Biblio "SEBO"
Desde tempos imemoriais que no Castelo da Pedra do Mocho vivia um pequeno fantasma, um desses pequenos e inofensivos fantasmas nocturnos que não fazem mal a ninguém desde que não sejam incomodados.
Durante o dia dormia no sótão, dentro de uma pesada arca de madeira com ferragens, uma arca muito bem escondida atrás de uma grande chaminé, e que nenhum ser humano podia suspeitar de que pertencesse, na realidade, a um fantasma.
Noite fora, assim que o relógio da Câmara Municipal de Monte do Mocho dava as badaladas da meia‑noite, o pequeno fantasma acordava. (O Monte do Mocho estava situado ao pé de Pedra do Mocho.) Pontualmente, à décima segunda badalada, o fantasma abria os olhos, espreguiçava‑se e tornava a espreguiçar‑se. Então rebuscava debaixo das velhas cartas e documentos que lhe serviam de almofada até encontrar o chaveiro com as treze chaves... andava sempre carregado com ele. Logo de seguida encostava‑o à tampa da arca... e imediatamente aquela se levantava sozinha.
O pequeno fantasma já podia então sair da arca, embora batesse sempre com a cabeça numa das muitas teias de aranha daquele afastado lugar do sótão. Havia muitos anos que não era pisado por seres humanos e por isso estava completamente cheio delas e terrivelmente coberto de pó. Até as teias de aranha tinham pó, e tanto que, mal se lhes tocava, este caía sob forma de chuva espessa.
‑ Atchim!
O mínimo que o pequeno fantasma podia fazer era espirrar de vez em quando, pois quando abandonava a arca chocava com as teias de aranha e o pó metia‑se‑lhe pelo nariz. Espreguiçava‑se várias vezes para acordar, flutuava, espreitando por detrás da chaminé, e começava o seu passeio, a sua ronda da meia‑noite.
Como acontece a todos os fantasmas não pesava nada, era vaporoso e leve como um bocadinho de nevoeiro. Ainda bem que nunca fazia a ronda sem o chaveiro das treze chaves, pois um ténue sopro de ar seria suficiente para levá‑lo para bem longe, sabe‑se lá para onde!
Contudo, não era este o único motivo para o pequeno fantasma levar sempre consigo o molho de chaves, também o utilizava para se bambolear pelo ar... enquanto abria todas as portas e portões que encontrava pelo caminho. Realmente, graças a ele, escancaravam‑se por si só tanto as portas fechadas com ferrolho como as fechadas com aldraba ou as apenas semicerradas. E isto também acontecia com as tampas das arcas, com as portas dos armários, com as cómodas e baús, com as portazinhas dos aquecedores e com as caixas, clarabóias, postigos de caves e ratoeiras para caçar ratos. Um gesto com o molho de chaves e tudo se abria; outro gesto e voltava a fechar‑se.
O pequeno fantasma estava muito contente por possuir aquele chaveiro com as treze chaves. «Sem ele», pensava às vezes, «a vida seria muito mais difícil.»
Quando fazia mau tempo, o pequeno fantasma passava as horas fantasmais principalmente nas salas do museu do castelo: entre velhos retratos e armaduras, canhões e lanças, sabres e pistolões. Divertia‑se muito a abrir e fechar com um toque os elmos das armaduras, graças ao chaveiro, e fazia rebolar, pelo chão as redondas balas de ferro dos canhões, pois era a única forma de as ver mover. E de vez em quando, se lhe apetecia, conversava com aqueles cavalheiros e damas dos quadros da sala de honra.
‑ Boas‑noites ‑ dizia, por exemplo, ao passar diante do retrato do primeiro proprietário do castelo, o conde Jorge Casimiro, que tinha vivido uns quinhentos e cinquenta anos antes e que havia sido uma personagem bastante cruel. ‑ Lembras‑te daquela noite de Outubro em que apostaste com os teus companheiros que me agarrarias com as tuas próprias mãos e me deitarias pela janela fora? Tenho de confessar‑te que me irritaste com essa aposta e por essa razão não devias ter levado a mal quando te preguei um susto tremendo. Tu sim, é que tiveste de saltar pela janela, apesar de te encontrares no terceiro andar. Por sorte, aterraste sem grandes problemas no fosso lodoso do castelo mas deves admitir que a coisa podia ter‑te saído mal...!
Ou inclinava‑se perante o retrato da belíssima condessa Genoveva Isabel Bárbara, a quem, há já uns quatrocentos anos atrás, ajudara a encontrar uma valiosa arrecada de ouro, que tinha sido roubada por uma pega através da janela.
Ou então apresentava‑se diante do distinto cavaleiro de bigode e pêra ruivos e de gola de renda sobre o gibão de pele, que não era nenhum pobre de Cristo, mas sim o temido general Pedro Portalson. Há trezentos e vinte e cinco anos, o general tinha sitiado com o seu exército o Castelo de Pedra do Mocho e a pequena cidade de Monte do Mocho, mas passados poucos dias, logo pela manhã, mandou levantar o cerco, partindo sem ter conseguido o seu propósito.
‑ O quê, general? ‑ perguntava o pequeno fantasma, enquanto contemplava o retrato de Portalson. ‑ Tal como eu temia, ainda hoje nos círculos militares dão voltas à cabeça imaginando o que o terá obrigado a partir tão precipitadamente... Mas esteja tranquilo, eu guardo só para mim a causa de tudo aquilo. Apenas a contei uma vez ao mocho Uho, que tem uma certa fraqueza por todo o género de histórias e mexeriquices. Agora, espero não o incomodar se continuar o meu passeio.
Regularmente, quando o tempo o permitia, o pequeno fantasma ia direitinho ao ar livre, subindo, para isso, ao telhado do sótão! Que bem lhe sabia o ar fresco da noite! Que leve e livremente se respirava sob o vasto céu!
O pequeno fantasma tinha uma verdadeira predilecção pelas noites de luar.
Brincava de ameia em ameia, por cima dos muros, quando a Lua deixava luzir um dos seus raios: um raio branco como uma nuvem de pó de neve. Era verdadeiramente maravilhoso! Naqueles momentos o pequeno fantasma sentia‑se tão feliz e contente que tinha de sufocar continuamente o riso:
‑ Hi... hi... hi... hii! Que bonito que é o Castelo de Pedra do Mocho quando brilha a Lua! Hi... hi... hi... hiiiii!
Às vezes, o pequeno fantasma brincava com os morcegos que saíam à noite dos seus esconderijos e esvoaçavam à volta das torres do castelo; outras, dedicava‑se a contemplar como os ratos e as ratazanas saíam e entravam pelas janelas da cave, e outras ainda escutava o concerto dos gatos ou contemplava o voar vacilante duma borboleta nocturna.
Mas do que mais gostava era de visitar o seu velho amigo, o mocho Uho, o qual vivia numa árvore enorme, no limite mais afastado do monte do castelo, num lugar onde as rochas caíam a pique sobre o rio. O mocho ficava sempre muito contente por receber a visita do pequeno fantasma, pois também ele dormia durante o dia e não acordava antes da meia‑noite. Era velho e muito sábio, e gostava de ser sempre tratado com grande respeito. Até nem permitia que o pequeno fantasma o tratasse por tu, coisa que não teria tido importância dada a amizade que os ligava. Habitualmente o pequeno fantasma sentava‑se junto ao mocho Uho, sobre um ramo, e para passar o tempo contavam histórias para rir ou meditar, as que lhes ocorriam no momento.
Uma noite em que o pequeno fantasma tinha chegado mais uma vez à enorme árvore, o mocho Uho disse:
‑ Quer contar‑me o que aconteceu àquele general que, se não estou em erro, se chamava Porcoson?
‑ Portalson ‑ precisou o pequeno fantasma. ‑ Pedro Portalson.
- Pois... que aconteceu?
‑ Ui! Foi uma coisa realmente divertidíssima, sabia? Vai fazer anos no dia vinte e sete do próximo mês de Julho... Um dia Portalson chegou com as suas tropas: infantaria, canhões e cavalaria, muitos milhares de soldados e oficiais. Armaram as tendas à volta do castelo e da pequena cidade, construíram trincheiras fortificadas e, naturalmente, colocaram em posição os seus malfadados canhões e dispararam sobre o castelo e a cidade.
‑ Imagino! Não deve ter sido nada agradável ‑ comentou o mocho Uho.
‑ Agradável? ‑ perguntou o pequeno fantasma. ‑ Foi horrível! Troavam e disparavam durante todo o dia e metade da noite. Afortunadamente não tenho o sono leve e não é fácil que alguma coisa ou alguém mo perturbe, por tão pouco. Contudo, digo‑lhe eu a si que aquilo era insuportável! Aquele troar ininterrupto dos canhões e o cair das pedras dos muros ao serem derrubados pelas balas! Durante meia semana tive de suportar pacientemente aquele ruído infernal, depois, comecei a ficar farto.
‑ E pôde fazer alguma coisa para remediar isso? ‑ perguntou o mocho Uho.
‑ Com certeza! Preparei um sermão, precisamente para o tal Portalson, e na noite seguinte fui à sua tenda de general.
‑ E não havia guarda à entrada?
‑ Claro que havia! Um tenente com vinte homens, ou... talvez fossem vinte e cinco.
Quiseram prender‑me, picaram‑me com os sabres e as lanças e o tenente até puxou da pistola e disparou sobre mim. Mas, você já sabe, os sabres e as lanças não me ferem e as balas não me fazem mal algum: passam através de mim como se eu fosse fumo ou nevoeiro. Por isso, não puderam impedir que eu deslizasse para a tenda do general!
‑ E quando se achou lá dentro...? ‑ quis saber o mocho.
‑ Então disse àquele Portalson: «Se amas a tua vida», e entretanto, agitava os braços e dava assobios horríveis, «levanta o cerco e desaparece para sempre com os teus soldados.»
‑ E o que fez o general?
‑ Estava de pé, descalço, com uma camisa de dormir enfeitada com rendas, os dentes a bater como castanholas e um medo atroz. Ao ouvir as minhas palavras, ajoelhou‑se e pediu‑me clemência. «Poupa‑me a vida», rogou‑me, «perdoa‑me e farei tudo o que me pediste.» Então agarrei‑o pela gola e abanei‑o. «Já esperava por isso», respondi‑lhe. «Amanhã bem cedo vais sair daqui, e não penses voltar nunca mais, entendido? Que nem sequer te passe pela cabeça!»
‑ Raios... E que fez o Portalson?
‑ Obedeceu. No dia seguinte, na manhã do dia vinte e sete de Julho, ele e o seu exército saíram daqui. De um momento para o outro foram‑se embora: cavalaria, canhões e infantaria, e ele à frente com o seu estado‑maior.
‑ E... não voltaram mesmo nunca mais? ‑ quis saber o mocho.
‑ Efectivamente, nunca mais ‑ respondeu o pequeno fantasma com um risinho sufocado.
Tinha acabado a história, o episódio do fantasma e do general Pedro Portalson. Durante largo tempo os dois amigos permaneceram calados no alto do ramo, contemplando o vale, lá em baixo. O rio, em que a Lua se espelhava, as torres e os telhados da pequena cidade de Monte do Mocho, com os seus cata‑ventos e chaminés, clarabóias e miradouros. Podiam contar as poucas luzes ainda acesas e observar como, umas a seguir às outras, se iam apagando: uma aqui... outra acolá...
O pequeno fantasma do Castelo de Pedra do Mocho exalou um profundo suspiro.
‑ Que pena ‑ exclamou ‑ ver sempre o rio e a povoação quando brilha a Lua e nunca à luz do dia!
O mocho deixou escapar um resmungo desdenhoso.
‑ Não falemos da luz do dia ‑ pediu. ‑ Só de ouvir essa palavra já me doem os olhos. Eu acho que a luz da Lua é suficientemente clara, mais forte não poderia suportá‑la.
‑ Apesar de tudo ‑ contestou o fantasma ‑, gostaria de contemplar o mundo de dia. Pelo menos uma vez, para conhecer a diferença. Creio que seria muito instrutivo... e muito emocionante.
‑ Bah! ‑ exclamou, indignado, o mocho. ‑ Como pode ocorrer semelhante desejo a um fantasmazinho? Creia‑me querido amigo... Voei uma vez à luz do dia e tive que me chegasse para sempre.
O pequeno fantasma aguçou o ouvido.
‑ Não sabia nada disso, senhor Uho! Tem de me contar, e agora mais do que nunca.
O mocho sacudiu a plumagem e agitou‑se no ramo.
‑ Isso aconteceu nos meus anos de juventude ‑ começou. ‑ Naqueles tempos, eu empreendia de vez em quando voos pelos arredores de Pedra do Mocho: ora para caçar, ora por curiosidade. Num deles calculei mal o tempo... e imagine o que me aconteceu, rapidamente me dei conta de que a manhã despontava. Até à Pedra do Mocho havia pelo menos três léguas, nunca chegaria antes do nascer do Sol! Voei tudo o que as minhas asas deram, mas o Sol, mais rápido que eu, surpreendeu‑me a meio do caminho. Tive de fechar os olhos imediatamente, porque os seus raios deslumbrantes me cegavam... Sabe o desagradável que é voar sem ver nada?
‑ Só posso ter uma ideia aproximada ‑ respondeu o pequeno fantasma.
‑ Oh não! ‑ exclamou o mocho ‑, Ninguém pode sequer imaginar se não tiver passado pelo mesmo. Tem de acreditar‑me! Foi horrível! Mas... o mais espantoso...
Chegado a este ponto, o mocho Uho considerou oportuno fazer uma pausa: primeiro para aclarar a voz, segundo, devido à grande tensão que lhe provocava o relato. O fantasmazinho deslizava num desassossego, daqui para ali, por cima do ramo da árvore.
‑ E que foi o mais espantoso? ‑ perguntou.
‑ Foram os corvos ‑ respondeu o mocho Uho. ‑ De repente ouvi os seus grasnidos, devia ser um bando completo de trinta a quarenta dessas gargantas roucas e gritadoras. Aquela chusma descobriu‑me, reparou que eu estava cego e indefeso, e então acercando‑se, grasnou‑me muito perto dos ouvidos os insultos mais atrozes que ouvira em toda a minha vida. Mas... isto não foi tudo! Um dos corvos, mais afoito, bicou‑me, e os outros, vendo que eu não me podia defender, caíram também sobre mim com os bicos e as garras, de tal forma que em poucos instantes iam acabando comigo. Foi horrível, querido amigo! Algo de infernal! Nem eu mesmo sei como pude, apesar de tudo, encontrar o caminho de regresso a casa. Mais morto que vivo cheguei à minha guarida. Ali já estava a salvo do bando de corvos, mas nem me pergunte como me encontrava! Mal, horrivelmente mal, meu querido amigo.
O mocho bateu as asas, como se quisesse afastar de si a recordação daquela manhã de infortúnio.
‑ Por esta razão ‑ e terminou a história ‑ prometi a mim mesmo estar sempre em casa ao amanhecer. Nós, os seres nocturnos, não fomos feitos para a luz do dia, e você também não, meu caro amigo, especialmente você.
Nos tempos que se seguiram àquela cena, o pequeno fantasma sentia cada vez com mais frequência vontade de contemplar o mundo à luz do dia. O mocho Uho podia argumentar contra tudo aquilo que quisesse.
‑ Não acredito que possa acontecer‑me alguma coisa de mal ‑ pensava. ‑ Além disso, em caso de necessidade tenho o molho de chaves para utilizar como arma de defesa. Que me pode acontecer?
Tais pensamentos não foram gratuitos e, numa das últimas noites de Junho, o pequeno fantasma decidiu realizar o seu desejo. Sabia perfeitamente o que devia fazer.
‑ Não me deitarei quando terminar a minha hora de fantasma, pois devo manter‑me acordado até ser dia. E é tudo!
No entanto, sempre que acabava a sua hora de actividade nocturna, o pequeno fantasma estava morto de sono e também naquela noite, pouco depois da uma hora, sentiu um desejo irresistível de se deitar a dormir. Ao mesmo tempo, notava que a cabeça, pernas e braços se tornavam lassos, lhe pesavam. Então, sentou‑se sobre a borda da arca de madeira (a segurança antes de tudo) e disse para si próprio: «Nada de ceder, pequeno fantasma! Basta de fraquezas!» No entanto, que pode um fantasmazinho contra a sua própria natureza? Ao dar a uma hora da manhã no relógio da Câmara Municipal, terminada a hora dos fantasmas, ele sentiu uma vertigem. Bastou cerrar os olhos por um segundo... e, quando os tornou a abrir, tudo girava à sua volta: a chaminé, a Lua através da clarabóia, as teias de aranha e as vigas do telhado: tudo girava e girava, até que o fantasmazinho não soube mais onde estava. Então, perdeu o equilíbrio, caiu dentro da arca e adormeceu imediatamente.
Dormiu até à meia‑noite seguinte e que desilusão ao acordar! Zangou‑se muitíssimo consigo mesmo, mas não queria perder a esperança tão depressa. «Hoje talvez consiga», disse para si próprio. «Vou experimentar outra vez.»
Contudo, a segunda tentativa fracassou, como a primeira, e também não teve sorte à terceira vez com aquela ideia de ficar acordado. «Se ao menos soubesse como conseguir», pensava ele na quarta noite.
Fazia mau tempo, a chuva açoitava o telhado, o vento uivava pela chaminé, a água gorgolejava pelos canos. De péssimo humor, o pequeno fantasma dirigiu‑se ao museu do castelo. Jorge Casimiro e os outros condes e cavaleiros olhavam‑no de modo zombeteiro do alto dos seus caixilhos dourados (pelo menos era isso que a ele lhe parecia) e o general Portalson punha uma cara como se daí a momentos fosse rebentar numa sonora gargalhada.
‑ Parece‑me que vocês se estão a rir de mim ‑ disse, aborrecido, o pequeno fantasma.
De súbito, quando ia voltar as costas ao general, e simultaneamente aos condes e cavaleiros, viu o relógio de ouro numa vitrina de vidro: o relógio despertador que Portalson tinha perdido na pressa da retirada, relógio esse que fora colocado, mais tarde, no museu, na qualidade de recordação. Já antes o pequeno fantasma havia brincado algumas vezes com ele, mas, agora, ia servir‑lhe para pôr em prática os seus planos!
‑ Meu querido Portalson, espero que não haja qualquer inconveniente em me emprestares por pouco tempo o teu despertador de bolso ‑ disse‑lhe, sorrindo com satisfação. ‑ Hás‑de vir a saber que sei utilizá‑lo extraordinariamente bem.
Agitou o chaveiro, abriu a vitrina e tirou o relógio. Seguidamente, deu‑lhe corda, pôs o despertador para as nove da manhã, apressou‑se a voltar ao sótão e meteu‑se, contente e satisfeito, na sua arca.
«Se me deitar com uma orelha sobre o relógio», pensou, «acordarei quando o alarme der sinal. Não poderei fracassar!»
Contudo, aconteceu que infelizmente o pequeno fantasma se enganou mais uma vez nos seus cálculos. O despertador do general tocou efectivamente às nove horas em ponto, mas ele não o ouviu, continuando a dormir até à meia‑noite. Assim que as doze badaladas se fizeram sentir no castelo, ele acordou.
«Gostaria de saber como é isto possível», pensava. E tentou a sorte com o despertador, duas, três vezes... mas sempre com o mesmo resultado desastroso.
Então decidiu que durante a noite seguinte voltaria a pôr o relógio de bolso do general Portalson no seu lugar na vitrina, e fez muito bem... Entretanto, os dois vigilantes do museu já tinham notado o desaparecimento da valiosa peça e isso trouxe‑lhes uma enorme preocupação. Inclusivamente já se havia notificado a Polícia e até o chefe da Secção Criminal, o senhor Tarolo, observara:
‑ O trabalho deve ter sido feito por um tipo muito manhoso. Para fazer saltar tal vitrina, sem deixar a mínima prova, deve tratar‑se de um especialista que entende um bocado disto.
Sim... e agora o relógio de ouro jazia outra vez no seu lugar, como se nada tivesse acontecido. Na manhã seguinte os vigilantes do museu podiam dar voltas à cabeça pensando na forma como ele fora ali parar.
Contudo, isto não preocupava muito o fantasma, que tinha as suas preocupações particulares.
Relatou o assunto ao mocho Uho e perguntou‑lhe:
‑ Pode explicar‑me por que razão o despertador do general não me acorda a mim?
O senhor Uho pestanejou, como se necessitasse de fazer um grande esforço para responder, mas, na realidade, como sábio mocho que era, tornava‑se para ele sobejamente claro que cada fantasma da Terra pertence a um relógio e que depende unicamente do andamento desse mesmo relógio para acordar e para voltar a dormir.
«Meu querido amigo», poderia ter‑lhe explicado, «o relógio pelo qual se regula, como deve saber, é o da Câmara Municipal da pequena cidade que se vê ali em baixo: Monte do Mocho. Você, apenas e unicamente você, está dependente dele. Ainda que alguma vez não ouça as suas badaladas, terá de obedecer‑lhe, e nada pode fazer em contrário, nem da sua própria vontade nem graças à ajuda do despertador de bolso do general. Só conseguirá acordar a outra hora se adiantar ou atrasar o relógio da Câmara Municipal até à hora desejada. Mas nunca lhe aconselharia isto, creia‑me, deixe o assunto tal e qual...»
O mocho Uho teria podido responder tudo isto ao fantasmazinho, mas, em vez disso, considerou mais sensato guardar para si os seus conhecimentos. Seria talvez possível ao pequeno fantasma conseguir mudar o horário da Câmara Municipal... e quem sabe se para bem, mas, apesar disso, o mocho preferiu dizer‑lhe:
‑ Sabe, meu querido amigo... eu, no seu lugar, resignar‑me‑ia a aceitar que há certas coisas na Terra que não é fácil mudar. Salta à vista que os fantasmas da noite não podem fazer a ronda ao meio‑dia. Devia compreender isto e dar‑se por satisfeito.
O fantasmazinho andava muito triste e frequentemente, durante as noites seguintes, deixava descair a cabeça. Depois do que havia experimentado, julgava que já nunca mais lhe seria permitido contemplar o mundo de dia, mas toda a gente sabe que, e quando menos se espera, os desejos se cumprem. Havia decorrido apenas uma escassa semana sobre os acontecimentos atrás relatados quando o relógio da Câmara Municipal fez soar mais uma vez as doze badaladas e, como sempre, o pequeno fantasma acordou à última. Esfregou os olhos, para espantar o sono, esticou‑se e espreguiçou‑se como de costume. Depois, levantou‑se da arca, bateu com a cabeça na teia de aranha e teve de espirrar...
‑ Atchiiim!
E saiu flutuando detrás da chaminé com um barulho de chaves.
Mas! Caramba! Que aspecto mais distinto tinha o sótão daquela vez! Não estava muito mais claro e não parecia muito mais espaçoso?
Através das fendas que havia entre as telhas entrava um raio de lua dourado e muito bonito.
Um raio dourado?
A luz da Lua é prateada, frequentemente com um bocadinho de azul... Mas, dourada?
«Se não é a luz da Lua», pensou o fantasmazinho, «então que será?»
Deslizou até à janela mais próxima para deitar uma olhadela para o exterior, mas retrocedeu imediatamente, fechando os olhos.
Aquela luz desconhecida era tão viva, tão penetrante, que o pequeno fantasma teve de se habituar primeiro a ela. Com cuidado, pestanejando e franzindo os olhos, espreitou pela janela, mas passou um bom bocado até poder abri‑los e ver bem.
‑ Oh! ‑ exclamou assombrado.
- Que claro estava o mundo naquele dia! E que cores! Até àquela altura o fantasmazinho acreditara que as árvores eram negras e os telhados cinzentos, porém, naquele momento, observava que na realidade eram verdes e vermelhos.
Cada coisa tinha a sua cor!
As portas estavam pintadas de castanho, as cortinas das janelas das casas eram de muitas cores, no pátio havia uma areia amarela e a erva que crescia por cima dos muros luzia num belo tom de verde. Na torre ondulava uma bandeira de listas vermelhas e amarelas. E ali, no cimo de tudo, o maravilhoso céu azul do Verão formava uma abóbada clara e resplandecente, onde se moviam umas nuvenzinhas brancas e solitárias, pequenas e perdidas, como os barcos dos pescadores no mar imenso.
‑ Magnífico! Maravilhoso! ‑ gritou o fantasmazinho, que não cabia em si de espanto.
Ainda tardou um pouco até compreender com clareza o que acontecia.
‑ Será que acordei realmente de dia? Esfregou os olhos, beliscou o nariz... Sim!
Com a breca... Não sonhava!
‑ É de dia! E completamente de dia ‑ gritou o pequeno fantasma, cheio de alegria.
Não sabia porquê nem como é que precisamente naquele dia se tinham cumprido os seus desejos.
Teria acontecido, talvez, um milagre! Quem poderia dizê‑lo...?
Mas o fantasmazinho estava in albis.
«O principal», pensou, «é que eu, por fim, possa contemplar, uma vez, o mundo à luz do dia. Bom, e agora não devo perder tempo. Tenho de percorrer a cidade de ponta a ponta.»
Com grande curiosidade, o fantasmazinho apressou‑se a descer as escadas do sótão. Deslizou pela escada do castelo: passou do terceiro andar para o segundo, do segundo para o primeiro, do primeiro para o rés‑do‑chão, entrando no vestíbulo que conduzia ao pátio do castelo.
Mas, por obra do acaso, precisamente naquela manhã o professor, o senhor Vale, tinha ido com os seus alunos do quarto ano visitar o museu do castelo... e, precisamente naquele momento, entravam todos no vestíbulo, de regresso da outra ala do castelo.
Quando as meninas viram o pequeno fantasma, começaram a dar guinchos e os rapazes a gritar:
‑ Senhor Vale, um fantasma! Um fantasma, senhor Vale!
E armou‑se um tal burburinho que o fantasmazinho, que não estava habituado a isso, se assustou e desatou a fugir. Saiu, correndo a toda a velocidade, pela porta em direcção ao pátio e então os rapazes pensaram que ele tinha medo deles.
‑ Depressa, depressa! ‑ gritaram alguns. ‑ Vamos persegui‑lo e agarrá‑lo!
‑ Sim, sim! ‑ exclamaram os restantes. ‑ Vamos agarrá‑lo. Mas rapidamente, senão, escapa‑se‑nos.
Antes que o professor, o senhor Vale, o pudesse impedir, os trinta e sete alunos (a turma completa) correram em perseguição do fantasma. Dando gritos como índios em pé de guerra, abandonaram o vestíbulo e saíram para o pátio do castelo.
‑ Estão a vê‑lo, estão a vê‑lo? ‑ perguntavam os que iam mais atrás.
E os que iam à frente gritavam:
‑ Vai ali adiante!
O fantasmazinho manteve‑se à sombra dos muros do castelo a maior parte do tempo possível pois, como todos os seres nocturnos, tinha medo da luz directa do Sol.
Para além do mais, divertia‑se com os rapazes a perseguirem‑no.
«Bem podem gritar» pensava. «Se pensam que tenho medo de vocês, estão bem enganados.»
Uma vez deixou que os rapazes chegassem a poucos passos dele, mas quando o que ia à frente o quis agarrar estendeu logo uma chave... e o seu perseguidor bateu com o nariz no chão depois de ter dado uma cambalhota.
«Olha que bem feito», pensou o fantasmazinho. «Já vão ver, experimentaremos umas quantas vezes mais...»
A segunda tentativa também resultou em pleno, mas, à terceira, o pequeno fantasma não se deu conta que para fazer isso saía da sombra do muro e que passava para o sítio onde os raios do Sol lhe batiam em cheio.
Mal o primeiro raio lhe tocou directamente, o pequeno fantasma sentiu uma pancada forte na cabeça, que quase o atirou ao chão. Gritando, deitou as mãos à cabeça e começou a cambalear.
Naquele mesmo instante os rapazes exclamaram:
‑ Ai, vejam! Que aconteceu ao fantasma? Antes era branco... e agora de repente pôs‑se negro! Está tão preto como o carvão!
O fantasmazinho ouvia os rapazes gritarem mas não os entendia, sentia que lhe tinha acontecido qualquer coisa que não conseguia explicar. Como poderia ele saber que os fantasmas se tornam negros quando lhes bate o primeiro raio de sol?
«Tenho de sair daqui», foi o primeiro pensamento lúcido. «Tenho de sair daqui depressa.»
Mas para onde ir?
Não podia voltar para o sótão, porque os alunos lhe cortavam a passagem, mas... e o poço ali no meio do pátio do castelo? Se pudesse esconder‑se lá!
No poço estava em segurança, livrar‑se‑ia dos rapazes e dos raios de sol...
O pequeno fantasma não pensou duas vezes, dirigiu‑se apressadamente para o poço e atirou‑se lá para dentro, o que fez os rapazes assustarem‑se muitíssimo.
‑ Senhor Vale ‑ gritaram ‑, venha depressa. O fantasma meteu‑se no poço.
Contudo o senhor Vale, que não acreditava em fantasmas, ficou convencido de que tinha sido um ser humano a cair ao poço.
‑ Valha‑nos Deus! ‑‑ exclamou, retorcendo as mãos. ‑ Que desgraça, meninos! Temos de pedir auxílio imediatamente. Gritai, meninos, gritai! O senhor Vale e os trinta e sete alunos pediram socorro, gritando tanto e tão alto que o administrador do castelo, os dois guardas do museu e toda a gente que ali estava de visita chegaram correndo ao sítio onde eles se encontravam e perguntaram‑lhes, admirados, que tinha acontecido.
‑ Acudam! ‑ gaguejava o senhor Vale. ‑ Alguém caiu ao poço.
‑ Foi algum dos seus alunos? ‑ perguntou, horrorizado, o administrador do castelo.
‑ Não, por sorte, mas...
‑ Mas?
O senhor Vale encolheu os ombros.
‑ Não sei ‑ disse ‑, mas todos vimos como caiu... e eu acho que, necessariamente, temos de fazer alguma coisa para tirá‑lo dali.
Havia água no fundo do poço, a uns bons quarenta metros de profundidade, mas era escura e fria e o pequeno fantasma não tinha a menor vontade de se meter nela. Olhando em volta, viu na parede do poço uma pedra saliente e suficientemente larga para se sentar. Acomodou‑se e inclinou‑se para o espelho escuro formado pela água.
Uma figura negra olhava‑o da parte debaixo: tinha os olhos brancos e trazia um chaveiro na mão... um chaveiro com treze chaves.
Foi através deste pormenor que o pequeno fantasma compreendeu que a figura do fundo era a sua própria imagem, era ele mesmo.
‑ Ai, que aspecto o meu! ‑ exclamou horrorizado. ‑ Tornei‑me completamente negro! De cima a baixo! A única coisa branca que tenho são os olhos, e reluzem tanto que até assustam. Tenho medo de mim próprio. Ui!
E cada vez que se inclinava, sentia‑se um pouco tonto e débil.
«Preciso de saber porque fiquei negro», disse para si próprio, «e também a causa da pancada terrível que apanhei na nuca. Cada vez que me lembro, até fico meio tonto... De certeza que foi a luz do Sol que me deu a pancada, e se calhar foi ela que me deixou negro... Eu já deveria saber tudo isto antes e então ter‑me‑ia deixado ficar tranquilo na minha arca, não me afastaria dela nem um milímetro.»
O fantasmazinho deitou uma olhadela para a sua imagem.
‑ É terrível ter de imaginar‑me assim para o resto da vida, como se fosse um espantalho preto... Se porventura houvesse um meio de me tornar outra vez branco! Mantenhamos a esperança!
Enquanto o pequeno fantasma estava no poço e pensava em tudo isto, o administrador do castelo corria para o seu escritório e chamava os bombeiros.
Daí a pouco chegou à porta do castelo um carro de bombeiros com sirena e tudo, trazendo lá dentro o chefe e sete dos seus homens.
O chefe dos bombeiros deixou que o administrador do castelo e o professor, o senhor Vale, o informassem sobre o ocorrido e, depois de meditar um instante, levou os dedos ao capacete dourado, em ar de saudação, e disse:
‑ Não se preocupem, senhores. Um destes sete homens descerá ao poço e salvará o infeliz.
Voltou‑se para eles e perguntou:
‑ Qual de vocês se oferece como voluntário? Todos eles, os sete bombeiros, levaram a
mão direita ao capacete e exclamaram:
‑ Eu, meu capitão.
Então, o chefe dos bombeiros escolheu o mais pequeno e mais fraco dos seus homens. Ataram‑lhe uma corda comprida ao cinturão e o capitão pendurou‑lhe com as próprias mãos, uma lanterna ao pescoço, ao mesmo tempo que dizia:
‑ Porte‑se bem.
O bombeiro desceu lenta e cuidadosamente até ao fundo do poço por uma escada de corda, enquanto os outros seguravam a outra ponta da corda que o companheiro levava atada ao cinturão.
Daí a pouco, o fantasmazinho viu o bombeiro a descer com a lanterna, o que o fez sentir‑se bastante mal, pois já imaginava o que aconteceria quando ele chegasse e o descobrisse.
«E agora?», pensou o pequeno fantasma.
Olhou à sua volta, até ao fundo do poço, e descobriu, em frente ao sítio onde estava sentado, uma porta de ferro muito estreitinha, com um enorme cadeado velho.
«Aonde levará aquela porta?», interrogou‑se.
O fantasmazinho agitou rapidamente o molho de chaves, e então a porta de ferro abriu‑se, mostrando o princípio de uma estreita galeria subterrânea.
«Oh, uma passagem secreta!», exclamou para si o pequeno fantasma.
Deslizou lá para dentro e fechou a porta por trás dele, como se nada tivesse acontecido.
«Muito bem!», disse para si próprio o pequeno fantasma.
«Estupendo! Agora já podem procurar lá fora com a lanterna tudo o que quiserem. Aqui estou seguro, e vou cá ficar até que dê a meia‑noite. Então voltarei ao sótão, pelo poço, e o caso fica arrumado.»
Até então o pequeno fantasma julgara que só se podia dormir a sono solto na arca de madeira, mas verificou que isso não era verdade. Sobre o chão húmido da passagem secreta também se podia dormir... e tão maravilhosamente que só quando acordou se lembrou de que não tinha ouvido o som dos sinos, pois ali não chegavam os ruídos vindos do exterior. No entanto, estava convencido de que era meia‑noite, e sentia‑se tão fresco e desperto como sempre, como quando acordava na arca à décima segunda badalada, apenas faltavam as teias de aranha e o pó.
«Que aborrecimento não haver nada para me fazer cócegas no nariz!», pensou. «Se não posso espirrar no momento em que acordo, falta‑me qualquer coisa.»
Tal como decidira no dia anterior, o fantasmazinho queria voltar ao castelo pelo poço, mas quando ia a abrir a porta de ferro teve outra ideia:
«Que aconteceria se seguisse a passagem até ao outro lado, na outra direcção? Gostaria muito de descobrir aonde vai dar.»
O pequeno fantasma, encantado com o seu novo plano, pôs o molho das chaves debaixo do braço e avançou pela passagem secreta. Como via no escuro tão bem como os gatos, não lhe foi difícil prosseguir, e embrenhou‑se cada vez mais pela galeria, até que chegou a um sítio onde esta se bifurcava. Aí hesitou:
«Será melhor seguir pelo caminho da esquerda, ou pelo da direita?», pensou. «É difícil decidir. Talvez seja preferível que o façam as chaves: direita... esquerda... direita... esquerda... direita... esquerda...»
As chaves escolheram o da direita. Bem! O pequeno fantasma deslizou sem demora pela galeria da direita, que era muito húmida e fria. De vez em quando cruzava‑se uma ratazana, no seu caminho, ou... seria um rato? Surgiam na escuridão à velocidade do raio e, à mesma velocidade, tornavam a desaparecer, nem lhe dando tempo a que lhes perguntasse aonde ia dar aquela passagem secreta.
«Tem de acabar nalgum sítio», pensava.
Depressa chegou a outra bifurcação e dessa vez seguiu simplesmente pela galeria da esquerda, compreendendo então que tinha caído numa extensa rede de caminhos subterrâneos. Toda a Pedra do Mocho e arredores estavam minados deles!
«Que cansativo deve ter sido construir todas estas galerias!», pensou o pequeno fantasma. «Não invejo as pessoas que tiveram de as abrir na rocha viva a golpe de picareta. Deve ter sido um trabalho duríssimo!»
Nalguns sítios as passagens estavam meio aluídas e nelas o fantasmazinho tinha de deslizar entre montes de cascalho e escombros. A dada altura chegou em frente de uma forte cancela de ferro que se achava encravada na parede à direita e à esquerda, impedindo a passagem. Não havia hipótese de abri‑la, mas... para quê? Os fantasmas podem tornar‑se muito delgadinhos quando é necessário, e para o nosso pequeno fantasma foi uma brincadeira de crianças passar por entre as grades da cancela.
Uns metros mais à frente descobriu que a passagem acabava, desembocando num buraco estreito, feito verticalmente na rocha, e fechado na parte de cima com uma tampa de ferro.
«Onde irá isto dar?», interrogou‑se o pequeno fantasma.
Sem pensar duas vezes, mexeu no chaveiro das treze chaves. Então a tampa abriu‑se e do outro lado apareceu... a viva e penetrante luz do dia.
«Bolas!», disse para si o pequeno fantasma. «Aqui não é meia‑noite!»
Pôs a cabeça de fora, pela abertura que dava para o ar livre, e olhou à sua volta.
A primeira coisa que viu diante do nariz foi um par de botas brilhantes e negras, e, parcialmente metido nas botas estava um homem com um casaco encarnado e uma reluzente abotoadura de latão. Tinha, ainda, umas grandes luvas brancas e um boné também branco.
O pequeno fantasma não fazia a menor ideia de que o homem do boné branco fosse um polícia de trânsito... e este não podia saber que a negra figura de olhos brancos que havia espetado a cabeça no meio do cruzamento com maior circulação da cidade fosse um fantasmazinho! Tomou‑o por um operário!
‑ Ouça lá! Você está maluco? ‑ gritou, pondo as mãos na cintura. ‑ Que lhe passou pela cabeça para levantar tranquilamente a tampa e interromper o tráfego? Faça o favor de se meter outra vez no buraco e desaparecer!... Mas... rápido!
Os condutores que estavam parados no cruzamento não percebiam o que se passava e, alguns, mais impacientes, começaram a buzinar. No entanto, o pequeno fantasma, aborrecido por o polícia lhe ter ralhado assim, começou a inchar até a sua cabeça ficar tão grande e tão gorda como um depósito de recolher água da chuva. Então, franziu os lábios e deixou passar por eles todo o ar que havia acumulado na cabeça, assobiando como se fosse um balão, de tal forma que o boné branco do polícia saiu disparado.
‑ Estás a ver? ‑ exclamou o fantasmazinho, sorrindo.
Muito satisfeito meteu‑se outra vez na passagem subterrânea e, claque!, fechou a tampa por cima da cabeça.
Devido ao susto, o polícia de trânsito precisou de um bom bocado para voltar a si, demorando pelo menos cinco minutos até levantar de novo o braço para que os carros, que estavam à espera no cruzamento, buzinando, pudessem seguir o seu caminho.
Desde aquele incidente no cruzamento, houve em Monte do Mocho todos os dias, entre as doze e a uma, durante uma semana, um grande nervosismo. Precisamente a essa hora aparecia do chão da pequena cidade, e sempre em sítios diferentes, uma figura negra que assustava as pessoas.
Na terça‑feira apresentou‑se nas tendas das vendedeiras do Mercado Verde, e as mulheres da hortaliça, apesar de não serem nada medrosas, correram desordenadamente em várias direcções, gritando e pedindo socorro, todas ao mesmo tempo.
Na quarta‑feira, visitou o Leão Dourado e pregou um susto de morrer aos clientes, ao estalajadeiro e a todo o pessoal de serviço.
Na quinta‑feira a figura negra, com os horríveis olhos brancos, foi vista na fábrica de gás.
Na sexta‑feira provocou uma algazarra indescritível entre as alunas da sexta classe do colégio que estavam no pátio a fazer ginástica.
Em suma: não houve um dia da semana em que não aparecesse, nalgum sítio, a figura negra.
No Diário de Monte do Mocho publicavam‑se artigos cada vez maiores e mais críticos, onde se perguntava em tom mordaz quanto tempo iria a administração pública (quer dizer, as autoridades) precisar mais para resolver situações tão alarmantes.
O presidente da Câmara convocou um plenário, ou reunião extraordinária dos vereadores, e o chefe da Polícia Municipal meditou dia e noite, na companhia dos seus ajudantes, ainda que infelizmente sem resultados positivos, na melhor forma de prender o «negro desconhecido». Contudo, nem uma só pessoa da pequena povoação sabia dar uma explicação dos incidentes diários... nem mesmo o chefe da Secção Criminal, o senhor Tarolo, que era conhecido por ser o homem que chegava ao fundo do mistério mais secreto no mais curto espaço de tempo.
E, na verdade, a coisa era simples!
O pequeno fantasma não voltou mais a acordar à meia‑noite. O pobrezinho tinha feito uma confusão tão grande na passagem subterrânea que não conseguia encontrar o caminho para regressar ao poço. Já havia tentado as inúmeras saídas que conduziam ao exterior... na esperança de voltar um belo dia ao castelo...
«Não me importo de estar algum tempo fora e visitar um pouco a cidade», pensava, «mas é pena que, por minha culpa, as pessoas acabem sempre por fugir. Com certeza deve ser porque sou negro, se ainda fosse branco não se assustariam. Mas que se há‑de fazer?»
Às vezes o pequeno fantasma sentia saudades do seu sótão e da sua arca de madeira.
Tinha, por vezes, pensamentos tristes, pois era obrigado a rondar à luz do dia e já não podia voltar a passear à meia‑noite.
«Como tudo era bonito na Pedra do Mocho quando havia Lua‑cheia», pensava e suspirava.
E perguntava a si próprio... pela enésima vez... que demónio acontecera.
No domingo ao meio‑dia o pequeno fantasma encontrou uma nova saída da passagem subterrânea, que, como todas as outras daquele labirinto de galerias, estava fechada com uma grade fortemente presa aos muros de pedra. Mas, a poucos passos desta primeira cancela havia uma segunda, atrás da segunda uma terceira e, por fim, deparou‑se‑lhe uma porta de ferro com fechadura de segurança.
«Para que será tudo isto?», pensou o pequeno fantasma.
Abrir a fechadura de segurança foi uma coisa de nada para o fantasmazinho, uma ninharia. Um movimento do chaveiro e o caminho ficou livre e desimpedido, um caminho que o conduziu, através de uma cave, directamente à Câmara Municipal da pequena cidade de Monte do Mocho.
Domingo, 27 de Julho, grande festival histórico em comemoração do 325 aniversário do cerco de Monte do Mocho pelos suecos. Armas e trajes do tempo, a guerra dos trinta anos. 476 participantes, 28 cavalos, dois canhões. Música a cargo da orquestra municipal. Começa às onze e meia em ponto na Praça do Município. Todos ao festival.
O pequeno fantasma não cabia em si de assombro quando, depois de passar como uma brisa pela escada da cave, se encontrou logo na Câmara Municipal... com os seus corredores e gabinetes, com a sua bonita e antiga escada de pedra e as suas janelas de vidros coloridos que reluziam ao sol do meio‑dia.
Em dias de trabalho reinava sempre grande animação na Câmara Municipal de Monte do Mocho, mas naquele domingo, não se encontrava ninguém ali e o pequeno fantasma pôde bisbilhotar por toda a Câmara sem ser incomodado. Abriu as portas e revistou os quartos e dependências.
Chamou‑lhe a atenção o facto de haver nas paredes de todas as salas o mesmo retrato, grande e de vivas cores: o do general Pedro Portalson, com a mão na cintura, montado no seu cavalo branco e preto e empunhando na mão direita o bastão de comando. O seu manto verde estava enfunado pelo vento e as plumas do chapéu combinavam‑se com a pêra ruiva.
Sob o retrato do general estavam impressas umas grandes letras em maiúsculas, que o fantasmazinho não pôde decifrar. Ele nunca tinha aprendido a ler nem a escrever, nem sequer suspeitava de que o retrato e as letras fizessem parte de um cartaz de propaganda onde se podia ler.
«Que é que se passa com o Portalson para o terem posto em todo o lado?», perguntava a si próprio o pequeno fantasma. «Compreendo que coloquem o seu retrato num sítio ou outro, mas em cada sala, em cada corredor e em cada patamar da escada? Francamente, parece‑me demasiado.»
Na Repartição da Tesouraria Municipal, o pequeno fantasma encontrou em cima de uma mesa do escritório um marcador negro e em poucos instantes descobriu em que poderia utilizá‑lo.
Agarrou no marcador e pintou, no cartaz da Tesouraria Municipal, uma barba negra e comprida na cara do general Portalson. Em seguida deslizou para o compartimento vizinho e entreteve‑se a desenhar, no nariz em forma de pepino do general, uma enorme verruga.
«Isto quebra um pouco a terrível monotonia», pensou, começando a rir.
Veloz e decidido saltou de cartaz em cartaz e, com traços ágeis, enfeitou Portalson: aqui com umas orelhas de burro, ali com um olho tapado, como usavam os piratas... Aquilo tinha muita graça.
Pôs enfeites novos nos cartazes restantes: cornos enormes, olhos saídos, uma armadura de veado, um cachimbo fumegante, cabelo comprido e hirsuto ou cortado à escovinha, um anel pendurado no nariz e outras coisas mais.
Assim, não é de estranhar que, na sua grande azáfama, o pequeno fantasma se esquecesse de vigiar as horas e daí a pouco, quando se encontrava precisamente no gabinete do presidente da Câmara, o relógio da torre deu a uma hora, altura em que tinha de procurar um sítio onde dormir, sem ser incomodado, durante as vinte e três horas seguintes.
«Tenho a certeza de que não consigo chegar à passagem secreta», pensou. «Está muito longe e começo a notar que vou perder a noção do tempo e das coisas...»
Olhando em volta, viu então, num canto da sala, uma velha arca enfeitada com ferragens que, em tempos, havia servido para guardar cartas e facturas, mas que naquela altura estava vazia, servindo apenas para decorar a sala.
«É a minha salvação!», pensou o pequeno fantasma.
Com um último esforço deslizou para dentro da arca. A tampa fechou‑se sobre ele e num instante adormeceu.
Quando, no meio‑dia seguinte, o pequeno fantasma acordou, ouviu o senhor presidente a conversar, irritado, com alguém. Cuidadosamente, levantou a tampa da arca e deitou uma olhadela para ver o que acontecia lá fora.
No gabinete estavam três pessoas: o senhor presidente, sentado à sua secretária, numa cadeira de espaldar forrada de couro vermelho, a fumar um charuto; na sua frente, o chefe da Polícia Municipal, de pé, com o chapéu de serviço debaixo do braço; e o senhor Tarolo, chefe da Secção Criminal, encostado à janela, com os braços cruzados.
Como podia ver‑se, o senhor presidente exteriorizava o seu mau humor.
‑ Digo‑vos pela última vez ‑ gritava batendo com o punho na secretária. ‑ É uma vergonha que todos os cartazes da Câmara tivessem sido pintados de uma forma tão vil. Exijo‑lhes, portanto, que encontrem esse sujeito, e o mais depressa possível! Nós somos os responsáveis pelo exercício da autoridade na nossa cidade e se você, prezado amigo, não o conseguir ‑ ao dizer estas palavras tinha‑se voltado para o chefe da Polícia Municipal ‑ perderá o seu posto.
O chefe da Polícia pôs‑se encarnado como um pimento, mas respondeu:
‑ Não se preocupe, senhor presidente, pela parte da Polícia Municipal far‑se‑á tudo para prender o culpado. Estou convencido de que é apenas uma questão de tempo. Até ao momento temos desvendado toda a espécie de casos... salvo algumas excepções sem importância.
O senhor presidente e o seu charuto deitavam, os dois, fumo.
‑ As suas excepções conheço‑as eu muito bem ‑ gritou. ‑ Quando penso que esse negro desconhecido também anda a fazer das suas pela cidade e que apareceu justamente uma semana antes da festa do tricentésimo vigésimo quinto aniversário! Não compreende o que nos cai em cima, a nós, os de Monte do Mocho? Para que temos, então, Polícia?
O chefe mordeu os lábios. Que podia ele responder ao presidente? Mas, entretanto, já este se voltava para o senhor Tarolo, chefe da Secção Criminal:
‑ E você, querido Tarolo? Não sabe fazer nada melhor do que falar do assunto?
O senhor Tarolo tirou os óculos escuros de tartaruga e limpou as lentes.
‑ Parece‑me que a coisa é muito mais difícil do que todos nós supomos ‑ disse. ‑ Não estranharia nada que o negro desconhecido e essa história ‑ e apontava para os cartazes esborratados e amontoados sobre a secretária do presidente ‑ ... estivessem relacionados.
Desconcertado, o presidente afastou o charuto.
‑ Como lhe ocorreu semelhante ideia?
‑ É difícil de dizer. Foi um pressentimento. O presidente da Câmara coçou detrás da orelha.
‑ E quem é o negro desconhecido? Tem alguma suspeita sobre este ponto?
O senhor Tarolo segurou nos óculos ao alto e examinou‑os a contraluz. Depois, voltou a pô‑los e respondeu, encolhendo os ombros:
‑ Tenho a sensação de que é impossível admitir ou considerar que este incidente se tenha desenrolado em condições normais.
‑ Pois não faltava mais nada! ‑ exclamou, divertido, o presidente. ‑ Agora só faltava dizer‑me que foi tudo maquinado pelo fantasma.
‑ E se dissesse? ‑ perguntou o senhor Tarolo.
Mas o presidente limitou‑se a mover a cabeça e a dizer:
‑ Isto é ridículo, Tarolo, completamente ridículo! Certas histórias pode contá‑las aos meninos pequenos, mas não a mim. Eu não acredito nisso.
Até àquele momento o pequeno fantasma tinha escutado pacientemente a conversa sustentada no gabinete do presidente da Câmara, mas perante aquilo não pôde conter‑se. Então o presidente de Monte do Mocho não acreditava em fantasmas? Bem! Que se preparasse!
‑ Uh... uuuuuuuuh! ‑ gritou o nosso amigo de dentro da arca vazia, que fazia muito eco.
O presidente da Câmara, o chefe da Polícia Municipal e o chefe da Secção Criminal, o senhor Tarolo, estremeceram.
Depois o pequeno fantasma levantou a tampa da arca... e lentamente, muito lentamente, começou a pôr‑se de pé, entre ais e gemidos e fazendo barulho com as chaves.
Além disso, olhava fixamente, com os seus olhos muito brancos, para a cara do presidente da Câmara.
‑ Uh... uuuuuuuh! ‑ gritou uma vez mais, com voz sonora e queixosa. ‑ Uh... uh... uh... uuuuuuuuuuuuuh!
O presidente da Câmara ficou branco como a cal e, arquejante, deixou cair o charuto.
Ao chefe da Polícia Municipal e ao chefe da Secção Criminal, senhor Tarolo, puseram‑se‑lhes os cabelos em pé, enquanto, incapazes de fazerem o menor movimento, viam como o fantasmazinho saía da arca e deixava a sala, ao mesmo tempo que agitava as chaves.
O senhor Tarolo foi o primeiro a recompor‑se e a ordenar as suas ideias. Assim, poucos momentos depois de o pequeno fantasma ter desaparecido do gabinete do presidente da Câmara, abriu bruscamente a porta e precipitou‑se, pelo corredor, atrás dele, e ainda viu a negra figura com o chaveiro, que nesse momento preciso dobrava uma esquina.
‑ Alto! ‑ gritou. ‑ Pare! Está preso.
Contudo, como o pequeno fantasma não tinha a menor vontade de ser preso, seguiu deslizando, enquanto sufocava uma gargalhada. Então o senhor Tarolo começou a gritar, soltando tais berros que se ouviam em todos os corredores:
‑ Cuidado! Tenham todos muito cuidado! O negro desconhecido está na Câmara Municipal. Não podemos deixá‑lo escapar‑se.
Prendam‑no, prendam‑no!
Era a hora da refeição e a maioria dos funcionários tinha ido a casa. Assim, os poucos que haviam permanecido na Câmara saíram a correr das respectivas secções, cada qual com o firme propósito de prender o negro desconhecido.
‑ Ouviu, senhor Moleiro? Nem mesmo na Câmara se está seguro.
‑ Chegue‑me aí as tesouras grandes, Dona Gervásia. Talvez não seja disparate ter uma arma à mão.
‑ Acho que se devia dar parte à Polícia.
‑ É uma boa ideia, senhor Silva. Qual é o número? É o um‑um‑cinco ou o um‑cinco‑um? Está? é da Polícia? Daqui fala o engenheiro Barroso, da Câmara. Façam o favor de vir imediatamente com todo o pessoal disponível. O negro desconhecido, percebe? Sim, apareceu aqui de repente. Venham o mais depressa possível! Não me ouviu? O mais depressa possível!
Sob a direcção do senhor Tarolo, chefe da Secção Criminal, a Câmara de Monte do Mocho foi totalmente revistada. Cada sala, cada armário, cada canto e cada desvão da escada, não escapou sequer o armário dos artigos de limpeza, nem o lavatório, nem a sanita. No entanto, o negro desconhecido não apareceu em parte alguma, na cave, ou no sótão! Nem sequer Ajax, o cão‑polícia, farejou o seu rasto.
‑ Estou perante um enigma ‑ disse o senhor Tarolo. ‑ Em toda a minha carreira, e já lá vão dezanove anos, não me tinha acontecido nada igual!
Mas onde estaria o pequeno fantasma? Não podia ter‑se desfeito em fumo, isso é uma coisa que os fantasmas não conseguem... ainda que possam fazer muitas outras coisas.
De início, o pequeno fantasma quisera voltar à passagem subterrânea, mas os funcionários e empregados assustados pelos gritos do senhor Tarolo, tinham‑lhe cortado o caminho... Assim, primeiro refugiou‑se no sótão, mais tarde na torre e, por último, quando os seus perseguidores se dirigiram para lá (ouvia o trepidar dos seus passos na escada em caracol), escondeu‑se dentro da caixa do relógio da Câmara.
«Aqui ninguém me incomodará», pensou.
Tal como admitia, ninguém foi ali à sua procura, nem mesmo o senhor Tarolo, chefe da Secção Criminal. Na realidade sentia‑se um bocado desconfortável na caixa do relógio, pois os contínuos rangidos e tiquetaques das engrenagens das rodas incomodavam‑no.
‑ Decididamente eu vivia muito melhor como fantasma nocturno ‑ resmungou. ‑ Daria tudo por voltar a sê‑lo...!
Seguidamente o pequeno fantasma tocou numa série de mecanismos, para ver se os parava, pois não tinha a menor ideia da sua relação com o relógio! Como poderia sabê‑lo?
O mocho Uho nunca lhe tinha dito uma palavra sobre o assunto.
«Isto de estar na caixa do relógio é a coisa mais desconfortável que imaginar se pode», pensou o pequeno fantasma.
Tapou os ouvidos com as mãos e, num instante, mergulhou num sono profundo.
Ao meio‑dia, o pequeno fantasma acordou completamente desfeito, porque o relógio da Câmara lhe tinha martirizado os ouvidos durante todo o tempo. Se alguém lhe tivesse dado doze marteladas na cabeça, não se teria sentido pior.
«Rápido! Para a cave!», disse ele para si próprio. «De lá posso sair da Câmara da mesma maneira como entrei.»
No entanto, a coisa não era assim tão fácil como ele imaginava!
Primeiro, tinha de encontrar a escada por onde escapulir‑se, sem ser visto, até à cave, procurando não tropeçar em ninguém pelo caminho, e precisamente a mulher da limpeza varria a escada e polia o corrimão durante a hora do almoço.
«Estou a ver que tenho de estabelecer a confusão para poder chegar lá a baixo», pensou o pequeno fantasma, «e confesso que já me cansa fazer isso. O melhor será esperar aqui em cima tranquilamente até domingo, quando tudo estiver calmo. Então nem presidente da Câmara, nem mulher da limpeza, nem ordenança, nem polícia, ninguém me incomodará. No domingo, ao meio‑dia estarão todos nas suas casinhas, a comer o almoço dos dias festivos, e eu terei todo o edifício da Câmara só para mim. Sim senhor, isto é o mais sensato que tenho a fazer, embora desta vez não pense meter‑me na caixa do relógio... maldito sino... Vou mas é procurar um esconderijo no sótão.»
O pequeno fantasma passou assim os dias e as noites seguintes no sótão da Câmara Municipal de Monte do Mocho. Não era desagradável de todo, pois também ali havia pó e teias de aranha. Na verdade, não eram tão espessas nem pendiam do tecto da mesma forma que na Pedra do Mocho, mas, apesar de tudo, o pequeno fantasma sentia‑se quase como em casa.
Antes de tudo, que bem lhe fez aquela tranquilidade! Depois do cansaço dos últimos tempos, agradecia muito não ser incomodado. Ali não assustava ninguém, ninguém o perseguia, ninguém o queria prender.
Por outro lado, o pequeno fantasma não podia queixar‑se de que não tinha com que se entreter.
Mal acordava, assomava a uma das janelas e bisbilhotava o que acontecia lá fora. Observava o Mercado Verde, onde as vendedeiras de hortaliça colocavam os seus cestos cheios de couves, nabos, cebolas, rábanos, aipos, alhos e alfaces, ou vagueava o olhar por outro lado, pela Praça do Município, onde a fonte jorrava e um polícia de boné branco movia incessantemente os braços em todas as direcções. Então os veículos seguiam pela praça nos dois sentidos: camiões, camionetas, automóveis, às vezes um autocarro, alguns ciclistas, rapazes de moto, em certa ocasião os bombeiros e, três ou quatro vezes, o carro dos correios.
«Mas que divertido tudo o que acontece lá em baixo!», pensava o pequeno fantasma. «Será que o homem do boné branco é um feiticeiro? Levanta os braços e os carros, esses veículos estranhos de alumínio e vidro, sem cavalos, movem‑se. Como é possível um veículo deslocar‑se sem cavalos? O mocho Uho irá julgar que é mentira, quando lho contar...»
O mocho Uho!
Fazia já tanto tempo que o fantasmazinho não se lembrava dele! E agora, de repente, recordara‑se.
«Voltarei a vê‑lo algum dia? Quando penso naqueles tempos, quando o senhor Uho e eu, sentados nos ramos da velha árvore, contávamos histórias e anedotas à luz da Lua, confrange‑se‑me o coração. Creio que tenho novamente saudades do castelo, tenho saudades do passado, daqueles meus tempos de fantasma nocturno...»
No domingo seguinte, havia grande azáfama em Monte do Mocho. As casas estavam todas decoradas com grinaldas de ramagens e com bandeiras e, por cima da porta da Câmara Municipal, o jardineiro‑mor tinha pendurado uma enorme coroa de pinheiro que circundava um rótulo vermelho com números dourados: trezentos e vinte e cinco. Por todo o lado se viam pendurados rótulos parecidos, mais pequenos, dourados sobre fundo vermelho: na maioria das portas de entrada das casas particulares e nas montras das lojas.
Desta forma qualquer um podia ver que Monte do Mocho celebrava a festa do seu tricentésimo vigésimo quinto aniversário.
Às primeiras horas da manhã começaram a chegar os forasteiros, e com o decorrer das horas vieram mais.
Afluíam em alegres grupos, uns de carro, outros de comboio ou camioneta, e a Associação de Grupos Rurais Juvenis chegou num reboque decorado com flores e fitas de várias cores, puxado por um tractor. Todos desejavam estar presentes nos grandes festejos históricos, e para isso acudiam à Praça do Município.
As comemorações começaram com a entrada do exército no Mercado Verde. Abriam o desfile três soldados com enormes bandeiras tremulantes e, atrás deles, ao jeito de infantes, com lanças e armas de fogo antiquíssimas, a Associação de Cantores Harmonia 1890. Os históricos cavaleiros estavam representados pelos membros do Clube de Ginetes e Condutores e a indispensável fanfarra era constituída pela Banda Municipal, com os seus homens vestidos com calças largas e gibões coloridos, além de usarem barbas postiças e chapéus de plumas ondulantes. Tocavam alternadamente a Marcha da Cavalaria e outra composição escrita especialmente para a ocasião, Fanfarra do Jubileu do General Pedro Portalson.
Actuavam como tropa regular, a Associação de Ginástica, a União de Magarefes, a Associação de Empregados, a dos Jardineiros e a dos Bombeiros Voluntários, o Clube de Fumadores e o dos jogadores de cartas "Os Nove", e a associação dos antigos combatentes "Os Leais".
O general contava inclusivamente com dois canhões, aos quais se haviam engatado quatro cavalos pesadotes, normalmente utilizados para carregar barris, conduzidos pelos seus cocheiros, e ajudantes mas, como é natural, estes não iam vestidos com as suas blusas de algodão azul, antes envergavam dólmanes cor de tabaco, apresentando tal aspecto que, à primeira vista, qualquer um julgaria que eram verdadeiros artilheiros.
Passaram uns bons vinte minutos até o "exército" acabar de desfilar em frente à Câmara.
Então apareceu... o famoso general‑chefe, o temido Pedro Portalson, e as pessoas esticaram o pescoço, pondo‑se em bicos de pés.
Finalmente... chegava!
Cavalgava de forma majestosa, com a mão esquerda apoiada na anca e o bastão de comando na direita, ao mesmo tempo que saudava.
Não tinha um ar imponente, com a sua capa verde, a pêra ruiva, os galões dourados e as plumas no chapéu?
‑ Fabuloso! Simplesmente fabuloso! ‑ gritavam as pessoas, aplaudindo.
Quando o repórter de um jornal estrangeiro quis saber quem era a fabulosa personagem, todos lhe diziam:
‑ Não o conhece? É o director da fábrica de cerveja, o senhor Moleiro.
‑ Admira‑se? É um verdadeiro general! Repare no seu porte!
Move‑se com muito mais naturalidade do que o próprio Portalson.
Então soou um toque de trombeta e Portalson dirigiu o seu cavalo branco e preto para o centro da praça. Olhou para o céu e os espectadores emudeceram. Em seguida, o general aclarou a garganta, começou a falar e a sua voz ecoou forte e solene por toda a Praça do Município:
‑ Venho, em nome do meu rei, tomar a cidade e a fortaleza. Esmagaremos os que nos resistam.
Após estas palavras grandiloquentes, dignas de um glorioso general‑chefe, continuou a falar durante mais algum tempo, até que chegou precipitadamente um jovem oficial (era, na realidade, o Octávio, o empregado da farmácia) que recebera ordens do general para conseguir a rendição do castelo e da pequena cidade, bem como a entrega das armas. Contudo, o comandante tinha‑o despachado com uma gargalhada, respondendo‑lhe que se Portalson queria entrar na cidade, tentasse a sua sorte.
O general ficou furioso ao ouvir estas notícias, e afirmou que agora mais do que nunca estava decidido a fazer fogo contra o castelo e a cidade. Com o bastão de comando fez um sinal aos homens dos dois canhões, proferindo estas horríveis palavras:
‑ A minha decisão é irrevogável, por isso, que falem os canhões. Artilharia, disparar!
Os soldados carregaram os canhões e fizeram disparos sobre disparos, embora estes fossem apenas barulho, enquanto os espectadores gritavam entusiasmados, ninguém se apercebendo de que precisamente naquele momento os sinos do relógio da Câmara iam dar as doze badaladas do meio‑dia.
O fantasmazinho, pontual como sempre, acordou à décima segunda badalada. Nada sabia dos festejos históricos que se celebravam em frente da Câmara, mas ouviu a artilharia de Portalson e, quando olhou assustado pela janela do sótão, viu a Praça do Município cheia de tropa.
‑ Que se passa? Mas... que se passa? ‑ gritou, admirado. ‑ Os soldados estão cá outra vez? Que demónio querem?
O pequeno fantasma estava aborrecidíssimo, a sua vontade era mandar para bem longe as tropas e os seus canhões. Rapidamente descobriu, no meio da nuvem de explosões de pólvora, um cavalo preto e branco com um cavaleiro coberto por uma capa verde.
Com todos os demónios...! Aquele não era o Portalson?
Chapéu de general, gola de renda, rosto fino com pêra ruiva... não havia dúvida, era ele!
‑ Isto está lindo! ‑ indignou‑se o fantasmazinho. ‑ Ou seja: voltou! E ousa mostrar‑se aqui! Mas que pensa ele? Que lá por ser general lhe vou tolerar isto? Pois engana‑se redondamente... esse dispara‑canhões.
Foi tudo muito rápido.
O fantasmazinho precipitou‑se pela janela do sótão, que dava directamente para a Praça do Município, e aterrou, com grande precisão onde queria: a três passos do cavalo de Portalson.
‑ Eh, Portalson! ‑ gritou. ‑ Enlouqueceste? Esqueceste a tua promessa... naquela noite, quando, de mãos postas e de joelhos, me pediste clemência? Pois bem, desaparece!
Portalson (ou melhor, o director da sociedade cervejeira, senhor Moleiro) apanhou um susto de morrer. Desconcertado, olhava para a negra figura de olhos brancos, sem compreender donde havia saído e o que desejava dele.
‑ Bom, desapareces às boas ou tenho de te dar uma ajuda?
Antes que o senhor Moleiro pudesse responder, o fantasmazinho lançou um uivo horripilante.
‑ Uh... uuuuuuuuuuh! ‑ gritou num tom agudo e forte. ‑ Uh... uuuuuuuuh!
Então, o cavalo branco e preto do senhor director assustou‑se, empinou‑se sobre as patas traseiras e deu vários coices.
O senhor Moleiro deixou cair o bastão de comando, largou as rédeas e pouco faltou para o cavalo o atirar ao chão. Agarrou‑se com força à crina do animal, mas só com a ajuda dos outros lhe foi possível continuar sentado na sela.
‑ Uh... uuuuuuuuh ‑ gritou de novo o fantasmazinho. ‑ Uh... uuuuuuuuuuuh!
Não é de estranhar que os restantes animais também se assustassem. Os cavalos dos soldados tomaram o freio nos dentes e aos que puxavam os canhões aconteceu‑lhes o mesmo. Numa fuga desenfreada, seguiram o cavalo do general, cruzando a Praça do Município até ao Mercado Verde, para logo depois, desordenadamente, se dirigirem para a saída da povoação.
Também entre as gentes a pé do exército a debandada foi geral. Os soldados e os oficiais deixaram cair as armas e retrocederam horrorizados perante a figura negra de olhos brancos.
E até os próprios espectadores: as mulheres começaram a gritar, as crianças a chorar, um inferno!
‑ Fora! Fora daqui!
Os atropelos foram horríveis, as pessoas meteram‑se nas casas e por ruas secundárias, tudo sem rei nem roque.
O pequeno fantasma não pensou, nem por um momento, em tocar num cabelo sequer dos espectadores, estava apenas contra os pretensos invasores.
‑ Uh... uuuuuuh! Vocês, demónios acabados! Ide para o Inferno na companhia das vossas espadas e armas de fogo! Uh... uuuuuuuuuh!
O pequeno fantasma teve muito trabalho: uivando e soprando de uma esquina para a outra da Praça do Município, dispersou‑os, e ai do pobre soldado que não mexesse os pés com a rapidez suficiente! Ter‑lhe‑ia agarrado pela gola do fato, e dado voltas até lhe estalarem os ossos. O fantasmazinho não teve descanso enquanto o exército em peso não se encontrou nos montes, porta‑estandartes e músicos incluídos.
‑ Vitória! ‑ exclamou então. ‑ Vitória! Portalson recebeu uma valente lição. Os invasores sofreram uma derrota e pêras! Monte do Mocho está salva! Vitória!
Ainda lhe restava um pouco da sua hora do meio‑dia, mas, devido ao esforço que fizera, estava morto de cansaço. Não era nada fácil, sozinho, pôr em franca debandada um general tão famoso mais o seu exército!
«Devo confessar que, por hoje, já trabalhei bastante», pensou o fantasmazinho, decidindo de imediato procurar um sítio onde dormir, apesar de ainda não ser uma hora da tarde.
Casualmente, encontrava‑se então perto da farmácia, e precisamente uma das janelas da cave estava aberta. Sem mais nem ontem, deslizou por ela, escondeu‑se no último gavetão duma cómoda velha e reviu com orgulho o seu triunfo, murmurando meio adormecido:
‑ Vitória!
E adormeceu.
Segunda‑feira, ao meio‑dia, o fantasmazinho acordou com dor de cabeça. Sentia‑se cansado, feito num farrapo.
«O esforço de ontem foi demasiado para mim» pensou, «mas talvez a única coisa que me faça falta seja respirar um pouco de ar puro. Aqui estou bastante encolhido...»
Abandonou a cómoda e, deitando uma olhadela à cave da farmácia, examinou a despensa, a seguir a carvoaria e a casa da lenha e, por último, encaminhou os seus passos para a adega.
‑ Ena, pá! Tantas garrafas! ‑ exclamou, surpreendido. ‑ Parece que nesta casa vive gente com muita sede.
A adega tinha uma janelita com grade que dava para o jardim, a qual estava aberta, e assim que o fantasmazinho meteu a cabeça por entre as grades, para poder olhar para fora, ouviu uns meninos a falar ao pé da janela, o que o fez retirar rapidamente a cabeça.
Os três filhos do farmacêutico estavam deitados sobre uma manta, à sombra da casa, conversando e, o fantasmazinho podia ouvir tudo o que eles diziam. Assim, dado que não tinha nada melhor para fazer, pôs‑se a escutá‑los.
Um dos rapazes, de onze anos, chamava‑se Alberto e os irmãos, Guilherme e Joaninha, eram gémeos e tinham quase nove.
Como sempre, Alberto, o mais velho, falava em tom alegre:
‑ Vocês têm de confessar que a cena foi muito divertida! O negro desconhecido é uma maravilha! Corriam à frente dele como coelhos! Foi de morrer a rir.
A Joaninha era de outra opinião.
‑ Achas assim tão divertido? Não te fez pena ver como acabou a festa?
‑ Tens razão ‑ disse o Guilherme. ‑ Teria sido muito melhor se esse tipo não se tivesse metido pelo meio... Ao princípio, pelo menos, ia tudo bem.
‑ Sabes do que gostei mais? ‑ perguntou a Joaninha. ‑ Foi de tudo parecer verdade. Portalson, por exemplo, não acham que era igualzinho ao retrato do museu do castelo? Até mesmo o empregado da nossa farmácia, o Octávio, passava por um autêntico oficial... se não soubéssemos que era, na realidade, um empregado disfarçado.
‑ Imaginem só ‑ observou o Guilherme, pensativo ‑ a quantidade de trabalho e dinheiro que terão custado quatrocentos e setenta e seis uniformes! E onde terão ido buscar os chapéus de plumas e o armamento? Não deve ter sido fácil para o organizador dos festejos preocupar‑se com todos os que tomavam parte nas comemorações.
O fantasmazinho estava agarrado à grade da janela da cave com ambas as mãos, sem perder pitada. Se bem compreendia os meninos do jardim (e sobre isso não havia a mais pequena dúvida), os soldados que tinha perseguido no dia anterior não eram autênticos... e de modo algum se tratava de Portalson.
Claro que não! Caramba! Era completamente impossível que fosse o próprio Portalson. Desde que ele cercara o castelo e a pequena cidade haviam passado uns bons trezentos e vinte e cinco anos e nenhum homem chega a essa idade, nem mesmo um general!
«As parvoíces que eu fiz», pensou horrorizado o fantasmazinho. «Que espanto! Como pude ser tão parvo? E eu que me considerava um herói... E que herói! Um dos maiores que se pode imaginar!»
O fantasmazinho só tinha vontade de se esbofetear, tal era a sua raiva, e quanto mais pensava no assunto, maior era a sua indignação.
«Parece‑me que já vai sendo tempo de regressar à minha casa na Pedra do Mocho», disse para si próprio. «Aqui em baixo só sofro desgostos e emoções desagradáveis e já tenho que me chegue para o resto dos meus dias...! Contudo, antes de deixar a cidade, vou contar o que se passou aos três meninos do jardim, principalmente o que aconteceu ontem com os soldados.
Já que sou o culpado por os festejos terem tido semelhante fim, todos os habitantes de Monte do Mocho devem saber o porquê dos erros que cometi! O meu bom nome está em jogo!»
O fantasmazinho passou para o jardim com grande destreza e, sem ruído, escondeu‑se detrás do arbusto mais próximo. Dali, muito suavemente, chamou os filhos do farmacêutico:
‑ Pssst... meninos! Não se assustem. Tenho uma coisa para vos dizer, uma coisa muito importante, mas não fujam a correr nem a gritar. Não vos faço mal.
Alberto, Guilherme e Joaninha olharam em volta com assombro, não conseguindo ver quem os chamava, mas de súbito esta última deu um gritinho quando descobriu a figura negra de olhos brancos que saía lentamente, fazendo‑lhes sinais, detrás de uma sebe.
‑ Ai! Olhem... o negro desconhecido.
‑ Infelizmente é assim que me chamam em Monte do Mocho ‑ observou o pequeno fantasma ‑, e também sei que infelizmente as gentes desta pequena cidade me temem. Por esta razão sinto‑me triste e lamento muitíssimo ter‑me imiscuído ontem na celebração dos festejos, mas não o fiz por maldade, apenas porque julguei que Portalson e os soldados eram de verdade, eram autênticos...
Os filhos do farmacêutico não sabiam o que fazer: gritarem e saírem correndo... ou ficarem quietos a escutar.
‑ Então... você é um fantasma? ‑ perguntou, receoso, o Alberto.
‑ Sim, se não vês inconveniente nisso.
‑ E porque é negro? ‑ objectou o Guilherme. ‑ Sempre pensei que os fantasmas fossem brancos...
‑ Apenas os fantasmas nocturnos.
‑ E você? ‑ perguntou a Joaninha. ‑ A que espécie pertence?
‑ Infelizmente, de há quinze dias para cá sou um fantasma diurno, e a luz do Sol pôs‑me preto, mas, antes, quando era nocturno, era branco, mais branco que uma nuvem de poeira de neve... Vivia então, lá em cima, no castelo.
‑ Mas há já algum tempo ‑ comentou o Alberto ‑ que se encontra aqui em baixo e não se pode estar seguro na cidade.
‑ Isto passou‑se por mero acaso ‑ disse o fantasmazinho.
Timidamente, contemplou os filhos do farmacêutico e então contou a sua história explicando pormenorizadamente o mal‑entendido do dia anterior, pelo que se mostrava penalizado e pedia perdão.
‑ Vocês não conseguem imaginar ‑ assegurou ‑ quanto o sinto... e como é importante para mim que os habitantes de Monte do Mocho se convençam de que eu não desejava fazer nada de mal. Mas como agir?
‑ Escreva uma carta ao presidente da Câmara ‑ propôs o Guilherme.
‑ Uma carta? É completamente impossível! ‑ replicou o pequeno fantasma, confessando‑lhes abertamente que nunca tinha aprendido a ler nem a escrever.
‑ Não tem importância! ‑ contrariou a Joaninha. ‑ Isso podemos fazer nós.
Entrou rapidamente em casa e trouxe do seu quarto uma esferográfica e um bloco de papel de carta, enquanto o banco do jardim servia de carteira.
‑ Bom! Podemos começar ‑ disse ela. Então o fantasmazinho começou a ditar, e a Joaninha a escrever, o seguinte:
Meu Senhor Presidente da Câmara Municipal de Monte do Mocho.
Sinto muito o que aconteceu ontem durante os seus grandiosos festejos históricos. Rogo-lhe que me permita explicar-lhe o ocorrido.
Era uma carta bastante grande, e quando a Joaninha a terminou o fantasmazinho pediu que a lessem em voz alta. Depois, a rapariguinha teve de deitar‑lhe umas gotas de tinta no polegar direito e, com a impressão digital ele assinou solenemente, tal como podem comprovar.
Contudo, o fantasmazinho observou que se tinha esquecido duma coisa.
‑ Podia fazer‑me o favor de acrescentar uma coisinha mais? ‑ perguntou à Joaninha. ‑ Duas frases apenas...
‑ Pois não! ‑ respondeu esta.
Por baixo da "assinatura" deixou um espaço em branco, tal como deve ser, e acrescentou o que o pequeno fantasma lhe ditava:
Agradecia que fizesse publicar esta carta no Diário de Monte do Mocho, no que me diz respeito dou-lhe a minha palavra de que amanhã ao meio-dia abandonarei esta cidade para nunca mais voltar.
A Joaninha meteu a carta no sobrescrito e escreveu a direcção:
‑ Você vai voltar para o Castelo da Pedra do Mocho amanhã, quando deixar a cidade? ‑ perguntou.
‑ Naturalmente!
‑ E então... ‑ indagou o Guilherme ‑, converter‑se‑á, como é natural, num fantasma nocturno...? Ou...?
O fantasmazinho lançou‑lhe um olhar triste.
‑ Gostaria que isso fosse certo... mas infelizmente já não tenho a menor esperança de poder ser novamente um fantasma nocturno. Receio que tal situação se tenha acabado para mim.
O fantasmazinho começou a chorar, dos seus olhos brotavam grandes lágrimas brancas, que batiam no chão como se fossem de granizo: tique, tique, tique.
Os meninos contemplavam‑no surpreendi díssimos.
‑ Mas, mas ‑ exclamou o Alberto ‑, que lhe aconteceu?
O Guilherme coçou atrás da orelha e não pronunciou uma única palavra, apenas a Joaninha compreendeu o que se passava e procurou consolar o pequeno fantasma.
‑ Não desespere! ‑ disse‑lhe. ‑ Não seria melhor pensarmos se alguém o pode ajudar?
O fantasmazinho moveu negativamente a cabeça.
‑ Não há ninguém ‑ soluçou. ‑ Se tivesse feito caso do mocho Uho...
De repente, ocorreu‑lhe uma ideia, uma boa ideia. Sim, tinha razão... o mocho Uho. Como não havia pensado nisso antes?
‑ Se pudesse perguntar ao mocho Uho... Se alguém pode dar um bom conselho para resolver o meu caso, esse alguém é ele... É certo que não sabe tudo, mas conhece uma série de coisas que muitos ignoram... Meninos, se vocês querem realmente ajudar‑me... então vão perguntar ao mocho Uho.
‑ E porque não lhe pergunta você mesmo? ‑ inquiriu o Guilherme.
‑ Impossível! Agora sou um fantasma de dia, ou seja, diurno, e ele é uma ave nocturna. Mas é meu amigo. Vive numa árvore enorme por detrás do castelo.
Os meninos já tinham ido algumas vezes com os pais até ao Castelo da Pedra do Mocho, por isso não foi difícil ao fantasmazinho explicar‑lhes o caminho. Além do mais, os meninos pensavam que era fácil escapulirem‑se de casa durante a noite, e dispuseram‑se a fazer aquela excursão.
‑ Mas como atravessaremos o castelo? ‑ perguntou o Alberto. ‑ Não há outro caminho que vá dar à árvore, e toda a gente sabe que o portão de entrada do castelo é fechado ao anoitecer.
O Guilherme e a Joaninha tinham um ar desanimado, mas o fantasmazinho teve outra ideia.
‑ É muito fácil: empresto‑vos o meu chaveiro com as treze chaves! ‑ exclamou, e explicou aos meninos o que haviam de fazer. ‑ Assim poderão entrar e voltar a sair do castelo com toda a facilidade.
Então os filhos do farmacêutico prometeram que na noite seguinte iriam à árvore e pediriam conselho ao mocho Uho.
O fantasmazinho ficou muito contente e agradeceu‑lhes, entregando depois ao Alberto o chaveiro das treze chaves.
‑ Cumpram bem a vossa promessa... e não se esqueçam de que o mocho Uho gosta que as
pessoas sejam atenciosas com ele e que não o tratem por tu, que digam sempre "senhor Uho". Outra coisa! Poderiam fazer‑me o favor de não deitarem ainda a carta para o presidente da Câmara?
‑ Como queira ‑ assegurou o Alberto. ‑ Mas porque não?
‑ Porque lhe prometi que amanhã abandonaria Monte do Mocho ‑ disse o fantasmazinho ‑ e pode acontecer que, com tudo o que acabámos de falar, ainda não me seja possível partir.
Entre as onze e as doze da noite os filhos do farmacêutico saíram de casa em bicos de pés. Tudo se passou sem incidentes, e nem os pais, nem Octávio, o empregado da farmácia, que estava de serviço naquela noite, deram por coisa alguma.
Àquela hora a pequena cidade de Monte do Mocho estava no melhor dos seus sonhos. Escolhendo as ruelas mais estreitas, para não serem vistos, os três irmãos apressaram‑se a chegar às portas da cidade, e ali seguiram por um atalho que conduzia ao castelo. Era pedregoso e íngreme, e, com aquela escuridão, tropeçavam a todo o momento nas raízes das árvores, nos pedregulhos e nos próprios pés.
‑ Para que trouxeram a lanterna? ‑ perguntou o Guilherme.
Quis acendê‑la, mas o Alberto proibiu‑o.
‑ Está quieto. Não nos devemos expor.
‑ Ah, bom! ‑ respondeu o Guilherme. ‑ Eu pensava...
Tomaram fôlego no largo fronteiro à porta exterior do castelo, enquanto a Joaninha tirava uma bolsinha com rebuçados do bolso da saia.
‑ Querem um para animar?
Não só ela, mas também os irmãos sentiam as batidas fortes dos respectivos corações. Guilherme tinha afirmado que aquilo era, com certeza, devido ao caminho ser tão íngreme.
‑ Seguimos? ‑ perguntou, dali a pouco, o Alberto.
‑ Sim ‑ responderam, decididos, o Guilherme e a Joaninha.
Havia chegado o grande momento. O Alberto agitou o chaveiro com as treze chaves e o sortilégio da abertura do portão do castelo realizou‑se com facilidade e sem ruído.
‑ Rápido! Vamos! ‑ incitou o Alberto. Ao chegarem ao pátio do castelo, o portão
fechou‑se detrás deles.
‑ Estupendo! ‑ exclamou o Guilherme. ‑ Agora nada nos pode fazer fracassar.
O segundo portão e o do interior do castelo também obedeceram ao movimento do molho de chaves. Primeiro, com timidez, depois, mais seguros de si, mas sempre com valentia, foram passando pelas portas. Duma vez, um morcego voou por cima das suas cabeças, doutra, assustaram, ao passar, algumas ratazanas. Eles também se assustaram, mas não se detiveram.
Cerca da meia‑noite chegavam em frente da grande árvore.
Por sorte, o mocho Uho estava em casa. O Guilherme acendeu a lanterna e iluminou os ramos da árvore. Do alto da copa fez‑se ouvir uma voz rouca, que lhes gritava qualquer coisa na linguagem dos mochos. O Guilherme e a Joaninha não perceberam nada, só o Alberto o entendeu.
‑ Está a dizer‑te que apagues a lanterna. A luz encandeia‑o.
O Guilherme e a Joaninha estavam admiradíssimos e perguntaram‑lhe:
‑ Tu entende‑lo?
‑ Vocês não? ‑ inquiriu o Alberto. ‑ Então deve ser obra das chaves...
O Guilherme e a Joaninha agarraram também nochaveiro e a partir daquele momento passaram a compreender a linguagem dos mochos.
‑ Quem são vocês? ‑ perguntou o mocho Uho. ‑ Donde vêm?
‑ Somos os três filhos do farmacêutico de Monte do Mocho ‑ respondeu o Alberto. ‑ Fomos enviados por um velho conhecido seu, que simultaneamente lhe manda muitos cumprimentos.
‑ Um velho conhecido meu? ‑ soprou o mocho Uho. ‑ Não sabia que tinha amigos na cidade.
‑ Trata‑se do fantasmazinho ‑ disse o Guilherme, timidamente.
E a Joaninha acrescentou:
‑ Ele está muito, muito infeliz, sabe?... E deseja que o senhor o aconselhe.
Foi então que o mocho aguçou o ouvido.
‑ Porque não disseram logo? Aguardem um momento. Desço imediatamente e então poderemos falar com tranquilidade...
Planou do sítio onde estava e pousou sobre o ramo mais baixo da árvore.
‑ Contem, contem, por favor!
O Alberto, o Guilherme e a Joaninha explicaram‑lhe o que se tinha passado. Ele escutou‑os em silêncio e depois sacudiu as penas.
‑ Tudo isso é muito triste, extraordinariamente triste ‑ observou. ‑ Agora compreendo por que razão o fantasmazinho não me tem visitado ultimamente... Mas se me perguntam a causa de ele se haver convertido rapidamente de fantasma nocturno em diurno, só posso dizer‑lhes: está relacionado com o relógio.
‑ Com que relógio? ‑ perguntaram o Guilherme e a Joaninha ao mesmo tempo.
‑ O da Câmara, naturalmente.
Em poucas palavras, o mocho Uho explicou‑lhes o que se devia ter passado com o relógio da Câmara.
‑ No caso de ser isso, façam então o favor de procurarem remediar o mal, é só o que lhes posso dizer. Que tudo vos corra bem, meus amigos, e dêem cumprimentos da minha parte ao fantasmazinho, a quem desejo toda a sorte do mundo!
Dito isto, abriu as asas, saudou com a cabeça os três filhos do farmacêutico e desapareceu na escuridão.
No dia seguinte, mal tinha soado a décima segunda badalada no relógio da Câmara, o fantasmazinho saiu como um sopro de ar pela janela da cave para o jardim do farmacêutico. O Alberto e os irmãos já ali estavam à espera dele.
‑ Bom, e então? Conseguiram alguma coisa? Sim ou não?
‑ Tenha calma! Correu tudo bem ‑ disse o Alberto.
E a Joaninha concluiu com ar radiante:
‑ Espero que fique satisfeito! Tudo parece indicar que vamos poder ajudá‑lo.
‑ De verdade?
O fantasmazinho ficou tão contente com as boas notícias que começou a dar saltos de alegria.
‑ Continuem! Contem! ‑ pediu ele muito excitado. ‑ Façam o favor de prosseguir.
Mas o Alberto propôs:
‑ Será melhor irmos para a casa dos brinquedos, onde ninguém nos incomodará, mas antes de tudo quero devolver‑lhe o chaveiro com as treze chaves! Obrigado!
‑ De nada, de nada! Se serviram para alguma coisa...
Na casa dos brinquedos, que era muito confortável, juntaram‑se, como se fossem conspiradores, à volta da mesa redonda.
‑ Bom, vamos a isto! Quero saber, finalmente, com o que posso contar.
O Alberto e os irmãos contaram‑lhe a conversa com o mocho Uho e as suspeitas deste acerca da relação secreta entre o que tinha acontecido ao fantasmazinho e o relógio da Câmara Municipal.
‑ De início não sabíamos por onde começar ‑ admitiu o Guilherme ‑, mas depois dissemos: tratando‑se do relógio da Câmara, o melhor é consultar o Esferinha, o mestre relojoeiro. Fomos ter com ele... e sabe o que tinha acontecido?
‑ O quê? ‑ perguntou o pequeno fantasma.
‑ O senhor Esferinha contou‑nos ‑ prosseguiu a Joaninha ‑ que há dezasseis dias atrás, por ordem do presidente, foi arranjar o relógio, que havia parado às sete da manhã, e que não trabalhou durante doze horas, até às sete da tarde.
‑ Doze horas depois ‑ continuou o Alberto, com um ar muito sério ‑, o senhor Esferinha voltou a pôr o relógio da Câmara a funcionar, ou seja, este recomeçou a trabalhar à mesma hora a que havia parado nessa manhã. No mostrador ler‑se‑ia precisamente o mesmo, tanto fazia serem sete da manhã como sete da tarde.
‑ Isto é, no que se refere à leitura da hora ‑ interrompeu o Guilherme ‑, mas na realidade, o relógio tem um atraso de doze horas: quando é meia‑noite dão as doze do meio‑dia, e quando é meio‑dia dão as doze da meia‑noite.
Ninguém havia dado por isso, porque ninguém se sentia prejudicado... com uma excepção.
‑ A excepção sou eu! ‑ exclamou o pequeno fantasma, que a pouco e pouco ia compreendendo a relação que tinha com o caso. ‑ E por causa de o relógio da Câmara andar atrasado, eu desperto ao meio‑dia em vez de acordar à meia‑noite.
Os irmãos confirmaram acenando com a cabeça. Não tinham qualquer dúvida sobre este pormenor.
‑ Então acham que podem mesmo ajudar‑me?
‑ Claro que sim ‑ respondeu, muito convencido, o Alberto.
‑ Para isso ‑ esclareceu o Guilherme ‑, esta tarde, às sete horas, subiremos com o senhor Esferinha até à torre da Câmara...
‑ E então ‑ prosseguiu a Joaninha ‑ será fácil adiantar o relógio doze horas, até que fique como deve ser.
‑ Só isso? ‑ perguntou, surpreendido, o fantasmazinho.
‑ Sim, só isso ‑ responderam em coro os filhos do farmacêutico. ‑ Mas no caso de fracassarmos, não sabemos então como poderemos ajudá‑lo.
‑ Mas tudo correrá bem! ‑ acrescentou a Joaninha, confiante.
E o Guilherme assegurou:
‑ Naturalmente que vai tudo correr às mil maravilhas!
‑ Ai, meninos! ‑ suspirou o pequeno fantasma, rodando os seus olhos brancos. ‑ Se fosse certo... nem conseguem imaginar o que significaria para mim!
Pôs‑se a fazer piruetas diante dos três irmãos como se se alegrasse muito por poder voltar a ser fantasma nocturno no castelo e pensasse que nada havia de melhor, e assim esteve aos saltos até ser quase uma hora. Depois, de repente, lembrou‑se da carta para o presidente da Câmara.
‑ Podem deitar a carta no correio esta tarde ‑ disse. ‑ Aconteça o que acontecer, de certeza que amanhã por esta hora não me encontrarei na pequena cidade de Monte do Mocho.
Em seguida, quis ir‑se embora e deslizar para a cave, mas a Joaninha não o deixou. Teimou que desta vez o fantasmazinho não devia dormir na cave, mas sim na casa dos brinquedos, onde ela lhe prepararia um lugar confortável, num armário que lá havia, com as almofadas e almofadões das bonecas.
‑ Descanse... e que tenha muita sorte quando acordar! ‑ desejaram‑lhe eles antes de fecharem a tampa, e antes do relógio dar a uma hora.
Às sete da tarde, depois de terem deitado a carta no correio, os filhos do farmacêutico e o senhor Esferinha subiram à torre da Câmara, e o relojoeiro, com uma chave inglesa enorme adiantou o ponteiro doze horas, até que a hora indicada pelo relógio e a hora de verdade voltaram a coincidir.
‑ Bom, está pronto! ‑ comentou, depois de acabada a sua tarefa. ‑ Esperemos que sirva de alguma coisa.
A mulher do farmacêutico não conseguia compreender por que razão os filhos haviam ido tão cedo para a cama naquela noite, nem tinham acabado de jantar! A explicação é que a noite anterior fora um pouco curta para o Alberto e os irmãos, de modo que puseram o despertador para as doze menos dez e os olhos fecharam‑se‑lhes imediatamente devido ao cansaço.
‑ Gostava de saber o que se passa com os meninos ‑ disse, cheia de preocupação, a mulher do farmacêutico ao marido.
‑ Irão adoecer? Só me lembro, até agora, de terem ido duas vezes de livre vontade para a cama. Da primeira, passados poucos dias, apareceram com papeira; da segunda, com escarlatina. Espero que agora não seja sarampo ou varicela. O Alberto e o Guilherme dormiam tão profundamente que não deram sequer pelo toque do despertador. Por sorte, a Joaninha ouviu‑o e, com grande trabalho, conseguiu acordar os irmãos.
‑ Depressa, Guilherme, Alberto, levantem‑se! Já é muito tarde! Dentro em pouco dá a meia‑noite.
Da janela do quarto, os três irmãos podiam vislumbrar a casa dos brinquedos, mas isso acontecia graças à luz de um candeeiro da rua, pois, como a Lua se escondera detrás de três nuvenzonas muito espessas, a noite estava muito escura.
‑ Espero que não aguardemos em vão ‑ comentou o Guilherme, duvidoso.
‑ Oxalá que não ‑ reforçou o Alberto, tão pouco seguro como ele.
Apenas a Joaninha estava completamente convencida de que a história teria um final feliz. Permaneceu tranquila e cheia de confiança... até ao momento em que o relógio da Câmara começou a dar horas. Então, também o coração começou a bater‑lhe com mais força e, contendo a respiração, foi contando as badaladas.
Quatro badaladas agudas, doze badaladas mais graves... Era meia‑noite!
Os três irmãos nem sequer se atreviam a mover‑se, olhavam fixamente a casa dos brinquedos. De repente, abriu‑se a porta e uma figura escura deslizou para o jardim. Era pequena e negra e tinha olhos brancos, que reluziam na escuridão como se fossem duas luas do tamanho de uma moeda de vinte e cinco escudos.
‑ É ele! ‑ exclamou a Joaninha e, devido à alegria, teve de engolir a saliva. ‑ É ele! Flutuando no ar, o pequeno fantasma chegou
até à janela onde eles estavam. Na mão esquerda empunhava o molho de chaves e, com a direita, dizia adeus aos três irmãos.
‑ Muito obrigado, queridos amigos! Agradeço‑vos mil vezes.
Não posso traduzir em palavras a felicidade que me deram com a vossa ajuda. Se tivesse um tesouro guardado, dar‑vo‑lo‑ia, mas tudo quanto vos posso oferecer são os meus melhores votos de felicidades. Por isso desejo que pelo menos uma vez na vida sejam tão felizes como eu o sou agora.
‑ É muito amável da tua parte ‑ respondeu a Joaninha, e nenhum dos dois irmãos ficou chocado por ela ter tratado o fantasmazinho por tu.
E a este também lhe pareceu bem.
‑ De verdade que não vão ficar aborrecidos por ir‑me embora? ‑ perguntou. ‑ Tenho tanta vontade de voltar para a Pedra do Mocho que não posso adiar por mais tempo o meu regresso a casa.
‑ Não faltava mais nada! ‑ exclamou o Guilherme.
E o Alberto comentou:
‑ Não pares, fantasmazinho! Nós compreendemos.
Então o fantasmazinho foi deslizando por cima dos telhados da cidade adormecida até à Câmara Municipal, da Câmara Municipal ao Mercado Verde e à porta da cidade e da porta até ao castelo.
‑ Que aqui em baixo vos corra tudo bem, vizinhos de Monte do Mocho! Durante as duas últimas semanas haveis sofrido toda a espécie de dissabores por minha causa, mas finalmente estais livres de mim! Em todo o caso, não tenho a menor intenção de aparecer de novo na vossa pequena cidade, e a partir de agora permanecerei no lugar que me compete. Não voltarei a sair mais do meu castelo, nem mesmo para saciar a curiosidade.
O fantasmazinho descreveu três círculos em volta dos muros de Pedra do Mocho, mais três em torno da torre do castelo e por fim, outros três em redor da casa do conde, onde ficava a sala de homenagens. Estava tudo igual, apesar de lhe parecer ter passado uma eternidade desde a sua partida.
«E se eu fosse cumprimentar o general?», pensou. «Mas, não, há tempo até à próxima noite de chuva. Hoje devo ocupar‑me de uma coisa muito mais importante...»
O mocho Uho estava pousado num ramo da enorme árvore e não se admirou nem um bocadinho quando de repente o pequeno fantasma apareceu flutuando no ar e se pôs a seu lado.
‑ Permite‑me, senhor Uho?
‑ A sua visita causa‑me o maior prazer. Durante um bocado os dois amigos mantiveram‑se calados.
‑ Ajudaram‑no? ‑ perguntou finalmente o mocho.
‑ E muito, como pode ver ‑ respondeu o pequeno fantasma. ‑ O conselho que deu ontem à Joaninha e aos seus irmãos foi muito valioso. Agradeço‑lhe por tudo!
‑ De nada, de nada, caro amigo! O mocho endireitou as plumas.
‑ Que isto fique entre nós, mas fi‑lo por puro egoísmo.
‑ Não acredito ‑ retorquiu o fantasmazinho.
‑ Pelo mais puro dos egoísmos ‑ repetiu o mocho e, para reforçar a sua afirmação, fez que sim, movendo a cabeça com força. ‑ Aborrecia‑me sem si, a vida agrada‑nos muito mais quando alguém se sente bem na nossa companhia. Você viveu uma grande aventura em Monte do Mocho. Conte‑me, por favor!
‑ Com muito gosto ‑ concordou o pequeno fantasma.
Primeiro começou por relatar algumas das suas peripécias na pequena cidade: como o polícia de boné branco se assustou, os gritinhos das mulheres da hortaliça do Mercado Verde, a anedota da Câmara Municipal e a cena de Portalson e dos soldados que não o eram... Aconteceu então algo de inesperado, uma coisa surpreendente que o impediu de continuar, embora o melhor ainda não tivesse sido contado.
De repente, detrás de uma nuvenzona que cobria o céu, apareceu a Lua, grande e redonda, como um disco de prata polida, e um dos seus raios prateados caiu sobre o fantasmazinho, que se sentiu indescritivelmente bem, leve e livre, mais leve e livre do que antes.
E de repente deu‑se conta de que já não era um fantasma preto, mas que resplandecia outra vez, que era branco!
‑ Sou branco! ‑ exclamou surpreendido e feliz. ‑ Sou branco, branco, branco!
Então o mocho Uho riu‑se, comentando ao mesmo tempo:
‑ E isso espanta‑o? Mas, meu amigo, é tão fácil de entender! O Sol foi o culpado de você se ter tornado negro... e a Lua pô‑lo branco outra vez. Acalme‑se, por favor.
Contudo, devido à alegria, o fantasmazinho estava fora de si, e não ouviu o que dizia o mocho Uho nem conseguiu de modo algum acalmar‑se.
Até passar a hora dos fantasmas, dançou por cima dos muros do castelo, saltitando de ameia em ameia, à luz da Lua, e divertindo‑se muito.
Alegrava‑se por voltar de novo a ser branco, tal como antes, tão branco como uma nuvem de pó de neve.
Otfried Preussler
O melhor da literatura para todos os gostos e idades