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Series & Trilogias Literarias
Após um baile em Paris, um incidente de rua, com uma loura misteriosa, deixa na memória do "ladrão de casaca" um rastro de suspense... Horas mais tarde, o jogo do acaso põe-no na pista de uma sucessão de crimes e a partir daí se desenrola um dos mais apaixonantes romances da série que Maurice Leblanc criou e a dupla Boileau-Narcejac sustentou de 1973 a 1979. Os subterrâneos ocultos da vida mundana parisiense foram sempre um "Paiol de Pólvora".
Mestre do romance policial, ao nível de um Conan Doyle ou de uma Agatha Christie, Maurice Leblanc celebrizou-se com a criação da figura de Arsène Lupin, que é ainda hoje um dos best-sellers da literatura de mistério, aventura e suspense. A série de obras que a Nova Fronteira está reeditando transporta o leitor para um ambiente muito especial, sofisticado, em que o famoso "ladrão de casaca" — tradução de "gentleman cambrioleur" —, que era Arsène Lupin, se movimenta nos mais célebres salões de Paris com a desenvoltura do aventureiro aparentemente irrepreensível e o brilho do diletante requintado, que conseguia esconder um burlão impenitente, meio desportivo e sempre desconcertante em seu comportamento amoral e apaixonado.
Ler as aventuras de Arsène Lupin, todas diversas e originais, todas apontando para desfechos imprevistos, é ficar preso desde logo ao fascínio de um grande narrador de histórias de mistério — Maurice Leblanc — e à figura exótica e estranha de um grande personagem internacional da literatura do crime: Arsène Lupin.
A anêmona branca
Os espectadores, em pé, aplaudiam com muito entusiasmo. 0 príncipe Sernine, de seu camarote, via claramente Nijinski e Karsovina. 0 famoso bailarino, dando a mio à sua parceira, cumprimentava pela décima vez. Estava ainda um pouco ofegante e o suor fazia brilhar os olhos muito pintados. Os gritos e os pedidos para voltar enchiam o teatro. 0 pano baixou, tornou a levantar. No camarote de honra o presidente Fallières dizia algumas palavras ao ouvido do rei da Sérvia, enquanto que o arquiduque Michel, muito jovem, à sua esquerda, esquecendo o protocolo, se debruçava e agitava a mão enluvada de branco.
— Que noite maravilhosa — disse alguém, perto do príncipe.
Este, depois de um último olhar para a sala brilhantemente iluminada, onde joias chamejantes refulgiam sobre lindos ombros nus, levantou-se para sair. Tirou da algibeira um relógio de ouro. Quinze para a meia-noite. Terminar a noite no Maxim's, talvez? E por que não voltar para casa, simplesmente? Alguns homens, vestidos desajeitadamente, conversavam em um canto.
"Serviço de Segurança — pensou Sernine. — Ganimard não deve estar longe!... Esse bom Ganimard! Se pudesse me reconhecer, pensaria que eu vim para raptar o rei; nada menos!"
Dirigiu-se ao vestiário, onde reconheceu o conde Montesquiou, que apanhava a bengala de punho de ouro e trocava algumas palavras com Boni de Castellane. Cumprimentou discretamente Poiret, que observava com ar intrigado este personagem de silhueta elegante. Mas a multidão aumentava rapidamente. Sernine, com uma pancadinha, firmou o chapéu e começou a descer a escada, entre duas alas de guardas em uniforme de gala.
No chio se comprimia uma barafunda de curiosos que esperavam o rei, o arquiduque e o presidente da República. A caleche de pompa acabava de se colocar ao pé dos degraus. Sernine, que gostava de espetáculos da capital como um verdadeiro rapazola de Paris, se enfiou entre os admiradores e assistiu, com um sorriso divertido, à saída do cortejo. Numerosos aplausos. Viva a Sérvia! 0 pequeno arquiduque parecia muito comovido e não conseguia saudar com rigidez. Ostentava galões como um soldado de chumbo e Sernine adivinhava que ele se ruborizava com uma moça.
"Por Deus! Ter vinte e cinco anos e ser arquiduque, que sorte! Eu — pensava Sernine, — quando tinha vinte e cinco anos..."
Mas já não se lembrava muito bem do que fazia nesta idade. Era a época de Sete-de-Copas, do castelo de Thibermesnil, das primeiras escaramuças com Sherlock Holmes. Ou então era talvez... Mas para que sonhar!... Abriu caminho e pegou seu Mercedes-Benz.
— Octave, para casa... Mas pelo caminho mais comprido!
— Certo, pátrio.
Sernine se atirou sobre as almofadas macias. Sentia-se melancólico, o que nunca lhe acontecia. Era rico. Havia gozado todos os prazeres da vida. Então? A culpa era, sem dúvida, deste outono doce demais, da música que acabara de ouvir.
O carro costeou o cais da Mégisserie, depois o do Louvre. Os passantes se tornavam raros. De longe em longe, um casal, parado embaixo de uma árvore.
— Mais devagar, Octave. Temos muito tempo.
O Mercedes, zumbindo docemente, rodava com a velocidade de um fiacre. Meteu-se pelo cais das Tuileries. De repente, Sernine se inclinou. Diante dele, a menos de cem metros, um homem corria pela calçada, e, visivelmente, tentava não fazer nenhum ruído. Escondeu-se atrás de um plátano, depois, ao cabo de alguns segundos, saiu e se achatou ao longo do plátano seguinte.
— Octave, estás vendo?
— Sim, pátrio. E vejo um outro, à esquerda. Olhe... lá... Vai passar embaixo do lampião. -
E com efeito, havia um outro homem, que corria de árvore em árvore.
— Notaste, Octave?
— Sim, patrão. Eles estão de casaca.
— Acelera um pouco. Devem estar perseguindo alguém, imagine. Se os bandidos se põem de fraque, agora!...
0 carro se aproximou. Sernine, o peito para fora da portinhola, perscrutava a noite e percebeu uma silhueta delicada, graciosa, que se apressava. Uma moça, com vestido de festa, sob a capa... E, enquanto Sernine hesitava sobre o que fazer, os acontecimentos se precipitaram. O perseguidor mais próximo teria feito barulho? A moça se voltou. O homem, que estava do outro lado do cais, atravessou a calçada correndo, enquanto o cúmplice, descoberto, arremetia. Sernine exclamou: — Ataca!
O Mercedes, com toda a força, acelerou e ultrapassou os dois malandros. Octave tinha compreendido a intenção de Sernine. Diminuiu, costeou a calçada, enquanto o príncipe escancarava a portinhola. A moça tinha-se posto a correr, mas já estava sem fôlego.
— Rápido! — gritou Sernine.
Octave freou violentamente. A desconhecida estendeu as duas mios, como alguém que se afoga. Sernine a segurou pelos ombros e a ergueu, ao mesmo tempo que se atirava para trás. Apanhada de improviso, ela balançou sobre as almofadas. Já Octave passava para segunda, depois para terceira.
Os dois homens se detiveram, braços caídos, na atitude ridícula de dois viajantes que acabam de perder o trem. Sernine, que os observava pelo vidro de trás, estourou na risada, em seguida ajudou a moça a se instalar comodamente.
— Não tenha mais medo — disse. — Você está junto do seu anjo da guarda ... É sim, eu fazia uma patrulha de rotina. É a hora em que às vezes precisam de mim.
Ela o olhava com ar espantado. Sua capa havia escorregado, descobrindo o vestido de baile, do qual caiu uma anémona branca, que Sernine apanhou e colocou junto de Octave.
— Vamos! Acalme-se.
Recolocou a capa sobre os lindos ombros de uma brancura de leite. Loura... encantadora... Não mais de vinte e cinco anos... Sernine era tão perito em mulheres quanto em joias. Ela segurava nas mios crispadas uma bolsinha de noite de malha de prata e o programa do Châtelet. Fechou os olhos, respirou profundamente.
— Está em casa — continuou Sernine. — Eu a deixarei onde quiser.
— Obrigada... Na esquina da rua Saint-Honoré com a rua do Anjou, por favor.
— Octave? Escutaste?
— Sim, pátrio. É coisa de cinco minutos.
— Então?... Melhorou, não?... Esses homens, você os conhecia?
— De modo nenhum. Vagabundos, suponho.
"Como mente mal — pensou Sernine. — Como é linda quando mente." E para deliciar-se mais ainda com a sua perturbação, acrescentou:
— Viu como estavam vestidos?
— Não... Não tive tempo... Tive medo.
— Compreendo. Mas eu posso lhe afirmar que saíam do Châtelet. Tomou a mio da desconhecida, levou-a aos lábios, polidamente,
com um gesto cheio de respeito e bom humor.
— Que quer — disse. Nossos bandidos se civilizam. Vão aplaudir O Espectro da Rosa esperando que as ruas fiquem desertas... Permite? Está um pouco despenteada... Devagarzinho, Octave.
Pegou a bolsinha, abriu, tirou um espelho pequenino.
— Aqui está, senhora... ou senhorita?
— Senhorita... senhorita Vincent.
— Príncipe Sernine... Aí tem uma mechinha que escapou. Brincalhão, tranquilo, ele saboreava o momento, a singularidade
deste passeio noturno em um carro estofado como um toucador, onde entregava um espelho a uma linda jovem que arrumava o penteado como se saísse de um encontro galante.
— Por que ri? — perguntou ela.
Não se atreveu a responder: "Rio porque você é Vincent tanto quanto eu sou Sernine. Porque você é linda... Porque não desejo perdê-la. Porque adoro as moças misteriosas que raptores de casaca perseguem depois da meia-noite." Contentou-se em dizer:
— Você não conseguirá sozinha... Deixe-me ajudar. Com uma delicadeza sem fim, endireitou-lhe os cabelos.
— Pronto... Se a senhora sua mãe a espera, não perceberá nada e suponho que, de sua parte, você não pretenda lhe falar do acontecimento desagradável.
O Mercedes deslizava lentamente diante do prédio situado na esquina da rua do Anjou.
— Chegamos — disse Sernine. — Pare!
Desceu, correu a abrir a portinhola, ajudou a moça a descer, acompanhou-a até a porta e tocou a campainha.
— Mais uma vez, obrigada, senhor — murmurou. — Creia que não esquecerei...
Desapareceu. A porta fechou-se silenciosamente.
"Até breve, linda menina. Nossos caminhos parecem se separar aqui, mas é para se reencontrarem melhor mais adiante". Sernine cantarolava ao voltar para o carro.
— Pátrio!... Patrão!...
— Sim, sei. 0 prédio tem duas saídas... É exatamente o que a torna encantadora... Arreda-te um pouquinho... Gosto de ficar na frente. Ah! Santo Deus! A anémona!... Ia esmagá-la.
Sernine pegou a flor, observou-a pensativamente, depois colocou-a na lapela.
— Voltamos? — disse Octave.
— Estás com sono?
— Não. Mas achava...
Sernine lhe pôs no nariz um cartãozinho.
— Que é isso, patrão?
— Um cartão, que peguei a pouco na bolsa da nossa protegida. Simples curiosidade... Lê... Anda, lê, animal.
Octave esticou o cartão para aproveitar a luz do lampião que iluminava a encruzilhada.
A Baronesa de Grége receberá na quinta-feira, 24 de novembro, a partir da meia-noite.
— Hoje não é 24?
— Sim.
— E não é mais de meia-noite?
— Sim.
— Então, que esperas? Vamos para a casa da Baronesa, ora bolas! E, desta vez, temos pressa... Rua de Varenne... Não conheces a Baronesa? Ah! Que pena. Ela só vive de noite. Tem criados negros. Julga-se um pouco a Rainha de Sabá. Completamente maluca, mas que mesa!... Imagina que o motorista dela desce até Nice, de Rolls-Royce, para comprar salmonetes, que ela aprecia recém pescados.
Uma animação alegre brilhava nos olhos do príncipe.
— Além disso, tem outra coisa, Octave.
— Não duvido, patrão. Com o Senhor, sempre tem outra coisa... A garota?
— Sim, a garota, como dizes... Não estás quase certo de que ela ia para a rua de Varenne?
— É possível! Mas depois do susto que teve!...
— Isso não a impediu de nos dar o golpe da casa com duas saídas. O que nos prova que manteve todo o sangue-frio... O que prova também...
Sernine se calou. Seu espírito fértil já lhe sugeria outras hipóteses. Quando se oferecera a essa moça em perigo para levá-la aonde desejasse, seria tão simples, para ela, indicar a rua de Varenne. Havia preferido afastar seu salvador. Por quê? Por medo que ele quisesse acompanhá-la até a Baronesa? Certamente não. Esperava, simplesmente, manter esta visita em segredo? Mas Paris inteirinha corria aos bailes da Baronesa de Grége. Ninguém se mantinha incógnito. Demais jornalistas ali iam buscar notícias, fofocas... E os dois homens de casaca lançados à sua perseguição? Não estavam interessados no dinheiro, era óbvio... Haveria uma ligação entre a agressão fracassada e o convite da Baronesa?... Sernine não detestava as perguntas que permanecem sem resposta. Dão sabor à vida.
O Mercedes atravessou a ponte Alexandre III, meteu-se pela Esplanada dos Invalides. Certamente a chance de encontrar esta senhorita Vincent era pequena. Mas seria tão divertido procurar na multidão esta pessoinha enigmática, oferecer-lhe uma taça de champanha, dizer-lhe:
"Vim por você... Sua anémona, lembra-se... Esqueceu-a no carro... E como sou educado... "
O Mercedes dobrou diante do palácio de Biron.
— Logo depois, Octave... Vais me deixar e voltar para casa... Já tenho talvez com quem me divertir por um bom tempo...
Octave sacudiu a cabeça com ar cúmplice. Fez a volta no pátio de honra, que estava atravancado de automóveis de todas as marcas, e parou ao pé da escadaria.
Um criado se apressou a abrir a porta. O príncipe, afetando o ar um pouco distraído de um íntimo da Baronesa, galgou os degraus com displicência, penetrou no vestíbulo. Uma orquestra, ao longe, tocava: Nunca saberás.
— A quem devo anunciar? — perguntou o mordomo majestoso.
— Já fui anunciado — disse Sernine. — Tornei a sair para pegar os cigarros.
E entrou no primeiro salão, desembaraçado, sorriso mundano nos lábios...
Reconheceu a Baronesa no meio de um grupo. Ela se apoiava em uma bengala de ébano e segurava um lorgnon que apontava, de tempos em tempos, para os convidados. Sernine passou ao largo. Muitos uniformes. Rostos famosos. Rostand, perto da lareira, conversava com Le Bargy... Henry Bataille, lá... e o conde de Montesquiou, que viera do Châtelet, Mestre Henri-Robert... mas não aquela que buscava. Abria caminho com dificuldade, à espreita. Os pares deslizavam, valsavam. Logo que avistava uma loura, tremia, e depois, decepcionado, passava adiante. "Lupin — se dizia calmamente, — te entusiasmas... A curiosidade vai-te perder." Mas se obstinava. Em vão, teve logo que confessar-se vencido. Ela não estava lá.
Aproximou-se de um dos buffets, suntuosamente enfeitados. Tanto pior! Nunca saberia quem era esta moça qualquer. Pediu uma taça de champanha, notou, bem perto, uma morena bastante agradável, ofereceu-lhe a taça. Ela agradeceu com um sorriso.
— Você dança? — perguntou ele.
— Mal... E depois as valsas me atordoam.
Tinha um sotaque estrangeiro muito marcado. Russo, talvez?
— Vamos tentar — disse Sernine. — Prometo conduzi-la lentamente.
Levou-a para o meio dos dançarinos, cuidando para fazê-la girar em ritmo tranquilo, e, sem querer, esquadrinhava sempre os vãos das janelas, as proximidades dos buffets, todos os recantos onde se conversava e onde a desconhecida poderia estar.
"Raciocinemos — pensava Sernine. — Ela teve que procurar um táxi, enquanto que eu vinha diretamente para cá. Mas talvez tenha precisado descer de novo até a Madeleine. Cheguei antes portanto... uma meia hora no mínimo. Ela vai chegar. Quero que chegue". — E continuava maquinalmente a girar ao som do Belo Danúbio Azul, esperando com impaciência o fim da dança para olhar o relógio. A linda morena crispou os dedos na mio de Sernine.
— Vamos parar — murmurou. — A minha cabeça está girando. Desculpe-me.
— Eu é que peço desculpas. Errei insistindo. Quer tomar um pouco de ar?
— Por favor.
Ofereceu-lhe o braço, hesitou na entrada do salão de inverno. Deu uma última olhada para trás. Ah! Bem que podia sair uns cinco minutos. Na volta ela estaria lá!
— Vamos para o parque — disse a jovem russa, a jovem polonesa, a jovem eslava... enfim, esta moça que pronunciava os rr de um modo tão encantador. Sernine fez com que ela atravessasse o salão de inverno e logo em seguida estavam sob as árvores.
— Melhorou? — perguntou com a cortesia costumeira. Mas já estava com pressa para voltar.
— Sim, obrigada. Você me acha boba, não?... Vamos até o fim desta alameda. É tão repousante, este silêncio, depois de toda essa agitação.
— Não tem, talvez, o hábito de sair?
— Não. É a primeira vez, depois que... Suspirou e continuou em voz baixa: — Estava de luto.
— Oh! Desculpe.
Chegavam ao muro do parque. Os ecos da festa só lhes chegavam abafados.
— Na minha terra — disse ela — há muitas pessoas de luto. Tinha posto nessas palavras tanto ódio é angústia que Sernine esqueceu as preocupações do momento.
— A senhorita me deixa curioso. Confesso que gostaria de saber mais, se não estou sendo indiscreto.
— É fácil satisfazê-lo.
Retirou o braço, recuou um pouco e levou aos lábios um pequeno apito de prata que havia tirado da bolsa com um movimento tio rápido que Sernine mal teve tempo de vê-lo. O apito emitiu um som agudo e, como por milagre, duas silhuetas brotaram de um arbusto, se lançaram para frente: os dois homens que haviam perseguido a desconhecida.
Sernine reconheceu a largura dos ombros, na penumbra. Cada um apontava um revólver. Era inútil resistir.
— Parabéns, senhorita... Aprecio sua resposta. É cheia de poesia. Você é uma verdadeira fada. Não gostaria de recomeçar? Um assobio e upa... dois esbirros para o Senhor.
Ria com tanta vontade que os agressores, transtornados, olhavam a moça com inquietude. Ela lhes disse algumas palavras em uma língua que Sernine nunca havia escutado. Um deles moveu a arma e mostrou uma porta, aberta no muro do parque.
— Por aí!
Sernine se inclinou diante de sua dama que já se apressava a dar meia volta.
— Magoado, senhorita, por deixá-la tão rápido. Mas sua companhia me foi muito agradável.
Dirigiu-se para a porta, um revólver nos rins. O maior dos homens abriu-a e Sernine viu uma limusine parada, cortinas abaixadas.
— E agora — disse — a abóbora transformada em carruagem. É demais. Estou confuso.
O revólver o empurrou para a frente. Voltou-se um pouco, abanou.
— Boa noite, querida Cinderela. Estou certo de que nos encontraremos de novo.
O grandão subiu primeiro, puxou Sernine para dentro. O pequeno sentou-se ao seu lado. Sernine, preso entre os dois, não podia se mexer. O chofer logo se pôs a caminho. O príncipe estava mais curioso que inquieto. Porque afinal, essa morena, nunca a encontrara antes. E aqueles que ele chamava de "os esbirros" não haviam visto mais que os seus braços saírem do Mercedes, no cais das Tuileries, no momento em que iam alcançar a moça loira. Não podiam saber que, o homem que havia zombado deles, era ele. E o trio ignorava igualmente que ele viria à casa da Baronesa, já que ele mesmo não sabia de nada uma hora antes. Entretanto, o esperavam. A morena o espreitava. Não se encontrava no buffet por acaso. E como manobrara bem para atraí-lo ao fundo do parque! Jogou a cabeça sobre o encosto, cruzou as pernas.
— Ah — disse — como estamos bem. Um pouco apertados, talvez... Sem queixa, senhores, vocês são gordos. Ocupam todo o lugar. E vamos longe, deste jeito?... Estão zangados?... Não respondem?... Resmungam?... Não poderiam dizer ao seu cúmplice, na frente, para que dirija mais devagar... Não? Niet? No?... Então, droga. Vou dormir.
Fechou os olhos. No início pudera perceber a direção seguida. Estava certo de que tinham atravessado o Sena. Agora, não sabia mais. E as cortinas tapavam hermeticamente os vidros. Mas não escutava mais os embates das ruas parisienses. Já teriam atingido o subúrbio?
— Certamente vou terminar a noite em algum porão — pensou Sernine. — Se me incomodarem, lhes dou uma surra. Pesados como são, nunca devem ter praticado a luta a pontapés. Mas prefiro esperar um pouco.
Não esperou muito tempo, pois a limusine diminuiu a marcha e parou. O chofer desceu. Um portão rangeu. Depois o carro rodou sobre os saibros por uns vinte metros e parou de novo. O grandão abriu a portinhola e, com o cano do revólver, convidou Sernine a sair.
— É o castelo de If? — perguntou Sernine. — Não, parece mais a casa de um escrivão... Rico... Linda pedia de cantaria... E um belo parque... Começo a ficar entendido em parques!
Sentia que suas gozações irritavam os dois carcereiros. Era uma vantagem a não desprezar.
— Ande — disse o pequeno.
— Como não!... Estou ansioso para visitar esta encantadora residência.
O grandão tirou do bolso um molho de chaves e se inclinou para a fechadura. Que pena! Um pontapé nos rins para atirá-lo de cabeça contra a porta. Uma cotovelada no estômago para pôr o outro fora de combate. Eram realmente principiantes. Paciência! Chegaria a hora de ajustar as contas.
Sernine entrou em um grande vestíbulo iluminado por um lampião de gás. A casa estava habitada. Sem dúvida iam conduzi-lo até alguém.
— Ah! ah! — exclamou Sernine. — O último ato. Face a face. No qual um cavalheiro vai encontrar alguém que não é nada cavalheiro. É Dumas de segunda classe, Senhores.
Dizendo isso, penetrou em uma grande biblioteca. Estava vazia. Dois lampiões maciços, sobre uma escrivaninha, espalhavam em torno uma luz baça. Capas de livros brilhavam suavemente ao redor de toda a peça. Sernine voltou-se. Os esbirros lhe mostravam uma poltrona, aproximaram cadeiras para eles mesmos, revólver sempre em punho.
— Ah! isto vocês vão me explicar — disse Sernine. — Um calabouço, como quiserem. Pão preto, uma moringa de água e ratos para completar o quadro. De acordo! Mas não esta sala de espera. Previno. Não vou esperar muito tempo.
Os dois homens se sentaram. Sernine olhou-os detalhadamente: restos rudes, camponeses, bigodes terríveis, punhos peludos. Pareciam disfarçados, com a roupa de baile. Mas Sernine via-os muito bem vestidos com túnica abotoada no ombro, calçados com botas, prontos para dançar alguma dança camponesa da Ucrânia. Entendia cada vez menos.
— Eu, príncipe Sernine — recomeçou. — Vocês erra... Não raptar o certo... raptar um outro... Não entender, hein?... Vocês... completamente idiotas.
— Devia ler um pouco — disse o grandão. — Está ficando nervoso. Atordoado, Sernine se deixou cair em uma poltrona.
Logo se dominou. Não tinha o hábito de deixar os adversários perceberem seus sentimentos. Tirou do bolso um luxuoso estojo de charutos, escolheu um havana que fumou até o fim, sem pressa. Começava a adivinhar a manobra. Prendiam-no para poder agir livremente em outro lugar. Talvez, neste exato momento, estivessem se apoderando da bela desconhecida loura, depois de tê-la atraído por sua vez para um parque. Mas eles ignoravam que ele a conhecia!... Sem cessar, voltava a esbarrar na mesma dificuldade. Seu próprio rapto não tinha nenhum sentido. E, além disso, o parque da Baronesa não podia igualmente estar repleto de criminosos!
Entretanto, havia entre a loura e ele, uma relação, um elo, alguma coisa que lhe escapava e ele se irritava de ficar detido por este pobre pequeno enigma, ele que resolvera tantos problemas muito mais árduos. Ao mesmo tempo, pensava com um pouco de emoção nesta moça tão decidida que um grande perigo ameaçava.
— Vamos, Lupin — se repreendeu — vais te resignar a passar a noite nesta poltrona enquanto precisam de ti? Vais-te deixar impressionar por estes dois gatos-pingados? Dois punhos contra dois revólveres! Bem vês que estás em igualdade de condições!
Lançou para o teto uma gostosa baforada de fumaça.
— Diga-me, cavalheiros, pensam me guardar por muito tempo? 0 grandão, com os olhos, consultou o pequeno.
— Até amanhã de manhã — respondeu.
Sempre aquele sotaque esquisito, ao mesmo tempo doce e gutural.
— E depois?
— Estará livre. Nós os conduziremos aonde quiser.
— São muito amáveis... Posso mexer?
Novo olhar interrogativo. 0 pequeno inclinou a cabeça.
— Não, é prisioneiro — disse o grandão. — Está... Está... Procurava a palavra.
— Impedido — propôs Sernine.
— Isto. Impedido... A língua francesa é temível.
A atmosfera se acalmava um pouco. Sernine se levantou, se esticou, procurou um cinzeiro para colocar a cinza do charuto. Escutava intensamente. A casa parecia vazia. Tirou o relógio. Duas horas. Passeou lentamente diante das prateleiras enfeitadas de livros. Abrandar a desconfiança dos guardas, primeiro. Parecer fatigado. Pegar um livro e fingir ler, depois deixar a cabeça cair, como alguém que está vencido pelo sono. Bocejou discretamente, tapando a boca. Livros de direito, de história... Lavisse, Mathiez... Romances, Bourget, Loti, France... uma secção de autores latinos... Vergílio, Tito Lívio, Séneca... Pegou as Cartas a Lucilius, depois recolocou o volume no lugar. Precisava de algo grande, pesado... Um tomo do Littré conviria perfeitamente. Apanhou a enorme obra e voltou a sentar-se.
Por brincadeira, fingiu procurar informações precisas, deixando seu índice percorrer as margens, parando, sublinhando com a unha certas linhas. Dava-se um ar um pouco pensativo, como se aproveitasse o lazer forçado que lhe concediam para continuar um trabalho de erudição começado em outro lugar. Maravilhados, os dois carcereiros haviam colocado as mãos armadas sobre os joelhos. "Moleirões — pensou Sernine. — Se eu fosse seu chefe, iriam baixar de posto". Movia os lábios, franzia as sobrancelhas. Depois contou nos dedos. Os outros espichavam o pescoço.
— É impossível! — murmurou Sernine, para si mesmo. — Vejamos, vejamos...
Fechou o volume, apoiou a cabeça nas costas da poltrona e perdeu-se em uma profunda meditação. Ao cabo de um minuto, sua respiração tornou-se mais forte e uma espécie de pequeno ronco lhe escapou.
Passaram-se vários minutos. Então o grandão disse ao companheiro uma frase que Sernine não pôde compreender, mas que foi acompanhada de uma mímica significativa.
"É lógico que durmo — se disse Sernine, que não parava de observá-los por entre os cílios abaixados. — E até durmo tão profundamente que o Littré vai cair. Com o barulho, terei um sobressalto. Depois apanharei o livro às apalpadelas. Vocês farão um movimento para me ajudar. Será mais forte que vocês. E então..."
Mas o barulho aumentou na rua próxima. Em seguida, um automóvel parou. Os dois homens se haviam levantado e escutavam. Sernine não se tinha movido, mas, com uma dobrada, estava pronto para saltar. O portão rangeu, no mesmo momento, ressoou um tiro abafado.
O pequeno se inclinou para o companheiro, pronunciou algumas palavras na língua que Sernine não chegava nunca a identificar e precipitou-se para fora da peça. Seus passos ressoaram no vestíbulo.
O grandão tinha virado a cabeça para acompanhar melhor os acontecimentos. O Littré, atirado com força, atingiu-o em cheio no rosto. Meio derreado, caiu da cadeira.
— O francês é temível — disse Sernine.
Apanhou o revólver e lançou-se para fora da biblioteca. Através— ' sou o vestíbulo; a porta que dava para o parque estava entreaberta. Havia, na alameda, um carro cujos faróis acesos iluminavam três silhuetas: o pequeno carcereiro era facilmente reconhecível. Os outros dois eram novos.
— Uma quadrilha completa — disse Sernine. — Ah! Ela está ali também!
A mulher morena entrava na luz dos faróis. Discutia violentamente com os três companheiros. Não havia jeito de sair. A não ser que os pegasse de surpresa, surgisse na escadaria gritando: "Mãos ao alto". Hum! O resultado era bem problemático. Sernine, entretanto, ia-se resolver a fazê-lo quando as persianas, empurradas violentamente, bateram na parede. Uma voz angustiada soltou uma frase incompreensível. O grandão, na biblioteca, recuperava os sentidos e pedia ajuda.
— Santo Deus — pensou Sernine. — Desta vez vão me fazer em picadinho.
Na ponta dos pés, retrocedeu, abriu a primeira porta que avistou e se enfiou em um quarto escuro que era sem dúvida um salão. Os três homens, precedendo a mulher, chegaram a jato. Atravessaram o vestíbulo e entraram precipitadamente na biblioteca. Sem perder um segundo, Sernine saiu do esconderijo e correu até o carro. O motor não fora apagado e seu ronron era a promessa de salvação.
Sernine debreou, e, de macha à ré, tornou a descer a alameda com um estrondo furioso. Escutou tiros, mas estava demasiado absorvido pela direção para prestar atenção. O carro era um pesado De Dion-Bouton, muito grande, de dois compartimentos, e ele tinha de se inclinar para fora do banco a fim de não errar a porta de saída e arrancar um pedaço do portão. Passou juntinho, virou tão bruscamente que a carroçaria se inclinou de um modo perigoso. Não era mais que uma brincadeira para Sernine, tão entendido de mecânica e tão hábil na direção. O calhambeque gemia, mas respondia bem. Alcançou o fim da rua e, ao acaso, se meteu por uma das avenidas, que se abria, à direita. Não havia um único lampião. Os faróis iluminavam mal. Sernine adivinhava muros, barreiras, árvores.
— Completamente perdido — dizia consigo mesmo. — Para onde, raios, me levaram?... Nunca vou poder encontrar de novo esta casa!... E entretanto, meus cordeirinhos, vocês não o levarão para o Paraíso! Ah! Raptam Lupin! Ah! Atiram em Lupin! Isto lhes custará caro.
Meteu-se por uma nova avenida e os primeiros lampiões apareceram. Diminuiu a marcha, voltou-se para ver se não era seguido.
— Santo Deus!
Acabava de perceber, através do vidro de separação, uma sombra, atrás dele, no carro. Havia um cúmplice, que não tinha descido, e esperava o momento propício para agir.
Sernine acelerou, e disse de corneta acústica:
— Não aconselho a atirar, se tem a intenção. Nós dois nos esborracharíamos... Mas se você é razoável, podemos conversar. O que deseja de mim?
Tinha as mãos úmidas e procurava em vão a manobra que poderia salvá-lo. O outro não cometeria a imprudência de atirar. Recorreria antes ao punhal: a ponta da nuca. O punhal, a arma que Sernine mais temia, apesar da sua coragem.
— Sejamos lógicos — recomeçou. — Seus amigos não tinham a mínima intenção de me fazer mal. Portanto você não teria razão para empregar violência... Poderia causar-lhe problemas... Mas diga alguma coisa, por Deus! Previno, não tenho mais que umas moedas... Não? O dinheiro não lhe interessava. Desconfiava...
Falava calmamente, mas perscrutava com febre a avenida deserta. Que fazer? Pensou surpreender um movimento atrás de si. Então arriscou tudo. Freou completamente, virou para a esquerda. Imediatamente o veículo derrapou.
Um. ruído surdo advertiu Sernine que o homem, desequilibrado, acabava de cair no chão. O cano jogava. Sernine corrigiu-o, abriu a portinhola e saltou. Deu uns passos rápidos, levado pelo embalo.
O automóvel bateu no cordão de uma calçada e parou.
Sernine aproximou-se, bateu no vidro de trás.
— Fim da linha — disse. — Se deseja descer... Desculpe-me. Tenho um modo lamentável de dirigir. Mas vou dar-lhe o braço.
O outro não se mexia. Devia ter se ferido com a queda. Sernine, com precaução, olhou para o interior do veículo. Uma forma vaga jazia entre os bancos. Abriu a portinhola, pegou o punho do homem estendido e o largou de imediato, como se se tivesse queimado.
— Raios! Está morto.
Lembrou-se do tiro que escutara da biblioteca. Os fatos falavam por si mesmos. O bando havia abatido o infeliz.
— E eu que achava... — escarneceu Sernine. — Posso te confessar, agora, tive um medo danado!... Pobre velho. Permite que te leve até o próximo lampião. É tarde demais para as apresentações, mas gostaria muito de ver teu rosto.
O motor havia apagado. Colocou-o novamente em movimento com um giro de manivela e voltou ao volante. Com que gente perigosa fora se meter! Quem eram esses selvagens! E essa mulher morena era portanto uma ogra? Felizmente havia fugido. Senão, provavelmente teria sido executado também. Mas por quê? Por quê?...
Parou debaixo do lampião e voltou ao morto.
O homem, corpulento, bigodudo, cerca de sessenta anos, estava com traje de festa, uma anémona branca na lapela. O peitinho estava vermelho de sangue. Uma bala em pleno coração. Sem dúvida tentara fugir no momento em que, transpostos portão, o carro havia parado. Sernine o revistou, encontrou a carteira de dinheiro que continha alguns cartões de visita. À luz do lampião, leu:
Emile e Gaston Mongougeot Detetive Particular Rapidez — Discrição Rua Balagny 42 — Paris XVII
Os outros bolsos não continham mais que um lenço, três moedas e um molho de chaves de que Sernine, após um momento de reflexão, se apoderou, bem como de todos os cartões de visita. De onde vinha o homem? Do Châtelet também, ou da festa da Baronesa? O que significava isso, todos esses homens de casaca? Raramente a curiosidade do príncipe havia sido posta a semelhante prova. Matar um detetive particular, caramba! Era necessário que a coisa valesse a pena. Que coisa sinistra?... E a mocinha loura estava metida nisso!
Sernine segurou o cadáver pelas axilas, puxou-o para fora do veículo e deitou-o cuidadosamente na calçada.
— Peço-te perdão, Emile... ou Gaston... mas preciso deste carro. Onde fracassaste, terei êxito. Eu te prometo. Palavra de Lupin! Irei até o fim em teu lugar. E, para começar, é à tua casa que eu vou. Porque, até agora, não me disseste muito.
Ergueu-se, olhou uma vez mais o cadáver misterioso, em seu traje de aluguel, depois consultou o relógio. Logo seriam três horas. O que reservava ainda esta noite tão rica em acontecimentos?
Sernine tomou a subir no cano, que revistou em vão. Nenhum indício. De acordo com todas as probabilidades, encontraria o outro
Mongougeot na rua Balagny. Seria bom? Mau? Certamente, Sernine poderia dar a Emile... ou Gaston a triste notícia, explicar-lhe em que circunstâncias fora envolvido no drama, mas o detetive particular acreditaria? Não valeria mais a pena tentar informar-se sozinho, fossem quais fossem os riscos da operação?
Enquanto rodava, Sernine procurava organizar os fatos: de um lado, a jovem loura; do outro, o bando da ogra... e ainda esse pobre Mongougeot! Estaria investigando, ou serviria simplesmente de guarda-costas para aquela que dissera chamar-se Senhorita Vincent?...
Uma ponte. O Sena. Chatou...
Repentinamente, Sernine se orientou. Era para o Vésinet que o haviam levado. Não tivera a mínima ideia da distância percorrida.
Sim, Mongougeot sem dúvida fora contratado para velar pela loura. Deveria ter-se deixado apanhar nos arredores do Châtelet e em seguida o bando agredira a moça. Reunião geral no Vésinet. Isto fazia sentido. Em suma, o infeliz Mongougeot fora, de certo modo, seu aliado. Mas por que raptá-lo, a ele, Lupin?
Sernine atravessou a alfândega. Nem um gato nas ruas, sempre. Era a hora mais parada, mais desolada. A manhã ainda estava muito longe.
Vagueou um pouco, em volta de La Fourche, antes de encontrar a rua Balagny, suas casas modestas, suas pequenas lojas. Por prudência, estacionou a alguma distância do 42, observou primeiro o imóvel, que. tinha uma cara que não ajudava. A agência Mongougeot não devia estar nadando em dinheiro. Tocou a campainha. Uma. Duas vezes. Na terceira, a porteira puxou a corda do trinco e ele entrou. Mas, sempre desconfiado, enfiou uma moeda de cinco francos entre a lingueta da fechadura e a chapa de ferro, o que lhe permitiu fechar a porta com o barulho, deixando-a porém simplesmente encostada. Gostava de proteger sua retaguarda. Acendeu um fósforo, localizou o tabique envidraçado do quarto da porteira, e adivinhou, na penumbra, o início da escada.
— Mongougeot! — exclamou, com voz segura.
Um ronco lhe mostrou que a porteira tornara a dormir. Somente ela teria despertado? O caminho estava livre. Passou tranquilamente e meteu-se pela escada. No primeiro andar, novo fósforo. Descobriu logo a placa de cobre, na porta do meio.
AGÊNCIA MONGOUGEOT
Experimentou as chaves do morto. A mais comprida era a boa. De agora em diante, era preciso prestar muita atenção. Se Mongougeot despertasse, ficasse com medo, a aventura poderia acabar mal. Péssima mania essa de penetrar na casa das pessoas sem se fazer anunciar. "Mas a guerra está declarada — pensou Sernine — e ignoro ainda se estou na casa de um amigo".
Escutava. Um pêndulo batia em algum lugar, tornando o silêncio mais espesso, mais palpável. De repente, Sernine sobressaltou-se. Alguma coisa lhe roçava a perna. Reteve um grito, apressou-se a riscar um fósforo, descobriu um gato preto que levantava para ele uns olhos pálidos em que se refletia a luz da pequena chama.
— Bico calado! — disse Sernine. — Por acaso eu ronrono?
O bichano arqueava o lombo, e, com uma mímica expressiva, mostrava que desejava alguma coisa. Por Deus! Queria atrair Sernine para a cozinha. Tinha fome. Provavelmente estava só há muito tempo: o segundo Mongougeot não estava aí.
Sernine, apesar de tudo na defensiva, visitou sucessivamente o salão, a sala de jantar, os dois quartos, o escritório. O gato se metia pelas suas pernas. Com um último fósforo, Sernine acendeu uma vela, que devia servir aos Mongougeot para selar cartas, pois o castiçal estava sujo de cera avermelhada. As cortinas do escritório estavam abaixadas. Ninguém, lá fora, podia imaginar que havia um visitante na casa do policial.
— Arreda-te, bichano. Vou acabar caminhando em cima de ti! Sernine, segurando a vela bem alto, deu lentamente a volta pela
peça. Por onde começar? Pela estante? Pelos arquivos? Nem sabia o que buscava. Um nome? Um endereço? Uma ligação?... Percebeu um fichário, na mesa, perto do telefone. Provavelmente o fichário dos casos em andamento. Consultá-lo imediatamente. Sentou-se e o gato saltou para perto, esfregou a cabeça macia no rosto deste cliente inesperado.
— Sim, sim, és bonito — murmurou Sernine. — Mas me impedes de trabalhar. Sabes que horas são?... Três e vinte e cinco. Devias estar deitado há muito tempo... Eu também, aliás.
Os dedos ágeis retiravam as fichas, recolocavam-nas no lugar. A maioria estava em branco. Ou então trazia nomes riscados com tinta vermelha. Casos classificados. O gato, cada Vez mais carinhoso, se instalou sobre o fichário.
— Ah não, bichano. Chega!
Pegou o gato pela barriga, levantou-o, esbarrou em uma agenda que caiu no chão.
— Animal! Queres acordar toda a casa!
Apanhou a agenda, recolocou-a sobre a escrivaninha. Havia, na página do dia, duas linhas rabiscadas por uma mão apressada: Meia-noite e meia. Vem me encontrar com urgência na rua Saint-James Que sorte! 0 fio estava atado de novo. 0 outro Mongougeot... o sobrevivente... pedia socorro ao irmão. Certamente, era muito tarde. Mas como não atender a este apelo?
0 gato voltou de um salto para a mesa e Sernine apertou-lhe a cabeça entre as mãos.
— Escuta bem, gatão. Digamos que o morto se chama Gaston. Foi Emile portanto que escreveu isto... Emile estava persuadido que Gaston ia voltar. 0 que concluis, hem?... Estou absolutamente de acordo... Emile não imaginava que o irmão corresse um grande perigo. Houve algo inesperado... Ah! Temo muito que esses pobres Mongougeot se tenham metido contra alguém muito mais forte que eles... Está bem na hora de eu intervir... Rua Saint-James, vejamos... Conheces? De minha parte, só conheço uma, e se encontra em Neuilly... Emile disse: encontre-me "com urgência". O que significa isto, em linguagem de gato?... Que é preciso ir lá, e a jato!
0 gato deu um miado desconsolado.
— Lógico, só pensas na tua barriga, egoísta sujo. Está bem, vem... De uma vez.
Foi à cozinha, esquadrinhou um armário onde descobriu uma sobra de patê da qual tirou uma pequena lasca que colocou no chão, perto de uma frigideira repleta de louça suja.
— Desculpa-me por não te oferecer mais. Mas não devo deixar nenhuma marca da minha passagem. Então, compreendes?
Olhou o gato que cheirava o patê com um ar de repugnância.
— Até logo, velho camarada, e obrigado. Não imaginas que estás quase órfão... Vou tentar trazer-te a outra metade do teu pai.
Acariciou o gato entre as orelhas e deixou o apartamento. A porteira continuava roncando. Sernine fechou a porta sem ruído e alcançou novamente o carro. Já que Mongougeot não havia indicado o número da casa, na rua Saint-James, era evidente que o irmão sabia exatamente onde encontrá-lo. Esta casa devia desempenhar um papel importante na sua investigação.
— Desta vez, estou chegando perto — pensou Sernine. — Ande! Chofer, para Neuilly!
A faca no pescoço
Sernine colocou o carro no início da rua Saint-James, distante de um pequeno restaurante: Au Marronier — Jogo de Bocha. O frio começava a se fazer sentir. Sernine esfregou com força as mãos, agachou-se, levantou-se várias vezes, para se aquecer. Não se arriscava a ser visto: a rua, bastante pequena, estava completamente deserta e iluminada apenas por uns lampiões anêmicos. Mongougeot devia estar lá, em algum lugar, em perigo talvez? Certamente! Sernine confiava em seu sexto sentido, e algo lhe dizia que se aproximava da meta.
— Estou chegando — murmurou. — Aguenta firme! Não sei aonde vou, mas estou chegando.
Ladeou o primeiro jardinzinho, apalpando os portões, experimentando a resistência das portas, perscrutando as alamedas escuras, à espreita de um leve lampejo, do menor indício que significaria para ele: é aqui. Mas, por enquanto, tudo estava escuro; tudo estava fechado. Examinou rapidamente todo o lado direito da rua. Retornou pelo lado esquerdo. O tempo passava. Era muito idiota, passear assim, às cegas, os dedos roçando nas fechaduras, apoiando-se nos trincos, girando argolas. E de repente sua mão só encontrou o vazio. Ganhara. Encontrava-se diante de um portão entreaberto. Mongougeot estava ali.
No fundo de uma alameda, elevava-se uma rica casa de um andar.
"Cuidado, Lupin. Nada de brincadeiras!... Na ponta dos pés... e revólver em punho; será mais seguro". Tirou a arma que tinha apanhado do carcereiro na casa do Vésinet, e aventurou-se pelo jardim. Sabia caminhar sem ruído e alcançou um pequeno patamar, mais silenciosamente que um fantasma. Lá também, a porta estava entreaberta. Mas sua satisfação logo deu lugar a uma surda inquietação. Hesitava, diante da escuridão que reinava do outro lado da porta. Não adiantava conhecer os imensos recursos da sua inteligência, as reservas inesgotáveis de energia, não podia deixar de lembrar a determinação
selvagem dos adversários. Reviu o infeliz Mongougeot, abatido à queima-roupa.
Mas o gosto pela ação prevaleceu. Penetrou na escuridão como um mergulhador afundando em uma água sombria. Mãos para frente, a ponta do pé tateando o chão, avançou lentamente. As mansões de Neuilly são, geralmente, ricamente mobiliadas; e arriscava-se, a cada passo, a enredar os pés em um tapete, chocar-se com um cofre, uma mesa de centro, um móvel baixo.
Nenhum ruído... E se Mongougeot tivesse ido embora?... Se, caindo em uma armadilha, tivesse sido raptado, por sua vez?
Subitamente, um grito elevou-se, e foi tão brutal, tão inesperado, tão dramático, que Sernine, apesar de habituado a dominar os nervos, foi sacudido por um calafrio.
— Não, não — suplicava uma voz... uma voz de mulher. Depois houve um gemido, surdo, como que abafado por uma mordaça. Alguém estava sendo torturado, pertinho, ali, à esquerda. O coração batendo, Sernine dirigiu-se para a parede. Santo Deus! Mongougeot fora posto fora de combate e agora... Não demorou a encontrar uma porta e, com a mão na maçaneta, escutou ainda. O silêncio retornara, e este silêncio era ainda mais assustador que o grito.
O gemido recomeçou, fraco, prolongado; não era mais que um murmúrio, como a gente produz quando canta de boca fechada. Sernine ajoelhou-se e a abriu por milímetro. Finalmente, meteu a cabeça.
A peça estava fracamente iluminada por uma lâmpada em feitio de pompa, colocada sobre um piano. Não via o lado direito, mas o que tinha diante dos olhos o deixou estupefato. A menos de dois metros, um corpo estava estendido no soalho. Uma velha, fortemente amarrada, a parte inferior do rosto desaparecida sob um laço atado atrás da cabeça. Usava um avental branco sobre uma saia preta. Certamente uma empregada. Com o corpo agitado por tremores, contemplava um espetáculo tão terrível, que só tinha forças para soltar este gemido baixo, que não terminava mais. Sernine arrastou-se para trás dela sem ser percebido. Viu por sua vez e quase gritou.
Do outro lado da peça, havia uma mulher, também amarrada, que um homem ameaçava com uma faca. A luz da lâmpada não revelava mais que silhuetas confusas. Sozinha, brilhava com um esplendor cruel a lâmina do punhal. Uma voz rude se ergueu:
— Juro-te que vais falar, minha pequena. Senão?... Vamos! Onde colocaste? Não queres me dizer nada?... Uma vez? Duas?... Está bem. Tu quiseste. Vou te cortar aqui, bem embaixo da orelha.
O homem agachado se levantou e dirigiu-se para o piano a fim de apanhar a lâmpada. Sernine se abaixou, com uma mão na boca, para reter uma exclamação. Essas sobrancelhas cerradas, esse bigodão... o retrato do morto que ele havia retirado do carro. Mongougeot!... O segundo Mongougeot! O homem segurava a lâmpada e colocou-a perto da vítima. Quadro terrível. A mulher amarrada era a linda loura do cais das Tuileries.
As ideias se debatiam na mente do príncipe. O trabalhoso edifício de hipóteses que construíra desmoronava de uma só vez. Mongougeot estava a serviço da Ogra! Mas então, por que seu irmão fora morto? Falta de disciplina? Revolta?... E agora, esse homem com o aspecto tranquilizante de um defensor da ordem estava em vias de se transformar em carrasco? Esmagado por todas essas incoerências, Sernine conservava, entretanto, o sangue-frio. Observava atentamente os gestos de Mongougeot. Este havia levantado os cabelos da jovem e encostava um dedo no seu pescoço.
— Sentes a artéria batendo, aí, não é, minha bela?... Pois bem, se continuas a calar, bastará apertar um pouco e adeus vida!
Vigiava a prisioneira, com a faca levantada. Sernine espichou o braço armado por cima do corpo da empregada, que continuava gemendo, hipnotizada pela terrível cena.
— Raios! pensou Sernine. — Compreendi. Os Mongougeot agem por conta de um cliente, o terceiro ladrão.
Mirava a mão que segurava a faca. Estava certo de atingi-la a esta pequena distância. Mas retinha o dedo no gatilho, porque estava quase certo de que a moça ia falar; e o que ia dizer interessava-o acima de tudo.
— Dou-te um minuto — continuou Mongougeot. — Nem um segundo mais.
Tirou da algibeira um relógio grande e, com um joelho no chão, começou a contar:
— Cinquenta... quarenta...
O suor molhava a fronte de Sernine. A imbecil! Não ia, entretanto, se deixar degolar! O segredo que guardava era assim tão tremendo?
— Trinta... vinte...
Sernine sentia seu sangue batendo os segundos nas têmporas. "Ela vai se render... Tu, velha, não te mexas. Vais me fazer errar o tiro".
— Dez... cinco... Mongougeot inclinou-se.
— Fala mais alto!
Enfim! Ela capitulava! Já era hora. Sernine abaixou o revólver. Via os lábios da infeliz moverem-se, mas por mais que esticasse o ouvido, não capitava mais que um murmúrio confuso. Era ridículo. A verdade lhe fugia no momento em que podia apanhá-la e, senhor do jogo, conduzir a partida a seu gosto.
Mongougeot recolocou o relógio na algibeira, ergueu-se e disse:
— Farias mal em mentir... Vou verificar... Mas, julgava-te mais inteligente.... Chamar isso de esconderijo, só uma mulher!
Sernine deslizou sem ruído para trás do sofá, à esquerda, enquanto o detetive apanhava de novo a lâmpada e atravessava a peça.
— Não se tem imaginação!
Contornou o piano, ergueu a tampa e enfiou a mão no seu interior.
— Entretanto, é verdade — exclamou. — No fundo, talvez eu não tivesse pensado nisso.
Apanhou um espesso envelope amarelo, de tipo Comum, fê-lo saltar sobre a palma da mão, como se o pesasse.
"Quem é esse cretino — resmungou Sernine. — Atacar duas mulheres, estar a um passo de cometer um crime, por quê?... Para pôr a mão nesse envelope que eu teria descoberto em quinze segundos, sem faca, sem ameaças, sem relógio; simplesmente passeando pela peça!"
Mongougeot dobrou o envelope em dois e meteu-o em um bolso, depois, de modo mais natural do mundo, sem um olhar para a vítima, deixou o salão, passando a dois passos de Sernine, agachado atrás do sofá.
O príncipe hesitou um segundo. Podia atirar-se sobre Mongougeot e retomar o envelope. Ou então contentar-se em dar o alarme, socorrer as duas mulheres. Havia justamente um telefone sobre uma mesinha. Mas seria revelar sua presença, e sentia que tinha todo o interesse em manter-se na sombra. Ora! As duas prisioneiras seriam libertadas um pouco mais tarde! O importante era recuperar o envelope, mas discretamente. Pois era por causa dele, que havia tentado raptar a moça, e o irmão de Mongougeot fora morto. Portanto, primeiro, o envelope. Depois se avisaria!...
Deslizou silenciosamente até a porta e, no vestíbulo escuro, endireitou-se, esticou o colete que havia subido, verificou o nó da gravata, a flor da lapela. Satisfeito, atravessou o jardim, ouviu, ao longe, um automóvel partir.
— Continua a correr, meu velho. Conheço teu abrigo como meus bolsos. Dentro de uma hora, os papéis terão mudado de mãos. Pois dou-te uma hora, para que te perguntes onde teu irmão possa ter ido, dês uma olhada nos documentos que roubaste, atires a roupa e durmas, com a consciência tranquila, supondo que tenhas consciência. Eu vou tomar ar. Confesso que há algo confuso na minha cachola.
Tirou um charuto do estojo, acendeu-o, verificou a hora e levantou os ombros. A situação se apresentava assim: de um lado, a moça loura que possuía papéis de uma importância capital; do outro, dois tipos de adversários: o bando dos estrangeiros e os irmãos Mongougeot. Mas estes eram detetives particulares; não deviam trabalhar por conta própria. Quem se escondia por trás deles?
Restava, portanto, um X para desmascarar. Um X que não recuava diante de nada, que dera a ordem de ferir, sem piedade. O que começara como um pequenino fato diferente, ou melhor, divertido, tornava-se de minuto em minuto um drama sangrento, um duelo de morte entre personagens cada vez mais misteriosos, que não se detinham diante de cadáveres. Era apaixonante, mas muitíssimo perigoso!
Sernine tornou a subir no De Dion e retomou, sem pressa, o caminho da rua Balagny. O carro de Mongougeot estava estacionado ao longo da calçada, um Renault de 1908 que devia fazer os seus 40 por hora, a toda velocidade, um veículo pobre como os donos.
Havia luz no andar. O detetive devia estar examinando a presa. Sernine, mais uma vez, olhou a hora.
— Decididamente, tive uma ótima ideia despojando o falecido Mongougeot dos seus cartões de visita. Daqui que o identifiquem, se é que já o encontraram, tenho tempo para agir. Mas de qualquer modo, não é bom exagerar. Mexe-te, sobrevivente; dou-te ainda vinte minutos!
Deu a volta no quarteirão, uma, duas vezes. O frio tornava-se mais cortante. Na terceira passagem, a luz se apagara. Mas era necessário evitar toda precipitação.
— Vamos, mais uma volta, e sem correr, Lupin, sem correr. Nada de trapaças!
Decorrido os vinte minutos, aproximou-se com o passo decidido e tocou. O que arriscava? Os Mongougeot deviam sair seguindo, à noite, devido à profissão. E como eram dois, a porteira certamente estava acostumada às suas idas e vindas. Representaria o papel do segundo Mongougeot.
A porta abriu-se. Com uma moeda de cinco francos, Sernine assegurou-se novamente uma saída fácil. — Mongougeot!
Passou adiante do cubículo escuro, subiu até o primeiro andar, com o molho de chaves do morto na mão! Com a leveza de um voo, introduziu-se no vestíbulo. Um ronco sonoro vinha de um dos quartos. O animal! Não eram os remorsos que o sufocavam. Cuidado com o gato!
Mas nada se mexia. O gato preto dormia, sem dúvida, na cama do dono. Sernine lembrava-se exatamente da disposição dos lugares. O escritório estava à direita. No lugar de Mongougeot, Sernine ter-se-ia sentado diante da mesa para estudar os documentos. Em seguida, teria colocado o envelope na gaveta do alto, esperando para mostrá-lo ao irmão... Mais tarde, teria tomado disposições mais precisas... Mas não haveria mais tarde. Se o envelope não estivesse no escritório, então seria preciso resolver-se a mostrar-se, a empregar os grandes meios.
Sernine penetrou calmamente no escritório, e fechou a porta sem ruído. Os roncos o informavam suficientemente. Estava tranquilo. Tinha tempo. Às apalpadelas, orientou-se, localizou a mesa, que examinou lentamente. Pôs a mão sobre o castiçal. Um fósforo! Droga, só sobravam dois. Sentou-se na poltrona. De qualquer modo não ia fracassar na reta de chegada, por falta de fósforo. Com um movimento seco, riscou o primeiro. Acendeu-se e comunicou a chama para a vela. A peça estava exatamente no estado em que a deixara. Só um detalhe a assinalar: a página do bloco fora arrancada.
Sernine entreabriu a gaveta, avistou o envelope e estacou. Santo Deus! A abertura da gaveta acionava um sinal. Por um segundo, sentiu-se apanhando em uma armadilha. A campainha de alarme parou, depois se fez escutar de novo. Era o telefone. Rápido!
Sernine era o homem de decisões imediatas. Apertou com os dedos o pavio da vela, para impedi-la de soltar fumaça. Com a barriga, ao mesmo tempo, empurrou a gaveta. Em seguida, com três passadas, escondeu-se atrás das cortinas espessas que cobriam a janela. O telefone continuava a tocar.
— Deu para escapar — pensou Sernine. — Como tem o sono pesado, o artista.
Esticou-se, agachou-se. A porta facilmente se abria. Mongougeot apareceu, segurando um lampião.
— Já vai, já vai — resmungava com ar furioso.
Estava de camisola e arrastava os chinelos. Com a mão livre, esfregando um olho. O gato vinha atrás, com a cauda para cima. Pela fresta das cortinas, Sernine observava a cena. "Essa droga de gato vai vir me cheirar. Por essa não esperava". Sacou o revólver. Mongougeot tirava o fone do gancho.
— Alô... Sim, sou eu... Como?
Seu bigodão tremia. Sentou-se pesadamente no canto do escritório.
— Na rua?... Agentes da bicicleta?... De ronda?
Repetia maquinalmente o que explicava o interlocutor. Parecia esmagado.
— Vocês estão certos de que é ele?... Não. Não tinha nenhum motivo para se encontrar lá... Foi então que o reconheceram?... Sim, talvez um crime de vagabundos... Naturalmente, vou de imediato... Sim, obrigado.
Recolocou o fone no gancho e então aconteceu algo tão inesperado, tão insólito, que Sernine quase fez um movimento. Mongougeot chorava. Acreditando-se sozinho, não procurou conter seu sofrimento. As lágrimas brilhavam nas faces.
— Meu pobre Gaston — murmurava. — Meu pobre Gaston! Bem que eu lhe tinha dito que era necessário acautelar-se.
O gato se aproximava das cortinas. Miou, com uma voz imperiosa.
— Fica quieto — exclamou Mongougeot. — Não penses que vou te abrir esta janela.
Ergueu-se pesadamente, pegou o lampião que tremia em sua mão. Parecia subitamente velho e sem defesa.
— Vamos, vem, Minou... Ele gostava muito de ti, sabes! Desapareceu, arrastando os pés, lastimável na sua camisola que
flutuava sobre a barriga da perna.
— Pobre homem — pensou Sernine. — Pode-se ser canalha e ter bom coração... Mas te apressa... Emile... Estou congelando.
Mongougeot se aviava, ao longe, em um barulho de cadeiras empurradas, portas rangentes. O gato, agora, miava na cozinha. De tempos em tempos, a voz de Mongougeot se elevava. Falava sozinho. Voltou à porta do escritório, vestido, segurando o lampião bem alto.
— Onde a meti?... Ah! no cabide!
Afastou-se e logo a porta da escada se fechou. A chave girou na fechadura. Um minuto mais tarde, os passos de Mongougeot ressoaram na calçada. Estava tão demolido que não tinha forças para correr.
Sernine ainda permaneceu imóvel um instante, depois afastou as cortinas e, com o último fósforo, acendeu de novo a vela e sentou-se na poltrona. Febrilmente, abriu a gaveta, colocou o envelope na mesa. Ele não fora aberto.
— Nada curioso, o cliente! Ou então esperava o irmão... ou então conhecia perfeitamente o seu conteúdo.
Virando e tornando a virar o envelope, Sernine perguntava-se o que convinha fazer. Lavá-lo seria revelar sua intervenção. Mas, mesmo que se contentasse em abri-lo... Examinou rapidamente o móvel, e descobriu um pacote de envelope amarelos, todos parecidos com o que tinha na mão. Não era mais permitido hesitar. Pegou um corta-papel e com um movimento rápido, abriu o envelope misterioso. Continha um espesso maço de folhas. Desdobrou-as, alisou-as com a palma da mão, examinou-as uma por uma.
Estavam em branco.
Inacreditável! Doze folhas de papel em branco! Não dormira; lutara; arriscara a vida por doze folhas intactas. Era muito esquisito!
Terrivelmente humilhado, escarnecia, cerrando os punhos. Em sua vida aventurosa, conhecera muitos altos e baixos. Chocara-se com muitos mistérios, mas nunca tivera a impressão de ter sido gozado com tanta insolência. Doze folhas em branco! Não, mas por quem o tomavam? Esse Mongougeot, com seu bigode de foca e sua ridícula camisola, previra, portanto, que se introduziriam em sua casa? Astutamente, substituíra o envelope certo por este absurdo. Ou então...
Mas não! Mongougeot é que fora enganado. A menina loura, depois do ataque de que fora objeto, no cais de Tuileries, tomara suas precauções. Pusera os documentos a salvo, e o envelope no piano só estava lá para enganar um ladrão eventual. Esconderijo ingênuo, daí a surpresa de Mongougeot.
Mas por que diabo não verificara no local o conteúdo desse envelope?... Porque era muito burro, simplesmente. Acreditava haver aterrorizado sua vítima e, ao mesmo tempo, ela zombava dele com uma audácia que Sernine admirava, agora, na justa medida. Por
Deus! Era preciso uma coragem pouco comum para mentir sob a faca. Mas já no carro de Sernine, após a agressão fracassada, não dera prova de presença de espírito, fornecendo um falso endereço? A marota! Que ousadia! E como seria agradável reencontrá-la, dizer-lhe:
— O truque do piano, esplêndido! Eu estava lá! E posso avaliar. Eu estava certo de que você capitularia. Meus cumprimentos.
Sernine sonhava. Revê-la!... Para espantá-la por sua vez. E obrigá-la a prestar atenção neste homem estranho, que percebera claramente o seu jogo. Era fácil. Conhecia o endereço, agora. Bem que devia haver um catálogo de endereços, neste escritório. Ergueu-se e logo o avistou na prateleira inferior da estante.
Colocou na mesa o pesado volume, folheou-o, apesar da insuficiência de luz. Neuilly... a rua Saint-James ... Eis... Condessa Cécile de Mareuse...
Estava bem. Estava muito bem. Teria ficado desolado por ter tanto trabalho por uma Marie Dupont ou uma Jeanne Durand. E Cécile! Soava bem ao ouvido. Nunca houvera uma Cécile em sua vida. Riu despreocupado.
— Lupin, velho companheiro, estás seguro?... Confessa que estás te perdendo um pouco!
Fechou calmamente o catálogo, recordando todas as sombras encantadoras que haviam atravessado sua existência e, por vezes, a haviam transtornado. Mas o momento não era para saudades.
Recolocou o livrão no lugar e, subitamente sério, apanhou novamente as folhas de papel, examinou-as por transparência, colocou-as sob a luz da vela. Nem sinal de tinta invisível. Não. Enganara-se. Eram realmente folhas de Santa Farsa. E Mongougeot não passava de um animal sem capacidade. E a vida era bela. Ah! Cécile! A vida é bela. Mas deixa que me ocupe dos teus assuntos. Agora deves saber que eles matam. Apesar da tua bravura, serão os mais fortes se não me meto nisso. Boa noite, Cécile... Chega por esta noite. Vou dormir!
Dobrou novamente as folhas, introduziu-as em um envelope novo, que colou cuidadosamente e colocou na gaveta. Depois amarrotou o antigo envelope e meteu no bolso.
Uma última olhada. Tudo estava em ordem. Apagou a vela. Bem entendido, Mongougeot fechara o portão atrás de si.
— Vamos para o Cordon, por favor!
Tornou a subir no carro tio gentilmente emprestado pelos bandidos, abandonou-o diante do mercado da rua Treilhard. Sua casa ficava a dois passos, na esquina do bulevar Haussman com a rua de Courcelles. Tomou um banho antes de deitar-se e devorou uma asa de frango.
Cécile! Este nome lhe agradava cada vez mais. Murmurava-o ainda ao fechar os olhos.
A notícia do misterioso assassinato de Gaston Mongougeot não causou muito alarde. O país inteiro só tinha olhos para o rei Pierre I da Sérvia. A imprensa publicava artigos entusiásticos, lembrava que Pierre Karageorgevitch estudara na França e até fora aluno da Escola Militar de Saint-Cyr. Durante a guerra de 1870, servira na Legião Estrangeira. Lugar-tenente no exército do Loire, batera-se valentemente, durante o ataque da estação dos Aubrais. Possuía a medalha de 1870 e usava o mesmo primeiríssimo exemplar desta condecoração, que acabava de receber das mãos do presidente Fallières...
O Príncipe Sernine bocejava. Bem! Bem!... Vejamos o que diz Le Matin. Mais uma vez o rei. Mas esse bom Pierre me aborrece! E o Figaro.... Um longo artigo de primeira página em que o editorialista insistia na importância do bem próximo casamento do arquiduque Michel, com a princesa Marika, da Cilíria. Graças a esta união, a Cilíria escaparia à influência dos Impérios Centrais...
— Oh! é enfadonho! — exclamou Sernine.
Abriu Le Gaulois. Novo artigo sobre o jovem arquiduque... antigo aluno de Saint-Cyr, como o tio... permaneceria certamente alguns dias na França após a partida do rei... Vamos adiante! Le Petit Journal publicava a fotografia do arquiduque, em uniforme de guerra, junto da princesa Marika.
— Céus! Como é feia!... E nada sobre Gaston Mongougeot, naturalmente!... Mongougeot é a infantaria, a criadagem, a gentalha. Bem que tenho vontade de lhes enviar um comunicado! Quando penso que já faz mais de vinte e quatro horas que... Enfim, talvez haja algo nas edições da noite.
Sernine passou a tarde no clube da rua Cambon, onde jogou com uma audácia tranquila, que lhe valeu um galho de trezentos luíses. Tinha necessidade de afastar-se um pouco, de expulsar provisoriamente do espírito o que denominava "o caso Cécile". Mais tarde refletiria sobre isso à vontade. No momento, como fazia sempre na véspera das grandes batalhas, pedia ao jogo uma distração que aguçava a inteligência e renovava as forças. Comprou as edições da noite e voltou para casa. A imprensa finalmente falava em Mongougeot.
Misterioso assassinato de um antigo inspetor de polícia
O ex-inspetor de polícia Gaston Mongougeot foi encontrado morto, ontem de madrugada, em uma calçada de Chatou, por um hortelão que ia para Halles. O infeliz apresentava, no peito, um ferimento mortal, provocado por bala. Fora despojado dos documentos e sua identificação teria demorado muito se um dos seus antigos colegas não o tivesse reconhecido, por acaso. O roubo não parece haver sido o motivo do crime, pois havia ainda três luíses no bolso do defunto. Tudo leva a supor que Gaston Mongougeot tenha sido vítima de uma vingança. Foi abatido talvez por um detento libertado recentemente? Gaston Mongougeot, considerado pelos chefes um policial eficiente, apresentara há pouco tempo sua demissão, a fim de fundar, com o irmão Emue, polícia secreta como ele, uma agência de detetive particular.
Foi o inspetor-chefe Ganimard que se encarregou do caso. Célebre por suas disputas com Arsène Lupin, este notável detetive deverá rapidamente lançar luz sobre o perturbante caso. Mas quem livrará nossa capital destes ladrões cuja imprudência ultrapassa agora os limites?
Sernine sorriu de prazer. Estava satisfeito por ver que não o esqueciam. E talvez um destino cheio de malícia recolocasse um dia face a face os dois velhos adversários? O mesmo jornal dedicara uma curta nota a Cécile.
Roubo em Neuilly
Um desconhecido, depois de haver-se introduzido, graças a chaves falsas, na mansão em que moram a Condessa de Mareuse e sua empregada, Julie Laporte, atacou e amarrou as duas mulheres. Em seguida, sob a ameaça de uma faca, obrigou a Senhorita de Mareuse a revelar-lhe o esconderijo onde conservava papéis de família, que não apresentavam, porém, nenhum valor para um assaltante.
"Não entendo nada — nos declarou a condessa. — Para mim, trata-se somente de uma coincidência. O ladrão deve ter-se enganado de vítima".
— Ora! Ora! — observou Sernine. — Neste caso, é preciso admitir que houve igualmente erro de vítima no cais das Tuileries... São muitas coincidências!... E por que Cécile não indicou a tentativa de rapto?... E, ao contrário, por que ela alertou a polícia a respeito do... roubo, quando foi ela que enganou Emile?...
Para essa última pergunta, encontrava facilmente uma resposta.
— Sem dúvida, por causa da empregada, que foi testemunha da agressão... E se houvesse, no circuito, um chantagista, papéis a recuperar?... Mas de que lado se encontraria?... E os casos de chantagem raramente são acompanhados de assassinato...
Sernine serviu-se de um dedo de vinho do Porto e se pôs a caminhar de um lado para outro, no seu elegante salão, como fazia quando tinha necessidade de se concentrar. Às vezes, falava em voz alta, parava diante do espelho de Veneza que enfeitava a lareira, e se perguntava: — Emile... bem, Emile está fora de combate por dois ou três dias. Tem forçosamente os antigos colegas em cima, devido a investigações. E não devem lhe tornar a vida fácil, pois não se gosta muito dos desertores, no cais dos Orfèvres. Está fora de combate, mas sabe, agora, que o envelope só contém papel em branco, pois o abriu, é evidente. E está furioso. Tem a sensação de que o irmão — não percebo bem a relação, mas existe — morreu por nada. Portanto, vai atacar Cécile mais uma vez... Não vai permanecer no fracasso.
Ali, se interrompia. Seu instinto lhe dizia que o que denominava "o bando da Ogra" não ia, também, permanecer inativo. Mas não sabia realmente nada sobre aqueles que haviam assassinado Gaston Mongougeot. Impossível prever suas manobras futuras. Eram numerosas. No mínimo cinco!
— Mas Lupin também tem tropas! Vai mobilizá-las! E agora mesmo!
Sentou-se diante de uma valiosa escrivaninha de estilo inglês e redigiu cinco telegramas. Depois chamou seu criado.
— Vai ligeiro. Tem pressa.
Só tinha que esperar, como se fosse capaz de esperar, ele tinha fogo nas veias. Foi ao teatro da Porta Saint Martin, representavam Chantecler. Jantou em seguida no Larue. Dormiu pouco mal. Às nove horas, seus amigos dedicados se apresentaram. E imediatamente deu as ordens.
— Maréchau, vigias Cécile de Mareuse. Anotas todos os seus deslocamentos, te informas sobre qualquer pessoa que a visite. Mas astúcia, nem? Tornas-te invisível.
— Conte comigo, chefe.
— Ambroise... Mesmas instruções para o senhor Mongougeot. E desconfia. Embora não pareça muito esperto, é capaz de perceber que o seguem... E, ao menor sinal, vocês me telefonam, um e outro.
Não sairei daqui. Vocês dois, Lenfant e Loiseau, compreenderam? Mesmas instruções. Revezem seus companheiros. Pois quero uma vigilância noite e dia. Andem, e ligeiro!
Conservou consigo o homem de confiança, Jean Doudeville. Jean e Jacques Doudeville eram ambos inspetores de polícia e informavam Sernine sobre tudo o que se dizia e fazia no cais dos Orfèvres.
— Então, Jean, que contas?
— A verdade, chefe, é que estão boiando. Os Mongougeot eram bem conhecidos. Não eram uns gênios, mas se podia contar com eles.
— Honestos?
— Creio que sim. Emile foi ouvido, ontem de tarde. Afirma estar convencido de que o irmão foi vítima de uma vingança. Um que Gaston teria detido outrora. Mas Ganimard desconfia que nos esconde alguma coisa.
— Vai me preparar um relatório sobre a sua licha de serviços, e me manter a par.
— Certo.
— Ah! Aviso-te que um carro foi abandonado diante do mercado, na rua Treilhard, aqui ao lado. É um grande De Dion preto. Sem dúvida uma placa falsa, mas nunca se sabe. Trata de descobrir o proprietário. Enfim, te vira.
— Tentarei, chefe.
Sernine despediu Doudeville. A batalha estava iniciada.
Simone de Mareuse
Quatro dias se passaram, quatro dias mortais em que Sernine roeu-se por dentro. Para matar o tempo, lia uma obra erudita sobre a coleção de objetos de arte do banqueiro Manheim, deixando para lhe fazer uma visita um dia, mais tarde, quando o caso em andamento estivesse solucionado. Quase não saía. Traziam-lhe braçadas de jornais, que lia entediado. Sempre o rei da Sérvia! Sempre a questão do Oriente! Sempre estas brigas ineptas entre Altezas mais ou menos senis!
"Ah! Se tivesse recebido uma coroa ao nascer — pensava Sernine, — como teria posto ordem em toda esta confusão. Mas não. Enquanto as potências negociam, eu me ocupo do ex-inspetor Mongougeot. Lupin, deixa-me dizer-te: Não passas de um biscateiro!"
Seguidamente cedia assim a impulsos de melancolia; tratava com rudeza os que dele se aproximavam e, para acalmar os nervos, ia para a sala de ginástica onde esmurrava a punching-ball. Ou então se instalava no quarto de vestir, diante de um espelho, e se divertia "disfarçando-se". Dispunha-se um extraordinário estoque de pomadas, perfumes, cremes, pós. Possuía mais perucas, barbas e bigodes que um ator de Teatro Francês. Tinha também crânios carecas, aparelhos de borracha para modificar a forma da boca e do nariz. Aparecia, ao seu gosto, como escrivão, acadêmico, vagabundo, ministro. "E um Fallières, um!". Tornava-se o presidente. "Agora, Emile!". Em um piscar de olhos, era Emile Mongougeot, com seu bigodão e as sobrancelhas espessas. Mas sua inquietação pouco se acalmava.
Lera, troçando, os relatos dos funerais de Gaston. Um funcionário qualquer da chefatura pronunciara um discurso de ocasião: "Policial exemplar... quisera voar com suas próprias asas... perda sensível... não deveria nunca ter deixado a Casa... ", em suma, as tolices imprescindíveis. Mas uma pergunta se impunha, que Sernine repisada sem encontrar resposta. Os Mongougeot gozavam de estima geral. E, entretanto, ele vira com seus próprios olhos Emile prestes a matar uma moça indefesa. Então, os verdadeiros Mongougeot, quem eram? Pessoas honestas? Canalhas?... Antes isso. Havia cedido a tentação do ganho. Saber, nestas condições, se não seria mais simples comprar Emile?
Sernine examinava esse problema, suspenso no trapézio, cabeça para baixo, quando seu empregado introduziu Ambroise.
— Relatório, preguiçoso! — gritou Sernine.
— Bem, chefe, não muita coisa. Mongougeot dá suas voltas ele mesmo.. Compra sobretudo conservas, ah, e também bofe. Isso me parece esquisito.
— Depois?
— Bem, ao meio-dia, almoça no restaurante. Ontem, comeu linguiça e...
— Pouco me importa. Não te pergunto o que ele come, mas o que faz.
— Já chego lá, chefe. Comprou um traje preto na Belle Jardinière. Após o enterro, passou no Borniol para acertar as contas. Em seguida, foi à casa do Sr. Bergeron, na avenida de Messine...
Sernine executou um alçamento impecável e sentou-se na barra.
— E de noite?... Pois talvez não saibas, mas ele às vezes sai, de noite.
— Posso assegurar que não se movimentou. Nós nos revezamos, Lenfant e eu.
— Bem. Continua... Se precisas de dinheiro, para as refeições, os táxis... fala com Octave.
Maréchau chegou quando Sernine estava no chuveiro.
— Alguma novidade?
— Não sei, chefe. Cabe ao senhor julgar.
— Fala mais alto, raios!
— A condessa foi chamada anteontem à chefatura de polícia.
— Normal. Quem mais?
— Lá pelas quinze horas, pegou um fiacre que a deixou na rua Saint-Jacques, esquina de Val-de-Grâce e entrou em uma casa de saúde.
— O quê?
— Sim, chefe. É a casa de saúde do doutor Moutier. Anotei.
— De que ele trata?... Evidentemente, esqueceste de informar-te, seria preciso que eu mesmo fizesse tudo. Então, depois?... Ficou lá muito tempo? Entretanto ela não está doente.
— Duas horas.
— Duas horas! Ah! vamos! Teu relógio parou.
— Tenho certeza, chefe. Às dezessete e trinta horas, foi à peleteria Reynaldi, no bulevar Malesherbes. E depois voltou para casa... Ontem, saiu lá pelo meio-dia. Almoçou no Coq de Bruyère.
— Sozinha?
— Lógico. À tarde, visitou a galeria de quadros Durand-Ruel e tomou chá no Rampelmeyer.
Sernine fechou as torneiras, afastou as cortinas e estendeu uma saída de banho para Maréchau.
— Vem, me seca, enquanto reflito. Não achas isso estranho? Eis uma mulher que foi atacada duas vezes no espaço de uma noite, e se entretém com frioleiras como se nada tivesse acontecido. Vendeste todo o teu peixe?
— Não, ainda não. Sua velha empregada, Julie Laporte, partiu para Sologne, junto da família, a fim de descansar.
— Portanto, Cécile de Mareuse não tem mais ninguém consigo... Fica atento, animal... Vai ser preciso abrir o olho.
— Loiseau está lá, chefe.
— Está bem. Podes voltar ao posto.
Sernine estava furioso. Quatro dias e não acontecia nada. Um comia linguiça. O outra tomava chá. De quem se fazia troça? Esse envelope cheio de papel em branco não ia, portanto, desencadear nada? Passou uma manhã desagradável, almoçou pouco. Doudeville apareceu na hora do café.
— Te esperava, sabes... Uma xícara de café?... E agora, conta ligeiro.
— O senhor vai ficar decepcionado, chefe. Primeiro a carreira dos dois Mongougeot não apresenta nada de especial... São de Sarthe. Conseguiram o diploma em Mans. Quando morreu o pai, que era escriturário das Indirectes, vieram para Paris. Entraram para polícia graças à recomendação do deputado Louis Joubert e cuidaram habilmente dos seus negócios e sem espalhafato... Esquadrinham, neste instante, a lista dos malfeitores que tiveram a ocasião de prender. Não é longa e todos os suspeitos estão mortos ou na cadeia por muito tempo. Resumi tudo isso para o senhor em um papel. Mas, por esse lado, nada.
Resta a agência. Nunca se soube bem por que a havia criado. Emile é muito discreto a esse respeito. Assim mesmo pôde-se determinar que eles iam vivendo... diligências, investigações pré-matrimoniais, casos de adultério... ninharias. Gaston talvez tenha sido vítima de um amante desmascarado por suas diligências.
— Em suma, vocês se embrulharam. Ocupam-se, ao menos, do roubo na casa da condessa?
— Colocaram Rampou para o caso. Um novo... Ganimard está com falta de efetivos, por causa do rei. Todos estão mobilizados. Com nobres, temem-se os anarquistas.
— Percebo. Ficamos a ver navios em toda a extensão. Bem! Mais uma palavra. O que teus colegas dizem a respeito de Mongougeot? Lamentam-no?
— Não muito. Entre nós, não gostamos muito de detetives particulares. Mas tenho que reconhecer que Emile conservou muitos amigos.
O telefone tocou, na sala de fumar. Sernine foi atender.
— Ah! és tu, Loiseau?... Muito bem... Sim, fizeste muito bem Segue-a, é lógico... E me avisa rápido... Estou quase certo de
que ela vai voltar à casa de saúde... Até breve.
Voltou a Doudeville. Seus olhos brilhavam. Sorria.
— Eficiente, esse Loiseau — disse. — A condessa acaba de pegar um fiacre... São duas horas e meia... Três quartos de hora até a rua Saint-Jacques. Três horas, é a hora das visitas... Sinto que vai haver algo de novo... Voa, meu pequeno Jean... Volta depois de amanhã... Trata de me trazer resultados... Não, não é censura!
Terminou a xícara de café e acendeu um cigarro. Certamente, Cécile podia também ir ao Bois ou às grandes lojas. Mas tinha a certeza de que ela voltava ao doutor Moutier... e não para fazer consulta, mas para visitar alguém.
Lá havia seguramente um doente que interessava.
— Octave!
— Sim, patrão.
— Tira o Mercedes da garagem... Vamos fazer um pequeno passeio.
Passou ao quarto, vestiu um traje escuro, escolheu um sobretudo de acordo.
— Disfarço-me?... Talvez fosse mais prudente.
Hesitou entre vários bigodes. Um bigodinho castanho bastaria. Tratava-se apenas de enganar Cécile, sucedesse o que sucedesse. Acabava de fixá-lo, quando o telefone tocou novamente. Um segundo e estava atendendo.
— Então?... Sim, exatamente o que eu pensava... Não. Não me esperes. Volta para Neuilly. Se precisar de ti, disco para o "Marronnier". Certo. Obrigado.
Por Deus! Estava mesmo na casa de saúde. Duas vezes em dois dias, isto significa alguma coisa!
— Anda, Octave... Para Val-de-Grâce, a jato!
Recuperada a animação, saltou no carro. Quem Cécile de Mareuse ia ver em uma casa de saúde? Um médico, um enfermeiro, um doente? E havia alguma relação entre esta visita e o drama em que Sernine acabava de se meter?
— Se há um doente na aventura — pensou Sernine, — sou eu! Porque, primeiramente, é preciso estar doente para se interessar de tal maneira por uma mulher que zomba de mim. Porque, em segundo lugar, os acontecimentos a que assisti são tão incoerentes que me pergunto se não estou sonhando. Porque, em terceiro lugar, Lupin é uma espécie de iluminado, como todos sabem. Portanto, viva a casa de saúde!
— Onde o deixo, patrão?
— Um pouco mais longe, diante do hospital... Vais me esperar ali.
Um fiacre parara, do outro lado da rua, em frente ao prédio do doutor. Cécile certamente não tinha a intenção de demorar; havia conservado o carro.
Sernine desceu, voltou atrás costeando um muro alto, acima do qual se mostravam uns plátanos sem folhas. A casa principal parecia desagradável, com suas janelas munidas de grades. Uma placa de cobre, na entrada, indicava:
Doutor Moutier Antigo interno dos Hospitais Com hora marcada
Atravessou a porta e encontrou-se em uma espécie de locutório, com paredes pintadas de branco, chão encerado. Tinha ar de clínica e convento. À direita, um cubículo envidraçado com um guiché, atrás do qual estava uma enfermeira ocupada com trabalhos escritos. Ao fundo, uma porta com dois batentes. Sernine aproximou-se do guiché, cumprimentou com muita polidez.
— Perdão, senhora. Pode-se consultar o doutor Moutier em sua casa, ou só atende aqui?
— Só atende aqui. Veja o quadro atrás do senhor.
Mal levantara a cabeça e já mergulhara de novo nos papéis. Não exercia mais que uma vigilância discreta, o que servia às mil maravilhas para o plano de Sernine. Permaneceu um momento diante do quadro dos dias e horas de consulta, depois, ostensivamente, ganhou a porta da rua que fechou com ruído.
Mas tivera o cuidado de não sair. Agachando-se, correu rapidamente para baixo do guiché, fora da vista da enfermeira e se enfiou pela porta do fundo. Dava para um corredor comprido, sem enfeites e deserto. Uma banqueta acompanhava uma das paredes. A outra era cortada por várias portas: Despensa... Rouparia... Farmácia... Direção...
— Brrr! — disse Sernine. — Ainda prefiro a Saúde!
Caminhou abafando o ruído dos passos até o fim do corredor. O silêncio reinava por todos os lados. As duas janelas que iluminavam parcialmente o local apresentavam um vidro sem brilho com um reboco esbranquiçado.
— Ar!... Ar!...
Abriu a porta de dois batentes, réplica daquela que acabava de transpor, e estacou:
— Santo Deus! Loucos!
Estava gelado pelo espetáculo que tinha diante dos olhos.
— Loucas!...
Um pátio se estendia à sua frente, plantado com árvores mirradas, abafado por muros altos que o rodeavam, cinzento, úmido, desolado. E neste pátio erravam silhuetas de mulheres, todas semelhantes, com camisolas escuras. Não formavam grupos; não passeavam duas a duas; cada uma estava só com os familiares. E Sernine, que havia enfrentado tantos perigos, sorrindo tantas vezes diante da morte, estremeceu. Algumas destas mulheres gesticulavam, paravam bruscamente, riam com abandono como teriam feito numa noite de festa, depois saíam de novo com passo irregular, movendo os lábios. Outras caminhavam reto para a frente, cabeça baixa, mãos nas costas, absorvidas por problemas insolúveis para todo o sempre. Havia uma que girava sobre si mesma, revivendo alguma cantiga de roda da infância. E esta pequena louca em movimento estava silenciosa. Era alucinante, como uma dança dos mortos.
Mas logo se observavam, aqui e ali, vestidas de branco, algumas enfermeiras robustas que vigiavam a recreação das internas. E depois não se demorava a reconhecer, pelas roupas de cidade, visitantes que tentavam conversar com uma parenta ou amiga em tratamento. Um homem caminhava, dando o braço a uma mulher e ela o escutava ajuizadamente, com o olhar perdido. Sernine, com o coração pesado, guardava todos os detalhes, as janelas gradeadas, as portas certamente trancadas, as carcereiras atentas, e seu olhar foi parar enfim em Cécile.
Era a única que estava sentada em um dos bancos de pedra colocados entre as árvores. E, ao lado, via-se uma moça que se assemelhava tanto a ela que parecia a sua cópia, porém mais delicada, mais irreal. A mesma cabeleira loira, o mesmo talhe, a mesma elegância, mas uma magreza inquietante, uma imobilidade doentia, uma espécie de ausência que tornava a cena infinitamente cruel.
Sua irmã? Sem dúvida nenhuma. Uma Cécile da noite, um reflexo que a aurora não tardaria a apagar. Sernine sentiu-se tomado de piedade por essas infelizes. Cécile falava, e ele teria dado tudo para ouvir o que dizia. Mas percebeu que uma das enfermeiras olhava para o seu lado. Era preciso fingir-se imediatamente de visitante, caso contrário, logo teria de dar explicações.
Caminhou pelo pátio e foi um daqueles momentos de que, mais tarde, deveria confessar que guardara uma horrível recordação. A que mulher se dirigir? Seu aparecimento imprevisto junto de um doente não iria desencadear uma crise?
Avistou uma pessoa de uns cinquenta anos que acabava de sentar-se em um banco, não longe de Cécile e a irmã, e foi encontrá-la, estendendo-lhe os braços, como se se alegrasse por ser esperado.
— Bom dia — disse. — Não vai muito mal, hoje, não é?
Ninguém mais prestava atenção nele. A louca, por sua vez, não parecia havê-lo percebido. Esfregava as mãos uma nas outras, sem descanso, como se quisesse livrar-se de uma sujeira. Apesar do abatimento dos traços, seu rosto conservava um ar distinto.
— Senhora — murmurou ele, — não sei se me compreende... mas só lhe quero bem... Se me sento ao seu lado, é porque estou cansado... muito cansado...
A palavra pareceu despertar alguma coisa no espírito da demente. Repetiu, com uma voz distante: "Cansado... Muito cansado...", mas não virou a cabeça. Era inútil insistir.
Entretanto, Sernine, com um gesto muito suave, colocou a mio sobre as mãos inquietas, como se tivesse algo a se fazer perdoar. A alguns metros dali, Cécile conversava com a irmã em um tom alegre. Impossível captar o sentido de suas palavras. Em compensação, era evidente que "a outra Cécile" acompanhava atentamente a conversa. Estaria talvez quase curada. Ou então pertenceria àquela categoria de psicopatas que só periodicamente sofrem perturbações mentais.
Mas onde Cécile encontrava forças para parecer alegre, apesar das aflições que devia sentir? "Que caráter — pensou Sernine. — Admiro esse pedacinho de mulher. Nenhum homem lhe chega aos pés! Nem eu, que me sinto tão perdido neste pátio!" Apertou mais uma vez as mãos que se agitavam de novo.
— Sou seu amigo — cochichou. — Lá... Acalme-se.
Mas compreendeu porque a vizinha parecia de repente excitada. Um homem de branco acabava de sair do prédio. O doutor Moutier, na certa. Cinquenta anos, condecorado, lorgnon, barbicha. O inimigo! Pois deveria conhecer todos aqueles e aquelas que frequentavam seu estabelecimento. Sernine sentou-se de lado, inclinou-se para a pobre louca.
— Não se levante... Vai me desgraçar... Calma! Calma!
Detestava-se por lhe falar como a um cavalo assustado que se afaga e tranquiliza. Mas era preciso acalmá-la a qualquer preço. O doutor, após uma olhada em volta, dirigiu-se ao banco de Cécile. Apertou a mão da moça, com um quê de cerimônia, deu um tapinha na face da irmã.
— Fizemos grandes progressos — disse. — Permite?
Sentou-se entre elas, passou um braço em torno dos ombros da doente, e se pôs a conversar em voz baixa com Cécile. Sernine compreendeu que não ficaria sabendo mais nada e que perdia seu tempo. Já era muito saber que Cécile tinha uma irmã. Mas isso ainda não leva muito longe. E se...
Santo Deus, sim! O doutor Moutier ia visitar as clientes, que pertenciam visivelmente a famílias ricas, às quais devia consideração. Isso lhe tomaria tempo. Não havia provavelmente ninguém na sua sala. Era uma oportunidade a ser tentada.
Sernine levantou-se e, por maior preocupação, inclinou-se para a louca e fingiu abraçá-la.
— Obrigado — murmurou.
Uma das enfermeiras se aproximara. Talvez sua presença parecesse suspeita? Talvez se tivesse sentado junto de uma mulher que só raramente recebia visitas? Obrigou-se a caminhar com ar desanimado, e voltou-se duas ou três vezes como alguém que não se decide a ir embora. A enfermeira continuava a observá-lo. Empurrou a porta do corredor. Uf!
Agora era preciso andar ligeiro. Que essa enfermeira se lembrasse de perguntar ao doutor quem era o personagem que acabava de sair, e estava dado o alerta. Correu até a porta da "Direção", bateu, entreabriu: ninguém. Entrou rapidamente.
Não havia outra saída a não ser o corredor. Duas janelas com grades dando para um pequeno pátio, cheio de carvão até o meio. Sernine olhou o relógio.
— Tens cinco minutos, nada mais. A boa mulher vai interrogar o doutor. Um. O doutor faz com que lhe explique a situação. Um. Despede-se de Cécile. Um. Atravessa o pátio. Um. Chega aqui. Um... A conta está certa.
Já estava em ação. Seus olhos haviam fotografado a peça... Escrivaninha grande... Armários envidraçados contendo prateleiras de volumes respeitáveis... Arquivo metálico... 0 fichário de clientela? Certifica-se...
Manejou a gaveta do alto. Um minuto. Não se enganara. Era a gaveta destinada à letra A... A letra M devia encontrar-se mais ou menos no meio do móvel. Nova gaveta... Jacquin... Joly... Não era a certa. A de baixo... Mabert... Mallet... Mamblier... Marescal... Massard... Nada de Mareuse... Dois minutos. Meu Deus!... Onde, diabos, fora colocar a ficha?... Atenção! Nada de desespero ... Já que o doutor foi direto a Cécile, é que tem algo a dizer-lhe com respeito à sua irmã... Talvez esteja a ponto de deixar a Casa de Saúde?... Admitamos... Ele, portanto, tirou a ficha... e ela está sobre a escrivaninha, bobamente. Três minutos.
Sernine voou para a escrivaninha. Exato. Lá estava: De Mareuse (Simone)... Nascida em 16 de outubro de 1892... Bem! Isto lhe dá vinte anos... A escrita do doutor era tão miúda, a ficha tão abundante, que Sernine desistiu de lê-la toda. Percorreu-a na diagonal.
Tentativa de suicídio, em 16 de março de 1910... Fundamental, isto!... no castelo de Gures, em Pérouges (Rhône)... doutor Jean Lemerlin... Operada no hospital da Cruz Vermelha... Raios, operada de quê?... Transferida para o hospital de Bron . . Quatro minutos!... Síndrome de Baruzzi. Manifestações epileptiformes... Isso é chinês... Bem... Meu caro Lupin, está na hora de despedir-se!
Saiu e apressou-se em direção ao locutório. Teve tempo, antes de fechar a porta, de avistar o doutor e a enfermeira que penetravam no corredor. Escapara por um triz. Cumprimentou galantemente a recepcionista, que pareceu muito surpresa, e voltou ao carro.
— Octave, faz meia-volta. Vamos seguir aquele fiacre. Mas talvez ele não parta logo. Espera a moça loura que me ajudaste a salvar, na outra noite. Lembras!
Octave estava muito acostumado para se espantar. Deu a partida, enquanto Sernine se deixava ficar nas almofadas. Simone e Cécile... Cécile devia ser a mais velha, uns quatro ou cinco anos. Estranha, essa tentativa de suicídio. Sofrimento amoroso? Esgotamento nervoso? Pobre Cécile! Como a lamentava! Perseguida, ameaçada, ainda tinha que ocupar-se com essa irmã doente! Sernine sonhou um momento... Nunca fora a Pérouges. Sabia que era uma cidade medieval, milagrosamente conservada, com ruas e casas da época... Sem dúvida, não seria má ideia dar uma passada por lá. Puxou o relógio. Um quarto para as cinco. A noite caíra. Mas o que ela estaria preparando?... O passeio das doentes já devia ter terminado.
— Lá está ela, patrão.
Tornava a subir no fiacre Cujas lanternas o cocheiro acendera.
— Segue-a de longe. Não pode nos escapar.
Tranquilo, Sernine continuou com suas reflexões. Cécile dissera aos investigadores que lhe haviam roubado papéis de família. Por quê?... As declarações à polícia pareciam um aviso, uma advertência dada, através dos jornais, aos misteriosos adversários. Significava: "Não insista... Os papéis que procuram só interessam a mim... Além do que, não os tenho mais..." Haveria uma relação entre esses papéis e a doença de Simone?
Com sua imaginação fértil, Sernine era capaz de inventar relações à vontade! Desconfiava desse pequeno truque. O mais simples seria ter uma conversa com Cécile. Cartas na mesa. "Estou a par de Mongougeot... da casa de saúde... Tenho recursos sem conta... Sou seu amigo..."
— Patrão! Ela não está tomando o caminho de Neuilly... E não sei o que há, mas está cheio de gente por toda a parte.
Sernine, arrancado dos seus pensamentos, inclinou-se para a portinhola. Chegavam à rua Rivoli.
— Acelera!
— Gostaria, mas...
A multidão se aglomerava na calçada. O fiacre passou, mas um cordão de policiais se formou, obrigando o automóvel a parar. O fiacre afastou-se em direção à avenida da Ópera. Sernine abaixou o vidro e se debruçou.
— Ei, cabo, estou com pressa.
— Não vai demorar, senhor... E o cortejo do rei da Sérvia que volta à Prefeitura.
— Ah! droga! — resmungou Sernine tornando a se sentar. — Contanto que Cécile...
Um estrépito de cacos o interrompeu. Um pelotão de guardas republicanos atravessava o cruzamento a trote. Os capacetes brilhavam; as espadas chamejavam. Sernine não viu a caleça, escondida por uma ala de espectadores. Mas escutou elevarem-se as aclamações. Braços agitavam chapéus. "Viva o rei... Viva o arquiduque..." A multidão não se dispersava. Cécile estava longe... Talvez tivesse querido, simplesmente, antes de voltar para casa, gozar as luzes, o ruído, a atmosfera festiva que reinava em Paris há alguns dias.
— Para Neuilly, Octave. Vou esperá-la lá. E então, estás dormindo?
— Não sei o que há, patrão? O motor parou.
Desceu, deu várias maniveladas. Sernine se impacientava, menos porque perdia tempo, do que por interrogar-se sobre a conduta a adotar. Cécile poderia, desta vez, censurá-lo por espioná-la, forçar a porta da sua vida particular. A loucura é mal que se costuma esconder com todo o cuidado.
— Então, Octave, está indo?
— Acho que vai ser preciso trocar uma vela.
— Dá para andar?
— Vamos tentar... Iremos devagar.
— Pois bem, vamos... e terminemos.
Praguejando, voltou para seu canto e absorveu-se em pensamentos. Por mais que voltasse para trás, não encontrava nenhuma situação semelhante. Ou fora jogado em dramas complicados porque tinham vindo solicitar seus serviços, ou então ele mesmo desencadeara acontecimentos temíveis, mas nunca fizera ainda o papel de testemunha, e testemunha impotente. Ora, desde há alguns dias, assistia, sem ter talvez o direito de intervir, as cenas perturbadoras e incompreensíveis, que colocavam a uma dura prova a sua necessidade de agir.
Como abordar Cécile sem feri-la? Dir-lhe-ia bobamente: "Sou seu amigo." Levantaria os ombros. Ou então: "Ocupo-me de você porque sei que está em perigo". Ela o poria porta a fora. Nada fácil representar e papel do intrometido de boa vontade!...
O motor rangia; o veículo avançava com uma lentidão exasperante. Poderia dizer a Cécile: "Quase a atacaram; e eu fui raptado. Explique-me por quê." Seria o melhor modo de entrar no assunto. "Você sabe o porquê, mas eu não sei nada. Vamos pôr as coisas nos devidos lugares!" excelente começo. Seria obrigada a falar...
— Octave, deixa-me aqui.
— Mas, patrão...
— Irei mais rápido com este fiacre.
Pôs os pés em terra e fez sinal para o cocheiro.
— Rua Saint-James, em Neuilly.
Meia hora mais tarde, entrava no café Au Marronnier, onde o único freguês, diante de um copázio, se aborrecia de tanto esperar: Ambroise.
— Que estás fazendo aqui?... A condessa voltou?
— Sim, não faz cinco minutos.
— Mas... te encarreguei de vigiar Mongougeot.
— Vou te explicar...
— Estás perdendo tempo!
— Bem... Esta manhã Mongougeot foi até o túmulo do irmão, no Père Lachaise.
— Parabéns pelo espirito de família!
— Em seguida, foi a urna marmoraria, no bulevar de Charonne...
— Saudade eterna, compreendo.
— Almoçou no restaurante Thermomètre, na praça Voltaire.
— Muito bem! Ê preciso não se deixar abater.
— Às três horas, estava na chefatura. Depois, veio direto aqui. Sernine segurou o pulso de Ambroise.
— Aqui?... Aqui onde?
— Na casa da condessa... Chefe, me largue. Está me machucando.
— Não podias ter dito logo?... Faz tempo?
— Uma hora talvez.
— Como é que ele entrou?
— Com uma chave, ora!
— Mas não, não é isso que pergunto... Hesitou antes de entrar? tinha o ar de alguém que se cuida, que observa ao seu redor?
— Não notei.
— Ê lógico. Vocês outros nunca notam nada! Sernine se havia levantado.
— Vou lá. Se não estiver de volta dentro de meia hora, venham atrás todos os dois... Por sinal, onde está Maréchau?
— Aproveitou que eu estava aqui para ir desenferrujar as pernas. Mas não demora a voltar.
— Imbecil! Merecia...
Saiu precipitadamente. A mansão de Cécile estava às escuras, e a cena sinistra voltou-lhe à memória... Cécile amarrada... a faca... Céus! Mongougeot não renunciara a pôr a mão nos papéis. A não ser que tenha vindo, simplesmente, para se vingar?...
O portão estava fechado a chave. Felizmente, não era alto. Nenhum passante à vista. Sernine escalou-o sem muita dificuldade e, pé ante pé, revólver em punho, atingiu o patamar.
Teve um sobressalto. A porta, aqui, estava somente encostada.
— Bandido — pensou Sernine. — Deve ter-me visto no momento em que ia sair. E agora, está me esperando... Cheguei tarde demais!
O vestíbulo estava mergulhado em uma escuridão espessa. Sernine deu rapidamente um passo para o lado, a fim de não oferecer, de imediato, um alvo demasiado fácil. Orientou-se no meio das trevas. Lembrava-se de cada detalhe com a maior nitidez. O salão abria-se à esquerda, a uns cinco metros. Galgou esta distância na ponta dos pés, escutou. O silêncio se tornava angustiante. A casa parecia abandonada. Entretanto, Mongougeot estava ali, já que não havia ido embora. Com um pé tateando à sua frente, Sernine avançou mais um pouco. Temia chocar-se com o corpo estendido de Cécile. Mais um passo... Estava na entrada do salão.
Logicamente, Mongougeot não devia aceitar a luta. Viera para roubar... ou matar; não para provocar um combate incerto. Esperava provavelmente a ocasião para fugir. Logo que localizasse o adversário, daria o fora. Cabia a Sernine desalojá-lo.
Deslizou ao longo da parede, alcançou as costas do sofá. Esticando o braço, seguiu lhe a borda com a ponta dos dedos, e encontrou algo mole... um tecido... De repente, quase deu um grito... Eram uns ombros o que tinha sob a mão.
Então, ocorreu algo que, durante um segundo, gelou-o de espanto. Um riso se elevou... Um riso delicado, divertido... mais insuportável de escutar que um grito de angústia. E, quase imediatamente, uma lâmpada foi acesa, do outro lado da peça. Ao mesmo tempo, uma voz se elevou:
— Largue a arma!
Em um espelho, avistou Mongougeot, sinistro na roupa preta, que lhe apontava o cano de uma pistola automática. Completamente atordoado, Sernine largou o revólver.
Os ombros que roçara eram os de Cécile, que continuava a rir, tapando a boca, como uma mulher da sociedade que tenta em vão reprimir um acesso de riso. Levantou-se por fim, afastou-se do sofá, e foi sentar-se perto de Mongougeot.
Olhavam Sernine com ar irônico. Eram cúmplices. E Sernine não conseguia aceitar a monstruosa verdade. Devia estar com jeito de pateta, de pé, no canto, como aluno de castigo.
— Encantado em conhecê-lo — disse Mongougeot. — Mas puxe logo uma cadeira... que diabo estava fazendo atrás deste sofá?
Com os dentes trincados pela raiva da derrota, Sernine pegou uma cadeira e sentou-se escarranchado.
— Assim — continuou Mongougeot. — Conversemos... Mas vejamos, cara senhora, não seria este senhor que já lhe fez uma visita, na outra noite?... E que a ameaçou de morte para obrigá-la a entregar certo enyelope?...
Cécile encarava Sernine, como se procurasse lembrar-se.
— Não — disse. — Não. Nenhuma relação.
— Está certa?... Devia estar tão transtornada.
— Não... Não é ele.
Sernine começava a se perguntar se não estava sonhando. Enfim, ele vira Mongougeot inclinando sobre ela, com a faca na mão. Devia sabê-lo muito bem, sabia forçosamente que Mongougeot quisera matá-la. Então, por que essa comédia?... E Mongougeot tivera tempo de sobra para abrir o envelope e constatar que Cécile fizera troça dele. Estavam informados, um e outro, um sobre o outro. Por consequência...
Sernine recuperou o sangue-frio e riu, por sua vez. Foi nele como que uma explosão de alegria.
— Desculpe-me — disse, — foram impagáveis, ambos... Ah! Que belo número!... Te digo, o lance da faca... E te digo, o do envelope... Ria de tal maneira que teve de pôr a mio no lado.
— Ah! Sufoco... Ah! como vocês podem ser engraçados... que linda encenação! Precisavam de uma testemunha, não é? A simples declaração da vítima podia não bastar. Então, este caro Mongougeot, sempre em ação, ataca a velha empregada, amarra-a, lançando olhares furiosos... Maldito Emile! E depois, a vez da senhora. E a pobre velha caiu, forçosamente. Acreditou que um malfeitor de verdade se introduzira na casa... Não compreendeu que as ameaças, o punhal brandindo, eram puro fingimento... Viu o bandido que levava o envelope... Contou tudo, em seguida, para a polícia. Sua sinceridade saltava aos olhos. E os jornais revelaram que papéis de família preciosos haviam sido roubados. Suponho que é o que vocês dois desejavam. Nada mal! Nada mal.
Mongougeot e Cécile haviam perdido o ar triunfante.
— Chamo o comissário? — perguntou Mongougeot.
— Isso — disse Sernine. — Chama os colegas. Ainda tenho exatamente algumas coisinhas para explicar a eles.
Mongougeot e Cécile se consultavam com os olhos.
— Enfim, senhor, o que deseja? — disse Cécile. — Introduz-se aqui com um revólver em punho. Se vem roubar, previno-lhe que...
— Venho por causa do envelope... o verdadeiro. O outro só continha folhas em branco.
— Folhas em branco? — repetiu Mongougeot, cada vez mais perturbado.
— Vamos! Não te faças de idiota. Doze folhas em branco, se queres que eu precise. Ideia tua, aposto. Nada má, aliás. Existem agora pessoas que acreditam que documentos preciosos foram roubados da Senhorita de Mareuse. Mas não terminarão por terem alguma dúvida? Serão tão ingênuas?
— Que pessoas? — murmurou Cécile.
— Ora! As do cais das Tuileries, santo Deus!
— Como sabe?
— Estava lá.
Com um gesto rápido, arrancou o bigode.
— Sem enfeites postiços — acrescentou.
O espanto mudara de campo. Os olhos de Mongougeot saltavam das órbitas.
— E o que fazia, no cais das Tuileries? — perguntou, com a voz mudada.
— Saía do Châtelet, como a senhora... Um acaso. Mas o resto não aconteceu por acaso.
Estavam atentos às suas palavras.
— É uma longa história — continuou Sernine. — Mas, primeiro, Emile, guarda o brinquedinho... Não tenho más intenções, te asseguro... Um charuto?... Fazes mal. Fabricam-nos especialmente para mim, em Manilha.
Diante dos olhares estupefatos do par, acendeu tranquilamente o charuto, cruzou os braços nas costas da cadeira e prosseguiu: — Fui também, imaginem, à festa da Baronesa de Grège. A este respeito, perdoe-me, cara Cécile... Permita que a chame assim, agora que somos companheiros de armas... Sim, um cartãozinho havia caído da sua bolsa, e cometi a indiscrição de lê-lo... Era o convite da baronesa... Então, como sou curioso, me disse: "E se eu desse um pulo lá?... Devolveria a essa linda pessoa a magnífica anémona que se desprendeu do seu vestido". E, como não podia ficar com essa flor na mão, coloquei-a na lapela. E sabem o que aconteceu?... Ah! Ah! Estou prendendo a atenção, hem! Sempre tive um certo talento para contista... Pois bem, essa anémona era um sinal de reconhecimento. Você devia, cara Cécile, encontrar nesta festa alguém que nunca vira... E havia lá pessoas que queriam opor-se a esse encontro... É bem simples. Ninguém conhecia ninguém. Sabiam somente que era preciso apoderar-se de um homem que levava uma determinada flor. Apareci por primeiro. Hop! Me encanaram.
— O quê?
— Emile, não me interrompas a todo o momento... Se preferes, me atraem para o parque, me enfiam um revólver no pescoço e toca para a frente, me levam... Para onde?... Para o Vésinet... Mas teu irmão aparece, por sua vez, na festa... Dois homens de bem com anêmonas brancas... Suponha que aí deve ter havido hesitação nas linhas do adversário... Mas eles não facilitam diante de um rapto. Apanham Gaston... Lamento, meu caro amigo, te causar sofrimento, mas nada posso fazer... Rumo: Vésinet... Propõem-se, certamente, colocar contra a parede os dois prisioneiros e determinar qual é o certo... Mas teu irmão tenta fugir. Eles o abatem... Não me queira mal se sorrio... Tudo isso, certamente, é muito dramático... mas, ao mesmo tempo, tem um certo lado Sardou que me encanta... Se tivesse vindo, cara Cécile, também teria sido raptada... Mas, felizmente, após a aventura do cais das Tuileries, teve medo e...
— O endereço, no Vésinet? — interrogou secamente Mongougeot.
— Daria tudo para saber. Mas tive de retirar-me precipitadamente.
— Enfim, quem é você? — disse Mongougeot.
— Boa pergunta! Começam a compreender que não sou completamente uma banana... Realmente, me acontece racionar com exatidão, e vou dar-lhes a prova... Se me engano, detenham-me... Comecemos por você, cara Cécile... Faz algum tempo, se sente ameaçada, mas não quer se confiar à polícia. Prefere dirigir-se a uma agência, e escolhe a agência Mongougeot... Verdade?
— Verdade — disse a condessa, dominada,
— Um belo dia, dirige-se, portanto, para a rua Balagny; mas tem a impressão de ser seguida. E como é preciso que ignorem seu procedimento, para a fim de telefonar.
— Como soube? — perguntou Mongougeot, cada vez mais esmagado.
Sernine ergueu o dedinho, enfeitado com um brilhante de grande valor.
— Foi ele que me informou... Não, Emile. Estou brincando. Basta, te disse, ter uma boa cachola... Se a senhora aqui presente já tivesse encontrado a ti e a teu irmão, não teria sido necessário um sinal de reconhecimento... E se fosse da casa dela que houvesse telefonado, ninguém teria surpreendido a conversa de vocês... Ei-la, portanto, cara Cécile, em um correio... Expõe rapidamente a situação ... a quem?
— A mim — confessou Mongougeot.
— E procura um local para encontro, e pensa na baronesa. O lugar está escolhido com perfeição... Muita gente... Lá, não arrisca nada, pelo menos assim crê... Imagina o sinal de reconhecimento... Combina a hora... logo depois da representação do Châtelet... Somente, você não parou de ser espiada, seguida... Alguém se enfiou na cabina vizinha e surpreendeu a conversa...
— Você está supondo — caçoou Mongougeot. — É fácil!
— Ah — exclamou Sernine, — nunca compreenderás nada. Não estou supondo. Vejo. Não há outra explicação possível. A prova: o bando, que teme sua intervenção, quer impedir o encontro com a Senhorita de Mareuse. Dois homens a espreitam, portanto, na saída do Châtelet, enquanto alguns cúmplices, entre eles uma mulher, se queres que precise, vão para a casa da baronesa. Está claro como água! Por seu lado, cara Cécile, após o incidente do cais, você retorna para a casa às pressas. Onde encontraria a coragem para continuar?... Telefona, portanto, para a agência, a fim de explicar o que acaba de lhe acontecer. Verdade?
— Verdade!
— Mas o pobre Gaston já está a caminho da rua de Varenne. Então, você suplica a Emile que venha encontrá-la. Está com medo e também deseja lhe expor os problemas sem mais demora.
Cécile inclinou a cabeça em sinal de concordância.
— Emile — prosseguiu Sernine — rabisca, portanto, em um bloco, para o irmão: Vem me encontrar na rua Saint-James.
— Essa não! — murmurou Mongougeot, vencido.
— Como é que sei?... Foi o teu gato que me pôs a par. Mongougeot desabou sobre a cadeira.
— Está bem — sussurrou. — Me entrego. Você é o diabo!
— Estamos nos entendendo — continuou Sernine. — Vens, portanto, para cá, e imagino a conversa. Cécile explica que possui documentos que querem lhe arrancar de qualquer jeito. E, como és esperto, tens uma ideia nada má, com efeito. Se o bando que perseguia Cécile pudesse ter certeza de que os documentos haviam sido roubados, abandonaria a partida, ou, pelo menos, procuraria em outro lugar. Bastaria, para tanto, fingir um roubo diante de testemunha. A testemunha, evidentemente, era indispensável.
Sernine acendeu de novo o charuto que se apagara. Os dois outros não se mexiam mais. A demonstração que este desconhecido desenvolvia, com tanta facilidade e precisão, os enchia de pavor.
— Ah! Devo reconhecer que foi um belo trabalho... A faca no pescoço... o envelope no piano... Todo o mundo caiu, e eu em primeiro lugar. Havia, entretanto, um problema! Se a pobre da Mie houvesse desmaiado, hem?... Por sorte, ela 6 desta raça forte de camponeses a quem os bandidos de estrada queimavam os pés, antigamente, para obrigá-los a entregar suas economias.
— Mas — objetou Mongougeot — como sabe do piano, pois os jornais não falaram.
Sernine deu um sorriso gaiato de adolescente brincalhão,
— Estás louco para saber, não é, Emile? Teu amor próprio de autor recebeu um duro golpe! Vejo através das paredes, imagina... mas sim... Olha, por exemplo, te vi quando enfiaste o envelope na gaveta da escrivaninha... Vi arrancares a página do bloco... Vi quando foste para a cama... Impagável!... Escutei também o telefone que te despertou sobressaltando... E isso, meu pobre amigo, foi menos divertido... Vamos adiante.
— Você me faz pensar em alguém — disse Mongougeot.
— Em quem?... Anda!... Como se chama, esse alguém?
— Arsène Lupin.
— Um amigo de sempre — disse Sernine. — Devo-lhe muito. Mas sou apenas, infeliz, o príncipe Sernine.
Ergueu-se e cumprimentou a condessa.
— Para servi-la — completou.
Houve um silêncio. Cécile de Mareuse olhava o príncipe com reprovação.
— É para uso pessoal que procura esses documentos?
— Engano, cara Cécile. Desconheço todos esses papéis... Sei apenas uma coisa, que põem sua vida em perigo. E isso não permitirei.
— Por quê?
— Porque você é você e eu sou eu. Ela ficou vermelha e abaixou a cabeça.
— Porque com Emile — continuou Sernine — você está mal arranjada. É cheio de qualidades, este rapaz, mas somente para se ocupar com coisa de pouca monta, pequeno malfeitor ou marido enganado. Que quer que faça contra um bando organizado, que não recuará diante de nada... Então, não tenho escolha. É preciso que me ocupe de você.
— Não terei com que pagar-lhe — disse a condessa. Compreendeu que acabava de cometer uma gafe e ergueu a mão, como para conter alguma frase infeliz.
— Senhora — exclamou Sernine. — Saiba que eu mesmo me pago.... Com um sorriso, uma palavra boa, às vezes uma simples pirueta... Nada me deve. Se por acaso desejar que intervenha, telefone-me para este número... Para você, sempre estarei lá.
Retirou da carteira um cartãozinho, que lhe entregou, inclinou-se profundamente diante dela, e deu um tapinha nas costas de Mongougeot.
— Tu, Emile, te animo... Queres que teu irmão seja vingado, não é?... Então precisas de mim... E metam bem na cabeça, ambos, que os outros não descansam e já estão preparando, sem dúvida, o próximo duro golpe. Boa noite.
— Lentamente, foi apanhar o revólver e dirigiu-se para a porta. Delicioso momento. Cécile iria retê-lo?... Sim?...Não?... Lupin, não passas de um espantoso comediante. Procuras não errar a saída... Deixa-te ir embora... Que pena!
O telefone tocou. Sernine deteve-se na entrada. Cécile pegou o aparelho e imediatamente o seu rosto se descompôs.
— Mas enfim, doutor, não é possível... Quando a vi, estava calma, sossegada... Sim, o senhor fez muito bem me prevenindo primeiro. Espere!
E o que Sernine desejava realizou-se. Cécile dirigiu-se a ele, com uma expressão de tanta confiança que o comoveu.
— Minha irmã... desapareceu... Estava em uma casa de saúde...
— Sei... na rua Val-de-Grâce.
Esta afirmação não surpreendeu Cécile nem Mongougeot. Já estavam de tal modo dominados por esse homem extraordinário que sua observação lhes parecia completamente natural. Cécile disse uma palavra que pagou Sernine por todo os trabalhos.
— O que é preciso fazer?
— Diga ao doutor Moutier que já vai lá... que não tome nenhuma medida antes de tê-la visto.
Cécile transmitiu docilmente a mensagem, enquanto que Sernine refletia com rapidez. Um plano já se elaborava em sua mente. Quando Cécile desligou, estava pronto para agir e esfregava as mãos.
— Não tenha medo — exclamou. — Mas pode ver como tinha razão. Ah! Eles não perdem tempo, os bandidos! Pois foram eles, não tenha dúvida. Primeiro atacaram você. Fracassaram. Então agridem a ela. Mas aí eu intervenho.
Espontaneamente, ela estendeu-lhe as mãos. Levou-as aos lábios uma após a outra.
— Obrigado — disse.
E, mudando de tom, imperioso e familiar, virou-se para Mongougeot.
— Suponho que conservaste o distintivo? Um policial nunca se separa dele, mesmo quando pede demissão. Afirma que o perdeu.
Mongougeot retirou da carteira um pequeno disco tricolor.
— Perfeito! Voamos para a casa de saúde. Tornas-te o inspetor Lenoir, e eu sou teu ajudante... Durand... Explicaremos que a condessa de Mareuse preveniu a polícia e que estamos começando imediatamente a investigação... Depois, me arranjo. Entendido?
E, por sua vez. Mongougeot disse uma palavra encantadora. Completamente submisso, respondeu.
— Sim, chefe!
Primeiras luzes
O velho Renault de Mongougeot conduziu-os aos arrancos até a casa de saúde. Encontraram o doutor Moutier muito agitado. Caminhava de um lado para outro no locutório; tirava e recolocava o lorgnon. Precipitou-se para os récem-chegados.
— Não entendo verdadeiramente nada. Asseguro... Senhores?...
— Inspetor chefe Lenoir — disse Mongougeot. — Este é o meu ajudante, o inspetor Durand... Sou amigo da senhora e vim logo que chamou... Vejamos... Não percamos a calma... O que aconteceu exatamente?
— Não sei de nada, justamente — disse o doutor. — Se quiserem me seguir até o escritório... Ficarei mais à vontade para lhes explicar...
Foram até a peça que Sernine já visitara.
— Que problema! — gemia o doutor. — É a primeira vez em quinze anos... Minha clínica é uma verdadeira fortaleza... Se não encontramos rapidamente essa menina, os senhores veem qual será a minha situação... Sentem-se por favor... Falta uma cadeira, desculpem.
Já entrava correndo no escritório ao lado, voltava com uma cadeira, imagem vivida da confusão e da desgraça.
— Comecemos pelo começo — propôs Sernine.
— Sim, isto mesmo — disse o doutor. — Interroguem-me. Prefiro.
— A que horas termina o passeio?
— As dezessete horas, em princípio. Mas concedemos um quarto de hora suplementar às nossas internas quando o tempo está bonito, como hoje.
— E depois?
— Pois bem, as doentes tomam uma ducha... E depois é hora da refeição, que é servida nos quartos ou no refeitório. As convalescentes, os "casos leves", vão ao refeitório.
— Espere! Não vamos ligeiro demais. Simone de Mareuse tomou a ducha?
— Sim.
— Foi ao refeitório?
— Sim. Mas, mal entrou, saiu de novo para buscar um lenço. É a partir desse momento que ignoramos o que houve com ela.
— Que horas eram?
— Cerca de seis e quinze... Françoise, a enfermeira de guarda, me avisou. Fui até o quarto da Senhorita de Mareuse. Tudo estava em ordem. Mas, bem entendido, não havia ninguém. Discretamente, com a enfermeira-chefe, revistei toda a casa. Lembro-lhes, de passagem, que todas as portas dispõem de fechaduras especiais, cujas chaves estão nas mãos da Senhora Grégoire, minha enfermeira-chefe... Alguém de toda confiança... Nem sinal da pobre menina. Telefonei-lhe imediatamente, senhorita.
— Talvez tenha procurado mal — interveio Mongougeot.
Por cima do lorgnon, o doutor lançou um olhar penetrante para o policial.
— Não existe aqui nenhum lugar onde se esconder, afirmo-lhes. As paredes são nuas, os quartos são nus. Em uma clínica como esta, tudo o que se assemelhasse a um esconderijo foi eliminado: nada de armários, nada se sótãos. É por isso que nunca tivemos aborrecimentos.
— O locutório? — insistiu Mongougeot.
— É vigiado noite e dia. A porta da rua é trancada logo que o último visitante vai embora. Este desaparecimento é incompreensível... Tanto mais que a senhorita de Mareuse ia deixar-nos dentro em breve. Se não está curada, pelo menos melhorou tanto que poderíamos liberá-la sem riscos.
— O locutório não é a única saída — disse Sernine. — Penso que o senhor não faz entrar por lá as batatas ou o carvão?
— Não, naturalmente. Disponho de um pátio e uma entrada de serviço. Mas a porta para a rua e a interna ficam fechadas entre as horas de entrega.
— E quem tem as chaves?
— Firmin, nosso faz-tudo, um velho honesto que está aqui desde a fundação.
— Além dessas duas entradas, a principal e a de serviço, não há nada?
— Nada. -As janelas?
— Têm grades.
— Podemos ver?
— Mas naturalmente.
Em grupo, examinaram as janelas de despensas, rouparia, farmácia. As grades eram sólidas, embora um pouco enferrujadas.
— Entretanto, ela saiu — disse Cécile com desespero.
— Impossível! — afirmou o doutor.
— Como estava vestida? — perguntou Mongougeot.
— Como as outras internas. Usava uma camisola cinzenta bordada com suas iniciais. As roupas que deveria vestir quando fosse embora ainda estio no seu pequeno armário.
— E do lado do celeiro, o senhor olhou?
— Bem pensado! Mas é preciso uma escada para penetrar nos forros e a escada está no lugar, no térreo. O cadeado não foi tocado. Asseguro-lhes que todas as medidas de segurança foram tomadas, e bem tomadas.
— Resumamos — disse Sernine. — A Senhorita de Mareuse não está mais dentro, portanto, está fora. Impossível passar pelo locutório, nem pelas janelas. Restam o pátio e a entrada de serviço. Creio, doutor, que é o ponto fraco da sua fortaleza. Vamos certificar-nos.
Saíram de novo e pararam diante da porta que comunicava o pátio pequeno com o grande. Sernine empurrou-a violentamente, abriu-se.
— Ah! puxa! — exclamou o doutor. — Que descuido!
— O descuido não provém do seu empregado — observou Sernine.
— A fechadura está velha e não resiste mais. Estou quase certo até de que...
— Tirou do bolso uma gazua, atravessou o pátio e girou facilmente a lingueta da outra porta.
— Vejam!... A primeira chave que apareça permite abrir. Não precisam mais procurar.
— Mas onde a Senhorita de Mareuse teria apanhado uma chave?
— Talvez o velho Firmin não se lembre sempre de fechar a porta atrás de si. Vai, vem; interrompem-no enquanto está no pátio, ausenta-se um momento, não se lembra mais se deu uma volta na chave ao sair, e o resultado, o senhor o vê... Há uma brecha permanente no seu sistema de defesa.
— Sem contar — disse Mongougeot — que se pode também com facilidade vir de fora para dentro.
— Mas enfim — disse Cécile, — minha irmã foi raptada ou foi embora por própria vontade?
— Basta — suplicou o doutor. — Poupe-me... Tudo isto é tão assombroso. Não aguento mais... Se afirmam, agora, que houve uma conspiração, só me resta fechar a casa e bater em retirada.
Voltaram pensativamente ao escritório.
— De que sofria a Senhorita Mareuse, com exatidão? — indagou Sernine. — Não, não invoque o segredo profissional. Devemos estar perfeitamente informados, para saber como encaminhar as investigações.
— O inspetor tem razão — apoiou Cécile.
— Pois bem — disse o doutor um pouco reticente, — em termos simples, sofria de confusão mental com tendência à fuga. Mas seu estado melhorava consideravelmente, já lhes disse.
— Não poderia ter-lhe escondido uma violenta necessidade de fugir?
— Repito-lhes que estava prestes a nos deixar. Então, por que fugir?
Sernine voltou-se para a condessa.
— Vocês se entendiam bem?... Não leve a mal minhas palavras... Quero dizer que sua irmã talvez tivesse querido viver sozinha durante um certo tempo, para esquecer as enfermeiras, uma época controlada demais...
— Não. Estava muito contente, pelo contrário, por vir para a minha casa. E, além disso, onde iria, sem dinheiro, sem bagagem?
O argumento não admitia réplica. Aliás, Sernine continuava persuadido de que havia uma ligação entre o desaparecimento de Simone e a agressão de que Cécile fora objeto. Caso contrário, a coincidência teria sido demasiada surpreendente. Mas, se havia uma ligação, havia um cúmplice, que preparara a fuga da moça!
— O senhor pode nos mostrar o registro pessoal? — perguntou.
— Certamente... Mas deixa-me dizer-lhe que está pegando o caminho errado... Meu pessoal é escolhido a dedo.
— De qualquer modo, mostre — ordenou Mongougeot, com um tom duro que convinha maravilhosamente ao seu personagem.
O doutor Moutier estendeu o registro para Sernine, que ainda não sabia muito bem o que procurava, Mas percebeu imediatamente que sua intuição não o enganara, pois um nome atraiu seu olhar: Laslo Szekely.
— Quem é esse Laslo Szekely?
— Meu assistente. Um homem absolutamente notável.
— Croata?
— Húngaro. Fez os estudos de medicina em Viena. Em seguida, veio para a França, a fim de estudar nossos métodos. Não concorda de modo nenhum com as ideias de Charcot e...
Sernine não ouvia mais. Lembrava-se de estranho sotaque dos homens que o havia atacado, na casa da condessa Grége. Era isso: húngaros. E agora, esse Laslo Szekely, que trabalhava justamente na casa de saúde em que Simone estava de tratamento!
— Faz muito tempo, doutor, que Laslo Szekely é seu assistente?
— Não. Apenas seis meses. Foi-me recomendado por um excelente confrade, o doutor Ménardin, de Lyon, que foi seu chefe durante três anos. Não está pensando que...
— Não estou pensando em nada — disse Sernine. — Estou me informando.
Estudou os outros nomes da lista pró-forma. Estava certo de ter finalmente um indício sério. Devolveu o registro ao doutor.
— Agradeço-lhe. Vamos fazer o necessário, com muita discrição. Por seu lado, avise ao pessoal que a Senhorita de Mareuse foi encontrada, e que não há mais motivo para se preocupar. Temos todo o interesse em abafar o assunto, não é?
— Estou inteiramente de acordo — aprovou o doutor, que parecia aliviado de um grande peso.
— É inútil que a doente lhe seja devolvida, já que, de todo o modo, iria morar na casa da irmã. É para lá que a levaremos, logo que a tivermos recuperado. Para a boa escrituração dos livros, aponte que ela saiu na data de hoje.
— Mas os senhores se manterão a par?
— Lógico.
— Sou-lhes muito grato e acreditem que... Sernine deteve-o com um gesto e ergueu-se.
— Uma última pergunta. Quanto tempo a Senhorita de Mareuse permaneceu aqui?
— Um pouco mais de dois anos.
Sernine sorriu, adotou o ar mais tranquilizante possível.
— É a minha vez de dar-lhe uma receita: um leve calmante antes de deitar, e, além disso, proibição de refletir sobre este desaparecimento. Aplique o método do seu confrade, o doutor Coué: tudo vai bem... tudo vai muito bem... tudo vai melhorar!
Inclinou-se. 0 doutor Moutier saudou-os e os reconduziu com muitas gentilezas.
— Bem — concluiu Sernine, na calçada. — Se querem minha opinião, o melhor é ir jantar.
— Mas... minha irmã? — protestou Cécile.
— Nada tem a temer de momento, acredite-me.
— Pensa que foi raptada?
— Estou certo. Ignoro como se arranjaram, mas é um detalhe sem importância. Meu caro Emile, vamos para este pequeno restaurante. Temos todos necessidade de nos refazer.
A refeição foi triste. 0 desaparecimento de Simone de Mareuse os inquietava.
— Então, suspeita desse Szekely? — disse Mongougeot.
— E tenho motivos. Os homens que me levaram para o Vésinet falavam com um sotaque estrangeiro que me pareceu ser eslavo. Szekely é húngaro... A aproximação impõe-se: o bando é húngaro. Resta saber por que húngaros atacam uma moça em tratamento em uma casa de saúde...
— Não compreendo nada — afirmou Cécile.
— E, entretanto — observou Sernine, — você é que é visada. Sua irmã vai servir-lhes de moeda de troca. Eles conservam uma garantia. Você detém outra.
— Eu?
— Mas sim. Os documentos! Esses papéis de família de que a imprensa falou. Dá-se a quem dá. Você os entrega e soltam sua irmã. Está claro. Portanto, faço novamente a pergunta: o que contêm esses papéis que possa interessar aos húngaros de tal maneira?
Cécile de Mareuse ficou vermelha e empurrou o prato com impaciência.
— Nada... E não conheço esse Szekely. Nunca o vi.
— Existe talvez um segredo na vida de sua irmã?
— Nunca teve segredos para mim.
— Admitamos, entretanto, que ela lhe tenha escondido alguma coisa... Em um momento de crise, fala, diante desse médico... É possível, não é? Eis Szekely de posse de uma informação que o perturba... Pode adivinhar a continuação. _ A hipótese é absurda.
— Talvez. Entretanto, tenho a impressão de que o problema está colocado corretamente. Vou ser bem franco, cara Cécile... Você ainda está me escondendo muitas coisas. Não ouças, Emile... Olha, vai beber um suco, no balcão... Saboreia-o bem devagarzinho.
Mongougeot afastou-se resmungando. Sernine pôs a mão na de Cécile.
— Você desconfia de mim... Pensa talvez que estou de cambalacho com eles. Esse senhor que surge na hora exata, que é demasiado eficiente para não ser um pouco inquietante... e que, agora, tenta arrancar-lhe confidências... Oh! ponho-me no seu lugar.
— Não — protestou debilmente Cécile. — Não é isso.
— Então, vou apresentar-lhe os fatos de outra maneira... Este mesmo senhor, que tem tanta vontade de se ocupar com o que não lhe diz respeito... que esse imbecil do Mongougeot comparou com Arsène Lupin... você se pergunta: e se fosse verdade? Se ele agisse para me roubar o segredo e vendê-lo aos outros...
Inclinava-se para Cécile. Ela via, bem perto do seu, esse rosto enérgico que expressava de repente tanta doçura, franqueza, audácia. Sentia sua resistência diminuir.
— Um homem como eu — murmurou Sernine, — é capaz de obedecer a outros motivos que não o interesse. Se encontra uma mulher sem apoio e ameaçada por todos os lados, bela e infeliz ao mesmo tempo, afirmo que não tem o direito de não intervir, com todos os seus recursos... que tenho a franqueza de crer imensos. Quando estiver persuadida, falará... Enquanto esperamos, vamos nos ocupar desse Szekely:
Disse de cor:
— Szekely, Laslo, nascido em 8 de junho de 1872 em Budapeste... Domiciliado na avenida de Messine, número 18, em Paris, VIII...
E como ela o olhasse com assombro, caiu na risada.
— Não sou mágico, você sabe... Mas tenho memória excelente. Estas informações, tirei-as do arquivo do doutor Moutier.
Ergueu o braço e estalou os dedos. Mongougeot voltou a sentar-se.
— Emile, decidimos nosso plano de batalha. Vais te ocupar do doutor Szekely. Mora na avenida de Messine, número 18... Vamos, não tenhas um chilique... Vais me vigiá-lo, e de perto. Atenta que, amanhã, vai retomar tranquilamente o caminho da rua Saint-Jacques. Não cometerá o erro de desaparecer tão ligeiro. Fará seu trabalho como sempre. O que me interessa é o emprego de seu tempo nas horas livres. Contamos contigo.
— É fácil!
— Quanto a mim, deixo Paris.
— Oh não! — exclamou Cécile. Sernine reprimiu um sorriso de orgulho.
— Minha ausência será curta. Prometo-lhe. A partir de amanhã, comunicarei a Emile o endereço onde poderá me encontrar. Necessito informações... que ainda me são recusadas.
A palavra produzia efeito. Cécile hesitou, abriu a boca, se conteve, baixou a cabeça. Vamos! Ela não diria nada. Ainda não estava suficientemente conquistada.
— Emile, leva de volta a nossa amiga... E abre o olho... Garçom, por favor, um guia de turismo...
O príncipe Sernine conhecia bem Lyon. Todos se lembram, sem dúvida, do caso Lemercier que manteve em suspenso a opinião pública em 19... Ninguém esqueceu o modo elegante com que Arsène Lupin resolveu o enigma. Desde essa época, quando, pelo menos, sua vida aventurosa lhe dava uma folga, não perdia nenhuma ocasião de parar nessa cidade rica e secreta, de que amava as longínquas confusões, a fina melancolia e o desumano encanto. Desceu a praça Bellecour, no Hotel du Rhin, casa rica onde os clientes eram amigos, e, bengala na mão, charuto nos lábios, foi passeando até o Nouvelliste. Lá, pediu para consultar a coleção de 191C. Não precisou procurar muito. Na data de 17 de março, encontrou o artigo, entre as notícias locais.
Drama no Castelo de Gures Um drama espantoso emocionou, na noite passada, a encantadora e tranquila cidade de Pérouges. A Senhorita Simone de Mareuse, que mora com a irmã no castelo de Gures, na saída da cidade, tentou pôr fim à vida dando um tiro de revólver na cabeça. O doutor Jean Lernerlin, cuja dedicação incansável nunca falha, acorreu de imediato à sua cabeceira e prestou-lhe os primeiros cuidados. Diante da gravidade do ferimento, teve de fazer transportar logo em seguida a desesperada para o Hospital da Cruz Vermelha, onde observa-se um silêncio inquietante. No castelo, a mesma discrição. Tudo o que pudemos saber, foi que se ignorava os motivos que inspiraram o gesto fatal da senhorita de Mareuse. Essa tentativa de suicídio mergulhou na maior consternação os habitantes de Pérouges, que conhecem todos a inesgotável caridade da infortunada jovem. Fazemo-nos seus intérpretes formulando votos de pronto restabelecimento para a enferma e associando-nos à dor da Senhorita Cécile de Mareuse, que passa por uma provação tão cruel.
"Diabos! — pensou Sernine. — Um tiro de revólver! Não é assim, geralmente, que as moças se suicidam... A prova: é que falhou. Já estava louca. Traumatismo cerebral... casa de saúde... Céus! Está claro! Mas o que esta horda de húngaros tem a ver com isso?"
Para maior segurança, foi consultar as coleções do Salut Public e do Progrès. Pura perda de tempo. Observou, entretanto, um detalhe curioso. Esses jornais, nos dias subsequentes, não voltaram mais ao drama, como se houvessem procurado abafar o caso. Tal silêncio poderia ser explicado por vários motivos, evidentemente... A honradez da família, em primeiro lugar... a piedade de Simone de Mareuse, já que se louvava "sua inesgotável caridade"... O escândalo deveria ter sido espantoso... e, além disso, teria havido talvez algum namorico misterioso ou, antes, alguma paixão secreta, devoradora, abafada... como ocorrem na província, às escondidas da opinião pública... Certamente era isso o que Cécile, cheia de preconceitos, não queria revelar.
Estes primeiros passos haviam aumentado ainda mais a curiosidade de Sernine. Tomou um trenzinho local, que o cobriu de fuligem e o • levou, a duras sacudidas, até Pérouges, onde descobriu, não longe da encantadora peça do Tilleul, ao fundo de uma rua sinuosa, ladeada por velhas casas, um hotel que o encantou pela arquitetura antiga, as janelas em ogiva e as velhas vigas de carvalho cobertas de pátina. Registrou-se com o nome de Loys Borel, pintor e, na manhã seguinte, foi bater à porta do doutor Jean Lemerlin que, infelizmente, estava ausente até a noite. Vá lá! Sernine começaria, portanto, pelo castelo.
Castelo era modo dizer, como percebeu na primeira olhada. Era mais uma casa senhorial, grande, mas sem estilo, apesar da torrezinha que a defendia do lado oeste. Uma grande alameda de castanheiros conduzia até ela. A propriedade estava cercada por altos muros estragados, com o topo coberto de cacos de garrafa. Seria um efeito da época? O castelo de Gures dava a impressão de tristeza e abandono.
Um escrito pendurado no portão indicou a Sernine que estava à venda. Falar com o Mestre Bertholet, escrivão, em Pérouges.
Bom pretexto! Sernine tocou e um sino ressoou em algum lugar, lugubremente. Um velho, que usava um avental de jardineiro e segurava um tesoura de podar, veio abrir. Saiu de um pavilhão, à direita do portão. Sua mulher, na soleira da porta, observava com desagrado o visitante.
— Poderia dar uma olhada? Sou um amigo da condessa de Mareuse.
O rosto do velho se iluminou. Virou-se para a mulher e gritou:
— 0 senhor conhece as senhorinhas.
Era o "Abre-te, Sésamo". Trataram Sernine muito bem. Receberam-no na sala de jantar do pavilhão, depois de ter trancado um cachorro, que rosnava e gemia ao mesmo tempo e arranhava com fúria a porta da cozinha.
— É o nosso velho Pollux — disse o bom homem. — A pobre senhorinha um dia o recolheu. Estava perdido. Quase morreu quando houve o acontecimento... Não comia mais... 0 senhor não acreditaria. Sofreu tanto quanto nós... E como é que ela vai?
— Muito melhor. Vai deixar a casa de saúde. Está praticamente curada.
— Tanto melhor, meu Deus, tanto melhor... Léonie, traz, portanto, a tua preciosidade, vamos brindar à saúde da senhorinha Simone. . uma menina tão boa! 0 que poderá ter passado pela sua cabeça? Dizer que a gente nunca saberá... Parecia tão contente de viver! Gostaríamos tanto de revê-la... Mas nunca vai voltar, não é? O castelo lhe traria recordações muito más.
— Depende — disse Sernine. — Se eu o adquirisse, certamente convidaria Simone e a irmã... O médico afirma que Simone não deve mais ter medo do passado... Mas gostaria de ver, antes de comprar...
— À sua saúde, senhor...?
— Borel... Loys Borel.
— Eu sou Fajon... Lucien... Classe 66... Puxa, a gente já não é jovem. Não é, Léonie?... Mas morreria contente se visse a pobre senhorinha curada... Venha... Vou mostrar-lhe. A gente cuida como se o castelo fosse ser habitado amanhã, mas céus, isso está se estragando... Há árvores demais. A umidade rói tudo. Seria preciso gastar muito para pôr tudo em bom estado. O muro, olhe, ainda parece sólido, do lado da estrada, mas está meio desmoronado no fundo do parque. Tudo está se acabando. Um castelo é como um animal. Precisa de dono... Infelizmente, os compradores não se apressam... Muito caro! Entretanto, outro dia, pensei que o negócio estava fechado; faz uns quinze dias. Dois tipos prussianos bisbilhotaram tudo. Até tiraram fotografias. E como falavam entre si! Ah, lhe juro que não fui amável. Estava no exército do Loire, senhor. Se voltarem, recebo a tiros de fuzil.
Curioso, Sernine escutava a tagarelice do velho criado, que caminhava a passos curtos e rápidos, ao seu lado, com uma mão apoiada às costas para diminuir o peso dos rins.
— Esses homens, como eram?
— Havia um que era muito grande, e o outro era baixote, robusto. E uns bigodões de dar medo... Prussianos, acho, ou talvez cossacos. Não era gente boa!... Venha. Vou na frente para abrir as janelas.
O jardineiro não havia mentido. A linda residência cheirava a mofo, à decrepitude. As tapeçarias se descolavam. Havia tábuas do chão que se dobravam rangendo. Mas ninguém encontraria sinal de poeira. Os móveis estavam envernizados. Os pêndulos andavam. Uma fogueira estava preparada na sala grande. 0 velho acendeu-a.
— Em lembrança da menina — explicou. — Ela gostava tanto de se aquecer, nesta poltrona. Até no verão!
A mobília não tinha quase valor, mas formava um conjunto harmonioso. A lareira antiga era linda, no estilo Renascença. Nela se poderia fazer queimar um tronco de árvore. Ao lado, ficava uma armadura cuja manopla segurava um atiçador e pinças compridas.
— Está vendo o Gontran — disse o bom homem. — É assim que a menina chamava. Ele me dá bastante trabalho. É preciso lustrá-lo cada dois dias se não se quer que enferruje... 0 pai dessas senhorinhas tinha toda uma coleção, que foi vendida, quando morreu. Menos Gontran, não sei por quê...
Sernine passeava pela imensa peça. Imaginava Cécile costurando junto da irmã, o lento desfilar das horas, essa existência confinada e sem alegria, a agitação subterrânea das paixões... Havia drama, entre essas paredes, à custa de silêncio, sombra e solidão. Sinistro!...
— Deseja ver a biblioteca e o escritório, senhor Borel? Tem o telefone.
— Não, não. Adivinho. E no alto, quantos quartos?
— Cinco e dois quartos de vestir. E ainda as águas-furtadas.
— A torre?
— Está vazia. A escada não é mais muito segura.
— Dependências?
— Sim. Uma grande lavanderia, um celeiro e uma estrebaria para o cavalo e a carruagem. Está sempre lá, o bom Papillon. Aborrece-se. Sou obrigado a levá-lo a passear. Vamos até a cidade fazer compras.
Sernine deu uma última olhada ao redor. Em que podia consistir o segredo? Esses estrangeiros — certamente os húngaros — que haviam vindo visitar, o que procuravam?
— Vou pensar — disse. — E se o Mestre Bertholet não for muito ganancioso...
Encontrou um escrivão muito obsequioso. Mestre Bertholet comprara o cartório alguns meses antes. Mal conhecia a história das duas moças e de nada serviu ao príncipe. Sabia unicamente que o castelo fora posto à venda dois anos antes, depois do que chamava, abaixando a voz: o acidente. Quanto ao preço, poder-se-ia sempre chegar a um acordo, prever, se fosse o caso, vários pagamentos. Sernine não se comprometeu, mas afirmou que o assunto o interessava e se consentissem em dar-lhe uma opção... Mestre Bertholet estava disposto a todas as concessões. Os dois homens se separaram muito satisfeitos um com o outro.
Uma hora mais tarde, Sernine entrava no gabinete do doutor Le-Merlin. Outra vez um velho. Sernine se sentia esmagado por um passado sufocante. Apresentou-se como um amigo das senhorinhas de Mareuse. Estas, sabendo que vinha visitar o castelo, lhe haviam pedido para cumprimentar o bom doutor e dar-lhe notícias suas.
— A Senhorinha Simone está curada, ou quase.
— Me alegro — exclamou o doutor. — Pensava que o caso fosse sem esperanças.
— O senhor foi de uma dedicação!
— Oh! não foi nada. Simone de Mareuse é uma pessoa tão encantadora! A irmã também... mas é menos espontânea, enquanto que Simone... Era uma alegria para os olhos! Quando o pai Fajon me telefonou, às sete da manhã, acho que perdi um pouco a cabeça... Corri ao castelo. Estava estendida na cama, o rosto coberto de sangue. A irmã, os empregados, todos pensavam que estivesse morta. 0 revólver estava no chão, em cima do tapete.
— Que tipo de revólver?
— Pequeno... como a coronha de nácar... parecia mais um brinquedo... A bala, como soube mais tarde, seguira um trajeto bastante curioso. Não penetrara na cabeça, mas fraturara de passagem o parietal direito. Sem dúvida, a pobre menina não soubera segurar a arma. Falhara. Não perdi um segundo, veja bem. Felizmente, há telefone no castelo. Pude conseguir uma ambulância com muita rapidez e ela foi operada em um tempo muito curto.
— Mas então... a loucura?
— Conforme penso, não foi provocada pelo ferimento, mas por um choque psíquico, o choque que foi a origem da sua decisão fatal... O que se passou? Ninguém sabe nada. Somente ela teria podido nos informar, mas quando voltou a si... é terrível... havia esquecido tudo... Amnésia total. . Éramos para ela uns estranhos.
— Mas, cá para nós, doutor... nunca houve, na família, alguém... Quero dizer: Não é um caso de hereditariedade?
— Não, não penso. Teria havido sinais precursores. É também a opinião do professor Ménardin, que tratou dela no hospital de Bron...
Ménardin! 0 nome produziu um clique na mente de Sernine. Reviu-se no gabinete do doutor Moutier.
— Conhece um jovem médico que foi assistente do professor Ménardin... Laslo Szekely...
— Perfeitamente. Szekely... Encontrei-o uma ou duas vezes... Lembro-me dele porque afirmava que a hipnose pode melhorar certos doentes...
Sernine continha a custo a excitação. Finalmente, as trevas se dissipavam pouco a pouco.
— O senhor não sabe se submeteu Simone de Mareuse ao tratamento?
— Ignoro. Em todo o caso, fracassou...
"Mas não, não fracassou — refletiu Sernine, com toda a rapidez. — Conseguiu, ao contrário, arrancar-lhe certas confidências de um interesse imenso. É por isso que deu um jeito de entrar para o serviço do doutor Moutier, quando Cécile fez transportar a irmã para Paris. Céus... Estou com a solução... E continuou a ocupar-se dela, na rua Saint-Jacques... E raptou-a, no momento em que iria embora quase curada, porque ela ainda tinha coisas a lhe revelar... Não sei o quê, mas descobrirei... Coisas que deveria ter contado a Cécile... Daí a agressão na saída do Châtelet... Coisas tão importantes que Gaston Mongougeot foi abatido sem piedade pelos húngaros, simplesmente porque se interpusera no caminho. Ah! vou descobrir... O problema é bem simples, em suma: Simone, essa moça que vivia em um canto perdido, possui um segredo que interessa pessoas que habitam a milhares de quilômetros... Nada mais natural!... A infância da arte!..."
— Desculpe, doutor; o senhor dizia?
— Dizia que Simone não se lembrava nem de que tentara se matar. Mas é jovem... A natureza opera às vezes curas que a medicina, em seu estado atual, julga impossíveis. Na minha opinião, sempre permanecerá um oco na memória da pobre menina, mesmo se recuperou a consciência da sua identidade... Quando tornar a ver essas senhorinhas, transmita-lhes meus respeitos. Diga-lhes o quanto ficarei feliz em revê-las.
Sernine despediu-se e voltou ao hotel, de onde telefonou para Mongougeot.
— Teve sorte de me encontrar — disse Mongougeot, sempre altivo. — Esse miserável do Szekely me faz correr... Estou chegando neste momento.
— O quê?... Não continuou o trabalho na casa de saúde?
— Sim, mas lá pelas cinco horas, voou para Meudon. Ontem também foi lá. Vai a uma linda propriedade, junto dos bosques... Um grande parque... Uma espécie de solar... Rico... Informei-me junto das pessoas da região... Sem grande resultado... Sabe-se somente que a propriedade foi alugada por um ano.
— E então? Isso não te impressiona?
— O quê? O que me deve impressionar?
— Certamente é ali que esconderam Simone. Salta à vista. E o golpe estava preparado há muito tempo. Bem. Já chego. Tenho um trem noturno. Nada de novo do lado de Cécile?
— Não.
— Bem entendido, a propriedade foi alugada mobiliada e o aluguel pago antecipadamente?
— Por que: bem entendido?
— Porque assim, Szekely poderá levantar âncoras quando quiser.
— Talvez. Em todo o caso, avistaram um carro de mudança que entrava no parque... Szekely provavelmente trouxe mobília...
— Emile, és de matar... Chega, desta vez? Vendeste todo o teu peixe?... Bem. Encontro-te amanhã de manhã, na tua casa, às dez horas.
— Mais uma coisa, chefe... Há um cachorro!
Sernine levantou os ombros e desligou. Duas horas mais tarde, estava dormindo, sozinho no seu compartimento de primeira classe.
O paiol de pólvora
O velho Renault estava estacionado, todas as luzes apagadas, não longe do solar de que Mongougeot havia falado. O local estava deserto. A luz surgia atrás das árvores desnudas, e iluminava vagamente a fachada da casa que, com suas torrezinhas, não deixava de parecer-se um pouco com o castelo de Gures. Mongougeot acendeu um fósforo e olhou a hora.
— Está atrasado — murmurou. — Logo serão sete horas. Gelam, lá dentro.
Sernine, envolvido em um grande capote de gola de pele, conservava-se em silêncio. Pensava em Cécile. Uma irmã anormal! Inimigos por todos os lados! Nenhuma alegria a esperar da vida. Como tinha necessidade de ser cercada, protegida. Como seria bom devolver-lhe a paz!
— Lá está ele — cochichou Mongougeot.
Uma grande limusine estava parando diante o portão. Um homem desceu, pesado em sua peliça de pelos compridos. Quase em seguida, um sino tocou e Sernine estremeceu. Esse som queixoso, lúgubre... Já o havia escutado em algum lugar... No castelo de Gures. Teve raiva de si mesmo pelo nervosismo. Todos os sinos ressoam do mesmo modo, assim como todas essas casas de fidalgos provincianos têm um ar familiar.
Uma sombra moveu-se atrás do portão, que se abriu, e o automóvel enfiou-se pela alameda. Sernine segui-o com os olhos. Parou diante da escadaria e a silhueta de Szekely subiu os degraus.
— Saber quantos são, lá dentro — resmungou Sernine. — Deverias haver-te informado. Se é o esconderijo do bando, vamos ter muito trabalho.
— Eles não têm nenhum motivo para desconfiar — observou Mongougeot.
— É verdade. Pois bem, vamos!
— Descobri um local onde o muro se presta para a escalada. Venha. É depois da esquina.
— Tens clorofórmio, para o cachorro?
— Tenho tudo o que é preciso.
Abrigaram-se na sombra do muro, seguindo um caminho estreito que rodeava a propriedade. Do lado do campo, o muro se abaixava. O reboco caíra em pedaços, descobrindo as pedras de alvenaria cujas asperezas poderiam servir de degraus. Ajudando-se, passaram facilmente para o outro lado, ficaram à escuta.
— É grande, esse cachorro? — perguntou Sernine.
— Médio. É um vira-lata como tantos. Late muito, mas não deve ser muito perigoso.
Um depois do outro, muito devagar, dirigiram-se para a fachada, onde uma janela estava iluminada.
— Espera-me lá — murmurou Sernine. — Em caso de perigo, intervéns, e corremos diretamente para a alameda.
Aproximou-se da escadaria, com as costas encurvadas, alcançou a janela e ergueu-se com precaução. Pensou que estivesse sonhando. Tinha diante dos olhos a sala do castelo de Gures. Uma fogueirona ardia alegremente na grande chaminé. Uma armadura aparecia bem perto do fogo. A manopla segurava atiçador e pinças. Duas poltronas estavam colocadas diante da lareira. E Sernine reconhecia também a mesa rústica comprida, as cadeiras de costas altas... Santo Deus!... Era uma encenação. Olhando mais de perto, a chaminé era menor que a de Gures; a peça era mais estreita. Quanto ao mobiliário, nada se parece tanto com uma mesa rústica como outras mesas rústicas. Mas o cenário estava reconstituído com habilidade. Queriam que Simone acreditasse que havia voltado para o castelo. Daí a escolha da casa cercada por um parque que lembrava o outro... e a alameda... e certamente o cão... Isso provava o quê? Primeiro, que esse Szekely era diabolicamente forte e que a coisa valia a pena. Segundo, que a pobre Simone provavelmente não estava tão curada como o doutor Moutier afirmara.
Mais latidos ressoaram na casa. A porta da sala foi empurrada e um homem de uns quarenta anos, pesadão, cabelos cortados à escovinha, maxilar forte, olhos vivos atrás dos óculos de aro metálico, entrou na peça. Ficou de lado para deixar passar Simone de Mareuse, que ria afastando um cachorro, cujas carícias arriscavam-se a sujar seu traje cinzento.
— Chega, Pollux — disse. — Sai! Vai-te embora!
Ria. Pensava estar lidando com Pollux. Caíra na armadilha. "Patife infame — pensava Sernine. — Como teria prazer em ajustar contas com ele!"
Szekely, tomando Simone pelo braço, a convidava para sentar-se diante do fogo. Aproveitando o momento em que lhe deram as costas, Sernine afastou levemente a janela, que não fora fechada, sem dúvida para garantir o escoamento da fumaça. Szekely sacudiu uma campainha e, pouco depois, um novo personagem apareceu, com uma bandeja que sustentava uma garrafa e dois cálices: a mulher morena. A que enganara Sernine tão bem, na casa da baronesa.
— Obrigada, Sônia — disse Szekely. — Mas não tem mais vinho do Porto. Amanhã, você irá comprar em Pérouges.
Aquilo se tornava alucinante. E Simone continuava a sorrir, aceitava o cálice que Szekely lhe dava, oferecia a outra mão ao fogo, calma, feliz. Sônia colocava uma acha de lenha na lareira, retirava-se. A cena era desagradável, familiar. Szekely deveria ter explicado a Simone que comprara o castelo de Gures e que ela era sua convidada, que os Fajon haviam abandonado a região, que Cécile iria vir... Simone provavelmente fora drogada, em Paris, trazida para cá de carro. Acordara-se no seu quarto. Sernine estava certo de que havia, no primeiro andar, um quarto idêntico ao que Simone ocupava no castelo. Eis porque os estrangeiros, os "prussianos" de que falara o velho criado, haviam tirado fotografias. Szekely previa tudo. Tentava, manifestamente, avivar as lembranças da doente, recolocando-a em um ambiente que conhecia bem. Havia coisas que ele ainda não sabia. Simone só lhe fizera revelações parciais, desconexas, e ele agora arriscava tudo.
— Acertei — disse Sernine para si mesmo. — E já que ainda se tem de procurar, tenho chance. E chegarei primeiro, porque sou eu e ele só é ele! A partida está empatada!
Procurou ouvir o que Szekely murmurava ao ouvido da vítima. O húngaro se inclinara para Simone e se encontrava tão perto dela que Sernine cerrou os punhos. "Se ele a beijar, eu o mato!" A ideia de que Szekely pudesse estar enamorado de Simone nunca lhe passara pela cabeça. E eis que ela o deixava em uma perturbação sem nome. Mas por que não? Não era o meio mais eficaz de vencer as últimas resistências? Foi nesse precioso instante que Sernine, sem refletir mais, resolveu libertar a jovem imediatamente. Como? Não o sabia. Mas sentia que era preciso agir ligeiro, que não aguentaria mais muito tempo a solicitude ignóbil de Szekely. Saltar na sala, revólver em punho, não dava nem para pensar. Todo o bando era capaz de surgir. Um ruído de rodas lhe deu o alarme. Voltou precipitadamente para o arbusto onde Mongougeot o esperava.
— O que viu? — cochichou Mongougeot.
— Psiu... Depois te conto... Estão chegando.
Mas o que viram os deixou assombrado. Um homem conduzia pela rédea um cavalo atrelado a uma pequena carruagem com as luzes acesas.
— Hop! Papillon — exclamou. — Devagar, meu amigo!
E o que era mais divertido, mas absurdamente cômico, era o sotaque desse palafreneiro de ocasião.
— Está rindo, chefe. Não é hora.
— Não. Tens razão. Mas estes selvagens são impagáveis.
O homem sumiu-se dentro da casa e, um pouco depois, Simone desceu a escadaria, acompanhada por Sônia e Szekely.
— Não vá muito longe — recomendou Sônia.
— Só uma volta para tomar ar — disse Szekely. — Reconhece o velho Papillon, Simone?.. Ele a reconheceu. Olhe como mexe as orelhas!
— Rápido — sussurrou Sernine. — Volta para o carro e põe o motor a funcionar. É agora que é preciso agir.
Szekely tomara as rédeas. Sônia acabava de colocar um xale de lã em volta do pescoço de Simone.
— Hora estranha para um passeio de carro — pensou Sernine. — Mas Simone devia ter o hábito de sair à noite. Szekely teve muito tempo para se informar. Não deixa nada ao acaso. Erra muito, pois eu sou o acaso. A nós dois, artista!
Logo que a carruagem se pôs a caminho, Sernine, protegido, correu para a entrada da propriedade e se escondeu atrás do tronco de um castanheiro. Escutou, bem próximo, o rolar da carruagem e reuniu forças. Szekely deteve o cavalo e desceu para abrir o portão. Em seguida, os acontecimentos ocorreram tão rapidamente que Simone nem teve tempo de dar um grito. Golpeado no plexo solar, Szekely desabou como um corpo informe. Já Sernine pegava Simone nos braços, ergui-a. Meu Deus, como era leve!... Apertando-a contra si, saltava por cima do corpo do húngaro desmaiado e caminhava na dianteira de Emile, que corria ao seu encontro. A moça não se debateu. Estava demasiadamente apavorada.
— Não tenha medo — disse Sernine. — Vou levá-la para perto de Cécile... Foi ela que me mandou... Sou um amigo.
Mongougeot abriu a portinhola e Sernine instalou Simone no banco, sentou-se ao seu lado, enquanto o policial acelerava. 'E imediatamente o milagre se produziu. Simone, com seu instinto de animal ferido, sentiu que estava em segurança. Escutava, com uma confiança crescente, a voz persuasiva do príncipe.
— Conheço bem o doutor Szekely — dizia Sernine. — É um homem mau. Afirma que você só pode se curar completamente junto dele. Mas mente. A prova: é que você não está em Pérouges. Olhe... Vê, lá longe, as luzes de Paris. Sou eu quem vai levá-la para Pérouges. Nós nos instalaremos no castelo, Cécile, você, esse senhor que está dirigindo, e eu... E lá, voltará a ser a pequena Simone de outrora... Seu velho jardineiro, se lembra, o pai Fajon, a espera... E Pollux também. O verdadeiro Pollux... E o verdadeiro Papillon.., Sim, apoie-se no meu ombro... Está livre, agora... Não voltará nunca mais para aquela casa horrível onde foi tratada. Sou eu quem vai tratá-la... Vai ver como me ocuparei bem de você... Sei que não está doente. Só está cansada, muito cansada... porque lhe fizeram perguntas demais e tem sempre dor de cabeça... Sua pobre cabeça... Devagarzinho, Emile... Está dormindo.
Mongougeot diminuiu a marcha. Voltou-se um pouco para Sernine.
— Tem jeito, chefe. Pensava que ia arranhá-lo.
— Ora! — disse Sernine. — As moças são como os gatos, e sabes que me arranjo bastante bem com os gatos.
Mongougeot ficou sério.
— A propósito de gatos — continuou Sernine, — vai ser preciso que confies o teu a alguém, porque vamos todos nos instalar no castelo de Gures.
— Pergunto-me — disse Mongougeot, — por que não o compraram?
— Por prudência! Tu os imaginas, nas lojas de Pérouges, fazendo compras, com esse sotaque de visigodos! O pessoal é desconfiado, nessa região. Permaneceremos nos bastidores. E estaremos de guarda. Desta vez, te juro que daremos tranquilidade a essa pobre menina!
Uma hora mais tarde, Simone estava descansando, em um quarto da mansão de Neuílly, e Sernine contara a visita a Pérouges e a expedição à casa de Meudon.
— Você nos salvou — disse Cécile. — Como lhe poderei mostrar meu reconhecimento?
— Nada mais fácil, querida amiga... Emile, o teu cachimbo cheira mal. Devias aderir ao charuto.
Estavam reunidos no salão em que Sernine havia surpreendido Mongougeot erguendo a faca para Cécile. Mas tantos acontecimentos ocorreram depois que haviam esquecido a cena. Agora eram aliados, e sabiam todos os três que a verdadeira batalha ainda não estava iniciada.
— Nada mais fácil — continuou Sernine. — Adquiri o direito, acho, de saber o segredo de sua irmã. Até a presente, lutei às cegas; agi arbitrariamente. Mas esta situação não pode continuar. Por que a perseguem? Não existem húngaros na sua família?
— Não — disse Cécile. — Mas há um sérvio.
— Ora essa!
— Há... o arquiduque Michel.
— O quê?... O jovem arquiduque?... O que vi no Châtelet?
— Sim.
Mongougeot não ousava mais esvaziar o cachimbo e Sernine nem pensava em tocar na xícara de café.
— Vamos — murmurou enfim, — não vai me dizer que o arquiduque..."
— Eu me expliquei mal... desculpe... o arquiduque não é nada nosso certamente... Oh! é uma longa história... uma triste história! ...
— Espere! — exclamou Sernine. — Acho que compreendi... o arquiduque e sua irmã?...
Cécile sorriu melancolicamente.
— Acertou.
Sernine afundou na poltrona, jogou a cabeça contra o espaldar e fechou os olhos.
— Deixe que me acostume — disse. — É extraordinário... Parece-me que estou percebendo a verdade... E, entretanto, tudo é tão confuso... Esses húngaros, o que têm a ver com isso?... Não costumam se entender muito bem com os sérvios.
— Justamente!
— Bem. Penso que é melhor que a escutemos... Mas Emile já está a par, sem dúvida.
— Não. Não de todo... Há coisas que não me atrevi a lhe revelar. Mas devo-lhes a verdade, aos dois... Pois bem, tudo começou três anos atrás. O arquiduque era então aluno de Saint-Cyr e nos conhecemos no baile do Elysée. Mas primeiro é preciso que eu diga quem é Michel... Um rapaz impulsivo, até violento, e que não aguenta muito que se discutam seus desejos... encantador também... e tão sedutor!
Sonhou por uns momentos, depois pareceu acordar.
— Não podem me ajudar um pouco? — murmurou.
— Apaixonou-se por sua irmã? — disse Sernine. E como Cécile abaixasse a cabeça, acrescentou:
— As coisas foram mais longe?
— Não, é lógico. Mas os dois estavam loucos. Estavam prontos para enfrentar a opinião pública. Michel jurou a Simone que se casaria com ela, que nada o impediria, que pouco lhe importavam necessidades políticas... que não via, além disso, em que um tal casamento poderia contrariar sua família... E era sincero. Simone estava com a cabeça completamente virada... Já se via princesa... Quanto a mim, sabia muito bem as dificuldades que iriam surgir. Tínhamos discussões frequentes. Meu Deus, que vida!
— Eles se encontravam seguidamente?
— Michel volta e meia estava livre. Em Saint-Cyr, você vê bem que tinham a maior consideração para com ele. Oh! fiz tudo o que pude para separá-los. Finalmente, resolvi levar Simone para Gures. Era a mais velha. Sempre me havia ocupado dela. Tinha um pouco de influência.
— Obedeceu?
— Não. Quis resistir. Mas não tardou a se dar conta que lhe era impossível ficar sozinha em Paris... Era menor de idade. O que nossos amigos teriam pensado?... Simone, apesar de sua cegueira, ainda se preocupava com a nossa honra!... Não foi com coração alegre que tomei a decisão. O castelo nunca me agradou. É um casarão cheio de correntes de ar. Aborreço-me imensamente. Simone, ao contrário, sempre se sentiu muito bem lá. Meu pai dizia, às vezes, que lhe transmitiria todos os segredos do castelo, que eu não era digna de conhecer... Pobre papai! Brincava, como sempre. Ter-se-ia revirado no caixão se houvesse sabido que a filha preferida tinha encontros com um homem, mesmo sendo príncipe da casa reinante... Pois bem, eu calculara mal o meu golpe. Michel tinha um colega de turma, o marquês de Chaumes, cuja família vivia em Lyon. Todas as semanas saltava do trem e, sob o pretexto de ir caçar com o amigo, chegava a Lyon de onde vinha para Gures. Via-me obrigada a recebê-lo. Não se deixa na rua um arquiduque, não é?
— Sobretudo quando ele é tio encantador — disse Sernine. Cécile lançou-lhe um olhar esquisito e Sernine logo continuou:
— Estou certo de que sabia se fazer perdoar.
— É verdade. Não gostava de mim, porque no castelo eu era uma acompanhante áspera. Chamava-me de "a aia de coração cruel", mas nos encantava a todos, até ao pai Fajon, que entretanto, não é fácil de conquistar... Quando se via a sós comigo, voltava incansavelmente aos seus projetos, tentava me provar que eram razoáveis, que desposar uma Simone de Mareuse não seria um casamento desigual, que não era mais que o sobrinho neto do rei e nunca o chamariam para reinar... Enfim, você imagina todos os argumentos que um jovem apaixonado pode alegar! Sabia que ele se enganava. Dizia-lhe: "Você a esquecerá... Você nos esquecerá... Espere as férias e verá".
— Eles têm férias, em Saint-Cyr? — perguntou Mongougeot, que acompanhava a história com a admiração ingênua de uma criança que escuta um conto de Perrault.
— Têm direito a uma licença anual e Michel voltou para a Sérvia. Mas ent3o se pôs a escrever. Cometia muitas imprudências. Poderia ter assinado Wladimir ou Ivan ou qualquer coisa. Não. Assinava Michel... E que cartas!
Cécile ficou vermelha e ergueu a mão para impedir uma pergunta que poderia ser descortês.
— Não pense que eu as abria!
Fingia dirigir-se a Mongougeot, mas olhava para Sernine. Deu um sorriso amargo.
— Era Simone quem as lia para mim... para me provar que estava errada, que Michel lhe continuava fiel... talvez também para me magoar... Querem uma outra xícara de café?
Tocou na cafeteira.
— Vou esquentá-la. E saiu do salão.
— É verdade tudo o que ela está contando? — perguntou Mongougeot. — Os príncipes não se casam com as pastoras.
— Bem se vê que nunca foste príncipe — disse Sernine.
Revia a grande sala do castelo de Gures, o fogo, as duas poltronas próximas. Imaginava Simone lendo para Cécile cartas que transbordavam de paixão e Cécile, a silenciosa, a discreta, inclinada sobre o trabalho, ouvindo as palavras de amor que não se destinavam a ela. Sentia-se tomado de uma infinita piedade. Cécile voltou e colocou café nas xícaras.
— Em que parte do meu romance eu estava? — disse com um bom humor que soava falso.
— Falava das cartas — respondeu Mongougeot.
— E suponho — interveio Sernine — que são essas cartas que o bando de Szekely quer pegar?
— Exatamente!
— Para fazer chantagem, conforme me disse — afirmou Mongougeot.
Cécile olhou-o com um ar constrangido.
— Não. Não havia tido a coragem de lhe revelar tudo. Não se trata de mim...Mas deixem-me continuar. Aconteceu o que eu previra. O rei, por razões de alta política, arranjou o noivado do arquiduque com a princesa Marika, da Cilíria. Michel primeiro não levou a coisa a sério. Avisou Simone que essa união jamais se realizaria; escreveu que se tratava de um projeto saído das Chancelarias e completamente ridículo, que a princesa ainda era criança e tinha a fama de ser um pouco retardada... São seus próprios termos... Acrescentava que a Cilíria era um país de selvagens, assolado por lutas internas, que a Sérvia nada tinha a ganhar em querer se aproximar desse povo de montanheses sempre prontos para se cortar o pescoço... Dizia — cito essa passagem de memória — "Sou um parisiense e penso seriamente em deixar minha pátria para me instalar em Paris. Não me agrada dizer ternamente: eu te amo, em ciliriano. Seria ridículo".
— Diabos! — disse Sernine. — Não era delicado para com os vizinhos, pois, se não engano, a Cilíria faz fronteira com a Sérvia... Sim, me lembro, no mapa, uma manchinha colorida, entre a Sérvia, a Hungria e a Bulgária. É do tamanho de um ovo. Mas penso que, estrategicamente, é de primeira importância?
— Isso é um problema que me escapa — suspirou Cécile. — O meu basta. Michel voltou, portanto, para completar seu estágio em Saint-Cyr, mas, ao Cabo de um mês, foi chamado de volta ao seu país. As duas cortes haviam se posto de acordo e o noivado era inevitável. Michel partiu, disposto a fazer um escândalo. Enviou ainda algumas cartas, de uma violência extrema. Não havia sarcasmos que chegasse, com essa Marika "que cheirava — dizia — a leite azedo e fazenda mal cuidada". E depois o tom mudou. Começou a escrever que um noivado não obriga a nada, que conseguiria escapar do casamento, que nunca seria um peão no tabuleiro de xadrez balcânico... E foi a catástrofe... Simone meteu uma bala na cabeça...
— Compreendera que a partida estava perdida — disse Sernine, cuja curiosidade nunca fora tão intensa.
— Entretanto, pergunto-me às vezes se Michel não teria mantido a palavra, se não haveria voltado. Ficou desesperado quando recebeu a notícia. Mas nada podia contra a fatalidade. O noivado teve lugar... E agora o casamento está à vista. Suponho que o infeliz se resignou. Desde a carta em que o avisava que Simone havia entrado para a casa de saúde, nunca mais deu sinal de vida.
— Você lhe quer mal? Cécile levantou os ombros.
— Não, é livre — disse. — Você sabe a que ponto a situação se agravou nos Bálcãs. A Cilíria é cortejada pelos Impérios Centrais... Quase não leio jornais, mas basta ver as manchetes.
— E então, as cartas? — interrogou Mongougeot.
— Já chego. A Cilíria é agitada por todos os tipos de movimentos internos. Há, principalmente, um partido nacionalista que exige a união da Cilíria com a Hungria.
— Agora tudo está claro — exclamou Sernine.
A verdade surgia, enfim, tão brilhante que fechou os olhos. Estava maravilhado pela importância imensa dos interesses em jogo. O arquiduque, Simone, Cécile, ninharias de tempestade que agitava a Europa e provocaria talvez uma conflagração geral. E as cartas... essas pobres cartas de amor... tinham, neste momento, uma importância histórica... como o despacho de Ems, como tantos pedaços de papel que já haviam posto fogo na Europa. E ele, Lupin.
— Resumindo — disse, com uma voz áspera que surpreendeu os interlocutores. — Esse partido é subvencionado pela Áustria. Sê a Cilíria passa para o grupo dos Impérios Centrais, o equilíbrio está ameaçado. A Sérvia, voltada para o seu lado direito, fica reduzida à impotência. A Áustria-Hungria estenderá sua influência sobre todo o Adriático, e a indecisa Itália ficará paralisada. Em compensação, se, pelo casamento do arquiduque, a Cilíria torna-se aliada da Sérvia, a situação se inclina a nosso favor, e enfiamos uma cunha entre a Hungria e a Bulgária... É algo gigantesco, espantoso... Se os húngaros e os cilírios põem as mãos nas cartas do arquiduque... se as tornam públicas, está feito. Nada de casamento! Nada de aliança! E talvez uma revolta na Cilíria. O orgulho dos nacionalistas não admitirá que um sérvio, e que sérvio... um príncipe da casa reinante... tenha tido palavras injuriosas sobre a sua princesa.
Calou-se, perturbado, sentindo que tinha nas mãos o detonador capaz de fazer explodir o paiol de pólvora, o Bloco dos Estados Balcânicos.
— Você se dá conta — murmurou por fim, com uma voz pouco segura. — A Rússia não deixará invadir a Sérvia, e a França é aliada da Rússia... É a paz ou a guerra que se decide neste momento... aqui... Não somos nada. E, no entanto, é este nada, este imponderável, que vai fazer pender a balança... Cécile. . Reflita bem... Você deve me dizer onde estão as cartas.
— Mas eu não sei — exclamou Cécile. Não sei onde Simone as escondeu, e como perdeu a lembrança dos acontecimentos que precederam o acidente...
— 0 que não entendo — disse Mongougeot — é como os seus cilirianos souberam da existência dessas cartas.
— No entanto, isto salta à vista — disse Sernine. ?— Quem tratou de Simone, no hospital de Bron?... Laslo Szekely, um húngaro certamente partidário da união da Cilíria com a Áustria-Hungria. Simone falou, inconscientemente, diante dele... E, graças ao tratamento por hipnose, conseguiu outras informações, o suficiente para reconstituir todo o caso... Imediatamente reuniu-se com alguns fanáticos e a continuação nós conhecemos... Atacaram você, Cécile, porque pensam que é você que possui as cartas... ou que sabe onde se encontram... Estão dispostos a tudo para encontrá-las. Matarão sem hesitar... já o fizeram... Cécile, devemos nos encerrar no castelo, ali nos fortificar. As cartas certamente estão lá. É preciso que as encontremos antes deles. Quando é que o arquiduque deve se casar com a princesa?
— Dentro de três semanas.
— Temos quinze dias sobrando. Dou-me oito dias para conseguir... se não foram destruídas.
— Oh! isso não — afirmou Cécile. — Estou absolutamente certa de que não foram destruídas. Minha irmã dava mais importância a elas que a própria vida.
— Mas, exatamente, tentou matar-se. Não poderia tê-las rasgado, queimado, antes de...
— Não. A prova é que Szekely procura. Significa, portanto, que sabe, por algumas revelações que pôde arrancar de Simone, que elas existem... Somente, nada sabe do esconderijo, cuja existência a própria Simone deve ter esquecido.
— Está certo — admitiu Sernine.
Ergueu-se, deu alguns passos pelo salão, mãos nos bolsos, cabeça baixa. A terrível importância da partida o deixara momentaneamente sem recursos. Estava cheio de ideias, de imagens que entravam em choque. A Europa!... Simone!... Esse castelo dos mil esconderijos! ... Um problema de Estado que era preciso resolver sem recorrer à ajuda das autoridades... A rigor, havia Valenglay, que era ministro das Relações Exteriores... Valenglay era capaz de compreender, em um piscar de olhos... Mas depois? Pôr-se-ia em comunicação com o colega do Interior... A pesada máquina policial só se abalaria depois de alguns dias, e a imprensa teria ventilado alguma coisa... no próximo momento da visita do rei e do arquiduque... Impossível! E, além disso, Valenglay aceitaria a inacreditável história? Pois, enfim, tudo se apoiava, em suma, nas palavras sem nexo de uma louca! Cécile havia visto as cartas. Não havia lido. Simone talvez houvesse inventado o conteúdo... Sua loucura, de um modo sorrateiro, teria talvez começado muito mais cedo do que se pensava... Tendo o arquiduque voltado a seu país, ela talvez houvesse prolongado em imaginação um romance de amor, tão cruelmente interrompido... No fundo, Simone permanecia um enigma. E esse enigma, ele deveria esclarecer sozinho. O sentimento agudo desta solidão o apavorava. Este homem, habituado a lutar e a vencer, avaliava, pela primeira vez, sua impotência. Voltou à Cécile.
— Vejamos — disse, — ajude-me a esclarecer um ponto que permanece confuso. Admitimos, há pouco, que sua irmã tentou se suicidar porque imaginava que o arquiduque cederia à pressão de que era objeto... Mas nada era menos certo. Você mesma me disse que ele talvez tivesse mentido a palavra. Vê bem a dificuldade?... Logicamente, Simone só meteria uma bala na cabeça se houvesse recebido uma carta de rompimento. Na realidade, foi sua loucura que levou o arquiduque a renunciar aos seus projetos... Foi sua irmã quem rompeu por primeiro. E continuo a crer que aí existe um primeiro mistério. Está absolutamente certa de que Michel não escreveu uma carta de adeus, da qual sua irmã não lhe teria falado?
— Vigiava o correio. Mas é possível, com efeito, que uma carta tenha escapado.
— E o revólver? Estava no castelo? Sabia da sua existência?
— Não. Ignoro como o conseguiu.
— Que aconteceu com ele?
— Acho que o pai Fajon se livrou dele. Mas repito que, nesse dia, Simone pareceu-nos em seu estado normal. Os Fajon poderão confirmá-lo.
— Aconteceu, portanto, de noite, algo tão inesperado, tão brutal, que sua irmã decidiu, subitamente, matar-se, com uma arma que conservava escondida há muito tempo, sem dúvida... Não, isso não faz sentido!
— Mas já que estava louca — disse Mongougeot.
— Louca depois, mas não antes, Cécile acaba de nos afirmar que parecia completamente normal. Continuo a não entender... Vamos adiante!... As cartas, você as procurou, bem entendido.
— Sim — disse Cécile. — Vasculhei tudo. Mas acho que seria necessário demolir o castelo de pedra por pedra para encontrá-las. Não são muitas, umas quinze... Dá um maço muito pequenino...
— Entretanto, Simone devia conservá-las perto de si. Uma moça apaixonada, romântica, não iria esconder a correspondência que é a sua própria vida em um local afastado.
— Revistei o seu quarto para começar... Realmente, procurei em todos os cantos... Mas não sabia, então, que essas cartas poderiam ter uma importância política. É por isso que não persisti. Admiti que estavam perdidas.
— E colocou o castelo à venda?
— Era necessário. Nosso pai dividiu a fortuna em duas partes: de um lado, o castelo. Deixou para mim, porque sabia que sou uma mulher de cabeça, capaz de administrar uma propriedade. Do outro lado, valores, ações, fundos russos em suma, um capital que se viu bloqueado, devido à loucura de Simone. Tive de enfrentar, só com os meus recursos, gastos consideráveis. E, além disso, esse castelo me trazia recordações tão más... Não tive nenhum desejo de voltar para lá.
— Entretanto, é necessário — disse Sernine com firmeza. — Só temos duas maneiras de recuperar essas cartas. Ou nos entregamos ao acaso, procuramos às cegas... e isto nos tomará semanas para um resultado problemático... Ou então continuamos o que Szekely, que não é burro, começou tão bem... O que fez?... Tentou recolocar a doente em um cenário familiar, para obter o choque, a faísca de consciência que devolveria a memória à Simone. 0 esconderijo certamente está no castelo, mas se encontra antes de tudo na cabeça de sua irmã. É aí que convém descobri-lo.
— O que propõe? — disse Cécile.
— Primeiro, partida imediata. São dez horas. Szekely e os cúmplices devem estar se combinando. Aproveitemos o momento. Naturalmente, tomaremos o meu carro. Segundo, será necessário que, na região, pensem que você está sozinha no castelo. Nossa presença, a de sua irmã, Mongougeot e eu mesmo, deverá permanecer ignorada. Se necessário, os Fajon irão fazer compras nas aldeias afastadas. Bem entendido, não deixarão entrar ninguém, sob nenhum pretexto. Aliás, nenhum comprador se apresentará mais, pois vou apanhar uma opção com o notário... Esta precaução não impedirá que nossos adversários tentem alguma coisa... veja bem que não vão desistir... Mas estarei lá... Tenha confiança, Cécile.
— Tenho.
Estendeu-lhe a mão com um gesto de abandono que o comoveu profundamente. Levou-a aos lábios, depois estalou os dedos e exclamou em tom brincalhão:
— A caminho, batalhão de segunda classe!
Vigília de combate
Os Fajon acolheram Simone com emoção. Pollux misturou-se à festa. O reencontro foi tocante. De saída, ficou evidente, para todos, que a moça reconhecia sem esforço o parque, o castelo, todos os locais onde, outrora, fora tão feliz. Tomou posse do seu quarto sem demonstrar o menor temor. Cécile e Sernine acompanhavam-na por toda a parte, prontos para lhe estender os braços, como pais que vigiam os primeiros passos de um bebê. Abstinha-se de intervir, deixando-a correr de uma peça para outra, não perdendo nenhum dos seus movimentos. Iria conduzi-los muito ligeiro ao esconderijo? Mas não disse nada, não fez nada que pudesse lhes dar esperança de que começava a procurar alguma coisa.
— É muito cedo — disse Sernine. — Por enquanto, está revivendo a sua adolescência. Mas há de chegar um momento em que lembranças mais recentes se manifestarão. Continue a vigiá-la. Quanto a mim, vou me ocupar da defesa do local.
Acompanhado por Mongougeot, inspecionou o parque. O muro que o rodeava estava velho e podia ser transposto, sem dificuldade, em vários pontos.
— De noite — observou Sernine — eles passearão por aqui como se estivessem na própria casa. Não vai ser o velho Pollux que os impedirá. Teremos de nos entrincheirar no castelo e fazer rondas. Felizmente os ferrolhos são sólidos.
— Bem que eles devem pensar que a menina está aqui — disse Mongougeot. — Não acha que tentarão raptá-la?
— Acho que farão alguma tentativa desesperada; não sei qual... Em seu lugar, me esforçaria para penetrar na casa e pegar um refém... Ou até para torturar Cécile a fim de obrigá-la a falar, já que estão persuadidos de que sabe onde estão as cartas... Podemos esperar tudo. São fanáticos.
Ensinaram ao pai Fajon tudo o que devia fazer, recomendaram-lhe que se informasse discretamente quando fosse a Pérouges ou arredores. Se soubesse da presença de estrangeiros, de turistas hospedados no hotel, deveria dar imediatamente o alarma. Explicaram-lhe que Simone tinha necessidade de um repouso absoluto, que nenhuma visita seria permitida, que a propriedade seria vigiada dia e noite, pois a doente já havia fugido algumas vezes e talvez ainda procurasse escapar. Sernine se dava conta que o velho não acreditava de todo, que sentia que as senhorinhas de Mareuse estavam ameaçadas. Mas o pai Fajon era dedicado demais para fazer perguntas. Obedeceria sem saber mais nada. Em seguida, Sernine e Mongougeot passaram em revista cada peça. As persianas eram sólidas, as fechaduras das portas internas suficientemente resistentes.
— Faremos revezamento — decidiu Sernine — como a bordo de um barco. Estás armado?
— Tenho um revólver e uma caixa de balas.
— Perfeito. Também tenho tudo o que é preciso. Vais dormir no quarto do fim do corredor. Eu me reservo o quartinho que domina a escada... Naturalmente, em caso de perigo, atira-se. É a guerra, meu velho!
— Tudo isso é muito ilegal — suspirou Mongougeot. — Perguntou-me se não deveríamos chamar...
— A quem? Não esqueças que é um segredo de estado que defendemos. Só podemos contar com nós mesmos... Ah! As refeições. Montarás guarda enquanto estivermos à mesa. É preciso que nunca estejamos todos reunidos. 0 perigo será de todos os momentos. Podem atacar em pleno dia... Outra coisa: providencia para que haja sempre óleo nos lampiões e velas prontas.
Tomaram ainda algumas providências para o combate e começou a espera.
Arsène Lupin deveria confessar, mais tarde, que vivera, no castelo de Gures, algumas das horas mais extraordinárias da sua vida. Aparentemente, não acontecia nada. Sernine, Cécile e Simone passavam a maior parte do tempo no salão, junto ao fogo. Simone era capaz de manter uma conversa contínua. Falava à vontade, lembrava à irmã acontecimentos que as havia divertido... Era o bom padre de Pérouges que sempre espirrava no meio dos sermões, ou então o velho escrivão que vinha jogar no domingo, com o conde, e trapaceava tanto... Ria... Reencontrara a despreocupação de outrora, mas havia aquela pequena cicatriz que lhe marcava a têmpora. Sernine, sem querer, olhava-a sempre. Era por ali que o esquecimento abrira caminho. E como fazê-lo sair, agora? De tempos em tempos, Simone mexia no fogo. Adorava revolver as achas de lenha, mexer nas brasas. Ou então, se levantava, ia abrir a gaveta do armário.
— O que fizeste da tesoura?
Cécile trocava um olhar com Sernine.
— É verdade — cochichava. — Havia uma tesoura, nessa gaveta. Às vezes, fazia experiências.
— Simone, me trazes o álbum? Queria mostrar umas fotografias para o nosso amigo.
Simone ia à biblioteca. Seguiam-na longe, viam-na encaminhar-se sem hesitar para a prateleira onde estava colocado o álbum.
— Ela se lembra de tudo — murmurava Cécile. — De tudo, menos de Michel. É terrível!
— Você tem uma fotografia do arquiduque?
— Sim. Até várias.
— Vá procurá-las. Faremos de conta que as descobrimos no álbum.
Cécile subiu ao quarto, enquanto Simone trazia o grosso volume e o abria em cima da mesa. E em seguida estourou na risada, mostrando um nenezinho nu, sobre uma almofada.
— Sou eu — disse. — Como era crespinha nessa época... E essa menina amuada; é minha irmã". Nunca sai à vontade, em foto... Ah! Aqui está o papai... Em grande uniforme de caçador, se lhes agradar. Caçava muito, pobre papai!
— E trazia caça?
— Oh! não! Era distraído demais. E, além disso, gostava demais dos animais... Mas está cheio de pássaros, nos bosques das redondezas. Lembro-me, uma vez...
Parou. Essa palavra, na sua boca, era pungente.
— Sim — disse Sernine docemente, — você se lembra?...
— Não sei mais... alguém... um dia... que havia trazido dois faisões... Quem era?... Ele me dera uma pluma..." para colocar no chapéu", havia dito... Vou lembrar.
Cécile voltou e meteu três fotografias pequenas na mão de Sernine. Para ele, foi uma brincadeira introduzi-las no álbum, sem que Simone percebesse.
— Não tente. Não vale a pena cansar-se... Esta senhora, quem é?
— Mamãe. Mas não a conheci... Era linda, não é?
— Muito linda.
— Esta é a foto da minha primeira comunhão... E aqui está o nosso padre, lembra? Aquele que espirrava o tempo todo.
Sernine, virando a página, fez habilmente com que chegasse às fotografias do arquiduque.
— Veja — disse — esse rapaz? Não se parece em absoluto com vocês. É alguém da família?
Cécile crispara a mão na manga de Sernine.
— Não — murmurou Simone. — Não, não creio... e entretanto... Cécile, te lembra deste senhor?... Na tua opinião, eu já o teria visto?
Havia estendido diante de si os três cartõezinhos e o seu dedo ia de um a outro, como se estivesse tirando a sorte. O rosto enérgico do arquiduque a enfrentava. Seus olhos sombrios pareciam fitá-la com uma intensidade dolorosa.
— Ele vinha às vezes — balbuciou Cécile.
— Espera... Não se chamava Maurice?... Não, Mareei?
— Não sei — disse Cécile.
— Mas o que vinha fazer aqui?
— Sem dúvida queria comprar — interveio Sernine, que sentia a inquietação crescente de Cécile.
— É estranho... Estou quase certa de que nos encontramos... Mas onde?
— Em Paris, talvez? — sugeriu Sernine. — Você saía muito antes de ficar doente.
— Sim... em Paris, sem dúvida... Posso ficar com essas fotos?... Parece-me que, se me esforçar, acabarei lembrando... Oh! e depois não tem importância... Eu o acho sobretudo simpático, esse rapaz... Mas o portão, ali, atrás... Parece o do castelo... Sim, é o do castelo... A foto teria sido tirada aqui?
A moça caiu na risada e tirou Sernine como testemunha.
— Vê! Cécile não tem a memória melhor que a minha... Azar! Nunca saberemos porque esse senhor foi fotografado aqui.
Fechou o álbum.
— Há tantas coisas que nunca vou saber — acrescentou com um cansaço repentino. Acha que vou ficar curada?
— Mas lógico — assegurou Sernine. — Você já está muito melhor. Contemplava Simone com uma piedade misturada com ternura.
Tinha vontade de tomá-la nos braços, embalá-la, consolá-la, pousar os lábios na cicatriz que se perdia nos lindos cabelos loiros. Percebeu que Cécile observava e teve a impressão de ter sido apanhado em falta.
— Vai recolocar o álbum no lugar — disse Cécile. E quando a moça se afastou, perguntou:
— Serve para alguma coisa atormentá-la? Suponha que acabe por reconhecer Michel, não será ainda mais infeliz? Ela o terá perdido pela segunda vez.
— Sei — disse Sernine. — Já me fiz a pergunta. Mas os interesses em jogo são tio enormes que não devemos nos deixar deter por nenhum escrúpulo. Sim, recuperará a memória, estou certo disso. E então sofrerá, e sofreremos com ela. Tanto pior!
— Você não tem coração! Entretanto, minha irmã não o deixa indiferente, confesse.
Durante um segundo, se enfrentaram. Os olhos de Cécile brilharam de lágrimas contidas.
— Cécile — murmurou. — Como está sendo injusta! Por que é que faço tudo sem medir sacrifício?... Sabe bem que a...
— Cale-se! Eu lhe suplico.
Simone voltava. Formaram um círculo, todos os três, em volta do fogo e a tarde terminou tranquilamente. Enquanto Léonie punha a mesa, Sernine deu uma volta pelo parque, com Mongougeot. A noite caíra. Uma chuva miúda molhava os caminhos.
— Nada a assinalar — disse Mongougeot. — Está progredindo?
— Não muito. Esta manhã, procurei por toda a parte, sobretudo no quarto, porque é lá, com toda a certeza, que estão as cartas, ou bem perto. E depois, põe-te no lugar dessa moça. É evidente que descobriu um local simples, prático, de fácil acesso. Tua imagem, usando um martelo, uma talhadeira, para fabricar, com todos os detalhes, um esconderijo impossível de achar?... Vai jantar. Quanto a mim, não estou com fome. Tenho mais é necessidade de caminhar um pouco ainda.
Uma vez sozinho, levantou a gola e se perdeu sob as árvores.
— Um bom exame de consciência — monologava, — é disso que precisas, imbecil!... Me fazes lembrar o asno de Buridan. Te inclinas para um lado... te inclinas para o outro... No fim, vai gostar das duas, se te conheço bem. E queres que te diga por que bancas o colegial romântico?... Por amor-próprio!... Exatamente. Por amor-próprio! Essa história de arquiduque te chateia, Lupin! Alto lá! Eu, Lupin, não permito que prefiram um arquiduque a mim. Quero que essa menina agora só tenha olhos para mim. E, ao mesmo tempo, diante da outra, bancas o forte, para que te admire. Velho comediante! Ainda não compreendeste, portanto, que Cécile está com ciúmes. Mas enfim, santo Deus, abre os olhos! Eis uma moça que, um dia, é apresentada a esse jovem cretino cheio de galões, e a primeira coisa que ele faz é cortejar sua irmã... E o romance se desenvolve nas suas barbas. Com a breca! Põe-te no seu lugar! Como deve ter chorado em segredo! a garota que ela ajudou a educar, arquiduquesa da Sérvia...
Não é para perder a cabeça, hem, francamente? Imagina as noites do castelo... as reflexões falsamente piedosas de Cécile... "Minha querida Simone... Michel não é um simples mortal... Não é livre para escolher uma esposa... Pensa que dirá a última palavra, mas acabará cedendo. Sê sensata!... " Cécile é assim. Apaixonada, orgulhosa... O modo como me olhou ainda pouco... Imaginas um homem surge na sua vida — e, cá entre nós, represento bem mais que esse pequeno búlgaro tosco — e eis que esse homem começa a lançar olhares amorosos para a sua irmã!... Devagarzinho, Lupin! Na certa, essa pobre Simone é comovente, com seus olhos perdidos e seu amor destruído. Eterno Dom Quixote, ficas imediatamente com vontade de protegê-la... Se não te contenho, eras muito capaz de escrever ao seu Michel para pedir-lhe que viesse. Afinal de contas, ainda está em Paris... Apenas algumas horas de trem e ele chega... Toma Simone nos braços... Ela recupera imediatamente a memória....Vai ao esconderijo... Pega as cartas e as queima... Maldito Lupin! Os grandes sentimentos não te fazem perder a cabeça, hem! Existe o teu coração fora de série. Mas também as tuas ambições. Nessa Europa de reis degenerados, de altezas decadentes, te dizes que bastaria um personagem inteligente, decidido e patriota, para deter as desgraças que estão por vir. Ah! se tivesse liberdade de ação na Cilíria... Se, ao menos, pudesse manobrar esse Michel que já fez tantas gafes!...
Sernine sonhava, enquanto percorria a passos largos a alameda de castanheiros. Detestava que o limitassem à defensiva. Mas como retomar a iniciativa? Escrever para os jornais? Era bom quando preparava um golpe. Mas então só comprometia a si mesmo. Agora, era responsável por pessoas. Muito mais. Era responsável por povos!... Ah! Esse maldito esconderijo, que paralisava, totalmente, as suas operações. Pois a chave do enigma devia ser difícil. Simone nunca tivera uma imaginação tortuosa. Era preciso que adotasse olhos de menina, observasse ao seu redor com frescura, a inocência, e também o humor de uma adolescente... Mas qual! Os móveis eram móveis honestos, sem mistério.
Sernine havia pensado até em apalpar a grossa coleira de Pollux, os arggios de Papillon. Ele, que estava habituado a ver o que escapava aos outros, tinha de reconhecer sua impotência. De noite, quando estava de guarda, havia sondado as paredes do salão, desmontado a armadura, esvaziado as jardineiras, auscultado uma por uma as tábuas do chão... E já fazia quatro dias que estavam morando no castelo. Os outros, os húngaros, não deviam estar longe. Sernine teria preferido sabê-los ali, rondando em volta do parque. A iminência da ação haveria aumentado as suas forças. A espera o aniquilava.
Voltou para dentro. Mongougeot fumava tranquilamente. As duas irmãs se dedicavam a trabalhos de costura, junto do fogo. Às nove horas, Cécile se levantou.
— Simone, vem deitar.
Cada noite, as mesmas palavras, os mesmos gestos. Era de perder a calma. Cécile acompanhava a irmã, depois se retirava para o quarto. Sernine exigia que se ouvisse as chaves dando volta na fechadura. Então, começava a inspeção das portas e janelas. Iluminava Mongougeot com um lampião enquanto o policial verificava as fechaduras.
— O cachorro?
— Está lá fora.
— O ferrolho da cozinha?
— Já o substituí.
— Fico de guarda primeiro.
— Como quiser, chefe.
Apertavam-se a mão e Sernine ficava só. Preparava uma xícara de café e voltava para a sala. "Vejamos, sou Simone." Virava-se e, pela centésima vez, examinava as cadeiras, o guarda-louça, o aparador, o armário, a mesa, a armadura, a lareira, os ladrilhos, o teto... Ah! a cesta de costura de Simone... Só carretéis, meadas, fitas, renda, botões... 0 frio penetrava sutilmente. Atirava umas achas na lareira e se sentava no lugar de Simone. "Sou Simone."
Não ocorria nenhum clique. Levantava-se, caminhava de um lado para o outro, escutava de vez em quando os estalos da velha casa, o rumor do vento no parque. Desistia por um momento de procurar o esconderijo, pensava no arquiduque que levava uma vida alegre em Paris. Lera, no Fígaro, que o rei havia retornado ao seu país, mas que Michel da Sérvia estava prolongando, incógnito, a estadia na capital. Fora visto com amigos no Maxim's. "Sua despedida da vida de solteiro, — refletia Sernine. — É verdade que, se a princesa Marika é tão desagradável como afirma, não deve estar com muita pressa de voltar... Dá na mesma, parece-me que, no seu lugar, teria feito um esforço para saber onde Simone estava em tratamento... Teria enviado flores... ter-se-ia manifestado... " Acendia um cigarro, recomeçava a passear. Quando Mongougeot vinha substituí-lo, encontrava-o caminhando de cabeça baixa e falando sozinho.
E enfim, no quinto dia, o acontecimento esperado ocorreu, pouco depois do café da manhã. O pai de Fajon acabava de chegar, de volta do mercado de Pérouges, e Cécile havia saído, para ajudá-lo a descarregar a carruagem. Tornou a entrar quase que imediatamente e fez sinal para Sernine. Este seguiu-a, depois de uma olhada para Simone, que começava a tirar a mesa.
O velho tinha um ar agitado e explicava alguma coisa para Mongougeot.
— Estão lá — disse Fajon. — Os que vieram fotografar. Um grande e um pequeno. Avistei-os na frente da igreja. Conversavam com uma moça muito morena.
— Bem — disse Sernine. — Já sabemos o que fazer. Obrigado, pai Fajon... E não esqueça: o portão deve estar sempre fechado à chave. Tornaram a entrar, preocupados.
— Acho que todo o bando deve estar lá — disse Sernine. — Nem uma palavra diante de Simone... Por sinal, onde está ela?
Chamou: — Simone!... Simone!...
— Provavelmente está na cozinha — disse Cécile. — Vou ver.
— Não é hora de deixá-la sair!
Cécile reapareceu, mal escondendo a inquietação.
— Não está na cozinha, nem no escritório, nem na biblioteca.
— Pois bem, voltou para o quarto — disse Sernine. — Onde quer que esteja?... Ficamos fora cinco minutos. Não pode ter ido longe. Espere-me aqui.
Galgou os degraus de quatro em quatro e bateu na porta do quarto. Nenhum ruído. Abriu. Simone não estava ali. Visitou rapidamente as outras peças. Ninguém. Simone desaparecera.
— Essa não — murmurou — é demais! Estávamos junto da escada. Forçosamente a teríamos visto... Além disso, estava de roupão, de chinelos. Não é um traje para se atrever a sair, nesta estação!
Desceu e anunciou, abrindo os braços:
— Não está lá em cima também.
— Mas então... — exclamou Cécile — eles a raptaram!
— Certamente não. Por onde teriam entrado?... Não. Simone está aqui, em algum lugar no castelo. É sim, porque não pode ser outra coisa. Está aqui... no esconderijo.
— Ora vamos! — protestou Mongougeot.
— Meus amigos — continuou Sernine, — nos enganamos desde o início. Procurávamos um esconderijo minúsculo, do tamanho exato de um maço de cartas. E, na realidade, esse esconderijo pode abrigar uma pessoa... Essa é a verdade. Vejamos, Cécile... Você nos disse — me lembro — que Simone se sentia bem aqui... De tal maneira, que seu pai prometia revelar-lhe os segredos do castelo... São suas próprias palavras.
— Mas ele estava brincando!
— Não creio... Desde quando que Gures é propriedade da família?
— Oh! Há muito tempo. Remonta à época de Louis XV.
— Você tem documentos?
— Há, na biblioteca, caixas cheias de papelada... Seriam necessários dias e dias para pôr ordem naquilo.
— Sou um pouco arquivista — disse Sernine. — Sempre me interessei por Histórias... Vou dar uma olhada... Mas conheço outros castelos, sobretudo no Oeste, em que se encontram ainda redutores que serviram para esconder realistas, durante a Revolução... E lembre-se da aventura da duquesa de Berry... Poderia julgar que aqui existe alguma coisa do gênero.
— Mas procuramos em todos os lugares — gemeu Mongougeot.
— Exato! E não vamos recomeçar. Mas vamos percorrer toda a casa chamando... Ela acabará por nos escutar e a veremos sair de uma parede, do chão, de um lugar diante' do qual já passamos umas cem vezes... Tentemos... Emile, encarrega-te do primeiro andar... Cécile, cuida do térreo... Quanto a mim, me proponho explorar ainda esta peça.
Mais uma vez, sua autoridade tranquila fez maravilhas. Mongougeot, docilmente, subiu ao primeiro andar e Cécile desapareceu na biblioteca. Sernine logo escutou os chamados que se afastavam, se respondiam com ecos enfraquecidos: "Simone... Simone..." Concentrou-se no problema. Simone estava lá. Bem... E, de repente, algum misterioso mecanismo cerebral se desencadeara... Soubera, bruscamente, como se abria o local secreto. Essa lembrança estaria talvez ligada às visitas do arquiduque? Quando vinha ao castelo, o levaria talvez ao esconderijo, a fim de escapar um pouco à vigilância de Cécile...? E agora?... Céus! Agora, talvez ela estivesse presa, incapaz de encontrar a pedra, o botão, a alavanca que abria...
Um pouco de suor molhou suas têmporas. "Simone... Simone..." Esses gritos o dilaceravam. Tapou os ouvidos com as mãos, contou lentamente até dez para formar um vazio. O que não estava em seu lugar, na sala? O que fora mexido?... Ah! Deixou as mãos caírem de espanto. A armadura! Estava amputada na altura do cotovelo direito, faltava a braceleira e a manopla. Aproximou-se, apalpou o braço de metal. As duas peças haviam sido desprendidas e levadas... Qual a relação com o desaparecimento de Simone?... Enraivecido, Sernine desmontou o elmo e as peças das costas, sacudiu o invólucro vazio. Vamos! Era apenas uma armadura. Não acionava nenhuma passagem secreta, não escondia nenhum alçapão, não servia para nada.
"Simone... Simone..." Os chamados se aproximavam. Com rapidez reconstruiu o bom homem de aço, abaixou a viseira do elmo. Desde quando ele estaria maneta?... Ontem à noite, nada lhe faltava... Seria mesmo?... Essa armadura fazia parte da mobília de tal maneira, que nem se via mais. "Simone... Simone... Simone..." Sernine cerrou os punhos. Compreendeu que um martírio devia ser não se lembrar! Estaria ainda a manopla ali, de manhã? Seria Simone que a teria apanhado?... Desatou as linguetas de couro que prendia a manopla esquerda, meteu o punho. E daí?... Simone não tinha a intenção de bater-se com ninguém!... Livrou-se da manopla, amarrou-a de novo, sempre perplexo. Cécile e Mongougeot estavam voltando. Cécile se deixou cair numa poltrona.
— Nada — disse Mongougeot. — Na minha opinião, saiu enquanto falávamos com o pai Fajon. Viu-nos distraídos com o que o velho contava e aproveitou esse momento de desatenção... Acho que deveríamos vasculhar as dependências de serviço, o parque...
— Está bem — consentiu Sernine. — Vá. Quanto a mim, vou começar a examinar esses documentos.
Inspecionou a biblioteca, com o dedo indicador dobrado bateu no revestimento de madeira, esvaziou o armário de papéis de família para certificar-se de que não escondia um fundo duplo , depois olhou com desespero as caixas e os arquivos transbordando de documentos amarelados. E, dentro de pouco mais de quinze dias, o arquiduque desposaria a princesa da Cilíria!... E, de uma hora para a outra, os húngaros passariam ao ataque... Então para que serviria esse trabalho de inseto, que exigiria meses!
Mas Sernine tinha o hábito de não deixar nada ao acaso e nunca perder a coragem. O esconderijo de Simone certamente havia prestado serviço várias vezes. Bastaria encontrar de repente uma carta, surpreender uma confidência muito antiga... Ajoelhou-se no chão e abriu uma caixa desenhada que transbordava com uma enorme quantidade de arrendamentos, contratos, papéis de tabeliães... Deixar de lado!... Atirou-se sobre um arquivo entulhado de cartas e ia começar a ler quando escutou correrem na peça ao lado.
— Chefe, venha ver. Mongougeot estava ofegante.
— Pollux morreu.
Sernine ergueu-se de um salto.
— Acabamos de encontrá-lo, no fundo do parque.
— Vou contigo.
Pollux caíra ao pé do muro. Estava tão duro que parecia de madeira.
— Cianureto — murmurou Sernine.
— Você também pensa que o envenenaram.
— Estou quase certo.
— Que imprudência! É dar-nos o alarme.
— Por quê? Pollux estava velho e poderia morrer de morte natural. Não sabem que o pai Fajon os avistou, há pouco, é nos alertou... Onde está Cécile?
— Foi prevenir o Fajon... Sabe o que pensei, chefe?... Parece tolice, mas suponha que exista uma passagem secreta, sei lá... um subterrâneo que permita sair do castelo, e, logicamente, nele entrar... Teria podido levar Simone por lá.
— Impossível! Se houvesse descoberto o esconderijo, teriam, ao mesmo tempo, posto a mão nas cartas. Portanto, não haveria necessidade de raptar Simone... Nem de envenenar Pollux.
Empurrou o cadáver com o pé.
— Pobre velho! E tudo isso em nome dos cilirianos oprimidos!... Voltemos. Fizemos uma imprudência nos dispersando.
Fizeram o caminho de volta, vigiando a vegetação que crescia por baixo das árvores. Diante da escada, Sernine deteve Mongougeot.
Vá na frente de Cécile. Não acho que vão ousar aparecer em pleno dia, mas com selvagens desse tipo, nunca se sabe.
Atravessou o vestíbulo e ficou imóvel. O que ouvia o deixava estupefato. Alguém cantarolava, no salão. Empurrou a porta devagarzinho.
Simone estava ali na poltrona, junto do fogo. Dava-lhe as costas e olhava fotografias. Aproximou-se sem ruído para não interromper a canção murmurada. Simone não apenas havia voltado, como estava feliz. E era tão novo, tão transtornante ouvi-la cantarolar, que não ousava interromper seu sonho. Tinha sobre os joelhos uma dezena de fotografias que havia trazido, mas de onde?... Fotografias de Michel, uma vez em traje de gala, com capacete e luvas brancas; outra, como cavaleiro; outra, dirigindo uma poderosa limusine... Ela as comparava e cantava de boca fechada uma valsa, talvez a primeira valsa do seu amor... Contemplava detidamente uma das imagens que mostrava o jovem arquiduque em traje de corte, o peito adornado de medalhas e condecorações, a mão na espada. Levou a foto aos lábios. Sernine, na ponta dos pés, voltou até a porta e fez barulho, como se estivesse chegando. Ela voltou a cabeça, mas não tentou esconder as fotografias. Ela voltou a cabeça, mas não tentou esconder as fotografias.
— Ele voltou — disse. — Voltou... aqui. (Bateu na testa.) É Michel... Vamos nos casar.
Sernine sentou-se perto dela e olhou-a longamente. Continuava a vagar pelo passado. Nunca mais sairia dele.
— Sim — sussurrou. — É Michel.
— Não é verdade que é bonito?
— Vai vir me buscar...
Sernine de repente pensou na armadura. A braceleira e a manopla haviam voltado ao lugar.
A manopla de ferro
Depois do almoço, Sernine reuniu um conselho de guerra na biblioteca, com Mongougeot e o pai Fajon. As duas irmãs conversavam junto do fogo. Durante toda a refeição, Simone permanecera estranhamente silenciosa e Sernine recomendara a Cécile para não interrogá-la, para deixar agir as forças obscuras que procuravam se libertar nas profundezas do seu espírito. Cedo ou tarde, Simone retomaria o caminho do esconderijo. O mais urgente era colocar a par o velho jardineiro e elaborar um plano.
— Vê agora a situação — disse Sernine a Fajon. — Compreende por que tomamos todas essas precauções?
— Sim, sim... Mas juro-lhes que não falharei.
— Calma, pai Fajon. Até agora, levamos vantagem. Pensam que essas senhoritas estão sozinhas no castelo, ou talvez sob a guarda de Mongougeot. Em todo o caso, ignoram que estou aqui e que os esperamos. Que irão fazer? Se envenenaram Pollux, é que têm a intenção de se introduzir no local. Mas, evidentemente, não vão atacar em massa. Enviarão um deles, o mais ágil, o mais esperto. Deixaremos que o espertalhão se aproxime...
— ... e atiraremos nele à queima-roupa — exclamou Fajon.
— Não. Justamente. Não vamos incomodá-lo. Mas lhe cairemos em cima de repente. Se conseguirmos pegá-lo, estou certo de que ficaremos senhores da situação. Os outros não insistirão. Só podem contar com a surpresa. Se se veem descobertos, se perderam um companheiro, se constatam que somos muitos, compreenderão que falharam. Não esqueça que estão em território estrangeiro, que alguns deles talvez se tenham introduzido clandestinamente no país.
— E se tivermos que enfrentar não um, mas dois ou três adversários? — objetou Mongougeot.
— Melhor ainda. Faremos dois ou três prisioneiros.
— Ué! E se eles atiram?
— Ah! chega. E se fosses muito esperto... serias chefe de polícia! Deixa-me falar... Eis pessoas que estão certas de não encontrar praticamente nenhuma resistência, e caem numa emboscada. Chocam-se com dois revólveres e um fuzil. Pois bem, afirmo que levantam os braços e se entregam. Mas admitamos que queiram se bater; neste caso, nada de pena. A legítima defesa está do nosso lado... somente vocês percebem a catástrofe se houver feridos e a polícia meter o nariz nos nossos assuntos... Não esqueçamos o que está em jogo nessa partida!... Portanto, você, pai Fajon, monta guarda no seu pavilhão, de onde avista uma boa parte do parque. Se perceber algo suspeito, acende um lampião. Da janela do meu quarto localizarei o sinal. Tu, Emile, vigiarás a parte de trás, pela janela da biblioteca. E eu farei rondas no interior do castelo. Ao menor alerta, pai Fajon, depois de ter acendido o lampião, irá para a alameda, com fuzil, afim de cortar a retirada do inimigo, e nos deixará intervir.
— Conte comigo — disse o velho.
Separaram-se, e a tarde transcorreu, morna e lenta. À chuva havia sucedido um tempo cinzento e frio. Sernine mergulhara na papelada que teria feito feliz um historiador. Havia especialmente cartas dirigidas a uma certa Valérie de Mareuse e que traziam assinaturas célebres, George Sand, Alexandre Dumas... Um bilhete de Montalembert ao conde Antoine de Mareuse... Mas nada que pudesse se relacionar com a passagem secreta.
"Vejamos — monologava Sernine, — em que época poderão ter utilizado este esconderijo?... No tempo do recrutamento, sob Napoleão?... E também sob o terror?... Se ao menos pudesse pôr a mão em algum documento que datasse dessa época... Uma alusão me bastaria... Uma palavra relacionada com a armadura..." O soalho estava coberto de papéis e Sernine passeava de quatro pelo campo de batalha. Ficou muito surpreso quando Cécile veio buscá-lo para jantar.
— Simone?
— Está calma. De tempos em tempos olha as fotografias de Michel. Percebo bem que faz um esforço tremendo para lembrar alguma coisa que ainda lhe foge.
— Ela não fez perguntas?
— Não. Talvez devêssemos lhe contar o que ainda não sabe... o casamento do arquiduque com...
Prefiro que descubra tudo isso por si mesma... Diga-me, nunca ouviu falar de alguém, parente ou amigo, que houvesse se escondido aqui, outrora. Por exemplo, no tempo da Revolução? Essas coisas se transmitem, em uma família.
— Não... Ah! Meu pai falava bastante seguido de um tal Grégoire de Mareuse, que foi bispo de Tours, durante a Restauração. Admirava muito seu caráter, mas eu, você sabe, essas histórias de padres — que abjuraram ou não abjuraram...
Sernine estalou os dedos.
— Sem dúvida é isso. Seu antepassado foi um padre rebelde e graças ao esconderijo é que não foi preso... Mas isso não nos leva longe.
— Papai queria escrever um livro sobre Grégoire de Mareuse. Havia começado até a ditar anotações a Simone, porque Simone sempre se interessou muito mais por História do que eu.
Sernine enxugou as mãos e pôs um braço em torno dos ombros da moça.
— Cá entre nós — murmurou, — Simone era a preferida, não é? Cécile soltou-se com rudeza.
— Para a mesa — disse. — O passado é o passado.
A refeição foi feita rapidamente e as duas irmãs se retiraram cedo para os quartos. Mongougeot, que patrulhava o pátio, entrou, completamente gelado. Preparou uma batida e acendeu o cachimbo. Em seguida, puxaram as persianas, fecharam a porta do salão.
— Anda! Para o teu posto, Emile. O primeiro que vir alguma coisa, previne o outro calmamente.
— Elas sabem?
— Claro que não! Não quis assustá-las.
Sernine subiu para o quarto e apagou o lampião. Eram nove e meia. Não havia necessidade de ficar de pé atrás das persianas. O ataque certamente ocorreria de madrugada, quando os húngaros pensassem que o castelo estava adormecido há tempos. Sernine esticou-se na cama, as mãos cruzadas debaixo da nuca. Estava certo de sair-se bem. Esses húngaros não eram hábeis. Mas que pena não poder, em seguida, alardear a vitória! Teria sido tão divertido enviar um comunicado aos jornais. "Arsène Lupin frustra as manobras do imperador François-Joseph... Arsène Lupin e a questão do Oriente. " Sernine já redigia o artigo, caprichava nas palavras. Depois pensava em Cécile, em Simone. Uma vez passado o perigo, por que não as levaria ambas para longe, muito longe, para a Espanha, o Egito... Idiota!... Ridículo!... Acabaria por se apaixonar pelas duas e seria um novo drama. Não desapareceria mais uma vez. "Parabéns, Lupin! Pensas bem!... Céus! Seria bom pelo menos dar uma olhada!"
Levantou-se, empurrou levemente as persianas e sobressaltou-se. Lá em baixo, na janela do pavilhão, brilhava uma luz. 0 sinal! Desceu a escada sem ruído e correu a prevenir Mongougeot, na biblioteca.
— Rápido, ficas aqui, atrás da porta. Quanto a mim, espero-o no alto da escada, pois certamente vai atacá-las. Quando eu assobiar, saltas. Ficará preso entre nós dois.
Saiu da biblioteca, voltou para o quarto e grudou um olho na fresta das persianas. Percebeu uma silhueta nos degraus da escadaria. Não se enganara. O inimigo enviava um batedor. Um só. Mas antes do previsto. O homem estava agora diante da porta; mexia na fechadura. O pai Fajon devia estar atrás de uma árvore, com o fuzil.
Sernine empunhou o revólver e se escondeu na volta da escada. O húngaro estava perdido. Todas as saídas estavam vigiadas.
Passaram-se alguns segundos intermináveis. Depois um sopro frio informou Sernine. O homem acabava de entrar. Houve um estalo muito fraquinho e a chama de um fósforo tremelicou no salão. Iluminava uma mão imóvel, fantástica na escuridão. Apagou-se. O homem se havia orientado. Mas não se dirigiu para a escada e Sernine compreendeu, pelo reflexo da lareira dançando nas paredes, que penetrava no salão. Manobra inesperada; Sernine estava persuadido de que o desconhecido subiria diretamente ao primeiro andar. Não conhecia, sem dúvida, os lugares. Ia voltar. Não importa como, caíra na armadilha. "Conto até cinquenta. Se não torna a aparecer, sou em quem desce". E o coração batendo, Sernine obrigou-se a contar lentamente. 30... 40... 48... 49... 50. Pôs-se a caminho, alcançou a entrada do salão. Assobiou e imediatamente deu dois passos, revólver em punho.
— Mãos ao alto!
A porta da biblioteca abriu-se com estrondo. Era Mongougeot que surgia. As chamas da lareira lançavam pela sala uma luz confusa. Ninguém!
— Atenção — gritou Mongougeot. — Escondeu-se... Está atrás da mesa...
Sernine contornou a mesa. O homem não estava ali.
— Acende o lampião — ordenou. — Está na mesinha. Mongougeot acendeu, levantou o lampião bem alto para iluminar melhor. A sala estava vazia.
— Essa não — disse Sernine. — Entretanto, não sonhei. Houve um barulho, no patamar.
— Está fugindo — disse Mongougeot, que saiu correndo. Chocou-se com o velho Fajon, que impedia a passagem, fuzil em punho.
— Pegou-o? — disse o jardineiro.
— Não, desapareceu.
— Entretanto, eu o vi entrar. E não fez cerimônia, asseguro-lhe. Abriu o portão e esta porta muito calmamente, com uma chave... Onde pode estar?
— No esconderijo — disse Sernine.
— Ah não! — protestou Mongougeot.
— Não há outra explicação — afirmou Sernine com firmeza. — Passa-me o lampião. Parece-me que tocaram em alguma coisa.
Aproximou-se da armadura, cujo braço direito estava caído em vez de se encontrar dobrado. Não eram uns olhos que brilhavam, atrás da viseira abaixada? Não. Apenas o lampião que se refletia no metal. Maquinalmente, ergueu a manopla para colocá-la na posição antiga e largou-a bruscamente.
— Céus!
— Que houve? — perguntou Mongougeot.
— Toca aqui!
Mongougeot segurou a mão de ferro e recuou um passo, espantado.
— Está quente! — balbuciou.
— Como fomos patetas — exclamou Sernine, muito excitado de repente. — Lógico! Está quente... Devia ter percebido desde o início.
Quase saltou de alegria, depois pôs pesadamente as mãos nos ombros do policial.
— Aluno Mongougeot, atenção! Uma armadura serve para quê?
— Não sei, chefe... Para lutar.
— Muito bem... E que mais?
— Para evitar golpes.
— Está bem. E isso, evitar golpes, significa o quê?
Mongougeot estava cada vez mais aturdido.
— Bem, isso quer dizer... isso quer dizer que a gente se protege.
— Um a um... E de que a gente se pode proteger, nesta peça?... A mão está quente, não te esqueças.
Mongougeot olhou em torno como se procurasse ajuda.
— Você me deixa maluco... Deseja que a gente se proteja de quê?
— Do fogo! Pedaço de asno! Do fogo!
Ao mesmo tempo que falava, Sernine enfiava a braceleira e a manopla.
— Nada mal o esconderijo — continuou. — Quem teria a ideia de ir ver, atrás das chamas, se não há algo que gire, ou se levante, ou se abaixe... E avistas daqui a alavanca que aciona o mecanismo?
— Eu? — disse Mongougeot. — Não vejo absolutamente nada.
Sernine estendeu o braço protegido por cima do braseiro e agarrou a cremalheira. Empurrou, puxou várias vezes. Nada aconteceu. Mas quando balançou para a esquerda a comprida barra metálica, esta cedeu de repente e a placa de ferro que protegia o fundo da lareira começou a descer como uma ponte-levadiça. Era suficientemente grande para cobrir completamente a fornalha. Uma passagem se abria na espessura da parede. Sernine nela se meteu rapidamente e logo desembocou em uma espécie de adega, de teto baixo, iluminada fracamente por uma vela. Um homem, sentado diante de uma mesinha, levantou-se para enfrentá-lo.
— Não se mexa — disse Sernine. — Mãos ao alto... Ah! Ah! meu espertalhão. Tiveram a mesma ideia que eu. Compreenderam até antes de mim... É demais. Cumprimentos, Szekely... Agora, passe as cartas.
Apanhou o castiçal e dirigiu a luz sobre o prisioneiro. Recuou até a parede.
— Oh! Perdão... Estou desolado, Monsenhor. Tinha à sua frente o arquiduque Michel.
— Quem é o senhor? — perguntou o arquiduque.
— Um amigo de Cécile de Mareuse e sua irmã. Estão em perigo, Monsenhor... É verdade! O senhor ignora tudo o que aconteceu de dois anos para cá... Uma história comprida e trágica.
Sernine olhou em torno. Havia uma mesa, duas cadeiras, um genuflexório e um velho enxergão. A voz de Mongougeot chegou até ele.
— Precisa de mim, chefe?
— Não fiquemos aqui — disse Sernine. — Estaremos melhor do outro lado, para falar. Primeiro o senhor, Monsenhor.
Voltaram para o salão.
O senhor! — exclamou o pai Fajon. — Como estou feliz por vê-lo! É a Senhorita Simone quem vai ficar contente!
— Psiu! — murmurou Sernine — não as acordemos... Os dois vão defender as entradas. Ainda não são onze horas. Certamente temos ainda um pouco de sossego e preciso de um momento de tranquilidade.
Aproximou-se de Mongougeot, disse-lhe ao ouvido: — Não faças essa cara de espanto! É sim, é o arquiduque... Põe os meus planos por terra, mas vou me arranjar de outro modo. Voa!
Tornou a fechar a porta da sala diante dos dois homens e voltou ao arquiduque que, com a ajuda de uma acha, procura em vão abaixar a cremalheira fervente.
— Deixa!
Abaixou a cremalheira, e a placa, reconduzida para trás certamente por alguém ou por algum contrapeso, voltou ao lugar.
— Muito engenhoso — disse Sernine retirando a manopla de ferro. — Se esta pobre Simone houvesse recolocado de imediato essas peças na armadura, quando se lembrou do segredo do esconderijo, certamente eu nunca teria descoberto. Suponho que se pode fechar a placa da lareira quando se está do outro lado.
— Sim. Há uma alavanca na parede... Mas Simone? Está aqui? Pensava que...
— Pois bem, lá vai — começou Sernine.
— E agora, Monsenhor, sabe tanto quanto nós. Seus inimigos não estão longe, e pode agradecer aos céus por não tê-los encontrado. Nós os esperamos e eu havia preparado tudo para recebê-los. Mas agora devemos mantê-los a distância, custe o que custar. Pois é sua vida que está em perigo. Não hesitariam em matá-lo. É uma ótima oportunidade, realmente! E, se posso permitir-me um conselho, é o de ficar no esconderijo secreto até amanhã de manhã. Lá estará bem protegido... Como veio... perdoe-me... e por quê?
— Vim de carro. Escondi o veículo não longe daqui...
O arquiduque se interrompeu, ergueu alguns tições com a ponta das pinças. Tinha um rosto apaixonado, atraente. "Eu tinha os mesmos traços — pensou Sernine. — Há... ora... há muito tempo, porque tive tantas vidas... Mas eu, no seu lugar, já teria chamado Simone. E no lugar de Simone, já teria sentido que meu amor estava aqui. Esses jovens são sem energia, fracos!"
— Tenho de embarcar amanhã, em Marseule — continuou o arquiduque. — Volto para o meu país. Já estou atrasado. Mas não quis deixar a França sem rever, por uma última vez, este castelo onde deixo tantas lembranças... Veja, conservei as chaves... Esperava ficar uma hora, sem testemunhas. Por isso não preveni os Fajon. Pensei que estivessem sozinhos, aqui... Sobretudo, queria rever este esconderijo onde nos encontrávamos, às vezes, Simone e eu, sem que ninguém soubesse.
Suspirou profundamente.
— Estão me esperando em Marseule. Dentro de três dias haverá uma grande festa, no palácio real de Belgrado, onde devo aparecer com a princesa Marika. Estou com o meu tempo rigorosamente controlado.
O arquiduque deu alguns passos em torno de Sernine.
— Fiz mal em vir. Pensei que ainda podia me permitir ser simplesmente Michel, um jovem como os outros, com liberdade de movimentos e sentimentos. E tudo me recordava que não me pertenço mais... Não é que não me pertenço mais?... Fale, Senhor... Vejo que é um homem honrado... Estou certo de que me compreende... Devo partir, e se há perigo, tanto pior... Simone?... Na sua opinião, continuará muito doente?
— Temo que sim.
— Então?
O arquiduque deu outro suspiro e continuou:
— É preciso que ela não saiba da minha visita.
— Não saberá.
— E o senhor, é preciso que acredite em mim. Dou-lhe minha palavra de que fiz tudo:. . tudo... para permanecer fiel.
— Acredito.
— Se soubesse como a amava! Ah! Como teria, de bom grado, renunciado à minha posição, aos privilégios, a todos essas vaidades! Com mais facilidade ainda, pois estou posto, por nascimento, longe do trono, e somente as conveniências se opunham ao meu casamento. E depois, uma carta de Cécile me comunicou... o acidente.
— Monsenhor, por seu lado, nunca deixou entender a Simone que seria levado, talvez, a modificar seus projetos?
— Nunca. Acabo de dizer-lhe.
— Não expressou nem mesmo uma dúvida?
— Nem mesmo.
— Quantas cartas enviou à Senhorita de Mareuse?
— Quatorze. E me respondeu treze. Numerávamos as cartas para ficar bem certos de que nenhuma se perderia.
— Pois bem, Monsenhor, resta-lhe fazer algo penoso. Ê preciso destruir essas cartas, jogá-las no fogo, a fim de que não sobre nenhum vestígio.
O arquiduque ergueu rapidamente a cabeça.
— Mas não as tenho.
— Como!... Estavam no quarto secreto, e só o senhor entrou ali... Espere! Não, Monsenhor. Simone entrou antes... Decididamente, não sou mais o mesmo... Pensava que ela havia apanhado somente as fotos, mas, céus, apanhou tudo. É evidente!... Ah! Estou aliviado. As cartas estão no seu quarto... Vou queimá-las amanhã. Ufa! Como as procuramos!
O arquiduque estendeu a mão.
— Sou-lhe imensamente grato... Senhor... desculpe-me, não sei mais se me disse seu nome.
— Sernine... Príncipe Sernine.
— Perfeitamente. Príncipe Sernine... Nunca esquecerei... Agora tenho que partir.
— Não!
O grito brotara da entrada da sala. Voltaram-se. Simone fechava a porta atrás de si.
— Michel!
Já estava correndo. O arquiduque recebeu-a nos braços.
— Michel... Meu Michel... Sonhava com você. Todas as noites, sonho com você... E agora, está aqui!
— Simone querida!
Sernine recuara alguns passos.
"Ai! O amor dos outros faz mal. Meu pobre coração! Como estão longe de mim, de repente... Ele perdeu a cabeça. Ela, acaba de reencontrá-la. E tu, meu pobre Lupin, tens de consertar toda essa confusão!"
— Monsenhor, o tempo urge. Concedo-lhe um quarto de hora. Saiu para o parque. O vento havia começado a soprar, desfazendo o nevoeiro. Uma lua cheia de inverno formava uma mancha pálida no céu.
"Esse quarto de hora — diria mais tarde Arsène Lupin — foi um dos piores momentos de minha existência. Sentia-me ameaçado por todos os lados e a situação fugia ao meu controle. Mandava para o diabo o arquiduque que acumulava asneiras à vontade. Só tínhamos, o velho Fajon, Mongougeot e eu, que nos fazer matar no local. E isso talvez não bastasse. Que teria aprendido em Saint-Cyr esse jovem desmiolado? A brincar de guerra, mas não certamente, a lutar contra bandidos. E eu sentia, com esse sexto sentido que nunca me enganou, que o perigo se aproximava de minuto a minuto. Há momentos em que a salvação depende da improvisação!"
Sernine esperava, muito calmo. O jardineiro e Mongougeot permaneciam invisíveis. Sem dúvida, estavam escondidos na vegetação sob as árvores, prontos para se atirarem sobre o inimigo. Mongougeot não era excepcional, mas conhecia seu trabalho. Podia-se confiar nele.
Transcorrido o quarto de hora, Sernine voltou à sala. Abafou um resmungo de descontentamento. Cécile substituíra a irmã. Deveria ter imaginado. Simone fora avisar Cécile e esta descera imediatamente. Escutava o arquiduque que falava com animação.
"Quadro comovente — pensou Sernine. — Não parecem desconfiar de que a casa talvez vá nos cair sobre a cabeça!"
Deu uma tossidinha.
— Desculpe-me, Monsenhor, mas está na hora, e bem na hora.
— Refleti — disse o arquiduque. — Levo Simone.
— O quê?
— O senhor viu bem que se reencontrou... que o pesadelo terminou... que tudo está mudado... Simone subiu para preparar a mala.
Sernine olhou Cécile.
— É verdade — disse. — Está completamente lúcida... Ou quase -corrigiu logo. — A prudência desejaria que...
— Pouco se me dá a prudência — interrompeu-a o arquiduque. --Simone já sofreu demais. Quero que agora seja feliz... E não permitirei mais que se oponham aos meus desejos. Minha mãe, meu tio, minhas irmãs... isso é comigo.
— E a princesa Marika? — disse Cécile.
— Pois bem, que se case com o rei da Prússia, como dizem aqui. Um bom escândalo, eis o que arrumará tudo... O problema das cartas não se colocará mais e os seus húngaros me deixarão em paz. Foi o meu casamento com Marika que os encolerizou? Muito bem. Não há mais casamento. Que guardem as armas e voltem para casa... Não é da minha opinião, príncipe Sernine?
— De modo nenhum, Monsenhor.
Sernine inclinou-se levemente diante do arquiduque estupefato.
— Perdoe-me. Eu disse: de modo nenhum. Não pode levar a Senhorita de Mareuse.
— E com que direito...? — começou o arquiduque com altivez.
— Monsenhor, escute-me. 0 momento é mal escolhido para falar de política, mas o senhor me força a isso. Não fiz mais, há pouco, que tocar de leve no problema; ora, acontece que tenho contatos com certos meios... Sou até um pouco aparentado, pelo lado materno, com Beuekendorff... Sim, aquele mesmo que participou da conferência dos Embaixadores... e sabe que, se a Áustria assegurou ao seu país um acesso comercial ao Adriático, foi um pouco graças ao meu primo...
Falava lentamente, para se dar o tempo de inventar de uma maneira plausível, mas, à medida que avançava na demonstração, sentia que não se afastava tanto da verdade e que a História estava para se fazer, nesta sala de castelo, por essas noite de novembro, com mais eficácia que nos gabinetes das chancelarias.
— Os russos o protegem — continuou. — Mas os búlgaros, desde a paz de Bucareste, que lhes tirou entre outras coisas o Dobroudja, o odeiam. Têm esperança que Viena termine por se desentender com Moscou. Trabalham para isso com todas as suas forças... e o partido nacionalista ciliriano revolve céus e terras a fim de fazer oscilar a Cilíria no campo da Tripla Aliança. O equilíbrio europeu é tão frágil que um nada pode arruiná-lo. Basta que a Cilíria, cujo peso é ínfimo, passe para o lado da Áustria e logo a Rússia mobilizará. Eu o sei, Monsenhor.
Sernine disse isso com energia. Pôs nos termos toda a convicção de que era capaz. 0 arquiduque estava atento às suas palavras.
— Ela mobilizará — continuou, — por que interpretará o acontecimento como uma ameaça dirigida contra o mundo eslavo. Ora, a Rússia é aliada da França e da Inglaterra... e a Áustria-Hungria é aliada da Alemanha. É um estopim que liga entre si as potências do continente. Ponha fogo em uma ponta, e queimará em toda a extensão. 0 paiol de pólvora saltará!
Sernine inclinou-se para o jovem arquiduque e acentuou:
— Conhece a situação muito melhor que eu, Monsenhor, mas temo que a tenha subitamente esquecido. 0 fósforo está em suas mãos. Saia daqui com a Senhorita de Mareuse, declare-a sua noiva frente ao mundo... o que significa escarnecer do orgulho da Cilíria... e a chama começa a correr. A explosão nos envolverá a todos.
O arquiduque permaneceu em silêncio por muito tempo.
— Que devo fazer — murmurou por fim. — Estou tio só!
— Não, Monsenhor. Estou consigo... Pensa que não tive sua idade?... Que desconheço os tormentos de um grande amor?... Quem lhe diz que eu mesmo não sacrifiquei um império. É terrível! É a morte! Mas também é a grandeza! O futuro far-lhe-á justiça. Um dia a verdade acabará por ser conhecida e, para seus bisnetos, será o homem que preferiu a paz à sua paixão. Já não é permitido hesitar. A guerra pode entrar a cada segundo. Só há, para retardá-la, um velho armado com um fuzil de caça e um antigo policial que dispõe de alguns cartuchos. Ela ronda, está aí! Cabe-lhe agora dizer sim ou não, deixá-la vir ou afastá-la... Monsenhor... Sim ou não?
O arquiduque estava pálido de emoção. Ergueu-se lentamente, aproximou-se de Sernine e deu-lhe um abraço.
— Príncipe — murmurou, dever-lhe-ei tudo... Estava fora de mim... Já não é permitido hesitar. Casarei com Marika.
— Então, queimemos as cartas... e parta. Já -corremos riscos demais!
— Vou buscá-las — exclamou Cécile. — Simone acaba de nos confirmar que está com elas.
— Não lhe restará mais nada de mim — disse tristemente o arquiduque. — Que lhe acontecerá, quando eu tiver partido?... Príncipe, posso ainda abusar da sua amizade?
— Pode, Monsenhor.
— Gostaria que se ocupasse dela, a consolasse, lhe falasse de mim... Encontrará as palavras... É preciso que saiba bem que lá longe, no meu país — sua voz se enfraqueceu — não deixarei nunca de ser Michel, não deixarei nunca de amá-la... Príncipe, tenho sua palavra?
— Sim, Monsenhor.
— Obrigado... Vá, Cécile. Terminemos.
Cécile atravessou a peça. Ela também estava terrivelmente emocionada. Sernine olhou-a se afastar.
"O pacto diz respeito a ela tanto quanto a mim — pensou — e até mais, pois se teve que velar por Simone demente, terá, a partir de agora, que velar por Simone desesperada. Que a vida fracassada a sua! Como a lamento!"
Sacudiu-se.
— Rápido!... Tem uma capa?
— Está no carro.
— Não deixou nada no esconderijo secreto?
— Não.
— A que horas deve embarcar, em Marseule? nenhum atraso. Levantará âncora na hora marcada. Segue ordens do meu tio, e meu tio é inflexível em matéria de pontualidade.
— A cortesia dos reis — disse Sernine.
— Sim. E, além disso, meu tio quer me afastar definitivamente e o mais rápido possível da França. Não ignora que a minha partida é um sofrimento. Mas...
Um grito terrível, no primeiro andar, interrompeu-o.
— Meu Deus — disse Sernine. — Os húngaros!
Seguido pelo arquiduque, precipitou-se para fora da sala, subiu a escada em alguns saltos. Cécile estava na porta do quarto da irmã.
— Ali... ali...
Simone jazia perto da cama, uma faca enfiada nas costas. À sua volta estava espalhado o conteúdo de uma mala.
— Simone! — gritou o arquiduque.
A janela estava aberta. 0 vento enfunava as cortinas e arrastava pelo chão, aos pouquinhos, uma folha de papel dobrada em dois. Sernine sentiu que a catástrofe estava para ocorrer. Apanhou a folha, deu uma olhada.
Querida Simone...
— Aqui — gritou. — Eles estão com as cartas!
Precipitou-se, avistou uma silhueta que corria pela alameda. Trepou no parapeito e saltou, caiu de mau jeito. Levantou-se capengando.
— Emile!... Fajon!... Detenham-no!
Lá longe, o homem não procurava perder-se sob as árvores. Corria para o portão como um javali. Sernine andava depressa, fazendo caretas de dor, e continuava a gritar, a plenos pulmões:
— Emile!... Fajon!...
Uma segunda silhueta apareceu, na penumbra, onde o luar punha manchas de luz. Depois uma terceira silhueta surgiu. E houve uma confusão enorme.
— Aguentem firme. Estou chegando.
Sernine escutava gemidos, resmungos, golpes surdos. Depois alguém se ergueu, virou os calcanhares para fugir. Raios! Mongougeot continuava caído. Mas o velho Fajon girou o fuzil, deu com a coronha na cabeça do homem que desabou.
— Parabéns! — disse Sernine. — Estava na hora.
Deteve-se perto do grupo, ofegante. Mongougeot ergueu-se, sentou-se, esfregou o estômago.
— Céus! Ele bate com força!
— Pegou as cartas — disse Sernine.
Virou o corpo para cima, sacudiu a cabeça.
— Eu o reconheço. Já tive a honra de esmurrá-lo na mansão do Vésinet. O senhor quer ter a bondade de esvaziar os bolsos... Não? ... O Senhor não pode?... Emile, me ajuda... E você, pai Fajon, fique de olho aberto. Talvez não esteja só.
Mongougeot começou pelo casaco, que continha um lenço, um moedeiro, um maço de cigarros e uma caixa de fósforos...
— As calças, rápido. Não teve tempo de escondê-las. Não o perdi de vista um segundo.
Mongougeot encontrou um revólver e um molho de chaves.
— Não é possível. Arreda-te.
Revistou os bolsos do homem desmaiado. As cartas haviam desaparecido.
— Caíram durante a briga.
— Sernine olhou em torno. A claridade da luz permitia examinar a alameda até uma grande distância. Nada!
— Chefe — arriscou Mongougeot. — Talvez tivesse um cúmplice que o esperasse ao pé do muro.
— Ora! Saltei logo depois dele. Estou certo de que não havia ninguém. Não... Ele as largou ao chão ou durante a fuga... Esperava voltar... Voltemos para dentro. Deveremos encontrá-las com facilidade. E, de qualquer modo, o espertalhão nos dirá o que fez com ela... Levo-o... Onde podemos prendê-lo, pai Fajon?
— No celeiro. A porta é firme.
— Vou na frente. Não tive tempo de me ocupar da pobre Simone... Mas não lhes disse... Ele a apunhalou.
— Meu Deus — gemeu Fajon.
Ergueu o fuzil para esmagar a cabeça do homem. Sernine segurou-lhe o braço.
— Mais tarde — disse.— Se se recusar a falar, deixo-o para você... Prenda-o e espere-me.
Voltou, continuando a capengar, e subiu ao quarto de Simone.
— Morreu — disse o arquiduque.
Estava pálido e um suor de angústia lhe molhava a testa. Cécile chorava. Haviam colocado a moça na cama.
— Monsenhor — sussurrou Sernine. — Sinto uma dor igual à sua. Capturei o assassino, mas não tenho as cartas.
— Tudo, portanto, está perdido — disse o arquiduque com abatimento.
— Não, ainda não. Peço-lhe um instante, o tempo de refletir... As cartas estão aqui!
Desenhou, no espaço, um círculo que compreendia a janela e um pedaço do parque, e o gesto era tão sugestivo que o arquiduque esticou o pescoço como se, com um estalar de dedos, fosse fazê-las voltar para a peça.
— Cécile, quando você subiu...
— Simone estava terminando de fazer a mala. Estava muito excitada. Perguntei-lhe até se não estava com um pouco de febre. Havia aberto a janela. Quis fechar as persianas. Ela me disse: "Deixa. Preciso de ar, agora. De muito ar! Sufoquei por tempo demais." Então, saí, fui buscar-lhe um xale, no guarda-roupa. Quando voltei... estava ali... como a viram...
Levou um lenço aos lábios e acrescentou: — Acho que gritei.
Sernine se virou para o arquiduque.
— Os fatos falam por si mesmos. Simone cometeu a imprudência de abrir a janela. É verdade que ignorava o que se tramava. 0 húngaro aproveitou a ocasião. Subiu apoiando-se na trepadeira e na calha e, imediatamente, feriu-a para impedir a infeliz de gritar por socorro. As cartas estavam aqui... Apoderou-se delas no momento em que Cécile voltava. Surpreendido, enfiou-as no bolso, de qualquer jeito... Até perdeu uma... e saltou. Você o viu, Cécile?
— Não. Estava como que paralisada.
— Conclusão. As cartas estão, necessariamente, em algum trecho do caminho percorrido pelo assassino.
Sernine olhou o relógio.
— Monsenhor... não está mais em condições de dirigir com rapidez... mas tenho o expresso da noite que para em Lyon... Eu o porei no trem. E isso nos deixa ainda um prazo de uma hora. É bem suficiente. Sente forças para procurar conosco?
O arquiduque se recolheu, fechou os olhos, depois se inclinou sobre o leito e pousou os lábios na testa da morta.
— Adeus, meu amor — sussurrou. — Adeus...
Quando se ergueu, estava pálido como um condenado que Vai enfrentar o pelotão de fuzilamento.
— Cécile — disse, — já que o castelo está à venda, eu o compro... E, já que o drama desta noite deve permanecer em segredo, pois, para todo mundo, Simone terá fugido, peço-lhe para enterrá-la no parque... junto das acácias. Mesmo que não volte nunca, ser-me-á agradável saber que está ali... Sigo-o, príncipe.
Desceram e Sernine deu as ordens.
— Pai Fajon, precisamos de lanterna. Cada um de nós se encarregará de um pequeno setor e recordará que o vento pode ter espalhado as cartas. Se dentro de um quarto de hora não forem encontradas, então me ocuparei do prisioneiro, e juro-lhes que falará.
Pronunciara esta palavra com uma voz feroz e lamentou-se de imediato, pois Cécile lançou-lhe um dos seus olhares estranhos, como se estivesse a ponto de adivinhar quem se escondia atrás do príncipe Sernine.
— Somos cinco — observou o velho jardineiro, — e só tenho três lanternas.
— Pois bem, pegaremos lampiões, Mongougeot e eu.
Saíram e logo o pequeno batalhão se dividiu. As luzes se espalharam. Sernine se reservara o local da batalha. Examinava cada arbusto, cada punhado de grama, e, enquanto avançava, pensava em todos esses homens que dormiam tranquilamente, sem imaginar que suas vidas estavam em jogo, que dependiam de algumas folhas perdidas, de algumas linhas escritas imprudentemente por um rapaz que esquecera seus deveres. "Querida Simone..." Essa delicada confissão estava cheia de desgraça e tragédia sem conta... E os minutos passavam e as cartas continuavam a se esconder. Restava o húngaro!
Sernine retornou, alcançou sucessivamente o pai Fajon e Mongougeot, que nada havia conseguido.
— Voltemos — disse.
Encontraram o arquiduque, depois Cécile, junto do patamar. Não restava uma polegada de terreno, entre a fachada do castelo e o local em que o homem caíra, que não houvesse sido examinada. Sernine tomou a decisão. Empunhou o revólver.
— Esperem-me todos na sala. Não vai demorar.
Dirigiu-se para o celeiro. A cólera o fazia tremer. Nunca havia matado, mas, desta vez, não era mais Arsène Lupin; era um soldado, no momento do assalto. Tirou o ferrolho da pesada porta, empurrou-a com um pontapé, ergueu a lâmpada acima da cabeça.
— De pé! — gritou. — Junto da parede!
Entrou. O celeiro estava vazio.
O anel de Gygès
Sernine não se revoltou, não começou a praguejar. Não auscultou as paredes, não bateu no chão. Contentou-se em dar lentamente uma volta pelo celeiro, que continha apenas vasilhas quebradas, ferramentas estragadas e um carrinho de mão. Sentou-se no carrinho, apagou o lampião e apertou a testa com os punhos.
"Alto! Lupin, para de te agitar. Ele estava dentro. Está fora. Eis o problema... Bem que haveria uma explicação: um dos cúmplices teria vindo libertá-lo. Quando? Enquanto voltei para o quarto, com o arquiduque e Cécile... Sim. Mas Fajon e Mongougeot me esperavam em baixo... é uma hipótese. Talvez não seja para se deixar de lado... Entretanto, sei que não é a certa. Sei, é tudo. Sei, porque é impossível que eu esteja vencido, tão perto da meta. Cometi erros. Subestimei, sem dúvida, esses húngaros... Mas há outra coisa... Lupin! Ordeno-te que faças um milagre!..."
Ficou ainda alguns minutos, no escuro, os cotovelos apoiados nos joelhos. Finalmente, pegou o lampião e saiu. Quando tornou a aparecer na sala, seu rosto estava impassível como o de um jogador de pôquer.
— Está com elas? — perguntou o arquiduque.
— Não. Ele fugiu.
Houve um coro de exclamações, de protestos.
— Este casarão está cheio de passagens secretas! — resmungou Mongougeot. — Vai ver que fugiu por um subterrâneo.
— Nesse caso — objetou Sernine, — não teria corrido o risco de atravessar o parque... Teria dado o fora pelo mesmo caminho.
— Está tudo perdido, não é? — disse o arquiduque. — Agradeço-lhe, príncipe. Fez tudo o que pôde. Diante do impossível, ninguém pode fazer nada.
— Diante do impossível, Monsenhor, sempre pude fazer algo. Conseguirei as cartas.
— É tarde demais!
— O Senhor telefonará para cá, amanhã de tarde, às três e meia. E amanhã, às três e meia, estarei com as cartas e queimá-las-ei nesta lareira, como queimo esta.
Tirou do bolso a carta que apanhara no quarto de Simone e atirou-a no fogo.
— Gostaria de acreditar — continuou o arquiduque. — Às três e quarenta, devo estar pondo os pés na ponta do navio. Às três e quarenta, serei o arquiduque da Sérvia. E, pergunto-lhe, o que deve fazer um arquiduque da Sérvia, quando perdeu sua honra?... Não tem escolha... Príncipe, empreste-me o revólver.
Cécile jogou-se para frente.
— Michel!... Não... Pense em Simone. Ela nunca queria isso! Sernine segurou-a e forçou-a a se sentar.
— Cécile!... E o Senhor, Monsenhor!... Conhece-me assim tão mal? Conseguirei as cartas.
— Sabe onde estão?
— Não.
— E está certo de encontrá-las?
— Sim.
— E se os húngaros o matarem?
— Não me matarão.
— Que homem é você, portanto?
Sernine sorriu de um modo misterioso e pôs um dedo diante da boca.
— Um homem — murmurou — de quem o Destino gosta às vezes de se servir. Agora, partamos... Pai Fajon, fique de guarda. Entrincheire-se atrás de nós. Não voltarão, veja bem. O que fugiu preveniu os outros que há gente aqui. Sabem que o golpe fracassou e pensam que avisamos a polícia... Mas, realmente, só ficarei tranquilo, Monsenhor, quando o vir no trem. De que nos serviria ter as cartas, se lhe acontecesse alguma coisa?
— Expressava-se com a tranquilidade de alguém que organiza um piquenique. Sua segurança conquistou o arquiduque, que se inclinou diante de Cécile e estendeu a mão para Fajon.
— Meus amigos, sinto que, graças ao príncipe Sernine, estamos todos salvos. Prometo-lhes, também, que nos tornaremos a encontrar... mais tarde, e o senhor, príncipe, peço-lhe que se considere meu convidado permanente na corte da Sérvia.
Olhou em tomo ainda uma vez, depois saiu por primeiro.
— Eu dirijo — disse Sernine. — Tu, Emile, sobe atrás. Em caso de necessidade, nos cobrirás.
Alcançaram a estrada sem dificuldade.
— Meu carro está um pouco mais adiante — disse o arquiduque. -É um Daimler 40 CV.
A lua, no alto do céu, iluminava o campo deserto. Descobriram o automóvel na estrada de um caminho fundo.
— Belo espécime! — apreciou Sernine.
— Agrada-lhe? — disse o arquiduque. — É seu. Gostaria tanto de fazer mais.
Sernine segurou a manivela; um estrondo poderoso se escutou. Saltou ao volante e deu uma marcha-à-ré que arrancou os cascalhos.
— Chefe... os faróis...
— Inútil. Vê-se o suficiente... e se, por acaso os crápulas ainda estão nesta zona, terão dificuldade em nos seguir.
Uma martelada sacudiu a carroçaria. O motor cobriu o ruído do tiro. Mongougeot voltara-se para o vidro de trás.
— Estão aí! — gritou. — Estão nos seguindo... A cem metros. Uma corrida louca começou. Sernine estava acostumado a dirigir
ligeiro, mas os perseguidores não os deixavam afastar. Nas retas, o Daimler levava-lhes vantagem. Nas curvas, por causa do peso, perdia terreno. A estrada desfilava como um sonho. A noite engolia as formas, os arvoredos.
— Conseguimos nos livrar deles?
— Não, chefe.
— Monsenhor, abaixe-se.
O Daimler passava voando pelos buracos da estrada. O vidro de trás voou aos pedaços.
— Nenhum dodói?
— Não, chefe. Atiram ao acaso.
Dentes trincados, Sernine perscrutava a penumbra à sua frente. Um movimento desajeitado, uma curva demasiado aberta, e seria o fim. Tinha a impressão de que a Morte estava sentada ao seu lado e esperava o momento. Atravessaram uma aldeia, avistaram carretas, braços erguidos, uma propaganda da cera Leão Preto; quase passaram por cima de um cachorro que ganiu.
— Preferiria lutar — disse o arquiduque. — Paremos!
— Nunca! — exclamou Sernine. — O Senhor tem que embarcar em Marseule... e vai embarcar!
O Daimler chegou, a oitenta, a uma encruzilhada e, por instinto, Sernine tomou a direita.
— Meu Deus — praguejou logo. — Enganei-me.
Diminuiu a marcha. Os faróis dos perseguidores atingiram-no brutalmente e tiros estouraram. Sem hesitar, Sernine virou para um campo de milho cujas hastes mirradas arranharam a capota. 0 Daimler surpreendeu os húngaros cujos faróis desapareceram. No fim do campo, o carro tornou a encontrar o caminho certo e acelerou ao máximo.
— Conseguimos nos livrar deles! — rejubilou-se Mongougeot.
— Raios! — gritou Sernine no mesmo instante.
Acabava de avistar uma passagem de nível fechada. Freou com toda a força e o Daimler ziguezagueou, girou, endireitou-se, passando pertinho de uma vala.
— Emile... Rápido!... Vai abrir.
Uma campainha tilintava agudamente, perto da casinha do guarda-barreira, e ouvia-se, na noite, um barulho forte de uma locomotiva ofegante. Mongougeot correu e começou a fazer girar a pesada barreira.
— Tarde demais — disse calmamente o arquiduque. — Eles estão chegando.
O lençol de luz dos faróis rompeu a noite, iluminando como sombra chinesa Mongougeot, que atravessava os trilhos e se apoiava na segunda barreira. Sernine, perseguido de perto pelos húngaros, dirigiu-se para a linha férrea, viu, como um relâmpago, à sua direita, amassa enorme de uma locomotiva envolvida em vapor. Um choque brutal no ombro deitou-o sobre a direção, mas, por um milagre de força de vontade, pisou no acelerador e o Daimler pareceu enfiar-se pela estreita passagem que Mongougeot acabara de abrir. Depois os olhos de Sernine se confundiram. Escutou, atrás de si, um enorme estrondo, ainda teve tempo de pôr em ponto-morto e perdeu os sentidos.
Voltou a si quase em seguida. Uma dor lancinante lhe atravessava a carne.
— Não se mexa, chefe.
Sernine recuperou completamente os sentidos.
— Me pegaram, hem?... É grave?
— Não. Uma bala que simplesmente atravessou a carne, logo abaixo da clavícula. Uma sorte... Mas isso não sangra pouco. Fique quieto, para que lhe faça um curativo.
— Os húngaros?
— Esmigalhados. A locomotiva os pegou em cheio.
— Todos?
— Sem dúvida nenhuma. 0 arquiduque foi ver. Quis detê-lo, mas...
Havia, a uns duzentos metros atrás deles, muita agitação. Sernine inclinou-se para a portinhola fazendo uma careta. Um trem de carga estava parado e lanternas passavam e tornavam a passar em volta da locomotiva que lançava um jato de vapor. 0 arquiduque retornou ao Daimler correndo.
— Nada de bom de se ver — disse. — Mas já não nos farão mal.
— Suba rápido — disse Sernine.
— Não está sofrendo muito? — perguntou o arquiduque.
— Dói um pouco. Vou ficar com o ombro duro por uma semana. Mas não é o meu primeiro batismo de fogo... Emile, me ajuda a trocar de lugar e nos mostra como se dirige, na polícia!
Mongougeot pegou a direção e, meia hora mais tarde, parava diante do cais de Perrache. 0 arquiduque desceu e aproximou-se de Sernine.
— Repito — disse, — nunca poderei pagar-lhe... Mas sou seu amigo... para sempre.
— Obrigado — murmurou Sernine, que sentia as forças fraquejarem... — Parta tranquilo... e telefone, conforme o combinado, às três e meia... Queimarei as cartas... Boa sorte!
Olhou afastar-se o jovem, que caminhava com passo rápido.
— Ter sua idade — disse — ser arquiduque... Como faria coisas! ...
Caiu sobre os braços de Mongougeot e balbuciou:
— Mas por hora, só estou bom para desmaiar...
Quando Sernine voltou a si, estava no seu quarto, no castelo. Quis sentar-se e a dor lhe arrancou um grito. Mongougeot acorreu. Sernine apalpava o ombro. A mão examinava o espesso curativo que lhe imobilizava o alto do braço.
— Na horinha, Emile. Também tens talentos de enfermeiro.
— Não se agite, chefe. Perdeu muito sangue.
— Ora! Não sou um fracote. A prova é que estou com fome. Me privam, aqui. Me maltratam... Então, não?... Não tenho mais direito ao café da manhã"?... O quê?... Não me digas que é muito cedo.
— Mas, chefe... Sabes que horas são?
— Ainda não.
— Vinte para as três!
Sernine agarrou Mongougeot pelo pulso.
— O quê?
— Vinte para as três?
— Da tarde?
— Sim... Lógico... Estava dormindo; não ousamos acordá-lo.
— Imbecil!... Ah! bancas isso, é incrível.
— Mas...
— Cala-te. Cinquenta minutos para encontrar as cartas!... Mas não compreendes, portanto, idiota, que ainda não sei por onde começar... Cinquenta minutos!... Não sou um Bom Deus, Emile... Passa-me as roupas!
Ergueu-se, agarrou-se à lareira. A cabeça girava. Mongougeot quis sair. Sernine chamou-o.
— Eh!... Não tenho mais tempo para comer.
— Mas uma xícara de café, chefe.
— Mais tarde... Por hora, vais me conduzir ao celeiro e, se eu fraquejar no caminho, me carregarás para lá... O roupão... Obrigado... O húngaro ficou uma meia hora aí nesse celeiro... Não mais. .-. Devo descobrir o que fez, nessa meia hora... É todo o problema... Quando souber como se arranjou para desaparecer, saberei também como as cartas desapareceram!
— Não se está aguentando de pé.
— Não preciso ficar de pé, contanto que funcione, aqui... Bateu na testa com o indicador.
— Vamos, Emile, uma ajuda.
Passou o braço são em volta do pescoço de Mongougeot e os dois homens, lentamente, alcançaram a porta, desceram a escada, degrau por degrau.
— Emile — continuou Sernine, — és uma boa pessoa. Não devias ter me deixado dormir... Tens o coração mole demais... Mas és uma boa pessoa... Gostaria que permanecesse comigo... A tua agência é boa para brincar... Vou te ensinar a cuidar de casos de verdade... que dão milhões...
— Chefe... está com febre.
— A febre da descoberta. Vou te ensinar também. Ai! Estavam chegando ao vestíbulo. Cécile apareceu na entrada do salão. Parecia mais pálida e desfeita que o ferido.
— Oh! — disse. — Que imprudência é essa? Aonde vai?
— Para o celeiro — disse Sernine. — O prisioneiro precisou de uma meia hora para se evadir... Uma meia hora; isso nos leva até as três e vinte... O arquiduque vai telefonar às três e trinta... Dez minutos de sobra... Dez minutos a mais... Não proteste, portanto... Não há outro meio.
Coxeando, sustentado à esquerda por Mongougeot, à direita, por Cécile, arrastou-se até o celeiro.
— Aqui... vai dar certo. Agora, me deixem. Tranquem a porta ao sair. Dentro de trinta minutos, exatamente, Emile, virás abrir.
— E não estará mais aqui, chefe?
Sernine sorriu e acariciou o pescoço do policial.
— Parabéns, Emile! Dá-me prazer saber que começas a ter confiança. Tu me instalas bem confortavelmente no carrinho de mão, ali... Perfeito! E desapareces. Não quero que fiques na frente da porta. Não quero ninguém em volta do celeiro. Dá o fora!
Mongougeot saiu e girou duas vezes a pesada chave na fechadura. Depois tomou Cécile pelo braço.
— Venha! Já que não deseja nossa companhia.
— Que ser estranho, não é? — disse Cécile. — Que impressão ele lhe causa?
— Não sei bem — confessou Mongougeot. — Perto dele, me sinto pequenino. Lembro-me de uma reflexão do meu antigo chefe, Ganimard. "Se um dia encontrar um homem que se veste bem, não faz caso da lei, gosta de brincar no momento em que o outro se julgaria perdido, muda de cara à vontade, e é dotado de uma energia fora do comum, salte-lhe em cima: é Arsène Lupin".
— Então... é ele? — disse Cécile.
— Não. Não creio. Este caso só lhe trouxe uma bala no ombro. Não é o gênero de Arsène Lupin!
Entraram na sala. Mongougeot olhou a hora.
— Vinte e cinco minutos ainda!
Colocou duas achas no fogo. Vinte e cinco minutos!
Tudo estava para ser feito! Era preciso cavar uma sepultura e, antes, preparar a pequena morta, lá em cima. Mas, enquanto o príncipe não tivesse dado o sinal de vida, seria incapaz de se mexer. Vinte e cinco minutos, vinte e três agora... para descobrir... na verdade, para descobrir o quê, já que Sernine havia dito que não havia subterrâneo... e se tinha dito, é porque era verdade!... Vinte minutos... para descobrir o jeito de, através de uma porta de carvalho, manobrar a chave, uma chave que era preciso segurar com toda a força para fazê-la girar, de tão enferrujada que estava a fechadura. E esse homem estranho estava diminuído pela ferida, enfraquecido pela hemorragia!...
Com o grande relógio de aço na mão Mongougeot olhava o ponteiro que descia lentamente, de um número ao outro. Cécile, encolhida de frio na poltrona, parecia sonhar. Quinze minutos! Se Arsène Lupin... Mongougeot sobressaltou-se. Acabava de, com toda a naturalidade, pensar em Arsène Lupin em vez de príncipe Sernine. Era ridículo! ... Se o príncipe Sernine não conseguisse encontrar as cartas, esse louquinho do arquiduque era bem capaz de dar um tiro na cabeça! O resto, não, Mongougeot não acreditava... Todas essas complicações diplomáticas, com a guerra no fim... eram fantasmagorias brilhantes... jogos de espírito... o príncipe era um artista ao seu modo... se bem que os húngaros... deram a vida, de qualquer modo, para se apoderar dessas cartas... Dez minutos... Era preciso ser bobo para escrever cartas de amor... "Isso nunca me aconteceu — pensou Mongougeot... — Nunca tive tempo... Junto com o pobre Gaston, tínhamos que ganhar a vida... 0 amor é para os ricos. E quando se vê aonde leva!"
Ergueu-se e começou a caminhar. Cécile havia fechado os olhos. Pobre mulher! Completamente só, agora! O que aconteceria?... O príncipe se ocuparia dela, talvez?... Cinco minutos... Com todos os seus grandes sentimentos, esses dois eram feitos para se entender!... Por que não se casariam?... Cécile tinha às vezes um modo especial de olhar Sernine... e Sernine certamente não era insensível ao encanto de Cécile... Pois Cécile tinha seu encanto! Não tanto quanto Simone! Ah! essa menina!... O rude Mongougeot devia confessar que até ele... A pobrezinha o teria com facilidade levado pelo beiço! Três minutos!...
— Vou lá — decidiu Mongougeot. — Espere-me.
Saiu e caminhou rapidamente para o celeiro. Não teria ficado surpreendido, se houvesse encontrado a porta aberta. Mas o celeiro apresentava o mesmo aspecto. Mongougeot teve que dar as duas voltas na chave. A chave não fora tocada. Abriu a porta.
O príncipe Sernine continuava sentado no carrinho, com o cotovelo direito apoiado na mão esquerda.
— Olá, Emile. Que horas são?
— Três e vinte — balbuciou Mongougeot.
— Muito mais tempo do que eu precisava.
— O quê, chefe! Sabe como o homem saiu?
— Fiquei sabendo quase em seguida.
— E ainda está aí?
— Exatamente. É o que dá forças à minha demonstração. Estava aqui... ainda estou... continuo a estar... Compreendes? Não? Decididamente, é preciso te explicar tudo!... Me ajuda, anda... Estou todo duro... Ai! Um carrinho de mão, sabes, não é o lugar ideal para meditar... E apressemo-nos!... O bom rapaz, em Marseule, já deve estar com a mão no telefone... Viu, o que eu dizia...
A campainha do telefone ressoava na biblioteca.
— Bolas! Está até um minuto adiantado... Já vai... Já vai... Sernine largou Mongougeot e precipitou-se para o aparelho, e
Mongougeot lembrou-se das palavras de Ganimard: "Um homem dotado de uma energia fora do comum... É Arsène Lupin... " Será que.,. ?
Mas Sernine já havia atendido. Cécile apareceu na porta.
— Alô... Está adiantado, Monsenhor... Não, não é uma censura. Não me permitiria... pois bem, agradeço-lhe, não está muito ruim... E o Senhor, Monsenhor?... Fez boa viagem?... O mar está lindo?... Perdão? Ah! As cartas?... Sim, certamente, as cartas... Mas continuo mantendo a palavra, Monsenhor... Estão aqui, na minha frente... Sim, todas... Oh! entrar em detalhes demoraria muito...
Mongougeot abria uns olhos espantados.
— Esperava seu telefonema para queimá-las... Já que está aqui, vamos lá!... Pego a primeira e rasgo-a... em dois, em quatro... Ouve o ruído, Monsenhor... Agora, queimo-a... Emile, um fósforo!
Mongougeot aproximou-se e tentou tirar o telefone das mãos de Sernine. Estava indignado.
— Está louco, chefe!
— Deixa, imbecil... Alô? Monsenhor... Não, não foi nada. É este bom Mongougeot que queria queimar o maço todo de uma só vez... Mas é preferível queimá-las uma por uma, não é? É mais seguro... Sim, é o que estava explicando para ele... Pode partir tranquilo, Monsenhor.
— Está mentindo, chefe — disse Mongougeot, cuja decepção dava pena de se ver.
— E agora, queimo a última... Pronto... Terminou. O passado está apagado... Não, Monsenhor, não fizemos mais do que nosso dever de franceses... Ah! se deseja enviar a Mongougeot sua medalha da Águia Branca, ficará encantado.
— Era melhor morrer — resmungou Mongougeot, cujo rosto honesto estava crispado pelo desgosto.
— Agradeço por ele, Monsenhor... Boa viagem! Meus respeitos...
Sernine desligou e, cambaleando, alcançou a poltrona mais próxima. Na entrada da biblioteca, imóvel, Cécile parecia petrificada.
— Ufa — suspirou Sernine. — Até que enfim partiu!
— Chefe — gemeu Mongougeot — por que lhe mentiu com esse descaramento? Se tivesse as cartas, era a hora de destruí-las de verdade... Mas não as tem... O pobre rapaz embarcou confiado e, entretanto, nada foi resolvido. Ah! não está certo, chefe!
Sernine agitou um dedo ralhador.
— Emile, mereces uma lição... Então, pensas que enganei o rapaz?... Mas eu tenho as cartas. Ou melhor, vou tê-las. Apenas o arquiduque estava tão apressado... Tive de antecipar um pouco... Policial de pouca fé... homem de cabeça dura... Queria que me fosse buscar essas cartas... Pois bem, pior para ti... Não terás a honra... Afasta-te um pouco. Tenho que dizer duas palavras para Cécile... Aproxima-te, Cécile. Tenho uma missão a lhe confiar.
Mongougeot, confuso, retirou-se para o vão da janela e, para disfarçar a atrapalhação, começou a encher o cachimbo, enquanto Sernine se inclinava para Cécile e cochichava por um bom tempo. Cécile o escutava com muita atenção, o rosto sério. Por fim, deixou a peça sem uma palavra, fechando a porta atrás de si.
— Já vai, Emile, já vai... Calma!
— Enfim, chefe... bem que podia me dizer... Onde estão?
— Onde queres que estejam?... Onde há um esconderijo seguro, neste castelo, hem?
— O quê?... O quarto secreto? Atrás da lareira?... Mas já que Simone as havia levado..
Sernine atirou-se para trás e caiu na risada.
— Ai! Por favor, Emile, poupa-me... Vês bem que um nada me causa dor... Mas és tão engraçado! Vejamos! Ponho-me no teu lugar.
Sou eu, Mongougeot, quem raciocina... E eu, Emile Mongougeot, detetive particular, me digo: já que o chefe não pôde sair do celeiro, o prisioneiro também não pôde. Portanto, quando naquela noite o chefe abriu a porta, o prisioneiro ainda estava lá, necessariamente. E se o chefe não viu, é porque o prisioneiro havia ficado invisível... Ora, como é que um homem pode ficar invisível?... E como tens cartas, como leste Platão e Cícero... A República e o De Officiis... a história do pastor Gygès te voltou à lembrança... Forçosamente!... Esse pastor e o anel mágico que tornava invisível à vontade... Cumprimentos, Emile... Portanto, chegaste à conclusão que o húngaro possuía o anel de Gygès... E a partir daí, tudo ficava claro... Deixa-me falar... terminar de exprimir o teu pensamento... Pareceu-te evidente que o nosso homem invisível não podia ter as cartas consigo, senão eu teria visto passar na minha frente, passear no espaço...
— Ora, chefe...
— Ah! és esperto, Emile... Teu raciocínio é digno do meu amigo Sherlock Holmes... Já que o húngaro não tinha as cartas consigo, é que não tivera tempo de apanhá-las no quarto de Simone... Elas ainda estavam lá quando descobrimos a pobre menina assassinada... E quando, no momento da partida do arquiduque, todo mundo saiu do castelo, o homem invisível entrou, e voltou ao quarto de Simone. Desta vez, pegou as cartas e foi escondê-las no quarto secreto aonde se propunha a voltar mais tarde para apanhá-las... Era muito simples, mas talvez eu não tivesse pensado, se não me houvesse posto na pista...
Mongougeot resistia e lançava olhares furiosos.
— Pare! Está zombando de mim, chefe... Seu pastor e o anel...
— Como? Estou zombando de ti? Vais ver!
Cécile estava voltando. Deu a Sernine um maço de cartas amarrado com um elástico. Sernine pegou-as e mostrou-as a Mongougeot.
— Então?... Convencido?
Mongougeot .ficou vermelho. Abriu e tornou a fechar a boca, depois virou-lhes as costas e saiu, batendo com a porta. Houve um momento de silêncio.
— Sente-se, Cécile — continuou Sernine. — Deve ter muitas coisas para me contar.
Ela permanecia muito rígida, na cadeira; o lindo rosto imóvel estava branco como o de uma estátua.
— Compreendi tudo no celeiro — continuou Sernine, — quando tive a certeza de que o homem não teria podido fugir por seus próprios meios. Alguém lhe abrira a porta. Quem?
— Eu — disse Cécile — com um tom de desafio.
— Sim, Cécile, você!... E por quê?... Para que eu não o interrogasse. Pois se o tivesse interrogado, me diria... me provaria que não havia matado Simone, que nem havia chegado a subir ao seu quarto... Mas se desaparecesse, se fugisse, minha investigação estava parada. Para mim, para nós todos, ele permaneceria o assassino. Inútil ir mais adiante... Infelizmente, sempre vou mais adiante.
Sernine retirou uma carta do maço, pegou-a por uma ponta e lhe pôs fogo com o isqueiro; depois, olhou-a queimar.
— Seu pobre amor — disse, — dele só resta um pouco de cinza e fumaça... Não vá pensar, sobretudo, que a julgo, Cécile. Não tenho esse direito. Quem sou eu? Um passante que ficou sensibilizado pela sua aflição.
— Pouco me importa a sua piedade!
— Está bem. Gosto das mulheres orgulhosas. Vou deixá-la completamente só neste castelo, povoado de fantasmas... Mas, antes de ir embora, quero saber a verdade, toda a verdade... Conheço-a, aliás. Ou melhor, adivinho-a.
Apanhou uma segunda carta em que pôs fogo.
— Quando, na noite passada, deixei aqui sua irmã e o arquiduque, como poderia pensar que você estaria acordada, iria descer, vê-los um nos braços do outro, surpreender seus projetos de partida... Cécile! Sei o que sentiu... Esse amor, que a havia torturado, eis que renascia... Tudo o que fizera, todas as provas por que passara, tudo iria recomeçar. Era isso mesmo, não era?...
Cécile, o rosto sempre impassível, não tirava os olhos de Sernine, que queimava uma outra carta, e o reflexo da chama dançava nas suas pupilas.
— O tiro de revólver, dois anos atrás; foi você? — murmurou.
— Sim.
— Tinha certeza. Você amava Michel e Michel a desdenhava. Por um momento, esperou que o casamento com Marika fosse afastá-lo para sempre; mas depois compreendeu, pelo tom das cartas, que não renunciaria a Simone. Então, perdeu a cabeça; atirou...
— Não perdi a cabeça — disse Cécile.
— Desculpe-me. Não lhe farei mais a injúria de desculpá-la... portanto, foi ao quarto onde dormia sua irmã e atirou nela, deixando o revólver ao seu lado... Terminada, aquela paixão que era um insulto para você... Mas estava muito emocionada... Seu coração é cruel, mas sua mão não é implacável... Pensou que Simone estivesse morta; conseguira apenas feri-la...
Calou-se, o tempo de queimar duas cartas.
— É terrível o que lhe aconteceu, Cécile. Uma irmã desmemoriada, o que a salvava, sem dúvida, mas demente!... Todos os dias, diante dos olhos, a imagem renovada do seu gesto! Sua vítima ligada a você pela fraqueza... Oh! Como se puniu! Como se dedicou! ... Essa vida que havia querido lhe tirar, tentou devolvê-la, à custa de todos os sacrifícios.
— Cale-se — sussurrou Cécile.
— Mas — disse Sernine, — se falo, é para ajudá-la... É preciso sugar as feridas venenosas... Colocou-se de corpo e alma a serviço da sua irmã, porque você está de corpo e alma naquilo que decide... E depois esses húngaros apareceram... Aquela noite em que a encontrei pela primeira vez, ia ao Châtelet para ver o arquiduque, não é?... E depois... e depois viemos nos encerrar aqui... Simone estava quase voltando à vida normal... Cada dia, tornava a ser um pouco mais a sua antiga rival. E havia sempre esses húngaros que, à sua maneira, obrigavam-na a recordar sem descanso o passado. Você não aguentava mais, de ciúme, de tédio, de cansaço... Quando viu Michel aqui, Simone transformada pelo amor, a ponto de partir com o homem que havia desejado só para si, tudo estourou... Não haviam notado sua presença... Saiu, na ponta dos pés; muniu-se de uma faca...
Duas outras cartas se desfizeram em chamas e caíram em fragmentos enegrecidos sobre o mármore da lareira.
— O resto — disse Sernine por fim, — preciso explicá-lo?
— Explique. Não tenho medo.
— Pois bem, subiu ao quarto de Simone, esperou-a, matou-a... Em seguida, apoderou-se das cartas que ela trouxera, com efeito, do quarto secreto, mas teve o cuidado de deixar uma no chão... e abriu a janela. Todos pensariam que o assassino viera do parque e que, na fuga, perdera uma carta... Era uma encenação perfeita. Você desce, diz ao arquiduque que acaba de saber da sua presença pela sua irmã... Eu chego, por minha vez... Consigo convencer o arquiduque a partir sozinho e lhe peço para ir buscar as cartas. É então que você "descobre" o crime. Por uma providencial coincidência, seu grito põe em fuga o homem que esperávamos, e que se preparava para se introduzir no castelo... As aparências trabalhavam a seu favor... Você estaria salva se eu não estivesse aí... Mas sempre estou aí quando não devo.
Acabou de queimar as cartas, limpou os dedos com o lenço.
— Já lidei com bons jogadores — concluiu. — Mas da sua categoria, nunca. Quando penso que não se perturbou, há pouco, quando lhe disse, ao ouvido, que sabia que era você que tinha as cartas e lhe pedi que as trouxesse!... Mongougeot não desconfiou de nada.
— Sempre soube que estava perdida — disse Cécile. — E posso lhe dar a prova.
Foi abrir uma escrivaninha e entregou a Sernine uma carta dobrada em quatro.
— Leia!
Imediatamente o cabeçalho chamou a atenção de Sernine.
Convento das Irmãs Agostinianas de Saint-Rambert Em resposta à sua carta, tão comovente, apresso-me a dizer-lhe com que alegria a acolheremos, minhas filhas eeu.na nossa comunidade. Venha quando quiser. Aqui encontrará o descanso e a paz.
Sua irmã em J. C. Marie Angèle, Madre Superior.
— Vê — murmurou Cécile. — É fácil estar calma quando já se está morta. Se não se houvesse adiantado, seria eu quem lhe teria dito a verdade.
— Irmã Cécile — disse Sernine... — até a morte.
— Até o perdão... talvez.
Mongougeot dirigia, sem dizer uma palavra.
— Estás com o jeito de uma velha foca neurastênica — disse Sernine.
— É que não estou contente.
— E por que não estás contente?
— Porque está sempre fazendo troça de mim, chefe. -Eu?
— Sim, você. Sua história de anel mágico, de pastor e sei lá o que mais... É preciso realmente me tomar por um pateta. Também tenho bom senso. Não sou Arsène Lupin, mas ainda sei que dois e dois são quatro... Foi ela quem deu o golpe!
— Por que vens me falar de Arsène Lupin?
— Ainda o pergunta, chefe?
Mongougeot virou para o príncipe a boa cara e bigode, que um sorriso amigo iluminava.
— Eh! — exclamou Sernine. — Olha para a frente. Arsène Lupin já está com um ombro em picadinho. Vamos, cuida dele!
Maurice Leblanc
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