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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O PIRATA - P.2 / Walter Scott
O PIRATA - P.2 / Walter Scott

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O PIRATA

Segunda Parte

 

               A TERRÍVEL PROFECIA DE AMOR

O poeta moralista a quem fomos buscar a epígrafe deste capítulo, abordou um assunto que faz vibrar algumas cordas no coração de muitos dos nossos leitores, sem que eles se apercebam. A superstição, não se envolvendo no mecanismo de todos os seus horrores e limitando-se a passar brandamente a mão na cabeça de quem reconhece o seu poder, tinha encantos de que é difícil não ter saudades mesmo nos nossos dias, em que a sua influência quase se dissipou inteiramente devido às luzes da razão e da ciência, pelo menos, nos tempos em que o reino da ignorância ainda não terminara, o seu sistema de terrores imaginários tinha qualquer coisa de interessante para os espíritos que poucos meios de exaltação possuíam. E é por consequência de semelhantes impressões que, no nosso tempo, mesmo pessoas que receberam uma razoável educação vão a casa de uma mulher que diz a buena dicha, para se divertirem, segundo alegam, mas muitas vezes tentadas a não duvidar inteiramente das respostas que escutam.

Quando as irmãs de Burgh-Westra chegaram à sala,onde se servia um almoço tão copioso como o da véspera, oudaller fez-lhes, brincando, algumas censuras pela sua chegada tardia. Com efeito, a refeição estava quase terminada e os convivas já se dispunham para um antigo uso norueguês da qualidade daqueles a que já aludimos.

Parece ter sido inspirado nesses poemas nórdicos, em que por vezes se representa os campeões e as heroínas a procurarem conhecer o seu destino, consultando alguma feiticeira ou pitonisa que, como na lenda de Gray intitulada A descida de Odin, obrigava o destino, pelo poder da poesia rúnica, a revelar-lhe os seus segredos, e proferia oráculos muita vez ambíguos, mas que então se aceitavam como se levantassem, pelo menos, em parte, o véu que encobre o futuro.

Uma velha sibila, Euphane Fea, a governanta de quem já falámos, instalara-se no vão de uma grande janela que se obscurecera com peles de urso e panejamentos de toda a espécie, de maneira a parecer-se com a cabana de um lapão. Uma pequena abertura, como a de um confissionário, permitia à pessoa que estava sentada lá dentro ouvir sem ver. A voluspa, ou sibila, devia escutar as perguntas que lhe eram dirigidas em verso e responder-lhes na mesma linguagem, de improviso. Os panejamentos impediam-na de ver as pessoas que a consultavam, e a alusão acidental ou propositada que a sua resposta podia fazer aos assuntos do consulente dava por vezes motivo a risos e outras vezes a sérias reflexões. A sibila era geralmente escolhida entre as mulheres que possuíam o talento de improvisar em língua norse, talento pouco excepcional, atendendo a que todos os insulares tinham a memória repleta de uma infinidade de versos e a que as regras da versificação norse eram extremamente simples. As perguntas também se deviam fazer em verso; mas como este dom de improvisação poética, embora bastante comum, não era geral, permitia-se a quem quisesse dirigir-se-lhe, servir-se de um intérprete, e esse intérprete, de pé junto do santuário da sibila, segurando a mão de quem pretendia consultar o oráculo, encarregava-se de rimar a seu pedido.

Naquela ocasião os sufrágios confiaram a Claud Halcro as funções de intérprete, e o velho, jovial, acedeu a desempenhar o seu papel no divertimento que ia começar.

Mas, nesse momento, produziu-se uma singular modificação nas combinações que acabavam de fazer-se. Norna de Fitful-head, que todos, excepto as duas irmãs, supunham a várias milhas de distância, entrou de súbito no recinto sem cumprimentar ninguém, avançou majestosamente para o tabernáculo de pele de urso, e fez à sibila para que saísse do santuário. A velha Fea obedeceu, meneando a cabeça e parecendo tomada de receio. Para dizer a verdade poucas pessoas das presentes viram a sangue-frio a imprevista chegada de uma mulher tão conhecida e tão geralmente temida como Norna.

Ela deteve-se um momento à entrada dessa espécie de tenda e, levantando a pele que fechava a porta, ergueu o olhar para os lados do Norte, como se aí procurasse inspiração. Fazendo em seguida sinal aos espectadores surpresos de que podiam aproximar-se, um a um, do santuário onde ia instalar-se, entrou na tenda e, deixando cair a pele que constituía a entrada, desapareceu. O divertimento tomava um aspecto muito diferente do que os convidados esperavam, e a maior parte deles julgava haver mais mottivo para sérias reflexões do que para gracejos; ninguém mostrava pressa em consultar o oráculo. O carácter e as pretensões de Norna pareciam a quase todos os espectadores de uma natureza demasiado grave para o papel que queria desempenhar; os homens falavam em voz baixa e as mulheres, segundo a expressão do glorioso John Dryden,

Cerravam fileiras, estremecendo de horror.

O silêncio foi quebrado pela voz máscula e sonora do udaller.

- Então, amigos, porque não principia o divertimento? Receiam alguma coisa pelo facto da minha parenta ser a nossa voluspa? Devemos estar-lhe gratos por ela querer representar para nós um papel que ninguém nas nossas ilhas poderia desempenhar melhor do que ela. Querem renunciar a esta distracção? Pelo contrário, devemos desfrutá-la com maior alegria - Como ninguém respondesse a estas palavras, Magnus Troil acrescentou: - Não me digam que a minha parenta vai ficar sentada na sua tenda sem que lhe façam uma única pergunta, por falta de coragem. Vou eu consultá-la em primeiro lugar, mas os versos já não me acodem tão facilmente à imaginação como no tempo em que tinha menos vinte anos. Claud Halcro, venha comigo.

De mão dada, aproximaram-se do santuário da sibila e, após um momento de consulta, o udaller, que, como tantas outras pessoas importantes das ilhas Setland, se dedicava ao comércio e à navegação e tinha interesses bastante consideráveis num navio em viagem para a pesca da baleia, encarregou Halcro de perguntar-lhe se essa empresa teria êxito, o que o poeta logo traduziu em versos norses.

A brincadeira parecia tomar um carácter sério e todos estenderam o pescoço para escutar Norna, cuja voz, passando através dos panos que a cercavam, se fez ouvir nos seguintes versos, pronunciados num tom lento e monótono:

 

Sim, vejo esse barco no mar da Islândia

E no mastro altivo entrevejo a grinalda (1);

O mar e o vento são-lhe propícios

Alegrai-vos, que traz carga completa.

Do ávido armador compensando os riscos,

Entrará no porto com sete baleias.

 

Nota 1: A grinalda é uma coroa de fitas feita pelas raparigas interessadas num barco que parte para a pesca da baleia, ou na sua tripulação. Conservam-na com grande cuidado durante toda a viagem.

 

- Que o Céu lance sobre nós um olhar de misericórdia e protecção! - exclamou Bryce Snailsfoot - Não é com certeza a língua de uma mulher que acaba de pronunciar estas palavras. Vi em North Ronaldshaw pessoas que encontraram no mar o navio de Olavo de Lerwick, no qual o nosso digno amo tem um interesse tão considerável que quase se poderia considerar seu proprietário, e, tão certo como haver estrelas no Céu, eles souberam pelo mestre desse navio que tinha apanhado sete baleias, exactamente como Norna acaba de nos dizer.

- Ah! Precisamente sete? - disse o capitão Cleveland - E tu soubeste-o em North Ronaldshaw? E com certeza espalhaste a boa nova pelo país quando te encaminhavas para aqui?

- A minha boca nem uma só vez se abriu para falar, capitão. Conheço bastantes negociantes e bufarinheiros que descuidam os seus negócios para se ocupar de tagarelices; mas eu gosto mais de vender as minhas fazendas que de dar novidades. A verdade é que, desde que cruzei as águas em Dunrossness, julgo não ter dito a três pessoas que Olavo fez um bom carregamento.

- Mas se cada uma dessas três pessoas se entreteve a falar por seu turno, e quase apostaria dois contra um em como isso aconteceu, a velha dama pode profetizar sem temor.

Era a Magnus Troil que Cleveland falava deste modo, e o udaller não o escutava com agrado. O respeito que ele tinha pela sua pátria alargava-se até às suas superstições. Ele interessava-se sinceramente pela sua infeliz parente e se não prestava publicamente homenagem aos conhecimentos sobrenaturais que ela pretendia ter, não gostava de ouvir que outros os pusessem em dúvida.

- A minha prima Norna - disse ele, acentuando bem as palavras - não tem quaisquer relações com Snailsfoot os seus conhecimentos. Não pretendo saber de que maneira ela obtém as informações que possui, mas sempre notei que os Escoceses, e em geral todos os estrangeiros que vêm às ilhas Setland, se mostram por vezes prontos a explicar coisas que parecem bastante obscuras àqueles que têm antepassados que viveram aqui durante séculos.

O capitão Cleveland não insistiu e teve um gesto de aquiescência, sem tentar defender o seu cepticismo.

Enquanto os outros espectadores ficavam numa atitude de indecisão produzida pelo receio, Halcro, que via o velho udaller franzir o sobrolho e agitar o pé, no ar de quem tem vontade de o bater com força no chão, depreendeu que a paciência estava prestes a faltar-lhe, e declarou ousadamente que ia fazer uma pergunta à pitonisa em seu próprio nome. Reflectiu alguns minutos para reunir as suas ideias e recitou depois os versos seguintes:

Quando Halcro já não existir,

Seus versos hoje admirados

Ainda serão escutados?

Serão capazes de elevar

O seu nome à posteridade?

Poderá, com sua musa,

Viver na posteridade,

Como o glorioso poeta? (1).

 

Nota 1: Alusão ao poeta John Dryden.

 

A voz da sibila não tardou em fazer-se ouvir no fundo do seu santuário:

 

Compraz-se o menino no som da sua roquinha;

O velho, como o menino, gosta do seu brinquedo.

Mas, não poderá a harpa atingir a melodia

Se a mão que a dedilha não achar a harmonia.

Em voo ousado sobe a águia ao firmamento,

Mas o pato, mais pesado, deve gozar contentamento

Se, quedando-se ao rés da terra, no lamaçal,

Obtiver das simples focas o voto universal.

 

Halcro retirou-se num passo ágil e num simulado ar prazenteiro, mas a sua coragem não estimulou mais ninguém a consultar a temível Norna.

- Poltrões! - exclamou o udaller - Capitão Cleveland, também receia interrogar uma mulher velha? Pergunte-lhe qualquer coisa. Pergunte-lhe se é o seu o barco de doze canhões chegado a Kirkwall.

Cleveland lançou um olhar a Minna e, julgando notar que ela tinha curiosidade de saber o que ele responderia a seu pai, disse, após um momento de hesitação:

- Nunca homem ou mulher me assustaram. Senhor Halcro, ouviu a pergunta do nosso anfitrião? Faça-lha em meu nome e da maneira que lhe aprouver. Não me gabo de ser mais hábil em poesia do que em bruxaria.

Não houve necessidade de convidar Halcro duas vezes. Tomou a mão do capitão Cleveland, segundo a fórmula usada neste passatempo, e, em versos norses, fez a pergunta sugerida pelo udaller.

A pitonisa demorou o seu oráculo um pouco mais que de costume, e, por fim, pronunciou em voz baixa, embora mais resoluta que anteriormente:

 

O ouro é um metal puro, sem mistura, generoso.

O sangue é púrpura, negro, de aspecto horroroso.

Lancei esta manhã um olhar pelo porto;

Lá estava um pérfido falcão, de emboscada...

Caiu sobre a presa, rasgando-lhe o flanco,

As garras e o bico tingiram-se de sangue.

Tu, que vens interrogar-me, toma cuidado.

Responde tu próprio. Estende a mão e olha;

Ainda está suja de sangue derramado?

Vai juntar-te ao outro, ansioso de encontrar-te.

 

Cleveland sorriu num ar de desdém e, estendendo a mão, disse:

- Poucas pessoas tiveram tantas abordagens como eu na Nova Espanha, sem contar as várias questões com os guarda-costas (1), mas nunca caiu na minha mão mancha que um pouco de água e uma toalha não pudessem desaparecer.

 

Nota 1: Em espanhol no original.

 

O udaller acrescentou em voz forte:

- Nunca há paz com os Espanhóis para lá da linha. Ouvi-o dizer mais de cem vezes ao capitão Tragendeck e ao velho comodoro Rummelaer, e ambos estiveram na baía das Honduras e em todas as paragens da mesma latitude. Eu detesto todos os Espanhóis desde que eles vieram em 1558 e levaram todos os víveres de Fair Isle. Ouvi o meu avô falar nisso, e ainda deve haver em minha casa uma história escrita em holandês, que revela tudo o que eles fizeram nos Países Baixos. Não têm fé nem caridade. E a verdade, meu velho amigo, a pura verdade - disse Cleveland - São tão ciumentos das suas possessões do ultramar como um velho marido o é da sua jovem esposa; e se logram meio de apoderar-se de um inimigo, sepultam-no por toda a vida nas suas minas. Por isso, os combatemos de pavilhão içado no alto do mastro.

- É o que se deve fazer! - exclamou Magnus - O velho marinheiro inglês nunca o arreia. Quando penso nessas muralhas de madeira, quase me julgaria inglês, se não fosse o parecerem-se tanto com os meus vizinhos escoceses. Meus senhores, não pretendo ofender ninguém; somos todos amigos, e vós sois todos benvindos. Vamos, Brenda, é a tua vez; interroga a sibila; sabes bastantes versos norses; ninguém o ignora.

- Mas não me recordo de nenhuns que se adaptem às circunstâncias - respondeu Brenda, recuando alguns passos.

- Má desculpa! - replicou seu pai, impelindo-a para diante, enquanto Halcro lhe tomava a mão quase à força

- Uma modéstia descabida não deve prejudicar uma alegria honesta. Fale por Brenda, Halcro; é a um poeta que pertence interpretar os pensamentos de uma donzela.

O bardo saudou a linda Brenda com o entusiasmo de um poeta e a galantaria de um palaciano; e lembrando-lhe em voz baixa que ela nunca podia ser responsável pelas necedades que ia dizer, guardou silêncio por alguns instantes, de olhos erguidos ao céu, sorriu complacente, como se lhe agradasse a ideia que se lhe apresentava, e declamou por fim os versos seguintes:

 

Que o mais doce mel adoce

As palavras que vais dizer;

Empresta aroma de rosas

Ao Destino que vais traçar

Desejamos conhecer agora

Se o Amor se tornará senhor

Do coração de Brenda;

Se esse deus, por vezes traidor,

De sua ventura se ocupará.

 

A pitonisa respondeu imediatamente:

 

À beleza que um terno amante adora,

Embora ingénuo e hesitante ainda,

O coração, enfim, cederá um dia.

Assim é a neve que coroa

O cimo altaneiro do Rona,

Quando o Inverno ergue lá seu trono;

Mas um raio de sol a fundirá,

Um arroio súbito nascerá...

A frescura da relva no prado denuncia

Das águas o benfazejo curso:

Vai alegrar os rebanhos

E florir a choça de um infeliz pastor.

 

- Eis   uma   doutrina consoladora. É impossível falar mais sensatamente - disse o udaller, segurando o braço de Brenda, que ruborizava e tentava escapar-se - Não é preciso corar por causa disso, minha filha; tornar-se dona da casa de um homem honesto é o que desejo de todo o coração a todas que estão aqui. Vamos, quem vai falar agora? Chovem bons maridos... Maddie Groatsettars, minha gentil Clara, venham cá, colaborem na distracção.

- Não seie se devo aprovar completamente... - disse «lady» Glowrowrum, meneando a cabeça num ar de embaraço.

- Basta, basta! - disse Magnus - Não obrigo ninguém. Vem cá, Minna, tu estás às minhas ordens. Aproxima-te. Não é preciso abespinhar-se por uma brincadeira inocente; há outras coisas de que a gente devia corar. Vamos, eu encarrego-me de usar da palavra por ti, embora me sinta um pouco enfraquecido em poesia.

Magnus, depois de ter passado por várias vezes a mão pela fronte e de fazer alguns esforços para excitar o seu talento, deu à luz estes versos:

 

Respond, e Norna, sem muito palavriado,

Ou por um sim, ou por um não

Quererá esta beldade tentar o casamento?

Será a boda a sua vocação?

E virá com ela a felicidade?

 

Ouviu-se a pitonisa suspirar profundamente no seu tabernáculo, como se lamentasse ser obrigada a responder à pergunta que lhe faziam. Por fim, pronunciou este oráculo:

 

O coração da virgem inocente

Não seduziu qualquer mortal.

É como a neve rebrilhante

Que coroa este monte tão perto do céu;

Mas um amor fatal é como o temporal,

Cujo sopro escaldante mancha a sua alvura.

Mal há tempo de se voltar o olhar,

E o encanto sumiu-se.

Da torrente destruidora

As ondas precipitadas dos flancos da montanha

Vão exercer ao longe o seu terrível furor:

Tudo está arrasado nos campos.

 

O udaller ouviu esta resposta com profundo ressentimento.

- Pelas relíquias do santo mártir de quem uso o nome! - exclamou ele, vermelho de cólera - Isso é abusar da cortesia, e se outra pessoa, a não ser tu, tivesse ameaçado o nome de minha filha com a palavra destruição, essa audácia não ficaria impune. Mas, vamos, sai da cabana, velho dragão - ajuntou, sorridente - Eu já devia saber que não tomas parte por muito tempo em alguma coisa que cheire a alegria. Que Deus te proteja!

Não recebendo qualquer resposta, retomou a palavra, ao cabo de alguns instantes:

- Vamos, prima, não me queiras mal por isto, apesar de eu te ter falado bruscamente. Bem sabes que não quero mal a ninguém e a ti menos que a outro qualquer. Vá, dá-me a tua mão. Tu podias ter-me profetizado o naufrágio do meu navio e uma má pesca, sem que eu te dissesse palavra; mas quando se trata de Minna ou de Brenda, tu calculas que isso me toca muito de perto. Vamos, repito, dá-me a tua mão e não se fala mais nisso.

Norna continuava calada, e os espectadores principiavam a olhar uns para os outros com certa surpresa. Quando o udaller levantou a pele que fechava a entrada do santuário, viu-se que o interior estava vazio. O espanto foi então geral, e não deixava de se mesclar de receio, porque parecia impossível que Norna pudesse sair sem que ninguém a visse. No entanto, era bem verdade que não estava e Magnus, depois de um momento de reflexão, deixou cair a pele que levantara.

- Meus amigos - disse ele, num tom jovial há muito tempo que conhecemos a minha parenta e sabei que as suas maneiras em nada se parecem com as habitantes vulgares deste Mundo; mas ela é bem do país: tem por mim e pelos meus uma profunda amizade, e garanto que nenhum dos meus hóspedes deve ter alguma coisa a recear dela; surpreender-me-ia bastante se ela voltasse para jantar connosco.

- Preza a Deus que não! - disse Baby Yellowley «lady» Glowrowrum - Para lhe falar a verdade, não gosto das comadres que podem ir e vir como um raio de Sol ou um pé-de-vento.

- Fale mais baixo - aconselhou «lady» Glowrowrum - fale mais baixo e dê graças a Deus por ela não ter levado a casa consigo.

Todos os espectadores, cochichando, abordavam o mesmo tema; mas, por fim, o udaller, fazendo ouvir a sua voz de estentor, e tomando um tom de autoridade, convidou todos os presentes a segui-lo, ou antes, deu ordem para virem assistir à partida dos barcos que iam para a pesca no alto-mar.

- O vento esteve contrário desde o nascer do Sol - disse ele - o que reteve os barcos na baía; mas neste momento tornou-se propício, e vão agora fazer-se de vela.

Esta brusca mudança de tempo provocou algumas piscadelas de olho e mais de um murmúrio entre os convidados, bastante dispostos a ligar esta circunstância ao desaparecimento súbito de Norna. Mas ninguém se permitia fazer observações que poderiam desagradar ao dono da casa. Ele avançou a passo majestoso para a beira-mar, e os seus hóspedes seguiam-no com um ar de respeitosa submissão, como um rebanho de gamos segue o que lhe serve de guia.

 

             O HOMEM DA MÁSCARA DE FERRO

A pesca é a principal ocupação dos habitantes das ilhas Setland, e, outrora, era com ela que os ricos contavam para aumentar as suas rendas e os pobres para assegurar seus meios de subsistência. A época da pesca é ali o mesmo que a ceifa num país agrícola, ou seja a estação mais importante e mais animada do ano. Em cada distrito, reunem-se os pescadores em locais designados, para onde conduzem os seus barcos e onde juntam as suas tripulações. Edificam na costa, para sua habitação temporária, pequenas cabanas de barro cobertas de colmo, e skeos ou barracões para a secagem do peixe, de maneira que a costa solitária toma de repente o aspecto de cidade indiana. Os pontos onde se dirigem para pescar no mar-alto ficam por vezes a muitas milhas do local onde se faz a secagem do peixe, de forma que permanecem ausentes durante vinte ou trinta horas, ou mesmo mais; e, se têm a desdita de encontrar contrários o vento ou a maré, ficam no mar dois ou três dias, com uma pequena provisão de víveres e em barcos de construção muito frágil. Às vezes, nunca mais se ouve falar deles.

Tudo era então vida e actividade, quando o udaller e os seuss amigos chegaram. As tripulações de uma trintena de Barcos, compostas cada uma de três a seis homens, depois de se despedirem das mulheres e dos pais, saltavam para bordo dos seus longos barcos noruegueses, onde as suas linhas e as suas redes já estavam preparadas. Magnus não era um espectador ocioso desta cena; movendo-se sem cessar de um para outro lado, informava-se do estado das suas provisões e dos seus preparativos de pesca. Ele acabava sempre por juntar às provisões um galão de genebra, uma porção de carne salgada, ou qualquer outra coisa que lhes pudesse ser útil. Os bravos pescadores, ao receber estes presentes, faziam-lhe os seus agradecimentos com aquela brevidade brusca que agradava a Magnus; mas a gratidão das mulheres era mais ruidosa, e ele via-se obrigado a impor-lhes silêncio, mandando para o diabo todas as línguas femininas, desde a da nossa mãe Eva.

Enfim, todos se encontravam a bordo; desfraldaram-se as velas e deu-se o sinal de partida. Afastando-se de terra, os remadores pareciam disputarem a primazia de chegarem ao local da pesca para aí lançarem as suas linhas primeiro que os outros, façanha à qual atribuía bastante importância a tripulação do barco que a conseguia realizar.

Enquanto ainda estavam junto da costa, entoavam uma velha canção norse adequada àquela ocasião. Depressa a voz ruidosa dos pescadores foi abafada pelo rumor das ondas. Ainda se pôde distinguir por algum tempo as árias que cantavam, no meio do assobio do vento e do rugido das vagas. E os barcos já se assemelhavam a pontos negros, perdendo-se pouco a pouco no horizonte, e ainda o ouvido podia distinguir vozes humanas por entre o tumulto dos elementos.

As mulheres dos pescadores ficaram à beira-mar até os barcos de seus maridos desaparecerem totalmente; depois, retiraram-se a passo lento, de olhos baixos e a inquietação estampada em seus rostos, dirigindo-se para os barracos construídos perto da costa, a fim de fazerem os preparativos necessários para a secagem do peixe que os seus maridos e parentes haviam de trazer no regresso.

Os hóspedes de Magnus, depois de permanecerem algum tempo a ver a flotilha e a conversar com as pobres mulheres dos pescadores, começaram a dividir-se em vários grupos. Marcharam em diversas direcções, tendo por guia apenas a sua fantasia, a fim de gozarem o que se podia chamar o claro-escuro de um belo dia de Verão nas ilhas Setland. Se ali falta o brilhante clarão do sol dos climas mais amenos, o aspecto deste país tem um carácter melancólico que lhe pertence exclusivamente.

Num dos lugares mais solitários da costa, Minna Troil passeava com o capitão Cleveland. Escolheram decerto este local, porque aqui haveria menos probabilidades de serem interrompidos. Um pequeno tapete de areia branca como leite, que se estendia por sobre a rocha, oferecia-lhes um piso firme de cerca de cem passos de comprimento. O passeio era limitado numa das extremidades por um rochedo alteroso, domicílio quase inacessível de muitas centenas de aves marinhas de várias espécies, e no flanco do qual se abria uma vasta caverna, ou helyer, abismo profundo em que o mar parecia precipitar-se, como que engolido. Cleveland já passeara mais de uma vez com Minna Troil neste lugar selvagem e solitário. Mas a entrevista que então o absorvia tão vivamente era de natureza a desviar a sua atenção e a da sua companheira do espectáculo que tinham perante os olhos.

- Não pode negar - dizia ela - que alimenta contra aquele rapaz impressões que denunciam reserva e injustiça! Nada fez que o mova desfavoravelmente contra ele; o senhor usa contra ele de uma violência tão imprudente que nem a pode justificar.

-Julguei que o serviço que ontem lhe prestei me poria ao abrigo de uma tal acusação - respondeu Cleveland - Não falo do risco que corri; vivi sempre no meio de perigos e gosto deles. No entanto, poucas pessoas se teriam aventurado tão perto do animal enraivecido, para salvar um homem que lhe fosse completamente estranho.

- É realmente verdade que nem toda a gente teria feito o mesmo - replicou Minna, num ar grave - Mas quem tivesse coragem e generosidade, teria procedido de igual modo. Claud Halcro, esse cabeça no ar, não teria hesitado, se as suas forças fossem iguais à sua coragem, e o meu próprio pai, apesar de ter um sério motivo de ressentimento contra esse rapaz que teve a ousadia de abusar da hospitalidade, também faria o mesmo. Portanto, não se Gabe demasiado da sua façanha, meu amigo, se não quer que eu fique pensando que esse acto lhe custou um grande esforço. Eu sei que não gosta de Mordaunt Mertoun, embora tivesse exposto a sua vida para o salvar.

- E não me perdoa, pois, nada do mal que ele por tanto tempo me fez sofrer, quando o boato geral me informou de que esse caçador de ninhos era uma barreira que se erguia entre miin e o que mais desejo obter no Mundo: a ternura de Minna Troil!

Ele falava num tom tão apaixonado como insinuante. Mas as suas palavras parece não terem convencido Minna.

- O senhor soube, demasiado cedo e muito claramente, que pouco ou nada tinha a recear, se realmente o receou que esse Mertoun, ou outro qualquer, se atrevesse no caminho do coração de Minna... - disse ela - Basta de agradecimentos e de protestos: a melhor prova de reconhecimento que me pode dar é a de se reconciliar com esse rapaz, ou pelo menos evitar qualquer questão com ele.

- Que alguma vez sejamos amigos, Minna, é absolutamente impossível. Todo o amor que tenho por si, e é o sentimento mais poderoso que meu coração já experimentou, não seria capaz de operar esse milagre.

- E porquê? Bem longe de se terem prejudicado um ao outro, ambos se prestaram serviços recíprocos; porque não podem pois ser amigos? Tenho muitos motivos para o desejar.

- E pode a Minna esquecer o tom de leviandade em que ele falou de Brenda, de si, da casa de seu pai?

- Posso perdoar tudo. Não pode fazer o mesmo, o senhor que nunca foi ofendido?

Cleveland baixou os olhos, guardou um momento de silêncio e, levantando a cabeça em seguida, disse:

- Eu podia enganá-la, Minna, podia prometer-lhe o que me seria impossível cumprir, bem o sinto. Mas se sou obrigado a usar de todos os subterfúgios para com os outros, não os quero usar para consigo. Não posso ser amigo desse homem. Interrogue-o, e ele lhe dirá o mesmo a meu respeito. O serviço que me prestou servia de freio ao meu ressentimento, mas não conseguia iludir-me acerca dos meus próprios sentimentos.

- O senhor foi mais longe do que aquilo a que costuma chamar a sua máscara de ferro, da qual o seu rosto conserva a impressão de dureza, mesmo quando a tira.

- É injusta, Minna, e censura-me por eu lhe falar com franqueza e verdade. No entanto, digo-lhe ainda francamente que não posso ser amigo de Mertoun. Não tento prejud.ca.lo, mas não me exija que o estime. Asseguro-lhe que mesmo esse esforço, se eu fosse capaz de o manter, seria inútil; porque tenho a certeza de que, quanto mais diligência fizesse por captar-lhe a amizade, mais despertaria o seu ódio e as suas suspeitas. Deixe-nos, pois, o livre exercício dos nossos sentimentos naturais; e como eles certamente nos apartarão cada vez mais um do outro, é provável que nunca tenhamos ensejo de conflito. Isto satisfá-la?

- Assim terá que ser, visto assegurar-me que é um mal sem remédio. Mas agora diga-me porque ficou tão pensativo quando soube da chegada do seu navio, porque não duvido de que é o que acaba de entrar no porto de Kirkwall.

- Receio as consequências da chegada desse navio e da sua tripulação; receio que resulte disso a ruína das minhas esperanças mais queridas. Tinha feito alguns progressos nas boas-graças de seu pai; com o tempo poderia fazer mais alguns. Mas eis que chegam Allured e Hawkins para destruírem para sempre essa esperança. Contei-lhe de que maneira nos separámos. Eu comandava então um navio mais forte e melhor armado que o deles; tinha uma tripulação que me obedecia cegamente; agora, estou só, isolado, desprovido de todos os meios para os reter e dominar, e eles não tardarão em dar tais provas do seu carácter desordenado e da licensiosidade que lhes é peculiar, que provocarão certamente a sua ruína e a minha.

- Nada receie; meu pai não pode ser tão injusto que o torne responsável pelos erros dos outros.

- Mas que dirá Magnus Troil dos meus, bela Minna? - perguntou Cleveland, sorrindo.

- O meu pai é norueguês - respondeu Minna - Descende de uma raça oprimida; pouco se importará que o senhor tenha combatido os Espanhóis, que são os tiranos do Novo Mundo, ou os Holandeses ou os Ingleses, que lhes sucederam nos seus domínios usurpados. Seus antepassados foram os reis do mar.

Mesmo assim receio que o descendente de um desses antigos reis do mar - disse Cleveland, sorrindo – pense que um corsário moderno não seja conhecimento dele. Talvez ele atasse de boa vontade uma corda à grande para enforcar um infeliz flibusteiro.

- Não creia nisso. Ele sofre demasiado com a opressão das leis tirânicas dos nossos orgulhosos vizinhos Escoceses. Tenho esperança de que em breve ele lhes possa opor resistência franca. Os nossos inimigos, porque é assim que eu lhes chamo, estão agora divididos entre eles. Que me poderá impedir de aproveitar esses conflitos, para reconquistar a independência de que eles nos privaram?

- De içar a bandeira do corvo no castelo de Scalloway - acrescentou Cleveland, imitando o tom enfático de Minna - e proclamar o seu pai o conde Magnus I.

- O conde Magnus VII, se me faz favor - replicou Minna, interrompendo-o - Porque seis dos seus antepassados usaram antes dele a coroa de conde. O senhor pode rir do meu entusiasmo, mas o que é que pode impedir isso?

- Nada o impedirá, porque nunca se tentará realizar esse sonho. Para o impedir bastaria o escaler de um barco de guerra inglês.

- O senhor trata-nos com desprezo. No entanto, deve saber por experiência quanto pode fazer um punhado de homens resolutos.

- Mas é preciso que tenham armas, Minna, e vontade de arriscar a sua vida nas árduas empresas que intentem. Não pense nessas visões. Mas, mesmo que todos os habitantes tivessem um espírito tão guerreiro como os seus antepassados, que poderiam fazer as tripulações sem armas de alguns barcos de pesca contra a marinha britânica? Não pense mais nesse sonho, querida Minna; e assim devo chimar-lhe, embora esse sonho aumente o brilho do seu olhar e empreste mais majestade à sua marcha.

- Sim. é um sonho, certamente - disse Minna, baixando os olhos - Não pode uma filha de Hialtland levantar a cabeça e marchar como mulher livre.

- Há países - replicou Cleveland - onde o olhar paira sobre bosques de palmeiras e coqueiros, onde os pés se podem mover com a velocidade de um navio a todo o pano, onde o olfato aspira os mais doces perfumes e onde não se conhece outra servidão que não seja a do valente pelo mais valente e a de todos os corações à mulher mais bela.

- Não, Cleveland - respondeu Minna, após um momento de silêncio - a minha terra natal, por mais selvagem que lhe pareça e por mais oprimida que realmente esteja, tem para mim encantos que não me pode oferecer mais nenhuma região do Mundo. Hialtland é a pátria em que morreram os meus antepassados, onde meu pai vive ainda: é onde quero viver e morrer.

- Perfeitamente! Também eu quero viver e morrer em Hialtland. Não vou a Kirkwall. Não darei a conhecer aos meus camaradas que existo, porque seria difícil escapar-lhes. Seu pai tem-me amizade, Minna. Quem sabe se os meus cuidados, as minhas atenções, o tempo, não o resolverão a receber-me na sua família? Quem se pode inquietar com o tamanho de uma viagem que no fim tem a felicidade?

- É ainda um sonho - disse Minna - Não pense nisso, é uma coisa impossível. Enquanto o senhor morar em casa de meu pai, ele poderá ser-lhe útil, terá o senhor lugar à sua mesa, encontrará nele um amigo generoso, um anfitrião hospitaleiro; mas fale-lhe no que toque o seu nome ou a sua família, e o franco e cordial udaller não será mais do que o orgulhoso descendente de um conde norueguês. Pense bem: as suas suspeitas recaíram por um instante sobre Mordaunt Mertoun, e logo ele retirou a amizade a esse jovem que estimava como filho. Ninguém pode ter pretensões a aliar-se à sua família, se não descender de uma raça do Norte, sem mancha e sem nada de censurável.

- E quem me assegura que a minha não está nessas condições?

- Como! Tem alguma razão para supor que descende de alguma família norse?

- Já lhe disse - respondeu Cleveland - que a minha família me é inteiramente desconhecida. Passei a minha infância na solidão, numa plantação da ilha de Tartuga, educado por meu pai, que era então bem diferente de como o vi depois. Fomos saqueados pelos Espanhóis e reduzidos a tal extremidade, que meu pai, por desespero e por sede de vingança, tomou as armas e, tornando-se chefe de alguns homens nas mesmas circunstâncias que ele, fez-se o que se chama um pirata, lutou contra os Espanhóis com diversas vicissitudes de boa e má sorte. Por fim, querendo reprimir certo acto de violência dos seus companheiros, pereceu às suas mãos, destino bastante vulgar destes capitães de corsários. Mas de onde veio o meu pai e qual o lugar do seu nascimento, é o que eu ignoro, e nunca experimentei a menor curiosidade de o saber.

- Ao menos, seu desditoso pai era inglês?

- Não o duvido sequer. O seu nome, que eu tornei demasiado formidável para o pronunciar, é inglês, e o conhecimento que ele possuía da língua e mesmo da literatura inglesa, junto com os trabalhos que ele tinha, antes da nossa ruína, para me tornar tão conhecedor como ele nessa matéria, provavam claramente que nascera em Inglaterra. Se o carácter rude de que me revisto, quando a ocasião o exige, não é o meu natural, é a meu pai que o devo, Minna. Foi ele que me transmitiu ideias e princípios que até certo ponto, me podem tornar digno da sua estima e da sua aprovação. E, entretanto, parece-me que por vezes tenho dois caracteres, pois mal posso acreditar que o Cleveland que neste momento passeia nesta costa solitária com a amável Minna Troil, e a quem é permitido falar-lhe da paixão que sente por ela, seja o intrépido chefe desse bando audacioso cujo nome é tão terrível como uma tormenta.

- Não lhe seria permitido falar assim à filha de Magnus Troil, se não fosse o chefe valente e intrépido que, com tão fracos meios, tornou o seu nome tão temível. O meu coração, como o de uma donzela dos tempos antigos, deseja ser conquistado, não com doçuras, mas com acções heróicas.

- Ai, que poderei eu fazer para volver esse coração para os meus interesses como desejaria? - disse Cleveland, suspirando.

- Juntar-se aos seus amigos, seguir o seu rumo e deixar ao Destino o cuidado do resto. Se regressar aqui chefe de uma frota formidável, quem sabe o que poderá acontecer?

- E quem me garante que, no meu regresso, se alguma vez regressar, não encontrarei Minna Troil noiva ou casada? Não, Minna, não confio ao Destino o único objecto digno dos meus desejos que a viagem tempestuosa da minha vida me ofereceu.

- Escute-me, Cleveland: eu comprometo-me, se ousar aceitar este compromisso, por Odin, pelo mais sagrado dos ritos do Norte ainda em uso entre nós, a não desposar outro homem, a não ser que renuncie aos direitos que eu lhe dê. Satisfá-lo isto? Não posso nem quero prometer-lhe outra coisa.

- Não tenho outro remédio senão contentar-me - respondeu Cleveland, após um momento de silêncio - Mas lembre-se de que é Minna quem me obriga a retomar uma vida que as leis inglesas declaram criminosa e que as violentas paixões dos homens que se lhe consagram tornaram infame.

- Estou acima desses preconceitos. Quanto aos seus camaradas, desde que a maneira de eles viverem não corrompa a sua, porque há-de a reputação deles ligar-se à sua?

- Nunca acreditaria que tanta coragem pudesse encontrar-se mesclada com tanta ignorância do Mundo, tal como hoje existe! - exclamou ele - Quanto a mim, os que me conheciam concordaram em que fiz todos os esforços, com risco da minha popularidade e da minha vida, para amansar a ferocidade dos meus companheiros. Mas, como dar lições de humanidade a pessoas devoradas pela sede de vingança contra aquilo que os proscreveu? Mas essa promessa, Minna, essa promessa é a única recompensa do meu mais fiel afecto que não devo perder tempo para a reclamar.

- Não é aqui; é em Kirkwall que ela deve ser feita. temos que invocar, que tomar por testemunha deste juramento o espírito que preside ao antigo círculo de Stennis’ Mas, talvez receie chamar o antigo pai dos que pereceram nos combates, Severo, o Terrível?

Cleveland sorriu.

- Faça-me a justiça de acreditar, querida Minna, que estou disposto a temer tudo o que possa ser causa de um verdadeiro terror; mas, o que não existe senão em imaginação deixa-me impassível.

- Se não acredita, então, andaria melhor em tornar-se o amado de Brenda e não o meu.

- Acredito em tudo o que Minna acredita. Os habitantes de Valhalla, de que a tenho ouvido falar tanta vez com o louco poeta Halcro, eram para mim seres verdadeiros; poderei ser crédulo até esse ponto; mas não me peça que os tema.

- Que os tema? Não é bem isso. Nunca um herói da minha raça intrépida recuou um passo, quando Thor ou Odin lhe apareceram armados de todos os seus terrores. Mas fazendo aqui alarde da sua bravura, pense que desafia um inimigo como ainda não encontrou.

- Desafiei-os, pelo menos, nas latitudes setentrionais - disse Cleveland, a sorrir.

- Viu algumas dessas maravilhas que estão para além do mundo visível? - indagou Minna, não sem uma sensação de terror.

- Algum tempo antes da morte de meu pai, obtive, a despeito de muito jovem então, o comando de uma corveta tripulada por trinta homens dos mais resolutos. Por muito tempo fizemos cruzeiros sem êxito, não apresando senão míseros barcos de pesca da tartaruga, cuja carga não valia a pena transferir de bordo. Tive muita dificuldade em impedir os meus camaradas de se vingarem da nossa sorte na tripulação dessas pequenas embarcações. Por fim, acossados pelo desespero, desembarcámos e atacámos uma cidade onde nos tinham dito que encontraríamos mulas carregadas de ouro pertencente ao governador espanhol. Conseguimos apoderar-nos da praça; mas, enquanto me esforçava por salvar os habitantes da fúria da minha gente, os arreeiros, as mulas e a sua carga preciosa escaparam-se para os bosques. Isto excedeu a medida do descontentamento. Os meus companheiros, que nunca tinham sido muito submissos, revoltaram-se abertamente; reuniram-se em assembleia, decretaram a minha destruição e, por ter muito pouca alegria e demasiada humanidade para a profissão que abraçara, condenaram-me a ser abandonado numa daquelas pequenas ilhas de denso matagal e arenosas que são apenas frequentadas por tartarugas e aves marinhas, e que se supõem habitadas umas pelos demónios que os antigos habitantes adoravam, outras pelos espíritos dos caciques que os Espanhóis mataram por meio de tortura para os obrigar a entregar-lhes os tesouros, outras, enfim, por vários espectros em que os marinheiros de todas as nações acreditam. O lugar do meu desterro, chamado Koffin'Key, cerca de duas léguas e meia a sudoeste das Bermudas, tinha tal reputação de ser infestado por entes sobrenaturais, que eu suponho que nem todos os tesouros do México chegariam para convencer o mais valente dos patifes que me conduziram, ali passar uma hora, mesmo em pleno dia. Depois de me deporem em terra, afastaram-se a remar com toda a força, sem se atreverem a volver um olhar para trás, deixando-me o cuidado de prover à minha subsistència como pudesse, numa ilha arenosa e estéril, cercada pelo vasto Atlântico e habitada, como eles supu nham, por espíritos malignos.

- E qual foi o resultado? - perguntou Minna.

- Prolonguei os dias da minha vida a expensas das aves marinhas, bastante néscias para me deixarem aproximar delas para as matar à cacetada; depois, por meio de ovos de tartaruga, quando aqueles pobres habitantes dos ares conheceram melhor as disposições malévolas da espécie humana e levantavam voo mal me viam avançar.

- E os espíritos de que falavam?

- Eu tinha os meus secretos receios. Em pleno dia e profunda treva, nada receava; mas, de manhã e à tarde; através das neblinas, vi espectros de muitas espécies durante a primeira semana de residência na ilha. Uns, pareciam-se com um espanhol envolto na sua capa, tendo na cabeça o seu grande sombrero, tão grande como um guarda-chuva; outros, com um marinheiro holandês com o seu grande boné e as suas calças; outros ainda, com um cacique indiano com sua coroa de penas e a sua longa lança de cana.

- Aproximou-se deles alguma vez? Nunca lhes falou?

- Aproximei-me sempre; mas tenho pena de enganar a sua expectativa, minha bela amiga; porque, avançando, para o fantasma, vi-o sempre transformar-se numa moita, num tronco de árvore, na ponta de um rochedo, ou em qualquer outro produto da Natureza, que de longe me iludia. Enfim, a experiência ensinou-me a não acreditar mais em semelhantes visões e continuei a viver solitário na ilha de Coffin'Key, sem ter mais alarmes do que se estivvesse na ponte de um barco de alto bordo com uma vintena de companheiros à minha volta.

- Diverte-se à minha custa, Cleveland, contando-me uma história que não conduz a coisa nenhuma. Mas, quantt tempo permaneceu nessa ilha?

- Arrastei ali, durante um mês, uma existência miserável. Por fim, fui salvo pela tripulação de um navio que ali fundeara para procurar tartarugas. Entretanto, aquele retiro não me foi de todo inútil. Foi lá, naquele solo estéril e arenoso, que eu encontrei a máscara de ferro que tem sido desde então a minha garantia contra a traição e o motim das tripulações. Foi lá que resolvi parecer não possuir nem mais sensibilidade nem mais cultura, não ser nem mais humano nem mais escrupuloso do que aqueles a quem o Destino me associou. Prometi então a mim próprio, visto não poder despojar-me da superioridade que me davam a inteligência e a educação recebida, fazer possível por disfarçá-las e não mostrar senão um exterior grosseiro, sem mescla de sentimentos ou de princípios civilizados. Numa palavra, vi que, para chegar ao comando, era preciso parecer-me, pelo menos no aspecto, com aqueles que me estariam sujeitos. A notícia da morte de meu pai, quando a recebi, ateando-me o desejo de vingança, mais me confirmou nesta minha resolução. A natureza e a justiça incitavam-me ambas a vingá-lo, visto que soçobrara por motivos idênticos aos do meu desterro. Em breve estava à frente de novo bando de aventureiros. Não procurei os que me tinham condenado a perecer numa ilha deserta, não pensei senão em apanhar os assassinos de meu pai. Consegui-o, e a minha vingança foi terrível. A partir de então pareci tão mudado nas minhas maneiras, nas minhas palavras e no meu procedimento, que aqueles que me tinham conhecido outrora estavam dispostos a atribuir a causa ao trato que tivera com os demónios de CoffinKey. Alguns eram mesmo suficientemente supersticiosos para crer que eu fizera pacto com eles.

- Tremo de ouvir o resto! - exclamou Minna - Tornou-se o monstro de coragem e de crueldade de que usa a máscara?

- Se escapei a esse destino, a si o devo, querida Minna. Foi você que operou o milagre. É certo que sempre procurei distinguir-me mais pelos actos do mais intrépido valor que pelos projectos de vingança ou de pilhagem; algumas vezes, salvava, por divertimento grosseiro, uma vida que devia ser sacrificada; e, pela crueldade excessiva das medidas que propunha, eu levava alguns que serviam debaixo das minhas ordens a interceder em favor dos prisioneiros, de maneira que a severidade aparente do meu carácter servia melhor a humanidade do que se me devotasse abertamente à sua causa.

Quedaram ambos em silêncio por instantes. Foi Cleveland quem o rompeu de novo.

- Não diz nada, miss Troil? Decaí no seu conceito pela franqueza com que desvendei o meu carácter. Não posso, contudo, dizer que as minhas inclinações naturais foram mais contrariadas do que modificadas pelas circunstâncias funestas que me conduziram à situação em que me encontro.

- Não sei - respondeu Minna, após um momento de reflexão - Mas, mostrar-se-ia o senhor sincero, se não soubesse que em breve eu poderia ver os seus camaradas, e que a sua conversação e as suas maneiras me diriam o que, sem esta razão, de boa vontade me ocultaria?

- É injusta, Minna, cruelmente injusta. Desde o momento em que soube que eu era um marinheiro de acaso, um aventureiro, um corsário, um PIRATA, se é preciso empregar a palavra, não devia esperar tudo o que eu lhe disse?

- É bem verdade. Eu devia prever isso, e nem sei como podia esperar outra coisa. Mas parecia-me que uma guerra comtra os Espanhóis cruéis e supersticiosos tinha qualquercoisa que justificava, que enobrecia a profissão à qual acabava de dar o verdadeiro nome, o seu nome temível. Eu pensava que os guerreiros independentes do Oceano ocidental, erguendo-se de certo modo para vingar tantas tribos saqueadas e massacradas, deviam ter aquela grandeza de alma que mostraram os filhos do Norte, quando, chegando nas suas longas galeras, vingaram em tantas costas as opressões de Roma degenerada. Eis o que eu pensava; era um belo sonho, e lamento acordar para me desenganar. No entanto, não o acuso do erro da minha imaginação. Adeus, temos que nos separar agora.

- Diga-me ao menos que não me olha com horror por eu lhe ter dito a verdade.

- Preciso de tempo para reflectir e para bem pensar tudo o que me disse, antes de poder explicar a mim própria quais são os meus sentimentos. Contudo, o que já lhe posso dizer é que aquele que se entrega a uma pilhagem infame à força de crueldade e derramando sangue, e que é obrigado a dissimular os remorsos que experimenta sob a afectação de um banditismo mais profundo, não é, não pode ser o amado que Minna Troil esperava encontrar em Cleveland; e se ela o ama ainda, não é senão por causa do seu arrependimento, e não por causa das suas façanhas.

Assim falando, retirou a mão que ele tentava reter na sua e escapou-se, fazendo-lhe um sinal que o proibia de a seguir.

- Ei-la que parte - disse Cleveland, vendo-a afastar-se - Por mais visionária e por mais bizarra que ela seja, não estava preparada para isto. O nome da arriscada profissão que exerço não a fez tremer e, contudo, ela não esperava o que é a sua natural consequência... Contra o que possam fazer todos os demónios, não abandonarei a pista deste anjo. Irei às Órcades; tenho que lá ir antes que Magnus empreenda a viagem. Apesar de muito limitado o seu espírito poderia alarmar-se ao ver o encontro com os meus companheiros. Aliás, graças ao Céu, neste país selvagem não se conhece a natureza do nosso comércio senão por ouvir dizer. Ah, se a sorte me quisesse favorecer junto desta bela entusiasta, não perseguiria mais a sua roda no seio dos mares, - instalar-me-ia no meio destes rochedos, e achar-me-ia aqui tão feliz como sob os ramos das palmeiras e das bananeiras.

Repleta a imaginação destes pensamentos que seus lábios não exprimiam senão por murmúrios indistintos, o pirata Cleveland regressou a Burgh-Westra.

 

                   AS FERIDAS MAIS CRUÉIS

Não nos deteremos em todos os divertimentos celebrados nesse dia, pois nada ofereciam que pudesse interessar particularmente os leitores. A mesa gemeu, como de costume, sob o peso das iguarias; os convivas fizeram as honras ao repasto com o seu apetite habitual; os homens beberam a largos haustos; as mulheres riram a mais não poder; Claud Halcro recitou versos, fez espírito e teceu, segundo o seu costume, inúmeros elogios a Dryden; o udaller ergueu brindes e entoou canções báquicas, exigindo que se repetissem em coro; enfim, a noite terminou, como de costume, no vasto armazém a que Magnus gostava de chamar sala de baile.

Foi aí que Cleveland, aproximando-se do udaller, sentado entre as duas filhas, lhe anunciou a sua intenção de partir para Kirkwall num pequeno brigue que Bryce Snailsfoot, que vendera a sua mercadoria com uma rapidez sem exemplo, fretara para ir buscar mais.

Magnus, escutando esta decisão súbita com surpresa, e mesmo com algum descontentamento, perguntou a Cleveland num tom um pouco áspero se preferia a companhia de Bryce Snailsfoot à sua. Cleveland respondeu, com a sua rude franqueza de marinheiro, que o vento e a maré não esperavam por ninguém e que tinha razões especiais para ir a Kirkwall mais cedo que o udaller desejava; mas esperava vê-lo, bem como às filhas, na grande feira, e possivelmente acompanhá-los-ia no regresso.

Enquanto ele falava, Brenda teve os olhos sempre fixos na irmã. Notou que as faces de Minna empalideciam mais e que parecia cerrar os lábios e franzir ligeiramente os sobrecílios, como se quisesse abafar uma forte comoção. No entanto, Minna conservou-se silenciosa, e quando Cleveland se aproximou dela para a cumprimentar, como era seu costume, recebeu as suas despedidas sem ter coragem de lhe responder.

Aproximava-se o momento em que Brenda também teria que sofrer a sua provação. Mordaunt Mertoun, outrora o favorito de seu pai, apresentava as suas despedidas a Magnus, que as recebeu com a maior frieza e sem lhe conceder sequer um olhar de amizade. Havia mesmo um tom sarcástico na maneira como lhe desejou boa viagem e lhe recomendou, se acaso encontrasse alguma rapariga bonita pelo caminho, que não a supusesse apaixonada só por ela se rir com ele alguns instantes. Mordaunt corou ao ouvir este arrazoado, que lhe pareceu um insulto, embora não o compreendesse inteiramente; mas, pensando em Brenda, guardou o seu ressentimento. Despediu-se das duas irmãs.

Minna, cujo coração se inclinara consideràvelmente em seu favor, recebeu-o com certo interesse; mas o que Brenda lhe dispensou era tão evidente pela maneira como o acolheu e pelas lágrimas que lhe encheram os olhos, que o próprio udaller o notou, exclamando com um pouco de bom humor:

- É muito natural, minha filha! Trata-se de um conhecimento antigo. Mas lembra-te de que esse conhecimento acabou. É essa a minha vontade.

Mordaunt, que saía a passo lento, ouviu parte desta reprimenda e, sentindo-se ferido, voltou-se para pedir uma explicação. Mas fraquejou na sua resolução ao ver que Brenda se vira obrigada a recorrer ao seu lenço para ocultar a comoção; a ideia de que a sua partida era a causa da sua aflição apagou-lhe da memória as palavras desagradáveis que Magnus acabava de pronunciar. Retirou-se. Os outros convivas seguiram o exemplo, e a maior parte destes fez as suas despedidas à noite, como Mordaunt e Cleveland, a fim de se poderem meter a caminho no dia seguinte muito cedo.

Essa noite, cada uma das irmãs tinha os seus desgostos. Choraram nos braços uma da outra; e, sem palavras, sentiram que se amavam mais do que nunca, porque sabiam que a dor que fazia correr as suas lágrimas tinha a mesma origem em ambas.

É provável que, a despeito do pranto abundante de Brenda, o desgosto de Minna fosse mais profundo, porque, muito tempo depois da mais jovem ter adormecido, como uma criança, com a cabeça apoiada no seio de Minna, esta ainda velava, e as lágrimas corriam-lhe lentamente pelas faces. Quando se entregava aos seus dolorosos pensamentos, surpreenderam-na sons harmoniosos debaixo da sua janela.

Supôs primeiro que fosse um capricho de Halcro, cujo espírito extravagante se permitia algumas vezes semelhantes serenatas; mas o instrumento que ela ouvia não era o gue do velho trovador; era uma guitarra e ninguém a tocava na ilha senão Cleveland, que, tendo vivido por vezes com os espanhóis da América meridional, a sabia dedilhar com verdadeiro talento. Talvez fosse nesse mesmo clima que aprendera a canção que cantava sob a janela de uma filha de Tule.

A voz de Cleveland era bela, sonora e extensa. Ajustava-se admiravelmente à ária espanhola que cantava. Minna não teria resistido ao seu apelo, se pudesse levantar-se sem despertar a irmã. Mas isso era impossível, porque Brenda, que, como dissemos, vertera lágrimas amargas antes de ceder ao sono, passava o braço em volta dela, na atitude de uma criança que acaba de adormecer chorando no seio da ama.

Minna não podia, pois, desembaraçar-se sem acordar Sua irmã. Tinha que renunciar ao desejo de vestir um roupão à pressa e abrir a janela para falar a Cleveland, ali trazido talvez pela vontade de ter com ela uma última entrevista.

Minna foi obrigada a permanecer imóvel e silenciosa. Entretanto, o seu amado, como se tentasse enternecê-la por meio de uma música de outro género, começou a cantar estes versos:

 

Adeus! A voz que acabas de escutar,

Pela última vez suspira um canto de amor.

O grito de guerra, agora, vai soar.

Depende de uma palavra o sinal do combate.

Adeus esperança vã! Adeus, felicidade!

Nada há que temer, nem que desejar.

Adeus, doces laços que julguei atar;

Tudo perco, menos a constância e a saudade.

 

Calou-se, e aquela a quem dirigia os seus cantos tentou ainda levantar-se sem despertar a irmã, mas sempre em vão. Parecia-lhe impossível. Restava-lhe apenas pensar dolorosamente que Cleveland se retiraria desolado por não ter obtido dela uma só palavra. Se ela conseguisse ao menos um instante para dizer-lhe adeus; para recomendar-lhe que não provocasse novos conflitos com Mordaunt; para lhe suplicar que abandonasse camaradas como aqueles de que traçara o retrato!

Talvez tais súplicas, tais avisos, no momento da sua partida, pudessem produzir nele alguma impressão e mesmo exercer influência no resto da sua vida.

Atormentada por estes pensamentos, Minna ia arriscar um derradeiro esforço, quando ouviu debaixo da janela vozes em que julgou reconhecer Cleveland e Mordaunt. Falavam com vivacidade, mas como se tivessem medo de ser ouvidos. O seu alarme juntou-se ao desejo que ela já tinha de levantar-se, e, não cuidando de mais nada, fez o que já tanta vez tentara inutilmente, e afastou o braço da irmã, sem lhe perturbar o sono. Brenda pronunciou algumas palavras sem nexo, ou antes, fez ouvir uma espécie de murmúrio ininteligível, mas não acordou.

Entretanto, Minna envolveu-se à pressa num roupão com intenção de abrir logo a janela, quando percebeu que a conversa se transformara num conflito: das palavras passara-se à agressão, e tudo terminou num profundo gemido.

Aterrada por este último sintoma que anunciava uma desgraça, Minna correu para a janela e esforçou-se por abri-la, porque as pessoas que ela desejava ver estavam tão perto da parede, que só abrindo a vidraça e debruçando a cabeça as poderia distinguir. Ora, o fecho estava enferrujado, e a pressa com que ela o queria abrir tornava, como geralmente sucede, a operação ainda mais difícil. Quando o conseguiu, por fim, e debruçou meio corpo fora da janela, aqueles que lhe tinham causado tantos alarmes já não estavam visíveis. Contudo, o luar permitiu-lhe ver uma sombra, e o corpo que a projectava devia nesse momento ter dado volta à esquina. Essa sombra, que avançava lentamente, parecia a de um homem que levasse a de um outro às costas, circunstância que aumentou a angústia de Minna. Não hesitou em descer pela janela, felizmente muito baixa, para se lançar em perseguição daqueles que lhe causavam tanto terror. Mas, quando chegou à esquina do edifício, de onde a sombra lhe pareceu projectar-se, nada descobriu que pudesse indicar o caminho daqueles que procurava. Independentemente das múltiplas esquinas desta casa antiga, além dos celeiros, das cavalariças, dos estábulos, das estufas e das construções de toda a espécie, distribuídos por aqui e por acolá, sem plano nem ordem, opunham obstáculos irremovíveis às suas pesquisas o jardim, ladeado até a baía por uma cadeia de pequenos rochedos, continuação das rochas mais elevadas da costa. Muitos destes rochedos estavam separados por minúsculos desfiladeiros, com grande número de cavernas e aberturas; e o corpo a quem pertencia aquela sombra pudera refugiar-se aí com o seu fardo funesto, pois tudo levava a filha de Magnus a crer que lhe poderia dar este epíteto. Um momento de reflexão persuadiu Minna de que cometeria uma loucura se continuasse a perseguição. O seu segundo pensamento foi o de dar alarme na casa; mas, que versão seria obrigada a fazer e quem iria ela acusar? No entanto, talvez ainda fosse possível socorrer o ferido, se ele estivesse apenas ferido e não mortalmente. Esta reflexão ddecidiu-a, e já ia elevar a voz quando ouviu a de Claud Halcro, que parecia regressar da baía e que cantava um trecho de uma canção norse.

Os versos que cantava pareceram-lhe ter uma estranha relação com o que acabara de presenciar.

- Não direi nada do que vi - disse ela, falando consigo a meia voz.

- Quem está a falar? - exclamou Claud Halcro, num tom que denunciava um certo alarme, pois, nas suas viagens pelos países estrangeiros não conseguira desembaraçar-se inteiramente das superstições da sua terra natal.

No estado a que o medo e o horror a tinham reduzido Minna não se sentiu logo capaz de responder, e os olhos de Halcro, descobrindo o vulto de uma mulher vestida de branco, que ele distinguia de uma maneira vaga na sombra da casa que a envolvia e a transformava numa névoa sombria, empregou, para esconjurar o perigo, antigos versos norses numa combinação de sons que pareciam pertencer aos habitantes do outro mundo e de que não pode dar senão uma pálida ideia a versão seguinte:

 

Por São Magnus, mártir por traição,

Por São Ronan, com rima e com razão,

Retira-te, a minha voz te esconjura.

Vai-te já para longe, para o teu caixão

Até que do céu desça o juízo final

E decrete a tua pena ou o teu perdão.

Parte em nome da Cruz! Vai-te embora.

 

- Sou eu, Halcro - respondeu Minna, num tom tão baixo, numa voz tão fraca, que o poeta podia acreditar que era o fantasma que ele acabava de esconjurar quem lhe respondia

- Minna! - exclamou Halcro, cujo alarme se transformou em surpresa - Minna, aqui, com este débil luar, que está quase a desaparecer?! Mas é bem ela! Quem o havia de esperar, minha encantadora Noite, encontrá-la assim errante no seu tenebroso reino? Mas suponho que os viu tão bem como eu? Pode dizer-se que não lhe falta coragem, visto que também os seguiu.

- Quem? Segui quem? - indagou Minna, esperando obter algum esclarecimento sobre o que lhe causava tanta inquietação e receio.

- Os círios fúnebres que dançavam na baía - respondeu Halcro - Garanto-lhe que não pressagiam nada de bom. Fui até à baía para os ver, mas tinham desaparecido. Julgo, no entanto, ter visto um barco fazer-se ao largo, decerto algum pescador que ia para o mar-alto. Gostaria de receber boas notícias acerca dos que partiram. Mas, Norna deixou-nos tão bruscamente, e depois estes círios fúnebres... Ao menos, que Deus vele por nós! Eu sou um velho, e não posso fazer senão votos por que não suceda alguma desgraça. Mas, minha encantadora Minna, lágrimas nos seus olhos? E agora, que a lua a ilumina, vejo que está descalça! Valha-nos São Magnus! Acaso não haverá nas nossas ilhas meias de lã bastante fina e bastante macia para esses lindos pés que parecem tão brancos como o luar? Ah, bem! Cala-se, a minha tagarelice fê-la zangar, provàvelmente?

- Não estou zangada - respondeu Minna, falando com esforço - Mas não ouviu nada? Não viu nada? Eles devem ter passado por si.

- Eles! - repetiu Halcro - Que entende por eles? Refere-se aos círios funerários? Não, não passaram por nim; mas acredito que tivessem passado junto de si; que exercem em si a sua influência funesta, porque está pálida como um espectro. Vamos, vamos, Minna - ajuntou ele, abrindo uma porta lateral da casa - estes passeios ao luar são mais próprios de um velho poeta que de uma jovem tão ligeiramente vestida como você está! Minha filha, tenha cuidado de não se expor ao relento da noite nestas ilhas, porque ele traz nas suas asas mais neve e mais chuva do que perfumes. Vamos, menina, entre; porque, como dizia o glorioso Dryden, ou como não dizia, pois não consigo recordar-me daqueles seus versos que...

Minna interrompeu-o para lhe fazer vivamente uma Pergunta, embora numa voz apenas articulada, apoiando ao mesmo tempo a mão no braço do poeta, num movimento convulsivo, como se tivesse medo de cair.

Viu alguém no barco que acaba de sair para o largo?

- Que pergunta! Como havia eu de poder ver, quando a luz e a distância só me permitiam distinguir que era um barco e não uma baleia?

- Mas devia haver alguém nesse barco! - ajuntou Minna, mal se apercebendo do que dizia.

- Parece-me que sim, porque é raro um barco avançar contra o vento por sua alta recreação. Vamos, tudo isso não passa de uma loucura; portanto, como diz a Rainha numa antiga peça que o engenhoso William Davenaut repôs em cena: «Para a cama! Para a cama! Para a cama!

Separaram-se, e Minna, coração despedaçado pela inquietação, arrastou-se com dificuldade, depois de ter percorrido vários corredores, até ao seu quarto, onde se deitou com precaução junto de sua irmã, que dormia ainda.

Que ouvira Cleveland, tinha ela a certeza; os versos que ele cantara não lhe deixavam a menor dúvida a esse respeito. Se não estava tão segura de ter reconhecido a voz do jovem Mertoun discutindo acaloradamente com o seu amado, a impressão que recebera aproximava-se muito de uma certeza. O gemido terrível com que a luta parecia ter terminado, a sombra que parecia indicar-lhe que o -vencedor se retirava carregado com o corpo da vítima, tudo tendia a demonstrar que um acontecimento fatal pusera termo ao combate. E qual dos infelizes teria sucumbido? Qual teria logrado uma fatal e sangrenta vitória? Contudo, no meio de todas as suas incertezas, atendendo ao carácter, aos costumes e aos modos de Cleveland, parecia-lhe, embora não ousasse confessá-lo, que fora ele quem saíra vitorioso daquele conflito. Esta reflexão foi para ela motivo de consolação involuntária, do que ela amargamente se censurou, ao pensar que o crime que Cleveland acabava de cometer destruía para sempre em Brenda toda a esperança de felicidade.

- Irmã inocente! Desgraçada irmã! - pensou ela - Tu vales cem vezes mais do que eu, porque as tuas virtudes não te inspiram nem presunção nem orgulho. Como é possível que eu tenha por um instante deixado de sentir a dor de uma ferida que não pode fechar-se no meu coração sem se abrir no teu!

Quando estes pensamentos cruéis agitavam o seu rito, ela não pôde resistir a estreitar ternamente a irmã contra o seio, e Brenda despertou soltando um profundo suspiro.

- És tu, querida irmã? - exclamou ela - Estava a sonhar que me encontrava num desses tristes monumentos de que Halcro nos falou, e nos quais está esculpida a efígie do ente que eles cobrem. Parecia-me que uma dessas estátuas de mármore estava deitada junto de mim, e que animando-se de repente me apertava contra o seio gelado. E é o teu seio, Minna! De onde vem este frio tão grande? Com certeza que estás doente, minha querida irmã; deixa-me levantar, para chamar Euphane Fea. Que tens tu? Norna voltou cá?

- Não chames ninguém - disse Minna, retendo-a - Os meus sofrimentos não são de natureza a alguém poder aliviá-los. Tenho medo de que tenha sucedido algum mal naior do que todos os que Norna poderia predizer. Mas Deus é todo-poderoso, minha querida Brenda; dirijamo-nos a Ele; supliquemos-lhe que mude em bens todos os nossos males, porque só ele tem poder para isso.

Fizeram juntas uma prece pedindo ao Céu a sua protecção e a força de que necessitavam, e, ao terminarem, tentaram adormecer.

- Que Deus seja connosco! - disseram elas, dedicando assim ao Céu as suas últimas palavras, visto que a fragilidade humana não lhes permitia ter mão nos seus últimos pensamentos. Brenda foi a primeira a adormecer, e Minna, abafando um pouco os seus negros pressentimentos, foi bastante feliz por poder fazer o mesmo.

O temporal que Halcro receava começou ao romper do dia: era uma borrasca acompanhada de chuva e vento, como as que muitas vezes se sofrem nesta latitude, mesmo durante a mais bela estação do ano. O silvo do vento e o ruído da chuva caindo com violência nos telhados dos pescadores, despertaram as pobres mulheres, que, chamando os filhos, os aconselharam a erguer ao Céu as mãos inocentes e todos dirigiram a Deus fervorosas preces a suplicar protecção para os maridos e os pais, então à mercê dos elementos em fúria. Em Burgh-Westra, o vento assobiava em todas as chaminés e abalava todas as janelas. No entanto, as duas filhas de Magnus continuavam a dormir tão tranquilamente como se a mão de Chantrey as tivesse feito de mármore de Carrara. O furacão amainou, por fim, e os raios do Sol, dissipando as nuvens que o vento impelia para mar-alto, brilhavam através da vidraça, quando Minna acordou primeiro do sono profundo que o esgotamentr das suas forças lhe proporcionara. Apoiando-se num braço começou a recordar os acontecimentos da véspera, que depois do repouso que acabava de fazer, lhe pareciam visões enganosas da noite.

- Tenho que me encontrar com Claud Halcro imediatamente - disse ela, saltando do leito.

Mas, mal dava uns passos no quarto, sua irmã, acordando, exclamou:

- Santo Deus, Minna, que te aconteceu? Olha para os teus pés!

Minna baixou o olhar e viu, com uma surpresa que logo se transformou em consternação, que os seus pés estavam cheios de manchas que pareciam de sangue recente.

Sem pensar em responder a Brenda, correu à janela e lançou um olhar de desespero à relva que crescia em baixo. Mas as torrentes de chuva que as nuvens e sobretudo as goteiras do telhado tinham lançado fizeram desaparecer todos os vestígios do crime, se crime existiu. A erva brilhava de frescura e cada haste, carregada de uma gota de orvalho, parecia um diamante exposto aos raios da manhã.

Enquanto Minna, num ar grave, fixava este espectáculo com olhos assustados, Brenda chegava junto dela, e insistia vivamente por que lhe dissesse onde, quando e como se tinha ferido.

- Foi um pedaço de vidro que me cortou o sapato - respondeu Minna, procurando uma desculpa que satisfizesse sua irmã - Nem me apercebi no momento.

- E no entanto, vê como sangraste - replicou Brenda - Minha querida Minna - acrescentou ela, aproximando-se com uma toalha molhada - deixa-me limpar o sangue; a ferida talvez tenha mais importância do que julgas.

Preparava-se para juntar a acção às palavras; Mas Minna, não encontrando outro meio de impedir que se descobrisse que o sangue nunca correra das suas veias, repeliu-a com ar de impaciência e descontentamento. A pobre Brenda, não sabendo em que poderia ter ofendido a irmã, recuou alguns passos ao ver a oferta dos seus serviços tão asperamente rejeitada.

- Minha irmã - disse ela - eu supunha que nos tínhamos reconciliado ontem à noite e que, sucedesse o que sucedesse, amar-nos-íamos sempre...

- Pode suceder muita coisa entre a noite e a manhã - respondeu Minna. E estas palavras eram mais fruto da situação do que a verdadeira expressão do seu pensamento.

- Sim, realmente - replicou Brenda - pode suceder muita coisa numa noite tão tempestuosa. Olha, o vento derrubou o muro que cercava a horta de Euphane. Mas nem o vento, nem a chuva, nem nada no Mundo pode arrefecer a nossa afeição, Minna.

- Mas - disse Minna - podem sobrevir acontecimentos que a transformem em...

O resto da frase foi murmurado num tom tão baixo e tão pouco perceptível, que era impossível ouvi-lo; e, ao mesmo tempo, ela limpava as manchas de sangue que lhe cobriam os pés e o calcanhar esquerdo. Brenda, sempre de pé, a olhá-la a certa distância, tentou em vão tomar um tom que pudesse restabelecer a confiança e a amizade.

- Tinhas razão, Minna, em não querer que eu te ajudasse a pensar uma ligeira arranhadura - disse ela - Daqui, de onde estou, mal se vê.

- As feridas mais cruéis - respondeu Minna - são as que não aparecem no exterior. Tens a certeza de que a vês?

- Decerto - disse Brenda, julgando que esta resposta satisfaria sua irmã - Vejo um pequena arranhão. Ah! Agora, como puxaste a meia, já não posso ver mais nada.

- A verdade é que não vês nada - replicou Minna, num ar desvairado - Mas, paciência, com o tempo tudo se verá, tudo se saberá, sim, tudo.

Enquanto assim falava, acabava de vestir-se à pressa e em seguida desceu com sua irmã à sala, onde os hóspedes já estavam reunidos para almoçar. Ocupou o seu lugar habitual à mesa, mas tinha o rosto tão pálido e um aspecto tão desorientado, as suas falas eram tão incoerentes e tão estranhas as suas maneiras, que atraiu as atenções sobre ela e causou a seu pai vivas inquietações. Cada um fez as suas conjecturas sobre o estado em que a via, mais consequência moral do que sofrimento físico.

Depois, todos os hóspedes de Magnus foram partindo sucessivamente, sem que ele lhes prestasse grande atenção, porque estava de tal maneira preocupado com Minna, que, contra o seu costume, quase nem pensou em cumprimentá-los. Foi assim, no meio da inquietação e do desgosto, que terminou esse ano a celebrada festa de São João Baptista em Burgh-Westra; o que prova a verdade do que dizia o imperador da Etiópia: um homem pode, em boa razão contar os dias que destina à felicidade.

 

                     O ESTRATAGEMA DA VELHA SERVA

Passara, havia muitos dias, o prazo em que Mordaunt prometera regressar a casa de seu pai. Esta demora, noutros tempos, não teria causado a menor surpresa nem provocado qualquer inquietação, porque a velha Swertha, que se encarregava de pensar e de fazer conjecturas pelos outros habitantes da casa, teria concluído que ele ficara em Burgh-Westra mais tempo que os outros hóspedes, para tomar parte em algum divertimento. Mas ela sabia que nos últimos tempos Mordaunt perdera as boas-graças de Magnus Troil e que, aliás, ele tencionava demorar-se muito pouco em casa do udaller, devido ao mau estado de saúde de seu pai, por quem tinha grande cuidado, a despeito do pouco incitamento que dele recebia o seu amor filial. Esta dupla circunstância fez nascer inquietações no espírito de Swertha, que espiava os olhares do seu amo.

Mas Mertoun, mergulhado numa sombria indiferença não oferecia à observação senão uma face impenetrável, e poderia comparar-se à superfície de um lago numa noite sem estrelas. Os seus estudos, as suas refeições solitárias, os seus passeios aos lugares desertos e afastados sucediam-se invariavelmente, e a ausência de Mordaunt não parecia ocupar um único dos seus pensamentos.

Por fim, tantos boatos, partindo de vários lados, chegaram aos ouvidos de Swertha, que se lhe tornou impossível ocultar a agitação que a atormentava, e, correndo o risco de provocar o furor do seu amo, e talvez mesmo o de perder o lugar que ocupava naquela casa, resolveu forçá-lo a prestar atenção às suas inquietações. Contudo, prometeu a si própria conduzir-se com a prudência e a circunspecção que o caso requeria.

A fim de realizar os seus desígnios, ao pôr a mesa para o jantar simples e solitário do senhor Mertoun, ela colocou dois talheres, e fez todos os preparativos necessários como se esperasse outro conviva.

Este estratagema deu resultado, porque Mertoun, vendo mais um talher na mesa, perguntou a Swertha se Murdaunt já regressara de Burgh-Westra. Era precisamente esta pergunta que Swertha desejava, respondeu num tom de inquietação e de tristeza meio afectado, meio real:

- Não, não! Nada que se pareça com isso! Seria uma óptima novidade essa do senhor Mordaunt ter regressado são e salvo, pobre mancebo!

- Se ainda não voltou, para que lhe puseste talher, velha louca? - exclamou seu amo, num tom que bem chegaria para lhe transtornar os planos.

Mas ela replicou ousadamente que era bem preciso que alguém pensasse no senhor Mordaunt; que tudo o que ela podia fazer era ter uma cadeira e uma toalha prontas para quando ele chegasse; mas que ela supunha que o pobre moço estaria bastante longe e que, se fosse a dizer tudo o que pensava, temia que ele nunca mais voltasse.

- Temias que não voltasse! - exclamou Mertoun, com os olhos incendidos, como nos momentos em que se deixava empolgar pelos acessos da sua cólera irresistível - Medo! É a mim que vens falar dos teus medos, dos teus estúpidos receios, a mim que sei que tudo o que não é loucura, estupidez, egoísmo e vaidade no teu sexo, e fumo, receios pueris e inquietações frívolas! E que me importam os teus receios, velha doida?

O que não se aprecia devidamente nas mulheres é que, quando elas vêem violar as leis da afeição natural, todo o sexo corre às armas; que basta o simples boato difundido numa rua de que um pai maltratou um filho ou um filho insultou seu pai, para todas as mulheres que o ouviram tomarem partido pela parte sofredora. Swertha, apesar de avarenta e interesseira, não era alheia a esse generoso sentimento que tanto honra o seu sexo.

- Evidentemente - disse ela - que não devia ser eu a alimentar receios pelo meu amo senhor Mordaunt, embora seja bem verdade que é ele a jóia do meu coração mas outro pai que não fosse Vossa Senhoria já teria feito pesquisas para encontrar o pobre rapaz, visto que ele partiu há oito dias de Burgh-Westra e ninguém é capaz de dizer o que lhe sucedeu. Não há criança na aldeia que não chore por ele, porque era quem fazia os seus barquinhos a canivete; e se lhe aconteceu alguma desgraça, não ficarão dois olhos enxutos em toda a paróquia, a não ser que sejam os de Vossa Senhoria.

Mertoun foi surpreendido pela insolente volubilidade da sua governanta, que se insurgia contra ele, e o seu espanto até o reduziu ao silêncio. Mas, a este último sarcasmo, ordenou-lhe que se calasse, num tom irritado, e acompanhou esta ordem com um dos olhares mais terríveis das suas pupilas negras. Mas Swertha, que, como ela disse depois ao ranzelman, se sentiu escudada por uma força sobrenatural durante toda esta cena, e, não se deixando intimidar pela voz exaltada nem pelo olhar furioso do patrão, continuou a falar-lhe no mesmo tom:

- Vossa Senhoria fez tanto barulho só porque uns pobres de Cristo apanharam na costa alguns tonéis e caixas que não serviam a ninguém, e agora que o mais garboso rapaz da região desapareceu, que se dissipou, pode dizer-se, o senhor nem sequer pergunta o que lhe teria acontecido.

- E que queres tu que lhe tenha acontecido, velha louca? É bem verdade que nas loucuras em que ele passa o tempo nada de bom lhe pode suceder.

Falando assim, o tom de Mertoun denunciava mais insensatez do que cólera, e Swertha resolveu não o deixar recompor-se.

- É bem verdade que sou uma velha louca, concordo; mas se, por desgraça, o senhor Mordaunt estiver no fundo do roost, pois mais de um barco naufragou durante o temporal de há dias; ou se ele se afogou num lago, se lhe escorregou um pé em algum rochedo, quem será então o velho louco? Que Deus proteja o pobre pequeno que não tem mãe! - ajuntou ela, num tom patético - Se o senhor Mordaunt tivesse mãe, não teria esperado tanto tempo para o procurar por toda a parte!

Este último remoque produziu em Mertoun um efeito terrível. Os seus lábios tremeram, as suas faces empalideceram, e ordenou a Swertha que entrasse no seu gabinete, onde ela raramente tinha licença de pôr os pés, e que lhe fosse buscar uma garrafa cujo lugar lhe indicou.

- Oh! Oh! - pensou ela, apressando-se a executar a ordem - Parece que o meu amo sabe, em caso de necessidade, compensar-se de toda a água que engole.

Encontrou no gabinete uma pequena caixa que continha algumas garrafas, cobertas de poeira e teias de aranha. A muito custo, conseguiu desrolhar uma com o auxílio de um garfo, pois não existia um único saca-rolhas em Jarlshof; depois de se certificar, pelo cheiro e pelo gosto, de que não continha água das Barbadas, levou-a para a sala de jantar, onde seu amo lutava contra uma fraqueza que não podia vencer. Verteu uma dose moderada no primeiro copo que encontrou, julgando prudentemente que essa pequena porção bastaria para produzir grande efeito num homem tão pouco habituado ao uso de bebidas espirituosas. Mas Mertoun, num ar impaciente, fez-lhe sinal de que poderia enchê-lo, o que ela executou, ficando muito surpreendida de o ver esvaziar tudo de um trago.

«Que todos os santos do Paraíso nos acudam! - pensou Swertha - Vai ficar mais bêbado do que louco; não poderá escutar ninguém.

Entretanto, as faces de Mertoun retomaram as suas cores, pareceu respirar melhor e não mostrou nenhum sintoma de embriaguez. Pelo contrário, nunca Swertha o ouvira falar de uma maneira tão razoável desde que estava ao seu serviço.

- Swertha - disse ele - hoje tens razão, eu é que não a tenho. Corre imediatamente a casa do ranzelman e dize-lhe que venha falar-me sem perda de um instante e que informe do número de barcos e de homens que me pode obter. Quero empregá-los todos nas pesquisas, e serão amplamente recompensados.

A governanta correu ao lugarejo com todo o resto de velocidade que doze lustros lhe deixaram. Ela via, aliás com prazer, que o sentimento a que se abandonara ia encontrar a sua recompensa; mas não queria deixar de ter também o seu lucro. Durante o caminho, ainda antes de que a pudessem ouvir, foi chamando em alta grita Neil Ronaldson, Sweyn Erickson e outros amigos a quem devia interessar na sua missão.

Swertha não tardou muito a desincumbir-se da sua missão e a regular com os remadores do lugar a parte que lhe caberia nos lucros. Regressou logo a Jarlshof, acompanhada de Neil Ronaldson, e não se esqueceu de lhe dar todas as instruções que julgou necessárias, tendo em vista o carácter do seu amo.

- Sobretudo, nunca o faça esperar por uma resposta - recomendou ela - E fale alto e com clareza, como se se tratasse de chamar um barco, porque ele não gosta de dizer duas vezes a mesma coisa. Se ele o interrogar sobre as distâncias, pode dar-lhe as milhas por léguas, porque ele não conhece nada deste país; se ele lhe falar de dinheiro, não se perde nada em pedir-lhe dólares em vez de xelins, visto que ele faz tanto caso disso como de pedras.

Dando assim a sua lição a Neil Ronaldson, introduziu-o na presença do amo. Mas o ranzelman sentiu-se confuso ao perceber que não podia seguir o sistema que acabava de se combinar. Quando tentou, exagerando as distâncias e os perigos, fazer subir o aluguer dos barcos e o salário dos homens, pois deviam fazer-se pesquisas no mar e em terra, foi interrompido cerce por Mertoun, que lhe demonstrou conhecer, tão perfeitamente quanto possível, não só todo o interior do país e as distâncias de um lugar a outro, como também as marés, as correntes e tudo o que pudesse relacionar-se com a navegação naqueles mares, apesar de até então ter parecido completamente alheio a estes pormenores. Ronaldson tremeu, pois, quando se abordou a questão do salário a pagar àqueles que se ocupassem daquelas pesquisas, porque era bastante verosímil que Mertoun não estivesse menos informado deste assunto que dos outros, e que soubesse muito bem o que convinha pagar naquelas circunstâncias. Como, no entanto, ele hesitasse ainda entre o receio de pedir demais e o de não exigir o bastante, Mertoun fechou-lhe a boca e pôs fim ao seu embaraço, prometendo-lhe uma recompensa superior ao que ele ousaria pedir, e mesmo uma gratificação extra se lhe trouxessem a feliz notícia de que seu filho estava em segurança.

Quando este ponto importante ficou arrumado, Neil Ronaldson, como homem consciencioso, começou a recapitular com cuidado os diversos locais onde se podia fazer pesquisas sobre o jovem Mordaunt, tanto na ilha Main Land como nas que lhe eram vizinhas, e prometeu que não se esqueceria um único local.

- Mas, apesar de tudo - disse ele - se Vossa Senhoria me permite falar, há uma pessoa aqui perto que, se ousarem interrogá-la e ela quiser responder, poderia dizer sobre o senhor Mordaunt mais do que qualquer outra... Sabe a quem me refiro, Swertha, aquela que estava esta manhã na baía - concluiu ele, lançando um olhar misterioso à governanta, que respondeu meneando a cabeça num ar significativo.

- Que quer dizer com isso? - indagou Mertoun - Explique-me breve e claramente de quem fala?

- O ranzelman fala de Norna de Fitful-head - disse Swertha - pois ela foi esta manhã para a igreja de São Ringan tratar de algum assunto que só a ela interessa.

- E que pode ela saber de meu filho? Segundo ouvi dizer, é uma louca, uma mulher que vive de imposturas, que corre o país...

- Se ela corre o país - atalhou Swertha - não é para viver à custa dos outros, porque, além do que ela própria possui, o fowd não consentiria que lhe faltasse coisa alguma.

- Mas que relação tem tudo isso com o meu filho?

- Não sei - respondeu Swertha - Mas ela parecia estimar muito o senhor Mordaunt, desde que o viu pela primeira vez, e sempre lhe faz de quando em quando algum presente, isto sem falar na bela cadeia de ouro que ele traz ao pescoço. Há quem diga que foi fabricada por fadas. Eu não conheço o valor do ouro, mas Bryce Snailsfoot afiança que ela vale cem libras esterlinas de Inglaterra; não são nenhumas cascas de nozes...

- Ronaldson! - exclamou Mertoun - Vá ou mande alguém chamar essa mulher, se acredita ser possível que ela saiba alguma coisa sobre o meu filho.

- Ela sabe tudo o que acontece nestas ilhas - respondeu o ranzelman - antes de que alguém seja informado, e é a verdade de Deus. Mas ir procurá-la à igreja ou ao cemitério ninguém o fará, nem por ouro nem por prata; o que lhe digo ainda é a verdade de Deus.

- Poltrão supersticioso! - exclamou Mertoun - Swertha, dá-me a minha capa. Essa mulher esteve em Burgh-Westra; é parenta da família Troil; pode saber alguma coisa sobre o motivo da ausência de Mordaunt. Vou eu próprio procurá-la. Está na igreja da Cruz, não foi o que disseram?

- Não é na igreja da Cruz, é na velha igreja de Ringan - respondeu Swertha - Ainda é um bom bocado de caminho, e o local não é dos mais convidativos...

Mertoun nem lhe respondeu. Envolvendo-se na capa, porque caía um nevoeiro muito espesso, e marchando num passo mais rápido do que lhe era habitual, tomou o caminho que conduzia à igreja em ruínas, situada, como ele bem sabia, a três ou quatro milhas de sua casa.

O ranzelman e Swertha seguiram Mertoun com o olhar até o perderem de vista, e depois olharam um para o outro de uma maneira que não auguravam bem àquela diligência.

Swertha lembrou a Neil Ronaldson que precisava de ir à baía para mandar sair os barcos.

- Porque - disse ela - se por um lado estou inquieta por causa do rapaz, por outro, receio que ele chegue antes que tenham partido para o procurar; e se você não executar as suas ordens imediatamente, bem pode dizer adeus ao aluguer dos barcos, está a perceber?

- Bem! Bem! Partiremos o mais cedo possível - respondeu o ranzelman - Por felicidade, o barco de Clawson e o de Pedro Grot não saíram para o mar esta manhã, porque, ao dirigirem-se para bordo, passou um coelho pela frente deles; como homens prudentes, voltaram para casa, sabendo que não tinham hoje mais nada a fazer. Verifica-se com espanto, Swertha, que já há poucas pessoas ajuizadas no país. O nosso udaller é-o bastante, quando está em seu juízo, mas faz demasiadas viagens no seu barco e na sua pinaça para o conservar por muito tempo; agora, diz-se que a filha, miss Minna, não está com o senso todo. Norna sabe mais coisas que ninguém no Mundo, mas não se pode apontar como uma cabeça sã. E este senhor Mertoun! O seu espírito é uma corrente de água debaixo da quilha, não haja dúvidas; e quanto ao filho, é uma verdadeira cabeça de vento. Numa palavra, entre as pessoas de importância, nestas redondezas, há bem poucas, se exceptuarmos eu, evidentemente, e talvez você, Swertha, que não se possam considerar, ou por isto ou por aquilo, verdadeiros doidos.

- Deve ser isso, Neil Ronaldson - replicou Swertha - Mas se você não tratar de ir depressa à baía, perde a maré; e, se o meu amo regressar a tempo de dar o dito por não dito, quem será então o doido?

 

                     É INÚTIL FUGIR AO DESTINO

A igreja em ruínas de São Ninian gozara nos seus tempos de uma grande celebridade, porque a superstição, que criara raízes em toda a Europa, não deixara de se estender até este arquipélago tão afastado. As ilhas Setland, no tempo do catolicismo, tinham os seus santos, as suas capelas, as suas relíquias, e, embora os conhecessem pouco no resto do Mundo, eram objectos que recebiam as homenagens e impunham respeito aos habitantes de Tule. Tinham uma devoção muito particular por esta igreja de São Ninian, ou, como lhe chamavam em todo o distrito, de São Ringan. A origem desta devoção supersticiosa provinha de que este edifício estava situado junto do mar e muitas vezes servia de ponto de referência aos pescadores, quando eles estavam no mar, nos seus barcos. A credulidade engendrava tantas cerimónias supersticiosas que o clero reformado achou de seu dever solicitar das instâncias eclesiásticas superiores ordem para proibir que ali se celebrasse o serviço religioso.

Quando, denunciada assim a igreja de São Ringan como um local de idolatria, se cumpriram as formalidades necessárias para lhe anular a consagração e para transferir o culto público para um outro edifício, o chumbo e os vigamentos do tecto foram arrancados, e esta pequena construção gótica, de uma estrutura tão antiga como grosseira, foi abandonada e deixada à mercê dos elementos. O solo neste local assemelhava-se muito ao de Jarlshof; e o furor dos ventos que rugiam, sem topar obstáculo, ao longo deste plaino de areias movediças, depressa encheu a nave e as alas; do lado noroeste, que estava mais exposto ao vento, as areias acumularam-se contra as paredes exteriores até meia altura, e a nudez terrível destas ruínas não variava senão com a vista das trevas a descoberto do telhado e do pequeno campanário que as coroava.

E no entanto, apesar de tão abandonada, a igreja de São Ringan conservava ainda alguns restos das homenagens que lhe prestavam outrora. Os pescadores ignorantes de Dunrossness observavam uma prática de que eles próprios quase tinham esquecido a origem e da qual o clero protestante se esforçava em vão por desviá-los. Quando os seus barcos se encontravam em grande perigo, era uso comum entre eles fazer uma promessa a São Ringan, e, quando o perigo passava, não deixavam de cumprir a promessa, indo sozinhos e secretamente à antiga igreja. Aí, descalçando os sapatos e as meias à entrada do cemitério, davam três voltas às ruínas, tendo o cuidado de seguir sempre o curso do Sol. Terminada a terceira volta, a pessoa que fizera a promessa lançava a sua oferenda, geralmente dinheiro, por entre os varões de uma janela gradeada de uma das alas, depois do que se retirava, tendo a precaução de não olhar para trás antes de se encontrar fora da cerca do que outrora fora um terreno sagrado, porque se julgava que o esqueleto do santo recebia a oferenda na sua mão descarnada e mostrava à janela a sua pavorosa cabeça de morto.

Foi a este lugar, outrora consagrado ao culto e tornado deserto, que se dirigiu Mertoun, embora sem qualquer dos sentimentos religiosos ou supersticiosos com os quais geralmente outros se aproximavam da igreja de São Ringan. Chegando perto da pequena baía, a pouca distância, achavm-se as ruínas. Ele deteve-se um momento e não pôde deixar de reconhecer que aquele local, tão propício a produzir uma viva impressão no pensamento, fora criteriosamente escolhido para nele se consagrar um edifício à religião. Estava colocado em frente do mar, pelo qual dois promontórios, rochedos negros e lúgubres, avançavam as duas extremidades gigantescas pela baía. No dia em que este cenário se apresentava aos olhos de Mertoun, o céu entre esses dois promontórios, estava coberto de nuvens espessas, amontoadas em tão grande número que a vista não podia passar além. O terreno que, a partir da costa se elevava gradualmente até uma altura considerável, não permitia ver o interior da região e parecia destinado a uma eterna esterilidade. Via-se vegetar um ou outro tipo de erva enfezada e aquela espécie de junco que crescia nas terras arenosas. Numa colina situada em frente da baía e que não ficava tão longe do mar que não houvesse que recear as vagas, erguiam-se as ruínas meio enterradas na areia que já descrevemos, rodeadas por um muro a desfazer-se em poeira e no qual o tempo tinha aberto bastantes brechas, mas que marcava ainda o recinto do cemitério.

Mertoun, ao aproximar-se da igreja, tomou insensivelmente, e talvez sem o pensar, precauções para evitar ser visto antes de chegar aos muros do cemitério. Quis o acaso que ele chegasse pelo lado onde o vento, repelindo a areia, pusera a descoberto os túmulos dos mortos.

Olhando através de uma brecha da parede, viu a pessoa que procurava. Entregava-se a um trabalho que se ajustava perfeitamente à ideia que geralmente se fazia daquela mulher, já de si bastante extraordinária.

Estava acocorada junto de um monumento antigo em que um dos lados representava um cavaleiro grosseiramente esculpido, e o outro, um escudo cujo brasão estava deteriorado até ao ponto de se tornar irreconhecível. Este escudo achava-se colocado horizontalmente, o que é contrário ao costume corrente de o colocar direito. Aos pés deste monumento repousavam, segundo Mertoun ouvira dizer outrora, os restos mortais de Ribolt Troil, um dos antepassados de Magnus, homem que se tornara famoso pelas suas façanhas e pelo seu carácter intrépido, no século XV. Norna de Fitful-head parecia ocupada em pôr este túmulo a descoberto, e esta tarefa nada tinha de difícil visto que estava coberto apenas por areia solta. Parecia pois evidente que ela realizaria facilmente esse trabalho começado pelos ventos e que em breve poria à luz do dia o que restava do guerreiro. Acompanhava esse trabalho com uma canção, porque nunca os habitantes do Norte se entregavam a uma prática supersticiosa que não lhe juntassem um canto rúnico.

Conforme ia cantando, pusera primeiro a descoberto o caixão de chumbo que continha os despojos do guerreiro; depois, cortou este metal com precaução e num ar que denunciava um recolhimento religioso. Por fim, tornou a lançar a areia sobre o caixão e não ficou nenhum vestígio que denunciasse que o segredo do túmulo fora violado. Mertoun, escondido atrás do muro do cemitério, permaneceu de olhos fixos naquela mulher durante toda a cerimónia. Teve todo o vagar para observar o seu vulto, mas o seu rosto estava quase inteiramente oculto pelos seus cabelos esparsos e pelo capuz de uma capa de cor sombria. Mertoun ouvira falar muitas vezes de Norna; é mesmo provável que já a tivesse visto várias vezes nas cercanias de Jarlshof desde que lá morava. Mas as histórias absurdas que circulavam a respeito dela impediam-no de prestar atenção a uma mulher que ele considerava como atacada de loucura ou culpável de impostura, ou talvez mesmo louca e impostora ao mesmo tempo. Mas, naquele momento, as circunstâncias obrigavam-no a prestar-lhe mais atenção. O seu ar digno, quando ela se levantou, a solenidade de todos os seus movimentos, o acento sonoro e expressivo da sua voz, quando se dirigiu ao guerreiro cujos despojos mortais ousara perturbar, não podiam deixar de causar impressão ao senhor Mertoun, por muito indiferente em regra se mostrasse a tudo o que se passava à sua volta. Mas, mal ela terminara a sua singular ocupação, entrando ele no cemitério, passando não sem dificuldade por uma fenda do muro, mostrou-se aos olhos de Norna. Bem longe de se intimidar ou de mostrar a menor surpresa ao ver surgir alguém num local tão solitário, disse-lhe num tom que parecia denunciar que o esperava: - Acabaste, enfim, por me procurar?

- E encontrei-te - respondeu Mertoun, julgando que a melhor maneira de chegar ao seu objectivo seria responder-lhe no mesmo tom em que ela o interpelara.

- Sim - disse ela - Encontraste-me, e no lugar o todos os homens se devem encontrar, no meio dos tabernáculos dos mortos.

- É bem verdade - replicou Mertoun, relanceando um olhar pelo quadro de desolação, em que os principais objectos que feriam as atenções eram pedras de sepulcros umas meio ocultas pela areia, outras arrancadas, pela violência dos temporais, do sítio que se destinavam a cobrir - É bem verdade, é aqui que geralmente os homens se reúnem. Felizes dos que entram o mais cedo possível num porto tão sossegado!

- Aquele que ousar entrar neste porto deve ter governado bem o seu barco na viagem da vida - disse Norna - Não me atrevo a esperar encontrá-lo aprazível. E tu, ousas esperá-lo? A rota que tens seguido dá-te esse direito?

- Não é disso que se trata neste momento. Venho perguntar-te se me podes dar algumas notícias do meu filho Mordaunt?

- Um pai pergunta a uma estranha se lhe pode dar notícias do seu filho! E como as hei-de eu saber? O corvo marinho pergunta à garça real: «Onde estão os meus filhos?»

- Põe de parte essa inútil afectação de mistério, que pode produzir efeito no vulgo, mas que é comigo trabalho perdido. Disseram-me em Jarlshof que podias saber o que aconteceu a Mordaunt Mertoun, que não regressou a minha casa depois das festas de São João Baptista em casa do teu parente Magnus Troil. Dize-me o que sabes, se acaso sabes alguma coisa, e recompensar-te-ei tão bem quanto as minhas posses o permitam.

- Nada existe no Universo que mereça a meus olhos o nome de recompensa por uma palavra que eu possa dizer ao ouvido de um mortal. Mas, quanto a teu filho, se queres vê-lo vivo, vai à feira de Kirkwall, nas Órcades.

- Mas para que hei-de lá ir? Sei que ele não tinha intenções de ir para esses lados.

- Nós seguimos a corrente do Destino sem rumo e sem leme

Tu não tinhas intenção esta manhã de vir à igreja de São Ringan, e no entanto estás aqui. Há um minuto, não tinhas a intenção de ir à feira de Kirkwall, e no entanto vais fazer essa viagem.

- Não a farei, a não ser que me expliques mais claramente o motivo. Não penses que pertenço ao número daqueles que te julgam dotada de poderes sobrenaturais.

- Hás-de ficar a acreditá-lo antes de nos separarmos. Não me conheces, neste momento, e não me conhecerás melhor depois. Mas eu conheço-te bem, e poder-te-ia convencer se pronunciasse apenas uma palavra.

- Pois pronuncia-a, porque, se não me convenceres, não vejo jeito de seguir os teus conselhos.

- Então, escuta bem o que vou dizer-te em relação a teu filho; sem isso, o que vou dizer-te relativamente a ti próprio expulsará da tua memória qualquer outro pensamento. Irás à feira que vai realizar-se em Kirkwall, e no quinto dia, à hora do meio-dia, entrarás na ala esquerda da catedral de São Magnus. Aí encontrarás uma pessoa que te dará notícias do teu filho.

- Tens que me falar mais claramente - disse Mertoun, em tom de desdém - se queres que siga os teus conselhos. Na minha mocidade, mais de uma vez me deixei enganar pelas mulheres, mas nunca tão grosseiramente como parece que tu o queres fazer.

- Escuta, então, a palavra que vou pronunciar sobre o segredo mais importante da tua vida! - exclamou a velha sibila - Ela abalar-te-á todos os nervos e penetrar-te-á até à medula dos ossos.

Inclinou-se para ele e disse-lhe ao ouvido uma palavra que pareceu produzir um efeito mágico. Mertoun quedou-se imóvel de surpresa, enquanto Norna, levantando o braço num ar de triunfo e de superioridade, se retirava, voltando a esquina de uma velha parede no meio das

ruínas. Mertoun nem sequer tentou seguir-lhe as pegadas.

- É em vão que tentamos fugir ao nosso destino! disse ele, retomando a sua presença de espírito. E saiu das ruínas do cemitério.

Quando chegou a uma elevação de onde podia ainda ver a igreja, voltou-se para lhe lançar um derradeiro olhar e descobriu Norna no cimo da velha torre, enrolada na sua capa e agitando no ar uma coisa que parecia uma bandeira branca. Uma sensação de horror, semelhante à que dera origem as suas últimas palavras, gelou-lhe pela segunda vez o sangue, e marchou com uma rapidez que não lhe era peculiar, até deixar bem longe, à retaguarda, a igreja de São Ringan e a sua baía de areia.

Tinha-se operado uma tal mudança no seu rosto, ao chegar a Jarlshof, que Swertha imaginou que ele ia cair num desses acessos de melancolia a que ela chamava a sua hora negra.

No entanto, sem mostrar mais sintomas de alucinação do que uma sombria e profunda melancolia, seu amo informou-a do seu projecto de ir à feira de Kirkwall, projecto tão contrário a todos os seus hábitos que a governanta a muito custo acreditou nos seus próprios ouvidos. Pouco tempo depois, recebeu ele, com um ar indiferente, notícia de que todos os que tinham partido, quer por terra quer por mar, em busca de vestígios de Mordaunt, nada conseguiram obter. A calma que mostrou ao conhecer o malogro das suas pesquisas acabou por convencer Swertha de que, na sua entrevista com Norna, esta lhe predissera que as pesquisas não teriam outro resultado.

Os habitantes da aldeia ficaram ainda mais surpreendidos quando viram o senhor Mertoun, como que arrebatado por uma decisão repentina, fazer os seus preparativos para ir a Kirkwall durante a feira, embora até então tivesse evitado cuidadosamente todos os locais de reunião pública. Em vão empenhou Swertha todos os seus esforços para penetrar este mistério. E nada conseguindo, ela experimentou novas inquietações sobre o destino do jovem. Contudo, o seu desgosto suavizou-se um pouco à vista de uma soma de dinheiro que seu amo lhe meteu nas mãos e que, apesar de módica, lhe pareceu um tesouro. Ele informou-a, ao mesmo tempo, de que tinha alugado, para se dirigir’ a Kirkwall, um pequeno barco pertencente ao proprietário da ilha de Mousa.

 

                   ONDE SE FALA DO FILHO DE NORNA

A situação de Minna assemelhava-se muito àquela em que se encontrava a heroína aldeã da encantadora balada e «lady» Ann Lindsay. A firmeza de ânimo que lhe era natural impedia-a de sucumbir ao peso do horrível segredo que a atormentava, quando acordada, e que, ao gozar alguns instantes de sono ininterrupto, a perseguia nos próprios sonhos. E os desgostos mais cruéis são aqueles que se é obrigado a concentrar em si próprio.

O carácter, as maneiras, os hábitos de Minna pareceram de tal forma mudados aos olhos de quem vivia com ela, que não é de estranhar que algumas pessoas os tivessem atribuído a efeitos de bruxaria, e outras, aos primeiros sintomas da demência. A solidão, que para ela tinha tantos encantos, tornou-se-lhe insuportável e, no entanto, quando se encontrava em sociedade, não tomava parte e não dava atenção ao que se passava. Em regra, parecia mergulhada em sombrias e lúgubres reflexões; mas se, por acaso, se pronunciava o nome de Cleveland ou o de Mordaunt, como que despertava de um profundo sono e estremecia, num movimento de horror que se experimenta ao ver aproximar uma mecha inflamada de um rastilho de pólvora destinada a fazer explodir uma mina.

A sua atitude para com a irmã era tão variável, e no entanto tão pungente para o bom coração de Brenda, que se afigurava a todos os que a observavam um dos sintomas mais assustadores da sua doença. Por vezes, ela procurava a companhia de sua irmã, como se fosse impelida pela íntima sensação de que ambas iam ser atingidas pelo mesmo golpe, embora só ela conhecesse toda a extensão da desgraça que as esperava; e, de repente, sentindo vivamente a ferida que receberia o coração sensível de Brenda quando soubesse do crime que supunha cometido por Cleveland, tornava-se-lhe impossível suportar a sua presença. Também sucedia algumas vezes que Brenda, suplicando a sua irmã que se resignasse, tocava, sem o saber, alguma corda cujas vibrações se faziam sentir até ao fundo da alma de Minna, de maneira que esta, não podendo disfarçar a angústia que experimentava, corria a esconder-se nos seus aposentos.

O efeito destas alternativas de melancolia concentrada e de sensibilidade mórbida depressa surgiram nas faces emagrecidas e pálidas da pobre Minna. Os seus olhos perderam aquele olhar tranquilo que dão a inocência e a felicidade e tornou-se pouco a pouco triste e desvairado, segundo a sensação que a fazia experimentar a sua dolorosa situação ou algum paroxismo mais agudo de dor. Em convívio, ela era sombria e silenciosa; e quando estava só, as pessoas que a vigiavam notavam que ela falava muitas vezes consigo própria.

O pai de Minna, devorado de inquietação, recorreu inutilmente a toda a farmácia das ilhas Setland. Foi em vão que ele chamou adeptos dos dois sexos, versados nas propriedades salutares das plantas e das palavras mágicas que lhes aumentavam a virtude. Não sabendo que mais fazer, resolveu consultar a sua parenta Norna de Fitful-head, embora, segundo as circunstâncias mencionadas no decurso desta história, não estivessem então em ligação muito íntima. O primeiro pedido que ele lhe dirigiu foi inútil. Norna estava então na sua moradia habitual à beira-mar, perto do promontório de que tomara o nome; e, apesar de Erick Scambester se ter incumbido da mensagem, ela recusou-se obstinadamente a vê-lo e a dar-lhe qualquer resposta.

Magnus ficou mal disposto com o pouco caso que ela fez do seu mensageiro; mas a inquietação que lhe causava a situação de Minna, aquela espécie de respeito que inspiravam os infortúnios de Norna e o poder que ela se atribuía, impediram-no nessa ocasião de se abandonar, como era seu costume, à irascibilidade do seu carácter. Pelo contrário, resolveu ele próprio fazer uma visita à sua parenta. Contudo, não participou a ninguém o seu projecto, limitando-se a dizer a suas filhas que se preparassem para ir com ele fazer uma visita a uma parenta que ele já não via há algum tempo, e recomendou-lhes ao mesmo tempo que levassem algumas provisões, visto ela morar longe e ser muito possível que o seu guarda-comidas não estivesse muito bem provido.

Pouco habituada a pedir a seu pai explicações das suas ordens, e presumindo que o exercício e a distracção ocasionados pela viagem poderiam ser úteis a sua irmã, Brenda, que tomara então sozinha a direcção do lar, fez imediatamente os preparativos necessários, e no dia seguinte meteram-se a caminho, ora marginando a beira-mar, ora atravessando os pântanos.

O udaller montava um belo palafrém da Noruega, tão vigoroso, mas um pouco maior do que os cavalos comuns do país. Minna e Brenda, que entre todos os seus talentos contavam o de montar perfeitamente a cavalo, tinham dois desses pequenos animais que, sendo tratados com mais cuidado que de costume, demonstravam, pela graça das suas formas e pela vivacidade, que esta raça tão vergonhosamente abandonada é susceptível de melhorar, sem nada perder da sua fogosidade e do seu vigor. Iam acompanhados de quatro criados, dois a cavalo e dois a pé. Estes últimos não podiam retardar a sua marcha, em virtude de haver tantas montanhas a subir, tantos pântanos a cruzar, que se era forçado a ir quase sempre a passo; e quando um espaço de terreno seco e duro permitia seguir a trote por algum tempo, os dois peões não tinham mais trabalho que apoderar-se de dois cavalos no primeiro prado em que os encontrassem.

A alegria não parecia ter seguido viagem com eles, e caminharam a maior parte do tempo em profundo silêncio. Contudo, o udaller, impelido pela sua impaciência, obrigava por vezes o seu palafrém a um andamento mais vivo; lembrando-se do mau estado de saúde de Minna, logo afrouxava o passo, perguntando a sua filha como se encontrava e se não se sentia fatigada. Ao meio-dia, pensou-se em parar para um repasto tirado das suas amplas provisões e fizeram alto junto de uma fonte cuja água pura e límpida não seduzia muito o udaller. Bebeu-a misturada com aguardente e começou a tornar-se mais comunicativo do que não o estivera desde que se meteram a caminho.

- Pois bem! - disse a suas filhas - Já não estamos a mais de uma ou duas léguas da moradia de Norna. Vamos a ver como a velha sibila nos recebe.

Minna interrompeu o pai com uma exclamação proferida em voz fraca, e Brenda, na sua surpresa, exclamou:

- É a Norna que nós vamos visitar? Que Deus não queira!

- E porque não há-de Deus querer? - disse o udaller franzindo o sobrolho - Gostava bem de saber porque não havia de agradar a Deus que eu fosse visitar uma parenta cujos conhecimentos podem ser úteis a tua irmã. Não há em todas as nossas ilhas homem ou mulher mais competente do que ela. És uma louca, Brenda; a tua irmã tem mais bom-senso do que tu. Coragem, Minna, coragem! Recordo-me de que, quando ainda eras criança, tinhas prazer em ouvir as canções e as histórias de Norna; dependuravas-te no seu pescoço, enquanto Brenda fugia, a gritar como um navio mercante espanhol à frente de um corsário holandês

- Creio que não me assustará tanto agora, meu pai - respondeu Brenda - Tenho ouvido dizer tantas coisas da sua moradia, que a ideia de me apresentar em sua casa sem ter sido convidada não deixa de me causar algum sobressalto

- És uma louca - disse Magnus - em pensar que visita de bons parentes possa desagradar a um coração franco e generoso, um coração de Hialtland, como o da prima Norna. E a propósito, tenho a certeza de que adivinho por que motivo ela não quis receber Erick Scambester. Há muitos anos que não vejo o lume da sua lareira e nunca vos trouxe à sua casa. Ela tem, portanto, direito de queixar-se de mim. Mas dir-lhe-ei a verdade, e essa verdade é que, embora seja um uso, não acho conveniente ir sobrecarregar uma mulher só, como nós o fazemos com os nossos confrades udallers, quando vamos de casa em casa durante o Inverno, de maneira a formarmos uma bola de neve que vai aumentando consoante vai rolando.

- Sobre esse ponto - disse Brenda - não há perigo de sobrecarregarmos Norna. Trazemos amplas provisões de tudo o que é preciso: peixe, toucinho, carneiro salgado, patos fumados, numa palavra, com que viver uma semana, e mais vinho e aguardente do que o pai poderá beber.

- Muito bem, minha filha, muito bem. Barco bem provido faz boa viagem. Assim, não pediremos a Norna senão o talher e um leito para vocês duas, porque para mim, a minha manta de viagem e duas boas pranchas da Noruega agradam-me mais do que os vossos colchões de lã e penas. Norna terá pois o prazer de nos ver sem que isso lhe custe um único ceitil.

Minna soltou nesse momento um profundo suspiro.

- Não há razão para suspirar, minha filha - disse Magnus.

Um segundo suspiro, que ela se esforçara inutilmente por reprimir, denunciou que a observação do udaller não se justificava.

- Parece-me que minha prima te mete tanto medo como a Brenda - disse o udaller, lançando um olhar ao rosto pálido e abatido de sua filha mais velha - Se é isso, basta uma palavra tua para voltarmos para trás tão depressa como se fôssemos de vento em popa.

- Fala, mana! - exclamou Brenda, num ar suplicante - Fala, pelo amor de Deus! Tu sabes... tu lembras-te... tu tens a certeza de que Norna nada pode fazer para te aliviar.

- É uma grande verdade - respondeu Minna em voz fraca - Mas, não sei... Ela pode responder a uma pergunta, uma pergunta que só o miserável pode fazer ao miserável.

- A nossa prima não está na miséria! - exclamou o udaller, dando à palavra miserável um sentido diferente daquele em que sua filha acabava de a empregar - Tem um bonito rendimento, tanto aqui como nas Órcades, e recebe todos os anos não sei quantos lispunds de manteiga... Mas vocês vão rir-se quando virem a sua casa e Nick Strumpfer, a quem ela chama Pacolet. Muitas pessoas pensam que Nick é o diabo, mas garanto-lhes que é de carne e osso como nós. O pai dele morava em Groema. Vou gostar de tornar a ver Nick.

Enquanto o udaller assim falava, Brenda, que, se por um lado tinha imaginação menos brilhante que sua irmã por outro era dotada de mais senso-comum, pensava no efeito que esta visita poderia produzir no espírito de Minna. Acabou por tomar a resolução de falar em particular a seu pai, na primeira ocasião que se proporcionasse durante a viagem. Decidiu-se a contar pormenorizadamente a entrevista nocturna com Norna, à qual atribuía o abatimento de Minna.

Quando ela acabava de formar este plano, seu pai, sacudindo com uma mão as migalhas que tinham caído na sua veste agaloada, e recebendo com a outra um copo de aguardente com água, bebeu com devoção pelo êxito da sua viagem e ordenou que se preparassem para prosseguir a jornada. Enquanto selavam os cavalos, Brenda, não sem dificuldade, deu a entender a seu pai que desejava falar-lhe em particular.

Grande foi o espanto do udaller quando, ao ficar um pouco para trás com sua filha Brenda, durante a caminhada, teve conhecimento da visita nocturna de Norna a Burgh-Westra e da narrativa que ela fizera perante suas filhas perplexas. Não interrompeu Brenda senão com algumas interjeições; e, quando ela acabou de falar, desabafou desejando mil maldições à louca da sua prima, que viera contar a suas filhas uma história tão horrível.

- Sempre ouvi dizer - ajuntou ele - que, com toda a sua ciência e todo o seu conhecimento das estações, ela é verdadeiramente doida. E, pelas relíquias do santo mártir meu patrono, começo a acreditar! Se eu soubesse tudo isso antes de partir, creio que teríamos ficado em Burgh-Westra; mas agora que estamos tão perto e que Norna nos espera...

- Nos espera, meu pai; como é isso possível?

- Eu... eu não sei nada. Mas se ela sabe de que lado deve soprar o vento, também deve saber que tínhamos a intenção de vir.

Vendo que seu pai estava decidido a fazer a visita projectada, Brenda procurou logo saber dele se tudo o que Norna lhes dissera se baseava na verdade. Magnus sacudiu a cabeça, soltou um profundo suspiro e disse-lhe em poucas palavras que tudo o que se referia ao seu caso com o estrangeiro e à morte do pai, de que ela fora a causa acidental e inocente, era uma verdade tão triste como inegável.

- Quanto ao seu filho - acrescentou - nunca pude saber o que lhe aconteceu.

- Seu filho! - exclamou Brenda - Ela não nos disse nem uma palavra acerca disso.

- Nesse caso, desejaria que minha língua tivesse paralisado quando falei nele. Vejo que é tão difícil a um homem, velho ou novo, esconder um segredo a vocês, mulheres, como uma enguia escapar-se a um nó corredio de crina.

- Mas, meu pai - disse Brenda, insistindo por saber pormenores daquela história extraordinária - não sabe então o que lhe sucedeu?

- Suponho que foi levado por esse velhaco do Vaughan - disse o udaller num ar que dava bem a entender que o assunto lhe desagradava.

- Por Vaughan! O amante da pobre Norna, decerto? Que espécie de homem era ele, meu pai?

- Um homem como muitos, creio eu. Nunca o vi na minha vida. Visitava muito as famílias escocesas de Kirkwall, enquanto eu me dava com todos os bons antigos norses... Ah! Se Norna não se relacionasse senão com os seus compatriotas, se não se desse com esses escoceses, nunca teria conhecido Vaughan, e a sua sorte teria sido diferente. Mas então, Brenda, nunca eu teria conhecido a tua mãe - ajuntou, com uma lágrima a brilhar nos seus olhos azuis - e isso ter-me-ia salvo de um longo desgosto precedido de uma felicidade tão curta.

- Quer como esposa, quer como amiga - disse Brenda, um POUCO hesitante - Norna não teria preenchido o lugar que minha mãe ocupou junto de si, pelo menos, é o que depreendo de tudo o que tenho ouvido dizer.

Mas Magnus, cuja impetuosidade natural se encontrava atenuada pela recordação de uma esposa querida, respondeu-lhe com mais indulgência do que ela esperava:

- Nessa época ter-me-ia decidido a casar com Norna.

Esse casamento devia produzir a pacificação de um velho conflito, um bálsamo lançado numa chaga antiga. Todos os nossos parentes o desejavam, e, na situação em que me encontrava, sobretudo, não tendo visto ainda a tua bonita mãe, eu não tinha razões para o recusar. Não deves avaliar Norna e eu pelo que somos presentemente. Ela era jovem e bela e eu era ágil como um gamo das montanhas e pouco me importava com o porto em que o meu barco devia entrar, porque, como então o pensava, trazia mais de um à feição do vento. Mas Norna concedeu a sua preferência a esse Vaughan, e isso foi talvez a maior prova de afeição que ela teve por mim.

- Pobre prima! - disse Brenda - Mas o meu pai acredita no poder sobrenatural que ela se atribui? Crê na visão misteriosa do anão que ela disse ter-lhe aparecido?...

Seu pai interrompeu-a. Era evidente que estas perguntas lhe desagradavam.

- Eu acredito, Brenda, em tudo o que os nossos antepassados acreditaram. Quanto a ti, Brenda, não queiras ser mais sábia do que os teus avós. Tua irmã Minna, quando estava boa de saúde, tinha tanta veneração pelo que estava escrito em língua norse como se fosse uma bula do Papa; e, contudo, uma bula só é escrita em latim.

- Pobre Norna! - repetiu Brenda - E o seu filho nunca foi encontrado?

- Que importa o seu filho? - replicou o udaller num tom mais brusco - Tudo o que sei é que Norna esteve muito mal antes e depois do seu nascimento. Quanto à criança, veio ao Mundo antes do prazo fixado pela Natureza e provavelmente morreu pouco tempo depois. Mas não entendes nada disto, Brenda; marcha lá para a frente e acaba com as perguntas sobre assuntos de que te não deves ocupar.

Com estas palavras, o udaller deu uma esporada no seu palafrém e avançou a largo trote sem cuidar se o caminho era bom ou mau, enquanto o instinto do cavalo de Brenda sabia escolher todos os sítios onde colocar os pés com firmeza.

Até então tinham marchado pouco mais ou menos em linha recta através de pântanos e de terrenos cobertos de musgo, salvo diversos desvios que foram obrigados a fazer para marginar aquelas compridas lagunas que comunicavam com o mar, que têm o nome de voes, naquelas ilhas, e que entram profundamente no território. Mas neste momento aproximavam-se da extremidade situada a noroeste e tinham que subir uma imensa cadeia de rochedos que, desde o fundo dos séculos, defrontavam os assaltos do vento e do Mar do Norte, cujas vagas impotentes vinham quebrar-se a seus pés.

- Eis a casa de Norna! - exclamou Magnus, por fim, dirigindo-se a suas filhas - Olha, querida Minna, se isto te faz rir, não temos nada feito. Que outro ente, a não ser a águia, poderia construir semelhante ninho? Pelas relíquias do meu santo patrono, nunca criatura viva, sem asas eno uso da razão, poderia viver numa tal moradia, a menos que não fosse no topo de Frawa-Stack, na ilha de Papa, onde a filha de um rei norueguês foi encerrada para ficar ao abrigo dos amantes, se é verdadeira a história que se conta a esse respeito. E se lhes falo nisto, minhas filhas, é porque não ignoro que vocês sabem quanto é perigoso colocar o lume ao pé da estopa.

 

               O NINHO DA VELHA FEITICEIRA

Não foi sem alguma razão que Magnus comparou a habitação de Norna a um ninho de águia. De pequenas dimensões, era um destes edifícios que, nas ilhas de Setland, se chamava burgh ou casa dos Pictos, e duns na Escócia e nas ilhas Hébridas.

Este burgo fora reparado e aumentado numa época mais recente, provavelmente por algum pequeno déspota ou algum pirata seduzido pela segurança que oferecia aquela situação que ocupava a totalidade de uma ponta avançada da rocha, separada da terra por um precipício de pouca largura, mas bastante profundo. Foram feitos alguns acrescentos no estilo mais grosseiro das fortificações góticas; tinham guarnecido o interior de cal e areia e perfurado algumas janelas para deixar entrar o ar e a luz. Enfim, juntando-lhe um telhado e dividíndo-o em andares por meio de madeiras provenientes de embarcações naufragadas, o último proprietário fizera uma torre semelhante a um pombal em pirâmide, formada por uma parede dupla que ainda tinha no seu interior aquelas galerias circulares que caracterizam todos os fortes de construção primitiva e que parece terem sido o abrigo dos seus primeiros moradores.

Esta habitação original, construída com as pedras soltas que se encontravam espalhadas por todos os lados, e há séculos exposta aos maus tratos dos elementos, era da mesma cor da rocha em que se erguia e da qual não era fácil distinguir-se, tanto se assemelhava, pela irregularidade da forma, a um fragmento de rocha.

A indiferença com que Minna via tudo o que se passava à sua volta desapareceu por um instante à vista de uma moradia que, em época mais feliz da sua vida, teria excitado simultaneamente a sua curiosidade e a sua admiração.

- A nossa prima - disse ela a meia voz - não podia ter escolhido melhor a sua morada. Não há ali mais terreno do que o necessário para uma ave marinha repousar. Não se vê senão vagas escumantes e tempestades. O desespero e o poder mágico não podiam achar retiro mais adequado. Por seu turno, Brenda tremia de cada vez que levantava os olhos ao avançar pela senda difícil e perigosa que, por vezes, para seu maior terror se abeirava do precipício. Por muito setlandesa que ela fosse, e embora tivesse razão para depositar toda a confiança na sua montada, mal conseguia ter mão no seu receio, quando, marchando à frente dos outros e voltando a esquina de um rochedo, os seus pés, apoiados no flanco do cavalo, se encontraram por um instante fora do rebordo do precipício, de maneira que não existia senão o pavoroso vácuo entre os seus sapatos e o Oceano agitado, cujas vagas rugiam e escumavam a quinhentos pés de profundidade. O que teria provocado um acesso de terror a uma jovem de outro país, não lhe causou senão uma inquietação momentânea, e esta inquietação desapareceu num instante com a esperança de ver semelhante cena produzir uma impressão favorável no organismo de sua irmã. Não pôde deixar de olhar para trás, a fim de observar como Minna passaria aquele sítio perigoso, e não ouviu a voz forte do udaller, que, embora tão tranquilo como se estivesse em terreno seguro, exclamava num tom que denunciava um certo alarme: «Cuidado, minha querida», no momento em que Minna, de olhos desvairados, e largando a brida que tinha na mão, estendeu os braços e até avançou o corpo por cima do precipício, na atitude do cisne selvagem, quando, balouçando e estendendo as suas largas asas, se preparava para se lançar do alto de um rochedo no seio dos ares. Brenda sentiu nesse momento uma angústia e um terror inexplicáveis, que lhe deixaram uma forte impressão, mesmo quando viu um instante depois sua irmã retomar o aprumo na sela. O animal que a transportava tinha franqueado em passo ágil e seguro o local perigoso, pondo fim à tentação, se acaso tivera alguma, e fazendo desaparecer a oportunidade de lhe ceder. Chegaram então a um espaço de terreno mais sólido e desafogado. Era o planalto de um istmo que se estreia até à extremidade, onde rematava no profundo precipício que separava a porção de rocha, ocupada pela habitação de Norna, do corpo principal do rochedo. Este fosso natural, que parecia obra   de alguma convulsão   sísmica, era sombrio, profundo e irregular, mais estreito para o fundo e mais largo na parte superior. Dir-se-ia que a parte do rochedo sobre o qual o burgo fora construído teria sido arrancada ao istmo a que servia de remate.

O udaller avançou ousadamente para a torre, apeou-se, bem como suas filhas, e ordenou aos criados que descarregassem as Provisões e conduzissem os cavalos ao sítio mais próximo onde pudessem encontrar pastagem. E em seguida avançaram para a porta, que parecia ter comunicado outrora com a outra parte do rochedo por meio de uma grosseira ponte levadiça, da qual ainda se viam alguns restos, mas há muito tempo substituída por uma ponte fixa muito estreita e sem resguardos, por onde não se podia passar senão a pé. O udaller atravessou essa ponte temível no passo majestoso que lhe era habitual, e o peso ameaçou causar a destruição desse frágil suporte; filhas seguiram-no num passo mais ligeiro, e encontraram-se defronte da porta baixa e estreita da casa de Norna.

- E se, afinal, ela não estivesse? - disse Magnus, batendo repetidas vezes à porta de madeira de carvalho negro - Bem, nesse caso, esperaríamos o seu regresso durante vinte e quatro horas, e faríamos pagar a demora a Nick Strumpfer em bland e em aguardente.

A porta abriu-se quando ele falava, e Minna ficou tão surpreendida como Brenda alarmada ao ver surgir um anão de notável robustez, com cerca de quatro pés e cinco polegadas de altura, cabeça de tamanho prodigioso e feições que lhe correspondiam, isto é, uma boca enorme, um nariz monstruoso guarnecido de longas narinas negras e fendidas de alto a baixo e grandes olhos vesgos e esbugalhados, que pestanejavam ao observar o udaller, num ar de quem o conhecia, sem pronunciar uma palavra. As duas irmãs mal podiam persuadir-se de que não tinham na sua frente, em pessoa, o demónio Trolld que figurara de uma maneira tão saliente na narrativa que Norna lhes fizera. Seu pai, dirigindo a palavra a este extraordinário ente, tomou aquele tom de familiaridade condescendente que se usa com um inferior, quando se tem uma secreta razão para manobrar ou pôr de acordo com os seus interesses, tom que, no entanto, pela sua própria familiaridade, deveria ofender mais do que se se fizesse sentir a sua superioridade.

- Ah! Nick, honrado Nick! - disse o udaller - Éis-te, sempre tão vivo e tão amável como São Nicolas, teu patrono, tal como se vê talhado a golpes de acha para ornamentar a proa de algum barco holandês. Como passas Nick, ou Pacolet, se este nome te agrada mais? Eis as minhas duas filhas, Nicolas, quase tão bonitas como tu, como vês.

Nick fez uma careta, inclinando-se num ar desajeitado, à guisa de delicadeza; mas os seus membros mal formados, colocados no limiar da porta, continuavam a obstruir a entrada.

- Minhas filhas - disse o udaller, que parecia ter as suas razões para conquistar-lhe as boas-graças - aqui está Strumpfer, a quem sua ama chama Pacolet e que, para anão, certamente não é nada mal feito. É tão ligeiro como aquele que cruza os ares no seu cavalo de pau, como tu viste, Minna, na história de Valentim e Orson que lias na tua infância. Garanto-te que ele sabe guardar os segredos da sua patroa e nunca revelou um sequer. Ah! Ah! Ah! O anão disforme fez uma careta ainda mais hedionda, e, como se quisesse dar uma explicação sobre os gracejos de Magnus, abriu a imensa queixada, inclinando a cabeça para trás de maneira a fazer ver que não lhe restava na imensa cavidade da boca senão um pedaço enrugado de língua, que talvez pudesse ajudá-lo a engolir os alimentos, mas que não servia para formar sons articulados. Fora a doença ou a crueldade que o reduzira àquele estado? Não se sabia; mas, como possuía o sentido do ouvido, não era mudo, evidentemente. Depois de dar este horrível espectáculo, pagou ao udaller na mesma moeda, soltando uma medonha risada, e tanto mais hedionda que ela parecia provocada pela sua situação deplorável. As duas irmãs olharam-se atónitas e o próprio Magnus pareceu um pouco desconcertado.

-Mas, amigo Nick - disse ele, após um momento de silêncio - há quanto tempo não regas com um copo de boa aguardente essa goela tão larga como o frith de Pentland?

Ah! Ah! Ah! Eu trouxe da boa, meu rapaz.

O anão franziu as sobrancelhas tufadas, meneou a cabeça e levantou a mão direita acima do ombro, apontando com o polegar para o lado de casa.

- Quê! - exclamou o udaller, que compreendera muito bem o sinal - A minha prima zanga-se? Não te inquietes, deixo-te um frasco para te regalares na sua ausência. Embora não possam falar, uns lábios e uma goela Podem engolir.

Uma nova careta do anão denunciou que ele reconhecia a verdade daquele dito.

- Agora, Pacolet - disse Magnus - afasta-te e deixa-me levar as minhas filhas à nossa parenta. Pelos ossos de São Magnus, não te hás-de arrepender! Não abanes a cabeça, meu rapaz, porque, se a tua patroa está em casa, temos que a ver.

O anão deu-lhe novamente a entender que era impossível entrarem, servindo-se em parte de sinais e em parte de sons dissonantes e inarticulados.

- Ai, ai, ai! - exclamou o udaller, cujo sangue começava a aquecer - Não me maces mais com a tua algaraviada, e arreda-te.

E, ao mesmo tempo, agarrou com mão vigorosa a gola azul do anão e, sem ter o ar de usar de violência, obrigou-o a abandonar o posto, empurrando-o brandamente para o lado, e entrou seguido das filhas, que se mantinham o mais perto que podiam de seu pai. Tudo o que viam e ouviam lhes causava medo. Uma passagem tortuosa e escura, na qual Magnus as fez entrar, era apenas iluminada por uma barbacã, provavelmente destinada outrora a defender a entrada por meio de uma colubrina, ou pequeno canhão. À medida que avançavam, pois eram forçados a marchar a passo lento e quase às apalpadelas, as trevas adensavam-se, e a luz acabou por desaparecer de chofre quase inteiramente. Brenda levantou os olhos para procurar a causa e estremeceu ao enxergar o rosto pálido de Norna. Era muito natural que a dona da casa quisesse ver quem havia transgredido as ordens para ir à sua presença com tão pouca cerimónia; mas a palidez das suas feições, os seus olhos fixos e imóveis, o seu ar frio e severo que não prometia uma recepção amistosa, o seu silêncio taciturno, a aparência estranha de tudo o que se via naquela moradia, tudo aumentava o receoso espanto de Brenda. Magnus Troil e Minna marchavam à frente e não se aperceberam daquela hóspede singular.

 

                     O PODER MÁGICO DO SOBRENATURAL

- A escada deve ser ali - disse o udaller, tropeçando na obscuridade contra alguns degraus de altura e forma desiguais - Sim, é ali, se a memória me não falha. E aqui - acrescentou, detendo-se a uma porta entreaberta - é onde ela se instala com todos os apetrechos à sua volta, e tão ocupada como o diabo num furacão.

Depois de fazer esta comparação pouco respeitosa, entrou no compartimento tenebroso onde Norna estava sentada no meio de inúmeros objectos que o vulgo considera os atributos das ciências amaldiçoadas por Deus, tais como uma amálgama confusa de livros escritos em diversas línguas, fragmentos de mármore e de pedras nos quais estavam gravados caracteres direitos e angulosos do alfabeto rúnico, etc., etc.. Via-se a um canto do compartimento uma velha cota de malha e um elmo. Por cima de uma chaminé antíga, mal construída, estavam suspensas a acha e a lança que tinham feito parte da mesma equipagem; em cima de uma mesa, agrupavam-se em boa ordem lascas de granito verde que muitas vezes se encontram naquelas ilhas, onde o povo, que lhes chama rastro de trovão, as guarda como um talismã que serve de preventivo contra o raio. Via-se também um cutelo de pedra para os sacrifícios, que talvez tivesse servido para imolar vítimas humanas, um ou dois desses instrumentos de bronze chamados celts, cuja serventia tem atormentado o repouso de muitos arqueólogos. Uma infinidade de outros objectos, aos quais não poderia dar-se nome e que seria mesmo impossível descrever, achavam-se confusamente dispersos pelo aposento; e, sobre um monte de ervas marinhas, secas lançadas a um canto, encontrava-se um animal que se poderia tomar, à primeira, por um grande cão disforme, mas que, em realidade, era uma pequena foca que Norna se divertia em domesticar.

Vendo entrar tantos desconhecidos, esta encantadora favorita eriçou os pelos com a mesma vivacidade que poderia mostrar um cão terrestre em ocasião semelhante. mas Norna permaneceu imóvel. Estava sentada a uma mesa de granito em bruto, sustentada por dois blocos da mesma pedra. Parecia absorta na leitura de um velho livro, tendo junto dela, em cima de uma mesa, uma bilha de água e um desses pães sem fermento que constituem o alimento dos habitantes pobres da Noruega.

Magnus Troil quedou-se um minuto em silêncio, olhos fixos na sua parenta. A singularidade desta habitação enchia Brenda de um novo receio; e Minna, apesar do seu estado habitual de melancolia e de sonhador alheamento, não pôde furtar-se a uma sensação de interesse mesclado de respeito. O udaller foi o primeiro a quebrar o silêncio.

- Bom dia, prima Norna - disse ele - Minhas filhas e eu vimos de muito longe para te ver.

Norna, por instantes, ergueu para ele o olhar e tornou a deixá-lo cair no livro que parecia reter toda a sua atenção.

- Não te incomodes, prima - disse Magnus-o que temos a dizer-te pode esperar um momento do teu repouso. Anda cá, Minna, olha que bela vista a do cabo e a do mar... E a foca? Sabes que é bonita! Anda cá, vem aqui, aqui’ Hu!... Hu!...

A foca não correspondeu às adulações do udaller senão grunhindo.

- Não é bem educada... - comentou Magnus - pois bem, prima - ajuntou ele ao ver Norna fechar o livro - vais finalmente dizer-nos que somos benvindos, ou teremos que ir procurar outra guarida que não seja a casa da nossa parenta, quando a tarde já vai bastante adiantada?

- Geração de coração duro e frio, tão surda como a áspide o é à voz daquela que a encanta, que me queres - perguntou Norna, por fim - Desprezaste todos os avisos que te fiz sobre os males que te ameaçavam e, agora, que eles chegaram, vens pedir-me conselhos porventura inúteis.

- Só te digo, prima - replicou o udaller no tom de fraqueza e de ousadia que lhe era peculiar - que a tua delicadeza não é da qualidade mais requintada. Atendendo ao nosso antigo conhecimento e a umas outras razões, é que não saio já da tua casa; mas, como me apresentei aqui com amizade e civilidade, peço para ser recebido de igual modo, senão partimos, deixando a vergonha no vosso tecto não hospitaleiro.

- Quê! - exclamou Norna - Atreves-te a usar essa linguagem audaciosa em casa de uma mulher a quem toda a gente pede conselho e protecção, que tu próprio vens solicitar? Os que falam a Reimkennar devem baixar a voz ao dirigir-se àquela perante quem se calam os ventos e as vagas.

- Os ventos e as vagas podem calar-se, se quiserem - respondeu o udaller num tom decidido - mas eu é que não me calo. Falo em casa de um amigo como se estivesse na minha, e não abaixo a bandeira perante ninguém.

- Esperas com esse tom grosseiro obrigar-me a responder às tuas perguntas?

- Prima - redarguiu Magnus com firmeza - não conheço tão bem como tu as antigas sagas norses; mas o que eu sei muito bem, é que os nossos antepassados, quando iam consultar os intrépretes do Destino, chegavam de acha ao ombro, espada desembainhada na mão, e obrigavam a potência que invocavam a escutá-los e a responder-lhes, nem que se tratasse do próprio Odin.

- Primo Magnus - disse Norna, levantando-se e avançando para ele - falaste a tempo, por ti e por tua filha, porque, se saísses de minha casa sem me obrigares a responder-te, o Sol não se levantaria amanhã sobre vossas cabeças. Os espíritos que me servem são zelosos. Não querem ser usados em coisa alguma que possa ser útil à Humanidade, a não ser que a isso sejam constrangidos pela audaciosa impertinência do homem livre e valente. Fala agora; que queres de mim?

- A saúde de minha filha, que nada até hoje pôde restituir-lhe.

- A saúde da tua filha! E qual é a doença?

- É ao médico que compete dizê-lo. Tudo o que posso dizer é que...

- Não digas nada. Sei tudo o que me podes dizer, e ainda muito mais. Sentem-se todos, e tu, filha - disse a Minna, mostrando-lhe o lugar que acabava de abandonar - senta-te nessa cadeira; era outrora a de Giervada, à voz de quem as estrelas se despojavam dos seus raios e a própria Lua empalidecia.

Minna avançou num passo lento e trémulo para a cadeira indicada. Era um cadeirão de pedra grosseiramente talhada pela mão de algum antigo artista godo.

Brenda, que se mantinha sempre o mais perto possível de seu pai, sentou-se, assim como ele, num banco de pedra colocado a pouca distância de Minna, com os olhos sempre fixos nela, num misto de inquietação, de medo e de piedade.

Minna tinha um ar pensativo, resignada a tudo o que quisesse prescrever uma mulher cuja pretensa magia pod ria produzir um efeito tão pernicioso numa jovem na sua disposição. O seu belo vulto e os contornos delicados dos seus membros formavam um flagrante contraste com os ângulos irregulares e a massa informe da cadeira em que se sentava. As suas faces e mesmo os seus lábios estavam brancos como giz, os seus olhos, erguidos para o Céu exprimiam um misto de resignação e de entusiasmo, resultado do estado em que se encontrava e do seu carácter. Norna, falando consigo própria em voz baixa e monótona, ia tomando de diferentes lugares diversos objectos que colocava, um após outro, em cima da mesa. Brenda, testemunha de todos estes preparativos, lançava olhares a seu pai para perceber, pela expressão da sua fisionomia, se ele partilhava dos seus receios. Mas Magnus observava, num ar calmo, todos os preparativos de Norna, e parecia esperar os acontecimentos com o sangue-frio de um homem que cheio de confiança na habilidade de um cirurgião prestes a fazer uma operação importante e dolorosa, o vê preparar-se com todo o interesse que podem inspirar os laços da Natureza ou os da amizade.

Entretanto, Norna continuava os seus preparos. Colocou em cima da mesa um braseiro cheio de carvão de pedra, um cadinho e um pedaço de chumbo laminado.

- Foi uma grande felicidade - disse ela em seguida, em voz alta - o eu saber que vinham cá. Sim, soube-o muito tempo antes de vocês próprios; se assim não fosse, como poderia eu ter podido preparar-me para o que era preciso fazer? Jovem - acrescentou ela, dirigindo-se a Minna - onde é o teu mal?

Minna respondeu, pousando a mão sobre o seu lado esquerdo.

- É isso - pronunciou Norna - é isso mesmo. Tu, seu pai, e tu, sua irmã, imaginais que isto são vãs palavras de uma mulher que fala ao acaso. Se eu posso dizer qual é o mal, talvez seja capaz de acalmar as dores que todos os tratamentos do Mundo não podem curar. O coração, sim, o coração, feriram-no, e o brilho dos olhos extingue-se, o pulso bate mais fracamente, o sangue detém-se nas veias e todos os membros se deterioram como a erva marinha sob os raios do Sol; a felicidade da existência é aniquilada; não fica senão a sombra do que se perdeu e o receio do mal irremediável. Mas a Reimkennar vai meter mãos à obra; foi uma felicidade eu ter obtido com antecedência os meios de conseguir alguma coisa.

Tirando a sua capa cor de castanha, conservou o vestido curto de um azul pálido, bizarramente guarnecido de veludo preto e preso à cintura por uma corrente de prata de um trabalho original, desatou a rede que sustinha os seus cabelos grisalhos e deixou-os soltos sobre os ombros e o rosto, de maneira que lhe ocultassem quase as feições. Colocou então um pequeno crisol sobre o braseiro; verteu no carvão algumas gotas de um líquido contido numa pequena garrafa, e, molhando o indicador da mão direita num outro líquido, tocou o carvão e pronunciou em voz forte: - «Fogo, faz o teu dever!» E mal proferira estas palavras, o carvão colocado no braseiro, decerto por efeito de um preparado químico desconhecido dos espectadores, pouco a pouco, enquanto Norna, como se este pormenor a impacientasse, sacudiu a cabeça e repelia os cabelos Para trás. A claridade avermelhada do fogo que acendia reflectia-se no seu semblante, e os seus olhos brilhavam como os de um animal selvagem no seu covil, enquanto ela soprava para tornar a chama mais viva. Interrompendo um momento este trabalho, ela murmurou em voz baixa que o espírito deste elemento devia estar grato e cantou uns versos norses num tom monótono e esquisito.

Cortou depois um pedaço de chumbo laminado que estava em cima da mesa, colocou-o no cadinho, submeteu-o à acção do fogo e enquanto ele se derretia proimncht estes versos:

 

Os benefícios que te dignas hoje conceder-me

É meu dever - ó Terra! - agradecer-te,

A ti, cujo seio profundo nutre e vivifica

Tudo o que a Natureza quer feundar.

De uma mina do Norte sai o místico metal

Que, tornando outra vez aos teus flancos,

Revestiu um cavaleiro famoso por seus feitos

E está agora em minhas mãos em proveito da magia.

 

Pegando então na tenaz, ela retirou o cadinho de cima do braseiro e verteu o chumbo derretido na bacia cheia de água, e disse:

 

Elementos, neste encontro

Vos proíbo lutas supérfluas.

Mostre cada um de vós O seu poder e as suas virtudes.

 

O chumbo derretido, caindo na água, a rechinar, tomou, como de costume, aquela variedade de formas irregulares que todos os que fizeram estas experiências na sua mocidade conhecem, e onde cada um encontra semelhanças com o que quer ver. Norna tinha um ar muito preocupado ao examinar a massa de chumbo caída no fundo da vasilha; separou alguns fragmentos, pareceu considerá-los com muita atenção; mas não encontrou logo o que procurava’

Por fim, Norna voltou a lançar o chumbo no cadinho; o metal molhado, tocando o vaso ao rubro pelo fogo, começou de novo a agitar-se e depressa se reduziu pela segunda vez ao estado de fusão. Entretanto, a sibila, dirigindo-se a um canto do compartimento, abriu o batente de uma janela volvida ao noroeste e viu-se entrar de iente a luz do Sol, então quase ao nível do horizonte meio encoberto por grossas nuvens avermelhadas que Pareciam prenúncio de tempestade. Voltando-se então para o lado de onde soprava uma brisa bastante forte, da qual se ouvia o surdo rugido, Norna dirigiu-se ao espírito dos ventos, numa voz solene:

 

Tu, que fazes vogar sem perigo, no Oceano,

O audaz pescador na sua canoa humilde,

Quando as vagas ululantes que teu sopro amansa

Devoram o navio que ao furacão desafia

Julgas-te preterido, se teus irmãos adoro?

Vê os cabelos grisalhos que minha mão arranca

E para ti, sem pena, de minha fronte separa:

Os ventos e os céus serão seus depositários.

Toma o que te pertence, espírito exigente;

Escuta, pois, a minha voz e torna-te indulgente.

 

Norna acompanhou estas palavras da acção que elas descreviam. Arrancou com violência uma madeixa de cabelos da sua cabeça e abandonou-os ao sabor dos ventos, enquanto acabava de declamar os versos. Em seguida, fechou o batente, e o quarto mergulhou na meia luz que convinha ao seu carácter e à ocupação a que ela se entregava. O chumbo derretido foi pela segunda vez lançado na água, e as formas caprichosas que tomou de novo examinadas com escrupulosa atenção. Enfim, a voz e os gestos da sibila parecia anunciarem que a sua encantação resultara. Escolheu no metal posto em fusão e arrefecido um pedaço que tinha algumas semelhanças com um coração humano e, aproximando-se de Minna, disse:

 

Jovem que vai sentar-se junto ao poço encantado

Deve esperar, em suma, algum malefício;

Aquela que vai procurar uma costa deserta

Nem sempre encontra o augúrio propício;

Aquela que adormece na gruta do Anão

A males funestos expõe seu coração.

Mas não é poço, nem gruta, nem onda

Dos males de Minna a fonte fecunda.

 

Minna, cuja atenção se desviara um pouco para os seus desgostos íntimos, retomou-a de súbito, e seus olhos readquiriram um pouco do seu brilho quando os fixou em Norna, na expectativa de saber alguma coisa de interesse para ela. Entretanto, a sibila perfurou o pedaço de chumbo que tinha a forma de um coração, depois do que lhe ajustou um anel de ouro que podia servir para suspender uma cadeia ou um colar. Continuou em seguida a recitar os seus versos:

 

Um demónio exerceu em ti sua influência;

Heim é menos manhoso, Trolld tem menos poder.

A sereia já não tem um canto tão sedutor.

Ninguém, como ele, tortura um coração;

Seca o sangue que percorre as veias,

Estanca nos olhos o pranto vão.

Queres que meu encanto tenha virtude?

Responde primeiro: entendes-me, jovem?

 

Minna respondeu-lhe, empregando o mesmo ritmo, que não lhe era estranho:

 

Continuai vossos contos, entendo-os, minha mãe;

É a mim que cumpre decifrar o mist’ério.

 

- Que o Céu e todos os santos do Céu sejam louvados! - exclamou Magnus Troil - Eis as primeiras palavras que ela pronuncia com acerto desde há uns poucos de dias.

- E serão as últimas que ela pronunciará até daqui a muitos meses - replicou Norna, irritada - se detiveres os progressos da minha encantação. Voltem-se os dois para o lado da parede, sob pena de me arreliarem. Tu, Magnus Troil, pela tua presunçosa audácia, e tu, Brenda, pela tua incredulidade por tudo o que ultrapassa a tua inteligência, são ambos indignos de presenciar esta obra misteriosa, os vossos olhares enfraquecem as minhas esconjuras, pois as forças que invoco não perdoam a dúvida.

Pouco habituado a que lhe falassem num tom tão imperioso, Magnus sentiu grande vontade de responder-lhe azedamente, mas, reflectindo que se tratava da saúde de Minna e que quem lhe falava assim era uma mulher que tivera grandes desgostos, dominou um movimento de cólera, baixou a cabeça, não sem encolher os ombros, e obedecendo às ordens da sibila, voltou as costas à mesa e a cara para o lado da parede. Brenda, ao primeiro sinal de seu pai, fez outro tanto, e ambos guardaram um profundo silêncio.

 

Então, Norna dirigiu de novo a palavra a Minna.

 

Escuta-me: o que vou dizer-te

Vai de teus males pressagiar o fim.

Pode a esperança reluzir em teus olhos

E ao teu seio voltar a paz reconfortante.

Reanima esse coração, sê confiante;

As antigas cores renascerão em tua tez,

Quando em Kirkwal, na igreja de um santo,

O pé sangrento puder encontrar a mão sangrenta.

 

Minna corou quando Norna pronunciava as últimas palavras, pois não deixou de concluir, como elas lhe davam a entender, que a sibila conhecia a causa secreta do seu desgosto. A mesma convicção a levou a esperar que se dariam acontecimentos tão favoráveis como os que Norna acabava de predizer; e não ousando exprimir os seus sentimentos de maneira mais inteligível, ela apertou a mão de sua parenta, primeiro contra o seio e depois contra os lábios, regando-lha ao mesmo tempo de lágrimas.

Norna retirou a mão da da jovem, cujo pranto corria com abundância, e, com uma espécie de sensibilidade que não lhe era peculiar e mais ternura que talvez lhe quisesse aceder, atou uma cadeia de ouro ao coração de chumbo e suspendeu-o ao pescoço de Minna, ao mesmo tempo que lhe dizia:

 

Trata de armar-te de paciência,

Que a paciência é um talismã.

Contra todos os perigos é a nossa defesa,

Como uma capa em dia de tempestade.

A cadeia que tu vês é obra de uma fada

E prova que Norna te falou verdade.

Seja, pois, esta jóia por ti levada,

Mas que não a descubra nenhum olhar,

Enquanto o tempo, com sua autoridade,

O meu presságio não venha confirmar.

 

Norna, então, colocou a cadeia em volta do pescoço de Minna e ocultou-a no seu seio de maneira que ninguém a Pudesse ver, e advertiu-a de novo de que, se ela mostrasse aquele dom das fadas, ou que dele falasse a alguém, toda a virtude ficaria destruída - crença geral, que faz parte das superstições de todo o Mundo.

Por fim, desabotoando-lhe a gola que ela acabava de fechar, disse a Minna que observasse com atenção alguns elos da cadeia de ouro, e Minna reconheceu logo a que Norna dera em tempos a Mordaunt Mertoun, o que lhe pareceu anunciar que ele era vivo e que estava sob a protecção da sibila. A jovem ergueu para ela o seu olhar com a mais viva curiosidade; mas norna levou o dedo aos lábios a fim de lhe ordenar silêncio, e de novo ocultou a cadeia sob o tecido com que o pudor velava um dos maibelos seios e um dos corações mais ternos que a Natureza criou.

Norna, depois, apagou as brasas do carvão com a água que estava na bacia, e enquanto o fogo se extinguia num frémito, disse a Magnus e a Brenda que podiam voltar-se, e que a sua tarefa estava concluída.

 

                       UMA CABANA NA NOITE ESCURA

Norna parecia ter incontestável direito à gratidão do udaller, pelo salutar efeito que ela acabava de produzir na saúde de sua filha. Ela reabriu os batentes da janela, e Minna, limpando os olhos e avançando para seu pai com um ar de confiança e de ternura, lançou-se ao seu pescoço e pediu-lhe perdão dos desgostos que lhe dera. É escusado dizer que esse perdão, embora expresso com a brusca franqueza do udaller, foi concedido a Minna com todo o ímpeto da ternura paternal: Magnus abraçou-a, tão contente como se a visse sair do túmulo. Dos braços de seu pai ela precipitou-se nos de sua irmã, e testemunhou-lhe, por lágrimas e por carícias mais do que por palavras, a pena que lhe causava a estranha atitude que tivera com ela durante um certo tempo. Magnus julgava-se obrigado a agradecer a Norna, cuja ciência fora tão eficaz. Mas, mal começara a dizer: «Muito respeitável prima, eu sou um velho norse...» - ela interrompeu-o levando um dedo aos lábios.

- Estão à nossa volta - disse ela - entes a quem a voz mortal é importuna, e que não gostam de ver sacrificar aos sentimentos humanos. Por vezes até se revoltam contra mim, que sou sua soberana, porque ainda estou revestida do invólucro da humanidade. Acredita, pois, e guarda silêncio. Eu, que meus actos elevaram acima do obscuro vale da vida; eu, que estou colocada a uma altura incomensurável, que não pertenço à terra senão pela pequena porção que meus pés pisam, eu sou a única pessoa capaz lutar contra estes entes terríveis. Nada receies no entanto, mas livra-te de seres temerário, e que esta noite seja para ti uma noite de prece e de jejum. O udaller ficou sentado e silencioso. Pegou num livro que estava perto dele, como que num desesperado esforço por escapar-se ao tédio, pois não se poderia citar outro motivo que alguma vez decidisse Magnus a abrir um livro. Quis o acaso que este fosse a seu gosto; era uma obra bem conhecida de Olaus Magnus sobre as antigas nações do norte. Por infelicidade, este livro estava escrito em latim, língua com a qual o udaller estava menos familiarizado do que com o norse e o holandês. Mas era a bela edição enriquecida de gravuras representando as guerras, as pescas, os exercícios e as ocupações domésticas dos escandinavos. Entretanto, Minna e Brenda, tal como duas flores nascidas da mesma haste, estavam sentadas, com o braço passado pelos ombros uma da outra, como se tivessem receio de que novo motivo de frieza viesse insinuar-se entre elas e destruir a harmonia que, com tanta felicidade, acabava de se restabelecer. Norna retomara o seu lugar, ora lendo no grosso volume forrado de pergaminho que tinha entre mãos à chegada de Magnus e suas filhas, ora observando as duas irmãs num ar que denunciava tomar por elas terno interesse, sentimento raro nela e que parecia turbar a dignidade severa da sua fisionomia. Tudo estava tranquilo e silencioso como a morte, e a comoção de Brenda que começava a acalmar-se, ainda não lhe permitia informar-se se o resto da tarde devia passar-se da mesma maneira, quando esta cena solene foi interrompida pela chegada do anão Pacolet, ou, como lhe chamava o udaller Nicholas Strumpfer.

Norna lançou um olhar irritado ao intruso, que pareceu querer deter a sua irritação levantando as duas mãos e fazendo ouvir um som inarticulado. Recorrendo em seguida ao seu modo habitual de conversar, fez a sua ama uma infinidade de sinais com os dedos. Norna respondeu-lhe da mesma maneira, e as duas irmãs, que nunca tinham ouvido dizer que se podia exprimir ideias por semelhante meio, e que o viam posto em prática por dois entes tão singulares, quase acreditaram que eles não podiam entender-se senão por uma prática de encantação.

Quando o diálogo terminou, Norna volveu-se para Magnus e disse-lhe, com altivez:

- Como é possível, parente, que tenhas ousado trazer alimentos terrestres para a casa de Reimkennar e tenhas feito preparativos para transformar a moradia do poder e do desespero numa sala de festim e divertimento? Não fales, não respondas. A duração da cura que acabo de operar depende do teu silêncio e da tua obediência. Troca comigo uma só palavra, um só olhar, e esta jovem recar’ num estado pior do que aquele de que a tirei.

Esta ameaça foi uma encantação que logo influiu no udaller, e que o fez conservar-se silencioso, apesar do desejo que tinha de justificar-se.

- Sigam-me todos - ordenou Norna, avançando para a porta do compartimento - e não olhem para trás; não deixamos esta sala vazia, embora nós, filhos do pó, a abandonemos.

Saiu, e Magnus fez sinal a suas filhas para a seguirem e obedecerem às suas ordens. A sibila desceu muito mais depressa do que os seus hóspedes os degraus irregulares, que nem mereciam o nome de escada, que conduziam à sala do rés-do-chão. Quando Magnus ali chegou com as filhas, encontrou os criados interditos e consternados a ver a nova operação de que já se ocupava Norna de Fitful-head.

Eles tinham tido o cuidado de dispor em cima de uma mesa de pedra as provisões que tinham trazido, de maneira que o udaller pudesse encontrar um repasto preparado quando sentisse os primeiros sintomas do apetite, necessidade nele tão regular como o fluxo e o refluxo do mar. Mas, qual não foi a sua surpresa, quando viram Norna agarrar sucessivamente em todos os comestíveis que a sua previdência preparara e, secundada pelo zelo activo de Pacolet, atirá-los uns após outros, pela abertura que servia de janela, para o mar, cujas vagas se despedaçavam na base do rochedo sobre o qual o antigo burgo fora construído. O desaparecimento de todos aqueles comestíveis foi tão rápido que o udaller mal teve tempo de salvar do naufrágio a sua grande bacia de prata, enquanto uma garrafa de couro, contendo a sua bebida favorita, ia juntar-se ao resto das provisões lançadas ao seio das ondas pela mão de Pacolet. Este pequeno monstro olhava de vez em quando para o udaller consternado, fazendo-lhe uma careta maliciosa, como se, a despeito do gosto que ele próprio tinha por aquele líquido, parecesse gozar de ver a contrariedade de Magnus, mais do que se partilhasse da bebida com ele. A perda da sua garrafa de aguardente esgotou a paciència do udaller, que exclamou, arreliado:

- Mas, prima, que fúria de destruição a empolgou! Onde quer que ceemos agora, e o quê?

- Onde quiserem e o que lhes apetecer - respondeu Norna - Mas não serão os alimentos com que quiseram profanar este lugar. Saiam todos, e não perturbem por mais tempo o meu espírito. Para mim, e talvez para vós todos, já se demoraram demasiado aqui.

-Quê! - replicou Magnus - Tens coragem de nos pôr fora de casa nas vizinhanças da noite?

- Silêncio e retirem-se! - ordenou Norna - Que vos baste o terdes obtido o que desejáveis. Simples mortais não podem ser meus hóspedes, e não tenho provisões para satisfazer as necessidades dos homens. Junto do rochedo há uma areia da maior beleza; encontra-se aí um regato cuja água é tão pura como a de Kildinguie, e a dulse (1) que cresce entre as fendas da rocha cura todas as doenças excepto a morte.

 

Nota 1: Erva a que se atribui qualidades medicinais.

 

- Já sei - exclamou o udaller - que tenho que comer ervas marinhas como um estorninho, carne de baleia salgada, como os habitantes de Burraforth, e ratos, caracóis e lampreias, como os pobres miseráveis de Stroma, só para não partir um pedaço de bom pão branco e não beber um copo de excelente vinho numa casa onde isso me seria censurado... Errei, prima - ajuntou ele, num tom mais brando - cometi um grande erro: devia agradecer-lhe o que fez, em lugar de a repreender por ter procedido à sua maneira. Mas vejo que já está a impacientar-se; vamos alar a vela. E vocês, velhacos - disse ele aos criados - vocês que tanto se apressaram em fazer o serviço antes de lho recomendarem, saiam imediatamente e tratem de apanhar depressa os cavalos, porque vejo que é preciso procurar outro asilo esta noite, se não nos quisermos deitar, de estômago vazio, num leito de pedras.

Os criados, que a violência de Norna deixara bastante sobressaltados, nem esperaram o fim das ordens imperiosas de seu amo para abandonar aqueles lugares a toda a pressa; e o udaller, tomando as filhas pelo braço, dispunha-se a segui-los, quando Norna exclamou num tom enfático:

- Esperem!

Detiveram-se e volveram-se para ela, que estendeu a mão a Magnus. E o bom udaller, alheio a rancores, apertou-lha logo com cordialidade.

- Magnus - disse ela - deixamo-nos por necessidade, e espero que sem ressentimento.

- Eu não guardo nenhum, prima - respondeu o udaller - absolutamente nenhum. Nunca tive ressentimento contra ninguém, e muito menos o posso ter contra o meu próprio sangue, contra uma mulher cujos conselhos me guiaram através de mais de uma borrasca da vida, com tanta segurança como o melhor piloto de Swona e Stroma poderia conduzir um barco na corrente e nos turbilhões do frith de Pentland.

- Basta - disse Norna - Agora, retirem-se com a única bênção que me atrevo a fazer-lhes. Nem mais uma palavra! Jovens, aproximem-se para eu as beijar na fronte.

As duas irmãs obedeceram à sibila, Minna com uma espécie de respeito religioso e Brenda com um receio involuntário. Norna despediu-se dos seus hóspedes e dois minutos depois pai e filhas encontravam-se na plataforma do rochedo em frente da moradia que esta mulher singular escolhera.

Estava caindo uma noite de uma beleza pouco vulgar. Um soberbo crepúsculo estendia-se ao longe pela superfície do mar e substituía a curta ausência do sol de Verão. O mar parecia dormitar, pois mal se ouvia o rumor das vagas que avançavam pacificamente, uma após outra, até à base do rochedo. Em frente, erguia-se a velha fortaleza, que parecia tão antiga, tão disforme, tão maciça como o granito sobre o qual a construíram. Nem a vista, nem o ouvido denunciavam nas cercanias uma habitação humana. Durante alguns minutos, Magnus e as filhas, que Norna acabava de despedir, subitamente e contra a sua expectativa, do asilo onde contavam passar a noite, quedaram-se em silêncio, cada um entregue às suas reflexões. Minna, fixando todos os seus pensamentos nas consolações misteriosas que recebera, procurava em vão encontrar nas expressões que Norna empregara um sentido inteligível. O udaller ainda não estava bem refeito da sua surpresa e do despeito que fora obrigado a reprimir ao receber de Norna um acolhimento que o seu carácter hospitaleiro fazia considerar um tanto insultuoso.

Brenda foi a primeira a quebrar o silêncio, perguntando onde iriam e onde passariam a noite. Esta pergunta, feita num tom de simplicidade em que se mesclava alguma coisa de Melancólico, mudou logo o curso das ideias de seu pai. Como a sua situação inesperada e embaraçosa o chocasse então sob um ponto de vista cómico, soltou uma grande gargalhada que ecoou por todos os rochedos; as aves marinhas, sobressaltadas por este acesso de alegria voaram atemorizadas. As duas filhas do udaller fizeram sentir vivamente a seu pai que ele corria o risco de desagradar a Norna rindo daquela maneira e conjugaram os seus esforços para o arrastar para longe do antigo burgo. Embora as suas forças reunidas não fossem consideráveis, Magnus cedeu e deixou-se levar até uma grande distância. Por fim, aquela vontade de rir esgotou-se por si. Ele soltou um longo gemido, limpou os olhos e disse:

- Pelas relíquias de São Magnus, meu patrono e um dos meus antepassados, julgar-se-ia que ser expulso de uma casa a uma tal hora da noite não passasse de uma boa brincadeira, porque ri às bandeiras despregadas. Ora vejam: nós estávamos ali sentados tranquilamente, contando ter um abrigo para a noite, e eu tinha por tão certo comer uma boa ceia e beber o meu copo de aguardente, Como nunca sucedeu na minha vida; mas, no fim de contas, expulsam-nos, e eis que Brenda me pergunta em voz dolente e lamentosa o que faremos e onde iremos dormir... Eu desejaria ter salvo do naufrágio alguma comida para vocês e uma pinga para mim, para não termos tanto de que nos lamentar.

As duas irmãs afiançaram a seu pai que passariam sem cear, sem que isso lhes causasse inconveniente.

- Tanto melhor - disse o udaller - Nesse caso, não me lamento do meu apetite, apesar de ser melhor do que eu desejaria neste momento. E aquele miserável Nicholas Strumpfer, que caretas o velhaco me fazia ao atirar a garrafa de aguardente ao mar! Se não fosse por medo de desagradar a minha prima Norna, tinha-o atirado a fazer companhia à garrafa, tão verdade como as relíquias de São Magnus estarem em Kirkwall.

Nesse momento chegaram os criados com os cavalos, que se tinham deixado prender com facilidade. Foi então que Magnus recebeu uma boa nova. Um pequeno cesto de provisões escapara à fúria de Norna e Pacolet,   graças à rapidez com que, naquele momento crítico, um dos criados se apoderara dele e o levara. O mesmo homem, criado atento e inteligente, disse que reparara na costa, a cerca de três milhas do velho burgo, num skio, isto é, uma choupana de pescadores que parecia desabitada; e como essa cabana não ficava sequer a um quarto de milha da estrada directa que se deveria seguir, lembrou passarem ali o resto da noite, para que as jovens estivessem ao abrigo do ar frio e húmido e os cavalos pudessem descansar.

Nada provoca uma alegria mais franca e mais inocente do que ser-se tirado de repente de um desses ligeiros embaraços a que, por vezes, estamos expostos no decurso da vida. Assim era nesse momento a situação do udaller e de suas filhas. Magnus, já não receando por elas os inconvenientes da fadiga, nem para ele próprio os de um apetite exagerado em presença de muito pouca comida, começou a entoar canções norses, ao mesmo tempo que premia os flancos do seu corcel, com tanta jovialidade como se aquela viagem nocturna fosse mais um prazer que uma necessidade. Brenda acompanhou-o com a sua voz e os refrães eram repetidos em coro por todos os criados, que, na singeleza em que a sociedade ainda se encontrava naquele país, não julgavam faltar ao respeito ao patrão por juntarem as suas vozes à dele.

Minna ainda não se sentia em estado de fazer um tal esforço; no entanto, tratava de tomar parte na alegria geral. e, procedendo de uma maneira bem diferente da que vira na noite fatal em que terminaram as festas de São João, parecia interessar-se por tudo o que se passava à sua volta. e respondia, pressurosa e num ar de bom humor, às múltiplas perguntas que o udaller, interrompendo os seus cantos, lhe fazia a cada instante sobre a sua saúde.

Assim realizavam a sua viagem nocturna, e achavam-se todos numa situação muito mais feliz do que quando percorreram o mesmo trajecto, na manhã anterior. A choupana indicada não era longe; ela ia oferecer aos viajantes repouso e solidão. Mas era sina do udaller, nesse dia, enganar-se segunda vez nos seus cálculos.

- E para que lado fica essa cabana que tu enxergaste, Laurie? - perguntou ele ao criado.

- Deve ser lá em baixo à beira do voe - respondeu Lawuence Scholey - Mas, se não me engano, já alguém tomou posse dela antes de nós. Queira Deus que sejam habitantes deste Mundo!

Efectivamente, uma luz bastante viva passava através das tábuas mal unidas da barraca. As ideias supersticiosas dos setlandeses despertaram logo.

- São trows - disse um dos criados.

- Ou feiticeiras - ajuntou outro.

- São sereias - disse um terceiro - Não ouvem as suas vozes estranhas?

Realmente, alguns sons musicais fizeram-se ouvir e Brenda, em voz um tanto trémula, mas na qual se notava o desejo de levar para o ridículo o terror dos outros, disse que se tratava apenas do som de um violino.

- Não importa! - exclamou Magnus. que, se acreditava em aparições, como a gente da sua comitiva, pelo menos não tinha medo - Que sejam músicos deste Mundo ou almas do outro, diabos me levem se deixo roubar por outra feiticeira o que resta da minha ceia!

Dizendo isto, desceu do cavalo, agarrou com mão firme a sua bengala fiel e avançou para a choupana, seguido apenas de Lawrence, enquanto os outros criados ficavam junto da costa com os cavalos e com as duas irmãs.

 

                       INESPERADO E ALEGRE ENCONTRO

O udaller não deixou de aproximar-se, a passo firme, da cabana onde continuava a ver-se luz e de onde vinha então mais distintamente o som do violino. Mas, se seus passos eram seguros, também se sucediam uns aos outros um pouco mais lentamente que de costume, porque, em geral tão prudente como destemido, Magnus desejava reconhecer o inimigo antes de o atacar. O fiel Laurence Scholey, que seguia seu amo passo a passo, disse-lhe ao ouvido:

Deus nos acuda, senhor! Se é um espírito que se diverte assim a tocar violino, tem que ser o de Claud Halcro- porque nunca outro arco imitou melhor a sua ária predilecta de Bela e Rica.

Magnus era quase da mesma opinião, pois sabia de cor todas as árias do velhote, e chamou-o numa voz de estentor. Halcro reconheceu logo a voz que o chamava e respondeu imediatamente, aproximando-se sem tardar do seu velho amigo.

O udaller fez sinal à sua comitiva para avançar, e, depois de sacudir cordialmente a mão do poeta, disse:

- Porque diabo se entretém você a tocar as suas velhas árias neste lugar de desolação, como um mocho que canta ao luar?

- Mas, diga-me antes, fowd - respondeu Halcro - como acontece que vem ouvir-me, e com as suas duas encantadoras filhas? Minna e Brenda, sejam benvindas a estas areias amarelas, como diria o glorioso John Dryden, ou qualquer outro poeta, em semelhante ocasião. Como podem achar-se aqui, fazendo da noite dia e transformando em prata tudo o que vossos pés pisam?

- Já o vai saber - disse Magnus - Mas quem é que está consigo nesta cabana? Parece-me ouvir falar...

- É esse pobre-diabo, o feitor, e o meu criadito Giles. Eu... Mas, entrem. Estamos a entreter a fome com música, porque nem sequer alguns sillocks pudemos encontrar por caridade ou por dinheiro.

--Isso pode-se remediar em parte - disse o udaller porque, embora o melhor da nossa ceia fosse atirado ao mar, do alto de Fitful-head, para alimentar os tubarões e as focas, ainda nos ficaram alguns sobejos. Lawrence, vai buscar as provisões.

Magnus e as filhas entraram na cabana, cujo cheiro anunciava que ali se secava peixe e cujas paredes e tecto estavam completamente enegrecidos do fumo. Encontraram o desgraçado Triptolemus Yellowley sentado junto de um De um lume alimentado por ervas marinhas secas, turfa e pedaços de madeira, despojos de naufrágios. O seu único companheiro era um moço setlandês de cabelos ruivos e pé descalço, de quem Claud Halcro se servia como de uma espécie de pajem para lhe transportar o violino, selar o cavalo e prestar-lhe outros serviços do mesmo género. O agricultor, desolado, não mostrou a menor surpresa, e ainda menos satisfação, ao ver chegar o udaller e a sua companhia mas, quando todos estavam agrupados em torno do lume; quando as provisões apareceram; quando viu sair do cesto uma quantidade razoável de pão, de carne salgada e uma garrafa de aguardente, logo que teve esperança de cear razoavelmente, esfregou as mãos, esforçou-se por sorrir e perguntou como passavam os respeitáveis amigos de Burgh-Westra.

Depois de tomado o alimento de que tanto se carecia, o udaller perguntou de novo a Claud Halcro, e ainda mais particularmente ao feitor, por que acaso se encontravam reunidos, a semelhante hora, num local tão afastado das suas respectivas habitações.

- Senhor Magnos Troil - disse Triptolemus, quando um segundo copo lhe emprestou coragem - desejaria que acreditasse que não é assim qualquer insignificância que me desconcerta. Sou daqueles que só um grande tufão me pode abater. Tenho visto, desde que estou no Mundo, muitos São Martinhos e muitos Pentecostes, que são as épocas mais difíceis para a minha profissão, e semp soube encarar com ânimo a má sorte; mas creio absolutamente que vim sepultar-me no seu maldito país. Deus me perdoe de blasfemar, mas, má companhia não ensina boas maneiras.

- Mas, afinal, que lhe aconteceu? De que se queixa?

- Tenha um pouco de paciência, senhor fowd, senhor udaller, ou lá como é o título que lhe dão. Quanto mais forte é o senhor, mais complacente deve ser. preste atenção à infeliz sorte de um homem sem experiência que chega ao seu paraíso terrestre: ele pede de beber, apresentam-lhe leite azedo; isto não se refere à sua aguardente, senhor Magnus, que é esplêndida; ele pede de comer e trazem-lhe peixe, é claro, que nem o próprio diabo seria capaz de tragar. O senhor chama os seus jornaleiros e diz-lhes que trabalhem, mas é dia de São Magnus, ou de São Ronan, ou de qualquer outro santo infernal; ou então sucedeu que eles desceram da cama com o pé esquerdo primeiro, que viram um mocho, que um coelho se lhes atravessou no caminho, numa palavra, não se faz nada. Meta-lhes uma pá nas mãos, e eles trabalham como se ela lhes queimasse os dedos: mas fale-lhes de dançar, e verá se eles se cansam de saltar e fazer piruetas.

- E porque haviam eles de cansar-se, tendo bons violinistas que lhes marcam o compasso? - disse Claud Halcro.

- Sim, sim! - exclamou Triptolemus, sacudindo a cabeça - O senhor, precisamente, é que convém ao seu feitio. Mas continuemos: eu lavro um talhão de terra melhor; vem um mendigo, que quer uma porção para nela fazer uma horta, instala-a no meio do meu campo, sem mais se importar com o proprietário ou o rendeiro; tem que lá plantar as suas couves. Sento-me para comer o meu modesto jantar, esperando gozar, ao menos, durante esse tempo, um pouco de calma e de repouso; mas eis que chega um, dois, três, quatro, meia dúzia de pândegos que vêm divertir-se, que me dirigem injúrias porque a minha porta está fechada, e que devoram metade do que me preparou para o jantar a providência da minha irmã, providência de mão bem fechada; vem depois uma bruxa, de vara em punho, que manda os ventos soprar ou aquietar-se, conforme lhe passar pela cabeça; que quer governar na minha casa como se ela fosse a dona; depois de ela partir, tenho que agradecer ao Céu por não me ter levado com ela metade da casa.

- Mas nada disso responde à minha pergunta - disse o udaller - Como foi que o senhor veio lançar ferro neste ancoradoiro?

- Já vai ver - disse Triptolemus - Tendo necessidade de uma pedra para moer a minha cevada, minha irmã observou-me que tínhamos uma numa chaminé. Levantei, Pois, uma grande pedra que constituía a lareira de um velho quarto de Stourburgh; e que encontrei eu? Um chifre repleto de moedas de toda a espécie. Ora, parece-me que era uma bonita dádiva do Céu, e Baby pensou o mesmo, de maneira que ficámos mais resignados a suportar os inconvenientes de um local onde se encontravam tais ovos para chocar. Tornámos a colocar com grande cuidado a pedra por sobre o chifre, que me pareceu ser a autêntica córnucópia, ou o corno da abundância, e, para mais segurança, Baby ia visitar esse quarto, pelo menos, vinte vezes por dia e eu próprio por lá ia de quando em quando.

- Palavra de honra - disse Claud Halcro - é uma bonita distracção ir visitar um chifre cheio de ouro e prata que nos pertence. Duvido que o glorioso John Dryden tivesse alguma vez um tal passatempo; quanto a mim, confesso que me é desconhecido.

- Muito bem, Halcro! - disse o udaller - Mas esquece-se de que o feitor não passava de um simples depositário desse dinheiro por conta de Lorde Chamberlain. Ele, que conhece tão bem todos os direitos de Sua Senhoria sobre as baleias e os despojos dos naufrágios, não pode esquecer os mesmos direitos sobre os tesouros achados.

Triptolemus teve nesse momento um cruel ataque de tosse.

- Hum! Hum... decerto, decerto, os direitos de «milord» seriam considerados, tanto mais que o dinheiro estava, posso garantir-lhes, nas mãos de um homem tão recto como não se encontra outro no condado de Angus. Mas escute o que me aconteceu ultimamente. Um dia, eu ia vor se o tesouro estava bem no seu lugar e em segurança, e queria contar a parte que devia pertencer a Sua Senhoria, pois todo o obreiro merece o seu salário, e certamente quem encontra um tesouro pode comparar-se a um obreiro. Pois bem, meus senhores e minhas senhoras, quando entrei nesse quarto, que imaginam que encontrei? Um anão hediondo e disforme com o meu chifre precioso na mão e todo ocupado em contar o dinheiro. Eu não sou um homem medroso, senhor fowd, mas, persuadido de que era necessário proceder com precaução em tal caso, pois tinha razões para crer que ali havia bruxaria, apostrofei o anão em latim, que é a língua mais adequada para falar a um ente de uma natureza diferente da nossa. Esconjurei-o, pois, in nomine Patris, etc., empregando todas as palavras que a minha pobre memória me pôde sugerir. Pois bem, ele estremeceu primeiro como um ser que ouve coisas que não espera; mas, recompondo-se logo, fitou-me com os seus olhos cinzentos, como os de um gato bravo, abriu uma boca enorme, semelhante à goela de um forno, pois diabos me levem se consegui ver alguma coisa que se parecesse com uma língua, e deu a toda a sua hedionda pessoa o ar de um «bull-dog» furioso. Tudo isto me desconcertou um pouco e retirei-me para chamar minha irmã Baby, que não teme nem cães nem diabos quando se trata de dinheiro. Mas uuma velha criada que não serve para nada, Tronda Dronsdaughter, atravessou-se no caminho de minha irmã a ladrar, a berrar e a uivar como se tivesse uma matilha no corpo. Fui então obrigado a esperar prudentemente que minha irmã se desembaraçasse dela, e, quando isso se conseguiu e chegámos ao compartimento onde contávamos encontrar o dito anão, o diabo ou qualquer coisa parecida, anão, chifre, dinheiro tinham desaparecido.

Aqui, Triptolemus fez uma pausa, e, enquanto os outros se olhavam num ar de surpresa ante esta estranha narrativa, o udaller disse a meia-voz a Claud Halcro:

- Se não era Nicholas Strumpfer era o diabo por ele - E dirigiu-se em seguida ao feitor - Sabe de que maneira esse anão saiu de sua casa?

- Em verdade, não o sei - respondeu Triptolemus, passeando à sua volta um olhar inquieto, como se a recordação daquela cena ainda o intimidasse - Nem eu, nem Barbara, que conservou melhor o sangue-frio. É bem certo que Tronda nos disse que o vira sair pela janela, montado num dragão; mas como se diz que um dragão é um animal de fábula, tenho que tomar a sua asserção como baseada unicamente numa deceptio visus, uma ilusão de óptica.

- Mas não lhe poderemos perguntar ainda - disse Brenda, curiosa de saber tudo o que se relacionasse com sua prima Norna - que relação existe entre essa aventura e a sua presença aqui a uma hora tão inconveniente?

- A hora é muito conveniente, miss Brenda - interveio Halcro, aborrecido de estar tanto tempo calado - É a mais conveniente possível, visto que nos proporciona a sua amável companhia. Para lhe dizer a verdade, miss Brenda, sou eu o culpado de o nosso amigo feitor se encontrar aqui. Quis o acaso que eu passasse por casa dele no instante em que estes acontecimentos acabavam de produzir-se; e diga-se de passagem, fui mesquinhamente recebido, decerto devido à perturbação que reinava então na casa. Julgando por certos pormenores da história (o meu amigo Magnus compreende-me) que quem faz a confusão deve conhecer o remédio, propus-lhe fazer uma visita à nossa amiga de Fitful-head. E como o feitor não se dispôs a montar um dos nossos cavalitos... tomei a meu cargo levá-lo a Fitful-head num barco, que Giles e eu governámos tão bem como um almirante o seu navio cheio de tripulação. O senhor Triptolemus Yellowley que diga se algum piloto seria capaz de entrar com tanta destreza na pequena angra que fica a um quarto de milha da moradia de Norna.

- Bem mal andei em confiar-me à sua perícia - diise o feitor - Não sei o que o senhor fez dela quando voltou o barco ao entrar no voe, como chamam a um lago; que o testemunhe este pobre rapaz que esteve quase a afogar-se. Eu bem o avisei de que trazia muito pano. Mas, não, o senhor não queria pegar nos remos, para poder tocar violino.

- Isso não é de um bom marinheiro, Claud Halcro - comentou o udaller.

- E que sucedeu então? - prosseguiu o agricultor - Ao primeiro golpe de vento, rolámos como uma bola. O senhor Halcro não pensou senão em salvar o seu violino; este pobre rapaz nadava como um cão de água, e eu, se não fosse um remo a que me agarrei, teria ido para o fundo. Aqui ficámos sem socorro e sem conforto, até que um bom vento vos trouxe, pois não tínhamos todos três mais do que um pedaço de pão negro e duro da Noruega, no qual há, segundo creio, mais serradura do que farinha, e cheira a terebentina que tresanda.

- Quando nos aproximámos daqui parecia que estavam muito alegres - disse Brenda.

- Miss Brenda ouviu um violino - respondeu o feitor - e quando uma jovem ouve o som de um violino julga que já não nos falta nada. Mas é preciso ver que era o senhor Claud Halcro e creio que ele seria capaz de tocar junto do leito de morte do pai, ou do seu próprio leito, se seus dedos ainda pudessem segurar no arco. Era mais um pequeno acréscimo dos meus infortúnios ouvir tocar áreas norses e escocesas, inglesas e italianas, como se não me tivesse acontecido nada, quando na verdade nos encontrávamos nesta miséria.

Fiz todos os esforços para o distrair - replicou o imprevidente menestrel - E, se não o consegui, a culpa não foi minha nem do violino. Toquei-o perante o glorioso John Dryden...

- Não quero ouvir as suas histórias do glorioso John Dryden! - exclamou o udaller, que temia tanto as narrativas de Halcro como Triptolemus receava a sua música

- Já lhe disse que só oiço uma por cada três «bowls» de «punch». Bem sabe que é a nossa velha combinação. Mas, em vez disso, conte-me o que lhe disse Norna sobre o assunto de que foi consultá-la.

- Isso também foi uma bela aventura! - exclamou Yellowley - Ela não nos quis ver nem ouvir. Apenas o nosso amigo Halcro, que esperava ter uma longa conversa com ela, se viu assediado por não sei quantas perguntas sobre a sua família, senhor Magnus Troil; e depois de ter sacado tudo o que queria, estava à espera do momento em que ela o atirava ao mar como uma casca de ervilha vazia.

- E a si o que lhe disse? - perguntou Magnus.

- Não quis escutar nem uma palavra do que eu lhe quis dizer - respondeu Triptolemus - Foi uma lição para os que recorrem a feiticeiras e a espíritos familiares.

- O senhor Yellowley não tinha necessidade de recorrer à ciência de Norna - disse Minna, que estava talvez desejosa de pôr termo às queixas que ele fazia de uma mulher que acabava de prestar-lhe um serviço pelo qual se sentia grata - Até uma simples criança das nossas ilhas saberia que um tesouro dado por fadas nunca tarda em desaparecer, se aquele que o recebeu não o usa de maneira útil para si e para os outros.

- Sou um seu humilde servo, miss Minna - respondeu o feitor - Agradeço-lhe o que acaba de me dizer e estou encantado por ver que recuperou o seu belo espírito, perdão, queria dizer a sua saúde. Quanto ao tesouro, não o usei, nem abusei, e quem vive debaixo do mesmo tecto de minha irmã Baby não poderá facilmente fazer uma coisa nem outra. E quanto ao que se diz de ofender esses seres a que nós chamamos na Escócia bons vizinhos e aqui se chamam drows, a efígie dos antigos reis norses que se encontra nas moedas de ouro e de prata poderia dizer-lhe tanto a esse respeito como eu.

- É a pura verdade - acudiu Claud Halcro, que queria aproveitar a ocasião para se vingar do pouco caso que Triptolemus parecia fazer dos seus talentos de músico e de marinheiro - O nosso amigo feitor foi tão escrupuloso neste ponto que nem quis dizer uma palavra do seu achado ao seu amo Lorde Chamberlain. Mas, agora, que o assunto foi ventilado, terá provavelmente de lhe prestar contas do que já não se encontra na sua posse, pois o lorde não estará muito inclinado a acreditar na história do anão. iQuanto a mim, nunca acreditaria na existência de um ente semelhante ao que ele nos descreveu, sem o ver com os meus próprios olhos.

- Nesse caso, abra-os! - exclamou Triptolemus, levantando-se num movimento de pavor - Aí está ele.

Todos os olhos tomaram nesse instante a direcção indicada pelo gesto do agricultor, e enxergaram o vulto disforme de Pacolet, que os fitava através do fumo que enchia a cabana. Entrara sem ser pressentido, durante a conversa, e ficara imóvel e silencioso até ao momento em que o feitor lançara por acaso um olhar para o seu lado. A sua chegada imprevista e o seu aspecto hediondo fizeram tremer o próprio udaller, a quem a sua figura era familiar. Descontente da sua comoção involuntária e irritado com o anão que o tinha provocado, Magnus perguntou-lhe bastante bruscamente que motivo o trouxera ali. Pacolet respondeu entregando-lhe uma carta e proferindo um son inarticulado que parecia a palavra shogh.

- É uma palavra da língua dos montanheses - disse o udaller - Acaso, aprendeste essa língua depois de perderes a tua, Nicolas?

Pacolet fez um movimento afirmativo com a cabeça e pediu-lhe, por um sinal, que lesse a carta.

- Não é muito fácil ao clarão do lume - disse Magnus - No entanto, vou tentar; talvez se relacione com Minna.

Brenda ofereceu-se para ler.

Não - respondeu o pai - As cartas de Norna devem ser lidas por aqueles a quem ela as dirige.

O udaller limpou com muito cuidado os seus óculos, que tirara de um grande estojo de cobre, e, colocando-os no nariz, começou a estudar a epístola de Norna.

- Nem por todas as terras de Gowries desejaria tocar nesse pequeno monstro, nem mesmo aproximar-me dele - disse o feitor, pois os seus receios ainda não se tinham dissipado totalmente, embora visse os restantes presentes olharem o anão como uma criatura de carne e osso - Mas tenho que lhe perguntar o que fez ele das minhas moedas de ouro e prata.

O anão, que ouvira a pergunta, inclinou a cabeça para trás e, abrindo a enorme boca, apontou-a com o dedo.

- Se as engoliu, não há nada a fazer - disse o feitor - Só espero que lhe façam tanto proveito como a luzerna molhada aproveita a uma vaca. Parece que ele está ao serviço de Norna. Tal criado, tal patroa! Que Deus nos acuda!...

Nesse momento, o udaller não o podia ouvir, porque tinha chamado Claud Halcro a um canto do compartimento.

- Agora, amigo Halcro - disse Magnus - diga-me que motivo o levou a Fitful-head, pois quase não acredito que fosse unicamente pelo prazer de acompanhar semelhante pássaro.

- A verdade é que fui para consultar Norna sobre os seus assuntos, meu amigo - respondeu o poeta.

- Sobre os meus assuntos! E quais assuntos?

- Sobre a saúde de sua filha. Soube que Norna recusara receber a sua mensagem e nem quisera ver Erick Scambester. Ora, eu nunca mais achara prazer em coisa alguma desde que a gentil Minna adoecera. Pensei então que Norna poderia ter por mim mais consideração do que por outro qualquer, visto que sempre se encararam os bardos e as mulheres de virtude como sendo da mesma família; de maneira que empreendi essa viagem com a rança de que ela não seria de todo inútil para o meu velho amigo e para sua filha.

- É uma prova de amizade de que eu o sabia capaz, meu caro Claud. Sempre disse que, no meio de todas as suas loucuras, se descobria em si o coração de um antigo norse. Não se zangue com o que lhe digo; a gente deve sentir-se bem por ter o coração melhor do que a cabeça. Bem, o senhor não obteve resposta alguma de Norna, ia apostá-lo.

- Nenhuma que me satisfizesse, pelo menos, porque, em vez de responder às minhas perguntas, ela começou a fazer-mas sobre a saúde de Minna, e eu contei-lhe como a encontrara fora de casa durante a noite, com mau tempo, como Brenda me dissera que ela se ferira num pé; enfim, disse-lhe tudo o que sabia.

- E mesmo mais alguma coisa, ao que parece, porque, pelo menos, nunca ouvi dizer que Minna se tivesse ferido.

- Oh,   não foi   nada,   apenas uma   arranhadura; mas assustou-me, receava que ela tivesse sido mordida por um cão ou picada por algum bicho venenoso. Enfim, contei tudo a Norna.

- E que respondeu ela?

- Disse que fosse tratar da minha vida, e que tudo se esclareceria na feira de Kirkwall. Deu a mesma resposta ao idiota do feitor, e foi tudo o que obtivemos por prémio dos nossos trabalhos.

- É estranho. Minha prima escreve-me nesta carta que não deixe de lá ir com minhas filhas. Decerto esta feira a preocupa seriamente. E, no entanto, que eu saiba, ela nada tem para lá vender ou comprar. Portanto, você vai sabendo tanto como à vinda, e fez voltar-se o barco no voe?

- Como o podia eu evitar? O vento de terra levantou-se de repente; o rapaz estava ao leme e eu não podia arrear as velas e tocar violino ao mesmo tempo. Mas, que importa? A água salgada nunca pode afogar um setlandês, quando ele se   pode salvar.   Felizmente,   estávamos perto da   margem e a   água   não era   funda. Descobrindo este skio abandonado, demo-nos por muito felizes por termos um abrigo e podermos acender um bom lume. E graças à sua companhia e às suas provisões, não nos falta mais nada. Ao lado deste quarto, há outro onde os pescadores dormiam. Cheira um pouco a peixe, mas é um cheiro sadio. As duas manas podem lá recolher-se com as mantas e,

Quanto a nós, beberemos um copo de aguardente, eu recito algumas estrofes   do   glorioso   John   ou   alguns   versos   da minha lavra e dormiremos depois como abades.

- Dois copos de aguardente, se quiser - emendou o udaller - mas nem uma estrofe do glorioso John, nem nada que se pareça, por esta noite!

Esta convenção concluiu-se e executou-se, consoante as condições do udaller. Não se pensou depois senão em dormir, e no dia seguinte meteram-se a caminho, cada um para seu lado. Ficou combinado, antes da partida, que Halcro acompanharia Magnus e as filhas à feira de Kirkwall.

 

                           DOIS PIRATAS CONVERSAM EM SURDINA

Temos que passar agora das ilhas Setland às Órcades, e pedimos aos nossos leitores que nos acompanhem até às ruínas de um edifício antigo, mas elegante, chamado o palácio do Conde, nas vizinhanças da igreja venerável que a devoção norueguesa consagrou a São Magnus, o Mártir. Como este palácio se liga ao do bispo, que também está em ruínas, estes lugares produzem viva impressão na imaginação, ao recordar as transformações operadas, quer no culto, quer na situação política das ilhas Órcades, menos expostas às revoluções e aos perigos do que outros países do Mundo. Poder-se-ia, com algumas modificações adequadas, escolher muitas partes destes edifícios arruinados como modelos de habitação gótica, se os arquitectos quisessem contentar-se com imitar o que é verdadeiramente belo neste género de construção.

o Palácio do Conde ocupa três lados de um comprido quarteirão e parece, mesmo nas suas ruínas, um edifício elegante, que reúne os caracteres mais notáveis das habitações dos príncipes nos séculos do feudalismo, isto é, a magnificência de um palácio e a robustez de um castelo. Uma grande sala de jantar atesta a hospitalidade dos antigos condes das Ôrcades. Dali passa-se, quase à maneira moderna, a um salão, ou antes, a uma galeria do mesmo tamanho, de onde igualmente se passa aos quartos instalados nos torreões exteriores. Esta sala é iluminada por uma grande janela gótica que ocupa toda uma extremidade, onde se chega por uma grande e bela escada de três lances.

De braços cruzados e cabeça baixa, o pirata Cleveland passeia a passo lento na sala que acabamos de descrever, onde ele se dirigiu provavelmente por esperar encontrar ali uma solidão completa. O seu vestuário não é o mesmo que usava nas ilhas Setland. Traz uma espécie de uniforme ricamente agaloado e carregado de bordados. Um chapéu d de pluma e uma espada de copos lindamente cinzelados, companheiros fiéis, por essa época, de quem quer que se atribuísse o título de gentleman, denunciavam as suas pretensões a esta dignidade. Mas, se o seu vestuário melhorara, o mesmo não se pode dizer da sua saúde. Estava pálido, perdera o brilho dos olhos e a vivacidade da marcha; a sua fisionomia revelava sofrimentos físicos ou desgostos, e talvez mesmo um misto das duas coisas.

Enquanto ele passeava neste palácio em ruínas, subia rapidamente a escada um mancebo esbelto e ligeiro, que parecia ter cuidado muito a sua «toilette», mas com mais ostentação do que gosto; as suas maneiras mostravam uma afectação de à-vontade peculiar nos estróinas dessa época e a sua fisionomia tinha uma expressão de vivacidade misturada com algum descaramento. Entrou na sala e deteve-se perante Cleveland, que, limitando-se a fazer um ligeiro movimento de cabeça, continuou, num ar sombrio, o seu passeio solitário.

Parecendo impacientar-se de ser objecto de exame por parte do outro, que ficara silencioso a observá-lo, Cleveland deteve-se por seu turno e exclamou num tom brusco:

- Não poderei gozar uma meia hora de tranquilidade? Que diabo me queres tu?

- Estou encantado por teres falado primeiro - disse o desconhecido - Resolvera saber se eras Clement Cleveland ou apenas o seu espírito, pois dizem que os espíritos nunca são os primeiros a dirigir a palavra às pessoas que lhes aparecem. Agora, estou convencido de que és tu em carne e osso. Descobriste um sítio que conviria perfeitamente a um mocho para se esconder em pleno meio-dia, ou a um espírito para passear no pálido luar, como diz o divino Shakespeare.

- Olha - replicou Cleveland de mau humor - a tua descarga de motejos falhou. Tens agora alguma coisa a dizer-me?

- Digo-te muito sinceramente que suponho que deves saber que sou teu amigo.

- Concordo que tens sido sempre bom camarada. E depois?

- Ah, e depois! Eis uma maneira singular de apresentar agradecimentos... Sabes, capitão, que eu, Benson, Barlowe, Dick Fletcher e mais alguns outros te somos dedicados, que convencemos o teu antigo camarada Goffe a cruzar estas paragens para te encontrar, enquanto Hawkins, a maior parte da tripulação e o próprio capitão queriam fazer-se de vela para a Nova Espanha, a fim de continuar o nosso antigo ofício?

- Quisesse o Céu que vocês se ocupassem dos vossos negócios e me tivessem abandonado ao meu destino!

- Que seria o de ser denunciado e enforcado na primeira altura em que um desses velhacos holandeses ou ingleses a quem desembaraçaste das suas cargas lançasse o olhar sobre ti; e não existe em todo o Universo um lugar onde se encontrem mais do que nestas ilhas. Foi para te salvar desse risco que perdemos um tempo precioso nestas paragens, cujos habitantes se tornaram demasiado exigentes. Quando não tivermos mais mercadorias para vender, nem dinheiro para gastar entre eles, hão-de querer deitar a fateixa ao navio.

- E porque não partem sem mim? Fizemos uma partilha equitativa; teve cada um a sua parte, proceda cada como entender. Aliás, perdi o meu barco, não irei para o mar sob o comando de Goffe ou de outro qualquer.

Para mais, deves saber que Hawkins e ele nunca mais me perdoaram o tê-los impedido de meter no fundo aquele brigue espanhol, com os pobres negros que estavam a bordo.

- Que diabo estás para aí a dizer? És o Clement Cleveland, o nosso bravo e intrépido capitão? Tens medo de Hawkins, de Goffe e de uma vintena de velhacos semelhantes, quando tens seguro o apoio por mim, por Barlowe, por Dick Fletcher? Alguma vez te abandonámos, quer no conselho, quer no combate? Como podes imaginar que te possamos abandonar agora? Falas de servir sob as ordens de Goffe, mas será coisa nova ver rapazes valentes, que querem fazer fortuna, mudarem de capitão? Fica descansado que tu é que hás-de comandar. Raios me comam se servirei de hoje em diante às ordens de Goffe! É preciso que o meu capitão tenha qualquer coisa que cheire a fidalgo. Aliás, sabes que foste tu que me temperaste as mãos em água salgada e que de actor ambulante me fizeste corsário.

- Ai, meu pobre Bunce, eis um serviço pelo qual não me deves grandes agradecimentos.

- É conforme o encarares. Quanto a mim, não vejo mal em lançar contribuições sobre o público de uma maneira ou de outra. Mas já te pedi que esquecesses esse nome de Bunce, e me chamasses Altamont. Parece-me que um homem da nossa profissão tem o direito de escolher um nome, tal como um actor ambulante; e nunca subi ao tablado que não usasse pelo menos o de Altamont.

- Pois bem, seja, Jack Altamont, visto que altamont é...

- Sim, capitão, Altamont está bem! Mas Jack não é nome apresentável... Jack Altamont! É um casaco de veludo com um galão de papel dourado. Escolhamos antes Frederick, capitão. Frederick e Altamont fazem um belo conjunto.

- Perfeitamente. Mas, dize-me, qual desses nomes soará melhor quando gritarem pelas ruas: «Confissão e últimas palavras de Jack Bunce, ou de Frederick Altamont, que foi enforcado esta manhã pelo crime de pirataria no alto-mar?»

- Para falar verdade, capitão, não posso responder a esta pergunta sem um copo de grogue. Acompanha-me a casa de Bet Haldane, e eu reflectirei sobre esse assunto com a ajuda da melhor aguardente que tenho provado. Mando encher um «bowl» que leva um galão, e conheço umas raparigas bonitas que nos ajudarão a esvaziá-lo...

Mas, abanas a cabeça; não estás com disposição? Bem, fico contigo; porque, Cleveland, não me escaparás. Mas quero tirar-te deste montão de velhas pedras, onde te meteste como um texugo, e levar-te para o ar livre e para a luz do Sol. Onde queres ir?

- Onde quiseres, contanto que não encontremos nenhum dos nossos companheiros, nem nada que se pareça.

- Bem, vamos à montanha de Whitford, que domina a cidade; passearemos aí tão gravemente e tão honestamente como um par de procuradores muito ocupados.

Quando saíam das ruínas do castelo, Bunce volveu-se para o examinar.

- Sabes qual foi a última ave que cantou nesta velha capoeira? - perguntou ele ao companheiro.

- Um conde das órcades, segundo me disseram.

- E sabes qual foi o seu género de morte? Ouvi dizer que morreu de um nó de gravata muito apertado... de uma febre de cânhamo... ou qualquer doença dessa espécie.

- Diz-se que Sua Senhoria, há umas centenas de anos, teve a desgraça de travar conhecimento com um nó corredio e de aprender a dar um salto no ar.

- Saqueou, feriu, matou os leais e fiéis súbditos de Sua Majestade.

- Da família dos «gentlemen» piratas! - exclamou Bunce. E fazendo ao edifício arruinado uma respeitosa vénia num ar teatral: - Mui poderoso, mui grave e mui venerável senhor conde - acrescentou ele - permiti-me que vos apresente o meu querido primo e vos diga um adeus cordial; deixo-vos na boa companhia dos morcegos e dos ratos, e levo comigo um homem honesto que, há um certo tempo, não sentindo mais coragem do que um Morcego, queria deixar a sua profissão e fugir aos seus amigos como um rato e, portanto, seria um digno habitante do vosso antigo palácio.

- Meu caro amigo Frederick Altamont ou Jack Bunce, aconselho-te a não usares do verbo tão alto. Quando andavas pelos tablados podias gritar tão forte como te aprouvesse; mas, na tua profissão actual, que para ti tem tantos encantos, nunca se deve falar senão com o receio de ver diante dos olhos a grande verga ou o nó corredio.

Os dois amigos saíram silenciosos da pequena cidade de Kirkwall e subiram a montanha de Whitford, cujo cimo árido e estéril se erguia ao norte do antigo burgo de São Magnus. A planície situada no sopé desta montanha estava cheia de gente que fazia os preparativos para o dia seguinte, dia da feira de Santo Olavo, reunião dos habitantes de todas as Órcades e mesmo de um grande número de pessoas que vêm do arquipélago afastado das ilhas Setland.

Cleveland não tinha a menor vontade de se imiscuir na cena ruidosa que tinha sob os olhos; e os dois companheiros, fazendo um desvio pela esquerda para subir a montanha, depressa se encontraram na solidão absoluta. Tendo atingido quase o cume desta montanha de forma cónica, ambos se voltaram, como que num tácito acordo, para desfrutar a perspectiva que tinham sob os olhos.

As várias ocupações a que se entregavam na planície, situada entre a cidade e o sopé da montanha, animavam esta parte do cenário, semeando nele a variedade. Mais longe, via-se a cidade, do seio da qual se erguia, como uma massa que parecia mais considerável que todo o resto de Kirkwall, a antiga catedral de São Magnus. O cais emprestava uma nova vida a este quadro; não só toda a baía situada entre os promontórios de Inganess e de Quanterness, ao fundo da qual ficava Kirkwall, mas também o mar até onde a vista abarcava, e sobretudo o estreito que separa a ilha de Shapinsha da de Pomona, a maior das Órcades, estavam cobertos de uma multidão de navios e de pequenas embarcações de toda a espécie, que vinham de diversas ilhas para trazer passageiros ou mercadorias à feira de Santo Olavo.

Chegados ao sítio mais favorável para desfrutar todo este quadro, os dois estrangeiros, segundo o uso dos marítimos, recorreram ao óculo para observar os navios e a baía de Kirkwall. Mas a atenção de cada um deles pareceu fixar-se num objecto diferente. A de Bunce ou de Altamont, como ele preferia que lhe chamassem, tinha por objecto a corveta, que, notória pelo seu porte superior e pelo pavilhão inglês que tivera o cuidado de arvorar, estava ancorada entre os navios mercantes.

- Lá está ela - disse Bunce - Quisesse Deus que ela estivesse na baía das Honduras, que tu fosses o capitão, que eu fosse o imediato, que Fletcher fosse o teu contramestre e que tivéssemos connosco cinquenta rapazes valentes! Passar-se-ia bem o tempo antes que tivéssemos vontade de tornar a ver estas urzes enfesadas e estas malditas rochas. E tu serias o nosso capitão... Esse velho bruto do Goffe embriaga-se todos os dias como se fosse um lorde; desembainha a espada; ataca os homens da sua própria tripulação, de pistola em punho; enfim, tem tido conflitos tão abomináveis com os habitantes que quase nem querem levar água e víveres a bordo, e estamos à espera de um rompimento, não tardará muitos dias.

Bunce, não recebendo qualquer resposta do seu companheiro, voltou-se de repente para ele e, vendo a sua atenção dirigida para outro lado, exclamou:

- Que diabo tens tu? Que encanto achas tu nesse pequeno barco carregado de bacalhau, peixe salgado, patos fumados e barris de manteiga pior que sebo? Toda a carga não vale a bucha de uma pistola. Não, não, manda-me dar caça a uma embarcação espanhola! Que eu descubra do mastro grande, por alturas da ilha da Trindade, o Don a vomitar água como uma baleia, muito carregada de rum, de açúcar, de tabaco, de lingotes de prata, de ouro em pó! Então, velas ao vento; desembaracem o convés, cada um às suas armas, arvorem o Jolly Roger (1j). Aproximamo-nos, vemos que a tripulação é numerosa, que está bem armada...

 

Nota 1: Nome que davam então os piratas ao pavilhão negro que arvoravam para intimidar os que queriam atacar.

 

- Vinte canhões no convés - disse Cleveland.

- Quarenta, se quiseres - replicou Bunce - E nós não temos senão dez; mas, que importa? O Don falha a sua descarga. Alegrem-se, camaradas. Acostem; agora, à abordagem! É isso. Agora, mãos à obra; ponham em acção as granadas, as pistolas, as achas, os sabres... Do Don gritam: Misericórdia! E nós aliviamo-lo da sua carga, sem dizer: Con licencia, señor (1).

 

Nota 1: Em espanhol no original - (N. do T.).

 

- Palavra de honra - disse Cleveland - tu tomas a profissão tão a peito que supor-se-ia que, quando te fizeste pirata, a sociedade não registou uma grande perda. Mas não me convences a marchar mais tempo contigo por um caminho traçado pelo diabo. Bem sabes o que isso dá de lucro. Ao fim de uma semana ou de um mês, não há mais açúcar nem rum, o tabaco reduziu-se a fumo, os lingotes de prata e o ouro em pó passaram das nossas mãos para as de pessoas honestas e conscienciosas que moram em Port Royal e outros sítios. Fecham os olhos ao nosso comércio enquanto temos dinheiro e tornam-se uns cães quando já não o temos. Já não nos fazem senão um frio acolhimento, e acontece mesmo, algumas vezes, que nos denunciam ao juiz prebostal. Quando as nossas algibeiras estão vazias, esses nossos amigos tentam arranjar dinheiro à nossa custa. Vem então a forca, o cadafalso; e assim acaba o «gentleman» pirata. Quero abandonar este ofício, já o disse. Não quero levar mais semelhante vida; estou resolvido a ser homem honesto.

- E onde vai Vossa Honestidade fixar domicílio? - perguntou Bunce - Infringiste as leis de todas as nações, e a mão da Justiça apanhar-te-á e aniquilar-te-á em qualquer parte onde julgues encontrar refúgio... Cleveland, falo-te mais seriamente do que tenho por hábito fazê-lo. Também fiz as minhas reflexões e, embora elas não tivessem durado senão alguns minutos, são suficientemente amargas para envenenar semanas inteiras de prazer. Eis o embaraçoso dilema: a menos que tenhamos vontade de servir de ornamento a algum mastro patibular, que partido podemos tomar senão o de continuar a viver como temos vivido até aqui?

- Podemos - respondeu Cleveland - reclamar o benefício da proclamação feita em favor dos homens da nossa profissão que renunciaram a ela e se apresentam voluntariamente.

- Sim, é verdade, pouparam Harry Glasby e mais uns outros; mas Glasby tornou-se o que se chama útil; traiu os seus camaradas; ajudou a apresar a Fortuna, e não é isso o que tu queres fazer. Não, nem mesmo para te vingares do bruto do Goffe.

- Preferia mil vezes morrer! - exclamou Cleveland.

- Juro que te acredito. Quanto aos outros, não passam de homens da tripulação, uns patifes que quase nem valem a corda que os enforcaria. Mas o teu nome fez demasiado barulho para que possas tirar-te facilmente de embaraços. És o chefe da troupe, estás, por conseguinte, marcado.

- Mas, porquê? Tu bem sabes como sempre me conduzi, Jack.

- Frederick, se me faz favor.

- Vai para o diabo mais a tua estouvanice! Dá tréguas ao espírito e falemos a sério.

- Seja, por um momento, porque sinto que o espírito de Altamont se apodera de mim. Há dez minutos que estou falando como homem grave.

- Pois bem, trata de falar nesse tom por mais uns minutos ainda. Eu sei, Jack, que me és verdadeiramente dedicado; e, visto que abordei este assunto, confio-me a ti inteiramente. Dize-me pois, porque haviam de recusar-me o benefício dessa bem-aventurada proclamação. Tomei, como sabes, um aspecto exterior duro, mas, em caso de necessidade, poderei provar a quantas pessoas salvei a vida; quantas vezes mandei devolver aos proprietários mercadorias que, sem a minha intervenção, teriam sido destruídas só pelo prazer de fazer mal. Numa palavra, bunce, posso provar...

- Que és um bandido tão honesto como o próprio Robin Hood; e é por isso que Fletcher, eu e aqueles de entre nós que não são absolutamente uns vadios, te somos sinceramente devotados, porque tu evitas que ao nome de pirata se atribua um carácter totalmente reprovável. Mas, bem, suponhamos que te concediam o perdão: que farias depois, que classe de sociedade consentiria em receber-te, onde poderias encontrar amigos? Drake, no tempo de Isabel, pilhou o México e o Peru; e bendita seja a memória dessa rainha, que o fez cavaleiro no seu regresso? No tempo do jovial rei Carlos, o galês Hal Morgan trouxe para terra tudo o que ganhara no mar, comprou um dommínio, um castelo, e nunca foi inquietado. Mas hoje já não é a mesma coisa. Se fores pirata um dia, ficas proscrito para sempre. E ao anistiado ninguém quer falar, todos o evitam. Nem um homem honesto se aproximará dele, nem uma mulher de boa reputação lhe concederá a mão.

- As cores do teu quadro são demasiado sombrias, Jack! - exclamou Cleveland - Há mulheres... Há uma pelo menos, que seria fiel ao seu amado, mesmo que ele reunisse todos os defeitos que tu descreves.

Bunce guardou silêncio por um momento, de olhos fixos no amigo.

- Pela salvação da minha alma - disse ele, por fim - começo a acreditar que sou bruxo. Por pouco verosímil que isso fosse, não pude deixar de supor, desde o princípio, que havia uma rapariga no caso. Palavra que és pior do que o príncipe Volcius amoroso. Ah! Ah! Ah!

- Ri quando te apeteça, mas é a verdade. Há uma jovem que se digna amar-me, apesar de eu ser um pirata. Sem a esperança de merecer aquela que amo, duvido que tivesse coragem de executar a decisão que tomei.

- Se as coisas são assim, é inútil falar de razão a um homem que perdeu o espírito... O amor, no nosso mester, capitão, não vale mais do que a mania de um lunático. É preciso que essa menina seja de uma espécie rara, para que um homem sensato se arrisque a deixar-se enforcar pelos seus bonitos olhos. É certamente uma jovem de vida exemplar, de reputação sem mancha?

- É a criatura mais virtuosa, como a mais bela, que olhos mortais jamais contemplaram.

- E ela ama-te, nobre capitão, sabendo que estás à frente de um bando de «gentlemen» a que o vulgo chama piratas?

- Sim, tenho a certeza.

- Nesse caso, é decididamente louca, ou então não sabe o que é um pirata.

- Tens razão nesse último ponto. Ela foi educada com tanto recato e tanta simplicidade, numa tão completa ignorância do mal, que compara a nossa ocupação com a dos antigos norses que dominavam o mar com as suas galeras vitoriosas, fundavam colónias, conquistavam reinos e usavam o título de reis do mar.

- É um título que soa realmente melhor que o de pirata; mas atrevo-me a dizer que é, pouco mais ou menos, a mesma coisa. Porque não a levas a bordo? Porque não lhe fazes passar essa fantasia?

- Julgas que pretendo representar o papel de espírito das trevas até ao ponto de me aproveitar do seu equívoco e do seu entusiasmo para conduzir um anjo de beleza e de inocência a um inferno semelhante ao que existe, como sabes, a bordo do nosso infame navio? Só te digo, meu caro, que os meus outros crimes seriam duplos e duas vezes mais odiosos do que são, e nada seriam ainda ao lado de uma tal cobardia!

- Pois bem, capitão, parece-me que cometeste uma loucura, vindo às Órcades. Qualquer dia espaJha-se a novidade de que a corveta Vingança, comandada pelo famoso pirata Cleveland, se despedaçou contra os rochedos de Mainland, e aí pereceu. Poderias aí ter ficado ignorado dos teus amigos e inimigos, desposar uma bonita setlandesa, transformarias a tua cinta em fio de pesca, a espada em arpão e tentarias pescar no mar, não glórias, mas peixes.

- E esse era o meu desejo; mas um mísero bufarinheiro, um velhaco de um negociante de feira, metendo-se no que não era chamado, levou às ilhas Setland a nova da vossa chegada aqui, e vi-me na necessidade de partir, a fim de me certificar se era realmente o navio de que eu já tinha falado antes de ter tomado a resolução de renunciar a este modo de vida.

- No fundo, creio que fizeste bem; assim como soubeste em Mainland da nossa chegada a Kirkwall, da mesma forma nós em breve saberíamos da tua estada nas ilhas Setland; e alguns de nós, uns por amizade, outros por ódio, muitos talvez pelo receio de que te desse a fantasia Para desempenhar o papel de Harry Glasby, não deixariam de ir até lá para trazer-te para junto de nós.

- Eu contava com isso, e foi o que me decidiu a recusar a amável oferta que me fez um amigo de me trazer aqui nesta época. Mas, além dessa razão, lembrei-me de que o selo do meu perdão custará algum dinheiro e os meus fundos estão baixos, porque, como sabes, nunca me mostrei avaro. Quis...

- Quiseste vir buscar a tua parte do bolo... Fizeste bem, e encontrá-la-ás, porque, é preciso confessá-lo, Goffe procedeu honradamente neste caso e respeitou as nossas combinações. Mas que ele nada suspeite das tuas intenções de nos deixares, pois receio que te faça alguma partida. Ele contava como segura a parte que te pertencia; julgava-te morto, e quase não te perdoará o ressuscitares para o vires desapontar.

- Não o temo, e ele bem o sabe - disse Cleveland - Mas há uma outra circunstância que me causa alarmes. Numa maldita questão que tive durante a noite que precedeu a minha partida de Setland, feri um jovem que foi o meu tormento desde que cheguei àquele país.

- E morreu? - perguntou Bunce - Esse caso é mai< sério aqui do que nas ilhas Bahama, onde se pode abater três ou quatro impertinentes sem que ninguém faça caso. Mas aqui tudo é diferente. Espero que não tenhas tornado o teu amigo mortal.

- Também o espero. Mas eu explico-te como foi. Primeiro, é preciso que saibas que, quando eu tentava fazer-me ouvir pela minha namorada para obter dela uma curta entrevista antes da minha partida e confiar-lhe os meus projectos, esse jovem apareceu junto de mim. Ora, sentir-me interrompido em semelhante momento...

- Essa interrupção merecia a morte, por todas as leis do amor e da honra.

- Tréguas às tuas frases de tragédia, Jack, e escuta-me. Esse rapaz, que é de um carácter muito vivo, julgou-se no direito de responder-me quando lhe ordenei que se retirasse. Sabes que não sou dotado de muita paciência. Apoiei a minha ordem com um soco, que ele me devolveu com prontidão; lutámos por uns instantes, e pensei logo que era preciso pôr termo ao combate, o que não consegui senão por meio do punhal que, segundo os meus velhos 331 hábitos, trago sempre comigo, como sabes. Mal o acabei de ferir, já me arrependia; mas, nessa altura, já não podia pensar senão em escapar-me e esconder-me, porque, se se apercebessem em casa do que se passava, eu estava perdido. O chefe da família, velho severo e inflexível, entregar-me-ia à Justiça, nem que eu fosse seu irmão. Carreguei às costas o meu adversário e dirigi-me para a beira-mar, na intenção de o lançar em algum precipício onde poderia ficar muito tempo sem ser descoberto. Depois disto, tencionava meter-me na canoa que alugara para me trazer a Kirkwall e que me esperava na praia, e fazer-me ao largo imediatamente; mas, ao chegar à beira-mar, ouvi o rapaz soltar um gemido que me advertiu de que não o matara. Estava nesse momento longe de qualquer olhar, entre os rochedos; mas, em vez de pensar em consumar o meu crime, pousei no chão o meu antagonista e tentei estancar o sangue que lhe corria do ferimento. Neste momento uma velha surgiu na minha frente. Já a vira por várias vezes na ilha; é uma mulher a quem os habitantes dão a honra de tomar por feiticeira, como aquelas a quem os negros chamam oby. Ordenou-me que lhe deixasse o ferido, e faltava-me o tempo para hesitar em obedecer a esta ordem. Ela ia dizer-me mais alguma coisa, quando ouvimos a voz de um velho, uma espécie de amigo excêntrico da família, que cantava a certa distância. Ela levou um dedo aos lábios, como que para me recomendar segredo, assobiou baixinho e logo vi aparecer um anão disforme e hediondo, com a ajuda do qual ela levou o ferido para uma das inúmeras cavernas que se encontram naquele sítio. Quanto a mim, alcancei a praia num ápice, atirei-me para dentro da canoa e larguei a vela. Se a velhaca da velha goza realmente de crédito junto do rei dos ventos, como se diz, não há dúvida que ela me fez uma boa partida, pois nunca nenhum dos tornados que experimentámos juntos nas Índias Ocidentais, me afastou tanto da rota como o pavoroso furacão que surgiu imediatamente após a minha partida. Se por acaso não trouxesse comigo uma bússola de algibeira, nunca encontraria a Fair Isle, onde encontrei um brigue que me conduziu aqui. Quer a velha me quisesse mal, quer me quisesse bem, aqui estou em segurança contra os perigos do mar, mas preso de inquietações e atormentado por dificuldades de vária espécie.

- Diabos levem o promontório de Sumburgh, onde despedaçaste o nosso incomparável Vingança!

- Não digas que o despedacei! Se os poltrões que me acompanhavam tivessem seguido o meu conselho, o Vingança estaria a flutuar neste momento.

- Bem, conheço agora o teu caso e ser-me-á mais fácil dar-te ajuda e conselho. Ser-te-ei fiel, Cleveland, como a lâmina o é ao cabo. Mas não posso consentir que nos deixes. Seja como for, vais hoje para bordo?

- Não tenho outro lugar de refúgio - respondeu Cleveland, suspirando.

Volveu ainda uma vez os olhos para a baía, assestou o óculo sobre os vários barcos que a cruzavam, decerto na esperança de descobrir Magnus Troil, e por fim seguiu em silêncio o seu companheiro.

 

                   UMA DESORDEM EM PLENA FEIRA

Cleveland e o seu confidente marcharam em silêncio durante algum tempo. Foi Bunce quem primeiro reatou a conversa.

- Tomas demasiado a peito o ferimento desse rapaz. Já te vi fazer muito mais e pensar muito menos.

- Mas nunca com tão pouca provocação, Jack. Aliás, ele tinha-me salvo a vida. É verdade que lhe prestei depois idêntico serviço; mas não importa, não era assim que nos devíamos encontrar. Tenho esperança em que os talentos dessa velha lhe sejam úteis. Ela conhece, decerto, estranhos medicamentos.

- Medicamentos de várias espécies, capitão... Que uma rapariga te faça andar a cabeça à roda, é o caso de muito homem que se preza; mas, transtornar a cabeça com as momices de uma velha, é demasiada loucura para que um amigo ta permita. Fala-me da tua Minna, tanto quanto quiseres; mas não tens o direito de maçar os ouvidos do teu fiel escudeiro a propósito de uma velha bruxa... Agora, que estamos no meio das barracas e lojas que esta boa gente prepara, vamos ver se encontramos alguma coisa com que rir e nos divertirmos por alguns momentos. Na alegre Inglaterra, veríamos em semelhante ocasião dois ou três grupos de actores ambulantes, outros tantos devoradores de fogo e adivinhos e não sei quantas exposições de animais exóticos...

Enquanto Bunce falava, Cleveland detinha o olhar numa barraca arranjada com mais cuidado do que as outras, à frente da qual se encontrava em exposição um fato completo, notável pela sua elegância, com algumas boas fazendas. Um grande cartaz pintado em pano continha, a um lado, a relação das mercadorias que Bryce Snailsfoot punha à venda, bem como o preço de cada artigo; do outro, via-se um desenho figurando os nossos primeiros pais, com o primeiro vestuário que eles arrancavam ao reino vegetal para cobrir a sua nudez e, por baixo, liam-se uns versos encarecendo as vantagens de se vestir com as fazendas de Bryce. Enquanto Cleveland lia esses versos, que lhe trouxeram à memória Claud Halcro, o laureado poeta daquelas ilhas, cuja musa tanto estava ao serviço dos pequenos como dos grandes, e de que provavelmente era o autor, o digno proprietário da loja, vendo-o, apressou-se a despendurar com mão trémula o mencionado fato.

- Pela minha alma, capitão - disse Bunce a Cleveland, em voz baixa - com certeza que já tiveste este pássaro nas tuas garras e decerto ele receia ser depenado segunda vez. Mal te lançou um olhar, ei-lo que se apressou pôr a sua mercadoria em segurança.

- A sua mercadoria! - exclamou Cleveland, observando com mais atenção o que fazia o negociante de feira - Mas, aquele fato é meu; deixei-o num baú em Jarlshof, após a pilhagem do Vingança. Eh! Bryce Snailsfoot, ladrão descarado, que quer dizer isso? Não te basta vender caro o que compraste barato, ainda precisas de te apoderar da minha mala e dos meus fatos?

Bryce Snailsfoot desejaria provavelmente não se sentir na obrigação de reconhecer o seu amigo capitão; mas foi forçado a reconhecê-lo pela vivacidade com que Cleveland lhe falou. Chamou o rapaz que lhe servia de marçano e disse-lhe ao ouvido:

- Corre à casa do conselho da cidade e diz ao preboste e aos juízes que mandem imediatamente alguns dos seus oficiais de polícia, porque vai haver desordem na feira.

Dizendo isto, imprimiu mais força às suas ordens empurrando vigorosamente o pequeno mensageiro pelos ombros, o que o fez partir em redobrada velocidade, voltou-se para o seu antigo conhecimento e, com aquela profusão de palavras empoladas e de gestos exagerados que se emprega na Escócia para o que se chama fazer uma frase, exclamou:

- O Céu seja mil vezes bendito! É realmente o digno capitão Cleveland que torno a ver, aquele que nos causou tantas inquietações, aquele por quem meus olhos tanta vez se humedeceram! - E levou um lenço aos olhos - Como sinto o coração aliviado! - ajuntou - Como me sinto feliz por vê-lo restituído aos seus amigos aflitos!

- Aos meus amigos aflitos, miserável! - disse Cleveland - Dar-te-ei um melhor motivo de aflição, se não me disseres já onde roubaste os meus fatos.

- Roubei! - replicou Bryce, erguendo os olhos ao Céu - Que a misericórdia de Deus vele por si! O pobre capitão perdeu o juízo no temporal que sofreu ao sair das ilhas Setland.

- Velhaco impertinente! - exclamou Cleveland, batendo no solo a bengala que tinha na mão - julgas que me enganas com a tua impudência? Se queres conservar a cabeça em bom estado entre os ombros e não ficar com os ossos quebrados, diz-me já onde roubaste os meus fatos.

- Roubei! - repetiu Snailsfoot - Que o Céu me defenda!

E lançou um olhar em redor, em busca do socorro que tanto demorava.

- Quero já uma resposta! - gritou o capitão, levantando a bengala - De contrário, esmago-te como uma múmia, e derrubo toda esta trapagem.

Jack Bunce divertia-se muito com esta cena, e a cólera de Cleveland parecia-lhe um excelente divertimento. Segurou-o por um braço, sem a menor vontade de evitar que ele executasse as suas ameaças, mas unicamente para prolongar uma discussão que o divertia.

- Deixa falar este bom homem - disse ele - Tem a cara mais hipócrita que jamais se viu num patife e possui aquela eloquência que permite ao negociante   dar menos uma polegada de pano do que devia. Repara, no entanto, que vocês dois exercem pouco mais ou menos a mesma profissão: ele mede as fazendas com a vara, e tu com a espada. Não admito, pois, que lhe descarregues uma bordoada, enquanto ele não estiver apto a devolver-ta.

- Estás doido! Deixa-me, por Deus! Quero quebrar-lhe os ossos.

- Segure-o, meu caro senhor! Segure-o bem - pedia o bufarinheiro.

- Está bem! Mas responde-lhe qualquer coisa, de contrário, largo-o.

- Ele acusa-me de lhe ter roubado estas mercadorias, mas o facto é que eu comprei-as legitimamente.

- Compraste-as,   mísero   vagabundo! - exclamou   Cleveland - E a quem tiveste tu a audácia de comprar os meus fatos? Quem   teve o descaramento de tos   vender?

- A senhora Swertha, digna governanta em Jarlshof, procedendo como sua executante testamentária; ela estava tão triste quando mos vendeu...

- Mas como pôde ela vender objectos que lhe foram confiados?

- Procedeu   de   boa-fé,   a   digna   mulher - respondeu Snailsfoot, que desejava prolongar a discussão até à chegada de socorros - E se o senhor quiser ser razoável, eu posso dar-lhe contas da mala e de tudo o que ela continha.

- Pois bem, fala então - disse o capitão - E nada de evasivas. Se mostrares vontade de ser honesto, ao menos uma vez na vida, prometo não te maltratar.

- Muito bem, nobre capitão - disse o negociante - O senhor compreende: todo o país estava numa grande inquietação, uma das maiores, das mais autênticas inquietações. Supunham que Vossa Senhoria, que todos estimam e respeitam, estava no fundo do mar, pois não havia nem uma notícia. Toda a gente o lamentava, o considerava como perdido... morto... defunto... falecido...

- Far-te-ei sentir que ainda estou vivo! - exclamou o irascível capitão.

- Tenha paciência por um momento. O senhor não me deixa falar... Havia também o jovem Mordaunt Mertoun.

- Ah, sim! Que lhe sucedeu?

- É o que ninguém sabe dizer. Desapareceu, perdeu-se, dissipou-se. Presume-se que caiu do alto de algum rochedo ao mar, porque era um rapaz muito audacioso... Eu fiz com ele alguns negócios de peles e de penas, que me dava em troca de pólvora e de chumbo...

- Mas que relação tem isso com os fatos do capitão? - perguntou Bunce - Eu é que me encarrego de te afagar as costas, se não te cingires aos factos.

- Um momento, um momento... Temos tempo de chegar aos factos... Mas, como eu ia dizendo, duas pessoas tinham desaparecido, sem falar da tristeza que ia em Burgh-Westra, por ocasião em que miss Minna...

- Toma cuidado, patife! - exclamou o capitão, num tom de cólera concentrada - Se não falares com todo o respeito que lhe é devido, corto-te as orelhas e obrigo-te depois a comê-las.

- Eh! Eh! Eh!... - tentou rir o bufarinheiro - O senhor quer divertir-se comigo. É uma brincadeira. Mas, não falemos em Burgh-Westra. Estava no velho castelo de Jarlshof o senhor Mertoun, o pai de Mordaunt, e toda a gente supunha que ele criara raízes no rochedo de Sumburgh. Pois bem, ei-lo perdido, como os outros. Por fim, temos Magnus Troil (falo dele com todo o respeito) que monta a cavalo; temos o senhor Claud Halcro que se mete no seu barco, e não há nestas ilhas ninguém menos apto do que ele a governar um barco, porque o seu espírito está sempre preocupado em procurar rimas, e o feitor embarca com ele... Ei-los a percorrer todos os campos, de maneira que se pode dizer que anda metade dos habitantes à procura da outra... Terríveis tempos estes!

O capitão tivera domínio bastante sobre si próprio para ouvir a tirada sem pestanejar, mas o seu companheiro é que perdera a paciência.

- Os fatos! Os fatos! Venham os fatos! - bradou ele, volteando a bengala em torno dos ombros do bufarinheiro, com suficiente habilidade para lhe causar mais medo do que mal, pois nem uma única vez lhe tocou.

Snailsfoot, a quem o receio obrigava a fazer inúmeras contorsões, ia gritando, entretanto:

- Mas, senhor... Meu bom senhor... meu digno senhor... Sim, os fatos. Escute-me, senhor. Eu encontrei a digna mulher muito desgostosa por causa do seu patrão mais velho, do seu patrão mais novo e do digno capitão, por causa da aflição que reinava na família do digno fowd, por causa do próprio digno fowd, do senhor Claud Halcro, do feitor, e por causa de muitas causas. Juntámos os nossos desgostos e as nossas lágrimas; recorremos a uma garrafa para nos aconselhar, como diz a Escritura...

A bengala recomeçou o seu exercício. O nosso amigo Bryce recuou um passo e exclamou:

- E que diabo quer que eu diga mais? Ela vendeu o baú do vestuário; paguei o seu preço, portanto, pertence-me, e é isto que eu hei-de manter até à morte.

- Quer isso dizer - pronunciou Cleveland - que essa velha bruxa teve o descaramento de vender o que não lhe pertencia e que tu, honrado Bryce Snailsfoot, tiveste a Audácia de o comprar.

- Mas, digno capitão - disse o consciencioso bufarinheiro - que queria o senhor que fizessem duas pobres criaturas como nós? O senhor, que era o proprietário, tinha desaparecido; o senhor Mordaunt, que era o depositário, tinha desaparecido também; os fatos tomavam humidade, corriam o risco de se estragar; de maneira que...

- De maneira que a velha vendeu-os – acrescentou Cleveland - e tu compraste-os só para que não se estragassem.

- Eis o que se chama explicar razoavelmente as coisas

- disse o negociante de feira.

- Pois bem, descarado patife, escuta. Não quero sujar os dedos tocando-te, nem perturbar a tranquilidade pública; eu...

- Tem boas razões para isso, capitão - disse Snailsfoot, num ar significativo.

- Quebro-te os ossos se pronuncias mais uma palavra. Toma atenção. Restitui-me a carteira de couro preto fechada à chave, a bolsa de dobrões, alguns fatos de que preciso, e deixo-te o resto.

- Dobrões! - repetiu o bufarinheiro, gritando muito para fazer acreditar que experimentava uma grande surpresa - Não sei o que o senhor quer dizer; comprei fatos e não dobrões.

- Dá-me a minha carteira e tudo o que me pertence, velhaco! - exclamou Cleveland - Ou não te digo mais nada e faço-te saltar os miolos fora do crânio.

O manhoso comerciante relanceou um olhar e viu que se aproximava o socorro que esperava. Eram seis oficiais de polícia, porque os vários conflitos que tinha havido entre a tripulação e os habitantes advertiram os magistrados de que era necessário reforçar as patrulhas sempre que se tratasse desses estrangeiros.

- Venerável capitão! - replicou Snailsfoot, animado com a vista do reforço que chegava - O senhor faria melhor em aplicar a si próprio o termo de ladrão. Quem sabe onde obteve tão belos adornos?

Pronunciou estas palavras num tom chocarreiro, acompanhando-as de um olhar malicioso. E Cleveland não esperou por mais. Agarrando-o pela gola, fê-lo saltar por cima da mesa que lhe servia de balcão, derrubando-o com as fazendas que aí se encontravam, e, segurando o comerciante com uma mão, aplicou-lhe com a outra um severo castigo de bengaladas. O seu movimento foi tão rápido e a cólera emprestou-lhe uma tal energia, que Bryce Snailsfoot, apesar de bastante vigoroso, surpreendido pela vivacidade deste ataque, não teve tempo de se colocar em defesa, e contentou-se com gritar por socorro, mugindo como um touro.

O reforço, que avançava a passo lento, chegou enfim, e os oficiais de polícia, unindo os seus esforços, obrigaram Cleveland a largar o negociante. Cleveland teve que defender-se. E fê-lo com tanto vigor e destreza como coragem, poderosamente apoiado pelo seu amigo Jack Bunce, que vira com grande prazer a tareia aplicada ao bufarinheiro e que combatia agora com resolução para salvar o companheiro das consequências que este incidente podia ter. Mas, como desde há algum tempo a animosidade entre os habitantes da cidade e a tripulação pirata vinha aumentando sempre, os primeiros, irritados com a atitude impertinente dos marinheiros, prometeram a partir de então ajudar-se mutuamente e apoiar a autoridade sempre que se desse algum conflito. Grande número de espectadores tomou partido pelos oficiais de polícia, e Cleveland, depois de se ter batido valentemente, foi por fim derrubado e feito prisioneiro. O seu camarada, mais feliz do que ele, procurou a salvação nas suas pernas, logo que viu que era impossível saírem vitoriosos.

O coração altivo de Cleveland, que, mesmo no meio da depravação dos seus princípios, sempre conservara alguma coisa da sua nobreza primitiva, esteve prestes a despedaçar-se quando se viu derrubado neste ignóbil combate, arrastado pela cidade como um prisioneiro e obrigado a percorrer as ruas para comparecer ante os magistrados, então reunidos na sua sala de deliberações. As probabilidades de uma detenção e as consequências que daí podiam advir apresentavam-se ao seu espírito. Amaldiçoou cem vezes a loucura que cometera, arriscando-se a cair numa situação perigosa, só por querer castigar um ladrão.

Mas, quando chegavam à porta do Município, um novo incidente veio mudar o aspecto das coisas de uma maneira tão rápida como imprevista.

Ao fazer uma retirada precipitada, Bunce levara a intenção de a tornar tão útil ao seu amigo como a si próprio. Correu para o porto onde estava a chalupa do navio pirata e, tomando a chefia dos homens da tripulação que ali se encontravam, levou-os em socorro de Cleveland.

Viu-se surgir em cena uma dúzia de mocetões resolutos, como o costumam ser os da sua profissão. Lançaram-se através da turba, que apartavam a grandes bastonadas, e, abrindo caminho até Cleveland, depressa o arrancaram das mãos dos oficiais, que não esperavam um ataque tão furioso como rápido. Levaram-no em triunfo para o cais;

alguns deles, de quando em quando, voltavam-se para intimidar a populaça que os seguia, mas que não fazia a menor tentativa para recuperar o prisioneiro; a vista das pistolas e dos sabres de que os piratas vinham armados bastava para os conter em respeito.

Alcançaram o seu barco, sem sofrerem qualquer oposição, e ali fizeram entrar Cleveland, a quem as circunstâncias não deixavam outro refúgio. Empunhando os remos, afastaram-se para o navio que estava na baía, cantando em coro uma velha canção, da qual os habitantes de Kirkwall, reunidos na margem, não puderam ouvir senão a primeira copla:

 

Arvorai o negro pavilhão,

Diz à sua gente o capitão:

Que o inimigo o possa ver,

Mas que ninguém no-lo arrebate.

Fogo de bombordo e de estibordo,

É o mar nosso domínio;

Fogo de bombordo e de estibordo,

Para nós a vitória, ou a morte?

 

O coro selvático das suas vozes ainda se fez ouvir por muito tempo depois das palavras já não serem inteligíveis - e foi assim que Cleveland se encontrou, quase involuntàriamente, de novo entre os companheiros de que tinha resolvido separar-se.

 

                   A GRANDE E EXTRAORDINÁRIA REVELAÇÃO

A nossa história tem que recuar ainda, para levarmos os nossos leitores junto de Mordaunt Mertoun?

Deixámo-lo na melindrosa situação de um homem gravemente ferido. Encontramo-lo agora convalescente, na verdade, ainda pálido e fraco em consequência de uma grande perda de sangue e de uma febre que lhe sobreveio, mas muito feliz porque a lâmina do punhal, escorregando-lhe pelo dorso, apenas produziu um ferimento pouco perigoso. Estava então quase curado, graças aos bálsamos e às drogas da sábia Norna de Fitful-head.

A matrona e o seu doente estavam numa ilha mais afastada. Durante a enfermidade, e antes de ele ter recuperado totalmente o uso dos sentidos, Mordaunt fora transportado para a estranha moradia de Norna, em Fitful-bead, e dali para outra ilha num barco de pescadores de Burgh-Westra. Esta mulher alcançara um tal ascendente sobre o carácter supersticioso dos seus conterrâneos que nunca lhe faltavam agentes fiéis para executar, sob rigoroso segredo, as suas ordens.

Mordaunt achava-se agora sentado a um canto do lume, num compartimento razoavelmente mobilado, com um livro na mão, ao qual, de quando em quando, lançava um olhar num ar de enfado e de impaciência. Atirou o livro para cima da mesa, na atitude de pessoa ocupada em reflexões pouco agradáveis.

Norna, que, sentada na sua frente, parecia trabalhar na composição de algum medicamento, ergueu-se num ar de inquietação e, aproximando-se de Mordaunt, tacteou-lhe o pulso, interrogou-o no mais afectuoso tom sobre a sua saúde, perguntando-lhe se sentia alguma dor súbita e em que sítio. À resposta de Mordaunt, embora feita em termos destinados a exprimir o seu reconhecimento, dizendo que não sentia nenhuma indisposição, a pitonisa não pareceu satisfeita.

- Jovem ingrato - disse ela - tu, por quem eu tanto fiz, tu, que a minha ciência e o meu poder arrancaram às portas da morte, já estás tão aborrecido da minha presença que não possas evitar mostrar que desejarias passar longe de mim os primeiros dias de uma vida que eu salvei?

- A senhora não me faz justiça - respondeu Mordaunt - Eu sei que me salvou a vida, e estou por isso cheio de gratidão, mas tenho deveres a cumprir.

- Deveres! E que deveres se podem sobrepor à gratidão que me deves? Deveres! Pensas na tua espingarda, em trepar às rochas para perseguires as aves marinhas... As tuas forças ainda não te permitem esse exercício, apesar de estares tão apressado em cumprir esses deveres.

- Não é isso que me preocupa, minha boa benfeitora; mas, para lhe citar um único dos meus deveres que me obrigam a deixá-la, basta que lhe fale do que um filho deve a seu pai.

- A seu pai! - exclamou Norna, com um sorriso sardónico - Mas que fez teu pai para merecer que cumpras para com ele os deveres de que falas? Não foi ele que, como me disseste em tempos, te abandonou na tua infância ao cuidado de estranhos, apenas provendo às tuas necessidades, não se informando sequer se eras vivo ou morto, e limitando-se a enviar-te, de tempos a tempos, algum pequeno socorro, como quem atira uma esmola a um leproso cujo contacto se receia? E durante estes poucos anos em que fez de ti o companheiro da sua misantropia, ele ora te instruía, ora te atormentava; mas nunca, Mordaunt, procedeu como pai.

- Há qualquer coisa de verdade no que diz; mas se a ternura de meu pai não é expansiva, nem por isso experimentei menos os felizes efeitos. É dever de um filho ser grato pelos benefícios que lhe concede um pai, mesmo indiferente. Devo ao meu toda a instrução que recebi, e estou persuadido de que ele me ama. Aliás, os homens não podem mandar nas suas afeições. Ele é infeliz, e mesmo que ele não me estimasse...

- Mas ele não te ama! - exclamou Norna com vivacidade - Ele nunca amou coisa alguma, nunca amou outra pessoa senão ele próprio. É infeliz, mas bem mereceu a sua desdita... Mas, ó Mordaunt, se não tens pai, resta-te uma mãe, uma mãe que te quer mais do que ao ar que respira.

- Uma mãe? - exclamou Mordaunt, num tom de incredulidade - Ai, há muito tempo que já não tenho mãe.

- Enganas-te, enganas-te - disse Norna, muito sensibilizada - A tua desditosa mãe não morreu. Quisesse o Céu que ela lá estivesse! Mas não está. Essa mãe que te ama com uma ternura sem igual, sou eu, Mordaunt - ajuntou ela, lançando-se-lhe ao pescoço - Sou eu essa infeliz... não, essa ditosa mãe...

Apertou-o nos seus braços, num movimento convulsivo, vertendo lágrimas, as primeiras talvez que ela chorou desde há muitos anos. Assombrado do que acabava de ouvir, do que via, do que sentia; comovido ele próprio pela agitação de Norna e, no entanto, inclinado a atribuir o seu arrebatamento a um desequilíbrio do seu espírito, Mordaunt tentou em vão acalmar aquela mulher extraordinária.

- Filho ingrato! - exclamou ela - Quem, senão uma mãe, teria velado por ti como eu o fiz? Logo que vi teu pai, há uns anos, sem que ele suspeitasse que mulher o observava, reconheci-o imediatamente. Vi-te então bem novo, mas a voz da Natureza, falando-me ao coração, asseverou-me que tu eras o sangue do meu sangue, os ossos dos meus ossos. Recorda-te de quantas vezes te surpreendeste de me encontrar, quando menos o esperavas; recorda-te de quantas vezes velei por ti, quando escalavas os rochedos, pronunciando encantações com que se expulsam os demónios que aparecem aos ousados caçadores nos sítios mais perigosos e os tornam vítimas de um movimento de terror! Não fui eu quem suspendeu ao teu pescoço, para garantia da tua segurança, essa cadeia de ouro que um rei mágico deu aos fundadores da nossa raça? Daria eu presente tão precioso a outro que não fosse um filho querido? Mordaunt, o meu poder fez por ti coisas em que outra mãe não poderia pensar sem tremer. À meia-noite, esconjurei a Sereia para que o teu barco estivesse em segurança nos mares. Obriguei a calar os ventos e imobilizei as ondas no Oceano, para que tu pudesses caçar sem perigo nas montanhas.

Mordaunt, vendo que a imaginação de Norna parecia transviar-se cada vez mais, procurou dar-lhe uma resposta que a pudesse satisfazer e acalmar.

- Minha querida Norna - disse ele - tenho sobejas razões para lhe dar o nome de mãe, a si, que tantos serviços me prestou, e encontrará sempre em mim a afeição e o respeito de um filho; mas a cadeia de que me fala já não está ao meu pescoço; nunca mais a vi depois de ter sido ferido.

- Ai! - disse Norna, em doloroso tom - Era nisso que devias pensar em semelhante momento? Mas, seja. Fui eu quem ta tirou para a suspender ao pescoço daquela que te é querida, para que a vossa união, união que tem sido o meu único desejo terrestre, se possa realizar, como há-de realizar-se, mesmo que o inferno lhe quisesse levantar obstáculos.

- Ah! - suspirou Mordaunt - A senhora não toma em conta a distância que me separa dela. O seu pai é rico e de uma família antiga.

- Não é mais rico do que o será o herdeiro de Norna de Fitful-head - respondeu a pitonisa - O seu sangue não é mais puro nem mais nobre do que aquele que tua mãe te fez correr nas veias, pois ela descende dos mesmos reis do mar a quem Magnus deve a sua origem. Julgas, como os estrangeiros fanáticos que vieram até nós, que teu sangue ficou manchado por a minha união com o teu pai não ter recebido a sanção de um padre? Fica sabendo que nos casámos segundo os antigos ritos dos norses. Demos as mãos no círculo de Odin, pronunciando solenes juramentos de fidelidade, que mesmo as leis dos usurpadores escoceses achariam tão válidos como a bênção recebida aos pés do altar. Magnus não tem nenhuma censura a fazer ao filho de uma tal união. Sou fraca, criminosa, mas o nascimento do meu filho não foi acompanhado de infâmia.

O tom calmo e coerente em que Norna se exprimia começou a insinuar no espírito de Mordaunt um princípio de crença no que ela dizia. Ela ajuntou tantos pormenores e tantas circunstâncias ligadas entre si que era difícil manter a opinião de que esta história fosse apenas um produto do desvairamento do espírito que se notava por vezes nos seus discursos e nos seus actos.

- Julga realmente, minha mãe, visto que me ordenou que lhe desse esse nome - disse Mordaunt - que haja alguma maneira de fazer Magnus Troil arrepender-se dos ressentimentos que concebeu contra mim e o leve a consentir na minha união com Brenda?

- Com Brenda! - repetiu Norna - Quem fala de Brenda? É de Minna que queres falar.

- Mas era em Brenda que eu pensava, é nela que eu penso, é só nela que eu hei-de pensar sempre.

- Impossível, meu filho! Não podes ter o espírito tão cego, o coração tão fraco, que prefiras a alegria pueril de uma rapariga, que não serve para mais nada senão para ocupar-se da lida do lar, aos sentimentos elevados e à imaginação exaltada da nobre Minna! Quem desejaria baixar-se a colher uma humilde violeta, quando não tem mais do que estender a mão para se apoderar da rosa deslumbrante?

- Há quem pense que as flores mais humildes são as que espalham o aroma mais doce, e eu quero viver e morrer nessa convicção.

- E ousas tu falar-me assim! - exclamou Norna com violência. Mas, mudando bruscamente e tomando-lhe a mão da maneira mais afectuosa - Não, não, meu filho - disse ela - tu não podes querer despedaçar o coração de tua mãe no próprio instante em que, pela primeira vez, ela te chama filho. Não me respondas, mas escuta-me. Tens que desposar Minna: atei-lhe ao pescoço o talismã do qual quis o Destino que dependesse a vossa felicidade comum. Todo o meu trabalho, desde há muitos anos, se orienta nesse sentido. Nada pode mudar este decreto da sorte. Minna deve ser a esposa de meu filho.

- Mas Brenda não lhe toca de tão perto? Também não lhe é querida?

- Toca-me de muito perto pelo sangue; mas não me é tão querida; meu coração não lhe tem nem metade do amor. A alma dócil, mas exaltada e reflectida de Minna, torna-a a companhia adequada para um ser cujos caminhos estão, como os meus, muito longe das veredas vulgares deste Mundo. Brenda é uma jovem apenas interessada nas coisas vulgares.

- É certo que ela não é supersticiosa nem entusiasta, e por isso ainda a amo mais. Mas note, minha mãe, que corresponde também à afeição que tenho por ela, e que se Minna a sente por alguém, é por esse estrangeiro, esse Cleveland.

- Não. Ela não o ama, não se atreveria a amá-lo! Ele próprio não ousaria pedir a sua mão. Eu disse-lhe, à sua chegada a Burgh-Westra, que a reservava para ti.

- Então, é a essa declaração imprudente que devo o ódio que esse homem me votou, o ferimento que recebi e quase a perda da minha vida. Veja, minha mãe, até onde as suas intrigas já nos conduziram. Em nome do Céu, não as leve mais longe!

Esta censura pareceu chocar Norna com a vivacidade de um relâmpago e a força de um raio. Levou a mão à fronte e esteve quase a deixar-se cair na cadeira. Mordaunt, assustado, apressou-se a sustê-la nos seus braços, e, quase sem saber o que dizia, tentou pronunciar algumas palavras incoerentes.

- Poupa-me, justo Céu, poupa-me! - exclamou ela, após alguns instantes de silêncio - Se queres punir o meu crime, não o incumbas da vingança. Sim, mancebo, ousaste dizer-me o que eu não me atrevo a dizer a mim própria. Falaste-me uma linguagem que eu não posso ouvir sem cessar de viver, se ela for a linguagem da verdade.

Foi em vão que Mordaunt se esforçou por interrompê-la, assegurando-lhe que não sabia como pudera ofendê-la ou causar-lhe algum desgosto, e testemunhou-lhe o seu pesar. Ela prosseguiu, em voz trémula de comoção:

- Sim, despertaste essa negra suspeita que abala a Convicção íntima do meu poder, o único dom que me foi concedido em troca da minha inocência e da paz do meu coração. A tua voz junta-se à desse demónio que, no próprio instante em que os elementos me reconhecem como sua dominadora, me diz baixinho: «Norna, tudo isso não passa de ilusão; o teu poder apenas se apoia na estúpida credulidade dos ignorantes, auxiliada por mil pequenos artifícios a que recorres». Eis o que tu querias dizer; e, por muito falso que seja, existem neste cérebro exaltado - ajuntou ela, colocando um dedo na sua própria fronte - pensamentos rebeldes que, como a revolta em país invadido, se levantam para tomar partido contra o soberano atacado. Poupa-me, filho - continuou ela - poupa-me. O império de que as tuas palavras me privariam não é de grandeza de molde a provocar invejas. Bem poucas pessoas desejariam reinar sobre espíritos insubmissos, sobre furacões ululantes, sobre correntes furiosas. O meu trono é uma nuvem, o meu cetro um meteoro e o meu reino só é povoado de fantasmas. Mas é preciso que eu, ou deixe de existir ou continue a ser a mais poderosa e a mais mísera das criaturas.

- Não faça raciocínios tão sombrios, minha querida e infeliz benfeitora - disse Mordaunt muito comovido - Eu acreditarei em tudo o que queira que eu creia do seu poder. Mas, no seu próprio interesse, veja as coisas por outro prisma. Desvie os seus pensamentos desses estudos misteriosos, que lhe causam tanta turbação, renuncie a esses problemas excêntricos; dê melhor direcção às suas ideias; a vida oferecer-lhe-á ainda encantos, e a religião consolações.

Ela escutou-o num ar calmo, como se estivesse pesando os seus conselhos e quisesse fazer deles a regra do seu procedimento; mas logo que ele se calou, ela meneou a cabeça e exclamou:

- Não pode ser! Tenho que continuar a ser a temível, a misteriosa Reimkennar, a soberana dos elementos, ou deixar de existir. Não há para mim nem alternativa, nem meio termo. O meu posto tem que ser no rochedo inacessível que pés mortais jamais pisaram, a não ser os meus ou terei que dormir no fundo do temível Oceano, cujas vagas escumantes rugirão, rolando o meu cadáver insensível. A parricida nunca será acusada de impostura.

- A parricida! - repetiu Mordaunt, recuando horrorizado.

- Sim, meu filho - respondeu Norna, com uma calma mais assustadora do que a impetuosidade a que ela se entregara momentos antes - Foi dentro destas paredes funestas que meu pai encontrou a morte, e fui eu a sua causa. Foi neste mesmo quarto que o encontraram frio, lívido e sem vida. Filho, foge da desobediência aos pais; são os seus amargos frutos!

Ao proferir estas palavras, ela levantou-se e saiu do compartimento, onde Mordaunt ficou só, a reflectir à vontade sobre os estranhos pormenores que acabava de ouvir. Seu pai ensinara-o a não acreditar nas superstições dos setlandeses, e via agora que Norna, conseguindo enganar os outros tão bem, não conseguia enganar-se totalmente a si própria. Era uma circunstância de ponderar que parecia provar que não tinha o espírito transviado. Mas, por outro lado, a acusação de parricida que ela fazia a si própria era tão estranha, tão improvável, que bastava para fazer Mordaunt duvidar das suas outras asserções.

Tinha bastantes ócios para se entregar às suas reflexões sobre o que devia acreditar e rejeitar, porque ninguém se aproximava da moradia solitária de que Norna, o anão e ele eram os únicos habitantes. A ilha onde ela se encontrava era inculta e muito elevada acima do nível do mar. O clima desta ilha era frio; o solo, húmido e estéril, só oferecia ao olhar um aspecto de desolação.

Mas as proximidades do mar, que se tornaram o passeio predilecto de Mordaunt quando a sua convalescença lhe permitiu fazer exercício, compensavam-no do aspecto árido do interior. Um belo estreito separa esta ilha solitária da de Pomona; ao centro deste estreito está situada, lembrando uma mesa de esmeralda, a pequena ilha verdejante de Gramsay.

Mordaunt resolveu abandonar estas paragens logo que o restabelecimento da sua saúde lho permitisse; contudo, a sua gratidão por Norna, de quem ele era filho, se não pelo sangue, pelo menos por adopção, não o deixava partir sem sua autorização, mesmo que ele pudesse obter meios de partir, o que não parecia nada verosímil. Não foi senão a muito custo que lhe arrancou a promessa de que se consentisse em regular o seu procedimento pelos conselhos que ela lhe desse, Norna tomaria a seu cargo levá-lo à capital das Órcades, por ocasião da feira de Santo Olavo, cuja época estava próxima.

 

                     CLEVELAND RECONQUISTA O SEU POSTO

Quando Cleveland, arrancado às mãos dos oficiais de justiça que o tinham detido em Kirkwall, foi levado em triunfo para o navio dos piratas, uma grande parte dos homens da tripulação celebraram a sua boa-vinda com gritos de alegria e aproximaram-se dele para lhe apertar a mão e felicitá-lo pelo seu regresso, pois o posto de capitão entre os corsários não o eleva muito acima dos outros, e todos, em tudo o que não se relacione com o serviço, se julgam no direito de o tratar de igual para igual.

Depois de a sua facção, assim se pode chamar aos seus amigos, exprimir de maneira tão ruidosa a satisfação que experimentava por tornar a vê-lo, conduziram-no para a popa, onde Goffe, actual comandante do navio, estava sentado em cima de um canhão, a escutar num ar sombrio e descontente as alegres aclamações que anunciavam a chegada de Cleveland. Era um homem entre quarenta e cinquenta anos, de estatura acima da mediana, mas de tal maneira robusto que a sua tripulação tinha por costume compará-lo a um grande vaso de guerra. Tinha cabelos negros, pescoço de touro, sobrancelhas espessas; o seu ar feroz e as suas formas desgraciosas, mas que denunciavam vigor, contrastavam com o ar másculo e a fisionomia aberta de Cleveland, que mesmo na sua profissão infame não perdera inteiramente o à vontade e a nobreza que se faziam notar naturalmente nos seus gestos como na sua linguagem.

Os dois capitães piratas encararam-se por alguns momentos em silêncio, enquanto os respectivos partidários se agrupavam à sua volta. Goffe foi o primeiro a falar.

- Foste bem recebido a bordo, capitão Cleveland. Com mil bombas, supunha que ainda eras o comodoro; mas, com os demónios, quando perdeste o navio, o teu posto de comodoro foi-se com todos os diabos!

Adverte-se aqui, de uma vez para sempre, que o hábito deste digno comandante era introduzir nas suas falas, numa proporção quase igual, pragas e outras expressões análogas, ao que ele chamava dar a sua bordada. Como não gostamos de descargas de artilharia deste género, indicaremos apenas por meio de traços como este - os lugares das suas frases que ele enriqueceria com esses ornamentos.

À insinuação de que desejaria retomar o comando em chefe, respondeu Cleveland que não o queria nem o aceitava; que tudo que pedia ao capitão Goffe era que lhe emprestasse a sua chalupa para o conduzir a uma ilha, visto ele não querer comandar, nem servir sob as suas ordens.

- E porque não servir debaixo das minhas ordens? - perguntou Goffe de mau humor - És algum grande senhor - para não me servires? - comando aqui homens - que são os teus antigos marinheiros. E melhores do que tu nunca o serás.

- Desejaria saber - respondeu Cleveland, com o maior sangue-frio - qual foi desses bons marinheiros o que colocou o navio ao alcance do fogo daquela bateria de seis peças; não viu ele que o poderiam meter no fundo, se quisessem, antes que tivesses tempo de cortar o cabo e fazeres-te ao largo? Marinheiros mais antigos e melhores do que eu podem achar bem servir debaixo das ordens de semelhante biltre; mas, quanto a mim, capitão, não gosto disso, e é tudo o que tenho a dizer-te.

- Irra! Parece-me que estão os dois malucos - disse Hawkins, o mestre da tripulação - Um encontro ao sabre Ou à pistola pode ter o seu valor quando não se tem nada de melhor que fazer; mas

onde estaria o nosso senso comum se os homens da nossa profissão se divertissem a pelejar entre si para dar a esses patos das ilhas ensejo de nos atacar?

- Assim é que é falar, meu velho Hawkins - disse Derrick, o contramestre, oficial de grande importância entre os piratas - Se os dois capitães não chegam a acordo e não se entendem para a defesa do barco, que diabo!, não há senão que destituí-los a ambos e escolher outro.

- A ti, por exemplo, digno contramestre - disse Jack Bunce - Mas isso não chega. É preciso que aquele que comande «gentlemen» o seja também, e eu levanto a minha voz pelo capitão Cleveland, porque é o mais valente e o mais digno «gentleman» que jamais pisou um convés.

- Tu queres passar por «gentleman»? - replicou Derrick - Na verdade, um alfaiate faria um melhor com os reles farrapos que sobraram do teu guarda-roupa teatral. É uma vergonha, para gente de brio como nós, servir com um rebotalho de bastidores, um vagabundo!

Jack Bunce sentiu-se tão irritado, ao ver-se tratado assim, que levou sem hesitar a mão ao punho do seu sabre; mas o mestre da tripulação e o carpinteiro precipitaram-se entre os dois antagonistas; este jurando que abriria o crânio com a sua acha ao primeiro que vibrasse algum golpe, aquele lembrando que, segundo as suas leis, era expressamente proibido questionar e sobretudo bater-se a bordo; os que tivessem algum diferendo a derimir deviam ir para terra, e pugnar pela sua razão, de sabre ou de pistola em punho, na presença de dois camaradas.

- Eu não tenho questão com ninguém - disse Goffe de mau humor - O capitão Cleveland divertiu-se a passear por essas ilhas - e nós perdemos o nosso tempo - a procurá-lo e a esperá-lo, quando poderíamos ter juntado vinte ou trinta mil dólares à bolsa comum. Quanto ao resto - eu quero tudo o que quer a tripulação.

- Eu proponho - disse Hawkins - que se reúna o conselho-geral, conforme os nossos regulamentos, a fim de deliberar que partido se há-de tomar nesta questão.

A proposta do mestre da tripulação foi aprovada por unanimidade, pois cada um confiava nos conselhos-gerais, onde até o último homem da tripulação tinha tanto direito de votar como o capitão. A maioria não apreciava esta prerrogativa senão porque, nessas ocasiões solenes, a aguardente era distribuída à discrição.

A aguardente correu então em tais quantidades que a embriaguez se mostrou em todas as suas formas degradantes, uns proferindo horríveis blasfémias, outros, numa alegria brutal, medonhas imprecações e outros, ainda, entoando canções obscenas e ímpias. No meio deste inferno terrestre, os dois capitães, com um ou dois dos seus partidários, o carpinteiro e o mestre, formaram entre eles uma espécie de conselho privado, ou um pandemonium, para ponderar o que se devia fazer.

Quando começaram a deliberar, os amigos de Goffe notaram, com enfado, que ele não tivera a precaução de evitar o excesso de bebida; mas, pelo contrário, querendo afogar o desgosto que lhe causara o regresso de Cleveland, o velho capitão deixara naufragar a sua lucidez. A sombria taciturnidade que lhe era peculiar impedira que o notassem antes do início da deliberação; depois foi-lhe impossívl dissimular.

Cleveland foi o primeiro a falar, para dizer que, bem longe de desejar o comando do barco, o único favor que pedia era que o abandonassem em qualquer ilha, em qualquer rochedo a uma certa distância de Kirkwall e que lhe deixassem depois o cuidado de se tirar de apuros.

O mestre da tripulação opôs-se vivamente a esta resolução.

- Todos nós conhecemos o capitão Cleveland - disse ele - e sabemos que se pode depositar tanta confiança na sua experiência como na sua coragem. O grogue nunca molhou a sua pólvora; o seu génio está sempre pronto a disparar sobre o que for preciso; e, quando ele está no navio, nós temos a certeza de que, em qualquer caso, aqui se encontra alguém em estado de governar e comamdar a manobra. Quanto ao capitão Goffe, é mais valente do que todos que alguma vez comeram bolacha a bordo; mas, digo-o na sua presença, quando tem um grão na asa, torna-se tão conflituoso que não há meio de se poder viver com ele. Lembram-se de uma vez que, por teimosia, esteve prestes a despedaçar o Cavalo de Copinsha contra um rochedo; e de outra, em pleno conselho, disparou a pistola e partiu a perna ao diabo do Jack Jenkins.

Jenkins nada perdeu! - exclamou o carpinteiro - Eu cortei-lhe a perna com a minha serra, tão bem como faria um cirurgião; cauterizei-lhe o ferimento com a minha acha em brasa, e depois fiz-lhe uma perna tão bonita e tão boa como a que ele perdeu, e que, não há dúvida, bem lhe serve.

- Ah! Tu és um homem habilidoso, diabòlicamente habilidoso - disse o contramestre - No entanto, eu não gostaria que empregasses nos meus membros a tua serra e a tua acha; tens muito onde empregar a tua ferramenta a bordo. Mas não é disso que se trata agora. A questão é saber se nos devemos separar do capitão Cleveland que aqui está, homem tão bom para o conselho como para a acção. Em minha opinião seria atirar o piloto ao mar quando o vento empurra o navio para a costa. Acrescento ainda que não seria próprio de um coração de marinheiro abandonar assim os seus camaradas que perderam tanto tempo a procurá-lo e a esperá-lo, de maneira que as nossas provisões estão quase esgotadas e vamos ficar sem água. Não nos podemos fazer de vela sem estarmos abastecidos, e não nos podemos abastecer sem a ajuda dos habitantes de Kirkwall. Se nos divertimos por aqui mais tempo, corremos o risco de ver cair em cima de nós a fragata Alcyon, que foi vista há dois dias por alturas de Peterborough, e nesse caso faremos de bom ornamento da forca. Ora, se alguém nos pode tirar do pescoço o nó corredio, esse alguém é o capitão Cleveland. Ele levará esses tipos de Kirkwall pela brandura, dir-lhe-á bonitas palavras e, se for preciso, saberá mostrar-lhes os dentes. E que querem vocês fazer do bravo capitão Goffe? - Perguntou um velho pirata a quem restava um só olho - Eu sei que ele tem os seus caprichos, e já lhos sofri como qualquer outro; mas, no fim de contas, nunca homem mais valente subiu a um navio corsário.

- Se não quiserem ouvir-me até ao fim, isso valerá tanto como falar a negros - replicou Hawkins - O que eu proponho é que Cleveland seja capitão desde a uma hora da tarde até às cinco da manhã, visto que durante esse tempo Goffe está sempre bêbado.

Nesse momento, Goffe deu uma prova da veracidade desta acusação, ao tentar proferir algumas palavras inarticuladas e ameaçando com a pistola a Hawkins, que desempenhava o papel de medianeiro.

- Vêem? - disse Derrick - Que bom-senso se pode esperar de um homem que, mesmo durante uma reunião do conselho, se embriaga como o último dos marujos? No entanto - prosseguiu - dois capitães no mesmo dia, isso não dá nada. Sou de opinião que comande uma semana cada um, e que comece Cleveland.

- Eu penso que ele nos poderá ajudar mais do que qualquer outro - disse Hawkins.

- Sim, sim! - exclamou Bunce - Há-de fazer melhor figura que o bêbado do seu antecessor, para chamar à razão esses velhacos de Kirkwall. Portanto, viva o capitão Cleveland!

- Um momento, senhores! - pediu Cleveland, que permanecera silencioso até então - Espero que não me nomeiem capitão sem meu consentimento.

- E porque não? - replicou Bunce - É pro bono publico!

- Mas, ao menos, oiçam-me. Acedo a tomar o comamdo do navio, porque vocês o desejam e porque vejo que, sem mim, vocês dificilmente se tirarão de embaraços... Mas, com a condição de, logo que consiga reabastecer o barco e o ponhamos em estado de se fazer ao largo, devolver o comando ao capitão Goffe e me deporem em terra em qualquer ilha das cercanias. Não podem recear que eu os atraiçoe, visto que ficarei a bordo até ao último momento.

- E ainda mais algum tempo, espero eu - murmurou Bunce entre dentes.

A nomeação foi feita por votos, e toda a tripulação tinha tanta confiança nas faculdades de Cleveland, superiores às de Goffe em todos os sentidos, que a destituição deste não sofreu oposição, mesmo por parte dos seus partidários, que disseram muito acertadamente:

Porque se embriagou? Era a ele que competia defender os seus próprios interesses.

Mas, no dia seguinte, a parte da tripulação que a embriaguez impedira de participar nas resoluções, sabendo o que ficara decidido no conselho-geral, apoiou com tanto entusiasmo o que se fizera, que Goffe, por muito descontente que estivesse, julgou conveniente refrear o seu ressentimento até que as circunstâncias se lhe tornassem mais favoráveis. Submeteu-se, pois, à degradação, o que não era nada extraordinário entre piratas.

Por seu lado, Cleveland resolveu desempenhar-se, com zelo e sem perda de tempo, da missão, que acabava de tomar a peito, de tirar a tripulação da situação perigosa em que se encontrava. Nesta intenção, ordenou que descessem a chalupa ao mar, a fim de ele próprio ir a Kirkwall com doze homens, que escolheu entre os mais valentes e os mais vigorosos do bando, quase tão bem vestidos como os seus oficiais, graças às boas pilhagens, todos bem armados de sabres e pistolas, e alguns até de achas e punhais.

Cleveland, porém, distinguia-se pela elegância do seu vestuário. Um apito de ouro, sinal da sua dignidade, pendia de uma cadeia do mesmo metal, que lhe dava várias voltas ao pescoço. Ostentava ainda um ornamento peculiar a estes audaciosos piratas, que, não se contentando com o trazer à cinta um par de pistolas, levavam mais dois pares, de um trabalho rico e precioso, suspensos de uma larga faixa carmesim passada a tiracolo. Os copos da espada do capitão eram tão ricos como o resto do seu equipamento, e a sua boa cara dava-lhe uma tal vantagem sobre os companheiros, que, quando subiu à coberta, foi recebido com aclamações gerais, segundo o costume do povo, que julga pelas aparências.

Cleveland incluiu o seu antecessor no número daqueles que o deviam acompanhar. O ex-capitão também estava ricamente vestido; mas, não possuindo o bom aspecto do seu sucessor, apresentava um ar de camponês vestido à janota, ou antes de salteador de estrada vestido com os despojos do viajante que acabou de assassinar. Cleveland, provavelmente, quis levar Goffe com ele a fim de o impedir de aproveitar a sua ausência para desmoralizar a tripulação. Deixaram o navio, acompanhando o movimento dos remos com uma canção em coro, à qual o ruído das ondas fazia de música de fundo. E foi assim que chegaram ao cais de Kirkwall.

Entretanto, o comando do navio fora confiado a Jack Bunce, com o zelo e a fidelidade do qual Cleveland sabia que podia contar; e numa bastante longa conversa que tiveram os dois, este último deu ao jovem amigo instruções acerca do que devia fazer em diversas circunstâncias que podiam sobrevir. Terminadas estas combimações e ficando Bunce advertido de tomar cuidado com os partidários de Goffe no navio e com algum ataque que pudesse partir de terra, a chalupa partiu por fim. Ao aproximar-se do cais, Cleveland mandou arvorar o pavilhãu branco e notou que a sua chegada provocava muito movimento e alarme. Mandou-se alguém à pressa à bateria de seis canhões e arvorou-se o pavilhão inglês. Estes sintomas não deixavam de ser inquietantes, tanto mais que Cleveland sabia que, embora não houvesse artilheiros em Kirkwall, encontravam-se por lá muitos marinheiros que conheciam perfeitamente o manejo de uma peça.

Atento a estas demonstrações hostis, mas não deixando transparecer no semblante nem medo nem inquietação, Cleveland ordenou que se dirigissem em linha recta para o cais. A margem estava debruada de uma multidão de habitantes, que, armados de mosquetes, de espingardas de caça, de picos e de grandes facas de esquartejar baleias, pareciam reunidos com o intuito de se opor ao seu desembarque. Dir-se-ia, no entanto, que não tinham tomado a esse respeito uma resolução positiva, pois, logo que o barco tocou a margem, recuaram e admitiram que Cleveland e os homens da sua escolta saltassem em terra, sem tentar opor qualquer obstáculo. Os piratas alinharam em boa ordem no cais, à excepção de dois que ficaram na chalupa, e que se afastaram para certa distância de terra. Esta manobra de pôr o barco fora do perigo de ser apresado denunciava da parte de Cleveland e da sua gente uma espécie de confiança e de negligência para intimidar os seus adversários. Os habitantes de Kirkwall provaram, no entanto, que ainda lhes corria nas veias alguma coisa do sangue dos antigos guerreiros do Norte. Permaneceram firmes perante os piratas, de arma ao ombro, barrando-lhes a emboscadura da rua que conduzia à cidade.

Os dois partidos encararam-se em silêncio por alguns instantes. Cleveland usou, por fim, da palavra:

- Que quer dizer isto, senhores? - perguntou ele - Acaso os habitantes das órcades se transformaram em montanheses da Escócia? Porque estão todos em armas, de manhã tão cedo? Reuniram-se no cais para me fazer a honra de celebrar com uma saudação o meu regresso ao comando do meu navio?

Os habitantes entreolharam-se e um deles encarregou-se de lhe responder:

- Não sabemos quem você é. Aquele homem - disse ele, apontando Goffe - é que se dizia capitão quando vinha a terra.

- É o meu imediato, e comanda na minha ausência. Mas não é disso que se trata; desejo falar ao vosso Lord Mayor, ao chefe dos vossos magistrados, ou como lhe chamais.

- O preboste e os magistrados estão reunidos.

- Tanto melhor. Onde estão eles reunidos?

- No Município.

- Dêem-nos passagem, senhores, porque os meus homens e eu temos necessidade de nos apresentar ali.

Os habitantes consultaram-se um momento em voz baixa, em seguida deixaram-lhes o caminho livre, e Cleveland avançou, mantendo a sua gente formada em pelotão, não deixando aproximar ninguém dos flancos do seu pequeno destacamento e ordenando aos quatro homens que compunham a retaguarda que se voltassem, de quando em quando, para enfrentar os que os seguiam; com estas precauções, conseguiu tornar muito difícil a tarefa dos que pensassem em atacá-los.

Percorreram assim a estreita rua que conduzia à sede do município, onde os magistrados estavam reunidos como tinham informado Cleveland. Aí, os habitantes começaram a cercá-los mais estreitamente. Mas Cleveland, prevendo o perigo, antes de entrar no edifício, ordenou que desimpedissem a porta, mandou marchar quatro homens à frente para dispersar os que o tinham precedido, e ordenou a outros quatro que enfrentassem a multidão que os seguia; e os bons burgueses bateram em retirada ao ver o ar feroz e resoluto dos piratas, a sua tez crestada do sol, os seus braços nervosos e as suas armas temíveis. Cleveland entrou então no Município com a sua gente e atingiu uma sala onde os magistrados deliberavam sem terem junto deles qualquer força armada.

Os magistrados parece terem sentido o perigo, pois olharam uns para os outros num ar inquieto, enquanto Cleveland lhes dirigia a palavra nos termos seguintes:

- Bom dia, meus senhores. Espero que não exista qualquer desinteligência entre nós. Venho combinar com os senhores a maneira de obter provisões para o nosso barco que está fundeado no vosso porto. Sem isso não nos podemos fazer ao largo.

- O seu barco, senhor? - disse o preboste, a quem não faltava nem bom-senso nem coragem - Como podemos nós saber se o senhor é o capitão?

- Olhe para mim - respondeu Cleveland - e creio que não me fará essa pergunta segunda vez.

O magistrado fixou-o e, efectivamente, não julgou conveniente insistir no mesmo interrogatório, como se admitisse o facto.

- Visto ser o senhor o capitão - disse ele - diga-me de que porto veio e qual é o seu destino. O senhor parece mais o capitão de um vaso de guerra do que de um navio mercante, e nós sabemos que não pertence à marinha inglesa.

- O pavilhão da marinha inglesa não é o único que flutua por esses mares. Mas, admitindo que eu comando um navio contrabandista com carregamento de tabaco, aguardente, genebra e outras mercadorias dessa espécie, que estamos dispostos a trocar por abastecimentos de que precisamos, não vejo por que motivo os comerciantes de Kirkwall no-los recusam.

- Capitão, é preciso que saiba que nós não ligamos muita importância a essas coisas - disse o clérigo da cidade - Quando navios da espécie do seu nos visitam, vale mais, como lhe dizia o preboste, fazer o que fez o carvoeiro quando encontrou o diabo, isto é, proceder com eles como eles procedem connosco. E aqui está um - ajuntou, indicando Goffe - que era o capitão antes do senhor... e que talvez depois o volte a ser, que não ignora como o recebemos bem e aos seus homens, até que começaram a proceder como autênticos diabos. E ali está outro, aquele, que agarrou a minha criada, que seguia à frente com uma lanterna, e que a ofendeu na minha presença.

- Sem querer melindrar Vossa Senhoria - disse Derrick, a quem o clérigo apontava - não fui eu que bombardeei essa pequena barca de rapariga que levava uma lanterna à popa; foi um homem que não se parecia nada comigo.

- Quem foi então? - perguntou o preboste.

- Saiba Vossa Senhoria - respondeu Derrick, com uma reverência grotesca, e fazendo a descrição do próprio magistrado - que era um homem de certa idade, uma espécie de embarcação holandesa de popa redonda, com uma cabeleira empoada e um nariz vermelho, muito parecido com Vossa Majestade. Diz lá, Jack - perguntou ele, dirigindo-se a um dos seus camaradas - não achas que o pândego que o outro dia quis abraçar uma pequena que levava uma lanterna se parecia muito com Sua Senhoria?

- Por Deus, Derrick, iria jurar que é ele próprio!

- É uma insolência da qual os podemos fazer arrepender, senhores! - disse o magistrado, justamente irritado com aquele descaramento - Os senhores portaram-se nesta cidade como se estivessem numa povoação de selvagens, em Madagáscar. Mesmo o senhor capitão, se acaso o é realmente, provocou ontem à tarde uma desordem. Não forneceremos quaisquer provisões, sem sabermos melhor quem sois. Basta-me agitar um lenço a esta janela, para que o vosso navio seja metido no fundo. Lembrem-se de que ele está ao alcance de uma bateria de seis peças.

- E quantas dessas peças estão em estado de servir? - perguntou Cleveland.

Ele fizera esta pergunta ao acaso; mas viu perfeitamente, pela confusão que o preboste tentou em vão dissimular, que a artilharia de Kirkwall não estava na melhor ordem.

- Vamos, senhor preboste, não nos assustamos assim com tanta facilidade - ajuntou ele - Sabemos que os vossos canhões serão mais perigosos para quem se servir deles do que para o nosso navio. Mas se nós entrássemos no porto para atirar uma bordada contra a vossa cidade, a baixela das vossas esposas correria bastante risco... Censurar aos marinheiros alguns excessos de alegria quando estão em terra! Os pescadores da Groenlândia que por vezes vos visitam não são verdadeiros diabos? Asseguraram-me que o senhor era um homem de bom-senso, e tenho a certeza de que o senhor e eu arrumaremos o assunto em cinco minutos.

- Pois bem, senhor - disse o preboste - estou disposto a escutar o que me quer dizer, se quiser acompanhar-me.

Cleveland seguiu-o a um compartimento contíguo à sala.

- Senhor - disse ele ao entrar - vou deixar as minhas pistolas, por muito pouco que elas o assustem.

- Deixe-se ficar com as pistolas! - exclamou o preboste - Servi o rei, e tenho tanto medo do cheiro da pólvora como o senhor.

- Tanto melhor - disse Cleveland - assim escutar-me-á com mais sangue-frio. Agora, senhor, suponhamos que nós somos aquilo de que suspeita, se assim lhe apraz. Mas, em nome do Céu, que podem ganhar em reter-nos aqui? Luta e sangue derramado; e, creia-me, nós estamos melhor preparados do que os senhores o pretendem estar... A questão é bem simples; os senhores querem desembaraçar-se de nós, e nós desejamos ir-nos embora. Forneçam-nos pois os meios de partir e deixamo-los imediatanente.

- Escute, capitão - respondeu o preboste - eu não quero beber o sangue a ninguém. Você é um belo rapaz, como havia vários nos meus tempos entre os corsários, e creio não o ofender ao desejar-lhe melhor profissão. Dar-lhe-ia de bom grado pelo seu dinheiro as provisões de que precisa, para livrarmos os nossos mares da sua presença; mas eis a dificuldade: espera-se aqui de um momento para o outro a Alcyon; se ela ouvir falar de vocês, dar-vos-á caça, porque o navio corsário é por vezes uma boa presa, pois raramente deixa de trazer uma boa carga de dólares. Bem, a Alcyon chega e vocês põem-se ao largo...

- Faz-nos saltar nos ares com uma explosão do paiol da pólvora - emendou Cleveland.

- Não será assim - replicou o preboste - Mas depois que sucederá à boa cidade de Kirkwall, que favoreceu os inimigos do rei fornecendo-lhes provisões? Condenam-na a uma multa, e o proboste não se livrará facilmente de embaraços.

- Eu estou a ver onde o sapato lhe aperta - disse Cleveland - Suponhamos então que eu dou a volta à sua ilha e vou à baía de Stromness. Podem levar-nos lá tudo o que precisamos, sem que o preboste e a cidade de Kirkwall pareçam metidos nisso. Aliás, se houvesse alguma suspeita, a nossa força superior e a vossa falta de meios de resistência seriam a vossa justificação.

- Talvez - disse o preboste - Mas, deixando-os sair do nosso porto, preciso de uma garantia de que não devastam o país.

- E nós também precisamos de outra - disse Cleveland - para ficarmos seguros de que não procurarão demorar o abastecimento até que chegue a Alcyon. Consinto em ficar eu próprio como refém, se me der a palavra de honra em como não me atraiçoa e envia para bordo do meu navio alguém de importância cuja pessoa responda pela minha.

O preboste meneou a cabeça e deu-lhe a entender que seria difícil encontrar alguém que quisesse servir de refém com tanto risco; mas acabou por dizer-lhe que proporia um acordo com alguns membros do conselho a quem se pudesse confiar um assunto de tanta importância.

 

                     INICIATIVA QUE NÃO DÁ RESULTADO

Regressando com Cleveland à sala do conselho, o preboste reuniu alguns magistrados a quem julgava conveniente dar parte das propostas do pirata, e retirou-se de novo com eles para a sala contígua. Enquanto eles discutiam, ofereceu-se a Cleveland e aos seus homens aperitivos a mandado do preboste. Cleveland deu licença à sua gente para os aceitar, mas não sem tomar precauções contra qualquer surpresa; metade do destacamento ficava em armas enquanto a outra metade permanecia à mesa.

Entretanto, ele passeava ao longo da sala, conversando sobre diversos assuntos com várias pessoas presentes, como um homem que estivesse perfeitamente à vontade.

Ficou um pouco surpreendido de encontrar ali Triptolemus Yellowley, que, achando-se por acaso em Kirkwall, fora convidado pelos magistrados a tomar parte na assembleia, como representante, até certo ponto, do Lorde Chamberlain. Cleveland renovou imediatamente o conhecimento que travara com ele em Burgh-Westra e perguntou-lhe que negócios o traziam às Órcades.

- Vim para ver como vão os meus pequenos planos - respondeu o agricultor - Estou cansado de me bater com as feras do Éfeso. Combato-as inutilmente, e queria saber se o meu pomar, que plantei a quatro ou cinco milhas de Kirkwall, há cerca de um ano, prometia prosperar, e o que era feito das minhas abelhas, de que trouxe nove enxames para aclimar nesta região e para transformarem em mel e cera as flores do mato.

- Calculo que tenha obtido êxito - disse Cleveland, que, por muito pouco que lhe interessasse esta conversa, a queria manter para quebrar o silêncio sombrio e glacial que guardavam os circunstantes.

- Obtido êxito! - exclamou Triptolemus - Vão como vai tudo neste país, isto é, às arrecuas.

- Falta de cuidado, suponho - disse Cleveland.

- Foi o contrário, senhor, precisamente o contrário - respondeu o feitor - Os meus cortiços pereceram porque tomaram demasiado cuidado com eles. Pedi que me mostrassem os cortiços e o pândego que devia tomar conta neles pareceu radiante e muito contente da sua pessoa.

«O senhor havia de ver muitos cortiços, disse ele. Se não fosse eu estar alerta, o senhor não encontrava nem uma dessas moscas. Eu vigiava-as de perto, e uma bela manhã de sol notei que elas se escapavam todas pelos buraquinhos da base dos cortiços; tratei logo de tapá-los com greda. Se não fosse assim, diabos me levem se ficaria alguma mosca, ou abelha, ou como demónio lhe chamam». Numa palavra, senhor, emparedou os cortiços como se os pobres bichos tivessem peste, e as minhas abelhas estavam todas mortas. Assim acabaram as minhas esperanças generandi gloria mellis, como diz Virgílio.

- Adeus hidromel - disse Cleveland - Mas o senhor contava fazer cidra. Como vai o pomar?

- Ai, capitão, esse mesmo Salomão de Ofir das Órcades, porque não é aqui que se pode mandar buscar talentos de ouro nem talentos de espírito, esse homem prudente tinha tanta ternura pelas minhas macieiras que as regou com água quente, e tudo morreu, ramos e raízes. Mas para que me lamentar? Gostaria mais de saber, capitão, porque motivo oiço para aí falar tanto em piratas. Porque acabo de chegar do outro lado da ilha e não percebo nada disto. E agora, que estou vendo melhor, capitão, parece-me que o senhor traz consigo mais pistolas do que necessita um homem em tempo de paz e tranquilidade.

A chegada do preboste interrompeu a tempo esta conversa.

- Resolvemos - disse ele - que o seu navio se dirija ao porto de Stromness ou de Scalpa Flow para aí se abastecer, a fim de evitar que haja mais conflitos entre os homens da tripulação e os nossos habitantes. E, como o senhor deseja ficar em Kirkwall para ver a feira, tencionamos mandar para bordo do seu navio um homem respeitável que auxiliará os seus homens com os seus conselhos para dobrar o promontório e atingir a baía de Stromness, visto que a navegação nestas paragens não é isenta de perigos.

- Chama-se a isso falar com um magistrado pacífico e de bom-senso, senhor preboste - disse Cleveland - Não esperava menos de si. Mas, que homem respeitável deve honrar o meu navio com a sua presença enquanto eu estiver ausente?

- É o que nós decidimos também, capitão. O senhor deve calcular que nós desejamos todos, à compita, fazer uma viagem tão agradável e em tão boa companhia; mas. devido à feira, a maior parte tem os seus negócios que lho impede. Quanto a mim, o meu lugar retém-me necessariamente em Kirkwall; a esposa do mais antigo dos nossos magistrados acaba de dar à luz; o tesoureiro não pode aguentar o mar; dois outros magistrados sofrem de gota; os outros estão ausentes da cidade, e quinze membros do conselho estão retidos por negócios particulares.

- Tudo o que lhe posso dizer, senhor preboste - proferiu Cleveland, levantando a voz - é que espero...

- Um momento de paciência, por favor, capitão - interrompeu o preboste - O que nós resolvemos foi que, devido ao seu posto respeitável, o digno senhor Triptolemus Yellowley, que é feitor do Lorde Chamberlain destas ilhas, tenha a honra e o prazer de os acompanhar.

- Eu! - exclamou Triptolemus, muito admirado - E porque diabo hei-de ir eu? Os meus negócios são em terra firme.

- Estes senhores têm necessidade de um piloto - disse o preboste a meia voz - Não podemos deixar de lhe fornecer um.

- Terão eles necessidade de se despedaçar contra a costa? - perguntou Triptolemus - Como diabo poderei eu servir de piloto? Nunca em minha vida toquei num leme.

- Calma! Calma! Silêncio! - exclamou o preboste - Se os nossos habitantes o ouvissem, o senhor perderia logo toda a consideração que todos têm por si. Nós, os ilhéus, não ligamos importância a um homem senão quando ele sabe governar e manobrar perfeitamente um navio. Aliás, não se trata senão de um pró-forma; nós mandamos-lhe Pate Sinclair para o ajudar. O senhor nada mais terá que fazer senão beber, comer e divertir-se.

- Beber e comer! - disse o feitor, que não compreendia porque lhe distribuíam subitamente aquele papel - Beber e comer está muito bem; mas, para lhe dizer a verdade, o mar faz-me tanto mal como ao tesoureiro, e sempre tive melhor apetite em terra.

- Silêncio! Tome cuidado - disse-lhe o preboste em voz baixa, com o tom do mais vivo interesse - Quer o senhor perder a sua reputação? Um feitor do grande Lorde Chamberlain das Órcades e das ilhas Setland, a quem o mar fizesse mal! Equivaleria a dizer que o senhor era um montanhês da Escócia e que não gostava senão de whisky.

- isso tem que se resolver de qualquer maneira, meus senhores - disse Cleveland - Já devíamos ter levantado ferro. Consente o senhor Triptolemus Yellowley em honrar o meu navio com a sua presença?

- Bem, certamente, capitão Cleveland - tartamudeou o feitor - Não teria a menor repugnância em ir consigo para toda a parte; somente...

- Não faz nenhuma objecção - interrompeu o preboste, sem o deixar prosseguir.

- Não faz nenhuma objecção! - exclamou o tesoureiro.

- Não faz nenhuma objecção - repetiram em coro os quatro magistrados e os quinze conselheiros, variando cada um esta exclamação com o acréscimo de algumas palavras em honra de Triptolemus, como: Digno homem! Homem respeitável! Bravo patriota! A cidade ficar-lhe-á eternamente reconhecida! Onde encontrar um feitor igual?

Atordoado e confundido com os elogios que choviam de todos os lados, e não percebendo nada do assunto de que se tratava, o agricultor, interdito, sentiu-se impotente para fugir de representar o papel de Curtius de Kirkwall, de que maliciosamente o incumbiam. O capitão Cleveland entregou-o então às mãos dos piratas que lhe tinham servido de escolta, recomendando-lhes que o tratassem com o maior respeito. Goffe e os seus companheiros dispunham-se a meter-se a caminho e a levá-lo com eles, no meio dos aplausos de toda a assembleia, tal como outrora se ornava de grinaldas, soltando gritos de alegria, a vítima sacrificada pelos sacerdotes para salvação do Estado. Foi quando o conduziam assim, meio de vontade, meio à força, para fora da sala, que o pobre Triptolemus, muito alarmado e vendo que Cleveland, em quem depositava uma certa confiança, não o acompanhava, tentou, no instante em que ia cruzar a porta, apresentar algumas objecções.

- Mas, preboste, capitão, magistrados, tesoureiros, conselheiros, escutem-me! Se o capitão Cleveland não for para bordo para me proteger, não temos nada feito. Não vou, a não ser que me arrastem como uma charrua.

O protesto não foi ouvido. Afogou-se numa torrente de elogios com que os magistrados e os conselheiros continuaram a cumulá-lo, gabando o seu espírito público, agradecendo-lhe a dedicação, desejando-lhe boa viagem, fazendo promessas ao céu pelo seu pronto e feliz regresso. Aturdido, desconcertado, e pensando, se acaso ainda podia pensar nesse momento, que todas as objecções seriam vãs, visto que, amigos e estranhos, pareciam estar todos de acordo naquela resolução, deixou-se conduzir para a rua, sem opor resistência. Então, o destacamento dos piratas colocou-o ao centro e iniciou a marcha para o cais. Grande número de habitantes seguia-os por curiosidade.

Enquanto avançava para o cais, Triptolemus, que teve tempo de examinar a fisionomia, o aspecto e o vestuário dos homens a cujas mãos acabavam de o entregar, começou a julgar ler nos seus olhos não apenas uma expressão vulgar de banditismo, mas também intenções sinistras contra a sua pessoa. Estava particularmente sobressaltado com os olhares ferozes de Goffe: este segurava-lhe o braço com uma mão que, pela delicadeza, se podia comparar à turquês de um ferreiro, e lançava-lhe olhares de viés, semelhantes aos que a águia lança à presa que tem entre as garras antes de a despedaçar. Por fim, o medo de Yellowley venceu a sua prudência, e, numa voz lamentosa e sufocada de lágrimas, perguntou ao seu terrível companheiro:

- Acaso me levam para me matar, capitão, contra todas as leis de Deus e dos homens?

- Se tem juízo, cale-se - respondeu Goffe, que tinha as suas razões para aumentar o terror pânico do seu prisioneiro - Há três meses que não matamos ninguém. Para que é que nos faz pensar nisso?

- Suponho, bom e digno capitão, que está brincando - replicou Triptolemus - Por Deus! Que benefício lhe podia vir da minha morte?

- Sempre é um passatempo - respondeu Goffe - Olhe bem para esses tipos - e procure entre eles um que não goste mais de matar um homem do que estar sem fazer nada. Mas, falaremos nisso mais de espaço quando você estiver a ferros, a não ser que nos apresente um bom punhado de dólares do Chile pelo seu resgate.

- Capitão - disse o feitor - tão verdade como eu viver de pão, aquele bandido do anão levou todo o ouro e prata que eu tinha num chifre.

- Nove correias de bom couro amarradas a um cabo de madeira fá-lo-ão encontrá-lo - replicou Goffe com um sorriso feroz - É infalível. Uma boa corda, atada em volta do crânio até os olhos quase lhe saírem da cabeça é também um bom meio.

- Capitão! - exclamou Yellowlley com energia - Eu não tenho dinheiro. É raro que aqueles que se ocupam de melhoramentos o tenham. Transformamos os prados em terras de lavoura, a cevada em aveia, as charnecas em pastagens; transformamos em campos produtivos os míseros yarphas, como se chama nesta terra de cegos às turfeiras e aos pântanos, mas raras vezes todas estas transformações fazem entrar alguma coisa no nosso bolso. As alfaias e os trabalhadores levam tudo, comem tudo e o diabo não esquece a sua parte.

- Pois bem - disse Goffe - se você realmente é um pobre diabo como diz... serei seu amigo - E levantando a cabeça para aproximar os lábios do ouvido do feitor que o escutava meio morto de inquietação, ajuntou - Se tem amor à vida, não ponha os pés no nosso navio.

- Mas, como posso eu escapar-me? - perguntou Triptolemus - O senhor tem o meu braço tão agarrado que não me poderia desembaraçar, nem que se tratasse da colheita de um ano de toda a Escócia.

- Escute, seu parvo - respondeu Goffe - Quando chegarmos à beira-mar e vir os meus camaradas saltar para o barco e pegar nos remos, eu largo-lhe o braço; você, então, vire de bordo e ponha a sua salvação nas pernas.

Triptolemus não deixou de seguir o conselho. Goffe manteve a sua promessa, e o feitor, tão depressa se viu livre da mão formidável que o segurava, partiu como uma bala. Atravessou toda a cidade de Kirkwall com uma rapidez que assombrou todos os que o viram e da qual ele próprio se surpreendeu. Bateu em retirada com uma tal impetuosidade que, como se visse as tenazes do pirata prestes a agarrá-lo de novo, não se deteve senão depois de sair da cidade, ao encontrar-se em pleno campo.

Ninguém perseguiu o fugitivo; um ou dois mosquetes ainda se prepararam para lhe despachar uma mensagem que, embora de um metal pesado, tê-lo-ia ganho em velocidade; mas Goffe, desempenhando pela primeira vez na sua vida o papel de pacificador, exagerou de tal maneira os perigos que resultariam de uma infracção à trégua feita com os habitantes de Kirkwall, que convenceu os seus camaradas a absterem-se de qualquer hostilidade. Não pensaram senão em regressar ao navio a toda a pressa.

Os burgueses, que encararam a fugida de Triptolwnus como um triunfo sobre os piratas, disseram-lhes adeuses insultuosos e soltaram aclamações de alegria quando os viram afastar-se da margem. Entretanto, os magistrados não deixavam de sentir-se inquietos com esta espécie de violação de um dos artigos do tratado celebrado; e é provável que, se pudessem detê-lo sem dar nas vistas, em vez de festejar com um banquete cívico a agilidade que ele desenvolveu, teriam reposto o refém nas mãos dos seus inimigos. Mas era-lhes impossível sancionar publicamente um tal acto de violência, e contentaram-se em vigiar de perto Cleveland, a quem resolveram tornar responsável de qualquer acto de agressão que os piratas pudessem cometer. Cleveland, por seu turno, conjecturou facilmente que fora para o deixar exposto a todas as consequências que Goffe facilitara a fuga do refém à sua guarda. Apesar de ter confiança na inteligência e na dedicação do seu amigo e partidário Jack Bunce, ou Frederick Altamont, ele aguardava no entanto os acontecimentos com muita apreensão, visto que os magistrados, continuando a tratá-lo com urbanidade, lhe declararam muito claramente que a sua sorte dependia da maneira como a sua tripulação se conduzisse, embora não a comandasse agora.

Ele não se enganava ao contar com a dedicação e fidelidade de Bunce, porque este, mal soube, pela tripulação da chalupa, da fuga de Triptolemus, logo concluiu que Goffe a favorecera na esperança de que, sendo Cleveland morto ou metido na prisão, poderia retomar o comando do navio.

Bunce pôs então em jogo todos os recursos de uma eloquência naval perfeitamente adaptada às faculdades dos seus ouvintes. Fez ver aos seus camaradas, da maneira mais enérgica, a vergonha que seria para eles admitir que o capitão ficasse detido em terra sem que tivessem um refém para responder pela sua segurança, e conseguiu, além do descontentamento que excitou contra Goffe, que a tripulação resolvesse apoderar-se da primeira embarcação de certa importância que encontrassem, para que navio, carga, tripulantes e passageiros respondessem pelo tratamento que dessem a Cleveland. Resolveram também pôr à prova a boa-fé dos habitantes de Kirkwall, deixando aquele porto para se dirigirem ao de Stromness, onde, segundo o acordo firmado entre o preboste Torf e o capitão Cleveland, a sua corveta devia ser abastecida. Foi decidido também que, durante o interregno e até que Cleveland reassumisse as suas funções de capitão, o comando do navio seria confiado a uma comissão composta por Goffe, Hawkins e Bunce.

Propostas e aprovadas todas estas resoluções, levantaram ferro e desfraldaram as velas sem que a bateria de seis peças tentasse opor-lhes qualquer obstáculo, o que os aliviou de mais este receio, resultante do perigo da sua situação.

 

                 QUANDO OS PIRATAS TÊM CORAÇÃO..

Um lindo brigue que pertencia, assim como muitas outras embarcações, a Magnus Troil, o principal udaller das ilhas de Setland, recebera a bordo este magnate e as suas filhas. O espirituoso Claud Halcro, por amizade pelo velho chefe e pelo amor que à profissão de poeta sempre inspira a beleza, acompanhou-os na sua viagem à capital das Órcades, local onde Norna lhes anunciara que seus oráculos misteriosos teriam, enfim, uma explicação satisfatória. Passaram a certa distância dos rochedos enormes dessa ilha solitária chamada Fair Isle, situada a igual distância dos dois arquipélagos, no meio do mar que separa as ilhas Setland das Órcades. Depois de terem sofrido alguns ventos contrários, enxergaram o Star de Sanda. Perto do promontório deste nome encontraram uma fortíssima corrente que os afastou consideràvelmente do seu rumo e, juntando-se-lhe um vento contrário, foram obrigados a dirigir-se à ilha de Stronsa e a passar a noite ancorados na baía de Papa.

No dia seguinte, de manhã, retomaram o rumo sob auspícios mais favoráveis; e tendo costeado a ilha de Stronsa, cujas costas são verdejantes e férteis, comparadas com as ilhas das mesmas paragens, dobraram o cabo de Lamb Head e singraram para Kirkwall.

Mal chegaram à vista da baía que fica entre Pomona e Shapinsha, e já as duas irmãs admiravam a igreja maciça de São Magnus, que se via erguer-se acima das outras construções de Kirkwall, quando os olhos de Magnus e de Claud Halcro foram atraídos por um objecto que lhes pareceu muito interessante. Era uma corveta armada, com todas as velas enfunadas, que acabava de levantar ferro da baía e para a qual o vento soprava de feição, ao passo que era contrário ao udaller.

- Pelas relíquias do meu santo patrono! - exclamou Magnus - Eis um bonito navio, mas não sei de que país, porque não tem pavilhão. Dir-se-ia de construção espanhola.

- Sim, sim, tem todo o ar disso - concordou Claud Halcro - Não precisa senão de seguir o curso do vento contra o qual nós lutamos. Mas é assim o mundo. Como diz o glorioso John:

Com ampla ponte e canhões terríveis,

Cidadela flutuante, parece a meus olhos

Uma vespa do mar sobre as ondas escumosas.

Brenda não pôde deixar de comentar:

- Embora a descrição de Dryden se referisse mais a um navio de linha do que a uma corveta semelhante a esta que estamos vendo, a comparação com uma vespa não me parece adequada nem a um nem a outra.

- Uma vespa! - disse Magnus, vendo com surpresa a corveta mudar de direcção e dirigir-se para o brigue - Santo Deus, faço votos por que não lhe experimentemos o aguilhão.

O udaller apenas queria fazer um gracejo, mas adivinhara, pois quase no mesmo instante a corveta, sem arvorar o pavilhão e sem sinal para o brigue, disparou contra ele dois tiros de canhão e uma das balas, roçando a superfície do mar, passou a uma toesa à proa da embarcação e a outra atravessou a vela grande. Magnus agarrou um porta-voz, e perguntou quem era e qual o motivo daquele acto de hostilidade que ninguém provocara.

- Baixe bandeira! - responderam-lhe - Colha a vela grande e já vai saber quem somos.

Não havia nenhum meio de desobedecer a esta ordem. O brigue foi obrigado a cumpri-la. A corveta desceu ao mar a sua chalupa; e seis homens armados, comandados por Jack Bunce, ocupando-a, avançaram para a sua presa. Quando eles se aproximavam, Claud Halcro disse ao ouvido do udaller:

- Se o que se conta dos piratas é verdade, estes homens, com as suas faixas e as suas vestes de seda, têm bem o seu aspecto.

- E minhas filhas! Minhas filhas! - exclamou Magnus com uma angústia que só um pai podia experimentar - Desçam para debaixo da ponte, minhas queridas filhas, e escondam-se enquanto eu...

Deitou fora o porta-voz e agarrou um pico, enquanto as filhas, mais atemorizadas das consequências que poderia provocar o seu génio irascível do que qualquer outra coisa, o apertavam nos seus braços e lhe suplicavam que não opusesse resistência. Claud Halcro juntou as suas súplicaN às delas e acrescentou:

- O melhor é tentar levá-los pela doçura. Talvez seja algum corsário de Dunquerque; ou talvez também algum vaso de guerra cuja tripulação insolente queira divertir-se.

- Não, não! - respondeu Magnus - É o navio de que Bryce Snailsfoot nos falou. Mas sigo o vosso conselho; armo-me de paciência por causa das minhas duas filhas; e entretanto...

Não teve tempo de prosseguir, porque nesse momento Bunce saltara para bordo com os seus homens, puxou do sabre, bateu no mastro grande e declarou que tomava posse da embarcação.

- Com que direito e em virtude de que ordens nos detém em pleno mar? - perguntou-lhe Magnus.

- Que ordens? - replicou Bunce, mostrando-lhe as pistolas à sua cinta e suspensas da sua faixa, segundo o hábito dos piratas - Eis uma meia dúzia, meu velhote; escolha a que lhe apraz e eu lha darei a ler.

- Isso quer dizer que tem a intenção de nos saquear - disse Magnus - Seja. Não temos qualquer meio de resistência. Respeitem as senhoras e levem o que lhes convenha; mas se nos tratarem convenientemente, prometo que nada perderão com isso.

- Respeitem as senhoras! - exclamou Fletcher - Mas quando é que lhes faltamos ao respeito? Sim, sim, seremos respeitosos e mesmo cheios de galantaria, e mais alguma coisa... Olha, Jack, que bonita carinha! Com mil trovões, ela vai fazer um cruzeiro connosco...

Dizendo isto, lançou uma mão a Brenda, que estava no auge do terror, e com a outra puxou-lhe para trás o capuz da capa com que ela ocultara o rosto.

- Socorro, meu pai!... Socorro, Minna! - bradou a pobre rapariga, apavorada.

Magnus levantou o pico contra Fletcher, mas Bunce segurou-lhe o braço.

- Cuidado, papá! - disse-lhe ele - De contrário, mete-se em maus lençóis. E tu, Fletcher, deixa a pequena.

- E por que diabo hei-de deixá-la?

- Porque eu to ordeno, Fletcher, e, se não me obedeceres, temo-las boas... E agora, meus encantos, digam-me qual das duas usa o nome de Minna, pelo qual tenho uma espécie de veneração.

- É uma prova incontestável, senhor, de que há poesia no seu coração - disse Claud Halcro.

- Pelo menos, houve muita na minha boca; mas esses tempos já lá vão, meu velho... No entanto, preciso de saber qual das duas se chama Minna. Mostrem-me o rosto, meninas. Pela minha alma, eis duas lindas criaturas! Palavra que me contentava com a menos gentil; se minto, não me importo que me exponham a uma tempestade numa casca de ovo!... Bem, meus anjos, qual das duas acharia agradável embalar-me no hammock de um pirata? Pela minha honra em como recolhiam ovos de ouro.

As duas irmãs apertavam-se uma contra a outra e empalideceram ao ouvir o arrazoado familiar e licencioso do jovem libertino.

- Nada receiem - prosseguiu ele - Ninguém serve o nobre Altamont senão de livre vontade. Não usamos de violência. Uma de vós, pelo menos, não conhece o capitão Cleveland, o pirata?

Brenda empalideceu ainda mais; mas o sangue subiu ao rosto de Minna ao ouvir pronunciar inopinadamente o nome do seu amado; pois, na confusão daquela cena, o udaller foi o único espírito a quem se apresentou a ideia de que a corveta poderia ser aquela a que Cleveland se referira em Burgh-Westra.

- Nada receie, papá - disse Bunce, dirigindo-se a Magnus - Tenho feito pagar o tributo a mais de uma bonita rapariga; mas as suas voltarão para terra sem pagar imposto de nenhuma espécie.

- Se me garante isso - exclamou o udaller - ofereço-lhe este barco e a sua carga com tanto prazer como nunc ofereci a ninguém um bowl de punch.

- Com mil diabos, não seria má ideia um copo de punch - disse Bunce - se tivéssemos aqui alguém que o soubesse preparar.

- Disso me encarrego eu - disse Halcro - e não temo a rivalidade de ninguém, com excepção de Erick Scambester, o especialista de punch de Burgh-Westra.

- Não está mais longe que dois passos - ajuntou Magnus - Minhas filhas, desçam debaixo da ponte e mandem o bowl e os apetrechos.

- Espero que estas gentis meninas voltarão cá acima para me encher o copo - disse Jack Bunce - Parece-me que sou suficientemente generoso para que elas façam alguma coisa por mim.

- E enchem o meu também - ajuntou Fletcher - Hão-de enchê-lo até acima e terão um beijo por cada gota que deitarem.

- Isso não pode ser! - exclamou Bunce - Raios me comam se te deixo fazer isso. Há só um homem que dará um beijo a Minna, e não serei eu, nem tu. E agora, que pensei melhor, o que elas devem é ficar lá em baixo, enquanto nós tomamos o punch no convés, ao fresco, como o papá propõe.

- Na verdade, Jack - disse Fletcher - tu não sabes o que queres, e isso entristece-me. Há dois anos que sou teu camarada e que te sou dedicado, mas eu seja esfolado como um boi selvagem se tu não és extravagante como um macaco. Quem fica para nos divertir, agora, que mandas embora as duas raparigas?

- Quê! - respondeu Bunce - Teremos o senhor especialista de punch que aqui está. Far-nos-á brindes e cantar-nos-á canções. E enquanto se espera, vais comandar a manobra para fazer andar o navio... E quanto a ti, piloto, se queres conservar os miolos no crânio, tem o cuidado de manter o brigue à popa da corveta, pois se tentares fazer-nos partida, meto-te no fundo como uma velha carcaça.

O brigue, largada a vela, avançou lentamente nas águas da corveta. Os piratas dirigiam-se, não para a baía de kirkwall, mas para um excelente ancoradoiro chamado baía de Inganess, formada por um promontório que se estendia a leste, a duas ou três milhas da metrópole das Órcades.

Entretanto, Claud Halcro empregara todo o seu talento para preparar aos piratas um enorme balde de punch. Bebiam por grandes copos, que nele mergulhavam sem cerimónia. Magnus ficou admirado da quantidade que eles absorveram sem que o seu juízo parecesse ficar alterado, e não pôde deixar de testemunhar a sua surpresa a Bunce. Talvez Magnus pensasse em captá-lo por meio de um cumprimento grato a todos os bebedores.

- Pelas relíquias de São Magnus! - exclamou ele - Eu julgava-me capaz de me aguentar com quem quer que fosse, mas ao ver os seus homens tragar copo sobre copo, capitão, é-se tentado a supor que o seu estômago não tem mais fundo do que a caverna de Laifell em Foulah, que eu próprio já sondei inutilmente a mais de cem braças de profundidade.

- No nosso género de vida, senhor, não há senão a voz do dever ou o fim da bebida que possa pôr limites à nossa sede - respondeu Bunce.

- Na verdade - disse Claud Halcro - creio que não há nenhum dos seus homens que não seja capaz de despejar o grande jarro de Scarpa que era de uso apresentar ao bispo das órcades, cheio até acima, da melhor cerveja que se podia encontrar.

- Se para ser bispo não é preciso senão beber bem - replicou Bunce - tenho uma tripulação de prelados; mas como eles não têm outras qualidades clericais, não quero que hoje se embebedem, e é por isso que vamos fazer suceder ao copo uma canção.

- E, com mil diabos, eu é que vou cantar! - exclamou Dick Fletcher.

- Preferia que me pusessem a ferros do que ouvir-te uma canção! - protestou Bunce.

- Hei-de cantar a minha canção, quer ela te agrade quer não - insistiu Fletcher.

- Repito que não quero ouvir a tua música de mocho! - exclamou Bunce - Diabos me levem se consentir que fiques aqui sentado ao pé de nós a fazer um barulho infernal.

- Está bem - disse Fletcher - Cantarei passeando e espero que não me poderás censurar, Jack Bunce.

E levantando-se, realmente, começou a passear ao longo do convés, berrando uma longa e lamentosa balada.

- E agora, cavalheiro - disse Jack, volvendo-se para Halcro - vamos ao seu brinde e à sua canção. Ah, não, não!... Somente uma canção; o brinde faço eu, e ei-lo: Vitória para as armas dos piratas, e desaires para a gente honesta!

- Eis um brinde que eu não acompanho; abstenho-me - disse Magnus Troil.

- Decerto, porque o senhor se conta no número das pessoas honestas. Mas vejamos qual é a sua profissão, e eu lhe digo o que penso a esse respeito. Quanto ao nosso especialista do punch que está aqui, bastou um relance para descobrir que ele é alfaiate, e por conseguinte não deve ter mais pretensões a ser honesto do que a não ter comichão nos dedos; e o senhor, garanto que é um armador holandês, que espezinha a Cruz quando negoceia com o Japão e que, por cupidez, renega a sua religião.

- O senhor engana-se; sou um habitante das ilhas Setland.

- Oh! O senhor é deste venturoso país onde a genebra se vende a tostão a garrafa e onde é sempre dia?... Bem, senhor mestre das modas, cante-me uma canção, e veja se é tão boa como o seu punch.

Halcro começou uma canção cujo efeito supôs que seria capaz de enternecer o coração do pirata.

 

Jovens, cuja frescura

Iguala a da mais fresca rosa

Escutai...

 

- E eu não escuto nada! - exclamou Bunce - Não quero nem meninas, nem rosas, que me fazem lembrar o género de carga que temos neste barco; e, por Deus, quero permanecer fiel camarada do meu capitão, tanto tempo quanto puder... E agora, pensando melhor, não bebo mais punch. E não bebendo eu mais, ninguém mais o beberá.

Dizendo isto, derrubou com um pontapé o balde do punch, ainda cheio até metade, sacudiu as pernas, para retomar o aprumo, dizia ele, puxou o chapéu para a orelha, marchou no convés com um ar digno, e deu, de viva voz e por gestos, ordem de lançar ferro, ordem que foi executada pelos dois barcos, pois Goffe, segundo todas as probabilidades, já não devia estar em estado de as dar.

Entretanto, o udaller lamentava-se a Halcro da situação.

- É bastante aborrecida - dizia ele - Estes tipos são uns verdadeiros tratantes; e, no entanto, se não fossem as minhas filhas, não me metiam medo. Este rapaz que se dá ares e que parece comandá-los, não é decerto tão ferrabraz como parece.

Logo que os dois barcos ficaram bem seguros às suas âncoras, o decidido lugar-tenente Bunce chamou Fletcher e veio sentar-se de novo junto daqueles a quem podemos chamar seus cativos.

- Já lhes mostro - disse ele - a mensagem que vou mandar a esses idiotas de Kirkwall, visto que isto lhes diz respeito. Redijo-a tanto em nome de Dick Fletcher como no meu, porque gosto de dar de vez em quando alguma importância ao pobre rapaz. Não é verdade, Dick?... Então, não respondes, asno sovado?

- Sim. Jack Bunce, sim - replicou Dick - Não posso discordar. Tratas-me sempre com aspereza, ou por isto ou por aquilo. No entanto, vê...

- Basta! Basta, Dick.

Começou a escrever, o que leu em seguida:

Para o Preboste e Vereadores de Kirkwall

Senhores,

Considerando que, desprezando a palavra dada, não nos enviaram a bordo um refém para garantia do nosso capitão, que ficou em terra a vosso pedido, tem esta carta por fim informá-los de que não somos pessoas com quem se possa brincar. Apoderámo-nos de um brigue a bordo do qual se encontra uma família distinta, que será tratada como tratarem o nosso capitão. É o nosso primeiro acto de hostilidade, e fiquem bem certos de que não será o último dano que faremos suportar à vossa cidade e ao vosso comércio, se não nos restituírem o nosso capitão e se não mandarem abastecer o nosso navio, conforme o combinado.

Feito a bordo do brigue Mergoose de Burgh-Westra, ancorado na baía de Inganess.

Assinado, o comandante da Favorita da Fortuna.

 

Depois de feita a leitura, ele assinou Frederick Altamont e passou a carta a Fletcher para que assinasse por seu turno. Fletcher leu esta assinatura com bastante dificuldade; mas o nome pareceu-lhe vistoso, admirou-o muito e jurou que também queria adoptar um novo, porque o de Fletcher era mais difícil de escrever. Por isso assinou: Timóteo Tugmutton.

- Não quer ajuntar algumas linhas para aqueles idiotas de Kirkwall? - perguntou Bunce a Magnus.

- Nem uma palavra - respondeu o udaller, inabalável nas suas ideias do justo e do injusto, apesar do perigo - Os magistrados de Kirkwall sabem qual é o seu dever, eu no seu lugar...

Deteve-se e empalideceu, ao pensar nas filhas.

- Diabos me levem! - exclamou Bunce, que calculou facilmente o que se passava no espírito do prisioneiro - Essas reticências produziam um efeito admirável no teatro. Com os demónio!í Vinham abaixo a plateia, as galerias e os camarotes, como diria Bayes (1).

 

Nota 1: Poeta e dramaturgo satírico, autor da peça Ensaio.

 

- Não me fale em Bayes! - exclamou Claud Halcro, a quem o punch aquecera um pouco a cabeça - Fez uma sátira vergonhosa contra o glorioso John!

- Silêncio! - gritou Bunce, abafando a voz do admirador de Dryden com a sua, vibrada num tom muito mais alto - Silêncio! O Ensaio é a melhor farsa que existe no teatro; e se alguém ousa negá-lo, obrigo-o a beijar a filha do nosso artilheiro. Com a breca! Eu era o melhor príncipe Prettyman que se viu no tablado.

Umas vezes filho de pescador, outras vezes príncipe.

Mas - continuou Bunce, dirigindo-se a Magnus - falemos de coisas sérias. Escute, velho papá: há em si uma espécie de humor sombrio e rabujento, devido ao qual muita gente da minha profissão lhe cortaria as orelhas e as mandaria grelhar para lhas dar ao jantar com pimenta vermelha. Foi o que eu vi Goffe fazer a um pobre diabo que mostrava mau-humor ao ver meter no fundo o seu barco, a bordo do qual estava o seu filho único. Mas o meu espírito não é da mesma têmpera. Se as suas filhas e o senhor não forem bem tratados, a culpa será dos tipos de Kirkwall e não minha... Por isso, o senhor faria bem em dar a conhecer a situação e as circunstâncias em que se encontra.

Após esta exortação, Magnus pegou na pena e tentou escrever; mas o seu orgulho lutava de tal modo com as inquietações de pai que a mão recusou-se a obedecer.

- Não o consigo - disse ele, depois de tentar por duas ou três vezes traçar algumas letras, que ficavam sempre ilegíveis - Mesmo que as nossas vidas dependessem disto, não poderia escrever nem uma letra.

Felizmente, Claud Halcro achava-se nessa ocasião em estado de executar a tarefa que as sensações mais vivas do seu amigo impediam de realizar. Tomou a pena e explicou, o mais resumidamente possível, a situação em que se encontravam e os riscos a que estavam expostos, dando ao mesmo tempo a entender, com muita delicadeza, que os magistrados deviam ligar mais importância à vida e à honra dos seus conterrâneos do que à prisão e punição dos culpados. Teve no entanto o cuidado de revestir esta última ideia de um circunlóquio, com receio de servir de capa aos piratas. Bunce leu a carta, e o poeta teve a felicidade de obter a sua aprovação. Mas quando o pirata viu em baixo o nome de Claud Halcro, soltou uma exclamação de surpresa, acompanhada de algumas interjeições cuja energia nos impede de as reproduzir aqui.

- Quê! - disse ele - Seria você o homenzinho que tocava violino na «troupe» do velho director Gadabout em Hogs Norton, quando eu me estreei? Eu já devia tê-lo reconhecido pelo seu estribilho do glorioso John.

Em outras circunstâncias, este reconhecimento seria pouco agradável para o orgulho do poeta; mas, nas circunstâncias em que se encontrava, a descoberta de uma mina de ouro não o faria mais feliz. Lembrou-se logo do jovem actor que, estreando-se no Dom Sebastião (1), dera tão grandes esperanças, e ajuntou muito conscienciosamente que a musa do glorioso John nunca tivera tão bom intérprete durante todo o tempo que ele fora primeiro violino - ele podia ter dito único violino - na companhia do senhor Gadabout.

 

Nota 1: Tragédia de John Dryden.

 

- O senhor tem razão - disse Bunce - Creio que poderia fazer tão boa figura em cena como Booth e Betterton (2); mas o meu destino era mostrar-me em outros tablados - ajuntou ele, batendo o pé no convés - e creio que terei que ficar neste tablado até não ter onde me apoiar (3); mas agora, meu velho conhecido, quero fazer alguma coisa por si. Venha aqui para este lado, tenho que lhe dizer um à parte - Encostaram-se ambos ao castelo da popa, e Bunce começou a falar a meia voz, num tom grave, que não lhe era peculiar - Estou desgostoso por causa desse velho e honesto pinheiro da Noruega - disse ele - Eu seja cego se não digo a verdade... E por causa das filhas também, tanto mais que há uma que eu tenho razões particulares para proteger. Eu posso arrastar a asa a uma beleza, condescendente; mas, com criaturas tão honestas, tão inocentes, eu sou Cipião em Numância, Alexandre na tenda de Dario. Você lembra-se de como eu declamava aqueles versos em Alexandre (4):

 

Da noite do sepulcro o mais fiel amante

Sai para salvar o objecto de um eterno amor...

 

Nota 2: Dois actores famosos da época.

Nota 3: Alusão à maneira de enforcar em Inglaterra. Retira-se um taboado de sob os pés do condenado, que, por falta de apoio fica suspenso.

Nota 4: Tragédia de John Dryden.

 

Claud Halcro não faltou com os elogios da praxe à sua declamação e afiançou, sob a sua palavra de homem honesto, que o senhor Altamont emprestara àquela tirada muito maior calor e energia do que Betterton. Bunce ou Altamont apertou-lhe ternamente a mão.

- Ah, meu caro amigo! - exclamou ele - Você desvanece-me. Mas porque não foi o público da sua opinião? Eu não seria o que está vendo. Deus sabe, meu caro Halcro, ai, Deus sabe com que prazer eu o conservaria a bordo comigo, para ter um amigo que gostasse de ouvir os mais belos passos dos nossos melhores autores dramáticos, que eu adoro declamar. A maioria dos nossos companheiros são uns brutos... E quanto ao refém da cidade de Kirkwall, trata-me, com a breca!, como eu trato Fletcher; quanto mais faço por ele, mais arisco se torna. Como seria delicioso para mim, por uma bela noite dos trópicos, com uma brisa propícia a enfunar as velas, declamar o papel de Alexandre a um amigo, que seria para mim galerias, plateia e camarotes ao mesmo tempo!... Recordo-me de que você era um amante das musas; quem sabe se nós ambos não nos reuniríamos para inspirar aos nossos companheiros, como Orfeu e Eurídice, um gosto mais puro, uns costumes mais doces, uns sentimentos mais elevados?

Falava com tanta unção que Halcro começou a lamentar ter feito o seu punch tão forte e de ter misturado ingredientes demasiado excitantes na dose de elogios que acabava de ministrar-lhe, temendo que o pirata sentimental, excitado pela influência conjunta desta ração dupla, planeasse realizar as cenas que a sua imaginação lhe oferecia, retendo o seu admirador junto dele. A conjuntura era, no entanto, muito delicada. Limitou-se, pois, a apertar por sua vez a mão daquele amigo e a exclamar no tom mais patético que pôde:

- Ai!...

Bunce retomou logo a palavra.

- Tem razão, meu amigo, isto não passa de um sonho vão de felicidade, e não resta ao desgraçado Altamont senão servir o amigo a quem tem que fazer as suas despedidas. Resolvi mandá-lo conduzir a terra com as duas pequenas. Fletcher servir-vos-á de escolta. Chame-as, portanto, e que partam antes de o diabo tomar posse de mim ou de outro qualquer. Você leva a minha carta aos magistrados; secunde-a com a sua eloquência, e garanta-lhes que, se arrancarem nem que seja um cabelo da cabeça de Cleveland, têm que dar contas ao diabo.

Muito consternado pela conclusão imprevista da arenga de Bunce, Halcro desceu pela escotilha dois degraus de uma vez, bateu à porta da câmara, e, na comoção que o tomava, mal pôde explicar às duas irmãs o que se tratava. A alegria delas, ao saberem que iam ser conduzidas a terra, foi tão grande como inesperada. Apressaram-se a subir ao convés, onde souberam, com grande consternação, que seu pai devia ficar a bordo do navio pirata.

- Por maior que seja o risco que possamos correr, ficamos com ele! - exclamou Minna - Podemos prestar-lhe algum auxílio, nem que seja por um só instante. Queremos viver e morrer com ele.

- Ser-lhe-emos mais úteis - disse Brenda, que compreendia melhor que a irmã a verdadeira situação - trabalhando por levar os magistrados de Kirkwall a fazer o que estes senhores lhes pedem.

- Isso é falar como um anjo de espírito e de bondade! - exclamou Bunce - E agora apressem-se a partir.

- Partam, em nome do Céu, minhas queridas filhas! - disse Magnus - Eu estou nas mãos de Deus. Depois de partirem, não terei mais inquietações por minha causa, e toda a minha vida pensarei e direi que este bom mancebo merecia ter outra profissão. Partam - repetiu ele - Partam imediatamente!

- Nada de beijos de despedida! - exclamou Bunce - Com a breca, isso tenta-me a pedir a minha parte! Depressa, depressa, para o barco. Um momento ainda - Ele chamou de parte os três cativos que ia pôr em liberdade - Fletcher - disse ele - responde-me pelos homens da tripulação e levá-los-á em segurança à costa; mas, quem me responderá por Fletcher? Só vejo um meio: oferecer ao senhor Halcro esta pequena garantia.

Apresentou-lhe uma pequena pistola, assegurando-lhe que estava carregada com duas balas. Minna viu a mão do poeta tremer quando a estendeu para aceitar o presente.

- Dê-me essa arma, senhor - disse ela a Bunce, agarrando a pistola - Confie em mim para me defender, bem como a minha irmã.

- Bravo! Bravo! - exclamou Bunce - Isso é falar como mulher digna de Cleveland, o rei dos piratas!

- Cleveland? - repetiu Minna - É a segunda vez que o oiço falar nele. Conhece-o?

- Se o conheço! - exclamou Bunce - Haverá alguém que conheça melhor o homem mais valente e mais decidido que até hoje se encontrou entre uma proa e uma popa? Quando ele se tiver tirado de apuros, e espero que não os tenha por muito tempo, conto vê-la no nosso navio e reinar como soberana em todos os mares que navegarmos. Aí tem a sua pequena protectora, e suponho que sabe manejá-la. Se Fletcher se portar mal convosco, não tem mais que puxar com o polegar este bocado de ferro, assim, e se ele insistir, basta colocar assim o indicador da sua linda mãozinha, imprimir-lhe este movimento, e eu perderei o melhor camarada que tenho tido. Contudo, se o patife desobedecer às minhas ordens, merece a morte... Agora, para a chalupa!... Só mais um instante! Um beijo de cada uma, por amor de Cleveland.

Brenda, tomada de um terror mortal, não ousou recusar esse tributo à delicadeza; mas Minna. recuando com um ar desdenhoso, apresentou-lhe a mão. Bunce, a rir, beijou, numa atitude teatral, a bela mão que ela lhe oferecia como uma esmola para os seus lábios. Por fim, as duas irmãs e Halcro desceram à chalupa que Fletcher comandava e afastaram-se logo do navio.

Bunce ficou no tombadilho e fez um monólogo, à maneira da sua antiga profissão:

- Se hoje se contasse semelhante coisa em Port-Royal, ou na ilha de Providence, ou em Petit-Guave, que diriam de mim? Que sou um néscio, um tolo, um asno. Mas, deixá-lo!... Tenho feito tanto mal na minha vida que bem posso uma vez praticar uma boa acção, quanto mais não seja pela raridade do facto. Isto reconcilia-nos connosco - E voltando-se para Magnus - Céus! - exclamou ele - Que anjos o senhor tem por filhas! A mais velha faria fortuna num teatro de Londres. Que atitude admirável ela teve ao tomar a pistola! Diabos me levem, se os aplausos não abalariam as paredes. Eu dava a minha parte na primeira pilhagem que fizermos para a ouvir declamar:

 

Vai-te! Hetira-te! Dá lugar ao furacão, Senão meu sopro vingador reduz-te a pó.

Vai-te! Que é a loucura comparada com a ira?

 

«Depois, essa pequena ninfa tremente, tão doce, tão tímida, que eu desejaria ouvir dizer, como Statira:

 

Faz tantas promessas, jura com tanta graça,

Une tão bem o amor, o respeito e a audácia,

Que, mesmo a mentir, abre-nos o céu.

 

«Que peça nós poderíamos representar! Fui um parvo em não ter pensado nisso antes de as deixar partir. Eu, Alexandre; Claud Halcro, Lysimacus; e o meu velho refém daria um digno representante de Clytus. Fui um idiota em não pensar nisto!

Havia nesta tirada muita coisa que teria desagradado ao udaller; mas a verdade é que ele não lhe prestou a menor atenção. Recorrera ao binóculo, e os seus olhos seguiam as filhas na sua viagem. Viu-as desembarcar com Halcro e um outro homem, decerto Fletcher. Distinguia Minna, que, como se tomasse a peito velar pela segurança geral, marchava sozinha a alguns passos de distância, parecendo precavida contra todas as surpresas e pronta a agir segundo as circunstâncias. Por fim, no instante em que ia perdê-los de vista, teve a satisfação de ver que se detinham e que, depois de uma pausa provavelmente destinada às despedidas, o pirata retrocedeu pelo caminho da praia. Dando graças ao soberano Ente que assim o livrara das inquietações mais cruéis que um pai pode sofrer, o digno udaller, a partir deste momento, aguardou com resignação a sorte que lhe podia estar reservada.

 

                         O ÚLTIMO ENCONTRO

O que decidiu Fletcher a separar-se de Claud Halcro e das duas irmãs que ele acompanhava, foi, pelo menos em parte, um destacamento de homens armados que avistou a certa distância e que vinha dos lados de Kirkwall. O udaller não os pôde ver, porque eles estavam ocultos por uma elevação de terreno; mas estavam à vista do pirata, que se resolveu a cuidar da sua segurança regressando prontamente à chalupa. Ele ia já partir, quando Minna provocou a curta demora que seu pai tinha notado.

- Ordeno-lhe que espere - disse ela - Diga de minha parte ao seu chefe que, qualquer que seja a resposta que receba de Kirkwall, não deixe de dirigir o seu navio para a enseada de Stromness; que lance ferro aí e mande um barco a terra para embarcar o capitão Cleveland, quando vir fumo elevar-se da ponte de Broisgar.

Fletcher tinha grande vontade de imitar o seu camarada Bunce e pedir um beijo a cada uma das duas lindas irmãs em recompensa do trabalho que tivera de as escoltar; nem o receio da tropa que ele via avançar, nem o da pistola de que Minna estava armada, o teriam impedido de ser insolente. Mas o nome do seu capitão e sobretudo o tom autoritário e o ar de dignidade que Minna tomou, contiveram-no. Cumprimentou-a, voltou para o barco e levou a bordo do brigue a mensagem de que o incumbiram.

Enquanto Halcro e as duas irmãs avançavam para o destacamento que tinham visto na estrada de Kirkwall, e que por seu lado fizera alto como que para os observar, Brenda, que até então guardara um triste silêncio, aliviada enfim dos receios que a presença de Fletcher lhe inspirava, exclamou:

- Deus misericordioso! Ai, Minna, em que mãos deixámos o nosso pai!

- Nas mãos de homens valentes - respondeu Minna - Nada receio por ele.

- Valente, se assim o entende - disse Claud Halcro - Mas nem por isso são menos perigosos tratantes. Conheço aquele pândego do Altamont, como ele pretende chamar-se, embora não seja o seu verdadeiro nome. Nunca um cão mais enraivecido ladrou numa herdade!... Estreou-se em Barnwell (1) e toda a gente acreditava que ele acabaria no cadafalso, como na Veneza salva... (2).

 

Nota 1: Tragédia de Lillo.

Nota 2: Tragédia de Otway.

 

- Pouco importa - respondeu Minna - Quanto mais furiosas são as ondas, mais poderosas é a voz que as comanda. Basta o nome de Cleveland para inspirar respeito ao mais feroz de todos eles.

- Se os companheiros de Cleveland são assim, tenho pena dele - disse Brenda - Mas inquieta-me muito menos a sua sorte que a de meu pai.

- Guarda a tua compaixão para os que precisam dela - disse Minna - e nada temas pelo nosso pai. Sei que não corre risco algum naquele navio, e que em breve estará em segurança na costa.

- Bem desejaria já vê-lo aqui - disse Claud Halcro - Mas receio que os magistrados de Kirkwall não se atrevam a ordenar a troca de Cleveland pelo udaller. As leis escocesas são muito severas contra a pirataria, como se chama ao ofício desta gente.

- Mas - perguntou Minna - quem são aqueles homens parados lá em baixo na estrada, que parece observarem-nos com tanta atenção?

- É uma patrulha de milicianos - respondeu Halcro - O glorioso John trata-os um pouco severamente nos seus versos... Presumo que fizeram alto quando nos viram no topo da colina, receando que fôssemos um destacamento da tripulação da corveta; mas agora já podem distinguir as vossas saias; ei-los que avançam intrepidamente.

Não tardaram em chegar, e, como Halcro adivinhara, era uma patrulha de milícia incumbida de vigiar os movimentos dos piratas e de os impedir de fazer qualquer desembarque para devastar a região.

Felicitaram cordialmente Claud Halcro, conhecido de muitos deles, pela sua libertação do cativeiro, e o comandante, depois de ter oferecido às duas irmãs todo o socorro de que pudessem necessitar, testemunhou-lhes o seu desgosto pela melindrosa situação em que se encontrava seu pai, não podendo evitar dar-lhes a entender, embora de uma maneira delicada e num ar de dúvida, que bastantes dificuldades se poderiam opor à sua liberdade.

Logo que chegaram a Kirkwall e que elas obtiveram uma audiência do preboste e de alguns magistrados, essas dificuldades foram-lhes indicadas de uma maneira mais positiva.

- A fragata Alcyon anda na costa - disse o preboste - Viram-na por alturas do promontório de Dunscansbay; e, embora eu tenha um grande respeito pelo senhor Troil de Burgh-Westra, arriscava-me a uma grande responsabilidade se salvasse da prisão o capitão de um navio desses, em atenção à segurança de quem quer que fosse. Toda a gente sabe agora que este Cleveland é o braço e a alma desses corsários. Devo eu mandá-lo para o seu navio, para que ele vá pilhar o país e dar talvez combate a um navio do rei? Porque tem bastante atrevimento para tudo ousar.

- Talvez queira dizer bastante coragem, senhor preboste - disse Minna, incapaz de dissimular o seu descontentamento.

- Pode dar-lhe o nome que lhe aprouver, miss Troil - respondeu o magistrado - Mas, em minha opinião, a coragem que leva um a bater-se contra dois não é verdadeiramente outra coisa senão atrevimento.

- E o nosso pai? - exclamou Brenda, em tom suplicante - O nosso pai, que é o amigo, posso mesmo dizer o Pai de todo o seu país, pelo qual espalha tantos benefícios; o nosso pai, de quem tanta gente depende para viver e cuja perda seria como a extinção de um farol numa tempestade, poderiam os senhores hesitar em livrá-lo dos perigos que corre, quando para isso bastava uma bagatela, deixar sair da prisão um infeliz e abandoná-lo depois ao seu destino?

- Miss Brenda tem razão - disse Claud Halcro - Mas não haverá meio de arranjar as coisas? É preciso um mandado de libertação? Quer seguir o conselho de um cérebro um pouco desequilibrado, preboste? O carcereiro pode esquecer-se de fechar o ferrolho, ou deixar a janela entreaberta: ver-nos-emos livres de um pirata, e teremos daqui a cinco horas um dos mais dignos habitantes das ilhas Setland e das Órcades abancado connosco à volta de um bowl de punch.

O preboste respondeu-lhe nos mesmos termos, pouco mais ou menos, que tinha o maior respeito pelo senhor Magnus Troil, de Burgh-Westra, mas que a sua consideração por uma pessoa, fosse ela qual fosse, não o impedia de cumprir os seus deveres.

Minna dirigiu-se então a sua irmã num tom pleno de sarcasmo e que denunciava o seu descontentamento:

- Tu esqueces-te, Brenda, de a quem estás falando da segurança de um pobre e obscuro udaller das ilhas Setland, e que o personagem a quem te diriges é, nada mais, nada menos, que o primeiro magistrado da metrópole das Órcades. Esperavas que um homem tão importante se dignasse descer até um caso tão pouco digno da sua atenção? O preboste ouvirá as propostas que se lhe fazem, tem que as ouvir; mas levará tempo a pensar nelas, até que a catedral de São Magnus lhe caia na cabeça.

- Está zangada comigo, minha jovem e linda menina - respondeu-lhe o preboste em tom de bom humor - mas eu não me zangarei consigo. A igreja de São Magnus está solidamente assente nos seus alicerces, as suas paredes existem desde há muitos anos, e creio que existirão por muito tempo depois de si e de mim, e sobretudo depois de um bando de tratantes a enforcar. Bem, se as meninas quiserem aceitar alojamento em minha casa, minha mulher e eu havemos de vos provar que são tão benvindas a Kirkwall como se chegassem a Lerwick ou a Sealloway.

Minna não se dignou responder a este penhorante convite. Brenda recusou por delicadeza, fazendo ver que deviam alojar-se em casa de parentes, uma abastada viúva de Kirkwall, que as esperava.

Halcro ainda tentou demover o preboste, mas encontrou-o inabalável. O recebedor das alfândegas, explicou o magistrado, já ameaçara de o denunciar por ter feito com esses estrangeiros um tratado a que chamava uma coligação, embora ele tivesse tomado essa decisão como único meio de evitar efusão de sangue na cidade. Se agora não aproveitasse a vantagem que lhe dava o aprisionamento de Cleveland e a evasão do feitor, podia expor-se a alguma coisa pior que uma censura. Pôs termo à entrevista dizendo que ia ocupar-se de outro assunto também referente a um habitante das ilhas Setland. Um tal senhor Mertoun, morador em Jarlshof, apresentara uma queixa contra Snailsfoot, negociante de feira, que ele acusava de se ter apoderado fraudulentamente, de combinação com suas criadas, de diversos objectos que lhe tinham sido confiados. Ia mandar fazer uma investigação a esse respeito, a fim de serem restituídos esses valores ao senhor Mertoun, que era deles responsável perante o legítimo proprietário.

Em todos estes pormenores o que havia de interessante para as duas irmãs era o nome de Mertoun, nome que foi uma punhalada no coração de Minna, ao recordar-lhe as circunstâncias do desaparecimento de Mordaunt, e que, fazendo nascer no coração de Brenda uma sensação de tristeza, tornou as suas faces um pouco mais coradas e os seus olhos um pouco húmidos. Mas era evidente que se tratava de Mertoun pai e não de Mordaunt, e, como esta questão não oferecia nenhum interesse às filhas de Magnus, despediram-se do preboste e dirigiram-se a casa da sua Parenta.

Depois de ali chegar, Minna procurou conhecer, por meio de perguntas que fez sem levantar suspeitas, qual era a situação do desditoso Cleveland; e depressa soube que era bastante perigosa. Na verdade, o preboste não o metera na prisão, como Claud Halcro supusera, decerto por se recordar das circunstâncias favoráveis em que ele se entregara às suas mãos e experimentando uma espécie de repugnância em faltar à sua palavra sem extrema necessidade. Mas, embora estivesse em aparente liberdade, ele andava estreitamente vigiado por homens bem armados, com ordem de empregar a força para o deter, se ele tentasse ultrapassar os acanhados limites que lhe estavam fixados. Tinham-no alojado num edifício a que chamavam o Castelo do Rei. Durante a noite, a porta do seu quarto ficava aferrolhada e tomavam a precaução de lhe montar guarda. Contudo, era tal o terror que inspiravam as suas faculdades, a coragem e a ferocidade que supunham no capitão pirata, que o recebedor das alfândegas e muitos outros prudentes cidadãos de Kirkwall censuravam o preboste de não o ter mais seguro.

É fácil de acreditar que, em tais circunstâncias, Cleveland não tinha a menor vontade de mostrar-se em público, convencido como estava de que seria objecto de curiosidade e de terror. O seu passeio predilecto era, pois, nas alas da catedral de São Magnus, que só tinha a extremidade do lado do Oriente reservada ao exercício do culto público.

Era na parte da igreja que não se destinava ao culto que Cleveland podia passear com mais liberdade, pois os seus guardas, vigiando a única porta aberta por onde se podia entrar, tinham maneira fácil de impedir a sua evasão. Este local era perfeitamente adequado à melancólica situação de Cleveland. A abóbada erguia-se sobre fileiras de colunas maciças de arquitectura saxónica, das quais quatro, ainda mais maciças que as outras, sustentavam outrora o campanário. A luz, do lado do Oriente, entra por uma grande janela gótica, e o solo está coberto de inscrições em diferentes línguas que assinalam os túmulos dos nobres habitantes das ilhas Órcades, sepultados, em diferentes épocas, neste recinto.

Era ali que Cleveland passeava, reflectindo nos acontecimentos de uma vida tresvairada, que ia provavelmente terminar de uma maneira vergonhosa e violenta, quando ainda se encontrava na flor da juventude.

- Em breve serei contado no número destes mortos - dizia ele, olhando o mármore sobre o qual marchava - Mas nem um santo homem pronunciará uma bênção sobre os meus despojos mortais, nem a mão de um amigo gravará uma inscrição no meu túmulo, nem o orgulho de uma família mandará esculpir um brasão no monumento do pirata Cleveland. Os meus ossos descarnar-se-ão, suspensos das cadeias de algum patíbulo numa costa deserta ou no topo de algum rochedo de cabo solitário, transformando-o em local de mau agoiro que atrairá a maldição sobre a minha memória. Ai, Minna, Minna! Nunca o Céu permitisse que nos encontrássemos, se nunca mais nos deveríamos ver!

Ao pronunciar estas palavras, ergueu os olhos, e Minna Troil estava na sua frente. A despeito da palidez do seu rosto, apesar do seu cabelo em desalinho, o seu olhar era firme e tranquilo e a fisionomia tinha a sua expressão habitual de melancolia e de altivez. Ainda se envolvia na grande capa que vestira ao abandonar o navio. A primeira sensação de Cleveland foi de alegria; a segunda, de surpresa mesclada de uma espécie de receio. Ele ia gritar, ia lançar-se aos seus pés; mas ela acalmou-lhe o ímpeto e impôs-lhe silêncio, levantando um dedo e dizendo em voz baixa, mas num tom autoritário:

- Seja prudente. Observam-nos. Está gente à porta; a custo me deixaram entrar. Não posso ficar aqui muito tempo, poderiam julgar... julgariam... Ó Cleveland, tudo arrisquei para o salvar!

- Para me salvar! Ai, pobre Minna, é impossível salvar-me. Já é bastante tornar a vê-la, nem que seja para lhe fazer as minhas despedidas por toda a eternidade.

- É bem verdade, Cleveland; Temos que nos despedir. O seu destino e os seus crimes separam-nos para sempre. Vi os seus companheiros. Será preciso dizer-lhe mais alguma coisa? Terei necessidade de dizer-lhe que sei agora o que é um pirata?

- Esteve em poder deles! - exclamou Cleveland, tremendo de uma dolorosa emoção - Esses celerados ter-se-iam atrevido a...

- Não, Cleveland, não se atreveram a coisa alguma. O seu nome foi um talismã cujo poder impôs respeito a esses bandidos ferozes; e foi por isso que me recordei das qualidades que outrora julguei pertencerem a Cleveland.

- Sim - disse Cleveland com orgulho - o meu nome impõe-lhes respeito, impõe-lho no meio de todos os seus desmandos. Se eles a tivessem insultado com uma única palavra, veriam... Mas> que digo eu?... Sou um prisioneiro.

- Vai deixar de o ser. A sua segurança, a do meu pai, tudo exige a sua imediata libertação. Tracei um plano para o pôr em liberdade, e, executando-o com habilidade, não pode falhar. Caiu a noite... Envolva-se nesta capa e passará sem custo por entre os guardas. Eu forneci-lhes meios de se divertirem, e não pensam em outra coisa... Apresse-se a seguir para as margens do lago Stennis e oculte-se até ao romper do dia. Acenda então uma fogueira que produza muito fumo, no local onde a terra, avançando por ambos os lados do lago, quase se divide em duas partes na ponte de Broisgar. O seu navio, que não estará longe, enviar-lhe-á uma chalupa. Não hesite um instante.

- Mas, Minna, se esse estranho projecto der resultado, que será de si?

- Quanto à parte que tomarei na sua evasão, a pureza das minhas intenções, sim, a pureza justificar-me-á perante Deus, e a segurança de meu pai, cujo destino depende do seu, será a minha desculpa perante os homens.

Contou-lhe em poucas palavras a história do seu cativeiro e as consequências que trouxe. Cleveland levantou os olhos e as mãos ao Céu para lhe dar graças por não ter permitido que as duas irmãs fossem insultadas pelos seus companheiros, e ajuntou, pressuroso:

- Sim, Minna, tem razão; tenho que arriscar tudo para fugir; exige-o a segurança de seu pai. Vamo-nos separar, mas espero que não seja para sempre.

- Para sempre! - repetiu uma voz que parecia sair do fundo dos sepulcros.

Eles estremeceram, relanceando o olhar, e encararam-se depois. Suporiam que os ecos das abóbadas tivessem repetido as últimas palavras de Cleveland; mas o tom de ênfase em que aquelas duas palavras foram pronunciadas não lhes permitia tal suposição.

- Sim, para sempre - disse Norna, que saía detrás de um dos pilares maciços da catedral - O pé sangrento e a mão sangrenta encontram-se aqui. Foi uma felicidade para ambos que a ferida de onde o sangue correu se tivesse fechado. Sim, encontraram-se aqui, mas pela últina vez.

- Não - disse Cleveland, que parecia disposto a segurar a mão de Minna - enquanto eu viver, a nossa separação só por ela pode ser decidida.

Renuncia a essa loucura vã - disse Norna, colocando-se entre os dois - Não alimentes a esperança inútil de se tornarem a ver algum dia. O falcão não toma a pomba por companheira. O crime não pode aliar-se à inocência. Minna Troil, tu encontras-te pela última vez com este homem audaz e criminoso. Cleveland, tu encontras-te pela última vez com Minna Troil.

- Imagina que tenho algum respeito pelos seus oráculos? - exclamou Cleveland com indignação.

- Silêncio, Cleveland, silêncio! - ordenou Minna, cujo medo, mesclado de um respeito religioso, aumentara nesse momento com aquela súbita aparição - Tome cuidado! Ela é poderosa, é muito poderosa! E a senhora pense que da segurança de Cleveland depende a de meu pai.

- Foi uma felicidade para Cleveland eu ter-me lembrado disso - replicou a pitonisa - e que, por amor de Magnus, eu esteja aqui para salvar ambos. Que plano ridículo, esse, de querer fazer passar por uma rapariga um homem desta estatura! Qual seria o resultado? Grilhões e ferrolhos. Eu é que o vou salvar. Sou eu quem vai pô-lo em segurança a bordo do seu navio. Mas ele que renuncie a estas paragens! Que leve para outras terras o terror do seu pavilhão negro e do seu nome ainda mais negro! Sim, olha-a ainda uma vez; é o último olhar que autorizo à afeição de duas criaturas fracas; e dize-lhe, se tens força para o dizer: adeus, para sempre!

- Obedeça-lhe! - exclamou Minna - Nada de hesitaÇões; obedeça-lhe.

Cleveland, emocionado, agarrou-lhe a mão, beijou-lha com ardor e disse-lhe, numa voz tão baixa que ela mal o Pôde ouvir:

- Adeus, Minna, mas não para sempre.

- Agora, menina - disse Norna - retira-te e deixa Reimkennar cuidar do resto.

- Só uma palavra, e já lhe obedeço - respondeu Minna - Diga-me se compreendi bem. Mordaunt Mertoun está vivo? Não está em perigo?

- Vive e está em segurança - respondeu Norna - Se assim não fosse, ai da mão que derramou o seu sangue!

Minna retrocedeu a passo lento para a porta da catedral, voltando-se por várias vezes para ver Norna e Cleveland. Viu-os afastar-se. Cleveland seguia a pitonisa, que avançava num passo solene para o fundo de uma das alas da igreja. Quando se voltou pela terceira vez, já não lhe foi possível enxergá-los. Tentou recobrar o sangue-frio e aproximou-se da porta do Oriente, por onde tinha entrado.

Regressou à casa onde se alojava, muito comovida, mas, apesar de tudo, satisfeita do resultado da sua digressão, que parecia colocar seu pai fora de perigo, garantir a evasão de Cleveland e assegurar que Mordaunt vivia ainda. Apressou-se a dar estas notícias a Brenda, que quase se convenceu do poder sobrenatural de Norna, tanto a encantava o uso que dele acabava de fazer.

Passaram algum tempo a felicitar-se mutuamente. A uma hora tardia foram interrompidas por Claud Halcro, que, num ar de importância mesclada de medo, vinha informá-las de que o prisioneiro Cleveland desaparecera da catedral, onde lhe davam licença de passear, e que o preboste, prevenido de que Minna favorecera a evasão, vinha a caminho para a interrogar sobre o assunto.

Quando o magistrado chegou, Minna não lhe ocultou o desejo que tivera de que Cleveland se evadisse, por ver nisso o único meio de salvar o pai dos perigos que o ameaçavam; mas negou absolutamente que tivesse facilitado a Fuga, e declarou que deixara Cleveland na catedral, havia duas horas, com uma pessoa cujo nome não se sentia na obrigação de revelar.

- Não é necessário, miss Minna Troil - acrescentou o preboste Torfe - porque, apesar de não terem visto entrar esta tarde senão a menina e Cleveland na igreja de São Magnus, não ignoramos que a sua prima Ulla Troil, a quem os setlandeses chamam Norna de Fitful-head, cruzou as nossas paragens por terra, por mar e talvez através dos ares, a cavalo, num barco ou num cabo de vassoura. Também viram o seu drow mudo ir, vir e espionar por um lado, por outro, tudo o que se passava. Sabemos, além disso, que ela pode entrar na igreja quando todas as portas estão fechadas, porque já lá a têm visto mais de uma vez, Deus nos salve dos espíritos malignos! Assim, sem precisarmos de lhe perguntar mais nada, concluímos que foi a velha Ulla que deixou na igreja com esse cavalheiro, e, neste caso, que os agarre quem puder. No entanto, miss Minna, não posso deixar de lhe dizer: os senhores setlandeses parece esquecerem tanto o Evangelho como as leis da humanidade, quando recorrem à bruxaria para arrancarem de uma prisão os culpados legalmente detidos; e o menos que os senhores podem fazer, a sua prima, o seu pai e a menina, é empregar toda a sua influência sobre esse tratante para que ele se afaste o mais depressa possível, sem prejudicar a nossa cidade nem o nosso comércio.

- Estou a ver o que o preocupa, senhor preboste - disse Claud Halcro - Posso assegurar-lhe, pelo meu amigo Magnus Troil e por mim próprio, que diremos e faremos por que toda a gente convença Cleveland a afastar-se imediatamente das nossas costas.

- E estou convencida - ajuntou Minna - de que o que o senhor deseja é o que convém a todas as partes. Eu e minha irmã partiremos amanhã cedo para o castelo de Stennis, se o senhor Halcro nos quiser acompanhar, para ali recebermos meu pai no seu desembarque, a fim de o informarmos do que o senhor deseja e persuadi-lo a empenhar toda a sua influência sobre esse infeliz para que ele deixe estas ilhas.

O preboste olhou-o com um ar de surpresa.

- Não haveria muitas meninas - disse ele - que quisessem percorrer oito milhas para se aproximar de um bando de piratas.

- Não corremos risco algum - disse Claud Halcro - O castelo de Stennis está bem fortificado, e meu primo, a quem ele pertence, não lhe falta nem com homens, nem com armas para o defender. Estas jovens estarão ali tão seguras como na cidade de Kirkwall, e pode vir grande benefício de uma pronta entrevista entre Magnus Troil e suas filhas. E quanto ao senhor, meu bom e velho amigo, estou encantado por ver, como diz o glorioso John:

 

Nesta ocasião, após algum debate,

Que o homem venceu, enfim, o magistrado...

 

O preboste sorriu, meneou a cabeça e deu a entender, tanto quanto o podia fazer decentemente, como se sentiria feliz se a Favorita da Fortuna, levando a sua tripulação de bandidos, deixasse as ilhas Órcades, sem que se chegasse a actos de violência de parte a parte.

O pacífico magistrado despediu-se então de Halcro e das duas irmãs. Estas propunham-se seguir na manhã seguinte para o castelo de Stennis, situado nas margens do lago salgado do mesmo nome, e que se encontra a cerca de quatro milhas da enseada de Stromness, onde a Favorita estava ancorada.

 

                 CLEVELAND AINDA FAZ PROJECTOS

Um dos muitos meios de que Norna se servia para sustentar as suas pretensões a um poder sobrenatural era o conhecimento que adquirira, ou por acaso, ou com a ajuda da tradição, de passagens ignoradas e caminhos secretos que lhe proporcionavam a facilidade de fazer coisas na aparência inexplicáveis. Foi assim que ela desapareceu daquela espécie de tenda dentro da qual desempenhava o papel de sibila em Burgh-Westra, aproveitando-se de uma passagem praticada nesse sítio da parede e na qual se entrava por um «panneau» de madeira que deslizava sobre o do lado. Este segredo era conhecido dela e de Magnus e ela tinha absoluta certeza de que este não a trairia. A sua fortuna, que era considerável, servia-lhe para lhe transmitir os primeiros avisos de tudo o que desejava saber e todos os auxílios que lhe podiam ser necessários para a execução dos seus planos. Cleveland teve, naquela ocasião, ensejo de admirar-lhe a sagacidade e a extensão dos seus recursos.

Premindo com força uma mola oculta, abriu uma porta secreta praticada na parede que divide a ala oriental do resto da igreja. Esta porta, que Cleveland fechou a um sinal que ela lhe fez, dava acesso a uma longa passagem cujos obscuros recantos ela percorreu, seguida de Cleveland, ora subindo, ora descendo em silêncio os degraus cujo número ela anunciava sempre. Saíram, por fim, por um «panneau» que, deslizando sobre outro, lhes permitiu a entrada num compartimento de aspecto miserável, de tecto de abóbada e iluminado por uma janela gradeada.

Uma enxada e uma pá a um canto deste quarto e a vista de um velho, com chapéu de abas largas e vestido com um hábito negro a que o tempo já dera uma cor de ferrugem, denunciavam que se encontravam na moradia do sacristão ou coveiro e em presença desse respeitável funcionário.

- Sê fiel - disse Norna ao velho - e livra-te de mostrar a algum mortal o caminho secreto que conduz ao santuário.

O homem inclinou a cabeça em sinal de submissão e de reconhecimento, porque, ao mesmo tempo que assim falava, Norna metera-lhe na mão algum dinheiro. Ele disse-lhe em seguida, numa voz trémula, que esperava que ela não esquecesse o seu filho, ausente na Groenlândia, e que fizesse com que a sua pesca fosse feliz como no ano anterior, quando trouxera aquela grinalda, ajuntou ele, mostrando uma coroa de fitas suspensa da parede.

- Porei a minha caldeira a ferver e pronunciarei encantamentos em seu favor - respondeu Norna - E Pacolet, está à espera com os cavalos?

O velho respondeu afirmativamente, e a pitonisa, ordenando a Cleveland que a seguisse, saiu por uma porta traseira para um jardim abandonado. As brechas que o tempo abrira no muro da cerca permitiram-lhes passar facilmente para um outro jardim muito maior e, por uma porta apenas fechada no trinco, atingiram uma rua comprida e estreita que percorreram a passo largo. Norna disse baixinho ao seu companheiro que era o único sítio onde corriam algum perigo. Esta rua só era habitada por gente do Povo, já recolhida em suas moradias. Viram uma mulher no limiar de uma porta, que se meteu precipitadamente em casa ao ver Norna avançar a grandes passos. A rua ia terminar no campo, onde o anão mudo de Norna os esperava com três cavalos escondidos atrás do muro de uma construção abandonada. Norna saltou logo para um, Cleveland montou o segundo e Pacolet o terceiro. Estes cavalos eram fogosos e um pouco maiores do que os setlandeses. Partiram a grande velocidade, apesar da escuridão. Norna servia de guia e, após uma hora de corrida, detiveram-se em frente de uma choupana de tão miserável aparência que mais se poderia tomar por um estábulo de animais do que por uma habitação destinada à espécie humana.

- Convém que fiques aqui até ao nascer do dia, para que o teu sinal se possa ver do navio - disse Norna a Cleveland. E encarregando Pacolet de cuidar dos animais, fez entrar o capitão naquele tugúrio, acendendo uma pequena lamparina de ferro que trazia habitualmente consigo - É um pobre retiro - disse ela - mas é seguro, tão seguro que, se fôssemos perseguidos até aqui, a terra abrir-se-ia para nos receber no seu seio. Fica sabendo que este lugar é consagrado ao deus do Walhalla. E agora, dize-me, homem de crime e de sangue, és amigo ou inimigo de Norna, a única sacerdotisa que resta a essas divindades destronadas?

- Como seria possível que eu fosse seu inimigo? A gratidão...

- A gratidão não passa de uma palavra, e as palavras são a moeda que os doidos recebem daqueles que os enganam. São factos, sacrifícios que Norna exige.

- Fale; que deseja de mim?

- A tua promessa de nunca mais veres Minna Troil e de te afastares destas costas dentro de vinte e quatro horas.

- É-me impossível obter em tão pouco tempo as provisões absolutamente indispensáveis ao meu navio.

- Elas não te faltarão, eu tratarei de que nada te falte. Aliás, tê-las-ias bem perto daqui, em Caithness ou nas Hébridas, e podias partir se quisesses.

- E porque havia de partir, se não é essa a minha vontade?

- Porque a tua demora aqui põe outras pessoas em perigo e causará a tua própria perda. Desde o primeiro instante que te vi estendido sem sentidos na areia, no sopé dos rochedos de Sumburgh, descobri no teu rosto os traços que ligavam o teu destino ao meu e a destinos não menos caros ao meu coração; mas não me foi possível descortinar se daí resultaria bem ou mal. Ajudei a salvar a tua vida, a conservar o que te pertencia. Secundei aquele mesmo jovem em cujas afeições mais gratas te atravessaste, espalhando calúnias contra ele...

- Eu! Caluniar Mordaunt Mertoun! Por Deus, apenas pronunciei o seu nome em Burgh-Westra, se é isso a que se quer referir. Aquele tratante do bufarinheiro, esse Bryce Snailsfoot, querendo decerto prestar-me um bom serviço, porque esperava ganhar mais comigo, é que contou, ao que me disseram depois, boatos verdadeiros ou falsos ao ancião, que encontrou a sua confirmação na opinião geral. Quanto a mim, olhava-o apenas como a um rival, do qual teria meios mais honrosos de me desembaraçar.

- A ponta do teu punhal, dirigida contra o coração de um homem desarmado, seria um desses meios honrosos?

A voz da consciência falou a Cleveland, que permaneceu silencioso por alguns instantes.

- Concordo - disse ele por fim - que errei; mas, graças ao Céu, está curado; se ele deseja alguma satisfação, estou pronto a dar-lha.

- Não, Cleveland! - exclamou a pitonisa - O espírito maligno de que és o instrumento é poderoso, mas não me vence. Possuis aquele carácter que as inteligências malfazejas desejam encontrar naqueles que escolhem para seus agentes. Foste sempre voluntarioso e impetuoso, sanguinário, não obedecendo a nenhum freio. Mas pôr-te-ei eu um freio - ajuntou ela, estendendo a sua vara e tomando uma atitude de autoridade - Sim, mesmo que o demónio que preside ao teu destino se mostrasse a meus olhos em todo o seu horror.

- Boa mãe - disse Cleveland, sorrindo desdenhosamente - guarde semelhante linguagem para o marinheiro ignorante que lhe pede um vento propício ou para o pobre pescador que lhe roga felicidade para as suas linhas e os seus anzóis. Sou tão inacessível à superstição como ao medo. Chame o seu demónio, se tem algum às suas ordens, e faça-o aparecer à minha frente; o homem que passou tantos anos na companhia de diabos incarnados não receia a presença de um espírito.

Foi em voz trémula que ela perguntou:

- Por quem me tomas tu, se me negas o poder que eu comprei tão caro?

- A senhora tem vastos conhecimentos, boa mãe - respondeu Cleveland - Tem habilidade, e a habilidade conduz ao poder. Encaro-a como uma mulher que sabe navegar perfeitamente na corrente dos acontecimentos, mas nego que tenha o poder de lhes mudar o curso. Não gaste, pois, palavras inutilmente, tentando inspirar-me um terror que eu não poderei sentir, e diga-me antes porque deseja que eu parta.

- Porque não quero que tornes a ver Minna; porque Minna se destina a ser esposa daquele a quem os homens chamam Mordaunt Mertoun; porque, se não partires dentro de vinte e quatro horas, a tua perda será inevitável. Falei-te em termos claros; agora responde-me no mesmo tom.

- Dir-lhe-ei com a mesma clareza que não deixarei estas paragens sem ver Minna e que o seu Mordaunt Mertoun não a desposará enquanto eu for vivo.

- Escutai-o, grande Deus! - exclamou Norna - Escutai um mortal que recusa os meios que se lhe oferecem de salvar a vida! Vêde-o cheio de audácia e de confiança na sua juventude, na sua força e na sua coragem! Os meus olhos, tão pouco habituados a chorar, os meus olhos que tão poucos motivos têm para chorar por ele, molham-se de lágrimas, quando penso no que ele será amanhã.

- Boa mãe - disse Cleveland num tom firme, mas que traía alguma comoção - compreendo em parte as suas ameaças. Sabe melhor do que nós onde se encontra a Alcyon; talvez tenha meios de a dirigir no seu cruzeiro de maneira a encontrar-nos, pois admito que a senhora é capaz, por vezes, de combinações maravilhosas. Mas o receio desse perigo não modificará a minha resolução. Se a fragata me perseguir aqui, estou decidido a combater até à última extremidade; e quando toda a resistência se tornar impossível, basta disparar um tiro de pistola no paiol da pólvora, e morreremos como vivemos.

Cleveland calou-se por um instante. Norna ficou silenciosa, e ele retomou a palavra num tom mais brando:

- Ouviu a minha resposta, boa mãe; terminemos, pois, esta discussão; mas separemo-nos em boa harmonia. Gostaria de deixar-lhe uma recordação que a impedisse de esquecer um pobre diabo a quem prestou um serviço, e que a deixa sem lhe querer mal, embora seja contrário aos seus mais caros interesses. Não recuse aceitar esta ninharia - ajuntou ele, metendo-lhe na mão, quase à força, a pequena caixa de prata que ocasionara o conflito entre ele e Mordaunt - Não lha ofereço pelo valor material, sei que não faz caso de preciosos metais, mas somente como um objecto que lhe recordará que viu aquele de quem se contará histórias bem estranhas por todos os mares que cruzou.

- Aceito o teu presente - disse Norna - como uma prova de que, se contribuí para acelerar o teu destino, não fui senão o agente de outros poderes. Tens razão em dizer que não podemos mudar o curso dos acontecimentos. Eles arrastam-nos, tornam inúteis todos os nossos esforços, como o turbilhão de Tuftiloe que engole o navio mais sólido, arrastando-o, sem que possa socorrer-se das suas velas nem do seu leme... Pacolet! Eh, Pacolet! - chamou ela em voz mais alta.

Uma grande pedra encostada a uma das paredes da choupana caiu, e Cleveland ficou muito surpreendido, se não experimentou mesmo uma sensação de medo, ao ver o anão disforme sair de rastos, como um réptil, de uma passagem subterrânea cuja entrada aquela pedra ocultava.

Norna apressou-se a explicar-lhe o fenómeno que Cleveland acabava de presenciar.

- Encontram-se muitas vezes nestas ilhas - disse ela - passagens subterrâneas cuja entrada está cuidadosamente oculta. Eram lugares de retirada para os habitantes, que neles achavam refúgio contra a raiva dos Normandos, os piratas desses recuados tempos. Foi para que te pudesses aproveitar deste, em caso de necessidade, que te conduzi aqui. Se alguma coisa te fizesse recear seres perseguido, poderias ficar oculto nas entranhas da terra até à retirada dos teus inimigos, ou evadires-te pela abertura próxima do lago, por onde Pacolet entrou. Agora, despeço-me. Pensa no que te disse, pois, tão certo como estares agora com vida, a tua sorte está irrevogàvelmente traçada, se antes de vinte e quatro horas não te fizeres ao mar.

- Adeus, boa mãe - respondeu Cleveland.

Ela saiu, lançando-lhe um olhar em que ele notou, à claridade da lamparina, tanta dor como descontentamento.

Esta entrevista produziu uma profunda impressão no espírito de Cleveland. As palavras de Norna fizeram-lhe muito mais efeito, para o fim da conversa, por se terem despojado daquele tom místico que ele desdenhava. Lamentando mais do que nunca ter adiado de dia para dia a resolução que tantas vezes tomara de renunciar a uma profissão tão arriscada como criminosa, formou de novo a de a deixar para sempre, depois de ver mais uma vez Minna Troil, nem que fosse para lhe dizer os últimos adeuses, e logo que tirasse os camaradas da sua perigosa situação.

- E então - dizia ele - tratarei de obter o meu perdão e de me distinguir na carreira das armas de uma maneira mais honrosa.

Esta resolução, à qual se apegava cada vez mais, contribuiu enfim para tranquilizar o seu espírito. Envolveu-se na sua manta e desfrutou algum tempo daquele repouso que a natureza exausta exigia como um tributo.

Quando Cleveland acordou, a aurora começava já a mesclar as suas tintas no crepúsculo de uma noite das Órcades. Achou-se à beira de um belo lençol de água que, perto do sítio onde estava, se dividia em duas partes quase iguais, porque duas línguas de terra, avançando uma para a outra de margens opostas, reuniam-se pelo que se chama a ponte de Broisgar. Atrás dele e em frente da ponte, estava aquele notável semi-círculo de enormes pedras ao qual nada se pode comparar senão o inexplicável momumento de Stonehenge.

Este singular monumento da Antiguidade despertou menos interesse a Cleveland do que a vista de Stromness, que ele agora mal podia distinguir ao longe. Não tardou em acender uma fogueira com o auxílio da sua pistola e troncos de plantas húmidas que lhe proporcionaram meio de produzir um fumo considerável.

Esperavam com impaciência aquele sinal a bordo da corveta, porque a incapacidade de Goffe tornava-se dia a dia mais evidente e os seus mais zelosos partidários já concordavam que o melhor partido a tomar era o de se submeterem ao comando de Cleveland até chegarem às Índias Ocidentais.

Bunce, que veio com a chalupa buscar o seu capitão e amigo, gritou, praguejou, saltou e dançou de alegria, quando o viu em liberdade.

- Já se começou a abastecer a Favorita - disse ele - e estaríamos mais adiantados se não fosse esse velho Goffe, que não pensa senão em emborrachar-se.

O mesmo entusiasmo experimentava a tripulação da chalupa. Imprimiu-se força aos remos, e Cleveland encontrou-se bem depressa a bordo do navio que tinha a desdita de comandar.

O primeiro uso que o capitão fez da sua autoridade foi o de mandar informar Magnus Troil que lhe dava liberdade de partir; que estava disposto a indemnizá-lo, tanto quanto possível, do atraso causado à sua viagem para Kirkwall, e que o capitão Cleveland desejaria, se o senhor Magnus Troil lho permitisse, ir prestar-lhe as suas homenagens a bordo do seu brigue, para lhe agradecer os favores que dele recebera e apresentar-lhe desculpas da sua detenção. Foi Bunce, que ele considerava o mais civilizado dos seus companheiros, que Cleveland incumbiu desta mensagem; e o udaller, sempre tão franco como pouco cerimonioso, respondeu-lhe:

- Diga ao seu capitão que eu ficaria encantado se pudesse acreditar que nenhum dos que ele deteve nos mares fosse mais maltratado do que eu. Diga-lhe também que, a termos que ficar amigos, que o seja de longe, porque não gosto mais do ruído das suas balas de canhão no mar do que ele gostaria do assobio das minhas balas de espingarda em terra. Diga-lhe, enfim, que estou aborrecido por me ter enganado na ideia que fiz dele e que andaria melhor em reservar para os Espanhóis o tratamento que faz sofrer aos seus compatriotas.

- É essa a mensagem para o meu capitão, velho pai Cólera? - exclamou Bunce - Que um raio me fulmine, se a minha vontade não é ensinar-lhe a mostrar mais respeito pelos gentleman da aventura! Mas não faço nada, em atenção às suas lindas filhas e um pouco também por consideração pelo meu velho amigo Claud Halcro. Portanto, boa tarde, cabeça de foca! E está tudo dito entre nós.

Mal o barco dos piratas abandonou o brigue para regressar à corveta, Magnus, para não dar àqueles aventureiros mais confiança do que a necessária, largou todas as velas ao vento. Uma brisa propícia começou a soprar, e ele dirigiu-se para Scalpa Flow, na intenção de aí desembarcar a fim de seguir por terra para Kirkwall, onde contava encontrar suas filhas e o seu amigo Claud Halcro.

 

                   O SINGULAR PLANO DE BUNCE

O sol já ia alto no horizonte. Grande número de barcos de pescadores partiam da beira-mar, levando provisões de toda a espécie, e a tripulação apressava-se a recebê-las e arrumá-las a bordo. Todos trabalhavam da melhor vontade, porque todos, com excepção de Cleveland, desejavam afastar-se daquela costa onde o perigo aumentava a cada instante, e onde, o que era mais desagradável, não havia despojos a conquistar. Bunce e Derrick tinham a seu cargo os cuidados do abastecimento, enquanto Cleveland, que passeava no convés, se limitava a dar de vez em quando algumas ordens que as circunstâncias exigiam, recaindo em seguida nas suas reflexões.

Fora seu pai quem o levara àquela carreira criminosa. E quando por ela enveredara no desejo de vingar a sua morte, este sentimento podia até certo ponto servir-lhe de desculpa. Por mais de uma vez este género de vida lhe inspirara horror; por mais de uma vez tomara a resolução de renunciar a ela, mas todos os esforços para a executar tinham sido inúteis.

Nesse momento, estava o seu espírito, mais do que nunca, atormentado pelos remorsos, e pode-se perdoar-lhe que a recordação de Minna se lhes juntasse. De quando em quando, lançava um olhar aos seus companheiros, e, embora conhecesse a sua malvadez e a sua brutalidade, não podia suportar a ideia de que eles viessem a receber a punição dos seus crimes.

- Estamos prestes a partir com a maré; para que hei-de arriscar a sua segurança, retardando a sua partida até ao momento de perigo que aquela estranha mulher predisse? Seja qual for o meio que ela emprega para obter notícias, a verdade é que todas as que ela anuncia se confirmam de uma maneira bastante estranha; ela fez-me o aviso num tom tão solene como o seria o de uma mãe dirigindo censuras a um filho culpado, anunciando-lhe o próximo castigo dos seus crimes. Aliás, que probabilidades tenho eu de tornar a ver Minna? Ela está decerto em Kirkwall, e dirigir-me lá equivaleria a arrojar o meu navio contra os rochedos. Não, não exporei estes pobres diabos ao perigo. Partirei com a maré. Ordenarei que me ponham em terra numa das Hébridas, ou na costa noroeste da Irlanda e voltarei aqui disfarçado. E, no entanto, para que voltar? Para ver Minna esposa de Mordaunt? Não. Antes o navio parta com a maré, mas que parta sem mim. Enfrentarei o meu destino.

As suas meditações foram interrompidas por Jack Bunce, que, dando-lhe o título de capitão, lhe disse que estavam prontos a levantar ferro quando lhe aprouvesse.

- Isso será quando te apetecer, Bunce - disse Cleveland - porque eu vou abandonar o comando e dirigir-me a Stromness.

- Céus! Não farás nada disso! - exclamou Bunce - Deixar-me o comando, muito bem; mas como faria obedecer-me pela tripulação? O próprio Fletcher ainda discute comigo algumas vezes. Deves saber que, sem ti, cortamos as goelas uns aos outros em meia hora. Vamos, nobre capitão, não faltam raparigas de olhos negros por esse mundo, mas onde encontrarás um barco como a nossa Favorita e um grupo de homens intrépidos

 

Capazes de perturbar a paz do Universo

E de ditar a lei mesmo no fundo dos infernos?

 

- Estás doido, Jack - disse Cleveland quase zangado, e sorridente, no entanto, devido ao tom falso e aos gestos enfáticos do comediante pirata.

- É possível, nobre capitão, e também pode ser que eu tenha um camarada na loucura. No entanto, também posso falar-te em prosa, pois tenho novidades a dar-te, estranhas novidades, novidades que te surpreenderão.

- Pois bem, Jack, empregando o teu calão, dir-te-ei: Trata de mas dar e fala-me como habitante deste Mundo (1).

 

Nota 1: Expressão de Shakespeare.

 

- Os pescadores de Stromness nada querem receber pelo seu trabalho, nem pelas provisões que trouxeram. Não é alguma coisa de novo, de maravilhoso?

- E porquê? É a primeira vez que vejo recusar dinheiro num porto de mar.

- É verdade, pois em regra não pensam senão em fazer-nos pagar tudo pelo dobro do seu valor. Mas eis a chave do enigma: o proprietário de um certo brigue, o pai da tua bela amada, nomeou-se contramestre pagador, como reconhecimento da delicadeza com que tratámos as filhas e para nos habilitar a partir.

- É bem um gesto do velho udaller! - exclamou Cleveland - Mas, está ele em Stromness? Julguei que tinha partido para Kirkwall.

- Era essa a sua intenção, mas não é só o rei Duncan (2) que chega onde não contava ir. Mal desembarcou, encontrou uma velha bruxa dos arredores, que se mete em tudo, que mete o nariz nos negócios de cada um,

 

Nota 2: Alusão ao rei Duncan, em Macbeth de Shakespeare

 

e, seguindo o seu conselho, renunciou ir a Kirkwall. Lançou ferro naquela casa branca situada à beira do lago e que tu podes ver com o óculo. Asseguraram-me que essa velha se associou a ele para pagar as nossas provisões.

- E quem te deu essas novidades? - perguntou Cleveland, sem parecer interessado.

- Fiz uma excursão a terra esta manhã e encontrei um velho conhecimento, um amigo que Magnus Troil encarregara de vigiar a remessa das provisões: dando-lhe a beber do meu frasco, fui-lhe tirando os nabos da púcara e soube tudo o que te disse e mais o que não tenho vontade de te dizer.

- E quem é esse amigo? Não tem nome?

- É uma espécie de cabeça de vento, um velho poeta, um músico chamado Halcro, visto quereres sabê-lo.

- Halcro! - exclamou Cleveland, com um brilho de surpresa no olhar - Claud Halcro! Mas desembarcaram-no no Inganess com Minna e a irmã. Onde estão elas?

- Era precisamente o que não queria dizer-te, mas diabos levem o segredo! E estremeces de maneira a produzir grande efeito... Eis-te já de óculo assestado sobre o castelo de Stennis! Sim, elas estão lá, e convenhamos em que não se encontram muito bem guardadas. Vieram da montanha alguns sicários da velha bruxa e o velho castelão tem alguns homens em armas. Mas, que importa, nobre capitão? Dize-me uma só palavra, e esta noite agarramos as duas sirigaitas, metemo-las na câmara e, ao romper do dia, desfraldamos as velas, levantamos ferro e partimos com a maré da manhã.

- Desgostas-me com tanta infâmia - disse Cleveland, voltando-lhe as costas.

- Infâmia!... Desgosto-te!... Que propus eu que não se tenha executado mais de cem vezes por aventureiros expeditos como nós?

- Não me fales mais nisso! - respondeu Cleveland. Deu uma volta pelo convés e, tornando perto de Bunce, tomou-lhe a mão e disse - Tenho de vê-la mais uma vez.

- Com todo o gosto - disse Bunce de bom humor.

- Sim, quero vê-la mais uma vez, e será para renunciar a seus pés a esta maldita profissão, expiar os meus crimes...

- Na forca - disse Bunce, rematando a frase - com todo o gosto! Da confissão ao cadafalso; é um provérbio muito respeitável...

- Mas, meu caro Jack... - disse Cleveland.

- Meu caro Jack!... - repetiu Bunce no mesmo tom de bom humor - Também és bem caro ao caro Jack. Mas faz o que quiseres, que não me inquietam os teus assuntos; não quero desgostar-te com tanta infâmia... Que importa que se perca uma maré! Podemos partir com a de amanhã de manhã tão bem como agora.

Cleveland suspirou, porque a predição de Norna se apresentou ao seu espírito. Mas a possibilidade de ter uma última entrevista com Minna era tentação demasiado forte para que alguma predição ou pressentimento pudesse impedi-lo de ceder.

- Vou a terra dentro de momentos - disse Bunce - O pagamento das provisões servir-me-á de pretexto. Podes incumbir-me de uma mensagem ou de uma carta para Minna; transmitirei uma ou entregarei a outra com a destreza de um criado de comédia.

- Mas eles têm homens armados - disse Cleveland - Podes correr algum risco.

- Nenhum. Protegi as filhas, quando elas estavam nas nossas mãos, e garanto que o pai, longe de me prejudicar, me protegerá com todo o seu poder.

- Prestas-lhe justiça. Seria contra o seu temperamento proceder de outra maneira. Vou já escrever a Minna.

Desceu à câmara, e aí estragou muito papel antes do seu coração vivamente comovido e da sua mão trémula lhe permitirem traçar uma carta que ele julgasse capaz de resolver Minna a conceder-lhe uma entrevista na manhã seguinte, para ele lhe dizer os últimos adeuses.

Bunce, entretanto, fora procurar Fletcher, com quem contava sempre para o apoiar em todas as propostas que tinha a fazer, e, seguido do seu satélite fiel, apresentou-se a Hawkins, mestre de bordo, e Derrick, contramestre, que se regalavam com um copo de punch para se compensarem do serviço fatigante que acabavam de fazer.

- Aqui está quem no-lo pode dizer! - exclamou Derrick - Quando é que levantamos ferro?

- Quando Deus quiser, amigo contramestre; eu, por mim. sei tanto do assunto como aquele castelo da popa.

- Que diabo! - exclamou Derrick - Ainda não largaremos com a maré de hoje?

- Ou o mais tardar amanhã de manhã? - disse Hawkins - Que nos pode impedir, depois de termos feito trabalhar toda a tripulação como negros por causa dos abastecimentos?

- Meus senhores - disse Bunce - é preciso que saibam que Cupido se apoderou do nosso capitão, fechou as escotilhas ao seu espírito e colocou-se ao leme.

- Que significa essa cantiga? - perguntou Hawkins, bem humorado.

- Meus senhores - replicou Bunce - digo-lhes em quatro palavras que o capitão está apaixonado.

- Olá? - comentou Hawkins - Quem o diria? Não é porque eu não tenha estado apaixonado tantas vezes como outro qualquer, quando o navio está fundeado e não há mais nada que fazer.

- Muito bem - disse Bunce - Enfim, o capitão Cleveland está apaixonado. Tenciona ver a sua amada amanhã de manhã, para lhe dizer adeus; mas todos nós sabemos que uma entrevista conduz a outra, e isso pode durar até que a Alcyon chegue, e então teremos mais balas do que pence.

- Com os diabos! - exclamou Hawkins - Temos que nos amotinar para o impedir de ir a terra. Que dizes tu, Derrick?

- Não há outra coisa a fazer - respondeu o contramestre.

- Eu cá por mim - disse Bunce - não quero motins. Diabos me levem, se eu consentiria que alguém se amotinasse a bordo.

- Nesse caso, não me amotino - declarou Fletcher - Mas, no entanto, que vamos fazer, visto que ele está...

- Mete a viola no saco, Dick, por favor - ordenou Jack Bunce - Agora, Hawkins, digo-te que sou quase da tua opinião, e penso que é preciso empregar um pouco de violência salutar para trazer o comandante à razão. Todos sabem que ele tem o orgulho de um leão e nada fará se não o deixarem guiar-se pela sua cabeça. Pois bem, eu vou a terra e combino a entrevista; a menina comparecerá amanhã de manhã e o capitão não deixará de ir ao seu encontro. Levá-lo-ei a terra na chalupa com gente capaz de remar contra o vento e a maré. A um sinal combinado, caímos sobre o capitão e a sua amada e, quer queiram quer não, trazemo-los para bordo. O menino mimado não ficará a querer-nos mal, porque lhe deixamos o seu brinquedo. Além disso, se ele estiver de mau humor, levantaremos ferro sem as suas ordens e damos-lhe tempo para recuperar a razão e fazer justiça aos seus amigos.

- Esse projecto não me desagrada; que dizes tu, Derrick? - perguntou Hawkins.

- Jack Bunce tem sempre razão - disse Fletcher - Mas, de qualquer modo, o capitão queimará os miolos a alguns de nós.

- Cairemos sobre ele de surpresa - prosseguiu o inexorável Bunce - sem lhe darmos tempo de puxar do sabre nem das pistolas; e pela amizade que lhe tenho, prometo que serei o primeiro a estendê-lo de costas. Também lhes digo que há uma linda pinacinha que marcha na esteira da fragata a que o capitão dá caça e, se eu tiver ocasião, proponho-me confiscá-la em meu proveito. E assim - continuou Bunce - conservaremos o nosso capitão todo inteiro e teremos uma cena digna de figurar no desfecho de uma comédia. Vou, pois, dirigir-me a terra para combinar a entrevista; e vocês tratem de procurar alguns dos nossos homens que não estejam bêbados e a quem possamos confiar sem perigo as nossas intenções.

Bunce retirou-se com o seu amigo Fletcher, e os dois piratas veteranos ficaram a comentar o caso.

Posta a chalupa a navegar, entrou no lago sem acidente e Bunce desembarcou a algumas centenas de passos do velho castelo de Stennis.

Viu que tinham tomado à pressa algumas precauções para o defender. As janelas dos andares inferiores foram trancadas, excepto as aberturas destinadas ao serviço de mosquetes. Um canhão de marinha defendia a porta, guardada por duas sentinelas. Bunce pediu para entrar, o que lhe foi redondamente recusado, e aconselharam-no a ir tratar da sua vida, para que não lhe sucedesse alguma desgraça. Como ele insistisse para ver alguém da casa, assegurando que o assunto de que vinha tratar era de grave urgência, Claud Halcro apareceu enfim, e, com um azedume que não lhe era peculiar, o admirador do glorioso John censurou-lhe a loucura e teimosia.

- Você lembra-me - disse ele - aquelas borboletas idiotas que esvoaçam em volta da chama e que acabam por se queimar.

- E vocês - respondeu Bunce - lembram uma porção de zângãos sem ferrão, que o fumo de cinco ou seis granadas faria fugir deste cortiço, se nós quiséssemos.

- Siga o meu conselho - disse Halcro - e trate da sua vida, de contrário encontrará quem o defume por sua vez. Vá-se embora ou diga em duas palavras o que quer; pois não pode esperar ser recebido aqui senão a tiros de arcabuz. Já cá temos bastantes braços, e acaba de nos chegar da ilha de Hoy o jovem Mordaunt Mertoun, que o seu capitão quase assassinou.

- Ora, ora, tirou-lhe apenas um pouco de sangue mau. Mas eu trago o dinheiro para pagar as provisões.

- Guarde-o até que lho peçam. Há duas espécies de maus pagadores: os que pagam cedo demais e os que nunca pagam nada.

- Ao menos, permita-me que apresente os meus agradecimentos a quem os merece.

- Guarde-os também até que lhos peçam.

- E é este o bom acolhimento que eu recebo de um antigo conhecimento?

- Mas que quer que lhe faça, senhor Altamont? - replicou Halcro um pouco comovido - Mertoun tê-lo-ia recebido de outra maneira, afianço-lhe! Retire-se, pelo amor de Deus, senão terei que escrever na tragédia: Chegam os guardas e apoderam-se de Altamont.

- Não lhe darei esse trabalho - respondeu Bunce - Vou fazer a minha saída. Ah, um momento!... Já me esquecia de que trazia um bocado de papel para a mais velha das meninas, Minna, creio eu... Sim, Minna é o seu nome. São as despedidas do capitão Cleveland. Não vai recusar-se a entregar-lho...

 

- Ah, o pobre diabo!... Compreendo, compreendo: adeus, bela Armida,

 

No meio das balas, dos temporais, dos incêndios,

É menor o perigo perto dos teus belos olhos.

 

Mas, diga-me, este bilhete contém versos?

- Está cheio deles... Canção... soneto... elegia... Mas é preciso entregar-lho com precaução e em segredo.

- Sim? Ensinar-me a mim como se deve entregar um bilhete doce! A mim que fui membro do clube de Wit? A mim?... Entregá-lo-ei a Minna, em atenção ao nosso antigo conhecimento, senhor Altamont, e um pouco por deferência pelo seu capitão, que não me parece de todo tão demónio como a sua profissão exige. Não pode haver mal algum numa carta de despedida.

- Adeus, pois, meu velho camarada, adeus para sempre e para mais um dia - disse Bunce; e tomando a mão do poeta, apertou-lha com tanta gana que o deixou a sacudir o braço e a uivar como um cão sobre a pata do qual tivesse caído uma brasa.

Deixando o pirata regressar à embarcação, vamos nós ficar com a família de Magnus Troil, que se encontrava reunida no castelo de Stennis, onde se faziam guardas constantemente com o maior cuidado, para evitar qualquer surpresa.

Magnus Troil recebera Mordaunt Mertoun com muita bondade, quando o viu chegar em seu auxílio à frente de um pequeno grupo organizado por Norna, e do qual ela lhe dera o comando. Não fora difícil convencer o udaller de que as referências que lhe fizera o bufarinheiro não tinham fundamento algum, e que Snailsfoot, ao caluniar Mordaunt, não tinha outro objectivo senão de o desacreditar na opinião de Magnus e elevar Cleveland, de quem esperava tirar melhor partido. É verdade que essas referências tinham sido confirmadas pela boa lady Glowrowrum e pela fama, à qual apetecera apresentar Mordaunt Mertoun como tendo arrogantes pretensões às boas graças das duas amáveis irmãs de Burgh-Westra, e como hesitando, como um sultão, à qual lançar o seu lenço. Mas Magnus sabia que a fama não passava de uma mentirosa. Acolheu Mordaunt com simpatia, escutou com muita surpresa a narrativa que Norna lhe fez dos direitos que pretendia ter sobre o mancebo, e com não menor interesse a confidência que ela lhe fez da intenção em que estava de fazê-lo herdeiro dos bens consideráveis que o pai lhe deixara ao morrer. É mesmo provável que, embora nada respondendo a algumas palavras que ela proferira sobre uma união entre o seu herdeiro e a filha mais velha do magnate, pensasse que um tal processo de aliança merecia alguma atenção, tanto por causa do mérito pessoal do jovem, como porque essa união faria entrar na sua família a totalidade dos bens consideráveis partilhados entre seu pai e o de Norna. Em todo o caso, o udaller recebeu perfeitamente o seu jovem amigo, e, como Mordaunt era o mais jovem e o mais activo de todos os homens que se encontravam no castelo, Magnus e o dono da casa reuniram-se para o incumbir de comandar a guarda durante a noite seguinte, e de render as sentinelas às horas habituais.

 

                   E ASSIM ACABOU A «FAVORITA DA FORTUNA»

Muito antes de romper o dia, Mordaunt fizera render a guarda. Dormitava num cadeirão, com as armas junto dele, quando sentiu que lhe puxavam a manta em que se enrolara.

- Já nasceu o sol? - disse ele, despertando.

Viu os primeiros raios da aurora que começavam a iluminar o horizonte.

- Mordaunt... - disse uma voz, cujo tom lhe fez estremecer o coração.

Lançou um olhar à pessoa que acabava de pronunciar o seu nome e reconheceu Brenda, com tanto prazer como surpresa. Ia dirigir-lhe a palavra, mas um súbito terror paralisou-lhe a fala, ao ver as suas faces descoradas, os seus olhos molhados de lágrimas; numa palavra, ao notar nela todos os sinais de desgosto e de inquietação.

- Mordaunt - disse ela - é preciso que prestes um serviço a Minna, bem como a mim. Tens que nos proporcionar maneira de sair do castelo sem ruído, sem que ninguém o note, para irmos até aquelas pedras a que chamam o círculo de Stennis.

- Que significa essa fantasia, minha querida Brenda?

- perguntou Mordaunt, com o maior assombro - Não te esqueças, minha querida Brenda, de que eu sou um soldado em campanha e de que a obediência é o meu primeiro dever.

- Mordaunt, não é uma brincadeira. A razão de Minna, mesmo a sua vida, dependem do que te peço.

- Mas dize-me ao menos porque deseja ela sair do castelo.

- Por um motivo bem estranho, bem insensato talvez; para ter uma entrevista com Cleveland.

- Com Cleveland! - exclamou Mordaunt - Se esse celerado ousar vir a terra, será recebido com uma saraivada de balas. Se o vir a cem passos - acrescentou, agarrando a sua espingarda - eis como lhe pagarei os agradecimentos que lhe devo.

- A sua morte lançaria Minna no desespero e nunca Brenda concederia um olhar a quem quer que causasse o desespero de Minna.

- Mas é uma loucura, Brenda, uma loucura sem igual! pensa na nossa honra, no nosso dever.

- Não penso senão no perigo de Minna - respondeu Brenda, desfazendo-se em lágrimas - A sua última doença não foi nada em comparação com o estado em que ela se encontra neste momento. Tem na mão a sua carta, cujo ardor mais do que a tinta parece ter traçado os caracteres, e na qual lhe implora que lhe conceda uma entrevista para receber os seus últimos adeuses, se quer salvar um corpo perecível e uma alma imortal; afirma que ela nada tem a recear, mas que nenhum poder o conseguirá obrigar a afastar-se da nossa costa sem a ter visto. É preciso que nos deixes sair.

- Isso é impossível - replicou Mordaunt, num ar da maior perplexidade - Esse tratante pode fazer todas as juras que quiser, mas que outra garantia nos pode oferecer? Não posso permitir que Minna saia.

- Eu sei - disse Brenda em tom de censura e enxugando as lágrimas, a soluçar - que Norna disse qualquer coisa referente a ti e a Minna; e é com certeza o ciúme que te impede de permitir que esse desgraçado lhe fale, nem que seja por um momento, antes de partir.

- És injusta, Brenda - respondeu Mordaunt, melindrado e ao mesmo tempo lisonjeado com essa suspeita - ès tão injusta como insensata. Tu sabes, é impossível que não o saibas, que é como tua irmã que Minna me é particularmente querida. Dize-me, Brenda, mas dize-me com toda a verdade, se eu te ajudar na realização dessa loucura, julgas poder contar absolutamente com a boa-fé do pirata?

- Julgo. Se não o julgasse, pensas que te faria semelhante pedido? É culpado, é infeliz, mas julgo que podemos fiar-nos na sua palavra.

- E a entrevista deve realizar-se no círculo de Stennis, ao nascer do sol?

- Sim, é chegado o momento. Pelo amor de Deus, deixa-nos partir.

- Vou eu próprio tomar, por alguns instantes, o lugar da sentinela que está de guarda à porta, e deixá-las-ei passar. Mas não prolonguem essa entrevista tão cheia de perigos.

- Não. Mas, por tua vez, não te aproveites da imprudência que comete esse infeliz em se aventurar até aqui, para o prejudicar, ou para o prender.

- Conta com a minha honra, Brenda. Ele não correrá nenhum risco, se vocês não correrem nenhum.

- Vou então buscar minha irmã - disse Brenda. E saiu logo.

Mordaunt, após um instante de reflexão, foi ter com a sentinela que guardava a porta do castelo e ordenou-lhe que fosse acordar todos os seus camaradas e que se armassem depressa, e que viesse depois avisá-lo quando eles estivessem prontos.

Durante a ausência da sentinela, a porta abriu-se com precaução e Mordaunt viu aparecer Minna e Brenda, envoltas nas suas capas. A primeira apoiava-se ao braço de sua irmã e tinha a cabeça baixa, como se tivesse vergonha do passo que estava dando. Brenda passou em silêncio junto do seu amado, mas lançou-lhe um olhar de afeição e de agradecimento que duplicou nele, se era possível, o desejo que tinha de as manter ao abrigo de todo o perigo.

Logo que as duas irmãs perderam de vista o castelo, Minna ergueu a cabeça e marchou num passo tão seguro e tão precipitado que Brenda, que mal a podia acompanhar, não pôde deixar de a advertir de que fazia mal em esgotar assim as suas forças numa pressa que não era necessária.

- Nada receies, minha querida irmã - respondeu Minna - A força interior de que estou animada sustentar-me-á, assim o espero, durante esta temível entrevista. Eu não podia marchar de cabeça baixa, e a lentidão da minha marcha denunciavam a depressão do meu espírito, enquanto estava exposta aos olhares de um homem que deve necessàriamente julgar-me digna da sua piedade e do seu desprezo. Mas tu sabes, minha querida Brenda, e Cleveland sabê-lo-á também, que a ternura que tinha por esse infeliz era tão pura como os raios de sol que vês reflectidos na superfície deste lago. E ouso tomar por testemunhas este astro glorioso e este firmamento onde brilha, que, se não experimentasse o ardente desejo de o decidir a mudar de vida, todas as tentações que o Mundo me pudesse oferecer não me convenceriam a tornar a vê-Lo.

Enquanto ia falando assim, num tom que inspirava confiança a Brenda, as duas irmãs atingiam o cimo da pequena eminência, de onde se avistava o Stonehenje das Òrcades, isto é, o círculo de pedras às quais o sol nascente dava um colorido branco cinzento, e que projectava até bem longe, a oeste, a sua sombra gigantesca. Elas viam, na parte do lago que fica para além do que se chama a ponte de Broisgar, um barco cheio de homens armados que se aproximava da margem. Um homem só, envolto numa grande capa, saltou para terra e começou a encaminhar-se para aquele monumento circular, do qual as duas irmãs se aproximavam vindo do lado oposto.

- São tantos e armados - observou Brenda, numa voz quase sufocada pelo medo.

- É uma precaução. Ai, a sua situação torna-lha bem necessária. Não receies traição da sua parte; esse defeito, pelo menos, não pertence ao seu carácter.

Assim falando, chegaram, ao cabo de alguns instantes, ao centro do círculo, onde, no meio das enormes pedras informes agrupadas em redor, se encontra uma pedra plana, outrora apoiada em dois pilares, de que se viam alguns restos e que servira talvez de altar.

- Era aqui - disse Minna - que nos tempos antigos os nossos antepassados ofereciam sacrifícios às divindades do paganismo; e é aqui que eu abjurarei das vãs ideias que as seduções da mocidade e uma imaginação demasiado romanesca me fizeram conceber, que renunciei para oferecê-las em sacrifício a um deus mais poderoso e mais misericordioso que os antigos não conheciam.

De pé junto desta pedra, viu Cleveland avançar para ela. Não mostrava o aprumo e o aspecto habituais. O passo tímido e os olhos baixos tornavam-no tão diferente dele próprio como a cabeça erguida, o ar calmo e a atitude cheia de dignidade de Minna diferiam do andar incerto e da aparência abatida e humilhada que se lhe notara quando ela, ao sair do castelo de Stennis, tivera necessidade de amparar-se ao braço de sua irmã. Brenda, cheia de medo e de inquietação, observava com cuidado os movimentos de Cleveland, e nada mais podia distrair a sua atenção, unicamente fixa nele e em sua irmã.

Cleveland deteve-se a cerca de três passos de Minna e saudou-a, inclinando profundamente a cabeça. Houve alguns instantes de silêncio.

- Homem desditoso - disse Minna, por fim - por que desejaste este acréscimo das nossas penas? Deixa este país em paz, e possa o céu conduzir-te a melhor caminho do que este que tens percorrido até agora!

- O céu só me ajudará pela sua voz - respondeu Cleveland - Eu estava mergulhado nas trevas quando cheguei a estas terras. Supunha que a minha profissão, a minha odiosa profissão era apenas um pouco mais criminosa aos olhos de Deus e dos homens que a dos armadores que as vossas leis autorizam. Fora assim educado, e, sem a vontade que Minna me encorajou, eu morreria talvez na impenitência. Não me repila para longe de si, deixe-me realizar alguma coisa que possa fazer esquecer o meu passado, e não deixe a sua obra incompleta.

- Não o censuro, Cleveland, de ter abusado da minha inexperiência, de me ter cercado dessas ilusões às quais me expunha a credulidade da minha juventude, e que me levaram a confundir a sua fatídica carreira com a vida gloriosa dos nossos heróis antigos. Ai, mas desde que vi os seus companheiros, essas ilusões desvaneceram-se! Mas não o acuso do crime das suas existências. Retire-se, Cleveland; separe-se desses miseráveis a quem se associou, e, creia-me, se o Céu lhe concede a graça de o distinguir por uma acção virtuosa ou gloriosa, haverá nestas ilhas solitárias dois olhos que chorarão de alegria, como choram de tristeza neste momento.

- E é tudo? - perguntou Cleveland - Não posso esperar que, se me apartar dos meus actuais companheiros, se merecer o meu perdão mostrando tanto ardor pela justa causa, como até agora mostrei pela má, não posso esperar que Minna me perdoe o que Deus e o meu país me tenham perdoado?

- Não, Cleveland - respondeu Minna com a maior firmeza - Aqui nos separamos, e para sempre, sem guardar nenhuma esperança. Pense em mim como se eu estivesse morta, se continuar a ser o que é; mas, se mudar o seu procedimento, pense como num ente cujas orações se erguem, de manhã à noite, para o céu, a pedir a sua felicidade, embora a minha esteja perdida para sempre. Adeus, Cleveland.

Ele ajoelhou, acabrunhado pelas mais dolorosas comoções, e avançou o braço para tomar a mão que ela lhe oferecia.

Nesse momento, o seu amigo Bunce lançou-se detrás das pedras que formavam o círculo de Stennis e, antes que Cleveland pudesse opor resistência, ou dirigir-lhe quaisquer reprimendas, e sem lhe dar tempo a levantar-se, precipitou-se sobre ele e derrubou-o de costas, e alguns homens da tripulação, surgindo nesse momento, agarraram-no pelos braços e pelas pernas e levaram-no para os lados do lago. Minna e Brenda soltaram grandes gritos e tentaram fugir; mas Derrick levantou a primeira com tanta facilidade como o falcão agarra a pomba, enquanto Bunce se apoderava de Brenda, dirigindo-lhe qualquer praga em forma de consolação, e todo o grupo correu precipitadamente para o barco, que deixaram à guarda de dois companheiros. Mas a fuga foi interrompida de uma maneira tão inesperada como fatal para os seus projectos criminosos.

Quando Mordaunt mandou armar a guarda do castelo, supõe-se que era sua intenção prover à segurança das duas irmãs. Saindo à frente da sua tropa, ele vigiara com atenção todos os movimentos dos piratas; e quando os viu quase todos deixar o barco e encaminhar-se para o lugar da entrevista, suspeitou naturalmente de uma traição; e, aproveitando uma vala, ou, para melhor dizer, uma antiga trincheira, que talvez outrora tivesse tido ligação com o círculo de Stennis, colocou-se com os seus homens entre o barco e os piratas, sem que estes o pudessem perceber. Ao primeiro grito das duas irmãs, saíram e correram para os facínoras, apanhando-os de frente, mas sem se atrever a fazer fogo, receando ferir as cativas entre os braços dos seus captores.

Mordaunt correu com a ligeireza de uma gazela para Bunce, que, não querendo largar a sua presa e não podendo defender-se de outra forma, opunha Brenda como escudo a todos os golpes com que o adversário o ameaçava. Este género de defesa não podia surtir efeito por muito tempo contra um mancebo que tinha o pé ligeiro e o braço mais enérgico que jamais se viu nas ilhas Setland; após uma ou duas fintas, Mordaunt derrubou o pirata com uma coronhada. Aqueles que não tinham tanto a recear, dispararam alguns tiros, e os piratas que levavam Cleveland largaram-no para tentar a sua própria defesa ou para fugir; mas apenas o juntaram ao número dos seus inimigos. Cleveland, vendo Minna levada por Derrick, com uma mão arrancou-lha dos braços e com a outra disparou-lhe um tiro de pistola que lhe fez saltar os miolos. Alguns piratas foram mortos ou feitos prisioneiros; os outros fugiram para o barco e, tomando os remos, afastaram-se para o largo, de onde ainda atiraram contra os companheiros de Mordaunt alguns tiros de espingarda que não lhes fizeram mal algum.

Entretanto, este, vendo as duas irmãs livres e a fugir para o castelo, avançou para Cleveland, de sabre em punho. O pirata mostrou-lhe uma pistola e disse:

- Mordaunt, nunca falhei um tiro.

Disparou-a para o ar e em seguida arremessou-a ao lago. Puxando depois do sabre e fazendo-o voltejar uma ou duas vezes por cima da cabeça, fê-lo seguir o mesmo caminho da pistola. No entanto, era tal a fama da força e dos recursos do capitão Cleveland que Mordaunt julgou dever tomar ainda algumas precauções ao aproximar-se dele, e perguntou-lhe se ele se rendia.

- Não me rendo a ninguém - respondeu o capitão pirata - Mas, como viu, deitei fora as minhas armas.

Alguns guardas apoderaram-se dele, sem que oferecesse resistência, e Mordaunt proibiu que o maltratassem ou o manietassem. Os vencedores conduziram-no ao castelo e encerraram-no num quarto no andar mais alto, com uma sentinela à porta. Bunce, e Fletcher, que se tinham levantado do campo da luta após a escaramuça, foram alojados no mesmo quarto; e dois piratas também prisioneiros, que pareciam de uma categoria subalterna, foram metidos num subterrâneo abobadado.

Sem querer descrever os transportes de alegria a que se entregou Magnus Troil, quando, ao despertar ao barulho da fuzilaria, viu suas filhas em segurança e soube que o inimigo estava prisioneiro, diremos apenas que foram de tal ordem que ele se esqueceu por algum tempo de perguntar porque circunstâncias elas se encontravam em perigo. Apertou Mordaunt mil vezes nos seus braços, chamou-lhe seu salvador e jurou pelas relíquias do seu santo patrono que, nem que tivesse mil filhas, um rapaz tão valente, um amigo tão fiel, teria o direito de escolher entre elas, a despeito do que lady Glowrowrum pudesse dizer.

Uma cena completamente diferente se passava no quarto que servia de prisão ao capitão e aos seus dois companheiros. O desgraçado Cleveland estava sentado junto da janela, olhos fixos no mar, que parecia absorver a sua atenção até ao ponto de se esquecer de que não era o único cativo no compartimento. Jack Bunce tentava recordar-se de alguns versos que pudessem servir de prelúdio à sua reconciliação com o amigo, pois começava a sentir que o papel que representara, embora inspirado na sua dedicação ao camarada, não terminara com felicidade e não obteria provavelmente a sua aprovação. O seu admirador, o seu fiel partidário Fletcher, deitara-se numa cama e parecia dormir, pois não tentou uma única vez intervir na conversa que não tardou em entabolar-se.

- Vamos, Cleveland, fala-me, peço-te - disse o lugar-tenente, contrito - Quanto mais não seja para praguejar contra a minha estupidez.

- Peço-te que te cales e que me deixes. Resta-me ainda um amigo verdadeiro e tu dás-me a tentação de me servir dele contra ti ou contra mim próprio.

- Encontrei! Encontrei! - exclamou Bunce.

E continuou como Jaffier (1):

 

Nota 1: Veneza salva, de Otway.

 

Pelo inferno que me espera, não te deixarei, Apesar do teu azedume e do teu humor feroz,

Senão quando o perdão sair dos teus lábios.

 

- Peço-te mais uma vez que te cales! - exclamou Cleveland - Não basta teres-me perdido com a tua traição, ainda tenho que aborrecer-me com as tuas palavras? Entre todos os homens e todos os diabos que compunham a tripulação deste navio, nunca esperei que fosses tu, Jack, o primeiro a levantar um dedo sequer contra mim!

- Eu levantar um dedo contra ti! - respondeu Bunce - Tudo o que fiz não foi senão por amizade por ti, para te tornar o mortal mais feliz que jamais pisou um convés, com a amada a teu lado e cinquenta bravos às tuas ordens. Aí está Dick Fletcher que pode testemunhar em como fiz tudo pelo melhor; se ele quisesse falar em vez de estar para ali estendido como um cepo... Levanta-te lá, Dick, e faz-me justiça.

- Decerto, Jack Bunce, decerto - respondeu Fletcher em voz débil, soerguendo-se a custo - Faço-a, se for capaz. Eu sei que sempre tens falado e procedido pelo melhor; mas, em todo o caso, vês? a coisa correu mal para mim desta vez, porque perco todo o meu sangue e creio que vou para o fundo.

- Não és suficientemente asno para isso! - exclamou Bunce, correndo para ele, assim como Cleveland, para ver se seria possível aliviá-lo. Mas todos os socorros humanos eram inúteis; Fletcher deixou-se recair no leito e expirou no mesmo instante sem soltar um gemido.

- Encarei-o sempre como um perfeito imbecil - disse Bunce, enxugando uma lágrima que se lhe desprendia dos olhos - mas não o supunha tão parvo que voasse assim do seu poleiro. Perdi o homem mais dedicado.

Tornou a levar a mão aos olhos.

- Um verdadeiro bull-dog inglês! - disse Cleveland, de olhos fixos no defunto, cuja morte não lhe alterara as feições - Com um melhor conselheiro, podia ter tido um melhor fim.

- Poderias dizer-lhe outras tantas coisas, capitão, se te apetecesse fazer-lhe justiça.

- Tens razão, Jack; podia dizê-las também de ti.

- Pois bem, dize-me então: Jack, perdoo-te. A frase não é muito comprida e depressa se pronuncia.

- Perdoo-te de todo o meu coração, Jack - disse Cleveland, que se aproximara da janela - Perdoo-te com tanta melhor vontade quanto é certo que na manhã em que nos devíamos perder já tudo se consumou.

- Quê! Pensas na predição da velha de que me falaste?

- Não tardará a cumprir-se. Anda cá. Que te parece aquele grande navio que vês dobrar o promontório do lado leste e que se prepara para entrar na baía de Stromness?

- Não te sei dizer... Mas olha o velho Goffe... Toma-o decerto por uma embarcação da Companhia das Índias carregada de rum e de açúcar, porque, raios me fulminem, lá vai ele levantar ferro para correr ao seu encontro.

- Em lugar de se atirar para as águas baixas, que era a última salvação! - exclamou Cleveland - Imbecil! Idiota! Bêbado!... Que esteja descansado, já lhe vão dar de beber bastante quente... É a Alcyon. Olha, arvora o pavilhão e larga uma bordada... Adeus, Favorita da Fortuna! Só espero que a defendam até a última prancha. O mestre da tripulação costumava mostrar bravura, e Goffe também, apesar de ser o diabo em pessoa... Ah! A Favorita faz fogo e afasta-se a todo o pano! Isto mostra bom-senso.

- Ah! - exclamou Bunce - Ei-lo que arvora o Jolly-Roger, o velho pavilhão negro com a caveira e o relógio de areia! Aquilo mostra decisão!

- A nossa areia escoa-se a toda a pressa, Jack - replicou Cleveland - Isto acaba mal... Fogo, meus bravos, fogo! Ou o mar ou os ares. Vale mais isso do que a ponta da corda... A corveta, embora perseguida de perto, continuava a atirar bordadas, fugindo, e a fragata dava-lhe sempre caça, quase sem responder ao seu fogo. Por fim, os dois navios estavam tão perto um do outro que não era difícil depreender, das manobras da Alcyon, que tinha a intenção de abordar a Favorita e não de a meter no fundo.

- Vamos, Goffe! Anda, Hawkins! - gritou o capitão, como se eles pudessem ouvir as suas ordens - Atenção à manobra! Uma bordada de barragem enquanto lhe estão pela proa. Depois, vira de bordo e parte como um pato bravo... Ah! As velas pendem e o leme está de lado... Que o mar engula estes marinheiros de água doce! Não trataram de virar, e já a fragata os aborda!

As diferentes manobras que o ataque e a defesa tornaram necessárias tinham aproximado os navios de tal forma que Cleveland, com o seu óculo, pôde ver a tripulação da Alcyon, terrível pela força do número, lançar-se à abordagem de espada em punho. Nesse momento crítico, uma espessa nuvem de fumo levantou-se, de súbito, de bordo no navio corsário e envolveu as duas embarcações.

- Exeunt omnes! (1) - exclamou Bunce, juntando as mãos.

 

Nota 1: Saída geral, palavras latinas que se usavam para indicar as mudanças de cenário em teatro.

 

- Assim acaba a Favorita e a sua tripulação - disse Cleveland ao mesmo tempo.

Mas quando o fumo se dissipou, viu-se que os dois navios apenas tinham sofrido estragos parciais. Devido à quantidade insuficiente de pólvora, os piratas falharam no seu desesperado plano de fazer explodir ao mesmo tempo o seu navio e a fragata.

Pouco depois de terminada a batalha, o capitão Weatherport, que comandava a Alcyon, enviou ao castelo de Stennis um oficial com um destacamento de fuzileiros navais, pedir que lhe entregassem os piratas que ali estavam detidos, nomeadamente Cleveland e Bunce, que eram o capitão e o lugar-tenente.

Era um pedido a que não se podia deixar de aceder, embora Magnus Troil desejasse que o tecto sob o qual ele se encontrava pudesse servir de asilo a Cleveland, pelo menos. Mas as ordens do oficial eram precisas, a intenção do capitão Weatherport era enviar os seus prisioneiros por terra a Kirkwall, debaixo de escolta, para aí se sujeitarem a um interrogatório prévio perante as autoridades civis, antes da sua partida para Londres, onde seriam julgados pelo supremo tribunal do Almirantado. Magnus, então, limitou-se a falar ao oficial em favor de Cleveland, para que este fosse tratado com deferência, e que não fosse nem maltratado nem despojado, o que o oficial, impressionado pelo aspecto nobre do capitão pirata e condoído da situação em que o via, concedeu sem dificuldade. O honesto udaller bem desejaria ainda dirigir a Cleveland algumas palavras de consolo, mas não foi capaz de encontrar expressões adequadas, e limitou-se a menear tristemente a cabeça.

- Meu velho amigo - disse-lhe Cleveland - o senhor teria todo o direito de se queixar de mim, e, bem longe de se regozijar da minha desgraça, tem compaixão de mim! Por gratidão para consigo e para com os seus, nunca mais a minha mão se armará contra ninguém. Aceite isto, era a minha última esperança, a minha última tentação - Dizendo isto, tirou do seio uma pistola de bolso e entregou-a a Magnus - Lembre-se de mim - ajuntou ele - Recorde-se... Mas não, não, que toda a gente me esqueça! Senhor - disse ele ao oficial - sou seu prisioneiro.

- E eu também - acudiu Bunce.

E, tomando uma atitude teatral, começou a recitar em voz bastante segura a tirada de Pedro (1):

 

Nota 1: Veneza salva, de Otway.

 

Deveis ser, capitão, um homem de honra,

Afastai, pois, de mim a canalha furiosa;

Abri-me passagem e, por toda a indulgência,

Que eu possa, ao menos, morrer com decência.

 

                   A TERRÍVEL VERDADE DE MERTOUN

A notícia do apresamento do navio pirata chegou a Kirkwall pelas onze horas da manhã e encheu toda a gente de surpresa e de alegria. Nesse dia, pouco negócio se fez na feira, pois todos a abandonaram para correr ao encontro dos prisioneiros que iam entrar na cidade. Lembravam-se dos abusos que eles antes cometeram nas ruas de Kirkwall, onde quase procederam como numa cidade tomada de assalto. Viam marchar à frente um destacamento de soldados de marinha, cujas baionetas resplandeciam ao sol. A seguir vinham os desgraçados prisioneiros, acorrentados aos pares. Os seus belos fatos, rasgados em parte pelos seus captores, não apresentavam senão farrapos. Uns estavam feridos e cobertos de sangue; outros enegrecidos e queimados pela explosão que se dera quando os mais resolutos quiseram destruir o navio. Alguns pareciam entregues a reflexões sobre a sua situação, mas a maior parte mostrava-se de uma sombria impassibilidade; um pequeno número de entre eles defrontava a sua desgraça, entoando canções ímpias e ordinárias que já tinham feito ecoar nas ruas de Kirkwall, quando as percorriam nos seus deboches.

Hawkins e Goffe, acorrentados um ao outro, não cessavam de trocar ameaças e imprecações, acusando-se mutuamente do malogro das manobras.

Cleveland e Bunce fechavam a marcha; tinham-lhes poupado a humilhação dos ferros. O ar calmo, embora triste, do capitão contrastava com a marcha teatral e estudada do pobre Jack, que assim se esforçava por ocultar as suas involuntárias comoções de uma espécie pouco nobre. Olhava-se para Cleveland com compaixão, para Bunce com um misto de desprezo e piedade, ao passo que a maioria dos outros inspirava horror e mesmo ainda o receio dos seus olhares e das suas palavras.

Existia em Kirkwall um homem que, bem longe de acorrer precipitadamente a desfrutar o espectáculo que atraía todos os olhares, nem sequer ouvira falar do acontecimento que agitava toda a cidade. Era o velho Mertoun, que se encontrava em Kirkwall havia dois ou três dias, ocupados por ele em grande parte em tratar de uma queixa judicial apresentada contra Bryce Snailsfoot. Após um inquérito, o digno bufarinheiro fora condenado a devolver a Mertoun a caixa de Cleveland com os papéis e outros valores que continha, para ficarem à sua guarda até que os pudesse entregar ao legítimo proprietário. Mertoun quisera, primeiro, deixar à justiça o cuidado do depósito que ela estava disposta a confiar-lhe; mas, depois de ter passado uma vista pelos papéis que dele faziam parte, mudou bruscamente de opinião, acedeu em guardar a caixa, voltou para casa a toda a pressa e encerrou-se num quarto para reflectir à vontade sobre os estranhos pormenores que acabava de conhecer, e que aumentaram a sua impaciência por ter uma entrevista com a misteriosa Norna.

Como se sabe, no encontro que ambos tinham tido no cemitério de São Ringan, ela recomendara-lhe que fosse à ala esquerda da catedral de São Magnus em Kirkwall, à hora do meio-dia, no quinto dia da feira de Santo Olavo, assegurando-lhe que aí encontraria alguém que lhe daria notícias de Mordaunt.

Entretanto, muito tempo antes do meio-dia, muito tempo antes da cidade de Kirkwall ser agitada pela notícia dos acontecimentos do outro lado da ilha, já Mertoun passeava na ala solitária da catedral, esperando com a maior impaciência a realização das promessas de Norna. O sino deu meio-dia; mas a porta da igreja não se abriu, ninguém entrou no misterioso recinto. Contudo, ainda ecoavam sob as abóbadas os últimos sons do sino, quando Norna, vindo do fundo do vasto edifício, surgiu ante os seus olhos. Mertoun, sem procurar penetrar o mistério que já não o é Para os nossos leitores, correu imediatamente para ela, exclamando:

- Ulla, Ulla Troil, ajuda-me a salvar o nosso desgraçado filho!

- Eu não uso esse nome - respondeu Norna - Abandonei-o aos ventos da noite que me custou um pai.

- Não falemos dessa noite de horror; precisamos de todo o nosso senso: não despertemos recordações que no-lo podiam fazer perder. Ajuda-me, se podes, a salvar o nosso desditoso filho.

- Já está salvo, Vaughan, há muito que está salvo. Julgas que a mão de uma mãe, uma mãe como eu, esperou pelo teu socorro tardio e fraco? Não, Vaughan, não me dei a conhecer, senão para te mostrar o meu triunfo sobre ti. Foi a única vingança que a poderosa Norna se permitiu tirar das injúrias feitas a Ulla Troil.

- Salvaste-o, realmente? Já não está com aquela quadrilha de assassinos? Fala, diz-me a verdade. Podes ao menos provar-me que lhes fugiu, que está em segurança?

- Escapou-lhes, está em segurança, graças a mim. Sim, está em segurança, e tem como certo um feliz e respeitável casamento. Sim, homem de pouca fé, sim, infiel, que só depositas confiança em ti próprio, estas foram as obras de Norna. Há muitos anos que te reconheci, mas não quis que me conhecesses senão já triunfante da certeza de que dominava o destino que ameaçava o meu filho. Tudo se conjugava contra ele; uns planetas anunciavam-lhe a morte no seio das águas, outros cobriam-se de sangue... Mas a minha ciência venceu. Combati e destruí a sua influência. Encontrei, criei meio de contrariar todos os astros.

O ar de entusiasmo e de triunfo com que ela se exprimia parecia-se tanto com o desvairamento de espírito que Mertoun respondeu-lhe:

- Se as tuas pretensões fossem mais modestas, se as tuas palavras fossem um pouco mais claras, ficaria mais convencido de que meu filho estava em segurança.

- Então, continua a duvidar, céptico! - replicou Norna - E, entretanto, fica sabendo que não só o meu filho está salvo, mas que também vou ser vingada sem o ter desejado, sim, vingada do poderoso agente das obscuras influências que tantas vezes contrariaram os meus planos: daquele que muitas vezes pôs em perigo os dias de meu filho. Sim, e para confirmação da verdade das minhas palavras, fica sabendo que Cleveland, o pirata Cleveland, entra neste momento em Kirkwall, prisioneiro, e que há-de expiar com a vida o crime de ter derramado algumas gotas de um sangue que nasceu no seio de Norna.

- Quem dizes tu que está prisioneiro? - exclamou Mertoun numa voz de trovão - Quem é esse que deve expiar os seus crimes com a sua vida?

- Cleveland, o pirata Cleveland - respondeu Norna - Fui eu, eu, de quem ele desprezou os conselhos, quem permitiu que o seu destino se consumasse.

- Pois és a mais miserável das mulheres! - exclamou Mertoun, rangendo os dentes - Causaste a morte de teu filho, como causaste a de teu pai!

- De meu filho?... Qual filho?... Que queres dizer? - interrogou Norna - Mordaunt é teu filho, teu filho único. Não o será?... Responde-me, depressa. Não o será?

- Sim - respondeu Mertoun - Mordaunt é meu filho; pelo menos a lei dá-lhe esse direito... Mas, desgraçada Ulla, Cleveland é teu filho e meu... O sangue do nosso sangue, a carne da nossa carne; e se o entregaste à morte, acabarei com ele a minha existência miserável.

- Escuta-me, Vaughan, escuta-me. Ainda não estou vencida. Prova-me a verdade do que me dizes, e eu descobrirei socorros, nem que tenha de evocar os infernos!

- Tu, socorrê-lo!... Mísera mulher! Para que serviram as tuas maquinações, os teus estratagemas, a tua charlatanice e a tua demência? Escuta-me, pois, Ulla; vais ter as provas que me pedes; procura depois o socorro, se o puderes - Após um instante de silêncio, Mertoun continuou - Quando fugi das ilhas Órcades, há vinte e cinco anos, levei comigo o desditoso filho que tu deste à luz. Uma das tuas parentas tinha-mo enviado, informando-me de que estavas muito mal, e em breve o boato da tua morte se espalhou por toda a parte. Refugiei-me em São Domingos. Uma jovem e linda espanhola tomou a peito confortar-me; desposei-a e ela tornou-se mãe do mancebo que usa o nome de Mordaunt Mertoun.

- Desposaste-a? - disse Norna, num tom de censura.

- Desposei-a, Ulla; mas ela teve o cuidado de te vingar. Foi-me infiel, e a sua infidelidade deixou-me dúvidas sobre a legitimidade de Mordaunt. Também fui vingado.

- Fizeste-a perecer? - disse Norna, num grito de horror.

- Fiz o que me obrigou a deixar São Domingos à pressa - disse Mertoun, sem responder directamente à pergunta - Levei comigo o nosso filho para a ilha Tartaruga, onde eu tinha uma pequena casa; coloquei, em Port Royal, Mordaunt, que tinha três ou quatro anos menos que Clement, resolvido a prover a todas as suas necessidades, mas a não o tornar a ver. Tinha Clement quinze anos quando a nossa casa foi saqueada pelos espanhóis. A necessidade veio em auxílio do desespero e de uma consciência carregada de remorsos. Tornei-me pirata e eduquei Clement nessa detestável profissão. Apesar da sua pouca idade, a sua bravura e os conhecimentos, que não tardou em adquirir, deram-lhe em breve o comando de um navio. Dois ou três anos passaram; e enquanto o meu filho e eu cruzávamos mares diferentes, a minha tripulação revoltou-se contra mim e deixou-me como morto na costa de uma das ilhas Bermudas. Contudo, voltei à vida, e, após uma longa doença, o meu primeiro cuidado foi procurar notícias de Clement. Soube que a sua tripulação se tinha igualmente revoltado contra ele; que o tinham abandonado numa pequena ilha deserta e estéril, e concluí que ele teria perecido de fome e de miséria.

«Foi então que o remorso se apoderou de mim e que, tomando horror a tudo, principalmente ao sexo a que Luísa pertencia, resolvi fazer penitência pelo resto dos meus dias num deserto das ilhas Setland. Podia ter-me submetido ao jejum e às mortificações corporais, tal era o conselho dos santos padres católicos que consultei, mas encontrei uma penitência mais severa e mais nobre: trouxe comigo o jovem e desditoso Mordaunt, para ter sempre perante os olhos uma recordação viva da minha desgraça e do meu crime. Executei esse plano, e executei-o tão bem que por mais de uma vez a minha razão tem estado prestes a faltar-me. Agora, para me levar ao excesso da demência, eis que Clement, esse Clement a quem posso chamar meu filho, regressa à vida para sofrer morte infamante, devido às manobras da sua própria mãe!

- Ah! Ah! Ah! - riu Norna sinistramente, quando ele se calou - A história é excelente! Foi admiravelmente imaginada pelo velho pirata que quer convencer-me a socorrer com o meu poder o companheiro dos seus crimes. Como posso admitir Mordaunt como teu filho, se existir uma diferença de idade tal como pretendes?

- A sua tez morena, a sua desenvolta estatura podem ter contribuído para te criar a ilusão. A imaginação terá feito o resto.

- Mas apresenta-me provas seguras de que Clement é meu filho, e o Sol desaparecerá no Oriente antes de que possam arrancar-lhe um cabelo da cabeça.

- Estes papéis, estes jornais... - disse Mertoun, entregando-lhe uma carteira.

- Não consigo ler - disse ela, depois de algumas tentativas infrutíferas - A minha vista está perturbada.

- Clement poderia ainda apresentar-te outras provas; mas os que o aprisionaram decerto se apoderaram delas. Entre outras coisas, ele tinha uma caixa de prata com inscrições em caracteres rúnicos, com que tu me presentearas em tempos mais felizes.

- Uma caixa de prata! - exclamou Norna - Cleveland deu-ma, ainda não há vinte e quatro horas. Ainda nem a observei.

Tirou-a do bolso, examinou-a, leu a inscrição gravada na tampa e exclamou:

- Agora é que me podem chamar a Reimkennar (1), porque sei por estes versos que sou a assassina de meu filho como o fui de meu pai.

 

Nota 1: Pessoa iniciada na ciência dos versos rúnicos por meio dos quais, segundo os norses, se operavam encantações.

 

A certeza de que criara as suas próprias ilusões afligiu-a de tal maneira que caiu sem sentidos junto dos pilares. Mertoun chamou por socorro, sem esperança de obtê-lo. No entanto, o velho sacristão acudiu aos seus gritos. E o desgraçado pai, como nada pudesse fazer em alívio de Norna, saiu à pressa da igreja para se ir informar de seu filho.

 

                     O FUTURO PERTENCE A DEUS

O capitão Weatherport foi pessoalmente a Kirkwall, onde os magistrados reunidos o receberam com alegria e gratidão. O preboste disse-lhe, em conversa, que dava graças à Providência por ter trazido a Alcyon no momento em que o navio pirata se podia escapar. O capitão olhou-o num ar de surpresa.

- O senhor deve dar graças ao aviso que me mandou - disse ele.

- Que lhe mandei?! - estranhou o preboste.

- Sim, senhor. Não é a eorg Torfe, primeiro magistrado de Kirkwall, que estou falando? Não foi o senhor que me mandou esta carta?

O preboste, cada vez mais surpreendido, pegou na carta dirigida ao capitão Weatherport, comandante da Alcyon, a qual lhe denunciava o aparecimento de piratas na costa, a sua força, etc.. Mas informava-se ainda, nessa carta, que eles sabiam que a Alcyon cruzava aquelas paragens e que tinham a intenção de evitar a sua perseguição retirando para as águas baixas dos estreitos que separavam as ilhas; que, em último extremo, estavam resolvidos a fazer soçobrar a corveta incendiando a pólvora, o que faria perder ricos despojos. Dizia-se depois que a Alcyon faria bem em cruzar durante dois ou três dias entre o promontório de Duncansbay e o cabo Wrath para dissipar os alarmes que a sua vizinhança produzia nos piratas e inspirar-lhes segurança, tanto mais que o autor da carta tinha a certeza de que a intenção deles, caso a fragata deixasse a costa, era entrar na baía Stromness e desembarcar os canhões, a fim de fazerem algumas reparações no navio. A carta acabava por assegurar ao capitão Weatherport que, se a Alcyon surgisse na baía de Stromness na manhã de 24 de Agosto, teria boa colheita de piratas; mas que, se lhes aparecesse mais cedo, era provável que eles se escapassem.

- A letra desta carta não é minha, capitão - disse o preboste - e esta assinatura também não é a minha. Nem eu mesmo me aventuraria a aconselhar que demorasse tanto tempo a vir a estas paragens.

O capitão Weatherport ficou surpreendido, por seu turno.

- Tudo o que sei - disse ele - é que a recebi na baía de Thurso e que dei cinco xelins à tripulação do barco que ma levou, porque atravessou o braço de mar de Pentland com um forte temporal. O patrão desse barco era um anão mudo, a mais hedionda criatura que tenho visto. Admirei-me da exactidão das informações que me proporcionou, senhor preboste.

- Foi uma felicidade que tudo se passasse assim - disse o preboste.

Passou a carta a Magnus Troil, que lha devolveu sorrindo, mas sem fazer qualquer observação, supondo decerto, como os nossos leitores, que Norna tinha boas razões para conhecer de uma maneira tão precisa o instante em que a fragata devia chegar.

Sem se preocupar muito em procurar explicação para o que parecia inexplicável, o capitão Weatherport quis que se procedesse ao interrogatório dos piratas. Trouxeram primeiro Cleveland e Altamont, nome que Bunce adoptara, como acusados de terem exercido as funções de capitão e lugar-tenente. Mal se começara a interrogá-los, quando, após alguma discussão com os guardas da porta, Basil Mertoun se precipitou na sala.

- Trago-lhes uma vítima! - exclamou ele - Disponham da minha vida e poupem a do meu filho. Sou Basil Vaughan; este nome era bem conhecido nos mares das Antilhas.

A surpresa foi geral, mas ninguém a teve maior do que Magnus Troil. Ele apressou-se a explicar aos magistrados e ao capitão Weatherport que o homem que acabava de se acusar vivia há bastantes anos na ilha principal das Setland e sempre se portara de uma maneira pacífica e impecável.

- Nesse caso, não há nada a temer - disse Weatherport - porque já houve entretanto duas proclamações de amnistia para todos os que renunciaram a essa profissão. E, pela minha salvação, ao vê-los abraçar-se assim, tão ternamente, desejaria dizer outro tanto do filho.

- Mas, como pode ser isso? - perguntou o preboste - Sempre conhecemos este velho sob o nome de Mertoun e esse jovem pelo de Cleveland; e, agora, ei-los que se chamam ambos Vaughan!

- Vaughan - disse Magnus - é um nome que tenho algumas razões para recordar; e, pelo que recentemente me contou minha prima Norna, esse velho tem o direito de o usar.

- E creio que esse jovem também - disse Weatherport, que entretanto estivera folheando um pequeno livro de apontamentos em forma de carteira - Escute um instante - disse ele, dirigindo-se ao jovem Vaughan - Era o senhor quem, muito novo ainda, há oito ou nove anos, comandava um bando de piratas que pilhou nessa época uma povoação chamada Quempoa, situada nas costas da Nova Espanha?

- De nada me serve negá-lo - respondeu o prisioneiro.

- Não - acudiu Weatherport - Mas pode servir-lhe de alguma coisa confessá-lo. Vejamos, pois... Os arreeiros fugiram com o tesouro que esperavam encontrar, enquanto o senhor se preocupava em proteger, com risco da própria vida, a honra de duas senhoras espanholas contra a brutalidade dos seus homens. Lembra-se disto?

- Decerto que me recordo! - exclamou Jack Bunce - Foi por isso que aqueles tratantes abandonaram o nosso capitão numa ilha deserta e eu estive para ser enfoicado numa verga por ter tomado o seu partido.

- Está perfeitamente averiguado, a vida do jovem Vaughan está salva - declarou Weatherport - As damas que ele salvou eram senhoras da primeira sociedade, filhas do governador da província, e o pai, reconhecido, dirigiu-se há muito tempo ao nosso governo pedindo que perdoassem ao libertador. Eu tinha ordens especiais sobre Clement Vaughan, quando me incumbiram do cruzeiro contra os piratas nas Índias Ocidentais, há seis ou sete anos; mas o nome de Vaughan já não era aí conhecido, e não se ouvia falar senão de Cleveland. Portanto, mancebo, se é Clement Vaughan, posso garantir-lhe um absoluto perdão, quando chegarmos a Londres.

Cleveland saudou, subindo-lhe o sangue ao rosto. Mertoun caiu de joelhos, dando graças à Providência. Todos os espectadores se enterneceram com esta cena comovedora. Por fim, disseram-lhes que se retirassem, e o interrogatório continuou.

- E agora, senhor lugar-tenente, que tem a alegar em sua defesa? - perguntou o capitão Weatherport.

- Pouca coisa, ou nada - respondeu Bunce - a não ser que desejaria bem que o senhor encontrasse o meu nome nesse livrinho que tem na mão, porque eu estava ao lado do capitão Cleveland, durante todo esse caso Quempoa.

- Chama-se Frederick Altamont - disse o capitão - esse nome não se encontra aqui. Não vejo senão o de um Jack Boune, ou Bunce, que essas senhoras também recomendaram como merecedor de perdão.

- Mas sou eu, capitão! Sou eu; posso prová-lo. Embora o som desse nome seja um tanto plebeu, prefiro viver como Jack Bunce do que ser enforcado como Frederick Altamont.

- Nesse caso - disse o capitão - se você é Jack Bunce, posso dar-lhe esperanças.

- Grande mercê! - exclamou Bunce. E mudando bruscamente de tom - Se a mudança de nome tem tanta virtude, talvez o pobre Fletcher se tivesse tirado de apuros com o de Timóteo Tugmutton; mas, seja como for, para me servir de uma das suas frases...

- Levem o lugar-tenente e tragam Goffe e os outros pândegos - ordenou Weatherport - Parece-me que não há um único que valha a despesa da corda.

Esta predição prometia verificar-se, tão fortes e numerosas eram as provas dos seus crimes. Dois dias depois, todos os prisioneiros foram conduzidos a bordo da Alcyon, que se fez de vela para os transportar a Londres

. Durante o tempo que o infeliz Cleveland passou em Kirkwall foi tratado com urbanidade pelo capitão da Alcyon; e Magnus Troil, que sabia, em segredo, que existia entre eles um estreito parentesco, cuidou de que nada lhe faltasse e dispensou-lhe toda a espécie de atenções.

Norna, que tomara ainda um interesse mais vivo pelo desditoso prisioneiro, não estava em estado de poder exprimi-lo. O sacristão encontrara-a desmaiada no solo; quando ela voltou a si, tinha perdido a razão, e foram obrigados a colocar junto dela várias pessoas para a vigiar.

Tudo o que Cleveland soube das duas irmãs de Burgh-Westra foi que ficaram indispostas com o susto que apanharam; mas, na véspera da partida, entregaram-lhe em segredo o seguinte bilhete:

«Adeus, Cleveland, separemo-nos para sempre, e é juito que nos separemos. Sê virtuoso, sê feliz! As ilusões de que rodearam a minha educação solitária e a minha inexperiência dissiparam-se para sempre. Mas, no que te diz reipeito, tenho a certeza de que não me enganei ao considerar-te um homem para quem o bem possui naturalmente mais atractivo do que o mal, e foram a necessidade, o exemplo e o hábito que te lançaram na funesta carreira que seguiste até aqui. Pensa em mim como em alguém que já não existe, se não te tornares tão digno de louvores como agora mereces censuras. Então pensa em mim como num ente que se interessará sempre por ti, embora nunca mais deva ver-te.»

Este bilhete era assinado pelas iniciais M. T., e Cleveland, com lágrimas de comoção, leu-o e releu-o cem vezes, e depois guardou-o cuidadosamente no peito.

Mordaunt recebeu também uma carta de seu pai, mas num estilo diferente. Basil Mertoun, despedindo-se dele para sempre, ajuntava que, para futuro, o dispensava de cumprir para com ele os deveres de filho, visto que, a despeito de permanentes esforços durante um ano, nunca lhe ter podido criar afeição de pai. Revelava-lhe um esconderijo que arranjara no velho castelo de Jarlshof, onde depositara uma soma considerável em dinheiro e em valores preciosos. «Podes utilizá-los sem escrúpulo, dizia-lhe ele, que não são produto de pirataria, nem me ficas devendo qualquer obrigação, porque era a fortuna de tua mãe, Luísa Gonzaga, e por conseguinte pertence-te de direito. Perdoemo-nos mutuamente as nossas faltas, como homens que nunca mais voltarão a ver-se».

Efectivamente, Basil Vaughan, contra quem nunca se levantou qualquer acusação, desapareceu logo que o destino de Cleveland se definiu. Supôs-se que se retirara para o estrangeiro e aí dera entrada num convento.

Teve-se conhecimento da sorte de Cleveland por uma carta que Minna recebeu dois meses depois da Alcyon ter deixado Kirkwall. Toda a família estava então reunida em Burgh-Westra, e Mordaunt também ali se encontrava, julgando o bom udaller que nunca era bastante a boa recepção que lhe fazia depois dos serviços que ele prestara a suas filhas. Norna, que principiava a recompor-se da sua alienação de espírito, estava então em casa de Magnus; e Minna, infatigável nos cuidados que prodigalizara a essa desgraça vítima das próprias ilusões, achava-se sentada junto dela, vendo com prazer os sintomas que anunciavam o regresso da razão, quando se recebeu a carta de que acabamos de falar.

 

«Minna - dizia Cleveland - querida Minna, adeus para sempre! Creia que nunca alimentei o menor pensamento criminoso contra si. A partir do momento em que a vi, tomei a resolução de separar-me dos meus companheiros e tracei mil planos que foram tão vãos como eu o merecia; porque havia de o destino de uma criatura tão amável, tão pura, tão inocente unir-se ao de um ente culfado? Não falarei mais desses sonhos; a minha sorte é severa, mas muito menos rigorosa do que esperava e do que merecia. O pouco bem que fiz contrabalançou, no espírito de juízes respeitáveis e misericordiosos, o muito mal que tinha a censurar-me. Não só fui subtraído à morte ignominiosa a que foram condenados muitos dos meus companheiros, mas também, como parece que vamos entrar em guerra com a Espanha, o capitão Weatherport, que vai cruzar os mares das Índias Ocidentais, pediu generosamente licença para me utilizar debaixo das suas ordens, com dois ou três dos meus companheiros menos culpados. Esta atitude foi-lhe ditada por uma generosa compaixão, pois pensa-se que nos podemos tornar úteis pelo conhecimento que temos destas costas e destes mares. Minna, se alguma vez ouvir pronunciar o meu nome, será com honra. Se a virtude pode gerar a felicidade, não tenho necessidade de fazer votos pela sua, porque já deve desfrutá-la. Adeus, Minna, adeus para sempre.»

 

Minna verteu lágrimas tão amargas ao ler esta carta que despertou a atenção de Norna, ainda convalescente. A velha reimkennar arrancou-a das mãos de sua prima e leu-a, primeiro, num ar de pessoa a quem esta leitura nada dissesse. Releu-a, e algumas recordações parece terem impressionado o seu espírito. Por fim, à terceira leitura, a alegria e a tristeza parece que a agitaram, e a carta caiu-lhe das mãos. Minna apanhou-a à pressa e recolheu-se, com este tesouro, no seu quarto.

A partir daquele momento, Norna pareceu tomar um carácter totalmente diferente. Abandonou os trajos que adoptara, usando outros de um género mais simples e menos imponentes. Despediu o seu anão, depois de liberalmente o prover de forma a que pudesse viver ao abrigo de necessidades. Nunca mais mostrou desejos de retomar a sua vida errante, e mandou desmantelar o seu observatório de Fitful-head, como se podia chamar àquela habitação. Abandonou o nome de Norna e não quis que lhe dessem outro senão o que realmente lhe pertencia, o nome de Ulla Troil. Mas resta falar da modificação mais importante que nela se operou. No desespero em que as circunstâncias da morte do pai a lançaram, ela parecia considerar-se como que fora da graça divina; toda preocupada com vãs ciências ocultas que ela tinha a pretensão de praticar, os seus estudos, como os do médico Chaucer, não se alargavam até à Bíblia; agora, este livro sagrado não a deixava nunca. E quando os pobres ignorantes vinham, como outrora, invocar o seu poder sobre os elementos, ela respondia-lhes:

- Os ventos estão na mão do Senhor.

Parecia profundamente arrependida da sua presunção de dominar os elementos, e exprimia um desgosto sincero quando alguma coisa lhe trazia à lembrança as suas antigas pretensões. Continuou a mostrar grande dedicação por Mordaunt, talvez por hábito, pois não era fácil entrever até que ponto ela se recordava dos complicados sucessos em que tomara parte. Por sua morte, que sobreveio cerca de quatro anos depois dos últimos acontecimentos, legou a Brenda todas as suas propriedades, que eram consideráveis: tal fora o pedido de Minna. Uma cláusula especial do seu testamento ordenava que se lançasse às chamas todos os seus livros, todos os seus instrumentos de laboratório, numa palavra, tudo o que pudesse recordar os seus antigos estudos.

Cerca de dois anos antes da morte de Norna, Brenda casara com Mordaunt Mertoun, ou, para melhor dizer, Vaughan. Ainda foi preciso vencer alguma relutância do velho Magnus. O jovial udaller viveu até uma idade muito avançada, feliz por ver uma família numerosa crescer sob as vistas da sua filha mais nova, e com a sua mesa alternadamente animada pelos cantos de Claud Halcro e iluminada pelas doutas lucubrações de Triptolemus Yellowley. Este, renunciando às suas altas pretensões, melhor conhecedor dos hábitos insulares entre os quais vivia e lembrando-se dos vários acidentes a que o tinham exposto as suas prematuras tentativas de aperfeiçoamento, tornara-se um honesto e digno representante de Lorde Chamberlain, e nunca se sentia tão feliz senão quando podia escapar ao regime rigoroso a que sua irmã o submetia para ir ocupar um lugar à mesa bem servida do digno udaller. O carácter de miss Bárbara tornou-se, entretanto, menos azedo, quando ela se tornou a ver na posse do famoso chifre repleto de antigas moedas de ouro e prata. Era a Norna que pertencia este pequeno tesouro e fora ela quem o escondera no lugar onde fora encontrado, em obediência a certas ideias supersticiosas. Mas, tornando a enviá-lo a quem, por acaso, o descobrira, teve o cuidado de mandar dizer à senhora Baby que ele desapareceria de novo, se não empregasse uma porção razoável nas necessidades do lar. Devido a esta precaução, Tronda Dronsdaughter, que provavelmente servira de intermediário a Norna para este assunto, teve a sorte de não morrer lentamente de inanição. Mordaunt e Brenda foram tão felizes quanto o permite a nossa condição de mortais. Amavam-se, viviam na abastança, não faltavam a nenhum dos seus deveres, e, tendo uma consciência tão pura como a luz do dia, riam, cantavam, dançavam, felizes um do outro, sem se inquietar com o resto do Mundo.

Mas Minna, Minna cuja alma era mais elevada, cuja imaginação era mais viva, dotada de tanta sensibilidade e de entusiasmo, e condenada a ver uma e outro fenecer na flor da mocidade, porque, devido à ignorância e à inexperiência de um carácter romanesco, construíra sobre areia e não sobre uma base sólida o edifício da sua felicidade, era ela feliz, podia sê-lo? Sim, leitor, porque, a despeito do que podem dizer os cépticos, a cada dever que se cumpre está ligada uma satisfação secreta; e quanto mais difícil é a tarefa que temos a cumprir, mais esse sentimento íntimo nos recompensa dos esforços que ela nos custa. O repouso do corpo, que sucede aos trabalhos árduos, nem se pode comparar ao repouso que o espírito desfruta em semelhantes circunstâncias.

A sua resignação, as suas atenções constantes para com o pai, para com a irmã, para com a infeliz Norna, não foram, entretanto, nem a única, nem a mais preciosa fonte das suas consolações. Tal como Norna, mas com uma razão mais esclarecida, ela aprendeu a trocar as visões de um entusiasmo cego por uma ligação mais íntima e mais pura com este mundo. E foi nesta disposição de espírito que, depois de ter sido informada em diversas épocas de factos louváveis e gloriosos para Cleveland, ela teve forças para saber com resignação, e mesmo com um sentimento em que o desgosto não era sem doçura, que ele perdera enfim a vida ao dirigir com bravura uma manobra importante de que o tinham incumbido, a qual triunfara pela intrepidez daqueles a quem a sua coragem abrira o caminho. Bunce, que então o seguia na carreira das virtudes, como outrora o seguira na dos crimes, informou Minna deste triste acontecimento, em termos que demonstravam que, embora a sua cabeça fosse leviana, o seu coração nunca estivera inteiramente corrompido pela vida desordenada que levara durante algum tempo, ou que, pelo menos, se emendara. Distinguindo-se nessa mesma acção, obtivera uma promoção, o que parecia compensá-lo muito pouco da perda do seu antigo capitão (1). Minna leu essa notícia e, erguendo ao Céu os olhos banhados de lágrimas, rendeu-lhe graças por Cleveland ter morrido no campo da honra. Teve mesmo coragem de lhe oferecer um tributo de gratidão por ter subtraído o seu amado às tentações que poderiam ser bem fortes para um coração ainda tão novo na prática da virtude. Esta reflexão produziu nela um tal efeito que, logo que os primeiros momentos de dor passaram, mostrou não apenas devoção, mas mais jovialidade do que nunca. Tornou-se então numa espécie de anjo da guarda dos parentes a quem tanto queria, e bem assim da pobreza, que ela minorava.

Foi assim que passou toda a sua vida, desfrutando da afeição e do respeito de todos que se acercavam dela; e quando os seus parentes tiveram que chorar a sua morte, que não sobreveio senão numa idade muito avançada, consolaram-se ao pensar que o envólucro mortal que ela acabava de abandonar era a única coisa que, segundo as palavras da Escritura, a colocava um pouco abaixo dos anjos.

 

Nota 1: Nada mais soubemos ao certo do destino de Bunce; mas o meu amigo Dr. Dryasdust julga tê-lo identificado num velho que, no começo do reinado de George I, ia regularmente todas as noites ao Café da Rosa, e de lá para o teatro. Contava longas histórias sobre a Nova Espanha, praguejava contra os criados, nunca pagava sem examinar bem a conta e era conhecido sob o nome de capitão Bounce – (N. do A.)

 

 

 

                                                                                Walter Scott  

 

                      

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