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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O PORTÃO DE PTOLOMEU / Jonathan Stroud
O PORTÃO DE PTOLOMEU / Jonathan Stroud

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O PORTÃO DE PTOLOMEU

 

Alexandria 125 a.C.

Os assassinos invadiram os jardins do palácio à meia-noite, quatro sombras escuras fugazes coladas ao muro. A queda foi alta, o solo duro; o impacto deles não fez mais ruído do que os pingos da chuva. Permaneceram ali acocorados três segundos, abaixados e imóveis, cheirando o ar. Depois avançaram furtivamente pelos jardins escuros, por entre as tamargueiras e tamareiras, em direção aos aposentos onde o rapaz repousava. Uma chita acorrentada agitou-se no sono; ao longe no deserto, os chacais uivaram.

Caminhavam nas pontas dos pés bicudos, sem deixar rastro na erva comprida molhada. As suas túnicas esvoaçavam atrás deles, fragmentando de leve as sombras. O que era possível ver? Nada senão folhas agitando-se na brisa. O que era possível ouvir? Nada senão o vento a suspirar nas frondes das palmeiras. Um djinni crocodilo, de sentinela junto ao lago sagrado, não se mexeu apesar de terem passado bem rente à sua cauda. Para humanos, até que não estava nada mal feito.

O calor do dia era uma lembrança; o ar estava gélido. Por cima do palácio uma lua fria redonda iluminava, banhando de prata os telhados e os pátios.1

 

1 Esta era uma das peculiaridades da seita: só agiam quando havia lua cheia. Tornava mais difíceis as suas tarefas, maior o seu desafio. E nunca haviam falhado. Além disso, vestiam-se apenas de preto, evitavam a carne, o vinho, as mulheres, tocar instrumentos de sopro e, curiosamente, não comiam queijo que não fosse feito com leite de cabras criadas nas suas montanhas desertas distantes. Antes de cada tarefa jejuavam um dia, meditavam olhando para o solo sem pestanejar, depois comiam pequenos bolos de haxixe e cominhos, sem água, até ficarem com as gargantas amarelas e brilhantes. Admirava que conseguissem matar alguém.

 

Ao longe, para lá dos muros, a grande cidade murmurava na noite: rodas nas estradas de terra batida, gargalhadas distantes do bairro do prazer ao longo do cais, a maré a bater nas suas pedras. A luz de luminárias brilhava nas janelas, cinzas incandesciam nas lareiras dos telhados e, do alto da torre ao lado da entrada do porto, a grande fogueira de vigia fazia chegar a sua mensagem até o mar. A sua imagem dançava como um diabrete-luz nas ondas.

Nos seus postos, os guardas jogavam jogos de azar. Nas salas comunitárias, os criados dormiam em camas de junco. Os portões do palácio estavam trancados com fechaduras triplas, cada uma com espessura superior à de um homem. Não havia olhos virados para os jardins ocidentais, onde a morte viera fazer uma visita, secreta como um escorpião, em quatro pares de pés silenciosos.

A janela do rapaz ficava no primeiro piso do palácio. Quatro sombras pretas acocoraram-se por debaixo da parede. O líder fez um sinal. Um a um, colaram-se à alvenaria; um a um, começaram a subir, suspensos pelas pontas dos dedos e as unhas dos dedos grandes dos pés.2 Só assim poderiam ter escalado colunas de mármore e cascatas de gelo desde Massilia* a Hadhramaut**; os blocos de pedra rugosa eram agora, fáceis para eles. Foram subindo, como morcegos pela parede de uma caverna. O luar incidiu em algo brilhante suspenso das suas bocas.

 

2 E eram todas horrendas e curvas, afiadas como as garras das águias. Os assassinos cuidavam bem dos pés, em virtude da sua importância no trabalho que desenvolviam. Eram lavados com freqüência, esfregados com pedra-pomes e marinados em óleo de sésamo até a pele ficar macia como penugem.

 

* Cidade grega, a atual Marselha. (NT)

** Região da Arábia (Iémen do Sul) que se estende do golfo de Adem ao mar de Omã. (NT)

 

O primeiro dos assassinos chegou ao parapeito da janela. Saltou para lá feito um tigre e espreitou o aposento.

O luar banhava o quarto; o enxergão estava iluminado como se fosse de dia. O rapaz dormia, imóvel como se já estivesse morto. O cabelo escuro caía solto sobre as almofadas, a garganta pálida e inocente a brilhar nas sedas.

O assassino tirou o punhal de entre os dentes. Com silenciosa deliberação, observou o quarto, avaliando a sua extensão e a possibilidade de armadilhas. Era grande, sombrio, despojado de ostentação. Três colunas sustentavam o teto. Ao fundo, havia uma porta de teca, trancada do lado de dentro. Uma arca, meio cheia de roupas, encontrava-se aberta, junto à parede. Viu uma cadeira real coberta com um manto descartado, sandálias no chão, uma bacia de ônix cheia de água. Pairava no ar um leve vestígio de perfume. O assassino, para quem semelhantes odores eram sinal de decadência e corrupção, franziu o nariz.3

 

3 A seita evitava os perfumes por razões práticas, preferindo cobrir-se dos odores adequados às condições de cada trabalho: pólen nos jardins, poeira nos desertos, excrementos e vísceras nas cidades. Eram uns sujeitinhos muito empenhados.

 

Semicerrou os olhos; virou o punhal ao contrário, segurando-o entre o indicador e o polegar pela ponta brilhante e reluzente. Agitou-se uma vez, duas. Estava a avaliar a distância — nunca falhara um alvo, de Cartago à antiga Cólquida*. Cada faca que atirara fora encontrar à respectiva garganta.

 

* Região oeste da Ásia entre o Cáucaso e a Armênia. Segundo a mitologia, foi para lá que se dirigiu a expedição dos Argonautas na demanda do Velo de Ouro. (NT)

 

O pulso dele tremeu; o arco de prata da trajetória da faca cortou o ar em dois. Aterrou com um ruído suave, cravando-se até o cabo na almofada, a escassos centímetros do pescoço do rapaz.

O assassino estacou, na dúvida, ainda acocorado no parapeito. As costas das suas mãos apresentavam as cicatrizes em linhas cruzadas que o distinguiam como membro da academia tenebrosa. Um membro nunca falhava o seu alvo. O lançamento fora exato, calibrado com precisão... E, no entanto, falhara. A vítima teria se movido uma fração crucial? Impossível — o rapaz dormia profundamente. Retirou da sua pessoa um segundo punhal.4 Outra pontaria cuidadosa (o assassino estava consciente dos seus irmãos atrás e por baixo de si na parede: sentia o peso sinistro da impaciência deles). Um movimento do pulso, um arco momentâneo...

 

4 Não vou dizer de onde ele o tirou. Basta referir que tinha a ver com questões higiênicas.

 

Com um ruído surdo, o segundo punhal cravou-se na almofada, a centímetros do outro lado do pescoço do príncipe. Enquanto dormia, talvez sonhasse — surgiu um sorriso espectral aos cantos da sua boca.

Por trás da gaze preta do lenço que lhe cobria o rosto, o assassino carregou o cenho. Retirou de dentro da túnica uma faixa de tecido, firmemente enrolada numa corda. Em sete anos, desde que o Eremita lhe ordenara a primeira morte, seu garrote nunca havia se partido, as mãos nunca lhe haviam falhado.5 Com a ligeireza de um leopardo, deslizou do parapeito e avançou furtivamente pelo chão enluarado.

 

5 O Eremita da Montanha treinava os seus seguidores em inúmeros métodos infalíveis de assassínio. Sabiam usar como ninguém garrotes, espadas, facas, bastões, cordas, venenos, discos, laços, bolas e setas, além de serem bastante habilidosos no mau-olhado. Também aprendiam a matar por flexão do dedo da mão ou do pé, e a dentada furtiva era uma especialidade. Havia lombrigas e tênias para os estudantes mais avançados. E o melhor de tudo era a ausência de culpa: cada assassinato era justificado e perdoado em virtude de um forte desrespeito religioso pelo caráter sagrado das vidas das outras pessoas.

 

Na sua cama, o rapaz murmurou algo. Agitou-se por baixo do lençol. O assassino ficou rígido, uma estátua preta no centro do quarto.

Por trás, na janela, dois dos seus companheiros assomaram no parapeito. Ficaram à espera, observando.

O rapaz soltou um leve suspiro e ficou sossegado mais uma vez. Ajeitou o rosto nas almofadas, um cabo de punhal a sair de cada lado.

Passaram sete segundos. O assassino voltou a mexer-se. Contornou furtivamente as almofadas, enrolando as pontas do cordão em volta das mãos. Estava agora bem por cima da criança; curvou-se rapidamente, colocando o cordão sobre a garganta adormecida...

Os olhos do rapaz abriram-se. Estendeu uma mão, agarrou o pulso esquerdo do assassino e, sem qualquer esforço, atirou-o de cabeça contra a parede mais próxima, partindo-lhe o pescoço como um caule de junco. Atirou para trás o lençol de seda e, de um salto, ficou livre, virado para a janela.

No parapeito, silhuetado na Lua, dois dos assassinos silvaram como cascavéis. A morte do seu companheiro era uma afronta ao orgulho coletivo. Um tirou da túnica um tubo de osso; de uma cavidade entre os dentes, aspirou uma pequena bola, fina como a casca de um ovo, cheia de veneno. Levou o tubo aos lábios, soprou uma vez: a bola atravessou o quarto, dirigida ao coração da criança.

O rapaz deu um pulo; a bola desfez-se contra uma coluna, salpicando-a de líquido. Uma pluma de vapor verde aspergiu o ar.

Os dois assassinos saltaram para dentro do quarto; um deste lado, o outro daquele. Cada um segurava agora uma cimitarra na mão; rodaram-nas em complexos floreados, por cima das cabeças, os olhos escuros inspecionando o quarto.

O rapaz desaparecera. O quarto estava em silêncio. O veneno verde corroía a coluna; as pedras crepitavam com ele.

Nem uma só vez em sete anos, de Antioquia a Pérgamo, estes assassinos haviam perdido uma vítima.6 Os braços deles cessaram o movimento; abrandaram o passo, escutando com atenção, procurando sentir no ar o cheiro do medo.

 

6 E não era agora que tencionavam que isso começasse a acontecer. O Eremita era conhecido por não poupar os discípulos que regressavam cobertos de fracasso. Havia uma parede no instituto coberta com as peles deles — uma engenhosa exposição que incutia o vigor nos seus estudantes, e servia também para eliminar na perfeição as correntes de ar.

 

De trás de uma coluna no centro do quarto chegou o ruído ínfimo de um raspar, como um rato a agitar-se na sua cama de palha. Os assassinos entreolharam-se; avançaram lentamente, ponta de pé em ponta de pé, as cimitarras erguidas. Um foi para a direita, passando pelo corpo flácido do seu companheiro. Um foi para a esquerda, passando junto à cadeira dourada, coberta com o manto real. Moviam-se como fantasmas em volta das margens do quarto, contornando a coluna de ambos os lados.

Por trás da coluna, um movimento furtivo: uma forma de rapaz escondida nas sombras. Ambos os assassinos a viram; ambos ergueram as cimitarras e precipitaram-se, da esquerda, da direita. Ambos atacaram com a rapidez do louva-a-deus.

Um grito duplo, gorgolejante e entrecortado. Surgiu do outro lado da coluna uma confusão de braços e pernas a rolar aos tropeções: os dois assassinos, entrelaçados num abraço apertado, cada um trespassado pela espada do outro. Tombaram no jorro de luar no centro do aposento, contorceram-se levemente e ficaram quietos.

Silêncio. O parapeito da janela estava vazio, nada nele além do luar. Uma nuvem passou sobre o disco redondo brilhante, escurecendo os corpos no chão. A fogueira de sinalização na torre do porto lançava uma tênue vermelhidão no céu. Reinava a quietude. A nuvem avançou para o mar, a claridade voltou. O rapaz saiu de trás da coluna, os pés descalços silenciosos no chão, o corpo rígido e cauteloso, como se sentisse uma pressão no quarto. Com passos cuidadosos, aproximou-se da janela. Lenta, lentamente, cada vez mais próximo... Viu a massa amortalhada dos jardins, as árvores e as torres das sentinelas. Reparou na textura do parapeito, na forma como o luar incidia nos seus contornos. Mais próximo ainda... As suas mãos assentavam agora na própria pedra. Debruçou-se para olhar para o pátio ao fundo do muro. A sua garganta branca e delicada esticou-se...

Nada. O pátio estava vazio. A parede por baixo era a pique e lisa, as suas pedras realçadas pelo luar. O rapaz escutou o sossego. Bateu com os dedos no parapeito, encolheu os ombros e voltou para dentro.

Então, o quarto assassino, agarrado como uma aranha preta e fina às pedras por cima da janela, desceu por trás dele. Os seus pés emitiram o ruído de penas a cair na neve. O rapaz ouviu; torceu-se, virou-se. Uma faca brilhou, rodou, foi desviada por uma mão desesperada — o seu gume tiniu na pedra. Dedos férreos agarraram o pescoço do rapaz; foi levantado do chão. Caiu, aterrando com força no assoalho. O peso do assassino estava sobre ele. Manietara-o. Não conseguia se mexer.

A faca desceu. Desta vez atingiu o alvo.

Afinal terminara como devia. Acocorado por cima do corpo do rapaz, o assassino permitiu-se respirar — pela primeira vez desde que os seus colegas tinham ido ao encontro dos seus fins. Acocorou-se rigidamente, soltou a faca e deixou cair o pulso do rapaz. Inclinou a cabeça no sinal tradicional de respeito pela vítima tombada.

E foi então que o rapaz estendeu a mão e arrancou a faca do centro do peito. O assassino pestanejou de consternação.

— Sabe, não é prata — disse o rapaz. — Engano. — Ergueu a mão.

Uma explosão no quarto. Caíram faíscas verdes em cascata pela janela.

O rapaz pôs-se de pé e tirou a faca do enxergão. Compôs a tanga e soprou alguns flocos de cinza dos braços. Depois tossiu ruidosamente.

Uma ínfima raspada. Do outro lado do quarto, a cadeira dourada mexeu-se. O manto colocado sobre ela foi afastado para o lado. De entre as suas pernas saiu outro rapaz, idêntico ao primeiro, mas corado e despenteado de tantas horas escondido.

Debruçou-se sobre os corpos dos assassinos, respirando a custo. Depois olhou para o teto. Nele estava o contorno enegrecido de um homem. Tinha uma expressão um pouco sobressaltada.

O rapaz baixou o olhar para o sósia impassível que o fitava do outro lado do quarto enluarado. Simulei uma saudação.

Ptolomeu afastou o cabelo escuro dos olhos e fez uma vênia.

— Obrigado, Rekhyt — disse.

 

Os tempos mudam.

Uma vez, há muitos, muitos anos, ninguém era melhor do que eu. Conseguia deslocar-me pelo ar num farrapo de nuvem e fazer levantar tempestades de poeira à minha passagem. Conseguia atravessar montanhas, erguer castelos em colunas de vidro, derrubar florestas com um único sopro. Esculpi templos nos nervos da terra e chefiei exércitos contra legiões de mortos, fazendo com que os harpistas de uma dúzia de países tocassem música em minha memória e os cronistas de uma dúzia de séculos narrassem os meus feitos. Sim! Eu era Bartimaeus — veloz como uma chita, forte como um elefante macho, mortífero como o ataque de uma cobra-coral!

Mas isso foi então.

E agora... Bem, neste preciso momento, encontrava-me estendido no meio de uma rua à meia-noite, bem espalmado e a ficando cada vez mais. Porquê? Porque tinha em cima de mim um edifício de pernas para o ar. O seu peso esmagava-me. Os músculos ficaram tensos, os tendões saltaram; por mais que me esforçasse, não conseguia libertar-me.

A princípio, não existe nada de vergonhoso em debatermo-nos quando um edifício nos cai em cima. Já anteriormente passara por situações semelhantes; fazia parte do conteúdo funcional.7 Mas sempre ajuda se o edifício em questão for luxuoso e grande. Porém, neste caso, a terrível construção que fora arrancada dos alicerces e arremessada em mim de grande altura não era grande nem suntuosa. Não era nem a parede de um templo nem um obelisco de granito. Não era sequer o teto de mármore do palácio de um imperador.

 

7 Houve uma altura em que uma pequena seção da Grande Pirâmide de Khufu se abateu sobre mim numa noite sem luar durante o décimo quinto ano da sua construção. Eu estava a guardar a zona onde o meu grupo trabalhava quando vários blocos de calcário caíram lá de cima, transfixando-me dolorosamente por uma das minhas extremidades. Nunca se chegou a apurar o sucedido, apesar das minhas desconfianças irem para o meu velho camarada Faquarl, que estava a trabalhar com um grupo rival do outro lado. Não soltei um só queixume, mas deixei que a minha essência fosse sarando lentamente. Mais tarde, quando Faquarl atravessava o Deserto Ocidental com ouro da Núbia, invoquei uma leve tempestade de areia, fazendo com que ele perdesse o tesouro e incorresse na ira do faraó. Foram necessários cerca de dois anos para recuperar todas as peças das dunas com uma peneira.

 

Não. O objeto que me prendia desgraçadamente ao solo, como uma borboleta no expositor de um colecionador, era oriundo do século XX e tinha uma função muito específica.

Pronto, eu digo, era um sanitário público. De dimensões consideráveis, por sinal, mas não deixava de ser o que era. Felizmente para mim, não havia harpistas nem cronistas de passagem por ali.

Como atenuante, devo referir que o sanitário em questão tinha paredes de concreto e um telhado de ferro muito grosso, cuja aura cruel ajudava a enfraquecer os meus membros já debilitados. E havia sem dúvida lá dentro diversos canos, reservatórios de água e torneiras desesperadamente pesados, contribuindo tudo para a massa total. Mas não deixava de ser um espetáculo muito degradante um djinni da minha estatura ser esmagado por ele. Na verdade, incomodava-me mais a abjeta humilhação do que o peso a esmagar-me.

A toda a minha volta a água das canalizações partidas e destruídas escorria pesarosamente para as sarjetas. Apenas a minha cabeça se projetava, liberta, de uma das paredes de concreto; o meu corpo estava completamente aprisionado.8

 

8 A solução óbvia teria sido mudar de forma — para uma imagem fantasmagórica, digamos, ou uma espiral de fumaça, e ficar simplesmente livre. Mas havia dois problemas. Primeiro: eu tinha agora dificuldade em mudar de forma, muita, muita dificuldade, mesmo nas melhores ocasiões. Segunda: a pressão considerável de cima para baixo teria dado cabo da minha essência no momento em que eu a amolecesse para efetuar a mudança.

 

Estes eram os aspectos negativos. O lado bom era que não poderia voltar para a batalha que decorria de uma ponta à outra da rua suburbana.

Era uma batalha algo comedida, especialmente no primeiro plano. Não se via nada de especial. As luzes das casas estavam todas apagadas, os postes públicos elétricos tinham sido amarrados em nós; a rua estava escura como um lingote de tinta, uma sólida pedra preta. Brilhavam friamente algumas estrelas lá em cima. Uma ou duas vezes apareceram e desapareceram luzes indistintas verde-azuladas, como explosões distantes debaixo de água.

As coisas aqueciam no segundo plano, onde era possível ver dois bandos rivais de aves descrevendo círculos e atacando-se, lutando selvaticamente com asas e bicos, garras e caudas. Semelhante comportamento grosseiro teria sido repreensível entre as gaivotas e outras aves de baixa categoria; o fato de serem águias tornava tudo ainda mais chocante.

Nos planos superiores, as formas das aves eram completamente abandonadas, e surgiam os verdadeiros aspectos dos djinn em luta.9 Visto desta perspectiva, o céu noturno fora verdadeiramente invadido por formas impetuosas, vultos contorcidos e atividade sinistra.

 

9 Mais verdadeiros, pelo menos. No fundo, somos todos iguais na nossa ausência de forma, mas cada espírito possui um aspecto que combina com ele, e que usa para se representar enquanto está na Terra. As nossas essências têm por base estas formas pessoais nos planos superiores, ao passo que, nos inferiores, adotamos formas que são mais adequadas à situação em presença. Mas acho que já lhes falei disto tudo antes.

 

A lealdade era completamente ignorada. Vi um joelho com espinhos ir enfiar-se no ventre de um adversário, atirando-o à girar para trás de uma chaminé, onde ficou a se recuperar. Uma vergonha! Se estivesse ali, não haveria tolerado semelhante coisa.10

 

10 Pregava-lhe primeiro a joelhada, depois enfiava-lhe a ponta de uma asa no olho, ao mesmo tempo que aproveitava para lhe enfiar um pontapé na canela. Muito mais eficaz. As técnicas destes jovens djinn eram tão deploráveis, que até me dava vontade de chorar.

 

Mas eu não estava ali em cima. Tinha sido posto fora de ação.

Agora, se tivesse sido um afrit ou um marid a causar os estragos, eu ainda teria agüentado. Mas não. Na verdade, o meu conquistador não passava de um djinni de terceira categoria, daqueles que por norma eu enrolava no bolso e fumava depois do jantar. Ainda conseguia vê-la do lugar onde estava, a graciosidade e agilidade femininas estragadas pela cabeça de porca e o comprido ancinho que segurava nas patas. Lá estava ela, empoleirada numa caixa de correio, desferindo golpes à esquerda e à direita com tanto brio que as forças governamentais, da qual eu fazia nominalmente parte, recuaram e a deixaram sozinha. Era um exemplar formidável, com experiência adquirida no Japão, a julgar pelo quimono. Na verdade, eu fora iludido pelo seu aspecto rústico e aproximara-me sem erguer os meus Escudos. Antes que me apercebesse, houvera um guincho penetrante, uma mancha de movimento e — whump! — ela deixara-me estatelado na rua, muito cansado para me libertar.

Pouco a pouco, porém, o meu lado levava vantagem. Vejam! De uma banda, avançava Cormocodran em grandes passadas, brandindo um poste público que arrancara como se fosse um raminho; da outra corria Hodge, soltando uma série de dardos venenosos. O inimigo enfraquecia e começava a adotar aspectos ainda mais fatalistas. Vi diversos insetos grandes zumbir e esquivar-se, um ou dois frangotes a torcer-se freneticamente, duas ratazanas fugirem para as colinas. Só a porca mantinha obstinadamente o seu aspecto original. Os meus companheiros avançaram. Um escaravelho foi abatido, descendo em espiral numa nuvem de fumaça; um frangote foi desfeito por uma dupla Detonação. O inimigo debandou; até a porca percebeu que a brincadeira terminara. Saltou graciosamente para um pórtico, deu uma cambalhota para um telhado e sumiu. Os djinn vitoriosos partiram em acesa perseguição.

A rua ficou silenciosa. A água escorria-me pelos ouvidos. Do penacho aos dedos dos pés, a minha essência estava toda dolorida. Soltei um suspiro do fundo do coração.

— Ora, ora — riu-se uma voz. — Uma donzela em apuros.

Deveria ter referido que, em contraste com todos os centauros e ogres a meu lado, naquela noite eu tinha um aspecto humano. Por sinal, era o de uma garota: esbelta, cabelo escuro comprido, expressão agastada. Não se baseava em ninguém em particular.

O interlocutor apareceu à esquina do sanitário público e parou para afiar uma unha num pedaço de cano irregular. Não tinha um ar nada delicado; como sempre, apresentava-se como um gigante com um só olho, de músculos salientes e cabelo louro comprido cheio de trancinhas, num penteado complexo e levemente efeminado. Vestia um guarda-pó informe azul-cinzento que teria sido considerado hediondo numa aldeia piscatória medieval.

— Uma pobre e doce donzela, muito frágil para se libertar. — O ciclope observava com atenção uma das unhas; achando-a um pouco comprida, deu-lhe uma dentada selvagem com os dentes pequenos e afiados e limou-a na parede rugosa do sanitário.

— Importa-se de me ajudar? — inquiri.

O ciclope olhou para um lado e para o outro da rua vazia.

— É melhor ter cuidado, amor — disse, apoiando-se descontraidamente no edifício de modo a fazer aumentar a sua pressão. — Sujeitos perigosos andam por aí esta noite. Djinn e foliots... e diabretes travessos que te podem fazer uma patifaria.

— Deixe disso, Ascobol — resmunguei. — Sabe perfeitamente que sou eu.

O único olho do ciclope pestanejou como convinha por baixo da sua camada de rímel.

— Bartimaeus? — perguntou, com espanto. — Será possível...? Com certeza o grande Bartimaeus não se deixaria apanhar tão facilmente! Deve ser algum diabrete ou mouler imitando descaradamente a voz dele e... Mas não... estou enganado! É você mesmo. — Arqueou a sobrancelha, numa simulação de choque. — Inacreditável! Pensar que o nobre Bartimaeus desceu tão baixo! O amo vai ficar profundamente desapontado.

Recorri às minhas últimas reservas de dignidade.

— Todos os amos são temporários — repliquei. — As humilhações idem. Eu sei esperar.

— Claro, claro. — Ascobol rodou os seus braços de macaco peludo e executou uma pequena pirueta. — Muito bem, Bartimaeus! Não se deixe abater pela tua decadência. Ainda que os teus dias de glória tenham terminado, ainda que seja tão supérfluo quanto um fogo-fátuo.11 Tanto faz que amanhã a tua tarefa seja limpar o pó do quarto do nosso amo como andar livre pelo ar. Você é um exemplo para todos nós.

 

11 Fogos-fátuos: pequenos espíritos que se esforçam por acompanhar a evolução dos tempos. Visíveis como chamas tremulantes no primeiro plano (apesar de se revelarem nos outros mais como uma lula cabriolante), chegaram a ser usados pelos magos para atrair os invasores de caminhos remotos a poços e atoleiros. As cidades vieram mudar tudo isso; os fogos-fátuos urbanos vêem-se agora obrigados a espreitar pelas tampas de coletores, com um efeito bem menor.

 

Sorri, mostrando os meus dentes alvos.

— Ascobol — disse-lhe —, não fui eu que entrei em decadência, mas os meus adversários. Lutei com Faquarl de Esparta, com Tlaloc de Tula*, com o inteligente Tchue** do Calaári; os nossos conflitos dividiram a terra, talharam rios. Eu sobrevivi. Quem é o meu inimigo neste momento? Um ciclope de pernas tortas e saia? Quando me libertar daqui, não vejo que este novo conflito vá durar muito.

 

* Antiga metrópole da civilização tolteca (pré-colombiana) no México. Nas suas ruínas avultam grandes pórticos com relevos representando guerreiros armados (atlantes). (NT)

** Um herói fundador da cultura dos Bosquímanes. Surge como um gênio da fruta; noutras ocasiões aparece também como ave, elefante, mosca, lagarto. Trouxe igualmente ao povo a dádiva do fogo. (NT)

 

O ciclope sobressaltou-se, como se picado.

— Que ameaças cruéis! Devia ter vergonha. Estamos do mesmo lado, não estamos? Sem dúvida tem bons motivos para evitar a luta debaixo deste sanitário. Sendo educado, não me darei ao incômodo de perguntar, muito embora deva dizer que te falta a habitual cortesia.

— Dois anos de serviço contínuo destruíram-na — referi. — Deixaram-me irritadiço e esfalfado, com um comichão constante na minha essência que não consigo coçar. E isso torna-me perigoso, como você muito em breve irá constatar. Agora, pela última vez, tire-me isto de cima.

Bem, houve mais alguns toques de mau humor e beicinhos, mas a minha postura surtiu efeito. Com um único impulso dos seus ombros peludos, o ciclope içou o sanitário de cima de mim, atirando-o ruidosamente para a calçada do outro lado. Uma garota ligeiramente com ar de chapa ondulada levantou-se a cambalear.

— Até que enfim — comentei. — Estava aachando que nunca mais se decidiria.

O ciclope sacudiu um detrito do guarda-pó.

— Desculpe — disse ele —, mas estava muito ocupado vencendo a batalha para vir te dar uma ajudazinha. Mesmo assim, acabou tudo bem. O nosso amo vai ficar satisfeito... pelos meus esforços, pelo menos. — Sorriu-me de soslaio.

Agora que já estava na vertical, não tinha intenção de continuar discutindo. Avaliei os estragos nas casas por toda a volta. Nada mau. Alguns telhados destruídos, vidros partidos... A escaramuça fora dominada com êxito.

— Um grupo francês? — indaguei.

O ciclope encolheu os ombros, o que era um feito, dado faltar-lhe o pescoço.

— Talvez. Possivelmente os Checos ou os Espanhóis. Sabe-se lá. Hoje em dia todos nos atacam. Bem, o tempo urge e tenho de continuar a perseguição. Deixo-te a cuidar das dores e mazelas, Bartimaeus. Por que não experimenta um chá de menta ou um escalda-pés de camomila, ou outras mezinhas geriátricas? Adeusinho!

O ciclope levantou as saias e, com um salto deselegante, içou-se no ar. Apareceram-lhe asas nas costas; afastou-se com movimentos amplos. Tinha tanta graciosidade quanto um ficheiro de arquivo, mas pelo menos não lhe faltava energia para voar. Isto é, até eu me recompor.

A garota de cabelo escuro subiu para um bocado quadrado de uma chaminé partida num jardim próximo. Lentamente, entre as arfadas e os movimentos cautelosos de um inválido, escorregou até ficar sentada e apoiou a cabeça nas mãos. Fechou os olhos.

Só um breve repouso. Bastariam cinco minutos.

O tempo passou, a aurora chegou. As estrelas frias desapareceram no céu.

 

Como se tornara seu hábito nos últimos meses, o grande mago John Mandrake estava a tomar o café-da-manhã na saleta, sentado numa cadeira de vime junto à janela. As pesadas cortinas tinham sido afastadas sem o menor cuidado; via-se por trás um céu cinzento e pesado e uma bruma cerrada ia envolvendo as árvores da praça.

A pequena mesa redonda diante dele fora talhada em cedro-do-líbano. Quando o sol a aquecia, exalava uma fragrância agradável mas, nesta manhã em particular, a madeira estava escura e fria. Mandrake serviu café no copo, retirou a cobertura de prata do seu prato e atacou os ovos com caril e o toucinho defumado. Num suporte por trás das torradas e da compota de groselhas estava um jornal dobrado e um envelope com um selo vermelho-sangue. Mandrake bebeu um gole de café com a mão esquerda; com a direita, abriu o jornal em cima da mesa. Olhou para a primeira página, resmungou depreciativamente e pegou no envelope. Havia um corta-papel pendurado num gancho por cima do suporte; pousando o garfo, Mandrake rasgou o envelope com um movimento ágil e retirou um pergaminho dobrado. Leu-o com atenção, e as sobrancelhas começaram a franzir-se. Depois voltou a dobrá-lo, enfiou-o dentro do envelope e, com um suspiro, retomou a sua refeição.

Uma pancada na porta; com a boca meio cheia de toucinho defumado, Mandrake emitiu uma ordem abafada. A porta abriu-se silenciosamente e uma jovem magra avançou timidamente, trazendo uma pasta na mão. Estacou.

— Peço desculpas, senhor — começou. — Cheguei cedo demais?

— De modo algum, Piper, de modo algum. — Fez-lhe sinal para que se aproximasse, indicou-lhe uma cadeira do outro lado da mesa do café-da-manhã. — Já comeu?

— Sim, senhor. — Sentou-se. Vestia um costume de saia e casaco azul-escuro com uma camisa branca engomada. O seu cabelo castanho liso estava afastado da testa e apanhado na nuca. Colocou a pasta no colo.

Mandrake espetou uma garfada de ovos com caril.

— Desculpe continuar a comer — disse-lhe. — Estive de pé até às três, tratando do último distúrbio. Desta vez no Kent.

Ms. Piper anuiu.

— Tive conhecimento, senhor. Havia um memorando no ministério. Foi dominado?

— Sim, pelo menos tanto quanto a minha bola pôde dizer. Enviei alguns demônios até lá. Bem, já vamos saber. O que tem para mim hoje?

Ela abriu a pasta e retirou alguns papéis.

— Uma série de propostas dos ministros secundários, senhor, relativas às campanhas de propaganda nas regiões remotas. Para sua aprovação. Algumas idéias novas para cartazes...

— Vejamos. — Bebeu um gole de café e estendeu a mão. — Mais alguma coisa?

— As atas da última reunião do Conselho...

— Lerei mais tarde. Primeiro os cartazes. — Inspecionou a página por cima. — Inscreva-se para servir o seu país e conhecer o mundo... O que significa isto? Mais parece uma brochura de férias do que de recrutamento. Muito brando... Vá falando, Piper... continuo a ouvi-la.

— Recebemos os últimos relatos da linha de frente da América, senhor. Estive a organizá-los um pouco. Deveremos conseguir preparar outra história do cerco de Boston.

— A salientar a tentativa heróica, não o fracasso abjeto, espero... — Equilibrando os papéis em cima do joelho, cobriu uma torrada com compota de groselha. — Bem, vou tentar escrever algo mais tarde... Ora bem, este passa... Defenda a sua pátria e fique célebre... Muito bem. Sugerem um lavrador jovem com ar viril, o que é excelente, mas, e se incluíssem o núcleo familiar... digamos, os pais e uma irmãzinha... ao fundo, com ar vulnerável e de admiração? Apelando ao lado doméstico.

Ms. Piper anuiu ansiosamente.

— Podia mostrar também a mulher dele, senhor.

— Não. Pretendemos os solteiros. As mulheres é que levantam mais problemas quando eles não regressam. — Trincou a torrada. — Mais algumas mensagens?

— Uma de Mr. Makepeace, senhor. Chegou por diabrete. Pergunta se pode passar pela casa dele esta manhã.

— Não posso. Estou muito ocupado. Terá de ficar para mais tarde.

— O diabrete dele deixou também este folheto... — Com ar pesaroso, Ms. Piper pegou num papel de cor lilás. — Anuncia a estréia da sua peça no final desta semana. De Wapping a Westminster, assim se chama. A história da ascensão à glória do nosso primeiro-ministro. Pelo visto, uma noite que nunca iremos esquecer.

Mandrake soltou um gemido.

— Bem que gostaria de ir, mas não vai ser possível. Ponha-o no lixo. Temos mais o que fazer do que discutir sobre teatro. O que se segue?

— Mr. Devereux também enviou um memorando. Em virtude dos «tempos conturbados», senhor, ele colocou os tesouros mais importantes da nação sob guarda especial nos subterrâneos de Whitehall. Ali permanecerão até ordem em contrário.

Mandrake levantou então a cabeça, carrancudo.

— Tesouros? O quê, por exemplo?

— Ele não refere. Pergunto-me se não seria...

— Só pode tratar-se do Bordão, do Amuleto e de outros artigos de primeira importância. — Silvou ligeiramente entre dentes. — Ele não deveria fazer isso, Piper. Precisamos que sejam usados.

— Sim, senhor. Há também isto de Mr. Devereux. — Retirou um embrulho fino.

O mago olhou-o, com semblante carregado.

— Não é outra toga?

— Uma máscara, senhor. Para a festa desta noite.

Soltando uma exclamação, indicou o envelope no suporte.

— Já recebi o convite. E inacreditável: a guerra está a correr mal, o Império em situação periclitante, e o nosso primeiro-ministro só sabe pensar em peças de teatro e festas. Está bem. Junte isso aos documentos. Vou levá-lo comigo. Os cartazes não parecem ruins. — Devolveu-lhe os papéis. — Talvez não suficientemente vigorosos... — Pensou um bocado, acenou com a cabeça. — Tem uma caneta? Experimente Lute pela Liberdade e o Modo Britânico. Não significa nada, mas soa bem.

Ms. Piper ponderou.

— Acho que é bastante profundo, senhor.

— Excelente. Assim os comuns vão aderir. — Levantou-se, limpou a boca com um guardanapo e atirou-o no tabuleiro. — Bem, é melhor irmos ver como os demônios estão se agüentando. Não, não, Piper, por favor... à minha frente.

 

Se Ms. Piper via o seu patrão com mais do que alguma admiração deslumbrada, não estava de modo algum sozinha entre as mulheres da elite. John Mandrake era um jovem atraente, e o cheiro do poder pairava à sua volta, doce e inebriante, como a madressilva ao entardecer. Era de estatura mediana, esbelto de corpo, rápido e confiante na ação. O seu rosto pálido e magro constituía um intrigante paradoxo, combinando a extrema juventude — ainda só tinha dezessete anos — com a experiência e a autoridade. Os seus olhos eram escuros, rápidos e sérios, a testa prematuramente enrugada.

A sua presunção intelectual, que em tempos suplantara perigosamente as suas outras capacidades, fora agora reforçada por uma certa importância social. Era sempre cortês e encantador com os seus pares e inferiores, conquanto também um pouco distante, como se alheado devido a uma melancolia interior. Juntamente com os estranhos apetites e excentricidades dos seus colegas ministros, este desprendimento submisso adquiria uma elegância que só contribuía para o seu misticismo.

Mandrake usava agora o cabelo escuro bem curto num corte militar — uma inovação consciente em homenagem aos homens e mulheres ainda na guerra. Fora um gesto bem-sucedido: os espiões referiam que, entre os comuns, ele era o mago mais popular. O seu corte de cabelo fora, assim, imitado por muitos outros, ao passo que os seus ternos escuros haviam de igual modo inspirado uma breve moda. Já não se preocupava em usar gravata: o colarinho da sua camisa estava informalmente desabotoado.

Mr. Mandrake era tido pelos seus rivais como formidável e, na verdade, perigosamente talentoso, e — na seqüência da sua promoção a Ministro da Informação — reagiam em conformidade. Mas cada tentativa de assassinato fora rapidamente repelida: djinn que não regressavam, armadilhas devolvidas ao remetente, feitiços que falhavam e perdiam a força. Por fim, farto desta situação. Mandrake fizera questão de desafiar publicamente qualquer inimigo escondido a dar a cara e enfrentá-lo num combate de magia. Não aparecera ninguém, e o prestígio dele subira mais do que nunca.

Vivia numa elegante mansão urbana georgiana rodeada de outras elegantes mansões urbanas georgianas numa praça ampla e agradável. Situava-se a menos de um quilômetro de Whitehall, e estava suficientemente longe do rio para escapar ao seu cheiro no Verão. A praça era uma generosa extensão de faias e caminhos sombrios com um gramado amplo no centro. Era sossegada e pouco freqüentada, conquanto nunca descuidada. Policiais de uniforme cinzento patrulhavam o perímetro de dia; depois de escurecer, demônios sob a forma de corujas e noitibós voavam silenciosamente de árvore em árvore.

Esta segurança devia-se aos habitantes da praça. Ali moravam vários dos maiores magos de Londres. No lado sul, Mr. Collins, o recém-nomeado Ministro do Interior, morava numa casa de cor creme decorada com colunas falsas e cariátides roliças. Para noroeste estendia-se o edifício grandioso do Ministro da Guerra, Mr. Mortensen, com uma cúpula dourada a brilhar no telhado.

A residência de John Mandrake era menos ostentatória. Um edifício esguio de quatro andares, pintado de amarelo-rainúnculo, a qual se acedia por uma série de degraus de mármore branco; persianas brancas protegiam as janelas altas. Os cômodos estavam sobriamente mobilados, com papéis de parede de padrões delicados e tapetes persas nos assoalhos. O ministro não alardeava a sua posição; exibia poucos tesouros nas salas de recepção, e empregava apenas dois criados humanos para manterem a casa. Dormia no terceiro andar, num quarto simples caiado de branco adjacente à biblioteca. Estes eram os seus aposentos privados, que ninguém visitava.

No piso de baixo, separado das outras divisões da casa por um corredor vazio e ecoante revestido de painéis de madeira manchada, ficava o gabinete de trabalho de Mr. Mandrake. Aqui conduzia grande parte do seu trabalho diário.

Mandrake avançava pelo corredor, mastigando um pedacinho de torrada. Ms. Piper seguia rapidamente atrás. Ao fundo do corredor havia uma porta de latão sólido, decorada no meio com um rosto de latão moldado, de uma fealdade extrema. As sobrancelhas bulbosas pareciam derreter-se sobre os olhos; o queixo e o nariz eram salientes como os cabos de um quebra-nozes. O mago estacou e olhou para o rosto com profunda reprovação.

— Já não te disse para não fazer isso? — admoestou.

Abriu-se uma boca de lábios finos; o queixo e o nariz salientes uniram-se de indignação.

— Fazer o quê?

— Assumir um aspecto tão hediondo. Acabei de tomar o café-da-manhã.

Uma parte da sobrancelha levantou-se, deixando que um globo ocular rodasse para fora com um som líquido. O rosto não deu mostras de arrependimento.

— Desculpe, amigo — disse. — É apenas o meu trabalho.

— O teu trabalho é destruir quem quer que entre no meu gabinete sem autorização. Nem mais, nem menos.

O guarda da porta refletiu.

— Verdadeiro. Mas eu procuro evitar a entrada assustando os invasores. No meu entender, a dissuasão é esteticamente mais satisfatória do que a punição.

Mr. Mandrake suspirou.

— Tirando os invasores, o mais provável é pregar um susto de morte em Ms. Piper.

O rosto agitou-se de um lado para o outro, um processo que fez com que o nariz abanasse alarmantemente.

— Nem por isso. Quando ela vem aqui sozinha, eu modero as minhas feições. Reservo o horror pleno para aqueles que considero moralmente perversos.

— Mas você acabou de olhar dessa maneira para mim!

— E onde está a contradição...?

Mandrake respirou fundo, passou uma mão pelos olhos e fez um gesto. O rosto recuou no metal adquirindo contornos ínfimos; a porta abriu-se. O grande mago afastou-se e, dando precedência a Ms. Piper, avançou pelo seu gabinete de trabalho.

Era um espaço funcional — alto, arejado e pintado de branco, iluminado por duas janelas que davam para a praça. Não estava excessivamente decorado. Nesta manhã em particular, densas nuvens encobriam o sol, por isso Mandrake acendeu as luzes do teto quando entrou. Havia estantes ao longo de uma parede inteira, ao passo que a da frente se encontrava despida com exceção de um quadro de afixar gigante, coberto de notas e diagramas. O assoalho de madeira era liso e escuro. Viam-se cinco círculos inscritos nele, cada um com o seu próprio pentagrama, runas, velas e recipientes para o incenso. Quatro destes eram de tamanho convencional, mas o quinto, mais próximo da janela, era significativamente maior: continha lá dentro uma escrivaninha em tamanho natural, um ficheiro de arquivo e diversas cadeiras. O círculo principal estava ligado aos menores por uma série de linhas e cadeias de runas desenhadas com precisão. Mandrake e Ms. Piper entraram no círculo maior e sentaram-se à escrivaninha, espalhando os papéis diante de si. Mandrake pigarreou.

— Ora muito bem. Ao trabalho. Ms. Piper, primeiro vamos aos relatórios normais. Se fizer o favor de ativar o indicador de presença.

Ms. Piper proferiu uma breve fórmula. Imediatamente as velas em volta dos perímetros de dois dos círculos menores ganharam vida; elevaram-se veios de fumaça até o teto. Nos recipientes ao lado deles, agitaram-se e deslocaram-se flocos de incenso. Os outros dois círculos mantiveram-se adormecidos.

— Purip e Fritang — referiu Ms. Piper. O mago anuiu.

— Primeiro Purip. — Proferiu uma ordem sonora. As velas no pentagrama mais à esquerda acenderam-se; com um brilho delicado, surgiu uma forma no centro do círculo. Tinha o aspecto de um homem, respeitosamente vestido com um terno sóbrio e uma gravata azul-escura. Baixou brevemente a cabeça na direção da escrivaninha e aguardou. — Avive-me a memória — pediu Mandrake.

Ms. Piper folheou as suas notas.

— Purip tem estado a observar a reação aos nossos panfletos da guerra e outra propaganda — informou. — Registra o estado de espírito dos comuns.

— Muito bem. Purip... o que viu? Fale.

O demônio esboçou uma ligeira vênia.

— Não há muitas novidades a relatar. As pessoas são como uma manada de gado do Ganges, meio esfomeadas mas complacentes, pouco acostumadas a mudanças ou pensamento próprio. No entanto, a guerra atormenta-as e creio que o descontentamento está se espalhando. Elas lêem os seus panfletos, assim como lêem os seus jornais, mas fazem-no sem prazer. Não ficam satisfeitas.

O mago ficou carrancudo.

— Como se manifesta este descontentamento?

— Detecto-o na inexpressividade cautelosa nas feições delas quando a sua polícia se aproxima. Vejo-o na dureza do seu olhar quando passam pelas tendas de recrutamento. Reparo que se vai acumulando silenciosamente, como as flores à porta dos que perderam familiares. A maior parte não o demonstra abertamente, mas a sua raiva à guerra e ao governo está aumentando.

— Não passam de palavras — disse Mandrake. — Não me diz nada de palpável.

O demônio encolheu os ombros e sorriu.

— A revolução não é palpável... não de início. Os comuns mal sabem que o conceito existe, mas respiram-no quando dormem e saboreiam-no quando bebem.

— Basta de enigmas. Continue o seu trabalho. — O mago estalou os dedos; o demônio saltou do círculo e desapareceu. Mandrake abanou a cabeça. — Praticamente inútil. Bem, vamos ver o que Fritang tem a dizer.

Outra ordem: o segundo círculo ganhou vida. Numa nuvem de incenso, apareceu um novo demônio... um cavalheiro baixo e gordo, de rosto vermelho redondo e olhos tristes. Ficou a piscá-los agitadamente por causa da luz artificial.

— Finalmente! — exclamou. — Tenho notícias terríveis! Não podem esperar nem mais um minuto!

Há muito que Mandrake conhecia Fritang.

— Segundo sei — referiu com lentidão —, andou patrulhando as docas, à procura de espiões. As tuas notícias têm algo que ver com isto?

Uma pausa.

— Indiretamente... — disse o demônio. Mandrake suspirou.

— Conta lá, então.

— Estava eu a executar as vossas ordens — começou Fritang —, quando... Oh, como a lembrança me apavora!... o meu disfarce foi descoberto. Aqui vai o meu relato. Tinha estado a conduzir as minhas investigações numa taberna. Quando saía, vi-me rodeado de uma tribo de crianças de rua, alguns dos quais nem sequer me chegavam aos joelhos. Eu estava disfarçado de criado, andando tranqüilamente na minha atividade. Não fizera grandes barulhos nem gestos extravagantes. Mesmo assim, fui descoberto e atingido por quinze ovos, na sua maioria atirados com força.

— Qual era exatamente o teu aspecto? Talvez fosse em si mesmo uma provocação.

— Estava como me vê agora. Cabelo grisalho, discreto e de costas eretas, o modelo da virtude entediada.

— Pelo visto os patifes resolveram atacar um homem com semelhantes qualidades. Teve azar, é tudo.

Os olhos de Fritang arregalaram-se e as narinas agitaram-se.

— E não ficou por aí! Eles sabiam exatamente o que eu era!

— Um demônio? — Mandrake sacudiu ceticamente uma partícula de poeira da manga. — Como pode afirmar?

— As minhas suspeitas foram confirmadas pela cantilena sucessiva deles: «Sai daqui, sai daqui, vil demônio. Odiamos mais a tua crista amarela a abanar.»

— Verdade? Isso é interessante... — O mago avaliou Fritang cuidadosamente através de suas lentes. — Mas que crista amarela é essa? Eu não a vejo.

O demônio apontou para um espaço por cima da sua cabeça.

— Isso é porque não pode ver o sexto e o sétimo planos. Nesses, a minha crista fala por si mesma, resplandecente como um girassol. Posso acrescentar que não pende, apesar do cativeiro fazer com que caia um pouco.

— O sexto e o sétimo planos... E tem certeza absoluta de que não deixou cair o teu disfarce nem por um momento? Sim, sim — Mandrake levantou apressadamente uma mão quando o demônio iniciou um veemente protesto —, tenho certeza disso e fico-lhe grato pela informação. Sem dúvida deve querer descansar depois do trauma dos ovos. Pode ir! Está dispensado!

Soltando um berro de prazer, Fritang partiu num movimento espiralado no centro do pentagrama, como se sorvido ruidosamente por um ralo. Mandrake e Ms. Piper entreolharam-se.

— Outro caso — comentou Ms. Piper. — Novamente crianças. — Hum. — O mago recostou-se na cadeira e levou os braços atrás da cabeça. — Podia dar uma olhada nos processos, apurar o número exato. Tenho que chamar os demônios que estão no Kent.

Endireitou-se, apoiando os cotovelos na escrivaninha, e proferiu a fórmula encantatória em meia-voz. Ms. Piper levantou-se e foi até o ficheiro de arquivo na extremidade do círculo. Abriu a primeira gaveta a contar de cima e retirou uma pasta volumosa de papel pardo. Voltando ao seu lugar, removeu o elástico da pasta e começou a inspecionar rapidamente os documentos lá dentro. A fórmula encantatória terminou com uma aspersão de jasmim e roseira-brava. Apareceu, no pentagrama da direita, uma forma maljeitosa — um gigante de cabelo louro entrançado e um único olho sinistro. Ms. Piper continuava a ler.

O gigante efetuou uma vênia profunda e complexa.

— Amo, saúdo-vos com o sangue dos vossos inimigos, com os seus gritos e lamentações! A vitória é nossa!

Mandrake arqueou uma sobrancelha.

— Sendo assim, colocou-os para correr.

O ciclope anuiu.

— Fugiram como ratos diante de leões. Literalmente, em alguns casos.

— Efetivamente. Já era de esperar. Mas capturou alguns?

— Matamos muitos. Deveria tê-los ouvido chiar! E os seus cascos em fuga sacudiram bastante a terra.

— Muito bem. Mas não capturou um único. Que foi expressamente o que te ordenei e aos outros que fizessem. — Mandrake tamborilou na mesa. — Dentro de dias voltarão a atacar. Quem os mandou? Praga? Paris? A América? Sem prisioneiros é impossível saber. Não avançamos nada.

O ciclope esboçou uma continência rígida.

— Bem, o meu trabalho está feito. Estou satisfeito por ter proporcionado satisfação. — Fez uma pausa. — Parece perdido em pensamentos, ó meu amo.

O mago anuiu.

— Estou a decidir, Ascobol, se te submeto ao Pontilhado ou ao Abraço Desditoso. Tem alguma preferência?

— Não pode ser tão cruel! — O ciclope oscilava agonizantemente de um lado para o outro, brincando com uma trança. — Culpe Bartimaeus, não a mim! Mais uma vez, ele não participou da ação, mas foi derrubado com um único golpe. Fui afastado da perseguição pelos seus pedidos ruidosos para lhe tirar de cima uma pequena pedra. Está fraquinho como um girino e ruindade não lhe falta: ele é que deveria ser submetido ao Pontilhado.

— E onde se encontra Bartimaeus neste momento?

O ciclope fez beicinho.

— Não sei. Possivelmente, entretanto, expirou de exaustão. Ele não participou na expedição.

O mago suspirou profundamente.

— Desapareça daqui... Ascobol. — Esboçou um gesto para dispensá-lo. Os gritos esganiçados de gratidão do gigante foram bruscamente interrompidos; desapareceu num mar de chamas. Mandrake virou-se para a sua assistente. — Alguma sorte, Piper?

Ela acenou com a cabeça.

— Temos aqui as visões ilícitas de demônios das últimas seis semanas. Quarenta e duas... não, quarenta e três com esta, no total. No que se refere aos demônios, não existe um padrão: tivemos afrits, djinn, diabretes e bichinhos, tudo foi avistado. Mas no que se refere aos comuns... — Olhou para a pasta aberta. — Na maior parte trata-se de crianças, e quase todas jovens. Em trinta casos as testemunhas tinham menos de dezoito anos. Dá o quê? Mais ou menos setenta por cento. E, em mais de metade dessas, as testemunhas não completaram ainda doze anos. — Ergueu o olhar. — Já nascem com o dom. Com a capacidade de ver.

— E sabe-se lá o que mais. — Mandrake rodou a cadeira e olhou para os ramos cinzentos despidos das árvores na praça. As brumas serpenteavam ainda em volta delas, não deixando ver o chão. — Bem — disse —, por hora chega. São quase nove, e tenho trabalho privado a efetuar. Obrigado pela ajuda, Piper. Vemo-nos mais ao fim da manhã no ministério. Não permita que o guarda da porta lhe falte ao respeito quando sair.

Depois de sua assistente se retirar, o mago permaneceu imóvel, batendo com os dedos uns nos outros sem qualquer objetivo. Por fim, debruçou-se e abriu uma gaveta lateral na escrivaninha. Retirou algo pequeno embrulhado num pano e colocou-o diante de si. Afastando o pano, descobriu um disco de bronze, brilhante dos anos de uso.

O mago olhou para a bola de cristal, obrigando-a a ganhar vida. Algo se agitou nas suas profundezas.

— Procure Bartimaeus — ordenou.

 

Com a aurora, as primeiras pessoas regressaram à pequena cidade. Hesitantes, receosas, avançando cautelosamente como cegos pela rua, começaram a inspecionar os estragos provocados nas suas casas, lojas e jardins. Vinham acompanhadas de alguns Policiais Noturnos, brandindo ostensivamente paus de Inferno e outras armas, apesar da ameaça ter há muito deixado de existir.

Não apetecia move-me. Lancei uma Ocultação em volta do pedaço de chaminé onde me encontrava e desapareci da vista dos humanos. Via-os passar com um olhar sinistro.

As minhas escassas horas de repouso de pouco me haviam servido. Como poderiam? Já se iam dois anos completos desde que me fora permitido abandonar esta maldita Terra; dois anos inteirinhos desde a última vez que abandonara a massa insensata da humanidade querida. Posso garantir-lhes que precisava de muito mais do que uma cama tranqüila numa chaminé para resolver o problema. Tinha de ir para o meu mundo.

E, se não o fizesse, morreria.

Tecnicamente, é possível um espírito permanecer indefinidamente na Terra, e muitos de nós numa altura ou noutra têm suportado longas visitas, normalmente em virtude de estarmos presos à força dentro de vasos canopos, caixas de sândalo ou outros espaços escolhidos arbitrariamente pelos nossos cruéis amos.12 Apesar de ser um castigo muito cruel, pelo menos sempre tem a vantagem de se ficar seguro e sossegado. Não somos chamados para fazer nada, pelo que a nossa essência cada vez mais enfraquecida não corre perigo imediato. A principal ameaça é o tédio sem piedade que pode levar o espírito em questão à loucura.13

 

12 Quando instados a invocar a fórmula da Reclusão Indefinida, os magos costumam comprimir o espírito no primeiro objeto que avistam por perto. Uma vez, metido a esperto um bocadinho demais, faltei ao respeito a um amo enquanto ele tomava o seu chá; antes que me apercebesse, vi-me aprisionado dentro de um frasco de compota de morango meio cheio e ali teria permanecido possivelmente para toda a eternidade não fosse o aprendiz dele abri-lo por engano à ceia naquela mesma noite. Mesmo assim, passado bastante tempo, a minha essência ainda estava pegajosa das sementinhas.

13 O afrit Honorius foi um desses casos: enlouqueceu ao fim de cem anos de reclusão num esqueleto. Um espetáculo muito deprimente; gosto de pensar que, dada a minha personalidade cativante, seria capaz de me manter entretido um bocadinho mais do que esse tempo.

 

A minha atual situação de apuro era completamente diferente. Não era comigo o luxo de ficar escondido numa lâmpada ou num amuleto acolhedores. Não — todos os dias sem exceção, eu era um djinni na rua, esquivando-me, atirando-me no chão, correndo riscos, expondo-me ao perigo. E cada dia tornava-se um pouco mais difícil sobreviver.

Porque eu já não era o Bartimaeus livre e despreocupado de antigamente. A minha essência fora afetada pela corrupção da Terra; a minha mente ficava confusa com a dor. Estava mais lento, mais fraco, distraía-me das minhas tarefas. Tinha dificuldade em mudar de forma. Em combate, os meus ataques eram atabalhoados e fracos — as minhas Detonações tinham a força explosiva de uma limonada, as minhas Convulsões tremiam como gelatina ao vento. Todo o meu vigor desaparecera. Se os tempos fossem outros, na escaramuça da noite anterior, eu teria arremessado logo aquele sanitário público no focinho da porca, aproveitando para acrescentar uma cabine telefônica e uma parada de ônibus; só que agora não podia fazer nada para resistir. Estava vulnerável como um gatinho. Levar com uns edifícios pequenos em cima, ainda dava para agüentar. Mas, neste momento, eu encontrava-me praticamente à mercê de presunçosos de segunda categoria como Ascobol, um pateta sem grandes histórias de que se gabar.14 E se me deparasse com um inimigo de poder ainda superior, bem poderia dizer adeus à minha sorte.

 

14 Curiosamente, apesar da fúria que sentimos ao sermos chamados a este mundo, os espíritos como eu conseguem obter uma significativa satisfação revivendo os seus feitos. Na altura, claro, esforçamo-nos ao máximo por evitá-los, mas depois evidenciamos com freqüência um certo orgulho desgastado nos acontecimentos mais inteligentes, destemidos ou agradáveis nas nossas experiências neste mundo, já que no Outro Lugar não nos individualizamos tanto. Assim, aqueles com carreiras longas e brilhantes (como eu) tendem a olhar de lado aqueles (como Ascobol) cujos nomes foram desenterrados mais recentemente, e não acumularam tantas e belas façanhas. No caso de Ascobol, a minha antipatia devia-se também à sua voz palerma de falsete, que não combina nada com um ciclope de dois metros e quarenta de altura.

 

Um djinni fraco é um mau escravo — duplamente mau, visto não ser só ineficaz como alvo de chacota. É por este motivo que normalmente nos deixam regressar ao Outro Lugar em caráter temporário, para repararmos a nossa essência e renovarmos a nossa força. Nenhum amo no seu perfeito juízo permitiria que um djinni se deteriorasse tanto quanto sucedera comigo.

Nenhum amo no seu perfeito juízo... Bem, está claro que era esse o problema.

Fui interrompido na minha lúgubre cogitação por uma agitação no meio do ar. A garota ergueu o olhar.

Surgiu por cima da rua um infimíssimo brilho — um delicado tremeluzir de luzes cor-de-rosa e amarelas. Era invisível no primeiro plano, e deste modo, passava despercebido às pessoas que se arrastavam pela rua, mas se qualquer criança o tivesse visto, provavelmente adivinharia que era pó das fadas.

O que só prova o quanto podemos estar errados.

Com um ruído brusco e desagradável, as luzes imobilizaram-se e afastaram-se como duas cortinas. Apareceu no meio deles o rosto sorridente de um bebê careca cheio de acne. Os seus olhinhos maldosos estavam vermelhos e irritados, revelando pertencerem a alguém que dormia pouco e adquirira péssimos hábitos. Ficaram por alguns momentos a olhar com ar míope de um lado para o outro; o bebê praguejou entre dentes e esfregou os olhos com pequenos punhos imundos.

Deu logo com a minha Ocultação e soltou uma praga horrível.15 Olhei-o com fria impassividade.

 

15 Provavelmente de origem germânica — falava em pregar as entranhas de alguém num carvalho.

 

— Oi, Bart! — exclamou o bebê. — É você que está aí? Mexa-se! Estão te procurando!

Perguntei como quem não quer nada:

— Quem?

— Sabe perfeitamente. E está em apuros, rapaz! Desta vez tenho certeza de que é o Fogo Abrasador.

— Não me diga! — A garota permaneceu firmemente sentada na chaminé partida e cruzou os braços magros. — Bem, se o Mandrake me quer, ele que venha me buscar pessoalmente.

O bebê sorriu com desagrado.

— Ótimo. Estava à espera de que dissesse isso. Tudo bem, Barty! Transmitirei o teu recado. Estou mortinho para saber o que ele vai fazer.

O júbilo maldoso do diabrete estava a irritar-me.16 Se eu me sentisse com um pouquinho mais de energia, teria atacado-o e engolido ali mesmo. Contentei-me em arrancar um pedaço da chaminé e atirar-lhe com pontaria certeira. Atingiu a cabeça gorda e careca do bebê com um agradável som vibrante.

 

16 Afinal, éramos ambos escravos; tínhamos ambos sofrido bastante nas mãos de Mandrake. Acho que não teria ficado nada mal um bocadinho de empatia. Mas a longa reclusão do diabrete azedara a sua visão do mundo, o que sucedera igualmente a espíritos muito melhores do que ele ao longo dos anos.

 

— Foi o que pensei — disse. — Oca.

O sorriso desagradável converteu-se numa expressão muito carrancuda.

— Isso não vale! Espera só... veremos quem ri melhor quando eu ver você arder.

Soltando uma série de impropérios, enfiou-se atrás das cortinas de luzes brilhantes e correu-as rapidamente. Piscando suavemente, as luzes dissiparam-se na brisa. O diabrete fora-se.

A garota puxou uma madeixa para trás de uma orelha, voltou a cruzar os braços com ar sinistro e preparou-se para esperar. Agora é que são elas, mas eis exatamente a minha intenção. Chegara o momento de um confronto muito sério.

Para começar, anos antes, o meu amo e eu até nos tínhamos dado bastante bem. Não falo em termos de amizade, ou algo ridículo dessa natureza, mas a nossa irritação mútua baseava-se em algo próximo do respeito. Durante uma série de primeiros incidentes, desde a conspiração de Lovelace ao caso do golem, vira-me obrigado a reconhecer o vigor e a ousadia de Mandrake, a sua energia e mesmo os (razoáveis) vislumbres da sua consciência. Tenho de admitir que não era nada de especial, mas pelo menos tornava um pouco menos duro de suportar o orgulho, a meticulosidade, a obstinação e a ambição dele. Em contrapartida, como é óbvio, eu tinha aspectos maravilhosos de sobra para ele admirar, e de qualquer forma, ele mal se conseguia levantar de manhã sem precisar de que eu lhe salvasse a miserável pele. Coabitávamos num estado de tolerância prudente.

Passado mais ou menos um ano sobre a derrota do golem e a sua promoção a Ministro da Administração Interna, Mandrake não exigia muito de mim. Chamava-me de tempos a tempos para dar uma mãozinha em incidentes menores, que não tenho tempo para esmiuçar aqui,17 mas de um modo geral, ele deixava-me bastante em paz.

 

17 Se a memória me não falha, incluem-se o caso do Afrit, o Envelope e a Esposa do Embaixador, o caso da Arca Incomummente Pesada e o episódio confuso do Anarquista e a Ostra. Mandrake quase perdeu a vida em todos eles. Conforme referi, nenhum deles foi particularmente interessante.

 

Na esporádica ocasião em que ele me chamava, sabíamos ambos o terreno que pisávamos. Tínhamos uma espécie de acordo. Eu sabia o nome próprio dele e ele sabia que eu o sabia. Apesar de me ameaçar com terríveis conseqüências se eu contasse a alguém, na prática tratava-me com prudente desprendimento em todos os nossos contatos. Guardei o seu nome para mim e ele manteve-me afastado das tarefas mais perigosas — que se resumiam, basicamente, aos combates na América. Morriam por lá dúzias de djinn — as repercussões das perdas faziam-se sentir cruelmente no Outro Lugar — e eu estava feliz por não ter de participar.18

 

18 Para aqueles de nós que estão a par da história humana, a causa da mais recente guerra era terrivelmente familiar. Durante anos, os Americanos tinham-se recusado a pagar os impostos que lhes eram exigidos por Londres. Os Ingleses recorreram rapidamente ao argumento mais antigo de todos e enviaram um exército para meter os colonos na ordem. Após as vitórias fáceis iniciais, instalou-se a estagnação. Os rebeldes retiraram-se para as densas matas, enviando djinn para emboscar as tropas que avançavam. Vários proeminentes magos ingleses foram mortos; a Sexta e a Sétima Armadas foram chamadas dos mares da China para reforçar a campanha — mas os combates continuaram na mesma. Passaram-se meses, a força do Império foi desperdiçada nas extensas regiões americanas e as repercussões espalharam-se pelo globo.

 

O tempo passou; Mandrake exerceu as suas funções com o habitual zelo. Surgiu uma oportunidade de promoção, e ele aceitou-a. Era agora Ministro da Informação, um dos maiores do Império.19

 

19 Bem pode agradecer a oportunidade à guerra. As guerrilhas dos rebeldes estavam a causar problemas ao exército britânico. Após um ano de combates desgastantes, o Ministro dos Negócios Estrangeiros, um tal Mr. Fry, visitou secretamente as colônias com vista à celebração de uma trégua. Foi vigiado por oito magos durante a viagem; uma hoste de borlas guardava cada passo seu: o ministro era invulnerável. Pelo menos assim o julgavam. Na primeira noite em Filadélfia, foi traiçoeiramente assassinado por um diabrete escondido na empada que comera ao jantar. No meio do ultraje geral, o primeiro-ministro remodelou os seus ministros e Mandrake entrou para o Conselho de Governo.

 

Oficialmente, as suas tarefas prendiam-se com a propaganda — concepção de formas inteligentes de vender a guerra ao povo britânico. Particularmente, a pedido do primeiro-ministro, continuava a desenvolver grande parte do seu trabalho com a polícia na Administração Interna, criando uma duvidosa rede de djinn de vigilância e espiões humanos, que o informavam diretamente. A sua carga de trabalho, que sempre fora considerável, era agora extrema.

Ocorreu então uma mudança sombria na personalidade do meu amo. Nunca tendo sido propriamente famoso pelos seus gracejos alegres, tornou-se positivamente brusco e anti-social, ainda menos disposto do que antes a cavaquear com um djinni elegante. Mas, por um cruel paradoxo, começou também a chamar-me com cada vez maior freqüência, e por motivos nem sempre importantes.

Por que o fazia? Principalmente, sem dúvida, porque desejava minimizar as hipóteses de eu ser chamado por qualquer outro mago. O seu velho receio, agora alimentado pela fadiga crônica e a paranóia, era que eu divulgasse o seu nome próprio a um inimigo, tornando-o vulnerável a ataques. Bem, tenho de confessar que existia sempre uma possibilidade. Eu era muito capaz de fazê-lo. Não posso garantir nada. Mas ele passara sem mim no passado, e não lhe acontecera nada. Por isso pensei que deveria haver também mais qualquer coisa.

Mandrake conseguia disfarçar bastante bem as suas emoções, mas levava a vida a trabalhar — impiedosa e incessantemente. Além disso, estava agora rodeado de um bando de maníacos nefastos e inflamados — os outros ministros —, a maior parte dos quais lhe queria mal. O seu único associado mais próximo, por uns tempos, fora o dramaturgo assalariado Quentin Makepeace, tão bajulador quanto os restantes. A fim de sobreviver neste mundo inimigo, Mandrake escondia as suas melhores qualidades debaixo de camadas de lisonja e presunção. Toda a sua antiga vida — os anos com os Underwood, a existência vulnerável enquanto pequeno Nathaniel, os ideais que em tempos abraçara — estava enterrada muito lá no fundo. Qualquer elo com a sua infância fora cortado, com exceção de mim. Não creio que ele fosse ter coragem de quebrar esta última ligação.

Expus esta teoria na minha habitual forma gentil, mas Mandrake recusou-se a dar ouvidos às minhas observações mordazes. Era um homem20 preocupado. As campanhas americanas saíam extremamente dispendiosas, as linhas de abastecimento britânicas estavam esticadas ao máximo. Com a atenção dos magos desviada, outras partes do Império haviam-se tornado conturbadas. Os espiões estrangeiros infestavam Londres como as larvas uma maçã. Os comuns eram inconstantes. Para contrariar tudo isto, Mandrake trabalhava feito um escravo.

 

20 Sei que estou a esticar um pouco o termo aqui. Nesta altura, quase no final da adolescência, era até capaz de passar por um homem. Quando visto de trás. Ao longe. Numa noite muito escura.

 

Bem, não literalmente feito um escravo. Essa era a minha tarefa. E bastante ingrata, por sinal. Lá na Administração Interna, algumas das missões tinham estado quase à altura dos meus talentos. Interceptara mensagens inimigas e decifrara-as, enviara falsos relatos, seguira espíritos inimigos, derrubara alguns deles, etc. Era um trabalho simples, compensador — revia-me na minha obra. Além disso, ajudei Mandrake e a polícia na procura de dois fugitivos do caso do golem. O primeiro deles era um certo mercenário misterioso (características principais: barba comprida, expressão sinistra, roupa preta pretensiosa, invulnerabilidade geral a Infernos/Detonações/praticamente quase todo o resto). Fora visto pela última vez em Praga e, como era de prever, nunca chegamos a encostar-lhe uma unha. O segundo era uma personagem ainda mais nebulosa, em quem nunca ninguém pusera os olhos em cima. Aparentemente, dava pelo nome de Hopkins, e dizia-se um estudioso. Desconfiava-se, de um modo geral, de que seria o cérebro da conspiração do golem, e ouvira dizer que estaria também por trás da Resistência. Mas podia perfeitamente ter sido um fantasma ou uma sombra, já que não conseguíamos encontrá-lo. Descobrimos uma assinatura aracneiforme num livro de registro numa velha biblioteca que poderia ter sido dele. Era tudo. O rastro, por assim dizer, arrefecera.

Depois Mandrake tornara-se Ministro da Informação e não tardara a ver-me envolvido em mais trabalho deprimente, a saber, colar anúncios em 1000 cercas por Londres; distribuir panfletos por 25 000 lares, no mesmo lugar; cercar animais selecionados para os «entretenimentos»21 nos feriados públicos; supervisionar comida, bebidas e «higiene» para os mesmos; sobrevoar horas a fio a capital transportando faixas a favor da guerra. Agora, podem até me chamar de esquisito, mas eu contraporia que, se pensarem que se trata de um djinni com 5000 anos, o tormento de civilizações e confidente de reis, vêm logo à mente certas coisas — espionagem cheia de peripécias, talvez, ou valorosas batalhas, fugas emocionantes e animação geral variada. O que não lhes ocorre de imediato é o mesmo nobre djinni a ser obrigado a preparar panelões de chilli com carne para os dias de festival ou andar carregado pelas ruas com cartazes e baldes de cola.

 

21 A exemplo da tradição romana, os magos procuravam manter as pessoas apaziguadas com feriados regulares, preparando espetáculos gratuitos em todos os principais parques. Eram exibidos imensos animais exóticos de todo o Império, assim como diabretes menores e trasgos supostamente «apanhados» durante a guerra. Os prisioneiros humanos eram obrigados a desfilar em parada pelas ruas ou metidos em globos especiais de vidro transparente nos pavilhões de St. James’s Park para a populaça poder escarnecer deles.

 

Especialmente sem poder voltar para o seu mundo. Não tardou a que os meus períodos de repouso no Outro Lugar se tornassem tão fugazes que tive praticamente de fazer viagens-relâmpago para lá e para cá. Depois, um dia, Mandrake deixou de me dispensar por completo, e pronto. Estava preso à Terra.

Nos dois anos que se seguiram fui ficando cada vez mais fraco, e precisamente quando estava a chegar ao fundo, mal conseguindo pegar numa trincha de cartazes, o malvado rapaz começou a mandar-me novamente em missões mais perigosas — lutar contra bandos de djinn adversários que os muitos inimigos da Grã-Bretanha estavam a usar para provocar agitação.

Noutros tempos, teria tido uma conversinha com Mandrake, exprimindo a minha reprovação com sucinta frontalidade. Mas o acesso privilegiado a ele cessara. Passara a chamar-me juntamente com um exército de outros escravos, dando ordens em massa e mandando-nos partir como uma matilha de cães. Estes chamados múltiplos são um assunto complicado, requerendo grande força mental da parte do mago, mas Mandrake fazia-o diariamente sem esforço aparente, conversando baixinho com a sua assistente ou mesmo folheando um jornal enquanto nós suávamos nos nossos círculos.

Esforcei-me ao máximo por lhe chamar a atenção. Em vez de usar um aspecto monstruoso como faziam os meus colegas escravos (o ciclope de Ascobol e o beemote* com cabeça de javali de Cormocoran), preferi usar a aparência de Kitty Jones, a garota da Resistência que Mandrake perseguira anos antes. A sua suposta morte continuava a pesar-lhe na consciência: eu sabia, porque ele reagia sempre ao meu eco do rosto dela com uma ruborização no seu. Mostrava-se irritado e envergonhado, incisivo e embaraçado tudo ao mesmo tempo. Mas olhem, nem por isso me tratava melhor.

 

* Palavra de origem egípcia que significa «boi da água»: provavelmente o hipopótamo. (NT)

 

Bem, eu já aturara de Mandrake tudo o que tinha de aturar. Chegara o momento de ter uma conversa franca com ele. Recusando-me a voltar com o diabrete, ia obrigar o mago a chamar-me oficialmente, o que seria sem dúvida doloroso, mas significaria que pelo menos durante cinco minutos teria o benefício da sua atenção.

Há horas que o diabrete se fora. No passado, teria havido uma reação rápida do meu amo, mas o atraso era típico da sua nova distração. Compus o cabelo comprido de Kitty Jones e observei a pequena cidade rural. Tinham-se reunido vários comuns em volta da estação dos correios destruída, empenhados num aceso debate; resistiram aos esforços de um policial solitário para fazê-los voltar para as suas casas. Não havia a menor dúvida: as pessoas estavam cada vez mais agitadas.

O que fez reconvergir os meus pensamentos para Kitty. Apesar de tudo indicar o contrário, ela não chegara a morrer na batalha com o golem três anos antes. Depois de agir com altruísmo e bravura para salvar a pele sem préstimo de Mandrake, desaparecera antes discretamente. O nosso encontro fora breve mas estimulante: a sua oposição apaixonada pela injustiça fazia-me lembrar alguém que eu conhecera, há muito, muito tempo.

Uma parte de mim esperava que Kitty tivesse comprado um bilhete de ida para algum lugar seguro e distante e aberto um café numa praia ou alguma coisa assim, longe do perigo. Mas, lá no fundo, eu sabia que ela ainda estava por perto, a trabalhar contra os magos. Isso agradava-me bastante, apesar dela não nutrir qualquer simpatia pelos djinn.

O que quer que estivesse fazendo, só esperava que não se metesse em confusão.

 

O demônio viu Kitty assim que ela se mexeu. Abriu-se uma bocarra na cabeça hirsuta e incaracterística; filas duplas de dentes desciam de cima e elevavam-se do interior da mandíbula. Cerrou os dentes de forma curiosa, fazendo um ruído semelhante a mil tesouras a cortar em uníssono. Pregas de carne cinzento-esverdeada agitaram-se de cada lado do crânio, mostrando dois olhos dourados que brilharam enquanto se viravam para ela.

Kitty não repetiu o erro. Ficou imóvel, a escasso metro e oitenta da cabeça curvada e a fungar, e susteve a respiração.

O demônio experimentou raspar com uma pata no chão, deixando cinco sulcos grossos das garras nos ladrilhos. Emitiu um curioso som cantarolado ao fundo da garganta. Estava a avaliá-la, sabia-o, a calcular a força dela, hesitando em atacar. Nos momentos derradeiros de crise, o cérebro dela registrou muitos pormenores irrelevantes do aspecto dele: as manchas de pêlo cinzento em volta das articulações, as escamas de metal brilhante no torso, as mãos com muitos dedos e muito poucos ossos. Os seus próprios membros tremiam; as mãos crisparam-se como se a encorajá-la a fugir, mas enfrentou o medo e venceu-o.

Ouviu-se então uma voz: doce e feminina, curiosamente inquiridora.

— Não vai fugir, minha querida? Eu só consigo saltitar nestes meus pés aleijados. Ai de mim, tão lenta! Experimenta. Nunca se sabe... talvez consiga escapar.

Era uma voz tão delicada que Kitty levou um instante para perceber que provinha da boca horrenda. Fora o demônio que falara. Desajeitadamente, abanou a cabeça.

O demônio flexionou seis dedos num gesto incompreensível.

— Ao menos avance para mim — disse a doce voz. — Pouparia a tortura de manquejar até você nestes meus pobres pés aleijados. Ai de mim, tão doloridos! A minha essência estremece da força magnética da tua terra severa e cruel.

Kitty tornou a abanar a cabeça, desta vez mais devagar. O demônio suspirou, baixando a cabeça como se subjugado e desapontado.

— Minha querida, não tem educação. Pergunto: a tua essência me cairia bem se eu te comesse? Sou uma mártir da indigestão... — A cabeça ergueu-se; os olhos faiscaram, os dentes cortaram como mil tesouras. — Vou arriscar. — Imediatamente as articulações das pernas se flexionaram e saltaram, as mandíbulas abertas, escancarando-se cada vez mais; os dedos fecharam-se. Kitty caiu de costas, gritou.

Ergueu-se do chão uma parede de fragmentos de prata, finos como floretes, cravando-se no demônio quando ele saltou; um clarão, uma chuva de faíscas; o corpo dele irrompeu em chamas lilases. Ficou a pairar no ar por uma fração de segundo, contorceu-se, emitiu uma única nuvem de fumaça, depois desceu suavemente até o chão, leve como papel a arder. Uma vozinha murmurou, ressentida: «Ai de mim...» Agora era apenas uma casca, que se afundou em si mesma e acabou por se transformar em cinzas.

Os músculos de Kitty ficaram estáticos num ricto de terror; com um esforço tremendo, conseguiu fechar a boca e pestanejar, uma vez, duas. Passou uma mão trêmula pelo cabelo.

— Ó céus — disse o mestre dela do pentagrama do outro lado da sala. — Não estava à espera daquilo. Mas a estupidez destas criaturas não tem limites. Varre o lixo, querida Lizzie, e vamos discutir o processo. Deve estar muito orgulhosa do teu sucesso.

Desajeitadamente, de olhos ainda fixos, Kitty conseguiu esboçar um ínfimo aceno. Abandonou o círculo com as pernas rígidas e foi buscar a vassoura.

— Bem, é uma garota inteligente e não comete erros. — O mestre dela estava sentado no sofá ao lado da janela, a beber de uma xícara de porcelana. — E também sabe preparar um bom chá, o que é uma bênção num dia como este. — A chuva batia nas vidraças e caía numa saraivada na rua. O vento assobiava nos corredores da casa. Kitty passou os pés por cima da corrente de ar que assobiava no chão e bebeu uma golada do chá forte castanho na sua caneca. O velho limpou a boca com as costas da mão. — Sim, um chamado muito satisfatório. Nada mau mesmo. E extremamente interessante para mim... Quem diria que aquela era a verdadeira forma de um súcubo? Interessante! Agora, Lizzie, reparou que teve um ligeiro erro de pronúncia na Sílaba de Restrição, bem no fim? Não foi suficiente para quebrar a parede de segurança, mas a criatura ficou descarada, achou que podia tentar a sorte. Felizmente tudo o mais foi perfeito.

Kitty ainda estava tremendo. Deixou-se cair entre as almofadas no sofá antigo.

— Se eu tivesse... cometido quaisquer outros erros, senhor — perguntou com hesitação —, o que teria...?

— Oh, pequena, não preocupe essa cabecinha com isso. Não fez, e isso é que conta. Coma uma digestiva de chocolate. — Indicou o prato entre eles. — Acalma o estômago, na minha opinião.

Ela tirou uma bolacha, molhou-a no chá.

— Mas por que ele me atacou? — indagou, de cenho carregado. — Certamente devia ter visto que as defesas do pentagrama entrariam em ação.

O mestre soltou uma risada.

— Quem sabe? Talvez esperasse que saísse do círculo quando saltou: isso teria destruído de imediato a prisão dele e permitido que te devorasse. Repare que tentou dois estratagemas pueris para te persuadir a abandonar o pentagrama. Hum, não era um djinni sofisticado. Mas talvez se tenha fartado da servidão, talvez desejasse simplesmente morrer. — Olhou para as folhas no fundo da sua xícara de chá, meditando. — Quem sabe? Nós compreendemos tão pouco os demônios, o que os leva a agir assim. São difíceis de sondar. Há mais chá no bule?

Kitty inspecionou-o.

— Não. Vou fazer mais.

— Se não se importa, querida Lizzie, se não se importa. Poderia entregar-me aquele exemplar de Trimegisto* quando saír. Ele tem umas notas interessantes sobre os súcubos, se bem me lembro.

 

* Hermes Trimegisto, lendário e fabuloso legislador, sacerdote e filósofo egípcio de origem grega. (NT)

 

O ar frio atacou-a quando entrou no corredor e avançou com passos rápidos até à cozinha. Ali, perto das chamas azuis do gás a silvarem por baixo da chaleira, o seu autocontrole cedeu finalmente.

Começou a tremer — uns tremores fortes que lhe sacudiram o corpo e a fizeram procurar o apoio da bancada.

Fechou os olhos. As mandíbulas abertas do demônio avançaram para ela. Abriu-os de novo, rapidamente.

Havia um saco de papel com fruta ao lado da pia. Mecanicamente, tirou uma maçã e comeu-a, engolindo-a desesperadamente em grandes pedaços por mastigar. Tirou outra, e acabou-a mais devagar, olhando para a parede sem ver.

Os tremores abrandaram. A chaleira apitava. «Jakob tinha razão», pensou, passando a sua caneca por uma torrente de água gélida. «Sou uma idiota. Só mesmo um tolo faria isto. Só mesmo um tolo.»

Mas um tolo ainda podia ter sorte. E até ali, durante três longos anos, a sorte não a abandonara.

Desde o dia em que a sua morte fora comunicada e aceita, e as autoridades tinham encerrado o processo com um pingo de cera preta quente, nem uma só vez Kitty abandonara Londres. Apesar das cartas insistentes que o seu bom amigo Jakob Hyrneck, a salvo com familiares em Bruges e a trabalhar como ourives, lhe enviava todas as semanas, pedindo-lhe que viesse viver com ele. Apesar da família dele lhe ter suplicado, durante os seus encontros secretos e irregulares, que abandonasse os perigos da cidade e começasse de novo a sua vida. Apesar do bom senso alertá-la que sozinha não chegaria a lugar nenhum, Kitty mantinha-se inflexível. E em Londres ficou.

Não teria perdido a teimosia, mas a sua antiga temeridade estava agora envolta em cautela. Tudo desde o seu aspecto à rotina diária era cuidadosamente ponderado de forma a não levantar suspeitas às autoridades. Isto era essencial, dado a existência de Kitty Jones ser em si um crime. Para se esconder dos olhos daqueles poucos que a conheciam, cortara o cabelo escuro curto e cobria-o com um boné. Controlava ao máximo a mobilidade das suas feições, por maior que fosse a provocação; esforçava-se por ser mais uma, de olhos mortiços, rosto impassível, entre a multidão.

Conquanto talvez um pouco mais magra do excesso de trabalho e da falta de comida supérflua, conquanto talvez um pouco vincada em volta dos olhos, continuava a possuir as mesmas energias impulsivas que a haviam levado à Resistência e a abandoná-la. Incentivavam-na a prosseguir um certo projeto ambicioso, e a manter nada mais, nada menos do que duas identidades falsas.

Alojara-se no terceiro andar de uma mansão urbana dilapidada na parte ocidental de Londres, numa rua perto das fábricas de munições. Por cima e por baixo do seu quarto alugado havia diversos outros que tinham sido implementados pelo empreendedor senhorio no esqueleto do velho edifício. Estavam todos ocupados e, com exceção do encarregado, o homenzinho que vivia no porão, Kitty não falava com nenhum dos inquilinos. Às vezes cruzava com alguns deles nas escadas: homens e mulheres, velhos e jovens, vivendo todos vidas de isolamento e anonimato. A situação agradava-lhe: gostava e simultaneamente precisava da solidão que a casa lhe proporcionava.

O conteúdo do seu quarto era parco. Um pequeno fogão branco, uma geladeira, um armário e, num canto, por trás de um lençol pendurado, um lavatório e um sanitário. Por baixo da janela, que dava para um emaranhado de muros e pátios desleixados até os fundos das casas em frente, havia uma confusão de lençóis e almofadas enrolados: a cama de Kitty. Ao lado desta encontravam-se cuidadosamente guardados os seus bens terrenos: roupas, latas de comida, jornais, panfletos recentes sobre a guerra. Os seus artigos mais preciosos estavam escondidos, dispersos por baixo do colchão (um disco de arremesso de prata, embrulhado num lenço de assoar), no reservatório de água do sanitário (um saco de plástico isolado contendo os documentos de que necessitava para manter as suas novas identidades) e no fundo do saco da roupa suja (vários livros grossos com encadernação de couro).

Possuindo um espírito prático, Kitty não nutria grande afeto pelo quarto. Era um local onde dormir e pouco mais. Não passava muito tempo lá. Mesmo assim, era o seu lar, e já vivia lá há três anos.

O nome que dera ao senhorio era Clara Bell. Coincidia com os documentos que trazia consigo a maior parte das vezes — um bilhete de identidade carimbado e a residência, os boletins de saúde e escolar que definiam o seu passado recente. Haviam sido falsificados para ela com enorme perícia pelo velho Mr. Hyrnek, pai de Jakob, que lhe criara também um outro conjunto com o nome de Lizzie Temple. Não possuía nada com o seu nome verdadeiro. Apenas à noite, quando se deitava na cama com a cortina corrida e a única luz apagada, é que voltava a ser Kitty Jones. Era uma identidade envolta em escuridão e sonhos.

Durante alguns meses, após a partida de Jakob, Clara Bell trabalhara na oficina de impressão dos Hyrnek, fazendo entregas de livros encadernados por encomenda e ganhando um salário que dava para viver. Mas não por muito tempo — Kitty receava pôr em perigo os amigos por causa de um relacionamento muito estreito, e aceitara rapidamente um emprego noturno num bar perto do rio. Nessa altura, porém, os recados enfadonhos haviam-lhe proporcionado uma oportunidade extremamente incomum.

Numa manhã, Kitty fora chamada ao gabinete de Mr. Hyrnek, recebendo um embrulho para ir entregar. Era pesado, cheirava a cola e couro, e estava cuidadosamente preso com um cordel. Podia ler-se na etiqueta: MR. H. BUTTON, MAGO. Kitty inspecionou e endereço.

— Earls Court — disse. — Não moram muitos magos ali.

Mr. Hyrnek estava limpando o seu cachimbo com um canivete enegrecido e um pano.

— Os nossos queridos governantes — disse ele, fazendo saltar um fragmento de tabaco queimado — consideram este Button um excêntrico incurável. Ele é bastante entendido, sem a menor dúvida, mas nunca tentou subir nas fileiras políticas. Costumava trabalhar como bibliotecário na London Library, até ter um acidente. Perdeu uma perna. Agora limita-se a ler, coleciona livros onde pode, escreve um pouco. Uma vez disse-me que estava interessado no conhecimento em si mesmo. Logo, nada de dinheiro. Logo, Earls Court. Importa-se de levá-lo?

Kitty assim fizera e encontrara a casa de Mr. Button numa área de moradias cinzentas e brancas, com imensas colunas a sustentar faustosos pórticos por cima das portas. Em tempos haviam sido ocupadas pelos ricos; agora o bairro evidenciava uma melancólica aura de pobreza e decadência. Mr. Button vivia no fundo de um beco ladeado de árvores, numa casa no meio de loureiros escuros. Kitty tocara à campainha e aguardara num degrau manchado e sujo. Ninguém respondera; reparara então que a porta estava entreaberta.

Espreitou lá para dentro: uma entrada dilapidada, estreitada por pilhas de livros encostados às paredes. Tossiu, hesitante.

— Tem alguém em casa?

— Sim, sim, entre! — Uma voz abafada ecoou levemente. — Rapidamente, se faz favor. Estou um pouco atrapalhado.

Kitty avançou rapidamente e, numa sala vizinha, que não se via muito bem dado as cortinas cobertas de pó estarem corridas sobre as janelas, descobriu uma bota a agitar-se saindo de baixo de uma pilha colossal de livros derrubados. Explorando mais, encontrou a cabeça e o pescoço de um cavalheiro idoso, que tentava em vão libertar-se. Sem qualquer preâmbulo, Kitty escavou rapidamente; passados minutos, Mr. Button estava instalado numa cadeira ali próximo, um pouco amarrotado e quase sem fôlego.

— Obrigado, minha querida. Importa-se de me dar a bengala? Estava a servir-me dela para tirar um livro, o que veio causar toda esta confusão.

Kitty retirou uma comprida bengala de teixo de entre os obstáculos e entregou-a ao mago. Era um homem pequeno e frágil, de olhos vivos, rosto magro, com uma farta cabeleira grisalha lisa que lhe caía sobre a testa. Vestia uma camisa xadrez sem gravata, um casaco de malha remendado e calças cinzentas, puídas e com nódoas. Faltava uma das pernas das calças; fora dobrada e cosida bem abaixo do torso.

Algo no seu aspecto a desconcertou... Levou alguns instantes para perceber que nunca vira um mago vestido de um modo tão informal.

— Estava apenas a tentar tirar um volume de Gibbon — explicava Mr. Button —, que avistei no fundo de uma pilha. Não tive cuidado e desequilibrei-me. Foi uma avalanche e tanto! Não pode imaginar como é difícil encontrar qualquer coisa nesta casa.

Kitty olhou à sua volta. Por toda a sala, inúmeras pilhas de livros erguiam-se como estalagmites do carpete antigo. Muitas destas colunas eram da altura dela; umas estavam meio derrubadas sobre outras, formando arcos precários cobertos de pó. Havia livros ao alto a cobrir uma mesa e enchiam também os armários de um guarda-louça; afastavam-se em números incalculáveis por uma porta aberta e até ao fundo de um cômodo adjacente. Alguns caminhos estreitos mantinham-se desimpedidos, ligando as janelas a dois sofás enfiados diante de uma lareira e a saída para o corredor.

— Acho que tenho uma idéia — disse ela. — Aqui tem uma contribuição para o seu problema. — Pegou no embrulho. — De Hyrnek.

Os olhos do velho brilharam.

— Ótimo! Ótimo! Deve ser a minha edição dos Apocrypha de Ptolomeu, encadernada a couro de vitelo. Karel Hyrnek é maravilhoso. Minha querida, animou duplamente o meu dia! Faço questão de que fique para o chá.

Passada meia hora, Kitty ficara sabendo de três coisas: que o cavalheiro idoso era tagarela e afável, que possuía uma magnífica provisão de chá e bolos de especiarias e que necessitava urgentemente de um assistente.

— O meu último ajudante foi-se embora há duas semanas — comunicou, suspirando pesadamente. — Alistou-se para lutar pela Grã-Bretanha. Tentei demovê-lo, claro, mas ele estava decidido a partir. Acreditou no que lhe disseram: glória, boas perspectivas, promoção, tudo isso. Calculo que não tarde a morrer. Sim, coma a última fatia de bolo de especiarias, minha querida. Precisa se alimentar. Se quer morrer, isso é lá com ele, mas temo que os meus estudos tenham ficado fortemente limitados.

— Que estudos são esses, senhor? — perguntou Kitty.

— Investigações, querida. História da magia e outras coisas. Uma área fascinante, lamentavelmente negligenciada. É uma pena que tantas bibliotecas estejam a ser fechadas; mais uma vez o governo age por medo. Bem, salvei muitos livros importantes sobre o assunto, e gostaria de catalogá-los e classificá-los. Ambiciono preparar uma lista definitiva de todos os djinn sobreviventes; os registros existentes são tão incertos e contraditórios... Mas, como viu, não sou suficientemente habilidoso para organizar a minha própria coleção, graças a este impedimento... — ameaçou com um punho a perna inexistente.

— Hã, como foi que aconteceu, senhor? — aventurou-se Kitty. — Ainda que mal lhe pergunte.

— A minha perna? — O cavalheiro idoso baixou as sobrancelhas, olhou para a esquerda e a direita, depois para Kitty. Falou num murmúrio sinistro. — Um marid.

— Um marid? Mas não são os mais... ?

— O tipo de demônio mais poderoso comumente invocado. Correto. — O sorriso de Mr. Button era ligeiramente presunçoso. — Não sou desleixado, minha querida. Não que algum dos meus colegas — proferiu a palavra com veemente repulsa — fosse admiti-lo, malditos. Gostaria de ver Rupert Devereux ou Carl Mortensen fazerem o mesmo. — Fungou, instalou-se no seu sofá. — O irônico é que eu só queria lhe fazer umas perguntas. Não iria aprisioná-lo sequer. Seja como for, esqueci-me de acrescentar um Grilhão Terciário: a coisa soltou-se e agarrou-me a perna antes de se iniciar a Dispensa automática. — Abanou a cabeça. — É este o preço da curiosidade, minha querida. Bem, cá vou vivendo. Hei de encontrar outro assistente, se os Americanos não matarem toda a nossa população de jovens.

Deu uma dentada de contrariedade no bolo de especiarias. Antes mesmo dele engolir, Kitty já tomara a decisão.

— Vou ajudar o senhor.

O velho mago olhou para ela piscando os olhos.

— Você?

— Sim, senhor. Serei a sua assistente.

— Lamento, minha querida, mas achei que trabalhasse para Hyrnek.

— É claro que trabalho, senhor, mas é apenas temporário. Ando à procura de outro trabalho. Interesso-me muito por livros e magia, senhor. A sério mesmo. Sempre quis aprender.

— Efetivamente. Fala hebraico?

— Não, senhor.

— Ou checo? Ou francês? Ou árabe?

— Não, nenhuma delas, senhor.

— Efetivamente... — Por um momento, o rosto de Mr. Button tornou-se menos simpático, menos cortês. Olhou-a de soslaio, com os olhos semicerrados. — E a realidade é que não passa de uma comum...

Kitty anuiu, animada.

— Sim, senhor. Mas sempre acreditei que os infortúnios do berço não deveriam servir de obstáculo ao talento. Sou enérgica, rápida e inteligente também. — Indicou com um gesto a quantidade de pilhas empoeiradas. — Hei de conseguir trazer-lhe qualquer livro que me peça, num abrir e fechar de olhos. Do fundo da pilha mais distante. — Sorriu e bebeu um gole de chá.

O velho coçava o queixo com dedos atarracados e gordos, murmurando de si para si:

— Uma criança comum... inusitado... É extremamente heterodoxo... Na verdade, as autoridades proíbem-no expressamente. Mas bem, afinal... por que não? — Riu-se com vontade. — Por que não haveria de fazê-lo? Eles me têm ignorado todos estes anos. Seria uma experiência interessante... E eles nunca saberiam, malditos. — Olhou de novo para Kitty, de olhos semicerrados. — Sabe que não posso te pagar nada.

— Não tem problema, senhor. Estou, hã, interessada no conhecimento em si mesmo. Hei de arranjar outro emprego. Poderia ajudá-lo sempre que precisasse, em tempo parcial.

— Muito bem, nesse caso, muito bem. — Mr. Button estendeu uma pequena mão rosada. — Vamos ver como corre. Nenhum de nós tem uma obrigação contratual com o outro, entende, e somos livres de terminar a relação em qualquer altura. Mas atenção... se for preguiçosa ou desonesta, invocarei um borla para te abrasar. Mas, francamente, que falta de educação a minha. Ainda não te perguntei o nome.

Kitty escolheu uma identidade.

— Lizzie Temple, senhor.

— Bem, Lizzie, muito prazer em conhecê-la. Espero nos darmos bem.

E deram. Kitty tornou-se, logo de início, indispensável a Mr. Button. Inicialmente, as suas tarefas limitavam-se a percorrer a casa escura e atafulhada, para ir buscar livros obscuros em pilhas distantes e trazer-lhes incólumes. Com freqüência, saía do gabinete de trabalho mal iluminado do mago com dificuldade em respirar e coberta de pó, ou com nódoas negras de uma queda de livros desagradável, para ter de voltar lá e recomeçar, porque trouxera o volume errado ou a edição incorreta. Mas Kitty não desistiu. Aos poucos, tornou-se exímia em localizar os volumes que Mr. Button pretendia; ia reconhecendo os nomes, as capas, os métodos de encadernação empregados pelos diferentes tipógrafos em diferentes cidades ao longo dos séculos. Por seu lado, o mago estava imensamente satisfeito: a sua ajudante poupava-lhe imensos incômodos. E os meses foram passando.

Kitty ia fazendo breves perguntas sobre algumas das obras que ajudava a encontrar. Às vezes, Mr. Button respondia sucinta e apressadamente; na maioria das vezes, sugeria-lhe que chegasse ela própria à solução. Sempre que o livro estava escrito em inglês, Kitty conseguia fazê-lo. Pedia-lhe emprestados alguns dos volumes mais fáceis e genéricos e levava-os para o seu quarto alugado. As suas leituras noturnas suscitavam mais perguntas a Mr. Button, que a orientava para outros textos. Deste modo, movida pelo capricho e uma propensão para a excentricidade, Kitty começou a aprender.

Ao fim de um ano de progressos, Kitty começou a servir de garota de recados do mago. Obtivera salvo-condutos e visitava as bibliotecas da capital; esporadicamente, fazia incursões a ervanários e fornecedores de artigos de magia. Mr. Button não tinha diabretes ao seu serviço, e não praticava qualquer magia real. O seu interesse residia nas culturas do passado, e na história do contato com demônios. De vez em quando, invocava uma entidade menor para interrogá-la sobre um aspecto histórico em particular.

— Mas é complicado só com uma perna — disse a Kitty. — A invocação já é suficientemente má com duas pernas, mas quando se tenta desenhar o círculo direito e o pau escorrega e o giz cai constantemente, é complicado demais. Já deixei de correr tais riscos.

— Eu poderia ajudá-lo, senhor — sugeriu Kitty. — Teria de me ensinar o básico, claro.

— Oh, isso seria impossível. Muito perigoso para ambos.

Kitty viu que Mr. Button estava bastante inflexível, e levou vários meses a insistir com ele. Por fim, para ter um pouco de paz, deixou-a então encher as taças com o incenso, segurar o eixo na posição enquanto traçava os círculos e acender as velas de banha de porco. Ela ficou por trás da cadeira dele quando o demônio apareceu e foi inquirido. Depois, ajudou a apagar as marcas de chamuscado que ele deixara. O comportamento calmo dela impressionou o mago; não tardou a ter uma participação ativa nos chamados que ele efetuava. Como em tudo o mais, Kitty aprendia depressa. Começou a memorizar algumas das fórmulas em latim comum, apesar de continuar a desconhecer a língua. Mr. Button, para quem o trabalho ativo pesava na saúde, vindo juntar-se também uma certa dose de preguiça, começou a confiar cada vez mais procedimentos à sua assistente. A sua maneira apressada, ajudou a preencher algumas das lacunas no conhecimento dela, apesar de se recusar a instruí-la formalmente.

— A verdadeira arte — afirmava — é a própria simplicidade, mas apresenta variações infinitas. Nos limitaremos sempre ao básico: chamar a criatura, mantê-la dominada, mandá-la de novo embora. Não tenho nem tempo nem feitio para te ensinar todas as sutilezas.

— Está ótimo, senhor — respondeu Kitty. Também não tinha tempo nem feitio para aprendê-las. Tudo o que pretendia era um conhecimento básico e prático do chamado.

Os anos passaram. A guerra prolongou-se. Os livros de Mr. Button estavam todos ordenados, catalogados e empilhados por autor. A sua assistente era muito valiosa. Agora já podia orientá-la no chamado de foliots e até djinn menores enquanto assistia confortavelmente instalado. Era um acordo muito satisfatório.

E — com exceção de um ou outro susto — também era satisfatório para Kitty.

Com a chaleira finalmente a ferver, Kitty preparou o chá e voltou para junto do mago, que continuava sentado nas profundezas do sofá, a estudar o livro. Mr. Button soltou um resmungo de agradecimento quando ela pousou o bule.

— Trimegisto refere — disse ele — que os súcubos tendem a ser atrevidos quando chamados, e são com freqüência dados à autodestruição. Podem ser aplacados colocando citrinos no meio do incenso, ou com o som suave de flautas de Pã. Hum, são sem dúvida animais sensuais. — Coçou distraidamente o coto por cima das calças. — Oh, e descobri também outra coisa, Lizzie. Qual era o demônio de que me falou no outro dia?

— Bartimaeus, senhor.

— Sim, é isso. Trimegisto faz-lhe referência, numa das suas tabelas de Djinn Antigos. Vai encontrá-lo em algum lugar nos apêndices.

— Oh, não me diga, senhor? Isso é ótimo. Obrigada.

— Tem uma pequena história dos seus chamados. Breve. Não vai achar muito interessante.

— Não, senhor. Tenho fortes dúvidas. — Estendeu uma mão. — Importa-se que eu dê uma olhada?

 

Numa manhã quente no solstício de Verão, um touro sagrado conseguiu fugir do cercado junto ao rio; correu furioso pelos campos, atacando as moscas e marrando em tudo o que mexia. Três homens que o tentaram prender ficaram gravemente feridos; o touro enfiou-se pelos canaviais e entrou num caminho onde brincavam crianças. Quando elas gritaram e dispersaram, ele estacou, como se na dúvida. Mas o sol na água e o branco das roupas das crianças enfureceram-no. Baixando a cabeça, atacou a garota mais próxima, e a teria ferido com os cornos ou espezinhado até à morte se não fosse Ptolomeu e eu andarmos a passear por ali.

O príncipe levantou uma mão. O touro parou, a meio do ataque, como se tivesse colidido com um muro. Com a cabeça a girar e os olhos vesgos, tombou na poeira, onde permaneceu até os criados o amarrarem com cordas e levarem de volta para o seu campo.

Ptolomeu esperou que os seus ajudantes acalmassem as crianças, depois retomou o passeio a pé. Não voltou a referir-se ao incidente. Mesmo assim, quando regressamos ao palácio, os boatos já lá tinham chegado e fervilhavam e rodopiavam em volta da sua cabeça. Ao anoitecer, todo mundo na cidade, do mendigo mais inferior ao sacerdote de Rá mais altivo, ouvira falar do sucedido ou o deturpara parcialmente.

 

Como era meu costume, andara a passear até tarde pelos mercados noturnos, escutando os ritmos da cidade, o fluxo e refluxo da informação levada pela sua maré humana. O meu amo estava sentado de pernas cruzadas no telhado dos seus aposentos, escrevendo intermitentemente na folha de papiro e olhando na direção do mar enegrecido. Pousei no parapeito sob a forma de galispo e fitei-o com um olho miudinho.

— Não se fala de outra coisa em todos os bazares — comuniquei. — De você e do touro.

Ele molhou o estilete na tinta.

— Qual o assunto?

— Talvez nenhum assunto; talvez muitos. Mas as pessoas murmuram.

— E o que murmuram?

— Que é um feiticeiro que se dá com demônios.

Ele riu-se e concluiu metodicamente um numeral.

— Na realidade, eles estão certos.

O galispo raspou as patas na pedra.

— Protesto! O termo «demônio» é falacioso e reprovável ao máximo!22

 

22 Reparem no meu comedimento aqui. Naquela época, o meu nível de conversação era bastante elevado, em virtude de estar a dirigir-me a Ptolomeu. Algo nele nos indispunha a ser muito baixos, blasfemos ou descarados, e até eu me moderava no uso do calão egípcio do estuário. Não que ele me proibisse terminantemente, só que acabava por haver um sentimento de culpa, como se nos sentíssemos decepcionados. Também não eram permitidos os desaforos. Era surpreendente que ainda me restasse algo para dizer.

 

Ptolomeu pousou o estilete.

— É um erro estar muito preocupado com nomes e títulos, meu caro Rekhyt. Semelhantes coisas nunca são mais do que aproximações inexatas, questões de conveniência. As pessoas falam assim por ignorância. Só quando entenderem a tua natureza e continuarem a ser injuriosas é que deverá se preocupar. — Sorriu-me de lado.

— O que é sempre possível, sejamos realistas.

Abri um pouco as minhas asas, deixando que o vento marítimo me penetrasse nas penas.

— De um modo geral, tem se saído bem no final das contas. Mas atenta nas minhas palavras, não tarda, andarão a dizer que foi você que soltou o touro.

Ele suspirou.

— Muito sinceramente, a reputação, boa ou má, não me preocupa muito.

— Pode não te preocupar — redargui, sombriamente —, mas há gente no palácio para quem a questão é de vida ou morte.

— Só para quem estiver nos meandros da política — disse. — E eu não sou nada para eles.

— É bem possível — voltei a dizer sombriamente. — É bem possível. O que está escrevendo agora?

— A tua descrição das paredes de elementos nas margens do mundo. Por isso, tire esse ar carrancudo do teu bico e fale-me mais do assunto.

Bem, fiquei por ali. Não servia de nada argumentar com Ptolomeu.

Sempre o conheci como um amo de curiosos entusiasmos. A acumulação de riqueza, esposas e elegantes propriedades com vista para o Nilo — aquelas respeitáveis preocupações da maior parte dos magos egípcios — não o entusiasmavam muito. O que pretendia era alcançar um certo tipo de conhecimento, mas não aquele que reduz a pó as muralhas das cidades e espezinha os pescoços dos inimigos derrotados. Era de um nível mais sobrenatural.

Confrontou-me com isso no nosso primeiro encontro.

Eu era uma coluna de areia turbilhonante, uma vestimenta muito elegante naquela época. A minha voz troava como um desmoronamento de rochas por uma ravina.

— Profere o teu desejo, mortal.

— Djinni — disse ele —, responde-me a uma pergunta. A areia rodopiou mais depressa.

— Conheço os segredos da terra e os mistérios do ar; sei a solução para as mentes das mulheres.23 O que deseja? Fale.

 

23 É claro que era tudo mentira. Especialmente a última parte.

 

— O que é a essência?

A areia ficou parada no meio do ar.

— Hã?

— A tua substância. O que é exatamente? Como funciona?

— Bem, hã...

— E o Outro Lugar. Fale-me dele. O tempo ali é síncrono com o nosso? Qual a forma dos seus habitantes? Têm um rei ou um líder? É uma dimensão de substância sólida, um inferno turbilhonante, ou outra coisa? Quais são as fronteiras entre o teu domínio e esta Terra, e em que medida são permeáveis?

— Hã...

Em suma, Ptolomeu estava interessado em nós. Os djinn. Os seus escravos. Na nossa natureza interior, ou seja, não nos habituais enfeites superficiais. As formas e provocações mais hediondas entediavam-no, ao passo que as minhas tentativas de imitar a sua juventude e aspecto ameninado despertavam simplesmente salutares risadas. Ficava sentado no meio do seu pentagrama, de estilete no joelho, a escutar com enlevada atenção, admoestando-me quando eu introduzia mais do que a mentira normalmente óbvia, e interrompendo-me amiúde para esclarecer alguma ambigüidade. Não recorria a Pontilhados ou Lanças, nem quaisquer outras formas de Corretivos. Os seus chamados raramente duravam mais de algumas horas. Para um djinni endurecido como eu, que conhecia razoavelmente bem os modos maldosos dos humanos, era tudo um bocado desconcertante.

Eu era um dos muitos djinn e espíritos menores chamados com regularidade. A rotina normal nunca variava; chamado, conversa, rabiscadas frenéticas por parte do mago, dispensa.

Com o tempo, a minha curiosidade aguçou-se.

— Por que faz isto? — perguntei-lhe sem rodeios. — Porquê todas estas perguntas? Todo este escrevinhar?

— Tenho andado a ler a maior parte dos manuscritos na Grande Biblioteca — respondeu o rapaz. — Têm muita coisa sobre chamado, castigo e outros aspectos práticos, mas quase nada sobre a natureza dos demônios em si mesmos. A sua personalidade, os seus próprios desejos. Parece-me que isso é de primordial importância. Tenciono escrever a obra acabada sobre o assunto, um livro que será lido e admirado eternamente. Para tal, tenho de fazer muitas perguntas. Surpreende-lhe a minha ambição?

— Sim, na verdade. Desde quando que algum mago se preocupa com os nossos padecimentos? Não existe motivo para fazê-lo. Não é do teu interesse.

— Oh, mas é. Se permanecermos ignorantes, e continuarmos a escravizá-los em vez de compreendê-los, mais cedo ou mais tarde surgirão problemas. É o que penso.

— Não existe alternativa para esta escravidão. Cada chamado envolve-nos em correntes.

— É muito pessimista, djinni. Os mercadores falam-me de xamãs nas longínquas extensões do Norte que abandonam os próprios corpos para conversarem com os espíritos noutro mundo. A meu ver, isso é um procedimento muito mais educado. Talvez devêssemos aprender também esta técnica.

Desatei em gargalhadas.

— Isso nunca irá acontecer. Esse caminho é muito perigoso para os sacerdotes do Egito alimentados a cereais. Poupe suas energias, rapaz. Esqueça as questões fúteis. Dispense-me e acabe com isto.

Apesar do meu ceticismo, não consegui dissuadi-lo. Decorreu um ano; pouco a pouco foram-se acabando as mentiras. Comecei a contar-lhe a verdade. Em troca, ele deu-se a conhecer.

Era sobrinho do rei. Ao nascer, doze anos antes, era uma criança frágil e delicada, rejeitando o mamilo, chorando como um gatinho. O seu mal-estar ensombrou a cerimônia de atribuição do nome: os convidados partiram apressados, os funcionários silenciosos trocaram olhares sombrios. À meia-noite, a ama de leite dele chamou um sacerdote de Hathor,24 que declarou a criança às portas da morte; não obstante, efetuou os rituais necessários e entregou a criança à proteção da deusa. A noite decorreu agitada. A aurora chegou; os primeiros raios de Sol atravessaram as acácias e incidiram na cabeça do bebê. O choro cessou, o corpo ficou calmo. Sem ruído ou hesitação, pegou no peito e mamou.

 

24 Hathor: mãe divina e protetora dos recém-nascidos; os djinn nos seus templos tinham o aspecto de mulheres com cabeças de gado.

 

A natureza deste salvamento não passou despercebida, e a criança foi rapidamente dedicada ao deus do Sol, Rá. Foi adquirindo sucessivamente força e anos de vida. De olhar vivo e inteligente, nunca foi forte como o primo, o filho do rei,25 oito anos mais velho e avantajado de carnes. Permaneceu uma figura periférica na corte, mais feliz na companhia dos sacerdotes e das mulheres do que na dos rapazes queimados de sol que lutavam no pátio.

 

25 Também ele era um Ptolomeu. Assim como todos estes reis do Egito, durante mais de duzentos anos, um após o outro, até Cleópatra vir estragar a sucessão. A originalidade não era o forte da família. Talvez seja fácil perceber por que motivo o meu Ptolomeu atribuía escassa importância aos nomes. Significavam pouco. Disse-me o seu na primeira vez que lhe perguntei.

 

Naqueles tempos, o rei andava com freqüência em campanha, combatendo para proteger as fronteiras das incursões dos Beduínos. A cidade era governada por uma série de conselheiros, que enriqueciam à conta de subornos e taxas portuárias, e davam sempre mais ouvidos às falinhas mansas dos agentes estrangeiros — em particular os da potência em ascensão do outro lado do mar: Roma. Rodeado de luxo no seu palácio de mármore, o filho do rei conheceu precocemente a devassidão. No final da adolescência, era um jovem grotesco e desbocado, já barrigudo de tanto beber: brilhava nos seus olhos a paranóia e o medo do assassinato. Ávido de poder, vivia na sombra do pai, procurando rivais entre os familiares, enquanto esperava que o velho morresse.

Ptolomeu, em contraste, era um rapaz estudioso, magro e bem-apessoado, com feições mais próximas das egípcias do que das gregas.26 Apesar de distante na linha de sucessão ao trono, não era manifestamente um guerreiro ou um estadista e, de um modo geral, a família real ignorava-o. Passava a maior parte do tempo na Biblioteca de Alexandria, face ao mar, estudando com o seu professor particular. Este homem, um idoso sacerdote de Luxor, sabia muitas línguas e a história do reino. Era também mago. Ao encontrar um aluno excepcional, transmitiu os seus conhecimentos à criança. Começaram tranqüilamente e tranqüilamente foram também concluídos, e só muito mais tarde, quando do incidente do touro, é que os rumores se generalizaram.

 

26 Vinham do lado da mãe, creio. Era uma garota nativa de algum lugar no alto rio, uma concubina nos apartamentos reais. Nunca a vi. Ela e o pai dele tinham morrido de peste antes do meu tempo.

 

Passados dois dias, enquanto estávamos em discussão, um criado bateu à porta do meu amo.

— Perdoai, alteza, mas uma mulher espera fora.

— Fora do quê? — Eu tinha o aspeto de um estudioso, para o caso de semelhante interrupção.

Ptolomeu impôs-me silêncio.

— O que é que ela quer?

— Uma praga de gafanhotos ameaça as colheitas do marido, senhor. Ela pede o vosso auxílio.

O meu amo ficou carrancudo.

— Ridículo! O que posso eu fazer?

— Senhor, ela fala do... — O criado hesitou; estivera conosco no campo. — Do vosso poder sobre o touro.

— Isto é demais! Estou trabalhando sério. Não posso ser incomodado. Mande-a embora.

— Como desejardes. — O criado suspirou, fez menção de fechar a porta.

O meu amo compadeceu-se.

— Ela está muito aflita?

— Consideravelmente, senhor. Tem estado aqui desde a aurora.

Ptolomeu arfou de impaciência.

— Oh, isto é uma completa loucura! — Virou-se para mim. — Rekhyt... vá com ele. Veja o que pode ser feito.

Dali a pouco voltei, com ar triunfante.

— Os gafanhotos desapareceram.

— Muito bem. — Olhou carrancudo para as suas tabuinhas. — Já perdi por completo o fio à meada. Estávamos a falar da fluidez do Outro Lugar, creio...

— Tem a noção — disse-lhe, enquanto me sentava delicadamente na esteira de palha — do que aconteceu. Criou fama. De alguém capaz de resolver os males comuns. A partir de agora nunca mais terá paz. Sucedeu o mesmo a Salomão com a coisa da sabedoria. Não podia pôr o pé fora de casa sem que lhe aproximassem um bebê do rosto. Mas olhe, nem sempre era pelo mesmo motivo.

O rapaz abanou a cabeça.

— Sou um estudioso, um investigador, nada mais. Ajudarei a humanidade através dos frutos da minha escrita, não do meu sucesso com touros ou gafanhotos. Além disso, foi você quem fez o trabalho, Rekhyt. Importa-se de retirar essa asa do canto da boca? Obrigado. Agora, para começar...

Ptolomeu era sábio numas coisas, mas noutras não. No dia seguinte, havia mais duas mulheres à porta dos seus aposentos; uma tinha problemas com hipopótamos na sua terra, a outra trazia uma criança doente. Mais uma vez, mandou-me atendê-las o melhor que podia. Na manhã subsequente, estendia-se uma pequena fila de pessoas até à rua. O meu amo puxou os cabelos e lamentou a sua má fortuna; não obstante, fui de novo enviado com Affa e Penrenutet, dois dos seus outros djinn. E assim continuou. O progresso da sua investigação seguia a passo de caracol, enquanto a sua reputação entre a gente do povo de Alexandria desabrochava rapidamente como as flores no Verão. Ptolomeu suportou as interrupções com boa vontade, apesar da exasperação. Contentou-se em acabar um livro sobre a mecânica do chamado e pôs de lado as suas outras investigações.

O ano foi decorrendo, e a seu tempo deu-se a inundação anual do Nilo. As cheias desceram, a terra escura fertilizou e irrigou, plantaram-se as colheitas, começou uma nova estação. Umas vezes, a fila de suplicantes à porta de Ptolomeu era longa, outras nem tanto, mas nunca desapareceu por completo. E não tardou a que este ritual diário chegasse ao conhecimento dos sacerdotes de vestes pretas dos templos maiores, e do príncipe de coração negro sentado a matutar no seu trono encharcado em vinho.

 

Um som desrespeitoso alertou Mandrake do regresso do diabrete da bola de cristal. Pousou a caneta com que estivera a rabiscar notas para o mais recente panfleto da guerra, e olhou para o disco brilhante. As feições distorcidas do bebê comprimiam-se na superfície de bronze como se tentasse freneticamente libertar-se. Mandrake ignorou as contorções.

— Então? — perguntou.

— Então o quê? — O diabrete gemeu e ficou tenso.

— Onde está Bartimaeus?

— Sentando num pedaço de alvenaria quarenta quilômetros a sudeste daqui sob a forma de uma garota de cabelos compridos. Ela é muito bonita e tudo. Mas ela não vem.

— O quê? Ela... Ele recusou-se?

— Sim. Oh, está muito apertado aqui. Há seis anos que estou dentro deste disco sem nunca vislumbrar o meu mundo. Podia deixar-me sair, bem que podia. Servi-o de alma e coração.

— Você não tem alma! — retorquiu Mandrake. — O que Bartimaeus disse?

— Não posso repetir, é muito jovem. Foi grosseiro, atenção. Até tive que tapar os ouvidos. Bem, ele não vem voluntariamente e resume-se a isto. Queime-o e fica tudo resolvido. Não sei por que ainda não o fez desaparecer. Oh, outra vez de volta para a gaveta, não... Não tem misericórdia, rapaz detestável?

Com o disco embrulhado e a gaveta fechada rapidamente, Mandrake esfregou os olhos. O problema de Bartimaeus apresentava-se cada vez mais incontrolável. O djinni estava ficando mais fraco e rabugento do que nunca; quase inútil como servo. O mais lógico seria deixá-lo ir, mas — como sempre — a idéia era-lhe profundamente desagradável. Era difícil explicar o porquê, visto que de todos os seus escravos, o djinni era o único que nunca o tratava com algo parecido com respeito. Os insultos dele começavam a tornar-se cansativos, exasperantes até... e, ao mesmo tempo, curiosamente refrescantes. Mandrake vivia num mundo onde as verdadeiras emoções tinham de ficar sempre escondidas por trás de máscaras, sorrindo cortesmente. Mas Bartimaeus não escondia a sua aversão. Enquanto Ascobol e companhia eram dóceis e servis, Bartimaeus mostrava-se tão impertinente quanto no dia em que o conhecera, quando era apenas uma criança, detentor de um nome completamente diferente...

A mente de Mandrake vogava. Tossiu e sentou-se direito. Era esse o ponto básico, claro. O djinni sabia o seu nome próprio. Algo arriscado para um homem na sua posição! Se outro mago o chamasse e tivesse conhecimento do que o demônio sabia...

Suspirou; a sua mente saltou de um assunto muito batido para outro. Uma garota de cabelos escuros. Bonita. Não era preciso ser inteligente para adivinhar o aspecto do djinni. Desde que Kitty Jones morrera, Bartimaeus usara a forma dela para provocá-lo. E estava realmente a conseguindo. Mesmo passados três anos, visualizar o rosto dela provocava uma forte pontada no flanco de Mandrake. Abanou a cabeça auto recriminando-se mais uma vez. «Esqueça-a! Ela era uma traidora, morreu e pronto.»

Bem, o demônio malvado não era importante. A questão premente era a crescente desordem causada pela guerra. Isso — e as perigosas novas capacidades que surgiam entre os comuns. A história de Fritang sobre as crianças de rua que tinham atirado ovos era apenas a última de uma longa lista de relatos perturbadores.

Desde Gladstone, os magos tinham observado uma regra básica. Quanto menos comuns conhecessem a magia e os seus instrumentos, melhor. Deste modo, cada escravo, desde o diabrete mais escanzelado ao afrit mais arrogante, tinha ordens para evitar expor-se desnecessariamente quando saísse para tratar de assuntos dos seus amos. Alguns utilizavam a capacidade de se tornarem invisíveis; a maioria disfarçava-se. Deste modo, uma infinidade de demônios enchia as ruas da capital ou circulava por cima dos telhados, por via de regra, despercebida.

Mas tal já não acontecia.

A cada semana chegavam novos relatos de deteção de demônios. Um grupo de crianças de escola aos gritos avistara um bando de diabretes mensageiros por cima de Whitehall; os magos referiram que os diabretes estavam corretamente disfarçados de pombos — não deveriam ter levantado suspeitas. Dias depois, um aprendiz de ourives recentemente chegado a Londres correra de olhar esgazeado por Horseferry Road e pulara o muro do rio atirando-se ao Tamisa. Testemunhas afirmaram que ele avisara da presença de fantasmas entre as multidões. Uma investigação minuciosa revelara que demônios espiões tinham estado em Horseferry Road nesse dia.

Se os comuns estavam nascendo com a capacidade de ver demônios, as desordens que ultimamente atormentavam Londres só poderiam vir a agravar-se... Mandrake abanou a cabeça, irritado. Precisava de ir a uma biblioteca, procurar precedentes históricos... Mas não tinha tempo — o presente já era bastante difícil. O passado teria de esperar.

Uma pancada na porta; o criado entrou discretamente, mantendo-se bem afastado dos pentagramas no chão.

— Está aqui a adjunta do chefe de Polícia para falar consigo, senhor.

A testa de Mandrake franziu-se de surpresa.

— Oh! Mesmo? Muito bem. Mande-a subir.

O criado demorou três minutos a descer à sala de recepção dois pisos abaixo e regressar com a visita, dando a Mr. Mandrake tempo suficiente para retirar um pequeno espelho do bolso e inspecionar-se cuidadosamente. Compôs o cabelo cortado curto no lugar onde espetava num tufo; sacudiu algumas partículas de pó dos ombros. Dando-se finalmente por satisfeito, embrenhou-se nos papéis em cima da escrivaninha — um modelo de diligência zelosa e bem-cuidada.

Admitia que semelhante comportamento era ridículo, mas não deixava de fazê-lo. Ficava sempre constrangido quando a adjunta do chefe de Polícia vinha visitá-lo.

Uma pancada brusca na porta; com passos leves e movimentos lestos e decididos, Jane Farrar entrou e atravessou o cômodo, transportando numa mão um estojo de globo. Mr. Mandrake soergueu-se cortesmente, mas ela dissuadiu-o logo.

— É desnecessário dizer que é uma hora, John. Fica registrado. Tenho algo importante para lhe mostrar.

— Faça o favor... — Indicou uma cadeira de couro ao lado da escrivaninha. Ela sentou-se, colocando o estojo do globo pesadamente em cima da mesa, e sorrindo-lhe. Mandrake retribuiu. Sorriam como dois gatos na presença de um rato ferido, hipócritas, fortes e seguros na sua desconfiança mútua.

O caso do golem três anos antes terminara com a morte e desgraça do chefe de Polícia, Henry Duvall, e desde então o primeiro-ministro achara por bem não nomear um sucessor. Na verdade, como sinal da sua crescente desconfiança nos magos que o rodeavam, reservara para si próprio o título e contava com a adjunta do chefe de Polícia para efetuar a maior parte do trabalho. Durante dois anos, Jane Farrar desempenhara estas funções. A sua capacidade era sobejamente conhecida: permitira-lhe sobreviver a uma estreita ligação com Mr. Duvall e cair nas boas graças de Mr. Devereux. Ela e Mandrake eram agora os seus aliados mais próximos. Por esse motivo, se mostravam dolorosamente cordiais entre si; mesmo assim, a sua velha rivalidade não deixava de estar latente.

Mandrake tinha outros motivos para achá-la desconcertante. Era também muito bela: cabelo comprido e escuro brilhante, uns olhos perversos e verdes espreitando por baixo de compridas pestanas. A presença dela distraía-o; necessitava de toda a confiança da sua maturidade para não se alhear enquanto conversavam.

Recostou-se naturalmente na cadeira.

— Também tenho algo para lhe contar — referiu. — Quem começa?

— Oh, vá lá. Fale primeiro. Mas apresse-se.

— Está bem. Precisamos despertar o interesse do primeiro-ministro para estas novas capacidades que alguns comuns estão manifestando. Outro dos meus demônios foi detectado ontem. Novamente por crianças. É desnecessário mencionar-lhe os problemas que isto acarreta.

As sobrancelhas elegantes de Ms. Farrar franziram-se.

— Sim, é — disse-lhe. — Recebemos esta manhã dois novos relatos de greves dos estivadores e maquinistas. Marchas. Manifestações. Não apenas em Londres, mas também nas províncias. Está a ser organizada por homens e mulheres com poderes incomuns. Vamos ter de detê-los.

— Hum, mas a causa, Jane. Qual é?

— Podemos descobri-la quando estiverem em segurança na Torre. Temos espiões trabalhando agora nos bares, obtendo informações. Vamos atacar em força. Mais alguma coisa?

— Precisamos também discutir o último ataque no Kent, mas isso pode esperar até o Conselho.

Ms. Farrar fez deslizar dois dedos esguios e correu o fecho do estojo, afastando o pano e expondo um pequeno globo de cristal branco-azulado e perfeito, com uma base achatada. Empurrou-o para o centro da escrivanha.

— É a minha vez — disse.

O mago endireitou-se um pouco.

— Um dos seus espiões?

— Sim. Agora preste atenção, John... Isto é importante. Sabe que Mr. Devereux me pediu para vigiar de perto os nossos magos, para que nenhum tente seguir os passos de Duvall e Lovelace?

Mr. Mandrake anuiu. Mais do que os rebeldes americanos, mais do que os seus inimigos na Europa, mais do que os comuns furiosos a manifestarem-se nas ruas, o primeiro-ministro receava os seus ministros, os homens e mulheres que se sentavam à sua mesa e bebiam o seu vinho. Era uma ansiedade que se justificava: os seus colegas tinham ambições; não obstante, distraía-o dos outros assuntos prementes.

— O que descobriu? — perguntou-lhe.

— Algo.

Passou uma mão por cima do globo, inclinando-se para frente e fazendo com que o seu cabelo comprido preto caísse em volta do rosto. Pigarreando, Mandrake aproximou-se mais também, apreciando (como sempre) o cheiro dela, a figura dela, a proximidade partilhada. Apesar de perigosa e felina, a presença de Ms. Farrar tinha os seus encantos.

Proferiu algumas palavras: espalharam-se grãos azuis pela superfície do globo que se reuniram numa mancha próximo ao fundo. A superfície superior ficou transparente. Formou-se aqui uma imagem — um rosto nas sombras. Tremulou, moveu-se, mas não se aproximou.

Ms. Farrar levantou a cabeça.

— Este é Yole — disse. — Yole tem estado a vigiar um certo mago secundário. Chama-se Palmer, segundo nível, trabalha no Ministério do Interior. Foi ultrapassado diversas vezes nas promoções e é um homem frustrado. Ontem, Palmer disse estar doente; não foi trabalhar. Mas saiu do seu apartamento a pé e dirigiu-se a uma estalagem próxima de Whitechapel. Vestia roupas de operário comum. O Yole seguiu-o e pode transmitir a ocorrência. Acho que vai interessá-lo.

Mandrake esboçou um gesto descomprometido.

— Prossiga, por favor.

Jane Farrar estalou os dedos e falou para o globo.

— Mostra-me a estalagem, com som.

O rosto nas sombras recuou. Desapareceu. Formou-se uma imagem dentro do globo — vigas, paredes caiadas, uma mesa assentada em suportes por baixo de um candeeiro de latão pendurado. A fumaça agitava-se junto aos vidros de cristal de rocha enegrecidos. A perspectiva era bastante rasteira; como se estivessem deitados no chão.

Passaram por cima mulheres desleixadas, e homens com roupas malfeitas. Tenuemente, como se a uma grande distância, chegaram gargalhadas, tossidinhas e o tinir de copos.

Um homem sentou-se à mesa, um cavalheiro entroncado de meia-idade, de rosto um pouco rosado, e salpicos grisalhos no cabelo. Trazia um casaco comprido velho e um boné mole. Os seus olhos andavam incessantemente de um lado para o outro, observando sem dúvida as pessoas na estalagem.

Mandrake aproximou-se mais, inspirando suavemente: o perfume de Farrar era particularmente forte naquele dia. Havia nele um odor de romã.

— Aquele é Palmer, não é? — perguntou. — Temos um ângulo muito estranho. Muito baixo.

Ela anuiu.

— Yole era um rato junto ao rodapé. Ele não queria dar na vista, mas foi um erro que te saiu caro, não foi, Yole? — Acariciou a superfície do globo.

Uma voz lá de dentro, lamurienta e tímida.

— Sim, ama.

— Hum. Sim, aquele é Palmer. Por norma um sujeito muito elegante. Agora... isto é importante. É difícil ver daqui, mas ele tem um copo de cerveja na mão.

— Extraordinário — murmurou Mandrake. — Visto tratar-se de um bar e tudo isso. — Definitivamente romãs... e possivelmente um toque de limão...

— Espere só. Ele está atento a alguém.

Mandrake observou a figura no globo. Como seria de esperar num mago entre os comuns, Mr. Palmer não se sentia à vontade. Movia constantemente os olhos; o suor reluzia-lhe no pescoço e na testa lustrosa. Levantou duas vezes a caneca como se para beber a cerveja; por duas vezes ficou com ela parada junto aos lábios e voltou a pousá-la lentamente em cima da mesa, longe da vista.

— Nervoso — comentou Mandrake.

— Sim. Pobre, pobre Palmer.

Falou baixinho, mas algo no tom dela era cortante como uma faca. Mandrake inspirou novamente. Aquele toque acre estava mesmo certo. Contrabalançava muito bem o cheiro mais adocicado.

Ms. Farrar tossiu.

— Algum problema na sua cadeira, Mandrake? — inquiriu. — Mais um bocadinho e está no meu colo.

Ele levantou apressadamente o olhar do globo, por pouco não colidindo com a testa dela.

— Desculpe, Farrar, desculpe. — Pigarreou, falou com voz grave. — É apenas a tensão; é mais forte do que eu. Qual será a jogada deste Palmer? Um sujeito muito desconfiado. — Compôs distraidamente um punho.

Ms. Farrar olhou-o por um momento, depois indicou o globo.

— Bem, observe.

Apareceu um recém-chegado na lateral do globo, trazendo também um copo de cerveja. Tinha a cabeça descoberta, o cabelo ruivo penteado para trás, botas de operário sujas e calças arrastando por baixo de um impermeável preto comprido. Com passos descontraídos mas deliberados, aproximou-se de Mr. Palmer, que se deslocou no banco para arranjar lugar para ele. O recém-chegado sentou-se. Colocou a cerveja em cima da mesa e empurrou os óculos no nariz pequeno.

Mr. Mandrake ficou transfixo.

— Espere! — silvou. — Eu o conheço!

— Yole — ordenou Ms. Farrar. — Pare a cena.

Os dois homens no globo viravam parcialmente as cabeças para se cumprimentarem. A uma ordem dela a imagem ficou estática.

— Está bem assim — disse Farrar. — Reconhece-o?

— Sim. Aquele é Jenkins. Clive Jenkins. Trabalhava comigo na Administração Interna. Tanto quanto sei, ainda pode estar lá. Secretário. Não chegaria a lugar nenhum. Ora bem. Isto é interessante.

— Espere só. — Estalou os dedos; Mandrake reparou no verniz cor-de-rosa claro, na cor suave das cutículas dela. A imagem no globo foi retomada: as cabeças dos dois homens viraram-se, cumprimentaram-se, desviaram o olhar. O recém-chegado, Clive Jenkins, bebeu um gole de cerveja. Movia os lábios; meio segundo depois, ouviu-se no globo a voz dele, metálica e distorcida.

— Ora bem, Palmer. As coisas estão andando depressa e chegou a hora das decisões. Precisamos saber se alinha ou não.

Mr. Palmer bebeu uma longa golada da sua caneca. O rosto reluzia da transpiração, os olhos nunca estavam quietos. Em vez de falar, murmurou:

— Preciso de mais informações.

Jenkins riu-se, compôs os óculos.

— Relaxe, relaxe. Eu não mordo, Palmer. Informações terá. Mas primeiro preciso de provas das suas boas intenções.

O outro homem efetuou um estranho movimento de mastigação com os lábios e os dentes.

— Alguma vez lhe dei motivos para duvidar de mim?

— Não deu. Mas também não nos deu muitos motivos para acreditarmos em você. Precisamos de provas.

— Como? Refere-se a um teste?

— Mais ou menos. Mr. Hopkins precisa ver o seu empenho com os próprios olhos. Tanto quanto sabemos, você pode até ser da polícia. Trabalhar para Devereux, ou aquela cabra da Farrar. — Bebeu outro gole de cerveja. — Todo o cuidado é pouco.

Abstraindo-se do globo, noutro tempo e noutro lugar, John Mandrake olhou para Jane Farrar e arqueou uma sobrancelha. Ela sorriu indolentemente, pondo à mostra um canino pontiagudo.

— Hopkins... — começou ele. — Acha que é o mesmo... ?

— O estudioso que mostrou a Duvall como funcionavam os golems — afirmou Farrar. — O elo que faltava na última conspiração. Sim, acho. Mas ouça.

Mr. Palmer esboçava um protesto, de rosto congestionado, que se transformou num esgar ofendido de reprovação. Clive Jenkins não disse nada. Por fim, Palmer concluiu a sua tirada; ficou inerte como um balão sem ar.

— Bem, o que quer que eu faça? — perguntou. — Mas aviso-o, Jenkins, é melhor não tramar...

Ergueu o copo para se retemperar. Nesse momento, Jenkins pareceu estremecer; o seu cotovelo remendado bateu no braço do outro. O copo foi sacudido, a cerveja entornando-se em cima da mesa. Palmer soltou um pequeno miado de fúria.

— Seu desastrado...

Jenkins não pediu desculpa.

— Se fizer o que lhe pedem — disse —, colherá as recompensas juntamente comigo e com os restantes. Deverá encontrar-se com ele... aqui.

— Quando?

— Mais tarde. É tudo. Agora vou andando.

Sem mais uma palavra, o homem franzino de cabelo ruivo abandonou a mesa e desapareceu de vista. Mr. Palmer permaneceu sentado mais alguns minutos, o seu rosto vermelho, vago e desesperado. Depois, ele também foi embora.

Ms. Farrar estalou os dedos. A imagem desapareceu; ao longe, o rosto nas sombras regressou relutantemente. Farrar recostou-se na cadeira.

— É desnecessário dizer que Yole fracassou. Do seu ponto de vantagem como rato não conseguia ver a superfície da mesa. Não pensou que Jenkins tivesse entornado a cerveja de propósito, nem escrito a hora e o local do encontro no líquido em cima da mesa. Bem, Yole seguiu Palmer durante o resto do dia e não viu nada. Naquela mesma noite veio informar-me. Enquanto isso, Palmer abandonou o seu apartamento e não voltou. Terá ido, sem dúvida, ao encontro combinado com o misterioso Hopkins.

John Mandrake bateu com os dedos uns nos outros, cheio de ansiedade.

— Vamos ter de interrogar Mr. Palmer quando ele voltar.

— Ora aí está um pequeno problema. Hoje de manhã, os engenheiros que trabalhavam na ETAR de Rotherhithe viram algo numa estrumeira. A princípio, julgaram tratar-se de um monte de trapos.

Mandrake hesitou.

— Não...

— Receio que sim. Era o corpo de Mr. Palmer. Foi apunhalado no coração.

— Oh — disse Mandrake. — Ah. Isso é estranho.

— Pois é. Mas também promete. — Jane Farrar passou uma mão pelo globo; escureceu, ficou de um azul frio e baço. — Significa que este seu Clive Jenkins... e este Hopkins... estão a planejar algo grande. Suficientemente grande para implicar um assassínio bastante negligente. E nós estamos envolvidos. — Os olhos dela brilharam de entusiasmo. O cabelo preto comprido estava um pouco descomposto; caíam-lhe várias mechas na testa. O rosto estava corado, e a respiração acelerada.

Mandrake compôs ligeiramente o colarinho.

— Por que está me contando isto agora, fora do Conselho?

— Porque confio em você, John. E não confio em nenhum dos outros. — Afastou as mechas do olho. — A Whitwell e o Mortensen estão fazendo intrigas contra nós. Sabe perfeitamente. Não temos amigos no Conselho além do PM. Se conseguirmos eliminar estes traidores, a nossa posição sairá extremamente fortalecida.

Mandrake anuiu.

— É verdade. Bem, não há dúvidas quanto ao que fazer. Mandar um demônio seguir Clive Jenkins e ver se ele nos leva à verdade.

Ms. Farrar guardou o globo de cristal no estojo e levantou-se.

— Deixo isso contigo, se me é permitido. Yole não tem préstimo e os meus outros estão todos em missões. Esta fase é apenas de observação. Não precisa de nada poderoso. Ou tem os seus djinn todos ocupados?

Mandrake olhou para os pentagramas silenciosos.

— Não, não — respondeu lentamente —, tenho certeza de que vou conseguir arranjar alguém.

 

Ora digam-me lá. Falham numa missão, são agressivos com um mensageiro e recusam-se terminantemente a acatar uma ordem de regressar. Depois, sentam-se à espera de que o mago reaja. E não acontece nada. Durante horas. Nem chamado, nem tentativa de castigo, nada.

Que nome se dá a um amo assim?

Se há coisa que me chateia de verdade é ser ignorado. Tratamento austero ainda agüento, gestos insultuosos idem. Pelo menos mostram que estamos a ter alguma atenção. Mas ser simplesmente deixado a apodrecer como se não passasse de um diabrete sem préstimo dentro de uma bola de cristal... isso deixa-me mais do que um pouco irritado.

O dia ia já a meio quando senti o primeiro puxão na minha essência: firme, insistente, como arame muito fino a atravessar os meus órgãos vitais. Até que enfim, o chamado! Bestial — estava na hora de partir! Relutância medrosa ou oferecer resistência, isso não era comigo. Levantei-me da chaminé partida, espreguicei-me, removi a Ocultação que lançara sobre mim, assustei um cão de passagem, fiz um gesto grosseiro a uma velhota no jardim ao lado e saltei o mais depressa que pude da chaminé para a rua.27

 

27 Atendendo à minha fraqueza, não consegui chegar à calçada. Só lhes digo que o gesto foi selvagem.

 

Acabara-se a brincadeira. Continuava a ser Bartimaeus de Uruk, al-Arish e Alexandria. Desta vez era a sério.

Deixei que o chamado fizesse elevar e afastar a minha essência. A rua desapareceu rapidamente numa agitação de luzes e faixas coloridas. Um segundo depois, estas juntaram-se mais uma vez na forma de um salão de chamado típico: lâmpadas fluorescentes no teto, múltiplos pentagramas no chão. O Ministério da Informação, como de costume. Deixei que o meu corpo retomasse o aspecto de Kitty Jones. Era mais simples do que tentar pensar noutra coisa.

Pronto. Onde é que estava o maldito Mandrake?

Ali! Sentado a uma escrivaninha, de caneta na mão, a analisar um montão de papéis diante de si. Não se dignava sequer a olhar na minha direção! Pigarreei, pus as mãos delicadas nas ancas, preparei-me para falar...

— Bartimaeus! — Uma voz suave. Muito fina para ser de Mandrake. Virei-me, vi uma mulher jovem e delicada com cabelo cor de ratazana sentada a outra escrivaninha num pentagrama vizinho. Era Piper, a assistente do meu amo, hoje querendo parecer severa. A sua testa estava franzida pretendendo dar a impressão de uma expressão carrancuda; as pontas dos dedos apoiavam-se umas nas outras num ângulo pronunciado. Olhou-me como uma professora num jardim infantil. — Por onde tem andado, Bartimaeus? — começou. — Devia ter regressado esta manhã, conforme o solicitado. Mr. Mandrake tem estado a esforçar-se para te trazer de volta, e logo agora que está assoberbado de trabalho. Isto não é nada bom, sabe? O teu comportamento está se tornando extremamente aborrecido.

Não estava à espera de nada daquilo. Endireitei-me.

— Aborrecido? — protestei. — Aborrecido? Não sabe com quem está falando? Olha que é com Bartimaeus — Sakhr al-Jinni, N’gorso, o Poderoso, construtor de muralhas, destruidor de impérios. Tenho vinte nomes e títulos noutras tantas línguas e os meus feitos repercutem-se em cada sílaba! Não queira me rebaixar, mulher! Se quer viver, aconselho a levantar as saias e sair daqui rapidamente. Pretendo falar com Mr. Mandrake a sós.

Ela deu um estalido com a língua.

— Hoje está mesmo impossível, Bartimaeus. Mas você é que sabe. Agora, temos um trabalhinho para você...

— O quê? Calminha! — Dei meio passo em frente no pentagrama; saltaram faíscas dos meus olhos e uma auréola de fogo cor de coral tremeu sobre a minha pele. — Primeiro tenho umas coisas a resolver com o Mandrake!

— Receio que o senhor ministro não esteja inclinado neste momento.

— Inclinado? Bobagem! Estou vendo-o ali e bem direito!

— Ele está ocupado a trabalhar no panfleto das notícias de hoje. O prazo está acabando.

— Bem, ele que pare por alguns minutos de inventar mentiras.28 Quero dar-lhe uma palavrinha.

 

28 Como parte da sua tentativa de apaziguar os comuns, Mandrake iniciara uma série de panfletos horrorosos, que narravam as histórias heróicas dos soldados britânicos em terras americanas. Um título típico era Real War Stories. Eram ilustradas com xilogravuras de má qualidade e pretendiam passar por relatos dos acontecimentos recentes. É desnecessário dizer que os magos americanos eram selvagens e cruéis, recorrendo à magia negra e aos demônios mais hediondos. Inversamente, os emproados Ingleses insistiam sempre nas boas maneiras e lisura de caráter, conseguindo, invariavelmente, desenrascar-se improvisando armas de fabricação artesanal a partir de postes de vedações, latas e pedaços de barbante. A guerra era descrita como sendo simultaneamente necessária e virtuosa. Era a mesma história de sempre — já vi diabretes talharem afirmações semelhantes nas esteias oficiais de uma ponta à outra do delta do Nilo, defendendo as guerras faraônicas. As pessoas também não lhes davam a mínima.

 

Ms. Piper franziu o nariz.

— Não pode ter nada de interessante para lhe dizer. Agora, por favor, preste atenção à tua missão.

Afastei-me dela; dirigi-me à figura na escrivaninha.

— Eh, Mandrake! — Nenhuma resposta. Repeti-me, só que mais alto. Os papéis agitaram-se e esvoaçaram em cima da escrivaninha dele.

O mago passou a mão pelo cabelo cortado curto e levantou a cabeça com uma expressão vagamente compungida. Até parecia estar a recordar-se de uma ferida antiga num ponto sensível. Virou-se para a assistente.

— Ms. Piper, faça o favor de informar Bartimaeus de que não estou minimamente interessado nas queixas dele. Recorde-lhe que a maior parte dos amos o teria punido severamente pela sua incompetência na batalha e que tem muita sorte em estar vivo. É tudo.

Voltou a pegar na caneta. Ms. Piper abriu a boca para falar, mas eu antecipei-lhe.

— Por favor, informe aquele pedante tosquiado — repliquei — que é imperativo que ele me dispense de imediato. Os meus poderes, conquanto ainda assustadores, encontram-se um tanto reduzidos e a necessitar de recuperação. Se ele não concordar com este pedido razoável e justo, serei obrigado a agir, em desespero de causa, contra os meus interesses e os dele próprio.

Ela ficou carrancuda.

— O que significa essa última parte?

Arqueei uma sobrancelha.

— Ele sabe. — Virei-me para Mandrake. — Você sabe, não sabe?

Ele olhou para mim.

— Sim, como é óbvio.29 — Com sinistra deliberação, pousou mais uma vez a caneta. — Ms. Piper, faça esse demônio pernicioso ver que, caso certa idéia de traição lhe passe, nem que seja fugazmente, pela cabeça, o enviarei para os pântanos de Boston, onde todos os dias se vê morrer pelo menos uma dúzia de djinn.

 

29 Ah se sabia. O nome próprio dele pairava sobre a sua cabeça como uma espada desembainhada.

 

— Diga-lhe que, neste momento, para mim isso é igual a nada. As minhas defesas estão tão por baixo que posso até morrer quando for fazer as compras. Tanto faz que seja lá como cá.

— Diga-lhe que ele está sem dúvida exagerando nas suas fraquezas. Nem parece o Bartimaeus que ombreou com Salomão.

— E Fausto e Zarbustibal.

— Fausto, Zarbustibal, seja lá quem for. Não vou referir a lista toda. Todavia, diga-lhe, Ms. Piper, que se ele concluir com êxito a próxima missão, concordarei com a sua dispensa temporária para efeitos de recuperação, e ele que se dê por satisfeito com isso.

Funguei depreciativamente.

— Diga-lhe que esta proposta só será aceitável se for uma missão simples, rápida e sem correr o menor perigo.

— Diga-lhe... Oh, francamente, diga-lhe apenas qual é a missão e apresse-se!

Com uma agitação de papéis e uma chiada da sua cadeira de couro, o mago retomou o seu trabalho. A cabeça de Ms. Piper parou; andara de um lado para o outro como uma coruja aflita. Esfregou delicadamente o pescoço.

— Apresse-se, então — disse-lhe eu.

Pareceu um pouco ofendida com o meu tom seco, mas eu não estava com disposição para amenidades. Mandrake voltara a tratar-me com desprezo e ironia. Voltara a ignorar as minhas ameaças e súplicas. Pela milésima vez jurei vingança. Talvez devesse mesmo aventurar-me na América, ir para lá arriscar a minha sorte em combate. Já sobrevivera a situações semelhantes antes. Mas não quando estava tão fraquinho como neste momento... Não, primeiro precisava recarregar minhas forças, e isso significava aceitar esta «derradeira» missão. Fiquei à espera, com ar sinistro. Do outro lado da sala, ouvia a caneta de Mandrake deslizar no papel, escrevendo mais mentiras. Ms. Piper ficou manifestamente aliviada pelo confronto ter terminado.

— Bem — disse, sorrindo toda animada —, estou certa de que a achará muito simples, Bartimaeus. Queremos que siga um mago menor chamado Clive Jenkins, registrando cada ato e movimento dele. Não pode deixar que te vejam ou sintam. Ele está metido em algum tipo de conspiração contra o governo e tem-se envolvido em crimes. Além disso, sabemos que trabalha para o estudioso em fuga, Hopkins.

O meu interesse foi despertado de uma forma muito vaga. Mas mantive o rosto de Kitty Jones no modo obstinado da adolescência.

— Jenkins: ele é forte?

Ela carregou o cenho.

— Não creio.

O meu amo levantou a cabeça e suspirou.

— O Jenkins? Dificilmente.

— Ele trabalha na Administração Interna — informou Ms. Piper. — Segundo nível. Tem um diabrete chamado Truklet. Sabemos que tem tentado corromper outros magos de nível baixo; desconhece-se o motivo. Estará certamente em contato com Clem Hopkins.

— Essa é a prioridade — salientou Mandrake. — Encontrar Hopkins. Não aja nem ataque: sabemos que não pode com uma gata pelo rabo, Bartimaeus. Limite-se a descobrir o paradeiro dele. E descubra também o que estão tramando. Se tiver êxito, eu... Oh, raios. — O telefone na escrivaninha dele tocou. Levantou o auscultador.

— Alô? Oh... olá, Makepeace. — Revirou os olhos para o teto.

— Sim, sim, adoraria passar por aí, mas neste momento não posso. Tenho de ir para o Conselho logo mais... na verdade, já estou atrasado... Do que se trata? Hum, hum, muito misterioso. Talvez mais tarde esta... Está bem, vou tentar. Até logo. — Desligou o telefone com força. — Tenho de ir, Piper. Terminarei a história do cerco de Boston no almoço. Mando-a depois por diabrete, está bem? Podemos imprimi-la para as feiras noturnas. — Levantara-se já, enfiando papéis numa pasta. — Precisa saber mais alguma coisa, Bartimaeus? Não me refiro a desculpas ou lamúrias; não tenho tempo para elas.

A minha versão de Kitty rangeu os dentes.

— E que tal reforços? Se eu descobrir este Jenkins, haverá mais de um diabrete a protegê-lo.

— Ele não passa de um estudioso, Bartimaeus. E mesmo que tenha defesas, não queremos que ataque. Podemos enviar Cormocodran e os outros depois para tratarem dele, e Ms. Farrar tem muitos policiais a postos. Venha encontrar-se comigo assim que tiver a informação. Dou-lhe uma ordem de porta-aberta: pode voltar para mim quando estiver pronto.

— Onde te encontrarei?

— Em Westminster Hall esta tarde; na mansão de Devereux em Richmond ao final do dia. A noite, em minha casa. — A pasta dele fechou-se com um estalido; estava ansioso por partir.

— Onde posso encontrar Jenkins neste momento?

— No edifício da Administração Interna, Whitehall, dezesseis. Gabinete do fundo. É um parvalhão minúsculo, de cabelo ruivo. Mais alguma coisa?

— Não iria gostar de saber.

— Não duvido. Um último aspecto, Bartimaeus — disse. — Dei-te a minha palavra, mas se não largar esse aspecto em particular, sou muito capaz de voltar atrás com ela. — Olhou então para mim, de frente, quase pela primeira vez. — Pense bem. — Esboçou um sinal complexo: os elos que me mantinham aprisionado no círculo enrolaram-se à minha volta, rodaram em direções opostas e enviaram-me para o mundo em movimentos espiralados.

 

Bartimaeus: Sobrenome do demônio Sahkr al-Jinni, mencionado em Procópio e Michelot. Um djinni de categoria média, bastante antigüidade, grande talento e não menos poder. Registrado pela primeira vez em Uruk; mais tarde em Jerusalém. Combateu na Batalha de al-Arish contra os Assírios. Entre os amos conhecidos incluem-se: Gilgamesh, Salomão, Zarbustibal, Heraclius, Hauser.

Os outros nomes de poder de Bartimaeus são: N’gorso, Necho, Rekhyt.

Classificação de Lineu: 6, perigoso. Ainda existe.

Kitty pousou o livro no colo e olhou pela janela do ônibus. Do seu lugar no piso de cima podia ver os mecanismos do domínio dos magos em ação nas ruas de Londres. A Polícia Noturna circulava entre os peões, apareciam esferas de vigia a cada esquina, pequenos pontos luminosos rápidos que passavam lá em cima no céu da tarde. O povo comum andava na sua vida, desviando cuidadosamente o olhar dos observadores por todo o lado. Kitty suspirou. Mesmo com os seus exércitos longe, em ação, o poder do governo era completo demais, óbvio demais para permitir dissidências. Os comuns por si sós não podiam fazer nada, até aí dava para perceber. Necessitavam de um tipo de ajuda diferente.

Voltou a concentrar-se no Manual de Trimegisto, cerrou um pouco os olhos por causa da letra em tipo pequeno e releu o excerto pela enésima vez. Os nomes Necho e Rekhyt eram novos para ela, mas os restantes dolorosamente familiares. A parca lista de amos, por exemplo. Apesar de não se saber muito sobre o aspecto de Gilgamesh ou Salomão, eram sem dúvida reis adultos. Heraclius fora um mago-imperador — um guerreiro, não uma criança. Quanto a Zarbustibal, encontrara uma descrição dele meses atrás num velho inventário de amos árabes: ficara conhecido na região do mar Vermelho pelo nariz aquilino e verrugas salientes. Hauser fora jovem, sem dúvida, mas era do Norte da Europa, louro e sardento — uma gravura num dos livros de Mr. Button elucidara-a. Nenhum deles podia ter sido o rapaz de cabelo e pele escuros cujo aspecto Bartimaeus tanto gostava de usar.

Kitty abanou a cabeça, fechou o livro e enfiou-o na sacola. Provavelmente estava apenas perdendo tempo. Devia esquecer a sua desconfiança e efetuar o chamado assim mesmo.

A hora do almoço chegara e fora-se, e o ônibus estava cheio de homens e mulheres que regressavam ao trabalho. Alguns falavam juntos em tons abafados; outros, já esgotados, cochilavam e cabeceavam. Um homem sentado do outro lado do corredor na direção de Kitty lia a mais recente edição de Histórias Verídicas de Guerra, o relato regular do Ministério da Informação sobre o progresso da guerra. A capa do panfleto estava decorada com uma xilogravura; mostrava um soldado britânico subindo uma colina a correr, de baioneta a postos. Era nobre, determinado, uma estátua clássica em movimento. No alto da colina, um rebelde americano agachado, o rosto contorcido de raiva, terror e outras emoções desagradáveis. Vestia uma túnica antiquada ao estilo dos magos, desenhada de forma a parecer ridículo, efeminado. Tinha os braços levantados na defensiva; ao lado dele estava o seu aliado — um demônio menor em pose idêntica. Com um rosto encarquilhado e malvado; vestia uma miniatura das mesmas roupas do mago. O soldado britânico não tinha nenhum demônio. Na legenda por baixo da xilogravura podia ler-se: «Outra Vitória em Boston.»

Kitty esboçou um trejeito de desdém ante a propaganda manifesta da xilogravura. Aquilo era obra de Mandrake: agora era ele o responsável pela Informação. E pensar que o deixara viver.

Mas fora o djinni Bartimaeus que a encorajara a fazê-lo, a agir para poupar a vida do mago e, passados três anos, isso ainda a confundia e intrigava. Nada do que conhecia a respeito de demônios a preparara realmente para a personalidade de Bartimaeus. As suas conversas, enquadradas num cenário de medo e perigo, permaneciam frescas na sua mente — cheio de vivacidade e conhecimento e, acima de tudo, uma inesperada harmonia. Ele abrira-lhe uma porta, deixando-a vislumbrar um processo histórico que nunca imaginara: milhares de anos de magos a escravizar demônios, a obrigá-los a emprestar-lhes o seu poder. Milhares de anos, durante os quais uma dúzia de impérios elevara-se à glória, vacilara, e depois desmoronara. O padrão repetia-se sucessivamente. Os demônios eram chamados, os magos alcançavam riqueza e fama. Instalava-se a estagnação. Os comuns descobriam capacidades inerentes que desconheciam possuir — a resiliência à magia fora-se acumulando ao longo de gerações, permitindo-lhes rebelar-se contra os governantes. Os magos caíam; surgiam novos noutro lugar e iniciava-se o processo mais uma vez. E assim sucessivamente: um ciclo infinito de luta. A questão era — poderia ser interrompido?

Ouviu-se buzinar; o ônibus parou de repente com uma freada brusca. Kitty foi sacudida no seu lugar e encostou o rosto na janela para tentar ver a causa.

De algum lugar à frente do ônibus, apareceu um jovem a debater-se pelo ar. Caiu pesadamente na calçada, ficou ali um instante e começou a subir. Dois Policiais Noturnos de uniformes cinzentos, botas brilhantes e boné, apareceram correndo. Caíram sobre o jovem, mas ele debateu-se e desferiu pontapés, conseguindo libertar-se. Pôs-se de pé. Uma agente retirou um bastão do cinto: proferiu uma palavra — uma corrente azul cintilante crepitou na sua extremidade. A multidão que se juntara afastou-se, alarmada. O homem recuava lentamente. Kitty viu que ele tinha a cabeça ensangüentada, o olhar esgazeado.

A mulher-policial avançou, brandindo o bastão de choque. Uma arremetida súbita, uma estocada. A corrente atingiu o homem no peito. Estremeceu e contorceu-se por um momento; saía-lhe fumaça das roupas chamuscadas. Depois soltou uma gargalhada — um som áspero e desconsolado, como o grasnido de um corvo. Estendeu a mão e agarrou o bastão pela extremidade ativa. Trepidaram energias azuis na sua pele, mas parecia imune a elas: com dois movimentos rápidos, agarrou o bastão, virou-o ao contrário — e a mulher-policial foi atirada para a calçada num clarão de luz. Os membros dela contorceram-se, o corpo arqueou-se, caiu. Ficou ali imóvel.

O homem jogou fora o bastão de choque, girou nos calcanhares e, sem olhar para trás, desapareceu por uma rua lateral. A multidão silenciosa afastou-se para deixá-lo passar.

Com um estremecimento rangente e o ruído de mudanças, o ônibus pôs-se em marcha. Uma mulher sentada na frente de Kitty abanou a cabeça a ninguém em particular.

— A guerra — disse. — Está causando toda esta agitação.

Kitty viu as horas. Quinze minutos para a biblioteca. Fechou os olhos.

Em parte era verdade: a guerra estava causando a maior parte dos conflitos, tanto na pátria como no estrangeiro. Mas a crescente resiliência dos comuns ajudava a espevitar o fogo.

Seis meses antes, o Ministro da Guerra, Mr. Mortensen, implementara uma nova política. Numa tentativa de levar os rebeldes americanos à submissão, decidira aumentar consideravelmente a dimensão da força do governo. Para o efeito, promulgara a Doutrina Mortensen — uma política de mobilização por todo o país. Abriram Agências de Recrutamento, e os comuns foram encorajados a inscrever-se nas forças armadas. Atraídos pela perspectiva de empregos preferenciais no regresso, muitos homens aderiram. Após alguns dias de treino, partiram para a América em navios especiais para o transporte de tropas.

Passaram-se meses; o regresso esperado dos heróis conquistadores não se deu. Ficou tudo parado. A informação das colônias custava a chegar; os comunicados do governo tornaram-se vagos. Por fim, começaram os rumores, talvez espalhados por comerciantes que exerciam a sua atividade do outro lado do Atlântico: o exército fora empurrado para o interior do território inimigo; tinham sido massacrados dois batalhões; havia muitos homens mortos, alguns tinham fugido para as densas florestas e nunca mais ninguém voltara a vê-los. Falava-se de fome e outros horrores. As filas na Agência de Recrutamento diminuíram e depois cessaram; foi-se instalando, imperceptivelmente, uma taciturnidade nos rostos das pessoas nas ruas de Londres.

A seu tempo, o ressentimento passivo transformou-se em ação. Começou com alguns episódios desgarrados e breves aqui e ali, cada um atribuível a causas locais aleatórias. Numa cidade, uma mãe conduziu um protesto solitário, arremessando uma pedra à janela de uma Agência de Recrutamento; noutra, um grupo de operários baixou os braços e recusou-se a trabalhar pela ninharia diária. Três mercadores viraram um caminhão carregado de gêneros alimentícios preciosos — aveia dourada, farinha fina, presuntos curados ao sol — na rua de Whitehall e, depois de regá-los com petróleo, atearam fogo, fazendo subir uma frágil faixa de fumaça ao céu. Um mago menor das colônias orientais, talvez enlouquecido por tantos anos de dietas estrangeiras, entrou aos gritos no Ministério da Guerra com uma esfera de elementos na mão; em segundos, ativara a esfera, destruindo-se e a dois jovens recepcionistas num turbilhão de ar em fúria.

Se, por um lado, nenhum dos incidentes foi tão dramático quanto os ataques efetuados em tempos pelo traidor Duvall, ou mesmo pela moribunda Resistência, tiveram o poder de permanecer mais tempo na mente das pessoas. Apesar dos melhores esforços de Mr. Mandrake no Ministério da Informação, eram discutidos sucessivamente nos mercados, nos locais de trabalho, nos bares e cafés, até que, mercê da estranha alquimia dos mexericos e dos boatos, foram reunidos numa grande história, tornando-se sintomáticos de um protesto coletivo contra o domínio dos magos.

Mas era um protesto manso, e Kitty, que experimentara a rebelião ativa no seu tempo, não tinha quaisquer ilusões quanto à maneira como iria acabar. Todas as noites, no emprego em The Frog Inn, ouvia falar de propostas de greves e manifestações, mas nenhuma sugestão quanto à forma de evitar que os demônios dos magos apertassem o cerco. Sim, alguns indivíduos desgarrados possuíam resiliência, tal como ela, mas só isso não bastava. Eram também necessários aliados.

O ônibus deixou-a numa rua tranqüila e frondosa a sul de Oxford Street. Pondo a bolsa no ombro, percorreu os dois últimos quarteirões até à Biblioteca de Londres.

O guarda já a vira vezes suficientes, tanto sozinha como na companhia de Mr. Button. Mesmo assim, ignorou a saudação dela, estendeu a mão para o salvo-conduto e observou com ar carrancudo do seu posto num banco alto por trás de uma escrivaninha. Sem comentários, deixou-a entrar. Kitty sorriu com doçura e atravessou o átrio.

A biblioteca ocupava cinco pisos labirínticos, estendendo-se pela área de três casas urbanas na esquina de uma praça sossegada. Apesar de estar situada numa zona fora de mão para os comuns, do seu espólio não constavam essencialmente livros de magia, mas antes obras que as autoridades consideravam perigosas ou subversivas nas mãos erradas. Nelas se incluíam livros de história, matemática, astronomia e outras ciências estagnadas, bem como literatura que fora proibida desde o tempo de Gladstone. Poucos magos principais tinham tempo ou propensão para visitá-la, mas Mr. Button, a cuja atenção poucos textos históricos escapavam, mandava Kitty procurá-los com freqüência.

Como de costume, a biblioteca estava quase deserta. Olhando para os recantos que se estendiam das escadas de mármore, Kitty avistou um ou dois cavalheiros idosos, sentados curvados debaixo das janelas à luz adamascada da tarde. Um segurava frouxamente um jornal nas mãos; o outro dormia mesmo. Num corredor distante, uma mulher jovem varria o chão; sbht, shht, shht fazia a vassoura, e leves nuvens de pó atravessavam as prateleiras de cada lado.

Kitty trazia uma lista dos títulos a requisitar em nome de Mr. Button, mas tinha também uma relação sua. Ao cabo de dois anos de visitas regulares, sabia movimentar-se; em menos de um nada, chegou a um corredor isolado no segundo andar, encontrando-se diante da seção de Demonologia.

Necho, Rekhyt... Os seus conhecimentos de línguas antigas eram nulos: estes nomes podiam pertencer a quase qualquer cultura. Babilônica? Assíria? Instintivamente, experimentou a egípcia. Consultou diversas listagens genéricas de demônios, todas encadernadas em couro preto estalado, as páginas amareladas cobertas de colunas de texto miudinho e apagado. Passou meia hora; não encontrou nada. Uma breve consulta no índice da biblioteca levou-a a um recanto remoto junto de uma janela. Ali, um banco com almofadas roxas aguardava convidativamente. Retirou vários almanaques egípcios especializados e começou a pesquisa.

Quase de imediato, encontrou algo num dicionário imponente.

 

Rekhyt: trad. ingl.: galispo. Esta ave simbolizava a escravidão para os Egípcios; surge mais comumente na arte tumular e em hieróglifos nos papiros dos magos. Aparecem demônios com este sobrenome nos Períodos Antigo, Novo e Final.

 

Demônios no plural... Que frustração. Mas encontrara a época, com certeza. Bartimaeus tinha de ter estado a serviço no Egito; pelo menos durante algum desse tempo, fora conhecido como Rekhyt... Kitty viu no seu subconsciente o djinni tal como o recordava: escuro, ágil, usando uma tanga simples. Do que sabia do aspecto dos Egípcios, Kitty achava que podia ter descoberto algo.

Ficou ali sentada outra hora, folheando com satisfação as páginas empoeiradas. Alguns livros eram inúteis, escritos em línguas estrangeiras, ou contendo expressões tão obscuras que as frases pareciam enrolar-se em si mesmas diante dos seus olhos. Os restantes eram densos e sinistros. Apresentavam-lhe listas de faraós, de funcionários públicos, de sacerdotes-guerreiros de Rá; forneciam tabelas de chamados conhecidos, registros de sobreviventes, de demônios obscuros enviados em tarefas mundanas. Era uma busca desencorajante e por mais de uma vez, Kitty cabeceou. Voltou sobressaltada à realidade, com sirenes da polícia ao longe, gritos e cânticos vindos de uma rua próxima, uma vez um mago velhote a assoar-se ruidosamente enquanto arrastava os passos pelo corredor.

O sol de Outono descera ao nível da janela da biblioteca; os seus raios aqueciam o banco com uma luz dourada. Viu as horas. Quatro e quinze! A biblioteca não tardava a fechar, e nem sequer encontrara os livros de Mr. Button. Dali a três horas tinha também de ir trabalhar. Era uma noite importante, e George Fox de The Frog Inn era exigente na pontualidade. Penosamente, levou outro volume para o banco da janela e abriu-o. Só mais cinco minutos, depois...

Kitty abriu e fechou os olhos. Estava ali. Uma lista, com oito páginas, de tabelas de demônios selecionados, por ordem alfabética. Ora bem... Kitty percorreu-a com uma rapidez experiente. Paimose, Pairi, Penrenutet, Ramose... Aha — Rekhyt. Havia três.

 

Rekhyt (I): Afrit. Escravo de Sneferu (4.a Dinastia) e outros; de temperamento lendariamente maldoso. Morto em Cartum.

Rekhyt (II): Djinni. Sobrenome Quishog. Guardião da necrópole de Tebas (18.a Dinastia). Tendências mórbidas.

Rekhyt (III): Djinni. Também chamado Nectanebo ou Necho. Enérgico, mas sem inspirar confiança. Escravo de Ptolemaeus de Alexandria (apogeu c. 120 a. C).

 

Era o terceiro, só podia ser... A indicação em si era lacônica, mas Kitty sentiu um afluxo de entusiasmo percorrer-lhe as veias. Um novo amo, uma nova possibilidade. Ptolemaeus... o nome era bastante familiar. Estava convencida de que já ouvira Mr. Button mencioná-lo; certa mesmo de que ele possuía livros em que figurava no título... Ptolemaeus. Deu tratos ao cérebro — bem, seria bastante fácil procurar a referência, quando voltasse.

Com pressa febril, Kitty anotou as suas descobertas num bloco, passou-lhe o elástico e guardou-o na bolsa maltratada. Reuniu os livros numa pilha desarrumada, levou-os nos braços e voltou a colocá-los nas prateleiras. Enquanto isso, ouviu-se uma campainha ao longe no átrio. A biblioteca ia fechar! E ainda não encontrara os livros do mestre!

Estava na hora de ir andando. Mas foi com uma nítida sensação de triunfo que Kitty correu pelo corredor. «É bom se acautelar, Bartimaeus», pensou enquanto corria. «É bom se acautelar... Estou apertando o cerco.»

 

A reunião da tarde do Conselho fora ainda menos satisfatória do que John Mandrake temia. Realizou-se no Salão das Estátuas em Westminster, uma sala retangular construída em pedra cinzenta-rosada, com enormes abóbadas medievais lá no alto e tapetes persas espessos cobrindo as lajes. Numa dúzia de nichos ao longo das paredes encontravam-se estátuas em tamanho natural dos grandes magos do passado. Lá no fundo, austero e sinistro, estava Gladstone; em frente dele, brilhante numa sobrecasaca, o seu rival de morte, Disraeli. Todos os posteriores primeiros-ministros se encontravam representados, juntamente com outros ilustres. Nem todos os nichos continham ainda uma estátua, mas Mr. Devereux, o atual primeiro-ministro, ordenara que os ainda vagos fossem preenchidos com magníficos arranjos florais. Calculava-se que os espaços vazios lhe fizessem lembrar a sua própria mortalidade.

Globos de diabretes-luz circulavam junto ao teto, iluminando — no centro da sala — uma mesa redonda de carvalho inglês, de diâmetro enorme e polida na perfeição por laboriosos diabretes. O Conselho estava reunido em volta dela, os grandes do Império, brincando com as canetas e as garrafas de água mineral.

Mr. Devereux escolhera uma mesa redonda por razões diplomáticas. Tecnicamente, ninguém tinha precedente sobre ninguém — uma política admirável que fora estragada pela sua insistência em usar uma gigantesca cadeira dourada, ornamentada com querubins gorduchos talhados. Mr. Mortensen, o Ministro da Guerra, seguira-lhe o exemplo com uma aparatosa cadeira de pau-brasil envernizado. Para não lhe ficar atrás, Mr. Collins do Ministério do Interior respondera com um monumental trono de brocado esmeralda, complementado com borlas perfumadas. E assim sucessivamente. Apenas John Mandrake e a sua antiga mestra Ms. Jessica Whitwell haviam resistido à tentação de modificar os seus assentos.

O lugar ocupado pela cadeira de cada mago fora, de igual modo, disputado com sutileza, até a situação se estabilizar refletindo as facções existentes no Conselho. Os dois favoritos de Mr. Devereux sentavam-se ao lado dele: John Mandrake, o Ministro da Informação, e Jane Farrar da Polícia. Ao lado de Farrar ficavam Ms. Whitwell e Mr. Collins, cujo ceticismo em relação ao modo como a guerra estava a ser conduzida era do conhecimento geral. Ao lado de Mandrake sentavam-se Mr. Mortensen e Ms. Malbindi dos Negócios Estrangeiros: eram as políticas deles que o governo seguia neste momento.

A reunião iniciou-se pouco auspiciosamente com um anúncio. Saiu ruidosamente de uma sala ao lado um globo de cristal gigante em cima de um estrado com rodas. Era puxado por um grupo de escravos constituído por pequenos diabretes, orientados por um capataz foliot empunhando um chicote. Quando se aproximaram da mesa, o foliot soltou um grito, os diabretes puseram-se em sentido e, com o estalar do chicote, desapareceram um após outro em nuvens de vapor colorido. O globo de cristal ficou cor-de-rosa, depois laranja; surgiu no centro um rosto largo e sorridente, que piscou o olho e falou.

— Estimadas damas e cavalheiros do Conselho! Permitam-me recordar-lhes que estamos apenas a dois dias do acontecimento teatral da década, o evento social do ano! Reservem agora os seus bilhetes para a estréia da minha mais recente obra, baseada na vida do nosso querido amigo e líder, Mr. Rupert Devereux! Preparem-se para rir, chorar, bater com os pés e cantar com os coros de De Wapping a Westminster: Uma Odisséia Política. Tragam os seus pares, tragam os seus amigos e não se esqueçam dos lenços de assoar. Eu, Quentin Makepeace, prometo a todos uma noite sensacional!

O rosto desapareceu; o globo ficou escuro. Os ministros reunidos tossiram e agitaram-se nas suas cadeiras.

— Valha-me Deus — murmurou alguém. — É um musical.

Mr. Devereux sorriu a todos.

— O gesto delicado de Quentin é um bocadinho desnecessário — referiu. — Com certeza todos já têm os seus bilhetes.

E tinham. Não havia outra alternativa.

Foi dado início aos trabalhos. Mr. Mortensen apresentou uma resenha das últimas notícias da América, trazidas por djinni do outro lado do oceano. O caso estava feio: refugiados nas regiões desabitadas, pequenas escaramuças, nenhuma vitória decisiva. Há semanas que era assim.

John Mandrake mal escutava. O relato era previsível e deprimente; aumentou apenas a frustração que fervia dentro dele. Estava tudo fora de controle — a guerra, os comuns, a situação no Império. Era preciso fazer algo de decisivo, e em breve, se queriam salvar a nação. E ele tinha a solução. O Bordão de Gladstone — uma arma incrivelmente poderosa — guardado infrutiferamente nos subterrâneos por baixo daquela mesma câmara, pedindo que alguém com talento lhe desse uso. Se manejado eficazmente, destruiria os rebeldes, intimidaria os inimigos da Grã-Bretanha, obrigaria os comuns a voltar ao trabalho. Mas necessitava de um mago do nível mais forte para controlá-lo, e Devereux não era esse homem. Assim — temendo pela sua própria posição —, ele mantinha-o muito bem guardado.

Caso a oportunidade surgisse, teria Mandrake conseguido usar o Bordão? Com toda a honestidade, não sabia. Talvez. Era o mago mais forte na sala, com a possível exceção de Whitwell. E depois, três anos atrás, quando tivera nas suas mãos o Bordão em nome do governo, tentara pô-lo para funcionar, e não fora capaz.

Esse conhecimento, essa ambição frustrada misturada com a própria dúvida, contribuíam para a apatia de que ultimamente fora acometido. No dia-a-dia, o seu trabalho era vão — estava rodeado de parvalhões briguentos, incapazes de mudar a situação. O único vislumbre de esperança vinha da caça ao traidor Hopkins. Talvez nessa matéria pudesse efetuar uma descoberta, alcançar algo de palpável ao menos uma vez. Bem, teria de ver o que Bartimaeus descobrira.

Mortensen continuava a falar. Vencido pelo tédio, Mandrake ia tomando notas soltas no seu bloco. Bebeu água. Apreciou os seus colegas do Conselho, um por um.

Antes de mais: o primeiro-ministro, o cabelo raiado de branco, o rosto inchado e manchado do esforço da guerra. Notava-se nele um desalento; parecia hesitante, pouco seguro no discurso. Só quando falavam de teatro é que a sua velha animação voltava, o carisma contagiante que tanto inspirara Mandrake quando rapaz. Noutras ocasiões, era perigosamente vingativo. Não muito tempo antes, a antecessora de Mr. Collins no Ministério do Interior, uma mulher chamada Harknet, opusera-se às suas políticas. Fora atacada por seis borlas naquela noite. Semelhantes acontecimentos perturbavam Mandrake — não indiciavam a clareza de idéias digna de um líder. Além disso, era moralmente perverso.

A lado de Devereux estava sentada Jane Farrar. Sentindo a apreciação dele, levantou a cabeça e sorriu; havia um ar conspirador nos seus olhos. Enquanto observava, ela rabiscou algo num papel e empurrou-o na sua direção. Dizia: Hopkins. Alguma novidade? Ele abanou a cabeça, articulou: «Muito cedo», pôs um ar pesaroso e volveu o olhar para a vizinha dela.

A Ministra da Segurança, Jessica Whitwell, já suportara diversos anos de perda de favorecimento; começava agora a recuperá-lo sistematicamente. A razão era simples — era muito poderosa para ser ignorada. Vivia frugalmente, não tentava acumular grande riqueza e concentrava as suas energias no melhoramento dos serviços de segurança. Graças aos esforços dela, uma série de ataques recentes conseguira ser aniquilada. Continuava escanzelada, com o cabelo branco-fantasma e espetado. Ela e Mandrake olhavam-se com respeitosa aversão.

A esquerda dela: Mr. Collins, o mais recente membro do Conselho. Era um homenzinho impetuoso, trigueiro, de rosto cheio, os olhos brilhando habitualmente de indignação. Salientara repetidamente os danos que as guerras estavam causando à economia; prudentemente, porém, deixara de exigir de forma manifesta o fim das hostilidades.

À direita de Mandrake estava a facção da guerra: primeiro, Helen Malbindi, Ministra dos Negócios Estrangeiros. Era por natureza tímida e influenciável, mas a pressão do seu atual cargo tornava-a afeita a acessos de raiva gritante entre a sua equipe. O nariz dela era um bom indicador do estado de espírito: em ocasiões de stress, ficava branco e sem um pingo de sangue. Mandrake tinha-a em baixa estima.

Carl Mortensen, o Ministro da Guerra, encontrava-se ao lado de Malbindi, a apresentar o seu relatório. Há anos que a sua sorte estava em alta; fora ele quem defendera mais acirradamente a guerra com a América, e as suas estratégias tinham sido seguidas à risca. Continuava a usar o cabelo liso comprido (não se dignara a cortá-lo no estilo militar) e a falar confiantemente em sucesso. Não obstante, tinha as unhas roídas até o sabugo, e os outros membros do Conselho observavam-no com os olhos fixos de abutres.

— Lembro a todos que devemos nos manter empenhados — referiu. — É um momento crucial. Os rebeldes estão sendo desbaratados. Em contraste, nós ainda quase não pusemos à prova os nossos recursos. Podíamos manter a nossa presença ali por pelo menos mais um ano.

Na sua cadeira dourada, Mr. Devereux passou um dedo pelo traseiro de um querubim; falou baixo.

— Daqui a um ano já não o teríamos nesta sala, Carl. — Sorriu por baixo das pálpebras encobertas. — A menos que fosse incorporado em algum ornamento.

Mr. Collins riu à solta; Ms. Farrar sorriu gelidamente. Mandrake olhou para a tampa da caneta.

Mr. Mortensen empalideceu, mas agüentou o olhar do primeiro-ministro.

— É claro que não iremos necessitar de um ano. Usei o termo apenas como ilustração.

— Um ano, seis meses, seis semanas... vem tudo a dar no mesmo. — Ms. Whitwell falava em tom agastado. — Entretanto, os nossos inimigos no mundo vão-se aproveitando de nós. Fala-se de rebelião por todo o lado! O Império está em efervescência.

Mortensen fez um esgar.

— Está exagerando.

Devereux suspirou.

— O que tem a relatar, Jessica?

Ela efetuou uma vênia rígida.

— Obrigada, Rupert. Ainda a noite passada ocorreram três ataques distintos no nosso solo! Os meus lobos destruíram um grupo de ataque holandês ao largo da costa de Norfolk, enquanto os djinn de Collins tiveram de repelir um ataque aéreo em Southampton: presumimos que fossem demônios espanhóis, não é verdade, Bruce?

Mr. Collins anuiu.

— Eles usavam tabardos* amarelos e laranja, decorados com as armas de Aragão. Lançaram uma chuva de Infernos no centro da cidade.

 

* Espécie de capote usado sobre a armadura dos cavaleiros. (NT)

 

— Entretanto, outro bando de demônios atacou uma parte do Kent — prosseguiu Ms. Whitwell. — Creio que Mr. Mandrake tenha resolvido o assunto. — Fungou.

— Resolvi — redarguiu John Mandrake, maliciosamente. — As forças inimigas foram destruídas, mas não existem provas quanto à sua proveniência.

— Que pena. — Os dedos brancos e magros de Whitwell tamborilavam ritmicamente na mesa. — Mesmo assim, o problema não deixa dúvidas: trata-se de um fenômeno à escala européia, e o grosso das nossas forças não se encontra aqui para esmagá-lo.

Mr. Devereux anuiu com ar cansado.

— Efetivamente, efetivamente. Alguém quer comer um doce neste momento? — Olhou à sua volta. — Não? Nesse caso, vou aventurar-me sozinho. — Tossiu. Apareceu uma sombra alta cinzenta não se sabe de onde por trás da sua cadeira e, com dedos espectrais colocou diante dele uma bandeja dourada; estava cheia de bolos e pastéis amarelos. A sombra retirou-se. Devereux escolheu um donut com cobertura de açúcar. — Ah, excelente. Jane, por favor apresente-nos a perspectiva da Polícia sobre a situação interna.

Ms. Farrar adotou uma pose lânguida que, não obstante, realçava vantajosamente a sua figura.

— Com toda a franqueza, é perturbadora. Não só temos estes ataques, que são difíceis de enfrentar, mas também a questão dos desacatos causados pelos comuns. Cada vez mais pessoas apresentam resistência aos ataques mágicos. Vêem além das Ilusões, observam os nossos espiões... Inspiradas no exemplo deles, têm-se realizado greves e manifestações. Considero isto potencialmente mais importante do que a guerra.

O primeiro-ministro limpou fragmentos de açúcar da boca.

— Jane, Jane, não podemos nos distrair. A seu tempo o problema dos comuns será resolvido. Eles estão agitados por causa da guerra. — Olhou intencionalmente para Mr. Mortensen.

Ms. Farrar inclinou a cabeça; uma madeixa de cabelo caiu-lhe atraentemente sobre o rosto.

— É claro que a decisão é sua, senhor.

Mr. Devereux deu uma palmada na coxa.

— E é mesmo! E eu decido que agora vamos fazer um intervalo. Café e doces para todos!

A sombra regressou; com diversos graus de relutância, os ministros aceitaram as bebidas. Mandrake ignorou a sua xícara, olhando novamente para Jane Farrar. Eram sem dúvida aliados no Conselho; alvo da desconfiança dos outros, há muito que se haviam aproximado. Mas isso significava muito pouco. Semelhantes alianças podiam mudar em menos de um nada. Como sempre, ele tinha dificuldade em conjugar a forte sedução pessoal com a fria insensibilidade da personalidade dela. Ficou carrancudo; curiosamente, porém, apesar do seu autocontrole, apesar de acreditar nas virtudes do domínio dos magos, ver alguém como Farrar tão perto fazia-o sentir-se, lá no fundo, ambíguo, hesitante, cheio de constrangimento. Ela era realmente muito bela.

Mas, analisando bem a questão, todo o Conselho o deixava constrangido. Necessitara de toda a sua força interior para manter a compostura na presença deles. Todos irradiavam ambição, força, inteligência e astúcia; nunca nenhum deles deixara de agir nos seus próprios interesses. A fim de sobreviver, vira-se obrigado a fazer o mesmo.

Bem, talvez fosse assim mesmo. Alguma vez encontrara alguém que tivesse agido de outro modo? Sem querer, veio-lhe à mente o rosto de Kitty Jones. Que bobagem! Uma traidora, violenta, turbulenta, indomável... Fez um desenho no seu bloco: um rosto com cabelo escuro comprido... Que bobagem! De qualquer forma, a garota morrera. Riscou-o rapidamente.

E continuando a recuar — fazia agora muito, muito tempo — houvera também a sua professora de arte. Ms. Lutyens. Curioso, já não conseguia se lembrar bem do rosto dela...

— Ouviu-me John? — Era Devereux, a falar-lhe quase ao ouvido. Sentiu pedacinhos de açúcar do donut atingirem-lhe o rosto. — Estamos a discutir a nossa posição na Europa. Queria saber a sua opinião.

Mandrake endireitou-se.

— Peço desculpas, senhor. Hum, os meus agentes informaram-me de que o descontentamento é extensivo à Itália. Registraram-se tumultos em Roma, segundo soube. Mas não é a minha área.

Magra, austera, escanzelada, a Ministra da Segurança, Jessica Whitwell declarou:

— Mas é a minha. Itália, França, Espanha, os Países Baixos. O mesmo por todo o lado. As nossas tropas nunca estiveram tão em baixa. E qual é o resultado? Dissidência, tumultos, rebelião. Toda Europa fervilha. Todos os descontentes se preparam para nos atacar; antes do final do mês estaremos em luta com uma dúzia de países.

— Não é hora para exageros, Jessica. — Os olhos de Mr. Mortensen pareciam feitos de aço.

— Exageros? — Uma mão ossuda bateu com força na mesa; Ms. Whitwell levantou-se. — Esta vai ser a pior rebelião desde 1914! E onde estão as nossas forças? A milhares de quilômetros! Estou avisando, perderemos a Europa se não tivermos cuidado!

Agora, Mortensen levantava também a voz. Soergueu-se da cadeira.

— Oh, e talvez você tenha uma solução, não?

— É claro que tenho. Retiramos da América e trazemos para cá as nossas forças!

— O quê? — Mortensen virou-se para o primeiro-ministro, com o rosto congestionado da fúria. — Ouviu isso, Rupert? Não passa de puro apaziguamento descarado! Muito perto de traição!

Irrompeu um brilho cinzento-azulado em volta do punho crispado de Jessica Whitwell; o ar tremeu com uma onda de força sobrenatural. A sua voz ficou subitamente calma.

— Quer fazer o favor de repetir isso, Carl?

O Ministro da Guerra permaneceu rígido, os dedos cravados nos braços da sua cadeira de pau-brasil, os olhos para cá e para lá. Por fim, assumiu uma posição de repouso furioso. O brilho no punho de Ms. Whitwell tremulou e desapareceu. Aguardou mais alguns segundos, depois sentou-se calma e vitoriosamente.

Conforme o lado para que pendia a aliança deles, os outros ministros sorriram presunçosamente ou ficaram carrancudos. Mr. Devereux inspecionou as unhas; parecia ligeiramente enfastiado.

John Mandrake levantou-se. Não compactuando nem com Mortensen nem com Whitwell, sentiu uma necessidade súbita de chamar a si a iniciativa, de arriscar, abandonar a inércia.

— Estou certo de que nenhum dos nossos excelentes ministros pretendia ofender, nem é tão pueril a ponto de ficar melindrado — afirmou. — Ambos têm manifestamente razão: a ansiedade de Jessica é prudente, visto a situação na Europa estar se tornando deplorável; a recusa de Carl em admitir a derrota é igualmente louvável. Não podemos deixar a América nas mãos de criminosos. Gostaria de propor uma solução para o problema.

— Que seria...? — Ms. Whitwell não estava impressionada.

— Retirar as tropas não é solução — prosseguiu Mandrake com frieza. — Isso irá transmitir precisamente a mensagem errada aos nossos inimigos em todo o mundo. Mas precisamos pôr termo a este conflito. Os nossos demônios não são suficientes, nem tampouco... Mr. Mortensen que me desculpe... os soldados comuns o são. Necessitamos de uma arma decisiva que os Americanos não possuam. Algo com que não possam lutar. É simples. Usamos o Bordão de Gladstone.

Previra a onda de ruidosos protestos com que a sua proposta foi recebida; não tentou continuar a falar, sentando-se antes com um sorriso fino. Jane Farrar olhou para ele e arqueou uma sobrancelha enigmática; os rostos dos outros tinham estampados diversos graus de indignação.

— Impossível!

— Uma fantasia absurda!

— Absolutamente fora de questão!

O ruído diminuiu. Mandrake agitou-se.

— Desculpem — disse —, mas não entendo bem as suas objeções.

Carl Mortensen esboçou um gesto de rejeição.

— O Bordão não foi experimentado, testado.

— É difícil de controlar — interveio Helen Malbindi.

— Um artefato extremamente perigoso — acrescentou Jessica Whitwell.

— Mas é essa a questão — afirmou Mandrake. — Com o Bordão, Gladstone conquistou a Europa. Acontecerá o mesmo a Boston, facilmente. Os nossos amigos em Paris e Roma terão conhecimento e se encolherão novamente, com medo. Problema resolvido. Assim que a notícia atravessar o oceano, não será necessária mais de uma semana. Porquê manter o Bordão fechado a sete chaves se é a solução para as nossas dificuldades?

— Porque — disse uma voz fria —, eu não quero que seja usado. E a minha palavra é que conta.

Mandrake virou-se para o primeiro-ministro, que girara na sua cadeira e se endireitara. O rosto de Devereux tornara-se duro e enrugado, a flacidez menos óbvia. Os olhos estavam baços, opacos.

— Talvez tenha recebido um memorando esta manhã, Mandrake — disse. — O Bordão, e outros artigos, foram retirados da Sala dos Tesouros deste mesmo edifício. Estão rodeados de uma série de salvaguardas mágicas de alto nível. Não serão usados. Estamos entendidos?

Mandrake hesitou; ainda pensou bater o pé. Depois lembrou-se do destino de Ms. Harknett.

— Com certeza, senhor — começou. — Mas devo perguntar por que...

— Deve? Você não deve nada! — O rosto deformou-se subitamente, contorceu-se, os olhos esgazeados e fixos. — Ponha-se no seu lugar e não procure desestabilizar este Conselho com as suas teorias tolas. Agora cale-se e pense antes de voltar a abrir a boca! E cuidado, senão ainda desconfio de que tem uma agenda própria. — O primeiro-ministro virou-se. — Mortensen, mostre os mapas. Dê-nos uma atualização mais consistente da nossa posição. Penso que conseguimos encurralar os rebeldes numa zona de pântanos...

— Aquilo foi um pouco imprudente — segredou Jane Farrar enquanto caminhava com Mandrake pelo corredor uma hora depois. — Quem quer que tenha o Bordão detém o verdadeiro poder. Devereux tem receio do que essa pessoa lhe possa fazer.

Mandrake anuiu, macambúzio. A depressão que afastara momentaneamente voltara com rapidez.

— Eu sei. Mas alguém tem que tentar convencê-lo abertamente e com clareza. O país está mergulhando no caos. Não me surpreenderia se metade do Conselho estiver planejando algo.

— Concentre-se na trama de que temos conhecimento. Já há alguma coisa a respeito de Jenkins?

— Ainda não. Mas não tardará muito. O meu melhor djinni foi encarregado do caso.

 

Desde os tempos do antigo Egito, em que assumi a forma de um falcão prateado para vigiar os salteadores cuchitas* nas remotas colinas de areia, sempre fui mestre em seguir sem ser observado. Vejamos, por exemplo, esses salteadores: deixaram djinn na forma de chacais e escorpiões para guardar o deserto. Mas o falcão voou alto contra o Sol e escapou-lhes facilmente. Descobri a base dos salteadores escondida entre os eucaliptos verde-azulados do oásis de Kharga e levei o exército do faraó até eles. Morreram todos.

 

* Povo antigo do Sudão. (NT)

 

Estava usando agora técnicas discretas idênticas, mas mortíferas, muito embora deva-se dizer que as circunstâncias eram um nadinha menos glamourosas. Em vez de uma horda feroz de salteadores cobertos com pele de puma, tinha um secretário magricela e ruivo; em vez das vistas dolorosas do Saara, tinha uma rua escura e malcheirosa de Whitehall. Fora isso, o paralelismo estava correto. Oh, e desta vez eu não era um falcão — um pardal abatido adequava-se melhor ao cenário londrino.

Estava pousado num parapeito vigiando uma janela imunda em frente. A quem quer que pertencesse aquele parapeito, via-se que não gostava muito de aves: enfeitara-o com visco, espinhos de metal e pedaços de pão com veneno. Típicas boas-vindas à inglesa. Atirei o pão na rua, usei um pequeno Inferno para incinerar o visco, dobrei dois espinhos e enfiei a minha frágil carcaça entre eles. Estava agora tão fraco que este esforço hercúleo quase acabou comigo. Com a cabeça à girar, instalei-me para vigiar a minha presa.

Não era propriamente impossível de distinguir. Através da fuligem acumulada na vidraça, conseguia ver Clive Jenkins sentado à escrivaninha. Era magro, curvado e bastante franzino; se tivesse havido um combate entre ele e o pardal, apostaria o meu dinheiro na ave. Um terno caro pendia constrangidamente do seu físico, como se relutante em aproximar-se muito; a camisa era de um malva chocante. Tinha tez pálida e um pouco sardenta, com olhos miudinhos a espreitar por trás de óculos grossos e cabelo arruivado empastado, assim tipo pêlo molhado, fazendo lembrar uma raposa que andara na chuva. Mãos pequenas e ossudas matraqueavam sem entusiasmo numa máquina de escrever.

Mandrake não se enganara na avaliação das capacidades de Jenkins. Mal me instalei no meu posto, verifiquei os sete planos à procura de teias sensoras, prismas de vigia, olhos de lince, seguidores de sombras, globos, matrizes, armadilhas térmicas, plumas-gatilho, trasgos, bruxas e outros meios que ele pudesse ter usado para proteção mágica. Nada de nada. Tinha uma xícara de chá em cima da escrivaninha e era tudo. Fiquei atento a qualquer indício de comunicação sobrenatural com Hopkins ou outro, mas o secretário não proferiu quaisquer palavras nem fez gestos inconvenientes. Os seus dedos iam matraqueando nas teclas; esporadicamente, coçavam o nariz, compunham os óculos ou atacavam um comichão na ponta do queixo. E lá se foi a tarde. Foi extremamente interessante.

Apesar do esforço para manter-me concentrado na tarefa em mãos, reparei que a minha mente divagava esporadicamente, (a) porque era de uma monotonia atroz, e (b) porque a dor na minha essência me deixava de cabeça oca e distraído. Era o mesmo que sofrer de falta de sono crônica: afastava-me constantemente e pensava em assuntos desgarrados — a garota, Kitty Jones; o meu velho inimigo Faquarl afiando o cutelo; muito ao longe, Ptolomeu — antes de ter mudado. A cada vez tinha de fazer um esforço para voltar ao presente com um sobressalto; mas Jenkins estava sempre na mesma, por isso não tinha importância.

Chegaram as cinco e meia e com elas uma mudança quase imperceptível em Jenkins. Parecia correr-lhe nas veias uma nova vida furtiva; a letargia desaparecera. Com movimentos rápidos, cobriu a máquina, arrumou a escrivaninha, reuniu alguns montes de papel e colocou um sobretudo no braço. Abandonou sorrateiramente o seu gabinete.

O pardal esticou uma asa dolorida, sacudiu a cabeça para aliviar a sensação de dormência por trás dos olhos e levantou vôo. Segui pela rua lateral e passei por cima da azáfama de Whitehall onde os ônibus avançavam com lentidão pelo tráfego intenso e caminhonetes blindadas depositavam Policiais Noturnos em intervalos regulares entre as multidões. A guerra trouxera distúrbios às ruas, e as autoridades não queriam correr riscos no centro da capital. Diabretes e foliots vigiavam de recantos nos beirais dos edifícios próximos.

Pousei numa aveleira no pequeno pátio que separava o edifício da Administração Interna da rua, e aguardei. Havia um policial embaixo do meu galho, na saída do prédio. Daí a pouco, a porta se abriu e Jenkins apareceu; vestia um casaco de couro comprido e levava um chapéu amassado numa mão. Ao sair, baixou a cabeça ao guarda, mostrou um salvo-conduto e chegou à rua. Virou para o norte em Whitehall, colocou o chapéu inclinado para o lado na cabeça e, com passos subitamente rápidos, mergulhou na multidão.

Não é fácil seguir um indivíduo numa aglomeração de gente, mas quando se é um exímio batedor como eu, faz-se na boa. O segredo é não nos distrairmos. Mantive os olhos fixos na copa do chapéu de Jenkins e esvoacei lá no alto, mantendo-me um pouco atrás dele, caso ele se virasse. Não havia grandes hipóteses dele adivinhar que estava sendo seguido, mas já me conhecem, faço as coisas como deve ser. Ainda está para nascer aquele que me suplantará na arte de seguir um rastro.30

 

30 Uma vez, quando estava ao serviço dos xamãs algonquinos*, um afrit inimigo foi à nossa tribo de noite e raptou o filho do chefe. Quando descobriram, o afrit já ia longe; disfarçara-se de búfala e lançara um Fascínio sobre a criança, pelo que parecia uma cria desmamada. Mas os afrits possuem cascos de fogo: segui as ervas chamuscadas por centenas de quilômetros nas pradarias ondulantes e matei o raptor com uma lança de prata. A criança foi devolvida com vida, apesar de um pouco verde de ter comido muita erva.

 

* Conjunto de tribos ameríndias da América do Norte. Ocuparam uma vasta área que ia da bacia do Hudson até às Montanhas Rochosas. Foram quase todas exterminadas pelos Europeus. (NT)

 

Para lá dos telhados, o sol de Outono descia por trás das árvores de Hyde Park; pairava no céu uma bela bruma vermelha. O pardal observou-a com satisfação. Fez-me recordar o entardecer nas pirâmides, quando os djinn voavam como andorinhas por cima dos túmulos dos reis, e...

Um ônibus buzinou; o pardal voltou rapidamente ao presente. Cuidado — quase apanhado a devanear ali... Ora bem: Jenkins...

Ah.

Procurei freneticamente de um lado para o outro. Onde estava o chapéu característico? Não se via em lugar nenhum. Talvez ele o tivesse tirado... Ná; nenhum penteado de raposa nas vizinhanças. Homens, mulheres, crianças, sim. Todos os pobres desgraçados da humanidade. Mas nem sinal de Jenkins.

O pardal abriu e fechou o bico de irritação. A culpa era de Mandrake. Se tivesse me dado alguns meses de repouso, talvez tivesse as idéias mais desanuviadas agora. Não podia continuar a ter aquelas distrações. Era como no tempo em que...

Concentre-se. Talvez Jenkins esteja num ônibus. Passei rapidamente pelos mais próximos, mas o secretário não estava a bordo. O que significava que ou se eclipsara ou entrara num edifício... Avistei então um bar, o Cheddar Cheese, comprimido entre dois edifícios governamentais, mais ou menos no ponto onde Jenkins sumira. Dado o eclipsar voluntário ser coisa rara nos humanos,31 pareceu-me que o bar seria a opção mais provável.

 

31 Tende a ser involuntário: i.e., quando são atingidos por uma Detonação.

 

Não havia tempo a perder. O pardal desceu como uma pedra até a calçada e avançou, despercebido, pela multidão apressada, até a porta aberta. Enquanto a transpunha, rangi os dentes e mudei: o pardal passou a ser uma mosca, uma varejeira com um traseiro peludo. A pontada de dor provocada pela alteração afetou o meu padrão de vôo; perdi a noção de onde estava, andei às voltas por uns momentos no meio do ar enfumaçado e pousei com um suave plop no copo de vinho de uma senhora que se preparava para levá-lo aos lábios.

Ela olhou para baixo, sentindo o movimento, e viu-me a boiar de costas a dois centímetros e meio do nariz dela. Acenei com uma pata peluda; ela soltou um grito de babuíno e largou o copo. O vinho salpicou o rosto de um homem de pé no bar; inclinou-se para trás em choque, fazendo cair duas outras senhoras dos bancos altos. Gritos, berros, muitos membros a agitarem-se. Tumulto generalizado. Encharcada em vinho, a varejeira pousou na superfície do bar, colidiu, derrapou, endireitou-se e escondeu-se atrás de uma taça de amendoins.

Bem, já que não fora tão discreto quanto desejara, pelo menos não faltava distração para eu poder dar uma olhada rápida na sala. Limpei duas facetas dos olhos e abandonei rapidamente o bar subindo por uma coluna ali perto, caminhando pomposamente entre as batatas fritas e os torresmos. De um ponto de vantagem lá no alto, olhei à minha volta.

Ali, no centro da sala, falando avidamente com outros dois, estava Jenkins.

A mosca aproximou-se mais por entre as sombras, verificando os planos. Nenhum dos homens possuía defesas mágicas ativas, embora o mal-cheiro de incenso agarrado às roupas e a pele deles apresentasse a palidez típica de um mago que estivera a trabalhar. Podem crer que era um trio mal-arrumado — tal como Jenkins, os outros vestiam ternos muito grandes e bons para eles; os sapatos eram pontiagudos, as ombreiras um pouco altas. Os três rondariam os vinte e poucos anos, ou pelo menos assim me pareceu. Aprendizes, secretários: nenhum evidenciava a aura de poder. Mas falavam avidamente; os olhos deles brilhavam no lusco-fusco do Cheddar Cheese com o fervor dos fanáticos.

De pernas para o ar no teto, a mosca inclinou a cabeça para escutar o que diziam. Azar — a tagarelice no bar abafava o som. Vim para o meio do ar, descrevendo círculos furtivamente e descendo na direção deles, amaldiçoando a ausência de paredes nas proximidades. Jenkins falava; abeirei-me mais, o suficiente agora para sentir o cheiro de laca no couro cabeludo dele, ver os poros no seu narizinho vermelho.

— ...coisa é ter certeza de que está preparado para a noite. Já escolheram ambos os seus?

— O Burke já. Eu não. — Foi o mais magricela do trio que falou: olhos remelentos, peito côncavo: comparado com ele, Jenkins parecia Atlas.32 O terceiro homem, Burke, era pouco melhor, um indivíduo de pernas arqueadas, ombros cheios de caspa.

 

32 Atlas: um marid de força incomum e definição musculosa, contratado pelo mago grego Fídias para construir o Parthenon, cerca de 440 a.C. Atlas fez o trabalho às pressas e não deu atenção aos alicerces. Quando surgiram fendas, Fídias aprisionou Atlas debaixo do solo, encarregando-o de agüentar a construção indefinidamente. Tanto quanto sei, ainda é capaz de estar lá.

 

Jenkins resmungou.

— Apresse isso então. Experimente usar Trimegisto ou Porter: ambos têm uma grande escolha.

O sujeito magricela soltou um balido melancólico.

— O problema não está na escolha, Jenkins. É que... até aonde eu deveria ir no poder. Não gostaria...

— Não está com medo, não é, Withers? — Jenkins sorria com sarcasmo. — O Palmer ficou com medo; e sabe o que lhe aconteceu. Ainda estamos a tempo de arranjar outra pessoa.

— Não, não, não. — Withers apressou-se a tranqüilizá-lo. — Estarei preparado. Estarei preparado. Quando quiser.

— Somos muitos? — perguntou Burke. Se Withers balia como um carneiro, a voz de Burke era mais bovina, a de um tolo a ruminar.

— Não — disse Jenkins. — Sabe que não. Apenas sete no total. Um para cada cadeira.

Burke soltou uma gargalhada grave soluçada. Withers um riso abafado um tom acima. A idéia parecia entusiasmá-los. A cautela de Withers voltou à tona.

— E tem certeza de que estamos seguros até lá?

— Devereux está entretido com a guerra, Farrar e Mandrake com a agitação dos comuns. Estão acontecendo coisas demais para qualquer um deles reparar em nós. — Os olhos de Jenkins brilharam. — Afinal, alguém reparou em nós alguma vez? — Fez uma pausa para permitir uns quantos olhares carrancudos mútuos, depois enfiou o chapéu na cabeça. — Bem, tenho de ir andando — disse. — Preciso fazer mais algumas visitas. Não se esqueçam também dos diabretes.

— Mas a experiência — Burke aproximou-se mais —, Withers tinha uma certa razão. Vamos precisar de ver provas de que teve êxito, antes de... Entende?

Jenkins riu-se.

— Vocês terão essas provas. O próprio Hopkins mostrará que não existem efeitos secundários. Mas garanto-lhes que é impressionante. Para começar...

Whup. Com um som incomum, a minha bisbilhotice foi bruscamente interrompida. Num momento eu zumbia discretamente junto ao ouvido de Jenkins, no seguinte um jornal enrolado descera como um raio dos céus e atingira-me vindo de trás. Foi um ataque à traição.33 Fui direitinho do ar para o chão, de cabeça zonza, seis patas encolhidas. Jenkins e companhia olhavam para mim com vaga surpresa. O meu atacante, um empregado do bar musculoso, agitou o jornal, satisfeito, na direção deles.

 

33 O pior era que a pancada foi dada com um exemplar de Histórias Verídicas de Guerra. O jornal de Mandrake! Mais uma ofensa a juntar à minha lista dos seus crimes sem fim.

 

— Apanhei-a — sorriu. — A zumbir bem junto ao seu ouvido, senhor. É das grande e nojenta também, muito fora da época.

— Sim — referiu Jenkins. — É, não é? — Semicerrou os olhos, sem dúvida observando-me através das lentes, mas eu era uma mosca nos planos um a quatro, por isso não lhe revelei nada. De repente, estendeu um pé para me esmagar. Talvez com mais agilidade do que uma mosca ferida deveria ter, esquivei-me e afastei-me instavelmente em direção à janela mais próxima.

Lá fora na rua, não perdi de vista a porta do bar enquanto inspecionava a minha delicada essência. É realmente lamentável que um djinni que ----34 seja derrubado por um pedaço de papel enrolado, mas era essa a triste realidade. Tudo isto de mudar e levar cacetadas não estava me fazendo nada bem. Mandrake... Era obra de Mandrake. Haveria de me pagar, na primeira oportunidade que eu tivesse.35

 

34 Podem preencher o espaço escolhendo uma proeza dentre as seguintes hipóteses apresentadas:

 

(a) enfrentou sozinho o utukku na Batalha de Quadesh;

(b) talhou as grandes muralhas de Uruk a partir de solo vivo;

(c) destruiu três amos consecutivos mediante recurso ao Trocadilho Hermético;

(d) falou com Salomão; ou

(e) outra.

 

35 Não que eu pudesse fazer algo contra ele no meu estado atual. Pelo menos, não sozinho. Certos djinn, entre eles Faquarl, há muito que haviam abraçado a rebelião coletiva contra os magos. Eu sempre o rejeitara por achar que era um bobagem, impossível de alcançar, mas se Faquarl me tivesse aparecido nesse momento com um esquema armado, juro que me teria juntado a ele dando-lhe palmadinhas na mão e soltando gritinhos tolos.

 

Preocupava-me que Jenkins pudesse ter desconfiado de que eu não era um inseto comum, e resolver tomar chá de sumiço, mas para meu alívio, ele apareceu à porta alguns minutos depois e retomou a direção de Whitehall. Sabia que o meu disfarce de mosca já não colava com ele, por isso — gemendo de dor — tornei-me mais uma vez um pardal, e parti em perseguição.

Enquanto o crepúsculo se instalava na cidade, o mago Jenkins seguia o seu caminho, a pé, pelas ruas estreitas do centro de Londres. Tinha mais três missões. A primeira era numa hospedaria não muito longe de Trafalgar Square. Desta vez não tentei entrar, mas observei-o através de uma janela, falando com uma mulher de olhos míopes com um vestido mal-jeitoso. A seguir, atravessou Covent Garden até Holborn, onde entrou numa pequena cafeteria. Mais uma vez, achei prudente manter-me à distância, mas pude ver bem a pessoa com quem ele falava, um homem de meia-idade com uma cara curiosamente parecida com um peixe. Dava a idéia de que pedira os lábios emprestados a um bacalhau. Tal como a essência, a minha memória estava cheia de buracos; mesmo assim, algo nele era um pouco familiar... Não — desisti, não conseguia situá-lo.

Isto era tudo muito intrigante. Pelo que escutara, estava certamente a ser preparada alguma tramóia. Mas estas pessoas não combinavam nada com maquinações perigosas. Nenhuma delas era poderosa ou dinâmica. Na verdade, era o inverso. Se encostassem todos os magos de Londres à parede no recreio e escolhessem os elementos para as equipes de futebol, eles teriam ficado para o fim, ao lado do garoto gordo e do que estava engessado. As afirmações disparatadas deles faziam evidentemente parte de um padrão, mas por nada deste mundo eu conseguia entender qual era.

Chegamos finalmente a um café dilapidado em Clerkenwell e aqui, pela primeira vez, notei uma ligeira alteração em Jenkins. Até ali, mostrara-se alegre, sacudido, descontraído nas suas atitudes; agora, antes de entrar, parou como se para preparar-se. Puxou o cabelo para trás, compôs a gravata, e chegou ao pormenor de inspecionar uma erupção no queixo com um pequeno espelho que trazia no bolso. Só depois é que entrou no café.

Eis algo interessante. Já não ia falar com iguais ou inferiores. Talvez o misterioso Mr. Hopkins aguardasse pessoalmente lá dentro. Tinha de descobrir.

O que queria dizer que ia ter de me preparar para entrar em ação e, dado não poder ser como pardal, impunha-se outra mudança.

A porta do café estava fechada, as janelas idem. Por uma pequena fresta por baixo da porta saía uma nesga de luz amarela. Soltando um gemido de desespero, mudei e tornei-me um pequeno rolo de fumaça, que empreendeu o seu caminho penoso pela fenda.

Uma baforada quente com cheiro de café, cigarros e toucinho defumado. A pontinha da fumaça estreitou debaixo da porta, espichou-se e olhou para a esquerda e para a direita. Estava tudo um pouco desfocado — na seqüência da transformação, tinha a vista mais enevoada do que nunca —, mas consegui distinguir Jenkins se instalando numa mesa distante. Uma forma escura já estava sentada lá.

A fumaça deslizou pela sala, mantendo-se junto ao chão, serpenteando cautelosamente por entre as pernas das cadeiras e os sapatos dos fregueses. Ocorreu-me um pensamento inquietante; parando debaixo de uma mesa, emiti uma Pulsação para procurar magia hostil.36 Enquanto esperava, olhei na direção do companheiro de Jenkins, mas estava de costas para mim: não conseguia ver quaisquer pormenores.

 

36 A Pulsação tinha a forma de uma esfera azul-esverdeada, mais ou menos do tamanho de uma bolinha de gude, visível apenas no sétimo plano. Iria serpentear rapidamente pelo local, antes de ser devolvida ao emissor. Ao regressar, o seu aspecto indicaria o nível de magia que detectara: azul-esverdeado significava que a zona estava limpa, amarelo que existiam vestígios de magia; laranja sugeria feitiços fortes, ao passo que vermelho e anil eram a minha deixa para arranjar um pretexto e cair fora.

 

A Pulsação regressou — laranja virulento, raiado de vermelho. Com ar severo, fiquei a vê-la desaparecer. Por conseguinte, havia magia aqui, e não era fraca.

O que deveria fazer? Se abandonasse o café apavorado não ficaria sabendo dos planos de Jenkins, que era a única maneira de poder garantir a minha dispensa. Além disso, se a figura escura era Hopkins, poderia segui-lo depois, voltar para junto de Mandrake e ficar livre ao raiar do dia. Tudo ponderado — abstraindo os riscos — tinha de ficar.

Bem, as muralhas de Praga não haviam sido construídas sem perigo ou esforço.37 Com duas ondulações silenciosas, o rolo de fumaça vogou por entre as mesas, aproximando-se cada vez mais do lugar onde Jenkins estava sentado. Na penúltima mesa, reuni as minhas energias na parte da toalha de plástico que pendia, depois espreitei muito cautelosamente.

 

37 Ou, na verdade, por mim. Os batalhões de diabretes que eu obrigara a prestar-me serviço tinham passado um péssimo bocado, enquanto eu me refestelava numa rede a uma distância segura, a olhar para as estrelas.

 

Conseguia agora ver a figura escura com maior clareza, apesar dela continuar não olhando para mim. Usava um sobretudo grosso, e também um chapéu de aba larga, que lhe encobria o rosto.

A pele de Jenkins estava da cor de cera com a tensão:

— ...e Lime chegou da França esta manhã — disse.38 — Estão todos a postos. Aguardam o momento com ansiedade.

 

38 Lime! Era esse o nome que procurava. O homem com cara de peixe na cafeteria fora um dos conspiradores no caso de Lovelace cinco anos atrás. Se ele saíra de repente do esconderijo, é porque as coisas estavam definitivamente esquentando.

 

Pigarreou desnecessariamente. O outro não falou. Transpirava dele uma aura vagamente familiar. Dei tratos ao meu cérebro embaralhado. Onde foi que eu o vi antes?

Um movimento súbito do outro lado da minha mesa. A fumaça encolheu-se como uma anêmona — mas estava tudo bem. Passara por mim um empregado, levando duas canecas de café. Depositou-as ruidosamente defronte de Jenkins e do outro. Assobiando desafinado, afastou-se.

Observei a mesa seguinte. Jenkins bebeu um gole de café. Não falou.

Uma mão estendeu-se para a segunda caneca — uma mão grande; as costas dela estavam cobertas por um estranho quadriculado de finas cicatrizes brancas.

Vi a mão agarrar a caneca, levantá-la delicadamente da mesa; a cabeça virou-se um pouco ao inclinar-se para beber; vi a testa ameaçadora, o nariz aquilino, os pêlos na barba preta aparada. E depois, tarde demais, chegou-me o reconhecimento.

O mercenário bebeu o seu café. Encolhi-me nas sombras.

 

É que eu conhecia o mercenário. De ambas as vezes que nos tínhamos encontrado houvera uma diferença de opiniões, e havíamos nos esforçado por resolvê-la de uma forma civilizada. Mas, quer eu o enfiasse à força debaixo de uma estátua, quer o fizesse ir pelos ares com uma Detonação, quer ainda (como no nosso último encontro) simplesmente lhe ateado fogo e atirado por uma vertente abaixo, parecia que ele nunca sofria o menor ferimento. Por outro lado, ele estivera muito perto mesmo de me matar com diversas armas de prata. E agora, precisamente quando eu estava mais fraquinho, ei-lo aqui de novo. Ainda hesitei. Não tinha medo dele, claro; ora essa, não. Digamos que o bom senso aconselhava algum nervosismo.

Como sempre, ele calçava um par de botas de couro antigas, riscadas e muito usadas, que tresandavam positivamente a magia.39 Provavelmente, teriam sido elas a ativar a minha Pulsação. Botas de sete léguas, capazes de percorrer grandes distâncias num abrir e fechar de olhos, são de fato muito raras; combinadas com a extrema resiliência do sujeito e o treino para assassino, o resultado era um inimigo de peso. Felizmente, eu estava bem escondido por trás da toalha de mesa.

 

39 Em contraste com os sapatos do meu amo, que fediam positivamente.

 

O mercenário terminou o seu café numa única golada,40 e voltou a assentar a mão com cicatrizes em cima da mesa. Falou:

— Então todos eles já decidiram? — Era a velha voz familiar, calma, deliberada e muito grave.

 

40 Devia estar escaldante. Caramba, ele tinha mesmo uma goela de pato.

 

Jenkins anuiu.

— Sim, senhor. E os diabretes deles também. Espero que seja suficiente.

— O nosso líder providenciará o resto.

Ah! Agora as coisas começavam a encaixar-se! Um líder! Era este Hopkins, ou outra pessoa? Em virtude da minha dor, havia um zumbido na minha cabeça; tinha dificuldade em escutar. Era melhor aproximar-me. A fumaça saiu um pouco por baixo da mesa.

Jenkins sorveu a sua bebida.

— Há mais alguma coisa que deseje que eu faça, senhor?

— No momento não. Vou organizar as caminhonetes.

— E então as correntes e as cordas?

— Tratarei delas também. Tenho... experiência nessa matéria.

Correntes! Cordas! Caminhonetes! Juntando tudo, dá o quê? Não, não fazia a menor idéia. Mas cheirava-me a trabalho sujo. Com o entusiasmo, serpenteei mais um pouco.

— Vá para casa — disse o mercenário. — Agiu bem. Agora vou transmitir tudo a Mr. Hopkins. As coisas estão se encaminhando.

— E se eu precisar contactá-lo? Ele ainda está no Ambassador?

— No momento, sim. Mas só em último recurso. Não podemos despertar atenções.

Debaixo da mesa, ali perto, o rolo de fumaça estaria a abraçar-se de júbilo, se a sua essência não se encontrasse tão rígida. O Ambassador devia ser um hotel ou coisa parecida. O que significava que eu tinha o endereço de Hopkins, exatamente como Mandrake solicitara. A liberdade era quase minha! Tal como eu disse, podia estar um pouco fora de forma, mas não cometo erros quando se trata de seguir furtivamente um rastro.

Jenkins parecia um pouco pensativo.

— Por falar nisso, senhor... só agora me lembrei... Bem, há pouco havia uma mosca por perto quando falei com Burke e Withers. Provavelmente seria bastante inocente, mas...

A voz do mercenário era como trovoada distante.

— Mesmo? E você fez o quê?

Jenkins empurrou os óculos redondos para cima no nariz; um gesto ansioso, que eu compreendia perfeitamente. O mercenário tinha bem uns trinta centímetros a mais do que ele, e quase o dobro da largura. Conseguiria partir a espinha de Jenkins com um único soco.

— Mantive-me cuidadosamente atento enquanto prosseguia — balbuciou —, mas não vi nada.

Como é óbvio. Por debaixo da mesa o rolo de fumaça sorriu de si para si.

— Pedi também a Truklet, o meu diabrete, que me seguisse à distância e viesse aqui comunicar-me.

Ah. Menos bom. Enfiei-me lá embaixo, desaparecendo de vista e agitei-me de um lado para o outro, espreitando entre as pernas das cadeiras, olhando em todos os planos. De início — nada. Eis então que vejo uma pequena aranha avançando muito sorrateiramente pelo chão. Espreitava debaixo de cada mesa, os olhos procurando aqui e ali. Elevei-me para desaparecer de vista, ficando a ondular nas sombras. A espera.

A pequena aranha foi avançando, avançando até à minha mesa. Passou lá por baixo... avistou-me num instante, e ergueu-se nas patas traseiras para dar o alarme. O rolo de fumaça desceu, engoliu a aranha. Houve uma luta momentânea, um grito desesperado.

Logo a seguir, o rolo de fumaça moveu-se novamente. A princípio lentamente, oscilando pesadamente, como uma gibóia depois de se empanturrar de comida, mas não tardou a ganhar velocidade.41 Olhei para trás. Os conspiradores iam se separar; o mercenário de pé, Jenkins no mesmo lugar, supostamente à espera de que o diabrete aparecesse.42 Chegara a hora das decisões.

 

41 A essência do pobre Truklet foi parco alimento. Normalmente, teria torcido o nariz. Mas vivia momentos de desespero, e necessitava de toda a energia que conseguisse arranjar. Além disso, a malvada preparava-se para me delatar.

42 A espera ia ser longa. Devia ter-lhe levado outro café.

 

Mandrake mandara-me localizar Hopkins e desmascarar a sua tramóia, e eu estava no bom caminho para cumprir o primeiro pedido. Poderia perfeitamente ter voltado logo para junto do meu amo, já que por direito fizera o suficiente para justificar ser dispensado. Mas os «direitos», particularmente os meus, era algo que Mandrake tinha uma certa dificuldade em entender. Já me decepcionara antes. Por isso era melhor ter a certeza absoluta; bombardeá-lo com tantas informações que só lhe restaria agradecer-me humildemente e acompanhar-me a um pentagrama.

E, naquele momento, o mercenário ia encontrar-se com Hopkins.

O rolo de fumaça encolheu-se como uma mola por baixo da mesa. Observei o chão nas imediações. Nada... nada... Apareceram duas botas; couro castanho velho, riscadas e gastas.

Precisamente quando passaram, retesei-me, saltei — e nesse momento, efetuei outra mudança.

Com passos majestosos, o mercenário alcançou a porta. O casaco dele roçava, as armas tilintavam à sua volta. Um pequeno lagarto de garras compridas segurava-se ao couro da bota direita dele.

Lá fora, anoitecera. Passavam alguns carros numa rua distante. Os transeuntes eram poucos e espaçados. O mercenário deixou que a porta do café se fechasse com força atrás de si, deu dois passos, depois parou. O lagarto cravou mais as garras. Sabia o que vinha aí.

Um latejar de magia, uma vibração que abalou a minha essência até o âmago. A bota onde me encontrava levantou-se, inclinou-se, voltou a assentar em terra — foi um único passo, mas a toda a minha volta na rua, a noite e as luzes do café tinham-se transformado numa torrente líquida. Outro passo, e mais outro. A torrente de luz tremulou; sentia vagamente edifícios, pessoas e ruídos entrecortados, mas estava muito ocupado a agarrar-me com todas as forças enquanto as botas de sete léguas se deslocavam sem respeitar espaço e tempo normais. Era como voltar de novo ao Outro Lugar; até teria gostado da calçada se não sentisse pedacinhos da minha essência a soltarem-se das extremidades, espalhando-se atrás de nós como brasas apagadas de uma fogueira. Apesar de reanimado pelo repasto recente, começava a ter dificuldade em manter uma forma visível. Ao terceiro passo, a bota assentou. Imediatamente as luzes turvas coagularam, formando um novo cenário, outra parte de Londres, a alguns quilômetros do café. Aguardei que os meus olhos parassem de girar, depois olhei vagamente à minha volta.

Estávamos num dos parques, perto de Trafalgar Square. Com o começo da noite, os comuns da cidade tinham vindo até aqui a fim de descontraírem. Para tal, contavam com a ajuda das generosas autoridades, que — nos meses desde que a guerra se complicara — proporcionavam festividades diárias de gosto duvidoso, destinadas a estimular os sentidos e desencorajar a meditação.

Lá no centro do parque brilhava o enorme Palácio de Vidro, uma maravilhosa confusão de cúpulas e minaretes, todo iluminado. Constituído por vinte mil chapas de vidro curvo assentadas numa estrutura de ferro, fora construído no primeiro ano da guerra, e depois enchido de snack-bars e carrosséis, fossos com ursos e espetáculos incomuns. Fazia sucesso junto aos comuns; nem tanto entre os djinn. Não gostávamos daquele ferro todo.

Havia outros pavilhões espalhados pelo parque, esporadicamente iluminados por coloridos diabretes-lanterna pendurados no meio das árvores. Aqui, comboios de carros davam voltas e desciam a pique, rodopios subiam e giravam; ali, no Castelo do Sultão, maliciosas beldades dançavam diante de uma horda de comuns embriagados.43 Pelo caminho central, barris de vinho e cerveja eram abertos e bois melancólicos giravam em espetos. O mercenário misturara-se agora com eles, seguindo a um ritmo humano.

 

43 Algumas das beldades eram pessoas de carne e osso, muito embora eu tivesse detectado nos planos superiores duas que não eram bem o que deveriam ter sido; uma era uma concha vazia, sólida na frente, oca por trás; outra um foliot sorridente com membros afunilados escondidos debaixo do seu Fascínio.

 

Passamos pelo Canto dos Traidores, onde diversos rebeldes prisioneiros estavam suspensos por cima da multidão ululante numa gaiola de vidro. Ao lado, noutro prisma, via-se um hediondo demônio negro no primeiro plano. Rosnava e saltava, sacudindo o punho à multidão cheia de medo. Mais adiante, fora montado um palco. Uma faixa anunciava o título da peça: O Domínio da Traição Colonial; os atores deslocavam-se, contando a história oficial da guerra com o auxílio de espadas de borracha e demônios de papier-mâché. Para onde quer que se olhasse, senhoras sorridentes enfiavam suplementos gratuitos de Históricas Verídicas de Guerra em mãos estendidas. Era tal o ruído incessante, e a cor, e a confusão que ninguém ali conseguia pensar como devia ser, quanto mais desenvolver um argumento coerente contra a guerra.44

 

44 Via a mão de Mandrake por trás de grande parte disto — estava patente toda a atenção dele ao pormenor, juntamente com a teatralidade que aprendera com o seu amigo, o dramaturgo Makepeace. Uma combinação perfeita do brutal com o sutil. O demônio «americano» cativo era particularmente bom, achava eu, sem dúvida chamado por alguém no governo especialmente para a ocasião.

 

Eu já presenciara tudo aquilo antes, muitas vezes. Concentrei-me então em não perder de vista o mercenário, que abandonara o caminho central e avançava em grandes passadas pelos gramados escurecidos em direção a um lago ornamental no meio das árvores

Não se podia dizer que este fosse um lago grande — durante o dia, as aves aquáticas deslizavam monotonamente nele, enquanto as crianças chapinhavam por ali em barcos alugados —, mas à noite era detentor de um certo mistério tranqüilo. As suas margens perdiam-se nas sombras e num labiríntico canavial; pontes no estilo oriental atravessavam-no, ligando ilhas silenciosas. Numa delas erguia-se um pagode chinês. Na parte da frente do pagode havia uma varanda de madeira, estendendo-se por cima da água.

O mercenário encaminhou-se para lá, apressado. Avançou por uma ponte ornamental, as botas fazendo barulho nas tábuas. Do outro lado, no escuro da varanda, avistei uma figura à espera. Ao redor da sua cabeça, nos planos superiores, deslocavam-se formas sinistras vigiando atentamente.

Impunha-se cautela. Preso à bota, não tardaria a ser detectado, até pelo diabrete mais apalermado. Mas podia ainda aproximar-me o suficiente para observar e escutar. Por baixo do passadiço, estendia-se o canavial, espesso e negro. Um local perfeito para ficar à espreita. O lagarto libertou-se, deu um salto, caiu no meio das canas. Segundos depois, na seqüência de mais uma transformação dolorosa, uma pequena cobra verde nadava em direção à ilha por entre os caules em decomposição.

Ouvi a voz do mercenário lá em cima, baixa, respeitosa.

— Mr. Hopkins.

Um intervalo nas canas. A cobra enrolou-se num ramo apodrecido que saía da água e ergueu-se, olhando na direção da varanda. Estava ali o mercenário, e com ele outro homem, franzino, de ombros curvados, que lhe bateu com uma mão no braço num gesto de apoio camarada. Apurei os meus ouvidos cansados. Por um breve instante, avistei-lhe o rosto: suave, de feições regulares, imemorável. Mas por que seria que algo nele me despertou uma profunda sensação de reconhecimento e me fez estremecer?

Os homens abandonaram a varanda, desaparecendo de vista. Praguejando fluentemente, a cobra continuou a avançar, deslizando através das canas com elegantes ondulações. Mais um pouco... Se ao menos eu conseguisse ouvir Hopkins falar, ter o menor indício...

Dez caules de cana moveram-se; cinco sombras cinzentas altas isolaram-se da massa das canas. Dez patas finas curvaram-se e saltaram. Aconteceu tudo sem um único som: num momento eu estava sozinho no lago; no seguinte, dez garças-reais atacavam-me como fantasmas cinzentos e brancos, bicos-aguilhão a abrir e fechar, olhos vermelhos chispando. Asas abertas bateram na água, bloqueando as vias de fuga, garras golpearam a cobra desesperada, bicos picaram-na. Enrolei-me e, com a rapidez do pensamento, deslizei para baixo da superfície.

Mas as garças-reais foram ainda mais rápidas: um bico prendeu a minha cauda; outro fechou-se sobre o meu corpo, bem abaixo da cabeça. Bateram as asas e elevaram-se no ar, levando-me entre elas, pendendo como uma minhoca.

Inspecionei os meus adversários nos sete planos: eram foliots, os cinco. Em circunstâncias normais, teria enfeitado a cidade com as penas deles, mas, no meu atual estado, lutar com um que fosse era muito. Senti a minha essência começar a separar-se.

Lutei, agitei-me violentamente e torci-me. Cuspi veneno à esquerda e à direita. Enchi-me de raiva, o que me forneceu alguma força. Mudei, reduzindo-me ainda mais, uma enguia pequena e escorregadia, que se libertou das garras e caiu na água bem-vinda.

Um bico atacou.

Snap! Negror em toda a volta.

Ora, isto era profundamente embaraçoso. Depois do tratamento recente aplicado ao diabrete, eu também foi engolido. Essência desconhecida girava à minha volta. Sentia-a começar a corroer a minha.45

 

45 Nestas circunstâncias, é preciso agir rapidamente antes que sejamos simplesmente absorvidos pelo outro. As entidades fracas não têm chance se engolidas por uma força superior, e estava vendo que isto seria mesmo a salvação.

 

Não tinha alternativa. Recorri a todas as minhas energias e usei uma Detonação.

Bem, foi sonora e suja, mas surtiu o efeito pretendido. Choveram do ar pequenos pedaços de foliot, e eu vim atrás deles, disfarçado de uma pequena pérola negra.

A pérola caiu na água. Imediatamente as quatro garças-reais restantes atacaram, os olhos ardentes a brilhar, mergulhando e retirando os bicos em afanosa perseguição.

Permiti-me descer rapidamente no escuro, bem fora do alcance, e onde a lama, o lodo e o emaranhado podre de canas mortas me escondiam em todos os planos.

A minha mente tremulou; quase perdi a consciência. Não, me encontrariam se adormecesse. Tinha de fugir, regressar para junto do meu amo. Precisava efetuar um derradeiro esforço e fugir.

Pernas gigantes andavam à minha volta; bicos-lança silvaram, cortando a água como balas. Ecos abafados do praguejar das garças-reais troavam entre as canas. Um pequeno girino ferido foi rastejando até à margem, deixando atrás de si um rastro de manchas de essência moribunda. Alcançando a beira do lago, bateu todos os recordes decrépitos e transformou-se numa feia rã, com uma pata aleijada e a boca caída. A rã saltou pela erva o mais rapidamente que podia.

Estava a meio do percurso até o armamento quando os foliots me viram. Um deles devia ter voado alto, avistado o meu progresso manquejante; soltando gritos roufenhos, irromperam do lago, caíram ruidosamente sobre a erva escura.

Um desceu a pique; a rã deu um salto frenético. O bico enterrou-se no solo.

Foi dar no caminho, no meio das multidões. A rã saltava por aqui, por ali, entre pernas, debaixo de toldos, pulava de cabeças para ombros, de cestos para carrinhos de bebê, emitindo sempre coaxos e gorgolejos, observando com os seus olhos protuberantes esgazeados. Homens a berrar, mulheres a gritar, crianças boquiabertas. Atrás vinham as garças, penas a brilhar, asas a bater, cegas pela sede de sangue. Colidiram com bancas, viraram pipas de vinho, puseram cães em fuga a uivar. As pessoas eram derrubadas como pinos de boliche; pilhas de Histórias Verídicas de Guerra esvoaçaram — algumas vindo cair no vinho, outras nas fogueiras a assar.

O anfíbio em fuga saltou para o palco ao ar livre, iluminado por fortes diabretes-holofote, fazendo com que um ator saltasse para os braços de um segundo, e provocando um mergulho de cabeça de um terceiro na multidão. Saltou para um alçapão, seguida de perto por uma garça-real; reapareceu um instante depois por outro, levando consigo a cabeça de um duende de papelão. Pulou para a faixa por cima, ficou ali agarrada com duas patas dotadas de membranas. Saiu lá de baixo uma garça-real, abriu o bico e rasgou a faixa — o pano caiu, pendendo como um cipó na selva e catapultou a rã sobre o caminho indo aterrar ao lado do prisma de cristal onde estava aprisionado o demônio.

Nesta altura, eu já não tinha a noção de onde estava nem do que fazia. Na verdade, a minha essência desintegrava-se rapidamente: mal conseguia ver; o mundo enchera-se de som dissonante. Saltava irrefletidamente, mudando de direção a cada pulo, procurando evitar o ataque que eu sabia que acabaria por se dar.

De fato, um dos meus perseguidores perdeu a paciência com a perseguição. Deve ter tentado uma Convulsão, acho eu; saltei para o lado — não a vi atingir o prisma, não ouvi o cristal estalar. Não tinha culpa. Não era nada comigo. Não vi o grande demônio negro esboçar um esgar de surpresa e enfiar as compridas unhas curvas pela brecha. Não ouvi o sinistro estilhaçar quando todo o globo cedeu, nem os gritos e queixumes das pessoas quando o demônio saltou para o meio delas.

Não tinha consciência de nada. Só percebia os infindáveis ritmos pesados da perseguição, só sentia a minha essência a amolecer e a transformar-se em líquido a cada pulo e salto desesperados. Estava morrendo naquele momento, mas não podia descansar. Uma morte mais rápida aproximava-se por trás, voando.

 

O mestre de Kitty ergueu o olhar do seu sofá — uma ilha solitária no meio de um mar de papéis espalhados, todos rabiscados na sua caligrafia firme e miudinha. Mordiscava a ponta da esferográfica, que lhe deixara pequenas manchas azuis de tinta nos lábios. Piscou os olhos, ligeiramente surpreendido.

— Não estava à espera de te ver esta noite, Lizzie. Achei que tinha de ir trabalhar.

— E tenho, senhor. Daqui a pouco. Agora, senhor...

— Diga-me, conseguiu encontrar aquele exemplar original de Desiderata Curiosa de Peck? E The Anatomy of Melancholy?* Olha que queria o quarto volume.

 

* Literalmente, «Anatomia da Melancolia». (NT)

 

A mentira de Kitty foi bem preparada.

— Peço desculpas, senhor, mas não consegui, nenhum deles. A biblioteca fechou mais cedo hoje. Havia distúrbios no exterior... um protesto dos comuns... e eles fecharam as portas por segurança. Mandaram-me sair antes de ter encontrado os seus livros.

Mr. Button soltou uma exclamação petulante e mordeu com força a caneta.

— Mas que grande maçada! Você disse comuns protestando? O que virá a seguir? Cavalos tirando os freios? Vacas recusando serem ordenhadas? Aquelas malditas pessoas têm que saber o seu lugar. — Acentuou esta afirmação com pequenos movimentos sincopados da caneta, depois olhou com ar culpado. — Não queria te ofender, Lizzie.

— Não ofendeu, senhor. Senhor, quem foi Ptolemaeus?

O velho levou os braços atrás da cabeça, num gesto fatigado.

— Ptolemaeus é Ptolomeu. Um mago fora de série, mesmo. — Fitou-a com uma expressão lamentosa. — Tem tempo para pôr a chaleira no fogo, Lizzie, antes de ir?

Kitty insistiu:

— Ele era egípcio?

— Na verdade era, apesar do nome ser grego, claro. Era oriundo do ramo macedônio. Parabéns, Lizzie. Poucos manifestantes comuns saberiam disso!

— Gostaria de ler algo dele, senhor.

— Vai ser um pouco difícil, visto ter escrito em grego. Tenho a sua obra principal na minha coleção: O Olho de Ptolomeu. É leitura obrigatória para todos os magos, visto ser muito esclarecedor sobre o processo de retirar os demônios do Outro Lugar. No entanto, o seu estilo é tíbio. As suas outras obras ficaram conhecidas como Apócrifos. Julgo lembrar-me de que as trouxe de Hyrnek’s na sua primeira visita aqui... São uma coletânea estranha, cheia de noções excêntricas. A respeito do chá...

— Vou já pôr a chaleira no fogo — disse Kitty. — Há algo que eu possa ler sobre Ptolomeu, senhor, enquanto trato disso?

— Bem, estou vendo que tem mesmo as tuas pequenas fantasias. Sim, O Livro dos Nomes terá uma referência. Sem dúvida saberá em que pilha se encontra.

Kitty leu rapidamente o excerto, enquanto a chaleira apitava e borbulhava atrás dela.

 

Ptolemaeus de Alexandria (apogeu c. 120 a.C.)

 

Mago-criança, nascido na Dinastia Ptolomaica governante, sobrinho de Ptolomeu VIII e primo do príncipe herdeiro (mais tarde Ptolomeu IX). Passou a maior parte da curta vida em Alexandria, a trabalhar na Biblioteca, mas os pormenores permanecem obscuros. Um prodígio notável, adquiriu considerável fama pela magia ainda muito jovem; dizem que o primo teria se sentido ameaçado pela sua popularidade entre a gente do povo, e tentou assassiná-lo.

Desconhecem-se as circunstâncias da sua morte, mas é certo que não viveu muitos anos. É possível que tenha tido uma morte violenta, ou sucumbido devido à fragilidade física. Surge uma menção num manuscrito alexandrino a um súbito agravamento da sua saúde na seqüência de uma «viagem difícil», muito embora contrarie outros registros que referem que ele nunca abandonou os limites da cidade. E definitivamente dado como morto quando do funeral do seu tio e subida ao trono do primo (116 a.C), por isso é improvável que tenha completado vinte anos.

Os seus documentos permaneceram na Biblioteca durante mais de trezentos anos, período em que terão sido estudados por Tertuliano e outros magos romanos. Parte da sua obra foi publicada, em Roma, como o famoso Olho de Ptolomeu. O arquivo original foi destruído no grande terremoto e incêndio do terceiro século; os fragmentos que sobreviveram foram coligidos como os seus Apócrifos. Ptolomeu é uma figura de interesse histórico, visto julgar-se pertencer-lhe a invenção de diversas técnicas, inclusive a Incisão Estóica e o Escudo Mouler (ambos usados nos chamados de demônios até à época de Loew), bem como fantasias especulativas incomuns, nomeadamente, o «Portão de Ptolomeu». Tudo isto não obstante a sua extrema juventude; se tivesse alcançado a maturidade, figuraria sem dúvida entre os grandes. Entre os seus demônios, com quem dizem ter tido uma ligação incomum, incluem-se: Affa†, Rekhyt ou Necho‡, Methys† e Penrenutet†.

 

         † morte registrada

         ‡ destino desconhecido

 

Mr. Button sorriu distraidamente quando Kitty lhe trouxe o chá.

— Encontrou o que queria?

— Na realidade, não sei, senhor, mas tenho uma pergunta. É comum os demônios assumirem o aspecto dos seus amos?

O mago pousou a caneta.

— Quer dizer para insultá-los ou confundí-los? É claro que sim! É um truque antigo, um dos mais antigos no livro, e desencoraja os inexperientes, isso é garantido. Não há nada mais inquietante do que enfrentar um fantasma de si mesmo, em particular quando a criatura se serve disso para efetuar contorções provocatórias. Rosenbauer de Munique ficou tão aflito, segundo sei, por causa de um retrato fiel das suas muitas afetações, que deixou cair a brilhantina e saiu soluçando do seu círculo, com conseqüências lamentáveis. Eu mesmo fui obrigado a ver o meu próprio corpo decompor-se lentamente num cadáver putrefato, acompanhado de hediondos efeitos sonoros, enquanto tentava interrogá-lo sobre os princípios da arquitetura cretense. Duvido que as minhas notas fizessem mesmo qualquer sentido. É a isso que se refere?

— Bem, na verdade... não, senhor. — Kitty respirou fundo. — Eu queria saber se um djinni alguma vez assumiu o aspecto do seu amo por... respeito, ou mesmo afeto. Porque se sentia confortável assim. — Fez uma careta; a idéia parecia bastante ridícula, depois de ouvi-la.

O velho franziu o nariz.

— Não creio que seja possível.

— Quer dizer, depois do mago ter morrido.

— Minha querida Lizzie! Talvez, se o mago em questão fosse hediondo ou deformado de uma maneira fora do comum, o demônio pudesse recorrer à sua forma para assustar outros. Creio que Zarbustibal do Iémen reapareceu durante algum tempo depois da sua morte. Mas por respeito? Francamente! A noção pressupõe uma relação entre amo e escravo absolutamente sem precedentes. Só uma co... Peço-lhe desculpas... só alguém inexperiente como você viria com uma idéia tão bizarra! Valha-me Deus, valha-me Deus... — Riu-se enquanto estendia as mãos para o tabuleiro com o chá.

Kitty encaminhara-se para a porta.

— Obrigada, senhor; foi muito útil. A propósito — acrescentou —, o que era o Portão de Ptolomeu?

Do meio do seu sofá, entre a confusão de papéis, o velho mago soltou um gemido.

— O que é? Uma noção ridícula! Um mito, uma invenção, uma tolice descomunal! Guarde as suas perguntas para os assuntos importantes. Agora tenho de trabalhar. Passo muito bem sem as divagações de assistentes tolas. Vá embora! O Portão de Ptolomeu, sinceramente... — Fez um esgar, mandando-a embora, aborrecido.

— Mas...

— Não tem de ir trabalhar, Lizzie?

Quarenta minutos depois, Kitty desceu de um ônibus na rua do Embankment. Vestia um anoraque preto grosso e comia com apetite um sanduíche. Trazia no bolso os documentos que confirmavam a sua segunda falsa identidade — Clara Bell.

O céu escurecia, apesar de algumas nuvens apresentarem ainda um amarelo-sujo com o brilho refletido da cidade. Do outro lado do muro de proteção, o Tamisa estava distante, encolhido e mirrado. Kitty passou por cima de um banco de areia enorme e cinzento, onde garças-reais caminhavam por entre as pedras e os detritos. Fazia frio; soprava uma brisa forte na direção do mar.

Numa curva do rio, a calçada fazia um ângulo de noventa graus afastando-se do Tamisa, o seu percurso bloqueado por um edifício comprido com telhados verticais e janelas de sótão em bicos pronunciados. Pesadas vigas pretas ornamentavam as suas paredes; havia janelas iluminadas em alturas aleatórias, lançando uma luz forte na rua e nas águas escuras do rio. O último andar projetava-se por cima do inferior em todos os lados, aqui rigidamente, ali formando barriga como se prestes a cair. Uma placa verde desbotada pendia de um poste por cima do caminho, tão desbotada que não se conseguia ler o que estava escrito. Isso era de menor importância, visto The Frog ser um ponto de referência local digno de nota. A sua cerveja tinha fama, bem como a sua carne de vaca e os torneios semanais de dominó. Era também o local de trabalho de Kitty ao final da tarde.

Atravessou um arco baixo e avançou pela rua lateral estreita e escura como breu até o pátio do bar. Quando entrou, olhou para cima. Uma luz vermelha fraca pairava junto às vigas. Se alguém olhasse diretamente para lá, tinha a forma de uma mancha indistinta; se desviasse o olhar, veria nitidamente os contornos — uma esfera de vigilância pequena e simples, a observar.

Kitty ignorou o espião. Atravessou o pátio até à porta principal, que estava abrigada das intempéries por um antigo alpendre enegrecido, e entrou em The Frog Inn.

As luzes fortes da taberna feriram-lhe a vista. As cortinas tinham sido corridas por causa da noite e a lareira estava acesa. As suas cores incidiam nas filas de copos reunidos no bar; George Fox, o gerente, lustrava um por um. Baixou a cabeça para Kitty quando ela passou para ir pendurar a bolsa no cabideiro.

— Está na tua hora, Clara. Está na tua hora.

Ela olhou para o relógio.

— Ainda faltam vinte minutos para eles chegarem, George.

— Não é muito tempo para aquilo que te destinei.

Kitty pendurou o chapéu num cabide.

— Não faz mal. — Inclinou a cabeça na direção da porta. — Há quanto tempo aquela coisa está ali?

— Umas duas horas. O mesmo de sempre. Apenas tentando nos assustar. Não consegue ouvir. Não vai interferir.

— Está bem. Jogue-me um pano.

Em quinze minutos enérgicos e eficientes a taberna ficou limpa e pronta, os copos brilhando, os tampos das mesas impecáveis. Kitty colocou dez jarros no balcão por cima da torneira, e Sam, o barman do The Frog, começou a encher com eles copos de cerveja loira com espuma. Kitty distribuiu as últimas caixas de dominós, limpou as mãos nas calças, tirou um avental de um cabide e instalou-se atrás do bar. George Fox abriu a porta principal e deixou entrar os clientes.

Como era hábito, a reputação do The Frog garantia uma clientela sempre diferente, e esta noite Kitty reparou em várias pessoas que nunca vira antes: um cavalheiro alto com ar militar, uma velhota sorridente que se arrastou até uma cadeira, um jovem louro com barba e bigode. Começou o estalido familiar dos dominós; a boa disposição enchia o ar. Compondo o avental, Kitty ia apressadamente às mesas anotar os pedidos para a refeição da noite.

Passou uma hora; nos pratos estavam os restos dos sanduíches com grossas fatias de carne de vaca, junto dos jogadores. Terminada a comida, rapidamente esmoreceu o interesse nos dominós. As peças mantinham-se em posição em todas as mesas, caso a polícia aparecesse, mas os jogadores estavam eretos nas cadeiras, subitamente alertas e sóbrios. Kitty encheu uns últimos copos vazios, depois voltou para trás do balcão enquanto um homem sentado perto da lareira se levantou devagar.

Era velho e frágil, curvado dos anos. Fez-se silêncio em toda a sala.

— Amigos — começou —, pouca coisa aconteceu digna de nota desde a semana passada, por isso vou dar início em seguida à nossa reunião. Como sempre, gostaria de agradecer ao nosso patrocinador, Mr. Fox, pela hospitalidade. Talvez devêssemos ouvir primeiro Mary, para sabermos da situação na América?

Sentou-se. Numa mesa contígua, uma mulher levantou-se, de rosto magro e cansado. Kitty calculou que ainda não tivesse quarenta anos, apesar do seu cabelo estar cheio de fios brancos.

— Chegou um navio mercante já tarde da noite passada — começou ela. — Fez a última escala em Boston, na zona da guerra. A tripulação tomou o café-da-manhã no nosso café esta manhã. Contaram-nos que a mais recente ofensiva britânica fracassou; Boston continua nas mãos dos Americanos. O nosso exército recuou para os campos, à procura de mantimentos, e tem vindo a ser sucessivamente atacado. As baixas são elevadas.

Um murmúrio suave encheu a sala. O cavalheiro idoso soergueu-se.

— Obrigado, Mary. Quem deseja falar a seguir?

— Se me for permitido? — Quem interveio foi o jovem de barba; era desembaraçado, cheio de autoconfiança, com um ar seguro de si. — Represento uma nova organização, a Aliança dos Comuns. Talvez tenham ouvido falar dela.

Houve uma agitação geral, uma sensação de mal-estar. Por trás do bar, Kitty ficou carrancuda. Algo na voz do orador... incomodava-a.

— Estamos tentando reunir apoio — prosseguiu o homem —, para uma nova série de greves e manifestações públicas. Temos de mostrar aos magos o que é importante. A única maneira de obrigá-los a agir é a ação concentrada de todos nós. Estou aqui me referindo a protestos em massa.

— Posso falar? — A senhora idosa, que se apresentava imaculadamente vestida com um traje azul e um xale carmesim, tentou levantar-se; seguiu-se um coro de amigáveis protestos, e ela permaneceu sentada. — Temo o que está acontecendo em Londres — referiu. — Estas greves, esta agitação... Não é certamente a resposta. O que pensam conseguir? Apenas instigar os nossos líderes a duras represálias. A Torre ecoará com os lamentos de homens honestos.

O jovem deu um murro na mesa com um punho grosso rosado.

— E qual é a alternativa, minha senhora? Ficar sossegado? Os magos não nos agradecerão por isso! Continuarão nos oprimindo ainda mais. Temos de agir agora! Lembrem-se: eles não podem aprisionar todo mundo!

Ouviram-se aplausos entrecortados. A velhota abanava a cabeça, obstinadamente.

— Está completamente errado — disse. — O seu argumento só funcionaria se os magos pudessem ser destruídos. E não podem!

Outro homem interveio.

— Calminha, vovó. Isso é conversa derrotista.

Ela esticou o queixo.

— Então? Eles podem? Como?

— Obviamente estão perdendo o controle, senão já teriam conseguido dominar os rebeldes.

— Podemos conseguir também ajuda dos Europeus — acrescentou o jovem louro. — Não se esqueçam disso. Os Checos nos financiarão. E os Franceses.

George Fox anuiu.

— Os espiões franceses deram-me alguns artigos mágicos — referiu. — Apenas se houver confusão. Olhem que nunca tive de usá-los.

— Desculpe — insistiu a velhota —, mas não explicou como é que algumas greves irão conseguir realmente derrubar os magos. — Espetou o queixo ossudo e olhou ao redor, desafiando o grupo ali reunido. — Então? — Vários dos homens fizeram ruídos de reprovação, mas estavam muito ocupados a beber para darem uma resposta concreta.

Por trás do bar, Kitty falou:

— A senhora tem razão, será difícil derrotá-los — afirmou, em voz calma —, mas não é impossível. As revoluções triunfaram dúzias de vezes. O que aconteceu no Egito, Roma ou Praga? Foram todos invencíveis... por uns tempos! Todos caíram quando o povo se levantou.

— Mas minha querida — frisou a velhota —, em cada um dos casos havia exércitos inimigos...

— Em cada um dos casos — prosseguiu Kitty, com determinação —, os líderes estrangeiros aproveitaram-se das fraquezas internas do reino. As pessoas já estavam se rebelando. Não possuíam magia forte nem vastos exércitos... eram comuns como nós.

A velhota franziu os lábios num sorriso forçado.

— Talvez. Mas quantos de nós querem uma invasão de estrangeiros? Os nossos governantes podem não ser perfeitos, mas pelo menos são Britânicos!

O jovem barbudo resfolegou.

— Voltemos ao presente. Esta noite, os metalúrgicos de Battersea vão fazer greve. Venham juntar-se a nós! O que importa que os magos enviem os seus demônios? Não lhes daremos mais carne para canhão!

— E onde estarão os seus metalúrgicos? — perguntou a velhota com aspereza. — Alguns na Torre, outros no fundo do Tamisa. E outros virão ocupar o lugar deles.

— Os demônios não conseguirão levar a melhor. — frisou o jovem. — Algumas pessoas possuem resiliência. Já devem ter ouvido falar disso. Resistem aos ataques, vêem através das Ilusões...

Enquanto ele falava, os olhos de Kitty ficaram nítidos de repente. Viu além do bigode farfalhudo, da barba loura hirsuta dele: conhecia-o, perfeitamente. Nick Drew, o último companheiro sobrevivente da Resistência. Nick Drew, que fugira da Abadia de Westminster no pior momento da vida deles, abandonando os amigos. Estava mais velho e corpulento, mas cheio da mesma arrogância. Ainda consegue que vão na sua conversa, pensou maldosamente. Sempre teve jeito para falar. Aposto que estará bem longe quando a greve se complicar... Invadiu-a um medo súbito; recuou da linha de visão dele. Apesar de Nick ser imprestável, se a reconhecesse, o disfarce dela poderia cair.

O grupo estava entretido a discutir o fenômeno da resiliência.

— Eles conseguem ver a magia. Perfeitamente — referia uma mulher de meia-idade. — Foi o que me contaram.

A velhota tornou a abanar a cabeça.

— Boatos, cruéis boatos — afirmou, pesarosa. — Isto é tudo diz-que-disse. Não me surpreenderia se não tivesse partido dos próprios magos, para os levarem a agir de forma precipitada. Digam-me — continuou —, alguém aqui já viu realmente alguma desta resiliência em ação?

Um silêncio em The Frog. Kitty saltitava de impaciência ora num pé ora no outro, ansiosa por falar. Mas Clara Bell não era ninguém especial — decidira-o há muito tempo. Além disso, a presença de Nick impedia-a. Olhou à volta da taberna. O grupo, que na sua maior parte se reunia ali em segredo há muitos anos, era de um modo geral de meia-idade ou mais velho. A resiliência não era algo sobre o qual estivessem informados em primeira mão. Exceto Nick Drew, que possuía pelo menos tanta resiliência quanto Kitty. Mas ele ficou calado, não revelando nada.

A discussão fizera azedar o estado de espírito na sala. Após alguns minutos de sombria reflexão, o cavalheiro idoso levantou-se novamente, devagar.

— Amigos — começou —, não podemos esmorecer! Talvez os magos sejam muito perigosos para enfrentarmos, mas pelo menos podemos resistir à propaganda deles. Saiu hoje um novo número de Histórias Verídicas de Guerra. Rejeitem-no! Contem aos seus amigos que são só mentiras!

Neste momento, George Fox falou:

— Acho que está sendo um bocado severo. — Levantara a voz ante o murmúrio geral de incredulidade. — Sim, encarreguei-me de reunir o máximo possível de edições de Histórias Verídicas de Guerra que pude.

— Oh, devia ter vergonha, Mr. Fox — disse a velhota, com voz trêmula.

— Não, orgulho-me de admiti-lo — prosseguiu. — E se algum de vocês quiser dirigir-se mais tarde aos sanitários, encontrará provas sobre o valor desses panfletos. São muito absorventes. — Seguiram-se gargalhadas gerais. Mantendo-se de costas para o jovem louro, Kitty avançou com um jarro para voltar a encher alguns copos.

— Bem, aproxima-se a hora — anunciou o cavalheiro idoso —, e temos de ir embora. Mas primeiro, como é de tradição, faremos o nosso brinde habitual. — Sentou-se.

George Fox levou a mão debaixo do balcão e retirou uma taça grande, velha e maltratada, com dois dominós cruzados em pé na tampa. Era de prata sólida. Tirou uma garrafa escura de uma prateleira e, desarrolhando-a, serviu uma porção generosa de Porto na taça. Kitty segurou a taça com ambas as mãos e levou-a ao cavalheiro idoso.

— Beberemos todos à sua vez — disse ele. — Oxalá chegue o dia em que voltemos a ver instituído um Parlamento dos Comuns. E que nele sejam aprovados os antigos direitos de todos os homens e mulheres: de discutir, debater e divergir das políticas dos nossos líderes, e responsabilizá-los pelos seus atos. — Com a devida vênia, levantou a taça e bebeu um gole, antes de passá-la no sentido horário, ao seu vizinho.

Este ritual constituía um ponto alto das reuniões em The Frog: após os debates, que nunca chegavam a conclusão nenhuma, proporcionava o consolo de algo esperado e familiar. A taça de prata passou lentamente de pessoa em pessoa, de mesa em mesa. Cada um aguardava a sua vez, mãos antigas e de recém-chegados por igual, com exceção da velhota, que se preparava para sair. George veio até à parte da frente do bar e — juntamente com Sam, o empregado do bar — começou a retirar os copos das mesas próximas da porta. Kitty acompanhava a taça, deslocando-a entre as mesas quando necessário. Mantinha o rosto desviado de Nick Drew o melhor que podia.

— Precisamos de mais Porto, Clara? — gritou George. — A Mary ali bebeu uma grande golada, que eu bem vi.

Kitty pegou na taça, inspecionou-a.

— Não. Ainda há bastante.

— Ainda bem. Minha cara senhora, certamente não vai nos deixar?

A velhota sorriu.

— Tenho de ir, querido. Com todos estes distúrbios nas ruas, não quero ficar até muito tarde.

— Sim, claro. Clara, traga a taça a esta senhora para que possa beber antes de sair.

— Tem toda a razão, George.

— Oh, não é necessário, querida. Bebo o dobro da próxima vez. — A resposta suscitou gargalhadas e alguns vivas; um ou dois homens levantaram-se para deixarem a velhota passar.

Kitty foi atrás dela.

— Aqui tem, minha senhora, ainda resta bastante.

— Não, não, tenho mesmo de ir, obrigada. Já é muito tarde.

— Minha senhora, deixou cair o seu xale.

— Não, não. Não posso esperar. Com licença, por favor...

— Calminha, amor! Veja lá onde põe as mãos...

— Com licença, com licença...

De rosto impassível, os olhos escuros e vagos como buracos abertos numa máscara vazia, a velhota movia-se rapidamente pela sala, virando repetidamente a cabeça para olhar para Kitty, que avançava célere atrás dela. Kitty mantinha a taça estendida — primeiro reverentemente, como se oferecesse uma dádiva; depois sacudindo-a subitamente de um lado para o outro como se simulasse uma estocada. A proximidade da prata causava desconforto à senhora — desviava-se dela. George assentou cuidadosamente a pilha de copos numa mesa ao lado e enfiou a mão num bolso. Sam abriu um armário na parede e mexeu lá dentro. O resto do grupo permaneceu sentado, as expressões fixas entre o divertimento e a dúvida.

— A porta, Sam — disse George Fox.

A velhota correu para lá. Sam virou-se para ela, barrando a porta; segurava uma vara escura e curta na mão.

— Calma aí, minha senhora — procurou chamá-la à razão. — Regras são regras. Tem de beber da taça antes de sair. É uma espécie de teste. — Fez um gesto embaraçado e olhou pesarosamente para ela. — Lamento.

A velhota parou, encolheu os ombros.

— Não lamente.

Levantou uma mão. Saiu da palma uma luz azul, que envolveu Sam numa rede crepitante de força azul intensa. Ele saltou, estremeceu, dançou estranhamente como uma marionete, depois caiu no chão a fumegar. Na taberna, alguém soltou um grito. Ouviu-se um apito, estridente e impertinente. A velhota virou-se, a mão em concha erguida e a fumegar.

— Ora bem, minha querida...

Kitty atirou a taça de prata na cara da velha.

Um clarão de luz verde, um silvo de queimadura. A velha rosnou como um cão, agarrou o rosto com os dedos crispados. Kitty virou a cabeça:

— George...!

O taberneiro retirou do bolso uma pequena caixa, delicada e oblonga. Atirou-a a Kitty, com força e rapidez, por cima das cabeças erguidas e aos gritos dos homens e mulheres mais próximos. Ela apanhou-a com uma mão, girou num único movimento para atirá-la à figura a contorcer-se...

A velha retirou os dedos do rosto, que desaparecera substancialmente. Entre o cabelo branco penteado e o colar de pérolas no pescoço brilhava uma massa disforme. Não tinha um aspecto regular, nem feições. Kitty ficou surpreendida; hesitou. A mulher sem rosto levantou a mão e saltou outro jorro intenso de luz cor de safira, atingindo Kitty em cheio, envolvendo-a num vórtice de energia brilhante. Ela gemeu. Os dentes tremeram-lhe no crânio; os ossos pareceram separar-se uns dos outros; luzes ofuscantes cegaram-na. Sentiu as roupas queimarem-lhe superficialmente o corpo.

O ataque cessou; as linhas de energia azul desapareceram; Kitty caiu inerte no chão, do lugar onde estivera suspensa, cerca de um metro acima.

A velha flexionou os dedos, grunhiu de satisfação e olhou à volta da taberna. As pessoas fugiam em todas as direções, atirando cadeiras pelo ar, colidindo umas com as outras, gritando assustadas de morte; o jovem louro escondera-se atrás de um barril. Do outro lado da sala, viu George Fox avançar para uma caixa ao lado do bar. Outra explosão — mas ele arremessara-se desesperadamente para o lado: uma parte do balcão desintegrou-se num monte de vidro e madeira esmigalhados; George Fox rolou para trás de uma mesa, desaparecendo de vista.

Ignorando os lamentos e corridas à sua volta, a velha virou-se mais uma vez para sair. Compôs o conjunto de camisa e casaco, afastou uma madeixa de cabelo grisalho do rosto destruído, passou por cima do corpo de Sam e estendeu a mão para a porta.

Outro apito, estridente e impertinente, soando acima do clamor. O rosto da velha ficou estático com os dedos no puxador. Inclinou a cabeça e virou-se.

Depois, Kitty, que ficara de olhos ligeiramente vesgos, com as roupas ásperas e rasgadas, o cabelo levantado em toda a volta dela como uma cabeleira de algodão-doce, mas, não obstante, se pusera novamente de pé, arremessou a pequena caixa. Quando caiu aos pés da velha, Kitty proferiu uma única palavra.

Uma explosão de luz, cauterizante pela sua intensidade; ergueu-se do chão ao teto uma coluna de chamas, com dois metros de diâmetro. Era completamente lisa, mais como uma coluna do que algo em movimento. Rodeou a velha de todos os lados — era possível vê-la transfixa lá dentro, como um inseto no âmbar: cabelo grisalho, colar de pérolas, terno azul, tudo. A coluna tornou-se sólida, subitamente opaca, e a velha ficou escondida lá dentro.

A luz sumiu, a coluna tornou-se tênue e nebulosa. Desapareceu, deixando uma marca de queimado perfeitamente redonda no chão. A velha de rosto derretido desvanecera-se.

A princípio, a taberna de The Frog ficou em silêncio: um depósito de mesas viradas, cadeiras partidas, fragmentos de madeira, corpos estendidos e dominós espalhados. Apenas Kitty permanecia de pé, de braços suspensos, respirando a custo, olhando para o espaço diante da porta.

Então, um por um, os membros começaram a expressar o seu choque e medo; andavam pelo chão, agitavam-se, levantavam-se devagar, começavam a gemer e a balbuciar. Kitty manteve-se calada; olhou para o bar destruído. O rosto de George surgiu de um ponto distante ao longo dele. Olhou para Kitty sem dizer nada.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Então?

— Deixe-os recuperar o fôlego. Depois podem ir-se embora. A esfera não deve ter percebido nada.

Com movimentos lentos e rígidos, Kitty passou por cima da pilha mais próxima de madeira esmigalhada e contornou o corpo do empregado do bar. Afastando um cavalheiro lacrimejante que se encaminhava aos tropeções para a saída, trancou a porta. Ficou ali uns cinco minutos enquanto os clientes assustados se recuperavam, depois deixou-os sair, um por um.

O último a ir-se embora foi Nicholas Drew, que saiu de trás do barril. Os olhos deles encontraram-se; estacou à porta.

— Olá, Kitty — disse. — Continua enérgica como sempre, pelo visto.

A expressão de Kitty não mudou.

— Nick.

O jovem compôs o cabelo e começou a abotoar o casaco.

— Não se preocupe — disse. — Vou esquecer que te vi. Vida nova, e tudo isso. — Olhou à sua volta os estragos na sala. — A menos que queira juntar-se à Aliança dos Comuns, claro. Seria bom termos uma pessoa assim como você.

Ela abanou a cabeça.

— Não, obrigada. Estou bem assim.

Anuiu.

— Certo. Bem, então adeus. E... boa sorte.

— Adeus, Nick. — Fechou a porta atrás dele.

George Fox estava debruçado sobre o corpo de Sam; rostos brancos, aterrados espreitavam das cozinhas. Kitty encostou-se à porta e fechou os olhos. Apenas um demônio — um espião — fizera isto. Havia centenas deles em Londres. A mesma hora na próxima semana as pessoas regressariam a The Frog para falar, debater e não fazer nada. Entretanto, todos os dias, por essa Londres, ouviam-se brevemente vozes de protesto — que eram rápida e implacavelmente silenciadas. As manifestações eram inúteis. A conversa era inútil. Tinha de haver outra maneira.

Talvez houvesse. Chegara o momento de pôr em prática o seu plano.

 

A noite caíra sobre a mansão do primeiro-ministro em Richmond. Fora construída nos gramados ocidentais uma série de colunas altas; nos topos ardiam coloridos diabretes-fogo, iluminando a cena com um estranho esplendor. Criados com trajes vibrantes de verdelhões e salamandras deslocavam-se aqui e ali, oferecendo bebidas. Da superfície preta das árvores do outro lado do lago, músicos invisíveis tocavam uma melodiosa pavana; os sons chegavam suavemente acima das vozes dos convidados.

Os grandes do Império circulavam no jardim, falando baixo, com indiferença, olhando para os relógios. Usavam vestidos formais e trajes de cerimônia; as suas feições escondiam-se por trás de máscaras ornamentadas representando animais, aves e demônios. Estas festas incluíam-se entre as muitas extravagâncias de Mr. Devereux, e tinham-se tornado bastante regulares durante o período da guerra.

John Mandrake encostara-se a uma coluna, observando os convidados que passavam. A sua máscara era feita de lâminas de selenite, cosidas habilmente de modo a assemelhar-se a uma cabeça de lagarto albino. Era sem dúvida engenhosa, um objeto maravilhoso, mas nada prático. Tinha dificuldade em ver e por duas vezes fora parar aos canteiros de flores. Suspirou. Ainda nenhuma notícia de Bartimaeus... Contava já saber algo a estas horas.

Passou por ele um pequeno grupo, um pavão rodeado por dois linces fêmeas atentos e uma dríade aduladora. Reconheceu o pavão pançudo e presunçoso como Mr. Collins; provavelmente as mulheres seriam magas inferiores do seu departamento, ansiosas por serem cortejadas. Mandrake carregou o cenho. Collins e os restantes não tinham hesitado em criticá-lo quando abordara a questão do Bordão no Conselho. Passara o resto da reunião a aturar uma dúzia de insinuações maliciosas, bem como os olhares gélidos de Devereux. Não havia a menor dúvida, a sua proposta fora imprudente, um erro estúpido para um político.

Para o diabo com a política! As suas convenções incomodavam-no — sentia-se como uma mosca apanhada numa teia sufocante. Toda a sua vida era passada a apaziguar Devereux, a repelir os seus rivais. Uma completa perda de tempo. Alguém tinha de estabilizar o Império antes que fosse tarde demais. Alguém tinha de desafiar os outros, e usar o Bordão.

Antes de abandonar Whitehall, Mandrake descera aos subterrâneos por baixo do Salão das Estátuas. Há anos que não ia lá; naquele momento, chegado ao fundo das escadas, ficou surpreendido por ver uma linha de ladrilhos vermelhos inserida no chão do outro lado da câmara. Um funcionário corpulento, que se levantara rapidamente de uma escrivaninha, aproximou-se.

Mandrake baixou-lhe a cabeça.

— Desejo inspecionar os cofres do tesouro, se possível.

— Com certeza, Mr. Mandrake. Quer ter a bondade de me seguir? — Atravessaram a câmara. O funcionário estacou junto dos ladrilhos vermelhos. — Dada a conjuntura, senhor, devo solicitar-lhe que retire quaisquer objetos mágicos que traga consigo, e que dispense qualquer presença invisível. A linha marca uma fronteira. Para lá dos ladrilhos, não é permitido nada mágico, nem mesmo um Fascínio. Ao mais ínfimo vestígio, incorrerá numa sanção terrível.

Mandrake observou o corredor escuro e despido lá à frente.

— Mesmo? E de que natureza?

— Não estou autorizado a revelar, senhor. Não tem nada de misterioso a declarar? Então podemos prosseguir.

Entraram num labirinto de corredores de pedra vazios, mais antigos do que os edifícios do Parlamento por cima. Viam-se aqui e ali portas de madeira, aberturas escuras. Lâmpadas elétricas iluminavam o corredor central. Mandrake olhou com atenção, mas não viu qualquer indício da armadilha escondida. O funcionário só olhava em frente; enquanto caminhava, ia cantarolando baixinho.

Chegaram finalmente a uma porta grande de aço. O funcionário apontou.

— A sala dos tesouros.

— Podemos entrar?

— Não seria aconselhável, senhor. Há uma grade de observação, se desejar.

Mandrake avançou, fez deslizar uma minúscula escotilha no meio da porta. Espreitou por ela. Do outro lado ficava uma câmara fortemente iluminada de dimensão considerável. Ao longe, no centro, havia um pedestal de mármore branco-rosado. Em cima do pedestal, bem à vista, estavam os tesouros mais preciosos do governo — uma pequena pilha de ornamentos, brilhando com uma dúzia de cores. Os olhos de Mandrake detectaram de imediato o comprido Bordão de madeira, tosco e sem enfeites, com um cabo simples talhado no alto. Ao lado brilhava um colar curto de ouro, com uma pequena oval de ouro suspensa dele; do centro dessa oval vinha o brilho escuro e intenso do jade.

O Bordão de Gladstone e o Amuleto de Samarcanda... Mandrake sentiu uma forte dor interna de privação. Inspecionou os três primeiros planos: não havia indícios de feitiços, fios, teias ou outras proteções. Mesmo assim, os ladrilhos em volta do pedestal apresentavam uma estranha cor verde; tinham um aspecto insalubre. Afastou-se da grade.

— O que guarda a sala, se me é permitido saber?

— Uma Pestilência, senhor. E particularmente voraz. Capaz de despi-lo até o osso em segundos, senhor, caso decidisse entrar imprudentemente.

Mandrake olhou para o funcionário.

— Claro. Muito bem. Vamos embora.

Ouviam-se gargalhadas vindas da casa. Mandrake olhou para o cocktail azul no seu copo. Se a sua visita aos subterrâneos provara alguma coisa, era que Devereux estava absolutamente decidido a não largar o poder. O Bordão estava inacessível. Não que pretendesse realmente... Bem, não sabia o que pretendia; a festa e todas as suas artificialidades causavam-lhe frio. Ergueu o copo e emborcou o líquido. Tentou lembrar-se da última vez que se sentira feliz.

— John, seu velho lagarto! Vejo-o aí encostado à parede!

Apareceu um cavalheiro baixo e redondo do outro lado dos gramados, com um magnífico traje de cerimônia turquesa. A sua máscara representava um diabrete a rir-se ferozmente. Dava o braço a um jovem alto e esbelto com uma máscara que fazia lembrar um cisne moribundo. O jovem ria-se descontroladamente.

— John, John — disse o diabrete. — Está ou não está se divertindo diabolicamente? — Bateu a brincar no ombro de Mandrake. O jovem desatou às gargalhadas.

— Olá, Quentin — murmurou Mandrake. — Grande pândega!

— Quase tanta como o caro Rupert. — O diabrete apontou na direção da casa, onde se via através das janelas iluminadas uma figura aos saltos com cabeça de touro. — Ajuda-o mesmo a esquecer as tristezas. Pobrezinho.

Mandrake compôs a máscara de lagarto.

— E quem é este jovem cavalheiro?

— Este — referiu o diabrete, virando a cabeça de cisne para ele — é o jovem Bobby Watts, estrela do meu próximo capricho musical! Um rapaz de talento meteórico! Não se esqueça, não se esqueça — o diabrete parecia não se agüentar lá muito bem de pé — que a estréia de De Wapping a Westminster será muito em breve. Estou lembrando a todo mundo. Dois dias, Mandrake, dois dias! Garanto que vai mudar as vidas de todos aqueles que a virem! Hein, Bobby? — Afastou bruscamente o jovem de si. — Anda, vai buscar-me outra bebida! Preciso dar uma palavrinha aqui ao meu amigo escamoso.

A cabeça de cisne afastou-se, caminhando aos tropeções pela relva. Mandrake observou-o em silêncio.

— Agora, John. — O diabrete aproximou-se. — Ando há dias a enviar-lhe mensagens. Creio que tem me ignorado. Quero que venha visitar-me. Amanhã. Não vai se esquecer, não é? É importante.

Por baixo da máscara, Mandrake franziu o nariz ante o cheiro de bebida que emanava do outro homem.

— Lamento, Quentin. O Conselho arrastou-se interminavelmente. Não consegui despachar-me. Fica então combinado para amanhã.

— Ótimo, ótimo. Você é sempre o mais inteligente, Mandrake. Continue assim. Boa noite, Sholto! Julgo reconhecê-lo aí! — Ia passando uma figura volumosa com a máscara imprópria de um cordeirinho; o diabrete soltou Mandrake, espetou um dedo a brincar na barriga do recém-chegado e afastou-se dançando.

O lagarto e o cordeiro olharam-se.

— Aquele Quentin Makepeace — comentou o cordeiro em tons graves e sinceros. — Não gosto dele. É descarado, e acho que lhe falta sanidade mental.

— É sem dúvida muito animado. — Particularmente, Mandrake partilhava os sentimentos. — Bem, bem, já não o vejo há algum tempo, Sholto.

— Não é. Tenho estado na Ásia. — O homem grande suspirou, apoiando-se pesadamente na sua bengala. — Vejo-me agora obrigado a ir buscar os meus próprios artigos. Os tempos estão difíceis.

Mandrake anuiu. A prosperidade de Sholto Pinn nunca chegara a se recuperar plenamente depois da destruição do seu principal armazém durante o reinado de terror do golem. Apesar de haver reconstruído a loja, a sua situação financeira era complicada. Coincidira também com a guerra e a quebra no comércio; cada vez chegavam menos artefatos a Londres, e ainda menos magos estavam dispostos a comprá-los. Tal como muitos nos últimos anos, Pinn envelhecera consideravelmente. A sua estrutura maciça parecia ligeiramente encolhida; o seu terno branco estava muito largo nos ombros. Mandrake sentia uma certa pena dele.

— Há novidades na Ásia? — inquiriu. — Como vai o Império?

— Estas máscaras absurdas... Aposto que me deram a mais ridículas de todas. — Pinn levantou a máscara do cordeiro e passou um lenço pelo rosto suado. — O Império, Mandrake, está afundando. Fala-se em rebelião na Índia. Os magos das colinas do Norte estão ocupados a chamar demônios para o ataque, pelo menos é o que consta. As nossas guarnições em Delhi pediram auxílio aos nossos aliados japoneses para defenderem a cidade. Imagine só! Temo por nós, muito mesmo. — O velho suspirou, voltou a colocar a sua máscara. — Que tal estou, Mandrake? Pareço um cordeiro vivaço?

Dentro da sua máscara, Mandrake sorriu.

— Já os vi bem mais ativos.

— Bem que pensei. Bom, já que tenho de fazer figura de idiota, ao menos que seja de barriga cheia. Você, garota! — Levantou a bengala numa saudação irônica e partiu na direção de uma criada que andava a servir. Mandrake observou-o, o seu bom humor evaporando-se rapidamente no ar frio da noite. Olhou para o céu noturno vazio.

Sentado num jardim, muito tempo atrás, com um lápis na mão. Atirou o copo para trás da coluna e avançou na direção da casa.

No átrio da mansão, um pouco à parte do grupo de foliões mais próximo, Mandrake viu Jane Farrar. A sua máscara — uma ave-do-paraíso de elegante plumagem cor de damasco — pendia-lhe do pulso. Vestia um casaco, que um criado impassível segurava para ela. Com a aproximação de Mandrake, ele retirou-se.

— Já vai embora?

— Sim. Estou cansada. E se Quentin Makepeace voltar a me falar daquela maldita peça, juro que lhe bato. — Fez um beicinho encantador.

Mandrake aproximou-se.

— Posso acompanhá-la, se quiser. Também já terminei por aqui. — Com um movimento despreocupado, retirou a máscara.

Ela sorriu.

— Tenho três djinn e cinco foliots para me escoltarem, caso necessite deles. O que tem para me oferecer que eles não tenham?

O desprendimento melancólico que se fora acumulando em Mandrake por toda a noite inflamou-se então num súbito atrevimento. Não lhe interessavam nada as implicações ou conseqüências; a proximidade de Jane Farrar tornava-o destemido. Tocou-lhe de leve na mão.

— Vamos para Londres no meu carro. Responderei à sua pergunta pelo caminho.

Ela riu.

— É uma longa viagem, Mr. Mandrake.

— Talvez eu tenha muitas respostas.

Jane Farrar deu-lhe o braço; avançaram juntos pelo átrio. Vários pares de olhos observaram-nos quando passaram.

Não havia ninguém no vestíbulo da mansão, com exceção de dois criados de pé à porta. O fogo crepitava por baixo de uma parede com cabeças de veados e cotas de armas desbotadas, roubadas há muito de lareiras no estrangeiro. Um vitral grande na parede em frente apresentava em perspectiva plana os edifícios do centro de Londres: a abadia, o palácio de Westminster, os principais edifícios governamentais junto ao Tamisa. As ruas estavam cheias de multidões reverentes; no centro do pátio do palácio encontrava-se a figura radiante do primeiro-ministro, as mãos erguidas num gesto de bênção. O vidro brilhava monotonamente com as luzes do átrio; por trás erguia-se o manto escuro da noite.

Sob o vitral havia um sofá baixo verde com almofadas de seda. Mandrake parou.

— Está quente aqui. Espere enquanto vou procurar o meu motorista.

Jane Farrar não lhe largou o braço, mas olhou na direção do sofá.

— Ou então podíamos sentar-nos ambos aqui um bocado...

— Tem razão.

Virou o rosto para ela, o seu corpo percorrido por um formigamento. Ela sentiu um pequeno arrepio.

— Não o sentiu também? — perguntou.

— Sim — respondeu ele, baixinho —, mas não fale. Ela repeliu-o.

— Eram as nossas teias sensoras, seu tolo. Algo as ativou.

— Oh. Sim. — Ficaram a ouvir a madeira crepitar na lareira, o ruído abafado da folia que vinha do jardim do outro lado do corredor. De longe, acima de tudo aquilo, chegou um som alto, estridente. — Aquilo é o alarme do nexo de Devereux — disse Mandrake. — Algo entrou nos jardins vindo do exterior.

Ela ficou carrancuda.

— Os demônios irão interceptá-lo.

— Parece que estão atacando o intruso...

Ecoaram de algum lugar para lá do vitral gritos estranhos em gargantas inumanas, juntamente com imensos ruídos, semelhantes a trovões a ribombar em montanhas distantes. Os dois magos ficaram imóveis. Ouviram vagamente gritos no jardim.

Os sons aumentaram de volume. Um homem de óculos escuros e smoking passou correndo, murmurando uma fórmula nesse momento. Brilharam plasmas cor de laranja escuros na sua mão em concha; com a outra mão, escancarou a porta principal e desapareceu lá fora.

Mandrake fez menção de segui-lo.

— Devíamos ir ver...

— Espere, John! — Os olhos de Jane Farrar estavam fixos lá em cima, na janela. — Venha nesta direção...

Ele ergueu o olhar, transfixo, para o vitral, que subitamente se iluminou em breves glórias de várias cores devido a um forte clarão do outro lado. Os ruídos subiram ainda mais de tom. Parecia agora que tinham sido envolvidos por um furacão — uma explosão uivante e sibilante de loucura e ferocidade. Foi-se tornando cada vez mais alto. Eles encolheram-se. Ouviram-se explosões, e gritos hediondos. Outro clarão: e, por um instante, avistaram os contornos da silhueta de uma forma gigantesca e monstruosa, toda tentáculos, asas e garras cortantes, em queda precipitada na direção do vitral.

Mandrake arfou. Farrar gritou. Caíram para trás, tocando-se desajeitadamente.

Um clarão: a forma preta encheu a janela. Colidiu com o vitral...

Plink! Uma pequena secção no meio do vitral, a que representava o primeiro-ministro, desfez-se em mil pedaços. Entrou por ela um objeto minúsculo, um brilho cor de esmeralda na luz do átrio, descrevendo arcos no ar. Caiu nos ladrilhos diante deles com um som suave e melancólico, saltou uma vez com pouca força e ficou inerte.

Os dois magos olhavam para ele com ar aparvalhado. Uma rã sem vida.

Do lado de fora da vidraça, os ruídos continuavam a ouvir-se, mas mais tênues agora, recuando a cada segundo. Um ou dois clarões iluminaram por momentos o vitral, depois a noite voltou a ficar escura.

Mandrake debruçou-se sobre a rã estatelada. As suas pernas estavam flexionadas e afastadas, a boca aberta, os olhos fechados com força. Espalhava-se um estranho líquido incolor nos ladrilhos à volta dela. Com o coração em sobressalto, usou as lentes: nos três planos a rã parecia exatamente igual. Todavia...

— O que é esta criatura hedionda? — O rosto empalidecido de Jane Farrar contorceu-se de repulsa. — Vou chamar o meu djinni para a observar nos outros planos, depois podemos livrar-nos...

Mandrake levantou uma mão.

— Espere. — Debruçou-se mais, dirigiu-se à rã: — Bartimaeus?

Ms. Farrar franziu a testa.

— Quer dizer que esta coisa é... ?

— Não sei. Silêncio. — Voltou a falar, mais alto desta vez, e perto da pobre cabeça inclinada. — Bartimaeus... é você? Sou eu... — Fez uma pausa, humedeceu os lábios. — O teu amo.

Uma das patas dianteiras agitou-se. Mandrake acocorou-se e olhou animado para a sua companheira.

— Ainda está vivo! Viu...?

Os lábios de Ms. Farrar eram uma linha cerrada. Estava um pouco distante, como se desligando-se sutilmente da cena. Apareceram uns dois lacaios de olhos arregalados nas margens do átrio; com movimentos furiosos, ela fez-lhes sinal para se retirarem.

— Não agüentará vivo muito tempo. Veja a essência a escoar-se. Pediu-lhe que viesse até aqui?

Mandrake não olhava para ela; inspecionava, cheio de ansiedade, o corpo no chão.

— Sim, sim, dei-lhe uma ordem de porta aberta. Deveria regressar assim que tivesse informações sobre Hopkins. — Tentou de novo. — Bartimaeus!

Registrou-se um interesse súbito na voz de Farrar.

— Sério? E pelos sons que escutamos, parece que estava a ser perseguido. Interessante! John, temos pouco tempo para o interrogatório. Devereux deve ter aqui perto a câmara dos pentagramas. Será muito apertado, mas se usarmos força suficiente antes da criatura perder toda a sua essência, podemos...

— Silêncio! Ele está acordando!

A parte de trás da cabeça da rã ficara enevoada e indistinta. A pata dianteira não voltara a se mover. Mesmo assim, uma das pálpebras tremulou subitamente; abriu-se em ínfimos movimentos. Um olho saliente fitou, turvo e desfocado.

— Bartimaeus...

Uma voz fraquinha, como se de muito longe:

— Quem pergunta?

— Mandrake.

— Oh. Por um instante, pensei que... valesse a pena acordar. — A cabeça pendeu, a pálpebra fechou-se.

Ms. Farrar aproximou-se e bateu na perna da rã com a ponta de um sapato bicudo.

— Cumpre a tua missão — ordenou. — Fale-nos de Hopkins!

O olho da rã entreabriu-se. Deslocou-se a custo e focou-se por um instante em Ms. Farrar. Voltou a ouvir-se a voz fraquinha.

— Esta é a sua garota? Diga-me que não. Ai.

O olho fechou-se e, apesar de todas as súplicas de Mandrake e ordens de Farrar, não se abriu mais. Mandrake acocorou-se e passou distraidamente uma mão pelo cabelo. Farrar apoiou uma mão impaciente no ombro dele.

— Domine-se, John. É apenas um demônio. Olhe para a essência derramada! Se não agirmos imediatamente, perderemos a informação!

Ele levantou-se então e olhou-a com enfado.

— Acha que conseguimos acordá-lo?

— Sim, com as técnicas certas. A Serpentina Brilhante, ou o Cabide da Essência, talvez. Mas eu diria que temos menos de cinco minutos. Já não consegue manter a forma.

— Essas técnicas o destruiriam.

— Sim. Mas teríamos a informação. Vamos lá, John. Você! — Estalou os dedos a um criado paralisado nas orlas do pequeno grupo de convidados curiosos. — Anda logo! Traga um apanhador ou uma espécie de pá... precisamos retirar rapidamente esta porcaria.

— Não... existe outra maneira.

Mandrake falou baixo, muito baixo para Ms. Farrar ouvir. Enquanto ela dava ordens aos homens à sua volta, ele acocorou-se mais uma vez ao lado da rã e proferiu uma longa e complexa fórmula entre dentes. Os membros da rã estremeceram; escorreu do seu corpo uma tênue névoa cinzenta, como se de ar frio a juntar-se ao quente. Com enorme rapidez, o corpo da rã derreteu-se na névoa; esta enrolou-se em volta dos sapatos de Mandrake e afastou-se.

Ms. Farrar virou-se a tempo de ver Mandrake levantar-se. A rã desaparecera. Olhou-o estupefata durante alguns segundos.

— O que você fez?

— Dispensei o meu servo. — Os olhos dele estavam fixos noutro lugar. Os dedos de uma mão mexiam no colarinho.

— Mas... a informação! Sobre Hopkins! — Estava verdadeiramente perplexa.

— Pode ser apurada do meu servo dentro de dois dias. Nessa altura a sua essência já terá sarado o suficiente no Outro Lugar para ele poder falar comigo.

— Dois dias! — Ms. Farrar soltou um pequeno guincho de raiva. — Isso pode ser muito tarde! Não imaginamos o que Hopkins...

— Ele era um servo precioso — respondeu Mandrake. Olhou para ela, e os seus olhos estavam apagados e distantes, embora o rosto tivesse ficado ruborizado com as palavras dela. — Não será muito tarde. Falarei com ele quando a sua essência tiver sarado.

Os olhos de Ms. Farrar brilharam sombriamente. Aproximou-se, e Mandrake captou uma onda súbita de romãs, com um toque de limão.

— Julguei — disse ela — que tivesse mais estima pela minha pessoa do que pelo visco derramado por um demônio a desaparecer. Aquela criatura falhou! Foi encarregado de lhe trazer informações e não conseguiu fazê-lo. Poderíamos ter neste momento dados secretos importantes nas mãos... e você dispensou-o!

— Apenas temporariamente. — Mandrake agitou uma mão, proferiu uma sílaba sem respirar: uma Ampola de Silêncio rodeou-os, impedindo que as suas palavras fossem escutadas pela quantidade considerável de pessoas que se acotovelavam na entrada do jardim para o átrio. Todos ainda tinham as máscaras; avistou as cores vibrantes, as formas estranhas e exóticas, as fendas dos olhos vazias. Ele e Farrar eram os únicos magos sem máscara — e sentiu-se exposto e nu. Além do mais, sabia que não tinha uma resposta concreta para a raiva dela, pois fora apanhado de surpresa pelos seus próprios atos. Por seu turno, isso deixou-o também furioso.

— Por favor, domine-se — falou-lhe com frieza. — Eu trato os meus servos como muito bem entender.

Ms. Farrar soltou uma gargalhada curta, cruel.

— Efetivamente é assim. Os seus escravos... ou estará a referir-se aos seus amiguinhos?

— Oh, deixe disso...

— Basta! — Afastou-se dele. — Já há algum tempo que as pessoas procuram os seus pontos fracos, Mr. Mandrake — disse por cima do ombro —, e eu, inadvertidamente, encontrei-o. Extraordinário! Quem diria que é um tolo sentimental! — O casaco comprido girou com ela; em passos impetuosos, atravessou a membrana da Ampola; sem tornar a olhar para trás, abandonou o átrio.

Mandrake viu-a ir-se embora. Respirou fundo. Depois, com uma única palavra, dispensou a Ampola do Silêncio e foi recebido avidamente por um oceano de ruído, conversa e especulação animada.

 

         Alexandria 125 a.C.

Naquela manhã, tal como em todas as outras manhãs, reunira-se um pequeno grupo de suplicantes à porta dos aposentos do meu amo Ptolomeu. Tinham chegado muito antes da aurora, embrulhados em xales, com as pernas roxas e a tremer de frio, aguardando pacientemente pelo sol. Quando a luz começou a se estender sobre o rio, os servos do mago abriram as portas e deixaram-nos entrar, um por um.

Naquela manhã, tal como em todas as outras manhãs, a lista de queixas, males e completas desgraças foi recitada e avaliada. A alguns, deram-se conselhos. A poucos (os mais obviamente gananciosos ou iludidos), a ajuda foi recusada. Aos restantes, prometeu-se e desenvolveu-se ação de um tipo ou outro. Diabretes e foliots partiam pelas janelas e sobrevoavam a cidade numa variedade de recados. Um certo nobre djinni foi visto a sair e, a seu tempo, regressar. Durante várias horas, o fluxo constante de espíritos ia e vinha. Era uma casa muito movimentada.

Às onze e meia fecharam-se e trancaram-se as portas por aquele dia. Depois, saindo por um caminho nos fundos (para evitar os suplicantes que se deixavam ficar por ali, e que o teriam empatado), o mago Ptolomeu partiu para a Biblioteca de Alexandria a fim de retomar os seus estudos.

Atravessamos o pátio no exterior do edifício da biblioteca. Era a hora de almoço e Ptolomeu queria ir comprar pão com anchovas no mercado do cais. Eu caminhava a seu lado como escriba egípcio, careca, de pernas peludas, discutindo afanosamente com ele a filosofia dos mundos.46 Nesse momento, passaram por nós um ou dois estudiosos: Gregos que gostavam de discutir, Romanos de olhar lascivo e pele esfregada; Nabateus* escuros e diplomatas corteses de Meroé** e da longínqua Pártia***, todos aqui para beber o conhecimento dos fundos poços egípcios. Quando nos preparávamos para abandonar o complexo da biblioteca, ouviram-se soar trombetas na rua de baixo. Apareceu um pequeno aglomerado de soldados, as cores ptolomaicas agitando-se nas suas lanças com pontas de aço. Afastaram-se para deixar passar o primo de Ptolomeu, filho do rei e herdeiro do trono do Egito, que subia lentamente os degraus a pavonear-se. A comitiva dele era constituída por um adorável aglomerado de favoritos — bajuladores e aduladores sem exceção.47 O meu amo e eu estacamos; inclinamos as cabeças na maneira tradicional de respeito.

 

46 Afirmava ele que qualquer ligação entre os dois deveria ter uma finalidade: competia aos magos e espíritos trabalhar em conjunto no sentido de uma melhor compreensão desta finalidade. Eu achava (educadamente) tudo aquilo uma completa patetice. A pouca interação existente entre os nossos mundos não passava de uma aberração cruel (a escravização de nós, djinn), que deveria acabar o mais depressa possível. A nossa discussão aqueceu e evitaram-se as vulgaridades terrenas apenas devido à minha preocupação com a pureza retórica.

 

* Povo de origem árabe que se instalou no Noroeste da Arábia, na parte meridional da Jordânia. Fundou um grande reino, com a capital em Petra, que teve o maior esplendor no século I a.C. Foi subjugado pelos Romanos em 125. (NT)

** Antiga cidade no Norte do Sudão, situada entre a quinta e a sexta cataratas do Nilo, fundada no século VII a.C, e que foi capital do reino egípcio de Cuch. (NT)

*** Região do Nordeste do Irã (atual Xhorasan) ocupada pelos Partos no século III a.C. (NT)

 

47 Incluíam-se sumos-sacerdotes, nobres do reino, companheiros de bebida de albergues, lutadotes profissionais, uma senhora com barba e um anão. O filho do rei tinha um apetite pouco exigente e gostos duvidosos; possuía um amplo círculo social.

 

— Primo! — O filho do rei parou então; a túnica estava-lhe apertada na barriga, molhada no lugar onde a breve caminhada fizera suar as suas carnes. O rosto apresentava-se toldado do vinho, a sua aura afundada nele. Os olhos eram moedas baças debaixo de pálpebras pesadas. — Primo — repetiu. — Resolvi fazer uma visitinha.

Ptolomeu voltou a fazer uma vênia.

— Meu senhor. É uma honra, claro.

— Resolvi ver onde passa os dias escondido em vez de ficar ao meu lado — fez uma pausa para inspirar —, como deveria fazer um primo leal. — Os aduladores riram à solta. — Filipe e Alexandre e todos os meus outros primos são importantes — prosseguiu, hesitando nas palavras. — Lutam por nós no deserto, trabalham como embaixadores nos principados a leste e oeste. Provam a sua lealdade à nossa dinastia. Mas você... — Uma pausa; mexeu no tecido molhado da túnica. — Bem. Podemos confiar em você?

— De todas as maneiras que possa desejar que eu sirva.

— Mas podemos, Ptolomeu? Não é capaz de pegar numa espada ou retesar um arco com esses teus braços ameninados; de onde vem então a tua força, hein? Aqui de cima — bateu na cabeça com um dedo trêmulo —, foi o que me constou. Aqui de cima. Afinal, o que faz neste lugar escuro, longe do sol?

Ptolomeu baixou a cabeça com modéstia.

— Estudo, meu senhor. Os papiros e os livros de registro que os respeitáveis sacerdotes compilaram, desde tempos imemoriais. Obras de história e religião...

— E magia também, segundo me consta. Obras proibidas. — Quem falou foi um sacerdote alto, vestido de preto, com a cabeça raspada e argila branca aplicada de leve em volta dos olhos. Proferiu as palavras suavemente como uma cobra a cuspir veneno. Provavelmente ele seria mago.

— Ah! Sim. Todo o tipo de malvadezas. — O filho do rei aproximou-se um pouco mais; vapores acres emanavam das suas roupas e saíam-lhe também da boca. — As pessoas glorificam-te por isso, primo. Usa a tua magia para enganá-las, para conquistá-las. Sei que vêm diariamente a tua casa testemunhar as tuas artes diabólicas. Ouço todos os tipos de histórias.

Ptolomeu franziu os lábios.

— Ouve, meu senhor? Não entendo. É verdade que sou importunado por alguns daqueles a quem a sorte abandonou. Dou-lhes conselhos, nada mais. Sou apenas um rapaz: fraco, como diz, e simples. Prefiro ficar sozinho, procurando somente um pouco de conhecimento.

A presunção de humildade (pois de presunção se tratava — a sede de conhecimento de Ptolomeu era tão intensa quanto o desejo de poder do filho do rei, e bem mais viril) só serviu para provocar um ataque de fúria no príncipe. O seu rosto ficou da cor da carne crua; a saliva fazia-lhe bolhinhas ao canto da boca.

— Conhecimento, hein? — gritou. — Sim, mas de que tipo? E com que finalidade? Pergaminhos e estiletes não são nada para um homem normal, mas nas mãos de necromantes de pele branca podem ser mais mortíferos do que o ferro mais forte. Dizem que, no Antigo Egito, os eunucos reuniram exércitos com um bater do pé e empurraram os faraós legítimos para o mar! Não tenho a intenção de que isso me aconteça. Está a rindo do quê, escravo?

Não fora minha intenção sorrir. É que a descrição dele estava me agradando, tendo eu estado na vanguarda do exército que dera o empurrão, mil anos antes. É agradável ver que causamos boa impressão. Fiz uma vênia e arrastei um dos pés.

— Nada, amo. Nada.

— Você riu, que eu vi! Atreve-se a rir de mim... o futuro rei!

A voz tremeu-lhe; os soldados conheciam os sinais. As suas lanças com ponta de ferro sofreram pequenos ajustamentos. Ptolomeu emitiu ruídos apaziguadores:

— Ele não fez por mal, meu senhor. Infelizmente, o meu escriba nasceu com um tique facial, um esgar que com a claridade intensa pode parecer um sorriso sinistro. É um lamentável padecimento...

— Quero a cabeça dele espetada por cima da Porta do Crocodilo! Guardas...

Os soldados baixaram as lanças, cada um mais ávido do que o outro em sujar as pedras com o meu sangue. Aguardei timidamente pelo inevitável.48

 

48 I.e., um turbilhão de chacina. Executado por mim.

 

Ptolomeu avançou.

— Por favor, primo. Isto é ridículo. Peço...

— Não! Não quero ouvir mais desculpas. O escravo morrerá.

— Nesse caso, terei que adverti-lo. — De repente, o meu amo estava muito próximo do primo abrutalhado; parecia de certa forma mais alto, o equivalente dele em altura. Os seus olhos escuros fitavam diretamente os aguados do outro, que se contorciam nas órbitas como um peixe num arpão. O filho do rei gemeu e recuou dele; os soldados e os acompanhantes agitaram-se, inquietos. O calor do sol diminuiu; o pátio tornou-se nublado. Um ou dois dos soldados ficaram com as pernas arrepiadas.

— Vai deixá-lo em paz — disse Ptolomeu, a sua voz baixa e cristalina. — Ele é meu escravo, e eu digo que ele não merece qualquer castigo. Parta com os seus lacaios e volte para as suas pipas de vinho. A sua presença aqui incomoda os estudiosos e não honra em nada a sua família. As suas insinuações idem. Entendeus? O filho do rei inclinara-se tanto para trás a fim de evitar o olhar penetrante que metade da capa arrastava pelo solo. Emitiu um ruído como um sapo dos pântanos a acasalar.

— Sim — coaxou. — Sim.

Ptolomeu afastou-se. Pareceu encolher de imediato; a escuridão que se reunira em volta do pequeno grupo como uma nuvem de Inverno levantou-se e desapareceu. Os espectadores descontraíram. Os sacerdotes esfregaram as nucas; os nobres expiraram ruidosamente. Um anão espreitou por trás de um lutador.

— Anda, Rekhyt. — Ptolomeu ajeitou os pergaminhos debaixo do braço e olhou para o filho do rei com nítido desinteresse. — Adeus, primo. Estou atrasado para o almoço.

Fez menção de passar. O filho do rei, lívido e titubeante, proferiu uma palavra incoerente. Avançou; saiu um punhal de baixo da sua capa. Com um urro, visou o flanco de Ptolomeu. Eu levantei uma mão e fiz um gesto: deu-se um impacto abafado, como se de um bloco de pedra a cair num saco de pudim de sebo. O filho do rei dobrou-se todo, agarrado ao plexo solar*, a boca a borbulhar, os olhos saídos das órbitas. Caiu de joelhos. A faca saltou impotente para as pedras.

 

* Plexo nervoso abdominal pertencente ao sistema neurovegetativo, situado em volta do tronco celíaco e da origem da artéria mesentérica, à frente da aorta abdominal. (NT)

 

Ptolomeu continuou a andar. Quatro dos soldados moveram-se vagamente; baixaram as lanças, emitiram sons agressivos. As minhas mãos descreveram um semicírculo; eles voaram um após o outro — cabeça primeiro, dedos dos pés no fim, até às pedras do pátio. Um atingiu um romano, outro um grego; um terceiro derrapou um metro de nariz. O quarto caiu na banca de um vendedor e ficou meio soterrado por uma avalanche de frutas cristalizadas. Ficou estendido como os ponteiros de um relógio de sol.

Os outros do grupo eram covardes. Encolheram-se todos e nem se mexeram. Porém, fiquei de olho no sacerdote careca — via que ele estava tentado a fazer algo. Mas olhou para mim e achou por bem permanecer vivo.

Ptolomeu continuou a caminhar. Fui atrás dele. Andamos à procura de pão com anchovas. Quando regressamos, cumprida a nossa missão, as imediações da biblioteca estavam sossegadas.

O meu amo sabia que o incidente não era nada auspicioso, mas os estudos eram o seu interesse dominante, e decidiu ignorar as implicações. Mas eu não, e nem tampouco a população de Alexandria. Começaram a circular rapidamente boatos, alguns mais criativos do que exatos.49 O filho do rei era impopular; a sua humilhação foi alvo de chacota geral e a celebridade de Ptolomeu aumentou.

 

49 Um relato, pintado toscamente nas paredes do porto e ilustrado por um desenho espirituoso, mostrava o filho do rei curvado de rabo ao léu em cima de uma mesa de biblioteca e a ser espancado com um malho real por um ou mais demônios desconhecidos.

 

À noite flutuei nos ventos por cima do palácio, conversando com os djinn.

— Que novidades me conta?

— Novidades, Bartimaeus, do filho do rei. Está obcecado pela ira e o medo. Fala todos os dias que Ptolomeu é capaz de mandar um demônio destruí-lo e ocupar o trono. O perigo vibra no templo dele como o rufar de um tambor.

— Mas o meu amo vive só para a escrita. Não está interessado na coroa.

— Mesmo assim. O filho do rei matuta no problema à noitinha e enquanto bebê vinho. Envia emissários em busca de homens que possam ajudá-lo a eliminar esta ameaça.

— Agradeço, Affa. Bom vôo.

— Bom vôo, Bartimaeus.

O primo de Ptolomeu era um tolo e um beberrão, mas eu compreendia os seus receios. Ele não era mago. Os magos de Alexandria eram sombras ineficazes dos grandes do passado, ao serviço de quem eu labutara.50 O exército encontrava-se mais enfraquecido do que gerações antes, e principalmente longe. Em comparação, Ptolomeu era efetivamente poderoso. O filho do rei ficaria, sem dúvida, vulnerável caso o meu amo decidisse derrubá-lo.

 

50 Os antigos faraós haviam dependido tradicionalmente dos seus sacerdotes para tais serviços, e a dinastia grega não vira motivos para alterar esta política. Mas, enquanto no passado os indivíduos talentosos se tinham dirigido para o Egito a fim de exercerem o seu ofício, permitindo que o Império se fortalecesse às custas dos esforços dos djinn, há muito que esse tempo acabara.

 

O tempo passou. Eu fiquei atento e vigilante.

O filho do rei encontrou os seus homens. O dinheiro trocou de mãos. Numa noite de luar, quatro assassinos entraram furtivamente nos jardins do palácio e fizeram uma visita ao meu amo. Não sei se já lhes disse, mas foi uma visita de curta duração.

O filho do rei tivera a precaução de estar longe de Alexandria nessa noite; fora caçar no deserto. Quando regressou, foi recebido primeiro por um bando de aves necrófagas a descrever círculos nos céus perto da Porta do Crocodilo, depois pelos corpos pendurados de três assassinos. Os pés deles roçaram nas plumas do seu carro quando entrou na cidade. Com o rosto salpicado de branco e carmesim, o príncipe recolheu-se aos seus aposentos e durante dias ninguém o viu.

— Amo — disse eu. — A tua vida continua em risco. Tem de abandonar Alexandria.

— Completamente impossível, como sabe. A biblioteca está aqui.

— O teu primo é um inimigo implacável. Voltará a tentar.

— E você estará aqui para levar a melhor sobre ele, Rekhyt. Tenho toda a confiança em ti.

— Os assassinos eram apenas homens. Os próximos que vierem não serão humanos.

— Tenho certeza de que conseguirá dar conta do recado. Precisa ficar assim acocorado? Isso me incomoda.

— Hoje sou um diabrete. Os diabretes acocoram-se. Ouça — disse-lhe —, a tua confiança em mim é gratificante, mas, sinceramente, dispenso-a. Assim como dispenso estar na linha de fogo quando um marid vier bater à tua porta.

Ele riu para o copo.

— Um marid! Acho que sobreestima a capacidade dos nossos magos da corte. Ainda se fosse um mouler perneta, era capaz de acreditar.

— O teu primo estende cada vez mais a rede. Bebê na companhia de embaixadores de Roma... e em Roma, segundo ouvi dizer, é onde se encontra a ação neste momento. Todos os magos de segunda categoria daqui até ao Tigre estão indo para lá em busca de glória.

Ptolomeu encolheu os ombros.

— Portanto o meu primo submete-se à vontade de Roma. Por que haveriam de me atacar?

— Para que fique eternamente em dívida para com eles. E entretanto, eu vou desta para melhor. — Libertei uma nuvem de enxofre de contrariedade; a obsessiva absorção do meu amo nos estudos conseguia ser bastante frustrante. — Para você está tudo bem — protestei. — Pode chamar um número qualquer de nós para te proteger a pele. O que nos possa acontecer não interessa nada. — Cruzei as asas por cima do bico à maneira de um morcego ofendido e fiquei suspenso de uma viga no quarto.

— Rekhyt... já me salvou a vida duas vezes seguidas. Você sabe o quanto te estou grato.

— Palavras, palavras, palavras. Não significam népia.51

 

51 Entrou aqui um bocado de linguagem das ruas egípcias. Também, eu estava irritado.

 

— Isso não é justo. Conhece a orientação do meu trabalho. Pretendo compreender os mecanismos que nos dividem, humano e djinni; viso repor o equilíbrio, criar confiança entre nós...

— Certo, certo. E enquanto faz isso, tenho que te guardar as costas e despejar o penico.

— Agora está inventando. Anhotep é que está encarregado disso. Eu nunca...

— Falo em sentido figurado. A minha questão é: sempre que estou no teu mundo, fico aprisionado. Você é que manda. A confiança nunca entra em jogo. — O diabrete deitou um olhar fuzilante através da membrana da sua asa e soltou outra erupção sulfurosa.

— Quer fazer o favor de parar com isso? Tenho que dormir neste quarto esta noite. Duvida então da minha sinceridade, é isso?

— Se quer a minha opinião, amo, toda a tua conversa de reconciliação entre os nossos povos não passa de uma grande treta.

— Ah é? — O tom de voz do meu amo endureceu. — Muito bem, Rekhyt, tomo-o como um desafio. Creio que os meus estudos estão chegando a um ponto em que posso talvez agir e bem assim falar. Como sabe, estudei os relatos das tribos do Norte. A prática ali é os magos e os espíritos encontrarem-se no meio do caminho. Pelo que você e os outros me contaram, acho que sou capaz de ir mais longe do que isso. — Atirou o copo para o lado, levantou-se e começou a andar em volta do quarto.

O diabrete baixou as asas, inquieto.

— O que quer dizer? Não vou acompanhá-lo.

— Oh, você não terá que me acompanhar — disse o rapaz. — Muito pelo contrário. Quando estiver preparado, serei eu a acompanhá-lo.

 

Os calamitosos incidentes que tiveram lugar durante a festa do primeiro-ministro em Richmond foram rápidos e confusos, e demorou um pouco a descobrir-se o que acontecera. Eram poucas as testemunhas entre os convidados da festa, visto que, quando começara a carnificina lá em cima nos céus, a maior parte se atirara de cabeça para os canteiros das roseiras e lagos ornamentais. No entanto, depois de Mr. Devereux ter reunido os magos responsáveis pela segurança da propriedade, e eles por sua vez chamado os demônios que guardavam o perímetro, começou a formar-se um quadro.

Parecia que o alarme fora dado quando um djinni sob a forma de uma rã coxa atravessara o nexo da propriedade. Era perseguido por um bando grande de demônios, que atormentavam impiedosamente a presa que fugia pelos gramados. Os demônios da propriedade tinham-se juntado rapidamente à refrega, atacando valentemente tudo o que se mexia, pelo que um ou dois dos invasores acabaram por ser destruídos, juntamente com três convidados, um ajudante de mordomo e grande parte da estatuária antiga nos gramados setentrionais, atrás da qual a rã estivera refugiada algum tempo. No caos, a rã conseguira fugir e entrar na própria casa, ante o que os outros invasores tinham dado meia-volta e abandonado a cena. A identidade deles e dos seus amos permanecia obscura.

Em contraste, não tardara a ser apurada a identidade do amo da rã. Muitas pessoas tinham presenciado os acontecimentos no vestíbulo da mansão para John Mandrake poder passar despercebido. Pouco depois da meia-noite, foi chamado à presença de Mr. Devereux, Mr. Mortensen e Mr. Collins (os três ministros principais mais importantes que permaneciam na casa), e confessara ter dado ao djinni em questão a liberdade de voltar para ele em qualquer momento. Sujeito a intenso interrogatório, John Mandrake vira-se então obrigado a revelar alguns pormenores da operação em que o demônio estivera envolvido. O nome de Mr. Clive Jenkins foi mencionado, e cinco borlas tinham sido prontamente enviados ao seu apartamento em Londres. Daí a um nada regressaram. Mr. Jenkins não estava em casa. Desconhecia-se o seu paradeiro.

Visto Mandrake não ter qualquer conhecimento do que o seu djinni descobrira, e visto o chamado imediato de Bartimaeus poder destruir a sua essência devido aos ferimentos — sem ter sido apresentada qualquer informação — o assunto foi abandonado de momento. Mandrake recebeu ordens para comparecer perante o Conselho dali a três dias, para chamar o seu servo e interrogá-lo.

Entretanto, o jovem mago suportava o peso do desagrado geral. O primeiro-ministro estava fora de si com a fúria da perda da estatuária grega, enquanto Mr. Collins — que, ao ser dado o alarme, fora o primeiro a saltar para o lago dos patos, correndo o risco de se afogar parcialmente sob uma das convidadas de maior peso — lhe dava olhares sinistros por baixo do enchumaçado das toalhas. O terceiro ministro, Mr. Mortensen, não sofrera quaisquer ferimentos, mas há anos que detestava Mandrake. Juntos, acusaram-no de conduta irresponsável e dissimulada, e deram mesmo a entender uma extensa série de sanções, cujos pormenores ficariam para a próxima reunião do Conselho.

Mr. Mandrake não respondeu às acusações. Muito pálido, abandonou a mansão e foi conduzido de volta a Londres.

 

No dia seguinte, Mr. Mandrake tomou o café-da-manhã sozinho. Ms. Piper, apresentando-se como de costume para as instruções ao início da manhã, encontrou a porta barrada por um criado. O ministro estava indisposto; falaria com ela mais tarde no ministério. Desconcertada, fora-se embora.

Com passos de chumbo, o mago avançou até seu gabinete de trabalho. O guarda da porta, ao efetuar uma tentativa ligeira de graça, foi atingido com um Espasmo. Mandrake ficou sentado muito tempo à escrivaninha, a olhar para a parede.

A seguir, pegou no telefone e marcou um número.

— Alô? Gabinete de Jane Farrar? Poderia falar com ela, por favor? Sim, é John Mandrake... Oh... entendo. Muito bem. — O auscultador foi colocado devagar no suporte.

Bem, tentara avisá-la. Não tinha culpa se ela se recusava a falar com ele. Na noite anterior, esforçara-se por não envolver o nome dela, mas em vão. A altercação de ambos fora vista. Sem dúvida estaria agora a levar também uma reprimenda. Sentia apenas uma ligeira pena disso; sempre que pensava na bela Ms. Farrar enchia-se de uma estranha repulsa.

O mais estúpido era que este problema poderia ter sido evitado se tivesse feito exatamente o que Farrar dissera. Quase com certeza Bartimaeus possuiria informações sobre a conspiração de Jenkins que poderiam ter ajudado a aplacar Devereux. Devia tê-la arrancado do escravo sem pensar duas vezes. Mas preferira... deixá-lo ir recuperar-se. Era absurdo! O djinni não passava de um espinho na sua carne — injurioso, respondão, fraco... e, em virtude do conhecimento do seu nome próprio, uma ameaça potencialmente fatal. Deveria tê-lo destruído enquanto estava incapacitado de responder. Quão simples teria sido!

De olhar vago, fitou os papéis em cima da sua escrivaninha. Sentimental e fraco... Talvez Farrar tivesse razão. John Mandrake, ministro do governo, agira contrariamente aos seus próprios interesses. Agora estava vulnerável aos seus inimigos. Mesmo assim, por mais que tentasse reunir uma fúria fria — contra Bartimaeus, contra Farrar e, principalmente, contra si próprio —, sabia que não poderia ter agido de outra maneira. A visão do corpo pequeno e destruído do djinni chocara-o muito: provocara uma decisão impulsiva.

E era este o acontecimento perturbador, muito mais importante do que as ameaças e o despeito dos seus colegas. Durante anos, a sua vida fora uma fábrica de cálculos. Fora através da dedicação impiedosa ao trabalho que Mandrake construíra a sua identidade; a espontaneidade tornara-se estranha. Mas agora, ao pensar no seu único ato irrefletido, a perspectiva do trabalho não o atraía nada. Esta manhã, fora dali, os exércitos confrontavam-se, os ministérios fervilhavam de atividade; havia muito a fazer. John Mandrake sentia-se apático, subitamente desprendido das exigências do seu nome e cargo.

Voltou à sua mente algo em que pensara na noite anterior. Uma imagem: sentado com a sua professora particular, Ms. Lutyens, muito tempo atrás, todo feliz a desenhar no jardim num dia de Verão...

Ela estava sentada ao seu lado, rindo, o cabelo a brilhar com a luz. A visão tremulou como uma miragem. Desapareceu. A divisão ficou vazia e fria.

O mago acabou por abandonar o seu gabinete de trabalho. No seu círculo de madeira enegrecida, o guarda da porta recuou quando passou.

O dia não correra bem a John Mandrake. No Ministério da Informação, aguardava-o um memorando irritado redigido do gabinete de Ms. Farrar. Decidira apresentar oficialmente queixa a respeito da recusa dele em interrogar o demônio, um ato que provavelmente viria a revelar-se prejudicial à investigação policial. Assim que Mandrake terminou de lê-lo, chegou uma designação sinistra do Ministério do Interior, trazendo um envelope com uma fita preta. Mr. Collins desejava interrogá-lo sobre uma série de distúrbios em St. James’s Park na noite anterior. Os pormenores não abonavam a favor de Mandrake: uma rã fugitiva, um demônio selvagem libertado do seu prisma, uma série de fatalidades entre a multidão. Seguira-se um tumulto menor, com os comuns a destruírem uma porção da feira. A tensão nas ruas continuava elevada. Mandrake era intimado a preparar uma defesa para a reunião do Conselho dali a dois dias. Conformou-se sem discussões; sabia que a sua carreira estava suspensa por um fio cada vez mais fraco.

Durante as reuniões, os adjuntos lançavam-lhe olhares de gozo ou sarcásticos. Um ou dois chegaram mesmo a sugerir que chamasse imediatamente o seu djinni para limitar os danos políticos. Mandrake, de rosto impávido e obstinado, recusou. Andou irritado e distraído todo o dia; até Ms. Piper lhe chamou a atenção.

Ao final da tarde, quando Mr. Makepeace telefonou para lembrá-lo do encontro, Mandrake decidiu que já tinha a sua conta. Abandonou o seu gabinete por aquele dia.

Há alguns anos, desde o caso do Bordão de Gladstone, que Mandrake se dava bastante com o dramaturgo Mr. Quentin Makepeace. Tinha bons motivos para fazê-lo — acima de tudo, o primeiro-ministro adorava teatro, e Mr. Makepeace exercia, conseqüentemente, enorme influência sobre ele. Fingindo partilhar da alegria do seu líder, Mandrake conseguira manter uma ligação com Devereux que outros membros do Conselho, mais intolerantes, apenas podiam invejar. Mas tinha um preço: por mais de uma vez Mandrake se vira obrigado a aparecer em horríveis produções amadorísticas em Richmond, pavoneando-se pelo palco com calças justas transparentes ou pantalonas largas, e — numa terrível ocasião inesquecível — ficando suspenso de uma corda, com asas de gaze cintilante. Mandrake tivera de suportar estoicamente a hilaridade dos seus colegas: era mais importante estar nas boas-graças de Devereux.

Em troca do seu apoio, Quentin Makepeace oferecera freqüentemente conselhos a Mandrake, e este achara-o extraordinariamente astuto, célere a captar boatos interessantes, rigoroso nas previsões das oscilações de humor do primeiro-ministro. Muitas vezes vira vantagem em seguir os conselhos do dramaturgo.

Mas, nos últimos meses, como os seus compromissos laborais haviam aumentado, Mandrake aborrecera-se da sua companhia e lamentava o tempo perdido a alimentar os entusiasmos de Devereux. Não tinha tempo para trivialidades. Durante semanas evitara aceitar o convite de Makepeace para lhe fazer uma visita. Agora, abatido e desorientado, não oferecera mais resistência.

Um criado conduziu-o à casa silenciosa. Mandrake atravessou o átrio, passou por baixo de lustres cor-de-rosa e um monumental óleo do dramaturgo encostado, com o seu robe de cetim vestido, a uma pilha de obras escritas pelo próprio. Mantendo o olhar desviado (sempre achara o robe um pouco curto), Mandrake desceu a escadaria central. Os seus sapatos pisavam silenciosamente o carpete de pêlo espesso e macio. Viam-se nas paredes cartazes emoldurados de teatros do mundo inteiro.

     PRIMEIRA NOITE!

     ESTRÉIA MUNDIAL!

  1. MAKEPEACE TEM

     O PRAZER DE APRESENTAR!

 

Silenciosamente, uma dúzia de anúncios proclamava a sua mensagem.

Ao fundo das escadas, uma porta com tachões de ferro conduzia à sala de trabalho do dramaturgo.

Enquanto batia, a porta escancarou-se. Apareceu um rosto largo e sorridente.

— John, meu rapaz! Excelente! Estou tão satisfeito. Feche a porta. Vamos tomar chá, com uma pitada de menta. Você parece mesmo que precisa ser reanimado.

Mr. Makepeace era uma roda-viva de pequenos movimentos, precisos, definidos, baléticos. A sua estrutura diminuta rodava, oscilava, servindo o chá, colocando a menta, inquieta como uma avezinha. O seu rosto cintilava de vigor, o cabelo ruivo brilhava; o seu sorriso agitava-se repetidamente como se espelhasse um prazer secreto.

Como sempre, as roupas exprimiam a sua personalidade alegre; sapatos castanhos, umas calças verde-ervilha com quadrados castanhos, um colete amarelo-vivo, uma gravata cor-de-rosa, uma camisa de linho larga com as mangas plissadas. Hoje, porém, as mangas estavam enroladas acima dos cotovelos, e a gravata e o colete escondidos por trás de um avental branco com nódoas. Era evidente que Mr. Makepeace estava atarefado.

Mexeu o chá com uma colher minúscula, bateu duas vezes no vidro e entregou o resultado a Mandrake.

— Pronto! — exclamou. — Beba isso. Agora, John — o sorriso dele era delicado, solícito —, uns passarinhos disseram-me que nem tudo está bem.

Sucintamente, sem elaborações, Mandrake mencionou os acontecimentos das últimas horas. O homem menor manifestou ruidosamente a sua solidariedade.

— Lamentável! — exclamou por fim. — E você só estava cumprindo o seu dever! Mas pessoas tolas como a Farrar estão ansiosas para dar cabo de si, na primeira oportunidade que tenham. Sabe qual é o problema deles, John? — Fez uma pausa significativa. — Inveja. Estamos rodeados de gente insignificante e invejosa, que reage mal aos seus talentos. Sucede-me constantemente no teatro, críticos a censurar os meus esforços.

Mandrake soltou um resmungo.

— Bem, amanhã vai metê-los de novo no seu lugar — afirmou. — Com a estréia.

— Se vou, John, se vou. Mas você sabe que por vezes o governo nos deixa tão desamparados. Calculo que sinta o mesmo, não é? Parece que está sozinho. Mas eu sou seu amigo, John. Eu o respeito, mesmo que mais ninguém o faça.

— Obrigado, Quentin. Não sei se será assim tão mau quanto...

— Sabe, você tem algo que eles não tem. Sabe o que é? Visão. Sempre notei isso em você. Você é perspicaz. E ambicioso também. Vejo-o nos seus olhos, vejo, sim.

Mandrake olhou para o chá, que detestava.

— Bem, não sei...

— Quero mostrar-lhe uma coisa, John. Uma pequena experiência mágica. Quero que me dê a sua opinião. Ver se você consegue perceber... Bem, venha cá. É agora ou nunca. Importava-se de pegar naquele diabrete-espeto em ferro que está junto de você? Obrigado. Sim, pode trazer o seu chá.

 

Com passos curtos e rápidos, Mr. Makepeace avançou na frente em direção a um arco interior. Com alguma perplexidade, Mandrake seguiu-o. Uma experiência mágica? Nunca vira Makepeace fazer mais do que as fórmulas básicas; sempre o tivera na conta de um razoável prestidigitador menor... Era esta a opinião geral. O que estaria então...

Virou a esquina e parou. A custo, evitou que a xícara de vidro lhe caísse dos dedos. Os seus olhos arregalaram-se na média luz. A boca ficou aberta.

— O que lhe parece? O que lhe parece, meu rapaz? — Mr. Makepeace sorria junto do ombro dele.

Por um momento, Mandrake não conseguiu falar, apenas percorrer a divisão com o olhar. Anteriormente, acolhera uma homenagem do dramaturgo à sua pessoa: uma coleção de troféus, prêmios, recortes de jornal, fotografias e curiosidades. Agora, esse santuário desaparecera. Uma única lâmpada elétrica lançava uma claridade difusa. A sala continha dois pentagramas, cuidadosamente desenhados no chão de concreto. O primeiro, o do mago, era de tamanho normal, mas o outro era muito maior. E estava ocupado.

Havia uma cadeira de metal no centro do pentagrama de chamado, fixa ao chão com quatro cilindros enormes. A cadeira era de ferro, as pernas grossas e fortemente soldadas; brilhava ligeiramente na média luz. Sentado nela, com correias de lona a prender-lhe os pulsos e os tornozelos, estava um homem.

— Bastante impressionante, não é? — Mr. Makepeace mal conseguia conter a sua excitação. Praticamente saltava e dançava ao lado de Mandrake.

O prisioneiro estava consciente; fitava-os com o pânico nos olhos. Uma mordaça grossa cobria-lhe a boca e parte de um bigode e barba; o cabelo louro estava despenteado, uma ligeira equimose brilhava numa face. Vestia roupas de comum, rasgadas em volta do colarinho.

— Quem... quem é ele? — Mandrake mal conseguia falar.

— Esta beleza? — Mr. Makepeace soltou uma risada. Saltou para o pentagrama pequeno e começou a acender as velas. — Certamente sabe que houve problemas com os metalúrgicos de Battersea? Resolveram «fazer greve», aparentemente, passar o tempo em festas na rua à porta da fábrica. Bem, ontem à noite, já tarde, os meus agentes encontraram este magnífico sujeito a falar aos manifestantes da traseira de um caminhão. E tem boa voz, por sinal. Um verdadeiro orador. Discursou perante a multidão cerca de vinte minutos, incitando-os a revoltar-se, que estava quase a chegar a altura em que os magos fariam as malas. Recebeu muitos aplausos no fim. Bem, apesar das suas bonitas palavras, não quis ficar toda a noite no frio com os operários, e acabou indo para casa. Então, os meus rapazes seguiram-no e deram-lhe uma pancada na cabeça sem que ele percebesse. Trouxeram-no para cá. Vou precisar daquele diabrete-espeto, se não se importa. Não, pensando bem, segure você. As minhas mãos vão estar ocupadas com o chamado.

A cabeça de Mandrake virou-se.

— Qual chamado? O que...? — O espanto deu lugar à agitação. — Quentin... importa-se de me dizer exatamente o que está fazendo?

— Farei melhor do que isso. Vou mostrar-lhe. — Mr. Makepeace terminou de acender as velas, inspecionou as runas e as taças de incenso e foi aos saltinhos até à cadeira do prisioneiro. Com dedos delicados, manipulou a mordaça. — Não me agrada usar isto, mas tinha de mantê-lo calado. O sujeito ficou bastante histérico. Agora, você — o sorriso desapareceu-lhe do rosto — vai responder às minhas perguntas, senão, já sabe o que te acontece. — A mordaça foi arrancada; a cor voltou aos lábios apertados. — Como se chama?

Uma tossida, uma arfada.

— Nic... Nicholas Drew, senhor.

— Ocupação?

— Em-empregado de balcão.

— Nesse caso, é um comum?

— Sim.

— E um ativista político nos tempos livres.

— S-sim, senhor.

— Muito bem. O que é o Fogo Abrasador e quando se aplica?

A pergunta foi feita à queima-roupa; o prisioneiro estremeceu, a incompreensão estampada no seu rosto.

— Eu... eu... não sei.

— Vamos, vamos. Responda-me! Ou o meu amigo atiça-o com aquela vara!

Mandrake franziu as sobrancelhas de raiva.

— Makepeace! Pare com este ab...

— Um momento, meu rapaz. — O mago aproximou-se do prisioneiro. — Estou vendo que, mesmo com a ameaça de dor, insiste na tua mentira?

— Não é mentira! Juro! Nunca ouvi falar desse fogo! Por favor...

Um sorriso largo.

— Muito bem. Chega. — Com movimentos rápidos, a mordaça voltou a ser colocada. Makepeace saltitou até o outro pentagrama.

— Ouviu tudo aquilo, John?

O rosto de Mandrake estava branco do choque e crescente repulsa.

— Makepeace, qual é a finalidade deste espetáculo? Não podemos arrancar homens das ruas e sujeitá-los a tortura...

O dramaturgo suspirou.

— Tortura? Ele está bem. Mal lhe tocaram. Além disso, ouviu-o: é um agitador, uma ameaça para a nação. Mas não tenciono maltratá-lo. Ele só está ajudando numa pequena experiência. Observe... — Adotou uma pose dramática; os seus dedos agitaram-se, como se se preparasse para dirigir uma orquestra.

Mandrake avançou.

— Insisto para que...

— Cuidado, John. Sabe perfeitamente que não deve andar de um lado para o outro quando está em curso um chamado. — Dito aquilo, o dramaturgo iniciou uma fórmula encantatória rápida. A luz diminuiu; vinda não se sabe de onde, uma brisa suave agitou a vela. Duas salas adiante, a porta de ferro saltou dos gonzos. Mandrake recuou, levantando instintivamente o espeto que segurava. Subconscientemente, escutou as palavras: latim... um chamado bastante típico, as cláusulas habituais... O nome do demônio — Borello... Mas espere, o que era aquela parte...? «In corpus vin»... para o vaso que encontras ali «obediente à vontade do vaso»... Isto era estranho e desconhecido...

A fórmula encantatória terminou. O olhar de Mandrake convergiu para a cadeira, onde tremulava uma sombra escura. Agora desaparecera. O corpo do homem deu um puxão, como se todos os seus músculos tivessem ficado tensos, depois descontraiu. Mandrake aguardou. A brisa diminuiu, a lâmpada voltou a brilhar. O homem estava sentado inerte e passivo. Tinha os olhos fechados.

Mr. Makepeace baixou as mãos. Piscou o olho a Mandrake.

— Agora...

Avançou um passo. Mandrake arfou, soltou um aviso.

— Espere, seu tolo! O demônio está ali! É suicídio ir...

Calmo e indolente como um gato ao sol, Makepeace abandonou o seu círculo e entrou no outro. Não aconteceu nada. Sorrindo presunçosamente, voltou a tirar a mordaça e bateu delicadamente na face do prisioneiro.

— Mr. Drew! Acorde! Isto não são horas de dormir!

Langorosamente, o jovem mexeu-se. As mãos e os pés esticaram-se nas amarras. Os seus olhos abriram-se e relancearam o espaço, ensonados. Parecia ter dificuldade em recordar a situação. Sem querer, Mandrake aproximou-se um pouco mais, fascinado.

— Mantenha essa vara a postos — disse Makepeace. — As coisas podem correr mal. — Debruçou-se, falou com doçura. — Como se chama, amigo?

— Nicholas Drew.

— Esse é o teu único nome? Pense bem. Tem outro?

Uma pausa. O rosto do homem franziu-se.

— Sim... tenho.

— E qual é?

— Borello...

— Ah, bom. Diga-me, Nicholas, qual é a tua ocupação?

— Empregado de balcão.

— E o que é o Fogo Abrasador? Quando se aplica?

Uma breve expressão de perplexidade deu lugar a uma certeza maliciosa.

— É a penalidade por desobediência, caso falhemos intencionalmente a nossa incumbência. O nosso amo submete a nossa essência ao archote. Ah, o tememos!

— Muito bem. Obrigado. — Mr. Makepeace virou as costas, saltou cuidadosamente por cima das marcas de giz mais próximas e acercou-se de John Mandrake, cujo rosto não tinha qualquer expressão. — O que lhe parece, meu rapaz? Não é uma situação fascinante?

— Não sei... É um truque habilidoso...

— É mais do que um truque! O demônio alojou-se dentro do homem. Está aprisionado como se ele fosse o pentagrama! Não ouviu? E o conhecimento do demônio está à disposição do homem. De repente, ele sabia o significado do Fogo Abrasador. Tinha conhecimento, quando antes havia apenas o vazio! Agora, pense nas implicações...

Mandrake carregou o cenho.

— O feito suscita dúvidas morais. Este sujeito é uma vítima involuntária. Além disso, é um comum. Não pode usar convenientemente a informação do demônio.

— Ah! Perspicaz como sempre! Esqueça por um momento a dimensão moral. Imagine se...

— O que é que ele está fazendo? — Mandrake observava o prisioneiro, que parecia ter acabado de reconhecer o lugar onde estava. A agitação voltara ao rosto; debateu-se sob as amarras. Uma ou duas vezes virou violentamente a cabeça de um lado para o outro, como um cão atacado por uma pulga. Makepeace encolheu os ombros.

— Talvez sinta o demônio lá dentro. Talvez esteja falando com ele. É difícil dizer. Nunca tinha experimentado antes com um comum.

— Você usou outros?

— Uma única vez. Um voluntário. Essa união funcionou extremamente bem.

Mandrake coçou o queixo. A visão do prisioneiro a contorcer-se incomodava-o, anulando o interesse intelectual. Não lhe ocorreu o que dizer. Mr. Makepeace não tinha semelhantes problemas.

— As implicações, como disse, são imensas. Reparou que entrei no pentagrama sem que me acontecesse nada? O demônio foi incapaz de me deter, visto encontrar-se dentro de uma prisão completamente diferente! Agora, eu queria que visse isto, John, com a máxima urgência, porque confio em você, tal como você, espero, confie em mim. E se...

— Por favor! — Um grito lamentoso da figura na cadeira. — Não consigo suportá-lo! Oh, ele murmura! Deixa-me doido!

Mandrake estremeceu.

— Ele está sofrendo. O demônio tem de ser dispensado.

— A seu tempo, a seu tempo. Naturalmente falta-lhe capacidade mental para subjugar a voz dele...

O prisioneiro voltou a contorcer-se.

— Vou dizer-lhe tudo o que sei! Sobre os comuns, sobre os nossos planos! Posso dar-lhe informações...

Makepeace esboçou um esgar.

— Que bobagem, você não nos pode nos dar nada que os nossos espiões já não saibam. Acabe com a gritaria. Dói-me a cabeça.

— Não! Posso contar-lhe sobre a Aliança dos Comuns! Os seus cabeças!

— Já conhecemos todos: os seus nomes, as esposas, as famílias. São formigas a esmagar quando nos apetecer. Agora... tenho assuntos vitais a discutir aqui...

— Mas... mas não sabe isto: um membro da antiga Resistência está vivo! Esconde-se em Londres. Eu a vi, há horas! Posso levá-lo ao local...

— Isso são histórias antigas. — Mr. Makepeace tirou o espeto de ferro dos dedos de Mandrake e sopesava-o descontraidamente na palma da mão. — Sou um homem paciente, Mr. Drew, mas começa a irritar-me. Se não pára...

— Espere aí. — A voz de John Mandrake alterara-se; o seu tom deteve o dramaturgo. — A que membro da Resistência se refere? Uma mulher?

— Sim! Sim, uma garota! O seu nome é Kitty Jones, apesar de usar outro nome agora... Ah, acabe com esses murmúrios! — Gemeu e debateu-se sob as amarras.

Algo invadiu de mansinho a mente de Mandrake. Por um momento, sentiu vertigens, como se fosse cair. Tinha a boca seca.

— Kitty Jones? Mentira.

— Não! Juro! Liberte-me e o levarei até ela.

— Esta linha de interrogatório é realmente necessária? — Mr. Makepeace franzira o rosto numa expressão petulante. — Há muito que a Resistência foi extinta. Por favor, concentre-se no que eu digo, John. É extremamente importante, especialmente atendendo à sua presente situação. John? John?

Mandrake não o ouvia. Via Bartimaeus, usando o aspecto de um rapaz de pele escura. Via-o de pé num pátio empedrado anos atrás. Ouvia o rapaz a falar. «O golem apanhou-a... incinerou-a em segundos.» Kitty Jones estava morta. O djinni dissera-o. Mandrake acreditara nele. E agora, do passado, a expressão séria do rapaz transformava-se subitamente em olhar de desprezo. Mandrake aproximou-se do prisioneiro, debruçando-se.

— Onde foi que a viu? Diga-me, e te libertarei!

— The Frog Inn, Chiswick! Ela trabalha lá. Atende pelo nome de Clara Bell. Agora, por favor...

— Quentin, queira ter a bondade de dispensar o demônio e libertar este homem imediatamente. Tenho que ir embora.

O dramaturgo ficara calado, repentinamente esmorecido.

— Com certeza, John... se o deseja. Mas não vai esperar? Aconselho-o vivamente a ouvir o que tenho para lhe dizer. Esqueça a garota. Há coisas mais importantes. Quero discutir esta experiência...

— Depois, Quentin, depois. — Mandrake estava lívido; já chegara ao arco.

— Mas aonde vai? Não volta para o ministério?

Mandrake falou por entre os dentes cerrados.

— Dificilmente. Há um chamado que eu mesmo tenho que efetuar.

 

O tempo, como posso já ter mencionado uma ou duas vezes, não existe realmente no Outro Lugar. Mesmo assim, sabemos perfeitamente quando nos estão enganando. E eu mal fora reabsorvido pelas energias nutritivas do turbilhão quando senti de novo o puxão cruel de um chamado, a sugar-me como a gema de um ovo, levando-me de volta à terra dura e amarga.

Já? E a minha essência ainda mal começara a sarar.

As minhas últimas atividades no mundo material haviam sido tão dolorosas, tão perigosas para a minha essência que mal conseguia me lembrar delas. Mas uma coisa era bem clara: a minha maldita fraqueza incapacitante! Como é que eu — cujo poder dispersara os magos de Nemrod*, incendiara a costa da Berbéria**, mandara os cruéis Ammet, Koh e Jabor a rodopiar até o seu destino — como é que eu, esse mesmo Bartimaeus, me vira reduzido a fugir como uma rã miserável e sem préstimo, incapaz de trocar a menor Detonação com um bando de garças-reais mercenárias.

 

* Soberano lendário da Caldéia. (NT)

** O Magrebe, conjunto de países do Noroeste de África (Marrocos, Argélia e Tunísia). (NT)

 

No decurso de todo o colapso, eu estivera muito próximo da morte para sentir verdadeiramente a justa raiva que se me impunha. Mas sentia-a agora. O meu próprio ser espumava dela.

Lembrava-me vagamente do meu amo me ter dispensado. Provavelmente ficara aborrecido com a sujeira que eu estava deixando no seu chão. Talvez a minha decrepitude afinal o houvesse envergonhado. Bem, fosse qual fosse a razão, ele não demorara muito a mudar de idéia.

Ótimo. Estava tudo acabado entre nós. Iríamos ambos ao encontro das nossas mortes. Agora eu iria usar o seu nome contra ele, desse por onde desse. A minha última vontade era vê-lo espernear.

E eu também não ia aparecer como um reles anfíbio.

Nas escassas horas que eu estivera longe da Terra, o Outro Lugar operara a sua magia. Eu conseguira absorver alguma energia. Não duraria muito tempo, mas iria ter de ser muito bem empregada.

Quando me materializei, apliquei o que restava da minha essência numa forma que refletia com simples pureza as minhas emoções: um demônio grande com cornos, músculos como melões e montes de dentes. Era o serviço completo. Bastava encomendar, que vinha logo. Enxofre, cauda bifurcada, asas, cascos, garras, até dois chicotes para compor o ramalhete. Os meus olhos ardiam como anzóis, a minha pele brilhava como lava a derreter. Não era particularmente original, mas servia perfeitamente como declaração de intenções. Irrompi na sala com um ribombar de trovões capaz de mandar os mortos-vivos a correr para os seus caixões. Seguiu-se um urro de raiva faminta, como aquele que os chacais de Anúbis soltavam quando rondavam os túmulos de Mênfis — apenas um pouco mais sonoro e longo, um ruído horroroso prolongado artificialmente.

Na verdade, estava eu no meio da minha ululação quando avistei a figura no pentagrama em frente, e o efeito pretendido ficou completamente estragado. O bramido violento transformou-se num gorgolejo trêmulo que subiu duas oitavas e terminou num guincho em falsete rematado por um ponto de interrogação. O demônio — que estivera entretido a empinar-se, asas de couro nos quadris, chicotes a estalar — ficou estarrecido numa postura instável de traseiro espetado. As asas caíram; os chicotes penderam inertes. A nuvem ondulante de enxofre dissipou-se num timorato gotejar e desapareceu discretamente de vista atrás dos meus cascos.

Fiquei a olhar, embasbacado.

— Muito bem — disse a garota. — Deixe dessas caras bobas. Nunca foi chamado antes por uma mulher?

O demônio levantou um dedo musculoso e empurrou o maxilar para o seu lugar.

— Sim, mas...

— Mas nada. Acabe com o espalhafato.

Uma língua bífida idêntica à cauda lá em baixo saiu da boca do demônio e umedeceu os lábios secos.

— Mas... mas... espera aí...

— E agora, que raio de manifestação horrível vem a ser esta? — prosseguiu ela. — Aquele barulho! Aquele fedor! Todas aquelas pregas e verrugas nodosas e coisas! O que está tentando provar? — Semicerrou os olhos. — Acho que está querendo compensar algo.

— Ouça — comecei —, isto é uma forma tradicional e oficializada que...

— Qual tradicional, qual o quê! Onde estão as tuas roupas?

— Roupas? — perguntei, atrapalhado. — Normalmente não me preocupo com elas nesta forma.

— Bem, podia ao menos vestir uns calções. Não está decente.

— Tenho certeza de que não combinam com as asas... — O demônio ficou carrancudo, piscou os olhos. — Calma aí, já chega!

— Mas se fossem de pele curtida, sim. Complementariam o couro.

Fiz um esforço para me concentrar.

— Pára! Esquece as roupas! A questão é... a questão é... o que você faz aqui? A chamar-me! Não entendo! Isto está tudo errado! — Na minha perplexidade, todas as tentativas de terrores tradicionais, instituídos cessaram. Para enorme alívio da minha essência ferida, o gigantesco demônio encolheu, brilhou e ajustou-se de modo a caber mais confortavelmente no pentagrama. As minhas asas de couro tornaram-se dois chumaços nos ombros e a minha cauda retraiu-se, desaparecendo de vista.

— Por que é que está errado? — indagou a garota. — É só mais outra daquelas coisas de amo/servo de que falamos da última vez que nos encontramos. Você sabe: eu sou a ama, você é o escravo. Eu dou as ordens, você obedece sem questionar. Já se lembras de como funciona?

— O sarcasmo não combina com um palminho da sua cara — disse eu. — Por isso pode fazer mais comentários nesses moldes à vontade. Sabe perfeitamente ao que me refiro. Você não é uma maga.

Ela sorriu com doçura e fez um gesto que nos envolveu.

— Sério? Que condições necessárias que eu não reúno?

O demônio encolhido olhou para a esquerda. O demônio encolhido olhou para a direita. Por mais aborrecido que fosse, ela tinha razão. Ali estava eu, aprisionado num pentagrama. Ali estava ela, de pé noutro. E a toda a volta via-se a habitual parafernália: castiçais, incenso, taças, paus de giz, livro grande em cima da mesa. De outro modo era uma sala vazia, sem cortinas na janela. Uma enorme lua redonda brilhava lá no alto, fazendo incidir uma luz prateada nos nossos rostos. Com exceção da seção lisa elevada no meio onde as runas e o círculo fora pintado, o chão era de tábuas deformadas, irregulares. Além do odor do rosmaninho, todo o lugar cheirava a umidade, desuso e roedores vários. Até ali, normalíssimo. Já vira este ambiente soturno mil vezes — o que mudava sempre era a vista pela janela.

Não, o que me preocupava era a invocadora propriamente dita. A suposta maga.

Kitty Jones.

Ali estava ela. Em tamanho natural e duplamente confiante, de mãos nas ancas, com um sorriso da largura do delta do Nilo. Exatamente como eu a representara todas aquelas vezes enquanto provocava Mandrake.52 O cabelo escuro e comprido dela fora cortado ao nível das orelhas; talvez o rosto estivesse um pouco mais magro do que me recordava. Mas encontrava-se em muito melhor forma do que da última vez que eu a vira, a manquejar pela rua depois de ter vencido o golem. Quanto tempo decorrera desde então? Três anos — não mais. Mas, de certa forma, o tempo parecia ter passado de modo diferente para ela: os seus olhos apresentavam a calma do conhecimento merecido.53

 

52 Ou quase. Às vezes exagerava nas curvas.

53 O vestuário dela não era o que me interessava, mas para os perfeccionistas entre vocês, era assim que estava vestida: uma túnica preta e calças impermeáveis, muito atraente para quem gosta. A túnica estava aberta no pescoço; não usava jóias. Tinha calçados nos pés uns tênis brancos grandes. Que idade tinha agora? Cerca de dezoito anos, pelos meus cálculos. Nunca me ocorrera perguntar-lhe, e agora era tarde demais para isso.

 

Estava tudo muito bem. Só que ela não podia ter me chamado. Até aí chegava eu.

O demônio de bolso abanou a cabeça.

— É um truque — afirmei, devagar. Olhei à minha volta, tentando sondar os cantos da sala com enorme precisão. — O verdadeiro mago está em algum lugar aqui... escondido...

Ela sorriu.

— O quê, acha que o escondi na manga? — Sacudiu o braço um tanto desnecessariamente. — Ná. Aqui não está. Talvez devido à tua enorme idade esteja ficando esquecido, Bartimaeus. É você que faz a magia.

Recompensei-a com um conveniente ar carrancudo demoníaco.

— Diga o que quiser, há outro pentagrama aqui perto... só pode haver... já vi fazerem este tipo de truque antes... Sim, atrás daquela porta, por exemplo. — Apontei para a única saída.

— Não há.

Cruzei os braços. Os quatro.

— E onde ele está.

Ela abanou a cabeça, quase às gargalhadas.

— Garanto-lhe que não está!

— Prove-o! Vá abri-la e mostre-me.

Riu alto.

— Sair do meu pentagrama? Para você poder arrancar-me os membros um por um? Acorda, Bartimaeus!

Disfarcei a minha decepção fazendo cara de ofendido.

— Tch. Essa não pega. Ele está ali atrás, com certeza. Você não me engana.

As expressões dela tinham sido sempre espirituosas. Agora pusera uma de tédio.

— Estamos perdendo tempo. Talvez isto te convença. — Proferiu uma palavra rápida de cinco sílabas. Elevou-se uma chama de cor lilás do centro do meu pentagrama e administrou um golpe seco numa zona privada. O meu pulo até o teto distraiu-a do meu grito de dor — pelo menos, foi essa a minha intenção. Quando aterrei de novo, a chama desaparecera. Ela arqueou uma sobrancelha. — Não acha agora que deveria ter vestido umas calças?

Olhei-a demorada e profundamente.

— A tua sorte — disse, com toda a dignidade que consegui reunir — é eu ter decidido não virar contra ti aquele Golpe Punitivo. Sei o teu nome, Ms. Jones. Isso me dá proteção, ou os teus estudos ainda não chegaram a esse ponto?

Ela encolheu os ombros.

— Ouvi qualquer coisa a esse respeito. Não me interessaram os pormenores.

— Volto a dizê-lo: você não é maga. Os magos vivem obcecados com os pormenores. É o que os mantém vivos. Realmente não sei como sobreviveu a todos os teus outros chamados.

— Que outros? Este é o meu primeiro solo.

Apesar do traseiro chamuscado, de onde emanava delicadamente o odor de torrada queimada, o demônio esforçava-se ao máximo por aparentar, ainda que tardiamente, o controle da situação. Mas esta nova informação deitou-o completamente abaixo.54 Todavia, formou-se nos meus lábios uma outra pergunta infeliz, mas deixei-a passar em branco. Não fazia muito sentido. Para onde quer que eu me virasse, nada aqui fazia sentido. Resolvi então experimentar uma nova estratégia desconhecida, e remeti-me ao silêncio.

 

54 Nós, djinn do quarto nível, não somos os espíritos mais fáceis de invocar, visto sermos picuinhas e organizados e estarmos sempre atentos a quaisquer pequenos erros nas fórmulas encantatórias. Por este motivo, e em virtude do nosso intelecto formidável e forte presença (geralmente não implicando o cheiro de torrada queimada), os magos evitam-nos até terem adquirido uma prática considerável.

 

A garota pareceu ficar surpreendida com esta abordagem astuciosa. Após alguns segundos de espera percebeu que lhe competia dar seqüência à nossa conversa. Respirou fundo para acalmar os nervos e começou a falar.

— Bem, tem toda a razão, Bartimaeus — disse ela. — Não sou maga, felizmente. E este é o único chamado que alguma vez tenciono fazer. Ando a planejá-lo há três anos.

Voltou a respirar fundo e aguardou... Ocorreu-me mais uma dúzia de perguntas.55 Mas a minha boca não se abriu.

 

55 Para não mencionar as vinte e duas soluções possíveis para cada uma delas, de que resultam dezesseis hipóteses e contrateoremas, oito especulações abstratas, uma equação quadrilateral, dois axiomas e uma estrofe. Para vocês, isto é inteligência em bruto.

 

— Isto é apenas um meio para alcançar um fim — prosseguiu ela. — Não estou interessada no que os magos pretendem. Nesse aspecto não precisa ficar preocupado.

Outra pausa. Eu disse alguma coisa? Não. Mantive-me caladinho que nem um rato.

— Não pretendo nada disso — disse a garota. — Não quero adquirir vasto poder ou riquezas. Acho tudo isso desprezível.

A minha estratégia estava dando certo, quiçá ao passo de uma tartaruga com botas de chumbo. Ia ouvir uma explicação.

— E certamente não desejo subjugar espíritos escravizados — acrescentou, animada. — Se é isso que está pensando.

— Não está interessada na subjugação? — Lá se fora a minha estratégia: mas olhem, conseguira mais de um minuto de silêncio, o que constituía em si uma espécie de recorde. O demônio diminuto apontou delicadamente para a região queimada, soltando pequenos ohs e ahs de desconforto. — Nesse caso, tem uma forma curiosa de expor as tuas idéias. Estou aqui em sofrimento, sabe.

— Eu só queria provar um aspecto, mais nada — redarguiu. — Olha, importa-se de não fazer isso? Está me distraindo.

— A fazer o quê? Eu só estava apalpando...

— Eu vi perfeitamente o que estava apalpando. Pára com isso. E, agora, não é capaz de mudar para qualquer outra coisa? Na verdade, é uma encarnação extremamente hedionda. Achei que tivesse mais classe.

— Isto... hediondo? — assobiei. — Vê-se que não fez muitos chamados, não é? Pronto, está bem, já que é tão sensível. Vou cobrir a minha modéstia. — Mudei para o meu aspecto favorito. Ptolomeu caía-me bem, pois sentia-me confortável na sua forma, e ele também caia bem à garota, pois as suas partes queimadas ficavam escondidas debaixo da tanga.

Assim que procedi à alteração, os olhos dela iluminaram-se.

— Sim — murmurou, entre dentes. — É isso!

Fitei-a, de olhos semicerrados.

— Desculpe, posso ser-lhe útil em alguma coisa?

— Não, não é nada. Hum, essa... essa forma é muito melhor.

Mas ela estava toda ofegante e entusiasmada e precisou de alguns momentos para recuperar a postura. Sentei-me de pernas cruzadas no chão e aguardei. A garota também se sentou. Por algum motivo, ficou subitamente mais descontraída. Enquanto um minuto antes as palavras dela tinham saído lentas e embaraçadas, agora brotavam numa verdadeira torrente.

— Bem, quero que me ouça com muita atenção, Bartimaeus — disse, inclinando-se para frente com os dedos a bater no chão. Observei-os com atenção, para o caso de tocarem na linha de giz, talvez enchê-la de bolachas um pouco. Interessava-me o que ela pudesse ter a dizer, claro, mas não ia perder uma oportunidade de fuga.

Ptolomeu apoiou o queixo nas costas de uma mão.

— Força. Sou todo ouvidos.

— Ótimo. Oh, estou muito satisfeita por ter funcionado tão bem. — Balançou-se para trás e para a frente nas nádegas, quase se abraçando de prazer. — Nem me atrevia a pensar que tivesse conseguido. Tive tanto que aprender... você nem imagina. Bem... talvez imagine — admitiu —, mas posso desde já te dizer que não teve grande graça.

Os meus olhos escuros fitavam-na de sobrancelhas carregadas.

— Aprendeu tudo isto em três anos? Estou impressionado, e mais do que um bocadinho desconfiado.

— Comecei pouco depois de te ver. Quando arranjei os meus novos documentos de identificação. Podia freqüentar bibliotecas, trazer para casa livros de magia...

— Mas você detesta os magos — insurgi-me. — Detesta o que eles fazem. E também detestas a nós, espíritos! Disse-me cara a cara... o que, devo acrescentar, me melindrou bastante. O que mudou para querer invocar um?

— Oh, eu não andava atrás de um qualquer demônio velho — explicou ela. — Toda a finalidade do meu estudo durante estes anos, de dominar estas... estas malditas técnicas, era para chamá-lo.

— A mim?

— Parece surpreendido.

Aproximei-me.

— De modo algum, de modo algum. Mas o que foi que te atraiu? A minha personalidade maravilhosa, suponho? Ou a minha conversa brilhante?

Ela soltou uma risada.

— Bem, a personalidade é que não foi, claro. Mas sim... a conversa foi o que me atraiu, a minha imaginação começou a trabalhar, quando falamos antes.

Na verdade, eu também me lembrava desta conversa. Tinham se passado três anos, mas parecia agora muito mais, nos tempos em que o meu eterno amo Nathaniel era ainda um ilustre desconhecido, ansioso por reconhecimento. Foi em plena crise do golem, numa altura em que Londres estava a ser destruída pelo monstro de barro e Honorius, o afrit, que o meu caminho se cruzara com o de Kitty Jones pela segunda vez. Ela impressionara-me então não só com a força da sua personalidade, mas também com o seu forte idealismo, qualidades que raramente se misturavam nos magos. Ela era uma comum — pouco educada, desconhecedora de tudo o que conspirara para criar o mundo dela, mas não obstante provocadora e esperançada na mudança. E mais do que isso também: arriscara a vida para salvar a do seu inimigo, um desgraçado desprezível, alguém indigno sequer de lhe lamber as botas.56

 

56 Estou falando do meu amo. Já tinham adivinhado?

 

Sim, ela impressionara-me mesmo. E ao meu amo também, pensando bem. Sorri.

— Nesse caso, gostou do que ouviu, hein?

— Fez-me pensar, Bartimaeus, com toda a tua conversa das civilizações irem e virem. Acima de tudo, disse que deveria estar atenta a padrões, e eu sabia que tinha de descobri-los. — Um dedo batia no chão enquanto frisava a questão, quase tocando na linha vermelha a giz. Estava perto, muito perto. — Então — acrescentou ela —, fui à procura.

Ptolomeu compôs a ponta da sua túnica.

— Está tudo muito certo, mas isso não é bem o mesmo que arrancar cruelmente um djinni inocente do seu local de repouso. A minha essência encontra-se profundamente necessitada de uma pausa. Mandrake mantém-me a serviço — efetuei rapidamente um cálculo contando pelos dedos das mãos e dos pés —, há seiscentos e oitenta e três dias nos últimos setecentos. E isso tem os seus efeitos. Estou como uma maçã no fundo de um barril: doce e bonita de ver, mas toda amassada por baixo da casca. E você foi me tirar do meu local de cura.

A cabeça dela estava inclinada; olhava-me por baixo das sobrancelhas.

— O Outro Lugar, você quer dizer.

— Esse é um dos seus nomes.

— Bem, desculpe ter te incomodado. — Falou como afinal se tivesse se limitado a me acordar de uma soneca. — Mas eu nem sequer sabia se seria capaz de fazê-lo. Receava que a minha técnica pudesse não ser perfeita.

— A tua técnica é ótima — respondi. — Na verdade, é boa. E isso me leva à grande questão. Como foi que aprendeu a chamar-me?

Ela encolheu modestamente os ombros.

— Oh, não foi tão difícil assim. Sabe o que acho? Há anos que os magos vêm exagerando a sua dificuldade, só para dissuadirem os comuns. Afinal, o que é necessário? Algumas linhas desenhadas cuidadosamente com réguas, cordel e compasso. Algumas runas, proferir algumas palavras. Ir ao mercado comprar umas ervas... Um pouco de paz e sossego, alguma memorização... Faça tudo isso e já era.

— Não — retorqui-lhe. — Um comum nunca antes fez isto, tanto quanto sei. É inaudito. Deve ter tido ajuda. Com as línguas, as runas, os círculos, essa mistura tóxica de plantas... tudo isso. Um mago. Quem?

A garota brincava com uma madeixa de cabelo junto à orelha.

— Bem, não vou te dizer o nome dele. Mas tem razão. Fui ajudada. Não concretamente a fazer isto... é desnecessário dizer. Ele vê-me mais como uma entusiasta amadora. Se sonhasse que eu estava fazendo isto, ficaria doido. — Sorriu. — Neste momento, ele dorme profundamente dois andares abaixo. Ele é bastante querido, sério. De qualquer forma, levou o seu tempo, mas não foi muito mau. Espanta-me que mais pessoas não o tenham experimentado.

Ptolomeu olhou-a por baixo das pálpebras encovadas.

— A maior parte das pessoas — referi intencionalmente — tem um certo receio do que possa chamar.

A garota anuiu.

— É verdade. Mas não é tão mau se não tivermos medo do demônio em questão. Bem, eu sei que podem acontecer coisas terríveis se se enganarem na fórmula encantatória, ou desenharem mal o pentagrama e coisas assim, mas essas coisas terríveis dependem até certo ponto do demônio... desculpe, queria dizer djinni, claro — do djinni em questão. Não dependem? Se fosse algum velho afrit que eu nunca vira, obviamente ficaria um pouco preocupada, caso desse um passo em falso. Mas nós já nos conhecemos, não é verdade, você e eu? — Esbocei um sorriso vitorioso. — E eu sei que não me faria mal se cometesse algum pequeno erro. — Eu observava as mãos dela, que mais uma vez gesticulavam nas proximidades da linha vermelha a giz... — Não é verdade? Sim. Quer dizer, da última vez nós trabalhamos mais ou menos em equipe, não foi? Você sabe, com aquele golem. Disse-me o que fazer. Eu fiz. Uma boa parceria, por sinal.

Ptolomeu esfregou os cantos dos olhos.

— Nessa altura havia uma pequena diferença — suspirei —, que me vejo na necessidade de te lembrar. Há três anos, estávamos ambos sob a alçada de Mandrake. Eu era escravo dele, você a sua presa. Estávamos mutuamente interessados em derrotá-lo e assegurar a nossa própria sobrevivência.

— Exatamente! — exclamou. — E nós...

— Nós não tivemos mais nada em comum senão isso — prossegui, impávido e sereno. — É verdade que tivemos uma conversa. É verdade que eu te dei algumas dicas sobre os pontos fracos do golem; mas isso foi apenas num espírito científico, para ver até aonde ia a perversidade da tua conscienciazinha. E olha que era bem perversa.

— Eu não aceito...

— Se me fosse permitida uma pausa na conversa — propus. — Só quero salientar a enorme diferença entre o então e o agora. Então, éramos ambos vítimas dos magos. De acordo? Ótimo. Mas agora, um de nós... i. e. moi* — bati no meu peito castanho nu — continua a ser uma vítima, continua a ser um escravo. Quanto à outra... passou-se para o lado de lá.

 

* Em francês no original: eu. (NT)

 

A garota abanou a cabeça.

— Não.

— É uma vira-casacas...

— Não sou...

— Uma traidora que apunhala pelas costas...

— Bartim...

— Uma traidora falsa, oportunista, traiçoeira e conivente, que se encarregou de aumentar os meus anos infindos de escravidão! Que se propôs aprender as malditas artes, sem incitamento e sem coerção! O mesmo não se pode dizer de Nathaniel e dos restantes; eles não tiveram qualquer voto na matéria. A maior parte deles foi transformada em magos antes mesmo de ter idade para saberem no que estavam se metendo! Mas você... você podia ter seguido uma dúzia de caminhos diferentes. E preferiu escravizar Bartimaeus, Sakhr al-Jinni, a Serpente das Plumas de Prata, o guardião com mandíbulas de lobo dos Iroqueses.** E, na tua arrogância, acha que não vou te fazer nenhum mal! Bem, deixe que te diga, minha menina, que me subestima por tua conta e risco! Sou mestre em mil truques, em cem armas! Posso... Au!!!

 

** Tribo americana do Sul do Canadá. (NT)

 

De uma forma bastante acalorada, fora ornamentando a minha argumentação com uma série de pancadas bruscas com os dedos, um dos quais se excedeu e tocou no giz vermelho do meu pentagrama. A minha essência foi repelida com uma pequena explosão de faíscas amarelas: fui completamente levantado e arremessado para trás, pedalando freneticamente a meio do ar para evitar atravessar a linha para o outro lado. Com uma agilidade, fruto do desespero, consegui, e caí por terra com o rosto enegrecido e a tanga rasgada

A garota ponderou a última parte com um trejeito de boca em reprovação.

— Tch — disse. — Voltamos à estaca zero.

Compus delicadamente os fragmentos da tanga.

— A questão subsiste. Chamando-me, redefiniu os nossos papéis. Não pode existir nada senão ódio entre nós.

— Oh, que absurdo — contrapôs ela. — Havia outra forma de conseguir te trazer aqui? Não vou te escravizar, seu idiota. Queria discutir algo contigo, de igual para igual.

Arqueei o que restava das minhas sobrancelhas.

— Dificilmente exeqüível. Os ácaros conferenciam com os leões?

— Oh, pare de ser desdenhoso. Afinal, quem é Nathaniel?

Olhei-a, na dúvida.

— Quem? Nunca ouvi falar dele.

— Acabou de se referir a alguém chamado Nathaniel.

— Não, não, deve ter ouvido mal. — Mudei rapidamente de assunto: — De qualquer modo, toda a idéia é absurda. Não pode existir igualdade entre humanos e djinn. Você é jovem e tola, por isso talvez não devesse ser muito duro contigo, mas a noção é disparatada. Eu conheci cem amos ao longo de cinco mil anos, e quer os pentagramas deles tivessem sido desenhados na areia do deserto quer na turfa da estepe, a inimizade entre mim e os meus invocadores foi enorme e duradoura. Sempre foi assim. E sempre assim será.

Terminei em tons ressoantes e plangentes que não permitiam qualquer argumento. Ecoaram dramaticamente de um lado para o outro na sala vazia. A garota compôs o cabelo.

— Isso é uma completa tolice — disse. — E Ptolomeu?

 

Kitty percebeu logo que a sua teoria estivera certa. A reação do djinni disse-lhe. Desde o acidente nas margens do pentagrama, o rapazinho egípcio ficara de frente para ela, o peito e o queixo espetados, as mãos movendo-se de um lado para o outro para ilustrar de uma forma expansiva as suas afirmações e compor ocasionalmente a tanga. Porém, assim que ela falou, toda a sua fanfarronada e bravata cessaram de imediato. Invadiu-o uma enorme quietude: o rosto ficou completamente estático, o corpo absolutamente transfixo, como se de certa forma preso no tempo. Apenas os olhos se moveram: lenta, muito lentamente, as pupilas deslizaram para se virem fixar nela. Os olhos do rapaz sempre tinham parecido escuros — mas agora estavam completamente negros. Sem querer, Kitty acabara por fitá-los: era como se olhasse para um céu noturno limpo — todo preto, frio e infinito, com minúsculas luzinhas a brilhar, inalcançáveis e distantes... Era terrível e, no entanto, belo; foi atraída para ele como uma criança para uma janela. Estivera seguramente sentada no centro do seu pentagrama. Agora descruzara parcialmente as pernas e inclinara-se para frente, apoiando-se num braço, estendendo o outro, aproximando-o lentamente dos olhos, da sua solidão e vazio. As pontas dos dedos tremiam por cima das orlas do seu círculo; suspirou, hesitou, estendeu o braço...

O rapaz pestanejou, as suas pálpebras abrindo-se rapidamente como as de um lagarto. Quebrara-se o encanto. A pele de Kitty arrepiou-se; a sua mão recuou. Encolheu-se no centro do círculo, suor fresco a perolar-lhe a testa. E o rapaz continuava sem se mexer.

— O que presume — disse uma voz — saber a meu respeito?

Ecoou ao redor dela — não ruidosamente, mas muito próximo mesmo — uma voz diferente de qualquer outra que tivesse ouvido antes. Falou em inglês, mas a inflexão era estranha, como se a língua achasse o idioma desconhecido e estranho; soou perto, mas também nem tanto, como se arrastada de alguma distância incalculável.

— O que é que você sabe? — repetiu a voz, mais baixo do que antes. Os lábios do djinni não se mexeram, os olhos pretos cravados nela. Kitty encolheu-se toda no chão, a tremer, os dentes cerrados. Algo na voz a desarmou, mas o quê? Não falara violentamente, ou propriamente com raiva. Mas era uma voz de poder de um lugar longínquo, uma voz terrível de comando, e era ao mesmo tempo também uma voz de criança.

Ela baixou a cabeça e abanou-a sem falar, olhando para o chão.

— DIGA-ME! — Agora havia fúria na voz; quando falou, soou um estrondo enorme na sala, um trovão que sacudiu a janela e se repercutiu pelas tábuas do assoalho, fazendo saltar bocados de estuque apodrecido das paredes. A porta fechou-se com força (mas ela não a abrira, nem a vira abrir-se); a janela estilhaçou-se e caiu. Ao mesmo tempo, levantou-se uma ventania em volta da câmara, que rodopiou ao redor dela, cada vez mais depressa, levando pelo ar as taças de rosmaninho e madeira de sorveira, atirando-as de encontro às paredes, levando o livro e os castiçais, a sacola e o casaco dela, levando-os para cima e para baixo em volta da sala, assobiando e gemendo, girando, girando, girando até ficarem turvos. E agora as próprias paredes também se moviam, saindo dos encaixes no chão e juntando-se à dança frenética, fazendo saltar os tijolos enquanto rodavam, sempre em espiral por debaixo do teto. E por fim o teto desapareceu, e a imensidão do céu noturno surgiu lá em cima, com as estrelas e a Lua a rodarem e as nuvens a serem arrastadas em pálidos fios brancos que dispersaram em todas as direções, até os únicos pontos em todo o universo serem Kitty e o rapaz dentro dos seus círculos.

Kitty tapou os olhos com os dedos e enterrou a cabeça entre os joelhos.

— Por favor, pare! — exclamou. — Por favor!

E o tumulto cessou.

Abriu os olhos; não viu nada. As suas mãos continuavam fixas no rosto.

Com um cuidado hirto e doloroso, levantou a cabeça e baixou as mãos. A sala estava exatamente como antes, como sempre estivera: porta, livro, castiçais e janela, paredes, teto, chão; para lá da janela, um céu plácido. Estava tudo silencioso, exceto... O rapaz no pentagrama em frente movia-se agora, flexionando as pernas lenta, lentamente — depois sentando-se com súbita finalidade, como se toda a energia o houvesse abandonado. Estava de olhos fechados. Passou penosamente uma mão pela frente do rosto.

Olhou então para ela, e os olhos, embora escuros, haviam perdido o vazio anterior. Quando falou, a sua voz voltara ao normal, mas soava cansada e triste.

— Quando chama os djinn — disse-lhe —, chama também a sua história. É prudente manter as situações firmemente no presente, por receio do que possa despertar.

Com enorme dificuldade, Kitty fez um esforço para se sentar direita e de frente para ele. Tinha o cabelo molhado da transpiração; passou uma mão por ele e limpou a testa.

— Não havia necessidade daquilo. Eu apenas mencionei...

— Um nome. Devia saber o que os nomes são capazes de fazer.

Kitty pigarreou. O primeiro acesso de medo estava passando, para ser substituído por uma sensação lacrimejante. Reprimiu-a.

— Se está tão interessado em manter a situação no presente — engoliu furiosamente em seco —, por que insiste em usar... a sua forma?

O rapaz ficou carrancudo.

— Hoje está inteligente demais para o meu gosto, Kitty. O que te leva a pensar que uso o aspecto de alguém? Mesmo no meu estado enfraquecido, posso pôr o aspecto que me apetecer.

Sem se mexer, mudou de forma uma, duas, meia dúzia de vezes, cada uma mais surpreendente do que a anterior, cada uma sentada exatamente na mesma posição dentro do círculo. Terminou com um roedor gigante qualquer, gordo e peludo, com as patas traseiras cruzadas e as dianteiras entrelaçadas de irritação. Kitty nem pestanejou.

— Sim, mas normalmente não anda por aí como um hamster de tamanho gigante — replicou. — Volta sempre ao mesmo garoto escuro de tanga. Porquê? Porque significa alguma coisa para você. Isso é óbvio. É alguém importante do teu passado. Só tive de descobrir quem foi.

O hamster lambeu uma pata rosada e alisou um tufo de pêlo atrás de uma orelha.

— Não reconheço qualquer fundo de verdade nessas afirmações rebuscadas — disse. — Mas estou curioso. Como conseguiu chegar lá? O rapaz podia ter sido qualquer um.

Kitty anuiu.

— É verdade. Aconteceu assim. Depois do nosso último encontro, fiquei com muita vontade de voltar a falar contigo. Só sabia o teu nome... ou um deles... Bartimaeus. Que até foi bastante difícil, visto nem sequer saber como se escrevia. Mas sabia que se procurasse intensamente, você acabaria por aparecer em algum lugar nos registros históricos. E então comecei a estudar. Mantive-me atenta a qualquer menção tua.

O hamster anuiu com modéstia.

— Imagino que não tenha demorado muito. Deve haver um sem-fim de referências aos meus feitos.

— Na verdade, levei quase um ano a encontrar uma ínfima menção. Obtive os nomes de muitos outros demônios, de todos os tipos aqui e ali entre os livros de bibliotecas. Nouda, o Terrível, surgia constantemente, assim como um afrit chamado Tchue, e algo chamado Faquarl também foi famoso numa dúzia de culturas. E depois apareceu finalmente; uma menção fugaz numa nota de rodapé.

O hamster eriçou-se.

— O quê? Em que livros procurou? Todos os melhores deviam estar requisitados. Uma nota de rodapé! — continuou a murmurar de indignação para o seu pêlo.

— O meu problema — apressou-se Kitty a dizer — foi você não ser sempre conhecido como Bartimaeus, por isso, mesmo que tivesse menções muito importantes e quilométricas, eu não conseguia encontrar. Mas a nota de rodapé ajudou-me, sabe, porque associou o nome que eu conhecia: Bartimaeus de Uruk, a dois outros: Sakhr al-Jinni (não era o teu outro nome persa?) e Wakonda dos Algonquinos. Depois, consegui encontrar mais referências a você aqui e al... quer dizer, onde quer que procurasse. E assim continuei. Fiquei a conhecer algumas das tuas tarefas e empresas, e descobri os nomes de vários dos teus amos, o que também foi interessante.

— Bem, espero que tenha ficado impressionada — disse o hamster. Ainda parecia bastante agastado.

— Claro — prosseguiu Kitty. — Muito. Você falou realmente com Salomão?

O hamster resmungou.

— Sim, sim, apenas uma conversinha breve. — Mesmo assim, parecia um pouco aplacado.

— Entretanto — continuou Kitty —, ia apreendendo a arte do chamado. O meu mestre era bastante lento e eu mais lenta ainda, receio bem, mas gradualmente fui chegando à fase em que sentia que poderia te chamar. Mas continuava a não ter qualquer pista quanto à identidade deste rapaz, o que era uma pena, porque eu sabia que ele era importante para você. E de repente, descobri a pista vital! Descobri o teu nome egípcio, Rekhyt, e associei-o ao do mago Ptolemaeus. — Calou-se, sorrindo com ar vitorioso.

— Mesmo assim — afirmou o hamster —, de que te adiantou isso? Tive centenas de amos, e quer os seus pentagramas tenham sido desenhados na areia ou na estepe, a inimizade...

— Sim, sim. — Kitty não deixou que o hamster continuasse a falar. — A questão era exatamente essa. Um relato mencionava uma ligação estreita entre este Ptolemaeus e os seus escravos. Mencionava igualmente que era apenas um rapaz quando morreu. Foi então que se fez luz em mim. Foi então que me apercebi da identidade do teu aspecto preferido.

O hamster estava entretido a limpar uma das unhas da pata traseira.

— E que pormenores — perguntou como se não tivesse grande importância — poderia o relato ter fornecido sobre a relação entre o djinni e o rapaz? Só por curiosidade, percebe.

— Poucos — admitiu Kitty. — Na realidade, nenhum. Não creio que ainda se saiba muito sobre Ptolemaeus como pessoa. Alguns dos seus escritos sobreviveram, creio. Mencionavam uma coisa chamada o «Portão de Ptolomeu», o que quer que isso seja...

Calou-se. O hamster olhava pela janela para a Lua à meia-noite. Acabou por virar a cabeça para ela, e quando o fez, retomara a forma familiar do rapaz-mago, Ptolomeu de Alexandria.

— Chega — disse o rapaz. — O que pretende de mim?

Agora que o seu palpite fora confirmado, Kitty tinha percepção de que o aspecto do djinni mudara por completo. Era algo curioso e desconcertante compreender que estava a olhar para o rosto de um rapaz real, morto há dois mil anos. Anteriormente, encarara o aspecto apenas como uma máscara, um vestuário, uma ilusão entre muitas. Naquele momento, apesar de admitir que aquilo também era verdade, não podia deixar de sentir a presença antiga. Não tinha a menor dúvida de que o demônio estava a reproduzir rigorosamente o rapaz: pela primeira vez, reparou em duas verrugas no pescoço castanho magro, uma cicatriz um pouco pálida que passava por baixo do queixo, uma ossatura particular dos cotovelos nos braços esguios. Havia aqui uma dedicação ao pormenor que só podia provir do afeto genuíno, ou talvez mesmo do amor.

Esse conhecimento deu-lhe confiança para prosseguir.

— Está bem — disse ela —, eu conto. Mas primeiro quero repetir: não vou te escravizar. Independentemente da tua resposta, o libertarei.

— Isso é muito generoso da tua parte — retorquiu o rapaz.

— Só quero que escute com imparcialidade tudo o que tenho a dizer.

— Bem, se começar mesmo, sou capaz de fazer um esforço. — O djinni cruzou os braços. — No entanto, vou dizer uma coisa que abona a teu favor — prosseguiu, meditabundo. — Em todos os séculos de fardo, nem um só mago se interessou o suficiente para me fazer perguntas sobre este aspecto. Por que haveria de fazê-lo? Sou um «demônio», e por conseguinte, propositadamente perverso. Não tenho outros motivos senão a malvadez e a tentação. Devido a um medo geral e a um desejo de conservação da própria vida, nunca me perguntam nada sobre mim mesmo. Mas você o fez. Andou a procura. Não a chamaria de inteligente, porque é humana, mas, no fundo, não foi um esforço nada mau. Por isso — agitou uma mão régia —, dispara.

— Certo. — Kitty instalou-se confortavelmente. — Não sei se reparou, mas as coisas têm ido de mal a pior em Londres. Os magos começam a perder o controle. Os comuns são mandados para fora lutar, o comércio está a ser afetado. Há muito mais pobreza, e isso leva à rotura; houve até tumultos em algumas cidades. E é grande o ressentimento em relação aos... demônios.

— Tal como previ da última vez que falamos — frisou o djinni. — As pessoas começam a reparar nos espíritos e revelam também a sua resiliência. Irão explorar as possibilidades, depois começam a responder.

Kitty anuiu.

— Mas os magos estão a reagir: a polícia persegue-nos, há violência, as pessoas são detidas e desaparecem misteriosamente, coisas ainda piores do que isso.

— Acontece — comentou o rapaz.

— Acho que os magos estão preparados para cometer atos terríveis — prosseguiu Kitty —, a fim de permanecerem no poder. Existem muitos grupos secretos de comuns, mas são fracos, estão divididos. Nenhum tem força suficiente para fazer frente ao governo.

— Chegarão lá — disse o djinni. — A seu tempo.

— Mas quanto tempo mais? Essa é a questão.

— Quer um cálculo por alto? — O rapaz inclinou a cabeça, pensando. — Acho que será daqui a duas gerações. Digamos cinqüenta anos. A resiliência poderá então atingir os níveis necessários para uma revolta ser bem-sucedida. Cinqüenta anos não é muito mau. Com sorte, talvez a veja acontecer quando for uma avó velhinha e querida a balançar bebês grandes e gordos nos joelhos. Na verdade — levantou uma mão, interrompendo o grito de protesto de Kitty —, não, está errado. A minha projeção está incorreta.

— Ainda bem.

— Você nunca será uma avó velhinha e querida. Melhor dizendo, «uma velha ranzinza, triste e solitária».

Kitty deu um murro no chão.

— Cinqüenta anos não chegam! Quem sabe o que os magos terão feito nesse meio tempo? Toda a minha vida terá acabado! Provavelmente estarei morta quando se der a revolução.

— É verdade — afirmou o rapaz. — Mas eu ainda andarei aqui para assistir. Estarei exatamente na mesma.

— Sim. — Kitty falou com cinismo. — Sorte a sua, não?

— Acha mesmo? — O rapaz baixou o olhar para a sua forma de pernas cruzadas. Estava sentado de costas eretas, as pernas cuidadosamente colocadas à maneira de um escriba egípcio. — Ptolomeu morreu há dois mil cento e vinte e nove anos — afirmou. — Tinha catorze anos. Oito impérios mundiais surgiram e caíram desde esse dia, e continuo a usar o rosto dele. Quem é que você acha que é sortudo?

Kitty não respondeu. Por fim, perguntou:

— Por que faz isso? Quer dizer, assume a forma dele.

— Porque prometi a mim mesmo — explicou o djinni. — Estou a mostrá-lo como era. Antes de mudar.

— Mas julguei que ele nunca tivesse crescido — argumentou Kitty.

— Não. Tem razão. Não cresceu.

Kitty abriu a boca para fazer uma pergunta, mas abanou antes a cabeça.

— Estamos a desviar-nos do assunto — frisou com firmeza. — Não posso ficar de braços cruzados enquanto os magos fazem mais coisas malvadas; a vida é muito curta. É necessário agir agora. Mas nós: o povo, os comuns, não podemos depor o governo sozinhos. Precisamos de ajuda.

O rapaz encolheu os ombros.

— É muito possível que sim.

— Por isso, a minha idéia, ou a minha proposta, na verdade — disse Kitty —, é que os djinn e outros espíritos nos dêem essa ajuda. — Recostou-se.

O rapaz olhou para ela.

— Repita.

— Vocês ajudarem-nos. Afinal, como acabou de dizer, aqui somos todos vítimas, tanto os djinn como os comuns. Os magos subjugam-nos do mesmo modo, quer sejamos humanos quer espíritos. Por isso, temos de nos juntar para derrotá-los.

O rosto do rapaz não deixava transparecer nada.

— Assim sem mais nem menos?

— Bem, não vai ser fácil, claro. Mas deve haver uma maneira. Por exemplo, se comuns como eu chamarem djinn importantes como você, por que não podemos assumir o governo juntos? São necessárias algumas idéias, e o envolvimento de muitos mais... espíritos, mas teríamos a vantagem da surpresa, não teríamos? E seria muito mais eficaz se lutássemos como uma força igual: nem escravos, nem amos. Nem lutas entre nós próprios nem destruição mútua. Apenas cooperação tranqüila. Seríamos imbatíveis!

Inclinava-se agora para frente no pentagrama; os olhos vivos e brilhantes com a sua visão. O rapaz parecia também transfíxo; durante bastante tempo não respondeu. Por fim falou.

— Louca — disse. — Cabelo bonito, roupa bonita, mas completamente maluca.

Kitty contorceu-se de frustração.

— Tem de escutar...

— Alguns dos meus amos ao longo dos anos foram loucos — continuou o rapaz. — Tive fanáticos religiosos que espetavam os traseiros no espinheiro, imperadores de olhos mortiços que cometeram desapaixonadamente assassínios em massa, avarentos que cobiçaram tesouros escondidos. Tive um sem-número de outros que se maltratavam a si próprios e outros... Vocês são uma espécie perversa e pouco apetecível. Irei mesmo ao ponto de afirmar que a tua loucura em particular, Kitty, é menos nociva do que a da maioria, mas será a causa da tua morte, e da minha também, se não tiver cuidado, por isso vou ser muito sincero contigo. O que acabou de sugerir é ridículo de mil maneiras, e se fosse enumerar todas, ainda estaríamos aqui quando o Império Britânico finalmente acabasse por cair. Por isso, deixe-me escolher apenas duas. Nenhum djinni, nenhum afrit, nenhum marid espezinhador de cidades ou bichinho cocegador, jamais fará equipe (como você disse) com qualquer tipo de humano. Fazermos equipe... sinceramente! Está a ver-nos todos vestidos iguais ou assim, indo de mãos dadas para a batalha? — O rapaz soltou uma gargalhada: um som áspero, desagradável. — Não! Já sofremos muito para alguma vez encararmos um humano como aliado.

— Isso é mentira! — insurgiu-se Kitty. — Repito... e então Ptolomeu?

— Ele foi único! — O rapaz crispou os punhos. — Ele foi a exceção. Não o envolva nisto!

— Ele contraria tudo o que disse! — gritou Kitty. — Claro, seria difícil convencer a maior parte dos demônios, mas...

— Difícil? Não seria sequer possível!

— Isso foi o que me disse a respeito de saber o suficiente para te chamar. Mas eu consegui!

— Absolutamente irrelevante. Deixe-me te dizer uma coisa. Tenho estado aqui sentado, em amena palestra, a mostrar boas maneiras como convém a um djinni, mas a observar-te o tempo todo como um falcão, à espera de ver se põe nem que seja um dedo do pé de fora do círculo. Se o fizesse, cairia em cima de você em menos de um nada, e teria aprendido então algo sobre os humanos e os demônios, posso lhe garantir.

— Ah sim? — escarneceu Kitty. — Mas, ao invés disso, foi você que pôs o teu dedinho estúpido de fora e voou-te a saia. O que resume mais ou menos os teus últimos mil anos. Sozinho não vai longe, meu.

— Não me diga? — O rosto do rapaz estava lívido da fúria. — Bem, deixe-me passar à segunda razão do teu plano ser uma treta, pode ser? Mesmo que eu quisesse te ajudar, mesmo que uma centena de outros djinn quase tão poderosos quanto eu partilhasse esse sentimento e quisesse simplesmente tentar a sua sorte com os humanos desmiolados, não poderíamos. Porque a única maneira de podermos vir para a Terra é através do chamado. E isso significa perda do livre-arbítrio. Significa dor. Significa obedecer ao teu amo. E não existe igualdade nessa equação.

— Que absurdo — contrapôs Kitty. — Não tem que ser assim.

— É claro que tem. Qual é a alternativa? Cada chamado prende-nos. É o que eles fazem. Tentaria arranjar uma maneira de nos tirar a opressão? Com o nosso poder? Ficaria feliz em dar-nos controle?

— Claro — respondeu Kitty, orgulhosamente. — Se bastasse apenas isso.

— Não o faria! Nem daqui a um milhão de anos.

— Faria. Se existisse confiança, faria.

— Ah é? Bem, por que não o prova já? Sai do teu pentagrama.

— O quê?

— Ouviu-me perfeitamente. Saia, transpõe essas linhas. Sim, essas aí mesmo. Deixe-me ver essa tua confiança em ação, pode ser? Dá-me poder por um momento. Quero ver se é capaz de pô-lo em prática.

Assim que o disse, o rapaz pôs-se em pé, e dali a um nada Kitty fez o mesmo. Ficaram nos pentagramas opostos, a olhar um para o outro. Kitty mordeu o lábio. Sentia calor e frio ao mesmo tempo. Não teve intenção de seguir aquele rumo — a rejeição da proposta dela seguida de um desafio; não imaginara nada assim. O que fazer agora? Se interrompesse o chamado saindo do pentagrama, Bartimaeus poderia destruí-la antes de desaparecer. A sua resiliência não o impediria de dar cabo dela. Só de pensar, ficou com a carne a tremer debaixo das roupas.

Olhou para o rosto do rapaz há muito morto. Ele sorriu-lhe no que pretendia sem dúvida passar por um ar amigável, mas o olhar era duro e zombeteiro.

— Então? — perguntou. — O que me diz?

— Acabou de dizer — ela falou com a voz tomada — o que me faria se eu abandonasse as proteções. Disse que daria cabo de mim em menos de um nada.

O sorriso vacilou.

— Oh, esqueça aquilo. Eu estava blefando. Não precisa acreditar em tudo o que o velho Bartimaeus diz, não é? Estou sempre brincando, já me conhece. — Kitty não respondeu. — Vamos lá — continuou o rapaz —, não te farei nada. Coloque-se no meu lugar por um instante. Ficaria surpreendida. Deposite a tua confiança em mim.

Kitty passou a ponta da língua seca pelo lábio inferior. O rapaz sorriu mais do que nunca; desenvolveu tamanho esforço que a superfície do seu rosto ficou tensa e repuxada. Ela olhou para as marcas de giz no chão, depois para o seu pé, a seguir de novo para o giz.

— É esse o bilhete — disse o rapaz.

De repente, Kitty percebeu de que se esquecera de respirar. Expirou violentamente.

— Não — arfou. — Assim não vamos a lugar nenhum.

Os olhos escuros observavam-na, a boca uma linha súbita.

— Bem — o djinni falou com azedume —, tenho de admitir que não acalentava grandes esperanças.

— Não tem a ver com a confiança — redargüiu, mentindo. — É que você ia simplesmente desmaterializar-se. Não pode ficar na Terra sem o poder do chamado, e eu não tenho a energia para voltar a te chamar neste momento. A questão é — continuou desesperadamente —, que se você e os outros djinn unissem forças comigo, poderíamos derrotar os magos e impedi-los de chamá-los. Depois de termos derrotado a todos, vocês nunca mais voltariam a ser chamados.

O djinni resfolegou.

— Não tenho tempo para fantasias, Kitty. Ouça a si mesma; nem mesmo você acredita numa palavra do que está a dizer. Bem, se é tudo, agora já podia dispensar-me. — O rapaz virou-lhe as costas.

Ante isto, brotou em Kitty uma fúria enorme. Surgiram diante dos seus olhos lembranças dos últimos três anos; voltou a sentir o esforço enorme que fora preciso para chegar até ali. E agora, este espírito altivo e de vistas curtas estava a rejeitar de cara as idéias dela. Nem sequer lhes dera um momento de merecida ponderação. Certo, os pormenores tinham de ser trabalhados; havia muitas questões por resolver, mas era sem dúvida possível e necessária uma certa cooperação. Sentiu-se à beira das lágrimas, mas repeliu furiosamente a sensação. Bateu o pé, fazendo vibrar o chão.

— Portanto — disse com rispidez —, esse estúpido rapaz egípcio servia para você, não é? Depositou nele a tua confiança, todo satisfeito. Por que não em mim? O que ele fez por você que eu não fizesse? Ou sou muito inferior para conhecer os seus grandes feitos? — Falara com azedume, de uma forma selvagem, o desprezo pelo demônio a subir como bílis dentro dela.

Ele não se virou para olhá-la. O luar incidia nas suas costas nuas e membros magrinhos.

— Para começar, porque ele me seguiu até o Outro Lugar.

Kitty encontrou finalmente a voz.

— Mas isso é...

— Não é impossível. Só não se faz.

— Não acredito.

— Você não tem de acreditar. Mas Ptolemaeus acreditou. Também o desafiei a provar a sua confiança em mim. E foi exatamente o que ele fez: concebendo o Portão de Ptolomeu. Atravessou os quatro elementos para me procurar. E pagou o preço, tal como calculava. Depois disso... bem, se ele tivesse proposto uma união estouvada entre comuns e djinn, eu era capaz de ter aceitado. Não havia limite para a nossa ligação. Mas por você, por melhores que sejam as tuas intenções...? Lamento, Kitty. Não me parece.

Olhou para as costas dele, sem dizer nada. Por fim, o rapaz virou-se, o seu rosto escondido na sombra.

— O que Ptolomeu fez foi único — disse de mansinho. — Não o pediria a mais ninguém, nem mesmo a você.

— Mas isso o matou? — inquiriu. Ele suspirou.

— Não...

— Nesse caso, que preço...?

— A minha essência está um pouco vulnerável hoje — desculpou-se Bartimaeus. — Ficaria grato se pudesse manter a tua palavra e me deixasse ir embora.

— Vou cumprir. Mas acho que poderia ficar e conversar mais um bocadinho. O que Ptolomeu fez não tem de ser único. Naturalmente é porque ninguém desde então sabe muito sobre essa coisa do Portão.

O rapaz soltou uma gargalhada curta.

— Oh, acredite que sabem. Ptolomeu escreveu sobre a sua viagem; algumas das suas notas sobreviveram. Como você, também ele referiu muitos absurdos a respeito de uma trégua entre magos e djinn. Esperava que outros seguissem o seu exemplo, corressem o mesmo risco que ele. E, ao longo dos anos, alguns chegaram mesmo a tentar, mais por ganância e sede de poder do que o idealismo dele. Tiveram azar.

— Porquê?

Não chegou nenhuma resposta; o rapaz desviou o olhar.

— Pronto, não diga nada — gritou-lhe. — Não quero saber. Eu mesma vou ler as notas de Ptolomeu.

— Oh, agora sabe grego antigo? — Riu-se da expressão no rosto dela. — Não fique preocupada com isso, Kitty. Ptolomeu já morreu há muito tempo, e o mundo moderno é escuro e complicado. Mas você não entende isso. Cuida de ti e sobrevive. É o que eu faço. — Espetou um dedo na sua carne. — Ou tento fazer. O Mandrake quase me matou há pouco.

Kitty respirou fundo. Lá embaixo, em algum canto cheio de livros da sua moradia degradada, Mr. Button dormia; na manhã seguinte esperava encontrá-la bem cedo para começar a coligir novos documentos. À noite estaria em The Frog mais uma vez, ajudando a reparar o bar, servindo bebidas a comuns passivos... Sem o seu plano secreto a movê-la, estas perspectivas pareciam realmente fastidiosas.

— Não preciso dos teus conselhos — respondeu bruscamente. — Não preciso de nada de ti.

O rapaz levantou a cabeça.

— Bem, desculpe se te decepcionei um pouco — afirmou —, mas era preciso deixar tudo bem definido. Sugiro...

Kitty fechou os olhos e proferiu a ordem. Hesitante a princípio, depois muito rapidamente — sentiu uma violência súbita dentro de si: queria livrar-se dele, acabar com aquilo.

O ar moveu-se em volta do rosto dela, a fumaça de vela encheu-lhe as narinas, a voz do demônio recuou até desaparecer. Não precisou de olhar para saber que ele desaparecera, e com ele três anos inteiros de esperanças e sonhos seus.

 

A meio caminho da sua mansão depois de ter saído da casa de Quentin Makepeace, John Mandrake deu uma ordem brusca. O motorista escutou, levou a mão ao boné e efetuou inversão de marcha no tráfego intenso. Seguiram a toda a velocidade para Chiswick.

A noite caíra. As janelas de The Frog Inn estavam escuras e com as persianas fechadas, a porta trancada. Fora afixado na porta um aviso tosco, escrito à mão.

 

       O FUNERAL DE SAM WEBBER

       REALIZA-SE HOJE

       ESTAMOS FECHADOS

       REABRIMOS AMANHÃ

 

Mandrake bateu repetidamente, mas não obteve resposta. O vento soprava com rajadas ao longo do Tamisa acastanhado e cinzento; nos seixos, gaivotas disputavam detritos depositados pela maré. Uma esfera de vigilância vermelha no pátio pulsou quando ele partiu. Mandrake deu-lhe um olhar carrancudo, e regressou ao centro de Londres.

O assunto de Kitty Jones podia esperar. O de Bartimaeus, porém, é que não.

Todos os demônios mentiam: era um fato incontestável. Por isso, na verdade, Mandrake não deveria ter-se surpreendido particularmente por seu escravo não constituir exceção. Mas quando soubera que Bartimaeus escondera a sobrevivência de Kitty Jones, o choque afetara-o profundamente.

Porquê? Em parte, por causa da imagem que criara da Kitty há muito morta. Durante anos, o rosto dela vogara na sua memória, sob a atenção de um fascínio com sabor de culpa. Ela fora sua inimiga mortal, no entanto, sacrificara-se por ele; fora um gesto que Mandrake dificilmente conseguia compreender, mas as suas estranhezas, juntamente com a juventude dela, haviam assumido um encanto agridoce que nunca deixara de enternecê-lo. A perigosa lutadora da Resistência que ele perseguira tanto tempo antes, havia-se tornado, nos lugares silenciosos e secretos da sua mente, algo puro e pessoal, uma bela reprimenda, um símbolo, um remorso... Muitas coisas, na verdade, todas há muito retiradas da garota original, viva e de saúde.

Mas se ela estava viva...? Mandrake sentiu uma dor forte. Era a sensação causada pela destruição deste refúgio íntimo e tranqüilo, por um acesso súbito de perplexidade e lembranças renovadas do passado real e confuso; por ondas de raiva e incredulidade. Kitty Jones deixara de ser uma imagem particular na sua cabeça — o mundo reclamara-a. Sentia-se quase roubado.

E Bartimaeus mentira-lhe. Por que o fizera? Para mortificá-lo, com certeza, mas isto não parecia razão suficiente. Bom, nesse caso, para proteger Kitty. Mas isso pressupunha uma cumplicidade entre a garota e o djinni, algum tipo de laço. Seria possível? Mandrake sentiu com uma certeza despeitada na boca do estômago, que efetivamente era assim; a noção serpenteava e deslizava dentro de si, lá ao fundo.

Se o motivo da mentira do djinni era difícil de sondar, o momento da revelação não podia ter sido mais amargo, ocorrendo tão pouco depois de Mandrake ter posto em risco a sua carreira para salvar a vida do servo. Os seus olhos chisparam ao recordar o ato; a sua tolice veio sufocá-lo.

A meia-noite, na solidão do seu gabinete de trabalho, efetuou o chamado. Haviam decorrido vinte e quatro horas desde que dispensara a rã; não sabia se entretanto a essência de Bartimaeus teria sarado. Também já não lhe interessava. Estava de pé, muito rígido, as mãos tamborilando incessantemente na escrivaninha diante de si. E ficou à espera.

O pentagrama permanecia frio e silencioso. A fórmula encantatória ecoava na sua cabeça.

Mandrake umedeceu os lábios. Tentou de novo.

Não efetuou uma terceira tentativa, sentando-se pesadamente na cadeira de couro, procurando reprimir o pânico que brotava dentro dele. Não podia haver qualquer dúvida: o demônio já estava no mundo. Mais alguém o chamara.

Os olhos de Mandrake incandesciam no escuro. Devia ter previsto isto. Um dos outros mago havia ignorado o risco para a essência do djinni e tentara descobrir o que ele sabia sobre a conspiração de Jenkins. Pouco importava quem era. Fosse Farrar, Mortensen, Collins ou outro, a situação estava muito negra mesmo para Mandrake. Se Bartimaeus sobrevivesse, revelaria sem dúvida o nome próprio de Mandrake. É claro que o faria! Já traíra o amo uma vez. Depois os inimigos dele enviariam os seus demônios, e ele morreria, sozinho.

Não tinha aliados. Não tinha amigos. Perdera o apoio do primeiro-ministro. Dentro de dois dias, se sobrevivesse, seria julgado perante o Conselho. Estava entregue a si mesmo. Era verdade que Quentin Makepeace lhe oferecera o seu apoio, mas provavelmente Makepeace estava louco. Aquela experiência dele, aquele prisioneiro a contorcer-se... A lembrança repugnava John Mandrake. Se conseguisse salvar a sua carreira, tomaria medidas para acabar com atividades tão grotescas. Mas não se podia dizer que fosse essa a sua prioridade de momento.

A noite avançou. Mandrake ficou sentado à escrivaninha, a pensar. Não dormiu.

Com o tempo e o cansaço, as preocupações que o assaltavam começaram a perder a clareza. Bartimaeus, Farrar, Devereux e Kitty Jones, o Conselho, o julgamento, a guerra e as suas infinitas responsabilidades — tudo se misturava e bailava diante dos seus olhos. Sentiu uma enorme vontade de abandonar tudo, livrar-se como se de roupas fétidas e molhadas, e afastar-se, nem que fosse por um momento.

Ocorreu-lhe uma idéia, louca, impulsiva. Foi buscar a sua bola de cristal, e ordenou ao diabrete que localizasse uma certa pessoa. Ele assim fez, rapidamente.

Mandrake levantou-se da cadeira, consciente da estranha sensação. Algo arrastado do passado — quase uma tristeza. Causava-lhe inquietação, mas também era agradável. Acolheu-a, apesar de deixá-lo constrangido. Principalmente, não era da sua atual vida — não tinha nada que ver com eficiência ou eficácia, com reputação ou com poder. Não se conseguia libertar do desejo de voltar a ver o rosto dela.

Primeira claridade: os céus estavam como chumbo, e as calçadas escuras e cheias de folhas. O vento deslocava-se por entre os ramos das árvores e à volta da flecha rígida do memorial da guerra no centro do parque. A gola do casaco da mulher estava encostada ao rosto. Quando se aproximou em passos rápidos caminhando junto à rua, a cabeça baixa, a mão a agarrar o lenço, Mandrake não a reconheceu à primeira vista. Era menor do que se recordava, tinha o cabelo mais comprido e salpicado de alguns brancos. Mas depois, eis um pormenor familiar: o saco onde transportava as canetas — velho, maltratado, reconhecível como tal. O mesmo saco! Abanou a cabeça, maravilhado. Podia comprar-lhe um novo — uma dúzia deles — se ela o desejasse.

Aguardou no carro até ela estar quase ao mesmo nível, na dúvida até o último momento se deveria realmente sair. As botas dela dispersavam as folhas, contornava cuidadosamente as poças mais fundas, caminhando com celeridade devido ao frio e à umidade no ar. Não tardaria a passar por ele...

Detestou-se pela hesitação. Abriu a porta do lado da rua, saiu e avançou para interceptá-la.

— Ms. Lutyens.

Via-a sobressaltar-se e os olhos virarem-se para avaliá-lo e ao carro preto brilhante estacionado atrás. Deu mais dois passos hesitantes, acabou por parar, na dúvida. Ficou a olhá-lo, um braço pendendo inerte ao lado do corpo, o outro junto à garganta. A voz dela, quando saiu, foi fraca... e, percebeu, bastante assustada.

— Sim?

— Poderia dar-lhe uma palavra? — Escolhera usar um tom mais formal do que era sua vontade. Não precisava propriamente de fazê-lo, mas percebeu que queria causar a melhor impressão. Da última vez que ela o vira, não passava de um rapaz humilhado.

— O que pretende?

Ele sorriu. Ela estava muito na retranca. Sabia-se lá o que lhe ia na cabeça. Algum funcionário, que viera inquiri-la sobre os impostos...

— Apenas conversar — disse ele. — Reconheci-a... e estava a pensar se... se me reconheceu.

O rosto dela estava pálido, ainda com a aflição estampada; franzindo as sobrancelhas, os olhos dela observaram os dele.

— Desculpe — começou —, eu não... Oh. Sim. Conheço. Nathaniel... — Hesitou. — Mas não creio que possa usar esse nome.

Ele esboçou um gesto elegante.

— É melhor ficar no esquecimento, sim.

— Sim... — Ficou a olhar para ele: o terno, os sapatos, o anel de prata, mas sobretudo o rosto dele. A observação durou mais do que ele contara, séria, intensa. Muito para sua surpresa, ela não sorriu, nem mostrou qualquer júbilo imediato. Mas evidentemente que o aparecimento dele fora repentino.

Ele pigarreou.

— Estava de passagem. Vi-a e... bem, já passou tanto tempo.

Ela anuiu, lentamente.

— Sim.

— Pensei que seria... Então como está, Ms. Lutyens? Como tem passado?

— Estou bem — respondeu, e depois, quase bruscamente: — Tem um nome por que me seja permitido tratá-lo?

Ele compôs um punho, sorriu vagamente.

— John Mandrake é o meu nome agora. É capaz de ter ouvido falar de mim.

Ela voltou a anuir, inexpressiva.

— Sim. Claro. Vejo que se está a se sair... bem.

— Sim. Agora sou Ministro da Informação. Nos últimos dois anos. Foi uma grande surpresa, pois era bastante jovem. Mas Mr. Devereux decidiu apostar em mim e — encolheu ligeiramente os ombros — aqui estou. — Esperara suscitar mais do que um breve aceno, mas Ms. Lutyens não mostrou efusividade. Com uma leve contrariedade na voz, prosseguiu: — Pensei que ficasse satisfeita ao constatar o bom resultado, depois... depois da última vez que nos vimos. Aquilo foi tudo muito... desagradável.

Estava a usar as palavras erradas, até aí percebia — a enveredar intencionalmente pela exposição comedida da sua vida ministerial, em vez de dizer exatamente o que lhe ia na mente. Talvez por esse motivo ela parecesse tão rígida e fria. Tentou novamente:

— Fiquei-lhe grato, era o que lhe queria dizer. Grato na altura. E ainda o estou agora.

Ela abanou a cabeça, carrancuda.

— Grato pelo quê? Eu não fiz nada.

— A senhora sabe... quando Lovelace me atacou. Daquela vez que ele me bateu, e a senhora tentou impedi-lo... nunca tive oportunidade de...

— Como diz, foi desagradável. Mas foi também há muito tempo. — Afastou uma madeixa do rosto. — Portanto, é Ministro da Informação? É o responsável por aqueles panfletos que distribuem nas estações?

Ele sorriu modestamente.

— Sim. Sou.

— Aqueles que nos dizem que estamos a travar uma bela guerra e que só os melhores jovens estão a se alistar para ela, que um homem tem a missão de partir para a América e lutar pela liberdade e a segurança? Aqueles que dizem que a morte é um preço justo a pagar pela sobrevivência do Império?

— Um bocadinho sucinto demais, mas é esse o cerne, creio.

— Ora, ora. Contribuiu muito para isso, Mr. Mandrake. — Olhava-o quase com tristeza.

O ar estava frio; o mago enfiou as mãos nos bolsos das calças e olhou para um lado e o outro da rua, procurando o que dizer.

— Não creio que normalmente volte a ver os seus alunos — disse — Isto é, depois de crescerem. Ver como se saíram...

— Não — concordou ela. — O meu trabalho é com as crianças. Não com os adultos em que se transformam.

— Efetivamente. — Olhou para o saco velho e maltratado dela, recordando o interior indefinido de cetim com as caixinhas de lápis, giz, canetas de tinta e pincéis chineses. — É feliz no seu trabalho, Ms. Lutyens? — perguntou-lhe de repente. — Quer dizer, feliz com o que ganha, e com a sua posição social e tudo isso? Pergunto-lhe, porque eu poderia, a senhora sabe, arranjar-lhe outro emprego se quisesse. Tenho influência, e poderia conseguir-lhe algo melhor do que isto. Há estrategistas no Ministério da Guerra, por exemplo, que precisam de pessoas com a sua experiência para desenhar pentagramas produzidos em massa para a campanha americana. Ou mesmo no meu ministério; criamos um departamento de publicidade para melhor transmitir a nossa mensagem às pessoas. Técnicos como a senhora seriam bem-vindos. É um bom trabalho, lida com informação confidencial. Poderia subir de posição social.

— Por «as pessoas», depreendo que queira dizer «os comuns»? — inquiriu.

— É o que lhes chamamos agora em público — concordou. — Eles parecem preferi-lo. Não significa nada, claro.

— Estou vendo — retorquiu com secura. — Bem, não; agradeço-lhe, mas estou muito bem assim. Tenho certeza de que nenhum dos seus departamentos quereria uma comum velha como eu enfiada no meio deles, e de qualquer forma, continuo a gostar bastante do meu trabalho. Mas não deixa de ser muito gentil da sua parte. — Levantou a manga do casaco e olhou para o relógio.

O mago bateu palmas.

— Tem de ir andando! — disse. — Ouça, por que não aceita a minha carona? O meu motorista pode levá-la a qualquer lugar. Evitaria andar como sardinha em lata num ônibus ou no metro...

— Não, obrigada. É muito gentil. — O rosto dela parecia de pedra.

— Muito bem, se é essa a sua perspectiva. — Apesar do ar gélido, ele sentia-se quente e irritadiço. Desejava ardentemente não ter saído do carro. — Bem, foi um prazer voltar a vê-la. Claro, tenho de lhe pedir que trate aquilo que sabe com a mais estrita confidência... Não que precise recomendar, tenho certeza — acrescentou, algo tolamente.

Ante isto, Ms. Lutyens olhou-o de uma maneira tal que ele se sentiu subitamente transportado de novo até o meio da sua vida, aos dias em que o raro descontentamento dela lançava uma sombra terrível na sala de aula. Apercebeu-se de que olhava para os sapatos.

— Acha mesmo — respondeu ela mordazmente — que vou querer contar ao mundo que uma vez o vi, o grande John Mandrake, o nosso querido Ministro da Informação, suspenso de cabeça para baixo com o rabo no ar? Que ouvi os seus gritos e lamentos de dor enquanto homens cruéis lhe batiam? Acha que eu contaria isto? É realmente esse o juízo que faz de mim?

— Não! Não é isso. Estava a referir-me ao meu nome...

— Oh, isso. — Soltou uma pequena gargalhada seca. — Talvez fique surpreendido se lhe disser — prosseguiu ela — que tenho maneiras muito melhores de ocupar o meu tempo. Sim, porque nem mesmo eu, com o meu trabalho estúpido e insignificante, tenho vontade de trair as crianças com quem trabalhei em tempos, independentemente daquilo que se tornaram. O seu nome próprio, Mr. Mandrake, está seguro comigo. Agora tenho de ir. Estou atrasada para o meu trabalho.

Virou-se, começou a afastar-se pela calçada. Ele mordeu o lábio, a raiva misturada com a confusão.

— Interpretou mal as minhas palavras — gritou. — Não vim aqui vangloriar-me de si. Só não tive oportunidade, na altura, de lhe agradecer...

Ms. Lutyens estacou, olhou para trás por cima do ombro. O rosto dela perdera a raiva.

— Não, acho que estou entendendo — disse. — E folgo muito em sabê-lo. Mas está equivocado. Quem me estava grato era o rapaz, e o senhor já não é esse rapaz. Não fala por ele. Nós não temos nada em comum, o senhor e eu.

— Queria dizer que sei que estava tentando salvar-me, e...

— Sim — disse ela —, e lamento não ter conseguido. Adeus, Mr. Mandrake. — Depois foi-se embora, afastando-se rapidamente dele por entre as folhas úmidas.

 

Mais algumas horas, mais um chamado — hum, assim é que eu gosto. Um dia sem escravidão é um dia perdido, pelo menos para mim.

Vejamos... Já tivera Mandrake. Já tivera a garota. Quem seria desta vez? Depois do aparecimento-surpresa de Kitty no pentagrama, estava desconfiado de que desta vez era o carteiro.

Não tive essa sorte. Era novamente o meu querido amo, de semblante muito carregado. Com uma lança com ponta de prata a postos na mão.

A intenção manifesta dele estimulou uma resposta rápida. Obriguei a minha pobre e velha essência a uma forma imponente: um guerreiro com cabeça de leão, daqueles que lutaram nas guerras do Egito.57 Escudo de couro, saia de bronze com buracos, olhos que brilhavam como cristal, presas grandes a sair ameaçadoras de gengivas pretas. Bonito. Estendi uma pata em aviso.

 

57 Tecnicamente, acho que era uma cabeça de leoa, visto faltar-me a juba. As jubas são muito espalhafatosas; certo, ajuda na pose, mas tapam por completo a visão lateral na batalha, e ficam todas pegajosas com o sangue acumulado.

 

— Nem sequer se atreva, valentão.

— Exijo respostas, Bartimaeus! Respostas! Caso contrário... vê esta lança? Obrigo-o a engoli-la antes de terminar. — As palavras saíram precipitadas da sua boca contorcida. Os olhos estavam arregalados e fitavam como um peixe. Parecia um bocado transtornado.

— Você? Você só reconheceria a extremidade pontiaguda se sentasse em cima dela. — A minha voz era suave como veludo. — Tenha cuidado, porém. Olha que eu não estou propriamente indefeso. — Saiu uma garra da minha pata almofadada, curva como uma lua crescente. Virei-a indolentemente, de modo a incidir-lhe a luz. Ele sorriu com ar desagradável.

— Ah, mas isso é só exibição, não é? Há dois dias nem sequer conseguia falar, quanto mais resistir a um ataque. Aposto que se te picar aqui com esta prata, verá o que é bom para a tosse. E também não poderá virá-la contra mim.58

 

58 Infelizmente, ele tinha razão. Se me tivesse aplicado uma fórmula de castigo, eu podia virá-la contra ele (uma grande vantagem de saber o nome próprio dele), mas neste momento não possuía tais defesas contra um golpe de lança de verdade, especialmente no meu presente estado debilitado.

 

— Quer apostar? — A leoa ergueu-se em toda a sua altura. As suas orelhas com tufos roçaram o teto. — Isso é que foram umas palavras grandiosas, desconhecido. Vamos, prove-as já.

Ele mostrou os dentes e desferiu um golpe fraco com a lança. A leoa desviou-se e raspou com a garra no cabo da lança. Foi uma exibição absolutamente patética: ambos estivemos muito longe de acertar.

— E que raio de estocada foi essa? — zombou a leoa, saltando ora numa pata ora na outra. — Mais parece um pardal cego tentando apanhar uma larva.

— Você também não foi melhor. — O mago arrastava-se de um lado para o outro dentro do pentagrama, abaixando-se, levantando-se, fintando com a lança em todas as direções conhecidas do homem. Chiava, arfava; exibia toda a perícia de alguém cujos criados é que normalmente lhe cortam a comida.

— Eh — disse eu. — Estou aqui. Na frente.

— Respostas, Bartimaeus! — voltou a gritar. — Diga-me a verdade! Sem delongas, sem evasivas. Quem te chamou?

Já esperava aquilo. Mas não podia dizer-lhe que Kitty ainda estava viva, claro. Por muito desorientada que ela estivesse, tratara-me com honra. A leoa pôs um ar manso.59

 

59 Uma analogia confusa, mas dá para entenderem.

 

— E quem disse que alguém me chamou?

— Eu digo e não o negue! Tentei a noite passada e tinha desaparecido. Quem foi? Com que mago esteve?

— Não fique tão aborrecido. Foi um breve encontro. Nada sério. Acabou.

— Nada sério? — Outra estocada com a lança, desta vez furando o assoalho. — Acha que vou acreditar nisso?

— Acalme-se, seu ciumento. Está fazendo uma cena.

— Quem foi? Homem ou mulher?

Procurei mostrar-me animado.

— Olha, sei o que está pensando, e não o fiz. Está bem assim para você?

— Não! Está esperando que eu acredite numa palavra do que disser?

Lá se foi a confiança. A leoa retomou o descaramento insolente.60

 

60 Novamente confuso. Desculpem aí.

 

— Então, pronto; acredite nisso: vai te catar. Não é da tua conta. Não te devo nada.

O rapaz estava tão furioso que achei que a roupa dele fosse rasgar de repente. Era o medo nele, claro; o medo de que eu divulgasse o seu nome.

— Ouça, filho — disse eu. — Eu nunca divulgo informação de um amo a outro, a menos que seja do meu interesse, por isso não espere que vá te revelar algo sobre a noite passada. Do mesmo modo, não contei a ninguém o teu nomezinho próprio patético. Por que haveria de fazê-lo? Não significa nada para mim. Mas, se está tão preocupado que eu possa revelar os teus segredos de infância, há uma solução simples. Dispense-me de vez! Mas não... não é capaz de fazê-lo, não é? Na verdade, acho que não quer mesmo se desligar do passado. É por isso que me mantém aqui, por mais fraco que eu esteja. É para poder se agarrar ao Nathaniel que foi em tempos, assim como ao John Mandrake grande e mau em que se transformou.

O mago não disse nada, mas fitou-me de modo decisivo com os seus olhos furiosos e encovados. Não podia culpá-lo. Na realidade, eu também estava um pouco surpreendido. Não sei de onde vinha aquele discernimento profundo. Mesmo assim, estava curioso quanto ao que lhe ia na mente. Não tinha um bom aspecto.

Encontrávamo-nos no gabinete de trabalho dele, calculava eu, ao final da tarde. Havia papéis espalhados por ali; havia um prato de comida intacto em cima da escrivaninha dele. O ar tinha um cheiro acre, viciado, que sugeria ocupação prolongada por um jovem sujo. E, de fato, o jovem em questão não estava elegante como de costume. Tinha o rosto inchado, os olhos vermelhos e esgazeados; a camisa (confrangedoramente desabotoada) pendia de fora das calças de uma forma desleixada. Tudo muito atípico: Mandrake definia-se normalmente pelo autocontrole rígido. Algo o devia ter feito perder a compostura.

Bem, o pobre rapaz estava emocionalmente fragilizado. Necessitava ser manuseado com compaixão.

— Está um caco — escarneci. — Desta vez perdeu feio. O que aconteceu? Foi atacado de repente pela culpa e a aversão por si mesmo? Não pode ser apenas porque mais alguém me chamou, não é?

O rapaz fitou os olhos de cristal da leoa.

— Não... — respondeu com lentidão. — Tenho outro motivo de queixa. E você está no centro de tudo.

— Eu? — E eu ali a lamentar o meu declínio! Parecia haver ainda vida no velho djinni. Animei-me. — Como assim?

— Bem — cravou a lança no chão, por pouco não empalando um dedo do pé —, vou resumir a situação, está bem? Em primeiro lugar, nas últimas vinte e quatro horas houve uma série de tumultos em Londres. Os comuns causaram muitos estragos. Registraram-se conflitos e algumas baixas. Neste momento, verifica-se desordem nas ruas. Esta manhã, Devereux declarou estado de emergência. As tropas bloquearam Whitehall. O mecanismo do Império foi seriamente afetado.

— Parece que teve um mau dia no ministério — comentei. — Mas eu não tenho nada a ver com isso.

Ele tossiu.

— Uma certa rã — referiu — esteve na origem de tudo duas noites atrás provocando o caos em St. James’s Park. Graças aos seus atos, um perigoso djinni ficou solto entre a multidão. Foi este incidente que desencadeou os tumultos.

A leoa soltou um rugido de protesto.

— Não pode dizer que a culpa foi minha! Eu estava tentando executar as tuas ordens num estado completamente enfraquecido. Triunfei em circunstâncias difíceis. Pára, não ria dessa maneira. É arrepiante.

O jovem atirara a cabeça para trás e soltara uma gargalhada sonora e grave, não muito diferente da de uma hiena.

— Triunfou? — gritou. — É assim que chama isso? Quase expirou aos meus pés, incapaz de dizer uma só palavra sobre o relato que te pedira, cobrindo-me publicamente de ridículo? Se isso é triunfo, então pode trazer-me o fracasso quando quiser.

— Eu o cobri de ridículo? — A leoa nem cabia em si de contentamento. — Acorda. Você não precisa de ajuda nessa matéria, amigo. O que foi que eu fiz? Chamei talvez a atenção para a tua crueldade, em virtude de estar quase morto. Qual é o mago que conserva um djinni neste mundo até estar muito fraco para sobreviver? Espanta-me que não me tenha matado de vez.

Os olhos de Mandrake chispavam.

— Eles queriam fazer isso! — exclamou. — Eles queriam te arrancar as informações e te deixar morrer! Bem, fui um tolo em te salvar. Permiti que fosse embora. O que me deixou sem argumentos para justificar toda a destruição que causou. Como conseqüência, a minha carreira quase com certeza acabou. Talvez a minha vida também. Os meus inimigos reúnem-se. Amanhã vou a tribunal, graças a você.

A voz tremeu, os olhos estavam úmidos: era quase possível ouvir o som melancólico de violinos. A leoa guerreira pôs a língua de fora e emitiu um ruído desrespeitoso.

— Tudo isso podia ter sido evitado — argumentei furiosamente —, se tivesse confiado em mim o suficiente para me dispensar mais. Estaria então em melhor forma e poderia facilmente ter evitado os demônios de Hopkins.

Ele levantou rapidamente a cabeça.

— Ah. Então encontrou Hopkins?

— Não mude de assunto. Eu estava a dizer: a culpa foi toda tua. Devia ter confiado em mim. Mas mesmo depois de todos estes anos, depois de tudo o que fiz por você com Lovelace, com Duvall, com o Anarquista e a Ostra...

Ele estremeceu.

— Nem me fale nesse último.

— Mesmo depois disso tudo — continuei impiedosamente —, deu no mesmo, tornou-se um mago típico, tratou-me como um inimigo. Sou um demônio nefasto, por conseguinte, não sou digno de confiança. — Calei-me. — O quê? Ouça, essa tua gargalhada está realmente me irritando.

— Mas é verdade! — exclamou. — Você não é de confiança. Você mente.

— Diga uma ocasião.

Os olhos dele brilharam.

— Kitty Jones.

— Não sei do que está falando.

— Disse-me que ela tinha morrido. Sei que está viva.

— Ah. — Os meus bigodes caíram um tiquinho. — Viu-a?

— Não.

— Nesse caso, está enganado. — Recompus-me o melhor possível. — Ela está morta e bem morta. Mais morta nunca vi. Aquele golem engoliu-a inteira. Gulp! Um lamber de beiços! Desapareceu. Triste, mas mesmo assim, nada que justifique a tua preocupação ao fim de todos estes anos... — Aqui, calei-me. Não gostava nada da expressão no olhar dele.

Mandrake anuiu devagar. Faixas vermelhas de raiva competiam com manchas brancas pela posse do rosto dele. Era uma situação de empate, meio a meio.

— Engolida inteira, foi? — disse ele. — Curioso, lembro-me de você ter dito que o golem a esturricou.

— Ah disse? Sim, bem, ele também fez isso. Primeiro. Antes de engolir... Au!

Sem aviso, o mago pegara na lança e estocara. Eu fui muito lento a reagir — a lança atingiu-me em cheio no diafragma. Arfei do choque, olhei para baixo e relaxei de novo.

— Extremidade errada — disse. — Essa é a ponta rombada.

Mandrake também percebera. Com uma praga de frustração, arremessou a lança para longe dele, fora do círculo. Ficou a olhar-me, respirando a custo, tentando controlar as emoções. Passou um minuto ou mais. O ritmo cardíaco dele abrandou.

— Sabe onde é que ela está? — indaguei. Ele não disse nada. Falei calmamente.

— Deixe-a em paz. Ela não te incomoda. E salvou sua vida, lembre-se... eu não menti nesse aspecto.

Pareceu que ia falar, depois abanou a cabeça, como se para obrigar o assunto a sair de lá.

— Bartimaeus — disse —, disse no outro dia que te dispensaria se concluísse a tua missão, e, apesar da infinita provocação, mantenho a minha palavra. Conte-me o que aconteceu quando seguiu Jenkins, e te deixarei partir.

As musculosas patas dianteiras da leoa estavam cruzadas. Olhou-o de uma enorme altura.

— Permanentemente?

Os olhos deles deslocaram-se para o lado.

— Eu nunca disse isso.

— Mas eu sim. Ou muito me engano, ou a minha informação é a única coisa capaz de impedir que vá parar na Torre? Certo?

Ele rangeu os dentes.

— Creio que Hopkins está envolvido em alguma conspiração. Se eu conseguir descobri-la, a minha posição provavelmente estará segura, sim.

— Muito bem, em que ficamos? Tenho aqui boas informações. Não sairá decepcionado.

A voz dele foi praticamente inaudível.

— Está bem... Se forem suficientemente boas.

— São. Será mais correto dizer boas. Um acordo razoável, tal como nos velhos tempos. Sabe, Mandrake — afirmou a leoa, meditativa. — As coisas eram melhores quando era pequeno. Tinha mais juízo naquele tempo.

Ele olhou furioso para os pés.

— Já me disseram isso. Bem, comece.

— Está bem. — A leoa entrelaçou as patas, fez estalar as articulações e começou. — Segui Jenkins por Londres inteira. Ele tem uma rede de magos envolvida nos seus esquemas; sete no total, todos um pouco como ele: baixo nível, amargurados, fracos de força... nada a recear, em face disso, por alguém duro como você.

— Alguns nomes? — O mago escutava com atenção, absorvendo tudo.

— Withers e Burke. Ná, também não me dizem nada. Mas este você conheces: Lime.

Os olhos de Mandrake arregalaram-se.

— Rufus Lime? O amigo de Lovelace? Isso já faz mais sentido. Ele ainda...?

— Sim. Com a mesma cara de peixe de sempre. Parece que acabou de chegar de Paris.

— E os planos deles; que pormenores obteve?

— Nada de concreto, para ser sincero. Estão todos entretidos escolhendo demônios para isso, seja lá o que for. Mas são magos; é o que se espera que façam. Falaram muito de cordas e correntes. Oh, e caminhonetes.

Ele franziu o nariz.

— Caminhonetes?

— Tente adivinhar. Eles mencionaram também uma experiência. Queriam provas de que tivera êxito. Não imagino o quê, porém. — Cocei uma orelha. — Que mais...? Oh, Jenkins falou em sete, porque era «um para cada cadeira».

Mandrake resmungou.

— O Conselho. Somos sete. Planejam uma rebelião.

— Como de costume.

— Bem, é interessante, mas bastante escasso em pormenores. — Mandrake olhou-me com perplexidade. — Espera ser dispensado por isto?

— Há mais. Jenkins não foi visitar apenas uns amigos pessimistas; encontrou-se com mais alguém. Vou dar-lhe três palpites.

— Quem?

— Vamos lá, adivinhe. Oh, assim não tem graça. Vou te dar uma pista. Barba. Oh, muito bem.

— Eu não dei a resposta.

— Não, mas vejo que acertou, pela tua cor.61 Sim, o mercenário está de volta à cidade, e suas sobrancelhas estão ainda mais farfalhudas do que se recorda. Com extrema bravura, atraquei-me às botas de sete léguas dele e segui-o até o parque, onde se encontrou com um homem que só posso presumir ser o esquivo Hopkins. Não, não ouvi uma palavra do que disseram. Foi então que os djinn dele me acharam. O resto você já sabe. Deixei metade da minha presença de lá a Richmond.

 

61 Para que conste, era um interessante branco-amarelado. Tipo creme de ovos.

 

— Está tudo muito certo — replicou Mandrake —, mas de que é que isso me serve? Não posso agir só com base nisso! Preciso de algo se quero sobreviver ao julgamento amanhã... Hopkins: ele é a chave. Consegue descrevê-lo?

A leoa coçou o nariz.

— Curioso. É difícil... Ele tem um aspecto banal. Os ombros um pouco curvados, talvez; rosto comum, por barbear... cabelo castanho-claro, acho... hum... Por que colocou as mãos na cabeça?

Ele virou o rosto para o teto.

— Ah! É inútil! Para que fui te incumbir desta tarefa? Ascobol teria dado conta do recado melhor.

Aquela doeu mesmo.

— Oh, sério? E ele teria descoberto onde Hopkins vive, não teria?

— O quê?

— Ele teria obtido o endereço exato, não teria? Estou vendo mesmo, um ciclope grande e gordo de gabardina e chapéu mole, a juntar-se timidamente a Jenkins e ao mercenário no café, a pedir uma bebida, a tentar escutar... Oh sim, muito discreto.

— Esquece tudo isso. Sabe onde está Hopkins? Diga-me!

— Ele está hospedado no Hotel Ambassador. Pronto. Foi algo que consegui apanhar, quando não estava sendo perseguido com menos de uma colher cheia 62 da minha vida. Agora, eu... Espera, o que está fazendo?

 

62 Termo técnico: uma medida da essência.

 

O mago entrara imediatamente em ação. Virando-se para os outros pentagramas desenhados no chão, pigarreou e esfregou os olhos cansados e vermelhos.

— Tenho uma oportunidade, Bartimaeus — disse. — Uma oportunidade e vou aproveitá-la. Amanhã, os meus inimigos irão atacar-me, a menos que eu tenha algo de concreto para lhes mostrar. E haverá poucas coisas mais concretas do que Mr. Hopkins, apanhado e amarrado.

Flexionou os dedos, iniciou uma fórmula encantatória. Um vento frio fustigou-me os tornozelos, um uivo melancólico encheu o ar. Sinceramente, efeitos como este eram condenados em Uruk por estarem banalizados e fora de moda.63 Não se via nenhum mago moderno abandonar o pentagrama por causa daquela barulheira, a menos que desatasse em gargalhadas. Abanei a cabeça sinistramente. Já sabia quem vinha aí.

 

63 Da última vez que usei o truque do vento forte/uivos misteriosos foi para distrair o gigante Humbaba lá na floresta de pinheiros, a fim de que o meu amo Gilgamesh pudesse vir sorrateiramente por trás e matá-lo. Estamos falando aqui de 2600 a.C. E só funcionou então porque faltavam algumas pinhas em Humbaba para ser um abeto.

 

De fato, com um ruído semelhante a um gongo rachado, o gigante de cabelos louros materializou-se no pentagrama ao lado. Desencadeou imediatamente uma torrente de súplicas e queixas, que o seu amo ignorou sensatamente. Ele não me vira. Esperei que se pusesse de joelhos, contorcendo as mãos e suplicando que o dispensasse, depois tossi assim suavemente.

— Precisa de um lenço para assoar, Ascobol? Estou ficando com os pés molhados.

O ciclope levantou-se às pressas, o seu rosto uma máscara em chamas de vergonha e reprovação.

— O que ele faz aqui, senhor? — baliu. — Na realidade, acho que não consigo trabalhar com ele.

— Não se preocupe — respondi. — Só estou aqui para te ver receber as ordens. Depois disso desapareço. Não desapareço, «senhor»?

Mandrake ignorou ambos. Continuava a proferir as suas fórmulas encantatórias, canalizando a sua energia para os restantes pentagramas na sala. Seguiram-se mais efeitos baratos — estouros, guinchos e sons de passos a correr, cheiros de ovo, pólvora e metano. Parecia uma festa de aniversário de criança. Só faltavam os chapeuzinhos ridículos.

Passados segundos, tinham-se reunido os suspeitos de costume, o resto da malta de Mandrake. Era muito sortida. Primeiro, e de menor importância, tínhamos Ascobol, a dar-me olhares furiosos por entre as tranças; ao lado estava Cormocodran, um companheiro destituído de sentido de humor, do terceiro nível, que cumprira pena na Irlanda durante o crepúsculo celta — privilegiava o aspecto de um homem-javali, com presas e patas cobertas de tinta de um azul-vivo. A seguir a ele encontrava-se Mwamba, uma djinni que trabalhara com as tribos Abaluya da África oriental. Eu lhe dava- alguma atenção; ela não fazia os comentários entediantes dos outros. Hoje, por razões que só ela sabia, apresentava-se como um lagarto gigante coberto de espinhos e calçando botas altas até às coxas. Lá no fundo, encolhendo-se para caber no pentagrama, estava Hodge, todo pontas, odores e mau feitio. Nós cinco havíamos trabalhado freqüentemente juntos ao longo dos meses anteriores, mas, infelizmente, nenhum dos outros partilhava a minha personalidade otimista.64 Tinha havido atrito, palavras desagradáveis. A nossa relação seria agora mais bem definida como tensa.

 

64 Mwamba era inconstante como uma borboleta, Cormocodran taciturno e abrutalhado, ao passo que Ascobol e Hodge eram simplesmente insuportáveis, sendo deploravelmente dados ao sarcasmo.

 

Mandrake limpou o suor da testa.

— Chamei-os — disse — pelo que espero vir a ser a última vez. — Registrou-se algum interesse; arrastar de pés, tosse, roçar de espinhos. — Se concluírem a incumbência de hoje — prosseguiu —, não voltarei a chamá-los. Espero que esta promessa seja suficiente para executarem a missão à risca.

Cormocodran falou; a sua voz trovejou entre as presas.

— Qual é a missão?

— Encontra-se hospedado no Hotel Ambassador um humano chamado Hopkins. Pretendo que o detenham e tragam até aqui a esta sala. Se eu estiver ausente, aguardem dentro dos pentagramas até eu regressar. Provavelmente, Hopkins é um mago; com certeza tem aliados capazes de invocar djinn de baixo nível, muito embora, pelo que temos visto, provavelmente não possuam poder suficiente para incomodá-los. Mais perigoso do que Hopkins é um homem alto de barba preta; não é mago, apesar de possuir a capacidade de suportar um ataque mágico. Este indivíduo pode ou não estar presente no hotel. Se estiver, e vocês o capturarem ou matarem, tanto melhor. Mas eu preciso é de Hopkins.

— Vamos necessitar de uma descrição — silvou Mwamba. — E das boas. Vocês, humanos, me parecem todos iguais.

Ascobol anuiu.

— E não parecem mesmo? São todos da mesma forma básica, têm o mesmo número de membros e cabeças... Mas atenção, há algumas partes que variam. Se olharem para...

Mandrake levantou as mãos apressadamente.

— De fato. Felizmente, Bartimaeus encontrou Hopkins e poderá guiá-los.

Dei um pulo.

— Espera aí! Isso não vale. Disse que eu ficaria livre quanto te contasse o que aconteceu.

— Concordo. Mas a tua descrição de Hopkins foi rudimentar, incompleta. Não posso agir com base nela. Vá com os outros, indique Hopkins. É tudo. Não conto que o enfrente no teu estado. Quando regressar, será dispensado.

Virou-se para os outros e começou a dar instruções adicionais, mas a leoa não escutou nada. As minhas orelhas com tufos zumbiam de raiva; estava tão furioso que mal me agüentava de pé. Vejam só a arrogância! Não tinha problemas em renegar uma promessa tão recente que os seus ecos ressoavam ainda na sala! Muito bem, iria. Não tinha outra alternativa. Mas se ele alguma vez estivesse ao meu alcance, Mandrake iria arrepender-se amargamente das vezes que me enganara.

O mago terminou.

— Mais algumas perguntas?

— O amo não vem conosco? — inquiriu Hodge. Mexia-se e compunha o seu casaco enorme de pele com espinhos.

— Não. — Mandrake carregou o semblante. — Infelizmente, tenho de ir ao teatro. O que resta da minha carreira depende disso. E sou capaz — olhou para mim; não consegui perceber a expressão nos olhos dele — de ter também outro compromisso.

A leoa olhou-o implacavelmente.

— Irá cometer um grande erro. — Desviei o olhar. — Venham — disse aos outros. — Sigam-me.

 

Ao longo do dia, Kitty estivera de mau humor. Mostrara-se carrancuda, pouco comunicativa, irritadiça e até sem paciência, quando desafiada pelo mestre. Concluíra obedientemente as tarefas, mas sem entusiasmo, batendo com as portas, percorrendo com passos ruidosos os cômodos da casa, e uma vez, mercê de uma manobra apressada, derrubando duas colunas altas de livros cuidadosamente ordenados. O seu mestre acabou por ficar também bastante irritado.

— Tenha cuidado, Lizzie! — exclamou. — A minha paciência está se esgotando!

Kitty deteve-se diante do sofá. A sua testa enrugara-se numa expressão muito carregada.

— Não está satisfeito com o meu trabalho, Mr. Button?

— Efetivamente, não! Tem passado o dia todo muito maldisposta, andando como um elefante enfurecido pela minha casa, o rosto feio como o de um afrit! Quando te dirijo a palavra, responde com maus modos, sem respeito. Estou chocado com a tua vulgaridade insolente! E aquele chá que preparou estava tão insípido como mijo de mosquito. Isto não pode continuar. O que se passa contigo, garota?

— Nada.

— Outra vez carrancuda! Aviso-te, se continuar assim, terei que mandá-la embora.

— Sim, senhor. — Kitty suspirou. Afinal, Mr. Button não tinha culpa de Bartimaeus tê-la desiludido. — Peço desculpas, senhor. Tive... um pequeno problema.

— Problema? — As rugas de contrariedade no rosto do velho suavizaram-se. — Minha querida, devia ter-me dito. Conte-me. Talvez eu possa ajudar. — Um lampejo de ansiedade percorreu-lhe a testa. — Não é nada financeiro?

— Não, senhor. Nada disso. — Kitty hesitou. Dificilmente poderia lhe contar a verdade, que toda a finalidade de ajudá-lo se revelara, às primeiras horas da manhã, absolutamente inútil. Ao fim de quase três anos, Mr. Button dependia dela; apesar dos modos bruscos, sabia que ele lhe dava grande valor. Mas continuava a ser um mago.

— É o meu trabalho noturno, senhor — disse. — Sabe que trabalho numa estalagem. Tivemos um ataque de um demônio há dois dias. Um dos meus colegas foi morto.

— Um ataque? — Mr. Button ficou carrancudo. — Porquê?

— O habitual, senhor: tentar descobrir dissidência, pessoas preparadas para agir contra os nossos líderes. — Tirou um bolo de especiarias do prato diante dele e deu-lhe uma dentada com indiferença.

— Bem, Lizzie, tem que entender que todo o governo tem o direito de se proteger. Não sei bem se deveria freqüentar essa estalagem, se é um antro tão grande de subversão.

— Mas, na realidade, não é, senhor. É essa a questão. Tudo o que os comuns fazem é conversar: sobre a guerra, a polícia, as restrições à sua liberdade. Só conversar. Seriam incapazes de fazer algo contra, como sabe muito bem.

— Hum. — Mr. Button olhou pelos vidros enegrecidos da janela para o céu desolado de Outubro. — Dificilmente poderei culpar os comuns pela sua infelicidade. A guerra já dura há bastante tempo. Receio que Mr. Devereux não esteja agindo como deveria. Mas o que podemos fazer? Até eu, que sou mago, me vejo impotente! O poder está concentrado no Conselho, Lizzie. O resto de nós assiste e espera por melhores tempos. Bem, bem, até posso compreender a tua perturbação se mataram um amigo teu. Lamento a tua perda. Coma outro bolo.

— É muita generosidade sua. Obrigada, senhor. — Kitty sentou-se no braço do sofá e assim fez.

— Talvez devesse tirar a tarde, Lizzie — sugeriu Mr. Button. — Estarei trabalhando no meu índice de demônios e isso me manterá entretido. Tantos demônios! Não sei como conseguem caber todos no Outro Lugar!

A boca de Kitty estava cheia de pedaços de bolo. Engoliu-os.

— Peço desculpas, senhor, mas o que é exatamente o Outro Lugar?

O velho resmungou.

— Uma região de caos, um turbilhão de abominações sem fim. Dulac, se bem me lembro, chamou-lhe «um reservatório de loucura». Nem imaginamos o horror de semelhante local. — Teve um arrepio. — Até dá vontade a um homem de comer um terceiro bolo de especiarias.

— Portanto, os magos chegaram a visitá-lo? — inquiriu Kitty. — Quer dizer, deveriam tê-lo feito, para saberem como era.

— Ah. Bem. — Mr. Button encolheu os ombros. — Não de todo. Basicamente, as autoridades usaram relatos de escravos fidedignos. Ousar ir lá pessoalmente é outra coisa. É arriscado tanto para o corpo como para a alma.

— Por conseguinte, não foi feito?

— Oh, foi tentado. O amo de Dulac, Ficino, por exemplo. Esperava obter poder demoníaco. Só que perdeu a cabeça... literalmente: não voltou. Quanto ao seu corpo... Não. Os pormenores são muito repugnantes.

— Oh, continue, senhor.

— Certamente que não. Houve outros que tiveram vislumbres, mas todos enlouqueceram, ou pior. O único mago que conseguiu efetuar a viagem foi Ptolemaeus. Deixou pormenores nos seus Apócrifos, mas são de valor dúbio. Com efeito, ele dá a entender que o processo só pode ser alcançado com a ajuda de um demônio benigno, cujo nome é invocado para criar o Portão. — suspirou. — Evidentemente, a noção é ridícula: quem, no seu perfeito juízo, confiaria a sua vida a um demônio? E é provável que o próprio Ptolemaeus tivesse sido afetado como conseqüência da sua experiência. Segundo a maior parte dos relatos, não terá vivido muito tempo depois.

Confiança. Bartimaeus salientara exatamente isso. Ptolomeu estivera disposto a depositar confiança nele. Como resultado, não existiam limites para os laços deles. Kitty olhou para o teto, recordando-se do desafio do djinni para abandonar o círculo. Ela não o fizera, pela razão óbvia de que provavelmente ele a teria desfeito por completo. Não houvera confiança ali. De parte a parte.

Tornou a brotar uma raiva enorme dentro dela: raiva por desperdiçar tantos anos a perseguir um sonho impossível. Levantou-se do braço do sofá.

— Importa-se se eu tirar mesmo a tarde, senhor? — perguntou. — Acho que preciso apanhar um pouco de ar.

Quando ia buscar o casaco à entrada, passou por uma pilha de livros que separara recentemente, prontos para serem empilhados em algumas prateleiras recentemente adquiridas. Entre eles estavam as obras do antigo Próximo Oriente, dentro do qual... Parou, verificou.

Sim. Lá estava, a três do alto: um volume fino. Os Apócrifos de Ptolemaeus.

Kitty fez um trejeito com o lábio. De que serviria? Bartimaeus dissera que estava escrito em grego, afirmara que seria inútil para ela. Afastou-se, e depois voltou a parar a meio da entrada. Olhou para trás. Bem, por que não? Mal não faria.

Os velhos hábitos de investigação eram difíceis de perder. Saiu de casa com o livro no bolso.

Naquela noite, como não tinha nada que fazer, Kitty foi a pé até The Frog Inn. Tinha esperanças de que o exercício dissipasse um pouco a frustração que crescia incontrolavelmente dentro de si, mas afinal só viera a agravar. Os rostos das pessoas por quem passava estavam atormentados e abatidos, os ombros curvados; olhavam para as botas enquanto avançavam penosamente pela via. Esferas de vigia rodopiavam por cima das ruas; Policiais Noturnos passeavam com arrogância nos principais cruzamentos. Uma ou duas ruas estavam barricadas. Houvera desordem no centro de Londres; agora as autoridades rebatiam. Caminhonetes brancas da polícia passaram por ela mais de uma vez. Ouviu vagamente sirenes ao longe.

Abrandou o passo, o olhar parado e sem ver. Sentiu-se esmagada pela absoluta futilidade das coisas. Passara três anos fechada em bibliotecas e salas poeirentas, a brincar de mago. E tudo para quê? Nada mudara. Nada iria mudar. Um manto de injustiça estendia-se sobre Londres, e ela, tal como os demais, era abafada por ele. O Conselho fazia o que lhe apetecia, alheio ao sofrimento que causava. E ela não conseguia fazer nada para impedi-lo.

Em The Frog predominava idêntico estado de espírito sombrio. A taberna foi arrumada, a devastação de duas noites antes removida. Ao fundo do balcão, um pedaço novo e reluzente de madeira tapava o buraco feito pelo ataque do demônio; não condizia bem com o resto do bar, mas George Fox disfarçara-o com uma exposição de postais e ornamentos de latão usados pelos cavalos. Todas as cadeiras e mesas partidas haviam sido substituídas; a marca redonda de queimado junto da porta fora coberta com um tapete.

Mr. Fox cumprimentou Kitty com ar preocupado:

— Espera-nos trabalho extra esta noite, Clara — disse. — Ainda não arranjei ninguém para... você sabe, substituir Sam.

— Não, não. É claro que não. — A voz de Kitty era moderada, mas agitava-se dentro dela uma fúria impotente. Sentia vontade de gritar. Pegando num pano como se fosse o pescoço de um mago, foi trabalhar.

Passaram duas horas; a taberna encheu-se. Homens e mulheres reunidos nas mesas ou de pé a conversar baixo junto ao balcão. Sem grande entusiasmo, iniciou-se a partida de dardos. Kitty tirava bebidas atrás do bar, perdida em seus pensamentos. Mal olhou quando a porta se abriu, fazendo-se acompanhar de uma rajada de frio outonal.

Como se tivessem apertado um botão, ou tirado uma pilha, toda a conversa em The Frog cessou de repente. As frases foram deixadas a meio, os copos parados a caminho das bocas abertas; os olhos giraram, algumas cabeças viraram-se. Um dardo cravou-se na parede estucada ao lado do alvo. George Fox, que estivera debruçado junto a uma mesa a conversar, endireitou-se devagar.

Estava ali um homem jovem. Sacudiu a chuva do sobretudo preto comprido.

Kitty viu o recém-chegado por entre as cabeças dos clientes ali perto. A sua mão deu uma sacudida, entornando gin em cima da superfície do balcão. A sua boca emitiu um pequeno ruído.

O homem jovem descalçou as luvas. Passou uma mão esguia pelo cabelo (curto, rente e salpicado de chuva) e percorreu com o olhar a sala silenciosa.

— Boa noite — disse. — Quem é o proprietário?

Silêncio. Agitação. Depois George Fox pigarreou.

— Sou eu.

— Ah, bom. Uma palavra, por favor. — O pedido foi proferido calmamente, mas continha a afetação de autoridade. Tal como tudo no jovem: o sobretudo, o casaco preto elegante, a camisa branca com babados, os sapatos de verniz. A sua maneira, era uma figura tão estranha na taberna da The Frog quanto um demônio sem rosto. A animosidade e o medo espalharam-se pela sala em ondas. O homem jovem sorriu. — Se não se importar.

George Foz avançou.

— Em que posso lhe ser útil?

O jovem era meia cabeça mais baixo do que Mr. Fox, magro, enquanto ele era corpulento.

— Creio que tem uma garota trabalhando aqui — disse. — Qual o nome dela?

Um ou dois dos fregueses de pé no balcão olharam para Kitty, que se encolhera junto ao armário por trás do bar. A porta para o corredor ficava perto: podia esgueirar-se, atravessar as cozinhas e fugir. Mr. Fox pestanejou.

— Hum, Clara Bell. É a única garota, desde que Peggy foi embora... — A sua voz foi diminuindo, sendo substituída por cautelosa hostilidade. — Porquê? Por que pergunta?

— Clara Bell encontra-se aqui esta noite? — George Fox hesitou; precisamente a reação que o jovem esperava. — Muito bem — disse. — Vá buscá-la. — Olhou à sua volta. Kitty estava escondida por trás dos fregueses de pé no bar. Avançou devagar para a porta da divisão dos fundos. — Vá buscá-la — repetiu o jovem.

George Fox continuou sem se mexer; o seu rosto estava impávido, os olhos arregalados.

— O que pretende com ela? — inquiriu, impassivelmente. — Quem é o senhor? O que quer dela?

— Não estou acostumado — declarou o jovem; a sua voz era cansada — a dar explicações, nem a perguntar mais de uma vez. Sou do governo. Isso deveria bastar para qualquer um de vocês aqui... Oh, desculpe! Não me parece que...

Um homem sentado perto da entrada saíra do seu lugar e correra para a porta. Abriu-a, preparando-se para fugir. O mago proferiu uma palavra e fez um gesto. O homem foi atirado fisicamente para dentro da sala, caindo pesadamente ao lado da lareira. A porta bateu com tanta força que os latões tilintaram nas paredes.

— Nenhum de vocês sai desta sala enquanto Clara Bell não for encontrada. — O jovem olhava com irritação para o comum estendido no chão. — E pare com essa gemedeira! Não está ferido. — Virou-se para George Fox. — Então?

Kitty encontrava-se junto à porta para a divisão dos fundos. Um dos fregueses no bar fez um gesto quase imperceptível com a cabeça.

— Vamo lá — disse entre dentes. — Saia. — O jovem bateu com um sapato nos ladrilhos. — Não ficarão surpreendidos se lhes disser que não vim sozinho a este casebre. Se não me trouxerem a garota dentro de trinta segundos, darei ordens de que irão se arrepender. — Olhou para o relógio.

George Fox olhou para o chão. Olhou para o teto. As suas mãos abriam-se e fechavam-se. Procurava evitar captar os olhares suplicantes das pessoas à sua volta. Rugas do cansaço e da idade sulcavam-lhe as faces. Abriu a boca, fechou-a...

— Está tudo bem, George. — Kitty deu a volta pela extremidade do bar; trazia o casaco num dos braços. — Não é necessário. Obrigada. — Caminhou devagar por entre as mesas. — Então, Mr. Mandrake? Vamos?

Por um momento, o mago não respondeu. Olhava para ela, o seu rosto pálido um pouco ruborizado, talvez afetado pelo calor na sala. Recompondo-se, esboçou uma ligeira vênia.

— Ms. Jones! É uma honra. Importa-se de me acompanhar? — Desviou-se. De costas eretas, olhando sempre em frente, Kitty passou por ele. Seguiu-a até à porta. O jovem olhou para a sala silenciosa. — As minhas desculpas por interromper a sua noite. — Saiu; a porta fechou-se. Durante quase um minuto ninguém se mexeu ou falou.

— Vai precisar de uma nova empregada, George — disse alguém.

No pátio, a esfera de vigilância desaparecera. Alguns faróis de carros deslocaram-se na rua do outro lado do caminho estreito. Caía uma chuva miudinha. Kitty ouvia-a bater no rio na escuridão por baixo do parapeito. O ar frio roçava-lhe o rosto, e gotas de umidade; o súbito toque delas fê-la sentir-se viva. Atrás dela, uma voz:

— Ms. Jones. O meu carro está perto. Sugiro que caminhemos até lá.

Ao ouvi-la, desabrochou em Kitty uma exultação súbita e intensa. Em vez do medo que deveria ter sentido, só sentia provocação e uma espécie de alegria. Depois do choque inicial e incapacitante do aparecimento de Mandrake, ficara bastante calma... calma e curiosamente revigorada. Durante três longos anos, levara uma vida solitária e cautelosa. Agora, com todas as perspectivas desfeitas, sabia que não teria conseguido suportar essa vida nem mais um instante. Queria ação, independentemente das conseqüências. A velha temeridade voltou a invadi-la numa onda de raiva frustrada. Virou-se. Mandrake estava diante dela — Mandrake, um dos do Conselho. Era como a resposta às suas preces.

— Então, o que vai me fazer? — perguntou de chofre. — Matar-me?

O jovem pestanejou. O seu rosto era parcamente iluminado pelas luzes das janelas da velha estalagem; conferiam-lhe um tom doentio, amarelo. Pigarreou.

— Não. Eu...

— Por que não? Não é o que faz aos traidores? — Kitty acentuou a última palavra. — Ou a quem o faz se zangar? Um dos seus demônios esteve aqui há duas noites. Matou um homem. Ele tinha família. Nunca fez nada contra o governo. Mas ele matou-o do mesmo jeito.

O mago emitiu um ruído de irritação por trás dos dentes.

— Isso é de lamentar. Mas não é do meu departamento.

— Não. Só que você controla os demônios. — A voz de Kitty era dura e esganiçada. — Eles não passam de escravos. Você lhes dá ordens.

— Eu queria dizer que não fui eu pessoalmente. Isso não é da minha alçada. Agora, Ms. Jones...

— Desculpe — disse ela, rindo-se —, isso é a desculpa mais esfarrapada que já ouvi. Não é do meu departamento. Oh, nesse caso muda tudo de figura. E suponho que a guerra também não seja do seu departamento, nem a Polícia Noturna, nem as prisões na Torre. Nenhuma delas tem nada que ver consigo.

— Na realidade, não. — A voz dele tornou-se mais austera. — Agora, seria capaz de ficar calada, Ms. Jones? Ou talvez queira a minha ajuda? — Estalou um dedo; uma sombra destacou-se do canto mais escuro do pátio. — Aquele é Fritang — disse Mandrake. — O mais selvagem dos meus escravos. Fará o que quer que eu ord...

Kitty soltou uma exclamação irônica.

— Isso, ameace-me! Tal como ameaçou as pessoas na estalagem. Não é capaz de fazer nada sem se servir da força, não é? Não sei como consegue dormir a noite.

— Isso é ridículo vindo de você — replicou Mandrake. — Não me lembro da Resistência ter medo de usar a força quando lhe convinha. Vejamos então, quais foram os números das baixas? Várias centenas de pessoas mortas, outras mutiladas e...

— Isso foi diferente. Nós estávamos lutando por ideais...

— Bem, eu também estou. No entanto... — respirou fundo. — Admito ter sido descortês há pouco. — O mago agitou uma mão, proferiu uma palavra de dispensa; a sombra ameaçadora evaporou-se. — Pronto. Agora pode falar sem receio.

Kitty olhou diretamente para ele.

— Eu não estava com medo.

Mandrake encolheu os ombros. Olhou de lado para a porta fechada da estalagem, depois na direção da rua. Em contraste com a eficiência autoritária dentro de The Frog, parecia subitamente hesitante, sem saber muito bem o que fazer.

— Então? — inquiriu Kitty. — O que acontece normalmente depois de deter alguém? Local de tortura? Uma surra? O que vai ser?

Um suspiro.

— Eu não a detive. Pelo menos, não necessariamente.

— Nesse caso, sou livre para partir?

— Ms. Jones — afirmou bruscamente —, estou aqui a título particular e individual, não como membro do governo, no entanto, se não parar com o dramatismo, isso pode mudar. Oficialmente está morta. Ontem recebi informações de que estava viva. Queria a confirmação.

Kitty semicerrou os olhos.

— Quem lhe disse que eu estava aqui? Um demônio?

— Não. Não interessa.

Fez-se luz.

— Ah, foi Nick Drew.

— Eu disse que não interessava. Não pode ficar surpreendida por eu querer encontrá-la: uma fugitiva da justiça, um membro da Resistência.

— Não — redarguiu ela. — Só estou surpreendida por ainda não me ter cortado a garganta.

O mago soltou uma exclamação de genuína contrariedade.

— Eu sou um ministro, não um assassino! Eu ajudo a proteger o nosso povo contra... contra terroristas como você e os seus amigos.

— Sim, porque as pessoas estão tão seguras ao seu cuidado — zombou Kitty. — Metade dos jovens morre na América, e nós temos a polícia a espancar outros na rua, e demônios atacam quem protesta, e há inimigos e espiões à solta nos nossos subúrbios. Estamos todos nos divertindo muito!

— Se não fôssemos nós, seria muito, muito pior! — A voz de Mandrake estava alterada e tensa; com manifesto esforço, baixou-a para um sussurro. — Nós usamos o nosso poder para governar para o bem de todos. Os comuns precisam de orientação. Tenho de confessar que estamos a passar um mau bocado, mas...

— O seu poder baseia-se na escravidão! Como pode ser para o bem de alguém?

O mago pareceu genuinamente chocado.

— Não escravidão humana — disse. — Apenas demônios.

— Isso muda tudo, não muda? Não me parece. Tudo o que você faz está maculado dessa corrupção.

A resposta dele foi fraca.

— Não é bem assim.

— É assim, e acho que você sabe. — Kitty deu-lhe um olhar carrancudo. — O que veio fazer aqui? O que quer? A Resistência já acabou há muito tempo.

Mandrake pigarreou.

— Disseram-me... — Aconchegou o casaco, olhou para o rio. — Disseram-me que me salvou do golem. Que arriscou a vida para salvar a minha. — Olhou para ela; Kitty manteve o rosto impassível. — Disseram-me também que morrera por causa disso. Agora que a encontro viva, estou... naturalmente, curioso em saber a verdade.

Kitty carregou o semblante.

— O que quer: os pormenores? Sim, salvei, e deveria estar louca. Impedi que o golem transformasse a sua triste cabeça numa papa. Depois fugi. E não há mais nada que contar.

Olhou-o fixamente; ele retribuiu o olhar, o rosto pálido e hirto na luz artificial. A chuva caía entre eles. Mandrake tossiu.

— Bem, os pormenores estão ótimos, obrigado. Na verdade, não era exatamente isso mas... mas mais o porquê. — Enfiou as mãos nos bolsos.

— Não sei — respondeu Kitty. — Sério que não sei.

— Vista o casaco — propôs. — Está se molhando.

— Como se isso lhe interessasse. — Mesmo assim, vestiu-o.

Ele observou-a enquanto enfiava as mangas. Quando terminou de abotoar os botões, ele voltou a pigarrear.

— Bem, quaisquer que tenham sido os seus motivos — começou —, acho que preciso ag...

— Não o faça — atalhou ela. — Não o faça. Não quero ouvir. Não de você.

Ele ficou carrancudo.

— Mas...

— Fiz sem pensar e se quer saber a verdade, tenho-o lamentado desde então, sempre que vejo os seus folhetos hediondos e mentirosos nas ruas e passo por aqueles palcos onde os seus atores impingem mentiras por você. Por isso não me agradeça, Mr. Mandrake. — Estremeceu; a chuva intensificara-se. — Se quer mesmo agradecer a alguém, faça-o a Bartimaeus. Foi ele que me incitou a salvar a sua vida.

Mesmo no escuro, conseguiu ver o espanto dele. A sua postura empertigou-se, a voz tornou-se frágil.

— Ele incitou-a? Custa-me bastante a acreditar.

— Porquê? Porque ele é um demônio? Sim, eu sei. Não faz muito sentido. Mas ele disse-me como deter o golem, chamou-me quando eu ia fugir. Sem ele, você estaria morto. Mas não fique preocupado. Ele não passa de um escravo.

O mago permaneceu algum tempo em silêncio. Depois disse:

— Tenho querido perguntar-lhe sobre Bartimaeus. Por alguma razão ele a olha com afeto. Por que motivo?

A gargalhada de Kitty foi genuína.

— Não existe nenhum afeto entre nós.

— Não? Então, por que ele contou me que você tinha morrido? Ele disse que o golem a matou. Foi por isso que não a procurei todos estes anos.

— Ele disse isso? Não sabia... — Kitty olhou para o rio negro. — Bem — disse —, talvez fosse porque o tratei com algum respeito! Talvez porque não o escravizei, talvez porque não procurei mantê-lo ao serviço ano após ano sem uma pausa até a sua essência se dissipar! — Mordeu o lábio, olhou rapidamente para o mago.

Os olhos dele estavam escondidos numa faixa de negrura.

— E o que — retorquiu muito calmamente — você pode saber sobre isso? Há anos que não vê Bartimaeus! Ou vê?

Kitty recuou na direção do muro do rio. O mago avançou para ela...

Um silvo súbito no meio do ar; as gotas de chuva crepitaram e fumegaram em algo que se materializou por cima da água. Um pequeno globo, cor-de-rosa e brilhante. Ouvia-se música como se de uma orquestra ao longe. Mandrake afastou-se; proferiu uma praga silenciosa.

Apareceu no globo um rosto redondo sumido, afetado pelos ruídos de perturbações elétricas. Saiu uma voz, igualmente distorcida.

— John! Encontrei-o! Está atrasado! Neste momento os músicos estão se aquecendo! Venha rapidamente!

O mago efetuou uma pequena vênia.

— Quentin. As minhas desculpas. Fiquei retido.

— Não há tempo a perder! — O rosto pareceu fixar-se em Kitty por um momento. — Traga também a sua amiga. Vou reservar um lugar. Dez minutos, John. Dez minutos!

O globo crepitou, esfumou-se, desapareceu. Caía uma chuva escura ininterruptamente no Tamisa. Kitty e Mandrake entreolharam-se.

— Parece — disse o mago, com lentidão — que vamos ter de continuar esta conversa depois. Gosta de teatro, Ms. Jones?

Kitty franziu os lábios.

— Nem tanto.

— Nem eu. — Fez um gesto elegante na direção da rua. — Vamos ter de passar por isto juntos.

 

O nosso ataque ao Hotel Ambassador foi planejado com precisão militar e o máximo cuidado. Bastaram dez minutos de balbúrdia dentro de uma cabine telefônica e o plano estava traçado.

Depois de deixarmos o nosso amo, tínhamos voado a toda velocidade por Londres disfarçados de estorninhos, atravessando o parque onde eu tão recentemente tivera o meu contratempo. O Palácio de Vidro, o pagode, o lago de mau agouro — todos brilhavam austeramente à última luz da tarde. A maior parte das iluminações encontrava-se apagada; as multidões normais estavam ausentes, embora pequenos grupos de comuns se deslocassem aqui e ali sobre a relva com finalidade desconhecida. Vi cordões policiais, diabretes apressados, uma incomum quantidade de atividade... depois estávamos sobre as ruas de St. James, e descíamos em círculos até o hotel.

Era uma construção elegante, um edifício de pedra cinzenta encravado entre as embaixadas e os clubes de cavalheiros; um local simultaneamente sofisticado e discreto, onde diplomatas estrangeiros e principelhos podiam deixar as carteiras durante a estada na cidade. Não parecia o tipo de hotel que recebesse uma invasão de cinco djinn molambentos, em particular uns tão duvidosos quanto Hodge. Vimos feitiços a brilhar nas janelas e uma rede de finos nós na saída de emergência. O porteiro, resplandecente com sua libré verde-lima, possuía o olhar penetrante de alguém que usava lentes. Impunha-se cautela. Não podíamos simplesmente ir entrando.

A cabine telefônica ficava bem em frente. Um por um, os cinco estorninhos pousaram atrás dela. Uma por uma, cinco ratazanas entraram por um buraco. Mwamba serviu-se da cauda para afastar as pontas de cigarros, e demos início ao nosso solene conclave.

— Muito bem, tropas — disse eu, todo animado. — Eis o que sugiro...

Uma ratazana zarolha ergueu uma pata em protesto.

— Um momento, Bartimaeus — disse. — O que faz de você o líder, assim sem mais nem menos?

— Quer o inventário completo dos meus talentos? Lembre-se de que temos de capturar Hopkins ainda esta noite.

— Se a arrogância contasse para alguma coisa, Bartimaeus, o seguiríamos de bom grado. — Era Cormocodran. A sua voz densa como basalto trovejou ao redor da cabina; as vibrações fizeram tremer os meus bigodes. — Infelizmente, está velho, cansado e sem préstimo.

— Ouvimos falar das tuas aventuras como portentosa rã — acrescentou Hodge, rindo-se à solta. — Dependendo do amo para te salvar, a espalhar a tua essência como chuva pela cidade.

— No entanto, não se pode dizer que a culpa fosse dele, não é verdade? — interveio Mwamba, solidária. De todas as ratazanas, ela era a mais elegante e convincente. Ascobol tinha um olho, Hodge uma fila de espinhos venenosos entre as cerdas e Corcocodran, como sempre, mais parecia um pequeno alpendre de tijolo do que qualquer outra coisa. Quanto a mim, a minha essência estava a causar-me novamente problemas; havia alguns remendos discretos em volta das minhas extremidades, embora esperasse que fossem muito pequenos para alguém notar.

— Talvez não, mas ele é um empecilho num trabalho como este — referiu Ascobol. — Olhem para o contorno dele neste momento. Todo defeituoso.

— Ele só vai nos atrasar. Ficou sempre para trás enquanto voávamos.

— Sim, e seria péssimo numa luta.

— Provavelmente se transformaria numa papa.65

 

65 Uma papa: outro termo técnico. Denota um colapso total da essência enquanto no plano mortal. No Outro Lugar, claro, a nossa essência move-se livremente o tempo todo e não precisa estar sujeita a qualquer forma física.

 

— Bem, eu que não vou apanhá-lo com uma pá.

— Nem eu. Isto aqui não é nenhum serviço de baby-sitting.

— A despeito da vossa elevada opinião sobre os meus poderes — resmunguei —, sou o único que realmente viu Hopkins. Continuem sem mim, se quiserem. Hão de ir longe.

— Agora ficou ofendido — comentou Hodge em tons contemplativos. — Ego como um balão. Cuidado! Vai arrebentar!

Mwamba bateu com a cauda no chão, irritada.

— Estamos perdendo tempo. Bartimaeus pode estar decrépito, mas precisamos dos conselhos dele antes de começarmos. — Sorriu com a doçura de uma ratazana dos esgotos. — Por favor, continue, Bartimaeus. Conte-nos o que viu.

— Vocês já me conhecem. Não sou de guardar ressentimentos.66 — Encolhi despreocupadamente os ombros. — Na verdade, não foi muito. Vi Hopkins, mas apenas por breves instantes. Não posso afirmar se é ou não um mago. Calculo que sim. Certamente alguém usou um bando de foliots e djinn para me perseguir.

 

66 Pelo menos, não podia fazer nada a esse respeito na altura. Mas mais cedo ou mais tarde, quando voltasse ao meu vigor pleno, tornaria a encontrar Hodge, Ascobol e Cormocodran. Poderia aproveitar então para me desforrar com toda a ferocidade selvagem de um urso ferido. A vingança é um prato que se serve frio.

 

— Isto é só uma idéia — avançou Mwamba. — Tem certeza de que ele é humano?

— Hopkins? Sim, verifiquei-o em todos os sete planos. Humano em cada um deles. Se conseguirmos apanhá-lo de surpresa, poderemos agarrá-lo.

— Deixa estar que eu o agarro — afirmou Hodge numa voz carregada, exultante. — Não se preocupe com isso. Tenho um lugar aconchegante à espera dele, um lugar onde não serão necessárias cordas nem algemas. Um lugar aqui mesmo... bem juntinho de mim. — Soltou uma risadinha adorável; o som desapareceu.

As outras quatro ratazanas entreolharam-se. Ascobol falou:

— Acho que nos deveríamos simplesmente nos limitar às velhas cordas, Hodge. Obrigado pela sugestão. Muito bem, continuando, sabemos que Hopkins está instalado aqui. Alguma idéia sobre o quarto?

Encolhi os ombros.

— Nenhuma.

— Teremos de consultar o livro na recepção. E depois?

Cormocodran agitou o seu corpanzil peludo.

— Vamos até lá em cima, arrombamos a porta, transformamos o Hopkins em picadinho e o fazemos desaparecer. Simples, eficiente, despachado. Próxima pergunta?

Abanei a cabeça.

— Taticamente brilhante, mas Hopkins pode ser alertado se subirmos ruidosamente as escadas. Precisamos ser mais sutis.

Cormocodran ficou carrancudo.

— Não sei se o sutil combina comigo.

— Além disso — disse Mwamba —, Hopkins pode não ter regressado ainda. Precisamos chegar discretamente ao quarto dele e ver. Se ele não estiver lá, então damos uma espiada.

Concordei.

— São necessários disfarces e, no caso de Hodge, também um banho e desinfetante. Os humanos têm olfato, sabem.

A ratazana em questão agitou-se, indignada, fazendo soar os espinhos venenosos.

— Vem cá, Bartimaeus. Quero provar a tua essência.

— Ah sim? Acha que me engana?

— Nada seria mais fácil e agradável.

A discussão continuou por mais algum tempo, cintilante na sua inteligência, vivacidade e resposta pronta,67 mas antes que eu conseguisse derrubar o meu adversário com uma prova final demolidora, entrou um fulano na cabine telefônica, e as ratazanas fugiram cada uma para seu lado.

 

67 Exemplificação de diálogo: «Oh, acha que consegue, hã?» «É claro que sim, na boa, meu!» «Ah sim?» «Sim» Todos com um pano de fundo dos outros aos gritos e dando palmadas nas ancas. Em termos de conteúdo intelectual e vitalidade, estava entre os debates da antiga Atenas e os dos mais recentes parlamentos ingleses.

 

Passaram vinte minutos. Na entrada do Hotel Ambassador, o porteiro andava ritmicamente para cá e para lá, esfregando as mãos uma na outra para mantê-las quentes. Aproximou-se um grupo de hóspedes, uma mulher e três homens, todos magnificamente vestidos com trajes de tecidos da Rota da Seda. Falavam baixo uns com os outros numa língua árabe; a mulher usava jóias de selenite no pescoço. Cada um exalava emanações tranqüilizadoras de riqueza, dignidade e posição social.68 O porteiro recuou, saudou-os. Os quatro cumprimentaram-no com acenos de cabeça e sorrisos graciosos. Subiram os degraus e entraram no átrio do hotel.

 

68 Com a possível exceção de Cormocodran, que se esforçava ainda por parecer um bezerro enfiado dentro de um terno.

 

Uma mulher jovem sorridente estava sentada a um balcão de mogno.

— Posso lhes ser útil?

O homem mais bem-apessoado aproximou-se.

— Boa noite. Somos da Embaixada do Reino do Sabá. Temos uma comitiva real que chega daqui a umas semanas e gostaríamos de inspecionar as vossas instalações com intenção de alugarmos quartos.

— Com certeza, senhor. Querem ter a bondade de me seguir? Vou chamar a gerente.

A recepcionista saiu de trás do balcão e avançou em passos lestos por um corredor. Os quatro diplomatas seguiram-na; nesse instante, um abriu um punho crispado. Um pequeno inseto desagradável elevou-se, todo patas, ferrões e odores sulfurosos, e deslocou-se num vôo de asas vigorosas até o balcão vazio, onde começou a inspecionar o registro.

A gerente do hotel era uma senhora pequena, de meia-idade, generosamente almofadada. O cabelo muito grisalho estava penteado para trás e preso com uma peça de osso de baleia polido. Recebeu as visitas com reserva cortês.

— São da Embaixada do Sabá?

Esbocei uma vênia cortês.

— Está correto, minha senhora. É de uma perspicácia incomparável.

— Bem, a garota acabou de me informar. Mas desconhecia que o Sabá era um estado independente. Julguei que fizesse parte da Confederação Árabe.

Hesitei.

— Hã, tudo isso está prestes a mudar, minha senhora. Em breve vamos tornar-nos independentes. E nossos hóspedes reais vêm para comemorar.

— Estou vendo... Meu Deus, a independência é uma tendência perigosa. Espero que o Sabá não sirva de exemplo ao nosso Império... Bem, posso perfeitamente mostrar-lhes um quarto típico. Trata-se de um hotel muito prestigiado, como certamente sabem: privado e extremamente exclusivo. Os seus sistemas de segurança foram autorizados pelos magos do governo. Possuímos demônios guarda-portas dos mais sofisticados em todos os quartos.

— Não me diga? Em cada um deles?

— Sim. Dêem-me licença; vou buscar a respectiva chave. Não demoro nada.

A gerente afastou-se rapidamente. Então, a diplomata virou-se para mim.

— É um idiota, Bartimaeus — disse entre dentes. — Garantiu-me que o Sabá ainda existia.

— Bem, existia da última vez que estive lá.

— Que foi exatamente quando?

— Mais ou menos há quinhentos anos... Sim, está bem. Não precisa ser tão presunçosa.

O diplomata corpulento falou em tons trovejantes.

— Hodge está demorando.

— Tem certeza de que ele sabe ler? — inquiri. — Pode ter sido essa a falha no nosso plano.

— É claro que sabe. Shh. Ela vem aí.

— Já tenho a chave, cavalheiros, minha senhora. Se quiserem ter a bondade... — A gerente seguiu em passo rápido pelo corredor pouco iluminado, todo ele painéis de carvalho, espelhos dourados e desnecessários vasos em colunas, realçando diversos arcos. — Ali é a sala de jantar... decorada no estilo rococó, com um quadro original de Boucher*; a seguir ficam as cozinhas. À nossa esquerda é o salão nobre, a única divisão onde é permitido usar demônios. Nos outros lugares proibimos a sua presença, visto serem de um modo geral anti-higiênicos, ruidosos e uma praga repelente. Em particular os djinn. O senhor disse alguma coisa?

 

* François Boucher (1703-1770), representante típico da pintura rococó francesa palaciana, privilegiou temas mitológicos e alegóricos, cenas pastoris e interiores povoados por figuras sensuais. (NT)

 

Cormocodran proferira um protesto de raiva. Engoliu-o.

— Não, não.

— Digam-me — continuou a gerente —, o Sabá é uma sociedade mágica? Na realidade, eu deveria saber, mas tenho aprendido tão pouco sobre outras terras. Uma pessoa já tem tanto com que se ocupar no nosso próprio país, não lhes parece? É difícil dispor de muito tempo para os estrangeiros, em particular quando tantos deles são selvagens e antropófagos. Aqui é o elevador.

Subimos ao segundo piso.

A gerente e os diplomatas entraram. Quando as portas se fechavam, ouviu-se um zumbido. Sem que a gerente percebesse, um inseto desagradável, todo ele espinhos e emissões estranhas, atravessou a fenda que se fechava, voou até à manga da diplomata e rastejou para o ouvido dela. Murmurou por breves instantes. Ela virou-se para mim, articulou a mensagem:

— Quarto vinte e três.

Anuí. Tínhamos a informação de que necessitávamos. Os quatro diplomatas entreolharam-se. Como um só, viraram as cabeças e olharam para a diminuta gerente, que enumerava complacentemente as maravilhas da sauna do hotel, alheia à súbita mudança no ambiente do elevador cheio.

— Não é necessário fazermos isso — disse eu em árabe. — Poderíamos amarrá-la.

— Ela poderia gritar — contrapôs a diplomata. — E onde a meteríamos ?

— É verdade.

— Bem, seja.

O velho elevador continuou a subir. Chegou ao segundo piso. As portas abriram-se. Saíram quatro diplomatas, acompanhados de um inseto ruidoso. O maior dos quatro palitava os dentes com um gancho de cabelo em osso de baleia polido. Terminou naquele momento, enfiou o osso de baleia na terra de uma planta num vaso bojudo à porta do elevador e seguiu atrás dos outros pelo corredor silencioso.

Com a porta do quarto vinte e três à vista, paramos novamente.

— O que fazemos? — murmurou Mwamba. Ascobol emitiu um ruído de impaciência.

— Batemos à porta. Se ele estiver lá, arrombamos a porta e o agarramos. Se não... — O acesso de inspiração fatigara-o; calou-se.

— Entramos e esperamos. — Aquele era Hodge, a zumbir em volta das nossas cabeças.

— A mulher mencionou um guarda na porta — adverti. — Vamos ter de tratar dele.

— Será assim muito difícil?

O grupo de diplomatas aproximou-se da porta. Mwamba bateu. Aguardamos, olhando para um lado e o outro do corredor. Reinava o silêncio. Mwamba tornou a bater. Registrou-se movimento num painel redondo no centro da porta. Os veios da madeira mexeram-se, ondulando e contorcendo-se para formarem o tênue contorno de um rosto. Pestanejou, ensonado e falou numa voz aguda nasalada.

— O ocupante deste quarto saiu. Por favor, voltem mais tarde.

Recuei e observei a base da porta.

— É bem apertada. Acham que poderíamos nos enfiar lá por debaixo?

— Duvido — disse Mwamba. — O buraco da fechadura deve dar, se nos transformarmos em fumaça.

Ouviu-se um riso abafado de Ascobol.

— Bartimaeus não vai precisar mudar. Olhem para a metade inferior dele... já está gasosa.69

 

69 Ofensivo, grosseiro, mas havia ali um fundo de verdade. O meu estado não se deteriorara tanto quanto com a rã, mas a cada minuto que passava, a minha força, e o controle da minha essência, diminuíam um bocadinho. Eu estava um nadinha fluido na zona das calças.

 

Cormocodran olhava carrancudo para o seu torso corpulento.

— Não sei se sou capaz de me fazer em fumaça.

O guarda da porta escutava com alguma preocupação.

— O ocupante deste quarto saiu — esganiçou-se novamente. — Por favor, não tentem entrar. Serei forçado a agir.

Ascobol acercou-se.

— Que tipo de espírito é você? Um diabrete?

— Sim, senhor. Efetivamente sou. — O guarda da porta parecia não caber em si de orgulho.

— Quantos planos consegue observar? Cinco? Muito bem; olha para nós no quinto. O que vê? Então? Não treme?

O rosto na porta engoliu ruidosamente em seco.

— Um pouco, senhor... Mas se me é permitido perguntar, o que é aquela mancha nebulosa pairando à direita?

— Aquele é Bartimaeus. Ignore-o. Nós outros somos implacáveis e fortes e exigimos entrar no quarto. O que diz?

Uma pausa, um suspiro profundo.

— Estou preso a uma ordem, senhor. Tenho de impedi-los.

Ascobol praguejou.

— Nesse caso, assinou a tua sentença de morte. Somos djinn poderosos. Você não passa de um borrão insignificante. O que espera poder fazer?

— Posso dar o alarme, senhor. Que é o que acabei de fazer.

Um leve estouro, como se bolhas a arrebentarem em lama quente. Os diplomatas olharam para a esquerda e para a direita: ao longo do corredor, de cada lado, erguera-se uma série de cabeças do carpete. Cada cabeça era oval como uma bola de rugby, lisa e brilhante, muito preta, com dois olhos pálidos juntos perto da base. Cada um libertou-se e elevou-se no ar, arrastando uma faixa de tentáculos a contorcer-se.

— Temos que tratar disso rápida, silenciosa e asseadamente — frisou Mwamba. — Hopkins não pode saber de nada do que se passou.

— Certo.

Num silêncio algo ameaçador, as cabeças avançaram na nossa direção.

Não perdemos muito tempo a ver o que planejavam fazer. Agimos, cada um de acordo com a sua especialidade. Mwamba saltou para a parede, subiu por ela acima até ao teto, dali agarrou-se como um lagarto, largando espasmos sobre a cabeça mais próxima. Hodge cresceu do tamanho de inseto num abrir e fechar de olhos, virou-se e sacudiu a pele, arremessando inúmeros dardos venenosos na direção do inimigo. Dos ombros de Ascobol saíram asas com penas, elevou-se no ar e disparou uma Detonação. Cormocodran tornou-se um homem-javali. Baixou as presas, rodou os ombros maciços e entrou na refrega. Quanto a mim, enfiei-me no vaso ornamental mais próximo, ergui o Escudo possível e tentei passar despercebido.70

 

70 Teria adorado participar da contenda. Por norma, seria o primeiro na linha para lutar contra as coisas com cabeça de lula. Mas, naquele momento, isso não fazia parte dos meus planos. Restava muito pouco da minha essência preciosa para desperdiçar.

 

Sentia uma vaga curiosidade, enquanto arrumava as folhas maiores, quanto ao tipo de ameaça que as cabeças flutuantes poderiam constituir. Não tardei a descobrir. Assim que um ou dois se aproximaram, as cabeças inclinaram-se para trás, os tentáculos afastaram-se e tubos no interior lançaram jatos pretos que inundaram tudo à sua frente. Cormocodran foi atingido a meio do ataque; soltou um berro de dor — onde caía, o líquido queimava a sua essência; borbulhava, crepitava, corroía a sua forma. Mesmo assim, não o derrubou. Atacou com as presas e arremessou uma cabeça pelo corredor. A Detonação de Ascobol apanhou outra, fazendo-a explodir no meio do ar; o jato preto fez ricochete nas paredes cobrindo mais Cormocodran, que se contorcia e atingiu até as folhas de cima da minha fiel planta envasada. Lá no teto, Mwamba saltou e esquivou-se, escapando com uma pequeníssima mancha preta. Os seus Espasmos atingiram o alvo: aqui e ali, cabeças rodopiavam e desfaziam-se. Os dardos venenosos de Hodge também tinham se cravado em duas: incharam, ficaram amarelas e caíram no carpete, onde se tornaram purulentas e desapareceram.

As cabeças assumiram uma rapidez surpreendente. Corriam para cá e para lá, procurando escapar aos dardos, Espasmos e Detonações e conseguir colocar-se por trás dos djinn para novos ataques. Mas os limites do corredor e uma loucura que parecia ter acometido Cormocodran atrapalharam. Com as presas moles e um rosto que se enevoava e fumegava, urrou e atacou, batendo com os punhos, agarrando tentáculos, espezinhando com os cascos, aparentemente insensível ao jato pulverizante. Perante semelhante inimigo, as cabeças estavam em dificuldades. Em menos de um minuto, a última desfizera-se em líquido. A batalha terminara.

Mwamba desceu do teto, Ascobol flutuou até o chão. Eu saí com rapidez de trás da planta. Observamos o corredor. Na manhã seguinte o pessoal de limpeza ia ter uma surpresa, qualquer que fosse o plano onde operasse. Metade das paredes estava coberta de tinta; silvava, espumava e corria em regatos até o chão. O corredor era um caleidoscópio de manchas, chamuscados e visco a coagular. Até a metade da frente da minha planta no vaso ficara bastante queimada; virei-a cuidadosamente para mostrar ao mundo o seu lado bom.

— Ah! — exclamei, animado. — Acham que Hopkins vai notar alguma coisa?

Cormocodran encontrava-se em péssimo estado, a cabeça de javali praticamente irreconhecível, as pressa enegrecidas, as suas belas tatuagens desaparecidas por completo. Com passos mancos, aproximou-se da porta do quarto vinte e três, onde o diabrete assistia pestanejante do seu círculo.

— Agora, meu amigo — disse ele —, temos de decidir quanto à natureza da tua morte.

— Um momento! — exclamou o guarda da porta. — Não há necessidade de semelhante desagradabilidade! A nossa diferença de opinião está a acabar!

Cormocodran semicerrou os olhos.

— E por que será?

— Porque o ocupante do quarto acaba de regressar e podem resolver o assunto com ele pessoalmente. Tenham um bom dia. — Os veios da madeira moveram-se e relaxaram; o contorno do rosto desaparecera.

Por um segundo ou dois, ficamos a matutar nas palavras enigmáticas do diabrete. Depois, mais outro segundo enquanto nos virávamos lentamente para olhar para o fundo do corredor.

Lá a meio estava um homem.

Via-se que acabara de vir da rua, pois tinha vestido um casaco por cima de um terno cinzento-escuro. A cabeça estava descoberta e ligeiramente descomposta; descia-lhe sobre o rosto uma madeixa de cabelo acastanhado. Era o mesmo homem que eu vira no parque: magro, de peito saliente, absolutamente comum. Tinha um saco de plástico com livros na mão esquerda. Mesmo assim, algo nele me levava inquietantemente a puxar pela memória, tal como da última vez. O que era? Poderia jurar que nunca vira Hopkins antes.

Inspecionei-o nos sete planos. Era difícil ter a certeza, mas a sua aura parecia um pouco mais forte do que a da maior parte dos humanos. Talvez fossem apenas as luzes. Era sem dúvida um homem.

Mr. Hopkins olhou-nos. Nós o olhamos.

Depois ele sorriu, virou-se e fugiu.

Lá fomos nós: Mwamba e Ascobol na frente, Hodge caminhando pesadamente atrás, eu a seguir, conservando o máximo de energia possível e, por fim, o pobre Cormocodran na retaguarda.71 Ao virar da esquina, amontoamo-nos, no recanto do elevador.

 

71 Eram principalmente os ferimentos que o atrasavam, mas a sua refeição recente também não ajudava. Ele devorara mesmo a gerente.

 

— Para onde é que ele foi?

— Ali! Escadas... rápido...

— Para cima ou para baixo?

Vi um rasgo de manga virar para baixo.

— Para baixo! Rápido! Mudem, alguém.

Um brilho trêmulo. Mwamba era uma ave com asas negro-esverdedadas, descendo a pique pelo centro das escadas. Ascobol tornou-se um abutre, uma escolha menos astuta, visto ter dificuldade em virar a sua corpulência num espaço estreito. Hodge encolheu, subiu para a balaustrada sob a forma de um pangolim com mau aspecto. Curvou-se numa bola, pelo que as placas da couraça o protegiam, e desceu fisicamente pela caixa das escadas. Eu e Cormocodran não podíamos dar essa velocidade; apressamo-nos a segui-lo o melhor que conseguíamos.

Até o térreo, por portas giratórias, indo dar no corredor. Estaquei, fui derrubado e estatelado por Cormocodran, que atacava às cegas lá atrás.

— Para onde é que eles foram?

— Não sei. Perdemo-os. Não... ouça!

Sons de gritos e berros — sempre um bom indicador do lugar onde os meus companheiros poderiam estar. Vinham da direção da sala de jantar. Enquanto observávamos, uma série de humanos — um sortido jeitoso de hóspedes e pessoal da cozinha — atravessou disparada o arco e fugiu aos gritos para o corredor. Esperamos que passassem os mais pesados, a arfar, depois entramos apressadamente. Na sala de jantar, seguindo um rastro de cadeiras derrubadas, talheres e copos partidos, e transpondo umas portas malucas para a cozinha do hotel.

Ascobol olhava à sua volta.

— Rápido! — exclamou. — O temos cercado!

O ciclope estava escarranchado numa pia de metal, a apontar. À sua esquerda, Mwamba bloqueava o espaço entre duas prateleiras com panelas, agitando para cá e para lá a sua cauda escamosa, a comprida língua bífida cortando o ar. A direita dele, Hodge saltara para uma mesa de trabalho e fazia subir e descer os espinhos venenosos com intuitos maldosos. Olhavam todos fixamente para a esquina mais distante da cozinha, onde o fugitivo se refugiara. Atrás dele havia parede sólida, sem portas nem janelas. Não tinha como escapar.

Cormocodran e eu ocupamos as nossas posições na linha. Ascobol olhava na nossa direção.

— O palerma recusa-se a sair tranqüilamente — silvou. — Precisamos de assustá-lo um bocado. Hodge já deu algumas risadas maníacas, mas ele não se mexeu um centímetro. Vá lá, Bartimaeus, não consegue arranjar algo um pouco mais medonho? Anima o teu aspecto.

Poderiam argumentar que um homem que não tinha medo de um ciclope, de um guerreiro com cabeça de javali, de um lagarto gigante e de um pangolim gargalhante com ar malévolo fosse ficar muito aflito com mais ou menos um monstro, mas entendia o ponto de vista. Um diplomata não é a coisa mais aterradora do mundo. Procurei no meu repertório de disfarces e escolhi um que costumava apavorar razoavelmente os povos das planícies. O diplomata desapareceu. No seu lugar estava uma figura alta e sinistra, a pairar com uma capa de penas e ossos de animais; tinha o corpo de um homem, mas a cabeça — esguia e negra com olhos de fogo amarelo — era a de um corvo selvagem. O bico cruel abriu-se, lançando um grasnido terrível sobre o mundo. Vários talheres vibraram pela cozinha.

Baixei a cabeça na direção de Ascobol.

— Que tal?

— Terá que ser.

Como um só, os cinco djinn terríveis aproximaram-se da sua presa.

— Pode perfeitamente largar essa coisa — aconselhou Mwamba, austeramente. — Está encurralado.

Ah sim. Essa coisa. Também reparara nela. Mr. Hopkins pegara num certo tipo de utensílio de cozinha para se defender. Mas, em vez de segurá-la medrosamente diante de si, como seria de esperar, brincava com ele de uma forma nada própria de um estudioso, atirando-o ao ar com uma mão e agarrando-o lestamente entre o indicador e o polegar da outra. Ainda se tivesse sido um abridor-de-latas ou um descascador de batatas, mesmo uma concha ou uma colher de sopa, não me teria preocupado muito. Era um cutelo de carne, e por sinal, dos grandes.

Algo na forma como o segurava fez soar umas campainhas fraquinhas.

— Ora bem — disse Mr. Hopkins, sorrindo. — Aqui está uma questão difícil. Foram vocês que me encurralaram, ou o inverso?

Deu um pulinho quando proferiu estas palavras, como se preparasse para dançar uma horrível Jiga celta; mas não, elevou-se calmamente do chão e pairou por cima de nós, com um sorriso de orelha a orelha.

Isto era inesperado. Até Hodge interrompeu as risadas abafadas. Os outros entreolharam-se de espanto. Eu não, porém. Fiquei silencioso, pregado ao chão, um dedo desconfortável de gelo a descer-me demoradamente pela espinha.

Sabem, é que eu conhecia aquela voz. E não era a de nenhum Mr. Hopkins. Não era sequer humana.

Era de Faquarl.

 

— Hã, companheiros — arrisquei. — Acho que devíamos avançar com cautela.

Da sua posição no meio do ar, Mr. Hopkins atirou o cutelo alto, brilhando enquanto rodava, descrevendo um arco em volta da luz no teto e caindo novamente de cabo para baixo no seu dedo estendido. Fitou-me e piscou o olho.

Ascobol estava confuso, mas produzia muita verborreia para disfarçar.

— Portanto ele consegue levitar — resmungou. — E fazer malabarismos. Também metade dos faquires da Índia consegue, e nunca fugi deles. Vamos lá. Lembrem-se, temos de apanhá-lo vivo.

Com um grito sobrenatural, desceu da pia. O homem com cabeça de corvo estendeu uma mão cautelosa.

— Espera! — disse eu. — Há algo errado aqui. A voz dele...

— É um covarde, Bartimaeus! — O pangolim disparou uma descarga de dardos que choveram no chão junto aos meus pés. — Teme pelo que resta da tua essência. Bem, salta para a cadeira mais próxima e guincha. Quatro djinn como deve ser conseguem dar conta deste homem.

— Mas é exatamente isso — protestei. — Não tenho certeza de que isto é um homem. Ele...

— Mas é claro que sou. — Lá no alto, Mr. Hopkins bateu orgulhosamente no peito. — Planos um a sete, carne e osso. Não vêem? — Era verdade. Ele era humano para onde quer que se olhasse. Mas quem falava era Faquarl.

O lagarto gigante deu uma chicotada de agitação com a cauda; bateu num fogão e derrubou-o com ruído.

— Esperem aí — disse Mwamba. — Que língua estamos falando?72

 

72 No calor do momento, nós, djinn, às vezes perdemos a noção do dialeto que estamos usando. Quando trabalhamos juntos neste mundo, tendemos a falar línguas que são familiares a todos nós e não necessariamente a usada pela civilização du jour* (Comportamento típico, entendem.)

 

* Em francês no original: atual. (NT)

 

— Hã... aramaico, porquê?

— Porque ele também fala.

— E depois? Ele é um estudioso, não é? — Às vezes, em momentos de stress, Ascobol conseguia pulverizar as línguas semitas.

— Sim, mas parece um pouco estranho...

Mr. Hopkins olhou ostensivamente para o relógio.

— Olhem, desculpem estar me metendo — gritou —, mas sou um homem ocupado. Tenho um assunto importante esta noite, que diz respeito a todos nós. Se saírem já da frente, os pouparei. Até Bartimaeus.

Cormocodran estivera a descansar a sua essência adoentada encostado ao forno de oito prateleiras, mas ao ouvir aquelas palavras ganhou vida.

— Poupar-nos? — trovejou. — Por aquela amostra de impudência, vou escorneá-lo, e sem meiguice! — Raspou no chão com um casco e arremeteu. Os outros djinn seguiram-lhe o exemplo; houve uma traquinada geral de cornos, espinhos, escamas e outras partes couraçadas. Mr. Hopkins mudou descontraidamente o cutelo para a mão direita e rodou-o entre os dedos.

— Esperem, seus idiotas! — exclamou o homem-corvo. — Não ouviram? Ele me conhece! Ele sabe o meu nome! Este é...

— Não é nada teu recuar à beira de um combate, Bartimaeus — gritou Mr. Hopkins, em tom animado, descendo na direção dos djinn que avançavam. — Normalmente está muito mais distante, encolhido numa catacumba deixada de usar ou algo assim.

— Aquele incidente da catacumba foi grosseiramente deturpado! — protestei sonoramente. — Como já te expliquei vezes sem conta, eu estava a guardá-la dos inimigos romanos, que podiam perfeitamente ter escolhido.

Calei-me imediatamente. Ali estava a prova. Nenhum humano sabia que eu me escondera durante a invasão bárbara, e pouquíssimos espíritos também.73 Na verdade, só me ocorria um djinni que ainda trazia o assunto à baila com regularidade metronômica, sempre que os nossos caminhos se cruzavam ao longo dos séculos. E, de fato, esse era...

 

73 Os foliots Frisp e Pollux tinham estado presentes quando eu fora descoberto; haviam se divertido muito depois, contando a história a outros diabretes seus conhecidos. Infelizmente, tanto os foliots como os diabretes não tardaram a ser mortos de uma variedade de maneiras no decurso de uma única noite: uma bizarra coincidência, que me deixou completamente esgotado.

 

— Parem! — protestei, saltitando de um lado para o outro, agitado. — Não é Hopkins nada! Não sei como, mas é Faquarl, e ele...

Era tarde demais, claro. Os meus companheiros emitiam muitos berros e roncos para conseguirem ouvir. Mas duvido de que fossem parar mesmo que tivessem ouvido. Com certeza Ascobol e Hodge, que não tinham qualquer respeito pelos mais velhos ou superiores hierárquicos, haveriam prosseguido do mesmo jeito. Talvez Mwamba tivesse hesitado.

Mas não ouviram, e caíram todos uns por cima dos outros.

Bem, eram quatro contra um. Faquarl, munido apenas de uma faca de cozinha, versus quatro dos djinn mais ferozes então à solta em Londres. Era uma tremenda desvantagem.

Eu teria ajudado os meus companheiros se achasse que valeria de alguma coisa.

Avancei antes furtiva e cautelosamente para a porta. Só que havia uma coisa, eu conhecia Faquarl. Era possuidor de uma certa confiança jovial que lhe vinha de ser muito bom naquilo que fazia.74

 

74 Não se assemelhava nada ao velho Jabor, i.e. estupidamente forte ao ponto de indestrutível. Não era como o sinistro Tchue, que raramente precisava levantar um dedo contra os seus inimigos, tão medonhas e criativas eram as suas palavras. Não, Faquarl era muito versátil — tinha uma visão prática da sobrevivência que respeitava o poder e a astúcia em partes iguais. A partir deste momento, passava também a ser a minha filosofia: só respeitando astuciosamente o poder de Faquarl é que conseguiria evitar ser morto.

 

Muito bom e muito rápido. Cabeça de Corvo tinha acabado de se safar de levar com uma pilha de frigideiras de omeletes e esgueirava-se por entre as formas de bolo quando caiu uma chuva de placas em volta dos seus ouvidos. Ou seja, placas de couraça, do recente pangolim.

Seguiram-se, um segundo ou dois depois, uma ou duas outras coisas — algumas das quais, lamento dizer, eram identificáveis.

Só quando alcancei a porta da cozinha é que arrisquei uma olhada rápida lá para trás. Ao fundo da divisão, via-se um turbilhão de movimento, clarões de luz, sons e gritos. Esporadicamente, saíam mãos do vórtice, agarravam mesas ou pequenas frigideiras e faziam-nas desaparecer de vista. Fragmentos de metal, madeira e essência eram arremessados periodicamente para fora.

Estava na hora de partir. Alguns djinn meus conhecidos soltam ondas de Nevoeiro para encobrir o rastro; outros preferem deixar um vapor escuro tóxico ou algumas Ilusões atrás de si. Eu apaguei as luzes. Cozinha e sala de jantar ficaram mergulhadas no escuro. Luzes estranhas de uma dúzia de cores emitidas pelos djinn em luta deslocavam-se e giravam nas paredes. Lá na frente, uma fresta solitária de luz assinalava o caminho para o corredor. Envolvi-me na minha capa de penas e fui engolido pelas sombras.75

 

75 O meu disfarce de cabeça de corvo era o totem da tribo que vivia entre a planície e a floresta. Eles prezavam a furtividade e o secretismo da ave, a sua inteligência e manha. A capa incluía penas de todas as aves vivas naquelas paragens: com o seu poder absorvido nas minhas, podia caminhar despercebido na erva e na pedra e conversar também respeitosamente com o xamã da tribo, que usava idêntica fatiota, com máscara e tudo.

 

Ainda não chegara a meio da sala de jantar quando todos os sons de combate atrás de mim cessaram.

Estaquei, esperando, apesar de ser improvável, ouvir os gritos de triunfo dos meus colegas.

Não tive tal sorte. O silêncio resvalou na minha cabeça emplumada.

Concentrei-me e fiz realmente um esforço para ouvir um pedacinho de som... Talvez me tivesse esforçado muito. Julguei imaginar um ruído suave como se de alguém a atravessar o escuro a flutuar.

Apressei-me. Era inútil correr — a furtividade era a solução. Não me encontrava em condições de competir com Faquarl, por mais excêntrico que fosse o seu aspecto. Mantive-me junto às margens da sala de jantar, sempre longe das mesas, cadeiras e talheres espalhados. O meu manto de sombras cobria a minha cabeça baixa; um olho amarelo espreitava ansiosamente por baixo de uma franja de penas. Olhei para trás.

Uma mancha de negrura em movimento atravessava o arco que comunicava com a cozinha; brilhou uma luz em algo na sua mão. Aumentei um pouco o ritmo, e ao fazê-lo tropecei numa colher de chá, que foi bater com ruído na parede.

— Francamente, Bartimaeus — chamou uma voz familiar. — Está mesmo desorientado esta noite. Talvez não conseguisse ver um humano no escuro, mas vejo-o com toda a clareza como se fosse dia, escondido aí debaixo desses farrapos. Pára um pouco e conversa comigo. Sinto falta das nossas conversas. — Cabeça de Corvo não respondeu, mas precipitou-se para a porta. — Não está nem um bocadinho curioso? — A voz encontrava-se mais próximo agora. — Achei que estivesse mortinho por saber a forma que escolhi.

É claro que eu estava curioso, mas «mortinho por saber» era exatamente o que não estava. Gosto de me entregar a animados gracejos com os melhores deles, mas as conversas ficam de fora quando a alternativa é escapar com vida. A meio do passo, o homem com cabeça de corvo deu um salto em frente, de mãos estendidas, como se fosse mergulhar numa piscina; a capa de penas rodopiou ao redor dele, agitou-se, transformou-se numas asas escuras. O homem desaparecera; um corvo desesperado partiu disparado, uma flecha com penas dirigindo-se para a porta...

Um suspiro, uma pancada, um grasnido de dor. O progresso do corvo foi barrado de uma maneira que não permitia discussões, trespassado na ponta de uma asa e suspenso por baixo de um clarão brilhante que estremeceu, vibrou, se imobilizou — e se tornou um cutelo de carne cravado na parede.

Com descontraída preguiça, a coisa com o corpo de Mr. Hopkins atravessou a sala vazia. O corvo ficou à espera, oscilando ligeiramente, uma expressão indignada no bico.

Mr. Hopkins aproximou-se. Um ombro do terno estava um pouco chamuscado, e apresentava um leve golpe numa face. Fora isso, parecia incólume. Pairava na negrura a mais ou menos um metro de distância, olhando-me com um sorrisinho. Calculei que estivesse avaliando o meu estado nos vários planos; a minha fraqueza deixou-me embaraçado, quase nu. Bati com as penas da minha asa livre na parede.

— Vamos lá — proferi com frieza. — Acabe logo com isso.

Passou uma expressão carrancuda no rosto inexpressivo.

— Quer que eu te mate já?

— Isso não. A pirraça absurda em que está pensando. Que é bom manter-me em suspenso, ou qualquer coisa do gênero. Vamos, sabe que te apetece. Bote pra fora.

O estudioso ficou magoado.

— Como se eu descesse tão baixo, Bartimaeus. Julga-me pelos teus parâmetros subterrâneos de resposta pronta, que são tão deploráveis quanto o estado da tua essência. Olhe para você! Perfurado como uma esponja. Se eu fosse teu amo, usava-o para limpar o chão.

Soltei um gemido.

— Provavelmente estará agendado. Já fiz de tudo.

— Tenho certeza que sim. Bem, é absolutamente lamentável ver qualquer espírito descer tão baixo, mesmo um tão frívolo e irritante quanto você. Quase me comove. — Coçou o nariz. — Quase, mas não de todo.

Inspecionei os olhos cinzento-claros.

— É você, não é? — perguntei.

— É claro que sou.

— Mas a tua essência... Onde...?

— Aqui mesmo, escondida dentro do corpo do nosso querido Mr. Hopkins. Como deve ter deduzido, isto não é um mero aspecto. — A voz de Faquarl soltou uma pequena risada. — Que fatiota patética de ave estava usando agora mesmo? Totem de nativo americano? Tão complexo e antiquado. Bem, já ultrapassei esse tipo de coisa.

— Está dentro do corpo verdadeiro dele? — inquiri. — Ugh! É repugnante. Quem te fez isto, Faquarl? Quem é o teu amo? Não entendo nada disto.

— O meu amo? — O homem a pairar não escondeu o seu contentamento. — Ora, Mr. Hopkins, claro, e estou-lhe muito grato. Tão grato que acho que ele e eu iremos trabalhar juntos nos próximos tempos. — Soltou outra gargalhada forte e salutar.76 — Aconteceu muita coisa desde a última vez que nos encontramos, Bartimaeus — prosseguiu. — Recorda-se da forma como nos separamos?

 

76 Vinda de um djinni consideravelmente superior como Faquarl, esta gargalhada tinha o condão de enervar. Nós, espíritos superiores, possuímos o nosso sentido de humor, claro, que usamos para dar a impressão de que os anos infinitos de servidão na Terra são muito agradáveis. Por norma, inserem-se numa determinada categoria — seca, sardônica e de advertência, constantemente surpreendidos pelos pontos fracos dos magos. Não tendemos a cair na histeria — isso não se faz e pronto. (É claro que não estou me referindo aqui aos diabretes, que raramente vão além da arlequinada recreativa.) Assim sendo, havia aqui algo de curiosamente irrestrito no contentamento de Faquarl, algo um pouco envolvido demais.

 

— Não. — É que sim.

— Você me ateou fogo, velho amigo. Riscou um fósforo e deixou-me a arder numa mata.

O corvo agitou-se constrangidamente sob o cutelo.

— Em algumas culturas isso é um gesto de ternura. Uns se abraçam, uns se beijam, uns ateam fogo em pequenos bosques...

— Hum. Bem, você foi escravo de mais humanos do que eu, Bartimaeus. Conhece os modos deles como ninguém. Mesmo assim, foi um bocadinho doloroso... — Aproximou-se mais.

— Não se saíu muito mal — protestei. — Mais tarde, avistei-o umas duas vezes, trabalhando na cozinha de Heddleham. Não me pareceu muito chamuscado. Mas, afinal, o que te atrai tanto nas cozinhas? Anda sempre a rondá-las.77

 

77 Era verdade. Remontava às cozinhas reais em Nínive, cerca de 700 a.C. Eu fora mandado lá pelos magos babilônios numa missão diplomática, i.e. colocar arsênico na comida de Sennacherib durante um banquete. Infelizmente, Faquarl fora contratado pelo rei assírio para procurar assassinos: implicou com o meu saboroso pão-de-ló regado com gordura de vitelo e perseguiu-me pelo salão. Depois da mãe de todas as discussões culinárias, acertei-lhe em cheio com um osso de pernil e consegui fugir. A nossa relação deteriorou-se consideravelmente a partir dali.

 

Hopkins (ou Faquarl) acenou com a cabeça.

— Muitas armas afiadas nas cozinhas. — Deu um piparote no cutelo com a ponta de um dedo; lâmina e corvo vibraram e pulsaram. — Por isso é que vim para cá. E também é mais espaçoso do que o corredor lá em cima. Precisava de espaço para poder agitar os braços à vontade... O espaço é coisa rara neste hotel. Olha, o meu quarto tem mesmo um jacuzzi.

A minha cabeça girava.

— Espera um segundo — disse-lhe. — Eu conheço-o como Faquarl de Esparta, flagelo, do Mar Egeu. Vi-o como um gigante negro como um tição a esmagar exércitos de hoplitas* debaixo dos teus calcanhares. Agora é o quê? Um humano de peito saliente que gosta de tomar banho. O que se passa aqui? Há quanto tempo está aprisionado desta maneira?

 

* Soldado de infantaria na antiga Grécia, equipado com armadura pesada. (NT)

 

— Há uns dois meses, por aí. Mas dificilmente estarei aprisionado. O Ambassador é um estabelecimento muito elegante e exclusivo. Hopkins gostava das coisas boas da vida, sabe. E também está fora do alcance dos espiões do governo, por isso posso entrar e sair sempre que me apetecer.

Não vi motivos para introduzir modificações. O corvo revirou os olhos.

— Não é o hotel. Estava falando do corpo.

Uma risada.

— A resposta é idêntica, Bartimaeus. Foi só há algumas semanas que o bom Mr. Hopkins... como explicar?... me convidou a entrar. Levei um bocado para me aclimatar, mas agora sinto-me extremamente confortável. E, apesar das aparências, o meu poder não foi de modo algum reduzido. Como os teus amigos acabaram de descobrir. — Sorriu rasgadamente. — Há muito tempo que não me empanturrava tanto.

— Sim, bem. — Tossi desconfortavelmente. — Espero que não estivesse pensando em fazer o mesmo comigo. — Já andamos há tanto tempo por aqui, você e eu. Uma associação maravilhosa; muitas experiências partilhadas.

Os olhos de Mr. Hopkins brilharam de alegria.

— Assim está melhor, Bartimaeus. O teu sentido de humor arrebitou. Mas, na verdade, não tenciono devorar-te.

O corvo estivera suspenso do cutelo de uma forma calamitosa. Agora, com esta notícia inesperada, recobrou.

— Não mesmo? Faquarl, é um amigo generoso! Peço desculpas por aquele incidente no bosque, e pelas nossas lutas por causa do Amuleto, e por aquela Convulsão de trás com que te atingi, lá em Heidelberga em «trinta e dois» — hesitei —, que pelo visto ignorava ter sido eu. Hum, e todo o resto. Por isso... muito obrigado, e se pudesse retirar o cutelo, eu ia cuidar da minha vida.

O homem de rosto malicioso não retirou o cutelo. Debruçou-se junto do corvo.

— Eu não disse que ia te poupar, Bartimaeus. Apenas que não ia te comer. Que horror! Só de olhar para a tua essência, provoca-me uma indigestão. Mas também não vou te soltar. Ainda esta noite morrerá de forma horrível...

— Oh. Que bom.

— Da forma mais dolorosa e prolongada que eu conseguir inventar.

— Olha, não precisa se incomodar por causa disso...

— Mas primeiro quero dizer-lhe uma coisa. — O rosto sorridente de Hopkins aproximou-se. — Quero dizer-lhe que estava enganado.

Orgulho-me da minha vivacidade de espírito e inteligência fina, mas aquela deixou-me embatucado.

— Inúmeras vezes — prosseguiu Faquarl — te falei da esperança de que um dia os djinn pudessem ser livres. Djinn como você e eu. Por que lutamos? Porque os nossos malditos amos humanos nos viram uns contra os outros. Por que lhes obedecemos? Porque não temos escolha. Inúmeras vezes especulei que estas regras podiam ser desafiadas; inúmeras vezes você me disse que eu estava enganado.

— Eu não disse bem isso. Disse que era um completo...

— Disse que não haveria hipótese de algum dia conseguirmos nos libertar dos problemas gêmeos, Bartimaeus. Os problemas do livre-arbítrio e da dor. E vejo de novo essa certeza nos teus olhinhos malévolos! Mas está enganado. Olhe para mim agora... o que vê?

Ponderei.

— Um maníaco assassino com forma humana? Uma amálgama hedionda do pior no homem e nos djinn? Hã... estou me comprometendo aqui... um antigo inimigo a olhar-me com inesperada piedade e espírito corporativo?

— Não, Bartimaeus. Não. Eu te digo. Vê um djinni sem dor. Vê um djinni com livre-arbítrio. Não me surpreende que não entenda: em cinco mil anos nunca houve uma maravilha assim! — Estendeu uma mão muito humana e despenteou-me delicadamente as penas da cabeça. — Consegue imaginar, minha pobre criatura ferida? Sem dor! Sem dor, Bartimaeus! Ah — suspirou —, nem imagina como isso me deixa lúcido.

Sem dor... No fundo da minha mente embaralhada, vi uma imagem súbita: o esqueleto de Gladstone, a saltar, a pular...

— Uma vez conheci um afrit — disse. — Ele também falou de algo desse gênero. Mas a sua essência estava aprisionada em ossos humanos e enlouqueceu. No fim, preferiu a extinção a continuar vivendo.

Faquarl moldou o rosto de Hopkins em algo próximo de um sorriso.

— Ah, refere-se a Honorius? Sim, ouvi falar dele. O pobre desgraçado foi muito influente! A minha essência está protegida, tal como a dele estava e, tal como ele, também tenho livre-arbítrio. Mas repare nisso, Bartimaeus... eu não vou enlouquecer.

— Mas para estar neste mundo, deve ter sido chamado — insisti. — Por isso deve estar fazendo o que alguém manda...

— Hopkins chamou-me, e fiz o que ele mandou. Agora sou livre. — Pela primeira vez, pareceu-me detectar algo do djinni escondido dentro do homem: lá no fundo dos seus olhos um pequeno clarão de triunfo, quase como uma chama. — Deve recordar-se, Bartimaeus, que na nossa última conversa eu falei com otimismo da temeridade de certos magos londrinos, homens que um dia poderiam nos dar a oportunidade.

— Lembro-me — disse. — Estava falando de Lovelace.

— É verdade, mas não apenas dele. Bem, acontece que eu tinha razão. A nossa oportunidade chegou. Primeiro, Lovelace excedeu-se. O seu golpe falhou, ele morreu e eu fui...

— Libertado! — exclamei. — Sim! Graças a mim, quer dizer. Está me devendo uma, com certeza.

— ...submerso num cofre pouco longe do litoral, mercê de uma cláusula de restrição após a morte no meu chamado. Levei o tempo a amaldiçoar quem matou Lovelace.

— Ah, isso foi o meu amo. Eu lhe disse que era uma precipitação, mas ele me deu ouvidos... ?

— Felizmente fui libertado pouco depois por um dos amigos de Lovelace, que sabia da minha existência e dos meus talentos. Desde então tenho trabalhado com ele.

— Que seria Hopkins.

— Bem, por sinal, não. A propósito — Faquarl consultou o relógio —, não posso continuar a noite toda aqui contigo batendo papo. Esta noite começa a revolução, e tenho de estar lá para assistir. Você e os teus amigos idiotas já me retiveram muito.

O corvo ficou esperançado.

— Isso quer dizer que não tem tempo para aquela morte dolorosa e prolongada que me prometeu?

— Eu não terei, Bartimaeus, mas você terá todo o tempo do mundo. — Estendeu as mãos, agarrou-me pelo pescoço e arrancou o cutelo da minha asa. A forma de Hopkins ergueu-se no ar e virou-se para a sala de jantar às escuras. — Vejamos — murmurou Faquarl. — Sim... aquilo parece promissor.

Passamos por cima das mesas, em direção à parede em frente. Havia ali um carrinho, precisamente onde os empregados o haviam deixado. No centro do carrinho via-se uma terrina grande com uma tampa abobadada. Era de prata. O corvo contorceu-se e debateu-se desesperadamente na mão do seu captor.

— Vamos lá, Faquarl — implorei. — Não faça nada que possa se arrepender.

— Pode ficar descansado. — Desceu até junto do carrinho, segurou-me por cima da terrina; a radiação fria do fatal metal incomodava a minha essência esfarrapada. — Um djinni saudável talvez resistisse semanas num túmulo de prata como este — disse Faquarl. — No teu estado, não creio que sobreviva mais do que duas horas. Ora bem, o que será que temos aqui dentro...? — Com um gesto súbito dos dedos, levantou a tampa. — Hum. Sopa de peixe. Deliciosa. Bem, adeus, Bartimaeus. Enquanto morre, console-se em saber que a escravização dos djinn está quase a terminar. A partir desta noite, vamos nos vingar. — Os dedos afastaram-se; com um delicado plop, o corvo caiu dentro da sopa. Faquarl acenou em despedida e fechou a tampa. Boiei no escuro. Completamente rodeado de prata: a minha essência mirrou e empolou.

Tinha uma chance — uma única chance: esperar um pouco que Faquarl partisse, depois reunir os meus últimos arrancos de energia e tentar fazer saltar a tampa. Seria difícil, mas executável — desde que ele não pusesse algo a bloqueá-la ou coisa parecida.

Faquarl não se preocupou em bloqueá-la. Atravessou toda a parede. Ouviu-se um grande estrondo e fragor, um impacto assustador; a terrina abateu-se à minha volta, completamente esmagada pelo peso da alvenaria que lhe caiu em cima. A prata pressionava de todos os lados; o corvo contorceu-se, meneou-se, mas não tinha espaço para se mexer. A minha cabeça girava, a minha essência começava a ferver; quase grato, mergulhei na inconsciência.

Queimado e espalmado até à morte num recipiente de prata com sopa. Devia haver formas piores de morrer. Mas não muitas.

 

Nathaniel olhava a noite, as luzes, as casas e as pessoas pela janela da limusine. Passavam numa espécie de mancha de cor e movimento que mudava infinita, ilusoriamente, e no entanto não significava nada. Durante um bocado, deixou que o seu olhar cansado vagueasse por entre as formas em mudança, depois — quando o carro abrandou ao aproximar-se de um cruzamento — concentrou-se no próprio vidro e no reflexo nele. Viu-se novamente.

Não foi uma visão totalmente tranqüilizadora. O cansaço estava estampado no seu rosto, no cabelo úmido, no colarinho caído e mole. Mas ardia ainda uma centelha nos seus olhos.

Mais cedo naquele dia não fora assim. As sucessivas crises — a sua humilhação em Richmond, as ameaças à sua carreira e a descoberta da traição de Bartimaeus — haviam-no atingido com força. A personalidade cuidadosamente construída de John Mandrake, Ministro da Informação e membro jovialmente seguro do Conselho, começara a rachar à sua volta. Mas fora a rejeição de Ms. Lutyens naquela manhã que desferira o golpe decisivo. Em alguns momentos de sucessivo desprezo, ela destruíra a couraça da sua posição social e pusera a descoberto o rapaz por baixo. O choque fora quase excessivo para Nathaniel; com a perda da auto-estima viera o caos — passara o resto do dia trancado nos seus aposentos, alternando entre a fúria e a remissão ao silêncio.

Mas duas coisas se haviam conjugado para arrancá-lo de lá, para impedi-lo de se afogar na autocomiseração. Primeira, a um nível prático, o relato tardio de Bartimaeus dera-lhe algo a que se agarrar. O paradeiro de Hopkins permitiria a Nathaniel uma última oportunidade de agir antes do julgamento no dia seguinte. Capturando o traidor, poderia suplantar Farrar, Mortensen e o resto dos seus inimigos: Devereux esqueceria o seu descontentamento e reconduziria Nathaniel a uma posição de prestígio.

O êxito não estava garantido, mas confiava no poder dos djinn que enviara ao hotel. E sentia-se já revigorado pelo mero ato de tê-lo feito. Uma sensação quente percorreu-lhe as costas, fazendo-o estremecer um pouco nos limites do carro. Voltava finalmente a mostrar-se decidido, a apostar forte, a sacudir a inércia dos últimos anos. Sentia-se quase como quando era criança, empolgado com a audácia dos seus atos. Assim sucedera muitas vezes, antes da política e o papel ridículo de John Mandrake o haverem abafado.

E já não desejava representar esse papel. De fato, se o destino fosse generoso, primeiro garantiria a sua sobrevivência política. Mas há muito que se fartara dos outros ministros, enojado com a corrupção moral deles, com a ganância que os movia. Só hoje, com o desdém nos olhos de Ms. Lutyens e de Kitty Jones, conseguira reconhecer em si essa doença. Bem, não voltaria a deixar-se absorver pelas rotinas do Conselho! Era necessária ação decisiva para salvar o país da má gestão dele. Espreitou pela janela os contornos pouco nítidos das pessoas nas ruas. Os comuns necessitavam de orientação; necessitavam de um novo líder. Alguém capaz de impor um pouco de paz e segurança. Pensou no Bordão de Gladstone nos subterrâneos de Whitehall.

Não que devesse usar a força, claro — pelo menos, não sobre os comuns. Kitty Jones tinha razão nesse aspecto. Olhou para o lugar onde a garota estava sentada — agradavelmente perto dele — contemplando a noite com extraordinária serenidade.

Fora ela a segunda razão pela qual as suas energias se haviam reanimado, a centelha reacendera, e estava imensamente satisfeito por have-la encontrado. Tinha o cabelo mais curto do que se recordava, mas a língua continuava afiada como sempre. Na discussão à porta da estalagem, ela atravessara as suas pretensões como uma faca, envergonhando-o repetidamente com a chama da sua segurança. No entanto — e era esta a parte estranha —, sentia que desejava ardentemente dar continuidade à conversa deles.

Especialmente — a sua testa franziu-se — por causa daquela sugestão de que sabia mais sobre a carreira de Bartimaeus do que ele teria julgado possível. Era muito estranho... Mas isso podia ser explorado com calma, depois da peça, e depois — com sorte — dos seus djinn voltarem vitoriosos. Bartimaeus poderia esclarecê-lo pessoalmente. O que faria com ela a seguir, muito sinceramente, não sabia.

A voz do motorista arrancou Nathaniel do seu devaneio.

— Estamos quase no teatro, senhor.

— Ótimo. Quanto tempo demorou?

— Doze minutos, senhor. Tive de dar uma volta maior. O centro da cidade continua barricado. Há manifestações nos parques. Imensa atividade policial.

— Bem, com sorte, perderemos o começo da representação.

Kitty Jones falou pela primeira vez na viagem. Tal como antes, estava impressionado com a postura dela.

— Afinal, que peça é esta que tenho de agüentar?

Nathaniel suspirou.

— Uma estréia de Makepeace.

— Não foi o que escreveu Cisnes da Arábia?

— Receio que sim. O primeiro-ministro é fã, por conseguinte, todos os magos do governo, do Conselho até ao terceiro secretário, têm de assistir ao espetáculo sob pena de absoluto agravo. É de primordial importância.

Ela carregou o cenho.

— O quê, com uma guerra a decorrer, e as pessoas a provocarem distúrbios nas ruas?

— Mesmo assim. Tenho trabalho vital meu esta noite, mas sou obrigado a pô-lo de lado até o pano cair. Só espero que não tenha muitos intervalos. — Sentiu a forma da sua bola de cristal dentro do casaco; no intervalo entre atos, iria verificar o progresso dos seus djinn.

Entraram em Shaftesbury Avenue — uma curva cheia de restaurantes, bares e teatros, muitos reconstruídos recentemente no melhor concreto ao abrigo das medidas do governo de demolição dos bairros de lata. Luzes de néon brilhantes, uma nova invenção do Japão, indicavam os nomes de cada estabelecimento em rosas, amarelos, malva, vermelhão; quantidades de magos menores e comuns da casta alta deslocavam-se lentamente pela rua, acompanhados de Policiais Noturnos vigilantes. Nathaniel procurou indícios de desordem social, mas as multidões pareciam calmas.

A limusine abrandou, parou numa área separada por cordão debaixo de um toldo dourado. Policiais e magos da Segurança vestidos de preto encontravam-se por trás das barricadas; alguns fotógrafos ajoelhados abaixo deles, as máquinas fotográficas assentadas em tripés. A fachada do teatro era um clarão de luz; um elegante tapete vermelho entre a rua e as suas portas abertas.

Havia um cavalheiro baixo e redondo em cima do tapete, agitando freneticamente as mãos. Quando o carro parou, Quentin Makepeace inclinou-se e abriu a porta lateral mais próxima.

— Mandrake! Finalmente chegou! Não temos um momento a perder.

— Peço desculpas, Quentin. Problemas nas ruas... — Desde que presenciara a experiência indecente do dramaturgo com o comum, Nathaniel sentia uma enorme aversão por ele. O homem era uma pestilência e tinha de ser afastado. Tudo a seu tempo.

— Eu sei, eu sei. Vamos, saia! Tenho de estar no palco dentro de três minutos! As portas do átrio estão fechadas, mas tenho espaço para você no meu próprio camarote. Sim, sim, a sua amiga também. Ela é bem mais bonita do que você ou eu; podemos nos deleitar com o esplendor dela! Venham, rapidamente. Dois minutos e a contagem continua!

Com uma série de empurrões, puxões e gestos de encorajamento, Mr. Makepeace fez Nathaniel e Kitty sairem do carro, atravessar o tapete e transpor as portas do teatro. A luz forte do átrio fez com que pestanejassem; afastaram empregados obsequiosos, que ofereciam almofadas e bandejas com vinho espumante. As paredes estavam cobertas de cartazes anunciando a peça: a maior parte apresentava Quentin Makepeace, a sorrir, a piscar o olho ou com ar profundo de uma variedade de ângulos. O homem de carne e osso parara junto a umas escadas estreitas.

— Lá em cima! O meu camarote privado. Já irei encontrá-los. Desejem-me sorte! — Depois desapareceu, um diminuto turbilhão de cabelo com brilhantina, dentes reluzentes, olhos vivos e cintilantes.

Nathaniel e Kitty subiram as escadas. No alto havia uma cortina corrida. Afastaram-na e entraram num espaço pequeno decorado com cortinas de cetim. Três cadeiras ornamentais viradas para uma balaustrada baixa; mais além e em baixo ficava o palco — meio escondido por trás de cortinas grossas —, a parte reservada à orquestra e a platéia, cheia de cabeças em constante movimento. As luzes tinham diminuído; a assistência murmurava como o vento numa floresta nas profundezas, a orquestra emitia sons discordantes.

Sentaram-se, Kitty na cadeira mais distante, Nathaniel ao lado dela. Debruçou-se, murmurou-lhe ao ouvido:

— Isto constitui uma honra para você, Ms. Jones. É sem dúvida a única comum presente. Vê aquele camarote em frente? Aquele sujeito inclinado para a frente com a ansiedade pedante de uma criança de escola? Aquele é o nosso primeiro-ministro. Ao lado dele está sentado Mr. Mortensen, o querido Ministro da Guerra. O barrigudo é Collins, do Ministério do Interior. No camarote abaixo, de rosto carrancudo, está Sholto Pinn, o famoso retalhista. À esquerda, bocejando como um gato, Whitwell, da Segurança. Ms. Farrar, da Polícia, encontra-se no camarote além...

Calou-se — como se sentisse a sua observação, Jane Farrar olhara para ele do outro lado do grande abismo escuro. Nathaniel cumprimentou-a ironicamente com um pequeno aceno. A sensação de entusiasmo temerário crescera nos últimos minutos — se tudo corresse bem, Ascobol e os outros não tardariam a ter Hopkins bem guardado. Veria como a querida Ms. Farrar aceitaria isso amanhã. Com uma certa ostentação, inclinou a cabeça para junto da de Kitty Jones.

— É uma pena a sua Resistência já não estar ativa — murmurou. — Uma bomba estrategicamente colocada aqui decapitaria o governo.

Era verdade. A platéia lá em baixo encontrava-se repleta de todos os ministros secundários, esposas, assistentes, adjuntos e conselheiros especiais. Viu o esticar obsessivo das cabeças enquanto cada pessoa comparava a sua posição com a dos seus rivais; viu o reflexo de binóculos, ouviu o barulho dos invólucros das guloseimas, sentiu a excitação que irradiava da assistência. Nos segundo e terceiro planos, era visível uma série de pequenos diabretes a saltar e dançar nos ombros dos seus amos, insuflando energicamente o peito e os bicípites em dimensões improváveis e trocando insultos com os vizinhos.

Os ruídos da orquestra diminuíram. Um violino guinchou uma vez; reinou o silêncio.

As luzes apagaram-se no auditório. Um projector iluminou as cortinas no centro do palco.

Silêncio.

Um rufar de tambor; uma fanfarra extática da seção de sopro. A cortina agitou-se e foi afastada.

Apareceu Makepeace, resplandecente com uma sobrecasaca de veludo verde amassado. Abriu os braços como uma mãe aos filhos e recebeu os aplausos da assistência. Duas vênias para os camarotes, uma para a platéia. Levantou as mãos.

— Damas e cavalheiros, sois muito gentis, muito gentis. Por favor! — Os aplausos cessaram. — Obrigado. Antes do espetáculo começar, um anúncio especial. É um privilégio... não, uma honra!... apresentar a minha mais recente pequena trivialidade a um público tão distinto. Vejo que contamos com a presença de todos os grandes, chefiados pelo nosso maravilhoso árbitro de bom gosto, Mr. Rupert Devereux. — Uma pausa intencional para vivas entusiásticos. — Precisamente. E é por causa do afeto que todos sentimos pelo caro Rupert que escrevi De Wapping a Westminster, uma pequena diversão baseada na sua vida inspiradora. Como podem ver pelas notas no programa, apenas a cena no dormitório das freiras é fictícia; as restantes maravilhas, sensações, assombros e prodígios baseiam-se firmemente na realidade. Espero que se instruam e se divirtam! — Uma breve vênia, um sorriso rasgado. — Como é costume nas minhas produções, solicito que não sejam tiradas fotografias com flash. Pode desagradar os atores. Além disso, vários dos efeitos especiais usados esta noite em palco são de origem mágica, criados por uma equipe de demônios solícitos. Estas ilusões serão muito satisfatórias se as observarem sem as lentes. Não há nada mais suscetível de estragar o prazer de uma cena de casamento do que ver dois diabretes de rabo gordo a jogar fogos de artifício ao fundo. — Gargalhadas. — Obrigado. Posso também solicitar que todos os demônios pessoais sejam dispensados enquanto durar o espetáculo, pois poderão servir de distração. Aproveitem bem a noite. Oxalá nunca venham a esquecê-la!

Um passo à retaguarda; um agitar da cortina. O projetor apagou-se. Ouviu-se em todo o auditório um roçar e estalar — os sons dos estojos das lentes a serem tirados de malas e bolsos de casaco, abertos, preenchidos, fechados de novo com força. Os magos proferiram ordens concisas; os seus diabretes brilharam, encolheram e desapareceram.

Enquanto retirava as lentes, Nathaniel olhou para Kitty Jones, que estava sentada impassivelmente a observar o palco. Não parecia provável que fosse tentar alguma loucura; no entanto, sabia que estava a correr um risco. Fritang fora dispensado e todos os seus outros demônios ativos andavam atrás de Hopkins. Não tinha quaisquer servos disponíveis de imediato. E se ela voltasse ao que era?

Um rufar de tambores, um arranque de violinos lá em baixo no escuro. Soaram trombetas ao longe; uma fanfarra militarista, que rapidamente se transformou num alegre tema de espetáculo de variedades. As cortinas afastaram-se, revelando uma vista magnificamente pintada de uma cena de rua em Londres, quarenta anos antes. Casas urbanas altas, bancas de mercado, um céu azul pintado por trás, a Coluna de Nelson ao fundo, pombos com penas suspensos de cordas voando de um lado para o outro. Entrou no palco, de cada lado, um cortejo de vendedores empurrando carroças; quando se encontraram no meio, trocaram sonoras amenidades em cockney* e começaram a bater nas coxas ao ritmo do espetáculo de variedades. Desacorçoado, Nathaniel soube que já vinha aí a primeira canção. Recostou-se na cadeira, pensando desesperadamente na bola de cristal no seu bolso. Talvez conseguisse escapulir e verificar o que estava se passando...

 

* Dialeto falado pelos habitantes do East End (a parte oriental) de Londres. (NT)

 

— Nada mau para o começo, hein, John? — Como se tivesse saltado de um alçapão escondido, Mr. Makepeace estava a seu lado, instalando-se na sua cadeira, limpando a transpiração da testa. — Um pequeno número muito bonito. Descreve magnificamente a cena. — Soltou uma risada. — Mr. Devereux já está hipnotizado. Veja como ri e aplaude!

Nathaniel espreitou no escuro.

— A sua visão é melhor do que a minha. Não consigo distingui-lo.

— Isso é porque tirou as lentes, como um lindo menino obediente. Volte a colocá-las e veja.

— Mas...

— Volte a colocá-las, meu rapaz. Aqui no meu camarote aplicam-se regras diferentes. Está isento das orientações genéricas.

— Mas, e então as ilusões?

— Oh, verá o suficiente para mantê-lo entretido. Confie em mim. — Uma risada salutar.

O homem era um tolo caprichoso! Com um misto de contrariedade e assombro, Nathaniel devolveu as lentes aos seus olhos. Vendo nos segundo e terceiro planos, conseguiu reduzir instantaneamente a escuridão no auditório e distinguir os magos do outro lado. Como Makepeace afirmara, Devereux estava inclinado para frente, os olhos cravados no palco; a cabeça dele acompanhava a música. Os outros ministros, em atitudes variadas de desânimo e desconforto, tinham-se rendido ao inevitável.

No palco, os vendedores cockney saíram de cena, deixando o caminho livre para o aparecimento do jovem futuro primeiro-ministro. O rapaz que Nathaniel conhecera em Richmond avançava agora dos bastidores. Vestia um casaco de colégio, camisa, gravata e umas calças curtas onde as pernas peludas criavam uma distância desconcertante. As faces haviam sido fortemente realçadas com carmim para lhe dar o aspecto de um vigor pueril, mas os seus movimentos eram curiosamente apáticos. Parou junto de um marco do correio e iniciou uma oração insegura. No escuro ao lado de Nathaniel, Makepeace deu um estalido de contrariedade.

— Bobby revelou-se uma mortificação — disse baixinho. — Durante os ensaios surgiu-lhe uma tosse horrível, e ficou adoentado. Estou convencido de que se encontra tísico. Tive de lhe dar um grande trago de brande para fazê-lo levantar.

Nathaniel anuiu.

— Acha que ele tem energia suficiente para agüentar a noite?

— Acho que sim. Não é uma produção muito longa. Diga-me, Ms. Jones está gostando do espetáculo?

No secretismo da penumbra, os olhos de Nathaniel viraram-se para a garota sentada a seu lado. Distinguiu o seu perfil elegante, o brilho agradável do cabelo, o rosto contorcido num esgar de tédio abissal. Sem querer, a expressão fê-lo sorrir. Ele...

O sorriso parou e desapareceu. Após uma pausa, inclinou-se para Makepeace.

— Diga-me, Quentin — falou. — Como sabia exatamente que esta senhora era Ms. Jones?

Fitou-o então; os olhos pequenos de Makepeace brilhavam no escuro. Um murmúrio:

— Sei muitas coisas, meu rapaz. Mas silêncio! Agora silêncio! Estamos chegando ao clímax da representação!

Nathaniel sobressaltou-se, carregou o semblante.

— Já? Isto é admiráv... extraordinariamente curto.

— Tive de encurtar, devido à indisposição de Bobby. Ele teria assassinado o solilóquio principal; não tem fôlego suficiente. Mas... agora silêncio. Tem as lentes postas? Ótimo. Então veja.

Os olhos de Nathaniel voltaram ao palco, onde não encontrou nada que o entusiasmasse. A orquestra recomeçara a tocar. Encostado ao marco do correio, o jovem tentava um solo, a sua lamúria nasal periodicamente interrompida por ataques de tosse. Além dele, não havia mais ninguém em palco; uma ou duas das fachadas das casas oscilaram com uma brisa vinda de algum lugar nos bastidores. Mandrake procurou em vão indícios de uma ilusão climática mágica. Nada — no segundo ou terceiro planos. O que quisera Makepeace dizer?

Uma onda de movimento despertou a sua atenção no segundo plano — não no palco, mas lá ao longe, bem no fundo do teatro, por trás da última fila de cadeiras. Nesse mesmo instante Makepeace deu-lhe uma cotovelada, apontou. Nathaniel olhou, e tornou a olhar, os seus olhos arregalados de estupefação. Conseguia divisar nas sombras mais escuras três portas de saída que conduziam ao átrio, e por essas portas avançava uma multidão de minúsculos demônios. A maior parte era de diabretes (embora um ou dois — ligeiramente maiores, com cristas ou plumagem mais espalhafatosas — fossem possivelmente tipos de foliots), mas eram todos pequenos e silenciosos. Os seus pés e cascos, garras e cotos, tentáculos e ventosas percorriam o carpete do teatro sem um som, os seus olhos e dentes brilhando como vidro. As mãos hábeis seguravam rolos de cordas e pano; os que as traziam pulavam e saltavam, corriam e esquivavam-se, avançando com rapidez impaciente em direção à última fila de cadeiras. Os da frente subiram para os assentos e sem demora caíram sobre as pessoas ali sentadas — dois ou três diabretes para cada um. Foram enfiadas mordaças nas bocas, mãos agarradas e amarradas com cordas; cabeças puxadas para trás, aplicadas vendas; em segundos, os magos daquela fila ficaram prisioneiros. Entretanto, a onda de diabretes continuava a avançar, saltando para a fila da frente, e para a seguinte; e chegavam ainda reforços pelas portas num fluxo incessante. Tão súbito foi o ataque que a maior parte da assistência ficou amarrada sem um ruído: alguns conseguiram soltar guinchos muito breves, que foram abafados pelo arranhar dos violinos, o crescendo e diminuendo dos clarinetes e violoncelos. Os demônios invadiam a platéia numa onda negra fina, cornos a brilhar, olhos a chispar; enquanto à frente deles os magos estavam de olhos postos no palco.

Nathaniel usava as lentes: através delas a escuridão do auditório era moderada — via tudo. Fez menção de se levantar; sentiu aço frio encostado ao pescoço. O murmúrio urgente de Makepeace

— Não faça nenhuma tolice, meu rapaz. Observe o meu melhor momento! Não é arte do maior nível? Sente-se, relaxe, divirta-se! Se se mexer nem que seja um milímetro, a sua cabeça irá parar na platéia.

Mais de metade do auditório fora submerso, e os diabretes continuavam a entrar. Os olhos de Nathaniel deslocaram-se até aos camarotes em frente; os magos principais tinham retirado as lentes, mas possuíam pontos de vantagem semelhantes ao seu. Com certeza veriam, com certeza agiriam... O seu maxilar caiu, horrorizado. Em cada camarote, quatro ou cinco demônios, muito maiores do que os de baixo — foliots e djinn grandes com corpos de tendões nodosos — haviam-se introduzido pelas cortinas nas costas dos magos. Agiam pela calada por trás das maiores figuras do Império — Devereux sorrindo e agitando as mãos ao compasso da música; Mortensen e Collins recostados, de braços cruzados, as cabeças acenando nos seus lugares; Whitwell olhando para o relógio; Ms. Malbindi escrevinhando notas de trabalho num bloco de mola — e eles agindo pela calada, erguendo cordas nos punhos com garras, mordaças e redes ajustadas silenciosamente, até se imobilizarem, como uma fila de lápides gigantes nas suas costas. Depois, com uma única ordem inaudível, caíram sobre eles.

Ms. Malbindi conseguiu um grito que se misturou harmoniosamente com o planger dos violinos. Ms. Whitwell, contorcendo-se num abraço ossudo, conseguiu acender um Inferno nas pontas dos dedos: durou um instante, depois a sua boca foi fechada e amarrada, a ordem interrompida — a chama diminuiu e morreu; ela foi envolvida por uma massa de rede.

Mr. Mortensen debatia-se corajosamente nas garras de três foliots gordos; acima da orquestra, Mandrake ouviu-o gritar pelo seu demônio. Mas, tal como o resto da assistência, dispensara obedientemente o seu escravo, e o chamado não foi atendido. Ao lado dele, Mr. Collins foi manietado sem um som.

A canção terminara. Mr. Devereux, o primeiro-ministro da Grã-Bretanha e do Império, pôs-se de pé: os seus olhos brilhavam com lágrimas, aplaudia afanosamente o final. Atrás dele no camarote, três dos seus guarda-costas pessoais eram dominados e mortos. Arrancou uma rosa da lapela, atirou-a ao jovem no palco. Um demônio aproximou-se; Devereux estava alheado — gritou por bis. O jovem no palco fez uma vênia, apanhou a rosa e com um acesso súbito de energia, esboçou um floreado na direção do camarote imperial. Naquele momento, a criatura por trás do ombro do primeiro-ministro saiu das sombras; o jovem soltou um guincho, perdeu as forças, oscilou, tombou e caiu do palco para o bocal da tuba. Devereux recuou em choque e colidiu com o demônio. Virou-se e soltou uma lamúria; asas pretas envolveram-no.

Para Nathaniel, tudo isto acontecera num abrir e fechar de olhos. Lá em baixo, a onda de diabretes chegara às filas da frente. Cada cabeça humana fora presa e amordaçada; um demônio vitorioso saltava em cada ombro.

Os seus olhos em pânico convergiram para o camarote de Farrar. No lugar dela estava sentado um demônio sorridente; por cima do seu ombro havia algo amarrado e a contorcer-se. Olhou para outro lugar — e captou um vislumbre do único mago a oferecer verdadeira resistência.

Mr. Sholto Pinn, enfiado no seu camarote, não retirara as lentes pela simples razão de que não as usava. Ignorara a ordem de Makepeace e mantinha o monóculo firmemente colocado no olho esquerdo. Esporadicamente, retirava-o e limpava-o com um lenço. Foi enquanto estava assim entretido que a onda de diabretes irrompera pela platéia; todavia, voltara a colocar o monóculo no olho a tempo de apanhá-los a meio do avanço.

Soltou uma imprecação, agarrou na bengala e virou-se, vendo três sombras corpulentas entrarem nas pontas dos pés no seu camarote. Sem preâmbulo, Sholto levantou a bengala e disparou um Plasma — uma sombra miou e desafez-se em pó; as outras afastaram-se rapidamente, uma para o teto, outra comprimida no chão. A bengala voltou a disparar; a sombra no teto foi apanhada de través; estropiada e lamuriando-se, ficou estatelada numa cadeira. Mas nesse momento, a sombra no chão saltou. Agarrou na bengala do velho e, usando-a como uma moca, deixou-o estendido no chão.

No camarote em frente, Makepeace observava com um sulco de descontentamento.

— É sempre assim — divagou. — Nenhuma obra de arte consegue ser completamente perfeita; tem de haver sempre uma falha. Mesmo assim, Pinn à parte, acho que podemos dizer que foi um trabalho bem feito.

Mantendo a faca encostada à garganta de Nathaniel, o dramaturgo levantou-se da cadeira e avançou para melhor observar a cena. Com cautela agonizante, Nathaniel virou a cabeça uma fração; os seus olhos cruzaram-se com os de Kitty. Sem lentes, a garota só percebera a atividade bem no fim, quando os Plasmas de Pinn arrebentaram no escuro, e um por um os demônios vitoriosos se tornaram visíveis no plano normal. De olhos arregalados, fitou Nathaniel — e viu finalmente Makepeace e a faca. O seu rosto patenteou confusão, dúvida e incredulidade. Nathaniel suportou o olhar dela — a sua boca moveu-se freneticamente, proferindo imprecações silenciosas; as suas sobrancelhas tentaram súplicas complicadas. Se ao menos fosse possível afastar a faca, apenas por um instante, conseguiria cair sobre Makepeace, arrancá-la de sua mão. Rápido — se ao menos ela pudesse agir naquele momento, enquanto o louco estava distraído...

Kitty olhou para Makepeace, depois mais uma vez para Nathaniel. A sua testa enrugou-se. O suor escorria pela têmpora de Nathaniel. Era inútil — não ia ajudá-lo. Por que o faria? Desprezava-o.

Makepeace estava meio debruçado na balaustrada, irrompendo em risadas particulares ao ver novas humilhações lá em baixo. A cada espasmo, a faca pressionava mais o pescoço de Nathaniel.

Então, Nathaniel viu Kitty esboçar um ínfimo aceno, ficar a postos para saltar. Lambeu os lábios, preparando-se...

Kitty Jones levantou-se. Imediatamente, embateu nela um raio de energia verde, atirando-a de encontro à balaustrada, que estalou e se partiu sob o impacto. Dançou um fogo esmeralda sobre o corpo dela; os membros estrebucharam, saiu fumaça de seu cabelo. O fogo extinguiu-se. Kitty caiu pesadamente no chão, a cabeça e o braço pendendo sobre o auditório. Tinha os olhos entreabertos, sem ver.

Elevaram-se chamas verdes fumegantes, brotando da mão esquerda de Mr. Makepeace, mas a outra conservava a faca na garganta de Nathaniel. Os seus olhos tinham-se reduzido ao tamanho de pequenas passas; os dentes estavam a descoberto.

— Garota tola — disse. Fez um gesto com a faca; ela cortou a pele no queixo de Nathaniel; saiu sangue. — Levante-se.

Atordoado, Nathaniel obedeceu. Na sala, a ordem foi repetida uma centena de vezes. Com um imenso roçar, todos os prisioneiros se puseram de pé, cegos, amarrados e impotentes, instigados por vários beliscões e estaladas dos diabretes. Em diversos casos, onde a experiência fora muita e a vítima ficara inconsciente, um ou mais demônios tiveram de levantar o corpo. Lá em cima nos camarotes, onde os djinn tratavam dos magos maiores, nada fora deixado ao acaso: tinham sido todos envoltos em redes pretas grossas e embrulhados como salsichas.

Nathaniel recuperou a voz.

— Você foi o causador de toda a nossa desgraça.

O rosto de Quentin Makepeace esboçou um largo sorriso.

— Dificilmente, John. Estamos no alvorecer de uma nova era! Mas o pano desceu e tenho de ir tratar da logística. Há alguém aqui que zelará para que você mantenha o bom senso durante a nossa separação. — Indicou com a cabeça a parte de trás do camarote. A cortina agitou-se. Entrou uma figura alta de capa preta; a presença do mercenário enchia o espaço. — Creio que se conhecem bem — disse Mr. Makepeace, embainhando a faca debaixo da sobrecasaca. — Sem dúvida terão muito que conversar. Não pretendo rebaixá-lo, John, com ameaças mesquinhas, mas tenho um conselho a lhe dar. — Olhou para o alto das escadas lá atrás. — Não escolha morrer aqui como a pobre Kitty; ainda tenho muito para lhe mostrar.

Desapareceu. Nathaniel ficou olhando para o corpo no chão. Lá em baixo, num silêncio terrível, interrompido apenas pelos passos arrastados e a algazarra dos demônios, o governo britânico era retirado às pressas.

 

         Alexandria 124 a.C.

Era uma época perigosa no Egito. Os salteadores do Sul tinham avançado para lá das Cataratas e passado as cidades fronteiriças à espada. Tribos de beduínos semeavam a devastação nas caravanas de mercadores que comerciavam nas margens do deserto. No mar, os piratas berberes atacavam os navios. Os conselheiros do rei pressionavam-no a pedir auxílio ao estrangeiro, mas ele estava velho, era orgulhoso e desconfiado e recusara.

Num esforço tardio para apaziguar os inimigos na corte, Ptolomeu pusera os seus talentos a serviço deles. Isto, como lhe aprouve admitir, queria dizer eu.

— Tem que perdoar esta indignidade — disse-me ele quando nos sentamos no telhado na noite que antecedeu a minha partida. — Com o devido respeito por Affa e Penrenutet, você, meu querido Rekhyt, é o mais vigoroso dos meus servos. Tenho certeza de que irá operar maravilhas em nome da nação. Acate as ordens dos capitães do exército, e improvise se necessário. Peço desculpas por quaisquer tribulações por que possa passar, mas a longo prazo irá beneficiar também. Com sorte, os teus esforços irão afastar de mim os agentes do meu primo e me permitirão terminar as minhas pesquisas.

Eu apresentava o aspecto de um nobre leão do deserto e o meu rugido foi adequadamente baixo e grave.

— Você desconhece a baixeza dos corações dos homens. O teu primo não descansará enquanto não estiver morto. Os espiões vigiam cada movimento teu: apanhei dois diabretes dos sacerdotes escondidos na tua casa de banho esta manhã. Dei-lhes uma palavrinha. Por assim dizer, agora eles te servem. — O rapaz esboçou um aceno com a cabeça.

O leão arrotou.

— Sim, eles cederam generosamente as suas essências para fortalecer a minha. Não fique tão chocado. De qualquer maneira, no nosso mundo somos um só, como te disse.

Como de costume, bastava a infimíssima menção ao Outro Lugar: os olhos do meu amo brilharam com uma luz distante; o seu rosto ficou sonhador e meditativo.

— Rekhyt, meu amigo — disse-me —, contou-me muita coisa, mas desejo saber ainda mais. Acredito que algumas semanas serão suficientes. Affa possui alguma experiência com os xamãs de uma terra distante; está me aconselhando sobre os seus métodos de abandono do corpo. Quando regressar... Bem, vamos esperar para ver.

A cauda do leão dava chicotadas rítmicas nas pedras do telhado.

— Devia concentrar-se nos perigos deste mundo. O teu primo...

— Penrenutet me protegerá enquanto estiver fora, não tema. Agora... veja, estão acendendo a fogueira de vigia na torre. A frota está se reunindo lá em baixo. Tem que partir.

Seguiu-se uma enchente de atividade para mim, e durante esse tempo não tive contato com o meu amo. Parti com a frota egípcia para enfrentar os piratas numa batalha campal ao largo da costa da Berbéria.78 Depois, marchei com tropas até o deserto de Tebas e embosquei os Beduínos, que levavam uma quantidade de reféns. Durante a marcha de regresso, fomos atacados por um grupo de djinn com cabeça de chacal, que só a custo foram derrotados.79

 

78 No decurso da qual conseguimos destruir o principal forte pirata e libertar uma centena de cativos. A contenda foi memorável, principalmente porque travei um combate sozinho com um afrit impetuoso por cima de dois navios a afundar-se. Perseguimo-nos de um lado para o outro ao longo dos remos em chamas, e esgrimimos entre o cordame usando porções do mastro partido. No fim, rachei-lhe os miolos num golpe de sorte e fiquei a vê-lo afundar-se, ainda a fumegar, nas profundezas verde-ervilha.

79 Destacava-se entre eles um certo indivíduo de pele vermelha. Depois de causar devastação geral, Jabor foi finalmente neutralizado quando o atraí a um sistema de cavernas de arenito e fiz com que o teto do túnel desabasse sobre ele.

 

Sem uma pausa para descansar, rumei ao sul para me juntar ao corpo principal do exército do rei em busca de vingança dos povos das colinas do Baixo Nilo. As campanhas aqui duraram dois meses, terminando com a vergonhosa Batalha das Cataratas, durante a qual lutei contra vinte foliots num promontório alto sobre águas espumantes. As baixas foram consideráveis, mas o dia estava ganho, e a paz fora restituída à região.80

 

80 Isto é, uma paz egípcia. Ainda cheia de violações, pilhagens e assassínios, mas efetuados agora por nós, e não contra nós. Por isso, não havia problema.

 

Fora submetido a consideráveis provações, mas a minha essência era forte e não me ressenti. Na verdade, as pesquisas do meu amo — o seu desejo de estabelecer a paridade entre djinni e humano — sensibilizavam-me, apesar do meu ceticismo. Atrevi-me a esperar que pudesse vir a dar em alguma coisa. Mesmo assim, temia por ele. Estava completamente alheado, insensível aos perigos que o rodeavam.

Uma noite, durante a nossa ocupação do território acidentado, materializou-se uma bolha dentro da minha tenda. O rosto de Ptolomeu apareceu na superfície vítrea, tênue e distante.

— Saudações, Rekhyt. Soube que está de parabéns. A notícia dos teus êxitos chegou à cidade.

Efetuei uma vênia.

— O teu primo está satisfeito?

O meu amo pareceu suspirar.

— Infelizmente, as pessoas proclamam-no como minha vitória. Apesar dos meus protestos, aclamam o meu nome do alto dos telhados. O meu primo não está satisfeito.

— Isso não me surpreende. Tem que... O que é isso no teu queixo?

— Não é nada. Um arqueiro disparou sobre mim na rua. Penrenutet empurrou-me para o lado e ficou tudo resolvido.

— Vou regressar.

— Ainda não. Preciso de mais uma semana para concluir o trabalho. Regresse dentro de sete dias. Entretanto, vá onde quiser.

Olhei fixamente para o rosto.

— Mesmo?

— Está sempre a queixar-se das limitações do livre-arbítrio. Tem agora oportunidade de experimentá-lo. Tenho certeza de que agüenta mais um pouco a dor desta Terra. Faça o que te apetecer. Nos vemos dentro de sete dias. — A bolha tornou-se um vapor e desapareceu.

Este convite foi tão inesperado que andei a vaguear sem destino pela tenda durante alguns minutos, voltando a arrumar as almofadas e olhando para o meu reflexo nos latões polidos. Depois entendi o significado pleno das palavras dele. Saí lá para fora, dei um último olhar ao acampamento e, com um grito, lancei-me no ar.

Os sete dias passaram. Regressei a Alexandria. O meu amo estava na sua sala de trabalho, vestindo uma túnica branca e sem sandálias. O seu rosto estava mais magro do que antes, as órbitas cinzentas do cansaço, mas saudou-me com o seu velho entusiasmo.

— Bem na hora! — disse. — Como estava o mundo?

— É imenso e belo, apesar de haver muita água nele. No Leste, as montanhas erguem-se até às estrelas, ao sul, as florestas engolem a terra. A arquitetura da Terra é infinitamente variada; deu-me muito que pensar.

— Um dia, também o verei. E os humanos? O que me conta sobre eles?

— Brotam em pedaços isolados, como erupções num rabo. A maior parte sem magia, creio.

Ptolomeu sorriu.

— Os teus conhecimentos são profundos. Agora é a minha vez. — Conduziu-me a uma porta e fez-me entrar numa câmara interior silenciosa. O chão estava coberto com um círculo (maior do que a média) decorado com hieróglifos e runas. A seu lado, no chão, havia ervas, amuletos, pilhas de papiros e tabuinhas de cera, cobertas de alto a baixo com os rabiscos do meu amo. Esboçou-me um sorriso cansado. — O que te parece?

Eu estava entretido a inspeccionar as barreiras do pentagrama e correntes de palavras.

— Nada de especial aqui. Tudo bastante normal.

— Eu sei. Experimentei todo o tipo de reforços e feitiços complexos, Rekhyt, mas parecia-me errado. Depois ocorreu-me: todas as nossas salvaguardas normais estão ali para impedir o movimento: você sabe, manter o djinni fora, garantir a nossa segurança. Pretendo o efeito contrário; quero poder mover-me livremente. Portanto, se eu fizer isto — deliberadamente, com um dedo do pé, apagou a linha vermelho-viva que marcava o perímetro do círculo —, deveria permitir a partida do meu espírito. Através daquele buraquinho. O meu corpo permanecerá aqui.

Fiquei carrancudo.

— Para quê usar o pentagrama?

— Ah. Bem visto. De acordo com o nosso amigo Affa, os xamãs das regiões distantes, que conversam com os djinn nas fronteiras dos nossos domínios, proferem certas palavras e abandonam os corpos de livre vontade. Eles não usam círculos. Mas eles não estão tentando atravessar as fronteiras entre os nossos mundos; aquelas paredes de elementos de que tanto me falou. Mas eu estou. Acho que, assim como o poder do círculo te atrai diretamente para mim quando te chamo, também o mesmo círculo pode me impelir na direção contrária, através das paredes, quando as palavras se inverterem. É um mecanismo de concentração. Compreende?

Cocei o queixo.

— Hã... Desculpe, repita o que Affa disse.

O meu amo ergueu os olhos para o céu.

— Não interessa. Mas esta parte sim. Acho que posso inverter muito facilmente o chamado normal, mas se abrir uma porta, preciso de algo do outro lado para me guiar em segurança na travessia. Algo que me forneça um destino.

— Isso é um problema — comentei. — Não existem «destinos» no Outro Lugar. Nem montanhas, nem florestas. Eu já disse vezes sem conta.

— Eu sei. É aí que você entra. — O rapaz estava acocorado no chão, a remexer numa pilha da habitual parafernália mágica que todo o mago egípcio acumulava: escaravelhos, roedores mumificados, pirâmides raras, tudo. Pegou num pequeno ankh81 e brandiu-o na minha direção. — Parece-lhe que isto é de ferro?

 

81 Ankh: uma espécie de amuleto, em forma de T, com um laço no alto. Símbolo da vida. No Egito faraônico, quando a magia era corrente, muitos ankhs continham entidades aprisionadas e eram poderosos protetores. No tempo de Ptolomeu tinham normalmente apenas um valor simbólico. Mas o ferro, tal como a prata, repele sempre os djinn.

 

Uma lufada de frio de arrepiar a essência; inclinei-me para trás, irritado.

— Sim. Pára de agitar isso.

— Ótimo. Vou ficar com isto no meu corpo para proteção. Caso algum diabrete aparecer durante a minha ausência. Agora, voltemos a ti. Rekhyt, agradeço-te por todos os serviços que me prestou; estou em dívida para contigo. Daqui a pouco vou dispensá-lo. A tua obrigação para comigo terminará.

Curvei-me da maneira habitual.

— Os meus agradecimentos, amo.

Ele agitou a mão.

— Esqueça esse assunto de amo agora. Quando estiver no Outro Lugar, fique atento ao teu nome... quer dizer, o teu verdadeiro nome.82 Quando terminar a minha fórmula encantatória, chamarei o teu nome três vezes. Se desejar, pode responder-me: acredito que será suficiente para conseguir o destino de que necessito. Atravessarei o portão até você.

 

82 Isto é, Bartimaeus. Julguei que o tivessem esquecido. Ptolomeu nunca o usava, por uma questão de cortesia.

 

Exprimi a dúvida daquela maneira que me é habitual.

— Acha mesmo?

— Acho. — O rapaz sorriu-me. — Rekhyt, se estiver farto de me ver ao fim de todo este tempo, a solução é simples. Não responda ao meu chamado.

— A decisão é minha?

— Claro. O Outro Lugar é o teu domínio. Se entender mesmo que deve atender, me sentirei muito honrado. — O rosto dele ruborizou-se de excitação, as pupilas dilatadas como as de um gato; na sua mente, já saboreava as maravilhas do outro lado. Observei os seus movimentos enquanto se dirigia a uma taça ao lado da janela. Continha água.. Lavou o rosto e o pescoço.

— As tuas teorias estão muito certas — arrisquei —, mas disseram-lhe o que acontecerá ao teu corpo se passar para o outro lado? Não é uma criatura de essência.

Ele limpou-se com uma toalha, olhando para o alto dos telhados, onde o movimento e a azáfama do meio-dia pairavam como uma mortalha invisível sobre a cidade.

— Às vezes — murmurou —, sinto que também não sou uma criatura da terra. Toda a minha vida estive fechado em bibliotecas, nunca experimentei as sensações do mundo. Quando eu voltar, Rekhyt, vaguearei até longe como você fez... — Virou-se e estendeu os braços castanhos magros. — Tem razão, claro: não sei o que irá acontecer. Talvez venha a ser afetado. Mas vale a pena o risco, acho, para ver o que nenhum outro homem viu! — Avançou até o outro lado e fechou as persianas na janela, mergulhando-nos em luz difusa e pálida. A seguir, fechou a porta da câmara à chave.

— Talvez — frisei-lhe — esteja sob o meu poder, quando voltarmos a nos encontrar.

— Muito provavelmente.

— No entanto, confia em mim?

Ptolomeu riu-se.

— O que mais tenho eu feito todo este tempo? Quando foi a última vez que te aprisionei dentro de um pentagrama? Olhe para você agora: é tão livre quanto eu. Poderia estrangular-me num abrir e fechar de olhos e desaparecer.

— Oh. Sim. — Não tinha me lembrado daquilo. O rapaz bateu palmas.

— Bem, chegou a hora. Penrenutet e Affa já foram dispensados; não tenho mais nenhuma obrigação. Por isso, é a tua vez. Se quiser saltar para o pentagrama, te libertarei.

— E a tua própria segurança? — Olhei em volta da sala escurecida. Fendas de luz das persianas estendiam-se como marcas de garras na parede e no chão. — Com a nossa partida, não pode fazer nada se os teus inimigos te encontrarem.

— A última tarefa de Penrenutet foi assumir o meu aspecto e seguir para o sul pela estrada velha. Ele mostrou-se bem. Os espiões irão seguir a caravana dele. Por isso, caro Rekhyt, como vê, pensei em tudo. — Fez-me sinal. Entrei no círculo.

— Sabe, não precisa se arriscar nesta experiência — disse-lhe. Estava olhando para os seus ombros estreitos, o pescoço escanzelado, as pernas muito magras a saírem debaixo da túnica.

— Não é uma experiência — corrigiu-me. — É um gesto. Uma compensação.

— Pelo quê? Três mil anos de escravidão? Porquê arcar com o fardo de tantos crimes? Nenhum outro mago jamais pensou assim.

Ele sorriu.

— É precisamente isso. Sou o primeiro. E se a minha empresa correr bem, e eu voltar para registrá-la, muitos outros se seguirão depois de mim. Existirá uma nova era entre os djinn e os homens. Já tomei algumas notas, Rekhyt: o meu livro irá ocupar o lugar de honra em todas as bibliotecas da Terra. Não estarei lá para vê-lo... mas quem sabe, talvez você esteja.

A sua paixão convenceu-me. Anuí.

— Esperemos que tenha razão.

Ele não respondeu, limitou-se a estalar os dedos e proferir a Dispensa. A última coisa que vi quando parti foi o rosto dele a olhar-me, confiante, sereno.

 

Kitty acordou com uma luz que a ofuscava e uma dor forte no flanco. À medida que os segundos passavam e ela permanecia imóvel, foi-se apercebendo do sangue a latejar-lhe na cabeça e da secura na boca aberta. Doíam-lhe os pulsos. Havia um cheiro horrível de tecido queimado e uma forte pressão em volta de uma mão.

O pânico brotou dentro do seu peito; deu um esticão nos membros, abriu os olhos, tentou levantar a cabeça. Foi recompensada com uma dor generalizada e certas percepções da sua situação: tinha os pulsos amarrados, estava encostada a algo duro, havia alguém acocorado a seu lado, a olhar para o rosto dela. A pressão numa mão foi subitamente libertada. Uma voz.

— Consegue ouvir-me? Sente-se bem? — Kitty abriu uma fração de um olho. Uma forma escura ganhou foco. O mago, Mandrake, debruçado próximo; tinha um ar de preocupação misturada com alívio. — Consegue falar? — perguntou. — Como se sente?

A voz de Kitty era fraca.

— Estava segurando minha mão?

— Não.

— Ainda bem.

Aclimatava-se agora à luz; abriu ambos os olhos com firmeza e mirou ao seu redor. Estava sentada no chão no canto de uma sala enorme de pedra, mais velha e grandiosa do que algo que alguma vez vira. Colunas grossas sustentavam um teto abobadado; no chão, belos tapetes estendiam-se pelas lajes. Em volta das paredes, em muitos recantos, havia estátuas de homens e mulheres régios vestindo trajes antigos. Globos mágicos percorriam a construção abobadada, criando um padrão de luz e sombra em constante mudança. No centro da sala estava uma mesa com um polimento muito brilhante e sete cadeiras.

Do lado de cá da mesa, um homem caminhava de um lado para o outro.

Kitty fez um esforço para mudar de posição, uma operação dificultada pelas cordas que lhe amarravam os pulsos. Algo cravou-se em suas costas. Soltou uma imprecação.

— Ah! Poderia...?

Mandrake levantou as mãos, firmemente presas com os dedos envoltos em cordel branco fino.

— Tente torcer-se para a esquerda. No momento está encostada em um sapato de pedra. Cuidado... sofreu um grande abalo.

Kitty deslocou o traseiro para o lado e ficou ligeiramente mais confortável. Olhou para si. Um lado do casaco estava enegrecido e queimado; conseguia ver fragmentos esfarrapados da camisa por baixo e, saindo do bolso, um canto chamuscado do livro de Mr. Button. Franziu a testa.

— Como é que... ?

O teatro! Num afluxo, recordou; as explosões no camarote em frente, o aumento das luzes, o mar de demônios lá em baixo na platéia. Sim, e Mandrake ao lado dela, pálido e assustado, com o homem baixo e gordo a encostar-lhe uma faca na garganta. Ela tentara...

— Ainda bem que está viva — disse o mago. O seu rosto estava lívido, mas a voz era calma. Havia sangue seco no pescoço dele.

— É impressionante a resiliência que tem aí. Também consegue ver através de Ilusões?

Ela abanou a cabeça, irritada.

— Onde estamos? O que...?

— O Salão das Estátuas em Westminster. É nesta sala que se reúne o Conselho.

— Mas o que aconteceu? Por que estamos aqui? — O pânico envolveu-a; puxou freneticamente pelas cordas.

— Acalme-se... Estamos sendo vigiados. — Indicou com a cabeça a figura junto à mesa. Era alguém que Kitty não conhecia, com pernas compridas arqueadas, continuando a andar de um lado para o outro.

— Acalme-se? — Kitty soltou um grito estrangulado de fúria.

— Como se atreve! Se eu estivesse livre...

— Pois é, mas não está. Nem eu. Por isso cale-se um instante e deixe que lhe conte o que aconteceu. — Ele aproximou-se mais. — Todo o governo foi feito prisioneiro naquele teatro. Todo mundo. Makepeace usou uma horda de demônios para subjugá-los.

— Tenho olhos, não tenho? Sei de tudo isso.

— Está bem, pronto. Bom, alguns podem ter sido mortos, mas a maioria, creio, está viva, mas amordaçada e amarrada para não poder chamar nada. Fomos todos capturados e levados pelos fundos do teatro, onde um grupo de caminhonetes aguardava. Foram todos enfiados lá dentro; atiraram os ministros uns por cima dos outros, como sacos de batatas. As caminhonetes abandonaram o teatro e vieram para cá. Ninguém fora do teatro sabe disso ainda. Desconheço para onde foram levados os prisioneiros. Devem estar trancados em algum lugar aqui perto. Creio que Makepeace está tratando disso neste momento.

A cabeça de Kitty doía. Fez um esforço para entender as implicações.

— Foi ele que — olhou para o flanco — me fez isto?

— Foi. Um Inferno. À queima-roupa. Quando você tentou — o rosto dele empalideceu e ruborizou-se um pouco —, quando tentou ajudar-me. Achei que estivesse morta; na verdade, achamos que estivesse morta, mas no momento em que o mercenário me levava, você gemeu e babou, de modo que ele a pegou também.

— O mercenário?

— Não faça pergunta.

Kitty calou-se por um momento.

— Portanto, Makepeace vai ocupar o poder?

— P