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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O PECADOR ARREPENDIDO / Penny Jordan
O PECADOR ARREPENDIDO / Penny Jordan

 

 

                                                                                                                                   

 

 

 

 

 

 

Uma emocionante história sobre o amor e o relacionamento de um casal.

Max Crighton, um advogado bem-sucedido, tem tudo: dinheiro, poder, vida familiar perfeita. Mas para um homem viciado no lado escuro e perigoso da atração sexual, isso não basta. Ele pula de caso em caso, seduzindo gratas clientes e colocando seu charmoso estilo de vida em risco.

Então sua sorte se esgota. Max sofre um ataque brutal. E o homem que volta do hospital para casa é um estranho para a esposa. Maddy, para os filhos e para si mesmo. Pode Maddy confiar nesse homem que agora desesperadamente deseja manter a família unida? Deve ela acreditar que esse pecador contumaz realmente se arrependeu?

 

 

 

 

                                                 CAPITULO I

Max Crighton, trinta anos, casado, bem-sucedido, sexy, pai de duas crianças pequenas, no momento completamente desencantado e entediado com a própria sorte, avaliava, entre cínico e desdenhoso, os ocupantes do salão de baile do Chester's Grosvenor Hotel, onde acontecia a recepção do casamento de uma de suas irmãs caçulas.

Louise, a noiva e a gêmea de personalidade mais marcante, sorria, os olhos fixos no rosto bonito do marido, Gareth Simmonds, enquanto vários membros dos clãs dos Grighton e Simmonds os observavam com uma expressão, segundo a opi­nião de Max, de grotesco e irritante sentimenta­lismo. A gêmea de Louise, Katie, permanecia de pé ao lado dos noivos, quase à sombra da irmã.

Gêmeos!

Gêmeos revelaram-se um fato recorrente na his­tória genealógica da família Crighton. Seu próprio pai era o mais jovem de um par de gêmeos e o avô, Ben Crighton, o único sobrevivente de um outro par.

Gêmeos!

Sentia-se eternamente grato aos pais por sua vida não ter sido obscurecida, por ele não ter sido ofuscado por uma outra metade, uma outra cria­tura capaz de ameaçar a posição de supremacia absoluta que cultivava. Aliás, essa era a única coisa pela qual se sentia grato aos dois.

Ao passear os olhos pelo salão enorme, Max experimentou uma pontada de fria satisfação ao notar como vários dos presentes evitavam fitá-lo. Sem dúvida nunca fora uma pessoa de quem os parentes gostassem muito, todavia não se importava. Por que deveria se importar? Afi­nal, jamais ambicionara ser alvo de afeição fraterna.

Por exemplo, o Bentley Turbo conversível, zero quilômetro, que acabara de comprar e a posição de sócio de uma das mais conceituadas firmas de advocacia de Londres, não eram coisas que ad­quirira porque as pessoas gostavam dele. Ser um dos melhores advogados da cidade sempre havia sido seu principal objetivo, desde que tivera idade bastante para que o avô lhe explicasse o signifi­cado da palavra advogado,

O irmão gêmeo de seu pai, tio David, fora, no passado, destinado ao mesmo futuro brilhante, po­rém acabara fracassando. Houve uma certa oca­sião em que Max também temera falhar, quando, apesar de todas as promessas feitas a si mesmo e ao avô, receara ver o prêmio que tão desesperadamente cobiçava ser lhe arrancado das mãos no último instante, embora não por culpa sua. Entretanto encontrara uma maneira de reverter a situação e mostrara àqueles que tentaram des­truí-lo o quanto tinham sido tolos e ingênuos.

Sem pressa, Max tornou a passear o olhar pelo salão, reparando na esposa, Madeleine, sentada junto de sua mãe e da tia-avó, Ruth, a alguns metros de distância.

Nenhuma de suas primas, e tampouco as mu­lheres dos primos, podiam ser consideradas belas, o tipo que os homens adoram exibir como um troféu para despertar a inveja alheia. Contudo, eram atraentes. Na verdade Bobbie, esposa de Luke, parecia-lhe bastante sensual, o que servia apenas para acentuar as feições melancólicas e a simpli­cidade enfadonha de Madeleine.

Ele esboçou um sorriso irônico quando a esposa o fitou por um breve instante antes de abaixar a cabeça, como um animalzinho assustado.

Claro que Madeleine possuía uma qualidade redentora. Era extremamente rica e extrema­mente bem relacionada. Ou pelo menos a família dela o era.

— Não entendo... Você não quer nosso bebê? — ela murmurara chocada quando, humilde e amorosa, lhe contara estar esperando o primeiro filho.

— Sim, minha estúpida esposa, eu não quero essa criança! — Max lhe respondera áspero. — Procriar uma nova geração de pequenos Crighton não foi o motivo pelo qual a pedi em casamento.

— Então por que... por que você se casou co­migo? — a tola lhe perguntara chorosa.

Divertira-o ver a expressão apavorada daqueles olhos, perceber o medo que a esposa procurara, em vão, esconder.

— Casei-me com você porque era a única forma de me tornar sócio de uma firma respeitada — fizera questão de esclarecer fria e cruelmente. — Por que está tão chocada? Não é possível que não tivesse adivinhado a verdade.

— Você disse que me amava.

Então só lhe restara inclinar a cabeça para trás e rir com vontade diante de tamanha asneira.

— E você acreditou em mim? Acreditou mesmo, querida, ou estava tão desesperada para arranjar um homem, para se deitar com alguém, para se casar, que preferiu acreditar em mim? Livre-se do bebê — ele a instruíra, a voz seca soando des­tituída de sentimentos.

Porém não fora obedecido. E agora havia dois fedelhos barulhentos para atrapalhar sua vida. Não que lhes permitisse fazê-lo, claro.

Fora um toque de gênio encorajar o avô a se tornar tão dependente de Maddy a ponto de o velho não admitir outra pessoa perto de si.

Também congratulava-se pela facilidade com que a persuadira a praticamente morar em Haslewich, pequena cidade na província de Cheshire onde passara a infância e onde seu bisavô fundara a firma agora presidida por seu pai. Dessa forma, ficara livre para viver como bem entendesse, sem ter que assumir a responsabilidade de criar duas crianças endiabradas, ou de suportar a presença de uma parceira indesejada.

Max não experimentava o menor remorso pelos incontáveis casos extraconjugais que mantivera ao longo dos anos, a maioria envolvendo clientes a ponto de divorciarem-se de maridos milionários e para as quais deveria obter acordos que as per­mitissem continuar a desfrutar das mesmas re­galias financeiras a que haviam se acostumado durante o casamento.

Não era incomum que aquelas mulheres, ricas, lindas, mimadas, entediadas e às vezes vulnerá­veis, considerassem plenamente justificável ini­ciar um relacionamento íntimo com o jovem e más­culo advogado a quem tinham contratado para arrancar o máximo de dinheiro possível de seus quase ex-maridos.

Todavia não se podia esperar que tais damas da sociedade guardassem segredo de uma vingan­ça tão deliciosa.

Confidências eram partilhadas entre as "ami­gas" da alta-roda e logo Max se tornou conhecido como o advogado a quem recorrer em caso de di­vórcio e não apenas pela facilidade com que con­seguia obter excelentes e generosas pensões para suas clientes.

Até mesmo seu casamento com Maddy, no qual planejara pôr um fim logo após ter se estabelecido profissionalmente, acabara se revelando um bônus. A existência de uma esposa e de dois filhos pequenos deixava claro para suas amantes, de ma­neira implícita, que aquela relação extraconjugal não podia ir além de um envolvimento passageiro. Uma pessoa honrada jamais colocaria os próprios desejos, as próprias necessidades, acima da feli­cidade dos filhos. Portanto, deveria permanecer casado por causa deles.

— Se ao menos existissem mais homens como você... — muitas de suas amantes haviam dito vezes sem conta. — Sua esposa é uma mulher de sorte.

De fato, Madeleine tinha muita sorte. Se não houvesse se casado com ela, com certeza a coitada estaria solteira até hoje.

Ultimamente ouvira rumores insistentes de que seu sogro não tardaria a ocupar o cargo de juiz supremo, o que não faria mal algum à sua própria carreira.

Apesar de se saber pouco apreciado pelos pais de Madeleine, a situação não o incomodava nem um pouco. Por que deveria? Seus próprios pais, sua própria família tampouco o apreciavam. E o sentimento era recíproco. O único parente por quem experimentara algo semelhante a afeto fora o tio David. Entretanto esse sentimento mescla­va-se a um certo desdém pois David, mesmo tendo sido sempre o filho favorito de seu avô, jamais alcançara projeção profissional, limitando-se a trabalhar na firma fundada pelos Crighton na pe­quena cidade de Haslewich.

Amor, a emoção que unia e criava laços entre as pessoas, era um conceito incompreensível para Max. Amava a si mesmo, sim, porém reservava aos outros somente desdém, desinteresse, ressen­timento ou profunda hostilidade.

Aos seus olhos, não era culpa sua que os outros não o apreciassem. A culpa era deles.

Max consultou o relógio. Mais meia hora e sairia dali. A princípio Louise pretendera ca­sar-se na véspera de Natal, todavia o casamento acabara sendo antecipado principalmente por­que sua tia-avó, Ruth, e o marido americano, Grant, deveriam viajar para os Estados Unidos onde passariam as festas de fim de ano na com­panhia da filha.

A neta de Ruth, Bobbie, o marido, Luke Crigh­ton, membro do ramo da família originário de Chester, e a filhinha de ambos também embar­cariam para umas longas férias.

Alguns metros adiante Bobbie Crighton, perce­bendo o modo como Max fitava a pobre esposa, concluiu que o adjetivo mais leve com o qual po­deria descrevê-lo seria detestável. Certa vez es­cutara Olívia comentar a respeito do próprio pri­mo: "Ele é o tipo de homem que, mesmo estando na companhia de uma mulher atraente, mantém-se atento aos arredores, na esperança de descobrir outra ainda mais bonita.

Pobre Maddy. Não conseguia entender por que a infeliz não punha um ponto final naquele ar­remedo de casamento. Mas havia as crianças...

Sorrindo de leve, Bobbie pousou a mão sobre o ventre firme. Sua segunda gravidez fora confir­mada na semana anterior.

— Acho que desta vez terei gêmeos — ela con­fidenciara a Luke.

— Intuição feminina? — o marido indagara, er­guendo as sobrancelhas escuras.

— Mães na casa dos trinta têm maior proba­bilidade de gerar gêmeos.

— Na casa dos trinta? Mas você completou trin­ta anos há pouco tempo, mulher!

— Eu sei. Também acredito que esses dois aqui dentro foram concebidos na noite do meu trigési­mo aniversário.

Luke era um dos quatro filhos, dois meninos e duas meninas, de Henry, irmão de Laurence, am­bos advogados e agora aposentados. Pouco mais de oitenta anos atrás, Josiah, o mais jovem dos Crighton residentes em Chester, se desentendera com os pais e partira para Haslewich, disposto a se unir ao outro ramo da família, inclusive na esfera profissional.

Enquanto todos os irmãos e primos de Luke mantinham ótimo relacionamento com os Crigh­ton de Haslewich, o velho Ben continuava obce­cado pela tradição de eterna rivalidade.

Durante toda sua vida Ben alimentara o sonho de ver o filho mais velho ser admitido como ad­vogado no Fórum. Quando David falhara, ele de­positara todas as esperanças no neto.

Max crescera sendo pressionado pelo avô a alcançar a posição que David não fora capaz de con­quistar, a reparar as injustiças cometidas contra o ramo de sua família, restaurando o orgulho dos Crighton residentes em Haslewich e mostrando "àquela gente de Chester" que eles não eram os únicos a ter em seu meio alguém que subira até os escalões mais altos da profissão.

Quando Max contara ao avô estar para ingres­sar numa das mais famosas e respeitadas firmas de Londres, o velho vira, enfim, seu grande sonho tornar-se realidade.

Enquanto observava o movimento incessan­te, Bobbie não pôde deixar de lembrar-se da primeira vez em que participara de uma festa da família Crighton. O aniversário de dezoito anos de Louise e Katie, um evento elegante que reunira a alta sociedade. Comparecera à festa como convidada de Joss, irmão mais novo das gêmeas.

Na ocasião, Max a tratara de maneira muito galante. Galante demais para um homem casado, como Luke fizera questão de frisar. Luke e ela haviam se desentendido de imediato, assumindo posições antagônicas em tudo.

Agradava-a que Louise tivesse antecipado o ca­samento, para que todos pudessem assistir à cerimônia. Odiaria perder uma ocasião tão impor­tante, porém nada a teria feito adiar a viagem para os Estados Unidos, onde passaria o Natal com os pais e a irmã. Sua mãe, Sarah Jane, ficaria entusiasmada quando lhe falasse da gravidez. Só esperava que Sam também se mostrasse feliz. Ao pensar na irmã gêmea. Bobbie experimentou uma certa inquietude. Alguma coisa andava errada na vida de Sam. Podia sentir isso na alma.

Na ante-sala, ao lado do salão de baile, estavam reunidos os mais jovens membros da família, di­vertindo-se numa festinha preparada especial­mente para agradá-los. Sentada a uma pequena distância, Jenny Crighton mantinha um olhar atento nas crianças.

Quem poderia imaginar que, num espaço de tempo tão curto, haveria toda uma nova geração de Crighton?

Fora Olívia, filha mais velha de David e sua sobrinha, quem começara tudo. Ela e o marido americano, Caspar, haviam gerado duas meninas, Amélia e Alex. Saul, primogênito de Hugh, meio-irmão de Ben, tinha Jemima, Robert e Meg, do primeiro casamento, e um bebê do casamento com Tullah. Léo e Emma eram os filhos de sua nora, Maddy.

Jenny sentiu a tensão dominá-la ao fitar a nora, sentada ao seu lado. Maddy podia apresentar um exterior calmo e sereno, porém os olhos expressi­vos pareciam cheios de lágrimas. E sabia quem as causara.

Mesmo agora, depois de todos aqueles anos, ain­da não conseguia aceitar a dura realidade. Como lidar com o fato de que era Max, carne de sua carne, fruto de seu amor por Jon, o responsável pelo tormento da doce Maddy?

Ansiava perguntar ao filho por que ele se com­portava daquela maneira? Por quê? O que o in­duzia a ser frio e insensível? Todavia sabia muito bem que não adiantava abordá-lo. Um sorriso des­denhoso e um dar de ombros seria a única resposta aos seus apelos.

Jamais pudera entender como ela e Jon haviam criado uma pessoa como Max e doía-lhe a alma testemunhar o sofrimento da nora, presa a um casamento desastroso. Sentia-se de certa forma culpada.

Amava Maddy como a uma filha, admirava-a pelas grandes qualidades que possuía e a con­siderava capaz de fazer qualquer homem feliz. Porém precisaria ser cega para não enxergar que aquela mulher terna e gentil estava longe de ser o tipo de esposa que Max imaginara para si.

Seu filho se excitava diante da oposição, do de­safio e da agressão. Apenas o que lhe parecia di­fícil de obter, senão impossível, o atraía. E a pobre Maddy não correspondia a esse perfil.

Pobre Maddy!

Sentada ao lado de Jenny Crighton, Madeleine tinha certeza do que passava pela cabeça da sogra. E não podia censurá-la.

Max aparecera em Queensmead, a bela casa que pertencia ao avô e na qual instalara a esposa e filhos em caráter permanente, pela manhã, somente uma hora antes do casamento de Louise, embora houvesse garantido chegar na noite an­terior. Para complicar ainda mais as coisas, Léo estava passando por uma fase difícil, mostrando-se bastante possessivo em relação à figura ma­terna. Diferentemente do pai, o menino parecia não compreender não ser necessário sentir ciúme da mãe. Que homem se interessaria por uma mu­lher com aquela aparência simples e modesta? En­tretanto o garoto opunha-se a permanecer junto do pai.

Maddy, contudo, sabia que Max não dava a me­nor importância aos filhos, quer o ignorassem, ou não. De fato, quanto menos se relacionava com eles, mais satisfeito se revelava. Afinal, não havia desejado nenhum dos dois.

Já em público, a situação era muito diferente. Diante do avó e das outras pessoas, as crianças deveriam dar a impressão de que o adoravam. Léo, no momento, recusava-se a se comportar como um filho amoroso è Emma estivera enjoada. Por sorte não vomitara na roupa de festa, mas provocara atraso na saída para a igreja. Furioso, Max acusara a mulher de ser tão inútil como mãe quanto o era como esposa.

Todavia Maddy não tinha dúvidas sobre a ver­dadeira razão de tanta raiva. Só podia ser uma amante. Conhecia os sinais muito bem para não reconhecê-los. Max deixara alguém em Londres e irritava-o ser obrigado a passar o fim de semana enterrado em Haslewich.

Apesar de tentar se convencer de que as infidelidades do marido já não tinham o poder de magoá-la, no fundo sabia não ser assim.

Também sabia que a sogra, e o resto da família sentiam pena dela. A compaixão estampada no olhar de cada um deles era quase palpável, de tão intensa. Quanto via os primos de Max com suas esposas e filhos, quando percebia o amor que os unia, experimentava uma dor insuportável, um sofrimento atroz por tudo o que estava perdendo. Mas como perder o que nunca chegara a ter, ela se perguntava, esforçando-se para aceitar a rea­lidade com resignação. Nunca fora amada quando criança, por mais que tivesse se esforçado para sê-lo. Sua mãe, filha de um lorde, sempre agira como se considerasse o casamento, e por extensão o marido e a filha, como levemente abaixo de seu nível social. Por sua vez, Maddy vivera num mun­do à parte, relegada a intermináveis visitas a pa­rentes enquanto a mãe comparecia a todos eventos promovidos pela alta sociedade e o pai se entre­gava vinte e quatro horas por dia à carreira de advogado, determinado a alcançar a posição de juiz supremo.

Apesar de filha única, Maddy nunca parecera ocupar um lugar significativo na vida dos pais. Depois de casada, passara a vê-los menos ainda. Assim, vir para Haslewich e encontrar não apenas um lar, na companhia do avô de Max, mas também descobrir a sensação de ser genuinamente neces­sária, fora como um bálsamo sobre a ferida aberta de sua baixa auto-estima e do casamento destru­tivo do qual não tinha forças para escapar.

Por natureza e instinto uma pessoa extrema­mente maternal, Maddy apenas sorria quando co­mentavam sobre o notável mau humor de Ben Crighton e o defendia, dizendo ser a dor constante nas juntas gastas a razão da constante irritabi­lidade do velho.

Agradecidos de ter quem os livrasse daquela carga, os parentes costumavam chamá-la de "ver­dadeira santa". Considerava a expressão um exagero, claro. Era uma mulher como as outras. Uma mulher que, no momento, ansiava desesperadamente ter um homem que a fitasse como Gareth Simmonds fitava Louise, com amor, or­gulho, desejo... todas as emoções que um dia, tola que fora, imaginara ver estampadas no olhar do marido.

Max a pedira em casamento por um único mo­tivo, como fizera questão de repetir milhares de vezes ao longo dos anos. E, de fato, sem a ajuda de seu pai, era bem possível que ele jamais hou­vesse sido chamado para advogar no Fórum.

— Maddy, por que você o suporta? Por que diabos não se divorcia? — Louise indagara im­paciente, quando, numa festa de Natal sur­preendera o irmão flertando abertamente com uma bela moça.

Como explicar à cunhada por que permanecia casada, se não conseguia explicar nem a si mes­ma? Talvez porque ali, em Haslewich, se sentisse segura, necessária e importante. Enquanto se mantivesse ocupada cuidando dos filhos e de Ben, poderia evitar pensar em seu casamento e fingir que a situação não era tão ruim quanto parecia. Talvez não se divorciasse não tanto por temer viver sem o marido, mas por não se julgar capaz de enfrentar a ausência da família dele. Era pa­tético, sim. Tinha consciência de que os demais a julgavam fraca. Todavia seus filhos precisavam ser levados em consideração.

Em Haslewich, Léo e Emma faziam parte de um extenso grupo familiar e podiam desfrutar de uma bênção negada à maioria das crianças mo­dernas: crescer cercados de parentes; avós, tios e primos. Os Crighton faziam parte da história da­quela cidade e Maddy ansiava dar aos filhos um presente que acreditava possuir valor inestimável, o presente de sentir-se seguro, de se saber parte de um mundo especial.

— Todavia, se você morasse em Londres, as crianças teriam um contato mais constante com o pai — uma conhecida recente argumentara pou­co tempo atrás.

— O trabalho de meu marido o mantém muito ocupado, inclusive durante parte das noites — ela respondera, inclinando-se para abotoar o casaco de Léo, tentando não deixar transparecer a amar­gura que a consumia.

Por sorte a outra não insistira no assunto en­quanto ambas conduziam os filhos até a porta principal do jardim-de-infância.

Esse era outro dos prazeres de morar numa ci­dade pequena. Ia-se a pé para todos os lugares.

Os parentes davam a impressão de aceitar o fato de Max permanecer em Londres durante os dias de trabalho porém, na realidade, ele costu­mava passar semanas inteiras, meses até, sem aparecer em Haslewich.

Apesar de seu casamento ser algo que nunca discutisse com ninguém, Madeleine não tinha dú­vidas de que os Crighton percebiam a verdade. Obviamente não eram apenas compromissos pro­fissionais que o prendiam a Londres.

As vezes sentia-se tentada a se desabafar com a sogra. Entretanto o temperamento reservado e um certo orgulho natural acabavam impedindo-a. Afinal, o que Jenny poderia fazer? Obrigar Max a amá-la e aos filhos? Obrigá-lo a...

Pare com isso, ela pensou, esforçando-se para conter as lágrimas. O marido já estava terrivel­mente mal-humorado e preferia não tornar as coi­sas ainda piores, descontrolando-se em público. Embora não fosse o tipo de homem capaz de mal­tratar fisicamente a esposa e os filhos, Max os envolvia num silêncio tão carregado de desprezo que a hostilidade muda se tornava palpável.

Depois das breves visitas dele a Queensmead, costumava escancarar todas as janelas da casa, para trocar o ar infectado de ressentimento por outro mais puro.

"Onde está aquele seu marido?", lembrava-se de ouvir Ben perguntar-lhe recentemente, enquanto o ajudava a sentar-se numa poltrona dian­te da lareira. Na última consulta, os médicos o tinham avisado da possível necessidade de sub­metê-lo a uma nova cirurgia para substituir a jun­ta gasta no quadril por uma placa de metal.

Como era de se esperar, o velho advogado fi­cara furioso, negando-se a aceitar as recomen­dações médicas. Madeleine levara dias até con­seguir acalmá-lo.

Todavia, apesar do temperamento difícil de Ben, o apreciava de fato. Ele possuía um lado afetuoso, paternalista à moda antiga, que julgava ser dever do homem proteger a dama sempre. Embora algumas das mulheres mais jovens da família o considerassem irascível, devotava-lhe um enorme carinho.

— Não sei como você o agüenta — Olívia lhe dissera na semana anterior, quando fora visitá-la levando consigo as filhas pequenas, Amélia e Alex.

— Filhas! Filhos é o que esta família precisa! — o avô exclamara desaprovador, quando Olívia entrara na sala com as garotas. — Ainda bem que temos o nosso Léo — ele finalizara, olhando para o bisneto sem disfarçar o orgulho.

— Não o permitirei fazer com que minhas me­ninas se sintam inferiores aos meninos — Olívia irritara-se quando as duas se acomodaram na co­zinha para tomar café e conversar enquanto as crianças brincavam.

— Ben não falou por mal — Madeleine tentara contemporizar, colocando um prato de biscoitos ainda quentes sobre a mesa.

— Oh, sim, falou sim — Olívia retrucara som­bria, levando um dos deliciosos biscoitos à boca e mastigando-o furiosa. — Mas eu deveria esperar por isso. Afinal, cresci ouvindo meu avô dizer que ninguém nunca chegaria aos pés daquele menino extraordinário. E meu pai não ficava atrás nos comentários machistas. Às vezes eu desejava que Max fosse filho de meu pai e que tio Jon fosse meu pai.

— Jenny me falou sobre quão terrivelmente Ben mimou Max durante a infância — Madeleine res­pondera baixinho.

— Mimou é o mínimo que se pode dizer. Qual­quer coisa que meu primo queria, ele obtinha. Vovô não se cansava de decantar as qualidades do neto preferido e ai de quem ousasse contradizê-lo. Odeio pensar no que poderia ter acon­tecido ao meu avô se Max não fosse convidado a trabalhar no Fórum. Sei que era uma posição difícil de ser conquistada e o fato de seu pai ser um homem tão influente ajudou bastante no final.

— Sim — Madeleine viu-se obrigada a concor­dar. Não havia nenhuma malícia na observação de Olívia. Porém a aversão que nutria pelo primo ficava evidente em cada um dos comentários. Aliás, em nenhuma circunstância ela tentava es­conder o quanto o considerava antipático.

Olívia desconfiaria de que Max a pedira em ca­samento apenas para alavancar a própria carrei­ra? Esperava que não. Embora se soubesse alvo de piedade da família, preferia que esse detalhe humilhante não viesse à tona.

— Vovô vai fazer uma pressão monumental para que Léo siga os passos de Max e...

Antes que Olívia continuasse, Madeleine a interrompeu.

— Léo não é como Max. E se ele seguir os passos de alguém, acredito que seja os de Jon. Tenho a impressão de que ficará feliz trabalhando na firma fundada pela família, aqui em Haslewich. Para ser franca, acho que se uma das crianças desta nova geração for alçar vôos maiores, será Amélia.

Olívia sorriu amorosa para a primogênita.

— Minha filha é mesmo muito determinada e tem personalidade forte. Mas nem sempre a vida segue os caminhos que imaginamos. Veja Louise. Todos nós acreditávamos que ela seria uma mulher para quem a carreira viria sempre em primeiro lugar. Agora já está falando em parar de trabalhar durante alguns anos para constituir família. E Katie, a quem julgávamos tímida e sossegada, parece decidida a desabro­char profissionalmente.

Apesar da maneira franca como se expressa­va, Olívia não disse nada sobre o fato de ela, Madeleine, dar a impressão de não ter nenhum interesse além do lar e dos filhos. Seria por con­siderá-la totalmente alienada da realidade? Ou então insegura demais para se aventurar no mundo lá fora?

—Hum... Estes biscoitos estão deliciosos. Você devia cozinhar profissionalmente, Maddy. Não me surpreende que vovô tenha engordado nos últimos tempos.

Madeleine apenas sorriu. A modéstia habitual a impediu de contar sobre a despensa cheia dos frutos de seu labor. Literalmente. Adorava jardi­nagem e, sob a orientação de Ruth, conseguira reviver o pomar de Queensmead e a estufa. No momento, sua atenção estava concentrada em cui­dar do pessegueiro que ganhara de aniversário da sogra e o qual esperava ver florir no próximo verão.

Desde que se mudara para Queensmead, resol­vera, sem alarde, trazer a velha casa de volta à vida. Cada cômodo empoeirado tinha sido limpo e pintado, a mobília restaurada e encerada. Até mesmo enfrentara uma cansativa viagem à Escó­cia com o objetivo de convencer os avós maternos a lhe darem os móveis estocados no sótão do ele­gante castelo onde moravam. Sabia que aquelas peças antigas e rústicas seriam, perfeitas para Queensmead.

Guy Cooke, o antiquário local e grande amiga de Jenny, mostrara-se verdadeiramente impressionado com a transformação ocorrida na velha casa.

— Muito bonito — ele dissera a Madeleine, sem disfarçar a admiração. — A maioria das pessoas cometeria o engano de mobiliar Queensmead com peças grandiosas e totalmente inadequadas ao es­tilo da construção. Ou pior, comprariam réplicas... Mas estes móveis são espetaculares. Você tem um bom olho para reconhecer preciosidades, além de extremo bom gosto.

— Isso é fácil quando se tem avós com sótãos cheios de móveis — Maddy retrucara rindo, en­quanto Guy se virara para examinar as pesadas cortinas de brocado colocadas nas janelas de uma das salas.

— Estupendas. E praticamente impossível en­contrar este tecido à venda nos dias de hoje. O preço seria exorbitante Onde o conseguiu?

— Minha trisavó tinha raízes irlandesas. Des­cobri-o no...

— Já sei, no sótão — Guy completara.

— Estou esperando ansiosa o Natal deste ano — Jenny dissera de repente, envolvendo a nora num olhar afetuoso. — Você fez maravilhas em Queensmead, querida, e será um cenário perfeito para reunir a família. Essa casa é algo que os Crighton de Chester realmente invejam por não possuírem nada igual.

— De fato é uma bela casa — Maddy concordara.

— Jon já conversou com Bran e o pinheiro de­verá ser entregue depois de amanhã. Se você qui­ser, poderei vir ajudá-la na decoração.

— Sim, por favor... — A árvore, que deveria ocu­par um lugar de honra na enorme sala de estar, estava vindo da propriedade de Bran T. Thomas, grande amigo da família. Idoso e morando só, o coronel reformado fora convidado para cear com os Crighton. Madeleine gostava dele e das histó­rias que costumava contar sobre a região. Também emocionava-a o modo como aquele homem mantinha viva a lembrança da esposa morta, ci­tando-a sempre com palavras carinhosas.

— Acho que Louise está se preparando para partir — Jenny a avisou, arrancando-a dos deva­neios aos quais se entregara.

Ao fitar os noivos, Maddy sentiu o coração se aper­tar. Ambos pareciam tão felizes, tão apaixonados. Quando Garreth se inclinou e beijou a esposa, o rosto de Louise se iluminou de alegria. Não que a invejasse, não que se ressentisse da felicidade da cunhada, não era mesquinha a esse ponto, porém doía-lhe a alma saber que jamais experimentaria a sensação intoxicante de ser amada.

Sufocando a angústia, Maddy desviou o olhar e levantou-se para buscar os filhos, que brincavam contentes na companhia dos primos.

Já Léo, que fora pagem, comportara-se de maneira exemplar durante a cerimônia e Emma, recupe­rada do mal-estar, parecera se divertir muito na festa. Entretanto não era difícil detectar os pri­meiros sinais de cansaço nas crianças.

Bobbie, neta de Ruth, aproximou-se para apa­nhar a própria filha e sorriu para Madeleine.

— Depois disso tudo, acho que não estou mais tão animada para enfrentar uma longa viagem de avião até os Estados Unidos.

— Vai valer a pena quando você estiver com seus pais e irmã.

— Oh, sim, é verdade.

Quando Luck juntou-se ao pequeno grupo e tomou a filha nos braços, acalentando-a carinhoso, Bobbie não pôde deixar de pensar nas diferenças gritantes entre o marido e Max.

Seu querido Luke era um pai gentil, terno, além de amante apaixonado, enquanto Max... Esse po­dia fingir na frente dos outros, especialmente diante do avô, ser um sujeito decente e de bom caráter. Porém ela conseguia enxergar além das aparências.

Pobre Maddy.

 

                                                     CAPITULO II

"Pobre Maddy." Já se ouvira ser cha­mada assim tantas vezes que se perguntava se não devia adotar o adjetivo como parte do nome, Madeleine refletiu amarga horas depois, lembrando-se de escutar Bobby sussurrar aquelas duas palavras ao abraçar-se a Luke.

Léo e Emma estavam acomodados em suas ca­mas, prontos para dormir, após ter lhes contado a história habitual.

Ben também fora deitar-se, protestando por ser alvo de preocupações desnecessárias, pois se en­contrava muito bem, obrigado. Todavia o descon­forto causado pela dor no quadril era evidente.

Exausta, Maddy rumou para o próprio quarto, supostamente o que partilhava com Max durante suas raras visitas a Queensmead. O marido até se dignava a deitar-se no leito conjugal, porém era como se dormisse só. A intimidade, o amor, a proximidade de corpos e almas comuns aos ca­sais era algo inexistente entre os dois.

Naquele dia, contudo, Max não pretendia dor­mir em casa, tendo partido para Londres logo após a festa. Há muito tempo Maddy abandonara os esforços de se convencer estar vivendo um casa­mento "normal" e feliz. Assim como cessara de se iludir com a idéia de que Max precisava perma­necer na capital durante os fins de semana para trabalhar.

E o pior de tudo naquela situação horrível não era o fato de o marido se importar tão pouco com ela, mas o desespero de saber que ainda o queria. Oh, Deus, o que acontecera aos seus sonhos, às esperanças de romance, à crença de que Max a amava?

De repente, o som de choro arrancou-a dos pen­samentos angustiantes. Levantando-se depressa, correu para o quarto de Emma. A menina estava passando por uma fase de pesadelos constantes.

Depois de estacionar o Bentley na garagem da casa elegante, que comprara com o dinheiro dado pelos sogros como presente de casamento, Max des­trancou a porta da frente e entrou. Colocando a maleta no chão da sala de estar, caminhou até o quarto, estendeu-se na cama e apanhou o telefone.

A voz de mulher, do outro lado da linha, soou sonolenta e suave.

— Adivinha quem é? — ele indagou confiante. Um silêncio pesado se estendeu durante vários segundos.

— Oh, Max... Mas eu pensei! Você me disse que ia comparecer a um casamento de família e que planejava passar o fim de semana em Haslewich.

— É verdade. Acabei mudando de idéia. A pro­pósito, o que você gostaria de comer no café da manhã?

— Café da manhã? Oh, não... Eu não posso... Ela parecia totalmente desperta agora e era fácil imaginá-la sentada na cama enorme, os longos cabelos loiros caindo sobre as costas de­licadas, a pele ainda bronzeada depois das férias recentes nas ilhas Maurício. Passara cinco dias lá, acompanhando-a.

— Belo lugar para tratar de negócios — co­mentara invejoso o advogado que lhe entregara o fax de Justine, convocando-o para uma reunião extraordinária.

— Quando se está a ponto de fechar um acordo de milhões de libras, pagar pela passagem aérea do advogado não é nada — ele retrucara indiferente.

Justine era esposa de Robert Burton, um co­nhecido milionário. A primeira coisa que fizera ao descobrir que o marido estava tendo um caso com uma de suas "amigas", fora contratar Max para cuidar do divórcio. A segunda fora armar-se de tantas provas quanto possível de que Burton sonegava impostos.

Diante de toda a documentação arrecadada por Justine, Max concluíra que seria facílimo obter um acordo capaz de deixar sua cliente tão rica após o divórcio quanto o fora durante o casamento. Além de tudo, a publicidade em torno de seu nome o ajudaria a manter a posição de destaque pro­fissional alcançada nos últimos anos.

— Divórcio realmente não é o tipo de coisa em que gostaríamos de nos especializar — um dos mais antigos sócios da firma o avisara durante seus primeiros dias de trabalho. — Não é nossa tradição, se é que me entende.

Max entendera muito bem o que o outro quisera dizer, assim como também não tivera dúvidas de só haver sido convidado a se unir àquela equipe de profissionais altamente respeitados por causa da influência do sogro. Entretanto nada o faria abrir mão de conquistar a fama e obter os lucros financeiros pelos quais ansiava.

Assim, entre tantos advogados brilhantes, com carreiras sólidas e bem-sucedidas, procurara en­contrar uma maneira de se sobressair e se tor­nara especialista num campo onde nenhum de seus pares parecia ter interesse em atuar. Direito matrimonial.

Isso acontecera anos atrás e, desde então, sua reputação crescera e seu nome passara a causar temor a qualquer homem rico que se aventurasse a entrar num processo de divórcio.

Os honorários elevadíssimos que Max cobrava por seus serviços não eram o único benefício que costumava usufruir. Logo descobrira que as mu­lheres recém-divorciadas, ou à beira de se sepa­rarem, costumavam ter um tremendo apetite se­xual e pareciam famintas por todo tipo de atenção masculina, o que lhe assegurava uma renovação contínua de ardentes parceiras nos jogos eróticos. Uma das principais vantagens desses relacionamentos, segundo seu ponto de vista, era o fato de serem relativamente breves. Enquanto as clientes enfrentavam o processo de divórcio, ele as confortava, sempre pronto para ouvir seus pro­blemas e para levá-las para a cama também. To­davia, bastava que os papéis do divórcio fossem assinados, para afastá-las de sua vida o mais rá­pido possível.

Se qualquer uma de suas amantes mostrasse alguma tendência possessiva, tornava-se repenti­namente tão assoberbado de trabalho que já não conseguia atender aos telefonemas e muito menos visitá-las. Uma nova cliente, uma nova amante. Era esse seu lema.

O caso com Justine, por causa da natureza com­plexa dos negócios do marido e da enorme quantia de dinheiro potencialmente envolvido, estava du­rando mais do que o habitual. Além de tudo, os papéis ainda não tinham sido assinados, portanto o processo de separação não fora concluído.

— Tenho pelo menos duas amigas que não con­seguiram arrancar quase nada de seus ex-maridos — Justine lhe dissera, o sorriso esperto mostrando o belo resultado de um tratamento dentário ca­ríssimo. — Não tenho a menor intenção de per­mitir que isso aconteça comigo. Aqui está uma lista de todos os bens dos quais pretendo me apropriar.

Eles eram amantes há mais de dois meses e Max sentia-se impressionado de fato. Duvidava de que Justine possuísse uma única gota de vulnerabilidade emocional sob toda aquela camada de maquiagem. Tratava-se de uma mulher sexual­mente exigente, como poucas que conhecera, capaz de se entregar ao sexo com total abandono, não o permitindo parar até que estivesse total e completamente saciada. Porém bastava chegar ao or­gasmo para retomar o controle de si mesma, a mente tão astuta e afiada quanto os dentes de um predador.

O marido de Justine teria sorte se conseguisse escapar com metade da fortuna intacta, Max con­cluíra enquanto a ouvia explicar como planejava se valer da chantagem para obter o que desejava. Afinal, não lhe faltavam provas de que o grande empresário sonegava impostos.

— Não tenho intenção de apresentar os papéis do divórcio até que ele conclua o novo negócio milionário no qual vem trabalhando nos últimos meses. Quero ter certeza de que obterei minha parte.

— Escute. Eu... eu não posso falar agora — Max a escutou dizer. — Vamos nos encontrar ama­nhã. Irei até sua casa.

Antes que pudesse objetar, Justine desligou o telefone, deixando-o não apenas sexualmente frus­trado, mas também dominado por uma estranha sensação de inquietude.

Embora já passasse das duas horas da manhã, sentia-se agitado demais para dormir. Seu instin­to de sobrevivência sempre fora muito aguçado. As circunstâncias haviam contribuído para isso.

         Sendo o neto favorito do avô, passara a infância e adolescência lutando para impedir que irmãos e primos usurpassem sua posição. E, quando adul­to, também precisara se esforçar para manter-se na dianteira.

Agora que se encontrava casado com Madeleine, não tinha mais tanta importância continuar em primeiro lugar na disputa pelo afeto do velho Ben Crighton. Sua esposa seria herdeira de considerável fortuna, diante da qual os bens do avô pareciam modestos. Todavia não era apenas o fascínio exer­cido pela riqueza o que o movia. Max tinha uma necessidade ainda maior do que a simples posse de coisas materiais. Ansiava estar acima de seus pares, ser invejado. Amizade, afeição, amor, nada disso o interessava, ou lhe fazia falta.

Supremacia, sim, era o objetivo de sua vida. Supremacia e a segurança proporcionada pela cer­teza de se saber o melhor. O melhor advogado de sua área, na melhor firma de Londres. De acordo com seu ponto de vista, existiam duas maneiras de se atingir tais objetivos. A primeira seria atra­vés de mérito próprio e talento. A segunda, um pouco mais sutil, consistia na obtenção do poder através da manipulação de pessoas e oportunida­des. Nada lhe dava mais prazer do que triunfar quando outros duvidavam de sua capacidade.

Fora divertido rever Roderick Hamilton recentemente, o advogado que saíra vencedor quando ambos disputavam uma mesma vaga numa gran­de firma de Londres. Na época, Hamilton cantara vitória com alarde, não escondendo a satisfação de derrotar o adversário. Max o convidara para um drinque e o encorajara a falar de si. Logo ficara sabendo que Hamilton tinha se casado com a antiga noiva, pertencente à classe média alta e dona de feições eqüinas, a julgar pela foto que o outro lhe mostrara. Não, o casal ainda não tinha filhos, embora estivessem tentando. O sonho do advogado consistia em com­prar uma pequena casa de campo.

— Mas casas de campo são terrivelmente caras, meu velho, e os malditos cavalos de raça de Lucinda consomem um dinheirão.

Sorrindo, Max mencionara casualmente os dois filhos. A família tradicional a qual pertencia Madeleine também fora citada, assim como o castelo dos avós, na Escócia, e sua importância histórica. Nada, é claro, foi dito com estardalhaço, o fato de pertencer à elite apenas sugerido. A intenção era fazer Roderick perceber que ele, Max, levava o estilo de vida que o outro desesperadamente ambicionava sem ter condições de sustentá-lo.

E o momento mais delicioso fora quando dera uma carona a Roderick em seu Bentley último modelo, além de recusar um convite para jantar "qualquer noite dessas" com as respectivas esposas.

— Receio não poder aceitar, meu velho — res­pondera com um sorriso irônico. — Maddy e eu estamos com a agenda cheia e não podemos as­sumir novos compromissos. Vingança total.

Na verdade Max não conseguia se lembrar de quando havia descoberto em seu interior esse po­der de magoar as pessoas. Lembrava-se, sim, da terrível sensação de raiva e medo experimentada ao escutar o pai e o tio David conversando a seu respeito.

Teria uns dez anos na ocasião e já sentia os efeitos negativos da intromissão de Louise e Katie em seu relacionamento com os pais.

Jamais fora o tipo de criança que gostasse de ser tocada, abraçada. Mesmo antes de começar a andar, esquivava-se dos adultos que insistiam em pegá-lo no colo, além de ressentir-se da presença desafiadora da prima, Olívia, em seus domínios. Olívia que estava sempre agarrada à barra da saia de sua mãe e de quem sua mãe dava a im­pressão de gostar mais do que do próprio filho.

— Você tem um belo menino — recordava-se de ouvir David dizer ao pai, sem disfarçar a inveja na voz. — O velho acha que o estou desapontando por não ser capaz de lhe dar um neto homem. Preciso lhe dizer, Jon, que você e Jenny não fazem idéia da sorte que têm. Se Max fosse meu...

— Mas é meu — retrucara seu pai.

— Talvez ele devesse ter sido meu — David continuara suavemente. — Nosso pai sem dúvida pensa assim, pois acredita que Max se parece mais comigo do que com você. Sabe, Jon, às vezes penso que você e Jenny não gostam muito do garoto.

Os dois homens tinham se afastado, impossibi­litando-o de escutar o resto da conversa. Que será que seu tio David quisera dizer? Por que seus pais não gostavam dele?

Deliberadamente, começara a testá-los, ansioso para descobrir a verdade.

Pedira uma bicicleta nova e lhe haviam dito que não poderia tê-la, porém as gêmeas ganharam triciclos no aniversário.

Certo dia, tomara um dos triciclos "emprestado" e quando, "acidentalmente", o brinquedo fora pa­rar debaixo das rodas de um caminhão de entrega, jurara ao pai não ter sido sua intenção destruir nada e que apenas o soltara no momento errado. O outro triciclo desaparecera de forma miste­riosa e, ao ser questionado sobre o assunto, Max trancara-se num silêncio obstinado.

Observador, não tardara a concluir que a mãe dedicava muito mais tempo às gêmeas do que a ele. Olívia, também, roubava-lhe parte da atenção materna que lhe era devida.

Logo resolvera dizer a Jenny para não acom­panhá-lo até a escola, determinado a pedir a David que passasse a fazê-lo. O que Max não enxergava era que o tio, egoísta demais para se preocupar com esses detalhes rotineiros, quase nunca acom­panhava a própria filha até a escola, cabendo a Jenny levar e buscar Olívia.

Max também se tornara atento à maneira como o avô comparava os dois filhos, sempre elogiando David e desdenhando Jon. Pouco a pouco, assi­milara a idéia de que, aos olhos do mundo, o pai era um homem de qualidades limitadas, que deveria ser desprezado e ignorado. Assim, o tio e o avô tornaram-se o modelo masculino a ser seguido. Para mascarar seu medo infantil de ser rejeitado pelos pais, acabara se fechando numa redoma de indife­rença, onde se sentia protegido de qualquer emoção adulta. Ao mesmo tempo, começara a aprender a ma­nipular as pessoas e as situações em proveito próprio.

Quando, ao cometer erros, o pai falava em cas­tigá-lo porque o amava, Max sabia não ser ver­dade. Jon não o amava, nem sequer gostava dele. Afinal, ouvira o tio afirmá-lo. Portanto, se não podia acreditar no amor dos pais, tampouco podia confiar na afeição dos outros. Melhor se resguar­dar cultivando e incentivando o antagonismo das pessoas do que correr o risco de sofrer ao ser re­jeitado por elas.

Agora, vinte anos depois, se alguém dissesse a Max que sua frieza emocional era fruto da extre­ma sensibilidade e vulnerabilidade de quando criança, ele teria rido, cínico.

Era o que era e gostava de ser assim. Não dava a mínima para o que pensassem a seu respeito. Aliás, não dava a mínima para ninguém.

Enfurecia-o que Justine o houvesse repelido, em vez de convidá-lo imediatamente para ir vê-la, como esperara.

Durante as últimas horas, estivera aguardando impaciente o momento de possuir uma mulher, louco para liberar não apenas a tensão sexual acu­mulada, mas também a irritação que estar junto de sua família sempre lhe provocava.

Madeleine, com sua humildade patética e eterna expressão de sofredora; os país, paradigmas de refinamento; a prima Olívia, afetada e convencida; Luke e seus ares de arrogante superioridade; além de Saul, exemplo de marido e pai perfeito. Deus, como abominava aquela gente! Sabia o quanto o desaprovavam, como sentiam pena da "pobre Maddy" e o culpavam de tudo. Porém, era seu nome que começava a ser citado nas colunas so­ciais com crescente freqüência, eram os seus ren­dimentos financeiros que alcançavam valores ele­vados, era ele que jamais ficava sem parceiras sexuais ardentes. Bem, pelo menos em condições normais.

Amanhã teria que punir Justine pela maneira absurda como o tratara naquela noite, quando praticamente abandonara uma festa familiar para estar ao lado dela. Claro que omitiria o fato de que teria voltado para Londres de qualquer ma­neira. Sim, um ligeiro esfriamento de sua parte, um afastamento discreto, a traria correndo de vol­ta para seus braços, ansiosa para agradá-lo.

Na tarde do dia seguinte teria uma reunião na firma, o que lhe daria uma boa desculpa para passar menos tempo na companhia de Justine, reforçando assim, a intenção de manter-se um pouco mais distante. Aquela seria a última reu­nião de negócios antes de entrarem em recesso para as festas de fim de ano.

A exceção do divórcio de Justine, não havia ne­nhum outro processo importante no qual estivesse envolvido atualmente, porém isso não o preocu­pava muito. O início da primavera sempre se re­velava uma ótima época para aquisição de novas clientes. A convivência forçada nos longos meses de inverno em família costumava provocar o des­moronamento de casamentos sob tensão. E tam­bém Justine já deixara entrever, várias vezes, que pretendia convidá-lo para passar uns dias numa estação de esqui. Na verdade tanto o frio intenso quanto a prática daquele esporte pouco o atraíam, porém precisava admitir que Aspen, com sua in­tensa vida social e belas socialites, possuía um encanto tentador.

Naturalmente diria a Maddy tratar-se de uma viagem de negócios. Levantando-se da cama, ele despiu-se e entrou no chuveiro.

Como quase todos os machos da família Crighton, Max transpirava sensualidade por todos os poros. Alto, ombros largos, músculos bem defini­dos, cabelos escuros e pele bronzeada. Entretanto não era apenas a aparência viril o que atraía as mulheres. A personalidade marcante tinha um magnetismo animal que as dominava por comple­to, ainda que soubessem estar correndo o risco de sair da relação emocionalmente destruídas. Embora não tivessem dúvidas quanto a natureza e a brevidade do envolvimento, suas "vítimas" cos­tumavam dizer que o fascínio exercido por aquele homem frio e distante era grande demais para ser resistido.

O desconforto que o impedia de relaxar só podia ser aliviado por sexo, Max pensou abrindo a tor­neira de água fria. Talvez devesse ter se deitado com a esposa antes de partir de Haslewich. Apesar da baixa auto-estima e da falta de sofisticação, Maddy era dona de uma sensualidade inata. Ha­via nela uma generosidade, um ardor tão acen­tuados, que muitos parceiros adorariam explorar, em especial porque tais características podiam ser percebidas apenas na intimidade do quarto e so­mente o amante por ela escolhido teria acesso àquela feminilidade velada.

Maddy era virgem quando a levara para cama pela primeira vez. Inexperiente, ingênua, sim, po­rém o corpo esguio o havia envolvido de maneira tão instintiva e natural que sentira-se penetrar num mundo à parte.

Claro que ela já não o acolhia com a mesma inocente generosidade, ou se entregava com o abandono de antes. Nas raras ocasiões em que faziam sexo, podia perceber, facilmente, o quanto a esposa se ressentia de sua habilidade de exci­tá-la e como lutava para resistir ao desejo. Na verdade a situação o divertia bastante. Sabia que bastaria dormir com a mulher com freqüência para transformar, sem dificuldade alguma, a relutância obstinada em total aceitação. Mas não valia a pena. A última coisa que queria era con­verter Maddy numa parceira sexualmente exigen­te e possessiva.

Max tomou um banho rápido e saiu do box, secando-se com movimentos rápidos e vigorosos.

Se pretendia ir para Aspen, precisaria comprar roupas adequadas. Afinal, era de conhecimento geral que muitas atrizes de Hollywood costuma­vam passar longas temporadas naquela estação de esqui. Sorrindo satisfeito, voltou para o quarto e deitou-se. Amanhecia lá fora.

Imerso na leitura de alguns papéis, ele ouviu a campainha tocar. Ao levantar-se para atender, checou rapidamente a própria aparência no espe­lho do hall de entrada. Estava vestindo uma ca­misa branca de linho, presente de Justine, e abotoaduras de ouro, mimo de outra cliente agrade­cida. Depressa, consultou o relógio, um Rolex de ouro que Maddy lhe dera no dia do casamento. Justine chegara mais cedo do que esperara. Pois bem, a faria se desculpar pelo comportamento ina­ceitável da noite anterior, além de adiar o mo­mento de levá-la para cama. Ah, melhor seria ouvi-la pedir por umas horas de sexo.

Sorrindo, Max abriu a porta.

— Crighton, posso entrar?

Sem esperar resposta, o marido de Justine avançou pela casa adentro, ignorando as regras básicas da boa educação.

Max o tinha encontrado apenas uma única vez, ao ser convidado para uma festa oferecida por amigos de Justine.

Embora não tão alto quanto Max e pelo menos uns vinte anos mais velho, Robert Burton possuía aquela aura de poder e determinação comum aos homens realmente bem-sucedidos e invejados por seus pares. Apesar de não se portar como um va­lentão, nem de se vangloriar de seus feitos, ou de sua imensa fortuna, Burton tinha ares de quem se considera superior aos seus semelhantes e se sabe capaz de esmagá-los, se o desejar.

Ao fitá-lo, Max experimentou uma sensação imediata de puro antagonismo todavia, exceto pela tensão dos músculos, nada deixou transpa­recer sobre seu visitante não ser a pessoa que esperara. Aliás, até estendeu a mão polidamente, convidando-o a entrar na sala.

— Robert. Bom ver você, meu velho. Em que posso ajudá-lo?

Burton virou-se e encarou Max demoradamente, medindo-o de cima a baixo.

— Vou dizer algo a seu favor, Crighton. Você não se permite intimidar — o outro comentou ás­pero. — Sou um homem ocupado e não tenho tem­po a perder com joguinhos de palavras. Justine me contou o que está acontecendo e...

— Ah, certo — Max o cortou. — De fato a acon­selhei a lhe comunicar que planejava pedir o di­vórcio. Essas coisas são sempre melhores quando as duas partes envolvidas discutem o assunto de forma adulta.

— Melhor para a conta bancária dos advogados. Porém não vamos nos perder em detalhes. Não estou aqui para discutir seu relacionamento pro­fissional com minha esposa. — Uma pausa sig­nificativa. — Como já disse, sei muito bem o que anda acontecendo. Um amigo me alertou. Apa­rentemente todos sabem de seu talento para dor­mir com belas clientes.

Desinteressado, Max limitou-se a dar de ombros.

— Quando um casamento está desmoronando, as pessoas se tornam...

— Vulneráveis. — A voz de Burton soou ríspida. — Contudo não é um comportamento ético usar essa vulnerabilidade em proveito próprio, certo? Sempre fui levado a crer que um homem na sua posição deveria ser extremamente cuidadoso ao resguardar a reputação profissional. Afinal, é a única coisa que um advogado possui para vender, não é? Sua reputação é seu produto. A menos, é claro, que você tenha decidido ser financeiramente mais proveitoso comercializá-la no quarto, em vez de no tribunal. Aliás, segundo os boatos que cor­rem, não foram suas habilidades legais, ou qua­lificações, que o levaram a conquistar um lugar no Fórum. Sua esposa sabe desse seu hábito de dormir com as clientes?

— E um bônus extra bastante agradável — Max retrucou com um sorriso irônico, — Tampouco pos­so negar tratar-se de uma tentação muito prazerosa e difícil de se resistir a ela. Afinal, que homem heterossexual normal não se comportaria da mes­ma forma?

Uma das maiores qualidades de Max era con­seguir virar a mesa e enviar de volta as farpas que os oponentes lançavam na sua direção com velocidade e precisão devastadoras. A julgar pela expressão furiosa de Robert Burton, estava con­vencido de tê-lo atingido.

— No seu lugar, eu seria mais cuidadoso ao admitir certas coisas. Duvido muito de que você se sentiria bem tendo que enfrentar um processo.

— De fato não me sentiria confortável — ele retrucou sem perder a pose. — Todavia, creio que pouquíssimos homens gostariam de admitir, num tribunal, que as próprias esposas deram preferên­cia a mim como amante. O que me lembra de um detalhe importante. Como fui contratado por sua mulher para cuidar do divórcio de ambos, não é um comportamento ético de sua parte me procurar.

— Não vai haver divórcio nenhum.

Por um instante Max não foi capaz de disfarçar o assombro.

— Justine e eu tivemos uma conversinha — Burton continuou, as palavras carregadas de sar­casmo —, e resolvemos dar uma segunda chance ao nosso casamento. Penso que aquilo de que Jus­tine realmente precisa é de ser mãe. Uma mulher tem necessidade de procriar, de exercer a função para a qual foi criada. Também não dizem que o nascimento de um filho une mais o casal? Você tem filhos, não tem?

Sem esperar resposta, ele seguiu em frente, um brilho desafiador no olhar.

— Divórcio pode ser extremamente dispendioso, além de uma enorme chateação. Justine agora concorda que faz muito mais sentido permanecer­mos juntos. Oh, e a propósito, não vale a pena você tentar entrar em contato com minha esposa. Ela tomou o Concorde para Nova York esta ma­nhã. Espero ter sido claro e me feito entender. Mas, de qualquer maneira, sei que você é capaz de ler nas entrelinhas, Crighton.

Enquanto Max, automaticamente, o acompa­nhava até a porta, Burton finalizou com óbvia satisfação:

— Ah, e antes que eu me esqueça, talvez seja bom avisá-lo de que mantive uma conversa inte­ressante com o sócio-presidente de sua firma, aler­tando-o para a ocorrência de certos fatos. Afinal, uma firma de prestígio como aquela prima pela reputação ilibada e qualquer coisa que possa man­char essa reputação precisa ser, imediata e impiedosamente, esmagada. Assim como qualquer coisa que possa ameaçar o casamento de um ho­mem e seu status financeiro também precisa ser eliminada.

Max não disse nada. Não havia necessidade. Compreendera muito bem aonde Robert Burton queria chegar. O milionário conseguira, de alguma forma, persuadir Justine a abandonar a idéia do divórcio porque não tinha a menor intenção de perder dinheiro, dividindo a fortuna com a ex-mulher. Muito mais simples e menos dispendioso seria permanecerem casados. Entretanto foi o co­mentário de Burton sobre seu próprio status pro­fissional o que alarmou Max, em especial a men­ção feita à tal conversa com o sócio-presidente. Embora, tecnicamente, nenhum dos sócios, nem mesmo o presidente, tivessem qualquer autorida­de sobre suas ações, ou moral, na prática. Bem, não tardaria a descobrir o tamanho do estrago, pois sem dúvida o assunto acabaria sendo discu­tido durante a reunião de trabalho marcada para o fim da tarde.

Ainda furioso, Max saiu de casa e entrou no carro, não querendo se atrasar para a reunião. Justine já fazia parte do passado e podia ocupar um lugar na longa lista de suas ex-amantes. Mal­dito fosse Burton.

Pelo menos o endereço elegante da firma com­pensava o escritório apertado que lhe fora designado.

O escritório do presidente, claro, era muitíssimo mais luxuoso. Enorme, elegantemente mobiliado, impregnado daquele indefinível odor de dinheiro antigo, classe e poder. Sempre que punha os pés ali dentro, Max o cobiçava, e também a tudo o que ocupá-lo significava. Porém já havia prome­tido a si mesmo que, um dia, aquele escritório seria seu.

 

                                                   CAPITULO III

Ah, Max, aí está você.

Quando Harold Cavendish, sócio-presidente da firma, lhe sorriu benigno e fez sinal para sentar-se, Max ficou rígido, percebendo ter sido o último a chegar.

Todavia, à medida que a reunião transcorria normalmente, permitiu-se relaxar um pouco, co­meçando a pensar em quem seria a mais provável substituta de Justine em sua cama.

Ao término da reunião, já preparando-se para se retirar da sala, Cavendish o deteve, seguran­do-o de leve pelo braço.

— Ainda, não. Eu gostaria muito de que você ficasse. Há um assunto que precisamos discutir.

O presidente aguardou que todos saíssem antes de dar início à conversa. Max podia não ser muito popular entre os colegas de trabalho e o pai de Madeleine podia ter exercido uma discreta pressão em favor da contratação do genro, porém não ha­via a menor dúvida quanto ao efeito que aquela aparência viril exercia sobre a clientela feminina. Não fora somente seus próprios interesses que Max expandira desde que passara a trabalhar na firma. E Harold tinha consciência disso.

Crighton sempre o fazia lembrar-se de uma determinada raça de cão. Bonito e gentil por fora, mas possuidor de uma ferocidade inata, pronta para vir à tona quando provocado. Certa vez sua esposa lhe dissera ser justamente a ân­sia de controlar toda essa vasta energia sexual o que levava as mulheres a se atirarem nos bra­ços de Max.

— É a certeza de não poderem dominá-lo por completo o que o torna tão atraente — Martha esclarecera. — Ele representa o lado escuro, pe­rigoso e selvagem do desejo.

— O sujeito é um crápula. Veja o modo como trata a pobre Madeleine.

— Sim, eu sei. E temo que esse comportamento ainda o faça parecer mais intensamente sedutor aos olhos femininos.

Harold apenas balançara a cabeça, incapaz de entender as explicações da esposa. Continuava sem saber por que mulheres bonitas e inteligentes se comportavam de forma tão tola envolvendo-se com canalhas.

— Tive uma conversa com Robert Burton — Harold falou pouco a vontade, fechando a porta do escritório. — Ele, ah... parecia pensar que tal­vez estivesse acontecendo alguma coisa além de um relacionamento meramente profissional entre você e a sra. Burton.

Silêncio.

— Trata-se de um homem muito poderoso, cujos amigos e associados costumamos atender.

Diante do silêncio obstinado do outro, Harold começou a se irritar. Max deveria, pelo menos, ter a decência, de tornar as coisas mais fáceis, desmanchando-se em desculpas e justificativas.

— O fato é, meu velho, que Burton não está nada satisfeito.

— Sendo advogado da sra. Burton, é natural que mantenhamos contato freqüente. Se o marido prefere interpretar mal uma relação profissional, então...

— Sim, sim, claro — Harold concordou depres­sa. — Todavia precisamos nos preocupar não ape­nas com a reputação de uma pessoa em particular, mas com a reputação de toda a firma. Se Burton levar a público suas suspeitas, poderíamos sofrer danos consideráveis. A verdade é que já discuti­mos esse assunto e Jeremy nos informou que você não tem nenhum trabalho realmente importante no momento, nenhum processo a ser finalizado com urgência. Assim, chegamos a conclusão que seria uma boa idéia se você entrasse de licença, durante um mês mais ou menos. Ou até que essa situação desagradável seja contornada.

Incapaz de acreditar no que acabara de ouvir, Max fitou-o, atônito.

— Você está me impedindo de comparecer ao fórum? — indagou frio. — Ninguém pode fazer isso.

— Não, claro que não. Absolutamente não. Mas todos nós necessitamos de um descanso de tempos em tempos. Além de tudo, estou certo de que a jovem Maddy apreciaria desfrutar um pouco mais de sua companhia.

Furioso, Max conteve o ímpeto de gritar-lhe não dar a mínima para o que Maddy apreciaria, ou não.

Sem dúvida Robert Burton conseguira influen­ciar Harold. E quem era Harold, um velho e pom­poso filho da mãe, para lhe dizer o que fazer da própria vida? Tirar uma licença prolongada. Nin­guém tinha o direito de obrigá-lo a sair de férias. Entretanto eles podiam tornar sua vida bastante desagradável, caso se negasse a atender a suges­tão. Lançando mão de meios sutis, acabariam expulsando-o da firma, impedindo-o, assim, de man­ter os rendimentos financeiros e o status social ao qual se acostumara. Depois de todos os esforços, depois de todos os sacrifícios a que se submetera, não iria se permitir, jamais, ver-se relegado a tra­balhar numa firma de segunda categoria.

Enquanto ouvia os argumentos ridículos de Ha­rold, Max traçava planos de vingança para o dia em que viesse a ocupar a presidência. Então os envolvidos naquele complô pagariam caro pelo que estavam lhe fazendo agora, especialmente aquele verme do Jeremy Standish, que, sabia muito bem, detestava-o.

— Portanto é a melhor maneira de resolvermos o impasse. E, como eu disse, tenho certeza de que Maddy gostará do arranjo.

Impaciente, Max deu de ombros, levantando-se.

— Um mês então — falou seco, dando a conversa por encerrada.

— Dois meses. — Harold, repentinamente co­rajoso, sem dúvida cedendo às pressões dos sócios, soou taxativo. — Dois meses. É tempo suficiente para que qualquer coisa desagradável seja esque­cida e os ânimos se acalmem.

Dois meses. Max pensou em discutir, mas aca­bou desistindo. Não valia a pena tornar sua po­sição ainda mais vulnerável.

Por Deus, Justine transformara sua vida num caos. Se a tivesse diante de si agora, daria o troco merecido. Dois meses. O que diabos faria durante esse período interminável?

Parado diante da janela de seu pequeno escri­tório, as feições distorcidas pela raiva, ele mal percebeu uma breve batida na porta e a entrada de Jeremy Standish.

— Maddy telefonou enquanto você conversava com Harold. Pediu-me para lembrá-lo de que ama­nhã à tarde será a encenação teatral do nasci­mento de Jesus, da qual Léo participará. Seu avô pretende comparecer também.

Notando a expressão furiosa do outro, Jeremy não resistiu ao impulso de completar, num tom de debochada inocência:

— Estou certo de que Maddy ficará radiante quando souber que o marido terá dois meses in­teiros de licença. Afinal, você deve sentir muita falta da esposa e dos filhos, morando na cidade enquanto os entes queridos vivem no campo.

Assistir à peça de Léo era a última coisa da qual precisava porém, se não aparecesse em Haslewich, seu avô iria bombardeá-lo com perguntas embaraçosas. Ainda não o reembolsara do emprés­timo tomado por ocasião de seu casamento com Maddy e, na verdade, não tinha intenção de fazê-lo. Todavia não lhe passara despercebido o cres­cente envolvimento de Ben com Léo. Se não ti­vesse cuidado, era bem provável que seu próprio filho o destituísse da posição de eterno favorito. Nunca iria permitir que tal coisa acontecesse. Quem sabe errara ao permitir à esposa manter um contato tão estreito com o avô? Não que o velho fosse capaz de prestar atenção a qualquer coisa que Maddy dissesse. Ben Crighton, como todo chauvinista, desprezava as mulheres em geral.

Dois longos meses sem nem mesmo a possibi­lidade de passar uma quinzena em Aspen para aliviar o tédio. Naturalmente seria obrigado a con­tar à esposa sobre o período de licença, ou aquela tola acabaria telefonando para o escritório, pro­curando-o. Com um pouco de sorte, conseguiria abafar a história.

Talvez fosse hora de lembrar Harold que qual­quer comentário sobre o ocorrido seria prejudicial não apenas à sua reputação, mas à da firma como um todo. Embora soubesse que o verdadeiro objetivo de Robert Burton fora humilhá-lo, não faria mal ignorar esse detalhe. Sem dúvida Harold ce­dem às pressões do magnata somente para proteger os interesses da firma, portanto não seria muito difícil levá-lo a crer que a melhor estra­tégia para resguardar os outros sócios estava em tornar pública a versão de que ele tirara uma prolongada licença de livre e espontânea vontade. Aliás, poderia até lhe render frutos se fizesse o avô pensar que a esposa e os filhos o tinham motivado a passar algum tempo em Haslewich. Por sorte não morreria de tédio, pois possuía várias "amigas" ainda morando em Chester.

Ao terminar de arrumar a escrivaninha, Max quase havia se convencido de que uma licença de dois meses era exatamente o que desejava.

— A cama é, sem dúvida, um exemplar perten­cente à época de William e Mary. Quando expli­quei ao cliente o valor da peça — Guy Cooke parou no meio da frase e fitou, atento, a ex-sócia. Então perguntou-lhe gentil: — Jenny, alguma coisa er­rada? Você parece não ter ouvido uma única pa­lavra do que eu disse.

— Oh, Guy, desculpe-me — ela respondeu de­pressa, sorrindo lhe tristemente. — De fato não há nada errado, apenas...

— Minha amiga, sei quando você está, ou não, feliz. Vamos, desabafe.

Depois de breves instantes de silêncio, Jenny decidiu-se.

— E Jack, meu sobrinho. Seu boletim escolar não está nada bom neste bimestre, nada bom mesmo. O diretor do colégio mandou chamar Jon para uma conversa.

— Qual é o problema?

— Bem, não temos muita certeza do que possa estar havendo, porém chegamos a conclusão de que a causa dessa mudança de comportamento seja David. Jack quer trancar a matrícula para ir a procura do pai.

— Hum... Chrissie mencionou algo assim. — Chrissie, parente distante da família Crighton, era esposa de Guy.

— Jon e eu temos tentado conversar com Jack, e Olívia também. Todavia ninguém consegue ar­rancar-lhe essa idéia maluca da cabeça. Temo que tenha se tornado uma obsessão. É perfeitamente natural, que Jack queira ver David, afinal, dife­rentemente de Olívia, ele era uma criança quando tudo aconteceu. Entretanto o que me preocupa é que Jack dá a impressão de se culpar pelo desa­parecimento do pai.

— Culpar-se? — Guy repetiu surpreso. — Por que diabos o garoto faria uma coisa dessas?

— Não sei. Apesar de nos esforçarmos para con­versar sobre o assunto, Jack se recusa. — Jenny suspirou baixinho. — Sempre fomos tão próximos, tão unidos. Acreditávamos que ele se sentia con­tente vivendo conosco. Agora estamos começando a nos perguntar se tomamos a atitude correta, se Jack não teria sido mais feliz se houvesse ido mo­rar com a mãe, em Brighton.

— Isso não deveria preocupá-los nem um pouco.

Ninguém, em sã consciência, escolheria viver na companhia de Tânia.

— Mas Tânia é a mãe de Jack embora, na opi­nião de Olívia, ele tenha tirado a sorte grande ao ser acolhido por Jon e eu.

— Olívia deve saber o que diz. Afinal, é irmã do rapaz.

— Sim, eu sei. Já explicamos toda a história do desaparecimento de David a Jack, falamos so­bre os... os problemas surgidos na firma.

— Não pode ter sido uma tarefa fácil. Ainda me lembro bem do que você e seu marido passa­ram na ocasião.

— Foi um choque para nós, especialmente para Jon, descobrir que o irmão gêmeo estava roubando um dos clientes. É horrível dizer, mas se aquele cliente não tivesse morrido e se Ruth não houvesse sido capaz de reembolsar a família da vítima o dinheiro que David tomara "emprestado", não gos­to nem de pensar no que poderia ter acontecido com a reputação da firma. Olívia, Jon e eu expli­camos toda a situação a Jack. Embora, legalmen­te, David esteja livre para retornar ao país quando quiser, jamais poderá voltar a advogar. Queria que essas coisas não estivessem acontecendo ago­ra, quando Jack precisa se concentrar em obter notas altas no colégio, se deseja ser aceito por uma boa universidade.

— Entendo. Pelo que eu me lembre, Joss planeja estudar em Oxford, mas o que Jack pretende?

— Já havíamos conversado a respeito e pensávamos que ele quisesse seguir os passos de Jon. Sempre existiu uma ligação forte entre aqueles dois, porém... Sei que todos os adoles­centes passam por uma fase difícil, entretanto, nos últimos tempos, Jack dá a impressão de realmente guardar rancor, de se ressentir de mim e em especial de Jon. Tal comportamento tem magoado muito meu marido, embora ele nada fale.

— Talvez Jon esteja incomodado com a ameaça de estar criando um segundo Max. — Notando a expressão ansiosa de Jenny, Guy insistiu: — É isso o que Jon pensa?

— Não exatamente. Contudo nesses últimos tempos meu marido tem se questionado sobre a própria habilidade de exercer o papel de pai. Jon se culpa por Max ser o que é. Ele sempre achou, assim como eu, que nós dois falhamos com o nosso filho. Não conseguimos deixar de imaginar se não havia algo que pudéssemos ter feito, algo que dei­xamos de fazer, se fomos negligentes e não per­cebemos certos sinais. — Jenny fez uma pausa e balançou a cabeça, os olhos cheios de tristeza. — Jack não se parece em nada com Max, claro, to­davia Jon acredita que o desapontou, forçando-o a adotar esse comportamento arredio. Também nos afligimos com a possibilidade de que o garoto esteja envolvidos com...

— Drogas — Guy completou, vendo-a vacilar.

— Bem, a gente lê tanta coisa nos jornais. E embora moremos numa pequena cidade do interior, não estamos assim tão longe de Manchester, ou de Londres.

— Entendo o que você está dizendo. Eu po­deria pedir a algumas pessoas que seguissem os passos de Jack, se isso lhe trouxer um pouco de tranqüilidade.

A família de Guy, os Cooke, estavam envolvidos em todos os aspectos da vida de Haslewich, in­clusive aqueles poucos éticos, ou honrosos.

Segundo a crença local, um dos membros mais antigos da família fora um cigano. Daí os cabelos negros e a aparência sensual de seus descendentes.

Jenny hesitou. O diretor do colégio, recente­mente, havia alertado todos os pais sobre a exis­tência de pontos de vendas de drogas nos arre­dores da escola, apesar dos esforços contínuos da polícia para identificar e prender os trafi­cantes. De fato ela não tinha motivos para sus­peitar que Joss, ou Jack, estivessem consumindo entorpecentes. Acreditava; sim, que a mudança de comportamento do sobrinho fosse fruto de conflitos emocionais ligados à ausência prolon­gada do pai biológico.

— Eu não queria que Jack pensasse que não lhe temos confiança. Jon receia que, por ser nosso sobrinho, ele se sinta em segundo plano, o que não é verdade. Exatamente porque Jon sempre se soube inferior a David, aos olhos do pai, está determinado a não permitir que Jack experimente o mesmo sofrimento.

— É uma situação bastante difícil.

— Jon detesta ser obrigado a pressionar alguém a cumprir as próprias obrigações. Mas é tão im­portante que Jack se esforce para manter boas notas.

— Vi Max chegando na cidade horas atrás — Guy falou, mudando de assunto.

— Oh, é mesmo? — Jenny obrigou-se a sor­rir. — Maddy ficará satisfeita, pois estava com medo de que ele perdesse a primeira apresen­tação de Léo. Meu neto será um dos pastores do auto de Natal encenado pelas crianças do jardim-de-infância.

Todavia ela já não estava sorrindo quando, dez minutos depois, atravessou a rua depressa e entrou no carro, o vento cortante enregelan­do-a até os ossos. Há pouco tempo, Maddy lhe confidenciara estar preocupada com o crescente antagonismo que Léo parecia desenvolver em relação ao pai.

— Ben acha que estou mimando Léo ;— a nora explicara, ansiosa. — Tenho tentado fazê-lo en­tender que o pobrezinho quase nunca vê o pai. Max está sempre ausente, ocupado com o traba­lho. Assim, cabe a mim compensar esse vazio.

Sim, Jenny conhecia a realidade dos fatos e sa­bia o quanto seu filho era omisso na educação das crianças. Aliás, Joss dava a impressão de ser muito mais ligado a Léo do que o próprio pai. Jon também cercava o neto de atenções e os dois par­tilhavam um afeto profundo.

Maddy não estava em casa quando Max chegou a Queensmead, tendo saído com as crianças para fazer algumas compras de última hora. O rico aro­ma das frutas e flores usadas na confecção das guirlandas que decoravam o hall e o corrimão da escada, assim como os enfeites natalinos espalha­dos pela casa, teriam feito qualquer homem parar por um instante e saborear a sensação de doce aconchego que a visão despertava, além de reco­nhecer a habilidade da mulher que os confeccio­nara com evidente empenho. Entretanto Max con­cedeu ao trabalho da esposa apenas um breve e desinteressado olhar. Quando estava para subir a escada, em direção aos quartos, escutou a porta do escritório se abrindo, o rosto velho e enrugado de Ben iluminando-se de alegria ao reconhecer o neto favorito.

— Max! Que bom tê-lo de volta! Entre, venha tomar um drinque comigo.

Acomodado numa poltrona diante da lareira, Max observou o avô preparar duas doses de uísque, as mãos ligeiramente trêmulas denunciando a idade avançada. Ben envelhecia a olhos vistos, o corpo antes ereto, agora vergado, o andar va­garoso revelando insegurança.

— Sua esposa saiu. Foi às compras. Por que diabos as mulheres precisam fazer tanto estarda­lhaço sobre o Natal? Tem-se a impressão de que Maddy pretende alimentar um exército, conside­rando a quantidade de alimentos preparados e estocados. Ela não teve tempo nem de ir à biblioteca municipal buscar novos livros para eu ler esta semana. E também se esqueceu de me pre­parar uma xícara de chá ontem à noite — Ben reclamou com a petulância típica dos idosos, antes de mudar bruscamente de assunto. — Venha até aqui. Quero lhe mostrar uma coisa.

Impaciente, Max aproximou-se da escrivaninha do avô e observou-o retirar um cartão postal da gaveta.

— É de David. Chegou ontem. Foi postado na Jamaica.

— Jamaica? — Max cerrou o cenho. As últimas notícias que a família havia recebido de David datavam de um ano atrás e eram provenientes do interior da Espanha. Apesar dos esforços de Jon para localizar o irmão gêmeo, não fora pos­sível descobrir uma única pista.

— Eu sabia que David não estava mais na Es­panha. Até avisei Jon. Porém seu pai preferiu não me dar ouvidos — o velho Crighton resmun­gou. — É hora de meu filho voltar para casa. Era aqui que ele deveria estar, se aquela maldita mu­lher não o tivesse obrigado a partir.

Não era nenhum segredo que Ben culpava,a ex-nora, Tânia, pelo desaparecimento de seu ama­do filho. Afinal, fora o temperamento instável, as desordens alimentares, as mudanças perigosas de humor e o estilo de vida extravagante da esposa o que levara David a sofrer um enfarte e, poste­riormente, sumir do país.

Desinteressado, Max examinou o cartão postal sem prestar muita atenção ao que o avô dizia. Ouvira aquela mesma história tantas vezes que mal podia conter-se. Se não fosse quase uma se­gunda natureza agir de forma calculista, para an­gariar a simpatia do velho, adoraria explicar não ser necessário fugir do país para se livrar de uma esposa indesejada. Existiam mil outras maneiras de resolver a questão.

Ainda assim, não foi capaz de resistir ao im­pulso de comentar, irônico:

— Tio David já não tem mais nada a temer, agora que Tiggy arrumou um outro homem.

— Exato. Quero que meu filho seja encontrado. Quero vê-lo de volta a esta casa antes... — Ben fez uma pausa e massageou o quadril dolorido, as feições pálidas denunciando dor.

— Meu pai tentou, inúmeras vezes, descobrir o paradeiro do tio David sem sucesso.

— Através de agências de detetives. Inútil. Se sentisse um pingo de amor fraternal pelo irmão, Jon teria ido a Jamaica cuidar pessoalmente do assunto. Mas, claro, ele sempre sentiu ciúme do meu relacionamento com David. Se não fosse este maldito quadril eu partiria para a Jamaica agora mesmo, não seria obrigado a pedir ajuda. Conhe­ço David. Ele é meu filho, minha carne, meu sangue.

Escutando as palavras irritadas do avô, Max sentiu-se tentado a acusá-lo de não conhecer o outro filho, Jon, apesar de serem também da mes­ma carne. Ben só sabia a respeito de David o que se permitia saber, ou o que preferia acreditar so­bre a imagem idealizada do primogênito. Uma imagem muito distante da realidade.

Jamaica. Devagar, Max colocou o cartão postal sobre a mesa. Areia muito branca contrastando com um céu incrivelmente azul e um mar de águas profundas.

De súbito, uma idéia interessante começou a tomar forma.

— Se você deseja que alguém vá à procura do tio David, suponho que eu poderia viajar até a Jamaica — ele comentou, fingindo hesitar.

— Verdade! Mas como? Seu trabalho o impede de se ausentar do país.

O genuíno prazer na voz do velho teria tocado o coração de um outro homem, porém Max jamais permitiria que qualquer coisa, ou pessoa, tocasse o seu. Assim, esboçou um sorriso frio.

— No momento as coisas estão bastante paradas no escritório e estive pensando em tirar umas pou­cas semanas de férias. Posso passá-las tanto na Jamaica quanto aqui, preso à barra da saia de Madeleine.

— Você realmente iria?

Indiferente à intensa emoção do avô, Max dei­xou-se segurar pelos ombros.

— Eu sabia que você era o único com quem eu podia contar. Afinal, sempre se pareceu com seu tio David. Sinto em meu coração que ele anseia se reunir a nós. Tão logo descubra que a ex-esposa já não tem o poder de afetá-lo, nada o manterá distante. Meu Deus, quando penso no estrago que aquela desequilibrada causou.

— Será uma viagem cara.

— Não importa — Ben retrucou depressa.

— Jamaica é uma ilha de extensão territorial considerável, portanto não se pode adivinhar o paradeiro do tio David. — Ou se ele ainda conti­nua lá, Max pensou. Algumas semanas na Jamai­ca, à custa do avô, era exatamente do que preci­sava agora. Talvez devesse agradecer Harold. E quem sabe até conseguiria potenciais clientes no­vas, enquanto estivesse fora?

Localizar David, contudo, era um assunto bem diferente, algo com o qual pretendia não se preocupar. Afinal, se o tio desejasse voltar para casa, não existia absolutamente nada que o impedisse.

Em silêncio, Max observou o velho orgulhoso, embora alquebrado, a sua frente. Ben acreditava mesmo que David partira, desaparecera, apenas por causa de um casamento desfeito? Se fosse as­sim, o coitado devia estar ficando senil. De qual­quer forma, não lhe cabia esclarecer os detalhes sórdidos de uma história antiga.

— Você não faz idéia do que seu oferecimento significa para mim, meu rapaz. Mas eu devia saber que poderia contar com meu neto favorito. Quanto ao seu pai... Bem, Jon sempre me desapontou. A vida inteira mostrou-se incapaz de perceber como tinha sorte de possuir um irmão do quilate de David. Quando perdi meu próprio irmão...

— Escute, vovô — Max o interrompeu impa­ciente, consultando o relógio —, se eu vou mesmo para a Jamaica, acho melhor fazer alguns telefo­nemas já. Não será fácil conseguir lugar num vôo para o Caribe nesta época do ano, especialmente de uma hora para a outra. O Aeroporto de Heathrow ficará infestado de gente logo após as festas de fim de ano. Também preciso reservar acomo­dações num bom hotel.

Se pudesse escolher, Max preferiria ignorar as comemorações do Natal em Haslewich e par­tir no próximo avião para o Caribe, todavia nem mesmo Maddy seria capaz de aceitar suas des­culpas esfarrapadas.

— Sim, sim, claro.

— Creio que, por enquanto, deveríamos manter este assunto entre nós dois. Como você disse, meu pai não parece muito ansioso para ter o irmão de volta.

— Tem razão.

Confiante, Max sorriu. Era tão simples mani­pular o avô, bastava conhecer os pontos fracos do velho. Só não conseguia entender por que seu pai não tirava proveito da situação. Aliás, nunca pudera entender o comportamento de Jon, permi­tindo-se ser comparado desfavoravelmente ao ir­mão em todas as circunstâncias. Jamais se sujei­taria a uma posição dessas e irritava-o que seu pai aceitasse o fato com tamanha naturalidade, sendo um homem de personalidade forte. Não ti­nha dúvidas de que a notícia de sua partida iminente para a Jamaica iria desencadear uma reação negativa em casa. Por uma série de razões.

A última coisa que Jon desejava era que David fosse encontrado e encorajado a voltar. Porém não porque sentisse ciúme do irmão gêmeo, como Ben se esforçava para acreditar. O retorno de David significaria complicações e o possível surgimento de novos problemas ligados à fraude cometida por ele, anos atrás.

Se estivesse no lugar de Jon, a primeira provi­dência de Max seria informar Ben sobre as tra­paças de seu querido David. Jon, entretanto, agira de maneira contrária, lutando para que o pai nun­ca descobrisse a verdade sobre o caráter do filho favorito.

Obviamente David não planejava regressar ao país e, sem dúvida, era pouco provável que o lo­calizasse na Jamaica. Não que tivesse intenção de procurá-lo pessoalmente. Pagaria a algum detetive local para cuidar das investigações enquan­to se bronzeava ao sol.

Esperaria até depois do Natal para contar a Maddy sobre a viagem. Assim, evitaria que a fa­mília inteira se pusesse a opinar sobre o assunto e principalmente que seu pai convencesse Ben a desistir da empreitada.

— Oh, Maddy, ele está tão lindo!

Maddy sorriu para a sogra, os olhos brilhando de emoção e orgulho. No palco, Léo participava de sua primeira apresentação pública, desempenhando o papel de "pastor" na encenação do nas­cimento de Jesus.

Uma ovelha, pertencente a um dos fazendeiros locais, decidiu entrar na hora de chamar a atenção do garoto e brincalhona, pressionou-o na perna com o focinho.

Decidido, o menininho a segurou pela coleira e, numa voz forte, ordenou: .  

— Sentada.

A audiência em peso caiu na risada. Léo, defi­nitivamente, roubara o show.

Max, ao lado da esposa, limitou-se a lançar um olhar desdenhoso na direção do filho. Aquela criança o irritava. Sem dúvida o tolo devia saber que uma ovelha não se senta.

Na verdade, Léo começava a exasperá-lo. Quan­do estivera em Haslewich pela última vez, o in­solente tivera a ousadia de plantar-se na porta do quarto de casal e fitá-lo desafiante, impedin­do-o de entrar.

— Faça-o sair daí — ele dissera a Maddy, a voz baixa vibrando furiosa —, porque senão...

Tão logo a peça terminou e os pais se dirigiram aos bastidores para apanhar os filhos, foi para os braços de Jon que Léo correu, rindo feliz quando o avô o atirou para o alto e o beijou no rosto, transbordante de carinho.

Havia algo nos netos que os tornavam incrivel­mente especiais e preciosos, Jon pensou, afagando os cabelos macios do garoto. Ainda não conseguia entender por que sempre fora fácil amar Léo, se encontrara dificuldades para amar o próprio filho. Léo era a imagem do pai, porém apenas no aspecto físico. Quanto ao temperamento, os dois não po­diam ser mais diferentes.

Doía-lhe a alma o modo como Max tratava a criança. Não era de se admirar que Léo evitava aproximar-se do pai. Por uma questão de lealdade, Maddy nunca criticava o marido, todavia estava claro o quanto sofria ao ver o filho ignorado e tratado com deliberada indiferença.

Quando Léo nascera, Jon se obrigara a manter uma certa reserva, tendo sempre em mente ser apenas o avô, não o pai. Entretanto, observando Max ameaçar destruir o próprio filho emocionalmente, rejeitando-o em todas as circunstâncias, tomara uma decisão. Enquanto precisasse, Léo te­ria seu apoio incondicional.

O instinto lhe dizia que seria Léo quem, no futuro, acabaria sucedendo-o à frente dos negó­cios, herdando também seu amor pela terra em que nascera e o desejo de permanecer junto às suas raízes. Aliás, Jack começava a demonstrar ser esse tipo de Crighton, o tipo que apreciaria trabalhar na firma fundada pela família.

Jack. Jon franziu o cenho ao pensar no sobrinho. Durante anos acreditara que Jack se sentia feliz no lar que lhes tinham oferecido, tendo aceitado o desaparecimento do pai. Contudo nos últimos meses a situação se alterara. Segundo o diretor da escola, as notas do rapaz haviam caído bastante e se não houvesse uma recuperação imediata, as melhores universidades não iriam aceitá-lo. An­sioso, Jon discutira o assunto com o sobrinho. To­davia, longe de mostrar-se preocupado, Jack lhe dissera não se importar a mínima com o que lhe pudesse acontecer e que tampouco pretendia tor­nar-se advogado.

— Então o que você quer ser? — Jon indagara exasperado.

Claro que apenas dentro de alguns anos Jack estaria apto a ingressar na firma e aliviar a pres­são que ele e Olívia vinham experimentando de­vido ao aparecimento crescente de novos casos no escritório de Haslewich. Olívia se unira a Jon al­gum tempo atrás e ambos andavam considerando a possibilidade de aceitar um terceiro sócio devido ao acúmulo de trabalho e a freqüência com que eram obrigados a fazer hora extra. Entretanto a idéia de empregar alguém que não fosse da família não os agradava muito. E como se isso já não fosse preocupação suficiente, desassossegava-o a indiferença total de Max em relação a Maddy e aos filhos.

— Ela é uma mulher adorável. Merece mais da vida — Jenny afirmara tristemente na última vez em que haviam conversado sobre o casamento do filho. — Sinto-me tão impotente. Não há nada que eu possa fazer para ajudá-la. Sempre que ten­to tocar no assunto, Maddy se esconde, atrás de evasivas. Diz estar feliz em Haslewich e que se considera recompensada cuidando de Ben. Sei que Maddy adora Queensmead e que transformou aquela velha mansão num verdadeiro lar. Entre­tanto esse é o tipo de vida que serviria a uma solteirona do século passado, não a uma jovem mulher. É injusto, Jon, principalmente quando se trata de uma pessoa com tanto amor para dar. Sei que é horrível dizer, mas às vezes desejo que Maddy pudesse encontrar alguém, alguém que a valorizasse, que a amasse.

Isso fora o mais perto que os dois chegaram a admitir a verdade. Max não amava a esposa. Nun­ca a tinha amado. Contudo, se Maddy resolvesse abandonar o marido, Jon sabia que acabaria per­dendo aquele contato especial com o neto e o vazio em seu coração seria quase insuportável.

— Eu te amo, vovô — Léo murmurou carinhoso, enlaçando-o pelo pescoço e apertando-o com força.

Jon retribuiu o abraço, lágrimas vindo-lhe aos olhos.

Do outro lado do salão, onde estivera flertando deliberadamente com a linda professora do ma­ternal, Max cerrou o cenho ao perceber o desen­rolar da cena entre o filho e seu pai.

Que diabos estaria Jon fazendo, abraçando Léo como se o menino fosse filho dele? E Léo, olhando para Jon como se... Ignorando os sorrisos insi­nuantes da professora, Max atravessou o salão com passadas rápidas e segurando Léo pelos bra­ços, depositou-o no chão.

— Pare de se comportar feito um bebe — falou seco, os olhos fixos na criança.

O fato de ter sido arrancado bruscamente do colo do avô, aliado à presença assustadora do pai, fez Léo gritar descontrolado:

— Vá embora. Eu não gosto de você.

Max limitou-se a envolver o filho num olhar gélido, sem se importar com a proximidade de terceiros. Ninguém tinha o direito de dizer, em voz alta, que não o apreciava.

— Está na hora de levar Léo para casa — Max ordenou à esposa. — Ele tem agido muito mal.

Desesperadamente, Maddy tentou fazer sinal para que o filho se contivesse. Seria servido um lanche para as crianças dali a instantes e ela sabia o quanto Léo esperara por aquele momento. Nos últimos dias, o garoto não falara de outra coisa e até a ajudara a preparar bolos e biscoitos es­peciais para a ocasião enquanto ensaiava as três frases que seu personagem diria na peça.

Uma outra mãe, uma outra mulher, com certeza teria coragem de enfrentar o marido, de levá-lo a entender que o filho estivera aguardando an­sioso a festinha de confraternização. Porém Mad­dy sabia muito bem que qualquer coisa que ten­tasse dizer, ou fazer, para consertar a situação serviria apenas para tornar tudo ainda pior. Pela expressão de Max, não tinha dúvidas de que ele adotara uma posição inflexível e que nenhum ar­gumento o faria voltar atrás. Por que aquele pra­zer estranho de negar ao filho qualquer diverti­mento? O que acontecera na vida do marido para que sua personalidade acabasse deformada assim? Ninguém poderia ter sido criado por pais mais dedicados e amorosos. Todavia Jenny lhe confes­sara que Max sempre fora uma criança difícil de lidar. Algumas crianças o são, sem que se saiba por quê.

— Leve-o para casa, Maddy — Max repetiu áspero.

Com o coração apertado, ela inclinou-se para apanhar o menino no colo. Entretanto, antes de completar o gesto, Joss apareceu de repente e, tomando o sobrinho nos braços, afastou-se calma­mente, parecendo não escutar a voz irada de Max que mandava-o parar.

— Oh, Max, é um prazer vê-lo! Sua esposa não tinha muita certeza de que você seria capaz de chegar a tempo.

Ao escutar a voz da divorciada mais notória da cidade, Maddy suspirou aliviada e aproveitou para escapar dali. Bárbara daria um jeito de prender Max junto de si tanto quanto possível.

Na sala especialmente preparada para a festa, Joss estava brincando com Léo,

Num entendimento tácito, Joss e Jon pareciam dividir a tarefa de suprir a carência do menino quanto a um modelo do papel masculino, com os valores que lhe eram inerentes. Embora os dois fossem dedicados a Léo, por quê, oh, meu Deus, por quê, ela sonhava ver Max tomar o filho no colo e fitá-lo cheio de amor e orgulho? Por que o afeto do avô e do tio não bastavam?

"Max nunca será capaz de amar alguém até que ele aprenda a amar e aceitar a si mesmo",

Ruth lhe dissera certa vez. Agora se perguntava se a velha senhora teria razão. Max amava a si mesmo. Sempre amaria a si mesmo. Seria possível que jamais amaria uma outra pessoa?

Depressa, Maddy apanhou Emma no colo e pos­tou-se num canto da sala enquanto observava Léo brincar com dois coleguinhas.

Dez minutos depois, ao voltar para o salão, des­cobriu que Max já não se encontrava por lá. E tampouco Bárbara Severn.

 

                                                    CAPITULO IV

Max esperou que todos os parentes se retirassem, após a ceia de Natal, antes de informar a esposa sobre sua iminente partida para a Jamaica.

— Você vai fazer o quê?! Mas seu pai já tentou descobrir o paradeiro de David.

Maddy passou as mãos por entre os cabelos e fitou o marido, o cenho franzido indicando a di­ficuldade de enxergá-lo com clareza. Pusera os óculos em algum lugar, enquanto apanhava os brinquedos das crianças espalhados pela sala, e agora não conseguia encontrá-los.

— Não é verdade — Max retrucou lacônico. — O que meu pai fez foi pagar a alguma agência de detetives para que conduzissem uma investi­gação rápida. O que meu avô deseja é que eu vá para a Jamaica e cuide do assunto pessoalmente.

— Pensei que David estivesse na Espanha. O que levou Ben a crer que o filho poderia, estar na Jamaica?

— David mandou um cartão postal para vovô. Escrito de próprio punho.

— Não entendo. Você está sempre dizendo o quanto anda ocupado, como é impossível tirar uns poucos dias de férias.

— Estamos em janeiro, um mês calmo na firma. No momento, não tenho nenhum caso importante em andamento, que requeira total atenção. O quê, de fato, você está tentando dizer, mulher? Com certeza não está pensando que eu, deliberadamente, evito passar meu tempo livre na sua compa­nhia. Não quando você é uma parceira tão ma­ravilhosa, estimulante e excitante...

O rosto de Maddy ficou vermelho. Não era pre­ciso que Max fosse assim sarcástico. Sabia o quan­to ele a considerava enfadonha e destituída de atrativos.

— Seu pai sabe desses planos?

— Não. E por que deveria? Afinal, a questão não lhe diz respeito, não é? Todavia creio que logo estará a par de tudo. Aposto que você sairá daqui correndo para lhe contar a novidade.

— David é irmão de seu pai — Maddy argu­mentou baixinho, engolindo a dor e humilhação. — Jon também se preocupa com os efeitos que a ausência de David parece ter sobre Ben... e sobre Jack.

— Então ele ficará feliz ao ser informado que pretendo descobrir o paradeiro de nossa ovelha negra, certo? Cresça, mulher. Se você espera que meus pais me impeçam de partir, está perdendo seu tempo. Aqueles dois têm tanto poder quanto você de controlar minha vida. Ou seja, nenhum.

— Se isso é verdade, por que então você esperou até agora para mencionar a viagem? — ela de­volveu com desacostumada aspereza.

Max brindou-a com um sorriso cruel e debochado.

— Oh, muito bom, muito bom... Eu não disse nada até agora, minha querida esposa, porque é vovô quem está financiando a viagem e eu não queria que meu pai tentasse persuadi-lo a mudar de idéia. Agora é tarde demais. Estou com a pas­sagem na mão e a reserva no hotel já foi feita.

— Oh, Max. — Trêmula, Maddy fechou os olhos para conter as lágrimas. Não sabia o que a ma­goava mais. Se o óbvio desprezo que o marido lhe dedicava, ou o cinismo com o qual se dispunha a usar o dinheiro do avô numa empreitada inútil. Duvidava de que ele fizesse a menor tentativa de localizar David. — Oh, Max — tornou a murmu­rar, vendo-o sair da sala.

Com movimentos secos e irritados, Jack atirava pedras sobre as águas do pequeno lago de Queensmead, cerrando os dentes para sufocar as lágrimas amargas. Era um rapaz, quase um homem, e ho­mens não choram nunca. Nem mesmo quando...

Viera até Queensmead unicamente para falar com Maddy, porém não a encontrara. Ao passar pelo escritório do avô, notara a porta entreaberta e vendo-o cochilar na poltrona, acabara entrando, levado por um impulso inexplicável. Embora não temesse o velho patriarca, tampouco o amava.

— Ele ainda sofre por causa do tio David.

— Joss lhe dissera certa vez, quando se queixara da indiferença do avô. — Assim, tem medo de se per­mitir nos amar.

— Entretanto ama Max.

— Sim. Vovô ama Max porque Max se parece com David. E ama David porque David é o filho primogênito, o que o faz recordar do próprio irmão.

— Qual é sua opinião sobre meu pai? — Jack perguntara ao primo.

Joss ficara em silêncio durante vários segundos e, ao responder, evitara fitar o outro nos olhos.

— Não me lembro muito bem do tio David. Ele estava sempre trabalhando.

— Aposto que você se sente feliz por ele não ter sido seu pai. — A evidente tristeza na voz de Jack revelava o terrível conflito interior.

— Porém é meu tio. Portanto, primo, nós dois partilhamos o mesmo sangue, a mesma carga genética.

— Não é verdade — Jack respondera descon­trolado. — A situação é bem diferente para nós dois. Para começar, vovô não me aprova. Posso ver o desafeto estampado naqueles olhos frios. Ele me culpa por tudo o que aconteceu a papai.

— Não, você está enganado. Todos nós sabemos por que tio David...

Joss parara por ali e Jack não insistira no as­sunto. De que iria adiantar?

Perdera a conta do número de vezes que reme­morara a última briga entre os pais, as acusações, a fúria contida em cada uma das palavras trocadas antes que ambos saíssem para a festa de cinqüenta anos de Jon e David.

— Por Deus, Tiggy, você tem que me ouvir! — Escutara o pai gritando. — Malditas crianças! Nunca pensei que saísse tão caro sustentá-las.

— Não seja ridículo — Tiggy devolvera no mes­mo tom. — Jack precisa de um uniforme novo. O velho está muito apertado e surrado. Você precisa tirar dinheiro de algum lugar para cobrir os gas­tos. O menino não irá para a escola sem um uni­forme novo.

Seus pais. Por que eles não poderiam ter sido diferentes?

Por que não poderiam ter sido como os pais dos outros? Ou, melhor ainda, como tio Jon e tia Jenny?

Bastava pensar em seus tios para se sentir me­lhor. E pior. Saber que ambos estavam presentes em sua vida lhe dava uma enorme sensação de segurança. Todavia experimentava um sentimen­to de culpa também. Necessitava do amor deles e isso o fazia se julgar de certa forma culpado e desleal.

Um pato alçou vôo do lago e o ruído inesperado trouxe os pensamentos de Jack de volta para o presente.

Ao entrar no escritório do avô, acabara por des­pertá-lo. Imediatamente os olhos gélidos o haviam medido de alto a baixo, beligerantes.

— Ah, é você? Por Deus, com aquela sua mãe, não é de estranhar que David prefira não voltar para casa. — Demonstrando indignação, o velho apanhara um cartão postal sobre a mesa, os dedos trêmulos, a voz amarga. — Foi a isso que seu pai ficou reduzido por causa dela. Sendo obrigado a viver como um nativo, num lugar...

Culpa de sua mãe e sua também? Fora o que Ben quisera insinuar?

Instintivamente, Jack apanhara o postal que o avô atirara sobre a mesa, as lágrimas contidas quase o impedindo de decifrar a letra do pai. Uma letra que não reconhecia, embora desejasse poder absorver alguma coisa do homem que escrevera a breve mensagem. Entretanto não sentia abso­lutamente nada, apenas dor e raiva.

Que tipo de homem era seu pai? Que tipo de homem ele próprio acabaria se tornando? Que tipo de pai seria para seus futuros filhos? Infelizmente, não alguém como Jon.

Angustiado, Jack atirou mais uma pedra nas águas calmas do lago. Seu tio Jon jamais aban­donaria a família, os filhos. Lembrava-se bem de um fato ocorrido no Natal, ao trocarem presentes. O tio o abraçara em primeiro lugar, antes mesmo de abraçar Joss. Todavia, não lhe passara des­percebido o brilho do olhar de Jon ao puxar Joss para junto do peito. O olhar de um pai pousado sobre o filho amado. Sim, Jack sabia que Jon o amava, que se importava com ele, que o acolhera anos atrás movido não apenas por um sentimento de dever e responsabilidade. Porém, Jon amava Joss de uma maneira diferente. Como um homem ama seu filho, a carne de sua carne.

Que será que ele fizera para que seu próprio pai não o amasse? Havia tantas perguntas que o atormentavam. Tantas coisas que ansiava saber. Ao abandoná-lo, ao desaparecer sem deixar ves­tígios, o pai lhe roubara o direito de fazer essas perguntas e agora não se julgava capaz de levar a vida adiante se não obtivesse as respostas que buscava.

Jack tinha plena consciência de como os tios estavam preocupados com a súbita queda de seu rendimento escolar. Mas como explicar-lhes a aflição que o consumia? Como confessar-lhes o quanto se sentia alienado de tudo e de todos? Como falar do medo e da solidão interior que o assombravam?

Seu avô adorava contar histórias sobre a ado­lescência e juventude de David. Que esportista ele havia sido! Que estudante brilhante! Que su­cesso entre as garotas! De acordo com Ben, David era alguém a ser admirado e imitado. Todavia, para Jack, o pai não passava de uma sombra vaga, de uma criatura sem substância, uma lembrança pálida, um homem com quem não partilhava a mesma história e cujo sangue parecia não correr em suas veias. Um ser que o gerara para logo depois abandoná-lo.

De repente, começou a chover, gotas frias, fi­nas e penetrantes. Apesar de estar sem casaco, Jack não se importou. Assim como não o inco­modava saber que deveria estar em casa estu­dando para as provas. Por que deveria se importar? Quem se interessava por ele? Com certeza, não o pai. Nunca o pai.

— Maddy, você tem cinco minutos livres? — Jenny indagou com um sorriso, abrindo a porta da cozinha.

Onze horas da manhã e Maddy acabara de levar uma xícara de chá e um pratinho de bis­coitos caseiros para Ben, na biblioteca. Léo saíra para dar uma volta com Joss, o peito inchado de orgulho porque o tio o convidara a acompa­nhá-lo. Emma fora para a casa de Olívia logo cedo, onde ficaria até o final da tarde brincando com Amélia e Alex.

Quanto ao paradeiro de Max... Ele mal acor­dara e partira para Chester, dizendo que pre­cisava resolver os últimos detalhes da viagem para a Jamaica,

— Vim lhe pedir um favor, querida. — Jenny sentou-se à mesa da cozinha, aceitando a xícara de café que lhe era oferecida. — Sei o quanto Ben e as crianças a ocupam porém, depois de Ruth ter resolvido passar os próximos seis meses nos Estados Unidos, preocupa-me o trabalho extra no Lar Mamães e Bebês, especialmente agora, quan­do recebemos licença para começar a construção da nova unidade. Assim, eu estava pensando se não conseguiria persuadi-la a aceitar uma posição mais formal em nossa obra beneficente. Você tem sido maravilhosa ajudando-nos a angariar fundos, além de auxiliar com a papelada. Todavia, o que eu gostaria mesmo de lhe pedir, é que tomasse o lugar de Ruth, como tesoureira.

— Você quer que eu assuma a tesouraria?!

— Por favor, não diga não. Ruth e eu conver­samos longamente sobre o assunto e planejávamos lhe fazer a proposta juntas. Entretanto faltou-nos oportunidade, com o casamento de Louise e as festas de fim de ano. De qualquer forma, estáva­mos de acordo quanto ao essencial. Você é perfeita para o cargo. Além de craque com números, tem enorme senso organizacional.

Vendo o espanto da nora, Jenny riu.

— Seus talentos serão desperdiçados conosco, querida. Você deveria estar à frente de alguma multinacional.

Corando, Maddy desviou o olhar.

— É muita bondade sua pensar assim e se es­forçar tanto para afagar meu ego — ela respondeu cautelosa. — Mas deixando as lisonjas de lado...

— Não estou apenas adulando-a — Jenny res­pondeu firme. — Falo a pura verdade. Jon estava me dizendo outro dia como gostaria de ter um gerente com suas qualidades para administrar o escritório. E ele não se referia somente à sua ha­bilidade de lidar com as pessoas. Seu pendor para a matemática, a facilidade com que resolve as questões mais complexas são evidentes.

Embaraçada, Maddy deu de ombros, claramente desconfortável com os elogios.

— Sou rápida em contas. E só.

— Oh, querida, pare de se menosprezar! Se pensa que lhe peço para tomar o lugar de Ruth apenas para lhe agradar, está redondamente enganada. O cargo de tesoureiro é vital para o bom anda­mento da obra assistencial e precisamos de seus talentos. Os contadores já nos avisaram de que será necessário ter alguém competente na tesou­raria, se pretendemos construir a nova unidade sem contrairmos dívidas. Aliás, achamos que você deve ocupar o cargo em caráter definitivo. Isto é, se conseguirmos persuadi-la.

— Mas Ruth é a alma do projeto.

— Claro que sim — Jenny se apressou a con­cordar. — Foi a experiência de Ruth como mãe solteira, obrigada a se separar do filho, o que a levou a criar o primeiro lar para mães e bebês. Quanto mim, tenho minhas razões para estar en­volvida neste trabalho.

Maddy concordou com um aceno. Harry, o primogênito de Jenny, morrera logo depois de nascer. Perder um filho, Maddy sabia, era a maior de todas as tragédias. Amava Léo e Emma tão in­tensa e fervorosamente, que mesmo as fases mais horríveis de seu casamento tornavam-se insigni­ficantes diante da grandeza de tê-los gerado. To­davia essas eram emoções muito íntimas para dis­cutir com quem quer que fosse.

De fato, não podia pensar numa outra causa pela qual mais desejasse trabalhar do que o lar para mães solteiras. Também tinha consciência de pos­suir uma certa habilidade natural para estabelecer ordem no caos. Entretanto, caso se comprometesse...

Em silêncio, Jenny observou a tristeza tomar conta do rosto da nora, os olhos expressivos pa­recendo já haver testemunhado todos os pesares do mundo. No mesmo instante, ela adivinhou a razão.

— Max partiu para Londres? — indagou suavemente.

— Não. — Recusando-se a fitar a sogra, Maddy levantou-se e levou as xícaras sujas para a pia.

— Que aconteceu, querida? Alguma coisa errada?

— Não. Não há nada errado.

— E Max, não é? Que foi desta vez?

— Não, não realmente. Bem... sim. Ele está indo para a Jamaica. Procurar David.

Por um longo instante Jenny calou-se. De tudo o que esperara ouvir, sem dúvida não imaginara algo assim. Um novo caso extraconjugal do ma­rido. A confissão de que aquele casamento fracas­sara. Isso sim, estivera preparada para escutar.

— Ele vai fazer o quê?! Mas como? Por quê? E o trabalho?

— Aparentemente está tudo resolvido. Ben pe­diu a Max para resolver o assunto e ele aceitou. Pelo visto, não há nenhum caso urgente que o prenda à firma, o que o deixa livre para conduzir uma investigação.

O choque inicial de Jenny foi dando lugar a um misto de raiva e inquietude. Max jamais concor­daria em se ausentar de Londres durante um lon­go período apenas porque se preocupava com as aflições do avô. O que estaria acontecendo de fato?

Claro que vira o cartão postal procedente da Ja­maica. Todavia qualquer pessoa poderia tê-lo en­viado de lá a pedido de David, sem que ele mesmo tivesse posto os pés na ilha.

Max sabia muito bem que nada impedia David de entrar em contato direto com a família, se de­sejasse fazê-lo. Era crueldade encorajar Ben a ali­mentar esperanças vãs, a se agarrar a falsas cren­ças de que David fora vítima de circunstâncias injustas que o isolavam da família, quando na verdade ele se mantinha distante por opção. Não fazia sentido sugerir a Maddy que tentasse im­pedir o marido de viajar. Como mãe, sabia per­feitamente bem que Max não ouvia ninguém, não atendia aos apelos de ninguém e não se importava com ninguém, além de si próprio.

Ainda se lembrava vividamente de encontrar o filho no cemitério certa tarde, anos atrás, as flores que plantara com tanto carinho sobre a sepultura de Harry arrancadas e pisoteadas. Quando, por fim, conseguira conter as lágrimas e perguntara a razão daquela atitude, recebera uma resposta desconcertante, acompanhada de um dar de ombros.

— Estas flores não serviam para nada. Afinal, ele está morto.

— Sinto que não sou capaz de me relacionar com Max — ela confidenciara ao marido, o peito sacudido por soluços angustiados. — Por quê, por que fazer algo tão sem sentido, tão destrutivo? Ele sabe o quanto a sepultura de Harry significa para mim.

— Talvez seja por isso mesmo. Talvez Max te­nha ciúme.

— De Harry? Mas como, se nem chegou a co­nhecê-lo? Onde foi que eu errei, Jon? Nós o que­ríamos tanto e agora...

Como confessar ao marido que às vezes temia não amar o próprio filho? Não, não era verdade. Amava Max sim. Porém não podia amar a ma­neira como ele se comportava.

— Léo tem se mostrado bastante arredio — Maddy comentou, interrompendo o fluxo das lem­branças. — Ele é sempre difícil, rebelde, quando Max está por perto. Sinto que Léo necessita con­viver mais com o pai. Os dois nunca passam um tempo juntos.

— Oh, querida, eu sinto muito, creia-me.

— Posso pensar um pouco sobre o convite que você me fez antes de lhe dar uma resposta?

— Desde que a resposta seja sim — Jenny re­trucou sorrindo. — Realmente precisamos de seu auxílio.

— Você me parece muito pensativa — Jon falou entrando na sala de estar, notando a expressão distante da esposa. — Já conversou com Maddy?

— Sim.

— Então o que há de errado? Ela se recusou a assumir o lugar de Ruth?

— Não. Apenas disse que gostaria de pensar um pouco antes de se comprometer. Acho que con­seguirei persuadi-la.

— Se não é isso o que a aflige, o que a preocupa?

— O problema não é Maddy. É Max. Nosso filho está planejando ir para a Jamaica, procurar David.

— O quê?!

— Sim, sei que é duro de acreditar. Max nunca revelou nem o mais remoto interesse sobre o pa­radeiro de David. De acordo com Maddy, ele está atendendo a um pedido de Ben que, aliás, irá fi­nanciar toda a viagem. Max deverá partir depois de amanhã e... — Jenny fez uma pausa, tendo ouvido um ruído. — Que foi isso? Pensei escutar alguém no corredor.

Jon escancarou a porta da sala, que deixara entreaberta.

— Não há ninguém lá fora, querida. Provavel­mente foi um dos gatos.

— O que vamos fazer sobre isso?

— Receio que não há nada que possamos fazer a não ser deixar claro o quanto reprovamos toda a situação. Você conhece Max.

— Não é possível que ele se acredite capaz de descobrir o paradeiro de David. Afinal, já contra­tamos profissionais especializados sem resultado.

— Na Europa e América do Sul. Porém, até papai receber esse último cartão postal eu não tinha idéia de que David estivesse no Caribe.

— Ainda não temos certeza de que ele esteja lá. Poderia muito bem ter pedido a alguém que enviasse o cartão e logo depois partido. Odeio ad­mitir, mas não acredito que Max esteja se dando ao trabalho de viajar apenas para agradar Ben.

— Talvez.

— Embora nossa nora não tenha dito nada, pude perceber que toda essa história a preocupa bastante. As vezes sinto-me tão culpada em rela­ção a Maddy, Jon. Se a pobrezinha fosse nossa filha, sem dúvida não iríamos permitir que con­tinuasse presa a esse casamento destrutivo. Ela merece muito mais da vida.

— Maddy não é tão frágil quanto Max prefere pensar. A meu ver, é uma mulher dotada de qua­lidades especiais e de grande força interior. Com certeza tem seus próprios motivos para querer manter o casamento.

— As crianças, claro.

Quando Jon permaneceu em silêncio, Jenny fi­tou o marido, atônita.

— Oh, você não está sugerindo que a pobre Mad­dy alimenta algum sonho impossível, alguma fan­tasia romântica de que Max irá mudar um dia, que acabará...

— Amando-a? Não, não acho que ela pense as­sim. Mas como Saul, também vítima de um ca­samento desastroso até encontrar Tullah, ela crê que o mais importante é dar às crianças a segu­rança de uma vida familiar, uma chance de con­viver com avós, primos e tios. A felicidade dos filhos pesa mais do que a realização pessoal.

Jenny balançou a cabeça, enérgica.

— Não. Maddy ainda é uma mulher jovem, com necessidades naturais. Sabemos do que ela precisa.

— De um homem?

— Eu ia dizer "amor" — Jenny o corrigiu seca.

— Maddy, Max e seus problemas matrimoniais não são a nossa única fonte de preocupação no mo­mento, não é? O que vamos fazer quanto a Jack?

— Não sei. Ele parecia tão feliz conosco, porém ultimamente mudou da água para o vinho. Acabei perguntando a Joss se havia percebido algo de diferente no comportamento do primo. Joss res­pondeu que embora os dois ainda sejam próxi­mos, quase não passam mais tempo juntos e que Jack tem falado muito no pai, de maneira bastante raivosa.

— Com razão. Todavia, apesar de furioso com David, é em nós que Jack tem descontado essa fúria. Quando tentei lhe falar sobre a queda de seu rendimento escolar, ele apressou-se a deixar claro que não é da minha alçada fazer cobranças pois, tecnicamente, não tenho nenhum direito de pai.

— Oh, querido. — Jenny aproximou-se do ma­rido e o abraçou carinhosa. Sabia o quanto a reação de Jack devia tê-lo magoado.

Jon era, a seu modo, um homem tímido, cau­teloso em expor os sentimentos, revelar as emo­ções, devido, talvez, ao fato de haver se sentido tantas vezes rejeitado pelo próprio pai. Todavia sempre se relacionara muito bem com Jack, ha­vendo confiança e respeito mútuos.

— Ele é apenas um adolescente, querido. Sa­bemos que se trata de uma fase delicada. Lembre-se dos problemas que tivemos com Louise, quando ela se acreditava apaixonada por Saul.

— Nem me faça recordar isso. — Jon sorriu pesaroso. — Mas o caso de Jack é diferente. Ele é muito importante para mim, é uma pessoa es­pecial. Sinto como se aquele garoto houvesse sido confiado à minha guarda e que cabe a mim pro­tegê-lo, dando-lhe o amor que não pôde receber do pai.

— Sei disso. E acho que, bem no fundo, Jack também o sabe. Tão logo ele amadureça um pouco mais, irá compreender o quanto você o ama.

Voltando da casa de Olívia, Maddy conduziu o carro através dos portões de Queensmead esfor­çando-se para conter as lágrimas que ameaçara derramar durante todo o dia. Contudo não foi ca­paz de evitar morder o lábio inferior, hábito que desenvolvera quando criança e do qual ainda não conseguira se livrar inteiramente. Recordava-se de que Max certa vez, ao notar o leve inchaço da pele, a ridicularizara, dizendo que se não a sou­besse tão pouco atraente, a julgaria estar desfru­tando das atenções de um amante.

Entretanto, existia um outro aspecto suspeito da viagem do marido à Jamaica que ninguém, a não ser ela, parecia ter percebido. E esperava que continuasse assim.

Conhecia a rotina profissional de Max o sufi­ciente para ter certeza de que os meses de janeiro e fevereiro costumavam ser tranqüilos, porém não o bastante para justificar uma licença de dois me­ses. Portanto, deveria haver um motivo mais si­nistro por trás dessa ausência prolongada.

Ela parou o carro e, virando-se, sorriu para as crianças.

Max não era muito popular entre os outros sócios, mas nenhum deles questionava sua competência, ou a habilidade de atrair clientes da alta sociedade. Apesar do temperamento tímido e retraído, in­teligência era algo que não faltava a Maddy. Ha­via se formado em Direito, embora tivesse optado por não exercer a profissão para cuidar dos filhos. Mesmo se lhe dissessem o contrário, estava con­vencida de que a tal licença de dois meses não era tão voluntária quanto Max queria fazer os outros acreditarem.

Financeiramente, ela e as crianças estavam se­guras, pois jamais tocara num centavo de seu fun­do fiduciário. Todavia não era o futuro econômico o que a afligia.

— Onde diabos você esteve, mulher?

Quando Max apareceu de repente e abriu a por­ta do carro, fitando-a sem disfarçar a raiva, Maddy sentiu os músculos retesarem.

— Tenho que sair esta noite e o velho está re­clamando outra vez, que você não foi buscar livros novos na biblioteca da cidade. Além de tudo, quero que minhas malas sejam feitas.

— Trouxe os livros de Ben comigo — ela retrucou saindo do carro e ajudando as crianças a descer, enquanto o marido permanecia de braços cruzados.

Nunca teria lhe ocorrido pedir auxílio a Max e, de qualquer maneira, Léo, mal o vira, agarrara-se às suas pernas, o corpo inteiro rígido de medo.

Preocupava-a que o menino demonstrasse ta­manho antagonismo em relação ao pai, porém ele ainda era muito pequeno para entender não ser culpa sua a indiferença com que Max o tratava. Como explicar a uma criança que o próprio pai a ignorava porque não a considerava importante, ou digna de atenção?

Após o casamento, Maddy não tardara a com­preender quão pouco significava para o marido. Há tempos deixara de se sentir magoada pela falta de amor, ou respeito. Pelo menos era o que se dizia. Emma, por exemplo, fora concebida sem qualquer uma das emoções que considerava es­senciais entre duas pessoas envolvidas na criação de uma nova vida.

Sorrindo triste, Maddy apanhou a menina no colo. Graças a Deus a filha jamais precisaria saber ter sido fruto de um ato vazio, banal e egoísta.

— Por que você não procura uma prostituta?— ela indagara à beira das lágrimas quando Max entrara no quarto e a acordara brutalmente ao bater a porta com força e acender as luzes. Esti­vera usando uma camisola então, hábito adquirido durante as longas noites solitárias. Arrancando os lençóis e jogando-os no chão, ele sorrira irônico, o corpo musculoso nu e pronto para o sexo.

— Não se dê ao trabalho de tirar a camisola

— Max a insultara. — Não quero olhar para você.

Além do mais, por que eu iria pagar alguém quando a tenho à minha disposição? Afinal, uma... — a palavra vulgar a ferira e humilhara tanto, que Maddy apenas fechara os olhos —, é igual à qual­quer outra e proporciona o mesmo grau de alívio.

— Se isso é tudo o que você quer, por que não... — Vendo a expressão debochada do marido, o risinho de escárnio, acabara se calando, vermelha de vergonha e raiva.

— Por que não resolvo a questão me trancando no banheiro como um adolescente? Oh, não.

Devagar, Max começara a acariciá-la nos seios, nas coxas, excitando-a fisicamente embora ela se odiasse por reagir ao toque das mãos fortes e ex­perientes. Ao ser possuída, perguntara-se qual se­ria a razão do marido tê-la procurado? Talvez por­que a mulher com quem ele planejara passar a noite acabara faltando ao encontro? Então seu cor­po fora uma mera válvula de escape para aliviar a tensão sexual despertada por outra? Num clima frio e hostil, gerara seu segundo filho, uma menina.

E quando comunicara a Max estar grávida, ele respondera que não queria aquela criança assim como não desejara a primeira.

— Talvez você devesse ter pensado nas conseqüências antes de fazer sexo comigo — Maddy explodira, os nervos já não suportando a pressão. — Todavia, creio que seria ainda mais embaraçoso se fosse aquela mulher, com quem você pretendia passar a noite, e não eu, quem estivesse infor­mando-o agora haver concebido um filho seu.

Max, claro, não se mostrara nem um pouco per­turbado, ou arrependido. Simplesmente dera de ombros, desinteressado.

— Com aquela mulher, a situação jamais teria chegado a esse ponto porque ela teria tomado as medidas necessárias para evitar uma gravidez. Como vê, diferentemente de você, ela aprecia o sexo e sabe como fazer o parceiro apreciar também.

De certa forma, Emma era ainda mais preciosa, porque Maddy a sabia concebida por simples aci­dente. Carinhosa, Maddy beijou o rostinho redon­do da filha antes de levar ambas as crianças para dentro de casa.

 

                                   CAPÍTULO V

Minha mãe esteve aqui ontem.

O que ela queria? Cuidadosamente, Maddy terminou de passar a camisa antes de responder à pergunta seca.

— Jenny veio me pedir para assumir o lugar de Ruth no comitê do Lar Mamães e Bebês — informou-o sem se alterar, dobrando a camisa e colocando-a no cesto de roupas já passadas.

Pelo visto, Max parecia ter comprado um novo enxoval para a viagem à Jamaica e, claro, exigira que cada peça de roupa fosse lavada e passada antes de ser colocada, na mala.

O vôo sairia de Londres no dia seguinte e, em muitos aspectos, seria um alívio vê-lo partir. Léo estivera agitado e mal-humorado durante o café da manhã, recusando-se a ir para a escola e cho­rando sempre que ficava só.

— O quê? Meu Deus, minha mãe deve ter che­gado ao fim da linha se ficou reduzida a lhe pedir para ocupar o cargo de tesoureira, não é? — Max a insultou. Maddy não disse nada. De que iria adiantar?

Sabia, por experiências anteriores, que qualquer tentativa de se defender acabaria resultando em vergonhosa derrota, quando fugiria do campo de batalha em lágrimas, a alma partida em mil pe­daços. Max divertia-se destruindo-a verbalmente. Derramar lágrimas por causa do marido e de seu comportamento infame, como descobrira anos atrás, era pura perda de tempo e energia, assim como amá-lo fora um desperdício de emoções. O que lhe restara a não ser a auto-estima, a digni­dade e o respeito próprio devastados?

No início do relacionamento, Max se deliciara manipulando seus sentimentos. Ingênua, acredi­tara que o marido não fazia idéia de como a ma­goava com aquelas crueldades verbais.

E, sôfrega, permitira-o usar o sexo para aplacar a dor das mágoas.

Aos poucos, entretanto, aquelas suas reações tímidas e intensas às carícias do marido, aquela ânsia de se perder entre os braços fortes, de se render completamente à posse física, se transfor­mara em tensão e relutância.

Não que Max se importasse com sua aparente falta de desejo sexual. Por que deveria? Afinal, era ela quem saía perdendo. Quanto a ele, havia sempre uma amante disponível, uma amante mui­tíssimo mais atraente do que a esposa, mais desinibida na cama.

O corpo de Max já estava começando a doer, a se ressentir da prolongada ausência de prazer. E não apenas do alívio físico que o sexo lhe dava, mas, principalmente, de ter uma pessoa em sua vida sobre quem exercer absoluto controle dos sen­tidos, uma mulher bela, do tipo capaz de despertar a cobiça masculina por onde passasse.

Sem um pingo de emoção, ele envolveu a esposa num olhar avaliador. Maddy podia ser mesmo uma tola no que dizia respeito à própria aparên­cia. Sem dúvida existiam homens capazes de apre­ciar seu tipo de curvas macias e arredondadas, embora ele preferisse criaturas esguias, de pernas longas e rostos exóticos como as modelos. Talvez, se Maddy não fosse tão humilde, se não se mos­trasse tão ansiosa em agradar, caso se exercitasse um pouco para definir os músculos...

Franzindo o cenho, Max afastou-se. Não era de seu feitio perder tempo pensando na mulher. Ape­sar de nunca deixar escapar uma oportunidade de ridicularizá-la, de enfatizar o quanto a julgava destituída de atrativos, descobrira haver certas compensações em tê-la como esposa. Por exemplo, sentia-se livre para perseguir aventuras sexuais sem se preocupar com o que Maddy poderia estar fazendo às suas costas. Com sorte, aquele inde­sejável período de fidelidade marital, imposto pe­las circunstâncias, logo chegaria ao fim. Dentro em breve teria uma nova amante, alguém de seu inteiro agrado. Certamente a Jamaica aca­baria se revelando um celeiro fértil de parceiras de cama.

A irritação de Max se acentuou ao lembrar-se do encontro acidental com Luke Crighton, ocorrido em Chester no início da tarde. O primo parecia já ter ouvido comentários sobre o objetivo de sua viagem e, numa reação típica, expressara dúvidas quanto ao sucesso da empreitada. Insolente, in­sinuara que Max também tinha plena consciência da impossibilidade de localizar David e o acusara de estar se aproveitando da obsessão do avô em relação ao filho desaparecido para desfrutar de férias pagas.

— Interessante que você possa tirar uma licença tão prolongada. Pouquíssimos advogados de meu conhecimento, inclusive eu, teriam condições de se ausentar do trabalho durante sessenta dias.

— Tudo depende da especialização do sujeito e, é claro, se for capaz de gerar lucros significativos.

— Ou se for casado com uma mulher rica — Luke devolvera no mesmo tom ríspido.

Max fingira não ter escutado. Sempre existira uma certa rixa entre os dois e ele sabia que o primo mal o tolerava.

— Ben quer lhe falar antes que você saia — Maddy o avisou, fazendo-o desviar o curso dos pensamentos.

A dedicação do avô a David era, na sua opinião, uma coisa patética. Jamais se permitiria tornar-se emocionalmente dependente de uma outra pessoa.

Dentre todas as emoções humanas, o amor se revelava mais caprichosa, a mais valorizada. Bastava ver como todas as culturas endeusavam o amor materno. Amor materno. Pois sim. Sua mãe não o tinha amado e tampouco seu pai. Não passara de uma criança concebida com a única intenção de substituir o filho morto, o precioso Harry.

Ainda pequeno, recordava-se de ouvir o avô di­zer à sua mãe:

— Max a ajudará a superar o trauma. Será um substituto do menino perdido. Você deveria ter tido um filho logo e não esperado tanto tempo.

— Ninguém poderá jamais tomar o lugar de Harry — escutara a mãe responder, num tom sur­preendentemente áspero e decidido.

De fato, não conseguira substituir o irmão. Nem fora suficiente para preencher o vazio no coração dos pais. Lembrava-se com clareza de como os dois haviam ficado excitados com o nascimento das gêmeas, muito mais do que se mostravam na sua companhia.

O mesmo acontecera com a chegada de Joss.

Então fora a vez de Jack. Nunca poderia se imaginar apegando-se a uma criança como o pai se apegara a Jack, alguém que não era nem sequer carne de sua carne.

Léo e Emma o entediavam. Também o irritava a maneira como Jon cobria os dois de atenções, em especial Léo. Por que o pai precisava estar sempre abraçando o menino e beijando-o, quando nunca havia sido alvo dessas demonstrações de afeição?

— Que coisa ridícula é aquela? — Max pergun­tou à esposa, notando como Léo se agarrava a um velho ursinho de pelúcia. — O menino está muito grande para se comportar feito um bebe. Você está transformando-o num tolo mimado, mantendo-o preso à sua saia. Já é hora de Léo começar a crescer.

Maddy mordeu o lábio observando o marido sair da sala. Durante os últimos meses estivera ten­tando, gentilmente, convencer o filho a abandonar o bichinho de pelúcia, ao qual se apegava em busca de conforto.

— Não se preocupe — a professora de Léo a animara, quando confessara seus temores. — Nes­sa idade, meninos tendem a ter maior dificuldade para abandonar certos hábitos do que meninas. A melhor coisa a fazer é ignorá-los.

— Receio que as outras crianças riam dele.

— Ficarei atenta para que isso não aconteça. Creia-me, seu filho não é o único a ainda precisar do conforto oferecido por um brinquedo de esti­mação. Portanto, não se aflija.

Todavia, sempre que Max estava em casa, Léo parecia regredir, agindo como um bebê, choroso e inseguro.

Tão logo pusesse as crianças na cama, trataria de arrumar as malas e depois iria deitar-se.

Ter o marido por perto simplesmente drenava-lhe toda a energia. Entretanto não eram as exi­gências quanto à roupa limpa e bem passada, ou à qualidade da comida servida nas refeições. O que a esgotava era o clima tenso criado por Max quando se encontrava na companhia da família.

Ficaria feliz ao vê-lo partir. Desanimada, ela desligou o ferro e apanhou a pilha de roupas ar­rumada sobre a cadeira.

Ao escutar a porta do quarto se abrir, Maddy retesou os músculos e apertou os lençóis entre os dedos, numa tentativa vã de aliviar a tensão crescente.

Ouvindo Max entrar no banheiro e ligar o chu­veiro, abriu os olhos afinal, consultando o relógio sobre a mesinha-de-cabeceira. Meia-noite.

O avião do marido deveria decolar às dez horas do dia seguinte, assim ele sairia de casa por volta das sete. Oh, céus, como suportar aquelas inter­mináveis sete horas antes de poder respirar li­vremente? Depressa, virou-se de lado, dando as costas para o centro da cama enorme e mantendo-se o mais na beirada possível.

Lembrava-se de uma certa ocasião, nos primei­ros tempos de casada, quando aborrecera o marido de alguma forma. Max fora deitar-se tarde, acor­dando-a de um sono agitado depois de tê-lo espe­rado voltar para casa até altas horas. Cruelmente, ele a mandara chegar para o lado, explicando não desejar nenhum contato de seus corpos enquanto dormissem.

Humilhada, obedecera a ordem, enquanto lá­grimas quentes e silenciosas encharcavam o tra­vesseiro. As primeiras das muitas lágrimas der­ramadas diante de incontáveis rejeições.

A porta do banheiro foi aberta e fechada em seguida. Podia escutar Max preparando-se para deitar, o quarto mergulhado na mais profunda escuridão. Entretanto não necessitava de luz para perceber cada um dos movimentos do marido. Po­dia visualizar o corpo nu, esguio, os músculos sa­lientes e bem torneados. Max tinha a elegância de um felino e quando o vira nu pela primeira vez, quase não pudera respirar, tamanha a im­pressão causada por aquele corpo viril. Sentira-se sufocada de desejo, inebriada de amor. Pena não ter sabido, então, que esse amor jamais seria cor­respondido.

Ansiara tocar cada centímetro da pele bronzea­da, perder-se entre os braços longos, entregar-se a uma paixão avassaladora que, até então, não se julgara capaz de experimentar. Era virgem quando Max a levara para cama pela primeira vez. Virgem, ingênua e cheias de ilusões.

— Maddy... sei que você está acordada.

Na mesma hora ela ficou rígida. De costas, sen­tia a respiração firme em seus cabelos, a mão forte apoiada no seu braço.

Há mais de três meses os dois não faziam sexo. Na verdade, desde o nascimento de Emma, podia contar nos dedos de uma só mão as raras ocasiões em que haviam feito sexo.

Agoniada, Maddy percebeu ter usado mental­mente a palavra sexo, no lugar de amor. Fazer amor. Ali estava algo que os dois nunca tinham feito juntos, mesmo quando, estúpida que fora, se imaginara amada.

Sentindo os dedos do marido tocarem-na de leve nas costas, numa carícia lenta e deliberadamente sensual, ela mordeu o lábio, o corpo inteiro arrepiado e, ainda mais vergonhoso, os mamilos eretos.

Embora soubesse tratar-se de uma reação física ao toque experiente, gostaria que não fosse assim. Deprimia-a saber que apesar de todos os insultos, de todas as ofensas, seu próprio corpo acabava sempre por traí-la, reagindo intensamente às ca­rícias de Max. Humilhada, sufocou um soluço en­quanto o marido começava a beijá-la nos ombros. Podia sentir a maciez dos cabelos negros contra sua pele, o perfume másculo inebriando-a.

— Você não me quer? — ele indagou provocante, mordiscando-a de leve na orelha.

"Não. Não quero." Como sonhava gritar essas palavras. Ela. A gentil, sossegada, dócil e obe­diente Maddy. Porém sabia faltar-lhe coragem. Acabaria acordando as crianças e também...

A mão forte estava pousada sobre seu seio, massageando o mamilo enrijecido.

Podia ouvir, sentir, a satisfação contida na bre­ve risada masculina quando Max se inclinou para beijá-la no pescoço, fazendo-a estremecer da ca­beça aos pés.

Sem que pudesse evitar, Maddy arqueou as cos­tas, numa entrega silenciosa.

Recordava-se de vê-lo rir na primeira vez em que a acariciara daquela forma, tão intensamente ela reagira ao toque. Porém agora estava mais velha, mais experiente. Ou não? Embora não de­sejasse, um calor delicioso parecia fluir em suas veias. Fora sempre assim com o marido. O casa­mento de ambos não passava de um deserto emo­cional, de uma absoluta fraude, todavia nunca, fosse antes de conhecê-lo, ou desde então, encon­trara um único homem capaz de despertar-lhe essa espécie de desejo. Era como se Max possuísse uma qualidade mágica, a capacidade de lançar um encantamento potente que o permitia trazer à tona a sexualidade que ela guardava escondida dentro de si e que nenhum outro conseguia esti­mular. Odiava sentir-se vulnerável, odiava preci­sar do marido para aplacar a fome que a consumia. Odiava saber-se traída pelo próprio corpo.

Ao perceber a excitação crescente da esposa, Max sorriu para si mesmo. Costumava acusá-la de não ser ardente, não tão desejável nem tão capaz de seduzi-lo quanto outras mulheres infi­nitamente mais atraentes. Todavia, embora Maddy fosse de fato pouco experiente, eram suas ten­tativas inocentes de controlar o vigor da sensua­lidade o que o estimulava. Adorava vê-la estre­mecer de antecipação, adorava a maneira como, sem palavras, parecia implorar para ser tocada.

Sua esposa possuía uma natureza sensível, fo­gosa. Bastaria massagear-lhe o clitóris durante alguns segundos, com a ponta da língua, para levá-la ao orgasmo.

Todavia, embora soubesse disso, não tinha ne­nhuma intenção de dar a ela esse prazer. O corpo de Maddy mudara sutilmente nos últimos anos. Cuidar de duas crianças pequenas e de um idoso exigente acabara moldando as formas antes por demais arredondadas. Assim, ao tocá-la, ele logo percebeu como a cintura da mulher se estreitara, como as pernas haviam ganhado massa muscular, como os quadris se alteavam numa curva delicio­samente feminina.

Notando-a arquejar, Max tornou a sorrir. Tensa sob o corpo do marido, Maddy virou a cabeça para o lado ao ser penetrada. A experiência lhe ensinara não valer a pena protestar, ou re­sistir. Pelo menos, mantendo-se imóvel, tudo es­taria terminado depressa. Lutar contra o inevi­tável apenas prolongaria a agonia que aprendera a temer.

Não tardaria a ficar livre daquela humilhação e, se fechasse os olhos e tentasse se concentrar, quem sabe desta vez...

Ela aguardou até que o marido adormecesse an­tes de, furtivamente, sair da cama e se trancar no banheiro. Fingindo dormir, Max acompanhou os movimentos da esposa.

O lado cruel e sombrio de sua personalidade se excitava ao imaginar a esposa sozinha e em lá­grimas no banheiro, forçada a aliviar a tensão sexual que ele despertara.

Com a boca seca, o coração batendo descompas­sado, Maddy estremeceu ao atingir o orgasmo, enojada de si mesma. Era inacreditável que um dia fora tão idiota a ponto de imaginar que Max a amava. — Então como você pôde fazer aquelas coisas todas comigo? — indagara perplexa quando, en­fim, o marido confessara não a amar.

— Simples. Bastava fechar os olhos e pensar na sua conta bancária — ele respondera cínico.

— Mas você era tão impetuoso... Você me queria — Maddy protestara, enrubescendo diante da pró­pria audácia.

— Não. Eu nunca a quis. Nunca a desejei. — As palavras cruéis a fizeram vacilar, roubando-lhe o fôlego. — Sou um ótimo ator, minha cara. Ne­nhum homem, digno de sua masculinidade, con­segue desejá-la. Simplesmente não é possível.

E ao fitá-lo nos olhos, ela soubera que Max dizia a pura verdade. Chocada, lembrara-se da maneira íntima como fora tocada, das carícias eróticas que recebera. A mentira que vivera era tão revoltante, que não lhe restara experimentar sensação algu­ma a não ser náuseas.

O sexo que o marido lhe oferecera no início fora algo bem diferente do ato rápido e mecânico que partilhavam agora, Maddy pensou voltando para a cama.

Apesar de haver atingido o orgasmo, os seios ainda latejavam, insatisfeitos. Não conseguia en­tender por que Max continuava a ter o poder de afetá-la, de excitá-la. Talvez não se sentisse en­corajada a analisar a situação porque temia des­cobrir o tipo de mulher que de fato era. Nunca fora sexualmente aventureira e, de acordo com o marido, nunca conseguira satisfazê-lo como ho­mem. Sem dúvida já não o amava. Aliás, era bem provável que jamais o tivesse amado. Como al­guém poderia amar Max, uma criatura cruel, in­sensível, egoísta? Não, o que amara fora a imagem que ele projetara, manipulando-a até fazê-la acre­ditar em algo inexistente. Então por quê, por que ainda reagia às carícias malditas?

Sonolento, Max espreguiçou-se, saboreando a própria satisfação sexual. Um dos aspectos posi­tivos de fazer sexo com a esposa era não ser ob­rigado a usar preservativo. Com qualquer outra mulher, agia de modo meticuloso, nunca abrindo mão de proteger-se do risco de contrair alguma doença sexualmente transmissível.

Quando adolescente, seu médico fora enfático ao detalhar os perigos do sexo sem proteção, ex­plicando-lhe as seqüelas de várias doenças e mos­trando-lhe que a saúde sexual era algo com o que não se podia brincar.

— Você passou muito tempo no banheiro — ele provocou Maddy, divertindo-se ao notar a tensão tomar conta do rosto feminino. — O que esteve fazendo?

Diante do silêncio obstinado da mulher, continuou:

— Minha mãe devia estar com a cabeça nas nuvens quando achou que você poderia ocupar o lugar de Ruth. Tem mesmo certeza de que não a entendeu mal, minha querida? Talvez ela estives­se lhe pedindo para cuidar da limpeza do escri­tório, não para administrá-lo. Afinal, para isso, sim, sobra-lhe competência. Cozinhar, limpar, pajear idosos e crianças pequenas.

Piscando furiosamente dentro da escuridão, numa tentativa desesperada de conter as lágri­mas, Maddy se fez uma promessa. No dia se­guinte, pela manhã, iria telefonar para a sogra e dizer que aceitava assumir o cargo deixado vago por Ruth.

A seriedade da decisão a manteve acordada durante um longo tempo depois de Max pegar no sono. Devia estar louca. Certamente não tinha capacidade para nada, além da execução de ta­refas domésticas. Todavia Jenny afirmara o con­trário. Talvez a sogra quisesse apenas animá-la, fingindo acreditar em seus talentos. Exausta, adormeceu.

Do outro lado da cidade, na casa de Jenny e Jon, uma outra pessoa também encontrava difi­culdade para dormir.

Nervoso, Jack deslizou os dedos sob o traves­seiro, sentindo os contornos rígidos do passaporte. Dentro do passaporte, estava a passagem aérea que comprara com o dinheiro guardado no banco, economizado a duras penas.

Através de Maddy, ficara sabendo o nome do hotel onde Max pretendia se hospedar. Ainda se sentia culpado pelo modo como a manipulara para obter a informação. Sempre gostara de Maddy e sempre fora tratado com gentileza. Todavia, de­testava Max. Por sorte, seu avião partiria pela manhã e poderia agir como se estivesse saindo de casa para a escola.

Seria obrigado a deixar sua bicicleta no esta­cionamento do aeroporto e esperava que não fosse roubada até que alguém da família tivesse a chance de ir apanhá-la. Sem dúvida haveria uma multa a ser paga, mas esse seria o menor dos problemas quando descobrissem a verdade sobre seu desaparecimento.

Jack fechou os olhos com força para não chorar ao lembrar-se da expressão entristecida do tio na véspera do Ano-Novo, quando a família inteira se reunira para um jantar especial preparado por Jenny.

Então se sentira tentado a contar tudo a Jon, mas acabara calando-se.

Uma única pessoa poderia responder as per­guntas que o atormentavam e essa pessoa era seu pai. Se o tio realmente o amasse, o teria com­preendido e não... Desde o ano anterior, vinha sendo tomado de um ressentimento crescente que lhe amargurava os dias, roubando-lhe o sossego.

O tio soubera muito bem o quanto ansiava en­contrar o pai, vê-lo, falar com ele. Entretanto pa­recera não querer alimentar suas esperanças.

— Creio que cabe a David nos encontrar, não o contrário — Jon dissera gentil, balançando a cabeça de um lado para o outro.

— Você está querendo insinuar que meu pai não quer ser encontrado? — Jack o pressionara irritado.

— Receio que sim. Todas as minhas tentativas de localizá-lo deram em nada.

Porém Jon devia ter lhe mentido, pois aqui estava Max, pronto para embarcar para a Jamaica e disposto a trazer David de volta. O tio com certeza soubera do paradeiro de seu pai durante todo o tempo. Sem que pudesse evitar, Jack deu vazão às lágrimas, a mão sob o travesseiro agarrada ao passaporte.

Precisava partir, tudo estava planejado. Max viajaria na primeira classe e ele, na econômica. Portanto, não existia a menor chance de os dois se encontrarem até depois de o avião ter aterrissado na Jamaica. E quando chegassem lá, já não faria diferença.

Apesar da apreensão e do medo, Jack acreditava ser tarde demais para voltar atrás. Enfrentaria o que,quer que lhe estivesse reservado.

Seu pai... O que estaria David fazendo agora? Lembraria-se do filho abandonado alguma vez? Bastava pensar no pai para experimentar um mis­to de raiva e desamparo. Joss não tinha idéia do quanto era feliz e do quanto o invejava. Angus­tiado, fitou o primo adormecido na cama ao lado. Os dois continuavam a dividir o mesmo quarto, embora, depois do casamento de Louise e da par­tida de Katie, nada os impedia de ocuparem apo­sentos separados.

Não tinha dúvidas de que Joss ficaria magoado por não ter lhe confidenciado seus planos, quando estavam acostumados a partilhar tudo. E o tio o aceitaria de volta depois de havê-lo enganado? Ou o julgaria muito parecido com pai para aceitá-lo como futuro sócio da firma?

Jack queria seguir os passos do tio porém, em primeiro lugar, precisava ter certeza de que merecia, de que seu caráter não fora manchado pelo fato de ser filho de quem era. Exausto, fechou os olhos.

A enormidade da tarefa a sua frente pairava no ar como uma sombra ameaçadora, o firme pro­pósito de ir até o fim começando a enfraquecer. Ainda havia chance de mudar de idéia. Ainda ha­via tempo. Ninguém sabia de nada. Mas não, não cederia aos medos, à insegurança. Sabia não ser possível levar a vida adiante até que livrasse a alma daquele tormento, até que enfrentasse o fan­tasma do pai.

Cerrando os dentes com força, Jack sufocou a nova onda de lágrimas. Não tornaria a chorar. Apenas crianças choravam e já não era um me­nino. Em menos de dois anos atingiria a maiori­dade e seria, oficialmente, adulto.

 

                                                         CAPITULO VI

As crianças haviam sido deixadas na escola, Ben encontrava-se na biblio­teca às voltas com a leitura da correspondência e do Times, a cozinha estava imaculadamente lim­pa e Max, sem dúvida, voava para o Caribe. Em resumo, não existia nada no momento que a im­pedisse de pegar o telefone e ligar para a sogra informando-a de que decidira aceitar o convite para ocupar o cargo de Ruth, Nada. Nenhum mo­tivo que a fizesse hesitar. Nenhuma desculpa para que não agisse conforme prometera a si mesma na noite anterior.

Então, nas profundezas sombrias de seu deses­pero, odiara-se por ser incapaz de resistir às ca­rícias de Max. Oh, céus, enojava-a pensar que, apesar de tudo, continuava desejando o marido. Entretanto, um resto de orgulho e respeito próprio insistiam para que descobrisse uma maneira de se libertar daquela relação destrutiva.

Cuidar de duas crianças pequenas, de um ho­mem velho e de uma casa ainda mais velha podia absorvê-la fisicamente, porém de pouco servia para ajudá-la a manter a mente ocupada, impe­dindo-a de se entregar à miséria emocional que seu casamento se tornara. Com certeza o trabalho que Jenny estava lhe oferecendo iria distrai-la, fazê-la esquecer por algumas horas a mentira em que vivia.

A sogra enfatizara sua extrema facilidade para lidar com números. Sim, era verdade. Raciocínio lógico sempre fora seu ponto forte. Adorava esta­belecer ordem dentro do caos. Todavia receava não estar à altura da posição que lhe era oferecida. Temia não ter as qualidades necessárias para jus­tificar a confiança que Jenny lhe depositava. Caso se revelasse um completo desastre, como iria su­portar mais essa humilhação pública?

Por outro lado, já devia se sentir confortável no papel de humilhada. Afinal, suspeitava de que as infidelidades de Max fossem de conhecimento geral. Claro que ninguém da família tocava no assunto. Tullah e Olívia eram gentis quando a visitavam semanalmente, para tomar chá. Sendo as três mães de crianças pequenas, tinham muito em comum além do parentesco. Enquanto a con­versa girava em torno dos filhos e dos problemas domésticos em geral, todas trocavam experiên­cias como iguais. Entretanto, bastava o tema pender para os aspectos mais íntimos do casa­mento para que Tullah e Olívia trocassem olha­res rápidos e mudassem de assunto, não que­rendo acentuar as diferenças existentes entre seus maridos e o dela.

Pois não havia sombra de dúvidas de que Maddy vivenciava uma relação deficiente. Saul, marido de Tullah, mostrava-se, através de grandes e pe­quenos gestos, ardentemente apaixonado pela es­posa e Caspar, o marido americano de Olívia, tam­pouco escondia o quanto amava a mulher.

Maddy adorava a companhia das duas, o ca­lor humano que transmitiam, a amizade que partilhavam. Mas só ela sabia como desejava ter alguém com quem pudesse conversar aber­tamente sobre seus verdadeiros sentimentos, sobre o desespero, a dor e o vazio de seu ca­samento, sobre a culpa que carregava diante do medo de estar expondo as crianças a efeitos danosos.

Depressa, ela apanhou o telefone.

Jenny atendeu depois do quarto toque.

— Sou eu, Maddy. — Uma breve pausa. — Se você estava mesmo falando sério quando me pediu para ocupar o lugar de Ruth, então... aceito. Aceito o convite.

— Verdade? Oh, querida! Que notícia maravilhosa! As palavras calorosas e animadas revelavam satisfação e genuíno alívio também. De repente, contagiada pela alegria da sogra, Maddy sentiu os ânimos se erguerem. Tendo sido lhe negado durante tanto tempo qualquer prazer, era-lhe di­fícil reconhecer o sentimento que agora lhe inun­dava a alma.

Prometendo a Jenny acompanhá-la ao local onde seria construída a nova unidade do Lar Mamães e Bebês e à reunião com o empreiteiro con­tratado para tocar a obra, Maddy desligou o te­lefone e jogou-se na cadeira mais próxima, deter­minada a saborear aquela extraordinária e des­conhecida mistura de sensações. Orgulho, conten­tamento e felicidade.

A força de suas emoções era tal, que a cabeça parecia girar. Tomara uma decisão. Aceitara o convite e comprometera-se a realizar um trabalho. Tarde demais para voltar atrás.

Havia coisas a resolver, planos a serem tra­çados. Pediria a Tullah que cuidasse das crian­ças naquela tarde. Ansiosa, tornou a apanhar o telefone.

— Você vai fazer o quê? Querida, mas que ótimo! — Tullah respondeu excitada ao saber das novi­dades, prontificando-se imediatamente a tomar conta de Léo e Emma durante a tarde.

— Jenny e eu iremos nos reunir com o emprei­teiro às quatro horas e creio que só estaremos livres por volta das seis. Isso significa que você terá que servir o jantar aos meus filhos.

— Perfeito. Afinal, você já cuidou dos meus tan­tas vezes que será um prazer retribuir a gentileza. Ouça, por que depois de apanhar as crianças na escola você não vem almoçar comigo? Isso lhe dará tempo suficiente de ir para casa e se trocar antes de encontrar-se com Jenny.

— Não tenho muita certeza de que estou à al­tura do cargo — Maddy confessou a Tullah enquanto as duas saboreavam uma xícara de chá após o almoço.

— Claro que está! Obviamente Jenny pensa da mesma forma, ou não teria pedido para você as­sumir o lugar de Ruth. Porém — Tullah fez uma pausa, inspecionando Maddy de alto a baixo —, na minha experiência, um novo emprego implica numa mudança de imagem.

— Uma mudança de imagem? Não creio que...

— Confie em mim. Sei do que estou falando. Impossível discordar. Antes de casar-se com

Saul, Tullah se dedicara apenas à carreira e fora tremendamente bem-sucedida.

— Não sou o tipo de pessoa que...

— Bobagem. Deixe tudo comigo. Há séculos morro de vontade de dar um trato no seu visual.

Maddy calou-se, embora desejasse expressar sua certeza de que não valia a pena o esforço de tentar criar uma nova imagem. Tinha consciência do quanto lhe faltava charme, do rosto destituído de beleza, dos cabelos sem estilo, do corpo incapaz de envergar uma roupa com a elegância natural de Tullah.

Tão logo se viu sozinha, entretanto, Tullah te­lefonou para Olívia, ansiosa para contar-lhe as novidades.

— Agora que Jenny persuadiu Maddy a aceitar o cargo de tesoureira, teremos a oportunidade ideal de fazê-la desabrochar. Com o corte de ca­belos certo e roupas adequadas...

— Será preciso mais do que um corte de cabelos e algumas roupas novas para reparar o estrago causado por Max na auto-estima de Maddy — Olívia a interrompeu, não sem uma pontada de tristeza.

— Sim, eu sei. Porém um pouco de confiança em si e a chance de refletir a beleza interior que a sabemos possuidora seja exatamente o neces­sário para que as feridas na alma de nossa querida amiga comecem a cicatrizar.

— Entendo seu ponto de vista e gostaria muito de que você tivesse razão.

— Creio que deveríamos pelo menos tentar — Tullah argumentou decidida. — É melhor do que não tomar uma atitude por receio de falhar,

— Está bem. Qual é sua idéia?

— Se você puder cuidar dos meus quatro, além de Léo e Emma, durante um dia inteiro, levarei Maddy para fazer compras e depois ao salão.

— Hum... não vejo nenhum problema em cooperar.

Ainda tocava o coração de Olívia a maneira de Tullah referir-se aos três filhos do primeiro casa­mento de Saul. Ela amava os enteados como ama­va a criança gerada em seu ventre, frisando sem­pre ser mãe de quatro filhos e não madrasta de três. Olívia não coubera em si de contentamento quando seu primo favorito e sua melhor amiga haviam se apaixonado.

— O plano me parece perfeito. Só não será fácil persuadir Maddy a passar um dia inteiro fazendo compras em Chester.

— Não iremos a Chester.

Por um momento Olívia não soube o que dizer. Haslewich era uma cidadezinha bonita sim, to­davia duvidava de que Tullah pudesse encontrar nas lojas dali o necessário para compor o novo visual de Maddy.

— Se você está pensando em arrastá-la até Manchester, é melhor esquecer.

— E quem falou em Manchester? Londres será nosso destino — Tullah a informou, rindo diante do espanto da outra. — Poderemos pernoitar na casa de Max. Aliás, creio que dois dias é o mínimo para uma boa reforma no guarda-roupa e uma visita ao cabeleireiro. Além, é claro, das lojas de brinquedos. As crianças estarão esperando alguns presentinhos, não é?

— Maddy nunca irá concordar com isso. E loucura.

— Concordará sim. Jenny e eu insistiremos para que o faça. Lembre-se de que foi você quem apostou na impossibilidade de Maddy aceitar ocu­par o lugar de Ruth.

— E verdade. Por sorte, me enganei.

— Oh, mal posso esperar para ver a cara de Max quando ele voltar da Jamaica e encontrar a esposa transformada numa bela mulher.

— Não importa o quanto você altere a aparência exterior de nossa amiga — Olívia a avisou gen­tilmente —, quando não se pode mudar o interior. O mesmo se aplica a Max. Ele gosta de ferir as pessoas. Sente prazer em destruir-lhes a auto-estima. Ninguém mudará isso ou o fato de Maddy ser vulnerável ao marido. Nem com o corte de cabelos da moda, ou vestindo as roupas das grifes mais elegantes de Londres, ela deixará de ser o que é.

Quando o táxi parou diante do hotel de Max, um dos complexos turísticos mais exclusivos da ilha, Jack fechou os olhos por um instante, a cla­ridade do sol do Caribe dando a impressão de cegá-lo. Deliberadamente se atrasara no aeropor­to. Fora o último a apanhar a bagagem na esteira, temendo ser descoberto pelo primo. Entretanto, tendo viajado na primeira classe, à custa do avô, Max recebera tratamento especial ao desembar­car, retirando as malas e deixando o aeroporto bem antes dos outros passageiros.

Depois do frio intenso da Inglaterra, típico de janeiro, o calor da Jamaica atingia Jack com o impacto de uma força física. Todavia o suor que lhe encharcava as roupas não era causado pelo sol inclemente.

Planejara tudo com cuidado. Nada poderia sair errado. Analisara cada detalhe vezes sem conta, ensaiara mentalmente a cena que estava para se desenrolar à exaustão, até se sentir preparado para rebater qualquer possível argumento de Max, até se convencer, por completo, de que do­minaria a situação. De dentro do bolso da jaqueta, Jack tirou o passaporte. Inspirando fundo, abriu-o e, uma por uma, arrancou as páginas do documento, rasgando-as. Tão logo teve certeza de que seria impossível consertar o estrago, guardou os pedaços de papel no bolso.

Pronto. Agora não havia como Max mandá-lo de volta para casa.

Tomando coragem, pôs-se a caminhar na direção do hotel. Fora um choque descobrir que o primo não iria se hospedar onde imaginara a princípio e sim numa área isolada da ilha, cujo acesso se dava através de uma estrada longa e sinuosa. Homens trajando fardas imaculadamen­te brancas e portando armas guardavam a en­trada do hotel.

Junto dos portões e ao redor de todo o complexo turístico, placas enormes haviam sido colocadas, avisando aos hóspedes e visitantes para não per­manecerem do lado de fora das cercas, a não ser que estivessem em grupo, e nem carregar consigo objetos de valor, ou ostentar jóias.

Entretanto, bastava cruzar os portões e a rea­lidade tornava-se outra. Um olhar rápido foi su­ficiente para Jack ter certeza de que seria impos­sível hospedar-se ali. Não tinha dinheiro suficien­te para pagar nem sequer uma diária. O que Max estaria fazendo num local daqueles, que mais se assemelhava a um spa? Sem dúvida o sensato teria sido manter-se no centro de Kingston para conduzir as investigações, não refugiar-se num lo­cal isolado. Relutante, Jack entrou no saguão.

Max acabara de sair do chuveiro quando o te­lefone tocou. Parado diante do espelho enorme, observou o reflexo do próprio corpo nu enquanto a telefonista o avisava de que havia alguém na recepção procurando-o.

Fora mais rápido do que imaginara, pensou divertido, recolocando o fone no gancho. A es­tonteante aeromoça ruiva, a quem dera o tele­fone do hotel no final do vôo, não parecia o tipo indeciso.

Não que estivesse reclamando, claro. Afinal, ela mesma o informara de que teria dois dias de li­cença na Jamaica antes de retornar ao trabalho. E pelo que pudera observar no saguão, não seria difícil substituí-la à altura, considerando a beleza das hóspedes.

Todavia, não intencionava passar o tempo in­teiro livre à procura de sexo. Ouvira falar da qua­lidade dos campos de golfe existentes na ilha.

Estava determinado a regressar à Inglaterra com um estilo mais apurado e maior habilidade no manejo do taco. Luke sempre conseguia der­rotá-lo e estava na hora de inverter o quadro. Seria um prazer surpreender o primo. Um mês de prática lhe daria a segurança necessária para desafiá-lo e vencê-lo.

Quanto à missão de encontrar David... Tranqüilo, Max jogou a tolha para o lado e vestiu-se. Tomara as precauções necessárias antes de partir, munindo-se do endereço de algumas agências de detetives particulares. Uns poucos telefonemas para o avô, expondo uma série de pistas auspi­ciosas, manteria o velho sossegado. Naturalmente essas pistas acabariam se revelando infundadas e retornaria a Haslewich sem informações con­cretas sobre o paradeiro do tio.

O avô deveria saber da impossibilidade de loca­lizar alguém que preferia manter-se desaparecido.

Antes de sair do quarto, Max olhou-se no es­pelho, um sorriso de satisfação iluminando as fei­ções viris. Não era seu estilo aquela maneira vul­gar de vestir-se dos outros hóspedes. Jamais an­daria pelo saguão de um hotel cinco estrelas usan­do sandálias e short. Sentia-se bem trajando calça de sarja, camisa pólo e mocassins. Também tinha consciência de corresponder à imagem ideal que uma mulher de classe fazia de um homem em viagem de turismo.

Com o coração na boca, Jack observou o primo aproximar-se, preparando-se para a cena desagra­dável que seria obrigado a enfrentar.

— Olá, Max.

— Jack! O que está acontecendo? O que você está fazendo aqui?

Vendo a fúria estampada nos olhos do primo, Jack engoliu em seco, um medo súbito quase o impedindo de respirar.

— Vim ajudá-lo a encontrar meu pai. É meu direito — ele falou trêmulo, obrigando-se a emitir as palavras ensaiadas tantas vezes.

— Seu direito! Não me venha com essa idiotice.

Ao sentir os dedos ásperos de Max pegarem-no pelo braço como se fossem garras, Jack ficou rí­gido, a dor intensa fazendo-o vacilar.

— Não sei que diabos você pensa estar fazendo aqui, moleque, mas vou resolver a questão agora.

— Já lhe disse. Vim encontrar meu pai.

— Seu pai? Seu pai não quer ser encontrado. Ele não será encontrado.

Enraivecido, Max sacudiu o rapazinho com força.

Deus, essa era a última coisa que lhe faltava. Seus planos acabariam arruinados. De forma alguma suportaria a presença daquele menino estúpido.

— Dê-me seu passaporte — ordenou furioso. — Você não vai ficar na Jamaica. Vou mandá-lo de volta para casa no próximo avião. Telefonarei para meu pai e...

— Impossível. Não tenho meu passaporte co­migo. Eu o perdi. — O olhar que o primo lhe lançou o fez estremecer de puro pavor.

— Você... fez... o quê? — Max indagou devagar, espaçando as palavras propositadamente para que soassem ainda mais ameaçadoras. — Acho que você está mentindo para mim. De fato, espero que esteja mesmo mentindo, porque se não estiver... Por acaso já lhe passou pela cabeça o que as autoridades desse país fazem com imigrantes ilegais, com visitantes sem a documentação em ordem?

— Eu não entrei ilegalmente no país. Tinha meu passaporte comigo. Só não o tenho mais.

Jack obrigou-se a responder, esforçando-se para enfrentar a ira do outro.

Afinal, Max era apenas um primo. Não tinha nenhuma autoridade sobre sua vida. Ele, sim, pos­suía o direito de estar na Jamaica, à procura do próprio pai.

— Acho melhor conversarmos em particular. Venha comigo, moleque. — Depois de alguns ins­tantes de silêncio, Max continuou, a voz baixa e fria: — Se essa história sobre a perda do passa­porte for verdade, então acredite-me, você está metido numa encrenca. Numa encrenca monu­mental. Do tipo que o fará passar seus dias mo­fando numa prisão, pois é para lá que as autori­dades irão mandá-lo quando descobrirem estar li­dando com um visitante ilegal. Claro que é meu dever informá-los.

— O cônsul britânico — Jack começou brava­mente, embora estivesse morrendo de medo. As coisas estavam ficando piores, muito piores do que pensara. Imaginara a fúria de Max, soubera que o primo tentaria despachá-lo para casa. Mas ser ameaçado com o fantasma da prisão nunca, em momento algum, lhe ocorrera. Agora, sentia-se à beira do pânico e todos os argumentos cuidado­samente ensaiados pareciam lhe fugir enquanto lutava para manter o controle das emoções. Ape­sar do ar-condicionado do saguão, seu corpo estava banhado de suor, a cabeça latejava, o estômago doía. Todavia, o mais terrível, é que receava não ser capaz de evitar as lágrimas.

— O cônsul britânico não resolverá nada. Você sabe o que o consulado pensa de idiotas como você? Ninguém se importa a mínima com o que possa lhes acontecer.

— Eles me deixarão telefonar para casa. Fa­larei com tio Jon. — De repente Jack percebeu haver atingido o ponto fraco do primo. Estranho que Max, dentre todas as pessoas, reagisse as­sim, subitamente preocupado, à simples menção do nome do pai. Afinal, Jon era tido como o mais gentil e cordato dos homens. — A polícia me permitirá entrar em contato com meu tio — tornou a afirmar, agarrando-se a uma última esperança.

Max raciocinava depressa. Oh, sim, Jack teria direito de ligar para casa e a primeira coisa que seu pai faria seria tomar um avião decidido a es­clarecer, pessoalmente, a confusão em que o so­brinho se metera. E uma vez na Jamaica...

Seu pai não era nenhum tolo. Bastaria pôr os pés naquele hotel para saber não ter sido nunca sua intenção procurar David. A opinião alheia lhe era indiferente, entretanto o que o pai faria a respeito interessava-o sim. Se Jon conseguisse convencer seu avô de que ele queria apenas des­frutar de férias pagas, sem dúvida a aventura estaria terminada.

Não podia permitir que o pai viesse em auxílio de Jack. Tampouco desejava ser obrigado a su­portar a presença do primo. Claro que Jack não tinha dinheiro para hospedar-se ali e não havia como mandá-lo para casa até a obtenção de um novo passaporte.

— Venha comigo — Max o instruiu, caminhando para um dos elevadores. Não lhe restava outra alternativa a não ser ligar para o pai, ele mesmo, e contar o acontecido. Pediria que lhe mandassem dinheiro para cobrir as despesas de Jack e daria um jeito de alojar o rapaz num hotelzinho barato até que a questão do passaporte fosse resolvida. Praguejando baixinho, Max empurrou o primo para dentro do elevador.

Era tarde quando Jenny chegou em casa, bem mais tarde do que pretendera chegar. Mas ficara tão entusiasmada com o desempenho de Maddy durante a reunião com o empreiteiro da obra, que insistira em levá-la para tomar um lanche num dos cafés mais aconchegantes da cidade, ansiosa para discutir alguns detalhes da conversa.

— Você foi sagaz ao notar, imediatamente, o erro contido no orçamento apresentado. De fato havia um engano sobre os custos do serviço hi­dráulico — Jenny aplaudira a nora. — Oh, que­rida, dou graças aos céus por ter conseguido con­vencê-la a se unir a nós. O próximo passo será marcar uma reunião com o contador.

A medida que o negócio fora se expandindo, todo o serviço de contabilidade, anteriormente a cargo de Ruth, acabara sendo entregue a uma empresa especializada. — Quem é o contador responsável?

— Griff Owen, de Chester. Foi Luke quem o recomendou. Acho que os dois são velhos amigos. Freqüentaram a escola juntos.

— Griff Owen. Parece um nome galês.

— E é — Jenny concordara. — Vou telefonar para ele e combinar um encontro entre vocês.

— Eu gostaria muito se pudéssemos adiar essa reunião um pouquinho mais. Prefiro me inteirar por completo de toda a situação financeira de nos­sa instituição antes de me reunir com o contador.

Dali a meia hora, as duas se despediram com um abraço carinhoso. Maddy, ansiosa para reen­contrar Léo e Emma, que deixara brincando com os filhos de Tullah, Jenny, louca para chegar em casa.

— Desculpe-me o atraso. — Ela beijou o marido no rosto e rumou para a cozinha, colocando ime­diatamente água para ferver. Um chá seria bom para espantar o frio. — Onde estão os rapazes?

— Joss resolveu fazer uma visita a Caspar. Diz que é melhor não o esperarmos para jantar.

— Oh, Jon, Maddy foi maravilhosa na reunião de hoje a tarde. Descobri um novo lado da per­sonalidade de nossa nora. Claro que eu sempre a julguei competente. Afinal, ninguém saberia li­dar com uma criatura difícil feito Ben se não pos­suísse... — Jenny fez uma pausa, apreensiva dian­te da expressão do marido. — Que foi? Alguma coisa errada? — indagou ansiosa, o momento de satisfação diluindo-se no ar.

— Acabei de receber um telefonema de Max.

— De Max? Mas por quê?

— Jack está com ele.

— Jack?! Não é possível! Não pode ser! Max está na Jamaica.

— Aparentemente, Jack também.

— Como? Você falou com o menino?

— Sim — Jon confirmou desanimado. — Pelo visto ele usou o dinheiro guardado na poupança para comprar a passagem.

— Tudo isso aconteceu por que Max viajou à procura de David, não é?

— Sim. Jack parece pensar que se alguém tem o direito de sair em busca de David, então essa pessoa deve ser ele.

— De fato Jack é filho de David — Jenny as­sentiu. — Porém agir loucamente, e por trás das nossas costas, é quase imperdoável. Como justi­ficar tal loucura? Sem dúvida Max irá colocá-lo no primeiro avião para Londres, certo?

— Receio que não será tão simples assim. Para começar, Jack perdeu, ou destruiu, o próprio pas­saporte. Portanto, será obrigado a permanecer na­quele país até que um novo documento seja pro­videnciado. — Por um breve instante, Jon desviou o olhar da esposa. Ao recomeçar a falar, a voz profunda relevava uma imensa tristeza e um enor­me cansaço. — Jack diz que só partirá da Jamaica quando Max der a busca por encerrada.

Jenny entendia a preocupação do marido e não lhe tirava a razão,

— Ele não pode fazer isso. E a escola? Os estudos? Oh, você tem que dar um jeito de trazê-lo de volta.

— Não há nada a ser feito.

— Mas Jack ainda não completou dezoito anos — Jenny protestou veemente. — E menor de idade.

— Sim, ele ainda não atingiu a maioridade, po­rém eu não sou seu guardião legal. Tiggy e David continuam sendo os pais de Jack. Tiggy está pas­seando pela Austrália com o novo marido e David, claro, permanece escondido. Na verdade, para ser honesto, não me agrada pressionar o menino de­masiadamente neste caso. Jamaica não é o local onde eu gostaria de vê-lo vivendo caso decida...

— Desaparecer — Jenny completou angustiada, percebendo o marido vacilar. Jack podia não ser seu filho, carne de sua carne, mas o amava como se o fosse e imaginá-lo só, enfrentando toda sorte de perigos, a enchia de pavor. — O que vai acon­tecer agora, meu Deus? O que ficou resolvido na sua conversa com Max?

— Bem, Max pretendia acomodar Jack em al­gum tipo de pensão barata, no centro de Kingston, até que providenciássemos um novo passaporte. Todavia a idéia não me agradou. Falei com o ge­rente do hotel e soube que Max está hospedado numa suíte com camas duplas. Por enquanto, Jack dividirá o quarto com nosso filho.

— Max concordou?

— Não a princípio. Precisei persuadi-lo, lem­brando-o de que é o avô quem está pagando as contas. Naturalmente pagarei as despesas de Jack. Eu só queria que o menino houvesse discu­tido o assunto conosco, que nos tivesse contado suas aflições.

— De repente, Jon começou a rir. — Eu daria tudo para ter visto a cara de Max quando Jack apareceu no hotel.

Marido e mulher trocaram um olhar significativo.

— A presença de Jack sem dúvida irá atrapa­lhar certos planos de diversão — Jenny concordou séria.

Maddy inclinou-se para beijar o rostinho do filho adormecido e cobri-lo com o acolchoado.

Ao regressarem da casa de Tullah, Léo não es­condera o nervosismo, perguntando inúmeras vezes se o pai estaria em Queensmead, esperando-os.

Tristemente, ela o tranqüilizara, pensando que a esmagadora maioria das crianças daquela idade ansiava ver o pai, não o contrário.

Oh, mas como apreciara a tarde passada na companhia da sogra!

As terríveis dores de estômago que a tinham acometido, fruto de insegurança, desapareceram no momento exato em que começara a se envolver nas questões discutidas com o empreiteiro.

Assim como Ruth e Jenny, Maddy simpatizava com a causa das jovens mães solteiras que luta­vam para dar aos filhos a segurança de um lar digno e que não possuíam quem as apoiassem numa fase tão delicada e penosa de suas vidas.

Duas casas espaçosas já haviam sido compradas e convertidas em pequenos apartamentos com o dinheiro arrecadado em eventos beneficentes. Cada apartamento tinha sua própria cozinha e banheiro e todos eles desfrutavam de um enorme jardim comum, projetado especialmente para o la­zer das crianças.

O gerenciamento dos flats, coleta de aluguéis, manutenção geral das propriedades e a escolha de inquilinos, ficavam também a cargo do comitê de caridade. Ou seja, nada acontecia sem a apro­vação de Ruth e a supervisão de Jenny.

Até casar-se tardiamente, Ruth cuidara dos as­pectos financeiros da obra e embora Jenny tivesse se esforçado para substituí-la à altura, conhecia suas limitações e sabia não ter aptidão numérica.

— Você, com certeza, tem esse talento — ela dissera a Maddy.

A nora, porém, limitara-se a dar de ombros, modesta, afirmando que facilidade para lidar com números estava longe de ser um talento.

— É um dom sim — Jenny insistira categórica. — Você não faz idéia de como se sinto aliviada de poder passar este encargo para suas mãos capazes.

De fato, o cargo que havia aceitado ocupar era muito mais complexo do que Maddy imaginara. En­tretanto, em vez de se sentir preocupada diante da enorme responsabilidade, experimentava uma sen­sação de absoluta alegria, de verdadeiro prazer.

O que a preocupava, sim, era a determinação de Tullah em lhe criar uma nova imagem. Triste, ela sorriu para si mesma. Não que desconfiasse das vantagens proporcionadas por um visual ade­quado. A questão era que não julgava possível ter a própria aparência melhorada. Milagres não costumam acontecer.

Quando adolescente, sua mãe, num dos breves momentos em que se dignara a prestar atenção à filha, chegara a um veredicto incontestável. Em­bora estivesse para completar dezoito anos, Mad­dy, com seu uniforme de colegial, bochechas re­dondas e cabelos escorridos, mais parecia ter quatorze. Como último recurso, a mãe a despachara para um spa, avisando-a de que deveria aproveitar a temporada de duas semanas para perder peso e aprender a "tirar o melhor partido possível de sua aparência sem graça." Palavras textuais.

Maddy odiara cada segundo da experiência. Tí­mida e insegura, não encontrara nenhum ponto em comum com as outras mulheres, quase todas de meia-idade.

Os quatro quilos perdidos durante a desastrosa temporada no spa foram rapidamente recupera­dos, seguidos de mais dois na volta à escola. As aulas de maquiagem tampouco haviam adiantado alguma coisa, o que servira apenas para reforçar o que a mãe já lhe dissera várias vezes: sendo destituída de beleza e graciosidade, jamais con­seguiria atrair um homem.

Ainda assim, conhecendo a verdade sobre si mesma, permitira-se acreditar que Max se apai­xonara por ela.

Com que facilidade decidira fechar os olhos à verdade, enganando-se feito uma tonta. O pior é que ao se iludir, roubara dos filhos o direito de terem um pai que os amasse. E isso doía muito mais do que a certeza de que o marido nunca a desejara.

Era engraçado como, quando sozinha, conseguia ser perfeitamente racional na análise de seu ca­samento, urna relação que poderia ser descrita apenas como doentia. Porém, bastava o marido entrar pela porta do quarto e tocá-la para que...

Não. Não queria pensar nisso agora. Não queria pensar em Max.

 

                                             CAPITULO VII

Duas semanas depois, Maddy parou diante da vitrine de uma das lojas mais chiques de Chester e, sorrateiramente, num misto de nervosismo e exaltação, estudou a própria imagem refletida. Estava a caminho de sua primeira reunião com Griff Owen, con­tador da instituição beneficente da qual se tor­nara tesoureira. Há anos não se sentia tão ele­gante. O terninho preto, de caimento impecável, fazia jus ao preço exorbitante que pagara. O corte reto da calça e o paletó ajustado na cintura evidenciavam as formas de seu corpo de manei­ra sugestiva e discreta. Todavia, apesar das ten­tativas de Tullah em convencê-la a usar uma blusa decotada sob o paletó, optara por uma camisa de seda marfim.

— Mas você deveria vestir a blusa. Afinal, pos­sui belas curvas — Tullah protestara, apontan­do-lhe os seios fartos e empinados.

— Não, não posso usar nada assim. E muito...

— Revelador? Perigoso? — a outra sugerira suavemente.

— Apenas não combina comigo — Maddy afir­mara enrubescendo.

Entretanto, não eram as roupas novas o que a levavam a andar com altivez e a faziam parar defronte das vitrines para examinar, entre des­crente e maravilhada, o próprio reflexo. O grande responsável por sua transformação física fora o corte de cabelos que Tullah a estimulara a tentar. Bem, talvez "estimulara" não fosse exatamente a palavra certa. A amiga praticamente a arrastara para um dos salões mais exclusivos de Londres onde conseguira, só Deus sabe usando quais ar­gumentos, convencer o cabeleireiro preferido de nove entre dez modelos a atendê-la. Depois de passar pelo menos meia hora discutindo com o "gênio da tesoura" o tipo de corte que mais se adaptaria às feições delicadas de Maddy, Tullah dera-se por satisfeita e a transformação tivera início.

Maddy ainda sentia-se corar ao lembrar-se dos elogios do cabeleireiro à beleza de seu rosto. Seu rosto comum, redondo e sem graça. Todavia tais adjetivos já não correspondiam à realidade. Talvez por causa do corte chanel clássico, combinado ao ligeiro clareamento dos fios, ou devido aos quilos perdidos nos últimos meses. Não sabia explicar o que acontecera. O fato é que, ao voltar daquela viagem a Londres, sua aparência estava tão ra­dicalmente mudada que mesmo agora, três dias depois, precisava beliscar-se para ter certeza de que essa mulher sofisticada, bonita e de expressão feliz era ela.

"Mamãe bonita!", Emma exclamara enquanto Léo, o querido e precioso Léo, se atirara em seus braços e a apertara com tanta força que quase a sufocara.

Fora agradável fazer compras com Tullah. Há anos não dedicava alguma atenção aos seus inte­resses pessoais. Contudo perdera um pouco da ale­gria ao descobrir, acidentalmente, várias peças ín­timas femininas guardadas na cômoda da suíte. Peças que não lhe pertenciam.

Não era nenhuma tola. Sabia que Max costu­mava traí-la. Ainda assim doera-lhe a alma ter nas mãos provas concretas da infidelidade.

Achara divertida a reação dos pais à sua nova aparência quando os quatro, naturalmente Tullah fora incluída, se encontraram para jantar num restaurante freqüentado pela alta classe. Depois de umas poucas e desinteressadas perguntas so­bre Léo e Emma, sua mãe passara o tempo inteiro falando a respeito da importância do cargo do ma­rido e da posição de destaque que ambos ocupa­vam na sociedade londrina. Um beijo frio da mãe e um abraço desajeitado do pai marcaram o fim da noite. Naquele instante Maddy tivera certeza absoluta de haver feito a melhor coisa possível pelo bem-estar emocional dos filhos ao decidir mo­rar em Haslewich, onde as crianças cresciam cer­cadas pelo amor dos avós e dos tios.

Podia não ter dado a Léo e Emma o tipo de pai que os dois mereciam, mas sem dúvida se empenhava ao máximo para fazê-los aprender, através do convívio com os parentes de Max, como uma família amorosa era importante na forma­ção do caráter e necessária para a estabilidade emocional.

Porém, enquanto caminhava pelas ruas antigas de Chester, Maddy tinha outras preocupações em mente que não fossem os filhos.

Cada noite dos últimos dez dias, após colocar as crianças na cama e atender às necessidades de Ben, tinha sido passada na cozinha, onde se fechava para estudar, em paz, a situação finan­ceira da instituição de caridade cuja tesouraria assumira. Desejava se inteirar dos detalhes e ter uma visão global da obra. Descobrira que, apesar de todo o dinheiro levantado por Ruth durante anos, através de eventos beneficentes, e de todos os esforços de Jenny, Olívia, Guy Cooke e muitos outros, o Lar Mamãe e Bebes estava a ponto de passar a operar no vermelho.

Os aluguéis cobrados às inquilinas eram prati­camente simbólicos e mal cobriam as despesas de manutenção dos apartamentos. Se pretendiam construir uma nova unidade, como fazê-lo sem que fossem consumidos por dívidas monumentais?

Precisavam encontrar uma maneira de aumen­tar o capital. Na sua opinião, o procedimento ideal seria investir a maior parte do dinheiro arreca­dado e usar os rendimentos para cobrir os gastos fixos.

Ninguém discutia o fato de tratar-se de uma boa causa. Todavia, mesmo contando com a generosidade do povo de Haslewich, estava se tornan­do cada vez mais difícil obter fundos para manter a instituição em funcionamento em virtude do nú­mero crescente de jovens mães solteiras.

— Já se foi o tempo em que uma garota com problemas era amparada pela própria família — Libby, tia de Guy Cooke, dissera a Maddy certa tarde, quando as duas tomavam chá no escritório do comitê, juntamente com Chrissie. — Na minha geração, não era incomum uma criança crescer chamando a própria avó de mãe, tendo sido cria­da para pensar assim. Agora, claro, tudo é bem diferente.

— As pessoas já não podem contar com o apoio familiar de antigamente — Maddy concordara com uma pontada de tristeza.

— É verdade. Com freqüência a mãe da garota grávida tem que trabalhar fora. Além de tudo, as casas modernas parecem não ter sido construídas para abrigar várias gerações. Por exemplo, Mark, meu filho mais velho, terminou a faculdade há poucos meses. Como ainda não arranjou empre­go, tem falado em levar a namorada para morar conosco. — Deus me livre disso! — Chrissie exclamara, revirando os olhos e fazendo-as rir.

Maddy ficara conhecendo Chrissie Cooke, espo­sa de Guy, através de Jenny e a simpatia fora mútua e imediata. Jenny e Guy, anos atrás, ti­nham sido sócios numa loja de antiguidades. Re­solvida a se dedicar por completo à obra assistencial fundada por Ruth, Jenny acabara venden­do sua parte do negócio ao sócio, que não demorara em expandi-lo. Além de empresário, Guy torna­ra-se também o organizador de uma feira anual de antiguidades, nacionalmente conhecida e patro­cinada por lorde Astlegh, que oferecia os jardins da própria mansão para que o evento ocorresse.

Guy, além de simpático, possuía um faro ex­cepcional para bons negócios. No momento, ele e a mulher estavam absorvidos na construção de uma nova residência, especialmente projetada para acolher uma "ninhada" de crianças, segundo as palavras brincalhonas de Chrissie.

Apesar do interior moderno, o exterior da casa obedeceria ao estilo tradicional, inclusive no tipo de materiais usado.

— Bem Jane Austen — Chrissie explicara a Maddy.

Lembrando-se dos vastos aposentos de Queens­mead e dos intermináveis corredores, Maddy não pôde conter um suspiro de inveja. Há meses vinha tentando, sem sucesso, convencer um construtor local a transformar alguns dos aposentos menores em suítes. Entretanto o homem insistia na possibilidade de que o resultado poderia não ser o esperado, considerando o trabalho hercúleo que teriam pela frente.

— Mas Queensmead tem jardins a perder de vista e aquele maravilhoso salão de baile — Chrissie protestara quando Maddy exprimira seus pensamentos.

A última vez que o salão de baile havia sido usado fora por ocasião do vigésimo-primeiro ani­versário de Ruth, décadas atrás. Além do mais, gostaria de poder redesenhar certas partes dos jardins. Porém, infelizmente, Queensmead não lhe pertencia.

Contudo aquele não era um bom dia para se deter em problemas pessoais, Maddy pensou de­terminada, consultando o relógio e atravessando a rua.

Jenny pouco lhe contara sobre o homem com quem se encontraria dentro de alguns minutos, a não ser que se tratava de um velho amigo de Luke e de um profissional competente.

Fora Luke quem aconselhara Jenny a entregar a contabilidade da obra assistencial nas mãos ca­pazes de Griff Owen assim que o contador de Haslewich anunciara os planos de se aposentar.

O escritório de Owen ficava numa área extre­mamente valorizada de Chester, nas proximida­des do rio.

Uma secretária bem vestida e sorridente aten­deu-a, consultou a agenda e fez sinal para que se sentasse.

Obediente, Maddy sentou-se e apanhou a pri­meira revista que encontrou ao lado do sofá, em­bora se sentisse nervosa demais para ler. Apenas desejava se esconder atrás de algo. Não lhe pas­sara despercebido o olhar de admiração que a se­cretária lançara às suas roupas. Claro que a au­toconfiança aumentara um pouquinho, mas não o bastante para levá-la a esquecer a dor no estô­mago, fruto da apreensão crescente.

E se o contador a tratasse da mesma forma que Max? E se a subestimasse e a fizesse se sentir tola e insignificante?

E se... e se...

Aflita para não se entregar aos pensamentos, Maddy abriu a revista e começou a ler.

O escritório de Griff Owen transpirava elegân­cia. Escrivaninha de mogno e cadeiras de couro, com espaldar alto, se harmonizavam perfeitamen­te com as linhas georgianas da sala imensa. A lareira num canto criava um efeito aconchegante, necessário às entrevistas que ali se realizavam. Franzindo o cenho, Griff colocou o arquivo da obra de caridade sobre a mesa.

Embora a contabilidade estivesse em perfeita ordem, havia indícios claros de que muitas opor­tunidades de aplicar o dinheiro em caixa, e fazê-lo render, tinham sido perdidas. Luke bem o avisara de que Ruth, apesar de competente, sempre se mostrara intransigente em adotar certas regras impostas pelo próprio mercado financeiro.

— Ruth se interessa apenas em preservar a felicidade das pessoas — Luke o informara. — Ela jamais irá permitir que a finalidade prioritá­ria da obra assistencial seja obter lucro.

Em outras circunstâncias, Griff teria deixado a contabilidade do Lar Mamães e Bebes a cargo de um dos outros sócios da empresa a qual dirigia.

Todavia, em nome de uma amizade antiga, resol­vera cuidar pessoalmente do caso.

Uma única coisa o incomodava no momento. Maddy Crighton. Não fora o que Luke falara a respeito da esposa de Max o que o preocupava, e sim o que ele não dissera, apenas sugerira. Talvez não fosse uma boa idéia envolver-se num relacio­namento profissional com a sra. Crighton.

Lembrava-se de visitar Luke e Bobbie recente­mente, depois de ambos haverem regressado dos Estados Unidos, onde tinham passado o Natal. Bobbie, com seu fascinante e charmoso sotaque americano, comentara:

— A pobre Maddy é maravilhosa. Como conse­gue suportar Max nunca serei capaz de entender.

— Não creio que Griff esteja interessado nos problemas conjugais de Max e Maddy, meu amor — Luke interrompera a esposa, tocando-a de leve no braço.

Uma mulher aprisionada num casamento infe­liz sem tomar a menor iniciativa para libertar-se só podia ser, segundo a experiência de Griff, uma criatura fraca, dependente e lamuriosa, à espera de um "príncipe" que viesse salvá-la. Esse tipo de mulher alimentava uma tendência doentia de se agarrar a qualquer homem com quem manti­vesse contato profissional, convencendo-se de que o coitado desejava transformar o conhecimento su­perficial em algo íntimo. Médicos eram vítimas freqüentes dessas fixações. Assim como advogados e... contadores!

Embora não estivesse envolvido com ninguém atualmente, Griff já vivera duas relações sérias e duradouras, a segunda tendo terminado dois anos atrás. Uma vez que ele demonstrara não querer comprometer-se e nem formar uma família, enquanto a namorada ansiara o contrário, ambos haviam concluído de que o melhor seria cada qual seguir seu caminho. Entretanto, não era verdade que não a tivesse amado, como ela o acusara aos prantos. E agora, aos trinta e seis anos, preferia ter cautela para não repetir os mesmos enganos do passado, prendendo-se a uma pessoa cujos objetivos fossem opostos aos seus.

Possuía várias boas amigas, algumas delas ex-amantes, outras, esposas de amigos que, em cir­cunstâncias diferentes, poderiam ter sido algo mais. A maioria das mulheres que o conhecia descre­via Griff como atraente e sexy, além de terrivel­mente auto-suficiente. Os amigos do sexo mascu­lino o consideravam leal, sincero e pouco inclinado a demonstrar as emoções.

Ao ouvir passos no corredor, Griff levantou-se e aproximou-se da porta.

Em conversa, Jenny dissera a Maddy que Griff Owen era ainda jovem, porém nada a tinha pre­parado para o efeito devastador provocado por aquele homem de um metro e oitenta e cinco de altura, cabelos avermelhados e espessos pentea­dos para trás, expondo um rosto viril cujas feições pareciam as de um guerreiro medieval, altivo e destemido.

Sabendo de sua ascendência galesa, por causa do nome, ela acabara mentalizando alguém muito mais baixo e robusto, de cabelos escuros e traços celtas. Todavia o homem a sua frente era tão alto quanto Max, o corpo musculoso e atlético em per­feita harmonia com as linhas das faces. Disfar­çadamente, Maddy arriscou um segundo olhar para o rosto marcante. O nariz reto revelava uma linhagem antiga, quando o País de Gales era o celeiro de uma raça de homens nascidos para li­derar. O queixo bem desenhado inspirava força e os cabelos macios a faziam ansiar tocá-los. A ur­gência de experimentar a textura daqueles fios acobreados era tão grande, que Maddy precisou cerrar os punhos para conter o impulso.

Nervosa, deu um passo para trás, desejando fu­gir dali, desejando não sentir o que sentia.

Mas já era tarde demais. A presença domina­dora a impelia para frente, atraindo-a como um imã, arrastando-a para dentro do escritório.

— Sra. Crighton, sou Griff Owen. Atordoada e enrubescida, ela estendeu a mão len­tamente para cumprimentá-lo.

— Por favor, entre e sente-se.

Incapaz de emitir um único som, Maddy se dei­xou conduzir até uma das poltronas de couro, jun­to à lareira.

Depois de vê-la acomodada, Griff sentou-se tam­bém e, aparentando calma, colocou uma pasta com papéis sobre a mesa.

Porém, tudo o que ele queria era ganhar tempo para se recompor. No espaço de poucos segundos, após ter aberto a porta e se deparado com Maddy, parecia que o ar lhe faltava dos pulmões. A apa­rência elegante e sofisticada daquela linda mulher contrastava com a ansiedade desesperada estam­pada nos olhos entristecidos. Fora como ser atingido por um golpe no coração. Coup de foudre, como os franceses o chamavam. Bastou um único olhar, breve e envolvente, para que as feições de Maddy ficassem gravadas em sua alma. Ansiava loucamente abraçá-la, protegê-la, cercá-la de cui­dados. Com aquele único olhar havia, em resumo, se tornado o "príncipe" que iria libertá-la da prisão representada por um casamento insatisfatório e de um marido que não a merecia.                    

Dizer que Griff reconhecera a magnitude de to­das essas sensações complexas de imediato seria, em parte, exagerar a verdade. Afinal, era apenas um homem, não um deus e, como tal, carecia do profundo conhecimento das emoções e da perfeita compreensão de si mesmo. O que ele percebeu foi o despertar do mais estranho, intenso e perigoso instinto protetor em relação a Maddy e, de maneira tipicamente masculina, reagiu contra essa impressão, cerrando o cenho, adotando uma pos­tura rígida e um tom de voz seco ao iniciar a conversa.

Um tanto surpreendida, ela descobriu que os modos distantes e pouco amigáveis do contador, em vez de aumentar seu nervosismo, haviam de certa forma sossegado-a, levando-a a controlar a agitação interior e ser capaz de discorrer sobre as finanças do Lar Mamães e Bebes com absoluta calma e clareza.

O comportamento de Maddy impressionou Griff, confundindo-o. Então a personalidade tímida e he­sitante mascarava um cérebro muitíssimo mais afiado do que imaginara. Interessante...

— Ainda não estudei os balancetes detalhadamente — ele anunciou, embora já o tivesse feito. — Ocorreu-me que se o objetivo é fazer com que essa obra social possua a base financeira sólida necessária para operar com tranqüilidade, é imprescindível um melhor aproveitamento da receita.

— Concordo. Todavia, no momento, creio que a urgência maior é encontrar um meio de atrair mais contribuições voluntárias para a obra.

— Através de rifas, bazares e coisas semelhantes?

— Não somente. Se esperamos conseguir rea­lizar o sonho de Ruth sobre a ampliação do Lar, oferecendo maior espaço e conforto às mães e fi­lhos, sem dúvida teremos que contar com uma fonte de renda regular. Estive pensando em au­mentar o número das empresas locais que nos apóiam, além de tentar obter auxílio governamen­tal também. Através de Saul Cristo, fomos capazes de persuadir a diretoria da Aarlston-Becker a se responsabilizar pela manutenção de alguns dos apartamentos. O que eu gostaria é que mais em­presas assumissem esse mesmo compromisso. Tal­vez, se instigássemos uma competição positiva entre as grandes corporações não alcançaríamos nos­so propósito? Uma boa publicidade na mídia em troca de ajuda. Na minha opinião, uma oferta di­fícil de recusar.

— Você, realmente, possui instinto gerencial — foi tudo o que Griff conseguiu dizer, impressionado com a extensão da perspicácia feminina. Aquela mulher não apenas entendia de finanças, como sabia lidar com os aspectos sociais que uma obra assistencial envolvia, tirando o melhor partido das circunstâncias.

— De fato, não — ela retrucou, fitando-o nos olhos pela primeira vez com alguma confiança. — Sou mãe de duas crianças pequenas. Isso depressa nos ensina os princípios da rivalidade natural.

Maddy riu, esperando que Griff a acompanhas­se. Porém ele se limitou a desviar o olhar.

No mesmo instante o riso morreu em seus lá­bios. Que será que dissera para deixá-lo tenso, desconfortável? Quem sabe por que levantara o assunto de filhos no meio de uma conversa de negócios?

Insegura, ela abaixou a cabeça e fitou as mãos. Quando perguntara a Jenny sobre qual seria a melhor maneira de se conduzir durante a reunião com o contador, a sogra fora enfática. "Seja você mesma, minha querida. Será o suficiente para que tudo corra bem." As palavras gentis, aliadas aos incentivos de Olívia e Tullah, lhe tinham dado a confiança necessária para enfrentar a prova. To­davia, agora, sentia-se inundada de incertezas, enquanto uma irritação surda ganhava substância. Por que esse homem, pago para prestar serviços profissionais, dava a impressão de menosprezá-la depois de tê-la ouvido confessar ser apenas mãe em tempo integral? Por acaso a falta de uma car­reira lhe tirava a credibilidade? Tornava-a um ser humano de segunda categoria?

Max sempre a humilhara por considerá-la in­telectualmente incapaz de exercer uma função que não fosse a de dona de casa. Entretanto os insultos do marido nunca a tinham irritado tanto como o comportamento intolerável desse estranho. Furio­sa, Maddy abriu bem os olhos e deixou escapar um murmúrio de surpresa.

O ruído abafado atraiu a atenção de Griff. Ao virar-se para fitá-la, tudo o que ele conseguiu enxergar foram os lábios carnudos e entreabertos, macios, convidativos. Um suor súbito pareceu inundá-lo, tirando-lhe o fôlego.

— Você já fez planos para o almoço? — indagou num impulso.

Maddy imaginara ouvi-lo dizer qualquer coisa, menos isso.

— Não. Eu... eu pretendia comer um sanduíche antes de voltar para Haslewich..

— Pois eu gostaria de discutir um pouco mais a questão de obtermos patrocínio de grandes em­presas para a obra social. — Será que sua voz traía toda a carga de emoção interior?, Griff per­guntou-se ansioso. Será que deixara transparecer o quanto se sentia afetado pela simples presença dela? Melhor controlar-se. Afinal, era um contador e a sra. Cristo representava um cliente. — O hotel do outro lado da rua oferece um ótimo almoço executivo.

— Eu... — Maddy hesitava procurando, desesperadamente, uma desculpa para recusar o convite, temerosa de examinar os motivos de sua agitação.

Quando fora a última vez que um homem atraente a levara para almoçar, ou jantar? Quan­do fora a última vez? Impossível recordar-se.

Tratava-se de negócios. Porém uma voz interior insistia em sussurrar que pelo menos seus cabelos e roupas mereciam ser exibidos e apreciados.

— Eu gostaria muito — ouviu-se responder, en­quanto a cabeça latejava devido a ansiedade pela atitude que acabara de tomar.

— Ótimo.

Diante do sorriso inesperado daquele homem sexy e perturbador, ela experimentou a sensa­ção de se lançar no espaço numa queda livre, a relação profissional entre ambos inteiramente esquecida. Como se em transe, levantou-se da poltrona e permitiu que Griff a guiasse para fora do escritório.

Mais tarde, não pôde nem sequer lembrar-se sobre o que os dois haviam conversado a caminho do hotel. Sem dúvida algo banal, comentários so­bre a cidade e o tempo. Todavia, ao se aproxima­rem da porta do restaurante, Maddy ficou imóvel. Não podia agir assim. Era uma mulher casada.

Uma mulher casada com dois filhos. Uma mulher casada a quem coisas desse tipo jamais aconteciam.

Chocada com a natureza de seus pensamentos, ela engoliu em seco. Qual o problema, meu Deus? Nada estava acontecendo. Apenas iria almoçar com o contador da obra assistencial. Um simples encontro de negócios como os que ocorriam entre milhares de pessoas todos os dias sem que alguém se sentisse...

Quando o porteiro fez sinal para que entrassem, Griff a segurou de leve no braço, conduzindo-a através do saguão iluminado.

Vencida, Maddy fechou os olhos. Agora sabia o que todos aqueles escritores vitorianos queriam dizer ao descrever a languidez que se abatia sobre suas heroínas quando tocadas pela homem amado.

De repente seu corpo inteiro parecia pulsar, en­golfado numa onda de sensualidade. Não, não se tratava de luxúria. Não queria que Griff rasgasse suas roupas e a possuísse ali mesmo, liberando-a do ardor súbito que a consumia. Não, tratava-se de uma outra espécie de sensação. O despertar da percepção de que Max não era o único capaz de excitá-la fisicamente.

Durante a refeição, enquanto discutiam os pos­síveis problemas a serem enfrentados no processo de convencer grandes empresas a patrocinar um projeto social, Griff sorvia cada detalhe a respeito de Maddy com sofreguidão. O modo como se ex­pressava, o brilho dos olhos, a extraordinária sua­vidade, o raciocínio rápido e sagaz, a cor e textura da pele, as linhas do nariz, do queixo, do corpo e os contornos da boca. Griff nunca experimentara uma emoção daquela magnitude, uma emoção des­pertada por Maddy.

Teria ela consciência de quão frequentemente falava dos filhos e de quão pouco tocava no nome do marido? A respeito de Max ele sabia quase nada, apenas o que Luke deixara entrever: um homem difícil de lidar e um adversário formidável.

Já passara das três horas quando Maddy, ba­lançando a cabeça e sorrindo, recusou uma ter­ceira xícara de café.

— Preciso ir. As...

— Sim. As crianças — Griff completou.

Ela corou e tornou a sorrir. Os dois cálices de vinho que tomara durante a refeição continuavam fazendo efeito. Não estava acostumada a beber álcool, em especial durante o dia.

Griff, entretanto, bebera somente um cálice, tendo o cuidado de explicar-se:

— Vou precisar sair da cidade no final da tarde para visitar outros clientes, Sue e Lewis Ericson. Não sei se você os conhece. Foram-me apresen­tados por Luke.

— Sim, creio saber de quem se trata. Não são eles que, durante o verão, patrocinam apresenta­ções ao ar livre das operetas de Gilbert e Sullivan?

— Isso mesmo. Ambos adoram as obras de Gil­bert e Sullivan. Talvez fosse interessante se você os procurasse. Pois além de bancar o custo das produções das operetas e permitir que sejam encenadas nos jardins de sua casa, eles contribuem regularmente para obras sociais. Embora morem em Chester e não em Haslewich, há uma chance de que se interessem em ajudar a causa das mães solteiras.

— Vou falar com Luke sobre o assunto assim que o vir.

— Se você quiser, eu mesmo posso cuidar dis­so. Jantarei com Luke e Bobbie hoje à noite. A propósito...

— Realmente preciso ir embora — ela o inter­rompeu tremula, receando o convite que suspei­tara estar para receber. Não porque não desejasse acompanhar Griff naquele jantar, mas porque ti­nha certeza de que diria "sim".

Lidar com um homem que mostrava desejá-la era uma experiência inédita para Maddy. Impos­sível não reconhecer os sinais: a maneira ardente como Griff a fitava, o modo como absorvia cada uma de suas palavras, tudo revelava emoção ver­dadeira, não algo fabricado para mascarar uma intenção obscura.

Afinal, por que ele fingiria interesse? Sendo um homem extraordinariamente atraente, sexy e bonito, deveria atrair muitas mulheres. Assim como Max.

— Seus olhos são como o céu — Griff murmurou ao saírem do hotel. — Límpidos e brilhantes num momento, anuviados e um pouco tristes no outro.

Aturdida, Maddy sentiu-o tomar uma de suas mãos, o gesto simples carregado de ternura. De repente era como se estivesse envolta num manto seguro ê protetor. Nada de mal poderia atingi-la.

— Não. Não precisa se preocupar, não vou bei­já-la. Não aqui. Não agora. Mas um dia o farei e quando o fizer...

Ouvindo-o falar, a voz rouca e profunda pene­trando-a até a alma, Maddy teve a impressão de que os joelhos vergavam. E quando Griff roçou seus lábios com a ponta dos dedos, numa carícia sugestiva e sensual, ela estremeceu. Perturbada, deu um passo a frente, como se para estreitar o contato.

Porém, ao perceber o que acabara de fazer, co­rou violentamente e afastou-se, não sem antes no­tar o brilho devorador no olhar masculino.

Embora afirmasse não ser necessário, Griff in­sistiu em acompanhá-la até o carro.

— Vejo que Bobbie e Luke já lhe contaram sobre minha notória falta de senso de direção — ela comentou rindo. — Só porque errei o caminho quando fui visitá-los pela primeira vez e quase acabei indo parar na cidade vizinha.

— Nenhum dos dois me disse nada. Se eu pu­desse agir como desejo, você nunca mais tornaria a se perder, porque eu estaria sempre ao seu lado.

Novamente Maddy sentiu-se enrubescer. Mas por motivos bem diferentes daqueles aos quais se acostumara durante os tormentosos anos de casada.

Com Max aprendera a ter vergonha de si mesma pela maneira como seu corpo reagia, louco de desejo, por um homem cujas humilhações constantes acabaram por reduzi-la a uma criatura emocionalmente frígida. Abominava ser a mulher que era, o tipo que se permitia usar pelo marido in­diferente em troca de breves carícias, migalhas destituídas de sentimentos. Com Griff, numa sú­bita explosão de alegria, descobrira existir alguém de quem podia gostar, além de desejar. Apenas depois de já estar na estrada, a caminho de Haslewich, é que ela se deu conta da triste realidade. Não era livre para nutrir aquelas emoções e muito menos aquele desejo.

— E então? Como foi em Chester? Dominada pela culpa, Maddy perguntou-se se

a sogra desconfiaria de algo, embora estivessem ao telefone. Assim, procurou manter a voz neutra.

— Eu... Ah, ele foi muito... gentil. Sugeriu que analisássemos a possibilidade dos Ericson se en­volverem em nossa campanha para angariar fun­dos. Parece que se trata de um casal amigo de Luke, que costuma patrocinar montagens de ope­retas durante o verão.

Ela falava depressa demais, como se não con­seguisse conter-se. Quando o telefone tocara, es­tivera sentada à mesa da cozinha, diante de uma xícara de café frio, os olhos sonhadores fixos num ponto sem nada enxergar. Por um instante, ao tirar o fone do gancho, imaginara ser Griff.

— Oh, sim, sei quem são os Ericson — Jenny retrucou muito calma.

Notando a absoluta normalidade com que a so­gra conduzia a conversa, Maddy sentiu-se confusa. Como era possível Jenny não reconhecer como sua vida mudara? Como não escutava a emoção em sua voz? Sim, a sensação de culpa era forte e a consumia. Porém, se lhe fosse dada a chance de reviver os acontecimentos recentes, não mudaria um único detalhe.

Ainda pensava em Griff duas horas depois, en­quanto dava banho nas crianças e as colocava para dormir. Tullalh e Olívia tinham lhe telefonado para saber notícias da reunião e ela procurara responder às perguntas com tranqüilidade, agra­decendo a Deus por ninguém poder ver o intenso rubor de seu rosto.

Ansiava trancar-se no próprio quarto, deitar-se na cama e, imersa na escuridão, reviver os mo­mentos passados ao lado de Griff. Queria saborear a lembrança de cada olhar, cada toque, cada pa­lavra trocada.

Não era como quando conhecera e se apaixonara por Max. Tratava-se de algo bem diferente. A res­posta sôfrega de seus sentidos famintos à desco­berta de que alguém a queria, a desejava. Instin­tivamente Maddy sabia que se seu casamento fos­se feliz, que se o marido a amasse, Griff não teria passado de um homem atraente com quem havia flertado de leve apenas por ser mulher.

Entretanto seu casamento estava longe de ser feliz e embora nada tivesse dito, Griff parecera perceber sua solidão e amargura.

Quanto ao futuro, preferia não pensar agora. A euforia a impedia de elaborar pensamentos lógicos.

Vivera o dia de hoje. Teria o amanhã também. E isso era o bastante.

— O que deu em Griff? — Luke perguntou à esposa curioso, enquanto a seguia até a cozinha levando as travessas que acabara de tirar da mesa. — Ele dá a impressão de estar num outro mundo.

— Ou apaixonado — Bobbie retrucou entusias­mada. — Será que, enfim, nosso amigo encontrou alguém? Oh, seria tão bom!

— Griff, apaixonado? Não, ele não é o tipo de se entregar emocionalmente. E por demais conti­do. Gosta de estar no controle.

— Assim como você, querido, que, apesar de resistir, acabou de apaixonando por mim.

— Hum-hum — Luke concordou, tomando a mulher nos braços e beijando-a até deixá-la sem fôlego.

— E melhor pararmos — Bobbie sussurrou en­rubescida. — Griff deve estar se perguntando por que ainda não voltamos para a sala.

— Vou culpá-la e dizer que houve uma crise na cozinha. — Terno, Luke a acariciou de leve no ventre ainda não intumescido pela gravidez.

— Pare de tentar me distrair. Aposto dez dó­lares como Griff está apaixonado.

— Dez dólares? — o marido a provocou. — O dólar não é a moeda deste país e, de que qualquer forma, você acabaria perdendo. Conheço Griff. Ele nunca se permitiria apaixonar-se.

— Apaixonar-se não é algo sobre o qual as pes­soas têm controle.

Talvez fosse verdade, Luke pensou, levando a sobremesa para a sala de jantar e colocando-a sobre a mesa.

— Desculpe o atraso. Uma pequena crise na cozinha.

— Verdade? Então você continua usando parte da "crise" ao redor da boca — Griff comentou, sorrindo quando Luke limpou a mancha de batom com o lenço. — Mas não se preocupe comigo. Estou apenas com inveja. Só isso.

— Inveja? Pensei que compromisso e casamento estivessem definitivamente riscados de sua vida.

— Bem, essas coisas têm algumas vantagens.

Luke teria feito mais perguntas ao amigo, po­rém Bobbie escolheu aquele exato instante para voltar à sala. Enquanto servia o café, indagou so­bre a reunião com Maddy.

— Eu queria muito que ela tivesse podido vir jantar conosco, mas parece que preferiu voltar para Haslewich antes do anoitecer — Bobbie ob­servou, sem perceber o efeito que suas palavras causavam no convidado. Na verdade, Griff abai­xara o olhar no momento em que o nome de Maddy fora mencionado. — Ela se sentia na obrigação de estar em casa para atender os filhos e Ben, embora eu tenha certeza de que Jenny cuidaria de tudo com prazer, Maddy é sempre assim, es­crupulosa demais.

— Dizem que os opostos se atraem — Luke interveio seco. — De fato, "escrupuloso" seria a última palavra que eu usaria para descrever Max.

Bobbie envolveu-o num olhar afetuoso. Sabia que o marido nunca perdoaria o primo por ter tentado seduzi-la tão logo a vira, embora já esti­vesse casado com Maddy. Também não o descul­pava pela maneira desprezível como tratava os próprios filhos.

— Pobre menino — Luke comentara ao volta­rem da última visita a Queensmead. — Qualquer um pode ver que Léo morre de medo do pai.

— Deve ser difícil para todos, Max tendo que passar a maior parte do tempo em Londres — ela contemporizara.

Porém agora, pensando em Maddy, Bobbie per­guntou a Griff:

—Você acha que ela será capaz de fazer algo para ajudar a obra social? Ficamos realmente sa­tisfeitos quando Maddy resolveu aceitar o convite feito pela sogra para ocupar o lugar de minha avó, Ruth. Embora não se julgue competente, nós temos certeza de que o é.

— Ela, sem dúvida, possui sólidos conhecimen­tos sobre finanças — Griff esforçou-se para manter a voz destituída de emoção. E aparentemente foi tão bem-sucedido, que Bobbie lhe lançou um olhar confuso. — O que me faz lembrar de algo. Prometi à sra. Cristo que iria lhes falar sobre a possibi­lidade de envolver os Ericson na nova campanha. — Os Ericson? Aqueles que patrocinam as ope­retas de Gilbert e Sullivan? — Bobbie aplaudiu entusiasmada. — Oh, seria maravilhoso! Por que não pensamos nisso antes, Luke? Sei que Sue Ericson adoraria ter uma desculpa para montar um show extra.

— Como você sabe, Ruth, minha avó — Bobbie continuou, os olhos brilhantes fixos em Griff agora —, foi a criadora do Lar Mamães e Bebês e ela costumava dar a palavra final sobre que meios usar para obter doações.

— Já discuti com Maddy, isto é, com a sra. Cristo, a possibilidade de conseguirmos apoio de grandes empresas, além da Aarlston-Becker.

— Sim, foi uma idéia magnífica de Maddy — Bobbie o interrompeu animada. — Minha avó es­tava um pouco reticente a princípio, mas acabou adorando. Maddy é brilhante nesse tipo de coisa. Eu só queria...

Ao perceber o olhar do marido, Bobbie conteve-se. Quase deixara escapar detalhes da vida par­ticular de Maddy e não seria certo discuti-los com terceiros.

Conhecendo a opinião de Griff sobre as pessoas que permaneciam presas a relacionamentos de­sastrosos, Luke esperava ouvi-lo dizer, com a frie­za habitual, que se Maddy não era feliz, cabia a ela libertar-se. Entretanto, surpreso, escutou-o fa­lar simplesmente:

— Não, não deve ser fácil para Maddy, embora eu a considere muito leal para se queixar de pro­blemas particulares.

Apesar de não dizer mais nada, algo em seu tom de voz alertou a intuição de Bobbie. A pri­meira coisa que iria fazer na manhã seguinte seria ter uma longa conversa com Maddy, ela decidiu.

— Obrigado pelo jantar. — Griff beijou Bobbie no rosto e apertou a mão de Luke, entrando no carro e partindo a seguir.

Bobbie aguardou que ela e o marido estivessem dentro de casa antes de, virtualmente, explodir de entusiasmo.

— Você viu a expressão de Griff ao falar sobre Maddy? Acho que nosso amigo está caído por ela.

— O quê? — Luke balançou a cabeça e riu com vontade. — De jeito nenhum! Maddy não é o tipo de Griff. Ele é um homem que se esquiva de qual­quer envolvimento ou dependência emocional. A idéia de lidar com uma mulher tão carente quanto Maddy seria o bastante para fazê-lo sair correndo.

Ainda balançando a cabeça, Luke sorriu para a esposa e enlaçou-a pela cintura, inclinando-se devagar para beijá-la nos lábios.

O toque do telefone arrancou Maddy de um sono profundo. Sonolenta, confusa, estendeu a mão para atender.

— Maddy, sou eu, Griff. Imediatamente todos os vestígios de sono desapareceram. Sentando-se na cama, puxou o lençol até os seios para cobrir-se, como se Griff pudesse vê-la, o rosto afogueado traindo a excitação.

— Acabei de voltar da casa de Luke e Bobbie. Senti inveja dele, por poder passar a noite com a mulher amada nos braços. Eu só queria...

Maddy tremia tanto que quase deixou o tele­fone cair.

— Oh, Deus, não posso acreditar que isso es­teja acontecendo comigo. Diga que você sente o mesmo, que eu não perdi por completo a cabeça. Oh, Maddy...

— Griff... — ela começou, pretendendo protestar, pretendendo dizer que era casada, mãe de dois filhos e que um homem tão atraente não podia amar essa mulher entediante e destituída de beleza.

Porém seu coração batia tanto que não foi capaz de emitir som algum. Olhando-se no espelho dian­te da cama, mal se reconhecia. Talvez fosse um truque do luar, mas seus olhos tinham um brilho extraordinário, a pele do corpo parecia misterio­samente translúcida, o novo corte de cabelos en­fatizando as linhas suaves do rosto. Sim, era a imagem de uma mulher que esperava ansiosa á chegada do amante. Um amante que a desejava tanto quanto o desejava.

— Sim? — ele a encorajou, diante do silêncio prolongado.

— Oh, Griff— foi tudo o que Maddy conseguiu dizer, os lábios se entreabrindo num sorriso, um calor intenso explodindo em suas entranhas.

— Telefono para você amanhã — ele prometeu. — Sonhe comigo, por favor.

Dez minutos depois de desligar o telefone, Mad­dy continuava sentada na cama, os olhos fixos num ponto indefinido, saboreando interiormente a descoberta de que alguém a amava.

Griff não foi capaz de dormir. Quase podia sentir a adrenalina correndo nas veias, o cheiro dos pró­prios hormônios, o desejo saindo por todos os poros.

Inquieto, aproximou-se da janela do quarto.

O modo como estava se comportando era pura loucura e sabia disso. Maddy em nada se asse­melhava ao tipo de mulher que sempre sonhara para si. Além de ser casada.

Deixando pender a cabeça para trás, fechou os olhos com força, sufocando as emoções que o sacudiam.

Maddy era Maddy. Precisava dizer mais? Ama­va-a. Iria amá-la eternamente. O rosto bonito, o corpo de linhas suaves, os olhos enormes, os ca­belos sedosos.

Oh, céus, se ao menos a tivesse ao seu lado agora! Poderia amá-la de todas as formas possí­veis, mostrar o quanto a queria.

Imaginava-se beijando os lábios doces, explo­rando o interior da boca sensual com a língua até fazê-la arder e ceder à ousadia de suas carícias. Enquanto a abraçava e beijava, Maddy iria tocá-lo também. Um pouco tímida e hesitante a prin­cípio. Porém, tão logo se sentisse segura do quanto era desejada, teria confiança em si para se en­tregar à paixão.

Griff gemeu baixinho, o corpo inteiro pulsando.

As imagens em sua mente se sobrepunham umas às outras marcadas pela urgência. Maddy e ele nus, banhados pelo luar. Deslizaria, as mãos pelas curvas femininas, observando o desejo toldar os belos olhos da mulher amada. Trêmulos, se deixariam arrastar pelo prazer da posse até ex­plodirem num turbilhão de sensações.

Então seriam uma só carne, uma só alma.

 

                                                       CAPITULO VIII

Max riu quando a tacada de Jack se mostrou totalmente ineficaz.

— Seu pai nunca iria reconhecê-lo por sua ha­bilidade de jogar golfe, rapaz. Você se parece mais com meu pai. Ambos sem nenhum talento para esse esporte.

Jack já ouvira o suficiente. Morto de calor e cheio de raiva, atirou o taco para longe e encarou o primo sem esconder o desdém.

— Pensei que deveríamos estar procurando meu pai, não jogando golfe.

— Você ouviu as palavras do detetive parti­cular — Max respondeu sem se alterar. — A Jamaica tem seu próprio ritmo de vida, suas próprias regras. Se um homem deseja perma­necer sossegado em seu canto, não há ninguém que possa encontrá-lo.

— Você não moveu uma palha para tentar des­cobrir o paradeiro de meu pai. E se quer saber minha opinião, penso que não pretende se esforçar para achá-lo. De fato, creio que,..

Max se moveu tão depressa, que Jack não teve tempo de tentar se afastar quando mãos fortes o seguraram nos braços feito tenazes. O choque e a dor o fizeram gemer baixinho.

— Se eu fosse você, não desperdiçaria seu tempo pensando, moleque. Faltam-lhe os genes para isso.

— A voz de Max soou brutal, carregada de veneno.

— Veja sua mãe.

Pálido, Jack o fitou. Embora ainda não houvesse sido capaz de admitir para si mesmo, queria desesperadamente não ter vindo para a Jamaica e não apenas por causa de Max. Sentia saudade dos tios e, em especial, de Joss. A cada manhã, ao abrir os olhos e se dar conta de que a pessoa com quem dividia o quarto não era Joss, experi­mentava uma sensação terrível de amargura. An­siava voltar para a Inglaterra, para sua família. Controlando as lágrimas, ele puxou os braços para se libertar dos punhos de ferro.

Supostamente, seu pai era sua família. Por isso viera procurá-lo. Entretanto, o que desejava era a presença sólida do tio Jon, o carinho maternal de tia Ruth, a camaradagem fraterna que parti­lhava com Joss. Queria seus amigos, seus hobbies, seu lar.

Bem no fundo do coração, temia encontrar o pai, apesar de expressar esse medo através da raiva direcionada a Max.

O primo não havia tomado nenhuma atitude concreta até agora para localizar David, além de ouvir a opinião de um detetive particular sobre o assunto.

Estavam na Jamaica há várias semanas e Max passava a maior parte do tempo à beira da piscina ou no campo de golfe, localizado a pouca distância do hotel.

Sentindo-se farto de tudo, Jack apanhou o taco que jogara no chão e se afastou, lágrimas de raiva escorrendo pelo rosto juvenil. Nunca gostara mui­to de Max, porém agora tinha a impressão de odiá-lo. Fora humilhado e aquele comentário maldoso sobre sua mãe...

Jack parou de andar e fechou os olhos. Por mais que tentasse bloqueá-las, bani-las de sua mente, havia momentos em que as lembranças do passado voltavam para assombrá-lo. Sua mãe, bonita, esguia, risonha, coquete, sempre lindamente vestida, os cabelos sedosos, o rosto... o perfume...

Então imagens sombrias substituíam as recor­dações felizes. Sua mãe com os cabelos oleosos e emplastrados, o corpo inchado, empanturrado de comida, encharcado de bebida. O cheiro nauseante que dela emanava, as súplicas para que ele não contasse nada a ninguém e a ajudasse a esconder o que se passava.

Assim tinham sido os dias antes de Olívia, sua irmã, voltar para casa e descobrir a verdade. Dias, semanas, meses, anos de tormento. Quantos? Não saberia dizer. Sabia apenas que aquele inferno parecera durar uma eternidade. Ainda criança, experimentara um misto de emoções conflitantes. Amor e ódio. Vergonha e raiva por sua mãe ser tão fraca, ressentimento pelo pai que não punha um ponto final no drama e que precisava ser pro­tegido da realidade. Oh, Deus, quão assustadoras continuavam a ser essas lembranças!

Emocionalmente exausto, Jack abriu os olhos. Ali da praia, nas imediações do campo de golpe, podia enxergar o hotel. De repente, ansiou estar sozinho na penumbra do quarto, isolado de tudo. Seria fácil alcançar o hotel em poucos minutos se caminhasse pela praia, em vez de esperar pelo ônibus de turistas. Devolveria o taco de golfe amanhã.

Na verdade, o correto seria devolver o taco de golfe hoje e aguardar o ônibus. Afinal, havia avisos espalhados em todo canto, expondo os perigos de se aventurar pela praia pública.

Assaltos a turistas que tolamente ignoravam tais avisos pareciam ser bastante comuns. As gangues juvenis que dominavam as praias davam a impressão de considerar turistas ricos como suas presas legítimas.

Por outro lado, Jack não se considerava uma vítima em potencial. Não era rico, não carregava câmera fotográfica e nem vestia roupas de grife, objetos de cobiça dos ladrões.

Tratava-se de um problema que as autorida­des locais lutavam para resolver. Todavia Jack não acreditava possível ser atacado em plena luz do dia.

Max franziu o cenho e olhou ao redor. Divertira-o ver a reação de Jack, fugindo dali em lágri­mas. Porém o moleque ainda não voltara e a úl­tima coisa que queria era que o garoto telefonasse para a Inglaterra e enchesse os ouvidos de seus pais com lamúrias. Tê-lo por perto já fora um mar­tírio suportado nas últimas semanas, embora não sem algumas compensações. Muitas mulheres atraentes e ricas o haviam abordado usando a desculpa de perguntar se Jack era seu filho. De fato, deveria encontrar-se com uma dessas belda­des naquela mesma noite.

Não se sentia nem um pouco culpado pela ma­neira deliberada com que ferira os sentimentos do primo, tecendo comentários maldosos, embo­ra verdadeiros, sobre Tiggy. Aquele irresponsá­vel se afastara com o taco de golfe alugado. Se não devolvesse todos os tacos antes de voltar para o hotel, acabaria sendo obrigado a pagar uma multa.

Irritado, examinou os arredores. O infeliz não poderia ter ido muito longe em alguns minutos.

Distraidamente, Max virou-se para olhar o mar. Eleanor Smythson, a mulher com quem se encon­traria à noite, mencionara que o marido deixara o iate ancorado numa das marinas mais exclusivas da ilha.

De repente, uma figura solitária, caminhando na direção da praia pública, chamou-lhe a atenção. Mesmo a distância, não havia dúvida quanto a identidade do jovem magro e cabisbaixo.

Pondo as mãos em concha, gritou o nome do primo. Mas Jack não o ouviu chamar. Ou então fingiu nada ter escutado.

Que diabos o idiota estava fazendo?, Max pen­sou observando-o desaparecer atrás de umas palmeiras.

Furioso, saiu ao encalço do rapaz.

O primeiro alarme de perigo soou quando Jack atravessou um pequeno e recluso trecho da praia. Quatro homens, três negros e um branco, saíram do meio das folhagens, onde obviamente haviam se escondido à espera de um incauto. Os bandidos o subjugaram tão depressa, que Jack não teve tempo de esboçar nenhuma reação.

Os quatro cheiravam a drogas, os cabelos estilo "rastafari" sujos e oleosos, os olhos vazios desti­tuídos de qualquer traço de humanidade.

— Não é um Rolex — um dos assaltantes re­clamou ao arrancar o relógio do pulso de seu pulso violentamente. — O dinheiro, homem. Onde está? Vamos matá-lo a menos que nos entregue tudo o que tem.

Apesar de continuar segurando o taco de golfe, a maneira como fora educado por Jon o impedia de usar o taco para se proteger. A idéia de atacar um outro ser humano, mesmo em autodefesa, pa­recia-lhe absurda.

Ao confessar não possuir nenhum dinheiro, um dos bandidos o esmurrou e o atirou no chão.

— Talvez devêssemos matá-lo. Porco branqueio. Max percebeu o que se passava a distância. E foi como se uma explosão de ódio o atiçasse. Tam­bém havia sido educado por Jon Crighton. O gen­til, ponderado e sábio Jon que, para seu próprio pesar, não conseguira transmitir ao filho primogênito uma única dessas qualidades.

Por temperamento, Max sempre fora um opor­tunista, um vencedor, um homem acostumado a enfrentar os desafios da vida de cabeça erguida. Por algum motivo, enquanto via o primo ser chu­tado e espancado, por alguma razão que preferia não tentar entender, o corpo inerte de Jack su­bitamente se transformou no de seu filho e era a vulnerabilidade de Léo, tão pequeno e indefeso, que parecia estar sendo atacada agora. Ouvia ape­nas os gritos de dor de Léo, enxergava apenas o rostinho marcado pelo sofrimento.

O taco de golfe, que Jack não fora capaz de usar para se defender, estava caído alguns metros adiante. Porém, quando Max se atirou no chão para apanhá-lo, um dos bandidos percebeu sua aproximação e chutou o taco para o lado.

Rindo selvagemente, o criminoso tirou uma faca comprida e afiada da cintura, postando-se inso­lente diante do corpo desprotegido de Max.

— Se você quer o taco — ele o provocou —, venha buscá-lo.

Mantendo os olhos fixos nos de seu oponente, Max estendeu a mão, sufocando um gemido de dor ao sentir a lâmina atingi-lo nos dedos. Todavia aquilo foi apenas o começo. Nos poucos segundos que se seguiram, a faca, manejada com perícia pelo jovem agressor, o cortou no peito, no braço, na perna. Enquanto seu sangue manchava a areia, Max teve certeza de que aquele homem planejava matá-lo com requintes de crueldade e prazer.

— Maddy me parece muito feliz nesses últimos dias — Jon comentou satisfeito, observando-a aco­modar os filhos no carro e partir. Ele e Jenny tinham ficado tomando conta das crianças en­quanto Maddy levara Ben ao hospital para um check-up. Jon se oferecera para acompanhá-los, porém a nora descartara a idéia, explicando que Ben detestava parecer vulnerável e dependente. Assim, quanto menos pessoas estivessem por per­to na hora dos exames, melhor. "Você é uma san­ta", Jon afirmara sinceramente.

"Apenas de vez em quando", ela o corrigira com um brilho enigmático no olhar.

— Sim, Maddy dá a impressão de estar feliz — Jenny concordou, a voz tão pausada e pensativa que o fez virar-se e encarar a esposa.

— Alguma coisa errada, querida?

— Sim e não. Maddy de fato parece mais feliz e, é claro, fico satisfeita. Contudo... Outro dia Bobbie fez um comentário que me deixou intrigada. Acredito que Maddy esteja envolvida com Griff Owen.

— Griff Owen, o contador? — Franzindo o ce­nho, Jon indagou: — O que, exatamente, significa estar "envolvida", Jenny?

— Bem, não acho que os dois estejam tendo um caso. Não ainda. Mas Bobbie convenceu-se de que Griff se apaixonou por Maddy. Aparentemen­te ele costuma jantar na casa de Luke com freqüência, pois os dois são grandes amigos. E nunca perde uma oportunidade de sugerir que Maddy seja convidada também. Segundo Bobbie, Griff fala muito em nossa nora que, não por acaso, de­sabrochou desde que o conheceu. Quero-a feliz, porém... Oh, Jon, temo por Maddy. Depois da ma­neira como Max a tratou anos a fio, relacionar-se com outro homem, mesmo sendo alguém de bom cará ter...

— Você já tocou nesse assunto com Maddy, querida?

— Não. Como poderia? Afinal, Max é meu filho. Jon abraçou a esposa carinhosamente.

— Entendo seus escrúpulos. Mas lembre-se, Max nunca foi um bom marido. Apesar de ser nosso filho, não podemos ignorar a verdade. Mad­dy merece ser feliz, querida e as crianças merecem crescer num lar estruturado, cercadas de afeto. Se outro homem pode dar à nossa nora o amor que ela e os filhos merecem, então não cabe a nós interferir.

— Não, eu nunca faria isso — Jenny protestou angustiada. — É que me preocupo com ela. Afinal, o que sabemos sobre esse homem? Quem garante que não irá magoá-la?

— Ah, então são seus sentimentos maternais os causadores de problemas, não? Eu deveria ter adivinhado. Se é isso o que, realmente, a inco­moda, creio que poderíamos dar um jeito de co­nhecer o rapaz melhor. Não será difícil, uma vez que Luke e Bobbie já o consideram um gran­de amigo.

— Eu queria tanto que as coisas pudessem ser diferentes. Que ela e Max...

— Max é um tolo — Jon murmurou, beijando a esposa na testa, — E ninguém mais do que Maddy merece ser feliz.

— Mamãe, o tio Griff virá nos visitar hoje? — Léo indagou ansioso, enquanto se dirigiam para casa.

— Hum... não. Creio que não — Maddy respon­deu, corando de prazer. Bastava ouvir o nome de Griff para sentir-se absurdamente feliz e... culpa­da. Não estava certo sentir-se assim, eufórica. Mesmo quando ela e Griff ainda não tinham feito nada. Mesmo quando ainda não haviam se tor­nado amantes. Ainda não.

Mais tarde, os dois deveriam se encontrar para jantar. Combinara deixar os filhos na casa de Bob­bie e Luke enquanto estivesse fora.

Fora o próprio Griff quem se encarregara de apresentar-se às crianças, aparecendo inespe­radamente em Haslewich ao entardecer de uma sexta-feira.

Léo, sempre tão reticente e temeroso na pre­sença do pai, simpatizara de imediato com o contador.

Estranhamente naquela noite, enquanto se ar­rumava para jantar com Griff, presa da excitação natural de uma mulher que se embeleza para es­tar com o homem amado, a última coisa que Mad­dy experimentou foi culpa em relação a Max. Tal­vez porque não se sentisse de fato casada, pensou, tentando entender a ausência de remorso. Afinal, ela e o marido jamais haviam partilhado uma his­tória de amor, ou sido íntimos de verdade.

Sim, tinham feito sexo, porém nunca suas al­mas haviam se tocado, nunca haviam partilhado pensamentos, esperanças, aspirações, alegrias ou tristezas.

Claro que no início ficara um pouco desconfiada sobre o comportamento de Griff e resistira ao im­pulso de levá-lo a sério. Afinal, o que um homem bonito, bem-sucedido, poderia querer com alguém do seu tipo?

Porém, quatro dias atrás, quando ele a beijara pela primeira vez, tudo mudara. Sentindo-o es­tremecer pela força das emoções que o domina­vam, vendo o desejo estampado nos.olhos pene­trantes, ouvindo-o murmurar que nunca, jamais, experimentara sentimentos assim por mulher al­guma, fora persuadida a aceitar que o improvável acontecera. Griff a amava.

Todavia ainda não tivera tempo de pensar no futuro, nem achara necessário se preocupar. Por enquanto bastava o que possuía. O destino aca­bara lhe dando mais do que sonhara, ou se julgara merecedora.

Apesar de envolvida, esquivava-se de dar o último passo, adiando o momento de compro­meter-se fisicamente, pois sabia que ao se en­tregar a Griff, estaria colocando um ponto final no casamento com Max. Uma vez consumada a união com outro homem, não havia como vol­tar atrás.

E Griff parecia compreender a razão de sua re­serva. Nem por um instante a pressionara, ou apressara, embora fosse óbvia a frustração que o consumia.

Logo seriam uma só carne. Mas não naquela noite. Naquela noite simplesmente jantariam, conversariam, desfrutariam da presença mútua.

— Vista-se de maneira especial — ele a acon­selhara entusiasmado ao se falarem pelo telefone. — Esta noite iremos celebrar.

— Celebrar o quê? — Maddy indagara rindo.

— Celebraremos a vida — Griff respondera sé­rio. — A vida, o amor e você.

Sem dúvida precisaria comprar um vestido novo. Não havia nada no seu armário, o armário da tímida e insegura Maddy, que pudesse ser usa­do numa "celebração." Quando saíra para fazer compras com Tullah, dera preferência a roupas para serem usadas durante o dia, em reuniões de trabalho. Além de tudo, sem que tivesse percebido, acabara perdendo os quilos extras, remanescentes da última gravidez, e ganhando contornos defini­dos. Portanto, não possuía uma única peça que lhe agradasse.

Encontrara o vestido perfeito numa pequena e elegante loja de Chester. O tecido preto moldava seu corpo de maneira muito, muito sexy, embora a cobrisse do pescoço aos joelhos.

Sentir-se tão bem consigo mesma era uma ex­periência inédita. Sorrindo feliz, olhou-se no es­pelho depois de colocar os brincos de ouro. Então, cantarolando, desceu a escada.

No dia seguinte, Luke e Bobbie iriam levá-la, juntamente com Griff, para falar com os Ericson. Já preparara uma lista de convidados para o even­to beneficente que o casal, com certeza, se disporia a patrocinar. Também anotara os nomes de algu­mas empresas locais que pretendia visitar em bus­ca de apoio financeiro para a construção da nova unidade do Lar Mamães e Bebes.

Poucas semanas haviam se passado desde que Max anunciara a viagem para a Jamaica, todavia era como se aquele acontecimento pertencesse a uma outra vida, as lembranças perdendo a nitidez e importância.

Horas atrás, quando fora buscar as crianças na casa de Jenny e Jon, seu sogro comentara sorridente:

— E bom vê-la tão feliz.

— E bom estar tão feliz — ela respondera sincera.

Notando-a pronta para sair, Léo examinou-a com interesse, nenhum detalhe passando desper­cebido aos olhos do garotinho.

— Gosto quando você sorri muito, mamãe.

O menino se tornara uma criança diferente desde que Griff entrara na vida de todos eles. Se sua relação amorosa com o contador não des­se certo, sofreria um pouco, sim, porém não seria nada que não pudesse suportar, ou superar. O que a preocupava era a possível reação de Léo, que se tornava cada vez mais apegado a Griff, encontrando nele a figura do pai que Max se recusava a ser.

Previsivelmente, a única pessoa que parecia se ressentir da nova ordem das coisas era Ben. O velho advogado chegara a perguntar a Griff, logo na primeira visita, por que um homem de trinta e tantos anos ainda não se casara, nem tivera filhos.

"Talvez porque ainda não tenha encontrado a mulher certa", Griff retrucara sem se alterar, re­cusando-se a ceder à provocação,

Léo ansiava pela visita a Chester porque Griff prometera levá-lo para um passeio de bar­co pelo rio.

Depois de certificar-se de que Ben tinha tudo do que precisava, Maddy acomodou as crianças no carro e ligou o motor.

— Se Léo...

— Não se preocupe. As crianças ficarão bem. E sim, eu sei que você estará jantando no Grosvenor e que posso lhe telefonar se necessário. — Bobbie riu, tentando acalmar a ansiedade mater­nal de Maddy. — A que horas Griff virá buscá-la?

— Por volta das oito e meia.

— Ainda não são nem oito horas. Você tem tempo de sobra para tomar um cálice de vinho e acalmar-se.

Maddy beijou os filhos e acompanhou sua an­fitriã até a sala.

Griff olhou-se no espelho, uma expressão séria no rosto. Ainda era cedo demais para apanhar Maddy. Se não fosse dirigir, poderia tomar um drinque e tentar relaxar. Muita coisa dependia do desenrolar daquela noite.

"Jantar para celebrar", foi o que havia dito. Po­rém o que perturbava agora era o que ainda não dissera a ela.

Fechando os olhos imaginou-a ao seu lado com tamanha intensidade, que quase podia ouvir o som da voz suave, sentir o perfume da pele ma­cia. Se Maddy estivesse ao seu lado naquele mo­mento, com certeza não chegariam ao restau­rante. Aliás, duvidava de que chegassem até a porta de seu quarto, ou até a cama. Impulsio­nados pela urgência, amariam-se em qualquer lugar. Todavia essa não era a noite em que bus­caria convencê-la de que a felicidade estava em seus braços e no seu amor. Essa noite seria re­servada a confissões.

Antes mesmo de conhecê-los, soubera o quanto Maddy amava os filhos, o quanto os considerava importantes, essenciais. Mentalmente, preparara-se para ser rejeitado pelas crianças e, precisava admitir, acreditara que viria a experimentar um certo ressentimento em relação aos pequeninos. Decidira que Léo seria o mais difícil de lidar, con­siderando tudo o escutara sobre o temperamento arredio e desconfiado do menino.

O que não se preparara para enfrentar fora a esmagadora onda de melancolia provocada pela visão dos três juntos, Maddy e as duas crianças. O filho e a filha dela.

Dela. Mas não seus.

O que lhe chamara imediatamente a atenção sobre Léo não havia sido a hostilidade imaginada, e sim a imensa vulnerabilidade.

Tivera vontade de chorar por Léo naquela tarde, pela dor guardada no coraçãozinho infantil, pelo medo, a hesitação, o nervosismo estampado nos olhos tímidos. E tivera vontade de chorar por si próprio também.

Em vez de se lamentar, resolvera empreender a tarefa de conquistar a confiança do garoto. Mad­dy nunca seria sua sem as crianças, sendo o tipo de mulher capaz de colocar a felicidade dos filhos acima de tudo.

Já era possível perceber o quanto ela receava vê-los magoados, temendo que Léo se apegasse a um homem que acabaria por menosprezá-lo, assim como o pai. Bem, essa noite faria o máximo para tranqüilizá-la, para deixar claro que ele nunca iria feri-los porque os filhos dela seriam os únicos que ele jamais poderia ter. Diferentemente de Max, não tinha condições de gerar um filho, de dar vida a um ser.

Descobrira isso por puro acaso. Sua namorada da época de faculdade, com quem esperava casar-se depois de estabelecido na profissão, menciona­ra, em conversa, que a irmã mais velha ficara noiva.

— Estamos todos muito felizes, porém meus pais querem que os dois façam alguns exames antes de se casarem e terem filhos. Há casos de fibrose cística na minha família e embora minha irmã e eu não tenhamos sido afetadas, nossos fi­lhos poderiam desenvolver a doença se nossos par­ceiros possuírem o gene recessivo da doença. Tal­vez nós devêssemos fazer esses exames também. Quem sabe dois casais juntos não conseguiriam um desconto? — ela brincara.

Griff, mais preocupado em planejar a viagem que fariam à França durante os feriados prolon­gados, concordara distraidamente. Aos vinte e um anos, inexperiente e imaturo, ainda alimentava idéias ridículas e juvenis sobre muitos fatos da vida. Porque era jovem, forte, saudável e dotado de grande apetite sexual, olhava com certa supe­rioridade a vulnerabilidade e fraqueza alheias. Os exames não o revelaram possuidor do gene recessivo para fibrose cística porém, ao retornar da viagem, uma carta o esperava, pedindo-lhe para comparecer ao consultório médico o quanto antes.

— Eu tenho o quê? — perguntara assustado, após o médico ter lhe pedido para sentar-se.

Segundo a explicação recebida, ele era portador de um gene recessivo que, se transmitido, geraria crianças com a síndrome de Huntington.

— Você não tem nada — o médico tornara a frisar paciente. — É apenas um portador. Seus filhos, caso venha a tê-los, é que sofreriam.

Isso acontecera mais de uma década atrás, an­tes de o aconselhamento genético ter se tornado uma prática comum. Fora deixado só para lidar com o golpe que o destino lhe reservara. Seus pais já estavam mortos na época, vítimas de um acidente de trem, e a avó que o criara também havia falecido no ano anterior.

Sua primeira atitude fora terminar a relação amorosa. Sempre soubera como ter filhos era im­portante para sua namorada e não podia lhe rou­bar a chance de ser mãe. A segunda atitude fora se submeter a uma vasectomia.

Desde então, mantivera-se longe de qualquer tipo de envolvimento emocional cujo desfecho le­varia a um possível casamento e ao desejo de ter filhos. Sua ex-namorada se casara e formara uma família. Em sã consciência, não estava preparado para fazer alguém sofrer a mesma dor e desen­canto por ele experimentados.

Claro que existiam mulheres que não desejavam ter filhos. Talvez, por ser antiquado, o instinto lhe dizia que essas não eram seu tipo.

Assim, resolvera que compromisso e amor não lhe estavam destinados.

E então conhecera Maddy. Maddy, por quem se apaixonara perdidamente desde o primeiro instante. Maddy, que já possuía dois filhos e quem, por uma questão de personalidade, iria desejar ter um filho seu.

À noite seria obrigado a contar-lhe que jamais poderia ser pai e explicar-lhe o por quê.

Nervoso, Griff consultou o relógio. Hora de sair.

 

                                                   CAPÍTULO IX

Foi por um triz que ambos não haviam sido mortos. O policial e o cirurgião explicaram o desfecho da história a Jack enquanto a enfermeira fazia-lhe um curativo na cabeça e desinfetava os vários cortes e ferimentos espalha­dos pelo corpo.

Um atleta local, mundialmente famoso e conhe­cido por todos os habitantes da ilha, estivera cor­rendo na praia. Valendo-se do respeito que sua figura costumava impor, dispersara a gangue e providenciara socorro para os turistas.

Jack continuara inconsciente ao chegar ao hos­pital, porém...

Vezes sem conta, depois de recobrar os sentidos, perguntara por Max, obtendo apenas respostas evasivas.

Lembrava-se de vê-lo tentar apanhar o taco de golfe e do sangue que jorrava sobre a areia. Então desmaiara e só voltara a acordar ao receber aten­dimento médico.

— Meu primo... — ele repetiu num tom mais alto, percebendo que o cirurgião, dando-se por satisfeito com seu estado geral, preparava-se para sair do,quarto.

Não lhe passou despercebido o olhar significa­tivo que as outras três pessoas trocaram entre si. Imediatamente seu coração começou a bater mais forte, os músculos tensos de ansiedade.

— Tem alguma coisa errada. O que é? Digam-me! Digam-me! — gritou descontrolado.

Novamente as três pessoas ao redor da cama se entreolharam. O policial tomou a palavra.

—   Seu primo por acaso seria o sr. Max Crighton?

— Sim. Sim, isso mesmo. Sou Jack Crighton e Max é meu primo.

— E vocês dois estão hospedados no Paradise Beach Hotel? — O policial pressionou, ignorando sua aflição.

— Sim, sim, nos hospedamos lá.

— Como os bandidos que os atacaram remove­ram os objetos pessoais do.., corpo de seu primo e você estava inconsciente, levamos algum tempo até conseguir identificá-los. De fato só obtivemos confirmação poucos minutos atrás. Eu...

— O corpo de Max — Jack o interrompeu rís­pido, o rosto perdendo toda a cor. — Quer dizer que...

— Seu primo continua respirando. Ele está na unidade de tratamento intensivo e receio que vá­rias horas se passarão antes de podermos avaliar a extensão dos ferimentos. Se ele sobreviver. Se... — O cirurgião fez uma pausa e balançou a cabeça.

— O sr. Crighton perdeu muito sangue. Algo fácil de repor. Os outros danos, contudo, ainda são incalculáveis. Suspeito que seremos obriga­dos a lhe retirar o baço. Os golpes no abdômen foram selvagens. Há uma ferida séria na perna também.

— Posso vê-lo?

— Não. Você ainda não está forte o bastante para sair da cama. Vocês dois têm família na Inglaterra?

— Sim.

— Creio que seria aconselhável colocá-los a par do ocorrido. Seu primo...

— Max não vai morrer, não é? — Jack indagou em pânico. Em vez de reassegurá-lo, o cirurgião foi enfático.

— Ainda é muito cedo para saber. Por enquanto ele está vivo. Se você prefere que nós entremos em contato com sua família, basta dizer.

Abalado, Jack concordou com um aceno de ca­beça. Não sabia se teria coragem para falar com tio Jon, ou com tia Jenny. Nunca na vida se sen­tira tão assustado. Nem mesmo quando sua mãe estivera doente e o pai desaparecera sem deixar vestígios, nem mesmo quando fora atacado, piso­teado e esmurrado pelos bandidos. Se ao menos o tio estivesse ao seu lado agora. Ele saberia o que fazer. Apesar de tentar resistir, Jack começou a chorar.

— O menino ainda está em choque — o cirurgião explicou ao policial enquanto os dois se afastavam da cama. — A polícia já tem idéia de quem são os culpados?

— Ainda não. Mas se os apanharmos, é bem provável que sejam condenados por homicídio. Es­ses turistas, quando irão aprender? Quais são as chances reais do sr. Crighton sobreviver?

Jack se esforçou para ouvir a resposta do mé­dico, porém já não havia ninguém no quarto.

Jon e a esposa estavam na cozinha, discutindo a possibilidade de tirarem alguns dias de férias no verão, quando o telefone tocou.

Ao notar a expressão do rosto do marido e o tom preocupado da voz, Jenny soube que alguma coisa terrível acontecera.

— Um acidente... na Jamaica — ele falou bai­xinho, recolocando o fone no gancho.

— Jack! O que houve com nosso sobrinho? Por favor, diga logo.

— Não se trata de Jack, embora ele também tenha ficado ferido. É Max.

— Max? — Atônita, Jenny emudeceu. De certa forma sempre julgara Max um ser invencível. Não sobre-humano, mas... inumano talvez. Tremores intensos a sacudiram de alto a baixo. Oh, Deus, o que estava pensando? Max era fruto de seu ven­tre, seu próprio filho. — O que aconteceu? — con­seguiu murmurar afinal, mal encontrando forças para pronunciar as palavras. Nunca associara aquele filho, rebelde e insensível, a algo que pudesse machucá-lo ou causar-lhe sofrimento. Max, sim, sempre machucara os outros.

— De fato não sei os detalhes. Parece que Max e Jack foram brutalmente atacados na praia. Am­bos ficaram muito feridos, porém nosso filho corre risco de vida. Eles querem que eu vá para a Ja­maica o quanto antes. — Jon calou-se, as forças dando a impressão de lhe faltarem. Ao telefone, estivera chocado demais para fazer perguntas de­talhadas e limitara-se a escutar o que o repre­sentante do hospital tinha para lhe dizer. Segundo o cirurgião que o atendera, Max fora levado para a unidade de tratamento intensivo e seu estado era crítico.

— Preciso ir para o aeroporto, embarcar no pri­meiro avião para a Jamaica.

Jon sentia-se como se estivesse caminhando num lamaçal, uma força invisível impedindo-o de progredir embora lutasse para avançar. Enquanto seu cérebro gritava para apressar-se, antes que fosse tarde demais, seus movimentos pareciam ar­rastados, destituídos de vigor.

— Sim, sim — Jenny retrucou num fio de voz. — Oh, Jon, isso não pode estar acontecendo. Max... — De repente um frio mortal tomou conta de cada um de seus membros, fazendo-a estreme­cer violentamente. Cruzando os braços, resistiu ao impulso de chorar, de se deixar enlouquecer pelo desespero. Já havia sofrido a perda de um filho, já havia sentido aquela dor monstruosa uma vez, a sensação de impotência, de fracasso. Uma dor impossível de ser esquecida, depois de expe­rimentada. — Maddy. Maddy deve ser avisada. Ela foi passar o fim de semana em Chester, com as crianças. — Vendo o marido tirar o telefone do gancho, Jenny fechou os olhos, desejando que tudo não passasse de um pesadelo.

— Maddy, tem algo que eu gostaria de lhe ex­plicar... uma coisa que preciso lhe contar.

Obedientemente ela desviou o olhar da pista de dança, onde vários casais rodopiavam ao som da orquestra, lembrando-se de que era uma mu­lher adulta, não uma adolescente. O fato de ter fantasiado sobre como seria estar nos braços de Griff enquanto deslizavam pela pista do Grosvenor, seus passos, mentes e almas em perfeita sincronia, revelava pouca maturidade. Assim como não passava de uma tolice invejar os casais que, de corpos colados, moviam-se no ritmo da música sensual, esquecidos do mundo.

Devagar, Maddy focalizou a atenção em Griff, notando a ansiedade tomar conta do rosto viril. No mesmo instante o desejo de dançar desapare­ceu. O que ele queria lhe falar devia ser sério.

Fitando-o encorajadora, aguardou.

De súbito, o maitre aproximou-se da mesa. Po­rém, em vez de dirigir-se a Griff, como imaginara, abordou-a:

— Sra. Crighton, há uma chamada telefônica a sua espera. Se fizer o favor de me acompanhar até a recepção.

Em silêncio Maddy levantou-se e, para seu alí­vio, reparou que Griff fazia o mesmo. Para al­guém, qualquer pessoa, procurá-la no restaurante, a única conclusão possível era de que havia um problema em casa. Ben ou as crianças.

Com o coração aos pulos, ela atravessou o salão acarpetado, Griff seguindo-a de perto.

— Temos um pequeno escritório logo à es­querda, senhora — a recepcionista a informou atenciosa. — Se quiser, transferirei a ligação para lá.

— Por favor, faça isso — Maddy respondeu, en­trando no local indicado. O cômodo apertado com­portava apenas duas cadeiras, uma mesa e, claro, um telefone.

Nervosa, ela tirou o fone do gancho, notando que Griff permanecia junto à porta, protegendo sua intimidade e também não desejando introme­ter-se numa conversa particular.

— Maddy? É você? Sou eu, Jenny. Imediatamente, ao ouvir a tensão e o temor na voz da sogra, ela sentiu a respiração lhe faltar. Jenny sempre tão calma e controlada parecia à beira de um ataque de nervos.

— Sim, sim, sou eu. Aconteceu alguma coisa? O que houve? É Ben?

— Não... não se trata de Ben.

Percebendo que Jenny chorava, Maddy sentou-se, os joelhos já não sustentando o peso do corpo. Porém, antes de mencionar o nome dos filhos, es­cutou a sogra continuar:

— É Jack e... e Max. Houve um acidente. Jon... Oh, Maddy! Max está terrivelmente machucado e eles não sabem... não podem afirmar... Jon con­seguiu um lugar no próximo vôo partindo de Manchester para a Jamaica. O avião deve sair dentro de poucas horas.

— Está tudo bem — Maddy ouviu-sé dizer. — Está tudo bem. Vou voltar para casa agora.

Devagar, ela recolocou o fone no gancho e virou-se para Griff.

— É Max. Aconteceu algum tipo de acidente. Não sei ao certo o quê. Tanto Max quanto Jack sofreram ferimentos sérios. Porém Max — Maddy engoliu em seco e recomeçou a falar, a voz calma e controlada parecendo pertencer a uma outra pessoa, tão distanciada se sentia da realidade. Tinha impressão de estar vivendo um pesadelo. — Jon partirá para a Jamaica ainda hoje. Pela voz de Jenny, ficou claro que eles não esperam o melhor. Tenho que ir para casa. Jenny precisa de mim.

Quando os olhares de ambos se encontraram, Griff soube que aquele telefonema acabara de mu­dar tudo entre os dois. O que partilhavam no mo­mento, o que iriam partilhar juntos no futuro, teria que ser posto de lado, pelo menos tempora­riamente. Enquanto julgasse necessário, Maddy retomaria o papel de esposa de Max, não movida pela hipocrisia e sim porque se sentia no dever de apoiar as pessoas que acreditava precisarem de seu conforto. Assim como ele precisava. O que teria acontecido se houvesse agido conforme pla­nejara e se confessado estéril, explicando as razões que o levaram a se submeter a uma vasectomia, antes do telefonema fatal? Teria Maddy ficado di­vidida entre a piedade pela família do marido e a pena que seu drama lhe despertaria? Exterior­mente, podia ser um homem saudável, completo, mas intimamente, diante dos próprios olhos, não passava de uma criatura mutilada, um fardo que Maddy poderia se julgar no dever de carregar, assim como Max, caso o acidente o deixasse alei­jado. Todavia não era piedade o que desejava da mulher amada.

— O que você pretende fazer? — Griff pergun­tou-lhe. — Reunir-se às crianças na casa de Bobbie e Luke?

— Não. É Jenny quem precisa de mim nesse momento.

— Vou levá-la até Haslewich então.

— Não. — Vendo que o desapontara, ela o tocou de leve no braço. — Não seria a coisa certa a fazer — explicou suavemente. — Não quando... Serei obrigada a deixar Léo e Emma aos cuidados de Bobbie e ajudaria muito se você pudesse vi­sitá-los amanhã. Bobbie já está sobrecarregada cuidando da própria família e não tenho certeza de quando poderei voltar a Chester para buscar meus filhos. Até termos mais notícias sobre Max, até sabermos o que de fato aconteceu, não serei capaz de...

— Por favor, não. Sei o que você ia dizer. —Decidido, Griff fechou a porta do pequeno escri­tório e tomou-a nos braços, acalentando o corpo trêmulo com o carinho de um amigo e a paixão de um amante. — Isso não muda nada entre nós, querida. Pelo menos no que me diz respeito. Mas conheço-a bem e sei que você jamais poria o próprio bem-estar acima do que julga ser seu dever. Vá encontrar-se com Jenny. Faça o que considera certo e quando... quando se sentir pronta, volte para mim. Por enquanto, seremos apenas amigos.

— Oh, Griff, você é tão bom! Bom demais — Maddy protestou, enxugando as lágrimas.

— Não, é você quem é bondosa.

— Não. Sinto que estou sendo egoísta por querer mantê-lo na minha vida e por usá-lo quando tudo me parece tão incerto.

— Você não está sendo egoísta e tampouco está me usando. Por acaso não vê que eu desejo estar ao seu lado? Que minha vontade é apoiá-la sem­pre? Por acaso não sabe que eu a... Um dia, quando tudo isso estiver para trás — ele pro­meteu antes de tomar-lhe o rosto entre as mãos e fitá-la intensamente.

Maddy tinha certeza de que Griff ia beijá-la e embora soubesse que deveria impedi-lo, não teve forças para resistir.

Ardente, abraçou-se ao corpo forte entregando-se ao beijo com sofreguidão, os sentimentos tão longamente reprimidos vindo por fim à tona. Na­quela noite, apesar de não terem feito sexo, mais um passo fora dado em direção à intimidade total. Maddy tinha consciência de que o queria e se não fosse o telefonema de Jenny, talvez seu destino já houvesse sido selado.

— Preciso ir agora — ela murmurou, afastando-se relutante. — Jenny deve estar me esperando.

Em silêncio, os dois tomaram o caminho da casa de Bobbie e Luke. Mal Griff desligou o motor do carro, Maddy desceu apressada, despedindo-se com um aceno. Em poucas palavras, explicou aos amigos o que acontecera.

— Você disse que Max foi ferido? — Luke in­dagou áspero.

— Max e Jack. Mas parece que o estado de Max é grave. Jon está de partida para a Jamaica. Bobbie, posso deixar as crianças dormirem aqui esta noite?

— Claro, querida. Assim que você souber de mais detalhes, por favor nos avise.

— Tem certeza de que prefere ir sozinha para Haslewich? Não quer mesmo que eu a leve? — Luke se ofereceu preocupado.

— Não é preciso, ficarei bem — ela retrucou, grata pelo oferecimento e pelo fato de Bobbie e Luke não esperarem vê-la reagir com uma tristeza que estava longe de sentir. Podia ser esposa de Max, porém os dois não se amavam. Representar a esposa deses­perada e aflita seria uma atitude hipócrita. Sua prin­cipal preocupação eram os pais de Max e em especial Jenny, a quem amava de verdade.

Ligeiramente acima da velocidade permitida, Maddy procurava se concentrar na estrada e no tráfego.

Pela angústia contida na voz da sogra, não tinha dúvidas de que o estado de Max era grave. Todavia, não conseguia visualizá-lo sozinho e vulnerável numa cama de hospital. A única ima­gem mental que podia criar do marido era a do mais absoluto vigor, a expressão marcada pela hostilidade que parecia emanar dele por todos os poros. A raiva contida, a inquietude constan­te, o desdém por aqueles que o cercavam. Esse sim, era Max. Não a figura imóvel, pálida, perto da morte.

Depois de estacionar o carro diante da casa dos sogros, Maddy correu para a porta dos fundos, comumente usada pelos membros da família. Ape­sar do frio intenso, a porta estava aberta e, en­costado à mesa da cozinha, Jon falava ao telefone.

De alguma forma ele parecia mais velho, mais frágil, mais grisalho.

— Eu estava conversando com o diretor do hos­pital, na Jamaica. Não puderam me dizer nada de novo, Maddy.

— Vai ficar tudo bem, tudo bem — ela o acal­mou, usando o mesmo tom de voz que teria em­pregado para tranqüilizar um dos filhos.

— Nunca pensamos, nunca nos ocorreu que Max, dentre todas as pessoas... — Jon murmurou, a voz trêmula e incerta. — Ele sempre foi tão inatingível.

— A que horas é seu vôo? — Maddy indagou gentil, fazendo-o sentar-se. — Você já arrumou a bagagem? Onde está Jenny?

— Meu vôo? O avião parte às quatro horas da manhã. Tenho que estar no aeroporto às duas. Ainda não arrumei a bagagem. Jenny e Joss saí­ram para uma caminhada.

— Você quer que eu arruíne sua mala?

— Sim, por favor. Vou fazer uma xícara de chá para nós, está bem? Eu... eu não contei nada a meu pai ainda — Jon completou, le­vantando-se e andando pela cozinha como um zumbi. — Só Deus sabe o que o impacto desta notícia poderá lhe causar. Perder Max além de David.

Maddy engoliu em seco, notando os olhos do sogro se encherem de lágrimas.

Assim como Bobbie e Luke, ele também não fizera nenhum comentário sobre seu distancia­mento emocional em face à tragédia. Todavia Jon não podia culpá-la. Não quando sabia a farsa que seu casamento havia sido.

— Talvez não seja tão ruim quanto você pensa — ela o consolou, abraçando-o terna. — Max é muito forte, é um lutador.

— Já lhe fizeram uma operação de emergência para extrair o baço e dizem que se ele sobreviver, no que não acreditam muito, é possível que sejam obrigados a lhe amputar uma das pernas. Apa­rentemente os estragos causados pela faca foram enormes.

Jon calou-se ao perceber a reação chocada da nora.

— Sinto muito ter lhe dado a notícia dessa forma. Oh, querida, perdoe-me pela falta de sensibilidade.

— Não posso fingir que meu casamento era nor­mal, não posso mentir sobre meus sentimentos, mas a idéia de que Max, dentre todas as pessoas, seja obrigado a passar por isso é ruim demais. Ele odiaria tornar-se um inválido.

— Sim — Jon concordou e Maddy soube que os dois pensavam o mesmo. Max preferiria morrer a sofrer a mutilação que seu pai descrevera.

Uma hora mais tarde, depois de arrumar a ba­gagem do sogro, ela voltou para a cozinha. Jenny e Joss ainda não tinham regressado.

— Está começando a garoar — Jon falou an­sioso. — Jenny não levou um casaco pesado, nem Joss.

— Vou buscá-los.

— Você sabe onde encontrá-los?

— Sim, eu sei — Maddy respondeu baixinho.

A velha igreja no centro de Haslewich era tão antiga quanto a própria cidade. Gelo adornava o caminho que conduzia ao cemitério, refletindo as luzes dos arredores. Da praça, Maddy podia ouvir o som de vozes dos adolescentes reunidos ali por perto. A distância, um carro brecou repentinamente, fazendo-a erguer a cabeça e contemplar o belo conjunto de casas, no estilo georgiano, que circundava a praça. Uma dessas casas pertencia à tia-avó de Max, Ruth.

Se estivesse ali, Ruth saberia o que fazer, o que dizer. Porém a velha senhora ainda não re­tornara da viagem aos Estados Unidos. Precisa­riam lhe telefonar e contar o acontecido, Maddy concluiu erguendo os ombros e rumando para o cemitério.

Não foi surpresa descobrir as duas pessoas ajoe­lhadas junto a uma das sepulturas. Joss e sua sogra, cabisbaixos, pareciam orar.

— Maddy! — Jenny exclamou erguendo a ca­beça e fitando-a. — Por que... O que você está fazendo aqui?

— Está na hora de ir para casa — ela respondeu suavemente. — Jon deve partir para o aeroporto e precisa de você. — Enquanto falava, Maddy to­cou o braço do cunhado, num gesto carinhoso e confortador. Ele crescera tanto nos últimos anos e sem dúvida seria mais alto do que Max. Mas agora, percebendo a tensão naquele corpo adoles­cente, não era possível enxergá-lo como o adulto que viria a ser um dia, e sim como a criança que ainda era. — Joss ficará resfriado. Devemos ir embora.

— Já perdi um filho — Jenny murmurou quase que para si mesma, cobrindo o rosto com as mãos. — Não quero perder outro. Oh, Deus!

Testemunhando tamanho desespero, Maddy sentiu lágrimas virem-lhe aos olhos. Conhecia muito bem os sentimentos de Jon e Jenny em relação a Max, como haviam sido magoados e guardado o desgosto em silêncio. Porém, Max con­tinuava a ser filho de Jenny. Ela o trouxera no ventre e lhe dera a luz. Sendo Maddy mãe, podia compreender não existir maior dor no mundo do que a perda de um filho.

Maddy também sabia que durante toda sua vida de casada, Jenny sempre fora a presença forte, a pessoa capaz de amparar a família, os filhos e os amigos. Ela mesma encontrara em Jenny o apoio e amor que jamais recebera da própria mãe. Agora era hora de retribuir, de ser forte por Jenny e sustentá-la em sua aflição.

— Ajude sua mãe a levantar-se, Joss. — Virando-se para a sogra, falou com firmeza: — Max não está morto. Está vivo e Jon...

— Mas ele vai morrer.

Aliviada, Maddy notou que, apesar de profun­damente deprimida, Jenny estava se permitindo conduzir para fora do cemitério.

— Ainda não sabemos. Max é muito forte e tei­moso por natureza. Vai lutar para viver.

— É tudo culpa minha. Se eu o tivesse amado de maneira mais adequada. Amei-o muito quando ele nasceu. Nós o queríamos tanto, porém Max não era...

— Joss, vá na frente e ligue o carro para es­quentar o motor — Maddy instruiu o cunhado entregando-lhe as chaves. — Deixei-o estacionado na praça.

Não era nenhum segredo o relacionamento difícil entre Jon, Jenny e Max, porém Maddy pre­feria que Joss não escutasse o que a mãe dizia naquele momento de profundo desespero.

— Suponho que eu o tivesse julgado um subs­tituto para Harry — Jenny falou num tom de voz doloroso, os olhos cheios de tormento. — Mas ele nem sequer se parecia fisicamente com Harry. Era maior, mais inquieto. Ele era...

— Max — Maddy completou suave.

— Max foi um bebe difícil de lidar. Não aceitava o peito. Eu me sentia tão vulnerável, tão inade­quada. A enfermeira dizia que às vezes os bebês rejeitam mesmo o leite materno. Max costumava me olhar de uma forma tão estranha. Dormia tão pouco. Aos nove meses já andava e com um ano e meio já falava fluentemente. Quando eu tentava pegá-lo no colo, ou acariciá-lo, ele ficava imóvel, tenso. Foi uma época dura. Jon estava sempre ocupado com o trabalho, eu quase não o via. As coisas não andavam bem entre nós dois. A única pessoa de quem Max dava a impressão de gostar era David. David desejava desesperadamente um filho e irritava-o que Jon e eu já tivéssemos Max. O primeiro menino da família. Eu costumava pensar que David encorajava Max a se afastar do próprio pai e Jon, por causa de sua perso­nalidade conciliatória, nunca tomava nenhuma atitude, permitindo que o irmão agisse como quisesse.

Maddy, em silêncio, conduzia Jenny para o carro. — Max odiou quando as irmãs nasceram. Quando as viu na maternidade, disse que pareciam dois gatinhos cegos e que queria afogá-las. Desde então sentia-me aterrorizada de deixá-lo a sós com as meninas. Ele expressava um ciúme doentio. Jenny enxugou as lágrimas e continuou:

— Lembro-me de um dia ouvi-lo me acusar de não amá-lo. Claro que neguei. Ao perguntar-lhe de onde ele havia tirado aquela idéia absurda, Max respondeu ter escutado essas palavras cruéis da boca de David. Mas eu amava meu filho de verdade! Eu o amo.

— Venha, vamos para casa. — Maddy segurou a sogra pelo braço, induzindo-a a caminhar. — Jon deve estar preocupado.

— Eu queria ir para a Jamaica também. Mas tinha apenas um lugar vago no avião. Você acha que Max ficará com raiva de mira? Que me jul­gará mal?

— Tenho certeza de que ele entenderá. — Ali­viada, Maddy notou Joss aguardando-as a poucos metros de distância.

Enquanto ajudava a sogra a acomodar-se no banco da frente, ocorreu-lhe como, em questão de minutos, os papéis de ambas haviam se invertido. Jenny chorava baixinho e tremia muito. A pri­meira coisa que faria na amanhã seguinte seria telefonar para o médico da família. O choque cau­sava efeitos às vezes devastadores sobre as pes­soas. E Ben ainda precisava ser comunicado sobre o acidente.

         Jon abriu a porta da cozinha e fitou, ansioso, o rosto desfeito da esposa. Depois virou-se para Maddy, uma pergunta muda no olhar.

— Não se preocupe — ela o assegurou, — Jenny está, como é natural, muito aflita. Telefonarei para o médico amanhã e pedirei que venha vê-la. Joss, por favor, prepare uma xícara de chá para sua mãe.

Grato por ter algo com o que se ocupar, o rapaz atendeu imediatamente ao pedido da cunhada. Preferia fazer qualquer coisa a ter que observar aquela expressão aterrorizada no rosto da mãe, uma expressão que não lhe era nem um pouco familiar. Na verdade, ainda não havia conseguido lidar com o que estava acontecendo.

Por causa da enorme diferença de idade e de personalidade, Joss e Max nunca tinham sido mui­to íntimos. Mas agora, testemunhando a intensi­dade do sofrimento de sua mãe por causa de um irmão que sempre dera a impressão de não fazer parte da família, sentia-se chocado ao perceber uma outra faceta daquela mulher que sempre jul­gara calma e segura. Sua mãe era muito mais frágil do que imaginara.

Instintivamente, assim como o pai, Joss desco­bria-se buscando apoio em Maddy, extraindo for­ças de suas maneiras práticas e confiantes.

— Jenny, por que você não vai lá para cima e descansa um pouco? — Maddy sugeriu com ex­trema gentileza.

— Não. Não, não posso. Preciso levar Jon ao aeroporto.

— Eu farei isso. Joss, você pode me acompanhar até a garagem por um momento? Gostaria de ve­rificar se o tanque está cheio antes de tomar a estrada.

Ninguém pareceu achar seu pedido suspeito. De fato, tratava-se apenas de uma desculpa para que marido e mulher ficassem a sós.

— Oh, Deus, não consigo acreditar que isso es­teja acontecendo. — Jenny atirou-se nos braços de Jon, o corpo delicado sacudido por soluços ter­ríveis. — Oh, eu não quero que ele morra. Por favor, Deus, não o deixe morrer. A culpa é minha? Será que errei tanto assim?

— Calma, meu amor — Jon tentou confortá-la, a voz rouca e emocionada. — Não é culpa de ninguém.

Ao voltar da garagem, Maddy encontrou a sogra mais controlada, os olhos tendo perdido aquele ar vago que tanto a alarmara quando fora buscá-la no cemitério. Quando Jenny anunciou que pre­tendia acompanhar o marido até o aeroporto, Mad­dy não tentou dissuadi-la.

Sabendo como estaria se sentindo se fosse seu precioso Léo quem se encontrasse à beira da morte num lugar distante, ela esperou paciente até que Jenny visse o avião do marido decolar, uma flecha prateada dentro da escuridão da noite.

Ao entrar em casa, Maddy indagou-se por que ainda não havia sido capaz de enfrentar a realidade. Era como se um véu espesso a separasse dos acontecimentos recentes, tornando-a quase uma espectadora do drama que se desenrolava a sua frente. Sabia que o marido estava gravemente ferido, correndo risco de vida. Mas, de alguma forma, não podia aceitar o fato de que, talvez, nunca mais tornasse a vê-lo, de que ele não tor­naria a aparecer em Queensmead com seus mo­dos arrogantes, perturbando Léo e tratando-a com o desdém costumeiro. A presença de Max bastava para criar uma atmosfera de perigosa excitação, onde a tensão e hostilidade revela­vam-se constantes.

Por um breve instante Maddy fechou os olhos. Não, Max era por demais cheio de vida para mor­rer. Trêmula, a respiração subitamente difícil, ela colocou a xícara de chá sobre a mesa da cozinha e parou diante da janela. Joss e Jenny já estavam dormindo, porém não fora capaz de deitar-se. Amanhecera afinal. Logo teria que partir para Queensmead e contar sobre o acidente ao avô de Max. Então tomaria um banho e iria para Chester, buscar Léo e Emma.

Fitando o jardim desolado, coberto de neve, Maddy sentiu um aperto no coração, impossível de ser definido.

Era verão na Jamaica, o quarto do marido es­taria refrescado pelo ar-condicionado. "Oh, Deus, por favor, faça com que ele viva", ela rezou em silêncio. "Não por minha causa, mas por Jenny. Max não iria querer morrer."

Embora tentasse visualizá-lo numa cama de hospital, cercado pelos aparelhos que o manti­nham vivo, tudo em que conseguia pensar era na primeira vez que haviam feito sexo.

Acordara no meio da noite apenas para obser­vá-lo dormir com os olhos e as emoções de uma mulher loucamente apaixonada.

Deitado de costas, os cabelos escuros e revoltos, o corpo nu e bronzeado como o de um deus. Quase não pudera conter o impulso de acariciar os mús­culos salientes, de beijar aquelas mãos fortes que a tinham tocado e conduzido ao limiar de um mun­do novo. O mundo do prazer sensual.

Zonza, embriagada pela própria felicidade, deixara-se ficar imóvel minutos a fio, velando o sono do ser amado. Não podia acreditar que esse ho­mem belo e viril lhe pertencesse. Então Max des­pertara e surpreendera-a espreitando-o.

— Vá em frente, me toque — ele havia dito com um sorriso sedutor. — Ah, você não sabe como? Quer que eu lhe mostre?

Vermelha como um pimentão, Maddy aquiesce­ra. Na ocasião, não achara estranha a maneira quase fria como ele a instruíra. Sentia-se por de­mais envolvida para analisar a situação com a objetividade necessária. O desejo que fazia seu sangue ferver tornava-a cega aos primeiros sinais de que algo poderia estar errado.

Entretanto o cheiro da pele de Max, o gosto dele em sua boca, eram as sensações das quais se lembraria para sempre, não os tormentos en­frentados depois.

Ao levar a xícara de chá aos lábios, Madd re­pentinamente se deu conta de que seu rosto estava banhado de lágrimas.

 

                                               CAPITULO X

Se o senhor quiser me acom­panhar, por favor.

Apesar do ar-condicionado do hospital, Jon sen­tia um suor frio empapando-lhe a roupa enquanto seguia a enfermeira pelo corredor interminável. Os passos firmes e decididos da profissional, alia­dos às linhas sinuosas do corpo delgado, o fizeram lembrar-se de Maddy.

A maneira calma e confiante como sua nora tinha tomado controle da situação o surpreendera a princípio. Durante anos estivera acostumado a vê-la ocupar uma posição secundária, sempre he­sitante e insegura a cerca de si mesma. Porém precisava admitir que essa nova postura autoconfiante caía-lhe bem.

Com o coração apertado, notou que a enfermeira parava diante da sala do médico responsável pela UTI.

— Meu filho, Max — Jon começou tão logo as apresentações foram feitas. — Ele está...

— Sinto dizer, seu filho encontra-se num estado crítico — o médico respondeu delicadamente.

— Mas ele está vivo? — A voz de Jon não pas­sava de um murmúrio inaudível.

— Sim. Todavia devo avisar-lhe de que Max sofreu perda maciça de sangue e ferimentos graves.

— Posso vê-lo? — Apesar de se esforçar para manter o controle, houve um momento em que Jon pensou não resistir, as pernas vergando-se sob o peso do corpo.

— Seu filho não irá reconhecê-lo. Ele se encon­tra sob o efeito de fortes sedativos. Talvez, dentro de uma hora...

Angustiado, Jon desviou o olhar. Sabia muito bem o que o outro lhe dizia nas entrelinhas. Max estava morrendo. De repente as lágrimas repri­midas eram como cacos de vidro machucando-lhe os olhos.

— Se você quiser ver seu sobrinho — o médico sugeriu.

— Sim, sim, claro.

Quando o tio entrou no quarto, o rosto de Jack se iluminou de contentamento. Entretanto logo a culpa e o medo toldavam a expressão feliz.

— Max? Como está ele? — o garoto pergun­tou ansioso. — Você o viu? Eu queria falar com Max e ainda não me permitiram. Foi tudo culpa minha.

A dor e o evidente sentimento de culpa do sobrinho ajudaram Jon a sublimar o próprio sofrimento.

— Ouça com atenção, nada do que aconteceu é culpa sua. Nada. Vocês dois foram vítimas de um ato estúpido de violência.

— Mas se eu não tivesse tentado voltar para o hotel a pé, não teríamos sido atacados.

Vendo o rosto do sobrinho banhado em lágrimas, Jon desejou abraçá-lo, animá-lo, porém, por causa dos muitos machucados, pôde apenas tocá-lo de leve no ombro.

— Eu queria nunca ter vindo para cá, tio. Jack fechou os olhos.

Sua ânsia pela presença tranqüilizadora de Jon só tinha feito crescer nos últimos dias. Agora dava-se conta de que David, o pai a quem julgara tão importante, tão vital, encontrar, pouco ocupara seus pensamentos. Na verdade, um estranho qual­quer que passasse pela rua seria capaz de con­fortá-lo tanto quanto David se, por um milagre, ele aparecesse no hospital. Descobrira que as úni­cas pessoas que desejava ver eram aquelas que considerava de fato seus pais, aqueles que o ha­viam criado e amado incondicionalmente. Tio Jon e tia Jenny.

No momento, tudo o que gostaria era de estar na segurança de sua casa, de seu lar em Haslewich e esse desejo excedia em intensidade à urgência imatura que o fizera partir em busca do pai.

As longas horas passadas na cama do hospital, sozinho consigo mesmo, o tinham feito lembrar-se de tudo aquilo que Jon sempre se esforçara para fazê-lo enxergar: ele era amado por ser quem era, por seus próprios méritos. Se David lhe dera as costas e o abandonara, então saíra ganhando, pois o amor com que Jon o cercara mais do que com­pensara a perda do pai biológico.

Estivera contando os minutos, os segundos, até a chegada do tio. Todavia estar diante de Jon levava-o a encarar a realidade de não ser filho daquele homem bom e generoso. Max era o filho de Jon e Max jazia em algum lugar do hospital, muito próximo da morte.

Se Max morresse... O peso de suas emoções pa­recia demasiado para que pudesse suportar. Se não tivesse discutido com o primo, se não tivesse se aventurado por um trecho de praia deserto, se, em primeiro lugar, não tivesse vindo para a Ja­maica. Se, se, se, se... Se ao menos Max sobrevi­vesse. Se.

— Eu queria ver Max, mas não me deixaram — Jack tornou a dizer.

— Também não me deixaram vê-lo — Jon re­trucou suavemente.

— E tia Jenny?

— Ela está preocupada com vocês dois. Sem dúvida ficará melhor quando os tiver de volta em casa.

Por um breve instante os olhares de ambos se encontraram, temerosos e aflitos. Como ignorar a possibilidade de que Max e Jack poderiam não voltar juntos para casa?

A porta do quarto se abriu e o médico, com quem Jon conversara pouco tempo atrás, entrou.

— Creio que talvez você deva ir ver seu filho.

Em silêncio, Jon o seguiu. Estava na hora de ver Max, antes que fosse tarde demais.

Os dramas reais ou fictícios, encenados exaus­tivamente na televisão, deveriam tê-lo preparado para o que iria ver, porém não foi o que aconteceu. A familiaridade da cena era inegável: o quarto estéril, os ruídos das máquinas, os rostos graves das enfermeiras, a vulnerabilidade absoluta do paciente, imóvel numa cama estreita, ligado aos aparelhos que o mantinham vivo. O inferno era saber que não se tratava de um ator, ou apenas de um estranho, encenando um ato cruel. A luta silenciosa entre a vida e a morte se desenrolava diante de seus olhos e era a carne de sua carne, o sangue de seu sangue, quem corria o risco de perder a batalha.

Certa vez vira alguém muito próximo protago­nizando a mesma tragédia, mas o que sentira por David, quando o irmão sofrera o enfarte, não se comparava ao que experimentava agora.

Trêmulo, Jon sentou-se na única cadeira ao lado da cama. Lívido, imóvel, o filho parecia não apresentar nenhum sinal de vida. Deses­perado, buscou o olhar do médico, esforçando-se para resistir às garras do medo que ameaçava subjugá-lo.

— Ele está...

— Sim, está vivo — o médico respondeu cau­teloso. — Porém não seria justo eu lhe dar falsas esperanças. Seu filho tem se tornado cada vez mais dependente dos aparelhos.

— Não consigo acreditar. Max sempre foi tão forte, tão resistente.

— Ele foi vítima de um ataque feroz. O pior, dessa natureza, de que já tive conhecimento. Os ferimentos...

O médico calou-se. Não fazia sentido dizer a esse pai, já tão abalado pela dor, que fora neces­sário ressuscitar Max Crighton duas vezes, ou que a enfermeira-chefe, com muitos anos de experiên­cia na UTI, viera lhe informar que seu paciente não sobreviveria mais uma noite.

— Quando você estiver pronto para sair, pres­sione a campainha ao lado da cama — o médico o instruiu. — A enfermeira o acompanhará até a outra ala.

— Quanto tempo posso ficar aqui?

Quando o médico simplesmente balançou a ca­beça, sem pronunciar uma única palavra, Jon en­trou em pânico. Embora desejasse negar o que vira estampado no olhar do outro homem, a ver­dade permanecia imutável.

Max estava morrendo e ele poderia permanecer ao lado do filho até... Até que os monitores ficas­sem silenciosos e as enfermeiras viessem buscar, o corpo sem vida.

Sozinho naquele quarto de hospital, Jon esten­deu o braço e cobriu a mão inerte de Max com a sua. Não se recordava de quando fora a última vez em que o tocara sem ser rejeitado.

Quando ele nascera, saudável, vigoroso, após a perda de Harry, tudo o que desejara havia sido protegê-lo, mantê-lo seguro no aconchego de seus braços. Mas Max nunca fora o tipo de crian­ça que gostasse de ser acariciada. Agora, Jon queria apenas abraçar aquele filho, socorrê-lo e guardá-lo.

Max era carne de sua carne. Vendo-o ali, tão indefeso, conseguia pensar somente no quanto o amava, no quanto seus sentimentos eram profun­dos e verdadeiros. Estranho como nunca reconhe­cera a intensidade desse amor e nem soubera como agir para demonstrá-lo.

Abaixando a cabeça, vencido pela dor, entre­gou-se às lágrimas.

Max estivera tendo os sonhos mais vívidos e extraordinários sobre sua infância, cada detalhe nítido, lembranças há muito esquecidas fluindo deliciosamente, sem esforço. Aqui podia ver a cor do vestido da mãe, aspirar seu perfume delicado e sentir o calor da pele macia. Milhares de pe­quenas recordações que jamais se julgara ter sido capaz de arquivar na memória.

Ao lado da mãe, estava o pai. Calado. Austero. Estranho, ao virar-se para fitá-lo, não conseguiu enxergar o misto de desaponto e desgosto sempre presentes no olhar de Jon. Os olhos do pai bri­lhavam de emoção, transbordantes de amor.

Seu pai sofria e Max desejou tocá-lo, confortá-lo. Todavia encontrava-se a quilômetros de distância, num lugar muito especial. Esse lugar maravilho­so, resplandecente de luz, tão diferente de tudo o que já havia visto antes, parecia ter um efeito extraordinário sobre seus sentidos. Ali, achava-se seguro, protegido e em paz. Ali, encontrava a sensacão mais profunda de bem-estar e de absoluta perfeição. Era como se estivesse recebendo algo de que nem sequer imaginara precisar, alguma coisa sem a qual não suportaria seguir em frente. Aquele lugar, tão magnífico, tão luminoso, o inundava de amor. Impossível descrever as emo­ções despertadas em sua alma. Não estava apenas recebendo amor, era também capaz de o gerar. Queria alcançar os pais, a família inteira, e par­tilhar o que vivenciava agora. Entristecia-o ter­rivelmente não tê-los consigo para dividir a ma­ravilha desse amor eterno, desse conhecimento imortal. Afligia-o não poder estender as mãos e secar as lágrimas do pai.

Escutava o pai chamando-o, procurando-o e, através de seu amor por ele, Max sentiu que o fardo de um cansaço abissal lhe era retirado dos ombros para que conseguisse, enfim, desfrutar da solidão e da paz do lugar onde se achava. Parte de si, contudo, ansiava voltar para junto do pai e tranqüilizá-lo.

Embora já houvesse atravessado o túnel com­prido e escuro, continuava ouvindo a voz do pai. Desejava virar-se e prestar atenção ao som da­quela voz, desejava olhar, uma última vez, para o homem que lhe dera a vida. Porém seu corpo pesava tanto, incomodava tanto. Mesmo assim, devia tentar confortar o pai.

Do outro lado do túnel, podia ver Jon. Mas de uma maneira que jamais o vira antes. Seu pai chorava. Desolado, só, prisioneiro de uma dor pro­funda. No mesmo instante Max soube que não teria coragem de abandoná-lo, que a necessidade de ampará-lo era maior do que sua própria von­tade de permanecer nesse lugar maravilhoso.

Triste, olhou mais uma vez o local onde se en­contrava, aspirando a pureza do ar, absorvendo a luz do amor eterno. Então, lenta e dolorosa­mente, começou a empreender o longo caminho de volta, enfrentado a escuridão do túnel inter­minável. A cada passo, seu corpo tornava-se mais pesado, as dores mais excruciantes. Podia sentir as batidas abafadas do próprio coração, a indese­jável mortalidade da carne ferida. Em protesto, ele gritou, não por causa do sofrimento físico e sim por ter consciência do que acabara de deixar para trás.

Entretanto, no fim do túnel, estava Jon, assus­tado, sozinho, sem ter em quem se apoiar. Quando a mão do pai tocou a sua, Max tentou alcançá-lo através dos pensamentos, convencê-lo de que não havia motivo para tristeza, ou sofrimento, dizer-lhe que no lugar onde estivera existia apenas a perfeição e não havia espaço para desespero. Con­tudo, Jon dava a impressão de não ouvi-lo, de estar além de qualquer conforto que lhe fosse ofe­recido, pois continuava a chorar.

Dolorosamente, Max virou a cabeça e abriu os olhos para fitar o pai.

— Jenny, sou eu, Jon. Max... Houve uma crise e os médicos pensaram que... Mas nosso filho vai vencer essa batalha, querida. Sim, isso mesmo. Não, não sei quando lhe darão licença para voltar para casa. Sem dúvida permanecerá na UTI du­rante algum tempo, já que seu estado inspira cui­dados. O importante é que os médicos estão otimistas quanto às suas chances de recuperação. Sim, sim, ligarei para você tão logo tenha mais notícias.

Jon estivera à cabeceira do filho por quase seis horas seguidas e o corpo inteiro doía, contudo ain­da havia algo que precisava contar à esposa, algo que precisava tentar explicar, embora ele mesmo não conseguisse compreender.

— Jenny, Max está diferente — falou cauteloso.

— Diferente? Como?

Apesar do tom ansioso da mulher, Jon, emocionalmente exausto, não encontrou forças para pro­curar palavras que expressassem melhor suas im­pressões. Sabia apenas que, enquanto vivesse, nunca iria se esquecer do olhar cheio de amor e sabedoria com que Max o envolvera no momento em que o fitara pela primeira vez, ao sair do coma.

Ao olhar para o filho, sentira-se como uma criança olhando no rosto preocupado e amoroso do pai. A inversão abrupta de seus papéis e o fato de ser Max, dentre todas as pessoas, quem lhe passara tamanha ternura e afeição, o deixara completamente atordoado, impedindo-o de anali­sar a situação com objetividade.

— Tenho que desligar agora. Por favor, tente não se afligir. Oh, quase ia me esquecendo. Max manda beijos para você, Maddy e as crianças. Ah? sim, ele também pede a Maddy que lhe envie uma fotografia recente de Léo e Emma.

 

                                             CAPITULO XI

Max pediu o quê? — Incrédula, Maddy fitou a sogra. No exato momento em que abrira a porta da cozinha, ela soubera que Jenny devia ter recebido boas notícias. Mas ser informada de que Max não somente lhe mandara beijos como também pedira uma foto recente dos filhos parecia-lhe impossível, absurdo. Será que a outra não estava apenas se esforçando para agir com tato?

— É verdade — Jenny confirmou, adivinhando o que passava pela cabeça da nora. — E, querida — ela a tocou no braço, obrigando-a a interromper a tarefa de iniciar o preparo do café da manhã —, Jon disse que Max está... diferente.

— Diferente? — Apesar de cética, Maddy guar­dou as dúvidas para si mesma. Claro que não lhe custava nada enviar uma fotografia das crianças ao marido. Todavia suspeitava de que Max, muito provavelmente, queria o retrato para causar al­guma impressão favorável numa enfermeira bo­nita. Afinal, ele nunca se interessara pelos filhos. Pelo contrário, sempre fizera questão de frisar não os ter desejado. Porém agora não era hora de co­locar Jenny a par desses tristes detalhes.

— Tenho que ir a Chester buscar Léo e Emma. Bobbie tem sido muito gentil e prestativa, mas prefiro não sobrecarregá-la.

— Vá sossegada. Ficarei bem sozinha. E engra­çado como são as coisas. Eu acreditava ter me distanciado emocionalmente de Max anos atrás. Ele continuava sendo meu filho, porém — Jenny fez uma pausa e balançou a cabeça —, quando penso que poderia tê-lo perdido...

— Eu compreendo.

Sim, compreendia muito bem, Maddy pensou enquanto tomava a estrada para Chester uma hora depois. Contudo entender os sentimentos da sogra e experimentar até mesmo alívio diante re­cuperação de Max não mudava nada. Mais do que nunca tinha consciência do quanto seu casamento era árido, insatisfatório.

Conhecer Griff a fizera enxergar o vazio de sua relação conjugal. Fora obrigada a enfrentar a rea­lidade. Manter-se presa a um casamento de fa­chada era negar a si, e principalmente aos filhos, a chance de uma vida plena. Max podia ter for­necido o esperma, a semente para a concepção de Léo e Emma, mas seu papel ficara reduzido ao de um reprodutor. Nunca ele se interessara pela felicidade das crianças, nunca se preocupara em zelar pelo bem-estar físico, emocional e mental dos filhos.

Naqueles anos todos, Max jamais segurara Léo ou Emma no colo, brincara com eles, ou lhes dera um mínimo de amor paternal. Por que então per­cebera uma nota de esperança na voz da sogra ao afirmar que "Max estava diferente"?

Diferente. Não importava quão mudado ele es­tivesse, pois o marido continuaria a ser um es­tranho. A verdade era que o homem com quem se casara, o Max a quem jurara amar eternamen­te, nunca existira, exceto em seus sonhos e ima­ginação, O Max por quem se apaixonara não pas­sara de um herói mítico, criado por sua própria carência, por sua própria ânsia de amar. Oh, sim, tentara se convencer do contrário. Esforçara-se para acreditar que o cinismo cruel, tão marcante na natureza do marido, não existia. Chegara ao extremo de, muitas vezes, culpar a si mesma pela maneira como era tratada, dizendo-se merecedora de desprezo e desatenção.

Somente ao conhecer Griff se dera conta do que antes lhe passara despercebido. O mais doloroso fora aceitar o fato de que, durante quase toda sua vida adulta, deixara-se atrair por pessoas e situações que lhe roubavam o orgulho e a auto-estima. Menosprezava-se tanto que parte de si não a julgava digna de ser tratada com respeito. Não fora uma verdade fácil de ser absorvida. Nin­guém gosta de se considerar covarde. Todavia aca­bara sendo uma experiência salutar perceber que se vivia trancafiada numa gaiola, então para lá se dirigira e depois jogara a chave fora.

Se Max era um péssimo marido e péssimo pai, por que não tomara nenhuma atitude antes que sua vida, e a de seus filhos, sofressem efeitos de­vastadores? Por que permanecera apática, servin­do de capacho para um homem que não lhe de­dicava a menor consideração? Por que havia ex­posto Léo e Emma a influências negativas?

Embora a estrada estivesse vazia, Maddy sen­tiu-se repentinamente tão perturbada que foi ob­rigada a parar o carro no acostamento.

Se a metamorfose pela qual passara nos últimos tempos a permitira mudar tanto, então por que não aceitava a idéia de Max também ter mudado? Porque Max sempre tivera prazer em ser quem era. Porque ninguém troca a própria pele.

Porque ela não queria ser obrigada a pensar nas possíveis conseqüências que transformação do marido iria gerar. Não agora. Não quando...

Depressa, retomou a estrada e pisou fundo no acelerador.

— Mamãe, mamãe — Emma gritou excitada, balançando os bracinhos ao ver Maddy entrar na cozinha.

— Como está Max? — Bobbie indagou séria, entregando a menina à mãe.

— De acordo com meu sogro, parece que a pior fase foi superada. Jon está impaciente para trazer o filho e o sobrinho para casa, porém os médicos só irão liberar Max quando o considerarem em condições de viajar, o que deverá levar algum tem­po. Jon também explicou a Jenny que, apesar dos esforços da polícia, dificilmente os culpados pelo ataque serão identificados e presos.

— Pelo visto, Max escapou por pouco.

— Sim. Os médicos disseram que foi um milagre ele ter sobrevivido.

— Não vai ser fácil para você quando Max voltar para casa.

Tensa, Maddy fitou Bobbie secamente.

— Como assim? — perguntou na defensiva.

— Estou querendo dizer que você terá muito trabalho — Bobbie retrucou depressa. — Cuidar de Ben e Max, além das crianças, será desgastante. Se você quiser, poderá trazer Léo e Emma para me visitar com mais freqüência. Assim, eu estaria ajudando-a de alguma forma.

Por um breve instante, Maddy pensara que Bob­bie estivera avisando-a sobre sua amizade com Griff. Embaraçada, corou e desviou o olhar.

— Obrigada. É bem provável que eu aceite sua sugestão. A propósito, onde está Léo?

— Griff o levou para dar um passeio. — Agora era Bobbie quem evitava o olhar da outra. — Ele telefonou para falar com Luke e quando descobriu que as crianças ainda estavam aqui, apareceu para nos visitar logo após o café da manhã, per­guntando se Léo não gostaria de ir ao zoológico.

— Oh, Léo adora animais! Ele está louco para ter um bichinho de estimação, de preferência um cachorro. Mas com Ben naquele estado e Max...

— Ah, eu já ia me esquecendo. Luke me pediu para lhe dizer que os Ericson escolheram algumas possíveis datas para o evento beneficente. Os dois parecem bastante animados com a idéia de an­gariar fundos para o Lar Mamães e Bebes. Sue disse que essa é uma das causas pelas quais mais vale a pena trabalhar. Ela é do tipo que gosta de cuidar de tudo e de todos.

— Eles têm filhos? — Maddy indagou interes­sada. Sabia que os Ericson beiravam os sessenta anos, porém nunca ouvira nada sobre a existência de filhos, ou netos.

— Não. Creio que Lewis tem um filho do pri­meiro casamento, mas quase não mantêm contato. Pelo que percebi nas entrelinhas, Sue não pôde ter filhos e abraçar a causa das mães solteiras toca-a no fundo do coração. Depois desse acidente com Max, você não deve ter tido tempo para con­seguir o patrocínio de outras empresas, não é?

— Bem, de fato eu planejava conversar primeiro com os Ericson, sobre a noite beneficente, antes de marcar hora com os executivos para discutir a possibilidade de uma ajuda financeira.

— Entendo. Oh, Ruth telefonou ontem à noite. Ela lhe mandou lembranças e desejou-lhe sucesso no novo cargo.

— Espero não decepcioná-la. Ruth trabalhou tanto para colocar aquela obra em funcionamento.

— Você não vai decepcioná-la. GrifF está tre­mendamente bem impressionado com seu desem­penho profissional, sabia? Segundo nosso amigo, seus talentos estão desperdiçados na tesouraria. Você deveria estar dirigindo os destinos do país.

As duas riram com vontade.

Maddy, entretanto, experimentou uma pontada de tristeza. Até tudo voltar ao normal, até Max estar inteiramente recuperado, Griff e ela teriam que esperar, sufocando quaisquer esperanças que pudessem alimentar. Inútil desejar que o acidente envolvendo seu marido nunca houvesse aconte­cido, que fosse livre para permitir que o senti­mento entre ela e Griff florescesse e se trans­formasse em...

Em quê? Num caso? A própria palavra a fez estremecer enojada.

Não, jamais isso. O que então? Uma separação, ò divórcio de Max, que lhe daria liberdade para começar de novo, ao lado de outro homem.

— Griff e Léo estão de volta — Bobbie falou de repente, interrompendo o curso de seus pensamentos.

Com a consciência pesada, Maddy corou quando os dois entraram na cozinha.

— Mamãe, vi girafas e hipopótamos. Vi um leão também, que se chamava Léo, como eu! — o menino gritou entusiasmado, correndo para abraçá-la.

Por um segundo, apertando o corpo do filho que­rido junto de si, Maddy fechou os olhos. Diferen­temente da sogra, temia o retorno de Max. Muitas vezes já era difícil atender às necessidades de Ben, sempre egoísta e irascível, e às de duas crianças pequenas. Max em casa, também precisando de seus cuidados, sem dúvida significaria um aumento considerável de trabalho. Porém o pior seria lidar com a tensão constante que sua simples pre­sença costumava gerar.

Talvez Jenny gostaria de ter Max consigo du­rante o período de convalescença, Maddy pensou subitamente. Em especial agora, depois de Jon afirmar que o filho havia mudado muito.

— Aconteceu alguma coisa? — ela escutou Griff indagar gentil. — O estado de Max deteriorou?

— Não, não. De fato ele vem se recuperado bem. Impaciente, Léo a puxou pela manga.

— Mamãe, o que é deteriorar?

— Deteriorar significa ficar pior, querido. Ainda não havia contado nada às crianças sobre o acidente de Max. De que adiantaria? Ambas eram jovens demais para entender e Max sempre se mantivera tão distante dos filhos. Entretanto Léo, para sua surpresa, parecia compreender o que se passava.

— Meu pai está muito doente, não é? Quer dizer que ele vai morrer?

— Seu pai está doente, sim. Porém não irá morrer.

— Então ele vai voltar para casa? — o garoto indagou sem esconder a ansiedade.

Maddy hesitou, o olhar compassivo de Griff confortando-a.

— Sim, seu pai virá para casa, mas apenas den­tro de alguns dias. — Mudando de assunto, pediu: — Conte-me sobre os outros animais que você viu no zoológico.

Uma hora depois, as crianças já acomodadas no carro para partir, Maddy teve uns minutos a sós com Griff, Bobbie discretamente saindo de cena com a desculpa de que precisava dar um telefonema urgente.

— Sei que as coisas não estão fáceis para você no momento. — Ele a tocou de leve no braço. — Não, essa não é a hora de sobrecarregá-la com meus sentimentos. Contudo se houver algo, qual­quer coisa que eu possa fazer para ajudá-la, como... um amigo, prometa que não hesitará em me pedir auxílio.

A beira das lágrimas, Maddy pensou em se dei­xar abraçar. Todavia, percebendo o desejo estam­pado no rosto viril, conteve-se, o coração batendo descompassado.

O marido, certamente, nunca a tinha olhado daquela maneira. Max... Max... Max.

— Obrigada — foi tudo o que conseguiu dizer antes de dar-lhe as costas e entrar no carro.

Tinha a impressão de que fora uma eternidade atrás, e não apenas uma questão de dias, horas, desde que comprara uma roupa especial para jan­tar com Griff. Agora, restava-lhe fechar a porta do passado. Pelo menos até que Max estivesse bem o bastante para...

Para o quê?

Para lhe pedir o divórcio?

Irônico pensar que, depois de todos os casos que o marido havia tido, depois de todos esses anos de completa apatia, era ela quem iria tomar a iniciativa de colocar um ponto final no casamento. "Que casamento?", uma voz interior a provocou. Você não é casada no verdadeiro sentido do ter­mo, jamais o foi. Tudo o que você sempre teve foi uma certidão, um pedaço inútil de papel. E isso. Seu casamento não passa de um pedaço de papel."

 

                                                   CAPÍTULO XII

Parado diante da porta entreaberta do quarto do filho, Jon o ouviu con­versando com Jack, o tabuleiro de gamão esque­cido sobre a cama de hospital.

— Não, Jack, você não deve pensar assim — Max falou firmemente. — Você não foi a causa dos problemas e do conseqüente desaparecimen­to de seu pai. Ninguém teve culpa de nada. Es­tou certo de que David diria o mesmo, se esti­vesse aqui.

— Aliás, ele tinha um orgulho enorme de você e Olívia. Costumava conversar comigo sobre o pra­zer de tê-los como filhos. Aprendi recentemente que cada um de nós é responsável por seus pró­prios atos e deve suportar as conseqüências das atitudes tomadas. Os problemas de David, quais­quer que fossem, pertencem a ele e algo me diz que apenas quando conseguir resolvê-los é que seu pai pensará em voltar para casa.

Entretanto, se você ainda desejar ficar na Ja­maica e tentar localizá-lo, claro que poderá contar comigo. Continuarei ao seu lado.

— Não, não — Jon escutou o sobrinho responder depressa. — Eu... eu quero ir para casa. Quero encontrar meu pai sim, mas... também tenho medo de vê-lo, de falar com ele.

— Não — Max o interrompeu gentil —, não há necessidade de ter medo. Todavia devo ad­mitir que sinto-me aliviado por você não querer ficar aqui. Estou ansioso para voltar para casa. Mas não antes de conseguir derrotá-lo nesse jogo maldito.

Os dois riam quando Jon entrou no quarto.

Embora algumas semanas já tivessem passado desde o ataque na praia, ele ainda não havia sido capaz de compreender a dramática metamorfose ocorrida na personalidade do filho. Sabia apenas que tamanha alteração de comportamento não era fruto das drogas que os médicos deram a Max para mantê-lo vivo nos primeiros dias. Tratava-se de uma verdadeira transformação interior, apesar de ser difícil de acreditar.

— O dr. Martyne disse que você poderá ir para casa no final da semana — Jon comunicou ao filho, retribuindo o abraço afetuoso de Jack antes de sentar-se na poltrona ao lado da cama.

— Hum... tão breve — Max respondeu sorrindo, lançando um olhar desalentado para o tabuleiro de gamão.

Jon e Jack riram.

Todas as vezes em que conversara com Jenny pelo telefone, Jon se esforçara, de todas as ma­neiras possíveis, para explicar como Max estava mudado. Entretanto não tinha dúvidas de que fa­lhara em seu intento. Como alguém poderia en­tender o inexplicável a distância? Ele próprio, ten­do testemunhado esse milagre diariamente, ainda encontrava dificuldade em aceitar que, esse ho­mem gentil, compreensivo, sensível e carinhoso fosse seu filho, Max. O mesmo Max que, de criança reservada e ressentida se transformara num adulto cínico, frio e frequentemente cruel, capaz de experimentar prazer em ferir e manipular os outros.

Esse Max, esse novo Max, não poderia ser mais diferente daquele antigo. Jon presenciara a trans­formação ocorrida e maravilhara-se diante de tal prodígio. Assim como o assombrava a reação das pessoas a Max. Bastava ver a empatia que seu filho desenvolvera em relação a Jack, como sou­bera lidar com as angústias do adolescente e aju­dá-lo a entender os sentimentos confusos em re­lação ao pai, encorajando-o a abrir o coração, a dividir o sofrimento para que a carga se tornasse menos pesada.

— Posso ir telefonar para tia Jenny e contar que logo voltaremos para casa? — Jack perguntou animado.

Concordando com um aceno de cabeça, Jon aguardou que o sobrinho saísse do quarto antes de fitar o filho atentamente.

— O dr. Martyne também disse que precisa es­tar certo de que você se sente pronto para en­frentar a longa viagem antes de lhe dar alta.

— Estou pronto para partir — Max o assegurou. — E não digo isso apenas porque sei o quanto você deseja retornar a Haslewich e ver mamãe. De certa forma, esse período deve ter sido mais difícil para ela e, claro, para Maddy também, do que para nós dois aqui, na Jamaica. A propósito, você tem tido notícias de Maddy?

A maneira cautelosa como Max se referira à esposa levou Jon a observá-lo com um olhar preocupado.

— Sua mulher tem telefonado todos os dias para saber os detalhes de sua recuperação — ele in­formou ao filho. — Presumi que vocês dois estivessem mantendo contato. Não imaginei...

— Suponho que ela esteja preocupada com a conta telefônica, temendo as reclamações de vovô. Assim, é natural que tenha optado em falar apenas com você, pai.

Apesar da expressão tranqüila de Max, Jon continuou incomodado. Nunca lhe passara pela cabeça que o filho não havia trocado uma única palavra com a esposa desde o acidente.

— Bem, pelo menos o dr. Martyne o liberou para ir direto para casa, em vez de querer obriga-lo a ficar mais algum tempo num hospital da Inglaterra.

— Sim, é um alívio pensar nisso. — Fechando os olhos, Max apoiou a cabeça no travesseiro.

— Você tem o aspecto cansado, filho. Vou deixá-lo em paz para que durma um pouco.

Ele aguardou até estar sozinho para abrir os olhos e sentar-se na cama. Não se sentia ab­solutamente cansado, porém o conhecimento de que em breve voltaria para a Inglaterra o fazia defrontar-se com inúmeros fantasmas do passado.

Desde que saíra do coma, notara o assombro com que o pai encarara sua metamorfose, a des­crença inicial dando lugar a uma aceitação relu­tante das evidências. Somente nos últimos dois dias Jon se mostrara mais relaxado, permitindo-se reconhecer, feliz, que o filho não representava um papel, ou tentava pregar-lhe uma peça macabra. Todavia, embora confiasse plenamente no pai, ha­via algo sobre o qual Max ainda não tivera cora­gem de falar. Como explicar essa mudança total e dramática ocorrida na própria personalidade? Não encontrava palavras que pudessem expressar o que se passara em seu íntimo.

Sabia apenas que se sentia diferente. Estava diferente. Era como se a lousa de sua vida hou­vesse sido apagada pelo toque de uma mão com­passiva e depois lhe oferecida a chance de tentar outra vez, de ser a pessoa que se acreditara capaz de ser quando fora banhado pela luz do mais bri­lhante, puro e intenso amor.

Porém nem todas as sombras, nem todas as manchas tinham sido banidas de sua memória e continuavam atormentando-lhe a consciência. Ha­via a questão de Maddy e do modo como sempre a tratara. Sentia-se na obrigação de reparar as faltas cometidas, de expiar as atrocidades do passado para que pudessem descobrir qual seria o futuro de ambos.

O novo Max, o homem no qual se tornara, ja­mais voltaria a ferir a esposa. Disso não tinha dúvida. Mas também devia ser sincero consigo mesmo ao analisar os fatos. Casara-se com Maddy por uma série de motivos errados e fora tão tirâ­nico, tão desumano, que espantava-o ainda não ter sido abandonado. Percebia, enfim, o mal que causara à mulher e arrependia-se do fundo do coração, mas...

Mas sentimento de culpa não era amor. Casa­ra-se com Maddy sem amá-la. Deixá-la agora, in­feliz e emocionalmente arrasada, era algo que não desejava fazer. Todavia permanecer ao lado de alguém a quem não amava era muito mais cruel. Havia também a questão dos filhos. Seus filhos. Olhando a fotografia das crianças, que a esposa lhe mandara, Max soube que uma tarefa urgente o aguardava. Cabia-lhe apagar o ressentimento e o medo dos olhos de Léo, substituindo-os pela se­gurança e alegria.

Sim, devia conversar com Maddy tão logo che­gasse em casa. Deviam ser honestos um com o outro. Se agisse com cuidado, carinho e atenção, talvez conseguisse fazê-la entender que colocar um ponto final naquele casamento de fachada era o melhor para ambos.

— Você teve mais alguma notícia de seu... de Max? — Griff perguntou a Maddy ao regressarem da reunião com os Ericson, marcada por Luke dias atrás.

Ele fora buscá-la em Queensmead e até agora não sabia como resistira à tentação de tomá-la nos braços e cobri-la de beijos antes de entrarem no carro e partirem para Chester.

Vestindo um terninho elegante e usando jóias discretas, Maddy lhe parecia inteligente, femi­nina e vulnerável, uma combinação intensamen­te deliciosa.

— Ainda não falei com Max — ela respondeu baixinho, virando a cabeça para ocultar a expres­são do rosto. — Tenho conversado sempre com Jon e pelo que pude entender, o médico disse que Max poderá vir para casa no fim desta semana.

— Para casa? Isso significa o quê?

— Significa que Max irá para Queensmead — Maddy explicou tão calmamente quanto possível, continuando a olhar pela janela. A última coisa de que precisava no momento era permitir que Griff notasse a ansiedade, o desespero, a dor que a consumia diante da idéia de ter Max em casa.

Se o marido fosse para um hospital, as coi­sas seriam bastante diferentes. Então lhe so­braria tempo para ajustar-se, para se prepa­rar para o papel que os familiares esperavam vê-la representar.

Nem mesmo para Olívia, Tullah, ou Bobbie, suas melhores amigas, havia sido capaz de con­fessar seus verdadeiros sentimentos e, em espe­cial, aqueles relacionados a Jenny.

Antes do acidente de Max, sempre tivera a im­pressão de que a sogra a apoiava e que permanecia do seu lado, reconhecendo-a como a parte ultra­jada de uma relação infeliz. Agora, entretanto, Jenny agia apenas como a mãe de Max, inteira­mente preocupada com o bem-estar do filho. Sa­bendo que as prioridades da sogra resumiam-se em colocar as necessidades de Max acima de tudo, tornara-se impossível confidenciar suas angús­tias, explicando como se sentia apreensiva em re­lação à iminente chegada do marido e como pre­feriria evitar a convivência forçada.

Tampouco podia abrir-se com Griff pois, sem dúvida, ele iria defender sua causa com o mes­mo empenho cego que Jenny abraçava a do filho.

Graças a Deus ninguém fazia idéia do quanto se sentia tentada a buscar conforto para suas afli­ções nos braços de Griff que, por sua vez, não desejava outra coisa a não ser lhe oferecer apoio prático, emocional e sexual. Porém tratava-se de um ponto do qual não haveria retorno. Por mais que gostasse de Griff, por mais que ele a atraísse, Maddy também sabia que esses sentimentos con­fusos tinham nascido na esteira da infelicidade de seu casamento com Max.

Juntamente com a autoconfiança adquirida nos últimos tempos, desenvolvera uma nova percepção de si mesma, muitíssimo mais apurada. Seria fácil convencer-se de que amava Griff. Afinal, existiam inúmeras razões para chegar a essa conclusão, dentre as quais o fato de que as crianças, em especial Léo, já o aceitavam.

Porém o instinto, e uma certa dose da indepen­dência recém-descoberta, a impediam de compro­meter-se até estar absolutamente segura de seus sentimentos. Por que apressar-se, desvencilhan­do-se de um casamento fracassado para apegar-se ao amor de Griff como uma tábua de salvação? Seria mais sensato e muito mais adulto, aguardar, distanciar-se primeiro de Max e do passado, per­mitindo-se ser quem era antes de envolver-se numa nova relação.

Quanto à decisão de pedir o divórcio, não tinha nenhuma dúvida. O trabalho que estava desen­volvendo na obra social provara que era capaz, que possuía a habilidade de organizar e adminis­trar a própria vida. Embora nunca houvesse exer­cido a profissão, formara-se em advocacia. Nada a impedia de encontrar emprego, de sustentar a si e aos filhos sem tocar no fundo fiduciário, caso a intransigência de Max transformasse a separa­ção numa batalha legal.

O apelo de ser independente, de morar em Chester, numa daquelas belas casas às margens do rio, de viver como bem quisesse, nunca fora tão forte.

Claro que teria alguns arrependimentos. O prin­cipal motivo pelo qual aceitara se mudar para Queensmead havia sido a possibilidade de oferecer às crianças a chance de conviver de perto com a família de Max. Mas Jenny e Jon não dariam as costas aos netos apenas porque os pais tinham se divorciado. Bobbie, Olívia e Tullah também não iriam deixar de apoiá-la e de tratá-la com amizade por causa de seu casamento desfeito.

Sim, podia construir uma vida boa e feliz para si e para os filhos. Possuía a força necessária para fazê-lo, além da motivação. Discretamente, Maddy fitou Griff, atento à estrada.

Oh, sim, ele representava uma grande motiva­ção, todavia seus padrões morais a impediam de discutir planos futuros antes de falar com Max. Restava-lhe aguardar o retorno do marido e só então tomar uma atitude definitiva.

Seria covardia de sua parte desejar ser possível sugerir a Jenny que Max ficasse na casa dos pais durante o período de convalescença. Covardia, sim, mas, tão tentador!

O barulho do avião cortando o céu infinitamente azul fez o homem desviar a atenção do artigo que estivera lendo.

O jornal datava de uma semana atrás. Padre Ignatius o tinha trazido ao voltar de Kingston alguns dias antes. Jornais eram um verdadeiro luxo no alto das colinas, no pequeno asilo dirigido pelo velho sacerdote. Aquele refúgio simbolizava a última esperança, a derradeira parada para muitos dos drogados da ilha, dos deserdados da terra em sua viagem rumo à eternidade.

Mantendo-se quase que apenas às custas de do­ações caridosas, o asilo era paupérrimo em recursos materiais. Entretanto o que as pessoas ali abrigadas recebiam em termos de amor e dedica­ção não tinha preço.

Ele sabia por experiência própria. O sacerdote o havia literalmente tirado da sarjeta, quando não passava de um bêbado imundo, coberto de feri­mentos, perambulando pelas ruas de Kingston como um cão vadio. No refúgio das colinas, através dos cuidados recebidos, reencontrara o caminho da saúde e da sobriedade.

Quando deixara de amaldiçoar o velho padre por impedi-lo de morrer, ou lhe recusar a bebida pela qual ansiava, começara a observar os socorros diários prestados aos outros infelizes.

No passado, o sacerdote sonhara em seguir os passos de famosos missionários, copiando-lhes a dedicação e o entusiasmo. Porém com a maturi­dade viera a sabedoria que lhe permitira com­preender a verdade. Se o próprio Deus escolhera não impor seu amor e suas crenças aos filhos que­ridos, quem era ele para fazê-lo? Durante uma certa época trabalhara para a Cruz Vermelha e outras entidades cujo propósito resumia-se em ajudar os necessitados. Depois de um longo tem­po passado na Etiópia devastada pela fome, fi­zera da Jamaica seu lar e ali se entregara à sua missão.

Difícil dizer quantos anos teria padre Igna­tius. Sem dúvida mais velho do que ele. Setenta, talvez mais.

Franzindo o cenho, o homem releu o artigo pela enésima vez. Dois turistas, selvagemente ataca­dos, tinham sido salvos pela pronta ação de um conhecido atleta local. Havia uma fotografia dos estrangeiros. Max, deitado na cama do hospital, o rosto muito mais fino do que ele se lembrava, os olhos gentis e serenos. Jon, com os cabelos gri­salhos. Jack...

Mal o reconhecia, assim como o garoto dificil­mente iria reconhecê-lo, se o visse. Emagrecera muito, partilhando a parca dieta do sacerdote. Ma­gro, porém forte, devido ao trabalho pesado. Todos os consertos necessários no asilo ficavam a seu cargo, assim como a tarefa de carregar no colo os deficientes quando preciso. O resultado de tama­nho empenho rendera-lhe braços e torso musculosos. Deixara também crescer a barba, por me­dida de economia. O sol escurecera-lhe a pele e clareara seus cabelos. Todavia, apesar de tantas mudanças, as semelhanças com o homem grisalho da foto não podiam ser negadas.

De repente, notou que alguém o observava de perto.

— Seu irmão? — o padre indagou gentil, apon­tando para o retrato de Jon estampado ria pri­meira página do jornal. Não havia segredos entre os dois. O que não dissera durante os delírios pro­vocados pela bebida, confessara depois.

— Sim — David concordou baixinho. Meu irmão gêmeo. A culpa que não posso esquecer, ele pensou amargurado. Entretanto autopiedade era algo que o sacerdote e o trabalho ao qual se dedicava agora não o permitiam alimentar. Assim, falou apenas: — E meu filho.

— Um bonito rapaz — padre Ignatius comentou com um pequeno sorriso. — Ele tem o mesmo olhar de seu irmão. Suponho que os dois sejam bastante parecidos.

— Costumávamos dizer que Jack deveria ser filho de Jon e Max meu.

Nem sequer ao sacerdote, seu único e maior amigo, tinha coragem de contar sobre sua ida a Kingston, ao hospital onde o filho e o so­brinho se recuperavam lentamente do ataque brutal.

Estivera à cabeceira de Jack, contemplando-o dormir, horas seguidas. Ele lhe parecera tão jo­vem, tão vulnerável, que seu coração quase ex­plodira de amor. Só se afastara dali quando uma enfermeira entrara no quarto e o mandara reti­rar-se, afirmando ser proibida a permanência de estranhos no local.

Vislumbrara Max também, ainda na unidade de tratamento intensivo, lutando pela vida. Quan­do se preparava para deixar o hospital, Jon aca­bava de chegar. Escondendo-se nas sombras, vira-o passar a centímetros de distância. Se tivesse estendido a mão, o teria tocado.

Jon.

David fechou os olhos num esforço vão para ig­norar o sofrimento.

Jon era a pessoa de quem Jack precisava agora, aquele que queria ao seu lado e em quem se apoiava nos momentos de dor. Jon conquistara o direito de merecer o amor de Jack, enquanto ele...

O sacerdote observou-o dobrar o jornal cuida­dosamente o guardá-lo. Sabia que de nada adian­tava sugerir ao amigo que procurasse a família. Quando David estivesse pronto, quando houvesse se perdoado e aprendido a aceitar a culpa que carregava na alma, talvez então se julgasse livre para retornar ao lar.

Quando esse dia chegasse, iria sentir falta da­quele homem inteligente, culto e agradável.

Certa vez, quando David começara a se recuperar do alcoolismo que quase o matara, pergun­tara-lhe se o sensato não seria voltar imediata­mente para casa, por causa dos filhos.

— Minha filha tem a própria vida — ele lhe explicara sereno. — Quanto a meu filho... Jack será mais feliz sem mim. Meu irmão Jon exer­cerá o papel de pai muito melhor do que eu seria capaz.

Horas depois, na privacidade de seu pequeno quarto, David tornou a ler o artigo no jornal, que detalhava a agressão e os ferimentos sofridos pe­los dois turistas, tolos o bastante para ignorar os avisos espalhados pelos quatro cantos da ilha.

O hotel caro onde Jack e Max tinham se hos­pedado parecia a anos-luz de distância da vida que ele levava agora. Mas era um mundo para o qual não tinha o menor desejo de voltar a freqüentar. Não que existisse alguma chance de apagar o passado e retornar ao ponto de partida. Não depois do que havia feito.

Todavia não eram as conseqüências legais de seus atos o que temia enfrentar, ou mesmo a ver­gonha e o desespero do pai. Não. O que não po­deria encarar era a si mesmo, refletido nos olhos de Jon.

Jon! Sentia falta do irmão mais do que de qual­quer outra pessoa.

Sabendo que não conseguiria dormir, David jo­gou o cobertor fino sobre os ombros e saiu para dentro da noite.

— Eu avisei Jenny que não precisava vir nos buscar no aeroporto — Jon disse a Max vendo-o estudar discretamente a pequena multidão que aguardava os passageiros à saída da alfândega.

Em silêncio, ele assentiu. Sentia-se esgotado de­pois do longo vôo, muito mais cansado do que ima­ginara a princípio. Desanimado, aceitou amparar-se no braço que Jack lhe oferecia. Havia ocasiões em que o machucado na perna incomodava-o mui­to, mas agora a dor era atroz. O que desejava no momento era tomar um analgésico e refugiar-se num quarto escuro, não enfrentar uma reunião familiar emocionalmente exaustiva. Então por que continuava a procurar o rosto de Maddy no meio da multidão?

Claro que ela não estaria no aeroporto, se Jon lhe pedira para não ir buscá-los. Sempre faltara à esposa a centelha da independência, de iniciativa. Ela era obediente, dócil, controlável como uma criança de boa índole.

O céu já começava a escurecer quando, por fim, os três se acomodaram num táxi.

Max estremeceu sob o casaco pesado, o frio in­tenso chegando-lhe até os ossos. O longo tempo passado sobre uma cama de hospital o tinha feito perder peso e massa muscular. De repente, estava consciente de não possuir a mesma força física de meses atrás.

O trajeto para Queensmead pareceu durar uma eternidade. Ao atravessarem os portões da pro­priedade, era noite.

Jon pagou o motorista e o dispensou. Max saiu do carro no instante em que a porta da casa se abria, a luz do interior iluminando as silhuetas, imóveis de Ben e Jenny.

Desde o acidente, Jack se apegara ao primo como um cão de guarda. Extremamente protetor, o cercava de cuidados e o impedia de car­regar peso enquanto caminhavam pelos jardins até a casa.

Hesitante, Jenny deu um passo a frente.

O marido lhe falara tantas vezes sobre a drás­tica e inexplicável mudança ocorrida na persona­lidade impenetrável daquele filho. Todavia ela só foi capaz de compreender a enormidade dessa transformação quando a luz do vestíbulo banhou o rosto de Max. Então, estampado nos olhos claros, percebeu o que já perdera a esperança de um dia vislumbrar.

Emocionada, as palavras habituais de boas-vindas completamente esquecidas, Jenny enxergava apenas os braços abertos do filho, prontos para aninhá-la.

— Oh, Max, Max — foi tudo o que conseguiu murmurar ao abraçá-lo, emoções intensas domi­nando-a. Agora, sim, dava-se conta de quão dife­rente seu filho estava.

Havia uma expressão local, "tocado pela mão de Deus", que costumava ser usada para designar os portadores de deficiências mentais. Porém, ao fitar o filho, Jenny soube que Max também, em­bora de maneira diferente, tinha sido literalmente "tocado pela mão de Deus." Ruth iria entender quando lhe contasse, apesar de ela mesma ainda não ter sido capaz de compreender a amplitude e a profundeza da transformação ocorrida no in­terior de Max. Tinha apenas uma certeza: o ho­mem que partira para a Jamaica fora alguém de quem nem sempre gostara e, às vezes, até des­prezara. O outro que agora retornava inspirava-lhe amor, respeito.

Ao afastar-se da mãe, Max soube o que se pas­sava no íntimo daquela mulher admirável.

Porém, antes que pudesse dizer qualquer coisa, um movimento no corredor chamou-lhe a atenção. Com a respiração suspensa, o corpo tenso, reco­nheceu a figura pequenina do filho e, logo atrás, as formas arredondadas de sua filha mais nova. Mantendo-se a uma distância segura, Léo fitou o pai, os olhos atentos e desconfiados, pronto para fugir ao menor sinal de perigo.

Devagar, Max avançou. Ajoelhando-se perto das crianças, ignorando a dor excruciante que o fazia querer gritar, murmurou suavemente:

— Olá, Léo.

Horas depois, tentando descrever para o resto da família o drama presenciado, Jenny conse­guia somente balançar a cabeça de um lado para o outro, as palavras certas insistindo em lhe faltar.

— Era como algo extraído do roteiro de um fil­me. Pensei que Léo fosse correr apavorado. Bastou ouvir a voz do pai, para que a expressão de seu rostinho se iluminasse, como o sol aparecendo por trás de uma nuvem. Ele olhou para Max e sorriu. Nunca o vi sorrir daquela maneira antes. Feliz, atirou-se nos braços do pai.

— Papai — Max ouviu o menino sussurrar. Dominado pela emoção, ele apertou Léo com força junto do peito, beijando os cabelos macios e sedosos.

Para Jenny, que planejara manter as crianças fora do caminho do filho durante algum tempo com o objetivo de evitar atritos imediatos, desco­brir que os netos tinham saído da cozinha e apa­recido na sala causara-lhe inicialmente apreen­são. O que acontecera depois fora tão inesperado quanto assombroso.

Max, ajoelhado no chão, abraçava Léo e Emma com um amor infinito. — Maddy... Maddy, que acabara de entrar na sala, viu Max levantar-se com Emma no colo, Léo segurando-lhe uma das pernas como se não fosse soltá-lo jamais. Como registrar e analisar o tom da voz do marido ao pronunciar seu nome? Como compreender a cena diante de seus olhos?

Consciente das expectativas da sogra, Maddy ficou imóvel. Sabia ser impossível retribuir o calor estampado nos olhos de Max, sabia não ser capaz de desempenhar o papel que todos desejavam vê-la representar naquele momento. Assim, em vez de responder ao cumprimento, deu meia-volta e afastou-se depressa.

Todavia, antes de fechar a porta da cozinha atrás de si, escutou Léo perguntar, rompendo o silêncio desconfortável:

— Aonde mamãe foi?

— Espero que tenha ido preparar um chá — Max retrucou, abaixando a cabeça para que nem os pais, nem o avô, vissem a expressão de seu rosto.

Fora um choque deparar-se com Maddy e, por um instante, ao contemplá-la pela primei­ra vez após a longa ausência, seus olhos quase tinham se recusado a reconhecê-la como sua esposa.

Ela perdera peso e adotara um novo corte de cabelos. Mas esses detalhes não eram os respon­sáveis pela mudança que, imediatamente, perce­bera ter ocorrido. Maddy exalava determinação, força, uma resistência tal à sua simples presença que parecia empurrá-lo para longe.

De todas essas coisas, porém, o que mais o chocara e perturbara, fora sua própria reação à mulher.

Em vez do arrependimento e indiferença que esperara sentir, estava reagindo de maneira opos­ta. Ansiava pegá-la no colo, subir a escada, atirá-la na cama e...

A intensidade de seu desejo pela esposa, de sua necessidade de possuí-la, não tinha nenhuma re­lação com as transformações exteriores, ainda que Maddy lhe parecesse extremamente atraente e sensual. Era como se seu corpo, seus sentidos, a houvessem reconhecido como a alma gêmea. E essa percepção era tão forte, tão esmagadora, que só existia uma única conclusão possível: não se tratava de algo novo, de um sentimento nunca antes experimentado. Bem no íntimo, num nível inconsciente, sempre desejara sua mulher assim. Sempre a amara.

— Papai — Emma resmungou, quando ele, in­voluntariamente, aumentou a pressão do abraço.

— Desculpe-me, querida. — Max beijou a filha na testa e colocou-a no chão, brindando-a com um sorriso carinhoso.

— Você deve estar exausto, meu filho. Por que não sobe agora e se deita um pouco?

— Não sou nenhum inválido, mãe. — Apesar de ensaiar um protesto, Max sabia que o sensato seria descansar. Devagar, rumou para escada.

Andar tornara-se um verdadeiro suplício. Per­cebendo que o primo começava a arrastar a perna ferida, Jack correu para ampará-lo.

Escoltado pelos pais, pelo avô, pelo primo e pelos filhos, Max permitiu-se envolver numa onda de preocupação amorosa enquanto subia os degraus em direção ao quarto. Escoltado pelos pais, pelo avô, pelo primo e pelos filhos, mas não pela esposa. Sua Maddy. Seu grande amor.

 

                                                   CAPITULO XIII

Então você está satisfeita com a data escolhida pelos Ericsson para o evento beneficente? Creio que a apre­sentação de uma das obras de Gilbert e Sullivan será um tremendo sucesso de público.

Enquanto aguardava uma resposta, Griff se deu conta de que suas palavras pouco efeito faziam sobre Maddy. Ela parecia mais interessada em olhar pela janela da sala. Nos jardins de Queensmead, Max passeava com Léo e Emma.

Já se passara quase um mês desde o regresso de Max e durante esse período Griff a observara afastar-se de si progressivamente. Quando che­gara para a reunião combinada, Maddy estivera no jardim, na companhia do marido e dos filhos. Fora óbvio o olhar de advertência que Max lhe lançara ao vê-lo estender a mão para retirar uma folha seca presa nos cabelos dela.

— Maddy — Griff tornou a repetir um pouco mais ríspido, obrigando-a a virar-se e fitá-lo.

— Oh, desculpe-me. Não escutei o que você es­tava dizendo.

— Eu estava lhe perguntando se você ficou sa­tisfeita com a data sugerida pelos Ericson.

— Ah, sim, a data.

Mas era evidente que Maddy não lhe dava a mínima atenção e nem se concentrava no assunto em questão. Ele preferia quando essas reuniões aconteciam em Chester, no seu escritório. Pelo menos ali não precisava competir para obter um pouco de atenção.

— Max está me parecendo muito bem — Griff comentou seco.

— Sim, sim, é verdade.

— Tê-lo em casa em período integral deve ser um peso para você, uma fonte de tensão constante.

Ela desviou o olhar antes de responder. Lá fora, Max brincava com Emma e Léo. Bastava ver a expressão do rosto dos três para saber o quanto estavam se divertindo juntos.

O marido mudara tanto a maneira de tratar os filhos e as pessoas em geral, que muitas vezes Maddy precisava se beliscar para ter certeza de que não estava sonhando. Era Max agora quem levava e buscava as crianças na escola e se en­carregava de acompanhar o avô nas idas freqüentes ao hospital.

A transformação havia sido tão drástica, tão completa, que não havia quem não a comentasse. Mesmo Luke, antes sempre cético, acreditava que essa metamorfose tinha algo de bíblico, quase in­timidante na sua grandeza.

— Você acha que Max está apenas represen­tando, se divertindo à nossa custa? — Maddy per­guntara ao amigo sem disfarçar a apreensão.

Durante alguns segundos Luke ficara em si­lêncio. Até surpreendê-la com uma resposta inesperada.

— Não. Não creio que se trate fingimento. Devo admitir que foi muito difícil para mim, conhecendo a personalidade de meu primo, entender o que aconteceu.   Acho que todos nós precisamos aprender a aceitar que ele passou por experiên­cia única, que acabou por afetá-lo no mais ín­timo de seu ser.

Sim, Maddy não tinha dúvidas sobre isso. Max, o Max que regressara da Jamaica, podia parecer o mesmo, todavia, era alguém completamente diferente.

Desde seu retorno, ele já havia visitado a casa dos pais inúmeras vezes e, de acordo com Jenny, os três tinham conversado não apenas sobre o passado, mas também sobre o presente e o futuro.

Não era possível negar a intimidade agora exis­tente entre Jon e Max. Tampouco ninguém duvi­dada da ternura e amor por ele demonstradas em relação aos filhos. Léo, em particular, havia de­sabrochado sob o calor da afeição do pai.

Somente ela experimentava a sensação de estar excluída daquele círculo mágico que envolvia o marido e as pessoas ao redor.

Esforçando-se para aplacar a emoção, Maddy engoliu em seco. Não que Max a tratasse mal, muito pelo contrário. Porém faltava algo, algo indefinível.

Incomodada com o rumo dos pensamentos, des­viou os olhos da janela e sorriu docemente.

— Léo e Emma estão adorando ter Max em casa — respondeu afinal à pergunta feita no início da conversa.

Sem que fossem necessárias mais palavras, Griff entendeu a mensagem nas entrelinhas. Para aquela mulher dedicada, a felicidade das crianças viria sempre em primeiro lugar.

Melancólico, Griff observou a cena que se de­senrolava no jardim. Aquele homem que brincava cora os filhos lá fora não dava a impressão de ser o tipo capaz de deixá-los partir com facilidade. E testemunhar o exercício da paternidade de Max, em toda sua plenitude, apenas acentuava a sua própria deficiência.

Ele nunca poderia brincar, como Max estava fazendo, com os filhos que gerasse. Nem com Maddy, nem com mulher alguma, realizaria o sonho de ser pai.

— Eu estava pensando se você teria algum tem­po livre para almoçar comigo em Chester, na se­mana que vem.

Maddy queria poder responder "sim" ao convite de Griff. Entretanto, ainda que soubesse estar ma­goando-o, simplesmente não conseguia ignorar a voz da consciência. Enquanto não resolvesse a si­tuação com Max, enquanto não conversassem sobre o casamento de ambos, não se sentia capaz de embarcar no tipo de relacionamento que o con­tador desejava manter.

Por uma ironia do destino, agora que desenvol­vera dentro de si força, independência e a auto­confiança necessária para pedir o divórcio, tam­bém descobria que separar Léo do pai causaria ao menino um trauma difícil de ser superado.

A cada dia, era confrontada com novas evidên­cias do quanto Léo ansiara pelo afeto do pai e de quão forte vinha se tornando o vínculo entre ele e Max.

Emma também amava o pai, claro. De fato, a menina parecia fascinada por aquele homem gen­til e amoroso. Todavia, sendo ainda bem peque­nina, ainda não precisava da aprovação de Max da mesma maneira que o irmão.

Angustiada, Maddy abaixou a cabeça. Às ve­zes se sentia como se fosse a única pessoa no mundo, ou pelo menos em Haslewich, fora do alcance do amor de Max. A única pessoa que ainda questionava a permanência dessa mudan­ça de personalidade.

— Alguma coisa errada, querida?

Ela balançou a cabeça de um lado para o outro, obrigando-se a sorrir diante da preocupação de Griff.

— Não, não é nada — respondeu, talvez de­pressa demais.

Instintivamente, Griff deu um passo a frente e tocou-a de leve no ombro, querendo confortá-la.

Do jardim, Max notou o que se passava na sala. Embora a atitude da esposa não revelasse nem a mais remota conotação sexual, o instinto dizia-lhe que uma emoção muito forte emanava de Griff. Mesmo sem ouvir uma única palavra trocada en­tre os dois, tinha certeza de que aquele homem estava apaixonado por sua mulher. O sentimento seria recíproco?

Não tinha certeza. A reservada, autoconfiante e independente Maddy, que o recebera tão fria­mente por ocasião de seu retorno da Jamaica, o intrigava muito. Também não lhe passara des­percebida a ironia das circunstâncias em que se encontrava agora. Reconhecer que amava a esposa após anos de negligência e, até, abuso, não fora nada fácil, pois deixara claro o imenso abismo que precisava transpor para reconquistá-la. Tampouco podia culpá-la pela maneira como o estava tratando, mantendo-o a distância, igno­rando-o quase.

Por esse exato motivo estivera tentando não pressioná-la, não apressá-la. Apesar de saber que a amava, que a respeitava, era a Maddy a quem devia convencer da veracidade desses sentimen­tos, não a si próprio. Assim, decidira que a melhor forma de mostrar à esposa o quanto havia mudado era afastar-se de qualquer tipo de comportamento adotado pelo antigo Max como, por exemplo, ar­rastá-la para cama e subjugá-la com a veemência de sua paixão.

Porém, o que estava se esforçando para realizar vinha-se provando sexual e emocionalmente frus­trante. Vendo-a agora tão triste, queria apenas tirar Griff do caminho e tomá-la nos braços. O impulso foi tão forte, que Max já estava de pé e caminhando na direção da casa antes de perceber o que se passava e voltar atrás.

O que acontecera com aquele homem que acre­ditara ser sua primeira obrigação, tão logo regres­sasse à Inglaterra, libertar a esposa das amarras impostas por um casamento de fachada? Talvez ainda guardasse muito do antigo Max dentro de si, para não querer abrir mão de Maddy sem lutar. Sim, Griff a amava e chegava a sentir simpatia pelo coitado, pois compreendia o quanto era do­loroso amar sem esperanças. Contudo Maddy era sua mulher e pretendia ir às últimas conseqüências para impedi-la de partir.

Possuía ainda dois pontos a seu favor: os filhos. Todavia seu amor pelas crianças era grande de­mais, profundo demais para que os usasse como peões na batalha pelo afeto da esposa.

Doía-lhe a alma pensar no quão facilmente po­deria ter perdido a chance de reconhecer o quanto amava as crianças e como sempre as amara, mes­mo sem o saber. Finalmente viera a entender a verdade contida nas palavras dos pais, quando afirmavam que, em nenhum momento, tinham deixado de amá-lo.

— Não, você nunca, jamais, foi um mero subs­tituto de Harry — Jenny objetara enfática quando ele lhe confessara sentir-se assim, quando menino.

— Sempre o quis, sempre o amei por você mes­mo, Max. Porém eu estava doente por ocasião do parto e, durante três dias, não me permiti­ram segurá-lo no colo. Agora, quando sabemos como é importante para mãe e bebê manterem um contato imediato, lamento que aquilo tenha acontecido.

— Sempre tive a sensação de que nenhum de vocês dois me queria — Max confessara aos pais. — E que desejavam que eu fosse filho de David.

— E eu não me julgava um pai bom o suficiente para você — Jon explicara, abrindo o coração.

As velhas feridas haviam sido cauterizadas e estavam, enfim, prontas para cicatrizar. Max, emocionalmente renascido, experimentava um amor enorme pelos pais a quem passara a enxer­gar com novos olhos. Pela primeira vez percebia como ambos haviam sofrido com sua negligência e indiferença e como Jon padecera com a obsessão de Ben em relação a David.

— Foi uma reunião satisfatória?

Tensa, Maddy hesitou antes de responder a per­gunta do marido.

Max entrara na sala no momento em que Griff se preparava para partir. Contudo, apesar de seus modos perfeitamente polidos, parecia-lhe evidente que o visitante o incomodava e Maddy temia uma cena desagradável.

O antigo Max teria demonstrado seus sentimentos com algum comentário cruel a respeito do ou­tro homem, porém o novo Max apenas sorrira e apertara a mão de Griff antes de levá-lo até a porta.

Agora o marido estava de volta, acompanhando cada um de seus movimentos com interesse.

— Sim, creio que tenha sido uma reunião sa­tisfatória — ela comentou um tanto desassosse­gada. — Os Ericson sugeriram algumas possíveis datas para a apresentação da opereta.

— Sabe, eu estive pensando... — Max falou aju­dando-a a apanhar a papelada espalhada pela mesa. — Sei que o objetivo principal dessa obra social é prover acomodações seguras e confortáveis para as mães solteiras è seus bebes. Mas me ocor­reu que não seria uma má idéia construir um sala de estar comunitária onde os pais poderiam visitar seus filhos. Certamente se as mães esti­vessem de acordo.

Maddy ficou tão espantada que deixou cair a pilha de papéis que acabara de juntar.

,— Sei o que você está pensando — ele conti­nuou. — Na maioria dos casos os pais, muito jo­vens, pouco interesse têm nesses filhos, às vezes frutos de uma aventura. Quem sabe qual o efeito que essa incapacidade de assumir a paternidade terá sobre a criança e o próprio pai no futuro? Talvez a chance de ver os filhos, de falar com eles, lhes deva ser dada. É apenas uma sugestão. Não estou tentando interferir em nada. Qualquer um pode ver que você está fazendo um excelente trabalho. Ontem mesmo minha mãe estava dizen­do como são notáveis os progressos desde que você passou a fazer parte do comitê executivo.

— Eu... eu apresentarei sua sugestão ao comitê. — Maddy retrucou ofegante, ignorando a segunda parte do comentário.

De fato, a idéia de Max tinha fundamento. Tra­tava-se de uma colocação justa tanto para os bebês quanto para os pais e merecia ser levada em consideração.

— Posso adivinhar o que lhe passa pela cabeça agora. — Max abaixou-se para apanhar a pape­lada caída no chão.

Os cabelos dele tinham crescido desde o retorno da Jamaica e vendo os fios tão macios e brilhantes, Maddy experimentou um desejo urgente de es­tender a mão e tocá-los.

Depressa, temendo não controlar os próprios im­pulsos, afastou-se.

— Não está passando nada pela minha cabeça. — negou depressa, percebendo que o marido a observava, uma expressão curiosa no olhar.

Era bastante desconcertante descobrir que esse novo Max, tanto quanto o antigo, tinha o poder de despertar em seu corpo o mesmo desejo sexual, embora seu marido, na versão atualizada, esti­vesse se comportando de maneira inesperadamen­te cortês, tendo aceitado, sem discutir, sua decisão de não manterem contato físico.

Ele limitara-se a fitá-la pensativo quando, ao chegar da Jamaica, fora informado de que deveria ocupar um dos muitos quartos de hóspede de Queensmead sob o pretexto de que durante o pe­ríodo de convalescença o melhor seria desfrutar do mais absoluto sossego.

Há uma semana, os médicos de Haslswich ti­nham declarado Max completamente recuperado, pronto para retomar a vida normal. Ansiosa, Mad­dy aguardara o momento de ouvi-lo anunciar sua volta ao quarto do casal.

Todavia, não fora o que acontecera. Pior ainda. Era ela quem, de repente, tornava-se consciente da presença máscula do marido junto de si. Nesse aspecto Max, sem dúvida, não havia mudado nada. Suspeitava de que ele sempre seria o tipo de homem para quem as mulheres olhavam duas vezes, com certeza imaginando-o um amante ma­ravilhoso. Max, porém, havia sido um amante egoísta quando decidido a possuí-la. Aliás, amante não seria a palavra adequada para descrever aquele comportamento sexual, marcado principal­mente pelo desprezo.

O instinto lhe dizia que em Griff encontraria o amor terno e abnegado que não pudera descobrir nos braços do marido. Mas Griff, apesar de bonito e dedicado, não fazia ferver seu sangue, não a excitava como Max.

Perturbada, Maddy desviou o olhar.

Viver como uma freira nunca lhe parecera difícil na ausência de Max todavia, agora que o tinha por perto, parecia-lhe uma tarefa árdua. Hoje mes­mo pela manhã, perdera a paciência com Emma sem absolutamente nenhum motivo. Ao ver a me­nina rindo feliz no colo do pai, fora tomada de uma inveja tão intensa, que precisara sair cor­rendo da cozinha para evitar que o marido adi­vinhasse a razão de seu comportamento ridículo.

— Se você quiser, eu me encarregarei de bus­car os livros de Ben na biblioteca municipal — Max se ofereceu, colocando a pilha de papéis sobre a mesa. — Como pretendo visitar meu pai essa tarde, terei tempo de resolver a questão dos livros.

— Então você vai visitar seu pai novamente? Será a terceira vez esta semana. Já não jantaram juntos ontem à noite?

— Você poderia ter me acompanhado — Max retrucou surpreso.

— Como, se tudo foi resolvido de uma hora para a outra? E as crianças?

— Ambos sabemos que minha mãe teria ado­rado ver os netos.

Por um instante Max ficou em silêncio, obser­vando-a atento.

— Você está perdendo mais peso — ele falou devagar. — Acho que vou ter uma conversa com minha mãe. Com seu trabalho na obra social, sem dúvida o sensato é arrumar alguém para ajudá-la aqui, em Queensmead. Talvez Guy Cooke conheça uma pessoa que queira se empregar. Assim não lhe pesaria tanto cuidar de vovô e das crianças.

O assombro fez Maddy calar-se.

Ninguém, nem sequer Griff, notara sua recente perda de peso e muito menos sugerira a contra­tação de uma empregada para auxiliá-la no ser­viço doméstico. Entretanto, o fato de nenhum de­talhe haver escapado ao marido colocava-a na de­fensiva. Apesar de saber tratar-se de um compor­tamento irracional, sentia-se irritada, à beira do pânico. Talvez porque não soubesse lidar com a situação, tornou-se agressiva.

— Você não acha que está exagerando um pouco ao representar o papel de bom samaritano? Afinal, algum tempo atrás não lhe interessava a mínima o que pudesse estar acontecendo em Queensmead. Que importância tem eu perder peso? Não está na moda ser gordinha.

— Não está na moda? — Pegando-a de surpresa, Max enlaçou a esposa pela cintura, segurando-a firme junto de si. — Você parece frágil como um passarinho. Posso até contar suas costelas.

Contá-las? A julgar pelo modo como seu coração batia descompassado, Maddy temia que a pressão em seu peito acabasse por quebrá-las.

— Querida...

Trêmula, ela ergueu os olhos, a respiração sus­pensa diante da expressão estampada no rosto do marido.

— Max...

Interpretando a reação da mulher como um convite, não como uma negativa, ele abraçou-a com força e inclinou-se para beijá-la. Enquanto roçava-lhe a boca com os lábios, acariciava-lhe a cintura e os quadris, obrigando-a a deitar-se sobre a mesa.

Indefesa, Maddy parecia flutuar. Nunca estive­ra assim, tão vulnerável. Nem mesmo no primeiro encontro.

Sentia-se estremecer por inteiro, absorvendo o calor que emanava daquele corpo viril. Porém, apesar de desejá-lo, tentou resistir.

—- Max — protestou baixinho, apoiando as mãos no peito largo.

Ele, contudo, dava a impressão de não ouvi-la, os olhos fechados, as feições concentradas.

Os leves tremores iniciais estavam dando lugar a estremecimentos vigorosos de pura excitação sexual. Todavia Maddy ainda teria tido forças para afastar-se se o marido não houvesse escolhido aquele exato momento para abrir os olhos e fitá-la intensamente.

O que viu ali refletido a fez perder o fôlego. Apenas uma única vez os olhos de Max haviam faiscado de desejo, mas mesmo assim, não com tamanho desespero.

— Maddy.

Percebendo a urgência na voz do marido, en­tregou-se aos beijos ávidos e às carícias sôfre­gas com total abandono, os seios intumescidos e os mamilos eretos revelando o ardor de sua paixão. Oh, Deus, como era bom ter a esposa nos braços, Max pensou lutando para conter os impulsos de­senfreados. Prometera a si mesmo que, quando a ocasião chegasse, seria paciente, cuidadoso e ter­no. Mas agora, sorvendo o gosto da boca deliciosa, tocando cada centímetro da pele perfumada, suas nobres intenções pareciam sucumbir ante a in­tensidade de seu desejo... de seu amor.

— Maddy — tornou a repetir vezes sem conta como um adolescente apaixonado, beijando-a nos lábios, na testa, nas pálpebras, no pescoço, te­mendo vê-la desaparecer no ar se a soltasse por um segundo que fosse.

Todavia, enquanto a beijava, uma torrente de lembranças de um passado recente veio-lhe à men­te. Imagens daquele corpo esguio tremulo sob seu toque, dando-lhe a satisfação de saber o quanto a excitava sem ter que se esforçar.

Agora, entretanto, era a esposa quem o es­tava excitando e deixando-o perigosamente à beira de perder o controle. Era ele quem an­siava ouvi-la dizer as mesmas palavras que Maddy, uma eternidade atrás, tinha-lhe implo­rado para pronunciar.

— Você me ama? Diga que me ama. Mostre que me ama, Maddy. Por favor, me ame.

— Não... Max... Max, as crianças estão vindo para cá.

Agitada, Maddy o empurrou para longe, os lá­bios inchados por causa dos beijos.

Trêmula da cabeça aos pés, passou as mãos pe­los cabelos e alisou as roupas, esforçando-se para recuperar o fôlego. Oh, Deus, se não tivesse ouvido sons de passos no corredor, teria sucumbido e se entregado a Max em cima daquela mesa sem se importar com o que viesse a acontecer depois.

Com o rosto em fogo, recebeu os filhos que exi­giam sua atenção imediata. Resolver os probleminhas de ambos ajudou-a a sufocar a tensão se­xual despertada pelo marido.

Max, por sua vez, observava-a conversar com Emma e Léo. O corpo inteiro doía por causa do desejo contido, o desejo por sua mulher. Bastava imaginá-la exposta ao assédio de Griff para não ter dúvidas de que arrancaria membro por mem­bro do outro homem, tão primitivos e potentes eram seus sentimentos em relação a ela.

Maddy esperou que o sinal fechasse antes de atravessar uma das ruas movimentadas de Chester. Desde a tarde em que Max a tinha beijado, suas vidas haviam entrado numa rotina tão nova quanto perturbadora. O marido parecia cada vez mais envolvido com os filhos e com a família em geral, frequentemente adiando o retorno ao tra­balho em Londres.

As noites eram passadas no aconchego de Queensmead, algo inteiramente contrário à rea­lidade de meses anteriores.

Chegar certo dia em casa, como acontecera na semana passada, depois de enfrentar uma reunião desgastante com o diretor financeiro de uma gran­de empresa, molhada até os ossos por causa da chuva torrencial, os cabelos grudados no rosto, e que Max não apenas banhara e alimentara as crianças, como também preparara o jantar, tinha sido uma experiência fantástica. Ficara tão assombrada, que perdera a fala. Para completar, ele insistira para que subisse e tomasse um longo banho de imersão antes de se reunirem para um jantar íntimo, defronte da lareira. O detalhe mais deliciosamente perigoso fora quando Max entrara no quarto e a surpreendera secando os cabelos úmidos com uma toalha.

Fazendo-a sentar-se numa cadeira, ele lhe ti­rara a toalha das mãos e se ocupara da tarefa. Incomodada por estar vestindo um velho e con­fortável robe, em vez de uma lingerie bonita, não fora capaz de relaxar.

Interpretando seu evidente embaraço de ma­neira totalmente equivocada, Max comentara:

— Embora eu esteja louco para levá-la para cama, prometo-lhe que não irei tirar vantagem da situação sabendo que você, pelo menos no momento, precisa antes se aquecer e se alimen­tar. Portanto, seja boa menina e pare de ficar puxando a gola do roupão para tentar se cobrir, porque se continuar assim...— Max a brindara com um sorriso sedutor. — Bem, apesar de co­nhecê-la o suficiente para saber que não é de seu feitio agir de maneira provocante, minhas mãos estão encontrando cada vez maior dificul­dade para resistir ao impulso de deslizar para dentro desse decote.

Claro que ela sossegara, sentindo-se tão absurdamente excitada quanto uma garota de dezesseis anos.

Estranho pensar que Max era agora um marido muito mais verdadeiro do que na época em que partilhavam o leito conjugal. Talvez, por isso mes­mo, ansiasse se entregar aos prazeres do sexo. Mas não, não queria pensar nisso. Seu corpo, suas emoções podiam desejar um relacionamento ínti­mo. Porém seu cérebro, seus instintos de mãe, a avisavam de que não deveria permitir-se tais lou­curas pois ela, e principalmente as crianças, não suportariam ser magoados por Max uma segunda vez. Nenhum dos três teria estrutura para se­guir adiante sem que a alma ficasse para sem­pre marcada.

— Quando você planeja voltar ao trabalho? — perguntara-lhe no início da semana.

— Por quê? Ansiosa para se ver livre de mim?

— Não, claro que não — apressara-se a negar. — E que...

Como poderia dizer ao marido que sua constante presença em Queensmead a perturbava demais? Que suas noites estavam se tornando insones, os sonhos sensuais fazendo-a arder de desejo?

Atordoada pelos pensamentos, Maddy balançou a cabeça obrigando-se a manter a atenção fixa no motivo de sua ida a Chester. Marcara uma reunião, de negócios com Griff e depois os dois iriam al­moçar juntos. Cedo ou tarde teria que tomar uma decisão sobre o papel de Griff em sua vida. Cedo ou tarde teria que conversar com Max.

Max. Logo pela manhã, ele descera para o café vestindo um terno cinza-escuro, a aparência formal tornando-o ainda mais distinto e atraente. Desde o acidente na Jamaica, alguns fios de cabelos brancos haviam aparecido em suas têmporas. O efeito, con­tudo, longe de fazê-lo parecer envelhecido, lhe dera um ar marcadamente sensual.

Avisando-a de que se tratava de trabalho, Max partira sem entrar em maiores explicações. Com certeza não achara necessário discutir sua ida a Londres com a esposa. Embora soubesse ser ridí­culo, Maddy sentira-se triste e excluída, especial­mente depois do telefonema de Jon, que ligara para desejar ao filho "boa sorte."

Sem dúvida Jon deveria ter conhecimento dos planos de Max e, claro, Jenny também. Entre­tanto a própria esposa permanecia ignorante dos fatos.

Irritada, partira para Chester. Não fazia idéia de quanto tempo o marido pretendia permanecer em Londres. Provavelmente só voltaria para Haslewich no dia seguinte.

— Você está bem? — Griff perguntou-lhe mal a secretária os deixava a sós.

— Sim, obrigada.

— Tem alguma coisa errada — ele insistiu desconfiado.

— Não é nada. — No mesmo instante, vendo a mágoa estampada no olhar masculino, Maddy arrependeu-se de ter falado com aspereza. — Des­culpe-me. É que...

— Ouça, você sabe como me sinto a seu respeito. — Griff tentou segurar a mão delicada entre as suas mas foi repelido, embora com delicadeza. — Tudo bem. Compreendo o que se passa. Você e Max. Quero apenas enfatizar que sempre estarei ao seu lado.

— Oh, você não deve dizer isso — Maddy pro­testou, os olhos cheios de lágrimas. — Você pre­cisa, merece, alguém que possa... — Não valia a pena dizer mais nada, quando se sabia incapaz de dar a Griff o conforto e a segurança de que ele necessitava.

Durante vários minutos após a saída de Maddy, Griff permaneceu de pé junto a uma das janelas do escritório, imerso em pensamentos. A reunião de trabalho fora breve e, de comum acordo, ambos haviam decidido que o melhor seria cancelar o almoço. Contrariando todas as expectativas, Mad­dy despertara em seu interior um tipo de amor possessivo e intenso, um sentimento que sempre se julgara emocionalmente frígido para vir a ex­perimentar. Um amor que, começava a perceber agora, talvez houvesse sido por demais ardente. Tão ardente que poderia, em última instância, ter consumido a si próprio, destruindo-se por completo. O lado analítico e prático de sua na­tureza o estava alertando de que se apaixonara muito rápida e profundamente. E tais emoções poderiam não haver resistido à passagem do tempo.

Mesmo agora, sob a camada da dor, pulsava uma frágil sensação de... alívio? Hoje, pela manhã, recebera uma carta de um velho amigo, convidan­do-o para visitá-lo em sua nova casa, perto de Vancouver. Quem sabe não deveria aceitar o convite?

 

                                                      CAPITULO XIV

Maddy estava voltando para o car­ro, depois da reunião com Griff, quando tudo aconteceu. Ao atravessar a rua nas imediações do Grosvenor, notou uma figura fa­miliar parada junto à porta do restaurante, a atenção inteiramente concentrada na mulher que o acompanhava.

Com o coração aos pulos, observou Max, seu marido, sorrir para a bela loura, elegantemente vestida. Sufocada por uma súbita sensação de náusea, desejou apenas fugir dali, desaparecer no ar sem deixar vestígios. Temendo ser descoberta, virou-se depressa, colidindo com uma senhora que andava na direção oposta.

Enquanto começava a desculpar-se, escutou a outra perguntar, preocupada:

— Você está se sentindo bem, querida? Pare­ce-me muito pálida.

— Estou bem — mentiu, afastando-se rapidamente. No trajeto de volta para Haslewich o sol surgiu por trás das nuvens afinal, derramando-se sobre a grama verde e os campos em flor, uma visão que costumava lhe encher o coração de esperança. Mas hoje não conseguia nem sequer enxergar a beleza das flores por causa das lágrimas amargas que lhe queimavam os olhos.

Como podia ter sido tão tola a ponto de acreditar que Max havia mudado de verdade? Claro que ele não mudara. Continuava a ser o mesmo con­quistador de sempre. Mentiroso, traiçoeiro e sem caráter.

O estoicismo com que costumara enfrentar os inúmeros casos e traições do marido parecia tê-la desertado. Em vez da aceitação passiva, experi­mentava agora a fúria mais torturante, o ciúme mais devastador de que uma mulher era capaz. Como ousava ele? Como ousava ele traí-la?

— E então, como foi? — Luke perguntou a Max, convidando-o a entrar no escritório.

— Razoável. Na minha opinião, ela continua bastante apaixonada pelo marido e embora jure querer o divórcio, tenho a impressão de que não deseja separar-se. Talvez consultas com um conselheiro matrimonial sejam mais necessárias do que um advogado especializado em divórcio.

— Hum... Concordo. Porém ela insiste na idéia do divórcio. Já expliquei-lhe que não temos nin­guém na firma especializado nessa área e, por isso mesmo, sugeri que o procurasse.

— Bem, sem dúvida seria um caso interessante e lucrativo, do ponto de vista profissional. Toda via, ainda insisto que o casal deveria dar uma nova chance ao casamento.

— Você está ficando com o coração mole na ve­lhice, meu caro primo — Luke brincou.

— E provável que sim — Max respondeu com um sorriso, recusando-se a morder a isca.

— A propósito, você já pensou no que eu lhe disse, sobre a necessidade de um advogado com seu perfil em nossa firma de Chester?

— Sim, pensei. Porém, no momento, o futuro de minha carreira é a coisa menos importante. Tenho outras prioridades.

— Oh? E o que seriam?

— Pare de tentar jogar verde para colher ma­duro. Você não descobrirá nada.

— Não preciso descobrir. Sei do que se trata. E se quer minha opinião...

— Não, obrigado — Max o cortou, consultando o relógio. — Olhe, preciso ir embora. Devo apa­nhar Léo na escola às três horas.

— Dever antes do prazer, não é? — Luke gracejou.

— Estar com meus filhos é um prazer.

Dez minutos depois, de pé junto à uma das janelas do escritório, Luke observou o primo atravessar a rua, indiferente aos olhares in­sistentes e aos sorrisos sedutores de um grupo de garotas que conversava na esquina. Que transformação extraordinária ocorrera naque­le homem!

Sem muitas palavras, Max deixara claro ter como prioridade o relacionamento com Maddy. Pois desejava-lhe sorte. Maddy não seria facilmen­te reconquistada. Nos últimos meses, ela havia desenvolvido uma personalidade forte e ainda re­sistia aos avanços do marido. Impossível culpá-la. Ele mesmo tivera suas dúvidas sobre a fantástica metamorfose do primo. Embora pouco interesse tivesse no velho Max, precisava admitir estar achando bastante fácil e estimulante se relacionar com o novo. Por esse motivo o convidara para tra­balhar na firma de Chester. Convencera-se de que os dois se entenderiam perfeitamente. E não ape­nas na esfera profissional. Descobrira em Max al­guém com quem partilhava inúmeras afinidades. E sentia-se muito mais próximo dele do que de seu próprio irmão, James.

Verificando as horas, Luke lembrou-se de que Bobbie lhe pedira para chegar cedo em casa. Não que tivesse alguma objeção à idéia. Sabia o que a esposa planejara para o resto da tarde. Aliás, não conseguia pensar em nada melhor do que fazer amor com sua mulher ao entardecer de um dia de primavera. Com um metro e oitenta de altura, Bobbie marcava pre­sença. Sentia-se excitado só de imaginá-la em seus braços, a gravidez tornando-a ainda mais atraente. Decidido, avisou a secretária que iria para casa e que não estaria disponível para receber telefonemas.

Sentada à escrivaninha, Maddy fingia trabalhar enquanto ensaiava o que diria a Max quando o visse chegar.

Estranhamente porém, apesar de estar conven­cida de que o marido continuava o mesmo con­quistador inveterado de sempre, nunca lhe ocor­rera que Max se esqueceria de buscar Léo na es­cola. Assim, tão logo o menino entrou correndo na sala, ansioso para lhe contar sobre as aven­turas do dia, Maddy levantou-se, notando que Emma se atirava nos braços do pai.

— Maddy, o que foi? Alguma coisa errada?

O fato de que ele percebera haver algo errado e a evidente preocupação no olhar masculino a fez vacilar por um instante. Então imagens do marido, bonito e sensual, junto da loura elegante, acabaram subjugando-a e obrigando-a a agir. Não iria calar-se. Não poderia calar-se, mesmo se o quisesse.

Com os ombros muito eretos, uma expressão determinada no rosto, enfrentou-o sem hesitar.

— Vi você essa tarde. Em Chester. Com sua... amiga.

De imediato Max soube o que a esposa estava tentando dizer. Todavia a irritação inicial, ao ser injustamente acusado, foi logo substituída pelo prazer de constatar o ciúme de Maddy diante da presumida existência de uma outra mulher em sua vida.

— Minha amiga? — ele perguntou, fazendo-se de desentendido por uns poucos segundos. — Ah, sim, a cliente que Luke me pediu para atender?

— Cliente?

— Sim. Luke parece convencido de que a firma em Chester precisa de um advogado especializado em divórcio e me pediu para considerar a possi­bilidade de aceitar o cargo. A mulher em questão havia ido consultá-lo com a intenção de se separar do marido. Mas acho que seria melhor o casal procurar um conselheiro matrimonial antes de pensar em divórcio, pois suspeito que ainda este­jam apaixonados um pelo outro. Luke concorda comigo.

— Você... você está pensando em sair da firma de Londres? Em aceitar um trabalho em Chester? — ela perguntou baixinho.

— A idéia me passou pela cabeça. Sem dúvida eu teria mais tempo livre para ficar com as crian­ças e... — Max calou-se, o rosto pálido da mulher tocando-lhe o coração e a consciência também. — Ouça, nós precisamos ter uma conversa. Posso te­lefonar para meus pais e pedir-lhes que tomem conta de Léo e Emma essa noite?

Para seu pesar, Maddy não foi capaz de pro­nunciar uma única palavra, os olhos repenti­namente cheios de lágrimas. Qual era o pro­blema? Estava se comportando feito uma com­pleta idiota.

Sem esperar resposta, Max apanhou o telefone e ligou para os pais que, no mesmo instante, se prontificaram a ficar com os netos.

Era verdade, os dois precisavam conversar, Maddy pensou, lutando para controlar as emoções.

Mas quando o marido sugeriu que jantassem fora, recusou-se, balançando a cabeça de um lado para o outro, ainda não confiando na própria voz.

— Tem razão — Max concordou depressa. — O que desejo dizer a você é melhor que seja dito em particular. Meus pais virão buscar as crianças daqui a pouco. Acho que vou subir e arrumar as mochilas, certo?

— Não, eu mesma cuido disso. — Se não se ocupasse com algo, enlouqueceria pensando na noite que teria pela frente.

— Mais vinho?

Maddy recusou. Já havia bebido três cálices e sua cabeça flutuava.

Em circunstâncias diferentes, teria considerado deliciosamente íntimo preparar o jantar na com­panhia de Max, como ele insistira em fazer. Po­rém, estivera tão nervosa que acabara deixando-o sozinho na cozinha, aflita com o que poderia acon­tecer no desenrolar da noite. Para piorar tudo, mal conseguira tocar na comida, o estômago quei­mando enquanto tentava adivinhar o que o marido queria lhe dizer.

Doía-lhe saber que Max discutira seu futuro com outras pessoas e não com a própria esposa.

— Que foi? Em que você está pensando? — ele indagou de súbito, surpreendendo-a não tanto pela pergunta, mas pela intensidade do tom de voz. — Não, Maddy, não desvie o olhar. — Es­tendendo o braço sobre a mesa, Max tomou a mão esquerda da esposa entre as suas, tocando a alian­ça de casamento de leve. — Seus olhos são lindos. Expressivos. A primeira vez que fiz amor com você, cada uma de suas emoções estava registrada em seu olhar.

— Você não fez amor comigo — Maddy retrucou seca, esforçando-se, sem sucesso, para retirar a mão. — Fizemos sexo.

Houve um breve silêncio, até Max rompê-lo.

— Não. A realidade do que partilhamos daquela primeira vez não se resumia a sexo. Fizemos amor, sim, ainda se...

— Você não me amava. Deixou isso bem claro.

— Menti — ele confessou simplesmente. — O que eu disse não era o que eu sentia. Não na época e muito menos agora. Eu te amo, Maddy e acredito que, bem no íntimo, sempre a tenha ama­do, embora temesse admiti-lo para você e princi­palmente para mim mesmo.

— Você mudou muito — foi tudo o que Maddy conseguiu encontrar para dizer.

— Sim. Mudei.

— Como?

— Na verdade não sei. Sei apenas que logo de­pois de ser atacado na praia, estive num lugar onde descobri, de maneira inequívoca, que nada é tão importante quanto o amor. Oh, não estou me referindo ao amor sexual, ou até o amor de um pai por seu filho, mas ao amor que existe ao redor de todos nós, o amor que não somos capazes de enxergar e que eu, estúpida e tolamente, neguei a mim e aos outros. Por um breve e mágico mo­mento, vi esse amor, pude senti-lo na pele. Então percebi que nunca mais poderia viver sem tê-lo, que não poderia nem sequer me imaginar con­testando-o, recusando-o. Eu não queria voltar desse lugar, Maddy. Sentia-me em paz, em co­munhão com o universo, cercado de luz e har­monia. Oh, se existisse uma forma de descrever a sensação experimentada. Então ouvi meu pai me chamando e ele me pareceu tão infeliz e de­sesperado. Virei-me para confortá-lo e, de repen­te, eu havia partido daquele lugar maravilhoso e retornava por um túnel escuro para junto de meu pai.

Maddy engoliu em seco, o coração pulsando ra­pidamente, a voz tremula, carregada de emoção.

— Parece que você esteve às portas da morte. Já li sobre isso. Dizem que as pessoas que passam por essa experiência são...

— Sim — Max concordou gentil. — Porque o amor, na falta de uma palavra mais adequada, tocou nossa alma, nos modificamos. Sei o quanto você duvida de mim e por quê. Porém juro-lhe que não se trata de nenhuma encenação, algum tipo de brincadeira macabra. O que está aconte­cendo é real. Este sou eu. Não posso apagar o mal que lhe causei. Não posso voltar no tempo e alterar o que já foi dito. Tudo o que posso fazer é lhe pedir não para perdoar o passado, ou es­quecê-lo, mas — Max calou-se por um instante e fitou-a nos olhos, o rosto transbordante de sinceridade —, para me permitir provar a você o que sou agora, o que sinto dentro do peito. Estou lhe pedindo para dar a mim, ao nosso casamento, uma segunda chance. Diga que não é tarde demais para nós — ele implorou.

Desnorteada, Maddy desviou o olhar. Impossí­vel encontrar palavras capazes de exprimir o quanto o desabafo do marido a tinha emocionado. Quando Max dissera que o amor tocara-lhe a alma, soubera ser verdade, pois testemunhara a extraordinária metamorfose ocorrida naquele homem antes tão frio e egoísta. Sim, as atitudes e as crenças dele haviam mudado. Todavia, quanto a súplica para que dessem ao casamento de ambos uma nova chance... Talvez fosse pedir muito enquanto ela se achava tão confusa, tão insegura.

— Diga que não é tarde demais para nós — escutou-o repetir comovido.

— Não sei. — Ela mordeu os lábios, nervosa. Então obrigou-se a encará-lo. — Ouça, você afirma que mudou muito, que me ama e que nosso ca­samento deve continuar. Então, por favor, tente me entender. Sei que você acredita no que está me falando agora, entretanto existem coisas que não podem ser ignoradas.

Maddy precisou armar-se de coragem antes de continuar. O que necessitava ser dito estava tra­zendo de volta lembranças dolorosas que preferi­ria não ter que exumar. Mas o marido devia com­preender a razão de suas dúvidas e hesitação,

— Quando nos casamos, eu te amava tanto, Max, tanto... Se você me fez infeliz, sei agora que contribuí para isso. Dei-lhe permissão para me tratar mal. Somente há pouco comecei a ser eu mesma, a me conhecer de verdade. — Maddy ca­lou-se por um segundo, insegura. — Preciso de tempo para aprender a viver feliz comigo mesma, a me aceitar como sou.

— Você está tentando me dizer que se apaixo­nou por outro homem? — Max indagou sem al­terar a voz. — Sei que Griff Owen a ama.

Ela negou imediatamente.

— Não. Gosto de Griff e ele tem sido um bom amigo. Talvez, se nós dois tivéssemos nos sepa­rado e... Não, Max, isso não tem nada a ver com Griff. É sobre você e eu.

— E o fato de eu não merecer seu amor.

— Você não percebe? Não se trata de ser ou não merecedor. A questão é bem diferente. E se daqui a muitos anos nós dois descobrirmos que ficamos juntos pelos motivos errados? Você movido pela compaixão e pelo senso de dever e eu porque...

— Você por quê? — ele pressionou, vendo-a vacilar.

Agarrando-se a um resto de coragem, Maddy ergueu a cabeça e confessou altivamente:

— Embora você houvesse, inúmeras vezes, me considerado uma decepção na cama, uma parceira sexual incapaz de lhe dar prazer, nunca consegui deixar de desejá-lo. E continuo desejando-o muito, Max. Demais, até. Todavia isso não basta para construir um casamento, uma vida a dois.

Por alguns minutos Max permaneceu em silên­cio, confuso e surpreso demais para reagir.

Claro que sempre soubera quão vulnerável era Maddy às suas carícias. Porém jamais esperara ouvi-la admitir isso, quando não tinha dúvidas de que a esposa passara anos se envergonhando por desejá-lo. Aquela cândida confissão o fizera enxergar que não apenas a amava, mas a respei­tava e admirava também. Diferentemente de Maddy, ele só aprendera o valor de ser sincero consigo mesmo depois de enfrentar a morte.

Quando o marido se levantou da mesa, ela o fitou alarmada.

— Não se preocupe. Não vou fazer nada. Oh, sim, Maddy, como já lhe disse, eu a quero tanto que chega a doer. Entretanto, por mais que me sinta tentado a torná-la nos braços e amá-la aqui mesmo, no meio da sala, sei que não seria certo. Respeito suas decisões e quero que possamos cons­truir uma base sólida para nosso relacionamento.

— Max — Maddy protestou, o corpo inteiro ar­dendo de paixão ao reconhecer a verdade nas pa­lavras do marido. Sentia-se desejada de fato e não sabia como agir.

— E melhor encerrarmos essa conversa. Meu autocontrole está por um triz e mais um pouco não conseguirei me impor os limites necessários. Tudo o que vou lhe pedir é que dê ao nosso ca­samento mais uma chance.

— Eu... eu preciso de tempo.

Olhando-a fixamente, Max tocou-a de leve na mão.

— E a propósito, aquilo nunca foi verdade.    

— A que você está se referindo?

— Ao fato de você acreditar que sempre a con­siderei uma decepção na cama.

Silêncio.

— Se quer mesmo saber a verdade, Maddy, embora eu não admitisse, seu calor e generosi­dade na cama mais do que compensavam sua falta de experiência. Você nunca poderá imagi­nar quantas vezes estive perigosamente perto de me perder em seus braços. Como diabos acha que geramos nossos filhos? Apesar de dizer que não os queria, não tinha forças para conter-me. Agora, se me der licença, vou me deitar. Foi um longo dia.

O cansaço era evidente no rosto do marido. Ape­sar de determinado a superar-se, havia momentos em que os efeitos do ataque sofrido meses atrás ainda se manifestavam na expressão de Max, em especial em circunstancias estressantes. Obser­vando-o, Maddy lembrou-se de quão perto estivera de perdê-lo, de quão perto a morte estivera de levá-lo..

— Posso lhe dar um beijo? — ele perguntou baixinho, a tensão súbita nas feições da esposa desalentando-o. — Você ainda não confia em ruim — murmurou afinal, afastando-se devagar.

Enquanto o observava sair da sala, Maddy concluiu que não era em Max em quem não confiava, mas em si mesma.

Apenas quando se viu a sós, foi que se permitiu imaginar como seria ter os lábios do marido no­vamente colados aos seus.

Um longo tempo se passou antes que Maddy desse seus afazeres por encerrados. Trabalhara de maneira quase feroz na cozinha, lavando, lim­pando, polindo utensílios até a completa exaustão. Tinha esperança de que o cansaço físico a ajudasse a dormir sem que imagens de Max a atormentas­sem. Entretanto, uma hora depois de deitar-se, continuava acordada. Acordada e...

Empurrando as cobertas para longe, levantou-se. Embora Ben ocupasse a outra ala de Queensmead e, portanto, não corria o menor risco de en­contrá-lo no corredor, cobriu-se com um robe até chegar ao quarto de Max. Ao fechar a porta atrás de si, jogou o robe no chão, o corpo nu estreme­cendo de ansiedade e antecipação.

O marido dormia. Quantas e quantas vezes no passado o velara durante o sono, acariciando a pele bronzeada, fingindo existir entre os dois uma intimidade que lhe era sempre negada, imaginan­do ser tão amada quanto o amava.

Através dos olhos semicerrados, Max viu a es­posa aproximar-se da cama. Temendo afugentá-la, mal ousava respirar.                                          

Devagar, com os dedos trêmulos, Maddy tocou-o nas costas, absorvendo o calor que dele emanava com sofreguidão.

— Max... — Embora não tivesse certeza se havia falado alto ou não, de repente o marido sentava-se na cama e a puxava para o colo, envolvendo-a num abraço perturbador.

— Maddy.

Ela o escutou sussurrar seu nome vezes sem conta, como um refrão, um cântico de amor. Lân­guida, entregou-se aos lábios que consumiam os seus com uma voracidade que beirava a loucura.

Apenas agora, instintivamente, se sabia livre para se oferecer sem reservas, para ceder à força das sensações e dos sentimentos, certa de que seu corpo e sua alma não seriam rejeitados.

Até mesmo o toque das mãos de Max era diferente, mais lento, gentil, dando carinho, mas exigindo em troca. Todavia a excitação, a fome, a carência, o desejo que sempre experi­mentara em relação ao marido continuavam os mesmos de antes. Talvez até maiores, mais in­tensos. Quando dedos hábeis massagearam seus mamilos, Maddy arqueou as costas, estre­mecendo incontrolavelmente.

— Meu amor, meu amor... — ele murmurou, sugando-lhe um dos seios com paixão até quase fazê-la desfalecer de prazer.

Quando, por fim, Max se afastou alguns centí­metros, o peito molhado de suor, os cabelos re­voltos, Maddy notou algo que jamais percebera até então. A força daquele corpo musculoso era também sua própria fraqueza. Havia nele uma vulnerabilidade que Max, pela primeira vez, ex­punha aos seus olhos.

Hesitante a princípio, estendeu a mão e tocou-o de leve nos cabelos. De repente, foi tomada por uma urgência brutal de acariciá-lo, de provar o gosto do corpo másculo, de deslizar os dedos por cada centímetro da pele firme. Mas explorar com os dedos já não bastava. Precisava absorver o sa­bor de Max com os lábios, ou morreria.

— Maddy, pelo amor de Deus, o que você está tentando fazer comigo? Sabe que...

Porém as palavras que pretendia dizer foram esquecidas quando a mulher atirou os lençóis para longe e o beijou no interior da coxa. A pressão gentil dos lábios insistentes, o levou a afastar as pernas e gemer baixinho, abandonando-se àquela imensa sensação de prazer.

A cicatriz enorme na perna, herança do ataque a faca, brilhava ao luar. Vendo-a, Maddy foi to­mada de uma emoção tão intensa que lágrimas de amor vieram-lhe aos olhos.

— Max...

Ao escutá-la pronunciar seu nome, a voz trê­mula por causa das lágrimas, Max teve certeza de que chegara ao limite de sua resistência. Ba­nhado de suor, incapaz de encontrar forças para resistir ou encorajá-la, sentia que seu corpo, seus sentidos, todo o seu ser, estavam inteiramente a mercê de Maddy.

Pertencia à esposa para que ela fizesse dele o que desejasse. Amá-lo ou abandoná-lo.

Suavemente, Maddy roçou a cicatriz com a pon­ta dos dedos. Então, inclinou a cabeça devagar e a acariciou com os lábios.

Sentindo as lágrimas da mulher em sua pele, Max estendeu os braços e puxou-a para o colo, o coração a ponto de explodir. Com uma avidez de­senfreada, beijou-a na boca, nos seios, no pescoço, enquanto a penetrava devagar.

Possuir Maddy era reencontrar a paz. Os corpos de ambos se completavam com a mesma perfeição de suas almas.

Sentir o marido dentro de si era muito mais do que Maddy imaginara, muito mais do que se lem­brava. A verdade é que durante aquelas longas e solitárias noites, não se permitira recordar a intensidade do prazer que Max sempre fora capaz de lhe dar. Sufocara a memória numa tentativa de manter a sanidade.

Porém agora era diferente. Agora não se tratava apenas de sexo. A cada nova investida, a cada reação ardente de seu próprio corpo, descobria-se um pouco mais perto da imortalidade.

As palavras de amor que o marido pronunciava entre os beijos eram como um bálsamo em sua alma ferida, curando-a de todo o sofrimento an­tigo, apagando as marcas de um passado atribu­lado, fazendo-a renascer para a vida.

No auge do prazer, Maddy gritou, enterrando as unhas nos ombros largos em busca de equilíbrio. Depois, exausta, adormeceu. Foram os beijos do marido, ávidos, insistentes, ao redor de seu umbigo, que acabaram por acordá-la no meio da noite.

— Max — ela protestou baixinho, sentindo a língua firme tocar, lentamente, o mais íntimo de seu sexo.

— Quero-a por inteiro, meu amor — ele mur­murou ofegante. — Quero conhecer cada centí­metro de seu corpo, sorver cada gosto seu.

Abandonando-se ao desejo abrasador que con­sumia a ambos, Maddy entregou-se à carícia erótica, a pressão dos lábios de Max arrastan­do-a num turbilhão de delícias até que, estre­mecendo violenta e seguidamente, atingiu o or­gasmo. Nunca, jamais, experimentara uma sen­sação tão arrebatadora.

Todavia não foi ela, e sim o marido, quem der­ramou lágrimas emocionadas, subjugado pela vas­tidão do que haviam vivido nos braços um do ou­tro. Apertando-a junto ao peito, Max segredava-lhe o quanto a amava e valorizava. Porém, apesar das súplicas, Maddy recusou-se a passar o resto da noite ali.

— O que aconteceu não muda nada do que eu disse antes, sobre minha necessidade de mais tem­po. O que aconteceu foi apenas...

— Sexo? — ele ofereceu, olhando-a fixamente.

— Claro que não.

— Por quê? Por quê, então, você veio me procurar?

— Não sei. Eu... Talvez eu só quisesse saber como seria depois de tudo o que houve entre nós — ela retrucou séria.

Diante da expressão do olhar de Max, Maddy teve receio de que sua resolução de manter-se dis­tante cairia por terra.

— E qual foi sua conclusão?

Como explicar ao marido que agora compreen­dia o que ele quisera dizer quando afirmara ter tido a alma tocada pelo amor? O que ambos ha­viam experimentado juntos, durante aquela noi­te mágica, fora quase demais em sua magnitude. Entretanto ainda se sentia muito confusa, muito insegura, muito relutante para confiar nos pró­prios sentimentos para investir cegamente numa relação.

— Preciso de tempo.

— Nosso casamento não chegou ao fim — Max a avisou, vendo-a sair do quarto, o corpo nu da mulher encantando-o como uma visão sobrenatural.

Ardia de vontade de segui-la, de tomá-la nos braços, de arrastá-la de volta para a cama, se preciso fosse, para convencê-la do quanto a amava. Todavia a razão o impedia de agir assim.

Amá-la como a tinha amado momentos atrás lhe mostrara tudo o que perderia, se a perdesse. Não podia arriscar prejudicar a própria felicidade cedendo aos impulsos possessivos e às exigências apaixonadas de sua natureza.

Maddy viera procurá-lo de livre e espontânea vontade. Talvez tornasse a fazê-lo. E quando o fizesse, então não a deixaria partir. Mas por en­quanto, aguardaria, procurando manter acesa a chama da esperança.

Além de tudo, ela sempre tivera facilidade para engravidar. Se uma criança fora concebida, talvez Maddy decidisse permanecer ao seu lado. Não. Não a queria consigo apenas por causa de um filho gerado numa explosão de prazer. Só fazia sentido tê-la consigo se Maddy de fato o amasse.

Amava-a tanto, desejava-a tanto, que foi neces­sário cerrar os dentes e fechar os olhos para não gritar o nome dela quando a porta do quarto foi fechada silenciosamente.

As primeiras luzes da manhã, Maddy ainda ten­tava dormir, o ar frio do quarto inundando-a de desconforto, a cama, sua cama, vazia e inóspita. Sem Max, sentia-se sozinha, incompleta.

Poderia ter ficado com ele. Deveria ter ficado com ele? Bastou fechar os olhos para que sua men­te fosse inundada por uma torrente de imagens sensuais. O que haviam partilhado, as sensações experimentadas, a sede saciada.

Sexualmente, o marido sempre tivera a capa­cidade de excitá-la e de lhe dar prazer. Porém aquela noite não se tratara apenas de sexo entre os dois, e sim de uma verdadeira expressão do amor conjugal.

Sorrindo, Maddy tocou o ventre de leve. Léo e Emma não tinham sido planejados. E se desta vez... Por um momento o pânico ameaçou sufocá-la. Não queria outro bebe... não agora. Precisava de tempo para si mesma. Se Max a descobrisse grávida, com certeza iria pressioná-la para que ficassem juntos.

Como seria carregar no ventre um filho desejado por ambos com igual intensidade? Dar a luz àque­la criança tendo o marido ao seu lado? Apoiando-a em todos os instantes, da concepção ao parto?

Agora, não alimentava dúvidas sobre o afeto que Max nutria por Léo e Emma. Todavia, essa criança ainda por nascer teria sido fruto de um amor imenso e recíproco.

Essa criança?

Maddy começou a tremer.

Atualmente, outras coisas exigiam seu tempo e atenção. A obra social, Emma, Léo, o avô de Max. Não era a ocasião certa para ter um terceiro filho e, certamente,, não as circunstâncias ideais.

Essa criança...

Sorrindo esperançosa, Maddy finalmente ador­meceu. E no meio da manhã, quando Max entrou no quarto levando uma bandeja com o café, ela ainda sorria.

 

                                                                                Penny Jordan 

 

 

                      

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