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O PODER DA ESCOLHA / Zibia Gasparetto
O PODER DA ESCOLHA / Zibia Gasparetto

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O PODER DA ESCOLHA

 

A tarde estava fria, e Eugênia levantou a gola do casaco para proteger-se do vento insistente que levantava seus cabelos, aumentava o medo que a envolvia, provocando arrepios por seu corpo e uma desagradável sensação de que tudo estava irremediavelmente perdido. Por mais que tentasse, sentia que não encontraria uma forma de reverter a situação. Estava tudo acabado!

Caminhava pelo parque, quase vazio naquele momento, sem observar algumas pessoas que cruzavam apressadas, procurando fugir da tempestade iminente.

Para ela, alheia ao mundo que a rodeava, só importava a tempestade interior que ameaçava destruir todas as suas possibilidades de felicidade e arrastá-la para um mundo de tristeza e dor.

Todos os seus sonhos destruídos! Todas as esperanças, cultivadas durante anos, tinham sido mortas diante de uma realidade cruel, que lhe roubara a chance de continuar desfrutando de todo bem que julgara possuir, mas, que se revelara falso e sem futuro.

As lágrimas começaram a descer pelo seu rosto contraído, enquanto os soluços sacudiam seus ombros e as forças Ihs começaram a faltar. Os relâmpagos cortavam o céu, e a chuva começou a cair sobre a mulher, que sentia na boca o gosto salgado das lágrimas. O barulho dos trovões casava-se bem com a dor que sentia, e Eugênia deixou-se cair sentada em um banco, querendo desaparecer e deixar a vida para não sofrer mais. Entregue, curvada, fechou os olhos e perdeu a noção das coisas. Seu corpo estendeu-se no chão e ficou imóvel.

A tempestade passou e algumas pessoas começaram a circular. Uma mulher parou diante do corpo de Eugênia e observou:

— Ela parece morta! Não é mendiga, está bem--vestida!

Abaixou-se e, com cuidado, colocou a mão sobre o peito da mulher.

— Está respirando, está viva! Precisa de ajuda, vou chamar a polícia.

Foi até a entrada do parque e avistou uma viatura parada no meio-fio. Avisou os policiais e os levou até onde Eugênia se encontrava. Eles olharam o rosto pálido dela e chamaram uma ambulância, que chegou quinze minutos depois ao local. Colocaram Eugênia na maca e saíram rumo ao hospital.

Durante o trajeto, o médico tentou reanimá-la, mas foi inútil. Em sua bolsa não havia nenhuma identificação, apenas um bilhete:

 

       Eugênia,

Eu amo outra mulher e estou indo embora. Não posso continuar fingindo um sentimento que não existe mais. Espero que me perdoe, me esqueça e seja feliz, como estou agora. Você merece alguém melhor do que eu. Adeus.

Júlio.

 

— Mais uma mulher sofrendo por amor! — comentou o enfermeiro.

— É a vida, meu caro — respondeu o médico.

A ambulância seguiu tocando a sirene para abrir caminho, enquanto os dois velavam pelo corpo adormecido de Eugênia, imaginando o drama daquela desconhecida...

 

 

O médico entrou no quarto e, vendo a enfermeira que regulava o soro, perguntou:

— Como ela está?

— Na mesma, doutor.

Ele aproximou-se da cama, examinou a paciente com cuidado e comentou:

— Uma semana é muito tempo...

Rosa olhou-o penalizada e respondeu:

— Ela parece morta.

— Mas não está. Seus sinais estão normais.

— O que o senhor pretende fazer?

— Por enquanto nada. A polícia ainda não descobriu a identidade dela nem encontrou sua família. Teremos que esperar. Pode ser que ela reaja e tudo se resolva.

— Ela é uma pessoa de trato. Suas roupas são de boa qualidade. O que será que lhe aconteceu? Terá sido assaltada?

— Seu corpo não tem nenhum sinal de agressão. Fique de olho. Se observar alguma alteração, me avise.

— Está bem, doutor.

O médico, pensativo, deixou o quarto e dirigiu-se à su'à sala. Havia uma paciente para ser atendida e ele esqueceu aquele assunto, sentando-se diante de sua mesa para iniciar a consulta.

Vendo-se sozinha com a paciente, Rosa sentou-se ao lado da cama e, fixando o rosto dela durante alguns segundos, pensou: "Vou pedir ajuda aos meus amigos espirituais. Eles saberão auxiliá-la".

Fechou os olhos, elevou o pensamento em fervorosa prece, e logo sentiu a presença de Marcos Vinícius, seu guia espiritual. Perguntou-lhe:

— Posso fazer alguma coisa para ajudá-la? — Você está no caminho certo. Continue orando. Vamos tentar auxiliá-la.

— Ela parece morta...

— Seu espírito saiu do corpo e não quer voltar. Mas ainda não é a hora de ela partir. Tente falar com o espírito dela. Você pode.

Rosa respirou fundo, deixou-se envolver pela compaixão que sentia, colocou a mão sobre a testa de Eugênia e disse:

— Você precisa voltar ao corpo. Não é chegada sua hora de partir deste mundo. Aceite os acontecimentos que não tem como mudar e assuma a responsabilidade por sua vida.

Rosa calou-se e o espírito de Marcos pediu:

— Continue. Diga tudo que sente. Ela tem muitas coisas para fazer neste mundo. Não pode perder esta chance.

— Ela pode não querer voltar?

— Não. A volta é compulsória. Mas se ela continuar se rebelando, além de sofrer mais, retardará muito sua recuperação. Ela foi bem preparada antes de nascer e tem tudo para superar os desafios da vida. Não pare, converse com ela. Insista.

A enfermeira obedeceu. Continuou evocando o espírito da mulher, insistindo para que voltasse ao corpo. Durante meia hora ela ficou chamando o espírito de Eugênia, sem resultado, e pensou: "É inútil. Ela não quer..."

— Não desanime, Rosa. Agora volte para seus afazeres. Assim que tiver um tempo, venha vê-la e continue chamando pelo espírito dela.

— Está bem. Eu preciso mesmo ir, mas voltarei quando puder.

— Isso mesmo. Eu a estarei auxiliando.

Rosa levantou-se, alisou a testa de Eugênia com carinho e disse:

— Meu nome é Rosa. Quero ajudá-la em tudo que puder. Não tenha medo. Volte, eu a estou esperando para apoiá-la. Tudo vai ficar bem. Preciso ir, mas voltarei logo. Fique com Deus.

Marcos Vinícius deixou o hospital e foi em busca do espírito de Eugênia. No estado de descontrole em que se encontrava, ela seria presa fácil de espíritos maldosos, que, no astral, se aproveitam e escravizam aqueles que se deixam levar pelas emoções negativas.

Para poder entrar no lugar onde ela estava vagando desesperada e passar despercebido, Marcos Vinícius cobriu-se com uma energia neutra, que se confundia com a cor do ambiente, e mentalizou a figura de Eugênia.

Logo a avistou caminhando aflita em uma charneca úmida e pegajosa. Aproximou-se e a chamou:

— Eugênia. Pare. Quero falar com você agora. Ela parou, olhou em volta, mas não viu ninguém e continuou caminhando.

Marcos Vinícius interceptou seus passos e disse:

— Pare! Temos que conversar!

Desta vez, Eugênia viu o vulto dele e perguntou:

— Quem é você? O que quer?

— Venha comigo. Precisamos conversar.

— Não. Eu não vou.

— Você está em um lugar perigoso. Vamos sair daqui. Venha comigo. Eu sou seu amigo, quero ajudá-la.

Eugênia fez menção de fugir, mas Marcos Vinícius segurou seu braço dizendo com voz firme:

— Você está muito cansada. Precisa dormir, repousar, esquecer tudo...

Ela perdeu os sentidos e Marcos Vinícius passou o braço em sua cintura amparando-a. Depois, envolveu-a em uma energia especial e, juntos, deixaram rapidamente o local.

Voltando, chegaram a um lugar claro, cheio de árvores, onde a atmosfera era verde-clara. Marcos Vinícius parou diante do portão de um imenso parque, cercado por muros altos. A um gesto seu, o portão abriu-se e eles entraram. Imediatamente, vieram dois atendentes que logo acomodaram Eugênia numa maca e a conduziram para o interior de um dos edifícios.

Marcos Vinícius acompanhou-os até uma sala de atendimento e deu-lhes detalhes do caso. Depois, foi a outra sala onde estava um homem de meia-idade, rosto sereno, aparência agradável, que, vendo-o entrar, se levantou sorrindo:

— Marcos! Que prazer vê-lo!

— Solano! Quanto tempo!

Abraçaram-se com alegria.

— Trouxe uma paciente para receber ajuda. Mas não podia ir embora sem abraçá-lo!

— Que bom que veio. Estava mesmo querendo conversar com você. Sente-se.

Marcos sentou-se ao lado de Solano no sofá e ele continuou:

— Você sabe que tenho dois amigos que estão precisando ir à Terra em uma missão delicada. Talvez possa me ajudar.

— Vamos ver... Fale.

— Eu gostaria de acompanhá-los, mas estou comprometido com algumas pesquisas e, no momento, é impossível me afastar. Se você pudesse ir com eles, eu ficaria muito agradecido.

— Do que se trata?

— Eles estão aqui há mais de quinze anos e é a primeira vez que obtêm licença para rever a família e auxiliá-la. Estão devidamente preparados, mas, apesar disso, ficarei mais confortável se forem acompanhados por alguém mais experiente como você.

— Terei de ficar com eles o tempo todo?

— Não, basta levá-los até o local, sentir o ambiente e, se tudo estiver a contento, poderá deixá-los. Ficarei em contato com eles daqui mesmo.

— Está bem. Tenho mesmo que voltar à Terra para acompanhar o caso de Eugênia.

— A mulher que veio com você?

— Sim. Ela está decidida a ficar aqui, mas ainda não é sua hora. Está em crise e não consegue enxergar os outros lados do problema. Trouxe-a para cá a fim de restaurar suas energias e acalmá-la. Tenho que levá-la de volta ao hospital dentro de algumas horas. Seus amigos podem me acompanhar?

— Acredito que sim. Vou avisá-los de que chegou a hora.

Solano apertou um botão e pediu à assistente que chamasse Meire e Olavo. Pouco depois, um casal aparentando meia-idade entrou na sala. Ele tinha estatura média, cabelos grisalhos, olhos claros e alegres; ela, rosto redondo, sorriso fácil, corpo bem-feito, olhos escuros e ágeis.

— Entrem. Este é o Marcos Vinícius, meu amigo delonga data, que se dispôs a acompanhá-los até a crosta terrestre.

Meire adiantou-se, fixou os olhos nos de Marcos Vinícius, estendeu-lhe a mão e sorriu:

— Que bom!

Olavo também abraçou-o dizendo:

— Acho que o conheço! Uma vez tivemos um atendimento de um jovem recém-chegado que foi trazido por você! Lembra-se?

— Lembro-me. Você o amparou e o levou para a sala de recuperação.

— Isso mesmo. Obrigado por nos acompanhar. Quando partiremos?

— Acredito que dentro de algumas horas. Devo esperar uma pessoa se fortalecer para levá-la de volta ao corpo.

— Estaremos esperando. Vamos aproveitar esse tempo para nos despedirmos de alguns amigos. Não sabemos quanto tempo ficaremos fora. Avise-nos o momento de irmos.

Depois que eles saíram, Solano informou:

— Eles pretendem auxiliar o filho que se meteu em confusão e está prestes a perder a encarnação. Pretendem inspirar-lhe bons pensamentos, tocar seu espírito para que reaja e não perca mais esta chance.

— Sinto que esta não é a primeira chance que tem.

— Isso mesmo. É a quarta oportunidade. O rapaz se prepara muito, aparenta ter vencido suas fraquezas, mas, sabe como é, o magnetismo terrestre revela a verdade.

— Será que desta vez ele vai conseguir?

Solano pensou um pouco, olhos semicerrados, depois disse:

— Só Deus sabe. Vamos torcer.

— Vamos mesmo. Sei como é. Mas, apesar disso, mesmo que aconteça o pior, em cada vida sempre aprendemos alguma coisa.

— Isso é. Nada substitui a experiência. A Terra é o lugar ideal para experimentar ideias, aprender sobre os verdadeiros sentimentos, desenvolver o conhecimento.

— Bem, vou dar uma volta para rever alguns amigos até a hora de ir.

— Quando estiver pronto, basta avisar o atendente do setor, que chamará meus amigos. Desejo que esta viagem seja um sucesso!

Abraçaram-se e Marcos Vinícius saiu. Duas horas depois, foi à sala onde estava Eugênia. Bateu levemente e entrou. Ela ainda dormia, velada por uma assistente. Marcos Vinícius aproximou-se e notou que o rosto da paciente estava distendido e suas faces mostravam-se coradas.

— Ela melhorou — comentou.

— Nós acionamos a memória dela e a fizemos recordar os tempos em que se sentia feliz.

— Acha que já podemos voltar?

— Sim. Mas é melhor perguntar.

Os dois concentraram-se durante alguns segundos e viram uma luz clara formar-se no alto da sala, enquanto uma voz grave dizia:

— Sim. Mas antes precisam acordá-la.

Marcos colocou a mão na testa de Eugênia e disse com voz firme:

— Acorde, Eugênia!

Ela abriu os olhos, olhou em volta, fixou-os, sentou-se na cama e perguntou:

— Quem são vocês?

— Somos amigos — disse a atendente.

— Meu nome é Marcos Vinícius. Como se sente?

Ela respirou fundo e respondeu:

— Saí do inferno, estou no paraíso. Acho que eu morri...

— Não. Você ainda não deixou a Terra.

Eugênia olhou-o séria, seu rosto contraiu-se e ela disse nervosa:

— Eu não quero mais viver naquele inferno. Quero ficar aqui.

Marcos Vinícius não respondeu. Com os olhos semicerrados, ele a envolvia com vibrações de calma e alegria. Depois, olhou-a sorrindo e disse:

— Você está em uma dimensão astral. É um lugar muito bonito. Venha, vamos dar uma volta. Quero mostrar-lhe tudo.

Eugênia levantou-se, passou as mãos pelos cabelos tentando arranjá-los, depois perguntou:

— Como estou? Tenho que me arrumar. Não quero passar por desmazelada.

— Você está muito bem — tornou a atendente. —Olhe-se no espelho.

Havia um à sua frente. Ela encarou-o e comentou:

— Parece até que remocei!

— Você está linda!

Eugênia sorriu e convidou:

— Então vamos. Quero ver tudo!

Marcos passou o braço pela cintura de Eugênia, que se sentiu leve. Seu peito, então, dilatou-se em uma sensação de prazer muito agradável.

Juntos, elevaram-se um pouco e percorreram os jardins floridos, os bairros residenciais, os lugares de entretenimentos, parando em alguns deles para que Eugênia respirasse com prazer o ar puro e leve. Depois voltaram ao prédio de onde saíram e, ainda sem entrar, Marcos Vinícius convidou:

— Vamos nos sentar um pouco. Temos que conversar.

Acomodaram-se em um banco, e Eugênia aspirou com prazer o gostoso aroma das flores.

— Está na hora de voltarmos à Terra. Imediatamente, Eugênia levantou-se:

— Não. Eu quero ficar aqui. Não volto nunca mais para lá!

— Você precisa ir. Não pode fugir a seus compromissos.

— Não tenho forças para cumpri-los. Fica para outra vez. Agora não vou.

Marcos Vinícius levantou-se e segurou a mão de Eugênia, convidando:

— Venha, vamos entrar.

Passou o braço pela cintura dela e levou-a até o quarto onde ela estivera, dizendo:

— Descanse um pouco. Depois conversaremos. Eugênia deitou-se e logo adormeceu. Marcos deixou a sala e procurou Solano, dizendo:

— Estamos prontos. Podemos ir.

— Eugênia não quer ir. Talvez você precise de ajuda.

Marcos sorriu:

— Obrigado, mas não será necessário. Seus amigos já estão prontos?

— Sim. Estão esperando você.

Os dois amigos despediram-se, e Marcos Vinícius foi ao encontro do casal que iria acompanhá-lo. Os três, então, foram ao quarto onde Eugênia continuava dormindo.

Marcos olhou-a e tornou:

— Vamos levá-la semiadormecida.

Juntos, levantaram Eugênia. Marcos Vinícius passou o braço pela cintura dela, e Meire fez o mesmo ao lado de Olavo. O grupo decolou, elevando-se e indo em direção à Terra.

Era madrugada quando chegaram ao hospital onde o corpo físico de Eugênia permanecia adormecido.

Rosa, a enfermeira, estava sentada ao lado da cama orando e, de relance, os viu chegar. Emocionada, pensou: "O espírito dela está voltando".

Marcos Vinícius sorriu e disse no ouvido de Rosa:

— Isso mesmo. Obrigado pela ajuda. Ela está mais fortalecida, mas ainda não quer voltar. Ficarei um pouco mais para auxiliá-la. Continue orando.

Rosa assentiu e continuou rezando com emoção. Marcos Vinícius acomodou o espírito de Eugênia sobre o corpo adormecido, colocou a mão direita sobre a cabeça da mulher e concentrou-se, enquanto os outros dois, um de cada lado, derramavam energias harmoniosas de alegria e paz sobre ela.

Eugênia espírito estremeceu e, ainda semiadormecida, acomodou-se no corpo adormecido, que começou a respirar com mais força.

Rosa tomou o pulso da paciente e notou que as batidas estavam mais aceleradas e que a palidez do rosto desaparecia aos poucos. A paciente dava sinais de estar acordando.

A enfermeira tocou a campainha e, quando a atendente apareceu, ela pediu:

— Chame o doutor Osvaldo. A paciente está acordando.

Antes mesmo de o médico chegar, Eugênia abriu os olhos assustada, ainda sem saber onde estava.

— Você está no hospital. Sou enfermeira. Está tudo bem.

Eugênia fixou-a e perguntou:

— Ainda estou no paraíso?

— Você está em um hospital da Terra.

Eugênia sacudiu a cabeça negativamente, depois disse nervosa:

— Você está me enganando. Eu morri e não estou mais na Terra.

— Acalme-se. Estou aqui para ajudá-la. Não tenha medo.

Rosa levantou um pouco a cabeceira da cama, pegou um copo com água e levou-o aos lábios de Eugênia, dizendo:

— Beba. Vai lhe fazer bem.

O médico entrou e perguntou:

— Ela finalmente acordou?

A enfermeira fez sinal com a cabeça de que sim. Ele segurou o pulso de Eugênia durante alguns segundos, colocou o estetoscópio em seu peito e ela encarou-o assustada.

— A senhora está bem. Não tenha medo. Vou examiná-la. Fique calma.

Eugênia olhou-o com raiva:

— Não quero nada. Deixe-me em paz.

— A senhora está no hospital e tenho que cuidar do seu bem-estar.

— Mas eu não quero ficar bem. Eu quero morrer. O médico sacudiu a cabeça e disse:

— Está bem. Depois a senhora morre. Mas agora preciso examiná-la. Pela sua ficha, a senhora foi encontrada desacordada no parque, tomou toda aquela chuva e precisamos cuidar de sua saúde. Seu nome é Eugênia de quê?

Ela olhou-o, hesitou um pouco, depois disse:

— De Queiroz. Mas não quero que ninguém saiba que estou aqui.

— Por quê? Seus familiares devem estar preocupados.

Eu não tenho ninguém.

— Onde a senhora mora?

— Estou um pouco tonta... não me lembro.

— Ficou muito tempo desacordada. Logo estará bem. Mais tarde vou mandar uma atendente fazer seu cadastro.

— Eu não vou me lembrar.

O médico olhou-a desconfiado e respondeu:

— Trate de lembrar-se porque não poderá ficar aqui sem fornecer seus dados pessoais. A senhora está bem e estou certo de que logo se lembrará de tudo.

— Eu quero ir embora. Não preciso ficar aqui.

— Logo mais o policial que a trouxe virá conversar com a senhora e poderá acompanhá-la até sua casa. Mas não terá alta antes de ficar bem.

Ele se foi e pouco depois outra enfermeira entrou e entregou um copo para Rosa, que se levantou.

— Não quero tomar nada. Não preciso — disse Eugênia.

— Vai lhe fazer bem. Tome.

— Eu quero morrer. Não vou tomar isso.

Rosa olhou-a fixamente nos olhos, levantou a cabeça de Eugênia e disse com voz firme:

— Estamos tentando ajudá-la. Reaja. Não há nada na vida que não tenha solução. Vamos, beba.

Eugênia engoliu o remédio, depois se recostou nos travesseiros e fechou os olhos fingindo dormir. Mas, em seu pensamento tumultuado, já elaborava a ideia de fugir dali antes que o policial chegasse.

Ela não queria que ninguém da sua família soubesse onde estava. Lembrou-se do sonho e do lugar maravilhoso em que estivera. Era para lá que desejava ir, queria sumir do mundo que só lhe trouxera sofrimento e dor.

Pensando nisso, adormeceu.

 

Vendo Eugênia adormecida, Rosa passou a mão em sua testa com carinho. O que teria acontecido para que ela quisesse desistir da vida? Sentiu os pensamentos de angústia que a atormentavam e a vontade de fugir do hospital e dar cabo da própria vida.

O espírito de Marcos Vinícius estava ao lado de Rosa e disse-lhe:

— Não a deixe só. Ela quer fugir.

— Eu senti — respondeu Rosa. — Logo o policial estará aqui para levá-la de volta à família. Ela não quer ir.

— Não quer enfrentar a verdade. Mas precisa fazê-lo e assumir suas responsabilidades. Não se preocupe. Eu a acompanharei. Continue a envolvê-la com energias de paz.

Rosa alisou a fronte de Eugênia novamente enquanto mentalizava luz e paz.

Uma hora depois, o policial entrou acompanhado do médico.

Eugênia abriu os olhos e, vendo-os, fez menção de levantar-se.

— Não se incomode — disse o médico. — Está tudo bem. Paulo é o policial que a trouxe até aqui.

Eugênia fixou-o assustada. Era um homem moreno, alto, porte atlético, aparentando uns cinquenta anos.

Rosa havia levantado a cabeceira da cama, e Paulo estendeu a mão para a paciente, perguntando:

— Como está, dona Eugênia?

O rosto de Eugênia contraiu-se, e ela não apertou a mão do policial. Depois, respondeu:

— Por que não me deixou lá? Eu queria morrer! Ele deixou cair a mão e disse sério:

— Eu trabalho para proteger as pessoas, não para permitir que elas morram. Estou satisfeito por tê-la trazido para cá.

Eugênia não respondeu, apenas levou a mão ao rosto e deixou que as lágrimas descessem pelas faces.

Rosa e Paulo ficaram em silêncio durante alguns segundos deixando-a desabafar. A enfermeira segurava a mão de Eugênia para dar-lhe coragem.

Quando ela se acalmou, o médico aproximou-se, segurou seu pulso e notou que as batidas da paciente estavam um tanto aceleradas. Mediu a pressão arterial, depois disse:

— A senhora está muito nervosa, mas sua saúde está bem. Paulo quer fazer-lhe algumas perguntas. Vamos deixá-los a sós. Vamos, Rosa.

Eugênia apertou a mão que Rosa segurava:

— Não quero que você saia. Fique, por favor. Não me abandone.

Rosa olhou para o médico, depois para o policial, que concordou:

— Pode ficar.

Depois que o médico saiu, Paulo perguntou:

— Sente-se mais calma?

Ela deu de ombros e não respondeu.

— Bem, ao trazê-la para cá, eu assumi certa responsabilidade pelo seu bem-estar. A senhora está angustiada, fala em morrer. Deve estar enfrentando sérios problemas. Dentro do possível, estou à sua disposição para auxiliá-la a encontrar uma solução.

Eugênia olhou-o séria:

— Ninguém pode me ajudar. Meu caso não tem solução.

— Engana-se. Dependendo do lado pelo qual a senhora olha, tudo tem solução. Parece que está vendo apenas o lado ruim. Precisa enxergar os outros lados.

— Para qualquer lado que eu olhar, não vai haver saída. Tudo acabou para mim.

— Talvez a situação não seja tão difícil como parece. Tenha calma. Vamos conversar.

— Não tenho nada a dizer.

Paulo tirou do bolso um bloco de anotações, segurou a caneta e disse:

— Preciso de algumas informações, seu nome completo, endereço. Sua família deve estar preocupada.

— Para quê? Eles não se importam comigo. Não quero ir pra casa.

— O médico disse que a senhora vai ter alta logo e não vai poder ficar aqui. Por que não quer ir para casa?

— Não vou responder mais nada. Não quero ir e pronto. Ninguém pode me obrigar.

O policial olhou-a sério e respondeu:

— Dona Eugênia, nós não estamos brincando. A senhora precisa encarar a situação e responder as minhas perguntas. De nada vale manter essa postura porque nós temos meios de descobrir sua identidade. Por que não quer colaborar comigo e resolver logo essa questão?

Eugênia fechou os olhos, respirou fundo e não respondeu.

— Coragem — tornou Rosa com suavidade, apertando a mão de Eugênia que mantinha entre as suas. — Não adianta querer fugir. A senhora não tem outra opção. Do que tem medo?

As lágrimas começaram novamente a descer pelas faces de Eugênia, que não respondeu. Rosa continuou:

— Pense. É melhor enfrentar logo a situação. Estou tentando ajudá-la. Confie em mim. Se quiser, poderei ir com a senhora até sua casa.

Eugênia abriu os olhos molhados, fixou-a e perguntou:

— Faria isso por mim?

— Sim. Me disponho a ir com a senhora até sua casa e auxiliá-la em tudo que precisar.

— Apesar de tudo, ainda há gente boa neste mundo. Sinto que quer mesmo me ajudar.

— Confie em mim.

Eugênia pensou um pouco, depois decidiu:

Está bem. Sou Eugênia de Queiroz. Moro na avenida Angélica, mas não há ninguém lá que precise ser avisado.

O policial anotou todas as indicações.

— Não tem ninguém em casa?

— Apenas empregados.

— Mesmo assim, vou avisá-los. É meu dever, senhora. Mas fique calma, vou acompanhá-la até lá.

— Não é preciso. Ela vai comigo. Não é necessário que o senhor vá.

Paulo levantou-se:

— Vamos ver. Preciso ir. Obrigado por ter cooperado.

Ele saiu, Eugênia recostou a cabeça nos travesseiros e fechou os olhos.

Rosa continuou segurando a mão da paciente e, sentindo o quanto estava triste, angustiada, continuou a envolvê-la em energias de luz e paz.

Eugênia, que até então estremecia de vez em quando e suspirava triste, foi se acalmando até que, por fim, adormeceu.

O espírito de Marcos Vinícius, que continuava ao lado delas, disse para Rosa:

— Ela está melhorando. Vamos continuar um pouco mais. Ficarei com vocês enquanto for necessário.

Rosa sentiu que uma energia de amor e paz a envolveu e, comovida, agradeceu a Deus pela ajuda que estavam recebendo.

Eugênia dormiu durante algumas horas, e Rosa permaneceu ao seu lado. Seu turno acabou, mas ela não foi embora. O médico da noite chegou e, vendo-a, admirou-se:

— Você ainda está aí? A outra enfermeira faltou?

— Não, doutor. Ela veio, mas eu quis ficar.

— Não acha que está exagerando? É melhor ir descansar.

— Não estou cansada. Depois, amanhã é minha folga e eu poderei descansar bastante.

— Você é quem sabe. Como ela passou o dia?

— Muito triste, mas deu informações ao policial.

O médico olhou as anotações da ficha, depois segurou o pulso de Eugênia durante alguns segundos.

— Ela está bem, respiração normal, pode ir para casa. Este hospital está lotado. Estamos precisando do leito. Vou assinar a alta para amanhã cedo. Não é melhor você ir descansar?

— Estou bem. Vou ficar. Ela pode acordar e precisar de mim.

— Se um dia eu estiver doente, quero você do meu fado. Suas orações ajudam o paciente. Do jeito que esta mulher chegou aqui, pensei que fosse nos dar trabalho... Mas ela ficou calma, melhorou.

— É que a fé move montanhas. Nunca ouviu isso?

Ele riu bem-humorado e respondeu:

— Eu não sou tão crédulo quanto você. Até gostaria de ter essa fé, mas sou muito racional.

Rosa sorriu maliciosa e disse:

— Seu dia chegará, doutor, pode esperar. A vida só age quando chega a hora.

O médico balançou a cabeça e saiu. Rosa foi até a lanchonete, pediu um lanche e voltou para o lado de Eugênia, que continuava dormindo.

"Com a ajuda de amigos espirituais, ela está recuperando as forças para enfrentar os problemas que a estão angustiando", pensou Rosa.

Depois de verificar o pulso de Eugênia, colocar a mão sobre seu peito e observar sua respiração, a enfermeira acomodou-se na cadeira ao lado da cama, disposta a passar a noite velando o sono da paciente.

O dia estava clareando e os primeiros raios de sol filtravam-se através da cortina, quando Eugênia abriu os olhos. Rosa aproximou-se dizendo:

— Seja bem-vinda, Eugênia. O dia está nascendo e você recuperou suas forças, dormiu como um anjo.

Eugênia parecia meio alheia, olhava como se tentasse recordar onde estava.

— Vou levantar sua cama e faremos agora sua higiene. Depois você vai tomar um bom café com leite. Temos aqui um pãozinho delicioso.

A atendente entrou no quarto trazendo uma bandeja com o café e colocou-a sobre a mesa. Rosa lavou o rosto de Eugênia, deu-lhe uma escova de dentes e um copo com água, segurando uma cuba para que ela mesma cuidasse da higiene bucal. Com uma esponja e água morna, fez a higiene corporal e trocou a roupa do hospital que ela vestia.

Apesar de Eugênia dizer que não tinha fome, Rosa colocou a bandeja sobre a cama, serviu o café com leite e pediu com carinho:

— Você precisa se alimentar. Coma, está tudo quentinho, uma delícia.

Para não decepcioná-la, Eugênia tomou alguns goles do café com leite e começou a comer o pão com manteiga. Estava tão bom que ela comeu tudo com prazer. Quando terminou, perguntou:

— E você, não vai comer?

— Vou. Sou comilona. Pode crer. Mas antes temos que resolver algumas coisas. Você já teve alta e pode ir embora.

O rosto de Eugênia sombreou-se, e Rosa apressou-se a dizer:

— Eu vou com você, lembra-se? Suas roupas estão sujas. Vou precisar arranjar-lhe roupas decentes para podermos ir.

Eugênia pôs a mão na cabeça dizendo assustada:

— Esqueci do desmaio, da chuva. Meu casaco e meu vestido devem estar um horror! Meus sapatos então...

— Eu posso ligar para sua casa e pedir que alguém mande roupas e sapatos para você.

— Não, isso não.

— Você não pode ir embora desse jeito.

— Posso sim. Você vai comigo e traz esta roupa de volta.

— Precisamos ir de táxi. Não temos ambulância nem carro disponível para levá-la.

— Não importa. Tenho algum dinheiro em casa e pagarei o táxi.

— Sendo assim, vou providenciar tudo.

Eugênia deixou-se cair sobre os travesseiros, desanimada. Rosa alisou sua mão com carinho:

— Relaxe. Essa tormenta vai passar. Tenho certeza. Em meu armário tenho um uniforme limpinho. Acho que serve para você. Vou buscá-lo.

Rosa deixou o quarto, e Eugênia fechou os olhos pensando como lhe seria penoso voltar para casa, onde havia passado tantos momentos felizes. Como enfrentar a solidão? Como esquecer o grande amor de sua vida, o fracasso dos seus sonhos de felicidade?

Lágrimas desciam pelo seu rosto. Ela não tinha mais por que viver.

Quando Rosa voltou, notou o quanto Eugênia estava triste e, em pensamento, pediu aos amigos espirituais que a auxiliassem. Depois, tentou animá-la:

— Veja, este é meu uniforme de gala. As pessoas no corredor vão pensar que você faz parte do hospital. Levante-se. Vamos ver como é que fica.

Mesmo sem disposição, Eugênia sentou-se na cama e respirou fundo.

— Levante-se, segure no meu braço. Vamos andar um pouco.

Deram alguns passos e Rosa perguntou:

— Como se sente?

— Um pouco tonta, minha cabeça está confusa.

— É natural. Vamos vestir o uniforme.

Notando a apatia de Eugênia, Rosa a vestiu, depois afastou-se um pouco e disse sorrindo:

— Caiu como uma luva! Você está ótima.

Eugênia continuou a vestir-se sem interesse. Rosa enlaçou seu braço ao dela e disse:

— Vamos caminhar devagar. O táxi já está nos esperando.

Eugênia deixou-se conduzir em silêncio. Rosa informou o endereço ao motorista, e o carro seguiu. Durante o trajeto, Eugênia não disse nada. Estava alheia a tudo. Rosa tentou conversar:

— Não vai me contar nada sobre sua família?

— Sou sozinha. Não tenho mais ninguém.

Percebendo que ela não queria conversar, Rosa manteve-se em silêncio. O táxi parou diante de uma bela casa, rodeada por um lindo jardim.

— Chegamos, Eugênia. Vamos descer.

Eugênia lembrou-se:

— Temos que entrar para pegar dinheiro. Estou sem a chave.

— Não se preocupe. Eu vou pagar, depois nós acertamos.

O táxi se foi, elas pararam diante do portão e Rosa tocou a campainha. Minutos depois, a porta principal foi aberta por uma mulher trajando uniforme de doméstica, que as olhou admirada. Aproximou-se e exclamou assustada:

— Dona Eugênia! É a senhora! Por Deus, quase nos matou de susto. O que aconteceu? Por que desapareceu? Está tudo bem?

Foi Rosa quem respondeu:

— Ela esteve doente. Sou a enfermeira do hospital, vim trazê-la. Ela precisa descansar.

— Sim, senhora. Entrem.

— Como você se chama?

— Odete.

— Leve-nos até o quarto dela, Odete. Vamos acomodá-la.

— Sim, senhora.

Eugênia deixou-se conduzir em silêncio, e Rosa preparou o banho, ajudou-a a lavar-se, vestir uma roupa confortável e perguntou:

— Como está se sentindo?

— Cansada. Muito cansada.

Rosa ajudou-a a deitar-se, depois fechou as cortinas, deixando o quarto na penumbra. Por fim, sentou-se na poltrona ao lado da cama, colocou sua mão sobre a de Eugênia e considerou:

— Descanse. Ficarei aqui do seu lado.

Eugênia fixou-a e disse emocionada:

— Obrigada. Ao seu lado sinto-me segura.

Rosa alisou a mão de Eugênia com carinho:

— Relaxe. Este é um momento seu. Não pense em mais nada. Tudo está em paz.

A enfermeira continuou falando palavras de conforto e, em pouco tempo, Eugênia adormeceu.

O espírito de Marcos Vinícius, que as acompanhara o tempo todo, disse no ouvido de Rosa:

— Um dia você vai saber por que este caso a emocionou tanto. Vamos trabalhar juntos.

Rosa sorriu comovida. Sentia uma energia leve, agradável, e uma vontade muito grande, que emergia do seu íntimo, de dedicar-se profundamente à recuperação de Eugênia.

Então a enfermeira levantou-se e colocou a mão sobre o peito de Eugênia. A respiração estava normal, e Rosa afastou-se procurando não fazer ruído. Assim que desceu, Odete a estava esperando com ar preocupado.

— Ela está dormindo.

— Depois do que aconteceu aqui, ela desapareceu. Eu tive muito medo que ela tivesse feito alguma besteira. Não sabia como agir, pensei em procurar a polícia, mas tive medo. Como foi que a encontrou?

Rosa sorriu e disse:

— Faça isso. Vou ver como ela está. Quando Eugênia acordar, eu aviso.

Rosa entrou no quarto e aproximou-se da cama. Eugênia dormia tranquilamente. Satisfeita, a enfermeira sentou-se e elevou seu pensamento, pedindo que os espíritos de luz derramassem sobre a nova amiga energias restauradoras de serenidade e paz.

 

Rosa abriu os olhos e levantou-se assustada. Eugênia não estava na cama. Olhou em volta e não a viu. A porta que dava para a sacada estava entreaberta, e Rosa rapidamente a abriu e chegou a tempo de ver Eugênia, em pé em cima de uma banqueta, rosto pálido, olhando para baixo. Imediatamente agarrou-se a ela puxando-a para trás.

— Por Deus, não faça isso!

Eugênia tentou desvencilhar-se:

— Solte-me, quero morrer!

Rosa segurou-a firme, dizendo:

— Você está fora de si. Não vou deixar que faça isso!

— Eu não quero mais viver. Por favor, solte-me... Preciso esquecer, descansar.

— Ao contrário do que pensa, se fizer isso, sofrerá ainda mais. Seu espírito é eterno. Você pode matar o corpo, mas sua alma continuará viva no outro mundo e os problemas que a atormentam continuarão de forma mais aguçada, acrescida da culpa por ter desistido da vida inutilmente. Vamos entrar, está frio, venha.

Eugênia rompeu em soluços, e Rosa aproveitou o momento para levá-la até a cama. Depois fechou a porta da sacada, envolveu-a em uma manta e segurou a mão de Eugênia com carinho.

Aos poucos, Eugênia foi parando de chorar e ficou prostrada. Rosa orava em silêncio, mentalizando luz sobre ela e pedindo ajuda espiritual. Sentia que era preciso deixar passar a tempestade para tentar fazê-la refletir melhor.

Estava amanhecendo e os primeiros raios de sol começaram a filtrar-se pelas frestas das janelas, mas Eugênia permanecia imersa em sua dor, indiferente a tudo.

Rosa cuidou dela com carinho, Odete caprichou na comida e elas conseguiram que Eugênia se alimentasse um pouco. Embora muito triste, ela lhes parecera mais calma. Mesmo assim, Rosa não quis ir dormir no outro quarto. Preferiu ficar no sofá.

A enfermeira ainda tentou conversar com Eugênia, mas ela não se mostrou disposta a falar. Contudo, parecia mais conformada. Estaria fingindo para ludibriá-la e fazer o que desejava?

Rosa sabia como as pessoas conseguem ser ardilosas quando desejam ludibriar os outros. Ela dava graças a Deus por ter conseguido evitar que Eugênia se atirasse da sacada, mas dali para frente deveria ficar mais atenta.

Era sábado e Rosa só precisaria voltar ao hospital na segunda-feira. Mas teria de ir trabalhar. Ir embora, deixar Eugênia só com Odete. "Não seria perigoso?", pensava.

Seu coração estava apertado. Sentia que não podia abandoná-la naquele momento. Eugênia continuava sentada na cama, absorta em seus pensamentos, olhos perdidos no tempo.

Rosa aproximou-se, alisou os cabelos da paciente e disse:

— Ainda é cedo, você está cansada. Deite-se, relaxe. Não pense em nada. É hora de descansar, pensar no seu bem-estar.

— Não quero pensar. Quero esquecer. Ah! Se eu pudesse dormir, não acordar, deixar esta vida inútil e infeliz!

— Você não pode, porque a vida quer que continue viva. Seja forte e aprenda a enxergar as coisas como elas realmente são.

— O que falta acontecer? Não bastam tantas coisas ruins, devo viver para sofrer mais?

— Não, Eugênia. Você está olhando a vida pelo lado pior. Acredita que o mal é mais forte que o bem. Isso não é verdade. As coisas que não queremos acontecem para que aprendamos a viver melhor. Quando passa, deixa a marca da experiência, conduz à sabedoria.

— Você é uma pessoa boa, ingênua. Eu sempre fui assim. Acreditava que, sendo boa, não fazendo mal a ninguém, colheria o bem. Isso é mentira! Só tenho colhido sofrimento. Investi em meus sonhos e nada deu certo. Perdi tudo. De que adianta viver?

— O tempo é o melhor remédio. Reaja. Aceite o que lhe aconteceu e procure fazer algo que lhe devolva o prazer de viver.

Eugênia deu de ombros e olhou-a triste:

— Não tenho força para isso. Por que não me deixa em paz?

— Porque me interesso por você. Sua vida é preciosa. Um dia reconhecerá isso! Deite-se. Relaxe.

Eugênia estendeu-se na cama e fechou os olhos desanimada. Rosa disse com voz suave:

— Eu acredito na vida. Sei que há uma força superior que dirige tudo que existe. E, neste instante, vamos evocar as forças superiores da vida. Ela irá ajudar você a reencontrar seu caminho. Sempre que ela tira de você alguma coisa, coloca outra melhor no lugar. Um dia você saberá que tudo aconteceu do jeito que tinha de acontecer. Que tudo está certo no universo!

De olhos fechados, Eugênia ouvia essas palavras e, embora não acreditasse nelas, aos poucos foi sentindo uma energia agradável aquecer seu corpo. Logo adormeceu.

Rosa continuou falando, e Eugênia espírito saiu do corpo e olhou em volta admirada. As palavras que Rosa dizia estavam distantes, ela não as entendia, mas à sua frente estava um moço alto, bonito, de fisionomia agradável, olhos brilhantes, que a fitava.

— Quem é você? — indagou Eugênia, curiosa.

— Marcos Vinícius.

— Você me parece familiar.

Ele sorriu e respondeu:

— Estou aqui para levá-la a um lugar muito agradável.

— Que bom. Eu morri?

Ele meneou a cabeça negativamente.

— Você saiu do corpo, que continua dormindo. Veja.

Eugênia olhou e respondeu:

— Não acredito. Como pode ser isso?

— Pode acreditar. Isso acontece sempre que seu corpo dorme. Seu espírito sai e anda por onde quiser.

— É difícil de acreditar...

A porta do quarto estava fechada, e Marcos atravessou a parede. Do outro lado, pediu:

— Venha até aqui.

— Como? A porta está fechada.

— Seu corpo está dormindo, ele precisa abrir a porta para sair do quarto. Mas agora você está na dimensão do seu espírito e o mundo material não é obstáculo. Venha, atravesse, você pode.

Marcos Vinícius insistiu, e Eugênia, um pouco receosa, obedeceu e atravessou a parede com facilidade. Seu rosto distendeu-se e ela disse admirada:

— Eu acho que morri mesmo e você está me enganando.

Ele riu satisfeito e tornou:

— Eu quis lhe mostrar o que aconteceria se você tivesse pulado daquela sacada. Seu corpo estaria morto, mas seu espírito continuaria vivo e se arrependeria muito de ter feito isso.

Eugênia abaixou a cabeça enquanto duas lágrimas desciam por suas faces. Marcos continuou:

— A morte não é o fim. Seu espírito é eterno. Está estagiando na Terra para aprender a lidar com suas emoções, desenvolver sua consciência, conquistar a sabedoria que lhe dará felicidade. Viver na Terra é uma dádiva divina, uma oportunidade maravilhosa. E, para

isso, você recebeu a colaboração da vida, que tudo dispôs para que tivesse um corpo sadio, uma mente clara, uma vida boa. Quem não valoriza tudo isso enfrentará as consequências de sua escolha e terá de aprender de forma muito mais difícil o que precisa.

Eugênia ergueu os olhos molhados para Marcos Vinícius e disse:

— Eu não sabia que seria assim. Eu queria esquecer.

— Já viu que esse não era o caminho. Você precisa reagir, enfrentar esse desafio, esforçar-se para melhorar. Rosa é uma amiga sua de outras vidas, deixe que ela a ajude. Eu prometo fazer o que for possível para cooperar.

Eugênia aproximou-se, segurou as mãos de Marcos Vinícius e levou-a aos lábios. Depois disse:

— Obrigada por ter me ensinado. Gostaria de me lembrar deste momento pelo resto da vida.

Ele abraçou-a e conduziu-a ao leito:

— Descanse, Eugênia. Nós estamos velando seu sono. Fique em paz.

Eugênia suspirou, acomodou-se sobre o corpo, virou para o lado e continuou dormindo.

Rosa colocou a mão sobre a testa de Eugênia e sorriu satisfeita. Ela não sabia bem o que havia acontecido, mas percebeu que o espírito de Marcos Vinícius estava ali e o rosto de Eugênia estava descontraído e sereno. Respirou aliviada. Sentia que a tempestade havia passado e uma energia de paz as estava envolvendo.

Duas horas depois, Odete entrou no quarto, e Rosa, notando que Eugênia ainda dormia, fez-lhe sinal para que não fizesse ruído.

— Está na hora do almoço. Vocês não comeram nada até agora...

— Vamos esperar que Eugênia acorde.

Odete lançou um olhar perscrutador para Eugênia e comentou:

— O rosto dela está sereno... Graças a Deus, está melhorando.

— Esse sono foi reparador!

Odete assentiu e disse:

— Mas vocês precisam se alimentar.

— Não se preocupe. Assim que ela acordar, avisarei.

— Por que não desce e come alguma coisa? Aproveite enquanto ela dorme.

— Não quero deixá-la só. É melhor esperar.

— Nesse caso, lhe trarei a comida. Você deve ter dormido pouco e precisa comer.

Odete saiu e pouco depois voltou trazendo uma bandeja, que colocou sobre a mesa de apoio.

— Espero que esteja gostando do meu tempero. Coma antes que esfrie.

O aroma da comida estava convidativo. Rosa lançou um olhar sobre a bandeja e sorriu satisfeita. Dava para notar o carinho com que Odete a arrumara. Além da louça bonita, do guardanapo bordado, colocara também um botão de rosa.

— Obrigada, Odete.

Ela sorriu e pediu:

— Assim que dona Eugênia acordar, me avise. Fiquei na dúvida. Acha que ela pode comer essa comida também ou será melhor eu fazer uma sopa, algo mais leve?

— Não se preocupe! Eugênia pode comer de tudo.

Odete deixou o quarto, e Rosa, observando que sua paciente dormia serena, sentou-se diante da bandeja e começou a comer.

Meia hora depois, Eugênia abriu os olhos, olhou em volta como querendo situar-se, e perguntou:

— Onde está ele, foi embora?

— Estamos sozinhas.

— Que pena!

— Com quem você estava sonhando?

Eugênia franziu o cenho, pensou um pouco e tornou:

— Acho que sonhei mesmo. Foi um sonho tão bom que eu não queria mais acordar.

— Sei como é isso. Foi um sonho diferente.

— Isso mesmo. Parecia verdade. Ele fez mágica comigo, tão engraçado... Atravessou a parede e fez com que eu também a atravessasse. Eu não sabia que a gente, durante o sono, podia atravessar portas fechadas e paredes.

Rosa riu gostosamente:

— O que você teve não foi sonho. Seu corpo relaxou, dormiu e seu espírito saiu e foi passear em outra dimensão. Todas as noites, quando dormimos, isso acontece, só que geralmente não tomamos consciência disso.

— Foi o que ele me disse. Mas agora estou em dúvida: o corpo dele também estava dormindo, como o meu?

— Não. Você está falando do espírito de Marcos Vinícius. Atualmente, ele não tem mais o corpo físico e mora no mundo astral.

— É difícil acreditar... Você fala como se o conhecesse. Isso também já aconteceu com você?

— Marcos Vinícius é um espírito iluminado que gosta de ajudar as pessoas que estão vivendo neste mundo. Sempre que atendo alguém que precisa de auxílio espiritual, eu rezo e peço a ajuda dele.

Eugênia ficou em silêncio. Rosa continuou:

— Sempre que ele se aproxima, sou tomada por uma sensação de alegria e bem-estar.

— Foi isso que eu senti. Tanto que queria ficar lá. Fazia muito tempo que não sentia tanto bem-estar. Cheguei a esquecer de tudo.

— Seu sono foi reparador. Você agora precisa se alimentar. Vou avisar Odete para trazer seu almoço.

Rosa abriu a porta do quarto e deu de cara com o rosto angustiado de Odete, que disse baixinho:

— Chegaram alguns parentes de dona Eugênia. Não acho bom que eles a vejam. É melhor descer e atendê-los antes que subam. Ficarei aqui enquanto isso.

— O que está acontecendo? Por que estão cochichando? — Eugênia indagou.

— Não é nada não — apressou-se a dizer Odete. — Estão entregando algumas compras e eu pedi a Rosa que verificasse se tudo está como ela pediu.

— Vou verificar e já volto. Fique com ela, Odete.

Rosa fechou a porta e desceu as escadas. Na sala, duas mulheres andavam de um lado a outro, enquanto um homem de meia-idade aguardava sentado em uma poltrona.

Ele parecia calmo e elas, agitadas. Vendo Rosa chegar, ambas pararam, fixaram-na, e a mais velha tornou:

— Viemos assim que soubemos de tudo. Como está Eugênia?

— Repousando. Teve um problema de saúde e os médicos recomendaram descanso e proibiram as visitas. O homem levantou-se, franziu o cenho e olhou-a sério:

— Sou o doutor Alberto Queiroz, advogado, irmão de Eugênia — estendeu a mão e continuou: — Estas são minha esposa Aurélia e minha cunhada Ana. Viemos de Minas Gerais assim que soubemos o que o Júlio aprontou.

— Pobre de minha cunhada! — comentou Aurélia, nervosa. — Ela não merecia isso!

— É inacreditável! Até agora não consigo acreditar! — tornou Ana, aflita.

— Já descobriram onde ele está? — indagou Aurélia.

— Não sei de nada. Sou apenas a enfermeira designada para cuidar de dona Eugênia.

— Vou subir e conversar com ela. Temos vários assuntos a resolver — Alberto adiantou-se.

— Sinto muito, doutor Alberto, mas o senhor terá de esperar que ela melhore. Dona Eugênia passou muito mal, está medicada, e não tem condições de decidir nada.

— Isso não pode ser. Temos de avaliar a situação. Não sabemos o que aquele louco está fazendo. O tempo está passando e ele pode muito bem estar dilapidando todo o patrimônio de Eugênia.

— Infelizmente, no momento, ela não está em condições. Não posso desobedecer às ordens que recebi. Alberto trocou olhares com as outras duas e resolveu:

— Quero o nome e o telefone do médico que a atendeu. Vou ligar e falar com ele imediatamente.

— Não sei de cor. Posso ligar para o hospital e conversar com ele.

— Nesse caso, ficaremos esperando.

Rosa subiu e, assim que entrou no quarto, Eugênia disse nervosa:

— Odete me contou. Não quero vê-los. Por favor, mande-os embora.

Lágrimas desciam por seu rosto e Eugênia, angustiada, torcia as mãos.

Rosa colocou a mão sobre o braço da paciente e disse olhando-a firme nos olhos:

— Não tenha medo. Nós estamos aqui para defendê-la. Não deixaremos que entrem aqui.    

Eugênia agarrou a mão de Rosa e pediu:

— Não os deixe entrar. Mande-os embora. São corvos em volta da carniça. Se entrarem aqui, não responderei por mim.

— Fique calma. Eu lhes disse que seu médico proibiu visitas e seu irmão quer falar com ele.

— Não permita isso.

— Não será fácil. Seu irmão está disposto a assumir seus negócios.

Eugênia franziu a testa e respondeu:

— De modo algum! Eles querem tomar conta de tudo.

— Estão com diversas malas, acho que vieram para ficar. Não seria melhor falar com seu advogado? —comentou Odete.

Eugênia pensou um pouco e disse:

— Não posso, ele era muito amigo de Júlio. Deve ter encoberto suas patifarias. Não serve. Mas a ideia é boa. Preciso de alguém que me ajude e entenda de leis. O problema é que não conheço nenhum advogado.

— Meu sobrinho é advogado. Se quiser, posso chamá-lo — sugeriu Rosa.

— Faça isso por mim. Eu confio em você! Rosa pensou um pouco e decidiu:

— Vou descer e tentar convencê-los a ir embora.

- Faça isso, pelo amor de Deus!

— Lembre-se de que estamos sob a proteção de amigos espirituais. Reze e confie.

— Quer que a ajude? — Odete questionou.

— Não é preciso, Odete. É melhor ficar com ela. Rosa desceu as escadas devagar, enquanto intimamente pedia a ajuda do espírito de Marcus Vinícius.

De volta à sala, Alberto perguntou-lhe:

— E então, falou com o médico?

— Sim. Mas ele foi taxativo. Dona Eugênia não pode receber visitas e muito menos falar sobre problemas neste momento. Ela está em recuperação e precisa de paz.

— Preciso falar com ele! Ligue novamente! Preciso saber que tratamento estão fazendo e qual é o estado dela.

— Ela está melhorando, quanto a isso não deve se preocupar. Os senhores devem estar cansados da viagem, por que não vão descansar e voltam amanhã à tarde? Penso que então ela já estará em condições de recebê-los.

— Nós viemos para ficar aqui, ao lado dela, para protegê-la — respondeu Alberto com voz firme.

— Aqui os senhores ficarão mal instalados. Só contamos com a Odete para todos os serviços da casa e ela gasta a maior parte do tempo cuidando de dona Eugênia.

Aurélia levantou-se, apanhou a bolsa e disse nervosa:

— Ela tem razão, nós ficaríamos mal acomodados, e eu faço questão de ficar muito bem. Vamos procurar um bom hotel, nos instalar e voltaremos amanhã à tarde.

— Estou cansada e louca para tomar um banho, comer alguma coisa — disse Ana.

Alberto olhou-as indeciso durante alguns segundos, depois tornou:

— Vocês quiseram vir e agora não podem se queixar.

— Eugênia está acamada, não vai fugir. E, amanhã, estará melhor e poderemos nos inteirar de tudo — respondeu Aurélia.

— Está bem. Vamos para um hotel — decidiu Alberto e, voltando-se para Rosa, continuou: — Amanhã à tarde retornaremos.

Eles se foram, Rosa respirou aliviada e, em seguida, subiu para dar a notícia a Eugênia.

— Agora ligue para seu sobrinho e peça a ele que venha até aqui hoje mesmo. Não quero de forma alguma que meu irmão se instale aqui.

Rosa ligou, mas só conseguiu falar com o sobrinho no início da noite. Contou por alto o que estava acontecendo, ele anotou o endereço e prometeu estar lá dentro de uma hora.

A enfermeira deu o recado a Eugênia, que se sentiu mais calma e comentou:

— Não sei o que seria de mim sem você! Acho que nem estaria mais neste mundo.

— Não diga mais isso! Sua vida é preciosa. Tudo vai melhorar, pode acreditar. Você ainda vai ficar muito bem.

Eugênia ficou pensativa durante alguns minutos, depois disse:

— Você me faz bem. Não quero que vá embora nunca mais.

— Bem que eu gostaria, mas preciso trabalhar.

— Não vou deixar você ir embora. De hoje em diante você vai trabalhar aqui, comigo.

Rosa sorriu e não respondeu. Sentou-se ao lado da cama em silêncio.

Pouco depois, Odete entrou sorridente, trazendo a bandeja com o jantar das duas e colocou-a sobre a mesinha. Rosa serviu Eugênia, fez seu prato enquanto Odete as observava satisfeita. Quando elas terminaram, Odete juntou tudo e saiu.

A enfermeira sentou-se ao lado da cama e notou que o rosto de Eugênia estava mais distendido.

— Relaxe, descanse. Quando meu sobrinho chegar, eu aviso.

Eugênia fechou os olhos e, em poucos minutos, adormeceu.

 

Uma hora depois, Rosa tocou levemente o braço de Eugênia:

— Eugênia, acorde, meu sobrinho chegou. Ela abriu os olhos, olhou em volta e perguntou:

— Onde ele está?

— Está nos esperando na sala. Posso mandá-lo subir?

— Espere um pouco. Preciso ir ao toalete.

Rosa ajudou-a a levantar-se e notou satisfeita que a paciente estava mais firme. Ficou do lado de fora, esperando que ela voltasse. Pouco depois, Eugênia surgiu. Havia lavado o rosto, penteado os cabelos, melhorado a aparência.

— É melhor deitar-se.

— Vou ficar na cama, mas sentada.

Rosa ajeitou os travesseiros e Eugênia acomodou-se.

— Pode mandá-lo subir.

Minutos depois, Rosa introduziu o advogado no quarto. Alto, moreno claro, testa larga, olhos e cabelos castanhos.

— Este é meu sobrinho Rogério — Rosa apresen; tou-o a Eugênia.

O rapaz aproximou-se e apertou a mão que Eugênia lhe estendia, tirou um cartão do bolso e entregou-o a ela dizendo:

   — Estou à sua disposição.

— Rosa já deve ter lhe falado sobre meu caso. Minha situação é difícil e estou precisando muito de um bom advogado.

— Minha tia só me contou como a conheceu. Preciso que me diga o que precisa.

Eugênia pensou um pouco e depois disse:

— Vou contar-lhe tudo... Bem... Eu tinha vinte anos quando me casei com Júlio. Estávamos apaixonados, e eu, cheia de sonhos de felicidade. Meus pais estavam bem de vida e pude ter esmerada educação. Formei-me professora por vocação.

Eugênia fez uma ligeira pausa, olhos perdidos no tempo, recordando uma época em que fora feliz. Suspirou triste e continuou:

— Nós sonhávamos com os filhos que teríamos, fazíamos planos em ter uma família unida e feliz, mas isso não aconteceu porque eu nunca consegui engravidar. Começamos a ir de médico em médico, em busca do nosso sonho, mas não conseguimos realizá-lo. Por esse motivo, minha vida tornou-se triste, e, aos poucos, notei que a cada dia Júlio se demorava fora de casa. Nós perdemos a alegria de viver, apesar de que eu nunca perdi a esperança. Até que, naquela tarde, ao chegar em casa depois de visitar uma amiga, encontrei o bilhete de meu marido.

Eugênia não pôde continuar. As palavras morreram em sua garganta, e ela respirou fundo enquanto lágrimas desciam-lhe pelas faces.

Rosa pegou um copo com água e entregou-o a ela dizendo:

— Calma, Eugênia. Descanse um pouco.

— Preciso falar... Ele tem que saber tudo.

— Nós temos tempo. Estou aqui para ajudá-la no que for preciso.

Eugênia balançou a cabeça concordando, depois disse devagar:

— Desculpe, doutor. É que ainda dói. Eu não esperava essa traição. Ele saiu às escondidas. Aproveitou que eu não estava em casa, levou todas suas coisas e foi embora. Para ele, minha dor não significou nada.

Os olhos de Rogério estavam úmidos, e ele disse comovido:

— Não se martirize dessa forma. Não vale a pena.

— Tem razão.

— Ele ainda não se comunicou com a senhora?

— Não. Nada. Nem uma palavra.

Rogério esperou alguns minutos, depois perguntou:

— A senhora quer acionar seu marido?

— Não. A questão é outra. Eu tenho renda própria, herança de meus pais. O que me preocupa agora é meu irmão e sua família. Ele é advogado, ambicioso, mas não teve muito sucesso na profissão. Eu soube que a situação financeira dele está péssima. Perdeu no jogo todo dinheiro que herdou dos nossos pais. Reside em Minas Gerais, mas ontem apareceu aqui com malas, querendo tomar conta de tudo, inclusive da minha casa. Trouxe a esposa e a cunhada. Não confio neles. As duas são maldosas, nunca nos relacionamos bem. Dizem que vieram para me ajudar, mas eu sei que estão aqui para tirarem proveito da situação. É para lidar com eles que preciso da sua ajuda.

— O que deseja que eu faça? — Rogério indagou.

— Não tenho vontade de vê-los. Queriam instalar-se aqui, mas Rosa conseguiu que fossem para um hotel.

Gostaria que fosse procurá-los e lhes dissesse que não preciso de nada. Que tenho capacidade para cuidar de minha vida sozinha. Quero que voltem para Minas e me            

deixem em paz.      

- Posso fazer o que me pede, mas não creio que seja o suficiente. Eles podem querer vê-la, recusarem-se a ir embora sem lhe falar.       

- Não tenho paciência para enfrentá-los. Certamente irão remoer o assunto, falar mal de Júlio. Não vou suportar a presença deles.           

Rogério pensou um pouco e depois sugeriu: 

- Podemos fazer o seguinte: a senhora redige uma carta dizendo que, no momento, não está em condições de recebê-los e que, quando estiver melhor, entrará em contato. Depois, assina uma procuração autorizando-me a cuidar dos seus interesses legais, para que eu     

possa me apresentar à sua família em seu nome. Então, os encontraria amanhã cedo, conversaria com eles e entregaria sua carta. Pode ser que dê certo.    

- Seria ótimo. Ficaria aliviada. Por outro lado, desejo que o senhor seja meu representante legal daqui para frente e cuide da administração dos meus bens.           

- Obrigado pela confiança, dona Eugênia. Farei o que puder para ajudá-la. Agora a senhora precisa assinar a carta e a procuração.   

- Rosa, peça para Odete levar o doutor até o escritório. Júlio gostava de trabalhar em casa. Acredito que lá encontrará tudo que precisa.   

A enfermeira obedeceu e voltou pouco depois dizendo:     

- Rogério já está no escritório escrevendo. Acredito que tudo dará certo.

- Espero! Além de tudo que estou enfrentando, ter de suportar aqueles três seria muito penoso. Gostei do seu sobrinho. Ele me inspira confiança. Notei que se comoveu com minha dor.

Rosa olhou-a triste e respondeu:

— Ele também já sofreu muito. Mas não vamos lembrar agora de coisas tristes. O passado passou.

— Ele é tão moço!

— Nem tanto. Já tem trinta e seis anos.

— Esta vida não vale nada mesmo. É só luta, desilusão, sofrimento.

Rosa sacudiu a cabeça negativamente e disse com voz firme:

— Isso não é verdade. Viver neste mundo é um privilégio.

— Para mim foi só frustração e sofrimento. O amor é ilusão, acaba depressa.

— Você está machucada, ferida em seus sentimentos. Se amargurando e aprofundando a ferida. Não faça isso com você. Procure aceitar a situação e entender que, apesar do que Júlio fez, cada pessoa tem o direito de escolher o próprio caminho. Não se deixe envolver pela raiva. Foque seu bem-estar e procure reconstruir sua vida. Pense que, quando alguém vai embora, Deus coloca em seu caminho algo melhor. É a lei da compensação.

— Estou sem chão... Como posso reconstruir minha vida? É impossível!

— Nosso espírito é livre. Sua reação está demonstrando o quanto você estava apegada ao seu marido.

— Eu vivia para ele, só pensava no bem-estar dele. Tudo o que eu fazia era em função do que Júlio queria e gostava! Eu entreguei a ele todo meu amor e minha vida!

Rosa encarou Eugênia e disse com voz firme:

— Você se apegou a ele e quando isso acontece o  amor acaba.

— Por que duvida do meu amor? Eu dei tudo de mim!

— Você está sofrendo porque esperava que ele fizesse o mesmo por você.

— Esperava mesmo. Mas ele me traiu, foi para os raços de outra. Não valorizou meus sentimentos.

— Quem não valorizou seus sentimentos foi você. Eugênia encarou-a surpreendida:

— Por que acha isso?

Rosa ficou calada durante alguns segundos, depois tornou:

— Você deixou de cuidar das coisas que gostava, de fazer o que lhe dava alegria e tentou viver a vida do seu marido. Agindo assim, apagou a luz do seu espírito e o amor dele foi também se apagando.

Rosa estava sendo inspirada pelo espírito de Marcos

Vinícius e tinha uma visão muito clara da situação. Eugênia a observava tentando entender onde ela queria chegar:

— O que quer dizer com isso?

— Júlio a escolheu entre todas, apaixonou-se pela mulher que você é. Mas com o tempo você mudou, perdeu a vivacidade natural, passou a ser uma sombra dele mesmo.

— Mas eu fazia tudo como ele gostava...

— As pessoas não são iguais. A vida é uma aventura e a diversidade tem sua beleza. As mudanças, as novidades, os novos interesses, o conhecimento, fazem a riqueza da alma. Nós estamos neste mundo para aprender, desenvolver a consciência, amadurecer. Você parou no tempo, enquanto tudo é movimento na vida. Quando alguém se recusa a caminhar, a vida empurra.

— Você está dizendo que eu fui a culpada pelo que ele fez?

— Não se trata de culpa. Você fez o que achou ser o melhor, mas agiu de forma equivocada. Esqueceu-se de si mesma, desvalorizou-se. Júlio teria preferido que você continuasse a ser a mulher pela qual ele se apaixonou, cheia de vida, de opinião e de força.

Eugênia abaixou a cabeça pensativa. Recordou-se das tantas vezes em que sufocou o que gostaria de dizer pensando em agradá-lo! Aceitava tudo, nunca reclamava de nada, mesmo querendo o oposto. Só fazia o que Júlio queria. Nos últimos tempos, consultava-o até para escolher suas roupas e adereços. Sua vida girava em torno do que o marido dizia e pensava. Notava que ele vivia insatisfeito, não gostava mais da comida ou da arrumação da casa, não a convidava mais para sair, vivia distraído, não prestava mais atenção ao que ela dizia. Ele havia mudado muito.

Eugênia suspirou e considerou:

— Quando li o bilhete, pensei que ele houvesse me abandonado por ter se apaixonado por outra mulher. Não teria sido este o motivo?

Rosa olhou-a séria e respondeu:

— A tentação de trair ronda os casais de vez em quando. É natural, mas quando tudo está bem entre o casal, dá para reagir e controlar os impulsos. Porém, quando o encanto acaba e há uma atração forte por outra pessoa, fica muito difícil resistir.

Os olhos de Eugênia marejaram e ela tentou controlar a emoção quando disse:

— Você está mostrando que eu também contribuí para que Júlio me trocasse por outra...

— Você é uma mulher jovem, bonita, inteligente. Estou certa de que um dia encontrará alguém interessante, por quem se apaixonará, e refará sua vida. Você foi traída, sente uma sensação de fracasso, mas, no fundo, o que lhe aconteceu foi uma visita da verdade, que precisa ser analisada com carinho e aproveitada para que isso não se repita.

— Eu não vou amar nunca mais!

Rosa sorriu maliciosa:

— O tempo é um santo remédio. Você vai amar de novo sim. E, dessa vez, se recordará do que estou lhe dizendo e agirá de forma melhor.

— Você está enganada. Eu nunca mais vou confiar em alguém. Daqui para frente viverei sozinha. E isso faz com que eu me sinta muito infeliz.

— É muito cedo para pensar nesse assunto. O que você precisa agora é curar sua dor e reconquistar a alegria de viver.

Eugênia meneou a cabeça negativamente e não respondeu. Rosa continuou:

— A vida é uma aventura maravilhosa, e a Providência Divina nos ajuda a seguir adiante. A evolução é fatal. Você vai melhorar e ser feliz!

Eugênia colocou a mão sobre o braço de Rosa, sorriu levemente e respondeu:

— Você é uma pessoa muito boa e diz isso para me alegrar. Obrigada pelo carinho, Rosa.

Rogério apareceu na porta e bateu levemente. Eugênia pediu que o advogado entrasse, e ele entregou-lhe alguns papéis para assinar.

— Leia e me diga se deseja acrescentar alguma coisa.

Eugênia segurou os papéis, leu seu conteúdo, deu-se por satisfeita e assinou-os, devolvendo-os em seguida a Rogério.

— Peço-lhe que vá procurá-los o mais breve possível. Alberto sabe ser insistente quando quer alguma coisa, e eu sei que ele quer se aproveitar da minha situação.

— Farei tudo que puder para que eles entendam sua posição.

Odete entrou trazendo uma bandeja com água, café e alguns biscoitos. Serviu o café, deixou a bandeja sobre a mesa e afastou-se.

Minutos depois, Rogério despediu-se, prometendo mantê-las informadas.

Rosa desceu com o sobrinho até a porta.

— Obrigado, tia, por ter me chamado. O caso de dona Eugênia me tocou muito. Farei o que for possível para auxiliá-la.

— Estou certa disso. Eu também me comovi muito quando a vi no hospital. Parecia morta, não queria voltar à vida. Foi preciso pedir a ajuda dos espíritos.

— Espero que eles me ajudem também.

— Sinto que Marcos Vinícius tem muito interesse neste caso. Veio pessoalmente cuidar dela.

— Não podemos decepcioná-lo.

Rogério abraçou a tia e beijou-a na face despedindo-se. Depois que ele se foi, Rosa foi ver Eugênia, que, recostada nos travesseiros, olhos fechados, parecia dormir. Mas a enfermeira sentiu que ela estava tensa e se esforçava para manter a calma.

Rosa, então, sentou-se ao lado da cama, colocou a mão sobre a testa de Eugênia e disse com voz suave:

— Relaxe, Eugênia. Pense que nós estamos sob proteção espiritual e que você vai ficar bem.

Lágrimas desceram pelas faces de Eugênia, que continuou em silêncio enquanto Rosa elevava seu pensamento, imaginando que energias de paz e amor desciam sobre elas.

 

Eram oito horas da manhã seguinte, quando Rogério chegou ao hotel onde Alberto, irmão de Eugênia, estava hospedado e encontrou-o tomando café no restaurante. Assim que Alberto soube da presença do advogado, imediatamente foi encontrá-lo.

Depois dos cumprimentos, com a fisionomia séria, o irmão de Eugênia disse com voz firme:

— Sua presença aqui é desnecessária. Minha irmã não está bem e eu mesmo quero cuidar dela.

— Dona Eugênia pediu-me que viesse vê-lo e lhe entregasse esta carta.

Alberto apanhou a carta, abriu-a e leu seu conteúdo. Depois, meneou a cabeça negativamente, devolveu-a a Rogério dizendo:

— Não acredito que Eugênia tenha decidido isso sozinha. Ela tem um irmão que a quer muito bem e eu não vou permitir que um desconhecido cuide dos interesses dela. Não vou aceitar esta carta. Não conheço você nem aquela mulher que diz ser enfermeira e está me impedindo de ver minha irmã. Isso está me cheirando mal. Não vou permitir que ninguém se intrometa na família. Nós somos seus únicos parentes e temos o dever de socorrê-la neste momento difícil.

— Faça como quiser, senhor. Mas tenho uma procuração exclusiva de dona Eugênia, em que me nomeia seu advogado, com plenos direitos de cuidar de todo seu patrimônio.

Alberto empalideceu e respondeu nervoso:

— Eu não aceito isso. Vocês forjaram essa procuração, mas eu vou interditá-la na justiça! Eugênia não está em condições de decidir as coisas. Ela permaneceu desacordada por dias e as coisas não estão claras.

Rogério encarou-o sério e respondeu:

— O senhor está enganado. Dona Eugênia está completamente lúcida e capaz de tomar conta de si mesma. Nós estamos lá a pedido dela e dispostos a obedecê-la em tudo.

— Irei denunciá-los à polícia! Vocês me impediram de vê-la! Se for preciso, irei até lá com uma viatura policial. Ninguém me impedirá de vê-la!

— Ela não deseja recebê-los! Pediu-me para lhes dizer que não a procurassem.

— Ninguém me impedirá de vê-la! Agora mesmo irei à polícia!

— Já dei o recado, senhor. Faça como quiser. Até outro dia.

Rogério saiu sem estender a mão a Alberto e foi diretamente para a casa de Eugênia para contar-lhe o ocorrido. Alberto, irritado, foi direto para o quarto onde Aurélia e Ana dormiam. Ele aproximou-se da esposa e sacudiu-a dizendo:

— Acorde, mulher! Chega de dormir. Vocês precisam levantar. Acorde sua irmã. Temos que tomar providências.

Aurélia abriu os olhos assustada:

— O que foi? Por que me acordou tão cedo?

— Cedo? São oito e meia. Já tomei café, o mundo está desabando, e vocês continuam dormindo. Se não fizermos nada, vamos continuar na penúria.

Aurélia esfregou os olhos, encarou o marido e respondeu:

— Pra quê esse barulho todo? Eugênia não vai fugir. Está doente em casa.

— Bem se vê que você não entende nada. Se não conseguirmos algum dinheiro, logo não teremos o que comer. Pensou nisso?

Aurélia arregalou os olhos:

— Como assim? E aquele dinheiro do meu bracelete que vendemos antes de viajar?

— Teremos de pagar o hotel e não vai sobrar muito.

— Espero que por perto não tenha nenhum cassino para você torrar o que sobrar.

— Se tivesse seria bom porque eu poderia ganhar muito mais. Infelizmente, não tem.

— Afinal, o que aconteceu para você ficar desse jeito?

— Apareceu aqui um advogadozinho com uma procuração, que deve ser falsa, para dizer que Eugênia não quer nos receber e pedir para irmos embora.

— Ela mandou nos dizer isso?

— Fez mais! Deu a ele uma procuração com plenos poderes para cuidar dos seus negócios. Você acha que é verdade?

Ana, que acordara e ouvira toda a conversa, disse séria:

— Eu acho que é verdade. Eugênia nunca nos recebeu bem. Ela deu desculpas várias vezes para não ir à nossa casa. É bem capaz de ter dito isso mesmo.

Alberto sacudiu a cabeça irritado:

— Você é muito boba, Ana! Acredita em tudo que os outros falam. Nós somos a família de Eugênia, seus únicos parentes. Agora que ela foi abandonada pelo marido, precisa da nossa proteção. E nós vamos vê-la nem que eu tenha que chamar a polícia. Quero ver se esse advogadozinho vai conseguir o que quer! Tratem de se levantar, se arrumar e tomar logo esse café, porque eu quero ir ver Eugênia o quanto antes. Vou esperar lá embaixo. Não demorem.

As duas entreolharam-se pensativas, depois trataram de obedecê-lo. Sabiam que, quando se irritava, Alberto se tornava intratável e derramava sua raiva sobre elas.


Capítulo 5

Quando Rosa abriu a porta da casa de Eugênia e olhou para o rosto do sobrinho, percebeu logo que ele não tinha conseguido nada e disse logo:

— Pela sua cara, não deu certo!

— Não deu mesmo. Dona Eugênia tem razão em não querer recebê-los. O irmão dela é intratável. Ele nos acusou de termos falsificado a procuração e impedido que visitassem dona Eugênia para ficarmos com tudo que ela tem. Chegou até a me ameaçar, dizendo que viria com um policial para visitar a irmã.

— Que horror! Você acha que ele seria capaz de fazer isso?

— Não sei. Ele estava bastante irritado. Acho melhor preveni-la e ver o que ela quer fazer a respeito da situação.

— Vamos subir.

Bateram levemente na porta do quarto e entraram. Rogério olhou admirado para Eugênia. Ela estava bem--vestida e com os cabelos mais arrumados. Seu rosto ganhara um pouco de cor e seus olhos estavam mais vivos.

— A senhora está melhor! — comentou satisfeito o advogado.

— Decidi sair da cama! Não estou doente. Hoje quero descer e tomar café na copa, como sempre. Rosa sorriu alegre e convidou:

— Isso mesmo, vamos! Rogério voltou do hotel e quer conversar.

— Está bem. Conversaremos enquanto tomamos café.

Enquanto Odete arrumava a mesa para o café e o grupo se acomodava na copa, Rogério comentou:

— É melhor tomarmos o café e deixarmos a conversa para depois.

Eugênia encarou-o e respondeu:

— Já sei. Alberto não vai atender ao meu pedido.

— É... Ele ficou muito irritado. Falou até em ir à polícia...

— Isso é bem do perfil dele. Hoje acordei cedo, estive pensando em minha vida e decidi mudar algumas atitudes.

Eugênia semicerrou os olhos, ficou calada durante alguns segundos, e depois continuou entre dentes:

— Nunca mais vou contemporizar e fazer o que os outros querem. Eu estou em primeiro lugar. Ninguém mais vai me passar para trás. Se ele vier com a polícia, será recebido como se deve.

Os três olharam-na admirados e Odete não se conteve:

— O doutor Alberto sabe ser mau quando está irritado! Vai dar muito trabalho!

Eugênia pensou um pouco e depois disse:

— Não se preocupem. Vou recebê-los do meu jeito. Vamos tomar café com calma e esperar que apareçam.

Enquanto se servia e tomava calmamente seu café, Eugênia disse:

— Estive parada no tempo e preciso me atualizar. Estou pensando em voltar a estudar.

— O que gostaria de aprender? — indagou Rogério. Eugênia pensou durante alguns segundos e depois respondeu:

— Não decidi ainda. Terá de ser algo que me dê prazer. Durante anos, estive fora de mim, querendo viver a vida dos outros. Tudo que fiz foi seguir o que os outros queriam. De agora em diante, só farei o que eu gosto. Estou pensando no meu bem-estar.

Rogério sorriu levemente e considerou:

— Cada um está ciente do que precisa para ficar bem. Prestar atenção aos próprios sentimentos traz discernimento e saber avaliar situações nos ajuda a enfrentar os desafios do dia a dia.

— E se, além disso, você tiver fé, acreditar na vida e se ligar ao bem, o universo trabalhará a seu favor — tornou Rosa.

Eugênia fixou-a séria e respondeu:

— Eu não sei o que é isso. Até agora nenhuma religião conseguiu me trazer essa fé que você menciona. Como posso ter fé na vida, se dela só espero sofrimento e dor? Para mim, religião é uma ilusão a que muitos se agarram para tentar escapar do sofrimento.

Pelos olhos de Rosa passou um brilho emocionado quando disse:

— Não estou falando de religião, Eugênia. Há quem consiga encontrar ajuda por meio delas, mas estou falando, na verdade, da força maior que criou o universo e nos deu a chance de viver. Estou falando de Deus!

— Ele está muito distante e ocupado para olhar para o que as pessoas têm feito no mundo que criou.

— As pessoas é que se distanciam dele. Mas se você evocá-lo, sentirá na alma sua presença. É lá que Ele vive, alimentando seu corpo, sua vida, e inspirando seu espírito a tornar-se mais consciente de como as coisas são. Nós somos ainda crianças espirituais e estamos neste mundo para desenvolver nossos potenciais. Somos espíritos eternos.

Eugênia abaixou a cabeça, passou a mão na testa como se tentasse afastar de si alguns pensamentos, e tornou:

— Eu gostaria de entender por que certas coisas acontecem. Por que pessoas boas, que não prejudicam ninguém, passam por tantos sofrimentos? Como acreditar nessa proteção da vida?

Rogério disse com voz suave:

— Nós ainda não temos todas as respostas. Como exigir que uma criança, que está no primeiro ciclo, saiba solucionar problemas de um curso superior? Contudo, à medida que ela amadurece, aprende, ela cria condições para, um dia, conseguir resolver esses problemas com maior facilidade.

— Estou vendo que vocês são pessoas de fé. Gostaria de ser assim também.

— A fé nos fortalece e ajuda a enfrentar os desafios que encontramos em nosso caminho. Ao longo da vida, ela é construída por meio de provas que nos mostram que, apesar dos problemas, estamos o tempo todo rodeados por espíritos de luz, dispostos a nos inspirar e proteger.

— Em meio à tempestade que destruiu minha vida, eu tive um sonho e nele vi um moço bonito, alto, cujos olhos me envolveram e trouxeram paz. Ele me abraçou e me levou para um lugar maravilhoso, onde todo meu sofrimento desapareceu. Me senti tão bem que pensei ter morrido e estar no paraíso. Queria ter ficado lá para sempre. Que pena, foi apenas um sonho!

Rosa segurou a mão de Eugênia dizendo emocionada:

— Você se lembra! Esse moço se chama Marcos Vinícius. É um espírito amigo que já viveu neste mundo, mas agora mora em uma dimensão astral. Foi ele quem a trouxe de volta para seu corpo.

Eugênia abriu a boca e fechou-a novamente sem saber o que dizer. Ao recordar-se do sonho, teve, intimamente, a sensação de que aquilo havia realmente acontecido e, durante alguns segundos, o mesmo bem-estar que experimentara reaparecera forte em seu peito.

— Se isso aconteceu mesmo, ele deveria ter me deixado lá!

— Ele não tem esse poder, Eugênia, e não tinha chegado sua hora. A vida na Terra é uma experiência preciosa, que lhe abrirá as portas do conhecimento. Aqui, cada um de nós é livre para fazer nossas próprias escolhas, mas o resultado de cada uma delas, em seu devido tempo, volta para que possamos aprender como a vida funciona.

— Não seria mais prático termos sido criados perfeitos e sabendo tudo?

— Você gostaria de ser um robô?

— Como assim, não entendi.

— A vida nunca nos condenaria a sermos bonecos, sem sentimentos, nem experiências. Além disso, sem o mérito de podermos criar nosso próprio destino — tornou Rogério.

Rosa continuou:

— Nós fomos criados simples e ignorantes, mas à semelhança de Deus. Somos espíritos eternos e temos o poder de escolher e criar nosso destino. Vivemos em um ambiente preparado para nos auxiliar a abrir a consciência, desenvolver nossos potenciais, aprender a conquistar o equilíbrio físico, emocional e espiritual. Para conquistarmos esse estado de felicidade, teremos que conhecer as leis da ética espiritual e praticá-las até que se tornem manifestações espontâneas em nossa vida.

— Isso é um sonho bom demais para ser verdade. Que provas você tem de que a vida seja realmente assim?

Rosa ficou silenciosa por alguns segundos, depois respondeu:

— Desde a mais tenra idade, eu sentia em mim uma energia agradável e ao mesmo tempo a certeza de que tudo à minha volta existia para cooperar com o meu progresso. Era apenas uma sensação, não sabia o porquê. Espíritos amigos, de vez em quando, me visitavam em sonhos e falavam sobre espiritualidade, inspirando-me pensamentos bons. Mas foi na adolescência que minha sensibilidade se abriu mais e então eu pude vê-los.

— Você tem certeza de que não foi alucinação? Rosa sorriu e meneou a cabeça negativamente.

— Tenho. Foram muitas as provas e hoje tenho certeza do que estou vivendo. Mas as pessoas não são iguais. Além disso, cada uma está em seu próprio processo de evolução. Tenho certeza de que um dia você terá essas provas de tal forma que todas suas dúvidas desaparecerão.

Eugênia encarou-a séria e perguntou:

— Esse Marcos Vinícius é um deles?

— Sim. Você esteve com ele em um momento difícil de sua vida. Trata-se de um espírito bom, que dedica boa parte do seu tempo a auxiliar as pessoas em dificuldade.

Se fechar os olhos e lembrar-se daquele sonho, poderá sentir a energia de Marcos Vinícius novamente.

Eugênia fechou os olhos, então Rogério e Rosa ficaram em silêncio esperando que ela falasse. Um fundo suspiro escapou do peito de Eugênia, que abriu os olhos e disse admirada:

— Lembrei vagamente do rosto dele, me esforcei para vê-lo mais claramente, mas não consegui. Senti um calor gostoso dentro do peito...

— Você sentiu a energia dele.

— Quer dizer que ele está aqui?

— Foi apenas uma ligação telepática.

— Pode acontecer isso?

Foi Rogério quem respondeu:

— Pode sim. É comum acontecer entre as pessoas aqui. Quando alguém se lembra de você ou se aproxima, há uma troca natural de energias que provocam reações conforme as emoções que contêm.

— Será? Isso é uma invasão de privacidade. Não pode ser verdade.

Rosa interveio:

— É só uma questão de sintonia. As energias que você exala refletem o teor daquilo em que você crê. Quando você fica no bem, mantém o equilíbrio mesmo que uma pessoa maldosa, cujo teor energético pode provocar mal-estar, se aproxime de você. Então, por não encontrar reciprocidade, ela logo se afasta. Não ocorre a liga.

— Se isso for verdade, teremos de tomar conta até dos nossos pensamentos.

Rogério riu e comentou:

— É o que nós tentamos fazer o tempo todo. Nunca aconteceu de você ter ido a uma festa com prazer e, pouco depois, seu entusiasmo desaparecer e você ter sentido uma vontade forte de ir embora, de sair correndo? Isso já me aconteceu mais de uma vez!

— Eu já passei por isso mais de uma vez. Até em lugares em que ninguém me conhecia.

— É que quando ficamos perto de alguém, ainda que por alguns segundos, nossas energias se misturam. E, se não nos sentimos bem, nossa intuição nos mostra que precisamos sair, ir embora do lugar.

Eugênia ficou pensativa durante alguns segundos e depois disse:

— Agora entendo por que nunca me senti bem ao lado do meu irmão e de sua família. Nós não temos nenhuma afinidade. Ele faz coisas de que eu não gosto e tem um modo de olhar que me incomoda. Sinto como se ele fosse me dar o bote e acabar comigo.

— Ele tenta mostrar-se melhor do que é para obter o que quer. Mas você tem uma boa intuição e capta os verdadeiros sentimentos dele — explicou Rosa.

— De fato, ele fala coisas boas e, por esse motivo, várias vezes questionei essa aversão que sinto por eles. Até me senti culpada. Entretanto, todas às vezes em que cedi ao que Alberto queria, tive problemas.

Foi a vez de Rogério intervir:

— É simples. O que cada um pensa e quer cria o teor das energias que distribui à sua volta. Uma pessoa que tem mais sensibilidade nota isso logo e, embora trate a todos de maneira educada, instintivamente só permite que entre em sua intimidade pessoas que lhe são mais afins.

— Isso funciona quando a pessoa é verdadeira e seu sim ou seu não são confiáveis — tornou Rosa sorrindo.

Eugênia franziu o cenho:

— Como assim? Explique essa questão melhor.

Rosa não se fez de rogada:

— Aqueles que, por vaidade e para serem aceitos, fingem ser melhores do que são e abrem as portas para as energias negativas, que se alojam e acabam desequilibrando até a saúde. Negar sua verdade é uma ilusão perigosa, que a vida, a todo custo, tentará destruir.

Eugênia não se deu por convencida e questionou:

— Como vamos saber qual é a nossa verdade?

— Não se iludindo com as aparências. Pela nossa cabeça circulam pensamentos que captamos de outras pessoas e, em grande maioria, esses pensamentos não refletem a nossa maneira de ser. Além disso, há a influência cultural, do meio, da família, dos professores. O que conta é o nível da nossa evolução espiritual. E isso está guardado em nossa alma e se revela através do sentir. Prestar atenção ao que sentimos nos conecta ao nosso mundo íntimo. É uma experiência reveladora.

— Há coisas que eu sinto e sei que são verdadeiras, sem nunca as ter analisado. É isso que você quer dizer?

— Isso mesmo — comentou Rogério. — A intuição é a linguagem da alma. Quando ela se manifesta e não a seguimos, sempre nos arrependemos depois.

Eugênia ficou pensativa e ia responder, quando Odete aproximou-se dizendo:

— Eles chegaram, devo mandá-los entrar? Eugênia levantou-se e respondeu:

— Sim. Vamos esperá-los na sala.

Quando eles se acomodaram, os visitantes entraram. Aurélia vinha na frente, rosto preocupado, mãos estendidas e dizia com voz contrita:

— Eugênia, estou muito triste com o que lhe aconteceu. Como Júlio pôde ser tão ingrato?

Alberto, sério, ajuntou compenetrado:

— Eu estou aqui para defendê-la daquele ingrato!

Ana comentou com voz triste:

— Você não merecia isso!

Eugênia olhou-os, sorriu e respondeu com voz calma:

— Não se preocupem, está tudo bem. Isso eu garanto. Este é o doutor Rogério, meu advogado, e esta é minha amiga Rosa. Obrigada por terem vindo. Queiram sentar-se.

E, voltando-se para Odete, que aguardava discretamente, ela continuou:

— Por favor, Odete, providencie um café para as visitas. Sentem-se, fiquem à vontade.

Eles não esperavam ser recebidos daquela forma. Sentaram-se e Aurélia comentou:

— Você parece estar melhor.

— Eu estou bem — Eugênia respondeu.

Alberto, que já havia recuperado a presença de espírito, comentou:

— Você quer aparentar que está bem. Mas eu sei que, por dentro, deve estar arrasada. Afinal foi traída, trocada por outra, abandonada depois de tantos anos de casamento.

Eugênia abanou a cabeça negativamente, sorriu e respondeu:

— Engana-se, Alberto. Quando o amor acaba não há mais como manter um casamento. Eu entendo que Júlio se apaixonou por outra e seguiu seu caminho. Por outro lado, estou livre para fazer da minha vida o que quiser. Ainda estou apreciando minha liberdade e fazendo alguns planos para o futuro.

— Sempre achei que você amasse muito seu marido! Parece que não está se importando com o que ele fez! Custo a acreditar! — tornou Aurélia escandalizada.

— A situação me parece falsa. Você está fingindo. Mas sabe que, como sou seu irmão, estou aqui para ampará-la apesar das nossas diferenças e fazer o que for preciso para que você esqueça aquele traidor.

Odete aproximou-se com a bandeja de café, serviu a todos e colocou sobre a mesinha um prato com alguns docinhos.

Eugênia encarou-o séria e disse com voz firme:

— Obrigada pelo interesse, Alberto, mas eu posso tomar conta de mim como sempre fiz. Voltem tranquilos para casa e certos de que não estou precisando de nada.

Alberto tomou o café, devolveu a xícara à bandeja e respondeu:

— Quando se casaram, Júlio não era rico. No entanto, era bom de finanças e soube cuidar do patrimônio que você herdou dos nossos pais. Agora que ele foi embora, você vai precisar de alguém que o substitua e preserve seus bens.

— Eu sei disso e já tomei minhas providências. Contratei o doutor Rogério, aqui presente, para isso. Ele é competente e de minha confiança. Não precisa se preocupar.

Alberto mordeu os lábios tentando dissimular a raiva e respondeu:

— Não entendo como prefere confiar em um estranho em vez de aceitar meu conselho. Sou uma pessoa experiente e, além disso, só penso no seu bem-estar.

— Não insista. Já assinei uma procuração para ele e tudo está decidido. Mudando de assunto, quanto tempo pretendem ficar em São Paulo?

— Na verdade, estamos pensando em nos mudar para cá. Eu havia pensado até em morar com você, pelo menos enquanto procuramos uma casa para alugar.

Eugênia colocou a xícara na bandeja, sorriu e disse:

— Agora que estou sozinha quero manter a minha privacidade. Rosa vai me fazer companhia. Pretendo cuidar de mim. Vocês têm uma casa boa em Belo Horizonte, onde a vida é mais calma. Vocês sempre viveram lá. Não vão se acostumar a morar aqui.

Alberto levantou-se nervoso:

— Por que tem que ser assim? Viemos com o coração na mão querendo compartilhar de sua vida, oferecer-lhe apoio, ajudá-la neste momento difícil, e você nos repele. Não entendo.

Eugênia ficou em pé e encarou-o firme:

— Eu não preciso de babá. Sei cuidar de mim. Faça de sua vida o que quiser, não pense em mim, porque não estarei disponível. Meu advogado está me esperando para iniciarmos uma reunião e tratarmos dos assuntos de meu interesse. Acho que já conversamos o suficiente, Alberto. Agradeço por terem vindo me apoiar, desejo que sejam muito felizes em todos os seus empreendimentos, mas é hora de dizer adeus.

Alberto olhou-a com raiva, tentou controlar-se, voltou-se para as suas companheiras e disse:

— Vamos embora. Nada mais temos a fazer aqui.

As duas mulheres levantaram-se, Eugênia estendeu-lhes a mão para se despedir, mas Aurélia a abraçou e disse com voz triste:

— Você ainda vai se arrepender de nos mandar embora.

— Vá com Deus, Aurélia.

Eugênia estendeu a mão para Ana, que a apertou em silêncio. Alberto aproximou-se, esforçando-se para controlar a raiva, e abraçou-a dizendo com voz compungida:

— Vou embora. Mas depois, quando tudo der errado, lembre-se de que fiz tudo para auxiliá-la e você recusou a minha ajuda.

— Vá com Deus, Alberto. Seja feliz.

Depois que o grupo se foi, Eugênia deixou-se cair em uma cadeira, suspirando aliviada:

— Pensei que eles nunca mais iriam embora! Que horror!

— Eles ficaram muito bravos, mas, diante de sua atitude, só lhes restou irem embora. Parabéns, você agiu de forma brilhante.

— Obrigada, Rogério. Confesso que foi difícil, pois nem sempre consigo me controlar.

— Você fez o melhor. Tratou-os com respeito, soube se colocar e conduziu muito bem a situação. Mas as energias aqui estão tumultuadas. Eles estão inconformados. Antes de começarmos a pensar nas providências que precisaremos tomar, acho prudente, inclusive, fazermos uma prece, envolvê-los com energias de calma e amor, a fim de impedir que os pensamentos deles nos envolvam.

Odete aproximou-se dizendo:

— Também quero rezar com vocês. Fiquei tão nervosa com a presença deles que estou com uma terrível dor de cabeça.

Os quatro sentaram-se, Rosa pediu que dessem as mãos, fechou os olhos e murmurou uma sentida prece, enviando luz aos visitantes e bem-estar a todos os presentes.

 

Os três deixaram a casa de Eugênia inconformados. Alberto não continha a raiva:

— Isso não pode ficar assim! Eugênia vai pagar caro por nos humilhar dessa forma.

Aurélia deu de ombros:

— Eu sabia que ela não iria nos aceitar. Eugênia sempre deixou claro que nossa presença não lhe agrada.

Ao que Ana juntou:

— Isso não é justo! Afinal, Alberto é seu único parente. Pensei que finalmente Eugênia iria aceitar nossa ajuda, mas vejo que ela prefere confiar em desconhecidos.

— Ela vai quebrar a cara! Vocês vão ver. Nem sequer nos convidou para almoçar. Sou seu único irmão! — Alberto pensou um pouco e continuou: —Nosso dinheiro está acabando. Eu contava com a possibilidade de podermos ficar aqui com ela, pelo menos até a nossa situação melhorar.

— É melhor voltarmos pra casa, Alberto. Nosso dinheiro vai acabar mais depressa se ficarmos no hotel — sugeriu Aurélia.

Uma vez no hotel, Alberto não queria ir embora, mas, depois de fazer as contas da diária, decidiu:

— Vamos embora agora! Mas não pensem que desisti. Deixo vocês em casa e volto. Ela terá de me receber.

Colocaram as malas no carro e acomodaram-se. A tarde estava quente e Aurélia reclamou:

— Você ainda não mandou consertar o ar? Vamos cozinhar durante a viagem.

— Abra a janela e reze para conseguirmos chegar em casa. As pastilhas estão gastas e o mecânico não quis trocá-las.

— Claro. Você ainda não pagou o que lhe deve!

— É melhor ficar calada senão as deixarei na estrada. Estou cansado, irritado, e não estou disposto a suportar suas reclamações. Chega!

Aurélia fechou a cara e a boca enquanto seus olhos brilhavam rancorosos.

Eles tinham algumas horas de viagem e teriam de se conformar. Quando chegaram a Belo Horizonte já era tarde da noite. Ao pararem diante do portão da garagem do sobrado onde moravam, Alberto comentou:

— Ainda bem que chegamos. Desça, Aurélia, abra o portão.

Ela obedeceu com raiva, mas não disse nada. Sabia que, quando se irritava, Alberto se tornava violento com facilidade.

Vendo a situação delicada, Ana apressou-se a tirar as malas do carro antes que os dois discutissem por causa disso.

Durante a viagem, haviam comprado pães e frios. Aurélia, então, foi para a cozinha preparar alguns sanduíches. Sabia que Alberto ficava nervoso quando passava da hora das refeições e que já devia estar faminto àquela hora.

Enquanto ela preparava o lanche, Ana punha a mesa e, em poucos minutos, sentaram-se para comer. Depois de comer e tomar uma cerveja, Alberto relaxou. Aurélia aproveitou para desfazer o mal-estar.

— Você deve estar muito cansado. Vamos para o quarto. Se quiser, posso fazer aquela massagem para você se sentir melhor.

Ele fixou-a e seu rosto distendeu-se.

— Depois do que passamos, vai ser bom. Vamos logo. Ana pode cuidar da louça.

Ana sorriu e respondeu:

— Vão descansar. Eu guardo tudo.

O casal foi para o quarto enquanto Ana dissimulava a raiva. Nunca se casara e, quando seus pais morreram, ela passou a viver na casa da irmã às expensas deles, uma vez que seus pais não deixaram nada. Embora procurasse encobrir seu desconforto, esse fato a incomodava. Às vezes, pensava em fazer alguma coisa, trabalhar, mas não sabia em quê. Deixara o tempo passar e, aos quarenta e cinco anos, achava que não dava mais para investir em algo. Na juventude, tivera alguns namorados, mas nada dera certo. O único que lhe interessara de fato havia morrido, o que a infelicitou ainda mais e impediu que se interessasse por outros.

Aurélia não tivera filhos, embora o marido desejasse muito. Ana sabia que a irmã sempre dizia que não queria ter filhos, mas nunca disse isso ao marido. Porém, ela desconfiava que Aurélia evitou engravidar durante toda a vida. Ana não concordava com a atitude da irmã, mas nunca mencionara o assunto. Imaginava que, se tivesse casado, gostaria de viver rodeada de crianças.

No quarto, enquanto massageava as costas do marido, Aurélia comentou:

— Você está cheio de nódulos. Precisa controlar a tensão, relaxar mais. Você leva tudo a ferro e fogo, Alberto! Isso faz mal.

— Eu sei... Mas nossa situação está muito ruim. Eu pretendia falar com Júlio para ver se ele tinha alguma coisa para me passar, no entanto, depois do que ele fez, desisti. Após a causa daquela malharia, bateu o azar e os clientes sumiram.

— Acho que aquela mulher ficou com raiva porque perdeu tudo e fez algum trabalho contra você.

— Que bobagem. Não acredito em nada disso.

— Pois eu já vi muitas coisas... Vire agora. Sente-se melhor?

— Melhorei. Estou mais calmo. Mas sabe, tenho pensado muito. Quero trabalhar em São Paulo. Lá sim, o dinheiro corre solto. Aqui, as coisas estão enroladas. Não dá mais para ficar em Belo Horizonte.

— Eu também gostaria de morar em São Paulo. Estou cansada da mesmice. Mas para isso você precisa relacionar-se com pessoas importantes de lá.

— É por isso que eu quero ir morar com Eugênia, familiarizar-me com as pessoas do ramo. Lá acontecem as grandes tacadas e as maiores causas.

— Ela não quer nos receber e parece que sabe se cuidar muito bem. Faz pouco tempo que Júlio foi embora, e ela já resolveu tudo. Aliás, Eugênia parecia amar tanto aquele marido, mas se recuperou depressa demais. Acho uma perda de tempo tentar procurá-la novamente.

— Humilhar-me depois da atitude dela será odioso, mas o que poderei fazer senão ir?

Aurélia pensou um pouco, depois disse:

— Por que não vai atrás do Júlio? Ele sempre gostou de coisas caras, do luxo, sempre viveu muito bem. Ele não iria sair do lado dela se durante os anos de casamento não tivesse ganhado o suficiente para manter o padrão de vida de que tanto gosta.

— Será que deu o golpe nela?

Aurélia meneou a cabeça:

— Não. Ele não faria isso. Depois, segundo sei, a herança de Eugênia está garantida e não podia ser manipulada por Júlio.

— Eu sei o que quer dizer. Ele não era rico quando se casou, mas Eugênia sempre foi moça de sociedade, muito bem relacionada e querida pelas melhores famílias. Júlio sempre soube relacionar-se socialmente. Inteligente, elegante, educado, sorriso fácil, e com curso universitário. Claro! Por que não pensei nisso antes?

— Todos os negócios que ele fez deram certo. Me contaram que ele ganhou muito dinheiro.

— Você tem razão. Onde será que ele está?

— Pode ter mudado de cidade para evitar as más línguas. Sabe que, em sociedade, um passo desses pode provocar um desastre. Eugênia sempre foi considerada uma esposa exemplar, um modelo de mulher correta!

— Uma ingênua, isso que ela é. Não percebeu nada e deu no que deu. Mas ela que se cuide. Eu tenho pressa. As coisas estão muito ruins. Não dá para esperar mais. Vou começar a procurá-lo amanhã mesmo.

— Vá mesmo. Isso pode dar certo.

Alberto abraçou-a alegre:

— Ainda bem que tenho você, que sabe fazer a melhor massagem do mundo e tem boas ideias. Agora vamos dormir. Amanhã é outro dia.

A partir daquele dia, Alberto empenhou-se em descobrir o paradeiro do ex-cunhado. Mas nada conseguiu. Uma semana depois, chegou em casa desanimado e desabafou com Aurélia:

— Não está dando certo! Circulei pelo clube que Júlio costumava frequentar nas poucas vezes que vinha aqui e no qual dizia ter amigos, mas ninguém sabia nada sobre ele. Cheguei à conclusão de que preciso arranjar um jeito de ir a São Paulo. Lá, algumas vezes, Júlio me falou sobre algumas firmas com as quais mantinha negócios e, se eu pesquisá-las, talvez consiga descobrir onde ele está.

— Para isso precisaria de dinheiro, mas Eugênia não o quer em sua casa. Um hotel custa caro e, dentro de alguns dias, o pouco que nos resta não vai dar nem para a nossa alimentação.

Alberto sentou-se pensativo. Aurélia tinha razão. Ele poderia ir sozinho e insistir para ficar na casa da irmã. Ao pensar nisso, sentiu sua raiva aumentar. Ela merecera o que o marido lhe fizera. Desde a adolescência, nunca aceitara sua amizade, nem o apoiara em nada. Depois que ele teve a infelicidade de perder todo o dinheiro da herança dos pais, Eugênia, mesmo sendo muito rica, nunca quis ajudá-lo.

Apesar da dificuldade, Alberto não desistiu. Sabia que Aurélia possuía algumas joias que herdara da mãe e que sempre se recusara a vender. Ele então encarou-a e respondeu:

— Se eu não fizer nada, vamos morrer de fome. Suspirou e, procurando dar um tom natural à voz, continuou:

— Você ainda tem aquelas joias de sua mãe...

Aurélia arqueou as sobrancelhas, franziu a testa, como era seu costume quando se irritava, e disse:

— Não adianta! Jamais as venderei! Mesmo porque valem pouco. São três pequenas lembranças insignificantes, cujo preço não daria nem para cobrir as passagens de ônibus para São Paulo.

— Não é bem assim. Por ocasião do casamento de Eugênia você as usou e devem valer um bom dinheiro. Aurélia levantou-se indignada:

— Não adianta! São lembranças de família. Não vou vendê-las!

— Vai sim. Porque, se eu não me mexer, logo não vamos ter o que comer.

Aurélia colocou as mãos na cintura e respondeu com raiva:

— Você pelo menos poderia trabalhar. Se não consegue atuar como advogado, faça qualquer outra coisa, mas traga dinheiro pra casa. Afinal, essa é sua responsabilidade!

Alberto levantou-se, segurou o braço de Aurélia com força, fixando-a nervoso:

— Você está me cobrando, mas nunca fez nada nem mesmo dentro de casa. Sempre tivemos empregadas e, quando não deu mais para mantê-las, você empurrou todo o trabalho doméstico para Ana. Quero ver como vai viver quando o dinheiro acabar. Vá buscar as joias, ande! Estou certo de que Júlio vai me arrumar qualquer coisa para ganhar dinheiro.

— E se não o encontrar?

Alberto encarou-a desafiador e comentou:

— Júlio é um homem inteligente. Pode estar apaixonado por essa mulher, mas ele gosta muito do dinheiro e da mordomia que tem e não vai colocar seus negócios em risco. Ele não deve estar muito longe. Eu vou descobrir seu paradeiro.

Ana os observava em silêncio, mas não se atrevia a dar opinião. A situação crítica em que se encontravam não a preocupava. Sua vida sempre fora sacrificada, nunca conseguira nada de bom e, se as coisas não melhorassem, ela pensava em ir para um convento. Mas nunca mencionara essa disposição à irmã. Enquanto Aurélia precisasse, ela estaria lá.

Vendo que a esposa não se dispunha a obedecer, Alberto disse com voz alterada:

— Vamos logo, mulher! Vá buscar as joias. Vou agora mesmo ver quanto conseguiremos por elas. Quanto mais tempo passar, pior será a nossa situação. Vamos buscá-las. Onde estão?

— Eu não vou deixar. Pode desistir.

Aurélia foi para o quarto e postou-se diante da cômoda olhando-o com raiva.

— Elas estão aqui... Agora, saia da minha frente!

Alberto empurrou-a e abriu as gavetas tirando as roupas e jogando-as no chão. Enquanto isso, Aurélia chorava e tentava impedi-lo, puxando seu braço, sem conseguir o que pretendia.

Irritado, Alberto deu-lhe um empurrão mais forte, e Aurélia caiu sobre a cama chorando copiosamente. Ele encontrou um pequeno saco de veludo verde, abriu-o, certificou-se de que era o que procurava, guardou-o no bolso do paletó e saiu apressado, enquanto Ana socorria a irmã que não parava de soluçar.

Alberto conhecia um agiota com o qual já negociara anteriormente algumas joias que Bento roubava. Ele receptava, intermediava a venda e dividiam o resultado. Nos últimos tempos, era assim que Alberto conseguia algum dinheiro, mas Bento havia ido embora da cidade porque a polícia o andava investigando. E nem esse recurso mais ele dispunha.

Depois de muita discussão, Alberto conseguiu vender as joias por dois mil reais. Passou na rodoviária, comprou uma passagem para aquela noite e voltou para casa para preparar a mala.

Encontrou Aurélia arrasada, abatida, e com o olhar tão trágico que decidiu apressar-se a arrumar a mala. Colocou na bagagem o que ainda tinha de melhor, pensando em circular pelos lugares de luxo de que Júlio gostava.

Depois de tudo pronto, Alberto aproximou-se da esposa, que, sentada na sala, permanecia em silêncio, com o olhar triste, expressando toda sua mágoa.

— Estou indo para São Paulo. Assim que descobrir alguma coisa mando notícias. Deixei com a Ana o dinheiro para o resto do mês.

Aurélia, amuada, não respondeu e ele continuou:

— Estou fazendo isso para o nosso bem. Confie em mim. Logo estarei de volta para buscá-las. Vamos morar em São Paulo e lá nossa vida vai ser diferente. Você vai ver.

Aurélia continuou apática, e ele beijou-a levemente na testa, segurou a mala e saiu. Ana o esperava na porta da frente. Alberto abraçou a cunhada e recomendou:

— Cuide bem dela. Sei que posso confiar em você. Assim que conseguir alguma coisa, dou notícias.

Ana fixou-o séria:

— Fique tranquilo. Sei como lidar com ela. Vá com Deus.

Alberto saiu, respirou o ar da noite que estava agradável e sentiu certo bem-estar. Estava livre do peso da família e, como não tinha escrúpulos, pensava em fazer tudo que pudesse para sobreviver e ter uma vida boa.

Era tarde da noite quando ele chegou a São Paulo e procurou uma pensão modesta perto da rodoviária. Aquele dinheiro deveria durar por um tempo razoável. A casa estava lotada e um pequeno quarto no corredor, em frente ao banheiro, era o único vago. Embora contrariado, Alberto aceitou.

Instalado, abriu a janela que dava para os fundos da casa e a paisagem não era animadora. Apesar disso, decidiu ficar. Afinal, precisava apenas de um lugar para dormir, pois na manhã seguinte começaria a investigar os passos do ex-cunhado.

Estava cansado e com fome, mas àquele horário não encontraria nada aberto. Resignado, preparou-se para dormir.

Alberto deitou-se e tentou recordar-se das pessoas que Júlio conhecia e dos lugares que o ex-cunhado costumava frequentar, tentando decidir para onde iria primeiro. Apesar do cansaço, só conseguiu adormecer quando o dia já estava começando a clarear.

Quando Alberto acordou, seu corpo doía e o estômago vazio o fez recordar-se de que não havia jantado na noite anterior. Pulou da cama, olhou o relógio sobre a mesa de cabeceira e assustou-se.

— Meio-dia! Se eu não correr vou perder o almoço!

Correu para o banheiro, mas estava ocupado. Esperou irritado, e, depois de alguns minutos que lhe pareceram horas, uma jovem saiu andando devagar, deixando atrás de si uma onda de perfume barato que o deixou enjoado.

Tomou um banho rápido, vestiu-se e foi para a sala de almoço, que não era grande e já estava lotada. Alberto procurou pela dona da pensão, que lhe arranjou um cantinho em uma mesa onde já estavam quatro pessoas.

Alberto acomodou-se a contragosto à mesa e uma onda de revolta o acometeu. Afinal, ele era um homem requintado, instruído e fino, que vivera no luxo e, por isso, tinha dificuldades de aceitar aquele ambiente, as pessoas que falavam alto e comiam tudo misturado em pratos cheios. Mas a fome falou mais alto e, pelo cheiro que vinha da cozinha, ele sabia que a comida só podia ser boa.

Fechou a cara, abaixou a cabeça e começou a comer em silêncio. Terminou a refeição com um generoso pedaço de pudim e um cafezinho. Satisfeito, Alberto voltou para o quarto, arrumou-se o melhor que pôde e saiu.

Na rua, respirou aliviado. A comida descera bem e o fato de estar bem-vestido o deixou alegre e esperançoso.

Alberto, então, começou a busca por Júlio em um clube masculino privado, para onde o ex-cunhado costumava ir e onde se relacionava com grandes empresários e desenvolvia seus negócios. O ex-cunhado o levara lá como seu convidado e ele nunca mais esquecera o local.

O clube funcionava no turno da tarde. Alberto tocou a campainha e, ao ser atendido pelo porteiro, apresentou-se como cunhado do doutor Júlio Ferreira Borges. Disse que havia estado fora do Brasil e que, ao regressar ao país, soubera que o ex-cunhado havia deixado a cidade. Tinha urgência em encontrá-lo por lerem negócios em comum.

O porteiro ouviu-o com atenção, disse que conhecia bem Júlio e que ele continuava sócio do clube, mas fazia meses que não aparecia por lá.

Alberto despediu-se e visitou mais duas empresas com as quais Júlio mantinha negócios, mas foi informado de que já não mantinham negócios com ele.

O dia já estava escurecendo, e Alberto, cansado, sentou-se em um banco da praça da República para descansar um pouco e pensar em qual seria seu próximo passo.

Pelo jeito, o ex-cunhado encerrara seus negócios com aquelas duas empresas. Teria mudado seu ramo de atividades? Sabia que ele ganhara muito dinheiro. Teria arranjado coisa melhor?

Arrependeu-se de haver ficado longe durante tanto tempo. Como planejava um grande golpe para ganhar muito dinheiro e como se tratava de algo ilegal, não queria que Júlio soubesse.

Todos os negócios de Júlio eram sempre feitos dentro da lei. Ele era muito exigente nos contratos e gostava de tudo muito bem explicado.

Alberto sabia que com ele não poderia errar. Arrependia-se, no entanto, de não ter se aproximado mais do ex-cunhado e aprendido a realizar bons negócios como ele.

Ele não iria desanimar. Havia ainda muitos lugares onde poderia ir e com certeza alguém haveria de lhe dizer onde encontrar Júlio.

As pernas doíam e a fome reapareceu com força. Alberto, então, resolveu voltar à pensão e aproveitar o jantar. Depois decidiria o que faria no dia seguinte.

 

Alberto entrou em uma lanchonete, sentou-se a uma mesa e pediu um café e um pãozinho com manteiga. Fazia três dias que estava procurando Júlio e não havia conseguido encontrar nenhuma pista.

Júlio desaparecera e ninguém sabia do seu paradeiro. Alberto ainda estava com fome, mas não quis pedir mais nada. Precisava poupar o dinheiro.

Um rapaz parou diante dele, fixou-o e perguntou:

— Você não é o Alberto, cunhado do doutor Júlio? Alberto olhou-o tentando descobrir de onde o conhecia. Percebendo que não estava sendo reconhecido, o rapaz continuou alegre:

— Sou eu, Jairo. Lembra-se agora?

— Seu rosto é familiar, mas de onde o conheço?

— Nós nos vimos apenas duas vezes, mas, depois do que nos aconteceu, nunca mais o esqueci.

— Quando foi isso?

Jairo riu bem-humorado e respondeu:

— Faz tempo, só sei que foi quando o doutor Júlio ganhou aquela fortuna na Bolsa e eu tive a sorte de ter sido seu agente. Ele me gratificou e me convidou para um drinque. Nós três fomos comemorar, mas você bebeu tanto, falou tantas bobagens... Foi muito engraçado! No fim, ainda tivemos que levá-lo pra casa quase carregado.

A fisionomia de Alberto desanuviou-se, ele levantou-se e abraçou o rapaz dizendo:

— Agora me lembro! Foi uma noite daquelas! No dia seguinte curti uma dor de cabeça dos diabos. Mas sente-se, vamos conversar um pouco.

Jairo puxou a cadeira, acomodou-se, chamou o garçom e pediu um lanche. Alberto aproveitou e pediu também um bom sanduíche. Esse era seu dia de sorte! Como não pensara nesse rapaz?

— Quanto foi que ele ganhou mesmo naquela tarde?

— Faz tempo. Não me recordo do montante, só sei que foi uma boa bolada. Eu nunca vi um homem de sorte como ele. Tem um faro para lidar com dinheiro! Eu algumas vezes acreditei no palpite dele e ganhei algum. Até que consegui melhorar um pouco de vida.

— Júlio sempre gostou de trabalhar com você. Dizia que era o melhor agente que poderia encontrar.

Os olhos de Jairo brilharam de prazer. Alberto tocara em seu ponto fraco. Ele tinha orgulho da profissão e de fazer seus clientes lucrarem, o que o tornava admirado pela concorrência.

Alberto abaixou a cabeça, fez um ar triste e comentou: — Você sabe que ele é casado com minha irmã? Jairo assentiu e ele continuou:

— Se separaram depois de quinze anos. Eu moro em Minas Gerais e não sei o motivo. Eles pareciam tão felizes...

— Isso pode acontecer. A rotina é difícil de lidar.

— Pode ser, mas eu senti muito. Apesar da distância, nós éramos como irmãos. Eugênia está inconsolável. Tentei fazê-la entender e aceitar, mas ela brigou comigo, não quer nem me receber. Eu vim a São Paulo para tentar ajudá-la, mas não vou poder fazer nada. Nós, da família, precisamos entender como as coisas aconteceram. Minha mulher está inconsolável.

— Esses problemas de família são complicados. Não dá para se meter. É melhor deixar que eles se entendam.

— Também penso assim. Já que Eugênia não quis acatar minha opinião nem aceitar a ajuda, pensei em conversar com Júlio, saber como as coisas estão, para poder voltar pra casa e acalmar minha família. Mas ele sumiu, não deixou endereço. Deve ter suas razões, sabe como é...

Jairo riu malicioso e Alberto continuou:

— Você continua trabalhando para ele?

— Sim. Ele agora tem uma corretora e mantemos negócios.

Os olhos de Alberto brilharam quando disse:

— Poderia dar-me o endereço?

— Não sei se devo, Alberto. Doutor Júlio pediu-me sigilo. Não posso desapontá-lo. Nossa relação é de negócio e de confiança. Qualquer derrapada pode se tornar um motivo para ele não me procurar mais.

— Sei como é isso, mas preciso realmente falar com ele. Aliás, nós temos alguns negócios em andamento e eu preciso consultá-lo. Para dizer a verdade, Eugênia se mostrou intratável e eu não pretendo me envolver em sua vida particular. Se me der o endereço dele, direi que descobri por acaso. Não mencionarei seu nome.

— Eu não posso atender ao seu pedido. Só posso dizer que a corretora dele fica no Rio de Janeiro.

Alberto insistiu um pouco mais, porém não obteve nenhuma outra informação. Pediu um cartão de Jairo dizendo que iria indicá-lo aos amigos e despediu-se.

Ao deixar a lanchonete, Alberto resolveu tentar a sorte no Rio de Janeiro. Nem o nome da corretora do ex-cunhado Jairo informou. Ele teria que descobrir essa informação sozinho.

Passou na rodoviária e comprou uma passagem para o Rio e foi para a pensão preparar-se para a viagem. À meia-noite em ponto, embarcou. Dentro do ônibus, Alberto pensava no ex-cunhado com admiração. Ele dera um golpe certo e deveria estar ganhando muito dinheiro, desfrutando do luxo costumeiro e ficando mais rico a cada dia.

Quando o encontrasse, faria de tudo para ser aceito em sua empresa. Não se importaria de começar de baixo, porque tinha certeza de que, com sua inteligência, capacidade e esperteza para os negócios, poderia ser de grande utilidade para o ex-cunhado.

Poder ter dinheiro novamente, desfrutar das coisas boas da vida, ser respeitado, era tudo que Alberto queria.

Ele dava largas à imaginação, vendo-se elegante, circulando pelas altas rodas do Rio de Janeiro, podendo gastar o quanto quisesse. Quando isso acontecesse, reformaria a casa da família em Minas, deixaria a esposa e a cunhada vivendo lá, e iria visitá-las de vez em quando.

Aurélia iria reclamar, mas Alberto saberia como conduzir as coisas e livrar-se delas a maior parte do tempo. Sozinho no Rio de Janeiro, levaria uma vida maravilhosa, livre, e teria todas as mulheres que quisesse. Esperançoso, enquanto o ônibus corria, dava vazão aos seus devaneios, imaginando como seria sua vida naquela cidade. Era apenas questão de tempo, e, com habilidade, conquistaria tudo que desejava.

Embalado pelo balanço do ônibus e pela imaginação, Alberto acomodou-se melhor e, satisfeito, adormeceu depois de algum tempo.

 

Nos meses que se seguiram, Eugênia, apoiada pelo carinho de Rosa e pelos cuidados de Odete, aos poucos começou a sentir-se melhor.

Havia momentos em que ela não sentia vontade de conversar e em que conjecturava onde Júlio estaria, tentando descobrir quando e por que seu casamento havia desandado. Na verdade, apesar de Eugênia gostar da vida social e estar habituada ao convívio de pessoas importantes, preferia os momentos de tranquilidade em casa, na companhia do marido, mas notara que ele criava vida quando podia estar com pessoas famosas que brilhavam nas altas rodas.

Bonito, elegante, conversador, brilhante, inteligente e bem-humorado, desde o início do relacionamento, Júlio fora muito bem recebido nas altas rodas sociais, na qual Eugênia nascera e ainda vivia.

Júlio surgira na alta sociedade, apresentado pela filha de um diplomata que, depois de haver servido na Inglaterra durante alguns anos, regressara ao Brasil com a família. Jéssica conhecera o rapaz na faculdade e se interessara por ele desde o primeiro dia. Tornaram-se, por fim, amigos. Ela estava apaixonada, e Júlio, apesar de não corresponder ao interesse da jovem, estimulava seu interesse, envolvendo-a de tal sorte que, quando o pai da moça precisou retornar ao Brasil, Jéssica convidou-o a voltar ao país, prometendo introduzi-lo na sociedade brasileira, apesar de não saber muito a respeito do rapaz.

O jovem, na época, dissera a Jéssica que seus pais haviam morrido quando ainda morava no Brasil. Sozinho, ele juntou tudo que tinham deixado e decidiu estudar finanças em Londres.

Quando ela insistiu para que Júlio voltasse ao Brasil, conseguiu que seus pais o hospedassem em sua casa até que o rapaz encontrasse um lugar para morar.

Júlio chegara ao Brasil, ficara hospedado na casa do diplomata, e fora apresentado à alta sociedade, logo conquistando seu lugar. Seu sucesso com as mulheres fora imediato.

Jéssica, enciumada, fazia tudo para conquistá-lo, mas ele se esquivava delicadamente, ansioso por ver-se livre dela.

Um dia depois da sua chegada ao Brasil, ele fizera contato com algumas financeiras, cujos nomes já conhecia, e travara amizade com um corretor da Bolsa de Valores, propondo-lhe que trabalhassem juntos. Encantado, Jairo aceitou o convite e juntos obtiveram sucesso.

Tempos depois, Júlio conheceu Eugênia em uma recepção e logo se interessou por ela. Bonita, rica e altiva, a moça não se interessava por ninguém e, talvez por isso mesmo, era muito assediada pelos rapazes que disputavam entre si o privilégio de sua atenção.

Disposto a conquistá-la, Júlio esmerou-se em cortejá-la e acabou conquistando-a. Quando se casaram, os pais de Eugênia, doutor Humberto Silveira de Queiroz e sua esposa Áurea, ainda estavam vivos. Um ano depois, Humberto sofreu um infarto e faleceu. Áurea, muito

apaixonada pelo marido, perdeu o gosto pela vida e apagou-se a tal ponto, que também se foi.

Sentada em seu quarto, Eugênia recordava-se de todos esses fatos e, nesses momentos, era acometida de muita tristeza, porque essas lembranças terminavam sempre nos momentos em que desejara ter um filho e não conseguira. Apesar dos tratamentos, todos os meses ela sofria uma decepção.

Rosa notava a melancolia de Eugênia e esforçava-se para que ela mudasse esse enfoque e deixasse o passado para trás.

— Você precisa esquecer e seguir adiante. O passado não volta e de nada adianta lamentar-se. A tristeza acabará com sua saúde, Eugênia.

Ela sacudia os ombros e respondia:

— Talvez seja melhor eu ir embora mesmo. De que adianta viver e não ser feliz?

— Não diga isso. Olhe em volta e perceba que a vida é muito mais do que você imagina. Por que deseja manter-se nesse sofrimento?

— Acha que estou sofrendo porque quero? Minha vida não tem mais motivação. Para onde eu olho vejo sofrimento. A felicidade não existe. É uma ilusão!

— Você está alimentando uma dor que já poderia ter sido vencida. Não se machuque dessa forma. Está sofrendo e valorizando uma pessoa que não a merece, que traiu sua confiança e não respeitou seus sentimentos. Acha que vale a pena? Saia dessa energia. Sinta que você merece uma vida melhor. Aceite que tem todo tempo do mundo para recuperar sua paz, fazer coisas que lhe tragam alegria, criar momentos de prazer, nos quais seu espírito possa expressar os elevados sentimentos que sua alma possui.

— Eu não saberia fazer isso.

— Sua alma sabe como. Dentro dela estão todos os sensos que dão sentido à sua vida. Descubra a riqueza que está guardada em seu espírito e logo seus olhos estarão brilhando de alegria e sua vida se tornará uma aventura, em que as coisas começarão a acontecer. Tudo irá se modificar para melhor. Comece agora. É no momento presente que você pode plantar seu bem-estar e construir um futuro melhor. Acredite! Você pode! Eugênia fechou os olhos, e Rosa segurou a mão da amiga dizendo com suavidade:

— Deixe o passado ir embora. Sinta o que vai em seu coração. Não pense, sinta. Como gostaria que sua vida fosse? Imagine que você acabou de nascer e é uma mulher sem passado. Podendo escolher como quer viver, o que gostaria de fazer?

— Eu gostaria de embalar uma criança em meus braços! Ter uma filha. Mas isso agora é impossível!

— Tudo é possível! Você ainda é fértil para gerar uma criança. Por outro lado, há muitas crianças que precisam de uma mãe. Basta querer e ir escolher.

Eugênia olhou-a séria depois respondeu:

— É. Eu não tinha pensado nisso.

— Comece a refletir sobre isso enquanto trata de melhorar seus pensamentos. Uma criança precisa viver em um lar feliz, no qual possa ser amada. Há muito afeto em seu coração. Dar amor é melhor do que ser amada. Pense nisso.

A partir desse dia, Eugênia começou a pensar naquela possibilidade. Adotar uma criança era muita responsabilidade. Teria capacidade de educá-la e dar-lhe uma vida boa se ela mesma sentia-se incapaz e sem alegria?

No entanto, era justo adotar uma criança apenas porque estava infeliz e sem condições de dar-lhe o que era preciso? Não. Ela não poderia fazer isso. Seu caso não tinha remédio. O melhor seria ficar sozinha, carregando seus problemas pelo resto da vida.

A campainha tocou e Odete foi abrir a porta.

— Entre, doutor Rogério.

— Tudo bem, Odete?

— Sim, obrigada.

— Preciso falar com dona Eugênia.

— Ela está na sala. Venha.

Vendo-o entrar, Eugênia fez menção de levantar-se, mas Rogério estendeu a mão dizendo:

— Por favor, não se incomode.

Ele aproximou-se e, depois de apertar a mão de Eugênia e beijar a tia, continuou:

— Vim para lhe contar o que descobri sobre seu marido.

Eugênia franziu a testa e sua fisionomia mudou.

— Descobriu alguma coisa?

— Sim. Ele está no Rio de Janeiro, onde montou uma corretora.

— É o que ele gosta de fazer. O que mais você descobriu?

— Bem... Faz mais de seis meses que ele alugou o local e montou a nova empresa. Mas tudo foi feito no mais absoluto sigilo. Foi difícil descobrir seu paradeiro. Júlio preparou a mudança nos mínimos detalhes e só se instalou na cidade quando o negócio estava a ponto de começar.

— Tem o endereço dele?

Rogério olhou-a sério e disse:

— Tenho. O que deseja que eu faça?

Eugênia pensou um pouco e depois disse:

— Como sabe, não pretendo acioná-lo. Quero me divorciar o quanto antes.

— Nesse caso, preciso saber como foi feito o contrato nupcial, conhecer a situação financeira do casal durante os quinze anos de casamento etc.

Eugênia passou a mão sobre a testa como se tentasse afugentar os pensamentos desagradáveis que circulavam pela sua mente. Depois, respirou fundo e respondeu:

— Todos os documentos devem estar no escritório. Você pode verificar. Desculpe, mas eu não gostaria de lidar com isso.

— Não se preocupe, eu irei.

— Ah! Mas eles devem estar no cofre. Júlio costumava guardar tudo lá. Eu terei de ir com você. Além da chave, vai precisar da senha. Vamos até lá.

No escritório, Eugênia apertou um botão embaixo de uma gaveta e uma pequena caixa saltou para fora. Ela abriu-a, apanhou a pequena chave e entregou-a a Rogério. Fez menção de sair, mas ele pediu:

— Você deve ficar e se inteirar sobre o que esse cofre contém.

— Está bem. É preciso dar duas voltas na chave e digitar a senha.

Assim que Rogério colocou a chave no cofre, notou que não precisaria usá-la. A porta do móvel abriu-se e, para a surpresa de ambos, estava vazio. Não havia ali nenhum documento nem dinheiro.

Eugênia abriu a boca admirada:

— Ele levou todos os meus documentos. Não havia dinheiro meu aqui, mas ele guardava somas dele no cofre. Júlio negociava ações e eu nunca entrei nessas transações. O que vamos fazer agora?

— Eles podem estar aqui em algum lugar.

— Desde que nos casamos, Júlio assumiu o escritório e passou a cuidar de todos os meus documentos. Sempre que eu precisava de alguma coisa, ele tomava a frente.

Rogério fixou-a sério:

— Ele cuidava dos seus negócios também?

— Não. Apenas de alguns documentos pessoais.

— Tem certeza?

— Sim. Meu pai fez um testamento em que dividia a herança com meu irmão e designou dois curadores de sua confiança para gerir a minha parte. Depois de sua morte, eu fiz um contrato com eles para que continuassem cuidando de tudo. No início, Júlio insistiu para assumir o controle dos meus bens, mas eu não quis e tive as minhas razões. Alberto em pouco tempo acabou com sua parte da herança por causa do jogo. Depois disso, passou a rodear o Júlio no escritório, não saía mais de lá. Esse foi mais um motivo para que eu não permitisse que ele interferisse nesse assunto.

— Mas, pelo que sei, seu marido montou uma corretora, possui recursos.

— Que ele ganhou especulando na Bolsa de Valores. Júlio, além da boa aparência, é inteligente e sabe lidar com pessoas. Quando nos casamos, não possuía nada além disso. Mas eu frequentava a sociedade, recebia amigos e achei justo que ele tivesse uma mesada para suas despesas. Ele conheceu um corretor da Bolsa e passou a comprar ações. Teve muita sorte desde o começo. Tinha muitos amigos e sempre era muito bem recebido onde aparecia.

Eugênia suspirou pensativa e, como se falasse consigo mesma, continuou:

— Nunca desconfiei que ele pudesse me abandonar, fazer o que fez! Nunca tivemos o menor desentendimento.

— Ele nunca demonstrou desinteresse nem aborrecimento?

— Não. Sempre me tratou com carinho e respeito. Mas agora sei que estava fingindo. Pensando bem, acho que nunca cheguei a conhecê-lo de verdade. Passei quinze anos vivendo com um desconhecido! Talvez tenha sido melhor assim.

— Vamos olhar as gavetas e ver se encontramos os documentos.

Vasculharam tudo, mas não encontraram o que queriam. Desanimada, Eugênia sentou-se e perguntou:

— E agora, o que faremos?

— Vamos procurar a empresa que está cuidando de seus bens. Eles devem ter os documentos de que necessitamos. Só preciso do endereço e do nome da pessoa a quem deverei me dirigir.

Eugênia entregou-lhe um cartão, que Rogério guardou na pasta. Depois, fixando-a, disse sério:

— Há alguma exigência que queira fazer ao pleitear o divórcio?

— Não. Faremos conforme as leis determinam.

— Está bem. Vou cuidar de tudo. Assim que os documentos estiverem prontos, voltarei para que leia os papéis e assine-os.

— Gostaria que fosse o mais rápido possível. Não me sinto bem em lidar com esta situação indefinida.

— Se obtiver o que preciso, amanhã mesmo trarei os documentos. Se tudo estiver como deseja, pretendo ir para o Rio de Janeiro falar com o seu marido.

— Eu preferia entrar com o pedido de divórcio e que a justiça o informe a respeito.

— Eu poderia fazer dessa forma, mas penso que, na situação atual, seria melhor informá-lo pessoalmente.

— Por que acha isso?

— Eu gostaria de ir mais fundo na situação e avaliar como ele vai reagir para que no futuro não tenhamos nenhuma surpresa desagradável.

— Acha que ele poderia me prejudicar de alguma forma?

— Não sei ainda... Mas como confiar em uma pessoa que, depois de estar casado durante quinze anos, não enfrentou a verdade e fugiu às escondidas, sem resolver as coisas de uma forma civilizada?

— Isso me chocou muito porque ele sempre me pareceu equilibrado. Até agora ainda não entendi por que ele não conversou comigo antes de ir embora. Mesmo sofrendo com a separação, eu nunca iria impedi-lo de ir.

Rogério hesitou um pouco, depois disse:

— Ele revelou um lado irresponsável que deixa muito a desejar. Sinto que os termos desse divórcio precisam ser muito claros a fim de evitar problemas futuros para a senhora.

— Não creio que ele faça isso. Afinal, foi embora porque quis e eu não vou exigir nada dele.

— E se mais tarde a sorte dele mudar e ele quiser reatar o casamento?

Ruborizada, Eugênia franziu o cenho e respondeu com voz firme:

— Não acredito que isso venha a acontecer.

— As coisas mudam com o tempo, a vida ensina. E se ele quisesse voltar?

— Eu nunca o aceitaria de volta. Ele está fora da minha vida. Não lhe daria uma segunda chance.

— Desculpe, dona Eugênia. Precisamos pensar em todas as possibilidades.

— O que mais quero é ficar livre, desligar-me de tudo que lembre esse lado da minha vida.

— Está certo. Vou levantar as informações. Voltarei assim que puder.

Depois que Rogério saiu, Eugênia foi para o quarto e estendeu-se na cama. Uma onda de tristeza a acometeu. Como seria sua vida dali para frente? Não se sentia com coragem de viver. Sentia-se frustrada por nunca ter conseguido engravidar. Se tivesse tido um filho, pelo menos teria uma boa razão para viver. Mas, com o tempo, conformara-se.

Quando, preocupada, mencionava o assunto com Júlio, ele garantia-lhe que, se a vida não lhes desse um herdeiro, ainda assim teriam um ao outro e poderiam viver bem da mesma forma. Mas agora, sem o marido ao seu lado, de que lhe valia viver?

Lágrimas desceram pelo rosto de Eugênia, que tornou a pensar em desistir da vida, pois ela só lhe dera desilusões.

Rosa entrou no quarto, aproximou-se de Eugênia e notou que ela estava em crise. Sentou-se ao lado da cama, segurou a mão da amiga, mas não disse nada. Fechou os olhos, pensou em Deus, sentiu muito carinho e envolveu-a em energias de amor e de luz.

Aos poucos, Eugênia foi se acalmando. As lágrimas cessaram, sua respiração voltou a ficar regular e, em seguida, ela adormeceu.

Rosa afastou-se sem fazer ruído e foi para a cozinha ajudar Odete a cuidar do jantar.

 

Júlio acordou e levantou-se procurando não fazer ruído para não acordar Magali. Apesar de ter pressa, não se furtou ao prazer de olhá-la mais uma vez. Estava linda! Muito à vontade, ele ficou tentado a atirar-se sobre ela e beijá-la. Resistiu a esse prazer e foi direto tomar um banho. Tinha um negócio importante a resolver e não podia se atrasar. Se tudo desse certo como previa, embolsaria uma vultosa quantia.

Sentia-se realizado e feliz. Além do amor de Magali, paixão de sua vida, do dinheiro que se multiplicava a cada dia, da maravilhosa casa que comprara na Urca, havia a fama, no meio financeiro, de que Júlio era pé quente, de que arriscava e sempre ganhava.

Ele adorava a beleza. Para Júlio, era vital viver no luxo, rodeado de tudo de primeira qualidade, ser elegante, fino, educado, chegar na empresa com seu luxuoso carro dirigido por um motorista uniformizado, que abria a porta de trás com elegância e atenção.

Assim que entrou no escritório, a secretária levantou-se atenciosa:

— Bom dia, Anita. Tudo pronto?

— Sim, senhor. Tudo está pronto conforme o combinado. Em quinze minutos eles devem chegar. Posso ajudá-lo em algo mais?

— Não, obrigado.

Júlio entrou em sua espaçosa sala, muito bem mobiliada, e olhou em volta com prazer. Sentou-se na gostosa poltrona de couro, posicionada atrás da mesa, e abriu a pasta à sua frente, passando os olhos pelos papéis e verificando se tudo estava do jeito que ele queria. Anita era muito eficiente e tudo estava bem-feito, do jeito que determinara.

O telefone tocou e ele atendeu a ligação:

— Doutor Júlio, está aqui o doutor Alberto Queiroz que insiste em cumprimentá-lo.

O rosto de Júlio contraiu-se, e ele respondeu tentando controlar a raiva:

— Diga-lhe que não posso atendê-lo. Tenho uma reunião de negócios muito importante e as pessoas já estão chegando.

Anita desligou o telefone e Júlio tentou se acalmar. Como Alberto o descobrira? Não queria nada com o passado, muito menos ter à sua volta o ex-cunhado interesseiro, jogador desequilibrado, que algumas vezes até o chantageara e do qual acreditara haver se livrado.

Respirou fundo, serviu-se de água e bebeu alguns goles, quando a porta se abriu e Alberto entrou seguido pela secretária, que tentava segurá-lo e empurrá-lo para fora da sala.

— O que é isto? Por que está invadindo meu escritório?

— Ela quis me impedir de entrar. Não creio que você tenha se recusado a me receber.

Apesar de um pouco pálido, Júlio odiava perder a calma, então fez um enorme esforço para controlar-se.

— Desculpe, doutor. Ele fingiu que ia embora e de repente abriu a porta. Não pude impedi-lo. Devo chamar os seguranças?

— Deixe, eu resolvo isso, Anita. Saia.

Alberto, satisfeito, olhou em volta dizendo: — Que progresso! Tudo isso é seu?

— Alberto, você me pegou de surpresa. Em dois ou três minutos, pessoas importantes chegarão para uma reunião nesta sala. Você precisa ir embora. Falaremos outro dia.

— Quando? Estou em uma situação difícil. Meu dinheiro acabou, estou com fome. Vim para cá à procura de emprego. Eugênia, como sempre, se recusou a me ajudar. É um caso de vida ou morte.

Júlio sentia vontade de colocá-lo para fora aos socos e pontapés, mas controlou-se. Precisava afastá-lo dali imediatamente. Tirou algumas notas da carteira e entregou-as a Alberto dizendo:

— Saia daqui já. Eles já devem estar chegando.

— Quando vai me receber para conversarmos? Estou em uma situação difícil.

— Deixe seu endereço com minha secretária. Entrarei em contato assim que puder.

Alberto estendeu a mão dizendo com suavidade:

— Eu sabia que você não ia me desamparar. Obrigado. Sei que é meu amigo.

Júlio apertou a mão do ex-cunhado esforçando-se para conter a vontade de colocá-lo para fora aos pontapés.

Depois que Alberto se foi, Júlio respirou aliviado. Anita ligou avisando que as pessoas já estavam subindo e ele apressou-se a olhar-se no espelho e compor-se melhor. Mudou o semblante, sorriu amável no momento em que o interfone tocou e mandou que os visitantes

entrassem.

Rosto distendido, sorriso amável, Júlio recebeu os quatro visitantes e, depois dos cumprimentos, acomodou-os gentilmente.

Do lado de fora, Alberto, rosto altivo, postura firme, esperava por Anita, que, sem dizer nada, se sentou diante da mesa. Ele aproximou-se, fixou-a sério, e depois disse com voz firme:

— De hoje em diante, voltarei aqui muitas vezes e você terá de me tratar muito bem. Eu sou cunhado de Júlio, somos como irmãos. Se me tratar bem, terá um amigo que poderá ajudá-la a melhorar de vida. Mas garanto também que consigo me livrar dos que querem me prejudicar com muita facilidade. Quero ser muito bem tratado sempre que vier aqui. Entendeu isso?

Os olhos de Alberto, fixos nos de Anita, tinham um brilho rancoroso. A moça foi tomada por uma sensação desagradável e esforçou-se para parecer natural quando respondeu:

— Aqui, eu só obedeço às ordens do doutor Júlio. Ele disse que não podia atendê-lo agora, e o senhor forçou a entrada. Eu tentei apenas cumprir a ordem dele. Entenda, eu sou paga para fazer o que ele manda.

Alberto apontou o dedo para ela:

— Lembre-se do que eu disse. Se ficar contra mim, vai se arrepender — deu as costas e saiu.

Anita respirou fundo tentando recuperar a calma. Júlio sempre a tratara com educação e respeito. Embora exigente no serviço, era um homem delicado, que sabia tratar as pessoas. Aos poucos foi acalmando-se. Estava certa de que Júlio saberia livrar-se daquele homem tão desagradável. Era apenas questão de tempo.

Alberto deixou o prédio satisfeito, apesar de perceber que sua visita não fora bem recebida. Mas ele saberia tirar proveito da situação. Júlio vivia das aparências, mostrava-se amável, educado, até um tanto perdulário, e sempre conseguia o que queria e era bem recebido em todos os lugares. As pessoas tinham prazer em tratá-lo com gentileza. E com isso ele vivia bem.

Já Alberto não tivera a mesma sorte. Tudo para ele dava errado, mas estava disposto, desta vez, a viver ao lado de Júlio e aprender como ele conseguia conquistar o que queria. Não lhe daria folga.

Sentiu um cheiro de comida e lembrou-se que o pão com margarina e o pingado, que tomara ao acordar, não haviam sido suficientes para matar sua fome. Estava diante de uma lanchonete e decidiu entrar. Sentou-se e depois pediu um hambúrguer reforçado com tudo que tinha direito e um refrigerante.

Enquanto comia, imaginava o que faria para conseguir o que queria. O primeiro passo era descobrir tudo sobre a vida de Júlio. Sua casa, quem era a mulher com a qual vivia, como ele passava as noites e, principalmente, informações sobre os negócios que mantinha.

A corretora que Júlio montara era luxuosa e, como ele gostava de morar bem, certamente estava bem instalado.

Depois de comer, Alberto foi para o hotel pensando em fazer um plano de ação. O ideal seria instalar-se na casa de Júlio. Precisava conhecer a mulher do ex-cunhado, saber tudo sobre ela.

Deitado na cama do hotel, Alberto fazia planos para o futuro. Via-se desfrutando do luxo e do dinheiro do ex-cunhado, levando vida boa e fácil. Finalmente, encontraria o caminho da fartura.

Uma hora depois, levantou-se e ligou para a corretora e a telefonista o atendeu prontamente. Depois de dar um nome falso, continuou:

— Sou cliente de vocês, estou muito feliz. Doutor Júlio é meu amigo, deu-me uma indicação muito boa e desejo agradecer enviando umas flores à dona Magali. Estou na floricultura e preciso do endereço da residência deles. Pode me dar?

A telefonista hesitou e respondeu:

— Não posso fazer Isso. Doutor Júlio nos proibiu. Alberto adoçou o tom:

— Faça isso por mim... Sei o quanto ele aprecia a esposa. Vai gostar de homenageá-la.

— Eu não posso, não insista. Se é cliente, pode pedir a ele esse endereço.

Alberto desligou irritado. Foi ingenuidade acreditar que seria fácil. Sabia que Júlio era muito sociável, mas muito seletivo com a intimidade das pessoas. Mas não se deu por convencido. No fim da tarde ficaria escondido e o seguiria. O problema é que teria de ficar na campana porque não conhecia os horários do ex-cunhado nem seus compromissos naquele dia. Queria ser rápido, agir antes que o dinheiro acabasse.

Pouco depois das quatro horas, Alberto parou em frente ao prédio da corretora e olhou em volta. O local era movimentado e bem próximo havia um hotel e um ponto de táxi. Satisfeito, ele entrou no hall do prédio, deu uma volta observando tudo, depois saiu e dirigiu-se ao ponto de táxi. Havia dois carros parados no ponto, então Alberto se aproximou e o motorista perguntou:

— Táxi?

— Quero, mas estou com um problema. É um caso especial.

— Posso ajudar?

— Naquele prédio tem o dono de uma corretora, um sujeito amável, bem-vestido, carro de luxo...

— Sei quem é...

Alberto olhou para um lado depois para outro e disse em voz baixa:

— Pois é, quem diria... ele me deve dinheiro e não quer me pagar. Nunca pensei que ele pudesse me passar a perna.

— As aparências enganam...

Alberto passou a mão nos cabelos e respondeu:

— Amigos me aconselharam a procurar a esposa dele, que é muito boa e pode me pagar. Estou precisando muito do dinheiro. Você sabe onde ele mora?

— Não. Nunca conversei com ele.

— Quando ele sair, pretendo segui-lo e descobrir o endereço.

— Cuidado! O que pretende fazer?

— Só quero saber onde ele mora para pedir que ela interceda por mim. Preciso receber, tenho família! Sei que ele faz tudo o que ela quer.

— É só isso mesmo?

— É ir, anotar o endereço e voltar. Não preciso nem descer do carro.

— Se for assim, está bem. Não quero me meter em encrenca. Mas, se ele demorar e aparecer um passageiro, não vou poder esperar por você.

— Está bem.

Minutos depois, o carro que estava na frente pegou um passageiro e se foi, e Alberto ficou torcendo para Júlio não demorar. Meia hora depois, ele viu aliviado o carro do ex-cunhado sair. Rapidamente, entrou no carro dizendo:

— Vamos.

O carro de Júlio parou diante de uma linda casa, o portão abriu-se imediatamente e, por fim, ele entrou. Alberto anotou o endereço e comentou:

— Veja só que luxo! Não dá para acreditar que quer me dar o calote!

O motorista sorriu irônico:

— É por isso que se deu bem!

— Vamos embora.

A corrida quase levou todo o dinheiro que ele possuía, mas sabia o que queria. De volta ao hotel, contou o dinheiro que restava. Se economizasse e não pagasse o hotel, a soma que tinha poderia ainda durar uns dois dias.

Tinha urgência em voltar a falar com Júlio. No dia seguinte iria até lá. Se ele ficasse por ali, o motorista seria capaz até de avisar a polícia. Precisava ser cauteloso.

De volta ao hotel e depois de comer, Alberto foi para o quarto programar o que faria no dia seguinte.

 

Júlio entrou em casa e encontrou Magali sentada na varanda lendo. Seus olhos brilharam. Ela estava linda como sempre. Era um prazer chegar, aspirar seu perfume, sentir a maciez de seu corpo, beijar seus lábios. Tivera muitas mulheres, mas nenhuma provocara nele tanta paixão. Pela primeira vez, sentira o gosto do ciúme quando ela brilhava e ele notava a admiração dos outros homens.

Controlado, dissimulava a contrariedade, mas a cada dia sentia menos vontade de frequentar a sociedade ao lado dela. Queria-a só para si. Mas, por outro lado, gostava de dinheiro, do luxo, da ostentação e sabia que era nesse ambiente que conseguia fazer os grandes negócios, entre uma conversa e outra.

Magali chamava a atenção aonde ia. Alta, loura, corpo bem-feito, elegante, fina, educada, cuidava muito bem da sua beleza e tinha bom gosto. As pessoas tratavam-na com deferência, e Júlio adorava vê-la altiva, bela, como uma deusa. Apesar do ciúme, sentia-se

valorizado por tê-la como companheira.

Júlio aproximou-se, ela fitou-o e ofereceu-lhe o rosto, que ele beijou satisfeito.

— Você chegou mais cedo hoje. Que bom. Temos a recepção dos Mendes Caldeira. Estou louca para usar aquele colar maravilhoso que você me deu. Combina muito com meu vestido novo.

— Você vai ficar deslumbrante como sempre. Qualquer coisa em você realça!

Magali sorriu satisfeita. Júlio preferia ficar em casa com a esposa, mas não quis contrariá-la. Para ela, era importante usar o colar de brilhantes e safiras que ele lhe dera e ser admirada. Ficava feliz ao notar a admiração dos homens e a inveja das mulheres.

Júlio não se incomodava com isso; ao contrário, fazia tudo que podia para vê-la feliz. Ela era jovem e bela, tinha o direito de aproveitar os dons que a natureza lhe dera. Sentou- se ao lado da esposa no sofá com satisfação.

Ele era um homem feliz, realizado, rico, e tinha ao seu lado uma bela mulher que era sua paixão. Tinha tudo. Adorava chegar em casa, usufruir da companhia de Magali, inebriar-se de prazer, prolongá-lo ao máximo.

Embora Magali só conversasse sobre futilidades, Júlio considerava isso uma qualidade, uma vez que ele ficava tenso no trato com as finanças e os altos e baixos na Bolsa de Valores, sempre lidando com vultosas quantias.

Magali fechou o livro e levantou-se dizendo:

— Vou subir, tomar um banho, relaxar.

— Vou com você!

Ela colocou a mão no braço de Júlio:

— Agora não. Quero ficar sozinha, relaxar, descansar meu rosto, ficar muito bem.

Ele levantou-se e abraçou-a dizendo:

— Prometo que não vou incomodá-la. Só quero ficar perto de você.

— Eu não conseguiria relaxar com você por perto. Gosto da sua companhia, mas esta noite eu quero que seja especial. Que você se sinta premiado, orgulhoso por estar comigo.

Júlio abraçou-a e beijou-a com paixão. Ela retribuiu, mas depois escapou afirmando:

— Viu o que você está fazendo comigo? Não resisto à sua proximidade. Vou e você não vai atrás.

Magali saiu quase correndo e ele, desanimado, deixou-se cair no sofá. Estava habituado a ser cortejado por lindas mulheres, mas Magali nunca se entregara completamente como elas. E isso fazia com que ele ficasse cada dia mais apaixonado.

O tempo ia demorar a passar. Desanimado, foi até o quarto de hóspedes, tirou os sapatos, estendeu-se na cama tentando relaxar. Afinal não podia se queixar da vida. Tudo estava correndo muito bem. Logo mais, desfilaria com Magali diante dos conhecidos, todos os olhos fixos neles, com admiração e inveja. Apesar de tentar convencer-se de que a noite seria maravilhosa, intimamente sentia vontade de ficar em casa tendo-a somente para si.

Estava começando a cansar-se de ter de representar o papel de homem maravilhoso, sempre alegre, disposto, educado, tendo de suportar conversas tediosas com pessoas desinteressantes, fechando os olhos às indiretas por vezes veladas de alguns subestimando seu ramo de atividades.

Sempre fizera isso para ganhar dinheiro, mas, pensando bem, sua situação financeira era ótima e ele poderia dar-se ao luxo de fazer o que lhe dava prazer: usufruir da companhia de Magali, dar vazão à paixão que sentia por ela e que aumentava a cada dia.

Sorriu imaginando o que faria quando estivesse a sós com a esposa. Tendo-a nos braços, coração batendo descompassado, Júlio não resistiu. Levantou-se e  foi procurá-la no quarto. Magali não passara a chave na porta, ele entrou e foi direto ao banheiro.

Deitada em uma banheira cheia de espuma, olhos fechados, Magali prestava atenção à música de relaxamento do aparelho de som e não ouviu quando Júlio entrou no banheiro.

Ele não resistiu, rapidamente tirou a roupa, entrou no banho e a abraçou. Magali estremeceu e gritou:

— O que está acontecendo? Quem está aqui?

Assustada, procurou libertar-se enquanto Júlio a apertava em seus braços, tentando beijá-la. Sentindo o ar faltar-lhe, Magali desferiu um violento tapa na face de Júlio, que, surpreendido, afrouxou os braços. Ela, então, aproveitou para escapar. Saiu da banheira, vestiu o roupão, rosto afogueado pela raiva, e gritou:

— O que foi isso? Pensei que você fosse um homem civilizado. Como pôde me afrontar dessa forma?

Júlio respirou fundo, tentou controlar-se, saiu da água, vestiu o roupão, sem encontrar palavras para justificar-se. Imaginou que estava fazendo uma demonstração de amor. Todavia, Magali fixou-o séria:

— O que deu em você? Eu estava entrando em alfa na meditação e você me agrediu. Estou desequilibrada, tora do normal e tremendo até agora! Eu pedi para não vir atrás de mim. Queria ficar bem, agora nem sei se estou em condições de ir a essa festa.

Júlio fitava-a envergonhado. Era horrível para ele chamado atenção daquela forma. Logo ele, sempre equilibrado e eficiente. Cometera uma falta imperdoável. Tentou explicar-se:

— Eu mesmo não sei o que aconteceu. Fui descansar no quarto de hóspedes, me deitei e comecei a pensar em nós, em como a amo. Então, meu sangue subiu e, quando dei por mim, estava no banheiro e vendo-a não consegui me controlar. Foi isso. Peço-lhe desculpas. Juro que não acontecerá de novo.

— Não esperava uma atitude dessas vindo de você.

— Eu me deixei levar por amor. Eu a amo muito. Leve isso em consideração.

Magali foi para o quarto e Júlio a seguiu. No íntimo, lamentava o mau jeito e sentia que não havia mais clima para uma noite de amor como tinha imaginado.

Sentia-se deprimido, triste, desmotivado.

— Eu estraguei nossa noite. É melhor nem irmos a essa festa. Amanhã mando umas flores, peço desculpas aos anfitriões e pronto.

Magali, mãos na cintura, olhou-o com raiva:

— Além de me desequilibrar, ainda não quer mais ir a essa festa para a qual me preparei, comprei roupa e na qual pretendia passar algumas horas de prazer com nossos amigos. Brenda vai estar lá. Já notou como ela me olha do alto de sua fortuna? Se eu não for, ela vai exibir-se sem concorrência. Só eu posso confrontá-la! Acha que vou ficar em casa imaginando o que ela estará armando nas minhas costas?

Júlio olhou-a surpreendido. O que estaria acontecendo com eles? Magali era vaidosa, gostava de aparecer e podia brilhar de fato, mas nunca chegara a esse ponto. Resignou-se:

— Nesse caso, podemos ir. Sinto muito pelo que aconteceu. Vamos esquecer o assunto e aproveitar a festa como sempre fizemos.

Ela respirou aliviada:

— Está bem. Vou tomar um chá, me acalmar e aproveitar esta noite.

— É assim que se fala! Vou fazer o mesmo.

Enquanto os dois se esforçavam para voltarem ao natural, no canto do quarto, o espírito de um homem, olhos magnéticos, lábios entreabertos em um sorriso satisfeito, pensava: "Chegou a hora de vocês pagarem por tudo que me fizeram. Agora que os encontrei, irei até o fim".

Apesar do esforço, Júlio não conseguiu mandar embora um aperto no peito, uma sensação desagradável que o invadira. Respirou fundo tentando acalmar-se. Se antes não tinha vontade de ir à festa, agora sentia que seria um sacrifício que teria de suportar.


 

Alberto, sentado no quarto do hotel sentiu que precisava agir. O dinheiro estava acabando, hesitava na hora de falar com Júlio. Durante três dias, ele pesquisara a vida do ex-cunhado. Seguira Magali e notara que ela sabia viver. Frequentava lugares de luxo, gastava sem controle, exigia sempre o melhor. Era respeitada e muito bem atendida. Em todos os lugares aonde ia, as pessoas desdobravam-se em gentilezas que ela gratificava muito bem com pomposas gorjetas.

Sabia que, se conseguisse conquistar a simpatia da moça, estaria feito pelo resto da vida. Júlio teria de aceitá-lo. Mas como fazer isso? Não tinha muito tempo. Teria de agir antes que o dinheiro acabasse.

Alberto saiu e postou-se discretamente em frente à casa do ex-cunhado. Júlio saiu no carro com o motorista, e ele continuou esperando. Quando o jovem copeiro saiu para ir ao mercado, Alberto seguiu-o sem ser visto. Lá, abordou-o:

Deu-lhe um cartão de apresentação e disse:

— Você tem interesse em mudar de vida, progredir, ganhar dinheiro?

Os olhos do rapaz brilharam:

— Claro que sim. Esse é meu sonho!

— Gostei de você. Sinto que é um bom rapaz. Como se chama?

— João.

— Temos que conversar.

— O que preciso fazer?

— Termine suas compras, espero você lá fora para falarmos.

A conversa foi bastante proveitosa. Alberto colocou-se na posição de vítima do ex-cunhado, que perdera uma vultosa quantia na Bolsa de Valores e o culpara por isso. Ao abandonar sua irmã, levou todo dinheiro, deixando-o na miséria. Ele era inocente. Os dois sempre foram muito amigos, mas precisava de tempo para provar isso.

— Sinto que você é um bom rapaz. Ao me ajudar, além de estar fazendo um bem, saberei recompensá-lo.

— Não sei como fazer isso. Sou apenas um copeiro.   Doutor Júlio e dona Magali nem me olham.

— Tenho um plano e sua parte é fácil.

— Acha que poderei fazer?

— Tenho certeza. Júlio está muito apaixonado pela nova esposa. Faz tudo para agradá-la! Ela parece uma boa pessoa. É linda, uma deusa. Quero me aproximar dela, mas de uma forma cuidadosa. Não posso chegar e me apresentar, dizer que sou irmão da ex-esposa dele. Ela nem vai me receber.

— É, vai ficar com ciúmes. Como pensa em fazer isso então?

— Pode deixar comigo. A sua parte é manter o contato, dizer aonde ela vai, a que horas, com quem e eu saberei me aproximar dela.

João pensou um pouco e depois disse:

— Se meu patrão não gostar, posso perder o emprego!

— Isso não vai acontecer. No começo ele vai implicar comigo, mas quando souber que sou inocente, vai voltar a ser meu amigo, devolver minha parte, tudo ficará bem e você terá o seu quinhão. É pegar ou largar!

— Está bem, aceito. Não quero ser copeiro a vida toda.

No dia seguinte, Alberto ficou sabendo que Magali havia marcado hora em um SPA. Anotou o endereço e, pouco antes da hora marcada, foi até lá e ficou esperando perto do local por onde o carro dela teria de passar. Seu plano tinha de dar certo!

Duas horas depois, ele viu o carro deixar o prédio e vir se aproximando. Calculou a distância e atravessou na frente do automóvel, que o derrubou. Magali gritou, e o motorista, assustado, brecou e abriu a porta. Olhos fechados, Alberto continuava deitado, e o motorista, pálido, abaixou-se chamando:

— Senhor! Senhor! Eu não tive culpa, o senhor atravessou sem olhar! Meu Deus!

Algumas pessoas pararam e Magali saiu do carro. Alberto abriu os olhos e passou a mão na cabeça.

— Como está se sentindo? — indagou o motorista.

— Atordoado. Não sei o que aconteceu. Deu um branco, não vi o carro!

Magali aproximou-se:

— Está sentindo alguma dor?

— Um pouco nas costas.

Magali suspirou e disse:

— Vamos levá-lo até o hospital.

Alberto fez menção de levantar-se, e o motorista o ajudou.

— Não é preciso. Acho que não aconteceu nada... Estou bem.

Magali abriu a porta do carro.

— Entre. O senhor tem médico particular?

— Não. Sou de São Paulo. Cheguei aqui há apenas alguns dias. Não conheço ninguém.

— Nesse caso, vamos ao meu médico. Faço questão.

Alberto exultou, mas fingiu certo alheamento. Sentado no banco de trás, ao lado de Magali, ele colocou em prática a segunda parte do plano e entregou seu cartão a ela dizendo:

— Permita que me apresente. Vim ao Rio para falar com meu ex-cunhado.

Magali leu o nome, meneou a cabeça e perguntou:

— O senhor é parente da senhora Eugênia Queiroz?

— É minha irmã. A senhora a conhece?

— De nome apenas.

Alberto calou-se. E Magali, pensativa, também permaneceu em silêncio até o consultório do médico. O médico constatou que tudo estava normal, e, como ele se dizia atordoado, receitou apenas um calmante e repouso até o dia seguinte.

De volta ao carro, Magali quis saber o endereço do hotel onde Alberto estava hospedado, dizendo em seguida:

— Vou deixá-lo no hotel e esperar Nestor ir comprar o remédio.

— Não se preocupe, podem ir. Eu compro o remédio.

— Nada disso. Você precisa descansar. Ele vai voltar logo. Quero ter a certeza de que vai mesmo tomar o remédio e descansar.

Nestor foi para à farmácia, e Alberto e Magali sentaram-se no hall. Alberto disse comovido:

— A senhora está se preocupando comigo! Não sei como lhe agradecer. Nos últimos tempos, tenho tido muitos problemas. Perdi tudo, minha família está em dificuldade financeira, minha irmã, depois que o marido a deixou, ficou com raiva de mim e não quer me ver, só porque eu dei razão a ele.

Magali remexeu-se na cadeira inquieta. Ela imaginava que a ex-mulher de Júlio deveria estar sofrendo. Ela queria que a separação dele com a esposa tivesse sido feita às claras, mas ele não concordou. Preferiu fugir e deixar apenas uma carta. Enquanto fugiam, Júlio considerou:

— Desse jeito, ela sofrerá menos e nós não teremos de ouvir recriminações. Odeio discussões.

Alberto notou o semblante preocupado de Magali e continuou com voz triste:

— As coisas aconteceram de repente, tudo ao mesmo tempo. Fiquei sem chão. Vim para o Rio na intenção de procurar Júlio. Sempre nos demos muito bem, fomos amigos. Vim em busca de trabalho. Preciso urgentemente de um emprego. Nunca fiquei em uma situação como esta. Sempre vivi bem.

Alberto suspirou triste e continuou:

— Preferia que a senhora não tivesse me trazido para cá. Tenho vergonha de estar vivendo neste hotel de quinta categoria.

Magali não suportou e abriu o jogo:

— A vida escreve direito por linhas tortas. Foi Deus que o colocou diante do meu carro esta tarde. Alberto fingiu-se surpreendido, e ela continuou:

— Meu marido é o homem que procura. Foi por minha causa que Júlio deixou sua irmã!

Alberto segurou a mão dela dizendo emocionado:

— Tem razão. Deus guiou meus passos até a senhora! Estou muito emocionado! Não sei o que dizer! Nestor chegou com o remédio, e Magali disse séria:

— Tomei uma resolução. Você vai agora mesmo comigo para casa.

— Não sei se vai dar... antes preciso pagar o hotel... Não sei se...

— Não se preocupe com isso, vá arrumar sua mala e vamos para casa. Júlio vai ter uma surpresa. Virando-se para Nestor, Magali ordenou:

— Mande fechar a conta, eu pago.

Era tudo que Alberto queria ouvir. Mancando levemente, para não despertar suspeitas, fez o que ela pedira. Quando terminou, o empregado entrou no quarto para pegar a mala a pedido de Magali.

Alberto sentia vontade de cantar, de sorrir, descer as escadas correndo, mas controlou-se. Tinha de continuar a representar a cena.

Passava das dezenove horas quando Magali entrou em casa acompanhada de Alberto. Júlio chegara pouco antes, já vestira seu chambre, e saboreava sua bebida favorita, enquanto esperava pela volta de Magali.

Vendo-a entrar na companhia de Alberto, seu rosto transfigurou-se. O que ele estava fazendo em sua casa? Como havia descoberto o endereço?

Júlio colocou o copo sobre o aparador na intenção de expulsá-lo, mas Magali não lhe deu tempo para nada. Olhos emocionados, disse:

— Deus colocou esse homem no meu caminho! Ainda estou emocionada...

Júlio fixou os dois sem saber o que dizer, enquanto Alberto estendia os braços dizendo emocionado:

— Sua esposa é um anjo. Além de linda, nunca esquecerei o que ela fez por mim.

 

Apesar da desconfiança que sentia, olhou-os sem saber o que dizer.

Em poucas palavras, Magali falou sobre o acidente e finalizou:

— Ele disse que vocês sempre foram amigos. Defendeu-o diante de Eugênia e ela não quer mais saber dele.

Alberto justificou-se:

— Fiz o que sentia, mas ela, você sabe, não entendeu e rompeu comigo. Estou passando por um momento difícil, sem trabalho, e vim ao Rio na esperança de que você, que sempre foi meu amigo, pudesse me arranjar um trabalho — Alberto fez uma ligeira pausa, olhou em volta e continuou: — Você está muito bem, que casa linda! Tem tudo. Uma esposa maravilhosa, linda, de alma nobre e delicada!

Os olhos dele estavam úmidos de emoção ao dizer essas palavras e finalizou:

— Não vai me dar um abraço de boas-vindas?

Júlio não teve como escapar. Apesar do desconforto, sorriu e abraçou o ex-cunhado, enquanto Magali, com os olhos emocionados, assistia à cena de alma lavada. Todo sentimento de culpa por ter fugido com o marido de Eugênia desapareceu por completo naquele momento. Ela não era uma mulher ruim. Apesar do que fizera, conseguira ajudar aquele pobre homem que sofrera por ter reconhecido o amor irresistível que havia entre ela e Júlio.

Vendo que os dois estavam de olhos fixos nele e querendo demonstrar boa vontade, Júlio perguntou:

— O que você pensa em fazer?

— Preciso de emprego. O dinheiro acabou, deixei minha família em situação difícil, quero trabalhar e ganhar o suficiente para sobreviver e sustentá-la. Estou disposto a fazer qualquer coisa.

— Não sei se vai conseguir. As coisas aqui também não estão fáceis. Em São Paulo penso que você teria condições de arranjar algo melhor.

Alberto abaixou a cabeça triste e comentou:

— Eu tentei. Não queria vir incomodá-lo, mas não tive escolha. O que posso fazer sem dinheiro?

Magali pôs a mão sobre o braço de Júlio:

— Você precisava ver o hotel em que ele estava hospedado. Era muito ruim. Não permiti que ele continuasse morando lá e decidi: enquanto ele não ganhar o necessário para ter uma vida digna, vai ficar hospedado aqui, em nossa casa.

Júlio não conteve um gesto de contrariedade e Magali, cenho franzido, continuou com voz firme:

— Sei que será por pouco tempo, porque você vai se esforçar para conseguir um emprego bom para ele. Alberto tem formação, é advogado!

Júlio não se conteve:

— E, pelo que sei, é muito esperto na profissão. Magali sorriu enquanto Alberto segurava a mão do ex-cunhado comovido:

— Nunca esquecerei o que estão fazendo por mim. Eu sabia que você não ia me desamparar em um momento tão difícil como este. Mas não pretendo abusar de sua bondade. Assim que estiver trabalhando, procurarei um lugar para ficar.

Magali sorriu satisfeita. Percebeu que Júlio não havia ficado feliz com a presença do ex-cunhado. Afinal, era irmão de Eugênia, de quem ele queria manter distância. Mas, para ela, a presença de Alberto significava que, apesar dos acontecimentos, o irmão de Eugênia preferiu apoiá-la. E essa atitude a valorizava. Hospedando o irmão da rival, certamente calaria a boca dos maldizentes na sociedade.

Apesar de ter sido bem recebida pela alta sociedade do Rio de Janeiro, frequentando lugares de luxo, já circulara alguns comentários sobre a separação de Júlio. Eugênia era de uma família de classe alta e muito respeitada. A presença de Alberto certamente acabaria com esses comentários.

Magali chamou João e pediu que levasse a mala de Alberto e o acomodasse no quarto de hóspedes.

— Você deve querer tomar um banho, descansar um pouco, se recuperar do acidente.

Alberto agradeceu, baixou a cabeça para esconder a satisfação e acompanhou João.

Vendo-se a sós com ela, Júlio comentou:

— Você não precisava ter esse trabalho. Alberto não é criança e sabe se cuidar. Se você houvesse me chamado no momento do acidente, eu teria resolvido tudo sem precisar trazê-lo para nossa casa.

— Na hora fiquei muito assustada. Notei que você ficou constrangido por vê-lo aqui em casa. Afinal, é irmão de Eugênia!

— É, isso está me incomodando.

— Pois a mim não! Exatamente por ele ser quem é, preferi hospedá-lo. A presença de Alberto aqui em casa prova que nossa relação é respeitada e aceita.

— Nós sempre fomos respeitados.

— Eu soube de alguns comentários e não gostei. Agora, todos vão se calar.

Júlio ficou pensativo durante alguns segundos. De fato, alguns conhecidos haviam se referido ao seu novo casamento de forma maliciosa. Se olhasse por esse lado, a presença de Alberto poderia ser-lhe proveitosa nos negócios.

Seu ramo de atividade era baseado na confiança e o dinheiro deixaria de entrar caso eles suspeitassem da sua honestidade.

Júlio sorriu, beijou a esposa delicadamente na face dizendo:

— Eu quero você só para mim.

— Eu vou ver como está o jantar.

Júlio sentou-se no sofá, segurando a taça de vinho, e, pensativo, degustou alguns goles.

Sabia que Alberto era manhoso e trambiqueiro, mas o que Magali pensara tinha certa lógica. Ele poderia tê-lo como seu empregado por algum tempo. Mas, para fazer isso, precisaria ter uma conversa muito séria com ele, acenando-lhe com a possibilidade de ganhar um bom dinheiro, mas trazendo-o sobre contato direto, controlando-o com mãos de ferro.

Júlio gostava desse jogo de poder. Nunca se alterava, mas agia sempre no controle do que lhe interessava, sem escrúpulos e até com certo prazer.

Ele não viu que o espírito de um homem, que os envolvera na noite anterior, estava ao seu lado, sugerindo aqueles pensamentos que antes repudiava, mas que, naquele momento, lhe pareceram viáveis e até proveitosos.

Enquanto isso, Alberto deliciava-se na espaçosa banheira do quarto de hóspedes, com tudo a que tinha direito: sais, perfumes, ervas e hidromassagem.

Estava com a vida que pediu a Deus. Ele merecia. Dali para frente, tudo iria mudar. Mais tarde pediria um adiantamento para Júlio. Precisava comprar algumas roupas. As suas estavam ruins e ele, morando naquela casa, não poderia destoar do ambiente. Afinal, o que diriam seus amigos vendo-o tão malvestido?

João havia lhe dito que o jantar seria servido às oito da noite e que Alberto tinha apenas quinze minutos para descer. Sabia que Júlio não gostava de atrasos na hora do jantar.

 

Faltavam alguns minutos para as oito horas, quando Alberto, já devidamente limpo e perfumado, desceu para o jantar. Júlio e Magali já estavam na sala e ele aproximou-se.

— Você está melhor agora. Graças a Deus, já se recuperou do acidente.

— É verdade. Estou me sentindo novo, mas um pouco envergonhado.

— Por quê? Aconteceu alguma coisa? — indagou Magali.

— Bem... É que, no momento, minha situação é ruim. Não estou adequadamente vestido para jantar com vocês. Estou envergonhado...

Magali enlaçou seu braço ao dele e respondeu sorrindo:

— Não diga isso. Sua situação é ocasional e provisória. Amanhã mesmo Júlio vai lhe dar um adiantamento para que possa refazer seu guarda-roupa. Não é, Júlio?

Júlio olhou para a esposa, engoliu a raiva e respondeu:

— Claro. Amanhã resolveremos isso.

João avisou que o jantar estava sendo servido, eles foram à sala de jantar e acomodaram-se. O espírito do homem que estava na casa acompanhou-os à certa distância, permanecendo em um canto discreto da bela sala de jantar. Ele observava os três saborearem a comida regada a um bom vinho e a animada conversa, apesar da situação.

— Eles se merecem! Mas não perdem por esperar. Desta vez vão pagar por tudo que me fizeram.

 

Nesse momento, deu entrada na sala o espírito de uma mulher de meia-idade, muito elegante em seu vestido vermelho, que contrastava com a pele clara e os cabelos de um loiro acobreado, presos na nuca com um pente de brilhantes. Nas mãos finas, o brilho dos anéis realçava a riqueza. Os olhos verdes mudavam o tom da cor ao fixá-los nas pessoas, que, sem perceberem nada, continuavam comendo.

Ela aproximou-se do espírito, que disse eufórico:

— Até que enfim você veio, Márcia! Estou ansioso para agir.

— Calma, Ramon. A pressa pode pôr tudo a perder. Eu estive com nosso superior, que me deu toda orientação para o caso!

— Quero saber, o que foi que ele disse?

— Se quisermos conseguir teremos de ter paciência. Esperar o momento certo para cada coisa.

— Por mim, me atiraria sobre ele agora mesmo e faria do meu jeito.

— Bobagem. Esqueceu-se que ele serve ao Nino e tem sua proteção? Como pensa que ele conseguiu a fortuna que tem? Aliou-se a ele. Sozinho, ele não daria um passo.

Ramon não se conteve:

— Quando o vejo sorridente, tendo uma corte de admiradores que faz o que ele deseja, me lembro que ele roubou a Magali de mim. Quando o vejo acariciá-la, tenho vontade de cair sobre ele e acabar logo com essa festa.

— Não é assim que as coisas funcionam. O melhor é reverter a mesma força deles para que se volte contra eles e os destrua.

— Como fazer isso?

— Eu tenho meus recursos. Um deles é não perder a cabeça. Para vencermos, teremos de nos manter serenos e fiéis aos nossos objetivos.

— Isso me parece muito distante. Quando começaremos?

 

Fazia uma semana que Alberto estava trabalhando e procurava fazer tudo conforme Júlio queria, desdobrando-se para mostrar serviço. O ex-cunhado lhe dera o nome de várias empresas com as quais desejava negociar, para que ele as pesquisasse. Designara-lhe uma sala ao lado da sua, inclusive com uma secretária à disposição, o que fez com que Alberto se sentisse valorizado.

Comprara roupas e tudo mais para apresentar-se elegante e bem-vestido. Sentia-se bem e mostrava-se educado e atencioso com as pessoas. Em tudo copiava a postura do ex-cunhado, esperando com isso causar boa impressão.

Júlio acertou em cheio ao dar-lhe aquela função. Alberto adorava saber de tudo sobre a vida alheia e conhecer a fundo o mundo dos negócios era-lhe muito agradável. Com prazer, fazia suas pesquisas, ia muito além dos negócios e mergulhava na vida pessoal dos sócios e até dos diretores das empresas.

Naquele dia, ao voltar do almoço, foi surpreendido pela presença de Rogério na antessala do escritório de Júlio conversando com a secretária.

Aproximou-se e estendeu a mão dizendo amável:

— Doutor Rogério! Que prazer vê-lo. Como vai? Vou bem, obrigado.

A secretária disse sorrindo:

— Venha, doutor. Vamos entrar.

Vendo-o entrar na sala de Júlio, Alberto ficou curioso. Daria tudo para saber o que eles estariam conversando.

Elegante, Júlio levantou-se para recebê-lo.

— Nós não nos conhecemos... A que devo a honra de sua visita?

Rogério entregou-lhe seu cartão dizendo:

— Sou Rogério de Oliveira Sobrinho, advogado. Júlio olhou para o cartão e tornou:

— Sente-se, por favor. Qual é o motivo de sua visita?

— Sou representante legal de dona Eugênia de Queiroz.

Júlio franziu a testa e esperou que ele continuasse:

— Ela quer formalizar o divórcio, doutor Júlio.

— Em que condições?

— Apesar de ter direitos como esposa, ela não exige nada, apenas quer romper o vínculo entre os dois. Eu tomei a liberdade de preparar os papéis e trouxe-os para que o senhor os examine. Basta sua assinatura e eu tratarei da execução final do processo.

Júlio sentou-se surpreendido. Não tivera coragem de enfrentar a separação por temer que Eugênia dificultasse o que pretendia. Permaneceu pensativo e em silêncio e, depois de alguns segundos, foi questionado por Rogério:

— Então, está de acordo?

Júlio estremeceu, pareceu acordar, encarou Rogério e respondeu:

— Sim. É melhor mesmo oficializar a separação. Vou ler os papéis e, se tudo estiver como disse, assino.

Rogério tirou o documento da pasta, colocando-o sobre a mesa:

— Voltarei dentro de uma hora para buscá-lo. Se precisar de alguma informação extra ou tiver alguma dúvida, deixe para assinar quando eu voltar para que possa esclarecê-las.

Rogério levantou-se e estendeu a mão a Júlio, que a apertou:

— Está bem. Combinado.

Depois que Rogério deixou a sala, Júlio sentou-se novamente pensativo. Sabia que havia agido mal ao fugir como um ladrão depois de quinze anos de casamento, sendo que Eugênia sempre fora uma esposa fiel e companheira e o ajudara muito a conquistar o que ele havia conseguido. Uma sensação desagradável acometeu-o, e Júlio passou a mãos nos cabelos como para afugentar aquela emoção inesperada. Mas não deveria se pôr para baixo. Reagiu, pensou em Magali, nas coisas que tinha, na vida boa que desfrutava e refletiu:

— Ela vai se acostumar com isso e esquecer-se de tudo, assim como eu.

Ao ver que Rogério saíra da sala de Júlio, Alberto interceptou-o. Não podia deixar de saber o que ele estava fazendo ali. Provavelmente, Eugênia estaria processando o ex-marido, cobrando coisas ou até pedindo para que ele voltasse.

Alberto aproximou-se do advogado dizendo com voz compungida:

— Esperei-o para perguntar como vai Eugênia... Estava tão abatida quando estive lá. Já se recuperou?

— Dona Eugênia está muito bem.

— Apesar de Eugênia não aceitar minha ajuda, é minha irmã e eu a quero muito bem.

Rogério fixou-o sério:

— O senhor melhorou bastante desde a última vez em que nos vimos. Está muito bem.

— É. Júlio sempre foi meu amigo. Eu não estava bem e vim ao Rio para procurar trabalho.  Ele me recebeu muito bem. Não deixou que eu continuasse no hotel, levou-me para morar em sua casa e contratou-me como seu advogado. Apesar do que aconteceu, é um homem que sabe valorizar as pessoas.

A custo, Rogério segurou a vontade de dizer a Alberto o que pensava dele e do ex-marido de Eugênia. Mas controlou-se porque não queria esticar o assunto.

— Preciso ir. Passe muito bem.

— Sei que foi Eugênia que o mandou aqui. Ela quer que ele volte pra casa? Isso é impossível. Ele ama Magali com paixão. Nunca fará isso. Ela é uma mulher maravilhosa!

— Pergunte ao seu patrão. Até outro dia.

Sem esperar nada, Rogério saiu apressado, tentando segurar a indignação, irritado com o jeito que Alberto falava da irmã. Ao deixar o prédio, procurou um restaurante próximo para almoçar. Pretendia voltar a São Paulo no fim da tarde com os documentos e informar Eugênia de tudo.

Sabia que ela estava ansiosa para que a separação legal e consequentemente o divórcio se consumassem. Era uma mulher forte e decidida. Apesar de amar o marido, reagira e soubera agir com dignidade. Respeitava-a por isso.

Enquanto comia, Rogério pensava em como algumas pessoas eram maldosas. Em sua profissão, já presenciara situações em que, por egoísmo e maldade, muitos agiam em proveito próprio sem terem o mínimo de remorso em prejudicar os outros.

Eugênia era uma mulher linda, sincera, digna, de alma boa, e merecia ser feliz. Como espiritualista, sabia que, apesar disso, a vida não poupava ninguém e mostrava sempre a verdade das coisas. A ingenuidade é perigosa porque impede que a pessoa perceba aquilo que é. Quando gosta de alguém, só vê as qualidades, sem saber que todos nós ainda temos, além de pontos positivos, alguns pontos fracos. Esse é o padrão dos que vivem na Terra. Olhar para os pontos negativos, sem julgá-los, faz com que a confiança seja parcial, centrada só no que é bom. Agir com inteligência evita sofrimento. Mas essa lucidez ainda está distante da maioria das pessoas, que se ilude com facilidade.

Quando Rogério voltou à corretora, a secretária o introduziu à sala de Júlio, que já o esperava. Vendo-o entrar, convidou-o a sentar-se e entregou-lhe os documentos dizendo:

— Já assinei os papéis. Está tudo em ordem.

Rogério guardou os documentos e antes de partir, Júlio o interceptou:

— Eu não esperava outra atitude de Eugênia. Ela sempre foi uma mulher inteligente, culta, muito respeitada e sempre demonstrou o quanto me amava — fez uma ligeira pausa e prosseguiu: — Acontece que eu me apaixonei por outra mulher e, justamente por ela ser de nível tão elevado e ser tão amorosa comigo, não tive coragem de contar-lhe a verdade. Eu reconheço que ela é uma grande mulher.

Rogério não se conteve:

— Quem teve coragem de trair uma mulher como essa, deveria agir à altura, encarar a verdade e sair pela porta da frente. Mas nem todos agem da melhor forma.

Júlio corou e respondeu ríspido:

— Eu fiz o que achei melhor e não me arrependo.

— Espero que nunca se arrependa mesmo. Passe muito bem, doutor Júlio.

Rogério levantou-se, saiu sem estender a mão a Júlio e deu de cara com Alberto, que o esperava novamente do lado de fora.

— E então, sobre o que conversaram? Você veio aqui por algum motivo. Qual foi a resposta dele?

— Se deseja saber, pergunte ao seu patrão. Passe muito bem.

— Espere aí! Diga a Eugênia que não estou sentido por ela não ter me ajudado. Afinal, é minha única irmã. Quando puder, pretendo ir visitá-la. Espero que me receba.

Rogério concordou com a cabeça e saiu rapidamente. A atitude de Alberto enojava-o. Na rua, respirou aliviado e foi direto para o aeroporto esperar seu voo, que sairia dali a uma hora.

Assim que o advogado saiu do escritório, Alberto bateu na porta de Júlio e entrou. Ele estava pensativo e nem o viu entrar.

— Aconteceu alguma coisa? — Alberto indagou curioso.

Júlio estremeceu:

— O que foi?

— Depois da visita do advogado de Eugênia, você ficou preocupado. O que ele queria?

— Você o conhecia?

— Sim. Ele é muito esperto. Quando cheguei para ajudar Eugênia, ele já estava lá e havia sido nomeado advogado dela. Foi por isso que minha irmã me mandou embora.

— Está preocupado com a visita dele?

Alberto ficou mudo e Júlio prosseguiu:

— A visita dele foi muito positiva. Saiba que estou praticamente divorciado e agora poderei me casar legalmente com Magali. Estou livre.

— Ela não exigiu nada?

— Não. Somos financeiramente independentes. Conquistei meus negócios com meu trabalho, e o dinheiro de Eugênia veio da herança dos pais. Está tudo certo. Estou muito feliz por poder dar essa notícia a Magali. Nossa situação vai mudar diante da sociedade e isso é ótimo.

— Você é um homem de sorte mesmo. Tudo sai como você quer.

Alberto deixou a sala do ex-cunhado, pensando em esforçar-se para continuar naquele emprego, que caíra do céu. Afinal, se perdesse o trabalho, sabia que não teria como sobreviver. Estava sentindo uma vontade louca de ir ao cassino para jogar, mas continha-se porque sabia que, se voltasse a jogar, não conseguiria parar e acabaria perdendo tudo que conquistara. Estava difícil. Alberto conformava-se pensando que, quando estivesse em uma situação melhor, reservaria uma parte do dinheiro para satisfazer àquele prazer. Quando acabasse, daria um tempo até juntar outro montante.

Dois espíritos, que estavam ao lado de Alberto, entreolharam-se e riram. Um deles disse:

— Se ele continuar assim teremos de arranjar outro.

— Eu já estou até procurando. Não aguento mais ficar sem aquela emoção de ver a roleta girar e saber que número vai cair — comentou o outro espírito.

Alberto voltou para sua sala, sentou-se e sentiu uma vontade forte de jogar. Um funcionário havia lhe contado que conhecia um clube clandestino, que tinha de tudo, até roleta, onde ofereciam jantar, champanhe, tudo por conta do jogo.

Sentiu vontade de ir falar com aquele funcionário e informar-se sobre o endereço do clube, mas, nesse momento, chegou um cliente para ser atendido.

Passava das nove da noite quando Rogério entrou na casa de Eugênia. Rosa abraçou-o com carinho e            perguntou:

— E então, como foi?

— Tudo certo. Vamos falar com Eugênia.

Na sala, ela ouvira a voz do advogado e levantou-se no momento em que entraram, fitando-o à espera de notícias: — Tudo certo. Ele assinou os papéis.

Eugênia suspirou aliviada e estendeu a mão a Rogério dizendo:

— Espero que tenha feito uma boa viagem. Sente-se e conte-me como foi tudo.

Rogério, em poucas palavras, relatou fielmente o encontro com Júlio e finalizou:

— Agora só preciso dar entrada nos documentos e esperar a aprovação do divórcio.

Eugênia ouviu-o com atenção e depois disse:

— Quero me libertar dessa ligação o quanto antes.

Rogério olhou fixamente para ela e respondeu:

— Ela já está desfeita, dona Eugênia. A liberdade virá de fato quando conseguir se livrar do sentimento que a está incomodando.

Eugênia ficou pensativa, não respondeu à observação de Rogério, e ele prosseguiu:

— Estou certo de que vai conseguir. A vida é tão maravilhosa que lhe dará outras oportunidades, não só para esquecer tudo isso como para ter uma vida mais verdadeira, produtiva e feliz.

— Não sei se poderei esquecer. A traição ainda dói.

Havia uma emoção velada na voz de Rogério quando disse:

— A verdade dói, mas ensina, esclarece, traz lucidez. Hoje ficou a dor, porém, mais adiante, perceberá que ele não merecia estar ao seu lado e, por isso, a vida o afastou da senhora para que pudesse encontrar algo melhor. Alguém que a ame de verdade como merece.

Vendo que Eugênia olhava-o admirada, Rogério continuou:

— A vida tira algo que não está bom e coloca algo melhor no lugar. É assim que funciona. Ela sempre troca o pior pelo melhor. Você tem muitos anos de vida pela frente e um dia perceberá isso.

Rosa interveio:

— Eu também acredito nisso. A vida é sábia e sempre faz o melhor.

— Eu gostaria de ter a fé que vocês têm. Mas, infelizmente, ainda é difícil aceitar o que aconteceu. Rosa segurou a mão de Eugênia com carinho:

— Isso vai passar, tudo vai mudar e ficar melhor. Pode ter certeza — voltando-se para Rogério continuou: — Você não jantou, vamos até a copa! Eu guardei uma comidinha que você adora.

— Você é sempre tão carinhosa comigo, tia. Obrigado, estou mesmo com fome.

Os três foram juntos para a copa e, enquanto Rosa esquentava a comida, Rogério e Eugênia sentaram-se. Ela, então, fixou o advogado:

— Obrigada por tudo que tem feito por mim, Rogério. Depois do que aconteceu, eu não confio em ninguém. Vocês me ajudaram no momento mais difícil de minha vida. Eu gostaria que soubessem que, se estou viva e menos angustiada, foi por tê-los encontrado. Chego a pensar que foi Deus quem colocou Rosa no meu caminho.

— Eu não disse que a vida cuida de tudo? — Rosa respondeu sorrindo.

— Estou começando a acreditar que há muitas coisas que ainda não conheço e que podem me tornar uma pessoa melhor, assim como vocês dois.

Rogério ficou pensativo por alguns instantes e depois disse para si mesmo:

— O sofrimento, a desilusão dói, mas começa a suavizar-se quando aceitamos o que aconteceu. Depois vem a fase em que começamos a entender o quanto contribuímos para esses fatos e a mágoa começa a diluir-se.

Eugênia olhou-o pensativa por alguns segundos e depois comentou:

— No meu caso não foi assim. Tenho pensado muito nesse assunto, analisado meu comportamento durante os anos em que vivemos juntos e sinto que minha dedicação foi completa. Me dediquei inteiramente à felicidade de Júlio. Nunca brigamos nem nos desentendemos. Sempre fiz o que ele quis. E é isso que me revolta e faz com que eu sinta essa mágoa que tirou de mim toda a vontade de viver.

Rogério olhou nos olhos de Eugênia, em que uma lágrima ensaiava cair, e respondeu:

— Acredito que, mesmo em uma união nascida por interesse, o fato de ela se manter durante anos revela que há um sentimento maior entre o casal, que poderia ter sido consolidado. Mas, em algum momento, algo aconteceu, rompeu com esse sentimento e ocorreu a separação.

— Nosso casamento não tinha como continuar. Hoje penso que Júlio se casou comigo apenas porque eu o introduzi na alta sociedade. Mesmo não dividindo meus bens com o casamento, foi através desse meio que ele conseguiu ganhar muito dinheiro e, ao constatar que já não precisava mais de mim, foi embora.

— Você está sendo cruel consigo mesma. Um homem como ele, de boa aparência, que gosta do luxo, sabe se valorizar e atrai não apenas as mulheres, mas até os homens de negócios que disputam a oportunidade de participar da empresa dele. Júlio deve ter se casado com você por admirá-la como mulher, ainda que o fato de sua posição social o tenha motivado também. Deve tê-la admirado por sua beleza, postura e dignidade. Deve sim tê-la amado o tanto quanto lhe foi possível amar. Sinto que alguma coisa mudou para que ele se desencantasse.

Eugênia levantou-se indignada:

— Você o está defendendo. Por quê?

— De maneira alguma. Se fosse um homem de bem, teria se posicionado, tido coragem de dizer a verdade e não sairia no meio da noite como um ladrão. Estou apenas observando as coisas como elas são.

Rosa interveio:

—Acalme-se, Eugênia. Chega desse assunto. Vamos conversar sobre coisas mais agradáveis. Não faz bem ficar lembrando disso.

Eugênia ignorou as palavras de Rosa e insistiu:

— Você está tentando me culpar também pela separação. Rosa já havia me dito que eu contribuí para esse desfecho. Se eu errei, quero saber: onde foi que errei?

Rogério fixou-a sério e disse:

— Um homem como ele só admiraria uma mulher que tivesse opinião, que se colocasse acima dele e mostrasse ser tão ou mais inteligente que ele. Que ele pudesse admirar e que o fizesse sentir-se poderoso por ser amado por uma supermulher. É asskm que ele a via

quando a conheceu, encantou-se por você e a pediu em casamento. Mas, com o tempo, você foi mudando, ficando passiva. Você passou a fazer só o que ele queria, apagou sua luz, deixou de ser a mulher que ele admirava, e o sentimento de Júlio acabou.

Eugênia deixou-se cair na cadeira enquanto as lágrimas lavavam seu rosto e os soluços mostravam que a tempestade ainda era forte.

Rosa fez menção de abraçá-la, mas Rogério fez-lhe sinal para não intervir. Levantou-se, postou-se atrás dela, colocou a mão sobre a cabeça de Eugênia, enquanto, em silêncio, ligava-se a seu guia espiritual.

Aos poucos, ela foi acalmando-se, os soluços pararam e Eugênia começou a respirar com mais calma. Rogério falou, então, com um tom de voz diferente:

— Às vezes, é preciso deixar a tempestade lavar as tristezas da alma, limpar as mágoas do passado e mostrar-nos a verdade. Mas, depois, quando ela passa, deixa sempre o ar renovado e traz uma força capaz de mostrar novos caminhos, mais verdadeiros e felizes.

Em silêncio, Rogério sentou-se novamente e continuou a comer. Eugênia levantou-se e foi para o quarto, e Rosa ficou observando a amiga subir as escadas. Ouvindo o barulho da porta se fechando, Rosa voltou à copa e comentou:

— Você foi muito forte... Ela pode piorar.

— Ao contrário. Eu disse tudo que ela precisava ouvir. Eugênia é muito inteligente e, diante do que eu disse, percebeu a verdade, reconheceu que provocou a situação e descobriu que não foi a vítima que julgava ter sido. De hoje em diante, sua mágoa vai desaparecer, e ela poderá voltar a ser feliz.

Rosa abaixou a cabeça, ficou pensativa durante alguns segundos, e seus lábios abriram-se em um doce sorriso:

— Suas palavras foram inspiradas. Senti a presença de Marcos Vinícius. Foi ele quem disse aquelas palavras.

— Confesso que eu já havia pensado em tudo isso, mas não tinha coragem para falar. Ele veio me ajudar e, quando dei por mim, já estava falando tudo.

— Vamos ver como ela reage.

Rogério suspirou e respondeu:

— O caso de Eugênia mexeu muito comigo. Trouxe de volta um passado que eu pensava ter esquecido.

Rosa passou o braço pelos ombros do sobrinho dizendo com carinho:

— Estou certa de que tanto ela como você ainda vão refazer suas vidas e serão felizes. Ambos estão mais experientes e saberão escolher melhor o próprio caminho.

Ele sorriu, segurou a mão de Rosa, e beijou-a com carinho. Depois, disse com voz suave:

— Você tem sido a mãe que eu não tive. Tê-la por perto é um privilégio.

Rogério colocou os talheres sobre o prato e continuou alegre:

— O jantar estava delicioso. Tem ainda aquele café gostoso para completar?

Enquanto ela buscava o café, Rogério a seguia com o olhar. Sentia-se novamente em paz, disposto a esquecer o passado e seguir adiante.

Em branco

 

No quarto, Eugênia estendeu-se na cama, sentindo ainda o coração batendo descompassado. A princípio as palavras de Rogério soavam estranhas. Ela tinha tanta certeza de que fora uma esposa exemplar, dedicada, amorosa, perfeita, que nunca questionara suas atitudes.

Em sua família, essa era a conduta exemplar no casamento. O marido deveria estar em primeiro lugar e a esposa tinha de esquecer a própria vontade e fazer o que ele quisesse.

Ela se lembrou de que tivera de se esforçar para entrar nesse papel. De temperamento forte, foi-lhe difícil controlar os ímpetos de reagir, querer as coisas do seu jeito. Mas sua mãe, uma mulher muito fina e educada, doutrinara Eugênia desde o começo do namoro com Júlio, afirmando que a mulher tinha obrigação de colocar o marido em primeiro lugar. Ele era o chefe da casa e a esposa precisava fazer tudo para vê-lo satisfeito. Esse era o segredo de um casamento longo e feliz.

Lembrou-se de que estava apaixonada por Júlio e, quando ele a pediu em casamento, prometeu a si mesma fazer tudo para que fossem felizes.

Também se recordou de que nos últimos anos de convivência, Júlio foi se distanciando, ficava mais tempo ausente de casa, viajava com frequência, espaçava a intimidade.

Foi pensando nisso que as palavras de Rogério tiveram uma força maior e ela sentiu que eram verdadeiras.

Ela esquecera de si mesma, tornara-se uma mulher sem entusiasmo, apagara sua luz. Como não percebeu isso antes?

Uma onda de raiva contra a mãe a acometeu. Seu pai não se separara, mas tinha amantes que sua mãe fingia ignorar. Fora infeliz suportando uma situação humilhante, engolindo os comentários que de vez em quando notava à sua volta. Pensando nisso, sentiu pena do sofrimento da mãe e transferiu a raiva para si mesma.

Por que aceitara ouvir os conselhos dos outros? Como não percebera que Júlio havia se casado com ela feliz por ter conquistado um troféu diante da sociedade? Ela era da elite, ele, apesar da simpatia e de saber se colocar, era um homem comum, do povo, que subiu na vida por ter despertado a simpatia de gente importante.

Então a verdade apareceu forte e ela se lembrou de que quanto mais se encolhia e se esforçava para cuidar da felicidade dele, fazendo tudo que ele gostava, mais ele se afastava alegando novos compromissos. Ah! Se ela pudesse voltar no tempo! Fechou os punhos com raiva, sentou-se na cama e disse com firmeza:

— Eu ainda vou provar a ele do que sou capaz. Vou mudar, cuidar de minha beleza, conquistar meu lugar na sociedade, me tornar importante, fazer coisas que me deem valor como mulher. Ele vai se arrepender de ter me deixado por aquela dondoca.

Postou-se diante do espelho, fez vários penteados, experimentou os vestidos mais ricos que já usara e decidiu que compraria tudo novo. Iria se reinventar e frequentar os lugares mais luxuosos. Dentro em pouco seu nome estaria em todas as revistas de moda, ela seria vista como atuante. Sempre tivera vontade de escrever para algumas revistas, estava na hora de fazer isso.

Seus olhos brilhavam e ela começou a sentir novamente a alegria de viver.

Na manhã seguinte, quando Eugênia desceu para o café, Rosa notou que ela estava diferente. Mudara o penteado, se maquiara, vestira-se melhor. Satisfeita, comentou:

— Como você está bonita! Parece até que remoçou! Eugênia fixou-a sorrindo:

— Eu estou muito bem! Ontem subi e não me despedi do Rogério. Depois do café vou ligar para me desculpar.

— Não precisa. Ele entendeu o seu momento.

— É. Mas passou. Hoje à tarde vamos sair. Pretendo fazer umas compras e depois poderemos tomar um chá na cafeteria do clube.

Rosa hesitou um pouco, depois disse:

— Clube? Deve ser um lugar chique. Não estou preparada.

Eugênia riu bem-humorada;

— Não se preocupe. Depois das compras, nós duas estaremos muito elegantes. Estou disposta a frequentar a sociedade como sempre fiz e você será minha companheira.

— Você acha que poderei frequentar o clube? Eu nunca fui a um lugar luxuoso.

— Pois se prepare para ir. Nós duas vamos brilhar na sociedade paulistana.

Rosa olhou-a preocupada. Eugênia saíra da depressão e fora ao outro extremo. Não podia ser algo verdadeiro. Apesar disso, concordou.

— Vamos almoçar mais cedo. Peça a Odete que tire o almoço uma hora mais cedo.

Depois do café, Rosa foi à cozinha dar o recado à Odete enquanto Eugênia foi telefonar para Rogério. Depois dos cumprimentos, ela falou:

— Estou ligando para me desculpar. Ontem saí e nem me despedi de você.

— Não havia necessidade. Afinal, eu forcei a barra.

— Nem tanto. A verdade dói, mas cura. Analisei minhas atitudes e percebi o quanto estava errada. A reação foi tão forte que me senti culpada pela separação.

— Não faça isso com você. A culpa também machuca e não oferece uma explicação convincente. Não resolve completamente o assunto.

— Não entendo. Você me mostrou uma situação que sei que é verdadeira. Justificou as atitudes de Júlio. Pensei ter resolvido a questão definitivamente.

— Parcialmente, apenas.

— Às vezes você diz coisas que não entendo... Gostaria que explicasse melhor.

— Voltaremos ao assunto quando eu for à sua casa.

— Agora você me deixou confusa. Gostaria que viesse esta noite mesmo, depois das nove. Eu e Rosa vamos sair, mas a essa hora já estaremos em casa.

— Está bem. Irei. Pode esperar.

Eugênia desligou o telefone e foi ter com Rosa, que estava arrumando algumas flores no vaso da sala. Ela adorava arrumar as flores e Eugênia dizia que ela tinha mãos de fada, porque ficava encantada com os arranjos que ela fazia.

— Rogério virá aqui hoje à noite.

— Tem alguma novidade?

— Não, eu pedi para conversar. Depois de ontem pensei ter resolvido o assunto, mas ele me deixou confusa. Terá de me explicar.

Rosa riu e respondeu:

— Ele às vezes não fala sozinho. Tem alguém ditando o que precisamos ouvir.

— Como assim?

— Ele é médium. O espírito de Marcos Vinícius é seu conselheiro espiritual.

Eugênia ficou pensativa durante alguns segundos, depois disse séria:

— Gostaria de ouvir também o que ele tem a dizer. Vou pedir para José preparar o carro. Faz tanto tempo que não o uso! Espero que ele tenha conservado tudo em ordem.

As duas entraram no carro e Eugênia pediu:

— Vamos ao shopping de sempre.

O carro saiu e Eugênia disse para Rosa:

— Esse shopping deve servir para as primeiras compras, o trivial. Para as roupas mais finas teremos que procurar alguns ateliês.

Uma vez no shopping, nas lojas mais finas, Eugênia experimentou vários vestidos e mandou Rosa escolher alguns também. Olhando os preços, ela procurou Eugênia no provador e disse baixinho:

— Eu não vou escolher nada. As roupas aqui são muito caras!

— Não se preocupe com isso.

— Eu nem sei escolher.

— Eu ajudo.

Eugênia vestiu-se e saiu do provador carregando alguns conjuntos e vestidos que havia separado, dizendo à vendedora que iria levá-los.

Rosa estava insegura não só pelos preços, mas também por não saber onde usaria aquelas roupas. Mas Eugênia a fez experimentar várias peças, escolheu alguns vestidos, dois conjuntos muito elegantes, e algumas camisas.

Ao deixar a loja, pediu a José, que as esperava do lado de fora, que fosse levar os pacotes para o carro e voltasse.

Então foi a vez de comprar roupas íntimas, sapatos e bolsas. Rosa estava tão atordoada que não sabia decidir nada. Eugênia foi quem escolheu o que queria para as duas.

Passava das seis quando deixaram o shopping e Eugênia considerou:

— É melhor irmos para casa. Amanhã iremos ao salão cuidar da nossa aparência. Não dá para irmos ao clube hoje. Nós duas estamos precisando nos arrumar, dar uma melhorada, ficar na moda. Nem sei mais o que se está usando agora.

Passava das nove quando Rogério chegou e foi recebido por Rosa com carinho. Depois de abraçá-la, ele comentou:

— Você parece preocupada. Aconteceu alguma coisa?

— Sim. Eugênia está diferente, disse que quer voltar a frequentar a sociedade, ir ao clube, e eu terei de ir junto. Fomos ao shopping. Ela comprou um monte de coisas para nós duas, quer me levar ao cabeleireiro. Disse que temos de nos preparar. Não sei se saberei fazer isso, estou confusa.

— Ela está voltando à vida que sempre teve. Não há nada de mais. É uma mulher que sempre viveu assim. Estou certo de que você vai se adaptar.

Rosa meneou a cabeça pensativa e respondeu:

— Não sei se vou dar conta. Nunca fui a um clube da alta sociedade.

Rogério riu satisfeito e considerou:

— Melhorar a aparência é bom e eu sei que, apesar da mudança, você tem discernimento para saber lidar com as pessoas seja onde for.

— Você acha mesmo?

— Tenho certeza. Apesar de querer retomar a vida, Eugênia ainda precisa muito de sua ajuda. Não se esqueça disso.

— Está bem. Eu gosto muito dela. Farei tudo para que ela retome a vida e volte a ser feliz. É ainda tão moça e bonita!

— Faça o que seu coração manda. Ela está me esperando.

— Venha, ela está lendo na sala.

Vendo-os entrar, Eugênia levantou-se da poltrona para recebê-lo. Depois dos cumprimentos, disse séria:

— Sente-se e vamos conversar.

— Estou à sua disposição. O que quer saber?

— Você me fez perceber que contribuí para que meu casamento se desfizesse. Aceitei a parte que me cabe e pensei assim ter resolvido definitivamente o assunto. Você não concordou. Por quê?

— Porque se tudo estivesse entendido, você não se sentiria culpada.

— Continuo não entendendo. Eu reconheço o meu erro.

— Acontece que você não cometeu nenhum erro.

— Como não? Eu me omiti, fiquei passiva, me anulei e, como você disse, apaguei minha luz. Isso não foi um erro?

— Não. Você fez o melhor que sabia na época. Ainda não tinha a noção de que, se anulando, estaria destruindo seu casamento. Você fez o que pensou ser o melhor.

— Foi. Minha mãe sempre dizia que no casamento o homem tinha que estar em primeiro lugar. Eu aprendi assim.

— Essa é a ilusão de muitas mulheres. Essa ideia foi criada pelos homens, que queriam dominar as mulheres, mantê-las sob seu poder. Mas, na verdade, eles admiram aquelas que são ousadas, participativas, têm ideias próprias. Mulheres assim é que mantêm uma união estável, continuam amadas. As grandes paixões acontecem e se mantêm quando a mulher é forte, altiva e inteligente, está sempre renovando e alimentando a relação.

— No começo do casamento, eu me esforcei muito para conter a vontade de reagir quando Júlio dizia ou fazia certas coisas. Agora está tudo claro! E você ainda diz que não errei?

— O erro só acontece quando você sabe alguma coisa e, na hora de agir, não faz. Você fez o seu melhor, mas o resultado mostrou que estava na ilusão. Isso não a torna culpada, só mostra que a verdade é diferente do que esperava. Todavia, hoje você já tem uma experiência maior e, no próximo relacionamento, agirá melhor.

Eugênia ficou calada durante alguns segundos, depois disse séria e com voz firme:

— Eu nunca mais vou me relacionar com ninguém. Vou viver desfrutando os bons momentos, viajando, convivendo com a arte, a beleza, fazendo o que me deixa de bem com a vida. Quero aprender coisas novas, tenho sede de descobrir mais sobre como as coisas são. Acho que chegou o momento de eu me encontrar de forma mais íntima, saber o que

me faz bem, me deixa alegre e alimenta meu espírito.

Os olhos de Rogério brilharam quando respondeu:

— Essa é uma inspiração do seu espírito. Nós estamos neste mundo para aprender a viver melhor, para desenvolver nossas capacidades, descobrir mais sobre os mistérios que nos estimulam a prosseguir, a experimentar as coisas, errando, aprendendo, mas sempre buscando o que é verdadeiro, real, que nos liberta e eleva.

Eugênia colocou a mão sobre o braço dele dizendo séria:

— Hoje eu acordei pensando em refazer minha vida, mas não era para obter bem-estar. Era ainda o desejo de vingança norteando minhas ideias. Eu queria ir para o mundo, vencer na sociedade para mostrar ao Júlio que eu sou a melhor, uma mulher de sucesso, admirada, disposta a viver rodeada de homens de prestígio, sempre desejada, e vencê-los pela paixão, sem nunca pensar em ficar com ninguém. Estava pronta a ir para uma ilusão maior ainda que a que eu vivia, mas você me fez entender que isso também não me faria feliz!

Ela fez ligeira pausa e, vendo que ele continuava silencioso, prosseguiu:

— Sinto que há coisas boas, muito mais importantes, que preciso conhecer e que poderão me proporcionar um bem-estar que nunca tive. Algo íntimo e forte que pressinto nas suas palavras, muitas das quais sinto que estão sendo inspiradas por aquele ser maravilhoso que me socorreu no momento mais difícil de minha vida. Rogério, eu preciso da sua ajuda! Gostaria de aprender esse caminho que você já conhece e seguir adiante.

A emoção tomou conta de Rogério, que não conseguiu dizer nada. Simplesmente, segurou a mão que ela detinha em seu braço e levou-a aos lábios. Depois respirou fundo e disse com voz emocionada:

— Marcos Vinícius é um amigo espiritual que também me socorreu no momento mais difícil de minha vida. Eu também estava disposto a deixar este mundo, acreditando que nada mais havia para mim senão desaparecer, acabar com tudo, esquecer.

Eugênia fixou-o e respondeu:

— Sinto que você também já viveu momentos tristes.

Rogério fechou os olhos e não respondeu. Sua testa contraiu-se levemente e Eugênia apressou-se a dizer:

— Desculpe. Eu não tinha o direito de lhe dizer isso.

Rogério respirou fundo, depois olhou-a, e sua expressão abrandou-se quando ele respondeu:

— Mesmo depois de dez anos dos acontecimentos, eu ainda não consigo evitar a emoção.

— Se toquei no assunto foi porque, para mim, analisar os fatos fez com que minha mágoa diminuísse. Talvez, se você falasse sobre o que lhe aconteceu, pudesse se sentir mais leve.

— Você já teve problemas demais e não é justo que eu a sobrecarregue com os meus. Só posso afirmar que foi a ajuda de Marcos Vinícius que me tirou da depressão, me devolveu a confiança na vida e a vontade de viver.

Eugênia suspirou e comentou:

— Como é que ele fez isso?

—Provando que somos eternos. A morte é apenas uma viagem de volta para o mundo de onde viemos. Estamos aqui para aprender como a vida funciona, com suas leis eternas que nos protegem e favorecem nossa evolução. As experiências, os desafios do dia a dia que nos fazem sofrer e nos forçam a tomar atitudes é que destroem as ilusões, mostram a verdade e nos fazem escolher melhor nosso caminho. É um processo longo, cujo objetivo é conquistar a sabedoria. Quanto mais rápido entendermos isso, mais depressa chegaremos ao equilíbrio do nosso emocional, elevaremos nosso espírito e conseguiremos desfrutar de uma vida mais feliz.

Os olhos de Eugênia brilharam e ela tornou:

— Diante do que vemos todos os dias à nossa volta, como acreditar que um dia chegaremos a isso?

— Nas outras dimensões do universo já há seres que conseguiram e vivem assim. Uma noite, Marcos Vinícius me levou para visitar uma comunidade dessas. À medida que nos aproximávamos de lá, meu peito foi se dilatando, enquanto eu senti uma felicidade tão grande que não dá para explicar. Não me contive e exclamei: "Estamos no paraíso! Nunca senti tanta alegria e felicidade!". Ele sorriu, pediu que eu respirasse e me acalmasse porque estávamos chegando. Daquele lugar, só me lembro de ter conhecido algumas pessoas, mas não sei o que conversamos. Recordo de detalhes da volta, sentindo ainda aquele bem-estar no peito. Chegamos, entrei no meu corpo e acordei, ainda com essa sensação maravilhosa. Essa viagem foi inesquecível. Depois disso, sempre que me lembrava de coisas ruins, pensava naquela vivência incrível, recuperava a calma e me esforçava para ser uma pessoa melhor.

— Eu gostaria muito de conhecer esse lugar!

— Mas ele me contou que você já esteve lá. Quando esteve internada, você deixou o corpo e não queria mais voltar. Marcos Vinícius a levou para um tratamento. Logo depois você acordou.

— Lembro vagamente dele falando comigo como em um sonho, mas não me recordo do lugar. Gostaria muito de ter essa experiência.

— Sinto que sua sensibilidade se abriu depois do que aconteceu. Sei que nosso espírito é eterno e estamos aqui para aprender as leis que regem a vida. Uma delas foi a Lei do Arbítrio, que nos tornou poderosos e capazes de criarmos nosso destino. Nós escolhemos livremente, mas depois de certo tempo colhemos os resultados. Todos os acontecimentos de nossa vida são respostas inteligentes às nossas atitudes.

— Isso é injusto. Nós ainda não sabemos tudo. Como assumir tanta responsabilidade?

— É a praticidade da vida. Nós agimos querendo fazer o melhor, mas nos iludimos com situações, pessoas e coisas. Nossa imaginação é fértil em criar ilusões, que se escondem na vontade de se acomodar, de viver explorando o esforço alheio, sendo superficial nas coisas, tentando levar vantagens, mentindo para não ter de assumir compromissos e ter de mudar os hábitos de que gosta. Por isso há injustiças, maldades, falta de respeito com os outros. Embora tudo isso seja natural por ainda não sabermos como as coisas são, criamos situações de conflito, em que cada um se sente injustiçado, culpando os outros de tudo.

— Não acho justo responsabilizar quem é ignorante pelos seus erros.

— Essa é uma ilusão que pode custar muito caro. E a vida age auxiliando para que as pessoas conheçam a verdade.

— De que forma?

— Você viveu essa experiência. Quando seu marido foi embora, colocou toda culpa do fracasso da relação sobre ele. Mais tarde, reconheceu a sua parte no acontecimento. Mas esse fato colaborou para que hoje você esteja mais segura quando for desafiada por uma nova situação desagradável.

— Deus me livre. Não quero nunca mais passar por isso!

— Essa é a verdade da vida. Para que alguém saiba como as coisas funcionam, é preciso sair das ilusões. Quando a pessoa se desenvolve um pouco mais, a vida lhe envia um desafio a fim de que ela descubra a verdade, aprenda o que deve saber. E, como temos toda a eternidade para nos tornarmos seres iluminados, ela vai estimulando dessa forma, nos forçando a progredir. Mas ela só manda o desafio quando a pessoa já tem conhecimento para vencê-lo.

Eugênia ficou calada durante alguns segundos, depois disse:

— Do jeito que você fala, parece ser uma coisa justa e verdadeira. Gostaria de estudar e aprender mais. Rogério sorriu e respondeu:

— Tenho alguns livros sobre o assunto e terei o maior prazer em emprestá-los a você.

— Obrigada, mas eu prefiro que me dê os nomes para poder comprá-los. Tenho o hábito de assinalar trechos que me interessam e voltar a lê-los novamente de vez em quando.

Havia um brilho de alegria nos olhos de Rogério, que abriu um sorriso largo quando disse:

— Eu também faço isso. Eu não ia lhe emprestar os meus por causa disso. Pretendia oferecer-lhes de presente. Terei o maior prazer em fazer isso.

Rosa surgiu trazendo uma bandeja com café e bolo e disse:

— A conversa está animada, mas é hora do recreio. Trouxe café com bolo que eu fiz hoje à tarde — e, olhando para o sobrinho, continuou: — É o seu predileto!

— Que maravilha! Veio em boa hora.

— Eu quero experimentar — completou Eugênia. Satisfeita, Rosa serviu os dois, que continuaram conversando enquanto saboreavam o café com bolo.

 

Júlio chegou em casa mais cedo, muito alegre, trazendo flores para Magali. Mas não a encontrou em casa. Soube que ela tinha ido às compras com uma amiga.

Enquanto esperava, colocou as flores sobre o aparador, serviu-se de uma bebida e sentou-se confortavelmente na sala de estar, antegozando a surpresa. Tomou alguns goles, depositou o copo na mesinha e tirou do bolso uma caixinha de veludo negro. Abriu-a e apreciou o precioso anel, imaginando o prazer que Magali sentiria ao experimentá-lo. Guardou-a novamente, ansioso para que ela chegasse, antegozando a festa que ela faria ao vê-lo. Esse presente significava muito para que seu maior sonho se realizasse.

Chegar ao casamento era seu maior objetivo. Não manifestara antes esse desejo porque temia a reação de Eugênia. Ela era muito sentimental e ele imaginava que ela não concordaria em dar-lhe o divórcio. Estava esperando o tempo passar para que ela se conformasse e ele pudesse exigir a separação oficial, sem que ela entrasse numa disputa judicial. Ele odiava envolver-se com a justiça. Tudo que ele fazia era por baixo do pano, desde que as coisas não tivessem perigo.

Em seu ramo de negócios, a reputação era preciosa, abria a porta da confiança aos investidores, sem o que tudo ficaria inviável.

Impaciente, Júlio olhou o relógio: cinco e meia da tarde. Era cedo. Ele nunca chegava antes das oito horas da noite. Geralmente saía do escritório pouco depois das quatro da tarde e passava no clube para conversar com os amigos, e era onde os negócios começavam. Ele se tornara amigo dos investidores e muitos deles frequentavam esse clube masculino, alguns só para conversar, saber as novidades, outros para apresentar amigos interessados em conhecê-lo e investir em sua corretora.

À medida que o tempo passava e ela não chegava, ele ia ficando mais irritado. O ciúme o atormentava, porquanto Magali era muito independente e nem sempre fazia o que ele queria. Acostumado ao comportamento discreto e equilibrado de Eugênia, a postura de Magali, sempre tentadora, querendo ser admirada, chamando a atenção por onde passava, deixava-o inseguro. Além disso, havia a culpa de ter traído Eugênia, que lhe fora fiel, o tratara com respeito e ainda o auxiliara a subir na vida. Sempre jogando com a sorte, supersticioso, ele temia ser castigado pelo que fizera.

Faltavam alguns minutos para as oito da noite quando ela chegou alegre, em companhia de Alberto, que carregava alguns pacotes.

Vendo-os, Júlio não se conteve:

— Onde vocês foram que demoraram tanto?

Magali olhou-o admirada, ignorou a pergunta e rebateu:

— Você veio mais cedo hoje?

Controlando a raiva, ele suavizou a voz ao responder:

— Não fui ao clube. Estava ansioso para chegar em casa, tenho uma surpresa para você.

Alberto, parado diante deles, esperava com os pacotes na mão.

— Por favor, Alberto, entregue esses pacotes para Joice.

Ele deixou a sala, apesar da curiosidade de saber o que Júlio ia dizer, mas o olhar com o qual o ex-cunhado o brindou fê-lo sair rapidamente sem questionar.

Calmamente Magali fixou Júlio e esperou que ele respondesse sua pergunta. Ele se aproximou dela, abraçou-a e beijou delicadamente sua face:

— Aconteceu algo inesperado, fiquei feliz e vim direto para lhe contar... Trouxe flores para comemorar.

— Eu vi as flores, mas a que se deve tanta alegria? Você fez algum negócio especial?

— O melhor de todos — Júlio tirou a caixinha do bolso e deu-a a Magali. — Abra.

Ela obedeceu e sorriu ao ver a magnífica joia, cujo brilho a ofuscou. Ela gritou:

— Que linda! Nunca vi uma joia como esta!

Em seguida abraçou-o e cobriu-lhe o rosto de beijos.

Com os olhos brilhantes de emoção, quando se acalmou um pouco, Júlio disse alegre:

— Agora podemos nos casar.

— Como assim?

— Eugênia pediu o divórcio, estamos livres!

Magali fixou-o um tanto assustada:

— É verdade mesmo?

— Sim. Vamos marcar nosso casamento o quanto antes. Quero dar uma grande festa, convidar os amigos, sacudir a sociedade do Rio de Janeiro! O que acha?

Magali olhou-o séria, afastou-se um pouco, depois disse:

— Não sei se é o momento.

Júlio olhou-a admirado:

— Por quê? Estou divorciado, nada nos impede.

— Tenho horror a casamento. Já fui casada e jurei que nunca mais faria isso!

O rosto dele contraiu-se, segurou-a com força pelos ombros e disse:

— Quando nos conhecemos, você disse que nunca havia amado ninguém. Então houve outro antes de mim?

— Largue-me, está me machucando!

Ele obedeceu e ela atirou-se no sofá, soluçando. Júlio passou as mãos nos cabelos sem saber o que dizer ou fazer. Vendo que ela não parava de chorar, sentou-se a seu lado, segurou a mão dela e pediu:

— Pare de chorar. Por que nunca me disse nada?

— Eu fui obrigada a me casar quando tinha quinze anos. Minha mãe me obrigou por causa do meu padrasto.

— Acalme-se. Você devia ter me contado.

Ele tirou um lenço do bolso e lhe deu. Ela começou a enxugar os olhos enquanto os soluços continuavam.

— Pare de chorar. Seu rosto pode ficar marcado. Foi a palavra certa, ela parou de imediato. Ele prosseguiu:

— Agora você vai me contar tudo nos mínimos detalhes. Não quero que haja nenhum segredo entre nós. Vamos, fale...

— Eu não conheci meu pai. Ele morreu quando minha mãe estava grávida de mim. Quando eu tinha cinco anos, mamãe se casou com o Ariovaldo, um homem bonito, corretor de imóveis, mas muito mulherengo. Ela morria de ciúme dele. Quando fiquei mocinha, ele

começou a se interessar por mim. Me olhava de um jeito diferente, procurava ficar perto de mim, me pegar no colo, e minha mãe começou a implicar comigo. Dizia que eu dava em cima dele, o que não era verdade. Então, ela começou a pensar em me arranjar um marido. Morávamos em Jundiaí, interior de São Paulo, meu padrasto ganhava muito bem, tínhamos uma boa casa, vivíamos com conforto.

 

Magali fez ligeira pausa e, vendo Júlio com os olhos fixos nela, respirou fundo e continuou:

— Na cidade, tinha um homem chamado Josué, muito amigo do meu padrasto, que dava em cima de mim. Eu tinha horror a ele. Era bem mais velho do que eu, estava bem de vida. Uma noite, minha mãe saiu com meu padrasto, eu fiquei em casa sozinha e ele apareceu por lá. Eu não queria que ele entrasse, mas ele entrou e me agarrou com tanta força que foi difícil me livrar das mãos dele. Meus pais chegaram nessa hora, eu estava com o vestido rasgado e minha mãe brigou comigo, disse que eu não tinha vergonha na cara. Eu jurei que não tinha acontecido nada, mas ela não quis ouvir. Agora eu penso que eles estavam todos combinados. Josué ainda quis se livrar dizendo "Dalva, eu não fiz nada. Foi um momento de loucura. Mas estou arrependido". Ao que minha mãe respondeu "Eu não acredito! Você vai ter que se casar com ela!".

Magali seguiu contando a história de como ela foi espancada para concordar com o casamento e os dias horríveis que suportou depois, vivendo ao lado dele.

O rosto de Júlio, pálido, refletia a raiva que sentia dessa brutalidade toda.

Ela se calou e ele quis saber:

— O que aconteceu depois?

— Assim que juntei algum dinheiro, fugi, viajei para a capital, procurei trabalhar, aprendendo, sofrendo, com medo de que minha família me encontrasse. Sofri muito. Foi horrível!

Vendo que ele a olhava atento, ela continuou:

— Minha vida só começou a melhorar quando fui ser dama de companhia de uma jovem, dois anos mais nova do que eu, de família muito rica. Os professores iam em casa dar aula para nós duas. Eles queriam que eu aprendesse a me comportar para fazer companhia a ela em tudo. Fizemos várias viagens ao exterior, aprimorei meu inglês e meus costumes. Aprendi muito.

— Quando nos conhecemos, você namorava o doutor Hamilton. Ele sabe desse seu passado?

— Ninguém sabe de nada! Eu tenho muita vergonha de tudo.

— Sua mãe e seu padrasto continuam no interior?

— Nunca mais soube deles. Fiquei tão revoltada que cortei qualquer contato.

Júlio, pensativo, passou a mão nos cabelos, depois perguntou:

— Você sabe onde mora seu ex-marido?

— Eu não quero que faça isso! Tenho medo dele! É rancoroso, perverso!

— Mas eu preciso encontrá-lo. Faço questão de conseguir seu divórcio porque quero me casar com você.

— Por que isso agora? Nós estamos juntos, felizes. Por que remexer no passado? Eu não quero que eles saibam onde estou. Não quero vê-los nunca mais.

— Eu quero me casar com você e não vou abrir mão desse sonho. Vou achar esse sujeito e resolver essa questão. Farei isso discretamente e você nem vai precisar aparecer.

— Eu não quero correr o risco de encontrá-los. Você vai ter de desistir disso.

Ele fixou-a sério e disse com voz firme:

— Eu não vou desistir. Estou disposto a tudo para realizar nosso casamento.

— Se continuar insistindo nisso, eu deixo você! Vou embora para longe e nunca mais me encontrará.

Júlio olhou-a surpreendido. Por que ela tinha tanto medo daquelas pessoas? Ela estaria escondendo mais alguma coisa? Teria se enganado sobre o caráter dela? Resolveu contemporizar:

— Não precisa chegar a esse extremo. Se você não quer, terei de aceitar. Não farei nada que a contrarie.

Ela encarou-o tentando sorrir, enxugou os olhos molhados e respondeu:

— Eu sabia que você entenderia. Vamos pôr uma pedra no assunto. Estamos tão felizes, nossa vida está tão boa... Para que buscar problemas?

— Está bem. Esqueça isso. Já passou.

Júlio mudou de assunto, falando sobre as novidades que ouvira dos amigos sobre pessoas da sociedade e ela sorriu satisfeita.

Alberto entregou os pacotes para Joice e, voltando à sala, ouvindo a discussão dos dois, parou no corredor tentando ouvir o que diziam. Mas João passou no corredor e o viu. Então ele entrou na sala ao lado para disfarçar. Mas tinha ouvido o suficiente. Então Magali era casada! Por que ela nunca falara sobre isso? O que se ocultaria em sua vida?

Ele precisava descobrir. Estava investindo nela, fazendo-se de amigo para continuar mantendo as vantagens da sua posição. Estava ganhando um bom salário, tendo uma vida boa, sendo valorizado, respeitado, e ainda podendo investir seu dinheiro de outra forma.

Percebera que em vez de jogar no clube como sempre fizera, era melhor e mais seguro investir na bolsa, como Júlio fazia. Era mais emocionante. Indo nos palpites do patrão, ia aprendendo e ganhando também. Esperto, observava tudo que ele fazia e o imitava. Além disso, ficara bem-disposto, mais bem informado a respeito das pessoas com as quais Júlio se relacionava.

Por que não fizera isso antes? Satisfeito, esforçava-se para agradar o ex-cunhado e manter Magali como aliada.

Pena João ter aparecido no corredor. Ele precisava obter mais informações sobre os antecedentes de Magali. Seu instinto lhe dizia que havia algo ali que lhe poderia ser útil.

Pouco depois, na mesa do jantar, sentaram-se como de costume e a conversa fluiu naturalmente, mas ele notou que havia algo diferente no ar. Magali de vez em quando ficava pensativa, perdendo a loquacidade costumeira, enquanto Júlio disfarçadamente a observava. Ele entrou no jogo, procurando tornar o ambiente mais impessoal, falando amenidades sobre pessoas da sociedade.

Naquela noite, Magali não correspondeu aos carinhos de Júlio como de costume. Não quis fazer amor.

— Lembrar o passado me fez mal. Sinto que ainda não esqueci tudo que passei.

Júlio abraçou-a com carinho, dizendo:

— Vamos esquecer esse assunto. Sinto muito ter feito você se lembrar de fatos tão tristes. Mas, apesar disso, foi melhor eu saber a verdade. Você já pensou que um dia sua mãe e esse Josué poderão surgir na sua frente exigindo coisas, tentando tirar proveito da sua situação atual?

— Eles não teriam coragem para isso!

Os olhos dela fulguravam raivosos, seus dentes estavam trincados, as mãos crispadas, em seu rosto havia traços rudes e ela parecia outra pessoa. Durou apenas um segundo, e Júlio fixou-a surpreendido. Ele nunca imaginaria que a sedutora Magali, sempre sorrindo e falando com suavidade, poderia ter outros lados que ele ignorava.

Mas essa impressão logo passou, porque, fixando-a um pouco mais, percebeu que ela voltara a ser como sempre fora e ele logo esqueceu aquela visão desagradável.

— Não mesmo. Você não merece isso. Vamos esquecer essa história e pensar em coisas boas. Ela sorriu satisfeita:

— É só isso que eu quero: ser feliz, aproveitar a vida ao seu lado.

Logo ela adormeceu, enquanto ele fingia dormir, pois tudo quanto ela dissera sobre o passado continuava o incomodando. Havia algo, que ele não sabia precisar, que o perturbava. Não sabia se era o fato de ela ter assumido uma união com ele ocultando esse passado ou se a narrativa lhe parecera um tanto falsa e ele tinha a sensação de que ela ainda não dissera tudo.

Depois de muito pensar, ele tomou uma decisão: investigar a verdade sem que ela soubesse. Era possível que tivesse sido sincera, que todos aqueles fatos teriam sido verdadeiros. No dia seguinte procuraria um bom detetive para tratar do assunto. Só depois de imaginar como começaria essa investigação é que ele finalmente conseguiu adormecer.

O dia seguinte amanheceu chuvoso e Júlio acordou cansado. Mas havia marcado um compromisso com um cliente às dez horas e já eram quase nove. Magali não estava na cama e ele se levantou rapidamente. Ela nunca se levantava antes das dez. Onde teria ido?

Perguntou para Joice e soube que Magali estava na sala de ginástica recebendo uma massagem. Arrumou-se e desceu para o café. Alberto o esperava e, assim que Júlio se sentou, depois de um lacônico bom-dia, ele também se acomodou. Todos os dias ele costumava esperar que Júlio se sentasse primeiro.

Às vezes Júlio conseguia manter uma conversa sobre trabalho com Alberto, mas outras vezes comia em silêncio, pensativo. Naquele dia, ele não estava disposto a conversar e, apesar de ser esse um de seus hábitos, Alberto notou nele certa preocupação.

No carro, Alberto sentou-se ao lado do motorista, como sempre fazia. Ele estava pensando em comprar um carro, mas gostava de viajar no de Júlio para ir trabalhar. Era um carro luxuoso, que chamava atenção, e ele se sentia bem imaginando que um dia ainda teria um carro como aquele.

Alberto estava disposto a descobrir o que mais Magali confidenciara ao marido e que ele não conseguira ouvir. Não lhe passou despercebido que Júlio, assim que entrou em sua sala na empresa, chamou seu assessor para negócios pessoais. Isso teria algo a ver com o misterioso casamento de Magali?

Doutor Nelson era um advogado que prestava serviços extras para Júlio. Alberto sabia que Júlio tinha muito apreço por esse advogado, que sempre resolvia os assuntos sigilosos e desagradáveis. Ele era muito discreto e não disposto a conversas, principalmente com Alberto. Teria de buscar a verdade de outra forma.

Meia hora depois, Júlio chamou o motorista e saiu. Alberto disse à secretária que tinha um compromisso com um cliente e saiu em seguida. Uma vez na rua, pegou um táxi e, quando o carro de Júlio partiu, Alberto o seguiu até um bairro de classe média e parou diante de um prédio simples. Alberto dispensou o táxi, entrou em um bar próximo e esperou.

O carro de Júlio permaneceu parado na porta do prédio, com o motorista dentro dele. Meia hora depois, Júlio saiu, entrou no carro e foi embora. Então, Alberto entrou no prédio a pretexto de procurar uma pessoa, conversou com o porteiro e soube que nas várias salas, além de dois psicólogos, havia também um detetive particular muito bom e um dentista. Todos trabalhavam por conta própria.

Alberto deduziu que Júlio deveria ter ido procurar o detetive. Teria ido a pedido de Magali ou sem que ela soubesse? Era isso que ele precisava saber.

Júlio morria de ciúme da mulher, embora procurasse esconder esse sentimento. Estaria duvidando do comportamento dela? O relacionamento deles estaria em perigo?

A esse pensamento, estremeceu. Agora que sua vida estava arranjada e tudo lhe corria muito bem, isso não poderia acontecer. Se Júlio se separasse de Magali, certamente o despediria e tudo voltaria à estaca zero. Sua vida boa acabaria.

O jeito seria colar em Magali, tentar saber o que estava acontecendo e ajudá-la a manter-se dona da situação. Com ela seria mais fácil lidar.

Pensativo, Alberto voltou ao prédio e pediu para subir e falar com o detetive.

O porteiro fez um sinal com o queixo:

— Ele saiu agora há pouco. Está dobrando a esquina.

Alberto saiu do prédio e teve tempo de gravar a imagem do homem. Sorriu e caminhou até uma avenida para pegar um táxi.

 

Durante o trajeto de volta à corretora, Júlio pensava em alguma forma de obter mais detalhes sobre as pessoas que Magali mencionara. Ela usara apenas o primeiro nome, não dera outros detalhes, e isso era muito pouco para que o detetive pudesse começar uma investigação e ter sucesso.

Doutor Nelson lhe dissera que o detetive Gerson fazia milagres e que, mesmo diante das parcas informações, tinha certeza de que ele conseguiria descobrir tudo. Apesar de duvidar um pouco por causa da falta de dados, Júlio não teve alternativa senão contratá-lo, esperando conseguir mais algumas informações nos dias seguintes. Seu objetivo era puxar o assunto de um jeito que Magali acabasse por desabafar toda sua raiva e lhe dissesse o que precisava saber.

Gerson lhe parecera esperto, observador, inteligente. Estava finalizando um caso que o manteria ocupado ainda durante dois dias. Depois viajaria para Jundiaí, onde começaria a investigar Magali.

Enquanto esperava notícias do detetive, Júlio continuaria observando a mulher, esperando que ela tivesse dito a verdade. Talvez, se tentasse ganhar mais sua confiança, ela se abrisse.

O fato de Magali ser uma mulher independente, linda, cheia de vida, e ter tido outros homens antes dele, deixava-o inseguro. Sentia que teria de agir com muita sutileza para conseguir fazê-la falar sobre o passado. Faria tudo para tê-la sempre ao seu lado, e só de pensar que um dia ela poderia querer deixá-lo, ficava desesperado e sem chão.

Ao entrar em sua sala na corretora, Júlio sentia-se mal, com o corpo pesado. Chamou Anita e pediu que lhe providenciasse um café. Dali a pouco teria uma importante reunião de negócios, havia vultosa quantia em jogo e ele queria ficar bem. Tomou o café, tentando fixar a mente no encontro com o cliente. Ao lado dele havia o vulto de um homem cujos olhos tinham um brilho metálico e perverso. Afastou-se um pouco de Júlio, e seus lábios se abriram levemente em um sorriso enquanto pensava: "Vou lhe dar uma folga para realizar mais este negócio. Quanto mais alto você for, maior será seu tombo! Você vai pagar por tudo que me fez! Comigo é olho por olho e dente por dente!"

Quinze minutos depois, quando o cliente entrou, Júlio havia esquecido seu mal-estar de momentos antes e sentia-se ótimo, disposto para negociar do jeito que queria.

 

Eugênia olhou-se no espelho e sorriu satisfeita. Estava linda! Seus olhos brilhavam enquanto pensava que tinha chegado a hora de dar a volta por cima. O momento era único: a festa de um famoso senador da República, respeitado, filho de uma família ilustre e que fora amigo particular do pai de Eugênia. Doutor Reginaldo Albuquerque de Lima pertencia a uma família de políticos, fora reeleito para seu segundo mandato e naquela noite receberia os amigos em sua residência.

Assim que recebera o convite, um mês antes, Eugênia decidira que seria nesta festa que ela faria sua reentrada oficial na sociedade. Cuidara do corpo, modernizara suas roupas, mudara os cabelos. Fez o mesmo com Rosa, que, a princípio, se sentira acanhada, mas depois, diante dos resultados, ficara mais à vontade. Eugênia não descuidou de nada.

Ao iniciar esse projeto, sentou-se ao lado de Rosa, segurou a mão dela e disse séria:

— Você é minha amiga e eu desejo que entenda o que pretendo fazer. Quero vencer o passado. Entrei no casamento confiante, de alma aberta. Dei tudo de mim,

a um marido que não valorizou minha dedicação e meu amor. Pensei em morrer. Sua dedicação me ajudou a passar por esse trauma. Mas agora eu quero mais. E você vai me ajudar a recuperar minha autoestima.

— O que posso fazer para ajudá-la?

— Estou disposta a mudar minha vida. Quero testar minha capacidade. Saber como realmente sou. Sinto que mudei. Não confio mais nos outros. Sinto que de agora em diante só posso confiar em mim.

— Você está indo para o outro extremo. As pessoas são diferentes. Seu marido a desiludiu, mas estou certa de que há muitos homens que, no lugar dele, saberiam valorizá-la.

— Pode até ser, mas como saber em quem confiar? Quero saber o quanto valho de verdade como mulher. Saber se, depois do que passei, terei vontade de ser fiel. Na verdade, não estou pensando em amar de novo ou procurar outro relacionamento. Eu quero é estudar, me situar no mundo, poder entender um pouco mais a vida, suas ilusões, seus enganos, e encontrar uma forma de viver com mais calma e paz.

— Para aprender isso, você não precisaria seguir esse caminho. Bastaria olhar em volta, observar, analisar suas emoções, equilibrar suas sensações.

— Não. Isso me tornaria uma pessoa isolada, diferente, como se eu fosse um robô. Não é isso que eu quero. Ao contrário. Vou procurar emoções, me deixar levar o bastante para sentir como sou de fato.

— Eu teria medo de fazer isso. Não seria capaz de confrontar meu lado obscuro dessa forma.

— Por quê?

— Porque eu poderia descobrir coisas que não me são favoráveis.

— Pois eu não tenho medo. Eu quero é saber isso mesmo. E você vai me ajudar.

— Eu nunca frequentei a alta sociedade. Não saberia como me comportar em lugares luxuosos. É melhor você arrumar outra pessoa para fazer-lhe companhia.

— Não. É você que eu quero. Diga que aceita. Rosa suspirou pensativa, hesitou um pouco:

— Não sei...

— Hoje mesmo começaremos. Vou ensinar-lhe tudo que sei. Estou certa de que você aprenderá rápido. Se no fim você não quiser, saberei entender. Não vai me deixar na mão agora... Diga que aceita.

— Aceito, com uma condição: se você perceber que não sou capaz de me tornar uma pessoa fina, como é preciso, procurará outra pessoa. Promete?

— Está bem.

A partir daquele momento, começaram o treinamento. No início, Rosa estava acanhada, mas Eugênia falava com naturalidade, dispondo as coisas de forma agradável, e aos poucos Rosa foi tendo prazer em melhorar sua aparência, suas atitudes. No fim, já estava inovando coisas, tendo um jeito próprio de ser, que a tornava encantadora e natural.

Experimentando as roupas novas. Rosa demonstrou um gosto elegante, especial, que encantou Eugênia e as uniu ainda mais.

Naquela noite, quando Rosa surgiu pronta em seu quarto, Eugênia não conteve a exclamação de alegria:

— Rosa! Você está linda!

Ela deu uma volta e exclamou alegre:

— Estou me sentindo outra pessoa... mais alegre. Quando penso nessa festa sinto um arrepio de medo. Mas ao mesmo tempo, estou certa de que não vou fazer feio.

— Nós vamos brilhar! Ao entrar no salão da festa, sinta toda sua beleza, entre de cabeça erguida. Seus olhos vão brilhar. É assim que se faz.

Quando o carro que as conduzia parou diante do casarão todo iluminado do senador, os portões foram abertos, o carro entrou e parou diante da porta principal.

As mãos de Rosa tremiam quando ela desceu do carro. Eugênia colocou a mão dela levemente apoiada em seu braço. As duas entraram no hall e foram até o salão principal.

Na entrada do salão, o senador e a esposa davam as boas-vindas aos convidados. Quando as duas se aproximaram, Eugênia cumprimentou o anfitrião, que segurou a mão dela, curvando-se e dizendo:

— Que bom vê-la!

A esposa do senador abraçou-a com carinho:

— Você estava fazendo falta em nosso meio! Seja bem-vinda!

Eugênia agradeceu e apresentou Rosa como uma amiga muito querida. Elas entraram no salão e provocaram certo movimento, não só nas mulheres, como nos homens, cujos olhares de admiração, embora dissimulados, as deixaram satisfeitas. Era isso mesmo que Eugênia queria provocar.

As duas dirigiram-se à mesa em que havia o nome de Eugênia e acomodaram-se. Logo duas mulheres aproximaram-se e Eugênia levantou-se para cumprimentá-las. Elas eram esposas de políticos que estavam na festa, e seus maridos, amigos do pai de Eugênia, a conheciam desde a juventude.

Depois de abraçá-las e apresentar-lhes Rosa, conversaram um pouco. Elas sabiam tudo sobre a separação de Eugênia, mas não tocaram no assunto, apenas trocaram palavras formais. Doutor Estevão, filho de uma delas, aproximou-se para cumprimentá-la. Depois de cumprimentar Eugênia, foi apresentado a Rosa:

— Este é doutor Estevão, filho de dona Aurora. Esta é Rosa, minha amiga.

— Encantado! Este é meu amigo Robson.

As duas olharam o rapaz alto, forte, cabelos cor de mel e olhos grandes da mesma cor. Ele se curvou diante delas, dizendo com algum sotaque:

— Uma loura e uma morena! Viva o Brasil! Elas riram e Aurora completou:

— Tem razão. Nosso país tem as mulheres mais lindas do mundo! Aproveitem a festa.  Vamos cumprimentar os Menezes, que acabaram de chegar.

As duas se afastaram e Estevão disse sorrindo:

— Robson chegou ontem à noite. Mas não é a primeira vez que vem ao nosso país.  Estudamos juntos nos Estados Unidos — fixou os olhos de Eugênia e continuou: — Vamos dançar?

— Vamos deixar essa dança para mais tarde. Acabamos de chegar e quero cumprimentar algumas pessoas.

— Estarei esperando.

Os dois rapazes se afastaram, Eugênia e Rosa circularam pelo salão, cumprimentaram mais algumas pessoas e depois se acomodaram.

O salão estava lotado e as duas perceberam que, embora tentassem disfarçar, várias pessoas as observavam com interesse e comentavam entre si. Eugênia disse baixinho:

— Eles falam de mim. A traição de Júlio ainda é o assunto mais comentado do momento.

— Você sabia que isso poderia acontecer. Eugênia levantou a cabeça com altivez dizendo:

— Era isso mesmo que eu queria. Em vez de chorar pelo passado, estou desafiando o futuro. Daqui para a frente, farei tudo que deixei de fazer durante minha vida toda.

Rosa fixou-a séria:

— Espero que você faça tudo para tornar-se uma pessoa feliz, realizada, vencedora, e não esteja agindo apenas para que os outros acreditem na sua superação.

— Estou tentando encontrar o caminho da superação e me convencer de que um dia ainda serei feliz. Vamos aproveitar o momento, afinal, estamos em uma linda festa. Eugênia notou os olhos de Estevão fixos nela e sorriu. Foi o bastante para que ele se aproximasse e a convidasse para dançar. Satisfeita, ela deixou-se abraçar por ele e saíram dançando.

Rosa continuou sentada, observando o movimento. E Robson aproximou-se:

— Posso fazer-lhe companhia?

Rosa sorriu e concordou. Ele acomodou-se dizendo com simplicidade:

— Talvez prefira dançar. Confesso que não sou muito bom nisso.

— Eu também não.

— Já Estevão é um mestre. Dança de tudo.

— Pelo que estou vendo, Eugênia também —notando que ele parecia surpreso, ela continuou: — É a primeira vez que a acompanho a uma festa.

— Para mim também é a primeira festa no Brasil. — Você fala bem nosso idioma.

— Sempre fui fascinado pelo Brasil. Estudei português pensando em ir morar no Rio de Janeiro. — Você vai morar lá?

— Por enquanto não. Vim a trabalho, ficarei aqui pouco tempo.

Robson falava com naturalidade e Rosa sentia-se à vontade conversando com ele. Meia hora depois, Eugênia aproximou-se, rosto corado, olhos brilhantes, dizendo a Estevão:

— Agora quero descansar um pouco. Venha, Rosa, vamos até o toalete.

Rosa acompanhou-a e Eugênia disse baixinho:

— Eu não quero dançar mais com Estevão. Ele está querendo me monopolizar e eu não gosto disso.

— Não vai ser fácil, desde que chegamos, ele não tirou os olhos de você.

Eugênia deu de ombros:

— Agora eu sou uma mulher livre e só vou fazer o que gosto. Não vou permitir que ninguém me prenda de novo.

Rosa sorriu e perguntou:

— Como pensa fazer isso? Garanto que ele estará esperando na porta do toalete quando saírmos.

— Se estiver, vai levar um sonoro não.

As duas retocaram a maquiagem e, quando saíram do toalete, de fato, Estevão estava esperando perto da porta. Fingindo não vê-lo, Eugênia levantou a cabeça e voltaram à mesa, sentaram-se e, assim que a música começou, Estevão aproximou-se:

— Não podemos perder essa! — disse sorrindo.

— Não quero dançar com você agora — respondeu Eugênia séria.

Ele perdeu o jeito, principalmente porque, durante o intervalo, ele conversara com Robson, exagerando na conquista, dizendo que Eugênia estava interessada nele.

Rosa tomou alguns goles de refrigerante tentando fingir não ter percebido a situação, enquanto Robson se afastou, ignorando o mal-estar do amigo.

Estevão não se deu por achado e tornou:

— Nesse caso, vou me sentar e vamos conversar um pouco enquanto você descansa.

Eugênia franziu a testa e disse séria:

— Você não entendeu. Eu não estou cansada. Só não quero ficar monopolizada por ninguém. Sei tomar conta de mim.

O rosto de Estevão ruborizou-se levemente quando ele respondeu com certa raiva:

— Nesse caso, você não deveria ter vindo. Eu vim à festa para me divertir.

— Isso mesmo, aproveite, divirta-se à vontade. Estevão curvou-se e afastou-se tentando dissimular a raiva. Ele não estava habituado a ser rejeitado. As mulheres à sua volta costumavam valorizar sua companhia.

Depois que ele saiu de perto, Rosa considerou:

— Você não acha que foi dura demais com ele?

Eugênia fixou-a, pensou um pouco e respondeu:

— Antes eu não teria feito isso. Mas agora eu mudei. Só farei o que me deixa bem. Não gostei da proximidade dele, que me olhava como querendo me hipnotizar, só contando vantagens, como se eu me impressionasse com as aparências.

— Você não gostou das energias dele.

— Não mesmo. A certa altura, senti dor de cabeça, enjoo e vontade de sair correndo.

— Você está mais sensível e sente os pensamentos das pessoas. Sua sensibilidade se abriu. Seria bom você conversar com Rogério para que ele a ensine a lidar com as energias ao redor.

— Perto de Rogério eu me sinto muito bem. Quando ele está perto, às vezes, sinto certa tristeza, que não sei como explicar. Ele está sempre sorrindo, bem-humorado, acho que estou divagando.

— Não. Você está certa. Ele também já teve de enfrentar vários problemas. Não é fácil esquecer.

Eugênia fixou-a:

— Ele me parece tão forte! Eu gostaria de ser calma como ele e olhar a vida da forma como vocês fazem.

— Você está aprendendo rápido. Reagiu, tem estado mais calma.

— Esta noite quero esquecer o que passou. Dançar, me sentir viva.

Ela olhou em volta e continuou:

— Dançar é uma sensação maravilhosa. Deixar se levar ao sabor da música, esquecer tudo. É maravilhoso! Veja, os rapazes estão nos olhando, basta sorrir e eles virão. Quero que você também se divirta, aproveite a beleza da noite e da festa.

— Eu não sei dançar.

— Experimente. Feche os olhos, esqueça o parceiro e sinta o prazer da música, entregue-se a ela.

Um rapaz que ela não conhecia aproximou-se e a convidou. Eugênia sorriu e foram dançar. Tratava-se de um homem alto, elegante, aparentando quarenta anos, cabelos negros e rosto com traços fortes, e Eugênia sentiu-se bem com a proximidade dele. Chamava-se Reinaldo, era empresário e amigo do filho do senador.

Robson aproximou-se de Rosa e a convidou:

— As pessoas estão se divertindo. Vamos aprender a dançar?

— Você tem coragem de me ensinar?

Ele riu gostosamente e respondeu:

— Eu quero aprender com você. Os brasileiros já nascem sabendo dançar. Olhe em volta!  Não é verdade?

Vendo que ela hesitava, ele continuou:

— Você quer ficar sentada olhando enquanto os outros se divertem? Veja como as pessoas estão se divertindo.

Rosa levantou-se:

— Está bem. Vamos tentar.

Ele passou o braço pela cintura dela e comentou:

— Essa música eu conheço, é do meu país.

Ele a conduzia de forma delicada, mas firme, e logo ela se sentia mais à vontade. A partir dessa dança, eles não pararam mais.

Enquanto Eugênia de vez em quando trocava de par, Rosa continuava dançando com Robson, que estava animado por ela lhe ensinar até alguns passos de samba.

Eugênia se sentira bem dançando com Reinaldo e eles continuaram dançando. Ele era exímio dançarino. Ela se esqueceu de tudo, sentindo o gosto de dançar com leveza e alegria. Rosto corado, olhos brilhantes pelo prazer da dança, ela sentia que estava recuperando a alegria de viver.

Houve um momento em que Eugênia quis tomar água e eles pararam perto da mesa dela. Alguns jornalistas de uma revista famosa aproximaram-se deles e tiraram várias fotos. Um deles queria entrevistá-la, mas ela esquivou-se. Crivaram-na de perguntas. Ela sorriu e não respondeu nada, meneando a cabeça negativamente. Eugênia era muito conhecida deles. Estavam curiosos porque sabiam da sua separação. Queriam saber se ela estava namorando Reinaldo.

Quando os jornalistas finalmente se afastaram, Reinaldo disse sério:

— Você dança muito bem. Além disso, é uma linda mulher, mas eu ignorava que fosse famosa.

— Não dou importância a nada disso.

Voltando-se para Rosa, que, ao lado de Robson, observava a cena, ela disse:

— Estou cansada. Está na hora de irmos embora.

Ela beijou Reinaldo na face, agradecendo os bons momentos, despediu-se de Robson e fingiu não ver Estevão, que os observava sério.

Ao despedir-se de Robson, Rosa disse baixinho:

— Seu amigo não está muito bem. Fique calmo e não se impressione com o que ele vai lhe dizer — ela sorriu e elevou a voz: — Obrigada pela companhia. Tenha uma boa-noite.

Depois das despedidas, as duas saíram e tanto Robson como Reinaldo seguiram-nas com o olhar enquanto se afastavam.

No carro, Eugênia tirou os sapatos dizendo alegre:

— Estou cansada, fazia tempo que eu não tinha uma noitada dessas. Você gostou da companhia daquele americano?

— Gostei. Conversamos muito. Ele contou coisas sobre o país dele, os costumes. Nós não somos bons dançarinos, mas conseguimos nos divertir. Foi melhor do que eu esperava. Senti que é uma boa pessoa. Você também se divertiu. Isso eu vi.

— Sim. Tudo estava muito bem, do jeito que eu gosto. Notei que, apesar de tudo, ainda consigo chamar a atenção como fazia antes de me casar.

— Eles tiraram muitas fotos suas com Reinaldo. Você conseguiu o que queria.

— Eu queria mesmo era provocar o Júlio. Mas, agora que consegui, perdeu a graça. O que eu desejo realmente é mudar minha vida, fazer coisas que me deixem bem, que me façam feliz. Estou certa de que, depois de hoje, tudo que eu quiser conseguirei. E não para mostrar a ninguém, mas apenas para me fazer feliz. Quero ficar de bem com a vida, descobrir novos caminhos, aprender coisas novas.

— Estou feliz que pense assim. Na verdade, o que importa mesmo é assumir a própria vida, enfrentar com coragem os desafios do amadurecimento para poder viver melhor a cada dia.

— Tem razão. Chegando em casa vou tomar um bom banho, relaxar e dormir. Amanhã é outro dia e resolverei o que fazer da minha vida.

O carro entrou na garagem, elas desceram, entraram em casa e, abraçadas, subiram ao primeiro andar, onde se separaram. Cada uma foi para seu quarto. Estavam cansadas, mas em paz.

 

Dois dias depois, no fim da tarde, Eugênia acomodara-se na sala interessada em continuar a leitura de um livro sobre arte. Quando jovem, interessara-se por pintura, aprendera desenho e fizera alguns esboços. Sentia vontade de aprender alguma coisa nova que lhe desse prazer.

Rosa aproximou-se:

— Rogério ligou, quer vir conversar com você esta noite. Você pode atendê-lo?

— Será um prazer. Convide-o para jantar.

Pouco depois, Rosa voltou:

— Ele virá para o jantar.

— Estou sentindo falta das nossas conversas.

— Eu também.

Passava das sete da noite quando Rogério entrou na sala para cumprimentar Eugênia, que se levantou para recebê-lo. Depois dos cumprimentos, ele tornou:

— Quando estive com Júlio para assinar o divórcio, não esperava encontrar seu irmão Alberto na antessala do escritório.

Eugênia levantou-se admirada:

— Alberto? Ele estava lá na empresa de Júlio?

— Sim. Em uma sala ao lado da dele. Contou-me que está trabalhando para seu ex-marido e morando na casa dele. Estava bem-vestido, parecia satisfeito, quis saber como você estava.

Eugênia sentou-se novamente, pensou um pouco, e depois disse:

— Tinha que ser. Eles se merecem. Vamos ver quanto tempo dura...

Rogério abriu a pasta, tirou alguns documentos e entregou-os dizendo:

— Está tudo certo. A separação está consumada. O processo de divórcio logo estará concluído. Você agora está livre.

— E aliviada. Quero assumir uma vida nova. Aprender a fazer alguma coisa útil. Ainda não sei bem o quê. Mas sinto que preciso fazer minha vida valer a pena. Não vou deixar o tempo passar em vão.

Rogério pensou um pouco e convidou:

— Quer ir comigo visitar meus amigos em um orfanato no sábado? Rosa adora ir lá. A gente se esquece das horas e lava a alma.

— Eu adoraria.

Rogério ficou calado enquanto um sentimento de tristeza transparecia em seus olhos. Mas reagiu, sorriu e respondeu:

— Você vai gostar. Foi ao lado desses pequenos amigos que eu reencontrei a alegria de viver.

Os olhos de Eugênia brilhavam quando ela tornou:

— Poderia me explicar como foi isso?

— Em um dia em que eu estava muito deprimido, Rosa levou-me até esse lugar, onde havia crianças, algumas abandonadas pelos pais, outras cujos pais haviam morrido. O lar em que vivem é mantido por um grupo de espiritualistas, sendo que alguns órfãos já foram adotados por membros do grupo. Eu procuro encaminhar as crianças para adoção e auxiliar no que puder.

— Quero ir com você.

Ele ficou em silêncio durante alguns segundos e depois disse emocionado:

— Eu perdi uma filha quando ela estava com quatro anos. É uma dor que não dá para esquecer.

Eugênia colocou a mão sobre a de Rogério dizendo emocionada:

— Não sei se é pior ter a privação da maternidade ou ter uma filha e perdê-la depois.

— Quando temos a certeza da imortalidade, isso nos ajuda a lidar com a questão. Quase um ano depois de ela ter partido, eu ainda estava inconformado. Então o espírito de Marcos Vinícius me levou em sonho até o lugar onde Milena estava. Havia crescido, estava linda, sorridente, feliz. Nós nos abraçamos, beijei-a com muito amor e ela passou a mãozinha no meu rosto e pediu: "Papai, não chore! Estou feliz. Voltei, mas deixei muito amor durante a minha passagem na Terra. Fiquei pouco, mas fiz a minha parte".

Rogério, emocionado com as lembranças, continuou:

— E, diante dos meus olhos assombrados, ela cresceu e se transformou em uma moça linda, cheia de luz. Depois, abraçou-me e senti que trocamos tanto amor que não consigo nem expressar em palavras.

Ela ainda me disse: "Nós somos amigos de muitos anos. Sempre estarei ao seu lado para inspirá-lo a viver bem. Jogue fora a tristeza. A morte é uma ilusão. A vida é eterna e sempre estaremos unidos".

Úmidos, os olhos de Eugênia expressavam tanta emoção, que ela não conseguia dizer nada.

Apesar da comoção do momento, os lábios de Rogério entreabriram-se em um doce sorriso quando disse:

— Depois desse encontro, tenho sentido a presença de Milena a meu lado, inspirando-me pensamentos elevados, convidando-me a esquecer do passado e a cultivar a alegria de viver. Tenho me esforçado muito para ser uma pessoa melhor, mais alegre e confiante.

— Sempre que se aproximava, eu sentia que havia uma energia triste em você. Agora entendo o porquê.

— Há coisas que são difíceis de esquecer. Saber que ela continua viva e que podemos nos encontrar de vez em quando fez-me muito bem. Essa é a melhor parte. Mas a traição, a angústia de ter provocado uma tragédia, continua me assediando e me impedindo de fazer o que Milena diz.

Eugênia colocou a mão sobre o braço de Rogério, apertando-o levemente para apoiá-lo, e disse:

— Você falou em traição e isso eu já vivenciei. E foi você quem me ajudou a enfrentar esse desafio. Estou tentando refazer minha vida e deixar a tristeza ir embora. Agora é sua vez. Reaja. Ninguém pode ser feliz sem jogar fora as ilusões e conhecer o lado bom da vida. Sinto que você ainda conserva mágoas do passado e, enquanto elas estiverem presentes, você não conseguirá ter alegria de viver. Estou certa de que Milena gostaria muito que você se libertasse dessa energia e pudesse ser feliz.

Nos olhos de Rogério as lágrimas estavam prestes a cair:

— E você acha que eu não gostaria de poder esquecer tudo isso? É impossível. Eu era muito jovem quando conheci Rosana e nos apaixonamos. Ela, linda, era dois anos mais nova do que eu quando resolvemos nos casar. Eu estudava em São Paulo e faltava pouco para me formar. Meus pais moravam no Sul e os de Rosana na capital paulista. Ela era filha única e eu também. Meus pais me aconselharam a esperar um pouco mais, organizar melhor nossa vida, mas nós não quisemos esperar. O pai dela, um empresário, estava bem de vida e aprovou nossa união, uma vez que nós, entusiasmados, já nos relacionávamos intimamente. Eles, então, acharam melhor apressarmos o casamento.

Rogério fez uma ligeira pausa, olhos perdidos no passado, enquanto Eugênia continuava a segurar seu braço.

— Eu sempre me esforcei nos estudos, me formei, logo consegui um emprego e levei a sério o trabalho. Menos de um ano depois, nasceu Milena e eu senti a maior emoção da minha vida. É difícil explicar como aquele ser pequenino podia despertar em mim tanto amor, tanta emoção. Mas Rosana não tinha paciência com a filha e, muitas vezes, era eu quem cuidava da criança. Rosana reclamava quando a menina chorava, zangava-se quando queria sair, dançar ou ver um filme, e não podíamos ir porque não tínhamos com quem deixar a nossa filha. Rosana sempre queria levá-la para a casa da mãe, para que ela cuidasse da menina, mas eu não achava justo. Milena era nossa responsabilidade. Além disso, a mãe dela tinha seus compromissos sociais e não gostava de assumir essa incumbência.

"Nossa convivência foi se tornando mais difícil a cada dia. Vivíamos discutindo, ela sempre estava mal-humorada e chegava ao ponto de querer sair com algumas amigas e deixar-me em casa com a menina. Eu não aceitava isso. Certa vez, cheguei em casa um pouco mais tarde e encontrei Milena com a filha da vizinha, que tinha apenas dez anos. Rosana saíra com uma amiga para ir ao cinema. Naquela noite, quando ela chegou, tivemos uma briga feia, e Rosana foi para casa dos pais dizendo que não voltaria mais.

Na manhã seguinte, os pais dela trouxeram-na de volta para nossa casa. O pai de Rosana havia ficado muito zangado com ela e pediu-me que tivesse paciência, porque ela havia prometido mudar e assumir suas responsabilidades.

Nos primeiros dias, embora ela continuasse mal-humorada, procurou me ajudar mais e eu me senti um pouco aliviado. Uma noite, no entanto, precisei viajar a trabalho para Minas Gerais, onde ficaria por dois ou três dias. Na segunda noite, quando estava no hotel dormindo, o telefone tocou. Era o pai de Rosana, que ligava desesperado para mim, pedindo para que eu voltasse para casa, pois havia acontecido uma desgraça. Rosana tinha sofrido um acidente de carro com Milena.

Sempre quando me recordo desse telefonema, as coisas se embaraçam em minhas lembranças. Estava amanhecendo, consegui um voo e, quando cheguei de viagem, havia policiais em minha casa e fui informado que o acidente fora fatal. As duas estavam mortas."

Eugênia respirou fundo tentando acalmar os próprios sentimentos, e Rogério olhou-a desolado dizendo com voz entrecortada:

— Depois de tantos anos, ainda é muito difícil falar sobre este assunto.

— Nesse caso, chega por hoje. Outro dia você continua a me contar o que aconteceu.

— Não. Eu preciso ir até o fim... Em minha casa, havia uma carta de Rosana. Nela, minha esposa confessava que estava apaixonada por outro homem, que pretendia ir morar com ele e deixaria nossa filha na casa de minha sogra, para que eu fosse buscá-la e cuidasse dela. Na polícia, fiquei sabendo de tudo. O amante de Rosana, então, foi chamado. Fazia algum tempo que estavam se encontrando. As malas dela estavam no carro e tudo estava pronto para que fugissem juntos. Meus pais vieram me apoiar, pois foi difícil suportar tudo que aconteceu. Então, quando acabaram os trâmites legais, fechei a casa, deixei o emprego e fui passar algum tempo com meus pais.

"Para mim, a vida tinha acabado. Eu estava morto por dentro. Nem revolta eu conseguia sentir. Durante muitas noites, tive pesadelos. Acordava gritando e custava acalmar-me. Via minha filha chorando, vultos escuros querendo atacá-la, e eu me atirava sobre eles tentando impedi-los sem sucesso. Acordava chorando, desesperado. Minha mãe pediu ajuda a um psiquiatra e passei a dormir dopado. Pelo menos, livrei-me dos pesadelos, mas continuei sem vontade de viver.

Uma tarde, Rosa, irmã de mamãe, visitou-me. Naquele tempo, ela vivia na cidade de Ribeirão Preto, onde se formara em enfermagem e trabalhava em um hospital. Meus avós haviam morrido, e minha mãe convidara minha tia para morar com ela. Rosa, no entanto, gostava do emprego, tinha muitos amigos naquela cidade e preferiu continuar lá. Nós não tínhamos convivência, pois nos víamos apenas nas comemorações ou quando tínhamos que resolver problemas de família."

Rogério fez uma ligeira pausa, olhos perdidos no tempo, falando sobre sua vida. Eugênia, comovida por ele estar se abrindo com ela, ouvia com atenção. Rogério respirou fundo e continuou:

— A presença de minha tia, seu carinho, sua paciência, e, além de tudo, sua fé na vida e em Deus, me ajudaram a reagir, reassumir minha vida e a ter coragem de viver.

— Rosa fez o mesmo comigo. Hoje me sinto forte e disposta para enfrentar os desafios do amadurecimento. Sinto que há muitas coisas que eu ainda não sei. Quero conhecer a verdade das coisas, aprender o que é bom, tornar-me uma pessoa melhor, ser mais feliz. Tê-la do lado é uma benção. Espero que Rosa continue sempre comigo.

— Jamais esquecerei o que minha tia fez por mim. Ela pediu licença do emprego e ficou em nossa casa cuidando de minha recuperação. Ela dormia no meu quarto, conversava comigo e falava sobre a eternidade do espírito e das outras dimensões do universo, de onde viemos e para onde voltaremos depois da morte do corpo de carne. Minha tia também lia mensagens positivas, falava sobre mediunidade, e eu a contradizia, apresentando-lhe dúvidas, que ela ia explicando. Houve uma tarde em que eu estava triste e deprimido e não queria mais ouvir ou aceitar o que ela dizia. Naquele dia, ela olhou-me firme e disse séria: "Acho que agora chega! Você não quer mesmo deixar de ser o coitadinho, o injustiçado, o sofredor. Então, amanhã mesmo eu vou voltar para Ribeirão Preto para dar continuidade à minha vida. Deus só ajuda quem se ajuda, mas, se você não quer se esforçar nem se ajudar, é melhor eu não insistir mais. Você não acredita em sua própria força, não enxerga a grandeza da vida, nem a oportunidade que lhe está sendo dada de aprender a viver. Eu gosto de você, adoraria vê-lo alegre, forte, lúcido, feliz. Deus investiu em você, colocou no seu espírito todos os elementos para que pudesse desenvolver sua vida, criar seu próprio destino, conquistar a sabedoria, amadurecer e tornar-se um ser iluminado. Mas a vida trabalha por mérito, então só você poderá fazer isso. Ninguém mais".

Rogério suspirou e continuou:

— Nessa hora, senti vergonha. Ela estava certa. Depois disso, reagi de fato e, em menos de um mês, já estava disposto a voltar ao trabalho. Convidei Rosa para morar comigo, voltamos para São Paulo, alugamos um apartamento e passei a estudar seriamente a espiritualidade.

— Ela morava com você antes de ficar comigo?

Rogério, rosto distendido e mais calmo, sorriu levemente:

— Pois é. Você a tomou de mim. Mas foi por uma boa causa. Minha tia gosta de ajudar as pessoas.

Eugênia ficou silenciosa durante alguns segundos, depois disse pensativa:

— O espírito de Marcos Vinícius também me ajudou.

— Eu sei. Rosa contou-me que você estava fora do corpo, e ele foi buscá-la no astral para trazê-la de volta.

— Agora entendo por que nós somos diferentes da maioria das pessoas. Depois das experiências que vivemos, não dá mais para duvidar disso. As outras dimensões existem, viemos de uma delas e a ela voltaremos depois da morte física. Tudo tem uma boa razão de ser. Eu quero aprender mais, ser uma pessoa melhor.

Rogério fixou-a sério e havia um brilho emocionado em seus olhos quando disse:

— Hoje senti vontade de me abrir com você. Veio de repente e não consegui evitar. Mas agora, estou me sentindo fortalecido. Parece que o fantasma do passado está indo embora definitivamente. Às vezes penso em Rosana sem a raiva que alimentei durante muito tempo. Sei que ela, tanto quanto eu, deve estar enfrentando também o caminho da verdade e tentando curar as feridas que abriu em si mesma em um momento de ilusão. Estou certo de que dias melhores virão para todos nós. Agora, estamos mais experientes e preparados para escolher melhor nossos caminhos.

Rosa aproximou-se:

— Vocês devem estar com fome! O jantar está na mesa.

Os dois acompanharam Rosa satisfeitos.

— O cheiro está bom! — comentou Eugênia.

— Estou com muita fome! Não tive tempo para almoçar.

Sentaram-se, serviram-se e comentaram as qualidades de Odete na cozinha, antegozando o prazer de saborear a comida.

Em seguida, Eugênia fixou Rosa e comentou:

— Rogério convidou-me para visitar o orfanato. Disse que você adora ir até lá. Tenho vontade de conhecê-lo e levar um pouco de alegria às crianças. Deve ser um lugar muito triste.

— São carentes de amor e a maioria deseja muito que alguém os adote. Serem aceitos, conseguirem fazer parte de uma família é o que mais querem. Infelizmente, a maioria dos casais deseja adotar apenas os bebês, acreditando que os mais crescidos sejam difíceis de educar.

Rogério interveio:

— Tenho me esforçado para conseguir que as crianças mais velhas sejam aceitas e provar que o mais importante é estudar o caráter da criança e conviver mais com ela, antes de decidir adotá-la. Conhecer o temperamento, porque o temperamento define o conhecimento do espírito, não muda e melhora conforme o grau de evolução. É a base para a conquista da sabedoria. Já a personalidade é fruto da cultura, de como a maioria das pessoas vê as coisas. É preciso saber diferenciar o que é verdadeiro da ilusão. As pessoas agem de acordo com suas crenças. Cada um só faz o que acredita.

Eugênia não se conteve:

— Você acredita que seja possível educar uma criança já crescida, que esteja mal orientada, e fazê-la encontrar um caminho melhor?

— Acredito. Mas é preciso se ater a alguns fatores para que essa mudança ocorra. O abandono, a perda do apoio familiar, a insegurança, a solidão, causam muito sofrimento. Enquanto alguns se deprimem e ficam apáticos, outros reagem, tentam se defender e sobreviver como der e do jeito que for. São apenas crianças que precisam de ajuda, orientação e amor. A personalidade muda quando alguém, com persistência, paciência e boa vontade, sem tecer críticas, mas sendo firme, ensina os valores éticos que regem a vida àquela criança, mostrando como as coisas funcionam e permitindo que aquele indivíduo desenvolva suas capacidades, experimente fazer as mais diversas coisas, descubra seus dons naturais e perceba o que é bom e o que não funciona. Depois disso, a criança estará apta para cuidar de si mesma pelo resto da vida. É preciso dedicação, muito amor e sabedoria. O processo é trabalhoso e desafiante, mas seu resultado vale a pena.

— É muita responsabilidade. Não sei se eu seria capaz disso — tornou Eugênia.

Foi a vez de Rosa dizer:

— Pois eu já vi isso ocorrer quando morava em Ribeirão Preto e ainda era uma adolescente. Houve um caso em que um menino de dez anos, que fora abandonado um ano antes, tornara-se muito revoltado a ponto de não aceitar ordens de ninguém. Vivia nas ruas da cidade e fazia pequenos furtos para sobreviver. Um dia, o garoto foi levado para um orfanato e, lá, uma das professoras interessou-se por ele. Era viúva, sem família, e acabou apegando-se ao menino e adotando-o. Há pouco tempo, eu soube que esse menino formou-se em direito, trabalha com sucesso e é o apoio de sua mãe adotiva. Hoje é ele quem a sustenta e protege.

Rogério interessou-se pela história:

— Você nunca me contou isso! Essa professora deve ser maravilhosa!

— Algumas pessoas querem adotar uma criança, mas não querem ter trabalho. Uma relação só funciona quando as pessoas trocam coisas boas entre si. Já senti vontade de adotar uma criança, mas não sei se teria condições de arcar com essa responsabilidade. Não pelo trabalho que teria, mas pela minha falta de experiência — tornou Eugênia.

Rogério mergulhou seus olhos nos dela e disse sério:

— Estou certo de que você tem capacidade para fazer isso. Se algum dia encontrar alguém que a motive e toque sua alma, não resistirá.

A conversa seguiu adiante mesmo depois que se sentaram na sala para o café. Eugênia interessara-se muito pelo assunto da adoção e fazia algumas perguntas, que Rogério respondia de forma objetiva.

Eles mergulharam fundo no assunto e esqueceram-se do tempo. Enquanto isso, Rosa ajudava Odete a preparar algumas coisas para levar ao orfanato no dia seguinte.

Quando Rogério se despediu, Eugênia acompanhou-o até a porta. Ele fixou-a sério:

— Hoje abusei de sua paciência. É que você me ouviu compartilhar o que eu sinto e acabei esquecendo das horas.

Eugênia segurou a mão que Rogério lhe estendia:

— Esta noite, renovei ideias, descobri um amigo e estou certa de que ainda teremos muitas coisas em comum!

Um brilho de emoção passou pelos olhos de Rogério, que, sem dizer nada, beijou levemente a face de Eugênia e disse:

— Boa noite. Deus a abençoe pelo bem que me fez!

Depois que Rogério se foi, Eugênia foi ter com Rosa e Odete, que alegres terminavam os pacotes que preparavam para o orfanato, e comentou sorrindo:

— Que maravilha! Amanhã vamos levar alegria aos meninos. Que bom que estamos juntas nisso! As duas abraçaram-na rindo:

— Não vejo a hora de chegar amanhã! — tornou Odete, com os olhos brilhantes de emoção.

— Eu também! — concordou Rosa.

Meia hora depois, cada uma foi para o seu quarto e, cansadas, logo adormeceram.


Capítulo 15

Uma semana depois de ter ido ao escritório do detetive, Júlio atendia ansioso a ligação do investigador:

— Então, descobriu alguma coisa?

— É melhor conversarmos pessoalmente. Quer que eu vá até aí?

— Prefiro ir ao seu escritório. Em meia hora estarei aí.

Júlio tinha hora marcada com um cliente, então chamou Anita, transferiu o encontro para o dia seguinte, e saiu apressado.

Depois que saiu, Alberto aproximou-se da secretária:

— Doutor Júlio saiu? O cliente desistiu do encontro? Ela olhou-o séria:

— Não sei.

— Como não sabe? E se o cliente chegar?

— É melhor perguntar a ele. De mim não saberá nada.

Alberto olhou-a irritado. Desde que chegara, tentou conquistar a simpatia de Anita, mas não conseguiu. Notara que ela era discreta e não gostava de falar com ele sobre os assuntos da empresa. Apesar da curiosidade, não tinha outro remédio senão esperar.

Ansioso, Júlio entrou na sala do detetive e foi logo perguntando:

— Então, conseguiu alguma pista?

— Estive em Jundiaí, percorri os cartórios e encontrei a certidão de casamento de uma Dalva dos Santos com Ariovaldo Nunes no ano de 1982. Sobre Josué e Magali não achei nada.

Júlio, decepcionado, ficou em silêncio durante alguns segundos e pensou: "Magali teria mentido? Como saber a verdade?"

— E agora, o que podemos fazer? — indagou preocupado.

— Bem, eu investiguei e conversei com alguns moradores antigos da cidade, dizendo estar procurando um primo que não vejo há muitos anos e teria morado lá. Mas ninguém soube me dar qualquer informação sobre esse casal. Se eu pudesse obter mais detalhes, teria como localizá-los.

Júlio fixou-o sério:

— Doutor Nelson indicou seu trabalho, dizendo que posso confiar em você. Vou contar-lhe, então, o que está me preocupando. Eu pretendo me casar com Magali, mas ela afirma que é casada e se nega a dar-me os detalhes sobre seu ex-marido. Alega que ele é perigoso e não quer que se aproxime de nós.

Júlio pensou um pouco e, vendo que o detetive estava atento à sua fala, continuou:

— Temo que ela esteja mentindo, encobrindo alguma coisa pior. Preciso descobrir a verdade, seja ela qual for. Sei que não vai ser fácil, mas quero que continue investigando. Se trabalhar para mim, pretendo gratificá-lo muito bem. O que me diz?

— Para fazer isso, terei de me dedicar exclusivamente ao seu caso.

— É isso mesmo que eu quero.

— Nesse caso, proponho o seguinte: para conseguir alguma coisa, terei de me aproximar de vocês, sem que ela descubra a minha profissão. Preciso conhecer as relações que ela mantém, descobrir como dispõe de seu tempo etc. Deverei vigiá-la discretamente, mas de forma eficiente.

— Não sei se isso resolverá a situação. Ela não mantém relacionamento com outras pessoas. Dedica-se só a mim e frequenta a sociedade sempre comigo.

Gerson apanhou um bloco e pediu:

— Acredito que através dela poderei encontrar o fio da meada. Se ela estiver mentindo, vou descobrir.

— Está bem. Como faremos isso?

— Preciso que me conte tudo que sabe sobre sua esposa. Como se conheceram, o que ela lhe contou sobre sua vida, quem foram as pessoas com as quais se relacionou, mesmo as que hoje estejam distanciadas dela. Às vezes, um pequeno detalhe que julgamos sem importância pode nos trazer a verdade. Posso gravar?

Júlio hesitou um pouco e depois perguntou:

— Para quê?

— Para ouvir a história de vocês várias vezes, familiarizar-me com a situação e ir fundo no assunto. Preciso ler as entrelinhas.

— Prometa que destruirá essa gravação na minha frente quando não precisar mais dela.

— Doutor Júlio, se vou trabalhar em seu caso, terá de confiar em mim. Pode ter certeza que respeito minha profissão e nunca fiz nada de que me arrependa. Faço dos meus clientes amigos para toda vida, como o doutor Nelson.

— Desculpe-me. É que estou inseguro e vivendo uma situação inesperada. Pensava estar com uma mulher livre, mas descobri, de repente, que ela é casada. Quando insisti para que se divorciasse, Magali até ameaçou ir embora e deixar-me para sempre. Mas confio em você. Pode gravar o que eu disser.

— Prometo destruir a gravação em sua frente, quando não precisar mais dela.

Gerson ligou o gravador e pediu:

— Comece contando como se conheceram. Durante mais de uma hora, Júlio relatou tudo que se recordava sobre sua história com Magali e finalizou:

— Quando ela disse que não era livre, fiquei sem chão. Até então, ela me parecia um livro aberto, e eu imaginava que não havia nenhum segredo entre nós. Quando Magali exigiu que eu desistisse de nosso casamento e tentei insistir no assunto, ela ameaçou-me com a separação.

— Ela não estaria fazendo um jogo para conseguir o que desejava?

— Não. Senti que ela falava muito sério. Empalideceu, franziu a testa e sua voz ficou firme. Quando me lembro dessa cena, sinto-me inseguro. Sou louco por essa mulher! Não consigo ver minha vida sem ela. Se me deixar, o que será de mim?

— Não se deixe dominar pelo pessimismo. Ela pode estar dizendo a verdade, ter muito medo do ex-marido e querer vê-lo bem longe. Ainda não sabemos como as coisas aconteceram realmente.

Gerson calou-se pensativo. Júlio, então, suspirou e considerou:

— É... Você pode ter razão. Melhor não pensar no pior.

— A seu lado, ela desfruta de uma posição social elevada e tem uma vida de rainha. E, pelo que sei, você é muito bem-visto em seu meio. Muitas mulheres gostariam de estar no lugar de sua esposa. Não creio que ela jogue fora tudo isso.

— É... Começo a pensar que tem razão. A verdade pode ser melhor do que parece. O que pensa em fazer agora?

— Vou ouvir a gravação muitas vezes, vislumbrar todas as possibilidades e roteirizá-las para finalmente começar a agir. Quero uma lista dos lugares que dona Magali costuma frequentar e das pessoas com as quais ela tem contato no dia a dia.

— Ela não tem amigos pessoais. Seus contatos são poucos: salão de beleza, massagens, lojas e ateliês de costura. Coisas do gênero. Isso não é relevante.

Gerson sorriu:

— Você não tem ideia dos assuntos que rolam nesses lugares. Às vezes, o que elas não comentam em sociedade, comentam com o massagista, o personal na academia, a pessoa que trata seus cabelos ou desenha seus vestidos. Não reparou no tempo que elas gastam nesses lugares e no prazer que sentem em frequentar esses locais?

Júlio meneou a cabeça e sorriu levemente quando disse:

— Nunca pensei nisso. Mas, de fato, Magali está sempre indo a esses lugares de onde volta alegre, bonita, de bem com a vida.

— Bem, já tenho material para alguns dias. Assim que tiver algum resultado, aviso-lhe.

— Espero que não demore muito.

Depois de tratarem das despesas do serviço e assinar um cheque para o detetive, Júlio saiu. Apesar das dificuldades, a conversa com Gerson tivera o dom de acalmá-lo um pouco. O mais provável era que Magali estivesse sendo sincera e apenas com medo do ex-marido. Afinal, o amor e o carinho que desfrutava, a vida boa que Júlio lhe oferecia e a forma como ele se esforçava para que ela se sentisse protegida e amada, sempre a cobrindo de joias, festas e beleza, vinha dando bons resultados. Ela demonstrava estar feliz.

Quando voltou ao escritório, Júlio estava menos preocupado e mais disposto a cuidar dos negócios com alegria e entusiasmo.

Assim que entrou, Alberto aproximou-se:

— Doutor Nelson passou por aqui à sua procura.

— Deixou algum recado?

— Não. Disse que estava por perto e resolveu cumprimentá-lo. Mas, como não o encontrou, foi logo embora.

Júlio entrou em sua sala, e Anita logo foi ter com o chefe para passar-lhe os recados.

Alberto ficou conjeturando onde Júlio teria ido para ausentar-se por mais de duas horas. Se ele quisesse descobrir o que estava acontecendo, teria de cercar Magali. Às vezes, ela ficava falante, e Alberto aproveitava essas ocasiões para tirar-lhe algumas informações. Para ele, tudo que se referia a Júlio era importante.

A vida de Alberto havia tomado um rumo melhor, e ele estava até conseguindo investir na Bolsa e ganhar algum dinheiro. Mais comedido, valorizando a nova situação, guardava uma parte dos lucros e se dava ao luxo de reservar uma verba para jogar, mesmo sabendo que poderia perder. Quando a sorte o favorecia, entusiasmava-se e, por fim, acabava perdendo tudo.

Quando sua mulher ligava, reclamando que estavam sem dinheiro e passando necessidade, Alberto mandava algum, sempre dizendo que dispunha de pouco. Mas, quando elas ameaçavam aparecer na casa de Júlio, ele lhes dava um pouco mais de dinheiro para que se acalmassem.

Meia hora depois, Júlio incumbiu Alberto de levar um contrato para um empresário assinar. O advogado, então, tomou um táxi e, durante o trajeto, inteirou-se do assunto e sorriu satisfeito.

Júlio sabia o que estava fazendo. Alberto pensou, então, em anotar alguns detalhes, que julgou importantes, para utilizar e ganhar também. Depois, deixou o contrato com o empresário e prontificou-se a buscá-lo na tarde seguinte.

Como não tinha nada mais para fazer, resolveu ir até o SPA para encontrar-se com Magali. Ela visitava o lugar com frequência e adorava-o. Sempre saía de lá alegre, perfumada, amável e falante. Era um bom momento para descobrir alguma coisa mais. Além disso, Alberto era muito bem recebido no local, onde o serviço era de muita classe. E, como Magali gastava regiamente uma boa quantia lá, todos o tratavam como um rei.

Naquela tarde, enquanto esperava Magali, serviram-lhe café, acompanhado de salgadinhos, doces e deliciosos amanteigados, que Alberto saboreou satisfeito. Pouco depois, Magali surgiu alegre, linda como sempre, e abraçou-o satisfeita:

— Que bom! Vamos voltar juntos e poderemos conversar! Hoje, fiquei sabendo de uma história que preciso contar-lhe.

Alberto sorriu alegre. Adorava saber as novidades sobre os famosos do Rio de Janeiro. Durante o trajeto, Magali relatou animada o que ouvira, enquanto Alberto bebia suas palavras com prazer.

O carro parou em um sinal, e Alberto teve a atenção voltada para um homem, que, em um automóvel parado ao lado, olhava insistentemente para eles.

— Aquele homem está olhando muito para cá. É seu conhecido?

Magali olhou-o e seu rosto modificou-se. Desviou o olhar e respondeu:

— Não. Deve ter nos confundido.

— Ele continua nos olhando.

O sinal abriu e ela disse ao motorista:

— Vamos embora rápido.

Alberto notou que Magali estava pálida e tentava controlar-se e pensou: "Ela está mentindo! Aí tem coisa!" No entanto, preferiu não comentar nada. Disfarçadamente, ficou apenas observando-a.

O carro vinha logo atrás, e Magali disse ao motorista:

— Nestor, esse carro está nos seguindo! Você precisa despistá-lo. Pode ser um ladrão!

Nestor olhou pelo retrovisor.

— Se a senhora quiser, podemos parar em alguma delegacia! — disse.

— Ele deve estar nos confundindo com outra pessoa. Não é preciso tanto. Basta você manobrar e desviar de forma que ele nos perca de vista.

Nestor seguiu e deu sinal de que ia entrar à direita em uma travessa, mas, na hora de virar, seguiu em frente, deu a volta em uma praça, fez várias manobras até que o carro ficou para trás, perdido no meio do trânsito e não pôde alcançá-los.

Magali respirou aliviada e Alberto comentou:

— Parabéns, Nestor. Você foi um mestre! Em meio a este trânsito, é preciso ser muito bom para fazer o que você fez.

Magali recostou-se no banco e encolheu-se um pouco. Ela, sem dúvida, conhecia aquele homem e não queria falar com ele. Seria algum antigo apaixonado?

Certamente era alguém que ela não queria encontrar. Alberto a observava disfarçadamente, e Magali, por sua vez, tentava dissimular a preocupação. Alberto, então, decidiu mudar de assunto e falar sobre coisas amenas, como um espetáculo que estava fazendo sucesso e ele gostaria de assistir.

Chegaram em casa, e Magali foi logo para o quarto. Alberto, por sua vez, permaneceu sentado na sala e rememorava a cena tentando gravar a fisionomia do homem. Estava escurecendo e ele não havia visto claramente o rosto do sujeito. Tratava-se de um homem de meia-idade, que dirigia um carro comum e que fizera de tudo para segui-los.

Pensava também que, se acontecesse alguma coisa entre o casal, ele seria o maior prejudicado. Júlio era muito apaixonado pela mulher, mas, se eles se separassem, certamente o mandaria embora e tudo voltaria a ser como era antes. E isso nunca poderia acontecer.

Alberto pensou, pensou e chegou à conclusão de que deveria abrir o jogo com Magali e tentar descobrir a verdade sobre aquele homem. Estava disposto a akudá-la no que precisasse para preservar seu relacionamento. Assim, tudo continuaria como sempre estivera e ele ficaria bem.

Naquela noite, Alberto não conseguiu conversar com Magali como pretendia. Só depois que Júlio chegou do trabalho, foi procurá-la para desceram juntos para jantar. Magali parecia bem, mas isso não o convenceu. Ela era uma mulher inteligente, que sabia fingir para conseguir o que queria. Manejava Júlio com facilidade e a cada dia conseguia mantê-lo ainda mais interessado por ela.

Na manhã seguinte, Magali não desceu para o café, e Alberto foi com Júlio para o trabalho como de hábito. Júlio estava de bom humor, o que significava que, mesmo estando preocupada com o assédio daquele homem, ela teria escondido muito bem.

Alberto sabia que, naquela tarde, Magali havia marcado hora em um salão de beleza e pretendia ir encontrá-la para voltarem juntos. Como Júlio tinha o hábito de, antes de voltar para casa, passar algum tempo no clube conversando com os amigos, teria tempo para conversar com ela. Mas, ao chegar ao salão, soube que Magali havia desmarcado a visita, o que o deixou ainda mais intrigado. Ela adorava frequentar aquele salão, não só para tratar de sua beleza, mas também para ficar em dia com as novidades sobre as pessoas famosas que circulavam por lá. Imediatamente, Alberto tomou um táxi e foi para casa.

Assim que entrou na casa, foi para a sala onde Magali costumava ficar, mas não a encontrou. João estava na copa e Alberto aproveitou sua presença para perguntar por ela, mas soube que Magali não saíra e que, após o almoço, fora para o quarto. Alberto justificou-se:

— Ela havia combinado comigo de encontrar-me no salão de beleza, mas não foi. Ela está bem?

— Está.

Alberto subiu, foi até o quarto do casal e bateu levemente na porta. Como ninguém respondeu, bateu mais forte até que a porta se abriu.

— Você? Aconteceu alguma coisa?

Ele fixou-a sério:

— Não a encontrei no salão conforme combinamos e fiquei preocupado. Está tudo bem?

— Por que não estaria?

Alberto hesitou um pouco e depois disse:

— Fiquei muito preocupado com o que aconteceu ontem. Aquele homem estava nos seguindo e eu vi como você ficou nervosa. Só em pensar que alguém pode estar planejando alguma coisa ruim contra você, não consegui dormir, fiquei nervoso.

— Não devia. Se ele estava querendo nos assaltar, Nestor conseguiu evitar. Foi só isso.

Alberto colocou a mão sobre o braço de Magali e olhou-a firme:

— Eu já sofri muito na vida. Passei por problemas duros, minha família só me prejudica, e minha irmã, apesar de rica, não quer saber de mim. Ao conhecê-la, minha vida mudou. Sua generosidade me acolheu. Você me trouxe para esta casa e fez Júlio me dar um emprego e me deixar morar aqui. Você foi a primeira pessoa que me deu a mão e isso fez com que eu me tornasse um amigo para todas as horas. Sinto por você um amor de irmão e admiro sua beleza, sua alegria e sua amizade. Mas conheço a vida e sei que a maldade anda solta. Há pessoas que não gostam de ver a felicidade dos outros. Gostaria de saber um pouco mais sobre o que aconteceu ontem para poder defendê-la de qualquer perigo. Por esse motivo, peço-lhe que me conte a verdade, seja ela qual for, para que eu possa protegê-la. Estou do seu lado para o que der e vier.

Nos olhos de Magali um brilho de emoção despontou quando ela respondeu:

— Obrigada, Alberto. Sei que está sendo sincero. Há passagens de minha vida que desejo esquecer. Momentos de sofrimento, de infelicidade. Venha, vamos nos sentar no escritório para continuarmos nossa conversa.

Alberto abaixou os olhos e acompanhou-a até o escritório de Júlio, onde o cunhado mantinha um cofre, embutido atrás de um belo quadro de Monet, no qual guardava documentos sigilosos.

Sentados lado a lado no sofá, Magali começou a falar:

— Meu pai morreu antes de eu nascer e, quando eu tinha cinco anos, minha mãe se casou novamente com o Ariovaldo.

Com o rosto contraído, Magali começou a falar com um tom de voz triste e a relatar a Alberto a mesma história que contara a Júlio. Contou-lhe sobre os ciúmes que sua mãe sentia do padrasto, que a olhava com certa admiração, como apanhara aos catorze anos para se casar com o vendedor Josué, mais velho do que ela, e como sofrera ao lado daquele homem até conseguir fugir e trabalhar. Fez uma ligeira pausa e continuou:

— Foi horrível. Sofri muito. Só consegui melhorar de vida quando me tornei dama de companhia de uma moça muito rica, dois anos mais nova do que eu. Então estudei, viajei, aprendi inglês. Agora, que estou bem, vivendo com Júlio, que me ama, cheguei a pensar que seria feliz para sempre. Não tinha conseguido ver muito bem aquele homem do carro, mas notei que ele parecia muito com o meu ex-marido. Mas fiquei realmente apavorada quando ele me reconheceu e começou a nos seguir. Felizmente, Nestor foi genial e conseguimos enganá-lo.

— Tenho medo que, em algum momento, ele descubra onde estamos e queira tirar proveito da situação. Deve ser um malandro.

— Ele é horrível. Perverso, sem moral. Não sei o que farei se ele nos encontrar de novo.

— Júlio sabe dessa história?

— Sim. Não tive remédio senão contar-lhe tudo. Ele queria falar com Josué e isso não pode acontecer. Seria o caos. Júlio é uma pessoa do bem e acredita que o dinheiro poderá resolver tudo. Mas eu sei que, se Júlio tentasse isso, teria que suportar sua chantagem pelo resto da vida. Não desejo isso de forma alguma. Além disso, ele é mau e perigoso.

— Estou aqui para defendê-la! Pode contar comigo para o que der e vier. Ficarei atento. Enquanto eu estiver do seu lado, ele nunca se aproximará de você.

— Obrigada. Saberei recompensá-lo por isso.

Alberto fez um gesto largo ao afirmar:

— Não quero nada. Para mim basta sua amizade. Se não quer que Júlio descubra o que houve, é melhor levar vida normal. Não fique reclusa em casa, pois ele pode desconfiar.

— Tem razão. Seu apoio me deixou mais calma. Hoje nem almocei direito. Vamos descer e tomar um chá. Joice fez um bolo maravilhoso e agora estou com fome.

Durante o chá, conversaram sobre frivolidades e, mais tarde, quando Júlio chegou para jantar, Magali estava mais linda que nunca, alegre e com mais disposição.

 

O telefone tocou e Rosa atendeu:

— Residência de dona Eugênia.

— Como vai, Rosa? Aqui é o Robson.

— Robson! Você ainda está no Brasil?

— Sim. Era para eu ir embora amanhã, mas meu chefe decidiu investir no Brasil, nossos negócios foram bons e eu ficarei mais tempo aqui.

— Parabéns. Isso quer dizer que você soube fazer seu trabalho.

— Obrigado. Nessas duas semanas, eu e Estevão fomos visitar alguns amigos da relação de vocês, mas não as vimos. Onde se esconderam?

— Preferimos ficar em casa.

— Para ser franco, eu também preferia ficar em casa, mas Estevão adora vida social. Ele tem outros amigos, mas quer ser gentil me levando a tiracolo para me salvar da solidão.

— Você deve estar com saudade de casa, de sua família. Você disse que tem muita afinidade com sua irmã.

— Ela é dois anos mais nova que eu e no começo senti muita falta dela. Eles moram em outro estado. Saí de casa muito cedo para estudar, me formei e comecei a trabalhar, só os vejo nas férias de fim de ano.

— Estevão deve tê-lo apresentado a muitas pessoas, deve estar sempre rodeado de amigos.

— De fato, isso tem acontecido, mas para fazer amizade é preciso mais. Naquela festa, eu estava meio deslocado, nos conhecemos e isso deixou a festa muito melhor. Eu gostaria muito de me aproximar de você, de ser seu amigo. Sua companhia me fez bem. Tornou-me mais natural, alegre, até dançamos, coisa que eu nunca soube fazer bem! Esta tarde estou livre. Você aceita tomar um café comigo?

Rosa pensou um pouco e respondeu:

— Aceito. A que horas?

— Passarei em sua casa às quatro. Está bem?

— Estarei esperando.

Com o rosto corado, ela desligou o telefone e, ao voltar-se, viu Eugênia sorrindo.

— Você estava aí?

— Só ouvi que aceitou um convite. Quem era?

— Robson. Lembra-se dele?

— Sim. Eu vi que vocês se entenderam muito bem na festa do senador.

— Foi mesmo. Conversamos, gostei dele. Veio a trabalho, obteve sucesso e vai se demorar mais por aqui. Deve estar se sentindo muito só, fora do país, longe da família. Convidou-me para um café e aceitei porque hoje não temos nenhum compromisso.

Eugênia abraçou-a sorrindo:

— Você é minha melhor amiga. O fato de morarmos juntas não significa que me deve explicações de como dispõe do seu tempo. Você é livre, minha querida. O que eu mais quero é que seja feliz e aproveite as coisas boas da vida. Você me deu muito mais do que isso.

Os olhos de Rosa brilharam emocionados, e ela retribuiu o abraço dizendo:

— Cada dia que passa eu a admiro mais. Você é a irmã que eu nunca tive. Amanhã é dia de irmos ao orfanato. Antes de sair, arrumarei os pacotes que vamos levar.

— Vou ajudá-la, você não pode se atrasar. A que horas ele virá?

— Às quatro. Vai dar tempo.

— Você precisa caprichar, ficar bem bonita.

— Robson é só um amigo à procura de companhia. Eugênia meneou a cabeça, seus lábios entreabriram-se em um leve sorriso quando disse:

— Eu sei. É assim que as coisas começam. De qualquer forma, ele se sentirá muito bem ao lado de uma mulher fina, elegante, bonita como você.

Rosa ficou pensativa, depois disse séria:

— Nunca nenhum homem interessou-se por mim como mulher. Desde o tempo de estudante, tive muitos amigos porque sou prestativa e gosto de ajudar. Esse é o objetivo da minha profissão. As vezes me pego com certo remorso por estar aqui, tendo uma vida boa, sendo que deveria estar trabalhando no hospital.

— A vida tem muitos caminhos. Colocou-a ao meu lado em um momento muito difícil. Com você e Rogério, tive provas de que a vida continua, descobri a força da fé. Esse é o trabalho mais importante, porque toca a alma, ensina a grandeza da vida, encoraja, leva pra frente. Há muitas pessoas capacitadas cuidando das feridas do corpo, aliviando sofrimentos, o que é um bem. Mas poucas capacitadas a nos acordar para a eternidade. Isso é fundamental e vocês dois me abriram para a grandeza da vida e do nosso espírito. É isso o que eu quero aprender a fazer o resto da minha vida.

Rosa, comovida, não respondeu logo. Beijou-a levemente na face e depois disse:

— Nosso encontro foi programado pelos amigos espirituais. Tanto eu como Rogério temos certeza de que já estivemos juntos em outras vidas. Quando a levamos ao orfanato pela primeira vez, tive a certeza de que já havíamos vivenciado aquela experiência em algum lugar. Sua emoção, seu modo de agir e lidar com as crianças, tudo foi muito familiar. Tive a sensação de que você estava no lugar certo. Foi natural, trouxe-lhe bem-estar.

— Eu também senti isso. Apesar de penalizada com a situação deles, senti uma alegria muito grande, como se estivesse voltando pra casa depois de muito tempo. Foi algo especial, diferente. Mas vamos arrumar tudo porque amanhã é dia de irmos vê-los. Enquanto trabalhamos, quero trocar algumas ideias com você sobre os planos que estão passando pela minha cabeça.

Conversando animadas, as duas foram para a sala onde estava o que haviam comprado para levar ao orfanato. Tinham feito uma ficha de cada criança e anotado as informações e o andamento de cada caso. Elas haviam organizado o histórico para trabalharem com a finalidade de conseguir que as crianças fossem adotadas.

Enquanto conversavam com os interessados em adotá-los, entretinham as crianças contando histórias, cantando, ensinando-as o que pudessem. Habituaram-se a estar lá duas vezes por semana e, embora Rogério nem sempre pudesse ir junto, elas conversavam com ele, que se sentia apoiado e participante. Enquanto organizavam tudo, programavam o que fariam para entreter as crianças e deixá-las alegres. Tudo terminado, Rosa foi se arrumar para o encontro com Robson.

Quando ela desceu, pouco antes das quatro, Eugênia lia sentada na sala. Rosa aproximou-se e Eugênia fixou-a:

— Você está linda, elegante. Esse passeio vai ser um sucesso!

Rosa meneou a cabeça e comentou:

— Não sei... Gostei do Robson ter ligado, me convidado para sair, mas estou sem jeito. É a primeira vez que marco um encontro. Não devia ter aceitado.

— Isso vai passar no momento em que ele aparecer feliz por vê-la! Está na hora de você se dar o prazer de viver, de ser mulher, ser admirada. Esse é o desejo natural de toda mulher.

A campainha tocou e logo Odete entrou com Robson na sala. Eugênia levantou para recebê-lo:

— Como vai, Robson?

Ele a cumprimentou com certa formalidade:

— Bem. Obrigado por receber-me em sua casa. Depois cumprimentou Rosa com um beijo na face. Ela, rosto corado, disse:

— Você foi pontual.

— Estou feliz por ter aceitado meu convite.

— Podemos ir quando quiser.

Ele fixou Eugênia:

— Quer vir conosco? Gostaríamos de ter sua companhia.

— Agradeço a gentileza, mas ficará para outra ocasião.

Os dois saíram e Eugênia sentou-se novamente e retomou a leitura, mas sua cabeça estava longe. Reparara como os olhos de Robson brilharam quando fixou-os em Rosa. Sentiu que ele a admirava e isso era um passo para iniciar um romance. E se os dois se apaixonassem? Ela tinha todo o direito de ser feliz. Mas isso seria mesmo felicidade?

Lembrou-se de seu casamento, da paixão dos primeiros tempos e como tudo foi mudando até dar no que deu. Robson era de outro país e, se isso acontecesse, ele levaria Rosa embora. Rosa era para ela o apoio, a segurança, a pessoa que ela gostaria de ter perto durante toda a sua vida. Mas isso não seria justo. Ela não poderia ser tão egoísta.

Esse pensamento deixou-a deprimida. Abriu o livro outra vez, mas o prazer da leitura tinha desaparecido. Fechou-o e colocou-o na mesinha. Nesse momento ouviu a campainha da porta tocar. Eles teriam voltado?

Levantou para ver quem era e deu com Rogério entrando. Olhou-o e disse:

— Que bom, chegou na hora certa!

Ele sorriu e abraçou-a dizendo:

— Aconteceu alguma coisa?

— Nada. Tive apenas uma recaída boba. Vendo-o, voltei ao normal. Mas que milagre o trouxe aqui agora?

— Eu acabei mais cedo e resolvi vir para ajudá-las com as coisas. Amanhã poderei ir com vocês ver as crianças.

— Eu e Rosa já fizemos tudo. Ela teve um compromisso, precisou sair.

— Foi isso que trouxe sua recaída?

— De certa forma, foi.

Em poucas palavras, Eugênia falou sobre o convite para o café com Robson, seu receio de que Rosa acabasse tendo um romance, fosse embora para o exterior, e finalizou:

— Estava pensando nos problemas de um casamento infeliz e na falta que ela me faria. Eu gostaria de tê-la perto de mim pelo resto dos meus dias. Sei que estou sendo egoísta.

— Sua cabeça é muito rápida! Se um simples convite para um café fez tudo isso, é melhor prestar atenção na facilidade com que alimenta ilusões de coisas que provavelmente nunca acontecerão!

— Tem razão. Por que será que temos a tendência de olhar sempre pelo lado ruim?

— Isso é fruto da educação, da cultura, da ambição de muitos que apregoam a falsa humildade, ensinam que não somos nada. Já nascemos em pecado, como se o sexo fosse errado, a vida fosse cruel. Agem assim para manter as pessoas na ignorância e dominá-las em proveito próprio. Essas falsas crenças têm dificultado o progresso, criado mais sofrimento.

— Por que Deus permite uma coisa dessas?

— O arbítrio do espírito é absoluto. Cada um cria o próprio destino através das suas escolhas e vai experimentando os resultados. Deus não interfere. Criou leis cósmicas que agem e auxiliam a evolução conforme a necessidade.

— Como eles conseguem dominar dessa forma?

— São níveis de evolução. Eles tiveram atitudes que desenvolveram mais sua inteligência e ainda não sentem amor. Não possuem o senso de realidade, não sabem o verdadeiro valor das coisas e dos sentimentos. A vontade de crescer é vista como ambição e, ao dominar pessoas e coisas materiais, sentem-se poderosos e em segurança. Conquistam altos postos, nos quais todos lhes obedecem. Essa é uma ilusão que a vida vai destruir quando evoluírem um pouco mais. Seja qual for o caminho que cada um escolhe, no fim ninguém vai se perder. Todos somos eternos e destinados ao progresso.

Eugênia ficou pensativa durante alguns instantes, depois comentou:

— Você me fez entender muitas coisas, renovar minhas ideias. Minha visão ficou mais clara, mudou a forma como eu analisava o comportamento das pessoas. Cada um é livre para escolher, experimentar, aprender a obter o melhor.

Rogério sorriu e seus olhos brilharam alegres quando disse:

— Uma pequena parcela de verdade que conseguimos enxergar abre nosso entendimento e muda nossas atitudes para melhor.

Eugênia colocou a mão no braço dele:

— Quando Júlio me deixou, minha vida estava perdida. Queria morrer. Mas vocês apareceram, dividiram comigo carinho, conhecimento, acordaram minha alma e o que eu não esperava aconteceu: estou me sentindo muito mais feliz do que antes. Uma felicidade diferente, mais doce, que me traz paz, renova meu prazer de viver. Sou muito grata a vocês. No meu egoísmo, eu quero ter os dois sempre a meu lado. Só de imaginar que Rosa poderia ir embora, senti tristeza.

Rogério segurou a mão dela e, fixando-a, disse:

— Eu penso como você. Quando estamos juntos, sinto vontade de falar, de contar-lhe minhas ideias, dizer coisas íntimas que nunca disse a ninguém. Tenho certeza de que nossa amizade vem de longa data. A vida nos uniu porque temos algo bom para fazer juntos. No orfanato, você se adaptou desde o primeiro dia e as crianças a adoram.

— Estou com algumas ideias que gostaria de dividir com você. Pensei em adotar aquelas gêmeas que quando veem Rosa querem vir embora com ela. Mas acho muito pouco. Nós somos três solteiros e as crianças precisam de mãe e pai. E se adotássemos todas as crianças, construíssemos um lugar bonito, confortável, as preparássemos para a vida, educando-as, encaminhando-as até estarem adultas e capazes de cuidarem de si? Eu e Rosa poderíamos morar com elas, ter um corpo de auxiliares. Seria maravilhoso!

Rogério levou a mão dela aos lábios e beijou-a entusiasmado:

— Isso é o que eu gostaria de realizar e nunca pude. Seria maravilhoso! Eu seria o pai e elas teriam duas mães. No momento estão lá quinze crianças. Duas delas têm a adoção em andamento.

— Para realizarmos esse sonho, teríamos de procurar um espaço maior, fazer um projeto para construirmos uma família feliz, com tudo de bom que pudermos oferecer.

Rogério disse comovido:

— Seria perfeito!

— Eu teria os filhos que nunca tive!

— Eu devolveria a essas crianças todo bem que me fizeram quando Milena se foi.

— E Rosa, que adora crianças, se tornaria mãe mesmo sem ter marido. Assim, nós três juntos, cuidando dos nossos filhos, educando-os, ensinando-os a viver melhor, ficaríamos felizes e em paz.

— Vamos conversar com Rosa assim que ela chegar. Sinto que ela vai adorar. Mas tem a parte financeira. Precisamos fazer o projeto, pesquisar, saber quanto vai nos custar.

Eugênia se levantou:

— Venha, vamos ao escritório fazer um esboço de nosso projeto e uma relação de tudo que precisaremos para realizá-lo.

Rogério acompanhou-a satisfeito. Eugênia colocou sobre a mesa um bloco de desenho, canetas, tudo que julgou útil para começarem. Sentaram-se e ela propôs:

— Vou fazer uma lista de como eu gostaria que fosse e você faz a sua. Depois analisaremos ambas e discutiremos nossas ideias.

Rogério colocou a mão sobre a dela e pediu:

— É uma decisão muito séria. Primeiro vamos pedir a inspiração divina. Feche os olhos e vamos nos ligar com os amigos espirituais.

Ela obedeceu. Rogério concentrou-se e começou a falar:

— Sentir a vontade de dar amor, educar espíritos que precisam de apoio, ensinar-lhes os valores eternos do espírito e ajudá-los a desenvolver suas capacidades e se tornarem melhores é um trabalho abençoado que enriquecerá suas vidas. É um trabalho árduo e constante, uma vez que cada um deles traz suas experiências e necessidades, e vocês terão de dedicar-se inteiramente a esse mister para conseguirem o que desejam.

Rogério falava com calma e sua voz estava mais grave do que o habitual. Fez silêncio durante alguns segundos e continuou:

— Nós estamos juntos, apoiando essa iniciativa, torcendo para que se realize com sucesso. Façam tudo dentro das leis do país, dos fundamentos espirituais, e nada faltará para o êxito do projeto. Muita alegria, luz e paz.

Rogério abriu os olhos úmidos de emoção e Eugênia colocou a mão sobre a dele:

— Foi o Marcos Vinícius. Ele veio!

Rogério não respondeu logo, tal a emoção. Respirou fundo, depois disse:

— Sim. E Milena estava com ele! Esteve o tempo todo do meu lado! Ainda criança, linda, sorrindo feliz!

— Projeto Milena. Este será o nome da nossa casa.

Eugênia ignorou a emoção de Rogério, tomou a caneta e disse alegre:

— Vamos trabalhar. Fazer nossa lista!

Ele sorriu, ainda com os olhos brilhantes, tentando conter as lágrimas, e respondeu:

— Isso mesmo. Vamos trabalhar!

Eugênia mostrou-lhe o papel onde escrevera no centro da primeira linha: Projeto Milena.

Duas horas depois, quando Rosa chegou em casa acompanhada de Robson, perguntou a Odete:

— Eugênia está descansando?

— Não. O doutor Rogério chegou logo que você saiu. Estão no escritório faz um tempão.

— No escritório? Aconteceu alguma coisa?

— Só sei que conversaram um pouco na sala e depois foram para lá.

— Robson, sente-se e fique à vontade. Vou avisá-los que estamos aqui.

Ao aproximar-se da porta do escritório, Rosa ouviu que conversavam animados. Bateu levemente e abriu a porta devagar:

— Posso entrar?

Os dois a fixaram e Eugênia disse alegre:

— Chegou em boa hora. Precisamos conversar.

— Tia, estávamos à sua espera.

— É que o Robson está na sala. Fez questão de cumprimentá-la antes de ir embora. Vocês estão diferentes, aconteceu alguma coisa?

— Ainda não. Eugênia teve uma ideia maravilhosa e queremos ouvir sua opinião.

— Isso mesmo — confirmou Eugênia.

— Percebo que estão animados.

Eugênia sorriu e considerou:

— Você também voltou muito animada. Esse café se alongou e sinto que foi muito bom!

— De fato, foi muito agradável. Depois falaremos sobre isso. Vamos nos despedir de Robson e depois vocês me contam o que está acontecendo aqui. Estou ansiosa para saber.

Os três foram até a sala, Robson levantou-se para os cumprimentos. Cumprimentou Eugênia de maneira mais descontraída e Rosa apresentou-lhe Rogério.

— Não vou tomar o tempo de vocês. Obrigado por me receber em sua casa. Em breve espero vê-los novamente. Até outro dia.

Rosa acompanhou-o até a porta, esperou que ele saísse e voltou em seguida.

— Então, gostou do café? - indagou Rogério sorrindo.

— Pelo brilho dos olhos dele e o corado de seu rosto, deve ter sido ótimo! — tornou Eugênia.

— Não fiquem imaginando coisas. Somos apenas bons amigos. Ele conhece algumas pessoas apenas socialmente e não gosta muito de frequentar as altas rodas. É mais discreto, aprecia arte, tem ideias próprias, é uma pessoa boa. É estrangeiro, está longe da família, se sente só. Eu gosto de conversar com ele. Somos apenas bons amigos! Agora quero saber o que vocês tramaram durante minha ausência.

— Estamos criando um projeto que vai mudar nossas vidas! E você faz parte dele — disse Eugênia.

— Vamos conversar no escritório. Queremos saber sua opinião.

Curiosa, Rosa os acompanhou. Uma vez lá, sentados ao redor da mesa, juntaram as folhas que estavam espalhadas e Rogério tornou:

— A ideia foi sua, Eugênia. Exponha nosso projeto.

Ela começou a falar e, à medida que expunha o projeto, Rosa foi se interessando. Quando terminou a explanação, perguntou:

— Então, o que acha?

— Vendo o rostinho daquelas crianças, a vontade que sentem de ter um lar de verdade, muitas vezes desejei ter um marido bom e rico para adotá-las, todas.

— Nós não precisaremos casar para fazer isso. Estou sentindo que teremos condições de criar uma família perfeita, feliz — Eugênia então entregou a Rosa as duas listas sobre o projeto dizendo: — Leia o que fizemos e acrescente o que quiser para que possamos continuar a conversar. Enquanto esperamos, eu e Rogério vamos tomar um café na copa e refrescar as ideias. Quando terminar, avise.

Durante o café, o entusiasmo era tanto, que continuaram falando com alegria sobre o projeto, imaginando detalhes que gostariam de incluir nele.

 

Depois da conversa com Alberto, Magali retomou sua vida normal, e ele, quando saía do trabalho, ia ao encontro dela. Uma semana depois, ao sair da dermatologista com Magali, notou que aquele detetive que Júlio visitara estava por perto. Imaginava que Júlio o contratara para proteger Magali, porém não lhe convinha tê-lo por ali.

Além de falar sobre a proximidade que Alberto tinha com ela, poderia ir mais longe, descobrir coisas que ignorava em relação à amizade dos dois.

Aquela história de vítima que Magali lhe contara não lhe parecia de todo verdadeira. Suspeitava que houvesse muitas coisas que não lhe convinha falar.

Habituado a observar as pessoas para poder tirar proveito, notara o quanto ela era esperta, forte e capaz de tudo para obter o que queria. Admirava-a por isso. Para ele era estimulante poder dominá-la, tê-la sob controle. Usando-a conforme lhe convinha, sentia-se forte, capaz.

Percebendo que o detetive Gerson estava sempre por perto observando-os, resolveu abrir o jogo. Um fim de tarde, ao saírem do salão de beleza em que ele fora encontrá-la, disse baixinho:

— Disfarce, mas observe aquele homem que está parado na porta daquela loja. Depois explico.

Ela obedeceu, o motorista trouxe o carro, eles se acomodaram e Alberto continuou:

— É um detetive particular e tem estado por perto.

Ela perguntou assustada:

- Está nos investigando? Será que tem a ver com meu ex-marido?

— Não. Uma tarde, por acaso, passei perto do escritório dele e o carro de Júlio estava lá. Ele deve tê-lo contratado para protegê-la. Mas não confio nele. Nem sempre o detetive é de confiança, quase sempre trabalha para os dois lados e acaba servindo a quem paga mais.

— Que horror! Por que Júlio teria feito isso?

— Júlio é uma pessoa séria e a ama de verdade. Fez o que achou bom para protegê-la.

— Ele pode estar sendo enganado. Apesar da boa intenção, pode estar me prejudicando.

Alberto meneou a cabeça, hesitou um pouco, depois disse:

— De fato. É difícil saber se esse Gerson é confiável.

Magali franziu o cenho e disse com raiva:

— Não quero saber se é confiável ou não. Júlio tem de parar com isso. Sou uma pessoa direita e não admito que ele pague alguém para me vigiar.

— Foi o que pensei. Mas se falar com ele sobre isso, ele vai saber que fui eu quem falou e pode querer brigar comigo.

— Você é meu amigo e eu confio na sua sinceridade. Vou dar um jeito nesse detetive sem mencionar você.

— É você quem me leva pra casa todas as tardes. Ele vai desconfiar de mim.

— Sei fazer as coisas. Confie em mim.

Naquela noite, quando Júlio chegou em casa, encontrou Magali no quarto. Ela estava sentada na poltrona e, vendo-o, levantou-se, aproximou-se dele e disse assustada:

— Estou apavorada! Acho que Josué me descobriu e mandou alguém me seguir.

Júlio empalideceu:

— Ele tentou se aproximar, como foi isso?

— Não. Eu observei que, vários dias, quando eu saía dos lugares, tinha um rapaz me observando. Graças a Deus que tenho dado carona para o Alberto, porque assim me sinto protegida.

Júlio pensou um pouco, depois perguntou:

— Que aparência tem esse homem?

— É moreno, olhos grandes, cabelos crespos cortados rente, estatura mediana. Hoje eu o encarei e quase perguntei a ele o que estava fazendo ali. Mas Alberto me aconselhou a não fazer isso. Prometeu que investigaria para saber quem ele é.

Júlio ficou calado durante alguns segundos, depois disse:

— Nesse caso, será melhor eu contratar um segurança para acompanhá-la.

— De jeito nenhum! Eu não suportaria ver um desconhecido do meu lado, me vigiando.

— Mas isso a está assustando e precisamos fazer alguma coisa.

— Quero levar minha vida em paz. O que mais prezo neste mundo é minha liberdade. Levar Alberto pra casa foi a melhor coisa que eu fiz. Ele é muito grato por isso, me respeita, cuida de mim como se fosse sua irmã. Estou certa de que, se Josué aparecer, ele me defenderá.

Júlio não tinha boa opinião sobre Alberto. Achava que Magali fora muito boa com ele. Se ela não o tivesse apoiado do jeito que fez, ele não teria tido casa nem emprego. Ele o tinha deixado morar em sua casa só para agradá-la.

— Está bem. Faça como quiser — abraçou-a com carinho e continuou: — Você não tem razão para ter medo. Está tudo em paz. Vamos descer para jantar e só falar de coisas boas.

Magali descrevera Gerson e Júlio ficou satisfeito. O detetive estava fazendo um bom trabalho e, se Josué se aproximasse, ele saberia. No dia seguinte pediria que continuasse trabalhando de forma mais discreta.

Nos dias que se seguiram, Alberto notou que Gerson havia se disfarçado de tal maneira que Magali não o reconhecera e sentira-se aliviada. Era evidente que Júlio o instruíra a fazer isso de forma que não fosse notado.

Magali sentia-se mais segura e voltara ao normal. Estava calma, alegre, bem-disposta, fazendo questão de estar mais presente nas rodas sociais, onde queria brilhar.

Todavia, Alberto continuava atento e, embora não participasse das recepções e festas a que o casal comparecia, procurava ler as notícias nas colunas sociais, afim de ver, nas entrelinhas, se acontecera algo diferente.

É que, apesar de tudo, ele sentia que Magali não tinha dito a verdade. Contara uma história em que fora a pobre menina enganada, abusada, forçada a fazer as coisas. Contudo, a personalidade dela não se coadunava com essa personagem. Magali era forte, sabia o que queria, era egoísta, só pensava em si e naquilo que lhe convinha. Manejava Júlio como queria e o mantinha a seus pés, fazendo tudo para agradá-la.

Alberto a entendia porque era exatamente igual a ela. Sua preocupação era o medo de perder a posição fácil que havia conquistado com Júlio. Se algo de ruim acontecesse com Magali, ele voltaria ao que sempre fora. Ficaria na miséria, tendo de voltar à antiga vida. Estava disposto a fazer tudo para defendê-la, fosse o que fosse que ela tivesse feito.

 

Uma semana depois, quando saíam de um ateliê, estava escurecendo. A tarde era fria e eles caminhavam apressados até o carro. No momento em que o motorista abriu a porta para que Magali entrasse, um menino surgiu, aproximou-se com um envelope na mão e entregou-o a ela dizendo:

— Dona Magali, carta para a senhora.

Saiu correndo antes que os dois homens pudessem segurá-lo. Magali olhou o envelope e empalideceu, colocou-o no bolso do casaco e sentou-se. Nestor disse preocupado:

— Desculpe, dona Magali, ele veio de repente, não consegui impedi-lo.

Alberto, que entrara no carro, sentou-se ao lado dela e comentou:

— Eu também não sei de onde ele saiu. Chamou-a pelo nome! Sabe quem é?

Magali sorriu levemente:

— Não. Vamos logo embora. Está frio e eu quero ir logo para casa.

— Não vai abrir e saber do que se trata? — indagou Alberto.

— Não. Deve ser propaganda de algum produto. Não estou interessada.

Durante o trajeto, Magali encolheu-se no banco e ficou silenciosa. Ela deixara o ateliê entusiasmada com os vestidos que escolhera, mas parecia ter se esquecido deles. Assim que chegaram em casa, ela foi para o quarto.

Júlio não havia chegado e Alberto deu uma volta pela cozinha para saber o que haveria para o jantar, como sempre gostava de saber, depois foi para o quarto.

A atitude de Magali tinha sido estranha. Quando ela viu o envelope em sua mão, ficou assustada. Tentou dissimular, mas a palidez do seu rosto revelava preocupação. Para ele, ficara evidente que, conforme suspeitara, ela não lhe contara toda a verdade. Ele precisava encontrar uma forma de fazê-la se abrir de fato. Só assim poderia protegê-la e preservar sua posição. Pensou, pensou e resolveu apertá-la um pouco mais, insistir, assustando-a até, se preciso fosse.

Mas para isso teria de esperar um momento favorável. Júlio já deveria estar chegando e esse seria um assunto que demandaria tempo. Mas estava disposto a tudo para manter sua posição com Júlio.

Naquela noite, durante o jantar, Magali estava alegre, exuberante, de tal forma que Júlio mostrou o quanto era apaixonado por ela. Tanto que quis ir para o quarto em seguida, sem tomar o cálice de licor na sala e conversar sobre coisas amenas como sempre faziam.

Alberto foi para o quarto mais cedo e estava sem sono. Ficou sentado na poltrona pensando em como Magali era esperta e sabia encobrir as emoções. Aquela carta a deixara nervosa e preocupada, disso ele tinha certeza. Mas, independentemente do que estava escrito ali, ela soubera dissimular a preocupação de tal sorte que se ele não tivesse visto a emoção que o misterioso envelope lhe provocara, o caso passaria despercebido.

Mais uma vez ele pensou o que faria para descobrir os segredos de Magali assim que tivesse oportunidade. Só assim se sentiria seguro para continuar vivendo como queria.

Só dois dias depois Alberto conseguiu tocar no assunto com Magali. Ela havia cancelado o que havia marcado para a tarde e ficara em casa. Alberto, assim que deixou o trabalho, foi para casa. Magali estava no quarto e ele foi procurá-la.

Ela demorou alguns minutos para abrir a porta, mas ele insistiu. Um pouco irritada, ela apareceu:

— Estava meditando e você me atrapalhou. Não podia esperar eu descer?

— Não. O assunto que tenho é urgente e do seu interesse.

Ela fixou-o séria:

— Vamos falar no escritório. Do que se trata?

— Da nossa sobrevivência. Não há tempo a perder. Em silêncio, foram ao escritório, sentaram-se e ela disse:

— O que tem de tão importante para me dizer? Alberto, olho no olho, disse sério:

— Eu sinto que você está correndo perigo, alguém está querendo destruir sua vida, sua posição e tudo o que conquistou. Quer deixá-la na miséria.

Magali apertou o braço dele com força, dizendo:

— O que você sabe sobre isso? Como descobriu?

— Você me contou sua história, mas não disse toda a verdade. Encobriu o pior. Eu preciso saber tudo, o nome das pessoas, o que elas querem cobrar de você, para poder defendê-la.

— Você está enganado. Não há mais nada para contar.

— Não minta para mim. Não tenha medo de dizer a verdade. Seja o que for que tenha feito, não quero julgá-la. Eu também já fiz muitas coisas das quais me arrependo. Se não me ajudar, falar o que sabe, nós dois vamos perder tudo que conquistamos. Conheço Júlio. Ele a ama muito, mas ama muito mais a si mesmo. Se ele souber de algo que possa fazê-lo perder a confiança dos investidores de sua empresa, passará por cima de nós dois com facilidade. Ele tem horror à miséria, adora ser recebido em sociedade como o homem que sabe tudo sobre dinheiro, é visto como uma pessoa influente e que sabe das coisas.

Alberto fez alguns segundos de silêncio e depois disse:

— Vamos, conte-me. O que continha aquele envelope que quase a fez desmaiar de medo dois dias atrás?

Magali estava pálida, assustada. Passou a mão na testa como se quisesse arrancar os pensamentos que a incomodavam. Ele notava que ela queria falar, mas tinha medo.

— Vamos, fale... Estou aqui para defendê-la de tudo e de todos.

— Mesmo de um crime?

Ele disse sem desviar o olhar:

— Sim. Seja do que for! Fale sem medo.

Magali torcia as mãos aflita. Alberto serviu-lhe um copo de água:

— Vamos, beba. Acalme-se. Nós vamos resolver tudo.

As mãos tremiam quando ela segurou o copo e tomou alguns goles. Depois, fixou-o, respirou fundo e decidiu:

— Está bem. Vou lhe contar tudo. Minha vida ao lado de Josué estava insuportável. Todas as noites ele abusava de mim, obrigando-me a fazer coisas obscenas que me davam nojo. Eu não aguentava mais. Uma noite, eu me fechei no quarto e ele ficou furioso. Forçou a porta, veio com tudo, mas eu reagi, mordi o braço dele tentando me livrar. Mas ele era mais forte e      me dominou. Bateu em mim até me deixar quase desmaiada sobre a cama e foi comer na cozinha. Bebeu muito, voltou e deitou na cama, ao meu lado.

Ela fez ligeira pausa, tomou mais alguns goles de água e continuou:

— Quando consegui me levantar, ele roncava, e foi naquele momento que meu ódio aumentou ainda mais. Jurei a mim mesma que nunca mais ele faria isso comigo de novo. Fiquei acordada o resto da noite planejando o que faria. O dia amanheceu e ele continuava dormindo. Fui à cozinha, abri o armário embaixo da pia e encontrei a caixa de veneno que ele comprara para matar ratos. Preparei um suco de laranja, bem doce, coloquei duas colheres fartas do veneno, mexi bem para dissolver, levei para o quarto e esperei. Quando ele bebia, eu sabia que acordava louco de sede. Quando vi que ele se remexeu e passou a mão nos lábios, levantei a cabeça dele e coloquei o copo em sua boca. Ele bebeu tudo rapidamente. Em seguida abriu os olhos, e percebi que o veneno tinha começado a fazer efeito. Eu havia arrumado algumas coisas para ir embora e não esperei mais. Peguei minhas coisas e saí correndo.

Com o rosto pálido, contraído, olhos assustados, respiração ofegante, Magali passou a mão na testa tentando jogar fora a lembrança daqueles momentos. Não sentia remorso, mas medo, muito medo.

Alberto segurou a mão dela:

— Você fez tudo isso para se defender. Acalme-se. Não tenha medo. Estou aqui para protegê-la.

Aos poucos ela foi se acalmando e, quando sua respiração se tornou melhor, Alberto perguntou:

— E depois, o que aconteceu?

— Eu fui andando rapidamente. Queria me afastar daquele lugar, ir para longe, esquecer aquela loucura. Não sei quanto tempo andei. Só lembro que senti sede, parei em um bar, comprei água e continuei andando, sem saber para onde ir. Senti cansaço, tomei um ônibus, sem ver para onde ele me levaria. Quando chegou ao ponto final, desci. Estava escurecendo. Senti fome, entrei em uma lanchonete, fui ao banheiro, lavei o rosto, dei um jeito nos cabelos, fiz uma maquiagem com o que tinha e vesti uma blusa com mangas compridas para cobrir as manchas roxas dos meus braços. Saí, comprei um sanduíche e comi. Depois, conversei com a senhora que estava no caixa. Disse que tinha vindo do interior, estava procurando emprego, precisava de um lugar barato para dormir. Eu havia tirado todo o dinheiro da carteira do Josué. Não era muito, mas daria pelo menos para um ou dois dias. E, assim que pude, fui para São Paulo, recomeçar minha vida.

Alberto quis saber com detalhes como ela havia conhecido e passado a viver com Júlio, e por fim perguntou:

— O que havia naquele envelope que a deixou tão assustada? Posso ver?

— Não, eu o destruí. Era uma ameaça. Josué foi encontrado morto e a polícia procurou pela esposa dele. Sabendo disso, com o dinheiro que tinha, procurei um ex-funcionário de cartório que arranjara novos documentos para meu antigo patrão. Gastei todo o dinheiro, mas mudei minha identidade. Arranjei emprego em uma loja de roupas femininas, onde uma moça muito rica comprava. Nos conhecemos e a mãe dela simpatizou comigo. Quando eles foram morar fora do Brasil, me contrataram para ser dama de companhia da Jussara e viajamos para o exterior.

Magali fez ligeira pausa, olhos perdidos no tempo, e prosseguiu:

— Eram pessoas finas, os professores iam em casa. Insistiram para que eu estudasse também. O conhecimento mudou minha vida, abriu minha cabeça. Além disso, a convivência com eles me ensinou a viver em sociedade. Pensei que tudo estivesse esquecido. Mas alguém conseguiu descobrir a verdade e quer tirar proveito disso.

— Não tem ideia de quem seja?

— Não. Estou apavorada.

— Você disse que aquele homem do carro que nos seguiu parecia ser seu ex-marido. Você mentiu ou ele se parecia mesmo com Josué?

— Estava escurecendo. Não vi claramente. Disse isso porque estava com medo.

— Seja como for, Júlio não pode saber de nada.

— Não mesmo. Ele nunca aceitará essa história. Temos que dar um jeito nisso. Senão vamos perder tudo que temos. Nunca me abri com ninguém. Os meus sofrimentos, os meus medos sempre consegui dominar. Mas essa carta, o risco de perder tudo que conquistei, deixou-me muito assustada. Como é que essa pessoa me encontrou? Hoje circulo na alta sociedade com outro nome, sou respeitada, estamos vivendo em outra cidade.

Alberto ficou pensativo durante alguns minutos, depois disse:

— Vamos ter de esperar. Não sabemos até que ponto ele sabe. Pode não ser o pior. Mas com certeza ele quer obter alguma coisa. Estou certo de que vai nos procurar.

Magali torceu as mãos, nervosa:

— Essa espera está acabando com meus nervos!

— Calma. Você não pode fraquejar. Aconteça o que acontecer, precisa controlar suas emoções.

— Tem razão. Vou me controlar.

— Terá de ser como sempre foi. Júlio é muito observador, perspicaz, lembre-se disso e não facilite.

— Sei como fazer. Júlio tem seus pontos fracos e eu sei muito bem como agir e deixá-lo sob controle.

— Tenho certeza disso. Ele só tem olhos para você. Continua apaixonado como no primeiro dia.

— Logo ele deve chegar. Vou me recompor um pouco. Ele não vai perceber nada.

Ela foi para o quarto, e ele aproveitou para saber o que teria para o jantar.

Magali passou a chave na porta, tirou os sapatos, estendeu-se na cama, refletindo sobre os acontecimentos do dia. Sentiu-se cansada. Queria relaxar, recuperar o viço, a calma e a alegria. Então surgiu em sua mente a figura de uma criança que lhe estendia as mãozinhas pedindo ajuda. Ela estremeceu, abriu os olhos, sentou-se na cama, enquanto algumas lágrimas brotavam em seus olhos.

Com raiva, as enxugou, ergueu a cabeça com altivez e disse em voz alta:

— O que está feito não tem volta. Não vou mais me lembrar disso.

Foi direto ao banheiro tomar uma ducha, tentando banir da lembrança aquela figura. A vida não era fácil e ela teria de ser forte para conservar o que conquistara com tanto esforço. Era uma vencedora e não se deixaria abater pelo sentimentalismo.

Quando Júlio chegou naquela noite, encontrou-a bem-disposta, linda, alegre. Como sempre, rendeu-se ao fascínio que ela provocava, fazendo tudo para agradá-la.

O jantar transcorreu mais alegre do que o usual e Alberto, admirado com a mudança dela, sentiu uma ponta de insegurança. Sabendo fingir daquele jeito, Magali, desta vez, teria lhe contado toda a verdade?

 

Naquele sábado, quando Rogério, Eugênia e Rosa entraram na Casa de Helena, a diretora ajudou-os a colocar os pacotes sobre a mesa e abraçou-os com carinho.

— Temos mais coisas no carro, vou buscar —disse Rogério.

Helena chamou um menino que estava separando algumas cartas e pediu:

— Maurício, vá ajudar o doutor Rogério.

O jovem imediatamente aproximou-se sorrindo e apertou a mão de todos com alegria. Mulato, magro, ágil, olhos muito vivos, dentes alvos e bem distribuídos, era muito querido não só pelos visitantes como também pelas crianças que residiam lá. Órfão aos seis meses de idade, fora recebido na casa havia mais de quinze anos, e desde os cinco fora adotado por Helena como seu primeiro filho. Acompanhou Rogério e, enquanto isso, Eugênia e Rosa foram ver as crianças que estavam relaxando após o almoço.

— Vou ver as meninas, estou com saudade —disse Rosa.

— Pode ir. Elas podem estar dormindo, é a hora do descanso.

Ela se referia às gêmeas, Lúcia e Luíza. Foi em uma madrugada fria. Helena ouviu a campainha tocar. Abriu o postigo para ver quem era e não viu ninguém, mas ouviu choro de criança. Eram duas meninas, com mais ou menos dois anos de idade, tremendo de frio e chorando. Nenhum documento, apenas um papel com o primeiro nome de cada uma.

Helena cuidou delas e contatou o advogado que tratava da parte legal. Ele investigou o assunto, publicou fotos, fez o que pôde, mas não conseguiu saber nada. As meninas estavam na casa havia mais de seis meses, e desde o primeiro dia em que viram Rosa, agarraram-se a ela pedindo que as levasse para sua casa. Isso acontecia todas as vezes que ela as visitava. Ela sonhava poder adotá-las, mas sua situação não lhe permitia realizar esse sonho. Morava na casa de Eugênia, fora contratada para ser sua dama de companhia.

Rosa entrou no quarto tentando não fazer ruído, mas, para sua alegria, Lúcia estava sentada na cama enquanto a irmã dormia. Vendo-a aproximar-se, a menina bateu palmas de alegria e Rosa abraçou-a, beijando seu rostinho rosado. Luíza acordou e juntou-se a elas. Eugênia, que tinha acompanhado Rosa, disse baixinho:

— Fique com elas, vou ver os outros e ajudar Rogério.

Ela encontrou-o com Helena no salão, onde alguns visitantes conversavam com as duas atendentes, obtendo informações. Algumas pessoas iam apenas para levar donativos. Helena atendia a todos com atenção, respondendo suas perguntas sobre adoção.

Rogério conversava com um casal interessado em adotar um dos bebês, e Eugênia olhou em volta imaginando como seria o projeto que tinha imaginado para adotar aquelas crianças.

Na sala ao lado, as crianças maiores entretinham-se com os brinquedos que ganharam, sob o olhar atento de uma voluntária que as auxiliava na brincadeira. Estavam animadas, riam alegres, e Eugênia, contagiada por elas, entrou na brincadeira. Aproximou-se de uma menina de cinco anos que embalava uma boneca e ensinou-lhe uma canção de ninar que a pequena aprendeu logo.

Depois, sentou-se e ficou imaginando o que poderia fazer se o projeto se realizasse. Ideias surgiam, aumentando seu entusiasmo. Foi até a porta, que dava para o vasto quintal, na intenção de avaliar o local. Então viu que um dos meninos estava sentado em um banco de madeira, perto de um arbusto. Tinha a fisionomia triste, os olhos perdidos no tempo, os braços caídos. Era a própria figura do desalento.

Ao aproximar-se dele, sentiu um aperto no peito, sentou-se a seu lado e ele afastou-se um pouco. Parecia não querer companhia, e ela ficou em silêncio durante algum tempo. Depois disse:

— Ainda bem que encontrei este banco. Estou tão cansada!

Ele continuou em silêncio. A tarde estava quente e alguns passarinhos cantavam. Eugênia apontou para um que passava:

— Veja que lindo! É um bem-te-vi.

Ele olhou o passarinho e continuou em silêncio. Ela tentou conversar:

— Como é seu nome?

Imediatamente ele se levantou, saiu correndo e entrou na casa. Eugênia foi atrás, mas ele não estava na sala. Os casais haviam ido embora e Rogério conversava com Helena.

Vendo Eugênia chegar, ele disse:

— Onde você estava?

— No quintal. Havia um menino sentado no banco, senti que estava triste e fui tentar conversar, mas ele não respondeu, saiu correndo.

Helena trocou um olhar com Rogério e respondeu:

— Nós o chamamos de Beto, foi abandonado em um orfanato lá de Jundiaí com mais ou menos um ano de idade, muito maltratado e doente, sem documento que o identificasse, apenas um papel preso à sua roupa, onde estava escrito Roberto. Foi registrado com esse nome. O orfanato fechou há cinco anos e os meninos foram transferidos para institutos da capital. Beto veio direto para cá. Está com dez anos e não se alegra com nada. Tentamos ajudá-lo de todas as formas: terapia, jogos divertidos. Nada deu resultado. Em razão disso, ninguém quer adotá-lo. Mais velho e com esse temperamento, penso que teremos de ficar com ele aqui mesmo.

Rogério comentou:

— Esse é um caso difícil. Há épocas em que ele tem pesadelos, acorda apavorado e perde o apetite. O tratamento espiritual ajuda, melhora um pouco, mas não acaba com sua tristeza.

Durante o trajeto de volta para casa, Eugênia, muito impressionada com o caso do menino, comentou:

— Ele está sofrendo muito. Senti a angústia que há dentro dele! Deve haver uma forma de mudar isso.

— Recorri ao espírito de Marcos Vinícius. Ele nos informou que Beto precisa de um tempo para vencer certos fatos que viveu, que nós precisamos ter muita paciência com ele e persistir na ajuda. Está carente de amor. Ele foi tão agredido em seus sentimentos que, para não sofrer, blindou seu mundo interior e fechou qualquer manifestação de sua sensibilidade.

— Que coisa triste! — comentou Eugênia. Rosa suspirou e comentou:

— É o pior caso que temos lá.

— Um dia isso vai passar e ele ainda conseguirá acordar para uma vida melhor. O espírito é eterno e nosso destino é aprender a viver e ser feliz.

— Eu gostaria de contribuir para que ele melhorasse. Queria protegê-lo, cercá-lo de muito amor— disse Eugênia.

— Esse foi o remédio que nosso amigo espiritual indicou. O amor terá de ser incondicional, verdadeiro, firme, esclarecedor, a tal ponto que possa substituir os espinhos da dor e da desilusão que ele guarda dentro de si pelos valores eternos do espírito. Então estará pronto para ser feliz.

— Vocês acham que poderíamos assumir essa responsabilidade?

— De adotarmos todos eles? — indagou Rosa.

— Sim.

— Você teve essa ideia, achei brilhante, mas não me sinto em condições de fazer isso. Adoraria poder adotar as gêmeas. Se estivesse em condições, faria isso.

— E você, Rogério, o que acha?

— Pensei nesse projeto, mas sinto que este não é nosso caminho.

— Por quê? Seria uma boa maneira de prepará-los para uma vida melhor.

— Essas crianças estão protegidas, amadas, vivendo no lugar onde a vida as colocou. Cada uma tem um caminho próprio, que é só dela e vai surgir no momento certo. Nada acontece por acaso. Nesses anos em que tenho auxiliado Helena a encontrar pais para essas crianças, aconteceram coisas inesperadas, eu diria até milagrosas, que nos fazem perceber que, apesar da situação de orfandade parecer triste, chega o momento em que a mudança acontece. Pessoas aparecem, sentem-se atraídas por uma delas, tudo se encaixa e vai para o lugar certo.

— Vocês têm acompanhado os casos?

— Sim. Rosa e eu temos uma relação de amizade com essas famílias. Com o tempo, você acaba esquecendo que foram adotados.

Pensativa, Eugênia baixou a cabeça e ficou em silêncio. Ele continuou:

— Mas enquanto o momento não chega, podemos ir preparando o caminho, apoiando-os, ensinando-os a vencer seus medos, enfrentar os desafios. O mais importante é ensiná-los a reconhecer as próprias qualidades, cultivando os elevados valores da alma. Esses seres, apesar de parecerem desvalidos, estão protegidos e amparados pelas forças da vida, que tudo sabe e provê.

— Pense nisso, Eugênia. Só é eficiente a ajuda que trabalha em favor do progresso do espírito. Quando, além de darmos o essencial para o corpo, alimentarmos também o espírito, estaremos ajudando de fato.

Os olhos de Eugênia estavam úmidos quando disse:

— Vocês estão me mostrando que a vida é muito maior do que parece. Esses esclarecimentos tiveram o dom de aliviar a angústia que estava sentindo ao pensar no futuro daquelas crianças.

— Olhar a vida com serenidade, manter a luz no coração, faz bem. Apesar das coisas ruins que observamos em volta de nós, o mal é apenas um dos caminhos que trabalha para nos levar a conhecer a verdade e aprendermos a escolher o que é bom.

Estava escurecendo quando o carro entrou na garagem e um táxi parou no meio-fio logo atrás. Os três olharam surpreendidos. Robson desceu e os três aproximaram-se dele, que disse timidamente:

— Desculpe vir sem avisar. Tentei ligar, mas ninguém atendeu.

— Estávamos no orfanato, com as crianças —explicou Rosa, sorrindo.

Depois dos cumprimentos, Eugênia convidou-o a entrar. Sentados na sala, a conversa fluiu fácil sobre a tarde com as crianças. Robson interessou-se muito.

Eugênia saiu discretamente para avisar Odete de que teriam mais duas pessoas para jantar, depois voltou para a sala.

Robson olhava para Rosa com admiração, e Rogério notou. Ele também a admirava e tinha para com ela um carinho especial. Sua tia, com quarenta e oito anos, era uma mulher bonita. Tinha pele clara, traços delicados, cabelos e olhos castanhos, delicadas covinhas quando sorria. Ele viu em Robson um possível admirador da tia e resolveu aproveitar o momento para conhecê-lo melhor.

Falaram sobre as diferenças culturais dos dois países. O que Robson mais gostou no Brasil foi da alegria dos brasileiros e do calor com que o acolheram.

Meia hora depois, quando Robson se levantou para ir embora, Eugênia disse sorrindo:

— Sente-se. Nós ainda não o liberamos. Está intimado a nos fazer companhia no jantar.

Robson olhou para Rosa, depois fixou Eugênia, sorriu levemente e respondeu:

— A senhora manda e eu obedeço!

O jantar transcorreu alegre e a conversa interessante continuou durante o café na sala de estar. Rosa sentia o olhar de Robson fixo nela com carinho e sentia o coração bater mais forte.

Robson era um homem discreto, educado e experiente. Conversava sobre qualquer assunto, tinha ideias próprias, colocava-se com sabedoria. Rogério gostou disso.

Passava das dez quando Robson se levantou:

— O tempo passou rápido! É tarde! Preciso ir.

— Que pena! — lamentou Eugênia. — A conversa está tão boa!

— Tem razão! Mas vocês tiveram um dia cheio, não quero abusar.

Robson despediu-se de Eugênia, apertou a mão de Rogério e deu-lhe um cartão dizendo:

— Eu gostaria de ir com vocês ao orfanato, fazer alguma coisa por eles.

— Tenho um caso de adoção em andamento, terei de ir lá dentro de dois dias. Vou ligar para você, apesar de ser dia útil.

— Ligue. Irei, se puder.

Rosa acompanhou-o até a porta e os outros dois entreolharam-se, sentaram-se e continuaram a conversar.

Robson segurou a mão de Rosa, levou-a aos lábios com carinho, e disse baixinho:

— Por que está sendo tão difícil para mim ir embora?

— Está em um país estranho, longe dos seus...

— Não é só por isso.

Os olhos deles se encontraram e Robson não resistiu, abraçou-a e uniu seus lábios aos dela, que sentiu o coração disparar. Um pouco assustada, Rosa afastou-o sem saber o que dizer.

— Desculpe, Rosa, não resisti. Desde que nos vimos pela primeira vez senti-me atraído por você. Sinto que você se emociona com minha presença. Quero conversar com você, saber o que pensa, me declarar. Posso vir buscá-la amanhã à noite para jantar?

— Pode. Estarei esperando.

— Estarei aqui às oito horas.

Ele beijou-a levemente na face e saiu. Rosa ficou parada, emocionada durante algum tempo. Quando voltou à sala, Rogério se levantou, dizendo:

— Hoje foi um dia bom. Gostei de conversar com Robson. É inteligente e agradável. Mas está na hora de ir.

— Eu o acompanho até a porta — disse Eugênia. Ele beijou levemente o rosto da tia que, vendo os dois se afastarem, foi para o quarto.

Eugênia comentou:

— Rosa estava emocionada. Acho que ele se declarou.

— Será? Ela parecia fora de si.

— Estou dividida. Se por um lado desejo que Rosa encontre o amor, por outro tenho medo de que ele a leve embora.

Os olhos de Rogério fixaram-se nos dela e ele disse quase sem pensar:

— E você, vai passar a vida inteira sozinha?

— Uma experiência foi o bastante. Não quero que aconteça de novo.

— As pessoas não são iguais. Conheço casais que se amam de verdade e são felizes.

— Meu coração está fechado com cadeado e joguei a chave fora.

Rogério olhou-a sério e considerou:

— O amor não pede para entrar. Muitas vezes aparece como um ladrão, rouba seu coração e, quando você percebe, o cadeado destravou.

— Você é meu amigo. Não deve me desejar uma coisa dessas.

Ele deu uma gargalhada e ela continuou:

— Vá pra casa dormir que seu mal é sono.

Ele saiu rindo e Eugênia fechou a porta pensando: "Ele fala de mim, mas seu coração deve estar mais fechado que o meu!"

Vendo que Rosa já havia se recolhido, Eugênia foi para o quarto. Apesar de estar sem sono, preparou-se para dormir. Acomodou-se e o passado reapareceu forte. Lembrou-se do casamento e de como as coisas foram mudando até a separação. Notou que já não doía como antes.

O que a incomodava agora era perceber como fora ingênua ao colocar Júlio em primeiro lugar. Logo ele, um homem inteligente, que soubera conquistar seu lugar nos negócios e na sociedade! Ele a admirara porque a conhecera no alto de uma vida social, onde ela brilhava, tinha nome importante, muita classe!

Nesse momento ela sentiu o quanto havia se desvalorizado ao tornar-se submissa, uma sombra, quando ele a queria ver como uma rainha! Em sua vida, Júlio priorizava o melhor. Para ele, tudo! Nunca aceitaria menos!

Eugênia acendeu o abajur, sentou-se na cama, meneou a cabeça e lembrou-se de uma frase que costumava ouvir de sua mãe quando era adolescente: "O homem é o chefe da família. A mulher precisa obedecer ao marido, fazer tudo para torná-lo feliz! Ele é o chefe da família!"

O que ela fizera fora incorporar as palavras da mãe! Quantas mentiras, que aceitara como verdades, ainda estariam dentro de seu inconsciente? Afinal, quais os seus verdadeiros sentimentos?

Tendo obedecido aos pais, aos professores, ao marido, à sociedade, não conseguiu se ver fora desses contextos. Essa descoberta a incomodou, mas ao mesmo tempo podia ser a esperança de fazer de sua vida algo mais verdadeiro, algo útil que a preenchesse e a tornasse participante da vida, e isso lhe trouxesse paz.

Apagou a luz e deitou-se novamente. Mas não conseguiu pegar no sono. As lembranças de pequenas coisas esquecidas surgiam e em nenhuma delas conseguiu encontrar uma decisão sua, algo que fosse só seu.

À certa altura, sentiu que algo havia mudado dentro de si e que uma nova força de viver brotara, sinalizando que as coisas poderiam ser muito diferentes do que imaginava.

Dali para a frente faria tudo para descobrir como as coisas realmente são e para aprender a lidar melhor com a própria vida. Ao tomar essa resolução, relaxou e conseguiu adormecer.

O domingo amanheceu chuvoso e Eugênia, embora tivesse dormido tarde, acordou cedo e desceu para o café. Rosa estava na sala, folheando uma revista. Vendo-a aproximar-se, sorriu dizendo:

— Você acordou cedo!

— Você também! Perdeu o sono?

— Por que diz isso?

— Imaginei. Robson já se declarou?

Rosa, rosto corado, tornou:

— Não... Isto é, parece que ele está confundindo as coisas. Não sei o que fazer.

Eugênia passou o braço no de Rosa e disse:

— Estou com fome. Vamos tomar café. Depois você me conta tudo.

Na mesa do café, sentaram-se em silêncio, serviram-se e, enquanto Eugênia passava lentamente manteiga no pão, disse:

— Não leve tudo tão a sério. Espere as coisas se tornarem mais claras.

— O que Rogério vai pensar de mim?

— Rogério tem por você muito carinho e, como eu, só deseja que você seja feliz.

— Robson virá hoje me buscar para jantar, quer conversar, se declarar! Não sei o que fazer! Eu estava conformada em viver sozinha e dedicar minha vida à minha profissão! Havia perdido todo interesse em gostar de alguém.

— Você está gostando dele?

— Não sei. Estou perturbada. Ao lado dele fico sensível, gosto do modo como ele pensa, da delicadeza dos seus sentimentos. Fico emocionada quando ele me toca!

Eugênia passou a mão na testa como a jogar fora os maus pensamentos. Não queria que Rosa a deixasse. Além disso, gostava bastante dela e temia pelo seu futuro, caso essa relação se concretizasse. Como estrangeiro, certamente a levaria para longe e não teria como protegê-la.

Tentou contornar o assunto:

— Ouça o que ele tem para lhe dizer, mas não leve muito a sério. Ele está aqui de passagem, logo irá embora. Vá com calma e não se iluda para não sofrer depois.

— Tem razão. Não posso agir como uma adolescente. Sou uma pessoa sensata.

Eugênia sorriu levemente e disse quase sem sentir:

— O amor não pede para entrar. Às vezes aparece como um ladrão e, quando você percebe, já tomou conta.

— Assim você me assusta!

— Foram palavras que Rogério me disse ontem à noite, quando afirmei que nunca mais vou amar ninguém. Ele estava querendo me assustar e divertir-se à minha custa. Foi embora rindo.

Rosa ficou pensativa durante alguns segundos, depois meneou a cabeça dizendo:

— Pode ser. Depois da tragédia de sua vida, ele nunca mais se interessou por ninguém. Esse fechou mesmo o coração para sempre.

Eugênia suspirou e disse:

— Talvez seja melhor assim. É muito bom ser dono da própria vida e fazer as coisas do jeito que gosta. Há muitas pessoas boas, com quem vale a pena manter uma amizade, compartilhar bons momentos, sem precisar chegar à intimidade.

— É o nosso caso! Quando Rogério ficou só, nos aproximamos e nos apoiamos mutuamente. Quando chegou, você veio somar. Com vocês eu me sinto à vontade, gosto de estar junto. Robson apareceu, eu gosto de estar com ele, quer se declarar. Fico constrangida porque, se ele quiser um compromisso, me levar embora, não irei.

Os olhos de Eugênia estavam úmidos quando disse:

— Seria capaz de fazer isso mesmo?

— Vocês dois são a minha família. Não suportaria deixá-los!

Eugênia levantou e deu um sonoro beijo na testa de Rosa. Depois disse sorrindo:

— Nós somos como os três mosqueteiros. Um por todos e todos por um!

Trocaram um abraço e mudaram de assunto. O ambiente estava alegre e todas as preocupações haviam desaparecido.

 

Nos dias que se seguiram, tudo continuava sem novidades, mas tanto Alberto como Magali continuavam atentos, na expectativa de um novo contato e, conforme o tempo passava, eles iam ficando mais nervosos.

A pretexto de pegar uma carona, Alberto continuava indo ao encontro de Magali todas as tardes. Naquele dia, os dois entraram no carro, e a moça mandou o motorista buscar uma encomenda em uma loja próxima. Enquanto aguardavam o retorno de Nestor, Magali comentou aflita:

— Um pensamento está me atormentando. Até agora não recebemos nenhuma notícia! Acho que eles querem se vingar de mim. Se o motivo fosse dinheiro, já teriam nos procurado!

— Penso que não. Podem estar nos pressionando para conseguirem um montante maior!

Embora Alberto também estivesse com medo, tentava acalmá-la.

— Estou a ponto de explodir. Precisamos fazer alguma coisa para nos proteger... Não sei... O que poderia ser?

Alberto meneou a cabeça:

— No momento, não seria aconselhável colocar alguém a par do assunto, pois trata-se de um caso grave. O melhor ainda é esperar. Nestor já deveria ter voltado. Não gosto de ficarmos parados aqui. Vou ver.

Alberto desceu do carro, viu que Nestor estava saindo de uma loja com alguns pacotes e fez-lhe sinal para que se apressasse.

Nesse momento, Alberto foi violentamente empurrado, caiu, ficou atordoado, mas ainda tentou reagir ao ouvir o ruído do carro partir em disparada. O automóvel movimentou-se com tanta rapidez que Alberto apenas conseguiu ver de relance o vulto de um homem ao volante, enquanto Nestor, pálido, se aproximava, depois de tentar, inutilmente, perseguir o carro.

Assustado, o motorista correu para ajudar Alberto, que não conseguia levantar-se.

— Meu Deus! Temos de pedir ajuda, ligar para a polícia. Sequestraram dona Magali! Meu Deus! Doutor Júlio vai nos matar.

Alberto, pálido, finalmente conseguira levantar-se, mas sentia uma dor muito forte na perna esquerda. Aflito, ordenou ao motorista:

— Ligue para o doutor Júlio e peça ajuda!

Um policial aproximou-se e quis saber o que havia acontecido. Algumas pessoas pararam ao presenciar a confusão e, enquanto Nestor tentava ligar para o patrão, Alberto relatava ao policial que eles haviam sido assaltados e que Magali havia sido sequestrada. Uma viatura surgiu e eles foram conduzidos à delegacia mais próxima.

Alberto estava com muito medo. Ele vira apenas um homem, mas Nestor informou que havia dois indivíduos no carro. Enquanto um deles empurrava Alberto, o outro entrou no carro e segurou Magali ameaçando-a com uma arma. O carro saiu com tal rapidez que Alberto não soube dar mais detalhes sobre o que vira acontecer. Nestor prestou atenção ao homem ao volante e o descreveu como um indivíduo baixo, atarracado, moreno, que vestia uma jaqueta marrom. Foi só o que ele conseguiu notar.

Lívido, Júlio chegou em seguida e tentou acalmar-se para entender o que estava acontecendo. Logo depois, seu advogado apareceu, e o grupo foi conduzido à delegacia do bairro. Já na sala do delegado, Alberto e Nestor começaram a contar o que sabiam.

Alberto era a própria figura do desalento. Enquanto a polícia imaginava tratar-se de um sequestro, que um pedido de resgate resolveria, ele sabia que o problema poderia ser muito mais grave. Magali cometera um crime e, se o motivo do sequestro fosse a vingança pela morte de Josué, certamente ela não sairia viva. Alberto torcia as mãos nervoso, tentando controlar o pavor que sentia. Contar a verdade a Júlio e ao delegado poderia ser pior. Revelar o crime, além de incriminá-la, o tornaria cúmplice.

Antes de o sequestro acontecer, Alberto havia pressentido que era perigoso permanecerem no carro à espera de Nestor. Magali estava nervosa, queria desabafar e afastara o motorista para poder conversar com o amigo. Se ela tivesse esperado chegarem em casa, nada daquilo teria acontecido.

Júlio aproximou-se e apresentou-se ao delegado, que o acomodou em uma cadeira para que acompanhasse o interrogatório do motorista e do ex-cunhado. Assustado, queria saber de todos os detalhes do que havia acontecido. Nunca confiara muito em Alberto e perguntava-se se ele estaria envolvido no sequestro

Mas havia tanto desespero, aflição e preocupação no semblante de Alberto por não ter conseguido proteger Magali e evitar que a amiga fosse sequestrada, que Júlio sentiu que estava enganado. Fora graças à amiga que ele havia melhorado de vida e não seria tolo de perder o que conquistara.

Júlio ligou para Gerson na esperança de que ele soubesse de algo ou tivesse presenciado o que aconteceu. O detetive fora contratado para proteger Magali e garantir que nada de mal lhe aconteceria. Júlio, no entanto, não conseguia falar com Gerson, pois seu telefone só dava ocupado, o que o deixou ainda mais preocupado. "Por que ele não impedira o sequestro de Magali?" E um pensamento o incomodou ainda mais: "Ele teria sido cúmplice?"

O delegado concluiu o interrogatório das testemunhas e pediu a Júlio que permanecesse na sala para fornecer-lhe todas as informações sobre Magali, inclusive uma foto. Imediatamente, o delegado deu ordem para que as informações fossem distribuídas aos policiais e que começassem as buscas.

Nervoso, Júlio aproximou-se novamente do delegado:

— Posso falar com o senhor em particular mais uma vez?

Ele assentiu, mandou os outros saírem, sentou-se diante de Júlio e encarou-o sério:

— Pode falar.

— Doutor, minha mulher é muito bonita, elegante, gosta de se cuidar. Sabe como é... Frequenta salões de beleza, adora fazer compras.

— Sei como é.

— Nós somos pessoas de sociedade. Magali gosta de joias, conforto, carro de luxo. Para protegê-la, contratei um detetive particular para que nada de mal lhe acontecesse. Pensei que fosse uma pessoa confiável, mas agora tenho algumas dúvidas sobre sua honestidade. Diante do que     aconteceu, tentei ligar para ele, mas o telefone só dava ocupado.         

— Preciso que me diga o nome do detetive e como o contratou. Alguém o indicou?   

— Um amigo para quem esse detetive já trabalhou recomendou-me seus serviços. Tenho um cartão dele no carro.          

O delegado ficou pensativo por alguns segundos e, por fim, respondeu:

- Há apenas duas possibilidades: se ele não estiver envolvido no sequestro, pode ter sido afastado do caminho. Tente de novo, ligue pra ele.  

Júlio obedeceu e tentou ligar novamente para Gerson:       

- Continua ocupado!        

- Dê-me o número, que vou mandar investigar. Eles podem tê-lo dominado, levado junto ou coisa pior. Precisamos de todos os dados desse detetive. O senhor redigiu algum documento ao contratá-lo?  

Júlio passou a mão nos cabelos, tentando afastar a preocupação.          

Não. Eu queria sigilo. Sempre o pagava em dinheiro. Como disse, tenho o cartão dele.        

- Vá buscá-lo.        

Júlio foi em direção ao carro e, quando voltou com o cartão, a porta da sala do delegado estava fechada e havia um policial em pé do lado de fora. Júlio aproximou-se do homem parado à porta:      

- Posso entrar? O doutor Fonseca está me esperando.       

- Ele está ocupado. Terá de esperar. Sente-se na sala ao lado.    

Apesar da ansiedade, Júlio obedeceu à ordem do policial. Alberto estava sentado na sala para a qual Júlio havia sido encaminhado e, ao ver o ex-cunhado entrar, levantou-se nervoso e perguntou:

— E então, descobriram alguma pista?

Júlio não respondeu logo, meneou a cabeça negativamente, e depois esclareceu:

— O delegado chamou o Nestor de novo. Está o interrogando agora.

— Ele já não tinha feito isso?

— Já. Tudo aconteceu muito rápido. Lembro-me apenas de ter sido empurrado pelas costas, então caí e não consegui ver nada. Mas Nestor viu os dois. Acho que, por isso, foi levado novamente à sala do delegado para ver algumas fotos e tentar reconhecer alguém.

— Vocês não deveriam ficar parados na rua. É perigoso — Júlio comentou.

— Eu saí do carro por sentir justamente isso. Não deveria ter deixado Nestor sair.

Um policial aproximou-se de Júlio:

— O senhor pode entrar agora.

O delegado estava falando ao telefone e fez-lhe um gesto para que se sentasse. Depois, ao concluir a ligação, sentou-se diante de Júlio:

— Eu acionei o antissequestro. Eles vão investigar o caso, trabalhar conosco. Achei melhor agir rapidamente. O senhor é uma pessoa de posses, e acredito que esse seja o motivo do crime.

— Doutor, Magali é uma pessoa delicada. Não posso imaginá-la nas mãos de bandidos! O que posso fazer para ajudar?

— Não comentar o assunto com ninguém e esperar. Logo eles vão procurá-lo para pedir dinheiro. Um policial especializado neste tipo de ação está vindo para cá a fim de orientá-lo.

Júlio estava pálido, sentia a cabeça pesada, o estômago enjoado, e tinha as mãos geladas e trêmulas.O fato de não poder fazer nada o deixava ainda mais nervoso. Esperar por notícias estava sendo difícil. Em sua imaginação, apareciam cenas em que Magali estava         sendo maltratada. Para onde a teriam levado?

Pouco depois, o policial especializado em ações antissequestro chegou e fechou-se na sala do delegado. Por quase uma hora, o policial conversou com Júlio e depois chamou Alberto e Nestor, para passar-lhes algumas orientações. Depois, finalizou:

Vocês agora precisam ir para casa e esperar. Se tiverem qualquer novidade, fale comigo ou com o doutor Fonseca.

Doutor Borges, eu preferia acompanhar o caso de perto e as providências a serem tomadas. Não vou aguentar ficar esperando por notícias em casa enquanto minha mulher pode estar sendo maltratada e em perigo!

— Sei que não é fácil, mas é o que precisa ser feito. Nossa equipe precisa saber onde encontrá-lo. Minha experiência nesses casos ensinou-me que, quanto mais calma a pessoa conseguir se manter, melhor será o resultado. Afinal, nós queremos que sua esposa saia bem dessa situação, e o senhor precisa contribuir para que isso aconteça.

Júlio suspirou tentando acalmar-se:

— Tem razão. Vou fazer um esforço para me acalmar.

Os três deixaram a delegacia e pararam diante do carro. Júlio, então, ordenou Nestor:

— Vamos pra casa. Você dirige.

Durante o trajeto, os três ficaram em silêncio. Quando Júlio entrou em casa, tinha os olhos úmidos, e Alberto, pálido e abatido, comentou:

— Meu Deus! O tempo vai custar a passar! Se ao menos eu soubesse rezar!

Júlio entrou, e Joice esperava-o:

— Ainda bem que o senhor chegou! Estava preocupada. Fiz o jantar, mas ninguém apareceu. Onde está dona Magali?

— Sente-se, Joice, temos que conversar.

Em poucas palavras, Júlio contou tudo o que havia acontecido, conforme as orientações que doutor Borges lhe passara. Joice empalideceu e tapou a boca para abafar um grito de susto. Depois disse:

— Imagino como o senhor deve estar se sentindo! Vou para meu quarto acender uma vela para o arcanjo Miguel. Ele vai defender dona Magali! Eu tenho fé!

Alberto interveio:

— Eu não sei rezar, mas quero ir com você!

— Está bem. Vamos. Depois vou esquentar o jantar para que possam comer. Vamos precisar de muita força para trazer dona Magali de volta pra casa.

Os dois foram para o quarto de Joice e pararam diante de uma cômoda. Uma imagem do arcanjo Miguel estava lá. Joice acendeu uma vela e ajoelhou-se, e Alberto acompanhou-a começando a rezar.

Sem pensar, Júlio foi até o quarto de Joice e começou a ouvir a prece enquanto lágrimas desciam pelos seus olhos e lavavam seu rosto.

Em toda sua vida, nunca sentira uma dor como aquela. Se acontecesse o pior, o que seria dele sem Magali? Sem pensar, ajoelhou-se atrás de Joice e Alberto. Não disse nada, mas em seu peito havia um pedido para que Deus trouxesse Magali de volta.

Quando Joice se levantou e viu Júlio ajoelhado, colocou a mão sobre o ombro do patrão e, comovida, disse:

— Temos que ter fé, doutor Júlio. Deus vai trazer dona Magali de volta!

Júlio levantou-se e, entregue à sua preocupação, nem sequer se importou de demonstrar fraqueza. A vida toda, ele sempre representara o papel do vitorioso, do homem capaz de resolver todos os problemas. Notando o alheamento do patrão, Joice resolveu tomar as rédeas da situação:

— Servirei o jantar em alguns minutos.

Alberto e Júlio olharam-na como se tivesse dito algo impossível. Ela continuou:

— Nós precisamos ser fortes, elevar nossas energias e temos que estar prontos para agir se for preciso. A aflição só nos atrapalha e não resolve o problema. Vão lavar o rosto, melhorar a aparência e relaxar um pouco, enquanto eu esquento o jantar.

Vendo que os dois pareciam não ter entendido sua mensagem, Joice insistiu:

— Vamos! Temos de estar prontos para o caso de dona Magali precisar de nós! Vamos!

Júlio e Alberto subiram para os quartos para descansar, e Joice foi para a cozinha esquentar o jantar. Pouco depois, ela chamou-os e insistiu para que comessem pelo menos um pouco.

Apesar da situação delicada, Júlio sentiu-se mais calmo depois de tomar um pouco de sopa e concordou com o que Joice dissera. A qualquer momento, poderiam ter notícias de Magali e ele precisaria estar pronto para auxiliá-la.

Alberto, entretanto, sentia-se muito pior. Ele temia que aquele sequestro pudesse ser muito mais do que a polícia imaginava. Havia momentos em que sentia vontade de abrir-se com Júlio ou com a polícia e contar tudo que sabia. Mas, e se estivesse enganado? E se fosse

mesmo um sequestro visando apenas dinheiro? Ele poria em risco o segredo de Magali, e a desgraça poderia ser muito maior.

Depois de servir o jantar e lavar a louça, Joice foi procurar Júlio na sala, onde ele segurava uma revista na tentativa de distrair-se, mas sem sucesso.

— Doutor Júlio, vou até o centro de dona Glória para falar com ela e pedir ajuda espiritual para dona Magali. Mas voltarei logo! Em meia hora estarei aqui.

Alberto levantou dizendo:

— Quero ir com você.

— Eu não vou ficar para o trabalho. Só vou conversar com ela e pedir ajuda.

— Mas eu quero ir. Está na hora de eu aprender a rezar — Alberto insistiu.

— Seria melhor ficar. Doutor Júlio pode precisar de você. Amanhã, se quiser e se tudo estiver bem o levarei lá para que possa receber ajuda.

— Eu quero ir agora. Estou com muito medo do que possa acontecer a Magali!

Júlio encarou-o por alguns segundos e depois disse:

— Pode ir, Alberto. Se eu tiver alguma notícia ou precisar de ajuda, falarei com Nestor.

Alberto e Joice saíram em direção ao ponto de ônibus, que ficava a dois quarteirões da casa. Durante o trajeto, a certa altura, Joice fixou-o e disse:

— O que está passando pela sua cabeça para deixá-lo mais aflito do que o doutor Júlio?

— É que eu temo pela vida de Magali. A esta altura, esses bandidos podem estar acabando com ela.

— Se eles querem dinheiro, precisam mantê-la viva. Tenho a impressão de que você sabe mais do que o doutor Júlio sobre o sequestro de dona Magali. Se sabe de algo, precisa falar com a polícia.

— Você está enganada. Eu sei o mesmo que você, Joice. Nestor conseguiu ver os homens que nos assaltaram, e nem isso eu vi.

Joice não respondeu, e eles caminharam por dois quarteirões até pararem diante de um grandioso sobrado antigo, bem no momento em que um grupo de pessoas saía para a rua.

— Está acabando a sessão — esclareceu Joice.

Alberto e Joice entraram no sobrado depois que todos saíram. Joice dirigiu-se a uma sala e bateu levemente em uma porta. Uma senhora de meia-idade apareceu e, vendo-a, sorriu:

— Você chegou tarde!

— Aconteceu um imprevisto. Este é o doutor Alberto. Ele mora na casa de dona Magali, que foi sequestrada esta tarde. Doutor Alberto estava com ela quando aconteceu o sequestro e está muito nervoso. Vim pedir ajuda espiritual.

Glória pediu que entrassem e indicou duas cadeiras posicionadas diante de uma mesa. Depois, sentou-se diante de Alberto e Joice e disse séria:

— Na semana passada, eu lhe pedi que desse um recado à dona Magali.

— A senhora pediu que, durante esta semana, ela evitasse ir aos mesmos lugares de sempre. Eu dei seu recado, mas ela disse que estava bem protegida.

Glória encarou Alberto e pediu:

— Conte o que aconteceu.

Ele obedeceu e disse:

— Eu quis vir aqui porque estou muito nervoso. A polícia diz que provavelmente o sequestro foi motivado por dinheiro, mas eu temo que seja algo pior.

Glória ficou calada por alguns segundos e depois disse séria:

— Vamos pedir ajuda aos nossos amigos espirituais. Às vezes, as pessoas ficam no mal e, por não serem vistas, acreditam que poderão sair ilesas. Mas a vida tudo sabe, vê e responde de acordo com as escolhas de cada um.

— Eu estou com muito medo do que pode estar acontecendo com Magali agora. Vim até aqui porque quero pedir à senhora que me ensine a rezar. Magali é uma pessoa muito boa, e não quero que nada de mal lhe aconteça.

— A única oração que funciona é a que sai de dentro do coração. É o amor que vence todos os males. Se deseja ajudá-la, converse com Deus, deixe seu coração dizer o que sente, e estou certa de que Ele o ouvirá. Mas saiba que ninguém está livre de viver o que precisa para aprender a lição e tornar-se uma pessoa melhor.

Voltando-se para Joice, Glória pediu que a moça escrevesse o nome de todas as pessoas da casa e o endereço onde moravam. Ela ia pedir aos benfeitores espirituais que os auxiliassem.

Alberto e Joice despediram-se de Glória e saíram. Durante o trajeto de volta, viajaram em silêncio. Joice sentia que o caso de Magali não ia ser resolvido com a facilidade como a polícia acreditava.

Nas entrelinhas da fala de Glória, foi possível sentir que aquele caso não seria tão fácil de ser resolvido, e isso era exatamente o que Alberto temia. Assustado, resolveu fazer o que ela lhe aconselhara. Era o momento de mudar e tentar fazer alguma coisa para que Deus perdoasse seus erros e os de Magali.

Perto deles, um vulto escuro sorria e dizia maldoso: — É a hora da vingança! E ninguém vai conseguir me impedir. Ela vai pagar caro pelo que me fez!

Alberto e Joice entraram em casa e encontraram Júlio parado, sentado na sala, do mesmo jeito que o deixaram quando saíram.

— E então, alguma novidade? — indagou Alberto.

— Nada!

Joice tentou aliviar a tensão:

— É cedo ainda. Nesses casos, eles demoram às vezes para ligar, porque querem deixar as pessoas nervosas para que possam pedir mais dinheiro. Eles vão ligar. Vamos esperar.

Júlio passou a mão nos cabelos, respirou fundo e não respondeu. Joice, então, falou:

— Vou para meu quarto, mas estarei atenta ao telefone. Podem ir descansar.

— Vou ficar aqui, esperando. Não vou conseguir dormir.

— Vou fazer um chá. Todos precisamos nos acalmar.

Joice saiu, Júlio continuou no sofá, e Alberto sentou-se em uma poltrona diante do ex-cunhado. Depois, fechou os olhos e, lembrando-se das palavras de Glória, tentou fazer o que ela dissera.

Desejava muito que Magali voltasse pra casa sã e salva. Gostava dela e não queria que nada de mal lhe acontecesse. Mas se Magali não voltasse, ele também estaria na rua. Por isso, Alberto pediu fervorosamente que Deus a trouxesse de volta.

 

No momento em que Alberto desceu do carro, foi empurrado e caiu. No mesmo instante, um homem, empunhando um revólver, entrou no automóvel pela porta traseira e tapou a boca de Magali, dizendo nervoso:

— Quieta! Se gritar eu atiro!

Mesmo apavorada, Magali ainda conseguiu encará­-lo. Logo em seguida, o comparsa do indivíduo que a man­tinha sob a mira do revólver conseguiu entrar rapidamente no automóvel e assumir a direção do carro, que saiu em disparada. Tentando escapar do sequestro, Magali, pálida, coração batendo forte, agarrou-se ao trinco da porta com a intenção de saltar do automóvel, mas o homem conseguiu empurrá-la e, colocando a mão direita em sua garganta, disse com raiva:

— Cale essa boca senão acabo com você aqui mesmo! Vontade para fazer isso não me falta. É hora de pagar por tudo que fez!

   Tirando uma corda que trazia em uma bolsa de lona a tiracolo, um dos homens amarrou-a enquanto o carro corria, afastando-se cada vez mais da cidade. Magali notou que eles haviam pegado uma estrada e tremia de medo e de raiva, tentando imaginar o que fariam com ela.

Vendo-a amarrada, um dos homens acomodou-se, sempre com a arma apontada para o peito de Magali, que, apesar de apavorada, pensava em um jeito de escapar.

Havia escurecido, e, apesar do medo que sentia, Magali observava um dos homens que a sequestrara. No primeiro momento, pareceu-lhe ser Josué, mas ele estava morto e enterrado. Ela tinha certeza disso.

Mas, o homem tinha uma semelhança com seu ex-marido. Era mais alto que Josué, porém os cabelos, o corpo atarracado e o timbre de voz deixaram-na confusa e mais aflita.

Magali, então, começou questionava-se intimamente: "E se ele havia conseguido escapar da morte e estava ali para vingar-se dela?" Ao mesmo tempo, aquela possibili­dade não era possível. Ela investigara e tinha certeza de que Josué estava morto. Não podia ser ele.

Ainda refletindo sobre a situação, começou a con­siderar que podia estar enganada e que tudo aquilo não se tratava de vingança, mas sim de um sequestro. Se aquela hipótese fosse verdadeira, eles pediriam dinheiro a Júlio, e certamente seu marido faria tudo para salvá-la.

Viajaram por mais de uma hora em silêncio e, por fim, enveredaram-se por uma estrada vicinal, que os conduziu a uma clareira. O carro, então, parou diante de uma casa velha. Estava escuro, e o motorista desceu, abriu a porta de trás, e seu comparsa empurrou Magali para fora.

Cambaleando, ela tentou ficar em pé, então os dois a seguraram e arrastaram-na para dentro da casa. O lugar cheirava a mofo e, como tudo estava escuro, os três tropeçaram em algumas cadeiras.

Um deles acendeu uma lanterna, empurrou Magali para um sofá, e uma nuvem de pó envolveu-os. Ela começou a tossir aflita.

— Acenda a lanterna — gritou o que a havia amarrado.

Magali encolheu-se de nojo e de medo, e um dos sequestradores apressou-se a obedecer a ordem do comparsa. Apesar de estar escuro, Magali conseguiu notar que ele era um pouco mais novo do que o outro.

— Levante-se! Ande!

Com uma arma apontada para sua cabeça, restou a Magali obedecer a ordem. Ele, então, empurrou-a para outro cômodo, onde havia uma cama e uma cadeira. Magali sentou-se na cama e, vendo que ele ia se afastar, reuniu coragem para perguntar:

— O que vocês querem de mim? Por que me trouxeram para cá?

O homem fixou-a com raiva e não respondeu. Ela insistiu:

— Se querem dinheiro, não precisavam ter me trazido para cá. Ligue para meu marido, faça o preço, que estou certa de que ele pagará. Não precisam me maltratar.

— Cale a boca senão acabo com você agora mesmo. E saiba que estou com vontade de fazer isso logo! Mas o que eu quero de verdade é vê-la pagar por tudo que fez. Você vai passar por todo sofrimento que Josué passou, por todo o tormento de sua maldade. Vai morrer aos poucos como ele!

Magali tremia e precisou fazer muita força para não desmaiar. Mas o medo e a vontade de viver fizeram-na reagir. Respirando fundo e tentando recuperar o controle, ela perguntou:

— Quem é você?

— Você vai saber no momento certo. Agora cale a boca! Se gritar ninguém vai ouvi-la.    Estamos no meio do mato e por aqui não passa ninguém. Você está em nossas mãos.

Eles saíram, fecharam a porta, e o quarto ficou às escuras. Magali não conseguia ver nada. Apavorada, continuava a tremer de medo e de revolta.

Magali não soube quanto tempo ficou ali, sentada, com medo. Sentia frio, fome, e não sabia o que fazer. Tinha pavor de que eles voltassem. A situação era desesperadora.

Foi então que ela ouviu um sussurro. Prestou atenção e ouviu uma voz dizendo baixinho:

— Magali! Magali!

Apurou os ouvidos e novamente alguém a estava chamando:

— Magali, Magali, cuidado, fale baixo, eles podem ouvi-la.

O coração de Magali disparou e ela respondeu:

— Quem é? Tem alguém aí?

— Sim. Cuidado. Não deixe que nos ouçam.

— Quem é você?

— Eles me prenderam também. Estou no cômodo ao lado. São perigosos. Todo cuidado é pouco.

— Estou amarrada. Não posso me mexer.

— Calma. Eles me doparam e pensam que ainda estou desacordado. Se eu não falar nada, é porque eles estão por perto. Não queira falar comigo. Eu a procuro quando puder.

A voz calou-se e Magali sentiu-se um pouco mais calma. Havia alguém tentando auxiliá-la e ela voltou a ter esperanças de escapar dali.

O homem que a prendera poderia ser algum parente de Josué querendo vingar sua morte, pois tinha semelhanças físicas com seu ex-marido.

Naquele momento, arrependeu-se amargamente de ter dado fim a Josué daquele jeito, de ter cometido aquele crime. O ex-marido de Magali era vingativo, muito orgulhoso, líder de sua família. Ela não os conhecia, pois moravam distante, mas ele contava que todos o obedeciam e admiravam. O homem que a prendera era-lhe desconhecido, mas era inegável a sua semelhança com Josué.

Magali nunca prestava atenção ao ex-marido quando ele mencionava a família. Não suportava sua presença, sua brutalidade, e só pensava em fugir, em libertar-se daquele homem.

 

Era Gerson que estava preso no quarto ao lado. Naquela manhã, ao chegar para trabalhar no prédio onde tinha um escritório, dois homens aproximaram-se e abordaram-no em seu carro. Um deles entrou no banco da frente e encostou uma arma acima da cintura de Gerson, enquanto o outro entrava no automóvel pela porta de trás.

— Ligue o carro! Vamos sair daqui agora!

Os homens eram-lhe desconhecidos, mas o cano da arma encostado ao seu corpo não deixava dúvidas de que Gerson deveria obedecê-los.

Um dos homens ia indicando o caminho a Gerson, e, em meia hora, ganharam estrada rumo ao interior. A certa altura, pegaram uma estrada de terra, e o mesmo homem mandou que Gerson parasse o carro depois de alguns metros.

Gerson desligou o carro e disse sério:

— Por que estão fazendo isso comigo? Não os conheço. O que querem de mim? O carro?

— Cale a boca! Você pensa que é muito esperto e   gosta de se meter na vida alheia, mas agora chega! Antes que Gerson pudesse responder, o homem ordenou ao companheiro:

— Vamos, faça o que combinamos!

O comparsa tirou uma corda da bolsa de lona que levava a tiracolo e amarrou Gerson, que tentava conservar a calma. Sabia que estava a mercê daqueles dois homens e que, naquele local deserto, poderiam dar cabo dele sem que ninguém visse.

Gerson era um homem de fé e devoto de São Jorge. Por essa razão, intimamente começou a rezar e pedir a ajuda do santo. Nesse momento, um dos sequestradores tapou seu nariz.    Quando Gerson abriu a boca para tentar respirar, um líquido foi derramado nela. Ele, então, sentiu tontura e pouco depois perdeu a consciência.

Quando acordou, tudo estava escuro ao seu redor. Enjoado e tonto, sentou-se na cama tentando levantar-se, mas precisou esperar um pouco. Quando conseguiu, por fim, ficar de pé, tentou descobrir onde estava. Era um quarto de madeira, onde havia apenas uma janela e que estava fechada e pregada. Gerson tentou abri-la, mas não obteve sucesso. A casa era velha e pelas frestas percebeu que já era noite. Tateando as paredes, circulou pelo quarto. Foi então que ele ouviu o ruído de um carro.

Os sequestradores estavam voltando. Atento, Gerson notou que eles haviam trazido mais uma pessoa. Encostando o ouvido em uma fresta, ele pôde ouvir a voz de Magali:

— O que vocês querem de mim? Por que me trouxeram para cá?

Então era isso! Eles a haviam sequestrado e prenderam-no ali para que não tentasse impedi-los.Ainda encostado à parede, Gerson pôde ouvir o resto da conversa, que o deixou ainda mais preocupado. O motivo do sequestro não era dinheiro, mas uma vingança.

Sentiu as pernas bambearem e decidiu sentar-se na cama para respirar melhor e tentar acalmar-se. Depois, ajoelhou-se, chamou por seu anjo da guarda e, com toda força de sua fé, pediu ajuda. De olhos fechados, Gerson viu uma luz muito branca aparecer e ouviu uma voz dizer:

— Tenha fé e coragem. Continue rezando. Não fale com eles. Vamos ver o que dá para fazer.

Quando ouviu os dois homens afastarem-se, falou com Magali. Precisava ganhar tempo, sentir-se mais forte e pensar no que fazer. Eles haviam tirado todas suas coisas e seus bolsos estavam vazios.

Depois de um tempo, Gerson ouviu o barulho do carro novamente e deitou-se fingindo dormir. Eles abriram a porta do quarto e entraram. Um deles aproximou-se, colocou a mão na testa de Gerson, e depois encostou a cabeça em seu peito. Gerson esforçava-se para segurar a respiração. Um dos sequestradores então comentou:

— Ele ainda está dormindo.

— Já deveria ter acordado — disse o outro.

— Você deu-lhe uma dose muito forte. Tem certeza de que ele está só dormindo?

— Tenho! Não podemos precipitar as coisas. Sei o que estou fazendo. Deixe o pão sobre a mesa e a garrafa de água.

Os dois caminharam pelo quarto e saíram logo depois. Gerson esperou um pouco, abriu os olhos, levantou-se e colou o ouvido na parede. Eles tinham entrado no quarto de Magali, e Gerson pôde ouvir quando um deles disse:

— Você acabou com Josué. Chegou a hora de pagar pelo que fez!

— Vocês pensam que são muito espertos, mas estão fazendo papel de bobos. Se pretendem me matar, saibam que acabarão seus dias numa prisão. Meu marido é poderoso e vocês não vão escapar dele.

O mais velho aproximou-se e desferiu um tapa no rosto de Magali dizendo irritado:

— Cale a boca, sua vadia!

Sentindo o rosto arder, uma onda de raiva invadiu Magali, que soltou uma gargalhada e gritou:

— Vocês são muito burros! Pensam que Josué gostava da família? Ele caçoava de todos vocês e fazia piadas principalmente de José! Ele queria ver todos longe, não se importava com a miséria de vocês.

O outro não se conteve e gritou para o companheiro:

— Ele deixou você tomando conta da família e falava isso?

Magali interveio:

— Ele dizia isso e muito mais. Que eram todos muito burros e viviam roubando os outros.

— Não acredito nisso. Ele sempre me respeitou.

— Como você é ingênuo!

Os dois ficaram silenciosos durante alguns segundos, e depois o mais velho disse:

— Eu não acredito. Ele sempre confiou em mim.

— O que ele quis foi ficar livre de vocês. Para ele, a família era um estorvo.

— Você está mentindo! Estou esperando José chegar para dar cabo de você. Vamos saborear a nossa vingança!

— O que vocês vão ganhar com isso? Vão morar na cadeia! Meu marido é muito rico, tem muito dinheiro e me ama! Ele pagaria qualquer importância que vocês pedissem. Se preferem morar na cadeia pelo resto da vida, façam o que planejaram. Mas saibam que eu valho uma fortuna, que lhes daria muitas coisas boas pelo resto da vida. Vocês gostam da miséria, por isso não merecem ter uma vida melhor.

— Sei o que estou fazendo. E cale a boca senão acabo apressando o seu fim!

Os dois deixaram um pacote sobre a mesa e saíram.

Magali sentou-se desesperada. Ficara acordada a noite toda pensando no que faria para escapar. Eles eram broncos, e ela achou que deveria tentar usar a mesma linguagem deles para ser compreendida.

Era dia lá fora e o quarto estava mais claro. Magali pegou o pacote: era um pão amanhecido e uma garrafa de água. Ela comeu e bebeu a água para recuperar as forças.

Depois, sentou-se pensando em dar continuidade ao seu plano. Seria verdade que eles estavam esperando o resto da família ou teriam dito aquilo apenas para assustá-la?

Passou-se algum tempo, Gerson ouviu o barulho do carro afastando-se e foi conversar de novo com Magali. Ele descobrira um buraco pequeno, que ficava ao lado de sua cama, e conseguiu aumentá-lo um pouco. Gerson então colocou um castiçal velho na mesa de cabeceira, que, apesar de bambear, aguentou o peso do objeto, permitindo que o buraco fosse coberto.

— Magali! Magali! Podemos falar agora.

— Quem é você? Por que o prenderam comigo?

— Sou Gerson, o detetive que seu marido contratou para protegê-la. Me pegaram primeiro. Estava ouvindo a conversa de vocês! Além de corajosa, você é inteligente!  Propôs um ótimo e rendoso negócio.

— Acha que tem chance de eles aceitarem minha proposta?

— Só terão vantagens.

— Estou cansada, nervosa e com fome. Há mo­mentos em que chego a desejar que eles acabem logo com tudo.

— Coragem! A esta altura eles devem estar pen­sando em suas palavras. O dinheiro é sedutor e tem força, principalmente para quem não o tem. Vamos esperar. Eu estava tonto, mas já estou me recuperando. Vou fazer tudo para podermos escapar. São Jorge é meu prote­tor e vai nos ajudar. Assim que tiver alguma ideia, eu chamo você.

Gerson começou a examinar as paredes. Tentava enxergar o telhado, mas havia um forro de madeira cobrindo-o, além de ser alto a ponto do detetive não conseguir alcançá-lo. Não havia cadeira no local, só uma mesa tosca, pequena e velha, que certamente não aguentaria o peso do seu corpo, e um sofá de dois lugares, cujo forro, sujo e rasgado, mostrava algumas molas e poeira.

Se ao menos ele pudesse despregar a janela... Mas estava muito bem presa e ele não tinha como tirar a madeira que a vedava. A situação era frustrante, mas, ainda assim, Gerson continuava firme e confiante na ajuda de São Jorge.

Gerson deitou-se, fechou os olhos e começou a rezar, pedindo inspiração ao santo. Ao poucos, foi relaxando até conseguir adormecer. Quando acordou, sentou-se na cama ainda meio sonolento e ouviu uma voz dizer:

— Toda situação tem solução. Procure que você vai achar!

Ele ficou em pé, sacudiu a cabeça querendo sair do torpor, sentou-se novamente na cama e repetiu várias vezes a frase que ouvira, tentando observar a situação por vários lados na busca de um significado para aquelas palavras. Sentia que precisava achá-lo.

Estava indisposto, sujo, faminto e o cheiro do mofo o incomodava. Pegou um pouco da água da garrafa e passou no rosto. Respirou fundo e tentou acalmar-se e recuperar o equilíbrio.

"Magali foi esperta e corajosa despertando a am­bição deles", pensou. "Eu preciso entrar no jogo dela. É o que posso fazer."

Estava escurecendo quando os dois homens voltaram e abriram a porta do quarto de Gerson, que se sentou na cama e fixou-os sério. Um deles aproximou­-se do detetive enquanto o outro colocava um pacote sobre a mesa.

— Finalmente acordou.

— Ainda estou atordoado. O que foi que me deram?

— É melhor se comportar senão vai dormir de novo e, desta vez, pode não acordar mais...

— O que vocês querem comigo? Não tenho nada a ver com a história dessa mulher! Só queria me arranjar na vida. Estava preparando minha aposentadoria, mas vocês chegaram primeiro e me prenderam aqui.

— Eu não disse que ele era golpista? — tornou o outro.

O homem voltou-se para o companheiro dizendo:

— Não se meta na conversa. Você está aqui para fazer o que eu mando. Só isso.

Voltando-se para Gerson, continuou:

— Não invente moda. Você estava protegendo ela e nos deu muito trabalho!

— Eu estava sendo muito bem pago pelo marido dela, mas o que eu queria mesmo era dar o golpe no Júlio. Eu sou ambicioso. Quero ir para a Europa, viver no Primeiro Mundo com luxo e conforto. Ele adora essa mulher e vai pagar o que eu pedir para tê-la de volta. Eu tinha planejado tudo, até passaporte tirei! Estava pronto para receber o dinheiro e sair do país.

— Eu nunca confiei nesses detetives que vivem à custa dos problemas dos outros. Você é muito cara de pau!

— Olhando pra vocês vejo como são pobres. Suas roupas são velhas, não conseguem nem conversar direito.

— Não sei como estou escutando tantos insultos! Cale essa boca, se não quiser que o ponha para dormir com um soco.

— Eu não quis ofendê-los, mas não consigo entender a forma de pensar de vocês. Querem se vingar dela, mas é um plano muito perigoso. O homem é poderoso e vocês serão presos e vão acabar seus dias na cadeia. Eu me vingaria de uma forma muito mais inteligente: pediria uma boa bolada, iria viver em outro país e gozar a vida. Mulheres, luxo, vida boa.

O que parecia ser o mais velho pensou um pouco, depois comentou:

— Seu plano não vai dar certo, é perigoso! Você teria que fazer contato com o marido e, pelo que sei, ele já pôs toda a polícia em ação. Quando chegar a pessoa que esperamos, acabamos com vocês e iremos embora sem deixar pistas. Será fácil.

— Mas continuarão na pobreza, na mesma vida de sempre. Não vale a pena se arriscar por tão pouco. Depois, quem lhe garante que a polícia não encontrou nenhuma pista?

José não respondeu, virou as costas e ia sair quando Gerson disse:

— Estou com muita fome.

— No pacote há um pão com mortadela.

Eles saíram e Gerson abriu o pacote. Desta vez, o pão era fresco e, enquanto comia o sanduíche, pensou: "Teria tempo para fazê-los mudar de ideia? Se as pessoas por quem esperavam chegassem, eles certamente cumpririam o que haviam prometido fazer".

Do jeito que as coisas estavam, só restava a Gerson rezar e pedir a ajuda de São Jorge.

 

A campainha da casa de Eugênia tocou, e Odete foi abrir a porta.

— Doutor Rogério! Chegou cedo! Entre por favor. — Avise minha tia e dona Eugênia que tenho novi­dades — Rogério respondeu.

Ela conduziu-o até a sala de estar:

— Sente-se. Vou avisá-las.

Rogério acomodou-se no sofá e esperou. Rosa estava na cozinha e surgiu para abraçá-lo.

— Eugênia já se levantou, mas ainda não desceu. Você por aqui tão cedo! Aconteceu alguma coisa?

Ele não teve tempo de responder, pois Eugênia chegou em seguida. Depois de abraçá-lo, sentou-se ao lado de Rogério.

— Desculpe vir tão cedo e sem avisar. Soube de uma coisa que pode interessá-la e não quis esperar para contar-lhe.

— O que foi? Aconteceu alguma coisa ao menino do orfanato?

— Não. Tem a ver com seu ex-marido. Encontrei­-me com um colega, amigo de longa data, sabe da nossa amizade, e ele me contou que o doutor Júlio está passando por uma situação muito complicada. Ele é especializado em casos de chantagens e se relaciona com a polícia especializada em sequestros.

"O caso ainda está sob sigilo absoluto, mas ele me adiantou o assunto. A mulher que vive com Júlio estava em um carro parado na rua com Alberto, seu irmão, e aguardava o motorista retornar para partirem. O motorista havia saído do carro para pegar uma encomenda, e, quando Alberto desceu do automóvel para apressar o rapaz, acabou sendo empurrado, caiu e o carro saiu levando embora apenas a mulher."

"O motorista, que estava se aproximando naquele momento, disse que havia visto dois homens partirem no carro. Ele ainda tentou correr atrás do automóvel, mas estava escurecendo e tudo aconteceu muito rápido. O delegado acredita que os homens que levaram a moça querem dinheiro e pediu a ajuda do grupo antissequestro."

Ele fez uma ligeira pausa e Eugênia perguntou:

— Já tiveram alguma notícia?

— Por enquanto não. Alberto está muito nervoso e com medo. O delegado mandou Júlio levar uma vida normal e manter seus horários, para facilitar o contato. Ele passou mal e está sob cuidados médicos. Maurício me contou o caso por saber que Alberto é seu irmão.

Rogério deteve-se por alguns segundos e continuou:

— Ele é muito perspicaz e disse que estranhou a atitude do Alberto, que, em particular, lhe confidenciou que não está aceitando a tese de sequestro e que a moça tenha sido levada por motivo de dinheiro. Ele teme pela vida dela e quer que a polícia aja com mais rapidez.

Eugênia pensou um pouco e depois comentou:

— Você me disse que ela protege Alberto e convenceu Júlio a hospedá-lo em sua casa, dar-lhe um emprego e um bom salário. Eu o conheço bem. Ele deve estar com medo de perder o lugar que conquistou. Se soubesse de algo que pudesse ajudá-la, por certo contaria.

— A não ser que fosse algo inconfessável. — Como assim?

— Alguma coisa que a polícia não vai gostar de descobrir. A história dessa moça é um tanto obscura e sua origem não é clara. O que sei é que ela trabalhou como dama de companhia de uma moça rica, a acom­panhou em viagens ao exterior, estudou com essa jovem, e voltou educada socialmente. Jovem e bonita, ela acabou conquistando Júlio.

Eugênia não respondeu e apenas baixou a cabeça pensativa.

Rosa comentou:

— Se ela de fato tem do que se arrepender, talvez não consiga se livrar dessa situação.

— Eu gostaria que essa história acabasse bem. Apesar de tudo que Júlio fez, sinto que cada um tem o direito de escolher como deseja viver. Só sinto que ele não tenha encarado a verdade... As coisas não deveriam ter acontecido daquele jeito. Eu sofri pela traição, pela fraqueza de Júlio, ao ter fugido às escondidas, mas respeito a liberdade de escolha dele.

Eugênia ficou pensativa durante alguns segundos, depois continuou:

— Se isso não tivesse acontecido, eu não teria conhecido a espiritualidade nem conquistado a amizade de vocês, que me ajudaram a encontrar a alegria e a paz. Hoje, sou outra pessoa, tenho mais entusiasmo, sinto prazer em viver. Eu não gostaria de voltar no tempo e ser aquela mulher de alguns anos atrás.

Rosa abraçou-a com carinho dizendo:

— Nossa amizade remonta a outras vidas. Senti isso desde que a vi naquele hospital.

Odete aproximou-se:

— Eu preparei um café da manhã gostoso e fiz aquele bolo de chocolate que o doutor Rogério gosta. Já está na mesa. Venham!

— Esse bolo de chocolate merecia um prêmio! É o melhor que eu já provei — Rogério respondeu animado.

Ao sentaram-se na copa, iniciaram uma conversa animada e trocaram ideias sobre vários assuntos. Quando voltaram à sala, Rosa foi ter com Odete na copa.

Eugênia sentou-se no sofá e Rogério posicionou­-se ao lado dela. Os olhos dos dois encontraram-se e ele comentou:

— Eu gosto tanto de vir aqui que não aguentei esperar. Tirei vocês da cama! Está na hora de ir embora.

— Já? Se não fosse pedir muito, eu gostaria que ficasse um pouco mais para falarmos sobre o Beto. Quando ele me olha, às vezes com raiva ou descaso, sinto que há nele um sentimento muito forte de dor e de tristeza que não sei explicar.

Rogério fixou-a:

— Você deve estar sentindo o que ele sente. Eugênia meneou a cabeça e comentou:

— Se ele estiver sentindo toda essa dor, o que po­deremos fazer para aliviá-lo? Tenho vontade de abraçá-lo e fazê-lo esquecer-se dessa tristeza. Mas ele se esquiva, não aceita carinho.

— O amor sempre pode mais do que a dor. Não desista dele. Faça o que seu coração pede. Comece, mesmo à distância, ensaiar uma aproximação. Ele é arisco. Nós não sabemos por quais experiências ele pas­sou nem o tamanho da sua tragédia. Mas isso é passado e nós temos o presente, que é o momento em que as coisas boas são programadas. Ao pensar no Beto, tente enviar-lhe energias boas, ao sentir que ele precisa delas. Persista. Esse é o caminho. Aos poucos, ele acabará por deixar o passado ir embora e renovará seus sentimentos. Afinal, é uma criança carente de apoio e de amor.

Os olhos de Eugênia brilharam e ela pousou sua mão no braço de Rogério:

— Você tem o dom de tocar minha alma! Conversar com você sempre me eleva. Eu já propus assumirmos o orfanato e morarmos os três juntos, mas você se recusou. Acho que não sente o mesmo que eu.

— Talvez eu tenha recusado a proposta por não saber me controlar.

Ela franziu o cenho:

— O que quer dizer com isso?

— Quando estou perto de você, perco o controle. Sinto vontade de abraçá-la, mas não quero perder sua amizade.

Eugênia apertou a mão de Rogério com força e ele não resistiu. Abraçou-a com carinho e beijou-a nos lábios diversas vezes.

Ela, por sua vez, correspondeu ao beijo de Rogério, e ambos esqueceram-se do mundo. Rosa, que estava voltando para sala, ao vê-los, saiu sem fazer barulho e retornou à cozinha emocionada e com o rosto corado.

— O que foi? Os dois estão em ponto de bala. Afinal, conseguiram se entender?

— Estavam na sala aos beijos.

— Até que enfim! Pensei que ele nunca fosse ter coragem para se declarar.

— Vamos dar um tempo. Eles precisam conversar.

Na sala, abraçados, Rogério e Eugênia sentiam o coração bater descompassado e continuavam a beijar-se, esquecidos de tudo. Quando se acalmaram, ele disse comovido:

— Desculpe, perdi o controle. O que sinto por você é muito forte. Você despertou em mim um sentimento que eu nunca havia experimentado.

Eugênia fixou-o emocionada:

— Eu havia decidido que isso nunca mais acon­teceria. Não esperava voltar a amar como se fosse a primeira vez... Com essa intensidade, que toca a alma e ao mesmo tempo me assusta.

Rogério abraçou-a com carinho dizendo comovido:

— Nós vivemos experiências dolorosas, que ainda estão vivas em nossas lembranças, como dizer que é melhor não nos envolvermos de novo. Mas as pessoas não são iguais. Há algum tempo percebi que a amava e prometi a mim mesmo que você nunca saberia disso. Mas hoje, descobri que você também gosta de mim e estou alegre como nunca estive! Quero passar o resto de minha vida com você, Eugênia.

Ela, olhos brilhantes de emoção, não conseguiu responder às confissões de Rogério e apenas juntou seus lábios aos dele repetidas vezes.

Depois de se beijarem, ele disse sério:

— Quer se casar comigo?

— Casados ou não, o que quero é ficar com você. Quando estamos juntos, me sinto segura, confiante. Adoro conversar sobre todos os assuntos com você, pois sempre me traz paz e bem-estar. Você tem uma sabedoria que me encanta e faz com que a cada dia eu queria me tornar uma pessoa melhor.

Rogério beijou-a com carinho na testa dizendo: — Vamos dar a notícia a Rosa.

— Será que ela vai aprovar?

Ele levantou-se, puxou-a para perto de si e foram até a copa, onde Rosa e Odete esperavam o novo casal ansiosas. Vendo-os chegar emocionados, rosto corado e de mãos dadas, Rosa correu para abraçá-los com carinho e, antes que pudessem falar, ela disse:

— Até que enfim! Eu não aguentava mais esperar pelo dia em que vocês iriam se entender!

Os dois entreolharam-se admirados:

— Eu pensei que tivesse disfarçado muito bem! —comentou Rogério.

— Nós duas descobrimos que vocês foram feitos um para o outro. Nunca vi tanta afinidade! — Odete comentou animada.

Eugênia olhou-a admirada:

— Até você, Odete?

— Seus olhos brilhavam quando o doutor Rogério chegava. Depois, as longas conversas, o entendimento... Era lindo vê-los juntos.

— Eu pedi Eugênia em casamento e ela aceitou! — Rogério comemorava.

Os olhos de Rosa brilhavam quando disse:

— Que bom! Vamos abrir um vinho para comemorar!

Odete foi buscar o vinho, enquanto os três foram sentar-se na sala para conversar sobre o futuro.

Rogério queria casar-se assim que os documentos ficassem prontos. Quando ele disse que o contrato nupcial seria com separação de bens, Eugênia protestou:

— Isso não. Vamos dividir tudo.

Rogério meneou a cabeça e respondeu:

— Não. O que você tem é uma herança de família, é seu. Eu tenho algumas economias e gostaria de comprar uma bela casa e decorá-la com gosto. Lá, construiremos nossa felicidade sem nada que nos lembre o passado.

— Esta é a casa de minha família. Cresci aqui, passei bons tempos nesta casa, sofri algumas perdas, fiquei só... Mas, concordo com você. Vamos construir uma vida nova, só nossa, cheia de amor e de paz.

Os olhos de Rosa estavam úmidos quando disse:

— Eu sinto que serão muito felizes!

Eugênia abraçou-a dizendo:

— Você irá conosco. Não abriremos mão de sua companhia.

Rosa abaixou a cabeça e não respondeu. Rogério fixou-a:

— Você faz parte de nossa vida! Estaremos sempre juntos.

Rosa suspirou, pensou um pouco, e disse:

— Eu também quero ficar sempre com vocês, mas estou vivendo um dilema.

Os dois olharam-na admirados e ela continuou: — Robson me pediu em casamento, mas eu recusei. Os dois entreolharam-se e Eugênia comentou:

— Você não gosta dele?

— Gosto, gosto muito. É a primeira vez que me interesso por alguém de verdade. Mas ele mora em outro país e eu não quero ficar longe de vocês. Adoro as crianças do orfanato e não pretendo me afastar delas.

Rogério abraçou-a com carinho:

— Pense melhor, tia. Avalie bem a situação para não se arrepender depois. Ele me parece uma boa pessoa.

— Ele é. Gosto de sua forma prática de pensar. É um homem generoso, honesto, dedicado e sempre me deixa de bem com a vida. Mas eu gosto de viver aqui e não quero viver em um país estranho, sem conhecer ninguém nem saber falar o idioma. Amanhã ele virá aqui para se despedir de mim. Acabou o trabalho e irá embora em dois dias.

— Ainda dá tempo de mudar de ideia — tornou Rogério.

— Não. Já decidi e não volto atrás. Mas não se preocupem comigo. Tenho pensado em ir morar no orfanato, tomar conta daquelas crianças. Ainda não fui para lá porque adoro a companhia de vocês. Enquanto puder estar com vocês, não sairei daqui.

Os dois abraçaram Rosa com carinho e depois sentaram-se no sofá para falarem sobre o casamento. Rogério queria que a união fosse oficializada o mais breve possível.

A conversa fluiu animada. Rogério confessou que já havia consultado uma imobiliária para ficar a par dos preços e das condições de compra dos imóveis. Quando mencionou isso, Rosa sorriu maliciosa e comentou:

— Há quanto tempo você estava pensando em se casar com Eugênia?

— Eu ainda não estava pensando em me casar, mas queria comprar uma casa para morar. Agora que ela aceitou o pedido, pretendo comprar uma casa muito melhor.

O ambiente era de alegria e o casal, abraçado, sorria enquanto traçava planos para o futuro.

 

Magali acordou assustada, ouviu o som de um carro chegando e notou que ainda estava escuro. Por quantas horas havia dormido? Ali, perdera a noção do tempo e temia, a cada ruído, que eles entrassem no quarto dispostos a acabar com ela.

Ela, então, fechou os olhos e esperou. Apurando os ouvidos, escutou vozes de homens conversando e seu coração disparou.

Teria chegado a pessoa que eles esperavam? A porta do seu quarto, no entanto, não se abriu. Eles haviam entrado no cômodo ao lado. Será que o detetive ainda estava preso lá?

Sem fazer ruído, Magali levantou-se e encostou o ouvido no orifício que Gerson havia feito na parede.

Ele estava acordado quando abriram a porta do quarto e três homens entraram. Gerson levantou-se e aproximou-se do grupo dizendo com voz firme:

— Vocês voltaram. Afinal, o que vocês pretendem fazer? A esta hora, a polícia já deve ter pistas do paradeiro da moça e é provável que esteja a caminho. Afinal, estão esperando o quê?

— Isso é o que você queria, mas a policia não sabe onde estamos. Chegou a hora de terminar esta história.

Gerson sentiu que precisava agir depressa. Meneou a cabeça e disse irônico:

— Dá para ver que vocês são principiantes. Além de malvestidos e pobres, ainda querem matar a galinha dos ovos de ouro! Eu tinha tudo sob controle e vocês atrapalharam meus planos. A esta hora, eu deveria estar com a bolada nas mãos, aproveitando um luxuoso hotel em outro país. Vocês são muito burros! Merecem ser pobres pelo resto da vida!

José sacou um revólver dizendo:

— Cale a boca! Ninguém me insulta de graça. Você será o primeiro a morrer!

O terceiro homem do grupo aproximou-se dizendo:

— Abaixe isso, homem! Nós temos tempo! Vamos saborear nossa vingança. Tudo que Josué sofreu, ten­do as tripas carcomidas por aquele veneno, precisa ser vingado de forma mais justa. Um tiro não é nada.

— Ele trabalha como detetive e se acha melhor do que nós. É um patife! Estava tramando arrancar dinheiro do milionário que vivia com a perigosa.

— Ah, é? Olha só o detetive ladrão! Vamos lá, qual é o plano que você tinha? Estou curioso! Conte!

— Eu acho que vocês estão se vingando de forma errada. Eu arrancaria muito dinheiro do marido dela. Ele é muito rico e louco por ela. Certamente pagaria o que você pedisse para tê-la de volta.

Gerson viu que os olhos do sequestrador brilharam de cobiça e continuou:

— Eu sei como fazer isso sem nenhum risco. Para pagar, ele precisa ter provas de que ela está viva. Isso é básico. A polícia pensa que é mais esperta, porém eu sei um jeito de fazer isso acontecer com segurança. Quando a polícia acordar, nós já estaremos longe com todo o dinheiro. Já pensou? Viajar pelo mundo, conhecer a vida boa, ter tudo do bom e do melhor! Lindas mulheres em volta. Elas são loucas para arranjar um homem rico. Eu tenho tudo planejado! Sei como fazer.

— Não entre na dele, Roque! É perigoso! Vamos fazer o que combinamos — disse José.

— Estou curioso! Você disse que tinha um plano. Conte-nos o que pretendia fazer.

— Acha que sou tolo? Eu queria fazer tudo sozinho. Mas, nesta situação, penso que podemos negociar. Tinha pensado em pedir cinco milhões de reais, mas agora acho melhor pedir dez: cinco para mim e cinco para vocês.

— Você é bom de bico! Você está em nossas mãos e terá de fazer o que eu quiser — Roque respondeu ironicamente.

— Roque, acabe logo com isso. Não vamos negociar com esse malandro. Podemos acabar presos e então o dinheiro não valerá de nada!

— Antônio, fique do lado de fora vigiando. E você, José, vá buscar a comida no carro e leve para a moça no quarto — Roque, impaciente, deu ordens aos outros dois homens.

— Você não vai querer continuar com essa conversa, não é? — indagou Antônio irritado.

— Faça o que estou falando! Saia!

— Vai ficar sozinho com ele? — Antônio novamente perguntou.

— Vá logo! Leve a comida e tome cuidado que ela é perigosa!

Depois que ele saiu, Roque aproximou-se e continuou:

— Penso que sua ideia não é de todo má! Afinal, esta vingança está saindo muito cara.  Seria bom lucrar um pouco com isso.

— Está disposto a aceitar o meu plano?

— Só se você dividir o dinheiro em partes iguais. Gerson pensou um pouco e depois respondeu:

— Está bem. Mas antes quero a garantia de que, na hora em que o dinheiro for entregue, vocês não vão querer me matar para ficar com tudo.

— É questão de honra. Quando eu faço um trato, cumpro o que prometo. Quem me conhece sabe disso.

Roque estendeu a mão e Gerson apertou-a. Depois disse:

— Agora diga, qual é o seu plano?

— Vou dar uma lista de materiais que serão necessários para fazermos contato com o marido da moça. Teremos de provar que ela está viva e depois combinamos a forma como o dinheiro será entregue para nós.

— Isso vai ser muito perigoso! Vamos correr muito risco.

— Nada disso! Já tenho tudo planejado! Vai ser mais fácil do que você pensa. A polícia não fará nada antes de tê-la de volta e em lugar seguro, mas nós, a esta altura, já estaremos longe e com o dinheiro no bolso. Você tem passaporte?

— Nós nunca saímos do país. Acha que é preciso isso?

— Claro! Temos que ir para um lugar onde a polícia não possa nos prender. Ficaremos livres e com o dinheiro todo. Já pensou na vida boa que vamos levar? Estou sonhando com as lindas mulheres que vamos ter lá fora! Estaremos ricos, livres, e gozaremos a vida sem preocupações.

— Você me convenceu! Agora vou sair e falar com os outros dois.

— Acha que vão aceitar?

— Vão fazer o que eu quiser. O chefe sou eu! Depois que Roque saiu, Gerson ficou pensando no que faria para ludibriá-los e escapar dali.

Ao sair da casa, Roque deparou-se com José nervoso na varanda.

— O que foi, homem?

— Por pouco não acabei agora mesmo com aquela mulherzinha. Quando me aproximei, ela pulou sobre mim, arranhou o meu rosto e só parou quando eu puxei o revólver.

Roque começou a rir, deixando José ainda mais irritado.

— Como você é mole! Apanhou de mulher! Onde já se viu?

— Mas eu lasquei um tapa na cara dela.

— Pare com isso! Mudei os planos. Temos de conversar.

— Não vai me dizer que aceitou o palpite do detetive?

— Estou tentado a aceitar. Afinal, uma mulher morta só vai fazer com que a polícia venha nos perseguir. Se a entregarmos viva, poderemos faturar um bom dinheiro com isso.

— Eu não quero. A polícia vai descobrir e nos prender.

— Que nada. Quando a polícia chegar, nós já estaremos longe daqui, com dinheiro, ricos, e levando uma vida boa.

— Nós queremos vingar a morte de Josué!

— É. Eu também queria. Mas ele está morto mesmo! Nós estamos vivos e devemos gozar a vida. Afinal, depois do trabalho que ele nos deu, de investigar, descobrir tudo, merecemos esse dinheiro!

— Eu não aceito isso. Tenho medo.

— Nesse caso, vá embora. Será um a menos para dividir a bolada.

— Não estou reconhecendo você!

— Chega de conversa. Se quer ir embora, vá. Eu e Antônio vamos continuar.

— Você vai me deixar de fora dessa bolada? — Você é que quer sair. Decida já o que quer fazer.

— Está bem. Eu fico.

Roque riu satisfeito.

— Estou com fome. Vamos embora! Quero jantar naquele restaurante que passamos na entrada da cidade.

Quando voltar, o detetive vai nos dar a lista do que precisaremos comprar para ativar nosso plano.

 

Depois que ouviu o ruído do carro se distanciando e percebeu tudo em silêncio, Gerson chamou:

— Magali, Magali.

Ela respondeu logo:

— Você ainda está aí! Estou muito nervosa e com medo. Eles estavam conversando com você, mas não consegui entender nada.

— Acalme-se. Eu joguei e eles morderam a isca.

— Fale, pelo amor de Deus!

— Eu fingi que pretendia sequestrar você e arrancar dinheiro do seu marido.

— Eles acreditaram?

— Os dois que estavam aqui não queriam, mas o que veio por último era o chefe. Eu afirmei que, quando a polícia viesse, nós estaríamos longe com o dinheiro do resgate, e falei da boa vida na Europa, com mulheres e muito dinheiro... Ele ficou fascinado e aceitou.

— E como você pensa fazer isso?

— Vou cuidar dos detalhes. Eles saíram para jantar e vão voltar para planejarmos.

— Será que vai dar certo?

— É a única chance de sairmos vivos daqui.

— Cuidado! Você pode precipitar os acontecimentos. Tenho medo.

— Sou filho de São Jorge. Ele nunca me deixou na pior. Estou certo de que vai nos ajudar nessa. Em vez de ter medo, reze com fé e peça ao santo que nos ajude. Eu também vou rezar e pedir inspiração.

Magali sentou-se na cama, preocupada. Sentia a cabeça doendo, o estômago enjoado e uma fraqueza que a fazia tremer de frio. Estava com muito medo. Queria rezar, mas a lembrança do seu crime a incomodava. Era uma assassina e não se julgava merecedora da ajuda de Deus.

As lágrimas desceram por seu rosto e ela lembrou-se daquela madrugada terrível em que derramara o veneno na boca de Josué. Enquanto ele, engasgado, se contorcia e o menino chorava, ela apanhou a criança e a pequena sacola que havia preparado e saiu apressada, com medo de que alguém a visse.

Para onde ir depois daquilo? Tinha horror a tudo que passara, inclusive ao fruto daquela união horrível, em que fora subjugada, massacrada e invadida. Mas, apesar disso, não tinha coragem para acabar com a criança. Planejara não ficar com o menino e já tinha descoberto um orfanato onde tencionava deixá-lo. Enrolou-o em um cobertor velho, colocou-o dentro de uma sacola de pano que Josué usava para fazer compras na feira livre e saiu apressada. O dia estava amanhecendo, ela caminhou rapidamente e colocou a sacola na porta da instituição. Deu uma rápida olhada em volta e assegurou-se de que não havia ninguém. Apertou a campainha e saiu correndo, como se estivesse sendo perseguida pelas coisas que fizera.

Mas, apesar de tudo, sentiu-se aliviada. Não se arrependeu de nada. Ela fora usada, ofendida, maltratada e julgava-se no direito de se defender. Fora agredida e se defendera. Dali para a frente estaria livre para recomeçar. Tinha apenas dezesseis anos e toda a vida pela frente...

Tudo isso Magali recordou antes de ter coragem para rezar e pedir a ajuda de São Jorge, como se ele a estivesse julgando. Mas, na verdade, era ela mesma quem estava se condenando. Deixou que as lágrimas lavassem seu rosto enquanto suplicava ao santo que a perdoasse pelo que fez e lhe desse a oportunidade de continuar vivendo, e prometeu fazer tudo para tornar-se uma pessoa melhor.

 

O dia estava clareando e Júlio dormia pesado. Depois de uma semana do desaparecimento de Magali, o médico lhe dera um remédio forte para dormir. Ele havia emagrecido. Ficava insistentemente atrás da polícia, que insistia para ele levar vida normal a fim de que pudesse ser encontrado com facilidade pelos sequestradores de Magali. Mas ele não se conformava.

Alberto também estava arrasado, mas pensava de uma forma mais prática: pedira ao médico um calmante e se alimentava para ficar bem e ser útil caso precisas­sem dele.

Na hora do almoço, Júlio ainda continuava dormindo. Alberto almoçou, depois sentou-se na sala, olhando o retrato de Magali que estava sobre o console, e seus olhos marejaram. Apesar de tudo, ele não contava a ninguém sobre o crime que ela cometera e suspeitava de que essa fosse a causa do sequestro.

Sempre que a campainha ou o telefone tocavam, ele tinha receio de que fosse uma notícia ruim. Sofria por estar ocultando a verdade, mas ao mesmo tempo tinha medo de incriminá-la e tudo ficar pior.

No fim da tarde, o delegado ligou e, como Júlio ainda estava deitado, Alberto atendeu-o com o peito oprimido. Mas o delegado apenas perguntou se alguém havia feito contato. Quando negou, ele pensou em falar a verdade, mas o delegado desligou rápido e ele novamente sentou-se pensativo.

Pouco depois, a campainha tocou. Joice foi atender e era Anita, a secretária de Júlio. Ela ia sempre no fim da tarde falar com o patrão sobre o andamento das coisas na corretora. Quando a porta abriu, ela disse admirada:

— Olha, tem uma carta no chão!

As duas se entreolharam e Alberto aproximou-se:

— Carta embaixo da porta?

Ele pegou o envelope, que estava com lacre e não havia selo. Alguém o colocara ali. Foi ter com Júlio, que estava acordando, mas ainda não falava coisa com coisa. Então decidiu:

— Vou avisar o doutor Borges. Talvez seja o que estamos esperando!

Alberto ligou e, enquanto esperavam a polícia chegar, foram avisar Júlio. Embora desperto, Júlio estava atordoado, mas, ao ouvir falar da carta, ele reagiu, queria abrir e ler, mas Alberto recomendou que esperas­sem o doutor Borges. O policial dissera que queria abrir a carta pessoalmente antes que todos a tocassem e apagassem as possíveis pistas que ela poderia conter.

Ao se levantar, Júlio sentiu forte tontura, respirou fundo, esperou um pouco e depois, tateando, foi tomar um banho. Ficou embaixo do chuveiro durante alguns minutos, e aos poucos começou a se sentir melhor. Vestiu-se, abriu a porta do quarto e deu com Alberto, que o esperava no corredor.

— Está se sentindo bem? — perguntou Alberto.

— Ainda um pouco tonto. Não sei se é de nervoso por causa da carta ou pelo remédio que tomei. Vamos descer.

Alberto ofereceu-lhe o braço:

— Apoie-se em mim.

Júlio sentiu que as pernas estavam trêmulas e apoiou-se no braço que ele lhe oferecia.

— Obrigado. Se acontecer algo com Magali, não sei o que será de mim.

— Vamos pensar no melhor. Na carta deve ter um pedido do resgate. Logo ela estará sã e salva em casa! — Vamos abrir já e ler.

— Temos que esperar. O doutor Borges foi taxativo. É melhor lhe obedecer.

Júlio sentou no sofá da sala e Joice aproximou-se:

— O senhor não comeu nada, precisa se alimentar.

— Aquele remédio que me deram é muito forte.Ainda estou atordoado. Faça um café bem forte.

Ela saiu apressada e voltou pouco depois:

— O café está na mesa, mas é bom o senhor comer pelo menos alguma coisa de sal. Não tem comido nada. Alberto insistiu para que ele se alimentasse e finalizou:

— Eu também vou comer. Quero que Magali, quando voltar, nos encontre bem para recebê-la. Vai dar tudo certo!

Pouco depois os policiais chegaram. Doutor Borges entregou o envelope ao perito para que ele o examinasse. A carta fora montada com letras de jornal com o pedido de dez milhões de dólares em dinheiro vivo. Junto havia uma foto de Magali, dentro do quarto, amarrada na cama, com uma mordaça.

Júlio aproximou-se para ver a foto e sentiu que as pernas bambearam. Alberto amparou-o enquanto o delegado esclareceu:

— Não se impressione com a foto. Eles querem assustar a família de propósito para forçar o pagamento. Nosso perito vai examinar melhor o material no laboratório e vamos ficar aqui esperando. Temos que programar tudo com cuidado, inclusive liberar o dinheiro seguindo as exigências que fizeram. É um valor alto, em dinheiro vivo.

— Tenho como fazer isso com rapidez. O que mais quero é ter minha mulher de volta.

— Temos de fazer tudo com calma. Não podemos assustá-los. Nada pode dar errado.

Enquanto dois policiais foram ao laboratório, Borges sentou-se ao lado de Júlio, que disse preocupado:

— Quando penso que ela está nas mãos desses bandidos, sendo maltratada, temo perder a razão.

— Aquele detetive que o senhor contratou sumiu. Ou ele aderiu ao golpe e está com os sequestradores, ou foi subjugado por querer defendê-la. Mas a sua folha de serviços prestados às pessoas é muito boa. O que nos faz crer que ele a está ajudando de alguma forma.

Na carta, os sequestradores haviam estabelecido quando, onde e de que forma o pagamento seria feito.

Meia hora depois, um policial ligou e conversou com o delegado durante algum tempo. Quando ele desligou, Júlio perguntou ansioso:

— E então?

— Penso que resolveremos este caso mais rápido do que esperávamos. Tenho que voltar à delegacia e tomar algumas providências.

Júlio se levantou:

— Vou com o senhor!

— O senhor vai ficar em casa. Quando for o momento, nós o avisaremos.

— E o dinheiro? Preciso providenciar!

— Ainda não. Vou planejar tudo e entro em contato. Quero que fiquem aguardando aqui.

Júlio ia protestar, mas Alberto interveio:

— Calma, Júlio! Vamos ter paciência e esperar. Nós estamos nervosos e podemos atrapalhar. É melhor obedecer.

O delegado fixou-os:

— É isso mesmo. Vai chegar o momento em que vamos precisar de vocês dois. Na hora certa eu os chamo.

— Vamos ficar esperando — tornou Alberto.

Os policiais saíram, Júlio sentou-se novamente e comentou:

— O tempo vai custar a passar!

— Mas a cada minuto que passa fica mais perto de ter Magali de volta!

Alberto disse isso com tanta força que Júlio se emocionou. Colocou a mão no braço dele e respondeu:

— Você tem sido nosso amigo! Eu não confiava em você, só o recebi porque Magali me pediu. Mas você gosta realmente dela e isso me sensibiliza muito. Se você não estivesse do meu lado, me ajudando, nem sei que loucuras eu teria cometido.

Os olhos de Alberto estavam úmidos quando ele disse:

— Em toda minha vida, Magali foi a única pessoa que me respeitou, que me tratou como gente. Ela, uma mulher fina, rica, que não precisava de mim para nada, me ensinou muitas coisas, sempre com naturalidade, nunca me criticou. Faço qualquer coisa por ela!

— É difícil ficar esperando, sem saber o que está acontecendo!

Nervoso, Alberto passou a mão nos cabelos e comentou:

— Neste momento, temos que confiar na polícia e esperar que nos chame.

As horas foram passando sem notícias. Nervoso, Júlio ligou para a delegacia e foi informado de que o doutor Borges estava em uma reunião e não podia atendê-lo.

Meia hora depois, João foi avisá-los de que doutor Borges estava com duas viaturas na porta esperando por eles.

Alberto e Júlio saíram apressados e o delegado aproximou-se deles dizendo:

— Temos uma pista que pode nos ajudar. Precisamos de vocês, mas terão de obedecer ao nosso comando, aconteça o que acontecer. Combinado?

Os dois concordaram e entraram no carro do doutor Borges, que era um carro de passeio. As duas viaturas de polícia saíram na frente e o motorista do carro de passeio, tendo ao lado o delegado, seguiu os policiais. No banco de trás, Júlio não se conteve e perguntou:

— Onde estamos indo?

— Vamos prender um suspeito e vocês dois vão fazer o reconhecimento. Ao chegar, fiquem atentos e só façam o que eu disser. Agora chega de perguntas.

Eles deixaram o centro do Rio de Janeiro e foram para o interior do estado. A noite estava escura e os dois homens, no banco de trás, estavam nervosos e nem sequer sabiam que lugar era aquele.

Pelo rádio, doutor Borges mandou as viaturas cercarem um casarão antigo onde havia uma placa: Pousada São Cristóvão.

— Vocês dois fiquem no carro com o motorista. Só saiam se eu chamar.

Nesse momento, um rapaz saiu da pousada, passou por Borges fazendo sinal afirmativo e foi falar com os policiais. A um sinal do delegado, todos os policiais entraram na pousada com ele. O porteiro, com cara de sono, apareceu no hall e o delegado não lhe deu tempo de dizer nada:

— Onde está José Alves?

— No quarto dois, subindo a escada.

Os policiais subiram, bateram, mas ninguém abriu.

— Abra, é a polícia!

Como não houve resposta, eles arrombaram a porta e pegaram o homem que estava tentando fugir pela janela, embora fosse alta. Algemaram-no enquanto ele gritava irritado:

— Isso é uma barbaridade! Eu sou um cidadão honesto e pago meus impostos. Eu não fiz nada!

Um dos policiais, revistando o quarto, encontrou o outro homem, que se escondera embaixo da cama e, ao ser puxado para fora, gritava desesperado:

— Eu disse que era perigoso! Você não me ouviu!

Pouco depois eles foram conduzidos à viatura devidamente algemados. Roque, calado, pensava em um jeito de escapar, enquanto o outro chorava desconsolado, repetindo as mesmas palavras.

Antes de entrarem no carro, Borges interrogou Roque:

— Onde está dona Magali? Fale!

Ele não respondeu e Borges continuou:

— É melhor falar, senão vou levá-los para a delegacia e lá tenho meios de fazê-los falar. Vou perguntar mais uma vez. Se tem amor à pele, é melhor dizer onde ela está.

Roque continuou calado, mas o outro, chorando, disse nervoso:

— Eu mostro o caminho. Não quero ir à delegacia.

— Cale essa boca! — disse Roque.

— Você é culpado de tudo. Nosso caso era só vingar a morte do Josué. Mas você quis dinheiro. A culpa é sua. A esta hora, tudo estaria resolvido e nós bem longe daqui.

A uma ordem do delegado, separaram os dois, um em cada viatura. O homem que prometera mostrar o caminho seguiu na viatura da frente. Foram rumo ao local.

No carro, doutor Borges perguntou:

— Vocês conhecem esses dois?

— Não. Estou surpreso.

— E você, Alberto?

— Eu também não os conheço.

— Falaram em vingança, sabem do que se trata?

Júlio negou e Alberto não teve coragem de mencionar o assunto. Ambos estavam ansiosos para chegar, ver se Magali estava bem.

Ao chegarem ao local, os policiais invadiram a casa e, de armas na mão, foram derrubando as portas dos quartos. Prenderam o homem que faltava e Borges entrou no quarto onde estava Magali, que, vendo-o chamá-la, sentou-se na cama sem forças para ficar em pé.

Nesse momento, Júlio entrou, correu para ela e disse aflito:

— Graças a Deus você está viva!

Abraçada a ele, ela começou a soluçar sem poder conter a emoção.

— Nós vamos pra casa. Vou cuidar de você. Tudo vai ficar bem.

Alberto aproximou-se deles dizendo aliviado: — Acabou o pesadelo! Graças a Deus!

Um policial aproximou-se do delegado, trazendo Gerson algemado:

— Este faz parte do grupo, estava no quarto ao lado. Júlio interveio:

— É Gerson, o detetive que contratei.

— Eles me prenderam antes dela e me trouxeram para cá — disse Gerson.

Um dos policiais interveio:

— Foi ele quem fez os sequestradores mudarem o plano. O homem que estava tomando conta do cativeiro disse que a prenderam para se vingar.

Magali, enrolada no paletó de Júlio, levantou-se, dizendo nervosa:

— Não aguento mais ficar aqui! Quero ir para casa! O detetive ficou preso no quarto ao lado. Ele fez um buraco na madeira e conversava comigo tentando me acalmar. Não tem culpa de nada. Ao contrário, foi ele quem me salvou!

Pouco depois, mais uma viatura chegou e o doutor Borges aproximou-se de Júlio e determinou:

— Meu carro os levará para casa. Amanhã conversaremos. Quanto aos demais, irão todos para a delegacia.

Durante o trajeto de volta, Magali, abraçada a Júlio, olhos fechados, cansada, não via a hora de chegar em casa, tomar um banho, livrar-se daquele cheiro de mofo que impregnara suas roupas, seu corpo. Conseguira escapar, mas não estava em paz.

O que aconteceria quando os familiares de Josué contassem a verdade à polícia? O que faria? Ela fizera tudo sozinha e eles não tinham provas da sua culpa. Seria sua palavra contra a deles. Decidiu que jamais confessaria. Juraria que, ao fugir de casa por causa dos maus-tratos que sofria, ele havia bebido muito e ela aproveitara para fugir.

Júlio, abraçado a ela, de vez em quando beijava seu rosto com amor, feliz por tê-la novamente, seguro de que tudo estava bem.

Já Alberto, sabendo que o irmão de Josué certamente acusaria Magali do crime, decidiu fingir que não sabia de nada. Afinal, ele conhecera Magali como mulher de Júlio. Sabia que Júlio tudo faria para defendê-la e para provar que ela era inocente. Quando estivesse a sós com ela, combinariam o que fazer. Ele se afeiçoara a Magali e estava disposto a auxiliá-la a resolver esse caso. Afinal, ela fora a vítima e tivera todo o direito de se defender.

Júlio era um homem rico, conhecido na mais alta sociedade. Era bem possível que esse caso interessasse a opinião pública e acabasse sendo levado aos tribunais. Mas, ainda assim, ele estaria do lado dela para defendê-Ia. Ela agira em legítima defesa e ele conseguiria sua absolvição.

Afinal, as leis sempre deixam um espaço de defesa para quem sabe usá-las com inteligência, contando a história do jeito certo.

 

No dia seguinte, quando Magali chegou à delegacia acompanhada por Júlio, estava disposta a negar a autoria do crime. Sabia que os parentes de Josué a acusariam, mas estava certa de que Júlio não pouparia esforços para defendê-la. Depois de algum tempo de espera, o delegado pediu que eles entrassem.

Durante a noite, ela não dormira nada bem. Tivera pesadelos em que Josué aparecia diante dela, deformado, prometendo se vingar. Estava abatida e cansada.

Sentada diante da mesa do delegado, nervosa, com medo, esperando o pior, tentava se acalmar e não demonstrar o que sentia.

O delegado pediu que ela contasse tudo sobre o sequestro, o que ela fez com voz trêmula, enquanto Júlio segurava sua mão para encorajá-la.

Ao contrário do que ela esperava, ele não mencionou o crime, o que a deixou mais ansiosa. Quando ela terminou, o delegado perguntou:

— A senhora conhecia esses homens?

— Não. Nunca os vi antes.

— Tem certeza?

— Tenho.

Sem dizer mais nada, ele pediu que ela assinasse o depoimento. Depois disse:

— Por enquanto estão dispensados. Mas, conforme o andamento do caso, serão chamados novamente.

Magali sentiu-se aliviada e, durante o trajeto de volta, começou a pensar que talvez o delegado não tivesse acreditado na conversa dos sequestradores. Afinal, ela havia sido a vítima, eles eram bandidos, pediram resgate. Essa esperança fez com que ela se sentisse mais calma. Júlio era um homem de bem, respeitado, poderoso. Deixou a delegacia aliviada.

Júlio sentia-se bem-disposto e alegre. Afinal, tudo terminara bem. Magali estava livre, os bandidos, na cadeia, e ele não tivera de pagar o resgate. Agora, era tocar a vida pra frente. Deixou Magali em casa e foi para o escritório pensando num jeito de ganhar mais dinheiro e recuperar os dias perdidos.

Alberto estava na corretora e assim que Júlio chegou apanhou alguns papéis e foi à sala dele. Estava ansioso para saber o que acontecera na delegacia. Entregou-lhe alguns documentos, falou um pouco de trabalho, e por fim perguntou:

— Como foi na delegacia?

— Tudo certo. Os bandidos estão presos, o caso está resolvido. Agora é pôr nossa força no trabalho para recuperar o tempo perdido.

Júlio não mencionara a vingança nem a morte de Josué, por isso Alberto ficou curioso e ansioso para falar com Magali. No fim da tarde, Júlio decidiu passar no clube para ver os amigos e saber como estavam as coisas. Alberto tomou um táxi e foi para casa. Assim que entrou, procurou por Magali.

Ela estava no quarto e ele foi vê-la. Bateu e pouco depois Magali abriu:

— Eu sabia que era você!

— Júlio foi ao clube e eu estava ansioso para saber como foi na delegacia. Júlio não mencionou Josué e deu o caso por encerrado. Foi isso mesmo?

— Vamos conversar no escritório. Ninguém pode ouvir.

Uma vez lá, sentados um ao lado do outro, Magali continuou:

— Eu entrei na sala do delegado apavorada. Mas ele não mencionou Josué. Pediu que eu contasse o sequestro, me fez assinar a declaração e nos mandou embora.

— Deu o caso por encerrado?

— Acho que não. Disse para ficarmos à disposição porque nos chamariam novamente.

— A polícia deve estar investigando a vida deles. Magali empalideceu:

— Você acha? Isso é muito perigoso. Eles poderão descobrir tudo!

Alberto tentou contemporizar:

— É provável que eles não tenham levado as declarações deles a sério. Júlio é muito respeitado, vocês são da mais alta sociedade e estão acima de qualquer suspeita. Afinal, eles a sequestraram, pediram resgate e isso os torna bandidos da pior espécie.

— Essa é minha esperança. Se eles me acusarem, vou negar sempre.

— Ontem, quando estive na delegacia, encontrei o detetive Gerson. Conversamos, ele me contou que no depoimento que deu disse como os bandidos a trataram. Afirmou que durante o tempo em que trabalhou para Júlio, gostou da sua maneira de ser e a admira muito. Aliás, eu também contei ao delegado como você me ajudou.

Magali suspirou aliviada:

— Ainda bem que tenho amigos.

Alberto colocou a mão no braço dela:

— Você foi a única pessoa que me estendeu a mão quando eu mais precisava. Eu faço qualquer coisa por você.

— Vamos esperar que este caso termine aqui. Vou retomar minha vida. Júlio vai sentir como eu posso fazê-lo feliz!

— Ele merece! Eu nunca vi um homem sofrer por uma mulher como ele sofreu por você. Pensei que ele não fosse aguentar. Parecia um fantasma andando pela casa. Perdeu o gosto de tudo. Só fazia lamentar, imaginar seu sofrimento.

— Eu sei ser grata com quem me quer tanto bem.

Quando Júlio chegou em casa, encontrou Magali muito melhor. Linda, bem-humorada, cheia de si, desfilando como uma rainha, do jeito que ele gostava que ela fosse. Satisfeito, cercou-a de carinho, tornou-se mais espirituoso, contou coisas alegres. Sentia-se feliz e recompensado de todo sofrimento dos últimos dias.

Nos dias que se seguiram, Júlio retomou o trabalho com entusiasmo. Magali, apesar de se sentir temerosa, voltou às atividades costumeiras, e Alberto, preocupado, ia ao encontro dela a pretexto de aproveitar a carona. Mas, na verdade, ele queria apoiá-la.

Três semanas depois, no começo da tarde, Alberto viu o delegado chegar e ser conduzido por Anita à sala de Júlio. Ficou inquieto e foi ter com a secretária:

— Eu vi que o delegado veio falar com Júlio. Tem alguma novidade sobre o sequestro?

— Ele só pediu para falar com o doutor Júlio. Não sei de nada.

Alberto pensou em cumprimentá-lo na saída para ver se descobria o que ele fora fazer ali.

Vendo o delegado entrar, Júlio se levantou e estendeu-lhe a mão:

— Doutor Fonseca, que surpresa! Como vai? — Bem. Vim porque precisamos conversar.  Trata-se de um assunto delicado.

— Sente-se, doutor. Diga do que se trata.

— Do sequestro de dona Magali. Vim pessoalmente porque as coisas estão tomando um rumo diferente e eu espero que o senhor possa esclarecer algumas coisas.

— Fale, farei o que puder.

— José, aquele que nos mostrou o lugar onde dona Magali estava, nos contou que ela foi casada com um irmão deles e o envenenou. Eles a sequestraram porque pretendiam matá-la para se vingar.

Júlio empalideceu e se levantou assustado:

— Isso é mentira! Ela jamais faria uma coisa dessas!

— Sente-se, acalme-se, deixe-me explicar melhor. Júlio deixou-se cair na cadeira e o delegado continuou:

— Eu não acreditei, mas o doutor Borges resolveu investigar e interrogou-os várias vezes, anotou dados e conseguiu descobrir que o irmão deles havia mesmo sido envenenado com veneno de rato e que sua esposa estava sendo procurada pelo assassinato. Ela desapareceu levando o filho pequeno.

— Isso não pode ser! Os senhores estão enganados. Magali é uma mulher gentil, bondosa, jamais faria uma coisa dessas! Depois, ela nunca teve nenhum filho!

— O senhor já ouviu falar de um corretor chamado Josué da Silva?

— O senhor disse Josué?

— Sim.

— Ele está morto?

— Sim, foi assassinado. O senhor já ouviu falar dele?

Júlio respirou tentando se acalmar, depois contou ao delegado a história que Magali lhe contara, como fora obrigada a aceitar aquele casamento, como fora maltratada por Josué e como conseguira fugir, trabalhar e cuidar da própria vida. E finalizou:

— O nome dele era Josué, mas o sobrenome eu não sei. Tenho certeza de que está havendo um engano. Magali é bondosa, gosta de ajudar as pessoas. Alberto trabalha comigo e mora em nossa casa porque Magali o ajudou a largar o vício de jogo. Trouxe-o para morar em nossa casa e hoje ele está regenerado, tanto que trabalha comigo aqui. Pode perguntar a ele. Magali seria incapaz de matar uma mosca.

— O nome da esposa de Josué é Maria Alva da Silva.

— Minha mulher se chama Magali Marques, não tem nada a ver com essa pessoa.

— Eles afirmam que dona Magali é a mulher que se casou com o irmão deles. Eles possuem uma foto de uma jovem com um bebê e afirmam que é ela. A foto é antiga, não é muito boa, mas, olhando bem os traços, a moça se parece com dona Magali.

Pálido, Júlio deixou-se cair na cadeira e disse quase que para si mesmo:

— Não pode ser! Magali nunca seria capaz de uma coisa dessas!

— Infelizmente, doutor Júlio, o caso é grave e teremos de esclarecer os fatos. Vim conversar com o senhor porque, em razão dos acontecimentos, teremos de intimar dona Magali a prestar declarações sobre o assunto.

Júlio passou a mão nos cabelos, respirou fundo e respondeu:

— Magali é inocente. Estou certo disso.

— Faço votos de que seja assim. Amanhã providenciarei a intimação. Quero resolver este caso o quanto antes. Aconselho-o a contratar um bom advogado.

Depois que o delegado saiu, Júlio continuou sentado, pensando no que ele dissera. Apesar de saber que Magali se casara com Josué e fora reconhecida pela família dele, não acreditava que ela pudesse ter cometido esse crime. Seria verdade que ela tinha tido um filho?

Quando o delegado deixou a sala, Alberto o esperava na intenção de descobrir alguma coisa. Mas ele apenas o cumprimentou com um leve sinal de cabeça e foi embora. Preocupado, Alberto bateu levemente na sala de Júlio e entrou.

Júlio continuava sentado, de cabeça baixa, mão na testa, nem sequer o viu entrar. Foi o bastante para Alberto perceber que a polícia havia descoberto provas do crime de Magali. Aproximou-se e colocou a mão no ombro de Júlio:

— Você não parece bem. Aconteceu alguma coisa?

Júlio o fixou e não se conteve:

— O delegado veio com uma história de que os sequestradores pegaram Magali para se vingar. Acusam-na de ter envenenado o irmão deles, que teria sido marido dela!

— Isso não pode ser verdade! Eles estão mentindo!

— Eu também penso isso. Mas o doutor Fonseca disse que viu a foto de uma jovem que se parece com Magali e um bebê que dizem ser filho dela.

— Eles podem tê-la confundido.

— O nome do marido dela era Josué! Ela me falou do casamento, mas nunca de ter tido um filho! Deve ter alguma coisa errada nessa história.

— Também acho. Magali não fez nada disso. Será a palavra deles contra a dela. Enquanto eles são bandidos, ela é uma mulher da sociedade, respeitada e de bem.

— O delegado vai intimá-la e interrogá-la sobre o assunto.

— O melhor agora é contratar um bom criminalista. Vamos defender Magali. Ela é inocente!

— Isso mesmo. É o que farei imediatamente.

— Estou à disposição. Farei tudo que puder para defendê-la!

Júlio olhou-o emocionado. Alberto estava se revelando um grande amigo! Ele tinha razão. Magali era inocente e ele provaria isso.

Chamou Anita e lhe pediu que chamasse com urgência o doutor Nelson a seu escritório. Confiava nele para indicar um criminalista. Queria o melhor de todos.

Meia hora depois, doutor Nelson chegou. Júlio contou-lhe tudo e finalizou:

— Quero que me indique o melhor criminalista para defender Magali. Ela nunca seria capaz de cometer esse crime! Essa história de ter um filho também é mentira!

— Você vai contratar o doutor Guilherme Mendes Júnior. É o melhor de todos.

— Quero falar com ele imediatamente.

Doutor Nelson ligou para o escritório do colega e soube que ele estava fora do país e só regressaria dali a dois dias. Júlio tinha urgência e não queria esperar.

— Dois dias é pouco tempo. Se dona Magali for intimada antes disso, poderei acompanhá-la. Assim que o doutor Guilherme chegar, entraremos em contato com ele. Ele vai resolver esse caso, estou certo disso.

Doutor Nelson dissera isso com tanta certeza que tanto Júlio como Alberto se sentiram mais calmos.

Notando o nervosismo de Júlio, doutor Nelson relatou dois casos importantes nos quais doutor Guilherme conseguira provar a inocência de seus clientes. Doutor Nelson se despediu. Alberto acompanhou-o e, discretamente, lhe disse:

— É só uma hipótese: uma mulher que foi maltratada, ultrajada, agredida, tem o direito de se defender? Sendo a parte mais fraca, pode arranjar uma forma de se libertar do malvado? Acha que ela é culpada?

Doutor Nelson sorriu e disse:

— A tese seria legítima defesa. Eu a absolveria! Alberto sorriu quando respondeu:

— Magali é inocente, estou certo disso.

— Ainda que ela tivesse cometido esse crime, o doutor Guilherme conseguiria provar sua inocência.

Aliviado, Alberto despediu-se do advogado, que saiu em seguida. Pouco depois, Júlio entrou na sala de Alberto:

— Chega por hoje. Vamos pra casa. Temos de dar a notícia para Magali e eu quero que você me acompanhe. Precisamos dar-lhe coragem.

 

Júlio e Alberto entraram em casa e encontraram Magali folheando uma revista na sala de estar. Vendo-os chegar, levantou os olhos e perguntou admirada:

— Vocês dois juntos em casa a esta hora? Aconteceu alguma coisa?

Foi Júlio quem respondeu:

— Aconteceu. Mas já tomei providências para resolver a questão. A situação está sob controle.

— Tem a ver com aqueles bandidos? — indagou ela, nervosa.

— Sim. Eles disseram ao delegado que Josué foi envenenado e estão culpando você.

Magali empalideceu e Júlio abraçou-a, dizendo:

— Fique calma. Sabemos que você é inocente e vamos provar isso. Já estou formalizando a contratação do melhor criminalista da cidade para tomar conta do caso. Estou certo de que ele conseguirá provar sua inocência!

— Eu não cometi nenhum crime! Sou inocente! Alberto enfatizou:

— Nós temos certeza disso!

— Eles falaram que vocês tiveram um filho que está desaparecido!

— Isso é um absurdo! — tornou Magali nervosa.

— O delegado esteve no escritório, disse que vai intimá-la a prestar declarações!

Magali protestou:

— Eu não sei nada desse assunto! Quando eu deixei Josué, ele estava bêbado, mas com saúde. Esta história de criança é mentira! Eles estão se aproveitando da situação!

— Acalme-se, minha querida! O doutor Guilherme Mendes Júnior é um grande criminalista. Está fora do país, mas estará no Rio de Janeiro dentro de dois dias. Doutor Nelson já entrou em contato com ele, que nos procurará assim que chegar. Ele vai provar sua inocência.

— E se o delegado me intimar antes de ele voltar?

— É pouco provável. Mas, se acontecer, o doutor Nelson a acompanhará. Um dos bandidos mostrou ao delegado uma foto de uma jovem com um bebê que eles alegam ser sua.

— Essa foto é falsa! Eu nem sabia que Josué tinha parentes. Eu sempre odiei tudo que se referia a ele! Eles estão querendo me culpar para fazer chantagem com você e escapar da prisão. Só pode ser isso!

— Pode ser isso mesmo! São pessoas da pior espécie e estão desesperados. Estou certo de que esse criminalista vai resolver o caso com facilidade.

— Isso mesmo! É sua palavra contra a deles! Quem vai dar crédito a esses bandidos? O próprio delegado vai saber diferenciar sua posição e a deles.

Alberto disse convicto:

— Agora é preciso que você fique calma, se prepare para ouvir o que o doutor Fonseca tem a dizer, esclareça a verdade com firmeza e disposição.

Magali levantou a cabeça, e em seus olhos havia um brilho de altivez quando disse com voz firme:

— É o que pretendo fazer. Relatar a verdade, contar o quanto fui maltratada por Josué. Desde que me impuseram esse casamento, eu não pensava em outra coisa a não ser fugir, escapar daquela prisão odiosa e aviltante. Quando consegui escapar, corri sem olhar para trás. Ninguém poderá me culpar por algo que eu não fiz. Por outro lado, Josué era arrogante e sempre criava caso com as pessoas. Eu acredito que quem cometeu esse crime foi alguém que ele deve ter enganado, passado para trás ou maltratado. Ele era odiado por várias pessoas!

Júlio abraçou-a dizendo satisfeito:

- Isso mesmo! Nós vamos provar ao delegado que você é inocente, eles continuarão presos e tudo estará resolvido.

Magali respirou mais tranquila. Estava convencida de que conseguiria enganar a polícia. Quem se atreveria a imaginar que ela, uma mulher fina, delicada, de classe, teria assassinado Josué? Ele, por si só, sendo belicoso, agressivo, teria provocado aquele crime.

Alberto sorriu satisfeito. Magali seria capaz de manter sua postura e conseguir ser absolvida daquele crime. Em sua versão dos fatos, Magali não mencionara a criança que eles diziam existir. Ela teria realmente existido?

Pensando em sua posição, na boa vida que havia conquistado ao lado de Júlio, ele precisava esclarecer o assunto com Magali. Para poder defendê-la de fato, Alberto teria de ir fundo na verdade. Não queria ser surpreendido por alguma coisa que pudesse colocar em risco seu bem-estar e arruinar a vida de Magali e Júlio.

Intimamente, planejou ter uma conversa com ela sobre o assunto, assim que tivesse oportunidade, para saber a verdade. Só se sentiria seguro em seus planos quando tudo estivesse claro.

Naquela noite, apesar dos acontecimentos, Magali mostrou-se bem-disposta, alegre, despreocupada, e Júlio, fascinado por ela, como sempre, deu aquele assunto como resolvido e acreditou na inocência dela.

Alberto, contudo, mais experiente, notou o quanto ela era capaz de fingir e enganar as pessoas. Mais uma vez, fez o propósito de ficar atento a tudo para preservar o que queria.

 

Uma semana depois, quando chegou a intimação para Magali, eles já haviam contratado o criminalista e ela já tinha dado ao advogado sua versão dos fatos. Ele a fizera repetir a história diversas vezes e ela, sem titubear, repetiu sempre a mesma coisa.

Magali compareceu à delegacia acompanhada do doutor Guilherme e de Júlio. Sentados diante do doutor Fonseca, ouviram-no ler as declarações dos três irmãos de Josué, mostrou a foto que diziam ser dela com a criança e perguntou:

— A senhora reconhece esta foto?

Magali fixou-a durante alguns segundos, depois disse sorrindo:

— Doutor, o senhor acha que essa mulher se parece comigo? Olhe bem! Eu sou muito diferente dela, felizmente!

— É. Ela não se parece com você — reforçou Júlio.

— Mas a senhora foi casada com Josué. E ele morreu envenenado.

Magali fixou o delegado, baixou a cabeça e disse com voz emocionada:

— Essa é uma fase de minha vida que eu gostaria de esquecer! Depois do que eu sofri nas mãos de Josué, ainda estão querendo me acusar de assassina? Isso é demais!

Seus olhos encheram-se de lágrimas. Júlio colocou um lenço na mão dela e disse emocionado:

— Doutor, é preciso tudo isso?

—A acusação é grave, houve um crime e precisamos esclarecer. A senhora está aqui para dar a sua versão. Pode falar.

Magali enxugou os olhos, respirou fundo e contou a história que havia planejado, finalizando:

— Numa noite, Josué tinha bebido muito e ficou largado na cama. Eu aproveitei para fugir. Ele roncava e eu peguei algum dinheiro no bolso dele, fechei a porta e saí correndo. Como não tinha para onde ir, fiquei andando pela cidade e, quando amanheceu, fui procurar emprego.

— A senhora mudou de nome. Como foi isso?

— Eu tinha muito medo de Josué. Ele vivia de negócios escusos. Era intolerante, arranjava encrenca com todo mundo. Se me encontrasse, certamente acabaria com minha vida. Ele tinha um conhecido que arranjava documentos falsos e eu recorri a ele para mudar de identidade. Depois, consegui emprego em uma loja, conheci a Jussara, uma moça muito rica e de boa família. Os pais dela me contrataram como sua dama de companhia. Viajamos para o exterior, professores foram contratados para dar aulas a nós duas. Queriam que eu me tornasse uma pessoa de nível para ser boa companhia para ela. Nós nos demos muito bem. Aprendi tudo que sei hoje. Sou muito grata a eles por tudo que fizeram por mim.

O delegado ficou pensativo durante alguns segundos, depois perguntou:

— E o menino, o que a senhora fez com ele? Magali baixou a cabeça, respirou fundo, depois disse:

— Isso é verdade. Eu tive um menino. Mas, diante da situação, não tinha como criá-lo. Se o deixasse com o pai, ele se tornaria igual a ele, seria um bandido. Isso eu não queria. Então não tive outro remédio senão deixá-lo em um orfanato. Foi o que eu fiz!

— A senhora abandonou o menino.

— O que eu poderia fazer naquela situação? Não me arrependo. Eu o protegi daquele pai malvado.

— E nunca procurou vê-lo, saber se ele estava bem?

— Doutor, eu tinha dezesseis anos, naquela situação eu tinha medo de tudo. Fiz o que pensei ser o melhor na época. Muitas vezes pensei nele, mas depois achei que era tarde demais. Conheci Júlio e, pela primeira vez, soube o que é ser amada, respeitada e ter uma vida decente. Júlio é um homem de bem, eu não tive coragem para lhe contar sobre esse meu passado sórdido e triste. O senhor acha que sou culpada por querer uma vida melhor?

O delegado ficou silencioso durante alguns segundos e depois decidiu:

— Chega por hoje. Devo dizer que os irmãos de Josué formalizaram a acusação na justiça, portanto teremos de levar o assunto adiante. A senhora pode ir para casa.

Doutor Guilherme ficou conversando com o delegado, Júlio saiu com Magali e foram para o carro. Apesar de cansada, ela quis esperar para ouvir a opinião do advogado. Alguns minutos depois, ele deixou a delegacia e, vendo o casal à sua espera, aproximou-se e Júlio desceu do carro:

— Magali está muito nervosa e quer conversar. — É melhor conversarmos na sua casa. Eu irei até lá. Assim que se viu a sós com Magali no carro, Júlio perguntou:

— Por que você não disse que teve um menino?

— Eu tinha medo, vergonha de tê-lo deixado naquele orfanato. Mas o que poderia fazer naquela situação? Pelo menos ele foi bem cuidado.

— Quantos anos ele tem agora?

— Vamos deixar este assunto para outra hora. Falar sobre isso, e ainda ser acusada de um crime, acabou com minhas forças. Estou muito cansada.

Júlio segurou a mão dela:

— Está bem. Depois você me conta tudo. Fico inseguro quando noto que você esconde alguma coisa de mim. Sou muito sincero e acreditava que você confiasse em mim, como eu confio em você.

— Mas eu confio em você! É que tive vergonha de lhe contar essas coisas. Eu gostaria de ter sido uma mulher feliz, que pudesse falar tudo sem medo. Mas minha vida foi triste e cheia de problemas.

— Tem alguma coisa ainda que não me contou?

— Não. Agora você sabe tudo sobre mim e o que eu mais quero é acabar com o passado, esquecer e viver com você pelo resto da vida.

Quando chegaram em casa, Magali foi para o quarto descansar e Júlio resolveu ir até o clube conversar com os amigos, relaxar um pouco.

Alberto chegou em casa no fim da tarde, ansioso por saber de Magali o que acontecera na delegacia. Como não a viu, procurou João:

— Não tem ninguém em casa?

— Doutor Júlio deixou dona Magali em casa e saiu novamente.

— Faz tempo?

— Cerca de meia hora.

Alberto subiu e bateu na porta do quarto, mas Magali não atendeu. Ele insistiu, ela entreabriu a porta e, vendo-o, disse logo:

— Mais tarde conversaremos. Estou esgotada, quero descansar.

— Passei a tarde preocupado, aflito. Como foi lá?

— Foi difícil, mas penso que consegui fazer o que planejei. Estou exausta. Preciso relaxar, recuperar a calma e ir em frente. Mais tarde lhe contarei tudo.

Ela fechou a porta, Alberto desceu e foi ver o que teria para o jantar. Depois, foi para o quarto, pegou uma caderneta de anotações e começou a analisar quanto sua última compra de títulos havia rendido naquela semana.

Nada lhe dava mais prazer que somar os lucros. Ele aprendera com Júlio a não vender os títulos na baixa, mas esperar quando eles tinham maior preço. Assim, em vez de gastar todo o dinheiro, começou a juntar um capital que rendia bem. Saber que seu capital estava crescendo, dava-lhe a sensação de autossuficiência e capacidade. Já não gastava em banalidades. Cuidava da sua aparência e do seu bem-estar.

Urna hora depois, quando Magali desceu, encontrou-o na sala esperando. Em poucas palavras ela contou-lhe tudo sobre seu depoimento. Quando falou da criança, Alberto não se conteve:

— Você teve coragem?

— Naquele momento, senti que precisava falar a verdade. O delegado sabia do menino. Se admiti ser casada com Josué, tinha que falar do menino. Contei a verdade. Eu era uma criança, tinha dezesseis anos, estava fugindo, assustada, sem dinheiro, emprego, sem ninguém que pudesse me ajudar. Não quis deixá-lo com o pai porque era mau caráter e ia maltratar o menino. Deixei-o num orfanato onde sei que pessoas bondosas cuidariam dele muito melhor.

— Você fez isso mesmo?

— Fiz. E também porque eu odiava Josué e não queria esse filho. Criá-lo seria olhar para o passado e eu queria mudar de vida, ser outra pessoa, ter a chance de ser feliz.

— Você fez isso assim, como se fosse nada... Magali ficou silenciosa por alguns segundos, depois disse com voz firme:

— Às vezes, quando me lembro dele, alguma coisa dói dentro de mim, mas eu não tive culpa de ter sido tão maltratada nesta vida. Estava revoltada, me sentindo suja, feia, maltratada, queria mudar, ser outra pessoa, viver outra vida. Para isso tive de ser forte e seguir adiante. Foi graças a isso que consegui conquistar a vida que tenho hoje.

Nos olhos de Alberto havia admiração quando disse:

— Você é uma mulher forte, que sabe o que quer. Venceu muitas coisas e vai continuar vencendo. Estou certo de que vai sair livre de todas as acusações e continuar por cima.

— É o que eu quero. Júlio me ama de verdade, você é meu único amigo, com o qual não tenho segredos. Sei que posso contar com você!

Quando Júlio chegou naquela noite, encontrou Magali linda, perfumada, altiva como sempre e ele desdobrou-se em carinhos, feliz por vê-la tão bem-disposta e alegre.

 

O caso da morte de Josué, levado à justiça, deu ocasião ao doutor Guilherme para mostrar sua habilidade dramática diante do juiz, contando a história da pobre menina sofredora e do péssimo marido que lhe fora imposto. Magali cativou a todos os presentes quando, de cabeça baixa, linda e triste, foi inquirida pelo seu advogado e respondeu a todas as perguntas. Tanto que o causídico da parte contrária nem sequer atreveu-se a contradizer. No fim, Magali foi declarada inocente daquele crime.

Naquela noite, na casa de Júlio, os três, junto com doutor Guilherme, comemoraram a vitória. O advogado estava feliz por mais uma vitória em sua carreira e pelo generoso cheque extra dado por Júlio pela alegria com que recebeu a notícia.

Todos estavam felizes. Conversavam alegres, falando sobre o futuro. Após o brinde, Júlio segurou a mão de Magali dizendo com voz solene:

— Agora estamos livres. Vamos marcar a data do nosso casamento! Quero dar uma festa como nunca se viu neste Rio de Janeiro! Toda a sociedade vai curvar-se diante de Magali! Eu prometo!

Enquanto eles brindavam novamente, dois espíritos observavam. Uma mulher de meia-idade, pele clara, cabelos loiros acobreados presos na nuca com um pente de brilhantes, mãos finas, que o brilho dos anéis realçavam, conversava com um homem alto, olhos magnéticos e escuros:

— Está na hora de trazermos nosso amigo.

— Tem razão. Eu vou providenciar. É agora que a festa vai começar!

Naquela noite, todos estavam felizes. Em seu quarto, Alberto fazia planos de progresso para o futuro. Pensava até em dar algum dinheiro à mulher e pedir-lhe o divórcio. Sentia-se remoçado, alegre, elegante, frequentando a alta sociedade do Rio de Janeiro. Agora ele era igual ao ex-cunhado e estava na hora de arranjar uma mulher mais nova, que o tratasse com carinho.

Júlio e Magali, na cama, conversavam fazendo planos para o casamento. Ele queria fazer uma festa que marcasse época em toda a sociedade. Magali seria a rainha e depois partiriam para Europa, de onde voltariam glorificados e felizes para desfrutar a vida.

 

Rogério entrou na sala de Eugênia que, vendo-o chegar, se levantou, abraçou-o com carinho e beijaram-se longamente. Depois se sentaram lado a lado no sofá e conversaram sobre o andamento da reforma da bela casa que ele comprara e onde eles iriam morar depois do casamento.

Eugênia não queria conservar a casa que fora de sua família. Naquela rua o comércio se instalara e ela preferia vendê-la para quem pudesse aproveitá-la melhor. Ela sentia que havia mudado muito, renovara suas ideias, seus sentimentos, e o passado parecia-lhe remoto e sem significado.

Ela sempre morara na casa que fora da sua família, cujo estilo clássico continuara mesmo depois do seu casamento. Júlio gostava daquela casa e ela, habituada a estar ali, nunca pensara em se mudar. Mas agora era diferente. la começar uma nova vida.

Entusiasmada, ajudava Rogério a decorar a nova casa, antegozando o prazer de viverem juntos em um lugar bonito, confortável e alegre.

Rosa aproximou-se deles dizendo:

— Acabei de falar com Helena e soube que há dois dias o Beto está com muita febre e o médico não sabe o que ele tem. Vou dar um pulo lá.

Eugênia levantou-se preocupada:

— O Beto? Eu vou com você!

— Eu também! — ajuntou Rogério.

Meia hora depois, quando os três chegaram ao orfanato, souberam que Helena estava no quarto de Beto com o doutor Geraldo, o médico que cuidava das crianças.

Os três foram até lá e, ao vê-los, Helena aproximou-se:

— Como está ele? — indagou Eugênia.

— O doutor Geraldo o está examinando. Além da febre alta, está respirando com dificuldade.

— Vamos esperar e saber o que podemos fazer para ajudar — disse Rogério.

Eles foram para a sala ao lado e Rosa pediu:

— Vamos fazer uma corrente, pedir ajuda espiritual. Ele está mal!

Os três deram-se as mãos, Rosa concentrou-se e fez comovida prece.

Quando ela terminou, o médico estava saindo do quarto e eles se aproximaram:

— Beto está com infecção pulmonar. É preciso agir depressa. Ele precisa tomar o remédio imediatamente.

— Eu vou buscar — prontificou-se Rogério. Ele saiu apressado e o médico explicou a elas:

— Vou aplicar essa injeção, se ele não melhorar, teremos de levá-lo ao hospital.

Pouco depois, Rogério voltou trazendo o medicamento e o médico imediatamente aplicou a injeção. Depois disse a Helena:

— É preciso esperar e ver o efeito. Eu preciso ir, tenho outro caso urgente para atender. Dentro de uma hora voltarei para vê-lo.

O médico saiu e Maurício apareceu na porta do quarto dizendo:

— Dona Helena, tem um policial aqui procurando pela senhora.

— Pode ir que nós ficaremos com ele — tornou Eugênia.

Helena saiu e Rogério foi atrás dela. Um homem alto, forte, moreno, esperava na entrada da sala dela. Vendo-a chegar, ele perguntou:

— A senhora é a diretora deste orfanato?

— Sim.

Ele mostrou sua carteira da polícia e explicou:

— Estou aqui à procura de informações sobre um menino que foi abandonado em um orfanato em Jundiaí há mais ou menos oito ou nove anos. Sei que o orfanto lá fechou há cinco anos por falta de recursos e os meninos foram enviados para cá. Seu primeiro nome é Roberto.

— O único Roberto que temos aqui é o Beto. Na ficha dele consta que estava com menos de um ano quando foi deixado na porta do orfanato de Jundiaí.

— Pode ser quem estou procurando.

— Seus pais apareceram?

— Não.

— O senhor é da polícia. Por que o estão procurando depois de tanto tempo?

— É uma longa história. A senhora terá de comparecer à delegacia com o menino e o delegado lhe informará tudo.

— Infelizmente o menino está muito doente. O médico lhe deu uma injeção e vai voltar logo mais para saber o resultado. Se ele não melhorar, precisaremos interná-lo no hospital. O caso é grave. Só poderei levá-lo quando sarar.

— Quero o telefone do médico.

Helena deu o nome e o telefone do médico e o policial foi embora.

Rogério ficou intrigado. Durante tantos anos ninguém se interessara em saber do Beto. O que teria acontecido?

Os dois voltaram para o quarto e Eugênia comentou:

— Penso que a injeção está fazendo efeito. A febre baixou e ele está transpirando muito. Seria bom trocar a roupa dele.

Uma hora depois, quando o doutor Geraldo voltou, examinou o menino e comentou:

— Deu resultado. Agora é tomar todos os cuidados para que não tenha uma recaída.

Depois que o médico foi embora, Rosa disse para Helena:

— Nosso amigo Marcos Vinícius deixou um recado para nós.

Helena se emocionou:

— Ele continua nos ajudando! Fale!

— Para que ele melhore, queira viver, precisamos cercá-lo com muito amor. Ele se sente só, sofre a dor do abandono.

— Vou fazer tudo que puder. Mas, com tantas crianças e poucos para cuidar de tudo, não sei se poderei ser eficiente.

— Virei todos os dias cuidar dele. Pode contar comigo! — disse Eugênia.

— Eu também virei! — apoiou Rosa.

As duas sentaram-se uma de cada lado da cama de Beto. Ele dormia, mas seu sono era agitado e sua respiração mais rápida que o normal.

Ao voltar para o quarto de Beto, Helena disse admirada:

— Nunca pensei que depois de tantos anos alguém aparecesse para procurar o Beto.

— Ainda não sabemos se ele é o menino que o policial procura — comentou Rogério.

— Mesmo que ele seja, não vai ser fácil provar. Dele só temos os documentos feitos pelo juiz, onde está escrito "filho de pais desconhecidos".

Helena colocou a mão da testa de Beto e comentou:

— A febre baixou um pouco, mas ele ainda não está bem. O doutor Geraldo vai voltar mais tarde para vê-lo. Tomara que não seja preciso interná-lo.

— Eu e Rosa vamos passar a noite aqui cuidando dele. Ele vai ficar bom.

— Obrigada por me ajudarem. Estou angustiada. Beto é um menino sofrido, eu sabia que nunca seria adotado e que teríamos de assumir a responsabilidade de prepará-lo para o futuro. Será que agora vai aparecer alguém da família dele?

Rogério pensou um pouco e respondeu:

— Vamos ver. Você ainda tem as anotações de quando Beto chegou aqui?

— Sim. Tudo o que estava no orfanato de Jundiaí veio para cá. Até as peças de roupa. Não perdemos nenhum detalhe, pois sabemos que essas peças servem de identificação caso alguém venha procurá-los. O que pensa fazer?

— Reunir tudo que puder e procurar o delegado para saber quem é que o está procurando.

— Mas pode não ser ele! — respondeu Helena.

— E se for? — rebateu Rogério. — Nós não podemos perder nenhuma pista.

— Faça isso, Rogério —reforçou Eugênia emocionada. — Pode ser a chance de ele encontrar uma família!

— Vamos ver nossos arquivos e separar tudo que temos a respeito dele. Venha, Rogério.

Pouco depois, Rogério, com todas as anotações e cópias do que havia em uma pasta, ligou para a delegacia e soube que o delegado havia saído em diligência e só estaria lá na tarde do dia seguinte.

Mais tarde, Rogério convidou-as para jantar, mas as duas não quiseram sair de perto do menino. Então ele saiu, comprou lanches, frutas e colocou à disposição delas.

Beto estava em um pequeno quarto usado como enfermaria para evitar um possível contágio. Embora a febre tivesse baixado um pouco, ele continuava com o sono agitado.

Rosa tomou lanche primeiro, depois voltou a seu posto, enquanto Eugênia e Rogério foram lanchar. Helena, preocupada com o menino, estava sem fome, mas os dois insistiram para que ela lhes fizesse companhia e, por fim, ela acabou se alimentando um pouco.

Passava das onze da noite quando Rogério foi embora. Ele tinha um compromisso de trabalho pela manhã, mas à tarde pretendia ir falar com o delegado e informar-se sobre a visita do policial.

Naquela noite, tendo se preparado para dormir, sentado na cama, pensando no caso do Beto, fez uma prece pedindo a Deus que o menino se recuperasse.

Ao fixar o pensamento na figura de Beto, ele sentiu que uma onda de medo e tristeza o invadiu e precisou fazer um esforço muito grande para recuperar o equilíbrio.

Nesse momento, pediu ajuda a Marcos Vinícius, seu guia espiritual. Logo sentiu alívio, voltou ao normal e ouviu-o dizer:

— Sem julgamentos. Com o amor incondicional no coração, tudo se resolverá no bem!

Rogério, pensando nessa frase, estendeu-se na cama e em poucos minutos adormeceu.

 

Passava da meia-noite quando Helena entrou no quarto de Beto, colocou a mão na testa do garoto, e comentou:

— A febre baixou um pouco, mas ele ainda não está bem.

— É verdade. Apesar da melhora, ele continua muito agitado — respondeu Eugênia.

Rosa interveio:

— O que ele tem é energético. Não é da doença. Marcos Vinícius está aqui cuidando dele. Vamos ficar na paz e confiar.

— Podem ir dormir um pouco na sala ao lado. Eu ficarei com ele — Helena propôs.

— De modo algum — protestou Eugênia —, você tem que dormir. Nós vamos nos revezar aqui e, quando ele ficar melhor, iremos para casa. Você amanhã ainda terá de cuidar das crianças e de tantas outras coisas. Nem sei como dá conta de tudo.

— Isso mesmo — reforçou Rosa. — Chega por hoje. Vá descansar.

Helena hesitou um pouco, depois tornou:

— Eu vou, mas se ele não ficar bem, e precisarem de alguma coisa, podem me chamar. Tenho sono leve por causa das crianças.

Depois que Helena deixou o quarto, Rosa considerou:

— Nesta penumbra e em silêncio, podemos dormir sem querer. Se eu cochilar, me acorde. Uma de nós pode dormir um pouco, mas as duas ao mesmo tempo, não.

— Eu estou sem sono. Não sei o que é. Há alguma coisa no ar me incomodando. Parece que preciso vigiá-lo, não posso dormir.

— Você está impressionada com o problema do garoto. Relaxe. Sinto que ele vai ficar bem.

As duas mulheres acomodaram-se do jeito que deu, estendendo as pernas sobre uma cadeira e, meia hora depois, Rosa adormeceu. Eugênia não sentia sono. Com o tempo, relaxou um pouco e, de vez em quando, colocava a mão na testa do menino para medir a temperatura. A febre, aparentemente, havia baixado bem.

De repente, Beto sentou-se na cama e gritou:

— Ele está aqui! Tenho medo! Vá embora, eu não gosto de você, saia daqui.

Assustadas, Eugênia e Rosa tentaram socorrê-lo, mas Beto continuava com os olhos arregalados, gritando e pedindo para que alguém fosse embora. Seu corpo estava coberto de suor e o garoto debatia-se querendo levantar-se da cama.

Eugênia abraçou-o, aconchegou-o em seu peito, dizendo com voz calma:

— Beto, eu estou aqui. Não vou deixar ninguém te machucar! Estou aqui para te proteger.

Enquanto o garoto se debatia, Rosa notou uma luz muito clara e brilhante que saía do peito de Eugênia e envolvia os dois no mesmo abraço. Helena, assustada, chegou ao quarto e juntou-se às duas mulheres para ajuda-las.

Eugênia abraçava Beto, apertando-o de encontro ao peito, e murmurava palavras de carinho e de conforto, enquanto seus olhos emocionados refletiam muito amor.

Rosa notou a presença do espírito de Marcos Vinícius atrás de Eugênia e que ele amparava a amiga e o menino. Por essa razão, pediu a Helena que não se aproximasse nem interferisse na cena.

Aos poucos, o menino foi acalmando-se, enquanto Eugênia continuava dizendo palavras de proteção e de amor. Até que ele a abraçou, acomodou-se melhor nos braços de Eugênia, fechou os olhos e adormeceu.

As duas observavam a cena em silêncio. Com muito carinho, Eugênia colocou o menino na cama, cobriu-o com carinho, beijou delicadamente a testa do garoto, e Rosa e Helena admiraram-se quando ele, mesmo dormindo, esboçou um leve sorriso e continuou dormindo, desta vez em paz.

As duas mulheres abraçaram Eugênia e não tinham palavras para descrever o que haviam presenciado naquela noite. Os olhos de Eugênia brilhavam quando ela os fixou dizendo com voz doce:

— Esta noite, eu senti o que é o amor de mãe! Agora tudo está bem e eu posso dormir em paz. Rosa disse sorrindo:

— Faça isso. Eu ficarei aqui de vigília.

Na manhã seguinte, quando Eugênia acordou, viu que Beto continuava dormindo. Depois de verificar se o menino ainda estava com febre, ela pediu a Odete que lhe mandasse algumas coisas. Enquanto aguardava, sentou-se ao lado da cama do garoto e esperou que ele acordasse.

Beto, então, abriu os olhos e, ao ver Eugênia, não disse nada. Seus olhos, no entanto, brilhavam, e ela sorriu e perguntou:

— Como se sente?

Ele não respondeu, e Eugênia notou que ele estava encabulado. A mulher, no entanto, não se deu por convencida, colocou a mão sobre a testa do garoto, e continuou:

— Você teve muita febre ontem, e eu passei a noite aqui para mandar a sua doença embora. Quero saber se você está se sentindo melhor.

— Estou.

Eugênia notou que ele estava acanhado e, com naturalidade, continuou:

— Agora vou buscar o seu café. Precisa se alimentar bem para crescer forte, com saúde, e para cuidar de sua vida.

Pouco depois, Eugênia voltou trazendo uma bandeja com café com leite, pão com presunto e queijo, bolachas e geleia. Enfeitada com um botão de rosa branca, a bandeja fora arrumado com capricho.

Depois de colocar o café sobre a mesinha, Beto pediu para ir ao banheiro, e Eugênia ajudou-o porque o menino sentia as pernas fracas. Quando o garoto voltou para cama, ela disse:

— Vou só colocar mais um travesseiro atrás de suas costas, para que você possa comer.

Eugênia ajudou-o a levantar um pouco o corpo, colocou um guardanapo no peito do garoto e, depois de perguntar se ele estava bem, entregou-lhe a caneca com café com leite.

Apesar de acanhado, Beto tomou o café, comeu o lanche e adorou as bolachas com geleia.

Depois, foi a vez de Rosa ficar ao lado dele enquanto Eugênia ia tomar um banho e se arrumar. Embora Beto continuasse um pouco arredio, em seus olhos havia um brilho diferente, mais vivo.

Fazia algum certo tempo que ela trouxera um livro de aventuras para Beto, mas ele nunca se interessara em ler. Rosa sentou-se ao lado da cama e começou a contar alguns pedaços da história para distrai-lo. Quando perguntou se ele gostaria que ela lesse a história inteira, o menino concordou.

— Quando você não entender alguma coisa na história, pode me perguntar.

Beto prestou atenção à história, mas Rosa percebeu que ele olhava insistentemente para a porta.

Uma hora depois, Eugênia voltou ao quarto e aproximou-se dizendo:

— Agora é minha vez de ficar com o Beto.

Os olhos dele brilhavam e seu rosto estava ligeiramente corado. Rosa, então, levantou-se dizendo:

— Nesse caso, vou ver as meninas. Elas queriam ficar aqui comigo, mas eu não deixei e prometi que voltaria depois.

Eugênia sentou-se ao lado da cama e segurou a mão do garoto dizendo:

— Está se sentindo melhor?

— Estou um pouco tonto.

— A febre foi embora e isso logo vai passar.

— Não quero sarar logo.

— Não? Prefere se sentir mal?

— Não é isso...

— O que é então?

Beto fechou os olhos e não respondeu. Eugênia continuou:

— Eu estou aqui para ajudá-lo a ficar bom e sei que logo ficará bem. A vida é uma aventura incrível para um menino como você, que tem muitos anos pela frente.

Sem puxar a mão que Eugênia segurava, com os olhos fixos nela, Beto continuou a ouvir atento o que a mulher lhe dizia. Eugênia começou a falar sobre as coisas simples da natureza, sobre os animais, as plantas, e a chuva, que molha a terra e faz as sementes germinarem.

À medida que ela falava, Beto ia relaxando até que, por fim, adormeceu. Eugênia continuou segurando a mão do garoto, feliz por saber que ele estava aceitando seu carinho e mudando suas atitudes, tentando agir de forma mais natural.

Enquanto Beto dormia sereno, Eugênia foi ter com Rosa, que brincava com as gêmeas. A amiga estava alegre e bem-disposta.

Eugênia comentou:

— Se Beto continuar melhorando, você poderá ir dormir em casa esta noite.

— Vá você que eu ficarei aqui — Rosa tornou.

— Hoje eu ainda quero ficar. Depois, veremos —tornou Eugênia.

— Beto está diferente. Você conseguiu tocar a alma daquele menino, Eugênia.

— Não. A alma dele me tocou primeiro. Eu senti a tristeza, os medos, a insegurança que ele tem. Sua dor me comoveu. Farei tudo que puder por esse menino, minha amiga.

As gêmeas, uma de cada lado, penduradas no braço de Rosa perguntavam:

— Você vai me levar para sua casa hoje? —perguntou Luíza.

— Eu também quero ir morar na sua casa. Você me leva? — disse Lúcia.

— Agora não posso. Mas eu gosto muito de vocês e sempre que puder virei vê-las — Rosa respondeu.

As duas reclamaram, dizendo que queriam ir para casa com ela.

Rosa sentiu o coração apertado, pensando que não tinha como fazer aquilo. Eugênia olhou-a séria:

— Não fique triste. Se for para você assumi-Ias, a vida vai lhe mostrar o caminho.

As meninas continuavam pedindo atenção:

— Você não vai contar a história da fada azul?

— Se vocês se sentarem e ficarem quietas, eu conto.

Eugênia deixou Rosa com as meninas, passou no quarto de Beto, que ainda dormia, e foi ter com Helena para tentar ajudá-la em alguma coisa.

No fim da tarde, Rogério chegou e foi procurar Eugênia, que estava na sala de Helena. Depois dos cumprimentos, ele disse sério:

— Estou vindo da delegacia. Trago notícias surpreendentes.

— Tem a ver com o Beto? — indagou Helena com interesse.

— Tudo indica que sim. Mas também tem a ver com Júlio, o ex-marido de Eugênia.

— Júlio?! — exclamou Eugênia surpresa.

Rogério pensou um pouco e depois comentou:-

— A vida tem caminhos surpreendentes para revelar os segredos das pessoas. O delegado estava ocupado, mas, quando eu disse que vinha do orfanato e trazia alguns dados sobre o menino, ele me recebeu imediatamente. Mostrei-lhe as anotações que temos e, segundo ele, nossas informações bateram com o que ele já sabia. No final, contou-me a história de Magali, a mulher que vive com Júlio.

Ele fez uma ligeira pausa e, vendo que as duas mulheres o ouviam atentas, relatou o que descobrira sobre o casamento de Magali com Josué, a suspeita do crime do qual ela fora absolvida, e a existência do menino que ela confessou ter deixado no orfanato de Jundiaí, por não ter como criá-lo.

— Não tenho dúvidas de que o Beto seja esse menino.

— Você acha que ela vai assumir o filho? — indagou Helena.

— Não. Ela nem quis vê-lo. Odiava esse marido e, por consequência, passou a odiar o filho também. Segundo o delegado, ela não quer nada com ele — Rogério tornou.

Eugênia abaixou os olhos, que brilhavam emocionados:

— Então foi isso! Durante a gravidez, o espírito de Beto sofreu as agressões que Josué direcionava à mãe, e por fim, acabou sendo abandonado por ela. Essa deve ter sido a causa da tristeza, da insegurança e do medo que ele sentia das pessoas. Não confiava em ninguém e tentava proteger-se, fugindo de tudo e de todos. Mas ontem eu consegui ser aceita por ele e vou continuar a apoiá-lo até que Beto possa encontrar um caminho melhor.

— Eugênia conseguiu tocar a alma dele. Eu e Rosa nos emocionamos muito.

Rogério segurou a mão de Eugênia, levou-a aos lábios com carinho, e continuou:

— Só uma alma forte e bela como a sua poderia ter conseguido isso.

— Eu nunca tive filhos e pensei que nunca conheceria essa emoção, mas o Beto me deu o poder de sentir esse amor. Agora, estou me sentindo mais mulher —Eugênia respondeu.

— Acredito que agora possamos auxiliá-lo a encontrar o próprio caminho.

— E você vai me ajudar!

Rosa entrou e, depois de cumprimentar o casal, o sobrinho disse sorrindo:

— Seu paciente acordou e não fez outra coisa senão olhar para a porta, até que não aguentou e perguntou se você tinha voltado pra casa — Rosa comentou.

— Vou já ver como ele está! — disse Eugênia.

Rogério comentou:

— Vou com você. Quero ver isso de perto!

Quando os dois entraram no quarto, os olhos de Beto brilharam e ele abaixou a cabeça acanhado. O casal aproximou-se, Eugênia beijou a testa do menino com naturalidade, e observou:

— Você está melhor.

Rogério levantou a cabeça do menino e, olhos nos olhos, disse:

— Levante a cabeça. Você é um menino corajoso, forte, que vai estudar, crescer, aprender a fazer coisas boas.

Os olhos do garoto brilharam. Ele manteve a cabeça erguida, mas continuou calado.

Eugênia sentou-se ao lado da cama, e Rogério foi à secretaria para conversar com Helena.

— O doutor Geraldo vai chegar daqui a pouco para vê-lo. Rosa já lhe deu banho hoje, você está bem, e eu penso que logo terá alta — falou Eugênia carinhosamente.

— E aí você vai embora pra sua casa? — Beto perguntou tristonho.

— Eu estou aqui desde ontem e, depois de dar o seu jantar, vou para casa.

— Eu ainda não estou bom. O médico vai dizer isso.

— Eu vou, mas amanhã eu volto para cuidar de você. O menino começou a ficar agitado, torceu as mãos, e depois disse nervoso:

— É à noite que ele vem me perseguir! Eu tenho muito medo!

— Você sabe quem ele é?

— Não. Mas ele é muito feio! Tem os olhos arregalados, a boca torta, não fala direito. Quer me abraçar! Eu me sinto muito mal. Tenho medo de dormir.

Eugênia segurou a mão de Beto dizendo:

— Você tem rezado antes de dormir, conforme dona Helena ensinou?

— Rezar não adianta! Ele vem assim mesmo.

— Hoje, antes de eu ir embora, vamos rezar juntos para que Deus ajude esse homem e o leve para onde ele precisa ir.

— Deus está muito longe. Será que vai me ouvir?

— Se você falar de coração, ele ouve sim.

Doutor Geraldo entrou no quarto, e Eugênia levantou-se para cumprimentá-lo. O médico aproximou-se do leito dizendo alegre:

— Pelo jeito você melhorou muito! Também, com uma enfermeira como esta! Isso é que é sorte!

Beto corou um pouco, não disse nada, e o médico continuou:

— Vamos ver como você está!

Depois de examiná-lo, doutor Geraldo disse satisfeito para Eugênia:

— Vencemos a infecção, mas ele ainda está muito fraco. Vou receitar um fortificante e a alimentação do garoto terá que ser adequada. Seria bom poder fazer alguns exercícios leves.

— Sei o que quer dizer. Eu vou continuar cuidando da recuperação dele pessoalmente — Eugênia tornou.

O médico preparou a receita, depois foi à secretaria falar com Helena e comentou:

— Estou impressionado com a melhora do Beto. O carinho de dona Eugênia o ajudou muito! Ainda bem que podemos contar com pessoas como ela.

— De fato. Ela interessou-se por ele e tratou-o com tanto amor, que operou o milagre que há muito tempo esperávamos.

Depois de dar o jantar a Beto, Eugênia conversou com Rosa:

— Eu preciso ir para casa, mas tenho vontade de ficar pelo menos esta noite com ele.

— Não precisa. Eu ficarei. Antes de vocês irem, faremos uma prece no quarto dele — Rosa comprometeu-se.

Quando chegou o momento de irem embora, os três reuniram-se ao redor da cama de Beto, deram-se as mãos, e Rogério, inspirado pelo espírito de Marcos Vinícius, orou pedindo a Deus que abençoasse aquela casa, o destino daquelas crianças, e pediu que todos naquela noite ficassem em paz.

À medida que Rogério falava, sua voz ia se modificando, tornando-se mais grave e suave, enquanto todos sentiam uma brisa leve e muito agradável envolvê-los.

Quando Rogério se calou, perceberam que Beto dormia tranquilo. Rosa, então, disse com voz suave:

— Eu vou ficar aqui, mas em boa companhia. O espírito da enfermeira Rose está aqui e vai ficar comigo. Podem ir em paz.

Abraçados, os dois deixaram o quarto, despediram-se de Helena, que ainda estava ocupada com as crianças e foram para casa.

Naquela noite, quando entraram em casa, Rogério abraçou-a dizendo:

— Sinto que esta noite é mágica e eu não quero que ela acabe.

Eles beijaram-se longamente, sentindo o coração bater forte e um amor imenso envolver-lhes. Eugênia murmurou feliz:

— Hoje não quero que você vá embora. Fique! Vamos viver esse encantamento que nos envolve e alimenta. Fique comigo!

Abraçados, trocando beijos pelo caminho, foram para o quarto, onde deram vazão ao que sentiam, esquecidos de tudo e de todos, unidos pelo corpo e pela alma.

 

Era madrugada e, na casa de Júlio, tudo estava em silêncio. Ambos dormiam, quando uma mulher cheia de joias e brilhantes e um homem de olhar magnético, que perseguia Júlio, entraram no quarto trazendo mais alguém.

— Chegou a hora! Nardo, acorde Josué!

— Segure firme, Márcia. Josué pode escapar e estragar tudo.

Márcia segurou os dois braços de Josué, enquanto Nardo colocava a mão na cabeça dele dizendo com voz firme:

— Acorde, Josué! Estamos cumprindo nossa promessa. Chegou a hora de cobrar o que é seu!

Josué endireitou o corpo, olhou em volta tentando situar-se e por fim gritou:

— Onde está a miserável? Vou acabar com ela!

— Nós o trouxemos aqui, mas terá de nos obedecer, senão o levaremos de volta.

— Finalmente! Há muito tempo, estou procurando essa miserável. Ela vai pagar por tudo que me fez!

— É seu direito. Mas você está morto e não tem um corpo para acabar com a vida dela.

— Isso é injusto! Ela me deve!

— Calma! — disse Márcia. — Conheço um jeito de ela mesma se destruir. Vamos acordá-la.

Nardo mentalizou Magali, e, em seguida, o espírito da moça entrou no quarto, viu Josué, deitou-se sobre o próprio corpo, e acordou gritando apavorada:

— Você está morto! Isso não pode ser verdade! É uma ilusão! Quem morre não volta!

Josué atirou-se sobre ela dizendo:

— Você acabou comigo e agora chegou o momento da justiça! Vai pagar por tudo que me fez!

Júlio acordou e disse assustado:

— Acorde, Magali! Você está tendo um pesadelo! Isso é só um sonho!

— Não é não! Josué está vivo e veio me cobrar por sua morte. Veja, ele está dizendo que vai acabar comigo!

Júlio acendeu a luz e abraçou-a com força:

— Acalme-se. Foi um pesadelo. Josué está morto e enterrado.

Magali tremia e, lívida, agarrava-se a Júlio pedindo:

— Mande-o embora! Parece um monstro, é horrível! Diz que vai me destruir!

— Não tem ninguém aqui. Acalme-se, Magali. Respire fundo, olhe em volta. Estamos sozinhos.

Nesse momento, Alberto acordou e, ouvindo os gritos, foi até a porta do quarto do casal.  No entanto, não teve coragem de bater na porta e resolveu esperar mais um pouco.

Pouco depois, Júlio abriu a porta, abraçado a Magali, que, muito pálida, tremia assustada.

— O que aconteceu? — indagou Alberto.

Júlio explicou:

- Não foi nada. Magali teve um pesadelo, ficou assustada.

Alberto fixou-a e, apesar de preocupado, tentou acalmá-la:

— Isso não é nada. Já passou! Minha mulher tinha alguns pesadelos e eu ia para cozinha, fazia um chá de melissa, e ela logo ficava bem ao tomá-lo.

Magali encarou-o, respirou fundo, e depois perguntou:

— Será? Parecia ser verdade! Eu vi Josué e ele estava horrível! Nunca mais quero vê-lo de novo! Vamos logo tomar esse chá!