever, de maneira que José Ignacio Saenz de Ia Barra voltava uma vez mais com os seus poderes intactos à fábrica de suplícios que tinha instalado a menos de quinhentos metros da casa presidencial, no inocente edifício de alvenaria colonial onde tinha sido o manicómio dos holandeses, uma casa tão grande como a sua, meu general, escondida num bosque de amendoeiras e rodeada por um prado de violetas silvestres, cujo primeiro andar estava destinado aos serviços de identificação e registo civil e no resto estavam instaladas as máquinas de tortura mais engenhosas e bárbaras que a imaginação podia conceber, tanto que ele não tinha querido conhecê-las e, pelo contrário, advertiu Saenz de Ia Barra que o senhor continue a cumprir o seu dever como melhor convenha aos interesses da pátria, com a única condição de que eu não sei nada, nem vi nada, nem nunca estive nesse lugar, e Saenz de Ia Barra empenhou a sua palavra de honra para servir o senhor general, e tinha cumprido, tal como cumpriu a sua ordem de não voltar a martirizar as crianças menores de cinco anos com pólos eléctricos nos testículos, para obrigar os pais a confessarem, porque ele temia que aquela infâmia pudesse repetir-lhe as insónias de tantas noites iguais dos tempos da lotaria, embora lhe fosse impossível esquecer aquela oficina de horror a tão escassa distância do seu quarto, porque nas noites de luas quietas era acordado pelas músicas de comboios fugitivos das auroras de trovões de Bruckner que faziam estragos de dilúvios e deixavam uma desolação de farrapos de túnicas de noivas mortas nas ramadas das amendoeiras da antiga mansão de lunáticos holandeses, para que não se ouvissem da rua os alaridos de pavor e dor dos moribundos, e tudo aquilo sem cobrar um cêntimo, meu general, pois José Ignacio Saenz de Ia Barra dispunha do seu ordenado para comprar as roupas de príncipe, as camisas de seda natural com o monograma no peito, os sapatos de pelica, as caixas de gardénias para a botoeira, as loções de França com os brasões da família impressos na etiqueta original, mas não tinha mulher conhecida, nem se diz que seja maricas, nem tem um único amigo, nem casa própria, nada, meu general, uma vida de santo, escravizado na fábrica de suplícios até que o cansaço o derrubava no divã do gabinete, onde dormia de qualquer maneira, mas nunca de noite, nem mais de três horas de cada vez, sem guarda à porta, sem uma arma à mão, sob a protecção anelante de Lord Kochel, que não cabia em si da ânsia que lhe provocava não comer senão a única coisa que dizem que come, quer dizer, as tripas quentes dos decapitados, fazendo aquele barulho de borbulhar de panela para o acordar mal o seu olhar humano sentia atra- vês das paredes que alguém se aproximava do gabinete, seja quem for, meu general, esse homem não confia nem no espelho, tomava as suas decisões sem consultar ninguém, depois de ouvir as informações dos seus agentes, nada sucedia no país nem os desterrados davam um suspiro em qualquer lugar do planeta que José Ignacio Saenz de Ia Barra não soubesse imediatamente através dos fios da tela invisível de delação e suborno com que cobriu tudo o que é mundo, que era nisso que gastava a massa, meu general, pois não era verdade que os torturadores tivessem ordenado de ministros, como se dizia, pelo contrário, ofereciam-se gratuitamente para demonstrar que eram capazes de esquartejar a própria mãe e deitar os pedaços aos porcos, sem que se lhes notasse nada na voz, em lugar de cartas de recomendação e certificados de boa conduta ofereciam testemunhas de antecedentes atrozes para lhes darem o emprego às ordens dos torturadores franceses, que são racionalistas, meu general, e, por conseguinte, são metódicos na crueldade e refractários à compaixão, eram eles que tornavam possível o progresso dentro da ordem, eram eles que se antecipavam às conspirações muito antes de elas começarem a incubar no pensamento, os clientes distraídos que apanhavam o fresco debaixo dos leques de pás das casas de gelados, os que liam o jornal nas tascas dos chineses, os que adormeciam nos cinemas, os que cediam o lugar às senhoras grávidas nos autocarros, os que tinham aprendido a ser electricistas depois de terem passado metade da vida como salteadores nocturnos e assaltantes de descampado, os noivos casuais das criadas, as putas dos transatlânticos e dos bares internacionais, os promotores de excursões turísticas aos paraísos das Caraffias nas agências de viagens de Miami, o secretário particular do ministro dos Negócios Estrangeiros da Bélgica, a vigilante vitalícia do corredor tenebroso do quarto andar do Hotel Internacional de Moscovo, e tantos outros que ninguém sabe, até no último rincão da Terra, mas o meu general pode dormir sossegado, porque os bons patriotas da pátria dizem que o meu general não sabe nada, que tudo isto acontece sem consentimento seu, que, se o meu general soubesse, teria mandado Saenz de Ia Barra empurrar caracóis para o cemitério de renegados da fortaleza do porto, que cada vez que tomavam conhecimento de um novo acto de barbárie suspiravam para dentro, se o general soubesse, se pudéssemos fazer-lho saber, se houvesse maneira de o ver, e ele ordenou a quem lho tinha contado que nunca se esquecesse de que, na verdade, eu não sei nada, nem vi nada, nem falei sobre estas coisas com ninguém, e assim recuperava o sossego, mas continuavam a chegar tantos sacos de cabeças cortadas que não lhe parecia concebível que José Ignacio Saenz de Ia Barra se cobrisse de sangue até aos cabelos sem nenhum benefício, porque as pessoas são parvas, mas não tanto, nem lhe parecia razoável que passassem anos inteiros sem que os comandantes das três armas protestassem pela sua condição subalterna, nem pediam aumento de vencimentos, nada, de maneira que ele tinha sondado separadamente, para tentar estabelecer as causas da conformação militar, queria averiguar porque não tentavam revoltar-se, porque aceitavam a potestade de um civil, e tinha perguntado aos mais cobiçosos se não pensavam que já era tempo de abaixar a grimpa ao adventício sanguinário que estava a salpicar os méritos das forças armadas, mas tinham-lhe respondido que claro que não, meu general, não é caso para tanto, e desde então já não sei quem é quem, nem quem está com quem, nem contra quem, nesta tramóia do progresso dentro da ordem que começa a cheirar-me a morte atabafada, como aquela que nem quero lembrar das pobres crianças da lotaria, mas José Ignacio Saenz de Ia Barra aplacava-lhe os ímpetos com o seu doce domínio de domador de cães bravos, durma descansado, senhor general, dizia-lhe, o mundo é seu, fazia-lhe crer que tudo era tão simples e tão claro que o voltava a deixar nas trevas daquela casa de ninguém, que percorria de um extremo ao outro interrogando-se em voz muito alta quem catano sou eu que me sinto como se me tivessem virado ao contrário a luz dos espelhos, onde catano estou que devem ser onze da manhã e não há uma galinha, nem por acaso, neste deserto, lembram-se de como era dantes, clamava, lembram-se do despautério dos leprosos e dos paralíticos que disputavam a comida com os cães, lembram-se daquele escorregadouro de merda de animais nas escadas e daquele desconchavo de patriotas que não me deixavam andar com a lengalenga de deite-me no corpo o sal da saúde, meu general, baptize-me o miúdo, a ver se lhe cura a diarreia, porque diziam que a minha imposição tinha virtudes apertadoras mais eficazes do que a banana verde, ponha-me a mão aqui, a ver se me sossegam as palpitações, que já não tenho forças para viver com este eterno tremor de terra, que fixasse a vista no mar, meu general, para que os furacões voltem para trás, que a levante ao céu, para que os eclipses se arrependam, que a baixe para a terra, para enxotar a peste, porque diziam que eu era o benemérito que infundia respeito à natureza e compunha a ordem do universo e tinha baixado a grimpa à Divina Providência, e eu dava-lhes o que me pediam e comprava-lhes tudo o que me vendessem, não porque fosse débil de coração, como dizia a mãe Bendición Alvarado, mas porque era preciso ter uns fígados de ferro para negar um favor a quem lhe cantava os méritos, e, em compensação, agora não havia ninguém que lhe pedisse coisa nenhuma, ninguém que lhe desse, ao menos, os bons-dias, meu general, como passou a noite, não tinha sequer o consolo daquelas explosões nocturnas que o acordavam com uma granizada de vidro de janelas e desnivelavam os gonzos e semeavam o pânico na tropa, mas serviam-lhe, pelo menos, para sentir que estava vivo, e não neste silêncio que me zumbia dentro da cabeça e me acorda com o seu estrépito, já não passo de um mamarracho pintado na parede desta casa de espantos, onde lhe era impossível dar uma ordem que não estivesse cumprida antes, encontrava satisfeitos os seus desejos mais íntimos no jornal oficial, que continuava a ler na rede à hora da sesta, da primeira à última página, incluindo os anúncios publicitários, não havia um impulso da sua respiração nem um desígnio da sua vontade que não aparecesse impresso em letras grandes, com a fotografia da ponte que ele não tinha mandado construir, por esquecimento, a inauguração da escola para ensinar a varrer, a vaca leiteira e a árvore-do-pão, com um retrato seu de outras fitas inaugurais dos tempos de glória, e, no entanto, não encontrava o sossego, arrastava as suas grandes patas de elefante senil à procura de alguma coisa que não tinha perdido na sua casa de solidão, deparava com o facto de alguém antes dele ter tapado as gaiolas com panos de luto, alguém tinha contemplado o mar das janelas e tinha contado as vacas antes dele, tudo estava completo e em ordem, regressava ao quarto com a lanterna quando reconheceu a sua própria voz ampliada no posto da guarda presidencial e assomou à janela entreaberta e viu um grupo de oficiais a dormitar no quarto cheio de fumo, defronte do resplendor triste do écran da televisão, e no écran estava ele, mais magro e tenso, mas era eu, mãe, sentado no gabinete onde havia de morrer com o escudo da pátria ao fundo e os três pares de óculos de ouro na mesa, e estava a dizer de memória uma análise das contas da nação, com palavras de sábio que ele nunca teria ousado repetir, catano, era uma visão mais inquietante do que a do seu próprio corpo morto entre as flores porque agora estava a ver-se vivo e a ouvir-se falar com a sua própria voz, eu mesmo, mãe, eu, que nunca tinha podido suportar a vergonha de assomar a uma varanda nem tinha logrado vencer o pudor de falar em público, e ali estava, tão verídico e mortal que permaneceu perplexo na janela, a pensar minha mãe Bendición Alvarado, como é possível este mistério, mas José Ignacio Saenz de Ia Barra manteve-se impassível diante de uma das explosões de cólera que ele se permitiu nos anos sem conta do seu regime, não e caso para tanto, senhor general, disse-lhe, com a sua ênfase mais doce, tivemos de recorrer a este recurso ilícito para preservar do naufrágio a nave do progresso na ordem, foi uma inspiração divina, senhor general, graças a ela tínhamos conseguido conjurar a incerteza do povo num poder de carne e osso que na última quarta-feira de cada mês prestava uma informação sedante sobre a sua gestão do Governo através da rádio e da televisão do Estado, eu assumo a responsabilidade, senhor general, pus aqui esta floreira com seis microfones em forma de girassóis que registavam o seu pensamento de viva voz, era eu que fazia as perguntas a que ele respondia na audiência das sextas-feiras, sem suspeitar de que as suas respostas inocentes eram os fragmentos do discurso mensal dirigido à nação, pois nunca teriam utilizado uma imagem que não fosse a sua, nem uma palavra que ele não tivesse dito, como o senhor general mesmo poderá verificar com estes discos que Saenz de Ia Barra lhe colocou na secretária juntamente com estes filmes e esta carta do meu próprio punho, que assino na sua presença, senhor general, para que o senhor general disponha da minha sorte como houver por bem, e ele olhou-o, desconcertado, porque de repente se apercebeu de que Saenz de la Barra estava pela primeira vez sem o cão, inerme, pálido, e então suspirou, está bem, Nacho, cumpra o seu dever, disse, com um ar de infinita fadiga, deitado para trás na poltrona de molas e olhar fixo nos olhos delatores dos retratos dos próceres, mais velho do que nunca, mais lúgubre e triste, mas com a mesma expressão de desígnios imprevisíveis que Saenz de Ia Barra havia de reconhecer duas semanas mais tarde, quando entrou no gabinete sem audiência prévia, quase a arrastar o cão pela trela e com a novidade urgente de uma insurreição armada que só uma intervenção sua podia impedir, senhor general, e ele descobriu, por fim, a fenda imperceptível que tinha estado a procurar durante tantos anos na muralha de obsidiana da fascinação, minha mãe Bendición Alvarado da minha desforra, disse para consigo, este pobre cabrão está borrado de medo, mas não fez um só gesto que permitisse vislumbrar as suas intenções, envolvendo antes Saenz de Ia Barra numa aura maternal, não se preocupe Nacho, suspirou, temos muito tempo para pensar, sem ninguém nos estorvar, onde catano estava a verdade naquele lodaçal de verdades contraditórias que pareciam menos certas do que se fossem mentira, enquanto Saenz de Ia Barra verificava no relógio de corrente que Ia para as sete da noite, senhor general, os comandantes das três armas estavam a acabar de comer nas respectivas casas, com a mulher e os filhos, para que nem sequer eles pudessem suspeitar dos seus propósitos, sairão vestidos à paisana, sem escolta, pela porta de serviço, onde os espera um automóvel de aluguer pedido pelo telefone para iludir a vigilância dos nossos homens, não verão nenhum, claro, embora lá estejam, senhor general, são os motoristas, mas ele disse ah... sim?! ... sorriu, não se preocupe tanto, Nacho, explique-me antes como vivemos até agora sem nos esfolarem, se, de acordo com as suas contas de cabeças cortadas, temos tido mais inimigos do que soldados, mas Saenz de Ia Barra estava suspenso apenas no bater minúsculo do seu relógio de corrente, faltavam menos de três horas, senhor general, o comandante das forças terrestres dirigia-se naquele momento para o quartel do Conde, o comandante das forças navais para a fortaleza do porto, o comandante das forças aéreas para a base de San Jerónimo, ainda era possível prendê-los, porque uma camioneta de legumes os perseguia a curta distância, mas ele não se alterava, sentia que a ansiedade crescente de Saenz de Ia Barra o libertava do castigo de uma servidão que tinha sido mais implacável do que o seu apetite de poder, esteja tranquilo, Nacho, dizia, explique-me antes porque não comprou uma mansão do tamanho de um barco a vapor, porque trabalha como um burro, se não lhe interessa a massa, porque vive como um recruta, se até as mulheres mais recatadas estouram de vontade de se lhe meterem no quarto, você parece mais padre do que os padres, Nacho, mas Saenz de Ia Barra sufocava, empapado de um suor de gelo que não lograva dissimular com a sua dignidade incólume no forno crematório do gabinete, eram onze horas, já é tarde de mais, disse, um sinal cifrado começava a circular a essa hora pelos fios do telégrafo até às diferentes guarnições do país, os comandantes rebeldes estavam a pendurar as condecorações na farda de parada para a fotografia oficial da nova junta de Governo, enquanto os seus ajudantes transmitiam as últimas ordens de uma guerra sem inimigos, cujas únicas batalhas se reduziam a controlar as centrais de comunicações e os serviços públicos, mas ele nem sequer pestanejou diante do palpitar anelante de Lord Kochel, que se tinha endireitado com um fio de baba que parecia uma lágrima interminável, não se assuste, Nacho, explique-me antes porque tem tanto medo da morte, e José Ignacio Saenz de Ia Barra arrancou com um puxão o colarinho de celulóide desacartonado pelo suor e o seu rosto de barítono ficou sem alma, é natural, replicou, o medo da morte é o rescaldo da felicidade, é por isso que o senhor general não o sente, e pôs-se de pé a contar, pura e simplesmente por hábito, os sinos da catedral, é meia-noite, disse, já não lhe resta ninguém no mundo, senhor general, eu era o último, mas ele não se moveu na poltrona enquanto não deu pelo trovão subterrâneo dos tanques de guerra na Plaza de Armas, e então sorriu, não se iluda, Nacho, ainda me resta o povo, disse, o pobre povo de sempre que antes do amanhecer se lançou à rua instigado pelo ancião imprevisto que através da rádio e da televisão do Estado se dirigiu a todos os patriotas da pátria sem discriminações de nenhuma índole e com a mais viva emoção histórica, para anunciar que os comandantes de três armas, inspirados pelos ideais imutáveis do regime, sob a minha direcção pessoal e interpretando, como sempre, a vontade do povo soberano, tinham posto termo nesta meia-noite gloriosa ao aparelho de terror de um civil sanguinário que tinha sido castigado pela justiça cega das multidões, pois ali estava José Ignacio Saenz de Ia Barra, macerado de pancadas, pendurado pelos tornozelos num candeeiro da Plaza de Armas e com os próprios órgãos genitais enfiados na boca, tal como o meu general tinha previsto quando nos mandou bloquear as ruas das embaixadas, para lhe impedir o direito de asilo, o povo tinha-o caçado à pedrada, meu general, mas primeiro tivemos de crivar o cão carniceiro, que sorveu as tripas de quatro civis e nos deixou sete soldados gravemente feridos quando o povo tinha assaltado os gabinetes em que ele residia e atiraram pelas janelas mais de duzentos coletes de brocado ainda com a etiqueta da fábrica, atiraram para aí uns três mil pares de botinas italianas por estrear, três mil, meu general, que era nisso que ele gastava a massa do governo, e não sei quantas caixas de gardénias de lapela e todos os discos de Bruckner, com as respectivas partituras de regência anotadas pelo seu próprio punho, e, além disso, tiraram os presos dos sótãos e deitaram fogo às câmaras de tortura do antigo manicómio dos holandeses, aos gritos de viva o general, viva o valente que finalmente se apercebeu da verdade, pois toda a gente diz que o meu general não sabia de nada, que o tinham nas nuvens, abusando do seu bom coração, e ainda a esta hora andavam a caçar como ratos os torturadores da segurança do Estado, que deixamos sem protecção da tropa, de acordo com as suas ordens, para que as pessoas se aliviassem de tantas raivas atrasadas e tanto terror, e ele aprovou, está bem, comovido pelos sinos de júbilo e pelas músicas de liberdade e pelas vozes de gratidão da multidão concentrada na Plaza de Armas, com grandes dísticos Deus guarde o magnífico que nos redimiu das trevas do terror, e naquela réplica efémera dos tempos de glória ele mandou reunir no pátio os oficiais de carreira que tinham ajudado a libertar as suas próprias amarras de galeota do poder e, apontando-nos com o dedo, segundo os impulsos da inspiração, completou connosco o último alto comando do seu regime decrépito, em substituição dos autores da morte de Leticia Nazareno e do menino, que foram capturados em pijama quando tentavam encontrar asilo nas embaixadas, mas ele mal os reconheceu, tinha esquecido os nomes, procurou no coração a carga de ódio que tinha tentado manter viva até à morte e só encontrou as cinzas de um orgulho ferido que já não valia a pena alimentar, que se pirem, ordenou, meteram-nos no primeiro barco que zarpou para onde ninguém voltasse a lembrar-se deles, pobres cabrões, presidiu ao primeiro conselho do novo Governo com a impressão nítida de que aqueles exemplares selectos de uma geração nova de um século novo eram outra vez os ministros civis de sempre de labitas bafientas e entranhas débeis, só que estes estavam mais ávidos de honras do que de poder, mais assustadiços e servis do que todos os anteriores ante uma dívida externa mais cara do que tudo o que se pudesse vender no seu desguarnecido reino de pesadelo, pois não havia nada a fazer, meu general, o último comboio dos páramos tinha-se despenhado por precipícios de orquídeas, os leopardos dormiam em poltronas de veludo, as carcaças dos barcos de rodas estavam varadas nos pântanos dos arrozais, as notícias apodrecidas nos sacos de correio, os pares de manatins enganados com a ilusão de gerar sereias entre os lírios tenebrosos dos espelhos do camarote presidencial, e só ele o ignorava, claro, tinha acreditado no progresso dentro da ordem porque nessa altura não tinha mais contacto com a vida real do que a leitura do jornal do Governo que imprimiam só para si, meu general, uma edição completa de um único exemplar com as notícias que o meu general gostava de ler, com o serviço gráfico que o meu general esperava encontrar, com os anúncios publicitários que o fizeram sonhar com um mundo diferente do que lhe tinham emprestado para a sesta, até que eu mesmo pude verificar com estes meus olhos incrédulos que por trás dos vidros solares dos ministérios continuavam intactas as barracas de cores dos negros nas colinas do porto, tinham construído as avenidas de palmeiras até ao mar para que eu não visse que por trás das vivendas romanas de pórticos iguais continuavam os bairros miseráveis devastados por um dos nossos tantos furacões, tinham semeado ervas de cheiro de ambos os lados da via para que ele visse da carruagem presidencial que o mundo parecia magnificado pelas águas venais de pintar verdilhões da sua mãe das minhas entranhas Bendición. Alvarado, e não o enganavam para o satisfazer, como fez nos últimos tempos dos seus tempos de glória o general Rodrigo de Aguilar, nem para lhe evitar contrariedades inúteis, como fazia Leticia Nazareno, mais por compaixão do que por amor, mas sim para o manter cativo do seu próprio poder no marasmo senil da rede sob a ceiba do pátio, onde, no final dos seus anos, não havia de ser verdade nem sequer o coro da escola da pintada paradinha no verde limão, que chatice, e, no entanto, o engano não o alterou, antes tentava conciliar-se com a realidade mediante a recuperação por decreto do monopólio da quina e de outras bebidas medicinais essenciais para a felicidade do Estado, mas a realidade voltou a surpreendê-lo com a advertência de que o mundo mudava e a vida continuava ainda nas costas do seu poder, pois já não há quina, senhor general, lá não há cacau, não há anil, senhor general, não havia coisa nenhuma, excepto a sua fortuna pessoal, que era incontável e estéril e estava ameaçada pela ociosidade, e, no entanto, não se alterou com tão infaustas novas e, pelo contrário, mandou um recado de desafio ao velho embaixador Roxbury, para o caso de encontrarem alguma fórmula de alívio na mesa de dominó, mas o embaixador respondeu-lhe com o seu próprio estilo, que nem por sombras, Excelência, este país não vale um tostão furado, com excepção do mar, claro, que era diáfano e suculento e teria bastado pôr-lhe lume por baixo para cozinhar na sua própria cratera a grande sopa de mariscos do universo, de maneira que pense nisso, Excelência, aceitamo-lo por conta da amortização dessa dívida atrasada que nem cem gerações de próceres tão diligentes como Vossa Excelência hão-de resgatar, mas ele nem sequer o levou a sério dessa primeira vez, acompanhou-o até às escadas, pensando, minha mãe Bendición Alvarado, vê lá que gringos tão bárbaros, como é possível que só pensem no mar para o comer, despediu-se dele com a palmadinha habitual no ombro e voltou a ficar só consigo próprio, cambaleando nas franjas de névoas ilusórias dos páramos do poder, pois as multidões tinham abandonado a Plaza de Armas, levaram os cartazes de repetição e guardaram as palavras de ordem de aluguer para outras festas iguais do futuro, assim que se lhes acabou o estímulo de coisas de comer e beber, que a tropa distribuía nos intervalos das ovações, tinham voltado a deixar os salões desertos e tristes, apesar da sua ordem de não fechar os portões a nenhuma hora, para que entre quem quiser, como antigamente, quando esta não era uma casa de defuntos, mas sim um palácio de moradores, e, no entanto, os únicos que ficaram foram os leprosos, meu general, e os cegos e os paralíticos, que tinham permanecido anos e anos defronte da casa como os vira Demetrio Aldous a dourar ao sol nas portas de Jerusalém, destruídos e invencíveis, seguros de que mais cedo do que tarde voltariam a entrar para receber das suas mãos o sal da saúde porque ele havia de sobreviver a todos os embates da adversidade e às paixões mais inclementes e às piores ciladas do esquecimento, pois era eterno, e assim foi, ele voltou a encontrá-los de regresso da ordenha fervendo as latas de sobras de cozinha nos fogões de tijolos improvisados no pátio, viu-os estendidos com os braços em cruz nas esteiras maceradas pelo suor das úlceras, à sombra fragrante dos roseirais, mandou-lhes construir um fornilho comum, comprava-lhes esteiras novas e mandou-lhes edificar um telheiro de palmas ao fundo do pátio, para que não tivessem de abrigar-se dentro da casa, mas não passavam quatro dias sem que encontrasse um par de leprosos a dormir nas alcatifas árabes da sala de festas ou encontrava um cego perdido nos gabinetes ou um paralítico fracturado nas escadas, mandava fechar as portas, para que não deixassem um rasto de chagas vivas nas paredes nem empestassem o ar com o fedor do ácido fénico com que os serviços de salubridade os fumigavam, embora mal os tirassem de um lado aparecessem por outro, tenazes, indestrutíveis, aferrados à sua velha esperança feroz quando já ninguém esperava nada daquele ancião inválido que escondia recordações escritas nas fendas das paredes e se orientava às apalpadelas de sonâmbulo através dos ventos encontrados dos lodaçais de brumas da memória, passava horas insones na rede perguntando a si próprio como catano me hei-de escapulir do novo embaixador Fischer, que me tinha proposto denunciar a existência de um flagelo de febre-amarela para justificar um desembarque de fuzileiros, de acordo com o tratado de assistência recíproca por tantos anos quantos fossem necessários para infundir um alento novo à pátria moribunda, e ele replicou imediatamente que nem por sombras, fascinado pela evidência de que estava a viver de novo nas origens do seu regime quando se tinha valido de um recurso igual para dispor dos poderes de excepção da lei marcial ante uma grave ameaça de subversão civil, tinha declarado o estado de peste por decreto, arvorou a bandeira amarela no mastro do farol, fechou-se o porto, suprimiram-se os domingos, proibiu-se chorar os mortos em público e tocar músicas que os recordassem e facultou-se às forças armadas a vigilância do cumprimento do decreto e o poder de disporem dos pestíferos segundo o seu arbítrio, de modo que as tropas com braçadeiras sanitárias executavam em público pessoas da mais diversa condição, assinalavam com um círculo vermelho na porta as casas suspeitas de inconformidade com o regime, marcavam com um ferro de gado na testa os infractores simples, as marafonas e as bichas, enquanto uma missão sanitária solicitada de urgência ao seu Governo pelo embaixador Mitchell se ocupava de preservar do contágio os habitantes da casa presidencial, recolhiam do chão a caca dos sete-mesinhos, para a analisarem com lupas, deitavam pílulas desinfectantes nas talhas, davam bichos a comer aos animais dos seus laboratórios de ciências, e ele dizia-lhes, morto de riso, através do intérprete, que não sejam patetas, misteres, aqui há tanta peste como em vocês, mas eles insistiam que sim, que tinham ordens superiores para que houvesse, prepararam um mel de virtudes preventivas, espesso e verde, com o qual envernizavam o corpo inteiro aos visitantes, sem distinção de credenciais, desde os mais vulgares aos mais ilustres, obrigavam-nos a manter a distância nas audiências, eles de pé no umbral e ele sentado no fundo, onde lhe chegasse a voz, mas não o hálito, parlamentando aos gritos com desprovidos de linhagem que gesticulavam com uma Mão, Excelência, e com a outra tapavam a esquálida gaita pintalgada, e tudo aquilo para preservar do contágio quem tinha concebido no enervamento da vigília, até aos pormenores mais banais da falsa calamidade, quem tinha inventado patranhas telúrias e difundido prognósticos de apocalipse de acordo com o seu critério de que as pessoas terão tanto mais medo quanto menos perceberem, e que apenas pestanejou quando um dos seus ajudantes de campo, lívido de pavor, se perfilou diante dele com a novidade, meu general, de que a peste está a causar uma mortandade tremenda entre a população civil, de maneira que através dos vidros nublados do coche presidencial tinha visto o tempo interrompido por ordem sua nas ruas abandonadas, viu o vento atónito nas bandeiras amarelas, viu as portas fechadas, inclusivamente nas casas omitidas pelo círculo vermelho, viu os urubus enfastiados nas varandas, e viu os mortos, os mortos, os mortos, havia tantos por todo o lado que era impossível contá-los nos lodaçais, amontoados ao sol dos terraços, estendidos nos legumes do mercado, mortos de carne e osso' meu general, sabe-se lá quantos, pois eram muitos mais do que ele teria querido ver entre as hostes dos seus inimigos, estirados como cães mortos nos caixotes de lixo, C, por cima da podridão dos corpos e da fetidez familiar das ruas, reconheceu o odor da sarna da peste, mas não se alterou, não cedeu a nenhuma súplica antes de voltar a sentir-se dono de todo o seu poder, e só quando não parecia haver recurso humano nem divino capaz de pôr termo à mortandade vimos aparecer nas ruas um coche sem insígnias no qual ninguém percebeu à primeira vista o sopro gelado da majestade do poder, mas no interior do veludo fúnebre vimos os olhos letais, os lábios trémulos, a luva nupcial que ia deitando punhados de sal nos portais, vimos o comboio pintado com as cores da bandeira a trepar com as unhas através das gardénias e dos leopardos espavoridos, até às cornijas de névoa das províncias mais escarpadas, vimos os olhos turvos através das janelas da carruagem solitária, a mão de donzela desatendida que ia deixando um rasto de sal pelos páramos lúgubres da sua meninice, vimos o barco a vapor com roda de madeira e rolos de mazurcas de planolas quiméricas que navegava aos tropeções por entre os escolhos e os bancos de areia e os escombros das catástrofes causadas na selva pelos passeios primaveris do dragão, vimos os olhos de entardecer na janela do camarote presidencial, vimos os lábios pálidos, a mão sem origem que deitava punhados de sal nas aldeias entorpecidas de calor, e os que comiam daquele sal e lambiam o chão onde tinha estado recuperavam instantaneamente a saúde e ficavam imunizados por longo tempo contra os maus presságios e as venetas da ilusão, de maneira que ele não havia de ficar surpreendido, nos postremos do seu outono, quando lhe propuseram um novo regime de desembarque sustentado na mesma patranha de uma epidemia política de febre-amarela, mas antes enfrentou as razões dos seus ministros estéreis, que clamavam que venham os fuzileiros, senhor general, que voltem com as suas máquinas de fumigar pestíferos, em troca do que eles quiserem, que voltem com os seus hospitais brancos, os seus prados azuis, os repuxos de águas giratórias que completam os anos bissextos com séculos de boa saúde, mas ele deu um murro na mesa e decidiu que não, sob a sua responsabilidade suprema, até que o rude embaixador Mac Queen lhe replicou que já não estamos em condições de discutir, Excelência, o regime não estava sustentado pela esperança nem pelo conformismo, nem sequer pelo terror, mas sim pela inércia pura e simples de uma desilusão antiga e irreparável, saia à rua e veja a verdade de caras, Excelência, estamos na curva final, ou vêm os fuzileiros ou levamos o mar, não há outra, Excelência, não havia outra, mãe, de maneira que levaram o mar das Caraíbas em Abril, levaram-no os engenheiros náuticos do embaixador Ewing, em peças numeradas, para o semearem longe dos furacões nas auroras de sangue do Arizona, levaram-no com tudo o que tinha dentro, meu general, com o reflexo das nossas cidades, os nossos afogados tímidos, os nossos dragões dementes, apesar de ele ter apelado aos registos mais audazes da sua astúcia milenária, tentando promover uma convulsão nacional de protesto contra o despojo, mas ninguém fez caso, meu general, não quiseram sair à rua, nem pela razão nem pela força, porque pensávamos que era uma nova manobra sua, como tantas outras, para saciar até para além de todos os limites a sua paixão irreprimível de perdurar, pensávamos que contanto que aconteça alguma coisa, mesmo que levem o mar, que catano, mesmo que levem a pátria inteira com o seu dragão, pensávamos insensíveis às artes de sedução dos militares que apareciam em nossas casas disfarçados de civil e nos suplicavam em nome da pátria que fôssemos para a rua a gritar que os gringos se fossem embora, para impedir a consumação do despojo, incitavam-nos ao saque e ao incêndio das lojas e das vivendas dos estrangeiros, ofereceram-nos dinheiro contado para sairmos a protestar sob a protecção da tropa solidária com o povo frente à agressão, mas ninguém saiu, meu general, porque ninguém se esquecia que da outra vez nos tinham dito o mesmo, sob palavra de militar, e, no entanto, massacraram-nos a tiro com o pretexto de que havia provocadores infiltrados que abriram fogo contra a tropa, de maneira que desta vez não contamos nem com o povo, meu general, e tive de carregar sozinho com o peso deste castigo, tive de assinar sozinho, pensando, minha mãe Bendición Alvarado, ninguém melhor do que tu sabe que é melhor ficarmos sem o mar do que permitir um desembarque de fuzileiros, lembra-te de que eram eles que pensavam as ordens que me obrigavam a assinar, eles tornavam os artistas maricas, eles trouxeram a Bíblia e a sífilis, faziam as pessoas acreditarem que a vida era fácil, mãe, que com dinheiro tudo se consegue, que os negros são contagiosos, tentaram Convencer os nossos soldados de que a pátria é um negócio e que o sentido da honra era uma cantiga inventada pelo Governo para que as tropas lutassem de graça, e foi para evitar a repetição de tantos males que lhes concedi o direito de desfrutarem dos nossos mares territoriais da forma que considerarem conveniente para os interesses da humanidade e da paz entre os povos, no entendimento de que a referida cessão compreendia não só as águas físicas visíveis da janela do seu quarto, mas sim tudo quanto se entende por mar no sentido mais lato, ou seja, a fauna e a flora próprias das ditas águas, o seu regime de ventos, a veleidade dos seus milibares, tudo, mas nunca pude imaginar que fossem capazes de fazer o que fizeram, que foi levar com gigantescas dragas de sucção as eclusas numeradas do meu velho mar de xadrez, em cuja cratera desgarrada vimos aparecer os lampejos instantâneos dos restos submersos da muito antiga cidade de Santa Maria dei Dariéri arrasada pela marabunta, vimos a nau capitânia do almirante-mor do mar Oceano, tal como eu a tinha visto da minha janela, mãe, estava idêntica, aprisionada por um matagal de percebes que as mós das dragas arrancaram pela raiz antes que ele tivesse tempo de ordenar uma homenagem digna do tamanho histórico daquele naufrágio, levaram tudo quanto tinha sido a razão das minhas guerras e o motivo do seu poder e deixaram apenas a planura deserta de áspero pó lunar que ele via ao passar pelas janelas com o coração oprimido, clamando minha mãe Bendición Alvarado ilumina-me com as tuas luzes mais sábias, pois naquelas noites de postremos era acordado pelo espanto de que os mortos da pátria se erguiam nas tumbas para lhe pedirem contas do mar, sentia os arranhões nas paredes, sentia as vozes insepultas, o horror dos olhares póstumos que espiavam pelas fechaduras o rasto das suas grandes patas de sáurio moribundo no pântano fumegante dos últimos lamaçais de salvação da casa em trevas, caminhava sem trégua na encruzilhada dos alísios tardios e dos mistrais falsos da máquina de ventos que o embaixador Eberhart lhe tinha oferecido para que se notasse menos o mau negócio do mar, via na cúspide dos recifes a luz solitária da casa de repouso dos ditadores asilados que dormem que nem bois sentados enquanto eu padeço, malparidos, lembrava-se dos roncos de adeus da sua mãe Bendición Alvarado na mansão dos subúrbios, do seu bom dormir de passarinheira no quarto iluminado pela vigília do orégão, se eu fosse a ela, suspirava, mãe feliz adormecida que nunca se deixou assustar pela peste, nem se deixou intimidar pelo amor, nem se deixou amedrontar pela morte, e, em compensação, ele estava tão aturdido que até as rajadas do farol sem mar que intermitiam nas janelas lhe pareceram sujas dos mortos, fugiu espavorido do fantástico pirilampo sideral que fumigava na sua órbita de pesadelo giratório os eflúvios temíveis do pó luminoso do tutano dos mortos, que o apaguem, gritou, e apagaram-no, mandou calafetar a casa por dentro e por fora para que não passassem pelas frinchas de portas e janelas, nem escondidos noutras fragrâncias, os hálitos mais ténues da sarna dos ares nocturnos da morte, ficou na escuridão, cambaleando, respirando com grande dificuldade no calor sem ar, sentindo-se passar por espelhos escuros, caminhando de medo, até que ouviu um tropel de cascos na cratera do mar e era a Lua que se erguia com as suas neves decrépitas, pavorosa, que a tirem, gritou, que apaguem as estrelas, catano, ordem de Deus, mas ninguém acudiu aos seus gritos, ninguém o ouviu, excepto os paralíticos, que acordaram assustados nos antigos gabinetes, os cegos nas escadas, os leprosos perlados do sereno, que se levantaram à sua passagem nos restolhos das primeiras rosas, para implorarem das suas mãos o sal da saúde, e foi então que aconteceu, incrédulos do mundo inteiro, idólatras de merda, aconteceu que ele nos tocou a cabeça ao passar, um por um, tocou-nos a cada um no local dos nossos defeitos com uma mão lisa e sábia, que era a mão da verdade, e no instante em que nos tocava recuperávamos a saúde do corpo e o sossego da alma e recobrávamos a força e a conformidade de viver, e vimos os cegos encandeados pelo fulgor das rosas, vimos os tolhidos escorregando nas escadas e vimos esta minha própria pele de recém-nascido que ando a mostrar pelas feiras do mundo inteiro, para que ninguém fique sem conhecer a notícia do prodígio e esta fragrância de lírios prematuros das cicatrizes das minhas chagas que vou regando pela face da terra para escárnio de infiéis e exemplo de libertinos, gritavam-no por cidades e aldeias, em fandangos e procissões, tentando infundir nas multidões o pavor do milagre, mas ninguém pensava que fosse verdade, pensávamos que era mais um dos tantos áulicos que mandavam às povoações com um velho bando de charlatães para tentar convencer-nos da última coisa em que nos falta acreditar, que ele tinha devolvido a cútis aos leprosos, a luz aos cegos, a habilidade aos paralíticos, pensávamos que era o último recurso do regime para chamar a atenção sobre um presidente improvável cuja guarda pessoal estava reduzida a uma patrulha de recrutas, contra a opinião unânime do Conselho de Governo, que tinha insistido que não, meu general, que era indispensável uma protecção mais rígida, pelo menos uma unidade de atiradores, meu general, mas ele tinha teimado que ninguém tem necessidade nem vontade de me matar, os únicos são os senhores, os meus ministros inúteis, os meus comandantes ociosos, só que não se atrevem nem se atreverão a matar-me nunca porque sabem que depois terão de matar-se uns aos outros, de maneira que fica apenas a guarda de recrutas para uma casa extinta, onde as vacas andavam sem rei nem roque, desde o primeiro vestíbulo até à sala de audiências, tinham comido as pradarias de flores das gobelinas, meu general, tinham comido os arquivos, mas ele não ouvia, tinha visto subir a primeira vaca numa tarde de Outubro em que era impossível permanecer na tempestade, por causa da fúria do aguaceiro, tinha tentado enxotá-la com as mãos; vaca, vaca, lembrando-se imediatamente de que vaca se escreve com um vê de vaca, tinha-a visto outra vez a comer os quebra-luzes dos candeeiros, numa época da vida em que começava a compreender que não valia a pena mexer-se até às escadas para enxotar uma vaca, tinha encontrado duas na sala de festas exasperadas pelas galinhas, que trepavam para lhes debicarem as carraças do lombo, de maneira que nas noites recentes em que víamos luzes que pareciam de navegação e ouvíamos estrondos de cascos de animal grande atrás dos muros fortificados era porque ele andava com a lanterna de mar a disputar com as vacas um sítio onde dormir, enquanto lá fora continuava a sua vida pública sem ele, víamos diariamente nos jornais do regime as fotografias de ficção das audiências civis em que no-lo mostravam com uma farda diferente, segundo o carácter da ocasião, ouvíamos pela rádio as arengas repetidas todos os anos desde havia tantos anos nas datas mais importantes das efemérides da pátria, estava presente nas nossas vidas ao sairmos de casa, ao entrarmos na igreja, ao comer e ao dormir, quando era do domínio público que mal podia com as suas rústicas botas de caminhante irredento na casa decrépita, cujo pessoal de serviço se tinha reduzido então a três ou quatro ordenanças, que lhe davam de comer e mantinham bem abastecidos os esconderijos de mel de abelha e enxotavam as vacas que tinham feito estragos no estado-maior de marechais de porcelana do gabinete proibido, onde ele havia de morrer segundo qualquer prognóstico de pitonisas que ele próprio tinha esquecido, permaneciam suspensos das suas ordens casuais até que pendurava a lanterna no lintel e ouvia-se o estrépito dos três ferrolhos, das três tranquetas, das três aldrabas, do quarto rarefeito pela falta do mar, e então retiravam-se para os seus quartos do andar de baixo, convencidos de que ele estava à mercê dos seus sonhos de afogado solitário até ao amanhecer mas acordava a saltos imprevistos, apascentava a insónia, arrastava as suas grandes patas de aparição pela imensa casa às escuras, apenas perturbada pela parcimoniosa digestão das vacas e pela respiração obtusa das galinhas adormecidas nas perchas dos vice-reis, ouvia ventos na escuridão, sentia os passos do tempo na escuridão, via sua mãe Bendición Alvarado a varrer na escuridão com a vassoura de ramos verdes com que tinha varrido a folhagem de ilustres varões chamuscados de Cornélio Nepos no texto original, a retórica imemorial de Lívio Andrónico e de Cecílio Estácio, que estavam reduzidos a lixo de gabinetes na noite de sangue em que ele entrou pela primeira vez na casa monstra do poder enquanto lá fora resistiam as últimas barricadas suicidas do insigne latinista general Lautaro Mufloz, que Deus tenha no seu santo reino, tinham atravessado o pátio sob o resplendor da cidade em chamas, saltando por cima dos vultos mortos da guarda pessoal do presidente ilustrado, ele tiritando por causa das febres terçãs e sua mãe Bendición Alvarado sem outras armas além da vassoura de ramas verdes, subiram as escadas tropeçando na escuridão com os cadáveres dos cavalos da esplêndida escuderia presidencial, que ainda se esvaíam em sangue desde o primeiro vestíbulo até à sala de audiências, era difícil respirar dentro da casa fechada por causa do cheiro de pólvora, acre do sangue dos cavalos, vimos pegadas descalças de pés ensanguentados com sangue de cavalos nos corredores, vimos palmas de mãos estampadas com sangue de cavalos nas paredes, e vimos no charco de sangue da sala de audiências o corpo dessangrado de uma formosa florentina de vestido de noite com um sabre de guerra cravado no coração, e era a esposa do presidente, e vimos a seu lado o cadáver de uma menina que parecia uma bailarina de brinquedo de corda com um tiro de pistola na testa, e era a sua filha de nove anos, e viram o cadáver de césar garibaldino do presidente Lautaro Mufioz, o mais destro e capaz dos catorze generais federalistas que se tinham sucedido no poder por atentados sucessivos durante onze anos de rivalidades sangrentas, mas também o único que se atreveu a dizer-lhe que não na sua própria língua ao cônsul dos Ingleses, e ali estava estirado como um carapau, descalço, sofrendo o castigo da sua temeridade, com o crânio estilhaçado por um tiro de pistola, que disparou no céu da boca depois de matar a mulher e a filha e os seus quarenta e dois cavalos andaluzes, para que não caíssem em poder da expedição punitiva da esquadra britânica, e foi então que o comandante Kátcherier me disse, apontando o cadáver, que repara, general, é assim que acabam os que levantam a mão para o seu pai, que não te esqueça quando estiveres no teu reino, disse-lhe, embora já estivesse, ao cabo de tantas noites de insónias de espera, tantas raivas adiadas, tantas humilhações digeridas, ali estava mãe, proclamado comandante supremo dos três ramos e presidente da República por tanto tempo quanto fosse necessário para o estabelecimento da ordem e o equilíbrio económico da nação, tinham-no resolvido os últimos caudilhos da federação, com o acordo do Senado e da Câmara de Deputados em peso e o apoio da esquadra britânica, pelas minhas tantas e tão difíceis noites de dominó com o cônsul Macdonail, só que nem eu nem ninguém acreditou nisso ao princípio, quem é que havia de acreditar no tumulto daquela noite de espanto se a própria Bendición Alvarado ainda não tinha chegado a acreditar no seu leito de podridão quando evocava a recordação do filho que não encontrava por onde começar a governar naquela desordem, não achavam nem uma erva de infusão para a febre naquela casa imensa e sem móveis, na qual não restava nada de valor a não ser os óleos traçados dos vice-reis e dos arcebispos da grandeza morta de Espanha, tudo o resto tinha sido a pouco e pouco levado pelos presidentes anteriores para os seus domínios privados, não deixaram nem rasto do papel de colgaduras de episódios heróicos nas paredes, os quartos estavam cheios de desperdícios de quartel, havia por todo o lado vestígios esquecidos de massacres históricos e consignas escritas com um dedo de sangue por presidentes ilusórios de uma só noite, mas não havia sequer uma esteira onde alguém pudesse deitar-se para suar a febre, de maneira que sua mãe Bendición Alvarado arrancou uma cortina para me embrulhar e deixou-o deitado a um canto da escada principal, enquanto varria com a vassoura de ramas verdes os aposentos presidenciais que os ingleses estavam a acabar de saquear, varreu o chão inteiro defendendo-se à vassourada dessa pandilha de flibusteiros que tentava violá-la atrás das portas, e um pouco antes da alva sentou-se a descansar ao lado do filho aniquilado pelos calafrios, embrulhado na cortina de pelúcia, suando em bica no último degrau da escada principal da casa devastada, enquanto ela tentava baixar-lhe a febre com os seus cálculos fáceis de não te deixes amedrontar por esta desordem, filho, é questão de comprar uns tamboretes de couro dos mais baratos e pintam-se-lhes flores e animais de cores, eu mesma os pinto, dizia, é questão de comprar uns catres para quando houver visitas, sobretudo isso, catres, porque numa casa como esta devem vir muitas visitas a qualquer hora sem avisar, dizia, compra-se uma mesa de igreja para comer, compram-se talheres de ferro e pratos de peltre para aguentarem a má vida da tropa, compra-se uma talha decente para a água de beber e um fogareiro de carvão e pronto, ao fim e ao cabo é dinheiro do Governo, dizia, para o consolar, mas ele não a ouvia, abatido pelos primeiros alvores do amanhecer que iluminavam em carne viva o lado oculto da verdade, consciente de não passar de um ancião lastimável que tremia de febre sentado nas escadas, pensando, sem amor, minha mãe Bendición Alvarado, com que então isto é que era a coisa toda, catano, com que então o poder era aquela casa de náufragos, aquele cheiro humano de cavalo queimado, aquela aurora desolada de outro doze de Agosto igual a todos, era a data do poder, mãe, em que porcaria nos metemos, sofrendo a indisposição original, o medo atávico do novo século de trevas que se erguia no mundo sem a sua autorização, cantavam os galos no mar, cantavam os ingleses em inglês, recolhendo os mortos do pátio quando sua mãe Bendición Alvarado terminou as contas alegres com o saldo de alívio de que não me assustam as coisas de comprar e os ofícios por fazer, nada disso, filho, o que me assusta é a quantidade de lençóis que vai ser preciso lavar nesta casa, e nessa altura foi ele quem se apoiou na força da sua desilusão para tentar consolá-la com um durma sossegada, mãe, neste país não há presidente que dure, disse-lhe, vai ver como me derrubam antes de quinze dias, disse-lhe, e não só acreditou nisso então como continuou a acreditar em cada instante de todas as horas de toda a sua longuíssima vida de déspota sedentário, tanto mais quanto mais a vida o convencia de que os longos anos do poder não trazem dois dias iguais, que haveria sempre uma intenção oculta nos propósitos de um primeiro-ministro quando este soltava a deflagração deslumbrante da verdade no relatório de rotina de quarta-feira, ele apenas sorria, não me diga a verdade, doutor, que corre o risco de acreditar nela, desbaratando com aquela única frase toda uma laboriosa estratégia do Conselho de Governo para tentar que ele assinasse sem fazer perguntas, pois nunca me pareceu mais lúcido do que quando mais convincentes se tornavam os rumores de que ele urinava nas calças sem dar por isso durante as visitas oficiais, parecia-me mais severo à medida que mergulhava no remanso da decrepitude com umas pantufas de desajuizado e os óculos de uma só haste amarrada com linha de coser e a sua índole tinha-se tornado mais intensa e o seu instinto mais certeiro para afastar o que era inoportuno e assinar o que convinha sem ler, que catano, se ao fim e ao cabo ninguém faz caso de mim, sorria, imagine que tinha ordenado que pusessem uma tranca no vestíbulo para as vacas não subirem pelas escadas, e lá estava ela Outra vez, vaca, vaca, tinha metido a cabeça pela janela do gabinete e estava a comer as flores de papel do altar da pátria, mas ele limitava-se a sorrir, que vê o que eu dizia, doutor, o que tem fodido este país é que nunca ninguém fez caso do que eu digo, dizia, e dizia-o com uma clareza de juízo que não parecia possível na sua idade, embora o embaixador Koppling contasse nas suas memórias proibidas que por essa época o tinha encontrado num penoso estado de inconsciência senil que nem sequer lhe permitia contar consigo próprio para os actos mais pueris, contava que o encontrara ensopado de uma matéria incessante e salobra que lhe brotava da pele, que tinha adquirido um tamanho descomunal de afogado e uma placidez lenta de afogado ao sabor das águas e tinha aberto a camisa para me mostrar o corpo tenso e lúcido de afogado de terra firme, em cujos resquícios estavam a proliferar parasitas de escolhos do fundo do mar, tinha rémora de barco nas costas, tinha pólipos e crustáceos microscópicos nas axilas, mas estava convencido de que aqueles rebentos de encalhe nas rochas eram apenas os primeiros sintomas do regresso espontâneo do mar que os senhores levaram, meu caro Jolinson, porque os mares são como os gatos, disse, voltam sempre, convencido de que os bandos de percebes das suas virilhas eram o anúncio secreto de um amanhecer feliz em que ia abrir a janela do seu quarto e havia de ver de novo as três caravelas do almirante do mar Oceano, que se tinha cansado de procurar pelo mundo inteiro, para ver se era verdade o que diziam, que tinha as mãos lisas como ele e como tantos outros grandes da história, tinha mandado que o trouxessem, inclusivamente pela força, quando outros navegantes lhe contaram que o tinham visto cartografando as ínsulas inumeráveis dos mares vizinhos, substituindo por nomes de reis e de santos os seus velhos nomes de militares enquanto procurava na ciência nativa a única coisa que verdadeiramente lhe interessava, que era descobrir qualquer tricófero magistral para a sua calvície incipiente, tínhamos perdido a esperança de voltar a encontrá-lo quando ele o reconheceu da limusina presidencial, dissimulado dentro de um hábito pardo com cordão de São Francisco à cintura, fazendo soar uma matraca de penitente entre as multidões dominicais do mercado público e sumido em tal estado de penúria moral que não podia acreditar que fosse o mesmo que tínhamos visto entrar na sala de audiências com a farda carmesim e as esporas de ouro e a andadura solene de lavagante em terra firme, mas, quando tentaram metê-lo na limusina por ordem sua, não encontrámos sequer rastos, meu general, a terra engoliu-o, diziam que se tinha tornado muçulmano, que tinha morrido de pelagra no Senegal e tinha sido enterrado em três túmulos diferentes em três cidades diversas do mundo, embora, na verdade, não estivesse em nenhum, condenado a vagar de sepulcro em sepulcro até à consumação dos séculos, devido à sorte torcida das suas empresas, porque esse homem tinha malapata, meu general, dava mais azar do que o ouro, mas ele nunca acreditou nisso, continuava a esperar que voltasse nos extremos últimos da sua velhice quando o ministro da Saúde lhe arrancava com uma pinça as carraças de boi que lhe encontrava no corpo e ele insistia que não eram carraças, doutor, é o mar que volta, dizia, tão seguro do seu critério que o ministro da Saúde tinha pensado muitas vezes que ele não era tão surdo como fazia crer em público nem tão despistado como aparentava nas audiências incómodas, embora um exame de fundo tivesse revelado que tinha as artérias de vidro, tinha sedimentos de areia de praia nos rins e o coração gretado por falta de amor, de maneira que o velho médico escudou-se numa antiga confiança de compadre para lhe dizer que já é tempo de entregar os trastes, meu general, resolva, pelo menos, em que mãos nos vai deixar, disse-lhe, salve-nos do abandono, mas ele perguntou-lhe, espantado, quem é que lhe disse que eu tenciono morrer, meu caro doutor, os outros que morram, catano, e acabou com espírito folgazão que há duas noites vi-me a mim próprio na televisão e achei-me melhor do que nunca, como um touro de lide, disse, morto de riso, pois tinha-se visto entre brumas, a cabecear de sono e com a cabeça envolvida numa toalha molhada em frente ao écran sem som, de acordo com os hábitos dos seus últimos serões de solidão, estava realmente mais resoluto que um touro de lide perante o feitiço da embaixatriz de França, ou talvez fosse a da Turquia, ou da Suécia, que catano, eram tantas iguais que não as distinguia e tinha passado tanto tempo que não se lembrava de si próprio entre elas com a farda de cerimónia e uma taça de champanhe intacta na mão durante a festa de aniversário do doze de Agosto, ou na comemoração da vitória de catorze de janeiro, ou do renascimento do treze de Março, sei lá, se no aranzel de datas históricas do regime tinha acabado por não saber quando era qual nem qual correspondia a quê nem lhe serviam de nada os papelinhos enrolados que com tão bom espírito e tanto esmero tinha escondido nas gretas das paredes, porque tinha acabado por esquecer o que era que devia recordar, encontrava-os por casualidade nos esconderijos do mel de abelha e tinha lido uma vez qualquer que em sete de Abril faz anos o doutor Marcos de León, é preciso mandar-lhe um tigre de presente, tinha lido, escrito pelo seu próprio punho, sem a menor ideia de quem fosse, sentindo que não havia castigo mais humilhante nem menos merecido para um homem do que a traição do seu próprio corpo, tinha começado a vislumbrá-lo desde muito antes dos tempos imemoriais de José Ignacio Saenz de la Barra quando teve consciência de que mal sabia quem era quem nas audiências de grupo, um homem como eu, que era capaz de chamar pelo nome e apelido toda uma povoação das mais remotas do seu desmesurado reino de pesadelo, e contudo tinha chegado ao extremo contrário, tinha visto do coche um rapaz conhecido entre a multidão e tinha-se assustado tanto por não se lembrar de onde o tinha visto antes que o mandou prender pela escolta enquanto me recordava, um pobre homem do monte que esteve vinte e dois anos num calabouço a repetir a verdade estabelecida desde o primeiro dia no processo judicial, que se chamava Braulio Linares Moscote, que era filho natural, mas reconhecido, de Marcos Linares, marinheiro de água doce, e de Delfina Moscote, criadora de cães tigreiros, ambos com residência conhecida no Rosal del Virrey, que estava pela primeira vez na capital deste reino porque a mãe o tinha mandado vender dois cachorros nos jogos florais de Março, que tinha chegado num burro de aluguer sem outras roupas além das que levava vestidas ao amanhecer da mesma quinta-feira em que o prenderam, que estava numa barraca do mercado público a beber uma chávena de café amargo enquanto perguntava às vendedeiras de frituras se sabiam de alguém que quisesse comprar dois cachorros cruzados para caçar tigres, que elas lhe tinham respondido que não quando começou o tropel dos tambores, das cornetas, dos foguetes, das pessoas que gritavam, já lá vem o homem, aí vem ele, que perguntou quem era o homem e tinham-lhe respondido que quem havia de ser, aquele que manda, que meteu os cachorros num caixote, para que as mulheres das frituras lhe fizessem o favor de me tomar conta deles até eu voltar, que se encarrapitou na travessa de uma janela para ver por cima da gentalha e viu a escolta de cavalos com xairéis de ouro e morriões de plumas, viu o coche com o dragão da pátria, a saudação de uma mão com uma luva de pano, o semblante lívido, os lábios taciturnos, sem sorriso, do homem que mandava, os olhos tristes que o encontraram imediatamente como agulha em palheiro, o dedo que o apontou, aquele, o que está encarrapitado na janela, que o prendam enquanto eu não me lembro de onde o vi, ordenou, de maneira que me agarraram aos murros, esfolaram-me à espadeirada de sabre, assaram-me numa grelha para eu confessasse onde me tinha visto antes o homem que mandava, mas não tinha conseguido arrancar-lhe outra verdade além da única no calabouço de horror da fortaleza do porto e repetiu-a com tanta convicção e tanta coragem pessoal que ele acabou por admitir que se tinha enganado, mas agora não há nada a fazer, disse, porque o tinham tratado tão mal que, se não era inimigo, agora passou a ser, de maneira que apodreceu vivo no calabouço enquanto eu deambulava por esta casa de sombras pensando minha mãe Bendición Alvarado dos meus bons tempos, acode-me, repara como estou sem o amparo do teu manto, clamando a sós que não valia a pena ter vivido tantos fastos de glória se não podia evocá-los para aliviar-se com eles e alimentar-se deles e continuar a sobreviver por eles nos pântanos da velhice, porque até as dores mais intensas e os instantes mais felizes dos seus tempos grandes lhe tinham escorrido sem remédio pelas frestas da memória, apesar das suas tentativas cândidas de impedi-lo com tampões de papelinhos enrolados, estava castigado a não saber nunca quem era esta Francisca Linero, de noventa e seis anos que tinha mandado enterrar com honras de rainha, de acordo com outra nota escrita pelo seu próprio punho, condenado a governar às cegas com onze pares de óculos inúteis escondidos na gaveta da secretária, para dissimular que, na realidade, conversava com espectros cujas vozes não chegava a decifrar, cuja identidade adivinhava por sinais de instinto, submerso num estado de desamparo cujo risco maior se lhe tinha tornado evidente numa audiência com o ministro da Guerra, em que teve o azar de espirrar uma vez e o ministro da Guerra, disse-lhe saúde, meu general, e tinha espirrado outra vez e o ministro da Guerra tornou a dizer saúde, meu general, e outra vez, saúde, meu general, mas depois de nove espirros consecutivos não tornei a dizer-lhe saúde, meu general, senti-me mas foi aterrado pela ameaça daquela cara descomposta de estupor, vi os olhos rasos de lágrimas que me cuspiram sem piedade do lodaçal da agonia, vi a língua de enforcada da besta decrépita que estava a morrer-me nos braços sem uma testemunha da minha inocência, sem ninguém, então nada mais me ocorreu do que escapar do gabinete antes que fosse demasiado tarde, mas ele impediu-me com uma rajada de autoridade, gritando-me, entre dois espirros, que não fosse cobarde, brigadeiro Rosendo Sacristán, fique quieto, catano, que eu não sou tão parvo que vá morrer diante de si, gritou, e assim foi, porque continuou a espirrar até à beira da morte, flutuando num espaço de inconsciência povoado de estrelas ao meio-dia, mas aferrado à certeza de que a sua mãe Bendición Alvarado não havia de proporcionar-lhe a vergonha de morrer de um acesso de espirros na presença de um inferior, nem por sombras, antes morto do que humilhado, era melhor viver com vacas do que com homens capazes de deixarem uma pessoa morrer sem honra, que catano, ele que não tinha voltado a discutir sobre Deus com o núncio apostólico, para que ele não se apercebesse de que bebia chocolate à colher, nem tinha tornado a jogar domino com receio de que alguém se atrevesse a perder por pena, não queria ver ninguém, mãe, para que ninguém descobrisse que, apesar da vigilância minuciosa da sua própria conduta, apesar das suas presunções de não arrastar os pés chatos, que, ao fim e ao cabo, desde sempre tinha arrastado, apesar do pudor dos seus anos sentia-se à beira do abismo de desgosto dos últimos ditadores em desgraça que mantinha mais presos do que protegidos na casa do despenhadeiro, para não contaminarem o mundo com a peste da sua indignidade, tinha-o sofrido a sós na má manhã em que se deixara adormecer dentro do tanque do pátio privado quando tomava o banho de águas medicinais, sonhava contigo, mãe, sonhava que eras tu que fazias as cigarras que rebentavam de tanto apitar sobre a minha cabeça entre os ramos floridos da amendoeira da vida real, sonhava que eras tu que pintavas com os teus pincéis as vozes de cores dos verdilhões, quando acordou sobressaltado pelo arroto imprevisto das tripas no fundo da água, mãe, acordou congestionado de raiva no tanque pervertido da minha vergonha, onde flutuavam os lotos aromáticos do orégão e da malva, flutuavam as flores novas caídas da laranjeira, flutuavam as tartarugas de água doce alvoroçadas com a novidade do regueiro de caganitas douradas e moles do meu general nas águas fragrantes, que chatice, mas ele tinha sobrevivido a essa e a tantas outras infâmias da idade e tinha reduzido ao mínimo o pessoal de serviço para as enfrentar sem testemunhas, ninguém havia de vê-lo a vaguear sem rumo pela casa de ninguém durante dias inteiros e noites completas, com a cabeça embrulhada em farrapos ensopados de álcool canforado, gemendo de desespero contra as paredes, enfrascado de remédios para a tosse, enlouquecido pela dor de cabeça insuportável de que nunca falou nem ao seu médico pessoal, porque sabia que não passava de mais uma das tantas dores inúteis da decrepitude, sentia-a chegar como um trovão de pedras desde muito antes que aparecessem no céu as nuvens negras da tempestade e ordenava que ninguém me incomode quando mal tinha começado a girar o torniquete nas fontes, que ninguém entre nesta casa, aconteça o que acontecer, ordenava, quando sentia ranger os ossos do crânio com a segunda volta do torniquete, nem Deus, se vier, ordenava, nem se morrer eu, catano, cego por aquela dor desalmada que não lhe concedia nem um instante de trégua para pensar até ao fim dos séculos de desespero em que ruía a bênção da chuva, e então chamava-nos, encontrávamo-lo recém-nascido com a mesinha pronta para o jantar defronte do écran mudo da televisão, servíamos-lhe carne guisada, feijões com toucinho, arroz de coco, fatias de banana frita, um jantar inconcebível para a sua idade, que ele deixava esfriar sem sequer o provar, ao mesmo tempo que via o mesmo filme de emergência na televisão, consciente de que alguma coisa o Governo lhe queria ocultar para voltarem a passar o mesmo programa de circuito fechado sem reparar sequer que as bobinas de filme estavam invertidas, que catano, dizia, tentando esquecer o que quisessem ocultar-lhe, se fosse alguma coisa pior já se devia saber, roncando frente ao jantar servido, até que davam as oito na catedral e levantava-se com o prato intacto e deitava a comida na retrete, como todas as noites àquela hora, desde havia tanto tempo, para dissimular a humilhação de o estômago lhe rechaçar tudo, para entreter com as lendas dos seus tempos de glória o rancor que sentia contra si próprio cada vez que incorria num acto detestável de descuidos de velho, para esquecer que mal vivia, que era ele e ninguém mais que escrevia nas paredes das casas de banho viva o general, viva o valente, que tinha tomado às escondidas uma poção de curandeiros para estar quantas vezes quisesse numa só noite e até três vezes de cada vez com três mulheres diferentes e tinha pago aquela ingenuidade senil com lágrimas mais de raiva do que de dor, aferrado às argolas da retrete, chorando minha mãe Bendición Alvarado do meu coração, farta-me, purifica-me com as tuas águas de fogo, cumprindo com orgulho o castigo da sua candura, porque estava farto de saber que aquilo que então lhe faltava e lhe tinha faltado sempre na cama não era honra, mas sim amor, faltavam-lhe mulheres menos áridas do que as que o meu compadre o ministro-chanceler me servia para que não perdesse o bom hábito desde que fecharam a escola vizinha, fêmeas de carne sem osso só para o senhor, meu general, mandadas por avião corri isenção alfandegária oficial das montras de Amsterdão, dos concursos de cinema de Budapeste, do mar de Itália, meu general, olhe que maravilha, as mais belas do mundo inteiro que ele encontrava sentadas com uma decência de professoras de Canto na penumbra do gabinete, despiam-se como artistas, deitavam-se no divã de pelúcia com as alças do fato de banho impressas em negativo de fotografia sobre a pele tépida de melaço de ouro, cheiravam a dentífricos de mentol, a flores de vaso, deitadas junto ao enorme boi de cimento que não quis tirar a roupa militar enquanto eu tentava encorajá-lo com os meus recursos mais caros até que ele se cansou de padecer os constrangimentos daquela beleza alucinante de peixe morto e lhe disse que já chegava, filha, vai para freira, tão deprimido por causa da sua própria desídia que naquela noite, ao bater das oito, surpreendeu uma das mulheres encarregadas da roupa dos soldados e derrubou-a com um golpe de garra por cima das selhas do lavadouro, apesar de ela tentar escapar com o recurso de susto de que hoje não posso, senhor general, palavra, estou com a chica, mas ele virou-a de barriga para baixo nas tábuas de lavar e possuiu-a por trás com um ímpeto bíblico que a pobre mulher sentiu na alma com o rangido da morte e resfolegou que horror, senhor general, o senhor deve ter estudado para burro, e ele sentiu-se mais lisonjeado com aquele gemido de dor do que com os ditirambos mais frenéticos dos seus aduladores de ofício e atribuiu à lavadeira uma pensão vitalícia para a educação dos filhos, voltou a cantar depois de tantos anos quando dava a ração às vacas nos estábulos de ordenha, (19) debaixo da lua do mês de janeiro, cantava, sem pensar na morte, porque nem sequer na última noite de vida havia de permitir-se a fraqueza de pensar em alguma coisa que não fosse de sentido comum, voltou a contar as vacas duas vezes, ao mesmo tempo que cantava és a luz do meu caminho escuro, és a minha Estrela Polar, e comprovou que faltavam quatro, regressou ao interior da casa contando à passagem as galinhas adormecidas nas perchas dos vice-reis, tapando as gaiolas dos pássaros adormecidos, que contava ao pôr-lhes em cima as capas de pano, quarenta e oito, pegou fogo às bostas disseminadas pelas vacas durante o dia, do vestíbulo até à sala de audiências, lembrou-se de uma infância remota que pela primeira vez era a sua imagem tiritando no gelo do páramo e a imagem da sua mãe Bendición Alvarado que arrebatou aos abutres da esterqueira uma tripa de carneiro para o almoço, tinham dado as onze quando percorreu outra vez a casa completa em sentido contrário, alumiando-se com a lanterna enquanto apagava as luzes até ao vestíbulo, viu-se a si próprio, um por um, até catorze generais repetidos, caminhando com uma lanterna nos espelhos escuros, viu uma vaca escarranchada de barriga para o ar no fundo do espelho da sala de música, vaca, vaca, disse, estava morta, que chatice, passou pelos quartos da guarda para lhes dizer que havia uma vaca morta dentro de um espelho, ordenou que a tirem dali amanhã cedo, sem falta, antes que a casa se nos encha de urubus, ordenou, revistando com a luz os antigos gabinetes do andar de baixo em busca das outras vacas perdidas, eram três, procurou-as nas retretes, debaixo das mesas, dentro de cada um dos espelhos, subiu ao andar principal, revistando os quartos quarto a quarto e só encontrou uma galinha deitada sob o mosquiteiro de rede rosada de uma noviça de outros tempos, cujo nome tinha esquecido, tomou a colherada de mel de abelha de antes de deitar, voltou a colocar o frasco no esconderijo onde havia um dos seus papelinhos com a data de algum aniversário do insigne poeta Rubén. Darío, que Deus tenha na mais alta cadeira do seu santo reino, voltou a enrolar o papelinho e deixou-o no mesmo sítio, ao mesmo tempo que rezava de memória a oração certeira de padre e mestre mágico liróforo celeste ' que manténs a flutuar os aeroplanos no ar e os transatlânticos no mar, arrastando as grandes patas de desajuizado insone através das últimas alvas fugazes de amanheceres verdes das voltas do farol, ouvia os ventos em desgosto do mar que partiu, ouvia a música da alma de uma farra de casamento em que estivera à beira de morrer pelas costas num descuido de Deus, encontrou uma vaca extraviada e travou-lhe o passo sem lhe tocar, vaca, vaca, regressou ao quarto, ia vendo ao passar defronte das janelas o turbilhão de luzes da cidade sem mar em todas as janelas, sentiu o vapor quente do mistério das suas entranhas, o arcano da sua respiração unânime, contemplou-a vinte e três vezes sem se deter e padeceu para sempre, como sempre, a incerteza do oceano vasto e inescrutável da povoação adormecida com a mão no coração, soube-se aborrecido por aqueles que mais o amavam, sentiu-se iluminado com velas de santos, sentiu o seu nome invocado para corrigir a sorte das parturientes e mudar o destino dos moribundos, sentiu a sua memória exaltada pelos mesmos que maldiziam a mãe quando viam os olhos taciturnos, os lábios tristes, a mão de noiva pensativa por detrás dos vidros de aço transparente dos tempos remotos da limusina sonâmbula e beijávamos a pegada da sua bota na lama e mandávamos esconjuros para uma má morte nas noites de calor quando víamos dos pátios as luzes errantes nas janelas sem alma da casa civil, ninguém gosta de nós, suspirava, assomado ao antigo quarto de passarinheira exangue pintora de verdilhões de sua mãe Bendíción Alvarado, com o corpo semeado de limos, passe boa morte, Mãe, disse-lhe, muito boa morte, filho, respondeu ela na cripta, era meia-noite em ponto quando pendurou a lanterna no lintel, ferido nas entranhas pela torcedura mortal dos assobios ténues do horror da hérnia, não havia mais espaço no mundo que o da sua dor, correu os três ferrolhos do quarto pela última vez, correu as três trancas, as três aldrabas, sofreu o holocausto final da micção exígua na latrina portátil, atirou-se para o chão nu com as calças de cotim ordinário que usava para trazer por casa desde que pusera termo às audiências, com a camisa de listas sem o colarinho postiço e as pantufas de inválido, estirou-se de barriga para baixo, com o braço direito dobrado sob a cabeça, para lhe servir de almofada, e adormeceu instantaneamente, mas às duas e dez acordou com a mente varada e com a roupa embebida num suor pálido e morno de vésperas de ciclone, quem vive, perguntou estremecido pela certeza de que alguém o tinha chamado no sono por um nome que não era o seu, Nicanor, e outra vez, Nicanor, alguém que tinha a virtude de se meter no seu quarto sem tirar as aldrabas, porque entrava e saía quando queria, atravessando as paredes, e então viu-a, era a morte, meu general, a sua, vestida com uma túnica de farrapos de serapilheira de penitente, com a foice de pau na mão e o crânio semeado de rebentos de algas sepulcrais e flores de terra na fissura dos ossos e os olhos arcaicos e atónitos nas órbitas descarnadas, e só quando a viu de corpo inteiro compreendeu que lhe teria chamado Nicanor, Nicanor, que é o nome pelo qual a morte nos conhece a todos os homens no instante de morrer, mas ele disse que não, morte, que ainda não era a sua hora, que havia de ser durante o sono, na penumbra do gabinete, como estava anunciado desde sempre nas águas premonitórias dos alguidares, mas ela replicou que não, general, foi aqui, descalço e com a roupa de indigente que tinha vestida, embora os que encontraram o corpo viessem a dizer que foi no chão do gabinete, com a farda de cotim sem insígnias e a espora de ouro no calcanhar esquerdo, para não contrariar os augúrios das suas pitonisas, tinha sido quando menos o quis, quando ao cabo de tantos e tantos anos de ilusões estéreis tinha começado a vislumbrar que não se vive, que catano, sobrevive-se, aprende-se tarde de mais que até as vidas mais dilatadas e úteis não chegam para mais nada senão para aprender a viver, tinha conhecido a sua incapacidade de amor no enigma da palma das mãos mudas e nas cifras invisíveis das cartas e tinha tentado compensar aquele destino infame com o culto abrasador do vício solitário do poder, tinha-se feito vítima da sua seita para se imolar nas chamas daquele holocausto infinito, tinha-se cevado na falácia e no crime, tinha medrado na impiedade e no opróbrio e tinha-se sobreposto à sua avareza febril e ao medo congénito, só para conservar até ao fim dos tempos o seu berlindezinho no punho, sem saber que era um vício sem fim cuja saciedade gerava o seu próprio apetite até ao fim de todos os tempos, meu general, tinha sabido desde as suas origens que o enganavam para o comprazerem, que se faziam pagar por adulá-lo, que recrutavam pela força das armas as multidões concentradas à sua passagem com gritos de júbilo e dísticos venais de vida eterna ao magnífico que é mais antigo do que a idade que tem, mas aprendera a viver com essas e com todas as misérias da glória, à medida que descobria no transcurso dos seus anos incontáveis que a mentira é mais cómoda do que a dúvida, mais útil do que o amor, mais perdurável do que a verdade, tinha chegado sem espanto à ficção de ignomínia de mandar sem poder, de ser exaltado sem glória e de ser obedecido sem autoridade, quando se convenceu no rasto de folhas amarelas do seu outono de que nunca havia de ser dono de todo o seu poder, que estava condenado a não conhecer a vida senão pelo avesso, condenado a decifrar as costuras e a corrigir os fios da trama e os nós da urdidura da gobelina de ilusões da realidade, sem sus- peitar, nem sequer demasiado tarde, de que a única vida vivível era a de mostrar, a que nós víamos deste lado que não era o seu, meu general, deste lado de pobres onde estava o rasto de folhas amarelas dos nossos incontáveis anos de infortúnio e dos nossos instantes inapreensíveis de felicidade, onde o amor estava contaminado pelos germes da morte, mas era todo o amor, meu general, onde mesmo o senhor era apenas uma visão incerta de uns olhos lastimosos através dos vidros poeirentos da janela de um comboio, era apenas o tremor de uns lábios taciturnos, o adeus fugitivo de uma luva de cetim da mão de ninguém de um ancião sem destino que nunca soubemos quem foi, nem como foi, nem se foi apenas uma patranha da imaginação, um tirano de brincadeira que nunca soube onde estava o avesso e o direito desta vida, que amávamos com uma paixão insaciável que o senhor não se atreveu nem sequer a imaginar, com medo de saber o que nós estávamos fartos de saber que era árdua e efémera, mas que não havia outra, senhor general, porque nós sabíamos quem éramos, enquanto ele ficou sem o saber, para sempre, com o doce assobio da hérnia de morto velho truncado de raiz pela trancada da morte, voando entre o rumor escuro das últimas folhas geladas do seu outono até à pátria de revãs da verdade do esquecimento, agarrado de medo aos trapos de fiapos apodrecidos do balandrau da morte e alheio aos clamores das multidões frenéticas que saíam para as ruas cantando os hinos de júbilo da notícia jubilosa da sua morte e alheio para todo o sempre às músicas de libertação e aos foguetes de satisfação e aos sinos de glória que anunciaram ao mundo a boa nova de que o tempo incontável da eternidade tinha finalmente acabado.

 

1. Nome vulgar de diversas aráceas próprias da zona intertropical, bem como do seu tubérculo, que serve de alimento, sobretudo aos naturais do campo. (N. do T)

2. Canção da revolução mexicana. (N. do T)

3. Filtros de amor. (N. do T)

4. Rum de qualidade inferior. (N. do T)

5. Mortalha para fazer cigarros de marijuana. (N. do T)

6. Figura dos bairros de Barranquilla celebrizada pelas suas aventuras e proezas sexuais. (N. do T)

7. Herói de uma guaracha cubana. (N. do T)

8. Espécie de cabaça. (N. do T)

9. Fruto do guanabano, espécie de anona. (N. do T)

10 . Música popular de Porto Rico. (N. do T)

11. Citação de uma poesia de Nicolás GuilIén. Ao longo do livro há frequentes citações de alguns poetas, especialmente de Rubén Darío, e bem assim de canções populares das Caraíbas. (N. do T)

12. Música popular colombiana. (N. do T)

13. Musica típica do Panamá. (N. do T)

14. Espécie de cabaça que, depois de seca, serve para conter líquidos. (N. do T)

15 . Nome genérico de uma série de infecções com acidentes Clitâneos comuns nas regiões tropicais. (N. do T)

16. Dança popular colombiana. (N. do T)

17.Tipos  de cucurbitáceas: Cucurbirapepo éi chamada, abóbora-porqueira"; quarito a Cucurbita melo, é provável que o autor se quisesse referir à Cucurbita melopepo, a abóbora- turbante, visto que existe, sim, a variedade Cucumis melo, o vulgar melão. (N. do T)

18. Frailejón é uma planta de folhas peludas e resinosas e flor amarela semelhante ao girassol. (N. do T)

19. Início de um poema célebre de Rubén Darío. (N. do T)

 

                                                                                            Gabriel Garcia Marquez

 

 

                      

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