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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O PARADOXO DO TEMPO / Eion Colfer
O PARADOXO DO TEMPO / Eion Colfer

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

A menos de uma hora ao norte da bela cidade de Dublin fica a propriedade Fowl, cujas fronteiras mudaram pouco nos últimos quinhentos anos.

A mansão não é visível da estrada principal, escondida por uma fileira de carvalhos e um paralelogramo de altos muros de pedra. O portão é de aço reforçado, com câmeras empo­leiradas nas colunas. Se você tivesse permissão para passar por aqueles portais discretamente eletrificados, chegaria a uma aleia coberta de cascalho miúdo, serpenteando suavemente pelo que já foi um gramado impecável, mas que agora está se transfor­mando num jardim selvagem.

As árvores crescem densas à medida que você se aproxima da mansão propriamente dita, carvalhos altíssimos e casta­nheiros-da-índia entremeados por freixos e salgueiros mais de­licados. Os únicos sinais de cuidado são a entrada de veículos livre de mato e as lâmpadas fortes que flutuam no alto, apa­rentemente sem suportes ou fios elétricos.

A mansão Fowl tem sido local de muitas aventuras grandi­osas no correr dos séculos. Em anos recentes essas aventuras tiveram um tom um tanto mágico, mas a maior parte da famí­lia Fowl não teve conhecimento desse fato. Eles não fazem idéia de que o saguão principal foi completamente destruído quando o povo das fadas mandou um troll para travar batalha com Artemis, o filho mais velho da família e gênio do crime. Na época ele estava com doze anos. Mas hoje a atividade de Fowl na mansão é totalmente legal. Não há forças especiais do povo subterrâneo invadindo as defesas. Nem policiais elfos em cati­veiro no porão. Nem qualquer sinal de centauros ajustando a sintonia fina em seus instrumentos ou fazendo varreduras tér­micas. Artemis fez as pazes com o povo subterrâneo e formou amizades sólidas com criaturas de lá.

Ainda que tenham rendido muito, as atividades crimino­sas de Artemis lhe custaram mais. Pessoas que ele ama foram atormentadas, feridas e até mesmo seqüestradas por causa de suas tramas. Nos últimos três anos, seus pais acharam que ele estava morto, enquanto lutava com demônios no Limbo. E, ao retornar, ficou pasmo ao ver que o mundo prosseguira sem ele, e que agora era o irmão mais velho dos meninos gêmeos de dois anos, Beckett e Myles.

 

 

 

 

Artemis estava sentado numa poltrona vermelho-escura, diante de Beckett e Myles. Sua mãe se encontrava de cama com uma gripe leve, o pai com o médico no quarto dela, de modo que Artemis ajudava distraindo os meninos. E que diversão melhor para os pequenos do que algumas lições?

Havia decidido se vestir de modo casual, com uma camisa de seda azul-celeste, calça de lã cinza e sapatos Gucci. O cabe­lo preto estava penteado para trás e ele tinha uma expressão alegre, que ouvira dizer que agradava às crianças.

— Artemis quer fazer cocô? — perguntou Beckett, aga­chado no tapete tunisiano, usando apenas uma bata suja de grama, que ele havia puxado sobre os joelhos.

— Não, Beckett — respondeu Artemis animado. — Es­tou tentando parecer alegre. E você não deveria estar de fralda?

— Fralda — fungou Myles, que havia aprendido a usar o banheiro aos quatorze meses, montando uma escada de enci­clopédias para chegar ao assento do vaso.

— Fralda não. — Beckett fez beicinho, batendo numa mosca que ainda zumbia, presa em seus cachos louros e pega­josos. — Beckett odeia fralda.

Artemis duvidou que a babá tivesse deixado de pôr uma fralda em Beckett e por um instante imaginou onde a tal fral­da estaria agora.

— Muito bem, Beckett — continuou Artemis. — Vamos esquecer o tema da fralda e passemos à lição de hoje.

— Chocolate na estante — disse Beckett, esticando os dedos para o alto, querendo alcançar chocolates imaginários.

— É, bom. Às vezes há chocolate na estante.

— E café expresso — acrescentou Beckett, que tinha predileções estranhas, que incluíam sachês de café expresso e melaço. Na mesma xícara, se ele pudesse. Uma vez Beckett conseguira engolir várias colheres dessa mistura antes que ela fosse arrancada de suas mãos. O menino não dormiu por 28 horas.

— Podemos aprender palavras novas, Artemis? — per­guntou Myles, que queria voltar para uma jarra de mofo em seu quarto. — Estou fazendo periências com o Professor Primata.

O Professor Primata era um macaco de pelúcia e parceiro ocasional de laboratório de Myles. O brinquedo fofo passava a maior parte do tempo enfiado num béquer de vidro boros­silicato na mesa de periências. Artemis havia reprogramado a caixa de fala do macaco para responder à voz de Myles com 12 frases, inclusive Está vivo! Está vivo! E A história vai se lembrar deste dia, professor Myles.

— Você vai poder voltar logo ao seu laboratório — disse Artemis, aprovando. Myles era feito do mesmo material que ele, um cientista nato. — Agora, meninos, achei que hoje po­deríamos abordar alguns termos usados em restaurantes.

— Espirros parecem vermes — disse Beckett, que não gostava de permanecer no tema.

Artemis quase ficou abalado com essa observação. Vermes não estavam definitivamente no cardápio, ainda que lesmas pudessem muito bem fazer parte.

— Esqueça os vermes.

— Esqueça vermes! — reagiu Beckett, horrorizado.

— Só por enquanto — disse Artemis, tranquilizando-o. — Assim que tivermos acabado com nosso jogo de palavras, vocês podem pensar no que quiserem. E, se forem realmente bons, talvez eu os leve para ver os cavalos.

Montar era o único tipo de exercício que Artemis praticava. Principalmente porque o cavalo fazia a maior parte do trabalho. Beckett apontou para si mesmo.

— Beckett — disse com orgulho, com os vermes já trans­formados numa lembrança remota.

Myles suspirou.

— Sim-plório.

Artemis começou a se arrepender de ter programado essa aula, mas, depois de ter começado, estava decidido a ir em frente.

— Myles, não chame seu irmão de simplório.

— Tudo bem, Artemis. Ele gosta. Você é um sim-plório, não é, Beckett?

— Beckett sim-plório — concordou o menino, todo feliz. Artemis esfregou as mãos.

— Muito bem, irmãos. Em frente. Imaginem-se sentados numa mesa de café em Montmartre.

— Em Paris — disse Myles, ajeitando presunçoso a gra­vata que apanhara emprestada do pai.

— Sim, Paris. E, por mais que você tente, não consegue atrair a atenção do garçom. O que você faz?

Os meninos o olharam inexpressivos e Artemis se per­guntou se não estava elevando demais o nível da aula. Ficou aliviado, ainda que um tanto surpreso, ao ver uma fagulha de compreensão nos olhos de Beckett.

— Ah... a gente diz a Butler pra fazer pula-pula-pula na cabeça dele?

Myles ficou impressionado.

— Concordo com o sim-plório.

— Não! — disse Artemis. — Você simplesmente levanta um dedo e diz com clareza: Ici, garçon.

— Isso o quê?

— O quê? Não, Beckett, não é isso. — Artemis suspirou. Era impossível. Impossível. E ainda nem havia apresentado os flashcards ou sua nova ponteira a laser modificada, que podia iluminar uma palavra ou atravessar várias placas de aço, de­pendendo do ajuste.

— Vamos tentar juntos. Levantem um dedo e digam: Ici, garçon. Todo mundo junto, agora...

Os meninos obedeceram, ansiosos para agradar ao irmão meio desmiolado.

— Ici, garçon — disseram em coro, com os dedos gordu­chos levantados. E então, com o canto da boca, Myles sussur­rou para o gêmeo: — Artemis sim-plório.

Artemis levantou as mãos.

— Eu me rendo. Vocês venceram: chega de aula. Por que não fazemos umas pinturas?

— Excelente — disse Myles. — Vou pintar meu vidro de mofo.

Beckett ficou desconfiado.

— Eu não vou aprender?

— Não — respondeu Artemis, desgrenhando carinhoso o cabelo do irmão e se arrependendo imediatamente. — Não vai aprender nada.

— Bom. Agora Beckett feliz. Vê. — O menino apontou para si mesmo de novo, especificamente para o sorriso largo no rosto.

Os três irmãos estavam deitados no chão, sujos até os cotove­los com tinta guache, quando o pai entrou na sala. Parecia cansado de cuidar da doente, mas afora isso estava em forma e forte, movendo-se como alguém que fora atleta durante toda a vida, apesar da perna artificial bio-híbrida. A perna usava osso alongado, prótese de titânio e sensores implantados para permi­tir que os sinais cerebrais de Artemis Sênior a movessem. Oca­sionalmente, no fim do dia, ele usava uma bolsa de gel aquecida no micro-ondas para aliviar a rigidez, mas afora isso compor­tava-se como se a perna nova fosse dele mesmo. Artemis se ajoelhou, sujo de tinta e pingando.

— Abandonei o vocabulário francês e entrei na brincadeira dos gêmeos. — E riu, enxugando as mãos. — Na verdade isso é bastante libertador. Estamos fazendo pintura a dedo. Tentei fazer uma pequena palestra sobre o cubismo, mas em troca recebi tinta no rosto.

Artemis notou que o pai estava mais do que simplesmente cansado. Estava ansioso.

Afastou-se dos gêmeos, caminhando com Artemis Sênior até a estante que ia do chão ao teto.

— Qual é o problema? A gripe de mamãe está piorando?

O pai de Artemis pousou uma das mãos na escada desli­zante, aliviando o peso de cima do membro artificial. Sua expressão era estranha, uma expressão que Artemis não se lem­brava de ter visto antes.

Percebeu que o pai estava mais do que ansioso. Artemis Fowl Sênior sentia medo.

— Pai?

Artemis Sênior segurou o degrau da escada com tamanha força que a madeira estalou. Abriu a boca para falar, mas pare­ceu mudar de idéia.

Agora Artemis é que ficou preocupado.

— Pai, você precisa me dizer.

— Claro — respondeu o pai estremecendo, como se ti­vesse acabado de se lembrar de onde estava. — Devo lhe dizer...

Então uma lágrima caiu de seu olho, pingando na camisa, aprofundando o azul.

— Lembro-me de quando vi sua mãe pela primeira vez — disse. — Eu estava em Londres, numa festa particular da Ivy. Um salão cheio de patifes e eu era o pior de todos. Ela me mudou, Arty. Partiu meu coração, depois colou de novo. Angeline salvou minha vida. Agora...

Artemis sentiu fraqueza nos nervos. Seu sangue latejava nos ouvidos como as ondas do Atlântico.

— Mamãe está morrendo, pai? É isso que está tentando me dizer?

A idéia parecia ridícula. Impossível.

O pai piscou, como se despertasse de um sonho.

— Não se os homens da família Fowl fizerem algo a esse respeito, não é, filho? Está na hora de você merecer aquela sua reputação. — Os olhos de Artemis Sênior ardiam de desespe­ro. — O que quer que tenhamos de fazer, filho. O que for necessário.

Artemis sentiu o pânico crescer por dentro. O que quer que tenhamos de fazer? Fique calmo, disse a si mesmo. Você pode consertar isso. Artemis ainda não tinha todos os fatos, mas mesmo assim sentia-se razoavelmente confiante de que qualquer coisa que estivesse errada com sua mãe poderia ser curada com um toque de magia do povo das fadas. E ele era o único ser humano na Terra com essa magia correndo no organismo.

— Pai — disse ele gentilmente. — O médico foi embora? Por um momento a pergunta pareceu deixar Artemis Sênior perplexo, então ele se lembrou.

— Foi embora? Não. Está no saguão. Achei que você po­deria falar com ele. Só para o caso de haver alguma pergunta que eu deixei de fazer...

Artemis ficou apenas levemente surpreso ao encontrar no sa­guão o dr Hans Schalke, o principal especialista europeu em doenças raras, e não o médico da família. Naturalmente seu pai devia ter chamado Schalke quando as condições de Angeline Fowl começaram a se agravar. Schalke esperava embaixo do brasão filigranado dos Fowl, com uma maleta de couro duro Gladstone de sentinela junto aos seus tornozelos como um besouro gigante. Estava afivelando uma capa de chuva cinza e falando em tom afiado com sua assistente.

Tudo no médico era afiado, da ponta de flecha do bico-de-viúva aos gumes de navalha dos malares e do nariz. Duas lentes ovais ampliavam os olhos azuis de Schalke e a boca des­caía da esquerda para a direita, mal se mexendo enquanto ele falava.

— Todos os sintomas — disse com sotaque alemão. — Em todos os bancos de dados, entende?

A assistente, uma senhora miúda de tailleur cinza de corte caro, confirmou várias vezes com a cabeça, digitando as ins­truções na tela de seu smartphone.

— Das universidades também? — perguntou ela.

— Todos — respondeu Schalke, acompanhando a palavra com um movimento impaciente de cabeça. — Eu não disse to­dos? Não entende meu sotaque? É porque eu sou de origem alemã?

— Desculpe, doutor — disse a assistente, com humilda­de. — Todos, claro.

Artemis se aproximou do dr. Schalke com a mão estendi­da. O médico não retribuiu o gesto.

— Contaminação, jovem sr. Fowl — disse sem qualquer traço de desculpas ou simpatia. — Não determinamos se o estado de sua mãe é contagioso.

Artemis fechou a mão, colocando-a às costas. O médico estava certo, é claro.

— Não nos conhecemos, doutor. Poderia fazer a gentile­za de descrever os sintomas da minha mãe?

O médico bufou, irritado.

— Muito bem, meu jovem, mas não estou acostumado a lidar com crianças, de modo que não taparei o sol com a peneira.

Artemis engoliu a saliva, com a garganta subitamente seca. Tapar o sol com a peneira.

— O estado de sua mãe pode ser único — disse Schalke, banindo a assistente para o trabalho com um movimento dos dedos. — Pelo que posso ver, os órgãos dela parecem estar em falência.

— Que órgãos?

— Todos — respondeu Schalke. — Preciso trazer equipa­mentos do meu laboratório no Trinity College. Obviamente sua mãe não pode ser transportada. Minha assistente, a srta. Imogen Book, vai monitorá-la até o meu retorno. A srta. Book não somente é minha relações públicas, mas também é uma enfermeira excelente. Uma combinação útil, não acha?

Com a visão periférica, Artemis viu a srta. Book virar uma esquina do corredor às pressas, gaguejando ao smartphone. Es­perava que a relações públicas/enfermeira demonstrasse mais confiança ao cuidar de sua mãe.

— Imagino. Todos os órgãos da minha mãe? Todos? Schalke não gostava de se repetir.

— Fico pensando em lúpus, porém é mais agressivo, com­binando com todos os três estágios da doença de Lyme. Uma vez observei uma tribo amazônica com sintomas semelhantes, mas não tão severos. A essa taxa de declínio, restam apenas dias para sua mãe. Francamente duvido que tenhamos tempo para terminar os exames. Precisamos de uma cura milagrosa. E, se­gundo minha experiência considerável, as curas milagrosas não existem.

— Talvez existam — disse Artemis distraidamente. Schalke pegou a maleta.

— Ponha a fé na ciência, meu jovem — aconselhou o dou­tor. — A ciência servirá melhor à sua mãe do que alguma força misteriosa.

Artemis segurou a porta para Schalke, vendo-o descer os 12 degraus até seu Mercedez-Benz clássico. O carro era cinza, como as nuvens machucadas no céu.

Não há tempo para ciência, pensou o adolescente irlandês. A magia é minha única opção.

Quando Artemis retornou ao seu escritório, o pai estava sen­tado no tapete, com Beckett engatinhando em seu tronco como um macaco.

— Posso ver mamãe agora? — perguntou Artemis.

— Pode — respondeu o pai. — Vá, veja o que consegue descobrir. Estude os sintomas dela, para sua pesquisa.

Minha pesquisa?, pensou Artemis. Os tempos à frente são difíceis.

Butler, o corpulento guarda-costas de Artemis, esperava por ele ao pé da escada, usando armadura Kendo completa, com a guarda do elmo dobrada para trás, revelando as feições gastas pelo tempo.

— Eu estava no dojô, treinando a luta com o holograma — explicou. — Seu pai me chamou e disse que precisavam de mim imediatamente. O que está acontecendo?

— É mamãe — respondeu Artemis, passando por ele. — Está muito doente. Vou ver o que posso fazer.

Butler se apressou em acompanhá-lo, com a placa do pei­toral fazendo barulho.

— Tenha cuidado, Artemis. Magia não é ciência. Você não pode controlá-la. Você não iria querer piorar a situação da sra. Fowl acidentalmente.

Artemis chegou ao topo da grande escadaria, hesitando ao estender a mão para a maçaneta de bronze da porta do quarto, como se ela estivesse eletrificada.

— Acho que a situação dela não tem como ficar pior...

Artemis entrou sozinho, deixando o guarda-costas tirando o capacete Kendo e o peitoral Hon-nuri. Por baixo ele usava uma roupa de moletom, em vez da tradicional calça larga. O suor brotava no peito e nas costas, mas Butler ignorou a vontade de tomar uma chuveirada, ficando de sentinela do lado de fora da porta, sabendo que não deveria se esforçar tanto para ouvir, mas desejando ser capaz.

Butler era o único outro ser humano que sabia toda a ver­dade sobre as peripécias mágicas de Artemis. Ele estivera jun­to do jovem patrão durante todas as várias aventuras, lutando contra o Povo do subterrâneo e contra outros humanos atra­vés dos continentes. Mas Artemis fizera a viagem no tempo até Limbo sem ele e voltara mudado. Agora uma parte de seu jovem patrão era mágica, e não fora somente o olho esquerdo castanho da capitã Holly Short, que a corrente do tempo lhe dera. Na jornada de ida e volta da Terra até Limbo, de algum modo Artemis havia conseguido roubar alguns fiapos de magia das criaturas cujos átomos se misturaram com os dele na cor­rente de tempo. Quando retornou de Limbo, Artemis havia sugerido aos seus pais, no envolvente mesmer mágico, que eles simplesmente não pensassem em onde ele estivera nos últimos anos. Não foi um plano muito sofisticado, já que seu desapa­recimento saíra nos noticiários de todo o mundo e o assunto era ventilado em cada acontecimento social a que os Fowl com­pareciam. Mas até que Artemis pudesse pôr as mãos em algum equipamento de limpeza mental da LEP, ou que desenvolves­se um equipamento próprio, isso teria de bastar. Sugeriu aos pais que, se alguém perguntasse sobre ele, deveriam simples­mente dizer que esse era um assunto de família e pedir que sua privacidade fosse respeitada.

Artemis é um ser humano mágico, pensou Butler. O único.

E agora Butler simplesmente sabia que Artemis iria usar sua magia para fazer uma tentativa de curar a mãe. Era um jogo perigoso; a magia não fazia parte de sua condição natural. O garoto poderia muito bem remover um conjunto de sintomas e substituí-lo por outro.

Artemis entrou devagar no quarto dos pais. Os gêmeos inva­diam aquele local a qualquer hora do dia ou da noite, jogan­do-se na cama de baldaquino para lutar com a mãe e o pai que protestavam, mas Artemis jamais havia experimentado isso. Sua infância fora uma época de ordem e disciplina.

Sempre bata antes de entrar, Artemis, ensinara seu pai. Isso demonstra respeito.

Mas o pai havia mudado. Um encontro com a morte sete anos antes lhe mostrara o que era realmente importante. Ago­ra ele estava sempre disposto a abraçar e rolar nas cobertas com os filhos amados.

É tarde demais para mim, pensou Artemis. Sou velho de­mais para rolar com meu pai.

Sua mãe era diferente. Jamais havia sido fria, afora durante as crises de depressão, quando seu pai estava desaparecido. Mas a magia do povo das fadas e o retorno de seu marido amado a salvara disso e agora ela era como antigamente. Ou havia sido, até agora.

Artemis atravessou o quarto devagar, com medo do que havia adiante. Caminhou com cautela pelo tapete, tendo o cuidado de pisar entre os anéis entrelaçados na estampa.

Se pisar nos anéis, conte até dez.

Esse era um hábito de quando ele era pequeno, uma velha superstição sussurrada por seu pai. Artemis nunca havia esque­cido e sempre contava até dez para evitar o azar, caso pusesse ao menos a ponta do dedão nos anéis da estampa do tapete.

A cama de baldaquino ficava do outro lado do quarto, envolta em cortinas e luz do sol. Uma brisa penetrava no cô­modo, ondulando as sedas como se fossem as velas de um na­vio pirata.

Uma das mãos de sua mãe estava pendurada sobre a bor­da. Pálida e magra.

Artemis ficou horrorizado. Ontem mesmo sua mãe estive­ra bem. Fungando um pouco, mas ainda calorosa e risonha.

— Mãe — disse ele bruscamente ao ver o rosto dela, sen­tindo como se o mundo tivesse sido arrancado com um soco.

Não era possível. Em 24 horas sua mãe havia definhado até virar pouco mais do que um esqueleto. Os malares es­tavam afiados como uma faca, os olhos perdidos em órbitas escuras.

Não se preocupe, disse Artemis a si mesmo. Dentro de al­guns segundos mamãe vai ficar bem, então poderei investigar o que aconteceu aqui.

O lindo cabelo de Angeline Fowl estava crespo e quebra­diço, com fios partidos se entrecruzando no travesseiro como uma teia de aranha. E havia um cheiro estranho emanando dos poros.

Lírios, pensou Artemis. Cheiro doce, mas tingido de doença.

Os olhos de Angeline se abriram abruptamente, redondos de pânico. As costas se arquearam enquanto ela sugava a respi­ração através da traqueia apertada, tentando prender o ar com as mãos em garras. Com a mesma velocidade, desmoronou. E Artemis pensou, por um momento terrível, que ela tivesse morrido.

Mas então as pálpebras estremeceram e ela estendeu a mão para ele.

— Arty — disse ela, com a voz que era pouco mais do que um sussurro. — Estou tendo um sonho estranhíssimo. — Uma frase curta, mas demorou séculos para ser terminada, com uma respiração áspera entre cada palavra.

Artemis segurou a mão da mãe. Como estava magra! Um saco de ossos.

— Ou talvez eu esteja acordada e minha outra vida seja um sonho.

Doeu em Artemis ouvir a mãe falando assim; fez com que ele se lembrasse das crises que ela costumava sofrer.

— Você está acordada, mamãe, e eu estou aqui. Você teve uma febre fraca e está um pouco desidratada, só isso. Nada com que se preocupar.

— Como posso estar acordada, Arty — disse Angeline, com os olhos calmos dentro de círculos pretos — quando sinto que estou morrendo? Como posso estar acordada quan­do me sinto assim?

A falsa tranqüilidade de Artemis foi derrubada.

— É... é a... febre — gaguejou. — Você está vendo as coisas de modo meio estranho. Tudo vai ficar bem num instante. Prometo.

Angeline fechou os olhos.

— E meu filho cumpre as promessas, eu sei. Onde você esteve nestes últimos anos, Arty? Nós ficamos tão preocupa­dos! Por que você não tem dezessete anos?

Em seu delírio, Angeline Fowl via a verdade através de uma névoa de magia. Percebia que ele estivera desaparecido duran­te três anos e voltara para casa com a mesma idade com que havia sumido.

— Estou com quatorze anos, mamãe. Quase quinze, ain­da vou ser garoto por um bom tempo. Agora feche os olhos e, quando abrir de novo, tudo vai estar bem.

— O que você fez com meus pensamentos, Artemis? De onde vem o seu poder?

Agora Artemis estava suando. O calor do quarto, o cheiro doentio, sua própria ansiedade.

Ela sabe. Mamãe sabe. Se você curá-la, ela vai se lembrar de tudo?

Não importava. Isso poderia ser abordado no devido tem­po. Sua prioridade era curá-la.

Artemis apertou a mão frágil, sentindo os ossos roçando uns contra os outros. Ia usar a magia com a mãe pela segunda vez.

A magia não pertencia à alma de Artemis e lhe dava dores de cabeça lancinantes sempre que a usava. Mesmo sendo huma­no, as regras do povo das fadas tinham algum poder sobre ele. Era obrigado a mastigar comprimidos contra enjôo antes de entrar numa casa sem ser convidado e, quando a lua estava cheia, Artemis costumava ser encontrado na biblioteca, ouvindo mú­sica no volume máximo para abafar as vozes dentro da cabeça. A grande comunidade de criaturas mágicas. As criaturas tinham poderosas memórias raciais que vinham à superfície como um maremoto de emoções descontroladas, provocando enxaquecas.

Algumas vezes Artemis se perguntava se teria sido um erro roubar a magia, mas recentemente os sintomas haviam parado. Não sentia mais enxaquecas ou enjôo. Talvez seu cérebro esti­vesse se adaptando à tensão de ser uma criatura mágica.

Segurou os dedos da mãe com gentileza, fechou os olhos e limpou a mente.

Magia. Apenas magia.

A magia era uma força selvagem e precisava ser controla­da. Se Artemis deixasse os pensamentos soltos, a magia se sol­taria também e ele poderia abrir os olhos e encontrar a mãe ainda doente, mas com o cabelo de outra cor. Cure, pensou. Fique boa, mãe.

A magia reagiu ao seu desejo, espalhando-se pelos mem­bros, zumbindo, arrepiando. Fagulhas azuis envolveram os pulsos, pinicando como cardumes de manjubinhas minúscu­las. Quase como se estivessem vivas.

Artemis pensou na mãe em tempos melhores. Viu sua pele radiante, os olhos brilhando de felicidade. Ouviu-a rir, sentiu-a tocar seu pescoço. Lembrou-se da força do amor de Angeline Fowl pela família.

É isso que eu quero.

As fagulhas sentiram seu desejo e fluíram para Angeline Fowl, penetrando na pele da mão e do pulso, retorcendo-se em cordas ao redor dos braços magros. Artemis pressionou mais e um rio de fagulhas mágicas fluiu de seus dedos para a mãe.

Cure, pensou. Expulse a doença.

Artemis havia usado magia antes, mas desta vez era dife­rente. Havia resistência, como se o corpo da mãe não quisesse ser curado e estivesse rejeitando o poder. Fagulhas chiavam na pele dela, estremeciam e apagavam.

Mais, pensou Artemis. Mais.

Pressionou mais, ignorando a súbita dor de cabeça ofus­cante e a náusea. Cure, mãe.

A magia envolveu a mãe como se ela fosse uma múmia egípcia, serpenteando ao redor do corpo, erguendo-a 15 cen­tímetros acima do colchão. Ela estremecia e gemia, com vapor saindo dos poros, chiando ao tocar as fagulhas azuis.

Ela está sentindo dor, pensou Artemis, entreabrindo um dos olhos. Está em agonia. Mas não posso parar agora.

Artemis mergulhou mais fundo, procurando suas extremi­dades para encontrar os últimos fiapos de magia.

Tudo. Dê-lhe até a última fagulha.

A magia não era uma parte intrínseca de Artemis; ele a havia roubado e agora expulsava-a de novo, colocando tudo que ti­nha na tentativa de cura. E no entanto não estava funcionan­do. Não, era mais do que isso. A doença dela ficou mais forte. Repelindo cada onda azul, roubando a cor e a força das fagu­lhas, lançando-as trêmulas na direção do teto.

Alguma coisa está errada, pensou Artemis, com bile na gar­ganta, uma adaga de dor sobre o olho esquerdo. Não deveria ser assim.

A última gota de magia deixou seu corpo com um repelão e Artemis foi lançado da beira da cama da mãe, deslizando pelo chão e depois rolando de cambalhota até parar esparramado de encontro a uma espreguiçadeira. Angeline Fowl teve um último espasmo, depois tombou de volta no colchão. Seu corpo estava encharcado por um estranho gel denso e transparente. Fagulhas mágicas relampejavam e morriam naquela cobertura, que foi desaparecendo quase tão rapidamente quanto havia surgido.

Artemis ficou deitado, com a cabeça nas mãos, esperando que o caos no cérebro parasse, incapaz de se mover ou de pensar. A respiração parecia raspar de encontro ao crânio. Por fim a dor foi se dissipando até virar um eco e palavras confusas fo­ram se transformando em frases.

A magia se foi. Gastou-se. Sou totalmente humano.

Artemis registrou o som da porta do quarto rangendo e ao abrir os olhos encontrou Butler e seu pai olhando-o, com enor­me preocupação no rosto.

— Ouvimos um estrondo. Você deve ter caído — disse Artemis Sênior, puxando o filho pelo cotovelo. — Eu não deveria ter deixado que entrasse aqui sozinho, mas achei que talvez você pudesse fazer alguma coisa. Você tem certos talen­tos, eu sei. Esperava... — Ele ajeitou a camisa do filho, deu tapinhas em seus ombros. — Foi estupidez minha.

Artemis afastou as mãos do pai e foi cambaleando até a cama da mãe. Foi preciso apenas um olhar para confirmar o que já sabia. Ele não havia curado a mãe. Não existia cor em suas bochechas nem maior facilidade na respiração.

Ela está pior. O que foi que eu fiz?

— O que é? — perguntou seu pai. — Que diabo está er­rado com ela? Com essa piora, em menos de uma semana minha Angeline estará...

Butler interrompeu bruscamente:

— Nada de desistir, pessoal. Todos temos contatos, do nosso passado, que podem lançar alguma luz sobre a situação da sra. Fowl. Pessoas com quem, de outro modo, preferiríamos não ter ligações. Vamos encontrá-las e trazer para cá o mais rápido que pudermos. Vamos ignorar bobagens como passa­portes ou vistos e fazer isso logo.

Artemis Sênior assentiu, a princípio lentamente, depois com mais vigor.

— É. É, vamos! Ela ainda não está acabada. Minha Angeline é uma guerreira. Não é, querida?

Segurou a mão dela gentilmente, como se fosse feita do mais fino cristal. Ela não reagiu ao toque ou à voz.

— Nós falamos com todos os praticantes de medicina al­ternativa da Europa sobre as dores na minha perna fantasma. Talvez um deles possa ajudar com isso.

— Conheço um homem na China — disse Butler. — Ele trabalhou com madame Ko na academia de guarda-costas. Fazia milagres com ervas. Morava nas montanhas. Nunca saiu da província, mas viria, se eu pedisse.

— Bom — concordou Artemis Sênior. — Quanto mais opiniões pudermos consultar, melhor. — E se virou para o fi­lho. — Escute, Arty, se você conhece alguém que possa aju­dar... Qualquer pessoa. Talvez você tenha algum contato no submundo, não?

Artemis girou um anel bastante espalhafatoso no dedo médio, de modo que a frente ficasse encostada na palma da mão. Esse anel era na verdade um comunicador do povo das fadas, camuflado.

— Sim — disse ele. — Tenho alguns contatos no submundo.

 

O gigantesco monstro do mar, conhecido como kraken, lançou os tentáculos com barbatanas es­piralando na direção da superfície do oceano, pu­xando seu corpo inchado. Seu único olho girou me­canicamente na órbita e o bico curvo, do tamanho da proa de uma escuna, estava escancarado, filtrando a água re­volta através das guelras ondulantes.

O kraken estava faminto e só havia espaço para um pensa­mento em seu cérebro minúsculo, enquanto acelerava para o bar­co de recreio, acima.

Matar... matar... MATAR...

— Isso é esterco de anão — disse a capitã Holly Short, da Liga de Elite da Polícia, tirando o som do filme em seu capacete.

— Para começar, o kraken não tem tentáculos, e quanto a matar... matar... matar...

— Eu sei — respondeu Potrus, a voz do controle da missão em seu comunicador. — Achei que você talvez gostasse desse trecho. Você sabe, para rir um pouco. Lembra-se de como é rir?

Holly não achou divertido.

— É típico dos humanos, Potrus, pegar algo perfeitamente natural e transformá-lo num demônio. Os krakens são criatu­ras gentis e os humanos os transformam numa espécie de lula gigante assassina. Matar... matar... matar. Dá um tempo!

— Qual é, Holly, isso é apenas ficção sensacionalista. Você conhece esses humanos e sua imaginação. Relaxe.

Potrus estava certo. Se ela se abalasse a cada vez que a mídia humana fizesse uma representação equivocada de uma criatu­ra mítica, passaria a vida inteira em fúria. Com o passar dos séculos, os Homens da Lama haviam captado vislumbres do povo das fadas — e torcido a verdade desses vislumbres até fi­carem quase irreconhecíveis.

Deixe para lá. Há humanos decentes. Lembre-se de Artemis e Butler.

— Você viu aquele filme humano onde aparecem centau­ros? — perguntou ela ao centauro que estava do outro lado do comunicador do capacete. — Eles eram nobres e tinham espí­rito esportivo. Minha espada está a vosso serviço, majestade, de­pois partirei para uma caçada. Centauros em boa forma física, isso me fez rir.

A milhares de quilômetros dali, em algum lugar no manto da terra sob a Irlanda, Potrus, o conselheiro técnico da Liga de Elite da Polícia, coçou a pança.

— Holly, isso dói. Cavaline gosta da minha barriga. Potrus havia se casado, ou se atrelado, como os centauros chamavam a cerimônia, enquanto Holly estava longe com Artemis Fowl, resgatando demônios em Limbo. Muita coisa havia mudado nos três anos em que ela estivera fora e algumas vezes Holly achava difícil se manter atualizada. Potrus tinha uma esposa para ocupar seu tempo. Seu velho amigo Encrenca Kelp fora promovido a comandante da LEP e ela estava traba­lhando de novo no Recon, com a força-tarefa da Vigilância de Krakens.

— Desculpe, amigo. Foi maldade — disse Holly. — Gosto da sua barriga também. Lamento porque não estive presente para ver uma guirlanda de atrelamento em volta dela.

— Eu também. Fica para a próxima. Holly sorriu.

— Claro. Isso vai acontecer.

Tradicionalmente esperava-se que os centauros machos ti­vessem mais de uma esposa, mas Cavaline era uma criatura moderna e Holly duvidava de que ela suportasse uma nova integrante no lar.

— Não se preocupe, estou brincando.

— É melhor estar mesmo, porque vou me encontrar com Cavaline no spa neste fim de semana.

— Como está o equipamento novo? — perguntou Potrus, mudando rapidamente de assunto.

Holly abriu os braços, sentindo o vento ondular nos de­dos, vendo o mar Báltico passar embaixo em lascas de azul e branco.

— Maravilhoso — respondeu. — Absolutamente ma­ravilhoso.

A capitã Holly Short, da LEPrecon, voou em círculos amplos e preguiçosos sobre Helsinque, desfrutando do frio ar escan­dinavo que se infiltrava pelo capacete. Era pouco mais de cin­co da manhã, hora local, e o sol nascente fez reluzir a dourada cúpula em forma de cebola da catedral de Uspenski. O famo­so mercado da cidade já estava riscado por faróis enquanto os vendedores chegavam para abrir os negócios e os ansiosos as­sessores dos políticos iam na direção da fachada cinza-azulada da prefeitura.

O alvo de Holly estava longe do que em breve seria um movimentado centro de comércio. Ajustou os dedos e os sen­sores em suas luvas blindadas traduziram os movimentos em comandos para as asas mecânicas às costas, fazendo-a descer em espiral na direção da pequena ilha de Uunisaari, a 800 me­tros do porto.

— Os sensores corporais são ótimos — disse ela. — Mui­to intuitivos.

— É o mais parecido possível com ser um pássaro — res­pondeu Potrus. — A não ser que você queira se integrar. Quer?

— Não, obrigada — disse Holly com veemência. Adora­va voar, mas não o suficiente para que um cirurgião da LEP colocasse alguns implantes em seu cerebelo.

— Muito bem, capitã Short. — Potrus passou para um tom profissional. — Verificação pré-operacional. Três “As”, por favor.

Os três “As” eram a lista de verificação de cada agente de reconhecimento antes de se aproximar de uma área de opera­ção. Asas, arma e acesso a rota de fuga.

Holly verificou os informes transparentes no visor do capacete.

— Célula de energia carregada. Arma no verde. Asas e roupa totalmente funcionais. Nenhuma luz vermelha.

— Excelente. Confirmado, confirmado, confirmado. Nos­sas telas concordam.

Holly ouviu sons de teclas enquanto Potrus registrava essa informação no diário da missão. O centauro era famoso pelo apego aos teclados antigos, mesmo que ele próprio tivesse pa­tenteado um teclado virtual extremamente eficiente, o v-clado.

— Lembre-se, Holly, isto é só reconhecimento. Desça e verifique os sensores. Essas coisas têm duzentos anos, e o pro­blema provavelmente é mais do que um simples superaqueci­mento. Você só precisa ir aonde eu disser e consertar o que eu disser. Nada de tiros indiscriminados. Entendido?

Holly fungou.

— Dá para ver por que Cavaline se apaixonou por você, Potrus. Você é um doce.

Potrus deu um risinho.

— Não reajo mais a provocações, Holly. O casamento me deixou mais afável.

— Afável? Vou acreditar nisso quando você ficar dez mi­nutos numa sala com Palha Escavator sem dar um coice.

O anão Palha Escavator fora, em várias ocasiões, inimigo, parceiro e amigo de Holly e Potrus. Seu maior prazer na vida era encher a pança, e não muito atrás disso vinha irritar seus vários inimigos, parceiros e amigos.

— Talvez eu precise de mais alguns anos de casamento antes de ficar tão afável assim. Mais alguns séculos, na verdade.

Agora a ilha estava grande no visor de Holly, rodeada por um círculo de espuma. Hora de acabar com o papo furado e prosseguir com a missão, mas Holly sentiu-se tentada a circular num padrão de espera para conversar mais com o amigo. Pa­recia que era a primeira conversa de verdade que tinham desde seu retorno de Limbo. Potrus havia prosseguido com a vida nos últimos três anos, mas para Holly a ausência fora apenas de algumas horas e, mesmo não tendo envelhecido, sentia que aqueles anos lhe foram roubados. O psiquiatra da LEP teria dito que ela sofria de depressão pós-deslocamento-de-viagem- no-tempo. Holly acreditava em antidepressivos tanto quanto em implantes cerebrais.

— Estou indo — disse tensa. Era sua primeira missão so­zinha desde que havia retornado, e não queria nada menos do que um relatório perfeito, mesmo que fosse apenas Vigilância de Krakens.

— Câmbio — disse Potrus. — Está vendo o sensor? Havia quatro biossensores na ilha, passando informações para a Delegacia Plaza. Três pulsavam num verde suave no visor de Holly. O quarto sensor estava vermelho. Vermelho poderia significar muitas coisas. Neste caso todas as leituras haviam subido acima dos níveis normais. Temperatura, batimentos cardíacos, atividade cerebral. Todos na linha de perigo.

— Deve ser mau funcionamento — havia explicado Potrus. — Se não fosse, os outros sensores mostrariam alguma coisa.

— Captei. Sinal forte.

— Certo. Ligue o escudo e se aproxime.

Holly virou o queixo rapidamente para a esquerda até que o osso do pescoço estalasse, o que era seu modo de invocar a magia. Não era um movimento necessário, já que a magia era principalmente uma função cerebral, mas as criaturas subter­râneas desenvolviam seus próprios tiques. Deixou um pou­quinho de força ir para os membros e vibrou até sair do espectro visível. Sua roupa tremeluzente captou a freqüência e a am­pliou, de modo que uma fagulha minúscula de magia fizesse um trabalho enorme.

— Estou fora de vista e indo em frente — confirmou.

— Entendido — disse o centauro. — Tenha cuidado, Holly. O comandante Kelp vai examinar este vídeo, por isso atenha-se às ordens.

— Está sugerindo que de vez em quando eu não sigo as regras do manual? — perguntou Holly, aparentemente horro­rizada com a simples idéia.

Potrus fungou.

— Estou sugerindo que talvez você não tenha uma cópia do manual e, se tiver, certamente nunca o abriu.

Bom argumento, pensou Holly, descendo em direção à su­perfície da ilha de Uunisaari.

As baleias são consideradas os maiores mamíferos do mundo. Não são. Os kraken podem se esticar até cinco quilômetros de comprimento e fazem parte das lendas escandinavas desde o século XIII, quando apareceram na saga Orvar-Odd como o temível lyngbarkr. As primeiras descrições dos kraken são as mais exatas, descrevendo as criaturas marinhas como um ani­mal do tamanho de uma ilha flutuante, cujo verdadeiro peri­go para os navios não era a criatura propriamente dita, e sim o redemoinho que ela criava ao afundar no oceano. Mas na Ida­de Média a lenda do kraken havia se confundido com a da lula gigante, e cada uma das criaturas recebeu o crédito dos atribu­tos mais temíveis da outra. A lula era representada grande como uma montanha, enquanto o pacífico kraken ganhou tentácu­los e desenvolveu uma sede de sangue capaz de rivalizar com a do tubarão mais mortal.

Nada poderia estar mais longe da verdade. O kraken é uma criatura dócil cujas principais defesas são o tamanho, a carapa­ça, o gás e as células de gordura que envolvem um cérebro do tamanho de um melão com inteligência apenas suficiente para a criatura se alimentar e trocar a concha. Por baixo da crosta de rocha, algas e coral, o kraken não se parece com nada além de uma craca comum, ainda que uma craca que facilmente poderia abrigar um ou dois estádios olímpicos.

O kraken pode viver vários milhares de anos, graças a um metabolismo incrivelmente lento e uma gigantesca rede de sis­temas de apoio ao redor dos centros moles. Ele tende a se esta­belecer num ambiente mágico ou rico em comida e permanecer ali até que a comida ou o resíduo de energia acabe. Aninhar-se no meio de um arquipélago perto de um porto humano pro­porciona não somente camuflagem, mas também uma fonte abundante de material comestível. E é assim que os kraken são encontrados, ancorados no leito do mar como lapas gigantes­cas, sugando os dejetos da cidade através das guelras e fermen­tando-os até virarem metano em seus estômagos enormes. Mas, se o lixo humano é sua salvação, também é sua condenação, porque os níveis de toxinas cada vez mais elevados tornaram os kraken estéreis, e agora restam apenas cerca de meia dúzia dessas criaturas antigas nos oceanos.

Esse kraken específico era o mais velho de todos. Segundo as marcas na concha, o velho Cascão, como chamava a peque­na equipe de Vigilância de Krakens, tinha mais de 10 mil anos e vinha se fingindo de ilha no porto de Helsinque desde o sé­culo XVI, quando a cidade se chamava Helsingfors.

Durante todo esse tempo, Cascão fizera pouco mais do que se alimentar e dormir, sem a ânsia de migrar. Qualquer necessida­de que pudesse ter sentido de se mudar era embotada pelas infil­trações de uma fábrica de tinta construída em suas costas mais de cem anos antes. Para todos os efeitos, Cascão estava catatônico, não tendo emitido mais de uns dois jorros de metano em mais de cinqüenta anos, de modo que não havia motivo para acreditar que essa luz vermelha em seu sensor fosse algo mais do que um fio cruzado, e o trabalho de Holly era descruzá-lo. Era o tipo de mis­são padrão para o primeiro dia de volta ao serviço. Sem perigo, sem prazo apertado e com pouca chance de ser descoberta.

Holly virou as palmas das mãos contra o vento, descendo até que suas botas roçaram o teto do pequeno restaurante da ilha. Na verdade eram duas ilhas, separadas por uma pequena ponte. Uma era uma ilha genuína, e a outra parte, a maior, era Cascão aninhado na rocha. Holly fez uma rápida varredura térmica, sem encontrar nada além de uns poucos roedores e uma mancha de calor vinda da sauna, que provavelmente fun­cionava com ciclos de tempo.

Consultou o visor em busca da localização exata do sensor. Ficava quatro metros abaixo da água, enfiado sob uma laje de pedra.

Embaixo d’água. Claro.

Guardou as asas ainda no ar e mergulhou com os pés para baixo no mar Báltico, girando como um parafuso para mini­mizar o espirro da água. Não que houvesse algum humano su­ficientemente perto para ouvir. A sauna e o restaurante só abriam às oito horas e os pescadores mais próximos estavam no continente, com as varas balançando gentis como fileiras de mastros nus.

Holly liberou as bolsas de gás em seu capacete, para dimi­nuir a flutuabilidade, e afundou abaixo das ondas. Seu visor in­formou que a temperatura da água estava pouco acima dos dez graus, mas a roupa tremeluzente a isolava do choque térmico e até se flexionou para compensar o leve aumento de pressão.

— Use os Rarracos.

— Não preciso de um rastreador. A coisa está logo ali. Potrus suspirou.

— Então eles vão morrer sem se realizar.

Os Rastreadores de Radiação Codificada eram micro-orga­nismos banhados em radiação da mesma freqüência da do objeto a ser localizado. Se antes de sair da oficina de Potrus você soubesse o que estava procurando, os Rarracos iriam levá-lo diretamente para lá. Mas eram um pouco redundantes quando o sensor estava a poucos metros de distância e soltando bips em sua tela.

— Tudo bem — gemeu Holly. — Gostaria que você pa­rasse de me usar como cobaia.

Ela puxou uma aba à prova d’água na manga, soltando na água uma nuvem de minúsculas criaturas luminosas e alaran­jadas. Elas se juntaram por um momento, depois aceleraram numa forma aproximada de flecha indo na direção do sensor.

— Eles nadam, eles voam, eles se enterram — disse Potrus, pasmo com sua própria criação. — Deus abençoe seus corações minúsculos.

Os Rarracos deixaram uma esteira laranja luminosa para Holly seguir. Ela se enfiou sob uma laje afiada e encontrou os Rarracos já escavando as algas que cobriam o sensor.

— Ora, ora. Isso é ótimo. Diga que não é útil para um agente de campo.

Era muito útil, especialmente porque restavam apenas dez minutos de ar para Holly, mas Potrus já era convencido demais e não precisava de elogios.

— Um capacete com guelras seria mais útil, especialmen­te porque você sabia que o sensor estava embaixo d’água.

— Você tem ar mais do que suficiente — argumentou Potrus. — Em especial porque os Rarracos estão limpando a área ao redor.

Os Rarracos comeram a rocha e o musgo que cobriam o sensor, até ele brilhar como no dia em que havia saído da linha de montagem. Assim que concluíram sua missão, os Rarracos piscaram e morreram, dissolvendo-se na água com um chiado fraco. Holly ligou as luzes do capacete, focalizando os dois fa­chos no instrumento metálico. O sensor tinha o tamanho e a forma de uma banana e era coberto por gel eletrolítico.

— A água está bastante limpa, graças a Cascão. Tenho uma visão decente.

Holly ajustou a flutuabilidade da roupa até ficar em situa­ção neutra e pairou na água o mais imóvel que pôde.

— Bom, o que você está vendo?

— O mesmo que você — respondeu o centauro. — Um sensor com uma luz vermelha piscando. Preciso fazer algumas leituras, se você não se importar em tocar a tela.

Holly pôs a mão no gel, de modo que o omni-sensor de sua luva pudesse entrar em sincronia com o aparelho antigo.

— Nove minutos e meio, Potrus, não esqueça.

— Por favor — zombou o centauro. — Eu poderia recali­brar uma frota de satélites em nove minutos e meio.

Provavelmente era verdade, pensou Holly enquanto seu capacete fazia uma verificação de sistemas no sensor.

— Hum — suspirou Potrus, trinta segundos depois.

— Hum? — repetiu Holly, nervosa. — Não venha com hum para mim, Potrus. Me ofusque com ciência, mas não ve­nha com hum.

— Não parece haver nada errado com esse sensor. Está funcionando notavelmente bem. O que significa...

— Que os outros três sensores estão defeituosos — con­cluiu Holly. — Isso é que é genialidade.

— Eu não projetei esses sensores — disse Potrus, magoa­do. — São antigos equipamentos de Koboi.

Holly estremeceu, com o corpo se sacudindo na água. Sua velha inimiga, Opala Koboi, fora uma das maiores inovadoras do Povo, até ter decidido que preferiria seguir as avenidas do crime e se coroar rainha do mundo. Agora estava abrigada num cubo-prisão isolado, suspenso em Atlântida, e passava o tem­po mandando e-mails para políticos, implorando para ser li­bertada antes do tempo.

— Desculpe, velho amigo, por duvidar de sua inteligência maravilhosa. Acho que eu deveria verificar os outros sensores. Espero que estejam acima do nível do mar.

— Hum — disse Potrus de novo.

— Por favor, pare com isso. É claro que, já que estou aqui, eu deveria verificar os outros sensores, não é?

Silêncio por um momento, enquanto Potrus acessava al­guns arquivos, depois falou com frases entrecortadas enquan­to as informações se abriam à sua frente.

— Os outros sensores... não são a questão premente... neste momento. O que realmente precisamos saber... é por que Cascão estaria causando a luz vermelha neste sensor. Deixe-me ver... se já tivemos esse tipo de leitura antes.

Holly não tinha escolha senão manter contato com o sen­sor, com as pernas balançando, olhando o indicador de ar no visor ficar cada vez mais baixo.

— Certo — disse Potrus finalmente. — Dois motivos para a leitura de um kraken estar vermelha. Um: Cascão vai ter um bebê kraken, o que é impossível porque ele é um macho estéril.

— Com isso ficamos com a segunda hipótese — disse Holly, que tinha certeza de que não gostaria dela.

— E dois: ele está trocando de concha.

Holly revirou os olhos, aliviada.

— Trocando de concha. Não parece tão ruim.

— Eeeeepa, é um pouco pior do que parece.

— Como assim, um pouco?

— Por que não explico enquanto você voa para longe o mais rápido que puder?

Holly não precisou ouvir duas vezes. Quando Potrus acon­selhava um agente a sair antes de ele fazer um dos seus amados sermões, a situação era grave. Abriu os braços e a ação foi imi­tada pelas asas às costas.

— Acionar — disse apontando os dois braços para a superfície, e os motores deram a partida, lançando-a para fora do Báltico, enquanto o rastro d’água que espirrou no ar se transformava em espuma. Sua roupa ficou instantane­amente seca enquanto a umidade escorria do material antiaderente e a resistência do ar arrancava qualquer gota que restasse. Em segundos havia subido até cem metros, com a ansiedade da voz de Potrus fazendo-a se apressar.

— Um kraken libera a concha uma vez, e os registros mos­tram que Cascão soltou a dele há três mil anos, por isso presu­mimos que ele ia parar por aí.

— Mas agora?

— Agora parece que Cascão viveu o suficiente para fazer isso de novo.

— E por que estamos preocupados?

— Estamos preocupados porque os kraken soltam a con­cha muito explosivamente. A concha nova já cresceu e Cascão vai se livrar da velha acendendo uma camada de células de metano e explodindo-a.

Holly queria ter certeza de que havia entendido o que era dito.

— Então você quer dizer que Cascão vai acender um peido?

— Não, Cascão vai acender o peido. Ele armazenou meta­no suficiente para gerar energia capaz de alimentar a cidade de Porto durante um ano. Não há um peido assim desde a última reunião tribal dos anões.

Uma representação por computador da explosão apareceu no visor dela. Para a maioria das criaturas, a imagem seria pouco mais do que um borrão, mas os agentes da LEP eram obriga­dos a desenvolver o foco duplo necessário para ler suas telas e ao mesmo tempo ver aonde estavam indo.

Quando a simulação determinou que Holly estava longe do raio projetado da explosão, ela baixou as botas, girando num arco ascendente para ficar voltada na direção do kraken.

— Há alguma coisa que possamos fazer?

— Além de tirar algumas fotos, não. É tarde demais. Fal­tam apenas alguns minutos. A concha interna de Cascão já está em temperatura de ignição, portanto baixe o filtro antiofusca­mento e assista ao show.

Holly baixou o filtro escuro.

— Isso vai sair no noticiário de todo o mundo. Ilhas não explodem simplesmente.

— Explodem sim. Atividade vulcânica, vazamentos de gás, acidentes químicos. Acredite, se há uma coisa que os Homens da Lama sabem, é como explicar uma explosão. Os americanos inventaram a Área Cinqüenta e Um só porque um senador bateu com um jato numa montanha.

— A área do continente está em segurança?

— Deve estar. Vai receber alguns estilhaços, talvez. Holly relaxou, pairando no ar sustentada pelas asas. Não havia nada que pudesse fazer, nada que devesse fazer. Esse era um processo natural e o kraken tinha todo o direito de trocar de concha.

Explosões de metano. Palha adoraria isso.

Atualmente, Palha Escavator estava comandando um es­critório de investigações particulares em Porto, com o duende-diabrete Duda Dia. O próprio Palha já havia provocado alguns distúrbios com metano.

Algo pulsou suavemente no visor de Holly. Uma mancha de plasma em vermelho nas janelas de varredura térmica. Havia vida na ilha, e não somente de insetos ou roedores. Vários humanos.

— Potrus. Tenho uma coisa.

Holly mudou o tamanho das janelas com uma série de comandos piscando, para rastrear a fonte. Havia quatro cor­pos quentes dentro da sauna.

— Dentro da sauna, Potrus. Como foi que não vimos?

— Os corpos estão na mesma temperatura das paredes de tijolos — respondeu o centauro. — Acho que um dos Homens da Lama abriu a porta.

Holly ampliou o visor em seis vezes e viu que a porta da sau­na estava entreaberta, com uma cunha de vapor saindo. A cons­trução ia se resfriando mais rápido do que os humanos, de modo que agora eles apareciam separadamente em seu rastreador.

— O que esses Homens da Lama estão fazendo aqui? Você disse que nada se abre antes das oito.

— Não sei, Holly. Como iria saber? Eles são humanos. Quase tão confiáveis quanto demônios com a loucura da lua.

Não importava por que os humanos estavam ali e pergun­tar isso era perda de tempo.

— Tenho de voltar, Potrus.

Potrus virou uma câmera para si mesmo, transmitindo sua imagem ao vivo para o capacete de Holly.

— Olhe minha cara, Holly. Está vendo essa expressão? Esta é a minha cara séria. Não faça isso, Holly. Não retorne à ilha. Humanos morrem todos os dias e nós não interferimos. A LEP nunca interfere.

— Eu conheço as regras — disse Holly cortando o som do centauro irritado.

Lá se vai minha carreira. De novo, pensou, virando as asas para um mergulho profundo.

Quatro homens estavam sentados na sala externa da sauna, sentindo-se muito presunçosos porque haviam enganado de novo as autoridades da ilha e conseguido se esgueirar de graça para a sauna antes do trabalho. Ajudava o fato de que um dos homens era guarda de segurança da Uunisaari e tinha acesso às chaves e a um pequeno bote com motor de cinco cavalos que acomodou os amigos e um balde de cerveja Karjala.

— A temperatura na sauna está boa hoje — disse um deles. Um segundo enxugou o vapor dos óculos.

— Um pouco quente, acho. Na verdade até o chão está quente.

— Pule no Báltico, então — disse o guarda, irritado com a falta de apreciação por seus esforços. — Isso vai esfriar seus pobres dedinhos.

— Não ligue para ele — disse o quarto homem, apertan­do a pulseira do relógio. — Ele tem pés sensíveis. Sempre vem com algum problema de temperatura.

Os homens, que eram amigos de infância, riram e tomaram cerveja. Os risos e os goles terminaram abruptamente quando uma parte do teto subitamente pegou fogo e se desintegrou.

O guarda tossiu um bocado de cerveja.

— Alguém estava fumando? Eu disse que não podia fumar!

Mesmo que um dos seus colegas de sauna tivesse respon­dido, o guarda não ouviria, já que de algum modo ele conse­guira voar pelo buraco no teto.

— Meus dedos estão quentes mesmo — disse o homem de óculos, como se insistir no assunto antigo pudesse fazer com que o novo sumisse.

Os outros o ignoraram, ocupados com que os homens costumam fazer em momentos de perigo: vestir as calças.

Não havia tempo para apresentações ou portas, por isso Holly sacou sua pistola Neutrino, cavou um buraco de dois metros no teto e teve a visão de quatro Homens da Lama pálidos, semidespidos, tremendo no frio súbito.

Não fico surpreso por eles estarem tremendo, pensou ela. E isso é só o começo.

Enquanto voava, estivera pensando no problema: como tirar quatro humanos da zona de explosão em quatro minutos.

Até recentemente ela teria tido um segundo problema: a construção propriamente dita. Segundo o Livro das fadas, as criaturas eram proibidas de entrar em construções humanas sem convite. Era um feitiço de 10 mil anos que ainda ardia, causando náusea e perda de poder para qualquer um que o de­safiasse. A lei era um anacronismo e um sério impedimento para as operações da LEP, e assim, depois de uma série de deba­tes públicos e de um referendo, o feitiço fora encerrado pelo demônio feiticeiro N°l. O pequeno demônio havia demorado cinco minutos para desenrolar um feitiço que havia aturdi­do os feiticeiros elfos durante séculos.

De volta ao problema original. Quatro humanos grandes. Enorme explosão iminente.

O primeiro humano era bastante fácil e era a escolha óbvia. Estava bloqueando os outros e usava nada além de uma toalha e um minúsculo quepe de segurança empoleirado no topo do crânio como uma casca de noz na cabeça de um urso.

Holly fez uma careta. Tenho de tirá-lo da minha vista assim que possível, caso contrário pode ser que eu jamais esqueça a ima­gem. Esse Homem da Lama tem mais músculos do que um troll.

Troll! Claro.

Vários acréscimos foram feitos ao kit do Recon enquanto Holly estivera em Limbo, na maioria inventados e patentea­dos por Potrus, naturalmente. Um desses acréscimos era um novo pente de dardos para sua Neutrino. O centauro os cha­mava de dardos antigravidade, mas os policiais chamavam de Flutuadores.

Os dardos eram baseados no Cintolua, também de Potrus, que gerava um campo em volta de qualquer coisa à qual esti­vesse ligado, reduzindo o empuxo gravitacional da Terra para um quinto do normal. O Cintolua era útil para transportar equipamento pesado. Os agentes de campo adaptaram rapi­damente o cinto às suas necessidades específicas, prendendo prisioneiros às argolas, o que os tornava muito mais fáceis de ser controlados.

Depois Potrus desenvolveu um dardo que provocava o mesmo efeito de seu Cintolua. O dardo usava a própria carne do fugitivo para conduzir a carga que o deixava quase sem peso.

Até um troll parece menos ameaçador quando está balouçan­do na brisa como um balão.

Holly tirou o pente do cinto, usando a palma da mão para enfiá-lo na Neutrino.

Dardos, pensou. De volta à idade da pedra.

O grande segurança estava bem na sua mira, com o lábio se sacudindo petulante.

Não há necessidade de mira a laser para este Homem da Lama, pensou. Eu não poderia errar.

E não errou. O dardo minúsculo penetrou no ombro do homem e ele estremeceu por um momento até que o campo antigravitacional o envolveu.

— Uuuu — disse ele. — Isso é meio...

Então Holly havia pousado ao lado dele, segurado a coxa pálida, e o atirou para o céu. Ele foi, mais rápido do que um balão estourado, deixando uma trilha de uuuuus surpresos para trás.

Os outros homens terminaram de vestir as calças rapida­mente. Dois tropeçaram, na pressa, e bateram na cabeça um do outro, antes de despencar no chão. Pratos de pão com to­mate e muçarela foram jogados de lado; garrafas de cerveja ro­laram pelos ladrilhos.

— Meus sanduíches — disse um dos homens, ao mesmo tempo em que lutava com os jeans roxos.

Não há tempo para pânico, pensou Holly em silêncio e in­visível no meio deles. Abaixou-se, evitando membros pálidos que se sacudiam, e rapidamente disparou mais três dardos.

Uma estranha calma baixou na sauna enquanto três ho­mens adultos se pegavam flutuando na direção de um buraco no teto.

— Meus pés estão... — começou o sujeito de óculos.

— Para de falar dos seus pés! — gritou o do sanduíche, dando-lhe um soco. O movimento o fez girar e ricochetear como uma bola de fliperama.

Potrus conseguiu religar o som do capacete de Holly.

— D’Arvit, Holly. Você tem segundos. Segundos! Saia daí agora! Nem sua veste-armadura vai livrá-la de uma explosão dessa magnitude.

O rosto de Holly estava vermelho e suando, apesar do con­trole climático do capacete.

Você tem segundos. Quantas vezes escutei isso?

Não havia tempo para sutilezas. Deitou-se de costas, ajus­tando a Neutrino para fachos de concussão, e disparou um padrão amplo, bem para cima.

O raio jogou os homens para o alto, do mesmo modo que um rio correndo rápido leva bolhas, fazendo-os ricochetear nas paredes e uns nos outros antes de finalmente jogá-los pelo cír­culo no teto, que ainda soltava fagulhas.

O último homem olhou para baixo enquanto saía, imaginan­do, distraidamente, por que não estava gritando de pânico. Sem dúvida voar era justificativa para histeria, não?

Isso provavelmente virá mais tarde, concluiu ele. Se houver um mais tarde para mim.

No vapor da sauna, pareceu-lhe que havia uma pequena forma humanóide deitada no chão. Uma figura diminuta com asas, que saltou de pé e depois disparou na direção dos homens que voavam.

É tudo verdade, pensou o homem. Igualzinho a O Senhor dos Anéis. Criaturas mágicas. É tudo verdade.

Então a ilha explodiu e o homem parou de se preocupar com criaturas mágicas e começou a se preocupar com as cal­ças, que tinham acabado de pegar fogo.

Com os quatro homens no ar, Holly decidiu que era hora de se afastar ao máximo possível da suposta ilha. Pulou, ligou as asas no ar e disparou para o céu da manhã.

— Muito bom — disse Potrus. — Você sabe que estão chamando esse movimento de Hollycóptero, não sabe?

Holly sacou sua arma, impelindo os homens sem peso mais para longe da ilha, com disparos curtos.

— Estou ocupada me mantendo viva, Potrus. A gente se fala mais tarde.

— Desculpe, amiga. Estou preocupado. Falo quando es­tou preocupado. Cavaline acha que é um mecanismo de defesa. De qualquer modo, o Hollycóptero. Você fez a mesma decola­gem durante aquele tiroteio num telhado em Darmstad. O major... quero dizer, o comandante Kelp gravou em vídeo. Es­tão usando as imagens na Academia atualmente. Você não acreditaria no número de cadetes que quebrou os tornozelos tentando o mesmo truque.

Holly já ia insistir que seu amigo calasse a boca, por favor, quando Cascão acendeu suas células de metano, dizimando a concha antiga e mandando toneladas de entulho na direção do céu. A onda de choque pegou Holly por baixo, como um soco gigantesco, fazendo-a girar como um pião. Ela sentiu a roupa se flexionar para evitar o choque, as escamas minúsculas cerrando fileiras contra o impacto como os escudos de um batalhão de demônios. Houve um ligeiro sibilo enquanto o capacete inflava as bolsas de segurança que protegiam o cérebro e a medula. As telas no visor piscaram, tremeram e depois se acomodaram.

O mundo girou diante do visor numa série de azuis e cin­za. O horizonte artificial do capacete deu várias cambalhotas, mas Holly percebeu que, na verdade, ela é que estava girando, e não a imagem na tela.

Viva. Ainda estou viva. Minhas chances devem estar di­minuindo.

Potrus interrompeu seus pensamentos.

— ...batimentos cardíacos subiram, mas não sei por quê. Seria de pensar que você já estivesse acostumada a essas situa­ções. Os quatro humanos sobreviveram, você vai adorar saber, já que arriscou a vida e minha tecnologia para salvá-los. E se um dos meus Flutuadores tivesse caído em mãos humanas?

Holly usou uma combinação de gestos e piscadelas para disparar jatos de vários dos doze motores de suas asas, reto­mando com dificuldade o controle do aparelho.

Abriu o visor para tossir e cuspir, depois respondeu à acusação:

— Estou bem, obrigada por ter perguntado. E todos os equipamentos da LEP têm sistemas de destruição remotos. Até eu! Portanto o único modo de seus preciosos Flutuadores caí­rem em mãos humanas seria se sua tecnologia falhasse.

— O que me lembra de que preciso me livrar daqueles dardos.

Abaixo era um pandemônio. Parecia que metade dos ha­bitantes de Helsinque já havia conseguido se enfiar em várias embarcações, e uma verdadeira flotilha se dirigia ao local da explosão, liderada por um barco da guarda costeira com dois poderosos motores de popa chacoalhando, aumentando a velo­cidade. O kraken propriamente dito estava obscurecido pela fumaça e a poeira, mas fragmentos chamuscados de sua concha choviam como cinza vulcânica, cobrindo os conveses dos bar­cos abaixo e colocando um manto escuro sobre o mar Báltico.

Vinte metros à esquerda de Holly, os homens flutuantes balançavam felizes pelo ar, cavalgando as últimas marolas do choque explosivo, com as calças pendendo da cintura em ruí­nas esfrangalhadas.

— Estou surpresa — disse Holly, dando um zoom nos homens. — Ninguém gritou nem se molhou.

— Uma gotinha de relaxante no dardo — riu Potrus. — Bom, eu disse uma gotinha. O bastante para deixar um troll sentindo falta da mamãe.

— Às vezes os trolls devoram as mães — comentou Holly.

— Exatamente.

Potrus esperou até que os homens tivessem baixado a me­nos de três metros da superfície do oceano, depois detonou por controle remoto a carga minúscula em cada dardo. Quatro estalos fracos foram seguidos por quatro quedas barulhentas. Os homens estavam na água há apenas alguns segundos quan­do a guarda costeira os alcançou.

— Muito bem — disse o centauro, obviamente aliviado. — Desastre potencial evitado e nossa boa tarefa do dia cum­prida. Mexa-se e volte para a estação de transporte. Não tenho dúvida de que o comandante Kelp vai querer um relatório de­talhado.

— Só um segundo. Estou recebendo um e-mail.

— E-mail! E-mail! Você acha mesmo que é hora? Seus ní­veis de energia estão baixos e os painéis traseiros de sua roupa levaram uma bela pancada. Você precisa sair daí, antes que seu escudo pife totalmente.

— Preciso ler este, Potrus. É importante.

O ícone de e-mail piscando no visor de Holly tinha a assi­natura de Artemis. Artemis e Holly tinham um código de cor em seus ícones de e-mail. Verde era social, azul era negócios e vermelho era urgente. O ícone no visor de Holly pulsava em vermelho vivo. Ela piscou para o ícone, abrindo a mensagem curta.

Mamãe está morrendo. Por favor venha imediatamente. Tra­ga N° 1.

Holly sentiu um pavor frio no estômago e o mundo pare­ceu estremecer diante de seus olhos.

Mamãe está morrendo. Traga N° 1.

A situação devia ser desesperadora para Artemis pedir que ela levasse o poderoso demônio feiticeiro.

Voltou rapidamente ao dia, 18 anos antes, em que sua mãe havia falecido. Fazia quase duas décadas e a perda ainda era dolorosa como um ferimento recente. Um pensamento lhe ocorreu.

Não são 18 anos. São 21. Eu estive fora durante três.

Coral Short era médica da LEPmarinha, que patrulhava o Atlântico fazendo a limpeza depois da passagem dos humanos, protegendo espécies em perigo. Fora mortalmente ferida quan­do um petroleiro de aparência particularmente maligna, que eles estavam seguindo, cobriu seu submarino por acidente com lixo radioativo. A radiação suja é um veneno para as criaturas do subterrâneo e sua mãe demorou uma semana para morrer.

— Vou fazer com que eles paguem — havia prometido Holly, chorando junto ao leito da mãe na Clínica Porto. — Vou caçar até o último daqueles Homens da Lama.

— Não — dissera a mãe com força surpreendente. — Passei minha carreira salvando criaturas. Você deve fazer o mesmo. A destruição não pode ser o meu legado.

Foi uma das últimas coisas que ela diria. Três dias depois Holly estava com o rosto parecendo de pedra, durante a ceri­mônia de reciclagem da mãe, com seu uniforme de gala, ver­de, abotoado até o queixo. O Omni-instrumento que sua mãe lhe dera, como presente de formatura, no coldre do cinto.

Salvando criaturas. Por isso Holly havia se candidatado ao Recon.

E agora a mãe de Artemis estava morrendo. Holly perce­beu que não pensava mais em Artemis como um humano, só como amigo.

— Preciso ir à Irlanda — disse.

Potrus não se incomodou em discutir: havia espiado o e-mail urgente na tela de Holly.

— Vá. Posso lhe dar cobertura durante algumas horas. Eu poderia dizer que você está fazendo o Ritual. Por acaso há lua cheia esta noite e ainda temos alguns locais mágicos perto de Dublin. Vou mandar uma mensagem à Seção Oito. Talvez Qwan deixe o Número Um sair do laboratório de magia du­rante algumas horas.

— Obrigada, velho amigo.

— De nada. Agora vá. Vou sair da sua cabeça durante um tempo e monitorar as conversas aqui. Talvez eu possa infiltrar algumas idéias na mídia humana. Gosto da idéia de um bolsão subterrâneo de gás natural. É quase verdade.

Quase verdade.

Holly não pôde deixar de aplicar a frase ao e-mail de Artemis. Com freqüência o garoto irlandês manipulava as pessoas contando-lhes uma quase verdade.

Repreendeu-se em silêncio. Certamente não. Nem mesmo Artemis Fowl mentiria sobre uma coisa tão séria.

Todo mundo tinha seus limites.

Não é?

 

Artemis Sênior juntou suas tropas na sala de reuniões da mansão Fowl, que original­mente havia sido um salão de banquetes. Até recentemente, os altos arcos góticos eram es­condidos por um teto falso, mas Angeline Fowl havia ordenado que o teto fosse removido e que o salão fosse restaurado à sua glória original, com pé-direito duplo.

Artemis, seu pai e Butler estavam sentados em poltronas Marcel Breuer, de couro preto, ao redor de uma mesa de tam­po de vidro com espaço para mais dez pessoas.

Não faz muito tempo havia contrabandistas sentados ao re­dor desta mesa, pensou Artemis. Para não mencionar chefões do crime, hackers, informantes, falsários, agentes do mercado negro e ladrões de residências. Os velhos negócios da família.

Artemis Sênior fechou o laptop. Estava pálido e obviamente exausto, mas a velha determinação brilhava forte nos olhos.

— O plano é simples. Devemos buscar não somente uma segunda opinião, mas o máximo de opiniões possíveis. Butler vai pegar o jato e ir para a China. Não há tempo para canais oficiais, de modo que talvez você deva encontrar uma pista onde o serviço de imigração seja um tanto relaxado. Butler assentiu.

— Conheço o lugar certo. Posso ir e voltar em dois dias, se tudo correr bem.

Artemis Sênior estava satisfeito.

— Bom. O jato está abastecido e pronto. Já organizei uma tripulação completa e um piloto extra.

— Só preciso pegar umas coisas, depois posso ir. Artemis podia imaginar que tipo de coisas Butler pegaria, especialmente se não existissem autoridades na pista de pouso.

— O que você fará, papai? — perguntou ele.

— Vou à Inglaterra. Posso levar o helicóptero ao Aeroporto da Cidade de Londres e de lá pego uma limusine até a Harley Street. Lá existem vários especialistas com quem posso falar, e será muito mais eficiente eu ir para lá do que trazer todos para cá. Se algum deles puder lançar ao menos um débil raio de luz sobre a situação de sua mãe, pagarei o que for necessário para trazê-lo aqui. Se necessário, compro o consultório deles.

Artemis assentiu. Boa tática. Mesmo assim ele não espera­ria nada menos do que isso da parte do homem que havia co­mandando com sucesso um império do crime durante mais de duas décadas e que nos últimos anos comandara um impé­rio humanitário.

Tudo que Artemis Sênior fazia atualmente era ético. De sua empresa de roupas que seguiam o princípio de comércio justo às ações da Earthpower, um consórcio de empresários bem-intencionados que construíam tudo, de carros que usa­vam combustível renovável a hastes geotérmicas e painéis so­lares. Ele havia instalado filtros avançados de controle de emissões até mesmo nos carros, no jato e no helicóptero dos Fowl, para diminuir a cota de carbono da família.

— Eu vou ficar aqui — anunciou Artemis, sem esperar que pedissem. — Posso coordenar os esforços de vocês, insta­lar um sistema de webcam para que os especialistas da Harley Street possam ver mamãe, supervisionar o dr. Schalke e a srta. Book. E além disso realizar minha busca pela Internet, para curas possíveis.

Artemis Sênior deu um meio sorriso.

— Muito bem, filho. Eu não havia pensado na webcam.

Butler estava ansioso para partir, mas precisava dizer uma coisa antes.

— Não fico à vontade em deixar Artemis sozinho. Ele pode ser um gênio, mas ainda gosta de se intrometer onde não deve e é um ímã para encrenca. — O guarda-costas piscou para Artemis. — Sem ofensa, jovem patrão, mas você é capaz de transformar um piquenique de domingo num incidente internacional.

Artemis aceitou a acusação com elegância.

— Não me ofendo.

— Esse pensamento me ocorreu — disse Artemis Sênior, coçando o queixo. — Mas não há problema. A babá concordou em levar os gêmeos para seu chalé em Howth durante dois dias, mas o Arty é necessário aqui, por isso terá de se virar sozinho.

— O que não será problema — disse Artemis. — Tenham um pouco de fé, por favor.

Artemis Sênior estendeu a mão sobre a mesa, cobrindo a do filho.

— Fé uns nos outros é tudo que temos agora. Precisamos acreditar que é possível salvar sua mãe. Você acredita?

Artemis notou uma das janelas do alto se entreabrindo len­tamente. Uma folha entrou no salão, cavalgando uma brisa em redemoinho, depois a janela pareceu se fechar.

— Acredito totalmente, pai. Acredito mais a cada minuto.

Holly só se revelou quando o Sikorsky S-76C de Artemis Sênior havia decolado do heliporto no telhado. Artemis estava ocu­pado montando uma webcam ao pé da cama da mãe quando a elfo surgiu tremeluzindo, com a mão no ombro dele.

— Artemis, sinto muito — disse ela baixinho.

— Obrigado por ter vindo, Holly. Você chegou depressa.

— Eu estava acima do solo, na Finlândia, seguindo um kraken.

— Ah, sim, a fera de Tennyson — disse Artemis, fechan­do os olhos, lembrando-se de alguns versos do famoso poema.

Abaixo dos trovões das profundezas;

Longe, longe, sob o mar abissal,

Com seu antigo sono sem sonhos, não invadido,

O kraken dormia.

— Dormia? Não mais. Veja as manchetes mais tarde. Aparen­temente houve uma explosão de gás natural.

— Imagino que Potrus está fazendo seus velhos truques com a opinião pública.

— Está.

— Não restam muitos krakens ultimamente — comen­tou Artemis. — Sete, pelo que sei.

— Sete? — perguntou Holly, surpresa. — Só rastreamos seis.

— Ah, sim, sei. Eu quis dizer seis. Roupa nova? — pergun­tou, mudando de assunto um pouco rápido demais.

— Três anos mais avançada do que a última — respondeu Holly, arquivando a pequena informação sobre os krakens para mais tarde. — Tem auto-armadura. Se os sensores perceberem a aproximação de alguma coisa grande, toda a roupa se flexiona para amortecer o golpe. Já salvou minha vida uma vez, hoje.

Um ícone de mensagem piscou no capacete de Holly, e ela demorou um instante para ler o texto curto.

— O N° 1 está a caminho. Estão mandando o transporte da Seção Oito. Não há como manter isso em segredo, então, o que quer que precisemos fazer, tem de ser feito rapida­mente.

— Bom. Preciso de toda a ajuda que puder conseguir.

A conversa foi terminando enquanto a doença mortal de Angeline Fowl ocupava totalmente os pensamentos dos dois. Ela irradiava palidez e o cheiro de lírios recendia no ar.

Artemis fez um movimento desajeitado com a webcam, que rolou para baixo da cama.

— Fogo do inferno — xingou ele, ajoelhando-se para enfiar um braço no espaço escuro. — Não consigo... simples­mente não consigo... — E de repente a enormidade da situa­ção o golpeou com força. — Que tipo de filho eu sou? — sussurrou. — Mentiroso e ladrão. Tudo que minha mãe sem­pre fez foi me amar e tentar me proteger, e agora ela pode morrer.

Holly ajudou Artemis a se levantar.

— Você não é mais aquela pessoa, Artemis, e você ama sua mãe, não ama?

Artemis bufou, sem graça.

— Amo. Claro.

— Então você é um bom filho. E sua mãe vai ver isso as­sim que eu curá-la.

Holly estalou o pescoço e fagulhas mágicas saltaram das pontas de seus dedos, girando num cone invertido.

— Não — disse Artemis bruscamente. — Não seria bom verificar os sintomas primeiro?

Holly fechou o punho, apagando as fagulhas. Desconfiada.

Tirou o capacete e se aproximou de Artemis, mais perto do que ele gostava que as pessoas ficassem, olhando com in­tensidade em seus olhos de cores diferentes. Era estranho ver seu próprio olho espiando-a de volta.

— Você fez alguma coisa, Artemis?

Artemis sustentou o olhar dela. Parecia não haver nada além de tristeza nos olhos do garoto.

— Não. Estou mais cauteloso com minha mãe do que estaria comigo mesmo, só isso.

A suspeita de Holly era produto de anos de experiência com Artemis, assim ela se perguntou por que ele relutaria em deixar que ela usasse sua magia, quando isso jamais o incomodara antes. Talvez ele próprio já tivesse tentado esse caminho. Tal­vez o fluxo de tempo não tivesse arrancado dele a magia rou­bada, como ele havia dito.

Ela apertou os lados da cabeça de Artemis com as duas mãos, depois encostou a testa na dele.

— Para com isso, Holly. Não temos tempo.

Holly não respondeu, fechando os olhos, concentrando-se. Artemis sentiu um calor se espalhar pelo crânio, concentran­do-se. Holly o estava sondando. Mal demorou um segundo.

— Nada — disse ela, soltando-o. — Ecos de magia. Mas sem poder.

Artemis cambaleou para trás, tonto.

— Entendo sua suspeita, Holly. Eu a mereci repetidamen­te. Agora, por favor, pode examinar minha mãe?

Holly percebeu que, até esse ponto, havia evitado qualquer coisa além de um olhar superficial na direção de Angeline Fowl. Toda essa situação trazia de volta muitas lembranças dolorosas.

— Claro, Artemis. Desculpe a sondagem. Eu precisava ter certeza de que podia acreditar em tudo isso.

— Meus sentimentos não são importantes. — Artemis puxou Holly pelo cotovelo. — Agora, minha mãe. Por favor.

Holly teve de se obrigar a examinar Angeline Fowl adequa­damente e, no instante em que fez isso, um pavor com raízes fundas provocou arrepios que subiram e desceram por seus membros.

— Eu conheço isso — sussurrou. — Eu conheço.

— Essa doença é familiar para você?

O rosto e os braços de sua mãe estavam cobertos por um gel transparente que brotava dos poros e se dissipava em vapor. Os olhos de Angeline se arregalaram, mas só a parte branca era visível, e seus dedos apertavam os lençóis como se estives­sem se agarrando à vida.

Holly pegou um kit médico no cinto, pôs na mesinha-de-cabeceira e usou um cotonete para pegar uma amostra do gel.

— Esse gel. Esse cheiro. Não pode ser. Não pode.

— Não pode ser o quê? — perguntou Artemis, com os dedos apertando o antebraço dela.

Holly ignorou-o, colocando o capacete e abrindo um ca­nal de comunicação com a Delegacia Plaza.

— Potrus? Está aí?

O centauro respondeu ao segundo toque.

— Estou, Holly. Acorrentado à mesa. O comandante Kelp me mandou uns dois e-mails perguntando onde você está. Eu o embromei com a história do Ritual. Acho que você tem umas...

Holly interrompeu:

— Potrus, escute. A mãe de Artemis. Acho que temos uma coisa... acho que é ruim.

O humor do centauro mudou imediatamente. Holly sus­peitou de que ele estivera tentando esconder a ansiedade. Afi­nal de contas, a mensagem de Artemis havia sido bem séria.

— Certo. Vou me conectar com os sistemas da mansão. Peça a senha ao Artemis.

Holly levantou o visor para olhar Artemis nos olhos.

— Potrus quer sua senha de segurança.

— Claro, claro. — Artemis estava distraído e demorou um instante para se lembrar de sua palavra secreta. — É CEN­TAURO. Tudo em maiúsculas.

Abaixo da crosta da terra, Potrus armazenou o elogio no canto de seu cérebro que guardava lembranças importantes. Mais tarde pegaria esta e cantaria vantagem, com uma taça de pseudovinho.

— Centauro. Tudo bem. Entrei.

Uma grande televisão de plasma, na parede, ligou-se, e o rosto de Potrus apareceu, primeiro em bolhas turvas, depois com foco preciso. A webcam na mão de Artemis zumbiu en­quanto o centauro mexia remotamente no motor de foco.

— Quanto mais pontos de vista, melhor, não é? — disse ele, a voz pulsando nos alto-falantes da televisão, em som surround.

Artemis segurou a câmera diante do rosto da mãe, man­tendo-a o mais imóvel possível.

— Pela reação de Holly, imagino que esta doença seja fa­miliar para vocês. É?

Holly apontou para o brilho que cobria o rosto de Angeline.

— Veja o gel, Potrus, saindo dos poros. E o cheiro de lírios; não pode haver dúvida.

— É impossível — murmurou o centauro. — Nós erradi­camos isso há anos.

Artemis estava se cansando daquelas referências vagas.

— O que é impossível? Erradicaram o quê?

— Ainda não temos o diagnóstico, Artemis; seria prema­turo. Holly, preciso fazer uma varredura.

Holly posicionou a palma da mão sobre a testa de Angeline Fowl e o omni-sensor em sua luva banhou a mãe de Artemis numa matriz de lasers.

O dedo de Potrus balançava como um metrônomo enquan­to as informações entravam em seu sistema. Era um movimento inconsciente que parecia alegre demais para a situação.

— Tudo bem — disse ele depois de meio minuto. — Te­nho tudo de que preciso.

Holly fechou o punho sobre o sensor, depois ficou de pé junto com Artemis, que apertava sua mão com força, esperando em silêncio os resultados. Não demoraram muito, especialmen­te porque Holly tinha uma boa idéia dos parâmetros de busca.

Seu rosto ficou sério enquanto lia os resultados.

— O computador analisou o gel. Infelizmente é encantropia. Artemis notou o aperto de Holly aumentando. O que quer que fosse essa tal de encantropia, era coisa ruim.

Ele se soltou de Holly e foi até a televisão na parede.

— Preciso de uma explicação, Potrus. Agora, por favor.

Potrus suspirou, depois assentiu.

— Muito bem, Artemis. A encantropia foi uma praga para o Povo das fadas. Assim que era contraída, era invariavelmente fatal, e progredia até o estágio terminal em três meses. A partir desse ponto o paciente tem menos de uma semana de vida. Essa doença tem tudo. Neurotoxinas, destruição de células, resistência a todas as terapias convencionais, é incrivelmente agressiva. Na verdade é espantosa.

Os dentes de Artemis estavam trincados.

— Isso é fabuloso, Potrus. Finalmente algo que até você pode admirar.

Potrus enxugou uma gota de suor do nariz, parando antes de dizer:

— Não há cura, Artemis. Não mais. Infelizmente sua mãe está morrendo. A julgar pela concentração do gel, eu diria que ela tem 24 horas, 36, se lutar. Se isso serve de consolo, ela não vai sofrer no final.

Holly atravessou o quarto e estendeu a mão para apertar o ombro de Artemis, notando como seu amigo humano estava ficando alto.

— Artemis, há coisas que podemos fazer para deixá-la confortável.

Artemis sacudiu o ombro, afastando-a quase com violência.

— Não. Eu posso fazer maravilhas. Tenho talentos. A in­formação é minha arma. — E voltou a atenção para a tela. — Potrus, desculpe minha explosão. Voltei ao normal agora. Você disse que essa tal de encantropia era uma praga; onde começou?

— Magia — disse Potrus simplesmente, depois foi adian­te: — A magia é alimentada pela Terra, e quando a Terra não pôde mais absorver a quantidade de poluentes, a magia tam­bém ficou manchada. A encantropia apareceu primeiro há uns vinte anos em Linfen, na China.

Artemis assentiu. Fazia sentido. Linfen tinha má fama por seus altos níveis de poluição. Como centro da indústria de carvão na China, o ar da cidade era cheio de cinzas, monóxido de carbono, óxido de nitrogênio, compostos orgânicos volá­teis, arsênico e chumbo. Havia uma piada entre os patrões chineses: se você tiver algo contra um empregado, mande-o trabalhar em Linfen.

— A doença é transmitida através de magia, portanto é totalmente imune à magia. Em dez anos havia praticamente dizimado a população de criaturas do subterrâneo. Perdemos 25 por cento de nossos cidadãos. A região mais assolada foi a de Atlântida.

— Mas você acabou com isso — insistiu Artemis. — Você deve ter encontrado uma cura.

— Eu, não — respondeu Potrus. — Nossa velha amiga Opala Koboi encontrou um antídoto. Demorou dez anos, depois tentou cobrar uma grana preta. Tivemos de conseguir uma ordem judicial para confiscar o suprimento de antídoto.

Artemis estava ficando impaciente.

— Não me importa a política, Potrus. Quero saber qual era a cura e por que não podemos dá-la à minha mãe.

— É uma longa história.

— Abrevie — disse Artemis rispidamente.

Os olhos de Potrus baixaram, incapazes de encarar Artemis.

— A cura ocorreu naturalmente. Muitas criaturas contêm uma farmacopéia importante e agem como estimuladores na­turais de magia, mas devido à atividade humana, mais de 20 mil dessas espécies que podem salvar vidas se extinguem a cada ano. Opala desenvolveu uma arma de seringa simples, para extrair a cura da encantropia sem matar o animal doador.

De repente Artemis percebeu por que Potrus não conse­guia encará-lo. Ele aninhou a cabeça nas mãos.

— Ah, não. Não diga.

— Opala Koboi encontrou o antídoto no fluido encefálico do lêmure sifaka sedoso, de Madagascar.

— Eu sempre soube que isso iria voltar — gemeu Artemis.

— Infelizmente o sifaka sedoso está extinto. O último morreu há quase oito anos.

Os olhos de Artemis ficaram assombrados pela culpa.

— Eu sei — sussurrou ele. — Eu o matei.

 

Com dez anos de idade, Artemis Fowl fe­chou o arquivo em que estava trabalhando, pôs o monitor em repouso e se levantou da mesa de seu escritório. Seu pai chegaria num instante, para a reunião dos dois. Artemis Sênior ha­via confirmado o encontro naquela manhã, através de um e-mail interno, e ele jamais se atrasava. Seu tempo era precio­so e ele esperava que o filho estivesse pronto para a conversa matinal. O pai de Artemis chegou exatamente às dez horas, com o sobretudo de couro farfalhando em volta dos joelhos.

— Dez graus negativos em Murmansk — explicou, aper­tando formalmente a mão do filho.

Artemis estava parado sobre uma pedra específica do piso, diante da lareira. Na verdade não era necessário que ele esti­vesse naquele local, mas sabia que o pai iria sentar-se na pol­trona Luís XV, perto da lareira, e Artemis Sênior não gostava de esticar o pescoço enquanto falava.

O pai acomodou-se na cadeira antiga e Artemis desfrutou de um silencioso momento de satisfação.

— Imagino que o navio esteja pronto, não é?

— Pronto para navegar — respondeu o pai, com a empol­gação relampejando nos olhos azuis. — Este é um novo mer­cado, Arty, meu garoto. Moscou já é uma das cidades mais comerciais do mundo. O norte da Rússia vai acompanhá-la inevitavelmente.

— Imagino que mamãe não esteja muito satisfeita com seu último empreendimento.

Recentemente os pais de Artemis haviam começado a dis­cutir até tarde da noite. O conflito no casamento que, afora isso, era feliz, devia-se aos interesses comerciais de Artemis Sênior. Ele controlava um império criminoso com tentáculos que iam das minas de prata do Alasca aos estaleiros da Nova Zelândia. Angeline era uma ambientalista e humanitária dedicada, e acreditava que as atividades criminosas e a explo­ração implacável dos recursos naturais empreendidas por Artemis Sênior eram um exemplo terrível para seu filho.

— Ele crescerá e ficará igual ao pai — Artemis a ouvira dizer uma noite, através de um pequeno microfone que ele havia colocado no aquário.

— Achei que você amava o pai dele.

Artemis ouviu um farfalhar de tecido enquanto os pais se abraçavam.

— Amo. Amo mais do que a vida. Mas amo este planeta também.

— Meu amor — disse Artemis Sênior, com tanta gentile­za que foi difícil o microfone captar a voz. — As finanças dos Fowl estão em situação delicada neste momento. Todo o capital que temos está preso em empreendimentos ilegais. Preciso de um negócio grande para começar a transição para atividades totalmente legítimas. Assim que tivermos algumas ações de empresas importantes, poderemos salvar o mundo.

Artemis ouviu a mãe beijar o pai.

— Muito bem, meu príncipe pirata. Um grande negócio, depois vamos salvar o mundo.

Um grande negócio. Um carregamento de refrigerante cola contrabandeado para o Ártico. Artemis suspeitou de que o pai acharia difícil abandonar esse filão depois de uma única tran­sação. Havia bilhões a ganhar.

— O Estrela Fowl está totalmente carregado e pronto para a viagem — informou o pai de Artemis durante a reunião pro­gramada no escritório dele. — Lembre-se, o mundo não pode ser salvo somente com boas intenções. É preciso uma alavan­ca, e o ouro é a alavanca.

Artemis Sênior apontou para o brasão e lema dos Fowl, esculpido num escudo de madeira acima da lareira.

— Aurum potestas est. Ouro é poder: jamais se esqueça disso, Arty. Enquanto os verdes não tiverem apoio da riqueza, ninguém vai ouvir.

O jovem Artemis estava dividido entre os dois pais. Seu pai era o exemplo de tudo que a família representava. A dinas­tia Fowl havia prosperado durante séculos graças a sua dedicação à riqueza, e Artemis não tinha dúvida de que seu pai encontraria um modo de aumentar a fortuna e depois voltar a atenção para o meio ambiente. Amava a mãe, mas as finanças dos Fowl de­viam ser salvas.

— Um dia o controle dos negócios da família vai passar para você — disse Artemis Sênior ao filho, levantando-se para abotoar o sobretudo. — E quando esse dia chegar, eu descan­sarei, porque sei que você colocará os Fowl em primeiro lugar.

— Sem dúvida, pai — respondeu Artemis. — Os Fowl vêm primeiro. Mas esse dia vai demorar décadas para chegar.

Artemis Sênior gargalhou.

— Esperemos que não, filho. Agora preciso ir. Cuide de sua mãe enquanto eu estiver fora. E não deixe que ela esbanje a fortuna da família, hein?

As palavras foram ditas em tom leve, mas uma semana de­pois Artemis Sênior estava desaparecido, supostamente morto, e essas palavras se tornaram o código pelo qual seu filho viveria.

Cuide de sua mãe, mas não deixe que ela esbanje a fortuna da família.

Dois meses depois Artemis estava de volta à sua mesa, olhan­do os computadores de seu escritório. Numa das telas estavam os detalhes sinistros das finanças da família, que haviam mur­chado rapidamente desde o sumiço do pai. Agora ele era o homem da casa, guardião do império Fowl, e deveria se com­portar de acordo com isso.

Nem bem o navio de Artemis Sênior fora engolido pelas águas negras do Ártico, seus devedores sumiram num piscar de olhos e suas células de falsários, capangas, ladrões e contra­bandistas se aliaram a outras organizações.

Honra entre ladrões?, refletiu Artemis com amargura. Acho que não.

A maior parte do dinheiro dos Fowl simplesmente desa­pareceu da noite para o dia, e Artemis ficou com uma proprie­dade para administrar e uma mãe que estava a ponto de um colapso nervoso.

Não demorou muito até que os credores começaram a fe­char o cerco, ansiosos para reivindicar sua fatia da torta antes que restassem apenas migalhas. Artemis fora obrigado a leiloar um esboço de Rembrandt simplesmente para pagar a hipote­ca da mansão e saldar várias outras dívidas.

Sua mãe não estava aceitando as coisas com facilidade. Recusava-se a acreditar que Artemis Sênior estava desapareci­do e prosseguiu com sua missão de salvar o mundo, pendu­rando a conta.

Enquanto isso Artemis tentava montar expedições para salvar o pai. Isso era difícil quando a pessoa tinha dez anos e não era levada a sério pelo mundo adulto em geral, apesar de vários prêmios internacionais de arte e música, para não men­cionar mais de uma dúzia de patentes lucrativas e direitos so­bre produtos registrados em todo o mundo. Com o tempo Artemis faria fortuna sozinho, mas com o tempo não bastava. O dinheiro era necessário agora.

Artemis queria montar uma sala de controle adequada, para monitorar a Internet e os canais de notícias do mundo. Isso exigiria pelo menos vinte computadores. Além do mais havia a equipe de exploradores do Ártico, esperando no hotel em Moscou que ele transferisse a próxima parcela do pagamento. Um dinheiro que ele não tinha.

Artemis bateu na tela com um dedo elegante.

Algo precisa ser feito, pensou.

Angeline Fowl estava chorando na cama quando Artemis en­trou no quarto. O coração do garoto se apertou ao ver aquilo, mas ele fechou os punhos e disse a si mesmo para ser forte.

— Mamãe — disse, balançando um extrato bancário. — O que é isso?

Angeline enxugou os olhos num lenço, depois se apoiou nos cotovelos, lentamente focalizando o filho.

— Arty, Artyzinho. Venha sentar-se comigo.

Os olhos de Angeline estavam cercados por negras lágri­mas de rímel e sua pele havia desbotado até um branco quase translúcido.

Seja forte.

— Não, mamãe. Nada de me sentar e conversar. Quero que você explique este cheque de 50 mil euros para um centro de vida selvagem na África do Sul.

Angeline estava perplexa.

— África do Sul, querido? Quem foi para a África do Sul?

— Você mandou um cheque de 50 mil euros para a África do Sul, mamãe. Eu havia separado esse dinheiro para a expedição ao Ártico.

— Cinqüenta mil. Esse número não me é estranho. Vou perguntar ao seu pai, quando ele chegar. É melhor ele não se atrasar para o jantar outra vez, caso contrário eu...

Artemis perdeu a paciência.

— Mamãe, por favor. Tente pensar. Não temos verba de sobra para instituições de caridade na África do Sul. Todos os empregados foram despedidos, menos Butler, e ele não é pago há mais de um mês.

— Lêmure! — gritou Angeline em triunfo. — Lembro agora. Eu comprei um lêmure sifaka sedoso.

— Impossível — disse Artemis rispidamente. — O Propi­thecus candidus está extinto.

Sua mãe ficou subitamente passional.

— Não. Não. Encontraram o pequeno sedoso na África do Sul. Não sabem como ele conseguiu ir de Madagascar até lá, provavelmente no barco de algum caçador ilegal. Por isso tive de salvá-lo. É o último, Arty.

— Dentro de um ou dois anos ele vai morrer — disse Artemis com frieza. — Então nosso dinheiro terá sido desperdiçado.

Angeline ficou horrorizada.

— Você está falando igualzinho ao...

— Papai? Bom. Alguém tem de ser racional.

O rosto de Artemis estava sério, mas por dentro ele se en­colhia. Como podia falar assim com sua mãe, quando ela esta­va literalmente enlouquecendo de sofrimento?

Por que eu não desmoronei?, perguntou-se, e a resposta veio rapidamente: Sou um Fowl, e os Fowl sempre triunfaram diante da adversidade.

— Mas 50 mil, mamãe? Por um lêmure?

— Eles podem encontrar uma fêmea — argumentou Angeline. — Então teremos salvado uma espécie.

Não adianta discutir, pensou Artemis. A lógica não prevale­ce aqui.

— E onde está o sortudo sedoso agora? — perguntou com inocência, sorrindo como um menino de dez anos que falasse de um animal bonitinho.

— Em segurança no Parque Rathdown. Vivendo como um rei. Amanhã será levado de avião para um habitat artificial feito especialmente, na Flórida.

Artemis assentiu. O Parque Rathdown era uma reserva natural particular em Wicklow, especialmente construída para proteger espécies em perigo de extinção. Tinha mais seguran­ça do que um banco suíço comum.

— Maravilhoso. Talvez eu visite o macaco de 50 mil euros.

— Ora, ora, Artemis — censurou a mãe. — Sedoso é um lêmure, eles são predadores de macacos, como você sabe mui­to bem.

Sei mas não me importo!, ele queria gritar. Papai está desa­parecido e você gastou o dinheiro da expedição com um lêmure!

Mas segurou a língua. Sua mãe estava numa situação deli­cada e ele não queria colaborar para a instabilidade dela.

— O Rathdown não costuma aceitar visitas — continuou Angeline. — Mas tenho certeza de que se eu desse um telefo­nema eles fariam uma exceção para você. Os Fowl pagaram pela aldeia dos primatas, afinal de contas.

Artemis pareceu adorar isso.

— Obrigado, mamãe. Seria fascinante para mim, e para o Butler também. Você sabe como ele gosta de pequenas criatu­ras peludas. Eu adoraria ver a espécie que nós salvamos.

Angeline sorriu com um grau de loucura que apavorou terrivelmente seu filho.

— Muito bem, Artemis. Isso é para jogar na cara dos gran­des homens de negócios. Mãe e filho, unidos, salvaremos o mundo. Vou provocar terrivelmente o seu pai quando ele che­gar em casa.

Artemis recuou lentamente para a porta, com o coração apertado.

— É, mamãe. Unidos salvaremos o mundo.

Assim que a porta se fechou, Artemis desceu rapidamente para o andar de baixo, com os dedos regendo uma música ima­ginária enquanto tramava. Fez um desvio até seu quarto e se vestiu rapidamente para uma viagem, depois continuou até a cozinha, onde encontrou Butler cortando legumes com uma kodachi, uma espada japonesa curta. Agora ele era cozinheiro e jardineiro, além de protetor.

O guarda-costas gigantesco estava trucidando um pepino.

— Salada de verão — explicou ele. — Só verduras, ovos cozidos e um pouco de frango. Pensei em creme brûlée para a sobremesa. Vai me dar a chance de experimentar meu lança-chamas. — Ele olhou para Artemis e ficou surpreso ao -lo vestido com um de seus dois ternos, o azul-escuro que ele usa­ra recentemente para ir à ópera em Covent Garden. Artemis sempre se vestira bem, mas terno e gravata eram coisa inco­mum, mesmo para ele.

— Vamos a algum lugar formal, Artemis?

— Nenhum lugar formal — respondeu Artemis com uma frieza na voz que o guarda-costas não ouvira antes, mas que pas­saria a conhecer bem. — Só negócios. Estou encarregado das questões de família agora, portanto devo me vestir de acordo.

— Ah... detecto um eco nítido de seu pai. — Butler enxu­gou a espada cuidadosamente, depois tirou o avental. — Te­mos algum negócio típico da família Fowl para realizar, não é?

— É. Com um tio de macaco.

 

Holly estava pasma.

— Então, num ataque de birra infantil, você assassinou o lêmure.

Artemis havia se recomposto e sentou-se numa cadeira jun­to da cama, segurando gentilmente a mão da mãe como se fosse um pássaro.

— Não. Eu costumava ter ataques de birra ocasionais, como você bem sabe, mas geralmente eles não duravam. Um intelecto como o meu não pode ser dominado por emoções durante muito tempo.

— Mas você disse que matou o animal. Artemis coçou a testa.

— É, matei. Não segurei a faca, mas matei, não se engane.

— Como, exatamente?

— Eu era novo... mais novo — murmurou Artemis, pou­co à vontade com o assunto. — Em muitos sentidos era uma pessoa diferente.

— Sabemos como você era, Artemis — disse Potrus num tom pesaroso. — Você não faz idéia de quanto custou meu cerco à mansão Fowl.

Holly pressionou para obter uma resposta.

— Como você matou o lêmure? Como ao menos chegou perto dele?

— Foi ridiculamente fácil — admitiu Artemis. — Butler e eu visitamos o Parque Rathdown e simplesmente desarma­mos o equipamento de segurança enquanto estávamos lá. Mais tarde voltamos e pegamos o lêmure.

— Então Butler o matou. Estou surpresa, não é do feitio dele.

Os olhos de Artemis estavam abaixados.

— Não, não foi o Butler. Eu vendi o lêmure a um grupo de Extincionistas.

Holly ficou horrorizada.

— Extincionistas! Artemis, você não fez isso. É horrível. — Foi meu primeiro grande negócio. Mandei o animal para eles, no Marrocos, e eles me pagaram cem mil euros. Esse dinheiro bancou a expedição ao Ártico.

Holly e Potrus estavam sem fala. Artemis havia evidente­mente cobrado dinheiro pela vida. Holly recuou do humano a quem considerava um amigo havia apenas alguns instantes.

— Eu racionalizei a coisa toda. Meu pai em troca de um lêmure. Como poderia não fazer isso? — Artemis tinha um ver­dadeiro arrependimento nos olhos. — Eu sei. Foi uma coisa terrível. Se eu pudesse fazer o tempo voltar...

E subitamente parou. Ele não podia fazer o tempo voltar, mas conhecia um demônio feiticeiro que podia. Era uma chance. Uma chance.

Pousou gentilmente a mão de sua mãe na cama, depois se levantou para andar de um lado para o outro.

Música de tramar, pensou. Preciso de música de tramar.

Escolheu a Sinfonia n°7 de Beethoven em seu vasto reper­tório de música mental e ouviu-a enquanto pensava.

Boa escolha. Sombria mas ao mesmo tempo revigorante. Ma­terial inspirador.

Andou de um lado para o outro no tapete, quase sem per­ceber o ambiente ao redor, perdido em idéias e possibilidades.

Holly reconheceu aquele clima.

— Ele tem um plano — disse a Potrus.

O centauro fez um muxoxo, o que não era difícil.

— Por que não estou surpreso?

Holly aproveitou a distração de Artemis para lacrar o ca­pacete e falar em particular com Potrus. Foi até a janela e espiou a propriedade através de uma abertura na cortina. O sol poen­te oscilava atrás dos galhos das árvores e tufos de dálias relam­pejavam em vermelho e branco como fogos de artifício.

Holly se deu tempo para um suspiro saudoso, depois se con­centrou na situação.

— Há mais coisas em risco aqui do que a mãe de Artemis — disse ela.

Potrus desligou a televisão para que Artemis não o escutasse.

— Eu sei. Se isso for um surto, pode significar um desastre para as criaturas do Povo. Não resta nenhum antídoto, lembre-se.

— Precisamos entrevistar Opala Koboi. Ela deve ter man­tido registros em algum lugar.

— Opala sempre guarda suas fórmulas mais valiosas na cabeça. Acho que ela foi apanhada desprevenida pelo incên­dio na selva: perdeu todos os seus doadores de um só golpe.

As indústrias Koboi haviam atraído os lêmures de Mada­gascar colocando uma caixa sônica no Tsingy de Bemaraha. Praticamente todos os lêmures da ilha haviam reagido ao cha­mado da caixa e todos haviam sido mortos por um infeliz in­cêndio causado por um raio. Por sorte a maioria dos infectados fora tratada, mas outras 15 criaturas do Povo morreram nas enfermarias de quarentena.

Artemis parou de andar e pigarreou alto. Estava pronto para contar seu plano e queria toda a atenção dos outros.

— Há uma solução relativamente simples para o nosso problema — disse.

Potrus ativou a televisão, o rosto enchendo a tela plana.

— Nosso problema?

— Ora, Potrus, não finja ser obtuso. Esta é uma doença do Povo, que sofreu mutação e se espalhou para os humanos. Vocês não têm antídoto nem tempo para sintetizar um. Quem sabe quantos casos de encantropia estão se incubando agora mesmo?

Inclusive em mim, pensou Artemis. Eu usei magia com mi­nha mãe, portanto provavelmente tenho a doença.

— Vamos colocar a mansão em quarentena — respondeu Potrus. — Desde que ninguém use magia na sua mãe, podere­mos conter isso.

— Duvido seriamente que minha mãe seja a paciente zero. Seria simplesmente coincidência demais. Há outros casos por aí, quem sabe a que distância?

Potrus grunhiu, o que era sua versão de admitir um ar­gumento.

— Então diga, Artemis, qual é essa solução relativamente simples?

— Eu volto no tempo e salvo o lêmure. — Artemis deu um sorriso luminoso como se tivesse sugerido um agradável mergulho durante o verão.

Silêncio. Silêncio completo durante vários instantes, rom­pido por fim por um relincho estrangulado da parte de Potrus.

— Voltar...

— No tempo... — completou Holly, incrédula.

Artemis sentou-se numa poltrona confortável, juntou os dedos das duas mãos e assentiu uma vez.

— Apresentem seus argumentos, por favor. Estou pronto.

— Como pode ser tão presunçoso? — perguntou Holly. — Depois de toda a tragédia que vimos, depois de todos os pro­blemas que seus planos causaram.

— Sou decidido, não presunçoso — corrigiu Artemis. — Não há tempo para prudência. Minha mãe tem horas de vida e o Povo das Fadas não tem muito mais do que isso.

Potrus ainda estava boquiaberto.

— Você tem idéia de quantas reuniões do comitê cons­titucional teríamos de fazer só para termos permissão de levar esse tema a uma reunião do Conselho?

Artemis balançou um dedo, sem dar importância.

— É irrelevante. Eu li a constituição do Povo. Ela não go­verna humanos ou demônios. Se o Número Um decidir me aju­dar, tecnicamente vocês não têm poder legal para impedi-lo.

Holly entrou na discussão.

— Artemis, isso é loucura. A viagem no tempo foi consi­derada ilegal por um motivo. As repercussões potenciais da menor interferência poderiam ser catastróficas.

Artemis deu um sorriso sem alegria.

— Ah, sim, o confiável paradoxo do tempo. Se eu voltasse no tempo e matasse meu avô, eu deixaria de existir? Acredito, como acreditavam Gorben e Berndt, que qualquer repercussão já está sendo sentida. Só podemos mudar o futuro, não o passa­do ou o presente. Se eu voltar, então é porque já terei voltado.

Holly falou com gentileza; sentia pena de Artemis. A do­ença de Angeline a fazia se lembrar, dolorosamente, dos últi­mos dias de sua mãe.

— Não podemos interferir, Artemis. Os humanos devem ter permissão de viver sua vida.

Artemis sabia que, para levar adiante seu próximo argumen­to, precisaria se levantar e fazer a acusação de modo teatral, mas não conseguia. Estava para usar o truque mais cruel de sua vida contra um dos seus amigos mais íntimos e a culpa era quase insuportável.

— Você já interferiu, Holly — disse ele, obrigando-se a encará-la.

As palavras fizeram Holly estremecer. Ela ergueu o visor.

— Como assim?

— Você curou minha mãe. Curou-a e a condenou. Holly deu um passo atrás, levantando as palmas das mãos como se quisesse se defender de um soco.

— Eu? Eu... o que você está dizendo?

Agora Artemis estava comprometido com a mentira e co­briu a culpa com um súbito jorro de raiva.

— Você curou minha mãe depois do cerco. Você deve tê-la contaminado com a encantropia.

Potrus veio em defesa da amiga.

— Não é possível, essa cura aconteceu há anos. A encan­tropia tem um período de incubação de três meses e isso nun­ca varia mais do que alguns dias.

— E nunca afeta humanos — contrapôs Artemis. — Essa é uma cepa nova. Vocês não fazem idéia do que estão enfrentando.

O rosto de Holly estava lívido de choque e culpa. Acredi­tou nas palavras de Artemis, ainda que o próprio Artemis sou­besse que ele devia ter passado a doença para sua mãe ao ajustar a memória dela.

Papai também deve estar contaminado. Quem passou para mim? E por que não estou doente?

Havia muitos enigmas, mas agora não era a hora de decifrá-los. Agora ele precisava encontrar o antídoto e, para garantir a ajuda das criaturas, precisava jogar com a suposta culpa delas.

— Mas eu estou limpa — protestou Holly. — Fiz exames.

— Então você deve ser um vetor de transmissão — disse Artemis em tom peremptório. Em seguida virou o olhar para a imagem do centauro. — Isso é possível, não é?

Potrus estava pasmo com a rispidez de Artemis.

— Se for mesmo uma nova cepa, sim, é possível — admitiu. — Mas você não pode tirar conclusões a partir de suposições...

— Normalmente eu concordaria. Normalmente eu teria o luxo do tempo e da objetividade. Mas minha mãe está mor­rendo, portanto não tenho nenhuma das duas coisas. Preciso voltar e salvar o lêmure, e vocês têm o dever de me ajudar. E, se não ajudarem, pelo menos devem prometer que não vão atrapalhar meus esforços.

As criaturas ficaram em silêncio. Holly estava perdida em pensamentos com relação ao que poderia ter feito. Potrus re­virava seu cérebro considerável em busca de respostas aos argumentos de Artemis. Não encontrou nenhuma.

Holly tirou o capacete, andando desajeitadamente até a beira da cama de Angeline Fowl. Suas pernas estavam estranha­mente entorpecidas e a sensação se espalhava.

— Minha mãe morreu envenenada por humanos. Foi um acidente, mas isso não a manteve viva. — Lágrimas pingavam de seus olhos. — Eu queria caçar aqueles homens. Eu os odiava. — Holly torceu as mãos. — Desculpe, Artemis. Eu não sabia. Quantos outros eu posso ter infectado? Você deve me odiar.

Volte atrás, pensou Artemis. Conte a verdade agora ou a amizade de vocês nunca mais poderá ser a mesma. Depois: Não. Seja forte. Mamãe deve viver.

— Não odeio você, Holly — disse Artemis baixinho. Odeio a mim mesmo, mas a mentira deve continuar. — Claro que nada disso foi sua culpa, mas você deve deixar que eu volte.

Holly assentiu, depois enxugou as pálpebras molhadas.

— Vou fazer mais do que deixar, vou acompanhar você. Um par de olhos afiados e uma arma rápida serão úteis.

— Não, não, não — gritou Potrus, aumentando o volu­me da tela a cada negativa. — Não podemos simplesmente alterar o passado sempre que quisermos. Talvez Holly devesse salvar a mãe dela, ou trazer o comandante Julius Raiz de volta dos mortos! Isso é totalmente inaceitável.

Artemis apontou um dedo para ele.

— Esta é uma situação especial — disse ele. — Vocês têm uma epidemia prestes a irromper e podemos impedi-la aqui.

Não somente isso, mas vocês podem reintroduzir uma espécie supostamente extinta. Eu posso ter causado a morte de um lêmure, mas Opala Koboi juntou os outros, que foram mortos pelo incêndio. O Povo é tão culpado quanto eu. Vocês colhe­ram o fluido encefálico de uma criatura viva para se salvar.

— N... nós estávamos desesperados — argumentou Potrus, horrorizado ao ver que gaguejava.

— Exatamente — disse Artemis em triunfo. — Vocês es­tavam dispostos a fazer qualquer coisa. Lembre-se de como era a sensação e se pergunte se passaria por isso de novo.

Potrus baixou o olhar, pensativo. Aquela ocasião fora um pe­sadelo para as criaturas. O uso de magia fora suspenso e os lêmures já estavam extintos quando uma ordem judicial obrigou Opala a revelar a fonte de seu antídoto. Ele havia trabalhado sem dormir, para desenvolver uma cura alternativa, mas sem sucesso.

— Nós achávamos que éramos invencíveis. A única doença que restava era o homem. — O centauro se decidiu. — O lêmure precisa estar vivo — declarou. — O fluido encefálico pode ser armazenado por um breve período, mas assim que se torna inerte torna-se inútil. Eu estava desenvolvendo um recep­táculo carregado, mas...

— Desta vez você terá sucesso — garantiu Artemis. — Terá um animal vivo e condições de laboratório. Você pode clonar uma fêmea.

— A clonagem é ilegal, em termos gerais — disse Potrus, pensativo. — Mas em casos de extinções pode ser feita uma exceção.

O capacete de Holly soltou um bip, atraindo sua atenção para uma aeronave que pousava na entrada de veículos. Cor­reu até a janela a tempo de ver um leve tremor lançar uma sombra no caminho enluarado.

Deve ser um piloto novato, pensou irritada. Não ativou as luzes de sombra.

— O transporte está aqui — informou a Artemis.

— Diga ao piloto para estacionar nos fundos, num dos estábulos. A assistente do médico está dando telefonemas do escritório do meu pai. Não quero que ela vá dar um passeio e trombe numa aeronave invisível.

Holly repassou as instruções e eles esperaram tensos en­quanto o veículo manobrava até os fundos da casa. Pareceu uma longa espera, silenciosa a não ser pela respiração difícil de Angeline.

— O N° 1 talvez não consiga fazer isso — disse Potrus, quase consigo mesmo. — Ele é um feiticeiro jovem, pratica­mente sem nenhum treinamento. A viagem no tempo é a magia mais difícil de todas.

Artemis não fez nenhum comentário. Não adiantava. To­das as suas esperanças estavam no N° 1. Ou ele faz isso, ou mamãe morre.

Segurou a mão de Angeline, acariciando com o polegar a pele áspera como pergaminho.

— Agüente firme, mãe — sussurrou. — Só vai demorar um segundo.

 

O pequeno demônio conhecido como N° 1 era uma figura estranha, cambaleando ao descer a prancha do transportador da LEP. Um indivíduo pequeno, atarracado, com placas blin­dadas cinza e membros curtos. Parecia um pouco um rinoceronte em miniatura de pé sobre as patas traseiras — com dedos nas mãos e nos pés — a não ser pela cabeça. A ca­beça era totalmente de gárgula.

Eu gostaria de ter uma cauda, pensou o N° 1. Na verdade ele tinha cauda, mas era curta e não servia para grande coisa, além de fazer imagens de leque na neve do par­que climático artificial da Cidade do Porto.

O N° l se consolou observando que, pelo menos, sua cau­da não ficava pendurada quando ia ao vaso sanitário. Alguns demônios de Hybras tinham problema para se ajustar aos no­vos assentos nos recintos de reciclagem em Porto. Ele ouviu histórias de horror. Aparentemente houvera três cirurgias de reconexão somente naquele mês.

A transição de Limbo para o tempo normal fora difícil para todos os demônios, mas havia muito mais aspectos positivos do que negativos. As restrições impostas pelo antigo líder tribal estavam sendo retiradas. Os demônios podiam ingerir comida cozida, se quisessem. As unidades familiares iam se formando de novo. Até os demônios mais beligerantes estavam muito mais relaxados com as mães por perto. Era difícil afastar dez milênios de ódio contra os humanos, e muitos demônios ma­chos estavam fazendo terapia ou tomando calmantes para im­pedi-los de pular num transportador para a superfície e mastigar o primeiro pé de humano que vissem.

Mas não o N° l, que não tinha absolutamente nenhuma ambição de mastigar pés ou mãos. Ele era uma espécie de anomalia entre os demônios. O N° l amava todo mundo, até os humanos, em especial Artemis Fowl, que havia salvado to­dos eles do tédio mortal de Limbo, para não mencionar que os salvou de Leon Abbot, o psicopata ex-líder da tribo.

Assim, quando veio o telefonema da Seção Oito dizendo que Artemis precisava dele, o N° l afivelou os cintos de segu­rança num transporte da divisão e exigiu ser levado acima do solo. A comandante Vinyáya havia concordado, porque dis­cordar poderia levar a todo tipo de chiliques mágicos por par­te do feiticeiro novato. Uma vez, num ataque de frustração, ele havia despedaçado acidentalmente a parede-lente do gigan­tesco aquário da cidade. As criaturas do subsolo ainda encon­travam peixinhos em seus esgotos.

Pode ir, dissera Vinyáya, mas só se levar um esquadrão de guardas para segurar sua mão a cada passo do caminho.

O que não significava literalmente segurar sua mão, como havia descoberto o N° l quando tentou se grudar ao capitão da guarda.

— Mas a comandante Vinyáya disse — argumentou ele.

— Fique com essa mão longe, demônio — ordenou o capitão. — Nada de mãos dadas no meu turno de serviço.

E assim o N° 1 pareceu se aproximar sozinho da Mansão Fowl, mas na verdade estava flanqueado por uma dúzia de cria­turas escudadas. Na metade do caminho lembrou-se de enco­brir sua verdadeira aparência com um feitiço de mudança de forma. Qualquer humano que por acaso estivesse olhando a entrada de veículos veria agora um menino com uma bata lar­ga e florida caminhando em direção à porta da frente. Esta era uma imagem que o N° 1 vira num filme humano do século anterior, e achou que era adequadamente não-ameaçadora.

A srta. Book apareceu por acaso junto à porta no momen­to em que o N° 1 chegava. A visão fez a enfermeira/relações públicas parar. Tirou os óculos como se eles estivessem dando uma informação falsa aos olhos.

— Olá, menininho — disse ela, sorrindo, ainda que pro­vavelmente não ficasse tão alegre se visse os 12 fuzis de plasma apontados para sua cabeça.

— Oi — disse o N° 1, todo animado. — Eu amo todo mundo, portanto não precisa se sentir ameaçada.

O sorriso da srta. Book hesitou.

— Ameaçada? Claro que não. Está procurando alguém? Está brincando de fantasia?

Artemis apareceu à porta, interrompendo a conversa.

— Ah... Ferdinando, onde você esteve? — disse ele, fa­zendo o N° 1 passar rapidamente pela enfermeira. — Este é o filho do jardineiro, Ferdinando — explicou. — Uma figurinha dramática. Vou chamar o pai para pegá-lo.

— Boa idéia — disse a srta. Book, em dúvida. — Sei que o quarto da sua mãe está isolado, mas mesmo assim não o dei­xe subir ao segundo andar.

— Claro que não — respondeu Artemis. — Vou levá-lo pelos fundos.

— Bom. Só preciso de um pouco de ar puro, depois vou dar uma olhada na sua mãe.

— Demore o quanto quiser — disse Artemis. — Eu sei ler os instrumentos.

Eu projetei alguns deles, pensou.

Assim que a srta. Book sumiu na curva do corredor, Artemis acompanhou seu amigo demônio subindo a escada.

— Nós estamos subindo? — questionou o N° 1. — Aque­la moça não disse para não deixar que eu fosse lá para cima?

Artemis suspirou.

— Há quanto tempo você me conhece, N° 1? O demônio assentiu, maroto.

— Ah, sei. Artemis Fowl nunca faz o que mandam.

Holly cumprimentou o N° 1 no alto da escada, mas se recusou a abraçá-lo até que ele abandonasse o feitiço de mudança de forma.

— Odeio a sensação dessa coisa — disse ela. — Parece que estou abraçando uma esponja molhada.

O N° 1 fez beicinho.

— Mas eu gosto de ser Ferdinando. Os humanos sorriem para mim.

Artemis garantiu que não havia vigilância em seu escritó­rio, por isso o feiticeiro demônio esperou até que a porta esti­vesse fechada, depois livrou-se do feitiço com um estalar dos dedos. Ferdinando se desenrolou e caiu do corpo do N° 1 num jorro de fagulhas, e deixou o feiticeiro demônio, pequeno e cinza, usando nada além de um sorriso largo.

Holly o abraçou com força.

— Eu sabia que você viria. Precisamos de você desespe­radamente.

O N° 1 parou de sorrir.

— Ah, sim. A mãe do Artemis. Ela quer uma cura mágica?

— Essa é a última coisa que ela quer — disse Holly.

Assim que a situação foi explicada, o N° 1 concordou imedia­tamente em ajudar.

— Você está com sorte, Artemis — disse o pequeno de­mônio, balançando os oito dedos. — Tive um módulo sobre viagem no tempo na semana passada, no curso para tirar di­ploma de feiticeiro que estou fazendo.

— Turma pequena, aposto — comentou Artemis secamente.

— Só eu — admitiu o N° 1. — E Qwan, claro, o meu professor. Parece que sou o feiticeiro mais poderoso que Qwan já viu.

— Bom — disse Artemis. — Então transportar nós to­dos ao passado não deve significar nenhum problema para você.

Potrus havia se projetado em cinco dos vários monitores de Artemis.

— Todos? — disseram bruscamente as cinco imagens. — Todos! Vocês não podem levar o N° 1.

Artemis não estava com humor para discutir.

— Eu preciso dele, Potrus. Fim da discussão.

A cabeça de Potrus parecia a ponto de atravessar as telas.

— Com certeza não é o fim da discussão. Holly é adulta, pode tomar sua própria decisão, mas o N° 1 é pouco mais do que uma criança. Você não pode colocá-lo em risco numa das suas missões. Há muita esperança neste pequeno demônio. O futuro das famílias do Povo.

— Nenhum de nós terá futuro se o Número Um não nos levar ao passado.

— Por favor, parem — disse o N° 1. — Essa discussão está me deixando tonto. Não há tempo para isso.

O rosto de Artemis estava vermelho, mas ele controlou a língua, diferentemente de Potrus, que continuou gritando, mas pelo menos tirou o som das telas.

— Potrus precisa pôr os bofes para fora — explicou Holly —, caso contrário fica com dor de cabeça.

Os três esperaram o centauro se acalmar, depois o N° 1 falou:

— De qualquer modo, não posso ir com você, Artemis. Não é assim que a coisa funciona.

— Mas você nos transportou de Limbo.

— Qwan fez isso. Ele é um mestre; sou apenas aprendiz. E, de qualquer modo, não tínhamos vontade de voltar a Limbo. Se você quiser retornar para cá, preciso ficar, como um marco.

— Explique — disse Artemis, tenso. O feiticeiro abriu os braços.

— Eu sou um farol — declarou. — Uma luminosa super­nova de força. Qualquer magia que eu soltar no éter será atraí­da de volta para mim. Eu mando vocês ao passado e vocês saltarão de volta para mim como cachorrinhos presos numa guia. — O N° 1 franziu a testa, sem se sentir feliz com a ima­gem. — Uma daquelas guias retráteis.

— Tudo bem, nós entendemos — disse Artemis. — Quanto tempo vai demorar para tecer o feitiço?

O N° 1 mordeu o lábio por um momento.

— Mais ou menos o tempo que vocês dois irão levar para tirar a roupa.

— Aaark — disse Artemis, meio engasgado de surpresa.

— D’Arvit — xingou Holly.

— Acho que todos sabemos o que significa D’Arvit — disse o N° 1. — Mas aaark não é de uma língua que eu conhe­ça. A não ser que você queira dizer arqueo, um prefixo que significa “antigo”, “antigüidade”. O que acho que poderia ser relevante. Ou talvez você estivesse falando grego, e então arqué significaria princípio, fonte ou causa. — O N° 1 parou para dar uma piscadela. — Ou então arca, que significa um baú para guardar a roupa que vocês vão tirar.

Artemis se inclinou perto da orelha em forma de corneta do demônio.

— Por que precisamos tirar a roupa?

— É uma pergunta muito boa — disse Holly no outro ouvido.

— É bem simples — respondeu o N° 1. — Eu não sou tão hábil quanto Qwan. E mesmo com Qwan supervisionando a transferência, vocês dois conseguiram trocar um dos olhos, provavelmente porque alguém estava se concentrando em rou­bar magia. Se vocês levarem roupas ou armas para lá, elas po­dem se tornar parte de vocês. — O demônio levantou um dedo rígido. — Lição número um sobre transferências temporais: mantenha a coisa simples. Vai ser necessária toda a sua con­centração apenas para reorganizar seus corpos. E vocês estarão pensando no lêmure também.

O N° 1 notou a expressão desajeitada de Artemis e de Holly, e sentiu pena deles.

— Acho que vocês poderiam manter uma coisa, se for necessário. Uma pequena peça de roupa, mas certifiquem-se de que seja da cor de vocês, porque poderão ficar usando-a por um tempo realmente longo.

Mesmo que os dois soubessem que não havia tempo para sentir vergonha, nem Artemis nem Holly conseguiram conter um rubor. Holly encobriu a falta de jeito tirando a roupa treme­luzente o mais depressa possível.

— Vou ficar com esta peça-única — disse com ar belige­rante, desafiando o N° 1 a questionar. A peça-única era pareci­da com um maiô, mas tinha almofadas nos ombros e nas cos­tas para sustentar um aparelho de asas. Também havia painéis de calor e cinéticos, que podiam absorver energia do usuário para alimentar a roupa.

— Tudo bem — disse o N° 1. — Mas eu aconselharia a remover as almofadas e qualquer outro equipamento eletrônico.

Holly assentiu, tirando as almofadas presas com tiras de Velcro.

Artemis juntou as coisas de Holly.

— Vou colocar seu capacete e a roupa no cofre, só para garantir que fiquem em segurança. Não precisamos nos arris­car com a tecnologia do Povo.

— Agora você está pensando como um centauro — can­tarolou Potrus.

Demorou apenas um minuto para esconder o equipamen­to e, quando retornou da sala do cofre, Artemis tirou cuidado­samente a camisa e a calça, pendurando-as em seu armário. Pôs os sapatos numa sapateira, ao lado de vários outros pares se­melhantes e um marrom, para os dias informais.

— Bela cueca — zombou Potrus, da tela, esquecendo momentaneamente a seriedade da situação.

Artemis estava usando uma cueca samba-canção Armani vermelha, praticamente da mesma cor de seu rosto.

— Podemos ir em frente — disse ele com rispidez. — Onde você precisa que a gente fique?

— Onde vocês precisarem estar — respondeu o N° 1 sim­plesmente. — É muito mais fácil para mim se vocês decolarem e pousarem no mesmo ponto. Já é bastante difícil mandá-los por um buraco de minhoca mais depressa do que a velocidade da luz sem me preocupar também com a localização.

— Estamos na localização certa — disse Artemis. — É aqui que precisamos estar.

— Vocês precisam saber quando querem chegar — acres­centou o N° 1. — As coordenadas temporais são tão impor­tantes quanto as geográficas.

— Sei quando.

— Muito bem — disse o pequeno feiticeiro, esfregando as mãos. — Hora de mandá-los.

Holly se lembrou de uma coisa.

— Eu não completei o Ritual. Estou com pouca magia, e sem armas isso pode ser um problema. Não temos uma semente de carvalho.

— Para não mencionar uma curva no rio — acrescentou Artemis.

O N° 1 deu um risinho.

— Essas coisas podem ser problema. A não ser...

Uma runa espiral na testa do demônio luziu em vermelho e girou como uma rodinha de fogo de artifício. Era hipnotizante

— Uau — disse Holly. — Isso é realmente...

Então um facho pulsante de magia carmesim saltou do centro da runa, envolvendo Holly num casulo de luz.

— Agora você está cheia até a borda — disse o N° 1, fa­zendo uma reverência. — Muito obrigado. Estou aqui a se­mana toda. Não esqueça de dar a dica aos seus goblins e enter­rar aquelas sementes.

— Uau — repetiu Holly quando as pontas de seus dedos pararam de pinicar. — Belo truque.

— Mais do que você imagina. Essa é minha magia especial. Pode dizer que é o coquetel N° 1, o que torna você um farol no rio do tempo.

Artemis se remexeu, sem jeito.

— Quanto tempo temos?

O pequeno feiticeiro olhou para o teto enquanto fazia al­guns cálculos.

— Trezentos anos... Não, não, três dias. Holly pode trazer você de volta em qualquer momento antes, simplesmente se abrin­do ao meu poder, mas depois de três dias o elo se enfraquece.

— Há alguma coisa que possamos fazer com relação a isso?

— Vamos encarar a realidade: eu posso ser todo-poderoso, mas sou novato nisso, portanto é vital partirem de onde vocês pousaram. Se passarem de três dias, ficarão presos no passado.

— Se nos separarmos, Holly não poderia voltar e me pe­gar? — perguntou Artemis.

— Não, não poderia — respondeu o N° 1. — Seria im­possível vocês se encontrarem num ponto que nenhum dos dois tenha vivido antes. Esse é um negócio que só pode ser feito uma vez. Vai ser preciso usar tudo que tenho para mantê-los juntos nessa viagem. Qualquer coisa a mais e seus átomos per­deriam a memória e simplesmente esqueceriam onde deveriam estar. Os dois já estiveram por duas vezes na corrente do tempo.

Eu posso transportar objetos eternamente, mas seres vivos se partem se não houver um feiticeiro na corrente para escudá-los. Holly fez uma pergunta muito pertinente:

— Número Um, você já fez isso antes?

— Claro — respondeu o demônio. — Várias vezes. Num simulador. E dois hologramas sobreviveram.

A decisão de Artemis não se abalou.

— Dois sobreviveram. Os últimos dois?

— Não — admitiu o N° 1. — Os últimos dois ficaram presos num buraco de minhoca temporal e foram consumi­dos por zumbis quânticos.

Holly sentiu as orelhas pontudas pinicarem, o que sempre era mau sinal. As orelhas dos elfos podiam sentir o perigo.

— Zumbis quânticos? Fala sério!

— Foi o que eu disse ao Qwan. Ele escreveu o programa.

— Isso é irrelevante — reagiu Artemis incisivamente. — Não temos opção.

— Muito bem — disse o N° 1 flexionando os dedos. Em seguida dobrou os joelhos, colocando todo o peso do corpo na ponta da cauda.

— Postura de poder — explicou. — Faço alguns dos meus melhores trabalhos nessa posição.

— Palha Escavator também — murmurou Potrus.— Zumbis quânticos. Preciso de uma cópia desse programa.

Uma névoa vermelha brotou ao redor do demônio feiti­ceiro, com minúsculos raios estalando em seus chifres.

— Ele está se energizando — disse Potrus nas telas. — Vocês vão partir a qualquer segundo. Lembrem-se, procurem não tocar nada que não seja necessário. Não falem com nin­guém. Não façam contato comigo no passado. Não tenho vontade de não existir.

Artemis assentiu.

— Eu sei. Causar o mínimo de impacto possível, para o caso de a teoria do paradoxo do tempo ter algum valor.

Holly estava impaciente para ir embora.

— Chega de ciência. Só mande a gente para o passado. Vamos trazer o macaco de volta.

— Lêmure — disseram Artemis e Potrus juntos.

O N° 1 fechou os olhos. Quando abriu de novo, estavam totalmente vermelhos.

— Muito bem, pronto para a partida — disse em tom despreocupado.

Artemis piscou. Estava esperando que a voz de poder do N° 1 fosse um pouquinho menos esganiçada.

— Tem certeza? O N° 1 gemeu.

— Eu sei. É a voz, não é? Não tem aspereza suficiente. Qwan diz que eu devo tentar usar menos agudos e mais gra­ves. Acreditem, estou pronto. Agora dêem as mãos.

Artemis e Holly ficaram parados juntos, de roupa de bai­xo, cruzando os dedos desajeitadamente. Haviam atravessado espaço e tempo juntos, enfrentado rebeliões e se metido com déspotas dementes. Tossiram sangue, perderam dedos, inala­ram vapores de anão e trocaram globos oculares, no entanto achavam incômodo dar as mãos.

O N° 1 sabia que não deveria, mas não pôde resistir a uma brincadeirinha final.

— Então eu os declaro...

Nenhum dos dois, de mãos dadas, achou divertido, mas antes que tivessem tempo para fazer mais do que uma careta, dois raios de energia vermelha saltaram dos olhos do N° 1, lan­çando seus amigos na corrente do tempo.

— ...homem e elfo — disse ele, terminando a piada, de­pois rindo deliciado.

Na tela, Potrus fungou.

— Imagino que você esteja rindo para disfarçar a ansie­dade, não é?

— Certíssimo — respondeu o N° 1.

Onde Artemis e Holly haviam estado, ficaram cópias treme­luzentes dos dois, de boca aberta para responder ao comentá­rio do pequeno feiticeiro.

— Isso realmente me deixa pirado. As imagens fantasmas. É como se eles estivessem mortos.

Potrus estremeceu.

— Não diga isso. Se eles estiverem mortos, todos podere­mos estar. Em quanto tempo eles voltarão?

— Em cerca de dez segundos.

— E se não voltarem em dez segundos?

— Nunca voltarão. Potrus começou a contar.

 

um momento de confusão quando uma criatura terrestre entra na água. Seja ani­mal, humana ou do Povo, não importa. A su­perfície é rompida e todos os sentidos são subitamente agredidos. O frio pinica, o movimento fica lento e os olhos se enchem de manchas de cores e de bolhas estourando. A corrente do tempo é como esse mo­mento sendo sustentado.

Não quer dizer que viajar na corrente do tempo seja uma experiência coerente. Nunca é a mesma jornada duas vezes. O feiticeiro demônio Qwan, a criatura mais experiente do pla­neta em viagens no tempo, escreveu em sua autobiografia de sucesso Qwan: meu tempo é agora, que “viajar na corrente do tempo é como voar pelo intestino de um anão. Há trechos muito interessantes de flutuação livre, mas então você vira uma esquina e descobre que a coisa está entupida e pútrida. O pro­blema é que a corrente do tempo é uma construção principal­mente emocional e absorve os sentimentos ambientais do tem­po real ao redor do qual ela corre. Se por acaso você atravessar um trecho de gosma fedorenta, pode apostar que os humanos estão matando alguma coisa”.

Artemis e Holly estavam sendo arrastados por um trecho fétido que correspondia a todo um ecossistema sendo destruído na América do Sul. Podiam sentir o terror dos animais e até o cheiro da madeira queimada. Artemis sentiu, também, que Holly estava se perdendo no turbilhão de emoções. As criaturas do Povo eram muito mais sensíveis ao ambiente do que os humanos. Se Holly perdesse a concentração, seus átomos iriam se dissipar e ser absorvidos pela corrente.

Concentração, Holly, transmitiu Artemis na corrente. Lem­bre-se de quem você é e por que estamos aqui.

Era difícil para os dois. Sua memória de partículas já fora enfraquecida pelas viagens a Limbo e a tentação de se fundir à corrente era forte.

Artemis conjurou uma imagem da mãe em sua consciên­cia, para aumentar a determinação.

Sei quando e onde quero estar, pensou. Exatamente quando e onde...

 

Mansão Fowl, quase oito anos antes

Artemis e Holly saíram da corrente temporal e entraram no escritório de Artemis com dez anos. Fisicamente foi uma ex­periência bastante suave, como pular de um muro baixo sobre um tapete grosso, mas emocionalmente essa viagem específica foi como uma passagem de dez minutos pelas piores lembranças da vida dos dois. A corrente do tempo: jamais é igual duas vezes.

Holly chorou por sua mãe durante um minuto, mas por fim o toque persistente de um relógio carrilhão lembrou-a de onde e quando estava. Ficou parada, trêmula, e olhou ao re­dor, encontrando Artemis cambaleando na direção do armá­rio. A visão a animou um pouco.

— Você realmente foi fundo — disse ela. Artemis estava remexendo as roupas nos cabides.

— Claro que nada vai caber — murmurou. — Tudo é pequeno demais.

Holly passou por ele.

— Não para mim — disse pegando um terno escuro.

— Meu primeiro terno — disse Artemis com carinho. — Comprado para a foto do cartão de Natal da família. Eu não fazia idéia de como vesti-lo. Lembro de ter ficado me remexen­do durante a prova. É um Zegna feito sob medida.

Holly tirou a capa protetora de plástico.

— Contanto que caiba.

Foi só então que as emoções de Artemis se acomodaram o suficiente para que ele registrasse o comentário de Holly.

— Como assim, eu fui fundo?

Holly abriu a porta do armário, de modo que o lado espe­lhado ficasse de frente para Artemis.

— Veja você mesmo.

Artemis olhou. No espelho viu um garoto alto, magro, a cabeça praticamente invisível sob uma cabeleira que ia até os ombros, e tinha até uns fios de barba no queixo.

— Ah. Estou vendo.

— Estou surpresa por você conseguir — disse Holly. — Por baixo de todo esse cabelo.

— Envelhecimento acelerado. Efeito colateral da corrente de tempo — supôs Artemis, sem se preocupar. — Quando retornarmos, os efeitos devem se reverter. — Ele parou, vendo o reflexo de Holly. — Talvez você devesse se olhar no espelho. Não sou o único que mudou.

Holly o empurrou com o cotovelo, com certeza de que era brincadeira, mas o meio sorriso morreu em seus lábios quan­do viu a criatura no espelho. Era seu rosto, mas diferente, fal­tando algumas cicatrizes e algumas décadas de uso.

— Estou nova — ofegou ela. — Mais nova.

— Não se chateie — disse Artemis, animado. — É tem­porário. Tudo isso não passa de uma roupa descartável. Minha maturidade física, sua juventude. Dentro de alguns instantes vamos voltar à corrente.

Mas Holly estava chateada. Sabia como isso havia acontecido.

Eu estava pensando na minha mãe. Nas últimas horas que passamos juntas. Em como eu era na época.

E então foi assim que havia mudado.

Olhe para mim. Acabei de sair da Academia. Em termos humanos, sou pouco mais velha do que Artemis.

— Vista uma calça — disse ela rapidamente, abotoando uma camisa branca, muito bem passada, até o pescoço. — Depois podemos discutir suas teorias.

Artemis usou seus centímetros a mais para estender a mão e pegar uma caixa grande em cima do armário. Nela estavam camadas de roupas, muito bem dobradas, que iriam para um dos bazares de caridade de Angeline Fowl.

Jogou uma peruca prateada para Holly.

— Festa à fantasia dos anos 1970 — explicou. — Mamãe foi de soldado das tropas estelares, pelo que lembro. Agora cubra essas orelhas pontudas.

— Um chapéu seria mais fácil — disse Holly, colocando a peruca sobre seu cabelo castanho curto.

— Infelizmente não temos essa sorte — suspirou Artemis, escolhendo na caixa um velho agasalho de moletom. — Não é exatamente roupa de grife; vamos ter de nos contentar com isso.

Os sapatos antigos de Artemis couberam bastante bem em Holly, e havia um par de tênis de seu pai na caixa, que perma­neceu nos pés dele quando a área na frente dos dedos foi preen­chida com algodão.

— É sempre bom estar vestido quando se vai roubar ma­cacos — disse Holly.

Artemis enrolou as mangas do agasalho.

— Na verdade não é preciso se vestir bem. Simplesmente vamos esperar alguns minutos até que mamãe quase pegue o Butler se esgueirando escada acima com o lêmure. Lembro de ele ter empurrado a gaiola pela porta, depois eu a levei para o andar de cima. No momento em que a gaiola chegar aqui, vamos pegá-la, tirar essas roupas ridículas e mentalizar a volta ao N° 1.

Holly se olhou no espelho. Parecia um guarda-costas de presidente de outro planeta.

— Parece muito simples.

— Foi simples. Será. Butler nem chegou a entrar no es­critório. Só precisamos ficar aqui e esperar.

— E como você encontrou esse momento específico? Artemis afastou uma mecha de cabelos pretos da testa, re­velando os olhos tristes e desiguais.

— Escute — disse, apontando para o teto.

Holly empurrou fios de cabelo para trás de uma das ore­lhas, inclinando a cabeça para um lado, focalizando sua audi­ção considerável. Ouviu o relógio carrilhão e os corações dos viajantes do tempo, mas acima disso havia uma voz estridente e histérica.

— Mamãe — disse Artemis de olhos baixos. — Foi a pri­meira vez que ela não me reconheceu. Neste momento está ameaçando chamar a polícia. Num instante vai descer corren­do a escada para telefonar e descobrir Butler.

Holly entendeu. Como algum filho poderia esquecer um momento assim? Encontrá-lo de novo devia ter sido fácil e doloroso.

— Lembro claramente. Nós tínhamos acabado de retornar do Parque Rathdown, o zoológico particular, e eu achei que deveria ver como ela estava, antes de irmos para o Marrocos. Daqui a um mês ela não poderá mais cuidar de si mesma. Holly apertou o braço dele.

— Está tudo bem, Artemis. Tudo isso ficou no passado. Dentro de alguns minutos sua mãe estará de pé outra vez. Vai amar você como sempre.

Artemis assentiu, sombrio. Sabia que devia ser verdade, mas também sabia que nunca escaparia totalmente do espectro dessa lembrança ruim.

Lá em cima, a voz de Angeline Fowl passou do quarto para o alto da escada, deixando uma esteira de notas agudas.

Artemis puxou Holly de novo de encontro à parede.

— Butler deve estar na escada agora. Deveríamos ficar na sombra, só para garantir.

Holly não pôde evitar um tremor de nervosismo.

— Tem certeza que ele fica do lado de fora? Na última vez em que enfrentei Butler como inimigo eu estava com toda a LEP do meu lado. Não gosto da idéia de me encontrar com ele armada somente com uma peruca prateada.

— Calma, capitã — disse Artemis, num tom inconsciente­mente paternalista. — Ele fica do lado de fora. Eu vi com meus próprios olhos.

— Viu o quê com seus próprios olhos? — perguntou Butler, que havia aparecido na passagem em arco atrás dele, tendo entrado pela porta do quarto ao lado.

Artemis sentiu a pulsação latejar na ponta dos dedos. Como podia ser? Não havia acontecido assim. Artemis nunca estivera diante do olhar irado de Butler, e pela primeira vez entendeu como seu guarda-costas podia ser aterrorizante.

— Vejo que os dois garotos estiveram se servindo do guar­da-roupa dos Fowl — continuou Butler, sem esperar uma res­posta à sua pergunta. — Agora vocês vão causar encrenca ou vão sair calmamente? Deixe-me dar uma dica: a resposta certa é sair calmamente.

A única saída é a magia, percebeu Holly. Girou o queixo com força, para invocar seu poder. Se não conseguisse atordoar Butler, iria mesmerizá-lo.

— Para baixo, humano — entoou, uma voz carregada de magia hipnótica. Mas o mesmer é um ataque com duas pon­tas, auditiva e visual. Butler podia ouvir as palavras mágicas, mas o contato visual não era consistente nas sombras.

— O quê? — perguntou ele, surpreso. — Como foi que...

O corpulento guarda-costas fora drogado por vezes suficien­tes para perceber que sua força de vontade estava sendo mina­da. De algum modo aquelas crianças o estavam derrubando. Cambaleou para trás, com o ombro roçando no arco da passagem.

— Durma, Butler — disse a pequena, com peruca de sol­dado das tropas estelares.

Ela me conhece?

Isso era sério. Aqueles dois tinham feito alguma vigilância e decidiram invadir assim mesmo.

Preciso neutralizá-los antes de apagar, pensou Butler. Se eu cair, o jovem senhor Artemis e a sra. Fowl ficarão indefesos.

Tinha duas opções: saltar sobre os ladrões baixinhos ou atirar neles com a pistola de tranqüilizante que estava carregan­do, para o planejado seqüestro do animal no Parque Rathdown.

Escolheu a segunda. Pelo menos os dardos de tranqüili­zantes não espremeriam aqueles dois nem esmagariam seus ossos. Butler sentiu-se levemente culpado com a decisão de apagar duas crianças, mas não muito; afinal de contas, ele tra­balhava para Artemis Fowl e sabia exatamente como as crian­ças podiam ser perigosas.

A soldado estelar saiu das sombras e Butler pôde ver seus olhos claramente. Um azul e um castanho.

— Durma, Butler — disse ela outra vez, naquela voz melo­diosa e cheia de camadas. — Suas pálpebras não estão pesadas?

Ela está me hipnotizando!, percebeu Butler. Tirou a pistola com dedos que pareciam mergulhados em borracha derretida e depois salpicados com bilhas de ferro.

— Durma você — murmurou ele, e atirou no quadril da garota.

Holly olhou incrédula para o dardo hipodérmico que se projetava de sua coxa.

— De novo, não — gemeu, depois despencou no chão. A mente de Butler clareou imediatamente.

O outro intruso não se mexeu um centímetro.

A menina é a profissional dos dois, pensou Butler, levantan­do-se. Imagino com o que esse indivíduo cabeludo colabora na dupla.

Artemis viu rapidamente que não tinha opção, além de revelar sua identidade e atrair Butler como aliado.

Isso vai ser difícil. Não tenho nada além de uma leve seme­lhança com meu eu mais novo como prova.

Mesmo assim precisava tentar, antes que seu plano estra­gasse completamente.

— Escute, Butler — começou. — Tenho uma coisa para lhe dizer...

Butler não quis ouvir mais uma palavra.

— Não, não, não — disse rapidamente, atirando no om­bro de Artemis. — Chega de conversa com vocês dois.

Artemis arrancou o dardo, mas era tarde demais. O mi­núsculo reservatório de sedativo estava vazio.

— Butler! — ofegou ele, caindo de joelhos. — Você ati­rou em mim.

— Todo mundo sabe o meu nome — suspirou q guarda-costas, abaixando-se para jogar os intrusos nos ombros.

— Estou intrigado — disse o Artemis Fowl de dez anos, exa­minando os dois indivíduos que estavam no porta-malas do Bentley. — Uma coisa extraordinária aconteceu aqui.

— Nem um pouco extraordinária — respondeu Butler, verificando a pulsação da garota. — Dois ladrões conseguiram entrar na mansão.

— Eles passaram por todo equipamento de segurança. Não houve ao menos um bip nos sensores de movimento?

— Nada. Por acaso esbarrei neles durante uma varredura de rotina. Estavam escondidos nas sombras, usando roupas velhas tiradas do armário.

Artemis bateu no queixo.

— Hum. Então você não achou as roupas deles.

— Nadinha.

— O que significa que entraram aqui e passaram pelo equi­pamento de segurança usando apenas roupa de baixo.

— Isso é extraordinário — admitiu Butler.

Artemis pegou uma minilanterna no bolso do paletó, apon­tando-a para Holly, fazendo os fios de sua peruca prateada bri­lharem como uma bola de espelhos de discoteca.

— Há alguma coisa com esta aqui. A estrutura óssea é muito incomum. Os malares são altos, eslavos, talvez, e a testa é larga e infantil. Mas a proporção do crânio com relação ao tronco é de adulto, e não de criança.

Butler deu um risinho gutural.

— Então eles são alienígenas?

— O rapaz é humano, mas ela é outra coisa — disse Artemis, pensativo. — Geneticamente alterada, talvez. — E passou o facho da lanterna pelo malar de Holly. — Veja aqui. As orelhas são pontudas. Incrível.

Artemis sentiu uma empolgação zumbindo na testa. Algo estava acontecendo ali. Algo importante. Certamente haveria uma séria quantidade de dinheiro a ser conseguida com essa situação.

Esfregou as palmas das mãos rapidamente.

— Muito bem. Não posso ser distraído por isso agora. A longo prazo, essa criatura estranha pode garantir nossa fortuna, mas neste momento precisamos pegar aquele lêmure.

Butler estava frustrado, mas encobriu isso fechando com força o porta-malas.

— Eu esperava que pudéssemos esquecer o macaco. Fui treinado em várias formas de artes marciais e nenhuma delas tinha defesa contra macacos.

— É um lêmure, Butler. E sei que você acha que esta ope­ração é indigna de nós, mas a vida do meu pai está em jogo.

— Claro, Artemis. Como quiser.

— Exato. Portanto, o plano é o seguinte. Vamos para o Parque Rathdown como estava planejado, e depois de fazer­mos o negócio com os Extincionistas poderei decidir o que fazer com nossos dois hóspedes. Imagino que estejam em seguran­ça no porta-malas, não?

Butler fungou.

— Está brincando? Artemis não sorriu.

— Talvez você não tenha notado, Butler. Eu raramente brinco.

— Como quiser, jovem senhor. Você não brinca. Talvez um dia, hein?

— Talvez quando eu encontrar o meu pai.

— É. Talvez. De qualquer modo, respondendo à sua per­gunta. Esse é o carro do seu pai e já houve mais prisioneiros neste porta-malas do que você teve aniversários. Da Mafiya, da Tríade, da Yakuza, do Cartel de Tijuana, dos Hells Angels. É só dizer o nome da quadrilha e uns dois deles já passaram uma noite neste porta-malas. Na verdade o seu pai mandou modificá-lo especialmente. Tem ar-condicionado, uma luz para amansar, suspensão macia e até água.

— É seguro? Lembre-se de que nossos cativos já invadi­ram a mansão.

Butler fechou o porta-malas.

— Fecho de titânio, porta reforçada. Não há escapatória. Esses dois vão ficar aqui até que os deixemos sair.

— Excelente. — Artemis entrou no banco de trás do Bentley. — Só me dê um momento para fazer uma coisinha, depois vamos esquecer deles e nos concentrar no lêmure.

— Excelente — ecoou Butler, e depois baixinho: — Ma­cacos me mordam!

 

Parque Rathdowh, Condado de Wicklow, Irlanda

Mesmo pesando cinco quilos menos do que Artemis, Holly vol­tou a si antes dele. Ficou feliz por ter acordado, porque seus so­nhos haviam sido terríveis. Enquanto estava dormindo, seus joelhos e os cotovelos batiam nas paredes metálicas do porta-ma­las do Bentley e ela havia se imaginado num submarino da LEP.

Holly estava encolhida no escuro, engolindo em seco e piscando para dominar a fobia. Sua mãe fora mortalmente fe­rida numa caixa de metal e agora ela estava dentro de outra.

E foram os pensamentos em sua mãe que finalmente a acal­maram. Abriu os olhos e explorou o espaço confinado com a visão e as pontas dos dedos. Não demorou muito a encontrar a pequena luz presa à parede de aço. Acendeu-a e encontrou Artemis caído ao lado e a cobertura metálica de um tampo de porta-malas curvando-se para além do braço dele. Seus sapa­tos emprestados se aninhavam na curva brilhante de um arco de roda. Estavam dentro de um veículo.

Artemis gemeu, estremeceu e abriu os olhos.

— Venda as ações da Phonetix — disse bruscamente, de­pois se lembrou de Butler e dos dardos. — Holly. Holly?

Holly deu um tapinha na perna dele.

— Tudo bem, Artemis — disse em gnomês, para o caso de o carro estar grampeado. — Estou aqui. Onde mais pode­ria estar?

Artemis se remexeu, empurrando para trás os densos cabelos pretos que obscureciam suas feições, e falou na língua do Povo:

— Nós recebemos a mesma dosagem de tranqüilizante, no entanto você, que é mais leve, acordou primeiro. Magia?

O lado do rosto de Holly estava em sombras profundas lançadas pela luzinha.

— Sim. A magia especial do N° 1 é poderosa.

— O suficiente para nos tirar daqui?

Holly passou um minuto explorando a superfície do por­ta-malas, passando os dedos ao longo de cada solda do metal. Por fim balançou a cabeça, com a peruca prateada brilhando.

— Não consigo encontrar um ponto fraco. Até a entrada de ar-condicionado é totalmente nivelada. Não há como sair.

— Claro que não — disse Artemis. — Estamos dentro do Bentley. O porta-malas é uma caixa de aço com tranca de titânio. — Ele respirou fundo o ar fresco. — Como isso pode ter acontecido? Tudo está diferente. Butler deveria ter posto a gaiola no meu escritório. Em vez disso se esgueirou no quarto e sedou nós dois. Agora não sabemos onde estamos, nem onde o lêmure está. Eles já o pegaram?

Holly encostou uma orelha no tampo do porta-malas.

— Posso dizer onde estamos.

Lá fora, os sons de animais fungando e roncando pairavam no ar.

— Estamos perto de animais. Imagino que num parque ou num zoológico.

— O Parque Rathdown — exclamou Artemis. — E esse fato revela que, na verdade, eles não estão com o lêmure. A programação e a situação mudaram.

Holly estava pensativa.

— Não estamos mais no controle dessa situação, Artemis. Talvez seja hora de admitir a derrota e retornar para casa quando o seu eu mais novo nos levar de volta à mansão. Talvez você consiga descobrir a cura no futuro.

Artemis estivera esperando essa sugestão.

— Pensei nisso. O lêmure ainda é nossa melhor opção e estamos a metros dele. Só me dê cinco minutos para nos tirar daqui.

Holly estava compreensivelmente em dúvida.

— Cinco minutos? Até mesmo o grande Artemis Fowl pode ter dificuldade para sair de uma caixa de aço em cinco minutos.

Artemis fechou os olhos, concentrando-se. Tentando ig­norar o espaço apertado, o monte de cabelo roçando nas bo­chechas e a coceira da barba rala no queixo.

— Encare a realidade, Artemis — disse Holly, impacien­te. — Estamos presos. Até Palha Escavator teria dificuldade com uma tranca assim, se por acaso desse uma passada por aqui.

A testa de Artemis se franziu, irritado com essa interrupção, mas então um sorriso se abriu em seu rosto, tornado fantas­magórico pela luz crua.

— Palha Escavator passando por aqui — sussurrou. — Quais são as chances de isso acontecer?

— Zero — respondeu Holly. — Absolutamente nenhu­ma. Eu apostaria minha aposentadoria nisso.

Nesse momento alguma coisa, ou alguém, bateu na tampa do porta-malas, do lado de fora. Holly revirou os olhos.

— Não. Nem mesmo você...

O sorriso de Artemis estava mais presunçoso do que se poderia imaginar.

— Quanto vale sua aposentadoria?

— Não acredito. Eu me recuso a acreditar. É impossível. Mais batidas na porta agora, seguidas por um som delicado de algo raspando e um palavrão baixinho.

— Que voz gutural! — disse Artemis. — Parecida com a de um anão.

— Poderia ser Butler — argumentou Holly, irritada com a expressão satisfeita de Artemis.

— Palavrão em gnomês. Dificilmente.

Mais ruídos metálicos vindos do mundo exterior. Shhhnic. Chunc. Claclac.

E a tampa do porta-malas se levantou, revelando uma fatia de noite estrelada com a silhueta brilhante de uma torre de alta tensão, enorme e esguia, atrás. Uma cabeça hirsuta surgiu no espaço, as feições sujas de lama e coisa pior. Era um rosto que só uma mãe poderia amar — e, mesmo assim, se sua visão es­tivesse enfraquecendo. Olhos escuros, próximos um do outro, espiaram de cima de uma barba densa que estremecia ligeira­mente, como algas numa corrente. Os dentes da criatura eram grandes, quadrados e não ficavam mais atraentes devido ao gran­de inseto que se retorcia entre dois molares.

Claro, era Palha Escavator.

O anão pegou o inseto infeliz com a língua, depois masti­gou-o delicadamente.

— Besouro de chão — disse deliciado. — Leisus montanus. Belo buquê, sólida casca terrestre, mas assim que a carapaça se parte, uma verdadeira explosão de sabores no palato.

Engoliu a criatura infeliz, depois afunilou um arroto por­tentoso através dos lábios tremelicantes.

— Nunca arrote enquanto estiver abrindo um túnel — alertou a Artemis e Holly, tão despreocupadamente como se estivessem ao redor da mesa de um café. — Terra entrando, ar saindo. Não é boa idéia.

Holly conhecia bem Palha. Esse papo furado era simples­mente para distrair enquanto ele dava uma espiada ao redor.

— E agora, aos negócios — disse finalmente o anão, des­cartando o pelo morto de barba que havia usado para arrom­bar a fechadura. — Parece que tenho um humano e uma elfo presos num carro. Por isso me pergunto: será que devo deixar que saiam?

— E o que você se responde? — perguntou Artemis com impaciência mal contida.

Os olhos pequenos e pretos de Palha dançaram ao luar.

— Então o Garoto da Lama entende gnomês. Interessan­te. Bem, entenda o seguinte, humano. Vou deixá-los sair assim que receber meu dinheiro.

Ah, pensou Holly. Há dinheiro envolvido. De algum modo esses dois fizeram um trato.

Holly havia suportado a prisão por tempo suficiente.

Palha ainda não é meu amigo, pensou, portanto não há ne­cessidade de ser educada.

Trouxe um joelho para perto do queixo, ajudando com as duas mãos para conseguir mais um quilo de força elástica.

Palha percebeu o que ela ia fazer.

— Ei, elfo. Não...

E foi só até aí que chegou, antes que seu rosto fosse acerta­do pela tampa do porta-malas. O anão tombou para trás, cain­do no buraco do qual havia saído, lançando um uuf de vento e terra.

Holly passou por cima de Artemis e saiu para o ar puro. Sugou-o em grandes haustos, estufando o peito, de rosto para o céu.

— Desculpe — disse entre as respirações. — Aquele es­paço é minúsculo. Não gosto de nada minúsculo.

— Claustrofobia? — perguntou Artemis, saindo do por­ta-malas.

Holly confirmou com a cabeça.

— Eu era. Achei que tinha superado. Mas ultimamente... Houve uma agitação no buraco do anão. Um jorro de pa­lavrões e movimentos na terra.

Holly se recuperou rapidamente e pulou no buraco, agar­rando Palha antes que ele pudesse desencaixar o maxilar e desaparecer.

— Ele pode ser útil — grunhiu ela, empurrando para cima o anão que protestava. — E já nos viu, então o dano está feito.

— Essa é uma chave de pinça — exclamou Palha. — Você é da LEP.

Ele girou, arrancando a peruca de Holly com os pelos da barba.

— Eu conheço você. Holly Short. Capitã Holly Short. Um dos rottweilers de estimação de Julius Raiz.

De repente a testa já franzida do anão se franziu ainda mais, perplexa.

— Mas isso é impossível.

Antes que Artemis pudesse instruir Holly a não perguntar, ela fez isso.

— Por que é impossível, Palha?

Palha não respondeu, mas seus olhos o traíram, olhando cheio de culpa por cima do ombro, para uma amarrotada mochila Tekfab. Holly girou o anão habilmente, abrindo o compartimento principal da mochila.

— Que tesouro temos aqui! — disse remexendo na mochi­la. — Kit médico, rações, adesivos de comunicação. E olha, um velho Omni-instrumento. — Então reconheceu a inscrição gravada a laser na base. — É o meu velho Omni-instrumento.

Apesar dos anos de amizade, Holly virou toda a força de sua raiva contra Palha.

— Onde você conseguiu isso? — gritou ela. — Como conseguiu?

— Foi presente — disse Palha, sem graça. — De minha... é... — Ele franziu os olhos para ler o que estava escrito na base. — De minha mãe. Ela sempre me chamou de Holly, por cau­sa de minha... é... minha personalidade espinhenta.

Holly ficou mais irada do que Artemis jamais vira.

— Diga, Escavator. A verdade!

Palha pensou em lutar. O pensamento estava na curva de seus dedos e nos dentes à mostra, mas o momento passou ra­pidamente e a natureza passiva do anão veio à tona.

— Roubei tudo isso de Tara — admitiu. — Sou ladrão, não sou? Mas, em minha defesa, devo dizer que tive uma in­fância difícil, que levou à baixa auto-estima que eu projetei nos outros, e passei a castigá-los roubando suas posses. E eu perdôo a mim.

A conversa mole característica de Palha fez com que Holly se lembrasse do amigo que ele iria se tornar e sua raiva evapo­rou tão rapidamente quanto havia surgido. Passou a ponta do dedo na inscrição a laser.

— Minha mãe me deu isso — disse baixinho. — O Omni-instrumento mais confiável que já tive. Uma noite, em Ham­burgo, um fugitivo se trancou num carro. Por isso tentei pegar meu Omni-instrumento e ele havia sumido. O bandido foi preso por humanos, perdi meu primeiro fugitivo e o coman­dante Raiz teve de mandar toda uma equipe de técnicos para fazer a limpeza. Foi um desastre. E esse tempo todo era você.

Palha ficou perplexo.

— Esse tempo todo? Eu roubei isso de um cinto num ar­mário em Tara há uma hora. Eu vi você lá. O que está aconte­cendo aqui... — Então Palha piscou e bateu uma das mãos peludas na outra. — Ah, pela minha aba de traseiro. Vocês são viajantes do tempo.

Holly percebeu que havia falado demais.

— Isso é ridículo.

Na verdade, agora o anão estava fazendo uma dançazinha.

— Não. Não, tudo faz sentido. Você está falando de acon­tecimentos futuros usando o verbo no tempo passado. Você mandou um bilhete para trás, para que eu viesse resgatá-la aqui e agora. — Palha apertou as bochechas com as mãos, fingindo horror. — O que vocês estão fazendo é muito mais ilegal do que qualquer coisa que eu pudesse fazer. Imagine a recom­pensa que eu receberia se os entregasse a Julius Raiz.

— Mandei um bilhete para trás? — zombou Holly. — Isso é absurdo, não é, Artemis?

— Certamente — respondeu Artemis. — Mas se alguém fosse mandar uma nota do futuro, para onde e quando iria mandá-la?

Palha apontou um polegar para Holly.

— Há uma caixa de disjuntores ao lado do armário dela. Parecia que não era tocada há anos. Eu estava verificando, porque algumas vezes há material de tecnologia nelas. Mas não nessa, onde só havia um envelope endereçado a mim. E dentro um bilhete pedindo que eu viesse a este lugar e libertasse vocês.

Artemis sorriu. Satisfeito.

— Imagino que havia a oferta de um incentivo em troca do nosso resgate, não?

O pelo da barba de Palha estalou.

— Um grande incentivo. Não... um incentivo estupendo.

— Estupendo, é? Muito bem, você o terá.

— Quando? — perguntou Palha, faminto.

— Logo. Só preciso que me faça mais um favor.

— Eu sabia — disse o anão através dos dentes trincados. — Nunca faça o serviço antes de ver a grana. Por que eu deveria con­fiar em você?

Artemis deu um passo adiante, os olhos estreitados por trás da cortina de cabelos escuros.

— Você não precisa confiar em mim, Palha. Precisa ter medo de mim. Eu sou um Garoto da Lama vindo do seu futuro, e poderia estar no seu passado também, se você optasse por não colaborar. Eu encontrei você uma vez, certamente poderia fazer isso de novo. Na próxima vez que você abrir o porta-malas de um carro, pode haver uma arma e um distintivo esperando.

Palha sentiu a apreensão repuxando os pelos da barba, e raramente os pelos de sua barba erravam. Como costumava dizer sua avó: Confie nos pelos, Palha. Confie nos pelos. Esse hu­mano era perigoso e ele já tinha encrencas suficientes na vida.

— Tudo bem, Garoto da Lama — disse ele de má vonta­de. — Mais um favor. E depois é melhor que você tenha uma quantidade de ouro estupenda para mim.

— Terei. Não tema, meu amigo pungente. O anão ficou profundamente ofendido.

— Não me chame de amigo. Só diga. O. Que. Você. Quer.

— Simplesmente siga sua natureza e escave um túnel para nós. Preciso roubar um lêmure.

Palha assentiu como se seqüestrar lêmures fosse a coisa mais natural do mundo.

— E de quem vamos roubá-lo?

— De mim.

Palha franziu a testa, depois a ficha caiu.

— Ah... a viagem no tempo causa todo tipo de reviravol­tas, não é?

Holly enfiou o Omni-instrumento no bolso.

— Nem me fale — disse.

 

O Bentley dos Fowl era protegido por um leitor de impressão digital e um teclado que exigia um código de oito dígitos. O código era trocado a cada mês, por isso Artemis demorou alguns segundos para rebobinar mentalmente quase oito anos e se lembrar dos números corretos.

Deslizou pelo estofamento de couro do banco da frente e apertou o polegar num segundo leitor enfiado sob o volante. Um compartimento fechado com mola deslizou do painel. Não era grande, mas o suficiente para guardar um maço de dinhei­ro, cartões de crédito platina e um celular extra.

— Nenhuma arma? — perguntou Holly quando Artemis saiu do carro, se bem que uma das armas de Butler seria desa­jeitada demais em seus dedos.

— Nenhuma arma — confirmou Artemis.

— Eu não poderia acertar um elefante com uma das pis­tolas de Butler.

— Esta noite o alvo não são elefantes — disse Artemis, falando em inglês, agora que estavam fora do porta-malas. — E sim lêmures. De qualquer modo, como não poderíamos ati­rar em nenhum dos nossos oponentes nesta aventura, é me­lhor estarmos desarmados.

— Na verdade, não — respondeu Holly. — Talvez eu não possa atirar em você ou no lêmure, mas aposto que vão apare­cer mais oponentes. Você tem uma queda por fazer inimigos.

Artemis deu de ombros.

— O gênio inspira o ressentimento. É um fato triste da vida.

— O gênio e roubar coisas — completou Palha, empo­leirado na borda do porta-malas. — Ouça quem sabe das coi­sas: ninguém gosta de um ladrão inteligente.

Artemis tamborilou com os dedos no parachoque.

— Temos algumas vantagens. Magia de elfo. Talentos de escavador. Eu tenho quase oito anos a mais de experiência na arte de causar problemas do que o outro Artemis.

— Causar problemas? — zombou Holly. — Acho que você está sendo um pouco gentil consigo mesmo. Roubo qua­lificado seria mais próximo da verdade.

Artemis parou de tamborilar.

— Um dos seus poderes é falar várias línguas, correto?

— Estou falando com você, não estou? — reagiu Holly.

— Quantas línguas você consegue falar?

Holly sorriu. Conhecia bem demais a mente trapaceira de Artemis para perceber exatamente aonde ele queria ir.

— Quantas você quiser.

— Bom. Precisamos nos separar. Você pega a rota aérea para dentro do Parque Rathdown. Palha e eu vamos pelo subsolo. Se precisarmos de uma distração, use seu dom.

— Será um prazer — disse Holly, e imediatamente ficou translúcida como se fosse uma criatura feita de água puríssima. A última coisa a sumir foi o sorriso.

Exatamente como o gato de Alice.

Ele se lembrou de algumas frases do Alice no País das Maravilhas.

Mas não quero ficar no meio de pessoas loucas, disse Alice. Ah, você não pode evitar isso, respondeu o gato. Aqui todos somos loucos.

Artemis olhou o anão fedorento procurando insetos arma­zenados em sua barba viva.

Aqui todos somos loucos também, pensou.

Holly se aproximou da porta principal do Parque Rathdown com cautela, mesmo estando com o escudo ativado. Uma vez o Povo havia pensado que estava invisível para Butler e pagou com trauma e ferimentos. Ela não subestimaria o guarda-cos­tas, e o fato de ele ser de novo inimigo fez seu estômago bor­bulhar com ácido nervoso.

As roupas humanas pulavam e raspavam seu corpo. Não eram feitas para o escudo, e em questão de minutos iriam se despedaçar com a vibração.

Sinto falta da minha Neutrino, pensou, olhando a porta de aço reforçado, com a escuridão desconhecida do outro lado. E sinto falta de Potrus e suas conexões por satélite.

Mas, no fundo do coração, Holly era uma aventureira, as­sim a idéia de desistir sequer lhe ocorreu.

Era difícil operar mecanismos enquanto estava escudada, por isso baixou a energia durante os poucos segundos necessá­rios para destrancar a porta com seu Omni-instrumento. Era um modelo antigo, mas a mãe de Holly havia pagado lingo­tes extras por alguns melhoramentos. O Omni-instrumento padrão abriria qualquer porta que funcionasse num siste­ma comum de tranca e chave. Este também podia provocar curto-circuito em trancas eletrônicas e até desativar alarmes simples.

Mas não deve ser necessário, pensou. Pelo que Artemis recor­da, ele desligou todos os alarmes.

O pensamento não lhe deu muito conforto. Artemis já havia errado com relação a esta viagem.

Em menos de cinco segundos o Omni-instrumento fizera seu serviço e vibrava suavemente como um gato ronronando diante da própria esperteza. A porta pesada se abriu em silên­cio sob um toque levíssimo e Holly acionou o escudo de novo.

Ao entrar no Parque Rathdown, Holly sentiu uma ansie­dade de missão que não experimentava havia anos.

Sou uma novata outra vez. Uma garota recém-saída da Aca­demia, percebeu. Minha mente é experiente, mas meu corpo a está suplantando.

E depois: É melhor eu pegar esse macaco depressa, antes que a adolescência dê as caras.

O jovem Artemis havia desligado a segurança ao entrar no ins­tituto. Fora fácil passar por cima de todos os alarmes usando o cartão-chave do diretor. Mais cedo, quando fizera a visita guiada, ele havia feito várias perguntas complicadas sobre a validade da teoria da evolução. O diretor, um evolucionista convicto, permitira que os argumentos o distraíssem por tempo suficiente para que seu bolso fosse roubado por Butler. Assim que o car­tão-chave estava de posse do guarda-costas, este simplesmente o enfiou num Clonador de Cartões à bateria, que estava no bolso do peito do paletó, e assobiou alguns compassos de Mozart para encobrir o zumbido da máquina.

Dois minutos depois, todas as informações que eles neces­sitavam estavam guardadas na memória do Clonador, o cartão original estava de volta ao bolso do diretor e de repente Artemis concluiu que talvez a evolução não fosse uma teoria ruim, afi­nal de contas.

— Apesar de haver mais buracos nela do que um dique holandês feito de queijo suíço — confessou a Butler no cami­nho do Parque Rathdown para casa. Butler se sentiu encoraja­do com essa declaração. Era quase uma piada.

Mais tarde o jovem Artemis havia colocado uma minicâ­mera no duto de ar-condicionado na traseira do Bentley.

É melhor ficar de olho nos nossos hóspedes.

A fêmea era interessante. Na verdade, fascinante. Os dardos logo perderiam o efeito e seria curioso ver a reação dela, muito mais do que a do adolescente cabeludo, mesmo que a testa larga dele sugerisse inteligência e que suas feições gerais tivessem muito em comum com as da família Fowl. Na verdade elas faziam Artemis se lembrar de uma velha foto de seu pai quan­do era garoto, trabalhando numa escavação arqueológica na América do Sul. Talvez o cativo fosse um primo distante que esperava reivindicar algum tipo de direito de nascença, agora que seu pai estava desaparecido. Havia muito a investigar ali.

A minicâmera estava transmitindo para seu celular, e o Artemis de dez anos verificava a tela ocasionalmente enquan­to Butler o guiava através do Parque Rathdown em direção à jaula do lêmure.

— Concentre-se, Artemis — censurou o guarda-costas. — Um maldito crime de cada vez.

Artemis afastou o olhar do celular.

— Maldito, Butler? Maldito. Francamente, não somos personagens de desenho animado. Eu não tenho uma garga­lhada de vilão, nem um tapa-olho.

— Ainda não. Mas terá um tapa-olho logo, logo, se não se concentrar no que faz.

Estavam passando sob o aquário do Parque Rathdown, através de um túnel de acrílico que permitia aos cientistas e visitantes ocasionais observar as espécies abrigadas no tanque de milhões de litros d’água. O tanque imitava ao máximo pos­sível o ambiente natural dos habitantes. Diferentes comparti­mentos tinham diferentes temperaturas e vegetações. Alguns eram de água salgada, outros de água doce, mas todos abriga­vam criaturas raras ou em perigo de extinção.

Havia lâmpadas minúsculas espalhadas no teto, simulando estrelas, e a única outra luz vinha da bioluminescência de um tu­barão-lanterna, que criou sombras em Artemis e Butler ao longo do túnel até que o focinho do bicho bateu na parede de acrílico.

Artemis estava mais interessado em seu celular do que nos fotoporos do tubarão brilhando fantasmagóricos.

Em sua tela estavam se desenrolando eventos que beiravam a incredulidade. O garoto parou de andar para absorver total­mente o que via.

Os invasores da Mansão Fowl haviam escapado do porta-malas do Bentley com a ajuda de um cúmplice. Outro não-humano.

Estou entrando num mundo novo. Essas criaturas são poten­cialmente mais lucrativas do que um lêmure. Será que devo aban­donar este empreendimento e me concentrar nos não-humanos?

Artemis aumentou ao máximo o volume do aparelho, mas o microfone minúsculo da câmera só podia captar pequenos trechos de conversa.

Era quase toda em uma língua desconhecida, mas algumas falas eram em inglês e ele ouviu a palavra lêmure mais de uma vez.

Talvez este lêmure seja mais valioso do que eu imaginava. O animal é a isca que atrai estas criaturas.

Um minuto se passou, com apenas a pequena criatura re­pulsiva, parecida com um anão, aparecendo na tela, empolei­rando o traseiro desproporcionalmente grande na borda do porta-malas, e então a fêmea apareceu, mas sumiu em seguida — com as famosas torres do Parque Rathdown preenchendo a tela onde ela estivera.

Artemis apertou o telefone com mais força.

Invisibilidade? A energia envolvida em criar um campo refle­xivo ou para gerar vibração em alta velocidade deve ser incrível.

Navegou rapidamente pelo menu do telefone e ativou a função de imagem térmica, uma opção que decididamente não era padronizada, e ficou aliviado ao ver a forma da criatura fêmea brotar na tela, em tons quentes.

Bom. Não sumiu, só estava difícil de ver.

Mantendo um olho no telefone, Artemis chamou o guar­da-costas.

— Butler, velho amigo. Ligeira mudança de planos.

O guarda-costas sabia que não deveria esperar que a caça­da ao lêmure estivesse acabada.

— Mas ainda estamos na trilha de uma criatura pequena, aposto.

— Criaturas — disse o Artemis de dez anos. — No plural.

O Artemis de quatorze anos não estava gostando da vista. Para se distrair, compôs um haicai descrevendo o que enxergava.

Claros globos tremem Carregando seu veneno. Cabeças num saco.

Palha Escavator não se sentia tão poético. Parou de cavar e reencaixou o maxilar.

— Poderia, por favor, parar de apontar sua lanterna para o meu traseiro? Minha pele se queima com facilidade. Nós, anões, somos extremamente fotossensíveis, mesmo à luz artificial.

Artemis havia apanhado a lanterna no kit de invasões do Bentley e estava acompanhando Palha através de um túnel novo em direção à jaula do lêmure. O anão lhe garantira que o tú­nel era suficientemente curto para ele segurar a terra e o ar até chegarem à outra extremidade, o que tornava seguro Artemis ficar diretamente atrás dele.

Artemis afastou o facho da lanterna por alguns segundos, pensando que uma bolha num traseiro era a última coisa que queria ver, mas depois de um tempo o facho retornou à carne pálida e borbulhante de novo.

— Só uma perguntinha rápida. Se você consegue segurar todo o material da escavação, por que a aba de traseiro precisa ficar aberta?

Palha estava cuspindo um monte de catarro de anão na parede, para reforçar o túnel.

— Para o caso de uma emergência — explicou. — Eu poderia engolir um pedaço de metal enterrado, ou uma tira de pneu velho. Bom, isso eu teria de evacuar no ato, incomo­dando ou não o Garoto da Lama que está na traseira. E não faz sentido arruinar minhas calças, há, seu pateta?

— Acho que não — respondeu Artemis, pensando que, com uma arma tão grande e tão carregada apontada em sua direção, ele suportaria ser chamado de pateta.

— De qualquer modo — continuou o anão, cuspindo mais um bocado de catarro na parede — você deveria se con­siderar um privilegiado. Não são muitos os humanos que vi­ram um anão trabalhar com cuspe. É o que vocês poderiam chamar de arte antiga. Primeiro você...

— Eu sei, eu sei — interrompeu Artemis, impaciente. — Primeiro você escava, depois reforça as paredes com seu cuspe, que endurece ao contato com o ar, desde que tenha saído de sua boca, obviamente. E além disso é luminoso. Material incrível.

O traseiro de Palha tremelicou, surpreso.

— Como você sabe esses segredos?

— Você me contou, ou melhor, vai me contar. Viagem no tempo, lembra?

O anão espiou por cima dos ombros, com os olhos verme­lhos à luz de seu cuspe.

— Até que ponto nós ficamos íntimos?

— Muito. Compramos um apartamento juntos e, depois de um namoro rapidíssimo, você se casa com minha irmã e vai passar a lua-de-mel em Las Vegas.

— Adoro Las Vegas — disse Palha, pensativo. — Que pia­da ruim! Dá para ver que podemos ser amigos. Mesmo assim, guarde seus comentários para si mesmo, caso contrário vere­mos como você fica engraçado coberto de sobras de túnel.

Artemis engoliu em seco e afastou o facho da lanterna para longe do traseiro de Palha.

O plano era simples. Eles fariam um túnel por baixo do parque e esperariam abaixo da jaula do lêmure até que Holly os contatasse pelo comunicador adesivo de curto alcance, da LEP, que estava grudado à bochecha de Artemis — parte das coisas que Palha havia roubado. A partir desse ponto o plano ficava fluido. Ou eles sairiam e pegariam o lêmure enquanto Holly provocava consternação entre os animais ou, se o jovem Artemis já tivesse apanhado o lêmure, Palha cavaria um bura­co embaixo de Butler, tornando mais fácil para Holly aliviar o garoto de sua presa.

Tudo muito simples, pensou Artemis. O que é incomum para mim.

— Tudo bem, Garoto da Lama — disse Palha, formando um espaço curvo com seus dedos chatos. — Cá estamos. O X marca o macaco.

— Lêmure — corrigiu Artemis automaticamente. — Tem certeza de que pode distinguir o cheiro desse animal específi­co, no meio de todos os outros?

Palha ergueu a mão num fingimento de afronta.

— Eu? Se tenho certeza? Sou um anão, humano. Um na­riz de anão pode dizer a diferença entre capim e trevo. Entre cabelo preto e castanho. Entre cocô de cachorro e cocô de lobo.

Artemis gemeu.

— Vou aceitar isso como um sim.

— E deve aceitar mesmo. Continue desse jeito e talvez eu opte por não me casar com sua irmã.

— Se eu tivesse uma irmã, tenho certeza que ela ficaria inconsolável.

Os dois permaneceram agachados no buraco por vários mi­nutos, com os rosnados e roncos do parque noturno chegando através do barro. Devido a alguma anomalia curiosa, assim que os sons penetravam na cobertura de cuspe de anão, ficavam presos por dentro e ricocheteavam nas paredes, formando ondas em conflito. Artemis se sentia literalmente na cova dos leões.

Como se isso não fosse suficientemente perturbador, notou que as bochechas de Palha estavam ficando de um rosa bri­lhante. Todas elas.

— Problemas? — perguntou, incapaz de mascarar um tre­mor nervoso.

— Estive segurando esse gás por muito tempo — respon­deu o anão com os dentes trincados. — Ele vai sair logo. Você tem algum problema de sinusite?

Artemis balançou a cabeça.

— Uma pena — disse Palha. — Isso iria limpá-los num instante.

Se não fosse a decisão de salvar a mãe, Artemis teria dado no pé imediatamente.

Para sorte das vias nasais de Artemis, Holly fez contato pelo adesivo comunicador. O instrumento era um modelo básico, de vibração, que mandava sinais diretamente ao ouvido de Artemis sem provocar qualquer ruído externo. Artemis ouviu as palavras de Holly, mas não sua voz. O adesivo tinha sofisti­cação apenas suficiente para produzir voz robótica.

— Posicionada. Câmbio.

Artemis pôs um dedo no comunicador, completando o circuito que lhe permitia falar.

— Câmbio. Estamos diretamente sob a jaula do bicho. Você está vendo a oposição?

— Negativo. Nenhum visual. Mas vejo o lêmure. Parece estar dormindo num galho baixo. Posso alcançá-lo facilmente.

— Negativo, Holly. Mantenha posição. Nós vamos pegá-lo. Fique vigiando meu eu mais novo.

— Entendido. Não demore, Arty. Suba, desça e volte ao carro. Arty?

Artemis ficou surpreso ao ouvir Holly chamando-o assim. Era o nome pelo qual sua mãe o chamava. Palha deu-lhe um tapinha no ombro.

— Quando você estiver pronto, Garoto da Lama. Agora seria ótimo.

— Muito bem. Em frente. Procure ficar em silêncio. Palha mudou de posição, apontando o topo da cabeça para o teto do túnel, agachado sob os calcanhares.

— É tarde demais para o silêncio — grunhiu. — Puxe o casaco sobre o rosto.

Artemis mal teve tempo de obedecer quando Palha soltou um trovejante cilindro de gás e terra, cobrindo o garoto com torrões não digeridos. A casca de cuspe de anão se rachou em milhares de lugares e Palha foi lançado para o alto por um bor­bulhante pilar de força, rompendo com facilidade a superfície.

Assim que a terra havia se assentado um pouco, Artemis subiu para a jaula, atrás dele. Palha havia ricocheteado no teto baixo e estava inconsciente, com sangue sujando o cabelo embolado, a aba de traseiro balançando como uma biruta ao vento enquanto o resto dos dejetos de túnel escapavam.

Teto baixo da jaula?

O lêmure na jaula ao lado pareceu achar muito divertida toda aquela agitação e pulava sem parar, num pedaço de tron­co enfiado entre as barras.

A jaula ao lado, percebeu Artemis. Não estamos na jaula do lêmure. Em que jaula estamos?

— Tire o Palha daí, Artemis. Desça agora.

O que é?, perguntou-se Artemis. O que há nesta jaula?

Então um gorila das montanhas de Uganda, com duzen­tos quilos, chocou-se contra ele, deixando o pensamento para trás como um balão de quadrinhos.

O jovem Artemis e Butler estavam olhando tudo isso através das fendas de um esconderijo camuflado que ficava na frente das jaulas. O esconderijo fora construído dentro de uma imi­tação de cascata e permitia que os diversos animais fossem es­tudados de perto sem atrapalhar os vários ritmos de seu dia. O diretor tivera a gentileza de deixar Artemis sentar-se na cadei­ra de observação naquele mesmo dia.

— Um dia você poderia comandar a câmera de imagens térmicas e todo esse equipamento a partir dessa cadeira — dissera ele.

— Talvez mais cedo do que isso — respondera Artemis.

— Minha nossa — disse Butler, com a expressão soando delicada demais em sua voz grave. — Isso deve ter doído um bocado. — Ele enfiou a mão no bolso para pegar a arma de dardos. — É melhor eu dar uma mãozinha, ou pelo menos um dardo.

Butler estivera ocupado com seus dardos. Dois trabalha­dores do turno da noite estavam inconscientes, deitados em camas na parte de trás do esconderijo.

Através da fenda de observação, eles tinham uma visão clara do jovem invasor sendo sacudido como uma boneca de trapos por um gorila enorme. O terceiro ocupante da jaula havia des­maiado e parecia devastado por uma enérgica explosão de flatulência.

Incrível, pensou Artemis. Este dia está cheio de surpresas. Digitou algumas teclas no computador à sua frente, redire­cionando a câmera de imagem térmica do instituto.

— Acho que não será necessário um dardo — disse. — A ajuda já está a caminho.

Sem dúvida, um brilho avermelhado surgiu correndo pelo caminho de pedras, pairando diante da jaula do gorila.

— Bom, isso deve ser interessante — pensou o Artemis de dez anos.

Holly foi obrigada a agir. Estivera escondida discretamente atrás do tronco largo de um baobá importado, sem escudo, conser­vando a magia, atenta ao surgimento do jovem Artemis, quan­do Palha abriu um buraco na terra, entrando na jaula errada. Ele explodiu, saindo do chão num miniciclone de entulho, ricocheteou em algumas superfícies como um fliperama de desenho animado e despencou no chão da jaula.

O morador da jaula, um gorila preto e cinza, saltou de pé imediatamente, acordado do sono profundo. Seus olhos esta­vam arregalados mas turvos, os dentes amarelos e à mostra.

Fique embaixo, Artemis, pensou ela. Fique no buraco.

Não teve essa sorte. Artemis chegou à superfície, subindo com cuidado pela rampa fácil. A corrente do tempo não lhe dera agilidade. Como Artemis dizia freqüentemente, o físico não era sua especialidade.

Holly apertou o polegar no adesivo comunicador.

— Tire o Palha daí, Arty — gritou. — Desça agora.

Era tarde demais. O gorila concluíra que os recém-chega­dos eram uma ameaça a ser enfrentada. Rolou para fora de seu ninho de folhas e cascas de árvore, pousando sobre oito nós de dedos, e o impacto provocou uma onda de tremores nos pelos de seu braço.

Holly acionou o escudo enquanto corria, com fios pratea­dos flutuando para trás enquanto a peruca se desmontava, marcando sua passagem.

O gorila atacou, pegando pelos ombros o surpreso Artemis Fowl, rugindo no rosto dele, com a cabeça para trás, os dentes como uma armadilha para ursos.

Holly estava junto ao portão, desenergizando o escudo, tirando o Omni-instrumento do bolso, encostando a ponta na tranca. Examinou a cena dentro da jaula enquanto esperava que a ferramenta funcionasse.

Palha havia acordado e estava apoiado nos cotovelos, ba­lançando a cabeça, grogue. Iria demorar alguns instantes até que estivesse em condições de ajudar — caso se dignasse a aju­dar um estranho humano.

De qualquer modo, isso não importava: em alguns instan­tes seria tarde demais para Artemis.

O Omni-istrumento soltou um bip e a porta da jaula se abriu. Uma passarela estreita se estendia pelo caminho, atra­vessando um fosso e se fixando em fendas no piso do habitat.

Holly correu sobre ela sem hesitar, balançando os braços, gritando, transformando-se em alvo.

O gorila fungou e bufou, apertando Artemis contra o pei­to — alertando Holly a ficar para trás. A cabeça de Artemis balançava nos ombros e seus olhos estavam semicerrados.

Holly parou a três metros do animal, baixando os braços e o olhar. Uma postura não ameaçadora.

O gorila fez alguns ataques falsos, trovejando até meio metro de Holly, depois dando as costas com desprezo, ao mes­mo tempo em que grunhia e rosnava, apertando Artemis con­tra o peito. O cabelo de Artemis estava grudado de sangue e um fio vermelho escorria do canto do olho esquerdo. Um bra­ço estava quebrado e o sangue se acumulava na manga do aga­salho de moletom.

Holly ficou chocada. Atarantada. Sentia vontade de cho­rar e sair correndo. Seu amigo estava ferido, talvez morto.

Caia na real!, disse a si mesma. Você é mais velha do que parece.

Um dos poderes mágicos das criaturas era o dom das lín­guas, e isso abarcava o domínio rudimentar de algumas línguas animais mais sofisticadas. Ela jamais discutiria o aquecimento global com um golfinho, mas sabia o bastante para uma co­municação básica.

Com os gorilas tratava-se tanto de linguagem corporal quanto do que era dito. Holly se agachou, com os cotovelos dobrados, nós dos dedos no chão, a coluna curvada à frente. Postura de amigo, depois afunilou os lábios e fez várias vezes um som parecido com “uh, uh”.

— Perigo! — diziam os sons. — O perigo está perto!

O gorila fez uma parada cômica, pasmo em ouvir fala de gorila vindo daquela criatura. Sentiu que era um truque, mas não tinha certeza de qual poderia ser. E, quando em dúvida, bata no peito.

O gorila largou Artemis, ficou de pé, alto, estufando o queixo e os peitorais, e começou a bater no peito com as mãos abertas.

Sou rei aqui. Não se meta comigo, era a mensagem clara.

Um sentimento sensato, de fato, mas Holly não tinha opção.

Saltou à frente, fazendo “uh, uh” o tempo todo, lançando um estranho guincho aterrorizado, e então, contra o conselho de todo especialista em vida selvagem que já tivesse usado uma steadi-cam, olhou diretamente nos olhos do animal.

— Leopardo — disse ela com os “uh, uh”, pondo camadas do mesmer na voz. — Leopardo!

A fúria do gorila foi substituída por uma confusão opaca, que por sua vez foi empurrada de lado pelo terror.

— Leopardo! — disse Holly. — Suba!

Movendo-se com algo que era menos do que sua graça costumeira, o gorila cambaleou para o fundo da jaula, moven­do-se como se estivesse embaixo d’água, os sentidos embotados pelo mesmer. Árvores e folhagens foram empurradas de lado, deixando uma esteira de troncos sujos de seiva e capim amas­sado. Em instantes o animal havia desaparecido nos recessos escuros de seu habitat artificial.

Balbucios temerosos vieram da copa no alto.

Holly iria se sentir mal, mais tarde, por ter enfeitiçado o bicho, mas agora não havia um instante a perder com culpa. Artemis estava grave e talvez mortalmente ferido.

O gorila havia largado Artemis como uma carcaça cuja car­ne tivesse sido toda comida. Ele estava ali, parado como morto.

Não. Não pense nisso.

Holly correu para perto do amigo, deslizando de joelhos o último metro.

Tarde demais. Ele já se foi.

O rosto de Artemis estava totalmente lívido. Seu cabelo comprido e preto estava sujo de sangue e o branco dos olhos era de dois crescentes através da pálpebras semicerradas.

— Mãe — disse ele, a palavra cavalgando uma respiração. Holly estendeu as mãos, com a magia já dançando nas pontas dos dedos, disparando em arcos como minúsculas ex­plosões solares.

Imobilizou-se antes que a magia pudesse saltar no corpo de Artemis.

Se eu curar Artemis, também vou condená-lo? Será que mi­nha magia está contaminada pela encantropia?

Artemis se sacudiu debilmente e Holly pôde ouvir ossos raspando dentro da manga. Agora havia sangue também nos lábios dele.

Ele vai morrer se eu não ajudar. Pelo menos se eu curá-lo ha­verá uma chance.

As mãos de Holly estavam tremendo e seus olhos turvos de lágrimas.

Controle-se. Você é uma profissional.

Não se sentia muito profissional. Sentia-se como uma ga­rota que não sabia o que fazer.

Seu corpo está fazendo truques com sua mente. Ignore-o.

Segurou o rosto de Artemis gentilmente, com as duas mãos.

— Cure — sussurrou, quase soluçando.

As fagulhas mágicas saltaram como cães sem coleira, afun­dando nos poros de Artemis, costurando ossos, curando a pele, estancando o sangramento interno.

A súbita transição das portas da morte para a cura foi difí­cil para Artemis. Ele estremeceu e corcoveou, com os dentes chacoalhando, o cabelo se encrespando num halo elétrico.

— Venha, Artemis — disse Holly, curvando-se sobre ele como uma carpideira. — Acorde.

Por vários segundos, não houve reação. Artemis parecia um cadáver saudável, mas, afinal de contas, era isso que ele parecia geralmente. Então seus olhos desiguais se abriram, as pálpe­bras balançando como asas de beija-flores enquanto seu sistema se inicializava de novo. Ele tossiu e estremeceu, flexionando os dedos das mãos e dos pés.

— Holly — disse, quando sua visão clareou. O sorriso era sincero e agradecido. — Você me salvou de novo.

Holly estava rindo e chorando ao mesmo tempo, com lá­grimas se derramando no peito de Artemis.

— Claro que salvei. Não poderia viver sem você. — E como estava feliz e cheia de magia, Holly se inclinou e beijou Artemis, com magia saltando ao redor do contato como se fossem minúsculos fogos de artifício.

O Artemis Fowl de dez anos estava de olho no drama que se desenrolava na jaula do gorila.

— Troglodytes gorilla — comentou com Butler. — Quem deu o nome foi o dr. Thomas S. Savage, um missionário ame­ricano no oeste da África, o primeiro a descrever cientificamente o gorila em 1847.

— Não diga — murmurou o guarda-costas, que estava mais interessado no raio da mordida do bicho do que em seu nome.

Eles haviam usado a agitação para se esgueirar do esconde­rijo artificial e atravessar o pequeno pátio até a jaula do lêmure, que ficava ao lado da do gorila.

Os estranhos recém-chegados estavam ocupados demais para notá-los passar o cartão-chave na tranca da jaula e abrir a porta.

— Olhe aqueles dois. Perdendo tempo. Você nunca me pegaria fazendo isso.

Butler fungou, como fazia imediatamente antes de dar uma resposta na bucha:

— A maioria das pessoas nunca pega você fazendo nada, Artemis.

Artemis se permitiu um risinho. Era um dia interessante e ele estava gostando dos desafios apresentados.

— E cá estamos — disse baixinho. — O último lêmure sifaka sedoso do mundo. O primata de cem mil euros.

O lêmure estava empoleirado no alto de uma palmeira de Madagascar, agarrado aos galhos com os compridos dedos e polegares opositores dos pés. O pelo era branco-neve com uma mancha marrom no peito.

Artemis apontou para o animal.

— A cor resulta de marcar o peito olfativamente com a glândula esternogular.

— Ahã — disse Butler, que se importava um pouquinho menos com isso do que havia se importado com o nome cien­tífico do gorila. — Só vamos pegar o animal e sair daqui antes que nossos amigos ao lado estejam em condições de novo.

— Acho que temos alguns instantes — disse Artemis.

Butler examinou os estranhos na jaula adjacente. Era sur­preendente que o rapaz não estivesse despedaçado, mas de al­gum modo a fêmea havia aparecido do nada e expulsado o gorila. Impressionante. Aquela figura tinha alguns truques na manga. Havia tecnologias sérias por trás dela. Talvez algum tipo de software de camuflagem nas roupas, o que poderia explicar as fagulhas. Sabia que os americanos estavam desenvolvendo um traje de camuflagem todo-terreno. Um dos seus contatos militares lhe havia mandado um link para um vídeo que vaza­ra na Internet.

Havia outra criatura na jaula, o indivíduo peludo que sol­tara os dois primeiros do Bentley, no processo arrombando uma fechadura supostamente impossível de ser arrombada. A cria­tura não era homem nem animal, um sujeito rude e atarraca­do que fora propelido através da terra por alguma força e que agora estava sofrendo de um ataque debilitante de gases. De algum modo aquela coisa conseguira cavar um túnel de trinta metros em questão de minutos. Não fosse o fato de as jaulas serem moduladas, com paredes sobrepostas, a criatura estaria na mesma jaula do lêmure. Como aconteceu, mesmo tendo emergido diretamente abaixo do lêmure, este estava uma jaula acima.

Butler sabia que Artemis estaria morrendo de vontade de estudar aquelas criaturas estranhas, mas não era a hora certa. Eles se encontravam numa situação de ignorância total, e pes­soas nessa situação costumavam morrer sem ser esclarecidas.

O guarda-costas sacou a pistola de dardos, mas Artemis reconheceu o som de uma arma saindo do coldre e balançou o indicador.

— Esta é nossa última opção. Não quero nosso amigui­nho quebrando o pescoço na descida. Primeiro vamos tentar uma persuasão suave.

Do bolso, Artemis tirou um pequeno saco plástico con­tendo um gel âmbar com manchas pretas e verdes.

— Eu mesmo fiz — explicou. — Os sifakas são da família de primatas Indriidae, que, como você sabe, é uma família es­tritamente vegetariana.

— Quem não saberia disso? — perguntou Butler, que não havia exatamente guardado a pistola.

Artemis abriu o saco, soltando um aroma doce e denso que subiu na direção do lêmure.

— Um concentrado de seiva, com um pot-pourri de vege­tação africana. Nenhum lêmure resistiria a isso. Mas se o cére­bro deste primata específico for mais forte do que o estômago, dispare. Um tiro, por favor, e evite a cabeça. Só a agulha pro­vavelmente bastaria para rachar aquele crânio minúsculo.

Butler teria fungado, mas o lêmure estava se movendo. Arrastou-se pelo galho, baixando o nariz pontudo para captar o odor, tocando o cheiro com uma língua rosada e dardejante.

— Hum — disse o guarda-costas. — Imagino que essa mistura não funcione com humanos.

— Pergunte de novo daqui a seis meses. Estou fazendo algumas experiências com feromônios.

O lêmure desceu rapidamente, hipnotizado pelo aroma glorioso. Quando o galho acabou, ele pulou no chão e veio saltitando em duas pernas, com os dedos estendidos na dire­ção do saco.

Artemis riu.

— O jogo acabou.

— Talvez não — disse Butler. Na jaula ao lado, o garoto cabeludo estava de pé e a fêmea fazia um ruído muito estranho.

A aura de magia ao redor do Artemis de quatorze anos e de Holly foi sumindo, e junto com ela se foi o transe onírico que isolava a mente de Artemis.

Ele ficou instantaneamente alerta. Holly o havia beijado. Artemis recuou, saltando de pé, abrindo os braços para con­trabalançar a tontura súbita.

— Ah, obrigado — disse sem jeito. — Isso foi inesperado. Holly sorriu, meio sem graça.

— Artemis, você está bem. Mais uma cura e você não vai passar de tecido de cicatrizes preso por fios de magia.

Artemis achou que seria ótimo ficar ali e conversar assim, mas numa gaiola acima seu futuro estava escapando junto com seu passado.

Entendeu imediatamente o que havia acontecido. O nariz de Palha os havia levado ao lugar certo, mas as jaulas eram construídas como blocos intertravados, de modo que o lêmure estivera acima deles, mas também no recinto ao lado. Deveria ter se lembrado disso, se tivesse estado ali antes. Mas Artemis não tinha lembrança de ter visitado a área central do parque. Pelo que sabia, o diretor havia trazido o lêmure a uma sala de observação especial. Isso era confuso.

— Muito bem — disse. — Vejo onde estamos... Estava falando alto, ajustando a mente, tentando esquecer o beijo por enquanto. Pense nisso mais tarde.

Esfregou os olhos, afastando as fagulhas vermelhas, depois se virou o mais rapidamente que a pós-vertigem permitia. Ali estava, seu eu mais novo, atraindo o lêmure sifaka sedoso com um saco de pasta âmbar.

Seiva, aposto. Talvez com uns galhos e folhas. Eu não era um garoto esperto?

Era necessária uma solução imediata. Um plano rápido e fluido. Esfregou os olhos como se isso pudesse afiar a mente.

— Palha, você consegue cavar?

O anão abriu a boca para responder, mas em vez disso vomitou.

— Não sei — respondeu finalmente. — Minha cabeça está meio embaralhada. O estômago também. Aquela pancada me abalou de verdade. — Sua barriga fez um barulho como de um motor de popa. — Desculpe. Acho que preciso...

Ele precisava mesmo. Palha se arrastou para uma moita de samambaias e soltou o resto do conteúdo da barriga. Várias folhas murcharam no ato.

Não adianta, pensou Artemis. Preciso de um milagre, caso contrário aquele lêmure pode se considerar morto.

Segurou os ombros de Holly.

— Você ainda tem alguma magia?

— Um pouco, Artemis. Talvez algumas fagulhas.

— Você consegue falar com os animais?

Holly torceu o queixo para a esquerda até que o osso do pescoço estalou, verificando o tanque.

— Eu poderia fazer isso, com qualquer coisa, menos trolls. Eles não caem nesse truque.

Artemis assentiu, murmurando. Pensando.

— Muito bem. Muito bem. Quero que você amedronte aquele lêmure para ele fugir para longe de mim. Do meu eu mais novo. E preciso de confusão. Você consegue?

— Posso tentar.

Holly fechou os olhos, respirou fundo pelo nariz, enchen­do os pulmões, depois virou a cabeça para trás e uivou. Foi um ruído fantástico. Leões, símios, lobos e águias. Estavam todos ali. O uivo era pontuado pelo som intermitente de macacos e o sibilar de mil serpentes.

O Artemis mais velho deu um passo atrás, instintivamente aterrorizado. Alguma parte primitiva de seu cérebro interpretou a mensagem como medo e dor. Sua pele se arrepiou e ele teve de lutar contra todos os instintos para não fugir e se esconder.

O Artemis mais novo estendeu a mão para o lêmure, balan­çando o saco plástico diante do nariz que estremecia. O lêmure pôs as pontas dos dedos no pulso de Artemis.

Peguei-o, pensou o garoto irlandês. O dinheiro da expedi­ção é meu.

Então uma parede de sons medonhos o golpeou como um vento feroz. O jovem Artemis cambaleou para trás, largando o saco de pasta, subitamente com um terror irracional.

Alguma coisa quer me matar. Mas o que é? Parece que são todos os animais do mundo.

Os residentes do parque também ficaram totalmente apa­vorados. Guinchavam e berravam, sacudindo as jaulas, lançan­do-se contra as barras. Macacos tentavam repetidamente saltar por cima dos fossos que rodeavam suas ilhas. Um rinoceronte de Sumatra, de oitocentos quilos, atacou as pesadas portas de seu habitat, chacoalhando as dobradiças a cada golpe. Um lobo vermelho rosnou e latiu, um lince ibérico sibilou, golpeando o ar, e um leopardo da neve perseguiu o próprio rabo, balan­çando a cabeça e miando ansioso.

Butler não pôde deixar de mudar seu foco.

— É a criatura fêmea — declarou. — Fazendo algum tipo de som que está agitando os animais. Eu mesmo estou meio perturbado.

Artemis não afastou o olhar do lêmure.

— Você sabe o que fazer — disse.

Butler sabia. Se houver um obstáculo impedindo que uma missão fosse realizada, remova o obstáculo. Foi rapidamente até as barras, passou a pistola através dela e cravou um dardo no ombro da fêmea.

Ela cambaleou para trás, com sua fantástica orquestra de sons animais se interrompendo com um guincho.

Butler sentiu um tremor de culpa, que quase o fez tropeçar quando foi para perto de Artemis. Já havia apagado por duas vezes a garota, ou o que quer que ela fosse, sem ter a mínima idéia do que as substâncias químicas estariam fazendo com seu organismo não-humano. O único consolo era que havia colo­cado dardos de pequena dosagem, depois de atirar no vigia noturno. Ela não deveria ficar inconsciente por muito tempo. No máximo alguns minutos.

Agora o lêmure estava assustado. Mãos minúsculas coçan­do o espaço à frente. O coquetel de seiva era tentador, mas ali havia perigo do pior tipo, e a ânsia de viver sobrepujava o de­sejo de um petisco saboroso.

— Não — disse Artemis, vendo o medo nublar os olhos da criatura. — Não é real. Não há perigo.

O pequeno símio não estava convencido, como se pudesse ler a intenção do garoto nos ângulos afiados de seu rosto.

O sifaka sedoso guinchou uma vez, como se tivesse sido espetado, depois subiu correndo pelo braço de Artemis, pas­sou por cima do ombro e saiu pela porta da jaula.

Butler tentou agarrar a cauda, mas errou por um fio. Fe­chou os dedos no ar.

— Talvez seja hora de admitir a derrota com relação a este aí. Estamos perigosamente despreparados e nossos adversários têm... habilidades que não conhecemos.

A resposta do patrão foi correr atrás do lêmure.

— Artemis, espere — sussurrou Butler. — Se tivermos de prosseguir, eu vou na frente.

— Eles querem o lêmure — ofegou Artemis enquanto corria. — Assim, ele se torna mais valioso do que era. Quando pegarmos o animal, estaremos numa posição de poder.

Pegar o animal. Era mais fácil falar do que fazer. O lêmure era incrivelmente ágil e encontrava apoio nas superfícies mais lisas. Disparou sem hesitar por cima de um corrimão de me­tal, saltando três metros até o galho mais baixo de uma planta num vaso, e dali para o muro do instituto.

— Atire! — sibilou Artemis.

Ocorreu a Butler brevemente que não estava gostando da expressão de Artemis — quase cruel, a testa enrugada, quando a testa de um menino de dez anos não deveria ter rugas — porém, iria se preocupar com isso mais tarde; no momento precisava sedar um animal.

Butler era rápido, mas o sifaka sedoso era mais. Num re­lâmpago de pelos, escalou o muro e pulou na noite do lado de fora, deixando um borrão branco.

— Uau — disse Butler, quase admirado. — Isso foi rápido. Artemis não ficou impressionado com a escolha de pala­vras de seu guarda-costas.

— Uau? Acho que isso merece mais do que um uau. Nosso bicho escapou e, com ele, a verba da minha expedição ao ártico.

Nesse ponto Butler estava perdendo rapidamente o inte­resse pelo lêmure. Havia outros modos menos ignóbeis de con­seguir verba. Estremeceu ao pensar na gozação que teria de suportar se um relato desta noite conseguisse chegar ao bar Farmer’s, em Los Angeles, de propriedade de um ex-guarda-costas diamante azul e freqüentado por muitos outros.

Mas, apesar de sua aversão pela missão, o senso de lealdade de Butler obrigou-o a contar um fato que o diretor do parque havia mencionado antes, quando Artemis estava ocupado es­tudando o sistema de alarmes.

— Há uma coisa que eu sei e que talvez você não saiba — disse maliciosamente.

Artemis não estava com humor para jogos.

— Ah, é mesmo? E o que seria?

— Os lêmures são criaturas arborícolas. Aquele sujeitinho está com medo e vai subir na árvore mais alta que puder en­contrar, mesmo que não seja de fato uma árvore. Se é que você me entende.

Artemis entendeu no mesmo instante, o que não era difí­cil, já que as estruturas enormes lançavam uma treliça de som­bras da lua sobre todo o instituto.

— Claro, velho amigo — disse ele, com as rugas desapa­recendo da testa. — As torres.

As coisas estavam dando desastrosamente erradas para o Artemis mais velho. Palha estava ferido, Holly estava inconsciente de novo — com os pés se projetando para fora do buraco do anão — e ele próprio ia ficando sem idéias. O barulho ensurdece­dor de cem espécies em risco de extinção enlouquecendo não o ajudava a se concentrar.

Os animais estão soltando os bichos, pensou. E depois: Que hora para criar senso de humor!

Só o que podia fazer era estabelecer prioridades.

Preciso tirar Holly daqui, percebeu. É o mais importante.

Palha gemeu, rolando de costas, e Artemis viu que havia um corte sangrando na testa dele.

Cambaleou até perto do anão.

— Imagino que você esteja sentindo muita dor — disse. — É de se esperar, com uma laceração dessas. — Demonstrar tato com doentes não era o ponto forte de Artemis. — Você vai ficar com uma cicatriz bem grande, mas, afinal de contas, a beleza não é importante para você.

Palha espiou Artemis através de um olho franzido.

— Está tentando ser engraçado? Ah, meu Deus, não está. Essa foi a coisa mais gentil que você pôde pensar para dizer.

Ele tateou a testa sangrenta com um dos dedos.

— Ai. Isso dói.

— Claro.

— Vou ter de lacrar. Você sabe tudo sobre esse talento de anão, imagino.

— Naturalmente — respondeu Artemis, mantendo o ros­to impassível. — Vi uma dúzia de vezes.

— Duvido — grunhiu Palha, pegando um pelo de barba que se retorcia no queixo. — Mas não tenho muitas opções, não é? Com a elfo da LEP no país dos sonhos, não vou receber nenhuma ajuda mágica daí.

Artemis ouviu um farfalhar no mato baixo, nos fundos da jaula.

— É melhor correr. Acho que o gorila está superando o medo.

Encolhendo-se, Palha introduziu o pelo de barba no corte. A coisa pulou feito um girino, atravessando a pele e costurando as bordas do ferimento. Apesar de gemer e estremecer, Palha conseguiu permanecer consciente.

Quando o pelo havia terminado o serviço e o ferimento estava mais bem amarrado do que uma mosca numa bola de teia de aranha, Palha cuspiu na mão e passou a gosma na ferida.

— Tudo lacrado — proclamou, depois, ao ver o brilho no olhar de Artemis: — Não tenha idéias, Garoto da Lama. Isso só funciona com anões, e mais: meu pelo de barba só funcio­na em mim. Se você colocar uma das minhas belezinhas na sua pele só vai conseguir uma infecção.

O farfalhar no mato baixo ficou mais forte e Artemis Fowl decidiu adiar qualquer outra informação, o que era quase uma novidade total para ele.

— Hora de partirmos. Você pode lacrar o túnel depois de passarmos?

— Posso derrubar a coisa toda, na maior moleza. Mas é melhor você ir na frente. Há modos melhores de ser enterrado vivo em... digamos... material reciclado. Preciso dizer mais?

Não havia necessidade de dizer mais nenhuma sílaba. Artemis pulou no buraco, segurou os ombros de Holly e co­meçou a arrastá-la pelo túnel, passando pelas manchas de cuspe luminoso em direção à luz no final. Era como viajar pelo espa­ço através da Via Láctea.

Os sons de seu corpo eram amplificados. A respiração sen­do engolida, o coração martelando, os estalos dos músculos e dos tendões.

Holly era arrastada facilmente, o terno sibilando na superfí­cie áspera como um ninho de vespas. Ou talvez houvesse cobras ali embaixo, pelo jeito como a sorte de Artemis se mostrava.

Estou tentando fazer uma coisa boa, para variar, lembrou-se. E é assim que o Destino me recompensa. Uma vida de crimes era infinitamente mais fácil.

O ruído da superfície era amplificado pela acústica do tú­nel. Agora o gorila parecia furioso. Artemis pôde ouvir o som de punhos no peito e bufos raivosos.

Ele percebeu que foi enganado.

Sua teorização foi interrompida pelo surgimento de Palha no túnel, com a bandagem de cuspe na testa lançando um bri­lho de zumbi em seu rosto.

— Gorila chegando — disse ele enquanto enchia os pul­mões de ar. — Vamos indo.

Artemis ouviu duas pancadas quando o gorila pousou no piso do túnel. O enorme símio rugiu um desafio pelo buraco e o barulho cresceu em ferocidade a cada metro que viajava.

Holly gemeu e Artemis puxou seus ombros com mais força.

Palha sugava o ar o mais rápido que podia, empurrando Artemis e Holly mais fundo no túnel. Faltavam vinte metros. Jamais conseguiriam. O gorila avançava, pulverizando cada lanterna de cuspe enquanto passava por elas, rugindo com sede de sangue. Artemis jurou ter visto um clarão de dentes.

O túnel parecia estremecer a cada golpe. Grandes trechos desmoronavam. Lama e pedras caíam na cabeça e nos ombros de Artemis. Terra se amontoava nas órbitas dos olhos de Holly.

As bochechas de Palha se inflaram quando ele abriu os lá­bios por uma fração minúscula para falar.

— Tudo bem — disse com voz de hélio. — O tanque está cheio.

O anão pegou Artemis e Holly em seus grossos braços de Popeye e soltou cada bolha de ar que estava em seu corpo. A corrente de jato resultante impeliu o grupo por toda a exten­são do túnel. A viagem foi curta, sacudida e confusa. O ar foi expulso dos pulmões de Artemis e seus dedos se esticaram a ponto de quase se partir, mas ele não soltou Holly.

Não podia deixar que ela morresse.

O gorila infeliz foi lançado pela tempestade de vento, dando cambalhotas, empurrado de volta para fora do túnel como se estivesse preso a uma corda elástica. O bicho gritava, tentando cravar os dedos nas paredes do túnel.

Artemis, Holly e Palha saltaram da boca do túnel, ricoche­teando e deslizando pela vala num emaranhado de pernas, braços e torsos. As estrelas no alto pareciam riscas de velocida­de e a lua era uma mancha de luz amarela.

Uma velha mureta impediu que continuassem, desmoro­nando sob o impacto dos três corpos.

— Durante mais de 150 anos, esse muro ficou de pé — tossiu Artemis. — Então nós aparecemos.

Ficou deitado de costas, sentindo-se totalmente derrota­do. Sua mãe morreria e logo Holly iria odiá-lo quando dedu­zisse a verdade.

Tudo está perdido. Não tenho idéia do que fazer.

Então uma das famosas torres do Rathdown ficou nítida em sua visão — mais especificamente as figuras que subiam pela escada de serviço.

O lêmure escapou, pensou Artemis, e está subindo o mais alto que pode.

Um adiamento. Ainda havia uma chance.

O que eu preciso para salvar essa situação é de um kit de vigi­lância e assalto da LEP. Talvez peça para o N° 1 enviar um de volta para mim.

Artemis se separou dos outros e decidiu que haveria um local seguro embaixo da pedra angular da torre. Tirou o resto das pedras empilhadas em cima, enfiou os dedos embaixo do último pedregulho e puxou. Ele saiu facilmente, não revelan­do nada além de minhocas e terra úmida.

Então. Nada de ajuda. Devo me virar com o que há disponível.

Virou-se para onde Holly e Palha estavam deitados. Os dois gemiam.

— Acho que parti uma tripa me livrando daquele vento — disse Palha. — Havia medo demais na mistura.

O nariz de Artemis se torceu.

— Você vai ficar bem?

— Me dê um minuto e vou estar com forças suficientes para carregar aquela enorme quantidade de ouro que você me prometeu.

Holly estava grogue. Seus olhos tremiam enquanto tenta­va recuperar a consciência e seus braços balançavam como um peixe fora d’água. Artemis fez uma rápida verificação da pul­sação e da temperatura. Um pouco de febre, mas o batimento cardíaco era firme. Holly estava se recuperando, mas vários minutos passariam antes que ela pudesse controlar a mente ou o corpo.

Preciso fazer isso sozinho, percebeu Artemis. Sem Holly, sem Butler.

Só Artemis versus Artemis.

E talvez um Omni-instrumento, pensou, enfiando a mão no bolso de Holly.

As torres de eletricidade do Rathdown haviam aparecido nas manchetes irlandesas várias vezes desde que foram construídas. Os ambientalistas protestavam veementemente dizendo que a aparência das torres gigantescas prejudicava um belo vale, para não mencionar o possível efeito danoso que as linhas de ener­gia sem isolamento poderiam causar à saúde de qualquer pessoa ou qualquer ser vivo que passasse sob seus arcos. A comissão nacional de eletricidade havia respondido a esses argumentos dizendo que as linhas ficavam altas demais para prejudicar qualquer coisa, e que construir torres menores através do vale prejudicaria uma área de terra dez vezes maior.

E assim, meia dúzia daqueles gigantes de metal atravessa­vam o Vale Rathdown, chegando a uma altura de cem metros no ponto mais elevado. As bases das torres costumavam ser cercadas por manifestantes, tanto que a empresa de eletricida­de passara a fazer a manutenção das linhas usando helicópteros.

Nessa noite, enquanto Artemis corria pela campina enlua­rada, chutando gotas de orvalho diamantinas, não havia ma­nifestantes cercando as torres, mas eles haviam plantado seus cartazes como bandeiras ao luar. Artemis se desviava dos obs­táculos ao mesmo tempo em que esticava o pescoço para acom­panhar as figuras no alto.

Agora o lêmure estava no fio, sua silhueta contra a lua, cor­rendo facilmente pelo cabo de metal, enquanto o jovem Artemis e Butler permaneciam na pequena plataforma na base da torre, incapazes de ir mais longe.

Finalmente, pensou Artemis, um ou dois golpes de sorte.

O primeiro golpe era que o lêmure subitamente estava ali para quem o pegasse. O segundo era que, ainda que seu jovem inimigo tivesse escolhido seguir o sifaka sedoso diretamente pela torre que o animal estava escalando, ele próprio poderia ir até a torre adjacente, que por acaso era a de serviço.

Chegou à base da torre, que era cercada por uma grade de ferro. O grande cadeado se submeteu instantaneamente a um rápido golpe do Omni-instrumento, assim como o armário de aço que guardava equipamento. Dentro dele havia várias fer­ramentas, walkie-talkies e um traje de Faraday. Artemis pegou o macacão pesado, enfiando os dedos na luva presa à manga, metendo o cabelo comprido para dentro do capuz. A roupa com material antichamas e fios de aço precisava envolvê-lo completamente para funcionar como uma gaiola de Faraday que o protegesse. Caso contrário, ele não poderia chegar aos fios sem ser transformado em gênio do crime carbonizado.

Mais sorte. Um elevador-plataforma subia pela lateral da torre. Estava trancado e a chave era codificada. Mas as fechadu­ras se acovardavam diante de um Omni-instrumento, e um có­digo de chave era de pouco valor quando se podia simplesmente desparafusar o painel de controle e ativar a polia manualmente.

Artemis agarrou com firmeza o corrimão de segurança enquanto o elevador minúsculo estremecia e gemia, subindo no céu noturno. O vale se espalhava embaixo enquanto ele subia e um vento oeste se esgueirava sobre os morros, puxan­do uma mecha de cabelos de baixo do capuz. Artemis olhou para o norte e por um momento de fantasia imaginou que era capaz de ver as luzes da mansão Fowl.

Mamãe está lá, pensou. Agora não está bem, e não está bem no futuro. Talvez eu simplesmente consiga convencer meu eu mais novo. Explicar a situação.

Esse pensamento era ainda mais fantasioso do que o últi­mo. Artemis não tinha ilusão quanto a como era aos dez anos. Não confiava completamente em ninguém, além de si mes­mo. Nem em seus pais, nem mesmo em Butler. À primeira menção de viagem no tempo, seu eu mais novo mandaria o guarda-costas disparar um dardo antes e faria perguntas depois. Um monte de perguntas e muito demoradas. Não havia tempo para explicações nem debates. Essa batalha teria de ser vencida pelo uso de inteligência e astúcia.

O elevador rangeu contra as travas no topo da torre. Um símbolo de caveira com tíbias cruzadas estava soldado no alto portão de segurança. Mesmo que Artemis não fosse gênio, se­ria difícil não entender o símbolo, e para o caso de um com­pleto idiota conseguir escalar a torre, havia um segundo símbolo mostrando um homem de desenho animado sendo fritado pela eletricidade de uma torre de desenho animado. O esqueleto do homem era claramente visível, como num raio X.

Parece que a eletricidade é perigosa, poderia ter comentado Artemis, se Butler estivesse ao seu lado.

Havia outra tranca no portão de segurança, que o atrasou mais ou menos pelo mesmo tempo que as duas primeiras. Do lado de fora do portão havia uma pequena plataforma coberta com tela de arame, com duas linhas de força zumbindo direta­mente abaixo.

Há meio milhão de volts correndo por essas linhas, pensou Artemis. Espero que não haja nenhum rasgo nessa roupa.

Artemis se agachou, espiando ao longo do cabo. O lêmure havia parado no meio do caminho entre as duas torres e estava conversando consigo mesmo, como se avaliasse as opções. Por sorte a criaturinha tocava apenas um cabo, de modo que ne­nhuma corrente atravessava seu corpo. Se ele pusesse ao me­nos um dedo no segundo cabo, o choque o lançaria a trinta metros no ar e ele estaria mortinho da Silva antes de parar com os giros.

Na outra torre, o jovem Artemis fez um muxoxo para o animal, ao mesmo tempo em que tentava fazê-lo retornar, mos­trando o saco de pasta.

Não há nada a fazer, além de ir para os fios e trazer você mesmo o lêmure.

A roupa protetora era equipada para a movimentação pe­los fios. Havia um cabo de segurança enrolado na cintura e um para-raios num bolso comprido na coxa. Abaixo da plata­forma ficava um pequeno trenó sobre rodinhas isoladas, que os engenheiros usavam para se arrastar entre as torres.

Agora o cérebro conta pouco, percebeu ele. O que preciso é de equilíbrio.

Artemis gemeu. Equilíbrio não era o seu forte.

Respirando fundo, agachou-se e tirou o para-raios do bolso. Quase assim que ele pegou a haste, jatos de fagulhas incandes­centes saltaram das linhas de força, ligando-se à ponta do para-raios. A corrente zumbiu e sibilou como uma cobra de néon.

Você está equalizando a voltagem, só isso. A eletricidade não pode lhe fazer mal.

Talvez não, mas Artemis já podia sentir os pelos se eriçan­do na nuca. Seria ansiedade ou alguns volts se esgueirando por algum lugar?

Não seja ridículo. Se houver um buraco, todos os volts entra­rão, e não só alguns.

Artemis era vagamente familiarizado com a técnica de ca­minhar nos fios, já que a rede de TV estatal havia feito um especial sobre os ousados trabalhadores que arriscavam a vida para manter as luzes de Dublin acesas. Não era tanto caminhar nos fios quanto se arrastar nos fios. Os cabos eram extrema­mente retesados e os engenheiros de manutenção se prendiam aos cabos de segurança, deitavam-se no trenó e giravam a ma­nivela até chegar ao local da manutenção.

Simples. Em teoria. Para um profissional numa manhã calma.

Não tão fácil para um amador no meio da noite tendo apenas as estrelas e a luz ambiente de Dublin para guiá-lo.

Artemis guardou o para-raios e conector cautelosamente seu cabo de segurança a um dos fios.

Prendeu a respiração, como se isso pudesse fazer diferença, e pôs as mãos enlevadas no trenó de metal.

Ainda estou vivo. Bom começo.

Avançou centímetro a centímetro, com o metal quente sob as mãos desajeitadas cobertas pelas luvas, até estar deitado so­bre o trenó, com a manivela dupla diante do rosto. Era uma manobra delicada e teria sido impossível se os cabos não fos­sem presos um ao outro a intervalos regulares. Começou a se retorcer e quase imediatamente a tensão nos braços foi tremen­da enquanto ele movia o peso do corpo.

A academia. Butler, você estava certo. Vou malhar com pesos, qualquer coisa, só me deixe sair desses cabos com aquele lêmure embaixo do braço.

Artemis deslizou à frente, sentindo as carretilhas roçando o metal áspero dos cabos, cujo zumbido intenso irritava seus dentes e lançava tremores constantes pela coluna arqueada. O vento estava fraco, mas mesmo assim ameaçava jogá-lo do poleiro alto, e o chão parecia de outro planeta. Distante e nem um pouco convidativo.

Dez metros depois, seus braços doíam e ele foi notado pelos oponentes.

Uma voz veio da outra torre.

— Aconselho você a ficar onde está, rapazinho. Se essa roupa tiver um rasgo minúsculo, bastará um escorregão e esses cabos vão liqüefazer sua pele e derreter seus ossos.

Artemis fez um muxoxo. Rapazinho? Será que ele era real­mente tão metido a besta? Tão condescendente?

— Demoraria menos de dez segundos para você morrer — continuou o Artemis de dez anos. — Mas é tempo suficiente para significar uma agonia mortal, não acha? E tudo por nada, já que o lêmure obviamente vai retornar para pegar esse petisco.

É, ele havia sido presunçoso, além de metido a besta e con­descendente.

Artemis optou por não responder, concentrando a energia em permanecer vivo e atrair o sifaka sedoso. De seu considerá­vel reservatório de conhecimentos sobre praticamente tudo, pegou o fato de que os símios menores sentiam-se reconforta­dos com um ronronar. Obrigado, Jane Goodall.

Assim começou a ronronar, para diversão de seu eu mais novo.

— Escute, Butler. Tem um gato no fio. Um gato grande, eu diria. Talvez você devesse lançar um peixe para ele.

Mas o tom de zombaria estava cheio de tensão. O jovem Artemis sabia exatamente o que estava acontecendo.

Ronronou mais, e a coisa parecia estar funcionando: o fantasmagórico sifaka deu alguns passos cautelosos na direção do Artemis mais velho, com os olhos pretos e redondos bri­lhando com a luz das estrelas e talvez com curiosidade.

Holly iria se orgulhar. Estou falando com um animal.

Ao mesmo tempo em que ronronava, Artemis se encolheu, pensando em como a situação ficara ridícula. Era um típico melodrama fowleano. Dois concorrentes caçando um lêmure nas mais altas linhas de transmissão de energia da Irlanda.

Artemis olhou ao longo das linhas, até a outra torre, onde estava Butler, com a aba do paletó balançando ao redor das coxas. O guarda-costas se inclinou contra o vento e a intensi­dade de seu olhar parecia rasgar a escuridão, cravando-se no Artemis mais velho como um laser.

Sinto falta do meu guarda-costas, pensou Artemis.

O lêmure chegou mais perto, encorajado pelo ronronar e talvez enganado pela roupa cinza de aço.

Isso mesmo. Sou outro lêmure.

Os braços de Artemis estavam tremendo pela tensão de virar as manivelas num ângulo tão incômodo. Cada músculo do corpo se retesava até o limite, inclusive vários que ele jamais havia usado. A cabeça estava tonta com a necessidade de man­ter o equilíbrio.

Tudo isso e ainda ter de fingir que sou um animal.

Mais um metro. Era a distância entre Artemis e o lêmure. Não havia outras tentativas de atração do outro lado. Artemis olhou e descobriu que seu oponente estava com os olhos fe­chados e respirava fundo. Tentando bolar um plano.

O lêmure saltou no trenó e tocou a luva de Artemis, hesi­tante. Contato. Artemis ficou totalmente imóvel, a não ser os lábios, que soltavam um ronronar reconfortante.

É isso, amiguinho. Suba no meu braço.

Artemis olhou nos olhos do lêmure e, talvez pela primeira vez, percebeu que ele tinha emoções. Havia medo naqueles olhos, mas também uma confiança maliciosa.

Como eu posso ter vendido você àqueles loucos?, pensou.

De repente o lêmure se decidiu, subindo no ombro de Artemis. Pareceu contente em ficar ali, enquanto Artemis o transportava de volta à torre de serviço.

Enquanto recuava, Artemis mantinha os olhos fixos em seu eu mais novo. Jamais ele aceitaria simplesmente a derrota. Nenhum dos dois aceitaria. De repente os olhos do jovem Artemis se abriram e encontraram o olhar do outro.

— Atire no animal — disse com frieza. Butler ficou surpreso.

— Atirar no macaco?

— É um... não importa. Só atire. O homem está protegi­do pela roupa, mas o lêmure é um alvo fácil.

— Mas a queda...

— Se ele morrer, morreu. Não admito ser suplantado aqui, Butler. Se não posso ter aquele lêmure, ninguém terá.

Butler franziu a testa. Matar animais não era seu serviço, mas ele sabia, pela experiência, que não havia sentido em dis­cutir com o jovem patrão. De qualquer modo, era meio tarde para protestar agora, empoleirado numa torre. Deveria ter fa­lado mais enfaticamente antes.

— Quando você estiver pronto, Butler. O alvo não vai ficar mais próximo.

Nos cabos, o Artemis mais velho mal podia acreditar no que ouvia. Butler havia sacado a pistola e estava subindo no cor­rimão para conseguir mirar.

Artemis não havia pretendido falar, já que a interação com seu eu mais novo poderia causar sérias repercussões para o fu­turo, mas as palavras saíram antes que ele pudesse impedi-las.

— Fique parado. Vocês não sabem com o que estão lidando. Ah, a ironia.

— Ah, ele fala — gritou o jovem Artemis do outro lado do abismo. — Que felicidade podermos nos entender. Bom, compreenda o seguinte, estranho. Eu terei esse sifaka sedoso ou ele morrerá. Não se engane.

— Você não deve fazer isso. Há muita coisa em risco.

— Preciso fazer. Não tenho escolha. Agora mande o ani­mal, ou Butler vai atirar.

Durante todo esse tempo o lêmure permaneceu empolei­rado na cabeça do Artemis mais velho, coçando a costura de seu capuz.

Assim, os dois garotos que eram apenas um se encararam durante um momento longo e tenso.

Eu teria feito isso, pensou o Artemis mais velho, chocado com a determinação cruel em seus próprios olhos azuis.

E assim, cautelosamente, levantou uma das mãos e tirou o sifaka sedoso da cabeça.

— Você precisa voltar — disse baixinho. — Volte para a comida gostosa. E, se eu fosse você, ficaria perto do humano grande. O pequeno não é muito legal.

O lêmure estendeu a mão e tocou o nariz de Artemis, como Beckett poderia ter feito, depois se virou e trotou pelo cabo na direção de Butler, o nariz farejando o ar, narinas se abrindo enquanto localizavam o cheiro doce do saco de comida.

Em questão de segundos estava aninhado no cotovelo do jovem Artemis, enfiando os dedos longos, cheio de contenta­mento, na seiva. O rosto do menino luzia com a vitória.

— Agora — disse ele —, acho melhor você ficar exata­mente onde está, até irmos embora. Acho que 15 minutos seria bom. Depois disso, aconselho-o a ir embora e se considerar um felizardo porque não mandei Butler sedá-lo. Lembre-se da dor que está sentindo agora. A dor da derrota e da impotência absolutas. E, se algum dia pensar em cruzar espadas comigo de novo, reveja a lembrança desta dor, e talvez pense duas vezes.

O Artemis mais velho foi obrigado a olhar enquanto Butler enfiava o lêmure numa bolsa de pano, e o garoto e o guarda-costas começaram a descer pela escada de serviço. Vários minu­tos depois os faróis do Bentley cortavam a escuridão enquanto o carro saía do Parque Rathdown e pegava a estrada. Direto para o aeroporto, sem dúvida.

Artemis segurou os cabos da manivela. Ainda não estava derrotado, longe disso. Pretendia cruzar espadas com seu eu aos dez anos outra vez, assim que pudesse. No mínimo o discur­so zombeteiro do garoto havia aumentado sua determinação.

Lembrar-me da dor?, pensou Artemis. Eu me odeio. De verdade.

 

Quando Artemis terminou de descer da torre, Holly havia desaparecido. Ele a deixara perto da boca do túnel, mas não havia nada ali, a não ser lama e pegadas.

Pegadas, pensou. Agora acho que preciso ras­trear Holly. Realmente tenho de ler O último dos moicanos.

— Não se incomode em seguir isso — disse uma voz vin­da da vala. — É pista falsa. Eu fiz para o caso de o humano grande levar nossa amiga da LEP para comer feito tira-gosto.

— Boa idéia — disse Artemis, franzindo os olhos para enxergar através da folhagem. Uma sombra hirsuta se desta­cou de uma pequena elevação e se transformou em Palha Escavator. — Mas por que você se incomodou? Achei que o pessoal da LEP era seu inimigo.

Palha apontou um dedo grosso e sujo de lama.

— Você é meu inimigo, humano. Vocês são os inimigos do planeta.

— No entanto você está disposto a me ajudar em troca de ouro.

— De uma quantia estupenda de ouro. E possivelmente um pouco de frango frito. Com molho de churrasco. E uma Pepsi grande. E talvez mais frango.

— Está com fome?

— Sempre. Um anão não pode comer apenas terra. Artemis não sabia se ria ou se soltava um gemido. Palha sempre tivera problema para entender a gravidade das situa­ções, ou talvez gostasse de dar essa impressão.

— Onde está Holly?

Palha apontou para um monte de terra em forma de se­pultura.

— Enterrei a capitã. Ela estava gemendo muito alto. Arty isso e Arty aquilo, com alguns mamãe no meio.

Enterrou? Holly era claustrofóbica.

Artemis se ajoelhou, tirando a terra do monte com as duas mãos. Palha deixou-o fazer isso durante um minuto, depois suspirou teatralmente.

— Deixe que eu faço, Garoto da Lama. Você vai demorar a noite toda.

Ele se aproximou e casualmente enfiou a mão no monte de terra, mordendo o lábio como se procurasse um local específico.

— Vamos lá — disse puxando um galho pequeno. Então o monte vibrou e desmoronou em montinhos de pedregulho e barro. Holly estava incólume embaixo.

— É uma estrutura complexa chamada Na-Na — disse Palha, brandindo o galho.

— Por que Na-Na?

— Na-na-ni-na-na, você não está me vendo! — cantaro­lou o anão, depois deu um tapa no próprio joelho, explodin­do em risadas.

Artemis fez uma careta, sacudindo suavemente os ombros de Holly.

— Holly, está me ouvindo?

Holly Short abriu os olhos turvos, girou-os durante um tempo e depois focalizou.

— Artemis, eu... Ah, deuses.

— Tudo bem. Não estou com o lêmure... Bom, na verda­de estou. O outro eu, mas não se preocupe. Sei para onde es­tou indo.

Holly coçou as bochechas com dedos delicados.

— Quero dizer, Ah, deuses, acho que eu beijei você.

A cabeça de Artemis latejou e os olhos desiguais de Holly pareceram hipnotizá-lo. Ela ainda tinha um olho azul, mesmo que seu corpo tivesse rejuvenescido no túnel. Outro parado­xo. Mas, ainda que se sentisse hipnotizado, até mesmo ligeira­mente atordoado, Artemis sabia que não estava mesmerizado. Não havia magia das criaturas ali.

Olhou para aqueles olhos de elfo e soube que aquela Holly mais jovem, de algum modo mais vulnerável, sentia esse emara­nhado particular de tempo e espaço do mesmo modo que ele.

Depois de tudo por que passamos. Ou talvez por causa disso. Uma lembrança despedaçou o momento delicado como uma pedra jogada numa teia de aranha. Eu menti para ela.

Artemis foi lançado para trás com a força do pensamento.

Holly acredita que infectou mamãe. Eu a chantageei.

Nesse instante soube que não havia como se recuperar de um fato tão brutal. Se confessasse, ela iria odiá-lo. Se não con­fessasse, ele iria se odiar.

Deve haver algo que eu possa fazer.

Nada lhe veio à mente.

Preciso pensar.

Segurou a mão e o cotovelo de Holly, ajudando-a a se le­vantar e sair do buraco raso parecido com uma cova.

— Ressuscitada — brincou ela, depois deu um soco no ombro de Palha.

— Aaai. Por que motivo, senhorita, me atormentais?

— Não cite Gerd Flambough para mim, Palha Escavator. Não havia necessidade de me enterrar. Uma simples folha gran­de em cima da minha boca serviria.

Palha esfregou o ombro.

— Uma folha grande não tem o mesmo nível de arte. De qualquer modo, eu pareço o tipo de cara que usa folhas? Sou um anão, e nós lidamos com terra.

Artemis ficou feliz com a troca de farpas. Isso lhe deu um minuto para se recompor.

Esqueça sua confusão adolescente com relação a Holly. Lem­bre-se de sua mãe agonizado na cama. Restam menos de três dias.

— Muito bem, tropa — disse com jovialidade forçada. — Em movimento, como diria um velho amigo meu. Temos um lêmure para pegar.

— E o meu ouro? — perguntou Palha.

— Vou dizer do modo mais simples possível. Sem lêmure, sem ouro.

Palha bateu com oito dedos nos lábios e os pelos de sua barba vibraram como os tentáculos de uma anêmona-do-mar. Pensando.

— O quanto, exatamente, é estupendo, em termos de baldes?

— Quantos baldes você tem?

Palha recebeu isso como uma pergunta séria.

— Tenho um monte de baldes. Mas a maioria está cheia de coisas. Acho que eu poderia esvaziá-los.

Artemis quase rilhou os dentes.

— Foi uma pergunta retórica. Um monte de baldes. Quan­tos você quiser.

— Se você quiser que eu continue nessa rota do macaco, preciso de algum tipo de pagamento. Um depósito em boa-fé.

Artemis bateu nos bolsos vazios. Não tinha nada. Holly ajeitou a peruca prateada.

— Tenho algo para você, Palha Escavator. Algo melhor do que uma quantidade estupenda de ouro. Seis números, que vou revelar quando chegarmos lá.

— Chegarmos aonde? — perguntou Palha, que suspeitou de que Holly estava sendo melodramática.

— Ao armário de equipamentos da LEP em Tara.

Os olhos de palha luziram com sonhos de esquis aéreos e bolhas de mergulho, cubos de laser e vácuos gordos. A mãe de todos os roubos. Ele estivera tentando arrombar o armário da LEP durante anos.

— Posso ficar com o que eu quiser?

— Tudo que você puder colocar num carrinho flutuante. Um carrinho.

Palha cuspiu uma bola de catarro iridescente na palma da mão.

— Aperte — disse.

Artemis e Holly se entreolharam.

— O armário é seu — disse Artemis, enfiando as mãos nos bolsos.

— A missão é sua — contrapôs Holly.

— Não sei qual é a combinação. E então o trunfo:

— Estamos aqui por causa da sua mãe. Artemis deu um sorriso triste.

— Você, capitã Short, está ficando tão má quanto eu — disse, e selou o acordo com um aperto de mãos melado.

 

O jovem Artemis fez uma ligação por vídeo, de seu Powerbook, para a antiga cidade de Fez, no Marrocos. Enquanto esperava a co­nexão, ficou fumegando ao pensar que era ne­cessário fazer essa viagem intercontinental. Até mesmo Casablanca seria mais conveniente. O Marrocos já era quente o bastante sem ter de atravessar o país até Fez.

Na tela, uma janela se abriu, mal conseguindo conter a ca­beça enorme do dr. Damon Kronski, um dos homens mais odiados do mundo, mas também reverenciado em determina­dos círculos. Damon Kronski era o atual presidente da orga­nização dos Extincionistas. Ou, como disse Kronski em sua entrevista mais famosa: “Os Extincionistas não são apenas uma organização. Somos uma religião.” Esta não foi uma declara­ção que o tornou querido pelas igrejas que amavam a paz em todo o mundo.

A entrevista havia passado durante meses em sites de no­tícias da Internet e era citada sempre que os Extincionistas saíam nas manchetes. O próprio Artemis a havia assistido naquela manhã e sentiu repulsa pelo homem com quem ia fazer ne­gócio.

Estou nadando com tubarões, percebeu. E estou preparado para me tornar um deles.

Damon Kronski era um homem enorme, cuja cabeça co­meçava a penetrar nos ombros logo abaixo das orelhas. A pele era translúcida, branco-avermelhada, com um monte de sar­das do tamanho de moedas, e ele usava óculos de sol violeta presos no lugar pelas dobras da testa e das bochechas. O sorri­so era largo, brilhante e falso.

— O pequeno Ah-temis Fowl — disse com um forte so­taque de Nova Orleans. — Já achou seu papai?

Artemis segurou com força os braços da poltrona, espre­mendo o couro, mas o sorriso era tão brilhante e falso quanto o de Kronski.

— Não. Ainda não.

— Ora, que pena! Se houver algo que eu possa fazer para ajudar, não deixe de dizer ao tio Damon.

Artemis se perguntou se o personagem de tio amável de Kronski enganaria um imbecil bêbado. Talvez ele não preten­desse isso.

— Obrigado pela oferta. Dentro de algumas horas talvez possamos ajudar um ao outro.

Kronski bateu palmas, deliciado.

— Você localizou meu sifaka sedoso.

— Sim. Um tremendo espécime. Macho. Com três anos. Mede mais de um metro da cabeça à cauda. Vale facilmente cem mil.

Kronski fingiu surpresa.

— Cem? Nós realmente dissemos cem mil euros? Havia aço na voz de Artemis.

— O senhor sabe que dissemos, doutor. Mais despesas. O combustível de jato não é barato. Eu gostaria de ouvi-lo confirmar, caso contrário darei meia volta neste avião.

Kronski se inclinou para perto da câmera, com o rosto enchendo a tela.

— Geralmente sou um bom juiz de caráter, Ah-temis. Sei do que as pessoas são capazes. Mas você... não faço idéia do que você poderia fazer. Acho que é porque ainda não chegou ao limite. — Kronski se recostou na poltrona, com o couro estalando sob o peso. — Então, muito bem. Cem mil euros, como combinamos. Mas uma palavra de alerta...

— Si-im? — disse Artemis, esticando a palavra para con­ter duas sílabas, ao estilo de Nova Orleans, para demonstrar a falta de espanto.

— Se você perder meu lêmure, o meu pequeno sedoso, é melhor estar preparado para cobrir as minhas despesas. O jul­gamento está todo acertado e o meu pessoal não gosta de se frustrar.

A palavra despesas parecia muito mais sinistra quando era usada por Kronski.

— Não se preocupe — disse Artemis rispidamente. — O senhor terá o seu lêmure. Esteja com o dinheiro preparado.

Kronski abriu os braços.

— Tenho rios de ouro aqui, Ah-temis. Tenho montanhas de diamantes. A única coisa que não tenho é um lêmure sifaka sedoso. Portanto venha correndo, garoto, e dê sentido à mi­nha vida.

E desligou, um segundo antes de Artemis conseguir aper­tar o botão para encerrar a ligação.

Psicologicamente isso coloca Kronski na posição de poder, pen­sou Artemis. Preciso aprender a ser mais rápido com o mouse.

Fechou a tampa do Powerbook e reclinou a poltrona. Lá fora, no céu, a luz do sol estava atravessando as camadas mais baixas de névoa e as trilhas dos jatos faziam tramas de jogo-da-velha no céu.

Ainda em espaço aéreo movimentado. Não por muito tempo. Assim que chegarmos à África, as trilhas de jatos vão se reduzir consideravelmente. Preciso de algumas horas de sono. Amanhã será um dia longo e desagradável.

Franziu a testa. Desagradável, sim, mas necessário.

Apertou o botão de reclinar e fechou os olhos. A maioria dos garotos da sua idade estaria trocando figurinhas de fute­bol ou gastando os polegares em consoles de videogames. Ele estava num jato a 6 mil metros sobre a Europa, planejando a destruição de uma espécie com um Extincionista maluco.

Talvez eu seja novo demais para tudo isso.

A idade não importava. Sem seus esforços, Artemis Fowl Sênior estaria perdido para sempre na Rússia, e isso simples­mente não iria acontecer.

A voz de Butler veio pelo interfone do jato:

— Tudo calmo à frente, Artemis. Assim que chegarmos ao Mediterrâneo, vou colocar o avião no piloto automático durante uma hora e tentar descansar...

Artemis olhou para o alto-falante. Podia sentir que Butler tinha algo mais a dizer. Por um instante não houve nada além de estática e o bip dos instrumentos, e depois:

— Hoje, Artemis, quando você me mandou atirar no lê­mure, estava blefando? Você estava blefando, não?

— Não foi blefe — respondeu Artemis, com a voz inalte­rada. — Farei o que for necessário.

 

Estação de transporte de Tara, Irlanda

O acesso à estação de transporte de Tara era limitado por várias portas de aço, vários aparelhos de varredura e códigos, biotran­cas à prova de falhas e uma rede de vigilância de 360 graus na entrada, o que não é tão fácil de montar quanto de dizer. Cla­ro, tudo isso poderia ser ultrapassado se você conhecesse uma entrada secreta.

— Como sabem que eu tenho uma entrada secreta? — perguntou Palha, fazendo beicinho.

Em resposta, Artemis e Holly simplesmente o olharam, como se ele fosse um idiota, esperando a ficha cair.

— A idiota da viagem no tempo — murmurou o anão. — Contei tudo sobre mim a vocês, não é?

— Vai contar — confirmou Holly. — E não sei por que você está tão chateado. Não posso denunciá-lo a ninguém.

— É verdade — admitiu Palha. — E há todo aquele sa­que maravilhoso.

Os três estavam sentados num Mini Cooper do lado de fora da cerca da fazenda McGraney, sob a qual ficava escondi­da a estação de transporte de Tara. Dez mil metros cúbicos de terminal escondidos por uma fazenda de laticínios. A primei­ra luz do amanhecer estava diluindo a escuridão, e as silhuetas curvas das vacas pastando se espalhavam no pasto. Dentro de um ou dois anos Tara iria se tornar um movimentado núcleo turístico para as criaturas do subsolo, mas por enquanto todo o turismo fora suspenso desde o surto de encantropia.

Palha franziu a testa para o animal mais próximo, pela ja­nela de trás.

— Sabem de uma coisa, estou meio faminto. Não poderia comer uma vaca inteira, mas daria uma bela dentada em uma.

— Palha Escavator está faminto. Parem as prensas! — comentou Artemis secamente. Em seguida abriu a porta do motorista, pisando no capim. Uma névoa fraca se grudava ao seu rosto e o cheiro limpo de ar do campo atravessou seu orga­nismo como um estimulante.

— Precisamos ir. Não tenho dúvida de que o lêmure já está a 6 mil metros no ar.

— É um lêmure ágil — zombou o anão. Em seguida pas­sou por cima do banco da frente e pulou no capim.

— Bela argila — disse, dando uma lambida no chão. — Tem gosto de lucro.

Holly saiu do banco do carona e deu um pontapé no tra­seiro de Palha com seu mocassim.

— Não haverá lucro se não pudermos entrar no terminal sem sermos vistos.

O anão se empertigou.

— Achei que deveríamos ser amigos. Vá devagar com os chutes e os socos. Você é sempre tão agressiva?

— Você pode ou não pode?

— Claro que posso. Eu disse, não disse? Tenho passado por esse terminal durante anos. Desde que o meu primo...

Artemis entrou na conversa.

— Desde que seu primo... Nord, se não me engano... desde que Nord foi preso acusado de poluição e você o ajudou a fugir. Nós sabemos. Sabemos tudo sobre você. Agora vamos em frente com o plano.

Palha deu as costas para Artemis, casualmente desabotoan­do a aba do traseiro. Esse ato era um dos piores insultos no arsenal dos anões. Abaixo apenas do que era conhecido como Tuba, que implica em limpar a tubulação virado na direção de alguém. Guerras já foram travadas por causa da Tuba.

— Estou indo, chefe. Fiquem aqui por 15 minutos, de­pois vão pela entrada principal. Eu os levaria comigo, mas este túnel é grande demais para eu segurar as coisas, se é que capta­ram o que quero pôr para fora. — Ele parou para uma pisca­dela. — E, se ficarem perto demais, é exatamente isso que vão captar.

Artemis sorriu com os dentes trincados.

— Muito bem. Divertidíssimo. Quinze minutos, Palha Escavator, o relógio está tiquetaqueando.

— Tiquetaqueando? — perguntou Palha. — Os relógios do Povo não tiquetaqueiam há séculos.

Em seguida desencaixou o maxilar e pulou, com graça es­pantosa, mergulhando na terra como um golfinho cortando uma onda, mas sem o jeito ensolarado nem o riso bonitinho.

Apesar de ter visto isso uma dúzia de vezes, Artemis não conseguiu deixar de ficar impressionado.

— Que espécie! — comentou. — Se eles pudessem afas­tar a mente do estômago por alguns minutos, poderiam do­minar o mundo.

Holly subiu no capô, apoiando as costas no para-brisa, sen­tindo o sol no rosto.

— Talvez eles não queiram dominar o mundo. Talvez só você queira isso, Arty.

Arty.

A culpa gadanhou o estômago de Artemis. Ele olhou para as feições finas de Holly e percebeu que não poderia continuar mentindo.

— Foi uma pena precisarmos roubar esse carro — conti­nuou Holly, de olhos fechados. — Mas o bilhete que deixa­mos era bastante claro. O dono deve encontrá-lo sem problema.

Artemis não se sentia tão mal com relação ao carro. Tinha mais com que se preocupar.

— É, o carro — disse distraidamente. Preciso contar. Preciso contar.

Pôs a ponta do pé no pneu da frente do Mini e subiu no capô ao lado de Holly. Ficou sentado por alguns minutos, con­centrando-se na experiência. Armazenando-a.

Holly olhou-o ao lado.

— Desculpe por antes. Você sabe, a coisa.

— O beijo?

Holly fechou os olhos.

— É. Não sei o que está acontecendo comigo. Nós nem somos da mesma espécie. E, quando voltarmos, seremos nós mesmos de novo. — Holly cobriu o rosto com a mão livre. — Escute só. Eu, falando bobagem. A primeira capitã da LEP. Essa corrente do tempo me transformou no que você chamaria de adolescente, de novo.

Era verdade. Holly estava diferente; a corrente do tempo os havia aproximado mais.

— E se eu continuar assim? Não seria tão mau, seria?

A questão pairou no ar entre eles. Uma pergunta pesada de insegurança e esperança.

Se você responder a essa pergunta, será a pior coisa que já fez.

— Não foi você, Holly — disse Artemis bruscamente, com a testa ardendo, a calma rachada.

O sorriso de Holly congelou, ainda ali, mas perplexo.

— Não fui eu o quê?

— Você não infectou minha mãe. Eu fiz isso. Fui eu. Ainda tinha algumas fagulhas sobrando, do túnel, e fiz meus pais es­quecerem que eu havia sumido durante três anos.

Agora o sorriso de Holly havia sumido.

— Eu não... Mas você disse...

Ela parou no meio da frase, com a verdade varrendo o ros­to como uma doença.

Artemis continuou, decidido a se explicar:

— Eu precisava fazer isso, Holly. Mamãe está morrendo... estará morrendo. Eu precisava ter certeza que você me ajuda­ria... Por favor, entenda...

Ele parou, percebendo que não havia como explicar seus atos. Deu vários minutos para Holly fumegar, depois falou de novo:

— Se houvesse algum outro modo, Holly, acredite... Não houve reação. O rosto de Holly era esculpido em pedra.

— Por favor, Holly. Diga alguma coisa.

Holly deslizou do capô, os pés se conectando solidamente com a terra.

— Os 15 minutos acabaram — disse ela. — Hora de ir. Em seguida atravessou a fronteira da fazenda McGraney sem olhar para trás, as pernas abrindo dois caminhos no capim verde-escuro. A luz do amanhecer tremeluzia na ponta de cada folha e a passagem de Holly formava uma ondulação de luz chamejando no pasto.

Extraordinário, pensou Artemis. O que eu perdi?

Não havia nada a fazer, senão andar atrás dela.

Palha Escavator os esperava atrás do arbusto holográfico junto à entrada oculta da estação de transporte. Apesar de uma grossa camada de lama, sua expressão presunçosa era fácil de ser lida.

— Não precisaremos de um Omni-instrumento, capitã — disse. — Abri a porta sozinho.

Holly estava mais do que surpresa. A porta principal da estação precisava de um código de vinte dígitos, além de uma leitura de palma da mão, e sabia que Palha era tão bem infor­mado tecnologicamente quanto um verme fedorento. Não que Holly não estivesse aliviada, já que previra um atraso de 30 minutos reajustando os registros assim que tivesse aberto a porta.

— Então... diga.

Palha apontou o corredor em direção à escada-rolante sub­terrânea. Havia uma pequena figura esparramada na rampa, com a cabeça coberta por uma bolha de gosma brilhante.

— O comandante Raiz e sua turma da pesada deram no pé. Só restava um segurança.

Holly assentiu. Sabia aonde Julius Raiz havia ido. De vol­ta a Porto, para esperar seu relatório de Hamburgo.

— Ele estava fazendo ronda aqui em cima quando saí do túnel, por isso eu o engoli brevemente e dei uma lambida com cuspe de anão. Cada um reage de modo diferente ao capacete de catarro. Esse diabretezinho tentou escapar. Bateu no sensor, cuspiu o código e depois cambaleou um pouco antes que o sedativo o dominasse.

Artemis espremeu-se, passando por eles, até o túnel de acesso.

— Talvez nossa sorte finalmente esteja virando — disse, certo de que podia sentir Holly cravando adagas com o olhar em sua nuca.

— Uma pena ele não ter aberto o armário — suspirou Palha. — Então eu poderia ter traído vocês dois e partido com o lançador. *

Artemis se imobilizou.

— Lançador?

E enfrentou o olhar hostil de Holly para perguntar:

— Um lançador, Holly. Acha que ainda podemos chegar ao Marrocos mais rápido do que meu eu mais novo?

O olhar de Holly estava chapado e o tom de voz neutro.

— É possível. Depende de quanto tempo eu demorar para encobrir nossos rastros.

O lançador era o que os pilotos da LEP chamavam de bompra. Bompra reciclagem. Artemis sabia que Butler seria mais direto na avaliação do veículo.

Podia ouvir a voz do guarda-costas grandalhão no ouvido. Já andei dirigindo uns calhambeques na vida, Artemis. Mas esse treco aí...

— ...mal saiu da Idade da Pedra — murmurou Artemis, depois deu um risinho triste.

— Outra piada, Garoto da Lama? — perguntou Holly. — Você está realmente em ótima forma hoje. O que foi desta vez? Contou a alguma pobre idiota crédula que ela provocou uma epidemia?

Artemis baixou a cabeça, cansado. Isso poderia continuar durante anos.

Palha havia trombado no lançador quando abriu o túnel até a parede da estação e, usando ar, atirou longe um pedaço do forro de metal da parede de um túnel de serviço. Sabia que o painel estaria solto porque havia utilizado esse ponto de entra­da em visitas anteriores. O lançador estivera apoiado em blo­cos e sob uma tenda de lubrificação, por isso Palha não resistiu a uma espiadinha. E vejam só, era um raspa-túnel, parado para reformas. A coisa certa para saltar pela rede de túneis de acesso do Povo. Para Holly fora simples levar o desajeitado lançador de ré pelo monotrilho até a escotilha do túnel de acesso.

Enquanto isso Artemis estivera cobrindo os rastros, tirando todas as marcas da visita à estação — apagando cristais de vídeo e substituindo o tempo perdido com loops. Não havia muito que pudesse fazer com relação ao diabrete inconsciente ou aos equipamentos da LEP que haviam tirado do armário, mas Palha não tivera problema em assumir o crédito por essas coisas.

— Ei, já sou o inimigo público número um — disse ele. — Não posso subir ainda mais na lista.

De modo que agora estavam dentro do raspa-túnel, encaixa­do num suporte de lançamento, pegando alguns minutos de carga da doca de acoplamento antes de caírem no abismo. Holly passou o tempo falsificando um relatório para as autoridades dos túneis.

— Estou dizendo que a pá deste lançador foi aprimora­da segundo a ordem de serviço e que a nave foi requisitada pela estação de transportes do norte da África para fazer uma desobstrução na artéria de suprimentos. É um voo por con­trole remoto, então eles não vão procurar ninguém a bordo.

Artemis estava decidido a dar toda a chance de sucesso possível à missão, apesar das pontes que havia queimado. As­sim, se uma pergunta tivesse de ser feita, ele faria.

— Isso vai funcionar? Holly deu de ombros.

— Duvido. Provavelmente há um míssil inteligente espe­rando por nós do outro lado daquela porta.

— É verdade?

— Não. Estou mentindo. Não é legal?

Artemis balançou a cabeça, arrasado. Teria de pensar em algum modo de compensar a situação com Holly. Pelo menos em parte.

— Claro que vai funcionar. Pelo menos por enquanto. Quando a Delegacia Plaza deduzir tudo isso, já deveremos ter retornado ao futuro.

— E podemos voar sem uma pá?

Holly e Palha compartilharam um muxoxo e algumas pa­lavras em gnomês que foram rápidas demais para Artemis cap­tar. Achou que ouvira a palavra cowpóg, que podia ser traduzida como panaca.

— Sim, Garoto da Lama. Podemos voar sem uma pá, a não ser que você esteja planejando raspar alguns resíduos das paredes do túnel. Geralmente deixamos isso por conta dos robôs.

Artemis havia esquecido como Holly podia ser cortante com as pessoas de quem ela não gostava.

Palha cantou alguns compassos da velha canção humana “Você perdeu o sentimento de amor”. Cantava para Holly, segurando um microfone imaginário.

Agora Holly não estava sorrindo.

— Você vai perder toda a sensibilidade das pernas, Esca­vator, se não calar a boca.

Palha notou a expressão de Holly e percebeu que não era a melhor hora para pegar no pé dela.

Holly decidiu que era hora de acabar com a conversa. Abriu por controle remoto a escotilha de acesso e recolheu as travas de acoplamento.

— Prendam os cintos, garotos — falou, e lançou o peque­no veículo num mergulho íngreme por um buraco enorme, como se jogasse um amendoim na boca de um hipopótamo faminto.

 

Butler nunca vira o Artemis de dez anos tão arrasado, a não ser, talvez, na ocasião em que ele perdera um prêmio de ciência para um pós-graduado australiano. O guarda-costas olhou pelo retrovisor do Land Rover alugado e viu que seu jovem patrão estava sentado numa poça de suor, com o terno caro praticamente se dissolvendo no corpo magro.

Uma caixa cheia de buracos estava presa ao cinto de segu­rança do banco ao lado de Artemis. Três dedos pretos se proje­tavam por um dos buracos, enquanto o lêmure capturado explorava sua prisão.

Artemis mal olhou para a criatura. Estava tentando ser obje­tivo. Não é pouca coisa provocar a extinção de uma espécie, nem mesmo para salvar o próprio pai.

Enquanto isso Artemis catalogava as causas de seu sofri­mento. Um pai desaparecido e uma mãe à beira do colapso nervoso eram os números um e dois. Em seguida vinha uma equipe de exploradores do Ártico gastando dinheiro num quar­to de hotel em Moscou, sem dúvida vivendo do serviço de quarto, com caviar e tudo. Damon Kronski também estava em lugar alto da lista. Homem repulsivo, com idéias repelentes.

O aeroporto local, o Fez Saïss, estivera fechado, por isso Butler foi obrigado a desviar o Learjet para o Aeroporto Inter­nacional Mohammed V em Casablanca e alugar um Land Rover. E não era um Land Rover moderno. Este pertencia ao milênio anterior e tinha mais buracos do que um pedaço de queijo Gruyère. O ar-condicionado tinha dado o último suspi­ro havia mais de 150 quilômetros, e o forro do banco era tão fino que Artemis sentia estar sentado numa britadeira. Se o calor não o assasse, a vibração iria sacudi-lo até a morte.

Mesmo assim, apesar de todas essas coisas, um pensamen­to lhe ocorreu, fazendo o canto de sua boca se torcer num meio sorriso.

A criatura estranha e seu companheiro humano são absoluta­mente fascinantes.

Eles estavam desesperados para ter seu lêmure e não desis­tiriam. Tinha certeza.

Artemis voltou a atenção para os subúrbios da cidade que passavam chacoalhando por sua janela. A estrada no deserto ficou subitamente cheia de tráfego à medida que se aproxima­vam do centro da cidade. Caminhões gigantes passavam tro­vejando, com pneus maiores do que um homem adulto, as carrocerias cheias de uma carrancuda carga humana. Os cascos dos jumentos sofridos ressoavam no asfalto quebrado, e nas costas os bichos carregavam pilhas de gravetos, roupa lavada ou até mesmo móveis. Milhares de motonetas empoeiradas costuravam entre as pistas, freqüentemente levando famílias inteiras em seus chassis enferrujados. As construções ao lado da estrada tremeluziam ao sol do fim de tarde como mira­gens. Casas fantasmas, com espectros tomando chá sentados na frente.

Mais perto do centro da cidade, as construções eram mais densas, sem trechos de deserto no meio. As moradias eram entremeadas por oficinas de veículos e videolocadoras, casas de chá e pizzarias. Todos tinham a mesma cor laranja batida pelo sol, com trechos da tinta original espreitando por baixo dos beirais.

Artemis sentia, como sempre acontecia ao visitar nações em desenvolvimento, uma leve surpresa diante da coexistência do antigo com o moderno. Pastores de cabras levavam iPods em correntes brilhantes e usavam camisas do Manchester United. Os barracos tinham parabólicas presas aos tetos de zinco.

Até recentemente, Fez fora um local de importância verda­deira, como entreposto do comércio de caravanas vindas do sul e do leste. Era conhecida como um centro da sabedoria árabe, uma cidade santa e local de peregrinação quando o caminho para Meca era fechado pelas condições climáticas ou pelos bandidos.

Agora se tornara um lugar onde Extincionistas fora-da-lei faziam negócios com desesperados criminosos irlandeses.

O mundo está mudando mais rapidamente agora do que em qualquer outra ocasião, pensou Artemis. E eu estou ajudando a mudá-lo, para pior.

Não era um pensamento reconfortante, mas o conforto não era um luxo que ele esperava desfrutar num futuro próximo.

O celular de Artemis zumbiu quando chegou uma mensa­gem de texto, tendo feito o caminho de Fez à Irlanda e de volta ao Marrocos.

Ele verificou a tela e um sorriso sem alegria expôs seus incisivos.

No souq de couros. Duas horas, dizia a mensagem. Kronski queria fazer a troca num local público. Parece que o doutor confia em mim tanto quanto eu confio nele. Sujeito esperto.

Holly pilotava o lançador como se estivesse com raiva dele, for­çando o veículo de mineração nas curvas até que os freios de ar gritassem e as agulhas de leitura chegassem ao vermelho. Usava um capacete de voo conectado diretamente às câmeras do lançador, de modo que uma visão de 360 graus ao redor do veículo estava disponível o tempo todo; ela podia até mesmo escolher uma visão remota, mandada ao lançador a partir de uma das várias câmeras do túnel. Esse trecho específico de tú­nel tinha pouco tráfego, por isso as luzes dos sensores de movimento eram ligadas apenas oito quilômetros antes de o veículo entrar num trecho específico.

Holly se esforçava bastante para desfrutar da experiência de voar e esquecer todo o resto. Ser piloto da LEP era o que havia sonhado desde a infância. Enquanto fazia outra curva passando a um milímetro da parede e sentia o lançador chegar ao limite em suas mãos, a tensão se esvaiu do corpo como se fosse absorvida pelo veículo.

Artemis mentiu para mim e me chantageou, mas fez isso pela mãe. Um bom motivo. Quem pode dizer que eu não teria feito o mesmo? Se eu pudesse ter salvado minha mãe, faria tudo que fosse necessário, inclusive manipular meus amigos.

Assim, podia entender o que Artemis havia feito — mesmo sentindo que era desnecessário —, mas isso não significava que poderia perdoá-lo por enquanto.

E como poderia esquecer? Era como se ela tivesse avaliado a amizade dos dois de modo completamente errado.

Isso não vai acontecer de novo.

Uma coisa da qual Holly tinha certeza: o máximo que ela e Artemis poderiam ter agora era o que sempre haviam tido: um respeito relutante.

Passou a visão para a câmera que ficava sobre o banco do passageiro, no teto, e sentiu-se recompensada ao ver Artemis segurando com força os braços da poltrona. Talvez fosse um problema da imagem, ou talvez o rosto dele estivesse verde.

Você estragou tudo, Garoto da Lama, pensou Holly, e de­pois: espero que seja seu rosto, e não a imagem.

Havia uma abertura de ventilação natural no deserto do Mar­rocos, a sul de Agadir, onde o gás do túnel se infiltrava para a superfície através de 800 metros de areia. A única evidência disso era uma ligeira descoloração na areia acima da abertura, que era rapidamente dispersada pelos ventos assim que chega­va à superfície. Mesmo assim, mil anos desse processo haviam deixado as dunas com curiosas riscas vermelhas, que os mora­dores da região juravam que era sangue das vítimas de Raisuli, um famoso bandido do século XX. Era pouquíssimo provável que alguém engolisse essa afirmação, principalmente os pró­prios moradores, mas era uma boa informação para os guias de turismo e atraía visitantes à área que, afora isso, era pouco notável.

Holly fez o veículo atravessar a abertura, lacrando os fil­tros de ar do lançador por causa das minúsculas partículas de areia. Estava voando praticamente às cegas, com apenas um modelo tridimensional da abertura para se orientar. Por sorte era um trecho curto da viagem e demorou meros segundos para o lançador saltar no céu africano. Apesar da cobertura isolante do veículo, logo os passageiros começaram a sentir o calor. Especialmente Palha Escavator. Diferentemente das outras fa­mílias do subterrâneo, os anões não tinham vindo da superfície e não sonhavam com o sol dourado no rosto virado para cima. Qualquer coisa acima do nível do mar lhes dava vertigem.

Palha soltou um arroto molhado.

— Isso está alto demais. Não gosto. E quente, quente pra cacete. Preciso ir ao banheiro. Não sei exatamente para quê. Só não me sigam até lá. O que quer que vocês ouçam, não entrem.

Quando um anão dava esse tipo de conselho, era sensato não ignorar.

Holly acionou o mecanismo de limpeza do para-brisa, de­pois apontou o nariz do lançador para o nordeste, em direção a Fez. Com um pouco de sorte, ainda poderiam chegar antes de Artemis ao ponto de encontro.

Ligou o piloto automático e girou o banco para encarar Artemis, cujo rosto estava retornando à palidez normal.

— Tem certeza quanto ao ponto de encontro? — pergun­tou ela.

Artemis não tinha certeza de nada e essa incerteza toldava seu cérebro.

— Não, Holly. Mas me lembro claramente de ter feito a troca no souq de couros em Fez. Pelo menos é um lugar por onde começar. Se Kronski e meu eu mais novo não aparece­rem, vamos para o quartel-general dos Extincionistas.

Holly franziu a testa.

— Hum. Esse plano não está à altura do seu padrão habi­tual e nosso tempo está acabando. Não temos uns dois dias para ficar brincando. O tempo é o inimigo.

— É — concordou Artemis. — O tempo é a questão crucial de toda esta desventura.

Holly pegou um nutribloco na geladeira minúscula e re­tornou aos controles.

Artemis ficou observando as costas da amiga, tentando ler sua linguagem corporal. Ombros curvados, arredondados, e braços cruzados à frente do corpo. Ela estava se isolando, hos­til à comunicação. Ele precisava de um golpe de mestre para voltar às boas com ela.

Encostou o nariz na janelinha, olhando o deserto marro­quino passar a toda velocidade em riscas de ocre e ouro. Devia haver algo que Holly quisesse. Algo que ela se arrependesse de não ter feito e que ele poderia facilitar de algum modo.

Depois de um momento de concentração, descobriu. Ele não tinha visto um pacote de holografia de campo num dos corrimões de depósito? E não havia alguém de quem Holly nunca havia se despedido?

 

O comandante Julius Raiz estava enfiado em papelada até a ponta de seu charuto de fungo. Não que fosse papelada de verdade. Nenhum documento da LEP era escrito em papel de verdade pelo tempo equivalente à idade de um centauro. Tudo era salvo num cristal e mantido num núcleo central em algum ponto do espa­ço de informática, e aparentemente agora o pessoal de Potrus estava tentando cultivar plantas de memória, o que significava que algum dia as informações poderiam ser armazenadas em plantas ou montes de esterco, ou mesmo no charuto que se pro­jetava da boca de Raiz. O comandante não entendia nada disso, nem queria entender. Que Potrus ficasse com os mundos de nanotecnologia e cibernética. Ele ficaria com o mundo dos pro­blemas cotidianos da LEP. E eram muitos.

Primeiro, seu velho inimigo Palha Escavator estava crian­do problemas acima do chão. Era quase como se o anão o pro­vocasse. Sua última farra de crimes envolvia invadir estações de transporte e depois vender o roubo a criaturas exiladas que viviam entre os humanos. Em cada local deixava uma bela pi­râmide de terra reciclada no meio do chão, como um cartão de visita.

E havia a porcaria dos sapos xingadores. Alguns feiticeiros cursando faculdade haviam dado o poder da fala ao comum sapo inchado de túnel. Naturalmente, sendo alunos de facul­dade, só tinham dado aos sapos o poder da linguagem obsce­na. Agora, graças a um efeito colateral imprevisto, ou seja, à fertilidade, havia uma verdadeira epidemia desses sapos circu­lando pela cidade do Porto, ofendendo cada cidadão em quem esbarravam.

As gangues de goblins estavam crescendo em força e audá­cia. Na semana anterior mesmo, haviam disparado bolas de fogo contra uma radiopatrulha que fazia ronda no bairro goblin.

Julius Raiz se recostou na cadeira giratória, permitindo que a fumaça do charuto formasse uma nuvem ao redor da cabeça. Havia dias em que tinha vontade de pendurar o coldre de uma vez por todas. Dias em que parecia não haver nada que o man­tivesse no cargo.

O anel de holograma zumbiu no teto como uma bola de espelhos de discoteca. Uma ligação. Raiz verificou o identifi­cador de chamadas.

A capitã Holly Short.

Raiz se permitiu um riso raro.

E havia dias em que sabia exatamente o que tinha de fazer.

Preciso preparar as melhores pessoas para ocupar meu cargo quando eu tiver ido embora. Pessoas como o capitão Kelp, Potrus — que os deuses me ajudem — e a capitã Holly Short.

Raiz havia escolhido Holly pessoalmente. Promoveu-a a capitã, a primeira fêmea a ocupar o posto na história da LEP. E ela lhe dera orgulho. Até agora cada missão fora bem-sucedida, sem um único apagamento mental ou uma parada temporal.

Ela é perfeita, Julius, disse a voz interior de Raiz. Inteligen­te, intrépida, compassiva, Holly Short será uma capitã esplêndi­da. Quem sabe, talvez até uma grande comandante.

Raiz tirou o sorriso do rosto. A capitã Short não precisava vê-lo sorrindo orgulhoso, como um avô coruja. Precisava de disciplina, ordem e uma dose saudável de respeito e medo de seu oficial comandante.

Bateu no ícone de aceitação na tela do computador e o anel de holograma soltou uma via-láctea de estrelas de seus proje­tores, fazendo um redemoinho e se solidificando na forma tremeluzente da capitã Holly Short usando um terno huma­no. Um disfarce, obviamente. Ele podia vê-la exatamente como Holly estava, mas ela não podia vê-lo até que ele pisasse na pegada do círculo de holografia, e Julius Raiz fez isso.

— Capitã Short, está tudo bem em Hamburgo, não é? Holly pareceu sem fala por um momento, a boca aberta e a mão estendida como se quisesse tocar o comandante. Em seu tempo ele estava morto, assassinado por Opala Koboi, mas ali e agora Julius Raiz se encontrava tão vivo quanto ela recordava. Raiz pigarreou.

— Está tudo bem, capitã?

— Sim. Claro, comandante. Tudo bem, por enquanto. Se bem que pode ser uma boa idéia deixar o Resgate a postos.

Raiz descartou essa idéia com um aceno do charuto.

— Bobagem. Até agora sua ficha fala por si. Você nunca precisou de apoio antes.

Holly sorriu.

— Sempre há uma primeira vez.

Raiz piscou, algo na leitura gasosa do anel de holografia havia atraído seu olhar.

— Você está ligando da África? O que está fazendo na África?

Holly bateu com a palma da mão no painel de instrumentos.

— Não, estou em Hamburgo, no esconderijo de obser­vação. Máquina idiota. Os projetores também estão com de­feito. No monitor eu pareço uns dez anos mais velha. Vou estrangular Potrus quando voltar.

Raiz não pôde deixar de sorrir disso, mas escondeu o riso rapidamente.

— Por que usou o holograma, Short? O que há de errado com um bom e velho comunicador? Sabe como é caro trans­mitir som e imagem através da crosta da terra?

A imagem de Holly estremeceu e olhou para os pés, de­pois levantou os olhos de novo.

— Eu... eu só queria agradecer, Jul... comandante. Raiz ficou surpreso. Agradecer. Pelos meses de tarefas im­possíveis e turnos dobrados?

— Agradecer, capitã? Isso é muito irregular. Não sei se es­tou fazendo meu trabalho direito, se os subordinados agradecem.

— Está sim — disse bruscamente a imagem de Holly. — O senhor faz um bom trabalho, mais do que bom. Ninguém apreciava... aprecia o senhor o bastante. Mas agora eu aprecio. Sei o que o senhor estava... está tentando fazer por mim. Por­tanto, muito obrigada, e não vou deixá-lo na mão.

Raiz ficou surpreso ao descobrir que estava realmente toca­do. Não era todo dia que enfrentava uma emoção tão genuína.

Olhe só, pensou. Estou quase abrindo o berreiro para um holograma. Potrus adoraria isso.

— Eu... é... aceito seu agradecimento e acredito que seja sincero. Mas não espero uma dispendiosa chamada por holo­grama em cada missão, só esta vez já basta.

— Entendido, comandante.

— E tenha cuidado em Hamburgo. Certifique-se de ve­rificar seu equipamento.

— Farei isso, comandante — disse Holly, e Raiz poderia jurar que ela revirou os olhos, mas poderia ser outro defeito no programa.

— Mais alguma coisa, capitã?

Holly estendeu a mão; ela tremeluziu e oscilou ligeiramente com o movimento. Raiz não sabia o que deveria fazer. A eti­queta relativa aos hologramas era muito clara: abraços e aper­tos de mão não eram encorajados. Afinal de contas, quem quer abraçar uma imagem de baixa resolução?

Mas a mão continuava ali.

— Deseje-me sorte, comandante. De um oficial para outro.

Raiz grunhiu. Com qualquer outro subordinado, ele sus­peitaria de puxa-saquismo, mas a capitã Short sempre o havia impressionado pela sinceridade.

Estendeu a mão e sentiu um leve pinicar quando tocou os dedos virtuais de Holly.

— Boa sorte, capitã — disse carrancudo. — E tente di­minuir esse jeito ousado demais. Algum dia não estarei por aqui para ajudá-la.

— Farei isso, comandante. Adeus — disse Holly, e sumiu, mas nos segundos antes de sua imagem holográfica desapare­cer, Julius Raiz pôde jurar que viu turvas lágrimas holográficas brilhando nas bochechas dela.

Máquina idiota, pensou. Vou exigir que Potrus recalibre todas.

Holly saiu da cabine de holografia, que parecia um velho chu­veiro com cortina de borracha. Com o toque de um botão, a cabine se desmontou e se lacrou na pasta portátil.

Havia lágrimas em seus olhos enquanto ela afivelava o cin­to de segurança e desligava o piloto automático.

Artemis se remexeu ligeiramente no banco do co-piloto.

— Então, estamos quites? Holly assentiu.

— Sim. Estamos quites. Mas seus dias de beijar uma elfo acabaram.

— Sei.

— Não é um desafio, Artemis. O que passou, passou.

— Eu sei — disse Artemis em voz neutra.

Ficaram em silêncio por um tempo, olhando as montanhas baixas acelerando pelo deserto na direção deles, depois Holly se esticou e deu um soco de leve no ombro de Artemis.

— Obrigada, Arty.

— De nada. Tudo que fiz foi ter uma idéia.

Palha emergiu ruidosamente do banheiro, coçando-se e grunhindo.

— Uuuu, assim está melhor. Graças aos deuses pelos am­bientes à prova de som, não é?

Holly se encolheu.

— Feche a porta e deixe o exaustor fazer o serviço. Palha bateu a porta com o calcanhar.

— Eu estava pensando ali dentro. Vocês sabem, ruuu-minando.

— Acho que não quero ouvir. Mesmo assim, Palha foi em frente.

— Aquele pequeno lêmure. O não-sei-das-quantas sedo­so. Sabem quem ele me lembra, com aquele cabelo à escovinha?

Todos haviam pensado nisso.

— O comandante Julius Raiz — respondeu Holly, sorrindo.

— É. Um comandante Raiz em miniatura.

— Julius Júnior — disse Artemis.

Passaram ao pé das montanhas Atlas e Fez revelou-se como o coração da terra, com suas artérias entupidas de veículos.

— Jayjay — disse Holly. — Esse é o nome dele. Agora vamos pegá-lo.

Acionou o escudo do lançador e iniciou a descida para Fez.

 

Holly inflou um casulo-camaleão e se grudou às sombras embaixo do balcão de pe­dra que ficava acima do souq de couros de Fez. Quando a barra estava limpa, ela e Artemis su­biram pelo minúsculo portal de acesso, espremendo-se nos assentos inflados. Os joelhos de Artemis batiam no queixo, fazendo estalar os dentes.

— Como eu disse, você está ficando alto — disse Holly. Artemis soprou uma mecha preta de cima dos olhos.

— E cabeludo.

— Seu cabelo foi a única coisa que impediu o pequeno Arty de se reconhecer, portanto fique feliz.

Holly havia apanhado a bolsa do casulo-camaleão no armá­rio de Tara, junto com uma pistola Neutrino e disfarces adequa­dos. Artemis usava uma camisa marrom que ia até os joelhos e sandálias de tiras, enquanto as características especiais de Holly eram escondidas por uma echarpe na cabeça e uma abaya.

O casulo-camaleão era um velho modelo portátil, basica­mente uma bola com camada externa transparente inflada por um tanque de gás cromo-variável que podia mudar de cor para imitar o que havia ao fundo. Era o máximo de tecnologia que ele possuía. Nada de equipamento direcional, nem armas a bor­do, só uma tela de toque e dois assentos apertados.

— Não tem filtros de ar? — perguntou Artemis.

— Infelizmente, não — respondeu Holly, puxando a echarpe sobre o nariz. — Que cheiro é esse?

— Cocô de pombo diluído — disse Artemis. — Tremen­damente ácido e, claro, em grande quantidade. Os curtidores usam para amaciar o couro antes de tingir.

O souq de couros espalhado abaixo deles era uma visão es­petacular. Enormes tinas de pedra eram arrumadas no pátio em padrão de favo, cada uma cheia de amaciantes ácidos ou tinturas vegetais como açafrão e henna. Os trabalhadores fica­vam junto às tinas de tingimento, encharcando totalmente cada pele, inclusive a deles, e, quando a pele chegava à cor desejada, era estendida num terraço próximo, para secar.

— Dizem que Henry Ford inventou a linha de produção — disse Artemis. — Mas este lugar existe há seiscentos anos.

O souq era cercado por muros altos pintados de branco, mas manchados de tinta e poeira. Manchas ocres se espalha­vam no tijolo antigo como o mapa desbotado de algum arqui­pélago exótico.

— Por que Kronski escolheu o souq? — perguntou Holly. — O fedor é quase insuportável, e digo isso como amiga de Palha Escavator.

— Desde que nasceu, Kronski sofre de anosmia — expli­cou Artemis. — Ele não tem o sentido do olfato. Acha diver­tido realizar negócios aqui, já que a pessoa com quem ele se encontrar será praticamente agredida pelo cheiro das tinas de ácido. A concentração se despedaça e a dele não é afetada.

— Esperto.

— Malignamente. A área é uma atração turística, muitas pessoas passam, mas nenhuma fica por muito tempo.

— Muitos espectadores, mas não muitas testemunhas.

— Afora os moradores, e Kronski sem dúvida tem deze­nas deles em sua folha de pagamento, e eles verão o que ele quiser que vejam. — Artemis se inclinou adiante, com o nariz roçando o portal de plástico. — E ali está nosso bandido Extincionista. Bem na hora.

O souq abaixo estava apinhado de pessoas que trabalha­vam com couro e mercadores, há muito imunes ao cheiro for­te das tinas. Grupos de turistas corajosos passavam, decididos a capturar a cena nas máquinas fotográficas, mas sem querer sofrer com o calor e o fedor por mais tempo do que o necessá­rio para alguns cliques. E no meio de todos, sereno e sorriden­te, caminhava o dr. Damon Kronski, vestindo uma absurda roupa de camuflagem feita sob medida, até mesmo com um quepe de general.

Holly ficou enojada com a visão do sujeito e o modo como ele estava gostando do ambiente ao redor.

— Olhe só. Ele adora isso.

Artemis não comentou. Havia vendido o lêmure e avaliava que esse era um crime pior do que o de Kronski. Em vez disso, examinou o souq em busca de uma versão menor de si mesmo.

— Lá estou eu. No canto oeste.

Holly virou a cabeça para localizar o jovem Artemis. Ele estava quase escondido por uma enorme urna de ladrilhos, cheia até a borda com tinta verde-hortelã. O sol poente era um dis­co prateado na superfície líquida.

Artemis sorriu. Lembro-me de ter ficado naquele lugar exa­to, para que a claridade distraísse Kronski. É a única tina tocada pelo sol nesta hora. Uma pequena vingança pelo cheiro. Infantil, talvez, mas afinal de contas eu era criança.

— Parece que sua memória é exata com relação a esta oca­sião — disse Holly.

Artemis não pôde evitar um alívio. Suas lembranças até agora haviam sido irregulares.

De repente se empertigou. Irregulares. Como podia não ter visto? Esses desacertos de memória só podiam significar uma coisa.

Não havia tempo para seguir essa linha de raciocínio ago­ra. A troca ia acontecer.

Artemis bateu o indicador na tela de toque, abrindo uma janela, fazendo a imagem se aproximar de um pedestal de pe­dra no centro do souq. O topo da pedra era cheio de reen­trâncias e curvo depois de séculos de peles empilhadas. Henna molhada brilhava na superfície e escorria pelas laterais, como sangue de um ferimento na cabeça.

— Ali — disse Artemis. — É onde nós combinamos fa­zer a troca. Kronski põe a mala na pedra. Eu entrego a coisa.

— Você entrega o lêmure. É um macho, o nome dele é Jayjay — disse Holly, tornando o fato real.

— Eu entrego o Jayjay. Então nos separamos, é simples. Não houve complicações.

— Talvez devêssemos esperar até a troca, não?

— Não. O que acontece depois é uma incógnita. Pelo menos agora temos algum conhecimento antecipado.

Holly examinou a cena com olhar de veterana.

— Onde está o Butler?

Artemis tocou outro ponto da tela, que ondulou ligeira­mente, flexionou-se e ampliou o que ele havia escolhido.

— Naquela janela. Vigiando tudo.

A janela era um alto retângulo na parede branca descascada, pintada de preto pela sombra e pela profundidade.

— Você acha que está invisível, não acha, amigo? — sus­surrou Holly, depois selecionou a janela com o polegar e ativou um filtro de visão noturna. No brilho súbito de calor corporal, uma figura corpulenta surgiu na janela, imóvel como pedra, a não ser pelo coração batendo.

— Lembro-me de que Butler quis fazer a troca, mas eu o convenci do contrário. Ele está lá em cima agora, fumegando.

— Butler fumegando não é uma coisa que eu queira ver de perto.

Artemis pôs a mão no ombro dela.

— Então não chegue perto demais. Só precisamos de uma distração. Eu gostaria que houvesse um macacão da LEP na­quele armário. Se você estivesse invisível para homens e má­quinas, eu me sentiria mais confortável.

Holly torceu o queixo, invocando sua magia, e partes dela desapareceram até que não restasse nada no banco além de uma névoa.

— Não se preocupe, Artemis — disse ela, com a voz soan­do quase robótica por causa da vibração. — Já estive em mis­sões antes. Você não é o único inteligente no souq.

Artemis não se animou nem um pouco com isso.

— Mais motivo ainda para ter cuidado. Eu gostaria que houvesse um par de asas no terminal. Que tipo de armário não tem asas?

— Sorte é sorte — disse Holly, com a voz flutuando atra­vés do lacre expansível do portal. — A gente se vira com o que temos.

— A gente se vira com o que temos — repetiu Artemis, acompanhando com o filtro infravermelho o progresso de Holly escada abaixo e através do pátio. — Péssima concordância.

O Artemis de dez anos sentia-se como se tivesse sido mergu­lhado num pote de mel e deixado para assar na superfície do sol. Suas roupas haviam se moldado à pele e um tornado de moscas girava ao redor de sua cabeça. A garganta estava seca como lixa, e ele podia ouvir a respiração e a pulsação como se esti­vesse usando capacete.

E o fedor. O fedor era um vento quente penetrando feroz em seu nariz e nos olhos.

Tenho de perseverar, pensou com uma determinação que não era característica de sua pouca idade. Papai precisa de mim. Além disso, recuso-me a ser intimidado por esse homem odioso.

O souq era um confuso caleidoscópio de pernas e braços balançando, tinta espirrando e sombras da tarde. E, do ponto de vista de Artemis, as coisas eram ainda mais confusas. Coto­velos passavam rapidamente, urnas ressoavam como sinos e o ar era despedaçado por jorros de francês e árabe sobre sua cabeça.

Permitiu-se um momento de meditação. Fechou os olhos, respirando suavemente pela boca.

Muito bem, pensou. Aos negócios, dr. Kronski.

Por sorte o doutor era enorme e, enquanto Artemis abria caminho pelo souq, viu rapidamente Kronski na diagonal oposta.

Olhe o metido a besta. Uma roupa de camuflagem! Será que ele realmente acha que é um general em alguma guerra contra o reino animal?

O próprio Artemis atraía olhares surpresos dos trabalha­dores. Turistas não eram incomuns no souq, mas meninos de dez anos sozinhos, com ternos formais, carregando gaiolas de macacos, eram raros em qualquer parte do mundo.

É uma coisa simples. Vá até o centro e pouse a gaiola.

Mas nem mesmo andar era simples naquele souq. Os tra­balhadores se movimentavam pelas faixas entre as tinas, car­regando dezenas de peles encharcadas. Tinta voava pelo ar, manchando as roupas dos turistas e dos outros trabalhado­res. Artemis foi obrigado a andar cuidadosamente e abrir ca­minho várias vezes antes de chegar por fim à pequena clareira no centro.

Kronski chegara lá antes dele, empoleirado no banco mi­núsculo que se desdobrava do topo de sua bengala de caça, sol­tando baforadas de um charuto fino.

— Parece que estou perdendo metade da experiência — disse como se estivessem simplesmente continuando uma con­versa. — A melhor parte do charuto é o aroma, e eu não sinto cheiro de nada.

Artemis estava silenciosamente enfurecido. O sujeito pa­recia inteiramente à vontade, praticamente sem uma gota de suor na testa. Obrigou-se a sorrir.

— Está com o dinheiro, Damon? — pelo menos podia irritar o bom doutor deixando de citar seu título.

Kronski não pareceu chateado.

— Aqui mesmo, Ah-temis — disse batendo no bolso do peito. — Cem mil é uma quantia tão risível que consegui en­fiar todas as notas no bolso.

Artemis não pôde resistir a uma provocação:

— E que roupa linda!

Os óculos violeta de Kronski relampejaram aos últimos raios do sol.

— Diferentemente da sua, que parece estar perdendo o caráter neste calor.

Era verdade; Artemis sentia que a única coisa que o manti­nha de pé era o suor na coluna. Estava com fome, cansado e irritadiço.

Foco. O fim justifica os sacrifícios.

— Bom, obviamente tenho o lêmure, então, por favor, podemos prosseguir?

Os dedos de Kronski estremeceram e Artemis pôde adivi­nhar o que ele estava pensando.

Pegue o lêmure do garoto. Simplesmente agarre. Não precisa abrir mão dos cem mil.

Artemis decidiu cortar pela raiz esse tipo de pensamento.

— Para o caso de você estar com alguma idéia boba de renegar nosso acordo, deixe-me dizer uma palavra: Butler.

Uma palavra bastou. Kronski conhecia a reputação de Butler, mas não seu paradeiro. Seus dedos estremeceram de novo e depois ficaram imóveis.

— Muito bem, Ah-temis. Vamos terminar com esse ne­gócio. Tenho certeza de que você admite que preciso inspecio­nar a mercadoria.

— Claro. E tenho certeza de que você admite que eu pre­cisarei ver uma amostra de seu dinheiro.

— Ora, claro. — Kronski enfiou a mão num bolso e reti­rou um grosso envelope cheio de notas roxas de quinhentos euros. Escolheu uma descuidadamente e entregou a Artemis.

— Vai cheirar, é, Ah-temis?

— Não exatamente. — Artemis abriu seu celular e esco­lheu no menu ampliado um scanner de UV e magnético, para cédulas. Passou a nota diante da luz roxa, verificando a marca d’água e a tira de metal.

Kronski pôs a mão no coração.

— Estou ferido, garoto, muito magoado, por você achar que eu iria enganá-lo. Ora, custaria mais de cem mil euros fal­sificar cem mil euros. Um bom jogo de placas de impressão custa o dobro disso.

Artemis fechou o telefone.

— Não sou uma pessoa que confia, Damon. Você vai apren­der isso a meu respeito. — Em seguida pôs a gaiola no pedes­tal de pedra. — Agora é a sua vez.

Nesse momento toda a atitude de Kronski mudou. Sua natureza descuidada sumiu, substituída por um jeito tonto. Sorriu e fez “tsk tsk”, caminhando na ponta dos pés até a gaio­la como uma criança indo para a árvore de Natal.

Talvez uma criança normal, pensou Artemis azedamente. A manhã de Natal não tem surpresas para mim, graças ao raio X do meu celular.

Obviamente a perspectiva de extinguir a fagulha de vida de outra espécie empolgava Kronski tremendamente. Ele se inclinou sobre a gaiola parecendo guloso, franzindo os olhos para espiar por entre os buracos para a respiração.

— Sim, sim. Tudo parece em ordem. Mas precisarei olhar mais de perto.

— Cem mil euros compram toda a proximidade de que você precisa.

Kronski jogou o envelope para Artemis.

— Ah, pegue, garoto chato. Você realmente me irrita, Ah-temis. Um garoto como você não pode ter muitos amigos.

— Tenho um amigo — retrucou Artemis, guardando o dinheiro. — E ele é maior do que você.

Kronski abriu a caixa apenas o bastante para pegar o lêmure pelo cangote. Levantou o animal com se fosse um troféu, veri­ficando-o de todos os ângulos.

Artemis recuou um passo, lançando olhares cheios de sus­peita pelo souq ao redor.

Talvez nada vá acontecer, pensou. Talvez aquelas criaturas não tenham tantos recursos como pensei. Talvez eu deva me con­tentar com os cem mil por enquanto.

E então as criaturas cheias de recursos chegaram.

Holly não tinha asas para voar, mas isso não significava que não pudesse causar tumulto. Não havia armas além da única Neutrino no armário da LEP, mas havia equipamentos de mi­neração, inclusive algumas dezenas de botões explosivos, que agora ela estava derramando nas tinas de tinta onde não havia pessoas, e uma quantidade dupla embaixo da janela de Butler.

Mesmo estando invisível, tomava cuidado extra com os mo­vimentos, já que se escudar sem o macacão era magia louca. Qualquer gesto ou colisão súbita faria seu corpo soltar fogos de artifício mágicos, o que pareceria estranho, saindo do próprio ar.

Assim, devia se mover com muita, muita suavidade.

Largou o último botão, sentindo-se totalmente vulnerável apesar da invisibilidade.

Sinto falta das orientações de Potrus, pensou. É bom ter um olho que tudo vê.

Como se pudesse ler sua mente, a voz de Artemis veio pelo minitransmissor em seu ouvido. Outro presente do armário.

— Kronski está abrindo a gaiola. Prepare-se para explodir os botões.

— Tudo pronto. Estou no canto noroeste, para o caso de Jayjay tentar fugir.

— Estou vendo você, pelo filtro. Detone quando quiser.

Holly subiu numa tina vazia e fixou o olhar em Kronski. Agora ele estava segurando o lêmure, afastando-o do corpo. Perfeito.

Passou um dedo pela pequena tira na mão, até que todas as luzes minúsculas ficaram verdes. Uma mensagem de uma só palavra correu pela tira.

Detonar?

Sem dúvida, pensou Holly, e apertou o sim.

Uma tina explodiu, lançando uma coluna de tinta verme­lha a 6 metros no ar. Várias outras explodiram em seguida, com sons ocos como morteiros, lançando o conteúdo no céu do Marrocos.

Uma sinfonia de cor, pensou Artemis em seu poleiro. A vi­são de Butler está totalmente obscurecida.

Embaixo, no souq, o pandemônio foi instantâneo. Os tra­balhadores rugiam e berravam, soltando aaahs como especta­dores num show de fogos de artifício à medida que cada nova fonte colorida jorrava para o alto. Alguns perceberam que suas peles preciosas estavam sendo cobertas pelas cores erradas e começaram a pegá-las febrilmente, junto com as ferramentas. Em segundos chovia tinta, e os espaços entre as tinas estavam apinhados de trabalhadores frenéticos e turistas assustados.

Vigie o animal. Eles querem o animal.

Kronski guinchava a cada explosão, equilibrando-se numa perna só, como um bailarino apavorado.

Isso não tem preço, pensou Artemis, e gravou alguns segun­dos de vídeo pelo telefone. Outra coisa iria acontecer; tinha certeza.

E estava certo. Artemis teve uma vaga impressão de que a terra explodiu na frente dos pés de Kronski. Houve um cogu­melo de terra brotando, algo se moveu na cortina de terra e então o lêmure sumiu.

O dr. Kronski foi deixado segurando uma bola de gosma, que brilhava ligeiramente nas sombras da tarde.

As últimas gotas de tinta caíram, e lentamente o caos foi diminuindo. Os trabalhadores balançaram a cabeça, espanta­dos, depois começaram a xingar a falta de sorte. Um dia de lucro se fora.

Kronski guinchou por vários segundos depois de a poeira ter se dissipado, sustentando a nota como um cantor de ópera.

Artemis deu um riso maligno.

— A coisa não acaba até que a dona gorda canta, então acho que acabou.

O doutor foi arrancado da perplexidade pela voz do garo­to. Recompôs-se, apoiando os dois pés no chão e respirando fundo enquanto as manchas vermelhas iam sumindo das bo­chechas. Só quando tentou limpar a gosma da mão ele perce­beu que não estava mais segurando o lêmure.

Enquanto olhava incrédulo para os dedos, Kronski sentiu a coisa que cobria seus dedos endurecer, formando uma luva sólida e luminosa.

— O que você fez, Artemis?

Ah, pensou Artemis. De repente você sabe pronunciar meu nome.

— Não fiz nada, Damon. Entreguei o lêmure; você o per­deu. O problema é todo seu agora.

Kronski estava lívido. Tirou os óculos, revelando os olhos com bordas vermelhas.

— Você me enganou, Fowl. De algum modo você é par­ticipante disso. Não posso fazer uma conferência Extincionista sem uma abertura forte. A extinção daquele lêmure era meu grande olá, pessoal.

O telefone de Artemis tocou e ele olhou para a tela. Um texto breve de Butler. Missão cumprida.

Enfiou o celular no bolso e deu um riso largo para Kronski.

— Uma abertura forte. Talvez eu possa ajudá-lo com isso. Por um preço, naturalmente.

O Artemis mais velho estava sentado no casulo-camaleão, olhando os acontecimentos que se desenrolavam abaixo. Tudo seguia exatamente como o plano, com exceção das tinas de tinta, que na verdade excederam a expectativa.

A visão de Butler está totalmente bloqueada, pensou. E de­pois se imobilizou subitamente. Claro! Eu não teria posto Butler naquela janela. Teria posto um engodo ali, já que é um dos cinco lugares lógicos para um atirador de elite. Na verdade teria posto um engodo nos cinco locais e depois faria Butler se esconder em algum lugar no piso do souq, pronto para intervir se aqueles in­trometidos seqüestradores de lêmure aparecessem de novo, o que muito bem poderia acontecer, já que parecem saber de cada passo que dou. Eu, Artemis Fowl, fui enganado por mim mesmo.

De repente um pensamento aterrorizante o acometeu.

— Holly! — gritou ao microfone adesivo grudado no polegar. — Abortar! Abortar!

— O que... — foi a resposta estalada. — O barulho... acho... danificado.

Então alguns segundos de ruído branco, estalos agudos e silêncio.

Era tarde demais. Artemis só pôde encostar o rosto na tela e olhar, impotente, enquanto um dos trabalhadores tirava o cobertor de cima do ombro e se empertigava, revelando-se muito mais alto do que parecera anteriormente. Claro, era Butler, com um scanner de infravermelho estendido à frente.

Butler. Não faça isso. Sei que você nunca se sentiu à vontade com minhas tramas.

Em três passos rápidos, o guarda-costas foi até a tina onde Holly estava e enrolou a elfo no cobertor. Ela lutou, mas não tinha chance contra a força formidável de Butler. Em dez se­gundos estava amarrada e posta sobre o ombro do guarda-cos­tas. Mais cinco segundos e Butler havia saído pelo portão e se perdia na multidão da medina.

Tudo aconteceu tão depressa que o queixo de Artemis não teve tempo de cair. Num momento ele estava no controle, des­frutando da presunção que vem do fato de ser a pessoa mais esperta da área. No outro ia caindo de volta na real, tendo sa­crificado sua rainha por uma torre, percebendo que estava dian­te de alguém tão inteligente quanto ele, só que duas vezes mais implacável.

Sentiu a palidez do desespero se esgueirar pela testa, dei­xando arrepios na esteira.

Eles estão com Holly. Os Extincionistas vão colocá-la em jul­gamento, acusada de respirar ar humano.

Um pensamento lhe ocorreu. Todo réu tem direito a um bom advogado.

 

O Artemis mais novo concordou em acompanhar o dr. Kronski até seu quartel-ge­neral cercado e com portões perto da medina. O Land Rover de Kronski era consideravelmen­te mais luxuoso do que o modelo alugado por Artemis, com poderoso ar-condicionado, geladeira e estofa­mento de pele de tigre.

Artemis passou um dedo através dos pelos e não ficou sur­preso ao descobrir que eram de verdade.

— Belos bancos — comentou secamente. Kronski não respondeu. Não havia falado muito desde que perdera o lêmure, a não ser para murmurar sozinho, xingando contra a injustiça daquilo tudo. Não pareceu incomodá-lo o fato de sua roupa estar coberta de tinta, que se transferia para o caro estofamento.

Mesmo demorando apenas cinco minutos para chegar ao quartel-general, Artemis ficou satisfeito com o intervalo para pensar. Quando o Land Rover foi liberado para passar pelos portões reforçados, ele havia desamassado qualquer vinco em sua estratégia e usado os dois minutos de sobra para pensar na trama de um dos romances que ocasionalmente escrevia sob o pseudônimo de Violet Tsirblou.

Um guarda com corpo equivalente ao de Butler fez com que passassem sob uma passarela em arco no muro de 4 metros de altura. Artemis manteve os olhos abertos durante a entrada, notando os guardas armados patrulhando a área de 40 hectares, a posição da casinha do gerador e os alojamentos do pessoal.

Informação é poder.

Os chalés residenciais eram construídos no estilo das casas de praia da Califórnia, com tetos planos e muito vidro, ani­nhados ao redor de uma praia artificial, até mesmo com má­quina de ondas e salva-vidas. Havia um grande centro de convenções no meio, com um pináculo envolto em andaimes se projetando do teto. Dois homens estavam empoleirados no andaime, dando os toques finais num símbolo feito em latão na ponta do pináculo. E ainda que a maior parte do símbolo estivesse enrolada em tecido, Artemis pôde ver o suficiente para saber o que era. Um braço humano com o mundo no punho. Símbolo dos Extincionistas.

O motorista de Kronski estacionou na frente do maior chalé e o doutor entrou na frente, sem dizer uma palavra. Balan­çou a mão na direção de um sofá coberto de pele e desapareceu em seu quarto.

Artemis estava querendo uma chuveirada e uma troca de roupas, mas aparentemente Kronski estava chateado demais para qualquer cortesia, por isso Artemis foi obrigado a puxar o cola­rinho de sua camisa que coçava e esperar a volta do anfitrião.

O salão de recepção de Kronski era um espaço macabro. Uma parede estava coberta de certificados de extinção, inclu­sive com fotos dos infelizes animais e as datas em que os Extincionistas haviam conseguido assassinar o último mem­bro da espécie.

Artemis examinou a parede de fotos. Ali estava um leão-do-mar japonês e um golfinho do rio Yangtsé. Uma raposa voadora de Guam e um tigre de Bali.

Todos desaparecidos para sempre.

O único modo de ver essas criaturas seria, de algum modo, criar ímpeto suficiente para viajar mais rápido do que a velocida­de da luz e voltar no tempo.

Havia mais horrores no salão, todos rotulados com objeti­vos educacionais. O sofá era estofado com peles de lobos das ilhas Falkland. A base de um abajur era feita com o crânio de um rinoceronte negro ocidental.

Artemis lutou para manter a compostura.

Preciso sair daqui o mais depressa possível.

Mas a voz fraca em sua consciência o lembrou de que sair não significaria que esse lugar não existiria mais, e vender a cria­tura estranha a Kronski somente atrairia mais pessoas para ali.

Artemis conjurou uma imagem do pai na mente.

Tudo que for necessário. Tudo que eu tiver de fazer.

Kronski entrou no salão, de banho tomado e usando um kaftan largo. Seus olhos estavam vermelhos, como se tivesse chorado.

— Sente-se, Ah-temis — disse, indicando o sofá com um mata-moscas forrado de pele.

Artemis olhou para o assento.

— Não, obrigado. Acho que vou ficar de pé. Kronski se deixou afundar numa poltrona de escritório.

— Ah, entendi. Sofá de adulto. É difícil ser levado a sério quando seus pés não tocam o chão.

O doutor coçou os olhos com dedos gorduchos, depois colocou os óculos característicos.

— Você não faz idéia de como tem sido para mim, Ah-temis. Caçado de país em país por causa das minhas crenças, como se fosse um criminoso comum. E agora que finalmente encontrei um local para chamar de lar, agora que convenci o comitê a se reunir aqui, perco meu animal para o julgamento. Aquele lêmure era a peça central de toda a conferência.

A voz de Kronski estava firme e ele parecia ter se recupera­do desde o colapso no souq de couros.

— Os membros do comitê dos Extincionistas são homens muito poderosos, Ah-temis. Acostumados ao conforto e à con­veniência. O Marrocos não é nem um pouco conveniente. Tive de construir este quartel-general para atraí-los até aqui, e pro­meter uma grande abertura para a conferência. E agora tudo que tenho para mostrar é a mão brilhante.

Kronski brandiu a mão, que estava quase totalmente livre da gosma, mas parecia luzir fracamente.

— Nem tudo está perdido, doutor — disse Artemis, tranqulizando-o. — Eu posso lhe dar algo que irá rejuvenes­cer sua sociedade e torná-la relevante em nível global.

O franzido na testa de Kronski era cético, mas ele se incli­nou à frente, os braços ligeiramente estendidos.

Seu rosto diz não, pensou Artemis. Mas a linguagem corpo­ral diz sim.

— O que você está vendendo, Ah-temis?

Artemis abriu a galeria de imagens de seu telefone e selecio­nou uma foto.

— Isto — disse, entregando-a a Kronski.

O doutor examinou a foto e o ceticismo em seus olhos fi­cou mais pronunciado.

— O que é isso? Manipulação fotográfica?

— Não. É genuína. Esta criatura é real.

— Ora, Ah-temis. O que temos aqui é látex e implantes de ossos. Nada mais.

Artemis assentiu.

— É uma reação justa. Então o senhor não paga enquan­to não estiver satisfeito.

— Eu já paguei.

— Pagou por um lêmure — contrapôs Artemis. — Esta é uma espécie não descoberta. Possivelmente uma ameaça à humanidade. É disso que tratam os Extincionistas. Imagine quantos integrantes vão clamar para fazer doações à sua igreja quando você revelar esta ameaça.

Kronski assentiu.

— Você apresentou uma boa argumentação, para um ga­roto de dez anos. Quanto eu pago?

— Cinco milhões de euros. Não negociáveis.

— Em dinheiro vivo?

— Diamantes. Kronski fez beicinho.

— Não vou pagar uma única pedra até verificar a autenti­cidade do seu produto.

— É justo.

— Isso é tremendamente conciliador da sua parte, Fowl. Como sabe que não vou traí-lo? Afinal de contas, tenho quase certeza de que você teve participação no que quer que aconte­ceu no souq. No lugar de onde eu vim, a vingança é jogo justo.

— Você pode me trair, Damon. Mas não vai trair o Butler. Você não é idiota.

Kronski grunhiu, impressionado.

— Tenho de admitir, garoto. Você pensou em todos os ân­gulos. E os apresentou muito bem. — Ele olhou distraidamente para a mão luzidia. — Já pensou em como é estranho, Ah-temis, um garoto como você terminar cara a cara com um bandido velho como eu?

— Não entendi a pergunta — disse Artemis, sincero. Kronski bateu palmas e gargalhou.

— Fico deliciado, Ah-temis, por um garoto como você existir. Isso me faz ganhar o dia. — O riso parou subitamente, como se cortado por uma guilhotina. — Então, quando pos­so inspecionar a criatura?

— Imediatamente.

— Bom. Mande uma mensagem para o seu homem vir. Digamos que ele demore 30 minutos e mais 10 para passar pela segurança. Podemos recebê-lo no grande pavilhão em uma hora.

— Eu disse imediatamente — respondeu Artemis, esta­lando os dedos. Butler saiu de trás de uma cortina, com uma bolsa de Kevlar sob um dos braços.

Kronski guinchou brevemente, depois revirou os olhos, frustrado.

— Não posso controlar isso... Desde o coala em Cleveland. É tão embaraçoso...

Arquivar e salvar, pensou Artemis. Coala em Cleveland.

— E então — continuou o doutor —, como ele entrou aqui? Butler deu de ombros.

— Vim pelo mesmo caminho que o senhor, doutor.

— Você estava no Land Rover — ofegou Kronski. — Mui­to esperto.

— Na verdade, não. Mais frouxidão de sua parte do que esperteza da minha.

— Vou me lembrar disso. Está com a mercadoria?

A boca de Butler se apertou e Artemis soube que ele estava sendo pressionado até os limites da lealdade com essa transação. O lêmure já fora bastante ruim, mas esta criatura fêmea na sa­cola era uma espécie de pessoa.

Sem dizer palavra, o guarda-costas pôs a sacola sobre a mesa. Artemis puxou o zíper, mas Butler o impediu.

— Ela tem algum tipo de habilidade de hipnotismo. Uma vez encontrei um cara no Laos que era capaz de deixar a gente com uma sensação esquisita, mas nada assim. Ela tentou do lado de fora do souq e eu quase me choquei num camelo, por isso prendi sua boca com fita adesiva. Além disso, como sabe­mos, ela pode ficar invisível. Quando eu abri a sacola antes, ela não estava aí. Mas acho que a energia está acabando. Pode haver mais truques. Quem sabe o que ela tem escondido de­baixo daquelas orelhas pontudas? Está preparado para correr o risco?

— Estou — disse Kronski, quase soltando espuma pela boca. — Sem dúvida, sim. Abra a bolsa.

Butler retirou a mão e Artemis abriu o zíper, expondo a figura.

Kronski fitou os olhos desiguais. Passou a mão pela testa de uma largura não-humana, puxou uma orelha, depois cam­baleou até o bar do escritório, servindo-se de um copo d’água com as mãos trêmulas.

— Cinco milhões ao preço de mercado de hoje — disse. — Você falou cinco e nós concordamos. Não tente aumentar o preço agora.

Artemis sorriu. O doutor estava fisgado.

— Cinco milhões — concordou. — Mais despesas.

O Artemis mais velho voltou ao local de pouso numa moto­neta desmontável da LEP, projetada para parecer uma Lam­breta humana da década de 1950. A semelhança ficava apenas na superfície, já que não existiam muitas Lambretas equipa­das com baterias nucleares limpas, navegação por satélite de gnomos e botões de autodestruição.

A estrada de Ifrane, perto da cidade imperial, fazia parte da fértil bacia do rio Fez e era ladeada por oliveiras e campos de golfe.

Antigo e moderno. Coexistindo.

No céu, as estrelas pareciam mais próximas e mais nítidas do que na Irlanda, brilhando como luzes de estádio, como se de algum modo a África ficasse mais perto do resto do universo.

Eu a perdi. Perdi Holly.

Mas tinha um plano. Um plano quase decente. Só era ne­cessário um pouco de tecnologia do Povo para abrir algumas portas e ainda haveria uma chance. Porque, sem Holly, tudo estava perdido. Não haveria futuro para nenhum deles.

Demorou quase uma hora para encontrar o campo de golfe onde Holly havia estacionado o lançador da LEP. Não que houvesse muita evidência de um veículo no lugar, além de um trecho de areia ligeiramente plano. Holly havia enfiado o lançador na areia e deixado o escudo ligado. Artemis só o en­controu com a ajuda dos sistemas de navegação da motoneta.

Fez a motoneta se desmontar até virar um disco do tama­nho de um Frisbee e desceu pela escotilha do teto.

Palha Escavator estava se balançando preguiçosamente na cadeira do piloto.

— Essa motoneta é minha, Garoto da Lama — disse ele. — Ela veio do carrinho de bagulhos, por isso vou levá-la.

Artemis fechou a escotilha.

— Onde está o lêmure? Onde está Jayjay?

Palha respondeu a essas perguntas com outras:

— Onde está Holly? Você a perdeu?

— Sim — admitiu Artemis, arrasado. — O garoto foi mais esperto do que eu. Ele sabia que nós iríamos atrás do lêmure. Ele o sacrificou em troca de Holly.

— Esperto. De qualquer modo, estou indo. Vejo você...

— Vejo você? Vejo você? Uma criatura do seu povo está cor­rendo perigo e você simplesmente vai abandoná-la?

Palha levantou as mãos.

— Ei, calma aí, Garoto da Lama. O pessoal da LEP não é meu camarada. Nós fizemos um trato; eu pego o carinha peludo para você e você me arranja um carrinho da LEP cheio de mer­cadorias técnicas. Serviço feito, as duas partes ficam felizes.

Nesse momento Jayjay enfiou a cabeça pela porta do banheiro.

— O que ele está fazendo ali? Palha riu.

— Você tem duas tentativas para adivinhar.

— Os lêmures não sabem usar equipamentos sanitários avançados.

— Veja você mesmo. O que quer que haja aí, a culpa é do Jayjay.

Ele estalou os dedos peludos e o lêmure correu pelo seu braço até chegar à cabeça.

— Veja. Ele aceita a responsabilidade. — Palha franziu a testa. — Você não vai trocar esse carinha pela capitã Short, vai?

— Não adianta — disse Artemis, acessando o banco de dados central da LEP. — Seria como trocar um grampo de ca­belo pela Excalibur.

Palha mordeu o lábio.

— Sou familiarizado com a história de Excalibur, portan­to sei o que você está tentando dizer. Um grampo de cabelo é inútil, Excalibur é maravilhosa, e assim por diante. Mas em algumas circunstâncias um grampo de cabelo é extremamente útil. Bom, se você dissesse um grampo de cabelo de borracha... Sacou o que eu quero dizer?

Artemis o ignorou, digitando furiosamente no v-clado que apareceu à sua frente. Precisava saber tudo que fosse possível sobre os Extincionistas e Potrus tinha um grande arquivo so­bre eles.

Palha fez cócegas sob o queixo de Jayjay.

— Eu estava começando a gostar da capitã Short, mesmo contra minha sensatez. Acho que eu poderia escavar e resgatá-la.

Era uma oferta genuína e um argumento justo, por isso Artemis perdeu um momento respondendo.

— Não é possível. Kronski já viu o resgate por túnel e não vai cair nessa de novo. De qualquer modo, você não sobrevi­veria à temperatura durante o dia. Mesmo no subsolo você não estaria em segurança. A terra é tão seca que as rachaduras po­dem penetrar até 15 metros em terreno aberto. Um raiozinho de sol do meio-dia e você se queimaria como um livro velho numa fornalha.

Palha se encolheu.

— Bom, ora, essa imagem funciona muitíssimo bem. En­tão, o que vai fazer?

Artemis usou a avançada tecnologia do Povo para impri­mir um cartão imitando pele de leopardo, com um holograma dos Extincionistas piscando em prata e roxo no centro.

— Vou ao banquete dos Extincionistas esta noite — dis­se, balançando o cartão com o dedo indicador. — Afinal de contas, fui convidado. Só preciso de um disfarce e suprimen­tos médicos.

Palha ficou impressionado.

— Isso é muito bom. Você é quase tão bandido quanto eu. Artemis se virou de novo para o v-clado. Demoraria um tempo para aprimorar seu disfarce.

— Você não faz idéia — disse.

A noite do banquete dos Extincionistas vinha exigindo tudo de Kronski e seus nervos estavam em frangalhos. Ele dançou pelo chalé usando apenas uma toalha de banho, cantarolando ansiosamente as canções do musical José e o incrível casaco de sonhos tecnicolor. Freqüentemente Kronski sonhava que estava usando o casaco Tecnicolor, e que era feito com a pele de todos os animais que ele havia caçado até a extinção. Sempre acordava sorrindo.

Tudo tem de estar perfeito. É a noite mais importante da minha vida. Obrigado, pequeno Ah-temis.

Muita coisa dependia da conferência, e em geral o banquete determinava o tom de todo o fim de semana. Se conseguisse apresentar alguma coisa grande no julgamento do banquete, os membros ficariam falando durante dias. A Internet seria tomada pelos comentários.

E a coisa não pode ser maior do que uma nova espécie inteli­gente. Os Extincionistas vão ficar famosos em nível global.

E foi bem na hora. Para dizer a verdade, os Extincionistas eram notícia velha. As inscrições vinham caindo e, pela pri­meira vez desde a fundação, os ingressos para a conferência não haviam se esgotado. No início fora maravilhoso — tantas es­pécies empolgantes para caçar e pregar na parede! Mas agora os países estavam protegendo seus animais raros, em especial os grandes. Não havia mais como viajar à Índia para atirar num tigre. E as nações subsaarianas achavam extremamente ruim se um grupo de Extincionistas bem armados aparecesse em uma de suas reservas e começasse a atirar em elefantes. A coisa esta­va chegando ao ponto de autoridades de governo recusarem suborno. Recusarem suborno.

Havia outro problema com os Extincionistas, ainda que Kronski jamais fosse admitir em voz alta. O grupo se tornara um ponto de atração para fanáticos. Seu ódio sincero pelo rei­no animal estava atraindo loucos sedentos de sangue que não conseguiam enxergar nada além de enfiar uma bala num ani­mal idiota. Eles não conseguiam captar a filosofia da organiza­ção. O homem é rei, e os animais só sobrevivem enquanto contribuem para o conforto de seus senhores. Um animal sem utilidade está desperdiçando o ar precioso e deveria ser apaga­do da face da terra.

Mas esta nova criatura mudava tudo. Todo mundo quere­ria vê-la. Filmariam todo o julgamento e a execução, deixariam vazar a fita e então o mundo viria a Damon Kronski.

Um ano de doações, pensou Kronski. Então me aposento para desfrutar da riqueza.

Cinco milhões. Essa criatura Elemental, ou seja lá o que for, vale dez vezes mais. Cem vezes.

Kronski dançou diante do jato do ar-condicionado duran­te um minuto e depois escolheu um terno no armário.

Roxo, pensou. Esta noite serei o imperador.

Como uma idéia de última hora, pegou um chapéu da mes­ma cor, feito de pele de tigre cáspio, com borla, numa prate­leira do alto.

Quando se está em Fez..., pensou animado.

 

Learjet dos Fowl, 10 mil metros acima de Gibraltar

O Artemis Fowl de dez anos tentava ao máximo possível rela­xar numa das luxuosas poltronas de couro do Learjet, mas havia um nó de tensão na base de seu crânio.

Preciso de uma massagem, pensou. Ou de um chá de ervas.

Artemis tinha perfeita consciência do que causava a tensão.

Eu vendi uma criatura... Uma pessoa aos Extincionistas.

Sendo inteligente como era, Artemis era perfeitamente capaz de inventar um argumento para justificar seus atos.

Os amigos dela vão libertá-la. Eles quase me enganaram; cer­tamente podem enganar Kronski. Aquela criatura provavelmente está indo agora mesmo para o lugar de onde veio, com o lêmure debaixo do braço.

Distraiu-se do raciocínio frágil, concentrando-se em Kronski.

Algo realmente deveria ser feito com relação àquele homem.

Um Powerbook de titânio zumbia suavemente na bandeja dobrável de Artemis. O garoto ativou a tela e abriu seu na­vegador pessoal para a Internet, que ele havia escrito como projeto escolar. Graças a uma antena poderosa e ilegal na área de carga do jato, podia captar sinais de rádio, televisão e Internet em quase qualquer lugar do mundo.

Organizações como a dos Extincionistas vivem e morrem a partir de sua reputação, pensou. Seria um exercício divertido destruir a reputação de Kronski usando o poder da web.

Só seria necessário um pouco de pesquisa e a colocação de um pequeno vídeo em alguns sites mais populares da rede.

Vinte minutos depois, Artemis Júnior estava dando os toques finais em seu projeto quando Butler passou pela porta da cabine.

— Com fome? — perguntou o guarda-costas. — Há um pouco de hummus na geladeira e eu fiz biscoitos de iogurte e mel.

Artemis colocou o projeto de vídeo no site final.

— Não, obrigado — murmurou. — Não estou com fome.

— Deve ser a culpa mordendo sua alma — disse Butler com sinceridade, servindo-se de comida na geladeira. — Como um rato com um osso velho.

— Obrigado pela comparação, Butler, mas o que está fei­to está feito.

— Tínhamos de deixar a arma com Kronski?

— Por favor, eu ponho cargas de destruição remota no meu material. Você realmente acha que uma raça tão avançada dei­xaria sua tecnologia sem proteção? Eu não ficaria surpreso se aquela arma estiver derretendo nas mãos de Kronski. Precisei deixá-la para amaciar o sujeito.

— Duvido que a criatura esteja derretendo.

— Pare com isso, Butler. Eu fiz um trato e acabou. Butler sentou-se diante dele.

— Hum. Então agora você é governado por algum tipo de código. Honra entre criminosos. Interessante. Então, o que está aprontando neste computador?

Artemis esfregou o ponto de tensão no pescoço.

— Por favor, Butler. Tudo é pelo meu pai. Você sabe que isso deve ser feito.

— Uma pergunta — disse Butler, rasgando o invólucro de plástico de um jogo de talheres. — O seu pai gostaria que a coisa fosse feita desse modo?

Artemis não respondeu, apenas ficou sentado esfregando o pescoço.

Cinco minutos depois Butler sentiu pena do garoto de dez anos.

— Pensei que poderíamos fazer meia volta com o avião e dar uma ajudinha àquelas criaturas estranhas. O aeroporto Fez Saïss foi aberto de novo, então poderíamos estar de volta em algumas horas.

Artemis franziu a testa. Era a coisa certa a fazer, mas não estava na sua programação. Retornar a Fez não salvaria seu pai.

Butler dobrou ao meio o prato de papel, prendendo os res­tos da comida.

— Artemis, eu gostaria de dar meia volta no jato, e pre­tendo fazer isso a não ser que você me ordene o contrário. Você só precisa dizer.

Artemis olhou o guarda-costas retornar à cabine, mas não disse nada.

 

O Domaine des Hommes estava movimentado, com limusines cheias de Extincionistas vindos do aeroporto, cada um usando seu ódio pelos animais na manga, na cabeça ou nos pés. Kronski viu uma senhora com botas de couro de íbis que iam até a altura das coxas. Dos Pirineus, se ele não estava enganado. E lá estava o ve­lho Jeffrey Coontz-Meyers com seu paletó de tweed forrado de pele de quaga. E a condessa Irina Kostovich, com o pescoço páli­do protegido do frio da noite por uma estola de lobo Honshu.

Kronski sorria e cumprimentava cada um deles calorosa­mente e, na maioria, pelo nome. A cada ano havia menos re­cém-chegados, mas tudo isso mudaria depois do julgamento desta noite. Foi saltitando para o salão de banquetes.

O salão, em si, fora projetado por Shiller-Haus, em Muni­que, e era essencialmente um gigantesco kit pré-fabricado que havia chegado em contêineres e fora erguido por especialistas alemães em menos de quatro semanas. Realmente incrível. Era uma estrutura impressionante, mais formal na aparência do que os chalés, o que era adequado, já que negócios sérios eram rea­lizados ali dentro. Julgamentos justos e depois execuções.

Julgamentos justos, pensou Kronski, e deu um risinho.

A porta principal era guardada por dois corpulentos cava­lheiros marroquinos usando traje de noite. Kronski havia pen­sado em macacões com brasões para os guardas, mas descartou a idéia porque parecia Bond demais.

Não sou o dr. No. Sou o dr. No-civo aos animais.

Passou rapidamente pelos guardas, seguiu por um corre­dor forrado com suntuosos tapetes locais e chegou a um salão de banquetes com pé-direito duplo e teto de vidro triplo. As estrelas pareciam suficientemente próximas para ser alcançadas e capturadas.

A decoração era uma mistura elegante de clássico e moder­no. Elegante a não ser pelos cinzeiros feitos de mãos de gorila em cada mesa e a fileira de baldes de cerveja feitos de pata de elefante, apoiados em suportes do lado de fora da porta da co­zinha. Kronski se espremeu pela porta dupla, passou por uma cozinha de aço escovado e chegou ao frigorífico nos fundos.

A criatura estava sentada, flanqueada por mais três guardas. Estava algemada a uma cadeirinha de bebê, feita de plástico, tirada da creche do quartel-general. Suas feições se mostravam alertas e carrancudas. A arma estava fora do alcance, num car­rinho de aço.

Se olhares lançassem projéteis, pensou Kronski, pegando a arma minúscula e sopesando-a na palma da mão, eu estaria todo furado.

Apontou a arma para um pernil congelado, pendurado numa corrente, e puxou o gatilho minúsculo. Não houve coi­ce nem um clarão de luz óbvio, mas agora o presunto estava soltando fumaça e pronto para ser servido.

Kronski levantou os óculos de sol violeta, que usava noite e dia, para garantir que sua visão fosse acurada.

— Minha nossa — disse com espanto. — Isso é um tre­mendo brinquedo.

Bateu o pé no piso de aço, fazendo um barulho que rever­berou na câmara.

— Desta vez não vai haver túneis — anunciou. — Como no souq. Você fala inglês, criatura? Sabe o que estou lhe dizendo?

A criatura revirou os olhos.

Eu responderia, dizia a expressão, mas há uma fita adesiva na minha boca.

— E com bons motivos — disse Kronski, como se a frase tivesse sido dita em voz alta. — Todos sabemos sobre seus tru­ques de hipnotismo. E a invisibilidade. — E beliscou a boche­cha dela, como alguém faria a um bebê bonitinho. — Sua pele é quase humana. O que você é? Um elemental? Outro olhar revirado.

Se revirar os olhos fosse um esporte, esta criatura ganharia medalha de ouro, pensou o doutor. Bom, talvez de prata. O ouro certamente iria para minha ex-mulher, que não é nada má no quesito revirar olhos.

Kronski se dirigiu aos guardas.

— Ela se mexeu? — perguntou.

Os homens balançaram a cabeça. Era uma pergunta idio­ta. Como poderia se mexer?

— Muito bem. Bom. Tudo corre segundo meu plano. — Agora foi Kronski que revirou os olhos. — Escutem como es­tou falando. Tudo corre segundo meu plano. Isso é tão Doutor No! Eu deveria arranjar umas mãos de metal. O que acham, senhores?

— Mãos de metal? — perguntou o guarda mais novo, que não era acostumado às arengas de Kronski. Os outros dois sa­biam muito bem que muitas perguntas do doutor eram retó­ricas, em especial as que tinham a ver com Andrew Lloyd Webber, o compositor do Casaco de sonhos tecnicolor, ou James Bond.

Kronski ignorou o guarda novo. Pôs o dedo nos lábios fran­zidos, por um momento, para comunicar a importância do que iria dizer, depois respirou fundo pelo nariz, com um assobio.

— Muito bem, senhores. Todo mundo escutando? Esta noite não poderia ser mais importante. O futuro de toda a organização depende dela. Tudo deve estar totalmente perfei­to. Não afastem os olhos da prisioneira e não tirem as amarras nem a mordaça. Ninguém deve vê-la até o início do julgamen­to. Paguei 5 milhões em diamantes pelo privilégio de uma re­velação grandiosa, de modo que ninguém entra aqui, além de mim. Entendido?

Esta não era uma pergunta retórica, mas o guarda novo demorou um instante para perceber.

— Sim, senhor. Entendido — disse uma fração de segun­do depois dos outros dois.

— Se algo der errado, seu último trabalho da noite será num enterro. — Kronski piscou para o guarda novo. — E sa­bem como é o ditado, o último a entrar é o primeiro a sair.

A atmosfera no banquete era de tédio blasé — até a chegada da comida. A questão é que os Extincionistas eram exigentes com a comida. Alguns odiavam tanto os animais a ponto de ser ve­getarianos, o que limitava o menu, de certa forma. Mas nesse ano Kronski conseguira caçar o chefe de um restaurante vegeta­riano em Edimburgo, que podia fazer com uma abobrinha coi­sas capazes de levar ao choro o carnívoro mais empedernido.

Começaram com uma sutil sopa de tomate e pimenta em cascos de bebê-tartaruga. Depois uma pequena porção de le­gumes assados com massa e um pouquinho de iogurte grego, servido numa tigela feita de crânio de macaco. Tudo de muito bom gosto, e agora o vinho ia relaxando os convidados.

O estômago de Kronski estava tão estufado de nervosismo que ele não conseguiu comer nem uma garfada, o que era tre­mendamente incomum. Não se sentia tão empolgado desde seu primeiro banquete em Austin, muitos anos antes.

Estou à beira da grandeza. Logo meu nome será mencionado na mesma frase que o de Bobby Jo Haggard ou Jo Bobby Saggart. Os grandes evangelizadores Extincionistas. Damon Kronski, o homem que salvou o mundo.

Duas coisas tornariam este banquete o maior de todos os tempos.

A entrada e o julgamento.

A entrada deliciaria todo mundo, tanto comedores de car­ne quanto vegetarianos. Os vegetarianos poderiam não comer, mas pelo menos iriam se maravilhar com a arte necessária para preparar o prato.

Kronski bateu num pequeno gongo ao lado do cartão com seu nome e se levantou para apresentar o prato, como era o costume.

— Senhoras e senhores, deixem-me contar uma história de extinção. Em julho de 1889, o professor D. S. Jordan visi­tou os Lagos Gêmeos no Colorado e publicou suas descober­tas no Boletim da Comissão de Pesca dos Estados Unidos, de 1891. Ele descobriu o que declarou ser uma nova espécie, a truta “de­golada de barbatana amarela”. No relatório, Jordan descreveu o peixe como de cor oliva-prateada com uma larga mancha amarelo-limão nas laterais, barbatanas inferiores de um ama­relo dourado-vivo em vida e uma funda risca vermelho-viva de cada lado da garganta, daí o “degolada”. Até cerca de 1903, as degoladas de barbatana amarela viviam nos Lagos Gêmeos. O peixe morreu pouco depois de a truta arco-íris ser intro­duzida nos Lagos Gêmeos. Outras trutas fizeram cruzamen­tos com as arco-íris, mas as de barbatana amarela desapareceram rapidamente e agora estão totalmente extintas.

Ninguém derramou uma lágrima. Na verdade houve al­guns aplausos depois da palavra que começava com “e”.

Kronski levantou a mão.

— Não, não. Este não é motivo de júbilo. Dizem que a truta de barbatana amarela era um peixe muito gostoso, com um sabor particularmente doce. É uma pena pensar que ja­mais iremos comê-lo. — Ele fez uma pausa dramática. — Ou será que...

Nos fundos da sala, uma grande parede falsa deslizou de lado e revelou uma cortina de veludo. Com grande cerimô­nia, Kronski tirou um controle remoto do paletó e fez a cortina se abrir com um chiado suave. Atrás dela estava uma enorme plataforma sobre rodas com o que parecia ser uma pequena geleira. Prateada e soltando fumaça.

Os convidados se inclinaram adiante, intrigados.

— E se tivesse havido um congelamento relâmpago há mais de cem anos nos Lagos Gêmeos?

Conversas em voz baixa começaram entre os participantes do jantar.

Não.

Certamente não. Impossível.

— E se um pedaço do lago congelado ficasse preso por uma avalanche no fundo de uma fenda não mapeada e fosse manti­do sólido pelas correntes com temperatura próxima de zero?

Isso significaria que...

Dentro daquele pedaço de gelo...

— E se aquele pedaço de gelo chegasse à superfície há apenas seis semanas, na terra do meu bom amigo Tommy Kirkenhazar, um dos nossos membros fiéis?

Tommy se levantou para fazer uma reverência, balançan­do seu chapéu feito de pele de lobo cinza do Texas. Ainda que seus dentes estivessem sorrindo, os olhos lançavam adagas na direção de Kronski. Era óbvio para todo o salão que havia ini­mizade entre os dois.

— Então seria possível, ultrajantemente caro e difícil, mas possível, transportar esse pedaço de gelo até aqui. Um pedaço de gelo que contém um cardume considerável de truta dego­lada de barbatana amarela. — Kronski respirou fundo para permitir que a informação se assentasse. — Então, caros ami­gos, nós poderíamos ser as primeiras pessoas a comer a truta de barbatana amarela em cem anos.

Essa perspectiva fez até alguns vegetarianos salivar.

— Vejam, Extincionistas. Vejam e se espantem. Kronski estalou os dedos e uma dúzia de funcionários da co­zinha empurraram a plataforma pesada até o centro da área de banquete, onde ela ficou sobre uma grelha de aço. Então os fun­cionários tiraram os uniformes, revelando fantasias de macaco.

Será que passei do ponto com as roupas de macaco?, pensou Kronski. Não será Broadway demais?

Mas um rápido exame dos convidados garantiu que eles permaneciam fascinados.

Os funcionários da cozinha na verdade eram acrobatas de circo de um dos elencos do Cirque du Soleil que viajavam pelo norte da África. Ficaram felizes em tirar alguns dias de sua pro­gramação para fazer esse show especial para os Extincionistas.

Subiram em bando no enorme bloco de gelo, ancorando-se com cordas, grampos ou ganchos, e começaram a demoli-lo com motosserras, espadas chamejantes e lança-chamas, tudo isso aparentemente surgido de lugar nenhum.

Era um deleite espetacular. O gelo voava, chovendo sobre os convidados, e o ruído das máquinas era ensurdecedor.

Rapidamente o cardume de barbatanas amarelas começou a surgir através da massa azul de gelo. Pendiam arregalados e imobilizados enquanto faziam meia-volta, os corpos apanha­dos no congelamento relâmpago.

Que modo de morrer, pensou Kronski. Sem fazer absoluta­mente a mínima idéia. Maravilhoso.

Os artistas começaram a retirar os peixes em blocos saídos do gelo, e cada um deles era passado para um dos 12 cozinhei­ros que haviam aparecido das portas laterais, empurrando fo­gões a gás. Cada bloco individual era enfiado numa peneira aquecida para vaporizar o excesso de gelo, e então os peixes eram habilmente cortados em filés e fritos em azeite com uma variedade de legumes fatiados em pedaços grandes e alho esmagado.

Para os vegetarianos, havia um risoto de cogumelo com champanhe, mas Kronski não achava que seriam muitos a co­mer isso. Os não-carnívoros aceitariam o peixe somente para esfaqueá-lo.

A refeição foi um sucesso gigantesco e o nível de conversas deliciadas cresceu até encher o salão.

Kronski conseguiu comer meio filé, apesar do nervosismo. Delicioso. Exótico.

Eles acham que foi o ponto alto, pensou. Ainda não viram nada.

Depois do café, quando os Extincionistas estavam afrouxando as faixas dos smokings ou girando charutos grossos para pro­vocar uma queima regular, Kronski instruiu seus funcionários a arrumar a sala do tribunal.

Eles reagiram com a velocidade e a prática de uma equipe de pitstop de Fórmula Um, e não era para menos, depois de três meses treinando sob chicote. Literalmente. Os trabalha­dores foram em bando para a grade onde o gelo derretido se agitava como a água de uma piscina, com alguns barbatana-amarela desgarrados flutuando na superfície. Cobriram essa parte do piso e expuseram um segundo buraco, este forrado de aço e cheio de marcas de queimadura.

Dois pódios e uma plataforma foram empurrados sobre ro­das até o centro do salão, ocupando o lugar do carro do gelo. Os pódios tinham computadores sobre os tampos giratórios e a pla­taforma de madeira era ocupada por uma jaula. O habitante da jaula estava coberto por uma cortina de pele de leopardo.

A conversa dos convidados parou enquanto eles prendiam o fôlego para a grande revelação. Este era o momento que todo mundo estava esperando, já que aqueles bilionários haviam pagado uma dinheirama em troca de alguns instantes de po­der definitivo: segurar nas mãos o destino de toda uma espé­cie. Mostrar ao resto do planeta quem mandava. Os convidados não notaram os 12 atiradores de elite situados discretamente no terraço superior, para o caso de a criatura sob julgamento demonstrar qualquer novo poder mágico. Havia pouca chance de um resgate subterrâneo, já que todo o salão fora construído com um alicerce de vigas de aço e concreto.

Kronski aproveitou ao máximo o momento, levantan­do-se devagar da cadeira e andando presunçoso até o pódio do promotor.

Juntou os dedos das duas mãos, permitindo que a tensão crescesse, depois começou a apresentação.

— A cada ano colocamos um animal raro em julgamento. Houve algumas vaias da platéia, que Kronski descartou, bem-humorado.

— Um verdadeiro julgamento, onde o anfitrião acusa e um de vocês, sortudos, faz a defesa. A idéia é simples. Se puderem convencer um júri de seus colegas sem preconceito...

Mais vaias.

— ...de que a criatura que está na jaula contribui positi­vamente para a existência humana neste planeta, libertaremos a criatura. Isso, acreditem ou não, aconteceu uma vez, em 1983. Pouco antes da minha época, mas me garantiram que aconte­ceu de verdade. Se os colegas do advogado de defesa não se convencerem da utilidade do animal, eu aperto este botão. — E aqui os dedos grossos de Kronski se remexeram brincalhões sobre um enorme botão vermelho em seu controle remoto. — E o animal cai da jaula no poço, passando pelo raio laser que ativa os jatos de chamas alimentadas por gás. Voilà: cremação instantânea.

“Permitam-me demonstrar. Deem-me este prazer: é um poço novo. Estive testando-o durante toda a semana.”

Ele assentiu para um funcionário, que puxou um trecho da grade com um gancho de aço. Então Kronski pegou um melão numa bandeja de frutas e jogou no poço. Houve um bip, seguido por uma erupção de chamas branco-azuladas saídas de bicos ao redor das paredes do buraco. O melão foi queimado até virar migalhas pretas flutuantes.

A apresentação provocou uma salva de palmas impressio­nadas, mas nem todo mundo apreciou o estardalhaço de Kronski.

Jeffrey Coontz-Meyers pôs as mãos em concha em volta da boca.

— Qual é, Damon. O que temos esta noite? Não é outro macaco. Todo ano são macacos.

Em geral as interrupções irritariam Kronski, mas não esta noite. Nesta noite todas as fanfarronadas, mesmo inteligen­tes, seriam varridas da memória das pessoas no segundo em que a cortina fosse puxada de lado.

— Não, Jeffrey, não é outro macaco. E se... Jeffrey Coontz-Meyers gemeu alto.

— Por favor, chega de e se. Já tivemos meia dúzia, com os peixes. Mostre a porcaria da criatura.

Kronski fez uma reverência.

— Como quiser.

Ele apertou um botão no controle remoto e uma tela gi­gante baixou do teto, cobrindo a parede dos fundos. Outro botão foi apertado e a cortina que escondia a criatura enjaula­da correu suavemente para um dos lados.

Holly foi revelada, algemada à cadeira de bebê, os olhos dardejantes e furiosos.

A princípio a reação principal foi de perplexidade.

Era uma menina?

É só uma criança.

Kronski enlouqueceu? Eu sabia que ele cantava sozinho, mas isso? Então os olhos dos Extincionistas foram atraídos para a tela, que mostrava a imagem captada por uma câmera presa à jaula. Ah, meu Deus. As orelhas. Olhem as orelhas dela. Ela não é humana. O que é isso? O que é? Tommy Kirkenhazard se levantou.

— É melhor que isso não seja uma fraude, Damon. Ou vamos acabar com você.

— Dois pontos — disse Kronski baixinho. — Primeiro: isso não é fraude. Eu descobri uma espécie desconhecida. Na verdade acho que é uma criatura elemental. Segundo, se fosse uma fraude, você não iria acabar com ninguém, Kirkenhazard. Meus homens o matariam antes que você pudesse balançar esse seu chapéu ridículo e gritasse epa.

Algumas vezes era bom provocar um arrepio na coluna das pessoas. Lembrar onde estava o poder.

— É claro que o ceticismo de vocês é normal, na verdade é bem-vindo. Para descansar suas mentes, precisarei de um voluntário da platéia. Que tal você, Tommy? Como vai a sua coragem?

Tommy Kirkenhazard engoliu meio copo de uísque para reforçar os nervos, depois foi até a jaula.

Bom desempenho, Tommy, pensou Kronski. É quase como se não tivéssemos combinado esse pequeno confronto para me dar um pouco mais de credibilidade.

Kirkenhazard ficou o mais próximo de Holly que ousava, depois estendeu a mão lentamente para tocar sua orelha.

— Meus santos! Não é falsa. É de verdade. — Ele recuou e a verdade do que estava acontecendo encheu seu rosto de júbilo. — Temos uma criatura das fadas.

E assim, se meu maior crítico está convencido, o resto irá atrás como ovelhas. Animais úteis, as ovelhas. Kronski se parabenizou em silêncio.

— Vou fazer a acusação da criatura, segundo a tradição — disse Kronski à turba. — Mas quem irá defendê-la? Que infe­liz membro vai tirar a bola preta? Quem será?

Kronski assentiu para o maître.

— Traga o saco.

Como muitas organizações antigas, os Extincionistas gosta­vam de tradição, e uma dessas tradições era que a criatura a ser julgada poderia ser defendida por qualquer membro da assem­bléia e, se nenhum membro estivesse disposto, um deles seria escolhido por sorteio. Um saco de bolas brancas com uma preta.

— Não é necessário o saco — disse uma voz. — Eu de­fenderei a criatura.

Cabeças se viraram para localizar quem falava. Era um ra­paz magro, com cavanhaque e olhos azuis penetrantes. Usava óculos escuros e um terno de linho leve.

Kronski o havia notado antes, mas não conseguia identifi­car o rosto, o que o perturbava.

— E você é? — perguntou, enquanto girava o laptop para que a câmera do computador fosse apontada para o estranho.

O rapaz sorriu.

— Por que não dá ao seu software de identificação um mo­mento para sussurrar a resposta a você?

Kronski apertou o polegar no enter. O computador captu­rou uma imagem e cinco segundos depois pegou os detalhes da inscrição de sócio no arquivo dos Extincionistas.

Malachy Pasteur. Jovem franco-irlandês, herdeiro de um im­pério de abatedouros. Fez uma doação considerável aos cofres dos Extincionistas. Era a sua primeira conferência. Como todos os par­ticipantes, Pasteur fora examinado detalhadamente antes que seu convite fosse mandado. Um acréscimo valioso às fileiras. Kronski era todo charme.

— Jovem sr. Pasteur, estamos deliciados em lhe dar as boas-vindas ao Marrocos. Mas, diga, por que gostaria de defender esta criatura? O destino dela está praticamente selado.

O rapaz caminhou rapidamente ao pódio.

— Gosto de um desafio. É um exercício mental.

— Defender animais nocivos é um exercício?

— Especialmente os animais nocivos — retrucou Pasteur, levantando a tampa de seu laptop. — É fácil defender um ani­mal servil e útil como a vaca comum. Mas isto? Esta será uma batalha dura.

— Uma pena ser esmagado em batalha tão jovem — disse Kronski, com o lábio inferior pendendo com simpatia fingida.

Pasteur tamborilou o pódio com os dedos.

— Sempre gostei do seu estilo, dr. Kronski. Seu compro­misso com os ideais do Extincionismo. Durante anos acom­panhei sua carreira, na verdade desde que eu era garoto, em Dublin. Mas ultimamente sinto que a organização perdeu o rumo e não sou o único que tem esse pensamento.

Kronski trincou os dentes. Então era isso. Um desafio ex­plícito à sua liderança.

— Tenha cuidado com o que diz, Pasteur. Você pisa em terreno perigoso.

Pasteur olhou para o piso à sua frente, onde a água gelada ainda se agitava no poço embaixo.

— Quer dizer que eu poderia dormir com os peixes. O senhor me mataria, doutor? Um mero garoto. Não creio que isso aumentaria muito sua credibilidade.

Ele está certo, fumegou Kronski. Não posso matá-lo; tenho de vencer este julgamento.

O doutor forçou a boca a sorrir.

— Não mato seres humanos — disse. — Só animais. Como o animal que está nesta jaula.

Os muitos apoiadores de Kronski aplaudiram, mas mui­tos permaneceram em silêncio.

Eu errei em vir para cá, percebeu Kronski. É distante de­mais. Não há lugar para jatos particulares pousarem. No ano que vem encontrarei algum lugar na Europa. Anunciarei a mudança assim que esmagar esse moleque.

— Permita-me explicar as regras — continuou Kronski, pensando. Explicar as regras me coloca no controle, me deixa por cima, psicologicamente falando.

— Não é necessário — respondeu Pasteur bruscamente. — Li várias transcrições. O promotor apresenta seus argumentos, o defensor apresenta seus argumentos. Alguns minutos de deba­te animado, depois cada mesa vota. É simples. Podemos prosse­guir, doutor? Ninguém aqui aprecia perder tempo.

Inteligente, o rapaz. Colocando-se do mesmo lado do júri. Não importa. Eu conheço essas pessoas e elas jamais inocentarão um animal, não importa o quanto ele seja bonito.

— Muito bem. Vamos em frente. — Ele escolheu um documento sobre a mesa. Sua declaração inicial. Kronski a sabia de cor, mas era reconfortante ter as palavras num local facil­mente acessível. — As pessoas dizem que nós, Extincionistas, odiamos os animais — começou Kronski. — Mas não é ver­dade. Não odiamos os pobres animais idiotas, pelo contrário; nós amamos os seres humanos. Amamos os seres humanos e faremos todo o necessário para garantir que, como raça, so­brevivamos pelo maior tempo possível. Este planeta tem re­cursos limitados e eu, pelo menos, digo que devemos reuni-los para nós. Por que os seres humanos deveriam morrer de fome quando os animais idiotas engordam? Por que os seres huma­nos deveriam passar frio quando os animais ficam quentinhos em suas capas de pele?

Malachy Pasteur fez um ruído, algo entre uma tosse e um risinho.

— Francamente, dr. Kronski, já li diversas variações deste discurso. Todo ano, pelo que parece, o senhor apresenta os mes­mos argumentos simplistas. Podemos, por favor, nos concen­trar na criatura que está diante de nós esta noite?

Uma onda de risinhos se espalhou entre os convidados do banquete e Kronski precisou lutar para conter o mau humor. Parecia que estava diante de uma batalha. Então, que fosse.

— Muito divertido, garoto. Eu ia pegar leve com você, mas agora as cartas estão na mesa.

— Adoramos ouvir isso.

Adoramos? Nós? Pasteur estava trazendo os Extincionistas para o seu lado sem que eles ao menos percebessem.

Kronski juntou cada gota de carisma que possuía, saltando de volta à juventude, àqueles longos dias de verão passados assistindo ao seu pai, pastor evangélico, chicotear as multidões dentro de uma tenda de lona.

Levantou os braços, cada um dos dedos curvado para trás até que os tendões se ressentissem do esforço.

— Não é disso que nós tratamos, gente — trovejou. — Não viajamos até aqui para uma pequena rixa verbal. É disso que os Extincionistas tratam. — Kronski apontou um dedo rígido para Holly. — Livrar nosso planeta de criaturas como esta.

Kronski lançou um olhar de lado para Pasteur, que estava inclinado, com o queixo nas mãos e um olhar divertido. Com­portamento padrão de oposição.

— Temos uma nova espécie aqui, amigos. Uma espécie perigosa. Ela pode ficar invisível, pode hipnotizar através da fala. Estava armada.

E, diante de muitos ohs da multidão, Kronski tirou a pis­tola Neutrino de Holly de dentro do bolso.

— Algum de nós quer enfrentar um futuro em que isto poderia ser apontado para o nosso rosto? Quer? A resposta, acho, é obviamente não. Bom, não vou fingir que esta seja a última criatura de sua espécie. Tenho certeza de que há milhares destes elementais, alienígenas ou sei lá o que são, ao redor de nós. Mas isso significa que deveríamos nos encolher e soltar esta criaturinha? Eu digo que não. Digo que devemos mandar uma mensagem. Executamos uma e o resto saberá que estamos falando sério. Os governos do mundo nos desprezam agora, mas amanhã virão bater à nossa porta pedindo orientação. — Hora do grande encerramento. — Somos Extincionistas, e nosso tempo é agora!

Foi um bom discurso e provocou ondas e mais ondas de aplausos, que Pasteur recebeu com a mesma expressão divertida.

Kronski aceitou os aplausos com um giro de ombros estilo boxeador, depois assentiu na direção do pódio oposto.

— A platéia é sua, garoto. Pasteur se empertigou e pigarreou...

... Artemis se empertigou e pigarreou. A barba falsa colada no queixo pinicava feito louca, mas ele resistiu ao impulso de coçá-la. Numa arena justa, destruiria os argumentos de Kronski nuns cinco segundos, mas esta não era uma arena justa, nem mesmo sã. Aquelas pessoas estavam sedentas de sangue, bilionários entediados, usando o dinheiro para com­prar diversão ilícita. O assassinato era apenas mais um serviço que poderia ser comprado. Precisava ter cuidado com a pla­téia. Apertar os botões certos. Em primeiro lugar, precisava se estabelecer como um deles.

— Quando eu era novo, e minha família passava os in­vernos na África do Sul, meu avô contava histórias de um tempo em que as pessoas tinham a atitude certa com relação aos ani­mais. Nós os matamos quando nos convém, dizia ele. Quando isso serve aos nossos objetivos. Isso é que os Extincionistas eram. Uma espécie não era protegida a não ser que nós, humanos, nos beneficiássemos de sua sobrevivência. Matamos quando isso nos beneficia. Se um animal está usando os recursos do plane­ta e não contribui diretamente para a nossa saúde, segurança e conforto, nós os apagamos. É simples. Este era um ideal pelo qual valia lutar. Pelo qual vale lutar. Mas isto... — Artemis apontou para o poço embaixo e para Holly na jaula. — Isto é um circo. É um insulto à memória dos nossos ancestrais, que deram seu tempo e seu ouro à causa dos Extincionistas.

Artemis trabalhava duro com o contato visual, ligando-se ao máximo de pessoas possível. Demorando-se por um mo­mento com todo mundo.

— Temos uma oportunidade de aprender com esta criatu­ra. Devemos aos nossos predecessores descobrir se ela pode con­tribuir para os nossos cofres. Se isto é mesmo um elemental, uma criatura das fadas, quem sabe que tipo de magia ela possui? Magia que poderia ser nossa. Se matarmos este elemental, ja­mais saberemos que riqueza inimaginável morre junto com ela.

Artemis fez uma reverência. Havia apresentado seu argu­mento. Não seria o bastante para abalar os Extincionistas se­dentos de sangue, ele sabia, mas poderia bastar para que Kronski ficasse menos presunçoso.

O doutor estava balançando as mãos antes mesmo que o eco da voz de Artemis sumisse.

— Quantas vezes temos de ouvir este argumento? O jo­vem sr. Pasteur me acusa de ser repetitivo, quando ele repete o gasto argumento de cada advogado de defesa que já ouvimos. — Kronski bateu nos lábios, horrorizado. — Aaah, não va­mos matar a criatura porque ela pode ser a fonte de todo o nosso poder e riqueza. Lembro-me de ter gasto uma fortuna numa lesma-do-mar que supostamente curaria a artrite. E só conseguimos gosma cara. Isso tudo é suposição.

— Mas esta criatura é mágica — objetou Artemis, baten­do no pódio com o punho. — Todos ouvimos dizer que ela pode ficar invisível. Agora mesmo sua boca está amordaçada com fita adesiva, para que não nos hipnotize. Imagine o poder que teríamos se descobríssemos o segredo desses dons. No mínimo eles iriam nos preparar melhor para enfrentarmos o resto da espécie dela.

O principal problema de Kronski era que ele concordava com boa parte dos argumentos de seu opositor. Fazia todo o sentido salvar a criatura e arrancar seus segredos, mas ele não poderia se dar ao luxo de perder a disputa. Seria o mesmo que entregar a liderança.

— Nós tentamos interrogá-la. Nossos melhores homens tentaram e ela não disse coisa nenhuma.

— É difícil falar com a boca amordaçada — observou Artemis secamente.

Kronski se empertigou, baixando o timbre da voz para cau­sar efeito.

— A raça humana está diante de seu inimigo mais mortal, e você quer ficar amiguinho dele. Não é assim que nós, Extin­cionistas, fazemos as coisas. Se há uma ameaça, nós a elimina­mos. É assim que sempre foi.

Isso provocou rugidos de aprovação, com a sede de sangue esmagando a lógica todas as vezes. Vários sócios estavam de pé, gritando. Já estavam cheios da discussão e queriam um pouco de ação.

O rosto de Kronski ficou vermelho com a vitória.

Ele pensa que isso acabou, pensou Artemis. Coitado, e en­tão, essa barba coça mesmo.

Esperou calmamente até que o furor tivesse passado, de­pois saiu de trás do pódio.

— Eu esperava poupá-lo disto, doutor — disse —, por­que o respeito muito.

Kronski tremelicou os lábios.

— Poupar-me de quê, jovem sr. Pasteur?

— O senhor sabe. Acho que o senhor tapou os olhos de todo mundo por tempo suficiente.

Kronski não ficou nem um pouco preocupado. O garoto estava derrotado e qualquer outra coisa era apenas conversa irritante. Mesmo assim, por que não deixar que Pasteur cavas­se uma sepultura para si mesmo?

— E como eu teria feito isso?

— Tem certeza que quer que eu continue?

Os dentes de Kronski brilharam quando ele sorriu.

— Ah, certeza absoluta.

— Como quiser — disse Artemis, aproximando-se da pla­taforma. — Esta criatura não era o nosso réu original. Até ontem tínhamos um lêmure. Não é exatamente um macaco, sr. Kirkenhazard, mas bastante próximo disso. Eu digo que tí­nhamos um lêmure, mas na verdade quase tivemos um lêmure. O bicho desapareceu na hora da entrega. Então, e isto é im­portante, então esta criatura nos foi vendida pelo mesmo garo­to que quase nos vendeu o lêmure, sem dúvida pago com verba dos Extincionistas. Mais alguém acha que isso é meio estra­nho? Eu acho. Este garoto fica com o lêmure e nos vende uma suposta criatura das fadas.

Agora Kronski não estava tão presunçoso. O tal de Pasteur tinha um monte de informações.

— Suposta criatura das fadas?

— Isso mesmo. Suposta. Temos apenas a sua palavra. E, claro, a do sr. Kirkenhazard, que aparentemente é seu pior ini­migo. Ninguém está caindo nesse ardil, garanto.

— Examine a coisa você mesmo — disse Kronski brusca­mente, irritado por causa da acusação relativa a Kirkenhazard. — Este é um argumento fácil de ser derrubado.

— Obrigado, doutor — disse Artemis. — Acho que fa­rei isso.

Artemis se aproximou da jaula. Essa era a parte complica­da, já que exigia dedos rápidos e coordenação, elementos que geralmente ele deixava por conta de Butler em todos os planos.

Seu bolso estava ligeiramente estufado com duas bandagens Nu-pele, tiradas do kit médico de Palha. Ele havia dito ao segu­rança que eram adesivos de nicotina, por isso pudera trazê-los ao banquete. O adesivo das bandagens era ativado pelo conta­to com a pele e elas se amoldavam aos contornos onde eram aplicadas, assumindo a cor e a textura da pele ao redor.

Os dedos de Artemis pairaram sobre o bolso, mas ainda não era hora de tocar a bandagem. Ela simplesmente se gruda­ria à sua mão. Em vez disso enfiou a mão no outro bolso para pegar o celular que havia roubado do Bentley no Parque Rathdown.

— Este telefone é valiosíssimo para mim — disse aos Extincionistas. — É um pouco maior do que os outros celula­res, mas isso é porque andei instalando alguns acréscimos no correr dos anos. É uma coisa incrível, na verdade. Posso assistir à televisão, filmes, verificar minhas ações, todas as coisas co­muns. Mas também tenho uma câmera e um visor de raio X. Só me dêem um segundo. — Artemis apertou alguns botões, ligando o telefone, através de Bluetooth, aos laptops, e a par­tir daí à tela grande.

— Ah, cá estamos — disse, passando o telefone diante da própria mão. Na tela um arranjo de falanges, metacarpos e carpos apareceram escuros dentro de uma pálida camada de carne. — Vocês vêem claramente os ossos da minha mão. Este seu sistema de projeção é muito bom, dr. Kronski. Parabéns.

O sorriso de Kronski era tão falso quanto os parabéns.

— Você tem algum argumento, Pasteur, ou só está mos­trando como é inteligente?

— Ah, eu tenho um argumento, doutor. E o argumento é que, se não fosse pela largura da testa e as orelhas pontudas, esta criatura pareceria notavelmente uma menininha.

Kronski fungou.

— Uma pena as orelhas e a testa. Mas se não fosse por isso, você teria um argumento.

— Exato — disse Artemis, e passou o telefone diante do rosto de Holly. Na tela, passou um pequeno filme que havia montado enquanto estava no lançador. Mostrava o crânio de Holly com densas formas escuras nas têmporas e nas orelhas.

— Implantes — entoou Artemis. — Claramente resultado de cirurgia. Esta criatura das fadas é uma falsificação bem-fei­ta. Você tentou nos enganar, Kronski.

As negativas de Kronski perderam-se no rugido da multi­dão. Os Extincionistas saltaram de pé, execrando aquele trambique desprezível.

— Você mentiu para mim, Damon! — gritou*Tommy Kirkenhazard, com algo que parecia angústia. — Para mim.

— Ele deve ser posto no buraco — gritou a condessa Irina Kostovich, com o rosto tão feroz quanto o do lobo Honshu em seu ombro. — Extingam o Kronski. Ele merece, por ter nos arrastado até aqui.

Kronski aumentou o volume do microfone de seu pódio.

— Isto é ridículo. Se vocês foram enganados, eu também fui. Não! Não vou acreditar. Este garoto, esse tal de Pasteur, está mentindo. Minha criatura é real. Só me dêem a chance de provar.

— Eu não terminei, doutor — gritou Artemis, subindo ousadamente na plataforma. Nas duas mãos segurava um ade­sivo Nu-pele, que ele pusera nas palmas durante a confusão.

Podia sentir alfinetadas de calor na carne enquanto o adesivo era ativado. Precisava agir depressa, ou seus planos seriam re­duzido a dois adesivos cor de pele em suas próprias mãos.

— Essas orelhas não me parecem corretas. E seu amigo, o sr. Kirkenhazard, foi tremendamente gentil com elas.

Artemis enrolou um adesivo Nu-pele num cone aproxima­do, selando o adesivo em si mesmo. Passou a outra mão pelas barras, fingindo que puxava a ponta, quando na realidade co­locava a segunda bandagem sobre a orelha de Holly. Cobrin­do toda a ponta e a maior parte da orelha.

— Está saindo — grunhiu, certificando-se de encobrir a câmera da jaula com o antebraço. — Peguei.

Segundos depois a bandagem estava seca e uma das ore­lhas de Holly ficou totalmente obscurecida. Artemis encarou a amiga e piscou.

Entre no jogo, dizia a piscadela. Vou tirá-la daí.

Pelo menos Artemis esperava que a piscadela comunicasse isso, e não algo como há alguma chance de outro beijo mais tarde?

De volta aos negócios.

— É falsa — gritou Artemis, segurando no alto a banda­gem cor de carne e amassada. — Saiu na minha mão.

Holly, obedientemente, apresentou seu perfil à câmera. Não havia mais orelha pontuda.

O ultraje foi a reação dominante da parte dos Extin­cionistas.

Kronski enganou todos eles, ou pior ainda, fora enganado por um garoto.

Artemis segurou no alto a suposta orelha falsa, apertando-a como se estivesse estrangulando uma cobra venenosa.

— É este o homem que queremos na nossa liderança? O dr. Kronski apresentou um julgamento decente neste processo?

Artemis jogou a “orelha” no chão.

— E supostamente esta criatura pode hipnotizar todos nós. Acho que está com a boca fechada para não poder falar.

Com um movimento rápido, arrancou a fita adesiva da boca de Holly. Ela se encolheu e lançou um olhar azedo para Artemis, mas depois se dissolveu rapidamente em lágrimas, fazendo com perfeição o papel de vítima humana.

— Eu não queria fazer isso — soluçou ela. — Fazer o quê? — perguntou Artemis.

— O dr. Kronski me pegou no orfanato. Artemis levantou uma sobrancelha. No orfanato? Holly estava improvisando.

— Ele disse que se eu aceitasse os implantes poderia ir morar na América. Depois da operação mudei de idéia, mas o doutor não me soltou.

— Um orfanato — disse Artemis. — Ora, isso está bei­rando o incrível.

O queixo de Holly caiu.

— Ele disse que me mataria se eu contasse. Artemis ficou ultrajado.

— Ele disse que mataria você. E este é o homem que co­manda nossa organização. Um homem que caça humanos, além de animais. — Em seguida apontou o dedo acusador para o perplexo Kronski. — O senhor é pior do que as criaturas que todos desprezamos e exijo que solte essa pobre menina.

Kronski estava acabado e sabia disso. Mas algo ainda po­deria ser salvo naquela confusão. Ainda tinha os números das contas dos sócios e era o único que sabia a combinação do cofre do quartel-general. Poderia sair desse lugar em duas horas com riqueza suficiente para durar alguns anos. Só precisava impe­dir, de algum modo, que esse tal de Pasteur o transformasse em presunto.

Então se lembrou. Presunto!

— E que tal isto? — gritou, brandindo a pistola de Holly. — Imagino que também seja falsa.

Os Extincionistas recuaram. Encolhendo-se atrás das cadeiras.

— Sem dúvida — zombou Artemis. — É um brinquedo de criança.

— Você arriscaria sua vida diante dele? Artemis pareceu hesitar.

— N... não precisa de nada dramático, doutor. Sua causa está perdida. Aceite isso.

— Não — disse Kronski rispidamente. — Se a arma é real, a criatura é real. E se ela não é real, como você insiste, não há o que temer.

Artemis criou coragem.

— Muito bem, faça o pior que puder. — Ele parou dian­te do cano minúsculo, oferecendo o peito.

— Você vai morrer, Pasteur — disse Kronski, sem muita simpatia.

— Talvez, se o senhor conseguisse espremer esse dedo gor­do dentro da guarda do gatilho — disse Artemis, quase como se estivesse instigando o doutor a agir.

— Para o diabo com você, então! — rosnou Kronski, e puxou o gatilho.

Nada aconteceu. Uma fagulha e um ligeiro zumbido vin­do do mecanismo interno.

— Está quebrada — ofegou o doutor.

— Não diga! — respondeu Artemis que, ainda no lança­dor, havia destruído por controle remoto o pente de carga da Neutrino.

Kronski levantou as mãos.

— Tudo bem, garoto. Tudo bem. Me dê um momento para pensar.

— Apenas solte a garota, doutor. Salve um pouco de dig­nidade. Nós não executamos seres humanos.

— Eu estou no comando. Só preciso de um segundo para organizar as idéias. Isto não deveria acontecer. Não foi assim que ela disse que aconteceria...

O doutor pousou os cotovelos no pódio, esfregando os olhos por trás dos óculos escuros e redondos.

Que ela disse que seria?, pensou Artemis. Haveria forças des­conhecidas atuando aqui?

Enquanto Artemis ficava perplexo e o mundo de Kronski desmoronava ao redor de seus ombros amplos, celulares co­meçaram a tocar no salão de banquete. De repente um monte de gente recebia mensagens. Em instantes o salão ressoava com uma sinfonia confusa de bips, brrrs e melodias polifônicas.

Kronski ignorou essa novidade estranha, mas Artemis fi­cou ansioso. Tivera as coisas sob controle e não precisava de nada que alterasse o equilíbrio da balança ou, por sinal, que fizesse Kronski passar do ponto.

As reações à mensagens foram uma mistura de choque e diversão.

Ah, meu Deus. É verdade? É real?

Toque de novo. Aumente o volume.

Não acredito. Kronski, seu idiota.

Isso é a última gota. Somos uma piada. Os Extincionistas es­tão acabados.

Artemis percebeu que as mensagens eram na verdade uma só. Alguém tinha um banco de dados dos Extincionistas e es­tava mandando um vídeo para todos eles.

O telefone de Artemis tocou suavemente. Claro que toca­ria, ele havia posto sua identidade falsa em cada banco de dados dos Extincionistas que pôde encontrar. E como seu telefone ainda estava conectado à tela gigante, a mensagem de vídeo começou a passar automaticamente.

Artemis reconheceu a cena no mesmo instante. O souq de couros. E o ator principal era Kronski, de pé sobre uma das pernas, guinchando com uma intensidade aguda de balão de festa furado. Cômico não era a palavra certa. Ridículo, farsesco e patético eram palavras que chegavam mais perto. Uma coisa era certa, depois de assistir ao vídeo, ninguém com a cabeça no lugar poderia jamais respeitar esse sujeito, quanto mais se­guir sua liderança.

Enquanto o vídeo passava, uma mensagem curta corria sob a imagem.

Aqui vemos o dr. Damon Kronski, presidente dos Extincio­nistas, mostrando um equilíbrio surpreendente para um homem de seu tamanho. O repórter ficou sabendo que o Kronski se voltou contra os animais quando foi machucado por um coala que esca­pou durante um dos comícios políticos de seu pai em Cleveland. Testemunhas do fato disseram que o jovem Damon “guinchou tão agudo que poderia partir vidro”. Um talento que o bom doutor parece não ter perdido. Guincha, neném, guincha.

Artemis suspirou. Eu fiz isso, percebeu. É o tipo de coisa que eu faria.

Em outra ocasião teria apreciado o toque, mas não agora. Não quando estava tão perto de libertar Holly. Por falar em Holly.

— Artemis, me tira daqui — sibilou ela.

— Sim, claro. Hora de ir.

Artemis enfiou as mãos nos bolsos para pegar um lenço úmido. Dentro do lenço estavam três pelos compridos e áspe­ros doados por Palha Escavator. Os pelos dos anões são na ver­dade antenas que eles usam para se orientar nos túneis escuros e foram adaptados pela raça habilidosa para servir como cha­ves-mestras. Sem dúvida o Omni-instrumento de Holly seria mais prático, mas Artemis não podia se arriscar a perdê-lo para os seguranças. O lenço mantivera os pelos úmidos e flexíveis até que fossem necessários.

Retirou o primeiro pelo, soprou um pouco de umidade da ponta e enfiou na fechadura da jaula, fazendo-o passar pelo mecanismo. Assim que sentiu o pelo endurecer nos dedos, vi­rou a chave improvisada e a porta se abriu.

— Obrigado, Palha — sussurrou, depois foi trabalhar nas algemas de Holly, cuja tranca ficava no centro. O terceiro pelo nem seria necessário. Em segundos Holly estava livre e esfre­gando os pulsos.

— Orfanato? — perguntou Artemis. — Não acha que passou um pouco do ponto?

— Bobão — disse Holly rapidamente. — Vamos voltar logo ao lançador.

A coisa não seria tão simples.

Kronski estava sendo levado para um canto, por um gru­po de Extincionistas. Eles arengavam e até empurravam e cutu­cavam o doutor, ignorando seus argumentos, enquanto ouviam a mensagem ser passada repetidamente.

Epa, pensou Artemis, fechando o telefone.

Inevitavelmente, Kronski desmoronou. Empurrou os ator­mentadores como se fossem pinos de boliche, abrindo um es­paço para respirar, e depois, ofegando, tirou um walkie-talkie do cinto.

— Isolem a área — disse com voz chiada. — Usem toda a força necessária.

Mesmo que os seguranças do Domaine des Hommes esti­vessem tecnicamente trabalhando para os Extincionistas, sua lealdade estava com o homem que pagava os salários. Esse ho­mem era Damon Kronski. Ele podia se vestir como um pavão demente e ter modos de cão do deserto, mas sabia a combina­ção do cofre e fazia os pagamentos na data certa.

Os atiradores de elite que estavam no terraço superior de­ram alguns tiros de alerta acima das cabeças da multidão, o que causou mais pandemônio ainda.

— Tranquem o prédio — disse Kronski ao walkie-talkie. — Preciso de tempo para juntar meus bens. Dez mil dólares em dinheiro vivo para cada homem que me apoiar.

Não havia necessidade de mais incentivo. Dez mil dólares correspondiam a dois anos de salário para aqueles homens.

As portas e janelas foram fechadas e controladas por guar­das corpulentos, cada um brandindo um fuzil ou uma espada nimcha marroquina, fabricada por encomenda, com cabo de chifre de rinoceronte que Kronski mandara fazer para a equi­pe de segurança.

Os apavorados Extincionistas correram para os banheiros ou alcovas, qualquer lugar que pudesse ter uma janela. Digi­tavam números freneticamente em seus telefones, gritando por ajuda de qualquer um, em qualquer lugar.

Alguns eram mais hábeis. Tommy Kirkenhazard sacou uma pistola de cerâmica que havia conseguido trazer embaixo do chapéu e deu alguns tiros na direção do terraço superior, de trás de um pesado balcão de teca. Foi respondido por uma saraivada vinda de cima, que despedaçou garrafas, espelhos e copos, fa­zendo os cacos voarem como se fossem pontas de flecha.

Com um golpe de dedos no plexo solar, um asiático alto desarmou rapidamente um guarda numa porta.

— Por aqui! — gritou ele, escancarando a porta, que foi rapidamente bloqueada pelos Extincionistas.

Artemis e Holly se abrigaram atrás da jaula, procurando uma saída.

— Você consegue ficar invisível?

Holly torceu o queixo e um braço desapareceu.

— Estou com pouca energia. Só o suficiente para um minuto ou dois. Estive economizando.

Artemis fez um muxoxo.

— Você vive com pouca energia. O N° 1 não a encheu com a magia especial dele?

— Talvez, se o seu guarda-costas não tivesse me acertado com um dardo. Duas vezes. Talvez, se eu não tivesse de curar você no parque Rathdown. E talvez, se eu não estivesse me escudando no souq, tentando encontrar seu macaco.

— Lêmure — disse Artemis. — Pelo menos salvamos Jayjay.

Holly se abaixou quando uma chuva de vidro voou sobre sua cabeça.

— Minha nossa, Artemis. Você parece que realmente se importa com um bicho. Bela barba, por sinal.

— Obrigado. Agora, você acha que conseguiria invisibi­lidade por tempo suficiente para desarmar aqueles dois guar­das na porta da cozinha, atrás de nós?

Holly avaliou os dois homens. Ambos tinham pistolas e irradiavam malignidade suficiente para cortar o ar.

— Não deve ser problema.

— Bom. Faça isso discretamente. Não queremos outro gargalo entupido. Se nos separarmos, vamos nos encontrar em algum lugar aqui perto. No souq.

— Certo — disse Holly, vibrando até ficar invisível. Um segundo depois Artemis sentiu uma mão no ombro e ouviu uma voz sem corpo, no ar.

— Você veio por minha causa — sussurrou Holly. — Obrigada.

Então a mão desapareceu.

Toda magia tem um preço. Quando as criaturas se escudam, sacrificam habilidades motoras finas e o pensamento claro. É infinitamente mais difícil montar um quebra-cabeça quando seu corpo está vibrando mais depressa do que as asas de um beija-flor, mesmo que seu cérebro possa parar de chacoalhar por tempo suficiente para se concentrar no quebra-cabeça.

Na Academia da LEP, Holly havia recebido uma dica de um treinador de Atlântida. Realmente ajudava a dominar as tre­medeiras do escudo se você encolhesse e levantasse os abdomi­nais inferiores, reforçando a parte interna. Isso lhe dava algo em que se concentrar e mantinha o tronco um pouco mais retesado.

Holly treinou o exercício enquanto atravessava o salão de banquete até a cozinha. Quando um frenético Extincionista segurando uma faca de manteiga deixou de acertar nela por um triz, Holly pensou que algumas vezes ficar invisível era mais perigoso do que permanecer à vista.

Os dois guardas à porta estavam realmente rosnando para qualquer um que chegasse perto demais. Eram grandes, até mesmo para humanos, e Holly ficou satisfeita porque não se­ria necessária nenhuma habilidade motora fina. Dois socos rápidos no feixe de nervos acima do joelho deveriam bastar para derrubar os sujeitos.

Simples, pensou, e depois: eu não deveria ter pensado isso. Sempre que você pensa isso, algo errado acontece.

É claro que estava absolutamente certa.

Alguém começou a disparar contra os guardas de Kronski. Dardos prateados cortavam o ar e depois se cravavam na pele com um som enjoativo.

Holly soube instantaneamente quem era o atirador, e en­tão suas suspeitas foram confirmadas quando viu uma silhue­ta familiar ancorada nas traves do teto.

Butler!

O guarda-costas estava envolto num cobertor do deserto, mas Holly o identificou pela forma da cabeça e também pela inconfundível posição de tiro: cotovelo esquerdo dobrado um pouco mais do que a maioria dos atiradores preferia.

O jovem Artemis o mandou para limpar o caminho para nós, percebeu. Ou talvez o próprio Butler tenha tomado a decisão.

O que quer que fosse, Butler não estava ajudando tanto quanto esperava. Com os guardas caindo junto à saída de in­cêndio, os Extincionistas começaram a se empilhar sobre eles, desesperados para fugir daquele prédio.

Extincionistas enjaulados, pensou Holly. Tenho certeza de que Artemis aprecia essa ironia.

No momento em que Holly recuou os punhos, os dois guardas na porta da cozinha levaram a mão ao pescoço e tombaram à frente, sem consciência antes mesmo de bater no chão.

Belos tiros. Dois em menos de um segundo, a 18 metros de distância. E com dardos, que são quase tão precisos quanto esponjas.

Ela não foi a única a notar a porta sem guardas. Uma dúzia de Extincionistas histéricos foi para lá, gritando como fãs de bandas de rock.

Temos de sair deste prédio. Agora.

Holly se virou para Artemis, mas ele estava perdido num amontoado de Extincionistas que avançavam.

Ele deve estar ali, em algum lugar, pensou, depois foi espre­mida pela turba, levantada e carregada para a cozinha.

— Artemis — gritou, esquecendo completamente que ainda estava invisível. — Artemis!

Mas ele não estava à vista. O mundo era uma confusão de cotovelos e corpos, suor e gritos. Vozes estavam em seus ouvidos e respirações ofegantes em seu rosto, e quando havia se desemaranhado da confusão, o salão de banquetes estava praticamente deserto. Restavam alguns desgarrados, mas nada de Artemis.

O souq, pensou. Vou encontrá-lo no souq.

Artemis se retesou para correr. Assim que Holly derrubasse os guardas, ele iria disparar o mais rápido que pudesse e rezar para não tropeçar e cair. Imagine, suportar tudo isso para ser derro­tado por falta de coordenação. Butler certamente diria: eu avisei, quando os dois se encontrassem na outra vida.

De repente o nível de pandemônio subiu alguns pontos e os gritos dos Extincionistas fizeram Artemis se lembrar dos ani­mais em pânico no Parque Rathdown.

Extincionistas enjaulados, pensou. Que ironia!

Os guardas na porta da cozinha caíram, segurando o pescoço.

Belo trabalho, capitã.

Artemis se abaixou, como um corredor de cem metros ra­sos esperando o tiro de largada, depois se catapultou do escon­derijo atrás da plataforma.

Kronski trombou com ele usando todo o peso, fazendo os dois passarem pelo corrimão e cair na plataforma. Artemis tombou violentamente sobre a cadeira de bebê, que desmoro­nou embaixo dele, com um dos braços arranhando o lado de seu corpo.

— Isso tudo é sua culpa — guinchou Kronski. — Esta deveria ser a melhor noite da minha vida.

Artemis sentiu-se esmagado. A boca e o nariz estavam co­bertos por pano roxo encharcado de suor.

Ele pretende me matar, pensou. Eu o pressionei demais.

Não havia tempo para planejar e, mesmo que houvesse, não era uma daquelas situações em que um belo teorema ma­temático poderia ser encontrado para tirar Artemis da situa­ção difícil. Só havia uma coisa a fazer: golpear.

Assim Artemis chutou, socou e arranhou. Enterrou o joe­lho na ampla barriga de Kronski e o cegou com os punhos.

Tudo muito superficial, com pouco efeito duradouro, a não ser um. O calcanhar direito de Artemis roçou no peito de Kronski. Kronski nem sentiu. Mas o calcanhar acertou breve­mente o enorme botão do controle remoto que estava no bol­so do doutor, liberando o alçapão da plataforma.

No segundo em que seu cérebro registrou a perda de apoio às costas, Artemis soube o que havia acontecido.

Estou morto, percebeu. Desculpe, mamãe.

Caiu no poço, rompendo o feixe de laser com o cotove­lo. Houve um bip e meio segundo depois o poço se encheu de chamas branco-azuladas que criaram manchas pretas nas paredes.

Nada poderia ter sobrevivido.

Kronski se firmou nos corrimões da plataforma, com suor pingando da ponta do nariz para o poço, evaporando-se na descida.

Eu me sinto mal com o que aconteceu?, perguntou a si mes­mo, cônscio de que os psicólogos recomendavam encarar o trauma, para evitar o estresse mais tarde na vida.

Não, descobriu. Não me sinto. Na verdade parece que um peso me foi tirado dos ombros.

Kronski se levantou com um grande estalar de joelhos. Bom, onde está a outra?, pensou. Ainda tenho peso a perder.

Artemis viu as chamas brotando ao redor. Viu a pele brilhar em azul com a luz e ouviu o rugido, depois passou, incólume. Impossível.

Obviamente que não. Obviamente aquelas chamas tinham mais latido do que mordidas. Hologramas?

O piso do poço cedeu sob seu peso com um sibilar pneu­mático e Artemis se viu numa subcâmara, olhando para pesa­das portas de aço se fechando acima.

A visão de dentro de um compartimento com tampo móvel.

Um compartimento com tampo retrátil muito tecnológico. Projeto das criaturas do subterrâneo, sem dúvida.

Artemis se lembrou de algo que Kronski havia dito antes.

Não foi assim que ela disse que aconteceria...

Ela... ela.

Projeto das criaturas. Espécies em perigo de extinção. Que criatura do Povo estivera colhendo fluido encefálico de lêmure antes mesmo da epidemia de encantropia?

Artemis empalideceu. Ela, não. Por favor, não ela.

O que tenho de fazer? Quantas vezes preciso salvar o mundo dessa lunática?

Ficou de joelhos rapidamente e viu que fora enviado, através de um funil, até uma plataforma almofadada. Antes que pudesse rolar para fora, Octoamarras saltaram de reentrâncias ao longo da borda de aço da plataforma, prendendo-o com mais firmeza do que uma vaca derrubada num rodeio. Gás roxo saiu sibilando de uma dezena de bicos no alto, encobrindo a plataforma.

Prenda a respiração. Os animais não sabem prendera respiração.

Prendeu até parecer que seu esterno iria se rachar e então, quando já ia exalar e sugar um bocado daquilo, um segundo gás foi bombeado para dentro da câmara, cristalizando o pri­meiro, que caiu sobre Artemis como roxos flocos de neve.

Agora você está dormindo. Finja.

Uma pequena porta deslizou suavemente, com um som que parecia ar soprado através de um canudinho.

Artemis espiou através de um olho semicerrado.

Campo magnético, pensou, com uma faixa de aço roçando em sua testa.

Sei o que vou ver, mas não tenho vontade de ver.

Uma duende-diabrete surgiu emoldurada na porta, com as feições minúsculas e lindas mostrando sua crueldade costu­meira e presunçosa.

— Isto — guinchou Opala Koboi, apontando um dedo que vibrava — não é um lêmure.

 

Butler correu do quartel-general dos Ex­tincionistas até o souq. Artemis estava esperando no prédio onde haviam planejado a troca do dia anterior. A presença policial em Fez não era de mais do que algumas patrulhas de dois homens, de modo que era fácil para alguém com a experiência de Butler se esgueirar sem ser detectado. Mesmo não sendo ilegal visitar uma medina, certamente as pessoas não gostavam de ver um gigante andar por uma área turística com um fuzil grande às costas.

Butler se enfiou num canto escuro e rapidamente dividiu seu fuzil de dardos em quase uma dúzia de partes, enfiando-as em várias latas de lixo. Era possível que conseguisse subornar os homens da alfândega no aeroporto Fez Saïss e simplesmen­te enfiar a arma embaixo de seu banco, mas hoje em dia era melhor ficar em segurança.

O Artemis de dez anos estava sentado num lugar combi­nado anteriormente, numa das janelas dos atiradores de elite, tirando fiapos inexistentes da manga do paletó, o que era seu equivalente a andar nervoso de um lado para o outro.

— E então? — perguntou, preparando-se para a resposta.

— A fêmea saiu — respondeu Butler. Achou melhor não mencionar que o rapaz cabeludo tivera tudo sob controle até o vídeo de Artemis chegar.

Artemis captou a implicação.

— A fêmea? O outro também estava lá?

Butler assentiu.

— O cabeludo morreu. Tentou um resgate e não deu certo.

Artemis ofegou.

— Morreu? Morreu?

— Repetir a palavra não muda o significado — disse Butler incisivamente. — Ele tentou resgatar a amiga e Kronski o ma­tou. Mas o que está feito, está feito, não é? E pelo menos temos os nossos diamantes. — Butler controlou a irritação. — Deve­ríamos ir para o aeroporto. Preciso fazer as verificações pré-vôo.

Artemis estava atordoado e em silêncio, incapaz de afastar os olhos do saco de diamantes que piscavam acusadoramente em seu colo.

Holly não estava com sorte. Seu escudo estava tão fraco que ela o desligou para economizar a última fagulha para uma pe­quena cura, se fosse necessária, e nem bem sua imagem se so­lidificou, um dos capangas de Kronski a viu e mandou uma mensagem pelo walkie-talkie, para todo o esquadrão. Agora ela estava correndo pela medina para salvar a vida, rezando para que Artemis estivesse no ponto de encontro e que tivesse pen­sado em trazer a motoneta.

Ninguém estava atirando contra ela, o que era encorajador, a não ser que Kronski quisesse dar os tiros pessoalmente.

Agora não havia tempo para pensar nisso. A prioridade era a sobrevivência.

A medina estava calma nesse fim de tarde, com apenas al­guns turistas desgarrados e os mercadores empedernidos ain­da caminhando pelas ruas. Holly se desviou deles, derrubando tudo que pudesse no caminho do bando de seguranças que vinha atrás. Pulava por cima de torres de cestos, derrubou uma banca de churrasco grego e empurrou com os ombros uma mesa de temperos, riscando uma parede branca com arcos multicoloridos.

O trovão de passos atrás não diminuiu nem um pouco. Sua tática não estava dando certo. Os seguranças eram simplesmen­te grandes demais e estavam passando pelos obstáculos.

Então se desvie. Despiste-os nos becos.

Essa tática não foi mais bem-sucedida do que a anterior. Seus perseguidores estavam familiarizados com o desenho da medina e coordenavam a perseguição usando rádios, impelin­do Holly na direção do souq de couros.

Onde estarei em espaço aberto. Alvo fácil.

Holly continuou correndo, com os sapatos de Artemis machucando os calcanhares. Uma série de gritos e palavrões irrompeu atrás quando ela trombou sem pedir desculpas num grupo de turistas e derrubou garotos que vendiam chá, fazen­do bandejas voarem.

Estou encurralada, pensou em desespero. É melhor você es­tar esperando, Artemis.

Ocorreu-lhe que ia levando o bando diretamente para Arte­mis, mas não havia outra opção. Se ele estivesse esperando, poderia ajudar; caso contrário, ela estava sozinha, de qualquer modo.

Saltou à esquerda, mas quatro guardas bufando bloquea­vam o beco, todos segurando facas compridas e malignas. Pelo outro lado, acho.

À direita, então. Holly entrou derrapando no souq de cou­ros, os calcanhares levantando leques de poeira. Onde você está, Artemis?

Lançou o olhar para o alto, para o ponto de observação que tinham usado, mas não havia nada ali. Nem mesmo o tre­meluzir revelador de um esconderijo.

Ele não está aqui.

Sentiu o pânico arranhar o coração. Holly Short era uma excelente policial de campo, mas estava fora de sua jurisdição, de sua capacidade e de seu tempo.

Agora o souq de couros estava silencioso, com apenas al­guns trabalhadores raspando peles nos terraços ao redor. Lanter­nas estalavam abaixo da linha dos telhados e as urnas gigantescas espreitavam como casulos alienígenas. O cheiro era tão ruim quanto no dia anterior, possivelmente pior, já que as tinas ti­nham tido mais tempo para cozinhar. O fedor de cocô de pombo acertava Holly como uma luva macia e febril, aturdin­do ainda mais sua mente.

Continue correndo. Encontre um esconderijo.

Passou meio instante pensando que parte do corpo ela tro­caria por uma arma, depois partiu correndo para uma porta na parede adjacente.

Um guarda apareceu, tirando a faca da bainha. A lâmina era vermelha. Talvez de sangue, talvez de ferrugem. Holly mudou de direção, perdendo um sapato ao fazer a curva. Ha­via uma janela num andar acima, mas a parede era rachada — ela poderia escalar.

Mais dois guardas. Rindo. Um segurava uma rede, como um gladiador.

Holly parou, derrapando.

Estamos no deserto! Por que ele tem uma rede de pesca?

Tentou de novo. Um beco que mal teria largura para um humano adulto. Estava quase lá quando um guarda gordo, com rabo-de-cavalo que ia até a cintura e a boca cheia de dentes amarelados se enfiou na passagem, bloqueando-a.

Presa. Presa. Não há como escapar e não tenho magia suficiente para me escudar. Nem mesmo para mesmerizar.

Era difícil permanecer calma, apesar de todo treinamento e experiência. Holly podia sentir seus instintos animais bor­bulhando na boca do estômago.

Sobreviva. Faça o que for necessário.

Mas o que poderia fazer? Uma criatura desarmada, do ta­manho de uma criança, contra um esquadrão de homens ar­mados e musculosos.

Eles formaram um círculo irregular ao redor dela, serpen­teando por entre as urnas em câmera lenta. Cada par de olhos cobiçosos e brilhantes focalizados em seu rosto. Cada vez mais perto, abrindo os braços para o caso de a presa tentar correr para a liberdade.

Holly podia ver as cicatrizes e as marcas de varíola, o deserto nas unhas e nos punhos das camisas. Podia sentir o bafo e contar as obturações.

Levantou os olhos para o céu.

— Socorro! — gritou.

E começou a chover diamantes.

 

Abaixo do quartel-general dos Extincionistas

— Isso não é um lêmure — repetiu Opala Koboi, batucando no chão com um minúsculo dedo do pé. — Sei que não é um lêmure porque não tem rabo e parece estar usando roupas. Isto é um humano, Mervall. Um Garoto da Lama.

Um segundo duende-diabrete apareceu na porta. Mervall Brill. Um dos infames irmãos Brill que alguns anos mais tarde iriam libertar Opala de sua cela acolchoada no manicômio. Sua expressão era uma mistura de perplexidade e terror. O que não era bonito em rosto nenhum.

— Não entendo, srta. Koboi — disse ele, remexendo no botão de cima de seu jaleco vermelho. — Tudo foi acertado para o lêmure. A senhorita mesma mesmerizou Kronski.

As narinas de Opala se alargaram.

— Está sugerindo que, de algum modo, isto é minha cul­pa? — Ela apertou a garganta, como se a simples idéia pro­vocasse dificuldades de respiração.

— Não, não, não — respondeu Mervall depressa. — Não poderia ser culpa da srta. Koboi. Afinal de contas, a srta. Koboi é a perfeição personificada. A perfeição não comete erros.

Essa declaração ultrajante seria reconhecida como puxa-saquismo descarado por qualquer pessoa com a cabeça no lu­gar, mas Opala Koboi a achou justa e racional.

— Exato. Muito bem, Mervall. É uma pena seu irmão não ter um décimo de sua sensatez.

Mervall sorriu e estremeceu. O sorriso era uma aceitação do elogio, o tremor era porque a menção ao gêmeo o havia lembrado de que, neste momento, seu irmão estava trancado numa jaula com um porco vermelho do rio, como castigo por não ter elogiado as botas novas de Opala.

A srta. Koboi estava tendo um dia ruim. No momento, dois em cada sete eram ruins. Se as coisas piorassem, ainda que o salário fosse astronômico, os irmãos Brill poderiam ser obri­gados a procurar outro emprego.

Mervall decidiu distrair a chefe.

— Eles estão enlouquecendo lá em cima. Disparando ar­mas. Duelando com talheres. Esses Extincionistas são uma gente instável.

Opala se inclinou acima de Artemis, fungando suavemen­te, balançando os dedos para ver se o humano estava acordado.

— O lêmure era o último. Eu estava a um tico assim de ser todo-poderosa.

— Um tico quanto? — perguntou Mervall. Opala franziu os olhos para ele.

— Está querendo ser engraçado?

— Não. Eu sinceramente queria saber...

— É uma expressão — reagiu rispidamente a duende-dia­brete, voltando para a câmara principal.

Mervall assentiu devagar.

— Uma expressão. Sei. O que devo fazer com o humano? Opala não parou de andar.

— Ah, você pode muito bem fazer a colheita nele. O flui­do encefálico humano é um bom hidratante. Depois vamos fazer as malas e achar aquele lêmure.

— Devo jogar o corpo drenado dele no poço dos animais? Opala ergueu os braços.

— Ah, pelo amor dos céus. Será que eu preciso ensinar tudo? Você não consegue mostrar um pouco de iniciativa?

Mervall empurrou a plataforma com rodas atrás de sua chefe.

Então, para o poço dos animais, pensou.

 

Diamantes caíam numa chuva de brilhos. Estrelas cadentes piscando à luz das lâmpadas.

O pagamento do jovem Artemis, percebeu Holly. Ele está me jogando uma corda de salvação.

Por um momento os guardas ficaram hipnotizados. Seus rostos tinham a expressão atordoada de crianças que acorda­ram e ficaram surpresas ao se pegar de bom humor. Estendiam os dedos, olhando os diamantes quicarem e rolarem.

Então um deles quebrou o feitiço.

— Des diamants! — gritou.

Ouvir a palavra dita em voz alta galvanizou os companhei­ros. Caíram de joelhos, batendo no chão empoeirado em busca das pedras preciosas. Outros mergulhavam nas tinas fétidas enquanto registravam as ondulações minúsculas causadas pe­las pedras batendo no líquido.

Tumulto, pensou Holly. Perfeito.

Olhou para cima bem a tempo de ver uma pequena mão voltar para o retângulo preto de uma janela.

O que o fez agir assim? Foi um gesto muito pouco ao estilo Artemis.

Um guarda que mergulhou perto de sua perna a fez lem­brar que as coisas ainda estavam bem difíceis.

Em sua ganância, eles se esqueceram de mim, mas talvez se lembrem do dever quando as pedras estiverem nos bolsos.

Holly parou um momento para dirigir uma saudação à janela do jovem Artemis, depois correu para longe da vista dele, em direção ao beco mais próximo, e acabou sendo achatada por Damon Kronski.

— Dois por dois — bufou ele. — Peguei vocês dois. Deve ser meu dia de sorte.

Quando isso vai acabar?, pensou Holly, incrédula. Como essas coisas podem continuar a acontecer?

Kronski baixou sobre ela como um elefante em fúria, com rugas emoldurando os óculos escuros, o suor correndo em bi­cas pelo rosto, pingando do lábio franzido.

— Só que esse não é meu dia de sorte, não é? — gritou ele, com uma nota aguda de histeria. — Vocês garantiram isso. Você e seu cúmplice. Bom, minha câmara de gás cuidou dele. Agora vou cuidar de você!

Holly ficou atordoada. Artemis morreu?

Não acreditaria. Nunca. Quantas pessoas haviam conside­rado Artemis morto e viveram para se arrepender? Muitas. Ela era uma.

Holly, por outro lado, estava se mostrando mais fácil de ser morta. Sua visão ia ficando turva, os membros pareciam se mover dentro d’água e o peso do mundo estava em seu peito. O único sentido que funcionava plenamente era o do olfato.

Que jeito de morrer! Inalando cocô de pombo com o último suspiro.

Ouviu as próprias costelas gemendo.

Gostaria que Kronski pudesse sentir esse cheiro.

Uma idéia soltou fagulha em seu cérebro, a última brasa numa fogueira agonizante.

Por que ele não deveria sentir? E o mínimo que posso fazer.

Mergulhou fundo em seu centro de magia, procurando aquela última migalha. Havia um tremor lá dentro. Não o su­ficiente para se proteger, ou mesmo para mesmerizar, mas talvez uma pequena cura.

Em geral os feitiços de cura eram usados em ferimentos recentes, mas a anosmia de Kronski era um sofrimento de toda a vida. Consertá-lo agora poderia ser perigoso, e quase certa­mente doloroso.

Ah, bem, pensou Holly. Se doer, doeu.

Levantou a mão para além do antebraço que envolvia sua garganta, chegando ao rosto de Kronski, forçando a magia a chegar à ponta dos dedos.

Kronski não se sentiu ameaçado.

— O que é isso? Está brincando de cadê seu nariz? Holly não respondeu. Em vez disso fechou os olhos, en­fiou dois dedos nas narinas de Kronski e mandou sua última fagulha de magia por aqueles canais.

— Cure — disse ela. Um desejo e uma oração. Kronski ficou surpreso, mas inicialmente não pareceu chateado.

— Ei, o que... — disse ele, depois espirrou. O espirro foi suficientemente forte para fazer os ouvidos estalarem e afastá-lo de sua prisioneira. — Que negócio é esse? Você é uma criança de cinco anos? Enfiando os dedos no meu nariz. — Outro espirro. Desta vez mais forte. Soprando uma trombeta de va­por através de cada narina.

— Isso é ridículo. Vocês são mesmo...

Um terceiro espirro, este traumatizando todo o corpo. Lágri­mas escorreram pelo rosto de Kronski. Suas pernas tremeram e os óculos se despedaçaram na armação.

— Minha nossa — disse Kronski, e começou a guinchar. Seus tendões se retesaram, os dedos dos pés apontaram e os das mãos rasgaram buracos no ar.

— Uau — disse Holly, massageando a garganta. Era uma reação mais forte do que ela havia esperado.

O cheiro era ruim, mas Kronski agia como se estivesse morrendo. O que Holly não havia entendido completamente era o poder do olfato despertado no doutor. Imagine o júbilo de enxergar pela primeira vez, ou a euforia de um primeiro passo. Então eleve isso ao quadrado e transforme em negativo. Pegue uma bola de veneno, mergulhe em espinhos e esterco, enrole num embrulho de bandagens cheias de pus, ferva tudo isso num caldeirão de excrementos incrivelmente malignos e enfie pelo seu nariz.

Era o cheiro que Kronski sentia, isso o deixava louco.

Deitou-se de costas, retorcendo-se e gadanhando o céu.

— Nojento — disse, repetindo a palavra sem parar. — No­jento, nojento.

Holly conseguiu se ajoelhar, tossindo e cuspindo na areia seca. Todo o seu ser parecia espancado e machucado, das costas ao espírito. Olhou a expressão de Kronski e percebeu que não havia sentido em lhe fazer perguntas. O presidente dos Extin­cionistas não seria capaz de uma conversa lógica por enquanto.

Talvez seja melhor assim, pensou ela. Não o vejo liderando nenhuma organização internacional por um bom tempo.

Holly notou uma coisa. Uma das lentes de Kronski havia se despedaçado completamente, revelando o olho por baixo. A íris era de um violeta estranho, quase do mesmo tom dos óculos, mas não foi isso que atraiu sua atenção. A borda da retina estava machucada, como se tivesse sido mordiscada por peixes minúsculos.

O sujeito foi mesmerizado, percebeu Holly. Uma criatura do Povo o está controlando.

Ficou de pé e foi mancando, com apenas um sapato, pelo beco mais próximo, com as vozes de ganância e briga sumin­do lá atrás.

Se há alguém do Povo envolvido, nada é o que parece. E, se nada é o que parece, talvez Artemis Fowl ainda esteja vivo.

 

Mervall Brill piscou para si mesmo refletido na porta cromada de um frigorífico para corpos.

Sou um cara bonito, pensou, e esse jaleco cobre a pança bas­tante bem.

— Brill! — gritou Opala de seu escritório. — Quando é que esse fluido encefálico vai chegar?

Merv pulou.

— Vou sugá-lo agora mesmo, srta. Koboi.

O duende-diabrete pôs o peso atrás do carrinho com sua carga humana, seguindo por um corredor curto até o labora­tório propriamente dito. Estar encerrado nessas instalações minúsculas com Opala Koboi não era piquenique. Só os três, durante semanas sem fim, drenando o fluido de espécies em perigo de extinção. Opala poderia se dar ao luxo de contratar mil ajudantes de laboratório, mas era superparanoica com re­lação ao segredo. O nível de paranóia de Opala era tão grande que ela começara a suspeitar de que plantas e objetos inanimados a estariam espionando.

— Eu posso cultivar câmeras! — havia berrado para os irmãos Brill durante uma reunião. — Quem diz que aquele centauro desprezível, o Potrus, não teve sucesso em colocar equi­pamentos de vigilância em plantas? Portanto livrem-se de todas as flores. Das pedras também. Não confio nelas. Pustulazinhas desgraçadas.

Assim, os irmãos Brill passaram uma tarde revirando as instalações em busca de qualquer coisa que pudesse conter um grampo de vigilância. Até os blocos de desodorizantes de va­sos sanitários tiveram de ser jogados fora, já que Opala estava convencida de que a estavam fotografando quando usava o banheiro.

Mas mesmo assim a srta. Koboi tem o direito de ser paranóica, admitiu Merv, enquanto passava com a maca pela porta dupla do laboratório. Se a LEP descobrisse o que ela está fazendo aqui, iria trancá-la pelo resto da eternidade.

A porta dupla dava num laboratório comprido, com pé-direito triplo. Havia jaulas empilhadas até o teto, cada uma com um animal preso. Eles gemiam e piavam, sacudindo as barras, batendo nas portas. Uma máquina-robô que distribuía ração seca estava zumbindo em meio a elas, cuspindo bolinhas de cor cinza nas jaulas apropriadas.

A ilha central era uma série de plataformas cirúrgicas. Ha­via uma quantidade de animais sedados sobre as mesas, presos, como Artemis, por rígidas Octoamarras. Artemis viu um tigre siberiano, com patas viradas para o ar e o pelo raspado em partes do crânio. Em cada área careca havia algo parecido com mi­núsculas fatias de fígado. Quando eles passaram, uma das fatias fez um som molhado e um minúsculo diodo emissor de luz, na crista daquela coisa, piscou vermelho.

Merv parou para tirá-la e Artemis viu, horrorizado, que a parte de baixo da coisa tinha uma dezena de espinhos gotejantes.

— Está cheio até a borda, senhor Supermosquito-sangues­suga Geneticamente Modificado. Você é uma abominação nojenta, é sim. Mas certamente sabe sugar fluido encefálico. Eu diria que está pronto para ser espremido.

Merv apertou um pedal para abrir uma geladeira ali per­to e procurou entre os béqueres que estavam dentro, até achar o certo.

— Vejamos. LC de TigSib.

Pôs o béquer numa superfície de trabalho cromada, depois espremeu o negócio parecido com sanguessuga como se fosse uma esponja, até que a criatura entregou sua carga de fluido encefálico. Depois disso a sanguessuga foi jogada casualmente no lixo.

— Adoro você de montão — disse Mervall, retornando à plataforma de Artemis. — Sinto um monte de saudade.

Artemis viu tudo isso através dos olhos entreabertos. Esse era um local depravado e horrível e ele precisava sair dali.

Holly virá me pegar, pensou, e depois: Não, não virá. Vai pensar que estou morto.

Essa percepção gelou seu sangue.

Eu entrei no meio das chamas.

Então teria de se salvar. Não seria a primeira vez. Fique alerta, uma chance vai aparecer e você deve estar pronto para aproveitá-la.

Mervall encontrou um espaço na seção de cirurgia e esta­cionou Artemis.

— E ele coloca numa vaga impossível. Dizem que não podia ser feito. Estavam errados. Mervall Brill é o rei do es­tacionamento de carrinhos. — O duende-diabrete arrotou. — E este não é o futuro que eu tinha em mente quando era mais jovem.

Então, um tanto tristonho, passou uma jarra perfurada no interior de um aquário baixo até enchê-la de supersanguessugas convulsivas.

Ah, não, pensou Artemis. Ah, por favor.

E então foi obrigado a fechar os olhos enquanto Mervall se virava para ele.

Sem dúvida ele verá meu peito arfando. Vai me sedar e tudo estará acabado.

Mas aparentemente Mervall não notou.

— Uuuh, odeio vocês. Nojentos. Vou dizer uma coisa, hu­mano, se sua subconsciência puder me escutar, fique feliz por es­tar dormindo, porque você não ia querer passar por isso acordado.

Nesse ponto Artemis quase desmoronou. Mas pensou em sua mãe, para quem restava menos de um dia, e ficou em silêncio. Sentiu a mão esquerda ser puxada e ouviu Mervall grunhir.

— Fique firme. É só um instantezinho.

O aperto se afrouxou e Artemis acompanhou os movimen­tos de Mervall com os ouvidos e o nariz. Uma barriga mole roçou em seu cotovelo. Respiração soprando perto do ouvido. Mervall estava junto ao seu ombro esquerdo, estendendo a mão por cima dele.

Artemis abriu o olho direito apenas o suficiente e rolou a pupila na direção da fenda. Havia um refletor diretamente acima de sua cabeça, estendido sobre a mesa cirúrgica, preso num braço cromado, grosso e chato.

Cromo. Reflexivo.

Artemis observou as ações de Mervall na superfície polida. O duende-diabrete bateu na placa de controle sensível ao to­que da Octoamarra, revelando um teclado gnomês. Depois, cantando uma música popular dos diabretes, digitou sua se­nha. Um número a cada tempo do compasso.

— Diabretes da pesada! — cantou ele. — Rock pesado de duende, baby.

O que pareceu improvável para Artemis, mas ficou satis­feito com a música, já que lhe deu tempo de arquivar na me­mória a senha de Mervall.

Mervall soltou uma das amarras, que lhe permitiu esten­der o antebraço de Artemis. Mesmo se por acaso o humano acordasse, só poderia balançar o braço.

— Agora, minha pequena sanguessuga, faça seu trabalho asqueroso para a tia Opala e eu recompenso você espremendo suas entranhas num balde. — E suspirou. — Por que será que minhas melhores falas são desperdiçadas com anelídeos?

Então pegou uma sanguessuga na jarra, espremeu-a para fazer os espinhos se projetarem e bateu-a no pulso exposto de Artemis.

Artemis não sentiu nada além de uma imediata sensação de bem-estar.

Estou sendo sedado, percebeu. Um velho truque de troll. Anime-se antes de morrer. É um bom ardil e, de qualquer modo, até que ponto morrer pode ser ruim? Minha vida tem sido uma dificuldade depois da outra.

Mervall estava olhando seu cronômetro. Seu irmão estava naquela jaula de reciclagem havia um tempo tremendamente longo. Aquele porco vermelho do rio talvez decidisse comer um pedaço de carne de diabrete.

— Vou verificar — decidiu. — Volto antes que a sangues­suga esteja cheia. Primeiro sangue, depois cérebro. Você deve­ria ter elogiado as botas da srta. Opala, irmão.

E foi saltitando pelo corredor central, batendo na tela de cada gaiola enquanto passava, enlouquecendo os bichos.

— Diabretes da pesada! — cantou. — Rock pesado de duende, baby.

Artemis estava achando difícil se motivar. Era tão fácil ficar deitado na plataforma!, simplesmente deixando os problemas se esvaírem pelo braço.

Quando você decide morrer, pensou Artemis com lentidão, não importa quantas pessoas querem matá-lo.

Desejava que os animais se acalmassem. As conversas e os pios estavam interferindo no seu humor.

Havia até mesmo um papagaio em algum lugar, guinchan­do uma frase.

— Quem é sua mamãe? — perguntava ele repetidamen­te. — Quem é sua mamãe?

Minha mamãe é Angeline. Ela está morrendo. Os olhos de Artemis se abriram. Mamãe. Mãe.

Levantou o braço livre e bateu a mal-vinda sanguessuga contra uma das Octoamarras. O bicho explodiu espirrando muco e sangue, deixando meia dúzia de espinhos se projetan­do do braço de Artemis como lanças de soldados minúsculos.

Isso vai acabar doendo.

A garganta de Artemis estava seca, o pescoço torcido e a visão turva, mas mesmo assim levou menos de um minuto para ativar o teclado com a senha de Mervall e soltar as amarras.

Se isso tiver ligado a um alarme, estou encrencado.

Mas não houve sirene. Nenhum duende-diabrete veio cor­rendo.

Tenho tempo. Mas não muito.

Arrancou os espinhos da pele, encolhendo-se não de dor, mas com a visão dos buracos com bordas vermelhas no pulso. Um fio de sangue escorria de cada ferimento, mas era lento e aquoso. Ele não sangraria até a morte.

Coagulante nos espinhos. Claro.

Artemis andou feito zumbi pelo laboratório, gradualmen­te voltando a si. Havia centenas de olhares fixos nele. Agora os animais estavam em silêncio, narizes, focinhos ou bicos aper­tados contra as telas de arame, esperando para ver o que acon­teceria. O único som vinha do robô alimentador, zumbindo em sua rotina.

Só preciso escapar. Não há necessidade de confronto nem de salvar o mundo. Deixe Opala para lá e fuja.

Mas, claro, no mundo de Artemis Fowl as coisas raramen­te são simples. Artemis colocou óculos digitais que encontrou pendurados num gancho baixo, ativou o v-clado e usou a se­nha de Mervall para se ligar à rede. Precisava saber onde estava e como sair.

Havia plantas de toda a instalação armazenadas num ar­quivo de computador. Sem segurança, sem criptografia. Por que precisaria haver? Nenhum humano na superfície entraria, e, mesmo que entrasse, os humanos não sabiam ler gnomês.

Artemis estudou as plantas com cuidado e ansiedade cres­cente. As instalações consistiam em uma série de módulos in­terligados, abrigados em túneis antigos sob o quartel-general dos Extincionistas, mas havia apenas duas saídas. Poderia ir por onde havia chegado, o que não era ideal porque levava direta­mente a Kronski. Ou poderia escolher a estação de transporte no nível inferior, o que significaria roubar e pilotar um lançador. Suas chances de suplantar os complicados sistemas de preven­ção a roubos antes que Opala o vaporizasse eram mínimas. Teria de subir.

— Gosta do meu pequeno laboratório? — disse uma voz. Artemis olhou para além da tela dos óculos. Opala estava diante dele, com as mãos nos quadris.

— Tremendo lugar, não é? — continuou ela, em inglês. — Todos esses túneis estavam aqui mesmo, esperando por nós. Perfeito. Assim que os encontrei, soube que precisava tê-los, motivo pelo qual convenci o dr. Kronski a vir para cá.

Informação é poder, pensou Artemis. Não lhe dê nenhum.

— Quem é você? — perguntou.

— Sou a futura rainha deste mundo, no mínimo. Pode se referir a mim como srta. Koboi pelos próximos cinco minu­tos. Depois disso pode se referir a mim como aaaaarrrrgh, se­gurar a garganta, morrer gritando e assim por diante.

Tão metida a besta quanto me lembro.

— Parece que sou maior do que você, srta. Koboi. E, pelo que posso ver, você não tem armas.

Opala gargalhou.

— Não tenho armas? — gritou ela, abrindo os braços. — Estas criaturas me deram todas as armas de que preciso. — Ela acariciou o tigre adormecido. — Este gatinho grande aumen­ta meu controle mental. Essas lesmas-do-mar focalizam meus raios de energia. Uma injeção de barbatana de golfinho liqui­dificada misturada com a quantidade certa de veneno de co­bra faz o relógio biológico voltar cem anos.

— Isto é uma fábrica de armas — ofegou Artemis.

— Exato — disse Opala, satisfeita porque alguém final­mente entendia. — Graças a esses animais e seus fluidos eu me tornei a maga mais poderosa desde os feiticeiros-demônios. Os Extincionistas estiveram arrebanhando criaturas das quais eu preciso. Idiotas. Enganados por um jorro barato de chamas holográficas. Como se eu fosse matar essas criaturas maravi­lhosas antes de sugar seus fluidos. Vocês, humanos, são tão idiotas! Seus governos gastam fortunas procurando poder quan­do o tempo todo ele está cabriolando nas selvas.

— Tremendo discurso — disse Artemis, balançando os dedos, batucando no v-clado que só ele podia ver.

— Logo eu serei...

— Não diga. Logo você será invencível.

— Na verdade, não — respondeu Opala, com paciência admirável. — Logo poderei manipular o próprio tempo. Só preciso do...

E de repente tudo se encaixou para Artemis. Tudo na coisa toda. E ele soube que poderia escapar.

— Do lêmure. Você só precisa do lêmure. Opala bateu palmas.

— Exatamente, Garoto da Lama esperto. O fluido ence­fálico daquele lêmure maravilhoso é o último ingrediente de que preciso para minha fórmula de incremento de magia.

Artemis suspirou.

— Fórmula de incremento de magia? Escute o que você está falando.

Opala não percebeu o tom de zombaria, talvez porque não ouvisse isso muitas vezes.

— Já tive um lote inteiro de lêmures, mas a LEP se apro­priou deles para curar alguma peste e eu perdi o resto num incêndio. Todos os meus espécimes se foram e é impossível reproduzir seus fluidos. Resta um, e preciso dele. Ele é o meu modelo de clonagem. Com aquele lêmure vou controlar o próprio tempo. — Opala parou de falar por um momento, batendo com um dedo nos lábios curvos. — Espere um mo­mento, humano, o que você sabe sobre meu lêmure? — Ela afastou um dos dedos da boca e acendeu uma esfera de chama pulsante na ponta, derretendo o esmalte de unha. — Eu per­guntei: o que você sabe sobre meu lêmure?

— Belas botas — disse Artemis, depois escolheu uma opção na tela dos óculos, com um movimento rápido do dedo.

Tem certeza de que quer abrir todas as jaulas?, perguntou o computador.

Os Extincionistas estavam se esgueirando de volta para o quar­tel-general, guiados pelo intrépido Tommy Kirkenhazard, que segurava sua pistola vazia com muito mais bravata do que sen­tia de verdade.

— Tenho coisas naquele quartel-general — dizia repeti­damente à massa de pessoas amontoadas atrás dele. — Coisas caras. E não vou deixar para trás.

A maioria dos outros também tinha coisas caras, e agora que Kronski estava catatônico no souq e seus guardas pareciam ter fugido com o botim brilhante, esta parecia a melhor hora para reivindicar seus pertences e ir para o aeroporto.

Para alívio de Kirkenhazard, o quartel-general parecia to­talmente deserto, mas o grupo trêmulo foi assustado várias ve­zes por sombras noturnas que saltavam no vento marroquino.

Jamais vou atirar em alguma coisa com uma arma descarregada, pensou ele. Mas acho que ela não é mesmo muito eficaz.

Chegaram à porta do salão principal, que estava pendura­da por uma única dobradiça.

— Muito bem, pessoal — disse Kirkenhazard. — Não há carregadores para levar nossas coisas, então vocês mesmos têm de pegar.

— Ah, meu Deus — exclamou a condessa Irina Kostovich, e desmaiou nos braços de um magnata do petróleo escocês.

— Peguem o que puderem e vamos nos encontrar de novo aqui, em 15 minutos.

A condessa estava murmurando alguma coisa.

— O que foi isso? — perguntou Kirkenhazard.

— Ela disse que tinha marcado pedicuro para esta manhã. Kirkenhazard levantou a mão, escutando.

— Não. Não é isso. Mais alguém ouviu um rugido?

Os animais dispararam pelas portas abertas das jaulas com ale­gria selvagem, saltando, pulando, voando e deslizando. Leões, leopardos, vários macacos, papagaios, gazelas, centenas de cria­turas, todas com uma única idéia: escapar. Opala não achou divertido.

— Não acredito que você fez isso, Sujeito da Lama. Vou espremer seu cérebro como uma esponja.

Artemis baixou a cabeça, sem se importar nem um pouco com a imagem do cérebro/esponja. Se evitasse o olhar régio de Opala, ela não poderia mesmerizá-lo. A não ser que os pode­res aumentados lhe dessem acesso ao cérebro sem a conexão do nervo ótico.

Mesmo que não tivesse se abaixado, seria abrigado pela maré de criaturas que o engolfaram, tentando morder, cho­cando-se e escoiceando.

Isto é ridículo, pensou quando o cotovelo de um macaco tirou o ar de seus pulmões. Se Opala não me pegar, os animais pegarão. Preciso direcionar esse estouro.

Agachou-se atrás de uma das mesas cirúrgicas, puxando o tubo de anestésico do tigre enquanto este disparava, e forçou a vista por entre as patas que passavam, procurando um animal adequado.

Opala rugiu para as criaturas, num amálgama de todas as suas línguas. Era um som penetrante que dividiu a falange de animais no centro, de modo a fluir ao redor dela. Enquanto o rebanho passava, Opala disparava jorros pulsantes de energia que irrompiam de seus dedos e cortavam através de fileiras de criaturas, derrubando-as, sem sentidos. Jaulas tombavam como blocos de construção, geladeiras derramavam o conteúdo so­bre os ladrilhos.

Minha distração está sendo trucidada, pensou Artemis. Hora de sair.

Viu um conjunto de cascos vindo em sua direção e se pre­parou para um salto.

É um quaga, percebeu. Meio cavalo, meio zebra, e não existe nenhum em cativeiro há cem anos. Não é exatamente um garanhão puro-sangue, mas terá de servir.

A cavalgada foi um pouco mais difícil do que Artemis es­tava acostumado com os árabes dos Fowl. Nada de estribos em que se firmar, nem sela rangendo, nem rédeas estalando. Para não mencionar o fato de que o quaga não era domado e estava morrendo de medo.

Artemis deu um tapinha no pescoço dele.

Ridículo, pensou. Esse negócio todo. Um garoto morto esca­pando montado num animal extinto.

Segurou tufos da crina do quaga e tentou guiá-lo para a porta aberta. O bicho corcoveou e escoiceou, sacudindo a ca­beça listada para morder Artemis com dentes fortes e quadra­dos. O garoto apertou os calcanhares e se agarrou.

Opala estava ocupada se protegendo de uma onda de vin­gança animal. Alguns dos predadores maiores não estavam tão acovardados quanto seus primos e decidiram que o melhor modo de afastar a ameaça representada por Opala Koboi era devorá-la.

A minúscula duende-diabrete girava como uma bailarina demoníaca, lançando jatos de energia mágica que cresciam em seus ombros, juntavam força em esferas giratórias nos cotove­los e disparavam em pulsações líquidas.

Artemis nunca vira algo assim. Animais golpeados simples­mente se imobilizavam no ar, absolutamente sem ímpeto, ca­indo no chão como estátuas. Imóveis a não ser pelos olhos que rolavam aterrorizados.

Ela está realmente poderosa. Nunca vi uma força assim. Opala nunca deveria ter tido permissão para capturar Jayjay.

Opala estava ficando sem magia. Seus raios sumiam aos chiados ou espiralavam fora do alvo como busca-pés errantes. Abandonou-os e sacou duas pistolas do cinto. Uma foi imedia­tamente arrancada de sua mão pelo tigre que havia mancado com dificuldade para se juntar à briga, mas Opala não se sub­meteu à histeria. Rapidamente pôs a segunda arma num ajuste amplo e girou o cano de um lado para o outro enquanto dis­parava, soltando um leque de energia prateada.

O tigre foi o primeiro a cair, com uma expressão que dizia de novo, não. Vários outros animais o seguiram, cortados no meio de um guincho, um uivo ou um sibilo.

Artemis puxou a crina eriçada do quaga, fazendo-o saltar sobre uma mesa de cirurgia. O bicho bufou e reclamou, mas obedeceu, escorregando pela extensão de uma mesa e saltando para a próxima.

Opala deu um tiro na direção deles, mas o disparo foi ab­sorvido por um bando de condores.

A porta estava bem à frente, e Artemis temeu que o quaga hesitasse, mas não: ele disparou pelo corredor que ligava o la­boratório à câmara de chamas holográficas.

Artemis abriu rapidamente o painel de controle em seus óculos digitais roubados e escolheu o ajuste da rampa.

Pareceu demorar um tempo enlouquecedor até que a pla­taforma se estendesse, e nesses segundos Artemis fez o quaga andar em círculos para afastar da mente a idéia de desalojar o desagradável cavaleiro que estava em suas costas, e torná-los um alvo mais difícil caso Opala os seguisse pelo corredor.

Uma águia passou voando, com as penas raspando a bo­checha de Artemis. Um rato almiscarado subiu por seu tron­co, saltando para a plataforma que se erguia.

Havia luz no alto, os fachos enjoativos e oscilantes de um tubo de lâmpada defeituoso. Mas mesmo assim era luz.

— Vamos, menina — disse Artemis, sentindo-se o pró­prio caubói. — Iupiiii!

Os Extincionistas estavam reunidos em volta do dedo erguido de Tommy Kirkenhazard, ouvindo com atenção como se o ruído emanasse de dentro do dedo.

— Ah, não estou escutando nada — admitiu Tommy. — Devo ter sonhado. Afinal de contas, foi uma noite estressante para os amantes de humanos.

Então o salão se abriu com estrondo e os Extincionistas foram completamente engolfados por um mar de animais.

Kirkenhazard caiu sob um casal de babuínos chacma, inutil­mente puxando o gatilho de sua arma vazia e gritando sem parar:

— Mas nós matamos vocês, desgraça. Nós matamos vocês. Apesar de não ter havido mortes no quartel-general naquela noite, 18 pessoas foram hospitalizadas com mordidas, queima­duras, ossos quebrados e várias infestações. Kirkenhazard foi quem levou a pior. Os babuínos comeram sua arma e a mão que a segurava, depois entregaram o sujeito infeliz a um tigre grogue, que por acaso havia acordado de péssimo humor.

Nenhum dos Extincionistas notou um pequeno veículo subindo em silêncio de trás de um dos chalés, voando pelo par­que central e pegando um rapaz cabeludo que estava montado no que parecia um pequeno jumento listrado. O veículo girou num arco apertado, como uma pedra numa atiradeira, depois saltou para o céu noturno, como se tivesse de ir a algum local bem depressa.

Os pedicuros, e na verdade todos os tratamentos do spa, foram cancelados pelo dia seguinte.

Opala ficou desolada ao descobrir que, além de tudo, suas botas estavam arruinadas.

— Que mancha é essa? — perguntou a Mervall e seu ir­mão recém-libertado, Melodia.

— Não sei — murmurou Melodia, que ainda estava um tanto mal-humorado devido ao tempo passado na jaula.

— É algum tipo de cocô — sugeriu Mervall rapidamen­te. — A julgar pelo tamanho e a textura, eu diria que um dos grandes felinos ficou meio nervoso.

Opala sentou-se num banco, estendendo a bota.

— Tire-a, Mervall.

Ela pôs a sola na testa de Mervall e empurrou até ele tom­bar para trás, segurando o calçado sujo de cocô.

— Aquele Garoto da Lama. Ele sabe sobre o meu lêmure. Temos de segui-lo. Imagino que ele esteja com um rastreador.

— Ah, sim — confirmou Mervall. — Todos os recém-chegados são borrifados ao pousar. Há um rastreador radiativo em cada um de seus poros agora mesmo. É inofensivo, mas não há onde ele se esconder de nós, em todo este planeta.

— Bom. Na verdade, excelente. Eu penso em tudo, não é?

— Pensa, srta. Koboi — entoou Melodia. — A senhorita é brilhante. Espantosa em sua fabulosidade.

— Bem, obrigada, Melodia — disse Opala, como sempre sem perceber o sarcasmo. — E pensei que você estaria chatea­do depois da jaula do porco. Fabulosidade é uma palavra que não existe, por sinal. Para o caso de você estar pensando em escrever em seu diário como sou maravilhosa.

— Entendi o argumento — respondeu Melodia, sério. Opala ofereceu o outro pé a Mervall.

— Bom. Agora ajuste a autodestruição deste lugar e vamos preparar o lançador. Quero encontrar esse humano e matá-lo imediatamente. Fomos muito bonzinhos da última vez, com as sanguessugas. Agora é morte imediata.

Mervall se encolheu. Estava segurando duas botas cober­tas de cocô de tigre e preferiria usá-las a ficar no lugar daquele humano.

Artemis se deitou de costas no compartimento de carga, ima­ginando se poderia ter sonhado nos últimos minutos. Super­sanguessugas, tigres adormecidos e um quaga ranzinza.

Sentiu o piso vibrar e soube que estavam se movendo várias vezes mais rápido do que a velocidade do som. De repente a vibração desapareceu, sendo substituída por um zumbido muito mais calmo. Estavam desacelerando!

Artemis correu até a cabine, onde Holly olhava para um mostrador como se pudesse mudar a informação contida nele. Jayjay estava no banco do co-piloto e parecia cuidar da direção.

Artemis apontou para o lêmure.

— Pode parecer uma pergunta idiota, mas Jayjay está...

— Não. É o piloto automático. E é bom ver você vivo, por sinal. Bem-vindo ao resgate.

Artemis tocou o ombro dela.

— De novo eu lhe devo a vida. Bom, odeio passar direta­mente da gratidão para a petulância, mas por que diminuímos a velocidade? O tempo está acabando. Tínhamos três dias, lem­bra? Restam apenas horas.

Holly bateu no mostrador.

— Fomos rastreados por alguma coisa no quartel-gene­ral. O computador de alguém baixou nosso esquema. Pode me falar mais alguma coisa sobre isso?

— Opala Koboi — respondeu Artemis. — Opala está por trás de tudo. Está colhendo fluidos de animais para aumentar sua magia. Se puser as mãos em Jayjay, ficará invencível.

Holly não tinha tempo para ficar incrédula.

— Maravilhoso. Opala Koboi. Eu sabia que estava faltan­do um elemento psicótico nesta viagenzinha. Se Opala nos ras­treou, vai estar na nossa cola usando algo mais útil para guerra do que esta banheira.

— Temos escudos?

— Não muito. Podemos enganar os radares humanos, mas não os rastreadores do Povo.

— O que podemos fazer?

— Preciso nos manter aqui em cima, nas rotas aéreas, com todo o tráfego humano. Vamos ficar em velocidade subsônica para não atrair atenção. E no último instante vamos partir para a mansão Fowl. Não importará se Opala nos vir, porque quan­do nos alcançar estaremos de volta na corrente do tempo.

Palha Escavator enfiou a cabeça pela caixa de correspondência.

— Não há grande coisa aqui. Algumas moedas de ouro. O que dizem de eu ficar com elas? E ouvi alguém mencionar Opala Koboi?

— Não se preocupe. Tudo está sob controle. Palha fez um muxoxo.

— Sob controle? Como o Parque Rathdown estava sob controle. Como o souq de couros estava sob controle.

— Você não está nos vendo em nossas melhores condi­ções — admitiu Artemis. — Mas com o tempo passará a res­peitar a capitã Short e a mim.

A expressão de Palha era de dúvida.

— É melhor eu ver o significado de respeito no dicionário, porque não deve significar o que acho que significa, não é, Jayjay?

O lêmure bateu palmas com as mãos delicadas e emitiu algo que parecia uma gargalhada.

— Parece que você encontrou alguém do seu nível in­telectual, Palha — disse Holly, retornando aos equipamen­tos. — É uma pena que ele não seja fêmea; aí vocês poderiam se casar.

Palha fingiu choque.

— Romance fora da própria espécie. Isso é nojento. Que tipo de tarado beijaria alguém que nem faz parte da própria espécie?

Artemis massageou as têmporas que latejaram subitamente.

É um longo caminho até Tipperary, pensou, e depois mais alguns quilômetros até Dublin.

— Um lançador? — perguntou Opala. — Um lançador do Povo?

O veículo de Koboi estava pairando numa altitude de 45 quilômetros, no limiar do espaço. A luz das estrelas piscava no casco preto e fosco do lançador e a terra pairava embaixo, usan­do uma estola de nuvens.

— É o que os sensores mostram — disse Mervall. — Um velho modelo de mineração. Não tem muita coisa embaixo do casco e zero poder de fogo. Devemos ser capazes de pegá-lo.

— Devemos? — perguntou Opala, coçando o tornozelo para admirar suas novas botas vermelhas. — Por que devemos?

— Bom, nós o seguimos durante um tempo. Depois ele passou à velocidade subsônica. Imagino que o piloto esteja se­guindo pelas rotas aéreas humanas até se sentir seguro.

Opala deu um sorriso diabólico. Gostava de um desafio.

— Muito bem, vamos aproveitar todas as vantagens que tivermos. Temos a velocidade e temos as armas. Só precisamos apontar na direção certa.

— Que idéia incridífera! — disse Melodia com um risinho. Opala ficou magoada.

— Por favor, Melodia. Use palavras pequenas. Não me obrigue a vaporizá-lo.

Era uma ameaça oca, já que Opala não pudera produzir sequer uma fagulha desde que saíra do quartel-general. Ainda tinha o básico — controle mental, levitação, esse tipo de coisa — mas precisaria de um tremendo descanso antes de conse­guir um relâmpago. Mas os Brill não precisavam saber disso.

— Minha idéia é a seguinte: passei as fitas do laboratório por um programa de reconhecimento de voz e consegui uma combinação regional. Quem quer que seja aquele Garoto da Lama, ele mora na Irlanda. Provavelmente Dublin. Quero ir para lá o mais rápido possível, Melodia, e quando aquele trans­porte de mineração sair das rotas aéreas... — Opala fechou os dedos minúsculos em volta de uma formiga imaginária, espre­mendo o sangue do corpo dela. — Estaremos esperando.

— Fabulicioso — disse Melodia.

 

O sol já subira e começava a descer de novo quando Holly pas­sou com o lançador, com o motor falhando, sobre o muro da propriedade Fowl.

— Estamos perto do prazo final e este lixo está perto da morte — disse a Artemis. Holly pôs a mão no coração. — Sinto a fagulha do N° 1 morrendo por dentro, mas ainda há tempo.

Artemis assentiu. De algum modo a visão da mansão fez o sofrimento de sua mãe parecer mais urgente ainda. Preciso ir para casa.

— Muito bem, Holly. Você conseguiu. Coloque-nos no pátio de trás. Podemos entrar na casa pela porta da cozinha.

Holly apertou alguns botões.

— Para os fundos. Varredura de alarmes. Encontrei dois e um terceiro meio escondido. Sensores de movimento, se não estiver enganada. Só um alarme está sendo monitorado remotamente e os outros dois são localizados. Devo desligar o remoto?

— Sim, Holly, por favor, desligue o alarme. Há alguém em casa?

Holly verificou o sensor de imagem térmico.

— Um corpo quente. No andar de cima. Artemis suspirou. Aliviado.

— Bom. Só mamãe. Ela já deve ter tomado os comprimidos para dormir. O meu eu mais novo não pode ter voltado ainda.

Holly pousou o lançador com o máximo de suavidade que pôde, mas as engrenagens estavam gastas e os sacos de suspen­são vazios. Havia rachaduras nos estabilizadores e o giroscópio rodava como um catavento. O trem de pouso abriu um canal nas pedras do calçamento do pátio, fazendo-as rolar como tor­rões de solo diante de um arado.

Artemis segurou Jayjay no colo.

— Está pronto para mais aventuras, sujeitinho?

Os olhos redondos do lêmure estavam cheios de ansieda­de e ele olhou para Palha, buscando apoio.

— Sempre se lembre — disse Palha, coçando o queixo da criatura — de que você é o inteligente.

O anão encontrou uma velha bolsa de lona e começou a guardar o resto do conteúdo da geladeira.

— Não precisa — disse Holly. — A nave é sua. Leve, cave seu material roubado e voe para longe. Jogue esse trambolho no mar e viva dos lucros durante alguns anos. Só me prometa que não vai vender a humanos.

— Só o lixo — disse Palha. — E você disse que eu podia ficar com o lançador?

— Na verdade estou pedindo que você o leve. Vai me fa­zer um favor.

Palha riu.

— Sou uma pessoa generosa. Poderia lhe fazer um favor. Holly sorriu também.

— Bom. E lembre-se, quando nos encontrarmos de novo, nada disso aconteceu, ou talvez não vá acontecer.

— Meus lábios estão lacrados. Artemis se espremeu, passando por ele.

— Aí está uma coisa que eu pagaria para ver. Palha Esca­vator de boca fechada.

— É, é um prazer conhecê-lo também, Garoto da Lama. Estou ansioso para roubá-lo no futuro.

Artemis apertou a mão dele.

— Eu mesmo estou ansioso por isso, acredite ou não. Va­mos nos divertir um bocado.

Jayjay estendeu a mão para um aperto.

— Cuide do humano, Jayjay — disse Palha, sério. — Ele é meio burrinho, mas é bem-intencionado.

— Adeus, senhor Escavator.

— Até mais, jovem sr. Fowl.

Opala estava em sua terceira rodada do canto de meditação circular do Gola Schweem quando Mervall irrompeu em sua câmara particular.

— Encontramos o lançador, srta. Koboi — ofegou ele, apertando uma flexitela contra o peito. — Eles passaram para velocidade supersônica durante pouco mais de um minuto, sobre o Mediterrâneo. Mas bastou.

— Hammm, hammm haaa. Rahmammm hamm haaa — entoou Opala, terminando seu cântico. — Que a paz esteja den­tro de mim, a tolerância em volta de mim, o perdão no meu ca­minho. Agora, Mervall, mostre onde está aquele humano imundo, para que eu possa obrigá-lo a comer seus próprios órgãos.

Mervall estendeu a flexitela.

— Ponto vermelho. Costa leste.

— Militar?

— Não, surpreendentemente. É uma residência. Sem ne­nhuma defesa.

Opala saiu de sua poltrona me-abraça.

— Bom. Faça algumas varreduras. Esquente os canhões e me leve lá para baixo.

— Sim, srta. Koboi.

— E, Mervall...

— Srta. Koboi?

— Acho que o pequeno Melodia está sentindo uma paixonite por mim. Antes ele disse que eu era muito fotoatraente. O coita­dinho simplório. Poderia dizer a ele que não estou disponível? Se você não fizer isso, talvez eu tenha de mandar matar seu irmão.

Merv suspirou.

— Vou dizer, srta. Koboi. Tenho certeza de que ele terá um faniquito.

Artemis se pegou coçando a cabeça de Jayjay enquanto anda­vam pela mansão.

— Fique calmo, sujeitinho. Ninguém pode machucá-lo agora. Estamos em segurança.

Holly vinha atrás dele, na escada, guardando a retaguarda, com dois dedos estendidos rigidamente. Os dedos não eram uma arma carregada, mas podiam quebrar ossos se golpeassem com ímpeto suficiente.

— Ande, Artemis. O N° 1 está mais fraco, por isso preci­samos saltar logo.

Artemis passou ao redor de uma placa sensível ao peso, no décimo segundo degrau.

— Estamos chegando. Faltam segundos.

Seu escritório estava exatamente como ele havia deixado, o guarda-roupa ainda aberto, uma echarpe pendurada na pra­teleira de cima como uma cobra em fuga.

— Bom — disse Artemis, com a confiança crescendo. — Este é o ponto. O ponto exato.

Holly estava ofegando.

— Já não era sem tempo. Estou tendo problemas para sustentar o sinal. É como correr atrás de um cheiro.

Artemis passou um braço ao redor do ombro dela. Um grupo de três — cansados, com fome, mas empolgados.

Os ombros de Holly tremeram com uma exaustão e uma tensão que ela mantivera escondida até agora.

— Achei que você estava morto — disse.

— Eu também. Depois percebi que não podia morrer, não desta vez.

— Imagino que vá me explicar isso.

— Mais tarde. No jantar. Agora podemos abrir a corrente do tempo, amiga?

Houve um chiado súbito quando a cortina da janela saliente deslizou. O jovem Artemis e Butler estavam ali, ambos usan­do roupas metalizadas. Butler abriu o zíper de seu macacão para revelar uma arma grande presa ao peito.

— Que negócio de corrente do tempo é essa? — pergun­tou o Artemis de dez anos.

Palha Escavator estava enterrando uma moeda de ouro como sacrifício a Shammy, o deus anão da boa sorte, quando a terra explodiu sob seus pés e ele se viu montado na lâmina da proa de um lançador quebra-gelo.

Nem mesmo ouvi isso chegando, pensou, e depois, “É nisso que dá ficar pensando em Shammy.

Antes que pudesse se controlar o suficiente para deduzir o que era embaixo e o que era em cima, Palha se viu lançado à base de um freixo, com o cano de uma Neutrino restringindo o movimento de seu pomo-de-adão. Os pelos de sua barba per­ceberam instintivamente que a arma não era amigável e se enrolaram no cano.

— Belo lançador — disse Palha, tentando ganhar tempo até que as estrelas em sua visão se apagassem. — Motor sus­surrante, imagino.

Havia três duendes-diabretes diante dele. Dois machos e uma fêmea. Em geral os duendes-diabretes não são criaturas muito ameaçadoras, mas os machos estavam armados e a fê­mea tinha uma expressão ruim.

— Aposto — disse Palha — que você poria fogo no mun­do só para vê-lo se queimar.

Opala digitou a sugestão em um pequeno bloco de anota­ções eletrônico em seu computador de bolso.

— Obrigada. Agora conte tudo.

Vou resistir um minuto, depois dar alguma informação erra­da, pensou Palha.

— Não conto nada, diaba diabrete — disse ele, com o pomo-de-adão batendo nervoso contra o cano da arma.

— Uuuh — respondeu Opala, batendo o pé de frustra­ção. — Alguém não tem medo de mim?

Descalçou uma das luvas e pôs o polegar na têmpora de Palha.

— Agora mostre tudo.

E, com algumas fagulhas de magia restantes obtidas ilegal­mente, ela sugou cada lembrança dos últimos dias do cérebro de Palha. Era uma sensação extremamente desagradável, mes­mo para alguém acostumado a expelir grandes quantidades de material. Palha estremeceu e corcoveou enquanto os últimos dias eram sugados de sua cabeça. Quando Opala teve o que queria, o anão foi deixado inconsciente na lama.

Ele acordaria uma hora depois com o chip de partida de um lançador da LEP no bolso e nenhuma idéia de como havia chegado ali.

Opala fechou os olhos e folheou as novas lembranças.

— Ah — disse sorrindo. — Uma corrente de tempo.

— Não há tempo para isso — insistiu Artemis.

— Acho que há — argumentou o Artemis de dez anos.

— Vocês invadiram minha casa de novo, o mínimo que po­dem fazer é explicar esse comentário sobre corrente de tempo. Para não mencionar o fato de que está vivo.

O Artemis mais velho afastou o cabelo do rosto.

— Você deve me reconhecer agora. Certamente.

— Isto não é um comercial de xampu. Por favor, pare de balançar o cabelo.

Holly estava quase dobrada ao meio, com a mão no coração.

— Depressa — gemeu ela. — Ou terei de ir sem você.

— Por favor — implorou Artemis. — Precisamos ir. É questão de vida ou morte.

O jovem Artemis não se comoveu.

— Eu tive a sensação de que vocês voltariam. Foi aqui que tudo começou, bem neste lugar. Revi as fitas de segurança e vocês simplesmente apareceram neste cômodo. Depois me seguiram até a África, por isso pensei que, se salvassem a vida da criatura, vocês poderiam voltar aqui com meu lêmure. Sim­plesmente bloqueamos nossa assinatura de calor e esperamos E aí estão vocês.

— Esse é um raciocínio bastante débil — disse o Artemis mais velho. — Nós obviamente estávamos atrás do lêmure. Assim que tínhamos o lêmure, por que retornaríamos aqui?

— Percebo que a lógica era falha, mas eu não tinha nada a perder. E, como podemos ver, tinha muito a ganhar.

Holly não estava com paciência para uma sessão de Fowls cantando vantagem.

— Artemis, sei que você tem um coração. Você é uma boa pessoa, mesmo que ainda não saiba. Você sacrificou seus dia­mantes para salvar minha vida. O que será necessário para nos deixar ir?

O jovem Artemis pensou nisso por um enfurecedor mi­nuto e meio.

— A verdade — disse por fim. — Preciso saber a verdade absoluta sobre tudo isso. Que tipo de criatura você é? Por que você parece tão familiar? O que torna o lêmure tão especial? Tudo.

O Artemis mais velho apertou Jayjay contra o peito.

— Me dê uma tesoura — disse.

Opala entrou correndo na mansão, casualmente esmagando a náusea mágica provocada por entrar numa moradia humana sem permissão.

Uma corrente de tempo, pensou, quase rindo empolgada. Por fim posso testar minhas teorias.

A manipulação do tempo era o objetivo definitivo de Opala havia muito. Poder controlar a passagem pelo tempo era o maior poder de todos. Mas sua magia não seria suficientemente forte sem o lêmure. Eram necessárias equipes de feiticeiros da LEP para reduzir a passagem do tempo durante algumas horas; a magia necessária para abrir uma porta do túnel era estupenda. Seria mais fácil derrubar a lua com um tiro.

Opala batucou em seu bloco de anotação.

Lembrete. Derrubar a lua com um tiro? Viável?

Mas se conseguisse entrar no túnel, Opala tinha certeza de que dominaria rapidamente a ciência envolvida.

É mais do que provavelmente um organismo intuitivo e, afi­nal de contas, eu sou gênio.

Escalou a escada, sem pensar nas rugas que os altos degraus humanos provocavam em suas botas novas. Mervall e Melo­dia ficaram para trás, surpresos com a falta de prudência com os calçados.

— Fui jogado no curral de porcos por causa de botas — murmurou Melodia. — Agora ela está arranhando essas na escada. Típica incoerência de Koboi. Acho que vou ter uma úlcera.

Opala chegou ao patamar e correu imediatamente por uma porta aberta.

— Como ela sabe que esse é o cômodo certo? — pergun­tou Melodia.

— Ah, não sei — disse Mervall, apoiando as mãos nos joelhos. Escalar degraus humanos não é fácil para duendes-diabretes. Cabeças grandes, pernas curtas, pulmões minúscu­los. — Talvez seja o brilho mágico vermelho que venha da porta, ou talvez seja o uivo ensurdecedor dos ventos temporais.

Melodia assentiu.

— Você pode estar certo, irmão. E não imagine que eu não reconheço um sarcasmo quando ouço.

Opala vagueou pelo cômodo, com a expressão azeda.

— Eles se foram — anunciou. — E o túnel está para se fechar. Além disso minhas botas estão arruinadas. Então, ga­rotos, estou procurando alguém para culpar.

Os irmãos Brill se entreolharam, depois se viraram e cor­reram o mais depressa que suas pernas minúsculas permitiam. Não foi o suficiente.

 

Holly sentiu que relaxava assim que en­traram na corrente.

Estamos em segurança, por enquanto. Jayjay estava em segurança. Logo a mãe de Artemis estaria bem e Holly decidiu que, quan­do isso estivesse feito, iria dar um soco no rosto presunçoso de seu ex-amigo.

Eu fiz o que tinha de fazer, dissera Artemis. E faria isso de novo. E ela o havia beijado. Beijado!

Holly entendia os motivos de Artemis, mas sentia-se pro­fundamente ferida por ele achar necessário chantageá-la.

Eu teria ajudado de qualquer modo. Sem dúvida.

Teria? Teria desobedecido às ordens? Será que Artemis estava certo em fazer a coisa do seu modo?

Essas eram perguntas que Holly sabia que iriam assombrá-la durante anos. Se lhe restassem anos.

A jornada foi mais árdua do que antes. A corrente de tem­po estava erodindo seu sentimento de si mesma e havia uma tentação melosa de relaxar a concentração. Seu mundo pare­cia menos importante enrolado nas ondas brilhantes. Fazer parte de um rio eterno seria um modo agradável de existir. E se as raças das criaturas fossem apagadas pela peste?

A presença do N° l cutucava sua consciência, aumentando a decisão. O poder do pequeno demônio era evidente na cor­rente temporal, um fio luminoso e carmesim puxando-os através do miasma. Coisas se moviam nas sombras. Coisas dar­dejantes, afiadas. Holly sentiu dentes e dedos em garras.

Será que o N° 1 havia mencionado algo sobre zumbis quânticos? Provavelmente era uma piada. Por favor, que seja uma piada.

Concentre-se!, disse a si mesma. Ou você será absorvida.

Podia sentir outras presenças viajando com ela. Jayjay estava surpreendentemente calmo, considerando o ambiente ao re­dor. Em algum lugar na periferia estava Artemis, com seu sen­tido de objetividade nítido como uma lâmina.

O N° 1 vai ter um choque, pensou Holly, quando nos vir chegar.

O feiticeiro não pareceu muito chocado quando o grupo ro­lou para fora da corrente, solidificando-se no chão do escritó­rio de Artemis.

— Viram algum zumbi? — perguntou, sacudindo os dedos de modo assustador.

— Graças aos deuses — proclamou Potrus nas telas de tele­visão, depois exalou alto através das narinas largas. — Foram os dez segundos mais longos da minha vida. Pegaram o lêmure?

Não havia necessidade de resposta, já que Jayjay decidiu que gostava da voz de Potrus e deu uma lambida na tela mais próxima. A língua do pequeno primata estalou e ele recuou, lançando um olhar furioso para Potrus.

— Um lêmure — disse o centauro. — Nenhuma fêmea? Holly afastou as estrelas dos olhos, a névoa da cabeça. A corrente permanecia em sua cabeça como os últimos instantes do sono.

— Não. Nenhuma fêmea. Você terá de cloná-lo. Potrus espiou para além de Holly, para a forma que estre­mecia no chão atrás dela.

O centauro levantou uma sobrancelha.

— Vejo que temos um...

— Falaremos sobre isso mais tarde — disse Holly rispida­mente, interrompendo o centauro. — No momento temos trabalho a fazer.

Potrus assentiu, pensativo.

— Estou adivinhando, pelo jeito das coisas, que Artemis tem algum tipo de plano. Isso vai ser problema para nós?

— Só se tentarmos impedir — disse Holly.

Artemis pegou Jayjay nos braços, acariciando a crista de moicano do pequeno lêmure, acalmando-o com um estalar rítmico da língua.

Holly sentiu que também poderia se acalmar, não pelos es­talos de Artemis, mas pela visão de seu próprio rosto no espelho. Era ela própria de novo; sua peça-única se ajustava perfeita­mente. Era uma mulher adulta. Nada de confusão adolescente.

Iria se sentir ainda melhor assim que pegasse de volta seu equi­pamento. Não havia nada como uma Neutrino no quadril para aumentar a autoconfiança.

— É hora de ver mamãe — disse Artemis sério, escolhen­do um terno no armário. — Quanto fluido devo administrar?

— É um negócio forte — disse Potrus, digitando alguns cálculos em seu teclado. — Dois centímetros cúbicos. Não mais. Há uma pistola de seringa no kit médico de Holly ao lado da mesa. Tenha muito cuidado com a drenagem cerebral. Também há um tablete de anestésico lá. Dê um pouquinho ao Jayjay e ele não sentirá nada.

— Muito bem — respondeu Artemis, pegando o kit. — Vou sozinho. Espero que mamãe me reconheça.

— Eu também — concordou Holly. — Caso contrário ela pode ter objeções à idéia de um completo estranho injetar suco de lêmure nela.

A mão de Artemis parou sobre a maçaneta de cristal da porta do quarto dos pais. Nas facetas, ele podia ver uma dúzia de reflexos de seu rosto. Cada um deles estava tenso e preocupado.

A última chance. Minha última chance de salvá-la.

Eu vivo eternamente tentando salvar pessoas, pensou. Eu deveria ser um criminoso. Onde foi que tudo deu errado?

Não havia tempo para pensar. Havia mais coisas em risco do que ouro ou fama. Sua mãe estava morrendo e a salvação dela estava empoleirada no ombro de Artemis, procurando carrapatos em seu couro cabeludo.

Artemis fechou os dedos sobre a maçaneta. Não tinha mais tempo para perder com pensamentos. Era hora de agir.

O quarto parecia mais frio do que ele recordava, mas sem dú­vida isso era sua imaginação.

Todas as mentes fazem truques. Até a minha. O frio que sinto é uma projeção de meu humor, nada mais.

O quarto de seus pais era retangular, estendendo-se pela ala oeste, da frente aos fundos. Na verdade era mais um apar­tamento do que um quarto, com uma área de estar e um escri­tório no canto. A grande cama de baldaquino ficava em ângulo, de modo que a luz colorida de um vitral medieval caía sobre a cabeceira esculpida durante o verão.

Artemis pôs os pés cuidadosamente no tapete, como um bailarino, evitando o padrão de anéis na trama.

Se pisar nos anéis, conte até dez.

Azar era a última coisa de que ele necessitava.

Angeline Fowl estava esparramada na cama, como se tivesse sido jogada ali. A cabeça virada para trás em tal ângulo que a linha do pescoço ao queixo era quase reta, e a pele estava páli­da a ponto de parecer translúcida.

Ela não está respirando, pensou Artemis, com o pânico ba­tendo no peito como um pássaro enjaulado. Eu estava errado. E tarde demais.

Então todo o corpo de sua mãe se convulsionou com uma respiração dolorosa.

Nesse momento a decisão de Artemis quase o abandonou. Suas pernas eram de borracha sem ossos e a testa queimava.

Esta é minha mãe. Como posso fazer o que precisa ser feito?

Mas faria. Não havia mais ninguém que pudesse.

Artemis chegou ao lado da mãe e gentilmente empurrou mechas de cabelo para longe do rosto dela.

— Estou aqui, mamãe. Tudo vai ficar bem. Encontrei uma cura.

De algum modo Angeline Fowl ouviu as palavras do filho e seus olhos se abriram. Até as retinas haviam perdido a cor, desbotando até o azul-gelo de um lago no inverno.

— Cura — suspirou ela. — Meu pequeno Arty encon­trou a cura.

— Isso mesmo. O pequeno Arty encontrou a cura. Era o lêmure. Lembra-se do lêmure de Madagascar, do Parque Rathdown?

Angeline levantou um dedo fino como osso, fazendo có­cegas no ar diante do nariz de Jayjay.

— Pequeno lêmure. Cura.

Incomodado pela aparência esquelética da mulher na cama, Jayjay escondeu-se atrás da cabeça de Artemis.

— Lêmure bonzinho — disse Angeline, com um sorriso débil retorcendo seus lábios.

Agora eu é que sou o pai, pensou Artemis. Ela é a filha.

— Posso segurá-lo? Artemis deu meio passo atrás.

— Não, mamãe. Ainda não. Jayjay é uma criatura muito importante. Esse sujeitinho pode salvar o mundo.

Angeline falou por entre os dentes.

— Deixe-me segurá-lo. Só um momento.

Jayjay desceu pelas costas do paletó de Artemis, como se entendesse o pedido e não quisesse ser seguro.

— Por favor, Arty. Segurá-lo iria me reconfortar. Artemis quase entregou o lêmure. Quase.

— Segurá-lo não vai curá-la, mãe. Preciso injetar um lí­quido numa de suas veias.

Angeline parecia estar recuperando as forças. Escorregou um centímetro para trás, subindo com a cabeça pela cabeceira.

— Não quer me fazer feliz, Arty?

— No momento prefiro saudável a feliz — respondeu Artemis, sem fazer qualquer gesto para entregar o lêmure.

— Você não me ama, filho? — cantarolou Angeline. — Não ama sua mamãezinha?

Artemis se moveu rapidamente, abrindo o kit médico e fe­chando os dedos em volta da pistola de transfusão. Uma única lágrima rolou por seu rosto pálido.

— Eu amo você, mamãe. Amo mais do que à vida. Se ao menos soubesse o que passei para encontrar o pequeno Jayjay! Só fique quieta por cinco segundos e esse pesadelo vai acabar.

Os olhos de Angeline eram fendas ardilosas.

— Não quero que você injete nada em mim, Artemis. Você não é enfermeiro formado. Não havia um médico aqui, ou eu sonhei com isso?

Artemis preparou a pistola, esperando que ela se carregasse até a luz verde se acender.

— Eu já administrei injeções, mamãe. Dei-lhe seu remé­dio várias vezes na última vez em que você esteve... doente.

— Artemis! — disse Angeline rispidamente, com a pal­ma da mão batendo no lençol. — Eu exijo que você me dê o lêmure agora! Nesse instante! E chame o médico.

Artemis pegou um frasco no kit médico.

— Você está histérica, mamãe. Não é você mesma. Acho que devo lhe dar um sedativo antes de administrar o antídoto. — Ele enfiou o frasco na pistola, estendendo a mão para o braço da mãe.

— Não! — Angeline praticamente berrou, dando-lhe um tapa com força surpreendente. — Não me toque com seus sedativos da LEP, garoto estúpido.

Artemis se imobilizou.

— LEP, mamãe? Que você sabe sobre a LEP? Angeline deu um puxão no lábio, como uma criança culpada.

— O quê? Eu disse LEP? São três letras, nada mais. Não significam nada para mim.

Artemis deu outro passo para longe da cama, pegando Jayjay no colo, de modo protetor.

— Diga a verdade, mamãe. O que está acontecendo aqui? Angeline abandonou o fingimento de inocência, batendo no colchão com dedos delicados, guinchando de frustração.

— Desprezo você, Artemis Fowl. Seu humano chato. Como desprezo!

Não são palavras que alguém espera ouvir sendo ditas pela própria mãe.

Angeline estava deitada na cama, fumegando de fúria. Li­teralmente fumegando. Seus olhos se reviraram nas órbitas e os tendões se projetavam como cordas nos braços e no pesco­ço. O tempo todo ela arengava.

— Quando eu tiver o lêmure, vou esmagar todos vocês. A LEP, Potrus, Julius Raiz. Todos vocês. Vou mandar cães de laser por cada túnel na crosta da terra até expulsar aquele anão odioso. E quanto àquela capitã, vou lhe dar uma lavagem ce­rebral e torná-la minha escrava. — Angeline lançou um olhar de ódio para Artemis. — Vingança adequada. Não concorda, meu filho? — As últimas duas palavras pingaram dos lábios como veneno das presas de uma víbora.

Artemis apertou Jayjay. Podia sentir a pequena criatura estremecer em seu peito. Ou talvez o tremor fosse dele mesmo.

— Opala — disse ele. — Você nos seguiu até aqui.

— Finalmente! — gritou a mãe de Artemis, com a voz de Opala. — O grande garoto gênio enxerga a verdade. — Os membros de Angeline se enrijeceram e ela levitou acima da cama, rodeada por uma névoa de vapor. Seus olhos azul-claros cortavam a névoa, cravando-se em Artemis com uma expres­são louca e furiosa.

— Você achou que podia vencer? Acreditou que a batalha estava ganha? Que ilusão encantadora! Você nem possui ne­nhuma magia. Eu, por outro lado, tenho mais magia do que qualquer outra criatura, desde os feiticeiros-demônios. E as­sim que tiver o lêmure, serei imortal. Artemis revirou os olhos.

— Não se esqueça de invencível.

— Eu odeeeeeeio você — guinchou Opala/Angeline. — Quando tiver o lêmure, eu vou... eu vou...

— Me matar de algum modo horrível — sugeriu Artemis.

— Exatamente. Obrigada.

O corpo de Angeline girou até que ela estava flutuando de pé, com o halo de cabelo energizado roçando o teto.

— Agora — disse ela apontando um dedo esquelético para Jayjay, que se encolhia. — Me dê essa criatura.

Artemis enrolou o lêmure no paletó.

— Venha pegá-lo.

No escritório, Holly estava repassando a teoria de Artemis.

— É isso? — perguntou o N° 1 quando Holly havia ter­minado de explicar. — Você não está esquecendo algum deta­lhe crucial? Como a parte que faz sentido?

— A coisa toda é ridícula! — exclamou Potrus nos moni­tores. — Vamos, criaturas. Nós fizemos nossa parte. É hora de ir para o subterrâneo.

— Já vou — disse Holly. — Só vamos dar cinco minutos para Artemis verificar. Só precisamos estar atentos.

O suspiro de Potrus estalou nos alto-falantes.

— Bom, pelo menos deixe-me levantar o lançador. As tropas estão paradas em Tara, esperando para ser chamadas de volta.

Holly pensou.

— É bom. Faça isso. Independentemente do que acontecer, precisamos estar preparados para ir. E quando terminar, faça uma varredura na propriedade, veja onde aquela enfermeira está.

Potrus se remexeu à esquerda enquanto se comunicava com Tara.

Holly apontou para o N° 1.

— Fique com um pouquinho dessa sua magia especial dançando na ponta dos dedos, para o caso de precisarmos. Não vou me sentir completamente segura até que Angeline esteja boa e estivermos tomando um pseudocafé num bar em Porto.

O N° l levantou as mãos, que logo foram envolvidas em ondas de energia vermelha.

— Sem problema, Holly. Estou preparado para qualquer coisa.

Era uma declaração na qual faltava um quase.

Na mesma fração de segundo os monitores se apagaram e a porta se escancarou com uma força que fez cravar a maçane­ta na parede. O corpo enorme de Butler preencheu a abertura.

O sorriso de Holly sumiu quando ela notou a pistola na mão do guarda-costas e os óculos espelhados cobrindo os olhos.

Ele está armado e não quer ser mesmerizado.

Holly foi rápida, mas Butler foi mais ainda e tinha o ele­mento surpresa — afinal de contas deveria estar a caminho da China. Holly tentou pegar sua arma, mas Butler chegou an­tes, arrancando a Neutrino de seu quadril.

Temos outros truques, pensou Holly. Temos magia. O N° 1 vai derrubar você.

Butler arrastou algo para dentro do quarto, num carrinho. Um barril de aço com runas gravadas no metal.

O que é isso? O que ele está fazendo?

O N° 1 conseguiu lançar um único raio. Um relâmpago interno que chamuscou a camisa de Butler, fazendo-o recuar um passo, mas ao mesmo tempo em que ele cambaleava para trás, o guarda-costas empurrou o carrinho com força, lançan­do-o através do cômodo. Uma gosma densa escorreu da boca aberta do barril, espirrando nas pernas do N° 1. O carrinho continuou deslizando, derrubando Holly e o N° 1 de lado como se fossem pinos de boliche.

O N° l olhou para os dedos enquanto a magia em cada ponta piscava como velas numa brisa.

— Não me sinto muito bem — gemeu ele, depois se do­brou, os olhos tremelicando, lábios murmurando feitiços an­tigos que não adiantaram absolutamente nada.

O que há nesse barril?, pensou Holly, liberando as asas das fendas na roupa. Butler segurou o tornozelo de Holly enquanto ela se alçava e jogou-a violentamente dentro do barril. Ela sentiu a gosma densa se fechar sobre seu corpo como um punho úmido, bloqueando o nariz, enchendo a garganta.

O cheiro era repulsivo.

Gordura animal, percebeu, com um tremor espasmódico de horror. Gordura pura, com alguns feitiços incorporados.

A gordura animal fora usada como supressor de magia durante milênios. Até o mais poderoso feiticeiro ficava impo­tente ao ser mergulhado em gordura derretida. Você joga um feiticeiro num barril de gordura, lacra com casca de salgueiro trançada e enterra num cemitério humano consagrado, e esse feiticeiro se tornava impotente como um gatinho num saco. A experiência era ainda mais terrível porque a maioria das criaturas do Povo era vegetariana convicta e teria a completa consciência de quantos animais precisavam morrer para pro­duzir todo um barril de gordura.

Quem contou isso ao Butler?, pensou Holly. Quem o está controlando?

Então o N° l foi enfiado ao lado dela e o nível de gordura subiu até cobrir a cabeça dos dois. Holly chegou à superfície, liberando os olhos bem a tempo de ver uma tampa sendo pos­ta sobre a boca do barril, eclipsando a luz do teto.

Sem capacete, lamentou ela. Eu gostaria de ter meu capacete.

Então a tampa foi posta e lacrada. A gordura encontrou o buraco do pescoço de sua peça-única e começou a penetrar, son­dando seu rosto e invadindo os ouvidos. Feitiços redemoinharam como serpentes malévolas, mantendo sua magia contida.

Estou perdida, pensou Holly. É a pior morte que posso ima­ginar. Lacrada num espaço pequeno. Como minha mãe.

O N° l se convulsionava ao seu lado. O pequeno feiticeiro devia se sentir como se sua alma estivesse sendo sugada para fora do corpo.

Holly entrou em pânico. Chutou e lutou, machucando os cotovelos, arrancando a pele dos joelhos. Onde a magia tenta­va curar os ferimentos, as serpentes do feitiço se intrometiam, engolindo as fagulhas.

Quase abriu a boca para gritar. Um último fio de razão a impediu. Então alguma coisa roçou em seu rosto. Um tubo corrugado. Havia dois.

Tubos para respirar...

Com dedos frenéticos, tateou até o fim do tubo. Lutou contra o instinto natural de enfiar o tubo na boca do N° 1.

Em caso de emergência, sempre cuide de você mesma antes de atender os civis.

Assim Holly usou o último sopro de ar para limpar o tubo, como um mergulhador liberando o snorkel. Imaginou bolhas de gordura espirrando na sala do lado de fora.

Espero que o terno de Butler esteja arruinado, pensou.

Agora não havia opção além de inalar. O ar chegou até ela, misturado com fiapos de gordura que pareciam vermes. Holly soprou de novo, limpando os últimos traços de gosma.

Agora o N° l. Os espasmos dele ficaram mais fracos en­quanto o poder ia diminuindo. Para alguém com tanto poder, esse mergulho devia ser quase intolerável. Holly bloqueou seu próprio tubo com um polegar, depois limpou o segundo antes de enfiá-lo na boca frouxa do N° l. Por um momento não houve reação, e ela pensou que seria tarde demais, então o N° l se sacudiu, tossiu e começou a respirar, como um motor numa manhã gelada.

Vivos, pensou Holly. Nós dois estamos vivos. Se Butler qui­sesse que morrêssemos, já estaríamos mortos.

Firmou os pés na base do barril e abraçou o N° l com for­ça. A calma era necessária ali.

Calma, transmitiu, mas sabia que a empatia do N° l esta­ria apagada. Calma, amiguinho. Artemis vai nos salvar.

Se estiver vivo, pensou, mas não transmitiu.

Artemis se afastou da versão de sua mãe em forma de pesadelo que pairava à frente. Jayjay guinchava e corcoveava em seus braços, mas Artemis o segurava com força, coçando automati­camente o minúsculo tufo de cabelo no cocuruto.

— Entregue a criatura — exigiu Opala. — Você não tem opção.

Artemis envolveu o pescoço de Jayjay com o polegar e o indicador.

— Ah, acho que tenho opção. Opala ficou horrorizada.

— Você não mataria uma criatura inocente.

— Já fiz isso antes.

Opala examinou os olhos dele.

— Não creio que você faria isso de novo, Artemis Fowl. Minha intuição de criatura do Povo diz que você não tem o coração tão frio quanto finge.

Era verdade. Artemis sabia que não poderia fazer mal a Jayjay, nem mesmo para estragar os planos de Opala. Mesmo assim não havia motivo para lhe dizer isso.

— Meu coração é frio, duende-diabrete. Acredite. Use um pouco dessa empatia mágica para examinar minha alma.

Seu tom fez Opala hesitar. Havia aço nele, e Artemis era difícil de ser decifrado. Talvez ela não devesse jogar de modo tão imprudente.

— Muito bem, humano. Entregue a criatura e eu poupa­rei seus amigos.

— Não tenho amigos — contra-atacou Artemis, mas sa­bia que era um blefe transparente. Opala estivera ali durante pelo menos alguns dias. Sem dúvida havia interferido na vigi­lância e na segurança da mansão.

A Angeline/Opala coçou o queixo.

— Humm, não tem amigos. Afora a elfo da LEP que o acompanhou ao passado, e, claro o demônio-feiticeiro que os mandou de volta. Para não mencionar seu grande guerreiro guarda-costas.

Aliteração, pensou Artemis. Ela está brincando comigo.

— Mas afinal de contas — disse Opala/Angeline em tom meditativo. — Na verdade Butler não é mais seu amigo. É meu.

Essa era uma declaração preocupante e talvez verdadeira. Artemis, em geral um hábil intérprete de linguagem corporal e tiques reveladores, estava perplexo com aquela versão enlou­quecida de sua mãe.

— Butler jamais seria seu amigo por livre vontade. Opala deu de ombros. Era um bom argumento.

— Quem disse alguma coisa sobre livre vontade? Artemis empalideceu.

Epa.

— Deixe-me explicar o que aconteceu — disse Opala com doçura. — Eu mexi um pouco com o cérebro dos meus pe­quenos auxiliares, de modo que não pudessem me denunciar, depois mandei que voassem com o lançador de volta para Por­to. Depois peguei uma carona na sua corrente temporal antes de ela se fechar. Ah, é muito simples para alguém com minha capacidade. Vocês nem deixaram um feitiço de impedimento no buraco.

Artemis estalou os dedos.

— Eu sabia que tinha esquecido alguma coisa. Opala deu um riso débil.

— Divertido. De qualquer modo, ficou óbvio para mim que eu era ou seria responsável por todo esse negócio, por isso saí da corrente alguns dias antes e me demorei conhecendo seu grupo. Mãe, pai, Butler.

— Onde está minha mãe? — gritou Artemis, com a raiva rompendo a calma do exterior, como um martelo atravessan­do gelo.

— Ora, estou aqui mesmo, querido — disse Opala com a voz de Angeline. — Estou doente de verdade e preciso que você vá ao passado pegar um macaco mágico para mim. — Ela deu um riso de zombaria. — Os humanos são tão idiotas!

— Então isto não é uma espécie de feitiço de alteração de forma?

— Não, seu idiota. Eu tinha perfeita consciência de que Angeline seria examinada. Os feitiços de alteração de forma só têm a profundidade da pele, e mesmo alguém hábil como eu só consegue mantê-lo por curtos períodos.

— Isso significa que minha mãe não está morrendo? Artemis sabia a resposta, mas precisava ter certeza. Opala trincou os dentes, dividida entre a impaciência e o desejo de explicar a genialidade de seu plano.

— Ainda não. Mas logo os danos ao seu organismo serão irreversíveis. Eu a dominei à distância. Uma forma extrema do mesmer. Com um poder como o meu, posso manipular até os órgãos dela. Imitar a encantropia foi brincadeira de criança. E quando tiver o pequeno Jayjay eu posso abrir meu próprio buraco no tempo.

— Então você está aqui perto? Seu eu verdadeiro? Opala já estava farta de perguntas.

— Sim, não. O que importa? Eu venço, você perde. Acei­te, ou então todo mundo morre.

Artemis se esgueirou na direção da porta.

— O jogo ainda não terminou.

Passos do lado de fora e um estranho guincho rítmico. Um carrinho-de-mão, supôs Artemis, mas não tinha muita expe­riência com equipamento de jardinagem.

— Ah, acho que agora o jogo terminou — disse Opala, com ar maroto.

A porta pesada se abriu num repelão ao ser empurrada pelo lado de fora. Butler empurrou o carrinho para dentro do quar­to, tropeçando atrás dele, encurvado e tremendo.

— Este aí é forte — disse Opala, quase admirando. — Eu o mesmerizei, mas mesmo assim ele se recusou a matar seus ami­gos. O coração do idiota quase estourou. Só consegui obrigá-lo a montar o barril e enchê-lo de gordura.

— Para abafar a magia das criaturas — supôs Artemis.

— É óbvio, idiota. Agora o jogo está absolutamente acaba­do. Terminado. Butler é meu ás na manga, como diriam vocês, humanos. Eu tenho todos os ases. Você está sozinho. Dê-me o lêmure e eu voltarei ao meu tempo. Ninguém precisa sofrer.

Se Opala pegar o lêmure, todo o planeta sofrerá, pensou Artemis.

Opala estalou os dedos.

— Butler, pegue o animal.

Butler deu um único passo na direção de Artemis e parou. Tremores sacudiram suas costas largas e seus dedos eram gar­ras apertando um pescoço invisível.

— Eu mandei pegar o animal, humano idiota.

O guarda-costas caiu de joelhos, batendo no chão com força, tentando expulsar aquela voz da cabeça.

— Pegue o lêmure agora! — berrou Opala. Butler teve forças suficientes para três palavras.

— Vá... pro... inferno.

Então segurou o próprio braço e desmoronou.

— Epa — disse Opala. — Ataque cardíaco. Acabei com ele. Fique concentrado, ordenou Artemis a si mesmo. Opala pode ter todos os ases, mas talvez haja um furo num desses ases.

Artemis fez cócegas sob o queixo de Jayjay.

— Esconda-se, amiguinho. Esconda-se.

E com isso jogou o lêmure na direção de um lustre suspenso no teto. Jayjay balançou os braços no ar, depois se agarrou a uma estrutura de vidro. Alçou-se agilmente para o lustre, es­condendo-se atrás de cortinas de cristal pendurado.

Opala perdeu imediatamente o interesse por Artemis, con­centrando-se em levitar o corpo de Angeline até o nível do lus­tre. Com um guincho de frustração, percebeu que uma elevação tão grande estava além até mesmo de uma criatura com seu poder.

— Dr. Schalke! — gritou ela, e em algum lugar sua boca verdadeira também estava gritando. — Para o quarto, Schalke!

Artemis arquivou essa informação, depois se enfiou por baixo de Opala, chegando à beira da cama da mãe. Um carri­nho com desfribilador móvel estava parado em meio à fileira de equipamentos médicos ao redor da cama de baldaquino, e Artemis o ligou rapidamente, levando todo o aparelho até o limite do cabo, chegando aonde Butler havia caído.

O guarda-costas estava deitado de rosto para cima, com as mãos dobradas como se houvesse uma pedra invisível em seu peito. O rosto estava retesado com o esforço de mover a gran­de pedra. Olhos fechados, suor brilhando, dentes trincados.

Artemis desabotoou a camisa de Butler, expondo o peito largo, cheio de músculos, cicatrizes e tensão. Um exame rápi­do lhe disse que não havia batimentos cardíacos. O corpo de Butler estava morto; só o cérebro ainda estava vivo.

— Segure-se firme, velho amigo — murmurou Artemis, tentando manter a mente em foco.

Soltou as almofadas do desfribilador dos suportes, tirando as capas de segurança descartáveis, deixando uma fina camada de gel condutor nas superfícies de contato. As almofadas pare­ceram ficar mais pesadas enquanto ele esperava que o aparelho carregasse e, quando a luz de aviso piscou em verde, elas pare­ciam rochas em suas mãos.

— Afastem-se! — gritou para ninguém em particular, depois posicionou as almofadas firmemente no peito de Butler e apertou o botão de choque sob o polegar, lançando 360 joules de eletricidade no coração do guarda-costas. O corpo de Butler se arqueou, e o cheiro forte de pelos e pele se queimando inva­diu as narinas de Artemis. O gel queimou e soltou fagulhas, queimando dois círculos onde as almofadas haviam feito con­tato. Os olhos de Butler se abriram e as mãos enormes segura­ram os ombros de Artemis.

Ele ainda é escravo de Opala?

— Artemis — ofegou Butler, mas então franziu a testa, confuso. — Artemis? Como?

— Mais tarde, velho amigo — disse bruscamente o garo­to irlandês, progredindo mentalmente para o problema seguin­te. — Por enquanto só descanse.

Esta não era uma ordem que ele teria de repetir. Butler afun­dou imediatamente numa inconsciência exausta, mas seu co­ração batia forte dentro do peito. Ele não ficara parado por tempo suficiente para causar danos cerebrais.

O próximo problema de Artemis era Opala, ou, mais especificamente, como tirá-la do corpo da mãe. Se ela não saísse logo, Artemis tinha certeza de que sua mãe não se re­cuperaria.

Criando coragem ao respirar fundo várias vezes, Artemis pôs toda a atenção no corpo da mãe que levitava. Ela girava sob o lustre como se estivesse suspensa nele, tentando agarrar Jayjay, que parecia provocá-la, balançando o traseiro em sua direção.

Será que essa situação pode ficar mais surreal? Nesse momento o dr. Schalke entrou no quarto, brandindo uma pistola que parecia grande demais para suas mãos delicadas.

— Estou aqui, criatura. Mas devo dizer que não gosto de seu tom de voz. Posso estar enfeitiçado, mas não sou animal.

— Cala a boca, Schalke. Vejo que terei de fritar mais al­gumas células do seu cérebro. Agora, por favor. Pegue aquele lêmure!

Schalke apontou quatro dedos da mão livre na direção do lustre.

— O lêmure está a uma altura considerável, não é? Como sugere que eu o pegue? Talvez eu possa matá-lo com um tiro.

Opala baixou, com braços e pernas girando como uma harpia.

— Não! — berrou ela, acertando-o na cabeça e nos om­bros. — Eu atiraria em você cem vezes, mil vezes, antes de per­mitir que você fizesse mal a um pelo daquela criatura. Ele é o futuro. O meu futuro! O futuro do mundo!

— De fato — disse o doutor. — Se eu não estivesse mes­merizado, suspeito que estaria bocejando.

— Atire nos humanos — ordenou Opala. — Primeiro no garoto, ele é o mais perigoso.

— Tem certeza? O homem-montanha parece muito mais perigoso.

— Atire no garoto! — uivou Opala, com a frustração fa­zendo lágrimas escorrer pelas bochechas. — Depois em Butler, e depois em você mesmo.

Artemis engoliu em seco. Isso era levar as coisas um pouco longe demais; era melhor que seu cúmplice agisse.

— Muito bem — disse Schalke, mexendo na trava de se­gurança da Sig Sauer de Butler. — Qualquer coisa para esca­par desse dramalhão.

Tenho segundos antes que ele deduza como soltar a trava, pen­sou Artemis. Segundos para distrair Opala. Não tenho o que fa­zer, a não ser revelar o juro em seu ás.

— Ora, Opala — disse Artemis, com uma calma que não sentia. — Você não atiraria num garoto de dez anos, atiraria?

— Sem dúvida que sim! — disse Opala, sem hesitar um segundo. — Estou pensando em cloná-lo para poder matá-lo repetidamente. Céus.

Então tudo que Artemis dissera foi registrado.

— Dez? Você disse que tinha dez anos?

Artemis esqueceu tudo a respeito do perigo ao redor, per­dido no doce momento de triunfo. Era inebriante.

— É, foi o que eu disse. Estou com dez anos. Minha mãe verdadeira teria notado imediatamente.

Opala mordeu os nós dos dedos da mão esquerda de An­geline. Pensando.

— Você é o Artemis Fowl do meu tempo? Eles o trouxe­ram de volta!

— Obviamente.

Opala recuou pelo ar, como se fosse levada pelo vento.

— Há outro. Aqui, em algum lugar, outro Artemis Fowl.

— Finalmente! — disse Artemis com um risinho. — A grande criatura genial vê a verdade.

— Encontre-o — guinchou Opala — Encontre-o imedia­tamente. Agora.

Schalke ajeitou os óculos.

— Agora e imediatamente. Isso deve ser importante. Opala o viu sair com ódio verdadeiro nos olhos.

— Quando isto acabar, vou destruir toda esta proprieda­de só de birra. E depois, quando retornar ao passado, vou...

— Não me conte — interrompeu o Artemis Fowl de dez anos. — Você vai destruí-lo de novo.

 

Quando o Artemis de quatorze anos tivera um momento para pensar nas coisas, em algum momento entre escalar tor­res de energia e passar a perna em Extincionistas assassinos, percebeu que havia muitas perguntas não respondidas sobre a doença de sua mãe. Ele supostamente a havia contagiado com encantropia, mas quem o havia contaminado? A magia de Holly havia permeado seu corpo no passado, mas ela própria estava totalmente sadia. Por que não estava doente? Ou, por sinal, como Butler escapou da infecção? Ele fora curado tantas vezes que já devia ser meio criatura do Povo.

E, de todos os milhares de humanos curados, mesmerizados ou com a mente apagada a cada ano, sua mãe era a única a pegar a doença. A mãe do único humano na terra que poderia fazer algo a respeito. Enorme coincidência. Coincidência demais.

Assim, ou alguém havia deliberadamente infectado sua mãe ou os sintomas estavam sendo imitados por magia. De qual­quer modo o resultado era o mesmo: Artemis viajaria de volta no tempo para achar o antídoto. O lêmure, Jayjay.

E quem queria que Jayjay fosse encontrado tanto quanto Artemis? A resposta estava no passado. Opala Koboi, claro. O pequeno primata era o último ingrediente de seu coquetel mágico. Com o fluido encefálico de Jayjay em seu coquetel má­gico, ela seria literalmente a pessoa mais poderosa do planeta. E se Opala não pudesse pegar Jayjay em seu próprio tempo, iria apanhá-lo no futuro. Custasse o que custasse. Ela devia tê-los seguido de volta pela corrente temporal, pulado antes e organi­zado a coisa toda. Presumivelmente, assim que tivesse o fluido encefálico de Jayjay, achar o caminho de volta não seria problema.

A coisa era confusa até mesmo para Artemis. Opala nem estaria em seu presente se ele não tivesse voltado no tempo. E ele só voltou no tempo por causa de uma situação que ela criou. Foram as tentativas de Artemis para curar a mãe que haviam levado Opala a provocar a infecção.

Mas uma coisa da qual ele agora tinha certeza era que Opala estava por trás disso. Estava atrás e à frente deles. Impelindo o grupo para suas próprias garras. Um paradoxo do tempo.

Há duas Opalas nesta equação, pensou Artemis. Acho que deveria continuar a haver dois Artemis Fowls.

Assim um plano havia se formado em sua mente.

Assim que o jovem Artemis fora posto a par de todos os detalhes e se convenceu de sua exatidão, concordou imediatamente em acompanhá-los ao futuro, apesar da forte objeção de Butler.

— É minha mãe, Butler — disse ele simplesmente. — Pre­ciso salvá-la. Agora encarrego-o de ficar junto dela até minha vol­ta. De qualquer modo, como eles poderiam ter sucesso sem mim?

— Como, não é mesmo? — perguntou Holly, depois sen­tiu mais prazer do que o necessário ao assistir aquela arrogân­cia sumir das feições do garoto quando a corrente temporal se abriu diante deles, como a bocarra de uma enorme serpente gerada por computador.

— Anime-se, Garoto da Lama — disse ela enquanto o Artemis mais novo via seu próprio braço se dissolver. — E cuidado com os zumbis quânticos.

A corrente de tempo fora difícil para o Artemis mais velho. Qualquer outro humano seria despedaçado por uma exposição tão repetida à sua radiação específica, mas Artemis se mantinha inteiro por pura força de vontade. Concentrava-se na extre­midade superior de seu intelecto, resolvendo teoremas impro­váveis com grandes números cardinais e compondo um final para a 8a Sinfonia de Schubert, a inacabada.

Enquanto trabalhava, Artemis sentiu o estranho comentá­rio cheio de desprezo, vindo de seu eu mais novo.

Mais si menor? Você acha mesmo?

Será que sempre fora tão chato? Que cansativo! Não é de espantar que as pessoas em geral não gostassem dele.

 

De volta ao seu tempo, em sua própria casa, o Artemis mais velho só parou para pegar alguma roupas no armário antes de sair ra­pidamente do escritório, alertando Potrus e o N° 1 para ficarem em silêncio com um simples shhh. Seguiu rapidamente pelo corredor até o elevador de carga que ficava adjacente à sala de chá do segundo andar. Não era a rota mais direta para o centro de segurança — na verdade a rota era tortuosa e desajeitada — mas era o único modo de passar pela casa sem ser detectado.

Butler achava que tinha sob vigilância cada centímetro da mansão, afora os aposentos particulares dos Fowl, mas havia muito tempo que Artemis deduzira um modo de andar pela casa sem ser captado pelas câmeras. Essa rota implicava se es­conder em cantos, andar sobre móveis, usar o elevador de car­ga e inclinar um espelho de corpo inteiro num ângulo exato.

Era possível, claro, que alguém hostil pudesse deduzir o mesmo caminho, as coordenadas e trajetórias, e também an­dar pela casa sem ser detectado. Possível, mas tremendamente improvável, principalmente sem um conhecimento íntimo das reentrâncias e protuberâncias que não existiam em nenhuma planta.

Seguiu um padrão em ziguezague pelo corredor, um segun­do atrás da varredura de uma câmera de segurança, depois se enfiou rapidamente no poço do elevador de carga. Por sorte o elevador estava naquele andar, caso contrário seria forçado a escorregar pelo cabo, e escorregar não era um dos seus pontos fortes. Artemis estendeu a mão para fora e apertou o botão do térreo, puxando a mão de volta rapidamente antes que a caixa em descida prendesse seu pulso. Mesmo sendo verdade que a segurança fosse registrar o elevador de carga descendo, isso não acenderia nenhuma luz vermelha.

Assim que estava no nível da cozinha, rolou para o chão, abrindo a porta da geladeira para encobrir o movimento de entrada na despensa. Sombras profundas o esconderam até que a câmera girou para longe da porta, permitindo que ele subis­se na mesa e pulasse para fora.

O tempo todo pensando. Tramando.

Presuma o pior. O pequeno Artemis está desamparado e Holly e o N° 1 já foram incapacitados. O que é bem possível, se alguém como Butler estivesse mesmerizado e fazendo a incapacitação.

Opala está em algum lugar perto do centro de comando, mani­pulando minha mãe. Foi Opala que pôde ver a magia dentro de mim. E não mamãe. Ela tirou o feitiço que eu havia posto nos meus pais.

E: Claro que é si menor. Se a gente começa em si menor, ter­mina em si menor. Qualquer idiota sabe.

Uma armadura medieval ficava no saguão principal. A mesma armadura que Butler havia vestido para lutar com um troll durante o cerco à mansão Fowl, cinco anos antes. Artemis se aproximou dela devagar, com as costas grudadas a uma ta­peçaria abstrata, cinza e preta, que o camuflava quase perfeita­mente. Assim que estava escondido atrás da armadura, cutucou a base de um espelho adjacente até que ele refletisse o facho de um refletor direto sobre a lente da câmera do saguão.

Agora seu caminho para o centro de segurança estava lim­po. Artemis caminhou diretamente para a cabine. Era ali que Opala estaria, tinha quase certeza. Dali ela poderia monitorar toda a casa, e o lugar ficava diretamente abaixo do quarto de Angeline. Se Opala estivesse mesmo controlando sua mãe, quanto mais perto, melhor.

A muitos metros dali ficou claro que ele estava certo. Artemis pôde ouvir Opala arengando à distância.

— Há outro. Aqui, em algum lugar, outro Artemis Fowl. Ou a ficha havia caído ou o jovem Artemis fora obrigado a revelar o plano.

— Encontre-o — berrou Opala. — Encontre-o imedia­tamente. Agora.

Artemis entrou em silêncio na cabine do centro de segu­rança — uma pequena sala ligada ao saguão principal, que muito tempo antes servira como sala de casacos, depósito de armas e cela para prisioneiros. Agora abrigava um computador semelhante ao usado em ilhas de edição e pilhas de monitores mostrando imagens ao vivo da mansão e do terreno ao redor.

Encolhida diante dos monitores estava Opala, vestindo o equipamento da LEP pertencente a Holly. Não havia perdido tempo em roubar a roupa da elfo. Fazia apenas alguns minu­tos que Artemis a havia trancado no cofre.

A pequena duende-diabrete estava furiosamente em modo multitarefa, examinando os monitores ao mesmo tempo que mantinha o controle remoto sobre a mãe de Artemis. Seu ca­belo escuro estava grudento de suor e os membros infantis tre­miam com o esforço.

Artemis se esgueirou para dentro da sala e digitou rapida­mente o código no armário de armas.

— Quando isto acabar, vou destruir toda esta proprieda­de só de birra. E depois, quando retornar ao passado, vou...

Opala se imobilizou. Algo havia produzido um estalo. Vi­rou-se e encontrou Artemis Fowl apontando algum tipo de arma para ela. Abandonou imediatamente todos os outros fei­tiços, lançando seus esforços num mesmer desesperado.

— Largue esta arma — entoou. — Você é meu escravo.

Artemis ficou instantaneamente tonto, mas já havia aper­tado o gatilho e um dardo cheio da mistura Butler especial de relaxantes musculares e sedativos cravou a agulha comprida no pescoço de Opala, onde não havia proteção da roupa. Esse foi um tiro em um milhão, já que Artemis não era hábil com armas de fogo. Como dizia Butler: Artemis, você pode ser um gênio, mas não poderia acertar o traseiro de um elefante parado.

Opala se concentrou furiosamente no ferimento, cobrindo-o de fagulhas mágicas, mas era tarde demais. A droga já estava pe­netrando em seu cérebro, afrouxando o controle sobre a magia.

Começou a oscilar e tremeluzir, alternando-se entre seu verdadeiro eu de duende-diabrete e a srta. Book.

A srta. Book, pensou Artemis. Minhas suspeitas estavam cor­retas. O único estranho na equação.

Intermitentemente Opala desaparecia por completo, com o escudo zumbindo, sendo ligado e desligado. Relâmpagos mági­cos saltavam dos dedos, disparando contra os monitores antes que Artemis pudesse ver o que estava acontecendo no andar de cima.

— Agora eu posso fazer os raios — engrolou ela. — Esti­ve tentando concentrar magia suficiente durante toda a semana.

A magia se retorceu em redemoinhos, finalmente dese­nhando uma imagem no ar. Era uma imagem grosseira de Potrus e ele estava rindo.

— Odeio você, centauro! — gritou Opala, saltando atra­vés da imagem insubstancial. Então seus olhos se reviraram para trás e ela despencou roncando no chão.

Artemis ajeitou a gravata.

Freud certamente adoraria isso, pensou com certeza.

Subiu correndo até o quarto dos pais. O tapete estava coberto por uma poça de gordura encalombada. Dois conjuntos de pegadas de criaturas do Povo iam da poça perolada e túrgida até o banheiro. Artemis ouviu a ducha lançando água contra os ladrilhos.

Opala usou gordura animal para suprimira magia do N° 1. Que desprezível. Que horrível.

O jovem Artemis estava examinando a massa de gosma que se espalhava.

— Olhe — disse ele, notando seu eu mais velho. — Opa­la usou gordura animal para suprimir a magia do N° 1. Que engenhoso.

Sob o ruído do chuveiro havia os sons de ânsias de vômito e reclamações. Butler estava disparando água sobre Holly e o N° 1 e eles não pareciam felizes nem saudáveis.

Mas vivos. Ambos vivos.

Angeline estava na cama, enrolada num edredom de plu­ma de ganso. Estava pálida e atordoada, mas seria a imaginação de Artemis ou havia uma leve cor se esgueirando de volta para as bochechas? Ela tossiu fracamente e no mesmo instante os dois Artemis estavam ao seu lado.

Artemis levantou uma sobrancelha para seu eu mais novo

— Dá para ver como isso seria esquisito — disse.

— Dá mesmo — admitiu o garoto de dez anos. — Por que não dou uma olhadinha no seu... no meu escritório? Vou ver o que posso descobrir.

Isso é problema, percebeu Artemis. Minha própria curiosi­dade. Talvez eu não devesse ter prometido que não faria apaga­mento mental no meu eu mais novo. Algo terá de ser feito.

Angeline abriu os olhos. Estavam azuis e calmos, espiando por cima de olheiras escuras.

— Artemis — disse ela, a voz áspera como dedos passan­do em casca de árvore. — Sonhei que estava voando. E havia um macaco...

Artemis estremeceu de alívio. Ela estava em segurança; ele a havia salvado.

— Era um lêmure, mãe. Mamãe

Angeline deu um sorriso débil, estendendo a mão para acariciar o rosto dele.

— Mamãe. Esperei tanto para ouvi-lo dizer isso. Tanto. E com aquele sorriso no rosto, Angeline se recostou e des­lizou para um sono natural e profundo.

Que bom, percebeu Artemis. Ou ela poderia ter notado as criaturas no banheiro, ou o conteúdo de um barril de gordura no tapete. Ou um segundo Artemis espreitando disfarçadamente perto da estante.

Butler emergiu do banheiro pingando, sem camisa, com marcas da queimadura das almofadas do desfribilador na pele. Estava mais pálido do que o normal e precisou se encostar no batente em busca de apoio.

— Bem-vindo de volta — disse ao Artemis mais velho. — Este pequenino é galho da mesma cepa. Me deu uma tre­menda partida elétrica.

— Ele é a mesma cepa — respondeu Artemis secamente. Butler apontou o polegar por cima do ombro.

— Aqueles dois não gostaram do mergulho no barril.

— A gordura animal é veneno para as criaturas — expli­cou Artemis. — Bloqueia o fluxo mágico. Torna seu poder rançoso.

Uma sombra se acomodou na testa de Butler.

— Opala me obrigou a fazer isso. Ela... a srta. Book se aproximou de mim no portão principal quando eu ia para o aeroporto. Fiquei preso no meu próprio crânio.

Artemis pôs a mão gentilmente no antebraço de seu guar­da-costas.

— Eu sei. Não precisa se desculpar.

Butler se lembrou de que não estava com sua arma e tam­bém de quem estava com ela.

— O que você fez com Schalke? Dardo de nocaute?

— Não. Nossos caminhos não se cruzaram.

Butler cambaleou até a porta do banheiro, com Artemis logo atrás.

— Opala o está controlando, ainda que ele esteja fazendo com que ela trabalhe para isso. Precisamos prender os dois agora mesmo.

Demoraram vários minutos para chegar à cabine da segu­rança, Butler se apoiando nas paredes, e nesse ponto Opala já havia sumido. Artemis correu até a janela bem a tempo de ver a traseira larga de um Mercedes antigo fazer a curva na entrada de veículos. Uma pequena figura se sacudiu no banco de trás. Duas sacudidas. Na primeira vez era Opala, na segunda a srta. Imogen Book.

Seu poder já retornou, percebeu Artemis.

Butler chegou perto, ofegando.

— Isso ainda não acabou — disse ele.

Artemis não respondeu ao comentário; Butler estava sim­plesmente declarando o óbvio.

Então o barulho do motor aumentou em volume e tom.

— Troca de marcha — disse Butler. — Ela está voltando. Artemis sentiu um arrepio passar sobre o coração, mas estivera esperando isso.

É claro que ela está voltando, pensou. Nunca terá outra chance como esta. Butler mal consegue andar. Holly e o N° 1 vão ficar sem energia durante horas e eu sou um mero humano. Se Opala recuar agora, Jayjay ficará livre dela para sempre. Logo o esqua­drão de Potrus chegará de Tara e levará o pequeno lêmure para o subsolo. Durante uns cinco minutos Opala tem a vantagem.

Artemis planejou rapidamente.

— Preciso tirar Jayjay daqui. Enquanto ele estiver na man­são, todo mundo corre perigo. Opala vai matar todos nós para encobrir suas pistas.

Butler assentiu, com suor escorrendo em riachos pelas ru­gas do rosto.

— Sim. Podemos chegar ao Cessna.

— Eu posso chegar ao Cessna, velho amigo — corrigiu Artemis. — Estou encarregando-o da proteção de minha mãe e de meus amigos, para não mencionar que deve manter meu eu mais novo fora da Internet. Ele é tão perigoso quanto Opala.

Era uma tática sensata e Butler sabia que ela viria antes mesmo que Artemis dissesse. Estava em forma tão ruim que acabaria atrasando Artemis. Não só isso, mas a mansão ficaria escancarada para qualquer dos escravos de Opala entrar e exer­cer sua vingança.

— Muito bem. Não suba a mais de 3 mil metros e cuida­do com os flaps, eles agarram um pouco.

Artemis assentiu como se não soubesse. Dar instruções era reconfortante para Butler.

— Três mil. Flaps. Entendi.

— Quer uma arma? Tenho uma ótima Beretta. Artemis balançou a cabeça.

— Nada de armas. Minha mira é tão ruim que, mesmo com o olho de Holly para ajudar, eu provavelmente só conse­guiria acertar um dedo do pé. Não, só preciso da isca. — Ele fez uma pausa. — E dos meus óculos escuros.

 

No momento a família Fowl pos­suía três aeronaves. Um Learjet e um helicóp­tero Sikorsky eram mantidos num hangar do aeroporto nas vizinhanças, e um pequeno Cessna que ficava numa pequena garagem-oficina ao lado da alta campina no limite norte da propriedade. O Cessna tinha vários anos e teria sido reciclado algum tempo antes se Artemis não o tivesse tomado como projeto. Seu objetivo era torná-lo neutro em emissão de carbono e eficaz em termos de custos, um objetivo que seu pai aprovava calorosamente.

— Tenho quarenta cientistas trabalhando no mesmo pro­blema, mas aposto em você — dissera ele ao filho.

Assim, Artemis havia coberto todo o corpo do avião com painéis solares leves e supereficientes, como o protótipo da asa-voadora da NASA, o Helios. Diferentemente do Helios, o Cessna de Artemis ainda podia voar à velocidade normal e le­var passageiros. Isso porque Artemis havia removido o motor único e instalado outros menores para girar a hélice maior, com quatro hélices extras nas asas e no trem de pouso. A maior parte do metal do esqueleto fora tirado e substituído por um polí­mero leve. Onde estivera o tanque de combustível, agora fica­va uma pequena bateria.

Ainda havia alguns ajustes a fazer, mas Artemis acreditava que seu avião podia voar. Esperava. Muita coisa dependia da confiabilidade da pequena aeronave. Saiu correndo pela porta da cozinha para o pátio e em direção à campina elevada. Com sorte, Opala não perceberia que ele havia saído até que visse o pequeno avião decolar. Claro que nesse ponto ele queria que ela o visse. Esperava poder atraí-la para longe por tempo sufi­ciente para a chegada dos reforços da LEP.

Artemis sentiu o cansaço nas pernas antes de ter percorrido cem metros. Nunca fora do tipo atlético e as recentes peripécias na corrente do tempo não haviam ajudado seu físico, mesmo que ele tivesse se concentrado tremendamente nos músculos durante as viagens, forçando-se a aumentar o tônus. Uma pe­quena experiência no domínio da mente sobre a matéria, que infelizmente não havia produzido resultados.

A velha porteira para a campina estava fechada, por isso Artemis escalou-a, em vez de lutar com a tranca pesada. Podia sentir o calor do corpo do símio dentro do paletó e as mãos pequeninas do bicho apertavam com força seu pescoço.

Jayjay precisa ficar em segurança, pensou. Precisa ser salvo.

A porta da garagem era mais forte do que parecia e era pro­tegida por um sistema controlado por teclado. Artemis digitou o código e escancarou a porta dupla, inundando o interior com profundos raios alaranjados do sol do início da tarde. Dentro, ani­nhado num semicírculo de bancadas e carrinhos de ferramentas, estava o Cessna modificado, preso a um cabo de força suplementar. Artemis desconectou o cabo da tomada na fuselagem e subiu na cabine. Prendeu o cinto de segurança do banco do piloto, lem­brando-se brevemente de quando havia pilotado sozinho esse avião pela primeira vez.

Tinha nove anos. Precisei de uma almofada no banco.

Os motores deram partida de imediato e praticamente em silêncio. O único barulho vinha do giro das hélices e dos estalos dos interruptores enquanto Artemis fazia a checagem pré-vôo.

Em termos gerais, as notícias eram boas. Oitenta por cen­to de força. Isso dava ao pequeno avião um alcance de várias centenas de quilômetros. O bastante para guiar Opala numa dança alegre ao longo do litoral irlandês. Mas os flaps estavam agarrando e os lacres eram velhos.

Não suba acima de 3 mil metros.

— Vamos ficar bem — disse ao passageiro dentro de seu paletó. — Absolutamente bem.

Seria verdade? Não podia ter certeza.

A campina alta era larga e comprida, e subia suavemente em direção ao muro da propriedade. Artemis tirou o Cessna do hangar, girando o nariz numa curva fechada para conse­guir o máximo de pista. Em circunstâncias ideais, os 500 metros de capim eram mais do que suficientes para uma decolagem.

Mas havia um vento de cauda e o capim estava alguns centí­metros mais comprido do que deveria.

Apesar dessas considerações, devemos ficar bem. Já voei em con­dições piores do que estas.

A decolagem foi normal. Artemis puxou o manche para a marca de 300 metros e passou confortavelmente acima do muro norte. Mesmo a essa baixa altitude, podia ver o mar da Irlanda a oeste, negro com cimitarras de luz do sol cortando as bordas das ondas.

Sentiu-se tentado, numa pequeníssima fração de segundo, a simplesmente desaparecer, mas não fez isso.

Será que eu mudei completamente?, perguntou-se. Percebeu que estava ficando sem crimes palatáveis. Não fazia muito tem­po que praticamente qualquer crime lhe parecia aceitável.

Não, decidiu. Ainda havia pessoas que mereciam ser rou­badas, ou denunciadas, ou largadas numa selva densa com apenas sandálias de borracha e uma colher. Só teria de se es­forçar mais para encontrá-las.

Ativou as câmeras das asas. Havia uma pessoa assim na avenida lá embaixo. Uma duende-diabrete megalomaníaca, de coração frio. Opala Koboi. Artemis pôde vê-la caminhando para a mansão, enfiando o capacete de Holly sobre as orelhas.

Eu tinha medo disso. Ela pensou em pegar o capacete. Uma ferramenta muito valiosa.

Mesmo assim ele não tinha alternativa além de atrair a atenção dela. A vida de seus familiares e amigos estava em jogo. Artemis fez o Cessna descer 30 metros, seguindo o caminho de Opala até a mansão. Ela podia não ouvir o motor, mas os sensores no capacete de Holly iriam acionar uma dezena de luzes.

Seguindo a deixa, Opala parou, lançando o olhar para o céu, capturando o pequeno avião em sua viseira.

Venha, Opala, pensou Artemis. Engula a isca. Faça uma varredura térmica.

Opala caminhava decididamente para a mansão até que pren­deu o bico de uma das botas da LEP sob o calcanhar da outra.

Elfo idiota, alta demais, pensou furiosa, endireitando-se. Quando eu for rainha — não — quando eu for imperatriz, todas as criaturas altas terão as pernas modificadas. Ou, melhor ainda, mandarei colocar uma glândula pituitária humana em meu cé­rebro para que eu seja a alta. Uma gigante em meio às criaturas do Povo, física e mentalmente.