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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O Palomino / Danielle Stel
O Palomino / Danielle Stel

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O Palomino

 

          

 

            Samantha subia apressadamente os degraus da casa de fachada de arenito pardo, na Rua 63 Este, enfrentando, de olhos semi-cerrados, a forte chuvarada puxada pelo vento, que estava a se transformar rapidamente em granizo. Este lhe fustigava o rosto, provocando ardor nos olhos. Fazia um som ronronante, como que a incitar-se a si própria a prosseguir. Então, parou, arquejante, e enfiou a chave na fechadura, mas não conseguiu fazê-la rodar. Finalmente, a porta abriu-se, e Samantha viu-se envolvida pelo calor do vestíbulo.

            Manteve-se no mesmo sítio durante um longo instante, a sacudir a umidade dos compridos cabelos louro-prateados. Era uma cor rara, mais parecia um emaranhado de fios de prata e ouro puro. Em criança, lhe chamavam "cabecinha de estopa", o que ela detestava; na adolescência e na casa dos vinte, os cabelos atingiram o seu máximo esplendor.

            Agora, aos trinta, já se habituara aos comentários; quando certa vez John lhe dissera que parecia uma princesa dos contos de fadas, riu-se, os olhos a dançar de um lado para o outro, o rosto, belo e de fino recorte, em contraste com os seios volumosos e as ancas ligeiramente roliças. As pernas eram compridas e magras.

            Era uma mulher de mil contrastes: o olhar vivo e perspicaz, num súbito contraste com os sensuais lábios carnudos, os ombros estreitos, os seios volumosos, as mãos compridas e graciosas; a voz suave em oposição com a precisão inteligente das palavras. De certo modo, era de esperar que Samantha Taylor possuísse uma maneira de falar arrastada, que passasse o tempo deitada, com ar voluptuoso, numa espreguiçadeira de veludo, as formas envoltas num roupão adornado com penas de marabu. Em vez disso, era dada a calças de brim e vagueava pelas salas a passos largos.

            Transbordava de vida e energia, à exceção daquela e das últimas cem noites.

            Agora, tal como acontecia desde agosto, encontrava-se em silêncio, imóvel, expectante, a água da chuva a pingar das pontas dos cabelos, à escuta... Mas de quê? Não havia mais ninguém. Estava só na velha casa. Os donos tinham partido para Londres seis meses antes e o duplex fora emprestado a um sobrinho que quase nunca se encontrava lá. Repórter da Paris-Match, passava mais tempo em Nova Orleans, Los Angeles e Chicago do que em Nova Iorque. E depois havia o último andar.

            O domínio de Samantha... só dela agora, embora já tivesse sido também de John, um apartamento que ambos haviam arranjado com tanto carinho e devoção. Todos os centímetros, bolas! pensou Samantha mais uma vez, franzindo ligeiramente o sobrolho, ao mesmo tempo que colocava o guarda-chuva na entrada e começava a subir lentamente as escadas. Detestava vir para casa e fazia o possível para chegar tarde todas as noites. Eram quase nove horas. Chegara mais tarde do que na noite anterior. Nem sequer tinha fome. Perdera-a desde que recebera a notícia.

 

            — Tu, o quê? — Samantha olhou-o fixamente, horrorizada, numa tórrida noite de agosto. O aparelho de ar condicionado estragara e a atmosfera estava sufocante. Viera recebê-lo à entrada, trazendo apenas umas calcinhas de renda branca e um pequeno sutiã lilás sobre a pele. — Enlouqueceste?

            — Não, não enlouqueci. — John fitou-a com ar embaraçado e tenso. Ainda nessa manhã haviam feito amor. A beleza loura de viquingue parecia agora inatingível para Samantha.

            Era uma pessoa que ela nem parecia conhecer.

            — Não posso continuar a te mentir, Sam. Precisava te contar. Tenho de sair de casa.

            Durante um momento que pareceu durar horas, Samantha limitou-se a olhá-lo fixamente. Ele não podia estar falando sério. Só podia estar brincando. O absurdo da questão é que falava mesmo muito a sério. Via-se no ar de agonia estampado no rosto. Samantha encaminhou-se lentamente na direção de John, mas ele abanou a cabeça e virou-se.

            — Não faças isso... Por favor, não.

            Os ombros de John estremeceram ligeiramente e, pela primeira vez desde que ele começara a falar, Samantha sentiu alguma pena a trespassá-la como uma dor lancinante. Mas por que razão sentia pena? Por quê? Como conseguia sentir pena dele depois daquilo que acabara de ouvir?

            — Tu a amas?

            Os ombros que ela tanto amara se limitaram a agitar-se ainda mais, e John não deu qualquer resposta. A pena começava a se desvanecer quando se virou para ele. A raiva fervilhava-lhe na alma.

            — Responde-me, bolas! — Deu-lhe um violento puxão no ombro, e ele virou-se e fitou-a nos olhos.

            — Amo. Acho que sim. Mas, Sam, não sei. A única coisa que sei é que tenho de sair daqui por uns tempos para poder arrumar as idéias.

            Samantha atravessou silenciosamente a sala, parando ao alcançar a outra ponta do tapete francês, que parecia um carpete de flores sob os seus pés nus. Havia violetas minúsculas e pequenas rosas cor de areia, além de uma miríade de flores ainda menores, apenas visíveis de perto.

            A impressão global era a de uma mescla de tons rosados, vermelhos e purpúreos, combinando com as suaves tonalidades de cor-de-rosa, cor de malva e verde-forte dos sofás e cadeiras que ocupavam a enorme sala apainelada. A casa era antiga e tinha uma fachada de arenito pardo; o último andar era deles. Samantha levara dois anos a decorá-lo, com amor, adquirindo bonitas peças de mobiliário estilo Luís XIV, em antiquários e leilões na Sotheby Parke Bernet. Os tecidos franceses, as jarras sempre repletas de flores naturais e os quadros impressionistas davam um toque geral muito elegante ao apartamento, de nítida feição européia.

            Porém, não era a beleza do local que Samantha apreciava naquele instante; de costas voltadas para o marido, questionava-se sobre a possibilidade de as coisas voltarem a ser como antes. Era como se um deles acabasse de morrer e a vida tivesse ficado subitamente destruída e irrecuperável. E tudo com um punhado de palavras bem escolhidas.

            — Porque não me contaste há mais tempo? — Samantha voltou-se, com ar acusador no rosto.

            — Eu... — balbuciou John, incapaz de prosseguir. Não havia nada que conseguisse dizer para compor a situação, para atenuar a dor que acabara de infligir na mulher que tanto amara. Sete anos fora tempo mais do que suficiente para uni-los um ao outro para sempre, mas não unira. Tudo descarrilara durante a cobertura das eleições no ano anterior. Tencionara acabar com a relação quando regressassem de Washington. Fora essa a sua intenção. Liz, porém, não o deixara, e a relação continuou, de vento em popa... até agora, momento em que o encostara à parede: estava grávida e recusava-se a abortar. — Não sabia o que dizer-te, Sam. Não sabia... e pensava que...

            — Estou pouco ligando para aquilo que pensavas!

            Subitamente, Samantha lançou um olhar penetrante ao homem que conhecera e amara durante onze anos. Haviam começado a namorar aos dezenove anos. Fora o primeiro homem com quem dormira, quando estavam em Yale. Possuía uma imponente compleição física, era louro e bonito, um herói do futebol, o grandalhão tranqüilo do campus, o louro de quem todos gostavam, inclusive Sam, que o adorava desde o primeiro momento em que se conheceram.

            — Sabes o que eu pensava, seu filho da puta? Que me eras fiel. Era isso que pensava. Que te interessavas por mim! — A voz vacilou pela primeira vez desde que ele pronunciara as horríveis palavras. — Pensava que me amavas.

            — E amo. — Havia lágrimas a correr lentamente pelo rosto de John ao articular estas palavras.

            — Ah, sim? — gritou Samantha, sentindo que ele lhe arrancara o coração e o atirara para o chão. — Então porque vais sair de casa? Por que razão chegaste aqui como um louco e, quando perguntei como te correra o dia, respondeste que tinhas um caso com a Liz Jones e que ias sair de casa? — A voz começava a ficar cada vez mais histérica à medida que avançava para ele. — Podes explicar-me isso? E há quanto tempo é que andas metido com ela? Raios te partam, John Taylor... Raios te partam...

            Completamente fora de si, investiu contra ele, de punhos fechados, agarrou-o pelos cabelos e tentou esmurrá-lo na cara. John dominou-a com facilidade, puxando-lhe os braços para trás das costas, ao mesmo tempo que a forçava a deitar no chão, onde a aconchegou entre os braços.

            — Oh, querida, lamento tanto...

            — Lamentas? — Sam soltou um grito que era um misto de riso e de choro enquanto se debatia para se libertar. — Chegas em casa e anuncias que vais me deixar por outra pessoa, e ainda dizes que "lamentas"? Meu Deus... — Respirou fundo e tentou libertar-se dele. — Larga-me, bolas! — Fitou-o, com ar destroçado; quando John viu que estava mais calma, soltou-a dos braços. Ainda arquejante, encaminhou-se, a passo lento, para o sofá de veludo verde-escuro e sentou-se. Pareceu subitamente menor e mais nova, os cabelos louros caídos para frente, o rosto enterrado entre as mãos.

            Então, levantou lentamente a cabeça, os olhos marejados de lágrimas. — Tu a amas mesmo? — Fosse como fosse, custava a acreditar.

            — Penso que sim. — John fez um ligeiro gesto afirmativo com a cabeça. — O pior é que amo as duas.

            — Por quê? — Samantha desviou os olhos dele e fixou-os num espaço vazio, entendendo cada vez menos o que estava a acontecer. — O que falta entre nós?

            John pôs-se de pé. Tinha de lhe dizer. Ela precisava saber. Errara ao esconder-lhe a situação durante tanto tempo.

            — Aconteceu durante a cobertura das eleições do ano passado.

            — E tem-se mantido desde então? — Os olhos de Samantha esbugalharam-se enquanto limpava as lágrimas com as costas da mão. — Dez meses, e eu não sabia?

            John fez um sinal afirmativo com a cabeça sem articular qualquer palavra.

            — Meu Deus! — Samantha lançou-lhe, então, um olhar de estranheza. — Por que agora? Porque é que resolveste contar-me a situação hoje? Porque não deixas de vê-la? Porque não tentas salvar o casamento que já mantemos há mais de sete anos? Que raio é que queres dizer com "tenho um caso e vou sair de casa"? É só isso que o casamento significa para ti?

            Samantha recomeçou a gritar e John encolheu-se. Detestava aquele tipo de situações, detestava fazê-la sofrer, mas sabia que tinha mesmo de deixá-la. Liz possuía uma qualidade que ele desejava desesperadamente, de que precisava e que apreciava: a discrição. Ele e Samantha eram demasiado parecidos nalguns aspectos: espetaculares, perspicazes e belos, numa constante exposição pública. Em Liz, gostava do espírito despretensioso, da inteligência menos deslumbrante, do estilo calmo, da disposição de ficar em segundo plano, na sombra, ao mesmo tempo que o ajudava a ser aquilo que ele era. Completava-o com perfeição, e era por isso que trabalhavam tão bem em equipe. Perante as câmaras, a dar as notícias, John era sem dúvida a estrela; Liz, porém, ajudava-o a compor essa imagem. Era isso que ele apreciava. Ela era muito mais calma do que Samantha, muito menos brilhante e muito menos irrequieta. John descobrira, finalmente, o quanto isso representava para si. Não se sentia ansioso quando estava com ela, não seria obrigado a competir. Era, automaticamente, a estrela.

            E havia mais uma coisa a acrescentar a tudo isso. Liz estava grávida e a criança era sua. Desejava-a mais do que tudo. Um filho para brincar, amar e ensinar a jogar futebol. Era algo que sempre desejara e que Samantha não podia lhe dar. Haviam consultado vários médicos para tentar descobrir o problema, durante três anos. Samantha era estéril, não podia ter filhos.

            — Porque agora, John?

            A voz de Samantha arrastou-o de novo para o presente, e ele limitou-se a abanar ligeiramente a cabeça.

            — Não interessa. Não é importante. Tinha de te dizer. Não há dias bons para uma coisa destas.

            — Não estás disposto a acabar com essa relação? — Samantha continuava a pressioná-lo e estava consciente disso, mas tinha de fazê-lo. Ainda não entendia o que se passara e por que. Por que razão, naquele dia sufocante, o marido chegara a casa, vindo da estação de televisão onde apresentava o noticiário todas as noites, e anunciara que ia abandoná-la por outra mulher? — Vais deixar de vê-la?

            John abanou lentamente a cabeça.

            — Não, Sam, não vou.

            — Porque? — A voz de Samantha embargou-se, ganhou um tom acriançado, e uma nova torrente de lágrimas correu-lhe pelo rosto. — O que é que ela tem que eu não tenho? É pouco atraente e é chata... e tu... tu sempre disseste que não gostavas dela... que detestavas trabalhar com ela e...

            Não conseguiu prosseguir; John olhava-a, quase sentindo a dor dela como sua.

            — Tenho de ir, Sam.

            — Porquê? — Samantha ficou fora de si quando John se encaminhou para o quarto para fazer as malas.

            — Porque tenho, só isso. Olha, não é correto da minha parte ficar e, deixar-te neste estado.

            — Fica, por favor... — O pânico, como uma besta terrível, tomava conta da voz de Samantha. — Vamos compor as coisas... a sério... por favor... John... — As lágrimas escorriam-lhe pelo rosto.

            John ficou subitamente com ar carregado e distante enquanto continuava a fazer as malas. Andava num autêntico frenesi, como se tivesse de partir o mais depressa possível, antes que ficasse também destroçado.

            Então, de repente, virou-se para Samantha.

            — Pára com isso, bolas! Pára... Sam, por favor...

            — Por favor, o quê? Por favor, não chores, porque o meu marido vai deixar-me ao fim de sete anos, onze se contarmos o tempo em Yale antes de nos casarmos? Ou, por favor, não te sintas culpado por me deixares por uma puta qualquer? É isso que queres, John? Que eu te deseje sorte e te ajude a fazer as malas? Meu Deus, chegas aqui e destróis toda a minha vida, e agora... o que queres de mim? Que seja compreensiva? Bom, isso não posso ser. A única coisa que posso fazer é chorar e, se tiver de ser, suplicar-te... suplicar-te, estás ouvindo?...

            Ao proferir aquelas palavras, deixou-se cair numa cadeira e começou a soluçar de novo. Com mão firme, John fechou a mala, para dentro da qual atirara meia dúzia de camisas, um par de tênis, dois pares de sapatos e um traje de verão, metade deste caindo para fora da mala. Pegou num punhado de gravatas. Era impossível. Não conseguia pensar direito e fazer as malas em paz.

            — Volto na segunda-feira, quando estiveres a trabalhar.

            — Não vou trabalhar.

            — Porquê?

            John, de cabelos desgrenhados, ostentava um ar perturbado; Samantha levantou os olhos para ele e esboçou um leve sorriso por entre as lágrimas.

            — Porque o meu marido acabou de me deixar, seu imbecil, e não acredito que esteja com disposição para ir trabalhar na segunda-feira. Importas-te?

            John não sorrira, não pusera um ar menos grave. Limitou-se a olhar para ela, um pouco embaraçado, fez um gesto afirmativo com a cabeça e saiu rapidamente pela porta. Deixou cair duas gravatas, que Samantha apanhou, segurando-as na mão durante muito tempo, a chorar, prostrada em cima do sofá.

            Chorara muitas vezes em cima do sofá desde agosto, mas John não voltara.

            Em outubro, ele fora passar um fim-de-semana prolongado na República Dominicana, conseguira o divórcio e dez dias depois se casara com Liz.

            Samantha sabia agora que Liz estava grávida; quando ouviu a notícia pela primeira vez, sentiu-se trespassada por uma lâmina. Liz dera a novidade certa noite, na televisão, e Sam ficara de boca aberta, chocada. Então fora por isso que ele a deixara. Por uma criança... um bebê... um filho que ela não poderia dar-lhe. No entanto, ao fim de algum tempo, chegara à conclusão de que não fora só isso.

            Houvera muitas coisas no casamento que Samantha não vira ou não quisera ver, porque estava perdidamente apaixonada pelo marido: a rivalidade que se estabelecera entre os dois e a insegurança de John perante o sucesso dela. Apesar de ser um dos principais locutores do país e de as pessoas se amontoarem para lhe pedir um autógrafo, John parecera sempre sentir receio de o sucesso ser efêmero, de ser substituído e de os índices de audiência poderem alterar a sua vida. Para Samantha, era diferente. Como subdiretora criativa da segunda maior agência de publicidade do país, a sua situação era delicada, mas menos do que a dele. Numa profissão também instável, possuía, no entanto, um rol enorme de campanhas premiadas atrás de si que a tornavam menos vulnerável aos ventos de mudança. Durante todo o outono, sozinha no apartamento, recordara fragmentos de conversas, coisas que ele dissera...

            "Meu Deus, Sam, conseguiste chegar ao topo aos trinta. Chega! Com os prêmios fizeste mais dinheiro do que eu." Sabia agora que isso também o incomodara. Mas que ela poderia ter feito? Desistir? Por que razão? No seu caso, porque não trabalhar? Não podiam ter filhos e John não queria adotar um. "Não é a mesma coisa se não for teu."

            "Mas é como se fosse. Olha, podíamos adotar um recém-nascido, somos novos e faríamos o melhor que pudéssemos. Um bebê significaria tanto para nós, querido, pensa no assunto..." Os olhos de Samantha brilhavam sempre que discutiam o assunto, os dele ficavam embaciados, depois abanava a cabeça. A resposta para a questão da adoção era sempre não. Agora não precisava se preocupar mais com o assunto. Dentro de mais três meses, teria o seu primeiro filho. O seu próprio filho. Para Samantha, era como um soco no estômago.

            Tentou não pensar no assunto quando chegou ao último patamar e abriu a porta. O apartamento ganhara um cheiro a mofo nos últimos dias. As janelas encontravam-se sempre fechadas, o calor era muito, as plantas estavam todas morrendo e nem as deitara fora nem mandara alguém tratar delas. Todo o apartamento exibia um ar de desleixo, de abandono, como se servisse apenas para alguém mudar de roupa. Desde setembro, apenas se servira da cozinha para fazer café. Não tomava pequeno-almoço e almoçava, regra geral, com clientes ou outros executivos da Crane, Harper & Laub; habitualmente, esquecia-se de jantar. Se estava morrendo de fome, comprava um sanduíche no caminho para casa, comia-o embrulhado no papel encerado, equilibrando-o em cima de um joelho, enquanto assistia ao noticiário na televisão. Não usava qualquer louça desde o verão, mas também não se importava. Deixara praticamente de gozar a vida desde essa altura, e às vezes interrogava-se se alguma vez o voltaria a fazer. Só pensava no que acontecera, na forma como John lhe dera a notícia, na razão por que ele a deixara e no fato de já não lhe pertencer. Alternava o sentimento de dor com o de raiva, até que, finalmente, no dia de Ação de Graças, os nervos estavam tão esfrangalhados que ficou como que paralisada.

            A maior campanha da sua carreira quase ia por água abaixo.

            Duas semanas antes se vira obrigada a fechar-se no escritório para descansar. Por instantes, dera a impressão que ia ter um ataque de nervos ou desmaiar; talvez abraçar alguém e desfazer-se em lágrimas. No entanto, era como se já não existisse ninguém com quem mantivesse alguma ligação ou que gostasse dela — o pai morrera quando ela freqüentava a faculdade, a mãe vivia em Atlanta com um homem considerado atraente, mas de quem Samantha não gostava. Era médico e extremamente vaidoso. Pelo menos, a mãe estava feliz. De qualquer maneira, Samantha nunca fora muito chegada à mãe e não seria aí que procuraria auxílio. Só lhe falara do divórcio em novembro, quando a mãe lhe telefonara certa noite e a encontrara lavada em lágrimas. Fora simpática, mas pouco mais; nada que fortalecesse os laços entre as duas. Já era demasiado tarde. Além disso, não era pela mãe que ansiava, mas pelo marido, pelo homem com quem partilhara o leito, que amara e com quem se divertira nos últimos onze anos; o homem que conhecia melhor do que a própria pele, que a fazia feliz de manhã e lhe dava segurança à noite. Agora, porém, ele partira. Essa lembrança nunca deixava de lhe trazer lágrimas aos olhos e desolação à alma.

            Naquela noite, com frio e cansada como estava, Samantha nem sequer pensou no assunto. Tirou o casaco e pendurou-o a secar no banheiro, descalçou as botas e passou a escova pelos cabelos. Mirou-se ao espelho sem olhar para o rosto. Quando agora olhava para si, só via uma massa informe de pele, dois olhos tristes e uma comprida cabeleira loura.

            Despiu as peças de roupa, uma após outra, deixando cair a saia de casimira preta e a blusa de seda preta e branca que levara para o trabalho. As botas que descalçara e atirara para o chão tinham a marca Celine de Paris, o cachecol era de um padrão geométrico preto e branco, Hermés. Pusera enormes brincos de pérolas e ônix e prendera o cabelo atrás, junto do pescoço. O casaco, que pendurara a seu lado, era vermelho vivo. Mesmo no seu atordoante estado de carência e dor, Samantha Taylor era uma mulher bonita, ou como o diretor criativo da agência dizia: "Uma mulher atraente como o raio." Abriu a torneira, e uma torrente de água quente jorrou para a banheira verde. Outrora, o banheiro encontrava-se cheio de plantas e flores de cores vivas. No verão, gostava de ter lá amores-perfeitos, violetas e gerânios.

            Contrastando com a porcelana francesa, havia pequenas violetas no papel de parede de um verde-esmeralda brilhante. Agora, tal como no resto do apartamento, faltava-lhe brilho. A mulher da limpeza mantinha tudo sem pó, mas era impossível a alguém que vinha três vezes por semana dar um ar cuidado à casa. Tanto esta como a própria Samantha haviam perdido o brilho, aquele que só surge com um toque doce e uma mão delicada, a rica pátina de carinho que se manifesta de inúmeras formas nas mulheres.

            Quando a banheira ficou cheia de água fumegante, Samantha meteu-se lentamente dentro dela, deitou-se e fechou os olhos. Por instantes, sentiu-se flutuar, como se não existisse passado, nem futuro, nem receios, nem preocupações. Então, pouco a pouco, o presente invadiu-lhe o espírito. A campanha em que atualmente trabalhava estava sendo um desastre.

            Relacionava-se com uma linha de carros que a agencia cobiçava há já uma década, e era todo o projeto que estava em causa. Apresentara uma série de sugestões relativas a cavalos, com anúncios a serem filmados em campo aberto ou em ranchos, com um homem ou uma mulher de ar rural a fazer furor. Porém, o coração não estava na campanha, e tinha consciência disso. Perguntava a si mesma durante quanto tempo mais é que aquela sensação de abatimento iria manter-se, como se o motor trabalhasse e o carro não passasse da primeira velocidade. Sentia-se arrastar, como se o cabelo, as mãos e os pés fossem de chumbo.

            Quando saiu da banheira, com os longos cabelos sedosos presos no alto da cabeça, embrulhou-se cuidadosamente num enorme lençol lilás e encaminhou-se descalça para o quarto. Ali, sentia-se de novo a atmosfera de um jardim, uma enorme cama de quatro colunas coberta de bordados a branco e uma colcha cheia de flores amarelas, predominando o amarelo luminoso, os folhos e os franzidos.

            Adorara aquele quarto quando da decoração do apartamento; agora o detestava, ao deitar-se sozinha, noite após noite.

            Não se devia ao fato de não ter tido pretendentes. Tivera-os, mas a interminável sensação de abatimento paralisava-a. Não desejava nem gostava de ninguém. Era como se lhe tivessem cortado a comunicação com o mundo exterior. Então, quando se sentou na beira da cama e bocejou, lembrando-se de que só comera um sanduíche de ovo e salada ao almoço e não tomara o pequeno-almoço nem jantara, deu um pulo ao ouvir a campainha no piso de baixo. Por instantes, pensou em não responder; depois, deixou cair a toalha, procurou apressadamente o robe acolchoado de cetim azul- claro e correu para o inter-comunicador, enquanto se ouvia novamente a campainha.

            — Sim?

            — Jack, o Estripador! Posso subir?

            Durante uma fração de segundo, não reconheceu a voz no inter-comunicador.

            Então, de repente, soltou uma gargalhada, parecendo-se mais consigo mesma. Os olhos iluminaram-se, as faces ostentando ainda o rubor saudável do banho quente. Há vários meses que não parecia tão jovem.

            — O que estás fazendo aqui, Charlie? — gritou Samantha para o inter-comunicador na parede.

            — Estou ficando com o traseiro congelado. Deixas-me entrar?

            Samantha soltou nova gargalhada, apertou rapidamente o botão do inter-comunicador e, pouco depois, ouviu-se o som de Charles a subir apressadamente as escadas. Quando alcançou o vão da porta, Charles Peterson parecia mais um lenhador do que o diretor artístico da Crane, Harper & Laub, com a aparência de um rapaz de vinte e tantos anos em vez dos trinta e sete que já atingira. Possuía um rosto cheio e juvenil, olhos castanhos e risonhos, cabelos escuros e desgrenhados, e barba cerrada, que surgia agora salpicada de granizo.

            — Arranjas-me uma toalha? — pediu, arquejante, mais do frio e da chuva do que das escadas.

            Samantha foi rapidamente ao banheiro buscar uma toalha grossa lilás e lhe deu. Charles despiu o casaco e secou o cabelo e a barba. Uma pequena torrente de água gelada escorria do enorme chapéu de cow-boy para cima do tapete de estilo francês.

            — A fazer xixi no tapete, Charlie?

            — A propósito... arranjas um cafezinho?

            — Claro. — Samantha olhou-o de forma estranha, interrogando-se se haveria algum problema. Charles viera visitá-la uma ou duas vezes, mas geralmente só quando existia algum assunto importante. — Aconteceu alguma coisa com a nova campanha? — Olhou-o da cozinha com ar preocupado. Ele sorriu e abanou a cabeça, enquanto se dirigia para o local onde ela se encontrava.

            — Não. E vai tudo correr bem. Estás no bom caminho. Vai ser fabuloso, Sam.

            Samantha esboçou um tênue sorriso enquanto lhe servia o café.

            — Também acho que sim. — Trocaram um longo e terno sorriso. Eram amigos há quase cinco anos, haviam partilhado inúmeras campanhas, prêmios e brincadeiras, trabalhando até às quatro da manhã para coordenar a apresentação ao cliente e aos contabilistas no dia seguinte. Eram os meninos-bonitos de Harvey Maxwell, o diretor criativo titular da empresa.

            Harvey detinha o lugar há vários anos. Descobrira Charlie numa agência e contratara Samantha noutra. Deixava-os pensar pelas próprias cabeças e ficava feliz ao ver aquilo que eles criavam. Mais ano menos ano, retirar-se-ia, e toda a gente apostava, inclusive Samantha, que seria ela a substituí-lo. Diretora criativa aos trinta e um anos não era mau de todo.

            — O que é que se passa, garoto? Não te vejo desde esta manhã. Como é que está a correr aquilo do Wurtzheimer?

            — Bem... — Levantou os braços com uma expressão de aprovação. — O que podes tu fazer por um dos maiores armazéns em Saint Louis que tem muita massa e nenhum gosto?

            — E o tema do cisne de que falamos a semana passada?

            — Detestaram. Querem algo com mais impacto. Os cisnes não têm impacto.

            Sam revirou os olhos e sentou-se à enorme mesa de madeira maciça, enquanto Charlie esparramava o seu corpo magro numa das cadeiras à frente dela. Era estranho, nunca sentira atração por Charlie Peterson, nem por uma única vez em todos os anos em que trabalhavam, viajavam, dormiam nos aviões e conversavam um com o outro até altas horas da noite. Ele era o irmão, a alma gêmea, o amigo. Tinha uma mulher que ela adorava quase tanto como ele. Melinda era perfeita para Charlie. Ela decorara o enorme e simpático apartamento deles na Rua 81 Este com tapeçarias de cores vivas e cestos maravilhosamente entretecidos. Os móveis eram todos de mogno escuro e para onde quer que se olhasse havia pequenos objetos de arte de grande beleza, minúsculos tesouros que Melinda descobrira e trouxera para casa, tudo desde conchas exóticas apanhadas no Taiti, até uma bola perfeita de mármore que pertencia aos filhos. Tinham três, todos parecidos com Charlie, um canzarrão de poucas maneiras chamado Rags e um enorme jipe que Charlie conduzia há dez anos. Melinda era também uma artista, mas nunca fora "corrompida" pelo mundo competitivo do dia-a-dia.

            Trabalhava num estúdio e fizera duas exposições de grande sucesso dos seus trabalhos nos últimos anos. Em vários aspectos, era muito diferente de Samantha, embora as duas tivessem em comum uma doçura que se escondia sob uma jactância que Charlie apreciava em ambas. À sua maneira, adorava Samantha, e ficara "pior do que estragado" com o que John fizera. Nunca gostara dele e sempre o considerara um sacana egocêntrico. A súbita deserção de John em relação a Samantha e o subseqüente casamento com Liz Jones provara que Charlie tinha razão. Melinda tentara compreender ambas as partes, mas Charlie não se dera a esse trabalho. Estava demasiado preocupado com Sam, cujo estado de saúde se deteriorara nos últimos quatro meses, e isso era mais do que evidente. O trabalho sofrera. Os olhos haviam perdido a vida. O rosto tinha um ar doente.

            — Então, senhora? Espero que não leves a mal a minha visita tão tardia.

            — Claro que não. — Samantha sorriu enquanto lhe servia uma xícara de café. — Só me pergunto o que te trouxe aqui. Saber como é que estou?

            — Talvez. — Os olhos dóceis de Charlie sobressaíam sobre a barba escura. — Importas-te, Sam?

            Samantha lançou-lhe um olhar triste e Charlie sentiu vontade de tomá-la nos braços.

            — Como poderia importar-me? É bom saber que alguém se preocupa conosco.

            — Sabes bem que me preocupo. A Mellie também.

            — Como é que ela está? Bem?

            Charlie fez um gesto afirmativo com a cabeça. Nunca havia tempo para aquele tipo de conversas no escritório.

            — Está ótima. — Charlie começava a interrogar-se sobre a forma como iria conduzir a conversa para aquilo que de fato queria dizer-lhe. Não ia ser fácil, e talvez ela não reagisse bem.

            — Então? O que é que se passa? — Subitamente, Samantha deu consigo a olhá-lo com ar divertido. Charlie fingiu uma expressão inocente e Samantha puxou-lhe pela barba. — Tens qualquer coisa na manga, Charlie. O que é?

            — O que te faz dizer isso?

            — Está chovendo e um frio de rachar, é sexta-feira, podias estar em casa com a tua mulher apaixonada e os teus três filhos encantadores. É difícil imaginar que tenhas vindo até aqui apenas para tomar uma xícara de café comigo.

            — Porque não? És muito mais encantadora do que os meus filhos. Mas... — Hesitou por instantes. — Bom, tens razão. Não passei aqui por acaso. Vim propositadamente falar contigo. — "Meu Deus, é horrível!" Como conseguiria dizer-lhe? Sabia que ela nunca entenderia.

            — Então? Vá lá, bota para fora. — Havia um brilho travesso no olhar de Samantha que Charlie já não via há muito tempo.

            — Bem, Sam... — Inspirou profundamente e olhou-a mais de perto. — O Harvey e eu estivemos falando...

            — A meu respeito? — Ficou instantaneamente preocupada, mas Charlie fez um sinal afirmativo com a cabeça e prosseguiu. Samantha detestava que as pessoas falassem dela. Porque a conversa era sempre acerca do modo como ela se sentia e do que John lhe fizera.

            — Sim, é a teu respeito.

            — Por quê? A campanha de Detroit? Não sei se ele compreende a minha idéia, mas...

            — Não, não é acerca da campanha de Detroit, Sam. É a teu respeito.

            — Acerca do quê? — Samantha achava que tudo acabara, não havendo já motivo para falarem dela. A separação e o divórcio já pertenciam ao passado e John casara com outra pessoa. Conseguira sobreviver a tudo isso. Portanto... — Estou ótima.

            — Estás? Acho isso fantástico. — Charlie fixou-a, invadindo-o de novo um pouco da raiva que sentira contra John. — Se estivesse no teu lugar, não conseguia sentir-me tão bem, Sam.

            — Não tenho alternativa. Além disso, sou mais forte do que tu.

            — Talvez sejas. — Charlie esboçou um leve sorriso. — Mas talvez não sejas tão forte como pensas. Porque não descansas durante uns tempos, Sam?

            — Que queres dizer com isso? Que vá para a praia em Miami?

            — Porque não? — Charlie forçou um sorriso e Samantha olhou-o com ar chocado.

            — O que queres me dizer? — O pânico tomou-lhe rapidamente conta do rosto. — O Harvey vai me despedir? É isso? Mandou-te aqui no papel do carrasco, Charlie? Não me querem mais porque já não sou tão alegre como era? — Apenas fez as perguntas, sentiu os olhos ficarem marejados de lágrimas. — Meu Deus, o que é que tu esperavas? Passei por tempos difíceis... Foi... — As lágrimas começaram a sufocá-la e pôs-se prontamente de pé. — Estou ótima, bolas! Por que raio...

            Charlie agarrou-a pelo braço e forçou-a a se sentar com um olhar afável.

            — Tenha calma. Está tudo bem.

            — Ele vai me despedir, Charlie? — Uma lágrima triste e solitária correu-lhe pelo rosto.

            Charlie Peterson abanou a cabeça.

            — Não, Sam, claro que não.

            — Então? — Samantha sabia. Já sabia.

            — Ele quer que vás descansar. Já trabalhaste o suficiente na campanha de Detroit. O velho não morrerá se pensar em negócios durante uns tempos para variar. Podemos dispensar-te se tiver de ser.

            — Mas vocês não têm de fazê-lo. É uma estupidez, Charlie.

            — É? — Charlie olhou-a fixamente. — É uma estupidez, Sam? Consegues suportar esse tipo de pressão sem vacilar? Tens forças suficientes para ver o homem que te deixou por outra mulher todas as noites na televisão nacional falando com a nova mulher e a barriga dela aumentando? Consegues assistir a isso tudo impávida e serena? Sem faltares um único dia ao trabalho e continuando a querer ficar com todas as novas campanhas? Acho que vais acabar por rebentar mais cedo ou mais tarde. Como podes pôr a tua saúde em risco dessa maneira? Não posso admitir isso, como amigo. Aquilo que aquele filho da mãe te fez quase te deixou de rastos. Esquece o que se passou, vai curtir as mágoas em outro lugar, larga tudo e depois volta. Precisamos de ti. Desesperadamente. O Harvey, eu e o pessoal da contabilidade compreendemos a situação e a ti melhor do que ninguém... Porém, não te queremos doente, louca ou destroçada, que é como vais ficar se não te libertares da pressão.

            — Achas que tenho um esgotamento, não é? — Samantha pareceu magoada e chocada, mas Charlie abanou a cabeça.

            — Claro que não. Mas com a breca, isto já se prolonga há tanto tempo. É agora que tens de tratar da dor e não quando ela estiver demasiado entranhada que já não consigas dominá-la.

            — Já vivo com ela há quatro meses.

            — E está a dar cabo de ti! — Era uma afirmação terminante da parte de Charlie e Samantha não a negava.

            — Então, o que disse o Harvey? — Os olhos de Samantha exibiam tristeza quando encontraram os do amigo. Tinha a sensação de ter falhado, de ter podido fazer melhor.

            — Ele quer que vás para fora.

            — Para onde? — Limpou uma lágrima que lhe escorria pela face com as costas da mão.

            — Para onde quiseres.

            — Durante quanto tempo?

            Charlie hesitou por instantes antes de responder.

            — Três ou quatro meses.

            Haviam tomado a decisão de que seria melhor que ela estivesse fora até John e Liz terem o seu muito divulgado filho. Charlie sabia o choque que isso representava para Samantha. Conversara várias vezes sobre o assunto com Harvey, e nenhum deles conseguira imaginar o olhar destroçado que Charlie observava agora no rosto dela. Era um olhar de total descrença, de choque, de quase terror.

            — Quatro meses? Estás louco? E os nossos clientes? E o meu emprego? Tu tomarias conta de tudo, não era? O que é que se passa? Queres o meu lugar, é isso? — Samantha deu um novo pulo, afastando-se da mesa; ele seguiu-a e colocou-se à sua frente, fixando-a com um olhar amargurado.

            — O teu lugar está seguro, Sam. Mas tens de fazer aquilo que te disse. Não podes continuar a arrastar-te. Tens de sair deste apartamento, do escritório, até talvez de Nova Iorque. Sabes o que eu acho? Devias telefonar àquela mulher de que tanto gostas que vive na Califórnia e ir passar uns tempos lá com ela. Depois voltas quando estiveres boa, quando estiveres de novo entre os vivos. Vai te fazer muitíssimo bem.

            — Que mulher? — Samantha pareceu não se lembrar.

            — Aquela de quem me falaste há uns anos, a que tem um rancho de cavalos, Carol ou Karen qualquer coisa, a velhota que era tia da tua colega de quarto na faculdade. Costumavas falar com ela como se fosse a tua melhor amiga.

            Barbie fora a sua confidente mais chegada, além de John, e haviam sido colegas de quarto. Morrera num desastre de aviação em Detroit duas semanas depois de se formar.

            Um sorriso afável vislumbrou-se subitamente no olhar de Samantha.

            — A tia da Barbie... A Caroline Lord. É uma mulher maravilhosa. Mas por que cargas de água é que eu iria para lá?

            — Gostas de andar a cavalo, não gostas?

            Samantha fez um gesto afirmativo com a cabeça.

            — Bem, é um lugar maravilhoso, diferente e fica longe da Madison Avenue. Talvez precises pôr as roupas de trabalho no armário e meter esse teu corpo sexy numas calças de brim e ir atrás de cow-boys durante uns tempos.

            — Muito engraçado! É realmente disso que preciso. — A idéia, porém, encontrara algum eco. Não via Caroline há anos. Fora visitá-la com John uma vez. Três horas de viagem para nordeste de Los Angeles. John detestara. Não gostara dos cavalos, achara o rancho pouco confortável, e Caroline e o capataz o olharam de soslaio por causa dos seus modos afetados da cidade. Cavaleiro, ele não era, mas Samantha era uma cavaleira exímia e elegante desde criança. Havia um pônei selvagem malhado no rancho quando o visitaram e Samantha o montara, para terror de Caroline. No entanto, não a magoara, apesar de tê-la atirado ao chão meia dúzia de vezes enquanto o tentava habituar à sela. John ficara impressionado com a sua perícia. Fora um período feliz da vida dela que parecia já pertencer a um passado remoto. Sam levantou os olhos para Charlie.

            — Nem sequer sei se ela pode me receber, Charlie. É uma idéia louca. Porque não me deixam acabar o trabalho?

            — Porque te adoramos, e assim vais dar cabo de ti.

            — Não vou, não. — Sam esboçou um sorriso corajoso, e Charlie abanou ligeiramente a cabeça.

            — Estou pouco ligando para aquilo que possas dizer agora, Sam. A decisão foi do Harvey.

            — Que decisão?

            — A tua dispensa do serviço.

            — É uma decisão definitiva? — Sam olhou-o novamente com ar chocado, e Charlie fez um sinal afirmativo com a cabeça.

            — A partir de hoje. Três meses e meio de dispensa e podes prolongá-la até quatro meses, se quiseres. — Haviam telefonado para a estação para se certificar da data prevista do parto de Liz, acrescentando mais duas semanas.

            — E não perco o lugar?

            — Não. — Charlie retirou uma carta do bolso e deu-a a Samantha para ler.

            Era de Harvey e lhe garantia o lugar mesmo estando ausente durante quatro meses. Era uma situação insólita, mas, como Harvey escrevera, Samantha Taylor era "uma mulher extraordinária".

            Sam lançou um olhar triste a Charlie.

            — Isso significa que estou dispensada a partir de hoje? — O lábio inferior tremeu.

            — Exatamente, minha senhora. Está de férias a partir deste preciso momento. Quem me dera também estar.

            — Oh, meu Deus. — Sam deixou-se cair numa cadeira e cobriu o rosto com as mãos. — O que vou fazer agora?

            Charlie afagou-lhe o ombro.

            — Faz o que te disse. Telefona à tua amiga do rancho. Era uma sugestão louca; porém, depois de ele sair, Sam começou a pensar no que iria fazer.

            Foi para a cama ainda em estado de choque. Estaria ausente do emprego nos próximos três meses e meio. Não sabia para onde ir, não tinha nada para fazer, nada que quisesse ver e ninguém que a acompanhasse. Pela primeira vez na sua vida de adulta, não tinha quaisquer planos. Só lhe restava marcar uma reunião com Harvey na manhã seguinte para lhe transmitir algumas informações de trabalho e depois estaria livre. De súbito, no meio da escuridão, sentindo-se tomada pelo medo, começou a rir-se. Era loucura! O que raio iria fazer até ao dia Primeiro de abril? Primeiro de abril, dia da Mentira... Tinham-lhe pregado uma partida... Europa? Austrália?

            Visitar a mãe em Atlanta? Por instantes, sentiu-se mais livre do que nunca. Quando saíra de Yale tivera John para pensar nas coisas, agora não tinha ninguém. Então, num impulso, estendeu a mão para pegar no livro de endereços e resolveu seguir o conselho de Charlie. Acendeu a luz e encontrou facilmente o número na letra L. Seriam nove e meia na Califórnia, esperava que não fosse demasiado tarde para telefonar.

            A voz familiar de Caroline Lord atendeu ao segundo toque. Seguiu-se uma longa explicação da parte de Sam, enquanto Caroline a ouvia em respeitoso silêncio. Então, não se contendo mais, Sam soltou um estranho e angustiante soluço. Era como chegar em casa de uma velha amiga. A mulher de mais idade escutava-a com extrema atenção, confortando Sam de uma maneira como há muitos anos ninguém fizera. Quando desligou o telefone, meia hora depois, Sam ficou de olhos fixos no dossel, perguntando-se se estava a enlouquecer efetivamente. Prometera voar para a Califórnia na tarde seguinte.

 

            Foi uma manhã frenética para Samantha: pôs as suas coisas dentro de duas malas, telefonou para a companhia de aviação, deixou uma nota e um cheque para a mulher da limpeza e tentou fechar o apartamento o melhor que podia. Depois, com as duas malas, apanhou um táxi para o escritório, onde deu a chave do apartamento a Charlie e prometeu mandar presentes de Natal para os garotos. Reuniu-se, então, com Harvey durante mais de duas horas, explicando-lhe tudo o que ele queria saber.

            — Não precisas fazer isto por mim, Harvey. Não é o que quero. — Os olhos de Samantha procuraram os dele quando concluíram a reunião.

            Harvey olhou-a em silêncio do outro lado da enorme secretária de mármore e cromo.

            — Não é isso o que queres, Sam, mas é aquilo de que precisas. Vais sair da cidade?

            Harvey era um homem alto, magro, de cabelos grisalhos e rapados como os dos fuzileiros. Usava camisas brancas Brooks Brothers, calças listradas, tinha ar de banqueiro, fumava cachimbo, e por trás dos olhos cinzentos e inflexíveis havia um espírito brilhante e criativo e um coração extraordinário e maravilhoso. Fora, de certa forma, como um pai para Samantha, e não era surpresa alguma que ele agora a dispensasse por uns tempos. Durante toda a manhã, não falaram dos planos de Samantha, só do trabalho.

            — Sim, vou-me embora. — Samantha esboçou um sorriso diante da secretária de aspecto ameaçador. Lembrou-se do medo que tivera de Harvey ao princípio e do respeito que se fora cimentando ao longo dos anos. Mas o respeito era mútuo, como ela bem sabia. — O avião decola dentro de duas horas — informou Samantha, olhando para o relógio.

            — Então, desaparece daqui. — Harvey pousou o cachimbo, sorriu, mas Samantha hesitou por instantes.

            — Guardas o meu lugar até eu voltar, Harvey?

            — Juro. Tens a carta?

            Samantha fez que sim com a cabeça.

            — Ótimo. Então, se não te guardar o lugar, podes processar-me.

            — Não é essa a minha intenção. Só quero o lugar.

            — E tê-lo-ás, e provavelmente também o meu.

            — Posso voltar dentro de poucas semanas — sugeriu Samantha num tom hesitante, mas Harvey abanou a cabeça e o sorriso desvaneceu-se do seu olhar.

            — Não, Sam, não podes. Dia Primeiro de abril e ponto final.

            — Por alguma razão especial?

            Harvey não queria dizer-lhe o motivo; por isso, voltou a abanar a cabeça.

            — Não, foi a data que escolhemos. Vou mandar-te vários memorandos para te manter a par do que se está se passando aqui, e podes me telefonar sempre que queiras. A minha secretária sabe onde te encontrar?

            — Ainda não, mas saberá.

            — Ótimo. — Harvey contornou a secretária e puxou Samantha para si sem dizer palavra. Abraçou-a durante um longo instante e depois a beijou na testa. — Toma cuidado contigo, Sam. Vamos sentir saudades tuas. — A voz de Harvey era rouca e havia lágrimas nos olhos de Sam quando o abraçou uma vez mais, encaminhando-se depois rapidamente para a porta. Por instantes, teve a sensação de estarem a pô-la na rua, e sentiu-se invadida pelo pânico, ao mesmo tempo que ponderava a hipótese de lhe pedir que não a deixasse partir.

            Quando Samantha abandonou o gabinete de Harvey, Charlie aguardava-a no corredor; lançou-lhe um sorriso afável, pôs-lhe um braço sobre os ombros e apertou-a contra si.

            — Estás pronta para partir?

            — Não. — Samantha esboçou um sorriso triste e fungou, procurando refúgio junto de Charlie.

            — Mas vais estar.

            — Achas? O que te dá tanta certeza? — Encaminhavam-se, a passo lento, para o gabinete de Samantha, e o desejo de ficar era cada vez maior. — Isto é uma loucura. E sabes bem que é, não sabes, Charlie? Quero dizer, há imenso trabalho, campanhas para coordenar, não tenho o direito de...

            — Podes continuar para aí a falar se quiseres, Sam, que não fará qualquer diferença. — Charlie olhou para o relógio. — Daqui a duas horas vou te colocar no avião.

            Samantha parou subitamente e virou-se para Charlie com um ar beligerante; este não conseguiu conter um sorriso. Parecia uma criança muito bonita e insuportável.

            — E se eu não for apanhar o avião?

            — Drogo-te e eu próprio te levo.

            — A Mellie não iria achar graça nenhuma.

            — Adoraria. Passa a semana toda a rogar-me que a deixe em paz. — Charlie parou e olhou-a fixamente.

            Samantha esboçou um tênue sorriso.

            — Não vou conseguir convencer-te, pois não.

            — Nem a mim nem ao Harvey. Não interessa o lugar para onde vais, mas tens de sair daqui, para teu próprio bem. Não te apetece, Sam? Não tens vontade de fugir de todos os problemas, das recordações, da hipótese de dar de caras com eles? — A palavra custou a sair, e Samantha encolheu os ombros.

            — Que diferença é que isso faz? Quando vir o noticiário na Califórnia, eles continuarão lá. Os dois. Com ar de... — Os olhos inundaram-se de lágrimas ao imaginar os dois rostos que a atraíam magneticamente todas as noites. Via-os sempre... Depois, sentia ódio de si própria por isso, com vontade de mudar para outro canal, mas a mão era incapaz de se mover. — Não sei, bolas, eles estão bem um com o outro, não estão? — O rosto transformou-se subitamente numa máscara de tristeza e as lágrimas começaram a rolar-lhe pela face. — Nunca tivemos aquele ar, pois não? Isto é...

            Charlie não respondeu; apenas a puxou para si e a amparou nos seus braços.

            — Tudo bem, Sam, tudo bem.

            Enquanto Samantha chorava baixinho encostada ao seu ombro, indiferente aos olhares das secretárias que passavam apressadamente por ela, Charlie afastou-lhe uma madeixa comprida de cabelos louros por cima da testa e sorriu-lhe. — É por isso que precisas de umas férias. A esse teu estado chama-se cansaço emocional, ou ainda não tinhas dado por isso?

            Samantha resmungou algo em sinal de desaprovação e depois se riu.

            — É assim que lhe chamam? Bem... — Afastou-se dele, suspirou e limpou as lágrimas. — Talvez precise de umas férias. — Então, atirando os cabelos para trás das costas com ar destemido, tentou olhar para o amigo. — Mas não por aquilo que pensas. Vocês é que me deixaram de rastos.

            — Tens toda a razão. E tencionamos continuar a deixar-te assim quando voltares. Por isso, diverte-te enquanto lá estiveres. Anda bastante a cavalo.

            Uma mão poderosa em ambos os ombros os fez virar de repente.

            — Ainda não foste embora? — Era Harvey, o cachimbo preso entre os dentes e um brilho nos olhos. — Pensei que tinhas um avião para apanhar.

            — E tem. — Charlie sorriu para Samantha.

            — Então, vai lá levá-la, por amor de Deus. Leva-a daqui. Temos de trabalhar. — Harvey esboçou um breve sorriso, fez um aceno com o cachimbo e desapareceu por outro corredor, enquanto Charlie via surgir de novo o tímido sorriso nos lábios de Sam.

            — Não precisas ir me pôr no avião.

            — Não?

            Samantha fez um sinal negativo com a cabeça. Não estava a prestar-lhe atenção; em vez disso, olhava para o gabinete como se fosse a última vez.

            Charlie percebeu a expressão no rosto de Sam e agarrou o casaco e nas sacolas dela.

            — Embora, antes que me ponhas a chorar. Vamos apanhar o avião.

            — Sim, chefe.

            Charlie saiu e ficou à espera. Sam deu dois passos hesitantes e seguiu-o.

            Com um profundo suspiro e um último olhar por cima do ombro, Sam fechou a porta devagarzinho.

 

            A viagem decorreu tranquilamente. O país parecia uma manta de retalhos.

            As texturas rugosas e acastanhadas dos campos frios estendiam-se até aveludados mantos de neve. Quando atingiram a costa oeste, surgiram os verdes acetinados e os azuis reluzentes das florestas e dos lagos.

            Finalmente, com um ardente pôr do Sol a dar as boas-vindas, o avião aterrizou em Los Angeles.

            Samantha esticou as longas pernas, depois os braços, enquanto olhava uma vez mais pela janela. Cochilara a maior parte da viagem e agora, ao olhar para fora, questionava-se sobre a razão da sua vinda. Por que motivo viera para a Califórnia? Que iria encontrar ali? Enquanto se levantava e atirava a longa cabeleira loura para trás das costas, concluiu que fizera mal em vir. Já não tinha dezenove anos. Não fazia qualquer sentido ir para um rancho desempenhar o papel de cowgirl. Era uma mulher com responsabilidades e uma vida para orientar, toda ela centrada em Nova Iorque. O que tinha ela ali? Nada, absolutamente nada.

            Soltou um suspiro, viu o resto dos passageiros começando a desembarcar, abotoou o casaco, pegou a mala de viagem e pôs-se na fila. Envergava um casaco de camurça castanho-escuro forrado com pele de carneiro, calças de brim e botas de cabedal Celíne, cor de chocolate. A mala de viagem era da mesma cor e, enrolado à alça, trazia um lenço vermelho de seda, que colocou em volta do pescoço. Mesmo de sobrolho franzido e com as roupas informais que usara na viagem, continuava a ser uma mulher deslumbrante, e as cabeças dos homens voltaram-se quando se dirigiu para a saída do gigantesco avião. Nenhum deles a vira durante a viagem de cinco horas, pois só uma vez abandonara o assento para lavar a cara e as mãos antes de servirem o almoço. O resto do tempo passara sentada, entorpecida, cansada, cochilando, tentando compreender uma vez mais por que razão se deixara convencer a vir para o Oeste.

            — Tenham uma boa estada. Obrigada por voarem...

            A falange de aeromoças pronunciou as palavras familiares de rajada, e Samantha sorriu-lhes em resposta.

            Instantes depois, Samantha encontrava-se no aeroporto de Los Angeles, olhando em redor, com ar desorientado, sem saber para onde ir e quem viria buscá-la, se é que tal iria acontecer. Caroline dissera-lhe que seria provavelmente o capataz, Bill King, e, caso ele não pudesse, qualquer outro trabalhador do rancho. "Procura-os, não passam despercebidos no aeroporto." Ambas tinham desatado a rir. Num aeroporto repleto de artigos Vuitton e Gucci, sandálias de lamé dourado, peles de marta e chinchila, pequenos tops e camisas abertas até ao umbigo, seria fácil encontrar um ajudante de rancho com chapéu e botas de cow-boy e calças de brim.

            Mais do que pela indumentária, seria fácil detectá-lo pelo modo de andar, a pele bronzeada, o ar pouco à vontade com que se movimentaria entre a multidão bem vestida, sofisticada e decadente. Por outras visitas que fizera ao rancho, sabia que nada existia de sofisticado ou decadente na gente que lá trabalhava. Eram pessoas fortes, simpáticas, que adoravam o trabalho que faziam e possuíam uma ligação quase mítica com a terra que cultivavam, com os companheiros de trabalho e com o gado que criavam com tanto carinho. Pertenciam a uma classe que Samantha sempre respeitara, mas, como era óbvio, muito diferente daquela a que estava habituada em Nova Iorque.

            Por instantes, enquanto observava o típico caos do aeroporto, imaginou que, uma vez chegada ao rancho, ficaria contente pela decisão que tomara. Afinal, talvez fosse o mais indicado naquele momento.

            Enquanto procurava o letreiro que dizia RETIRADA DE BAGAGEM, sentiu uma mão no braço. Virou-se, com ar perplexo, e deu de cara com o velho cow-boy, alto, de ombros largos e pele cor de couro de quem ainda se recordava. Estava ali diante dela, os olhos azuis como pedaço de céu de verão, o rosto enrugado como uma paisagem, o sorriso largo. Ele transmitiu uma sensação muito calorosa quando tocou no chapéu e depois a envolveu num fervoroso abraço. Era Bill King, capataz do Rancho Lord desde que Caroline o adquirira trinta anos antes. Era um homem de sessenta e poucos anos, de limitada instrução, mas possuidor de vastos conhecimentos, grande sabedoria e até uma enorme afabilidade. Sam sentira-se atraída por ele a primeira vez que o vira, e, junto com Barbara, respeitavam-no como um tio experiente, tendo ele as defendido em todas as situações.

            Fora com Caroline ao funeral de Barbara e ficara discretamente atrás da família, com uma torrente de lágrimas a escorrer-lhe pelo rosto. Agora, porém, não havia quaisquer lágrimas, apenas sorrisos, ao mesmo tempo que uma mão enorme a apertava, soltando um pequeno grito de alegria.

            — Caramba, que felicidade em ver-te, Sam! Há quanto tempo é que já não nos víamos? Cinco, seis anos?

            — Talvez há oito ou nove. — Sam sorriu-lhe, igualmente contente por vê-lo e subitamente feliz por ter vindo. Talvez Charlie tivesse razão. O homem alto e bronzeado olhava-a com uma expressão que a fazia sentir em casa.

            — Pronta? — Bill estendeu-lhe o braço, que Sam agarrou fazendo um sinal afirmativo com a cabeça e um sorriso; foram buscar a bagagem que já andava pachorrentamente às voltas na passadeira giratória. — É esta? — Olhou-a com ar inquiridor, enquanto segurava a enorme mala de cabedal preta com a lista vermelha e verde da Gucci. Pegou na pesada mala de viagem com uma mão e atirou a bolsa por cima do ombro.

            — É só, Bill.

            O homem franziu o sobrolho.

            — Quer dizer que não vais passar muito tempo. Lembro-me da última vez que estiveste aqui com o teu marido. Devem ter trazido sete malas entre os dois.

            Sam riu-se com a lembrança. John trouxera roupa suficiente para um mês em Saint-Moritz.

            — A maior parte das malas pertencia ao meu marido. Tínhamos estado em Palm Springs.

            Bill concordou afirmativamente com a cabeça, sem dizer palavra, encaminhando-se depois para a garagem. Era um homem de poucas palavras mas de emoções fortes. Sam observara esse fato muitas vezes nas primeiras visitas que fizera ao rancho. Cinco minutos mais tarde, chegaram à enorme pick-up vermelha, arrumaram a mala na parte de trás e, quando saíam lentamente do parque de estacionamento do Aeroporto Internacional de Los Angeles, Samantha teve a sensação de estar prestes a atingir a liberdade.

            Depois de confinada à vida em Nova Iorque, ao emprego, ao casamento, e por último à confusão de corpos que se comprimiam à sua volta no avião e depois no terminal do aeroporto, estava finalmente prestes a sair para espaços abertos, a estar só, a meditar, a ver montanhas, árvores e gado, a redescobrir uma vida que quase esquecera. Ao pensar nisso, um prolongado sorriso iluminou-lhe o rosto.

            — Estás com ótimo aspecto, Sam. — Bill lançou-lhe uma olhadela à saída do aeroporto e engatou a quarta velocidade quando chegaram à auto-estrada mais adiante.

            Sam limitou-se a sorrir e a abanar a cabeça.

            — Não tanto assim. Já foi tempo. — Sentia-se comovida com as palavras, ao recordar a última vez que o vira com Caroline Lord. Fora uma viagem estranha, uma complexa mistura de passado e presente. O rancho não divertira muito John. Enquanto percorriam a auto-estrada, o pensamento de Sam entregou-se às recordações da última viagem. Após o que lhe pareceu um tempo infindo, sentiu a mão do velho capataz no braço e, ao olhar em volta, verificou que a paisagem se alterara radicalmente. Não havia qualquer evidência da fealdade plástica dos subúrbios de Los Angeles, não se viam quaisquer casas, apenas hectares e hectares de campos de cultivo, os limites de enormes ranchos e reservas governamentais desabitadas. O campo à volta era maravilhoso. Sam baixou o vidro e inspirou o ar.

            — Meu Deus, o ar até tem um cheiro diferente, não achas?

            — Sem dúvida. — Bill esboçou o habitual sorriso afável e continuou por momentos a dirigir sem falar. — A Caroline está ansiosa por te ver, Sam. Tem sido uma solidão para ela desde que a Barb morreu. Fala muito em ti. Sempre duvidei que voltasses. Nunca pensei, depois da última vez. — Tinham permanecido pouco tempo no rancho, e John não fizera segredo do tédio enorme que o assolara.

            — Eu tinha de voltar, mais cedo ou mais tarde. Senti sempre o desejo de passar por aqui quando ia a Los Angeles em negócios, mas nunca tive tempo.

            — E agora? Deixaste o emprego, Sam? — Bill tinha uma vaga idéia de que o trabalho dela se relacionava com os anúncios que via na televisão; porém, não sabia ao certo com quem em particular, e também não estava interessado em saber. Caroline dissera-lhe que era um bom emprego, a fazia feliz e era a única coisa que contava. Sabia, naturalmente, o que o marido fazia. Toda a gente no país conhecia John Taylor, tanto de cara como de nome. Bill King nunca gostara dele, mas sabia muito bem quem ele era.

            — Não, Bill. Não deixei. Estou de licença.

            — Por doença? — Bill pareceu preocupado; atravessavam nesse momento as colinas.

            Sam hesitou por instantes.

            — Não propriamente. É mais uma cura de repouso. — Pensou deixar a questão por ali; depois, decidiu contar-lhe. — O John e eu nos separamos.

            Bill franziu o sobrolho mas não disse nada.

            — Há já algum tempo — prosseguiu Sam. — Uns três ou quatro meses. — Cento e dois dias, para ser exata. Contara-os um a um. — No escritório acharam que eu precisava fazer uma pausa.

            Sentiu algum desconforto ao dizer aquilo e, subitamente, viu-se invadida pelo pânico, tal como acontecera nessa manhã quando falara com Harvey. Iriam realmente despedi-la e não quereriam dizer-lhe ainda? Achariam eles que ela não conseguiria agüentar a pressão e que já se encontrava de rastos? Quando olhou para Bill King, viu-o fazer um gesto de concordância com a cabeça, como se tudo isto fizesse sentido.

            — Acho bom. — A voz de Bill era tranqüilizadora. — É difícil agüentarmo-nos quando estamos magoados. — Fez uma ligeira pausa e prosseguiu: — Descobri isso há anos quando a minha mulher morreu. Pensei que conseguia agüentar o trabalho no rancho em que trabalhava na altura. Ao fim de uma semana, o patrão disse-me: "Bill, meu rapaz, vou te dar um mês de ordenado, vais para casa para junto da tua família e volta quando o dinheiro acabar." Sabes que fiquei pior do que uma barata quando ele me disse isto, e pensei que estava tentando me dizer que eu já não conseguia dar conta do trabalho, mas ele tinha razão. Fui para casa da minha irmã, nos arrabaldes de Phoenix, fiquei lá cerca de seis semanas; quando voltei, era eu de novo. É impossível para um homem ou uma mulher manter a serenidade. Às vezes tem de se arranjar lugar para a dor.

            Bill não lhe contou que tivera três meses de licença, vinte e cinco anos depois, quando o filho fora morto nos primeiros dias da guerra do Vietnam. Durante três meses, ficara tão abatido que mal conseguia falar.

            Caroline é que o ajudara a ultrapassar a dor, escutando os seus desabafos, cuidando dele, quando o encontrara finalmente num bar em Tucson e o levara para casa. Fizera-lhe ver que tinha obrigações no rancho e que já chegava de sofrimento. Berrou com ele como um sargento instrutor e encheu-o de trabalho até ele pensar que ia morrer. Gritara, discutira e provocara-o tanto que um dia quase chegaram a vias de fato no pasto da zona sul. Depois de saltarem dos cavalos, atirara-se a Bill e lhe acertara em cheio no traseiro, desatando depois a rir até as lágrimas lhe correrem pelas faces. Ele reagira do mesmo modo, na galhofa, ajoelhando-se junto dela para ajudá-la a levantar; fora então que a beijara pela primeira vez.

            Esse episódio faria dezoito anos em agosto, e nunca amara tanto outra mulher. Era a única que desejara ardentemente, com quem rira, trabalhara e sonhara, e que lhe merecia mais respeito do que qualquer homem.

            Tratava-se de uma mulher muito especial. Caroline Lord não era uma mulher vulgar. Era uma super-mulher. Brilhante, divertida, atraente, simpática, bondosa, inteligente. Bill nunca compreendera o que ela via num ajudante de rancho. Mas Caroline sabia muito bem o que queria desde o princípio e nunca se arrependera da decisão. Há quase vinte anos que era mulher de Bill em segredo. Já teria tornado a relação pública se ele deixasse.

            Bill, porém, achava que a posição de dona do Rancho Lord era sagrada, e, embora aqui e ali houvesse suspeitas, ninguém sabia ao certo que eram amantes; a única certeza era o fato de serem amigos. Até Samantha nunca tivera essa certeza, embora ela e Barbara suspeitassem de que algo existia e muitas vezes rissem à socapa, porém sempre sem confirmação.

            — Como é que está a Caroline, Bill? — Sam olhou-o com um sorriso terno e viu o olhar dele refletir um brilho especial.

            — Mais rija do que nunca. Não há ninguém assim no rancho. E mais velha.

            Era três anos mais velha do que ele. Com vinte anos, fora uma das mulheres mais encantadoras e elegantes de Hollywood, casada com um realizador famoso. As festas que dera faziam já parte das lendas dessa época áurea, e a casa que construíra nas colinas sobre Hollywood pertencia ainda aos itinerários turísticos. Mudara de donos muitas vezes mas era ainda um edifício extraordinário, um monumento de uma era raramente igualada em anos posteriores. Caroline enviuvara aos trinta e dois anos, e a sua vida em Hollywood nunca mais fora a mesma. Mantivera-se lá durante mais dois anos, mas sentia-se amargurada e só; então, de repente, sem explicações, desaparecera. Passara um ano na Europa e seis meses em Nova Iorque. Levara um ano a decidir o que realmente queria. Um dia, ao fim de várias horas de viagem, sozinha no seu Lincoln Continental branco, chegara à conclusão de que o local onde gostaria de viver era no campo, em contacto com a Natureza, longe do champanhe, das festas e da vaidade. Nada disso fazia qualquer sentido depois da morte do marido.

            Todas essas coisas haviam acabado para ela. Estava preparada para algo muito diferente, uma vida completamente nova, uma nova aventura; nessa primavera, depois de ver todas as propriedades à venda num raio de trezentos e vinte quilômetros de Los Angeles, ela comprara o rancho.

            Pagara uma fortuna por ele; em seguida, contratara um conselheiro e os melhores ajudantes da região. Dera-lhes boas remunerações e construíra-lhes alojamentos confortáveis que poucos homens seriam capazes de recusar. Em troca, ansiava obter conselhos sensatos e bons ensinamentos para um dia dirigir o rancho sozinha e esperava que eles todos trabalhassem com tanto afinco como ela. Bill King a conhecera no primeiro ano, tomara conta do lugar e lhe ensinara tudo o que sabia. Era um capataz que a maioria dos rancheiros não desdenhava ter, e, por puro acaso, acabara indo parar ao Rancho Lord. E tornara-se até amante de Caroline Lord. A única coisa que Samantha conhecia da história de Bill no rancho era que ele estava lá praticamente desde o início e ajudara a transformar a exploração num sucesso financeiro.

            Era um dos poucos ranchos californianos de gado que apresentava lucro.

            Criavam bovinos de raça Angus e vendiam cavalos de raça Morgan. A maioria dos grandes ranchos situava-se no Oeste, na zona central ou mais para sul. Só uma minoria na Califórnia tinha sorte, sendo muitos deles mantidos com prejuízo pelos donos: habitantes da cidade, corretores de bolsa, advogados e estrelas de cinema, que os compravam como se fosse um jogo. Mas o Rancho Lord não era um jogo, nem para Bill King nem para Caroline Lord, nem para os homens que lá trabalhavam, e Samantha também estava ciente de que enquanto lá permanecesse teria de desempenhar igualmente certas tarefas. Ninguém vinha para o rancho para descansar.

            Não seria decente, tendo em vista o afinco com que toda a gente trabalhava.

            Quando falara com Sam, Caroline dissera-lhe que tinha falta de dois homens e que a sua ajuda seria bem-vinda. Iam ser umas férias de grande azáfama para Samantha, disso tinha a certeza. Muito provavelmente desempenharia pequenas tarefas nos estábulos, tomaria conta de alguns cavalos, e talvez ajudasse a limpar algumas cavalariças. Sabia que seria pouco provável que fizesse muito mais. Não que não fosse capaz. Há muito que Samantha provara a sua habilidade no dorso de um cavalo. Aos cinco anos já cavalgava, aos sete participava em concursos hípicos, aos doze entrara no Madison Square Garden, e obtivera três fitas azuis e uma vermelha; passara depois para os concursos de saltos e, durante alguns anos, alimentara o sonho dos Jogos Olímpicos, entregando-se a essa prática todos os bocadinhos livres, já com o seu próprio cavalo. Porém, logo que entrara para a faculdade, deixara de ter tempo suficiente, o sonho dos Jogos Olímpicos se desvanecera, e nos anos que se seguiram praticamente nunca tivera ocasião de se entregar ao seu desporto favorito. Essa oportunidade apenas surgia quando visitava o rancho com Barbara, ou quando por mero acaso, conhecia alguém que possuísse cavalos.

            No entanto, sabia que como "moça da cidade", seria pouco provável que os ajudantes a aceitassem trabalhando com eles, a menos que Caroline interviesse.

            — Tens andado muito a cavalo ultimamente? — Como se lhe lesse os pensamentos, Bill inclinou-se para ela com um sorriso.

            Sam abanou a cabeça.

            — Sabes que há já uns dois anos que não monto um cavalo, Bill?

            — Amanhã por esta hora vais estar toda dolorida.

            — Provavelmente. — Trocaram um mudo sorriso. — Mas talvez me sinta bem. É uma dor agradável. — joelhos cansados e barrigas das pernas doridas, uma dor diferente daquela que sentira nos últimos meses.

            — Temos palominos novos, um malhado também novo e uma série de morgans, que a Caroline comprou este ano. E depois... — Bill quase grunhiu ao prosseguir: — Há um cavalo doido. Não me perguntes para que ela o comprou; parece mais um cavalo de um dos filmes do marido. — Olhou para Sam com ar desaprovador. — Comprou um puro-sangue. Um cavalo extraordinário. Mas não precisamos de um cavalo daqueles no rancho. Parece um cavalo de corrida... Ela vai matar-se. Não há a menor dúvida, já lhe disse.

            Bill olhou para Sam e ela sorriu. Imaginava a elegante Caroline montada no seu puro-sangue a correr pelos campos, como se ainda fosse jovem. Iria ser maravilhoso revê-la e estar novamente no rancho. Samantha sentiu-se invadida por uma onda de gratidão, feliz por ter vindo. Olhou de soslaio para Bill enquanto percorriam os últimos quilômetros da viagem até ao rancho, onde ele vivia há mais de duas décadas. Samantha sentia-se curiosa por saber em que ponto se encontrava a relação de Bill com Caroline. Aos sessenta e três anos, era um homem ainda viril e elegante.

            Os ombros largos, as pernas compridas, os braços fortes, as mãos poderosas e os olhos azuis e brilhantes davam-lhe uma aura de força e estilo. O chapéu de cow-boy ficava maravilhosamente bem nele, assim como as calças de brim, que pareciam ter sido moldadas para as suas pernas. Nenhuma daquelas peças de vestuário lhe dava um ar banal ou ridículo. As rugas do rosto apenas ajudavam a realçar os traços bem vincados, e a voz roufenha de barítono ajudava a compor a imagem. Media, à vontade, um metro e noventa sem o chapéu; com o chapéu, era, literalmente, uma torre.

            Ao passar a entrada principal do rancho, Samantha soltou um suspiro de alívio — e de dor — em relação a muitas sensações. A estrada estendia-se ao longo de mais alguns quilômetros depois da placa que dizia RANCHO LORD, com a gravação de um bonito L, usado também no ferro de marcar. Samantha sentia-se uma criança ansiosa, contendo a respiração, à espera de ver a casa surgir subitamente à sua frente; faltavam apenas dez minutos até à última curva da estrada particular. Finalmente, lá estava ela. Parecia uma velha casa de plantação, bonita, grande, branca, com persianas azul-escuras, uma chaminé de tijolo, um alpendre largo, degraus amplos, rodeada de canteiros de flores, que se transformavam numa orgia de cores no Verão; e atrás dela, uma autêntica muralha de gigantescas e graciosas árvores.

            Ao fundo da encosta, havia um salgueiro e um pequeno lago, coberto de nenúfares e repleto de rãs. A pouca distância, encontravam-se os estábulos e os alojamentos dos trabalhadores. Poucos ranchos eram tão bem tratados, tão bem dirigidos... e nenhum se podia vangloriar de ter Caroline Lord ou Bill King à sua frente.

            — Então, minha menina, que tal te parece? — A pick-up parara e, como sempre fazia, Bill olhou em redor, com óbvio orgulho. Ajudara a fazer do Rancho Lord algo especial, e era isso o que ele efetivamente era, sobretudo para ele. — Está diferente?

            — Não. — Sam sorriu enquanto olhava em volta na escuridão. A Lua estava alta, a casa encontrava-se bem iluminada, havia luzes acesas nos alojamentos dos homens e no salão principal onde comiam e jogavam cartas, e uma luz forte iluminava perto dos estábulos. Aparentemente, pouca coisa mudara.

            — Há alguns melhoramentos técnicos, mas não são visíveis.

            — Folgo em saber. Receava que estivesse tudo mudado.

            — Nada disso. — Bill buzinou duas vezes, a porta do edifício principal abriu-se e uma mulher alta, magra, de cabelos brancos, surgiu na entrada, sorrindo primeiro para Bill e depois para Sam. Houve apenas uma hesitação momentânea ao olhar para a jovem. Então, em passo ligeiro, correu pelas escadas abaixo, tomou Samantha nos seus braços e deu-lhe um abraço apertado.

            — Bem-vinda a casa, Samantha. Bem-vinda a casa. — De repente, enquanto o cheiro do perfume de rosas de Caroline Lord se espalhava no ar, Sam sentiu a densa cabeleira branca roçar-lhe a face, ao mesmo tempo que os olhos se inundavam de lágrimas e se via tomada pela sensação de ter chegado realmente a casa. Instantes depois, as duas mulheres se separaram, Caroline deu um passo atrás e olhou para Sam com um sorriso nos lábios. — Meu Deus, estás bonita, Sam. Mais bonita do que da última vez.

            — Estás louca. Tu é que estás com um ótimo aspecto. — A mulher mais velha era alta e magra, e estava mais aprumada do que nunca, os olhos eram brilhantes e todo o corpo irradiava vida. Estava tão bonita como da última vez que Sam a vira com cinqüenta e tantos anos. Agora, aos sessenta e seis, mantinha a mesma beleza; apesar das calças de brim e da camisa de homem de algodão, o seu estilo era inconfundível. Usava um lenço azul-vivo ao pescoço e um velho cinto índio à cintura, e as botas de cow-boy eram de um verde-escuro em tom de jade. Samantha olhara para baixo, por acaso, enquanto seguia Caroline pelos degraus e murmurou num tom deleitado: — Oh, meu Deus, são lindas, Caroline!

            — São, não são? — Caroline compreendera imediatamente e olhou para elas com um sorriso infantil. — Mandei fazê-las de propósito. É uma extravagância da idade, mas, que raio, pode ser a minha última oportunidade.

            Sam ficou impressionada com aquele tipo de referência e achou curioso Caroline pensar assim agora. Sem dizer palavra, entrou, enquanto Bill a seguia com a bagagem.

            Na entrada, sobressaíam uma elegante mesa de estilo rústico americano, um candeeiro em bronze e um enorme tapete de cores claras feito à mão. Na sala de estar, mais à frente, havia uma grande quantidade de lenha a arder na lareira e uma série de confortáveis cadeiras de estofados azuis-escuros em volta. Era uma cor também visível num tapete antigo, este com flores de cores vivas feitas à mão. A sala estava decorada em tons azuis, vermelhos e verdes, com um esplendor que parecia ser o reflexo perfeito da própria Caroline, e tudo era realçado pelos muitos móveis antigos feitos de madeiras nobres. Havia livros com encadernações em couro, peças de bronze por todo o lado, um suporte para lenha em frente da lareira, castiçais, vasos, alfaias e candelabros de parede que pareciam delicadas velas.

            Era uma sala maravilhosa, decorada com elegância e carinho, muito ao jeito de Caroline, perfeitamente enquadrada no rancho. Ela ficaria bem na Town & Country ou na House & Garden, mas, naturalmente, Caroline nunca a exibira. Era a sua casa e não um local público e, depois dos anos de muita exposição que passara em Hollywood, defendia agora com afinco a sua privacidade. A ponto de ter virtualmente desaparecido uns vinte e cinco anos antes.

            — Queres mais lenha, Caroline? — Bill olhava-a do alto do seu metro e noventa, os cabelos brancos como neve revelados enquanto mantinha o chapéu de abas largas na mão.

            Caroline sorriu e abanou a cabeça, com um ar mais jovem que nunca, o brilho no olhar de Bill refletido no dela.

            — Não, obrigada, Bill. Já chega para o resto da noite.

            — Ótimo. Então, até amanhã, minhas senhoras. — Bill lançou um sorriso afável a Sam, fez uma vênia respeitosa a Caroline, deixou a sala de estar com passadas largas e saiu. Fechou devagarzinho a porta atrás de si e, tal como já acontecera com Barbara uma centena de vezes, durante as visitas, quando andavam na faculdade, Sam concluiu, uma vez mais, que afinal de contas, não havia qualquer relação entre os dois. Caso contrário, não se despediriam assim. Os cumprimentos nunca iam além de cordiais gestos de cabeça, sorrisos fortuitos e saudações calorosas, e as conversas circunscreviam-se ao rancho. Nada entre eles evidenciava outro tipo de relação, embora quando se olhava para eles se tivesse a sensação de existir um acordo secreto entre os dois, ou como Sam referira uma vez a Barbara: "É como se eles fossem realmente marido e mulher".

            Antes que Samantha pudesse continuar com as suas cogitações, Caroline pousou um tabuleiro perto da lareira, serviu uma xícara de chocolate quente, destampou um prato de sanduíches e fez sinal a Sam para se sentar.

            — Vá lá, Sam, senta e te põe à vontade. — Quando Sam se instalou, Caroline lançou-lhe novo sorriso. — Bem-vinda a casa.

            Pela segunda vez nessa noite, os olhos de Sam ficaram inundados de lágrimas e estendeu a mão, comprida e graciosa, para Caroline. Deram as mãos por instantes, enquanto Sam apertava os dedos ossudos com força.

            — Obrigada por me teres deixado vir para aqui.

            — Não digas isso. — Caroline soltou a mão e passou-lhe o chocolate quente. — Fiquei feliz por me teres telefonado. Sempre nutri uma grande amizade por ti... — Hesitou, olhou para o lume e depois para Sam: — Tão grande como a que nutri pela Barb. — Soltou um ligeiro suspiro. — Perdê-la foi como perder uma filha. Custa a acreditar que já passaram dez anos.

            Sam fez um gesto de concordância com a cabeça, depois Caroline sorriu-lhe.

            — Sinto-me feliz por não ter te perdido também. Adoro as tuas cartas, mas nos últimos anos tenho me perguntado se voltarias algum dia.

            — Eu queria, mas... andei ocupada.

            — Queres contar-me tudo o que se passou, ou estás muito fatigada? — O vôo durara quatro horas e a viagem de carro três. Pela hora da Califórnia, eram apenas oito e meia, mas pela hora de Sam, em Nova Iorque, eram onze e meia da noite. Nem sequer estava cansada, apenas feliz por ver a velha amiga.

            — Não estou nada fatigada... Só não sei por onde começar.

            — Então, começa pelo chocolate quente. Depois, os sanduíches. Finalmente, a conversa. — As duas mulheres trocaram novo sorriso e Sam não resistiu a esticar novamente a mão, que Caroline apertou ternamente. — Sabes como é bom ter-te aqui de novo?

            — Melhor é a sensação de estar de volta. — Sam deu uma dentada num sanduíche e recostou-se no sofá com um largo sorriso. — O Bill disse-me que tens um novo puro-sangue. É realmente uma beleza?

            — Oh, meu Deus, Sam, se é! — E deu nova gargalhada. É melhor até do que as minhas botas verdes. — Caroline olhou para o chão, divertida, depois para Sam com os olhos a cintilar. — É um garanhão com tanto vigor que só a custo consigo montá-lo. O Bill tem medo que ele me mate, mas, quando o vi não consegui resistir. O filho de um dos rancheiros aqui da região comprou-o em Kentucky, depois precisou de dinheiro rápido e o vendeu para mim. É um pecado montá-lo por prazer, mas não consigo evitar. Sinto necessidade. Pouco me importa se sou uma velha artrítica ou se pensam que estou louca, ele é o único cavalo na minha vida que quero montar até morrer.

            Sam encolheu-se ao ouvir as referências à morte e à velhice. Nesse aspecto, tanto Caroline como Bill haviam mudado desde a última vez. No entanto, a verdade é que estavam os dois já na casa dos sessenta e talvez isso fosse uma preocupação normal da idade. Era impossível imaginá-los como "velhos", elegantes, ativos e fortes como eram. Todavia, era obviamente a imagem que ambos tinham de si próprios.

            — Como é que se chama?

            Caroline soltou uma gargalhada, levantou-se e se encaminhou para a lareira, as mãos estendidas à procura de calor.

            — Black Beauty, naturalmente. — Caroline voltou-se para Sam, os finos traços delicadamente iluminados pelo lume, mais parecendo um camafeu cuidadosamente gravado ou uma figura de porcelana.

            — Já te disseram como estás bonita, tia Caro? — Era o nome por que Barbara a tratara, e desta vez havia lágrimas nos olhos de Caroline.

            — Que Deus te abençoe, Sam! Estás mais cega do que nunca.

            — Uma ova é que estou! — Sam soltou um largo sorriso e mordiscou o resto do sanduíche antes de beber um gole do chocolate quente que Caroline servira de uma térmica. Era a mesma anfitriã afável que Samantha encontrara quando da primeira visita ao rancho e das lendárias festas em Hollywood, em 1935. — Bem... — O rosto de Sam tomou lentamente um ar sério. — Suponho que queiras saber o que se passou com o John. Acho que pouco mais há a acrescentar àquilo que te contei a outra noite ao telefone. Mantinha um caso com outra mulher, engravidou-a, deixou-me, casaram e agora esperam o nascimento do primeiro filho.

            — Dizes isso com tanta ligeireza. — Após uma pausa perguntou: — O odeias?

            — Às vezes. — A voz de Sam transformou-se num murmúrio. — A maior parte do tempo, sinto saudades dele e pergunto a mim própria se ele está bem. Gostaria de saber se ela sabe que ele é alérgico a meias de lã, se alguém lhe compra o café preferido, se está doente ou bem de saúde ou feliz ou alucinado, se lembra de tomar o medicamento para a asma numa viagem... se... se está arrependido... — Fez uma pausa, depois olhou para Caroline, ainda de pé, junto da lareira. — É uma loucura, não achas? O homem me abandonou, me enganou, se desfez de mim, e agora nem sequer me telefona para saber como é que estou, e eu aqui preocupada com o fato de poder ter comichão nos pés se a mulher cometer o erro de lhe comprar meias de lã. Não é uma loucura?

            Fechou os olhos com força. Abanou ligeiramente a cabeça, os olhos cerrados, como se não quisesse ver as imagens que dançavam na sua cabeça há muito tempo.

            — Meu Deus, Caro, foi uma coisa horrível e com demasiada repercussão pública. — Abriu os olhos. — Não leste nada sobre o assunto?

            — Li. Uma vez. Um mexerico sobre o fato de estarem separados. Tive a esperança de que fosse mentira, de que se tratasse apenas de uma notícia sensacionalista. Sei como essas coisas são, como se lançam boatos sem o mínimo de fundamento.

            — Este... tinha. Nunca os viste na televisão?

            — Nunca.

            — Antes, também não os via. — Samantha ficou com um ar pesaroso. — Mas agora vejo.

            — Tens de parar com isso.

            Samantha fez um gesto de concordância com a cabeça.

            — Tenho mesmo. Há muitas coisas com que tenho de parar. É por isso que vim para cá.

            — E o teu emprego?

            — Não sei. Consegui mantê-lo apesar de tudo. Pelo menos, acho que sim, se estavam a falar a sério quando me vim embora. Mas para te dizer a verdade, eu não sei como consegui. Parecia um zumbi. — Sam deixou cair a cabeça entre as mãos com um suave suspiro. — Talvez tenha sido bom abandonar Nova Iorque. — Sentiu a mão de Caroline no ombro, pouco depois.

            — Também acho, Sam. Talvez o rancho te dê tempo para sarar as feridas e arrumar as idéias. Ficaste tremendamente traumatizada. Passei pelo mesmo quando o Arthur morreu. Nunca imaginei ultrapassar a dor. Também julguei que ela me matasse. Não é a mesma coisa que te aconteceu, mas, à sua maneira, a morte é uma rejeição. — Franziu ligeiramente o sobrolho ao proferir as últimas palavras, mas um sorriso aflorou-lhe novamente aos lábios. — A tua vida não está acabada, Samantha. Nalguns aspectos, ela começou. Que idade tens?

            — Trinta — murmurou Samantha. Pronunciou a palavra como se quisesse dizer oitenta e Caroline soltou uma gargalhada, um som delicado e cristalino que ecoou na bonita sala.

            — Estás à espera que fique impressionada?

            — Que sejas compreensiva — disse Samantha com um largo sorriso.

            — Na minha idade, é pedir muito. Invejosa, talvez seja a palavra mais adequada. Trinta. — Caroline olhou com um ar sonhador para o lume. — O que eu não daria por essa idade!

            — O que eu não daria por ter o teu aspecto e que se lixe a idade!

            — Bajuladora, bajuladora... — Mas era óbvio que a conversa lhe agradava.

            Voltou-se de novo para Sam, com uma questão no olhar.

            — Houve alguém desde que isso aconteceu?

            Sam abanou a cabeça de imediato.

            — Porque não?

            — Por duas ótimas razões. Ninguém decente me convidou e eu não quero. Ainda me sinto casada com o John Taylor. Se estivesse com outro homem, seria uma vigarice. Não me sinto preparada. E sabes uma coisa? — Sam olhou com um ar sombrio para Caroline. — Não sei se alguma vez me sentirei. Não tenho vontade. É como se uma parte de mim tivesse morrido quando ele saiu de casa. Não quero saber de nada. Estou-me lixando se não voltar a amar alguém. Não me sinto digna de ser amada. Não quero ser amada por ninguém... só por ele.

            — Bem, é melhor fazeres alguma coisa, Samantha. — Caroline olhou-a com um ar desaprovador. — Tens de ser realista, não podes andar de um lado para o outro como um zumbi. Tens de viver. Foi o mesmo que me disseram. Leva o seu tempo, eu sei. Há quantos meses é que andas assim?

            — Três e meio.

            — Espera mais seis. — Caroline esboçou um leve sorriso. — E se não estiveres loucamente apaixonada, faremos algo radical.

            — Como o quê, por exemplo? Uma lobotomia? — Samantha exibia um ar sério quando bebeu outro gole de chocolate quente.

            — Pensaremos em qualquer coisa, mas acho que não haverá necessidade.

            — Nessa altura já estarei de novo na Madison Avenue, a matar-me com um dia de trabalho de quinze horas.

            — É isso que queres? — Caroline olhou-a com um ar triste.

            — Não sei. Achava que sim. Mas agora, ao olhar para trás, talvez andasse a competir com o John. Por outro lado, tenho grandes hipóteses de chegar a diretora criativa da agência, e há muito ego envolvido nisso.

            — Gostas do trabalho?

            Samantha fez um sinal afirmativo com a cabeça e sorriu.

            — Adoro. — E desviou o olhar para o lado com um tímido sorriso. — Mas já houve alturas em que preferiria este tipo de vida, Caro... — Hesitou por instantes. — Posso montar o Black Beauty amanhã? — Ficou de repente com um ar extremamente jovem.

            Caroline abanou lentamente a cabeça.

            — Ainda não, Sam. É melhor te ambientares num dos outros. Há quanto tempo é que não montas um cavalo?

            — Há uns dois anos.

            — Então não queiras recomeçar com o Black Beauty.

            — Porque não?

            — Porque estarás de traseiro no chão ainda antes de chegar ao portão. Não é um cavalo fácil de montar, Sam. — Depois, num tom mais afável: — Nem mesmo para ti, desconfio.

            Anos antes Caroline vira que Samantha era uma cavaleira esplêndida, mas sabia muito bem que Black Beauty não era um cavalo qualquer; dera-lhe uma trabalheira tremenda e pusera em respeito o capataz e a maioria dos ajudantes do rancho.

            — Espera algum tempo. Prometo que te deixo montá-lo quando te sentires novamente segura de ti.

            Ambas sabiam que Sam estaria apta em pouco tempo. Passara demasiado tempo com cavalos para ficar enferrujada.

            — Espero que queiras andar a cavalo a sério. O Bill e eu passamos as últimas três semanas às voltas com a papelada do rancho. Temos muitas coisas para pôr em ordem no final do ano. Além disso, faltam-nos dois homens. Podemos aproveitar uma ajuda suplementar. Se quiseres, podes ir com os homens.

            — Estás falando sério? — perguntou, quase aturdida. — Me deixas fazer isso? — Os enormes olhos azuis de Sam iluminaram-se com o brilho do lume, os cabelos louros parecendo incandescentes.

            — Claro que deixo. Ficar-te-ia agradecida. — Depois, com um sorriso afável: — És tão competente como eles. Ou ficarás, ao fim de um ou dois dias. Achas que agüentarias um dia inteiro na sela logo de início?

            — Com certeza que sim! — Samantha abriu um sorriso de orelha a orelha, enquanto Caroline se encaminhava para ela com um ar de afeto estampado no olhar.

            — Então vai para a cama, minha jovem. Tens de estar a pé às quatro. Estava certa de que irias dizer que sim. Portanto, pedi ao Tate Jordan para esperar por ti. Eu e o Bill temos de ir à cidade.

            Olhou para o relógio. Era um relógio simples, que Bill King lhe oferecera no Natal. Há trinta anos atrás, os únicos relógios que lhe adornariam o pulso seriam suíços e cravejados de diamantes. Possuía um especial, da Cartier, que o marido lhe oferecera em Paris. Mas há muito que não o usava. Às vezes custava-lhe a acreditar que tivera outra vida. Olhou para Sam com um sorriso terno nos lábios e abraçou-a com firmeza.

            — Bem-vinda a casa, querida!

            — Obrigada, tia Caro!

            Em passo lento, as duas mulheres começaram a percorrer o vestíbulo.

            Caroline sabia que não havia problema com o lume na lareira; deixara o tabuleiro para a mexicana que vinha todas as manhãs ao rancho para limpar a casa.

            Caroline conduziu Samantha até o quarto e viu-a olhar, com ar deleitado, para os aposentos. Era um quarto diferente daquele que partilhara com Barbara nas suas estadas de Verão. Há muito que Caroline transformara aquele quarto num escritório. Sentira uma mágoa imensa ao lembrar-se da jovem que vivera aí, que se tornara mulher no meio dos folhos cor-de-rosa daquele quarto. Este era completamente diferente. Também feminino, mas todo em branco. Branco e cheio de folhos e franzidos, desde a cama com dossel às almofadas feitas à mão, à espreguiçadeira de verga. Apenas a bonita colcha de retalhos em cima da cama apresentava algumas cores, uma mescla de cores vivas, vermelho, azul e amarelo, tudo cuidadosamente tecido num padrão rústico. Havia almofadas a condizer em cima de duas confortáveis cadeiras de verga perto da lareira. Na grande mesa também de verga, encontrava-se uma enorme jarra de flores multicolores. Samantha teria uma vista magnífica das colinas. Era um quarto em que apetecia passar horas, se não mesmo anos. Caro ainda mantinha algumas maneiras de Hollywood. Ainda decorava todos os quartos com os toques especiais e o infinito bom gosto que haviam caracterizado os anos passados em Hollywood.

            — Não parece um quarto de ajudante de rancho. — Sam riu-se, ao mesmo tempo que se sentava na beira da cama e olhava em redor.

            — Pois não. Mas se preferires, estou certa de que qualquer um dos homens não se importaria de partilhar o seu beliche.

            Riram-se uma para a outra, beijaram-se e depois Caroline fechou suavemente a porta. Samantha conseguia ouvir os tacões das botas de cow-boy ecoar ao fundo do corredor, no outro extremo da casa, onde Caro instalara o seu próprio apartamento: um quarto amplo, um pequeno gabinete, um quarto de vestir, uma casa de banho, tudo decorado com cores vivas, a colcha a condizer; ali conservava ainda algumas peças de arte compradas há muito. Havia um belo quadro impressionista. As outras peças tinham sido adquiridas na Europa, algumas com o marido, outras depois de perdê-lo. Eram os únicos tesouros que guardava da sua antiga vida.

            No quarto, Sam desfazia a mala, com a sensação de haver entrado, no espaço de poucas horas, num mundo completamente diferente. Seria possível ter estado em Nova Iorque nessa manhã, dormido no apartamento e falado com Harvey no escritório? Como se conseguia chegar até tão longe em tão pouco tempo? E ainda se sentiu mais incrédula ao ouvir os cavalos relinchando ao longe e ao deixar o vento de inverno lhe fustigar o rosto quando abriu a janela e espreitou lá para fora. Aí, a paisagem era iluminada pela Lua, que sobressaía no imenso céu estrelado. Era um espetáculo esplendoroso.

            Uma enorme satisfação por estar naquele local com Caroline... e longe de Nova Iorque, apoderou-se de Samantha. Ali se reencontraria consigo mesma. Fora a melhor opção que tomara. Quando saiu da janela, ouviu algures, ao longe, o barulho de uma porta a fechar-se, nas proximidades do quarto de Caroline; por instantes, ficou curiosa por saber, tal como Barbie também ficara há muito tempo, se seria Bill King.

 

            O despertador sobre a mesa-de-cabeceira tocou as quatro, na manhã seguinte. Sam resmungou algo ao ouvi-lo e estendeu o braço para desligá-lo. Ao fazê-lo, sentiu uma ligeira brisa nos dedos e apercebeu-se de imediato de que havia algo de diferente. Abriu um olho, olhou em volta e verificou que não se encontrava em casa. Pelo menos, na sua. Olhou em volta uma vez mais, completamente confusa; depois, dirigiu o olhar para o dossel branco franzido por cima dela e então compreendeu.

            Encontrava-se no rancho de Caroline Lord, na Califórnia, e nessa manhã ia andar a cavalo com os outros ajudantes. A idéia parecia menos atraente do que na noite anterior. A perspectiva de saltar da cama, tomar uma ducha, sair de casa antes mesmo de tomar o pequeno-almoço, e só depois de enfrentar um prato abarrotado de ovos e salsichas, saltar para cima de um cavalo, muito provavelmente ainda antes das seis, era aterradora. No entanto, fora para isso que viera para o Oeste e, embora ponderasse a hipótese de não acordar em tempo, sabia que não podia fazê-lo. Não cairia nas boas graças dos homens. Além disso, acompanhar os trabalhadores era um privilégio que Caroline lhe concedera. Se queria ser respeitada pelos ajudantes do rancho, teria de se mostrar forte, zelosa, inteligente, hábil com o cavalo e apta a montar, como qualquer um deles.

            Não se sentiu muito encorajada quando espreitou a escuridão depois da ducha e viu que uma chuva miudinha cobria os campos. Vestiu um par de calças de brim azuis, uma camisa de botões branca, uma blusa grossa de gola alta, e calçou meias de lã e as botas de montar que usava religiosamente quando andava a cavalo na zona este.

            Eram botas feitas à mão, botas Miller's, não exatamente as mais adequadas para se usar num rancho; iria comprar um par de botas de cow-boy nesse fim-de-semana, mas entretanto teria de remediar-se. Apanhou os longos cabelos louros e fez um rabo-de-cavalo, salpicou o rosto com água fria, vestiu uma velha parka azul que usava para esquiar e calçou um par de luvas de pele castanhas.

            Os dias de Halston, Bill Blass e Norell pertenciam ao passado. A elegância era secundária, só o calor e o conforto importavam. Sabia que quando regressasse ao quarto nessa noite, teria todos os músculos a latejar, todas as articulações doloridas, o traseiro dormente, os joelhos esfolados, os olhos vermelhos do vento, um ardor no rosto, as mãos apertadas na posição em que as tivera todo o dia a segurar as rédeas.

            Saber isso não era propriamente um incentivo para se levantar. Saiu do quarto e viu uma nesga de luz por baixo da porta de Caroline. Pensou em dar os bons-dias, mas era uma hora imprópria para perturbar quem quer que fosse, e continuou em bicos de pés até à porta principal. Fechou-a devagarinho atrás de si, pôs o capuz da parka na cabeça e apertou-o, a chuva miudinha a cair, as botas a fazerem ligeiros ruídos nas poças de água que já se haviam formado.

            Teve a sensação de levar uma eternidade para chegar ao salão principal, onde os homens comiam e onde alguns se juntavam à noite para jogar bilhar ou cartas. Era um edifício amplo, pintado há pouco tempo, cheio de recantos, com telhado de vigas, uma chaminé alta em tijolo, um toca-discos, um televisor, várias mesas de jogo e uma bonita mesa de bilhar antiga. Como Sam sempre soubera, Caroline tratava bem os seus homens.

            Por instantes, ao chegar à porta, Sam sentiu a mão gelar ao tocar na maçaneta e perguntou a si mesma se sabia o que estava a fazer. Preparava-se para invadir o retiro dos homens, partilhar o pequeno-almoço e o almoço com eles, trabalhar ao lado deles e fingir ser um deles. Que pensariam da intrusão? De repente, Samantha sentiu os joelhos cedendo, interrogando-se sobre se Caroline e Bill os teriam avisado; e ali ficou, com pavor de entrar. Parada à chuva, hesitante, com a mão na maçaneta da porta, ouviu uma voz atrás dela murmurar:

            — Entra, porra, está frio!

            Sam voltou-se, perplexa perante a voz inesperada, e deu de cara com um homem entroncado, de cabelos castanhos e olhos escuros, aproximadamente da mesma altura e idade que ela. Pareceu tão surpreendido quanto ela, levou rapidamente a mão à boca perante o erro e o rosto desfez-se num largo sorriso.

            — É a amiga de Miss Caroline, não é?

            Sam fez um sinal afirmativo, com a cabeça sem dizer palavra, tentando esboçar um sorriso.

            — Desculpe... mas podia abrir a porta? Está frio!

            — Oh... — Sam abriu a porta. — Desculpe. Eu só... Ela... ela falou de mim? — As faces rosadas de Sam ficaram coradas devido ao embaraço e à chuva gelada.

            — Claro. Bem-vinda ao rancho, Miss. — O homem sorriu e entrou, com ar acolhedor mas com pouca vontade de dizer mais alguma coisa. Cumprimentou dois ou três dos outros ajudantes e dirigiu-se à enorme cozinha aberta, saudou o cozinheiro, agarrou uma xícara de café e numa tigela de papas de farinha de trigo.

            Samantha reparou então que a sala estava cheia de homens parecidos com o que acabara de entrar, todos de calças de brim azuis, casacos robustos e blusas grossas, os chapéus pendurados em cabides na parede, o barulho das botas no soalho a ecoar pela sala. Havia mais de vinte homens nessa manhã, conversando em grupos ou sozinhos bebendo café. Meia dúzia já estava sentada na comprida mesa, comendo bacon com ovos ou papas de cereais, ou acabando uma segunda ou terceira xícara de café. Para onde quer que olhasse, havia um homem embrenhado no seu ritual matinal, no seu mundo de homem, prestes a começar o trabalho de homem, e pela primeira vez na sua vida Samantha sentiu-se completamente deslocada. Corou de novo ao dirigir-se, com ar hesitante, em direção à cozinha, lançou um sorriso nervoso para dois dos homens enquanto enchia uma xícara de café, depois tentou desaparecer num dos extremos da sala.

            A primeira vista, não havia um só rosto de que se lembrasse. Muitos deles eram jovens e, provavelmente, relativamente novos ali, e só dois ou três deles tinham ar de trabalhar há muito tempo. Um era entroncado, de cinqüenta e poucos anos, extremamente parecido com Bill King. Possuía a mesma constituição física, mas os olhos não eram tão afáveis, nem o rosto tão simpático. Olhou só uma vez para Samantha, depois lhe virou as costas para dizer qualquer coisa a um jovem sardento de cabelos ruivos. Riram-se e depois atravessaram a sala para irem juntar-se a dois outros homens noutra mesa.

            Num momento de paranóia, Samantha interrogou-se se não seria ela o motivo do riso, se não fora uma loucura vir até ali, representando ainda uma loucura maior o fato de querer andar a cavalo com os homens. Havia um enorme contraste com os dias que passara ali com Barbara, quando andavam por todo o rancho. Por um lado, eram muito jovens e bonitas e era um deleite para todos os homens vê-las andar a cavalo por todo o lado. Desta vez, porém, era diferente. Samantha tentava fazer-se passar por um deles, coisa que eles nunca tolerariam, se calhar nem dando pela sua presença.

            — Não vai tomar o pequeno-almoço? — A voz a seu lado era roufenha mas gentil, e Sam deu de cara com outro homem do tempo do velho capataz, mas este não tinha um ar tão desagradável como o primeiro. Depois de mirá-lo, disse com voz entrecortada:

            — Josh! Josh! Sou eu, a Sam! — Encontrara-se no rancho, todos os verões em que ela viera com Barbara, sendo ele próprio a tomar conta delas.

            Barbara contara-lhe que fora com extrema gentileza que ele a ensinara a andar a cavalo quando era pequena. Sam recordou que ele tinha mulher e seis filhos algures. Mas nunca os vira no rancho. Tal como a maioria dos homens com quem trabalhava, estava habituado a viver a vida num mundo exclusivamente masculino. Era uma vida estranha e solitária, passada entre outros homens igualmente sós. Uma sociedade de solitários que se juntavam uns aos outros, como que à procura de conforto. Josh olhava agora para Samantha, confuso por instantes; depois, reconheceu-a e esboçou um sorriso afável. Sem hesitar, estendeu os braços e abraçou-a, e Sam sentiu a barba lhe arranhando a face.

            — Raios me levem! É a Sam! — Josh soltou um pequeno grito de alegria e riram os dois. — Por que raio é que não adivinhei logo quando Miss Caroline nos falou da sua "amiga"? — Deu uma palmada na perna, com um sorriso de orelha a orelha. — Como é que tens passado? Meu Deus, está com ótimo aspecto!

            Sam, o corpo envolto em roupas velhas e grosseiras, ainda meio sonolenta, mal acreditava no que ouvia.

            — Também tu! Como é que estão a tua mulher e os teus filhos?

            — Já cresceram e saíram de casa, graças a Deus. Exceto um e a minha mulher. — Baixou a voz, como que querendo lhe contar um segredo terrível.

            — Agora vivem aqui no rancho. Miss Caroline disse que não estava certo eles viverem na cidade e eu aqui.

            — Folgo em saber isso.

            Josh revirou os olhos em resposta e desataram a rir.

            — Não vais tomar o pequeno-almoço? Miss Caroline nos disse que uma pessoa amiga de Nova Iorque vinha nos ajudar. — Josh esboçou um sorriso malicioso por instantes. — Devias ter visto as caras deles quando ela lhes disse que essa pessoa amiga era uma mulher.

            — Devem ter ficado apavorados — comentou Samantha, num tom sarcástico, enquanto se encaminhava para a cozinha. Estava ansiosa por um café e a comida começava a cheirar bem, agora que encontrara Josh.

            De súbito, enquanto Sam enchia uma enorme tigela de papas de aveia, Josh inclinou-se para ela em ar de conspiração.

            — Que estás fazendo aqui, Sam? Não estás casada?

            — Já não.

            Josh abanou a cabeça com ar circunspecto; Sam não lhe deu mais nenhuma informação e dirigiram-se para uma das mesas. Durante bastante tempo, enquanto Sam comia as papas de aveia e mordiscava uma torrada, ninguém se juntou a eles. Finalmente, a curiosidade levou a melhor sobre dois ou três dos homens. Josh apresentou-os um a um: eram mais novos do que Sam e possuíam o ar rude de quem trabalhava arduamente ao ar livre. Não era, de modo algum, uma profissão fácil, especialmente naquela altura do ano.

            Fora assim que Bill King ganhara as rugas no rosto, as rugas que lhe davam um ar de estátua de traços bem vincados e que o tempo e as forças da natureza haviam escavado ao longo de cinqüenta anos em cima de um cavalo nos diferentes ranchos onde trabalhara. O rosto de Josh não era muito diferente e era evidente que muitos deles ficariam assim em pouco tempo.

            — Muitas caras novas, hein, Sam?

            Samantha fez um gesto de concordância com a cabeça, e Josh deixou-a por instantes para ir buscar mais café. O enorme relógio por cima da lareira marcava cinco e quarenta e cinco. Dentro de um quarto de hora, todos se dirigiriam à cavalariça buscar os cavalos e o dia de trabalho teria o seu início oficial. Estava ansiosa por saber quem iria distribuir-lhe o cavalo. Caroline não referira isso na noite anterior, e ficara subitamente curiosa, perscrutando em volta à procura de Josh.

            Todavia, este desaparecera com um dos seus amigos, e Sam deu consigo a olhar para todo o lado como uma criança perdida. Apesar de alguns olhares curiosos, não havia qualquer interesse evidente, e Sam suspeitava que era intencional o fato de não lhe prestarem atenção, a maior parte dos homens fingindo olhar para outro lado. Apetecia-lhe gritar ou subir em uma mesa, apenas para lhes captar a atenção de uma vez por todas e dizer-lhes que lamentava estar a invadir o seu mundo e que, se quisessem, poderia voltar para casa; porém, o fato de estarem a ignorá-la a exasperava. Era como se estivessem decididos a afugentá-la dali, aparentando não dar pela sua presença.

            — Miss Taylor?

            Sam deu uma volta sobre si mesma ao ouvir o seu nome e deu de caras com um peito largo coberto com uma camisa de lã de quadrados azuis e vermelhos.

            — Sim? — levantou o olhar até encontrar um par de olhos de uma cor que raras vezes observara. Eram quase verde-esmeralda com salpicos dourados.

            Os cabelos eram pretos e as têmporas grisalhas. O rosto parecia feito de couro, embora de traços delicados, sendo a sua estatura maior do que a de qualquer outro homem no rancho, inclusive Bill King.

            — Sou o capataz adjunto. — Referiu apenas o seu cargo, não disse o nome.

            Havia algo de frio e desagradável ao pronunciar aquelas palavras.

            Se o tivesse encontrado num beco escuro, um arrepio teria percorrido sua espinha.

            — Como está? — Sam não sabia o que dizer-lhe enquanto ele a olhava de sobrolho franzido.

            — Está pronta para vir até à cavalariça?

            Sam fez um gesto afirmativo com a cabeça, amedrontada com o estilo autoritário e a grande envergadura do homem.

            Reparou também que os outros estavam agora a olhar, curiosos por saber o que ele estava a dizer-lhe, e notou também que não havia qualquer traço de afabilidade no modo como falava, quaisquer palavras de boas-vindas, nem qualquer sorriso.

            Apetecia-lhe outra xícara de café, mas não quis dizer-lhe enquanto ele a conduzia até à porta. Pegou o casaco que estava pendurado no cabide, vestiu-o, pôs o capuz na cabeça e fechou a porta atrás de si, sentindo-se como uma criança que fizera algo de errado. Era evidente que a idéia de Samantha os acompanhar a cavalo o aborrecia. Entraram rapidamente na cavalariça. Samantha sacudiu a chuva do capuz, libertou os cabelos e ficou olhando para ele. O capataz adjunto pegou numa prancheta que continha uma lista dos nomes dos homens e dos animais, e em seguida, de sobrolho pensativo, encaminhou-se para uma baia próxima. À entrada da baia encontrava-se inscrito o nome LADY, o que deixou Samantha imediatamente irritada com a escolha. Só porque era mulher tinha de montar Lady, uma égua? Instintivamente, sentiu que aquela era a montada que iriam destinar-lhe para toda a estada e esperava ardentemente que Lady fosse, pelo menos, uma montada decente.

            — Anda bem a cavalo?

            Samantha limitou-se a fazer um gesto afirmativo com a cabeça, com receio de dizer o que não devia e de ofendê-lo, quando na verdade era melhor cavaleira do que a maioria dos homens do rancho; no entanto, ele teria de ver isso com os seus próprios olhos, se quisesse se dar a esse trabalho.

            Observou-o novamente enquanto ele percorria a lista com os olhos; deu consigo a olhar para a curva do pescoço e para os pelos escuros que roçavam no colarinho. Era um homem forte e sensual, de quarenta e poucos anos, possuía um aspecto algo assustador, impetuoso, teimoso e determinado. Sam pressentia isso sem o conhecer, e experimentou um arrepio de medo quando, ele se voltou de novo para ela e abanou a cabeça.

            — É capaz de ser demasiado para si. É melhor o Rusty. Está ao fundo da cavalariça. Pegue uma sela e monte-o. Saímos dentro de dez minutos. — Com um ar de enfado, acrescentou: — Consegue estar pronta a essa hora?

            Imaginaria o homem que ela levava duas horas a colocar uma sela num cavalo? — perguntou Sam a si mesma.

            De repente, à medida que olhava para ele, sentiu-se irritada.

            — Dentro de cinco minutos. Ou menos.

            O capataz adjunto não deu qualquer resposta, limitando-se a afastar-se; pendurou a prancheta na parede, donde a tirara, dirigiu-se a outra baia, selou o seu cavalo e conduziu-o para o exterior. Ao fim de cinco minutos, todos os homens haviam regressado do pequeno-almoço e a cavalariça transformara-se num caos de assobios e gargalhadas misturados com o barulho dos cavalos a bater as patas, a cumprimentar os seus cavaleiros habituais e a relinchar ao serem retirados das baias, provocando um verdadeiro engarrafamento. Todo o grupo ia saindo para o terreiro encharcado, juntando-se alegremente sob a chuva miudinha.

            A maioria dos homens envergava capas impermeáveis por cima dos casacos, e Josh dera uma a Sam no momento em que esta saía lentamente sobre a montada. Era um enorme cavalo, de pêlo castanho e pouca energia. Samantha o imaginava já como o tipo de cavalo que estacaria num regato de água, andaria quando lhe apetecesse, mordiscaria os arbustos, comeria a erva que conseguisse encontrar e suplicaria para regressar a casa sempre que Sam o voltasse, mesmo que ligeiramente, na direção da cavalariça.

            Prometia ser um dia bastante irritante, e Sam lamentava a expressão de fúria que pouco antes exibira por causa de Lady. Porém, mais do que isso, sentia vontade de provar ao capataz adjunto que merecia uma montada melhor. Como era o caso de Black Beauty, e sorriu ao pensar no puro-sangue de Caroline. Ansiava por montá-lo, para mostrar àquele chauvinista inflexível que tipo de cavaleira ela era. Perguntou a si mesma se Bill King fora alguma vez como ele, e teve de admitir que provavelmente fora pior. Bill King tinha sido, e ainda era, um capataz duro; este se limitara a dar-lhe um cavalo manso, o que, era obrigada a admitir, parecia uma decisão sensata relativamente a uma cavaleira desconhecida vinda de um lugar como Nova Iorque. Afinal, como é que ele tinha conhecimento de que ela sabia andar a cavalo? E se Caroline não queria criar embaraços junto dos seus ajudantes, tudo bem.

            Os homens montados nos seus cavalos, à chuva, de capas impermeáveis vestidas, conversavam em pequenos grupos, à espera que o capataz adjunto lhes desse as instruções para o dia. Os vinte e oito homens nunca andavam todos juntos, geralmente dividiam-se em quatro ou cinco grupos para desempenhar as suas tarefas em vários pontos do rancho. Todas as manhãs, Bill King ou o capataz adjunto davam-lhes verbalmente as instruções, dizendo quem trabalhava com quem e onde. Agora, como fazia todas as manhãs quando Bill King não estava presente, o capataz adjunto, alto e de cabelos escuros, passou calmamente por entre os homens e deu-lhes as instruções. Destacou quatro homens para irem com Josh para o extremo sul do rancho à procura de gado tresmalhado ou em apuros. Dois outros grupos iriam verificar algumas vedações que ele desconfiava estarem derrubadas.

            Outro grupo de quatro tinha duas vacas doentes para trazer para junto do rio. Ele, mais quatro homens e Samantha iriam para a parte norte do rancho à procura de três vacas tresmalhadas prestes a parir. Samantha seguiu o grupo pachorrentamente em cima de Rusty, um pouco afastada do núcleo principal, desejando que a chuva parasse. Levou uma eternidade até conseguir pôr o cavalo a meio galope, e tivera de se lembrar de que numa sela do Oeste o cavaleiro não acompanha o trote do cavalo. Era uma sensação estranha o fato de se encontrar sentada naquela sela, enorme e confortável; estava muito mais habituada às selas inglesas, pequenas e planas, que usara nos concursos de saltos e em competição no Madison Square Garden; porém, ali a vida era outra.

            Só uma vez esboçou um sorriso, curiosa por saber o que estaria se passando no escritório, nessa manhã. Era uma loucura imaginar que apenas dois dias antes usara um vestido Dior azul e tivera uma reunião com um novo cliente; naquele momento, andava à procura de vacas tresmalhadas num rancho. A idéia quase a fez soltar uma gargalhada enquanto subiam uma pequena colina, tendo de se esforçar por não sorrir abertamente: o contraste entre o que fazia normalmente e o que estava a fazer naquele momento era um perfeito absurdo.

            Várias vezes reparou que os olhos do capataz adjunto a observavam, como que para se certificar de que ela conseguia dominar a montada. Numa ocasião esteve prestes a dirigir-lhe uma palavra desagradável quando ele passou por ela, dizendo-lhe que puxasse a rédea, enquanto Rusty tentava desesperadamente mordiscar alguma erva. Durante alguns instantes, Samantha deixara o animal à vontade, na esperança de apaziguar o espírito lerdo do animal antes de se porem de novo em andamento. O tirano de cabelos escuros devia pensar que ela não conseguia controlar o cavalo. "Fiz de propósito", teve Samantha vontade de lhe gritar, mas ele dava a impressão de não estar interessado naquilo que ela fazia e afastou-se para falar calmamente a dois dos ajudantes.

            Todos os homens pareciam encará-lo como uma autoridade. Lidavam com ele da mesma maneira que com Bill King, com temor, respeito, respostas curtas e rápidos gestos de concordância com a cabeça. Ninguém questionava o que ele dizia. Havia poucas trocas de humor entre ele e os homens, raramente lhes sorria quando falava com eles. Fosse como fosse, irritava Sam. A própria segurança com que falava era um desafio para ela.

            — Está gostando do passeio? — perguntou ele a Sam, pouco depois, pondo-se a seu lado durante alguns instantes.

            — Bastante — retorquiu Sam entre dentes, no preciso momento em que a chuva começara a cair com mais intensidade. — Está um tempo maravilhoso.

            Sorriu-lhe, mas ele não correspondeu. Limitou-se a abanar a cabeça e a continuar o seu caminho, e Sam acusou-o mentalmente de ser um bronco sem sentido de humor. À medida que o dia avançava, as pernas começavam a ficar cansadas, o traseiro lhe doía, a parte de dentro dos joelhos ardia por causa da fricção das calças de brim na sela. Os pés estavam gelados e as mãos rígidas, e, quando se interrogou se a cavalgada nunca mais teria fim, fizeram uma pausa para almoço.

            Pararam numa pequena cabana nos confins do rancho, usada para ocasiões similares. Possuía uma mesa, algumas cadeiras e o equipamento necessário para ajudá-los a fazer o almoço: louça e água corrente. Sam descobriu que o capataz adjunto trouxera as provisões necessárias no seu alforje; toda a gente recebeu um grosso sanduíche de peru e fiambre, e duas enormes térmicas foram rapidamente despejadas. Uma estivera cheia de sopa, a outra de café, e só quando ela saboreava a última caneca de café é que ele lhe dirigiu novamente a palavra.

            — Tudo bem consigo, Miss Taylor? — Talvez houvesse um ligeiro indício de troça na voz do capataz adjunto, mas desta vez exibia um brilho mais simpático no olhar.

            — Tudo, obrigada. E o senhor... Bem... é que... não sei o seu nome. — Sam esboçou um sorriso afável e desta vez a expressão dele suavizou-se.

            Era evidente um certo azedume na moça. Sentira isso logo no princípio, quando sugerira Lady. Reparara no ar de aborrecimento a flamejar no olhar, mas estivera se lixando para o cavalo que ela queria.

            Ia dar-lhe a montada mais calma do rancho. Não queria que uma zonza de Nova Iorque batesse com o traseiro no chão na vedação norte logo pela manhã.

            Era só essa a sua intenção, mas até ali ela parecia estar se saindo muito bem. E teve de admitir que era difícil descobrir que tipo de cavaleira ela era naquele cavalo pachorrento.

            — Chamo-me Tate Jordan. — E estendeu a mão a Sam; mais uma vez, ela ficou sem saber se ele estava gozando ou a sendo sincero. — Está gostando da estada?

            — Estou adorando. — Sam lançou-lhe um sorriso angelical. — Um tempo magnífico. Um cavalo soberbo. Gente maravilhosa... — Fez uma ligeira pausa e o capataz adjunto franziu o sobrolho.

            — O quê? Não tem nada a dizer da comida?

            — Vou pensar em qualquer coisa.

            — Espero bem que sim. Devo dizer que me surpreendeu ao ter decidido vir andar a cavalo hoje. Podia ter esperado por um dia melhor.

            — Por que razão? O senhor não esperou, pois não?

            — Não. — Tate olhou para Sam com alguma ironia. — Não é propriamente a mesma coisa.

            — Os voluntários se esforçam sempre mais, ou não sabia isso, Mister Jordan?

            — Acho que não. Não temos tido muitos por estas paragens. Já tinha estado aqui antes? — Tate olhou-a com ar interessado pela primeira vez, mais por curiosidade do que por amizade.

            — Já, mas há muito tempo.

            — A Caroline também a deixou montar com os homens?

            — Não propriamente... Ah, uma vez... mas mais por brincadeira.

            — E desta vez? — O sobrolho inquiridor franziu-se de novo.

            — Acho que é também por brincadeira. — Sam lançou-lhe um sorriso mais sincero desta vez. Podia ter-lhe dito que era terapia, mas não estava disposta a desvendar os seus segredos. No impulso do momento, resolveu agradecer-lhe. — Agradeço ter-me deixado vir consigo. Sei que deve ser difícil ter alguém novo por perto. — Não ia desculpar-se por ser mulher. Teria sido demasiado. — Espero poder ser útil.

            — Talvez. — Tate fez um gesto afirmativo com a cabeça e afastou-se. Não voltou a falar com ela o resto da tarde. Não conseguiram encontrar as reses tresmalhadas, e às duas da tarde se encontraram com um dos grupos que andava a arranjar as vedações e se juntaram a eles. Samantha fora de pouca utilidade para aquilo que andavam a fazer, e a verdade é que às três horas o cansaço era tanto que estava quase adormecendo, na chuva, em cima do cavalo. Às quatro, sentia-se de rastos, e às cinco e meia, quando regressaram, Sam estava certa de que quando saltasse do cavalo nem sequer conseguiria mexer-se. Permanecera de onze horas a onze e meia em cima do cavalo e na chuva, e achava que havia uma forte possibilidade de morrer nessa noite. Foi a custo que saltou do cavalo quando voltaram à cavalariça, e só as mãos firmes de Josh evitaram que caísse redonda no chão, exausta. Sam respondeu ao olhar preocupado de Josh com um riso cansado e se agarrou com firmeza ao seu braço.

            — Acho que te excedeste hoje, Sam. Porque não vieste para casa mais cedo?

            — Estás brincando? Teria que morrer primeiro. Se a tia Caro consegue, eu também consigo... — Depois, olhou, com ar pesaroso, para o seu velho amigo. — Não consigo?

            — Não queria dizer-te isto, querida, mas ela faz isso há muito mais tempo do que tu, e todos os dias. Amanhã vais estar toda dolorida.

            — Que se dane o dia de amanhã! Nem imaginas o que sinto neste preciso momento. — Encontravam-se junto da baia de Rusty, o qual já não ligava importância a ninguém e se empanturrava de feno.

            — Podes andar?

            — Acho que sim. De certeza que não vou sair daqui a rastejar.

            — Queres que te leve?

            — Adoraria. — Sam sorriu-lhe. — Mas o que é que todos diriam? — Desataram os dois a rir ao pensar na idéia. Então, subitamente, o olhar de Sam tomou um novo brilho. Reparara num nome numa pequena e bonita placa de bronze junto de outra baia. — Josh! — De repente, os olhos de Sam perderam o ar angustiado. — É o Black Beauty?

            — É, sim senhora — respondeu Josh com um sorriso de admiração, tanto por ela como pelo puro-sangue. — Queres vê-lo?

            — Passaria os últimos momentos de vida numa cama de pregos para vê-lo, Joshua. Me mostra.

            Josh pôs um braço por baixo do dela para apoiá-la; ajudando-a a deslocar-se pela cavalariça em direção à outra baia. Todos os homens já haviam saído e, de súbito, não se ouviam outras vozes na cavalariça a não ser as deles.

            Ao longe, a baia parecia vazia; quando se aproximou, Samantha avistou o cavalo no canto mais distante, assobiou-lhe baixinho e ele aproximou-se lentamente dela, encostando-lhe o focinho à mão. Era o cavalo mais belo que alguma vez vira em toda a sua vida, uma obra de arte de veludo negro com uma estrela branca na testa e duas manchas brancas perfeitamente simétricas na parte inferior das patas dianteiras. A crina e a cauda eram do mesmo negro sedoso do resto do corpo, os olhos enormes e meigos.

            Possuía umas patas incrivelmente graciosas, e era também o maior cavalo que Sam alguma vez pensara ver.

            — Meu Deus, Josh, é inacreditável.

            — É uma beleza, não é?

            — Melhor do que isso, é o cavalo mais belo que alguma vez vi, — Sam parecia estupefata. — Que altura tem?

            — À volta de um metro e oitenta — respondeu Josh, com um misto de orgulho e prazer, e Samantha soltou um leve assobio.

            — O que eu daria para montá-lo. Achas que ela deixa?

            — Mister King também não gosta que ela o monte. Tem demasiada energia. Já por duas vezes quase atirou com ela ao chão, o que não é coisa fácil. Ai, não vi um cavalo que conseguisse derrubar Miss Caro.

            Samantha nunca desviou os olhos do cavalo.

            — Ela me disse que podia montá-lo, e aposto que ele não vai tentar derrubar-me.

            — Eu não arriscaria, Miss Taylor. — A voz que surgira por trás dela não era a de Josh; era uma voz grave e roufenha, suave mas sem ser afável.

            Virou-se lentamente para dar de caras com Tate Jordan e, de súbito, os olhos brilharam.

            — E por que razão é que acha que eu não deveria arriscar? Pensa que o Rusty é mais o meu estilo? — Sam ficou, de repente, extremamente irada, ao mesmo tempo que o cansaço e a dor lhe provocavam um certo descontrole.

            — Não posso responder a essa questão. Mas existe um mundo entre esses dois cavalos, e Miss Caroline é provavelmente a melhor cavaleira que alguma vez vi. Se ela sente imensas dificuldades com o Black Beauty, pode apostar que você sentirá muitas mais. — Tate parecia seguro de si, e Josh ficou pouco à vontade com aquela troca de palavras.

            — Ah, sim? Que interessante, Mister Jordan. Reparo que considera Caroline a "melhor cavaleira" que alguma vez viu. Será que não a compara aos homens, aos cavaleiros?

            — Têm uma maneira diferente de montar.

            — Nem sempre. Aposto que consigo dominar este animal muito melhor do que você.

            — O que a leva a pensar assim? — Os olhos de Tate brilharam, mas só por instantes.

            — Já monto puros-sangues há muitos anos — exclamou Sam com uma certa virulência, mas Tate Jordan ficou impávido e sereno.

            — Alguns de nós não tiveram essas vantagens. Fazemos melhor que podemos, com aquilo que temos.

            Ao ouvir aquelas palavras, Samantha sentiu-se corar. Tate deu um toque no chapéu, fez uma ligeira vênia sem olhar para o trabalhador que se encontrava ao lado dela e saiu da cavalariça a passos largos.

            Por momentos, instalou-se o silêncio, e Josh olhou para ela tentando compreender o que se passava. Sam tentava aparentar um ar despreocupado, enquanto dava palmadinhas no focinho de Black Beauty; então, olhou novamente para Josh.

            — Que irritante filho da mãe! Não achas? É sempre assim?

            — Talvez... Com as mulheres sobretudo. A mulher dele deixou-o há anos. Fugiu com o filho do dono do rancho onde trabalhavam e depois casou com ele. E também ficou com o filho do Tate a seu cargo. Até morrerem. A mulher e o filho do rancheiro morreram num desastre de viação. O Tate ficou novamente com o filho, embora o rapaz ainda não use o seu nome. Acho que o Tate está se lixando para o nome do rapaz. Está louco por ele. Mas nunca fala da mulher. Acho que ela lhe deixou um sabor amargo na boca relativamente às mulheres. Com exceção... — Josh ficou corado que nem um tomate por instantes. — Com exceção... das mulheres fáceis. Acho que nunca se envolveu com mais ninguém. Diz que o filho tem vinte e dois anos, por isso estás vendo há quanto tempo foi.

            Sam meneou lentamente a cabeça.

            — Conheces o rapaz?

            Josh encolheu os ombros e abanou a cabeça.

            — Não. Sei que o Tate lhe arranjou emprego por estas bandas o ano passado, mas geralmente fala pouco de si e do filho. É muito fechado, como muitos outros homens. Mas vai vê-lo uma vez por semana. Trabalha no Bar Three.

            Outro solitário, pensou Sam, perguntando a si mesma se os cow-boys não passavam de solitários. Havia algo nele que a intrigava. Parecia inteligente, e Sam deu consigo a pensar quem seria Tate Jordan, enquanto Josh abanava a cabeça com o seu sorriso familiar.

            — Não deixes que isso te preocupe, Sam. Ele não tem intenção de magoar. É só a sua maneira de ser. Por baixo de toda aquela aparência de porco- espinho esconde-se uma pessoa amável. Devias vê-lo com os garotos, no rancho. Deve ter sido um bom pai. E também tem instrução. Não que isso faça muita diferença aqui. O pai era rancheiro e mandou-o para boas escolas. Chegou a andar na faculdade e a formar-se em qualquer coisa, mas o pai morreu e perderam o rancho. Penso que nessa altura é que foi para o outro rancho e a mulher fugiu com o filho do patrão. Julgo que tudo isso deve tê-lo afetado de alguma forma. Acho que não quer muito mais do que aquilo que conseguiu. Para si e para o filho. É apenas um trabalhador como todos nós. É esperto e será capataz um dia. Se não for aqui, será noutro sítio qualquer. Não se lhe pode tirar o valor. E, mal-humorado ou não, é um ótimo elemento num rancho. — Sam pensou naquilo que acabava de ouvir. Sabia mais do que pretendia, graças ao linguarudo de Josh. — Pronta para irmos para casa? — Olhou com ar afetuoso para a bonita jovem de rosto cansado e roupas molhadas. — Consegues?

            — Se me fazes essa pergunta outra vez, Josh, te dou um pontapé. — Sam olhou-o com ar feroz e ele riu-se.

            — Não dás, não. — Josh riu ainda mais. — Tu não consegues nem levantar a perna para dar um pontapé num cachorro, Samantha. — E foi rindo da piada até a casa.

            Passavam poucos minutos das seis quando Caroline lhes abriu a porta; Josh deixou Sam à porta, aos cuidados de Caroline. Esta não conseguiu conter um sorriso quando Sam entrou a custo na acolhedora sala de estar e se deixou cair, com um gemido, no sofá. Deixara o casaco molhado pelo caminho, e, como as calças se tinham mantido secas por baixo da capa impermeável, sabia que não estava estragando os móveis e precisava sentar.

            — Meu bom Deus, garota, cavalgaste o dia inteiro?

            Sam fez um sinal afirmativo com a cabeça, mal conseguindo falar, tão cansada e empenada que estava.

            — Por que raio é que não vieste para casa quando já tinhas a tua dose?

            — Não queria fazer figura de mariquinhas... — Soltou um gemido horrível mas conseguiu esboçar um sorriso para Caroline, que se deixou cair no sofá com uma gargalhada não contida.

            — Oh, Samantha, minha tonta! Amanhã vais ter dores terríveis!

            — Não vou, não. Voltarei a montar aquele maldito cavalo. — E exibiu novo sorriso, mais por se lembrar do cavalo do que por dor.

            — Qual é que te deram?

            — Um cavalo velho chamado Rusty. — Sam olhou para Caroline com ar de repugnância e Caroline riu ainda mais.

            — Oh, meu Deus, não me digas. A sério?

            Samantha assentiu com a cabeça.

            — Quem é que diabo fez isso? Eu disse-lhes que montavas tão bem como qualquer um dos homens.

            — Bem, não acreditaram em ti. Pelo menos, o Tate Jordan. Esteve quase para me dar a Lady, depois achou que o Rusty estava mais dentro do meu ritmo.

            — Amanhã lhe diz que queres o Navajo. É um appaloosa magnífico, que só é montado pelo Bill e por mim.

            — E os outros homens não ficarão ressentidos comigo?

            — Hoje ficaram?

            — Não sei. Foram de poucas falas.

            — Eles também não falam muito uns com os outros. Se andaram contigo desde esta manhã, como é que poderiam ficar ressentidos contigo? Meu Deus! E essas horas todas logo no primeiro dia? — Caroline olhava verdadeiramente horrorizada para o estado de Samantha.

            — Não terias feito a mesma coisa?

            Caroline pensou no assunto durante alguns instantes, depois, com um sorriso algo tímido, fez que sim com a cabeça.

            — A propósito, vi o Black Beauty.

            — Que tal é que o achaste? — Os olhos de Caroline iluminaram-se.

            — Apeteceu-me roubá-lo, ou, pelo menos, montá-lo. Mas... — O olhar de Sam brilhou de novo — Mister Jordan acha que não devo montá-lo. Segundo ele, o Black Beauty não é cavalo para uma mulher.

            — E eu? — Caroline estava com um ar divertido.

            — Ele considera que és "a melhor cavaleira" que alguma vez viu. E desafiei-o, perguntando-lhe se não eras a melhor incluindo os homens.

            Caroline riu-se.

            — Qual a graça, tia Caro? És o melhor cavaleiro, homem ou mulher, que alguma vez vi!

            — Para mulher, não estou mal — contrapôs Caroline.

            — Achas graça a isso?

            — Já estou habituada. O Bill King pensa a mesma coisa.

            — São muito liberais por aqui, não são? — murmurou Sam, enquanto, se levantava do sofá e se encaminhava na direção do seu quarto. — De qualquer forma, se amanhã conseguir que o Tate Jordan me dê um cavalo melhor sentir-me-ei como se tivesse ganho uma batalha a favor das mulheres. Como é que se chama esse appaloosa?

            — Navajo. Diz-lhe que fui eu que te disse.

            Samantha revirou os olhos enquanto desaparecia ao fundo do corredor.

            — Boa sorte — gritou Caroline.

            Enquanto lavava a cara e escovava o cabelo no seu confortável quarto, Sam deu-se conta de que era a primeira vez em três meses que não removera céu e terra para ver John e Liz no noticiário da noite, e nem sequer fora por esquecimento. Estava noutro mundo agora.

            Um mundo de cavalos, dos Rusty, dos appaloosas e dos capatazes adjuntos que pensavam que mandavam no mundo, tudo era simples e salutar, e o problema mais premente que a afligia era o da escolha do cavalo que iria montar no dia seguinte.

            Era o momento mais feliz da sua existência desde criança, pensou Sam para consigo ao deitar-se, pouco depois do jantar. Então, enquanto os pensamentos se desvaneciam do seu espírito, antes de adormecer, ouviu a porta familiar se fechando de novo; desta vez, não teve dúvidas de ter ouvido o som abafado de passos e risadas no corredor.

 

            Na manhã seguinte, Samantha saltou da cama com um gemido terrível, foi cambaleando até a ducha e lá ficou durante um bom quarto de hora com a água quente a jorrar sobre os membros doloridos. A parte de dentro dos joelhos estava quase em ferida por causa das onze horas em cima da sela. Pôs chumaços de algodão nos collants e vestiu cuidadosamente as calças de brim. O único sinal encorajador para o dia que tinha pela frente era o fato de já não estar chovendo. Olhou à sua volta na escuridão da madrugada, reparando que ainda havia estrelas no céu, e dirigiu-se para o salão principal de refeições para tomar o pequeno-almoço. Naquela manhã, sentia-se menos tímida ao entrar; pendurou o casaco num cabide e foi direta à máquina do café, onde encheu uma caneca de líquido fumegante.

            Viu o seu velho amigo Josh no topo de uma mesa, foi ter com ele, com um sorriso nos lábios, e Josh fez-lhe sinal para se sentar.

            — Que tal te sentes hoje, Samantha?

            Sam sorriu-lhe, com ar pesaroso, e falou num tom de voz conspirativo, enquanto se sentava na cadeira vazia.

            — É ótimo irmos andar a cavalo, Josh, é só o que posso dizer-te.

            — Como assim?

            — Porque não consigo andar. Praticamente vim rastejando até aqui.

            Josh e os outros dois homens riram-se e um deles elogiou-a por ter agüentado a dureza do dia anterior.

            — Você é, sem dúvida, uma ótima cavaleira, Samantha — afirmou ele, embora ela não tivesse tido a oportunidade de lhes mostrar a sua destreza na chuva.

            — Já fui. Há muito tempo.

            — Não quer dizer nada — contrapôs Josh num tom firme. A maneira de sentar na sela e as boas mãos nunca se perdem. Vais montar outra vez o Rusty, Sam? — Josh franziu o sobrolho e Sam encolheu os ombros enquanto bebia o café.

            — Vamos ver. Acho que não.

            Josh limitou-se a sorrir. Sabia que Sam não iria suportar um velho pelego como aquele durante muito tempo. E muito menos depois de ter visto Black Beauty. Seria um milagre se ela não o montasse dentro de pouco tempo.

            — O que é que achaste do rapagão? — Josh sorriu com ar prazenteiro.

            — O Black Beauty? — Os olhos de Sam tomaram um brilho especial quando ela pronunciou o nome. Havia uma espécie de paixão entre os cavaleiros e os puros-sangues que as outras pessoas nunca entenderiam.

            Josh fez um gesto afirmativo com a cabeça e sorriu.

            — É o cavalo mais belo que alguma vez vi.

            — Miss Caro vai deixar-te montá-lo? — Josh não conseguia resistir à pergunta.

            — Se for capaz de convencê-la, pelo menos tentarei! — Sam sorriu por cima do ombro, enquanto se dirigia para a fila de homens que aguardava o pequeno-almoço. Voltou, cinco minutos depois, com um prato de salsichas e ovos estrelados. Dois dos homens se mudaram para outra mesa, e Josh estava já ajeitando o chapéu na cabeça.

            — Já vais, Josh?

            — Disse ao Tate que lhe daria uma ajuda na cavalariça antes de sairmos. — Sorriu-lhe, virou-se para chamar um dos seus amigos e desapareceu.

            Vinte minutos depois, quando entrou na cavalariça para selar o cavalo, Samantha olhou em redor à procura de Tate, sem saber como puxar o assunto da mudança de montada. Num dia como aquele não iria montar o pelego que ele lhe destinara. Estava certa de que se Navajo era a sugestão de Caroline, seria um cavalo mais ao seu estilo.

            Dois homens cumprimentaram-na com um ligeiro aceno de cabeça ao passarem por ela. Dava a impressão de estarem menos constrangidos com a sua presença do que no dia anterior. Talvez nunca imaginassem que ela se apresentasse daquela forma. Sam também sabia que só cavalgando com o mesmo afã e o mesmo tempo que eles, debaixo de chuva, é que acabaria por conquistar os seus corações. E se ia passar os próximos três meses no rancho, agir como um ajudante qualquer era fundamental para que os homens viessem a aceitá-la como um deles. Sabia também que um ou dois dos homens mais jovens tinham ficado impressionados com o seu aspecto e a sua juventude, e chegara a apanhar um deles a olhá-la, fascinado, na noite anterior, quando desprendera os cabelos, no fim daquele dia extenuante, e sacudira a longa cabeleira loura. Lançou-lhe um fugaz sorriso e ele corara que nem um tomate e virara-lhe a cara.

            — Bom dia, Miss Taylor. — A voz firme interrompeu o devaneio de Sam, e quando levantou os olhos para Tate Jordan, estava com a firme disposição de não andar todo o dia com um mau cavalo só para mostrar que era ele quem mandava. Apercebeu-se de alguma teimosia e determinação no modo como ele a olhava — Cansada depois de ontem?

            — Não propriamente. — Nem ela alguma vez admitiria perante ele que estava cheia de dores. Cansada? Com certeza que não. Bastava olhar para ele para se perceber o poder e a importância que pensava possuir. Capataz adjunto no Rancho Lord. "Nada mau, Mister Capataz Adjunto." Também sabia que era possível que, aos sessenta e três anos, Bill King pudesse reformar-se a qualquer momento e legasse o seu cargo dentro do rancho a Tate Jordan.

            Embora Jordan não causasse a mesma impressão que Bill King: não era tão inteligente nem tão simpático... Sam não sabia por que, mas Tate Jordan a irritava; havia uma muda fricção entre os dois, que se manifestava instantaneamente quando ele estava junto dela. — Ahh... Mister Jordan. — Sam sentiu o desejo súbito de lhe estragar os planos.

            — Sim? — Tate voltou-se para ela, trazendo uma sela ao ombro.

            — Pensei em experimentar uma montada diferente. — Os olhos de Sam estavam gélidos enquanto os dele começaram lentamente a brilhar.

            — O que é que tem em mente? — O tom era de desafio.

            Sam estava morta por dizer Black Beauty, mas resolveu não estragar a ironia da sugestão.

            — A Caroline acha que talvez o Navajo não seja mau para mim.

            Tate pareceu momentaneamente perplexo, mas depois, fez um gesto de concordância com a cabeça e voltou-se, murmurando algo enfurecido por sobre o ombro: — Pode ser!

            Estas palavras irritaram Samantha. Por que razão é que precisava da autorização dele para montar qualquer cavalo? O bom senso era a resposta; porém, ainda se sentia irritada com o temperamento de Tate no momento em que descobriu a baia de Navajo. Foi buscar a sela e a brida a uma pequena sala de arreios mais adiante e voltou para selar o cavalo. Era um bonito appaloosa, com malhas cor de café com leite na cabeça, os flancos de um castanho vivo, e a característica garupa branca estava salpicada de enormes malhas castanhas. Mostrou-se meigo quando Samantha lhe pôs a sela e apertou a cilha; contudo, tornou-se evidente, ao sair com ele da cavalariça, que Navajo possuía muito mais energia do que Rusty. Mal o montou, só a custo conseguiu dominá-lo. O cavalo cabriolou durante uns bons cinco minutos enquanto ela tentava juntar-se aos outros, que começavam já a sair. Haviam-lhe destinado o mesmo grupo do dia anterior, e Tate Jordan observava-a com ar de desaprovação, enquanto se dirigiam em direção às colinas.

            — Acha que consegue dominá-lo, Miss Taylor? — A voz de Jordan soou como uma campainha e Samantha sentiu subitamente um forte desejo de lhe bater quando ele se pôs a seu lado observando as manobras fogosas do cavalo.

            — Tentarei, Mister Jordan.

            — Acho que deveria ter-lhe dado a Lady.

            Samantha não proferiu qualquer palavra como resposta e prosseguiu caminho. Meia hora mais tarde, encontravam-se todos absortos no que estavam a fazer: a procurar reses tresmalhadas e a verificar, uma vez mais, as vedações. Encontraram um bezerro ferido, que dois dos homens prenderam a fim de conduzi-lo até um dos principais estábulos. Quando fizeram a pausa para o almoço já tinham seis horas de trabalho realizadas. Pararam numa clareira e amarraram os cavalos às árvores próximas. Os sanduíches, a sopa e o café foram distribuídos como habitualmente e a conversa foi escassa mas relaxante. Trocaram poucas palavras com Samantha; apesar de tudo, sentia-se bem junto dos homens e deixou os pensamentos vaguearem ao sentar-se, por instantes, de olhos fechados, sob o sol de inverno.

            — Deve estar cansada, Miss Taylor. — Era novamente a mesma voz. Sam abriu um olho.

            — Não propriamente. Estava a gozar este sol. Isso o incomoda muito?

            Tate esboçou um sorriso simpático. — De modo nenhum. Está a gostar do Navajo?

            — Bastante. — Sam abriu os olhos e correspondeu ao sorriso. Não conseguindo resistir, acrescentou: — Não tanto como do Black Beauty.

            Continuou a sorrir, com ar travesso, e era difícil dizer se estava ou não a falar a sério.

            — Esse, Miss Taylor... — Tate retribuiu-lhe o sorriso como um rápido voleio no tênis... — Bom, é um erro que espero que nunca cometa. — Meneou a cabeça com ar sábio. — Iria aleijar-se. O que... — Com um sorriso afável prosseguiu: — O que seria uma grande pena. Um garanhão como aquele só poucas pessoas devem montar. Até a própria Miss Lord tem de ter cuidado quando sair com ele. É um animal perigoso, e não... — Procurava as palavras certas. — Bom... não é o gênero de cavalo com o qual um cavaleiro ocasional deva brincar. — Os olhos verdes tinham um ar infinitamente condescendente ao olhar para Samantha, a qual segurava uma xícara de café fumegante na mão.

            — Já o montou? — A pergunta foi pronta e os olhos não sorriram.

            — Uma vez.

            — Que tal o achou?

            — É um belo animal. Sem sombra de dúvida. — Os olhos verdes sorriram de novo. — É diferente do Navajo. — As palavras de Tate insinuavam que Navajo era o único cavalo a que ela poderia aspirar. — Parece que lhe deu um pouco de trabalho quando saímos.

            — E acha que não consegui dominá-lo? — O tom era de divertimento.

            — Fiquei preocupado. Afinal de contas, se se aleijar, a responsabilidade é minha, Miss Taylor.

            — Fala como um verdadeiro capataz, Mister Jordan. Todavia, não acredito que Miss Lord vá responsabilizá-lo por aquilo que possa acontecer-me com um cavalo. Ela me conhece bastante bem.

            — O que quer dizer com isso?

            — Que não estou habituada a montar cavalos como Rusty.

            — Mas acha que está apta a montar um garanhão como Black Beauty? — Tate sabia que nem Caroline Lord nem King deixariam que ela o montasse. Até ele só tivera autorização para montar o soberbo puro-sangue uma única vez.

            Samantha fez um ligeiro gesto afirmativo com a cabeça — Sim, penso que consigo montá-lo.

            Tate exibia um ar divertido.

            — Acha que sim? Está assim tão certa disso?

            — Conheço a minha forma de montar. Gosto de arriscar. Sei o que estou a fazer, e monto desde os cinco anos. Já é um certo tempo.

            — Todos os dias? — Havia um novo desafio. — Anda muito a cavalo em Nova Iorque, não anda?

            — Não, Mister Jordan. — Sam esboçou um sorriso amável. — Não ando. — Ao proferir aquelas palavras jurou a si mesma que montaria o Black Beauty logo que Caroline lho permitisse; era esse o seu desejo e queria mostrar àquele cow-boy arrogante que iria conseguir.

            Pouco depois, Tate voltou para junto dos seus homens e fez-lhes sinal.

            Subiram para os cavalos e passaram o resto da tarde em buscas nos limites do rancho. Encontraram mais algumas reses tresmalhadas e as conduziram de volta, ao pôr-do-sol. Samantha, uma vez mais, não sabia se conseguiria saltar do cavalo. Josh, porém, aguardava-a à porta da cavalariça. Deu-lhe a mão, ao mesmo tempo que ela passava a perna por cima do Navajo com um gemido de dor.

            — Consegues, Sam?

            — Duvido.

            Josh sorriu-lhe, enquanto ela tirava a sela e a brida, indo depositá-las, meio a cambalear, na sala de arreios.

            — Que tal foi hoje? — Josh seguira-a e encontrava-se à entrada.

            — Tudo bem. — Percebeu, com um sorriso cansado, que começava a ser parca em palavras, tal como o resto dos cow-boys. Só Jordan falava de maneira diferente, e apenas ao dirigir-se a ela. Nessas ocasiões a instrução que recebera era notória; o resto do tempo assemelhava-se aos demais. Ao contrário de Bill King, que ficava ligeiramente diferente quando estava com Caroline. Bill King e Tate Jordan eram homens muito diferentes. Jordan não passava de um diamante em bruto.

            — Daqui até Nova Iorque ainda são uns bons quilômetros, não são, Samantha? — O velho cow-boy, seco de carnes, sorriu, e Sam revirou os olhos.

            — Sem dúvida. Mas foi por isso que vim até cá.

            Josh meneou ligeiramente a cabeça. Não conhecia a razão por que ela viera. Mas compreendia. Um rancho era um bom sítio quando se tinha problemas. Muito trabalho árduo, ar puro, boa comida e bons cavalos curavam quase tudo. Barriga cheia, traseiro dorido, sol-nascente, sol-poente, e mais um dia passado sem outras preocupações além de verificar se o cavalo precisava de ferraduras novas ou se a vedação sul necessitava de conserto. Era a única vida que Josh conhecera; no entanto, vira muita gente tentar outra coisa e acabar por voltar. Era uma boa vida. E sabia que faria bem a Sam. Fosse lá do que fosse que ela estivesse a fugir, iria ajudá-la. Josh reparara nas olheiras que a jovem apresentava na manhã anterior. Já não estavam tão acentuadas.

            Passaram por Black Beauty e, quase por instinto, Sam estendeu a mão e deu-lhe umas palmadinhas no focinho.

            — Olá, rapaz. — Falou-lhe num tom meigo e ele relinchou como se já a conhecesse. Ela examinou-o atentamente, parecendo observá-lo pela primeira vez. Então, um brilho estranho aflorou-lhe ao olhar quando saiu da enorme cavalariça com Josh a seu lado; despediu-se e encaminhou-se lentamente para casa, onde Bill King conversava com Caroline. Pararam quando ela entrou.

            — Olá, Bill... Caro. — Sam sorriu para ambos. — Estou interromper alguma coisa? — Pareceu embaraçada, por instantes, mas eles foram lestos a abanarem as cabeças.

            — Claro que não, querida. — Caroline beijou-a, e Bill King pegou o chapéu e levantou-se.

            — Até amanhã, minhas senhoras. — Bill deixou-as rapidamente e Samantha estendeu-se ao comprido no sofá com um gemido de dor.

            — Dia difícil? — Caroline olhou-a com um ar meigo.

            Não montara durante toda a semana. Havia muito papel para tratar antes do final do ano, e só lhes restavam duas semanas para fazê-lo. Teria de sair com Black Beauty pelo menos num dos próximos dias antes que ele ficasse totalmente descontrolado, mas nem sequer tinha tempo para isso. — E estás muito cansada, Sam? — Caroline mostrava um ar de compaixão.

            — Cansada? Estás a gozar? Depois de todos estes anos sentada a uma secretária? Não estou cansada. Estou toda partida. Se o Josh não me ajudasse a saltar de cima do cavalo todas as noites, provavelmente teria de dormir lá fora.

            — Estás assim tão mal?

            — Pior do que isso.

            As duas mulheres riram-se e a mexicana que ajudava Caroline na lida da casa fez sinal da cozinha. O jantar estava pronto.

            — Hum... O que é? — Samantha virou o nariz na direção da enorme cozinha rural elegantemente decorada.

            — Enchiladas, chiles rellenos, tamales... São os meus pratos favoritos. Espero que também gostes.

            Samantha sorriu de felicidade.

            — Depois de um dia destes, podias dar-me cartão para comer, desde que fosse uma boa quantidade, com um banho e uma cama no final da refeição.

            — Lembrar-me-ei disso, Samantha. De qualquer forma como é que as coisas estão a correr? Têm sido corretos contigo? — Caroline franziu o sobrolho ao fazer a pergunta; Samantha assentiu com a cabeça e sorriu.

            — Têm sido magníficos. — Mas a voz ficou ligeiramente embargada, fato que não passou despercebido a Caroline.

            — À exceção de...

            — Não há quaisquer exceções. Julgo que o Tate Jordan e eu nunca seremos grandes amigos, mas ele é extremamente correto. Só acho que não aceita aquilo que chama "cavaleiros ocasionais".

            Caroline parecia divertida.

            — Talvez não seja bem assim. É um tipo estranho. Em alguns aspectos, pensa como um rancheiro, mas sente-se feliz a esfalfar-se a trabalhar no rancho. É o último dos verdadeiros cow-boys, infatigável, trabalhador, capaz de dar a vida pelos rancheiros para quem trabalha e de fazer tudo para salvar o rancho. É um ótimo homem para ter aqui, e um dia... — soltou um suspiro — Um dia será o homem certo para suceder ao Bill. Se ficar aqui.

            — Porque razão não ficaria? Tem uma vida de lorde aqui. Sempre proporcionaste aos teus homens mais condições do que outra pessoa qualquer.

            — Sim. — Fez um lento gesto de concordância com a cabeça. — E nunca me convenci de que isso tivesse assim tanta importância para eles. São uma raça engraçada. Fazem quase tudo por uma questão de orgulho e de honra. Trabalham para um homem por nada porque sentem que lhe devem alguma coisa ou porque ele lhes fez alguma coisa, e depois deixam a pessoa porque sentem que é o seu dever. É impossível prever o que qualquer deles irá fazer. Até mesmo o Bill. Nunca entendi completamente qual a sua intenção.

            — Deve ser um trabalho dos diabos dirigir um rancho como este.

            — É interessante. — Caroline sorriu. — Muito interessante. — De repente, reparou que Samantha olhava para o relógio. — Algum problema, Sam?

            — Não. — Sam ficou súbita e estranhamente calada. — São seis horas.

            — Sim? — Por instantes, Caroline não entendeu. — Ah! O noticiário?

            Sam anuiu com a cabeça.

            — Assistes todas as noites?

            — Tento não vê-lo. — O ar de sofrimento regressara ao olhar de Sam ao proferir aquelas palavras. — Mas acabo sempre por ver.

            — Achas que deves fazer isso?

            — Não. — Samantha abanou lentamente a cabeça.

            — Queres que peça à Lúcia-Maria para trazer a televisão para dentro? Ela pode trazê-la.

            Sam abanou novamente a cabeça.

            — Tenho de deixar de fazê-lo um dia. — Deixou escapar um pequeno suspiro. — Posso fazê-lo agora mesmo. — Era como combater um vício. O vício de olhar para o rosto de John Taylor todas as noites.

            — Há alguma coisa que eu possa oferecer-te para te ajudar a distrair? Uma bebida? Um noticiário da concorrência? Um rebuçado? Rasgar tecidos? — Caroline estava a caçoar dela e Samantha riu-se. Que mulher maravilhosa e capaz de compreender tudo.

            — Vou ficar boa, mas pensa numa coisa... — Olhou para Caroline com o ar de uma garotinha que quer pedir a estola de arminho da mãe para o baile de finalistas. E os longos cabelos louros soltos sobre os ombros apenas ajudavam a dar-lhe um aspecto mais jovem. — Tenho um pedido a fazer.

            — Qual é? Não consigo imaginar nada que haja aqui e que tu não possas ter.

            — Eu consigo. — Samantha sorriu como uma criança pequena.

            — O que é então?

            Samantha murmurou as duas palavras mágicas.

            — Black Beauty.

            Caroline ficou pensativa por instantes, para depois, de repente, ficar com um ar divertido.

            — Então é isso! Compreendo...

            — Tia Caro... posso?

            — Podes o quê? — Caroline Lord recostou-se na cadeira com um ar suntuoso e um brilho no olhar.

            Samantha, porém, não desistia facilmente.

            — Posso montá-lo?

            Não houve qualquer resposta durante um longo instante enquanto Caroline ficava cada vez mais ansiosa.

            — Achas que já estás apta a montá-lo?

            Samantha fez um lento gesto afirmativo com a cabeça, lembrando-se do que Josh dissera acerca do cavalo.

            — Acho.

            Caroline fez um sinal de concordância com a cabeça. Observara Sam a dirigir-se a cavalo para o recinto principal quando se encontrava com Bill na enorme janela panorâmica. Sam tinha os cavalos no sangue. Fazia parte dela, era instintivo, mesmo depois de já não andar a cavalo há mais de dez anos.

            Quando Samantha respondeu, a voz era meiga e o olhar tinha um ar distante, o noticiário do ex-marido esquecido, juntamente com a mulher para os braços da qual ele fugira. A única coisa em que conseguia agora pensar era no encantador garanhão negro e em senti-lo debaixo dela a correr contra o vento.

            — Não sei porquê. — Olhou para Caroline com um ar sincero. E depois sorriu. — Sinto-me como se... como se... — Balbuciou, o olhar novamente distante. — Como se houvesse um desejo dentro de mim. Não consigo explicar, Caro. Aquele cavalo tem qualquer coisa. — Esboçou um sorriso distante, que se refletiu instantaneamente no olhar de Caroline.

            — Eu sei. Também senti isso. Essa a razão por que tive de comprá-lo. Mesmo que não faça qualquer sentido para uma mulher da minha idade ter um cavalo como aquele. Não consegui resistir.

            Samantha fez um gesto de total concordância e, ao olharem uma para a outra, as duas mulheres sentiram o elo que sempre as unira para além dos anos e dos quilômetros que as separavam. De algum modo, formavam uma só, como se nas suas almas fossem mãe e filha.

            — Então? — Samantha olhou para Caroline com ar esperançoso.

            — Força! — Caroline esboçou um sorriso. — Monta-o.

            — Quando? — Samantha quase ficou sem respiração.

            — Amanhã. Porque não? Por que razão queres montá-lo?

            Fez um gesto com a cabeça em ar de desafio, o jantar esquecido.

 

            De manhã, quando saltou da cama, Samantha só sentiu dores durante os primeiros instantes. Depois, lembrou-se da conversa com Caroline e nada mais sentiu quando correu para o chuveiro e aí ficou, com a água quente a cair-lhe nas costas e na cabeça. Naquela manhã nem iria sequer perder tempo com o pequeno-almoço. A única coisa de que precisava era de uma xícara de café da cozinha de Caroline; depois, iria até à cavalariça. Só a simples idéia de tudo o que a esperava fazia-a sorrir. Era a única coisa em que conseguia pensar essa manhã. E o sorriso dançava-lhe no olhar ao subir os últimos degraus da cavalariça. Dois homens conversavam calmamente a um canto. Não havia mais ninguém. Ainda era demasiado cedo para a maior parte deles. Tomavam o pequeno-almoço e tentavam despertar, enquanto cavaqueavam sobre as novidades locais e os habituais mexericos no salão principal de refeições.

            Calmamente, quase furtiva, Samantha pegou na sela de Black Beauty e encaminhou-se para a sua baia. Ao fazer isso, viu os dois homens a olhar para ela, um de sobrolho franzido. Haviam parado de conversar e observavam-na com ar de curiosidade. Sam meneou a cabeça e entrou silenciosamente na baia. Murmurou algumas palavras para acalmar o cavalo passando a mão pelo longo e gracioso pescoço e dando palmadinhas nos poderosos flancos, enquanto o animal mostrava seu nervosismo, mexendo-se para a frente e para trás e parando como que para cheirar o ar onde ela se encontrava. Pousou a sela à porta da baia, depois pôs-lhe a brida na cabeça e puxou-o para fora.

            — Minha senhora? — A voz surpreendeu Sam enquanto ela prendia as rédeas num poste próximo a fim de selar Black Beauty. Virou-se e viu que era um dos dois homens que estivera a observá-la, um grande amigo de Josh.

            — Miss Taylor?

            — Sim?

            — Bem... A senhora... Não sei se... — O homem mostrava-se tímido mas claramente preocupado, e Sam esboçou um sorriso. Tinha os cabelos soltos, os olhos brilhantes e as faces rosadas devido ao ar gelado de Dezembro.

            Estava incrivelmente bonita ao lado do puro-sangue negro, mais parecendo um pequeno palomino.

            — Tudo bem — tranqüilizou-o Sam prontamente. Tenho autorização de Miss Lord.

            — Sim... minha senhora... O Tate Jordan sabe?

            — Não. — Sam abanou firmemente a cabeça. — Não. E não vejo por que razão é que deva saber. O Black Beauty pertence a Miss Caroline, não pertence?

            O homem fez um gesto afirmativo com a cabeça, e Sam esboçou novamente o deslumbrante sorriso.

            — Portanto, não deve haver qualquer problema — insistiu ela.

            O homem mostrava-se hesitante.

            — Acho que não. — E acrescentou, de sobrolho franzido: — Não está com medo de montá-lo? Ele tem uma força dos diabos nessas patas tão compridas...

            — Não tenho a menor dúvida. — Sam olhou para as patas do cavalo com prazer e entusiasmo e depois colocou a sela no lombo. Caroline também arranjara uma sela inglesa para Black Beauty, e era essa a que Samantha estava a utilizar. Dava a impressão de que ele já conhecia a sela de couro macio, diferente da desconfortável sela do Oeste que Samantha usara nos últimos dois dias. Conhecia bem aquele tipo de sela e montara muitas vezes cavalos daquela raça; todavia, um cavalo tão soberbo como Black Beauty era uma dádiva rara na vida de qualquer cavaleiro.

            Poucos minutos depois de ter colocado a sela no cavalo, apertou novamente a cilha; em seguida, com alguma hesitação, um dos dois trabalhadores aproximou-se e ajudou-a a montar no gigantesco cavalo negro. Ao sentir uma pessoa montada em cima de si, Black Beauty empinou-se, nervosamente, por instantes; depois, com as rédeas bem presas na mão, Samantha fez um sinal com a cabeça aos dois homens e voltou-se rapidamente com Black Beauty. O cavalo cabriolou e andou de lado até à primeira cancela; transposta esta, Sam deixou-o partir a trote, que rapidamente passou a meio galope. No céu, começavam a raiar os primeiros sinais da madrugada, e a luz à volta de Sam era pálida, quase dourada. Estava uma manhã magnífica de inverno e o cavalo que se movia sob o seu corpo era o animal mais extraordinário que alguma vez montara.

            Inconscientemente, um largo sorriso assomou aos seus lábios e deixou Black Beauty partir a galope pelos campos. Era a sensação mais extravagante de liberdade que alguma vez tivera, quase como voar, juntos, formando um único corpo. Ao fim do que lhe pareceram horas, viu-se obrigada a mudar de direção, abrandou um pouco o ritmo e rumou para casa. Ainda tinha de acompanhar os homens nessa manhã, e perdera o pequeno-almoço para galopar com aquele esplêndido cavalo pelos campos.

            Encontrava-se apenas a uns quatrocentos metros do complexo principal quando Sam sucumbiu finalmente à tentação e saltou com o cavalo por cima de um pequeno riacho, o que ele fez sem dificuldade. Só quando passaram o curso de água é que Sam reparou que, a pouca distância deles, Tate Jordan os observava no seu belo cavalo de malhas pretas e brancas. Sam refreou um pouco Black Beauty e encaminhou-se na direção de Tate, desejando, por instantes, ir até ele a todo o galope a fim de lhe mostrar como andava bem a cavalo. Contudo, resistiu à tentação e meteu o belo animal a meio galope. Black Beauty empinou-se alegremente quando chegaram junto de Tate.

            — Bom dia! Quer vir correr conosco? — O olhar de Sam espelhava uma vitória desmesurada. Tate Jordan lançou-lhe um olhar feroz.

            — Que diabo está a fazer em cima desse cavalo?

            — A Caroline disse-me que podia montá-lo. — Sam parecia uma criança petulante ao refrear ainda mais o cavalo, e Tate colocou-se a seu lado.

            Lembrava-se de tudo o que ele lhe dissera no dia anterior e gozava o seu momento de triunfo, enquanto Tate espumava de raiva. — É formidável, não acha?

            — Pois é. E se ele tivesse tropeçado no riacho ali atrás e partido uma pata? Ou não pensou nisso? Não viu as pedras, bolas? Não sabe que ele podia escorregar facilmente. — A voz de Tate cortou o silêncio da madrugada, e Samantha lançou-lhe um olhar entediado ao porem-se em marcha.

            — Sei o que estou a fazer, Jordan.

            — Sabe? — Tate olhou-a com uma fúria desenfreada. — Duvido, o seu conceito de saber o que está a fazer é dar nas vistas e ir o mais depressa que pode. A maioria acaba por machucar os cavalos. Já não falando naquilo que pode lhe acontecer.

            Enquanto cavalgava ao lado de Tate, Sam sentiu vontade de gritar.

            — Acha que consegue fazer melhor?

            — Talvez saiba o suficiente para não tentar. Um cavalo como esse deve ser um cavalo de corridas ou um cavalo de saltos. Não deve estar num rancho. Não deve ser montado nem pela senhora, nem por mim, nem por Miss Caro. Deve ser montado por pessoas altamente treinadas, cavaleiros profissionais, ou então, pura e simplesmente, não deve ser montado.

            — Já lhe disse, sei o que estou a fazer. — A voz de Sam ergueu-se no meio da quietude e, sem aviso, Tate esticou o braço e pegou-lhe nas rédeas.

            Quase de imediato, ambos os cavalos com os respectivos cavaleiros imobilizaram-se.

            — Já lhe disse ontem que esse cavalo não é para si. Vai magoá-lo ou matar-se.

            — Ora... — Olhou para ele com ar zangado. — Aconteceu alguma dessas coisas?

            — Talvez da próxima vez.

            — Não consegue admitir, pois não? Que uma mulher saiba andar a cavalo tão bem como você. É isso que o chateia, não é verdade?

            — Uma porra é que chateia. A menina da cidade veio para aqui divertir-se e brincar de "menina do rancho" durante algumas semanas, andar num cavalo desses, saltar com ele em terrenos que desconhece... Bolas! Por que razão é que as pessoas como você não ficam no lugar a que pertencem? O seu lugar não é aqui! Não compreende isso?

            — Compreendo perfeitamente. Agora largue o meu cavalo.

            — Claro que largo.

            E o Tate atirou com as rédeas para Sam e partiu a galope.

            Com a sensação de ter perdido mais do que ganhara, Sam voltou para a cavalariça num andamento mais tranqüilo. Não sabia porquê, mas as palavras dele tinham-na atingido. E havia uma ponta de verdade na tirada de Tate. Errara ao fazer saltar Black Beauty por cima do riacho. Não conhecia o terreno que pisava, pelo menos não o suficiente para arriscar-se daquela maneira. Por outro lado, sentira-se maravilhosamente bem, em cima de um cavalo à velocidade do vento.

            Sam viu os homens a reunirem-se no terreiro do complexo e apressou-se a pôr Black Beauty na sua baia. Iria escová-lo, cobri-lo com a manta e depois partiria. Dar-lhe-ia uma boa escovadela nessa noite; porém, ao chegar junto da baia, Tate Jordan já estava lá à espera, os olhos verde-esmeralda chispando, o semblante mais carregado do que nunca, parecendo mais alto e mais bonito do que qualquer cow-boy de um anúncio... e, por instantes, lembrou-se da campanha publicitária do novo carro. Tate teria sido o modelo masculino perfeito... mas aquilo não era um anúncio, nem estava em Nova Iorque.

            — O que está pensando fazer com esse cavalo? — O tom de voz de Tate era brando mas tenso.

            — Escová-lo e depois pôr-lhe a manta.

            — Só isso?

            Sam sabia bem o que ele queria dizer, e o seu rosto delicado ficou corado até à raiz dos cabelos.

            — Olhe, quando voltar mais logo, tratarei dele como deve ser.

            — Quando? Daqui a doze horas? O negócio é que vai tratar dele, Miss Taylor. Se quiser montar um cavalo como o Black Beauty, tem de tomar a responsabilidade. Ande um pouco com ele, deixe-o arrefecer e escove-o. Só quero vê-la daqui a uma hora. Entendido? Sei que não aceita conselhos ou sugestões. E ordens? Já as entende melhor? Ou também é algo difícil de compreender?

            Sam teve vontade de lhe dar uma bofetada. Que homem detestável; no entanto, era alguém que adorava cavalos, e tinha razão naquilo que acabara de dizer.

            — Compreendo. — Baixou os olhos e pegou na brida de Black Beauty, preparando-se para ir embora.

            — Tem a certeza?

            — Tenho, bolas! Tenho! — gritou-lhe Sam, virando-se, o olhar assumindo um brilho estranho. Tate meneou ligeiramente a cabeça, voltou para o seu cavalo e desamarrou-o do poste onde se encontrava. — A propósito, para onde é que vão trabalhar hoje?

            — Não sei. — Tate passou por Sam em passada larga. — Descubra-nos.

            — Como?

            — Galope por todo o rancho. Irá adorar. — Tate sorriu, com ar sarcástico ao subir para o cavalo e partiu a galope. Por instantes, Sam lamentou o fato de não ser homem. Naquele preciso momento, teria adorado bater-lhe, mas ele já não estava ali.

            Só ao fim de duas horas é que os descobriu. Duas horas a todo o galope seguindo trilhas conhecidas e perdendo-se noutras. A determinada altura, chegou a pensar que Tate escolhera propositadamente uma atividade nas zonas mais remotas do rancho de modo a que ela não os encontrasse.

            Finalmente, acabou por encontrá-los. Apesar do ar gelado de dezembro, Sam sentia calor após cavalgar por todos os recantos de que se lembrava à procura deles. Deparou-se com outros dois pequenos grupos de trabalho, e um maior, mas não havia qualquer sinal do de Tate.

            — Gostou da cavalgada? — Tate olhou para Sam com ar divertido quando ela parou e Navajo começou a bater com as patas no chão.

            — Maravilhosa, obrigada. — Apesar de tudo, havia a sensação de vitória por tê-los descoberto, e os olhos verde-esmeralda cintilavam ao sol.

            Então, sem dizer mais qualquer palavra, Sam foi juntar-se aos outros homens, desmontando pouco depois para ajudar a levar uma vitela acabada de nascer num amparo feito com um cobertor. A mãe morrera horas antes, e a vitela parecia também não querer resistir. Um dos homens içou o pequeno animal, que mal respirava, para a parte dianteira da sela e transportou-o para o estábulo do gado, onde tentaria arranjar-lhe uma mãe adotiva. Só meia hora depois é que Sam descobriu o vitelo seguinte, este ainda menor do que o anterior; a mãe, porém, já morrera há muito mais horas. Desta vez sem ajuda, Sam içou o vitelo para cima da sua sela com o auxílio de um jovem ajudante que estava deveras intrigado por Samantha se desvencilhar bem com o vitelo. Depois, sem esperar instruções, começou andar a meio galope atrás do outro ajudante, em direção ao estábulo principal.

            — Consegue dar conta do recado sozinha? — Ergueu os olhos, espantada por ver Tate Jordan a seu lado, o lustroso cavalo de malhas pretas e brancas a formar uma interessante parelha com o appaloosa castanho e branco.

            — Sim, acho que consigo. — Depois, ao olhar com preocupação para o animal à sua frente, acrescentou: — Acha que este sobreviverá?

            — Duvido. — Falou num tom frio quando olhou para ela. — Mas vale a pena tentar.

            Sam fez um sinal de concordância com a cabeça e apressou o andamento; desta vez, Tate virou-se para segui-la com o olhar. Poucos minutos depois, Sam encontrava-se no estábulo principal e o vitelo órfão era levado para mãos experientes que cuidaram dele durante mais de uma hora; contudo, o pequeno vitelo não sobreviveu. Quando voltou para junto de Navajo, que esperava pacientemente diante dos estábulos do gado, seus olhos se inundaram de lágrimas, a que se seguiu uma raiva súbita. Raiva por não terem conseguido salvar o vitelo, pelo fato de o pobre animal não ter sobrevivido. Sabia que existiam mais animais como aquele, perdidos pelos campos, cujas mães tinham, por uma razão ou outra, morrido ao parirem no frio da noite.

            Os homens estavam sempre atentos ao gado em dificuldades, mas era inevitável algumas reses escaparem ao seu controle e morrerem nas colinas. Todos os anos acontecia o mesmo. Era um fato comum, sobretudo com as vacas que pariam no inverno. Os homens aceitavam a morte do animal, Samantha não. Os vitelos órfãos eram como que símbolos das crianças que não podia ter; voltou para junto dos outros com um sentimento de vingança e com a determinação de que o próximo vitelo que trouxesse não morreria.

            Sam transportou mais três vitelos nessa tarde, a todo o galope, tal como fizera com Black Beauty nessa manhã, os vitelos embrulhados em cobertores, sob os olhares intrigados e estupefatos dos homens. Era uma mulher jovem, estranha e bela, inclinada sobre o pescoço do cavalo, a cavalgar como nunca uma mulher fizera no Rancho Lord, nem sequer Caroline Lord. O extraordinário foi que ao verem-na voar pelas colinas, o Navajo a correr como um raio, os homens reconheceram que Sam era uma ótima cavaleira. Como poucas. Ao regressarem à cavalariça nessa noite, os homens gracejaram como nunca haviam feito antes.

            — Anda sempre daquela maneira? — Era Tate Jordan mais uma vez, os cabelos escuros desgrenhados sob o enorme chapéu preto de cow-boy, os olhos brilhantes, a barba se fazendo notar. Havia nele uma espécie de forte masculinidade que fazia parar as mulheres quando o viam, como se, por instantes, lhes tirasse a respiração. Samantha, porém, não padecia desse mal. No modo como ele andava existia algo de presunçoso que a aborrecia.

            Era um homem que estava seguro do seu mundo, do seu trabalho, dos seus homens, dos seus cavalos e, provavelmente, também das mulheres. Sam ficou, por instantes, sem responder à pergunta, depois fez um gesto afirmativo com a cabeça e esboçou um vago sorriso.

            — Por uma boa causa.

            — E esta manhã?

     Por que razão é que ele a pressionava? perguntou a si mesma. O que tinha ele a ver com isso?

            — Foi também por uma boa causa.

            — Foi? — Os olhos verdes seguiram-na enquanto os dois regressavam a casa depois do longo dia.

            Desta vez Samantha encarou-o com ar franco, os seus olhos azuis fixos nos verdes de Tate.

            — Sim, foi. Fez-me sentir viva e livre de novo, Mister Jordan. Já não me sentia assim há muito tempo.

            Tate meneou lentamente a cabeça e não disse qualquer palavra e Sam ficou sem saber se ele entendera, ou sequer se ligara às suas palavras. O capataz adjunto lançou a Sam um último olhar e continuou o seu caminho.

 

            — Não vai montar o Black Beauty esta manhã?

            Por instantes, Sam quase lhe deu um bofetão quando passou a perna por cima do Navajo e se instalou na sela. Então, sem qualquer razão especial, Sam sorriu-lhe.

            — Não, pensei em dar-lhe uma folga, Mister Jordan. E senhor?

            — Não monto puros-sangues, Miss Taylor. — Os olhos verdes tinham um ar risonho enquanto o cavalo malhado dançava de um lado para o outro.

            — Talvez devesse.

            Sem dizer nada, Tate partiu, levando os seus homens para uma zona distante do rancho. O grupo era maior do que habitualmente e naquele dia Bill King e Caroline também os acompanhavam. Sam mal os viu. Estava demasiado ocupada no trabalho que lhe haviam destinado e sentia que os homens começavam a aceitá-la. Não eram esses os seus planos e desejos originais. Mas ela trabalhara com tal afinco e cavalgara tão bem, durante horas a fio, empenhara-se tanto a salvar os vitelos órfãos que, de repente, naquela manhã, já só se ouvia: "Olhaaaaa! Aqui... Sam!... Olha, Sam, bolas!... agora!" Não se ouviu mais "Miss Taylor", nem um simples "senhora". Perdeu totalmente a noção das horas, de tudo, à exceção do trabalho e daquilo que a rodeava, e só ao jantar, nessa noite, é que parou para falar novamente com Caroline.

            — Sabes, Sam, és uma maravilha. — Caroline serviu uma segunda xícara de café a Samantha e recostou-se na confortável cadeira da cozinha. — Podias estar em Nova Iorque, sentada atrás de uma secretária, criando anúncios exóticos, vivendo num apartamento que é a inveja de muita gente e, em vez disso, estás aqui, andando atrás de vacas, transportando vitelos doentes, com estrume pelos joelhos, consertando vedações com os meus ajudantes, recebendo ordens de homens com graus de instrução inferiores, levantando antes do alvorecer e cavalgando durante todo o dia. Não há muitas pessoas que compreendam isso. — Já para não falar no fato de ter sido a mulher de um dos homens mais desejados da televisão, pensou Caroline. — O que achas do que estás a fazer? — Os olhos azuis de Caroline focaram-na e Samantha sorriu.

            — Penso que estou a fazer a primeira coisa sensata desde há muito tempo, e estou adorando. Além disso... — Sam esboçou um sorriso maroto... — Acho que se é para ficar por aqui durante algum tempo, terei de montar o Black Beauty de novo.

            — O Tate Jordan é que não gosta lá muito da idéia.

            — Acho que ele não gosta é de mim.

            — Tens-lhe metido sustos de morte, Samantha?

            — Nem por isso. Arrogante como é, seria extremamente difícil.

            — Penso que não é esse o caso. Ouvi dizer que ele acha que sabes andar a cavalo. Vindo dele, é um grande elogio.

            — Tive essa suspeita esta manhã, mas ele prefere morrer a dizer isso.

            — É tão diferente dos outros homens. Este é o mundo deles, Samantha, não é o nosso. Num rancho, uma mulher é ainda uma cidadã de segunda classe. Eles são reis e senhores aqui.

            — Isso te aborrece?

            Samantha olhou-a, intrigada, mas Caroline ficou com um ar enternecido e pensativo. Havia uma grande docilidade no seu olhar.

            — Não, gosto assim — respondeu Caroline num tom estranhamente meigo e sorrindo para Samantha, mais parecendo uma garota pequena. Naquele momento entendeu-se bastante bem o papel de Bill King. À sua maneira, ele é que a orientava, e ela adorava isso. Era assim há muitos anos. Ela respeitava o poder, a força, a masculinidade, as opiniões relativas ao rancho e o modo de Bill lidar com os homens. Caroline era a dona do rancho e era ela que o dirigia, mas Bill King sempre estivera na retaguarda ajudando-a, segurando as rédeas. Os ajudantes respeitavam-na, mas como mulher, como figura decorativa; fora Bill King que sempre dera as ordens. Agora era Tate Jordan que as dava. Havia algo de terrivelmente machista, brutal e sedutor em tudo aquilo. Era uma força a que Samantha procurava resistir enquanto mulher moderna, porém, não conseguia. A atração por esse tipo de masculinidade era demasiado forte.

            — Gostas do Tate Jordan? — Era uma pergunta estranha e direta, e Caroline formulara-a com tal ingenuidade que Samantha deu uma gargalhada.

            — Gostar dele? Acho que não conseguiria. — Sabia que Caroline não estava falando a sério e soltou nova gargalhada enquanto se recostava na cadeira. — É bom naquilo que faz. Respeito-o, embora não seja certamente um homem de fácil trato. Além disso, acho que também não vai muito com a minha cara. É atraente, se é a isso que te referes, mas também se mostra inacessível. É um homem estranho, tia Caro.

            Caroline fez um silencioso gesto de concordância com a cabeça. Já dissera praticamente as mesmas coisas de Bill King.

            — O que te levou a fazer essa pergunta? — Não havia nada entre eles, nada que Caroline pudesse ter sentido ou visto durante o dia.

            — Não sei. É só uma sensação. Tenho a impressão de que ele gosta de ti. — Caroline disse isto com toda a simplicidade, tal como as garotas pequenas fazem.

            — Duvido. — Samantha ficou com um ar divertido e cético. Depois falou num tom mais firme. — Em qualquer caso, não é por isso que estou aqui. Estou aqui para esquecer o envolvimento com um homem. Não quero envolver-me com outro. E certamente ninguém aqui o quer fazer.

            — O que te leva a dizer isso? — Caroline olhou para Sam de forma estranha.

            — Porque nos comportamos como estranhos uns com os outros. Sou uma estranha para eles, e eles são estranhos para mim. Não compreendo os seus hábitos, nem eles compreendem os meus. Não... — Soltou um leve suspiro. — Estou aqui para trabalhar, tia Caro, não para brincar com os cow-boys.

            Caroline riu-se das palavras que Sam utilizara e abanou a cabeça.

            — É como essas coisas começam. Nunca ninguém tinha intenção...

            Sam perguntou-se, por instantes, se Caroline estaria tentando dizer-lhe alguma coisa, se iria, ao fim de todo aquele tempo, admitir a sua relação com Bill King, mas o momento passou rapidamente. Caroline levantou-se, pôs os pratos na pia e, pouco depois, começou a apagar as luzes da cozinha. Lucia-Maria já há muito que fora para casa. Samantha ficou subitamente com pena de não a ter encorajado a dizer mais qualquer coisa, mas teve a impressão de que a amiga estava ansiosa por não dizer mais nada. Uma porta fechara-se já silenciosamente.

            — A verdade é que já estou apaixonada, tia Caro.

            — A sério? — A mulher de mais idade parou imediatamente o que estava a fazer e pareceu perplexa. Não fizera a menor idéia de Samantha estar já envolvida com alguém.

            — A sério.

            — Será de mau gosto perguntar-te por quem?

            — De modo algum. — Lançou-lhe um afável sorriso. — Estou apaixonadíssima pelo teu puro-sangue.

            Desataram as duas a rir e despediram-se pouco depois. Nessa noite, Sam ouviu os sons, agora familiares, de abrir e fechar da porta principal.

            Tinha a certeza que era Bill King vindo passar a noite com Caroline.

            Gostaria de saber por que razão não se tinham já casado, uma vez que aquela situação se prolongava há tanto tempo. Talvez tivessem as suas razões. Ele era capaz de já ser casado. Deu consigo a meditar sobre as perguntas que Caroline lhe fizera acerca de Tate Jordan e sentia-se curiosa em conhecer a razão por que Caroline suspeitava que Samantha estivesse atraída por ele. Todavia, não estava. Se alguma coisa existia, era o fato de ele a aborrecer. Ou não seria tanto assim? Sam deu subitamente consigo a questionar-se. Tate era de uma beleza selvagem, parecia tirado de um anúncio... de um sonho. Mas não era o seu gênero de sonho; alto, moreno e bonito. Sorriu, o espírito dirigiu-se instantaneamente para John Taylor... John com os seus belos cabelos louros, as longas pernas e os enormes olhos quase cor de safira. Haviam tido uma relação tão perfeita, tão viva, tão feliz... tudo feito pelos dois... tudo... exceto a paixão por Liz Jones. Isso John fizera sozinho.

            Sam tinha a consolação de não pensar deliberadamente nele e deixara de assistir ao noticiário. Pelo menos, não sabia como é que a gravidez estava a evoluir, nem tinha de ouvir Liz agradecer a outro milhar de telespectadores as botinhas feitas à mão, os cobertores de crochê ou as "amorosas touquinhas cor-de-rosa". Fora insuportável; porém, enquanto estivera em Nova Iorque não conseguia deixar de assistir aos noticiários.

            Até mesmo quando trabalhava até tarde. Era como se houvesse um despertador enterrado algures no seu corpo que tocava às seis horas e a forçava a ir inexoravelmente em direção ao televisor. Pelo menos ali já não pensava nisso há quase uma semana. Dentro de mais uma semana seria Natal e sabia que sobreviveria se, pela primeira vez em onze anos, conseguisse passá-lo sem John. Entretanto, a única coisa que tinha de fazer era trabalhar de manhã até à noite, acompanhar os cow-boys, permanecer doze horas por dia em cima de Navajo, descobrir os pequenos vitelos órfãos e trazê-los sãos e salvos. Com o passar dos dias e dos meses, conseguiria.

            Começava finalmente a perceber que a vida continuava. Agradeceu a si própria a sensata decisão de vir para o Oeste, enquanto os olhos se fechavam e adormecia. Desta vez, além de Liz, John e Harvey Maxwell havia outras pessoas nos seus sonhos: Caroline a tentar desesperadamente dizer-lhe algo que ela não conseguia ouvir; Josh a rir, sempre a rir; e um homem alto e moreno, montado num bonito cavalo preto com uma bonita estrela branca na testa e duas manchas brancas na parte inferior das patas. Sam ia montada atrás do homem, na garupa, abraçada a ele, enquanto cortavam a noite a galope. Nunca soube muito bem para onde iam ou donde vinham, mas sabia que se sentia em segurança enquanto cavalgavam em uníssono perfeito. Quando o despertador a acordou às quatro e meia, Sam sentiu-se estranhamente cansada, mas não conseguia lembrar-se do sonho.

 

            Pouco antes de acabarem o habitual intervalo para o almoço, Tate Jordan fez o sinal e o enorme grupo de homens soltou um grito e iniciou a viagem de regresso. Sam estava entre eles, a tagarelar com Josh acerca da mulher e dos filhos, enquanto dois dos homens gracejavam com ela. Um a acusava de, provavelmente, ter fugido de um namorado que lhe batia "e com razão, depois de ver a língua comprida que tens", o outro alegava que ela talvez fosse mãe de onze filhos e péssima cozinheira, por isso tinham-na posto fora de casa.

            — Tens toda a razão. — Samantha riu com os homens que a acompanhavam.

            Fora uma manhã de tarefas fáceis e todos estavam ansiosos por acabar o trabalho cedo para irem almoçar. Era véspera de Natal, e nessa noite haveria uma enorme festa no salão principal. As mulheres, os filhos e até as namoradas tinham sido convidados. Era um acontecimento anual e adorado por todos. Fazia-os sentir mais como uma família, mais unidos no seu amor pelo rancho.

            — A verdade é que tenho quinze filhos ilegítimos e todos eles me batiam, foi por isso que fugi. Qual é o problema?

            — O quê? Não tens namorado? — berrou um dos veteranos, ao mesmo tempo que soltava uma gargalhada. — Um pequeno palomino como tu e sem namorado. Não brinques comigo. — Tinham começado, a compará-la a um palomino; como adorava cavalos, tomava isso como um cumprimento. A verdade é que cada dia que passava parecia mais um palomino. Os longos cabelos brilhantes estavam a embranquecer com a luz do Sol e o rosto começava a ganhar um tom bronzeado. Fazia uma bonita combinação, o que chamava a atenção de todos os homens. — Não me digas que não tens namorado, Sam! — O veterano insistia na questão que suscitava curiosidade em todos eles e sobre a qual falavam quando ela não estava presente.

            — Não houve, naturalmente, quinze pais para os filhos ilegítimos, mas agora... — Sam riu-se com eles e depois encolheu os ombros. Ao dirigir-se para a cavalariça, virou-se e acrescentou: — Não sou para o dente de qualquer homem.

            Josh observava-a com um olhar afável, e o homem ao lado aproximou-se ainda mais e perguntou-lhe:

            — Qual é a história dela, Josh? Tem filhos?

            — Que eu saiba, não.

            — É casada?

            — Já não. — Não acrescentou mais nada. Em parte por que achava que, se Sam lhes quisesse contar alguma coisa, seria ela a fazê-lo. Além disso, pouco sabia da vida dela.

            — Julgo que ela está aqui para fugir de alguma coisa — disparou um jovem cow-boy, corando.

            — Talvez — concordou Josh e continuou o seu caminho. Ninguém queria discutir o assunto. Era Natal, tinham de pensar nas mulheres e nos filhos, e o problema era dela. Apesar da tendência para os mexericos que existe em qualquer situação de vivência em comum, imperava um grande respeito no rancho. Muitos daqueles homens guardavam as suas opiniões para si; estimavam-se uns aos outros e preservavam a sua privacidade.

            Eram pouco faladores e a maioria das conversas tinha por tema o gado e o rancho. Sam sentia-se segura no meio deles. Vir para ali fora uma decisão acertada. Ninguém iria fazer-lhe perguntas sobre John ou Liz, nem sobre a razão de nunca ter tido filhos, nem sobre o modo como se sentia, agora que estava divorciada... "Diga-me, Mistress Taylor, agora que o seu marido a trocou por outra mulher, como é que se sente..." Passara por tudo isso em Nova Iorque. E agora estava livre.

            — Até logo! — proferiu Sam, alegremente, para Josh, enquanto se dirigia apressadamente para o edifício principal. Ia tomar uma ducha e vestir umas calças de brim limpas, depois prometera voltar ao salão para ajudar a decorar a árvore. Havia grupos de trabalho dedicados a tudo, desde cantar canções de Natal até cozinhar. O Natal era um acontecimento importante para toda a gente do Rancho Lord.

            Quando entrou em casa, Caroline examinava minuciosamente um enorme livro de contas, de sobrolho franzido. Samantha aproximou-se de mansinho e deu-lhe um enorme abraço.

            — Oh! Assustaste-me!

            — Por que razão não te descontrais? É Natal!

            — Já pareço o Scrooge? — O rosto de Caroline desfez-se num afável sorriso. — Deveria dizer: "Ora, isso é tudo uma farsa!"

            — Ainda não. Espera até amanhã. Depois vamos assombrar-te com o Espírito do Natal Passado!

            — Ora, ora... Já têm aparecido, acreditas? — Por instantes, mostrou-se pensativa, pondo o livro de contas de lado. De repente o seu espírito regressou a Hollywood e aos Natais passados lá. Enquanto a olhava, Samantha sabia exatamente em que é que ela estava a pensar.

            — Ainda sentes saudades de tudo? — Sam queria dizer: "Ainda sentes saudades do teu marido?", e os olhos de Samantha ficaram subitamente tristes. Era como se precisasse saber durante quanto tempo mais é que a dor iria manter-se.

            — Não. — Caroline respondeu delicadamente à pergunta. — Não sei se realmente alguma vez senti, nem mesmo ao princípio. Por estranho que possa parecer, isto foi sempre mais o meu estilo. Durante muito tempo não me apercebi, mas descobri logo que cheguei aqui. Sempre me senti feliz aqui, Samantha. É o sítio certo para mim.

            — Eu sei. Sempre senti isso. — Sam a invejava. Ainda não encontrara o seu próprio lugar. A única coisa que possuía era o apartamento que partilhara com John Taylor. Não havia nada exclusivamente seu.

            — Sentes muitas saudades de Nova Iorque?

            Sam abanou lentamente a cabeça.

            — De Nova Iorque, não. Só de alguns amigos. Dos meus amigos Charlie e Melinda e dos respectivos filhos. Um deles é meu afilhado. — Sentiu-se subitamente melancólica e desolada, com saudades das pessoas que deixara.

            — E talvez do meu patrão, o Harvey Maxwell. É o diretor artístico da CHL. Tem sido como um pai para mim. Acho que também estou com algumas saudades dele. — Então, ao dizer aquelas palavras, apoderou-se dela uma onda de solidão que a levou a pensar novamente em John... Era o primeiro Natal sem ele. Involuntariamente, os olhos inundaram-se de lágrimas e desviou o olhar; Caroline, porém, deu conta do fato, estendeu o braço e pegou-lhe na mão.

            — Tudo bem. Compreendo... — Puxou Samantha para si. — Lembro-me de como foi quando perdi o meu marido. Também foi um ano muito difícil para mim. — Após alguns instantes, acrescentou: — Mas as coisas vão melhorar. Dá tempo ao tempo.

            A jovem fez um gesto de concordância, abanou ligeiramente os ombros, encostou a cabeça no delicado ombro da tia Caro, fungou e afastou-se.

            — Desculpa. — Sam esboçou um sorriso por entre as lágrimas. — Que piegas! Não sei por que razão isto aconteceu.

            — Porque é Natal e porque estiveste casada com ele todos esses anos. É perfeitamente normal, Sam. Por amor de Deus, o que é que esperavas? — Mais uma vez, como já lhe acontecera um sem-número de vezes desde que soubera que John abandonara Sam, Caroline sentia-se revoltada com o que ele fizera. Como tivera ele coragem para trocar aquela jovem requintada pela gaudéria que vira furtivamente na televisão? Tentava descobrir a razão por que ele a escolhera em detrimento de Sam. A única razão que via era o bebê, mas mesmo essa parecia uma razão pouco plausível para se ficar completamente louco e deixar uma mulher como Sam. Não obstante, ele o fizera. — Vais ajudar a decorar a árvore?

            Sam assentiu com a cabeça e esboçou um sorriso destemido.

            — Também prometi fazer bolachas, mas vais ficar desiludida. Os homens com quem tenho andado a trabalhar dizem de gozação que uma mulher que monta da forma que eu o faço provavelmente não sabe cozinhar. E o pior é que têm razão. — Soltaram uma gargalhada, Sam beijou ternamente a tia Caro e abraçou-a uma vez mais. — Obrigada. — As palavras saíram num veemente murmúrio.

            — Por quê? Não sejas tonta.

            — Por seres minha amiga. — Quando Sam soltou Caroline, também havia lágrimas nos olhos desta.

            — Tonta. Nunca mais me agradeças por ser tua amiga. Caso contrário, não o serei! — Tentou mostrar um ar zangado, mas não conseguiu, e mandou Sam decorar a árvore.

            Meia hora depois, Samantha encontrava-se no salão empoleirada no cimo de uma escada comprida, a pendurar enfeites prateados, verdes, vermelhos, azuis e amarelos na Árvore.

            Algumas crianças penduravam nos ramos inferiores pequenos enfeites de papel feitos por elas. Um grupo de crianças mais velhas fazia cordões de pipocas e uvas-do-monte, enquanto um círculo de homens e mulheres, no meio de uma algazarra igual ou superior à dos filhos, escolhia os enfeites. Era uma congregação vasta e feliz, com as mulheres andando numa azáfama, transportando enormes tigelas de pipocas, travessas de bolachas de chocolate e noz, feitas no rancho ou em casa. Havia pessoas trabalhando por todo o lado, no melhor espírito natalício; até Tate Jordan participava e, como gigante oficial do rancho, concordara em colocar a estrela na copa da árvore. Transportava uma criança em cada ombro e deixara o chapéu preto pendurado num cabide perto da porta. Só quando chegou junto da árvore é que viu Samantha; pousou as crianças no chão e sorriu. No cimo da escada, por uma vez, ela era mais alta do que ele.

            — Puseram-te a trabalhar, Sam?

            — Claro. — Sorriu; a partir do momento de nostalgia por que passara, o seu sorriso perdera um pouco o brilho.

            Tate apropriou-se, por instantes, da escada e começou a subir a fim de pendurar a enorme estrela dourada. Colocou mais alguns anjos e algumas bolas brilhantes junto da copa, ajustou as luzes, desceu, pegou em Sam e pô-la de novo em cima das escadas. — Muito simpático.

            — Tenho de tirar algum proveito do fato de ser alto. Quer uma xícara de café? — perguntou num tom despreocupado, como se tivessem sido sempre amigos; desta vez, quando Sam respondeu, havia mais vida no seu sorriso.

            — Quero.

            Tate voltou com duas xícaras de café e bolachas de chocolate e noz, passou a Sam uma série de enfeites, que ela pendurou, enquanto bebia uns goles de café, mordiscava uma bolacha e perguntava onde é que devia pendurar a bola seguinte. Finalmente, Sam sorriu para Tate depois de ele lhe dizer onde pendurar um pequeno anjo prateado.

            — Diga-me, Mister Jordan, passa o tempo a dar ordens?

            Tate fez uma pausa para pensar e depois assentiu com um gesto afirmativo da cabeça — Sim, acho que sim.

            Sam sorveu o café e olhou para ele. — Não acha enfadonho?

            — Não — retorquiu, lançando-lhe um olhar mordaz. Também acha enfadonho dar ordens? — Sentia que ela também estava habituada a dirigir. Havia algo nela que denotava uma aura de comando.

            Sam respondeu sem hesitações. — Sim. Muito.

            — E é por isso que está aqui? — Fora uma pergunta muito direta e Sam olhou-o, por instantes, antes de responder. — Em parte.

            Tate admitiu a hipótese de ela ter tido um esgotamento nervoso. Estava certo de que existia uma razão séria para ela vir para o rancho, não se tratava de uma simples dona de casa a fugir do lar. Também não havia quaisquer indícios de loucura. Não possuía qualquer pista.

            — Samantha, o que faz você quando não está na Califórnia a trabalhar em ranchos?

            Não lhe apetecia responder, mas apreciava a franqueza de Tate. Além disso, não queria estragar a relação de trabalho armando-se em engraçadinha com respostas mordazes e afugentando-o. Era um homem de quem gostava e que respeitava, embora às vezes o detestasse, e achava-o um bom profissional. De que serviria estar a gozar com ele naquele momento?

            — Escrevo anúncios de publicidade. — Era uma resposta simplificada em relação ao seu trabalho, mas para começo estava bem. De certa forma, ela mais não era do que uma espécie de capataz adjunto da Crane, Harper & Laub. A idéia a fez sorrir.

            — Onde é que está a graça? — Tate ficou algo confuso.

            — Não é nada. Só acho que os nossos cargos são parecidos. Na agência de publicidade onde trabalho há um homem chamado Harvey Maxwell. É uma espécie de Bill King. Também é velho e um dia destes vai reformar-se, e... — De repente, Sam ficou arrependida de ter dito aquilo. Ele podia pensar que ela queria tomar o lugar do homem e levar a mal a analogia, mas Tate Jordan apenas sorriu quando Samantha acabou abruptamente a sua exposição.

            — Continue, diga.

            — Digo o quê? — Tentou exibir um ar desentendido.

            — Que, provavelmente, vai ficar com o lugar dele.

            — O que o leva a pensar isso? — Apesar do bronzeado recente, Sam estava corada. — Não disse tal coisa.

            — Nem precisava. Disse que os nossos cargos eram parecidos... — Por uma razão qualquer que escapava a Sam, Tate exibia um ar satisfeito, como se aquilo o divertisse. — Muito bem. Gosta do que faz?

            — Às vezes. Outras vezes é um caos, uma loucura, e eu detesto-o.

            — Pelo menos não tem de andar doze horas à chuva em cima de um cavalo.

            — Aí é que está a questão. — Sam sorriu de novo, subitamente intrigada com aquele homem enorme e afável, que fora tão brusco e autoritário nos primeiros dias, mostrando-se furioso por ela montar Black Beauty, e agora parecia uma pessoa totalmente diferente, enquanto bebiam café e comiam bolachas junto da árvore de Natal. Sam olhou-o fixamente por instantes e depois resolveu fazer-lhe uma pergunta. Sentiu, de repente, que não tinha nada a perder. Parecia não haver nada que conseguisse enfurecer ou aborrecer Tate. — Diga-me uma coisa. Por que razão é que fica tão furioso comigo por montar o Black Beauty?

            Tate permaneceu imóvel por momentos, depois pousou a xícara do café e olhou Sam fixamente.

            — Porque achava que era perigoso para si.

            — E também porque achava que eu não era capaz de montá-lo, não é verdade?

            Desta vez não se tratava de um desafio, era uma pergunta direta, e ele deu-lhe uma resposta direta.

            — Não, eu já vira que era boa cavaleira nesse primeiro dia. Pela maneira como montou o Rusty na chuva e até pelo pouco trabalho que conseguiu tirar do velho pelego. Já sabia que era mesmo boa. Mas para o Black Beauty não basta. É preciso cuidado e força. E acho também que não vai continuar a montá-lo por muito mais tempo. Tenho a certeza. Um dia esse cavalo ainda vai matar alguém, e eu não gostaria que fosse você. — Tate fez uma ligeira pausa, a voz roufenha. — Miss Caroline nunca o devia ter comprado. É um cavalo ruim, Sam.

            Tate olhou para ela de forma estranha. — Tenho essa sensação. Ele me assusta. — Depois, para espanto de Sam, acrescentou num tom extremamente meigo: — Não quero que volte a montá-lo.

            Sam não disse nada como resposta, e após um longo instante desviou o olhar.

            — Mas isto não faz o seu gênero, não é verdade? — prosseguiu ele. — Recusar um desafio, evitar um risco... Especialmente agora.

            — O que quer dizer com isso? — Sentia-se confusa com o que acabara de ouvir.

            Tate olhou-a novamente nos olhos quando respondeu. — Tenho a sensação de que perdeu algo de muito precioso para si... uma pessoa, muito provavelmente... É a única coisa a que muitos de nós damos importância. Talvez agora não se preocupe consigo tanto como deveria. É uma má altura para montar um demônio como aquele garanhão. Prefiro vê-la noutro cavalo qualquer, menos nesse. Todavia, não acredito que deixe de montar um puro-sangue apenas porque eu lhe pedi.

            Sam não sabia o que dizer quando Tate parou de falar; a voz estava rouca quando finalmente respondeu.

            — Tem razão em muitas coisas, Tate. — O nome dele era novo e estranho nos lábios de Sam; ao levantar os olhos para o encarar, a voz mostrou-se ainda mais branda. — Errei ao montá-lo... da maneira como fiz. Corri muitos riscos nessa manhã. — Depois, após uma breve pausa: — Não prometo que não voltarei a montá-lo. Porém, quando o fizer, terei cuidado. Prometo-lhe isso. Só à luz do dia, em terreno que conheça, sem saltos por cima de regatos pedregosos que mal se vêem...

            — Meu Deus, que tolerante! — Tate baixou os olhos e sorriu. — Estou impressionado! — Gracejava de novo, e Sam esboçou um sorriso.

            — E devia estar! Não imagina as loucuras que tenho feito com cavalos ao longo dos anos.

            — Devia abandonar esse tipo de coisas, Sam. Não vale o preço que pode ter de pagar.

            Permaneceram em silêncio por instantes. Ambos tinham conhecimento de acidentes ocorridos; conheciam paraplégicos confinados a cadeiras de rodas para o resto da vida por terem corrido o risco de um salto louco e não conseguirem.

            — Nunca achei piada nos loucos concursos de saltos da zona leste. Meu Deus, pode matar-se. Será que vale a pena?

            Sam deixou o seu olhar penetrar no dele.

            — Isso tem alguma importância?

            Tate fixou-a com intensidade.

            — Pode não ter importância agora, Sam. Mas um destes dias as coisas podem mudar. Não faça nenhum disparate. Depois, talvez já não haja solução.

            Sam meneou lentamente a cabeça e sorriu. Tate era um homem estranho e consciencioso, possuindo qualidades que ela não percebera no início.

            Vira-o apenas como um capataz autoritário mas eficaz. Agora via que era um homem de sentimentos profundos: os anos que passara com as pessoas, os rancheiros e os trabalhadores, a existência que levara, com ganhos e perdas, trabalhando até cair para o lado, não tinha sido em vão. Para além do mérito com que exercia o seu cargo, aprendera a analisar as pessoas, o que não era uma arte simples.

            — Mais café? — Tate fixou-a novamente com um pequeno sorriso nos lábios e ela abanou a cabeça.

            — Não, obrigada, Tate. — Desta vez o nome saiu-lhe com maior facilidade. — Tenho de me pôr a andar. Fiquei encarregada de fazer as bolachas. E você?

            Tate exibiu um sorriso de orelha a orelha e esticou-se para lhe segredar algo ao ouvido.

            — Sou o Papai Noel — proferiu ele, com um misto de embaraço e de alegria.

            — O quê? — Olhou-o, confusa e divertida, sem saber se ele estava a brincar.

            — Sou o Papai Noel! — repetiu Tate, mal mexendo os lábios; depois, aproximando-se mais, explicou: — Costumo mascarar-me todos os anos e Miss Caroline fica com este saco enorme de brinquedos para os garotos. Faço de Papai Noel.

            — Oh, Tate, você?

            — Com os diabos, sou o tipo mais alto. Faz sentido. — Tentava encarar o fato com trivialidade, mas era óbvio que sentia prazer nisso. — Os garotos merecem tudo. — De novo um ar inquiridor. — Tem filhos?

            Sam abanou lentamente a cabeça, o olhar sem denotar vazio que sentia dentro de si.

            — E você? — Esquecera-se, momentaneamente, das bisbilhotices que ouvira da boca de Josh.

            — Tenho um. Trabalha num rancho perto daqui. É um ótimo rapaz.

            — É parecido consigo?

            — Não. Nada. É ruivo como a mãe. — Sorriu ao dizer isto, pensando no rapaz com óbvio orgulho.

            — É um homem cheio de sorte — comentou Sam, sentindo de novo a voz embargada.

            — Também acho. — Tate sorriu. Num surdo e suave tom de voz, como se estivesse a acariciá-la, acrescentou: — Mas não se preocupe, pequeno palomino, um destes dias também vai ter a sua dose de sorte. — Deu-lhe um ligeiro toque no ombro e desapareceu.

 

            — Papai Noel... Papai Noel...! Aqui...

            — Só um minuto, Sally. Tens de esperar que eu vá para esse lado da sala. — Tate Jordan, com a enorme barba branca e o traje de veludo vermelho, abria lentamente alas pela sala, contemplando cada criança com um presente há muito aguardado, distribuindo pirulitos e outros doces, festas na cara, abraços e até beijinhos. Era uma faceta de Tate Jordan que ninguém conhecia a não ser aqueles que o viam fazer isto todos os anos. Vê-lo rir, cabriolar e tirar outra surpresa do enorme saco fazia-os acreditar no Papai Noel. Se ele não lhe tivesse dito que ia fazer de Papai Noel, Samantha nunca teria suspeitado que era ele. Até a voz parecia diferente quando conversava e ria, exortando as crianças a serem boas para as mães e os pais esse ano, para deixarem de arreliar as irmãs mais novas, para fazerem os trabalhos de casa e não serem más para os gatos e os cães. Parecia saber tudo sobre todos, o que, como é óbvio, não era difícil num rancho. Quando o tocavam ou eram tocadas por ele, as crianças ficavam extasiadas, e até Samantha foi apanhada pela magia do seu "ho ho ho". Tate atuou durante o que pareceram horas e, quando acabou, depois de ter comido um prato cheio de bolachas e seis copos de leite, desapareceu em direção ao celeiro com um último "ho ho ho", para só voltar a ser visto no ano seguinte.

            Quarenta e cinco minutos depois, já sem maquiagem, sem a barriga almofadada, a cabeleira branca e o traje vermelho, Tate reapareceu no salão, passando despercebido enquanto circulava por entre a multidão, admirando os brinquedos e as bonecas, fazendo cócegas e metendo-se com as crianças. Dirigiu-se de imediato para o sítio onde Samantha se encontrava com Bill e Caroline, com uma saia preta de veludo e uma blusa branca de renda muito bonita. Usava o cabelo preso atrás com uma fita preta de veludo e pusera maquiagem pela primeira vez desde que chegara ao rancho.

            — É mesmo você, Sam? — perguntou Tate, em tom de gracejo, depois de aceitar um copo de ponche e agradecer fervorosamente à patroa.

            — Posso dizer o mesmo de si. — E acrescentou num tom de voz mais baixo: — Esteve brilhante. É sempre assim todos os anos?

            — Tento fazer cada vez melhor. — Deu um largo sorriso de felicidade. O papel de Papai Noel era a melhor coisa que o Natal tinha para ele.

            — O seu filho está aqui?

            — Não — respondeu ele, abanou prontamente a cabeça. — O patrão do Jeff não é tão generoso como a minha patroa. — Sorriu para Samantha. — Está trabalhando esta noite.

            — É pena. — Pareceu sincera.

            — Vou vê-lo amanhã. Está tudo bem. Já é crescidinho. Não tem tempo para o velhote. — Não havia qualquer ressentimento ao pronunciar aquelas palavras. Gostava de ver o filho se tornando um homem. Por momentos, sentiu vontade de perguntar a Samantha por que razão não tivera filhos, observando-a toda a noite a conviver avidamente com todas as crianças, mas acabou por achar que era uma questão demasiado pessoal, contentando-se com uma pergunta sobre Nova Iorque.

            — Faz muito mais frio lá, mas acho que nunca estive em lado nenhum onde houvesse tanto espírito natalino como aqui.

            — Isso não tem nada a ver com a Califórnia. Só com a Caroline Lord, mais nada.

            Samantha fez um gesto de concordância com a cabeça e, desta vez, quando trocaram um sorriso, os olhares de ambos se encontraram e ficaram fixos um no outro.

            Pouco depois, Samantha encontrou a mulher de Josh e dois dos seus filhos casados; alguns homens com quem andara a cavalo nas últimas duas semanas apresentaram-lhe, envergonhados, as mulheres ou as namoradas, os filhos, as filhas e os sobrinhos e, pela primeira vez desde que chegara, sentiu que o seu lugar era ali.

            — Então, Sam? Muito diferente do teu Natal habitual? — Caroline olhava para Sam com um sorriso afável, tendo Bill perto de si.

            — Muito diferente. Adorei.

            — Fico contente.

            Só alguns minutos depois de tê-la abraçado calorosamente e lhe ter desejado um feliz Natal é que Samantha reparou que Caroline desaparecera.

            Pouco depois, deu conta de que o capataz também havia desaparecido.

            Gostava de saber quantas mais pessoas também haviam dado pelo fato.

            Todavia, Samantha nunca ouvira quaisquer comentários acerca deles no rancho. Pensou se não estaria tirando conclusões precipitadas. Não era provável, mas nunca se sabia.

            — Cansada? — Era a voz de Tate Jordan mesmo por cima dela, e Sam voltou-se para ele, assentindo com a cabeça.

            — Já ia embora. Procurava a tia Caro, mas acho que já não está aqui.

            — Ela sempre sai discretamente de modo a não estragar o divertimento de cada um. — Tate falava de Caroline com a maior das admirações. Era um elo que partilhava com Sam. — Também já vai embora?

            Sam fez um gesto afirmativo com a cabeça e tentou, sem sucesso, reprimir um bocejo.

            — Vamos lá, sua dorminhoca, eu a acompanho até a casa.

            — Não tenho culpa que o tipo para quem trabalho seja um condutor de escravos. É de estranhar que no final do dia eu não caia da sela abaixo meio morta.

            — Uma ou duas vezes — começou ele a dizer com um largo sorriso -, pensei que caía. — E soltou uma gargalhada. — Naquele primeiro dia, Sam, estava a ver que ainda morria em cima da sela.

            — Pouco faltou. O Josh quase me levou às costas.

            — E depois ainda montou o Black Beauty! É louca!

            — Por esse cavalo... sou!

            Tate pareceu algo triste, e mudaram de conversa quando penetraram na noite gélida.

            — Parece que vai nevar.

            — Parece, mas é muito pouco provável. Pelo menos, espero que não. — Tate olhou para o céu e não pareceu ficar muito preocupado. Naquela altura, já haviam alcançado a porta do edifício principal onde Sam vivia.

            Samantha hesitou por instantes e, quando abriu a porta, deu um passo para o lado e levantou os olhos para o gigante de cabelo escuro e olhos verdes.

            — Quer beber um copo de vinho ou um café, Tate? Tate abanou a cabeça de imediato, como se Sam tivesse sugerido algo ultrajante, algo que ele nunca poderia aceitar. — Prometo que não o ataco — disse Sam com um largo sorriso. — Sento-me noutro sofá.

            Tate deixou escapar uma gargalhada, não parecendo o homem com quem Sam tivera desavenças durante mais de duas semanas.

            — Não é por isso, é apenas por uma questão de etiqueta. Esta é a casa de Miss Caroline. Não seria correto da minha parte... É difícil de explicar...

            Samantha socou com um ar divertido à entrada da porta. — Quer que a acorde para ser ela a convidá-lo?

            Tate revirou os olhos.

            — Não, mas agradeço a intenção. Fica para a próxima. — Medroso. — Sam parecia uma garotinha, e Tate desatou a rir.

 

            Samantha acordou às quatro e meia na manhã seguinte, uma vez que estava habituada a acordar a essa hora. Obrigou-se a ficar na cama, fingindo para si própria que dormia. Finalmente, depois de uma hora deitada, de olhos fechados e o espírito a divagar, levantou-se. Ainda estava escuro e as estrelas brilhavam, mas sabia que dentro de pouco mais de uma hora começaria a atividade no rancho. Manhã de Natal ou não, os animais começariam a ficar agitados, haveria homens na cavalariça a tratar dos cavalos, apesar de ninguém ir cavalgar pelas colinas.

            De pés descalços, Samantha dirigiu-se silenciosamente para a cozinha, ligou a máquina de café que Caroline usava e sentou-se à espera na cozinha escura, deixando o espírito vaguear até à noite anterior. Fora uma linda festa de Natal. Parecera uma família gigantesca, todos com elos de ligação entre si, cada um preocupado com o seu semelhante, as crianças familiarizadas com os que lá viviam, felizes, a gritar e a correr à volta da enorme árvore de Natal majestosamente decorada. Ao pensar nas crianças da festa de Natal, lembrou-se, de repente, dos filhos de Charlie e Melinda. Este fora o primeiro Natal em que não lhes mandara presentes.

            Recordou-se, com angústia, da promessa feita a Charlie, mas não estivera perto de nenhuma loja. Sentada na cozinha vazia, sentiu-se, subitamente, muito só e, sem pré-aviso, os pensamentos centraram-se instantânea e dolorosamente em John. Como teria sido o seu Natal aquele ano? Como seria a sensação de estar casado com uma mulher grávida? Já teria decorado o quarto das crianças? A dor que a trespassava era insuportável e, como que por reflexo condicionado, estendeu a mão para o telefone. Sem pensar, mas com o desejo desesperado de ouvir uma voz amiga, marcou um número conhecido e, pouco depois, Charlie Peterson atendeu. A voz terna ressoou no telefone com uma interpretação do Jingle Bells. Já ia a meio do segundo verso quando Sam conseguiu dizer o nome. — Quem fala? — A música continuava.

            — Cala-te, Charlie! Sou eu, a Sam!

            — Oh... Olá, Sam...

            — Charlie! — Sam ria-se enquanto escutava, ao mesmo tempo que fazia tentativas para que ele se calasse; apesar de estar a gostar de o ouvir, sentiu de novo a dor lancinante da solidão. De súbito, teve vontade de estar com eles e não num rancho a quatro mil e oitocentos quilômetros de distância. Não podia fazer mais nada a não ser esperar que ele acabasse de cantar.

            — Feliz Natal!

            — já acabaste? Não vais cantar agora Silent Night?

            — Estava pensando nisso, mas se fizeres um pedido especial, Sam, com certeza que posso...

            — Charlie, por favor! Quero falar com a Melie e com os garotos. Mas, primeiro... — Sentiu-se sufocar. — Primeiro, diz-me como vão as coisas no escritório. — Obrigara-se a não telefonar. Harvey quase lhe ordenara que não o fizesse e ela obedecera. Possuíam o seu número se precisassem, e o chefe achara que lhe faria bem esquecer-se deles o mais que pudesse. Na realidade, as coisas estavam correndo melhor do que esperara. Até àquele momento. — Como vão as minhas campanhas? Já deste cabo de todas?

            — Todinhas. — Charlie riu-se, orgulhoso, e acendeu um charuto. De repente, franziu o sobrolho e olhou para o relógio. — Que diabo estás fazendo em pé a estas horas? Devem ser... o quê? Nem sequer seis horas da manhã são aí! Onde estás? — Admitiu a hipótese de ela ter abandonado o rancho e regressado.

            — Ainda estou aqui. Não conseguia dormir. Tenho-me levantado às quatro e meia todos os dias e agora não sei o que fazer. Parece que estou no meio da tarde. — Não era bem assim, mas estava bem acordada. — Como é que estão os garotos?

            — Ótimos. — Charlie hesitou por instantes e apressou-se a perguntar como é que ela estava. — Têm-te posto num frangalho, não?

            — Completamente. Vá lá, Charlie, diz-me o que se passa aí. — Sam queria saber tudo, desde as bisbilhotices do escritório até ao pormenor de quem ameaçava roubar uma campanha de outra empresa.

            — Nada de importante, garota. Nova Iorque não mudou muito nestas últimas duas semanas. E tu? — Charlie pareceu falar a sério por instantes e Sam sorriu. — Sentes-te feliz aí, Sam? Estás bem?

            — Estou ótima. — E com um pequeno suspiro, acrescentou: — Fiz o que tinha a fazer, por muito que me custe a admitir. Acho que precisava de algo tão radical como isto. Nem tenho visto o noticiário das seis.

            — Já é alguma coisa. Se te levantas às quatro e meia, às seis da tarde, provavelmente, já estás a dormir.

            — Não é bem assim, mas quase.

            — E a tua amiga... a Caroline, e os cavalos? Estão bem? — Charlie possuía uma pronúncia tão nova-iorquina que a fez rir, enquanto o imaginava a bater a cinza do charuto e a olhar para o vazio, de pijama, roupão e algo mais que os filhos lhe tivessem oferecido, como um boné ou uma luva de basebol ou ainda um par de meias às riscas vermelhas e amarelas. — Estão todos bem. Deixa-me falar com a Mellie.

            Ao falar, Melinda não percebeu o sinal de Charlie. Quase de imediato, deu a novidade a Sam. Estava grávida. O nascimento deveria ocorrer em julho, mas só descobrira nessa semana. Durante uma fração de segundo, instalou-se um estranho silêncio; depois, Sam felicitou-a efusivamente, enquanto, ao fundo, Charlie fechava os olhos e resmungava.

            — Por que é que lhe contaste? — murmurou Charlie num tom roufenho enquanto Melinda tentava continuar a falar com Sam.

            — Porque não? Ela saberia quando voltasse — sussurrou Melinda, colocando a mão no bocal do telefone; depois prosseguiu: — Os garotos? Dizem que querem outro irmão. Porém, se não for uma menina desta vez, desisto.

            Charlie fazia gestos de impaciência; deixou-a despedir-se e pegou novamente no telefone.

            — Como é que foste capaz de não me dizer? — protestou Sam esforçando-se por parecer despreocupada. No entanto, e como sempre, quando ouvia aquele gênero de notícias, sobretudo nos últimos tempos, ficava extremamente triste e angustiada. — Estavas com medo que não conseguisse agüentar a notícia? Não sou nenhuma doente mental, Charlie, só estou divorciada. Não é propriamente a mesma coisa.

            — A quem é que pode interessar este assunto? — Havia alguma tristeza e preocupação na voz de Charlie.

            — A ti. — A voz de Sam era meiga. — À Mellie. E a mim. Vocês são meus amigos. Ela fez bem em contar-me. Não lhe ralhes quando desligares o telefone.

            — Por que razão? — Charlie esboçou um largo sorriso. — Ela precisa andar na linha.

            — Tens outras formas de mantê-la na linha, Peterson. Ainda bem que és o diretor artístico mais bem pago. Vai-te fazer jeito com toda essa garotada.

            — Sim — resmungou Charlie, satisfeito. — Achas que sou mesmo? — E após um longo instante, continuou: — Bem, garota, trata bem dos teus cavalos e telefona se precisares de nós. E mais uma coisa... — Fez-se uma longa pausa. — Todos nós pensamos muito em ti e temos imensas saudades tuas. Sabes disso, não sabes, querida?

            Sam fez um gesto afirmativo com a cabeça, incapaz de falar, a voz embargada e os olhos inundados de lágrimas. — Sim, eu sei — foi tudo o que Sam conseguiu articular. Também sinto imensas saudades vossas. Feliz Natal! Depois de esboçar um sorriso por entre as lágrimas e de enviar um beijo, pousou o telefone. Permaneceu sentada na cozinha durante cerca de meia hora, o café frio na xícara, o olhar cravado na mesa, o coração e o espírito a quatro mil e quinhentos quilômetros de distância, em Nova Iorque. Quando ergueu os olhos, reparou que lá fora o dia despontava lentamente, a noite passara de um azul muito escuro a um cinzento-pálido.

            Levantou-se, pegou na xícara e dirigiu-se vagarosamente para a pia. Sabia muito bem o que lhe apetecia fazer. Em passo determinado, foi até ao quarto, vestiu duas blusas quentes e um casaco, pôs um chapéu de cow-boy que Caroline lhe emprestara poucos dias antes e, com uma olhadela por sobre o ombro para se certificar de que não havia ninguém por perto, deixou o quarto sem fazer barulho e saiu pela porta principal, fechando-a devagarinho atrás de si. Levou apenas alguns instantes até aos estábulos; quando lá chegou, parou a pouca distância da baia de Black Beauty. Não se ouvia qualquer barulho no interior, e interrogou-se se o gigante de ébano que ela queria montar estaria ainda a dormir. Entreabriu a porta e entrou, passando a mão suavemente pelo pescoço e os flancos do cavalo enquanto lhe dizia palavras carinhosas. Estava acordado, mas não irrequieto. Dava a impressão que a aguardava; olhava-a com ar expressivo por trás das pestanas negras, e Samantha sorriu-lhe quando saiu de mansinho da baia, foi buscar a sela e a brida, e voltou para arreá-lo.

            Não havia ninguém na cavalariça que a tivesse visto chegar, e continuava a não haver.

            Pouco depois, quando Sam conduziu vagarosamente o animal pela porta principal, não havia ninguém no vasto terreiro. Conduziu Black Beauty até um bloco próximo e montou-o rapidamente. Depois de subir para a sela com facilidade e puxar as rédeas, partiu a galope em direção às colinas agora familiares. Sabia exatamente onde queria ir com ele. Dias antes, vira um caminho que atravessava um bosque e era para lá que tencionava dirigir-se. Ao princípio, foi a trote, depois, ao fim de algum tempo, sentindo que o enorme animal lhe pedia para andar mais depressa, passou a galope em direção ao sol-nascente. Era uma das sensações mais maravilhosas de que se lembrava, os joelhos pressionados contra os flancos do animal, enquanto passavam sem esforço por cima de uma série de pequenos arbustos e depois de um estreito riacho. Lembrou-se da primeira vez que saltara com Black Beauty; porém, agora era diferente. Não estava a arriscar, mas isso não a incomodava. Desejava apenas ser um prolongamento do animal.

            Sentia-se um mito antigo, uma lenda índia, quando chegou a passo ao cume de uma colina e observou o Sol a iniciar a sua subida no céu. Só nesse momento é que ouviu os cascos atrás de si e se apercebeu de que fora seguida. Voltou-se, espantada. Contudo, quando viu que era Tate Jordan que vinha na sua direção em cima de um malhado cor de marfim e ônix, o espanto passou. Era como se ele também fizesse parte da lenda, pertencesse àquele lugar e tivesse caído do céu dourado da manhã.

            Tate veio na sua direção, com o malhado a todo o galope, com forte determinação, para, no último instante, se desviar e estacar mesmo ao lado dela. Sam mirou-o por momentos, sem saber como é que ele reagiria, se ficaria zangado, se estragaria o momento, se a amizade que nascera na noite anterior já teria morrido. Em vez disso, o que Sam viu nos olhos verdes não foi raiva, mas algo muito mais afável. Tate não dirigiu qualquer palavra a Sam, olhou-a apenas e prosseguiu o seu caminho em cima do malhado. Era evidente que queria que ela o seguisse, e seguiu, com Black Beauty a galopar sem esforço pelos caminhos que encontrava, pelas colinas, pelos vales, até chegarem a uma zona da propriedade que nunca vira e onde existiam um lago e uma pequena cabana. Quando ultrapassaram a última colina e avistaram o local, Tate e o ofegante malhado abrandaram o passo. Ele voltou-se e sorriu para Sam, que lhe respondeu também com um sorriso; enquanto o via puxar as rédeas do cavalo e desmontar.

            — Ainda estamos no rancho? — Estamos. — Tate levantou os olhos. — O rancho acaba depois daquela clareira. Samantha fez um sinal com a cabeça.

            — De quem é? — apontou para a cabana, — pensando se haveria alguém lá dentro.

            Tate não lhe deu uma resposta direta.

            — Descobri-a há muito tempo. Venho aqui de vez em quando, apenas quando quero estar só. Está tudo fechado a chave e ninguém sabe que venho até aqui. — Era um pedido de segredo e Samantha compreendeu.

            — Tem as chaves?

            — Mais ou menos. — O rosto simpático e coriáceo abriu-se num largo sorriso. — Há uma chave no molho de Bill King que serve. Já a utilizei uma vez.

            — E fez uma cópia? — Samantha pareceu chocada, mas Tate abanou a cabeça.

            Acima de tudo, Tate Jordan era um homem honesto. Se Bill King lhe tivesse perguntado, ter-lhe-ia dito. Mas Bill nunca o fizera, e ele achara que não se importaria. Tate não queria chamar demasiadas atenções para a cabana esquecida. Significava muito para si.

            — Tenho café lá dentro, se não estiver estragado. Quer desmontar e entrar? — Tate não lhe disse que também lá tinha uma garrafa de uísque.

            Nada que o levasse a cometer excessos, mas algo para o manter quente e confortar-lhe o espírito. Vinha até ali quando estava preocupado ou aborrecido, quando precisava estar só durante um dia. Passara muitos domingos naquela cabana, e sabia para o que ela já servira. — Então, Miss Taylor? — Tate Jordan olhou-a fixamente durante um longo instante e Sam fez um sinal afirmativo com a cabeça — Adoraria. — A idéia do café quente seduziu-a, sobretudo numa manhã extremamente fria como aquela. Tate ajudou-a a desmontar e a prender o cavalo, encaminhando-a para a porta da cabana; retirou a cópia da chave do bolso, abriu a porta e desviou-se para deixá-la entrar. Como os demais cow-boys do rancho, mostrava-se sempre galante. Era um último toque do Velho Oeste. Sam levantou os olhos e sorriu-lhe ao entrar lentamente na cabana.

            Havia um certo cheiro seco a mofo, mas, ao olhar em redor, Sam esbugalhou os olhos de espanto. A enorme sala estava decorada com bonitos tecidos de algodão com flores estampadas, um pouco fora de moda, mas ainda mantendo a sua beleza e encanto. Junto da lareira, encontrava-se uma enorme cadeira de couro que Samantha percebeu tratar-se de uma antiguidade.

            Havia ainda uma pequena escrivaninha, um rádio, um toca-discos, várias prateleiras de livros, uma lareira acolhedora e uma série de objetos engraçados que devia ter pertencido ao dono da cabana: dois bonitos troféus, uma cabeça de javali, várias garrafas velhas e algumas fotografias antigas em obsoletas molduras. Diante da lareira, via-se uma pele de urso e uma velha cadeira de balanço com um banquinho para pôr os pés. Parecia um refúgio de um conto de fadas, escondido nas profundezas da floresta, o tipo de lugar para onde queremos ir quando desejamos esconder-nos do resto do mundo. Então, através de uma porta aberta, Sam vislumbrou um pequeno quarto com uma enorme cama de ferro e uma bonita colcha, paredes azuis, outra impressionante pele de urso e um pequeno candeeiro de metal com abajur. As cortinas eram azuis e brancas e cheias de folhos e, pendurada por cima da cama, via-se uma bela paisagem de outra parte do rancho. Era um quarto onde apetecia passar o resto da vida.

            — Tate, de quem é isto? — Samantha parecia algo perplexa. Ele apontou para um dos troféus que se encontrava em cima de uma pequena prateleira na parede mais próxima.

            — Dê uma olhadela.

            Sam aproximou-se e os olhos abriram-se de espanto, fixando-se primeiro no troféu, depois em Tate e de novo no troféu. Ostentava a inscrição WILLIAM B. KING 1934. O segundo também era de Bill King, mas era de 1939. Sam olhou então por sobre o ombro, desta vez com nova preocupação — Esta cabana é dele, Tate? Será que podemos estar aqui? — Não sei a resposta para a primeira pergunta, Sam. Relativamente à segunda, provavelmente não. Mas desde que descobri este lugar, nunca mais consegui afastar-me. — Falava num tom de voz grave e roufenho, enquanto os olhos procuravam os dela.

            Sam olhou em redor sem dizer palavra e fez um ligeiro gesto afirmativo com a cabeça.

            — Acho que sei porquê.

            Enquanto Tate se dirigia para a cozinha, Sam começou a observar as velhas fotografias e, embora achasse que havia algo de familiar nelas, não conseguia descobrir o que era. Então, com algum embaraço, entrou no quarto, a atenção presa na paisagem pendurada por cima da cama. Quando se aproximou do quadro, conseguiu ler perfeitamente a assinatura e parou de súbito. O artista assinara o seu nome a vermelho no canto inferior direito: C. Lord. Sam virou-se, preparando-se para fugir dali; no entanto, a porta encontrava-se bloqueada pela enorme compleição física de Tate. Trazia uma xícara de café fumegante e olhava para o rosto de Sam.

            — A cabana é deles, não é? — Sam encontrava ali a resposta para a sua dúvida, dúvida essa que fora motivo de gozo para si e para Barbara.

            Finalmente, naquele pequeno e acolhedor quarto azul, com a colcha de retalhos e a enorme cama de ferro que praticamente ocupava o espaço todo, Sam soube. — Não é, Tate? — De repente, quis que Tate lhe desse a confirmação. Este fez um sinal afirmativo com a cabeça e passou-lhe a xícara amarela.

            — Também acho. É um lugar bonito, não é? E está tudo posto à maneira deles.

            — Há mais alguém que saiba? — Era como se tivesse descoberto um segredo sagrado e se visse na obrigação de garantir a sua preservação.

            — Da relação deles? — Tate abanou a cabeça. — Mas nunca se sabe. Eles têm tido cuidado. Nunca nenhum deles revelou o segredo. Quando está com os homens, o Bill refere-se a ela como "Miss Caroline", tal como nós, e mesmo quando está com ela passa a maior parte do tempo a chamá-la assim. Trata-a com respeito, mas sem dar grandes mostras de interesse por ela, e ela faz o mesmo com ele.

            — Por quê? — Samantha parecia perplexa ao sorver o café; depois pousou a xícara e sentou-se à beira da cama. — Por que razão é que nunca deram a conhecer a sua relação e não se casaram, se era essa a sua vontade?

            — Talvez não quisessem. — Tate parecia entender a situação, Sam não. — O Bill King é um homem orgulhoso. Não quereria que se dissesse que casara com Miss Caro por causa do dinheiro, do rancho ou do gado.

            — Por isso arranjaram este esconderijo. — Sam olhou em volta, espantada.

            — Uma pequena cabana no meio do bosque, e ele continuará a entrar e a sair da casa dela nas pontas dos pés.

            — Talvez o romance se mantenha vivo assim. — Sorriu quando se sentou ao lado de Samantha na beira da cama. — Há uma coisa muito especial naquilo que vê aqui. Sabe o quê, Samantha? — Não esperou pela resposta. — Vê duas pessoas que se amam, cujas vidas combinam perfeitamente, os quadros dela, os troféus dele, as fotografias, os discos, os livros, a velha cadeira de couro, a pequena cadeira de balanço e o banquinho para os pés junto da lareira. Observe, Sam. — Olharam na direção da porta do quarto. — Sabe o que vê ali? Vê amor. É isso o amor, as panelas de bronze, a almofada de renda e a engraçada cabeça de javali. São duas pessoas que vê ali, duas pessoas que se amam há muito e que continuam a amar-se.

            — Acha que eles ainda aqui vêm? — perguntou Sam, quase num murmúrio e Tate riu-se.

            — Duvido. E, se vierem, não deve ser com muita freqüência. Eu, provavelmente, venho aqui mais vezes do que eles. A artrite tem atacado o Bill estes últimos anos. — Tate baixou o tom de voz. — Desconfio que se encontram lá em casa. — Ao ouvir aquilo, Samantha lembrou-se do barulho de abrir e fechar de portas à noite. Mesmo ao fim de todos aqueles anos, encontravam-se às escondidas, a altas horas da noite.

            — Continuo a não entender por que razão é que continuam a manter segredo.

            Tate olhou-a durante um longo instante e depois encolheu os ombros.

            — Às vezes é assim que as coisas têm de ser feitas. — Sorriu. — Não estamos em Nova Iorque, Samantha. Ainda existem muitos valores antigos enraizados. — Continuava a não fazer sentido para Sam. Nesse caso deveriam ter-se casado. Meu Deus, aquela situação durava há vinte anos. — Como é que descobriu a cabana, Tate? — Sam levantou-se, foi até à sala de estar e pouco depois se sentou na velha mas confortável cadeira de balanço de Caroline.

            — Aconteceu por acaso. Devem ter passado aqui muito tempo há anos atrás. Mantém o mesmo toque de um lar a sério.

            — É um lar a sério. — Sam olhou para a lareira vazia, com ar sonhador, pensando no elegante apartamento que deixara em Nova Iorque. Não tinha nada a ver com a cabana: faltava-lhe amor, calor, conforto, o consolo que sentia ao sentar-se na velha cadeira de balanço.

            — Apetece ficar aqui eternamente, não é? — Tate sorriu e sentou-se na cadeira de couro. — Quer que acenda a lareira?

            Sam abanou a cabeça de imediato. Ficaria preocupada.

            — Não a deixaria acesa, sua tonta.

            — Eu sei. — Trocaram outro sorriso. — Mas ficaria preocupada na mesma. Uma fagulha, uma coisa desse gênero pode... este é um lugar demasiado especial para correr algum risco. Não quero tocar em nada do que eles têm aqui. — Então, olhando-o com um ar mais sério: — Nem sequer acho que devamos estar aqui.

            — Porque não? — O fino queixo franziu-se um pouco.

            — Isto aqui não nos pertence. É deles, é privado e secreto.

            — Mas nós sabíamos, não sabíamos? — perguntou Tate calmamente e Sam fez um lento gesto afirmativo com a cabeça.

            — Sempre suspeitei. A Barb, a sobrinha da tia Caro, e eu costumávamos conjecturar acerca do assunto durante horas. Nunca tivemos a certeza.

            — E quando cresceram?

            Sam sorriu-lhe como resposta.

            — Eu sentia que havia alguma coisa. Mas ficava sempre na dúvida.

            — Também eu. Achava que tinha a certeza. Mas não tinha. Até vir aqui. A cabana fala por si. — Olhou novamente à sua volta. — E que bonita história ela conta!

            — Sim. — Sam fez um gesto de concordância e começou a balançar-se lentamente na velha cadeira. — Seria maravilhoso amar alguém assim, não acha? Construir algo em conjunto e manterem-se juntos durante vinte anos.

            — Quanto tempo durou o seu casamento, Sam? — Era a primeira pergunta pessoal que Tate lhe fazia; e Sam olhou-o de frente e respondeu-lhe de imediato, aparentemente sem qualquer ponta de emoção. Mas não conseguiu evitar interrogar-se sobre o fato de ele saber que ela já fora casada.

            — Sete anos. E o seu? — Cinco. O meu garoto era pequeno quando a mãe zarpou.

            — Imagino a felicidade que sentiu quando ficou com a custódia dele. — De repente, Sam corou, lembrando-se da história e pensando nas palavras insensíveis que acabara de proferir inadvertidamente. — Desculpe, não queria...

            — Psiu! — Fez um ligeiro aceno com a mão. — Sei o que queria dizer. Fiquei extremamente feliz. Mas lamentei imenso a morte da mãe.

            — Continuou a amá-la mesmo depois de ela deixá-lo? — Era uma pergunta ousada, mas não importava. Era como se ali, no templo de Bill e Caro, pudessem dizer e perguntar o que quisessem desde que achassem que tinha interesse e não ofendesse.

            Tate Jordan fez um lento gesto afirmativo com a cabeça. — Sim. De alguma forma, ainda a amo, e já morreu há perto de quinze anos. É engraçado. Nem sempre ficamos com a última imagem das coisas. E você, Sam, acontece-lhe a mesma coisa? A imagem que tem do seu marido é a primeira, de quando o amava, ou a última, a do sacana que ele foi?

            Sam riu perante a franqueza de Tate e abanou a cabeça; enquanto balançava.

            — Isso é verdade. Continuo a não entender a razão por que as primeiras imagens dele que me vêm à cabeça são as de quando fomos para a faculdade, do noivado, da lua-de-mel, do primeiro Natal. Porque não o recordo com as meias a sair da mala quando abalou porta fora? — A imagem que Sam descrevera os fez sorrir. Tate abanou a cabeça, depois se virou para ela, o olhar cheio de questões.

            — Ele lhe fez isso? Abandonou-a, Sam?

            — Exatamente — respondeu Sam sem rodeios.

            — Por outra mulher?

            Sam assentiu com a cabeça, mas desta vez o seu semblante não era de dor. Apenas admitia um simples fato.

            — A minha cara-metade fez o mesmo. — Agora se assemelhava aos outros cow-boys. Talvez a cabana o descontraísse. Já não precisava impressioná-la e não havia ninguém por perto. — Fiquei destroçado. Tinha vinte e cinco anos e julguei que morria.

            — Eu também. — Sam observou-o com ar interessado. — Eu também — repetiu — e julgo que todos no escritório pensaram o mesmo. É por isso que estou aqui. Para desanuviar.

            — Há quanto tempo está assim?

            — Desde agosto.

            — Já é tempo suficiente.

            Sam empertigou-se.

            — Acha? Tempo suficiente para estar me lixando para ele? Bom, quê? Para esquecê-lo? camarada, está enganado a esse respeito.

            — Pensa nele a toda a hora?

            — Não — respondeu Sam com franqueza. Mas demasiadas vezes.

            — Já se divorciaram?

            Sam fez um gesto afirmativo com a cabeça.

            — Sim, e ele já se casou outra vez e vão ter um bebê em março. — Podia contar-lhe tudo. Talvez lhe fizesse bem desabafar, contar-lhe todos os fatos dolorosos. Seria maravilhoso ultrapassar tudo aquilo. Tate observava-a atentamente.

            — Isso deve magoar imenso.

            — O quê? — Por instantes, não entendeu o que Tate queria dizer.

            — Isso do bebê. Queria ter filhos?

            Sam hesitou por momentos; em seguida fez um sinal afirmativo e ergueu-se subitamente, da cadeira.

            — De fato, queria, Mister Jordan. Mas sou estéril. O meu marido conseguiu aquilo que queria... com outra... — Enquanto se encontrava na janela, olhando para o lago, Sam não o ouviu aproximar-se. Então, de repente, Tate surgiu por trás dela e pôs-lhe os braços à volta da cintura.

            — Isso não interessa, Sam... Não és estéril. Estéril é uma pessoa que não consegue amar, que não consegue oferecer nada, que se fecha sobre si mesma, uma inútil. Não é o teu caso. — Virou-a lentamente para si. Havia lágrimas nos olhos de Sam. Não queria que ele as visse, mas não conseguiu resistir à força magnética das suas mãos quando a enlaçou pela cintura.

            Tate beijou-lhe ternamente os olhos; depois, colou a boca à dela com tal fervor e durante tanto tempo que Sam ficou quase sem fôlego.

            — Tate... não... não... — Sam tentava escapar, mas com pouca convicção, e Tate puxou-a ainda mais para si.

            — Porque não? — Pegou-lhe no queixo e a fez erguer os olhos. — Sam? — Ela nada respondeu e ele beijou-a novamente. Tate lhe falava com ternura ao ouvido, e Sam sentia o coração dele a bater contra o peito. — Sam, te desejo mais do que alguma vez desejei outra mulher.

            — Isso não é suficiente — ela proferiu em voz branda, encarando-o.

            Tate fez um lento gesto de concordância com a cabeça. — Compreendo. — Após um longo instante, acrescentou: — Também já pouco mais posso oferecer.

            Agora era a vez dela. Sam esboçou um terno sorriso e fez a mesma pergunta.

            — Porque não?

            — Porque... — Tate hesitou e depois, num sussurro, prosseguiu: — Porque me sinto estéril. Já não tenho nada para dar.

            — Como é que sabes? Tens... tens tentado ultimamente?

            — Há já dezoito anos que não tento. — Foi a resposta, pronta e franca.

            — E achas que é demasiado tarde para amar alguém outra vez? — Tate não respondeu e Sam olhou em redor, passando em revista os troféus e depois fixando-o de novo. — Achas que ele a ama?

            Tate assentiu com a cabeça.

            — Também acho. Ele não é mais do que tu, e é um homem grande! — Depois, olhando para Tate: — Tu também és.

            — Isso quer dizer... — Falava num tom terno, os lábios a tocar nos dela; Sam, com o coração a palpitar, interrogava-se por que razão é que beijava aquele estranho, aquele cow-boy; tentando arranjar razões para ele se apaixonar. Tinha vontade de perguntar a si própria o que diabo estava fazendo, mas não havia tempo. — Isso quer dizer que, se dissesse que te amava, íamos fazer amor neste preciso momento? — Tate parecia divertido, e Sam com um pequeno sorriso negou com a cabeça.

            — Também acho que não. Então, estás a tentar me convencer de quê e por que razão?

            — Estou a tentar convencer-te de que nunca é tarde para nos apaixonarmos. Olha para eles, quando iniciaram a relação, eram mais velhos do que nós. Tinham de ser.

            — Sim... — Tate não parecia convencido. Voltou-se, então, para ela com um ar pensativo. — Que diferença é que te pode fazer o fato de eu me apaixonar outra vez?

            — Gostaria de saber que é possível.

            — Por quê? Estás a fazer alguma pesquisa científica?

            — Não — murmurou Sam. — Simples curiosidade pessoal.

            — Então é isso. — Passou ternamente a mão pelos cabelos louros e retirou os ganchos que os prendiam firmemente à nuca. De repente, soltaram-se. — Meu Deus, os teus cabelos são maravilhosos, Sam... Palomino... — A voz era meiga. — Meu pequeno palomino... és um encanto... — O sol espreitava à janela e dançava por entre os cabelos louros de Sam.

            — Acho que devíamos ir embora — afirmou Sam num tom terno mas firme.

            — Achas que sim?

            — Acho que sim.

            — Porquê? — Tate beijava-lhe o queixo, as faces e o pescoço. Sam não se opunha, mas não tencionava deixá-lo avançar mais. — Por que razão é que devíamos ir embora, Sam? Oh, meu Deus, és encantadora...

            Sam sentiu um tremor percorrê-lo e afastou-se lentamente com um pequeno abanar de cabeça.

            — Não, Tate.

            — Porque não? — Os olhos de Tate incendiaram-se por instantes e Sam sentiu algum medo.

            — Porque não está certo.

            — Por amor de Deus, sou um homem, tu és uma mulher... não somos nenhumas crianças. O que é que queres? — Ergueu a voz num misto de lascívia e irritação. — O romance perfeito, um anel de noivado no dedo antes de ires para a cama?

            — O que é que queres, cow-boy? Dar... dar uma rapidinha?!

            As palavras atingiram Tate como uma bala, deixando-o aturdido.

            — Desculpa — pediu Tate, num tom frio; depois se encaminhou para a pia e começou a lavar as xícaras. Quando terminou, Sam estava ainda no mesmo sítio, de olhos fixos nele.

            — Não precisas pedir desculpa. Gosto de ti. — Avançou para ele e pôs-lhe a mão no braço. — Gosto bastante de ti. Mas não quero sofrer outra vez.

            — Ninguém pode dar-te esse tipo de garantias, Sam. Eu também não. — Havia alguma verdade naquelas palavras e ela sabia, mas queria algo mais do que promessas, algo mais autêntico.

            — Sabes o que quero? — Sam olhou em redor. — Quero isto. Quero este tipo de harmonia e ternura depois de mais de vinte anos.

            — Pensas que ao princípio eles sabiam o que a relação viria a dar? Claro que não. Ela era a dona do rancho, ele, um simples ajudante. Nada mais sabiam.

            — Achas? — Os olhos de Samantha chisparam. — Aposto que sabiam mais alguma coisa...

            — O quê?

            — Aposto que sabiam que estavam apaixonados. Só quando isso me acontecer, um homem que me ame e que eu ame, é que vou me entregar de novo.

            Tate abriu a porta e depois a fechou atrás de si. — Vamos!

            Ao passar por Tate, Sam reparou que ele não estava zangado. Compreendera tudo o que ela lhe dissera. Sam não sabia o que os dois iriam fazer agora. Por instantes, tivera vontade de abandonar todo o constrangimento e toda a prudência, mas resolvera não fazê-lo. E não fora por não sentir desejo... Aquele homem a atraía irresistivelmente!

            — Podemos voltar aqui? — Sam fitou-o quando ele pôs as mãos em concha e a ajudou a subir para o enorme puro-sangue.

            — Queres mesmo?

            Sam fez um lento gesto afirmativo com a cabeça e Tate sorriu-lhe sem dizer palavra. Ela levantou a perna e voou para a sela. Pouco depois, tinha as rédeas nas mãos, os joelhos nos flancos do cavalo e galopava ao lado de Tate Jordan contra o vento.

 

            — O passeio foi bom, querida? — Caroline olhou para Samantha com ar benevolente quando esta entrou, em passada larga, na sala de estar, os cabelos soltos, o rosto afogueado, os olhos brilhantes. Parecia uma visão de juventude, saúde e beleza, e Caroline não conseguiu evitar uma ponta de inveja ao ver as longas e jovens pernas enroscarem-se numa cadeira confortável.

            — Muito obrigada, tia Caro. — Estava morta por contar-lhe que vira a cabana, mas sabia que não podia fazê-lo. No entanto, a excitação perdurava. Por causa de tudo o que acontecera e por causa do beijo que ela e Tate haviam partilhado na baia de Black Beauty. Fora um beijo ardente e que lhe tocara a alma. Era um homem diferente de qualquer outro, mais forte, mais independente e mais sedutor do que qualquer um que conhecera ou que viesse a conhecer.

            — Viste alguém esta manhã? — Era uma pergunta fortuita, nascida de trinta anos de uma vida quase comunal num grande rancho. Não passava uma hora em que não se encontrasse uma pessoa, falasse sobre algo ou ouvisse alguma coisa sobre alguém.

            Sam esteve quase a dizer "ninguém"; depois, resolveu dizer a verdade a Caroline.

            — Vi o Tate Jordan.

            — Oh! — Fora uma exclamação sem grande ênfase ou interesse. — Como está o Papai Noel depois de ontem à noite? Os garotos deliram com ele todos os anos.

            Sam esteve tentada a dizer "eu também", mas não teve coragem.

            — E com razão. É um homem muito simpático.

            — Quer dizer que mudaste de opinião? Já não o detestas?

            — Nunca o detestei. — Sam procurava aparentar um ar de indiferença enquanto enchia uma xícara de café. — Só possuíamos opiniões contrárias relativamente às minhas capacidades para montar o teu cavalo.

            — E ele mudou de idéias?

            Samantha fez um sinal afirmativo com a cabeça e esboçou um largo sorriso de satisfação.

            — Não admira que gostes dele. Quando as pessoas gostam de nós, nós também gostamos delas. É um bom homem! Independente do que disse da maneira de montares o Black Beauty. Conhece todos os recantos do rancho tão bem como o Bill ou eu.

            "Todos os recantos... até a cabana", pensou Samantha, teve de beber um gole de café para não sorrir.

            — O que vais fazer hoje, tia Caro?

            — Os livros, como de costume.

            — No Natal?

            Caroline anuiu com a cabeça. — No Natal.

            — Porque é que não fazemos uma ceia de Natal em vez disso?

            — Se bem me lembro — proferiu, Caroline, olhando divertida para Sam -, já fizemos isso ontem à noite.

            — Foi diferente. Foi com todos. Porque não fazemos hoje o jantar para o Bill e o Tate?

            Caroline lançou-lhe um olhar duro por instantes e depois abanou a cabeça.

            — Não creio que isso possa acontecer.

            — Porque não?

            Caroline soltou um suspiro.

            — Porque eles são ajudantes do rancho e nós não. Existe uma hierarquia bem definida num local como este — Nunca jantas com o Bill? — Sam pareceu chocada. — Muito raramente. Só em ocasiões sociais, quando alguém se casa ou morre. Só em noites como a de ontem, no Natal, é que as barreiras caem. O resto do tempo, cada um no seu lugar e eles... eles têm o cuidado de manter essas barreiras de pé, Sam.

            — Mas por quê?

            — Por respeito. As coisas são assim. — Caroline parecia conformada, mas a situação continuava a incomodar Sam.

            Samantha pareceu chocada. — Isso é uma estupidez. Que diferença faz a hierarquia, por amor de Deus! Quem é que se importa com isso?

            — Eles. — A voz de Caroline era como uma torrente de água fria. — Eles importam-se e muito, com a imagem, a posição, com quem somos e o respeito que acham que nos devem. Como dona de um rancho, eles põem-nos num pedestal e nunca mais nos deixam descer de lá. Por vezes, é cansativo, mas as coisas são mesmo assim. Temos de aceitá-las. Se convidássemos o Bill e o Tate, ficariam pura e simplesmente chocados.

            Sam tinha dificuldade em acreditar ao lembrar-se das súplicas de Tate para ela fazer amor com ele na cabana. Ainda não lhe ocorrera que aquilo era diferente; era uma coisa privada. Não era o mesmo que jantarem na casa dos patrões. -Bem, continua a não fazer nenhum sentido para mim.

            Caroline esboçou um terno sorriso.

            — Para mim também nunca fez, mas agora aceito, Sam. É mais simples. Eles são assim.

            Então, qual a razão para a cabana existir? Por ele ser um ajudante e ela algo muito diferente, a dona do rancho? Poderia o segredo dever-se a algo tão simples como aquilo? Sam ficou subitamente ansiosa por lho perguntar, mas conteve-se.

            — Há peru frio o dia todo no salão, Samantha. Podes ir até lá e conversar com quem estiver lá. Tenho de trabalhar com o Bill durante umas horas no escritório. Desculpa não te dar a devida atenção no Natal, Sam, mas temos de ter isto pronto.

            O objetivo de Caroline e Bill ao longo dos anos fora sempre o rancho. Sam se perguntava agora se alguma vez teriam sentido a falta da cabana. Com certeza que sim. Era um local ótimo para alguém se esconder. Estava também curiosa por saber quando fora a última vez que lá haviam estado, com que freqüência é que lá iam ao princípio, se tinham feito amor...

            Gostaria também de saber quando é que lá voltaria com Tate.

            — Tudo bem, tia Caro. Tenho de escrever umas cartas. Se tiver fome, como qualquer coisa no salão. — De repente, Sam sentiu vontade de ver Tate.

            Era como se ele tivesse penetrado na sua pele naquela manhã e agora não conseguisse expulsá-lo. Só pensava nele, nas mãos, nos lábios e olhos...

            Meia hora depois, quando entrou no salão para almoçar, Sam não viu quaisquer sinais de Tate. Josh disse-lhe, horas mais tarde, ao encontrá-la perto do estábulo, que Tate fora ao Bar Three Ranch, a quarenta quilômetros dali, visitar o filho.

 

            Na escuridão prateada da manhã, Tate Jordan deu o sinal, e as duas dúzias de ajudantes que seguiam as suas ordens picaram os cavalos e dirigiram-se para o portão principal. Naquele dia, iriam agrupar touros jovens para castração, e apenas Tate e um pequeno grupo, de que Samantha faria parte, cavalgariam até junto de um desfiladeiro a fim de verificar se a ponte se desmoronara. Quando lá chegaram, uma hora depois, concluíram que tudo estava em ordem, mas no regresso viram que duas árvores haviam sido atingidas por faíscas, caindo sobre o telhado de um barracão e provocando estragos num trator e nalguns pequenos utensílios. Durante duas horas, os homens retiraram ramos do edifício, verificaram os utensílios, tentaram pôr o trator a trabalhar e, por fim, ligaram uma enorme serra para conseguirem remover as árvores tombadas. Era uma tarefa dura para todos, especialmente para Sam; quando, finalmente, pararam para almoçar, os longos cabelos louros de Samantha estavam encharcadas de suor e a grossa camisa de flanela estava colada ao peito.

            — Café, Sam? — Tate serviu-a do mesmo modo que servira os outros, e só por uma fração de segundo Sam viu algo de especial a bailar-lhe nos olhos. Pouco depois, quando Tate lhe deu mais instruções sobre o que devia fazer com os utensílios partidos, ficou convencida de que ele não lhe dispensara qualquer atenção especial. Era evidente que a sua relação era, mais uma vez, estritamente de trabalho. Ao fim do dia, teve a certeza disso. Tate tratava-a bem agora, tal como fazia em relação aos outros, gracejando com ela uma ou duas vezes e incitando-a a ir descansar quando a viu exausta. Porém, não lhe dirigiu quaisquer palavras especiais, nem a encorajou de modo particular, enquanto ela suava e trabalhava. No final do dia, quando deixou Navajo na baia, Tate não lhe disse nada ao sair da cavalariça e ao dirigir-se para o seu alojamento, a pouca distância do salão.

            — Hoje o trabalho foi duro, hem, Sam? — perguntou-lhe Josh por sobre o ombro, enquanto tirava a sela, e Sam fez um gesto afirmativo com a cabeça, olhando de soslaio, por instantes, para as costas de Tate. De repente, pensou se os momentos na cabana escondida não haviam sido uma aberração, um fugaz instante de perda de controle. Estava contente por não ter sucumbido à forte atração que sentira. Nesta altura, talvez Tate estivesse rindo dela, imaginou, tentando lembrar-se do que Josh lhe dissera. — Estás estourada.

            — Estamos todos! Aqui se trabalha sempre no duro. — Sam não parecia infeliz quando proferiu estas palavras, sentia-se contente, como acontecera de manhã, por ter sido poupada à sessão de castração dos jovens touros. Do que vira anos antes, era uma experiência sangrenta e desagradável, e preferia passar o dia com Tate e os outros, às voltas com os ramos das árvores tombadas e os utensílios agrícolas no barracão destruído. — Até amanhã! — Acenou-lhe com um sorriso cansado e dirigiu-se para o edifício principal, ansiosa por um banho, pelo jantar e por uma cama quente. A vida no rancho parecia cada vez mais simples. Dormia, levantava-se, comia e trabalhava até mais não poder. Era aquilo que pretendia. Mal tinha tempo para pensar. No entanto, ultimamente, via-se inundada de pensamentos: visões do rosto de Tate de quando haviam estado na cabana, lado a lado, falando de Bill e de Caro... e deles próprios.

            Quando entrou na acolhedora casa do rancho, chamou Caroline, mas só encontrou silêncio. Alguns minutos mais tarde, na cozinha, encontrou um bilhete que explicava que Caroline fizera cento e cinqüenta quilômetros com Bill King. Havia alguns problemas de contabilidade que não podiam ser explicados ao telefone; por isso, tinham ido ter com o contabilista.

            Talvez voltassem nessa noite, já tarde, ou só de manhã, mas, em qualquer dos casos, como era óbvio, Sam não devia esperar por eles. Havia frango assado com batatas no forno e salada no frigorífico. Apesar do árduo dia de trabalho, Sam descobriu que não tinha tanta fome como pensara. A perspectiva de comer sozinha não era muito agradável. Assim, entrou vagarosamente na sala de estar, pensando em fazer um sanduíche mais tarde; porém, quase sem dar por isso, inclinou-se para frente, apertou um botão e ligou o televisor. Então, sentiu como que um choque elétrico a trespassá-la ao ouvir a voz de John a ressoar na acolhedora sala de estar. Pouco depois, viu a proeminente barriga e o rosto sorridente de Liz. Lembrou-se novamente do que acontecera e, ao observá-los, os olhos de Sam espelhavam a mesma tristeza que trouxera de Nova Iorque. Fitava-os e escutava-os na tagarelice habitual, quando se apercebeu, de súbito, de que alguém batia à porta há já uns minutos. Pareceram-lhe horas o tempo que estivera hipnotizada pelas duas pessoas sorridentes do noticiário da noite, incapaz de se afastar. Com um rápido piparote no botão, as imagens desapareceram da tela e, de sobrolho franzido, Sam dirigiu-se à porta e abriu-a.

            A precaução nova-iorquina do "quem é?" desaparecera. Ali, só poderiam ser ajudantes ou amigos, pois não havia inimigos. Ao abrir a porta, deu consigo a olhar para uma camisa de xadrez azul-marinho e um familiar casaco de brim; levantou os olhos e encontrou o rosto de Tate Jordan.

            — Olá, Tate. — Parecia cansada e algo perturbada, o espírito ainda cheio das imagens do ex-marido e da nova mulher.

            — Há algum problema? — Tate ficou preocupado quando a viu, mas Sam abanou a cabeça. — Parece que recebeste uma má notícia.

            — Não. — O olhar de Sam era vago. Mesmo que não se sentisse bem, já não poderia chamar-lhe "notícia". — Nem por isso. Só estou cansada. — Sorriu para Tate, mas não era o sorriso espontâneo e calmo, a que ele estava cada vez mais habituado.

            Tate sentiu-se curioso por saber o que lhe provocara aquele ar infeliz. Talvez um telefonema de casa, ou uma carta grosseira do ex-marido. Conhecia aquele tipo de olhar das brigas com a ex-mulher anos antes.

            — Esfalfaste-te a trabalhar hoje, pequeno palomino. — O sorriso de Tate era como uma recompensa no final de um dia árduo e, desta vez, quando Sam esboçou um largo sorriso, este era autêntico.

            — Ainda bem que notaste. — Sam sabia agora que Tate Jordan reparava em tudo. Isso era, em parte, uma das razões por que aquele homem era tão importante num rancho. Conhecia todos os trabalhadores, a qualidade do seu labor, a lealdade, a devoção, o que davam ao Rancho Lord, e o que dele retiravam. Então, de olhos fixos e afastando-se para o lado perguntou: — Queres entrar?

            — Não queria incomodar-te, Sam. — Ao entrar, Tate pareceu, momentaneamente, embaraçado. — Ouvi dizer que o Bill e a Caroline foram ter com o contabilista. Decidi ver se estavas bem. Queres vir jantar no salão?

            Sam ficou sensibilizada pela atenção de Tate e pareceu-lhe ver algo mais no seu sorriso. Mas era difícil saber com Tate Jordan. Havia alturas em que não se conseguia vislumbrar nada naqueles olhos verdes e ainda menos no rosto marcado.

            — Já comeste? — Tate sentia o cheiro do frango ainda no forno, e Sam abanou a cabeça.

            — Não, a Caroline deixou-me um frango, mas eu não estava... não tive tempo para... — De repente, ficou corada, lembrando-se do noticiário que estivera a ver, em vez de comer. Então, ao olhar para Tate, fez um sinal com a cabeça na direção da cozinha e afastou a espessa cabeleira loura dos ombros.

            — Queres jantar comigo aqui, Tate? Há ali muito para comer. — Poderiam dividir as batatas, havia um frango inteiro e a salada era suficiente para alimentar metade dos homens do rancho. Caroline cozinhava sempre como se estivesse à espera de um exército. Isso se devia ao fato de se encontrar há anos rodeada de ajudantes e amigos.

            — Não é muito trabalho para ti? — Tate hesitou, a enorme estatura parecendo, de repente, demasiado grande para os tetos baixos, mas Samantha apressou-se a abanar a cabeça.

            — Não sejas tonto. A Caroline deixou comida suficiente para dez.

            Tate riu-se e seguiu-a até à cozinha. Enquanto falavam do rancho e do dia de trabalho, Sam pôs a mesa. Minutos depois, devoravam o frango e a salada como se jantassem juntos todos os dias.

            — Como é Nova Iorque? — Olhava para Sam, com um largo sorriso nos lábios, depois de terminada a refeição.

            — Oh... Louca! Acho que é a melhor palavra para defini-la. A abarrotar de gente, barulhenta, muito suja, mas também bastante animada. Todas as pessoas em Nova Iorque parecem estar sempre ocupadas: indo ao teatro, se estabelecendo, ensaiando para um ballet, falindo, enriquecendo, ficando famoso. Não é sítio para simples mortais.

            — E tu? — Tate olhou fixamente para Sam quando ela se levantou para servir o café.

            — Pensava que a adorava. — Encolheu os ombros, enquanto pousava as xícaras de café fumegante e se sentava. — Agora, por vezes, já não tenho tanta certeza. Tudo me parece distante e de pouca importância. É engraçado, há três semanas não conseguia deixar o escritório para ir cortar o cabelo sem telefonar três vezes numa hora, só para me certificar de que estava tudo a correr bem. Agora já estou fora há quase três semanas e quem nota a diferença? Nem eles. Nem eu. É como se nunca tivesse vivido lá. — No entanto, sabia que se regressasse nessa noite, na manhã seguinte teria a sensação de nunca ter partido, e voltaria a sentir uma vez mais a incapacidade de fazê-lo. — Acho que o problema é que Nova Iorque é viciante. Quando deixamos o vício, não há problema, mas enquanto estamos viciados... — Esboçou um terno sorriso. — É preciso ter cuidado!

            — Conheci mulheres assim! — Tate bebericava o café na delicada xícara branca, enquanto os olhos dançavam maliciosamente de um lado para o outro.

            — É mesmo, Mister Jordan? Importa-se de me contar isso?

            — Não. — Tate sorriu de novo. — E tu? Deixaste alguém à tua espera em Nova Iorque, ou também fugiste disso tudo?

            — Não fugi, Tate. Vim-me embora. De férias. — Houve nova hesitação. — Licença sabática, acho que é assim que lhe chamam no escritório. E não, não deixei lá ninguém à espera. Pensei que tinhas entendido tudo no outro dia.

            — Não faz mal perguntar.

            — Nunca mais andei com ninguém desde que o meu marido me deixou.

            — Desde agosto?

            Sam mostrou-se surpreendida por ele ter se lembrado, mas fez um gesto afirmativo com a cabeça.

            Sam exibiu, por instantes, um ar sério; depois, abanou a cabeça.

            — Não achas que já é altura?

            Sam não queria dizer-lhe que estava a começar a pensar o mesmo.

            — Talvez. Tudo tem o seu tempo.

            — Terá? — Falava num tom terno, enquanto se inclinava para ela e a beijava, tal como fizera anteriormente. Sam sentiu, mais uma vez, o coração a bater com força contra a mesa quando o seu corpo se moveu na direção dele. Com uma mão, Tate acariciou-lhe o rosto enquanto com a outra lhe alisou os cabelos sedosos. — Meu Deus, és linda, Sam. Deixas-me sem fôlego, sabes? — Beijou-a novamente, depois empurrou os pratos para o outro extremo da mesa e puxou-a para si, até que, de repente, estavam ambos sem fôlego, enquanto se beijavam na quietude da casa. Foi então que Sam afastou ligeiramente o rosto, com um pequeno sorriso de embaraço nos lábios.

            — A tia Caro ficaria chocada.

            — Achas? — Não parecia convencido. — Duvido. — No mesmo instante, ambos imaginaram Caroline e Bill em viagem. Provavelmente passariam a noite juntos, algures na estrada. Isso fez com que Sam se lembrasse novamente da cabana secreta, e Tate sorriu ao ter a mesma idéia. — Se não estivesse tão escuro, podíamos ir até lá. Gostei de ter estado lá contigo.

            — Na cabana? — Apreendera de imediato o pensamento de Tate, o qual nesse momento anuía em sinal de concordância.

            — No outro dia... — Tate pôs-se de pé, a voz como uma carícia. — No outro dia, senti que ela fora feita para nós. — Sam sorriu e Tate, devagar, ajudou-a a pôr-se de pé, diante de si, parecendo menor em contraste com o tamanho dele. Sam sentiu subitamente os seios pressionados contra o peito do homem, a boca procurando sequiosamente a dele enquanto as costas e os cabelos eram acariciados. Tate afastou-a então, a voz não passando de um sussurro. — Sei que pode parecer loucura, Sam, mas te amo. Soube-o a primeira vez que te vi. Tive vontade de te tocar, abraçar, passar as mãos por esses cabelos de palomino. — Tate esboçou um terno sorriso, mas Samantha parecia pensativa. — Acreditas em mim, Sam?

            Os grandes olhos azuis de Sam encontraram os de Tate, de um verde profundo; parecia perturbada.

            — Não sei no que acredito, Tate. Estava a pensar no que te disse no outro dia, que fazer amor com alguém não seria suficiente. É por isso que disseste tudo isto?

            — Não — sussurrou Tate enquanto a beijava no pescoço. — Disse-o porque é o que sinto. Tenho pensado muito em ti desde o outro dia. O que queres não é diferente daquilo que sinto, Sam. — A voz ficou mais forte ao pegar-lhe nas mãos. — Queres que dê voz aos meus sentimentos. Não estou habituado a isso. É mais fácil dizer "quero fazer amor contigo" do que "te amo". Mas nunca conheci uma mulher por quem sentisse tanto desejo como por ti.

            — Por quê? — O murmúrio saiu-lhe com toda a dor que John lhe deixara estampada no rosto. — Porque é que me desejas?

            — Porque és muito atraente... muito bonita... — As suas mãos deslizaram suavemente pelos seios dela. — Porque gosto da maneira como ris, como falas... como montas o diabo do cavalo da Caro... como te esfalfas a trabalhar com os homens, mesmo não sendo obrigada... — Esboçou um largo sorriso e envolveu-a com os braços. — E porque gosto do modo como o teu traseiro assenta nas pernas. — Sam riu-se e afastou-lhe as mãos delicadamente. — Não é razão suficiente?

            — Razão suficiente para quê, Mister Jordan? — perguntou em tom de gracejo enquanto se libertava dos seus braços e começava a levantar a mesa.

            Porém, antes de poder levar os pratos para a pia, Tate os retirou da mão dela, pousou-os, pegou-a no colo e saiu da cozinha, atravessando a sala de estar até chegar ao comprido corredor que levava ao quarto dela.

            — É por aqui, Samantha? — A voz de Tate era meiga e os olhos flamejavam, fixos nos dela. Sam teve vontade de lhe dizer para parar e voltar para trás, mas descobriu que não conseguia. Limitou-se a dizer que sim com a cabeça e a apontar vagamente para o fundo do corredor. Então, de repente, desatou a rir e afastou-se dele.

            — Vá lá... pára, Tate. Põe-me no chão! — O riso dele juntou-se ao dela mas não lhe obedeceu. Em vez disso, parou junto a uma porta entreaberta ao fundo do corredor.

            — É o teu?

            — É. — Sam cruzou os braços, enquanto Tate lhe pegava como se ela fosse uma criança pequena. — Mas eu não convidei para entrar, pois não?

            — Não? — Franziu o sobrolho, atravessou a ombreira da porta e olhou à sua volta com um ar interessado. Então, sem mais palavras, sentou-a na cama, tomou-a nos braços e beijou-a fervorosamente na boca. Os jogos entre ambos haviam terminado abruptamente, e a paixão que ele desencadeava nela apanhara-a completamente de surpresa. Sentia-se atordoada com a força com que ele a segurava, o ardor com que a boca, as mãos e todo o corpo procuravam o dela. Num ápice, Tate estava deitado ao seu lado e as roupas tinham desaparecido de ambos os corpos. Sam apenas se apercebia da pele macia dele contra a sua, a suavidade das mãos, sempre à procura, sempre frementes, as longas pernas enroscadas nas dela, a boca a beber da sua boca. Tate apertou-a mais contra si; Sam, incapaz de se conter, agarrou-se a ele, gemendo, ansiando pertencer-lhe. Foi então que ele se afastou, olhou para os olhos dela, fazendo-lhe uma pergunta sem sequer falar. Tate Jordan nunca forçara uma mulher a fazer amor e jamais forçaria aquela.

            Não seria agora que o faria; tinha de estar certo de que era desejado e que os seus anseios correspondiam aos dela. Quando a olhou nos olhos, Sam fez um ligeiro gesto afirmativo com a cabeça. Então, segundos mais tarde, tomou-a, penetrando-a vigorosamente, carne contra carne. Sam arquejou de prazer quando ele a atingiu ainda mais fundo, e, com outro gemido, deixou-se ir até ao êxtase repetidas vezes.

            Horas mais tarde ainda ele estava deitado ao lado dela, o quarto escuro, a casa mergulhada em silêncio. Sam apercebia-se do corpo vigoroso e atlético de Tate estendido a seu lado, satisfeita, saciada, e foi com prazer que sentiu os lábios dele tocarem-lhe suavemente no pescoço.

            — Te amo, Palomino. Te amo. — As palavras pareciam sentidas, mas Sam ansiava por uma confirmação.

            — Amas mesmo? — A sério? Seria possível que alguém a amasse de novo? Amar de verdade, sem magoá-la, sem abandoná-la? Algumas lágrimas deslizaram para a almofada, e Tate olhou-a com um ar triste e confirmou com um gesto mudo. Puxou-a para si e embalou-a com carinho, cantando-lhe baixinho palavras sem nexo, como se faria a um animal ferido ou a uma criancinha indefesa.

            — Está tudo bem, querida. Agora está tudo bem. Estou aqui contigo...

            — Desculpa... — palavras foram abafadas, de repente, pelos soluços, e a dor que estava enclausurada dentro dela libertou-se como um bando de aves selvagens. Ficaram assim, abraçados, durante quase uma hora, e quando as lágrimas secaram, Sam sentiu uma agitação familiar a seu lado e esboçou um tênue sorriso, esticou o braço para tocar em Tate e depois o pousou novamente no mesmo sítio.

            — Estás bem? — A voz roufenha de Tate ecoou na escuridão e Sam fez um sinal afirmativo com a cabeça. — Responde-me.

            — Estou bem. — Com os olhos presos nos dela, ansiava saber mais.

            — Tens a certeza?

            — Sim, tenho a certeza. — Sam mostrou-lhe a gratidão que sentia com o corpo, pois não conhecia palavras para fazê-lo: arqueou-se e deu-lhe tanto prazer como ele lhe dera. Era uma comunhão absoluta de dois seres entrelaçados, uma sensação tão forte como ela nunca experimentara; quando adormeceu ao lado de Tate Jordan, Samantha exibia um pequeno sorriso de felicidade.

            Na manhã seguinte, quando o despertador na mesa-de-cabeceira tocou, Sam acordou com um sorriso nos lábios, à espera de ver Tate, mas o que viu foi um bilhete debaixo do pequeno relógio. Deixara-o ali ao sair de mansinho da cama às duas da manhã. Ligara o despertador e escrevera num pedacinho de papel unicamente estas palavras: TE AMO, PALOMINO. Ao lê-lo, Sam recostou-se novamente na almofada, fechou os olhos e sorriu. Desta vez não havia quaisquer lágrimas.

 

            No final do dia de trabalho, Samantha estava com um ar tão fresco e cheio devida como no início, e Josh comentou o fato em tom zombeteiro, enquanto pendurava a sela com um largo sorriso nos lábios.

            — Meu Deus, mulher! Olha para ti, Sam, rija que nem um pêro. Há três semanas mal conseguias andar depois de um dia a cavalo, estavas mesmo em baixo de forma. Agora voas com o diabo desse cavalo, e tens um ar tão resplandecente às seis da noite como de manhã quando te levantas. Que inveja! Devias ser tu a levar-me para a minha cabana. Tenho o traseiro todo dorido e nem sinto os braços depois de laçar os malditos dos vitelos.

            — Talvez precises mexer o traseiro e trabalhar um pouco mais.

            — O diabos! Hoje trabalhei mais do que tu.

            — Ah, sim? — resmungou Josh na brincadeira e bateu-lhe ao de leve nas costas com o chapéu quando ela passou por ele.

            — Sim! — Sam passou a correr com um largo sorriso estampado no rosto e um comprido rabo-de-cavalo louro preso com uma fita vermelha. Tate Jordan não lhe saíra da cabeça, mas nenhum deles dera algo a entender enquanto trabalhavam. Ele mostrara-se indiferente e chegara quase a ser rude, e ela esforçara-se por ignorá-lo nas poucas alturas em que tiveram ocasião para falar. Tate falou-lhe, por acaso, só uma vez, ao café à hora de almoço; depois, afastou-se para conversar com alguns dos outros homens, enquanto Sam tagarelava com os ajudantes que conhecia melhor. Só ao fim da jornada de trabalho é que ela permitiu que os seus pensamentos se centrassem novamente em Tate.

            Durante todo o dia, lembrara-se de momentos da noite passada juntos, de um instante de um fugaz momento, da forma das pernas dele, deitado nu e descoberto entre os lençóis amarrotados, da expressão do olhar quando se dobrava para beijá-la mais uma vez, da curva do pescoço quando se deitava momentaneamente com um suspiro de felicidade enquanto ela fazia deslizar lentamente os delicados dedos ao longo da coluna, numa excitante promessa. Adorava o aspecto de Tate, o modo como ele encarava a vida e as sensações que lhe provocava.

            Agora, ao voltar a correr para casa da tia Caro, era só nisso que pensava. Não fazia idéia de quando poderia voltar a vê-lo sozinho. O alojamento dele era demasiado visível, bem perto do salão onde os homens comiam, e a tia Caro já voltara da breve viagem com Bill. Era óbvio que um encontro entre eles exigiria alguma preparação, mas estava certa de que Tate descobriria uma maneira. A idéia de que agora tanto ele como Bill King entrariam nas pontas dos pés e sairiam sorrateiramente no meio da noite fê-la soltar uma gargalhada ao abrir a porta principal.

            — Meu Deus, está muito feliz esta noite, Miss Samantha! — Caroline olhou-a com um ar prazenteiro do local onde se encontrava sentada. E, pela primeira vez em quatro meses, viu o rosto familiar de John sem sentir qualquer ponta de dor. Deteve-se por instantes, semi-cerrou os olhos, depois encolheu os ombros, um tranqüilo sorriso nos lábios, e dirigiu-se para o quarto para se lavar.

            — Volto dentro de um minuto, tia Caro.

            Quando regressou, partilharam o jantar; nessa noite, porém, Samantha deu consigo a imaginar onde estaria Tate. Encontrar-se-ia no salão com os outros homens? Teria optado por ficar na cabana e cozinhar para si, como alguns dos trabalhadores faziam? Contudo, a maioria preferia jantar no salão. Até os que viviam com as mulheres no rancho vinham muitas vezes ao salão, depois de jantar, tomar café e fumar um cigarro na companhia daqueles com quem haviam cavalgado todo o dia. De súbito, Samantha sentiu vontade de estar com eles; no entanto, pressentiu que se o fizesse, assim, sem mais nem menos, interrogar-se-iam sobre a razão da sua presença. Aceitavam-na entre eles durante o dia, mas à noite esperavam que ela ficasse com Caroline em casa, que era o seu lugar. Iria chocá-los e não conseguiria procurar Tate sem provocar comentários. A bisbilhotice nos ranchos era implacável, e havia uma espécie de radar sensorial que todos pareciam possuir. Romances, casamentos e divórcios eram descobertos quase instantaneamente, bem como casos extraconjugais e bebês ilegítimos, o que tornava ainda mais notável o fato de Bill King e de Caroline terem conseguido manter o seu segredo durar tanto tempo. Mesmo que alguns dos mais velhos, ou aqueles que os conheciam bem, suspeitassem, ninguém no rancho tivera alguma vez a certeza.

            Samantha respeitava a opção deles e acreditava que devia ser difícil aquele estilo de vida clara, destino.

            Agora se sentia toda vibrando de excitação, desejando ardentemente estar com o homem, falar com ele, rir, arreliá-lo, tocá-lo, dar um passeio noturno, olhar para ele com interesse e orgulho, pegar-lhe na mão... depois, dirigirem-se ao quarto e descobrirem o corpo um do outro uma vez mais, como o haviam feito na noite anterior.

            — Queres mais salada, Samantha? — Só a meio do jantar é que Sam pareceu lembrar-se onde estava. Durante meia hora, estivera calada, a sonhar, enquanto Caroline a observava, curiosa por saber a causa daquele silêncio. Sam não ostentava um ar infeliz, não se mostrava aborrecida por Caroline ter estado vendo o noticiário. Não parecia ter saudades de casa. O aspecto era ótimo... por isso teria de ser outra coisa.

            — Passa-se alguma coisa, Sam?

            — Hum?

            — Há algum problema?

            — O quê?... Oh... Desculpa. — Samantha corou que nem uma colegial; depois, abanou a cabeça com um sorriso fugaz e maroto. — Não, só estava distraída. Foi um dia longo... mas gostei.

            Não encontrara outra forma de explicar o brilho resplandecente e de plenitude que deixava transparecer no rosto.

            — Que diabo andaste a fazer?

            — Nada de especial. Lacei alguns cavalos, verifiquei as vedações, os homens laçaram alguns vitelos esta tarde... — Sam tentou lembrar-se. Sonhara com Tate a maior parte do tempo. — Foi um dia formidável.

            A velha amiga olhou-a com um ar perspicaz.

            — Fico contente por te sentires feliz aqui no rancho. — O rosto de Samantha tomou um ar estranhamente sério — E estou feliz, tia Caro. Há muito tempo que não me sentia tão bem.

            Caroline assentiu com a cabeça e concentrou a atenção na salada, ao mesmo tempo que Samantha voltava a sonhar com Tate. Porém, só na manhã seguinte é que o viu. Na noite anterior, ouvira Bill King entrar e sair da casa, desta vez com inveja. Tate não conseguira arranjar maneira de vir ter com ela. Enquanto estava na cama, a ansiar por ele, Sam sorria: era como se voltasse a ter dezoito anos e um caso clandestino. Sentiu-se, subitamente, jovem e feminina, terrivelmente secreta, na impaciência por voltar a estar com ele.

            Eram sete da manhã, domingo, quando Sam bebeu o café de um gole, puxou o fecho das calças de brim, vestiu o casaco, escovou o cabelo uma última vez e depois correu para a cavalariça na esperança de encontrá-lo aí.

            Porém, não encontrou ninguém. Os homens que tinham vindo alimentar os cavalos já haviam ido para o salão. Estava sozinha na enorme cavalariça na companhia dos cavalos familiares, cada um na sua baia, a comer calmamente ou a descansar. Samantha encaminhou-se, então, em passo lento, para a baia de Black Beauty. Passou-lhe lentamente a mão pelo focinho, depois sentiu os beiços peludos a roçarem-lhe a mão, à procura de algo para comer.

            — Hoje não te trouxe nada, Beauty. Desculpa, rapaz.

            — Não te fies nela. — A voz suave vinha de trás. — E o que é que me trouxeste para mim?

            — Oh! — Sam rodou sobre si e, espantada, deu de caras com Tate. Antes que pudesse tomar fôlego, ele abraçou-a, quase a sufocando, enquanto a beijava com ardor.

            — Bom dia, Palomino. — Tate falou num sussurro e Sam corou.

            — Olá... senti a tua falta.

            — Também eu. Queres ir até à cabana agora de manhã? — Ninguém, mesmo a poucos centímetros deles, o teria conseguido ouvir, e Samantha fez prontamente um gesto afirmativo com a cabeça, com um brilho de expectativa no olhar. — Adoraria.

            — Encontramo-nos na vedação sul, na clareira. Sabes onde fica? — Tate ficou, subitamente, preocupado, como se receasse que ela se perdesse, mas Sam riu-se.

            — Estás brincando? Onde é que pensas que estive toda a semana?

            — Não sei, querida. — E esboçou um largo sorriso. — Penso que no mesmo sítio que eu. Algures na tua cabeça.

            — Não estás muito longe da verdade. — Então, quando Tate fazia o gesto para se ir embora, Sam agarrou-o pela manga.

            — Te amo — murmurou.

            Tate meneou ligeiramente a cabeça, passou os lábios pelos dela e sussurrou-lhe a resposta:

            — Também te amo. Vemo-nos às dez. — E partiu, o ruído seco dos tacões a ressoar na cavalariça. Pouco depois, ao dobrar uma esquina, cumprimentou dois homens que vinham tratar dos cavalos. Um instante mais cedo e tê-lo-iam visto a beijar Samantha. Em vez disso, o que viram foi Sam a alimentar, com ar diligente, o melhor cavalo de Caroline.

 

            Encontraram-se na clareira sul às cinco para as dez, os cavalos frescos, o céu azul, os olhos a brilharem de desejo. Aquela paixão acabada de nascer parecia um pouco louca. Sam não conseguia explicar, mas, no seu íntimo, sentia-se impelida para ele e estava disposta a comprometer-se para o resto da vida. Tentou comunicar-lhe, mais tarde, nessa manhã, quando estavam deitados na enorme e confortável cama de ferro, no quarto azul-claro, os corpos cansados, os corações leves, o braço dele envolvendo o seu corpo aninhado a seu lado.

            — Não sei, Tate, é como se... como se tivesse estado sempre à tua espera. Como se, de repente, soubesse para o que nasci...

            — Queres dizer... copular? — Tate fez um sorriso matreiro e despenteou-lhe os delicados cabelos.

            — Não lhe chames isso. — Sam pareceu magoada.

            — Desculpa. — Tate beijou-a ternamente e afagou-lhe o rosto. — Fazer amor. É o que é, tu sabes, não importa o que lhe chamo.

            — Eu sei. — Sam aproximou-se dele com um sorriso de felicidade estampado no rosto e fechou os olhos. — Deve ser um erro sentir-me assim tão feliz. É certamente uma indecência. — As pálpebras tremeram e Tate beijou-lhe a ponta do nariz.

            — É? Por quê? — A sua expressão feliz assemelhava-se à dela. — Por que razão não temos direito a sentirmo-nos assim?

            — Não sei. Espero que seja por muito tempo. — Os pensamentos voaram, em uníssono, para Bill e Caroline, que se haviam deitado na mesma cama antes deles e ainda estavam juntos ao fim de tanto tempo.

            — É loucura, Tate, é tudo tão novo entre nós, mas não parece, pois não?

            — Não... Agora, se não parares de falar nisso, vou começar a tratar-te como se já estivesses aqui há vinte anos.

            — E depois?

            — Ignoro-te.

            — Experimenta. — Sam fez deslizar os dedos pela parte interior da coxa e deteve-se, interessada, no local onde as pernas se juntam.

            — Para que é tudo isso, Miss Samantha?

            — Espera que já te mostro. — Provocava-o com uma voz maliciosa e Tate pousou a mão entre as coxas dela. Durante toda a manhã, persistiu a sensação de já ali terem estado partilhando há muito as suas vidas. Era praticamente impossível perceber-se que a relação era recente, pelo modo como Tate e Sam vagueavam nus a vontade pela minúscula casa.

            — Viste os álbuns de fotografias, querida? — indagou Tate, enquanto Sam fazia sanduíches na cozinha com as provisões que ele trouxera. Sentou-se no sofá, com um cobertor sobre os ombros nus, os pés estendidos para o lume vivo. A lareira não fora limpa desde a última vez que fora acesa; assim, ninguém descobriria pelas cinzas a presença dos dois.

            — Sim, são ótimas, não são? — Eram fotografias de Bill; Caroline e outras pessoas do rancho, do princípio dos anos cinqüenta, e os dois novos amantes riam ao observá-las, as pessoas a fazer palhaçadas diante de carros antigos, vestidas com engraçados trajes de banho e com chapéus esquisitos na cabeça. Havia algumas de rodeios e outras do rancho antes de certos edifícios mais recentes terem sido construídos. — Isto era muito menor!

            Tate respondeu-lhe com um sorriso.

            — Um dia será muito maior. Podia ser o melhor rancho do estado, talvez um dos melhores do país, mas o Bill King está a ficar velho, já não está ansioso por vê-lo crescer, por desenvolvê-lo.

            — E tu? É isso que queres, Tate? Dirigir este rancho um dia?

            Tate fez um lento gesto afirmativo com a cabeça, mostrando toda a sua franqueza. Tinha bastante ambição, toda ela centrada naquele rancho.

            — É. Um dia gostaria de fazer dele uma coisa muito especial, se Miss Caro me deixar. Não sei se o fará, enquanto o velho Bill por cá andar.

            Samantha falou baixinho, quase num tom de reverência. — Espero que ele fique sempre por cá, Tate, para bem dela.

            Ele fez um gesto de concordância.

            — Também eu. Mas um dia, um dia... há algumas coisas que eu gostava de mudar neste rancho. — Ao fechar cuidadosamente o álbum, começou a contar- lhe. Uma hora depois, olhou de relance para o relógio elétrico na cozinha e parou. — Ouve, Sam, podia ficar aqui falando durante horas. — Esboçou um tímido sorriso, sendo evidente que ela apreciara a conversa.

            — Estou gostando de te ouvir falar. — Após uma pausa, acrescentou: — Porque não arranjas o teu próprio rancho? — Tate riu-se e abanou a cabeça.

            — Com quê, pequeno Palomino? Com desejos e latas velhas de cerveja? Fazes idéia de quanto custa pôr um rancho decente de pé? Uma fortuna. Não é com o meu salário, querida. Não. A única coisa que quero é ser capataz, não capataz adjunto. O homem do poder. Muitos rancheiros não distinguem o rabo de um buraco no chão. O capataz é que dirige as coisas.

            — Tu fazes isso aqui. — Sam olhou-o com um ar de orgulho e ele tocou-lhe ternamente no cabelo; depois, pôs-lhe uma mão no queixo.

            — Eu tento, pequeno Palomino. Eu tento, quando não estou a fazer gazeta contigo. Quase me podias fazer arrepender de trabalhar. Ontem, a única coisa que queria era vir ter contigo, fazer amor, sentar-me junto da lareira e sentir-me bem.

            Samantha olhou fixamente para o lume com um ar sonhador.

            — Eu também. — Instantes depois, voltou os olhos para ele. — O que é que vamos fazer, Tate?

            — Acerca do quê? — Estava novamente a gracejar. Compreendia muito bem as palavras da jovem.

            — Não banques o engraçado. Sabes bem o que quero dizer. — Soltou uma risadinha. — Na outra noite, tive a visão de ti e do Bill King a entrarem em casa em bicos dos pés e a chocarem um com o outro no escuro.

            Riram-se com a imagem e Tate, com um ar pensativo, puxou Sam para si.

            Refletira sobre as hipóteses, e todas eram complicadas, nenhuma era ideal. — Não sei, Sam, seria muito mais fácil se fosse verão, poderíamos vir até aqui todas as noites, depois do trabalho, e voltarmos a cavalo, ao luar, sob as estrelas. Mas estará escuro como o diabo quando acabarmos, e tenho medo que um dos cavalos tropece e se magoe.

            — Podíamos trazer lanternas.

            — Claro. — Tate fez um largo sorriso. — Ou alugar um helicóptero. Porque não?

            — Oh, cala-te. Bem... O que é que vamos fazer? Queres entrar às escondidas na casa da tia Caro?

            Tate abanou lentamente a cabeça.

            — Não. Ouvir-nos-iam, da mesma maneira que tu o ouves entrar todas as noites. E a minha casa é tão visível. Bastava um dos homens te ver, só uma vez, e estaria tudo acabado para nós.

            — Estaria? — Samantha mostrou-se tensa ao falar. — Seria assim tão mau se soubessem?

            Tate fez um ligeiro gesto afirmativo com a cabeça. — Por quê?

            — Não está certo, Sam. Tu és quem és e eu sou quem sou. Não queres que eles falem e eu também não.

            No entanto, para Sam, esse fato não tinha qualquer importância. Pensava que o amava e não se preocupava com o que os outros dissessem. O que podia alguém fazer para magoá-los? Viu na cara dele, porém, que se tratava de uma regra sagrada. As senhoras dos ranchos não se apaixonavam por trabalhadores.

            Samantha olhou para Tate com um ar decidido.

            — Não vou fazer o jogo deles eternamente. Se ficarmos juntos, quero que as pessoas saibam. Quero orgulhar-me daquilo que temos, sem temer que alguém descubra.

            — Lá chegaremos.

            Sam tinha a sensação de que ele não estava preparado para se mover um centímetro na sua direção. De repente, levantou a cabeça e o brilho no olhar era tão obstinado como dele.

            — Por quê? Por que razão não começamos já a enfrentar a situação? É certo que não precisamos anunciar já a toda a gente que temos um caso. Mas que diabo, Tate, não vou me esconder eternamente.

            — Não — Tate a tranqüilizou. — Vais acabar por voltar para Nova Iorque.

            As palavras atingiram-na como um balde de água fria; quando voltou a falar, havia gelo e dor na voz.

            — Como é que tens tanta certeza?

            — Porque é o teu lugar, da mesma maneira que o meu é aqui.

            — É mesmo? Como é que sabes? Como é que sabes se não sou como a Caroline, que resolvi que não quero mais aquele estilo de vida, que a minha vida é como foi a dela?

            — Sabes como é que sei? — Tate olhou-a com a sabedoria dos seus quarenta anos. — Porque quando a Caroline veio para aqui, era viúva, queria desistir da vida que partilhara com o marido, porque ele partira. E tinha quarenta anos, Sam, o que não é a mesma coisa que trinta ou trinta e um. És jovem, ainda tens muito para viver, muitos anúncios para fazer, muitos negócios para fechar, muitos ônibus para apanhar, telefonemas para fazer, aviões para perder, festas para ir...

            — E não posso fazer algumas dessas coisas aqui? — Parecia verdadeiramente magoada. Tate olhou-a com ternura, sabedoria e amor.

            — Não, baixinha, não podes. Não é lugar para isso. Vieste aqui para te curares, Sam, e é o que estás a fazer. Talvez eu também faça parte dessa cura. Só há três semanas é que te conheci, há anos que não quero saber de mulher nenhuma... mas sei que te amo. Soube-o no dia em que nos conhecemos. E espero que me ames. Mas o que aconteceu com o Bill e a Caro foi um milagre, Sam, o lugar deles não é juntos e nunca estarão. Ela é instruída, ele não. Ela levou uma vida de luxo, a idéia de classe que ele tem é um palito de ouro maciço e um charuto de cinqüenta centavos. Ela é dona do rancho e ele nem um monte de feijões tem. Mas amam-se, e era apenas isso que ela queria. Tenho as minhas razões para achar que ela foi um pouco louca, mas já gozara outra vida, e talvez isto lhe chegasse. Tu és diferente, Sam, és muito mais nova e tens direito a muito mais do que aquilo que posso dar-te aqui.

            Era tudo uma perfeita loucura: conheciam-se há menos de um mês, eram amantes há dois dias e, no entanto, falavam do futuro como se ele tivesse alguma importância, como se estivesse em questão o fato de ficarem juntos para o resto da vida. Sam olhou-o nos olhos, espantada; depois, esboçou um ligeiro sorriso.

            — És louco, Tate Jordan. Mas amo-te. — Segurou-lhe o rosto entre as mãos e beijou-o avidamente nos lábios; depois se recostou e cruzou os braços.

            — Se eu quiser ficar aqui, se for esta a vida que desejo, quer eu tenha trinta, noventa ou dezoito anos, a decisão é minha. Não sou a Caroline Lord e tu não és o Bill King, e podes guardar os teus discursos de auto-sacrifício, porque, quando chegar a altura, farei unicamente aquilo que entender. Se não quiser voltar para Nova Iorque, não podes me obrigar. Se eu decidir que te quero para o resto da vida, então te seguirei até os confins do mundo e te massacrarei até dares a notícia a todos os ajudantes, à Caroline e ao Bill. Não vais livrar-te de mim tão facilmente como gostarias. Entendeste? — Olhou-o, sorridente, mas verificou que ainda existia uma certa resistência no olhar. Não tinha importância, ele não a conhecia, e a verdade era que, apenas com uma exceção recente, o que Sam Taylor queria, conseguia. — O senhor entendeu?

            — Sim, entendi. — Sem mais palavras, desta vez foi Tate quem a beijou e a silenciou quase por completo quando puxou o confortável cobertor para cima de ambos. Pouco depois, estavam entregues um ao outro mais uma vez: as pernas, os braços, os corpos entrelaçados, enquanto os lábios se uniam e o fogo crepitava ao lado. Quando acabaram, Tate afastou os lábios ofegantes dos de Sam e voltou a transportá-la no colo para o pequeno quarto azul, onde recomeçaram a jornada de amor. Já passava das seis quando viram que era noite. Haviam dormido e feito amor vezes sem conta durante toda a tarde, e agora era com pena que Tate lhe dava uma palmada no traseiro e ia ao banheiro pôr a água a escorrer para a banheira. Tomaram banho juntos, as longas pernas dele enroladas à volta dela, ao mesmo tempo que Sam soltava alegre risadas e contava histórias de outros verões passados no rancho.

            — Sabes que ainda não resolvemos o nosso problema.

            — Não sabia que tínhamos um problema. — Tate deitou a cabeça na borda da banheira e fechou os olhos.

            — Refiro-me ao lugar e à forma de nos encontrarmos.

            Tate ficou silencioso durante um longo instante enquanto pensava no assunto; depois, abanou a cabeça.

            — Diabos, quem me dera saber! O que é que achas, Sam?

            — Não sei. O meu quarto? Podia deixar-te entrar pela janela. — Soltou uma gargalhada nervosa. Parecia uma adolescente precoce e atrevida. — Na tua casa?

            Tate fez um lento sinal afirmativo com a cabeça.

            — Sim. Mas não gosto. — De repente, os olhos tomaram um brilho vivo. — Já sei. O Hennessey já há dois meses que anda a reclamar por causa do alojamento. Diz que a casa é muito pequena para ele, que é ventosa e que fica longe do salão. Está nos pondo malucos a todos.

            — E então?

            — Troco com ele. A casa dele é no extremo do campo, quase por trás da casa da Caro. Assim, se lá fores, ninguém irá ver-te. É muito melhor do que onde estou agora.

            — Não achas que vão suspeitar?

            — Por quê? — Tate esboçou um sorriso por entre o vapor da banheira. — Não estou pensando em beliscar-te o traseiro todos os dias no pequeno-almoço ou beijar-te na boca antes de sairmos a cavalo.

            — Porque não? Não me amas?

            Tate não respondeu, apenas se inclinou para frente, beijando-a ternamente e depois lhe acariciando os seios.

            — Por acaso, pequeno Palomino, amo.

            Sam pôs-se de joelhos na velha banheira e encarou-o, deixando transparecer no olhar todos os seus sentimentos. — Eu também, Tate Jordan. Eu também.

            Quando regressaram, depois das sete, Sam ficou imensamente grata por saber que Caroline fora jantar em outro rancho. Caso contrário, ficaria preocupada. Passara o dia conversando, rindo, amando, e agora, ao voltar para casa, sentia a súbita falta do amante. Era como se alguém lhe tivesse amputado o braço direito. Apoderara-se dela uma estranha sensação relativamente àquele homem que conhecia há tão pouco tempo; porém, isolados como estavam do resto do mundo, havia algo especial e intenso nos sentimentos de ambos e deu consigo ansiando novamente por ele, quando se sentou só na casa vazia. Caroline deixara-lhe um bilhete que expressava sua preocupação, não pânico, pela sua longa ausência, e deixara-lhe também o jantar quente no fogão, que Sam só beliscou antes de ir para a cama, às oito e meia, permanecendo no escuro, a pensar em Tate.

            Quando Caroline chegou a casa nessa noite com Bill King a seu lado, entraram, sub-repticiamente, nas pontas dos pés, na casa escura, e Bill foi de imediato para o quarto.

            A presença de Sam tornara as coisas um pouco embaraçosas e todas as noites Caroline tinha de lhe lembrar que não fechasse a porta com tanta força, mas ele não ligava importância. Caroline foi, de mansinho, pelo corredor fora, até ao quarto de Sam, abriu a porta, espreitou para dentro do quarto iluminado pela Lua e viu a jovem e bela mulher adormecida em cima da cama. Olhou-a por instantes, com a sensação de que a juventude voltara para assombrá-la. Então, silenciosamente, entrou no quarto.

            Julgava saber o que estava se passando; porém, como aprendera por experiência própria, era algo irreversível. Cada um tinha de viver a sua vida. E ali ficou durante um longo instante, os olhos fixos em Samantha, os cabelos desta espalhados na almofada, o rosto tão perfeito e tão feliz. De lágrimas nos olhos, Caroline estendeu o braço e tocou na mão da jovem adormecida. Não fez nada para acordá-la e, em passo silencioso, voltou a sair do quarto.

            Bill aguardava-a, de pijama vestido e a dar uma última fumaça no charuto.

            — Onde é que estiveste? Ainda tens fome depois daquele jantar?

            — Não. — Caroline abanou a cabeça, estranhamente calada. — Quis certificar-me de que a Sam estava bem.

            — E está?

            — Está. Já dorme. — Fora o que pensaram quando viram a casa às escuras.

            — É uma moça simpática. O tipo com quem ela estava casada deve ser parvo para fugir com outra. — Bill não ficara impressionado com o que vira de Liz na televisão.

            Caroline fez um silencioso gesto de concordância com a cabeça, achando que eles também deveriam ser parvos. Ela, por ter permitido que Bill lhe impusesse o silêncio durante duas décadas mantendo em segredo o amor de um pelo outro; Bill, por viver como um criminoso, entrando e saindo de casa dela nas pontas dos pés há mais de vinte anos; Samantha, por gostar de um homem e de um estilo de vida que lhe eram estranhos e, possivelmente, tão perigosos como saltar do cimo do Empire State Building; e Tate Jordan, por se apaixonar por uma rapariga que não podia ter. Porque Caroline sabia exatamente o que estava a acontecer. Sentia-o nos ossos, nas entranhas, na alma. Vira-o nos olhos de Sam antes dela própria saber, pressentira-o no Natal quando observara Tate a olhar para Sam enquanto esta estava ocupada a fazer outra coisa. Caroline viu tudo e, no entanto, tivera de fingir que nada via, nada sabia e não conhecia ninguém.

            — Bill. — Caroline olhou-o de modo estranho, tirou-lhe o charuto da boca e pousou-o no cinzeiro. — Quero casar.

            — Claro, Caro. — Bill esboçou um largo sorriso e acariciou-lhe o seio esquerdo.

            — Pára. — Caroline afastou-o. — Estou a falar a sério. — Havia algo na voz que reforçava aquelas palavras.

            — Estás senil! Porque casaríamos agora?

            — Porque com a tua idade não devias andar a entrar e a sair à socapa a meio da noite. É mau para os meus nervos e para a tua artrite.

            — Estás louca. — Bill recostou-se na cabeceira com um ar chocado.

            — Talvez. Mas vou dizer-te uma coisa. Nesta altura, não iríamos surpreender ninguém. E mais, acho que ninguém se importaria. Ninguém mais recorda o que fui ou donde vim, por isso todos os teus velhos argumentos não fazem sentido. Ao fim deste tempo todo, só sabem que sou a Caroline Lord e tu és o Bill King do Rancho Lord. Ponto final.

            — Ponto final, não. — Subitamente, exibiu um ar quase feroz. — Sabem que tu és a dona do rancho e eu o capataz.

            — Quem é que se importa?

            — Eu importo-me. Tu também devias fazê-lo. E os homens também se importam. Há uma diferença, Caro. Tu sabes, ao fim destes anos todos. E diabos me levem se te transformar em motivo de risota. — Estava quase a gritar — Fugir para casar com o capataz... Nem pensar!

            — Ótimo. — Caroline olhou-o com um ar irritado. — Então te despeço e já podes aparecer como meu marido.

            — Estás doida, mulher! — Ele nem sequer iria discutir a questão. — Agora apaga a luz. Estou cansado.

            — Eu também... — Caroline olhou-o com um ar infeliz, — De me esconder, é disso que estou cansada, ao fim destes anos todos. Bolas, quero casar, Bill!

            — Então casa com outro rancheiro.

            — Vai para o diabo. — Caroline lançou-lhe um olhar irritado, apagou a luz e a conversa ficou por ali. Era a mesma conversa que já haviam tido centenas de vezes ao longo de vinte anos, mas ninguém ficava a ganhar.

            Tanto quanto ele sabia, ela era a dona do rancho e ele o capataz. Deitada ao seu lado na cama, com os olhos marejados de lágrimas, de costas voltadas para ele, Caroline rezou fervorosamente para que Samantha não se apaixonasse perdidamente por Tate Jordan, pois sabia que a relação não iria acabar de forma muito diferente da dela. Aqueles homens seguiam um código que não fazia sentido para ninguém, a não ser para eles, mas viviam de acordo com ele, e Caroline sabia que seria sempre assim.

 

            A troca de alojamentos entre Tate Jordan e Harry Hennessey realizou-se em quatro dias. Hennessey ficou encantado com a oferta de Tate e, com a quantidade adequada de resmungos, Tate acabou por mudar as suas coisas.

            Afirmava que não gostava da casa, que estava farto de ouvir Hennessey queixar-se, e que não tinha direitos adquiridos em relação a nenhuma das cabanas. Para ele, eram todas iguais. Ninguém deu especial atenção à transação e, na quinta-feira à noite, já Tate desembalara todas as suas coisas. No seu quarto, Samantha esperava pacientemente, no escuro, pelas nove e meia, altura em que Caroline se encontrava no quarto. Saiu pela janela, atravessou o jardim, nas traseiras da casa e, instantes depois, alcançou a porta da casa de Tate. O alojamento ficava praticamente por detrás da casa principal e não podia ser avistado de nenhuma outra.

            Encontrava-se, inclusive, dissimulada pelas árvores de fruta ao fundo do jardim, de modo que ninguém poderia ver Samantha a esgueirar-se sorrateiramente pela porta. Tate aguardava-a, descalço, de peito nu e calças de brim, os cabelos de um negro-azulado, com fios brancos nas têmporas e um verde vivo nos olhos. A pele era macia como cetim, e envolveu rapidamente Sam nos seus braços. Instantes depois, estavam entre os lençóis lavados da cama estreita. Só depois de terem feito amor é que se entregaram à conversa, Samantha rindo à gargalhada pelo fato de se ter escapulido pela janela do quarto, enquanto, naquele preciso momento, Bill King devia estar a entrar nas pontas dos pés pela porta principal.

            — Não achas que é ridículo na nossa idade? — Sam estava divertida, mas ele não.

            — Pensa nisto com romantismo. — Tal como Bill King, também Tate Jordan não fazia intenção de transformar Sam em motivo de risota do rancho. Não era uma mulher fácil de Nova Iorque. Era uma senhora muito especial e agora era a sua mulher, e ele protegê-la-ia se tivesse de fazê-lo, até dela própria. Sam não compreendia nada do código de comportamento entre rancheiros e ajudantes. O seu modo de conduta só a eles dizia respeito e a mais ninguém, e sempre assim seria, dissesse Samantha o que dissesse.

            Era um assunto que não valia a pena discutir; além disso, havia sempre muitas outras coisas para falar. Conhecia a posição dele e ele sabia bem qual era a dela, não havia mais nada a dizer, de momento, relativamente aos seus encontros clandestinos. Durante algum tempo estava bem assim. De qualquer forma, resolvera revelar o segredo no verão. Calculava que, na altura, já seriam amantes há seis ou sete meses, e Tate estaria menos preocupado com o fato de os outros saberem. De repente, ao pensar no verão, sentiu o desejo de ficar no rancho. Pela primeira vez admitiu a possibilidade de ficar no rancho, o que provocou a questão sobre o que fazer com o emprego de Nova Iorque. Mas haveria tempo para pensar nisso.

            Ainda corria o mês de dezembro, embora já sentisse que residia no Rancho Lord, e que era mulher de Tate Jordan, há uma série de anos.

            — Feliz? — indagou Tate, antes de adormecerem, abraçados um ao outro, as pernas enlaçadas, o braço dele rodeando os ombros dela.

            — Mmmm... — Sam sorriu de olhos fechados e beijou-lhe as pálpebras, antes de adormecer. Acordou ao mesmo tempo que ele, às quatro da manhã, e regressou pelos pomares atrás do jardim, entrou sorrateiramente pela janela entreaberta e acendeu as luzes. Tomou uma ducha, como sempre, vestiu-se, foi tomar o pequeno-almoço ao salão principal, e assim Samantha Taylor começava uma nova vida.

 

            No dia de São Valentim, Sam recebeu um postal de Charlie Peterson que fazia referência ao seu lugar em aberto no escritório. Pela primeira vez, pensou no emprego à sua espera em Nova Iorque. Falou no assunto a Tate nessa noite enquanto estava nos seus braços. Era agora um ritual noturno: chegava antes das nove da noite, depois de jantar com a tia Caro e de tomar banho.

            — Como é que ele é? — Tate olhou para Sam com ar interessado, ao mesmo tempo que ela se atirava para o sofá, com um vibrante sorriso de felicidade.

            — O Charlie? — Sam olhou, de sobrolho franzido, para o homem que agora via como seu marido. — Estás com ciúmes?

            — Devia estar? — O tom de voz era calmo.

            — Claro que não! — As palavras misturaram-se com uma gargalhada. — Nunca houve nada entre nós, além disso, ele tem mulher e três filhos e ela está grávida outra vez. Gosto dele como de um irmão, uma espécie de melhor amigo. Trabalhamos juntos há anos.

            Tate assentiu com a cabeça.

            — Sam, não tens saudades do teu emprego? — perguntou, depois de um silêncio.

            Sam ficou calada e pensativa por instantes, antes de responder, depois abanou a cabeça.

            — É espantoso, mas não. A Caroline diz que também foi assim com ela. Quando deixou a antiga vida, não sentiu falta. E nunca teve vontade de regressar. Também sinto o mesmo: cada dia que passa, sinto menos a falta de tudo o que deixei.

            — Mas sentes um bocadinho? — Tate encurralara-a e ela voltou-se sobre o ventre, olhou-o nos olhos, deitada no sofá e ele sentou-se ao pé dela, de costas para a lareira.

            — Claro, um bocadinho. Também sinto falta do meu apartamento, de alguns dos meus livros e das minhas coisas. Mas não sinto falta da minha vida de lá. Aquilo de que tenho saudades... são coisas que podia trazer para aqui se quisesse. Mas o trabalho... É tão estranho, passei aquele tempo todo a trabalhar tanto e agora... — Encolheu os ombros, assumindo um ar quase infantil. — Mas já não quero saber mais disso. Tudo o que me interessa é cuidar dos bezerros, ver se há trabalho para fazer, se o Navajo precisa de ferraduras novas, se a vedação no pasto norte foi derrubada. Não sei, Tate, é como se tivesse acontecido qualquer coisa irreal. Como se me tivesse tornado uma pessoa diferente quando deixei Nova Iorque.

            — Mas algures em ti, Sam, ainda existe essa velha pessoa. A pessoa que quer escrever anúncios que ganhem prêmios e ser importante no seu tipo de trabalho. Um dia vais sentir saudades disso.

            — Como é que sabes? — De repente, pareceu zangada, — Porque tentas me obrigar a ser aquilo que já não quero mais? Por quê? Queres que volte para lá? Tens medo do compromisso, Tate, daquilo que pode significar?

            — Talvez. Tenho direito a estar assustado, Sam. És uma mulher extraordinária. — Tate sabia que ela não estava disposta a manter eternamente o segredo sobre a vida deles, que queria o seu amor às claras, algo que o preocupava muito.

            — Bem, não me obrigues. Agora, não quero voltar. E se quiser, digo-te.

            — Espero que sim.

            Ambos sabiam que a licença só durava mais seis semanas. Prometera a si própria tomar uma decisão até meados de março. Ainda tinha um mês. Mas, duas semanas mais tarde, ao regressar calmamente da cabana secreta, onde ainda passavam domingos idílicos, Tate exibia um ar divertido e comunicou-lhe que tinha uma surpresa.

            — Que tipo de surpresa?

            — Vais ver quando chegarmos em casa. — Inclinou-se para ela, no seu cavalo malhado, e beijou-a em cheio nos lábios — Vamos ver... O que poderá ser...? — A expressão era malandra e pensativa, mas também extremamente jovem. Prendera os longos cabelos louros em duas marias-chiquinhas atadas com fitas vermelhas, e usava um novo par de botas de cow-boy de pele de cobra avermelhada. Tate zombara daquela excentricidade, dizendo-lhe que ainda eram piores do que as verdes de Caroline; porém, com as roupas Blass, Ralph Laureu & Halston abandonadas desde que chegara ao rancho, as botas haviam sido a sua única extravagância em três meses. — Compraste-me outro par de botas? Violetas, desta vez?

            — Oh, não... — gemeu Tate enquanto cavalgavam lentamente para casa.

            — Cor-de-rosa?

            — Não digas mais. Acho que vou vomitar.

            — Está bem, é outra coisa. Vamos ver... Uma forma para fazer waffles? — Tate abanou a cabeça. — Uma torradeira nova? — Sam exibiu um sorriso matreiro, pois a outra se queimara na semana anterior. — Um cachorrinho? — Estava com um ar ansioso e Tate sorriu, abanando, uma vez mais, a cabeça. — Uma tartaruga? Uma cobra? Uma girafa? Um hipopótamo? — Riram-se ambos. — Diabos, não sei. O que é?

            — Vais ver.

            Tratava-se de uma televisão a cores que ele comprara através do cunhado de Josh, na cidade mais próxima. Josh prometera deixá-la na casa de Tate no domingo e este lhe dissera para fazê-lo enquanto estivesse fora. Ao entrar, Tate apontou para a televisão com uma expressão de orgulho e alegria.

            — Tate! Querido, que ótimo! — No entanto, Sam estava bastante menos entusiasmada do que ele. Fora completamente feliz sem aquele objeto. Com ar amuado, perguntou: — Isto significa que a lua-de-mel acabou?

            — Claro que não! — Foi rápido a prová-lo. Passado algum tempo, ligou a televisão, onde estava a dar o noticiário de domingo. Era um resumo semanal, geralmente feito por outro jornalista, mas nessa noite, por uma razão qualquer, era John Taylor quem fazia a apresentação. Assim que Sam o viu, parou, de repente, e olhou-o fixamente, como se fosse a primeira vez. Já haviam passado quase três meses desde a última vez que o vira na televisão, cinco desde que o vira em pessoa, e percebeu, naquele momento, que já não tinha qualquer importância. Todo aquele terrível sofrimento desaparecera gradualmente e a única coisa que restava era um sentimento vago de incredulidade. Era o mesmo homem com quem vivera? Amara, de fato, aquela pessoa durante onze anos? Agora ao vê-lo, achava-o superficial e pomposo. De súbito e pela primeira vez, considerou-o extremamente egocêntrico e interrogou-se sobre a razão por que nunca o compreendera antes.

            — Gostas dele, Sam? — Tate observava-a com ar interessado, o semblante angular enrugado, em total contraste com o ar de bebê louro e de pele macia do homem mais novo que perorava na televisão. Com um sorriso estranho, Sam abanou lentamente a cabeça e voltou-se para Tate.

            — Não, não gosto.

            — Mas estás a olhar para ele com muita atenção — comentou com ar risonho. — Vá lá, podes dizer a verdade. Ele excita-te?

            Desta vez foi Samantha quem exibiu um sorriso radioso. Sorriu devido a uma sensação forte de liberdade e alívio, percebendo, finalmente, que estava tudo terminado. Já não possuía qualquer laço que a unisse a John Taylor. Agora era senhora de si própria e amava Tate Jordan. Pouco lhe importava se já tinham tido o bebê ou se nunca mais voltaria a ver John ou Liz. Tate continuava a olhá-la com ar persistente, estendido sobre a cama adquirida recentemente para acolher o seu amor, com o macio cobertor azul puxado até ao peito.

            — Vá lá, Sam, ele excita-te?

            — Não — declarou ela, por fim, com uma nota de triunfo na voz. Então, a brincar, beijou Tate no pescoço. — Mas tu... tu me excitas.

            — Não acredito em ti.

            — Estás brincando? — gritou ela a rir. — Depois do que estivemos a fazer o dia todo, duvidas que me excitas? Tate Jordan, és completamente louco!

            — Não é isso que quero dizer, pateta. Estou a falar dele. Olha... olha para aquele jornalista tão louro... — Tate provocava-a e ela ria-se. — Olha como é bonito. Não o desejas?

            — Porquê? Consegues-me um preço especial? Provavelmente dorme com rede no cabelo, tem sessenta anos e já fez duas plásticas. — Pela primeira vez na vida, estava lhe dando prazer rir de John. Este sempre se levara muito a sério e ela aceitara esse fato. O rosto, o corpo, a imagem, a vida e a felicidade de John Robert Taylor constituíam o centro de tudo para ambos.

            Mas... e ela? Alguma vez fora importante na vida de John? Sobretudo no final, quando fugira com Liz, que importância tivera Sam para ele? O rosto tomou um ar sério novamente ao recordar-se.

            — Acho que gostas dele, mas és demasiado cobarde para admiti-lo.

            — Não. Estás enganado, Tate. Não gosto mesmo nada. — Disse-o com tal convicção que ele voltou-se para ela, assumindo desta vez um ar inquiridor que não existia antes.

            — Tu o conheces? — Sam acenou afirmativamente não parecendo nem comovida nem divertida, mas sim indiferente, como se estivessem a falar de uma planta ou de um carro usado. — Bem?

            — Conheci. — Sam viu Tate erguer a cabeça e decidiu provocá-lo. Pôs uma mão sobre o peito forte e nu e sorriu. — Não te entusiasmes, querido. Não foi nada. Fomos apenas casados durante sete anos. — Por instantes, tudo pareceu suspender-se no pequeno quarto. Sentia o corpo tenso de Tate a seu lado. Este se sentou na cama e fixou-a com ar consternado.

            — Estás a gozar comigo, Sam?

            — Não. — Olhou-o com ar sincero e tranqüilo apesar da reação dele e sem saber o que significava. Provavelmente estava chocado.

            — Ele foi teu marido?

            Sam fez novo gesto afirmativo com a cabeça. — Foi.

            A ocasião exigia uma conversa franca. Não era todos os dias que se via o ex-marido da amante na tela do televisor antes de ir para a cama.

            Samantha contou-lhe tudo.

            — O engraçado é que mesmo agora estava a pensar, quando o vi, que estou me lixando para ele. Quando estava em Nova Iorque costumava ver aquele maldito noticiário todas as noites. Via os dois, o John e a Liz, na sua querida rotina, a falarem do precioso bebê, como se todo o mundo estivesse interessado no fato de ela estar grávida, o que me dava volta ao estômago. Uma vez eu vinha entrando quando a Caro estava assistindo, e senti verdadeiro nojo! E sabes o que aconteceu esta noite quando aquela cara de plástico apareceu na tela? — Olhou para Tate, expectante, mas não obteve resposta. — Não aconteceu absolutamente nada. Nada. Não houve nada. Não me senti... nem enjoada, nem nervosa, nem chateada, nem abandonada. Nada. — Exibiu um largo sorriso. — Estou me lixando!

            Após estas palavras, Tate levantou-se, cruzou o quarto em passadas amplas e desligou o aparelho.

            — Acho maravilhoso. Foste casada com um dos novos heróis mais bem-parecidos da América, o famoso galã da televisão John Taylor, ele deixa-te e tu encontras um velho cow-boy cansado, alguns dez ou doze anos mais velho do que o teu herói, sem um tostão, que limpa merda num rancho, e queres convencer-me de que isto é a felicidade? Não só a felicidade, mas a felicidade eterna. É isso, Samantha? — Estava furioso e Samantha sentiu-se impotente perante a sua ira. Porque é que não me contaste?

            — Por quê? Que diferença faz? Além disso, ele não é tão importante nem tão famoso como pensas. — Isso, porém, não era verdade.

            — Uma merda! Queres ver a minha conta bancária, querida, e compará-la com a dele? Quanto é que ele ganha por ano? Cem mil? Duzentos? Trezentos? Sabes quanto ganho, Samantha? Queres saber? Dezoito mil sem impostos, e foi um grande aumento, porque sou o capataz adjunto. Por amor de Deus, tenho quarenta e três anos e, comparado com ele, não ganho nada.

            — E depois? O que é que isso importa? — Subitamente, Sam gritava tão alto como ele, apercebendo-se de que o fazia devido ao medo. Tate aceitara de uma forma estranha o fato de ela e John terem sido casados, e isso a assustava. Não esperava que ele reagisse tão mal. — O que interessa é... — Fez um esforço consciente para baixar a voz e ajeitou o cobertor sobre as pernas. Tate andava de um lado para o outro no quarto. — O que interessa é o que aconteceu comigo e com ele, o tipo de pessoas que éramos, como éramos um para o outro, o que aconteceu no fim, a razão por que ele me deixou, o que sentia por ele, a Liz e o bebê. É isso que interessa; não quanto ele ganha, ou o fato de aparecerem na televisão Além disso, Tate, eles é que aparecem na televisão, não eu. Que diferença faz? Mesmo que tenhas ciúmes, olha para ele, com os diabos! É um pateta, um menino mimado que foi bem sucedido. Teve sorte, só isso. Tem cabelo louro e uma cara bonita que as senhoras por toda a América apreciam. E depois? O que tem isso a ver contigo e comigo? Se queres saber, acho que não tem nada a ver conosco. Não quero saber do John Taylor para nada. Amo-te a ti.

            — Então, porque não me disseste com quem tinhas sido casada? — Tate parecia suspeitar dela. Sam deitou-se para trás e puxou os cabelos, tentando não gritar antes de se sentar e encará-lo de novo, o que fez com um olhar quase tão feroz como o dele.

            — Porque não achei que fosse importante.

            — Tretas. Julgaste que eu não valia dois cêntimos furados, é o que foi! E sabes uma coisa? — Atravessou o quarto e começou a vestir as calças. — Tens razão. É o que valho.

            — Então, és louco. — Sam começara a gritar, tentando combater as ilusões dele com a verdade. — Porque vales cinqüenta, cem John Taylors. Por amor de Deus, ele é um sacana egoísta que me magoou e tu não me fizeste nada a não ser bem, desde que nos conhecemos. — Olhou à volta do quarto, onde há três meses passavam as noites, e viu os quadros que Tate lhe comprara para alegrar o ambiente, a cama confortável, a televisão a cores para a entreter, os bonitos lençóis onde faziam amor, os livros que ele achara que ela gostaria. Observou as flores que apanhava sempre que ninguém estava a olhar, a fruta que lhe trazia do pomar, o esboço que ele fizera dela num domingo, no lago. Pensou nos minutos, nas horas, nos gestos, nas fotografias que haviam tirado, nos segredos que partilhavam e, mais uma vez, a centésima, reconheceu que John Taylor não era digno de lamber as botas de Tate Jordan. Quando voltou a falar, tinha os olhos marejados de lágrimas e a voz embargada. — Não te comparo a ele, Tate. Amo-te. Já não o amo a ele. É só isso que importa. Tenta compreender. Nada mais me interessa. — Estendeu o braço para lhe tocar, mas ele manteve-se à distância. Ao fim de alguns momentos deixou-o cair, ao mesmo tempo que se ajoelhava nua na cama, com as lágrimas a rolarem-lhe lentamente pelo rosto.

            — E acha que isto significará alguma coisa daqui a cinco anos, minha senhora? Ora, não seja tão ingênua! Daqui a cinco anos, não passarei de um cow-boy qualquer e ele continua a ser uma das pessoas mais importantes da televisão deste país. Achas que não vais começar a olhar para a televisão todas as noites enquanto lavas a louça, perguntando a ti própria porque é que acabaste comigo? Isto não é teatro. É a vida real. É vida de rancho. Trabalho duro. Não é um anúncio que está a fazer, minha senhora, isto é a realidade.

            Sam começou a chorar devido à brutalidade das palavras de Tate.

            — E achas que para mim não é?

            — Por amor de Deus, como é que poderia ser? Como Sam? Olha de onde vens e como eu vivo. Como é que é o teu apartamento em Nova Iorque? Um último andar na Quinta Avenida? Algum prédio fino com porteiro, um poodle francês e chão de mármore?

            — Não, é o último andar de um prédio sem elevador, se isso te faz sentir melhor.

            — E está cheio de antiguidades.

            — Algumas.

            — Aqui deviam ficar mesmo bem. — Falava com sentimento e afastou-se para se calçar.

            — Por que razão estás tão zangado? — Sam gritava e chorava ao mesmo tempo. — Desculpa se não te disse que fui casada com o John Taylor. Por acaso, estás muito mais impressionado com ele do que eu. Só não achei que tivesse tanta importância como a que estás a dar-lhe.

            — Há mais alguma coisa que não me tenhas contado? O teu pai é o presidente da General Motors, cresceste na Casa Branca, és uma herdeira rica? — Olhou para ela com hostilidade, e Sam, completamente nua, saltou da cama com a agilidade de uma gata.

            — Não, sou epiléptica e estás quase a provocar-me um ataque. — Tate nem sequer sorriu perante aquela tentativa no sentido de desanuviar o ambiente. Entrou para o banheiro e fechou a porta, enquanto Sam ficou à espera. Quando saiu, olhou-a com um ar impaciente.

            — Vamos, veste-te.

            — Porquê? Não quero. — Sentiu o terror a invadir-lhe o coração. — Não me vou embora.

            — Isso é que vais.

            — Isso é que não vou. — Sentou-se à beira da cama. — Não, até resolvermos esta questão. Quero que saibas, de uma vez por todas, que aquele homem não significa nada para mim e que te amo. Achas que consegues meter isso nessa cabeça dura?

            — Que diferença faz?

            — Para mim, faz uma grande diferença. Porque te amo, meu grande palerma. — Sam baixou o tom de voz e esboçou um terno sorriso, mas Tate não lho retribuiu. Em vez disso, olhou-a de semblante carregado e pegou num cigarro, mas só brincou com ele, não o acendeu.

            — Devias voltar para Nova Iorque.

            — Por quê? Para correr atrás de um marido que não quero? Estamos divorciados. Lembras-te? Gosto das coisas como estão. Estou apaixonada por ti.

            — E o teu emprego? Também vais desistir dele por causa da vida no rancho?

            — Por acaso... — Sam respirou fundo e quase tremeu. O que estava prestes a dizer constituía o maior passo de toda a sua vida e estava consciente de que ainda não tinha pensado bem no assunto; porém, era a altura de esclarecê-lo. — É isso exatamente o que tenho pensado fazer. Deixar o emprego e ficar aqui de vez.

            — Isso é ridículo.

            — Porquê?

            — O teu lugar não é aqui. — Tate parecia exausto ao dizer aquelas palavras. — O teu lugar é lá, no apartamento, no teu cargo todo-poderoso, comprometida com um homem desse mundo. O teu lugar não é com um cow-boy, a viver numa cabana de um quarto, a limpar merda de cavalo e a laçar vitelos. Além disso, por amor de Deus, és uma senhora.

            — Mas que palavras tão românticas! — Tentou dar um tom sarcástico à voz, mas os olhos ficaram marejados de lágrimas.

            — Não são românticas, Sam. Nem um bocadinho. É esse o problema. Achas que é uma fantasia, mas não é. Nem eu. Sou bastante real.

            — Também eu. E a questão é essa. Recusas-te a acreditar que também sou real, que tenho necessidades reais, que sou uma pessoa real e que posso existir fora de Nova Iorque, meu apartamento e do meu emprego. Recusas-te a acreditar que posso querer mudar o meu estilo de vida, que talvez Nova Iorque já não me sirva, que isto seja melhor e que represente aquilo que quero.

            — Então, compra um rancho, como a Caroline.

            — E depois? Já acreditas que falo verdade?

            — Talvez possas dar-me emprego.

            — Vai para o diabo.

            — E porque não? Depois já podia entrar e sair do teu quarto às escondidas nos próximos vinte anos. É isso que queres, Sam? Acabar como eles, com uma cabana secreta para onde não podes ir, porque já estás muito velha e muito cansada? Mereces muito melhor! E se não és suficientemente esperta para perceber isso, eu sou.

            — O que queres dizer com isso? — Sam fixava-o com ar aterrorizado, mas ele não desviou o olhar.

            — Nada. Só quero dizer que te vistas. Vou levar-te a casa.

            — A Nova Iorque? — indagou, aparentando um ar despreocupado.

            — Veste-te e deixa-te de lérias.

            — Porquê? E se eu não quiser? — Sam parecia uma criança traquina e assustada. Tate dirigiu-se ao sítio onde ela deixara as roupas num monte antes de fazerem amor ao princípio da noite, apanhou-as e atirou-as para o colo dela.

            — Não me interessa o que queres. Isto é o que eu quero. Veste-te. Parece que sou o único adulto aqui.

            — Diabos te levem! — Sam pôs-se de pé num salto e deixou cair o monte de roupa no chão. — Estás agarrado a essas idéias antiquadas de rancheiros e de ajudantes, e não quero ouvir mais essas tretas! Não tens razão, é uma estupidez. — Soluçava ao mesmo tempo que se baixava, apanhava as roupas, peça a peça, e começava a vestir-se. Ele que curtisse as mágoas durante a noite. Se era assim que ele reagia, iria para casa.

            Cinco minutos mais tarde Sam já estava vestida e Tate mantinha-se de pé, a olhá-la com ar desesperado e incrédulo, como se, naquela noite, tivesse descoberto uma faceta dela que desconhecia, transformando-a subitamente numa pessoa diferente. Sam fitou-o com um ar infeliz e dirigiu-se para a porta.

            — Queres que te acompanhe a casa?

            Por instantes, Sam quase cedeu, mas depois decidiu recusar.

            — Não, obrigada. Eu me arranjo. — Tentou acalmar-se. — Estás enganado, Tate. — Não conseguindo controlar-se, sussurrou: — Amo-te. — Enquanto fechava a porta e corria para casa, seus olhos se encheram de lágrimas, grata, mais uma vez, pelo fato de Caroline se encontrar ausente num rancho próximo, onde costumava ir aos domingos. Naquele dia Samantha não queria que ela a visse, ao entrar, com o rosto lavado em lágrimas.

 

            Na manhã seguinte, Sam demorou-se a tomar café na cozinha, o olhar triste fixo na xícara e embrenhada nos seus pensamentos. Não sabia se havia de tentar falar com ele nessa noite ou deixar assentar as coisas por uns dias e esperar que recobrasse o bom senso. Relembrou a conversa da noite anterior e os olhos inundaram-se de lágrimas mais uma vez, enquanto fitava a xícara. Estava grata por naquela manhã não ter ninguém perto de si. Resolvera não ir tomar o pequeno-almoço. Não tinha fome e não queria ver Tate até irem trabalhar. Teve o cuidado de chegar à cavalariça só as cinco para as seis e, quando o viu, estava num canto afastado, com a familiar prancheta, a distribuir as tarefas, a apontar na direção de alguns dos animais que se podiam ver nas colinas, e depois a voltar-se para apontar para outra coisa qualquer. Sam selou o Navajo calmamente, como fazia todas as manhãs e, alguns minutos mais tarde, já estava no terreiro. Mas, por uma razão qualquer, Tate pusera Josh encarregado do grupo de Sam, sendo óbvio que ele não iria sair a cavalo, ou pelo menos não iria com eles. O que mais aborreceu Sam foi pensar que Tate saíra da rotina para evitá-la. Ao passar por ele no cavalo, inclinou-se e disse num tom agressivo:

            — A fazer gazeta hoje, Mister Jordan?

            — Não. — Virou-se e olhou-a com ar determinado. — Tenho uns assuntos a tratar com o Bill King.

            Sam assentiu com a cabeça, sem saber o que dizer, mas, ao voltar-se no Navajo para fechar o portão, viu-o a olhá-la com um ar de sofrimento; depois, afastou-se calmamente. Talvez estivesse arrependido da discussão ocorrida devido ao ex-marido. Talvez tivesse compreendido que as diferenças que existiam entre eles fossem importantes para ele, mas não para ela. Por instantes, sentiu vontade de chamá-lo, mas não teve coragem, pois os outros podiam ouvi-la; assim, espicaçou o cavalo e se juntou a eles para mais um dia de trabalho árduo.

            Doze horas mais tarde, a cavalgar mais lentamente e a cair de fadiga nas pesadas selas do Oeste, entraram no terreiro principal e desmontaram, levaram os cavalos para a cavalariça, tiraram as bridas e as selas e guardaram-nas. Nessa tarde, Samantha estava extremamente cansada, passara todo o dia a pensar em Tate e no que ele dissera na noite anterior. O olhar era vago e distraído quando saudou os outros, e parecia tensa ao transpor a porta principal da casa de Caroline.

            — Pareces estourada, Sam. Sentes-te bem, querida? — Caroline olhou-a com um ar preocupado, na esperança de que o aparente cansaço se devesse apenas ao trabalho árduo. Pressentia, no entanto, que se tratava de algo mais sério do que isso. Todavia, não iria preocupá-la ainda mais. Não lhe disse nada, insistiu apenas para que fosse tomar um banho quente antes de jantar, enquanto ela preparava bifes, sopa e salada. Quando Sam voltou, de calças de brim lavadas e uma camisa de flanela axadrezada, parecia, mais do que nunca, uma cow-girl bem arranjada, como Caroline comentou com um sorriso.

            O jantar nessa noite não foi muito alegre; só ao fim daquilo que lhe pareceu uma eternidade, Sam conseguiu escapulir-se pela janela, passar pelo jardim, atravessar o pomar e chegar ao pequeno alojamento.

            Verificou, com uma certeza terrível, que ele devia estar ainda mais aborrecido do que imaginara. Não havia luz, embora fosse muito cedo para ele já estar a dormir. Ou estava a fingir ou encontrava-se no salão principal com os outros, o que não era habitual, mas muito eficaz se tentava evitá-la. Para se certificar, bateu à porta, mas não obteve resposta. Rodou a maçaneta, como sempre fizera, e entrou. Não avistou a familiar desordem dos pertences de Tate a que já se acostumara. O que os seus olhos encontraram foi um vazio poeirento e árido que a deixou abismada, e o som de espanto que fez ecoou nas paredes vazias. O que fizera ele? Teria trocado de casa outra vez para evitá-la? Sentiu uma onda de pânico invadi-la quando percebeu que não fazia idéia do local onde ele se encontrava. Com o coração a bater mais forte, enquanto tentava recompor-se à entrada da porta, concluiu que ele não poderia ter ido muito longe. Sam sabia que algures no rancho, ainda havia duas ou três cabanas vazias e era óbvio que Tate passara o dia a mudar tudo para evitá-la. Se a situação não fosse tão angustiante, constituindo aquele fato um sinal da fúria que a discussão da noite anterior provocara em Tate, ela sentir-se-ia divertida.

            Porém, ao voltar para casa, no escuro, o seu estado de espírito era tudo menos divertido.

            Dormiu mal nessa noite, agitada, às voltas na cama, não conseguindo compreender o que o teria levado a fazer uma coisa tão radical como trocar de alojamento; às três e meia levantou-se, incapaz de suportar aquela situação. Andou mais de meia hora pelo quarto, tomou ducha e, mesmo assim, aprontou-se extremamente cedo. Ainda tinha mais meia hora para passar, de xícara na mão, na cozinha de Caroline, antes de poder ir comer para o salão principal. Nessa manhã queria mesmo estar lá. Se pudesse falar com ele, nem que fosse por instantes, queria perguntar-lhe por que motivo trocara de alojamento, fazendo-lhe notar que estava a agir como uma criança impulsiva.

            Quando estava na fila à espera do bacon com ovos e do terceiro café, ouviu dois homens a conversar e voltou-se para Josh com uma expressão de horror e um olhar confundido de espanto.

            — O que é que eles acabaram de dizer?

            — Estavam a falar do Tate.

            — Eu sei. O que é que disseram? — O rosto ficou lívido. Não podia ter ouvido bem.

            — Dizem que é pena.

            — O que é que é pena? — Sam tentou desesperadamente não gritar.

            — Que ele se tenha ido embora ontem. — Josh esboçou um sorriso prazenteiro e avançou na fila.

            — Para onde? — O coração de Sam começou a bater tão alto nos ouvidos que mal conseguia ouvir as respostas.

            — Ninguém parece saber — respondeu Josh, após um ligeiro encolher de ombros. — Mas o filho que está no Bar Three deve saber.

            — Que diabo queres dizer? — Sam estava praticamente a gritar.

            — Por amor de Deus, Sam, tem calma. O Tate Jordan despediu-se.

            — Quando? — Pensou que ia desmaiar.

            — Ontem. Foi por isso que ele ficou por aqui, para falar com o Bill King. Para te dizer a verdade, informou-me disso, ontem de manhã, quando me pediu para substituí-lo. Disse-me que queria fazê-lo já há muito tempo, que era altura para sair. — Encolheu os ombros. — É mesmo pena. Ter-se-ia saído bem no lugar do Bill King.

            — E foi-se embora sem mais nem menos? Sem pré-aviso de duas semanas, sem arranjar uma pessoa para o lugar dele? — As lágrimas já lhe ardiam nos olhos.

            — É verdade, Sam. Isto não é Wall Street. Quando um homem quer sair, sai. Comprou um carro ontem de manhã, carregou-o com as coisas dele e partiu.

            — Para sempre? — As palavras saíram-lhe a custo.

            — Claro. Não tem sentido voltar. Nunca é a mesma coisa se se volta. Uma vez fiz isso. Foi um erro. Se ele era infeliz aqui, fez o que devia. — "Oh? Fez mesmo? Que bom ouvir-te." Josh olhou para ela com mais atenção.

            — Sentes-te bem, Sam?

            — Sinto. Claro. — No entanto, estava com um aspecto horrível, extremamente pálida. — Não tenho dormido bem ultimamente. — Devia conter as lágrimas... Devia... devia... Além disso, não havia razão para entrar em pânico. Bill King saberia onde ele se encontrava... e, se não soubesse, o filho saberia. Iria vê-lo pessoalmente. Não deixaria escapar aquele homem por entre os dedos. Nunca. E, depois de encontrá-lo, ele nunca mais se atreveria a proceder outra vez daquela maneira.

            — Sabes... — Josh continuava a olhar para ela fixamente. — Ontem também estavas com um aspecto péssimo. Achas que estás engripada?

            — Acho. — Tentou não parecer afetada pelo que ele lhe contara de Tate Jordan. — Talvez.

            — Então, porque é que não voltas para casa e te metes na cama?

            Começou por resistir-lhe, mas depois percebeu que não se encontrava em condições de cavalgar nas doze horas seguintes, louca como estava de ansiedade de saber para onde Tate teria ido. Assim, assentiu vagamente com a cabeça, agradeceu a sugestão e abandonou o salão. Dirigiu-se em passo rápido, até casa, entrou pela porta principal e aí permaneceu enquanto soluços incontroláveis a dilaceravam. Caiu de joelhos ao lado de um sofá e baixou a cabeça, desesperada. Sentia que não iria conseguir sobreviver àquela segunda perda da sua vida. Sobretudo agora, que descobrira um homem como Tate. Agonizante e soluçando incontrolavelmente sobre o sofá, percebeu que Caroline estava a seu lado, a tocar-lhe afavelmente no ombro e a alisar-lhe os cabelos louros emaranhados. Após alguns momentos, Samantha levantou a cabeça, o rosto vermelho e inchado, os olhos assustados, e fitou os da amiga em busca de mais novidades; Caroline limitou-se a acenar com a cabeça, e a dizer-lhe palavras ternas.

            Tomou-a nos braços e, carinhosamente, fê-la sentar-se no sofá.

            Só ao fim de uma boa meia hora é que Sam foi capaz de falar. Caroline não disse nada. Limitou-se a ficar ali, sentada, a passar-lhe a mão pelas costas. Não havia nada que pudesse dizer. Cortava-lhe o coração perceber que Sam viera para o rancho para recuperar de uma perda importante e que agora sofrera outra. Sabia da relação entre Sam e Tate. Sofrera no dia anterior quando Bill lhe contara que Tate Jordan abandonara o rancho. Mas era demasiado tarde para impedi-lo ou para discutir o assunto. Já tinha partido quando Bill contara a Caroline, no final da tarde, e a única coisa em que pensara fora na forma como Samantha receberia a notícia.

            Caroline não ousara contar-lhe na noite anterior. Tivera a esperança de que haveria tempo para lhe dar a novidade.

            Samantha olhou-a então, o rosto manchado, os olhos horrivelmente raiados de sangue e inchados, não existindo qualquer dissimulação no seu olhar.

            — Ele foi-se embora. Oh, meu Deus, Caro, foi-se embora. E eu o amo... — Não conseguiu continuar, e Caroline fez um lento gesto de compreensão com a cabeça. Compreendia demasiado bem. Tentara dizer-lhe que as coisas no rancho eram diferentes, que havia coisas que seriam importantes para ele e para ela não.

            — Que aconteceu Sam?

            — Oh, meu Deus, não sei. Apaixonamo-nos no Natal — De repente, olhou em redor, nervosa, temendo que alguma das empregadas mexicanas estivesse presente, mas não havia ninguém à vista. — Fomos para... — Olhou para Caroline com embaraço. — Descobrimos a tua cabana e, ao princípio, era lá que nos encontrávamos, mas não muitas vezes. Não andamos a bisbilhotar, juro-te...

            — Tudo bem, Sam. — A voz de Caroline era extremamente calma.

            — Só queríamos um sítio onde pudéssemos estar sozinhos.

            — Também nós — afirmava Caroline num tom tristonho.

            — E depois ele trocou de casa com alguém e eu ia ter com ele todas as noites... pelo pomar... — O discurso era desarticulado, o rosto lavado em lágrimas. — E depois... na outra noite... Ele... estávamos vendo televisão e o John apareceu numa transmissão especial e, ao princípio, estávamos a brincar, e ele quis saber... se eu achava o John atraente, uma coisa dessas... E eu contei-lhe, naturalmente, que tínhamos sido casados... e o Tate ficou louco. Não entendo. — Soltou um soluço horrível e continuou: — Ficou completamente desvairado, a dizer que eu não podia ser casada com uma estrela da televisão numa altura e... e a seguir andar com um cow-boy... Que nunca seria feliz, que eu merecia melhor, que... — Não conseguiu prosseguir, subjugada pelas lágrimas. — Oh, meu Deus, e agora foi embora. O que é que eu faço? Como é que vou encontrá-lo? — O pânico percorreu-a novamente, como o fizera durante toda a manhã. — Sabes para onde foi? Caroline abanou a cabeça com um ar triste.

            — E o Bill, sabe?

            — Não sei. Vou chamá-lo ao escritório e perguntar-lhe. — Deixou Sam e dirigiu-se para o telefone que se encontrava em cima da secretária. Sam ouviu a conversa toda em agonia e, no final, ficou claro que Bill não sabia de nada e também lamentava que Tate tivesse partido. Contara que ele o substituísse um dia, quando Bill já estivesse demasiado velho para dirigir o rancho. Agora, porém, isso nunca iria acontecer. Sabia que Tate partira de vez.

            — O que é que ele disse? — Samantha olhou-a com um ar soturno, quando Caroline voltou e se sentou.

            — Nada de especial. Que o Tate disse que entraria em contacto conosco um dia destes, mas o Bill diz que não conta com isso. Sabe como são estes homens. Não deixou nenhuma morada.

            — Então tenho de encontrar o filho no Bar Three. — Disse-o quase desesperada, e Caroline abanou a cabeça. — Não, Sam. O rapaz despediu-se e foi com ele. Isso, o Bill sabia. Carregaram o carro juntos e depois partiram.

            — Oh, meu Deus. — Samantha deixou cair a cabeça entre as mãos e recomeçou a soluçar, baixinho desta vez, como se o coração já estivesse despedaçado e nada mais restasse. — O que posso eu fazer por ti, Sam? — Havia lágrimas nos olhos de Caroline. Sabia que podia ter-lhe acontecido o mesmo anos atrás, e a conversa que Sam relatara parecia exatamente a discussão que ela e Bill haviam mantido durante anos. A situação resolvera-se de modo diferente, mas Bill era bastante menos teimoso que Tate. Também um pouco menos nobre, fato pelo qual Caroline estava profundamente agradecida. E agora ali estava, sentada, impotente, a observar a agonia da jovem amiga.

            Sam olhou então para ela em resposta à pergunta.

            — Ajuda-me a encontrá-lo. Por favor. Oh, se conseguisses fazer isso...

            — Como?

            Sam recostou-se no sofá e fungou, enquanto pensava. — Irá para um rancho algures. Não quererá outro tipo de trabalho. Como é que posso arranjar uma lista dos ranchos?

            — Posso dizer-te todos os que existem nesta região, os homens podem dizer-te outros. Não, deixa-me perguntar-lhes, arranjamos uma desculpa, um motivo. Sam... — Os olhos de Caroline iluminaram-se. — Vais encontrá-lo, Sam!

            — Espero que sim. — Sorriu, pela primeira vez ao fim de várias horas. — Não vou parar até o encontrar.

 

            Em meados de abril, já Sam contatara sessenta e três ranchos. No início, fizera telefonemas para os da região, depois para os mais a norte, alguns mais a sul, mais tarde começou a telefonar para outros estados. Arizona, Novo México, Nevada, Texas, Arkansas; chegou a ligar para Nebraska, para um rancho que um dos homens sugerira. Este falara com Tate acerca do sítio e ele dissera-lhe que a comida e o ordenado eram bastante bons.

            Porém, ninguém vira Tate Jordan. Sam deixou o nome, a morada, o número de telefone de Caroline e pediu-lhes que lhe ligassem se Tate aparecesse.

            Usou o nome de Caroline Lord em todo o lado, o que ajudou. As duas estavam continuamente absortas na lista telefônica, nos anúncios classificados, fazendo listas de anúncios e de nomes que haviam obtido dos trabalhadores. Há muito que pedira ao escritório uma prorrogação do prazo e lhes prometera uma resposta definitiva até ao dia um de maio. Se ela não voltasse para Nova Iorque, eles seriam informados até essa data.

            Entretanto, o lugar pertencia-lhe. No entanto, Sam não queria saber do lugar para nada, só Tate Jordan lhe interessava e ele não se encontrava em lado nenhum. Era como se, um mês antes, tivesse desaparecido da face da Terra para não mais voltar. Sam sabia que ele tinha de se encontrar algures, mas a questão era: onde? Começava a tornar-se uma obsessão. Já não saía a cavalo com os homens, sem se importar que isso levantasse rumores e confirmasse suspeitas. Não mais cavalgou com eles, desde o dia em que Tate partiu.

            Certa vez, foi à cabana sozinha, mas não agüentou; regressou de imediato a casa, montada no Black Beauty, o rosto lavado em lágrimas. Já raramente montava o grande Puro-Sangue preto, nem mesmo quando Caroline a encorajava a fazê-lo. A única coisa que queria era ficar em casa fazendo telefonemas, vendo listas de ranchos, mapas, escrevendo cartas e tentando adivinhar onde é que Tate se encontrava. Até ao momento, tudo fora em vão, e Caroline começava a achar que talvez devessem desistir. A verdade é que era um país enorme com inúmeros ranchos. Havia sempre a possibilidade de ele ter optado por um tipo de trabalho completamente diferente ou de não estar usando o seu nome verdadeiro. Demasiado familiarizada com a realidade dos ajudantes temporários que trabalhavam no rancho, tentava não dar muitas esperanças a Sam. Era muito possível que um dia aparecesse num lugar qualquer, mas também era provável que nunca mais fosse visto ou se ouvisse falar dele. Até era possível que tivesse deixado o país, ido para o Canadá ou para o México, ou até para um dos grandes ranchos na Argentina. Era freqüente os rancheiros deixarem os homens como Tate trabalhar sem documentos, ou com documentos falsos, só para os terem nos ranchos.

            Tal como era exigido aos capatazes, Tate tinha uma longa lista de boas credenciais; era um homem de confiança, trabalhador, com grandes conhecimentos para oferecer a qualquer rancho.

            Qualquer rancheiro com dois dedos de testa reconheceria isso. A questão era: que rancheiro e que rancho.

            Nos finais de abril, ainda não havia qualquer pista e Sam tinha três dias para telefonar para o escritório e dizer em que pé estavam as coisas. Um mês antes, dissera-lhes que Caroline se encontrava doente e que lhe era difícil abandoná-la nessa altura. Foram compreensivos ao principio, mas agora Charlie telefonava constantemente. A paródia acabara. Harvey queria-a de volta. De repente, tinham começado a ter grandes problemas com o cliente dos automóveis e, se ela tinha de voltar, Harvey queria que fosse naquele exato momento.

            Não podia censurá-lo, mas também não podia informá-los de que se encontrava pior do que quando deixara Nova Iorque. Mais do que nunca, agora que Tate partira, sabia quanto o amava e o respeito que nutria pelo seu modo de ser e de vida. Sentia uma dor profunda quando via Bill e Caro; para Caroline, era angustiante compartilhar a dor de Samantha.

            — Sam... — Ao olhar para a jovem amiga no pequeno-almoço, no último dia de abril, Caroline suspirou profundamente e decidiu dizer-lhe o que pensava.. — Acho que deves voltar.

            — Para onde? — Consultava novamente uma das listas de ranchos e imaginou que Caroline se referia a algum que devessem tentar de novo. Mas Caroline apressou-se a abanar a cabeça.

            — Estou falando de Nova Iorque.

            — Agora? — Sam pareceu chocada. — Mas não o encontrei.

            Caroline cerrou os dentes, refletindo no que queria dizer a seguir, por muito que lhe custasse magoar Sam.

            — Não sabes se voltarás a encontrá-lo.

            — Não podias ter dito coisa mais horrível. — Fixou-a com um ar zangado e afastou o café. Estava irascível e nervosa desde que o pesadelo começara.

            Não dormia, não comia, já não apanhava ar fresco. A única coisa que a ocupava agora era a busca incessante do homem que amava. Fora de carro a alguns dos ranchos e chegara a ir de avião a um outro.

            — Mas é verdade, Sam. Agora tens de enfrentar a realidade. Podes nunca mais o encontrar. Espero, do fundo do coração, que tal não aconteça, mas não podes passar o resto da vida à procura de um homem que quer estar sozinho. Porque, se o encontrares, não sabes se conseguirás convencê-lo de que tu tens razão e ele não. Ele acha que vocês são muito diferentes. Talvez tenha razão. E, mesmo que não tenha, se é isso que ele quer, não podes forçá-lo a mudar de idéias.

            — Isto vem a propósito de quê? Estiveste a falar com o Bill sobre este assunto?

            — Não mais do que aquilo a que sou obrigada. — Sam tinha conhecimento de que ele desaprovava a sua incansável busca de Tate. Chamava-lhe uma "estúpida caçada ao homem" e achava que Sam fazia mal em continuar. "O homem disse-lhe o que queria quando saiu daqui, Caro. Não há mais nada a dizer." No entanto, admitira que, se tivesse feito o mesmo, esperava que Caroline tentasse encontrá-lo com a mesma perseverança. — Acho que tens de encarar as probabilidades, Sam. Já passou mês e meio.

            — Talvez demore mais um pouco...

            — Mais um pouco... e mais um pouco... e mais um pouco. E depois? Um dia, verificas que gastaste vinte anos à procura de um homem que mal conhecias.

            — Não digas isso. — Sam parecia exausta quando fechou os olhos. Nunca trabalhara tanto em emprego nenhum como na procura de Tate. — Conhecia-o. Conheço-o. Talvez conhecesse demasiado bem nalgumas coisas, e isso o assustou.

            — Talvez — concordou Caroline. — Mas a questão é que não podes continuar a viver assim. Ficarás destruída.

            — Por quê? Mais nada o conseguiu. — Era fácil perceber o tom amargo na voz. — John e Liz haviam tido a criança no mês anterior, uma menina, e até a haviam mostrado no noticiário da noite, na companhia de Liz que exibia um ar vitorioso na sala de partos. Mas isso também já não importava a Sam. A única coisa que queria era encontrar Tate.

            — Tens de voltar, Sam. — Caroline parecia tão teimosa como a própria Sam.

            — Por quê? Porque o meu lugar não é aqui? — Sam olhou com ar zangado para Caroline, e desta vez Caroline fez um gesto de concordância com a cabeça.

            — Exato. O teu lugar não é aqui. O teu lugar é no teu mundo, na tua secretária, no teu gabinete, no teu apartamento, com as tuas coisas, conhecendo outras pessoas, encontrando com velhos amigos, sendo quem realmente és e não quem fingiste ser durante uns tempos, Sam. — Esticou o braço e tocou-lhe na mão. — Não estou farta de te ter aqui, acredita. Se dependesse de mim, podias ficar para sempre. Mas não é bom para ti, não vês?

            — Não quero saber. Só quero encontrá-lo.

            — Mas ele não quer que o encontres. Se quisesse, dizia-te onde está. Deve estar fazendo o possível para que não consigas dar com ele, Sam, e, se isso for verdade, então perdeste a batalha. Pode esconder-se de ti durante anos.

            — Achas então que devo desistir. É isso?

            Instalou-se um longo silêncio entre ambas, depois Caroline fez um sinal afirmativo, quase imperceptível, com a cabeça — É.

            — Mas só passaram seis semanas. — As lágrimas inundaram-lhe os olhos ao tentar combater a lógica do que Caroline dissera. — Talvez se esperar mais um mês...

            — Se esperares, ficas sem emprego e isso também não será nada bom para ti. Sam, precisas de voltar a ter uma vida normal.

            — O que é normal? — Mal se lembrava. Já passara um ano desde que fora casada e "feliz" com John Taylor, desde que levara uma vida perfeitamente normal numa agência de publicidade em Manhattan, casada com um homem que amava e que, pensava, a amava também. — Normal? — Olhou com horror para Caroline. — Deves estar brincando. Já não sei o que é essa coisa, mesmo que me aparecesse à frente e me mordesse no traseiro! — Caroline riu-se com o humor negro de Sam, mas o olhar dela não vacilou. Por fim, sentou-se na cadeira, soltando um longo suspiro. — Diz-me... o que diabo eu vou fazer em Nova Iorque?

            — Esquecer isto tudo por uns tempos. Irá fazer-te bem. Podes sempre voltar.

            — Estaria fugindo de novo se fosse embora.

            — Não, estarias fazendo uma coisa boa para a tua saúde. Isto aqui não é vida para ti. — Não era, desde que ele se fora embora.

            Sam abanou a cabeça em silêncio, levantou-se da mesa e encaminhou-se, em passo lento, para o quarto. Duas horas mais tarde, ligou para Harvey Maxwell, depois foi até à cavalariça e selou Black Beauty. Há três semanas que não o montava; partiu a todo o galope, arriscando tudo em cada salto, cada arbusto, cada riacho. Se Caroline a tivesse visto, teria receado pela vida do cavalo e da sua jovem amiga. Se Tate a tivesse visto, tê-la-ia morto.

            No entanto, agora estava só, cavalgando o mais depressa que podia, até sentir a exaustão do cavalo. Voltou a meio galope até ao complexo principal e andou com ele, a passo, à volta do curral, durante meia hora.

            Devia isso ao animal. Então, quando viu que ele já arrefecera o suficiente, conduziu-o até à baia, retirou-lhe a sela, olhou-o durante um longo instante, deu-lhe umas palmadas nos flancos uma última vez e murmurou:

            — Adeus, meu velho amigo.

 

            O avião aterrou no Aeroporto Kennedy numa radiosa tarde de primavera, e Samantha olhou para a cidade em baixo com um olhar inexpressivo. Ao desapertar o cinto, só conseguia pensar na última vez que vira Caroline no aeroporto, de pé, alta e orgulhosa, ao lado do capataz, com lágrimas a escorrerem pela face e a dizer adeus. Bill quase não falara, quando ela lhe beijou a face, nas pontas dos pés, no terminal abarrotado de gente.

            Então, de repente, apertou-lhe o braço e resmungou ternamente:

            — Volta para Nova Iorque, Sam, e cuida de ti. — Era o modo de Bill lhe dizer que achava que ela estava a fazer o que devia. Mas estaria mesmo? — interrogou-se Sam ao pegar sua mala e dirigir-se para o corredor.

            Fizera bem em regressar a casa tão cedo? Deveria ter ficado mais tempo?

            Teria Tate aparecido se ela tivesse esperado mais um mês ou dois? Claro que ainda podia aparecer ou telefonar de algum lado. Caroline prometera continuar a indagar nos arredores, comunicando de imediato a Sam se soubesse algo dele. Para além disso, ninguém podia fazer mais nada. A própria Sam sabia disso ao suspirar profundamente e ao entrar no aeroporto.

            A multidão à sua volta era sufocante: o barulho, os corpos, a confusão.

            Após cinco meses num rancho, esquecera como era estar com tantas pessoas, mover-se tão depressa como elas. Sentiu-se totalmente devorada pela pressão das pessoas à sua volta quando foi retirar a bagagem, parecia uma turista na própria cidade, completamente desnorteada. Não havia, naturalmente, um único bagageiro disponível, centenas de pessoas esperavam táxi e, quando, finalmente, conseguiu um, teve de partilhá-lo com duas turistas japonesas e um vendedor de plásticos de Detroit. Quando este lhe perguntou de onde vinha, Sam sentia-se demasiado cansada para responder, mas acabou por murmurar algo acerca da Califórnia.

            — É atriz? — Parecia intrigado, fazendo a dedução pelo cabelo louro e pelo bronzeado que ela exibia. Sam abanou prontamente a cabeça, ao mesmo tempo que olhava, com um ar distraído, pela janela.

            — Não, ajudante de rancho.

            Ajudante de rancho? — Olhou-a fixamente, completamente incrédulo, e Sam voltou-se para ele com um sorriso cansado. — É a primeira vez que vem a uma cidade grande? Parecia esperançado, mas ela abanou a cabeça e fez o que pôde para que a conversa ficasse por ali. As duas turistas japonesas conversavam animadamente na própria língua e o motorista só dizia palavrões, enquanto voava por entre filas de trânsito. Era uma reentrada apropriada na sua cidade; ao atravessarem a ponte de Queens para Manhattan, olhou para o horizonte e, de súbito, teve vontade de chorar.

            Não queria ver o Empire State Building, nem o edifício das Nações Unidas, nem todos os outros edifícios. Queria era ver a casa de Caroline, a cavalariça, as belas árvores de pau-brasil e a vastidão de céu azul.

            — Bonito, não é? — O vendedor de plásticos de Detroit, a suar, aproximou-se, e Sam limitou-se a abanar a cabeça e a chegar-se mais para a porta.

            — Não, nem por isso. Depois do que vi ultimamente, nem por isso. — Olhou-o com ar zangado, como se o seu regresso a Nova Iorque fosse todo culpa dele. O homem passou então a olhar para uma das raparigas japonesas, mas ela só se riu e continuou a conversa com a amiga em japonês.

            Misericordiosamente, Sam foi a primeira a sair e, durante um longo instante, ficou parada no passeio, de olhos fixos na casa, com medo de entrar, arrependida de ter voltado e a desejar Tate ainda com mais ardor do que nunca. Que diabo estava ela a fazer ali naquela cidade estranha, completamente só, rodeada por todas aquelas pessoas, a regressar ao apartamento onde vivera com John? Só queria voltar para a Califórnia, encontrar Tate, viver e trabalhar no rancho. Porque razão não podia ter essa vida? Seria pedir muito?, interrogou-se, enquanto abria a porta e subia as escadas a custo com as malas na mão. Nunca as doze horas passadas em cima da sela a haviam cansado tanto como as cinco horas de viagem de avião, duas refeições, um filme e o choque emocional de voltar para Nova Iorque. Resmungando por causa do peso das malas, deixou-as cair no patamar, ao lado da porta, procurou a chave, enfiou-a na fechadura e empurrou a porta para trás com força. Ao entrar, a casa cheirava como o interior de um aspirador. Estava tudo como ela deixara, com um ar desabitado e desleixado e apesar disso diferente, como se, com a sua ausência, toda a mobília se tivesse sutilmente alterado, encolhido, crescido ou mudado ligeiramente de cor.

            Nada parecia exatamente como era antes. No entanto, estava tudo tal e qual como quando ela e John lá viviam. Agora se sentia uma intrusa, um fantasma, a voltar a um local do passado.

            — Olá? — A palavra saiu-lhe sem saber porquê, mas, como ninguém respondeu, fechou a porta, sentou-se numa cadeira e soltou um longo suspiro. Então, enquanto olhava em volta, os soluços tomaram conta dela, os ombros tremeram e deixou cair o rosto entre as mãos.

            Vinte minutos mais tarde, o telefone tocou com insistência; fungou, assoou-se a um lenço e atendeu, sem saber muito bem porque o fazia.

            Depois de todo aquele tempo, era óbvio que era engano, a não ser que fosse Harvey ou Charlie. Eram as únicas pessoas em Nova Iorque que sabiam que ela ia voltar.

            — Sim?

            — Sam?

            — Não. — Esboçou um meio sorriso por entre as lágrimas. — É um ladrão.

            — Os ladrões não choram, palerma. — Era Charlie.

            — Claro que choram. Aqui não há nenhuma televisão a cores para roubar.

            — Vem a nossa casa que te dou a minha.

            — Não quero. — Então, lentamente, as lágrimas recomeçaram a cair, fungou e fechou os olhos para tentar ganhar fôlego. — Desculpa, Charlie. Acho que não estou muito contente por ter voltado para casa.

            — É o que parece. Por que razão voltaste? — Parecia sincero ao fazer a pergunta.

            — Estás doido? Tu e o Harvey têm ameaçado matar-me e mutilar-me nas últimas seis semanas, e queres saber porque é que estou aqui?

            — Está bem, então vem ajudar-nos com aquele cliente maluco e depois volta. Para sempre, se é isso que queres. — Charlie via a vida sempre de uma forma muito prática.

            — Não é assim tão simples.

            — Porque não? Olha, Sam, a vida é muito curta e pode ser muito doce, se deixares. Já és crescidinha, agora és livre, podes viver onde quiseres. Se o que queres é andar às voltas com uma manada de cavalos o resto da vida, então não olhes para trás.

            — Tão simples como isso, há?

            — Claro. Porque não? Vou dizer-te uma coisa: porque é que não experimentas ficar por cá uns tempos, como turista, vês como te sentes ao fim de uns meses, e se não fores feliz... que diabo, Sam, podes sempre ir embora.

            — Fazes com que tudo pareça tão fácil...

            — E é assim que deve ser. De qualquer maneira, minha bonita senhora, seja bem-vinda. Mesmo que não queiras estar aqui, estamos felicíssimos por estares conosco.

            — Obrigada, amor. Como está a Mellie?

            — Gorda, mas bonita. O bebê só nasce daqui a dois meses e sei que é uma menina.

            — Claro, Charlie, claro. Não me disseste isso já pelo menos duas vezes? — Sorriu e limpou as lágrimas da cara. Pelo menos, era bom estar de volta à mesma cidade que ele. — A verdade, Mister Peterson, é que o senhor só sabe fazer garotos. É por causa de todos aqueles jogos de basquete que freqüentas. Deve haver algo no ar que te vai para os genes.

            — Está bem, pode ser que no futuro precise ir a bares de strip-tease. Faz sentido... — Riram à gargalhada, enquanto Sam passeava o olhar pelo deprimente apartamento.

            — Pensei que tivesses vindo regar as plantas, Charlie. — A voz era mais de riso do que de censura, os olhos fixos nas plantas ressequidas.

            — Cinco meses? Deves estar brincando. Compro-te outras.

            — Não te incomodes. Gosto de ti na mesma. A propósito, como é que estão as coisas no escritório?

            — Más.

            — Muito más ou mais ou menos más?

            — Terrivelmente más. Mais dois dias e teria tido uma úlcera ou morto o Harvey. Aquele filho da mãe... há semanas que me anda a pôr maluco. O cliente não gostou de um único dos quadros que lhe mostramos; acha que tem tudo um ar demasiado efeminado, maricas e limpo.

            — Não aproveitaram o tema do cavalo?

            — Claro, vimos todas as modelos apaixonadas por cavalos que existem deste lado do Mississipi, fizemos audições a todas as mulheres jockey, todas as treinadoras, todas...

            — Não, não, Charlie, por amor de Deus. Se for isso que estás fazendo, ele tem razão. Estou falando de cavalos. Cow-boys. Estás vendo, bem machistas, o pôr do Sol, cavalgar ao pôr do Sol num belo garanhão... — Ao dizê-lo, o espírito de Sam voou instantaneamente para Black Beauty e, claro, para Tate, — É isso que precisas para esses carros. Não estás a vender o carro da mulherzinha, estás a vender um carro esportivo de baixo preço e eles querem dar a idéia de poder e de velocidade.

            — E achas que uma corrida de cavalos não consegue dar essa idéia?

            — Claro que não. — Sam pareceu inflexível e, do outro lado do telefone, Charlie riu-se.

            — Acho que é por isso que este é o teu anúncio querido, como um filho teu.

            — Amanhã, dou uma olhadela àquilo que tens.

            — Até amanhã, garota.

            — Dá beijinhos meus à Mellie, Charlie, e obrigada por telefonares. — Desligou, olhou em volta mais uma vez e soltou um suspiro, ao mesmo tempo que murmurava para si própria:

            — Oh, Tate... porquê?

            Retirou peça a peça da mala, limpou o pó das coisas, arrumou-as e olhou em redor, tentando convencer-se de que aquela era a sua casa. Às dez horas, foi para a cama com um bloco e alguns memorandos de Harvey. Queria dar um avanço àquilo que tinha de fazer na manhã seguinte. Já passava da meia-noite quando largou o bloco, apagou a luz e tentou dormir. Acabou por ficar mais duas horas acordada, a pensar no rancho e esperando ouvir os sons familiares, que nunca apareceram.

 

            Na manhã seguinte, Samantha sentiu o seu regresso ao escritório como uma estranha viagem de retrocesso no tempo até um local totalmente desconhecido; de repente, a secretária, o gabinete e os colegas pareciam fazer parte de outra vida. Mal conseguia imaginar a época em que ali passara dez horas por dia, quando os trabalhos da Crane, Harper & Laub a preocupavam constantemente. Agora, os problemas com que eles se debatiam pareciam tão infantis, os clientes de que falavam, tão burros e tirânicos, os conceitos, as apresentações e as idéias assemelhando-se a brincadeiras de crianças. Não conseguia ficar verdadeiramente assustada com a eventualidade de poderem perder um cliente, nem preocupada com o fato de alguém poder se zangar ou a reunião poder correr mal. Durante toda a manhã, limitou-se a ouvir, com ar sério; quando a reunião terminou, ficou com a sensação de ter perdido o seu tempo. Só Harvey Maxwell, o diretor criativo, parecia adivinhar vagamente os sentimentos de Sam, e lançou-lhe um olhar penetrante, depois de todos terem saído da sala de conferências, no vigésimo quarto andar.

            — Então, Sam, qual é a sensação? — Fitou-a, de sobrolho franzido, o cachimbo na mão.

            — Estranha. — Sempre se esforçara por ser franca com ele.

            — É de esperar. Estiveste ausente muito tempo. — Sam anuiu com a cabeça.

            — Talvez mais do que devesse. — Levantou os olhos para ele e fixou-o. — É difícil voltar depois de tanto tempo. Tenho a sensação... — Hesitou, mas depois se decidiu. — Tenho a sensação de ter deixado lá grande parte de mim. — Harvey suspirou, fez um gesto de concordância com a cabeça e tentou reacender o cachimbo.

            — Também sinto isso. Alguma razão especial? — Os seus olhos procuraram os dela. — Alguma coisa que eu deva saber? Te apaixonaste por um cow-boy, Sam, e pensas voltar? — Estava a perguntar-lhe mais do que aquilo que ela queria dizer-lhe, como tal, Sam limitou-se a abanar a cabeça.

            — Nem por isso.

            — Não gosto muito da tua resposta, Sam — pousou o cachimbo. — É um pouco vaga.

            Sam retorquiu num tom calmo. — Voltei. Pediste-me e eu voltei. Talvez seja tudo o que ambos precisamos de saber, por agora. Deixaste-me ir embora numa altura em que eu precisava desesperadamente, muito mais do que me apercebi na altura. Agora precisas de mim, por isso aqui estou. Estarei aqui o tempo que precisares. Não vou fugir, Harvey. Prometo. — Sam sorriu, mas Harvey Maxwell não.

            — Mas achas que podes voltar, Sam?

            — Talvez. Não sei o que vai acontecer. — Então, com um pequeno suspiro, Sam juntou as suas coisas. — Porque não nos preocupamos agora só com o nosso cliente? O que achas dos meus temas com ranchos para os anúncios, um cow-boy a cavalgar na penumbra ou ao nascer do Sol, com uma manada atrás de si... um homem montado num cavalo esplêndido, a emergir da paisagem, perfeitamente enquadrado com tudo o que o rodeia...

            — Pára! — Harvey levantou uma mão e riu-se. — Ainda me fazes comprar o carro. Eu gosto. Faz alguns quadros com o Charlie e vamos ver se conseguimos levar isto para frente.

            Os quadros que Sam e Charlie fizeram nas três semanas seguintes foram os melhores que qualquer um deles apresentara alguma vez. O que tinham nas mãos não era apenas uma série de anúncios de grande impacto, mas mais outra campanha adjudicada. Quando Sam se recostou na cadeira, após a primeira reunião com o cliente, estava feliz e orgulhosa.

            — Bem, garota, conseguiste. — Charlie abraçou-a enquanto esperavam que Harvey se lhes juntasse. Ele acompanhara o cliente até ao elevador, ao mesmo tempo que Charlie e Sam conversavam. — Eles adoraram!

            — Só podiam! O teu trabalho artístico foi estupendo, Charlie.

            — O prazer foi todo meu. — Charlie riu-se e afagou a barba; pouco depois, Harvey veio fazer-lhes companhia, desta vez irradiando alegria e acenando para a exposição de quadros à volta da sala. Haviam apresentado quatro anúncios, à espera que o cliente aceitasse um ou dois. Aceitou os quatro.

            — Bem, garotos, fizemos uma apresentação com sucesso não, — Harvey não conseguia parar de sorrir e Samantha retribuiu o sorriso. Era uma das primeiras vezes que parecia feliz desde que voltara.

            — Quando é que começamos?

            — Querem começar a produção imediatamente. Quando podes dar início, Sam? Tens algum local em vista? Meu Deus, deves conhecer ranchos suficientes para pores as coisas a andar. E aquele onde viveste nos últimos seis meses?

            — Eu telefono. Mas precisas de mais três. Acho... — Refletiu no assunto, enquanto mordia o lápis. — Acho que vamos precisar de locais completamente diferentes. Cada rancho deve ser diferente, especial, sem nada a ver com os outros. Não queremos repetições.

            — O que estás a sugerir?

            — O Noroeste, o Sudoeste, o Centro-Oeste, a Califórnia, talvez até o Havai... a Argentina?

            — Oh, meu Deus. Eu sabia. Bem, faz lá os cálculos e acrescenta isso ao orçamento. Ainda temos de obter a aprovação deles, mas acho que não vamos ter nenhum problema. E faz-me um favor: começa a procurar locais. É capaz de levar algum tempo. Telefona à tua amiga do rancho. Pelo menos, já temos um. Se tiver de ser, podemos começar lá.

            Sam fez um sinal de concordância com a cabeça. Sabia que aquelas filmagens, como muitas outras, iriam ser da sua total responsabilidade.

            Agora que regressara, Harvey já estava, de novo, falando em se reformar; sabia que ele iria deixar todo o trabalho de exteriores para ela.

            — Sou capaz de ter de voar até lá, na próxima semana, para ver alguns locais. Achas bem?

            — Acho ótimo. — Harvey deixou-os, ainda com um sorriso radioso no rosto; Samantha e Charlie regressaram aos seus gabinetes, ela para o seu, pintado de branco, com secretária de cromo e vidro, sofá e cadeiras em pele bege, e litografias condizentes nos mesmos tons de branco e bege. O gabinete de Charlie parecia mais um sótão de artista, atravancado, colorido, engraçado, com caixas de formatos esquisitos, plantas enormes e símbolos divertidos. Tinha todo o ar de gabinete de diretor artístico: uma parede era branca, outra amarela, duas azul-escuras, e o tapete no chão era castanho escuro. Claro que fora ele a escolher a decoração. A de Sam fazia parte do esquema geral de todos os gabinetes da Companhia, todos decorados em tons suaves de areia, texturas frias de linhas modernas, sem muita alma. Porém, era repousante trabalhar ali. Quando se encontrava a trabalhar, nunca reparava na decoração e, quando recebia clientes, geralmente reunia-se com eles numa das salas de conferências ou ia almoçar com eles no The Four Seasons.

            Ao olhar para o relógio, Sam deu-se conta de que não era boa altura para telefonar a Caroline pedindo autorização para filmar no rancho. Na Califórnia, ao meio-dia, Caroline estaria nas colinas com Bill e os outros homens. Pegou na lista que estivera a ver de manhã e começou a dar telefonemas. Sabia muito bem que não bastava pegar no telefone e ligar para ranchos onde não conhecia ninguém. Teria de voar até lá, depois dar umas voltas, apresentar-lhes pessoalmente os seus planos e pedir-lhes autorização para filmar um anúncio, no rancho. Normalmente, levava semanas para encontrar locais, mas ia fazer as coisas como devia ser, tendo em mão os melhores anúncios que jamais produzira. Ia fazê-lo tanto pelo cliente como por ela própria. Era muito importante para ela que tudo saísse na perfeição, que o anúncio fosse algo especial, importante, impressionante e eficaz... e talvez até encontrasse Tate. Essa hipótese não lhe escapara. O tema do cow-boy a cavalo era excelente para o produto, mas também podia acontecer que, enquanto andasse a viajar à procura de locais, enquanto andasse nas filmagens, alguém de um dos ranchos soubesse de Tate. A idéia de encontrá-lo era um objetivo que nunca esqueceria, e agora, ao telefonar para o departamento de viagens a pedir que lhe reservassem lugar nos vôos para Phoenix, Albuquerque, Omaha e Denver, todos para a semana seguinte, sentia que as hipóteses eram maiores do que nunca.

            — À procura de um local de filmagem? — indagou a voz.

            — Sim. — Sam já estava profundamente absorvida nas notas em cima da secretária. Tinha uma lista de locais que queria ver, a maior parte dos quais concentrada naquelas quatro regiões, e depois, claro, havia o rancho da tia Caro. — Parece divertido.

            — Penso que irá ser. — E os olhos de Sam começaram a dançar.

 

            Às seis horas dessa tarde, no Rancho Lord, o telefone tocou. Sam, de robe, sentada no seu apartamento, olhava mais uma vez para a decoração triste. Enquanto esperava que o telefone fosse atendido, decidiu que teria de dar uns retoques no aspecto do rancho, se lá ficasse.

            — Alô? — Era Caroline, e Sam esboçou imediatamente um sorriso.

            — Que bom ouvir a tua voz!

            — Sam? — Caroline sorriu também. — Estás bem? — Estou ótima. Só que estou trabalhando num projeto louco, e além de desejar saber como estão todos, queria pedir-te um favor, mas tens de dizer não, se for esse o teu desejo.

            — Primeiro, diz-me como estás e qual é a sensação de teres voltado. — Samantha notou que Caroline parecia cansada, mas atribuía isso a um longo dia de trabalho; contou o seu regresso com todos os pormenores: o aspecto triste do apartamento, o que sentiu ao voltar ao escritório; a voz tomou então um tom vivo de excitação quando explicou os anúncios e a busca que ia encetar noutros ranchos na semana seguinte.

            — E sabes o que isso significa, não sabes? — A voz de Sam quase que voava. — Significa que talvez, só talvez, se tiver sorte consiga encontrar o Tate. — Mal conseguia falar. — Diabos, vou andar por todo o país. — Por instantes, Caroline não disse nada.

            — É por isso que estás a realizar esse projeto, Sam? — Caroline parecia triste. Queria que Sam esquecesse Tate. Acabaria por ser melhor para ela.

            — Não, não é. — Sam recuou um pouco. Sentira a consternação na voz da mulher mais velha. — Mas é por isso que estou tão excitada. É uma grande oportunidade para mim.

            — Profissionalmente, diria que sim. Pode ser muito importante para ti, se os anúncios saírem tão bem como pensas. — Estou contando que sim, o que é uma das razões por que telefonei. Tia Caro, o que achas de filmarmos no teu rancho? — Era uma pergunta franca, mas do outro lado houve um silêncio.

            — Em condições normais, Sam, teria adorado. Se não fosse por outra razão, arranjaríamos um pretexto para te ver. Mas acho que agora está fora de questão. — A voz mostrava-se embargada ao falar e Sam franziu o sobrolho.

            — Passa-se alguma coisa, tia Caro?

            — Sim... — Um pequeno soluço fê-la estremecer, mas recompôs-se de imediato. — Bem, na verdade, eu estou bem. O Bill teve um ligeiro ataque cardíaco na semana passada. Nada de muito grave. Já voltou do hospital e o médico diz que não é nada para nos alarmarmos, mas... — De repente, uma nova vaga de soluços fê-la estremecer. — Oh, Sam, pensei que se acontecesse alguma coisa... não sei o que faria. Não conseguiria viver sem ele. — Era a primeira vez que encaravam a questão e Caroline estava aterrorizada com a idéia de poder perdê-lo. — Não conseguiria agüentar se acontecesse alguma coisa ao Bill. — E soluçou.

            — Meu Deus, porque é que não me telefonaste? — Samantha estava perplexa.

            — Não sei, aconteceu tudo tão depressa. Fiquei com ele no hospital e tenho andado atarefadíssima desde que voltou para casa. Só esteve lá uma semana, o médico diz que não é nada... — Caroline, com a ansiedade, repetia-se, e Sam também sentiu os olhos inundarem-se de lágrimas.

            — Queres que vá aí?

            — Não sejas palerma.

            — Estou a falar a sério. Não preciso estar aqui. Viveram sem mim o inverno todo, agüentam-se. Especialmente agora que lhes fiz todo o trabalho de fundo, a única coisa que têm de fazer é encontrar os locais para as filmagens e depois uma empresa produtora para fazer o filme. Posso estar aí amanhã, tia Caro? Queres-me aí?

            — Eu quero-te sempre, querida. — Caroline sorriu por entre as lágrimas. — E gosto muito de ti. Mas estamos bem, a sério. Trata dos teus anúncios que eu trato do Bill, ele vai ficar ótimo.

            — Claro que sim. Desculpa ter-te pedido, mas ainda bem. Se não tivesse pedido, nunca teria sabido do Bill. És uma traidora por não me teres telefonado! Tens a certeza de que não precisas de nada?

            — Claro que sim. E se precisar de ti, telefono.

            — Prometes?

            — Solenemente. — Caroline sorriu de novo.

            Sam fez, então, a pergunta seguinte num tom afável: — Ele... ele está aí em casa? — Esperava que sim, pois seria muito mais fácil para Caroline e muito mais agradável para ele.

            Caroline suspirou e abanou a cabeça.

            — Não, claro que não. É tão teimoso, Sam. Está na sua casa velha. Agora sou eu que passo a vida a entrar e a sair às escondidas durante toda a noite.

            — Isso é ridículo. Não podes fingir que o pões no quarto de hóspedes? — Com os diabos, há já trinta anos que é capataz. Seria assim tão chocante?

            — Ele acha que sim e eu não posso contrariá-lo, por isso deixo-o à vontade dele.

            — Homens! — Sam bufou e Caroline riu-se.

            — Concordo plenamente.

            — Bem, dá-lhe beijinhos meus e diz-lhe para ter calma, que eu telefono-te daqui a uns dias para saber como é que ele está. — E, ainda antes de desligar, gritou à velha amiga: — Adoro-te, tia Caro.

            — Eu também te adoro, querida Sam.

            Agora estavam ligadas por um segredo em comum: duas mulheres apaixonadas por ajudantes de rancho, que se viam obrigadas a viver algemadas pelas obsoletas regras de convivência próprias dos ajudantes e dos rancheiros. Agora que Caroline quase perdera o seu amado capataz, compreendia a dimensão da dor de Sam.

 

            Durante dez dias, Sam voou do Centro-Oeste para o Sudoeste e, depois, novamente para o Norte; só a insistência de Caroline dizendo que Bill se encontrava muito melhor é que a afastou da Califórnia. Em todos os sítios onde parou, alugou carros, ficou em pequenos hotéis, percorreu centenas de quilômetros, falou com todos os rancheiros possíveis e imagináveis e, para seu proveito próprio, falou também com os ajudantes. Para a Crane, Harper & Laub, ao fim de dez dias, encontrara exatamente aquilo de que precisava: quatro esplêndidos ranchos, totalmente diferentes uns dos outros, rodeados por paisagens variadas, mas sempre majestosas. Todos eles proporcionariam filmagens de rara beleza. No entanto, para si, nada encontrara. Na viagem de regresso a Nova Iorque, o seu sentimento de vitória por ter descoberto o que queria foi largamente suplantado pela depressão de não ter encontrado Tate. Telefonara a Caroline todas as noites, do hotel, perguntara por Bill e contara-lhe com quem falara e o que lhe tinham dito; mais de uma centena de vezes, pensara no que teria acontecido a Tate, onde poderia ter ido, que direção poderia ter tomado.

            Naquela altura, já falara com tantos rancheiros desde que ele desaparecera, há três meses, que tinha a certeza de que se alguém o encontrasse, o visse, ou o contratasse, lhe diria. Deixara o seu cartão em todos os ranchos que visitara, e certamente que algum desse esforço seria recompensado. Talvez ele estivesse a demorar algum tempo a visitar familiares e se dirigisse a algum sítio específico. Porém, mais uma vez, Caroline voltou a salientar que ele podia estar em qualquer lado, em qualquer rancho, e havia sempre a hipótese de nunca mais aparecer na vida de Sam. Caroline achava que a amiga tinha de encarar essa eventualidade, para seu próprio bem.

            — Nunca desistirei — declarara Sam, num tom determinado, na noite anterior.

            "Não, mas também não podes passar o resto da vida à espera." Caroline não o disse, mas Sam pensara de imediato: "Porque não?" E passaram o tema da conversa para Bill e respectivo estado de saúde. Caroline achava que ele estava muito melhor, se bem que debilitado.

            Agora, ao aterrar em Nova Iorque, Sam lembrou-se novamente de Bill e, inevitavelmente, de Tate. Também sabia que no mês seguinte pensaria nele todos os dias, a todo o instante, quando entrevistasse ator atrás de ator para o papel nos anúncios. Já haviam chegado a acordo com o cliente de que não queriam quatro cow-boys, mas apenas um. Um homem bastava para incorporar tudo o que havia de poderoso, masculino, bom, verdadeiro e sexy naquele país. E Sam só conseguia pensar em alguém parecido com Tate.

            Nas semanas que se seguiram, passou horas em entrevistas com os atores enviados pelas maiores agências da cidade, tendo sempre Tate como ponto de comparação. Queria alguém alto, de ombros altos, de quarenta e poucos anos, de voz suave, simpático, com olhos interessantes e mãos fortes; bom cavaleiro... O que ela realmente queria era Tate. De cada vez que a secretária lhe anunciava um novo grupo de atores para audição, Sam ia encontrar-se com eles com a esperança de o ver. Mas apenas via louros de ombros largos; homens altos, morenos, bonitos; ex-jogadores de futebol, e até um ex-goleiro de hóquei; homens de rosto enrugado, olhos profundos e queixos fortes; no entanto, a maioria deles tinha um ar demasiado superficial, alguns tinham má voz, rostos demasiado bonitos, um parecia mais um bailarino do que um cow-boy. Por fim, depois de quatro semanas de audições, Sam descobriu o seu homem, e não era nada mau. As filmagens ocorreriam apenas para daí a duas semanas, para quinze de julho.

            O ator que escolheram era inglês, mas a sua pronúncia do Oeste era tão perfeita que ninguém notaria. Representara, durante anos, Shakespeare em Stratford-on-Avon; há dois anos resolvera vir para Nova Iorque e começar a fazer publicidade, cansado de fazer papéis exigentes mas mal pagos.

            Agora fazia anúncios de refrigerantes, roupa interior de homem, ferramentas e outros artigos, pelos quais lhe estavam pagando uma boa quantia. Tinha ombros que nunca mais acabavam, um rosto angular bonito mas não em demasia, olhos azuis profundos e cabelo ruivo escuro. Possuía todos os requisitos para o papel, e todos os homens na América quereriam identificar-se com ele e as esposas sonhariam com o carro que estava a ser promovido, na esperança de que o cow-boy do anúncio pudesse aparecer ao volante. Correspondia exatamente ao que tinham imaginado, e uma coisa que divertia Samantha, como contou a Charlie, era o fato de o seu herói do Oeste ser inegavelmente homossexual.

            — Tem ar disso? — Charlie pareceu preocupado.

            — Claro que não, é ator. E é lindo!

            — Bem, então faz um favor a ti própria: não te apaixones por ele.

            — Vou tentar. — Na realidade, Samantha gostava dele. Chamava-se Henry Johns-Adams e, quanto mais não fosse, daria uma boa companhia na viagem.

            Era extremamente culto e delicado, e também parecia ter um bom sentido de humor. Seria um verdadeiro alívio não ter de aturar alguns dos atores egocêntricos e indisciplinados de outras filmagens. — Vens conosco para o Oeste, Charlie?

            — Não sei, Sam. Custa-me deixar a Mellie. Se ela tiver o bebê nessa altura, tudo bem. Caso contrário, envio dois assistentes. Consegues dar conta do recado?

            — Se tiver de ser. — Com um sorriso afável, perguntou: — Como é que ela se sente?

            — Gorda, cansada, saturada e irascível. Mas amo-a na mesma. E está quase. O bebê está previsto para o fim da próxima semana.

            — Que nome é que vão dar ao rapaz? — Sam estava mais uma vez a gracejar com ele.

            — É menina. Depois verás. Não vamos dizer o nome. Desta vez será surpresa.

            — Vá lá, Charlie, diz-me. Charlotte, se for rapariga? — Sam adorava provocar Charlie; este geralmente dava-lhe um beliscão no traseiro ao mesmo tempo que abanava a cabeça e desaparecia.

            Mellie teve o bebê nesse fim-de-semana, uma semana antes do que o previsto, era menina desta vez, finalmente. Surpresa foi que lhe puseram o nome de Samantha. Quando Charlie lhe contou, no escritório, na terça-feira a seguir ao fim-de-semana do Quatro de Julho, vieram as lágrimas aos olhos de Sam.

            — Estás falando a sério?

            — Claro. Queres vir vê-la?

            — Estás gozando? Adoraria. A Mellie não está muito cansada?

            — Claro que não. O quarto filho é fácil. Custa a acreditar, mas saiu pelos seus próprios pés da sala de partos. Pregou-me um susto, mas o médico disse que não fazia mal.

            — Fico nervosa só de ouvir isso. — Tal como todas as mulheres que nunca tiveram filhos, Samantha estava espantada com todo aquele processo e toda aquela mística.

            Foram ao hospital à hora de almoço. Mellie tinha um ar feliz, saudável e radioso, envergava um roupão de banho cor-de-rosa, chinelos da mesma cor e exibia um largo sorriso; e a pequena bebê, vestida de cor-de-rosa e branco, encontrava-se aninhada nos seus braços. Durante um longo instante Sam não disse absolutamente nada, os olhos pregados no rosto da bebê.

            — Ela é tão bonita, Mellie. — As palavras saíram-lhe num sussurro, num tom de estupefação, e Charlie riu-se, atrás dela.

            — Sim. Mas teríamos de lhe pôr o nome de Samantha mesmo que fosse feia.

            Sam voltou-se para ele e fez-lhe uma careta. Isso aliviou a tensão do momento e o seu súbito desejo daquilo que nunca poderia ter: o milagre do nascimento e o próprio filho. Ultimamente, raras tinham sido as vezes em que deixara o espírito vaguear nessa direção, mas, pela primeira vez desde há muito tempo, ao olhar para o recém-nascido, sentiu o coração destroçado pelo sonho desfeito.

            — Queres pegar-lhe? — Melinda estava ainda mais encantadora. Havia uma espécie de fulgor que parecia emanar das profundezas da sua alma e, ao mesmo tempo, envolvia a preciosa bebê em toda a proteção dos seus braços de mãe. — Acho que não. — Sam abanou a cabeça e sentou-se num canto do quarto, de olhos fixos no pequeno ser. Tenho medo de a aleijar.

            — Os bebês são mais rijos do que parecem. — Era o que todas as mães diziam. — Toma... experimenta. — Sem avisar, Melinda depositou a bebê nos braços de Sam e ficaram todos a vê-la esticar-se, encolher-se novamente e depois sorrir. Dormia profundamente e Sam conseguia sentir o seu calor nos braços.

            — É tão pequenina! Não é nada!

            Mellie sorriu. — Pesa quase quatro quilos!

            Pouco depois, a pequena Samantha descobriu que estava com fome e acordou, à procura da mãe com um gemido. A Samantha mais velha devolveu-a aos braços seguros de Melinda e, passado algum tempo, ela e Charlie voltaram para o escritório, enquanto Samantha sentia, mais uma vez, aquilo que mais falta lhe fazia na vida. Era nestas alturas que o fato de ser estéril pesava como uma pedra nas suas entranhas.

            Então, recordando o que Charlie lhe dissera, parou à porta do seu gabinete e exclamou:

            — Isso significa que vens para o Oeste comigo? Charlie assentiu com a cabeça enquanto sorria. — Teria de ir, de qualquer forma.

            — Porquê? — Sam pareceu surpresa.

            — Para me certificar de que não violas o nosso cow-boy!

            — É pouco provável. — Esboçou um sorriso e desapareceu para dentro do gabinete. A agonia de ver o bebê parecia atenuar-se, embora essa sensação não a tivesse abandonado completamente durante o resto do dia.

 

            — Todos prontos? — Charlie olhou para a pequena multidão à sua volta, com ar sorridente, e depois fez sinal a todos para embarcar. — Iam viajar numa companhia comercial para o Arizona. A comitiva era tão numerosa que dava a sensação de terem comprado toda a primeira classe. Havia sete pessoas da empresa produtora, além de Sam, Charlie, os seus dois assistentes, Henry Johns-Adams e o amigo. Junto a uma montanha de bagagem, equipamento e uma miscelânea de caixotes e caixas. Henry e o seu companheiro haviam trazido o cão, um poodle branco chamado Georgie, pelo qual Samantha rezou para que não se metesse por baixo das patas dos cavalos. Se o fizesse, era tão pequeno que era capaz de ficar desfeito, e muito provavelmente as filmagens ficariam estragadas.

            No Arizona, juntar-se-lhes-ia uma maquiadora e uma cabeleireira, que se encontravam trabalhando em Los Angeles e acompanhariam o grupo da Crane, Harper & Laub durante o resto da viagem.

            — Acha que eles não perdem a nossa bagagem? — murmurou o amigo de Henry, com algum nervosismo, para Samantha, e ela convenceu-o de que estava toda no avião. — Mas há tanta.

            — Já estão habituados. Além disso — Sam lançou-lhe um sorriso tranqüilizador -, estamos em primeira classe. — Como se isso fizesse alguma diferença, como se não fosse fácil perder uma das suas malas Vuitton ou um dos gigantescos volumes da equipe ou mesmo uma das caríssimas peças de equipamento.

            Mais uma vez, Samantha pensou na enorme trabalheira que teria pela frente naquela viagem. Depois de ter tido a idéia do anúncio, escrito praticamente na íntegra os textos, descoberto os locais, selecionado o ator, organizado as tropas, escolhido a empresa produtora e aprovado a sua proposta, competia-lhe agora, durante as próximas duas semanas, em quatro locais diferentes, tranqüilizar toda a equipe que as refeições não tardariam, de que só faltavam mais algumas tomadas, de que o tempo estaria mais fresco no dia seguinte, de que o ar condicionado do hotel seria reparado por volta do meio-dia e de que a comida na cidade seguinte não poderia ser tão má.

            E o fato de serem acompanhados por um namorado homossexual nervoso e um poodle inquieto não ajudaria em nada. Por outro lado, Henry Johns-Adams já provara ser calmo, divertido e boa pessoa; Sam esperava que ele mantivesse o amante e o cão na linha. Não se importava que ele fosse homossexual, mas estava um pouco nervosa por ele ter trazido o seu pequeno séquito. Não obstante, ele insistira, e pouco faltara para trazer a mãe e catorze dos seus amigos mais chegados.

            As bebidas no avião ajudaram a acalmar os nervos. Charlie estava em grande forma e divertiu toda a gente; finalmente, quando faltava meia hora para Tucson, mostravam-se todos mais calmos. Não havia trabalho para esse dia. Iam percorrer uns duzentos e quarenta quilômetros até ao local, em três carros alugados, com todo o equipamento, depois teriam um bom jantar e uma boa noite de sono e começariam a filmar de manhã bem cedo no dia seguinte. Sam esperava levantar-se às quatro e meia todos os dias. E, todas as noites, durante uma ou duas horas, depois do trabalho, tinha uma idéia em mente. Já elaborara a lista de pessoas com quem queria falar e, depois de cumprir a sua missão num qualquer rancho durante todo o dia, ficaria um bocado a conversar com os ajudantes do rancho. Talvez um deles tivesse trabalhado com Tate nalgum sítio ou conhecesse um parente, um antigo patrão, alguém que soubesse onde ele se encontrava. Valia a pena tentar. Quando o avião baixou o trem de aterragem, Samantha sorriu, esperançosa. Nunca se sabia, talvez um destes dias, quando chegasse a um rancho e olhasse para um cow-boy alto e bonito, encostado a um poste de vedação, ele não fosse um estranho para ela. Seria Tate, com aqueles olhos verdes, o sorriso afável e a boca que ela adorava tanto.

            ...Tate...

            — Estás bem, Sam? — Charlie deu-lhe uma pancadinha no braço e quando ela se voltou, surpreendida, ele a olhava de uma forma estranha.

            — Hã? — Exibia ainda um ar perplexo..

            — Estou a falar contigo há cerca de dez minutos.

            — Ótimo.

            — Queria saber quem é que deve levar os outros dois carros.

            Sam concentrou-se de imediato no trabalho e deu as instruções, mas não era nisso que estava a pensar quando aterraram, e o olhar deteve-se no horizonte, a pensar se no dia seguinte ou no noutro dia o encontraria...

            Tate, estás aí... Apetecia-lhe murmurar as palavras, mas sabia que não haveria qualquer resposta. Não havia maneira de saber. Tinha de continuar a procurar. Era por isso que ali estava.

            Foram os primeiros a desembarcar, e Sam organizou o grupo rapidamente, indo buscar os carros, designando os motoristas, distribuindo os mapas, comprando as caixas de sanduíches para a viagem e entregando os recibos do motel para o caso de os três carros não chegarem ao mesmo tempo. Pensara em tudo, como sempre.

            No carro que conduziu, Sam transportava Charlie, a cabeleireira, a maquiadora, a estrela, o namorado, o poodle e todas as malas Vuitton. O equipamento, a equipe e os assistentes viajaram nos outros dois carros.

            — Tudo em ordem? — Charlie olhou para trás e passou algumas latas de suco aos acompanhantes. Estava um calor dos diabos no Arizona, e era um alívio viajarem num carro com ar condicionado. Henry contou episódios engraçados da digressão pela Inglaterra, o namorado fê-los rir com histórias sobre a sua descoberta de que era homossexual em Dubuque, a cabeleireira e a maquiadora relataram uma série de peripécias da sua recente viagem a Los Angeles onde tinham penteado e maquiado uma conhecida estrela de roque, e a viagem prosseguiu num clima agradável até chegarem ao hotel. Ali, como era de prever, ocorreu o primeiro drama. O dono do hotel não autorizava cães; além disso, não viu com bons olhos o amigo de Henry, olhou, horrorizado, para os flamejantes cabelos vermelhos com uma pequena franja azul da cabeleireira e franziu o sobrolho perante as "horrorosas malas castanhas". O amigo de Henry quase acariciou suas amadas malas Vuitton e ameaçou dormir no carro se a isso fosse obrigado, mas não ia deixar o cão. Os cem dólares que apareciam no relatório de despesas para gorjetas e despesas diversas, ajudaram a untar o caminho para a permanência de Georgie na hedionda suntuosidade de vinil azul-turquesa do hotel.

            — Estás com um ar cansado, Sam. — Charlie esparramou-se em cima de um sofá do quarto e viu-a analisar minuciosamente uma folha de anotações numa prancheta. Sam levantou os olhos, sorriu e atirou uma bola de papel que atingiu a orelha esquerda de Charlie.

            — Deves estar brincando. Eu? Por que cargas de água é que estaria cansada? Ando pelo país com um bando de excêntricos e um poodle francês atrás. Por que razão é que deveria estar cansada, Charlie?

            — Olha, eu não estou cansado. — Charlie fez um ar casto e ela fez-lhe uma careta.

            — Não admira. Nunca fazes nada.

            — A culpa não é minha. Sou o diretor artístico, e estou aqui apenas para me certificar de que o filme fica bom do ponto de vista artístico. Não tenho culpa que sejas uma sujeita ambiciosa e queiras ser diretora criativa. — Charlie estava a brincar, mas, de repente, Sam ficou com um ar sério quando se sentou na cama.

            — É isso que pensas, que eu quero ser diretora criativa?

            — Não, meu amor. — Charlie lançou-lhe um sorriso meigo. — Penso que não é isso que queres, mas é isso que serás. És boa naquilo que fazes. Custa-me a admiti-lo, mas às vezes és brilhante. E o Harvey, os clientes, eu e toda a gente na empresa sabemos isso; mais cedo ou mais tarde, vais conseguir o cargo. Ou te contratam com um salário irresistível, ou o Harvey reforma-se, como continua ameaçando fazer, e passas a diretora criativa. — Diretora criativa... era uma idéia pavorosa.

            — Não me parece que seja isso o que quero. Já não é.

            — Então é melhor fazeres algo enquanto podes, antes que te vejas colocada perante o fato consumado e seja demasiado tarde. — Depois de pensar no assunto por instantes, acrescentou: — O que é que tu queres, Sam?

            Olhou para Charlie durante um longo instante.

            — Oh, Charlie, é uma longa história — murmurou. Tinha essa sensação.

            Os olhos de Charlie não se desviaram dos de Sam. — Houve alguém na Califórnia no rancho? — Sam anuiu com a cabeça. — Então, o que é que aconteceu?

            — Ele deixou-me.

            — Oh, merda. — E logo a seguir a John. Não era de admirar que ela estivesse com um ar tão tenso e infeliz quando voltara. — Para sempre?

            — Não sei. Ainda ando a procura dele.

            — Não sabes onde é que ele está?

            Sam abanou a cabeça e Charlie olhou-a com um ar triste. — O que é que vais fazer?

            — Continuar a procurar — afirmou Sam num tom determinado e Charlie fez um gesto de concordância com a cabeça.

            — Menina bonita. És uma mulher forte, sabes, Sam?

            — Não sei, querido. — Sam sorriu e murmurou: — Às vezes tenho as minhas dúvidas.

            — Não tenhas. — Fixou-a com um ar orgulhoso. — Acho que não há nada que não consigas ultrapassar. Lembra-te disso, garota, se as coisas ficarem difíceis.

            — Lembra-me. Lembrarei.

            Trocaram um sorriso afável. Sam estava contente por ele ter vindo: era o seu melhor amigo e com ele iria sentir-se bem, tendo alguém com quem brincar, rir e conversar, sabendo que, por trás das palhaçadas, existia um homem terno e inteligente. Folgava também em saber que tinha a estima dele e de Harvey. No início, quando regressara do rancho, Sam apercebera-se de que teria de voltar a afirmar-se não só como subdiretora criativa mas também como pessoa, como amiga deles. E agora, ao fim de tão pouco tempo, sabia que tinha reconquistado o respeito e a estima dos dois. Isso significava muito para si. Levantou-se e foi beijar Charlie na face.

            — Ultimamente não me tens contado nada da minha homônima.

            — Está bestial. Já escova os dentes, faz sapateado e lava roupa.

            — Oh, cala-te, idiota. Estou falando sério. Como é que ela está?

            — Cada vez mais esperta. Claro que as meninas são diferentes dos garotos.

            — És muito observador. A propósito, já estás com fome? Estou esfomeada, e temos de levar todos aqueles queridinhos para jantar na tasca de tacos ao fundo da rua ou vão pôr-se para aí aos gritos.

            — E o que lhes vais dar para jantar? Tacos? — Charlie pareceu chocado. — Não sei se Miss Vuitton vai gostar, para não falar no poodle.

            — Não sejas ordinário. Além disso, duvido que nesta cidade haja outra coisa para comer.

            — Maravilhoso.

            A verdade é que passaram uma noite divertida, a comer tacos, a beber cerveja e a contar anedotas, que iam ficando cada vez mais picantes à medida que a descontração e o cansaço iam aumentando. Finalmente, todo o grupo voltou para o hotel e foi para a cama. Charlie despediu-se de Sam e desapareceu para o quarto. Sam ficou mais meia hora a dar uma olhadela às notas para o dia seguinte; depois, bocejou e apagou a luz.

 

            Na manhã seguinte, eram seis horas quando se reuniram para o pequeno-almoço. Às sete e meia, partiram para o rancho. Resolveram não filmar o nascer do Sol no primeiro dia, decidindo aproveitar a luz intensa para tomadas curtas e, eventualmente, tentar um pôr do Sol. Era quase meio-dia quando tudo ficou instalado para satisfação da equipe de filmagens.

            Rodaram algumas cenas de Henry Johns-Adams montado numa bonita égua preta, que fez Samantha ansiar pelo puro-sangue de Caroline. A égua que Henry montava não tinha nada a ver com Black Beauty, mas era bonita e ficaria bem no filme. Exibia um porte gracioso enquanto galopava pelas mesmas colinas vezes sem conta, filmando tomada após tomada, mas tanto a égua como o cavaleiro mantinham sempre a mesma disposição e, ao fim do dia, estava toda a gente cansada, mas não havia nervos esfrangalhados.

            Eram um bom grupo de trabalho, e Samantha mostrava-se satisfeita com o modo como as coisas estavam correndo. Foi falar com o capataz e agradeceu-lhe por tê-los deixado filmar no rancho. Já mandara flores à esposa do dono do rancho e uma caixa de uísque ao marido, além daquilo que pagavam diariamente para lá filmar. Ofereceu também várias garrafas ao capataz, que ficou contente com o presente e com quem meteu conversa durante alguns instantes. Este se mostrou impressionado ao saber que ela passara grande parte do ano trabalhando num rancho da Califórnia; falaram da vida do rancho, de cavalos e de gado, e Sam teve a sensação de estar em casa. Pouco depois, referiu por acaso o nome de Tate Jordan, ansiosa por saber se ele o conhecia, e pediu-lhe que, se alguma vez o visse, lhe dissesse que ela o queria para um anúncio. Descreveu-o como um homem bem-parecido e que ela admirava muito. Por uma questão de respeito pelos sentimentos de Tate para com as pessoas dos ranchos, não lhe falou da sua relação com ele. O capataz guardou o cartão dela e garantiu-lhe que teria muito gosto em informá-la se encontrasse Tate. Sam voltou então para junto dos outros e conduziu um dos carros até ao hotel.

            Nas três semanas seguintes, em todos os locais de paragem, as buscas de Sam foram igualmente infrutíferas, se bem que as filmagens dos anúncios estivessem a decorrer excelentemente. A equipe de produção sabia que conseguira belíssimas seqüências, e até àquele momento não houvera quaisquer problemas. Como tal, o moral era elevado, as amizades estavam cimentadas, o estado de espírito era bom e toda a gente se mostrava disposta a trabalhar horas intermináveis ao sol escaldante, raramente se queixando. Conseguiram captar por duas vezes um nascer do Sol perfeito e várias vezes o pôr do sol.

            Só Sam parecia exausta na altura em que chegaram ao último local de paragem. Estavam filmando num rancho em Steamboat Springs, no Colorado, e Sam acabara de entrevistar o último dos capatazes e detivera-se durante quase uma hora com alguns dos ajudantes que haviam aparecido para assistir às filmagens. Sabia agora que, se encontrasse Tate, não seria ainda daquela vez. Iam para casa no dia seguinte; novamente as suas esperanças tinham-se frustrado. Voltaria para Nova Iorque e ficaria à espera, para voltar a tentar noutra ocasião, quando estivesse perto de um rancho. E talvez... talvez um dia, ela o encontrasse. Talvez... Se...

            Enquanto olhava para as montanhas, ouviu um dos homens a dizer a outro que ela trabalhara no Rancho Lord, na Califórnia. Conheciam o rancho, e o segundo cow-boy lançou-lhe um olhar de admiração.

            — A sério?

            Sam fez um gesto afirmativo com a cabeça.

            — Calculei que conhecesse cavalos, mas não sabia que tanto. Vi-a esta manhã. Monta bem e tem boas mãos. — Obrigada. — Sam sorriu-lhe, mas os olhos espelhavam agora a angústia que a invadia. Exibia um ar cansado e vazio, e o homem olhou-a de alto a baixo, tentando compreender por que razão é que estava tão deprimida.

            — Viu o nosso novo garanhão? — perguntou o homem, enquanto mascava uma bola de tabaco. — Compramo-lo a semana passada. Está na última cavalariça.

            — Posso vê-lo? — Sam fez a pergunta mais para ser agradável do que por desejo de ver o garanhão. Queria voltar para o pequeno motel onde estavam alojados, fazer as malas e preparar-se para regressar a casa no dia seguinte. Não valia a pena insistir. As filmagens haviam terminado e não encontrara Tate. Tentando aparentar um ar interessado, Sam acompanhou a custo o velho cow-boy e, quando chegou à cavalariça não se sentiu arrependida. O animal que se encontrava diante de si era um dos maiores garanhões que jamais vira, cinzento, com crina e rabo pretos, e uma ampla estrela branca na testa que lhe dava um ar ainda mais selvagem ao olhar.

            — Meu Deus, é uma beleza.

            — É, não é? — O ajudante estava com um ar satisfeito. — Mas é um diabinho. Ontem deu um ou dois piparotes em toda a gente. — Esboçou um largo sorriso. — Até eu levei um.

            Sam sorriu.

            — Também já passei bastante tempo de traseiro no chão. Mas este rapaz vale a pena. — Passou-lhe a mão pelo pescoço e ele relinchou, como se tivesse gostado de sentir a mão dela no pêlo e quisesse mais. Era um animal tão grande e tão esplêndido que vê-lo era praticamente uma experiência sensual. Falou então de Black Beauty, do modo como o montara e o grande cavalo que era.

            — Um puro-sangue?

            Sam assentiu com a cabeça.

            — O Gray Devil aqui está ótimo para mim. Galopa como um cavalo de corrida, mas é um pouco vivo para o trabalho do rancho. Não sei, mas Mister Atkins é capaz de acabar por vendê-lo. É uma pena. É um excelente cavalo. — Então, como que oferecendo a última prenda a Samantha, virou-se para ela. — Quer montá-lo, miss? Aviso-a, pode bater com o traseiro no chão, mas julgo que consegue dominá-lo, por aquilo que vi hoje.

            Sam montara um cavalo durante um intervalo das filmagens, para que Henry visse, espicaçando-o, ao pôr do Sol, quase o enfurecendo para torná-lo menos complacente e levá-lo a dar o máximo. Puxara por ele até ao limite, proeza que realizara com evidente facilidade. Era uma cavaleira espetacular, e a sua precisão e a sua destreza não haviam passado despercebidas aos homens que a observavam. Falaram dela ao almoço, um deles chegara a dizer que Sam parecia um pequeno palomino e que seria um prazer vê-la montar Gray Devil, que estava na sua baia, à espera, como se tivesse sido destinado para ela.

            — Está falando sério? — Sam ficou emocionada com a oferta, sabendo que era tanto um cumprimento como um presente. — Posso montá-lo? — Seria o seu último passeio a cavalo durante muito tempo. Ia voltar para Nova Iorque no dia seguinte e não havia ranchos no seu futuro imediato. Só montanhas de trabalho em cima da secretária. — Adoraria.

            — Claro. Vou buscar-lhe a sela. — O ajudante assim o fez e, pouco depois, já tinha o cavalo selado, procedendo com todo o cuidado para não levar um coice. O animal era duas vezes mais fogoso do que Black Beauty, o pêlo parecia arder, ansiando que o deixassem correr em liberdade. — Olhe que ele é endiabrado. Comece com calma... Miss... — Tentou lembrar-se do nome.

            — Sam. — Esboçou um sorriso afável, subitamente ansiosa por subir para o dorso do enorme cavalo cinzento. Ainda era maior do que Black Beauty e, de repente, teve a sensação de que Tate estava a seu lado, a gritar-lhe, como fizera quando ela montara o puro-sangue preto de Caro, tentando forçá-la a montar cavalos como Lady e Rusty. Sorriu para consigo. Bolas, ele a deixara! Agora poderia montar o cavalo que quisesse. Ao pensar nisso, toda a dor de tê-lo perdido dilacerou-a uma vez mais; subiu para o cavalo com a ajuda do ajudante, puxou as rédeas e deixou o enorme garanhão cinzento dançar sobre si mesmo. Manteve-o de rédea curta, e as duas tentativas para derruba-la foram infrutíferas, para deleite do ajudante.

            A passo, Sam atravessou a enorme cavalariça, em direção ao velho curral.

            Vários homens haviam-na visto, primeiro com interesse, depois começando a aplaudir ao ver o modo como ela dominava a besta cinzenta aos pinotes.

            Como se pressentissem subitamente um espetáculo curioso, todos se voltaram para ver Samantha conduzir Gray Devil através do complexo principal do rancho, passar pela equipe de filmagens, por Charlie, por Henry, pelo amigo e pelo poodle. Então empolgada na sua paixão pelos cavalos e pela imensidão dos campos, esqueceu-se de todos e pôs-se a meio galope em direção à planície à sua frente. Manteve-se a meio galope durante apenas alguns segundos, depois lhe deu o que queria: liberdade para galopar à sua própria velocidade, até se sentir a voar, os cascos a bater com força no chão. Enquanto galopava no dorso de Gray Devil, Sam sorria, o vento fustigava-lhe o rosto e o coração a bater com mais força.

            Montar aquele cavalo era como travar uma batalha especial, contra a força e o espírito do animal, utilizando apenas as suas capacidades e a sua destreza.

            Mas era um combate equilibrado, embora por várias vezes ele tentasse derrubá-la, não conseguiu; Sam sentia toda a tensão, toda a angústia, todo o desapontamento por não encontrar Tate, e começou a instigar Gray Devil a galopar ainda mais depressa. Ela batê-lo-ia no seu próprio jogo, se pudesse.

            Foi então que a multidão ficou muda. Até então fora uma visão maravilhosa, os cabelos louros a esvoaçar, em total contraste com a crina e o rabo pretos de Gray Devil, a todo o galope pelos campos. Acompanhava os movimentos do gigantesco garanhão, todos os seus músculos em sintonia com os dele. De repente, um dos ajudantes saltou a vedação para detê-la, vários outros contiveram a respiração, e o capataz gritou, como se ela conseguisse ouvi-lo. Mas já era demasiado tarde. Havia um estreito riacho oculto que ela acabara de atacar. Era suficientemente estreito para saltar com facilidade se ela o visse, mas também era muito fundo e, se o cavalo tropeçasse, ela seria atirada para a ravina rochosa. O capataz corria agora, acenando freneticamente com os braços; Charlie viu-o e começou também a correr. Era como se os dois homens soubessem o que estava prestes a acontecer; precisamente naquele momento, viram-na. O garanhão estacou de repente ao chegar ao riacho, que ele notara antes dela, e Samantha, apanhada desprevenida, atravessou o ar com uma brutal e terrível graciosidade, os cabelos em desalinho, os braços estendidos, até desaparecer em silêncio.

            Perante aquilo, Charlie correu para o carro, rodou a chave da ignição, engrenou a marcha e precipitou-se para o local, sem se preocupar se atropelava alguém. Era muito longe para ir correndo. Acenou freneticamente para o capataz, que pulou para dentro da viatura, arrancando a toda a velocidade, os pneus a guincharem na gravilha, e percorrendo os campos aos solavancos. Charlie fazia horríveis sons guturais enquanto murmurava algo para consigo e rezava.

            — O que é que há ali adiante? — perguntou Charlie ao capataz, sem tirar os olhos do terreno. Ia a quase a noventa quilômetros por hora, e Gray Devil passara por eles que nem um raio pouco antes.

            — Uma ravina. — O capataz estava com um ar tenso quando respondeu, tentando vislumbrar qualquer coisa. Ainda não conseguiam ver nada. Pouco depois, gritou: — Pare! — O que Charlie fez, e o capataz abriu caminho por entre a erva, até à pequena ladeira onde Gray Devil estacara. A princípio, não viram absolutamente nada; instantes depois, Charlie avistou-a, a camisa branca completamente esfarrapada, o peito, o rosto e as mãos praticamente irreconhecíveis, os cabelos em desalinho, prostrada, a sangrar, numa terrível quietude.

            — Oh, meu Deus... oh, meu Deus... — Charlie começou a gritar ao mesmo tempo que corria para ela; o capataz já estava ajoelhado junto de Sam, com dois dedos a pressionar a parte lateral do pescoço.

            — Ainda está viva. Meta-se no carro, volte para casa, telefone ao xerife e diga-lhe que mande um helicóptero para cá imediatamente. Se ele conseguir arranjar um, que mande um para-médico, um médico ou uma enfermeira. — A cidade de Steamboat Springs não estava dotada de pessoal médico especializado naquele tipo de acidentes. Sam, pela posição em que se encontrava, fraturara provavelmente vários ossos e, possivelmente, o pescoço ou a coluna. — Vá lá, homem, despache-se! — berrou para Charlie, que limpou o rosto na manga e correu para o carro, deu marcha a ré, deu meia volta e pisou no acelerador, ao mesmo tempo que se interrogava, completamente fora de si, se Samantha viveria.

            — Diabo de cavalo! — gritava ao dirigir-se para onde os outros os aguardavam com ar ansioso. Saltou do carro e deu as instruções.

            Voltou para junto de Sam e ajoelhou-se ao seu lado, tentando ampará-la e estancar o fluxo de sangue dos cortes no rosto, com uma toalha que descobrira no carro. Quando se sentou no helicóptero, ao lado dela, vinte minutos depois, exibia um ar soturno. Deixara os dois assistentes fazendo as malas com os outros, combinando se encontrarem com ele no hospital, em Denver, nessa noite.

            O helicóptero pareceu levar uma eternidade para chegar e, quando o fez, a vida de Samantha corria grave risco. Um para-médico viajara com eles e, nos últimos dez minutos de viagem, fizera-lhe respiração artificial, enquanto Charlie assistia com ar ansioso. Estava morto por perguntar ao para-médico se achava que ela iria resistir, mas nem se atreveu, preferindo não dizer nada, apenas a observá-los e a rezar. Deitaram-na cuidadosamente no relvado do Hospital de Santa Maria, depois de terem alertado todo o tráfego aéreo de que se dirigiam ao hospital e que iam descer com um código azul. Charlie tentou lembrar-se desesperadamente do significado daquilo; achava que era sinônimo de alguém que estava praticamente morto.

            Um médico e três enfermeiras aguardavam no relvado com uma maca; levaram-na rapidamente para dentro logo que aterrizaram, enquanto Charlie os seguiu o mais depressa que pôde. Nem se lembrou de agradecer ao jovem para-médico ou ao piloto, o seu pensamento centrado em Samantha, tão prostrada, tão imóvel. A única coisa ainda reconhecível na forma estreita embrulhada em lençóis poucos minutos depois era um emaranhado de cabelos louros de palomino. Só então é que conseguiu formular a pergunta, quando duas enfermeiras verificaram os sinais vitais, enquanto a preparavam para levá-la para o serviço de radiologia e possivelmente para o de cirurgia.

            Já haviam concluído que as lacerações no rosto eram superficiais e podiam esperar.

            — Ela conseguirá resistir? — indagou Charlie, numa voz entrecortada, no corredor branco e bem iluminado.

            — Desculpe? — A voz de Charlie, semelhante a um grasnar, mal se ouvira e a enfermeira, sem tirar os olhos de Sam não compreendera o que ele dissera.

            — Ela conseguirá resistir? — repetiu.

            — Não sei. — Falou num tom suave. — O senhor é familiar? É o marido?

            Charlie abanou a cabeça sem dizer palavra.

            — Não, sou... — Então, pensou que talvez devesse ser. Se eles pensassem que era parente, talvez lhe dissessem mais. — Sou irmão. Ela — minha irmã — Articulava qualquer coisa coisas sem nexo, sentindo-se, subitamente, tonto e enjoado ao pensar que Sam poderia não sobreviver. Parecia já estar morta. A respiração era fraca, dissera-lhe uma enfermeira e, antes que conseguisse dizer o que quer que fosse, dois médicos internos, um externo, e uma legião de enfermeiras, vestidas com trajes que mais pareciam pijamas azuis, vieram buscar Sam. — Para onde é que ela vai? Para onde é que...? — Ninguém o escutou, e Charlie ali ficou, uma vez mais, as lágrimas a correrem-lhe silenciosamente pelo rosto. Não podiam dizer-lhe nada, não sabiam.

            Decorrida uma hora e meia, o pessoal do hospital encontrou Charlie, sentado, gelado, como uma criança perdida, numa cadeira da sala de estar.

            Não se mexera, não fumara, nem sequer bebera uma xícara de café. Ali ficara, à espera, mal se atrevendo a respirar.

            — Mister Peterson? — Alguém ouvira o seu nome quando assinara os formulários de admissão. Continuava a afirmar que era irmão dela, e não se importava com o fato de estar mentindo, se isso pudesse ajudar ou fizesse alguma diferença.

            — Sim? — Charlie pôs-se em pé de um pulo. — Como é que ela está? Está bem? — De repente, não conseguiu parar de falar, mas o médico fez um ligeiro aceno com a cabeça e olhou-o de frente.

            — Está viva. Por pouco.

            — O que é? O que aconteceu?

            — Pondo a questão com toda a franqueza, Mister Peterson, a coluna está fraturada em dois sítios. Os ossos estão desfeitos. Há uma pequena fissura ao nível do pescoço, mas pode esperar. O problema agora é a coluna. Há muitas pequenas vértebras fraturadas que temos de operar para aliviar a pressão. Se não a operarmos, pode ficar com lesões permanentes no cérebro.

            — E se a operarem? — Charlie sentira imediatamente que era uma espada de dois gumes.

            — Se a operarmos, pode não viver. — O médico sentou-se e fez sinal a Charlie para fazer o mesmo. — O problema é que se não a operarmos, quase posso garantir que lhe restará apenas uma vida vegetal até ao final dos seus dias e poderá ficar quadriplégica.

            — O que é que isso quer dizer?

            — Completamente paralisada. Sem qualquer controle sobre os braços e as pernas; no entanto, talvez consiga mover a cabeça.

            — E se a operarem, não será esse o caso? — Charlie sentiu uma desesperante vontade de vomitar, mas conseguiu controlá-la. Mas que raio estavam eles a discutir, parecia que estavam a comprar cenouras, cebolas e maçãs, mover a cabeça ou os braços ou as pernas ou... Meu Deus!

            O médico foi cuidadoso com as explicações.

            — Certamente que nunca mais voltará a andar, Mister Peterson, mas, se a operarmos, talvez consigamos salvar o resto. Na melhor das hipóteses, poderá ficar paraplégica, sem utilizar a metade inferior do corpo. Se tivermos sorte, poderemos salvar-lhe o espírito. Mas apenas se a operarmos já. — Charlie hesitou durante um interminável instante. — Embora o risco seja muito maior. Não está em muito boas condições e podemos perdê-la. Não posso prometer-lhe mais.

            — É tudo ou nada, não é?

            — Mais ou menos. Devo dizer-lhe, com toda a franqueza, que... quer não lhe façamos nada, quer lhe façamos tudo o que pudermos... ela talvez não passe desta noite. Está num estado muito crítico.

            Charlie fez um ligeiro aceno com a cabeça, compreendendo, de repente, que a decisão era sua e sentindo uma angústia terrível por esse fato. Sabia que Sam tinha familiares ainda vivos. No entanto, já que fora até ali...

            Além disso, era-lhe mais chegado do que outra pessoa qualquer... "Oh, minha querida Sam."

            — Quer que lhe dê uma resposta, doutor?

            O homem de casaco branco assentiu com a cabeça. — Quero.

            — Quando?

            — Agora.

            "Como é que sei que o doutor é uma autoridade na matéria?", teve vontade de perguntar. "Que alternativa é que tens?", indagou outra voz. Não a operar significava que Sam morreria efetivamente, nada mais restando para além de um monte de cabelos louros e um corpo destroçado, incapaz de raciocinar, sem coração, sem alma. Charlie sentiu um nó na garganta ao pensar no assunto. Operá-la significava que eles poderiam matá-la...

            Mas... "Se ela viver, continuará a ser a Sam. Numa cadeira de rodas, mas será a Sam."

            — Força!

            — Mister Peterson?

            — Opere. Opere, bolas... opere! — berrou Charlie. Quando o médico se foi embora apressadamente, Charlie virou-se e deu uns murros na parede. Foi comprar cigarros e café, aninhando-se a um canto, como um animal assustado, a olhar para o relógio. Uma... duas... três... quatro... cinco... seis... sete horas. Às duas da manhã, o médico voltou, para encontrá-lo de olhos esbugalhados, aterrorizado, lívido de angústia, à espera, convencido de que Sam talvez tivesse morrido. Morrera e ninguém lhe dissera nada. Nunca se sentira tão assustado na vida. Matara-a com a sua maldita decisão. Deveria ter dito ao médico para não a operar, deveria ter telefonado ao ex-marido, meu Deus, à mãe... Nem sequer começara a pensar nas conseqüências da sua decisão. O médico queria uma resposta...

            — Mister Peterson?

            — Hum? — Charlie olhou para o médico como se estivesse alucinado.

            — Mister Peterson, a sua irmã está bem. — O médico deu-lhe um ligeiro toque no braço e Charlie meneou a cabeça. Fez um novo meneio, depois vieram as lágrimas e, de repente, estava abraçado ao médico.

            — Meu Deus... meu Deus... — foi a única coisa que conseguiu balbuciar. — Julguei que ela tinha morrido.

            — Ela encontra-se bem, Mister Peterson. Agora o senhor pode ir para casa e descansar. — Lembrou-se então que eram todos de Nova Iorque. — Têm onde ficar?

            Charlie abanou a cabeça e o médico rabiscou o nome de um hotel num pedaço de papel.

            — Tente este. E a Sam?

            — Pouco posso dizer. Conhece os riscos que corremos. Pusemos no lugar o máximo que pudemos. A coluna... bem, já sabia... Vai ficar paraplégica. Tenho praticamente a certeza de que não existem quaisquer lesões cerebrais, nem da queda, nem da pressão antes de a operarmos. Mas temos de aguardar. Foi uma operação muito longa. Teremos de aguardar.

            — Quanto tempo?

            — Saberemos um pouco mais todos os dias. Se agüentar até amanhã, as perspectivas serão muito melhores.

            Charlie fitou-o então, pensando em algo.

            — Se ela... se ela viver, quanto tempo é que ficará aqui, até a conseguirmos levar de volta para Nova Iorque?

            — Ohh... — O médico inspirou fundo, fixando o chão enquanto pensava; depois, olhou para Charlie. — É difícil dizer. Diria que se ela recuperar excepcionalmente bem, poderemos transferi-la dentro de três ou quatro meses.

            — Três ou quatro meses? E depois? — Não se atreveu dizer as palavras.

            — É muito cedo para pensar em tudo isso — lamentou o médico -, mas, pelo menos durante um ano, terá de ficar no hospital, Mister Peterson. Se não mais. Vai ter de fazer muitos reajustamentos. — Charlie abanou lentamente a cabeça, começando a compreender o que estava reservado a Sam, — Bom... Primeiro vamos deixar passar esta noite.

            O médico afastou-se, abandonando Charlie, sentado, só, num canto da sala de estar, à espera que os outros regressassem de Steamboat Springs.

            Chegaram ao hospital às três e meia da manhã, encontraram Charlie dormindo, a cabeça caída sobre o peito, ressonando levemente, e acordaram-no para saber as novidades. Charlie contou-lhes o que sabia e instalou-se um silêncio fúnebre; depois, foram à procura do hotel. Quando chegaram, Charlie sentou-se junto da janela, observando Denver com ar angustiado; Henry e o amigo instalaram-se perto dele e nesse momento não conseguiu agüentar mais todas as emoções que o assolavam: a dor, o terror, a preocupação, o sentimento de culpa, a confusão, a angústia... Soluçou durante mais de uma hora, enquanto Henry o abraçava. Foi a noite mais negra que alguma vez vivera. Quando telefonaram para o hospital de manhã, foi Henry quem deixou tombar a cabeça entre as mãos e desatou a chorar.

            Samantha ainda estava viva.

 

            No dia seguinte ao acidente de Sam, toda a equipe se separou, mas após uma série de longas conversas telefônicas com Harvey, Charlie optou por ficar. Não sabia quanto tempo teria de permanecer ali e não podia deixar Mellie sozinha com quatro garotos eternamente; no entanto, sentia-se incapaz de abandonar Sam. Estava só, numa cidade estranha, e praticamente meio morto. Harvey ficara perplexo ao ouvir a notícia. Charlie não tivera quaisquer dificuldades em convencê-lo a deixá-lo ficar. Harvey também sugerira que Charlie tentasse, pelo menos, contatar a mãe de Sam, em Atlanta. Ela era, afinal de contas, o único familiar vivo e tinha o direito de saber que a sua única filha se encontrava sob cuidados intensivos, em Denver, com a coluna fraturada. Quando lhe telefonou, Charlie foi informado de que ela e o marido estavam de férias durante um mês na Europa e, como tal, não poderia fazer mais nada. Sabia, contudo, que Sam não nutria uma grande amizade pela mãe, considerando o padrasto um idiota, e o pai morrera há anos. Não havia mais ninguém a quem telefonar. Naquela altura, naturalmente, já telefonara a Mellie, que chorara que nem uma criança ao saber da notícia.

            — Oh, pobre Sam... Oh, Charlie... como é que ela vai agüentar... numa cadeira de rodas... completamente só...? Choraram durante alguns instantes, após o que Charlie desligou o telefone. Queria fazer outro telefonema para Harvey, solicitando-lhe que tirasse informações do médico que fizera a operação, se bem que já fosse um pouco tarde. Porém, sentiu-se aliviado quando Harvey lhe comunicou que telefonara a todos os ortopedistas que conhecia em Boston, Nova Iorque e Chicago, e chegara a ligar a um amigo que era cirurgião-chefe de ortopedia dos Mets.

            — Abençoadas sejam as tuas relações sociais, Harvey, que é que ele disse?

            — Disse que o tipo é uma sumidade.

            Charlie deixou escapar um longo suspiro e, poucos minutos depois, pousou o telefone. Agora só lhe restava esperar.

            Deixavam-no vê-la durante cinco minutos. De hora a hora, mas pouco podia fazer. Ainda não recuperara a consciência. E não a recuperaria ao longo de todo aquele dia.

            Isso só veio a acontecer no dia seguinte, por volta das seis da tarde, quando a visitava pela oitava vez nesse dia. Esperava deter-se junto dela apenas alguns minutos, como fizera todas as horas desde essa manhã: observava o seu corpo imóvel, o rosto coberto de ligaduras, e depois, a um sinal da enfermeira, fechava a porta e ia-se embora. Todavia, dessa vez, ao olhar para ela, achou que havia algo diferente. A posição dos braços alterara-se ligeiramente e estava com melhor cor. Começou a passar suavemente a mão ao longo dos compridos cabelos louros, ao mesmo tempo que dizia baixinho o nome dela. Falou-lhe como se ela conseguisse ouvi-lo, dizendo-lhe que estava ali ao pé dela, que todos a adoravam e que iria ficar boa. De súbito, antes de a enfermeira lhe fazer sinal, Sam abriu os olhos, viu Charlie e murmurou:

            — Olá.

            — O quê? — Charlie ficou atônito, a palavra mais parecera uma explosão no quarto cheio de aparelhos. — O que é que disseste?

            — Disse... olá. — Mais parecia um sussurro e Charlie teve vontade de soltar um grito de alegria. Em vez disso, inclinou-se, de modo a que ela pudesse ouvi-lo e sussurrou também:

            — Olá, garota — murmurou — estás indo muito bem.

            — Estou?... Que... aconteceu...? — A voz de Sam mal se ouvia e Charlie não quis responder-lhe, mas o olhar dela não se desviou do dele.

            — Levaste um piparote de um cavalo.

            — O Black Beauty? — Sam estava com um olhar vago e zonzo, parecendo a Charlie que ela iria desfalecer de novo, mas as pálpebras voltaram a abrir-se. — Não... agora me lembro... o garanhão cinzento... havia uma ravina... um rio... uma coisa... — Uma coisa, tudo bem. Uma coisa que alterara toda a sua vida.

            — Sim. Não interessa. Já passou.

            — Porque é que estou aqui?

            — Para poderes recuperar. — Continuavam a falar baixinho; Charlie sorriu-lhe e pegou-lhe carinhosamente na mão. Nunca sentira tanta felicidade ao vê-la como naquele preciso momento.

            — Posso ir para casa? — O tom de voz era acriançado, voltou a fechar os olhos.

            — Ainda não.

            — Quando? Amanhã?

            — Veremos. — Amanhã... Seriam várias centenas de amanhãs, mas Charlie não conseguiu sentir pena. Estava extremamente feliz por ela ter conseguido recuperar. Estava viva e consciente, era um bom sinal.

            — Não telefonaste à minha mãe, pois não? — Sam olhou-o com ar desconfiado e Charlie abanou a cabeça sonolento e de pronto.

            — Claro que não — mentiu.

            — Ótimo. O marido é um idiota.

            Charlie sorriu, entusiasmado com aquele pequeno arremedo de conversa; em seguida, apareceu a enfermeira e fez-lhe sinal.

            — Tenho de ir, Sam. Mas volto amanhã. Está bem, querida?

            Sam esboçou um sorriso afável, fechou os olhos e voltou a adormecer.

            Quando regressou ao hotel, Charlie telefonou a Mellie e disse-lhe que Sam recuperara, finalmente, a consciência.

            — O que é que isso significa? — Mellie parecia estar ainda extremamente preocupada, mas Charlie estava eufórico com a novidade.

            — Não sei, querida. Mas pensei que íamos perdê-la.

            Mellie concordou do outro lado — eu também.

 

            Charlie permaneceu em Denver durante mais duas semanas. Então, Mellie e Harvey começaram a pressioná-lo para que voltasse para casa. Sabia que tinha de fazê-lo e sentia imensas saudades de Mellie e dos garotos, mas não gostava da idéia de abandonar Sam. Estava ciente de que não poderia ficar em Denver mais três meses. Porém, nessa noite, enquanto tentava mentalizar-se para fazer a reserva de avião para esse fim-de-semana, teve uma idéia. Na manhã seguinte, esperou pelo médico à porta do gabinete e apresentou-lhe, com ar nervoso, o seu plano.

            — O que é que acha, doutor?

            — É muito arriscado. Acha que vale a pena? Porque é que é tão importante levá-la para Nova Iorque?

            — Porque ela tem os amigos lá. Não conhece ninguém aqui.

            — E os seus pais? Não poderiam vir para cá? Charlie olhou para o médico com um ar inexpressivo depois se lembrou de que continuava a representar o papel de irmão de Sam; abanou a cabeça.

            — Não. Andam em viagem pela Europa, e julgo que no espaço de um mês não consigo entrar em contacto com eles. — Charlie sabia que se tivesse de entrar em contacto com a família dela, bastaria telefonar para o escritório do padrasto de Sam, mas era inflexível relativamente a essa questão. Sam não queria que ele telefonasse à mãe. — Só não quero deixá-la aqui sozinha e eu tenho de voltar.

            — Compreendo. — O médico ficou com um ar pensativo. — Sabe que ela ficaria em boas mãos.

            — Eu sei. — Charlie lançou-lhe um olhar amável. Mas... agora... logo que ela se dê conta do estado em que se encontra, vai precisar de toda a gente que tiver.

            O médico concordou com a cabeça.

            — Não posso dizer o contrário. Agora ela não corre qualquer perigo, desde que a mantenhamos em completa imobilidade e tenhamos cuidado para que não apanhe uma pneumonia. — Esse era ainda o grande perigo, e suspensa como estava, com o corpo engessado preso a uma enorme máquina, o "espeto" como ela lhe chamava, viravam-na, como frango a assar, várias vezes por dia.

            Sam, porém, ainda não estava ciente das implicações do que acontecera, e o médico não lhe queria dizer nada até ela estar mais forte. Achava que, por enquanto, não havia necessidade.

            — Há um problema, Peterson. Quando ela souber, e esse dia não tarda, vai precisar de todos vós. Não lhe posso esconder o problema eternamente. O acidente foi só há duas semanas. Mas ela já está mais lúcida e em breve acabará por fazer deduções. Quando verificar que nunca mais voltará a andar, vai ser muito traumatizante para ela. Gostaria de tê-lo aqui.

            — Ou de tê-la lá. O que é que acha?

            — A sua empresa consegue fretar um avião? Acha que eles fariam isso?

            — Claro. — Charlie telefonara a Harvey essa manhã e Harvey dissera-lhe para não poupar nas despesas. — Uma enfermeira, um médico, qualquer tipo de aparelho que seja necessário. Façam o que tiverem de fazer que nós pagamos.

            — Está bem — anuiu o médico com um ar pensativo -, está bem. Se o estado dela não se alterar nos próximos dias, trato das coisas e mandamo-la de avião para Nova Iorque este fim-de-semana.

            — O doutor também virá?

            Charlie fez figas e o médico assentiu com a cabeça. — Aleluia! Obrigado, doutor!

            O médico sorriu e Charlie apressou-se a ir dar a novidade a Sam.

            — Vais para casa, garota.

            — Vou? Posso ir-me embora? — Sam ficou perplexa e emocionada. — E o meu espeto? Não vamos pagar mais pelo excesso de bagagem? — Embora ela estivesse a brincar, Charlie viu que ficara nervosa perante a perspectiva de abandonar o hospital. Começava a compreender o perigo que correra, apercebendo-se de que ainda não estava totalmente fora dele. A única coisa que não entendia tinha a ver com as pernas. Mas entenderia. Charlie arrepiava-se só de pensar. Enquanto estivesse engessada, não daria por nada.

            — Vamos levar o espeto conosco. O Harvey disse que podemos fretar um avião — comentou Charlie, ao mesmo tempo que esboçava um amargo sorriso.

            — Mas isso é uma loucura, Charlie. Será que eles conseguem manter-me direita com muletas ou coisa parecida, ou, na pior das hipóteses, porem- me numa cadeira de rodas com o corpo engessado e meterem-me num avião de regresso a casa?

            — Só se me der um colapso cardíaco. Olha, Sam, o que é fato é que conseguiste ultrapassar uma situação pior. Por isso, por que correr riscos? Por que não ires para casa com estilo?

            — Um vôo charter? — Sam pareceu hesitante, mas acabou por esboçar um sorriso de concordância.

            — Claro que iremos ter em consideração teu estado nos próximos dias.

            — Estará tudo bem. Quero sair daqui. — Sam esboçou um sorriso amarelo. — Só quero ir para casa, para a minha cama.

            Charlie percebeu, com alguma emoção, que por "casa" ela entendera o seu apartamento, quando ele quisera referir-se a Nova Iorque. Mencionou este fato ao médico, que o tranqüilizou.

            — Receio que ainda vá enfrentar muitas coisas desse gênero, Mister Peterson. A mente humana é uma coisa maravilhosa. Só aceita aquilo que entende. O resto fica armazenado até ser inteligível. Algures, nas profundezas da sua psique, ela sabe que ainda se encontra muito doente para ir para casa, mas ainda não está preparada para aceitar esse fato. Quando estiver, ela aceitará, não vai ser necessário ninguém dizer-lhe nada. Pelo menos, ainda não. Podemos discutir essa pequena questão no aeroporto de Nova Iorque se houver necessidade. Mas ela entenderá quando estiver preparada, tal como lidará com o fato de nunca mais poder andar. Um dia, toda a informação que já possui ficará no seu lugar e ela, então, saberá.

            — Como é que pode ter tanta certeza que ela entenderá? — sussurrou Charlie.

            Houve uma ligeira pausa antes de o médico responder. — Não tem alternativa.

            Charlie meneou lentamente a cabeça. — Acha que conseguiremos levá-la?

            — Mais cedo ou mais tarde — respondeu o médico calmamente.

            — Refiro-me a este fim-de-semana.

            — Teremos de ver — O médico sorriu e desapareceu para fazer as suas visitas.

            Os dias seguintes pareceram intermináveis, e Sam ficou subitamente impaciente, nervosa, agitada. Queria ir para casa, mas estava tendo problemas. O gesso começava a provocar-lhe irritação, tinha alguma tosse e uma erupção cutânea nos braços por causa de alguns medicamentos, sentindo uma comichão horrível no rosto, agora que todas as crostas estavam secas e caindo.

            — Meu Deus, Charlie, pareço um monstro! — Mostrou-se irritada pela primeira vez desde que estava no hospital e, quando entrou no quarto, Charlie teve a impressão de que tinha os olhos vermelhos.

            — Não acho. Estás com um ótimo aspecto. Há novidades?

            — Nada. — Exibia um ar taciturno e Charlie observou-a enquanto andava despreocupadamente pelo quarto. Já não estava nos cuidados intensivos, mas tinha um pequeno quarto, praticamente todo ocupado pela cama; no canto encontrava-se uma mesa coberta de flores, de Henry e de Jack, o amante, do resto da equipe, outro ramo de Harvey e ainda outro de Mellie e dele.

            — Queres ouvir umas novidades do escritório?

            — Não. — Sam estava deitada, coberta de gesso, os olhos fechados, e Charlie fitou-a, rezando para que ela não ficasse indisposta. Só ao fim de muito tempo é que voltou a abrir os olhos. Quando os abriu estava com um ar irado, e Charlie reparou que havia novamente lágrimas nos seus olhos.

            — O que é que se passa, querida? Vá lá, diz ao papá. — Sentou-se numa cadeira ao lado da cama e pegou-lhe na mão.

            — A enfermeira do turno da noite... a que tem aquela engraçada cabeleira ruiva... — As lágrimas começaram a correr-lhe lentamente pelo rosto. — Disse que quando eu for para casa... — Sam conteve um soluço e apertou a mão do amigo com mais força; enquanto ela o fazia, Charlie sentiu uma enorme satisfação. — Ela disse que não vou para casa... que vou para outro hospital... em Nova Iorque... Oh, Charlie, é verdade? — gemeu ela, como uma criança pequena.

            Charlie olhou para ela, com vontade de abraçá-la, tal como fazia com os filhos, mas não havia maneira de passar os braços pelo enorme volume de gesso, ou pela máquina adjacente; a única coisa que conseguia fazer era pegar-lhe na mão e fazer-lhe uma festa no rosto. Sabia que chegara o momento de lhe contar a verdade.

            — Sim, querida, é verdade.

            — Oh, Charlie, quero ir para casa. — Soluçou, angustiada, e estremeceu perante a dor.

            — Não faças isso, tonta, magoas-te, mas faz-te bem chorar. Tem calma. — Tentou animá-la, mas no seu íntimo sentia-se triste com o que estava a acontecer. Para Sam, era o início de uma estrada longa e difícil que começara a percorrer. A sua antiga vida acabara num ápice, às patas de um cavalo cinzento. — Vá lá, Sam, o regresso a Nova Iorque será um passo na direção certa, não achas?

            — Acho que sim.

            — Sem sombra de dúvida.

            — Sim, mas quero ir para casa. Não quero ir para um hospital.

            — Bem... — Charlie sorriu. — Pelo menos, sabemos que não estás louca. Mas tens de ir para um hospital durante uns tempos. Poderei visitar-te, assim como a Mellie, o Harvey e qualquer pessoa que queiras...

            — A minha mãe, não! — Sam revirou os olhos e riu-se por entre as lágrimas. — Oh, merda, Charlie, porque raio é que isto teve de me acontecer? — O sorriso desvaneceu-se e as lágrimas recomeçaram a cair.

            Durante um longo instante, Charlie manteve-se sentado, a mão dela nas suas; então, disse a única coisa que sabia. — Adoro-te, Sam. Todos te adoramos. E estamos aqui a teu lado.

            — És um bom amigo e também te adoro. — Aquelas palavras fizeram-na chorar ainda mais, mas a enfermeira chegou com o almoço.

            — Ouvi dizer que nos vai deixar, Miss Taylor. É verdade?

            — Estou a tentar. — E sorriu para Charlie. — Mas voltarei. Pelos meus próprios meios, apenas de visita. — Faço votos para que sim. — A enfermeira abandonou o quarto, ao mesmo tempo que Charlie soltava um suspiro de alivio. Por instantes, receara que ela desse a entender algo quando Sam dissera "pelos meus próprios meios".

            — Portanto — olhou para Charlie, enquanto comia um pouco de sopa -, quando é que vamos para casa?

            — Serve-te sábado, ou tens outros planos? — Charlie sorriu-lhe, imensamente feliz. Ela estava se esforçando. Oh, meu Deus, ela estava se esforçando. — Não. Sábado está bem. — Sorria ao olhar para ele, e Charlie não conseguiu evitar pensar que o médico tinha razão. Quando estivesse preparada para saber alguma coisa, ela saberia. A única questão consistia em saber quando estaria preparada para encarar a verdade. — Sim, sábado parece-me bem. Para que hospital vou, Charlie?

            — Não sei. Tens alguma preferência?

            — Tenho por onde escolher?

            — Vou ver.

            — Experimenta o Lenox Hill. Fica num bairro simpático e perto do metropolitano. Assim, toda a gente que quero ver poderá visitar-me. — Sam esboçou um meigo sorriso. — Talvez até a Mellie. Achas que ela pode trazer a bebê?

            Havia lágrimas no rosto de Charlie quando fez o gesto afirmativo com a cabeça.

            — Escondo-a por baixo do casaco e digo-lhes que é tua.

            — Ela é uma espécie de... tu sabes... — Sam pareceu embaraçada. — Uma espécie de... Afinal de contas, tem o meu nome.

            Charlie dobrou-se e beijou-a na testa; não poderia oferecer-lhe mais como resposta, sem se desfazer em lágrimas.

            Charlie conteve a respiração quando o avião decolou do aeroporto de Denver, no sábado de manhã. Tinham o cirurgião ortopedista com eles, assim como um jovem médico interno, duas enfermeiras, uma unidade de cuidados intensivos e oxigênio suficiente para soprá-los todos para a América do Sul. Samantha estava ligeiramente sedada, com um ar extremamente calmo, contente por voltar para casa. O médico parecia estar satisfeito com o seu estado de saúde e tomara as providências necessárias relativamente ao Hospital Lenox e à ambulância que os aguardaria no aeroporto quando chegassem. Além disso, tinham autorização especial de vôo e todos os sectores de controle aéreo sabiam da sua presença. Se Sam precisasse subitamente de assistência, poderiam fornecê-la em pleno ar e, além disso, possuíam autorização para aterrizar em qualquer ponto da rota ao primeiro sinal. Fora tudo pensado, só faltava agora voarem em segurança até Nova Iorque.

            Estava um dia ensolarado de agosto e Sam só falava no regresso a casa.

            Encontrava-se um pouco zonza, devido ao sedativo que lhe haviam dado, soltava risadinhas e dizia piadas de mau gosto, de que toda a gente ria, exceto Charlie, que tinha os nervos esfrangalhados. Sentia, uma vez mais, a responsabilidade sobre os seus ombros, e sabia que se algo corresse mal a culpa seria sua. Não deveria ter feito qualquer tipo de pressão, deveria tê-la deixado em Denver. O médico deu com ele, a meio do vôo, de olhos fixos numa janela da cauda; interrompeu-o com uma palmadinha no ombro e falou em voz baixa, para Sam não ouvir, caso acordasse.

            — Está tudo a correr bem, Peterson. Já falta pouco. Ela está ótima.

            Charlie voltou-se e sorriu para o médico.

            — Ela está conseguindo aguentar-se... e eu? Acho que envelheci vinte anos nas últimas duas semanas.

            — É uma experiência penosa tanto para ela como para a família. — O mais engraçado é que Charlie nem sequer era da família, mas era amigo. Tê-lo-ia feito por qualquer pessoa, pelo seu cunhado, por Harvey, por... Sam... Teria ficado mais outro mês à sua cabeceira se fosse necessário Sentia tanta pena dela. Como iria ser a vida dela... agora? Não tinha ninguém, nem marido, nem namorado, nem o maldito cow-boy que a abandonara e que ela nem sequer sabia onde se encontrava. Quem é que tinha para cuidar dela? Ninguém. Pela primeira vez, desde há muito tempo, Charlie deu consigo a detestar John Taylor. Se o sacana estivesse ao lado dela, como um marido decente, Sam não estaria sozinha naquele momento. Mas estava.

            Era esse o verdadeiro drama. O médico observava-o enquanto ele refletia e deu-lhe um ligeiro apertão no ombro.

            — Não a proteja em excesso, Peterson. Seria um erro terrível. Quando chegar a altura, ela terá de depender só de si, por assim dizer. Não é casada, pois não?

            Charlie abanou a cabeça.

            — Não, já não é.

            — Era o que eu achava.

            — Vai ser muito duro.

            — Será durante uns tempos. Mas vai acabar por se habituar. Os outros também se habituam. Pode levar uma vida normal. Pode ajudar-se a si própria, ajudar os outros e voltar ao trabalho. A menos que seja dançarina de sapateado, não deve fazer muita diferença, exceto psicologicamente. É aí que surgem os problemas. Mas só vão deixá-la sair do Lenox Hill quando estiver boa, tanto do ponto de vista físico como psicológico. Vão ensiná-la a cuidar de si, a ser independente. Vai ver. É uma mulher jovem e bonita, forte e com um espírito admirável, não há razão para não se adaptar. — Então, com um último toque no ombro de Charlie, sorriu. — Tomou a decisão correta... em ambas as vezes. Teria sido um crime não a operar, perder aquele espírito; ela deve estar em Nova Iorque, rodeada de rostos familiares.

            Obrigado por dizer isso — agradeceu Charlie com um olhar de gratidão.

            O médico não disse nada. Limitou-se a dar uma palmadinha no ombro de Charlie e foi dar uma olhadela a Sam. Duas horas depois, aterraram no Aeroporto Kennedy e a operação de transferência para a ambulância correu na perfeição. Uma unidade de cuidados intensivos e três para-médicos a acompanharam na viagem para o hospital. Com as luzes a piscar, mas com as sirenas desligadas, percorreram a auto-estrada a toda a velocidade.

            Meia hora depois, chegaram ao Lenox Hill, sem problemas.

            Sam sorria para Charlie quando entraram na última etapa da viagem.

            — É mais rápido assim, sem as complicações para levantar a bagagem e sem táxis.

            — Olha, da próxima vez — pediu Charlie, a sorrir para ela -, faz-me um favor. Arranja-me uma pequena complicação com a bagagem e apanhamos um táxi.

            Sam sorriu, mas logo que chegaram ao Lenox Hill, andou numa azáfama.

            Levaram mais de duas horas a tratar da papelada e a instalá-la confortavelmente num quarto individual. O médico ajudou a tomar todas as providências, encontrando-se depois com o novo médico, que estivera aguardando a chegada de Sam, graças a Charlie, uma vez mais. Quando tudo terminou, Sam, Charlie e o médico de Denver estavam exaustos. O resto dos elementos do grupo foi dispensado. Tinham sido pagos antes da viagem e voltariam a Denver mais tarde, nesse dia. O médico iria passar algum tempo em Nova Iorque, no Lenox Hill, acompanhando a evolução do estado de saúde de Sam, e regressaria a Denver num avião comercial.

            — Achas que vais ficar bem, Sam? — Charlie olhou-a com um sorriso cansado, enquanto lhe davam uma injeção e começava quase instantaneamente a dormir.

            — Sim, querido... claro... vou ficar bem... dá beijinhos meus à Mellie... e obrigada...

            Cinco minutos depois, Charlie encontrava-se no elevador com o médico; em seguida, apanhou um táxi e, dez minutos mais tarde, estava na Rua 81 Este, abraçado à esposa.

            — Oh, querida... oh, querida... — Charlie teve a sensação de ter voltado de uma zona de guerra; de repente, deu-se conta das enormes saudades que sentira e do seu estado de exaustão. A tragédia de Sam e a responsabilidade que assumiu por ela constituíam um pesado fardo para si e até agora não conseguira deixar de pensar nisso; de súbito, naquele momento, o único desejo que tinha era o de fazer amor com a mulher. Esta contratara uma baby-sitter para estar com os filhos; depois de todos eles terem atacado o pai e brincado com ele, deixando-o de rastos, Mellie enxotou-os para a baby-sitter, fechou a porta do quarto, pôs a água do banho a correr, fez-lhe uma massagem e fizeram amor, antes de Charlie lhe sorrir, com ar sonolento, e adormecer. Mellie acordou-o duas horas depois com o jantar, champanhe e um bolo que ela fizera e que dizia "Eu te amo. Bem-vindo a casa." — Oh, Mellie, amo-te tanto!

            — Também te amo. — Então, enquanto comiam. Achas que devíamos telefonar a Sam?

            Charlie abanou a cabeça; dera-lhe tudo o que tinha a dar durante uns tempos. Só desta vez, só esta noite, queria estar com Mellie, sem pensar no horrível acidente, no cavalo cinzento, em Sam coberta de gesso, no "espeto" ou no fato de ela nunca mais voltar a andar. O seu único desejo era estar com a mulher, fazer amor com ela, até cair nos seus braços e desfalecer, o que aconteceu depois da meia-noite, com um sonolento gemido e um largo sorriso.

            — Bem-vindo a casa — murmurou Mellie, quando o beijou no pescoço e apagou a luz.

 

            — Mãe, estou bem... não seja tonta... não há razão para; cá vir.... Oh, por amor de Deus... sim, claro que estou engessada, mas estou bem aqui. Não, não quero ser transferida para Atlanta, fui transferida de Denver para aqui há apenas três semanas, já chega... Porque é a minha casa, mãe. Não conheço ninguém em Atlanta. Sim, claro, tenho-a a si e ao George.

            Mãe... agora... mãe... por favor! Não estou ressentida com ele... — Sam revirou os olhos para Melinda quando esta entrou no quarto do hospital e fez uma careta horrível para o telefone: — É a minha mãe — disse baixinho para Melinda, que sorriu. — A sério, mãe, o médico é maravilhoso, gosto dele... Sei que é competente.,.. tenho a certeza... Vá lá, mãe. Não insista. Estou ótima, depois telefono-lhe. Pode telefonar-me. Quando me sentir capaz, vou até Atlanta... Não sei quando posso ir para casa... depois digo-lhe. Prometo... não, mãe, tenho de desligar... A enfermeira está à espera... Não, não pode falar com ela... Adeus, mãe. — Sam desligou e murmurou: — Olá, Mellie. Meu Deus, o que é que eu fiz para ter de aturar a minha mãe?

            — Ela está apenas preocupada contigo, Sam.

            — Eu sei. Mas me deixa doida. Quer vir visitar-me. Com o George, que quer falar com o meu médico e voltar o hospital de pernas para o ar. Diz-me, que bem um otorrinolaringologista da Geórgia pode dar para a minha coluna fraturada? — Mellie sorriu. — Como é que estás?

            — Bem. E tu?

            — Chateada? Quero ir para casa.

            — O que é que eles dizem?

            — Uma tolice qualquer, para eu ter paciência. Como é que está a minha homônima? — Sam sorriu ao pensar na Pequena Sam.

            — Maravilhosa. — Mellie sorriu também. — Faz mais coisas com dois meses do que qualquer dos garotos com quatro.

            — É do nome — asseverou-lhe Sam com um sorriso. — Mas evita que ela arranje problemas com cavalos. — Mellie não respondeu e Sam murmurou: — Quem me dera saber quanto tempo é que vou ficar aqui presa.

            Mellie, porém, suspeitava que ela não queria saber. Charlie dissera-lhe que Sam ficaria no hospital provavelmente durante um ano.

            Sam tinha visitas de toda a gente, inclusive de Harvey, que se sentou, com ar nervoso, na beira da cadeira, a passar os dedos pela aba do chapéu e do cachimbo, a fitar o corpo de Sam todo engessado, em cima da cama.

            — Não estejas tão tenso, por amor de Deus, Harvey, não mordo.

            — Assinas um documento para esse efeito?

            — Adoraria.

            Harvey esboçou um sorriso pesaroso e Sam perguntou-lhe quando é que ele ia ter a inteligência suficiente para despedi-la.

            — Não posso, Sam. Estou a poupar-te para a minha velhice. Além disso, já vi as imagens do primeiro anúncio da tua grande aventura no Oeste. Sam — Harvey pareceu ficar quase sem fôlego, tal era a admiração que sentia — se nunca fizeste nada na vida a não ser estar de barriga para o ar a comer chocolates, podes orgulhar-te do que fizeste.

            — Estão assim tão boas? — Sam pareceu perplexa. Geralmente ele não era pródigo em elogios. Ela soubera, por Charlie, que o material estava muito bom.

            — Melhor do que isso. Estão soberbas. E dizem que as outras ainda estão melhores. Minha querida, estou estupefato. Sam olhou-o durante um longo instante e depois lhe sorriu. — Devo estar a morrer, para falares assim.

            — A sério. Vou mandar gravar o anúncio num videocassete para que possas vê-lo antes de ir para o ar. Mas receio que no final disto tudo, Miss Samantha, vá mesmo reformar-me e fazer de ti diretora criativa.

            — Não me ameaces, Harvey. — Sam lançou-lhe um olhar furioso. — Não quero o maldito do teu lugar, por isso agüenta-te onde estás, senão fico aqui.

            — Que Deus te perdoe.

            Harvey vinha vê-la uma ou duas vezes por semana, Charlie vinha geralmente na hora de almoço, Henry Johns-Adams já viera visitá-la por duas vezes, trazendo-lhe uma caixa de divinos chocolates Godiva, e o amigo enviara-lhe uma bonita colcha da Bergdorf, que ela não via a hora de pôr na cama quando se livrasse do incômodo gesso. E Georgie, o poodle, mandara-lhe um engraçado postal e um livro.

            Uma semana depois, teve a visita mais indesejada. Apesar dos protestos de que não queria a visita da mãe, esta chegou de Atlanta acompanhada do marido e fizeram o melhor que puderam para virar todo o hospital de pernas para o ar. Passou várias horas a tentar convencer Samantha a processar a empresa, que, se não fossem eles e os seus anúncios ridículos, ela não teria feito a viagem, que era uma atividade perigosa, que eles se estavam se lixando para ela e que o patrão era indubitavelmente um louco que não estava ligando o mínimo para o fato de ela se ver obrigada a estar de barriga para o ar. Todo aquele chorrilho de asneiras irritou de tal maneira Samantha que ela se viu obrigada a pedir-lhe para sair; porém, teve de ceder quando a mãe se pôs a chorar e a dizer que Sam era uma filha cruel e ingrata, decidida a destroçar-lhe o coração. Foi um encontro cansativo, que deixou Samantha tremendo e lívida; contudo, no dia seguinte foi pior, com a mãe e George entrando no quarto, ostentando idênticas expressões fúnebres; era evidente que a mãe estivera a chorar e, mal se sentou, recomeçou.

            — Meu Deus, mãe, o que é que se passa? — Sam ficou mais nervosa ainda do que estava só de vê-los. Telefonara a Caroline Lord nessa manhã para saber o estado de Bill e fora informada de que ele tivera outro ataque cardíaco, este mais grave do que o primeiro. Presa à cama no Hospital Lenox Hill, não podia fazer nada para ajudar Caro e, de repente, sentiu inútil e num beco sem saída. Caro ficara bastante abalada com o acidente. Sam não lhe falou do seu infortúnio, pensando que Caro já tinha um fardo suficientemente pesado para carregar, mas Charlie, obviamente, já lhe contara. Caro estava preocupadíssima. Tal como toda a gente do mundo dos cavalos, conhecia os perigos e se encontrava em estado de choque. Obrigou Sam a prometer que voltaria a telefonar-lhe. Caso contrário, ela própria telefonaria a Sam quando tivesse um momento livre.

            Todos os seus pensamentos deixaram de estar centrados na tia Caro quando encarou a mãe, que se apresentava, como sempre elegantemente arranjada, com um traje de linho azul e uma blusa branca de seda. Calçava um bonito par de sapatos e trazia três fios de pérolas e brincos condizentes; embora fosse uma mulher pequena, roliça, de sessenta anos, os cabelos ainda eram tão belos como os de Sam. Eram brancos como a neve, agora, mas já tinham sido tão louros como os da filha. O marido era alto, bem-parecido e assemelhava-se mais a um comandante da marinha do que a um médico. Ombros largos, corado, com uma grande madeixa branca.

            — Oh, Samantha... — lamentou-se a mãe, enquanto George lhe segurava a mão e se sentava quase inerte, na cadeira.

            — Por amor de Deus, o que é que se passa? — Samantha teve uma sensação estranha, arrepiante, como se algo terrível estivesse prestes a acontecer-lhe, ou já tivesse acontecido. — Oh, Samantha...

            — Meu Deus! — Se pudesse, Sam teria gritado ou até batido com os pés no chão. Mas nos pés sentia apenas um formigueiro; estes se encontravam pendurados como carne morta, uma vez que o corpo estava envolto naquilo que parecia cimento. Todas as enfermeiras lhe diziam que era normal ela sentir-se assim visto ter o corpo engessado; Sam ficava mais reconfortada, apesar de, por instantes, ter encarado a eventualidade de as pernas estarem paralisadas. — O que é que se passa, rapaziada? — Lançou-lhes um olhar irritado e hostil. — Acabem com esse suspense todo!

            A mãe limitou-se a chorar ainda mais. Foi o padrasto que acabou por dar o primeiro passo.

            — Samantha, tivemos uma longa conversa com o teu médico esta manhã.

            — Com qual? Tenho quatro.

            Sam sentia-se uma adolescente irascível e insolente ao fitá-los com ar desconfiado. Só queria que eles se fossem embora e a deixassem em paz.

            O padrasto, porém, era um homem meticuloso.

            — De fato, falamos com dois. O doutor Wong e o doutor Josephs. Foram extremamente simpáticos. — Olhou para Sam com ar pesaroso; a mulher lançou-lhe um olhar carregado de mágoa antes de recomeçar a soluçar.

            — Disseram alguma coisa para provocar toda esta histeria? Há algo que eu deva saber? — Sam olhou, aborrecida, primeiro para a mãe, depois para George.

            — Sim, há. E, por muito que nos custe, acho que é altura de saberes. Os médicos estão simplesmente à espera da altura certa. Mas já que estamos aqui... — Parecia o início perfeito para um discurso fúnebre, e Samantha teve vontade de olhar em volta para ver quem estava no caixão. Naquele momento, George parecia mais um agente funerário do que um comandante da marinha e tentou olhá-la fixamente no rosto. — Agora que estamos aqui, achamos que é altura de saberes.

            — De saber o quê?

            — A verdade.

            De súbito, um pequeno despertador tocou algures, perto do coração de Sam.

            Era como se ela soubesse. Como se soubesse e sentisse exatamente o que iam dizer.

            — Oh? — foi tudo o que proferiu.

            — Sim... O acidente... Bem, Sam, fizeste ferimentos graves quando caíste. A coluna vertebral foi fraturada com gravidade em dois sítios. Foi um milagre não teres morrido do choque e dessas fraturas... e não haver lesões cerebrais, que eles agora sabem não terem existido.

            — Obrigada. É bom ouvir isso. E o resto? — O coração pulsou, mas o rosto manteve-se sereno.

            — Como sabes, em todo o resto, não tiveste muita sorte, ou não ficarias aqui toda engessada — murmurou George; após uma pausa, continuou: — O que tu não sabes... e nós achamos que deves saber, tal como os médicos, é que... está na altura de saberes, minha querida. O que tu não sabes, Samantha, é que... — Hesitou uma fração de segundo, antes de abrir as comportas da barragem. — Agora... agora, estás paraplégica.

            O silêncio instalou-se por instantes e Sam fitou-o — O que é que quer dizer com isso, George?

            — Que nunca mais voltarás a andar. Conservarás toda a sensibilidade do torso superior, dos braços, dos ombros, etcétera, mas a lesão mais grave é no nível da cintura. Vê-se perfeitamente na radiografia — explicou com ar profissional. Daí para baixo, nada. Podes ter alguma sensação, como suponho que já tenhas, mas mais nada. Não terás certamente nenhum controle muscular, nem nenhuma capacidade de utilização das pernas. Terás naturalmente que andar numa cadeira de rodas. — Então, desferiu o golpe final: — Mas, como é óbvio, a tua mãe e eu resolvemos, esta manhã, que virás viver conosco.

            — Não, não irei! — Foi um grito de pânico, e tanto a mãe como o padrasto ficaram perplexos.

            — Claro que irás, querida. — A mãe estendeu uma mão e Sam encolheu-se como um animal ferido que quer desesperadamente fugir; lançou-lhe um olhar feroz. Não tinham o direito de lhe dizer aquilo. Não era verdade... não podia ser... ninguém lhe dissera... mas sabia, ainda antes de ouvir, que era essa a realidade, a triste realidade que estivera a esconder desde o momento em que recuperara a consciência em Denver. Fora a única coisa que ninguém lhe dissera. À exceção daquelas duas pessoas. Tinham vindo ali para lho comunicar, como se fosse essa a sua missão, e ela não estava interessada em ouvi-los.

            — Não quero, mãe. — Sam falava de dentes cerrados, mas eles recusaram-se a perceber.

            — Mas já não consegues tomar conta de ti, querida. Estarás tão indefesa como um bebê. — A mãe pintara-lhe um quadro que a levava a desejar morrer.

            — Não vou! Não vou! Bolas... Mato-me primeiro! — Sam estava aos gritos.

            — Samantha! Como é que te atreves a dizer tal coisa?

            — Mato-me, sim, se me apetecer, bolas! Não ficarei reduzida a esta vida, à vida de uma aleijadinha. E não quero sentir-me tão indefesa como um bebê, a viver em Atlanta, com os pais, aos trinta e um anos. Como é que isto me foi acontecer, bolas... Não podia ter acontecido, não vou deixar que aconteça.

            A mãe ficou incapaz de reagir, enquanto George pôs o seu ar mais profissional e tentou acalmá-la; Sam desatou a gritar com mais força. Os olhos da mãe viraram-se para o marido e imploraram-lhe que saíssem.

            — Acho que devíamos falar sobre isto mais tarde... — Encaminharam-se lentamente em direção à porta. — Precisas de algum tempo para ti, Samantha, para te adaptares... Temos muito tempo para discutir o assunto, não nos vamos embora amanhã, e os médicos acham que não terás alta antes de maio ou junho.

            — O quê? — Foi um gemido de dor.

            — Samantha... — Por instantes, a mãe ameaçou aproximar-se da cama, mas Sam reagiu com rispidez.

            — Saiam daqui, por amor de Deus... por favor... — Começou a soluçar descontroladamente. — Vão-se embora... — Eles assim fizeram e, de súbito, ficou só, no quarto vazio, com o eco das suas palavras.

            Uma enfermeira a encontrou, meia hora depois, tentando cortar os pulsos com a borda de um copo de plástico. Os ferimentos que provocou foram suturados com alguns pontos, mas o mal que a mãe e o padrasto lhe fizeram levou vários meses a sarar.

 

            — Como é que vai isso, garota? — Charlie sacudiu a neve do colarinho, tirou o casaco e atirou-o para cima de uma cadeira. Tinha neve na barba e no cabelo. — Então? — Olhou-a com ar expectante e ela encolheu os ombros.

            — Do que é que estavas à espera? Que estivesse sentada na cadeira com um tutu cor-de-rosa e fizesse um arabesco quando entrasses?

            — Oh, estás com uma excelente disposição!

            — Vai se foder.

            Charlie olhou para o relógio com uma expressão pensativa. — Gostava muito, mas a Mellie tem uma reunião da PTA e, na realidade, não tenho tempo. Vou encontrar-me com um cliente às duas.

            — Muito engraçado.

            — Não posso dizer o mesmo de ti.

            — Sabes, já não tenho graça. É a vida. Tenho trinta e um anos e sou uma deficiente numa cadeira de rodas. Não é engraçado, nem divertido, nem bonito.

            — Não, não é, mas também não é tão deplorável como queres dar a entender.

            — Há três meses e meio que a via assim, desde que o idiota do padrasto lhe dera a notícia. Já não tinha gesso, usava um apoio para as pernas e andava de um lado para o outro na cadeira de rodas. Mas agora vinha a parte mais difícil: os complicados meses de fisioterapia em que ela aprenderia, ou não, a viver com a deficiência. — Não há de ser assim tão mau, Sam. Não hás de ser uma "aleijadinha indefesa", como diz a tua mãe.

            — Não? Porque não? Vais fazer outro milagre e devolver-me o controle sobre as minhas pernas? — Bateu-lhes com os punhos como se fossem de borracha.

            — Não, não posso fazer isso, Sam. — Charlie falou num tom meigo mas firme. — Mas controlas a mente, os braços, as mãos e... — Sorriu. — E a boca. Podes fazer muitas coisas com isso tudo, se quiseres.

            — É mesmo? O quê, por exemplo?

            Naquele dia, Charlie estava preparado.

            — Por acaso, Miss Espertalhona, hoje te trouxe um presente do Harvey.

            — Mais uma caixa de chocolates de alguém e eu grito. Parecia uma criança petulante e não a Sam que ele conhecia. Mas ainda existia esperança de que ela se adaptasse. Os médicos haviam dito que muito provavelmente acabaria por cair em si. Era uma adaptação enorme para qualquer pessoa e especialmente para uma jovem bonita e ativa como Sam.

            — Ele não te mandou chocolates, garota. Mandou-te trabalho. — Por instantes, Charlie viu uma expressão de surpresa nos olhos de Sam.

            — O que é que queres dizer com isso: "Ele mandou-me trabalho"?

            — Isso mesmo. Ontem, falamos com os teus médicos e eles disseram que não há nenhuma razão para que não possas trabalhar aqui. Trouxe-te um ditafone, canetas, papel, três dossiês que o Harvey quer que dês uma vista de olhos... Preparava-se para continuar a falar, quando Sam fez girar a cadeira de rodas e se afastou.

            — Por que diabo eu faria isso? — perguntou num tom ríspido.

            Charlie considerava que aquele jogo já estava indo longe de mais.

            — Porque estás há muito tempo de traseiro para o ar! Porque és inteligente, porque podias ter morrido e não morreste! Portanto, não desperdices o que tens, — Parecia zangado e Sam estava mais calma quando voltou a falar.

            — Por que razão eu havia de fazer alguma coisa pelo Harvey?

            — Por que razão ele havia de fazer alguma coisa por ti? Porque razão havia de te dar cinco meses de férias porque o teu marido te deixou, não se poupando despesas para te trazer para casa quando tiveste o acidente? Devo lembrar-te que ainda podias estar sozinha em Denver, se não fosse o Harvey! E depois? Por que é que ele havia de te dar baixa ilimitada e esperar que voltasses?

            — Porque sou boa naquilo que faço, é por isso!

            — Estupor! — Era a primeira vez, em meses, que Charlie se zangava com ela, e soube-lhe bem. — Ele precisa da tua ajuda, bolas! Tanto ele como eu estamos atolados em trabalho. Estás disposta a pôr-te boa de novo e a deixar de te lastimares, ou não?

            Sam ficou calada durante um longo instante, as costas voltadas, a cabeça baixa.

            — Ainda não decidi. — Articulou as palavras em voz muito baixa e Charlie sorriu.

            — Adoro-te, Sam. — Ela voltou-se lentamente para o olhar de frente e, nessa altura, viu lágrimas a correrem pelo rosto.

            — Que diabo é que eu vou fazer, Charlie? Onde é que eu vou viver? E como?... Oh, meu Deus, tenho tanto medo de acabar por ir morar com a minha mãe em Atlanta. Telefonam-me todos os dias para me dizer que sou uma aleijadinha indefesa e eu não paro de pensar nisso... que sou...

            — Não és. Não és uma pessoa indefesa. Podes ter de fazer algumas mudanças na tua vida, mas nada de tão radical, como ir para Atlanta. Meu Deus, te deixam maluca. — Sam fez um gesto triste de concordância com a cabeça e Charlie pegou-lhe no queixo. — A Mellie e eu não deixaremos que isso aconteça, nem que tenhas de vir morar conosco.

            — Mas eu não quero estar dependente de ninguém, Charlie. Quero cuidar de mim própria.

            — Então, cuida. Não é isso que estão a ensinar-te? Sam fez um ligeiro gesto afirmativo com a cabeça.

            -É. Mas leva a vida toda.

            — Quanto tempo é a vida toda? Seis meses? Um ano? Algo parecido com isso.

            — Não achas que vale a pena só para não teres de ir viver em Atlanta?

            — Acho. — Sam limpou as lágrimas com o elegante casaco de pijama. — Para isso, nem que levasse cinco anos.

            — Então, fá-lo, aprende o que tens a aprender, volta para o teu mundo e faz aquilo que tens de fazer, Sam. Entretanto... — Charlie sorriu-lhe e olhou para o relógio. — Entretanto, faz-me um favor e lê esses dossiês e esses memorandos. Fá-lo pelo Harvey.

            — Não é "pelo Harvey". Vocês os dois são uns sacanas. Eu sei o que estão a fazer, mas vou tentar. Dá-lhe um beijo meu.

            — Ele também te mandou um. Disse que vinha cá amanhã.

            — Diz-lhe para não se esquecer dos meus Mickey Spillanes. Sam e Harvey eram viciados em livros policiais e ele mandava-lhe exemplares para se entreter.

            — Oh, meu Deus... vocês dois. — Charlie enfiou-se a custo no pesado sobretudo, calçou as galochas, puxou o colarinho para cima e disse-lhe adeus da porta.

            — Adeus, Papai Noel. Dá beijinhos à Mellie.

            — Sim, chefe. — Fez a continência e desapareceu. Durante muito tempo, Sam ficou de olhos fixos nos dossiês, sentada na sua cadeira. Era quase Natal e pensara em Tate toda a manhã. Só passara um ano desde que estivera no Rancho Lord e que Tate fizera de Papai Noel para os garotos. Fora nessa altura que Sam começara a conhecê-lo melhor e que a relação se iniciara.

            No dia de Natal, ele levara-a para a cabana secreta. Pensar nele, fez com que revivesse tudo outra vez, e sentiu o mesmo sofrimento, há muito conhecido, quando se pôs a imaginar para onde é que Tate teria ido.

            Falara com Caroline nessa manhã. Bill tivera um ligeiro ataque cardíaco depois do dia de Ação de Graças e, nos últimos meses, só tinha piorado.

            Por entre os tristes relatos de Caro, Sam detestava incomodá-la com perguntas acerca de Tate Jordan, mas acabava sempre por fazer e, como de costume, não havia novidades. Caroline estava terrivelmente deprimida por causa do estado de saúde de Bill. Contratara um novo capataz, um homem jovem com mulher e três filhos, que parecia estar a fazer um bom trabalho. E, como sempre, Caroline encorajava Sam a continuar. A fisioterapia era para Sam o trabalho mais duro da sua vida e perguntava a si própria se valeria a pena: fortalecer os braços para poder balançar-se, quase como um macaco, sentar-se e sair da cadeira, deitar-se e sair da cama, sentar-se no bacio e levantar-se... tudo aquilo de que precisava para poder viver só. Se cooperasse, o pessoal treiná-la-ia para ser totalmente independente. Sam recusara qualquer tipo de ajuda — sentia, no íntimo, que não valia a pena — mas, nesse momento, achava que era importante continuar. Charlie tinha razão. Sobrevivera, razão mais do que suficiente para continuar.

            O dia de Natal foi um feriado difícil para Sam. Harvey Maxwell, Charlie, Mellie e os garotos apareceram. A enfermeira deixou todos entrarem e Sam chegou a pegar a bebê, que agora estava com quase cinco meses e mais bonita do que nunca. Depois de todos terem partido, Sam sentiu-se extraordinariamente só. No final da tarde, pensou que não iria agüentar aquela situação; saiu do quarto e foi até ao fundo do corredor, desesperada. Então, encontrou um rapazinho numa cadeira de rodas como a sua, sentado à janela, com um ar triste, a olhar fixamente para a neve.

            — Olá, chamo-me Sam. — Sentiu o coração destroçado, e ele virou-se para ela. Não devia ter mais de seis anos, os olhos inundados de lágrimas.

            — Nunca mais posso brincar na neve.

            — Nem eu. Como te chamas?

            — Alex.

            — O que é que te deram no Natal?

            — Um chapéu de cow-boy e um coldre. Mas também não posso andar a cavalo.

            Sam abanou ligeiramente a cabeça e, de repente, perguntou:

            — Porque não?

            Alex olhou para Sam como se ela fosse muito estúpida. — Porque estou nesta cadeira, palerma. Fui atropelado quando andava de bicicleta e agora tenho de ficar nesta coisa para sempre. — Olhou para Sam com curiosidade. — E tu?

            — Caí de um cavalo no Colorado.

            — Sério? — Olhou para Sam com ar interessado e ela esboçou um largo sorriso.

            — Sério. E vou dizer-te uma coisa: aposto que ainda consigo montar e tu também. Uma vez vi um artigo numa revista que mostrava pessoas como nós a cavalo. Acho que tinham selas especiais, mas conseguiram.

            — Também tinham cavalos especiais? — Parecia encantado com a idéia e Sam sorriu e abanou a cabeça.

            — Acho que não. Só bonzinhos.

            — Foi um cavalo bonzinho que te fez cair? — Alex olhou fixamente para as pernas de Sam e depois para a cara.

            — Não, não foi um cavalo bonzinho. Mas fui suficientemente palerma para montá-lo. Era mesmo mau e fiz uma série de asneiras quando o montei.

            — O quê, por exemplo?

            — Andar a galope por todo o lado e correr uma série de riscos. — Fora, pela primeira vez, honesta consigo própria. Era também a primeira vez que falava do acidente sem muita mágoa, o que a surpreendeu. — Gostas de cavalos, Alex?

            — Gosto muito. Uma vez fui a um rodeio.

            — Foste? Eu trabalhei num rancho.

            — Mentira! Não trabalhaste nada! — Pareceu indignado. As mulheres não trabalham em ranchos.

            — Isso é que trabalham. Eu trabalhei.

            — Gostaste? — Ainda parecia ter dúvidas.

            — Adorei.

            — Então, porque é que paraste?

            — Porque vim para Nova Iorque.

            — Por quê?

            — Senti falta dos amigos.

            — Oh! Tens filhos?

            — Não. — Sentiu uma dor aguda ao dizê-lo e saudades da pequena Sam. — Tens filhos, Alex? — Riu-se para ele e Alex soltou uma gargalhada.

            — Claro que não. És tola. O teu nome é mesmo Sam?

            — É. Quero dizer, o nome é Samantha. Os meus amigos chamam-me Sam.

            — O meu é Alexander. Mas só a minha mãe é que me chama assim.

            — Queres ir dar uma volta? — Sentia-se inquieta e Alex era uma companhia tão boa como outra qualquer.

            — Agora?

            — Claro. Porque não? Estás à espera de visitas?

            — Não. — Por instantes, Alex pareceu triste de novo. — Foram agora mesmo para casa. Estava à janela vendo-os sair.

            — Está bem. Então, porque é que tu e eu não damos uma voltinha? — Sam riu-se para ele com um ar travesso, deu-lhe um empurrão para o pôr a andar e disse à enfermeira sentada à secretária que ia levar Alex a dar um passeio. Todas as enfermeiras presentes lhes acenaram, enquanto eles se dirigiam para os elevadores e daí para a loja de presentes no andar principal. Sam comprou-lhe três pirulitos e umas revistas para si. Depois, decidiram também comprar pastilhas e, quando regressaram, vinham fazendo balões e brincando de adivinhar.

            — Queres ir ver o meu quarto?

            — Claro. — Alex tinha uma árvore de Natal pequenina com alegres decorações do Snoopy e as paredes estavam forradas com desenhos e cartões dos amigos da escola.

            — Qualquer dia, vou voltar para a escola. O meu médico diz que não tenho que ir para uma escola especial. Se fizer terapia, posso ser quase como as outras pessoas.

            — O meu diz o mesmo.

            — Andas na escola? — Alex pareceu intrigado e ela riu-se.

            — Não. Trabalho.

            — O que é que fazes?

            — Trabalho numa agência de publicidade. Fazemos anúncios.

            — Como aqueles que vendem porcarias para os garotos na televisão? A minha mãe diz que as pessoas que os fazem são irespons... irronsáveis, uma coisa assim parecida.

            — Irresponsáveis. Na verdade, eu faço mais anúncios para vender porcarias para os adultos, como carros, pianos, batons ou coisas para nos fazerem cheirar bem.

            — Bah...

            — Pois... um dia, talvez volte a trabalhar num rancho. Alex fez um ar sério e concordou com a cabeça. Parecia-lhe razoável.

            — És casada, Sam?

            — Não.

            — Por quê?

            — Acho que ninguém me quer — respondeu Sam em tom de gracejo; Alex, porém, assumiu novamente um ar sério e abanou ligeiramente a cabeça.

            — És casado, Alex?

            — Não. — Riu-se. — Mas tenho duas namoradas.

            — Duas...? — E continuaram a conversar durante horas. Nessa noite, partilharam o jantar, Sam voltou para lhe dar um beijo de boas-noites e lhe contar uma história. Quando regressou ao quarto, Sam sorriu em paz consigo própria e atacou uma pilha de papéis.

 

            Alex deixou o hospital em Abril. Foi para casa com a mãe e o pai, depois voltou para a escola. Mandava uma carta a Sam todas as semanas, contando-lhe que era como os outros garotos novamente e até ia todos os domingos a um jogo especial de basebol com o pai e outros garotos em cadeira de rodas. Ditava as cartas à mãe e Sam guardava-as todas numa pasta especial. Começou também a enviar-lhe cartas, pastilhas elásticas, fotografias de cavalos, tudo o que encontrava na loja de presentes e que achava que ele iria apreciar. De algum modo, aquela ligação fez com que Sam se sentisse mais forte. Deu-lhe como que um empurrão. Mas o verdadeiro teste para Sam veio no final do mês, quando o médico abordou a questão de ela ir para casa.

            — Bem, o que é que acha? Pensa que está preparada?

            Sam ficou em pânico com a idéia e abanou a cabeça. — Ainda não.

            — Por quê?

            — Não sei... Não tenho a certeza se consigo... Não estou... Os meus braços não estão suficientemente fortes... — De repente, tinha mil e uma desculpas, mas o médico sabia que aquilo era normal. Sentia-se segura no seu casulo e já não queria sair. Quando a altura chegasse, teriam de pressioná-la delicadamente e o Dr. Nolan sabia que ela lhes resistiria com todas as forças.

            Efetivamente, Sam até já estabelecera uma rotina adequada para o seu caso. Três horas de exercício físico todas as manhãs, três horas de trabalho com papelada do escritório, todas as tardes. Os anúncios, já em exibição, haviam conquistado sete novos prêmios, entre eles o muito cobiçado Clio, e Sam começara a contribuir para a campanha com novas idéias. Henry Johns-Adams, o amigo e Charlie estavam prestes a partir para o Oeste, para filmar mais dois anúncios.

            Uma noite, Sam telefonou a Caroline para tentar, uma vez mais, utilizar o rancho, no intuito de ajudar a amiga a desviar a sua atenção do problema de Bill, e sofreu um terrível choque. Caroline atendeu ao telefone e, ao ouvir a voz de Sam, desatou a soluçar tão violentamente, expondo um sofrimento imenso, oriundo das profundezas da alma.

            — Oh, Sam... meu Deus... ele morreu... ele morreu. — Sam não sabia o que dizer. De fato, que palavras proferir? Limitou-se a tentar animá-la.

            Agora, uns meses mais tarde, Caroline sentia-se completamente perdida sem ele e Sam mostrou-se impotente ao ouvi-la tão desolada e prostrada, o espírito exausto e a alma destroçada, sem o homem que amara tantos anos.

            Era Sam que agora lhe dava forças para continuar, quem a encorajava.

            — Mas não tenho mais ninguém, Sam. Não tenho razões para viver. Toda a minha família está morta... e agora o Bill... — Ainda tens o rancho, a mim e tantas outras pessoas que se preocupam contigo.

            — Não sei, Sam. — Parecia tão cansada. — Sinto que a minha vida acabou. Já nem quero andar a cavalo. Deixo o novo capataz tomar conta de tudo por mim. Nada tem significado sem o Bill... — Sam conseguia ouvir as lágrimas na voz de Caroline. — Sinto uma tristeza imensa.

            Fizera com que enterrassem Bill no rancho e houvera um serviço fúnebre. Ele levara a sua farsa até ao fim. Morrera como capataz do Rancho Lord e não como marido de Caroline, apesar de isso já não ter qualquer importância. Soubessem as pessoas ou não, ambos tinham sido respeitados, e a sua perda fora sentida por muitos que compartilhavam os sentimentos de Caroline por terem perdido um bom amigo, mesmo que não soubessem que Bill fora o seu homem.

            Claro que ainda não havia notícias de Tate Jordan. Sam já nem perguntava.

            Sabia que Caro lhe diria. Todas aquelas pessoas que contactara, todos aqueles ranchos que visitara, todos aqueles rancheiros e ajudantes com quem falara, ninguém o vira, ninguém o conhecia. Interrogava-se sobre o seu paradeiro, se era feliz, se lembrava dela. Agora já não valia a pena encontrá-lo. Sam não tinha mais nada para lhe dar. Agora era ela que não o deixaria ficar consigo. Seria ela a fugir. Mas não teria de fazê-lo. Tate já partira há um ano.

            Era primavera quando eles a retiraram cuidadosamente do ninho, apesar dos protestos da mãe. O médico deu-lhe alta no primeiro dia de maio, um esplêndido dia quente de sol, e Sam foi ver o apartamento pela primeira vez. Tivera de contar, uma vez mais, com Charlie, e Mellie telefonara a uma empresa de mudanças, para lhe empacotarem tudo na antiga casa. Sam sabia que não tinha quaisquer possibilidade de viver sozinha no antigo apartamento, por causa das escadas; miraculosamente, vagara um no prédio de Charlie e Melinda. Ficava no rés-do-chão e tinha um jardinzinho cheio de sol. Iria ser ótimo para Samantha porque não havia escadas, era de fácil acesso e tinha porteiro. Exatamente o que o médico recomendara. Sam dera instruções aos homens das mudanças para porem as mobílias segundo o esquema que desenhara e para deixarem os caixotes com os seus pertences, que ela própria os desencaixotaria. Iria ser o primeiro desafio depois de sair do hospital, e era bem grande.

            Bufou, arquejou, atacou as caixas, suou e, uma vez, até chegou a cair da cadeira ao tentar pendurar um pequeno quadro na parede. Mas levantou-se, pendurou-o, retirou tudo das caixas, fez a cama, lavou a cabeça, tal como lhe haviam ensinado. Na segunda-feira de manhã, sentia-se tão vitoriosa que, quando apareceu no escritório, de camisa e blusa de gola alta preta, botas de camurça pretas à moda e uma fita vermelha no cabelo, parecia mais jovem e mais saudável do que nunca naquele ano terrível. Quando a mãe telefonou, ao meio-dia, a lamentar o destino da filha, Sam estava ocupada numa reunião. Depois, foi almoçar ao Lutèce, com Charlie e Harvey, para festejar o seu regresso. No final da semana, tivera o primeiro cliente, com o qual lidara com elegância e à-vontade. Ficava intrigada ao ver que os homens ainda a olhavam como se fosse atraente, e até o terror que sentia ao pensar que os olhares fossem de pena não conseguia diminuir o prazer de saber que, mesmo não sendo uma mulher funcional, a sua feminilidade ainda existia. Sam recusara-se a discutir a possibilidade de sair com outra pessoa com o psiquiatra do hospital.

            Considerava que esse assunto estava arrumado e, na altura, deixaram-no para trás e debruçaram-se sobre o resto. Fizera tais progressos em todas as áreas que os médicos acharam que, mais cedo ou mais tarde, ela admitiria todas as facetas da sua vida. Afinal, Sam só tinha trinta e um anos e era incrivelmente bonita. Não era provável que uma mulher como Sam Taylor passasse o resto da vida sozinha, dissesse ela o que dissesse.

            — Bem... — Harvey, com um dos seus melhores sorrisos, ergueu uma taça de champanhe. — Proponho um brinde à Samantha. Que vivas mais cem anos, sem tirares um único dia de folga da CHL. Obrigado. — Fez uma vênia, os três riram e Sam fez outro brinde.

            No final do almoço estavam meio embriagados e Sam dizia piadas tolas por não ser capaz de conduzir a cadeira. Foi de encontro a dois peões no caminho de regresso ao escritório, e Charlie tomou conta da cadeira e começou a empurrá-la, a custo, dando um encontrão num polícia, que quase caiu de joelhos.

            — Charlie, por amor de Deus! Vê por onde andas!

            — Eu estava... eu acho que ele está bêbedo. Que chocante, um policia de serviço!

            Os três riram como crianças e, quando chegaram ao escritório, tiveram dificuldade em ficar sóbrios. Acabaram por desistir e saíram mais cedo.

            Fora um dia cheio.

            Nesse sábado, Sam convidou o seu amiguinho Alex para almoçar e ficaram os dois nas cadeiras ao sol. Comeram cachorros-quentes e batatas fritas e Sam levou-o ao cinema. Sentaram-se, lado a lado, na coxia, no Radio City.

            Os olhos de Alex arregalavam-se a ver o filme. Quando o levou a casa ao fim do dia, sentiu um pequeno baque no coração ao entregá-lo à mãe. No regresso, foi refugiar-se no apartamento de Mellie, onde brincou com o bebê. De repente, enquanto Sam atravessava cautelosamente a sala, a pequena Sam levantou-se e, nas pontas dos pés, com os braços esticados, seguiu-a. Sentada na cadeira de rodas, Big Sam, como lhe chamavam na presença do bebê, abriu a boca de espanto. Então, quando a criança caiu em cima do tapete, a palrar, Sam gritou por Mellie, que chegou mesmo a tempo de vê-la fazer a mesma proeza novamente, e só com dez meses.

            — Está andando! — gritou Mellie para ninguém em particular. — Está andando... Charlie! A Sam está andando...

            Charlie chegou à porta com uma expressão atônita, sem ter percebido que se referiam ao bebê. Sam olhou para ele com assombro, as lágrimas a correrem pelo rosto, depois, sorriu e esticou os braços para o bebê.

            — Oh, pois está!

 

            A Crane, Harper & Laub ganhou novo Clio nesse ano, atribuído a outro anúncio de Sam. No final desse ano, conseguira mais duas campanhas importantes. As premonições de desgraça da mãe não se concretizaram. Em vez disso, trabalhava mais do que nunca, tomava conta do apartamento com facilidade, visitava alguns amigos e tinha encontros esporádicos, aos sábados à tarde, em que ia ao cinema com Alex, que tinha já sete anos. De um modo geral, Sam era feliz. Estava contente por ter sobrevivido. No entanto, ainda não sabia muito bem como a vida iria prosseguir. Harvey ainda era o diretor criativo e continuava ameaçando reformar-se; contudo, Sam nunca acreditou nessa eventualidade até ao dia um de novembro, quando ele a chamou ao seu gabinete e apontou, com ar ausente, para uma cadeira.

            — Senta-te, Sam.

            — Obrigada, Harvey. Já estou sentada. — Riu-se, divertida; Harvey pareceu momentaneamente perplexo e soltou uma gargalhada.

            — Raios, Sam, não me ponhas nervoso, tenho uma coisa para te dizer... não, para te perguntar...

            — Queres pedir-me em casamento, depois destes anos todos? — Era uma piada antiga entre eles. Harvey era casado e feliz há trinta e dois anos.

            — Não, bolas, hoje não estou a brincar! Sam! — Olhou-a fixamente, com um ar quase feroz. — Vou fazê-lo. Vou me reformar no primeiro dia do ano.

            — Quando é que te deu essa pancada, Harvey? Esta manhã? — Sam ainda sorria. Já não levava a sério as ameaças de ele se reformar e estava satisfeitíssima com o emprego. O salário subira, de modo satisfatório, ao longo dos anos, e a CHL dera-lhe tanto em termos de camaradagem e de compreensão face aos vários problemas que enfrentara que sentia uma lealdade inquestionável para com eles. Sam não precisava do lugar de Harvey. — Porque é que não te acalmas e tiras umas férias com a Maggie neste Natal, num sítio quente, como as Caraíbas. Depois voltas, como um menino bonito, arregaças as mangas e regressas ao trabalho.

            — Nem pensar. — De repente, parecia um garoto agressivo. — Sabes uma coisa, Sam? Tenho cinqüenta e nove anos e interrogo-me sobre o que estou fazendo. Quem é que se importa com anúncios? Quem é que se lembra de alguma coisa que tenhamos feito, no ano que vem? E estou perdendo o melhor dos meus últimos anos com a Maggie, sentado nesta secretária, trabalhando até cair para o lado. Já não quero fazer mais nada. Quero ir para casa, Sam, antes que seja tarde de mais. Antes de perder a minha oportunidade, antes de ela ou eu adoecermos, ou um de nós morrer. Nunca pensei assim antes, mas vou fazer sessenta anos na próxima terça-feira e, olha, que se lixe! Vou reformar-me agora e não conseguirás dissuadir-me, porque não vou deixar. Por isso, é que te chamei aqui! Desejo saber se queres o meu lugar, Sam, porque se o quiseres, podes ficar com ele. De fato, o meu pedido é só uma formalidade. Quer o queiras quer não, o lugar é teu!

            Sam ficou imóvel, algo receosa, por instantes, sem saber o que responder.

            — Harvey, mas que grande discurso.

            — Estou falando sério, não estou brincando.

            — Bem, de uma certa maneira, acho que tens razão. — Passara meses a pensar em Bill King e na tia Caro e interrogava-se se eles teriam apreciado cada momento, até ao fim. Haviam estado tão ocupados a esconder o que faziam durante tantos anos que tinham, muitas vezes, perdido a oportunidade de estarem juntos, privando-se de grandes alegrias. Para Sam, parecia um enorme desperdício de energia, energia essa que poderiam ter utilizado muito melhor; porém, já tudo pertencia ao passado. O que mais a preocupava era Caro; que se encontrava num estado lastimável desde que Bill morrera, há oito meses. Assolara-a uma profunda depressão, e Sam desejava muito ir vê-la; viajar, porém, era a única coisa que ela ainda não tinha conseguido encarar. Sentia-se confortável em casa e sabia que era algo que estava ao seu alcance, mas sair e fazer grandes viagens ainda a assustava. Também não fora a Atlanta e sabia que, provavelmente, nunca iria para lá. Contudo, uma visita à tia Caro era algo diferente.

            Ainda não pusera mãos à obra nem organizara as coisas para ir. Tinha intenções de lá ir no Natal, mas não era certo. Receava ir lá nessa ocasião e encarar todas as recordações de Tate.

            — Então, Sam, queres ser diretora criativa? — Era uma pergunta direta que exigia uma resposta também direta; Sam olhou para Harvey com um sorriso de hesitação.

            — Sabes, o engraçado é que não sei. Gosto de trabalhar para ti, Harvey, e antes pensava que ser diretora criativa era o último dos objetivos a atingir. Mas verdade é que, nos últimos dois anos, a minha vida e os meus valores mudaram tanto, que não tenho a certeza de desejar tudo o que isso implica: noites sem dormir, dores de cabeça, úlceras, especialmente agora. Outra coisa que me preocupa é o fato de o diretor criativo ter de viajar. Ainda não me sinto à vontade para fazê-lo. Não me sinto segura e é por causa disso que ainda não fui visitar a minha amiga na Califórnia. Não sei, talvez já não seja a pessoa indicada para o lugar. E o Charlie?

            — É o diretor artístico, Sam. Sabes bem como é raro um diretor artístico passar a diretor criativo. São cargos distintos.

            — Talvez. Mas ele conseguiria desempenhar o cargo e seria um bom diretor criativo.

            — E tu também. Vais pensar no assunto?

            — Claro que sim. Estás mesmo falando a sério desta vez, não estás? — Sam estava tão surpreendida com a decisão de Harvey, como com a sua hesitação em aceitar. Mas já não sabia se era aquilo que queria; por muito bem que conseguisse fazer a sua vida na cadeira de rodas, não tinha a certeza de ter a mobilidade suficiente para o cargo. — Quando é que queres que te dê a resposta?

            — Daqui a duas semanas.

            Sam concordou com a cabeça e ficaram mais um pouco à conversa. Quando saiu do gabinete, tinha a firme intenção de dar a resposta a Harvey no final das duas semanas; porém, dez dias depois, a vida pregou-lhe uma partida... e foi como se o céu lhe desabasse em cima. Já se sentira assim bastantes vezes nos últimos dois anos.

            Sam estava no escritório com a carta que acabara de receber do advogado de Caroline; com as lágrimas a correrem-lhe pelo rosto, atravessou o corredor até ao gabinete de Charlie e parou à entrada com uma expressão transtornada.

            — Há algum problema? — Charlie parou o que estava a fazer e dirigiu-se prontamente para ela. Era uma pergunta estúpida. Sam estava pálida; assentiu com a cabeça, entrou e estendeu-lhe a carta, que ele leu.

            Charlie fitou-a, com o mesmo ar de espanto. — Já sabias?

            Sam chorava baixinho enquanto abanava a cabeça. — Nunca me passou pela cabeça... Julgo que não tem ninguém de família. — De repente, esticou os braços para Charlie, que a abraçou. — Oh, Charlie, ela morreu. O que eu vou fazer agora?

            — Está tudo bem, Sam. Está tudo bem. — No entanto, mostrava-se tão chocado como Samantha. Caroline Lord morrera no último fim-de-semana. Por instantes, Sam sentiu-se magoada por ninguém lhe ter telefonado. Onde estava Josh? Porque é que ele não lhe dissera? Mas o momento passou. Eram ajudantes temporários, não lhes teria ocorrido telefonar para Nova Iorque.

            De acordo com o testamento de Caroline, o rancho fora deixado a Sam.

            Morrera durante o sono, sem dor nem qualquer problema. Charlie suspeitava, tal como Sam, que ela assim o desejara. Não queria viver sem Bill King.

            Samantha afastou-se lentamente de Charlie, aproximou-se da janela e fixou o olhar no exterior.

            — Por que razão ela me deixou o rancho, Charlie? Que diabo é que eu vou fazer com ele? Agora não posso fazer nada. — A voz desvanecia-se à medida que se recordava dos tempos felizes que lá passara, com Barbara, Caroline, Bill e, naturalmente, com Tate. Recordou a cabana secreta, Black Beauty, Josh, e as lágrimas correram mais velozes pelo rosto.

            — O que queres tu dizer com isso de não poderes fazer nada com ele? — A voz de Charlie era inquisidora, tal como o olhar, quando Sam se voltou, de novo, para ele.

            — Porque por muito que não goste de admiti-lo, por muito que tente fingir que sou normal com o meu emprego, com os meus amigos, com o fato de viver sozinha e de conseguir apanhar táxis, o fato é que, como a minha querida mãezinha diz, sou uma aleijadinha. Que diabo é que eu faria com um rancho? Ver os outros a andar a cavalo? Um rancho é para pessoas saudáveis, Charlie.

            — Terás a saúde que quiseres ter. O cavalo tem quatro pernas, Sam. Não precisas de nenhuma. Deixa ser ele a andar por ti. Tem muito mais estilo do que a tua cadeira.

            — Não teve graça nenhuma. — Com ar zangado, deu meia volta e saiu do gabinete.

            Cinco minutos depois, Charlie dirigiu-se ao gabinete de Sam, disposto a discutir o assunto, por muito zangada que ela estivesse ou por muito alto que gritasse.

            — Deixa-me em paz, bolas! Uma mulher que eu adorava morreu e tu a insistires que eu vá para lá andar a cavalo. Deixa-me em paz! — Gritou-lhe cada palavra, mas não o convenceu.

            — Não, não vou deixar-te em paz. E sabes por quê? Porque, apesar da tristeza que foi a sua morte, ela acabou por te dar o melhor presente que se pode esperar, não por aquilo que deve valer, mas porque é um sonho com o qual podes viver o resto da tua vida, Sam. Tenho-te observado desde que voltaste, e continuas tão boa profissional como sempre, mas a verdade é que acho que isto aqui já não te diz nada, já não sentes vontade de estar aqui. Desde que te apaixonaste por aquele cow-boy e trabalhaste no rancho, é só nisso que pensas, Sam. Não queres estar aqui. E agora a tua amiga te deu, todinho e, de repente, queres fazer o papel de aleijadinha. Bem, sabes uma coisa? Acho que és uma cobarde e que não devemos aparar-te o jogo.

            — E como é que pensas impedir-me de "fazer o papel de aleijadinha", como tu dizes?

            — Metendo-te juízo na cabeça, nem que seja à força. Levo-te até lá, esfrego-te o nariz em tudo aquilo e lembro-te o amor que tens pelo rancho. Pessoalmente, acho que és doida; para mim, tudo o que fica para lá de Poughkeepsie, poderia muito bem ser o Sudeste de África, mas tu és louca por tudo aquilo. Meu Deus, durante aquelas filmagens, o ano passado, os teus olhos brilhavam que nem estrelas, sempre que vias um cavalo, uma vaca ou falavas com um capataz. Tu adoravas, e agora vais desistir de tudo aquilo? E se fizesses qualquer coisa? Que tal realizares um dos teus sonhos? Tens falado tantas vezes com o pequeno Alex daquelas aulas especiais de equitação. A última vez que ele veio buscar-te para irem almoçar, contou-me que lhe disseste que ele um dia podia ir andar a cavalo e que talvez o levasses. E se transformasses o rancho num sítio para pessoas como tu e o Alex?

            Sam olhou para o amigo, espantada, enquanto as lágrimas paravam de correr pelo rosto.

            — Não posso fazer isso, Charlie... Como é que eu conseguiria lançar uma coisa dessas, como? Não entendo nada disso. — Podes aprender. Conheces os cavalos. Sabes o que é andar numa cadeira de rodas. Irias ter muitas pessoas para te ajudar a gerir o rancho, tudo o que tens a fazer é coordená-lo, como fazer com a publicidade e, com os diabos, tu és boa nisso.

            — Charlie, és louco.

            — Talvez. — Olhou para ela com um largo sorriso nos lábios. — Mas, diz a verdade, Sam, não gostavas também de ser um bocadinho louca?

            — Talvez — respondeu ela com sinceridade. Continuava a olhá-lo fixamente com um ar de espanto. — O que é que faço agora?

            — Porque não vais até lá e dás uma vista de olhos outra vez, Sam? Bolas, és a dona!

            — Agora?

            — Quando tiveres tempo.

            — Sozinha?

            — Se quiseres.

            — Não sei. — Sam deu meia volta e deixou-se ficar a olhar para o vazio, a pensar no rancho e na tia Caro. Seria tão penoso vê-lo sem ela, desta vez. Estaria repleto de recordações de pessoas de quem Sam gostara e que já lá não estavam.

            — Não quero ir lá sozinha, Charlie. Acho que não conseguiria agüentar.

            — Então leva alguém contigo.

            — Quem sugeres? — Sam olhou para ele com cepticismo. — A minha mãe?

            — Que Deus me livre! Com os diabos, não sei, Sam, leva a Mellie.

            — E os garotos?

            — Então, leva-nos a todos. Ou melhor, deixa o "leva-nos", nós levamo-nos a nós próprios. Os garotos vão adorar; nós também, e quando lá chegarmos, digo-te o que é que eu acho.

            — Estás falando sério, Charlie?

            — Absolutamente. Acho que esta é a decisão mais importante que alguma vez enfrentaste e detestaria ver-te desperdiçar a ocasião.

            — Eu também. — Sam olhou para Charlie com um ar melancólico e, de repente, lembrou-se de algo. — Que tal o dia de Ação de Graças?

            — O que é que tem?

            — É daqui a três semanas. E Charlie — refletiu por instantes — se fossemos até lá nessa altura? — e em seguida exibiu um largo sorriso.

            — Está combinado. Vou telefonar à Mellie.

            — Achas que ela vai querer ir?

            — Claro que sim. E se não quiser, — riu-se — vou sozinho. — Todavia, nem Mellie nem os garotos puseram qualquer objeção quando Charlie lhe telefonou. Não disseram a mais ninguém. Limitaram-se a fazer as reservas discretamente para uma viagem de quatro dias, no dia de Ação de Graças.

            Samantha nem sequer disse a Harvey. Receava aborrecê-lo e ainda não lhe tinha dado nenhuma resposta relativamente ao cargo.

 

            Samantha ficou estranhamente calada, enquanto percorriam os últimos quilômetros da familiar estrada sinuosa, através das colinas a perder de vista. Os outros, porém, não notaram. Os garotos estavam tão excitados que davam saltos dentro do carro alugado. Mellie deixara a bebê com a mãe e, até aquele momento, a viagem correra bem. Obviamente, era um dia de Ação de Graças muito pouco ortodoxo; mas os adultos, pelo menos, pensavam que valia a pena. Haviam comido uma pequena fatia de peru com molho no avião, e Mellie prometera apresentar um verdadeiro jantar festivo no dia seguinte, no rancho.

            Só nessa manhã é que Samantha falara ao telefone com Josh. Os garotos iriam dormir em sacos-cama num dos dois quartos de hóspedes, e Charlie e Mellie no quarto da tia Caro. Sam dormiria no quarto que tivera na última estada. A casa era suficientemente grande para acomodar toda a gente.

            Josh garantira-lhe que havia comida na despensa e que, se ela quisesse, iria buscá-los ao avião em Los Angeles. Sam insistira para que não o fizesse, não querendo estragar-lhe o dia de Ação de Graças; vê-lo-ia quando chegassem ao rancho. Josh manifestara-lhe, então, num tom dorido e hesitante, o quanto se sentia feliz por ser ela agora a dona do rancho, decidido a fazer tudo o que pudesse para ajudá-la. Só esperava que ela não fizesse nenhum disparate, como vendê-lo, por exemplo, visto estar convencido de que ela poderia tornar-se uma das melhores rancheiras das redondezas. Sam esboçou um sorriso triste ao ouvir aquelas palavras, desejou-lhe um feliz dia de Ação de Graças e apressou-se a ir ter com Mellie, Charlie e os garotos à entrada do prédio. Tiveram de apanhar dois táxis para o aeroporto. Agora estavam apertados dentro de um carro enorme e os garotos entoavam cantigas.

            A medida que se aproximavam do rancho, Samantha começou a imaginá-lo, tal como era da última vez que o vira, com Caroline e Bill King, fortes e saudáveis. Depois, mais uma vez, recordou-se dos dias passados com Tate.

            Agora tudo parecia um sonho. Estavam tão distantes os momentos de alegria que partilhara com ele, as horas na cabana, as cavalgadas partilhadas no cavalo malhado e no belo puro-sangue de Caro. Na altura, conseguia andar.

            Sentiu uma nuvem negra pairar sobre si, lentamente, ao fazerem a última curva na estrada e, mais uma vez, percebeu como tudo havia mudado.

            — Aí está. — Sam proferiu as palavras em voz baixa, sentada no assento traseiro, a apontar com um dedo tremulo. Atravessaram o portão principal, subiram a estrada sinuosa e, então, Sam avistou-a: a casa da tia Caro.

            Mas não havia luzes acesas, e, apesar de só serem cinco horas da tarde, parecia sombria, abandonada e triste à luz que se ia desvanecendo. — O Josh disse que deixava a porta aberta. Se quiseres entrar, Charlie, as luzes da sala de estar estão todas num painel à direita, mesmo atrás da porta. — Sam ficou imóvel, os olhos pregados na casa. Continuava à espera de ver as luzes acenderem-se, o familiar cabelo branco, a cara sorridente da tia Caro com a mão a acenar. Mas, quando Charlie entrou para acender as luzes e voltou, em passo rápido, para o carro, não havia ninguém a seu lado, e até os garotos se aquietaram ao olharem à sua volta.

            — Onde é que estão os cavalos, Sam?

            — Na cavalariça, querido. Mostro-os amanhã.

            — Não podemos vê-los agora?

            Sam sorriu para Charlie, por cima das cabeças deles, depois anuiu com a cabeça.

            — Está bem, vamos pôr as coisas lá dentro e depois levo todos até lá. — Agora que chegara, não tinha vontade de entrar em casa, nem na cavalariça, não queria ver Black Beauty na sua baia, nem Navajo, nem os outros cavalos conhecidos. A única coisa que Sam queria era ver Caroline, Bill King e Tate Jordan, e viver uma vida que nunca mais viveria. Tinha um nó na garganta, do tamanho de uma maçã, quando se sentou na cadeira de rodas e subiu as escadas com a ajuda de Charlie. Entrou em casa, devagar, e olhou à sua volta. Então, ainda mais devagar, dirigiu-se ao seu quarto, ao fundo do corredor. Pouco depois, os garotos passaram por ela correndo e Sam forçou um sorriso ao indicar-lhes o quarto. Em seguida voltou para a sala de estar à procura de Charlie e de Melinda. Apontou na direção oposta, para o quarto deles, mas não o queria ver. Não queria ver o quarto vazio que fora de Caro e de Bill.

            — Estás bem? — Melinda olhou para Sam com ar afável e esta acenou que sim com a cabeça.

            — Estou. A sério.

            — Pareces cansada.

            Não estava cansada; estava só desesperadamente infeliz. — Estou ótima.

            Relembrava, mais uma vez, com dolorosa precisão, como se sentira quando deixara o rancho, sem saber onde estava Tate, ou se o voltaria alguma vez a encontrar, mas continuava esperançosa. E agora tinha a certeza de que não voltaria a vê-lo. Além disso, perdera Caro... Aquele pensamento deixou-a completamente prostrada. Quando olhou pela janela, para as colinas sombrias na penumbra, viu uma figurinha de pernas arqueadas se dirigir para ela, como um duende da floresta e, então, com os olhos inundados de lágrimas, Sam sentiu uma alegria imensa. Era Josh. Vira as luzes na casa e apressara-se a vir visitá-la. Com um sorriso de orelha a orelha, Sam saiu e esperou por ele no alpendre, sentada na cadeira. Ao fazê-lo, viu-o parar de repente e pôde observar o olhar chocado no seu rosto e ouvir as palavras. — Oh, meu Deus...

            De súbito, sem saber quando começara, Sam chorava, e Josh também, ele no meio das escadas, ela de braços estendidos; Josh dobrou-se e abraçou-a, enquanto choravam, por Bill, por Caro, por Tate e por ela. O som abafado do choro dos dois pareceu durar horas e, então, após algum tempo, o velho cow-boy de rosto engelhado fungou alto e endireitou-se. -Porque é que nunca ninguém me disse, Sam?

            — Pensei que Miss Caro... — Josh abanou a cabeça com uma expressão de desespero no rosto.

            — Como é que aconteceu?

            Sam fechou os olhos por instantes e depois os abriu. Era como se tivesse partilhado o choque que Josh sentira. Como se, de repente, se visse como ele a via, aleijada, numa cadeira de rodas, não mais o jovem e orgulhoso palomino que correra por todo o rancho. Era como se a sua vida tivesse acabado; como se, de repente, tivesse envelhecido. E, nesse momento, Sam sentiu que não poderia ficar com o rancho. Não conseguiria geri-lo. Todos os homens reagiriam com ela da mesma maneira que Josh. Era uma aleijada, apesar do que lhe haviam dito no hospital em Nova Iorque.

            — Sam...

            — Está tudo bem, Josh. — Esboçou um sorriso afável e respirou fundo. — Aconteceu no Colorado, há cerca de quinze meses. Foi uma coisa estúpida que fiz com um cavalo. — A recordação era difusa, mas Sam iria sempre lembrar-se do garanhão cinzento... Gray Devil... e o interminável momento em que fora pelo ar. — Arrisquei com um garanhão selvagem. Era mesmo mau de montar e atirou-me para uma ravina.

            — Porque... porque o fizeste? — Os olhos de Josh ficaram novamente inundados de lágrimas. Soube, instintivamente, que ela levara o cavalo para lá dos limites.

            — Não sei — murmurou Sam. — Julgo que estava louca. Acho que o Black Beauty me fez pensar que conseguiria montar qualquer garanhão que me aparecesse pela frente, e estava aborrecida por causa de uma coisa. — Sentira-se deprimida por causa de Tate, mas não lhe disse. — E foi assim que aconteceu.

            — Podes... eles podem... — Josh não sabia como terminar, mas Sam compreendeu-o facilmente e abanou a cabeça. — Não. É assim. Pensei que soubesses, que a Caroline te tivesse contado.

            — Nunca me disse.

            — Talvez estivesse demasiado ocupada com o Bill. Ele teve o primeiro ataque cardíaco nessa altura. Eu quis vir até aqui, mas estava cheia de trabalho e... — Interrompeu-se e depois prosseguiu: — Estive dez meses enfiada no hospital. — Olhou à sua volta, para os edifícios conhecidos. — No entanto, depois disso, devia ter voltado, mas, não sei... acho que tive medo. Medo de enfrentar aquilo que já não podia fazer.. Por isso, nunca mais voltei a vê-la, Josh. — Os lábios tremeram. — Ela estava tão triste depois de o Bill morrer, e nunca a ajudei. — Fechou os olhos, estendeu os braços e agarrou-se de novo, ao velho cow-boy.

            — Ela estava bem, Sam. E morreu como quis. Não quis viver sem ele. — Então ele sabia? Sabiam todos? A simulação fora uma farsa, todos aqueles anos? Sam olhou-o nos olhos e viu que não era segredo. — Era como se fossem casados. — Sam concordou com a cabeça.

            — Eu sei. Deviam ter casado.

            Josh limitou-se a encolher os ombros.

            — Não se pode mudar velhos hábitos. — Baixou os olhos para Sam, o olhar pleno de interrogações. — E tu? — De súbito, compreendeu como era improvável que Sam ficasse com o rancho. — Vais vender isto?

            — Não sei. — Sam pareceu perturbada. — Não vejo como poderei geri-lo. Acho que o meu lugar deve ser em Nova Iorque.

            — Vais viver com os teus pais agora? — Josh mostrava-se interessado em saber como ela lidava com a invalidez, e Sam abanou a cabeça com um sorriso nos lábios.

            — Com os diabos, não. Vivo sozinha. Vivo no mesmo prédio dos amigos que me trouxeram até cá. Tive de arranjar um novo apartamento, sem escadas.

            Mas consigo cuidar de mim própria.

            — Isso é estupendo, Sam. — Havia a ligeira sensação de que Josh falava com uma inválida, mas Sam sabia que ele ainda tinha de se adaptar. De algum modo, também ela teria de fazê-lo, para não se sentir ressentida em relação a ele. Então, o que Josh disse a seguir, chocou-a.

            — Porque é que não fazes isso aqui? Com os diabos, todos te ajudaríamos. Caramba, não há razão nenhuma para que não possas andar a cavalo. Desde que andes devagar, estás a ouvir? — Lançou-lhe um olhar quase zangado ao dizê-lo, depois se riu.

            — Não sei, Josh. Tenho pensado nisso, mas é tudo bastante assustador. Foi por isso que cá vim. Não quis tomar a decisão de vendê-lo antes de vir até aqui e ver com os meus próprios olhos.

            — Ainda bem que o fizeste. E sabes uma coisa...? — Josh semi-cerrou os olhos e afagou o queixo, olhando fixamente para o horizonte a escurecer.

            — Acho que temos ali uma sela velha que posso adaptar para ti. E há uma coisa importante que quero desde já dizer-te. — Voltou-se e lançou um olhar reprovador a Sam. — Não vais andar no Black Beauty, nem que tenha que