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O PALACETE / Danielle Steel
O PALACETE / Danielle Steel

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O PALACETE

 

          

 

O sol banhava o elegante telhado da mansarda do Palacete quando Abe Braunstein fez a última curva do caminho que conduzia ao edifício. Qualquer outra pessoa teria ficado sem respiração ao avistar a imponente mansão. Um espectáculo! Mas Abe já ali estivera dezenas de vezes. O Palacete era uma das últimas casas lendárias de Hollywood. Uma reminiscência dos palácios que os Vanderbilt e os Astor haviam edificado em Newport, Rhode Island, na viragem do século. O estilo era o dos palacetes franceses do século xvII: opulento, belo, elegante e requintado em todos os seus pormenores. Fora construído em 1918, para Vera Harper, uma das grandes estrelas do cinema mudo e uma das poucas actrizes dessa época que conseguira manter a fortuna. Casara mais de uma vez e ali vivera até morrer, com idade avançada, em 1959. Cooper Winslow comprara-o um ano depois. Como Vera não tinha filhos nem herdeiros, havia deixado todos os seus bens, inclusive o Palacete, à Igreja Católica. Já nessa altura, Cooper, cuja carreira profissional conhecia um êxito estrondoso, pagara uma boa quantia por ele. A compra provocara grande agitação no meio social: a casa e a propriedade eram bens extraordinários para um jovem de vinte e oito anos. Coop não hesitara um segundo em ir viver para o sumptuoso Palacete, que considerava estar à altura do seu estatuto de estrela.

 

A casa, no coração de Bel Air, encontrava-se rodeada de um parque com cinco hectares e meio de superfície e jardins impecavelmente tratados; tinha um campo de ténis e uma enorme piscina revestida de azulejos azuis e dourados, e havia fontes em vários pontos da propriedade. O traçado dos jardins fora alegadamente copiado dos de Versalhes. No interior da mansão, viam-se enormes tectos abobadados, muitos dos quais pintados por artistas franceses trazidos especialmente para o efeito. A sala de jantar e a biblioteca eram revestidas de lambris de madeira, e o madeiramento das paredes e chão da sala de estar haviam sido trazidos de um palacete francês.
Um cenário perfeito para Vera Harper, primeiro, e para Cooper Winslow, depois. Abe Braunstein estava satisfeito por Cooper Winslow, em 1960, ter comprado a casa e o terreno a pronto, embora os houvesse posteriormente hipotecado por duas vezes. Mas nem isso os desvalorizara. Esta era, de longe, a propriedade mais valiosa de Bel Air. Hoje em dia teria sido extremamente difícil atribuir-lhe um preço. Não havia casas semelhantes na zona, ou onde quer que fosse, à excepção, talvez, em Newport; mas a propriedade valia muito mais em Bel Air do que em qualquer outro sítio, apesar de já estar a precisar de obras.

 

Quando Abe saiu do carro, dois jardineiros que arrancavam ervas em torno da fonte principal, e outros dois que trabalhavam num canteiro próximo trouxeram-lhe à mente a necessidade de reduzir o pessoal de jardinagem pelo menos a metade. À medida que olhava à sua volta, só via números e notas de dólar a voar pelas janelas. Sabia, quase até ao cêntimo, quanto custava a manutenção da propriedade. Era uma despesa louca, pelos padrões de uma pessoa normal e, naturalmente, pelos de Abe. Tratava da contabilidade de pelo menos meia dúzia das estrelas mais conhecidas de Hollywood e há muito que não o espantava nem chocava aquilo que gastavam em casas, carros, peles e colares de diamantes para as namoradas. Porém, todas essas extravagâncias juntas nada eram, quando comparadas com as de Cooper Winslow. Abe estava convencido de que Coop Winslow gastava mais do que o rei Faruk. Há quase cinquenta anos que esbanjava dinheiro como água, e há mais de vinte que não interpretava um papel importante num grande filme. Nos últimos dez anos, limitara-se a papéis secundários e participações especiais, trabalhos pelos quais recebia muito pouco. Cooper sempre desempenhara papéis de galã. No entanto, e por mais irresistível que ainda fosse no ecrã, cada vez lhe davam menos papéis. De facto, há mais de dois anos que Coop não trabalhava em cinema. Mas afirmava encontrar-se com realizadores e produtores todos os dias. Abe viera falar com ele, sem papas na língua, acerca desse assunto e da necessidade de reduzir radicalmente as despesas a curto prazo. Há cinco anos que vivia atolado em dívidas e em promessas. E Abe estava-se
nas tintas para o facto de Coop fazer anúncios para o talho do bairro. Só tinha uma opção: sair de casa e ir trabalhar... e o mais depressa possível! Teria de alterar muita coisa na sua vida: reduzir drasticamente as despesas e o pessoal, vender alguns dos seus carros, deixar de comprar roupas e de se instalar nos melhores hotéis mundiais. Ou isso, ou vender o Palacete, que era a alternativa preferida de Abe.

 

Quando o mordomo, de fraque, abriu a porta principal, Abe, que envergava um fato de Verão cinzento, camisa branca, e gravata branca e cinzenta, exibia um ar severo. O criado reconheceu o contabilista de imediato e cumprimentou-o com um ligeiro e silencioso gesto de cabeça. Livermore sabia, por experiência, que sempre que o contabilista aparecia, o patrão ficava num estado de espírito terrível. Por vezes, só uma garrafa de champanhe Cristal e uma lata de caviar conseguiam devolver-lhe o habitual bom humor. Já pusera ambas as coisas em gelo quando Liz Sullivan, a secretária de Coop, o avisara de que o contabilista viria ao meio-dia.

 

Liz atravessou o vestíbulo, com um sorriso nos lábios, mal ouviu a campainha. Desde as dez da manhã que se encontrava na biblioteca a passar uma vista de olhos por alguns documentos, preparando a reunião com Abe, sentia um aperto no estômago desde a noite anterior. Na véspera tentara avisar Coop do conteúdo da reunião, mas ele andara demasiado ocupado para lhe dar ouvidos. Como ia a uma festa de cerimónia, fora ao barbeiro e ao massagista e dormira uma soneca antes de sair. E, nessa manhã, Liz ainda nem sequer o vira. Coop não estava em casa: fora tomar o pequeno-almoço ao Beverly Hills Hotel com um produtor, que lhe telefonara a propor um papel num filme. Era difícil segurar Coop, especialmente quando suspeitava que lhe queriam dar más notícias. Havia nele algo de instintivo, uma espécie de radar supersónico que detectava as coisas que não queria ouvir. Como se de mísseis Scud se tratasse, sabia esquivar-se delas com a maior das facilidades. Mas, desta vez, tinha de dar ouvidos a Liz. Prometera regressar por volta do meio-dia. Isso queria dizer cerca das duas horas.

 

- Olá, Abe! Prazer em vê-lo! - cumprimentou Liz, num tom caloroso. Trazia calças de caqui, camisola branca e
um colar de pérolas, que em nada a favoreciam, pois engordara consideravelmente ao longo dos vinte e dois anos em que trabalhara para Coop. Mas tinha um rosto agradável e cabelos loiros. Possuía uma beleza genuína quando Coop a contratara. Parecia modelo de um anúncio ao champô Breck. Fora amor à primeira vista. Não literalmente, pelo menos da parte de Coop. Ele achava-a espectacular, e prezava a eficiência e a forma maternal como ela o tratava desde o primeiro momento. Quando a contratou, Liz contava trinta anos, e ele, quarenta e oito. Ela adorara-o e há anos que tinha um fraquinho por ele. Dedicara-se de alma e coração à gestão impecável da vida de Cooper Winslow, trabalhando catorze horas por dia, às vezes os sete dias da semana. Com o decorrer do tempo, esquecera-se de casar e ter filhos. Um sacrifício que fizera de bom grado pelo velho actor. E continuava a pensar que ele o merecia. Passava boa parte do seu tempo preocupada com ele, especialmente nos últimos anos. A realidade não era importante para Cooper Winslow. Considerava-a um incómodo, como um mosquito a zunir-lhe à volta da cabeça, e evitava-a a todo o custo. A maior parte das vezes com êxito, pelo menos do seu ponto de vista. De facto, quase sempre Coop só ouvia aquilo que queria ouvir, isto é, as boas notícias. E filtrava o resto muito antes de chegar ao cérebro ou aos ouvidos. Até agora, não se saíra mal. Abe viera, nessa manhã, para lhe dar conta da realidade, quer ele gostasse, quer não.

 

- Olá, Liz! Ele está em casa? - indagou Abe, de semblante carregado.

 

Detestava tratar do que quer que fosse com Coop. Tinham visões opostas em relação a tudo.

 

- Ainda não chegou - respondeu Liz, com um sorriso afável, enquanto o conduzia até à biblioteca. - Mas não tardará. Foi a uma reunião por causa de um papel principal.

 

- Em quê? Num filme de desenhos animados?

 

Liz, com muita diplomacia, não respondeu. Detestava que as pessoas fossem indelicadas com Coop. Mas também sabia que o contabilista estava extremamente irritado com ele.

 

Coop não seguira nenhum dos seus conselhos, e a situação financeira tornara-se desastrosa nos últimos dois anos. As últimas palavras de Abe para Liz, ao telefone, no dia anterior, haviam sido: ”Isto tem de acabar!” E era isso mesmo que vinha dizer a Coop. Mas, como de costume, Coop estava atrasado, facto que o aborrecia. Nunca chegava a horas a lado nenhum. E, por ser quem era e pela sua personalidade cativante, as pessoas acabavam sempre por ficar à espera dele. Até Abe.

 

- Quer uma bebida? - perguntou Liz, fazendo as honras da casa, enquanto Livermore se mantinha impassível. No seu rosto, nunca se vislumbrava qualquer expressão. Era um aspecto que parecia adaptar-se bem ao seu papel. Embora se dissesse que, por uma ou duas vezes, esboçara um sorriso, quando Cooper o havia provocado implacavelmente por uma coisa qualquer, nunca ninguém o vira efectivamente sorrir. Mas Cooper jurava a pés juntos que vira.

 

- Não, obrigado - respondeu Abe, com um ar tão imperturbável como o do mordomo, embora Liz se apercebesse de que a irritação começava a tomar conta dele a um ritmo galopante.

 

- Chá gelado? - perguntou Liz, tentando pô-lo à vontade.

 

- Pode ser. A que horas acha que ele chega?

 

Era meio-dia e cinco. Ambos sabiam que a Coop pouco lhe importava chegar uma ou duas horas atrasado. Mas viria com uma desculpa plausível artilhada, e um sorriso deslumbrante, que faria qualquer mulher cair de joelhos, mas não surtiria qualquer efeito em Abe.

 

- Creio que não deve demorar muito. É uma simples reunião preliminar, para lhe apresentarem o guião.

 

- Para quê?

 

Nos seus últimos trabalhos, limitara-se a aparecer como figurante, entrando ou saindo de uma cerimónia de antestreia, ou conversando num bar com uma moça qualquer. Desempenhava quase todos os papéis em traje de cerimónia. E tinha tanto charme na tela como na vida real. Conseguia sempre ficar com os fatos que usava nos filmes, feitos nos seus costureiros favoritos de Paris, Londres e Milão. Mas, para contrariedade de Abe, não deixava de comprar roupa, e gastar cada vez mais em antiguidades, cristais, linhos e objectos de arte de preços exorbitantes. As facturas iam-se amontoando em cima da secretária de Abe, juntamente com a do seu mais recente Rolls Royce. Dizia-se que, ultimamente, andava de olho numa série limitada de um Bentley Azure descapotável a turbo, que custava a módica quantia de meio milhão de dólares. Seria um belo acrescento aos dois Rolls, um descapotável e um sedan, e à limusina Bentley, mandada fazer de encomenda, que tinha na garagem. Coop via os carros e o guarda-roupa como necessidades da vida, não como luxos. Tudo o resto era secundário.

 

Um criado apareceu então com dois copos de chá gelado numa bandeja de prata. Livermore desaparecera. Abe olhou para Liz, de sobrolho franzido, ainda o jovem nem sequer abandonara a sala.

 

- Ele tem de despedir pessoal. Quero que o faça ainda hoje.

 

O criado olhou para trás, por sobre o ombro, com ar preocupado, e Liz esboçou um sorriso tranquilizador. Uma das suas funções era manter toda a gente satisfeita e pagar as contas. Os salários dos criados encontravam-se no topo da sua lista de prioridades, porém, às vezes, até esses pagamentos tinham de ser protelados. Os criados já estavam habituados. E ela própria não recebia há seis meses. Tivera alguma dificuldade em explicar esse facto ao noivo. Geralmente, só depois de Coop fazer um anúncio ou de receber um pequeno papel num filme é que ela via algum dinheiro. Podia dar-se a esse luxo. Ao contrário de Coop, tinha um pé-de-meia e, durante anos, vivera com alguma frugalidade. Sempre que podia, Coop era extremamente generoso com ela.

 

- Talvez pudéssemos deixar isso para mais tarde, Abe. Vai ser muito duro para eles.

 

- A situação financeira de Coop não permite pagar-lhes os salários, Liz. Você sabe disso muito bem. Vou aconselhá-lo a vender os carros e a casa. Não receberá muito pelos carros, mas, se vender a casa, podemos pagar a hipoteca e as dívidas, e Coop poderá levar uma vida decente e descansada. Pode comprar um apartamento em Beverly Hills e voltar de novo à ribalta. - Há muito que estava afastado dela.

 

Mas Liz sabia que a casa fazia parte de Coop, como um braço ou uma perna. Era o seu coração. Há mais de quarenta anos que fazia parte da sua identidade. Coop preferiria morrer a vender o Palacete. E não se desfaria dos carros. Disso tinha ela a certeza. A ideia de Coop ao volante de um carro que não fosse um Rolls ou um Bentley era impensável. Era essa a sua imagem de marca. Muitas pessoas não faziam a menor ideia de que se encontrava numa situação financeira extremamente complicada. Achavam apenas que se desleixava um pouco a pagar as suas contas. Há alguns anos, tivera um pequeno problema com o IRS, que Liz resolvera com os dinheiros que ele havia recebido pela sua participação num filme na Europa. Essa situação nunca mais voltara a repetir-se. Mas, agora, as coisas estavam pretas. Só precisava de entrar num grande filme, costumava ele dizer. Liz fez saber isso mesmo a Abe. Sempre defendera Coop. Há vinte e dois anos que o fazia. Porém, nos últimos tempos, cada vez se tornava mais difícil, devido à forma irresponsável como ele se comportava. Mas esse era o Coop que ambos bem conheciam.

 

Abe estava farto.

 

- Ele já tem setenta anos. Há dois anos que não entra num filme, e há vinte que não lhe dão um papel principal. Se fizesse mais anúncios ajudaria um pouco. Mas não é suficiente. Não podemos manter esta situação durante muito mais tempo, Liz. Se Coop não pagar tudo o que deve, irá parar à cadeia.

 

Há mais de um ano que Liz utilizava cartões de crédito para pagar cartões de crédito. Esta situação estava a dar com Abe em doido. Havia ainda uma série de outras contas por pagar. A ideia de Coop na cadeia era absurda.

 

Era uma hora da tarde quando Liz pediu a Livermore para trazer uma sanduíche a Abe, que parecia prestes a deitar fumo pelos ouvidos. Estava furioso com Coop, e só a devoção à profissão o mantinha ali sentado. A determinação de fazer o que se propusera mantinha-se, com ou sem a ajuda de Coop. Gostaria de saber como é que Liz ainda se aguentava ao pé dele, ao fim daqueles anos todos. Sempre suspeitara de que havia um romance entre eles e ficaria espantado se lhe dissessem o contrário. Tanto Coop como Liz eram pessoas inteligentes. Ela adorava-o há anos e nunca fora para a cama com ele. Nem ele lhe pedira tal coisa. Para Coop, algumas relações eram sagradas, e esta, nunca ousaria manchá-la. Afinal de contas, era um cavalheiro.

 

Abe acabou a sanduíche à uma e meia, altura em que Liz conseguira fazer versar a conversa sobre os Dodgers, o clube favorito do contabilista. Sabia que ele era um apaixonado do basebol. Pôr as pessoas à vontade era uma das coisas que Liz fazia melhor. Abe quase esquecera as horas quando ela virou a cabeça para o lado. Conhecia o barulho do carro na gravilha. Abe não ouvira coisa alguma.

 

- Aí está ele! - exclamou Liz, com um largo sorriso nos lábios, como se anunciasse a chegada dos três Reis Magos.

 

E, como sempre, Liz tinha razão. Coop vinha ao volante do Bentley Azure descapotável que o vendedor lhe emprestara há várias semanas. Era uma máquina esplêndida, talhada na perfeição para ele. Ouvia um CD de La Bohème, quando fez a última curva e parou o carro diante da casa. Era um homem elegante, de cortar a respiração, com traços finos e queixo fendido. Tinha olhos azul-escuros, pele clara e macia, e cabelos cor de prata, imaculadamente tratados e penteados. Mesmo com a capota descida, não trazia um único cabelo fora do lugar. Nunca se lhe via tal coisa. Cooper Winslow era o epítome da perfeição em todos os pormenores. Másculo, elegante, com extraordinário à vontade. Raramente perdia as estribeiras ou se mostrava desanimado. Tinha um ar de elegância aristocrática, que aperfeiçoara como uma arte e se lhe tornara natural. Provinha de uma antiga família de Nova Iorque, com antepassados distintos e sem dinheiro.

 

No início da sua carreira, desempenhava todos os papéis de menino rico, de classe abastada, uma espécie de Cary Grant dos nossos dias, com ares de Gary Cooper. Nunca fizera de vilão ou de duro, só papéis de playboy e de fogosos heróis impecavelmente vestidos. As mulheres adoravam os seus olhos meigos. Nunca teve mau íntimo, nem nunca foi mesquinho ou cruel. As mulheres com quem saía adoravam-no, mesmo depois de se separarem dele. Conseguia quase sempre engendrar maneira de o deixarem, quando já estava

 cansado delas. Era perito a lidar com as mulheres, e a maior parte daquelas com quem mantivera um romance dizia bem dele. Achavam-no divertido. Coop tratava-as com extrema cortesia enquanto o romance durava. E quase todas as grandes estrelas femininas de Hollywood haviam sido vistas, em uma ou outra ocasião, nos seus braços. Fora sempre um celibatário e um playboy. Aos setenta anos, conseguira escapar daquilo a que chamava ”a rede”. E não aparentava a idade que tinha.

 

Sempre tivera um cuidado extremo consigo. Nunca pareceu ter mais de cinquenta e cinco anos. Quando saiu do sumptuoso carro, envergando blazer, calças cinzentas, e uma imaculada camisa azul mandada fazer em Paris, evidenciaram-se os ombros largos, físico impecável e pernas intermináveis. Tinha um metro e noventa e três, coisa rara em Hollywood, onde a maioria das estrelas havia sido sempre de baixa estatura. Acenou para os jardineiros em sinal de cumprimento, com um radioso sorriso onde se salientava a dentadura cuidada; mas uma mulher teria também reparado nas mãos, igualmente bem tratadas. Cooper Winslow parecia ser o homem perfeito. E, num raio de oitenta quilómetros, podia constatar-se o fascínio que exercia sobre as pessoas. Era um íman, tanto para as mulheres como para os homens. Apenas um reduzido número dos seus conhecidos, entre os quais Abe Braunstein, se mostrava indiferente ao seu charme. Para todas as outras pessoas, porém, havia nele um irresistível magnetismo, uma espécie de aura, que fazia com que se virassem e esboçassem um sorriso de admiração. Em suma, era um homem de espectacular aparência.

 

Livermore, que também o vira chegar, abriu-lhe a porta.

 

- Estás com bom aspecto, Livermore. Morreu alguém hoje?

 

Coop metia-se sempre com o mordomo por causa do seu ar sisudo. Fazê-lo sorrir era para si um desafio. Há quatro anos que Livermore trabalhava para Coop, e o velho actor estava imensamente satisfeito com ele: agradavam-lhe a sua dignidade, a firmeza, a sua eficiência e estilo. Emprestavam à casa precisamente o tipo de imagem que Coop pretendia alcançar. E Livermore tomava conta do guarda-roupa de forma irrepreensível, o que era importante para Coop. Tratava-se de uma das principais tarefas do mordomo.

 

- Não, senhor. Miss Sullivan e Mister Braunstein estão na biblioteca. Acabaram de almoçar.

 

Não lhe disse que o esperavam desde o meio-dia. De qualquer forma, Cooper estar-se-ia nas tintas para esse facto. Do seu ponto de vista Abe Braunstein trabalhava para si, e se tivera de esperar a única coisa que tinha a fazer era cobrar-lhe esse tempo de espera.

 

Ao entrar na biblioteca, em passadas largas, Coop lançou um sorriso cativante a Abe, parecendo algo divertido, como se acabasse de ouvir uma piada. Cooper Winslow dançava ao seu próprio ritmo.

 

- Espero que lhe tenham servido um almoço decente afirmou, como se houvesse chegado a tempo, e não quase duas horas atrasado. Geralmente, o seu estilo fazia com que as pessoas baixassem a guarda, esquecendo a irritação por causa do atraso, mas Abe não se deixou levar em manobras de diversão e foi directo ao assunto.

 

- Estamos aqui para falar de finanças, Coop. Temos de tomar algumas decisões.

 

- Claro! - retorquiu Coop, rindo, ao mesmo tempo que se sentava no sofá e cruzava as pernas. Sabia que, dentro de segundos, Livermore lhe traria um cálice de champanhe, e assim aconteceu. Era o vintage Cristal que costumava beber, servido à temperatura ideal. Possuía dúzias de caixas dele na adega, além de outros vinhos franceses fabulosos. Tanto a adega como o seu gosto eram lendários. - Vamos dar um aumento a Liz. - E sorriu para a secretária, cujo coração começou a bater mais depressa. Também ela tinha más notícias a comunicar-lhe. Receara dar-lhas durante toda a semana, esperando pelo fim-de-semana para esse efeito.

 

- Vou despedir todo o seu pessoal doméstico hoje declarou Abe sem cerimónia. Coop soltou uma gargalhada, enquanto Livermore abandonava a sala com o seu habitual ar impassível, como se nada tivesse sido dito. Coop bebeu um gole de champanhe e pousou o copo em cima de uma mesa de mármore que comprara em Venice, aquando da venda do palacete de um amigo.

 

- É uma ideia brilhante. Como é que se lembrou disso? Não seria melhor crucificá-los, ou dar-lhes um tiro? Para quê despedi-los? Isso são coisas de classe média!

 

- Estou a falar a sério. Têm de ser despedidos. Acabámos de lhes pagar os salários. Há três meses que não recebiam. E não temos possibilidades de lhes voltar a pagar. Não podemos continuar com esta despesa, Coop. - Havia um tom de lamento na voz do contabilista, como se soubesse que nada do que dissesse ou fizesse poderia convencer o velho actor a levá-lo a sério. Quando falava com Coop, tinha sempre a sensação de estar a falar para o boneco. - Vou avisá-los do despedimento ainda hoje. Têm de sair no espaço de duas semanas. Vou deixar-lhe uma criada.

 

- Maravilhoso! E sabe engomar fatos? Qual é que me vai deixar?

 

Tinha três criadas, uma cozinheira, o criado que servira o almoço, Livermore, oito jardineiros e um motorista em regime de part-time para os eventos importantes. Um autêntico exército, embora pudesse prescindir de muitos deles. Mas gostava de ser bem servido e de satisfazer todos os seus desejos.

 

- Vou deixar-lhe a Paloma Váldez. É a que tem o salário mais baixo - sentenciou Abe, pragmático.

 

- Qual delas é? - Coop olhou para Liz com ar inquisitivo. Não se lembrava de ninguém com aquele nome. Duas das criadas eram francesas, Jeanne e Louise, e essas sabia quem eram, mas o nome Paloma não lhe dizia nada.

 

- É a salvadorenha que contratei o mês passado. Pensei que gostasse dela - respondeu Liz, como se estivesse a falar com uma criança. Coop parecia baralhado.

 

- Pensei que o nome dela era Maria, e é isso que lhe tenho chamado, mas nunca me responde. Ela não vai conseguir dar conta da casa toda. É ridículo - disse Coop, em tom jovial, enquanto olhava para Abe, não parecendo perturbado pela notícia.

 

- Não tem alternativa - ripostou Abe bruscamente. Tem de despedir pessoal, vender os carros e, durante o próximo ano, não comprar rigorosamente nada, mas mesmo nada: nem carros, nem fatos, nem um par de meias, nem quadros,  nem uma toalhinha de mesa. E, então, talvez consiga começar a sair do buraco em que está metido. Gostaria de vê-lo vender a casa ou, pelo menos, arrendar a casa do caseiro, e talvez até parte desta, o que faria entrar algum dinheiro. Liz disse-me que a ala de hóspedes nunca é utilizada. Podia arrendá-la. Por ela e pela casa do caseiro era capaz de receber bom dinheiro. Não precisa de nenhuma delas. - Ponderara maduramente esta questão. Era uma pessoa muito conscienciosa das suas obrigações.

 

- É ridículo arrendar parte da casa. Porque não a transformamos num colégio interno? Ou numa escola de etiqueta? Que ideia mais estapafúrdia essa de arrendar a casa! Coop estava deleitado com a situação, não mostrando qualquer intenção de fazer o que quer que fosse. Abe fitava-o de semblante carregado.

 

- Acho que não está a ver bem a situação em que está metido. Se não seguir os meus conselhos, vai ter de pôr a casa à venda e ficar sem ela no espaço de seis meses. Está quase na bancarrota, Coop.

 

- Isso é ridículo. A única coisa de que preciso é de entrar num grande filme. Hoje deram-me a ler um argumento espectacular - retorquiu Coop, esboçando um sorriso de satisfação.

 

- O seu papel é importante? - indagou Abe, impiedoso. Continuava a bater na mesma tecla.

 

- Ainda não sei. Disseram que depois me escrevem. O papel pode ter a importância que eu quiser.

 

- Cheira-me a participação especial - comentou Abe, perante o ar crispado de Liz. Detestava que as pessoas fossem cruéis com Coop. E a realidade parecia ser sempre cruel para ele, tanto que Coop não lhe ligava nenhuma. Evitava-a. A única coisa que queria da vida era que fosse agradável, divertida, fácil e bela em todas as ocasiões. Para si, era. Só não tinha condições económicas para manter esse estilo de vida, mas isso nunca o impedira de viver como queria. Nunca hesitara em comprar um carro novo, em mandar fazer meia dúzia de fatos, ou em comprar uma peça de joalharia para oferecer a uma mulher. E as pessoas estavam sempre dispostas a fazer negócio com ele. Queriam o prestígio de o ter a exibir as suas coisas. Acreditavam que ele acabaria por pagar, o que acontecia quase sempre. Fosse como fosse, as contas apareciam pagas, muitas das vezes graças a Liz.

 

- Abe, você sabe tão bem como eu que, com um grande filme, ficaremos novamente a nadar em dinheiro. Na próxima semana posso receber dez, quinze milhões de dólares por um filme. - Continuava a viver num sonho.

 

- Receba-os, se tiver sorte. Até pode receber quinhentos mil, ou três, ou dois, tanto me faz. Você já não consegue receber grandes cachés, Coop. - A única coisa que não disse foi que a época áurea de Cooper Winslow já passara. Até Abe sabia que não podia dizer-lhe tudo o que pensava. Mas a verdade é que o velho actor teria muita sorte se recebesse cem ou duzentos mil dólares. Por muito bem-parecido que fosse, Cooper Winslow era demasiado idoso para actor principal. Esses tempos haviam acabado para sempre. - Não pode continuar a valer-se da sorte. Se disser ao seu agente que quer trabalho, talvez ele lhe arranje anúncios por cinquenta ou cem mil dólares, se o produto for de peso. Não podemos estar à espera de uma grande quantia, Coop. Tem de fazer cortes no orçamento até isso acontecer. Pare de gastar dinheiro como água, reduza o pessoal ao mínimo, arrende a casa do caseiro e parte desta, e talvez o panorama fique menos sombrio nos próximos meses. Se não o fizer, terá de vender a casa ainda antes do final do ano. Seria a melhor coisa a fazer. Mas a Liz acha que você está determinado a não sair daqui.

 

- Sair do Palacete? - Coop riu-se ainda com mais vontade. - Mas que ideia mais estapafúrdia! Vivo aqui há mais de quarenta anos.

 

- Bem, mas deixará de viver, se não começar a apertar o cinto. Não é segredo nenhum, Coop. Já lhe chamei a atenção para isso há dois anos.

 

- Pois chamou, e ainda aqui me mantenho, e não estou nem na bancarrota nem na cadeia. Tem de tomar antidepressivos, Abe. Talvez o ajudem a ver as coisas de forma menos sombria. - Costumava dizer a Liz que Abe parecia um cangalheiro, até na forma de vestir. Coop nunca lho dissera, mas não gostava mesmo nada que ele andasse de fato de Verão em Fevereiro. Esse tipo de coisas aborrecia-o, mas não queria embaraçá-lo comentando-as. Pelo menos, não estava a sugerir a Coop que vendesse também o guarda-roupa. - Está mesmo a falar a sério acerca dessa questão do pessoal, não está? - Coop olhou de relance para Liz, que o observava com ar complacente. Imaginava o desconforto que ele devia estar a sentir.

 

- O Abe tem razão. Você está a gastar demasiado em salários, Coop. Talvez devesse fazer uns cortes durante uns tempos, até haver mais dinheiro. - Liz deixava-o sempre ter os seus sonhos. Precisava deles.

 

- Como é que uma salvadorenha, sozinha, pode dar conta da casa toda? - perguntou Coop, perplexo. Era uma ideia absurda. Pelo menos, para ele.

 

- Ela não terá de o fazer, se você arrendar parte da casa

- retorquiu Abe, pragmático. - Pelo menos, isso resolverá um problema.

 

- Há dois anos que a ala de hóspedes não é utilizada, e há quase três que a casa do caseiro se encontra fechada. Julgo que tanto uma como outra não lhe farão falta - lembrou Liz, num tom afável, parecendo uma mãe a tentar convencer o filho a dar alguns dos seus brinquedos aos pobres ou a comer a carne.

 

- Por que carga de água iria eu querer estranhos na minha casa? - indagou Cooper, algo aturdido.

 

- Porque você não quer vender a casa, só por isso replicou Abe -, e não tem alternativa. Estou a falar muito a sério, Coop.

 

- Bem, vou pensar no assunto - prometeu Coop, algo hesitante. A ideia não fazia o menor sentido. Ainda tentava imaginar como seria a vida sem qualquer tipo de apoio. Não devia ser muito divertida. - E não está à espera que eu me ponha a cozinhar, pois não? - Parecia desorientado.

 

- A julgar pelos seus cartões de crédito, costuma ir jantar fora todas as noites. Nunca irá sentir falta da cozinheira. Ou do resto dos criados. Podemos mandar vir um serviço de limpeza, de tempos a tempos, se as coisas começarem a andar fora dos eixos.

 

- Que maravilha! E porque não um porteiro? E talvez também pudéssemos contratar um grupo de presos em liberdade condicional. - Os olhos de Coop faiscavam, perante o ar exasperado de Abe.

 

-Já tenho os cheques e as cartas de despedimento replicou Abe, com ar severo. Queria ter a certeza de que Coop percebia que ele ia mesmo despedi-los. Não havia outra alternativa.

 

- Vou falar com um corretor imobiliário na segunda-feira - informou Liz, numa voz sumida. Detestava irritá-lo, mas ele tinha de saber. Não podia fazer uma coisa daquelas sem lhe dar conhecimento. Também achava que o arrendamento dos dois espaços não era má ideia. Coop não teria de abandonar o Palacete e receberia uma boa quantia. Era uma das melhores ideias de Abe. E seria muito mais fácil para Coop do que vender a casa.

 

- Está bem, está bem. Mas certifiquem-se de que não me metem um assassino dentro de casa. E nada de crianças, por amor de Deus, ou cães a ladrar. Para dizer a verdade, só estou interessado em inquilinas, e bonitas. Eu próprio faço as entrevistas - assentiu, meio a brincar. Liz achava que ele estava a ser extremamente razoável, e ia tentar arranjar inquilinos o mais depressa possível, antes que ele desse o dito por não dito.

- É tudo? - perguntou a Abe, enquanto se levantava para mostrar que já estava farto. Fora uma dose forte de realidade para Coop. E era óbvio que queria que Abe se fosse embora.

 

- Por agora, é tudo - respondeu Abe, pondo-se de pé. Eu estava mesmo a falar a sério, Coop. Não compre nada!

 

- Prometo. Terei o cuidado de ver se as meias e as cuecas têm buracos. Deixo-o dar-lhes uma olhadela da próxima vez que cá vier.

 

Abe não ripostou e encaminhou-se para a porta. Entregou os envelopes que trouxera a Livermore, pedindo-lhe para os distribuir pelo pessoal. Tinham todos de sair no espaço de duas semanas.

 

- Que homenzinho desagradável - comentou Coop para Liz, sorrindo, depois de Abe sair. - Deve ter tido uma infância terrível, para pensar daquela maneira. Provavelmente, passava o tempo a arrancar as asas às moscas. E, por amor de Deus, haja alguém que deite fogo aos fatos com que anda!

 

- As intenções dele são as melhores, Coop. Lamento, foi uma reunião muito dura. Farei o meu melhor para que a Paloma esteja preparada dentro de duas semanas. Vou pedir ao Livermore que lhe ensine como se trata do seu guarda-roupa.

 

- Estremeço só de pensar nisso. Espero que ela não me meta os fatos na máquina de lavar. Talvez tenha de mudar de visual. - Esforçava-se por não se deixar abater pela situação e continuava, pelo menos aparentemente, divertido. - Vai ser uma calmaria aqui em casa: só você, eu e a Paloma, ou Maria, ou lá como é que ela se chama. - Os olhos de Liz adquiriram um brilho estranho. - Que é isso? Ele não a vai despedir, pois não?

 

Por uma fracção de segundos, Liz vislumbrou um olhar de pânico no velho actor, que quase lhe despedaçou o coração. Só a custo, ao fim de um ror de tempo, é que conseguiu articular a resposta.

 

- Não, não vai, Coop... mas vou-me embora na mesma... - sussurrou. Contara a Abe no dia anterior, e fora esse o único motivo por que ele não a despedira também.

 

- Não seja tonta. Preferia vender o Palacete a vê-la ir-se embora, Liz. Vou esfregar escadas, se for preciso, para ficar consigo.

 

- É que... - tinha os olhos marejados de lágrimas. Vou-me casar.

 

- Vai quê? Com quem? Não é com aquele dentista ridículo de San Diego, pois não?

 

Isso fora há cinco anos. Coop já não estava a par desse tipo de coisas. Não conseguia conceber o facto de perder Liz e nunca lhe passara pela cabeça que ela pudesse casar-se. Tinha cinquenta e dois anos, e tudo levava a crer que iria ficar lá em casa eternamente. Ao fim de todos aqueles anos, eram como família.

 

- É corretor da Bolsa em São Francisco. - As lágrimas corriam-lhe pelas faces.

 

- Quando é que começaram a namorar? - indagou Coop, com ar chocado.

 

- Há cerca de três anos. Nunca me passou pela cabeça que acabaríamos por casar. O ano passado, falei-lhe nele.

 

Sempre imaginei que iríamos namorar a vida inteira. Mas ele vai-se reformar este ano e quer que eu vá viajar com ele. As filhas já são adultas, e disse-me que era agora ou nunca. Acho melhor aproveitar a oportunidade.

 

- Que idade tem ele? - Coop estava horrorizado. Era a última má notícia que esperava ouvir.

 

- Cinquenta e nove. Está muito bem conservado. Tem um apartamento em Londres e uma bela casa em São Francisco. Vendeu-a há pouco tempo, e vamo-nos mudar para um apartamento em Nob Hill.

 

- Em São Francisco? Vai morrer de tédio, ou enterrada num terramoto. Liz, você vai detestar. - Coop acusara o toque. Não se imaginava sem ela. Liz não conseguia parar de chorar.

 

- Talvez. É provável que até volte a correr para cá. Mas achei que devia casar-me, pelo menos uma vez, quanto mais não seja para poder dizer que já fui casada. Pode telefonar-me quando quiser, Coop, esteja eu onde estiver.

 

- Quem vai fazer as minhas reservas e falar com o meu agente? Não me diga que vai ser a Paloma, ou lá como é que ela se chama!

 

- Da agência disseram-me que farão tudo o que puderem por si. Abe tratará da contabilidade. Pouca coisa me resta. - A não ser atender os telefonemas das namoradas, dar notícias frescas ao agente de imprensa, sobretudo acerca das mulheres com quem ele saía. Coop teria de começar a fazer os seus próprios telefonemas. Seria uma nova experiência. Liz sentia-se como se estivesse a traí-lo, a abandoná-lo.

 

- Está realmente apaixonada por esse tipo ou, simplesmente, entrou em pânico? - Ao longo dos anos, nunca lhe ocorrera que ela ainda desejasse casar. Liz nunca lhe contara nada, e ele também nada lhe perguntara, acerca da sua vida amorosa. Andara tão ocupada a tratar dos encontros, das compras, das festas e das viagens de Coop que, no ano anterior, poucas vezes se encontrara com o homem com quem ia casar, facto que o levara a apressar o pedido de casamento. Queria afastá-la de Cooper Winslow, que considerava narcisista e egocêntrico.

 

- Acho que estou apaixonada. Ele é uma pessoa maravilhosa, muito atencioso comigo. Quer tomar conta de mim e tem duas filhas muito simpáticas.

 

- Que idade têm? Não a consigo imaginar com filhos, Liz.

 

- Dezanove e vinte e três. Gosto delas, e elas também parecem gostar de mim. A mãe morreu quando ainda eram muito pequenas, e foi o Ted que teve de as educar sozinho. E com bons resultados. Uma trabalha em Nova Iorque, e a outra está em Stanford, no curso preparatório para Medicina.

 

- Não posso acreditar! - Coop estava completamente destroçado. O dia para si começara de forma desastrosa. Nem sequer se lembrava de que estava prestes a arrendar a casa do caseiro e a ala de hóspedes. A única coisa que o preocupava naquele momento era o facto de ir perder Liz. - Quando é que casam?

 

- Dentro de duas semanas, logo que saia daqui. E desatou a chorar. De súbito, até ela começava a achar a ideia horrível.

 

- Quer realizar a cerimónia aqui?

 

- Vamos realizá-la em casa de um amigo, em Napa.

 

- Muitos convidados? - Coop estava perplexo. Nunca esperara isto.

 

- Não. Só nós os dois, as filhas dele e os donos da casa. Se fosse uma cerimónia maior, tê-lo-ia convidado, Coop. Não tivera tempo para planear a cerimónia do casamento. Andara demasiado atarefada a tratar dos assuntos de Coop. E Ted não queria esperar mais. Sabia que, se o fizesse, ela nunca abandonaria Coop, sentia-se responsável por ele.

 

- Quando é que resolveu tomar essa decisão?

 

- Há uma semana.

 

Ted viera passar o fim-de-semana com ela e pressionara-a. A decisão coincidira com o propósito de Abe despedir o pessoal. Por um lado, sabia estar a fazer um favor a Coop, que não se encontrava em condições económicas de a manter ao seu serviço. Mas sabia também que a despedida seria muito dura para ambos. Não se imaginava a deixá-lo, e só de pensar nisso ficava com o coração despedaçado. Estragara-o com mimos, nos últimos vinte e dois anos. Andava constantemente preocupada, cuidando dele como uma mãe. Sabia que, em São Francisco, ficaria muitas noites acordada por sua causa. Avizinhava-se um terrível período de habituação para ambos. Coop era, para ela, o filho que nunca tivera e que, há anos atrás, deixara de desejar.

 

Coop ainda estava sob o efeito do choque quando Liz saiu, depois de atender um telefonema. Era Pamela, o último romance do velho actor. Tinha vinte e dois anos, demasiado jovem, mesmo para os seus próprios padrões. Era modelo e aspirava a ser actriz. Conhecera-a numas filmagens que fizera para a GQ. A revista contratara meia dúzia de modelos para posarem ao seu lado, e a beleza de Pamela chamara a atenção de Coop. Há cerca de um mês que namoravam. A rapariga estava perdida de amores por ele, embora Coop tivesse idade suficiente para ser seu avô e não parecesse andar muito satisfeito com a relação. Ia levá-la a jantar ao The Ivy, e Liz lembrou-lhe que ficara de ir buscá-la às sete e meia. Coop abraçou Liz calorosamente antes de ela sair, e lembrou-lhe que poderia regressar se a vida de casada não lhe agradasse. No fundo, esperava que isso acontecesse. Coop tinha a sensação de estar a perder a irmã mais nova, a melhor amiga.

 

Já no carro, Liz recomeçou a chorar. Amava Ted, mas não imaginava a sua vida sem Coop. Ao longo dos anos, ele fora a sua família, o seu melhor amigo, o seu irmão, o seu herói. Adorava-o. Tivera de apelar a todas as suas forças a fim de ganhar coragem para aceitar casar com Ted e contar a Coop. Na semana anterior, não pregara olho e, antes de Coop chegar a casa, andara desgostosa toda a manhã. Sentia-se desalentada. Deixar Coop seria como abandonar o convento ou sair do ventre da mãe. Só esperava ter tomado a decisão certa.

 

Depois de Liz sair, Coop manteve-se na biblioteca. Encheu outro cálice de champanhe e bebeu um gole. Depois subiu lentamente as escadas e dirigiu-se para o quarto. No caminho, cruzou-se com uma mulher pequena, de bata branca, que aspirava ruidosamente as escadas. Exibia uma enorme nódoa na parte da frente da bata, de sumo de tomate ou de sopa. Os cabelos estavam apanhados numa longa trança que lhe caía pelas costas, e usava óculos escuros, facto que chamou a atenção de Cooper.


- Paloma? - perguntou, cautelosamente, como se estivesse a vê-la pela primeira vez. Trazia uns ténis a imitar pele de leopardo, o que o deixou estarrecido.

 

- Paloma Jess. Mister Weenglow?

 

Havia nela algo de muito independente. Não tirou os óculos, continuando a fitá-lo por detrás das lentes escuras. Era impossível dizer ao certo quantos anos teria, mas devia rondar a meia-idade.

 

- Winslow, Paloma. Tiveste algum acidente? - Cooper referia-se à nódoa na bata. Dava a sensação de que alguém lhe atirara com uma piza.

 

- Comemos ”esbarguete” ao almoço, e deixei cair a colher em cima da ”pata”. E não tenho nenhuma lavada.

 

- Isto está bonito - murmurou Cooper, entre dentes, continuando o seu caminho, ainda abalado com a notícia da partida de Liz e a matutar em como seria quando Paloma começasse a tratar do seu guarda-roupa. Assim que fechou a porta do quarto, Paloma, que o olhava fixamente, revirou os olhos em sinal de enfado. Era a primeira vez que falava com Cooper, mas, pelo pouco que conhecia do patrão, nunca morrera de amores por ele. Saía com mulheres que tinham idade para serem suas filhas e parecia estar crivado de dívidas. Não conseguia lembrar-se de nada que lhe agradasse nele. Abanou a cabeça em sinal de desaprovação e continuou a aspirar as escadas. Também não lhe agradava nada ficar sozinha com ele na casa. Mas não iria barafustar. Tinha muitos familiares em São Salvador para sustentar e precisava do dinheiro. Mesmo que isso significasse trabalhar para uma pessoa como ele.

 

Mark Friedman acabara de assinar o último documento. Depois, na companhia da corretora imobiliária, deteve-se um pouco a olhar a casa vazia, de coração destroçado. A casa fora vendida em apenas três semanas. Haviam conseguido um bom preço por ela, mas isso nada significava para Mark. Olhar as paredes e as salas vazias onde vivera com a família durante dez anos era como ver o último dos seus sonhos desaparecer.

 

Ainda pensara em ficar com a casa, mas Janet pedira-lhe para a vender logo que ela chegasse a Nova Iorque. Percebeu então que, independentemente do que dissera nas semanas anteriores, Janet não fazia tenções de voltar para ele. Só duas semanas antes de partir lhe dissera que ia deixá-lo. E o advogado dela já contactara com o seu. Toda a sua vida se desfizera nas últimas cinco semanas. A mobília ia já a caminho de Nova Iorque. Dera tudo o que tinha à mulher e aos filhos. Estava alojado num hotel perto do escritório e acordava todas as manhãs com desejo de morrer. Vivera dez anos em Los Angeles e estivera casado durante dezasseis.

 

Mark tinha quarenta e dois anos, era alto, magro, loiro e de olhos azuis, e até há cinco semanas atrás estivera convencido de que era feliz no casamento. Conhecera Janet na Faculdade de Direito, e casaram-se mal acabaram o curso. Ela engravidara quase de imediato. Jessica nasceu no dia em que faziam um ano de casados e tinha agora quinze anos. Jason tinha treze. Mark era advogado de Direito Fiscal numa importante firma de advocacia e, dez anos antes, fora transferido de Nova Iorque para Los Angeles. Ao princípio, custara-lhe um pouco adaptar-se à cidade, mas acabou por se apaixonar por ela. Descobrira a casa em Beverly Hills ao fim de poucas semanas, ainda antes de Janet e os filhos chegarem de Nova Iorque. Parecera-lhe perfeita para eles. Tinha um enorme jardim e uma pequena piscina. E, agora, as pessoas que acabavam de a comprar queriam fechar o negócio o mais depressa possível pois estavam à espera de gémeos dentro de seis semanas. Enquanto dava uma última volta pela casa, perdido nestes pensamentos, Mark não conseguiu deixar de pensar que a vida daquele casal estava no início, ao passo que a sua havia acabado. Ainda não acreditava no que lhe acontecera.

 

Seis semanas antes, era um homem feliz, com uma mulher bonita por quem estava loucamente apaixonado, um emprego que adorava, uma casa maravilhosa e dois filhos lindíssimos. Não tinham problemas de dinheiro e estavam todos de perfeita saúde. Seis semanas mais tarde, a mulher deixara-o, a casa fora vendida, a família vivia em Nova Iorque, e ele ia divorciar-se.

 

A corretora não o acompanhou na sua deambulação pelas salas vazias. Os bons momentos que ali partilhara com a mulher eram os únicos pensamentos que lhe povoavam a cabeça. Na sua perspectiva, não houvera nada de errado no seu casamento, e até Janet admitira que fora feliz com ele.

 

”Não sei o que aconteceu”, dissera, lavada em lágrimas, quando lhe disse que se queria separar. ”Talvez fosse o tédio... talvez eu devesse ter voltado a trabalhar depois de o Jason nascer...” Mas nada disto explicava por que razão ela o trocara por outro homem. Há cinco semanas, admitira estar loucamente apaixonada por um médico de Nova Iorque.

 

Um ano e meio antes, a mãe de Janet adoecera gravemente. Primeiro, um ataque cardíaco, depois, herpes zóster, e, por fim, um derrame cerebral. Fora um infindável período de sete meses em que Janet viajara constantemente entre Los Angeles e Nova Iorque. O pai dela estava arrasado e contraíra Alzheimer, a mãe sofria crises atrás de crises. Mark tomava conta das crianças durante os períodos de ausência de Janet. O primeiro desses períodos, após o ataque cardíaco, durara seis semanas. Mas ela telefonava-lhe três, quatro vezes por dia. Mark nunca suspeitara de nada. Mas as coisas não tinham acontecido de repente. Com o decorrer do tempo, Janet apaixonara-se pelo médico da mãe, um indivíduo simpático, carinhoso, extremamente atencioso. Certa noite, tinham ido jantar juntos e fora assim que tudo começara.

 

Janet manteve este tipo de relação durante um ano. Foi uma situação desgastante. Achava que era uma coisa passageira  e que, mais cedo ou mais tarde, iria encontrar uma solução para o problema. Asseverou a Mark que tentara acabar várias vezes. Mas a paixão que ela e o médico nutriam um pelo outro era tão grande que se tornara uma obsessão. Estar com Adam, como contou, era como estar viciada em drogas. Mark ainda sugeriu terapia e aconselhamento de casais, mas Janet recusou. Já decidira o que fazer. Voltaria para Nova Iorque e veria até onde as coisas iriam dar. Precisava de estar fora do casamento, pelo menos durante algum tempo, de modo a poder gozar o romance livre de pressões. Mal chegou a Nova Iorque, disse a Mark que queria o divórcio e pediu-lhe que vendesse a casa. Queria metade do dinheiro da venda, para comprar um apartamento. Enquanto passeava o olhar pelas paredes vazias do quarto, Mark pensava na última conversa que tivera com Janet. Nunca se sentira tão perdido e só na vida. Tudo aquilo em que acreditara, com que contara e em que pensara, se perdera. E o pior é que não fizera nada de errado, pelo menos achava que não. Talvez se tivesse dedicado em demasia ao trabalho, ou não a tivesse levado a jantar fora as vezes suficientes, mas parecia haver um óptimo relacionamento entre os dois, e ela nunca se queixara.

 

O segundo pior dia da sua vida, depois daquele em que ela lhe falou do romance com o médico, foi quando contaram aos filhos que iam separar-se. Estes queriam saber se ele e a mamã iam divorciar-se, e ele respondera-lhes honestamente que ainda não sabia. Mas, na altura Janet já sabia. Só ainda não queria dizê-lo aos filhos, ou a Mark.

 

Os miúdos choraram imenso e, sem razão aparente, ao princípio, Jessica culpara o pai de tudo. Para eles, a separação não fazia qualquer sentido. Aos quinze e treze anos, fazia ainda menos sentido do que para Mark. Pelo menos, ele sabia o motivo da separação. Mas, para os miúdos, era um mistério inexplicável. Nunca haviam visto os pais a discutir ou em desacordo, coisa que raramente acontecera. Talvez houvessem discutido por causa da decoração da árvore de Natal e, uma vez, Mark tivera um acesso de fúria quando Janet espatifou o carro novo, mas acabara por lhe pedir desculpa, dando graças a Deus por ela não se ter ferido. Era um indivíduo calmo e íntegro. Adam era mais animado do que Mark. Tinha quarenta  e oito anos, uma intensa actividade profissional, e vivia em Nova Iorque. Possuía um veleiro em Long Island e estivera no Place Corps durante quatro anos. Tinha amigos interessantes e uma vida divertida. Era divorciado e nunca tivera filhos. A ex-mulher nunca engravidara, e também não quiseram adoptar nenhuma criança. E estava radiante com a ideia de poder ter filhos de Janet. Queria dois. Mas Janet não referiu esse facto nem a Mark nem aos filhos, que ainda não sabiam nada acerca dele. Estava a pensar apresentá-lo logo que se instalassem em Nova Iorque. Mark suspeitava que ela não fazia tenções de lhes contar que se divorciara por causa de Adam.

 

Mark sabia que era mais sisudo do que Adam. Gostava do seu trabalho, adorava Direito Sucessório, mas esse era um assunto que não podia discutir em profundidade com Janet. Ela pensara em seguir Direito Criminal, ou ser advogada de menores, e sempre achara o Direito Comercial aborrecido. Ela e Mark jogavam ténis várias vezes por semana, iam ao cinema, passeavam com os filhos, jantavam com amigos. Fora uma vida tranquila para todos os elementos da família. E agora, a tranquilidade acabara. A angústia que sentia tornara-se praticamente uma dor física. Nas últimas cinco semanas, vivera constantemente com a sensação de ter uma faca na barriga. Começara a ir a um terapeuta, por sugestão do médico, depois de lhe ter telefonado a pedir calmantes, porque já não conseguia dormir. A vida tornara-se um inferno. Tinha saudades dela, dos filhos e da vida que levavam. Num piscar de olhos, tudo desaparecera, até a casa.

 

- Pronto, Mark? - perguntou a corretora, espreitando à porta do quarto. Mark estava imóvel, a olhar para o ar, perdido nos seus pensamentos.

 

- Ah, claro - respondeu, saindo, não sem antes deitar um último olhar ao aposento. Era como se estivesse a despedir-se de um mundo perdido, ou de um velho amigo. Seguiu a corretora até à porta, e foi ela que a fechou. Dera-lhe as chaves todas. O dinheiro, que ia dividir com Janet, seria depositado na sua conta nessa mesma tarde. Haviam conseguido um bom preço, mas isso pouco lhe importava.

 

-Já está em condições de procurar alguma coisa para si?

- indagou a corretora, esperançosa. - Tenho umas casas pequenas, no cimo das colinas, que são óptimas. E há uma, que é uma autêntica jóia, em Hancock Park. Também se podem encontrar por aí uns apartamentos muito engraçados. Fevereiro sempre fora um bom mês para procurar casa. O remanso das férias acabara e na Primavera apareciam boas oportunidades no mercado. A corretora sabia que Mark possuía dinheiro suficiente para comprar uma casa nova, apesar de só ter direito a metade do valor da que vendera. Além disso, tinha um bom emprego. O dinheiro não era problema para Mark. Todos os seus problemas fossem esses!

 

- Estou bem no hotel - retorquiu Mark, entrando no Mercedes, depois de lhe agradecer de novo.

 

A corretora fizera um bom trabalho, fechando o negócio da venda em tempo recorde. Quase desejou que ela não tivesse sido tão eficiente, ou nem sequer tivesse conseguido vender a casa. Ainda não se sentia preparado para ir viver noutro lugar. Tinha de falar sobre isso com o terapeuta. Nunca fora a um terapeuta, e este parecia ser boa pessoa, mas Mark não sabia muito bem se a experiência viria a resultar. Talvez pudesse ajudá-lo a resolver o problema do sono, mas, quanto ao resto, que poderia ele fazer? Por mais coisas que dissesse nas sessões de terapia, a verdade é que Janet e os filhos não estavam consigo e, sem eles, a sua vida não fazia qualquer sentido. Não queria uma nova vida. Só queria tê-los. Agora, Janet tinha outra pessoa, e talvez os seus filhos viessem a gostar mais de Adam do que dele. Era um pensamento avassalador. Nunca se sentira tão indefeso e tão perdido na vida.

 

Ao meio-dia, estava de novo no escritório, sentado à mesa de trabalho. Ditou uma pilha de cartas à secretária e analisou alguns relatórios. Nessa tarde, tinha uma reunião com os seus sócios. Nem sequer se preocupou em almoçar. Perdera uns quatro ou cinco quilos nas últimas cinco semanas. Só lhe restava continuar o seu caminho, pôr um pé à frente do outro e tentar não pensar mais no assunto. À noite, voltava a lembrar-se de tudo e ouvia as palavras de Janet vezes sem conta, bem como o choro dos filhos. Telefonava-lhes todas as noites. Prometera ir visitá-los dentro de semanas. Ia levá-los às Caraíbas nas férias da Páscoa. Depois, viriam passar uns dias consigo no Verão, mas agora não tinha onde alojá-los. Pensar em tudo isto deixava-o de rastos.

 

Quando, ao fim da tarde, encontrou Abe Braunstein, numa reunião sobre as novas leis fiscais, estava com ar de quem tem uma doença terminal. O contabilista ficou perplexo. Mark costumava exibir um ar saudável, jovem e atlético, e estava sempre de bom humor. Agora, parecia alguém a quem morrera um ente querido. E era isso mesmo que sentia.

 

- Sente-se bem? - perguntou Abe, preocupado.

 

- Sim... estou bem - respondeu Mark, com ar distante, apático. Estava pálido, abatido.

 

- Você está com ar adoentado e muito mais magro. Mark fez que sim com a cabeça, sem articular qualquer resposta. Depois da reunião, sentiu-se um imbecil por não ter reagido à preocupação de Abe. Seria a segunda pessoa a quem ia contar o seu problema. A primeira fora o terapeuta. Não tivera estômago para contar a ninguém. Era uma situação humilhante, que dava dele a imagem de um perdedor, e preocupava-o o facto de as pessoas poderem pensar que fora uma besta para a esposa. Queria explicar o que se passara, mas sentia-se dividido entre a vontade de desabafar e a necessidade de se esconder.

 

- A Janet foi-se embora - disse Mark, disfarçadamente, ao saírem da reunião. Eram quase seis horas. As palavras saíram de tal modo sumidas que ele próprio mal as ouviu. Dava a sensação de que a alma se separara do corpo. Abe não percebeu o que ele queria dizer.

 

- Foi viajar? - perguntou, confuso.

 

- Não. De vez - explicou Mark, amargurado. Contar a verdade era, de certa forma, um alívio. - Mudou-se para Nova Iorque, com os miúdos. Há três semanas. Acabei de vender a casa. Vamo-nos divorciar.

 

- Lamento muito - disse Abe, sentindo pena dele. A pobre criatura estava de rastos. Mas era jovem e poderia arranjar outra mulher, e até ter mais filhos. Era um homem bem-parecido. - É uma situação muito difícil. Não sabia. Não ouvira o mínimo rumor acerca do assunto, embora fizesse muito trabalho contabilístico com a firma de Mark.

 

Mas geralmente falavam de leis fiscais ou de clientes, não dos seus assuntos pessoais. - Onde é que está a viver agora?

 

Num hotel, a dois quarteirões daqui. Não é grande coisa, mas, por agora, não está mal.

 

- Quer ir comer qualquer coisa? - Abe tinha a mulher à sua espera em casa, mas Mark parecia precisar de um ombro amigo. E precisava, mas sentia-se demasiado abatido para ir onde quer que fosse.

 

- Não, obrigado. - Mark conseguiu, a muito custo, esboçar um sorriso. - Talvez noutra altura.

 

- Eu telefono - prometeu Abe, e foi-se embora.

 

Não sabia de quem era a culpa do divórcio, mas era evidente que Mark não estava feliz com a situação. Não parecia que tivesse outra mulher. Perguntou a si mesmo se Janet não teria um amante. Era uma mulher atraente. Sempre os vira como o protótipo do casal americano. Ambos loiros e de olhos azuis, e com dois filhos que pareciam saídos de pósteres publicitários do estilo de vida americano. Dava a impressão de terem vindo de uma quinta do Midwest, embora houvessem crescido entre os prédios de Nova Iorque. Foram aos mesmos bailes de liceu, mas nunca se encontraram. Ela fora para Vassar, ele, para Brown, e conheceram-se, finalmente, na Faculdade de Direito de Yale. Levavam a chamada vida perfeita. Mas nada mais de que isso.

 

Mark ficou no escritório, a remexer os papéis em cima da secretária, até às oito horas. Depois, voltou para o hotel. Ainda pensara comprar uma sanduíche no caminho, mas não tinha fome. Mais uma vez. Prometera, tanto ao médico como ao terapeuta, que iria fazer um esforço para comer. ”Amanhã”, prometeu a si próprio. Só lhe apetecia ir para a cama e ficar a olhar para a televisão. E talvez acabasse por adormecer.

 

O telefone estava a tocar quando chegou ao quarto. Era Jessica. Tivera muito bom num teste. Andava no décimo primeiro ano do secundário, mas detestava a nova escola. O mesmo acontecia com Jason, que frequentava o oitavo ano. A adaptação estava a ser difícil para ambos. Jason jogava futebol e Jessica fazia parte da equipa de hóquei em campo da escola. Mas dizia que os rapazes de Nova Iorque eram todos uns parvos. E continuava a culpar Mark por tudo e a não entender o divórcio.

 

Mark não lhe contou que vendera a casa nesse dia. Limitou-se a prometer que iria em breve a Nova Iorque e pediu-lhe que desse cumprimentos à mãe. Depois de desligar, ficou imóvel, em cima da cama, a olhar para a televisão, enquanto as lágrimas lhe corriam silenciosamente pelo rosto.

 

Jimmy O’Connor era seco de carnes e de compleição atlética: ombros largos e braços fortes. Jogava golfe e ténis. Andara em Harvard e fizera parte da equipa de hóquei no gelo. Fora um atleta soberbo enquanto estudante, e ainda mantinha essas características. Fizera o mestrado em Psicologia na UCLA, ao mesmo tempo que se dedicava ao trabalho de voluntariado em Watts. No ano seguinte, voltara à universidade para tirar a licenciatura em Assistência Social, e nunca mais saiu de Watts. Aos trinta e três anos, tinha uma vida e uma carreira profissional que adorava, e ainda conseguia arranjar tempo para o desporto. Organizara uma equipa de futebol e outra de softball para as crianças com quem trabalhava. Punha-as em lares de acolhimento e tirava-as das casas onde eram molestadas. Levava as que mostrassem sinais de subnutrição, ou de queimaduras, aos serviços de urgência. E, por mais de uma vez, ficara com elas em sua própria casa até encontrarem um lar de acolhimento adequado. Os colegas diziam que tinha um coração de ouro.

 

As suas feições eram tipicamente irlandesas: cabelos negros como o azeviche, pele cor de marfim e enormes olhos escuros. Os lábios, sensuais, desenhavam um sorriso que faria cair qualquer mulher nos seus braços. E foi o que aconteceu a Maggie. Margaret Monaghan. Eram ambos de Boston, tinham-se conhecido em Harvard e vindo para a costa oeste depois de se formarem. Viviam juntos desde o terceiro ano da faculdade. Haviam casado há seis anos. Sobretudo para saírem de casa dos pais. E, embora afirmassem que o casamento lhes era indiferente, acabariam por admitir que fora a melhor decisão que podiam ter tomado.

 

Maggie era um ano mais nova do que Jimmy e a mulher mais inteligente que ele alguma vez conhecera. Não havia mulher igual no mundo. Também tinha o mestrado em Psicologia e estava a pensar fazer o doutoramento. Mas ainda não se decidira. E, tal como ele, trabalhava com crianças dos bairros mais pobres da cidade. Preferia adoptar uma série delas, a ter os seus próprios filhos. Ele era filho único e ela, a mais velha de nove irmãos. Provinha de uma sólida família de Boston, com raízes em County Cork. Os pais haviam nascido na Irlanda e tinham um acentuado sotaque irlandês, que ela imitava na perfeição. A família de Jimmy deixara a Irlanda quatro gerações atrás. Era primo afastado dos Kennedy, e, ao sabê-lo, Maggie troçara dele, chamando-lhe ”menino bem”. Mas guardou o segredo para si. Gostava de entrar com ele por tudo e por nada. Jimmy adorava essa sua faceta. Brilhante, irreverente, linda, corajosa, de cabelos ruivos flamejantes, olhos verdes e pele sardenta, era a mulher dos seus sonhos. Não havia a mínima coisa que lhe desagradasse nela, à excepção, talvez, do facto de não saber cozinhar e nem sequer se incomodar com isso. Era ele que fazia a comida, e não deixava os seus créditos de cozinheiro por mãos alheias.

 

Jimmy estava a encaixotar os utensílios de cozinha quando o administrador do condomínio tocou à campainha e entrou. Cumprimentou Jimmy em voz alta para que este soubesse que ia entrar. Não gostava de incomodar, mas tinha de mostrar a casa. Tratava-se de um pequeníssimo apartamento em Venice Beach. Tinham gostado muito de ali viver. Maggie adorava andar de patins pelas ruas abaixo. E a praia era o máximo.

 

Jimmy avisara na semana anterior que se mudaria no final do mês. Só não sabia para onde. Qualquer lugar lhe servia, menos aquele.

 

O administrador do condomínio estava a mostrar o apartamento a um jovem casal. Ambos vestiam calças de ganga, camisolas de lã e sandálias, e pareciam jovens e inocentes. Tinham vinte e poucos anos, haviam acabado a universidade e provinham do Midwest. Estavam apaixonados por Los Angeles e adoraram o apartamento. Venice era a sua cidade favorita. O administrador apresentou-os a Jimmy, que os cumprimentou e recomeçou de imediato a encaixotar os utensílios de cozinha, deixando-os ver o apartamento à vontade. Era um espaço pequeno, mas bem desenhado: uma pequena sala de estar, um quarto muito pequeno, pouco maior do que a cama, uma casa de banho onde mal cabiam duas pessoas, e a cozinha onde Jimmy se encontrava. Para eles servira muito bem, nunca haviam sentido necessidade de mais espaço. Maggie sempre insistira em pagar metade do valor da renda e não tinha dinheiro para mais. Era teimosa nessas questões. Desde o dia em que se haviam conhecido que dividiam as despesas.

 

”Não vou viver à tua custa, Jimmy O’Connor!”, dissera, imitando o sotaque dos pais, enquanto os flamejantes cabelos ruivos lhe dançavam em torno do rosto. Jimmy queria filhos de Maggie só para ter uma casa cheia de miúdos de cabelo ruivo. Nos últimos seis meses, haviam conversado acerca de uma possível gravidez, mas Maggie também queria adoptar crianças, possibilitando-lhes uma vida que, de outro modo, nunca teriam.

 

”Que tal seis de cada?”, perguntou Jimmy, picando-a. ”Seis nossos, seis adoptados. Quais é que queres sustentar?” Maggie admitira deixá-lo sustentar os filhos, pelo menos alguns. Não podiam dar-se ao luxo de terem tantos como gostariam. Mas haviam falado em cinco ou seis muitas vezes.

 

- O fogão é a gás? - indagou a provável inquilina, com um sorriso.

 

Jimmy fez que sim com a cabeça, não articulando qualquer palavra.

 

- Adoro cozinhar.

 

Ele poderia ter-lhe dito que também adorava, mas não lhe apetecia alimentar a menor conversa com o casal. Limitou-se a acenar de novo com a cabeça, continuando a empacotar as suas coisas. Cinco minutos depois, o casal e o administrador, que agradeceu a disponibilidade de Jimmy para os receber, saíram. Depois de a porta se fechar, ouviu-se um ruído abafado de vozes no corredor. E Jimmy perguntou a si mesmo se iriam ficar com o apartamento. Mas isso pouco lhe interessava. Fosse como fosse, era um prédio impecável, limPO e com boa vista. Maggie insistira numa casa com boa vista, apesar de ter de puxar os cordões à bolsa. ”Não vale a pena viver em Venice num sítio sem boa vista”, dissera, com sotaque carregado. Falava frequentemente com sotaque, para regalo de Jimmy. Às vezes, iam a uma pizaria, e passava o Jantar todo a fingir que era irlandesa, deixando toda a gente atónita. Também sabia falar gaélico e francês. E queria aprender  chinês, para poder trabalhar e conversar com as crianças dos bairros chineses.

 

- Ele não é lá muito simpático - sussurrou um dos novos inquilinos. Haviam conferenciado na casa de banho e resolvido ficar com o apartamento. Tinham possibilidades económicas e adoravam a vista, apesar de as divisões serem pequenas.

 

- É boa pessoa - defendeu-o o administrador do condomínio. Sempre gostara dele e da esposa. - Está a atravessar um período difícil - acrescentou, cautelosamente, sem saber se haveria de contar-lhes ou não. De qualquer forma, mais cedo ou mais tarde ficariam a saber. Todos no prédio gostavam dos O’Connor, e ele lamentava ver Jimmy partir. Mas compreendia a situação. Teria feito a mesma coisa.

 

Os dois jovens não sabiam muito bem se Jimmy fora posto na rua ou convidado a sair, de tal modo se mostrara antipático com eles.

 

- Tinha uma mulher espectacular. Trinta e dois anos, cabelos ruivos e muito inteligente.

 

- Separaram-se? - perguntou a mulher, simpatizando um pouco mais com Jimmy. Este fora extremamente seco, quando estava a enfiar as caçarolas numa caixa de cartão.

 

- Morreu. Há um mês. Uma coisa terrível. Um tumor no cérebro. Começou a ter dores de cabeça há uns meses. Dizia que eram enxaquecas. Há três meses, internaram-na para lhe fazerem exames. Descobriram-lhe um tumor na cabeça. Ainda tentaram operá-la, mas o tumor era muito grande e já se tinha espalhado. Morreu no espaço de dois meses. Ainda pensei que a morte dela o matasse também. Nunca vi duas pessoas tão apaixonadas uma pela outra. Estavam sempre a rir, a falar, a brincar. Ele avisou-me que se ia embora na semana passada. Diz que não aguenta ficar aqui em casa. Sinto tanta pena dele. É um bom homem. - O administrador tinha os olhos marejados de lágrimas.

 

- Que horror! - exclamou a mulher, também com os olhos a quererem inundar-se de lágrimas. Era uma história horripilante. Vira fotografias dos dois um pouco por todo o lado. - Deve ter sido um choque terrível para ele!

 

- Ela era muito corajosa. Até há pouco tempo, ainda davam os seus passeios, ele fazia o jantar e levava-a até à praia. Vai levar muito tempo a recompor-se. Nunca encontrará outra mulher igual.

 

O administrador do condomínio, que era conhecido pelo seu ar circunspecto, limpou uma lágrima que teimava em saltar, e o jovem casal seguiu-o pelas escadas abaixo. A história perseguiu-os o resto do dia. Ao final da tarde, o administrador enfiou um bilhete por baixo da porta de Jimmy, a avisá-lo de que o jovem casal resolvera comprar o apartamento. O apartamento estaria devoluto dentro de três semanas.

 

Jimmy fitou o bilhete por uns instantes. Era exactamente aquilo que queria, apesar de ainda não saber onde é que iria morar. Mas isso já não era importante para si. Estava-se nas tintas. Até poderia dormir dentro de um saco-cama, na rua. Talvez fosse assim que as pessoas se tornavam sem-abrigo. Ainda pensara em matar-se quando Maggie faleceu, entrando pelo oceano adentro, sem um murmúrio, sem qualquer queixume. Teria sido um enorme alívio. No dia a seguir à morte de Maggie, ficara horas esquecidas na praia, sentado na areia, a pensar nisso. Então, como se conseguisse ouvi-la, imaginou-a a chamar-lhe, em tom enfurecido, cobarde. Até lhe notou o sotaque. Era já noite avançada quando regressou ao apartamento. Atirou-se para cima do sofá e chorou convulsivamente durante horas.

 

As famílias de ambos tinham vindo de Boston nessa noite. O rosário e o funeral consumiram os dois dias seguintes. Recusara-se a enterrá-la em Boston. Maggie manifestara o desejo de ficar na Califórnia com ele, por isso foi lá que a sepultou. Depois de todos partirem, ficou, de novo, sozinho. Os pais, irmãos e irmãs de Maggie estavam destroçados. Porém, ninguém estava mais afectado do que ele, ninguém sabia o quanto ele perdera, ou o que ela significava para si. Maggie fora a sua vida, e Jimmy tinha a certeza absoluta de que nunca amaria outra mulher como a amara a ela. Não conseguia conceber outra mulher na sua vida. Seria uma autêntica hipocrisia. E quem é que lhe chegaria aos calcanhares? Ninguém a igualaria em fogosidade, paixão, génio e coragem. Fora o ser humano mais corajoso que alguma vez conhecera.

 

Nem sequer tivera medo da morte. Aceitara-a como algo que fazia parte do seu destino. Ele é que chorara, suplicara a Deus que a salvasse, ele é que ficara aterrado e não conseguia imaginar-se a viver sem ela. Era uma situação impensável, insuportável. E, agora, ali estava. Só. Maggie partira há’ um mês. Semanas, dias, horas, nada fazia sentido. A única coisa que lhe restava era arrastar-se até ao fim da vida.

 

Regressara ao trabalho uma semana depois da morte de Maggie, e toda a gente o tratava com extremo desvelo. Mas já não havia alegria na sua vida.

 

Parte dele queria ficar no apartamento, a outra não suportava acordar todas as manhãs sem Maggie a seu lado. Sabia que tinha de sair dali. Não lhe importava para onde. Vira o nome de uma agência imobiliária num anúncio e telefonou para lá. Todos os corretores haviam saído. Deixou o nome e o número de telefone, e continuou a fazer as malas. Mas, quando deparou com as roupas de Maggie no armário, sentiu como que um enorme soco no peito. Ficou lívido. A realidade era tão dura e poderosa que lhe sugara o ar dos pulmões e o sangue do coração. E assim ficou, como que petrificado, durante longos momentos. Sentia o seu perfume, a sua presença como se ela ainda estivesse ao seu lado.

 

- O que faço eu agora? - bradou, agarrado à soleira da porta, ao mesmo tempo que os olhos se inundavam de lágrimas. Era como se uma força sobrenatural o tivesse levado quase ao tapete. O peso da perda de Maggie era tão grande que mal se conseguia pôr de pé.

 

”Levanta a cabeça, Jimmy!”, incitou-o uma voz dentro de si. ”Não te podes deixar ir abaixo!” As palavras eram ditas num cerrado sotaque irlandês.

 

- Mas por que raio é que não posso deixar de viver? Maggie nunca se deixara abater, nunca desistira. Lutara até ao fim. No dia em que faleceu, ainda pôs batom, lavou o cabelo e vestiu a blusa de que mais gostava. Nunca se dera por vencida. - Não quero continuar a viver! - berrou, a plenos pulmões, para a voz que ouvia dentro de si, para o rosto que nunca mais voltaria a ver.

 

”Levanta esse rabo e bola para a frente!”, ouviu com perfeita nitidez. De súbito, por entre as lágrimas, deixou escapar uma gargalhada, ao olhar para as roupas dela.

 

- Está bem, Maggie... está bem... - retorquiu, enquanto pegava nos vestidos dela e os colocava cuidadosamente dobrados dentro de uma caixa, como se ela um dia ainda viesse à procura deles.

 

No domingo, no dia a seguir a Cooper ter concordado em arrendar a casa do caseiro e a ala de hóspedes, Liz voltou ao Palacete, para se encontrar com a corretora imobiliária. Queria que ela apressasse as coisas antes que Coop mudasse de ideias. Esta entrada de capital dava-lhe um jeitão. E queria fazer tudo o que podia por ele antes de se ir embora.

 

Combinara encontrar-se com a corretora às onze. Quando ambas chegaram ao Palacete, Coop não se encontrava em casa. Levara Pamela, a modelo de vinte e dois anos, a tomar o pequeno-almoço ao Beverly Hills Hotel, e prometera ir com ela às compras à Rodeo Drive no dia seguinte.

 

Pamela era muito vistosa, mas tinha pouco que vestir e estragar as mulheres com mimos era uma das coisas que Coop fazia melhor. Adorava fazer-lhes compras. Abe teria um ataque de coração quando visse a conta. Mas Cooper nunca se preocupava com isso. Prometera levá-la à Valentino, à Dior, à Ferre, a qualquer loja onde ela quisesse ir; depois, à Fred Segai. Ia ser, de certeza, uma festança para uns cinquenta mil dólares, ou mais. Especialmente se passassem pela Van Cleef ou a Cartier, caso alguma coisa na montra despertasse o interesse de Coop. A Pamela nunca lhe ocorreria dizer-lhe que a sua generosidade era excessiva. Para uma rapariga de vinte e dois anos vinda do Oklahoma, este era um sonho que se tornava realidade.

 

- Espanta-me que Mister Winslow queira ter inquilinos na propriedade, especialmente numa ala do edifício principal

- disse a corretora, ao entrar na ala de hóspedes. Andava à pesca de bisbilhotices para, mais tarde, partilhar com os futuros inquilinos, coisa que não agradava a Liz. Mas o falatório era um mal inevitável e, ao mesmo tempo, necessário, uma vez que pretendiam arrendar parte da casa. Estavam à mercê das interpretações das pessoas, que nunca eram muito favoráveis às estrelas de cinema mais conhecidas, ou a quaisquer outras celebridades. Fazia parte do negócio.

 

-- A ala de hóspedes tem, naturalmente, uma porta independente, como tal, os inquilinos nunca se encontrarão com Coop. Além disso, ele viaja tanto que nem sei se dará pela presença deles. Aliás, os inquilinos serão uma protecção, se as pessoas souberem que há gente a viver permanentemente na propriedade. Caso contrário, poderia haver intrusões, ou outro tipo de problemas. Isto é, de facto, uma segurança.

 

Era uma perspectiva que a corretora não encarara, mas fazia sentido. Embora desconfiasse de que se passava algo mais. Há anos que Cooper Winslow não interpretava um papel principal. Já nem se lembrava de qual fora o último filme em que ele entrara, embora ainda fosse uma grande estrela e provocasse grande agitação onde quer que aparecesse. Era uma das maiores lendas de Hollywood de todos os tempos e um factor de grande prestígio para os inquilinos. A propriedade, única no país, se não mesmo no mundo, tornava-se ainda mais valiosa pelo facto de ele a habitar, pelo menos durante parte do tempo. E, com um pouco de sorte, os inquilinos poderiam vê-lo a jogar ténis, ou na piscina. Ia pôr isso na brochura.

 

A porta da ala de hóspedes rangeu ao abrir-se. Liz ainda pensara em mandar limpar os aposentos antes da vinda dos novos ocupantes, mas não houvera tempo, e ela queria mudar-se o mais rapidamente possível. Porém, de um modo geral, não estavam muito maus. Era um espaço muito bonito. Tinha os mesmos tectos altos que havia no resto da casa e elegantes janelas francesas com vista para os terrenos circundantes. Havia ainda um magnífico terraço em pedra, ladeado por sebes, com bancos e mesas em mármore, que Coop comprara em Itália anos antes. A sala de estar encontrava-se cheia de antiguidades francesas. Contíguo a esta, um pequeno escritório, e, ao cimo de um pequeno lanço de escadas, uma suíte enorme, forrada a cetim azul-claro e com mobiliário espelhado Art Déco, que Coop trouxera de França.

 

Ao lado da suíte, havia uma enorme casa de banho, toda em mármore, e um quarto de vestir com mais roupeiros do que os necessários para uma pessoa normal, se bem que para Cooper fossem insuficientes. Ao fundo da sala de estar, dois quartos pequenos, decorados com chita inglesa às flores e antiguidades. A cozinha, de estilo rústico, com uma enorme mesa ao centro, fazia lembrar uma cozinha provençal. Não havia sala de jantar, mas Liz observou que a sala de estar era tão ampla que os inquilinos poderiam lá pôr uma mesa. Também poderiam comer na cozinha, que, além de acolhedora, era um espaço divertido e informal. Tinha um velho fogão francês, uma lareira em tijolo a um canto e painéis de azulejos nas paredes. Vendo bem as coisas, este espaço, inserido nos terrenos da propriedade mais bonita de Bel Air, seria um apartamento perfeito para qualquer pessoa; além disso, os inquilinos teriam acesso aos campos de ténis e à piscina.

 

- Quanto é que ele quer de renda? - Os olhos da corretora brilharam de excitação. Nunca vira lugar igual e já imaginava outra estrela de cinema a arrendar o espaço, apenas por uma questão de prestígio. Talvez um actor em filmagens, ou de passagem em Los Angeles por um ano. O facto de estar mobilada faria da ala um verdadeiro bónus para quem quer que fosse. Com umas flores e uma pequena limpeza, a ala de hóspedes ganharia outra vida.

 

- Quanto sugere? - indagou Liz. Não fazia a menor ideia. Há muito que não realizava qualquer negócio imobiliário e há mais de vinte anos que se mantinha no seu modesto apartamento.

 

- Pelo menos dez mil por mês. Talvez doze. Com determinadas pessoas, podemos ir até aos quinze. Mas nunca menos de dez.

 

Liz ficou satisfeita. Juntamente com a casa do caseiro, Coop arrecadaria uma boa quantia todos os meses, se lhe tirassem os cartões de crédito das mãos. Preocupavam-na as asneiras que poderia fazer depois de ela se ir embora, sem ninguém para lhe controlar ou para o chamar a atenção. Não que ela tivesse qualquer controlo sobre ele, mas, pelo menos, de vez em quando, podia aconselhá-lo a não se deixar afundar mais.

 

Logo que Liz fechou a porta que dava para a ala de hóspedes, dirigiram-se ao extremo norte da propriedade, onde se situava a casa do caseiro, isolada no meio de um jardim algo escondido. Ficava um pouco afastada do portão principal, e tinha tanta vegetação e terreno à volta que parecia fazer parte de outra propriedade. Toda em pedra, encontrava-se totalmente  coberta de trepadeiras de um dos lados, fazendo lembrar uma casa rústica inglesa. Vislumbrava-se nela um certo toque de magia. No interior, os painéis de madeira conviviam, lado a lado, com a pedra das paredes, em perfeita harmonia. Era uma justaposição interessante de dois mundos, completamente diferente da elegante decoração francesa da ala de hóspedes.

 

- Oh, meu Deus, é fabuloso! - exclamou a corretora, entusiasmada, ao entrar, depois de passar por um roseiral que circundava a casa. - É como se estivéssemos num outro mundo!

 

As divisões eram pequenas e bem proporcionadas, com tectos em madeira e mobílias inglesas. Havia ainda um comprido sofá em couro, que Cooper comprara num clube inglês. Na sala de estar, sobressaía uma enorme lareira. A cozinha, com uma área razoável, também rústica, exibia uma panóplia de utensílios. No andar de cima, havia dois quartos, com móveis de estilo Jorge III, que Cooper coleccionara durante algum tempo. Podiam ver-se bonitos tapetes feitos à mão em todos os aposentos. Na pequena sala de jantar, em cima de um aparador, estava a prataria. As porcelanas que se encontravam no armário eram Spode. Tratava-se, efectivamente, de uma pequena casa rústica inglesa. Ficava mais próxima dos campos de ténis de que o edifício central, mas mais afastada da piscina, situada junto à ala de hóspedes. Assim, cada uma das casas tinha as suas virtudes, as suas comodidades e o seu estilo próprio.

 

- Este é o local perfeito para o inquilino certo - disse a corretora, com indisfarçável alegria. - Eu própria adoraria aqui viver.

 

- Também já pensei nisso - retorquiu Liz, esboçando um sorriso. Certa vez, perguntara a Coop se podia ali passar um fim-de-semana, mas acabara por nunca o fazer. E, tal como a ala de hóspedes, a casa estava bem apetrechada de toalhas de linho, cortinados, loiça de porcelana, além de todos os utensílios de cozinha e de mesa necessários.

 

- Por esta também consigo pelo menos dez mil por mês afirmou a corretora, entusiasmada. - Talvez mais. É pequena, mas é lindíssima e muito acolhedora. - A ala de hóspedes, apesar da sua grandiosidade e luxo, era também muito acolhedora. Mas tinha os tectos mais altos e ocupava uma área muito maior: a sala de estar, a suíte e a cozinha eram enormes. Fosse como fosse, ambas as casas eram de uma grande beleza, e a corretora estava convicta de que conseguiria arrendá-las num piscar de olhos. - Na próxima semana, gostaria de cá vir tirar umas fotografias a ambas as casas, e nem sequer as vou mostrar já aos meus colegas. Primeiro, vou ver quem temos à procura de casas mobiladas para arrendar. Propriedades como esta não aparecem todos os dias, e faço tenções de arranjar o inquilino certo para Coop.

 

- Seria muito importante para ele - aprovou Liz, num tom solene.

 

- Há alguma restrição que eu deva conhecer? - indagou a corretora, rabiscando no bloco umas notas relativas ao tamanho, às instalações e ao número de divisões.

 

- Para ser franca, ele não morre de amores por crianças e não gostaria de ver nada estragado. Os cães também não estão no seu lote de preferências. Quanto ao resto, desde que se trate de uma pessoa respeitável e que tenha condições para pagar a renda, julgo que não haverá qualquer tipo de problema. - Não lhe disse que ele só queria inquilinos do sexo feminino.

 

- Temos de ter cuidado com a questão dos miúdos. Não quero que nos acusem de discriminação - avisou a corretora. - Mas lembrar-me-ei, quando estiver a mostrar as casas. De qualquer forma, estas são casas muito sofisticadas e com uma renda de tal modo elevada que o populacho não lhe chega. - A não ser que as arrendassem a estrelas de rock. Esse era sempre um elemento imprevisível, e a corretora já tivera problemas com algumas. Aliás, como toda a gente.

 

A corretora abandonou a propriedade pouco passava do meio-dia. Liz voltou para o seu apartamento, depois de verificar que estava tudo em ordem no Palacete. Os criados ainda se encontravam um pouco abalados pela terrível notícia do dia anterior. No entanto, dados os constantes atrasos no pagamento dos vencimentos, a situação era previsível. Livermore já anunciara que ia para Monte Carlo, trabalhar para um príncipe árabe. Andava a ser assediado há meses e telefonara-lhe,  nessa manhã, a aceitar a proposta de emprego. Não

parecia muito aborrecido por deixar Cooper e, mesmo que

o estivesse, também não o demonstraria. Partiria para o Sul de França no fim-de-semana seguinte, o que iria ser um enorme choque para Coop.

 

Ao fim da tarde, Coop regressou a casa, acompanhado de Pamela. Depois de um prolongado almoço, tinham-se sentado na piscina do Beverly Hills Hotel, a conversar com alguns amigos do velho actor, todos eles figuras conhecidas de Hollywood. Pamela nem queria acreditar que estivesse a dar-se com aquele tipo de gente, e ficou de tal modo impressionada que mal conseguia falar quando abandonaram o hotel. Meia hora depois, estavam na cama, com um cálice de Cristal gelado ao lado. Jantaram na cama e, por insistência de Pamela, viram os vídeos de dois antigos filmes de Coop. Depois, ele levou-a a casa, pois tinha encontro marcado com o seu treinador e acupuncturista de manhã cedo. Além disso, gostava de dormir sozinho. Dormir com uma mulher, por mais bonita que fosse, perturbava-lhe o sono.

 

Na manhã seguinte, a corretora já tinha preparado dois prospectos com todos os pormenores para o arrendamento de ambas as casas. Telefonou a vários clientes que andavam à procura de residências fora do vulgar. Combinou mostrar a casa do caseiro a dois solteirões, e a ala de hóspedes a um jovem casal que se mudara recentemente para Los Angeles. Pouco depois, tocou o telefone. Era Jimmy.

 

Parecia uma pessoa séria e calma. Andava à procura de uma casa para arrendar. Não importava onde, desde que fosse pequena, acolhedora, funcional e com uma boa cozinha. Ultimamente, não fazia comida em casa, mas poderia querer recomeçar a qualquer momento. A culinária, além do desporto, era uma das poucas coisas que o relaxava. Também pouco lhe importava se a casa estava ou não mobilada. Ele e Maggie tinham os móveis essenciais, mas preferia não os levar consigo- Talvez assim se lembrasse menos dela, e o sofrimento fosse menor. As únicas coisas que levaria capazes de o fazer lembrar-se de Maggie seriam as fotografias. Todas as outras que lhe haviam pertencido seriam guardadas. Assim, não teria de as ver todos os dias.

 

A corretora perguntou-lhe se tinha preferência por algum local, mas ele respondeu que não. Hollywood, Beverly Hills, Los Angeles, Malibu, qualquer sítio. Disse que gostava do mar, mas isso também lhe recordaria a falecida esposa. Não havia nada que não lhe trouxesse Maggie à lembrança.

 

Uma vez que Jimmy não colocou qualquer restrição a respeito de preços, a corretora resolveu arriscar e falou-lhe da casa do caseiro. Não mencionou o valor da renda, mas descreveu-a. Após alguns instantes de hesitação, Jimmy disse que gostaria de a ver. Marcaram encontro às cinco da tarde, depois, a corretora perguntou-lhe em que zona da cidade trabalhava.

 

- Watts - respondeu Jimmy, parecendo algo distraído, como se para si não houvesse nada de anormal na pergunta. A corretora ficou alarmada.

 

- Oh, percebo. - Interrogou-se se ele não seria afro-americano, mas, obviamente, não lhe podia perguntar isso, nem se teria posses para pagar a renda. - Tem algum orçamento definido, Mister O’Connor?

 

- Não propriamente - respondeu Jimmy, olhando para o relógio. Tinha de ir a correr para um encontro com uma família por causa de dois dos seus filhos adoptivos. - Então, encontramo-nos às cinco.

 

A corretora já não estava muito segura de que ele fosse o inquilino certo. Uma pessoa que trabalhava em Watts não tinha condições económicas para arrendar a casa do caseiro de Cooper Winslow. Ao fim da tarde, quando se encontrou com ele, ficou ainda mais convencida disso.

 

Jimmy chegou ao volante do velho Honda Civk que Maggie insistira em comprar, embora ele houvesse preferido adquirir um carro melhor quando se mudaram para a Califórnia. Tentara explicar-lhe que a vida na Califórnia exigia um bom carro, mas, como de costume, ela acabara por convencê-lo do contrário. Para o tipo de trabalho que faziam, não podiam ter um carro muito caro, embora pudessem perfeitamente dar-se a esse luxo. O facto de ele provir de uma família endinheirada sempre fora um segredo muito bem guardado, até mesmo entre os seus amigos.

 

Trazia calças de ganga coçadas, com um pequeno rasgão no joelho, uma camisola de Harvard desbotada, já com uma dúzia de anos, e um par de botas gastas. Nos sítios onde visitava as famílias, havia, muitas vezes, ratazanas, e não queria que elas lhe mordessem. Em contraste com o vestuário que envergava, tinha a barba feita, era inteligente, bem-educado, e cortara o cabelo recentemente. Era um interessante conjunto de elementos contraditórios, o que confundiu completamente a corretora.

 

- Trabalha em quê, Mister O’Connor? - indagou, enquanto abria a porta da casa do caseiro. Já a havia mostrado três vezes nessa tarde, mas o primeiro homem que a vira achara-a demasiado pequena, o segundo, demasiado isolada, e o terceiro preferia um apartamento. Como tal, ainda estava disponível, embora tivesse quase a certeza de que Jimmy não ganhava o suficiente para pagar a renda. Muito menos com o ordenado de assistente social. Porém, fosse como fosse, era seu dever mostrar-lha.

 

Quando atravessou a cerca, Jimmy suspendeu a respiração. Parecia uma casa rústica irlandesa, e vieram-lhe à memória as viagens que fizera à Irlanda na companhia de Maggie. No instante em que pôs o pé na sala de estar, sentiu-se transportado até à Irlanda ou à Inglaterra. Era a casa ideal para um celibatário: simples e despretensiosa. Pareceu satisfeito quando viu a cozinha. Também pareceu gostar do quarto. Mas o que mais lhe agradava era a sensação de estar no camPO. Ao contrário do outro homem, Jimmy gostava de isolamento. Era o que melhor se coadunava com o seu estado de espírito.

 

- A sua esposa não quer ver a casa? - inquiriu a corretora, averiguando, delicadamente, se Jimmy era casado. Era uma pessoa bem-parecida, em boa forma física. Também tinha curiosidade de saber se ele andara efectivamente em Harvard, ou se comprara a camisola na Goodwill.

 

- Não, ela... - começou por balbuciar, mas não conseguiu acabar a frase. - Sou... Vou viver aqui sozinho. Ainda não conseguia pronunciar a palavra ”viúvo”. Sentia como que uma faca a atravessar-lhe o coração de cada vez que tentava proferi-la. Usar a palavra ”solteiro” seria patético e Pouco honesto da sua parte. Às vezes, ainda tinha vontade de dizer que era casado. Ainda usaria aliança, se a tivesse. Maggie nunca lhe oferecera nenhuma, e a que usava fora enterrada com ela. - Gosto da casa - afirmou, pausadamente, enquanto deambulava novamente por todas as divisões e abria todos os armários. Viver numa propriedade assim parecia-lhe grandioso de mais para si, mas achou que talvez pudesse dizer aos colegas, quando os trouxesse ali, que estava a tomar conta da casa, ou a trabalhar na propriedade.

 

Poderia inventar muitas histórias, se fosse preciso, e já não era a primeira vez que o fazia. Sabia que Maggie também teria gostado da casa. Mas nunca teria concordado em ali viver, porque não teria hipóteses de comparticipar com os seus cinquenta por cento. Pensar nisso fê-lo sorrir. Estava tentado a ficar com a casa. Mas resolveu esperar e deixar amadurecer a decisão, prometendo telefonar à corretora no dia seguinte.

 

- Gostaria de pensar um pouco mais no assunto - disse, quando se foi embora.

 

A corretora ficou convencida de que ele só estava a salvar a face. Pelo carro, pelas roupas e pelo emprego, sabia que’ Jimmy não tinha meios para pagar uma renda tão alta. Mas parecia-lhe boa pessoa, e estava a ser simpática com ele. Nunca se sabia com quem se estava a lidar. Às vezes, dava-se de caras com pessoas desconhecidas e com ar humilde que se vinha depois a descobrir serem herdeiros de grandes fortunas. Aprendera isso logo no início da actividade como corretora, daí que o tratasse com cortesia.

 

No caminho de regresso, Jimmy pensava na casa. Era bonita e parecia um retiro tranquilo. Teria adorado viver ali com Maggie e perguntou-se se aquele seria o refúgio ideal. Já não sabia o que era melhor. Não havia sítio nenhum onde pudesse esconder-se da grande mágoa que sentia. Quando chegou a casa, recomeçou a tarefa de encaixotar as coisas, apenas para se distrair. O apartamento já estava praticamente vazio. Comeu uma tigela de sopa e sentou-se à janela, em silêncio, de olhar perdido no espaço.

 

Ficou acordado a maior parte da noite, a pensar em Maggie e nos conselhos que ela lhe daria. Ainda pusera a hipótese de arranjar um apartamento nos arrabaldes de Watts, o que

 

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seria prático, e os perigos não o alarmavam. Ou um apartamento algures em Los Angeles. Porém, nessa noite, deitado na cama, não conseguia deixar de pensar na casa do caseiro. E sabia que Maggie também a teria adorado e tinha meios económicos para pagar a renda. Estava na dúvida se, por uma vez na vida, deveria ceder ao desejo. E gostava da história de trabalhar na propriedade em troca de uma renda reduzida. Parecia uma história plausível. Além disso, adorava a cozinha, a sala de estar, a lareira e o jardim a toda a volta.

 

Às oito da manhã, enquanto se barbeava, ligou para o telemóvel da corretora.

 

- Fico com a casa. - E esboçou um sorriso. Era a primeira vez, em várias semanas, que sorria. Estava entusiasmado com a casa. Era o refúgio ideal.

 

- A sério? - A corretora estava perplexa. Nunca acreditara que Jimmy voltasse a telefonar e ficou sem saber se ele percebera o preço quando ela lho disse: ”São dez mil dólares por mês, Mister O’Connor. Não há problema?” Não tinha estômago para voltar a lembrar-lho. Nunca pensara que fosse tão fácil arrendar a casa. Viver em completo isolamento numa propriedade não era para toda a gente, mas ele parecia adorar.

 

- A sério - asseverou Jimmy. - Quer que apresente referências bancárias, ou que faça um depósito de sinal? Agora que se decidira pelo arrendamento da casa, não queria perdê-la.

 

- Bem, não... eu... temos de pedir as referências bancárias, primeiro. - Estava convencida de que este pedido acabaria com as pretensões de Jimmy, mas, por lei, tinha de percorrer todos os passos do processo.

 

- Não quero perdê-la. Entretanto, pode aparecer outra pessoa. - Parecia preocupado. Já não era tão descuidado como antes. Ultimamente, ficava mais ansioso com coisas em

que outrora nem sequer pensava. Maggie sempre se preocupava por ele. Agora, era diferente.

 

- Eu guardo-lha. Tem direito de preferência.

 

- Quanto tempo demora o banco a dar as referências?

 

- Poucos dias. Ultimamente, os bancos estão um pouco demorados com as referências bancárias.

 

- Porque não telefona ao director do meu banco? E deu-lhe o nome do director do Bank of America. - Talvez ele consiga apressar um pouco mais as coisas. - Jimmy costumava agir com discrição, mas também sabia que, mal ela lhe telefonasse, tudo começaria a andar sobre rodas. Não tinha problemas de dinheiro, nunca tivera.

 

- Terei muito gosto em fazê-lo, Mister O’Connor. Pode dar-me o seu contacto?

 

Jimmy deu-lhe o número do escritório e pediu-lhe para deixar recado no voice mail, caso lá não se encontrasse.

 

- Estarei no escritório durante toda a manhã. - Tinha uma montanha de papéis em cima da secretária. Às dez da manhã, a corretora telefonou-lhe.

 

O pedido de referências bancárias decorrera tal e qual ele imaginara. Ela telefonou para o director do banco privado, por uma questão de rotina, e, mal proferiu o nome de Jimmy, o director asseverou-lhe, sem qualquer sombra de dúvida, que não haveria o mínimo problema. A conta era excelente, não podiam revelar o saldo, mas o seu montante colocava Jimmy no escalão mais elevado de clientes.

 

- Ele vai comprar uma casa? - perguntou o banqueiro, interessado.

 

Esperava que sim, embora Jimmy ainda não houvesse abordado esse assunto. Depois da tragédia recente da morte da esposa, este era um sinal de esperança. Jimmy tinha meios económicos mais do que suficientes para comprar uma casa, e, se quisesse, até podia comprar o Palacete.

 

- Não, vai arrendar uma casa de caseiro. A renda é muito elevada - informou a corretora, procurando comprovar o que ele lhe dissera e certificar-se de que não havia qualquer mal-entendido. - Dez mil dólares por mês, mais as rendas do primeiro e último mês, e um depósito de segurança de vinte e cinco mil dólares.

 

O director do banco asseverou-lhe, uma vez mais, que não havia qualquer problema. A curiosidade da corretora aumentou, e, numa rara explosão de indiscrição, perguntou-lhe:

 

- Quem é ele?

 

- Exactamente quem diz ser. James Thomas O’Connor. É um dos nossos clientes mais sólidos. - Era a única coisa que podia dizer-lhe, deixando-a ainda mais intrigada.

 

- Fiquei um pouco preocupada porque com a profissão de assistente social, certamente... não é normal encontrar-se alguém com capacidade para pagar uma renda tão elevada.

 

- É pena não haver mais pessoas como ele. Há mais alguma coisa que deseje saber?

 

- Importa-se de me enviar uma carta por faxe?

 

- De modo nenhum. Quer que lhe enviemos um cheque passado em nome dele, ou ele próprio o passa?

 

- Eu pergunto-lhe - respondeu a corretora, percebendo que acabara de arrendar a casa.

 

Telefonou a Jimmy e deu-lhe a boa notícia, dizendo-lhe que podia.ficar com a casa e as chaves logo que quisesse. Ele prometeu encontrar-se com ela à hora do almoço, para alinhavar todos os pormenores do contrato, e disse que só se mudaria dali a algumas semanas, quando desocupasse o apartamento. Queria gozar a última coisa que partilhara com Maggie durante o máximo de tempo possível, apesar de estar entusiasmado com a casa. Além disso, sabia que, para onde quer que fosse, ela acompanhá-lo-ia.

 

- Espero que seja muito feliz na casa, Mister O’Connor. É uma jóia autêntica. E estou certa de que gostará de conhecer Mister Winslow.

 

Quando desligou, Jimmy riu-se ao pensar no que Maggie teria dito do facto de ter uma estrela de cinema como senhorio. Porém, pela primeira vez na vida, ia ceder ao desejo de cometer uma loucura. De qualquer forma, no seu íntimo, sentia que Maggie não só teria aprovado como adorado a casa.

 

 

Na manhã seguinte, depois de outra noite de pesadelo, praticamente sem ter dormido nada, Mark chegou ao escritório. Pouco depois, tocou o telefone. Era Abe Braunstein.

 

- Sinto muito aquilo que me disse ontem - começou Abe. Pensara nele a noite anterior e, de repente, lembrou-se de que Mark poderia andar à procura de um apartamento. Não podia ficar eternamente num hotel. - Ontem à noite, tive uma ideia meio estapafúrdia. Não sei se anda à procura de casa, nem quais são as suas necessidades, mas surgiu no mercado uma casa excepcional. Um dos meus clientes, Cooper Winslow, quer arrendar a ala de hóspedes. Está num aperto tremendo. Tem uma propriedade e uma casa fantástica em Bel Air. Quer arrendar a casa do caseiro e a ala de hóspedes. Começaram a mostrá-las ontem, e não creio que já estejam arrendadas. Só pensei em falar-lhe nisto porque é um lugar espectacular para se viver, uma espécie de country club. Talvez gostasse de a ver.

 

- Não tenho pensado muito nisso. - Mark ainda não recuperara do choque, se bem que viver na propriedade de Cooper Winslow, em Bel Air, não lhe parecesse má ideia, e até seria um óptimo cenário para quando os filhos viessem visitá-lo.

 

- Se quiser, passo por aí, à hora de almoço, e levo-o até lá. Mesmo que não esteja interessado, vale a pena a visita. É uma propriedade magnífica. Campos de ténis, piscina, cinco hectares e meio de jardim, no centro da cidade.

 

- Adoraria conhecê-la. - Não queria ser indelicado com Abe, mas não se sentia com disposição para ver casas, mesmo a de Cooper Winslow. No entanto, achou por bem aceitar o convite, talvez fosse uma casa boa para os filhos.

 

- Passo por aí ao meio-dia e meia. Vou telefonar à corretora, para lá ir ter connosco. A renda é alta, mas julgo que você tem condições para a pagar. - E sorriu. Sabia que Mark era um dos sócios mais bem pagos da firma. Direito Fiscal não era uma área muito excitante, mas rendera-lhe bons proventos, embora não houvesse nele o menor sinal de ostentação. Apesar de ter um Mercedes, era uma pessoa pragmática e despretensiosa.

 

Durante o resto da manhã, Mark esqueceu o assunto. A ala de hóspedes do Palacete não passava de uma miragem. Só ia vê-la por uma questão de cortesia para com Abe, e porque não tinha nada que fazer à hora de almoço. Agora que mal comia, sobrava-lhe mais tempo. A roupa já começava a ficar-lhe larga.

 

Abe chegou ao escritório à hora combinada e disse a Mark que a corretora estaria no Palacete dentro de um quarto de hora. Durante toda a viagem, falaram da nova lei fiscal, que, segundo parecia, tinha algumas falhas, o que interessava a ambos. Estavam de tal modo embrenhados na conversa que, quando chegaram ao portão principal, Mark ficou mudo de espanto. O Palacete tinha uma entrada imponente. Abe introduziu o código e entraram, ziguezagueando pelo caminho fora, por entre árvores e jardins sem fim, cuidadosamente tratados. Mark soltou uma gargalhada quando deparou com a casa. Não conseguia imaginar-se a viver num sítio assim. Parecia um palácio.

 

- Meu Deus! É ali que ele vive? - perguntou, ao ver as colunas e as escadas de mármore, e uma enorme fonte que lhe fazia lembrar a Praça da Concórdia, em Paris.

 

- Foi construída para Vera Harper. Winslow tem-na há mais de quarenta anos. A manutenção custa-lhe uma fortuna.

 

- Imagino. Quantos criados tem?

 

- Agora, perto de vinte. Dentro de duas semanas, um na casa e três jardineiros. De momento, tem oito. Diz que estou a seguir uma política de terra queimada e não está muito satisfeito com isso. Também vou obrigá-lo a vender os carros. Se estiver interessado num Rolls ou num Bentley... É um tipo interessante, mas um gastador inveterado. A propriedade foi feita à sua medida, tenho de admitir.

 

Abe era tudo o que Coop não era: prático, pragmático, frugal, e não tinha a mínima ponta de elegância ou estilo; mas era mais compassivo do que Coop pensava, e por isso trazia Mark a ver a casa. Tinha pena dele e queria ajudá-lo. Ele próprio também nunca vira a ala de hóspedes, mas Liz dissera-lhe que era espectacular.

 

Mark soltou um assobio de espanto quando a corretora o convidou a entrar. Olhou, deslumbrado, para os tectos altos e as janelas francesas. Os jardins eram de uma beleza indescritível. Tinha a sensação de estar num velho palacete francês. O mobiliário também era de um grande requinte. A cozinha era um pouco antiquada, mas isso não lhe fazia diferença, e, como a corretora referiu, era muito acolhedora. Ficou maravilhado com a grandiosidade da suíte. Não gostava muito do cetim azul, apesar de dar um certo toque de classe ao aposento. Mantê-lo-ia durante um ano, enquanto pensava no que fazer da sua vida. Seria a melhor solução. O espaço exterior era seguro para os seus filhos. Ainda pensara em mudar-se para Nova Iorque, para estar perto deles, mas não queria invadir o espaço de Janet e tinha muitos clientes em Los Angeles que contavam com ele. A única coisa que Mark não queria fazer era tomar uma decisão precipitada. Para que isso não acontecesse, precisava de um lar. Esta casa poderia ser esse lar, apesar de não ser sua. E seria muito menos deprimente do que viver num hotel, a ouvir as pessoas a puxar o autoclismo e a bater com as portas.

 

- É uma casa esplêndida! - exclamou, esboçando um sorriso. Nunca lhe passara pela cabeça que houvesse pessoas a viver assim. Tivera uma casa confortável e bem decorada, mas a ala de hóspedes parecia um cenário de cinema. Seria divertido viver ali. E achava que os filhos adorariam a propriedade, especialmente os campos de ténis e a piscina. Obrigado por me trazer aqui, Abe. - E sorriu, com ar agradecido, para Abe.

 

- Pensei nisso ontem à noite, e achei que valia a pena vir ver a casa. Não pode viver eternamente num hotel.

 

Mark dera toda a mobília a Janet, por isso, o facto de a casa já estar mobilada era menos uma dor de cabeça.

 

- Quanto é a renda? - indagou

 

- Dez mil dólares por mês - respondeu a corretora, sem pestanejar. - Mas não há outra casa como esta. Algumas pessoas pagariam dez vezes mais para ficarem com ela. Hoje de manhã, fechei negócio com um senhor muito simpático que vai ficar com a casa do caseiro.

 

A sério? - Abe parecia satisfeito com a notícia. -

 

Alguém que conheçamos? - Estava habituado às celebridades e estrelas de cinema que eram seus clientes e amigos de Coop.

 

- Não, não creio. É assistente social - respondeu a corretora. Abe ficou espantado.

 

- E tem dinheiro para pagar a renda? - Como contabilista de Coop, tinha todo o interesse em fazer este tipo de perguntas.

 

- Parece que sim. O director do Bank of America diz que é um dos seus clientes mais sólidos. Enviou-me um faxe a confirmar esse facto, dez minutos depois de ter falado comigo, e o inquilino passou um cheque para pagar o primeiro e o último mês de renda e o seguro. Hoje à noite, vou entregar-lhe o contrato de arrendamento. Vive em Venice Beach.

 

- Interessante - comentou Abe, e centrou, de novo, a atenção em Mark, que estava a inspeccionar os armários. Havia armários de sobra. Gostou, em especial, dos dois quartos para os filhos, decorados com muito bom gosto.

 

Enquanto deambulava pela casa, Mark matutava no valor da renda, mas tinha plena consciência de que podia pagá-la. Só não sabia se queria despender tanto dinheiro. Se fechasse negócio, seria a primeira extravagância de toda a sua vida, e talvez já fosse tempo de cometer uma ousadia. Janet ousara sair porta fora, para os braços de outro homem, enquanto ele se limitaria a arrendar um apartamento caro durante um ano. Talvez voltasse a dormir bem. Poderia dar umas braçadas na piscina quando regressasse do trabalho, ou jogar ténis, se arranjasse parceiro. Não se imaginava a convidar Cooper Winslow para jogar consigo.

 

- Ele costuma andar por aí? - perguntou à corretora.

 

- Como viaja muito, quer inquilinos, para haver sempre alguém na propriedade para além dos criados.

 

Abe percebeu, de imediato, que aquela justificação fora encomendada por Liz, sempre tão diplomática e defensora da reputação de Cooper. Também não quis contar à corretora que, dentro de duas semanas, deixaria de haver criados na casa.

 

- Faz sentido - aprovou Mark, fazendo um gesto de concordância com a cabeça. - É uma segurança para ele.

 

Mas também sabia o que Abe lhe contara, em jeito de confidência, acerca da situação financeira de Cooper. Partilhavam um sem-número de informações daquele género sobre os seus clientes.

 

- É casado, Mister Friedman? - Queria certificar-se de que Mark não tinha dez filhos, mas era muito pouco provável. E o facto de ter sido o próprio contabilista de Cooper a trazê-lo significava que não havia necessidade de um aturado processo de recolha de informações pessoais, o que tornava as coisas muito mais fáceis para todos os envolvidos.

 

- Eu... hum... não... vou-me divorciar. - Quase estremeceu ao articular as palavras.

 

- Os seus filhos vivem consigo?

 

- Não, vivem em Nova Iorque. - Cortava-lhe o coração dizer aquilo. - Irei vê-los o maior número de vezes possível. Só podem vir até cá nas férias. E sabe como são os miúdos, gostam de estar perto dos amigos. Já me contento se aqui vierem uma vez por ano - acrescentou, com tristeza.

 

A corretora ficou mais aliviada. Era um candidato perfeito: um homem sozinho, com filhos que nem sequer moravam na mesma cidade e que raramente viriam visitá-lo. Não se podia pedir melhor. E, obviamente, era endinheirado, já que fora Abe a trazê-lo. Enquanto voltavam para a sala de estar, Mark anunciou:

 

- Fico com ela!

 

Abe ficou perplexo. Mark exibia um largo sorriso, e a corretora, um ar de incontida satisfação. Conseguira arrendar a casa e a ala de hóspedes logo nos dois primeiros dias em que os imóveis haviam sido colocados no mercado, e a bom preço. Achava que dez mil dólares por cada um era um valor justo; além disso, Liz dissera que Coop ficaria satisfeito se conseguisse arrendá-las por esse preço. Mark parecia estar em êxtase. De repente, sentiu um desejo incontrolável de sair do hotel e mudar-se quanto antes para ali. A corretora informou-o de que poderia ocupar a casa dentro de poucos dias, logo que o processo de referências bancárias estivesse completo. Depois, era só receber as chaves.

 

- Acho que me vou mudar já este fim-de-semana anunciou Mark, radiante, enquanto apertava a mão da corretora,  selando o acordo, e agradecia a Abe por o ter trazido a ver a casa.

 

- Foi muito mais fácil e mais produtivo do que eu esperava. E mais rápido. - Abe sorriu, radiante. Sempre julgara que Mark demoraria um ror de tempo a decidir-se.

 

- É, provavelmente, a maior loucura que alguma vez cometi. Mas talvez precise de ser um pouco louco de vez em quando. - Era sempre sério, responsável e contido em tudo o que fazia. Talvez tivesse sido por isso que perdera Janet para outro homem, muito mais divertido do que ele. - Obrigado, Abe. Adoro a casa, e acho que os meus filhos também a vão adorar.

 

- Vai-lhe fazer bem durante uns tempos - afirmou Abe, compassivo.

 

Nessa noite, Mark telefonou a Jessica e a Jason, e disse-lhes que acabara de arrendar a ala de hóspedes de Cooper.

 

- Quem é ele? - indagou Jason.

 

- Acho que é um velho actor de cinema do tempo em que o papá era pequeno - explicou Jessica.

 

- É mais ou menos isso - retorquiu Mark, satisfeito. Mas o mais importante é que a casa é soberba, e temos a nossa própria ala, numa propriedade lindíssima, com campo de ténis e piscina. Acho que vai ser divertido quando vocês os dois me vierem visitar. - Estavam os três ao telefone ao mesmo tempo.

 

- Tenho saudades da nossa antiga casa - disse Jason, algo nostálgico.

 

- Detesto a escola - intrometeu-se Jessica. - As raparigas e os rapazes são uma cambada de estúpidos.

 

- Dá tempo ao tempo - retorquiu Mark, com diplomacia. Não fora dele a ideia de acabar com o casamento, ou de levar os miúdos para Nova Iorque. Mas não queria tecer nenhuma crítica à ex-mulher. Seria melhor para as crianças. Leva algum tempo, a adaptação a uma nova escola. E vou vê-los muito em breve. - Em Fevereiro, ia passar um fim-de-semana com eles em Nova Iorque. Já haviam feito as reservas em Saint Bart’s, para a interrupção lectiva de Março. Além disso, estava a pensar alugar um pequeno barco para as férias nas Caraíbas. Tentou mudar de conversa. - Como está a mamã?

 

- Está boa, só que sai muito - queixou-se Jason, sem fazer qualquer referência ao novo namorado da mãe.

 

Mark tinha quase a certeza de que ela ainda não os apresentara. Devia estar à espera que as coisas assentassem. Ainda só se haviam passado três semanas, quase quatro. Não era muito tempo, embora, a si, lhe parecesse uma eternidade.

 

- Porque não podemos ficar com a antiga casa? - indagou Jessica, pesarosa.

 

Quando Mark lhes respondeu que já a vendera, desataram os dois a chorar. Era mais uma conversa que acabava com uma nota de tristeza. Haviam tido muitas assim. E Jessica parecia querer sempre culpá-lo de tudo. Ainda não se apercebera de que fora a mãe que quisera o divórcio. Mark não queria acusar Janet de nada. Só estava à espera que ela assumisse as suas responsabilidades, mas, até ao momento, ainda não o fizera. Janet apenas lhes dissera que ela e o pai não se davam bem, o que era mentira. As coisas haviam corrido bem até Adam aparecer. Mark tinha curiosidade em saber como iria ela explicar aos filhos o papel daquele homem na sua vida. Se calhar, apresentá-lo-ia como alguém que acabara de conhecer. Provavelmente, só ao fim de alguns anos eles se aperceberiam do que realmente acontecera. Entretanto, continuariam a responsabilizá-lo pelo divórcio. O seu maior receio era que os filhos gostassem tanto de Adam como a mãe, acabando por esquecê-lo. Encontrava-se a cerca de cinco mil quilómetros de distância, em Los Angeles, e não os via com a frequência desejada. Mal conseguia esperar pela hora de voltar a vê-los em Saint Bart’s, nas férias. Escolhera esse local por achar que seria divertido para os três.

 

Prometeu telefonar-lhes no dia seguinte, como era costume. Nessa noite, informou o hotel de que se mudaria no fim-de-semana. Estava ansioso por se instalar na nova casa. Adorava-a. Era a primeira coisa agradável que lhe acontecia desde que Janet lhe dera a terrível notícia de que ia para Nova Iorque. Estivera como que em estado de choque nas últimas cinco semanas. Nessa noite, saiu e foi comer um hambúrguer, antes de ir para a cama. Pela primeira vez em semanas, estava realmente com fome.

 

Na sexta-feira à noite, meteu as suas roupas em duas malas e, no sábado de manhã, partiu para a propriedade. Tinha o código do portão e abriu-o. Quando entrou na ala de hóspedes, esta encontrava-se imaculadamente limpa. Fora tudo aspirado, e os móveis reluziam. Não se via uma única nódoa na cozinha e na cama haviam posto lençóis lavados. Por momentos, teve a sensação de que regressava a casa.

 

Depois de desfazer as malas, deu uma volta pelos terrenos ajardinados em redor da casa. Estavam tratados com desvelo. Foi às compras e fez o almoço. Depois, deitou-se junto à piscina, a apanhar sol. Nessa tarde, quando telefonou aos filhos, encontrava-se muito bem-disposto. Em Nova Iorque, chegava ao fim mais um dia de neve. As crianças pareciam aborrecidas, fartas de estarem fechadas em casa. Jessica ia sair com amigos nessa noite, mas Jason não tinha nada que fazer. Sentia saudades do pai, da casa, dos amigos e da escola. Aparentemente, não havia nada de que gostasse em Nova Iorque.

 

- Aguenta mais um pouco. Vou vê-los dentro de duas semanas. Havemos de arranjar alguma coisa para fazer. Já jogaste futebol esta semana?

 

- Nunca podemos jogar por causa da neve. -Jason detestava Nova Iorque. Era um miúdo da Califórnia, fora lá que vivera desde os três anos. Nem sequer se lembrava de ter morado em Nova Iorque. A única coisa que queria era voltar para a Califórnia, pois só aí se sentia em casa.

 

Conversaram durante mais algum tempo. Finalmente, Mark desligou e foi verificar o lugar das coisas na cozinha. À noite, pôs um vídeo, e achou piada ao facto de Cooper Winslow ter uma aparição fugaz no filme. Era um homem bem-parecido, e Mark perguntou-se quando, e se algum dia, se encontrariam. Nessa tarde, ao chegar a casa, vira um homem atrás dele, num Rolls Royce descapotável, com uma rapariga bonita sentada a seu lado. Cooper devia ter uma vida muito mais interessante do que a sua. Depois de dezasseis anos de felicidade conjugal, nem sequer imaginava como seria recomeçar a namorar, e nem sentia qualquer vontade. Tinha o espírito ocupado com demasiadas recordações e desgostos, e só conseguia pensar nos filhos. De momento, na sua vida, não havia espaço para uma mulher. Espaço, talvez, mas coração, não. Deu graças a Deus por, nessa noite, ter dormido  como uma criança, e por ter acordado feliz na manhã seguinte, depois de sonhar que os filhos viviam consigo. Isso sim, seria uma vida perfeita. Mas só estaria com eles dentro de duas semanas. A única coisa a fazer era esperar.

 

Foi arranjar o pequeno-almoço, e ficou espantado ao descobrir que o fogão não funcionava. Pensou em telefonar à corretora, mas não chegou a fazê-lo. Contentou-se com sumo de laranja e torradas. Quase nunca cozinhava, excepto quando estava com os filhos.

 

Entretanto, na parte principal da casa, Cooper fazia descobertas semelhantes. A cozinheira fora-se embora no início da semana, depois de arranjar outro emprego. Livermore já partira. As duas criadas de quarto haviam ido passar o fim-de-semana fora e partiriam na semana seguinte. Paloma não vinha trabalhar aos fins-de-semana. Pamela é que estava a fazer-lhe o pequeno-almoço. Dizia-se uma excelente cozinheira, mas os ovos mexidos ressequidos e o bacon queimado que serviu, num prato, a Cooper não comprovavam esses dotes.

 

- És uma rapariga inteligente - elogiou Coop, enquanto olhava, com ar preocupado, para os ovos. - Presumo que não encontraste os tabuleiros.

 

- Que tabuleiros, querido? - perguntou, com sotaque do Oklahoma.

 

Estava orgulhosa de si própria, e esquecera-se igualmente dos guardanapos e dos talheres de prata. Voltou à cozinha a buscá-los, enquanto Cooper tocou com a ponta do dedo nos ovos. Estavam ressequidos e frios. Pamela distraíra-se a conversar ao telefone com uma amiga. Cozinhar nunca fora o seu forte, mas sim o que fazia na cama. O único problema era não saber falar. Extremamente limitada, não era, no entanto, a sua conversa que fascinava Coop. Gostava da sua companhia. Havia nas jovens algo que o revigorava. E ele atraía-as por vários motivos: a idade, a afabilidade, a jovialidade, a vasta cultura e a sofisticação; além disso, levava-as às compras quase todos os dias. Pamela nunca se divertira tanto na vida como com Coop. Pouco lhe importava a sua idade. Tinha um novo guarda-roupa, e, na semana anterior, ele oferecera-lhe um par de brincos de diamantes e um bracelete,  também de diamantes. Não havia dúvidas. O velho actor sabia como viver a vida.

 

Coop atirou com os ovos para dentro da sanita quando Pamela foi à cozinha arranjar-lhe um copo de sumo de laranja. A jovem sentiu uma ponta de orgulho ao ver que ele comera tudo. Mal ela acabou de comer os ovos, Coop puxou-a para a cama, onde passaram a tarde. Nessa noite, levou-a a jantar ao Lê Dome. Pamela também gostava de ir ao Spago. Sentia um frémito de emoção ao ver toda a gente a olhar para si, curiosa por saber quem era a acompanhante de Coop. Os homens olhavam-no com inveja, enquanto as mulheres os fitavam com ar de espanto.

 

Nessa noite, depois de jantar, Coop foi levá-la ao apartamento onde ela vivia. Passara um fim-de-semana divertido na sua companhia, mas tinha uma semana muito ocupada à frente. Ia gravar um anúncio de um carro, que lhe iria proporcionar uma boa quantia. Além disso, era a última semana de trabalho de Liz.

 

Nessa noite, quando se meteu na cama, sozinho, Coop sentia-se feliz. Pamela era muito divertida, mas, afinal de contas, não passava de uma criança, coisa que ele já não era. Precisava de um sono reparador. Deitou-se às dez horas e dormiu que nem uma pedra até à manhã seguinte, altura em que Paloma afastou as cortinas e levantou as persianas. Acordou sobressaltado e sentou-se na cama, de olhos pregados nela.

 

- Por que raio estás a fazer isso? - Não conseguia imaginar o que estava ela a fazer no quarto, e ficou aliviado por reparar que vestira um pijama de seda na noite anterior. Caso contrário, ela poderia tê-lo encontrado esparramado, todo nu, em cima da cama. - O que é que estás a fazer aqui?

 

A criada trazia uma bata branca, óculos de sol de aros brilhantes e sapatos vermelhos de salto alto. Parecia uma cartomante cigana vestida de enfermeira. Cooper não ficou nada satisfeito.

 

- Miss Liz disse para acordá-lo às oito horas - respondeu Paloma, lançando-lhe um olhar fulminante. Nutria uma forte antipatia por ele, e demonstrava-o. Cooper também não morria de amores por ela.

 

- Não podias ter batido à porta? - resmungou, deixando-se cair para trás, de olhos fechados. Ela acordara-o de um sono profundo.

 

- Eu bato. Senhor não responde. Por isso, entro. Agora, acorda. Miss Liz diz que senhor tem de ir para trabalho.

 

- Muito obrigado - disse Coop, em tom formal, os olhos ainda fechados. - Importas-te de me fazer o pequeno-almoço? - Não havia mais ninguém a quem pudesse formular aquele pedido. - Apetece-me ovos mexidos e tosta de aveia. Sumo de laranja. Café simples. Obrigado.

 

Quando abandonou o quarto, Paloma ia a resmungar algo para os seus botões. Coop estava ciente de que a aliança entre os dois seria dolorosa. Por que diabo tivera de ser ela a escolhida? Porque não haviam escolhido outra? Ah, claro, queixou-se para consigo... tinha um salário baixo. Porém, vinte minutos depois, quando saiu do duche e encontrou os ovos num tabuleiro em cima da cama, teve de admitir que estavam excelentes. Melhores que os de Pamela. Apesar de Paloma ter feito huevos rancheros, em vez de ovos mexidos. Teve vontade de a repreender por não ter cozinhado aquilo que lhe pedira, mas não o fez. Os ovos estavam óptimos, e devorou tudo num instante.

 

Meia hora depois, Cooper saía, impecavelmente vestido, de blazer, calças cinzentas e camisa azul, gravata azul-escura Hermes, e cabelos imaculadamente penteados, como sempre. Ao entrar para o velho Rolls Royce, era a imagem da elegância e da sofisticação. E arrancou. Mark, que ia para o escritório, seguiu-o. Não imaginava onde Cooper iria àquela hora.

 

Liz cruzou-se com os dois e acenou a Cooper. Ainda não acreditava que aquela era a sua última semana no Palacete.

 

 

Os últimos dias de Liz ao serviço de Coop foram um misto de tristeza e felicidade. O velho actor nunca havia sido tão doce, nem tão generoso com ela. Ofereceu-lhe um anel de diamantes que, segundo disse, fora da mãe - uma daquelas histórias a que Liz não dava grande crédito. Mas, tivesse ou não sido da mãe de Coop, o anel era lindo e ficava muito bem na mão de Liz, que prometeu andar sempre com ele.

 

Na sexta-feira à noite, a convite de Coop, foi ao Spago, onde bebeu de mais. Quando ele a levou a casa, estava lavada em lágrimas, e não parava de dizer que ia ser uma infeliz. Mas Coop já se resignara com a sua partida e asseverou-lhe que ela estava a fazer o que devia. Depois de se despedir, regressou a casa, onde tinha uma nova brasa à sua espera. Pamela estava em Milão, a rodar exteriores para uma revista. Aquando da rodagem do anúncio para um carro, Coop conhecera Charlene, uma mulher estonteante, com vinte e nove anos, e o corpo mais extraordinário que alguma vez vira. E já vira muitos. O dela merecia figurar no Palácio da Fama de Cooper Winslow: enormes seios, que Charlene dizia não terem silicone, e uma cintura que duas mãos conseguiam enlaçar; longos cabelos negros, e enormes olhos verdes amendoados (tinha uma avó japonesa). Dotada de extraordinária beleza, estava completamente rendida ao charme de Coop e era mais inteligente do que Pamela, o que constituía um grande alívio. Charlene vivera dois anos em Paris, aliando a profissão de modelo à actividade de estudante na Sorbonne, e crescera no Brasil. Fora para a cama com Coop logo no segundo dia de filmagens. O velho actor tivera uma semana em cheio.

 

Convidara-a a passar o fim-de-semana consigo, e ela aceitara com um gritinho de alegria. Já estava a pensar em levá-la ao Hotel du Cap. Ficaria um espectáculo de biquini na piscina. Quando chegou a casa, depois do jantar com Liz, ela já o esperava na cama e Coop deitou-se a seu lado. Passaram uma noite muito interessante, algo acrobática, e, no sábado, foram almoçar a Santa Bárbara e regressaram ainda a tempo de irem jantar ao L’Orangerie. Estava a adorar a companhia da jovem e a pensar em dar com os pés a Pamela. Charlene tinha muito mais para oferecer e uma idade que se coadunava mais com a sua.

 

Na segunda-feira de manhã, quando Paloma regressou ao trabalho, Charlene ainda estava com ele. Cooper pediu-lhe para trazer dois tabuleiros, o que ela fez com uma expressão de desagrado estampada no rosto. Lançou um olhar furioso ao patrão, pousou abruptamente os tabuleiros em cima da cama e saiu do quarto, com ar empertigado. Trazia sapatos de salto alto cor-de-rosa. Os acessórios que costumava usar com a bata sempre haviam fascinado Coop.

 

- Ela não gosta de mim - queixou-se Charlene, desanimada. - Acho que desaprova o nosso relacionamento.

 

- Não te preocupes. Está loucamente apaixonada por mim. Não tenhas medo se ela fizer uma cena de ciúmes retorquiu Coop, sarcástico, enquanto comia algo parecido com ovos de borracha, cobertos de uma grossa camada de pimenta, o que fez com que Coop quase sufocasse e Charlene não parasse de espirrar. Era uma versão mais forte dos huevos rancheros que comera na semana anterior. Paloma ganhara este round, mas Cooper estava determinado a dar-lhe uma palavrinha depois de Charlene se ir embora, o que aconteceu ao princípio da tarde.

 

- Serviste um pequeno-almoço interessante esta manhã, Paloma. - Cooper fitava-a com ar gélido. - A pimenta dá um agradável toque agressivo, mas desnecessário. Quase precisei de uma serra para cortar os ovos. Com que é que os fizeste? Com cola de borracha, ou com vulgar cola de papel?

 

- Não sei do que fala - respondeu a criada, com ar de mistério, enquanto areava uma peça de prata que Livermore lhe dissera para limpar todas as semanas. Usava novamente os óculos de aros brilhantes. Eram, obviamente, os seus óculos favoritos, e estavam também a tornar-se os favoritos de Cooper. Interrogou-se se haveria a mais remota possibilidade de a fazer cumprir as suas ordens. Caso contrário, teria de substituí-la, dissesse Abe o que dissesse. - Não gosta dos meus ovos? - perguntou, com ar angelical, enquanto Cooper a olhava de sobrolho franzido.

 

- Sabes muito bem do que estou a falar.

 

- Miss Pamela telefonou de Itália, hoje de manhã, às oito horas - anunciou Paloma, com ar de indiferença, perante o olhar estupefacto de Cooper. De súbito, o sotaque desaparecera.

 

- O que é que disseste?

 

- Eu disse... - Olhou-o com um sorriso inocente nos lábios. - Miss Pamela telefonou às oitos horas. - O sotaque reaparecera. Devia estar a brincar com ele.

 

- Há um minuto atrás não falaste dessa maneira, pois não, Paloma? Onde é que queres chegar? - Coop estava visivelmente chateado. Ela olhou-o com indiferença, depois, encolheu os ombros.

 

- Não era do que estava a precisar? Andou dois meses a chamar-me Maria. - Ainda se percebia um sotaque salvadorenho nas suas palavras, mas muito leve. O seu inglês era quase tão bom como o de Cooper.

 

- Não fomos devidamente apresentados - desculpou-se Coop. E, embora o não admitisse, estava ligeiramente divertido: Paloma escondera-se dele fingindo que mal sabia falar inglês. Devia ser esperta e, provavelmente, também, boa cozinheira. - O que é que fazias no teu país, Paloma? - indagou, intrigado.

 

- Era enfermeira - respondeu, continuando a arear a peça de prata. Aquela tarefa repugnava-a. Sentia quase tantas saudades de Livermore como Coop.

 

- Que pena - retorquiu Cooper, esboçando um sorriso. - Pensei que me ias dizer que eras costureira. Pelo menos, poderias cuidar das minhas roupas. Felizmente, não estou necessitado dos teus préstimos como enfermeira.

 

- Ganho mais, aqui. E o senhor tem muita roupa - ripostou Paloma, acentuando novamente o sotaque, como se este fosse uma peça de vestuário que punha e tirava quando muito bem lhe apetecia. Era como se andasse a brincar às escondidas com ele.

 

- Também tens uns acessórios interessantes - acrescentou Coop, olhando para os sapatos cor-de-rosa da criada. A propósito, por que razão não me avisaste que Pamela telefonou?

 

Já tomara a decisão de acabar com ela. Mas ficara sempre amigo de todas as mulheres com quem tinha andado. A sua generosidade era tal que elas lhe perdoavam todos os caprichos e pecados. E estava certo de que o mesmo aconteceria com Pamela.

 

- O senhor estava ocupado com a outra quando ela telefonou. Não sei o nome dela. - O sotaque desaparecera de novo.

 

- Charlene. - Paloma pareceu não ligar grande importância à informação. - Obrigado, Paloma.

 

Coop preferiu dar por finda a conversa enquanto estava em vantagem, e saiu. Ela nunca escrevera um único recado, e só lhos dava quando se lembrava, facto que o deixava deveras preocupado. Mas parecia conhecer as regras do jogo. Pelo menos, até agora. E, a pouco e pouco, estava a tornar-se uma personagem interessante.

 

Paloma conhecera Mark na semana anterior, e oferecera-se para lhe tratar da roupa quando ele lhe contou que a máquina de lavar estava avariada. Assim como o fogão. Disse-lhe ainda que poderia utilizar a cozinha do edifício central, se precisasse, e que Coop nunca vinha à cozinha durante a manhã. Deu-lhe, então, uma chave da porta que ligava a ala de hóspedes ao edifício central. A máquina de café também não funcionava. Mark fizera uma lista de todas as coisas avariadas, e a corretora prometera que tudo seria reparado, mas, com a partida de Liz, não havia ninguém que tomasse conta deste tipo de ocorrências, à excepção de Coop, e era muito pouco provável que ele o fizesse. Mark passou a levar a sua roupa à lavandaria, enquanto Paloma tratava dos lençóis e das toalhas. Aos fins-de-semana, usava a máquina de café de Coop. Em vez do fogão, utilizava o microondas. Só precisaria do fogão quando os filhos viessem visitá-lo. E nessa altura já estaria arranjado. A corretora prometeu ver o que poderia fazer. Mas Coop nunca respondeu aos seus telefonemas, nem aos dela, nem aos de Mark. Entretanto, Coop ia fazer outro anúncio nessa semana, a uma marca de pastilhas elásticas. Era um anúncio ridículo, mas bem pago, o seu agente convencera-o a aceitar. Ultimamente, andava a trabalhar mais do que era hábito, embora ainda não tivesse surgido qualquer convite para um filme. O agente fora a várias produtoras, mas em vão. Coop ainda gozava de boa reputação em Hollywood, mas já era velho para o papel de galã. Ainda não se sentia preparado para desempenhar papéis de pai ou de avô. E há vários anos que não aparecia qualquer convite para o papel de velho playboy.

 

Nessa semana, Charlene passou quase todas as noites com Coop. Andava a tentar arranjar emprego como actriz, mas ainda tinha menos trabalho do que ele. Desde que chegara a Hollywood, apenas participara em dois vídeos eróticos, um dos quais havia sido exibido na televisão às quatro da manhã. Percebeu que nenhum desses filmes ficaria bem no seu currículo. Charlene já perguntara a Coop se não podia interceder a seu favor, e ele prometera-lhe ver o que poderia fazer. Começara como modelo de lingerie na Sétima Avenida, depois de trabalho no mesmo ramo em Paris. Possuía um corpo escultural, mas Coop tinha sérias dúvidas de que tivesse queda para a representação. As suas verdadeiras aptidões encontravam-se numa área muito mais apelativa para Coop, mas que nada tinha a ver com representação, trabalho de modelo ou televisão.

 

Coop adorava a sua companhia. E ficou aliviado quando ao regressar de Milão Pamela lhe contou que se envolvera com o fotógrafo. Essas coisas, especialmente no mundo de Coop, aconteciam com naturalidade. Tudo girava em torno de corpos, alianças temporárias e aventuras amorosas fugazes. Quando saía com actrizes famosas, logo surgiam rumores de namoro e casamento. Mas não queria nada disso com Charlene. Andava radiante de felicidade na sua companhia e já fora, por duas vezes, às compras com ela, o que fizera desaparecer num ápice o dinheiro dos dois cheques que os seus inquilinos lhe haviam passado. Mas achava que a moça merecia, como explicou a Abe, quando este lhe telefonou a avisar que teria de vender a casa se não se portasse bem.

 

- Tem de deixar de andar com modelos e actrizes, Coop. Precisa de arranjar uma mulher rica.

 

Coop soltou uma gargalhada e respondeu que ia pensar no assunto, mas o casamento nunca o atraíra. A única coisa que queria era gozar a vida, e era isso mesmo que faria até morrer.

 

Na semana seguinte, Mark foi a Nova Iorque visitar os filhos. Já falara deles a Paloma. Esta já dera uma pequena limpeza aos seus aposentos, pela qual recebera uma boa remuneração. Mas tê-lo-ia feito de graça. Quando Mark lhe contou que a esposa o trocara por outro homem, sentiu pena dele, e começou a deixar-lhe fruta numa taça em cima da mesa da cozinha, além de tortilhas que ela própria confeccionava. Gostava de o ouvir falar dos filhos. Via-se que os adorava. Havia fotografias deles por todo o lado, e outras de Mark com a ex-mulher.

 

Esse fim-de-semana era um desafio para Mark: ia encontrar-se com os filhos pela primeira vez desde que haviam deixado Los Angeles, há mais de um mês. Janet declarou que ele devia ter esperado mais algum tempo antes de os visitar e mostrava algum nervosismo e hostilidade. Levava uma vida dupla, fingindo-se uma pessoa livre quando estava com os filhos e prosseguindo clandestinamente o seu romance, apesar de Adam já lhe ter perguntado quando iria conhecer os miúdos. Ela prometera-lhe que em breve, mas não queria que eles suspeitassem de que fora esse o motivo por que haviam sido obrigados a mudar-se para Nova Iorque. Aterrorizava-a pensar que os filhos não simpatizassem com Adam e entrassem em guerra com ele, quanto mais não fosse por uma questão de lealdade para com o pai. Quando Mark a viu, achou-a extremamente nervosa, e pareceu-lhe que alguma coisa estava a correr mal. Os filhos também se mostravam tristes, apesar da excitação de reencontrarem o pai.

 

Ficaram alojados no Plaza com Mark e passaram o tempo todo a telefonar para o serviço de quartos. Mark levou-os ao teatro e ao cinema. Foi às compras com Jessica e deu um longo passeio à chuva com Jason. No domingo à tarde, custou-lhe muito deixá-los, partindo com a sensação de que a visita soubera a pouco. Durante toda a viagem de regresso, sentiu-se deprimido. Começava a perguntar a si mesmo se não seria melhor mudar-se para Nova Iorque. No sábado seguinte, enquanto apanhava sol à beira da piscina, ainda a pensar no assunto, reparou que alguém estava a mudar-se, finalmente, para a casa do caseiro. Encaminhou-se para lá e viu Jimmy a tirar uma série de caixas de dentro de uma carrinha. Ofereceu-se para o ajudar.

 

Jimmy hesitou mas acabou por aceitar a ajuda de bom grado. Ele próprio estava espantado com a quantidade de coisas que tinha. Desfizera-se de muitas delas, mas ficara com um bom número de fotografias emolduradas, alguns trofeus, o equipamento desportivo e a roupa. Trouxera também a aparelhagem. Eram tantas coisas que, mesmo com a ajuda de Mark, demoraram duas horas a despejar a carrinha. Quando, finalmente, se sentaram, Jimmy ofereceu-lhe uma cerveja.

 

- Você tem cá um arsenal de coisas! - exclamou Mark, sorrindo enquanto bebericava a cerveja. - E de um peso! Trouxe a colecção de bolas de bólingue ou quê?

 

Jimmy sorriu e encolheu os ombros.

 

- Diabos me carreguem se sei! E não trouxe as coisas todas.

 

Tinha uma quantidade enorme de livros, papéis e CDs que parecia não ter fim, mas desapareceu tudo com a maior das facilidades, nas gavetas, armários, estantes e roupeiros da casa. Quando abriu a primeira caixa, Jimmy pegou numa fotografia da falecida esposa, colocou-a em cima da lareira e ficou especado a olhar para ela. Era uma das suas favoritas. Maggie acabara de apanhar um peixe num lago, numa das viagens à Irlanda, e exibia um ar vitorioso e satisfeito, os cabelos ruivos apanhados no alto da cabeça, os olhos semicerrados por causa do sol. Parecia uma miúda de catorze anos. Fora tirada no Verão anterior, antes de Maggie adoecer, há apenas cerca de sete meses. Parecia ter sido há uma eternidade. Quando se virou, Mark olhava-o fixamente. Jimmy desviou o olhar, sem articular qualquer palavra.

 

- É bonita. Namorada?

 

Jimmy abanou a cabeça e demorou bastante tempo a responder. Quando o fez, sentiu um nó na garganta. Já estava habituado. Às vezes, num ápice, o nó transformava-se numa crise de choro.

 

- É a minha mulher - respondeu num tom triste.

 

- Lamento - retorquiu Mark, presumindo que também estivesse divorciado. - Há quanto tempo?

 

- Faz amanhã à noite sete semanas.

 

Jimmy respirou fundo. Nunca falava do assunto, mas sabia que tinha de aprender a lidar com ele, e talvez esta fosse uma boa altura para começar. Mark parecia ser boa pessoa e, vivendo na mesma propriedade, talvez ainda se tornassem amigos. Fez um esforço para evitar que a voz se lhe embargasse e baixou os olhos.

 

- No meu caso, seis. No fim-de-semana passado, fui a Nova Iorque visitar os meus filhos. Sinto tantas saudades deles... A minha mulher deixou-me por causa de outro tipo explicou Mark, em tom amargurado.

 

- Sinto muito. - Jimmy conseguia ver a dor estampada no olhar de Mark. - É duro. Que idade têm os seus filhos?

 

- Quinze e treze, uma rapariga e um rapaz. O Jason e a Jessica. São miúdos maravilhosos e, até agora, estão a detestar Nova Iorque. E ainda bem que o tipo não é daqui. Os miúdos ainda não o conhecem. E você? Tem filhos?

 

- Não. Chegámos a falar no assunto, mas nunca nos decidimos.

 

Estava espantado com a quantidade de coisas que queria contar a Mark. Era como se existisse entre eles um estranho elo invisível. O elo da amargura, do sentimento de perda, da tragédia inesperada. As desgraças que a vida nos traz quando menos esperamos.

 

- Talvez seja mais fácil divorciarmo-nos quando não temos filhos - afirmou Mark, com um misto de compaixão e humildade. De repente, Jimmy percebeu o que ele queria dizer.

 

- Mas eu não me estou a divorciar - balbuciou, com voz embargada.

 

- Então, pode ser que façam as pazes - vaticinou Mark, com alguma inveja, continuando a não perceber o que acontecera. Só então reparou no olhar amargurado de Jimmy.

 

- A minha mulher morreu.

 

- Oh, meu Deus... os meus sinceros pêsames... pensei que... Que aconteceu? Acidente?

 

Olhou de novo para a fotografia, subitamente horrorizado com o facto de a bonita mulher que exibia o peixe ter morrido. Era fácil perceber a dor de Jimmy.

 

- Um tumor cerebral. Começou a ter dores de cabeça... enxaquecas... fez exames. Foi-se em dois meses. Num ápice.

 

Evito falar no assunto. Ela teria adorado este sítio. A família era irlandesa, de County Cork. Era cem por cento irlandesa. Uma mulher extraordinária. Quem me dera valer só metade do que ela valia.

 

Mark quase chorou ao ouvi-lo. As lágrimas cintilavam nos olhos de Jimmy. Mas Mark não podia fazer mais nada a não ser olhá-lo, condoído. Depois, ajudou-o a transportar o resto das caixas e levou pelo menos meia dúzia para o primeiro andar. Durante algum tempo, não trocaram qualquer palavra, mas Jimmy parecia já recomposto quando acabaram de levar as caixas para as salas respectivas e Mark o ajudava a abrir algumas delas.

 

- Nem sei como hei-de agradecer-lhe. Acho que estou a cometer uma pequena loucura, ao mudar-me para aqui. Tínhamos um apartamento magnífico em Venice Beach. Só que eu tinha de sair de lá, depois apareceu isto. Achei que, de momento, era a melhor coisa a fazer. - Precisava de um sítio para recuperar, sem ter que deparar com uma série de coisas que lhe fizesse lembrar os momentos passados com Maggie.

 

- Eu vivia num hotel, a dois quarteirões do escritório, e passava a noite a ouvir pessoas a tossir. Um colega meu, um contabilista que trabalha para Coop, disse-me que ele ia arrendar a casa do caseiro e a ala de hóspedes. Fiquei apaixonado pela casa logo que a vi e acho que este espaço circundante é óptimo para os miúdos. É como viver num parque. Mudei-me há duas semanas, e isto é tão sossegado... Durmo que nem um bebé. Quer ver os meus aposentos? São muito diferentes destes. Você fechou o negócio no dia em que eu vim ver a ala de hóspedes. Mas acho que a minha casa é melhor para os miúdos.

 

Não conseguia deixar de pensar neles, especialmente depois de os ter visto no fim-de-semana anterior e de se ter apercebido de que eram infelizes em Nova Iorque. Jessica passava a vida às turras com a mãe e Jason parecia desligado de tudo e de todos, isolando-se do que o rodeava. Nem eles, nem a mãe estavam bem. Nunca a vira tão nervosa. Reduzira a vida de todos a farrapos, mas Mark ainda alimentava a esperança de que ela percebesse que a vida que escolhera não era tão idílica como pensara. Optara por um caminho árduo e pedregoso, não só para eles, mas também para si própria.

 

- Vou tomar um duche - anunciou Jimmy, sorrindo.

- Já lá apareço. Não me demoro. Quer jogar uma partida de ténis logo à tarde? - Não jogava desde que Maggie falecera.

 

- Claro. Não tenho tido ninguém com quem jogar. Mas tenho ido até à piscina. É óptima. Fica mesmo ao lado da casa.

 

- Tem visto Coop? - indagou Jimmy, com um sorriso, dando a impressão de estar a sentir-se melhor.

 

- Ainda não, quer dizer, já o vi mas não falei com ele. Só ao longe, a entrar e a sair. E anda cá com umas brasas! Deve ter um bando de miúdas novas.

 

- Tem de fazer jus à reputação. Acho que é o que tem feito melhor ao longo da vida. Há anos que não o vejo num filme.

 

- Deve andar em baixo de finanças, e foi por isso que nos arrendou as casas - explicou Mark, pragmático.

 

- Também acho. O caso da ala de hóspedes é paradigmático. Por que razão quereria ele arrendar parte da sua própria casa se não precisasse de dinheiro? A manutenção desta propriedade deve custar-lhe uma fortuna.

 

- O contabilista dele despediu a criadagem quase toda. Talvez ainda o vejamos, um destes dias, a tratar do jardim.

 

Riram-se ambos da ideia. Pouco depois, Mark voltou para casa, satisfeito por ter conhecido Jimmy. Estava impressionado com o trabalho que ele realizava com miúdos, em Watts, e sentia imensa pena do que sucedera à esposa. Que pouca sorte! Era pior do que o que lhe acontecera a si. Pelo menos, ele ainda tinha os filhos e, embora Janet lhe houvesse destroçado o coração e a vida, não morrera. Mark não conseguia imaginar nada pior do que o que acontecera ao seu novo amigo.

 

Jimmy apareceu meia hora depois, com ar fresco e limpo, e cabelo lavado. Vestia calções e T-shirt, e trazia uma raquete de ténis. Ficou deslumbrado quando viu a ala onde Mark vivia. Era, de facto, um espaço completamente diferente do seu. Jimmy preferia a sua casa, mas achava que a ala seria muito melhor para os filhos de Mark. Havia muito mais espaço. E estariam mais próximos da piscina.

 

- Coop não levantou objecções ao facto de você ter filhos? - perguntou Jimmy, enquanto se encaminhavam para o campo de ténis.

 

- Não. Porquê? - Mark parecia espantado. - Disse à corretora que eles viviam em Nova Iorque e, infelizmente, não vão passar aqui muito tempo, excepto nas férias. É mais fácil se eu lá for.

 

- Fiquei com a impressão de que ele não gosta de crianças. É fácil perceber porquê. Tem coisas de muito valor em ambas as casas. Para mim, foi óptimo. Tinha pouca mobília, o apartamento era muito pequeno. Não trouxe nada. É bom começar de novo. E você?

 

- Deixei a Janet levar tudo, excepto as minhas roupas. Pensei que seria melhor para os miúdos terem com eles todas as coisas que lhes eram familiares. Este sítio foi uma dádiva dos céus. De outra forma, teria de comprar uma montanha de móveis. Acho que, se tivesse de fazer isso, teria preferido ficar no hotel. Pelo menos, por uns tempos. Não estava com disposição para andar a mobilar um apartamento. Aqui, foi só chegar com as malas, desfazê-las e, como que por artes mágicas... zás!... estou em casa!

 

- Foi o que aconteceu comigo.

 

Deram com o campo de ténis facilmente, mas ficaram desapontados ao descobrir que se encontrava em muito mau estado. Ainda tentaram jogar, mas o piso estava esburacado e irregular. Acabaram por se limitar a bater umas bolas de um lado para o outro. Depois, foram até à piscina. Mark deu umas braçadas, enquanto Jimmy ficou a apanhar sol. Antes de regressar a casa, Jimmy convidou Mark para jantar nessa noite. Ia fazer costeletão no churrasco e, contra o que era seu hábito, comprara dois.

 

- Aceito com todo o gosto. Eu levo o vinho - prontificou-se Mark.

 

Apareceu uma hora depois, com uma garrafa de colheita muito razoável, e sentaram-se no terraço a falar da vida, de desporto, dos respectivos empregos, dos filhos de Mark, e dos filhos que Jimmy gostaria de ter tido e ainda poderia vir a ter, mas falaram o menos possível das mulheres. A dor era ainda muito forte. Mark admitiu a sua relutância em voltar a sair com uma mulher, enquanto Jimmy pôs a hipótese de nunca mais o fazer. De momento, tinha sérias dúvidas de que isso acontecesse, porém, aos trinta e três anos, era uma decisão difícil de tomar. Ambos achavam que iriam andar ao sabor da corrente por uns tempos. A conversa acabou por estender-se a Coop e ao tipo de vida que levava. Jimmy era do parecer que, quando uma pessoa vivia ao estilo de Hollywood durante tanto tempo como ele, acabava por ficar desfasada da realidade. Parecia uma teoria plausível, pelo que ambos haviam lido acerca de Coop.

 

Nesse preciso momento, o velho actor encontrava-se em casa, na cama com Charlene. A jovem era um verdadeiro pitéu sexual, e já haviam feito coisas que ele nunca pensara fazer na vida. O sexo rejuvenescia-o e era um desafio que colocava a si próprio. Charlene movimentava-se com ar felino, atirando-se a ele como uma leoa esfaimada e deixando-o louco de prazer. Manteve-o ocupado durante grande parte da noite. E na manhã seguinte, esgueirou-se até à cozinha para lhe arranjar o pequeno-almoço. Ia surpreendê-lo com uma revigorante refeição e, depois, voltariam a fazer amor. Estava na cozinha, apenas com umas minúsculas calcinhas e uns sapatos altos vermelhos, quando ouviu a porta abrir-se. Virou-se e encarou com Mark, em cuecas e de cabelos desgrenhados. Parecia um miúdo de dezoito anos, com ar ensonado e embasbacado a olhar para a jovem, que não fez qualquer tentativa para se cobrir, limitando-se a sorrir-lhe.

 

- Olá, sou Charlene - apresentou-se, com a maior das naturalidades, como se estivesse de roupão e chinelos.

 

Mark nem sequer lhe viu a cara, incapaz de desviar o olhar dos enormes seios, das minúsculas calcinhas e das intermináveis pernas. Só ao fim de algum tempo se deteve no seu rosto.

 

- Oh... meu Deus... desculpe... Paloma disse-me que Coop nunca usa a cozinha aos fins-de-semana... o meu fogão e a máquina de café estão avariados... só vinha fazer um café... ela deu-me a chave... - gaguejou Mark. Mas Charlene não parecia minimamente preocupada. Pelo contrário, exibia um ar afável e divertido.

 

- Eu faço-lhe o café. Coop está a dormir.

 

Mark supunha que se tratasse de uma actriz ou de um modelo que Coop trouxera para casa, ou então de uma das suas namoradas. Há semanas, vira-o acompanhado de uma loura, mas não sabia se era ela. De qualquer das formas, tratava-se de uma autêntica brasa.

 

- Não... vou-me embora... peço imensa desculpa... Charlene mantinha-se impávida e sorridente, com os seios quase a tocarem no rosto de Mark.

 

- Não há nenhum problema. - Não parecia minimamente incomodada com o facto de estar praticamente nua diante de Mark, que, se a cena não fosse tão embaraçosa, teria rebentado a rir. Continuou a olhá-la, envergonhado, enquanto ela lhe preparava o café. - É o novo inquilino? indagou, quando Mark, segurando a chávena fumegante, tentava sair da cozinha o mais rapidamente possível.

 

- Sou. - Que outra pessoa poderia ser? Um ladrão? Não voltarei a entrar aqui. Vou comprar uma máquina de café. Talvez seja melhor não contar nada a Coop - pediu, nervoso. Charlene era uma rapariga deslumbrante.

 

- Está bem - retorquiu amavelmente, enquanto fazia sumo de laranja para Cooper. - Quer sumo de laranja? perguntou, antes de Mark sair da cozinha.

 

- Não, obrigado... Obrigado pelo café - respondeu Mark, desaparecendo o mais depressa que pôde.

 

Fechou novamente a porta à chave e encaminhou-se para a sala de estar. Nem queria acreditar no que lhe acontecera. Parecia uma cena de um mau filme. Mas ela tinha cá um corpo e uns cabelos negros!

 

Mal se vestiu, não conseguiu resistir a ir contar a Jimmy o que se passara. Prometera a si próprio comprar uma máquina de café nessa tarde.

 

Jimmy estava sentado no pátio da casa, a beber uma caneca de café e a ler o jornal, quando levantou os olhos e viu Mark com um sorriso de orelha a orelha.

 

- Nem imagina onde, nem com quem é que tomei café esta manhã.

 

- Não faço a menor ideia, mas, pelo seu ar de felicidade, deve ter sido bom.

 

Mark falou-lhe, então, de Paloma e da chave, do fogão e da máquina de café avariados, e de Charlene, praticamente nua, apenas com umas minúsculas calcinhas e uns sapatos de saltos altos, enquanto lhe preparava o café, sem se mostrar minimamente perturbada com a sua presença.

 

- Foi uma cena digna de filme. Agora, imagine o que seria se ele aparecesse de repente. Se calhar, punha-me logo na rua.

 

- Ou pior. - Jimmy também estava deleitado com a história, imaginando o cómico da situação: Mark de cuecas, com uma mulher completamente nua a servir-lhe café.

 

- Também me ofereceu sumo de laranja. Mas acho que estaria a abusar da sorte se lá passasse mais um minuto que fosse.

 

- Quer outro café? Se bem que aqui o serviço seja um pouco mais mundano.

 

- Claro.

 

Na vida destes dois homens havia afinidades suficientes para criar entre eles laços de amizade. E o facto de serem vizinhos dava-lhes uma paz de espírito incrível. Ambos tinham os seus próprios amigos e as suas próprias vidas, mas, ultimamente, tentavam evitar esses círculos de amizade. As tragédias por que haviam passado tinham-nos afastado e feito sentir embaraçados até com os amigos mais chegados. Haviam-se isolado e, agora, tinham encontrado um companheiro de infortúnio. Era mais fácil do que estar com as pessoas que os haviam conhecido quando estavam casados. Era como começar do zero. Por vezes, tornava-se difícil suportar o ar de comiseração dos velhos amigos.

 

Meia hora depois, Mark voltou para casa. Trouxera trabalho do escritório. Mas tornaram a encontrar-se mais tarde, na piscina. Mark comprara uma nova máquina de café, e Jimmy já acabara de desencaixotar as suas coisas. Colocara meia dúzia de fotografias de Maggie em lugares estratégicos. Por estranho que pudesse parecer, olhar para o rosto dela fazia-o sentir-se menos só. Às vezes, às tantas da noite, sentia um profundo terror de se esquecer das suas feições.

 

-Já acabou o trabalho? - perguntou Jimmy, sentado confortavelmente num cadeirão.

 

-Já - respondeu Mark, de sorriso nos lábios. E comprei uma nova máquina de café. Amanhã de manhã, vou entregar a chave a Paloma. Nunca mais voltarei à cozinha. - A visão de Charlene, de calcinhas, ainda o fazia sorrir.

 

- Esperava outra coisa dele? - perguntou Jimmy, referindo-se ao senhorio.

 

- Talvez não. Só não estava à espera de assistir à sua vida sexual na primeira fila.

 

Meia hora depois, ainda conversavam calmamente, quando ouviram um portão ranger e, depois, fechar-se com algum estrondo. E, num ápice, surgiu diante deles um homem alto, de cabelos cor de prata, e sorriso aberto. Vestia calças de ganga e uma camisa branca imaculadamente passada, e calçava sapatos castanhos de pele de crocodilo. Era uma visão da perfeição, e ambos se puseram em pé de um pulo, como dois miúdos que tivessem sido apanhados a fazer algo que não deviam. Mas fora-lhes concedido acesso livre à piscina, e o único motivo por que Coop aparecera fora para os conhecer. Já os vira do terraço. Charlene encontrava-se no piso de cima, no duche, a lavar o cabelo.

 

- Desculpem incomodá-los. Só cá vim apresentar os meus cumprimentos. Uma vez que são meus convidados, queria conhecê-los. - Ambos tiveram a mesma sensação de gozo por terem sido chamados de ”convidados”. Por dez mil dólares por mês, não eram seus ”convidados”, mas seus inquilinos. - Olá, sou Cooper Winslow - apresentou-se, com um largo sorriso, enquanto lhes dava um aperto de mão. Qual de vocês vive aqui? Já se conheciam? - Estava tão curioso acerca deles como eles acerca de si.

 

- Chamo-me Mark Friedman, vivo na ala de hóspedes. E só nos conhecemos ontem, quando Jimmy estava a fazer a mudança.

 

- Chamo-me Jimmy O’Connor. - E deu um aperto de mão ao homem que se erguia, que nem uma torre, diante de si. Ambos tinham a sensação de serem novos alunos a apresentarem-se ao professor. Cooper fazia jus à sua reputação de pessoa charmosa. Exibia grande à-vontade e simpatia, além de grande elegância no vestir. As calças, impecavelmente passadas a ferro, assentavam-lhe que nem uma luva, realçando as longas pernas, que pareciam não ter fim. Nenhum dos dois lhe daria sessenta anos. Tinha um ar muito mais jovem. E a verdade é que já tinha setenta. Não havia qualquer mistério acerca do motivo por que as mulheres o adoravam. Mesmo de calças de ganga, emanava estilo e charme. Era uma estrela de Hollywood.

 

- Espero que se sintam confortáveis nas suas casas.

 

- Muito - apressou-se Mark a responder, rezando para que Charlene não lhe tivesse contado o que se passara naquela manhã. Receava que sim e achava que era por isso que Coop viera visitá-los. - É uma casa esplêndida - acrescentou, em tom de admiração, procurando não pensar na mulher de calcinhas que lhe servira o café. Entretanto, sentindo que era nisso que Mark estava a pensar, Jimmy sorriu e lançou-lhe um olhar travesso. Tratava-se de uma história deliciosa.

 

- Sempre adorei viver aqui - disse Coop, referindo-se ao Palacete. -- Têm de aparecer, de vez em quando, no edifício principal. Um jantar, porque não? - De repente, lembrou-se de que já não tinha cozinheira, nem mordomo, nem ninguém que soubesse servir com requinte. Teria de contratar uma empresa de serviço de refeições. Não arriscaria pedir a Paloma outra coisa a não ser pizas e tacos, apesar das melhoras que o inglês dela sofrera. Com ou sem sotaque, era uma pessoa rebelde e assustadoramente independente. Se lhe pedisse para servir o jantar, não sabia como é que ela se comportaria. - Donde são?

 

- Eu sou de Boston - respondeu Jimmy. - Há oito anos que vivo em Hollywood, desde que me formei. E adoro.

 

- Eu vivo cá há dez - explicou Mark. - Vim de Nova Iorque.

 

Esteve prestes a acrescentar: ”Com a minha mulher e os meus filhos”, mas conteve-se. Seria patético, especialmente se tivesse de explicar por que razão já não estavam consigo.

 

- Acho que vocês tomaram a decisão certa. Também sou do Este, e já não conseguia aguentar o tempo, sobretudo os Invernos. A vida aqui é muito melhor.

 

- Especialmente numa propriedade como esta - elogiou Jimmy, completamente fascinado com Cooper Winslow, que exibia um extraordinário à-vontade. Estava, obviamente, habituado a que lhe dessem atenção e o adulassem. Não havia qualquer dúvida de que tinha perfeita consciência do fascínio que exercia sobre as pessoas. Vivera dele durante meio século. E o que era impressionante era o facto de ainda o manter, em especial devido à sua boa forma física.

 

- Bem, espero que se sintam bem aqui. Informem-me se precisarem de alguma coisa.

 

Mark nem sequer esboçou qualquer tentativa de se queixar do fogão ou da máquina de café. Já resolvera mandá-los arranjar por sua conta e deduzir a despesa no recibo do mês. Não queria puxar a conversa do café da manhã, com receio de que a mulher de seios enormes tivesse contado a Coop o que se passara, apesar de ter prometido que não o faria. Mark não sabia até que ponto podia confiar nela.

 

Coop esboçou novamente um sorriso cativante, cavaqueou durante mais alguns instantes e foi-se embora, enquanto os dois homens, muito mais jovens de que ele, olhavam um para o outro, atónitos. Só ao fim de alguns minutos reataram a conversa, para dar tempo a que Coop chegasse a casa e não ouvisse os seus comentários.

 

- Virgem Santíssima! - Mark falou primeiro. - Viu o aspecto dele? Vou mas é pendurar as botas. Quem é que pode competir com ele?

 

Nunca nenhum homem, na sua vida, o impressionara tanto. Cooper Winslow era o homem com mais charme que alguma vez vira. Porém, Jimmy parecia menos impressionado quando respondeu, com ar pensativo:

 

- Só há um problema - sussurrou. Não queria que Coop ouvisse. - Será que há também um coração por trás de todo aquele charme, daquele ar atraente, daquelas roupas?

 

- Talvez seja suficiente - respondeu Mark, pensando em Janet. Ela nunca teria abandonado um homem com o aspecto, a cultura e o charme de Cooper Winslow. Mark sentia-se um puto ao lado dele. Todas as suas inseguranças haviam surgido à superfície no instante em que Cooper aparecera.

 

- Não, não é - retorquiu Jimmy. - O tipo não passa de uma concha. Nada do que ele diz significa o que quer que seja. Tudo gira à volta da beleza e de todas essas merdas. E olhe para as mulheres com quem ele anda. Daqui a trinta anos, prefere uma menina com serradura na cabeça, de calcinhas, a servir-lhe o pequeno-almoço, ou uma mulher a sério, com quem possa conversar?

 

- Tenho de pensar - respondeu Mark, e desataram ambos a rir.

 

- Por uns tempos é capaz de ser divertido, e depois? Seria uma situação que daria comigo em doido. - Maggie fora uma mulher completa. Inteligente, verdadeira, bonita, divertida e sensual. Ela fora tudo aquilo que ele sempre desejara. A última coisa que Jimmy queria era uma mulher fútil. Mark só queria Janet. Porém, aparentemente, Cooper Winslow era um homem completo. Jimmy também tinha de admitir que o velho actor causava uma forte impressão nas pessoas. Bem, ele que fique com a mulher das mamas. Eu prefiro os sapatos. São espectaculares.

 

- Então, fique lá com os sapatos, que eu fico com a mulher. Ainda bem que não falou do meu encontro com ela na cozinha esta manhã - rematou Mark, aliviado.

 

- Eu já adivinhava que fosse essa a sua escolha - comentou Jimmy, a rir. Simpatizava com Mark. Era um tipo porreiro, íntegro. Adorava conversar com ele e compreendia perfeitamente o seu estado de espírito, causado pelas saudades imensas que sentia dos filhos. - Bem, agora já o conhecemos. Parece mesmo uma estrela de cinema, não acha? - indagou Jimmy, voltando a lembrar-se do breve encontro de há momentos atrás. - Gostava de saber quem é que lhe passa a roupa. A minha está toda amarrotada desde que saí de casa. A Maggie não passava a ferro. Dizia que era contra a sua religião.

 

Mantivera-se fiel à Igreja Católica Romana, além de ter sido uma feminista ferrenha. A primeira vez que ele lhe pedira para lavar a roupa, quase lhe batera.

 

- Tenho levado a roupa toda à lavandaria - contou Mark. - Fiquei sem camisas a semana passada, e tive de comprar seis. A lida da casa não é o meu forte. Tenho pago à Paloma para me fazer a limpeza. Talvez se lhe pedir, ela também lha faça.

 

A salvadorenha estava a ser impecável com ele. E não só era uma pessoa prestável e capaz, mas também muito inteligente. Já falara demoradamente com ela sobre os filhos, e tudo o que Paloma lhe dissera fora de uma grande simpatia e sensibilidade. Mark nutria um grande respeito por ela.

 

- Eu não me queixo - acrescentou Jimmy. - Acompanhado de uma garrafa de Windex, sou um verdadeiro artista a aspirar o pó. A Maggie também não pegava no aspirador.

 

Nessa mesma tarde, Jimmy contou que se haviam conhecido em Harvard. Era uma rapariga muito atraente.

 

- Eu e a Janet conhecemo-nos na Faculdade de Direito. Mas ela nunca exerceu. Engravidou mal casámos e ficou em casa com os miúdos.

 

- Foi por isso que nós nunca quisemos ter filhos. A Maggie esteve sempre dividida entre deixar a carreira profissional e ficar em casa com as crianças. Tinha uma perspectiva de vida muito irlandesa. Achava que as mães deviam ficar em casa com os filhos. Suponho que, mais cedo ou mais tarde, acabaríamos por nos resolver a tê-los.

 

Pouco depois, retomaram a conversa sobre Cooper. Às seis horas, Jimmy voltou para casa. Ia jantar com uns amigos. Convidou Mark, mas este recusou, dizendo que tinha de arrumar alguma papelada e ler a nova legislação fiscal. E despediram-se com a convicção de terem passado um bom fim-de-semana. Haviam arranjado um novo amigo e sentiam-se felizes com as novas casas, além de terem conhecido Cooper Winslow, que não os desiludiu. Coop era tudo aquilo que diziam dele: uma autêntica lenda viva de Hollywood.

 

Jimmy e Mark prometeram encontrar-se para jantar na semana seguinte. Enquanto Jimmy se dirigia para casa, Mark entrava na ala de hóspedes, sorridente, lembrando-se do café da manhã e da mulher que lho fizera. Cooper Winslow era um sortudo!

 

 

Na manhã seguinte, Liz telefonou a Coop, que ficou encantado por voltar a ouvir a voz da antiga secretária. Casara há uma semana e ainda se encontrava em lua-de-mel, mas estava preocupada com ele.

 

- Onde está? - indagou Cooper, ao ouvir a voz familiar. Ainda não se habituara ao facto de não ver o seu rosto todas as manhãs.

 

- No Havai - respondeu Liz, orgulhosa.

 

Usava o nome de casada em todas as ocasiões e, embora achasse estranho, adorava e tinha pena de não se ter casado há mais tempo. Estar casada com Ted parecia um sonho.

 

- Que coisa mais plebeia! - espicaçou-a Cooper. Ainda tenho esperanças de que lhe dê com os pés e volte para mim. O casamento pode ser anulado num instante.

 

- Nem pense! Gosto de ser uma mulher casada e respeitável. - Muito mais do que alguma vez imaginara.

 

- Liz, estou desapontado consigo. Sempre pensei que tivesse mais carácter. Você e eu éramos os últimos solteirões. Agora, só resto eu.

 

- Bem, talvez devesse também casar-se. Não é assim tão mau. Além disso, há mais benefícios fiscais.

 

A verdade era que adorava estar casada, e fizera-o com o homem certo. Ted era um marido maravilhoso. Coop estava feliz por ela, apesar dos transtornos que aquele casamento lhe causara.

 

- O Abe também diz que me devo casar e arranjar uma mulher rica. É de uma crueldade extrema.

 

- Não é má ideia - picou-o.

 

Não conseguia imaginar Cooper casado. A vida para ele tinha muito mais gozo assim. Não estava a vê-lo amarrado a uma única mulher. Ele precisava de ter um harém para estar nas suas sete quintas.

 

- De qualquer modo, há anos que não ando com uma mulher rica. Nem sei onde é que elas se escondem. Além disso, prefiro as filhas.

 

Ou as netas, como acontecia ultimamente. Ao longo da vida, tivera romances com mulheres muito ricas, herdeiras de grandes fortunas, mas sempre preferira as mais jovens. Chegara a andar com uma princesa indiana e duas sauditas riquíssimas. Porém, por mais ricas que fossem, rapidamente se fartava delas. Havia sempre uma mais bonita ou mais excitante ao virar de cada esquina. Liz suspeitava que ele continuaria assim até ao fim dos seus dias. Adorava ser livre.

 

- Só queria certificar-me de que anda a portar-se bem.

- Liz estava cheia de saudades. Tinha um enorme afecto por ele. - Que tal se está a sair a Paloma?

 

- Extraordinariamente bem - respondeu Cooper, num tom convincente. - Faz ovos de borracha, põe pimenta nas torradas, transformou as minhas meias de caxemira em botinhas de bebé e tem um gosto requintado. Já me começo a habituar aos óculos cheios de brilhantes. Isto para não falar nos sapatos cor-de-rosa que usa com a bata, quando não traz os ténis a imitar pele de leopardo. É uma autêntica ave rara, Liz. Só Deus sabe onde você a desencantou.

 

Mas a verdade era que, por mais que ela o irritasse, estava a gostar da animosidade que se criara entre ambos.

 

- É boa rapariga, Coop. Ensine-a, ela aprende. Trabalhou com as outras durante um mês, é provável que se tenha esquecido de algumas coisas.

 

- Acho que o Livermore a pôs a ferros na cave. Também tenho de experimentar esse estratagema. Oh, a propósito, ontem conheci os meus convidados.

 

- Convidados? - Liz ficou perplexa. Não sabia que ele tinha convidados.

 

- Os dois homens que estão a residir na casa do caseiro e na ala de hóspedes. - Os meus inquilinos.

 

- Ah, esses convidados. Que tal são?

 

- Pareceram-me pessoas respeitáveis. Um é advogado e o outro, assistente social. O que é assistente parece um miúdo e andou em Harvard. O advogado parece um bocado nervoso, mas é simpático. Dão a sensação de serem bem-comportados. Só espero que não comecem a atirar garrafas para dentro da piscina ou a adoptar órfãos irrequietos. Não têm ar de criminosos, nem de viciados em heroína. Acho que tivemos sorte.

 

- Também acho. A corretora asseverou-me que eram pessoas de bem.

 

- Reservo o meu julgamento para mais tarde. Mas, de momento, não prevejo qualquer tipo de problemas. - Ouvir isto era um grande alívio para Liz. - Por que razão me telefonou? Devia estar a fazer amor na praia com esse canalizador com quem casou.

 

- Não é canalizador, é corretor na Bolsa. E foi jogar uma partida de golfe com um cliente.

 

- Levou clientes para a lua-de-mel? É mau sinal, Liz. Divorcie-se imediatamente.

 

Cooper soltou uma gargalhada, e Liz ficou muito mais aliviada por sentir que ele estava bem.

 

- Encontrou o cliente aqui - explicou Liz, a rir. Dentro de uma semana, estarei em casa. Agora, porte-se bem, não compre nenhuma pulseira de diamantes esta semana. Ainda arranja uma úlcera ao Abe Braunstein.

 

- É o que ele merece. É o homem mais sisudo e com menos gosto ao cimo da Terra. Você é que merece uma pulseira de diamantes.

 

- Tenho usado o bonito anel que me ofereceu quando me vim embora - recordou Liz. - Falamos quando eu regressar. Tome conta de si, Coop.

 

- Fique descansada, Liz. Obrigado pelo telefonema.

 

Adorava conversar com ela e, embora não o quisesse admitir, tinha saudades. Imensas. Sentia-se um bocado à deriva desde que Liz partira. A sua casa e a sua vida pareciam um navio sem leme. Ainda não conseguia imaginar o que iria fazer sem ela.

 

Nessa manhã, quando cassou o olhar pela agenda, viu a cuidada caligrafia de Liz. A noite, tinha um jantar em casa dos Schwartz. Ele era um dos maiores produtores de Hollywood e ela fora uma actriz de grande beleza nos anos cinquenta. Coop não tinha muita vontade de ir, mas sabia que eles ficariam aborrecidos se não fosse. Estava muito mais interessado em passar a noite com Charlene, e não queria levá-la consigo. Era um pouco ousada para aquele círculo. Charlene era o género de rapariga com quem ele gostava de gozar os prazeres do sexo, não alguém com quem gostasse de ser visto em jantares de cerimónia. Tinha várias categorias de mulheres. Charlene era uma rapariga ”para ter em casa”. As principais estrelas de cinema destinava-as às antestreias dos filmes, onde causavam um impacto redobrado na imprensa. Havia ainda um grupo de jovens actrizes e modelos com quem gostava de sair. Porém, preferia ir sozinho à festa dos Schwartz.

 

Costumavam ter a casa a abarrotar de gente interessante, e nunca sabia quem lá iria encontrar. Preferia ir sozinho, e eles também gostavam de o ter lá como solteirão. Nutria um carinho especial por Arnold e Louise Schwartz. Telefonou a Charlene e disse-lhe que não podiam encontrar-se nessa noite. Ela reagiu com desportivismo, respondendo que precisava do seu ”sono de beleza”, coisa que Coop sabia que ela dispensava. Ainda que passasse a noite toda sem pregar olho, de manhã, exibia sempre o mesmo encanto. E ele, sempre um desejo insaciável. Mas esta noite pertencia aos Schwartz.

 

Coop encontrou-se com um produtor ao almoço, depois, foi ao massagista e à manicura. Dormiu a sesta, ao acordar bebeu um cálice de champanhe e, às oito horas, saía de casa envergando um fato de cerimónia. O motorista que costumava contratar quando ia às festas aguardava-o no Bentley. Coop estava mais elegante do que nunca, com um smoking de fino corte e os cabelos cor de prata meticulosamente penteados.

 

- Boa noite, Mister Winslow - cumprimentou o motorista.

 

Há anos que conduzia Coop, além de outras estrelas. Ganhava bem como motorista por conta própria. Para Coop, não fazia sentido ter um motorista a tempo inteiro. A maioria das vezes, preferia ser ele próprio a conduzir.

 

Quando Coop chegou à enorme mansão dos Schwartz, na Brooklawn Drive, já havia uma centena de pessoas no salão principal, a beber champanhe. Louise Schwartz, que exibia uma fabulosa colecção de safiras, estava deslumbrante num vestido de noite azul-escuro. À sua volta, viam-se as figuras habituais nestas ocasiões: ex-presidentes e ex-primeiras damas, políticos, negociantes de arte, produtores, realizadores, advogados de renome internacional e, como não podia deixar de ser, uns quantos actores de cinema, alguns mais novos do que Coop, mas nenhum tão famoso. Num ápice, Coop viu-se rodeado de uma horda de admiradores de ambos os sexos. Uma hora depois, passaram à sala de jantar. Coop ficou na mesma mesa de um actor conhecido da sua geração, juntamente com dois escritores famosos, um importante agente de Hollywood e o director de um dos maiores estúdios. Pensou em falar com ele depois do jantar, pois ouvira dizer que tinham um papel perfeito para si. Conhecia a mulher que estava sentada à sua direita: uma das matronas mais famosas de Hollywood, cujas festas tentavam em vão rivalizar com as dos Schwartz. À sua esquerda, sentava-se uma jovem que nunca vira antes. Tinha um rosto delicado, de traços aristocráticos, enormes olhos castanhos, pele cor de marfim, e cabelos escuros apanhados num carrapito, como uma bailarina de Dégas.

 

- Boa noite - cumprimentou Coop.

 

Reparou que a jovem era pequena e ágil, levando a crer ser bailarina. Enquanto uma brigada de criados servia o primeiro prato, Coop perguntou-lhe se era mesmo bailarina, e ela riu-se. Não era a primeira vez que lhe faziam essa pergunta, e declarou-se lisonjeada. Sabia muito bem quem ele era. O cartão em cima da mesa tinha escrito Alexandra Madison, nome que, a Cooper, não dizia nada.

 

- Sou estagiária - afirmou, como se isso explicasse tudo.

 

- Estagiária onde? - indagou Cooper, divertido. Não era o seu tipo de mulher, embora a achasse muito bonita. Reparou que tinha umas mãos encantadoras, com unhas curtas e sem verniz. Trazia um vestido de cetim branco, que condizia perfeitamente com o rosto e a silhueta jovens.

 

- Num hospital. Sou médica.

 

- Que interessante - comentou Cooper, parecendo impressionado. - De que especialidade? Algo de que eu precise?

 

- Não, a não ser que tenha filhos. Sou pediatra, ou melhor, neonatologista, para ser mais exacta.

 

- Detesto crianças. Como-as ao jantar - retorquiu Cooper, com um largo sorriso, exibindo a bela dentadura branca por que era conhecido.

 

- Não acredito - contrariou a jovem, esboçando um sorriso.

 

- É verdade. E as crianças também me detestam. Sabem que eu as como. Só gosto delas quando chegam à idade adulta. Especialmente as mulheres. - Pelo menos, estava a ser honesto. Durante toda a sua vida, sentira desconfiança e aversão relativamente às crianças. Geralmente, escolhia mulheres sem filhos. As crianças complicavam tudo e já lhe haviam estragado muitas noites. As mulheres sem filhos eram muito mais divertidas. Não é preciso arranjar baby-sitters, e não têm miúdos que bolsam ou que despejam sumo por cima de nós, nem dizem que nos detestam. Estes eram alguns dos motivos da sua preferência por mulheres jovens. Acima dos trinta, quase todas as mulheres tinham filhos. - Porque não escolheu uma profissão mais divertida? Domadora de leões, por exemplo. Bailarina também lhe serviria que nem uma luva. Acho que devia considerar a hipótese de mudar de profissão, antes que seja demasiado tarde.

 

Alexandra estava divertidíssima e Coop, apesar da infeliz escolha da profissão e do penteado de extrema simplicidade, começava a gostar dela.

 

- Terei de pensar melhor no assunto. Que tal veterinária? Seria melhor? - perguntou Alexandra, com ar inocente.

 

- Também não gosto de cães. São seres asquerosos. Largam pêlo, mordem e cheiram mal. São quase tão maus como as crianças. Não tanto, mas não lhes ficam muito atrás. Temos de pensar numa profissão totalmente diferente para si. Que tal actriz?

 

- Não creio. - Alexandra soltou uma gargalhada, enquanto o criado deitava uma colher de caviar por cima do blini. Coop adorava a comida servida nos jantares dos Schwartz. Alexandra também exibia grande à-vontade, dando a impressão de ter passado toda a sua vida em salões como aquele. Tudo indicava que sim, apesar de não usar jóias de grande valor: um colar de pérolas e um par de brincos de diamantes e pérolas. Porém, havia algo nela que indiciava tratar-se de uma pessoa endinheirada. - E o senhor? - perguntou, mudando a conversa para o campo dele. Era uma rapariga inteligente, e isso também agradou a Coop. - Por que razão é actor? - inquiriu, em tom de desafio.

 

- Acho divertido. Não acha? Imagine-se a representar todos os dias e a usar roupas bonitas. É, de facto, uma profissão muito agradável. Bastante mais interessante do que a sua. Você tem de usar uma horrível bata branca toda amarrotada e é obrigada a lidar com miúdos que passam o tempo a bolsar para cima de si e a berrar mal a vêem.

 

- Lá isso é verdade. Mas as crianças com quem lido são demasiado pequenas para fazerem isso tudo. Trabalho na Unidade de Cuidados Intensivos, sobretudo com bebés prematuros.

 

- Que horror! - exclamou Cooper, fingindo-se horrorizado. - Devem ter o tamanho de ratos. Até pode apanhar raiva. É uma profissão ainda mais perigosa do que eu pensava. -- Estava a divertir-se à grande. Um dos convivas observava-o com ar deleitado. Era um regalo ver Coop fazer charme. Mas Alexandra dava-lhe luta. Era suficientemente sensível e inteligente para não se deixar seduzir. - Que faz mais? - perguntou, continuando o interrogatório.

 

- Voo no meu avião desde os dezoito anos. Adoro fazer asa delta. Fazia pára-quedismo até há pouco tempo, mas prometi à minha mãe nunca mais fazer. Jogo ténis e faço esqui. Também cheguei a fazer motociclismo, mas prometi ao meu pai deixar de fazer. Passei ainda um ano no Quénia, nos serviços de saúde, antes de entrar para a Faculdade de Medicina.

 

- Você parece ter instintos suicidas. E os seus pais parecem interferir bastante nas suas actividades atléticas. Costuma estar com eles?

 

- Quando tem de ser.

 

Era muito senhora do seu nariz. Coop estava fascinado.

 

- Onde vivem?

 

- Em Palm Beach, no Inverno. Em Newport, no Verão. É tudo muito aborrecido e previsível, e eu sou um bocadinho rebelde.

 

- É casada?

 

Cooper reparara que ela não usava aliança, e não esperava resposta positiva. Sempre tivera excelente intuição para essas coisas.

 

- Não - respondeu, após uma ligeira hesitação. - Estive prestes a casar-me - acrescentou, de imediato. Geralmente, não falava do assunto, mas estava a gostar de ser sincera com Coop. Era um homem de diálogo fácil e muito perspicaz.

 

- Que aconteceu?

 

O rosto cor de marfim ficou lívido, embora mantivesse o sorriso. Mas os olhos encheram-se de tristeza. Só Coop notou.

 

- Fui abandonada no altar. Na noite anterior, para ser mais precisa.

 

- Que falta de gosto! Detesto as pessoas que fazem baixezas dessas. - Alexandra mantinha o ar amargurado e, por instantes, Coop arrependeu-se de lhe ter feito a pergunta. Espero que ele tenha caído num fosso cheio de cobras e crocodilos. Era o que merecia.

 

- E caiu. Casou com a minha irmã.

 

Era uma história complicada para um primeiro encontro. Mas Alexandra achava que não voltaria a ver Coop e resolveu contá-la.

 

- É uma atitude inqualificável. Ainda fala com a sua irmã?

 

- Só quando não tenho outra alternativa. Por exemplo, quando fui para o Quénia. Foi um ano muito interessante. Adorei - respondeu Alexandra, mudando de conversa, sinal de que não queria continuar a discutir o assunto.

 

Fora sincera com Coop, e ele admirava-a por isso. Coop falou-lhe então do seu último safari e das desventuras por que passara. Haviam-no convidado para uma reserva de caça e torturado com todo o tipo de horrores possíveis e imaginários. Detestara todos os minutos que lá passara, mas relatou os factos de forma hilariante, fazendo com que Alexandra risse a bandeiras despregadas.

 

Passaram uns momentos agradáveis a conversar um com o outro, ignorando os restantes convivas. Alexandra ainda ria quando o jantar acabou. Entretanto, teve de se levantar para ir falar a uns velhos amigos dos pais que se encontravam noutra mesa. Mas, antes, disse a Coop que gostara imenso de conhecê-lo, e estava a ser sincera. Fora uma noite memorável.

 

- Não tenho muito tempo para sair. E Mistress Schwartz foi muito simpática em ter-me convidado. É amiga dos meus pais. Só vim porque consegui uma folga. Passo a maior parte do tempo no hospital. Ainda bem que vim.

 

E deu um firme aperto de mão a Cooper. Pouco depois, Louise Schwartz aproximou-se dele e, com um risinho sufocado, avisou-o:

 

- Tem cuidado, Coop! Ela é uma miúda muito problemática. Se a engatas, o pai mata-te.

 

- Porquê? Ele é da máfia ou coisa parecida? Ela parece muito respeitável.

 

- E é. É por isso que ele te matará. O Arthur Madison. Um nome sobejamente conhecido. Tratava-se da maior e mais antiga fortuna do país, na área do aço. Era médico. Uma combinação interessante. As palavras de Abe Braunstein ecoaram nos seus ouvidos quando Louise pronunciou o nome. Alexandra era não só uma mulher rica, mas, possivelmente, uma das mais ricas. Simples e despretensiosa, e uma das mulheres mais inteligentes que alguma vez conhecera. E, melhor do que isso, tinha um grande sentido de humor. Era difícil uma pessoa não se sentir atraída por ela. Coop observava-a, com ar interessado, enquanto ela falava com uma série de pessoas. Ficara com um fraquinho por ela. E, sem a perder de vista, fez coincidir a sua saída da festa com a dela, convidando-a a entrar no Bentley.

 

- Posso oferecer-lhe boleia?

 

O tom de voz era afável e inofensivo. Calculara que ela devia andar pelos trinta anos, e não errara. Levava-lhe exactamente quarenta anos, mas, pelo menos, não parecia. Gostava dela. Era uma mulher que, tudo levava a crer, não admitia atitudes disparatadas. Como fora magoada, mostrava-se cautelosa. Coop sentia-se atraído por ela, independentemente de o pai ser quem era e do dinheiro que tinha. Gostava de Alexandra tal como era.

 

- Obrigada, trouxe o meu carro - respondeu, delicadamente, exibindo um largo sorriso. Ao dizer isto, um dos criados que estava de serviço ao parque trouxe-lhe o seu velho Volkswagen, a cair de podre.

 

- Estou impressionado. Extremamente despretensiosa. Admiro a sua discrição - gracejou Cooper.

 

- Não gosto de estoirar dinheiro em carros. Raramente ando com ele. Nunca vou a lado nenhum. Estou sempre a trabalhar.

 

- Não admira. Com todos aqueles ratinhos medonhos. E um instituto de beleza? Alguma vez pensou nisso?

 

- Foi a minha primeira escolha profissional, mas não passei nos exames. Chumbava sempre na parte de frisar o cabelo. - Era tão rápida e irreverente como ele.

 

- Tive muito prazer em conhecê-la, Alexandra - disse Coop, olhando-a fixamente com os olhos azuis, que, juntamente com o queixo fendido, fizeram dele uma lenda, e o tornaram irresistível para as mulheres.

 

- Trate-me por Alex. Também tive muito prazer em conhecê-lo, Mister Winslow.

 

- Talvez devesse tratá-la por doutora Madison. Preferia?

 

- Claro. - E, de sorriso nos lábios, meteu-se no carro. Estava-se nas tintas para o facto de ter vindo à festa dos Schwartz num carro que parecia ter sido abandonado na berma da auto-estrada. - Boa noite! - E, fazendo-lhe adeus com a mão, arrancou.

 

- Boa noite, doutora! Tome duas aspirinas e telefone-me de manhã! - despediu-se Cooper, e sentou-se no banco traseiro do Bentley.

 

Fez questão de não se esquecer de mandar flores a Louise, logo pela manhã. Estava muito satisfeito por ter resolvido não se encontrar com Charlene nessa noite. Passara uma noite magnífica na companhia de Alex Madison. Era uma mulher singular, e uma perspectiva muito interessante de romance.

 

 

Na manhã seguinte, Coop enviou um enorme ramo de flores a Louise Schwartz. Pensou em telefonar à secretária desta a pedir o número de telefone de Alex Madison, mas resolveu ligar directamente para o hospital. Pediu para entrar em contacto com a Unidade de Cuidados Intensivos de Neonatologia e deram-lhe o número do pager de Alex. Ligou-lhe, mas ela não respondeu. Explicaram-lhe que Alexandra estava de serviço e não podia ser chamada ao telefone. A informação deixou-o algo desapontado.

 

Dois dias depois, Coop voltava a vestir o smoking. Fora convidado para a cerimónia de entrega dos Globos de Ouro, embora não fosse nomeado há mais de vinte anos. Mas, tal como todos os outros actores conhecidos, dava uma nota de animação e cor ao evento. Ia acompanhado de Rita Waverly, uma das maiores estrelas de Hollywood nas últimas três décadas. Gostava de aparecer com ela nos grandes eventos. A atenção que recebiam da imprensa era espantosa e, ao longo dos anos, haviam mesmo corrido rumores de que houvera entre eles uma relação amorosa. O seu agente de imprensa fizera, certa vez, constar que iam casar-se, e Rita ficara aborrecida com Coop. Aparecer ao lado dela realçava ainda mais o charme de Coop. Era uma mulher de incrível beleza, apesar da idade. A brochura distribuída à imprensa atribuía-lhe quarenta e nove anos, mas Coop sabia que ela tinha cinquenta e oito.

 

Quando foi buscá-la ao seu apartamento, em Beverly Hills, Rita surgiu com um vestido de cetim branco de decote em V, que lhe assentava na perfeição e realçava a silhueta. Nos últimos anos, submetera-se a dietas rigorosas e a diversos tipos de operações plásticas: a pele fora puxada e repuxada, de todas as maneiras, com óptimos resultados. E, sobressaindo no decote, um colar de diamantes no valor de três milhões de dólares, cedido pela Van Cleef. Exibia ainda um casaco de pele de marta até aos pés. Era o epítome de uma estrela de Hollywood, tal como Coop. Quando chegaram à entrada do local onde a cerimónia ia realizar-se, os repórteres entraram em histeria. Dava a sensação de que ambos tinham vinte e cinco anos e haviam ganho o Oscar nesse ano.

 

- Para aqui!!!... Aqui!!!... Rita!!!... Coop!!! - gritavam os repórteres à procura do melhor ângulo, enquanto os fãs agitavam livros de autógrafos, e milhares de flashs atingiam os seus rostos sorridentes. Era uma noite que alimentaria os respectivos egos durante dez anos. Mas eles já estavam habituados, e Coop ria quando as equipas de televisão os detinham, de meia em meia dúzia de passos, para lhes perguntarem o que achavam dos nomeados daquele ano.

 

- Maravilhosos... um trabalho verdadeiramente impressionante... faz-nos sentir orgulhosos de sermos actores... dizia Coop, com ar de entendido, enquanto Rita seguia a seu lado, toda aperaltada.

 

Com as constantes paragens para o interminável chorrilho de bajulações, sob os olhares da multidão, levaram quase meia hora até chegarem à sua mesa, no salão onde seria servida uma refeição antes do espectáculo televisionado. Coop era todo atenções com Rita, inclinando-se gentilmente para ela enquanto lhe oferecia um cálice de champanhe ou lhe pegava no casaco.

 

- Quase me fazes sentir pena de não ter casado contigo

- gracejou Rita.

 

Mas sabia, tão bem como ele, que aquilo era só espectáculo, embora Coop gostasse dela. Porém, a amizade entre os dois era boa para a reputação de ambos, e até os rumores de romance ao longo dos anos lhes haviam sido vantajosos, chamando sobre si as atenções do público. A verdade era que nunca haviam estado perto de uma relação mais íntima. Coop beijara-a uma vez, mas Rita era tão narcisista que ele tinha a noção, tal como ela, de que a relação não duraria mais de uma semana. Nesse aspecto, eram ambos muito perspicazes.

 

Mal o espectáculo começou, e depois de as câmaras perscrutarem durante alguns segundos a assistência, surgiu um grande e demorado plano dos dois.

 

- Minha nossa! - exclamou Mark, de repente, ao olhar para o televisor, enquanto bebia uma cerveja na companhia de Jimmy. Nenhum deles arranjara melhor coisa para a noite, e haviam combinado encontrar-se em casa de Jimmy para assistir à cerimónia de entrega dos prémios. Haviam mesmo gozado com o facto de Cooper poder aparecer, mas nenhum deles esperara vê-lo durante tanto tempo. O grande plano parecia nunca mais ter fim. - Olhem-me só para aquilo! Perante o ar espantado de Mark, Jimmy sorria.

 

- Quem é a tipa que está ao lado dele? A Rita Waverly? Meu Deus, ele conhece toda a gente! - Até Jimmy parecia impressionado. - Está muito bem conservada para a idade.

 

Lembrou-se, então, de que Maggie adorava ver todas as cerimónias de entrega de prémios: os Globos de Ouro, os Óscares, os Grammys, os Emmys, e até as relativas às telenovelas. Adorava reconhecer todas as estrelas. Mas reconhecer Cooper e Rita Waverly até um ceguinho conseguiria.

 

- Que fato espectacular! - comentou Mark, quando a câmara se deteve noutro assistente famoso. - Não é todos os dias que vemos o nosso senhorio na televisão nacional.

 

- Tive um, em Boston, que foi preso por um crime grave, e vi-o, durante alguns segundos, no telejornal da noite. Acho que andava a vender crack.

 

Jimmy abriu outra cerveja. A amizade entre ambos tornara-se cómoda e confortável, viviam próximos um do outro, eram inteligentes, e, para além do trabalho, pouco mais tinham na vida. Ambos haviam passado por situações recentes de dor e solidão, e nenhum dos dois estava ainda em condições psicológicas de voltar a sair com uma mulher. Comer um bife e beber umas quantas cervejas, de vez em quando, ajudava a passar as noites. Logo que Cooper desapareceu do ecrã, instalaram-se para ver os Globos de Ouro. Jimmy pusera um saco de pipocas no microondas.

 

- Começo a sentir-me um dos tipos do Odd Couple1 gracejou, enquanto passava o saco de pipocas a Mark. Entretanto, na cerimónia, tocavam excertos das músicas nomeadas para a categoria de melhor tema para filme dramático.

 

- Também eu - retorquiu Mark. - Mas, por agora,

 

1 Série televisiva em que dois homens divorciados partilham o mesmo apartamento. (N. do T.)

 

não há problema. Um dia, gostaria de dar uma olhadela à agenda de Cooper e combinar um encontro com uma das suas meninas, mas ainda é muito cedo para isso.

 

Jimmy fizera praticamente um voto de celibato para toda a vida. Não tencionava trair a memória de Maggie no futuro mais próximo, nem talvez nunca. De momento, a amizade entre os dois era a melhor bênção que poderiam ter recebido. A camaradagem preenchia os serões sem nada para fazer.

 

Nessa noite, Alex Madison estava de serviço no hospital, para compensar aquela em que fora à festa dos Schwartz e conhecera Cooper. Substituía outro médico estagiário, que tinha um encontro com a mulher dos seus sonhos. Fora uma troca fácil.

 

Já tivera uma noite muito agitada, quando se dirigiu à sala de espera para falar com os pais de um bebé de duas semanas que estivera em risco de vida desde manhã, mas que melhorara entretanto. Queria asseverar-lhes que os sinais vitais da criança permaneciam estáveis, e que ela adormecera. Porém, quando entrou na sala de espera, presumiu que tinham ido comer. Ao olhar à sua volta, passou os olhos pelo televisor que estava ligado, como sempre, e ficou perplexa ao dar de caras com Coop. As câmaras acabavam de o focar de perto. Alexandra ficou especada e, com um esfuziante sorriso, soltou um grito que ecoou pela sala vazia.

 

- Conheço-o!

 

Coop, com o seu charme habitual, oferecia um cálice de champanhe a Rita Waverly. Era uma sensação estranha pensar que ele fizera a mesma coisa consigo, com aquele mesmo olhar, na festa dos Schwartz, dois dias antes.

 

Coop era um homem muito bem-parecido, e Rita Waverly não lhe ficava atrás.

 

- Gostava de saber quantas plásticas é que ela já fez! disse Alexandra, novamente em voz alta, sem dar por isso.

 

Era engraçado pensar na distância que existia entre o mundo deles e o seu. Ela passava os dias e as noites a salvar vidas e a confortar pais cujos filhos haviam estado às portas da morte. Enquanto isso, pessoas como Coop e Rita Waverly passavam o tempo em festas, de casaco de peles, jóias e vestidos de noite. Alexandra quase nunca tinha oportunidade de usar maquilhagem, e andava sempre de calças e casaco verdes, todos amarrotados, com as iniciais da Unidade de Cuidados Intensivos de Neonatologia, ”UCIN”, estampadas, em grandes caracteres, no peito. Nunca iria aparecer em nenhuma lista das mais bem-vestidas, mas fora esta a profissão que escolhera, e gostava deste tipo de vida. Se não fosse assim, teria voltado para o mundo pretensioso e hipócrita dos pais. Muitas vezes, chegava a pensar que talvez não tivesse sido mau de todo não ter casado com Cárter. Agora que casara com a irmã, andava de tal modo embrenhado nas lides sociais que se tornara tão snobe e arrogante como os outros homens que ela detestava no mundo de onde provinha. Coop era de uma estirpe completamente diferente. Era uma estrela de cinema, uma celebridade. Pelo menos tinha uma desculpa para se apresentar e comportar daquela forma. A sua profissão era mesmo assim. A dela, não.

 

Pouco depois, voltou para o seu mundo, cheio de incubadoras e bebés pequeníssimos ligados a aparelhos e a tubos, esquecendo Cooper e os Globos de Ouro. Nem sequer viu a mensagem dele no bipe. Nesse momento, ele era a última pessoa que poderia passar-lhe pela cabeça.

 

Porém, contrastando com o regozijo de Mark, Jimmy e Alex por verem Coop na televisão, Charlene assistia à cerimónia de sobrolho carregado. Dois dias antes, Coop dissera-lhe que não poderia levá-la à festa dos Schwartz porque precisavam dele para fazer o papel de homem descomprometido, e que seria uma seca para ela, argumento que utilizava sempre que queria ir sozinho a qualquer lado. Mas acompanhá-lo aos Globos de Ouro já teria sido uma coisa muito diferente. Estava furiosa por ele a ter preterido a favor de Rita Waverly. Porém, pelo menos do ponto de vista profissional, levar Charlene à cerimónia não lhe traria qualquer benefício.

 

- Cabra! - vociferou, com ar petulante, para o televisor. - Já deves ter uns oitenta anos!

 

Havia muita coisa que lhe apetecia dizer a Coop. Vira-o pôr o braço por cima de Rita e segredar-lhe qualquer coisa ao ouvido. Rita desmanchara-se a rir, enquanto a câmara fazia novo plano de outra estrela sentada nas proximidades.

 

Charlene deixara-lhe uma dúzia de mensagens no telemóvel, e estava a ferver de raiva quando, por fim, conseguiu contactar com ele, às duas da manhã.

 

- Onde diabo estás, Coop?

 

Charlene não sabia se lhe apetecia explodir de raiva, ou desatar a chorar.

 

- Boa noite, querida! - retorquiu Coop, num tom calmo e imperturbável.

 

- Estou na cama. E tu, onde é que estás?

 

Coop sabia muito bem por que razão ela estava irritada. Era previsível, mas inevitável. Nem no próximo milhão de anos a teria levado aos Globos de Ouro. A relação que mantinham não era suficientemente séria ou importante para justificar publicidade. Além disso, ser visto na companhia de Rita Waverly teria muito mais impacto. Gostava muito de Charlene, mas em privado. Não sentia o mínimo desejo de a mostrar ao mundo.

 

- A Rita Waverly está contigo? - insistiu Charlene, com um tom de histeria a tomar-lhe conta da voz.

 

Coop sabia que a conversa não tardaria a baixar de nível. Este tipo de interrogatórios sempre o encorajara a partir para a próxima candidata na lista de espera. Por mais bonita que fosse, Charlene estava prestes a perder o seu lugar ao sol. Havia sempre outras jovens à espera. Estava na altura de virar outra página do livro.

 

- Claro que não. Por que razão estaria ela aqui? - perguntou, num tom inocente.

 

- Quando os vi na televisão, fiquei logo com a sensação de que não tardaria a saltares-lhe em cima.

 

A altura chegara.

 

- Não sejas grosseira - admoestou Coop, como se falasse com uma criança malcomportada que tentara pisá-lo.

 

Quando na dúvida, Coop tomava sempre uma de duas atitudes: ou saía de cena ou pisava primeiro. Mas não tinha qualquer necessidade de fazer isso a Charlene. Sabia que a Única coisa que lhe restava era desaparecer calmamente.

 

- Foi uma seca! - exclamou, com um bocejo. - É sempre. É trabalho, minha querida.

 

- Então, onde é que ela está?

 

Charlene bebera quase uma garrafa de vinho enquanto tentava contactá-lo. Mas Coop desligara o telemóvel durante a cerimónia e só voltara a ligá-lo depois de chegar a casa.

 

- Quem?

 

Coop não fazia a mínima ideia a quem ela se referia. Parecia estar com um copo a mais. As horas que esperara para falar com ele levaram-na quase ao desespero.

 

- A Rita! - insistiu Charlene.

 

- Não faço a mínima ideia de onde é que ela está. Na cama dela, presumo. E eu, minha querida, vou dormir. Tenho de me levantar cedo. E já não tenho a tua idade. Preciso de dormir.

 

- O tanas, é que precisas! Se eu estivesse aí, não pregaríamos olho toda a noite, e sabes bem que não estou a mentir!

 

- Eu sei. É por isso que não estás aqui. Precisamos de dormir.

 

- Porque não vou ter contigo agora?

 

Charlene mal conseguia articular as palavras. Parecia estar mais bêbeda do que inicialmente, e continuava a beber enquanto falava.

 

- Estou cansado, Charlene. E tu também pareces não estar em muito boas condições. Porque não descansamos esta noite?

 

Começava a notar-se algum enfado na voz de Coop.

 

- Eu vou já para aí.

 

- Não vens, não!

 

- Salto o portão.

 

- Os seguranças apanhavam-te, e seria embaraçoso para ti. Vamos dormir e falamos com mais calma amanhã.

 

Coop não tinha a mínima vontade de entrar em discussão com a moça, especialmente estando ela ébria e encolerizada.

 

- Falar amanhã? Estás a encornar-me com a Rita Waverly?

 

- O que faço ou não faço não é da tua conta. O termo ”encornar” pressupõe um compromisso sério entre nós, coisa que, efectivamente, não existe. Agora, fica lá com as tuas minhoquices. Boa noite, Charlene! - disse, com firmeza, e desligou de imediato.

 

O telemóvel tocou logo a seguir, mas Coop não atendeu.

 

Charlene tentou para o telefone fixo. Nas duas horas seguintes, o telefone não parou de tocar, até que Coop o desligou da ficha. Detestava mulheres possessivas que faziam cenas. Era a altura de ela desaparecer da sua vida. Tinha pena que Liz não estivesse por perto. Fora sempre uma pessoa impecável para lidar com aquele tipo de situações. Se Charlene tivesse sido mais importante para ele, ter-lhe-ia mandado uma pulseira de diamantes, uma coisa desse género, para agradecer o tempo que haviam passado juntos. Mas este não fora assim tanto quanto isso, e um presente só a encorajaria a tentar reatar a relação. Charlene era o tipo de mulher com quem se tinha de acabar de repente, evitando qualquer contacto posterior. Que pena ter feito aquela cena, meditou, enquanto adormecia. Se não tivesse reagido daquela maneira, teria andado com ela mais umas duas ou três semanas, mas não mais do que isso. Porém, depois daquela noite, Charlene estava destinada a uma saída de cena a toda a velocidade. Coop ficou convicto disso ao ouvir o telefone, ao longe, pela centésima vez antes de adormecer. A moça já pertencia ao passado. Adeus, Charlene!

 

Na manhã seguinte, quando Paloma lhe serviu o pequeno-almoço num tabuleiro, Coop falou-lhe, com alguma discrição, de Charlene. A salvadorenha estava melhor do que nos primeiros dias, embora lhe tivesse servido os ovos estrelados carregados de pimenta, a tal ponto que, mesmo tendo-os cuspido para o prato por não aguentar o ardor, passou o resto do dia com a boca abrasada. Ela dissera-lhe que aquele prato era um banquete, ao que Cooper lhe suplicou que não voltasse a oferecer-lhe tal ”banquete”.

 

- Paloma, se Charlene telefonar, diz-lhe, por favor, que saí, esteja ou não em casa. Percebeste?

 

Paloma olhou-o de sobrolho franzido. Coop já se habituara a vê-la com os óculos de aros brilhantes. De qualquer forma, pela expressão do rosto, era fácil perceber o seu estado de espírito: reprovação, desdém, raiva. Entre amigos, costumava referir-se a Coop como ”o velho nojento”.

 

-Já não gosta dela?

 

Deixara de usar o sotaque quando falava com ele. Tinha outros truques na manga. Adorava provocá-lo das mais variadas formas.

 

- A questão não é essa. Só que... o nosso curto interlúdio... chegou ao fim.

 

Nunca teria tido de dar qualquer explicação a Liz, e muito menos à criada. Mas Paloma parecia determinada a ser a campeã da defesa das vítimas da injustiça social e da condição feminina.

 

- Interlúdio? Interlúdio? Isso quer dizer que nunca mais irá dormir com ela?

 

Coop estremeceu.

 

- É uma forma grosseira de encarar a questão, mas correcta. Não me voltes a passar os telefonemas dela, por favor. Não poderia ter sido mais claro.

 

Meia hora depois, Paloma estava a dizer-lhe que tinha uma chamada.

 

- Quem é? - perguntou, distraído. Lia um argumento na cama, e tentava descobrir se haveria algum papel à sua medida.

 

- Não sei. Parece a voz de uma secretária - respondeu Paloma.

 

Coop pegou no auscultador. Era Charlene.

 

Estava histérica, a soluçar, e dizia que queria vê-lo imediatamente, e que, se isso não acontecesse, teria um esgotamento nervoso. Só após uma hora é que Coop conseguiu desligar o telefone, depois de lhe dizer que a relação não era boa para ela, que seria mais sensato se deixassem de se ver durante uns tempos, que este era o tipo de dramatismo que sempre evitara na vida e que não fazia tenções de voltar a vê-la. Charlene ainda chorava, mas já sem histerismos, quando Coop desligou, finalmente, o telefone. E foi de imediato ter com Paloma. Ainda estava de pijama, quando a encontrou na sala de estar, a aspirar o pó. Tinha uns ténis novos calçados, de veludo cor-de-rosa, que condiziam, naturalmente, com os óculos de aros brilhantes. Paloma não ouviu uma palavra do que ele estava a dizer-lhe. Coop desligou o aspirador e ela olhou-o com indiferença.

 

- Sabias muito bem quem era - acusou Coop. Dificilmente perdia a calma com quem quer que fosse,

 

mas Paloma punha-o fora de si. Sentia vontade de a estrangular, a ela e a Abe, por ter despedido o resto do pessoal e a ter escolhido para ficar com ele. Era uma autêntica bruxa.

 

- Não. Quem? - perguntou, com ar inocente. - Rita Waverly?

 

Paloma também o vira na cerimónia dos Globos de Ouro, e dissera a todos os seus amigos que ele não passava de um estupor. Coop não teria gostado de ouvir os comentários que ela tecera a seu respeito.

 

- Era a Charlene. Foi uma baixeza, aquilo que me fizeste. Não só a irritou a ela como a mim. Ficou histérica. Não é propriamente assim que gosto de começar o dia. E aviso-te mais uma vez: se a deixares entrar cá em casa, ponho-as às duas na rua, chamo a polícia e acuso-as de invasão de propriedade.

 

- Não fique tão nervoso - retorquiu Paloma, com ar adocicado.

 

- Não estou nervoso, estou zangado, Paloma! Dei-te instruções precisas de que não queria falar com Charlene.

 

- Esqueci-me. Ou então não lhe reconheci a voz. Está bem, não volto a atender o telefone.

 

Mais uma vitória da sua parte, e mais uma tarefa que deixava de realizar, o que ainda o enfureceu mais.

 

- Vais, e vais mesmo, atender o telefone, Paloma! E não vais dizer à Charlene que estou em casa. Entendido?

 

A salvadorenha fez um gesto afirmativo com a cabeça e ligou novamente o aspirador, em ar de desafio. Sabia provocá-lo na perfeição. Dominava também a técnica da agressão passiva.

 

- Óptimo. Obrigado - concluiu Coop, voltando-lhe as costas e subindo as escadas que nem um furacão.

 

Quando chegou à cama, não conseguiu concentrar-se no guião. Mais do que furioso com Paloma, estava aborrecido com Charlene, que se mostrava maçadora, histérica e grosseira. Detestava mulheres que adoptavam aquele tipo de comportamento. Quando se chegava ao fim de um romance, havia formas de se sair dele com elegância, coisa que não era, certamente, o forte de Charlene. Palpitava-lhe que a moça iria ser um osso duro de roer. Ainda estava irritado quando, finalmente, saiu da cama, tomou um duche, fez a barba e se vestiu.

 

Ia almoçar ao Spago com um realizador com quem trabalhara anos antes. Telefonara-lhe a convidá-lo para o almoço. Queria saber quais eram os seus projectos. Nunca se sabia quando é que alguém ia fazer um filme com um papel à sua medida. Estes pensamentos arredaram Charlene do seu espírito. A caminho do Spago, lembrou-se de que nunca mais soubera nada de Alex, e resolveu mandar-lhe nova mensagem. Deixou-lhe o número do telemóvel no bipe.

 

Ficou surpreso, e satisfeito, quando, desta vez, ela lhe telefonou quase de imediato. Acabara de pousar o telemóvel no assento a seu lado.

 

- Sim? Fala a doutora Madison. Com quem estou a falar? - Não reconhecera o número.

 

- Fala Coop. Como está, doutora Madison?

 

Alex ficou surpreendida, mas contente, ao ouvir a voz de Coop.

 

- Ontem à noite, vi-o nos Globos de Ouro. - Tal como meio mundo e toda a Hollywood.

 

- Não sabia que tinha tempo para ver televisão.

 

- E não tenho. Passei pela sala de espera, à procura dos pais de um dos meus doentes, e lá estava você, acompanhado da Rita Waverly. Estavam ambos esplendorosos - acrescentou. Era a mesma voz juvenil e a mesma franqueza que apreciara nela quando se conheceram. Não havia artifícios, só beleza e inteligência, ao contrário do que acontecia com Charlene. Mas a comparação era injusta. Alex Madison tinha tudo a seu favor: a beleza, o charme, a inteligência, a educação. Provinha de outro mundo. Por outro lado, Charlene fazia coisas que mulheres como Alex desconheciam. No mundo de Coop havia espaço para ambas, ou teria havido, até à noite anterior. Mas sabia que, no seu mundo, nunca faltariam mulheres do género de Charlene. Havia-as aos magotes. Mulheres como Alex é que eram raras. - Acho que foi você que ligou para o meu bipe, ontem - disse, com voz cândida. - Não reconheci o número e não tive tempo para lhe responder. Aliás, só hoje é que vi a mensagem. Mas quando vi o mesmo número há pouco, achei por bem telefonar-lhe logo. Pensei que fosse algum colega meu. Ainda bem que você não é médico.

 

- Também acho. Especialmente daqueles que tratam as criaturas pequeninas, parecidas com ratos, com que você lida. Preferia ser barbeiro a fazer aquilo que você faz. - Este horror fictício fazia parte do jogo.

 

- Que tal foi a cerimónia? Divertida? A Rita Waverly é muito bonita. É simpática?

 

A pergunta fê-lo sorrir. ”Simpática” não era propriamente o termo que teria escolhido para descrever Rita Waverly. A simpatia não era uma virtude muito prezada em Hollywood. Porém, tratava-se de uma personalidade importante, influente, bonita e charmosa, apesar de já um pouco avançada na idade.

 

- Acho que o termo ”interessante” é mais apropriado. Divertida. Tem muito de estrela de cinema - respondeu diplomaticamente.

 

- Como você - retorquiu Alex. Coop soltou uma gargalhada.

 

- Na mouche. O que é que vai fazer hoje? - Queria encontrar-se com ela, se, por acaso, conseguisse desviá-la dos afazeres na Unidade de Cuidados Intensivos.

 

- Trabalho até às seis, depois, vou para casa dormir umas doze horas. Tenho de estar no hospital às oito da manhã.

 

- Trabalha demasiado, Alex.

 

- Ser médica estagiária é assim mesmo. É uma forma de escravidão. Acabamos por nos habituar.

 

- É de uma grande nobreza de carácter. Acha que pode prescindir de uns minutinhos do seu precioso sono para jantar comigo logo à noite?

 

- Consigo e com a Rita Waverly? - gracejou, mas sem a malícia que Coop detectara na voz de Charlene, tanto na noite anterior como nessa manhã.

 

Alex não era da mesma estirpe. Toda ela era candura e decência. Era uma lufada de ar fresco no mundo sofisticado de Cooper. E o facto de ser filha de Arthur Madison também tinha o seu peso. Não podia ignorar-se tamanha fortuna.

 

- Posso convidar a Rita, se quiser. Pensei que quisesse jantar a sós comigo.

 

- Adoraria. - Alex sentia-se lisonjeada pelo convite de Coop. - Mas não sei se me aguentarei acordada até à hora do jantar.

 

- Pode dormir durante o banquete. Depois, digo-lhe o que comi. O que é que acha?

 

- Infelizmente, é a realidade. Talvez pudéssemos encontrar-nos mais cedo. Há cerca de vinte horas que não prego olho.

 

A sua ética profissional era inconcebível para Coop, mas admirava-a por isso.

 

- Será interessante tentar. Aceito o desafio. Onde é que posso ir buscá-la?

 

- Que tal a minha casa? - Alex deu-lhe o endereço do seu apartamento, no Wilshire Boulevard, num edifício de boa qualidade, mas não muito luxuoso. Era auto-suficiente do ponto de vista financeiro, não dependendo do salário de médica estagiária para levar uma vida desafogada. No entanto, o apartamento era muito pequeno. - Posso estar pronta por volta das sete. Mas não queria voltar para casa muito tarde. Amanhã, no hospital, tenho de estar bem acordada e na posse de todas as minhas faculdades.

 

- Compreendo. Apanho-a às sete e vamos a um sítio simples e calmo. Prometo.

 

- Obrigada.

 

Alex nem queria acreditar que ia jantar com Cooper Winslow. Se contasse, ninguém acreditaria. Mal desligou, voltou para os seus afazeres, e Coop lá continuou o seu caminho em direcção do Spago.

 

O almoço não deu os frutos por que ansiara. Ofereceram-lhe outro papel num anúncio, desta vez para roupa interior masculina, mas recusou. Ao longo da carreira, nunca descuidara a importância da imagem. Porém, as ameaças de Abe mantinham-se frescas no seu espírito. Por muito que detestasse ser movido por questões financeiras, sabia que tinha de fazer dinheiro. A única coisa de que precisava era de um papel principal num filme de grande envergadura. Isso nunca lhe parecera impossível, ou sequer improvável. Era apenas uma questão de tempo. Entretanto, tinha de se sujeitar a aparições fugazes nalguns filmes, como actor convidado, e a participações em anúncios. E havia jovens como Alex Madison. Mas não andava atrás do dinheiro dela. Tratava-se de pura amizade.

 

Coop foi buscar Alex às sete em ponto, ao Wilshire Boulevard. Ela saiu ainda antes de ele ter tempo de chegar à porta da entrada. O edifício tinha um ar respeitável, embora um pouco deteriorado. Chegou a admitir, no carro, que o apartamento era horrível.

 

- Porque não compra uma casa? - perguntou Coop, ao volante do seu Rolls favorito.

 

O dinheiro não representava grande coisa para Alex. Mostrava-se muito discreta, sem qualquer tipo de jóias e com um vestuário simples. Trazia calças pretas, camisola de gola alta, também preta, e um blusão da marinha em segunda mão. Ele envergava calças cinzentas, camisola de caxemira preta, um casaco de cabedal e sapatos de pele de crocodilo. Ao ver o tipo de roupa que ela trazia, Coop optou por levá-la a um restaurante chinês. Quando lhe disse, Alex ficou deleitada.

 

- Não preciso de uma casa. Raramente estou em casa, e quando estou, aproveito para dormir, e não sei se vou ficar aqui. Quando acabar o internato, não sei para onde vou, embora não me importasse de ficar em Los Angeles.

 

O único sítio para onde sabia que não voltaria era para Palm Beach, para casa dos pais. Tratava-se de um capítulo da sua vida que se encontrava encerrado. Só lá ia nas férias e em ocasiões muito especiais, e o menor número de vezes possível.

 

Coop passou uma noite fascinante na companhia de Alex. Falaram de um milhar de assuntos diferentes: do Quénia, da Indonésia, por onde ela viajara depois de acabar a universidade; de Bali, um dos seus locais favoritos, juntamente com o Nepal, onde realizara longas e árduas caminhadas. Falou dos livros que lia, a maioria dos quais de escritores conceituados. E tinha um gosto muito ecléctico no campo musical. Possuía ainda vastos conhecimentos sobre antiguidades e arquitectura. Interessava-se por política, especialmente a de saúde, e estava a par da legislação mais recente sobre o tema. Coop nunca conhecera ninguém como ela. Era uma mulher de ideias muito arrumadas. Cooper tinha de dar o máximo de si para conseguir acompanhá-la, e gostava disso. Quando lhe perguntou a idade, Alex respondeu que tinha trinta anos. Quanto à idade de Cooper, achava que devia andar nos cinquenta e muitos, sessenta e poucos. Sabia que ele fazia filmes há muito tempo, mas não tinha a menor ideia da idade com que começara. Teria ficado boquiaberta se soubesse que Coop já fizera setenta anos.

 

Alex passou uma noite maravilhosa na sua companhia, e foi isso mesmo que lhe disse no caminho de regresso a casa. Eram apenas nove e meia. Coop tivera o cuidado de não a reter até muito tarde, pois, caso contrário, ela mostrar-se-ia relutante em voltar a sair com ele. Sabia que Alex tinha de levantar-se às seis e meia da manhã.

 

- Foi muito gentil em aceitar o meu convite. Teria ficado desapontado se não o tivesse aceite.

 

- Foi uma gentileza da sua parte, Coop. Diverti-me imenso e o jantar estava delicioso.

 

Simples, mas bem confeccionado. E Coop fora uma companhia excelente, melhor do que ela esperava. Não lhe pareceu um homem cheio de tiques de estrela, mas inteligente, afável e bem informado. Não ficou com a sensação de que ele estivesse a representar.

 

- Gostaria de voltar a vê-la, Alex, se tiver tempo e não estiver comprometida.

 

Ainda não lhe perguntara se tinha namorado. Embora nenhum homem o tivesse alguma vez desviado dos seus intentos.

 

- De momento, não estou comprometida com ninguém. Nem tenho sequer tempo para isso. Não sou uma pessoa em quem se possa confiar muito na marcação de encontros. Ou estou de serviço normal ou de plantão.

 

- Eu sei - disse Coop, sorrindo. - Ou a dormir. Já lhe tinha dito, gosto de desafios.

 

- Sou um deles, em vários aspectos. Sou muito reservada no que diz respeito a relações sérias. Mas mesmo muito.

 

- Graças ao seu cunhado? - indagou Coop, e ela fez um gesto afirmativo com a cabeça.

 

- Ele deu-me algumas lições muito dolorosas. Desde aí, não me tenho aventurado muito para águas mais profundas. Prefiro ficar com a água pelos joelhos. Assim, consigo dominar as situações.

 

- Mas se for o homem certo, terá de arriscar.

 

Havia alguma verdade nas palavras de Coop. Mas Alex tinha um terror imenso de voltar a ser magoada e não tornara a envolver-se seriamente com ninguém desde que rompera com aquele que viria a ser seu cunhado.

 

- A minha vida é o meu trabalho, Coop. Desde que ambos compreendamos isso, poderemos continuar a encontrar-nos.

 

- Óptimo. Eu telefono-lhe.

 

Mas isso só aconteceria dali a algum tempo. Tinha instinto para estas coisas. Queria que ela sentisse saudades suas e começasse a ficar ansiosa por um telefonema seu. Coop sabia exactamente como lidar com as mulheres.

 

Alex despediu-se de Coop sem o beijar, agradecendo, mais uma vez, a estupenda noite passada na sua companhia. Coop aguardou mais uns instantes, até ela entrar em segurança no edifício. Ao arrancar, fez um gesto de despedida com a mão, deixando-a algo pensativa. Mantinha ainda algum cepticismo relativamente aos reais intentos do velho actor. Seria fácil apaixonar-se por uma pessoa tão afável e com tanto charme como ele, mas ainda não o conhecia suficientemente bem para saber que tipo de consequências daí poderiam advir. Ao entrar no apartamento, ainda se perguntava se deveria ou não voltar a sair com ele, ou se seria arriscado. Coop era um homem muito experiente.

 

Despiu-se e atirou a roupa para cima de uma cadeira, onde já havia uma pilha de roupa dos últimos três dias. Nunca arranjava tempo para ir à lavandaria.

 

Ao volante do carro, a caminho de casa, Coop irradiava felicidade. As coisas haviam corrido tal qual pensara. E, fossem quais fossem os intentos, tanto dele como dela, fora um bom começo. Mas primeiro tinha de ver para que lado soprava o vento. Alex Madison era uma boa opção.

 

Não estava muito preocupado com essa questão, e Alex também não tinha energia suficiente para isso, adormecendo ainda antes de Coop chegar ao Palacete.

 

 

Nessa noite, Charlene telefonara meia dúzia de vezes; e, pelo menos, mais uma dúzia na manhã seguinte. Mas, desta vez, Paloma não desrespeitara as ordens de Coop. Sabia que ele a teria matado. Dois dias depois, Cooper atendeu, finalmente, um telefonema de Charlene. Tentava acabar a relação de forma delicada, se bem que não falar com ela durante dois dias não correspondesse ao conceito que Charlene fazia de delicadeza.

 

- Que se passa? - perguntou Coop, num tom despreocupado, ao atender a chamada. - Como estás?

 

- Estou a dar em maluca, é assim que estou - retorquiu Charlene, furiosa. - Onde diabo tens andado?

 

- Tenho andado a fazer um anúncio. - Uma mentira que a acalmou por instantes.

 

- Podias, pelo menos, ter-me telefonado. - Parecia ofendida.

 

- Pensei nisso - mentiu -, mas não tive tempo. E também achei que estávamos a precisar de algum tempo para pôr as ideias no lugar. Isto não vai dar em nada, Charlene. Espero que também tenhas plena consciência disso.

 

- E porque é que não há-de dar certo? Temo-nos entendido lindamente.

 

- Pois temos. Mas, seja como for, sou demasiado velho para ti. Precisas de encontrar alguém da mesma idade com quem te possas divertir. - Nunca lhe ocorrera que ela só tinha menos um ano do que Alex.

 

- Esse facto nunca te impediu de fazeres tudo o que te apeteceu. - Sabia, pelos tablóides e pelas pessoas que o conheciam, que ele chegara a andar com mulheres ainda mais novas do que ela. - Isso não passa de uma desculpa, Coop. E tinha razão, mas o velho actor nunca o teria admitido.

 

- No mundo do cinema, é difícil manter uma relação durante muito tempo - retorquiu Coop, tentando outra abordagem do problema.

 

Mas esse argumento também não era plausível. Ambos sabiam que andara durante longos períodos de tempo com algumas actrizes. Só com Charlene é que não queria continuar. Achava-a vulgar, pelo menos na forma como se vestia, e era obsessiva. Além disso, ela aborrecia-o. Estava muito mais interessado em Alex. E a sua fortuna também não lhe era indiferente. Não que fosse esse o seu principal atractivo, mas era mais um estímulo a acrescentar ao desejo e ao fascínio que sentia por ela. Charlene não tinha nada disso para oferecer. E Coop estava perfeitamente ciente de que, se queria cortejar Alex, não poderia andar atrás de outro rabo de saias. Aparecer nos tablóides com uma rapariga que começara como actriz porno não iria beneficiar em nada os seus intentos de conquistar Alex. De momento, era Alex o objecto do seu interesse. Charlene já passara à história. Tivera muitas raparigas como ela, e sempre se cansara rapidamente. E os poucos aspectos exóticos que possuía, como o facto de ter uma avó japonesa, ter vivido em Paris e crescido no Brasil, não ocultavam o que lhe faltava em educação. Além disso, parecia ser uma pessoa de baixa formação moral e algo desequilibrada. E ainda não percebera que chegara a altura de desaparecer, mais parecendo um pit buli agarrado a um osso, coisa que Coop detestava. Preferia acabar as relações de forma calma, sem ressentimentos, e não daquela forma tempestuosa. Sentia-se magoado com Charlene por isso, e tinha sempre a sensação claustrofóbica de estar a cair numa armadilha de cada vez que falava com ela.

 

- Telefono-te dentro de dias, Charlene - disse Coop, o que a enfureceu mais.

 

- Não, não vais nada telefonar. Estás a mentir.

 

- Eu não minto - ripostou Coop, num tom de quem se sente ofendido. - Tenho uma chamada em espera na outra linha. Preciso de desligar.

 

- És um mentiroso! - gritou Charlene, ao mesmo tempo que Coop desligava calmamente.

 

Não lhe agradava nada a forma como ela estava a comportar-se. Durante a noite, os constantes telefonemas da moça foram um problema tremendo. Coop pouco podia fazer. Ela acabaria por desistir, mas, entretanto, estava a ser muito desagradável com o velho actor.

 

Nessa tarde, Coop telefonou a Alex, mas ela só pôde responder ao telefonema à noite, deixando-lhe uma mensagem no voice mail. Dizia que ia para a cama às nove, pois tinha de se levantar às quatro da manhã. Estabelecer uma relação com ela não ia ser tarefa fácil, mas decerto valeria a pena.

 

Na tarde seguinte, conseguiu entrar em contacto com Alex, que dispunha de pouquíssimos minutos para falar, e estava de serviço nos dias seguintes, o que não a impediu de aceitar o convite para jantar no domingo, apesar de estar de plantão.

 

- Que é isso de estar de plantão? Telefonaram-lhe a pedir conselhos? - perguntou, esperançado.

 

Não se lembrava de alguma vez ter saído com uma médica, mas já andara com enfermeiras e até com uma quiroprática.

 

- Não - respondeu Alex, soltando uma gargalhada, para deleite de Cooper. - Significa que tenho de sair de imediato se me mandarem um bipe.

 

- Nesse caso, tenho de lhe confiscar o bipe.

 

- Há dias em que dava um jeitão. Tem a certeza de que me quer convidar para jantar se eu estiver de plantão?

 

- A certeza absoluta. Se tiver de sair, levo-lhe um saquinho com os restos.

 

- Não prefere esperar até eu ter um dia completamente livre? Tenho um, na próxima semana.

 

- Não, quero vê-la o mais breve possível, Alex. Faço uma coisa simples.

 

- Vai cozinhar? - Parecia impressionada. Até ele estava impressionado: a única coisa que sabia fazer eram tostas para caviar, ou ferver água para o chá.

 

- Arranjo uma coisa qualquer.

 

A vida sem cozinheira era um novo desafio para Coop. Estava a pensar telefonar para o Wolfgang Puck e encomendar massa e piza de salmão. A ideia agradou-lhe e, no sábado, ligou a pedir que lhe enviassem uma refeição simples para duas pessoas e um empregado de mesa.

 

Alex chegou às cinco da tarde de domingo, no seu próprio carro, pois poderia precisar dele caso fosse chamada ao hospital. Quando viu o Palacete, ficou bastante impressionada. Ao contrário de raparigas como Charlene, já vira casas daquele género. Aliás, já vivera em várias. A casa dos pais em Newport era muito parecida, só que maior. Mas não referiu esse facto a Coop, não queria ser indelicada. Achou a casa e os jardins maravilhosos e estava ansiosa por dar um mergulho na piscina. Coop dissera-lhe para trazer o fato de banho, e ela acabara de se meter na água, nadando, com braçadas suaves de uma ponta à outra da piscina, perante o olhar deleitado de Coop, quando Mark e Jimmy apareceram, de calções, depois de jogarem uma partida de ténis, ficaram espantados por encontrarem Coop na companhia de uma jovem tão bonita, e ela também ficou espantada ao vê-los cavaquear com Coop.

 

Alex nadou até à berma da piscina, e Mark quase arregalou os olhos. Achou-a bonita e muito mais interessante do que a rapariga que lhe fizera o café.

 

- Alex, gostava de lhe apresentar os meus convidados declarou Coop, com alguma pompa.

 

- Este sítio é maravilhoso - Alex dirigia-se-lhes com um sorriso. - São uns sortudos.

 

Mark e Jimmy concordaram e, poucos minutos depois, juntaram-se a ela na piscina. Coop raramente nadava. Apesar de ter sido capitão da equipa de natação na universidade, preferia ficar a apanhar sol e a tagarelar, deliciando toda a gente com as suas histórias de Hollywood.

 

Ficaram junto à berma da piscina até às seis horas. Coop mostrou a casa a Alex, que aproveitou para vestir roupas secas. Entretanto, o criado do Wolfgang andava atarefado na cozinha, a preparar o jantar para as sete, como Coop lhe pedira. Na biblioteca, ainda antes de se sentarem, Coop ofereceu um cálice de champanhe a Alex, que recusou: estar de plantão significava que não podia tocar em álcool, pois poderia ter de voltar ao hospital a qualquer momento. Mas, para alívio de ambos, o bipe continuava mudo.

 

- Os seus convidados parecem muito simpáticos - comentou Alex, enquanto Coop bebericava um cálice de Cristal e o criado servia hors d’oeuvres. - Donde é que os conhece?

 

- São amigos do meu contabilista - respondeu Coop, descontraidamente, o que era meia verdade, mas explicava a presença deles na sua propriedade.

 

- É muito simpático da sua parte deixá-los aqui ficar. Parecem estar a adorar.

 

Mark dissera que ia fazer um churrasco nessa noite e convidara Coop e Alex, mas o velho actor declinara o convite, afirmando ter outros planos. Mark mostrara-se interessado em Alex e tecera alguns comentários, em voz baixa, sobre ela, depois de a jovem e Cooper voltarem para casa.

 

- Uma miúda muito engraçada - afirmou Mark, mas Jimmy não reparara nesse aspecto. O seu espírito continuava muito conturbado, e não mostrava qualquer interesse por mulheres. Mark estava a recompor-se mais rapidamente e o seu rancor a Janet tornava as outras mulheres mais atraentes. A sua mágoa era muito diferente da de Jimmy. - Surpreende-me que Coop esteja interessado nela.

 

- Porquê?

 

Jimmy parecia espantado. Não reparara muito no aspecto físico de Alex, mas apercebera-se de que era inteligente e ouvira Coop dizer que era médica.

 

- Muita inteligência, mamas pequenas. Não é o tipo de mulher que ele aprecie, por aquilo que me foi dado ver até agora - explicou Mark.

 

- Talvez goste de outros tipos - sugeriu Jimmy. Havia nela algo que lhe era familiar. Não sabia se por ser o tipo de mulher mais frequente em Boston, ou se por alguma vez a ter visto. Não lhe perguntara qual a especialidade de Medicina que exercia, pois Coop monopolizara a maioria das conversas com as suas histórias. Sempre divertidas. Era fácil perceber por que razão as mulheres gostavam da sua companhia. Tinha imenso charme, era bem-parecido e inteligente.

 

No preciso momento em que Cooper e Alex se sentaram à mesa, Mark começara a fazer o churrasco. Era a primeira vez que usava o seu grelhador; na semana anterior, haviam usado o de Jimmy, e as costeletas tinham ficado excelentes. Mark ia fazer hambúrgueres com salada. Estava tudo a correr bem, quando, de repente, ao deitar um pouco de combustível a mais por cima do carvão, as chamas se atearam de tal maneira que, por instantes, pareceram ficar fora de controlo.

 

- Merda, há muito que não me acontecia uma destas! desculpou-se, tentando apagar as chamas e salvar o jantar.

 

Mas, um minuto depois, ouviu-se uma pequena explosão. Coop e Alex também a ouviram na sala de jantar, onde se refastelavam com um elegante jantar, oferecido devido à gentileza do Wolfgang. Comiam pato à Pequim, acompanhado por três tipos de massa, uma enorme salada de legumes chineses e pão caseiro.

 

- Que foi aquilo? - perguntou Alex, com ar preocupado.

 

- O IRA, presumo - retorquiu Coop, aparentemente indiferente e retomando a refeição. - Devem ter sido os meus convidados que fizeram a ala de hóspedes ir pelos ares.

 

Mas quando Alex olhou, por sobre o ombro, para a janela, viam-se nuvens de fumo a sair de entre as árvores e um pequeno arbusto a pegar fogo.

 

- Oh, meu Deus, Coop... acho que as árvores estão a arder!

 

Coop ia dizer-lhe que não se preocupasse, quando se virou e deparou com o mesmo espectáculo.

 

- Vou buscar um extintor - anunciou, sem sequer saber se tinha um e, se o tinha, onde estava.

 

- É melhor telefonar para os bombeiros. - Alex tirou o telemóvel da mala e fez a ligação, enquanto Coop saía a correr.

 

Mark estava como que petrificado, junto ao grelhador, enquanto Coop e Jimmy tentavam abafar as chamas com toalhas. Em vão. Dez minutos depois, quando os bombeiros chegaram, já o fogo começava a tomar proporções alarmantes. Alex estava horrorizada. A única preocupação de Coop era a casa. Os bombeiros dominaram o fogo em menos de três minutos. Os estragos não foram muitos, à excepção de vários arbustos que ficaram bastante queimados. Os bombeiros rodearam Coop que, durante dez minutos, não fez outra coisa senão dar autógrafos, e contar histórias da guerra e das suas experiências como bombeiro voluntário em Malibu, trinta anos antes.

 

Ofereceu um copo de vinho a cada um, que eles declinaram, mas, meia hora depois, ainda ali estavam, ouvindo as histórias do velho actor, enquanto Mark continuava a desculpar-se. Coop asseverou-lhe que os estragos não haviam sido de grande monta. Entretanto, Alex recebeu uma mensagem no bipe e teve de telefonar para o hospital.

 

Afastou-se do local onde todos conversavam para poder ouvir melhor. O estado de saúde de dois dos seus bebés prematuros agravara-se, e um deles acabara por morrer. O médico de serviço não tinha mãos a medir e precisava da sua ajuda. E um outro prematuro com problemas de hidrocefalia estava prestes a dar entrada no hospital. Ao aproximar-se novamente do grupo, Alex olhou para o relógio. Prometera estar no hospital dentro de um quarto de hora, ou menos, se possível.

 

- Qual é a sua especialidade? - indagou Jimmy, enquanto os outros continuavam a conversar.

 

Coop não dera nem pelo bipe, nem pelo telefonema. Jimmy, porém, ficara intrigado com as perguntas que a ouvira fazer ao telemóvel. Alex parecia muito competente.

 

- Neonatologia. Sou estagiária da UCLA.

 

- Deve ser interessante - retorquiu Jimmy, enquanto Alex chamava a atenção de Coop e lhe dizia que tinha de se ir embora.

 

- Não se deixe assustar por estes dois incendiários gracejou Coop, sorrindo na direcção de Mark. Estava a encarar o incidente na desportiva, o que deixou Alex impressionada. O seu pai teria tido um ataque.

 

- De modo nenhum. Que mal tem uma fogueirinha entre amigos? Telefonaram-me do hospital. Tenho mesmo de ir.

 

- Telefonaram? Quando? Não ouvi nada.

 

- Estava a conversar. Tenho de lá estar dentro de dez minutos. Peço imensa desculpa.

 

Já o havia avisado, mas era sempre uma situação aborrecida. Além disso, passara uns momentos muito agradáveis na sua companhia.

 

- Porque não come qualquer coisa rapidamente antes de ir? A comida está excelente.

 

- Eu sei. Adoraria ficar, mas estão a precisar de mim. Tiveram duas emergências, e já vem outra a caminho. Tenho de me despachar - desculpou-se. Cooper parecia desalentado, tal como Alex. Só que ela já estava habituada. - Mas gostei muito deste bocadinho. Adorei a piscina.

 

Passara ali quase três horas, o que era um recorde quando estava de plantão. Despediu-se de Jimmy e de Mark, e Cooper acompanhou-a até ao carro. Prometeu telefonar-lhe mais tarde. Dois minutos depois, Coop estava de volta, sempre de sorriso nos lábios.

 

- Foi bom mas soube a pouco - comentou para os seus inquilinos, com alguma tristeza no olhar. Eles já estavam a habituar-se a serem chamados de convidados. E dava a impressão de que Coop os considerava como tal.

 

- Muito simpática! - elogiou Mark, com pena de que ela pertencesse a Cooper (ou, pelo menos, assim parecia), embora um pouco nova para si. Mas mais nova ainda para Cooper. Tal como a maioria das mulheres com quem ele andava, que poderiam ser suas netas.

 

- Os cavalheiros importam-se que os convide para jantar? - sugeriu a Jimmy e Mark, cujos hambúrgueres se haviam transformado em carvão. - O Wolfgang Puck mandou uma refeição muito bem confeccionada. Além disso, detesto comer sozinho.

 

Meia hora depois, Coop e os seus convidados deleitavam-se com o pato à Pequim, o sortido de massas e a piza de salmão. Enquanto isso, o velho actor regalava-os com mais algumas das suas histórias. O vinho foi servido com liberalidade, pelo que, quando Mark e Jimmy saíram, às dez horas, já haviam bebido bastante e tinham a sensação de que Coop não era um novo amigo, mas um amigo de longa data. Se o vinho era excepcional, o jantar então estava delicioso.

 

- É um tipo bestial - comentou Mark para Jimmy, a caminho da ala de hóspedes.

 

- Sem dúvida - concordou Jimmy, apercebendo-se, pela névoa que o cercava, da terrível dor de cabeça que o esperava ao acordar. Mas, de momento, achava que valera a pena. Fora uma noite muito divertida. Mais do que poderia ter imaginado. O facto de conviver com uma estrela de cinema ainda lhe parecia irreal.

 

Os dois amigos despediram-se e regressaram às respectivas casas, enquanto Coop, sentado na biblioteca, saboreava um cálice de porto. Fora uma noite agradável, se bem que muito diferente daquilo que esperara. Lamentava que Alex tivesse sido obrigada a ir-se embora tão cedo, mas os seus dois inquilinos eram divertidos e acabaram por revelar-se uma companhia agradável. E os bombeiros também tinham contribuído para animar o serão.

 

Era meia-noite quando Alex se sentou no consultório, a beber uma chávena de café - demasiado tarde para telefonar a Coop. Também não tivera a noite que esperara. O bebé hidrocéfalo encontrava-se em estado crítico. O primeiro bebé, que estivera entre a vida e a morte, melhorara muito. A morte do outro constituíra um enorme choque para todo o corpo clínico. Alex perguntava a si mesma se alguma vez se habituaria àquele tipo de situações, mas, no fundo, era esta a natureza da sua profissão. Enquanto se acomodava num divã do seu consultório, interrogava-se sobre o que aconteceria se alguma vez levasse Coop a sério. Era difícil saber quem se escondia por detrás de todo aquele charme, argúcia e histórias. Se não era só fachada. Sentia-se tentada a descobrir.

 

A diferença de idades era considerável, mas Alex não se importava. Havia algo em Coop que a fazia ignorar todos os possíveis riscos de se envolver com ele, algo que a encantava, hipnotizava e cativava. Por outro lado, tentava convencer-se de que sair com ele poderia não ser uma ideia sensata. Era muito mais velho do que ela, era uma estrela de cinema, e vivera sempre rodeado de mulheres. Porém, a única coisa em que pensava era no fascínio que o velho actor exercia sobre ela. A atracção que sentia por Coop parecia sobrepor-se aos contras que povoavam a sua cabeça. Estava pelo beicinho. Ao mergulhar no sono, ainda ouviu umas campainhas de alerta, mas resolveu ignorá-las e ver até onde iriam as coisas.

 

 

Mark encontrava-se mergulhado num sono profundo, quando ouviu o telefone. Ainda fez um esforço para acordar, mas achou que era imaginação. Bebera de mais e sabia que, se abrisse os olhos, teria uma valente dor de cabeça, por isso manteve-os fechados e continuou a dormir. O telefone não parava de tocar. Abriu finalmente um olho e viu que eram quatro da manhã. Resmungou qualquer coisa enquanto se virava na cama e percebeu que não se tratava de um sonho. O telefone estava mesmo a tocar, e não imaginava quem poderia ser àquela hora. Pegou no auscultador e deixou-se ficar de barriga para cima e de olhos fechados. A dor de cabeça já começava a fazer-se sentir.

 

- Está lá? - perguntou, com voz roufenha, enquanto o quarto parecia andar às voltas. Por instantes, a única coisa que conseguiu ouvir foi um choro. - Quem é? - Ainda pensou que fosse engano. Era a filha, a telefonar-lhe de Nova Iorque. - Jessie? Querida, estás bem? O que é que aconteceu? - Talvez tivesse acontecido qualquer coisa a Janet ou a Jason. Porém, Jessica apenas conseguia chorar. Soluçava de dor, como se de um animal ferido se tratasse. Só se lembrava de a ter visto assim, quando o cão dela morrera. - Fala comigo, Jess... o que é que se passa? - Estava a entrar em pânico.

 

- É a mamã... - E lá voltaram os soluços.

 

- Teve algum acidente?

 

Mark sentou-se na cama e estremeceu. Sentia-se como se o houvessem atingido com um tijolo na cabeça, mas a adrenalina continuava a subir. E se ela tivesse morrido? Ficou agoniado só de pensar nessa eventualidade. Embora o houvesse abandonado, ainda a amava, e teria ficado de coração dilacerado.

 

- A mamã tem um namorado! - gemeu Jessica. Mark apercebeu-se de que eram sete da manhã em Nova Iorque, mas apenas quatro na Califórnia. - Conhecemo-lo ontem à noite. É um parvalhão!

 

- Estou certo que não, querida - contrariou Mark, tentando ser justo. Mas havia outra parte de si que se sentia aliviada por Jessica não gostar dele.

 

- É um dissimulado, papá. Finge que é um tipo porreiro, mas passa a vida a dar ordens à mamã, como se fosse dono dela. Ela diz que o conheceu há poucas semanas, mas eu não acredito. Sei que está a mentir. Ele passa a vida a falar de coisas que fizeram há seis meses e o ano passado, e a mamã continua a agir como se não soubesse do que ele está a falar, e está sempre a mandá-lo calar. Achas que foi por isso que ela quis que nos mudássemos para Nova Iorque?

 

O céu desabara sobre a cabeça de Jessica e Janet fora insensata ao mentir às crianças. Sempre tivera curiosidade em saber como, e quando iria lidar com o problema. O facto é que já o havia feito, mas mal, a julgar pelos soluços de Jessie.

 

- Não sei, Jess. Tens de lhe perguntar.

 

- Foi por isso que te deixou? - Eram questões complicadas e às quais não queria responder, muito menos a meio da noite e com uma ressaca tremenda. A dor de cabeça começava a adquirir proporções assustadoras. - Achas que a mamã já andava com ele? Era por isso que ela passava o tempo todo a viajar para Nova Iorque quando a avó estava doente e depois de morrer?

 

- Ela dizia que estava preocupada com o avô. E a avó esteve doente durante muito tempo. Ela precisava de lá estar.

 

A resposta de Mark foi franca. Achava que competia a Janet contar-lhe o resto. Caso contrário, Jessie nunca mais confiaria na mãe. E ninguém poderia censurá-la. Ele também deixara de confiar nela.

 

- Quero voltar para a Califórnia - pediu Jessica, a fungar. Já não soluçava.

 

- Eu também - repetiu Jason, que acompanhava a conversa noutra extensão. Não chorava, mas parecia seriamente abalado. - Detesto-o, papá. E tu também o devias detestar. É um autêntico cara de cu.

 

- Nova Iorque parece que não te melhorou a linguagem. Têm de discutir isso tudo calmamente com a vossa mãe, não no calor do momento. E, por muito que me custe dizê-lo, devem dar uma oportunidade a esse tipo. – Era pouco provável que eles pudessem ficar entusiasmados com um namorado da mãe. Ou com alguém com quem ele um dia andasse. Mas ainda não chegara a essa fase. - Não importa há quanto tempo é que ele conhece a mamã, pode ser um tipo porreiro. E, se é importante para ela, vocês não têm outro remédio a não ser habituarem-se a ele. Não devem fazer juízos precipitados.

 

Procurava ser sensato, tanto para bem deles como para bem dela, mas os filhos não queriam dar-lhe ouvidos. Porém, atear ainda mais o fogo contra o homem por quem a mãe se apaixonara, e por quem abandonara o pai, apenas os tornaria mais infelizes. Se ela acabasse por casar com Adam, teriam de aceitá-lo. Não havia outra alternativa.

 

- Jantámos com ele, papá - contou Jason, com voz triste. - Trata a mamã como se pudesse obrigá-la a fazer tudo o que lhe apetece, e a mamã come e cala. Quando ele se foi embora, ela gritou connosco e, depois, chorou. Acho que gosta mesmo dele.

 

- Talvez - retorquiu Mark, com alguma tristeza na voz.

 

- Quero voltar para casa, papá - suplicou Jessica. Mas já não havia casa. Fora vendida. - Quero voltar para a antiga escola e viver contigo - insistiu.

 

- Eu também - repetiu Jason.

 

- Por falar em escola, não são horas de os meninos irem para a escola?

 

Eram quase sete e meia em Nova Iorque e ouviu Janet dizer qualquer coisa em fundo. Não tinha a certeza, mas parecia estar aos gritos. E teria gritado ainda mais se soubesse o que eles lhe haviam contado. Mas suspeitava que Janet não fazia a menor ideia de que ele estava em linha e que haviam sido os miúdos a telefonar-lhe.

 

- Falas com a mamã sobre o nosso regresso para a Califórnia? - perguntou Jessica, numa voz quase imperceptível, confirmando as suspeitas de Mark.

 

- Não. Vocês os dois têm de lhe dar uma oportunidade. Ainda é muito cedo para se tomar uma atitude drástica. Só quero que vocês sejam sensatos nos juízos que fizerem. E, agora, quero que vão para a escola. Voltaremos a falar do assunto mais tarde.

 

Muito mais tarde. Quando a ressaca lhe passasse.

 

Estavam tristes quando desligaram e, pela primeira vez em dois meses, Jessica disse-lhe que o adorava. Sentiam-se revoltados com a mãe. A raiva acabaria por desvanecer-se e até poderiam vir a gostar de Adam, à medida que o fossem conhecendo melhor. Janet dizia que era um homem maravilhoso. Porém, lá bem no fundo, Mark alimentava a esperança de que o detestassem ainda mais. Devido ao que ela fizera, era difícil não acalentar esse desejo.

 

Depois de desligar, ficou pensativo, a matutar no que deveria fazer. De momento, nada, concluiu. Iria deixar as coisas assentar e ver o que acontecia. Deu meia volta na cama e tentou adormecer de novo, mas a cabeça não parava de fervilhar, e estava preocupado com os miúdos. Eram seis horas quando, finalmente, cedeu à ansiedade e telefonou à mãe dos seus filhos. Também ela lhe pareceu triste.

 

- Ainda bem que telefonaste - disse Janet, surpreendida ao ouvir a voz de Mark. - Os miúdos conheceram o Adam ontem à noite e foram horríveis para ele.

 

- Não me surpreende. Ainda é muito cedo para eles aceitarem a ideia de te verem andar com outro homem. E talvez suspeitem de que já o conheces há mais tempo.

 

- Foi disso que a Jessie me acusou. Não lhe contaste, pois não? - perguntou, numa voz que denotava algum pânico.

 

- Não, mas acho que lhes devias dizer. Caso contrário, um dia um de vocês escorrega e eles ficam a saber. Já suspeitam, por causa de algumas coisas que ele disse.

 

- Como é que sabes? - indagou, perplexa, mas Mark resolveu ser franco com ela.

 

- Eles telefonaram-me. Estavam muito tristes.

 

- A Jessie, a meio do jantar, zarpou para o quarto e trancou-se. E o Jason recusa-se a falar com ele e comigo. A Jessie diz que me odeia - contou Janet, com a voz embargada.

 

- Ela não te odeia. Sente-se magoada e revoltada, e suspeita de ti. E tem razão. Ambos sabemos que sim.

 

- A Jessie não teve nada a ver com isso - ripostou Janet, num tom algo acalorado, com o sentimento de culpa à flor da pele.

 

- Talvez não, mas ela acha que sim. Devias ter esperado mais algum tempo.

 

Janet não queria dizer a Mark que Adam a pressionara para o apresentar às crianças e ela cedera aos seus desejos. Também achava que eles ainda não estavam preparados, mas Adam dizia que se recusava a andar com ela às escondidas. Se os sentimentos de Janet eram sinceros, queria conhecer os miúdos. E acabou por ser um desastre. Depois do jantar, haviam tido uma tremenda discussão e ele partira, batendo com a porta. Fora uma noite de pesadelo.

 

- O que é que eu faço agora? - perguntou, preocupada e, ao mesmo tempo, ansiosa.

 

- Tens de esperar e levar as coisas com calma. Dá-lhes tempo.

 

Janet omitiu que Adam pretendia mudar-se imediatamente lá para casa, não estava disposto a esperar até se casarem, e ela não sabia como demovê-lo. Não o queria perder. Nem aos filhos. Sentia-se pressionada dos dois lados.

 

- Não é tão fácil como pensas - retorquiu, em tom queixoso, como se fosse ela a vítima.

 

- Só não quero que os miúdos saiam magoados disso tudo - avisou Mark. - Não estás à espera, com certeza, que eu e os miúdos encaremos tudo isto de sorriso nos lábios. A verdade é que foste tu que rompeste o casamento e, mais tarde ou mais cedo, eles vão acabar por saber. E vão ter muito que engolir. - Também ele engolira muita coisa, pelo amor que sentira, e ainda sentia, por ela. - Têm todo o direito de estar revoltados com vocês os dois.

 

Tentava encarar as coisas de um ponto de vista racional. Detestava ser sempre ele o pacificador, mas sempre conseguira analisar os problemas sob vários pontos de vista, e não apenas do seu. Era um dos seus pontos fortes, ao contrário de Janet.

 

- Sim, talvez tenhas razão. Mas não sei se ele irá compreender a situação. Não tem filhos, por isso, custa-lhe entender certas coisas.

 

- Talvez devesses arranjar outro tipo. Um tipo como eu, por exemplo.

 

Janet não fez qualquer comentário e Mark sentiu-se um idiota por ter dito tal coisa. O vinho, o porto, o brande não estavam a ajudar, nem a dor de cabeça. A ressaca já se fazia sentir em toda a sua plenitude e ele ainda nem sequer se levantara. Até ao momento, estava a ser uma manhã muito agitada.

 

- Acho que eles vão acabar por habituar-se - disse Janet, esperançosa. Adam não aceitaria outra coisa. Queria que os miúdos gostassem dele, mas sentira-se insultado pela forma como se haviam comportado, e pusera Janet entre a espada e a parede.

 

- Mantém-te em contacto comigo - concluiu Mark, e desligou.

 

Ficou na cama mais duas horas, incapaz de adormecer, com a cabeça a estalar. Eram quase nove horas quando se levantou e já passava das dez quando chegou ao escritório. À hora de almoço, os miúdos voltaram a telefonar. Tinham acabado de chegar da escola e insistiam que queriam ir viver com ele, mas Mark disse-lhes que não ia fazer nada à pressa. Primeiro, queria que esfriassem a cabeça e que, pelo menos, procurassem ser justos com a mãe. Mas Jessica apenas dizia que detestava a mãe e que nunca mais lhe falaria se ela se casasse com Adam.

 

- Queremos ir viver contigo, papá. - Estava a ser cruel com a mãe.

 

- E se eu sair com uma pessoa de que não gostes? Temos de encarar os problemas de frente, Jessie.

 

- Andas com alguém, papá? - Parecia chocada. Nem ela nem Jason haviam pensado nessa hipótese.

 

- Não, mas um dia, muito provavelmente, andarei, e também se pode dar o caso de não gostares da pessoa.

 

- Mas tu não deixaste a mamã por causa de outra mulher. A mamã é que te deixou pelo Adam. - As suspeitas de Jessica estavam correctas. Não queria contar-lhe a verdade, mas também não queria mentir-lhe. - Se nos obrigares a viver com ela, fugimos, papá.

 

- Não faças ameaças, Jess. Não é justo. Já tens idade suficiente para perceber as coisas. E escusas de andar a picar o teu irmão. Falamos disso tudo quando estivermos juntos, nas férias. Pode ser que já tenhas mudado de opinião e que acabes por gostar dele.

 

- Nunca!

 

Nas duas semanas que se seguiram, foi uma batalha constante. Lágrimas, ameaças, telefonemas a meio da noite. Adam fora suficientemente idiota a ponto de lhes dizer que queria Viver com eles e com a mãe. Quando Mark os foi buscar a Nova Iorque, estavam em guerra aberta com a mãe. E foi essa a conversa dominante nas férias. Janet estava de mãos e pés atados com Adam, que passava a vida a dizer-lhe que ela estava a preteri-lo a favor dos filhos, que já esperara tempo suficiente, que queria viver com ela e com os miúdos. Mas estes não o queriam. E, por arrasto, também não queriam a mãe. No final das férias, Mark conversou com Janet e explicou-lhe que não fazia a menor ideia de como convencê-los a ficar com ela. Jessica ameaçava contratar um advogado especialista em questões de crianças e pedir ao tribunal que a deixasse ir viver com o pai. E tanto ela como Jason já tinham idade para levar o caso a tribunal.

 

- Acho que tens um problema dos diabos em mãos disse Mark. - Não há maneira de inverter a situação. Que achas de eles voltarem para Los Angeles até ao fim do ano lectivo? Depois, podes tentar dar-lhes a volta para regressarem a Nova Iorque. Acho que, se os obrigares a ficar, só vais piorar as coisas. Não dão ouvidos a ninguém, nem querem entrar em qualquer tipo de acordo.

 

Janet tentara resolver a situação da pior forma possível e, agora, estava a pagar a factura. Encontrava-se dividida entre a lealdade a Adam e a lealdade aos filhos. As duas facções estavam em confronto directo o tempo todo.

 

- Mandas-mos de volta no final do ano lectivo? - perguntou, em pânico.

 

Não queria perder os filhos. Nem Adam. E este já lhe dissera que pretendia casar logo que o divórcio estivesse assinado e ter um, dois filhos dela. O problema é que não estava a imaginar-se a contar isso aos filhos. Mas trataria disso mais tarde. Agora, eles ameaçavam sair de casa e voltar para junto do pai.

 

- Não sei o que fazer - retorquiu Mark, referindo-se ao ano lectivo seguinte. - Depende daquilo que eles quiserem.

 

Janet transformara a sua vida num autêntico inferno e Mark quase sentia pena dela. Mas também se encontrava dividido relativamente ao que sentia. Ela quase o matara de desgosto ao deixá-lo, e o pior de tudo era que ainda a amava, mas não se atrevia a dizer-lho. Janet vivia completamente obcecada por Adam, o suficiente para destruir, não só o casamento, mas também a sua relação com os filhos. Aos olhos de Mark, ela não ganhara com a troca. Ele nunca teria preterido os filhos em relação ao que quer que fosse, e eles sabiam-no. Era por isso que queriam voltar a viver com ele.

 

- Podes inscrevê-los na antiga escola? -- perguntou Janet, limpando uma lágrima. Nunca imaginara chegar a uma situação daquelas.

 

- Não sei. Talvez. Vou tentar. ---

 

- A tua casa tem espaço que chegue?

 

Estava praticamente resignada à ideia. Via que não tinha outra alternativa, a não ser que deixasse de se encontrar com Adam, ou que o escondesse dos filhos, e ele nunca lhe permitiria tal coisa.

 

- É a casa ideal para eles - asseverou Mark. Descreveu o Palacete e todo o espaço envolvente. Janet ouvia e chorava. Sabia que iria sentir-se infeliz sem os filhos, mas esperava que o tempo passado com o pai os acalmasse e os levasse a encarar a situação com outros olhos, quando voltassem para Nova Iorque. - Vou ver o que posso fazer. Depois telefono-te.

 

Depois de falar com Janet, os dois miúdos assaltaram-no de imediato, querendo saber os termos do acordo a que os pais haviam chegado.

 

- Não há nada de concreto. Veremos o que se pode fazer. Nem sequer sei se vocês podem voltar para a escola. E, aconteça o que acontecer, quero que sejam simpáticos com a vossa mãe. É uma situação muito dolorosa para ela, que os adora.

 

- Se ela gostasse de nós, teria ficado contigo - ripostou Jessica, com aspereza, os olhos a transbordar de rancor.

 

A bonita adolescente, de cabelos louros, tinha o coração dilacerado. E Mark esperava que a situação não viesse a afectá-la negativamente no futuro. Não queria que o divórcio destruísse as crianças.

 

- As coisas não funcionam assim, Jess - retorquiu, com ar triste. - As pessoas mudam... as vidas mudam... nem sempre podemos ter aquilo que pensámos ter, ou fazer aquilo que dissemos que faríamos. A vida dá muitas voltas.

 

Mas eles não estavam dispostos a dar-lhe ouvidos. Continuavam furiosos com a mãe e o namorado.

 

Nessa noite, Mark apanhou o avião de regresso à Califórnia, e passou a semana seguinte em negociações com a escola, para que esta aceitasse de novo os seus filhos. Haviam saído há menos de três meses e frequentavam uma excelente escola em Nova Iorque, por isso, não havia qualquer problema relativamente a matéria não leccionada. No final da semana, a escola autorizou a transferência. O resto era simples. A única coisa que tinha a fazer era contratar uma baby-sitter, para tomar conta deles enquanto estivesse a trabalhar, e ele levá-los-ia às actividades desportivas, ao fim da tarde. Telefonou a Janet no fim-de-semana.

 

- Está tudo resolvido. Os miúdos podem regressar à escola na segunda-feira, se quiserem, mas achei que gostarias de os ter aí mais uma semana, para poderem fazer as pazes. Manda-os vir quando quiseres.

 

- Obrigada, Mark. Obrigada por tudo. Acho que não mereço tanto. Vou ter tantas saudades deles... - respondeu Janet, começando a chorar novamente.

 

- Eles também vão ter saudades tuas. Quando já não estiverem chateados contigo, talvez queiram regressar à escola de Nova Iorque, depois das férias.

 

- Não sei. Eles são tão peremptórios quando falam do Adam... e ele tem dificuldade em lidar com adolescentes, sobretudo porque nunca teve filhos.

 

Do ponto de vista de Mark, a situação não era brilhante. Janet nunca soubera lidar com o stresse, e Mark sempre tivera de resolver as situações mais delicadas. Mas, neste caso, Janet conduzira as coisas à sua maneira, e o resultado estava à vista.

 

Quando, no domingo, informou os filhos de que podiam partir, eles nem sequer se preocuparam em fingir que tinham pena de a deixar. Ficaram radiantes e Jessica começou a fazer as malas meia hora depois. Por vontade deles, teriam partido logo no dia seguinte, mas Janet insistiu para que ficassem mais uma semana. Contou-lhes que voltariam para Nova Iorque no Verão. Ela e Adam já haviam chegado a acordo para se casarem em Julho, quando o processo de divórcio estivesse concluído, mas não lhes disse nada. Receava que não voltassem se lhes desse a notícia. Teria de pensar numa forma de o fazer mais tarde.

 

Janet passou toda a semana mergulhada numa profunda amargura, sabendo que os filhos iam deixá-la. No sábado seguinte, pô-los num avião rumo à Califórnia. Mark resolvera não contratar uma baby-sitter. Fizera um acordo com a governanta do seu senhorio. Ela tomaria conta deles. E seria Mark a levá-los às actividades desportivas, encurtando o dia de trabalho, se necessário fosse. Os filhos mereciam um esforço da sua parte.

 

Foi com ar destroçado que Janet se despediu dos filhos, abraçando-os ternamente. Jason ainda hesitou durante um bom bocado. Mesmo não querendo ficar, sentia pena da mãe. Jessica nem sequer se deu ao trabalho de olhar para trás, depois de se despedir da mãe com um beijo. Mal via a hora de chegar à Califórnia para se encontrar com o pai.

 

Quando as crianças chegaram, foi num clima de incontido júbilo que se deu o reencontro. Mal o viram, correram para ele, radiantes de felicidade. Foi com os olhos marejados de lágrimas que abraçaram Mark. As coisas estavam a melhorar para ele. Perdera Janet, talvez até por culpa sua, mas agora já tinha os filhos consigo. Era tudo o que queria na vida.

 

 

O horário de trabalho de Alex era um mundo completamente novo para Cooper Winslow. Nunca conhecera uma mulher como ela. Chegara a andar com executivas, com advogadas, mas nunca com uma médica. E muito menos estagiária. Quando saíam juntos, iam a pizarias, a restaurantes de comida rápida ou chineses, ao cinema, e quase todos os seus encontros eram interrompidos por telefonemas do hospital. Alex nada podia fazer. Era por isso que a maioria dos estagiários não tinha vida pessoal e muitos deles saíam com colegas. Sair com uma estrela de cinema era uma experiência inteiramente nova para ela. Mas tinha pouco tempo e procurava geri-lo da melhor forma possível. Coop fazia o melhor que podia para se adaptar a esta nova realidade. Andava entusiasmadíssimo e a maior parte do tempo nem se lembrava de que ela era rica. De vez em quando, lá lhe ocorria a ideia, mas a fortuna de Alex não passava de um pequeno pormenor que embelezava ainda mais o embrulho. Era como o laçarote vermelho numa prenda de Natal. No entanto, procurava não pensar nisso. A única coisa que o preocupava era o que os pais de Alex poderiam pensar dele. Até ao momento, não se atrevera a discutir o assunto com ela.

 

As coisas avançavam a um ritmo lento, em parte devido ao elevado número de horas de trabalho de Alex, e em parte por ela já se ter escaldado uma vez. Mostrava-se cautelosa, não queria cometer outro erro e não fazia tenções de que as coisas com Coop se precipitassem. Ele beijara-a quando saíram juntos pela quinta vez, mas ficaram por aí, e ele também não a pressionou. Era, não só perspicaz, como muito paciente. Só iria para a cama com Alex quando ela lho pedisse. Sabia, instintivamente, que, se a pressionasse, ela poderia ficar de pé atrás, e não queria que isso acontecesse. Estava disposto a esperar. A sua paciência não tinha limites.

 

Entretanto, Charlene nunca mais dera sinal de vida. Durante duas semanas não atendera os seus telefonemas, e ela deixara de ligar. Até Paloma aprovava a relação com Alex.

 

Mas sentia pena da jovem e perguntava-se se ela saberia onde ia meter-se, embora Coop, desta vez, andasse a portar-se bem. Quando não estava com Alex, passava as noites em casa, a ler guiões, ou saía com amigos. Foi a outro jantar em casa dos Schwartz, mas Alex não pôde comparecer por se encontrar a trabalhar. Não se lhe referiu e achou melhor não dizer a ninguém que andavam a sair juntos. Queria mantê-la afastada de possíveis escândalos. Sabia que ela detestaria aparecer nas primeiras páginas dos tablóides. Alex conhecia a reputação de playboy de Coop, mas ele preferia não tocar nesse assunto.

 

Além disso, nos sítios onde costumavam jantar, nunca despertariam a atenção dos jornais. Coop ainda não a levara a um restaurante de luxo, simplesmente porque ela não tinha tempo ou energia para uma noite de algum requinte. Estava sempre a trabalhar. A primeira ida ao cinema foi uma vitória. E Alex adorava ir até ao Palacete aos fins-de-semana, quando estava de folga. Nadava na piscina e, uma noite, até fez o jantar, depois nem sequer o provou, pois teve de sair apressadamente para o hospital. Já estava habituada. Coop é que tinha alguma dificuldade em se adaptar a essa realidade. Não fazia a menor ideia daquilo em que estava a meter-se. Mas parecia-lhe um bom desafio, e ela era tão bela e inteligente que os obstáculos e os inconvenientes pareciam valer a pena.

 

Alex adorava conversar com Mark, quando o encontrava na piscina. Ele falava muito dos filhos e, certa noite, até lhe contou os seus problemas com os miúdos e com Janet... e Adam. Confidenciou-lhe que não queria que eles gostassem do homem que destruíra o seu casamento, mas, ao mesmo tempo, não queria ver os filhos infelizes. Alex sentia pena de Mark e gostava de falar com ele.

 

Via-o mais vezes do que a Jimmy, que devia trabalhar quase tanto como ela. Passava muitas noites em visitas a lares de acolhimento e era treinador de uma equipa de softball Mas Mark falava sempre dele como um tipo porreiro e chegou a contar a Alex o que sabia de Maggie, deixando-a de coração destroçado. No entanto, quando se encontrava com ela, Jimmy nunca falava da esposa. Mantinha-se calado a maior parte do tempo, parecendo pouco à vontade com as mulheres. Detestava ser outra vez um homem descomprometido. No seu coração, continuava casado. Entretanto, Alex apercebera-se de que Mark e Jimmy eram inquilinos de Coop, que nunca admitira tal facto, embora ela também nunca o houvesse questionado sobre o assunto. Achava que não tinha nada a ver com isso.

 

Três semanas após terem começado a sair juntos, Coop convidou Alex para passarem um fim-de-semana fora. Ela respondeu que iria ver se conseguia arranjar tempo, embora duvidasse, e ficou espantada ao descobrir que era possível. A sua única condição era terem quartos separados no hotel. Ainda não estava preparada para lhe entregar aquilo que de mais íntimo possuía. Queria dar tempo ao tempo, e ir com calma, mas a atracção que sentia por ele era cada vez maior. E disse a Coop que seria ela a pagar o seu quarto. Iriam para uma estância balnear que ele conhecia no México. Alex ficou excitadíssima com a ideia. Desde que começara o internato, ainda não tivera férias, além disso, adorava viajar. Dois dias de sol e divertimento seriam como o céu. E o facto de irem para o México evitaria qualquer mexerico por parte dos tablóides. Era uma ingenuidade da sua parte, mas Coop não a desenganou: pretendia levá-la para longe, e não queria desencorajá-la de ir por causa dos mexericos da imprensa. O seu único desejo era que tudo corresse de forma simples e agradável.

 

Partiram numa sexta-feira à noite, e o hotel era ainda mais luxuoso do que ele lhe garantira. Os quartos, contíguos, tinham uma enorme sala de estar, terraço, piscina privativa e uma pequena praia, também privativa. Ao fim da tarde, iam até à cidade, faziam compras e sentavam-se nas esplanadas a beber margaritas. Parecia que estavam em lua-de-mel. Na segunda noite, tal como Coop esperava, Alex seduziu-o. Nem sequer estava bêbeda quando o fez. Era um desejo incontrolável. Estava a ficar apaixonada. Nenhum outro homem fora tão meigo e tão gentil consigo. Não só era uma companhia maravilhosa e um grande amigo, como o amante perfeito. Cooper Winslow sabia lidar com as mulheres. Sabia o que queriam, o que gostavam de fazer, como gostavam de ser tratadas  e do que precisavam. Alex nunca gostara tanto de fazer compras com outra pessoa como com Coop, nem falara com tanta franqueza e rira tanto nem recebera tantos mimos. Nunca conhecera ninguém assim.

 

Também ficou surpreendida com a quantidade de autógrafos que o velho actor deu, assim como com o número de pessoas que parava para o fotografar. Parecia que o mundo inteiro o conhecia. Mas não tão bem como ela. Pelo menos, era a sensação que tinha. Coop dava mostras, por mais surpreendente que isso pudesse ser, de querer partilhar com ela não só a sua vida e história, mas também os seus segredos mais íntimos. O mesmo acontecia com Alex. Estava a abrir-se completamente com ele.

 

- Que irão os teus pais pensar de nós? - perguntou Coop, depois de terem feito amor pela primeira vez.

 

Fora uma experiência inolvidável. Sentaram-se na piscina, completamente nus, ao luar, enquanto se ouvia música ao longe. Fora a noite mais romântica da vida de Alex.

 

- Só Deus sabe. O meu pai nunca gostou de ninguém na vida, nem sequer dos filhos nem da minha mãe. Desconfia de toda a gente. Mas não estou a imaginá-lo a não gostar de ti, Coop. És um homem respeitável, de boas famílias, delicado, inteligente, charmoso e, além disso, bem-sucedido. O que é que ele pode ter contra ti?

 

- Pode não gostar da nossa diferença de idades.

 

- É possível. Mas, às vezes, pareces mais novo do que eu.

 

E beijaram-se de novo. Coop só não lhe disse que também havia uma diferença nas respectivas situações financeiras, que ela era solvente e ele não. Custava-lhe admiti-lo. Não era uma realidade que encarasse com muita frequência. Porém, era bom saber que Alex não dependia financeiramente dele. Fora sempre um problema com que se debatera. Nunca quisera comprometer-se a casar quando a sua situação financeira não era estável e, a maioria das vezes, não era. Mesmo quando tinha dinheiro, ele esfumava-se num instante. Não precisava de ajuda para o gastar, e muitas das mulheres com quem andara haviam-lhe ficado extremamente caras. Alex não, tinha o seu próprio dinheiro, por isso, não haveria problema. Pela primeira vez na vida, estava a pensar seriamente em casar-se. Era algo ainda muito vago, muito distante, mas que já não o amedrontava tanto. Para seu próprio espanto, já se conseguia ver casado com Alex, sem precisar do Dr. Kevorkian1 para celebrar o matrimónio. Sempre achara que preferia o suicídio ao casamento, se bem que os considerasse a ambos letais e sinónimos. Porém, com Alex, tudo era diferente. E foi isso mesmo que lhe disse, na mágica noite mexicana, enquanto a beijava.

 

- Ainda não cheguei aí, Coop - disse Alex, com voz meiga, sempre franca com ele.

 

Amava-o, mas não queria criar-lhe falsas ilusões. Ainda não se sentia preparada para o casamento, tanto por causa da carreira de médica, como pelo trauma de ter sido abandonada pelo noivo quando estava prestes a subir ao altar. Não queria passar por outra desilusão, apesar de Cooper não ser homem para lhe fazer essa afronta.

 

- Também ainda não cheguei aí - murmurou Cooper. Mas, pelo menos, já não fico com herpes ao pensar no assunto. Acho que estou a melhorar.

 

Alex gostava do facto de ambos encararem cautelosamente a questão do casamento. E tanto assim era que ele nunca casara. Quando ela lhe perguntou porquê, respondeu-lhe que nunca encontrara a mulher certa. Mas, agora, acreditava que sim. Alex era uma mulher com quem valia a pena viver até ao fim da vida.

 

Foi um fim-de-semana mágico. No voo de regresso, vinham ambos com um ar perdidamente apaixonado e cheios de pena por terem de se separar.

 

- Queres passar a noite comigo? - perguntou Coop, enquanto a levava a casa. Alex ficou pensativa, indecisa.

 

- Querer, queria. Mas não sei se devo. - Continuava a querer avançar com muita cautela. Tinha medo de se acostumar e que, depois, algo corresse mal, deitando tudo a perder. - Mas vou sentir imensas saudades tuas, esta noite.

 

- Também eu. - Coop sentia-se outro homem. E insistiu em levar as malas dela até ao apartamento. Nunca lá estivera, e ficou chocado e perplexo ao ver as pilhas de roupa,

 

1 Médico adepto da eutanásia. (N. do T.)

 

os livros de Medicina espalhados pelo chão e a casa de banho sem o mínimo de condições. Sabonete, papel higiénico e toalhas foi tudo o que viu. A mobília era escassa, não havia cortinas nem tapetes, e a decoração era nula.

 

- Por amor de Deus, Alex, isto parece uma barraca. Alex nunca se dera ao trabalho de decorar o apartamento. Não tinha tempo, e também nunca se preocupara com isso. Só lá ia dormir. - Se alguém vir o estado em que tens o apartamento, ainda te condena. - Ao olhar para aquele caos, Coop não podia fazer outra coisa senão rir. Uma mulher tão requintada e tão delicada, e apenas se preocupava com a actividade médica. Já vira estações de gasolina com aspecto bem mais convidativo. - Acho que o melhor que tens a fazer é pegares num fósforo, deitares fogo a esta tralha toda e mudares-te imediatamente para minha casa.

 

Mas sabia que ela não o faria. Era demasiado cautelosa e independente. Porém, apesar da cama por fazer e do ar lúgubre do apartamento, passou a noite com ela e levantou-se ao mesmo tempo, às seis da manhã. Quando chegou ao Palacete, as saudades eram muitas. Nunca sentira nada semelhante por mulher alguma.

 

Ao fim da manhã, quando entrou no quarto e viu o ar de felicidade estampado no rosto de Coop, Paloma ficou intrigada. Começava a desconfiar que ele estava mesmo apaixonado pela jovem médica. Quase sentiu desejo de gostar mais dele. Afinal de contas, talvez Coop tivesse coração.

 

Durante toda a tarde, Coop cumpriu uma série de compromissos, entre os quais o de posar para a capa da GQ. Eram seis horas quando chegou a casa e ficou a saber que Alex ainda estava a trabalhar. Ficaria no hospital até à manhã seguinte. Tinha de fazer os turnos dos colegas que a haviam substituído aquando da viagem ao México, trabalhando durante vários dias.

 

Coop acabara de se instalar na biblioteca com um cálice de champanhe na mão, depois de pôr um disco a tocar, quando ouviu um barulho pavoroso junto à porta principal. Parecia o som de uma metralhadora ou de uma série de explosões, dando a impressão de que parte da casa estava a desmoronar-se. Saltou do sofá e foi espreitar à janela. Ao princípio,  não vislumbrou nada. Só ao fim de alguns instantes é que deu pela presença de um miúdo. O pequeno diabrete descia os degraus de mármore em cima de um skate, fazendo uma série de piruetas. Coop precipitou-se para a porta e abriu-a de supetão, com ar furioso. O mármore encontrava-se ali desde 1918, imaculado, e o jovem delinquente iria destruí-lo com o skate.

 

- Que raio é que pensas que estás a fazer? Vou chamar a polícia se não desandas daqui dentro de três segundos. Como é que entraste na propriedade?

 

Os alarmes deveriam ter soado quando ele saltara o portão. Coop não conseguia imaginar outra forma de ele chegar até ali. O miúdo ficou especado a olhar para o velho actor, aterrorizado e, ao mesmo tempo, espantado.

 

- O meu pai vive aqui - conseguiu balbuciar, numa voz entrecortada, com o skate apertado contra o peito.

 

Nunca lhe passara pela cabeça que pudesse estragar o mármore. Só achara o sítio óptimo para andar de skate e estava a divertir-se à grande, quando Coop abriu a porta e gritou com ele, ameaçando mandá-lo prender.

 

- O que é que queres dizer com isso de o teu pai viver aqui? Eu é que vivo aqui e, graças a Deus, não sou teu pai! retorquiu Coop, ainda furioso. - Quem és tu?

 

-Jason Friedman. - O pequeno parecia tremer e deixou cair o skate com tal estardalhaço que ambos deram um pulo. - O meu pai vive na ala de hóspedes.

 

Chegara na noite anterior, de Nova Iorque, com a irmã. E adorava o sítio. Passara a tarde toda a explorar a propriedade, depois de regressar da escola. Na noite anterior, Mark apresentara-os, a ele e à irmã, a Jimmy. Jason só sabia da existência de Coop por referências que o pai lhe fizera. Além disso, quando chegaram, Coop encontrava-se no México. E, para complicar ainda mais a situação, Jason olhou para Coop e acrescentou:

 

- E agora também vivo aqui com a minha irmã. Chegámos ontem, de Nova Iorque.

 

Só não queria ser preso. Estava disposto a dar todas as informações possíveis e imaginárias para evitar que isso acontecesse.

 

- O que é que queres dizer com isso de ”viveres” aqui? Até quando é que vais aqui ficar?

 

Coop queria saber por quanto tempo teria de suportar a presença do inimigo dentro das suas fronteiras. Lembrava-se, vagamente, de Liz lhe haver dito que Mark tinha filhos que viriam visitá-lo, de tempos a tempos, mas só durante alguns dias, e muito raramente.

 

- Deixámos a nossa mãe em Nova Iorque e viemos viver com o nosso pai. Detestávamos o namorado dela.

 

Eram mais informações do que aquelas que, em condições normais, disponibilizaria, e Coop estava a começar a ficar assustado.

 

- Estou certo de que ele também te detestaria, se andasses com o skate nos degraus de mármore. Se voltares a andar aqui com o skate, sou eu que te dou umas chicotadas.

 

- O meu pai não deixaria - ripostou Jason, em tom ameaçador. Já chegara à conclusão de que o homem era maluco. Sabia que se tratava de uma estrela de cinema, mas, primeiro, ameaçara mandá-lo prender, e, agora, ameaçava chicoteá-lo.

 

- E o senhor acabaria por ir parar à cadeia. De qualquer modo, desculpe. Não os estraguei.

 

- Mas podias ter estragado. Com que então, acabaste de te mudar para aqui... - Era a pior notícia que poderia ter recebido e esperava que o rapaz estivesse a mentir. - O teu pai não me disse que vocês vinham para cá morar.

 

- Foi uma decisão de última hora, por causa do namorado da minha mãe. Chegámos ontem e voltámos para a nossa antiga escola. A minha irmã já está no secundário.

 

- A notícia não é muito animadora. - Coop olhava-o com ar angustiado. Isto não podia estar a acontecer-lhe. Aqueles dois miúdos não podiam ter vindo viver para a ala de hóspedes. Teria de lhes mover uma acção de despejo. E o mais rapidamente possível, antes que lhe deitassem fogo à casa, ou lhe estragassem qualquer coisa. Ia chamar o advogado.

 

- Vou falar com o teu pai - anunciou, em tom ameaçador. - E dá-me isso! - ordenou, estendendo o braço na direcção do skate.

 

Mas Jason recuou, determinado a não lho entregar. Era propriedade sua e trouxera-o de Nova Iorque.

 

-Já lhe pedi desculpa.

 

- Disseste muitas coisas, a maior parte das quais acerca do namorado da tua mãe.

 

Do alto das escadas, Coop fitava o rapaz com ar imperial. Era um homem alto, e Jason encontrava-se no fundo das escadas. Do sítio onde estava, Coop parecia um gigante.

 

- É um cara de cu. Detestamo-lo - apressou-se Jason a dizer do namorado da mãe.

 

- É uma situação complicada. Mas isso não lhes dá o direito de vir morar na minha casa. Diz ao teu pai que quero falar com ele, amanhã de manhã.

 

E voltou para casa, fechando a porta com estrondo, enquanto Jason regressava à ala de hóspedes, onde contou ao pai uma versão ligeiramente diferente do seu encontro com Coop.

 

- Não devias andar nos degraus com o skate, Jason. É uma casa velha e podias tê-los estragado.

 

- Pedi-lhe desculpa. Mas ele parecia que estava aparvalhado.

 

- É um tipo porreiro. Só que não está habituado a ter miúdos aqui. Com ele, temos de levar as coisas com calma.

 

- Ele pode pôr-nos na rua?

 

- Acho que não. Seria discriminação. A não ser que faças um disparate qualquer e lhe dês motivo para despejo. Faz-me um favor: tenta não fazer disparates.

 

As crianças adoravam a propriedade. E Mark estava deliciado por as ter consigo. Na escola, haviam tido uma recepção espectacular por parte dos velhos amigos. Jessica estava ao telefone com alguém que conhecia. Mark fizera o jantar. Nessa tarde, apresentara-os a Paloma, que os adorou. O mesmo não se poderia dizer do patrão, que ainda não sabia que, de vez em quando, nos seus tempos livres, ela lavava a roupa a Mark, além de dar uma mãozinha na limpeza da ala de hóspedes.

 

Depois de bater com a porta, Coop encheu um copo de bebida forte e ingeriu-a de um só gole. Sentou-se e enviou uma mensagem para o bipe de Alex. Cinco minutos depois, ela telefonou-lhe. Pelo tom de voz, Alex apercebeu-se, de imediato, que algo de grave acontecera.

 

- A minha casa foi invadida por extraterrestres! - explicou Coop, numa voz tão trémula que nem parecia ele.

 

-- Estás bem? - Parecia preocupada.

 

- Não, não estou. Os filhos do Mark mudaram-se para cá. Só conheci um deles e deu para perceber que é um delinquente juvenil. Vou começar a tratar da acção de despejo imediatamente. Só que, entretanto, sou capaz de ter um esgotamento nervoso. O miúdo estava a andar de skate na escadaria principal, a fazer piruetas em cima do mármore.

 

Alex riu-se e ficou aliviada por não ser nada de grave. Mas Cooper falava como se a casa tivesse desabado.

 

- Acho que não podes pô-los na rua. Há uma série de leis que protegem as pessoas que têm crianças - retorquiu Alex, divertida com o estado de irritação de Coop. Ele não gostava mesmo nada de crianças, como confessara. - Isso quer dizer que não vamos ter filhos, não é?

 

Alex tentava provocá-lo e Coop pensou, de imediato, que esse facto poderia ser um obstáculo importante para ela: era suficientemente nova para querer filhos. No entanto, fosse como fosse, não estava com disposição para pensar nisso agora.

 

- Podemos, naturalmente, discutir esse assunto - ripostou Cooper, esforçando-se por ser razoável. - Os teus filhos seriam civilizados. Os do Mark não são. Pelo menos, este não é. Diz que a irmã está no secundário. Se calhar fuma crack e passa droga na escola.

 

- Também não devem ser assim tão maus como isso, Coop. Quanto tempo é que vão ficar aí?

 

- Parece que para sempre. Amanhã de manhã vou telefonar ao Mark e perguntar-lhe.

 

- Bem, vê lá se não deixas que isso te enerve. Mas já estava enervado.

 

- Vou tornar-me um alcoólico. Acho que sofro de alergia a pessoas com menos de vinte e cinco anos. O Mark que não pense que pode ter os miúdos aqui a viver com ele. E se eu não puder pô-los na rua?

 

- Faremos o melhor que pudermos para lhes ensinar as regras da boa educação.

 

- É muito boa vontade da tua parte, meu amor. Mas algumas pessoas não conseguem aprender. Disse-lhe que o chicoteava se voltasse a vê-lo a andar de skate nos degraus, e ele retorquiu que me mandava para a cadeia.

 

O primeiro encontro entre os dois não correra da melhor forma, mas ameaçar o miúdo de que o chicotearia não fora politicamente correcto.

 

- Basta dizeres ao Mark que não os queres ver por perto. Ele é boa pessoa e, de certeza, que percebe.

 

No dia seguinte, quando Coop lhe telefonou, Mark pediu imensas desculpas por qualquer incómodo que Jason pudesse ter causado. Explicou ainda as circunstâncias que haviam motivado a vinda dos filhos para junto de si, e acrescentou que os miúdos voltariam outra vez parajanet, no final do ano lectivo. Apenas ali ficariam três meses, no máximo.

 

A Coop, aquelas palavras soaram-lhe como uma sentença de morte. A única coisa que queria ouvir era que eles partiriam no dia seguinte. Mas não havia a mínima hipótese de que isso viesse a acontecer. Mark deu a sua palavra de honra de que os filhos se portariam bem, e Cooper teve de resignar-se à ideia de viver, lado a lado, com os miúdos. Sabia que não tinha alternativa. Telefonara ao advogado antes de falar com Mark, e Alex tinha razão. Ficara com Jason e Jessica atravessados na garganta, e nem sequer a carta de desculpas que Mark obrigou Jason a escrever lhe amoleceu o coração. Estava furioso. Não dirigia uma escola, nem um infantário, nem uma associação de escuteiros, nem um parque de skate. Queria ver os miúdos a milhas da sua casa e da sua vida. Só esperava que o romance da mãe deles acabasse rapidamente e que voltassem para junto dela o mais depressa possível.

 

 

Depois do seu primeiro desentendimento com Cooper, Mark disse a Jason para nunca se aproximar da ala principal da casa, e só andar de skate junto à entrada da propriedade. Jason viu Coop entrar umas quantas vezes, mas não houve mais nenhum incidente, pelo menos durante as duas primeiras semanas. Jason e Jessica andavam felizes por estarem novamente em Los Angeles com os velhos amigos, adoravam a escola e achavam que o novo lar era ”fixe”, apesar do senhorio rabugento. Coop continuava a não conseguir ver os miúdos com bons olhos, mas tanto a corretora imobiliária como os advogados lhe tinham dito que não havia nada a fazer. A legislação contra a discriminação de crianças era rígida. Além disso, Mark avisara-o de que os filhos viriam visitá-lo de tempos a tempos. Tinha direito a viver ali com eles, apesar de agora estarem a morar permanentemente consigo. Coop não tinha outra alternativa senão habituar-se à ideia, e queixar-se quando eles fizessem qualquer coisa de errado. Para além de Jason usar a escadaria principal como rampa de skate no primeiro dia, até ao momento, não houvera quaisquer outros problemas.

 

Mas, no primeiro fim-de-semana que Alex passou na casa com Coop, acordaram ambos ao meio-dia, com uma barulheira infernal, vinda da piscina. Era como se lá estivessem umas quinhentas pessoas, aos gritos umas com as outras. Em fundo, música rap em altos berros. Alex não conseguiu evitar um sorriso ao ouvir as letras. Eram de um vernáculo atroz, mas muito divertidas e irreverentes, sobre os adultos e aquilo que os miúdos pensavam deles. Uma mensagem para Coop.

 

- Oh, meu Deus, o que é que se passa? - perguntou o velho actor, horrorizado, enquanto levantava a cabeça da almofada.

 

- Parece uma festa - respondeu Alex, com um bocejo, enquanto se espreguiçava e se aninhava a seu lado.

 

Trocara quatro turnos para estar ali, e as coisas pareciam ir bem entre os dois. Coop estava a adaptar-se à vida atarefada  de Alex. Há anos que não gostava tanto de uma mulher. E apesar da considerável diferença de idades, Alex sentia-se bem na sua companhia. Coop parecia muito mais novo e interessante do que muitos homens da idade dela.

 

- Devem ser novamente os extraterrestres. Acho que acabou de aterrar outro OVNI. - Cooper mal se apercebera da presença dos adolescentes nas últimas três semanas, dando a impressão de que Mark estava a conseguir mantê-los sob apertado controlo... até essa manhã. E ainda não sabia que Paloma fazia de baby-sitter de vez em quando. - Devem ser surdos. Aquilo deve ouvir-se em Chicago. - Saiu da cama e foi à janela ver o que se passava. - Oh, meu Deus, Alex, são aos milhares!

 

Alex pulou da cama e foi ver também. Havia vinte ou trinta adolescentes a rir, aos berros e a atirar coisas, na piscina.

 

- Deve ser a festa de aniversário de um deles.

 

Alex adorava ver jovens de ar são e feliz a divertir-se. Depois de todas as cenas de agonia e tragédia a que assistia no seu quotidiano, achava aquele quadro de alegria perfeitamente normal. Porém, a seu lado, Coop estava horrorizado.

 

- Os extraterrestres não fazem anos, Alex. Nascem nas alturas mais inconvenientes, e depois, vêm para a Terra para partirem tudo o que lhes aparece pela frente. Foram enviados para destruírem a nossa raça e o planeta Terra.

 

- Queres que vá lá pedir-lhes para desligarem a música? Prontificou-se Alex, ao ver que Coop estava mesmo transtornado. Adorava ter uma vida tranquila e ordenada, e gostava que tudo se mantivesse bonito e elegante à sua volta.

 

- Seria óptimo.

 

Alex vestiu umas calças e uma T-shirt, e enfiou umas sandálias. Estava um lindo dia de Primavera e ela prometeu fazer o pequeno-almoço assim que voltasse. Entretanto, Coop foi tomar duche. Exibia sempre um aspecto impecável, mesmo quando acordava. Ao contrário de Alex, que acordava de cabelos desgrenhados e ar cansado, como se tivesse sido arrastada por um cavalo durante toda a noite. Porém, tinha a vantagem de ser jovem. E até parecia uma miúda, quando saiu porta fora, para ir transmitir a mensagem de Coop.

 

Ao chegar à piscina, viu que Mark também lá se encontrava. Jessica estava no meio de raparigas de biquini e monoquíni, às risadas e aos gritinhos. Os rapazes estavam na onda deles, sem ligarem às raparigas, enquanto Mark tentava organizar um jogo de pólo na piscina.

 

- Olá! Como vai? Já não a via há um tempinho cumprimentou Mark, com ar prazenteiro, ao avistar Alex.

 

Começara a interrogar-se se Coop já deixara de andar com ela. Há semanas que as coisas se mantinham relativamente calmas por aqueles lados.

 

- Tenho andado a trabalhar. Que se passa aqui? Festa de aniversário?

 

- Foi a Jessie que quis juntar os velhos amigos e celebrar o seu regresso a Los Angeles.

 

Jessica estava extasiada por ter voltado para junto do pai e, de momento, recusava-se a falar com a mãe, para consternação de Mark, que não conseguia convencê-la a mudar de ideias. Este continuava a pedir um pouco mais de paciência a Janet, mas Jessica mantinha-se relutante. Jason ainda mostrava alguma vontade de falar com ela, mas não escondia a sua alegria por estar a viver com o pai.

 

- Não queria incomodá-lo, eles estão divertidíssimos desculpou-se Alex -, mas o barulho está a incomodar Coop. Acha que eles se importariam de baixar um bocadinho o volume?

 

Mark ficou perplexo, depois esboçou um sorriso, dando-se conta da barulheira que estariam a fazer. Estava tão habituado ao caos que era ter miúdos à volta que nem se apercebera. Talvez devesse ter avisado Coop da festa, mas agora receava dizer-lhe o que quer que fosse sobre os filhos.

 

- Peço imensa desculpa. Alguém deve ter aumentado o volume sem eu me ter apercebido. Sabe como são os miúdos.

 

Alex mostrou-se bastante compreensiva e ficou muito mais aliviada ao constatar que eram miúdos perfeitamente normais, sem tatuagens ou cabelos à Mohawk. Viam-se muitos de brincos e um ou outro de pieráng no nariz. Mas nenhum com ar assustador. E também não tinham ar de delinquentes ou de drogados, contrariamente àquilo que Coop lhe dissera. Eram ”extraterrestres” perfeitamente normais.

 

Mark saiu da piscina e foi baixar o som. Alex ainda ficou mais alguns instantes, de sorriso nos lábios, a olhar para as crianças. Reparou que Jessica era uma rapariga muito bonita, com longos cabelos loiros e um corpo bem torneado, e ria descontroladamente no meio de um grupo de amigas, enquanto vários rapazes a apreciavam. Entretanto, viu Jason aproximar-se com Jimmy. Trazia uma luva e uma bola de basebol, e falava animadamente com Jimmy, que acabara de lhe ensinar como fazer um lançamento de precisão infalível, dando um determinado efeito à bola. Era uma técnica que Jason nunca dominara, mas em que Jimmy era especialista.

 

- Olá - cumprimentou Alex, num tom jovial. Por instantes, Jimmy pareceu pouco à vontade, depois, apresentou-a a Jason. Jimmy tinha sempre um ar angustiado. O mesmo ar abalado que Alex via nos olhos dos pais que acabavam de perder os seus bebés. Porém, falando com Jason, parecia mais descontraído do que quando estava com adultos. - Como tem passado? Tem feito bons lumes ultimamente? - Já não o via desde que Mark quase provocara um incêndio de grandes proporções com o churrasco e ela recebera um bipe para voltar ao hospital. - Foi cá um susto!

 

E ambos sorriram, recordando o sucedido. Alex ainda se lembrava nitidamente de Coop a dar autógrafos aos bombeiros, enquanto os arbustos ardiam.

 

- E jantei maravilhosamente bem - retorquiu Jimmy, com um sorriso tímido. - Acho que comemos o seu jantar. Foi pena ter de voltar para o hospital. Mas, se isso não tivesse acontecido, não teríamos jantado. Foi cá uma noite! Não tinha uma ressaca assim desde os tempos da faculdade. Na manhã seguinte, só às onze horas é que consegui ir trabalhar. A comida estava excelente, em quantidade e qualidade.

 

- Parece que perdi uma noite bem passada. Centrou a atenção em Jason, perguntando-lhe em que posição jogava. Ele respondeu que era ”entre bases”.

 

-Já faz uns lançamentos muito bons - elogiou Jimmy. E é cá um batedor! Esta manhã, perdemos três bolas que passaram por cima da vedação.

 

- Estou espantada. Eu nem consigo acertar na bola.

 

- A minha mulher também não conseguia - replicou Jimmy, sem pensar. As palavras saíram-lhe da boca antes que pudesse detê-las e Alex apercebeu-se de que o fizeram sofrer. - A maioria das mulheres não consegue nem bater uma bola, nem fazer um lançamento. Têm outras virtudes acrescentou, tentando generalizar o comentário.

 

- Também não sei muito bem se possuo essas outras virtudes - retorquiu Alex, sentindo que fora um momento desconfortável para ele. - Nem cozinhar sei. Mas sei fazer uma sanduíche de manteiga de amendoim óptima e costumo pedir uma piza espectacular.

 

-Já não é mau. Eu sempre cozinhei melhor do que a minha mulher.

 

Bolas! Lá estava ele outra vez a bater na mesma tecla. Depois de fazer o comentário, mergulhou num profundo silêncio, enquanto Alex cavaqueava com Jason, que desapareceu pouco depois para ir ao encontro da irmã e dos amigos.

 

- São bons miúdos - comentou Alex, esforçando-se por pô-lo à vontade.

 

Apercebia-se de que Jimmy atravessava um mau momento e tinha vontade de lhe dizer o quanto lamentava a situação, mas não queria perturbá-lo ainda mais.

 

- O Mark está louco de alegria por os ter aqui. Estava mortinho de saudades deles - disse Jimmy, tentando afastar-se do precipício. Estava constantemente a cair no abismo da agonia. Tudo o que dizia ou fazia trazia-lhe Maggie à memória. - Como é que o nosso senhorio está a lidar com esta nova situação?

 

- Está a fazer uma terapia de choque sob forte medicação para alterar o humor - afirmou Alex, em tom solene, e Jimmy soltou uma gargalhada. Foi um som maravilhoso, contrastando com o estado de espírito em que ele geralmente se encontrava.

 

- Está assim tão mal?

 

- Está péssimo. Na semana passada, esteve à beira do coma. Estava a ver que tinha de lhe fazer a reanimação cardiorrespiratória. Por falar nisso, deixei-o ligado ao ventilador. Acho melhor voltar para o pé dele. Vim aqui pedir aos miúdos que baixassem a música.

 

- O que é que vai ser? - indagou Jimmy.

 

- Até agora, tem sido rap, com umas letras muito interessantes. - E esboçou um largo sorriso.

 

- Não, refiro-me ao pequeno-almoço. Manteiga de amendoim ou piza?

 

- Hummm... é uma questão interessante. Ainda não pensei no assunto. Pessoalmente, optaria por piza requentada, com donuts ressequidos como sobremesa. Coop tem um gosto mais requintado, por isso, talvez, bacon com ovos.

 

- Consegue desenrascar-se sozinha? - perguntou Jimmy, solícito.

 

Gostava de Alex, achava-a carinhosa e compassiva. Já não se lembrava muito bem do que ela fazia, mas sabia que era algo relacionado com bebés. E parecia-lhe uma profissional competente. Era uma pessoa inteligente e, aparentemente, muito afável. Jimmy ainda não conseguira descortinar o que ela via em Cooper Winslow. Era uma união estranha, mas nem sempre se conseguem explicar as escolhas que as pessoas fazem dos parceiros. Cooper tinha idade suficiente para ser pai dela, e Alex não parecia ser o tipo de mulher com atracção pela fama ou pelo glamour. Talvez Coop tivesse mais qualidades do que aparentava. Apesar da noite magnífica que passara com ele, Jimmy não ficara com muito boa impressão do velho actor. Uma pessoa com charme e bem-parecida, sem sombra de dúvida, mas com pouca substância, muito superficial.

 

- Posso chamar o cento e doze para servir o pequeno-almoço? - perguntou Alex, continuando a dar um tom bem-humorado à conversa.

 

- Claro, só tem de mandar a conta a Coop - respondeu Jimmy, com alguma indelicadeza, apressando-se a pedir desculpa. Não tinha a menor razão para ser indelicado com ele. - Desculpe, foi sem querer.

 

- Tudo bem, ele tem imenso sentido de humor, mesmo em relação ao que lhe diz respeito. É uma das coisas que me agrada nele.

 

Jimmy teve vontade de lhe perguntar que outras coisas lhe agradavam, mas não o fez.

 

- Bem, é melhor voltar. Acho que, hoje, não viremos à piscina. Coop nunca encararia este cenário com bons olhos. Teríamos de refrear-lhe os ânimos.

 

E riram-se. Alex acenou a Mark e voltou para a ala principal, onde encontrou Coop com ar petulante, a debater-se com o pequeno-almoço. Deixara queimar os muffins e rebentar as gemas dos quatro ovos, o bacon ficara irreconhecível de tão queimado que estava, e havia sumo de laranja espalhado pela mesa.

 

- Afinal, sabes cozinhar! - exclamou Alex, com ar espantado e de sorriso aberto ao deparar com o caos que grassava na cozinha. Não teria feito muito melhor. Era mais desenvolta nos Cuidados Intensivos do que na cozinha. Estou impressionada.

 

- Bem, eu não. Onde diabo estiveste? Pensei que os extraterrestres te tivessem raptado.

 

- São miúdos simpáticos, Coop. Não precisas de te preocupar. Estive a falar com o Mark, o Jimmy e o Jason, o filho do Mark. Todos os miúdos me pareceram educados e bem-comportados.

 

Coop virou-se para ela, com uma espátula na mão, enquanto os ovos esturricavam na frigideira.

 

- Oh, meu Deus... os marcianos... transformaram-te... és um deles... quem és tu?

 

Coop tinha o mesmo ar aterrorizado de certos filmes de ficção científica.

 

- Ainda sou eu. Eles são simpáticos. Acho que não te deves preocupar.

 

- Demoraste tanto tempo. Pensei que já tivesses fugido com eles, por isso, fiz eu próprio o meu pequeno-almoço... aliás, o nosso pequeno-almoço - corrigiu, ao mesmo tempo que esboçava um ar apavorado. - Queres ir comer fora? Acho que nada disto está comestível.

 

- Acho melhor pedir uma piza.

 

- Para o pequeno-almoço? - Coop pôs-se de pé, com a indignação estampada no rosto. - Alex, os teus hábitos alimentares são péssimos! Não te ensinaram nada de nutrição na Faculdade de Medicina? Piza não é o ideal para o pequeno-almoço.

 

- Desculpa - retorquiu, com ar submisso, pondo mais dois muffins na torradeira. Depois, limpou o sumo de laranja espalhado em cima da mesa e encheu mais dois copos.

 

- Isto é trabalho de mulher - declarou Coop, com alívio machista. - Dá-me apenas sumo de laranja e café.

 

Porém, cinco minutos mais tarde, Alex fez ovos mexidos, bacon, muffins, sumo e café, e levou tudo num tabuleiro até ao terraço, em pratos de porcelana chinesa, copos de cristal, e guardanapos de papel.

 

- A empregada é excelente... o serviço de mesa é que precisa de uns ligeiros retoques... o linho dá sempre um toque simpático quando se usa porcelana chinesa desta qualidade - provocou-a, enquanto pousava o jornal.

 

- Graças a Deus, não usei papel higiénico. É o que fazemos no hospital quando acabam os guardanapos. Liga bem com pratos de papel e copos de plástico. Vou ver se arranjo alguns da próxima vez.

 

- Ouvir isso dá-me um grande alívio - retorquiu Coop, num tom pomposo. Alex conseguia sempre evitar o pretensiosismo, apesar da educação que tivera e do apelido que ostentava. Quando acabaram os excelentes ovos que preparara, Cooper fez-lhe a pergunta em que andava a magicar há já algum tempo: - O que é que achas que a tua família vai pensar de mim? Isto é, de nós.

 

Parecia preocupado. Cada dia que passava, sentia que os seus sentimentos por ela eram cada vez mais sérios. Quanto a Alex, pelo menos até agora, gostava de tudo nele, mas ainda era muito cedo para assumir um tipo de relação mais sério. Andavam juntos há pouco mais de um mês e, à medida que se fossem conhecendo melhor, muitas coisas poderiam mudar, muitos problemas poderiam surgir.

 

- Que diferença é que isso faz? Eles não mandam na minha vida, Coop. Eu é que decido com quem passo o meu tempo.

 

- E não têm nenhuma opinião sobre o assunto? É pouco provável.

 

Por aquilo que lera, Arthur Madison tinha opiniões sobre tudo o que se passava no planeta e, de certeza, sobre tudo o que se relacionava com a filha. E Coop também sabia que ele não dizia nem fazia nada com punhos de renda. Era o candidato perfeito para se opor ao envolvimento da filha com Cooper Winslow.

 

- Eu e a minha família não nos damos bem. Mantenho-os a uma certa distância. Essa é uma das razões por que estou aqui contigo. - Os pais haviam-na criticado durante toda a vida, e o pai nunca tivera uma palavra meiga para ela. A sua única irmã fugira com o noivo na véspera do casamento. Havia muito pouca coisa, ou mesmo nenhuma, de que gostasse neles. A mãe era uma pessoa fria, que abdicara de ter vida própria há já vários anos. Deixava o marido fazer e dizer tudo o que lhe apetecia, mesmo que contra os próprios filhos. Alex sempre sentira ter crescido num ambiente familiar desprovido de amor, onde era cada um por si, doesse a quem doesse. E não havia dinheiro ou pergaminhos familiares que alterassem isso. - Eles é que são os extraterrestres de que falas. Vieram de outra galáxia impor o seu modo de vida na Terra. E fazem-no com extrema facilidade: não têm coração, o cérebro é de reduzidas dimensões e processa apenas o óbvio, e têm dinheiro a rodos, que usam, quase exclusivamente, em proveito próprio. O plano de conquistarem o mundo tem corrido relativamente bem. O meu pai é rei e senhor de tudo, e está-se nas tintas para qualquer outro ser humano que não seja ele próprio. Para ser franca, Coop, não gosto deles. E eles também não gostam muito de mim. Nunca entrarei no seu jogo. Por isso, pensem o que pensarem de nós, se acabarem por vir a saber da nossa relação, estou-me perfeitamente borrifando.

 

- Bem, isso explica muita coisa. - Coop parecia surpreso pela veemência do discurso de Alex. Era fácil perceber o quanto a haviam magoado, especialmente o pai. Coop sempre ouvira dizer que era um homem cruel, sem coração. - Mas, pelo que tenho lido, o teu pai é um filantropo.

 

- Ele tem é um responsável pelas relações públicas. O meu pai só faz doações a causas que lhe possam trazer benefícios ou prestígio. Doou cem milhões de dólares a Harvard. Quem é que quer saber de Harvard, quando há crianças a morrer à fome por todo o mundo e pessoas a morrer de doenças que podiam ter cura? Ele não tem nada de filantropo.

 

Ela sim. Todos os anos doava noventa por cento dos rendimentos que obtinha do fundo fiduciário e gastava apenas o indispensável para viver. Só se permitia pequenos luxos, como o apartamento no Wilshire Boulevard, mas muito raramente. Sentia ter responsabilidades para com o mundo por ser quem era, e fora também por isso que passara um ano a trabalhar no Quénia. Foi também aí que soube que a irmã fizera o enorme favor de lhe roubar o noivo. Ela e Cárter ter-se-iam matado um ao outro. Levara anos a aperceber-se de que ele era tal e qual o pai, e que a irmã era tal e qual a mãe: só lhe importava o nome, o dinheiro, a segurança e o prestígio que o facto de estar casada com uma pessoa importante lhe proporcionava. Estava-se nas tintas para ele. E a única coisa que Cárter queria era ser o homem mais importante do planeta. O pai só queria saber de si, tal como Cárter. Alex nunca fora muito chegada à irmã, mas há anos que suspeitava que ela não era feliz, e tinha pena dela. Era uma pessoa sem ideias, só, insípida, inútil.

 

- Estás a querer dizer que se aparecer nos tablóides, ou onde quer que seja, que temos um romance, o teu pai não se importa? - indagou Cooper, incrédulo.

 

- Não, não estou. Estou a querer dizer-te que ele, provavelmente, se vai importar, e muito. Mas eu estou-me nas tintas. Já sou uma mulher adulta.

 

- Ele, provavelmente, não vai gostar que andes metida com uma estrela de cinema, e ainda para mais com a minha idade.

 

Ou com a sua reputação. Afinal de contas, durante anos, fora um famoso playboy. Alex estava ciente de que até o pai sabia disso.

 

- Possivelmente - retorquiu Alex. - Só tem menos três anos do que tu.

 

A informação de que o pai poderia reagir mal à relação dos dois deixou Coop preocupado. Arthur Madison poderia causar-lhes sérios problemas. Não sabia bem como, mas uma pessoa tão poderosa como ele, geralmente, arranjava maneira de o fazer.

 

- Ele pode deitar a mão ao teu dinheiro? - perguntou, nervoso.

 

- Não - respondeu Alex, sorrindo calmamente, dando a entender que Coop não tinha nada a ver com isso. Mas desconfiava de que ele não queria ser responsável por quaisquer problemas que a família lhe pudesse causar. Era uma doçura da sua parte preocupar-se com essa eventualidade. A maior parte do dinheiro que tenho herdei-o do meu avô. O resto já o meu pai aplicou num fundo irrevogável. E, mesmo que ele metesse a mão no dinheiro, não me importaria. Ganho para o meu sustento. Sou médica. - Era a mulher mais independente que Cooper conhecera. Não queria nada de ninguém, e muito menos dele. Não precisava de Coop, apenas o amava. Nem sequer do ponto de vista emocional estava dependente. Gostava da sua companhia, mas poderia desaparecer em qualquer altura, se preciso fosse. Era uma posição invejável. Jovem, inteligente, livre, rica, bonita e independente. A mulher perfeita. Se bem que Coop a preferisse um pouco mais dependente. Com Alex não tinha quaisquer garantias. Estava com ele por opção própria, até quando muito bem quisesse. - Isso responde a todas as tuas questões? perguntou a Coop, enquanto se inclinava para ele e o beijava, com os longos cabelos escuros caindo-lhe pelos ombros. Parecia uma das adolescentes que estavam na piscina, descalça, de calções e T-shirt.

 

- Para já, responde. Só não quero arranjar problemas entre ti e a tua família. Seria um preço demasiado alto a pagar por um romance.

 

-Já paguei esse preço, Coop - retorquiu, pensativa. Falava como se tivesse estado no inferno, quando a irmã fugiu com o noivo.

 

Passaram o resto do dia de forma agradável. Leram o jornal, apanharam sol no terraço e fizeram amor a meio da tarde. Os adolescentes acabaram por se acalmar e mal se ouviam. Depois de os jovens partirem, Alex e Coop foram dar umas braçadas antes do jantar. Na piscina não se via nada sujo ou fora do lugar. Parecia estar tudo em ordem. Mark fizera um bom trabalho de vigilância, obrigando os miúdos a arrumar tudo antes de a festa acabar.

 

Nessa noite, Alex e Coop foram ao cinema. Na bilheteira, várias cabeças se viraram na sua direcção, e duas pessoas pediram autógrafos a Coop enquanto ele comprava pipocas. Alex já estava a habituar-se a que reparassem neles em todo o lado, e achava piada quando lhe pediam que se afastasse para fotografarem Cooper, geralmente na companhia de um ou dois elementos dos grupos de pessoas que os abordavam.

 

- É famosa? - costumavam perguntar-lhe com alguma brusquidão.

 

- Não, não sou - respondia, com um sorriso humilde.

 

- Chega-te um bocadinho mais para a frente, por favor pedia Alex, enquanto ria e lhe fazia caretas atrás da máquina fotográfica. Não ficava aborrecida, achava piada e adorava provocá-lo.

 

Depois do cinema, foram comer uma sanduíche e voltaram cedo para casa. Alex tinha de se levantar às seis da manhã, pois precisava de estar no hospital às sete. O fim-de-semana fora magnífico, e ela andava radiante de felicidade. Quando se levantou, teve o cuidado de não o acordar. Coop nem sequer a ouviu sair, e sorriu ao ver o bilhetinho ao lado da máquina de barbear.

 

”Querido Coop, obrigada pelo fim-de-semana maravilhoso... calmo e relaxante... Se quiseres uma fotografia autografada, telefona ao meu agente... falamos logo. Amo-te. Alex.”

 

O engraçado é que Coop também a amava. Nunca esperara que isso acontecesse. Sempre pensara que a atracção que sentia se devia ao facto de ela ser diferente das outras mulheres com quem geralmente andava. Era pura, honrada e meiga. Não fazia a menor ideia do que devia fazer. Em circunstâncias normais, teria gozado a relação durante umas semanas ou uns meses e passado à conquista seguinte. Porém, devido ao que Alex representava, e ao que tinha, deu consigo a pensar no futuro. As palavras de Abe não haviam caído em saco roto. Já que ele o queria casado com uma mulher rica, Alex era a mulher perfeita. As vezes, quase desejava que ela não fosse quem era, porque não conseguia esquecer que se tratava de uma das mulheres mais ricas do país. E não sabia ao certo o que teria sentido por ela se Alex não fosse quem era. Esse facto complicava as coisas e dava-lhes mais cor. Coop suspeitava dos seus próprios motivos, mais ainda do que Alex. E, no entanto, apesar de tudo, estava ciente de que a amava, significasse isso o que significasse, ou viesse a significar no futuro.

 

- Relaxa e diverte-te! - disse Coop para a sua própria imagem reflectida no espelho, enquanto pegava na máquina de barbear.

 

A sensação de desconforto tinha a ver com o facto de ela o obrigar a questionar-se, a desafiar a sua própria consciência. Amava-a? Ou seria apenas uma jovem muito rica que poderia resolver todos os seus problemas se casasse com ela? Se o pai deixasse. Ainda não estava inteiramente convencido de que Alex não se importava com aquilo que o pai pudesse dizer. Afinal de contas, era uma Madison, o que implicava uma certa responsabilidade no que concerne à escolha de um marido e à gestão do dinheiro.

 

E havia outra questão... os filhos... continuava avesso à ideia de ter filhos, por mais ricos que fossem. Achava que só serviam para dar dores de cabeça. Porém, Alex era muito jovem para desistir da ideia. Ainda não haviam conversado a sério sobre o assunto, mas tinha praticamente a certeza de que ela esperava ter filhos um dia. As ideias ainda estavam muito baralhadas na sua cabeça, assim como na de Alex. E, pior que tudo, não queria magoá-la. Fora uma questão que nunca o preocupara com qualquer uma das mulheres com quem andara. Alex conseguira fazer brotar o que havia de melhor dentro de si, mas ainda não sabia muito bem se iria gostar disso. Ser responsável e respeitável era um fardo muito pesado.

 

O telefone tocou enquanto fazia a barba. Não o atendeu. Sabia que Paloma estava algures na casa, mas, onde quer que estivesse, ignorou-o, e o telefone continuou a tocar. Pensou que talvez fosse Alex, que estava a fazer vários turnos seguidos para conseguir passar o fim-de-semana com ele. Correu para o telefone, ainda com espuma de barbear na cara, e ficou irritado mal ouviu a voz de Charlene.

 

- Telefonei-te na semana passada e não me respondeste acusou-o em tom irado.

 

- Não recebi o recado. Deixaste mensagem no voice mail. - perguntou Coop, limpando o resto da espuma à toalha.

 

- Falei com a Paloma - ripostou Charlene.

 

Só de ouvi-la, Coop estava a ficar com os nervos em franja. A breve ligação que mantivera com ela parecia estar a anos-luz. Tinha um romance respeitável com uma mulher honrada, não estava num circo sexual com uma miúda que mal conhecia. As duas mulheres, e os sentimentos que nutria por elas, pertenciam a mundos totalmente opostos.

 

- Então, está tudo explicado. - Queria que ela desligasse o telefone quanto antes. Não alimentava o menor desejo de voltar a vê-la. E estava grato aos tablóides por nunca terem feito qualquer alusão ao relacionamento, mas também não haviam saído juntos com muita frequência. Passara a maior parte do tempo com ela na cama. - A Paloma nunca me dá os recados, só quando lhe apetece, e isso não acontece muitas vezes.

 

- Tenho de me encontrar contigo.

 

- Não acho que seja muito boa ideia - disparou Coop, com alguma rudeza na voz. - Aliás, vou partir em viagem esta tarde. - Era mentira, mas tratava-se de uma desculpa que, geralmente, desencorajava as mulheres. - Creio que já não temos mais nada para dizer um ao outro, Charlene. Foi bom, para os dois, mas acabou.

 

Andara com ela apenas algumas semanas, no período que mediara entre Pamela e Alex. Não havia agora motivos para dramas.

 

- Estou grávida!

 

Acreditara que Cooper ia mesmo ausentar-se da cidade e achou melhor dar-lhe a novidade, enquanto tinha oportunidade para isso.

 

Coop mergulhou num longo e pensativo silêncio. Já antes se deparara com situações idênticas, e sempre se haviam resolvido com relativa facilidade. Algumas lágrimas, um pouco de apoio emocional e dinheiro para pagar o aborto. E pronto. Este caso não seria diferente.

 

- Lamento ouvir isso. Não quero ser grosseiro, mas tens a certeza de que é meu?

 

As mulheres detestavam ouvir esta pergunta, mas algumas não tinham mesmo a certeza de quem era o pai. E, no caso de Charlene, a pergunta justificava-se. Coop sabia que ela tivera uma carreira romântica muito activa antes de andar com ele, e sabe-se lá se durante e depois de a relação terminar.

 

O sexo era o pilar principal da vida de Charlene e o seu principal meio de comunicação. Enquanto para algumas mulheres eram a comida ou as compras que funcionavam como base das suas vidas, para ela, era a actividade sexual. Sentiu-se insultada e ripostou de imediato:

 

- Claro que tenho a certeza que é teu! Achas que te telefonava se não fosse?

 

- É uma pergunta interessante. De qualquer modo, lamento. Conheces um bom médico?

 

A notícia da gravidez pô-lo imediatamente de pé atrás. Estava a sentir-se ameaçado.

 

- Não. Além disso, não tenho dinheiro.

 

- Vou pedir ao meu contabilista que te mande um cheque para cobrir as despesas. - Nos dias que corriam, fazer um aborto era relativamente fácil. Noutros tempos, teria sido preciso atravessar a fronteira mexicana ou voar até à Europa. Agora, era uma operação de rotina, como fazer uma limpeza aos dentes, isenta de perigos e pouco cara. - Vou enviar-te o nome de alguns médicos.

 

Este problema não passava de uma pequena onda no oceano da sua vida. Piores coisas poderiam ter acontecido. Como um escândalo público, que, de momento, queria evitar a todo o custo, por causa de Alex.

 

- Estou decidida a ter o bebé! - anunciou Charlene, de chofre.

 

Parecia obstinada, teimosa, perigosa até. A única coisa que Coop queria era proteger a sua vida e a de Alex, e Charlene representava uma ameaça. Nunca o amara. E tudo indiciava que se tratava de chantagem. Era difícil sentir o que quer que fosse por Charlene. Qualquer sentimento protector que tivesse não era por ela, mas por Alex. Não queria que este pesadelo a atormentasse.

 

- Não acho que seja boa ideia, Charlene - retorquiu Coop, tentando manter as distâncias. Ela bem poderia ter resolvido a situação sozinha, sem lhe dizer o que quer que fosse. A relação não fora tão prolongada quanto isso. Mas o que a moça realmente queria era arrastá-lo também para o seu drama. Ter um filho de uma estrela de cinema, para algumas mulheres, era não só algo que as atraía, mas também uma forma de pressão para arranjar dinheiro. - Não nos conhecemos assim tão bem. Além disso, és muito nova e bonita para ficares já com um bebé nos braços. Dão uma trabalheira dos diabos.

 

Era um argumento que fazia sentido e que ele sempre defendera, mas Charlene não parecia fazer tenções de recuar. Na verdade, por que razão é que ela quereria ter um filho de um homem que era praticamente um estranho? Só que, neste caso, o estranho chamava-se Cooper Winslow.

 

-Já fiz seis abortos. Não posso fazer outro, Coop. E, além disso, quero ter o nosso filho. - O nosso filho! Era aí que residia a chave do problema. Charlene estava a pressioná-lo a voltar para ela. E Coop questionou-se se ela estaria mesmo grávida e se isto não passaria de um estratagema para lhe sacar dinheiro. - Quero encontrar-me contigo.

 

- Também não é uma boa ideia. - A última coisa que Coop queria na vida era ter um encontro histérico com ela. O que Charlene realmente pretendia era tê-lo de volta e fazê-lo sentir que tinha obrigações para com ela, mas o velho actor não estava para aí virado. Não acreditava que Charlene estivesse a ser sincera e não estava disposto a fazer nada que pudesse deitar por terra a sua relação com Alex. O romance com Charlene durara umas meras três semanas. O que mantinha com Alex poderia durar uma vida. - Não te posso obrigar a fazer o que quer que seja, mas acho que devias fazer o aborto.

 

Não iria rebaixar-se ao ponto de lhe suplicar que o fizesse. Preferia estrangulá-los aos dois, a ela e ao bebé, caso houvesse algum. Continuava a não acreditar que ela estivesse grávida e, se estava, que não fosse ele o pai.

 

- Não vou fazer nenhum aborto! - ripostou Charlene, num tom decidido, e começou a chorar. Disse-lhe, então, que o amava muito, que sempre pensara viver com ele até à morte, que achava que Coop também a amava e que não sabia o que iria fazer com uma criança sem pai nos braços.

 

- A questão é precisamente essa - retorquiu Coop, num tom glacial, determinado a não lhe dar a entender que estava preocupado. - Nenhum filho merece um pai que não o reconhece. Não me vou casar contigo. Nem sequer te quero ver, nem a ti nem ao bebé. Não quero ser pai. Aliás, nunca te dei a entender que te amava. Somos dois adultos que fizemos sexo durante umas semanas e nada mais do que isso. Não confundas as coisas.

 

- Bem, é assim que se fazem os bebés - ripostou Charlene, soltando, de repente, uma risadinha. Coop sentiu-se como se estivesse num filme medíocre e não gostou. - Também é teu filho, Coop - acrescentou, num tom melado.

 

- O bebé não é meu. Nesta altura, não é de ninguém. Não é nada, não passa de uma célula do tamanho da cabeça de um alfinete, e não significa nada. Nem sequer sentirás a sua falta.

 

Coop sabia que o que estava a dizer não era inteiramente verdade, porque as hormonas a fariam acreditar que o amava.

 

- Sou católica!

 

- Também eu, Charlene. Mas, se isso fosse assim tão importante para qualquer um de nós, não teríamos dormido juntos fora dos laços do casamento. Acho que não tens alternativa. Ou adoptas uma atitude sensata ou uma atitude pateta. Não vou entrar nesse jogo. Se tiveres esse bebé, será sem o meu apoio ou a minha bênção.

 

Coop queria que ela soubesse, desde o início, que a sua posição era inabalável, e que não devia alimentar qualquer tipo de ilusões.

 

- Mas terás de dar apoio. Está na lei. Além disso, não posso trabalhar enquanto estiver grávida. Não posso fazer passagens de modelos ou entrar num filme com uma barriga enorme. Vais ter de me ajudar. - Coop mal tinha dinheiro para si, quanto mais para ela. - Acho melhor encontrarmo-nos para discutir o assunto. - A voz adquiriu, subitamente, um tom mais animado. Coop desconfiou que Charlene achava que acabaria por convencê-lo a encontrar-se com ela, e até a casar-se, caso tivesse o bebé. Odiou-a. Charlene estava a ameaçar não só as suas finanças, mas também a sua relação com Alex, que prezava acima de tudo.

 

- Não me vou encontrar contigo - declarou Coop, num tom de fria determinação.

 

- Acho melhor vires, Coop - retorquiu Charlene, em tom ameaçador. - Que pensarão as pessoas se souberem que não queres saber nem de mim nem da criança?

 

Quem a ouvisse, pensaria que ele a deixara com sete filhos nos braços, ao fim de dez anos de casamento. A rapariga com quem dormira algumas semanas transformara-se numa chantagista e num pesadelo.

 

- E que pensarão as pessoas quando souberem que me estás a chantagear? - ripostou Cooper, com aspereza.

 

- Não se trata de chantagem, mas sim de paternidade. É isso que as pessoas pensarão, Coop. As pessoas casam-se e têm bebés. Outras vezes, têm bebés e casam-se.

 

Havia um tom de inevitabilidade na sua voz, e Coop sentiu vontade de a esbofetear. Nunca ninguém lhe fizera nada de semelhante na vida, e ainda por cima com tal sangue-frio. Todas as mulheres que engravidara haviam sido razoáveis. Mas, para Charlene, esta era a sua oportunidade de ouro.

 

- Não me vou casar contigo, Charlene, quer tenhas a criança, quer não. Que isto fique bem claro. E estou-me nas tintas para aquilo que fizeres. Pago o aborto, mas mais nada. E, se estás à espera que te dê uma pensão, terás de me mover um processo.

 

Não tinha agora a menor dúvida de que ela o faria. E com o máximo de repercussão pública, muito provavelmente.

 

- Isso é algo que eu detestaria fazer. Seria publicidade negativa para ambos. Poderia prejudicar as nossas carreiras.

 

Coop teve vontade de lhe dizer que ela não tinha carreira alguma, e a verdade é que, de momento, ele também não. Ninguém o contratava para papéis importantes, só para participações especiais e, de vez em quando, para anúncios. No entanto, não queria que ela o arrastasse para um escândalo. Nunca se vira envolvido em nada do género. Poderia ser conhecido por frívolo, por playboy, mas nunca ninguém tivera nada de escandaloso a apontar-lhe. Mas, se Charlene fosse avante com os seus intentos, tudo mudaria. Além disso, por causa do romance com Alex, a altura não podia ser pior. Arthur Madison iria adorar.

 

- Posso encontrar-me contigo ao almoço, antes de partires? - O tom era doce e inocente. Tão depressa vestia a pele de lobo como a de cordeiro.

 

- Não, não podes. Mando-te um cheque ainda de manhã. O que fizeres é contigo, mas asseguro-te que não vou mudar de ideias. Não me vou meter nesta autêntica loucura, se tiveres o meu bebé.

 

- Estás a ver? - Parecia satisfeita. - Também já estás a pensar nele como sendo teu filho. É o nosso filho, Coop. E vai ser um bebé lindo.

 

Coop sentiu-se enojado.

 

- Estás louca varrida. Adeus, Charlene!

 

- Adeus, papá! - murmurou Charlene, e desligou, enquanto Coop se sentava, de olhos fixos no telefone, aterrorizado. Sentia-se no meio de um pesadelo.

 

Interrogava-se sobre o que ela iria fazer: se percebera que ele não estava disposto a entrar no jogo e faria o aborto, ou se insistiria em ter o bebé. Se isso acontecesse, originaria uma escandaleira tremenda, especialmente com Alex. Em condições normais, Coop não lhe teria dito nada, mas havia tanta coisa em jogo que achava preferível ter uma conversa franca com ela para a pôr ao corrente de todo este imbróglio. Charlene parecia obstinada nos seus intentos e não havia forma de a dissuadir. Por muito que lhe custasse, Coop sabia que havia duas coisas a fazer de imediato.

 

Primeiro, tinha de mandar um cheque a Charlene para cobrir as despesas do aborto. Depois, tinha de se encontrar com Alex e contar-lhe o sucedido. Foi buscar o livro de cheques e passou um num valor que lhe pareceu razoável. Telefonou a Alex, que se encontrava no hospital, e deixou mensagem para que ela lhe ligasse quando tivesse um minuto livre. Nunca pensou ter de lhe contar, mas era a coisa mais sensata a fazer, dadas as circunstâncias. Só esperava que ela não acabasse com a relação depois de o ouvir.

 

 

Alex telefonou meia hora depois. Andara atarefada a tratar da papelada de admissão de um prematuro, depois, tivera de assistir outro com um problema na válvula coronária. O problema era solucionável, mas o bebé precisava de ficar sob vigilância.

 

- Como estás?

 

- Manhã complicada? - Coop estava nervoso, mas não queria que ela se apercebesse. Não queria magoá-la e, muito menos, perdê-la.

 

- Nem por isso. As coisas estão a andar. - Parecia ter tudo sob controlo. Ficava radiante sempre que Coop lhe telefonava. Adorava conversar com ele, quando tinha um minuto disponível.

 

- Tens tempo para um almoço rápido? - perguntou Coop, tentando mostrar-se despreocupado.

 

- Lamento, mas não posso sair daqui. Sou a chefe de turno e tenho de ficar até ao fim. - Estava de serviço até à manhã seguinte. - Nem sequer posso sair do edifício.

 

- Mas não precisas de sair. E se eu fosse até aí beber um café?

 

- Seria óptimo. Passa-se alguma coisa?

 

Era a primeira vez que Coop se prontificava a ir ter com ela ao hospital. Talvez estivesse com saudades, pensou Alex.

 

- Não, só quero ver-te.

 

A maneira como Coop proferira estas palavras quase a pusera nervosa. Dissera que apareceria por volta do meio-dia.

 

Mal desligou, Alex centrou a atenção numa urgência que, entretanto, surgira. Ainda estava a acabar de assinar a papelada que deixara pendente, quando a funcionária da recepção a informou de que alguém a procurava.

 

- É quem eu penso? - perguntou a mulher, quando ligou para o gabinete de Alex. Estava maravilhada, e Alex riu-se.

 

- Acho que sim.

 

- Bolas, é mesmo um borracho! - comentou, baixinho, num tom de admiração, enquanto Alex pousava os papéis.

 

- Pois é. Diz-lhe que vou já para aí.

 

Era boa altura para fazer uma pausa. Pôs apressadamente o casaco branco sobre os ombros e dirigiu-se à recepção. Trazia meias e tamancas, um estetoscópio ao pescoço e um par de luvas de borracha pendurado do bolso do casaco. Os cabelos estavam apanhados numa trança e, como de costume quando estava de serviço, não usava maquilhagem.

 

- Olá, Coop - cumprimentou Alex, enquanto o pessoal que se encontrava na Unidade de Cuidados Intensivos o olhava discretamente. O velho actor estava impecável, como sempre, de casaco desportivo de tweed, camisola de gola alta bege, calças de caqui imaculadamente passadas e sapatos castanhos. Parecia saído de uma revista de moda, e Alex sentia-se como se tivesse sido arrastada por entre arbustos.

 

Alex informou, na recepção, que ia à cafetaria comer qualquer coisa e pediu que lhe enviassem um bipe se precisassem dela.

 

- Com um pouco de sorte, pode ser que me dêem dez minutos. - Alex pôs-se em bicos de pés para dar um beijo nas faces de Coop, que, pondo-lhe o braço por cima, a conduziu até ao elevador. Quando as portas se fecharam, todas as pessoas tinham os olhos cravados neles. Coop era uma autêntica visão. - Aumentaste a minha importância aqui no hospital em quatrocentos por cento. Estás espectacular.

 

Coop, com ar apaixonado, puxou-a mais para si.

 

- Também tu. Estás com um ar muito profissional, com toda essa tralha que trazes contigo.

 

Alex trazia o bipe, o estetoscópio e uma pinça esquecida presa ao bolso. Os instrumentos de trabalho davam-lhe um ar mais adulto. Coop ficara impressionado com o modo desenvolto e firme como ela, ao passar na recepção, dera instruções a uma das enfermeiras. Já tinha um certo estatuto no hospital. Coop estava cada vez mais nervoso, à medida que o momento de lhe contar o problema com Charlene se aproximava. Não fazia a menor ideia de como ela iria reagir. Mas tinha de lhe contar, antes que soubesse do imbróglio por outra  pessoa. Graças a Charlene, as coisas entre ele e Alex podiam complicar-se.

 

Ambos escolheram sanduíches, que puseram num tabuleiro, e Alex encheu duas chávenas de café.

 

- Isto é um veneno - avisou, apontando para o café. Diz a lenda que lhe põem veneno para os ratos, e eu acredito. Se te sentires mal, levo-te às Urgências, depois de almoço.

 

- Ainda bem que és médica - disse, enquanto pagava.

 

Seguiu-a até uma mesa de canto. Graças a Deus, não havia ninguém por perto e, até ao momento, ninguém o reconhecera. Queria passar uns minutos de sossego com Alex. Já ela comia a sanduíche, e Coop ainda não desembrulhara a sua. Levou alguns minutos a tentar manter a compostura, e Alex reparou que as mãos do velho actor tremiam ao pôr o açúcar no café.

 

- Que se passa, Coop? - Estava calma e fitava-o com olhar meigo.

 

- Nada... não... não é verdade... aconteceu-me uma coisa esta manhã.

 

Alex reparou que o olhar de Coop denotava alguma preocupação. Nem sequer tocara na sanduíche e no café.

 

- Uma coisa má?

 

- Uma coisa aborrecida. E é sobre isso que quero falar contigo. - Alex não conseguia imaginar o que seria. O olhar do velho actor também não denunciava o que quer que fosse. Coop conteve a respiração e lançou-se de cabeça para aquilo que receava vir rapidamente a transformar-se em águas tempestuosas. - Tenho cometido algumas loucuras ao longo da minha vida, Alex. Não muitas, mas algumas. E passei mais momentos bons do que maus. Nunca magoei ninguém. Sempre joguei limpo com pessoas que jogavam limpo.

 

Alex começou a ficar em pânico. Pressentia que Coop ia dizer-lhe que estava tudo acabado entre os dois. As palavras que o velho actor acabara de proferir pareciam ser a introdução. Já passara por uma cena semelhante há relativamente pouco tempo. E nunca mais se entregara a ninguém. Até aparecer Coop. Ficara pelo beicinho desde o instante em que o conhecera. E, agora, tudo isto soava a discurso de despedida. Recostou-se na cadeira e fitou-o em silêncio. Quanto mais não fosse, iria assumir as suas responsabilidades com dignidade e coragem. Coop reparou que ela estava retraída. Era o instinto de autodefesa. Mas continuou. Tinha de o fazer.

 

- Nunca me aproveitei de ninguém. Nunca enganei nenhuma mulher. Muitas das mulheres com quem andei tinham perfeita consciência do que estavam a fazer. Cometi alguns erros, mas tenho a folha limpa. Sem vítimas. E quando as coisas acabavam, bastava um obrigado e um adeus, de parte a parte. Tanto quanto sei, não há ninguém que me deteste. Muitas das mulheres com quem andei gostam de mim, e eu gosto delas. E os erros foram rapidamente corrigidos.

 

- E agora? A nossa relação é um erro, Coop? - Alex esforçava-se por conter as lágrimas. Estaria ele a tentar corrigir um desses erros?

 

- Claro que não! Pensavas que eu me estava a referir a nós? Oh, querida... não tem nada a ver connosco. Tem a ver com uma estupidez que fiz antes de te conhecer. - E tomou as mãos dela nas suas, deixando-a muito mais aliviada. - Vou tentar ir directo ao assunto, sem mais rodeios. Antes de te conhecer, andei um tempinho com uma jovem. Teria sido melhor não o ter feito. É uma rapariga simples, aspirante a actriz, e os seus únicos papéis foram em filmes pornográficos. Não tem muitos atributos, mas achei-a doce e entrámos no jogo. Ela conhecia as regras, já não era propriamente uma rapariga inocente. E nunca lhe criei falsas ilusões. Nunca fingi que a amava. Foi um interlúdio sexual para ambos e nada mais do que isso. E tudo acabou ao fim de pouco tempo. Parecia simples e completamente inofensivo.

 

- E depois? - Já não conseguia aguentar o suspense. Mas, se não estava apaixonado pela jovem, por que razão lhe estava a contar tudo aquilo?

 

- Telefonou-me esta manhã. Está grávida.

 

- Merda! - exclamou Alex, com uma enorme sensação de alívio. - Pelo menos não é uma doença terminal. É um problema que se pode resolver com relativa facilidade.

 

Sentia-se extremamente aliviada por Coop não lhe ter dito que estava apaixonado pela outra mulher. A ele, por seu turno, parecia-lhe que tinha tirado um peso de meia tonelada de cima das costas. Alex não se levantara da mesa para sair porta fora, nem lhe dissera que nunca mais queria vê-lo. Mas também ainda não conhecia a história toda.

 

- O problema reside mesmo aí. Ela quer ter o bebé.

 

- Só vejo dois motivos para ela querer ter o bebé: ser mãe de um filho de uma estrela, ou fazer chantagem contigo.

 

Alex estava a analisar o problema de forma pragmática e inteligente, o que tornava a conversa mais fácil do que Coop imaginara.

 

- Mais ou menos. Quer dinheiro. Diz que não pode trabalhar enquanto estiver grávida. Suponho que não fazem filmes pornográficos com mulheres grávidas - respondeu Coop, num tom sombrio, e Alex apertou-lhe as mãos, tentando confortá-lo. - Quer que os apoie monetariamente, a ela e ao bebé. Disse-lhe que não quero ter filhos, nem dela nem de outra pessoa qualquer... a não ser de ti - acrescentou, com um sorriso triste. Tinha a sensação de estar a fazer papel de idiota, mas sentia-se na obrigação de lhe confessar tudo. - Não lhe falei de ti. Receei que ela pegasse em armas. Aliás, já está em pé de guerra. Parecia doida: tão depressa chora, como ameaça, como fala num tom delico-doce do ”nosso bebé”. É uma situação nauseabunda e, ao mesmo tempo, aterradora. Não faço a menor ideia de quais são os seus intentos: se vai, efectivamente, ter a criança, ou se vai pôr os tablóides ao corrente da situação. Dá-me a sensação de que é pessoa para se pôr a disparar em todas as direcções. Já lhe mandei um cheque para pagar o aborto, mas é a única coisa que, de momento, estou disposto a fazer. O romance durou três semanas. Nem sequer devia ter começado. Na minha idade, já devia estar precavido contra este tipo de situações. Mas eu andava aborrecido e ela era divertida. No entanto, o que está a acontecer não tem nada de divertido - disse, cheio de remorsos. - Lamento imenso, Alex, ter trazido toda esta confusão para as nossas vidas, mas achei melhor pôr-te ao corrente de tudo. Tens todo o direito de saber, especialmente se ela for para os jornais. É muito capaz disso. Eles adorariam.

 

- Ela, provavelmente, também. Tens a certeza de que está grávida? Pode estar só a ver o que pode sacar de ti. Não me parece ser pessoa de boa índole.

 

- É evidente que não é. Não sei se está realmente grávida ou não, ou sequer se a criança é minha.

 

- Mas podes mandar fazer os testes de ADN, especialmente se ela estiver disposta a fazer a amniocentese. Podem fazer-lhe os testes nessa altura. Mas ainda é cedo. Ela está de quanto tempo?

 

- Acho que falou em dois meses. Uma coisa desse género.

 

Alex andava com Coop há seis semanas, portanto ele estava a falar verdade quando dizia que andara com a jovem até pouco antes de a conhecer. Duas semanas, no máximo. Mas ela não tinha nada a ver com aquilo que ele fizera antes de a conhecer.

 

- O que é que vais fazer?

 

Gostara da atitude de grande honestidade de Coop, que os aproximara ainda mais. Ambos sabiam que estas coisas aconteciam. Especialmente no mundo de Coop, a homens que eram estrelas e alvos fáceis de extorsão e chantagem.

 

- Ainda não sei. De momento, pouca coisa posso fazer, a não ser esperar para ver o que ela faz. Quis avisar-te para estarmos cientes das armadilhas que podem surgir no nosso caminho, caso ela vá para os jornais.

 

- Casarias com a rapariga se ela tivesse o bebé?

 

- Estás louca? De modo nenhum. Mal a conheço. E, para além de umas pernas bonitas e outros atributos afins, daquilo que conheço, não gosto. Não estou apaixonado por ela, nunca estive, nem nunca estarei. E nem sou parvo nem nenhum samaritano para me casar nestas circunstâncias. Na pior das hipóteses, terei de dar uma pensão à criança. Disse-lhe que nunca veria a criança e frisei bem que estava a falar a sério.

 

Mas isso era outra história, tinha a ver com a responsabilidade e a moral. Alex sabia que ele teria de rever a situação mais tarde, se Charlene viesse realmente a ter a criança. Pelo menos, não estava apaixonado pela rapariga e não fazia tenções de casar com ela. No essencial, este problema, não afectava em nada a relação de Coop e Alex. À excepção de algum  barulho que poderia surgir, mais tarde, nos tablóides, e que não preocupava Alex. A única coisa que a preocupava era o que Coop sentia por ela.

 

- Estas coisas acontecem com alguma regularidade. São situações desagradáveis, mas não é o fim do mundo. Sinto-me muito melhor por saber o que se passa e não acho que seja um problema assim tão grande. Talvez embaraçoso, se sair nos jornais. Mas coisas deste género estão constantemente a acontecer. Sinto-me muito melhor. - E esboçou um sorriso de alívio. - Pensei que me fosses dizer que estava tudo acabado entre nós.

 

- És uma mulher maravilhosa. - Coop recostou-se na cadeira, ao mesmo tempo que soltava um suspiro de alívio e lhe lançava um prolongado olhar de gratidão. - Amo-te do fundo do coração. Estava com medo que me mandasses dar uma curva e atirar ao rio.

 

- Pouco provável. - Nenhum deles almoçara, tal a atenção com que haviam seguido a conversa. De repente, ouviu-se um bipe. - Merda! - exclamou Alex, ao olhar para a mensagem. Bebeu um gole de café à pressa e levantou-se. - É uma emergência... tenho de ir... não te preocupes, vai correr tudo bem... amo-te... telefono-te mais logo...

 

Ela ia já a meio da cafetaria, em passo apressado, quando Coop se ergueu e, com os olhares de toda a gente à sua volta fixos em si, gritou:

 

- Amo-te!

 

Alex virou-se para trás, radiante de felicidade, e acenou-lhe, enquanto o funcionário que limpava as mesas com um pano húmido sorriu para Coop.

 

O velho actor saiu de coração mais leve e alma renascida. Era uma mulher extraordinária, e apesar do que acontecera, ainda era sua.

 

 

Sentado na cozinha, Jimmy analisava uma pilha de papelada que trouxera do trabalho, ao mesmo tempo que tentava arranjar vontade para fazer o jantar. Raramente jantava, excepto quando os colegas o convidavam ou quando Mark lhe trazia um hambúrguer. Não queria saber se comia ou não, se vivia ou não. Passava os dias a desejar que chegassem ao fim o mais depressa possível. E as noites eram intermináveis.

 

Já haviam decorrido três meses desde a morte de Maggie, e começava a perguntar-se se chegaria a recuperar completamente da morte da esposa. Não vislumbrava um fim para a angústia que o ia consumindo. À noite, deitava-se na cama e chorava. Nunca adormecia antes das três ou quatro da manhã e, às vezes, já era de dia e ainda não conseguira adormecer.

 

Sabia que mudar-se para esta casa fora uma boa opção, mas o que agora também sabia era que trouxera Maggie consigo. Levava-a para todo o lado, no coração, na cabeça, nos ossos, no corpo. Fazia parte dele, de todos os seus pensamentos e reacções, do modo como olhava para as coisas, parte das suas crenças e desejos. Por vezes, sentia-se mais Maggie do que Jimmy. Via tudo através dos seus olhos. E aprendera tanto com ela que chegava a interrogar-se se não teria sido por isso que Maggie morrera. A dor e as saudades que sentia, dia e noite, eram insuportáveis. Não havia nada que melhorasse o seu estado de espírito. Às vezes, durante algumas horas, conseguia libertar-se dessa dor, como quando estava com Mark, ou ia trabalhar, ou treinava a equipa de softball. No entanto, estava sempre ali, à sua espera, como uma velha amiga, a dor que o perseguia por todo o lado e procurava vencê-lo. De momento, era a dor que ganhava.

 

Acabara de decidir não fazer nada para o jantar, quando ouviu bater à porta. Levantou-se e foi ver quem era. Estava com um ar cansado e os cabelos em desalinho. Esboçou um sorriso quando deparou com Mark. Ultimamente, via-o com menos frequência, porque andava sempre ocupado com os filhos. Tinha de cozinhar para eles e ajudá-los a fazer os trabalhos  de casa. Mas telefonava muitas vezes a convidá-lo para jantar. Jimmy gostava de Jessica e de Jason, achava-os divertidos. Também eles o faziam sentir-se mais só. Lembravam-lhe que ele e Maggie deveriam ter tido filhos. Nunca mais poderia tê-los, nem sentir os braços dela a enlearem-no.

 

- Comprei comida. Lembrei-me de passar por aqui para ver se queres jantar connosco. - Às vezes, como Mark bem sabia, o melhor era aparecer de repente e puxá-lo para fora da ”toca”. Isolava-se muito. Mark sabia que Jimmy estava a passar um mau bocado. E, ultimamente, parecia pior. Dava a impressão de que, com a chegada do bom tempo, com o cheiro a Primavera por todo o lado, se sentia ainda mais só.

 

- Não... tudo bem... em todo o caso, obrigado... Trouxe uma porrada de coisas do trabalho. Passo a vida em visitas domiciliárias e nunca consigo arranjar tempo para pegar nas coisas que tenho no escritório.

 

Tinha um ar pálido e cansado. Mark conhecia bem o sofrimento por que ele passava. Mas as coisas haviam melhorado substancialmente para si, com a chegada dos filhos. Só esperava que a Jimmy acontecesse também algo de positivo. Era um tipo simpático, bem-parecido e inteligente. Ultimamente, nem sequer haviam batido umas bolas de ténis. Os miúdos mantinham-no muito ocupado e não dispunha de tempo livre.

 

- Mas, de qualquer forma, tens de comer. Porque é que não me deixas preparar qualquer coisa? Vou fazer costeletas e hambúrgueres. - O regime alimentar era pouco variado. Já prometera aos miúdos comprar um livro de cozinha para aprender a fazer outros pratos.

 

- A sério, estou bem - retorquiu Jimmy, com ar cansado. Sabia que Mark estava a tentar ajudá-lo, mas não lhe apetecia conviver. Há meses que assim era, e ultimamente piorava. Nem sequer ia ao cinema. A última vez que vira um filme fora na companhia de Maggie. Dava a impressão de que não queria fazer a sua vida normal, para não lhe ser infiel.

 

- Oh, quase me esquecia... - disse Mark, com um largo sorriso. - Tenho uma notícia bombástica sobre o nosso senhorio. - E passou-lhe o exemplar de um jornal. Era uma notícia desagradável, mas estava deleitado com ela. - Página dois.

 

Jimmy abriu o tablóide e ficou surpreendido.

 

- Que bronca! - Havia uma fotografia de Coop que cobria meia página e, ao lado, outra de uma mulher sensual, de longos cabelos negros e olhos asiáticos. O artigo estava recheado de alegados pormenores e insinuações acerca do apaixonado romance, da criança adorável que vinha a caminho, de mexericos sobre Coop e uma lista de mulheres conhecidas com quem ele mantivera ligações. - Côa breca! - exclamou, com um sorriso de espanto, enquanto devolvia o jornal a Mark. - Será que Alex já viu isto? Não é muito divertido andar com um tipo que está metido numa alhada destas. E ela parece ser mulher de pêlo na venta.

 

- Não acho que vá haver grande problema entre eles conjecturou Mark. - Andam um com o outro há pouquíssimo tempo. As mulheres com Coop não parecem aquecer o lugar por muito tempo. Desde que cá estou, já vi para aí umas três. Torna as coisas mais interessantes.

 

- Pelo menos, para ele. Aposto que está borrado de medo com aquela coisa do bebé. - Não conseguiu conter uma gargalhada. - Ser pai com esta idade deve ser cá uma sensação!

 

- Terá perto de noventa anos quando o miúdo for para a faculdade.

 

- E, se calhar, ainda vai dormir com algumas colegas do filho - aventou Jimmy, deliciado com o conteúdo do artigo. Quando Mark se despediu, Jimmy prometeu ir jantar com eles no fim-de-semana.

 

Nessa noite, ao jantar, discutindo o artigo com Alex, Coop não estava com um ar tão divertido. O facto de a notícia ter saído no jornal deixara-o extremamente irritado. Contudo, sentia também algum alívio por ter avisado Alex com antecedência.

 

-Já saíste um ror de vezes nos tablóides. Faz parte da tua profissão. Se não fosses quem és, ninguém estaria interessado em saber com quem dormes.

 

- É uma sacanice da parte dela ir para os jornais.

 

- Era de esperar - Alex tentava acalmá-lo, assegurando-lhe que este problema não a afectava minimamente. As pessoas acabariam por esquecer. - Nem toda a gente lê jornais. - Coop sentia-se aliviado por ela se mostrar tão compreensiva. As coisas assim ficavam muito mais fáceis.

 

Nessa noite, foram comer uma piza e Alex fez todos os possíveis para o distrair. Mas não foi tarefa fácil. Coop estava mal-humorado. Quando voltaram para casa, convidou-a para o acompanhar à cerimónia de entrega dos Óscares. Alex ficou perplexa e, ao mesmo tempo, deleitada. Depois, o seu semblante adquiriu um ar preocupado.

 

- Terei de ver se me posso ausentar do hospital. Acho que estou de serviço.

 

- Não podes trocar? - Já conhecia o esquema.

 

- Vou tentar. Tenho feito muitas trocas ultimamente. Estou a esgotar o estoque.

 

- Mas esta é uma festa de arromba. - Coop fazia votos para que Alex fosse. Não queria apenas a sua companhia, queria também ser visto com ela. Alex emprestar-lhe-ia a aura de respeitabilidade de que precisava para contrapor à porcaria que Charlene andava a vomitar. Mas não queria explicar-lhe isso. Essas eram as maquinações internas de Hollywood e achava que devia poupar-lhe os pormenores.

 

Alex ia passar novamente a noite com ele, embora, inicialmente, se tivesse mostrado um pouco relutante. Mas Coop sentia-se constrangido no apartamento, que se encontrava sempre num autêntico caos. Mais parecia um gigantesco cesto de lavandaria do que um apartamento. Coop chamava-lhe ”o cesto da roupa suja”. E Alex adorava estar no Palacete. Sentia um prazer imenso em nadar à noite e não se importava nada de encontrar os filhos de Mark na piscina. O lugar transmitia-lhe tranquilidade. Era fácil perceber porque é que Coop tinha uma adoração especial pela propriedade.

 

Dois dias depois, Alex disse-lhe que já conseguira arranjar a troca para poder ir à cerimónia. Entretanto, ficou em pânico quando se apercebeu de que não tinha nada para vestir, nem tempo para ir às compras. O seu único vestido de noite era o que usara para ir à festa dos Schwartz. E precisava de uma roupa mais chique, já que ia à cerimónia da entrega dos Óscares na companhia de Cooper Winslow.

 

- Nunca na vida me passou pela cabeça ir a uma coisa dessas - disse, soltando uma risada, enquanto se aninhava ao lado de Coop, que estava radiante por ela o poder acompanhar. Entretanto, num outro jornal, surgira mais um artigo sobre Charlene. O bombardeamento intensificava-se. Coop, porém, estava feliz por poder partilhar um evento daquela envergadura com Alex. - Não sei se sabes, mas não tenho nada para vestir. Se calhar, vou ter de levar a farpela com que ando no hospital. Até lá, não tenho muito tempo para ir às compras.

 

- Deixa isso comigo - retorquiu Coop, misteriosamente. Sabia muito mais de roupa do que ela. Já fizera o guarda-roupa de muitas mulheres. Era uma das coisas em que era perito. Além de ser um mãos-largas.

 

- Se comprares qualquer coisa, faço questão de pagar recordou-lhe Alex. Não tinha a menor intenção de se transformar numa mulher monetariamente dependente do amante. E, ao contrário das outras mulheres com quem Coop andara, Alex podia pagar as suas próprias extravagâncias e fazia sempre questão disso. No entanto, apreciara o facto de Cooper se ter oferecido para lhe comprar a roupa que levaria à cerimónia.

 

Nessa noite, Alex sonhou que estava num baile com um enorme vestido de noite e que rodopiava pelo salão, conduzida por um príncipe de imensa beleza. Esse príncipe era Coop. E estava a começar a sentir-se uma princesa dos contos de fadas. O facto de uma das súbditas ir ter um filho dele não a preocupava minimamente.

 

 

A noite da cerimónia de entrega dos Óscares chegou mais depressa do que Alex esperava. Haviam-se passado duas semanas desde que Coop a convidara, e, este ano, realizava-se mais tarde do que era costume: na terceira semana de Abril. E, fiel à sua palavra, o velho actor arranjara-lhe um vestido fabuloso no Valentino. Era de cetim azul-escuro, decote em V e justo ao corpo, realçando a sua silhueta de traços perfeitos. Conseguira ainda um casaco de pele de zibelina, cedido pela Dior, além de um colar de safiras, que a deixou sem respiração, com uma pulseira e um par de brincos a condizer.

 

- Sinto-me como a Gata Borralheira - disse Alex, passeando-se com o vestido diante de Coop. Este contratara também um cabeleireiro e um maquilhador. E, para poupar tempo, Alex vestiu-se no Palacete.

 

Quando chegou do hospital, mais parecia uma pedinte. Três horas depois, estava deslumbrante, como uma princesa. Melhor do que isso. Parecia uma jovem rainha, ao descer a escadaria principal. Coop aguardava-a ao fundo das escadas, de sorriso nos lábios. Estava deslumbrante. Tudo nela deixava transparecer a aristocrata que efectivamente era. Quando se olhou ao espelho, ficou espantada ao aperceber-se de que estava parecida com a mãe. Lembrava-se de a ter visto ir a bailes assim vestida. Até se lembrava de um vestido azul semelhante a este. Mas nem mesmo a mãe alguma vez tivera safiras como as que a Van Cleef & Arpeis cedera a Coop. Eram enormes e ficavam-lhe espantosamente bem.

 

- Uau! - exclamou Coop, fazendo uma vénia. Envergava um dos muitos casacos de cerimónia que possuía, mandado fazer no seu alfaiate de Londres. Os sapatos eram de pele e os botões de punho tinham safiras. Haviam sido um presente de uma princesa saudita, cujo pai fizera os possíveis e os impossíveis para evitar que ela casasse com Coop. Por aquilo que ele dizia, o pai teria preferido vendê-la a vê-la como Mrs. Cooper. - Estás espantosa, meu amor!

 

Nada do que Coop lhe dissera a preparara para a grande agitação com que iria deparar-se na cerimónia. Ainda era dia quando chegaram. Havia uma comprida passadeira vermelha à entrada e uma interminável fila de limusinas à espera que os convidados ilustres saíssem. Mulheres deslumbrantes, de vestidos lindíssimos e jóias de brilho ofuscante, eram a norma, enquanto os repórteres se acotovelavam para as fotografar. Muitas delas, actrizes bem conhecidas, haviam acompanhado Coop noutras ocasiões, mas este ano preferira ir com Alex, que significava muito mais para si. Eram o epítome da respeitabilidade aristocrática à medida que avançavam lentamente pela passadeira vermelha. Alex, de braço dado com Coop, seguia nos seus sapatos de salto alto de cetim azul-escuro, esboçando tímidos sorrisos, enquanto eram disparados centenas de flashs. Coop não lhe dissera, mas Alex lembrava-lhe Audrey Hepburn em Boneca de Luxo. Ele acenava para as câmaras, como se de um chefe de estado se tratasse. Enquanto isto, na ala de hóspedes do Palacete ouvia-se um coro de exclamações.

 

- Oh, meu Deus!... É ela!... É a... como é que ela se chama?... Alex!!! E ele! - gritou Jessica, apontando para o televisor, ao mesmo tempo que todas as cabeças se voltavam. Jimmy assistia à cerimónia, tal como já acontecera aquando da entrega dos Globos de Ouro, na companhia de Mark. Está deslumbrante! - como a conhecia, Jessica estava mais excitada por ver Alex do que as estrelas de cinema.

 

- Está magnífica! - exclamou Mark, de olhos fixos em Alex, tal como todos os outros. - Gostava de saber onde é que ela arranjou o colar.

 

- Se calhar, emprestaram-lho - aventou Jimmy, ainda sem perceber o que ela via em Cooper. Achava que era uma estupidez da parte de Alex andar com um homem como Coop. Merecia coisa melhor.

 

- Nunca me apercebi de que fosse tão bonita. Está um espanto, assim vestida! - comentou Mark.

 

Só a vira de calções e T-shirt na piscina e na noite em que pegara fogo aos arbustos. Mas, com aquele vestido, tinha de admitir, estava impressionante. Começava a olhar para as mulheres com outros olhos, ao contrário de Jimmy, cujo interesse  pelo sexo oposto parecia ter morrido com Maggie. Mas Mark ainda não começara a sair com ninguém. Apenas olhava. De qualquer forma, não tinha tempo, andava demasiado ocupado com os filhos.

 

Coop e Alex desapareceram do ecrã e entraram na sala onde iria desenrolar-se a cerimónia. Voltaram a vê-los mais tarde, já sentados: um grande plano de Alex a rir e a segredar qualquer coisa ao ouvido de Coop, que soltou uma gargalhada como resposta. Pareciam muito felizes na companhia um do outro. Mais tarde, os fãs viram-nos entrar na festa da Vanity Fair, no Morton’s. Alex vestia o casaco de pele de zibelina e emanava o mesmo glamour de qualquer estrela de cinema. Talvez até mais, pois era autêntico.

 

Passara uma noite fabulosa e não encontrava palavras para agradecer a Coop. Regressavam a casa no Bentley, conduzido por um motorista. O descapotável Azure já se fora há muito, porque Coop não tinha dinheiro para o comprar. Mas a limusina Bentley, de uma elegância ímpar, era sua há vários anos.

 

- Que noite incrível! - Não estava em si de contente. Eram três da manhã. Vira todas as estrelas de que já ouvira falar, e embora nunca houvesse tido nenhuma fixação por estrelas de cinema, tinha de admitir que fora excitante. Especialmente na companhia de Coop, que lhe contara muitos dos mexericos do mundo do cinema, e a apresentara a muita gente que ela já vira nalguns filmes. Sentia-se como a Gata Borralheira. - Tenho a impressão de que o coche se vai transformar numa abóbora - gracejou, encostando-se mais a ele. - Tenho de estar no hospital dentro de três horas. Se calhar, é melhor nem me deitar.

 

- É uma opção. Estiveste magnífica, Alex. Todos pensaram que eras uma nova estrela. Se calhar, amanhã, terás uma dúzia de produtores a mandarem-te guiões.

 

- Não é provável - retorquiu Alex, soltando uma gargalhada, ao mesmo tempo que saía do carro. Era reconfortante chegar a casa depois de uma noite tão longa. Tivera uma noite como nunca sonhara, graças a Coop, que fizera tudo o que lhe fora possível para a tornar memorável: o cabeleireiro, o maquilhador e o colar de safiras.

 

- Devia tê-lo comprado - afirmou Coop, arrependido, quando Alex lhe devolveu o colar, que guardou no cofre, juntamente com os brincos e a pulseira. - Quem me dera poder.

 

Custava três milhões de dólares, como Alex verificara na etiqueta. Uma nota preta. Era a primeira vez que Coop admitia haver coisas que estavam para além das suas posses. Se bem que, neste caso, estaria para além das posses de muito boa gente. Não ficou surpreendida e, de qualquer forma, também não o teria aceite. Foi divertido usá-lo. Louise Schwartz também usara um semelhante, se bem que maior. Coop sabia que Louise tinha um igual, mas com rubis. Ela também estivera deslumbrante num vestido espectacular, feito propositadamente por Valentino.

 

- Bem, princesa, vamos para a cama? - perguntou Coop, enquanto tirava o casaco e a gravata. Continuava tão elegante como no início da noite.

 

-Já sou outra vez a Gata Borralheira? - indagou Alex, ensonada, enquanto subia as escadas com os sapatos na mão. Parecia uma princesa exausta.

 

- Não, meu amor, nem nunca serás.

 

Para Alex, estar com ele era como viver um conto de fadas. Por vezes, tinha a sensação de que tudo o que a rodeava era irreal. Tinha de se lembrar que trabalhava num hospital com bebés prematuros doentes e que vivia num apartamento a abarrotar de roupa suja. Embora tivesse outras opções, há muito que resolvera rejeitá-las. O glamour e as únicas extravagâncias que tinha eram-lhe proporcionados por Coop.

 

Adormeceu nos braços dele ao fim de pouco tempo. Quando o despertador tocou, às cinco da manhã, deu meia volta, preparando-se para continuar a dormir, mas Cooper empurrou-a delicadamente para fora da cama e disse-lhe que telefonaria mais tarde. Vinte minutos depois, já estava ao volante do seu carro velho, ainda meio ensonada. A noite anterior continuava a parecer-lhe um sonho. Até se ver nos jornais da manhã, que exibiam uma enorme fotografia sua ao lado de Coop.

 

- É parecida consigo - disse uma das enfermeiras.

 

E, de repente, fez um ar de espanto, ao ver o nome dela sob a fotografia: Alexandra Madison. Coop esquecera-se de dizer aos jornalistas que ela era médica, e Alex tinha gracejado com ele, dizendo que trabalhara muito pelo título e esperava que ele lhe desse uso.

 

”Não lhes posso dizer que és a minha enfermeira psiquiátrica?”, perguntara Coop, gracejando também. Alex exibia um ar radiante nas fotografias, de mão dada com Coop, que sorria. Era uma forma de dizer a toda a gente que tudo estava bem com ele e que não precisava de esconder-se. Fora essa a mensagem que tentara fazer passar, e o seu agente de imprensa deu-lhe os parabéns ao fim da manhã.

 

- Foi óptimo para a sua imagem, Coop.

 

Sem dizer uma palavra, a fotografia contrariava todas as porcarias e boatos veiculados pelos tablóides. A mensagem subliminar era a de que, apesar dos rumores de ter engravidado uma actriz porno de segunda, continuava o mesmo homem íntegro e a andar com mulheres respeitáveis.

 

Saiu ainda uma outra fotografia deles no jornal da tarde. Quando Coop telefonou a Alex, disse-lhe que vários colunistas sociais de jornais respeitáveis, não de tablóides, lhe haviam telefonado.

 

- Querem saber quem és.

 

- E disseste-lhes?

 

- Claro. E, desta vez, disse-lhes que eras médica. Também queriam saber se nos vamos casar. Respondi-lhes que ainda era muito cedo para tecer comentários a esse respeito, mas que és a mulher da minha vida e que te adoro.

 

- Bem, isso vai mantê-los ocupados durante algum tempo - comentou Alex, enquanto levava um copo de plástico de café frio à boca. Acabara de fazer doze horas seguidas, mas o dia fora relativamente calmo. Sentia-se mais cansada do que esperara. Não estava habituada a andar na farra toda a noite e a trabalhar o dia todo. Coop dormira até às onze, depois, fora ao massagista, à manicura e ao barbeiro. - Fizeram alguma pergunta acerca do bebé? - indagou, preocupada. Sabia que o assunto o aborrecia.

 

- Nem uma palavra. - Também não voltara a ter notícias de Charlene, que andava demasiado ocupada a dar entrevistas aos tablóides.

 

Porém, duas semanas depois, o advogado dela contactou-o. O mês de Maio dava ainda os primeiros passos e Charlene dizia estar grávida de três meses. Queria uma pensão de gravidez, e estava disposta a começar a negociar a pensão de alimentos para si e para a criança.

 

- Pensão de alimentos? Por um caso de três semanas? Está louca! - indignou-se Coop, em conversa com o seu advogado. Mas Charlene alegava que não podia trabalhar até ter a criança; estava permanentemente com enjoos. - Mas para dar as entrevistas já não tem enjoos. Meu Deus, esta mulher é um monstro!

 

- Reze para que o bebé não seja o seu monstrinho ripostou o advogado. Concordaram, então, que a pensão estaria sempre dependente do facto de ela fazer uma amniocentese que incluísse testes de ADN. - Quais são as hipóteses do bebé ser seu, Coop?

 

- Cinquenta por cento. As mesmas de qualquer outra pessoa. Dormi com ela, e o preservativo rompeu-se. Que hipóteses tenho de ganhar a causa?

 

- Terei de estudar o caso primeiro - respondeu o advogado, num tom sombrio. - Não quero ser grosseiro, mas, como se costuma dizer: ”Da fama já não se livra!” Espero que tenha muito cuidado agora, Coop. Vi-o com uma mulher muito bonita, nos Óscares.

 

- E muito inteligente - acrescentou, orgulhoso. É médica.

 

- E espero bem que não seja uma garimpeira como a última, que também é muito bonita. Tem traços euro-asiáticos, não tem? Mas, seja como for, o coração parecido com uma caixa registadora. O resto era melhor?

 

- Não me lembro - respondeu, e passou logo à defesa de Alex. - A minha amiga médica é tudo menos garimpeira. Com a família que tem, não precisa de mim para nada.

 

- A sério? Quem é a família dela?

 

- O pai é o Arthur Madison.

 

O advogado soltou um assobio de espanto.

 

- Interessante. Já teve notícias dele, desde que surgiu esta história da gravidez da rapariga?

 

- Não.

 

- Mais cedo ou mais tarde, vai entrar em cena. Ele já sabe que você anda com a filha?

 

- Não sei. Ele e Alex não parecem entender-se muito bem.

 

- Não é nenhum segredo. Vocês os dois aparecem em todos os jornais nacionais.

 

- Podia ter acontecido algo pior. - E já acontecera. Charlene aparecia em todos os tablóides.

 

Uma semana depois, foi a vez de Alex aparecer também nos tablóides. Continuavam a explorar a história da gravidez de Charlene, só que agora acrescentavam fotografias de Alex às de Coop e Charlene. Parecia uma rainha, e as manchetes, como era de esperar, eram horríveis. Mark continuava a comprar todos os jornais para mostrar a Jimmy. Jessica estava encantada com Alex, que encontrava regularmente na piscina. Tinham-se tornado amigas, embora Alex não falasse disso com Coop. Sabia o que ele pensava dos miúdos e, além de mais, achava que ele já tinha aborrecimentos suficientes.

 

Ultimamente também Abe telefonara várias vezes a Coop, a lembrar-lhe que andava a gastar demasiado dinheiro, e preocupado com a pensão que teria de pagar a Charlene.

 

- Você não está em condições económicas de pagar uma pensão, Coop. Além disso, se falhar um pagamento que seja, ela espeta consigo na cadeia. É assim que as coisas funcionam. E, por aquilo que me é dado observar, é mulher para isso.

 

- Obrigado pela boa notícia, Abe.

 

Coop andava a gastar menos dinheiro do que era costume, porque Alex tinha gostos simples, mas segundo o contabilista continuava numa situação deficitária.

 

- É melhor casar com a Madison - gracejou Abe, perguntando-se se não seria devido à sua difícil situação económica que Coop andava com ela. Dado Alex pertencer à família a que pertencia, era difícil imaginar que assim não fosse. Porém, a cada dia que passava, o velho actor estava mais convencido de que a amava.

 

Liz também lhe telefonara por causa do falatório que vinha nos tablóides. Sentia-se revoltada.

 

- Que situação mais degradante! Nunca devia ter andado com ela, Coop!

 

- A quem o diz!... E o seu casamento, como é que vai?

 

- Estou a adorar, embora me esteja a custar um pouco habituar a São Francisco. Estou sempre com frio, e a cidade é demasiado calma para meu gosto.

 

- Bem, nesse caso, pode deixar o seu marido e voltar para mim. Estou sempre necessitado dos seus préstimos.

 

- Obrigada, Coop. - Vivia feliz com Ted e adorava as filhas dele. Só estava arrependida de não ter casado há mais tempo. Sacrificara-se muito por Coop. Adoraria ter tido os seus próprios filhos, mas agora era demasiado tarde. Aos cinquenta e dois anos, tinha de se contentar com as filhas de Ted. - Como é Alex?

 

- Um anjo misericordioso - respondeu Coop, sorrindo. - É aquela pessoa que está sempre ao nosso lado. A Audrey Hepburn. O doutor Kildare. É espectacular. Você iria gostar dela.

 

- Venham passar o fim-de-semana a São Francisco.

 

- Adoraria, mas ela passa o tempo no hospital. Tratava-se de uma ligação estranha, não conseguiu Liz

 

deixar de pensar, mas Alex era indubitavelmente muito bonita. E os jornais diziam que tinha trinta anos, a idade máxima de que Coop gostava numa mulher.

 

Perguntou-lhe ainda se estava com muito trabalho. Não o vira aparecer em nenhum filme, nem tão-pouco em qualquer anúncio publicitário. Coop já falara com o seu agente a esse respeito, mas não havia nada em perspectiva. Como o agente lhe dissera, já não era propriamente um jovem.

 

- Estou a trabalhar menos do que gostaria, mas tenho alguns papéis em perspectiva. Esta manhã falei com três produtores.

 

- O que você precisa é de um papel principal. Depois, todos o quererão contratar. Sabe bem que os produtores são uma cambada de medrosos, Coop. - Liz não lho quis dizer, mas ele precisava de um papel importante como pai de alguém. O problema era que Coop só aceitava ser o actor principal, e ninguém queria contratá-lo para esse efeito. Coop não se imaginava a fazer papel de velho e era por isso que se sentia tão bem na companhia de Alex. Nunca lhe passara pela cabeça que tinha mais quarenta anos do que ela.

 

Nem a Alex. Ao princípio, ainda ponderara esse assunto. No Intanto, à medida que o ia conhecendo melhor e ficando cada vez mais apaixonada, nunca mais pensou nisso. Nesse fim-de-semana, estavam deitados no terraço a conversar, quando o bipe tocou. Ao olhar para o visor, Alex viu que não era do hospital. Reconheceu de imediato o número mas só ao fim de meia hora pegou no telemóvel para fazer o telefonema. Coop estava estendido numa cadeira de lona, a seu lado, lendo o jornal e ouvindo vagamente a conversa. É - Sim, tudo bem. Diverti-me bastante. Como é que estás? - Não fazia a menor ideia com quem ela falava, mas a troca de palavras não parecia muito amigável, e Alex estava de sobrolho franzido. - Quando?... Acho que estou de serviço... podemos encontrar-nos à hora de almoço no hospital, se ficar alguém a substituir-me. Quanto tempo vais ficar por cá?... Óptimo... até terça!

 

Não sabia se Alex estivera a falar com um amigo, ou com um advogado, mas fosse como fosse, estava com cara de poucos amigos.

 

 - Quem era? - perguntou, confundido. - O meu pai. Vem a Los Angeles, na terça-feira, por causa de uma reunião. Quer encontrar-se comigo. - Deve ser um encontro interessante. Disse alguma coisa a meu respeito?

 

- Só que me viu nos Óscares. Nunca referiu o teu nome. Está a guardar-se para mais tarde.

 

- Achas que o levemos a jantar fora? - perguntou

 

Coop, prontificando-se a tomar a iniciativa de o convidar, embora o enervasse pensar que o homem era mais novo do que ele, e muito mais importante. Arthur Madison não era só dinheiro, era também poder.

 

- Não! - respondeu Alex. Estava de óculos escuros, de modo que Coop não conseguia vislumbrar a expressão dos seus olhos. Mas não era certamente uma expressão efusiva por voltar a ver o pai. - De qualquer forma, obrigada. Encontro-me com ele ao almoço, no hospital. Parte no avião logo a seguir à reunião. - Coop sabia que o velho Madison tinha o seu próprio Boeing 727.

 

- Talvez para a próxima vez - disse, reparando que Alex não mostrava qualquer vontade de que o encontro se realizasse. Dez minutos depois, foi chamada ao hospital para um caso de urgência.

 

Só voltou à hora do jantar, aproveitando, então, para dar um salto até à piscina, onde encontrou Jimmy, Mark e os filhos. E, pela primeira vez desde que o conhecera, achou Jimmy mais animado. Os miúdos ficaram delirantes ao vê-la. Jessica teceu-lhe um elogio, dizendo que estava muito bonita na cerimónia da entrega dos Óscares.

 

- Foi muito divertido - afirmou Alex, com ar descontraído, depois de nadar durante meia hora. Enquanto Jessica e Mark faziam companhia a Alex na piscina, Jimmy e Jason treinavam lançamentos de basebol. Jimmy explicava a Jason como corrigir o lançamento.

 

Dez minutos depois, quando Jessica interrogava Alex acerca do modo como as estrelas se tinham apresentado na cerimónia, uma bola passou que nem um míssil sobre as suas cabeças, direitinha à janela da sala de estar de Coop.

 

- Merda! - exclamou Mark, entre dentes, perante o olhar espantado de Jessica e Alex.

 

- Que tiraço! - gritou Jimmy para Jason, eufórico, antes de se aperceber do local onde a bola caíra. O som de vidros partidos pontuou a sua exclamação, enquanto Mark e Alex olhavam um para o outro, e Jason ficava tomado de pânico.

 

Em questão de segundos, Coop apareceu na piscina, mal podendo conter a fúria.

 

- Estão a treinar para os Yankees, ou foi apenas um acto de vandalismo? - Dirigia-se a todos, deixando Alex constrangida. Não havia dúvidas: Coop detestava barafunda e crianças.

 

- Foi um acidente - justificou Alex, calmamente.

 

- Por que diabo andas a atirar bolas de basebol às minhas janelas? - perguntou Cooper a Jason, em tom irado. Reparara que era ele que tinha a luva, por isso não havia qualquer dúvida sobre quem realizara o lançamento. Jason estava de lágrimas nos olhos e tinha a certeza de que iria ter chatice com o pai, que já o avisara para não fazer nada que aborrecesse Mr. Winslow.

 

- Fui eu, Coop. Peço imensa desculpa - acusou-se Jimmy. Estava de coração destroçado face à atrapalhação do seu jovem amigo e Coop pouco podia fazer contra si. - Eu mando substituir os vidros.

 

- Espero bem que sim. Se bem que não acredite em si. Acho que foi aqui o jovem Mister Friedman que atirou a bola. - Coop olhou para Jason, depois para Mark e, de novo, para Jimmy, enquanto Alex saía da piscina e agarrava na toalha.

 

- Eu mando substituir os vidros, se quiseres - ofereceu-se Alex. - Ninguém fez de propósito.

 

- Mas isto aqui não é nenhum campo de treinos - retorquiu Coop, ainda irado. - Aquelas janelas levaram uma eternidade a fazer e a instalação é praticamente impossível. Eram janelas em arco abatido, feitas propositadamente para a casa. O arranjo ia custar uma fortuna. - Controle um pouco mais os seus miúdos, Friedman - admoestou, num tom desagradável, e voltou para casa.

 

- Desculpem - disse Alex, em voz baixa. Era uma faceta de Coop de que não gostava, mas o velho actor avisara várias vezes que detestava crianças.

 

- Que cara de cu! - exclamou Jessica, em voz alta. -Jessie! - repreendeu Mark, enquanto Jimmy olhava para Alex.

 

- Concordo com ela, mas lamento o sucedido. Devíamos ter ido para o campo de ténis. Nunca pensei que ele atirasse uma bola contra a janela.

 

- Não faz mal - retorquiu Alex. - Só que Coop não está habituado a lidar com crianças. Gosta de tudo calmo e no seu sítio.

 

- Mas a vida não é assim - contrapôs Jimmy. Lidava com crianças todos os dias e nunca havia calma ou perfeição, mas era isso mesmo que ele adorava. - Pelo menos, a minha não é.

 

- Nem a minha - corroborou Alex -, mas a dele é. Ou gosta de pensar que é. - Todos se lembraram da confusão que andava nos tablóides. - Não te preocupes, Jason. É só uma janela. Não é uma pessoa. As coisas podem substituir-se. As pessoas, não.

 

- Tem razão - concordou Jimmy, em voz sumida.

 

- Desculpe... não me referia a isso... - Alex ficou horrorizada.

 

- Referia, sim. E tem toda a razão. Às vezes, todos nós nos esquecemos disso. Ligamo-nos demasiado às nossas ”coisas”. As pessoas é que importam. O resto é conversa.

 

- Lido com essa realidade diariamente - disse Alex, e Jimmy fez um gesto de concordância com a cabeça.

 

- Aprendi essa lição da maneira mais difícil. - E esboçou um sorriso. Gostava dela. Não conseguia perceber o que a atraía num homem que era só ostentação e pretensiosismo. Tudo nela parecia sincero e verdadeiro. - Obrigado por ter sido tão simpática com o Jason. Tentarei resolver o assunto da melhor maneira.

 

- Não, eu é que vou tratar do assunto - interrompeu Mark. - Ele é meu filho. Eu é que pago o arranjo. E tenham mais cuidado, da próxima vez - acrescentou, dirigindo-se a Jason e a Jimmy.

 

- Desculpa, papá - retorquiu Jimmy, e todos se riram. Jason safara-se ileso da situação, só não se livrara do ralhete de Coop. Sempre esperara que o pai o matasse, quando viu a bola entrar pela janela dentro. - De qualquer forma, foi um bom lançamento. Estou orgulhoso de ti.

 

- Não vamos abusar - atalhou Mark. Não queria dar a Coop qualquer desculpa para que os pusesse na rua. - De agora em diante, vamos limitar os desportos de bola ao campo de ténis. Combinado?

 

Tanto Jason como Jimmy fizeram que sim com a cabeça, enquanto Alex vestia os calções e a T-shirt por cima do fato de banho molhado.

 

- Até logo, rapaziada! - despediu-se, com os cabelos molhados a caírem-lhe pelas costas. Os dois homens ficaram de olhos fixos nela e, ao fim de alguns instantes, Mark comentou:

 

- A Jessie tem razão. O velho é mesmo um cara de cu. Mas ela é uma grande mulher. Ele não a merece, por mais bem-parecido que seja. Vai fazer dela gato-sapato.

 

- Acho que ele vai casar com ela -- acrescentou Jessica, metendo-se na conversa. Gostaria que o pai andasse com alguém como Alex.

 

- Espero bem que não - retorquiu Jimmy, pondo um braço por cima de Jason. E foram os quatro até à ala de hóspedes. Mark ia fazer outro churrasco, e Jimmy aceitara jantar com eles.

 

Entretanto, noutro ponto da casa, Alex chamava a atenção de Coop, que continuava a espumar de raiva.

 

- Ele não passa de um miúdo, Coop. Não fazias coisas daquelas quando eras miúdo?

 

- Nunca fui miúdo. Nasci de fato e gravata, e saltei logo para o mundo dos adultos, sempre com boas maneiras.

 

- Não sejas cabeça-dura - gracejou Alex, enquanto o beijava.

 

- Porque não? Adoro ter acessos de fúria. Além disso, sabes bem como detesto miúdos.

 

- E se te dissesse que estou grávida? - perguntou Alex, com um olhar que quase o deixou sem pinga de sangue.

 

- Estás?

 

- Não. E se estivesse? Terias de te habituar a ver skates, janelas partidas, fraldas com cocó, manteiga de amendoim e pão com geleia por todo o lado. É uma coisa em que tens de pensar.

 

- Tenho? Estou a ficar com náuseas. A doutora Madison tem um sentido de humor muito requintado. Só espero que o teu pai te dê uma sova quando estiver contigo.

 

- Não tenhas a menor dúvida - retorquiu Alex, com alguma frieza na voz. - Já é costume.

 

- É o que mereces. - Daria tudo para assistir àquele encontro. Mas Alex não o convidara e não tencionava fazê-lo. - Quando é o vosso encontro?

 

- Na terça-feira.

 

- Porque é que achas que ele se quer encontrar contigo? - indagou, curioso. Estava convencido de que o encontro tinha a ver com ele.

 

- Veremos - respondeu Alex, enquanto se encaminhavam, de braço dado, para o quarto. Ela sabia como curar os acessos de fúria do velho actor. O incidente com a bola de basebol já estava praticamente esquecido quando o beijou. Pouco depois, a janela partida era a última coisa que poderia passar-lhe pela cabeça.

 

 

Na terça-feira, o encontro de Alex com o pai correu como todos os outros encontros entre eles.

 

Arthur Madison chegou cinco minutos mais cedo e esperou por Alex na cafetaria. Era alto e magro, tinha cabelos grisalhos e olhos azuis, e estava de semblante carregado. Quando se encontrava com a filha, tinha sempre vários pontos em agenda. Não conseguia conversar, nem sequer lhe perguntava como ela estava. Em vez disso, ia abordando os vários pontos que tinha em mente, como se estivesse a dirigir uma reunião. A única coisa carinhosa que dizia, e que indiciava haver uma relação de parentesco entre eles, era que a mãe lhe mandava beijos. E esta não era mais afável, por isso estava casada há tantos anos. Mas o pai é que controlava tudo e todos. Excepto Alex. Fora sempre esse o ponto da discórdia.

 

Mal se encontraram frente a frente, Arthur Madison não perdeu tempo e foi logo directo ao assunto.

 

- Quero falar contigo acerca do Cooper Winslow. Não o quis fazer por telefone.

 

A Alex, tanto se lhe dava. As suas conversas eram tão distantes e insípidas que o facto de serem cara a cara não alterava nada.

 

- Porquê?

 

- Pensei que este fosse um assunto suficientemente importante para justificar uma conversa cara a cara. - Para Alex, o facto de ser seu pai justificaria, por si só, um encontro, mas ele nunca vira as coisas assim. Tinha de haver sempre um motivo. - É um assunto delicado, e não vou estar com rodeios. - Nunca estivera, tal como ela. Neste aspecto, Alex assemelhava-se-lhe. Era frontal e exigente, não só com os outros mas consigo própria. Seguia determinados princípios de conduta e mostrava-se firme nas suas convicções. A grande diferença entre eles era Alex ser simpática, e ele, não. Arthur Madison não perdia tempo com emoções e não era homem de meias palavras. - O romance entre vocês os dois é coisa séria? - indagou, de sobrolho franzido.

 

Conhecia bem a filha. Sabia que ela não lhe mentiria, mas era pouco provável que lhe dissesse o que sentia por Coop. O assunto só a ela dizia respeito.

 

- Ainda não sei - respondeu Alex, com alguma cautela. E não era mentira nenhuma.

 

- Sabes que o homem está atolado em dívidas até ao pescoço?

 

Coop nunca tocara nesse assunto, mas o facto de ter inquilinos já indiciava que as coisas não iam bem do ponto de vista financeiro. Além disso, há muitos anos que tinha pouco trabalho. Alex presumia que ele tivesse algum dinheiro de parte. E o Palacete valia muito. Mas Arthur sabia que este era o único bem do velho actor e que existia uma enorme hipoteca sobre ele.

 

- Nunca falei com ele sobre os seus problemas financeiros. Não tenho nada a ver com isso. E ele também não tem nada a ver com o meu dinheiro.

 

- Já te perguntou alguma coisa sobre os teus rendimentos, ou sobre a herança?

 

- Claro que não. Ele é uma pessoa educada.

 

- E também bastante astuto. É bem possível que tenha mandado fazer uma investigação detalhada sobre ti, como o que eu mandei fazer sobre ele. Tenho um dossiê completo em cima da secretária. E as notícias não são boas. Há anos que anda a viver acima das suas possibilidades e tem uma montanha de dívidas. Não tem crédito algum. Não creio que consiga sequer requisitar um livro na biblioteca. E tem jeito para atrair mulheres ricas. Já andou com pelo menos cinco.

 

- Ele tem jeito para atrair todas as mulheres - corrigiu Alex. - Está a querer dizer que ele anda atrás de mim por causa do meu dinheiro? - Alex ficou magoada com a insinuação de que Coop a via apenas como uma maneira de resolver os seus problemas financeiros. Sabia bem o quanto ele a amava.

 

- Estou. É muito possível que as suas intenções não sejam tão puras como gostarias. Está a criar-te falsas ilusões. Talvez até inconscientemente. Se calhar, nem ele próprio se dá conta disso. O homem está numa situação aflitiva. O desespero não é bom conselheiro. Pode até levá-lo a casar contigo, quando, noutra situação, não aconteceria. Além disso, é demasiado velho para ti. Acho que não fazes a menor ideia daquilo em que te estás a meter. Eu nem sequer sabia que andavas com ele. A tua mãe é que os viu na cerimónia de entrega dos Óscares. Ficámos bastante chocados. Dava a sensação de que te conhecia há um ror de anos. Não fez nada que não estivesse adequado à situação, mas já te anda a rondar há muito tempo. E julgo que também já deves saber do escândalo com a actriz porno.

 

- Pode acontecer a qualquer um - retorquiu Alex, calmamente, odiando o pai por todas as palavras que ele proferira, embora mantivesse um ar impassível. Sempre conseguira dissimular todas as suas emoções diante dele.

 

- Essas coisas não acontecem a homens responsáveis. Ele não passa de um playboy. Teve uma vida cheia de extravagâncias. Não poupou um cêntimo sequer. E as dívidas ascendem, actualmente, a quase dois milhões de dólares, para já não falar da hipoteca sobre a casa.

 

- Se ele obtivesse um bom papel num filme - disse Alex, acorrendo em defesa do velho actor -, conseguiria saldar as dívidas. - Amava-o, independentemente daquilo que o pai dissesse.

 

- O problema é que ele não consegue arranjar trabalho. Já está com idade a mais. E, mesmo que surgisse uma boa proposta, o que é pouco provável, iria estoirar o dinheiro num abrir e fechar de olhos, como sempre fez. É com uma pessoa destas que queres casar, Alex? Um homem que irá estoirar todos os cêntimos que arranjar? E, se calhar, até os teus. Porque é que achas que ele anda atrás de ti? É impossível ele não saber quem tu és e quem eu sou.

 

- É claro que sabe. Nunca lhe dei um cêntimo sequer, e ele também nunca me pediu dinheiro. É orgulhoso.

 

- Ele anda é sempre todo inchado, mais parece um pavão. Como se costuma dizer: ”Muita parra, pouca uva...” Não tem um mínimo de condições financeiras para te sustentar, nem a ti nem a ele. E a mulher que está à espera de bebé? Que pensa ele fazer?

 

- Dar-lhe uma pensão. Ainda nem sequer sabe se o filho é dele. Ela vai ter de fazer o teste de ADN em Julho.

 

- A miúda não o acusaria se o bebé não fosse dele.

 

- Talvez. Mas estou-me nas tintas para isso. Não é uma situação agradável, mas também não é o fim do mundo. Estas coisas acontecem. O que me interessa é que ele seja bom para mim, e tem sido.

 

- Porque é que não havia de ser? És rica e solteira, já para não falar no facto de seres uma mulher atraente. Mas, se o teu apelido não fosse Madison, acho que ele não gastaria um segundo contigo.

 

- Não acredito em nada disso. Mas nunca viremos a saber, pois não, papá? Sou quem sou e tenho o que tenho, e não vou escolher os homens da minha vida pela conta bancária. Ele provém de uma família respeitável. É boa pessoa. Algumas pessoas não têm dinheiro. As coisas são assim mesmo. E estou-me nas tintas para isso.

 

- Ele é honesto contigo, Alex? Alguma vez te disse que está atolado em dívidas?

 

Arthur Madison continuava a bater na mesma tecla, tentando minar tudo o que ela pudesse sentir por Coop, e ele por ela. Mas Alex não lhe dava ouvidos. Mesmo sem nunca ter visto o saldo da conta de Coop, sabia bem quem ele era, quais as suas virtudes e quais os seus defeitos. E amava-o tal como era. A única coisa que a preocupava era o facto de ele não querer ter filhos. Ao contrário de si, que ansiava imenso tê-los.

 

Já disse que não discutimos questões financeiras, nem dele, nem minhas.

 

- O homem tem mais quarenta anos do que tu. Se casares com ele, que Deus o proíba!, irás acabar por ser sua enfermeira.

 

 - Talvez seja um risco que tenho de correr. Mas não seria o fim do mundo.

 

o que dizes agora. Quando tiveres quarenta anos,: ele terá oitenta, o dobro da tua idade. É ridículo, Alex. Vê se encaras o problema com alguma sensatez e inteligência. Acho que o homem anda mas é atrás do teu dinheiro., - É repugnante, o que está a dizer - ripostou Alex, em tom crispado.

 

- Quem lhe pode levar a mal? Está a precaver-se para a velhice e tu és a sua única tábua de salvação. A rapariga que vai ter o filho dele não poderá sustentá-lo. Custa dizer isto, mas é mesmo assim que as coisas devem ser vistas. Não estou a pedir-te que deixes de o ver, se sentes alguma coisa por ele. Mas, por amor de Deus, tem cuidado, e não cases com ele. Se a tua intenção for essa, posso assegurar-te de que farei tudo o que estiver ao meu alcance para o evitar. Falarei com ele, se for preciso, e pô-lo-ei à tabela. Vai ter um poderoso inimigo em mim.

 

- Sabia que podia contar com o seu apoio - replicou Alex, com um sorriso cansado.

 

Mesmo que as intenções do pai fossem as melhores, falava num tom ameaçador. Sempre fora assim que lidara com a filha. Era tudo uma questão de poder e de controlo. Já quando Cárter fugira com a irmã, horas antes do casamento, Arthur Madison atribuíra as culpas a Alex, dizendo-lhe que, se ela tivesse lidado com o noivo de outra forma, ele nunca teria feito o que fez. Alex é que fora a culpada de tudo. Se bem que Cárter tivesse baixado alguns pontos na consideração de Arthur Madison. Investira uns bons milhares do dinheiro da mulher na Bolsa e perdera tudo. Felizmente, ela ainda tinha muito de lado. Mas, fosse como fosse, era a prova provada de que não era muito inteligente.

 

- Sei que achas que o que estou a dizer é muito desagradável, e é. Fiquei preocupado com ele e contigo. E, quando comecei as investigações, fiquei horrorizado com o que descobri. Ele pode ser atraente, e é; tem charme, não o nego; é uma companhia divertida, indubitavelmente; mas não te podes deixar iludir. Tudo o resto nele é um autêntico desastre. E não acredito que, a longo prazo, te possa fazer feliz, se chegar a casar contigo. Nunca se casou. Nunca viu necessidade de o fazer. Depois de se divertir com uma mulher, passa à seguinte. Não é uma pessoa séria. Não é isso que quero para ti. Não quero que se aproveite de ti e depois te dê um chuto. Ou, pior ainda, que se case contigo para resolver necessidades financeiras. Podia estar enganado, mas acho que não - disse, num tom triste.

 

Mas, fosse como fosse, estas palavras só aumentavam ainda mais a devoção de Alex por Coop. O discurso do pai tivera o efeito contrário. Ouvir que a dívida de Coop se cifrava naquele montante fê-la ter pena do velho actor.

 

De repente, o bipe tocou. Não se tratava de uma urgência, mas Alex aproveitou o facto como pretexto para terminar com o encontro. Não haviam tocado na comida. O que ele tinha para dizer era muito mais importante e fazia parte das suas obrigações de pai. Já discutira o assunto com a mãe, que, como de costume, não queria meter-se. Mas incitara-o a falar com Alex. Alguém tinha de fazê-lo. E ele estava sempre disposto a fazer o trabalho ingrato. Fora uma hora muito desagradável para ambos.

 

- Tenho de voltar para o hospital - anunciou Alex, levantando-se.

 

- Acho que o melhor que tens a fazer é afastares-te. Seres vista com ele só irá prejudicar a tua reputação. Terás todos os caçadores de fortunas do mundo atrás de ti. - Até agora, principalmente devido aos seus próprios esforços e ao seu modo de vida, Alex conseguira evitar isso. As pessoas com quem trabalhava não faziam ideia de quem ela era ou, mais importante ainda, de quem era o seu progenitor. Irão seguir o rasto do teu sangue na água, depois de Winslow te dar com os pés. - Outra bonita imagem. Madison via a filha como engodo para os tubarões. Alex sabia que o pai se preocupava com ela, mas o modo como se expressava era revoltante. A percepção que tinha do mundo afigurava-se-lhe patética. Suspeitava de toda a gente e só via o lado negativo das coisas. Para ele, era inconcebível que, independentemente da reputação ou situação financeira de Coop, este pudesse estar efectivamente apaixonado por ela. - Vais a Newport no Verão? - perguntou, tentando amenizar o tom da conversa.

 

Alex fez que não com a cabeça.

 

- Não posso deixar o trabalho.

 

Mesmo que pudesse, preferia ficar em Los Angeles. Não tinha o menor desejo de ver a mãe, a irmã, Cárter ou o pai, ou qualquer um dos seus amigos. Há muito que renunciara àquele mundo. Ficaria na Califórnia com Cooper.

 

- Vai telefonando - disse Madison, num tom frio, enquanto lhe dava um beijo de despedida.

 

- Eu telefono. Dê cumprimentos à mamã.

 

Esta não vinha ver Alex. Nunca viera. Esperava que Alex fosse visitá-la a Palm Beach. No entanto, estava sempre pronta para ir visitar os amigos a qualquer canto do mundo. Não havia nada em comum entre as duas. A mãe nunca sabia o que dizer-lhe, por isso, raramente telefonava. Sempre considerara a filha mais velha a ovelha negra da família, e nunca percebera a sua inclinação pela carreira médica. Deveria ter ficado em casa e casado com um rapaz bonito de Palm Beach. Apesar de as coisas não terem dado certo com Cárter, havia muitos outros homens como ele. Mas Alex não queria ninguém como Cárter. De momento, estava feliz com Coop, apesar de tudo o que o pai dissera.

 

Arthur Madison acompanhou a filha até ao elevador e, mal as portas se fecharam, virou-se e foi-se embora, enquanto Alex fechava os olhos, ao mesmo tempo que sentia o corpo entorpecido. O pai provocava sempre esse efeito nela.

 

 

Enquanto Alex se encontrava com o pai, Coop descansava debaixo de uma árvore, junto à piscina. Tinha o cuidado de não se expor ao sol, para proteger a pele. Essa era uma das razões por que parecia nunca envelhecer. Adorava a tranquilidade da piscina durante a semana. Não se via vivalma em redor. Mark e Jimmy tinham ido trabalhar, e os miúdos estavam na escola. Com ar pensativo, tentava imaginar o que Arthur Madison estaria a dizer. Tinha quase a certeza de que o tema da conversa era ele. E não alimentava a menor dúvida de que o velho Madison não daria o aval ao seu romance com a filha. Só esperava que Alex não viesse aborrecida do encontro. Mas até Coop se via forçado a admitir que Madison, enquanto pai, tinha motivos para estar preocupado. Já devia saber dos graves problemas financeiros que o afligiam.

 

Pela primeira vez na vida, Coop estava aborrecido com o que alguém poderia pensar dele. Apesar das dificuldades financeiras que enfrentava, fora sempre de uma grande honestidade para com Alex e nunca tentara aproveitar-se dela, embora essa ideia ainda o houvesse assaltado. Aliás, começava a suspeitar que estava mesmo apaixonado por ela, fosse qual fosse o significado da palavra paixão. Ao longo dos anos, o termo significara coisas diferentes. Ultimamente, era sinónimo de uma relação tranquila e sem sobressaltos. Às vezes, o facto de sentir que gostava de Alex era suficiente. Havia tantas mulheres da laia de Charlene...

 

Era muito mais reconfortante estar com Alex, uma mulher justa, meiga, divertida, e sem grandes exigências. E como era auto-suficiente do ponto de vista financeiro, Coop sabia que, se ficasse numa situação económica desesperada, poderia contar com ela. O dinheiro de Alex era como um fundo de garantia. Ainda não precisava dele, mas poderia vir a precisar. Não era por isso que a namorava, mas o seu dinheiro dava-lhe uma certa segurança.

 

A única coisa que não lhe agradava era o facto de ela querer filhos. Um mal terrível. E uma pecha na sua relação.

 

Não se podia ter tudo. Talvez o facto de ser filha de Arthur Madison fosse suficiente para servir de compensação. Ainda não pensara a sério nesse assunto. Mas, mais cedo ou mais tarde, teria de fazê-lo. Alex ainda não o pressionara nesse sentido.

 

Quando voltou para casa, Coop deu de caras com Paloma, que limpava o pó, ao mesmo tempo que comia uma sanduíche. E, enquanto o fazia, ia deixando cair pingos de maionese em cima do tapete. Coop chamou-lhe a atenção para esse facto.

 

- Desculpe - replicou Paloma, enquanto pisava a nódoa com os ténis a imitar pele de leopardo.

 

Coop já desistira de a ensinar. Tentavam viver lado a lado, evitando confrontos. Apercebera-se, semanas antes, de que Paloma também trabalhava para os Friedman, mas, desde que fizesse tudo o que tinha de fazer para si, não se importava. Estava a tornar-se mais tolerante. Talvez por influência de Alex. Os vidraceiros arranjavam a janela da sala de estar. Ainda não esquecera o incidente com a bola de basebol. Se um dia tivesse filhos, esperava que não fossem rapazes. Só de pensar nisso sentia náuseas. E lembrou-se da maldita Charlene. Pelo menos, nessa semana, não aparecera nos tablóides.

 

Estava a deitar chá gelado num copo quando o telefone tocou. Pensou que talvez fosse Alex, mas não reconheceu a voz do outro lado do fio. Era uma mulher chamada Taryn Dougherty, que queria encontrar-se com ele.

 

- É produtora? - indagou Coop. Desde que rebentara o escândalo com Charlene, descurara um pouco as questões de trabalho. Tinha outras coisas em mente.

 

- Não, sou designer. Mas não foi por isso que telefonei. Gostava de discutir um assunto consigo.

 

Coop desconfiou, de imediato, que pudesse ser uma repórter, e arrependeu-se de ter atendido o telefone e de já se ter identificado. Mas agora não podia dizer que era o mordomo e que Mr. Winslow não se encontrava em casa, como costumava fazer às vezes, desde que Livermore partira.

 

- Que tipo de assunto? - perguntou, num tom frio. Nos últimos tempos, não confiava em ninguém.

 

- É um assunto pessoal. Tenho uma carta de uma velha amiga sua.

 

Tudo aquilo lhe parecia misterioso. Talvez se tratasse de uma artimanha. Provavelmente da parte de Charlene. Mas o tom de voz da mulher era agradável.

 

- De quem?

 

-Jane Axman. Não sei se o nome lhe dirá alguma coisa.

 

- Não. É advogada dela? - Também era possível que ele lhe devesse dinheiro. Recebia muitos telefonemas desse género.

 

- Sou filha dela.

 

A mulher não parecia querer adiantar mais nada, mas frisou que era importante e que não lhe roubaria muito tempo. Coop ficou intrigado. Esteve tentado a combinar um encontro no Beverly Hills Hotel, mas não lhe apetecia sair. Além disso, aguardava notícias de Alex. Receava que estivesse aborrecida. E não queria atender o telemóvel no meio de um restaurante.

 

- Onde é que está instalada?

 

- No Bel Air Hotel. Acabei de chegar de Nova Iorque. Pelo menos estava alojada num bom hotel. Finalmente, a curiosidade foi mais forte.

 

- A minha casa não fica longe do hotel. Porque não vem até cá?

 

- Obrigada, Mister Winslow. Não lhe tomarei muito tempo. - Apenas queria vê-lo. E mostrar-lhe a carta da mãe.

 

Dez minutos depois, a mulher estava ao portão. Entrou na propriedade, ao volante de um carro alugado. Quando saiu, Coop reparou que se tratava de uma mulher alta e loira, com ar de trinta e muitos anos - trinta e nove, mais exactamente -, muito bonita e elegante, e com uma saia curta. Havia nela algo de familiar, mas não sabia o quê. Não lhe parecia que alguma vez se tivessem encontrado. Quando se aproximou, sorriu, estendeu a mão e cumprimentou Coop.

 

- Obrigada por ter a gentileza de me receber. Peço imensa desculpa pelo incómodo. Só quis tratar deste assunto quanto antes. Há muito que ando com vontade de lhe escrever.

 

- O que é que a trouxe à Califórnia? - indagou Cooper, enquanto a conduzia até à biblioteca. Ofereceu-lhe um copo de vinho, que ela recusou. Pediu um copo de água. Estava um dia quente.

 

- Ainda não sei. Tinha uma empresa de design em Nova Iorque. Vendi-a. O meu sonho sempre foi desenhar guarda-roupas para filmes, mas acho que é uma ideia meio amalucada. Pensei vir até cá ver o que se pode arranjar por aí. E conhecê-lo.

 

- Isso quer dizer que não é casada - deduziu Coop, oferecendo-lhe um copo de água, como ela pedira.

 

- Sou divorciada. Divorciei-me, vendi a empresa, a minha mãe morreu... tudo no espaço de poucos meses. Esta é uma daquelas raras alturas em que não tenho nada que me estorve e posso fazer o que muito bem entender. Ainda não sei se vou gostar, ou se vou ficar aterrada de medo - retorquiu a mulher, sorrindo. Não parecia receosa, muito pelo contrário.

 

- Então, o que é que diz essa famosa carta? Deixaram-me dinheiro de herança? - perguntou Cooper, soltando uma gargalhada.

 

- Receio que não.

 

Coop recebeu a carta. Era longa e, enquanto a lia, levantou várias vezes a cabeça, olhando, espantado, para a mulher. Quando acabou de ler recostou-se no sofá e fixou-a durante algum tempo, sem saber o que dizer ou o que ela pretendia. Devolveu-lhe a carta de semblante carregado. Se se tratasse de chantagem, não estava disposto a admiti-la.

 

- Que quer de mim? - indagou Coop, com brusquidão.

 

A pergunta entristeceu-a. Sempre esperara uma reacção mais calorosa da parte dele.

 

- Absolutamente nada. Só quis conhecê-lo. Achava que também tivesse vontade de me conhecer. É um choque, admito. Para mim também foi. A minha mãe nunca me disse nada. Só encontrei a carta, como ela pretendia, depois da sua morte. O meu pai já morreu há anos. Não sei se ele alguma vez soube.

 

- Espero que não - ripostou Coop, num tom solene. Ainda se encontrava sob o efeito do choque. Mas aliviado por a mulher não querer nada de si. Acreditou nela. Tinha ar de pessoa honesta e era muito bonita. Noutro contexto ter-se-ia sentido atraído por ela.

 

- Acho que não se teria importado. Era muito bom para mim. Deixou-me grande parte do seu dinheiro. Não tinha mais filhos. E se por acaso viesse a saber, não me parece que se voltasse contra a minha mãe ou contra mim. Era um homem muito bom.

 

- Sorte a sua.

 

Coop não tirava os olhos dela. De repente, percebeu por que razão o seu rosto lhe era familiar. Parecia-se com ele. A carta referia que a mãe tivera um romance com Coop quarenta anos antes. Encontravam-se ambos em Londres, a representar uma peça, e o romance fora breve. Quando a peça acabou e ela voltou para Chicago, descobriu que estava grávida. Mas resolveu não dizer nada a Coop. Achava que não o conhecia suficientemente bem para o obrigar a assumir um compromisso mais sério. Era uma ideia estranha, especialmente numa mulher que resolvera levar a gravidez até ao fim. Casou com outro homem, teve a filha, e nunca lhe disse que o homem que ela acreditava ser seu pai não o era. Em vez disso, deixou-lhe uma carta que explicava tudo. Agora, estavam os dois sentados, a examinarem-se um ao outro. O homem que pensava que não tinha filhos via-se, de repente, a braços com dois: esta mulher de trinta e nove anos e o bebé que Charlene carregava. Era uma situação bizarra, para um homem que detestava crianças. Mas Taryn já não era nenhuma miúda. Era uma mulher adulta, parecia respeitável e inteligente, e tinha dinheiro.

 

- Como era a sua mãe? Tem alguma fotografia que me possa mostrar? - Sentia curiosidade de saber se ainda se lembrava dela.

 

- Trouxe uma. Julgo que foi tirada mais ou menos nessa altura.

 

Retirou-a cuidadosamente da mala e passou-a a Cooper. O rosto não lhe era estranho. Ainda se lembrava do papel que ela desempenhava na peça e de estar com ela em palco. Mas de pouco mais. Nessa altura, ele próprio era um doidivanas e bebia muito. Desde aí, tivera um sem-número de mulheres. Contava trinta anos quando Taryn foi concebida.

 

- Isto é tudo muito estranho - disse Coop, devolvendo a fotografia à filha, sem tirar os olhos dela. Era muito bonita, dentro do estilo clássico, e muito alta. Devia ter cerca de um metro e oitenta. Ele tinha pouco mais de um metro e noventa. A mãe também era alta. - Não sei o que dizer.

 

- Não faz mal - redarguiu Taryn Dougherty, num tom afável. - Só quis conhecê-lo. Tive uma vida boa e uns pais maravilhosos. Fui filha única. Não tenho nada a apontar-lhe. Nunca soube que eu existia. A minha mãe sempre guardou segredo, mas também não a censuro. Não tenho qualquer motivo para ficar desapontada com o que quer que seja.

 

- Tem filhos? - indagou Cooper, com voz trémula. Fora um choque descobrir que tinha uma filha já adulta, e ainda não estava preparado para ter netos.

 

- Não. Sempre trabalhei. E nunca quis ter filhos. É embaraçoso, tenho de admitir.

 

- Não é embaraçoso. É genético - retorquiu Cooper, com um sorriso malicioso. - Também nunca quis ter filhos. Fazem muito barulho, andam sempre sujos e cheiram mal.

 

Taryn riu-se. Estava a gostar dele e começava a perceber por que razão a mãe se apaixonara e resolvera levar a gravidez até ao fim. Tinha charme e era divertido. Em suma, um cavalheiro da velha escola. Embora não parecesse muito velho, custava a acreditar que ele e a mãe tivessem a mesma idade. A mãe estivera doente durante anos. Este homem parecia ser muito mais novo do que efectivamente era.

 

- Vais ficar por estas bandas durante uns tempos? - indagou, interessado. Gostava dela e tinha a sensação de que uma espécie de laço os ligava. Mas precisava de tempo para perceber que tipo de laço era esse.

 

- Acho que sim. - Ainda não sabia ao certo o que queria fazer. Mas sentia-se aliviada. Agora que já conhecia o pai verdadeiro, podia ir à sua vida, mantivesse-se ou não em contacto com ele.

 

- Posso ir ter contigo ao Bel Air? Talvez nos devêssemos encontrar de novo. Podias vir cá jantar uma noite destas.

 

- Seria maravilhoso - respondeu Taryn, levantando-se e dando por terminado o encontro, que não ultrapassara a meia hora. Fora fiel à sua palavra. Não queria estar com mais delongas. Fizera o que tinha a fazer. Conhecera o pai verdadeiro. E, agora, ia voltar à sua vida. - E quero frisar que não faço tenções de falar com a imprensa. Isto fica entre nós.

 

- Obrigado - disse Coop, sensibilizado com a atitude da filha. Era uma mulher extraordinária. Não queria nada dele. Taryn gostou do que viu. Cooper também. - Talvez seja uma parvoíce o que vou dizer, mas deves ter sido uma menina bem-comportada. A tua mãe devia ser uma mulher às direitas. - Especialmente por não lhe ter arranjado problemas e por ter arcado com todas as responsabilidades. - Lamento que tenha morrido. - Era uma sensação estranha saber que, enquanto prosseguia a sua vida, algures no mundo, havia uma filha sua, de cuja existência nunca soubera.

 

- Obrigada. Também lamento muito. Adorava-a.

 

Coop deu-lhe um beijo na face. Taryn sorriu. Era o mesmo sorriso que ele via no espelho todos os dias, e que os amigos tão bem conheciam. Olhar para ela causava-lhe uma sensação estranha. As semelhanças consigo eram evidentes, e a mãe, certamente, também reparara nisso. Só esperava que o marido nunca tivesse sabido.

 

Coop manteve-se em silêncio o resto do dia. Tinha muito em que pensar. Quando Alex chegou, às sete horas, ainda estava pensativo, e ela perguntou-lhe se se sentia bem. Coop quis saber como correra o encontro com o pai. Ela respondeu que bem, mas não adiantou mais nada.

 

- Foi grosseiro contigo? Alex encolheu os ombros.

 

- Ele é quem é. Não é o pai que eu teria escolhido, mas é o que tenho - retorquiu Alex. E encheu um copo de vinho.

 

Fora um dia longo para ambos. Coop só lhe falou de Taryn ao jantar. Paloma deixara frango, e Alex acrescentou-lhe massa e fez uma salada. Foi suficiente. O semblante de Coop adquiriu uma expressão estranha.

 

- Tenho uma filha - anunciou, enigmático.

 

- Ainda é muito cedo para ela saber isso, Coop. Está a mentir. Anda a ver se te amolece o coração.

 

Alex estava irritada com aquilo que pensava ser outro dos truques de Charlene.

 

- Não estou a falar dela.

 

Coop parecia aturdido. Estivera toda a tarde a pensar em Taryn. O encontro com a filha abalara-o profundamente.

 

- Há mais alguém que vá ter um filho teu? - perguntou Alex, chocada.

 

- Ao que parece, já teve. Há trinta e nove anos. Coop falou-lhe de Taryn, sem conseguir disfarçar a emoção.

 

- Que história extraordinária! - exclamou Alex, estupefacta. - Como é que a mãe conseguiu guardar esse segredo ao longo destes anos todos? Como é que ela é? - Estava intrigada.

 

- Bonita. Gosto dela. E muito parecida comigo. Mas mais bonita, claro. Gostei muito dela. É uma pessoa muito... íntegra. Nesse aspecto, é como tu. Frontal e séria. Não queria nada de mim, e disse que não ia contar nada à imprensa. Só queria conhecer-me.

 

- Porque não a convidas a vir cá a casa outra vez? - sugeriu Alex, vendo que a vontade de Coop era também essa.

 

- Acho que é o que vou fazer.

 

Porém, em vez disso, foi almoçar com ela ao Bel Air no dia seguinte. Falaram de si próprios e ficaram admirados com as muitas semelhanças que havia entre eles, com os gostos que partilhavam, desde o gelado e a sobremesa favoritos ao tipo de livros de que gostavam. No final do almoço, Coop teve uma ideia estranha.

 

- Não queres ficar alojada no Palacete? - sugeriu. Queria passar mais tempo com a filha. De repente, Taryn

 

surgia na sua vida como uma dádiva do céu e não queria perdê-la. Só queria tê-la perto de si, pelo menos durante uns dias, umas semanas. Taryn também adorou a ideia.

 

- Não quero maçar - disse, cautelosamente, mas a ideia atraía-a.

 

- Não maças nada.

 

Coop lamentava agora ter inquilinos, tanto na casa do caseiro como na ala de hóspedes. Seriam óptimos alojamentos para ela. Mas também dispunha de uma enorme suíte de hóspedes  na ala principal da casa, e Alex não levantaria qualquer objecção.

 

Taryn prometeu mudar-se no dia seguinte e Alex mostrou-se entusiasmada com a ideia. Esta ainda não contara a Coop o que o pai dissera, nem nunca o faria. Sabia que o coração de Coop ficaria destroçado e não havia necessidade de o magoar.

 

Taryn, pelo contrário, parecia ter trazido uma nova alma a Coop. Desde que o conhecia, há poucos meses, Alex nunca o vira assim. Parecia muito mais calmo, totalmente em paz consigo mesmo.

 

 

Taryn mudou-se para o Palacete com muito pouca bagagem e praticamente sem reboliço. Era uma pessoa discreta, educada, afável e de fácil trato. Não pediu nada a Paloma e teve o cuidado de não maçar Coop. Quando conheceu Alex, criou-se, de imediato, uma empatia entre as duas. Eram ambas pessoas íntegras e fortes, que primavam pela simpatia. E Alex também achou Taryn parecida com Coop. Até tinha o mesmo ar aristocrático. Mas diferia dele em duas coisas: viajava com muito pouca bagagem e era estável do ponto de vista financeiro.

 

Passaram vários dias a tentar conhecer-se melhor, a falar dos respectivos passados e a partilhar opiniões sobre tudo e mais alguma coisa. Havia diferenças e semelhanças que os deixavam a ambos intrigados. Depois de se conhecerem melhor, Taryn perguntou-lhe se as suas intenções para com Alex eram sérias, e Coop respondeu-lhe que ainda não sabia. Estava a ser de uma grande sinceridade. Embora se conhecessem há pouco tempo, Taryn conseguira despertar o que de melhor havia em Coop, ainda mais do que Alex. Dava a impressão de que o seu desígnio era esse. Agora que sabia que o pai existia, queria saber quem ele era, e gostava do que via, apesar de ver também as suas fraquezas.

 

- Estou num dilema em relação a Alex - confessou Coop.

 

- Por ser tão nova?

 

Taryn estava deitada à sombra, junto à piscina. Tinha a mesma pele clara do pai e, tal como ele, evitava expor-se ao sol. Coop costumava dizer que era devido aos seus antepassados britânicos que tinha a pele ”inglesa”.

 

- Não, já estou habituado a isso. As mulheres novas não me chateiam - respondeu Coop, esboçando um sorriso. Ela até já é um pouco velha para mim. - E ambos riram do comentário. Também já lhe falara de Charlene. - O pai é o Arthur Madison. Sabes o que isso quer dizer. Estou sempre a questionar-me sobre as razões por que ando com ela. Além disso, estou atolado em dívidas. - A sua sinceridade provocava admiração em Taryn. - Às vezes, tenho a sensação de que ando atrás do dinheiro dela. Outras vezes, já não sinto isso. Seria uma forma fácil de resolver os meus problemas financeiros. Talvez demasiado fácil. Será que a amaria na mesma se ela não tivesse um tostão furado?, pergunto-me muitas vezes. Ainda não sei a resposta. Estou confuso.

 

- Talvez isso não tenha importância.

 

- Mas talvez tenha - replicou Coop. Taryn era a única pessoa com quem podia falar com toda a franqueza, porque não tinha qualquer interesse na questão e ele não queria nada dela. A única coisa que queria era tê-la na sua vida. Pela primeira vez estava próximo do amor incondicional. E tudo acontecera de um dia para o outro, como se já estivesse à espera que Taryn entrasse na sua vida. Precisava dela. E talvez Taryn também precisasse dele. - Quando o sexo e o dinheiro se encontram, dá confusão. Tem sido sempre assim ao longo da minha vida. - Estava a adorar partilhar os seus segredos com ela, e surpreendido consigo mesmo.

 

- Talvez tenha razão. Também tive um problema desses com o meu marido. Pusemos a empresa de pé e acabámos por ir cada um para seu lado. Ele só se importava com o lucro. Eu fazia a parte de design e recebia os louros do trabalho, o que o deixava roidinho de ciúmes. No processo de divórcio, tentou ficar com a empresa. Chegou a dormir com a minha assistente, acabando por ir viver com ela, e eu quase fiquei de rastos por causa disso.

 

- Lá está. Dinheiro e sexo. É uma mistura explosiva.

 

- As suas dívidas são muito elevadas? - indagou Taryn, preocupada.

 

- Muito, mesmo. A Alex não sabe. Nunca toquei nesse assunto. Não queria que ela pensasse que andava atrás do dinheiro dela para pagar as minhas dívidas.

 

- E anda?

 

- Não tenho a certeza. Seria muito mais fácil do que andar a esfalfar-me a fazer anúncios e sabe Deus que mais. Mas é uma mulher impecável e não quero dinheiro dela. Se fosse outra, talvez. E também não quero dinheiro teu. Não queria misturar as coisas, nem estragar o que já tinham alcançado. Gostava das coisas tal como estavam. Tudo era claro entre eles, e era assim que queria continuar. - A única coisa de que preciso é de um papel num filme decente, um bom papel, para levantar a cabeça. Mas sabe-se lá quando é que isso irá acontecer. Se calhar, nunca. Não é fácil dizer isto.

 

- E se esse papel não aparecer? - Taryn parecia preocupada. Coop encarava as questões económicas com alguma ligeireza.

 

- Acaba sempre por aparecer qualquer coisa.

 

E se isso não acontecesse, lá teria de se voltar para Alex. De repente, apontou para os pés de Taryn.

 

- Algum problema? - Taryn estivera na pedicura e pintara as unhas de cor-de-rosa. Pensou que talvez ele preferisse vermelho. Mas sempre usara aquela cor. O verniz vermelho lembrava-lhe sangue.

 

- Tens os pés iguais aos meus! - exclamou Coop, espantado. Pôs os pés ao lado dos dela e riram-se. Pareciam gémeos. Tinham os mesmos pés compridos e elegantes. - E as mesmas mãos!

 

Não havia qualquer dúvida de que era mesmo sua filha. Não que quisesse que não fosse. Ainda pensara apresentá-la como sobrinha. Mas, à medida que se iam conhecendo melhor, só a queria apresentar como filha. E perguntou-lhe o que achava.

 

- Acho óptimo, desde que isso não o prejudique.

 

- Não vejo porquê. Podemos dizer que tens catorze anos.

 

- Prometo não dizer a ninguém que idade tenho - retorquiu Taryn, e riu-se. Até o riso era praticamente igual. Para mim, é óptimo. Com a minha idade, é uma chatice estar outra vez solteira. Estou quase com quarenta. Casei-me aos vinte e dois.

 

- Que seca deve ter sido a tua vida! - comentou Coop, em tom de censura, fazendo com que Taryn se risse. Adoravam estar um com o outro. - Já estava na altura de fazeres uma mudança. Tens de arranjar um namorado.

 

- Ainda não. Não estou preparada. Preciso de ganhar fôlego. Perdi o marido, a empresa e a minha mãe, e ganhei um pai, tudo no espaço de meses. Preciso de tempo. Tenho muita coisa para assimilar.

 

- E o trabalho? Vais procurar alguma coisa por estes lados? - O instinto protector de Coop estava a vir ao de cima.

 

- Não sei. Sempre quis desenhar roupa, mas é capaz de ser uma ideia extravagante. Não preciso de trabalhar. A empresa foi muito bem vendida e a minha mãe deixou-me o que tinha. O meu pai... o meu outro pai - corrigiu, com um sorriso - também me arranjou um bom pé-de-meia. Talvez eu o possa ajudar. Sou extremamente organizada e sei o que é necessário fazer para sair de uma situação difícil.

 

- Devem ser os genes da tua mãe. Eu sou ao contrário. O caos financeiro é algo que já me é familiar - comentou Coop, com grande sentido de humor e humildade, o que deixou Taryn ainda mais cativada.

 

- Descreva-me a sua situação financeira e eu dir-lhe-ei o que penso.

 

- Talvez consigas interpretar aquilo que o meu contabilista diz e que é essencialmente isto: ”Não compre nada e venda a casa.” É um homenzinho chato.

 

Quando Alex estava presente, faziam o jantar juntos, iam ao cinema e tinham conversas intermináveis. Mas, se via que estava a mais, Taryn desaparecia discretamente. Não queria fazer de pau-de-cabeleira. Gostava muito de Alex e tinha um grande respeito pelo seu trabalho.

 

Um sábado de manhã, Taryn e Alex estavam deitadas junto à piscina, a conversar sobre o trabalho de Alex, quando Mark e os filhos saíram da ala de hóspedes. Coop encontrava-se no terraço, a ler um livro. Estava constipado e não lhe apetecia nadar.

 

Alex apresentou Taryn aos Friedman, sem referir quem ela era. Mark perguntou se ela e Cooper eram familiares. Havia uma estranha semelhança entre eles, e perguntou a Alex se também já reparara nisso. As duas mulheres desataram a rir.

 

- Para ser franca, ele é meu pai. Já não nos víamos há muitíssimo tempo.

 

As palavras foram ditas com tal naturalidade que Alex teve de conter o riso. Taryn saíra-se bastante bem.

 

- Não sabia que Coop tinha uma filha - disse Mark, espantado.

 

- Nem ele - retorquiu Taryn, com um sorriso. E mergulhou na piscina.

 

-- Que disse ela? - perguntou Mark a Alex, baralhado.

 

- É uma longa história. Pode ser que um dia lha contem.

 

Poucos minutos depois, apareceu Jimmy. O dia estava quente e todos queriam dar um mergulho na piscina. Mark conversava com Taryn, enquanto os filhos recebiam um grupo de amigos que acabava de chegar. Alex pediu-lhes que não ouvissem música, pois Coop estava um pouco adoentado, e eles juntaram-se na outra extremidade da piscina, a falar e a rir, o que deu oportunidade a Alex de conversar calmamente com Jimmy.

 

- Que tal vão as coisas? - perguntou ela, num tom descontraído, deitada numa cadeira, enquanto Jimmy punha protector solar nos braços. Apesar dos cabelos escuros, tinha pele clara. Alex ofereceu-se, de imediato, para lhe pôr creme nas costas. Jimmy hesitou por instantes, depois agradeceu-lhe e virou-se. Mais ninguém lhe fizera tal coisa desde a morte de Maggie.

 

- Mais ou menos. E você? Como vai o trabalho?

 

- Muito trabalho. Às vezes, penso que o mundo só tem prematuros e bebés com problemas. Nunca mais vejo bebés saudáveis.

 

- Deve ser um trabalho deprimente.

 

- Não propriamente. Muitos deles ficam bons. Outros, não. Ainda não me habituei a essa ideia. - Ficava de rastos quando um bebé morria. Era uma tristeza para toda a gente. Mas as vitórias eram saborosas. - Os miúdos com quem trabalha também não têm uma vida fácil. Custa imaginar como algumas pessoas tratam os filhos.

 

- Também nunca me conseguirei habituar a isso.

 

Tanto um como outro já haviam assistido a muitas situações dramáticas. E cada um à sua maneira tentava salvar vidas.

 

- O que a levou a querer ser médica?

 

- A minha mãe.

 

- Também é médica?

 

- Não, leva uma vida de total futilidade. Passa o tempo nas compras, em festas e na manicura. A minha irmã também. E eu queria fazer algo diferente de tudo isso, custasse o que custasse. Quando era miúda, queria ser piloto de aeronaves. Mas também me pareceu uma profissão chata. É quase como ser motorista de autocarro. O que faço é mais interessante, é diferente todos os dias.

 

- O meu trabalho também é assim. Quando andava em Harvard, queria ser jogador de hóquei no gelo, nos Bruins. Mas a minha namorada convenceu-me de que ficaria com um aspecto horrível sem dentes. Acabei por lhe dar razão. Mas ainda gosto de patinar. - Ele e Maggie costumavam patinar imenso, mas procurou não pensar nisso. - Quem é a mulher que está a falar com o Mark? - indagou, visivelmente interessado, e Alex sorriu.

 

- É filha de Coop. Vai ficar com ele durante uns tempos. Acabou de chegar de Nova Iorque.

 

- Não sabia que ele tinha uma filha. - Jimmy parecia surpreendido.

 

- Para ele também foi uma surpresa.

 

- Deve ter um monte de filhas destas.

 

- Esta foi uma boa surpresa. É uma jóia de pessoa. Mark também parecia partilhar da mesma opinião. Há uma hora que estavam a conversar, e Jessica metralhava-a com perguntas. Jason andava atarefado a empurrar os amigos para dentro da piscina. - São bons miúdos.

 

- Sem dúvida. O Mark é um homem de sorte, pelo menos com os filhos. Mas não devem tardar a voltar para a mãe. Vai sentir imensas saudades dos miúdos.

 

- Talvez também volte para lá. E você? Vai ficar por cá ou vai voltar para o Este?

 

Alex sabia que Jimmy era de Boston e, de repente, lembrou-se que ele talvez conhecesse um primo seu, que andara em Harvard na mesma altura.

 

- Gostava de ficar por cá - respondeu Jimmy, com ar pensativo. - Embora esteja com pena da minha mãe. O meu pai morreu e ela está sozinha. Sou a única pessoa que tem no mundo. - Alex perguntou-lhe se conhecia o primo.

 

Jimmy esboçou um sorriso. - Luke Madison era um dos meus melhores amigos. Vivíamos na mesma camarata. Costumávamos apanhar valentes pielas aos fins-de-semana. Se calhar, já não nos vemos há uns bons dez anos. Acho que foi para Londres quando acabámos o curso e perdi-lhe o rasto.

 

- Ainda lá está. E tem seis filhos. Todos rapazes. Também não o vejo com muita frequência, só nos casamentos. E mesmo a esses vou muito raramente.

 

- Alguma razão particular?

 

Jimmy continuava a não perceber a atracção de Alex por Coop. Achava que não fazia qualquer sentido, mas, como é óbvio, não tocou no assunto. Não morria de amores pelo velho actor. Não sabia muito bem porquê. Tratava-se de uma aversão instintiva. Talvez ciúmes. Coop não passava de um mulherengo que só pensava nos prazeres carnais. E isso ia contra os seus princípios.

 

-Já uma vez tive um mau... casamento. Isto é... Alex explicou o que se passara e Jimmy riu-se.

 

- Foi pena. Os bons podem ser extraordinários. O meu foi. Não a boda em si, mas o casamento, enquanto relação. Maggie era uma mulher espectacular.

 

- Lamento muito o que se passou.

 

Alex sentia imensa pena dele, mas Jimmy parecia melhor. Não andava tão angustiado, nem tão pálido. E já engordara uns quilinhos. Os serões passados com os Friedman faziam-lhe bem e, pelo menos, comia. Além de nutrir uma grande amizade pelos miúdos.

 

- Há dias em que a tristeza parece que me vai matar. Outras vezes, dá a impressão de que nem sequer a sinto. Nunca sei com que disposição é que vou acordar no dia seguinte. Um dia que me está a correr bem pode transformar-se num pesadelo. E um dia que começa da pior maneira, em que só tenho vontade de morrer, pode, de repente, dar a volta. É como uma dor ou uma doença, nunca se sabe como vai evoluir. Acho que já estou a habituar-me. Ao fim de algum tempo, passa a ser um modo de vida.

 

-Julgo que só o tempo conseguirá sarar essa dor. - Era um lugar-comum, mas Alex achava que correspondia à verdade. Maggie falecera há quase cinco meses. Quando se mudou para ali, Jimmy parecia meio morto. - Muitas coisas são assim, embora talvez não tão duras. Levei muito tempo a digerir o casamento que nem sequer se chegou a realizar.

 

- Acho que são casos diferentes. O seu tem a ver com confiança. O meu, com perda. É mais puro. Não há ninguém a quem culpar. Dói muito. - Falava com toda a sinceridade e Alex achou que lhe estava a fazer bem desabafar. Quanto tempo ainda vai durar a sua especialização?

 

- Mais um ano. Às vezes parece uma eternidade. São muitos dias, muitas noites. Provavelmente, ficarei na UCLA, mesmo depois de acabar a especialidade, se me quiserem. Têm uma Unidade de Cuidados Intensivos de Neonatologia extraordinária. É uma especialidade difícil, não há muitos neonatologistas. Ia ser uma simples pediatra, mas fiquei fascinada pela Neonatologia. Andamos sempre com a adrenalina no máximo, nunca morremos de tédio.

 

Entretanto, Taryn e Mark, que haviam estado a conversar sobre legislação fiscal e paraísos fiscais, aproximaram-se de Jimmiy, que esboçou um sorriso ao vê-los. Taryn era quase da mesma altura que Mark. Formavam um casal engraçado e eram quase da mesma idade.

 

- De que estão vocês os dois a falar? - perguntou Mark, enquanto se sentava.

 

- Trabalho. De que mais poderia ser? - gracejou Alex.

 

- Também nós.

 

E enquanto falavam, uma chusma de adolescentes atirou-se para dentro da piscina. Alex sentiu um grande alívio por Coop não se encontrar ali. Teria ficado doente. Fora esplêndido que a sua única filha só tivesse aparecido aos trinta e nove anos. Para ele, era a idade ideal de um filho. Alex comentara isso com Taryn no dia anterior e não conseguiram evitar o riso. Coop tinha uma fobia visceral a crianças.

 

Cinco minutos depois, os miúdos começaram um animado jogo de pólo, e Mark e Jimmy juntaram-se-lhes.

 

- É um bom homem - disse Taryn, referindo-se a Mark. - Acho que se foi muito abaixo quando a mulher o abandonou. Foi uma sorte para ele os miúdos terem resolvido voltar.

 

- O Coop é que não ficou lá muito contente - comentou Alex. - Mas são crianças adoráveis - afiançou.

 

- Como é o Jimmy? - perguntou Taryn, interessada.

 

- É uma pessoa triste. Perdeu a mulher há quase cinco meses. Tem sido muito duro para ele.

 

- Outro?

 

Parecia uma epidemia, mas Alex apressou-se a fazer um gesto negativo com a cabeça.

 

- Não. Cancro. Tinha trinta e dois anos - sussurrou. Jimmy acabava de marcar um ponto para a sua equipa. No instante seguinte, passou a bola a Jason, que marcou outro ponto. O jogo estava a ser disputado com grande algazarra e impetuosidade. Entretanto, do sítio onde se encontrava, Coop fez-lhes sinal para voltarem. Estava pronto para almoçar. - Acho que o mestre nos chama.

 

- É feliz com ele, Alex? - inquiriu Taryn.

 

- Sou. Só é pena ele não gostar de crianças.

 

- Não se importa com a diferença de idades?

 

- Ao princípio, ainda pensei nisso, mas não acho que tenha importância. Às vezes, parece um miúdo.

 

- Mas não é.

 

- É o que o meu pai diz.

 

- Ele não aprova? - Não ficou espantada. Ter Coop como genro não era o sonho de nenhum pai, a menos que tivesse uma fixação especial por estrelas de cinema, o que parecia pouco provável, sendo o pai de Alex quem era.

 

- Para dizer a verdade, ele nunca aprova o que eu faço. E está preocupado com Coop.

 

- É natural. Pela vida que ele tem levado. Está preocupada com a rapariga que diz que vai ter um filho dele?

 

- Não. Porque ele também se está nas tintas para ela. E ainda não se sabe se o filho é dele.

 

- E se for? Encolheu os ombros.

 

- A única coisa que ele terá de fazer é mandar-lhe um cheque todos os meses. Diz que nem sequer quer ver a criança. Está furioso com ela.

 

-- É compreensível. É pena ela não querer fazer um aborto. Tornaria as coisas mais simples para todos.

 

- Por um lado, é verdade. Mas se a sua mãe tivesse feito o aborto, você não estaria aqui. E ainda bem que não o fez.

 

Especialmente por Coop. Tê-la como filha significa muito para ele. - Alex achava que era uma bênção para os dois.

 

- Ele também significa muito para mim. Nunca imaginei que isso viesse a acontecer. Ou talvez imaginasse. Foi por isso que vim. Estava mortinha de curiosidade. Tenho uma grande amizade por ele. Não sei que tipo de pai é que ele teria sido quando eu era nova, mas agora é um amigo maravilhoso.

 

A aparição de Taryn tivera um efeito positivo em Cooper. Era como se tivesse encontrado a peça que faltava no puzzle da sua vida, uma peça que nem ele próprio sabia estar perdida.

 

As duas acenaram para todos os outros em sinal de despedida e voltaram, em passo lento, para casa. Coop aguardava-as.

 

- Estão a fazer uma barulheira infernal! - queixou-se. A constipação causava-lhe mal-estar.

 

- Não tardam a sair da piscina - assegurou-lhe Alex. Está na hora de almoço.

 

- E se fôssemos os três almoçar ao Ivy? - sugeriu Coop. E ambas adoraram a ideia. Foram mudar de roupa e voltaram, vinte minutos depois, vestidas e prontas para sair.

 

Coop conduziu-as até North Robertson, no velho Rolls Royce. Foram o caminho todo a rir e a conversar. Chegados ao restaurante, sentaram-se no terraço. Estava uma tarde magnífica. Alex olhou para Coop e trocaram um sorriso. Sabia que estava tudo bem no mundo dele, assim como no seu.

 

 

O mês de Maio estava quase no fim quando Alex, que fazia um turno de dois dias no hospital, foi chamada à recepção para atender um telefonema. Acabara de passar um relaxante fim-de-semana na companhia de Coop, e as coisas nos Cuidados Intensivos, contra o que era costume, estavam relativamente calmas.

 

- Quem é? - perguntou, ao pegar no auscultador. Acabara de chegar do almoço.

 

- Não sei - respondeu a funcionária. - É uma chamada interna.

 

Alex pensou tratar-se de um colega.

 

- Doutora Madison - disse, num tom de voz formal. --Estou impressionado.

 

Alex não reconheceu a voz.

 

- Quem fala?

 

- É o Jimmy. Tive de vir fazer umas análises e lembrei-me de telefonar. Muito trabalho?

 

- Não, nem por isso. Escolheu uma altura óptima. Acho que estão todos a dormir. Não devia dizer isto em voz alta, mas não houve nenhuma situação de crise durante todo o dia. Onde é que está?

 

Estava contente por Jimmy lhe ter telefonado. Gostara da última conversa que haviam tido. Era uma pessoa impecável, mas com um azar dos diabos. Precisava de amigos, e ela seria a primeira a oferecer-lhe um ombro amigo, sempre que ele precisasse de desabafar.

 

- Estou no laboratório principal.

 

Jimmy parecia perdido e Alex ficou preocupada com a saúde dele. Talvez fosse o stresse. Já para não falar na mágoa que o consumia.

 

- Não quer vir ter comigo? Não posso sair daqui, mas posso oferecer-lhe uma chávena do nosso café intragável, se o seu estômago aguentar.

 

- Adoraria.

 

Era do que estava à espera, quando tomou a liberdade de telefonar. Alex deu-lhe todas as indicações para ele conseguir dar com a Unidade de Cuidados Intensivos.

 

Quando Jimmy saiu do elevador, Alex encontrava-se na recepção a falar ao telefone com uma mãe que acabava de levar a filha para casa. A bebé estava a reagir bastante bem. Estivera cinco meses internada. Era uma das estrelas de Alex.

 

- Então é aqui que trabalha - disse Jimmy, olhando em volta.

 

Havia uma vitrina atrás do balcão da recepção, onde se podia ver uma confusão de equipamentos, incubadoras, luzes e pessoal médico de máscara. Alex também tinha uma à volta do pescoço, além de um estetoscópio. Estava impressionado. Alex encontrava-se no seu elemento natural.

 

- É um prazer vê-lo por aqui - congratulou-se Alex, ao entrar no seu minúsculo gabinete, com o divã onde dormira ainda por arrumar. Costumava atender os pais na sala de espera. - O que é que o traz por cá? Algum problema de saúde? - indagou, preocupada.

 

- Não, simples exames de rotina. Tenho de fazer um exame completo todos os anos, por causa do trabalho. Radiografia ao tórax, o teste da tuberculina, esse tipo de coisas. Já devia ter feito isso tudo há mais tempo, mas não tenho tido disponibilidade. Fartaram-se de me mandar avisos. Agora, disseram-me que só posso ir trabalhar na próxima semana se fizer os exames. Por isso, aqui estou. Tive de pedir dispensa da parte da tarde, porque nunca se sabe quanto tempo é que isto demora. Provavelmente, terei de trabalhar no sábado para compensar.

 

- É o que acontece comigo. - Alex sentiu um grande alívio por ele não estar doente. E deu consigo a perscrutar os olhos castanho-escuros de Jimmy, onde ainda eram visíveis as marcas da dor que o vinha atormentando há meses. - Em que consiste o seu trabalho? - perguntou, interessada, enquanto lhe oferecia um copo de plástico de café intragável.

 

Jimmy bebeu um gole e deixou escapar uma risada.

 

- Vocês servem o mesmo veneno para ratos que nós. Ao nosso, costumamos juntar-lhe uma pitada de areia, dá-lhe um toque especial. - Alex riu-se. Já estava habituada ao café, mas também não gostava dele. - Em que consiste o meu trabalho? Tiro miúdos de lares onde sofrem os piores maus tratos, desde serem sodomizados pelo pai, pelo tio e por dois irmãos mais velhos... mando miúdos para o hospital com queimaduras de cigarros por todo o corpo... ouço os queixumes de mães desesperadas, que não conseguem arranjar comida para os filhos, pois têm sete bocas para alimentar e, ainda por cima, o pai bate-lhes... ponho miúdos de nove, onze anos, em programas de reinserção social... às vezes, limito-me a ouvir... ou a dar uns pontapés numa bola com alguns. -Julgo que era incapaz de fazer isso. Ficaria deprimida. Lido com pequeninos seres que vêm ao mundo já com mazelas, e fazemos o melhor que podemos para lhes proporcionar boas condições de saúde. Mas acho que o seu trabalho dava cabo de mim.

 

- O engraçado é que não dá. - Bebeu um gole de café e arrepiou-se. Era pior do que aquele que bebia no trabalho. Às vezes, dá-nos esperança. Acreditamos sempre que alguma coisa vai mudar. E o que é facto é que, de vez em quando, isso acontece. É o suficiente para recarregar as energias. E, independentemente daquilo que possamos sentir, temos de lá estar. Caso contrário, as coisas complicar-se-ão de certeza. E se o inferno dos miúdos piorar ainda mais...

 

Entretanto, os seus olhos encontraram-se e Alex teve uma ideia.

 

- Quer ir dar uma volta?

 

- Pela UCI? - Parecia espantado. - Não há problema?

 

- Se alguém perguntar, digo que é um médico externo. Se houver uma situação de emergência, mantenha a calma.

 

E deu-lhe um casaco branco para vestir. Era de tamanho médio, ficava-lhe apertado nos ombros e curto nos braços, mas ninguém notaria. O que interessava era o que eles faziam, não a forma como andavam vestidos.

 

- Não se preocupe. Se houver uma urgência, fugirei o mais depressa que puder.

 

Mas nada aconteceu. Nem sequer a solicitaram para o que quer que fosse. Enquanto deambulavam pela unidade, Alex explicava o que estava a acontecer em cada caso, de que problema se tratava e que tipo de tratamento estavam a fazer aos bebés que se encontravam nas incubadoras. Alguns deles eram tão pequenos que nem sequer usavam fraldas. Jimmy nunca vira tantos tubos e tantas máquinas, nem bebés tão franzinos. O mais débil pesava cerca de setecentos gramas, mas as suas hipóteses de sobrevivência eram praticamente nulas. Mas já lá haviam estado bebés com menos peso. Os mais pesados tinham mais hipóteses de sobrevivência, mas até esses corriam sérios riscos. Jimmy ficou de coração dilacerado ao ver as mães sentadas junto às incubadoras, a tocar nos minúsculos dedos dos filhos, aguardando um sinal de esperança. O momento mágico do nascimento tornara-se um pesadelo e, por vezes, tinham de viver nesse stresse durante meses, até saberem como o estado dos bebés evoluiria. Quando saíram da unidade, Jimmy vinha abalado. Nunca conseguiria lidar com todo aquele stresse.

 

- Meu Deus, Alex, é incrível. Como é que consegue aguentar a pressão? - Se cometessem o menor erro, por um segundo que fosse, a vida de uma criança estaria em jogo, e o curso da história de uma família seria alterado irremediavelmente. Era um fardo que ele nunca conseguiria carregar. Mas Alex conseguia, o que fazia com que Jimmy tivesse por ela uma tremenda admiração. - Acho que acordaria todos os dias com medo de vir trabalhar.

 

- Mas o seu trabalho é tão duro como o meu. Se você falha nalguma coisa, ou não faz o diagnóstico correcto da situação, ou se precipita, uma pobre criança pode morrer, ou ser morta, ou ficar com marcas para a vida inteira. Tem de ter o mesmo tipo de instinto que eu tenho. No fundo, a ideia é a mesma, o lugar é que é diferente.

 

- Também é preciso ter um coração enorme para fazer o que você faz.

 

Alex tinha-o. Jimmy já se apercebera disso há muito tempo, daí que não entendesse o relacionamento de Alex com Coop. Enquanto para este tudo tinha de girar à sua volta, para Alex, o centro das atenções eram os seus doentes, e era ela que girava à volta deles. Talvez fosse por isso que a relação entre os dois funcionava.

 

Ficaram a conversar mais um pouco, junto ao balcão da recepção. Entretanto, chamaram Alex para avaliar o estado de saúde de um doente e dar uma consulta, e Jimmy teve de se despedir.

 

- Obrigado por me ter permitido vir até aqui. Estou impressionado.

 

- Tem tudo a ver com o trabalho de equipa. Sou uma peça muito pequena no meio de toda esta engrenagem retorquiu Alex, com humildade, enquanto Jimmy lhe dava um abraço de despedida. E à medida que as portas do elevador se fechavam e Jimmy lhe dizia adeus, Alex retomou o trabalho.

 

Alex só voltou a vê-lo no sábado seguinte, à tarde. Por milagre, conseguira outro sábado livre, mas tinha de trabalhar no domingo. Quando Jimmy apareceu na piscina, já ela, Taryn, Cooper, Mark e os miúdos lá estavam. Taryn trazia um enorme chapéu de aba larga e, como de costume, Coop estava sentado à sombra da sua árvore favorita. Ele atribuía o aspecto jovem da sua pele ao facto de nunca se expor ao sol. E estava satisfeito por ver que Taryn procedia da mesma forma. Com Alex, acontecia o contrário, o que fazia com que passasse o tempo a chateá-la por apanhar demasiado sol.

 

Quando apareceu, Jimmy aparentava um ar mais calmo. Mal viu Alex, sorriu-lhe. Cumprimentou, então, Coop, enquanto Mark e Taryn continuavam a conversar sobre algo que parecia fasciná-los. Os miúdos não haviam convidado os amigos, por isso o ambiente era bastante calmo. Com o bom tempo, a piscina estava em festa permanente, mas, desta vez, eram apenas os residentes do Palacete - um alívio para Coop.

 

Desde que Taryn se mudara, Coop andava de muito bom humor. Passava muito tempo com ela, e já a levara a almoçar ao Spago e ao Lê Dome, e a todos os sítios que habitualmente frequentava. Gostava que o vissem a seu lado e de a apresentar como filha. Ninguém parecia espantado, apenas fingiam haver esquecido que ele tinha uma filha já crescida. Além disso, Taryn era uma mulher respeitável. Coop apresentava-a a toda a gente, e ela parecia gostar de Hollywood. Era um mundo novo e divertido. Mais cedo ou mais tarde, teria de decidir se regressaria ou não a Nova Iorque, ou se arranjaria um negócio em Los Angeles. Não queria tomar uma decisão precipitada. Estava a divertir-se e não se sentia pressionada a fazer fosse o que fosse.

 

Alex achava que Taryn exercia uma boa influência sobre Coop. Embora já antes fosse uma pessoa maravilhosa, parecia menos egocêntrico e mais interessado na vida das outras pessoas. Ao ponto de perguntar a Alex o que fizera no hospital. Mas quando ela lhe falava das complicadas intervenções médicas em que participava, parecia não perceber patavina, como aconteceria com qualquer outra pessoa. Andava feliz e descontraído.

 

Arranjara alguns trabalhos, mas ainda não era suficiente para equilibrar as contas. Abe continuava a queixar-se. Liz também lhe telefonou. Ficou espantada com o número de pessoas que viviam na propriedade e algo preocupada com a possibilidade de os miúdos o aborrecerem. A história de Taryn ter encontrado o pai, ao fim de tantos anos, comoveu-a.

 

- Não o posso deixar sozinho cinco minutos que trata logo de arranjar um novo mundo de pessoas à sua volta.

 

Tal como Alex, também Liz o achava muito mais descontraído e feliz. Mais do que alguma vez estivera. Quando lhe perguntou por Alex, Coop foi vago. Tinha as suas próprias dúvidas a esse respeito, mas não as partilhava com ninguém. Havia uma ideia que ia tomando forma na sua cabeça: se casasse com Alex, nunca mais teria de trabalhar; se não casasse, teria de andar atrás de papéis de participação especial até ao fim da vida. Seria fácil deixar-se guiar pelo coração, mas não queria ir pelo caminho mais cómodo, embora uma parte de si o pressionasse nesse sentido. Alex era uma pessoa tão séria e correcta, e trabalhava tanto que seria indigno da sua parte aproveitar-se dela. No entanto, amava-a, e a vida fácil era algo de muito tentador. As suas preocupações financeiras desapareceriam de uma vez por todas. Por outro lado, receava que, cedendo a essa tentação, Alex o controlasse. Achar-se-ia no direito de o obrigar a fazer aquilo que quisesse, e isso seria um anátema para ambos. De momento, o problema ainda parecia insolúvel. E Alex não fazia a menor ideia do dilema em que ele se debatia, achava que tudo corria bem entre os dois. E assim era, com excepção dos problemas de consciência de Coop, que pareciam alastrar como um tumor benigno dentro de si. Muito por culpa de Alex e Taryn, que haviam conseguido estimular o que de melhor havia nele. Eram mulheres extraordinárias, e exerciam forte influência sobre Coop. Mais do que ele alguma vez sonhara ou desejara. A sua vida sempre fora extremamente simples, sem o fardo da consciência. Mas a voz da consciência parecia ter vindo para ficar. Agora só precisava de descobrir as respostas às perguntas que ela lhe fazia.

 

Ao fim da tarde, Jimmy fora com Jason comprar equipamento desportivo novo, Jessie estava sentada no extremo da piscina a arranjar as unhas na companhia de uma amiga, Taryn e Mark continuavam a conversar calmamente e Coop dormia debaixo da árvore. De repente, Mark virou-se para Alex e convidou os residentes da ala principal da casa para jantar. Os olhos de Alex voaram para os de Taryn, que fez um gesto afirmativo quase imperceptível com a cabeça. Alex aceitou o convite em nome de todos.

 

- Acho que já nos andamos a encontrar de mais queixou-se Coop.

 

Mark e Taryn tentavam jogar ténis, e não havia ninguém por perto, por isso, Alex podia ser franca com ele.

 

- Acho que a Taryn gosta do Mark. Parece-me que a atracção é mútua, e ela queria que eu aceitasse. Não somos obrigados a ir se não quiseres. Ela pode ir sozinha.

 

- Não, tudo bem. Faço tudo o que estiver ao meu alcance pela minha única filha - gracejou, num tom magnânimo. - Todos os sacrifícios são poucos pelos nossos filhos.

 

Na verdade, adorava ter uma filha de quase quarenta anos, embora ela não aparentasse essa idade. Ao dizer isto, lembrou-se de Charlene. Tinha-lhe exigido mais dinheiro. Queria um apartamento maior, num bairro melhor, de preferência perto dele, em Bel Air, e estava a pensar em utilizar a piscina, uma vez que, segundo alegava, se sentia demasiado debilitada para ir a outro sítio. Coop ficou fora de si quando o advogado lhe telefonou e respondeu-lhe que não daria nada a Charlene antes de saber o resultado do exame do ADN, dali a cinco ou seis semanas. Até lá, e atendendo ao modo como ela estava a comportar-se, era persona non grata no Palacete.

 

Alex sentia pena de Coop. Compreensivelmente, era uma situação que ele detestava. E que os trazia a todos sob tensão. Recentemente, uma jovem recebera uma pensão, de vinte mil dólares mensais, de um homem com quem andara envolvida durante dois meses. Mas o pai do bebé em questão era uma estrela de rock com rendimentos astronómicos. O que não era o caso de Coop. Alex estava a par da sua situação económica, depois de ter conversado com o pai. O velho actor nunca lhe falara das suas dívidas e continuava a gastar dinheiro com absoluto desprendimento. Embora não demonstrasse, estava preocupado com a quantia que teria de pagar a Charlene, caso o filho fosse seu.

 

Às sete da noite, dirigiram-se os três até à ala de hóspedes. Taryn vestia um conjunto de calça-e-casaco de seda azul-clara, que ela própria desenhara para a estação anterior. Alex trazia um par de calças de seda vermelha, uma camisa branca e umas sandálias de salto alto douradas. Parecia mais uma modelo ou uma bailarina do que uma médica. Eram vestes que nada tinham a ver com as que geralmente usava no hospital. Jimmy adorou o contraste quando a viu, ao jantar.

 

Descreveu o seu passeio pela Unidade de Cuidados Intensivos, enquanto Taryn e Jessie ajudavam a servir o excelente spaghetti a la carbonara feito por Mark. Jimmy trouxera a salada. E havia tiramisu para sobremesa. Cooper trouxera duas garrafas de vintage Pouilly-Fuissé. E todos ouviram, fascinados, o que Jimmy tinha a dizer do trabalho de Alex. Ela ficou impressionada com a atenção com que ele ouvira as suas explicações, e só o corrigiu uma vez, a respeito de um bebé com graves problemas de coração e pulmões. Mas lembrava-se correctamente de tudo o resto.

 

- Ele sabe muita coisa sobre o teu trabalho - comentou Cooper, secamente, quando voltaram para o quarto. Já passava da meia-noite. Taryn resolvera ficar mais um pouco. Estava a gostar de conversar com Mark e Jimmy. Os miúdos haviam saído com amigos e iam passar a noite em casa deles. Fora um serão agradável. - Quando é que ele te foi visitar ao hospital? - indagou, com frieza. Alex ficou espantada. Estava com ciúmes. Não havia razão para tal, mas sentiu-se lisonjeada. Era sinal de que a amava.

 

- Esta semana. Foi fazer exames, por causa do trabalho. Bebemos um café e, depois, fui mostrar-lhe a UCI. Ouviu tudo o que lhe disse com muita atenção.

 

Nem ela imaginava com quanta atenção ele a ouvira. Mas Coop estava mais ciente disso. Sabia como os homens cortejavam as mulheres. E reparara que Jimmy não só se sentara ao lado dela, como também a monopolizara durante grande parte da noite. Alex não se apercebera e não tirara os olhos de Coop, que estava sentado no outro extremo da mesa, entre Taryn e Mark. Mas da outra ponta, onde Mark o colocara, o velho actor tinha boa visão sobre todos os presentes. E não tirara os olhos de Jimmy durante toda a noite.

 

- Acho que ele tem um fraquinho por ti - disparou, com aspereza.

 

A diferença de idades entre Jimmy e Alex não era muito grande e as suas profissões tinham muitos pontos comuns. Coop pertencia a outra galáxia e não estava disposto a competir com homens com metade da sua idade. Era uma indignidade que não toleraria e por que nunca passara. Estava habituado a ser a única estrela no firmamento. Gostava que tudo girasse à sua volta.

 

- Não sejas pateta! Ele anda demasiado deprimido para ter fraquinhos por quem quer que seja. É um farrapo desde que a mulher morreu. Diz que ainda não consegue dormir nem ter apetite. No outro dia, quando conversei com ele, fiquei preocupada. Acho que devia tomar antidepressivos. Mas não lhe disse nada, não o quis chatear.

 

- Porque não lhos receitas tu? - ripostou, num tom desagradável. Alex pôs-lhe as mãos à volta do pescoço e beijou-o.

 

- Não sou médica dele. A ti é que te vou receitar uma coisa. - E meteu-lhe as mãos por baixo da camisa. Era evidente que Coop não gostara da noite, apesar de Alex ter adorado. Gostava de conversar com Mark e Jimmy. Era divertido ter pessoas como eles no Palacete. - Por falar em romances, acho que o Mark e a Taryn se sentem atraídos um pelo outro. Não achas?

 

Coop ficou hesitante, depois fez que sim com a cabeça. Achava Mark um chato.

 

- Penso que ela pode arranjar coisa melhor. É uma rapariga fabulosa e quero apresentá-la a alguns produtores que conheço. Teve uma vida chata, e o marido era um estupor. Ela precisa é de glamour e de animação.

 

Alex achava que ele não estava a perceber a questão. Taryn não se interessava pelo mundo das estrelas. Era uma pessoa sincera e terra a terra, e precisava de um homem de carne e osso. Coop queria apresentá-la aos colegas e amigos. Sentia-se orgulhoso dela.

 

- Veremos o que acontece - disse Alex.

 

Foram para a cama e fizeram amor. Coop sentiu-se muito melhor depois disso, como se tivesse acabado de conquistar o seu território. Enervava-o ver homens mais novos a arrastar a asa a Alex, especialmente quando via que ela também lhes dava troco.

 

Quando acordou, na manhã seguinte, já Alex saíra para o hospital. Eram quase dez da noite quando lhe telefonou, depois de regressar de Malibu, onde fora com Taryn visitar uns amigos. Alex tivera um dia agitado. No tom de voz de Coop não havia o menor sinal da petulância que ela detectara na noite anterior. Alex disse-lhe que só poderiam encontrar-se na noite seguinte, quando saísse de serviço. Prometeu levá-la a um filme que ela há muito queria ver.

 

Alex falou ainda com Taryn. Agora, já quase pareciam uma família. Taryn contou-lhe que ia jantar com Mark no dia seguinte, o que deixou Alex feliz.

 

Pouco depois, foi para a cama. Dormia sempre vestida quando estava de serviço. E deixava as socas ao lado do divã, para o caso de ter de sair a correr devido a uma emergência. Nunca adormecia profundamente, ficava sempre de ouvido meio à escuta do telefone. Quando este tocou, às quatro da manhã, deu um pulo do divã e agarrou no auscultador.

 

- Madison - respondeu, totalmente desperta. E ficou espantada ao ouvir Mark. Pensou que talvez tivesse acontecido algo a um dos filhos, ou até a Coop. Mas, se tivesse alguma coisa a ver com Coop, teria sido Taryn a telefonar-lhe. Algum problema? - perguntou, de chofre. A hora do telefonema deu-lhe a resposta antes de Mark.

 

- Houve um acidente - respondeu ele, aflito.

 

- Em casa?

 

Talvez algum acidente com Taryn e Cooper. Mas Taryn não estava com Cooper. Mark não lhe disse que ela dormia a seu lado. Viera beber um copo, ao fim da noite, e os filhos haviam dormido em casa de amigos, proporcionando aos dois uma liberdade inesperada.

 

- Um acidente de carro.

 

- Coop? - indagou Alex, contendo a respiração.

 

- Não. Jimmy. Não sei o que aconteceu. No outro dia, estávamos a falar acerca do facto de não termos nenhum parente próximo a quem se pudesse telefonar em caso de emergência. Deve ter posto o meu nome nos documentos. Acabaram de me telefonar. Levaram-no para a UCLA. Julgo que está na Unidade de Traumatologia. Pensei que você talvez pudesse ir. Eu e a Taryn vamos já para aí.

 

- Disseram-lhe qual era o estado clínico dele? - perguntou, preocupada.

 

- Não, só me disseram que era grave. Despistou-se em Malibu e caiu de uma ravina com uns trinta metros. O carro ficou desfeito.

 

- Merda! - Pensou, de imediato, que poderia ter sido algo mais do que um simples acidente. Jimmy andava deprimido desde a morte de Maggie. - Viu-o hoje, Mark?

 

- Não.

 

Vira-o na noite anterior, mas isso não queria dizer nada. Muitas vezes, os suicidas entram num estado de felicidade, de euforia até, quando tomam a decisão de se matar. Mas, na noite de sábado, ao jantar, parecera-lhe perfeitamente normal.

 

- Vou à Unidade de Traumatologia logo que arranje alguém que me substitua.

 

Assim que Mark desligou, Alex telefonou de imediato para um colega que conhecia bem e já a substituíra noutras ocasiões. Contou-lhe o que se passara e disse-lhe que só precisava de meia hora para ir à Unidade de Traumatologia. Ele mostrou-se disponível e, dez minutos depois, apareceu, com ar ensonado. Entretanto, telefonara para a unidade e a única coisa que lhe puderam dizer por telefone foi que Jimmy se encontrava em estado crítico. Já lá estava há uma hora e havia uma equipa a tratar dele.

 

Quando lá chegou, falou com o chefe da equipa médica, que a informou de que Jimmy partira as duas pernas, um braço e a bacia, tinha um traumatismo craniano e estava em coma. Não era um quadro muito animador. Entrou na sala e manteve-se a alguma distância para não perturbar o trabalho dos colegas. Já o haviam entubado, e estava ligado a uma série de máquinas. Os sinais vitais eram irregulares, e o rosto tinha tantos cortes e hematomas que estava praticamente irreconhecível. Doeu-lhe o coração quando o viu.

 

- O traumatismo craniano é grave? - perguntou ao chefe da equipa.

 

- Ainda não sabemos. Talvez tenha tido sorte. O electroencefalograma está bastante bom. Mas está em coma profundo. Tudo depende do aumento da pressão craniana, que não se pode prever, e do tempo que estiver em coma. - De momento, haviam decidido não o operar para aliviar a pressão craniana. Esperavam que esta voltasse ao normal sem intervenção cirúrgica. O tempo era fundamental. E a sorte. Alex aproximou-se e observou-o durante alguns instantes, em silêncio. Já lhe haviam tratado das fracturas das pernas e do braço, e limpado as feridas, mas Jimmy estava gravemente ferido.

 

Dirigiu-se até à sala de estar, onde já se encontravam Mark e Taryn.

 

- Está muito mal? - indagou Taryn, ainda antes que Mark conseguisse articular qualquer palavra.

 

- Muito. Mas poderia ter sido pior. E o estado dele inda pode piorar, antes de melhorar.

 

Não disse ”se melhorar”, mas pensou.

 

- O que é que acha que aconteceu? - perguntou Mark.

 

Jimmy não bebia muito e era pouco provável que estivesse a conduzir embriagado. Mas Alex não queria partilhar as suas suspeitas com eles. Partilhara-as com o médico assistente. Não que fizesse muita diferença nessa altura. Talvez mais tarde: se Jimmy tentara suicidar-se, teria de vigiá-lo de perto quando saísse de coma.

 

”Conhece este tipo?”, perguntara-lhe o médico assistente, e Alex respondera-lhe que eram amigos. Falara-lhe ainda de Maggie. Ele tomou nota desse facto no quadro, com um ponto de interrogação vermelho.

 

Alex explicou a Mark e Taryn, da forma mais simples que conseguiu, quais os perigos do aumento da pressão craniana e o que isso poderia significar para Jimmy.

 

- Quer dizer que ele pode ter morte cerebral? - Mark ficou horrorizado. Ele e Jimmy tinham-se tornado bons amigos, e não queria que nada de terrível lhe acontecesse.

 

- Pode, mas temos esperança de que isso não aconteça. Tudo depende do tempo que demorar a sair de coma. Dentro de pouco tempo, já saberemos se o seu estado sofreu alterações.

 

- Meu Deus! - Mark passou as mãos pelo cabelo, transtornado. Taryn partilhava a mesma angústia. - Talvez devêssemos telefonar à mãe.

 

- Também acho - retorquiu Alex. Havia sempre a possibilidade de ele morrer. O seu estado era crítico. Quer que eu telefone? - Não eram telefonemas fáceis de fazer, mas dar más notícias fazia parte do seu trabalho.

 

- Não, eu telefono. Devo isso ao Jimmy. - Mark não era pessoa que fugisse às responsabilidades. Encaminhou-se para o telefone e tirou da carteira um número que Jimmy lhe dera para uma eventualidade como aquela. Nunca lhe passara pela cabeça que tivesse de o usar um dia. E ali estava ele a telefonar à mãe, a informá-la de que o filho estava em coma.

 

- Que tal é que ele está? - perguntou Taryn a Alex, em voz baixa, quando Mark foi telefonar. Alex tinha um ar desolado.

 

- Está muito maltratado.

 

Alex deu as mãos a Taryn, enquanto esperavam que Mark voltasse. Quando regressou vinha comovido e levou alguns instantes a recompor-se.

 

- Pobre mulher. Senti-me como se lhe tivesse dado uma machadada no coração. Por aquilo que Jimmy dizia, ele é a única pessoa que tem na vida. É viúva, e ele é filho único.

 

- É muito velha? - indagou Alex, preocupada com o seu bem-estar.

 

- Não sei, nunca perguntei ao Jimmy - respondeu Mark, pensativo. - Não me pareceu muito velha, mas não sei dizer. Desatou a chorar mal lhe contei. Disse que ia apanhar o próximo avião para Los Angeles. Deve chegar dentro de oito, nove horas.

 

Alex foi ver Jimmy novamente, mas ainda não houvera qualquer alteração. E teve de voltar para a sua unidade, deixando Mark e Taryn na sala de estar. Mark perguntou-lhe se ia telefonar a Coop. Eram cinco da manhã.

 

- Espero mais algumas horas e ligo-lhe por volta das oito.

 

Alex deu-lhe o número da sua extensão e do bipe, e pediu que lhe telefonassem se acontecesse alguma coisa. Quando saiu, estavam abraçados um ao outro, e Taryn tinha a cabeça sobre o ombro de Mark.

 

Nessa manhã, graças a Deus, as coisas estavam calmas na Unidade de Cuidados Intensivos de Neonatologia, e Alex, tal como havia dito, telefonou a Coop pouco passava das oito. O velho actor ainda estava a dormir e ficou surpreendido por Alex lhe telefonar tão cedo, mas não se importou. Tinha de se levantar, de qualquer das formas, e Paloma não tardaria com o pequeno-almoço.

 

- O Jimmy teve um acidente ontem à noite - informou Alex, num tom sombrio, logo que Coop ficou completamente desperto.

 

- Como é que sabes? - indagou, desconfiado.

 

- O Mark telefonou-me. Ele e a Taryn estão na Unidade de Traumatologia. Despistou-se na Canyon Road, em Malibu. Tem uma série de fracturas e está em coma.

 

Coop ficou impressionado com a notícia.

 

- Achas que ele se safa?

 

- Nesta altura, é difícil dizer. Não se sabe ainda como é que o estado dele vai evoluir. Depende muito da pressão craniana, das partes do cérebro afectadas e do tempo que demorar a sair do coma. Os ossos fracturados não o vão matar. O mesmo não se podia dizer do resto.

 

- Pobre tipo. Não tem uma pontinha de sorte. Primeiro, a mulher, e agora, isto. - Alex não lhe falou das suas suspeitas de ter sido ele a provocar o acidente. Não possuía dados que pudessem confirmar a sua tese, apenas o seu instinto, e o pouco que conhecia dele. - Bem, vai-me dando notícias.

 

- Não queres vir ter connosco?

 

Alex achava que a iniciativa deveria ter partido dele, mas a Coop não lhe havia ocorrido tal coisa. Não havia nada que ele pudesse fazer por Jimmy. Além disso, detestava hospitais. Deixavam-no nervoso.

 

- Não adianta nada eu ir ter com eles. Além disso, já é tarde para desmarcar o meu preparador físico.

 

Era uma desculpa esfarrapada, mas não tinha a menor vontade de ver Jimmy todo entubado. Esse tipo de coisas dava-lhe náuseas.

 

- Eles estão extremamente abalados com a situação pressionou-o Alex, mas Coop não mordeu o isco.

 

- É compreensível. Descobri, há anos, que ficar sentado na sala de espera de um hospital não ajuda ninguém. Só serve para ficarmos mais deprimidos e chatearmos os médicos. Diz-lhes que os levo a almoçar fora, se ainda estiverem aí à hora de almoço.

 

Coop recusava-se a admitir a gravidade da situação, o que tornava as coisas mais fáceis para si.

 

- Não acho que queiram deixar o Jimmy sozinho. Nem estariam com disposição para ir almoçar fora. Mas

 

Coop evitava o drama a todo o custo. O hospital era um sítio onde não poria os pés, em nenhuma circunstância.

 

- Se aquilo que me estás a dizer é verdade, e acredito que sim, tanto faz eles estarem aí na sala de estar, angustiados, como a almoçar no Spago.

 

Alex achou as suas palavras de um profundo mau gosto, mas não lhe disse nada. Era uma perspectiva completamente diferente da sua. E sabia, por experiência própria, que as pessoas tinham reacções estranhas em situações de stresse. Coop parecia querer evitar a situação.

 

Alex telefonou para a Unidade de Traumatologia às dez, mas não se registava ainda qualquer evolução no estado de Jimmy. A única coisa que Mark sabia era que Mrs. O’Connor já apanhara um avião. Esperava-se que ela chegasse ao hospital pouco depois do meio-dia, se tudo corresse normalmente. Mal arranjou tempo livre, Alex deslocou-se de imediato à Unidade de Traumatologia. Mark e Taryn ainda se encontravam no mesmo sítio. Mark estava com ar destroçado, e Taryn tinha acabado de ir fumar um cigarro. Alex dirigiu-se aos Cuidados Intensivos. Falou com as enfermeiras, que a informaram que Jimmy se encontrava num coma ainda mais profundo. As esperanças de sobrevivência não eram muitas.

 

Alex postou-se, então, em silêncio, ao lado dele, e tocou-lhe, muito ao de leve, no ombro nu. Estava ligado a um sem-número de monitores e ainda tinha agulhas intravenosas em ambos os braços. Fora necessário fazer-lhe uma transfusão de sangue, para compensar as hemorragias internas.

 

- Olá, miúdo - disse Alex, em voz baixa, logo que uma das enfermeiras se foi embora e a deixou a sós com ele. Que raio estás aqui a fazer? Acho melhor acordares já... - Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas. Assistia a tragédias todos os dias, mas esta era diferente. Tratava-se de um amigo, e não queria vê-lo morrer. - Sei que tens saudades da Maggie, Jimmy... mas todos te adoramos... tens uma vida inteira à tua frente... o Jason vai ficar destroçado se te acontecer alguma coisa... tens de voltar já, Jimmy!... tens de...

 

As lágrimas corriam-lhe pelas faces. Continuou ao lado dele, a falar-lhe, num tom firme mas meigo, durante uma boa meia hora. No fim, beijou-o na face, tocou-lhe ao de leve no braço e voltou para a sala de estar.

 

- Como é que ele está? - Mark continuava em pânico. Taryn estava exausta. Tinha a cabeça encostada a uma cadeira e os olhos fechados. Mal ouviu Alex, abriu-os e sentou-se.

 

- Mais ou menos na mesma. Pode ser que reaja, quando ouvir a voz da mãe.

 

- Achas que poderá ter algum efeito nele? - Taryn parecia perplexa. Já ouvira falar no assunto, mas nunca acreditara.

 

- Não sei. Contaram-me que os doentes em coma conseguem ouvir as pessoas que falam com eles. As pessoas regressam dos limiares da morte das formas mais estranhas. A Medicina tem tanto de arte como de ciência. Eu não hesitaria um segundo sequer, se soubesse que isso poderia ajudar um dos meus bebés.

 

- Talvez devêssemos tentar - propôs Mark, ansioso. Estava com medo da reacção da mãe de Jimmy. Não fazia a mínima ideia da idade que teria, pois, se fosse já muito idosa e débil, talvez não resistisse ao choque. - Podemos vê-lo?

 

Já o tinham visto, por instantes, da porta. Mas agora, parecia haver menos frenesim à sua volta. Alex foi perguntar se podiam vê-lo. Fez-lhes sinal para entrar. Taryn só aguentou um ou dois minutos, depois saiu, lavada em lágrimas. Mark manteve-se firme ao lado do amigo e falou com ele, como Alex sugerira. Porém, ao fim de alguns minutos, ficou com a voz de tal modo embargada que teve de parar de falar. Jimmy não tinha boa cor, e embora ainda não estivesse-às portas da morte, parecia moribundo. Alex sabia que essa possibilidade existia, e até Mark se apercebia disso.

 

Sentaram-se os três, na sala de estar e choraram pelo amigo. Fora uma manhã de pesadelo e encontravam-se todos assustados e exaustos.

 

Antes de Alex voltar para o serviço, Mark perguntou-lhe se Coop viria ao hospital.

 

- Não creio. Tem um compromisso esta manhã. Não teve coragem de lhes dizer que o compromisso era com o preparador físico. Sabia que se tratava de uma desculpa, e algo lhe dizia que Coop tinha um medo pavoroso de hospitais.

 

Foi telefonando para a Unidade de Traumatologia de hora a hora. Ao meio-dia e meia, Mark enviou-lhe uma mensagem a dizer que Mrs. O’Connor já se encontrava no hospital. Tinha ido ver o filho mal chegara.

 

- Como é que ela está? - perguntou Alex, extremamente preocupada.

 

- Está de rastos. Mas quem é que não está?

 

- Vou para aí dentro de minutos - prometeu Alex, mas eram quase duas horas quando lá chegou. Tinha surgido uma situação de emergência. - Onde está a mãe do Jimmy?

 

- Ainda está lá dentro com ele. Há quase uma hora. Não sabiam se seria bom se mau sinal. Mas Alex não a censurava. Mesmo com trinta e três anos, Jimmy continuava a ser o seu menino. Não era muito diferente das mães que se sentavam, com ar angustiado, horas a fio, a olhar para os seus bebés. Só que ela conhecia-o melhor e tivera mais tempo para o amar. Mas também tinha mais a perder, se ele morresse.

 

- Não quero intrometer-me - disse, cautelosamente, mas Mark e Taryn convenceram-na a ir dar uma olhadela. Quando entrou, ficou espantada com o que viu. Não deparou com nenhuma senhora de idade, mas com uma mulher pequenina, muito atraente, de cinquenta e poucos anos. Com os cabelos escuros apanhados num rabo-de-cavalo e sem maquilhagem, parecia ainda mais nova. Envergava calças de ganga e uma camisola de gola alta preta. Era a versão feminina de Jimmy, à excepção da silhueta, mais magra e nada atlética, e dos olhos, enormes e azuis, e não castanho-escuros como os dele. Mas as feições eram muito parecidas com as do filho.

 

Estava a falar-lhe calmamente em voz baixa, tal como Alex fizera nessa manhã. E levantou os olhos quando a viu. Julgou tratar-se de uma enfermeira, ou de uma médica.

 

- Há algum problema? - indagou, em pânico, olhando para os monitores e, depois, novamente para Alex.

 

- Não, desculpe... sou amiga de Jimmy... Trabalho aqui. É uma visita informal.

 

Valerie O’Connor fitou-a com olhar triste, durante alguns instantes, depois, continuou a falar com Jimmy. Quando levantou novamente os olhos, Alex ainda se encontrava junto dela e Valerie agradeceu-lhe.

 

Alex voltou para junto de Mark e de Taryn. Estava mais aliviada por a mãe de Jimmy ser suficientemente jovem para aguentar o choque. Nem sequer aparentava idade para ter um filho com trinta e três anos.

 

- É uma senhora simpática - comentou Alex, enquanto se sentava ao lado deles, exausta. Era mais difícil lidar com amigos do que com pacientes.

 

- O Jimmy é louco por ela - acrescentou Mark.

 

- Vocês já comeram? - Ambos fizeram que não com a cabeça. - Deviam ir comer qualquer coisa à cafetaria.

 

- Não consigo comer nada - disse Taryn, com ar abatido.

 

- Eu também não - acrescentou Mark. Não fora trabalhar e encontrava-se na sala de espera há nove horas.

 

- O Coop vem cá ter? - indagou Mark de novo. Estava espantado por o velho actor ainda não ter aparecido. Achava que ele também deveria estar ali.

 

- Não sei. Tenho de lhe telefonar - respondeu Alex. Ia sair de serviço dentro de três horas e estava a pensar voltar a passar por Jimmy, nessa altura, para ver a evolução do seu estado. Mark também teria de voltar para casa por causa dos filhos. Taryn precisava de descansar, estava arrasada. Aguentava ali, com grande estoicismo, desde a primeira hora. Alex telefonou a Coop quando chegou à UCI. Acabara de lanchar junto à piscina e parecia estar de muito bom humor.

 

- Como vai, doutor Kildare? - gracejou. Alex achou o tom desadequado para a ocasião. Apercebeu-se, então, de que ele não tinha a menor ideia da gravidade do estado de Jimmy. Explicou-lhe detalhadamente o que se passava. - Eu sei, querida, eu sei. Mas não posso fazer nada e acho melhor não ficar deprimido. Já basta vocês os três. Nada posso fazer para melhorar o estado dele. E pôr-me para aqui feito histérico contigo também não o vai ajudar em nada. - Tinha razão, mas estas palavras não caíram bem a Alex. Parecia fingir que nada acontecera, e ela continuava a pensar que Coop também deveria estar perto de Jimmy, gostasse ou não de hospitais. Jimmy podia morrer a qualquer momento, e a atitude de Coop chocava-a. - Além disso, detesto hospitais, excepto quando vou ter contigo. Todos aqueles aparelhos fazem-me nervoso miudinho. É tão desagradável...

 

”A vida, às vezes, também é desagradável”, pensou Alex. Também Jimmy tivera de passar por uma situação ”desagradável” aquando da morte de Maggie. Tratara dela até ao último momento e recusara-se a aceitar a ajuda de uma enfermeira. Achou que era esse o seu dever e quis cumpri-lo até ao fim. Mas as pessoas eram diferentes. Coop não gostava de lidar com coisas que não fossem nem bonitas nem agradáveis. E os comas não eram agradáveis, nem os acidentes, nem o aspecto de Jimmy. Mas, ao evitar uma situação destas, Coop não estava a dar apoio a ninguém.

 

- Quando é que voltas para casa? - perguntou, como se nada tivesse acontecido. - Sempre vamos ao cinema?

 

Ao ouvir aquilo, Alex sentiu como que um baque.

 

- Não posso. Não sou capaz. Vou ficar por aqui mais um pouco a tentar dar apoio à mãe dele. O Mark e a Taryn não tardam a ir para casa. Acho que não ficaria bem com a minha consciência se deixasse uma mãe sozinha com o filho comatoso numa cidade estranha.

 

- Que ternura! - ripostou Cooper, em tom de mofa. Não achas que estás a levar isto longe de mais, Alex? Por amor de Deus! Ele não é teu namorado! Pelo menos, espero que não.

 

Alex nem sequer se dignou responder-lhe. O comentário era insultuoso e denotava grande insensibilidade. Os ciúmes que Coop sentia de Jimmy eram inteiramente despropositados.

 

- Vou para casa mais logo.

 

- Talvez a Taryn queira ir ao cinema comigo.

 

O tom era petulante, e Alex sentiu um arrepio. Coop estava a comportar-se como um menino mimado, não como uma pessoa adulta. Esta faceta infantil fazia parte do seu charme.

 

- Não creio que ela vá, mas não custa perguntares-lhe. Até logo! - retorquiu Alex, num tom brusco, e desligou. A reacção de Coop estava a transtorná-la.

 

Às seis horas, quando saiu de serviço e foi ter com Mark e Taryn, já eles estavam de saída. A mãe de Jimmy encontrava-se também na sala de espera. Aparentava uma certa compostura, apesar do ar triste. Mas não parecia tão abatida quanto eles. Também tivera um dia difícil, com o choque da notícia e as várias horas de voo desde Boston até Los Angeles. Mark e Taryn partiram pouco depois. Alex ofereceu-se para lhe ir buscar uma sopa e uma sandes ou um café.

 

- É muito simpática - agradeceu Valerie, esboçando um sorriso -, mas acho que não consigo comer o que quer que seja. - Acabou por aceitar um pacote de bolachas e uma tigela de sopa que Alex lhe trouxe do bar das enfermeiras. - Que sorte a senhora conhecer os cantinhos aqui no hospital - comentou, reconhecida. - Ainda não acredito que isto aconteceu. Coitado do Jimmy. Tem tido uma vida muito complicada. Primeiro, foi a Maggie que adoeceu e morreu, e agora isto. Estou preocupada com ele.

 

- Também eu - disse Alex, com voz sumida.

 

- Ainda bem que ele tem excelentes amigos aqui. Graças a Deus que deu o meu número de telefone ao Mark.

 

E as duas mulheres ficaram a conversar durante algum tempo. Valerie quis saber coisas do trabalho de Alex e já tinha conhecimento da sua relação com Coop. Mark explicara-lhe a situação a fim de evitar que ela pensasse que se tratava da namorada de Jimmy. Mas o filho já lhe dissera, nos muitos telefonemas que haviam trocado, que não voltara a sair com uma mulher desde a morte de Maggie. E Valerie receava que ele nunca mais andasse com ninguém. Jimmy e Maggie formavam um casal perfeito, tinham tido um casamento invejável, tal como ela. Há dez anos que era viúva e há dez anos que não sentia qualquer atracção por ninguém. Aos seus olhos, não havia outro homem na Terra como o pai de Jimmy. Ninguém conseguiria substituí-lo e ela também não tinha qualquer vontade de tentar.

 

Conversaram durante bastante tempo. Valerie pediu a Alex que a acompanhasse da próxima vez que fosse ver Jimmy. Confessou que o facto de ir acompanhada lhe dava mais coragem. No final da conversa, Valerie não conseguiu conter a emoção e chorou. Não imaginava a vida sem ele. Era tudo o que tinha no mundo, embora levasse uma vida muito ocupada. Fazia trabalho de voluntariado com cegos e sem-abrigo, em Boston. Mas Jimmy era o seu único filho, e o simples facto de saber que ele estava algures no mundo, mesmo que longe dela, fazia com que a vida tivesse sentido.

 

Eram quase dez horas quando Alex pediu a uma enfermeira que preparasse uma cama para Valerie no corredor das traseiras. Não queria deixar o filho sozinho. Preferia ficar no hospital, para o caso de acontecer alguma coisa.

 

Eram dez e meia quando Alex telefonou a Coop, mas ele não estava em casa. Taryn informou-a de que o pai fora ao cinema.

 

- Acho que os hospitais o põem nervoso - explicou, mas Alex já sabia disso há muito. Continuava a irritá-la o facto de ele nem sequer tentar enfrentar a situação, preferindo fazer de conta que nada acontecera.

 

- Diz-lhe que, hoje, durmo em minha casa. Tenho de estar no hospital às cinco da manhã. E não quero acordá-lo quando me levantar.

 

- Deixo-lhe um bilhete. Também estou estoirada.

 

Alex disse-lhe que o estado de Jimmy continuava estacionário.

 

Quando foi despedir-se de Valerie, já ela caíra no sono. Saiu em bicos de pés e, nessa noite, ao deitar-se, pensou em Coop, tentando perceber o que sentia. Quando, por fim, se aninhou para adormecer, já chegara à conclusão de que não estava zangada, apenas desapontada. Pela primeira vez, vira uma faceta de Coop de que não gostava. Ainda o amava, mas deixara de o respeitar. Desiludira-a profundamente.

 

 

Na manhã seguinte, no hospital, Alex telefonou a Coop, que lhe disse que ela perdera um filme magnífico. Continuava a recusar-se a encarar a situação. Nem sequer lhe perguntara como Jimmy estava. No entanto, Alex prontificou-se a informá-lo de que o seu estado continuava estacionário. Mas Coop tratou logo de mudar de assunto.

 

- A saga continua - comentou, como se o que Alex acabara de dizer lhe fosse indiferente. Teve vontade de o abanar. Não entendia que a vida de um homem estava por um fio?

 

Quando encontrou Taryn, na Unidade de Traumatologia, falou-lhe no assunto. Mark e Valerie estavam com Jimmy.

 

- Acho que ele não gosta de lidar com situações difíceis reconheceu Taryn.

 

Também ficara um pouco espantada com a reacção do pai, que, ao pequeno-almoço, lhe falara na necessidade de evitar a ”energia negativa”. Mas Taryn suspeitava que o sentimento de culpa o torturava. Por mais natural que fosse a sua reacção, Coop tinha consciência de que não estava a agir correctamente. Mas o que mais aborrecia Alex era a forma como ele conseguia alhear-se por completo da situação. Nem sequer oferecera os seus préstimos a ninguém. Alex sentia-se enganada. E pensou, com alguma preocupação, no que ele faria se, um dia, lhe acontecesse alguma coisa ”negativa” a ela. Enfrentaria a situação, ou iria ao cinema? Era assustador vê-lo fazer tudo o que podia para fugir.

 

Nesse dia, depois de sair do hospital, Alex foi até ao Palacete. Mas não queria pressionar demasiado Coop. Ele recebeu-a com toda a amabilidade, e até encomendara um delicioso jantar no Spago. Era a sua forma de a compensar pelo que não fizera. Para ele, a palavra ”desagradável” não existia. Tudo tinha de ser bonito, divertido, elegante. Conseguira expulsar da sua vida as coisas de que não gostava, ou que o assustavam, e só admitia as que achava divertidas e lhe davam prazer. O problema era que a vida real não era assim. Na vida, havia mais coisas desagradáveis do que agradáveis. Mas não no mundo de Coop. Aí, não deixava entrar as coisas más, fingindo, para si e para todos quantos o rodeavam, que não existiam. O que contava era o gozar as coisas boas da vida. Apesar de tudo, tiveram uma noite maravilhosa, relaxante. Aos olhos de Alex, uma noite surrealista.

 

Entretanto, Alex telefonou para o hospital para se inteirar do estado de Jimmy, mas não disse nada a Coop. Não houvera qualquer alteração. As esperanças começavam a ser mais ténues. Estava em coma há quase quarenta e oito horas. E, a cada dia que passava, as hipóteses de uma recuperação total iam diminuindo. Jimmy tinha mais um, dois dias para acordar do coma. A partir daí, a possibilidade de uma recuperação total estaria definitivamente posta de lado. Poderia sobreviver, mas não seria a mesma pessoa. A única coisa que Alex podia fazer agora era... rezar. Nessa noite, quando se deitou ao lado de Coop, Alex sentia-se profundamente angustiada, não apenas por causa de Jimmy, mas por causa da faceta de Coop que acabava de descobrir e a deixava deprimida.

 

No dia seguinte, estava de folga, mas, mesmo assim, foi ao hospital, para conversar um pouco com Valerie e visitar Jimmy.

 

- Obrigada por me vir fazer companhia - disse Valerie.

 

Estiveram sozinhas durante todo o dia. Mark fora trabalhar. Coop andava em filmagens para um anúncio a uma empresa farmacêutica nacional, e insistira em levar Taryn consigo.

 

Valerie e Alex ficaram na sala de estar durante horas e iam, de quando em quando, junto de Jimmy. Falavam sem parar, como se ele conseguisse ouvi-las. Entretanto, num desses períodos de vigília, Alex, que se encontrava aos pés da cama enquanto Valerie falava com ele, viu-o mexer um dedo do pé. Ao princípio, ainda pensou tratar-se de um reflexo. Então, todo o pé se mexeu. Alex olhou para o monitor, depois, para a enfermeira. Esta também vira. De seguida, muito lentamente, Jimmy procurou a mão da mãe e apertou-a. Havia  lágrimas no rosto de Alex e Valerie, que não parou de falar, dizendo-lhe, numa voz muito calma, que o amava muito e que estava muito feliz por ele se sentir melhor, embora na realidade os sinais fossem ainda muito ténues. Só ao fim de meia hora é que Jimmy abriu os olhos e, quando o fez, olhou para a mãe.

 

- Olá, mãe - murmurou.

 

- Olá, Jimmy - respondeu Valerie, sorrindo por entre lágrimas.

 

Alex teve de conter um soluço que quase a sufocava.

 

- Que aconteceu?

 

- És um péssimo condutor - respondeu a mãe, e até a enfermeira se riu.

 

- Como está o carro?

 

- Em pior estado do que tu. Terei todo o prazer em comprar-te um novo.

 

- Está bem. - Jimmy fechou os olhos, para os abrir de novo e encarar com Alex. - Que fazes aqui?

 

- Estou de folga e aproveitei para te vir visitar.

 

- Obrigado, Alex - retorquiu Jimmy, adormecendo. O médico assistente apareceu, minutos depois, para o examinar.

 

- Conseguimos! - exclamou, com um sorriso radiante. Tratava-se de uma vitória de toda a equipa. E, enquanto examinavam Jimmy, Valerie soluçava nos braços de Alex, no corredor. Chegara a pensar que o filho não resistiria. Sentia um alívio imenso.

 

-Já passou... vai correr tudo bem... - confortou-a Alex, enquanto a abraçava. Fora uma terrível provação para Valerie.

 

Alex conseguiu, finalmente, convencê-la a passar a noite em casa de Jimmy. Descobrira uma chave sobressalente. Coop ainda se encontrava em filmagens quando chegaram. Alex verificou se Valerie tinha tudo o que precisava.

 

- Tem sido maravilhosa comigo - agradeceu Valerie, com os olhos marejados de lágrimas. Tudo a fazia chorar. Haviam sido dois dias de autêntico pesadelo, e começava a sentir-se seriamente abalada. - Quem me dera ter uma filha como você!

 

- E quem me dera ter uma mãe como a senhora! - retorquiu Alex, sorrindo, antes de a deixar.

 

Alex sentia-se agora bastante aliviada. Às onze horas, quando Coop chegou, já ela tomara um banho e lavara a cabeça. Também fora um dia desgastante para ele.

 

- Oh, meu Deus, estou exausto! - queixou-se Coop, enquanto enchia três cálices de champanhe. - Fiz peças na Broadway que demoraram menos tempo do que as filmagens para este anúncio horroroso.

 

Mas, pelo menos, pagaram-lhe bem, e Taryn achara interessante o que vira. Conseguira abstrair-se um pouco da situação de Jimmy, mas fizera vários telefonemas ao longo do dia para se inteirar do seu estado.

 

- Que tal foi o teu dia, querida? - perguntou Coop, num tom descontraído.

 

- Excelente. - Alex sorriu para Taryn, que já sabia da novidade. - Jimmy acordou hoje. Vai ficar internado por uns tempos, mas vai conseguir recuperar.

 

A voz embargou-se-lhe. Fora uma experiência emocionante para todos, excepto para Coop.

 

- E viveram todos muito felizes - acrescentou ele, esboçando um sorriso de superioridade. - Como vês, minha querida, as coisas acabam por se resolver por si só. É muito mais fácil deixá-las na mão de Deus e irmos à nossa vida.

 

Estas palavras eram a negação do que Alex fazia, da sua profissão. Indubitavelmente que Deus controlava tudo, mas ela também contribuía com o seu quinhão.

 

- É uma forma de ver as coisas - retorquiu, calmamente.

 

- Como está a mãe dele? - indagou Taryn, preocupada.

 

- Um pouco abatida. Levei-a para casa do Jimmy.

 

- Com a idade dela, teria sido preferível ficar num hotel, sempre têm serviço de quartos - disse Coop. Como de costume, tinha o mesmo aspecto imaculado e elegante daquela manhã, quando saíra para as filmagens.

 

- Talvez não tenha dinheiro para ficar num hotel, e não é tão velha como esperávamos.

 

- Que idade é que ela tem? - perguntou Coop, parecendo surpreendido.

 

- Cinquenta e três anos - respondeu Taryn. - Já lhe perguntei. É uma mulher muito bonita. Mais parece irmã dele.

 

- Bem, pelo menos não temos de nos preocupar com a hipótese de ela cair e fracturar a anca - gracejou Coop, feliz com aquele desenlace e, naturalmente, aliviado por Jimmy se ter salvo. Só não gostava de melodramas. Agora todos podiam voltar a fazer a sua vida normal. - Bem, o que é que vamos fazer amanhã? - perguntou, com ar radiante.

 

Ganhara algum dinheiro e estava extremamente bem-disposto. E, agora, Jimmy também ia ficar bom. Alex sentiu-se aliviada por ver que Coop estava feliz com a recuperação de Jimmy.

 

- Vou trabalhar - respondeu Alex, a rir.

 

- Outra vez? - Coop parecia desapontado. - Que chatice! Pensei que estivesses de folga e pudéssemos ir fazer compras à Rodeo Drive.

 

- Adoraria. - Alex sorriu. Às vezes, Coop ficava com um ar tão infantil que ela não conseguia continuar zangada com ele. A sua atitude relativamente a Jimmy desgostara-a bastante. - Acho que, no hospital, não gostariam muito de saber que eu não tinha ido trabalhar para andar às compras. Seria difícil de explicar.

 

- Diz-lhes que estás com dor de cabeça, ou que achas que há amianto no hospital e os vais processar..

 

- Talvez vá trabalhar - insistiu Alex, rindo.

 

À meia-noite, foram todos para a cama. Alex e Coop fizeram amor. Na manhã seguinte, ela beijou-o antes de sair. Perdoara-lhe a falta de simpatia por Jimmy. Algumas pessoas não sabem lidar com emergências ou problemas médicos. Estes eram-lhe tão familiares que tinha dificuldade em aceitar que outras pessoas não conseguissem agir como ela. Mas nem toda a gente conseguia fazer o que ela fazia. Sentia uma necessidade premente de arranjar desculpas para o comportamento de Coop. Estava disposta a desculpá-lo desta vez. Era algo que tinha de fazer. O amor, pelo menos aos seus olhos, tinha a ver com compaixão, compromisso e perdão. A definição de Coop talvez fosse um pouco diferente. Teria a ver com beleza, elegância e romance.

 

Nesse dia, durante a sua hora de almoço, Alex aproveitou para ir ver Jimmy. A mãe fora à cafetaria comprar uma sanduíche, e falaram dela por uns instantes. Alex disse que a adorava. Jimmy concordou. Estava calmamente deitado na cama. Ia deixar a UCI no dia seguinte.

 

- Obrigado por teres estado ao pé de mim enquanto estive em coma. A minha mãe disse-me que, ontem, estiveste aqui o dia todo. Foi muito simpático da tua parte. Obrigado.

 

- Não queria que ela ficasse aqui sozinha. É um sítio aterrador para qualquer pessoa - explicou Alex, de olhos fixos nele. Então, resolveu desafiá-lo. Jimmy já se encontrava em condições de responder à pergunta que andava a atormentá-la desde o dia do acidente. - Como é que aconteceu o acidente? Presumo que não andaste a beber. - Estava sentada muito perto dele, e, sem pensar, Jimmy pegou-lhe na mão.

 

- Não, não bebi... não sei, julgo que o carro ficou descontrolado. Pneus velhos... travões velhos... qualquer coisa velha...

 

- O acidente aconteceu por acaso ou foi provocado? A voz de Alex mais parecia um murmúrio. Jimmy fez uma longa pausa, depois, olhou-a nos olhos.

 

- Para ser sincero, Alex, não tenho a certeza... já fiz essa pergunta a mim mesmo. Estava a pensar nela... fazia anos no domingo que... foi fracção de segundos. Acho que comecei a derrapar, e deixei-me ir, e, quando tentei parar, não consegui dominar o carro. Depois, tudo se apagou, e acordei aqui. Era exactamente aquilo de que ela suspeitara. Jimmy estava tão horrorizado como Alex. - Jamais voltaria a fazer uma coisa assim, mas naquela fracção de segundos atirei-me para os anjinhos... felizmente, eles não me quiseram lá e mandaram-me de volta.

 

- Foi um susto tremendo - disse Alex, num tom triste. Magoava-a pensar na dor que o atormentara durante tanto tempo. Aprendera a lição da pior forma. Confrontara todas as suas angústias e terrores, e sobrevivera para contar a sua experiência. - Acho que o acidente foi uma boa terapia.

 

- Sim. Também acho. Tenho pensado muito nisso. Já não suportava a constante sensação de angústia. Sentia-me a afundar e não conseguia vir à superfície. Pode parecer uma loucura dizer isto, mas sinto-me muito melhor agora.

 

- Folgo em ouvir isso. Não vou tirar os olhos de cima de ti. Só te vou largar quando conseguir ver-te pular de alegria à porta de casa.

 

Jimmy riu-se da imagem que Alex criara.

 

- Não creio que vá dar muitos saltos.

 

Ia andar de cadeira de rodas durante um tempo, depois passaria para canadianas. A mãe prontificara-se a ficar para o acompanhar durante o período de recuperação. Os médicos achavam que, dentro de seis, oito semanas, Jimmy já poderia andar. Estava ansioso por voltar ao trabalho, o que era um bom sinal.

 

- Alex - disse, cautelosamente -, obrigado pelo apoio que me tens dado. Mas como é que soubeste o que aconteceu?

 

- Sou médica, lembras-te?

 

- Sim, mas os prematuros não conduzem carros por ravinas abaixo.

 

- Simples intuição. Não sei porquê, mas, quando o Mark me deu a notícia, desconfiei logo.

 

- És uma mulher inteligente.

 

- Gosto muito de ti - retorquiu Alex, num tom sério. Jimmy também gostava dela, mas não se atrevia a dizer-lho.

 

Quando Valerie regressou com a sanduíche, Alex voltou aos seus afazeres. Valerie teceu-lhe, então, um ror de elogios e estava ansiosa por saber mais coisas sobre ela.

 

- O Mark diz que é a namorada do Cooper Winslow. Não o achas um pouco velho para ela?

 

Ainda não se encontrara com Coop, mas sabia quem ele era. O filho, Mark e Alex já lhe haviam falado muito nele.

 

- Aparentemente, ela não é da mesma opinião.

 

- Como é que ele é? - perguntou, enquanto comia a sanduíche de pão integral com peru.

 

Jimmy estava de dieta e, ao vê-la comer, ficou esfomeado. Era a primeira vez, em muito tempo, que se lembrava de sentir fome. Começava a acreditar que talvez tivesse conseguido exorcizar os seus demónios. Talvez o acidente acabasse por se revelar uma bênção.

 

- Coop é arrogante, bem-parecido, charmoso, cortês e egoísta. O problema é que ela não vê isso.

 

- Não estejas tão seguro disso - retorquiu, desconfiada de que o filho estava apaixonado por Alex. - Nós, as mulheres, temos uma maneira especial de ver as coisas: só lidamos com elas quando nos convém. Temo-las em arquivo. Mas não quer dizer que não as vejamos. Além disso, Alex é uma mulher jovem e inteligente.

 

- É brilhante - acrescentou Jimmy, confirmando as suspeitas da mãe.

 

- Sem dúvida. Não irá cometer erros. Talvez só esteja interessada em andar com ele algum tempo, embora deva dizer que me parece uma combinação muito estranha, por tudo aquilo que tenho ouvido dele.

 

Mas ficou muito impressionada, no dia seguinte, quando mandaram Jimmy para um quarto particular, e Coop enviou um gigantesco ramo de flores ao filho. Ainda pensou que talvez tivesse sido Alex, mas concluiu que não. Era o tipo de buque que um homem mandava, não uma mulher. Um homem que está acostumado a deixar as mulheres pelo beicinho. Nem sequer passara pela cabeça de Coop mandar menos de quatro dúzias de rosas.

 

- Achas que ele quer casar comigo?

 

- Espero bem que não! - retorquiu Valerie.

 

Mas também esperava que Coop não casasse com Alex. Merecia melhor do que um actor de cinema idoso. Precisava de um homem jovem, que a amasse, que estivesse a seu lado e lhe desse filhos. Um homem como Jimmy. Mas Valerie não lhes diria nada.

 

Alex vinha visitar Jimmy todos os dias, quer estivesse a trabalhar, quer estivesse de folga. Trazia-lhe livros para o manter entretido e contava-lhe histórias engraçadas. Chegou a trazer-lhe um ”simulador de gases intestinais” com controlo remoto, para ele se meter com as enfermeiras. Não era uma coisa muito digna, mas Jimmy adorava. À noite, costumava vir ter com ele e passavam longas horas a conversar. Do trabalho dele, do dela, do casamento dos pais dele, da vida com Maggie, da angústia que sentiu quando a perdeu. Alex falava-lhe de Cárter, da irmã, dos pais e da relação que quisera manter com eles em pequena e que eles nunca haviam sido capazes de lhe proporcionar. A pouco e pouco, iam desvendando os seus segredos e aumentando a simpatia que sentiam um pelo outro. Se lhes perguntassem o que os unia, responderiam que não passava de pura amizade. Só Valerie tinha consciência de que se tratava de mais do que isso. Estavam a preparar uma mistura explosiva. O único entrave era Coop.

 

Nesse fim-de-semana, Valerie viu com os seus próprios olhos o entrave em pessoa. E teve de admitir que ficou impressionada. Era tudo aquilo que Jimmy dissera: egocêntrico, arrogante, divertido e charmoso. Mas Coop era mais do que isso. Jimmy ainda não tinha idade suficiente para se aperceber do resto. O que Valerie viu em Coop foi um homem vulnerável e assustado. Independentemente do seu aspecto jovem ou do número de mulheres jovens de que se fazia acompanhar, sabia que o jogo estava quase no fim. Sentia-se aterrorizado. Tinha medo de adoecer, de envelhecer, de perder o aspecto jovem, de morrer. A forma como tentara alhear-se do acidente de Jimmy era sinal disso. E os seus olhos indiciavam o mesmo. Por detrás da gargalhada, escondia-se um homem triste. E, por mais charmoso que fosse, Valerie sentia pena dele. Era um homem que tinha pavor de enfrentar os seus próprios demónios. E a história disparatada da jovem que ia ter um filho seu apenas servia para lhe alimentar o ego. E, mesmo que se queixasse da situação, aproveitava-se da história para torturar Alex, lembrando-lhe, subliminarmente, que havia outras mulheres que queriam ter filhos seus. Isso significava que não só era jovem como potente.

 

Não acreditava que Alex estivesse genuinamente apaixonada pelo velho actor. Ele mais não era do que o pai atencioso por que ela sempre ansiara e que nunca conquistara. Eram um grupo interessante. E Mark e Taryn também formavam um casal perfeito.

 

Apesar de tudo, Valerie achava as complexidades de Coop fascinantes. À primeira vista, ela não lhe despertara qualquer interesse. Não correspondia, de forma alguma, ao perfil das mulheres que costumava cortejar. Já tinha idade suficiente para ser mãe delas. O que lhe agradou, como mais tarde confidenciou a Alex, foi a sua graciosidade, o estilo e a elegância de Valerie. Não havia nela nada de pretensioso e não tentava aparentar a juventude que não tinha.

 

- É uma pena ela não ter dinheiro - comentou Coop.

 

- Mas tem ar disso. Ao fim e ao cabo - riu-se -, todos temos ar de endinheirados.

 

Alex era, de todos eles, a única que tinha dinheiro, mas não o ostentava nem esbanjava em futilidades. Na opinião de Coop, o dinheiro só servia para gastar e para passar um bom bocado. Alex escondia o seu, ou ignorava-o. Precisava de lições para aprender a gastá-lo. Lições que ele poderia dar-lhe, mas, de momento, hesitava em fazê-lo. Uma vez mais os problemas de consciência, que continuava a tentar ultrapassar. Al