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O luar iluminava cadáveres a flutuar por todo o lado, com e sem coletes salva-vidas, e, mais além, o óleo a arder erguia chamas sobre o mar. Durante os breves momentos que a ondulação o deixou suspenso na crista de uma onda, Martin Hare conseguiu observar o que ainda restava do contratorpedeiro, cuja proa já tinha submergido. Uma explosão atroou os ares, a popa elevou-se e o navio começou a afundar-se. Hare deslizou pela outra vertente da vaga, mantendo-se à superfície graças ao colete salva-vidas. Bruscamente, abateu-se-lhe por cima outra onda, quase o afogando e obrigando-o a debater-se freneticamente por um pouco de ar, sempre consciente da dor intensa que um estilhaço no peito lhe provocava.
A corrente era muito rápida no canal entre as duas ilhas, atingindo uns seis ou sete nós, no mínimo. Tinha a impressão de estar a ser arrastado a uma velocidade incrível, e a deixar para trás os gritos dos moribundos, que se tornavam indistintos na noite que findava. Elevou-se de novo até à crista de uma onda, onde ficou suspenso por instantes, meio cego pelo sal, e, de súbito, mergulhou célere em direcção a uma balsa de salvamento.
Agarrou-se a uma das alças de corda e olhou para cima. Viu um homem acocorado na jangada, um oficial japonês, e reparou que estava descalço. Olharam-se nos olhos durante um longo momento, e, então, Hare tentou içar-se. Mas não teve forças para tanto.
Sem proferir uma palavra, o japonês arrastou-se para diante e, estendendo um braço, segurou-o pelo colete e puxou-o para cima. No mesmo instante, a jangada, apanhada por um redemoinho, girou como um pião, lançando o japonês de cabeça para o mar.
Alguns segundos após, já o homem se afastara mais de dez metros, com a face iluminada pelo luar a sobressair nas águas. Começou a nadar de regresso à balsa, e, então, Hare avistou a barbatana do tubarão que o perseguia, cortando a espuma branca que separava as vagas.
O japonês nem teve tempo de gritar, elevando os braços para o céu e desaparecendo. Como sempre sucedia, foi Hare quem gritou, sentando-se de um salto na cama, com o corpo alagado em suor.
A enfermeira de serviço era a MacPherson, uma mulher de cinquenta anos, rija, sem complacências, viúva e com dois filhos nos Fuzileiros Navais, a combater algures nas ilhas. Entrou e deteve-se a observá-lo, com as mãos nas ancas.
--Novamente o mesmo sonho?
Hare atirou as pernas para fora da cama e agarrou o roupão.
--Claro! Quem é o médico de serviço, hoje à noite?
--O comandante Lawrence, que não lhe vai dar grande ajuda. Umas pílulas para dormir um pouco mais, em continuação do que já fez toda a tarde.
--Que horas são?
--Sete. Porque não toma um banho de chuveiro enquanto eu lhe arranjo a bela farda que lhe trouxeram?
Podia ir jantar lá em baixo. Sempre lhe fazia bem...
--Não me parece!
Observou-se ao espelho, correndo os dedos por entre os cabelos negros e revoltos, aqui e além mesclados de mechas grisalhas, bem de esperar aos quarenta e seis anos. A face era bastante agradável, embora pálida, em resultado dos meses de internamento no hospital. Os olhos, de "pressão ausente, denotavam uma total falta de esperança.
Abriu uma gaveta do armário ao lado da cama, tirou o isqueiro e um maço de cigarros e acendeu um. Começou a tossir, mal se levantou. Atravessou o quarto para a porta aberta que dava para a varanda e contemplou o jardim.
--Mas que falta de juízo!--exclamou ela.--Reduzido a um único pulmão saudável, decidiu acabar o trabalho que os japoneses iniciaram!--Ao lado da cama via-se uma garrafa-termo cheia de café, donde a enfermeira encheu uma chávena, que lhe levou:--E tempo de começar a viver novamente, comandante. Como se costuma dizer nos filmes de Hollywood, a guerra acabou, para si.
Aliás, nem sequer a deveria ter começado. É brincadeira para gente nova.
Ele beberricou um golo de café.
--E que vou fazer?
--Voltar a Harvard, professor.--Sorria, enquanto falava.--Com todas essas medalhas, os estudantes vão adorá-lo! Não se esqueça de usar o uniforme no primeiro dia.
A despeito de si próprio, Hare sorriu-se por um breve instante.
--Deus me valha, Maddie, mas não me parece que possa voltar atrás. Convém não esquecer que f&z a guerra!
--E a guerra deu cabo de si, meu anjo!
--Bem sei. O matadouro de Tulugu acabou comigo.
Diria até que fiquei sem préstimo para nada.
--Bem, o senhor já não é uma criança! Se pretende sentar-se a um canto deste quarto e deixar-se apodrecer para ai, o problema é seu.--Dirigiu-se para a porta, abriu-a e voltou-se:--Só que lhe sugeria que se penteasse e se pusesse apresentável, pois vai ter uma visita.
Hare franziu o sobrolho:
--Uma visita?
--Sim. Está agora com o comandante Lawrence. Não sabia que tinha parentes ingleses.
--De que está a falar?--perguntou Hare, perplexo.
--Da sua visita. Alta patente. Um tal brigadeiro Mnro, do Exército inglês, embora não pareça, já que nem sequer está fardado.
Saiu, fechando a porta. Hare ficou imóvel por um momento, de semblante carregado, e entrou no quarto de banho, abrindo o chuveiro.
O brigadeiro Dougal Múnero era um sujeito feio e atraente, tinha sessenta e cinco anos, cabelos brancos, e vestia um fato mal talhado de fazenda axadrezada do padrão do Donegal. Usava uns óculos de aros de aço, do tipo regulamentar do Exército inglês.
--O que eu preciso de saber é se ele está apto para o serviço, doutor--dizia Munro.
Lawrence tinha vestido uma bata cirúrgica branca sobre o uniforme de serviço.
Abrindo uma pasta que tinha
na sua frente, disse:
--Se se refere ao aspecto físico, posso dizer-lhe que ele tem quarenta e seis anos, foi atingido por três estilhaços no pulmão esquerdo e passou seis dias numa balsa.
Foi um milagre ter-se salvo.
--Sim, também acho!--concordou Munro.
--Um professor de Harvard que se torna oficial da reserva naval, evidentemente, já que se tratava de um velejador famoso, com relações nos centros de influência devidos, graças às quais entra para os navios torpedeiros com a idade de quarenta e três anos, no início da guerra.
--Folheou o processo.--Não falhou uma única das zonas de guerra do Pacífico. Capitão-de-corveta e medalhas.--Encolheu os ombros:--Está aqui tudo, incluindo duas Cruzes Navais, e, por fim, esse combate em Tulugu. Um contratorpedeiro japonês rebentou-lhe com metade do navio, de modo que ele abalroou-o e fê-lo ir pelos ares com uma carga explosiva. Devia ter morrido!
--Segundo me disseram, foi o que sucedeu a quase toda a tripulação!--disse Munro.
Lawrence fechou a pasta:
--Sabe porque é que ele não recebeu a Medalha de Honra? Porque foi o general MacArthur quem o propôs, e a Armada não gosta de interferências do Exército.
--Pelo que vejo, não pertence ao quadro permanente da Armada?--perguntou Munro.
--Não, com mil diabos!
--?ptimo. Também não pertenço ao quadro permanente do Exército, de modo que podemos falar francamente. Ele está apto para o serviço?
--Fisicamente, sim. Embora tenha cortado dez anos na segunda metade da vida. A inspecção médica não o indicou para serviço no mar. Dado a idade, pode optar por baixa médica.
--Compreendo.--Munro bateu com os dedos na testa.--E aqui, o que se passa?
--Na cabeça?--Lawrence encolheu os ombros.-Quem sabe? É facto que passou por uma forte depressão, mas isso passa. Dorme mal, raras vezes deixa o quarto e dá a impressão nítida de não ter a menor ideia de que raio há-de fazer à vida.
--Portanto, pode deixar o hospital?
--Claro que sim! Há semanas que lhe poderia ter sido dado alta. Com a devida autorização, como é evidente!
--Tenho-a aqui.
Munro tirou uma carta de um bolso interior, abriu-a e passou-a a Lawrence, que a leu e assobiou baixinho: --Jesus, é assim tão importante?
--Sim.--Munro meteu a carta no bolso e pegou na sua gabardina Burberty e no guarda-chuva.
Lawrence exclamou:
--Meu Deus! Vai mandá-lo de volta para a guerra!?
Munro sorriu ligeiramente e abriu a porta:
--Se não se importa, comandante, vou vê-lo agora.
Munro passeou o olhar pelo jardim, até às luzes da cidade, que, com o cair da noite, começavam a acender-se.
--Washington, nesta altura do ano, é muito agradável.--Voltou-se e estendeu a mão:--Munro, Dougal Munro.
--Brigadeiro?--perguntou Hare.
--Exactamente.
Hare vestia umas calças de desporto e uma camisa aberta no peito, e ainda tinha a cara húmida do banho.
--Perdoe-me que lho diga, senhor brigadeiro, mas o senhor é o militar de aspecto menos marcial que jamais vi.
--Graças a Deus!--exclamou Munro.--Até mil novecentos e trinta e nove fui egiptólogo de profissão, um "Fellow of All Souls", em Oxford. A patente que me atribuíram destina-se a dar-me autoridade em certos meios, digamos assim.
Hare franziu o sobrecenho.
--Um momento! Quer dizer, serviços de espionagem?
--Precisamente, comandante. Já ouviu falar da SOE, comandante?
--Special Operations Executive2--disse Hare. -Enviam agentes para a França ocupada e coisas do género?
--Nem mais. Fomos os precursores do vosso OSS, que, tenho muita honra em dizê-lo, trabalha em íntima ligação connosco. Tenho a meu cargo a Secção D da SOE, mais vulgarmente conhecida pelo "Departamento dos Golpes Sujos".
--E que diabo pretende o senhor brigadeiro de mim?
--Segundo sei, o senhor comandante foi professor de literatura alemã em Harvard...
--E qual o interesse disso para o caso?
--Porque sua mãe era alemã, viveu muito tempo com seus pais na Alemanha, quando era rapaz, não é verdade? Chegou até a formar-se na Universidade de Dresda.
--E daí?
--Soube que fala alemão fluentemente (pelo menos, assim mo afirmaram os vossos serviços de informação) e que o seu francês é muito razoável.
Hare assumiu um ar carrancudo:
--Que está a tentar insinuar? Pretende aliciar-me como espião ou coisa que o valha?
--De modo algum! --respondeu Munro. --Veja bem, o senhor é realmente único, comandante. Não é apenas o facto de falar fluentemente alemão que o torna interessante, mas sobretudo a dupla circunstância de ser oficial da Armada, com grande experiência de torpedeiros, e que também fala correctamente alemão.
--Talvez não fosse má ideia explicar-se melhor.
--De acordo.--Munro sentou-se.--É facto que prestou serviço nas ilhas Salomão, no Segundo Esquadrão de Navios Torpedeiros?
--Sim.
--Bem, embora se trate de um assunto confidencial, posso dizer-lhe que, a solicitação urgente da Repartição de Serviços Estratégicos, os seus homens vão ser transferidos para o canal da Mancha, a fim de recolher agentes nossos na costa francesa.
--E o senhor brigadeiro pretende-me para esse serviço?--exclamou Hare, com enorme surpresa.--Não está bom do juízo! Pois não sabe que estou arrumado de vez, e que até querem dar-me baixa médica?!
--Preste atenção!--atalhou Munro.--No canal da Mancha, os navios torpedeiros ingleses têm tido imensos problemas com os seus homónimos germânicos.
--Os quais os alemães designam por Sc)mellboot-acrescentou Hare--; isto é, um navio rápido, o que constitui realmente um nome muito adequado.
--Claro. Mas, por uma razão qualquer, nós designamo-los de E-boats . Como disse, trata-se de navios rápidos, diabolicamente rápidos. Temos vindo a tentar capturar um desde o iníCiO da guerra e, sinto grande prazer ao dizê-lo, conseguimo-lo finalmente, o mês passado.
--Está a brincar!--exclamou Hare, estupefacto.
--Há-de ver que nunca brinco, comandante--ripostou-lhe Munro.--Um dos navios da série S.80 teve problemas com os motores, numa missão nocturna ao largo da costa de Devon. Quando um dos nossos contratorpedeiros apareceu, de madrugada, a tripulação abandonou o navio. Claro que o comandante deixou uma carga explosiva a bordo, preparada para o afundar, a qual, infelizmente para ele, não chegou a explodir. Segundo o interrogatóriO que fizemos ao operador de rádio, a última mensagem que enviaram para Cherburgo informava que iam afundar o navio, o que significa que nós capturámos a vedeta-torpedeira, e a Kriegsmarine' de nada sabe.-Sorriu:--Está a seguir o meu raciocínio?
--Não tenho bem a certeza...
--Comandante Hare, existe na Cornualha um pequeno porto de pesca chamado Cold Harbour. Não tem mais de duas ou três dúzias de vivendas e uma casa senhorial.
É uma zona de defesa, e os seus habitantes há muito que, de lá saíram. O meu departamento usa-o para fins especiais... digamos assim. Dirijo a operação de um par de aviões, a partir de lá... aviões alemães. Um Stork e um caça nocturno, gu885. Ambos conservam as insígnias da Luft vaffe2, e o homem que os tripula é um bravo piloto da RAF,3 que, ele também, usa o uniforme da Lufnvaffe.
--E o senhor pretende fazer o mesmo com esse torpedeiro?
--Exactamente, e é aqui que o senhor entra em jogo.
No final de contas, um navio da Kriegsmarine terá de ter uma tripulação também da Kriegsmarine.
--O que contraria de tal modo as leis da guerra que mais não é necessário para levar a tripulação perante um pelotão de fuzilamento, se for capturada--contrapôs Hare.
--Estou ciente disso. A guerra, como disse uma vez o vosso general Sherman, é o inferno.--Munro levantou-se, esfregando as mãos:--Meu Deus, as possibilidades são ilimitadas. Devo dizer-lhe ainda (e, uma vez mais, isto é confidencial) que todo o tráfego de informação militar e naval dos alemães é cifrado em máquinas Enigma que os nazis julgam ser totalmente à prova de interferências. Infelizmente para eles, nós montámos um projecto, a que demos o nome de Ultra, por intermédio do qual conseguimos penetrar no sistema. Pense na informação que poderia obter da Kriegsmarine: sinais de reconhecimento, códigos do dia para entrada nos portos, eu sei lá!
--Uma loucura!--comentou Hare.--Teria de se arranjar uma tripulação.
--O S.80 conta habitualmente com uma guarnição de dezasseis homens. Os meus amigos no Almirantado pensam que o senhor comandante poderia resolver o problema com dez homens, incluindo se a si próprio. Como se trata de um empreendimento conjunto, tanto a nossa gente como a vossa estão em busca do pessoal adequado.
Já tenho o chefe de máquinas perfeito: um refugiado judeu alemão que trabalhou na fábrica Daimler-Benz, que constrói os motores para todos os torpedeiros.
Fez-se uma pausa longa. Hare voltou-se e contemplou a cidade, circunvagando o olhar para além do jardim. Estava escuro e, estremecendo, recordou se--sem qualquer razão aparente--de Tulugu. Ao tentar tirar um cigarro do maço, a mão tremeu-lhe: voltando-se, mostrou-a a Munro, dizendo:
--Vê isto? E sabe porquê? Porque estou com medo.
--Pois também eu tive medo na barriga do maldito bombardeiro que me trouxe até aqui--disse Munro.-E voltarei a ter medo no voo de regresso, esta noite, embora desta vez o faça numa fortaleza voadora. Ao que parece, sempre têm um pouco mais de espaço.
--Não--disse Hare com voz rouca--, não aceito.
--Oh! Aí é que se engana, senhor comandante. E devo dizer lhe o motivo? Porque não tem mais nada que lhe interesse fazer. É evidente que já não consegue voltar a Harvard. Voltar ao ensino depois de tudo o que passou? Vou dizer lhe uma coisa a respeito de si próprio, pois ambos navegamos no mesmo barco. Somos homens que passámos parte 'da nossa vida vivendo da cabeça.
Das histórias de outros homens. Tudo nos livros. Então veio a guerra, e sabe que mais, meu caro amigo? Viveu intensamente os mais belos momentos... e gostou.
--Vá para o inferno!--respondeu lhe Martin Hare.
--Muito provavelmente.
--E se eu não aceitar?
--Oh! Céus!--Munro tirou uma carta do bolso interior do casaco.--Suponho que reconhece a assinatura ao fundo como sendo a do comandante-chefe das Forças Armadas americanas.
Hare olhou para a carta, estupefacto.
--Meu Deus!
--Sim, e ele gostaria de lhe dar uma palavra antes de partirmos. Talvez lhe possa chamar uma reunião de comando, de modo que seja bom rapaz e farde-se. Já não temos muito tempo!
Na Casa Branca, a limusina parou na porta oeste, onde Munro mostrou o passe aos agentes dos Serviços Secretos no turno da noite. Houve uma pausa, enquanto chamavam um ajudante. Após breves momentos, um jovem tenente da Armada, impecavelmente fardado, veio recebê-los:
--Senhor brigadeiro--disse, cumprimentando Munro, e, voltando-se para Hare, saudou-o como só os cadetes de Annapolis sabem fazer:--Tenho grande honra em o conhecer, senhor comandante.
Hare retribuiu a saudação, ligeiramente embaraçado.
O jovem disse, então:
--Queiram seguir me, meus senhores. O senhor presidente espera-os.
A Sala Oval estava na penumbra, sendo a única luz proveniente de um candeeiro sobre uma secretária, pejada de papéis. Instalado na cadeira de rodas, ao pé de uma janela, a brasa de um cigarro brilhando na habitual boquilha comprida, o presidente Roosevelt contemplava, absorto, os jardins. Fazendo girar a cadeira, disse: --Ora cá o temos, senhor brigadeiro.
--Senhor presidente.
--E traz-me o comandante Hare?--Estendeu a mão:
--O senhor é uma honra para o seu país. Como seu presidente, agradeço-lhe.
Aquele combate de Tulugu foi
qualquer coisa de grande.
--Homens melhores do que eu morreram para afundar aquele contratorpedeiro, senhor presidente.
--Eu sei, meu filho.--Roosevelt segurava a mão de Hare entre as suas.--Homens melhores do que o senhor ou eu morrem todos os dias, mas nós temos de continuar e esforçarmo-nos por fazer o melhor que pudermos.--Retirou o resto do cigarro da boquilha e pô-lo no cinzeiro.--O senhor brigadeiro informou o deste ca so de Cold Harbour? Agrada-lhe o trabalho?
Hare deu um relance de olhos a Munro, hesitou e acabou por dizer:
--Uma proposta interessante, senhor presidente.
Roosevelt inclinou a cabeça para trás e riu-se:
--Uma forma correcta de pôr o problema.--Deslocou a cadeira até à secretária e voltou-se, dizendo:--Sabe que usar um uniforme inimigo é radicalmente proibido pelas disposições da Convenção de Genebra?
--Sim, senhor presidente.
Roosevelt olhou para o tecto:
--Corrija me se eu errar, senhor brigadeiro, mas não foi durante as guerras napoleónicas que navios da Arma da inglesa entraram ocasionalmente em combate sob a bandeira da França?
--De facto, senhor presidente, assim foi, e, por via de regra, faziam no com navios franceses tomados como presas de guerra e incorporados seguidamente na Arma da britânica.
--Por conseguinte, existe um precedente que leve a considerar este tipo de acção como um ruse de guerra legítimo?--inquiriu Roosevelt.
--Certamente, senhor presidente.
Hare interrompeu:
--Deverá ter se em atenção que, sempre que empreendiam tal tipo de acções, os ingleses costumavam içar a sua própria bandeira antes de a batalha começar.
--Isso agrada me!--observou Roosevelt.--Se um homem tem de morrer, pois que seja sob a sua própria bandeira.--Olhou para Hare, e disse:--Uma ordem directa do comandante-chefe: trará sempre a bandeira dos Estados Unidos nesse torpedeiro, e, se algum dia ti ver de entrar em combate, içá la á, retirando a insígnia da Kriegsmarine. Compreendido?
--Perfeitamente, senhor presidente.
Roosevelt estendeu novamente a mão:
--?primo. Só me resta desejar lhe felicidades.
Apertaram as mãos, e, como por obra de magia, o jovem tenente saiu da sombra e acompanhou os à porta.
Quando a limusina virava para a Constitutional Avenue, Hare comentou:
--Um homem notável.
--Isso é dizer muito pouco!--exclamou Munro.-O que ele e Churchill conseguiram é
extraordinário.-Suspirou:--Gostaria de saber quanto tempo se passará
até que algum livro surja por aí a provar que a influência de ambos pouca importância teve...
--Intelectuais de segunda ordem em busca de reno me?--exclamou Hare.--Tal como nós?
--Precisamente.--Munro olhou para fora, para as ruas iluminadas.--Vou sentir a falta desta cidade. O senhor comandante vai ter um choque cultural quando chegarmos a Londres. Não só por causa da ocultação de luzes, mas porque a Luftwaffe começou novamente com os bombardeamentos nocturnos.
Hare apoiou se contra o encosto do assento e cerrou os olhos, não por motivo de cansaço, mas por ter tido a consciência súbita de uma alegria feroz. Era como se tivesse estado adormecido durante longo tempo e acordas se de novo.
A fortaleza voadora tinha acabado de sair da fábrica, e ia juntar se à 8.a Força Aérea americana, na Grã-Bretanha.
A tripulação esforçou-se para que Hare e Munro ficassem tão bem instalados quanto possível, fornecendo cobertores e almofadas do Exército, e um par de garrafas-termos.
Hare abriu uma, quando sobrevoavam a costa da Nova Inglaterra, em direcção ao mar.
--Café?
--Não, obrigado. --Munro ajeitou uma almofada atrás da cabeça, e puxou o cobertor.--Sou apreciador de chá.
--Bom, tem de haver de tudo...--concluiu Hare.
Beberricou o café, enquanto Munro acrescentava:
--Esqueci me de lhe dizer que, em função das actuais circunstâncias, a Armada decidiu promovê lo.
--A capitão de-fragata?--perguntou Hare, admirado.
--Não, na realidade a Fregattenkapitan,--respondeu Munro, puxando o cobertor sobre os ombros e preparando se para adormecer.
@Dois
Craig Osbourne, ao chegar aos arredores de Saint Maurice, ouviu a chicotada de uma salva de espingarda, que fez levantar na mata de faias próxima da igreja da vi la uma nuvem negra de gralhas, em discussão acalorada umas com as outras. Conduzia um Kubelwagen--o equivalente de um jipe no Exército alemão, que o utilizava como viatura para fins genéricos, capaz de ir a qualquer lado. Estacionou-o junto do portão de entrada do cemitério e saiu do carro, impecavelmente fardado com o uniforme de Standartenfiihrer da Waffen-SSI.
Caía uma chuva miudinha, pelo que tirou a gabardina de cabedal negro do assento da retaguarda, lançando-a sobre os ombros, e encaminhou-se para o local onde um guarda observava o que se passava na praça. Via-se uma meia dúzia de camponeses--não eram mais do que isso--, uma esquadra de fuzilamento da SS, e dois prisioneiros com as mãos algemadas atrás das costas, sem esperança no rosto. Um terceiro prisioneiro jazia no solo, de face voltada para as pedras da calçada. Enquanto Osbourne observava a cena, um oficial idoso entrou na praça, envergando um capote comprido, com bandas cinzentas na gola, correspondentes à patente de general da SS.
SS--polícia militarizada da Alemanha nazi, especialmente encarregada da segurança dos campos de concentração e dos territórios ocupados pelo Reich.
Waffen-SS--designação das unidades combatentes da SS. (N. do T.) Inclinando-Se para baixo e tirando uma pistola do coldre, disparou um tiro na nuca do homem que jazia no chão.
--Presumo que seja o general Dietrich?--perguntou Osbourne, num francês impecável.
O guarda, que não se tinha dado conta da sua aproximação, respondeu automaticamente:
--Sim, esse tipo gosta de ser ele próprio a acabar com eles.--Mas, dando meia volta, apercebeu se do uniforme, e, de um salto, tomou a posição de sentido, desculpando-se:--Perdoe me, senhor coronel, não tinha intenção de ofender.
--Não houve ofensa. Afinal de contas, somos compatriotas.--Craig levantou o braço esquerdo, e o guarda notou de imediato que ele usava no canhão da manga a legenda da Brigada Francesa Carlos Magno, da SS.-Sirva se.
Estendeu lhe a cigarreira e o guarda aceitou um cigarro. Quaisquer que fossem os seus pensamentos relativos a um compatriota que servia o inimigo, soube guardá los para si próprio, conservando a face inexpressiva.
--É frequente suceder isto?--perguntou Osbourne, dando-lhe lume. O guarda hesitou, mas Osbourne acenou, encorajando-o:--Diga lá, homem, diga o que pensa. Pode não concordar comigo, mas somos ambos franceses.
A frustração e a cólera vieram ao de cima:
--Duas ou três vezes por semana, aqui e noutros lo cais. Um carniceiro, este gajo!--Um dos dois homens que aguardavam voltou se contra a parede: ouviu se uma ordem de comando e outra salva.--E recusa lhes os últimos sacramentos. Está a ver, senhor coronel? Não lhes permite ter um padre, mas, depois de tudo acabar, corre logo a confessar-se ao padre Paulo, como um bom católico, para logo de seguida se empanturrar com um alto almoço, no café do outro lado da praça!
--Sim, já mo tinham dito, de facto--comentou Osbourne.
Voltou-se e encaminhou-se para a igreja. O guarda seguiu-o com o olhar, pensativo, e de novo volveu a atenção para a praça, a fim de observar os acontecimentos, precisamente a tempo de ver Dietrich avançar uma vez mais, de pistola em punho.
Craig Osbourne subiu o caminho através do cemitério, abriu a grande porta de carvalho da igreja e entrou. Estava escuro no interior, com alguma luz filtrada através dos vitrais antigos. Sentia se no ar o cheiro do incenso, e viam-se algumas velas a arder junto do altar. Pouco após a entrada de Osbourne, abriu-se a porta da sacristia, onde assomou um padre idoso, de cabelos totalmente brancos. Envergava uma alva e trazia uma estola violeta sobre os ombros. Parou, surpreendido: --Deseja alguma coisa?
--Talvez. Volte para a sacristia, padre.
O velho padre assumiu uma expressão grave:
--Agora não, senhor coronel. Tenho gente para ouvir em confissão.
Osbourne relanceou o olhar pela igreja vazia, até aos confessionários.
--Não tem muita freguesia, padre, mas é evidente que também não seria provável tê-la, uma vez que aguarda o carniceiro do Dietrich.--Assentou firme mente a mão sobre o peito do sacerdote:--Para dentro, por favor.
O padre recuou até à sacristia, perplexo:
--Quem é o senhor?
Osbourne fê lo sentar na cadeira de madeira junto da secretária e tirou um pedaço de corda de um bolso do impermeável.--Quanto menos souber, padre, tanto melhor. Digamos que nem tudo é o que parece. Agora, ponha as mãos atrás das costas.--Atou os pulsos do velho com firmeza.--Deste modo, padre, estou a dar lhe a absolvição. Nenhuma relação com o que vai suceder aqui. Na realidade, um bom álibi para apresentar aos nossos amigos alemães.
Tirou um lenço do bolso. O velho sacerdote disse:
--Meu filho, não sei quais são os seus planos, mas lembre-se que está na casa de Deus.
--Sim, bem gostaria de acreditar que estou a tratar das coisas de Deus!--concluiu Craig, amordaçando o velho.
Deixou o padre, cerrou a porta da sacristia e atravessou a nave em direcção aos confessionários, onde acendeu a luz de aviso sobre a porta do primeiro, entrando nele. Tirou a Walther do coldre, atarraxou um silenciador no cano, e, entreabrindo ligeiramente a porta, ficou de atalaia à porta da igreja.
Pouco depois, Dietrich entrou, acompanhado de um jovem capitão da SS. Ficaram ambos a conversar alguns momentos, após o que o capitão se retirou e Dietrich prosseguiu ao longo da coxia central, desabotoando o ca pote. Parou, tirou o boné e entrou no confessionário, sentando-se. Osbourne accionou o interruptor, acendendo a pequena lâmpada do outro lado da grelha, e mantendo se a si próprio na sombra.
--Bom dia, padre--disse Dietrich, em mau francês.
--Abençoe me, porque pequei.
--Claro que pecaste, grande estupor! --exclamou Craig, introduzindo o silenciador da Walther na grelha e baleando-o entre os olhos.
Osbourne saiu do confessionário no preciso momento em que o jovem capitão da SS abria a porta da igreja e espreitava. O general estava caído sobre a face, com a nuca transformada numa massa de sangue e miolos, e Osbourne em pé, ao seu lado. O jovem oficial sacou da pistola e disparou duas vezes, e o som dos disparos ressoou de um mo do ensurdecedor entre as paredes antigas. Osbourne respondeu ao fogo, atingindo-o no peito e derrubando-o sobre um dos bancos da igreja, e lançou-se em corrida para a porta.
Espreitou para fora e viu o carro de Dietrich estacionado em frente e o Kubelwagen mais adiante. Tarde de mais para lá chegar, já que uma esquadra da SS, com as espingardas ao alto, corria em direcção à igreja, atraída pelos disparos.
Osbourne voltou para trás, correu ao longo da coxia e saiu pela porta da sacristia; avançou por entre as pedras tumulares até às traseiras da igreja, saltou por cima de um muro baixo e enveredou, colina acima, em direcção ao bosque.
Começaram a disparar sobre ele quando já ia a meia encosta, forçando o a ziguezaguear velozmente. Ia já a entrar na mata quando uma bala o atingiu no braço esquerdo, fazendo-o cair de lado, sobre um joelho. Ergueu-se num ápice e aumentou a velocidade, em direcção à linha de crista da colina. Um momento mais tarde conseguia chegar às árvores.
Continuou a correr o mais que podia, com ambos os braços a protegerem-lhe a face contra as vergastadas dos ramos das árvores, sem sequer saber para onde se dirigia.
Nem tinha transporte nem tinha forma de chegar a tempo ao local de recolha, mas como era costume dizer na SOE, nos velhos tempos, acabara por borrar a pintura.
Corria uma estrada ao longo do vale que se avistava mais abaixo, e também havia mata na outra encosta.
Continuou descendo, escorregando por entre as árvores e acabando por aterrar numa vala; levantou-se, atravessou a estrada em corrida e, nesse preciso momento e para seu assombro total, uma limusina Rolls-Royce surgiu na curva e estacou ao pé de si.
René Dissard, com uma pala negra sobre um olho, conduzia o carro, envergando o uniforme de motorista.
A porta de trás abriu-se e Anne-Marie espreitou para fora.
--Brincando de novo aos heróis, Craig? Será que nunca mais muda? Entre, por amor de Deus, temos de desaparecer daqui!
Quando o Rolls começou a andar, apontou a manga do uniforme, ensopada em sangue:
-É grave?
--Não, suponho que não!--Osbourne entalou um lenço dentro da manga.--Que diabo faz aqui?
--Grand Pierre preveniu me. Como é hábito, apenas uma voz ao telefone. Nunca o encontrei cara a cara.
--Bom, eu já!--disse-lhe Craig.--E digo-lhe que é
capaz de ter um choque, quando o vir pela primeira vez.
--Ah! Sim? Diz
que o Alesander não pode vir buscá-lo. Prevêem-se nevoeiros fortes e grandes chuvadas
provenientes do Atlântico, segundo a gente dos meteorológicos. Eu devia esperá-lo na quinta e informá-lo, mas tive um pressentimento ruim, de modo que decidi vir assistir à festa. Estávamos no outro lado da aldeia, ao pé da estação. Ouvimos o tiroteio e vimo-lo a correr pela colina acima.
--Ainda bem para mim!--exclamou Osbourne.
--Sim, até porque nada disto me dizia respeito. De qualquer modo, René calculou que deveria passar por aqUI.
Acendeu um cigarro e cruzou as pernas calçadas com meias de seda, muito elegante num fato negro, com um broche de diamantes na gola da blusa de seda branca.
Usava o cabelo preto cortado curto, com uma franja sobre a testa e encurvado aos lados da cara, emoldurando os malares salientes e o queixo proeminente.
--O que está a ver, tão pasmado?--perguntou ela, de modo petulante.
--Admiro-a! Demasiada cor nos lábios, como é habitual, mas, por outro lado, diabolicamente bela!
--Ora! Meta-se debaixo do banco e cale-se!--respondeu-lhe Anne-Marie.
Desviou as pernas para o lado, e Craig puxou uma prancha, que deixou à vista o espaço sob o assento; rastejou lá para dentro, voltando a colocá-la na mesma posição. Um momento mais tarde, encontraram um Kubelwagen atravessado na estrada, com meia dúzia de SS à espera.
--Devagar, René!--recomendou ela.
--Há problema?--ouviu-se perguntar Craig Osbourne, numa voz amortecida.
--Não, se tivermos sorte. Conheço o oficial. Esteve colocado no castelo durante uns tempos.
René parou o carro e um jovem tenente SS avançou, de pistola em punho. A face iluminou-se-lhe, repondo a arma no coldre: --Mademoiselle Trevaunce! Um prazer inesperado.
--Tenente Schultz. --Abriu a porta e estendeu a mão.
--Um problema muito desagradável. Um terrorista disparou sobre o general Dietrich, em Saint Maurice.
--Pareceu-me ouvir tiroteio para esses lados--disse ela.--E como está o general?
--Mataram-no, mademoiselle!--respondeu-lhe Schultz.--Eu próprio vi o corpo. Uma coisa tremenda.
Assassinado na igreja, durante a confissão.--Abanou a cabeça. --É incrível que haja gente desta no mundo!
--Lamento muito--disse ela, apertando-lhe a mão, num gesto de simpatia.--Venha visitar-nos um dia destes. A condessa tinha um fraco por si... Tivemos muita pena que se tivesse vindo embora!
Schultz corou:
--Peço-lhe que apresente os meus cumprimentos.
Não a retenho mais tempo.
Gritou uma ordem e um dos seus homens fez recuar o Kubelwagen. Schultz saudou e René avançou com o carro.
--A mamselle tem a sorte do Diabo, como sempre!-observou ele.
Anne-Marie Trevaunce acendeu outro cigarro, enquanto Craig murmurava:
--Errado, René, meu amigo. Ela é o Diabo.
Na quinta, guardaram o Rolls-Royce na garagem, enquanto René foi em busca de informação. Osbourne despiu o dólman e rasgou a manga da camisa, ensopada em sangue.
Anne-Marie examinou a ferida.
--Não é muito grave. A bala não entrou, apenas cavou um sulco. De qualquer modo, um ferimento feio, não se esqueça.
René voltou com um embrulho de roupas e um pedaço de lençol branco, que começou a rasgar em tiras.
--Ligue-o com isto, mamselle.
Anne-Marie começou a pensar o ferimento e Osbourne perguntou:
--Qual é a situação actual?
--Só cá está o velho Jules, e ele quer-nos fora daqui o mais depressa possível--respondeu René.--Vista estas roupas, que ele lança as velhas na fornalha. Recebemos recado do Grand Pierre a dizer-nos que Londres comunicou que o recolhem num torpedeiro hoje à noite, ao largo de Léon. Ele não pode ir, mas manda lá um dos homens, o Blériot. É bom tipo, conheço-o bem.
Osbourne passou para o outro lado do Rolls e mudou de roupa. Voltou envergando um boné de lã, casaco e calças de bombazina e botas. Meteu a Walther no bolso e entregou a farda a René, que saiu logo.
--Estou bem?--perguntou ele a Anne-Marie.
Ela riu-se.
--Se tivesse uma barba de três dias, talvez estivesse, mas, assim, e para lhe ser franca, continua a parecer-me um homem de Yale.
--Não há dúvida que a sua opinião é extremamente reconfortante!
René regressou, e sentou-se atrás do volante:
--É melhor irmos andando, mamselle. Vai levar-nos uma hora até lá.
Anne-Marie baixou a prancha do assento:
--Ora vamos lá a entrar, como um menino ajuizado!
Craig obedeceu, e espreitou para ela.
--O último a rir... serei eu! Hoje à noite, jantar no Savoy, com os Orpheans a tocar, Carrol Gibson a cantar, baile, lindas mulheres...
Ela fechou a prancha, entrou no carro e René iniciou a marcha.
Léon era uma aldeia de pescadores tão pequena que nem tinha um cais, pelo que grande parte dos barcos eram puxados para a praia. O único sinal de vida em toda a povoação era o som da música de um acordeão na taberna. Passaram adiante, seguindo um caminho irregular até um farol fora de serviço, sobranceiro a uma pequena baía. Um nevoeiro muito denso avançava do mar para terra, e, algures a distância, ouvia-se o som triste de uma ronca. René guiou-os até à praia, com uma lanterna na mão.
Craig voltou-se para Anne-Marie:
--Não venha connosco até lá abaixo. Só servirá para estragar os sapatos. Fique no carro.
Ela tirou os sapatos e lançou-os sobre o assento traseiro do Rolls.
--Certo, meu caro. Todavia, graças aos meus amigos nazis, tenho uma reserva inexaurível de meias de seda.
Posso dar-me ao luxo de dar cabo de um par, em nome da amizade.
Pegou-lhe no braço e foram ter com René.
--Amizade?--inquiriu Craig.--Se bem me lembro, houve mais do que isso em Paris, nos velhos tempos!
--Histórias velhas, que é melhor esquecer, meu amigo.
Segurou-lhe o braço com força e Osbourne conteve subitamente a respiração, consciente de que o braço lhe doía muito mais. Anne-Marie voltou a cabeça e perguntou: --Sente-se bem?
--O raio do braço está a doer um bocado, mais nada!
Ouviram um murmúrio de vozes quando se aproximaram da praia, encontrando René e outro homem sentados ao lado de um pequeno bote, com um motor fora de bordo inclinado sobre a ré.
--Blériot--apresentou René.
---Mamselle.--Blériot tocou a pala do boné, cumprimentando Anne-Marie.
--É este o barco, não é verdade?--perguntou Craig.
--E que devo eu fazer com ele, mais precisamente?
--Passando o cabo vê a luz de Grosnez, senhor major.
--Com este nevoeiro?
--Que está muito baixo.--Blériot encolheu os ombros.--Bem, eu pus no bote uma lanterna de posição, e há isto ainda.--Tirou do bolso uma bola de sinalização luminosa.--A SOE fornece-nos estas coisas, que funcionam muito bem na água.
--Onde, muito provavelmente, acabarei por cair, dado o cariz do tempo--comentou Craig, observando as ondas a desfazerem-se com fúria na praia.
Blériot tirou um colete salva-vidas da embarcação e ajudou-o a vesti-lo.
--Não tem outra alternativa, senhor. Tem de ir.
O Grand Pierre disse que eles estão a voltar a Bretanha de pernas para o ar, à sua procura.
Craig deixou que ele lhe apertasse as correias do salva
-vidas:
--Já fizeram reféns?
--Claro! Dez em Saint Maurice, incluindo o presidente da Câmara e o padre Paulo.
Mais dez, nas quintas das
cercanias.
--Meu Deus!--murmurou Craig.
Anne-Marie acendeu um Gitane e passou-lho.
--O nome do jogo, meu amado, ambos o sabemos.
O resto, não lhe diz respeito.
--Bem gostaria de pensar assim!--respondeu-lhe Craig, enquanto René e Blériot arrastavam o bote para a água. Blériot subiu para bordo e fez funcionar o motor.
Voltou a sair.
Anne-Marie beijou Craig rapidamente:
--Toca a andar, como um menino bem-comportado!
Saudades a Carrol Gibbons!
Craig entrou no bote e agarrou a cana do leme. Voltou-se para Blériot, que segurava o barco em frente de René.
--Tenho de me encontrar com um torpedeiro, não é
verdade?
--Ou uma canhoneira. Da Armada britânica ou da França Livre... de uma ou de outra. Estão lá à sua espera, senhor. Eles nunca nos deixaram ficar mal, até à data.
--Até à vista, René, tome conta dela!--disse Craig, enquanto eles o empurravam para além da rebentação, donde o motorzinho do bote o fez avançar.
Passando ao largo do cabo e fazendo-se ao mar aberto, cedo se viu a contas com problemas. As ondas levantavam flocos de espuma, o vento refrescava e a água entrava a bordo, de tal modo que já lhe chegava aOs tornozelos.
Blériot tivera razão, pois, ocasionalmente, lobrip&a a luz de Grosnez entre os farrapos de nevoeiro arrastado pelo vento. Governou o bote na sua direcção, quando, de súbito, o motor parou. Tentou freneticamente pô-lo a trabalhar, puxando a corda de arranque, mas em vão, seguindo o bote ao sabor da corrente.
Uma onda enorme--longa e lisa e muito mais alta do que as outras--suspendeu o bote no ar, numa espécie de movimento lento, com a água entrando a jorros.
Num ápice, o barco mergulhou como uma pedra, e Craig Osbourne ficou à deriva na água, flutuando graças ao salva-vidas.
A água estava terrivelmente fria, mordendo-lhe braços e pernas como se de ácido se tratasse, de tal modo que se esqueceu da dor do ferimento. Outra onda enorme sucedeu à primeira, e ficou a boiar do outro lado, em águas mais calmas.
--Não nos safamos, rapaz!--exclamou para si próprio.--Não nos safamos mesmo!--Nesse momento, o vento abriu mais um buraco na cortina de nevoeiro, viu a luz de Grosnez, e, ao mesmo tempo que ouvia o ronronar surdo de um motor, vislumbrou uma forma escura um pouco adiante.
Elevou a voz e gritou desesperadamente:
--Aqui, aqui!--Lembrou se então da bola luminosa que Blériot lhe tinha dado, e, tacteando com os dedos gelados, tirou-a do bolso, segurando-a com a mão direita sobre a cabeça.
A cortina de nevoeiro caiu novamente, a luz de Grosnez desapareceu e o ronronar dos motores pareceu ser engolido pela noite.
--Prá qui, seus sacanas!--urrou Osbourne, e, então, um torpedeiro emergiu do nevoeiro, como um navio fantasma, e dirigiu-se para ele.
Nunca na vida sentira tamanho alívio como quando ligaram um farol e o focaram na água. Começou a bracejar em sua direcção, esquecendo-se por momentos da dor no braço, e, subitamente, parou. Havia algo de errado com aquele barco. A pintura, por exemplo, de um branco-sujo à mistura com verde-mar, com uma vaga sugestão de faixas de camuflagem. De repente, a bandeira no mastro estalou ruidosamente, forçada a drapejar com violência por uma rajada de vento mais forte. Distinguiu perfeitamente a suástica, no canto superior esquerdo, e o vermelho e negro da Kriegsmarine. Não se tratava de um torpedeiro inglês, mas de um navio da classe E, alemão; ao passar na sua frente, leu o nome, pintado na proa, ao lado do número: Lili Marlene.
O navio pareceu parar, com os motores num murmúrio, apenas. Deixou-se flutuar, com uma mágoa enorme no coração, olhando para dois marinheiros de bonés de orelhas e jaquetões de lã grossa, que o miravam, lá de cima. Um deles lançou uma escada de corda sobre a amurada, gritando: --Sobe, meu velho!--ouviu ele dizer no mais puro sotaque cockney.--Sobe prà qui.
Tiveram de o ajudar a passar sobre a amurada. Ajoelhou-se e vomitou um pouco no convés. Olhou para cima cautelosamente, ao ouvir o marinheiro alemão perguntar alegremente: --Major Osbourne, não é verdade?
--Correcto.
O alemão baixou-se:
--Meu major, está a perder muito sangue do braço esquerdo. Deixe que trate disso! Sou o enfermeiro de bordo.
Osbourne perguntou:
--Mas que se passa aqui?
--Não me compete dizer-lho, meu major. Isso é com o comandante, o Fregattenkapitan Hare. Encontra-o na ponte.
Craig Osbourne levantou-se penosamente, tacteando as correias do salva-vidas e tirando-o, e subiu aos tropeções a escada curta. Entrou na casa do leme, que estava entregue a um graduado, um Obersteuennann, ou timoneiro-chefe, a julgar pelas divisas. O homem sentado na cadeira giratória à mesa da carta de marear tinha na cabeça um boné amarrotado, com o topo branco--à semelhança do hábito dos comandantes de submarinos, mas também suficientemente comum entre os comandantes de torpedeiros, que se consideravam a élite da Kriegsmarine; e usava uma camisola branca de gola alta sob um dólman curto de marinheiro. Voltou-se para olhar para Osbourne, com uma face calma e sem expressão.
--Major Osbourne--disse, com bom sotaque americano.--é um prazer tê lo a bordo.
Peço que me desculpe por um momento. Temos de sair daqui.--Voltou-se para o timoneiro e disse, em alemão: --Muito bem, Langsdorff. Mantenha os silenciadores a trabalhar, até estarmos cinco milhas ao largo. Rota dois-um-zero. Velocidade vinte e cinco nós, até ordem em contrário.
--Rota dois-um-zero, velocidade vinte e cinco nós, Herr Kapitan'--respondeu o homem do leme. O torpedeiro arrancou, num impulso de força.
--Hare! --exclamou Craig Osbourne. --Professor Martin Hare!
Hare tirou um cigarro de uma lata de Benson Hedges
e ofereceu-lhe outro.
--Conhece-me? Já nos encontrámos?
Osbourne pegou no cigarro, com os dedos trementes:
--Depois de Yale, interessei-me pelo jornalismo. Trabalhei para a revista Life, entre outras. Paris, Berlim.
Passei grande parte da minha juventude por esses lados.
O meu pai pertencia ao Departamento de Estado. Era diplomata.
--Mas quando nos encontrámos?
--Uma vez, voltei a casa, de férias... Boston, Abril de trinta e nove, devo acrescentar. Um amigo falou-me de uma série de palestras que o senhor estava a proferir em Harvard. Em princípio, sobre literatura alemã, mas muito politicas, muito antinazis. Assisti a quatro dessas conferências.
--Estava lá aquando das desordens?
--Quando os tipos do American Bund2 tentaram impedir a reunião? Oh! Claro que estava. Parti uma das mãos no focinho de um daqueles macacos. O senhor foi na verdade magnífico!--Abriram a porta, entrando o cocknfv, e Osbourne sentiu um tremor de frio.
--Que se passa, Schmidt?--perguntou-lhe Hare em alemão.
Schmidt trazia um cobertor:
--Pensei que o senhor major podia precisar disto.
Gostaria também de fazer notar ao Herr Kapitan que ele está ferido no braço esquerdo e que precisa de cuidados médicos.
--Faça o seu trabalho, Schmidt--respondeu-lhe Martin Hare.--Trate dele.
Sentado numa estreita cadeira na pequena sala de oficiais no convés inferior, Osbourne observava Schmidt a fazer o penso da ferida com perícia profissional.
--Um pouco de morfina, patrão, para tornar as coisas um pouco mais confortáveis.--Tirou uma seringa da bolsa de enfermagem e injectou Osbourne no braço.
Craig perguntou-lhe:
--Quem é você? É evidente que não é alemão.
--Oh! Mas o caso é que sou, de certo modo... ou, pelo menos, eram-no meus pais. Judeus que pensaram que Londres poderia ser um lugar mais hospitaleiro do que Berlim. Quanto a mim, nasci em Vhitechapel.
Martin Hare, da porta, disse em alemão:
--Schmidt, tens uma boca rota.
Schmidt levantou-se de um salto, pondo-se em sentido: 3tawohl, Herr Kapitan.
--Vamos lá, desanda daqui!
Schmidt sorriu com ironia, pegou na bolsa de enfermagem e saiu. Hare acendeu um cigarro:
--Temos uma tripulação mista. Americanos e britânicos, com alguns judeus, mas todos falam alemão fluentemente e assumem uma única personalidade, quando servem neste navio.
--Um torpedeiro alemão sob a nossa bandeira!--disse Osbourne.--Estou verdadeiramente impressionado.
O segredo mais bem guardado que jamais vi.
--Devo informá-lo que levamos o caso até às suas últimas consequências. Por via de regra, apenas falamos alemão, e só usamos o uniforme de Kriegsmarine. Fazemo-lo até mesmo na base, em terra. Fazemos questão de nos mantermos dentro do papel. É claro que por vezes os rapazes quebram a regra da linguagem, e Schmidt é um bom exemplo disso.
--E onde é a base?
--um portozinho chamado Cold Harbour, perto da ponta Lizard, na Cornualha.
--A que distância?
--Daqui, Cem milhas. Chegamos lá pela manhã. De regresso, nunca vamos muito depressa. O nosso pessoal avisa-nos de antemão das rotas nocturnas dos navios torpedeiros da Royal Navy.
Preferimos manter-nos longe
das vistas...
--Claro que sim. Um encontro com eles seria um azar dos diabos! Quem dirige esta operação?
--Oficialmente, a Secção D da SOE, mas, na realidade, trata-se de um empreendimento conjunto, segundo sei.
--Claro.
--Um modo de ganhar a vida bem traiçoeiro!
--Bem o pode dizer.
Hare sorriu forçadamente:
--Vejamos se há sanduíches na cozinha. Está com aspecto de quem precisa de comer.--E saiu.
Só pouco antes do alvorecer Osbourne voltou ao convés. O mar estava bastante picado e a espuma fustigava-lhe o rosto. Subindo as escadas e entrando na casa do leme, encontrou Hare sozinho, de face sisuda e meditabunda, iluminada pela luz da bitácula. Osbourne sentou-se à mesa da carta de marear e acendeu um cigarro.
--Não consegue dormir?,--perguntou Hare.
--Navegar não está nos meus hábitos, o que já não se passa consigo, não é verdade?
--Não, de facto--respondeu-lhe Hare.--Não sou capaz de me lembrar de um período da minha vida em que os barcos não tenham desempenhado papel importante. Tinha oito anos quando o meu avô se fez ao mar comigo, na minha primeira viagem.
--Tenho ouvido dizer que o canal da Mancha é difícil!
--Diferente das ilhas Salomão como o demo que o leve, lá isso é verdade!
--Esteve lá, antes disto?
--Sim--respondeu Craig, fazendo um aceno com a cabeça.
--Tenho ouvido dizer que os navios torpedeiros são brincadeira de gente nova...--comentou Osbourne, curioso.
--Bem, quando se precisa de alguém com a devida experiência e que fale alemão fluentemente, há que aceitar o que aparece!--e, assim dizendo, Hare deu uma gargalhada.
Pairava agora uma luminosidade cinzenta em torno do navio. O mar estava mais calmo, e já se avistava terra, lá mais para a frente.
--A ponta Lizard--anunciou Hare.
Sorria novamente, e Osbourne respondeu:
--Gosta desta vida, não é verdade?
--Bem, talvez possa dizer que sim!--respondeu Hare, encolhendo os ombros.
--Gostar de verdade, quero eu dizer. Presumo que não gostaria de voltar para o seu trabalho anterior... para Harvard.
--Talvez não.--Hare assumiu um ar grave.--Haverá algum de nós que saiba o que vai fazer quando isto acabar? O senhor sabe, por exemplo?
--Não tenho para onde voltar, mas o meu problema é
diferente!--volveu-lhe Osbourne.--Parece que até tenho talento para isto. Ontem, matei um general alemão... numa igreja, só para demonstrar como não sou dotado dos sentimentos mais nobres. Tratava-se do chefe dos Serviços de Informação da SS para toda a Bretanha Francesa. Um carniceiro que merecia morrer.
--Então, qual é o seu problema?
--Eu mato-o, eles fazem vinte reféns e fuzilam-nos.
A morte segue as minhas pisadas, se bem compreende o que quero dizer.
Hare não respondeu. Reduziu a potência e abriu uma janela, deixando entrar a chuva. Contornaram a ponta, e Osbourne distinguiu uma pequena angra encaixada na baía que se avistava do largo, com um vale arborizado sobranceiro.
Um portozinho cinzento aninhava-se ao fundo da angra, com escassas duas dúzias de vivendas em volta. Havia ainda uma casa senhorial entre as árvores.
A tripulação subiu ao convés inferior.
--Cold Harbour, major Osbourne--disse-lhe Hare.
Dirigiu para lá o Lili Marlene.
@Três
A tripulação ficou ocupada com a atracação do navio, enquanto Hare e Osbourne saíam e seguiam pelo cais I empedrado.
--As casas parecem todas iguais--observou Craig.
- --Mas é que são mesmo!--respondeu-lhe Hare.-O lugar foi fundado pelo senhor da mansão, um tal Sir - William Chevely, em meados do século dezoito: as casas, o porto, o cais, tudo isto. De acordo com a lenda local, grande parte do dinheiro que fez veio do contrabando.
Era conhecido como o Black Bill.
--Estou a ver. Esta aldeia de pescadores-modelo servia-lhe de cobertura para as suas outras actividades.
--Exactamente. A propósito, aqui é o bar. Os rapazes usam-no como messe.
Era um edifício baixo e largo, com um frontão alto, madeiramento à vista e janelas de pilar ao centro, que lhe conferiam um ar isabelino.
--Não me parecem de estilo jorgiano. Tudor, talvez
--comentou Craig.
--As adegas são medievais. Houve sempre uma espécie de estalagem neste local--disse Hare, coxeando para um jipe à porta do bar.--Entre, vou levá-lo ao solar.
Craig observou a tabuleta sobre o bar:
--"O Enforcado".
--Bastante apropriado--disse Hare, fazendo arrancar o motor.--Na verdade, trata-se de uma tabuleta nova.
A antiga estava a cair de podre, e era revoltante. Um desgraçado a balançar na ponta de uma corda, mãos amarradas, língua de fora.
Começara a andar, e Craig voltou-se para observar de novo a tabuleta. Mostrava um jovem de cabeça para baixo, suspenso pelo tornozelo direito de uma forca de madeira. A face era calma, e a cabeça estava rodeada por um halo.
--Sabe que a tabuleta representa uma carta do Tarot.--perguntou.
--Claro que sei. Foi a governanta do solar quem teve a ideia, Madame Legrand. Ela percebe dessas coisas.
--Legrand. Será Julie Legrand?--perguntou Craig.
--Sim, essa mesmo.--Hare olhou-o, com curiosidade.--Conhece-a?
--Conheci o marido antes da guerra. Ensinava filosofia na Sorbona. Mais tarde, entrou para a Resistência, em Paris. Travei conhecimento com eles em quarenta e dois. Ajudei-os a fugir, quando a Gestapo os perseguia.
--Bem, ela está aqui desde o início do projecto. Trabalha para a SOE.
--E o marido, Henri?
--Por aquilo que sei, morreu com um ataque cardíaco em Londres, no ano passado.
--Compreendo.
Ultrapassaram a última casa. Hare informou:
--Isto é uma zona de defesa. Todos os civis foram mandados embora. Usamos as casas para aboletamento do pessoal. Para além da minha tripulação, temos alguns mecânicos da RAF, que tratam dos aviões.
--Também têm aqui aviões? Para quê?
--Para os fins habituais. Lançar agentes ou trazê-los de volta.
--Sempre supus que esses trabalhos fossem da conta do Esquadrão dos Serviços Especiais, em Tempsford.
--E são, ou, pelo menos, são-no normalmente. A nossa actividade é um pouco menos normal. Vou mostrar-lhos. Estamos a chegar ao campo de aviação.
A estrada fazia uma curva entre árvores e, mais além, na-se um enorme prado, com uma pista de aterragem relvada. Numa ponta, erguia-se um hangar pré-fabricado.
Hare entrou com o jipe pela porta da cerca, seguiu pela relva e parou. Tirou um cigarro e acendeu-o.
--Que acha?
Um Fieseler Stork de reconhecimento saía do hangar, com a insígnia da Luftwaffe pintada nas asas e na fuselagem, e os dois mecânicos que o acompanhavam envergavam fatos-macaco da Luftwaffe. Mais atrás, já dentro do hangar, via-se um caça nocturno gu88.
--Meu Deus!--exclamou Craig, em voz baixa.
--Já lhe tinha dito que as coisas por aqui eram sobre o inusitado.
O piloto do Stork saltou para fora do avião, trocou algumas palavras com os mecânicos e encaminhou-se para eles. Usava botas de voo, calças largas e confortáveis em azul-cinza, iguais às dos pilotos de caça da Luftvaffe-pouco vulgares, com grandes bolsos para mapas. Um Fliegerbluse' curto dava-lhe um ar elegante. Usava o distintivo de prata de piloto do lado esquerdo, com uma Cruz de Ferro de La classe por cima, e o emblema da Luftwaffe do lado direito.
--Tudo, inclusive o raio da Cruz de Cavaleiro!--comentou Osbourne.
--Sim, este moço é bastante fantasista--disse-lhe Hare.--Talvez até algo psicopata, se pretende a minha opinião. No entanto, ganhou duas DFC2 na Batalha da Inglaterra.
O piloto aproximou-se. Tinha cerca de vinte e cinco anos, e o cabelo sob o boné era louro-palha, quase branco. Embora parecesse sorrir com frequência, tinha um ricto de crueldade na boca e os olhos eram frios.
--Tenente-aviador Joe Edge, major Craig Osbourne, do OSS.
Edge sorriu com simpatia suficiente, e estendeu a mão:
--Especializado em banditismo, hem?
Craig não gostou dele nem um pouquinho, mas tentou não o mostrar.
--Têm aqui uma boa organização.
--Bem, o Stork pode levantar e aterrar em qualquer sítio. Na minha opinião, é melhor que o ALysander.
--Como camuflagem, as insígnias da Luftvaffe são pouco correntes...
Edge riu-se:
--Há ocasiões em que são úteis. O mês passado tive um problema com o tempo, de tal modo que fiquei com pouco combustível. Aterrei na base de caças da Luftvaffe em Granville. Consegui que eles me reabastecessem.
Não houve problema.
--Sabe, nós temos umas credenciais maravilhosas, assinadas por Himmler e confirmadas pelo Führer, que provam que nos encontramos em missão especial de segurança para a SS. Ninguém ousa pô-las em dúvida!-explicou Hare.
--Até me ofereceram jantar na messe!--continuou Edge, falando para Craig. --Claro, como a minha mãezinha querida é uma Kraut, eu falo fluentemente ambas as Línguas, o que ajuda muito.--Voltou-se para Hare:--Dá-me uma boleia para o solar, meu velho? Segundo me disseram, o patrão deve estar a chegar, vindo de Londres.
--Não sabia--respondeu Hare.--Salte para dentro.
Edge sentou-se no banco traseiro. Quando começaram a andar, Craig perguntou:
--A sua mãe? Está cá, não?
--Santo Deus! Está! Viúva. Vive em Hampstead.
O maior desgosto da vida dela foi Hitler não ter conseguido subir pela Mall até
ao Palácio de Buckingham, em
quarenta.
Riu estrondosamente. Craig voltou-se, detestando-o ainda mais, e dirigiu-se a Hare:
--Tenho estado a pensar. Disse o senhor que a Secção D dirige esta coisa. Não me diga que se trata do Departamento dos Golpes Sujos?
--Nem mais.
--Será Dougal Munro quem ainda o dirige?
--Também o conhece, então!?
--Oh! Claro que conheço! Trabalhei para a SOE
desde o início. Antes de nós termos entrado na guerra.
Tivemos relações, eu e o Dougal. Um sacana sem piedade.
--Como é que se ganham as guerras, meu velho!-comentou Edge.
--Estou a ver. Para si vale tudo, não?--perguntou Craig.
--Desde que façamos o nosso trabalho...
Durante um breve instante, Crai;g entreviu através da grelha do confessionário a face assustada do general Dietrich. Voltou-se, pouco à vontade.
Hare comentou:
--Munro não mudou. O lema dele é que todos os meios são lícitos, mas o senhor terá ocasião de o verificar por si próprio, dentro em pouco.
Passou além da cancela levadiça e parou num pátio com um mastro de bandeira ao centro. Era uma mansão de três andares, construída em pedra cinzenta. Muito antiga, muito pacífica, sem nada que a relacionasse de qual quer modo com a guerra.
--Isto tem nome?--perguntou Craig.
--Abadia de Grancester. Magnificente, hem?--informou Edge.
Hare disse:
--Eis-nos chegados.--Saiu do jipe.--Enfrentemos o urso no covil, se é que já lá está.
Ora, nesse preciso momento, o brigadeiro Dougal unro era introduzido na Biblioteca de Hayes Lodge, em Londres--a casa que o general Dwight Eisenhower usava como quartel-general provisório. O general bebia café, que acompanhava com uma torrada, e lia a edição da manhã de The Tites, no momento em que um jovem capitão fez entrar Dougal Munro, fechando a porta atrás de Sí.
--Bom dia, brigadeiro. Café, chá... o que quiser aí
nesse armário.--Munro serviu-se de chá.--Como vai esse seu projecto de Cold Harbour?
--Até agora, bem, meu general.
--O senhor sabe que a guerra se parece um pouco com o prestidigitador que engana as pessoas, fazendo-as observar a sua mão direita, enquanto a esquerda faz o trabalho que se pretende.--Eisenhower serviu-se de mais café.--Decepção é o nome do jogo. Recebi um relatório das Informações que me diz que Rommel tem feito coisas incríveis, desde que o encarregaram da Muralha do Atlântico.
--É um facto, meu general.
--Esse seu torpedeiro já fez tantas missões nocturnas de transporte de oficiais de engenharia às costas de França, para aí estudarem as praias, que o senhor deve neste momento ter formado uma ideia bastante razoável do local onde pretendemos atacar.
--Assim é, meu general--respondeu Munro, calmamente.--Tudo indica que se trate da Normandia.
--Correcto. Voltamos, por conseguinte, à decepção.
--Eisenhower dirigiu-se para um mapa mural.--Tenho Patton a comandar um exército fantasma na Anglia Oriental. Acampamentos militares simulados, aviões falsos... trabalhos da engenharia.
--O que indicará aos alemães que temos a intenção de tomar a via mais curta e fazer a invasão na zona do Pas de Calais?
--O que eles têm considerado desde sempre como sendo a nossa intenção, por ser a mais lógica, sob o aspecto militar--acrescentou Eisenhower.--Pusemos as coisas em movimento, tendo em vista dar força a essa ideia. De facto, a RAF e a Oitava Força Aérea irão atacar essa zona com frequência, quando se aproximar a data da invasão, para que pareça que estamos a tentar enfraquecer a oposição que possamos encontrar. Os grupos da Resistência da região sabotarão constantemente linhas de aLta tensão, caminhos de ferro e objectivos do género.
Naturalmente, os agentes duplos de que dispomos transmitirão as informações verdadeiras... que são as falsas...
ao Quartel-General da Abwehr'.
Manteve-se em pé, contemplando o mapa, até que Munro perguntou:
--Preocupa-o algo, meu general?
Eisenhower dirigiu-se para a janela oitavada, acendendo um cigarro:
--Houve quem pretendesse a invasão para o fim do ano passado. Deixe-me explicar-lhe porque não o fizemos. Foi sempre convicção da SHAEF que só podemos levar a melhor nesta invasão se dispusermos de todas as vantagens. Mais homens do que os alemães, mais carros de combate, mais aviões... superioridade total. E sabe porquê? Porque, em todas as batalhas desta guerra travadas ente forças iguais, fossem elas com russos, ingleses ou americanos, os alemães levaram sempre a melhor.
Unidade contra unidade, eles provocam normalmente cinquenta por cento de baixas a mais.
--Tenho conhecimento de tão infeliz circunstância, meu general.
--Os Serviços de Informação enviaram-me pormenores de um discurso de Rommel aos seus generais, há dias atrás. Dizia ele que, se não nos batesse nas praias, os alemães perderiam a guerra.
--E penso que tem razão, meu general.
Eisenhower voltou-se:
--Brigadeiro Munro, tenho sido até hoje muito céptico quanto ao verdadeiro valor dos agentes secretos nesta guerra. Na melhor das hipóteses, o material que conseguem é usualmente superficial. Parece-me que as melhores informações que conseguimos têm sido obtidas através da descodificação de mensagens do projecto Ultra.
--Concordo.--Munro hesitou.--Na realidade, se,
' Abwe)tr: equivalente germânico do Estado-Msior-General das Forças Armadas. (N. do T.)
logo à partida, a informação principal não tiver sido cifrada pelas máquinas Enigma, os factos não constarão das mensagens que descodificámos, e poderão muito bem ser esses os factos mais relevantes.
--Precisamente.--Eisenhower inclinou-se para a frente.--O senhor enviou-me um relatório a semana passada que quase me recuso a acreditar. Dizia-me nele que vai realizar-se dentro em breve uma reunião de estado-maior presidida pelo próprio Rommel. Uma reunião cujo objectivo único são as defesas da Muralha do Atlântico.
--Exactamente, meu general. Num local chamado Chateau de Voincourt, na Bretanha.
--Dizia ainda que dispõe de um agente que pode penetrar nessa reunião?
--Correcto--respondeu Munro.
Eisenhower respondeu:
--Meu Deus, se eu fosse mosca e pudesse estar presente nessa reunião! Conhecer o pensamento de Rommel e as suas intenções.--Pôs uma das mãos sobre os ombros de Munro.--Faz ideia da importância de que isto se pode revestir? Três milhões de homens e milhares de navios... mas a devida informação pode tornar tudo diferente. Compreende?
--Perfeitamente.
--Não me deixe ficar mal, brigadeiro Munro.
.
Voltou-se e ficou a contemplar o mapa. Munro saiu da sala sem fazer ruído, desceu as escadas, pegou no chapéu e no sobretudo, respondeu com um aceno à continência das sentinelas e entrou no automóvel. O ajudante, o capitão Jack Carter, estava sentado na retaguarda, com as mãos apoiadas sobre o castão da bengala. Carter tinha uma perna postiça, em recordação de Dunquerque.
--Tudo bem, meu brigadeiro?--perguntou ele, quando já se afastavam.
Munro subiu o vidro transversal, cortando qualquer comunicação com o motorista.
--A conferência de Voincourt assumiu importância crucial. Preciso de entrar em contacto com Anne-Marie Trevaunce. Ela poderá inventar mais uma falsa viagem a Paris. Arranje-me uma recolha com um Lysander. Tenho de falar com ela, cara a cara. Digamos, de hoje a três dias.
--Correcto.
--Há alguma noticia que deva conhecer?
--Veio uma mensagem de Cold Harbour. Parece que o OSS teve problemas, ontem. Um dos agentes deles eliminou o general Dietrich, o chefe da SD na Bretanha.
Devido ao mau tempo, a recolha com o Lysander que tinham planeado não pode efectuar-se, de modo que nos pediram auxílio.
--Sabe bem que essas coisas não me agradam.
--Sim, meu brigadeiro. O caso é que o comandante Hare recebeu a mensagem directamente, fez a travessia até Grosnez e recolheu o agente em causa. Um tal major Osbourne.
Fez-se uma pausa e Munro voltou-se, atónito:
--Craig Osbourne!
--Parece que sim.
--Meu Deus! Ele ainda está vivo? Mas que homem de sorte! Ele foi o melhor agente que jamais tive na SOE!
E Harry Martineau, meu brigadeiro?
--Está certo, tem razão... e, para além do mais, ele é
americano! Osbourne está em Cold Harbour, neste momento?
--Sim, meu brigadeiro.
--Bom, nesse caso pare no telefone mais próximo.
Entre em contacto com o comandante da RAF em Croydon e peça-lhe um Lysander para mim, dentro de uma hora. Prioridade máxima. Aguente o forte por aqui, e trate do caso da Anne-Marie Trevaunce. Vou até Cold Harbour falar com Osbourne.
--Acha que ele nos vai ser útil?
--Certamente, Jack, pode ter a certeza disso!-Munro voltou-se e olhou através da janela, sorrindo.
Craig Osbourne, de tronco nu, sentou-se numa cadeira junto ao lavatório do amplo e antiquado quarto de banho; Schmidt, ainda com o uniforme da Kriegsmarine e com a bolsa médica aberta no chão, fazia-lhe o penso do braço, sentado ao seu lado. Julie Legrand, encostada à porta, observava. Entrava nos últimos anos da década dos trinta e usava calças largas, uma camisola castanha e o cabelo louro atado sem enfeite atrás da cabeça, fazendo contraste com uma face calma e suave.
--Como está isso?--perguntou ela.
--Assim-assim.--Schmidt encolheu os ombros.-Nunca se sabe o que vai suceder com feridas de bala. Tenho aqui essa droga nova, a penicilina. Diz-se que tem efeitos maravilhosos nas infecções.
Accionou uma seringa, enchendo-a a partir de um frasquinho. Julie disse:
--Esperemos que sim. Vou buscar café.
Saiu, ficando Schmidt a dar a injecção. Osbourne vacilou ligeiramente e Schmidt aplicou um penso, ligando o braço com destreza.
--Parece-me que vai precisar de um médico, patrão
--disse ele, alegremente.
--Vamos lá ver!--respondeu Craig.
Levantou-se, e Schmidt ajudou-o a vestir uma camisa de caqui que Julie tinha arranjado. Conseguiu apertá-la ele próprio, e passou ao quarto seguinte, enquanto Schmidt reacondicionava a sua bolsa médica.
O quarto era muito agradável, mas um pouco pobre e muito necessitado de nova decoração. Tinha uma cama, mobília de mogno e uma mesa e duas poltronas junto da janela. Craig foi observar as vistas. Em baixo, havia um terraço com uma balaustrada, um jardim por cuidar em frente da casa, faias mais além e uma lagoa num covão.
Tudo muito tranquilo.
Schmidt saiu do quarto de banho, com o estojo médico numa das mãos:
--Volto a observá-lo mais tarde. Quanto a mim, é boa altura para uma dose de presunto e ovos.--Sorriu, com a mão sobre o puxador da porta.--E não me venha recordar que sou judeu! Há já muitos anos que fui corrompido pelo pequeno-almoço à inglesa.
Quando abriu a porta, Julie Legrand entrou com uma bandeja com café, pão torrado, marmelada e bolos.
Schmidt saiu e ela colocou o tabuleiro na mesa ao pé da janela. Sentaram-se em frente um do outro.
Servindo-lhe o café, Julie tagarelou um pouco:
--Sinto-me feliz por vê-lo novamente, Craig.
--Parece já coisa de há tanto tempo, o que se passou em Paris...--disse ele, pegando na chávena de café que ela lhe passava.
--Há mil anos!
--Lamento o que se passou com o Henri--continuou.--Ataque do coração, não foi?
Julie acenou:
--Ele não deu por nada. Morreu a dormir... mas, ao menos, sempre viveu os últimos dezoito meses em Londres. Devemo-lo a si.
--Não diga isso!--Craig sentia-se estranhamente embaraçado.
--É a verdade, nada mais. Quer torradas ou um bolo?
--Não, obrigado. Não tenho apetite. Mas bebia outra chávena de café.
Serviu-o, dizendo:
--Sem o senhor, nunca teríamos conseguido fugir à
Gestapo, naquela noite. O senhor estava doente, Craig.
Já esqueceu o que aqueles animais lhe fizeram? E, não obstante, voltou atrás com o camião, por causa de Henri, quando muitos outros o teriam abandonado.--Ficou repentinamente muito comovida, com as lágrimas a brotarem-lhe dos olhos.--Deu-lhe uma vida, Craig, fez-lhe a dádiva dos últimos meses de vida em Inglaterra. Por causa disso, sentir-me-ei eternamente em divida para consigo.
Ele acendeu um cigarro, levantou-se e olhou para fora.
--Deixei a SOE depois desse caso. A minha gente estava a organizar o OSS. Eles precisavam da minha experiência e, para lhe ser honesto, já estava farto do Dougal Munro.
--Trabalho para ele há quatro meses, aqui--disse ela.--Nós usamos isto como ponto de partida, asilo seguro, enfim, o costume.
--Dá-se bem com Munro, então?
--É um homem duro.--Encolheu os ombros:-Mas, que fazer, se a guerra também é
dura!
Ele anuiu.
--Uma organização estranha, esta que aqui têm, e as pessoas ainda são mais estranhas. O piloto Edge, por exemplo, pavoneando-se no uniforme da Luftwaffe, numa espécie de teatralização de Adolfo Galante.
--Sim, Joe é mesmo louco, até nos seus dias bons-disse ela.--Por vezes, penso que ele se julga mesmo da Luftwaffe. Põe-nos os nervos em franja, mas sabe como é Munro... sempre pronto a olhar para o outro lado, quando se convence que um homem é mesmo bom no serviço. E, na verdade, o currículo de Edge é extraordinário.
--E Hare?
--Martin?--Ela sorriu, enquanto voltava a colocar as chávenas na bandeja.--Ah! Mas Martin é outra coisa. Tenho a impressão que estou um bocadinho apaixonada por ele...
A porta abriu-se e Edge entrou, sem bater:
--Então, ambos aqui. rao tate-tate!
Encostou-se à parede e entalou um cigarro no canto da boca. Julie disse com ar cansado:
--No fundo, és mesmo um velhacote, não é verdade, Joe?
--Toque num ponto sensível, minha linda? Não te rales.--Voltou-se para Osbourne.--O patrão acaba de chegar de Croydon.
--Munro?
--Deve querer vê-lo com urgência, pois está à sua espera na biblioteca. Eu levo-o lá.
Saiu. Osbourne voltou-se e sorriu para Julie:
--Até logo!--disse, e foi atrás de Edge.
A biblioteca era uma sala imponente, com as paredes cheias de livros desde o chão até a um tecto muito belo, em estuque jacobino. Ardia um toro numa lareira aberta, com poltronas e cadeiras de couro, muito confortáveis, alinhadas à sua volta. Quando Craig entrou, Munro estava de pé, em frente do fogo, limpando cuidadosamente os óculos. Edge ficou encostado à parede, perto da porta.
Munro ajeitou os óculos no nariz e olhou calmamente para Osbourne.
--Podes esperar lá fora, Joe.
--Ora! Então vou perder o espectáculo?--exclamou Edge"embora obedecendo à ordem.
--E bom voltar a vê-lo, Craig--disse Munro.
--Não posso dizer que pense do mesmo modo!-respondeu-lhe Craig, dirigindo-se para uma das cadeiras, sentando-se e acendendo um cigarro.--Voltamos demasiadamente atrás no tempo.
--Não seja azedo, meu caro, não é próprio.
--Oh! Mas sou, pois, para o senhor, fui sempre um instrumento rombo.
Munro sentou-se em frente.
--Dito de uma forma colorida, mas correcta. E agora, como vai esse braço? Schmidt tem-no tratado?
--Diz ele que tenho de ir a um médico, para evitar que surja agravamento.
--Isso não é problema. Já vamos tratar do assunto.
Este caso do Dietrich, Craig. Na verdade, foi um feito, em que demonstrou todo o seu talento habitual, se me é permitido dizê-lo. Vai dar a Himmler e ao SD problemas graves.
--E quantos reféns fuzilaram, em retaliação?
Munro encolheu os ombros:
--E a guerra. Não é problema que lhe diga respeito.
Craig respondeu:
--Precisamente a frase que Anne-Marie usou. Exactamente a mesma.
--Ah! Sim, tive o prazer de saber que ela lhe prestou ajuda. Sabe, ela trabalha para mim.
--Que Deus a ajude, então!--volveu Craig, de modo forçado.
--E a si também, meu caro. Sabe, o senhor, a partir de agora, faz parte da organização.
Craig inclinou-se para a frente, lançando o cigarro ao lume.
--Um raio me parta, se faço! Sou oficial do Exército americano, major do OSS. Não me pode tocar.
--Mas é claro que posso! Trabalho sob o comando directo do próprio general Eisenhower. O projecto de Cold Harbour é um empreendimento conjunto. Hare e quatro dos seus homens são americanos. O senhor vai trabalhar comigo, Craig, por três razões. A primeira, porque sabe demasiado acerca do Projecto de Cold Harbour. A segunda, porque eu preciso aqui do senhor: há muitas coisas a sucederem e o seu contributo pode ser muito positivo.
--E qual é a terceira razão?--perguntou Craig.
--Muito simples. O senhor é oficial das Forças Armadas do seu país, tal como eu, e cumpre ordens, tal como eu.--Munro levantou-se:--Deixemo-nos de toleimas, Craig. Vamos até ao bar, encontramo-nos com Hare e informamo-lo, a ele e à tripulação, que o senhor passa a fazer parte do clube.
Voltou-lhe as costas e encaminhou-se para a porta; Craig seguiu-o, sentindo a cabeça vazia e desespero no coração.
O Enforcado era precisamente o que se poderia esperar, um bar rural inglês típico. O chão era empedrado, havia um toro a arder numa lareira aberta, mesas de ferro trabalhado com anos e anos de muito uso, cadeiras de madeira de espaldares altos. O tecto tinha as traves à vista e o balcão de mogno era suficientemente convencional, com as garrafas ordenadas em prateleiras na parede por detrás. O único facto incongruente era Julie a tirar cervejas e os uniformes da Kriegsmarine usados pelos homens encostados ao balcão.
Quando o brigadeiro entrou, seguido por Osbourne e Edge, Hare estava sentado à lareira, bebendo café e lendo um jornal. Levantou-se, e deu uma voz de comando, em alemão: --Sentido. Oficial general presente!
Os homens bateram os calcanhares. O brigadeiro Munro acenou com a mão, e disse, em alemão passável: --À vontade. Continuem bebendo.--Estendeu uma mão e disse a Hare:--Não há necessidade das formalidades usuais. Falemos em inglês. As minhas felicitações pelo trabalho de ontem à noite.
--Obrigado, meu brigadeiro.
Munro aqueceu as costas ao fogo.
--Bom, o senhor tomou a iniciativa, neste caso... o que está correcto... mas, para futuro, deve apresentar-me o problema.
Edge voltou-se para Hare:
--Bom trabalho, meu velho. Pelo que sabemos, o bravo major bem podia ter sido abandonado à sua sorte!
Algo passou pelos olhos de Hare, que avançou um passo na direcção de Edge, recuando este e rindo: --Pronto, meu caro, nada de violências, por favor!
--Voltou-se para o bar:--Júlia, minha flor! Um gim tónico dos grandes, s'il vous plait.
--Tenha calma, Martin! ìnterveio Munro.--Um velhaco desagradável, mas um piloto de génio. Uma bebida para todos!--Voltou-se para Craig:--Não é que sejamos alcoólicos, por cá. Mas, como os rapazes trabalham de noite, bebem de manhã!--Elevou a voz: --Prestem atenção, por favor. Como todos sabem, temos entre nós o major Craig, da Repartição de Serviços Estratégicos. O que ainda não sabem é que, a partir de agora, passa a trabalhar connosco, aqui em Cold Harbour.
Fez-se silêncio. Julie, ao balcão, deteve-se no acto de tirar uma cerveja, com a face séria, mas Schmidt ergueu a caneca de cerveja, brindando: --Que Deus o ajude, patrão!
Ouviu-se uma gargalhada geral e Munro disse a Hare:
--Apresente-lhe o pessoal, Martin.--Voltou-se para Osbourne:--É claro, sob as identidades que aqui assumiram.
O sargento-chefe, Langsdorff, que tinha visto ao leme, era americano, bem como Hardt, Wagner e Bauer.
Schneider, o chefe de máquinas, era obviamente alemão e, como descobriu mais tarde, Wittig e Brauch, tal como Schmidt, eram judeus ingleses.
Craig sentia-se agora mesmo mal. Suava e tinha consciência de ter a testa a escaldar.
--Está calor, aqui! Um calor infernal!--disse ele.
Hare olhou-o com curiosidade.
--Quanto a mim, até me parece que está frio, esta manhã. Sente-se bem?
Edge aproximou-se com dois copos. Entregou um a Munro e o outro a Craig:
--O senhor parece-me homem de gim, major. Beba-o de um trago. Põe-lhe o pulso a galope! Julie há-de gostar!
--Vá-se foder!--respondeu-lhe Craig, embora aceitando o copo e bebendo.
--Não, a ideia principal é fodê-la, meu velho. Muito embora ela pareça guardar-se.
--És um porco ordinário, não és, Joe?--atirou-lhe Martin Hare.
Edge olhou-o de relance, assumindo um ar magoado.
--Homem-pássaro intrépido, velho camarada, isso é
que eu sou. Um galante cavaleiro do ar.
--Tal como Hermann Goering--acrescentou Craig.
--Exactamente. Um piloto brilhante. Passou a comandar o Circo Voador, depois da morte de Von Richthofen.
Craig falou e a voz soou-lhe como se viesse de outra pessoa:
--Uma ideia interessante, o herói de guerra psicopata.
Deve sentir-se mesmo em casa, com esse 7u88 que está
na pista, lá em cima.
--7u885, meu velho, sejamos precisos. O sistema de reforço de propulsão que possui fá-lo atingir uma velocidade de cerca de quatrocentas milhas por hora.
--Ele esqueceu-se de lhe dizer que o tal sistema de reforço da propulsão depende de três cilindros de óxido nitroso. Uma bala num deles e acaba em milhões de bocadinhos!--concluiu Martin Hare.
--Não seja assim, meu velho!--Edge aproximou-se de Craig.--Este pássaro é mesmo uma maravilha! Normalmente, tem uma tripulação de três: piloto, navegador e artilheiro da retaguarda. Introduzimos-lhe alguns melhoramentos, de tal modo que consigo tripulá-lo sozinho.
Por exemplo, o sistema de radar L&chtens&n, que nos permite ver no escuro, foi recolocado na carlinga, de tal modo que eu posso ver e...
Craig ouviu-lhe a voz a sumir-se, sentiu que mergulhava na escuridão e rolou pelo chão. Schmit acorreu do balcão e ajoelhou-se ao pé dele, numa sala que ficara subitamente silenciosa. Olhou para Munro: --Cristo! Está com uma febre altíssima. Isto foi de repente! Ainda há menos de uma hora que o estive a tratar!
--Claro!--disse Munro, muito sério, voltando-se para Hare.--Levo-o para Londres no Lysander. Para o hospital.
Hare anuiu:
--Perfeitamente, meu brigadeiro.--Afastou-se, para dar passagem a Schmidt e a outros dois homens, que tinham pegado em Osbourne e o levavam para fora.
Munro dirigiu-se a Edge:
--Joe, entra em contacto com Jack Carter, no meu gabinete. Diz-lhe para providenciar no sentido de Craig ser admitido na Casa de Saúde de Hampstead, mal lá cheguemos.--E saiu, seguindo os outros.
Craig Osbourne acordou de um sono profundo, sentindo-se fresco e bem desperto e sem sombras de febre.
Apoiou-se num cotovelo e verificou que se encontrava no que parecia ser um pequeno quarto de hospital, com paredes pintadas de branco.
Lançou as pernas para fora da
cama e deixou-se ficar sentado, no preciso instante em que a porta do quarto se abria e uma enfermeira jovem entrava.
--O senhor ainda não pode levantar-se!
Empurrou-o novamente para a cama e Craig perguntou:
--Onde estou?
Ela saiu. Passaram-se alguns minutos. A porta abriu-se de novo e entrou um médico, de bata branca e estetoscópio dependurado do pescoço.
Sorriu:
--Então como estamos, senhor major?--disse, tomando o pulso a Craig. Tinha sotaque alemão.
--Quem é o senhor?
--Baum é o meu nome.
--E onde estou?
--Numa pequena casa de saúde no Norte de Londres.
Hampstead, para ser mais preciso.--Meteu um termómetro na boca de Craig e verificou a temperatura pouco após.--Muito bem. Bom aspecto. Nenhuma febre. Esta penicilina é um milagre! É claro que o moço que o tratou lhe deu uma injecção, mas eu dei-lhe mais. Muito mais.
Aí é que reside o segredo.
--Há quanto tempo estou aqui?
--Este é o terceiro dia. Estava muito mal, quando chegou. Francamente, sem a droga...--Baum encolheu os ombros.--Bem! Agora vai tomar chá, enquanto eu ligo ao brigadeiro Munro, para o informar de que já está bom.
Saiu. Craig ficou na cama, depois levantou-se, encontrou um roupão e vestiu-o, sentando-se à janela, a observar um jardim cercado por muros altos. A enfermeira voltou com um bule de chá.
--Espero que não se importe, senhor major. Não temos café.
--Não faz mal--respondeu-lhe.--Tem tabaco?
--O senhor não devia fumar!--Hesitou, e, então, tirou do bolso um maço de Players e uma carteira de fósforos.--Não diga ao doutor Baum quem lhos arranjou!
--Um verdadeiro anjo!--e, dizendo isto, Craig beijou-lhe a mão.--Na primeira noite que sair levo-a ao Rainbow Corner, em Picadilly. O melhor café de Londres e um óptimo suing para dançar.
Ela corou e saiu, rindo. Continuou sentado, fumando e contemplando o jardim, e, após um bocado, Jack Carter bateu à porta e entrou coxeando, apoiando-se numa bengala, e trazendo uma mala de mão.
--Olá, Craig.
Craig, sobremodo satisfeito por o ver, levantou-se:
--Jack, é formidável ver-te, depois de tanto tempo!
Então, ainda trabalhas para aquele velho sacana?
--Oh! Claro!--Carter sentou-se e abriu a mala.
O doutor Baum diz que estás muito melhor!
--Assim parece.
--Bem. O brigadeiro queria que tu lhe fizesses um trabalho, se te sentires em condições, como é evidente.
--Já? O que é que ele quer? Matar-me de vez?
Carter levantou uma mão:
--Por favor, Craig, ouve-me bem. Não se trata de coisa boa. Lembras-te daquela tua amiga, Anne-Marie Trevaunce?
Craig fez uma pausa, de cigarro nos lábios.
--Que se passa com ela?
--O brigadeiro precisa de lhe falar. Há algo de grande em preparação. Mesmo muito grande.
Craig acendeu o cigarro.
a Não é assim, sempre?
--Não, desta vez é mesmo de importância suprema, i Craig. De qualquer modo, eu conto-te: arranjaram um . Lysander para a recolher, mas as coisas deram mesmo . para o torto.--Passou-lhe uma pasta.--Tu próprio podes ler.
Craig foi para a cadeira ao pé da janela, abriu a pasta e começou a ler. Depois de um bocado, fechou-a, dando mostras de grande dor.
Carter consolou-o:
--Lamento. Muito mau, não é verdade?
--O pior possível! Uma história de horror!
Ficou sentado, pensando em Anne-Marie, com os lábios muito pintados, a pose arrogante, as belas pernas com meias escuras, o cigarro permanente... tão irritante, tão maravilhosa, e agora...?
Carter perguntou-lhe:
--Sabias da existência em Inglaterra desta irmã, Genevieve Trevaunce?
--Não.--Craig devolveu a pasta.--Nunca se fez menção dela durante todo o tempo que me dei com Anne-Marie, mesmo até nos velhos tempos. Sabia que o pai era inglês, mas sempre pensei que tivesse morrido.
Uma vez, disseme que Trevaunce era um nome da Cornualha.
--Não morreu, não. É médico, e vive na Cornualha.
No Norte da Cornualha. Numa aldeiazinha chamada Saint Martin.
--E a filha? Essa tal Genevieve?
--É enfermeira no Hospital de São Bartolomeu. Teve uma gripe, há pouco tempo. Está com o pai, em Saint Martin, na situação de licença por doença.
--E depois?
--O brigadeiro gostaria que tu a fosses ver.--Carter tirou um sobrescrito da mala de mão e passou-lho.--Isto vai fazer-te compreender a importância que assume o teu auxílio neste caso.
Craig abriu o sobrescrito, retirou uma carta dactilografada e começou a ler lentamente.
@Quatro
Mesmo atrás da aldeia de Saint Martin havia uma colina, um lugar estranho e sem nome, assinalado nos mapas como tendo sido provavelmente uma espécie de forte romano-britânico, em tempos que já lá vão. Era o pouso favorito de Genevieve Trevaunce. Tendo as gaivotas como única companhia, sentava-se lá no cimo e avistava todo o estuário, até onde a rebentação se quebrava contra os escolhos traiçoeiros.
Tinha subido até lá, depois do almoço, pela que deveria ser a última vez. Na noite anterior, encarara com relutância o facto de que já estava curada e que os ataques aéreos a Londres, de acordo com as notícias da BBC, haviam aumentado. No Hospital de São Bartolomeu certamente estavam a precisar de todo o pessoal disponível nas enfermarias.
Era um belo e calmo dia, de um tipo peculiar à Cornualha do Norte, com o céu muito azul e a água quebrando-se em espuma branca contra a barra do rio. Pela primeira vez após muitos meses, sentia-se em paz consigo própria, feliz e tranquila. Lá em baixo, na aldeia, o pai trabalhava no jardim do velho presbitério.
Ao olhar para baixo, avistou um automóvel, ao longe.
Nesta altura da guerra, com o rigoroso racionamento da gasolina, uma tal aparição significava habitualmente o médico ou a policia; porém, quando o carro se aproximou um pouco mais, conseguiu distinguir a cor de que havia sido pintado--o verde-baço característico das viaturas militares.
A viatura parou junto ao presbitério e apeou-se um homem fardado. Genevieve começou logo a correr colina abaixo. Viu o pai erguer-se, pôr a pá de lado e dirigir-se para o portão. Trocaram algumas palavras, após o que ambos se dirigiram para o interior da casa.
Não gastou mais do que dois ou três minutos a chegar ao sopé da colina, a tempo de ver o pai abrir a porta da frente e começar a descer o caminho. Encontraram-se no portão.
Viu-lhe a face a tremer terrivelmente, e um brilho vidrado nos olhos. Pôs-lhe a mão no braço: --Mas o que foi? Que se passa?
Os olhos focaram-se nela por breves instantes, e logo recuou, como que horrorizado.
--A Anne-Marie!--exclamou em voz rouca.--Morreu. A Anne-Marie morreu.
Ultrapassou-a, encaminhando-se para a igreja. Correu através do cemitério numa meia corrida grotesca, cambaleante, e atravessou o pórtico. A grande porta de carvalho cerrou-se com um baque surdo.
O céu continuava azul, e as gralhas nas árvores para além da torre da igreja chamavam em voz dissonante umas pelas outras. Nada tinha mudado, e, no entanto, tudo era diferente. Ficou parada ali, subitamente gelada.
Sem sentir qualquer emoção, apenas totalmente vazia.
Ouviu passos atrás de si.
--Miss Trevaunce?
Voltou-se lentamente. A farda era americana, com um impermeável aberto sobre um uniforme de combate verde-oliva. Um major, com várias fitas de condecorações --na verdade, em quantidade surpreendente, para um homem tão novo. Usava o boné de pala inclinado sobre o cabelo louro, já com algumas mechas grisalhas. A face calma e pálida nada exprimia, e os olhos eram do mesmo cinzento frio do Atlântico, durante o Inverno. Entreabriu a boca ligeiramente e voltou a fechá-la, como se não conseguisse falar.
Genevieve dirigiu-se-lhe:
--Trouxe-nos más notícias, senhor major!
--Osbourne.--Pigarreou um pouco.--Craig Osbourne. Santo Deus! Miss Trevaunce, por momentos tive a ilusão de estar a ver um fantasma.
Já no átrio, ela pegou-lhe no impermeável e abriu a porta da sala de estar.
--Entre, por favor, e fique à vontade, enquanto vou dizer à governanta para nos trazer chá. Peço que nos desculpe, mas não temos café.
--É muita gentileza da sua parte.
Espreitou pela porta da cozinha:
--Pode arranjar-nos chá, senhora Trembath? Temos uma visita. O meu pai foi para a igreja. Más notícias!
A governanta afastou-se da pia, limpando as mãos ao avental. Era uma mulher ossuda, com a face forte da gente da Cornualha, muito calma, os olhos azuis muito vivos.--Da Anne-Marie, não é?
-- Morreu!--disse Genevieve com simplicidade, fechando a porta.
Quando regressou à sala, Craig estava de pé, em frente da cornija da lareira, observando uma fotografia antiga de Anne-Marie e dela, ainda crianças.
--Quase não faziam diferença!--disse ele.--Assombroso.
--Vejo que conhecia a minha irmã.
--Sim. Encontrámo-nos em Paris em mil novecentos e quarenta. Eu era jornalista, então. Tornámo-nos amigos. Sabia que o pai era inglês, mas, para lhe ser franco, ela nunca me falou em si. Nem sequer uma alusão à sua existência.
Genevieve Trevaunce não respondeu. Sentou-se numa das cadeiras de espaldar alto, junto do lume, e disse calmamente: --Veio de longe, senhor major?
--De Londres.
--Uma viagem longa.
--Não foi difícil, pois não há muito tráfego nas estradas, hoje em dia.
Fez-se uma pausa embaraçosa, mas não podia adiar a pergunta mais tempo:
--Como morreu, afinal, a minha irmã?
--Num acidente de aviação--respondeu-lhe Craig.
--Em França.
--Exactamente.
--Mas como souberam disso?--perguntou Genevieve.--A França é território ocupado.
--Temos os nossos canais de informação. As pessoas para quem trabalho.
--E quem são elas?
A porta abriu-se e a Sra. Trembath entrou com uma bandeja, que colocou com cuidado sobre uma mesinha.
Deu uma olhadela a Osbourne, de relance, e saiu. Genevieve serviu o chá.
--Devo dizer-lhe que está a suportar tudo isto com muita coragem.
--E o senhor conseguiu evitar uma resposta à minha pergunta, mas não tem importância.--Passou-lhe uma chávena de chá.--Eu e a minha irmã nunca fomos muito íntimas.
--Não será isso coisa rara, entre gémeas?
--Ela foi viver para França, em trinta e cinco. Eu fiquei com o meu pai. Nada mais. Agora, deixe-me tentar de novo. Para quem trabalha?
--Repartição dos Serviços Estratégicos--respondeu ele.--Uma organização especializada, de certo modo.
Só então ela notou um pormenor estranho na farda.
Na manga direita, usava umas asas com as letras SF ao centro, que, conforme veio a saber mais tarde, significavam "Special Forces", e, por debaixo, as asas dos pára-quedistas ingleses.
--Comandos?
--Não propriamente. O nosso pessoal não costuma fardar-se, a maior parte do tempo.
Ela atalhou:
--Quer dizer-me que a minha irmã estava envolvida nesse tipo de trabalho?
Craig tirou um maço de tabaco do bolso e ofereceu-lhe um cigarro. Ela recusou, abanando a cabeça negativamente: --Não fumo.
--Incomoda-a o fumo?
--De modo nenhum.
Acendeu um cigarro, levantou-se e caminhou até à janela.
--Conheci a sua irmã na Primavera de quarenta, quando trabalhava para a revista Life. Ela vivia entre gente da alta sociedade..., o que, como é óbvio, é do seu conhecimento.
--Claro.
--Tinha feito um trabalho sobre os Voincourt que, por motivos de vária ordem, nunca veio a lume, mas que me obrigou a entrevistar a condessa...--continuou, olhando para o jardim.
--Hortense?
Ele voltou-se, com um sorriso seco nos lábios:
--Uma autêntica senhora. Tinha acabado de perder o quarto marido, quando a conheci. Um coronel de infantaria, morto em combate.
--Sim. E a minha irmã?
--Bem, tornámo-nos...--Craig fez uma pausa-bons amigos.--Voltou para junto da lareira, sentando-se.--Foi quando os Alemães ocuparam Paris. Dada a minha qualidade de neutral, não me incomodaram, a princípio, mas o pior é que eu envolvi-me com a gente errada, do ponto de vista deles, e fui forçado a abandonar a cena rapidamente, pela esquerda baixa. Regressei a Inglaterra.
--Que foi quando se alistou nesse vosso OSS?
--Não. Nessa altura, a América ainda não estava em guerra com a Alemanha. Trabalhei para os Ingleses, antes disso, na SOE. O mesmo tipo de trabalho, pode dizer-se. Mais tarde, fui transferido para o meu exército.
--E como é que a minha irmã se envolveu convosco?
--O Alto-Comando alemão começou a usar o castelo da sua tia. Generais, e gente do género, que iam lá descansar um dia ou dois, ou fazer uma ou outra reunião.
--E Anne-Marie e a minha tia?
--Autorizadas a ficar, desde que se soubessem comportar, já que era útil para fins de propaganda ter a condessa de Voincourt e sua sobrinha a servirem de hospedeiras.
Genevieve encolerizou-se:
--Espera que eu acredite nisso? Que Hortense de Voincourt se deixasse usar dessa maneira?
--Aguarde um minuto e deixe-me explicar--disse Craig.--A sua irmã estava autorizada a ir a Paris, sempre que quisesse. Entrou lá em contacto com a gente da Resistência. Ofereceu-se para trabalhar para nós, e estava numa posição única para o fazer.
--Portanto, tornou-se agente?
--Não parece muito surpreendida.
--E não estou. Provavelmente, pensava que o vosso tipo de trabalho era fascinante.
--A guerra--continuou Craig sossegadamente-não tem qualquer encanto. E o que a sua irmã fazia ainda menos, se se considerar ao que se sujeitava, caso fosse apanhada.
--Devo dizer-lhe que sou enfermeira no Hospital de São Bartolomeu, em Londres, senhor major--disse Genevieve.--Na enfermaria militar número dez. Um dos nossos rapazes foi lá ter, a semana passada. Era artilheiro de uma fortaleza voadora. Tivemos de lhe amputar o que lhe restava de uma das mãos. Não precisa de me falar a respeito do encanto da guerra. O que eu queria dizer era totalmente diferente. Se conheceu a minha irmã como diz, sabe muito bem a que me referia.
Ele não respondeu. Levantou-se, deu alguns passos na sala, com nervosismo.
--Tivemos conhecimento de uma reunião especial que os nazis vão realizar. Algo muito importante. Tão importante que era necessário que a nossa gente falasse com Anne-Marie, pessoalmente. Ela inventou uma ida a Paris e enviámos um Lysander para a recolher. A ideia era trazê-la a Inglaterra, para uma reunião, e mandá-la de volta, em seguida.
--Isso é costume?
--Sucede muitas vezes. Há um serviço de vaivém regular. Eu próprio já o fiz. Ela deveria ir até Saint Maurice, para apanhar o comboio. Na realidade, alguém tomaria conta do carro, e trá-la-iam de camioneta até ao campo onde o Lysander devia aterrar.
--Que sucedeu de errado?
--De acordo com fontes nossas na Resistência, o avião foi abatido por um caça nocturno alemão, quando levantava voo. Parece que explodiu instantaneamente.
--Estou a ver--disse Genevieve.
Craig parou de cirandar na sala, e interpelou-a, irritado.
--Não se importa? Não se rala nem um pouquinho?
--Quando tinha treze anos, major Osbourne--respondeu-lhe ela--, Anne-Marie
partiu-me o polegar
direito em dois sítios.--Levantou a mão.--Veja, ficou torto. Dizia ela que queria avaliar a dor que eu era capaz de suportar. Fez uso de um quebra-nozes antigo, daqueles que é preciso apertar com muita força. Disseme que eu não devia gritar, por muito que doesse, porque eu era uma Voincourt.
--Santo Deus!--murmurou ele.
--E eu não gritei. Muito simplesmente, desmaiei, quando a dor se tornou insuportável, mas, então, o mal já estava feito.
--Que sucedeu?
--Nada. Uma brincadeira que saiu mal, é tudo. No que se referia ao meu pai, ela nunca podia proceder mal.
--Genevieve serviu-se de mais uma chávena de chá.-A propósito, o que disse ao meu pai a este respeito?
--Disse-lhe apenas que a sua irmã tinha morrido num acidente de automóvel.
--Mas porque mo diz a mim, e não a ele?
--Porque me pareceu que podia suportar o relato, e ele não.
Mentia, e pressentiu-o instantaneamente, mas, nesse momento, o pai passou pela janela. Levantou-se.
--Vou ver como ele está.
Quando se preparava para abrir a porta, Craig disse:
--O assunto não me diz respeito, mas eu diria que Miss Trevaunce é a última pessoa que ele deseja ver, neste momento.
Sentiu-se magoada, mesmo muito magoada, porque, lá
no fundo do coração, sabia bem que era verdade.
--Tê-la perto só vai tornar as coisas piores para ele-acrescentou Craig, com brandura.--Cada vez que a vir, o seu pai pensará que é a Anne-Marie, nem que seja apenas por um breve instante.
--Desejará que eu fosse ela, major Osbourne--corrigiu-o Genevieve.--Mas que sugere, então?
--Eu regresso a Londres, se isso lhe pode servir de alguma ajuda.
Só então ela compreendeu, sem sombra de dúvida.
--É por isso que está aqui, não é verdade? Eu sou a razão da sua vinda --É isso mesmo, Miss Trevaunce.
Voltou-se e saiu da sala, deixando-o junto ao lume, e fechando a porta atrás de si.
O pai estava novamente a trabalhar no jardim, arrancando ervas daninhas e lançando-as para um carrinho de mão. O sol brilhava, o céu estava azul. Um dia lindo, como se nada houvesse acontecido.
Endireitou-se e disse:
--Vais-te embora no comboio de amanhã, em Padstow?
--Pensei que quisesse que eu ficasse mais algum tempo. Posso telefonar para o hospital. Pedir prolongamento da licença.
--Isso ia alterar alguma coisa?--O pai acendia o cachimbo, com as mãos ligeiramente trémulas.
--Não!--respondeu Genevieve com ar cansado.-Parece-me que não.
--Então, porque queres ficar?--O pai voltou-lhe as costas e continuou a mondar as ervas.
Genevieve deu alguns passos no seu quartinho, certificando-se de que não se esquecera de nada. Parou à janela, observando o pai a trabalhar, lá em baixo.
Gostaria ele
mais da Anne-Marie, só porque a não podia ter junto a si? Seria isso? Nunca tinha sentido que houvesse qualquer semelhança entre si própria e o resto da família.
A única pessoa em qualquer dos lados a quem tinha verdadeiro apego era à tia Hortense, mas, essa, era um caso especial, na verdade.
Abriu a janela e chamou o pai.
--O major Osbourne segue agora para Londres e ofereceu-me boleia.
O pai olhou para cima:
--Amabilidade da parte dele. Se fosse a ti, aceitava-a.
Voltou ao trabalho, parecendo pelo menos vinte anos mais velho do que uma hora antes. Como se já se tivesse arrastado até à cova, para o lado da sua querida Anne-Marie. Fechou a janela, deu um último relance de olhos ao quarto, agarrou na mala e saiu. Craig Osbourne estava sentado numa cadeira, perto da porta. Levantou-se e pegou-lhe na mala, sem proferir uma palavra. A Sra. Trembath saía da cozinha, limpando as mãos ao avental, uma vez mais.
--Vou-me embora agora--disse Genevieve.--Cuida dele.
--Não é o que tenho feito sempre?--Beijou-a na face.--Para a frente, rapariga.
Isto não é lugar para ti,
nem nunca o foi.
Craig seguiu para o automóvel e colocou a mala no assento da retaguarda.
Genevieve inspirou com força e
aproximou-se do pai; ele olhou para cima, e ela deu-lhe um beijo na face: --Não sei quando volto. Mas escrevo, está bem?
O pai abraçou-a com força e voltou-lhe rapidamente as costas.
--Volta ao teu hospital, Genevieve. Faz algum bem aos que ainda podem ser ajudados.
Ela dirigiu-se para o carro, sem mais palavras, consciente de um estranho senso de libertação, face à sua rejeição pelo pai. Craig ajudou-a entrar, fechou a porta, sentou-se ao volante e pôs a viatura em marcha.
Ao fim de algum tempo, perguntou:
--Sente-se bem?
--Pensaria que sou louca se lhe dissesse que me sinto livre, pela primeira vez em muitos anos?
--Não. Tendo conhecido a sua irmã como conheci, e após o que esta manhã aqui vi, eu diria que até faz um certo sentido.
--Diz que a conheceu bem. De que modo? Foram amantes?
Craig esboçou um sorriso de circunstância:
--Não espera que lhe responda a essa pergunta, não é verdade?
--Mas, porque não?
--Cos diabos!, não sei responder-lhe. Amantes seria um termo totalmente errado. Anne-Marie nunca amou ninguém na vida, para além dela própria.
--É verdade, senhor major, mas não estamos a falar a esse respeito. Estamos a discutir a carne.
Sentiu-se irado por um momento, e tremeu-lhe um músculo na face.
--Pronto, minha senhora, dormi de facto com a sua irmã uma ou duas vezes. Isto fá-la sentir-se melhor?
Genevieve manteve-se algum tempo de cara voltada, e, durante muito tempo não trocaram palavra. Finalmente, ele tirou do bolso um maço de cigarros, usando só uma das mãos.
--Estas coisas têm a sua utilidade, nestas alturas...
--Não, obrigada.
Acendeu um cigarro para ele próprio, e baixou um pouco a janela.
--O seu pai é, de facto, um tipo muito especial. Médico rural, mas também, de acordo com a placa que tem à porta, Membro do Colégio Real de Cirurgiões.
--Está a tentar-me dizer que ainda não o sabia, quando veio visitar-me?
--Algumas coisas, mas não tudo--respondeu-lhe.-Nem ele nem a Genevieve faziam parte do vocabulário de Anne-Marie, quando a conheci.
Ela encostou-se para trás no assento, com os braços cruzados atrás da cabeça: --Os Trevaunces vivem nesta região da Cornualha desde tempos imemoriais. O meu pai quebrou uma tradição familiar ao ingressar na Escola Médica, em vez de ir para o mar. Saiu da Universidade de Edimburgo no Verão de mil novecentos e catorze com aptidão para a cirurgia, que pôs em prática nos hospitais de campanha da frente ocidental em França.
--Imagino que tenha sido um curso pós-graduação levado dos diabos--disse Craig.
--Foi ferido durante a Primavera de dezoito. Um estilhaço na perna esquerda.
Deve ter reparado que ainda
coxeia. O Castelo de Voincourt era então usado como casa de convalescença de oficiais. Está a ver como tudo isto começa a ter o ar de uma história de fadas?
--Bem o pode dizer!--concordou ele.--Mas continue. Está a ser interessante.
--A minha avó, detentora de um dos mais antigos títulos da França, por direito próprio, e orgulhosa como Lúcifer; a irmã mais velha, Hortense, sardónica, espirituosa, sempre autocontrolada; e finalmente Hélène, jovem, voluntariosa e muito bela.
--Que se apaixonou pelo médico da Cornualha?-Craig continuou.--Dá-me impressão que a mãe não deve ter gostado muito...
--E não gostou, de modo que, numa bela noite, os amantes fugiram. O meu pai estabeleceu-se em Londres, e, do lado francês, ninguém teve o mínimo gesto...
--Até que la belle Hélene deu à luz um casal de gémeas.
--Exactamente--assentiu Genevieve.--E a voz do sangue, ao que dizem, fala mais alto.
--Por conseguinte, passaram a visitar o lar ancestral?
--A minha mãe, Anne-Marie e eu. O sistema funcionou muito bem. Adaptámo-nos. A minha mãe habituou-nos a falar francês em casa.
--E o seu pai?
--Nunca foi bem-vindo. Aliás, ele teve muito sucesso, todos aquels anos. Cirurgião principal no Hospital de Guy, com casa em Harley Street.
--E, então, morreu a sua mãe?
--Exactamente. Com uma pneumonia, em trinta e cinco. Tínhamos então treze anos. O ano do polegar, como eu lhe chamo.
--E Anne-Marie escolheu a França, enquanto a Genevieve ficou com o seu pai, não é verdade?
--Simples.--Genevieve encolheu os ombros, parecendo subitamente muito francesa.-A grand-mere tinha morrido e Hortense era a nova condessa de Voincourt, um título detido legitimamente na família, desde os tempos de Carlos Magno, pela mais velha da linha feminina, e um facto que se tinha tornado evidente, após os seus vários casamentos, era que Hortense não podia ter filhos.
--E Anne-Marie era a seguinte, na linha feminina?-perguntou Craig.
--Por onze minutos. Oh! Hortense não tinha direitos legais, e o meu pai deu a Anne-Marie o direito de escolher, embora ela só tivesse treze anos.
--Esperava que ela o escolhesse, não terá sido?
--Pobre pai!--Genevieve concordou.--E Anne-Marie sabia precisamente o que queria. Para ele, foi a última pedrada. Vendeu tudo o que tinha em Londres, mudou-se para Saint Martin e comprou o velho presbitério.
--Uma boa história para o cinema! --comentou Craig.--Bette Davis como Anne-Marie.
--E quem mais, para mim?--perguntou Genevieve.
--Mas, então, Bette Davis, é evidente!--Ele riu-se:
--Quem mais poderia ser? Quando viu Anne-Marie, pela última vez?
--Na Páscoa de quarenta. O meu pai e eu visitámos Voincourt. Foi antes de Dunquerque. Ele tentou persuadi-la a voltar connosco para Inglaterra. Ela respondeu-lhe que isso era uma loucura, e desenganou-o da ideia.
--Bem, calculo como tenha sido.--Craig desceu a janela e lançou o cigarro para fora.--Por conseguinte, a Genevieve é a nova herdeira?
Genevieve voltou-se para ele, com as faces subitamente sem cor.
--Deus me valha! Mas nem sequer tinha pensado nisso...
nem me passara pela cabeça!
Ele abraçou-a com o braço direito:
--Então, em frente, soldado, tudo bem. Eu compreendo.
De um momento para o outro, Genevieve sentiu-se muito cansada.
--Quando chegamos a Londres?
--No princípio da noite, se tivermos um poucochinho de sorte.
--E então, diz-me a verdade, toda a verdade?
Craig nem sequer a olhou, concentrando toda a atenção na estrada.
--Sim!--respondeu.--Parece-me que lho posso prometer.
--Muito bem.
Começou a chover. Cerrou os olhos quando ele ligou os limpa-vidros, e, pouco após, voltou-se no assento, cruzou os braços sob os seios e adormeceu, encostando-lhe a cabeça aos ombros.
O perfume era diferente. Ela era a Anne-Marie, e, no entanto, não era Anne-Marie. Craig Osbourne nunca se sentira tão perplexo em toda a sua vida. De semblante taciturno, continuou a conduzir até Londres.
Já tinha escurecido, ao chegarem aos arredores de Londres. Viam-se clarões de fogo no horizonte e ouvia-se o estrondo das bombas largadas por bombardeiros pesados, guiados pelas bombas incandescentes dos caças nocturnos gu88s, vindos de Chartres e Rennes, em França.
Mal entraram na cidade, logo se tornaram patentes por toda a parte os sinais da destruição provocada pelo bombardeamento da noite anterior. Craig teve de mudar de caminho por diversas vezes, por ter entrado em ruas que tinham ficado bloqueadas. Ao baixar o vidro da janela, Genevieve sentiu o cheiro a fumo no ar húmido e viu as pessoas amontoadas nas estações do metro, com famílias inteiras transportando cobertores, malas e pertences pessoais, prontas para passarem mais uma noite debaixo da terra. Era a repetição do drama de 1940.
--Pensei que tivéssemos acabado com isto!--exclamou, com amargura.--Convenci-me que a RAF tinha resolvido o problema.
--Alguém se deve ter esquecido de o dizer à Luftwaffe--disse Craig--Chamam-lhe The Little Blitzl.
Nada que se compare com a primeira vez.
--A não ser que se dê a circunstância de se encontrar debaixo da bomba que vai cair a seguir!--completou ela.
Havia chamas à direita, e caiu uma fiada de bombas tão perto que Craig se viu forçado a dar uma guinada de um lado da rua para o outro. Parou ao lado do passeio, e um guarda de capacete saiu da escuridão.
--Vão ter de estacionar aqui e abrigar-se no metro.
A entrada é ao fim da rua.
--Estou em serviço oficial--protestou Craig.
--Bem podia ser o Churchill, meu caro, que ia à mesma para o raio do metro!--insistiu o policia.
--Pronto! Rendo-me!--respondeu-lhe Craig.
Saíram do carro e ele trancou as portas, seguindo a multidão colorida que se alongava pela rua, até à entrada da estação do metro. Tomaram lugar na cauda da fila, e desceram dois níveis nas escadas rolantes, para continuarem por uma passagem subterrânea que ia dar ao túnel dos carris.
As plataformas estavam apinhadas, com pessoas sentadas por todos os lados, embrulhadas em cobertores, com as suas coisas espalhadas em volta. Senhoras dos WVS
distribuiam refrescos num carrinho. Craig pôs-se na fila e conseguiu duas chávenas de chá e uma sanduíche de carne enlatada, que ele e Genevieve partilharam.
--Há pessoas maravilhosas!--comentou ela.--Veja lá! Se Hitler pudesse ver isto neste momento, certamente que terminava a guerra.
--Muito provavelmente!--concordou Craig.
Nesse momento, surgiu à entrada um guarda vestido de fato de oleado e capacete metálico, com a face coberta de pó.--Preciso de meia dúzia de voluntários. Estão pessoas soterradas numa cave, lá em cima.
Houve uma certa hesitação, e então, levantaram-se dois homens de meia-idade, que estavam sentados ali ao pé.
--Vamos lá!
Craig hesitou, tocando no braço ferido.
--Contem comigo.
Genevieve seguiu-o, e o guarda da defesa civil exclamou:
--Tu, não, minha linda.
--Sou enfermeira!--ripostou-lhe ela, com rispidez.
--Podem ter mais necessidade de mim do que dos outros.
Com um ar cansado, o homem encolheu os ombros, voltou-se e guiou os outros até à saída. Todos os seguiram, de volta às escadas rolantes e à rua. As bombas caíam agora mais longe, mas havia incêndios ateados do lado esquerdo da rua, sentindo-se o odor do fumo acre.
A cerca de cinquenta metros da entrada do metro, uma fileira de lojas tinha sido reduzida a escombros.
O guarda informou:
--Devíamos esperar pela gente dos socorros pesados, mas sucede que ouvi alguém gritar para aqueles lados.
Antes do bombardeamento, isto era um café chamado Sam's. Parece-me que há gente na cave.
Todos se chegaram à frente, escutando. O guarda gritou e quase imediatamente se ouviu um grito fraco, em resposta.
--Bom, vamos lá limpar isto--comandou o guarda.
Atacaram a pilha de tijolos de mãos nuas, abrindo um buraco para baixo, até que, cerca de quinze minutos depois, apareceu o cimo das escadas. Mal havia espaço para um homem entrar, de cabeça para a frente. Enquanto se agachavam para inspeccionar a abertura, alguém deu um grito de alarme, e todos se espalharam, no preciso momento em que uma parede desabava sobre a rua.
A poeira assentou, e alguém comentou:
--É rematada loucura ir lá abaixo!
Fez-se silêncio. Craig pôs o boné no bolso do impermeável, tirou o dólman e entregou tudo a Genevieve: --Coa breca! Esta farda foi estreada há dois dias!-exclamou, lançando-se sobre a barriga e entrando pelo buraco ao cimo das escadas.
Toda a gente ficou à espera. Ouviu-se uma criança a chorar, alguns momentos depois. Os braços de Craig saíram pelo buraco, segurando um bebé. Genevieve precipitou-se para a frente para o receber e recuou com ele para o centro da rua. Um pouco mais tarde, saiu pelo buraco um rapaz de cinco anos de idade, coberto de estuque. Ficou parado, espantado, até Craig surgir e levá-lo pela mão para junto de Genevieve e do guarda, no meio da rua. Alguém deu um grito de alarme, e mais uma parede aluiu, ocultando a entrada da cave sob uma chuva de tijolos.
--Deus me ajude! Isso é o que se chama sorte, patrão!--exclamou o guarda, enquanto se ajoelhava numa perna, consolando a criança que chorava.--Havia mais alguém lá em baixo?
--Uma mulher, morta.--Craig conseguiu encontrar o maço de tabaco. Acendeu um cigarro e sorriu, fatigado, para Genevieve.--Sempre disse que não há nada como uma guerra em grande, Miss Trevaunce. Que é que costuma dizer, nestas alturas?
Ela apertou o bebé contra o peito.
--A farda!--exclamou.--Não ficou muito mal.
Consegue-se pôr em condições.
--Já alguém lhe disse que as suas palavras são muito reconfortantes?--perguntou ele.
Mais tarde, continuando a viagem no carro, ela sentiu-se cansada. O
bombardeamento prosseguia muito longe,
mas mesmo nas ruas por onde seguiam tinha havido estragos, sentindo-se os vidros a quebrar sob os pneus da viatura. Leu numa placa o nome da rua--Haston Place
--e Craig deteve-se junto ao número dez, uma casa de estilo jorgiano, com um terraço, e de aspecto agradável.
--Onde estamos?--perguntou ela.
--A cerca de dez minutos de caminho do Quartel-General da SOE em Baker Street. O
meu chefe ocupa lá
o último andar. Na opinião dele, é mais privado.
--E quem é esse chefe?
--O brigadeiro Dougal Munro.
--Não soa a nome americano--observou ela.
Abriu-lhe a porta da rua.
--Temos de nos governar com o que aparece, Miss Trevaunce. Mas siga-me, por favor.
Subiu o lance de escadas à frente dela e premiu a campainha da porta da frente.
@Cinco
Jack Carter aguardava-os no patamar ao cimo das escadas, apoiado na bengala.
Estendeu a mão:
--Miss Trevaunce. Um grande prazer. Permita que me apresente. Carter. O senhor brigadeiro Munro vai recebê-la.--A porta abriu-se. quando ela entrou, Carter perguntou a Craig:--Tudo bem?
--Não tenho bem a certeza--respondeu-lhe Craig.-Nesta altura, não me parece que seja de esperar muito.
A sala de espera era muito agradável. Um borralho de carvão consumia-se lentamente numa braseira jorgiana-uma das muitas antiguidades que se viam na sala e recordavam a carreira inicial de Munro, como egiptólogo.
A sala estava na sombra, provindo a única luz de um candeeiro de latão sobre uma secretária ao pé da janela.
Atrás dela, Munro lia alguns papéis. Levantou-se e deu a volta à secretária.
--Miss Trevaunce.--Acenou afirmativamente a cabeça.--Na realidade, a semelhança é notável. Não acreditaria, se não visse com os meus próprios olhos.--E, apresentando-se:--Munro, Dougal Munro.
--Senhor brigadeiro.--Ela retribuiu o cumprimento, com uma inclinação de cabeça.
Voltando-se para Craig, Munro exclamou:
--Santo Deus! Mas que estado o seu? Que diabo lhe sucedeu?
--Uma passagem através da cidade um tanto atribulada, por causa do bombardeamento--respondeu-lhe Craig.
Genevieve acrescentou:
--Salvou a vida de duas crianças soterradas numa cave. Rastejando por um buraco, conseguiu tirá-las.
--Ora essa!--exclamou Munro.--Bem gostaria que não se metesse em actos heróicos, Craig. O senhor é demasiado valioso para o perdermos, numa ocasião destas, e, ainda por cima, por certo que não foi melhorar o estado desse maldito braço.
Por favor, Miss Trevaunce, queira sentar-se... ou permite-me que a trate por Genevieve?
Sua irmã, para mim, foi sempre Anne-Marie.
--Como queira.
--Talvez tome uma bebida. Temos uma reserva limitada, mas uísqui escocês há
sempre.
--Não, obrigada. Foi um dia longo. Será possível entrar desde já na questão principal?
--É um pouco difícil saber por onde começar.--Sentou-se à secretária, e, então, Genevieve levantou-se.
--Nesse caso, será melhor deixarmos o assunto para mais tarde, quando se tiver decidido.
: --Genevieve, por favor.--Levantou uma das mãos.
--Ouça-me, ao menos.
--O problema, quando se ouve, é que, muitas vezes, acabamos sendo persuadidos.--Mas sentou-se de novo.
--Muito bem. Comece, então.
Jack Carter e Craig sentaram-se à braseira, frente a frente. Munro principiou com uma pergunta: --Presumo que o major Osbourne lhe tenha explicado o que se passou com sua irmã?
--Sim.
Abriu uma caixa de prata, e passou-lha, por cima da mesa:
--Um cigarro?
--Não, obrigada. Não fumo.
--A sua irmã fumava continuamente, e desta marca.
Gitanes. Experimente um.
Havia agora um tom de insistência de que Genevieve não gostou. Com impaciência, respondeu-lhe: --Não. Porque havia de o fazer?
--Porque eu gostaria que tomasse o lugar dela--disse Munro, com simplicidade.
Conservou o braço estendido, com a caixa aberta. Ela olhou-o, pasmada, com uma sensação de vazio no estômago, como se, num ápice, as coisas se tornassem claras.
--O senhor está louco!--exclamou.--Completamente louco. Não pode estar no seu juízo perfeito!
--Já houve quem o dissesse!--e fechou a caixa com um estalido agudo.
--O senhor pretende que eu vá a França, no lugar da minha irmã? É isso que quer dizer?
--Sim, esta semana, na quinta-feira.--Voltou-se para Craig.--Há luar à noite, para uma aterragem do Lysander?
--Sim, se tudo o que a gente dos meteorológicos disse vier a comprovar-se.
Ela voltou-se, para o observar. Craig estava sentado na cadeira, de modo repousado e com a expressão calma, como habitualmente. Dali, não lhe viria ajuda, de modo que se voltou novamente para Munro: --Isto é uma insensatez! O senhor certamente possui uma quantidade de agentes treinados de longe mais bem qualificados do que eu para este trabalho.
--Ninguém que possa ser Anne-Marie Trevaunce, sobrinha da condessa de Voincourt, em cujo castelo, na semana que vem, se realizará uma reunião com os membros mais importantes do Alto-Comando alemão, a fim de discutirem o sistema de defesa da Muralha do Atlântico, face à próxima invasão aliada. Gostaríamos de saber o que eles vão dizer. Poderiam salvar-se milhares de vidas.
--Estou desapontada consigo, senhor brigadeiro-respondeu ela.--Esse argumento passou de moda, já lá vão muitos anos.
Ele recostou-se na cadeira, com as pontas dos dedos de ambas as mãos unidas e franzindo ligeiramente as sobrancelhas, enquanto a observava.
--Sabe, tenho a impressão que, na realidade, não tem outra alternativa.
--Como assim?
--A sua tia... ao que me parece, é muito amiga dela?
--Se faz essa pergunta, é porque já conhece a resposta.
Ela ficará numa posição difícil quando a Anne-Marie não regressar da viagem que fez a Paris, na próxima sexta-feira.--Encolheu os ombros:--É que os Serviços de Informações alemães não fazem a menor ideia de quem seguia naquele Lysander, não sei se sabe.
Só então Genevieve ficou de facto preocupada.
--A minha tia tinha conhecimento das actividades da Anne-Marie?
--Não, mas se ela desaparecer completamente da face da terra, os alemães vão investigar o caso. Sabe, são muito duros. Não tardará muito tempo que descubram pelo menos parte da verdade. Nessa altura, voltar-se-iam para sua tia, e ela não está propriamente em condições de suportar a pressão a que por certo a haviam de submeter.
--Que está a dizer?--perguntou ela.--A minha tia está doente?
--Pelo que sei, desde há uns tempos que não tem passado muito bem do coração, embora, aparentemente, leve uma vida normal.
Genevieve respirou profundamente e endireitou os ombros:
--Não--disse--o senhor está totalmente errado.
Como o major Osbourne me disse há pouco, ela tem grande valor para os alemães, por razões de propaganda.
Não lhe tocavam, não, senhor. Eles não ousariam tocar em Hortense de Voincourt. Ela é demasiado importante.
--É minha opinião que as coisas se modificaram muito desde a última vez que esteve em França.--contrapôs ele.--Já não há ninguém que se possa considerar em segurança, pode crer-me.
--Que fariam eles?
Foi Craig quem respondeu:
--Eles têm campos para pessoas como ela. Sítios muito desagradáveis.
--Devo dizer-lhe que o major Osbourne teve experiência pessoal de tal situação--acrescentou Munro--, e, por conseguinte, sabe do que está a falar.--Ela ficou para ali, olhando-o fixamente, a garganta seca.--Como já disse, é nossa intenção largá-la lá num Lysander -- prosseguiu Munro, com brandura. --Não precisa de treino de pára-quedista. Não há tempo para isso. Temos apenas três dias para a preparar.
--Mas isso é ridículo!--Começava a sentir um pânico crescente.--Não sou capaz de fazer o papel de Anne-Marie. Já lá vão quatro anos. Sabem mais do que eu a respeito dela.
--Ela era sua irmã gémea--prosseguiu Munro, sem.
piedade.--A mesma cara, a mesma voz. Nada disso mudou. Quanto ao resto, nós podemos tratar de tudo.
O estilo do penteado, o gosto de vestir, a pintura, o perfume. Podemos mostrar-lhe fotografias, mostrar-lhe como ela se comportava no castelo. Faremos com que resulte.
--Mas não será suficiente, não está a ver?--retrucou Genevieve. --À parte algumas faces familiares, seria uma casa de estranhos, para mim. Novos criados desde que lá estive, além dos alemães. Nunca saberia quem eram as pessoas.--De repente, a inverosimilhança da situação fê-la dar uma gargalhada.--Teria de haver um anjo a segredar-me ao ouvido todo o tempo, e isso não é possível.
--Acha que não?--Munro abriu a gaveta, tirou um charuto e cortou-o cuidadosamente com um canivete.-A sua tia tinha um motorista, um homem chamado Dissard.
--Trabalhava com Anne-Marie. Era o seu braço direito. Está ali, no quarto ao lado.
Genevieve olhou-o, atónita.
--René? Aqui? Mas porquê?
--Ele devia levar a sua irma a Saint Maurice, e, seguidamente, acompanhá-la a Paris, no comboio. Na realidade, a rede local da Resistência mantê-lo-ia oculto enquanto ela estivesse connosco, ficando a aguardar o seu regresso. Quando nos transmitiram as notícias do sucedido, mandámos buscá-lo noutro avião, na noite seguinte.
--Posso falar-lhe?
--Evidentemente.
Craig Osbourne abriu a porta do fundo e ela levantou-se e seguiu-o para a outra sala. Era um pequeno estúdio, repleto de livros, com as cortinas para ocultação de luzes corridas. Havia algumas cadeiras de braços de cada um dos lados de um aquecedor a gás, e pouco mais--além de René Dissard.
Ele levantou-se lentamente, o bom René de sempre, absolutamente na mesma, uma das eternas personagens da sua infância, da qual certamente era indissociável.
Baixo, de ombros largos bem salientes sob o casaco de bombazina, cabelo e barba grisalho-escuros, a cicatriz da face esquerda a desaparecer sob a pala negra--uma recordação da ferida que lhe custara um olho na frente de Verdum, como soldado raso.
--René? Tu, aqui?
Ele recuou, presa momentânea do mesmo medo que pressentira em seu pai, como se os mortos andassem.
Mas depressa recuperou.
--Mademoiselle Genevieve. É bom voltar a vê-la.
As mãos tremiam-lhe, e ela segurou-as, com força.
--A minha tia está bem?
--Tanto quanto as circunstâncias o permitem.--Encolheu os ombros:--Os boches, claro. Deve compreender que, agora, tudo está diferente no castelo.--Hesitou um pouco.--Foi terrível, aquilo que se passou.
Foi como se algo lhe estalasse na cabeça--a realidade das coisas no presente, tornada crível pela sua presença.
--Tu sabes o que eles querem que eu faça, René?
--Sim, mademoiselle.
--Achas que o devo fazer?
--Iria concluir o que ela iniciou--disse, com ar grave.--Teríamos um menor sentido da inutilidade de tudo.
Genevieve acenou com a cabeça, voltou-se, roçou por Craig Osbourne e voltou à outra sala.
--Está bem, então?--perguntou Munro.
Foi como se uma revolta súbita tomasse conta de si.
Não porque tivesse medo; muito simplesmente, algo nela protestava contra a manipulação de que estava sendo objecto.
--Não, cos demónios, não está! Já tenho trabalho, muito obrigada, senhor brigadeiro. Estou no ramo de salvar vidas, quando me é possível fazê-lo.
--Por muito estranho que pareça, também nós, mas se é assim que pensa...--Voltou-se para Osbourne:-Leve-a a Hampstead, e conclua tudo isto.
Ela perguntou:
--A Hampstead? Que disparate está a tramar, agora?
Munro observou-a, com ligeira surpresa visível na expressão do rosto.
--Os pertences pessoais de sua irmã. Temos algumas coisas na nossa posse, que lhe serão entregues. Um documento ou dois para assinar, e, depois, pode esquecer-se desta triste história. Como pode calcular, a Lei dos Segredos Oficiais tem aplicação relativamente a toda a conversa que tivemos esta tarde.
Munro abriu uma pasta e pegou numa caneta, como se a estivesse despedindo. Verdadeiramente encolerizada, voltou-se, passou por Osbourne e saiu.
A casa de Hampstead tinha sido construída ao estilo jorgiano num terreno de cerca de um hectare, rodeado de muros altos e com um portão de ferro, que lhes foi aberto por um homem de boné e uma espécie de farda azul.
Numa placa no portão lia-se "Casa de Repouso Rosedene". Não conseguiu ver muita coisa do jardim, pois já estava bastante escuro. Quando Craig subiu os degraus da porta da frente, alumiou-se com uma lanterna, que levava na mão. Puxou por uma corda de sineta, à moda antiga, e esperou.
Ouviram-se passos que se aproximavam. O abrir de um cadeado e o som de um ferrolho a ser corrido. A porta abriu-se, aparecendo um homem louro, de guarda-pó branco, que logo recuou um passo. Craig entrou, seguindo à frente, sem proferir palavra.
O átrio estava fracamente iluminado, tinha as paredes pintadas em cor creme e o soalho era de tacos de madeira encerados. Pairava no ar um cheiro anti-séptico estranho, que a fazia recordar uma enfermaria de hospital. O jovem que os recebera correu o ferrolho e fechou o cadeado cuidadosamente, após terem entrado, e, quando se voltou para lhes falar, a sua voz era tão descolorida quanto a sua aparência.
--Herr Doktor Baum recebe-os imediatamente. Por favor, queiram acompanhar-me.
Abriu a porta ao fundo do átrio, deixou-os passar e voltou a fechá-la, sem proferir uma palavra. Estavam, num compartimento parecido com a sala de espera de um dentista, com cadeiras ordinárias, algumas revistas, e que, não obstante o aquecimento eléctrico, estava muito frio. Genevieve pressentia agora em Craig algo de diferente, uma espécie de desassossego, um ar tenso enquanto acendia um cigarro e se encaminhava para as cortinas de ocultação de luzes, que estavam ligeiramente entreabertas.
--Herr Baum--disse ela.--Alemão, suponho?
--Não, austríaco.
Alguém abriu a porta. Entrou um homem baixo, com uma calvície incipiente. Vestia uma bata branca de médico e trazia o estetoscópio suspenso do pescoço. A roupa ficava-lhe larga, como se tivesse perdido muito peso.
--Viva, Baum!--saudou-o Osbourne.--Apresento-lhe Miss Trevaunce.
Tinha olhos pequenos, que denotavam inquietação; ao vê-la, perpassou neles o mesmo clarão de medo que detectara no pai e em René.
Humedeceu os lábios secos e
sorriu, numa tentativa óbvia de a pôr à vontade, todavia com o resultado oposto, porquanto a expressão tornou-se-lhe quase cadavérica.
--Fraulein.--Inclinou a cabeça e tomou-lhe a mão na sua, num contacto húmido, desagradável.
--Tenho de fazer um telefonema. Volto já--disse Craug.
Cerrou a porta atrás de si. Fez-se um silêncio longo.
Baum suava abundantemente, e tirou um lenço do bolso, para secar a fronte.
--O senhor major Osbourne informou-me que guardou algumas coisas que pertenceram a minha irmã.
--Sim, de facto.--O sorriso tornou-se mais cadavérico do que nunca.--Quando ele voltar...--A voz quebrou-se-lhe, e tentou de novo.--Não bebe nada? Um pouco de xerez, possivelmente?--Estava já ao pé do armário do canto, com uma garrafa numa das mãos e um cálice na outra.--Receio bem que não seja de grande qualidade. Como tanta coisa, nos dias que correm!
Sobre a lareira, uma moldura negra com a fotografia de uma moça de dezasseis ou dezassete anos, de uma beleza etérea, que sorria ligeiramente.
Genevieve disse, instintivamente.
--É sua filha?
--Sim.
--Na escola secundária, ainda?
--Não, Miss Trevaunce. Morreu--respondeu Baum, numa voz triste, calma, que soou a Genevieve quase como se fosse um eco. O quarto estava gélido.--Foi a Gestapo, em trinta e nove, em Viena. É que eu sou judeu austríaco, Miss Trevaunce. Um dos afortunados que conseguiram fugir.
--E agora?
--Faço o que posso contra os seus assassinos.
A voz era agradável, mas a dor patente nos seus olhos era tremenda. Todos nós somos as suas vítimas. Tinha-o lido algures, e recordava agora o jovem piloto de caça da Luftwaffe, que um dia tinham levado para a Secção de Urgências do Hospital de São Bartolomeu, terrivelmente queimado e estropiado. A face, todavia, estava ilesa, com o cabelo muito louro. Era a imagem autêntica de um moço da sexta classe por quem se tinha apaixonado aos dezasseis anos, na escola, apenas um jovem que se manteve sorrindo, não obstante as dores que sentia, e que, ainda a sorrir, lhe segurou na mão até morrer.
A porta abriu-se, e Craig entrou:
--Pronto, está tudo resolvido. É melhor começarem.
Espero por vós aqui.
--Não percebo.--Baum parecia extremamente agitado.
--Pensei que era o senhor quem trataria das coisas.
Assomou à face de Craig um ar cansado, de desprezo.
Levantou uma mão, como que tentando evitar mais conversa.
--Está bem, Baum, está bem!
Abriu a porta e afastou-se para um lado, esperando-a.
--Diga-me, qual é a sua jogada, agora?--perguntou
--Algo que deveria ver, na minha opinião.
--O quê?
--Por aqui--disse ele, com gravidade.--Siga-me, por favor.
Saiu e, contrariada, seguiu-o.
Craig abriu uma porta ao fundo do átrio e desceram por umas escadas escuras. Havia um corredor comprido ao fundo, com paredes de tijolo caiadas de branco e portas de ambos os lados. Na curva do corredor, um homem sentado numa cadeira lia um livro. Aparentava talvez uns cinquenta anos, de constituição entroncada, nariz adunco e cabelos grisalhos, e usava um guarda-pó comprido, tal como o jovem que lhes abrira a porta. Quando chegaram ao fim do corredor, ouviu-se um bater ritmado, que foi aumentando até se tornar quase insuportável. O homem no corredor olhou-os por um momento, retornando à sua leitura.
--Completamente surdo--esclareceu Craig.--Tinha de sê-lo, aliás.
Deteve-se em frente de uma porta metálica. Tinham cessado as batidas e o silêncio era total. Fez deslizar um pequeno postigo, espreitou para dentro e pôs-se de lado, sem nada dizer. Como que hipnotizada, Genevieve avançou.
Nunca sentira um cheiro tão repugnante quanto o do quarto para que espreitava, através das grades. Tinha uma luz no tecto, mas muito fraca. Mal conseguia distinguir uma cama pequena e sem cobertores com um balde esmaltado ao pé, e pouco mais. Um movimento súbito, fora do campo de visão, chamou-lhe a atenção.
Estava alguém agachado no canto mais afastado. Era impossível dizer se homem ou mulher. Soltou um gemido e arranhou a parede com as unhas. Mesmo que quisesse fugir não o teria conseguido, dominada como estava pelo horror da situação. Como se tivesse consciência de que alguém o observava, aquele ser humano ergueu a cara lentamente na sua direcção--e, então, viu, horrorizada, a sua própria face--distorcida, desfigurada, como se estivesse a observá-la num daqueles espelhos deformantes de uma barraca de feira.
Não foi sequer capaz de gritar, avassalada por um terror gélido. Pareceram observar-se por uma eternidade, a face arruinada, a Genevieve, e logo uns braços se projectaram para fora das grades, recurvados em garras. Ela nem pôde mover-se, pregada que estava ao solo. Foi Craig quem a puxou para trás, fechando o postigo com um repelão, e assim abafando um súbito uivo animal, estrídulo.
Genevieve esbofeteou-o, com as costas da mão e toda a sua força, uma, duas vezes. Como tenazes de ferro, as mãos de Craig sustiveram-na, imobilizando-a.
--Então!--disse ele calmamente.--Vamos embora!
O homem na cadeira olhou-os, sorriu e acenou a cabeça. As batidas lá atrás atingiam um nível de frenesim, e, ao seguirem pelo corredor, só o braço forte de Craig Osbourne impediu que ela caísse.
Deram-lhe brande a beber, enquanto ela se aquecia frente ao irradiador eléctrico, tremendo convulsivamente, agarrada ao copo com toda a força, como se disso dependesse a sua vida. Ao fundo do quarto, Baum aguardava, com ar ansioso.
--Ela saiu do carro na estação, conforme tinha sido combinado--dizia Craig.--René foi estabelecer contacto com a célula da Resistência na zona. A sua irmã mudou de roupa, e, então, dirigiu-se a pé, através do campo, para o ponto de recolha.
--Que sucedeu?--murmurou Genevieve.
--Foi detida por uma patrulha da SS, que procurava parnsans. Os documentos dela... falsos, é claro... estavam absolutamente em ordem. Para eles, tratava-se apenas de uma moça do campo bem-parecida.
Arrastaram-na para o celeiro mais próximo.
--Quantos eram?
--Que interesse tem isso? René e os seus amigos da Resistência encontraram mais tarde o fantasma em que a haviam transformado, vagueando pelos campos. Foi aquilo que o Lysander trouxe, dois dias depois.
--O senhor mentiu-me--disse Genevieve.--Todos vós, até mesmo o René.
--Pretendíamos poupá-la, se pudéssemos, mas não nos deu azo a isso, não acha?
--Mas não se pode fazer nada? Terá ela de continuar num lugar tão imundo?
Foi Baum quem respondeu.
--Não. Ela foi submetida a um tratamento que lhe deverá reduzir a sua extrema violência, mas demorará pelo menos umas duas semanas a produzir efeito. Então, evidentemente que arranjaremos forma de a transferir para um estabelecimento de tratamento adequado.
--Há esperanças de cura?
Baum voltou a limpar o suor da fronte, em seguida esfregou as mãos húmidas no lenço, num estado de agitação perfeitamente visível.
--Fraulein, por favor, que quer que eu lhe diga?
Genevieve respirou fundo.
--Meu pai nunca deverá vir a saber de nada, entende?
Era a morte dele!
--Evidentemente--anuiu Craig.--Ele já tem a sua história. Não há qualquer necessidade de a modificar, agora.
Por uns momentos, ela concentrou a atenção no copo:
--Na verdade, desde o iníCiO que nunca tive a mínima hipótese, e nenhum de vós o ignorava.
--É certo!--assentiu ele, com gravidade.
--Por conseguinte, tudo bem.--Engoliu o brande, sentindo-o queimar-lhe a garganta, e colocou cuidadosamente o copo em cima da mesa.--Que se passa, a seguir?
--Receio bem que tenhamos de voltar a Munro.
--Avante, então--e, voltando-se, encaminhou-se para a saída.
A face de Carter tinha um ar grave, enquanto os conduzia até à sala de estar de Haston Place. Munro, sentado atrás da secretária, levantou-se e dirigiu-se para ela.
--Portanto, já sabe de tudo.
--Sim. --Pensou que nem valia a pena sentar-se.
--Creia-me que lamento.
--Poupe-me à sua simpatia, brigadeiro.--Levantou a mão.--Nem gosto do senhor nem me agrada o seu modo de trabalhar. Que se vai passar, agora?
--Costumamos reservar o rés-do-chão para os convidados. Pode passar aqui a noite.--E, acenando para Craig:--Pode ficar na cave, com o Jack.
--E amanhã?--perguntou Genevieve.
--Amanhã voamos de Croydon para Cold Harbour, na Cornualha. É uma hora apenas, num Lysander. Temos lá uma casa, a Abadia Grancester. Trata-se de um local a que recorremos para preparar as pessoas para a nossa linha de trabalho. O major Osbourne e eu acompanhá-la-emos.--E, voltando-se para Carter:--Tu aguentas as coisas por aqui.
--A que horas parte, meu brigadeiro?
--Por volta das onze e meia, em Croydon, em atenção ao compromisso prévio do major Osbourne.
--E que compromisso é esse, posso sabê-lo?--perguntou Craig.
--Parece que houve quem o propusesse para a Cruz Militar, meu caro, por causa da sua última brincadeira na SOE, antes de se juntar a nós. É costume ser Sua Majestade a impor as condecorações, ela própria, de modo que o esperam no Palácio de Buckingham, para a cerimónia, às dez da manhã, em ponto.
--Oh! Meu Deus!--lamentou-se Craig.
--Portanto, boa noite a todos.--Eles voltaram-se e dirigiram-se para a porta, mas Munro acrescentou ainda: --Um momento só, Craig.
--Meu brigadeiro?
--A farda, meu caro. Veja lá se trata dela...
Saíram para o patamar, e Jack Carter disse:
--A porta está aberta, e encontrará no quarto tudo o que precisar, Miss Trevaunce. Voltamos a ver-nos amanhã de manhã.
Desceu as escadas na frente, seguindo-o eles até ao rés-do-chão. Detiveram-se à
porta do apartamento, e Genevieve disse:
--Fica na cave. Não será incómodo de mais?
--Na realidade, até é muito cómodo. Já lá tenho ficado.
--Buckingham Palace! Estou impressionada!
--Não julgue que é uma honra por aí além. Serei mais um entre muitos... É costume levarem-se convidados para estas cerimónias.
Não tenho ninguém, de modo
que não sei se...
Genevieve sorriu:
--Nunca vi o rei de perto, e suponho que ficaria no caminho para Croydon.
--É evidente que não tinha o mínimo sentido ficar no carro, à espera--acrescentou Craig.
Ela correu um dedo ao longo do dólman.
--Uma coisa. Vá mudar de roupa, e traga-me isto. De certeza que lho posso arranjar, com uma esponja e um ferro.
--Sim, minha senhora. --Fez-lhe a continência, e desceu para a cave.
Genevieve entrou no compartimento, fechou a porta e encostou-se contra ela, sorrindo. Na realidade, não podia deixar de gostar de Craig Osbourne--que mal advinha daí? Um pouco de calor no vazio. Algo que lhe apagasse da memória a face arruinada da irmã.
Chovia copiosamente. A limusina seguiu por Pall Mall, em direcção ao Palácio de Buckingham; ao fundo, avistava-se o Parque de St.
James, envolto na neblina. Dougal
Munro e Genevieve sentavam-se no assento de trás. Em respeito pela tradição, que impunha o uso de chapéu, ela tinha conseguido encontrar, entre as coisas que trouxera, uma velha boina negra, uma gabardina cintada preta e o seu último par de meias em condições.
--Não estou devidamente vestida para a ocasião
--disse ela, nervosa.
--Disparate! Está maravilhosa!--afirmou Munro.
Craig Osbourne sentava-se no assento rebatível, frente a ambos, com o boné inclinado conforme o regulamento.
De facto, ela tinha feito um trabalho excelente na farda.
Ele usava as calças presas nas botas de meio cano, e, em vez de gravata, trazia um lenço branco em volta do pescoço, conforme o costume de muitos dos oficiais e outro pessoal do OSS.
--Está com bom aspecto, o nosso rapaz!--exclamou Munro alegremente.
--Ainda bem que pensa assim. Pessoalmente, sinto-me muito pouco à vontade--disse Craig. Entretanto, torneavam o monumento à rainha Vitória e detinham-se no controlo à porta do palácio, passando em seguida para o recinto fronteiro ao mesmo.
Entrava uma multidão pelos portões do palácio, com uniformes de todas as armas, e com muitos civis, que seriam evidentemente esposas ou parentes dos agraciados.
Todos se apressavam a fugir da chuva.
Tratava-se de uma ocasião solene. Uma sensação de expectativa e uma ponta de excitação era patente em todos os rostos, na subida pelas escadarias até à galeria dos retratos, onde filas de cadeiras aguardavam os convidados, que os funcionários da corte faziam sentar. No outro extremo da sala, uma banda de música da RAF tocava música ligeira.
A expectativa aumentou quando a banda começou a tocar God Save the King Um momento mais tarde, o rei Jorge e a rainha Isabel entravam, levantando-se toda a gente. O casal real sentou-se no estrado elevado, e, em seguida, todos os assistentes.
Os condecorados foram chamados por ordem alfabética.
Craig Osbourne estava verdadeiramente surpreendido pelo estado de nervos em que se encontrava. Ouvia os nomes que iam sendo chamados, um após outro, e inspirou fundo, tentando acalmar-se. Sentindo sobre a sua o contacto da mão enluvada de Genevieve, voltou-se, admirado, vendo-a sorrir de modo encorajador. Do outro lado dela, Munro sorriu também e, nesse momento, o mestre-de-cerimónias chamou pelo seu nome.
--Major Craig Osbourne, do Departamento de Serviços Estratégicos.
Craig viu-se no estrado, o rei sorrindo enquanto lhe pregava a cruz de prata, a rainha sorrindo-se também.
--Estamos-lhe muito gratos, major.
--Muito agradecido a Vossa Majestade.
Voltou-se e saiu, e chamaram o nome seguinte.
Quando chegaram ao fundo das escadas ainda chovia.
As pessoas tiravam fotografias, e sorriam, felizes. Havia um ar de alegria geral.
Genevieve perguntou a Craig, quando se dirigiam para o automóvel:
--Que disse ele?
--Que estava muito grato.
--Esteve muito bem.--Levantou a mão e ajeitou-lhe o lenço, com um ar ligeiramente íntimo.--Não acha, senhor brigadeiro?
--Oh! Mas certamente. Muito bem--disse Munro, com azedume.
Quando chegaram ao carro, Genevieve olhou para a multidão.
--Toda a gente tão feliz! Ninguém diria que estamos em guerra!
--Mas estamos, essa é que é essa!--disse Munro, abrindo a porta.--Por conseguinte, despachemo-nos!
@seis
Em Croydon pairava uma neblina espessa e caía uma forte bátega de água. Havia grande actividade, pois o aeroporto era utilizado como base dos caças empenhados na defesa de Londres--muito embora Genevieve, espreitando pela janela do melancólico barracão Nissen, onde se haviam acolhido, à chegada, não visse avião algum a levantar ou a aterrar. O Lysander--um avião de asa alta, forte e feio--aguardava lá fora, com dois mecânicos da RAF a trabalharem nele.
René tinha-se sentado perto do fogão, bebendo chá.
A chuva batia com força contra os vidros, e Munro, aproximando-se de Genevieve, exclamou: --Maldito tempo!
--Parece mau, não é?
--Todavia, estas coisas voam com qualquer tempo
--acrescentou ele, apontando o Lysander.--Foram planeadas para transportar um piloto e dois passageiros, mas podem levar mais um, um pouco apertados.
René trouxe-lhe chá, numa caneca esmaltada. Ela envolveu-a com as mãos, aquecendo-as, quando a porta se abriu e Craig entrou com o piloto. Era ainda muito moço, tinha um bigode louro e usava um fato de voo azul, com o blusão de cabedal e botas. Trazia uma pasta com mapas na mão, que colocou na mesa.
--Tenente-aviador Grant--disse Craig, apresentando-o a Genevieve.
O jovem sorriu e tomou-lhe a mão. Munro dirigiu-se-lhe, com uma nota de irritação na voz: --Vamos ter de aguardar, Grant?
O problema não é o tempo, meu brigadeiro. Podemos levantar voo no nevoeiro de Londres, desde que, lá em cima, haja visibilidade. E a visibilidade e a aterragem em Cold Harbour que estão a complicar o problema. Informar-nos-ão, logo que isto melhore.
--Raios!--praguejou Munro, abrindo a porta e saindo.
--Está de mau humor, esta manhã!--disse Grant, dirigindo-se ao fogão e servindo-se de uma caneca de chá.
Craig, voltado para Genevieve, esclareceu-a:
--Será Grant que a transportará para a outra banda, na quinta-feira à noite. Está bem entregue. É trabalho que ele já tem feito por várias vezes.
--Sem problemas, desde que se cumpram as formalidades.
--Entalou um cigarro ao canto da boca, mas não se incomodou a acendê-lo. --Já voou alguma vez?
--perguntou a Genevieve.
--Sim, até Paris, antes da guerra.
--Vai ser um bocado diferente, pode crer-me.
--Podíamos aproveitar o tempo, enquanto esperamos, para recapitular o programa para sexta-feira à noite --disse Craig.--Já fez o plano de voo, não é verdade?
--perguntou, dirigindo-se ao tenente Grant.
--Claro!--respondeu o outro.--Levantamos voo às onze e meia em Cold Harbour. Hora de chegada prevista, catorze horas. Eu mostro-lhe o itinerário.--Abriu o mapa, e aproximaram-se, observando-o a traçar uma linha sobre o canal, desde a Cornualha até à Bretanha.
--O major Osbourne acompanha-nos no voo--informou Grant.--Estes pássaros não têm muito espaço, mas são bons voadores. Nunca nos deixam mal.
--Qual é a altitude de voo, na travessia do canal?
--perguntou Craig.
--Bem, há pilotos que gostam de voar baixo... tentam manter-se abaixo do radar inimigo, mas eu prefiro voar a cerca de três mil metros, durante todo o percurso. Mantemo-nos assim muito abaixo das formações de bombardeiros, que é o que usualmente procuram os caças nocturnos dos boches.
Ele falava com tanta calma e tanta naturalidade sobre o assunto que Genevieve acabou por reparar no contraste com ela própria, a tremer um tudo-nada.
--Aterramos num campo a cerca de vinte e cinco quilómetros de Saint Maurice, que estará devidamente assinalado com luzes. Coisa muito primitiva (faróis de bicicleta), mas bastante eficiente, caso o tempo aguente.
Código de reconhecimento, em Morse: Sugar Nan. Se não recebermos esta senha, não aterramos, esteja a pista iluminada ou não. De acordo?
Tinha-se voltado para Craig, que acenou afirmativamente a cabeça:
--O senhor é o chefe.
--Perdemos dois Lysanders e um Liberator, na quinzena passada, porque os pilotos aterraram e os boches estavam à espera. Segundo a experiência que temos destes casos, o objectivo deles é capturarem toda a gente incólume, pelo que não abrem fogo até o avião tentar levantar voo, de novo. As últimas instruções que temos dizem-nos para regressar o mais depressa possível. Eu não vou buscar ninguém, de modo que, mal aterre, sigo até ao fim da pista, Miss Trevaunce sai, e regressamos imediatamente, a título de precaução.--Dobrou o mapa.--Tenho muita pena e tudo o mais que pensem, mas o caso é que nunca se tem a certeza de quem nos esteja esperando, com toda aquela escuridão.
Voltou ao fogão e serviu-se de mais uma chávena de chá. Craig acrescentou ainda, dirigindo-se a Genevieve: --O tipo que está à nossa espera para a levar (o nome de código é "Grand Pierre") é inglês, e não conhece Anne-Marie. Falaram ao telefone, apenas, e desconhece tudo o que se passou, pelo que, para ele, a Genevieve é quem aparenta ser.
--E o chefe da estação de Saint Maurice?
--Henri Dubois. Passa-se o mesmo com ele. Só René
e os dois homens que o acompanhavam quando a encontrou sabem do sucedido: eram moços das montanhas,
que já lá regressaram, por esta altura. Grand Pierre entrega-a a Dubois, antes da alvorada. Ele tem as malas da Anne-Marie. Terá muito tempo para mudar de roupa, enquantO René verifica o carro. O comboio da noite proveniente de Paris chega às sete e meia. Nesta época do ano, ainda é noite. Uma paragem de três minutos, e parte novamente. Ninguém na aldeia estranhará o que quer que seja, mesmo que a não vejam sair do comboio.
Trata-se de um centro do movimento da Resistência, na região.
Ele falou sem a olhar directamente uma única vez, muito calmo na aparência--embora um músculo do lado direito da face lhe tivesse tremido.
--Mas não me diga que se está a preocupar comigo?
--disse ela, pousando-lhe a mão no braço.
Antes que pudesse responder, a porta abriu-se e o brigadeiro Munro entrou de rompante: --Estive com o comandante da base--disse a Grant.
--Deu-nos autorização de partida. Se não pudermos aterrar quando lá chegarmos, voltamos para trás. Tem combustível suficiente, não?
--Claro!--respondeu-lhe Grant.
--Então, vamos embora!
Tudo parecia acontecer de repente, e Genevieve viu-se a correr para o Lysander, fugindo à chuva. Craig empurrou-a para o fundo da cabina, e ele e René comprimiram-se ao lado dela. Munro tomou o lugar do observador, atrás do piloto. Ela estava tão entretida a apertar os cintos que mal deu pelo que se passou a seguir--o aumentar do ruído do motor e o estremeção súbito quando levantaram voo.
Foi uma viagem má, barulhenta e confusa, com o ruído do motor a dificultar qualquer espécie de conversa.
Fora, a chuva cor de ardósia batia contra a carlinga de perspex. O avião era constantemente sacudido, e, uma vez por outra, caia num poço de ar, provocando-lhe um susto enorme.
Ao fim de algum tempo já se sentia vergonhosamente enjoada, embora lhe tivessem entregue um saco adequado a tal emergência. René seguiu-a, o que lhe trouxe um pouco mais de conforto. Acordou sobressaltada com uma mão que a abanava, notando então que lhe tinham coberto as pernas com um cobertor.
Craig tinha uma garrafa-termo na mão.
--Café? Café americano do bom?
Sentia-se gelada, e parecia-lhe ter perdido a sensibilidade nas pernas.
--Quanto falta?
--Quinze minutos, se tudo correr bem.
Demorou algum tempo, saboreando o café. Era exactamente o que precisava, quente, forte e muito doce, e, pelo cheiro, tinham-lhe misturada qualquer coisa ainda mais forte. Devolveu a caneca quando acabou, e Craig voltou a enchê-la, passando-a a René.
Grant tinha o rádio ligado. Ouviu uns estalidos e uma voz a chamar:
--"Lysander Sugar Nan". Tecto de duzentos metros.
Não deverá ter problemas na aterragem.
Munro voltou-se alegremente:
--Tudo bem, minha cara?
--Tudo bem.
Mentia, pois começou a tremer mal o avião iniciou a descida. Para cúmulo, o Lysander foi terrivelmente sacudido pela onda de choque de um grande pássaro negro surgido inopinadamente de nenhures, e que passou tão perto que mal teve tempo de ver a cruz suástica no leme da cauda.
--Bang, bang, morreste, meu velho!--gritou uma voz no altifalante, desaparecendo o gunkers tão depressa quanto tinha aparecido.
Grant voltou-se, de cenho franzido:
--Desculpem isto. Joe Edge está mais louco do que o habitual.
--Puto estúpido!--exclamou Munro. Antes que Genevieve pudesse perguntar o que se estava a passar, saíram do nevoeiro e das nuvens, a duzentos metros. Em baixo, a costa da Cornualha, a angra de Cold Harbour, as casinhas espalhadas pela encosta, e um torpedeiro, atracado ao cais. 0.7u88
voava já sobre a abadia e o lago,
pousando numa pista de relva com uma manga de vento numa ponta.
--Mesmo em cima do objectivo!--informou Grant por cima dos ombros, aproximando-se da linha de pinheiros e aterrando, e dirigindo o avião para o hangar.
O&Tu88 já se tinha detido no local onde os mecânicos aguardavam acompanhados por Martin Hare. Joe Edge saltou da carlinga e veio ter com eles.
--Meu Deus, a farda!--disse Genevieve, agarrando a manga de Craig.
--Tudo bem!--disse-lhe ele.--Descanse que não aterrámos do lado errado do canal. Deixe-me explicar-lhe.
No bar O Enforcado, ainda um pouco confundida com tudo, Genevieve sentou-se a uma das mesas de cavalete, ao pé da janela, com o brigadeiro, Craig e Martin Hare, comendo ovos com toucinho preparados por Julie Legrand na cozinha das traseiras e servidos por Schmidt.
A tripulação do Lili Marlene descansava junto ao fogo, conversando em voz baixa uns, jogando às cartas outros.
Munro comentou:
--Estão muito bem-comportados hoje.
--Bem, meu brigadeiro, é por causa da companhia-disse Schmidt, pondo as tostas sobre a mesa.--Se não me leva a mal que o diga, Miss Trevaunce, a sua presença nesta casa é como uma brisa da Primavera!
--Maldito patife bochechudo!--exclamou Munro.
--Vamos lá, despega daqui!
Schmidt retirou-se, e Martin Hare serviu Genevieve de outra chávena de chá.
--Tudo isto lhe deve parecer muito estranho!
--Sem dúvida!--Tinha gostado dele à primeira vista, aquando do seu primeiro encontro no campo de aviação, tal como tinha detestado Joe Edge.--Acho que se devem sentir estranhos, quando se vêem ao espelho, com essas fardas.
--Ela tem razão, Martin--disse Munro.--Já alguma vez perguntou a si próprio de que lado se encontra?
--Na verdade, até o faço, às vezes.--Hare acendeu um cigarro.--Mas só quando tenho de trabalhar com Joe Edge. Uma desgraça para a farda.
--Para qualquer farda--acrescentou Craig.--Na minha opinião, é um indivíduo totalmente desequilibrado.
Grant contou-me uma história desagradável, que o descreve na perfeição: durante a Batalha da Inglaterra, um&u88 perdeu um motor e rendeu-se a dois pilotos de Spitfire, que tomaram posição aos seus lados, e começaram a escoltá-lo para uma aterragem no campo mais próximo. Teria sido um verdadeiro golpe!
--Que sucedeu?--perguntou Genevieve.
--Ao que parece, Edge apareceu à retaguarda, rindo como um louco na rádio, e fê-lo explodir sem qualquer aviso.
--Mas que coisa horrível!--exclamou ela.--Por certo que o comandante dele o mandou a tribunal militar?
--Tentou fazê-lo, mas foi impedido. Edge era um dos ases da Batalha da Inglaterra e tinha sido condecorado duas vezes com a DFC. A notícia do facto nos jornais teria constituído péssima propaganda.--Craig voltou-se para Hare.--Como já disse, o herói da guerra é um psicopata.
--Também já me tinham contado essa história--disse-lhe Hare.--Mas omitiu uma parte. É que o comandante era um oficial americano. Ex-Esquadrão Eagle, segundo sei. Edge nunca mais lhe perdoou, e, desde então, passou a odiar todos os americanos.
--Bom, mesmo assim não deixa de ser o melhor piloto que jamais vi!--continuou Munro.
--Se assim é, porque não é ele que faz a viagem na próxima quinta-feira?--perguntou Genevieve.
--Porque ele não pilota um Lysander e sim um Fieseler Stork alemão, para esse tipo de voo, e assim mesmo apenas em ocasiões muito especiais--informou-a Munro.--Em comparação, o voo de quinta-feira é pura rotina.
A porta abriu-se e Edge entrou, com o habitual cigarro apagado a um canto da boca.--Todo o mundo feliz?-Fez-se um silêncio súbito, quando ele se aproximou da mesa.--Grant levantou voo sem novidade--disse a Munro.--Volta na quinta-feira, ao meio dia.
--Bom trabalho--volveu Munro.
Edge chegou-se tanto a Genevieve que ela pode sentir-lhe o hálito na orelha.
--Estamos bem instalados, não é verdade, minha querida? Se precisar de conselhos, o tio Joe está sempre à disposição.
Ela afastou-se, irritada, e levantou-se da mesa.
--Vou ver se Madame Legrand precisa de ajuda, na cozinha.
Edge soltou uma gargalhada enquanto ela se afastava.
Hare deu um relance de olhos a Craig, de sobrancelhas erguidas.
--Não lhe parece que este ainda não aprendeu a comportar-se?
Quando Genevieve entrou na cozinha, Julie lavava pratos, com os braços mergulhados na água até aos cotovelos.
--Madame Legrand, o pequeno-almoço estava excelente.--Agarrando um pano de louça, disse:--Deixe que a ajude.
--Julie, chérie--disse a outra com um sorriso rasgado.
Genevieve recordou-se subitamente que Hortense sempre a tinha chamado assim.
Anne-Marie nunca, apenas
ela. Simpatizou de imediato com Julie Legrand. Pegou num prato e sorriu-se.
--Genevieve.
--Tudo bem?
--Penso que sim. Martin Hare pareceu-me simpático.
Um homem notável
--E Craig?
Genevieve encolheu os ombros.
--Oh! Parece-me bem, suponho eu.
--O que significa que gosta dele um bocadinho?-Julie suspirou.--É fácil gostar dele, cherrie, mas olhe que ele leva o cantaro à fonte com demasiada frequência, ao que sei.
--E Edge?--interrogou a outra.
--Saído debaixo de uma pedra. Mantenha-se longe dele.
Genevieve continuou a secar pratos.
--E que faz, no meio de tudo isto?
--Bem, governo a casa e este bar. Já a levo lá acima, daqui a bocadinho. Para se instalar.
A porta abriu-se e o brigadeiro espreitou.
--Craig e eu vamos para casa agora. Há muita coisa a fazer.
Julie respondeu:
--Já lá levo Genevieve.
--Bem.--Tirou uma carta do bolso e entregou-a a Genevieve:--É para si. Mandei Carter a São Bartolomeu logo de manhã, para explicar à enfermeira-chefe que a sua licença se prolongava, por motivo de perda familiar. Ela ainda não lhe tinha enviado essa carta por a esperar para muito breve.
Tinha sido aberta, cortada pela dobra do sobrescrito.
--Leu-a?--perguntou Genevieve.
--Claro.--Saiu, fechando a porta atrás de si.
--Não é mesmo uma simpatia?--comentou Julie, sarcástica.
Genevieve guardou a carta, e continuou a secar pratos.
--Antes disto, que fazia?
--Vivia na França. O meu marido era professor de filosofia na Universidade de Sorbona.
--E agora?
--Morreu. Uma noite, a Gestapo veio buscar-nos, e ele entreteve-os, enquanto eu e os outros fugíamos.-Ficou absorta por momentos, olhando para um ponto vago, no espaço.--Mas Craig voltou, por causa dele.
Salvou-lhe a vida. Ajudou-nos a vir para Inglaterra.-Suspirou.--O meu marido morreu de um ataque de coração, no ano passado.
--E foi Craig Osbourne quem o salvou?
--Precisamente.
--Diga-me alguma coisa a respeito dele--pediu Genevieve.--Tudo o que saiba.
--Mas porque não?--Encolheu os ombros.--O pai dele era um diplomata americano, a mãe era francesa.
Viveu alguns anos em Berlim e Paris, ainda em criança, o que explica a sua fluência em ambas as línguas. Trabalhava para a revista Life quando os alemães ocuparam Paris, em quarenta.
--Sim, foi nessa altura que esteve com a minha irmã.
Conheceu-a?
--Não. Ele envolveu-se com um movimento clandestino que se ocupava a passar judeus para a Espanha, e safou-se por uma unha negra um dia que os alemães descobriram o que ele fazia. Foi então que veio para Inglaterra e entrou para os serviços secretos, ou, por outro nome, para a SOE. Mais tarde, quando os alemães entraram na guerra, transferiram-no para o OSS.--Encolheu os ombros --Só nomes, no final de contas. Fazem todos o §mesmo. Combatem a mesma guerra
--Ele voltou a França?
--Lançaram no lá, de pára-quedas, por duas vezes.
Numa terceira ocasião, utilizaram um Lysander. Trabalhou com uma unidade de sabotagem do maquis 1, no vale do Loire, durante alguns meses, até que alguém os traiu.
--Para onde é que ele foi?
--Para um café de Montmartre, em Paris, que servia de estação de muda na fuga para a Espanha...--Julie deteve-se.
--E depois?
--A Gestapo estava à espera. Levaram-no para o quartel-general na Rua de Saussaies, nas traseiras do Ministério do Interior.
--Mas continue!--pediu Genevieve.
--Fotografaram-no, tiraram-lhe as impressões digitais... a rotina usual, incluindo um interrogatório que durou três dias, feito com grande brutalidade. Repare nas mãos dele, quando puder. Tem as unhas todas torcidas, porque lhas arrancaram, nessa ocasião.
Genevieve sentiu se um pouco mal:
--Mas conseguiu fugir?!
--Sim, teve sorte. O carro em que o transferiam para outra prisão chocou com um camião. No meio da confusão, fugiu e escondeu-se numa igreja. O padre que o descobriu entrou em contacto com o meu marido, que chefiava a Resistência, naquela região de Paris.
--E que entreteve a Gestapo enquanto a Julie e Craig fugiam. . .?
--Deixe-me explicar, chérie--replicou ela, pacientemente.--Craig mal podia andar, porque eles também lhe tinham feito barbaridades nos pés.--Apertou com força a mão de Genevieve, durante um momento. -Olhe que não lhe estou a contar um daqueles filmes de Holly Wood, com Errol Flynn, que se vai ver ao cinema da terra no sábado à noite. Isto foi a realidade. E, coisas destas, podem também passar-se consigo! Pense nisso, agora. Quinta-feira à noite pode já ser tarde.
Genevieve sentou-se, olhando-a. Julie continuou:
--Levaram-nos para Amiens num camião do mercado.
Três dias depois, mandaram-nos um Lysander.
--Que aconteceu a Craig, depois disso?
--Foi condecorado com o grau de Comandante da Legião de Honra, a gente dele agraciou-o com a Cruz de Serviços Distintos e incorporaram-no no OSS. A ironia actual de tudo isto é que ele está novamente nas garras de Dougal Munro.
--Que tem isso de mal?
--Dá-me a impressão que ele é um homem em busca da morte--disse Julie.--Às vezes, até parece que não saberia o que fazer, se sobrevivesse à guerra.
--Isso é ridículo!--respondeu-lhe Genevieve, mas, não obstante, sentiu um arrepio.
--Talvez seja.--Julie encolheu os ombros.--Mas a sua carta, nem sequer chegou a abri-la!
Tinha razão, evidentemente, e Genevieve começou a ler a carta. Quando a acabou, amassou-a numa bola.
--Más notícias?--perguntou Genevieve.
--E um convite para uma festa, neste fim-de-semana.
De qualquer modo, não podia ir. Um rapaz da RAF que conheci o ano passado, piloto de bombardeiros.
--Apaixonou-se por ele?
--Não, de modo nenhum. Suponho que nunca me apaixonei por ninguém, ao menos de uma forma duradoura, quanto mais não fosse. Faz-me sentir na vida como se fosse uma eterna vagabunda.
Julie riu-se.
--Nessa idade, já, cherie?
--Bem, andámos juntos uns tempos. Foi tudo. Ao que penso, um caso de solidão mútua, mais do que qualquer outra coisa.
--E depois?
--Ele pediu-me em casamento, antes de ser colocado no Médio Oriente.
--E não casava?
--Ele regressou, e está de licença em Surrey, em casa dos pais.
--Ainda com esperanças?
Genevieve anuiu.
--Não sei como explicar. Que vida, esta!
--Mas não se rala, ora não?
--Ontem de manhã, talvez, mas não agora.--Genevieve fez um gesto de indiferença.--Descobri que há coisas dentro de mim que nunca supus existirem. As possibilidades tornaram-se subitamente infinitas.
--Portanto, foi salva do que teria sido um erro muito mau. Claro, é uma situação infeliz, mas, às vezes, acaba por resultar algo de bom. E, agora, compreende Craig um pouco melhor, penso eu.
A porta abriu-se antes de Genevieve poder responder, e Edge entrou.
--As mulheres na pia da cozinha. Mas que lindo quadro, e tão apropriado!
--Porque não vais brincar com os teus brinquedos, Joe? Só serves para isso!--ripostou-lhe Julie.
--Há aqui muito com que brincar, querida.--Colocou-se atrás de Genevieve, e correu-lhe as mãos até à cinta, apertando-a contra si. Podia sentir-lhe a excitação enquanto ele lhe roçava o nariz pelo pescoço e lhe subia as mãos até aos seios.
--Deixe-me em paz!--gritou ela.
--Olha, eh até gosta!--ironizou ele.
--Gostar? Até sinto pele de galinha!--retrucou-lhe Genevieve.
--Verdade? Mas que bom, minha querida! Adorava fazer-te pele de galinha!
Ela continuou a esbracejar, até que, subitamente, Edge gritou de dor, e eis que Martin Hare o prende por um braço, que continua a torcer, mesmo depois de Edge já ter largado Genevieve.
--Na verdade, és mesmo um verme, Joe. Vamos embora, desaparece!
Schmidt materializara-se de repente, vindo de algures, ultrapassou-o em corrida e escancarou a porta. Hare limitou-se a lançar fora o piloto, fazendo-o cair sobre um joelho. Ele levantou-se e voltou-se, com a face distorcida num esgar de raiva: --Ainda me hão-de pagar por isto, Hare e tu, grande puta!
Saiu para a rua. Schmidt cerrou a porta.
--Um tipo muito ruim, se me é permitido dizê-lo, meu comandante!
--Sou forçado a dar-te razão! Bem, agora vais tratar de me descobrir um par de botas de marinheiro para Miss Trevaunce.
--Zu befehl, Herr Kapitan--respondeu-lhe Schmidt, saindo imediatamente.
Genevieve ainda tremia de raiva:
--Botas de marinheiro? Para quê?
--Vamos dar uma volta. Ar do mar, a praia. Nada há
como as maravilhas da natureza para pôr os factos na devida perspectiva.
Como é evidente, ele tinha razão. Seguiram a praia estreita para além do molhe, onde a angra se alargava para o mar num redemoinho de água branca de espuma, com as gotículas de água subindo bem alto na atmosfera.
Genevieve exclamou:
--Meu Deus! Como isto é belo! Nesta altura, cada inSpiração que se faz em Londres entra nos pulmões carregada de fumo. Toda a cidade tresanda a guerra. Morte e destruição por toda a parte.
O mar lava tudo. Pratico vela desde rapazinho, numas férias no cabo Cod--respondeu-lhe Hare.--Por muito mal que a vida corra, tudo fica para trás, lá na praia, no ponto de partida.
--E sua mulher? Pensa do mesmo modo?
--Pensava--respondeu Martin Hare.--Morreu de leucemia em mil novecentos e trinta e oito.
--Como lamento!--Ela voltou-se, com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco de lã
grossa que Schmidt lhe dera.--Tem filhos?
--Nunca foi possível, pois ela era demasiado frágil.
Lutou contra essa maldita doença desde os vinte e um anos.--Sorriu:--Deixou-me algumas das mais belas aguarelas que jamais vi. Era uma artista de grande sensibilidade.
Instintivamente, ela tomou-lhe o braço. Tinha dado a volta à ponta, e a praia era agora muito mais larga, seguindo as arribas.
--Imagino como a guerra tem sido longa para si.
Ele abanou a cabeça negativamente:
--Nem por isso, na verdade. Vivo-a dia a dia. O dia de hoje é tudo o que espero.--Sorriu, parecendo imensamente encantador, de súbito.--Ou melhor, noite a noite, pois é de noite que trabalhamos, a maior parte das vezes.
--E mais tarde, quando tudo acabar?
--Não existe esse tempo. Já lho disse. Só o dia de hoje.
--E Craig? Também pensa do mesmo modo?
--Gosta dele, não é verdade?--Apertou-lhe o braço contra o seu corpo.--Não faça isso! Não tem hipótese!
Não há futuro para pessoas como eu e o Craig. Com ele, também não haverá futuro para si!
--É terrível dizer isso!--Ela voltou-se para Hare, que lhe pôs as mãos nos ombros.
--Ouça me bem, Genevieve Trevaunce! A guerra, travada como eu e o Craig a fazemos, é como passar um fim-de-semana no Casino do Mónaco.
Tudo o que deve
recordar é que as probabilidades estão sempre contra si.
A banca ganha, o jogador perde.
Ela afastou-se.
--Não posso concordar!
Mas ele já não a ouvia, olhando mais para longe, de cara franzida. Voltou-se e viu um homem de colete salva-vidas a alguma distância, balançando na rebentação. Hare adiantou-se-lhe e ela seguiu-o detendo-se à beira da água, enquanto ele prosseguiu até a água lhe dar pela cintura.
Agarrou o corpo com ambas as mãos e voltou para trás, rebocando-o atrás de si.
--Está morto?--perguntou ela.
Ele concordou.
--É claro que está!--Arrastou-o até à praia.
Era um moco de fato-macaco negro, com a águia alemã no peito. Tinha os pés descalços, o cabelo louro e uma barba rala, e os olhos estavam cerrados, como se dormisse. A cara denotava um ar extraordinariamente tranquilo. Rebuscou no corpo e encontrou um bilhete de identidade, tão molhado que quase se desfazia.
Examinou-o, levantando-se:
--Marinheiro alemão. De um submarino. Chamava-se Altrogge. Vinte e três anos de idade.
Sobre eles, uma gaivota gritou com voz áspera, voando em direcção ao mar. A rebentação arrastou o corpo. Genevieve exclamou: --Mesmo aqui, a guerra toca em tudo!
--A banca ganha sempre, não se esqueça!--Envolveu-a com um braço:--Vamos embora!
Tenho de mandar alguns dos meus homens tomarem conta do corpo.
O quarto que Julie Legrand lhe tinha destinado era muito agradável. Uma cama de quatro colunas, tapetes da China no chão, e, de uma janela que dava para as traseiras da casa, uma excelente vista do jardim.
Ficou contemplando a paisagem. Julie passou-lhe um braço pela cinta, do mesmo modo que Hare lhe tinha feito.
--Triste, chérie?
--Aquele rapaz na praia. Não o posso afastar da memória.
--Eu sei como é.--Saiu da janela, e deu a volta à cama.--Esta guerra já dura há
muito tempo, mas nada
podemos fazer. Para si, ele era apenas um rapaz, mas, para outras pessoas como eu...--Fez um gesto de indiferença.--Se pudesse ver o que os boches fizeram ao meu país... Acredite-me, os nazis têm de ser derrotados.
Não temos outra escolha.
A porta abriu-se e Craig Osbourne entrou:
--Ah! Aqui estão!
--Devia ter batido! Será que não é possível ter-se um pouco de sossego nesta casa?
--De facto, não é--respondeu ele, sem se agastar.
--Como dispomos de dois dias completos, tive a ideia de lhe dizer o que a espera.--Sentou-se no peitoril da janela e acendeu um cigarro.--Em primeiro lugar, de agora em diante passamos a falar em francês, apenas. Só para lhe refazer hábitos velhos. Claro, também me incluo na norma.
Pareceu-lhe diferente, com os olhos duros, e ela sentiu-se incomodada:
--Tem a certeza de que é capaz de o fazer?
--Pouco interessa se eu sou ou não capaz, mas quanto a si, pode ter a certeza que melhor seria que se habituasse desde já--respondeu-lhe ele.
Julie Legrand passou-lhe um braço pelos ombros e apertou-a contra si. Genevieve respondeu em francês: --Pois seja! E a seguir?
--Como Munro muito bem disse, não pretendemos transformá-la numa profissional, já que não há tempo para tanto. São três as tarefas principais, e dispomos apenas de dois dias para as executar. Número um, familiarizá la com a situação actual no castelo: com o pessoal, tanto alemão como francês, e tudo o mais. Isso acarreta algumas sessões longas com o René e, ainda, o estudo de material fotográfico que temos em nosso poder.
--E depois?
--Teremos de lhe explicar minuciosamente a finalidade da sua missão e o plano de fundo sobre o qual se desenrolará, para que saiba não só o que deve procurar, mas, ainda, o que tem interesse e o que não tem.
--Parece complicado.
--Não o há-de ser, se trabalharmos. Munro também ajudará.
Craig levantou-se e Genevieve perguntou:
--Falou em três tarefas principais, mas só se referiu a duas.
--Tem toda a razão. A terceira tem um aspecto mais prático. Não tem necessidade de se preocupar com rádio e comunicações connosco, pois René e os seus camaradas da Resistência tomarão isso a seu cargo. Todavia, há mais duas ou três coisas que têm importância, consideradas do ponto de vista da sobrevivência. Sabe atirar?-Ela olhou-o, surpreendida.--Armas de fogo portáteis --acrescentou ele, pacientemente.--Já alguma vez disparou uma pistola?
--Não.
--Não se preocupe. É fácil aprender. Só é preciso estar à distância certa e puxar o gatilho... mas isso fica para mais tarde.--Viu as horas.--Tenho de ir.
Começamos
na biblioteca às oito.
Saiu. Julie fez uma careta:
--Vai começar, cherie.
--Ao que parece--respondeu-lhe Genevieve, voltando-se e contemplando o campo, pela janela.
@Sete
Munro estava sentado numa poltrona de orelhas perto da lareira da biblioteca, dando despacho a um monte de papéis que tinha sobre os joelhos. Ao centro da sala havia uma mesa coberta de mapas, fotografias e muitos documentos, ao lado da qual estava sentado René, fumando um dos seus cigarros e nada dizendo, em atitude de quem espera ser solicitado a fazer algo. Craig e Genevieve haviam-se sentado na sua frente.
--O pormenor mais importante a ter em mente--dizia Craig--é que, ao entrar no Chateau, é Anne-Marie Trevaunce. Basta-lhe mostrar-se para que todos os que a conhecem a tomem por quem é, sem hipótese de dúvida.
E será tanto assim que falhas de menor importância que cometa não a impedirão de prosseguir.
--Bom, sempre é um conforto sabê-lo!--disse ela.
--A propósito, parece-me dever dizer que o meu conhecimento do alemão é nulo.
--Não tem importância. Todos os oficiais do castelo falam francês, melhor ou pior. Comecemos com alguns factos básicos, com os quais Anne-Marie está perfeitamente familiarizada.
Uniformes alemães, por exemplo.
--Abriu um livro.--As ilustrações deste livro são muito boas.
Ela folheou algumas páginas.
--Céus! Tenho de os conhecer a todos?
Apenas alguns. Os uniformes da Kriegsmarine são Simples, e já viu a farda da Luftwaffe do Joe Edge, que é muito diferente da do Exército, tanto no estilo como na cor. Azul cinza, com galões dourados para a patente.
Parou numa página, onde se via uma gravura de um soldado em uniforme de combate, com um dólman camuflado a três quartos.
--Que é ele? Nem sequer parece alemão. O capacete não é assim.
--Trata-se de um Fallschinnjager, um pára-quedistas.
Usam um capacete especial de aço, sem viras, mas escusa de se preocupar com isso. A maior parte dos uniformes do Exército são iguais aos que tem visto no cinema. Por exemplo, este é importante.
Mostrou-lhe um soldado alemão com um colar metálico suspenso do pescoço.
--Feldgendarmerie--pronunciou ela, lendo a legenda.
--Polícia Militar. Os tipos que lhe param o carro na estrada ou lhe montam guarda nos portões do castelo.
Podem ser do Exército, ou da SS, mas a placa metálica significa sempre Polícia Militar.
--E tenho de ser simpática com eles?
--Bem, uns centímetros de perna mostrados ao sair do carro nunca passam despercebidos.--Craig nem sequer sorriu:--O outro grupo importante para si é a SS, porque têm lá muita gente. Fardas cinzentas, iguais às do Exército, com os cós azul-esverdeados. Usam os galões ou as divisas em carcelas no cós. Há-de verificar que, até ao posto de major, trazem os símbolos rúnicos da SS apenas numa das carcelas; de major para cima já não é assim, mas isso não lhe deve dar cuidado. Ninguém está à espera que conheça todas as patentes. Todos os homens da SS, até o próprio Himmler, reconhecem-se sempre pela caveira de prata e pelas tíbias cruzadas que usam no boné. Compreende?
Genevieve inclinou afirmativamente a cabeça.
--Sim, parece-me que sim. A Luftwaffe parece-se com Edge, depois vem a Polícia Militar com os seus colares, o Exército e depois a SS, com a caveira.
Craig disse:
--Muito bem. Vejamos agora o que se passa com o chateau.
Tinham uma carta em escala grande da região circundante e uma planta do próprio castelo de Voincourt, com todos os pormenores. Ao observá-la com mais atenção, algumas recordações começaram a afluir-lhe à memória.
Todas as escadas e todos os corredores, todos os recantos e todas as frestas que tinha explorado em criança. Sentiu uma excitação súbita, ao pensar no regresso. Havia-se já esquecido de quanto amara aquele local.
--Não fizeram alterações estruturais no castelo, excepto no que se refere à colocação das metralhadoras.-René inclinou-se sobre a mesa, assinalando as posições a lápis.--O perímetro foi totalmente electrificado, pois montaram um sistema de alarme. O portão está sempre guardado, e instalaram lá um sistema de barra levadiça.
Quanto ao resto, a segurança depende de um sistema que eles designam de guardas móveis. Trata-se de homens da Waffen-SS, muito competentes, mamselle. Sabem do ofício. Não é preciso gostar deles para o dizer.
--O que ele lhe está a tentar dizer muito delicadamente, de modo a não ofender os meus delicados sentimentos americanos, é que eles são os melhores soldados do mundo, individualmente considerados--esclareceu Craig Osbourne.--E tem razão. No caso presente, para tornar as coisas ainda mais difíceis, fazem-se acompanhar de cães de guarda: lobos-da-alsácia ou Dobermans.
--Sempre gostei de animais!--disse ela.
--Muito bem--continuou ele.--Passemos aos
pormenores verdadeiramente importantes.--Viu as horas no relógio de pulso.--Já não temos muito tempo. O
cabeleireiro deve estar a chegar.
--O cabeleireiro?!
--Sim. O seu corte de cabelo poderá agradar-lhe, mas não é o que usa Anne-Marie. Veja bem: esta fotografia foi tirada apenas há um mês.
Genevieve tinha o cabelo comprido, até aos ombros.
O de Anne-Marie era muito mais curto, aparado numa franja muito certinha sobre os olhos. Era ainda Genevieve, mas uma Genevieve diferente, de sorriso arrogante nos lábios, como se nada nem ninguém lhe desse cuidado.
Inconscientemente, Genevieve copiou a expressão e, quando se voltou para olhar para Craig, era Anne-Marie que lhe sorria do espelho sobre a lareira, tão arrogante e tão desdenhosa como só ela sabia ser.
Craig não gostou. Pela primeira vez, Genevieve apercebeu-se que tinha realmente conseguido comunicar com ele de um modo que não conseguia definir. Perpassou-lhe um brilho pelos olhos, como se ele tivesse tido receio súbito do que vira. Arrebatou-lhe a fotografia das mãos com brusquidão.
--Continuemos, está bem?--Pôs-lhe outra fotografia na frente.--Conhece esta mulher.
--Sim, é Chantal Chevalier, a criada de quarto de minha tia.
A querida Chantal, de falas duras e mãos calejadas, que servia Hortense há mais de trinta anos, acompanhando-a nas horas boas e nas más!
--Não vai gostar de mim--disse Genevieve.-A não ser que tenha mudado muito.
Nunca gostou.
René acenou:
--Continua como sempre. Nunca se preocupou com Mamselle Anne-Marie. Aliás, também nunca foi mulher que escondesse o que pensava.--Voltou-se para Genevieve:--Mas consigo, mamselle, era diferente.
Não valia a pena estar agora a discutir o assunto, e perguntou:
--Que mais?
--O chefe de cozinha, Maurice Hugo... lembra-se dele?
--Sim.
--Todos mudaram, mas, como se trata de empregados domésticos do extremo inferior da escala, que nunca dariam cuidado a uma grande senhora como Miss Trevaunce, nem vale a pena tratar deles. Todavia, a criada de quarto pode trazer problemas. Ei-la.
Era uma moça pequena, de cabelos escuros, boca petulante, que podia considerar-se bonita.
--Uma putain--comentou René, de modo abrupto.
--Maresa Ducray. Veio de uma quinta a cerca de quinze quilómetros. Roupas caras, homens e dinheiro são o que mais preza na vida, pela ordem que se quiser... tanto faz.
Fiz um pequeno apontamento sobre os seus antecedentes familiares.
--Pode lê-lo mais tarde--disse Craig.--Continuemos.
Este é o actual comandante do chateau, o major-general Carl Ziemke.
Tratava-se obviamente de uma ampliação parcial de uma fotografia de grupo, contendo no verso uma nota dactilografada com pormenores pessoais actualizados até ao momento.
Era um homem no lado errado dos cinquentas, do exército--e não da SS--, já com algumas madeixas prateadas nos cabelos, de bigode bem aparado. A face e o corpo descaíam ligeiramente para o flácido, e os olhos eram simpáticos, com linhas de bom humor bem vincadas à sua volta, mas não se notava nos lábios o ricto de um sorriso habitual. Tinha um ar cansado.
--Foi em tempos um bom oficial--disse Craig--, mas, agora, puseram-no na prateleira. Ele e sua tia são amantes.
--Não me custa a crê-lo.--Genevieve devolveu-lhe calmamente a fotografia.--Se o disse com a intenção de me chocar, bem perdeu o seu tempo. Minha tia sempre precisou de um homem que a adulasse, e Ziemke até parece ser simpático.
--É um militar--disse René, com secura.--É quanto basta dizer, tanto dele como deste sacana.
Passou-lhe outra fotografia. Ao observá-la, teve de se apoiar na mesa, tão intenso o abalo que o reconhecimento lhe provocou. Nunca o vira na sua vida e, no entanto, era como se o conhecesse desde sempre. Usava um uniforme em tudo semelhante ao de Joe Edge--excepto no que se referia às caveiras nas carcelas--com uma Cruz de Ferro suspensa sob o pescoço; de cabelo curto, semblante grave e com rugas bem vincadas, o olhar parecia atravessá-la e prosseguir para além. Não era uma face simpática, e, no entanto, mesmo perdida numa multidão, certamente provocaria um segundo olhar.
--Stürmbannführer Max Priem--disse Craig Osbourne.--Ou major, para si. Agraciado com a Cruz de Cavaleiro, militar dos melhores, e um homem muito perigoso. Encarregado da segurança no chateau.
--Porque não está na frente de batalha, uma vez que é tão bom militar?
--Na campanha da Rússia, no ano passado, foi ferido por uma bala na cabeça, quando prestava serviço num batalhão de pára-quedistas da SS. Tiveram de implantar uma placa de prata no crânio, que o força a tomar certos cuidados.
--E como se dava com Anne-Marie?--perguntou Genevieve a René.
--Guerreavam-se com armas idênticas, mamselle. Ele não a apoiava e ela não gostava dele. Anne-Marie e o general Ziemke tinham excelentes relações: ela namoriscava escandalosamente com ele, e ele tratava-a como se fosse a sobrinha favorita.
--O que tinha as suas compensações nos passes para as viagens a Paris e na liberdade de circular de um lado para o outro--acrescentou Craig.--Deve no entanto salientar-se a circunstância de que os alemães valorizam extraordinariamente a sua relação com os Voincourt.
Anne-Marie e a tia são colaborantes, não lhe sobrem dúvidas a tal respeito, pois continuam a viver no luxo e em alto estilo, enquanto milhares de compatriotas seus mourejam nos campos de trabalho. E os seus amigos, os industriais franceses e suas mulheres, que tantas vezes ajudam a organizar festas nessas reuniões de fim-de-semana, encontram-se indubitavelmente entre as pessoas mais odiadas de França.
--Entendido, já que fez questão de o salientar.
--Há ainda um indivíduo a considerar com muito cuidado.--A fotografia não era agradável: um oficial jovem, da SS, de olhos pequenos, com um ar cruel muito desagradável.--O capitão Hans Reichslinger. Assistente de Priem.
--Repelente!--comentou Genevieve.
--É um animal.--René cuspiu no lume.
--É estranho! Não parece pessoa do mesmo género de Priem...
--E a que género se refere, pode saber-se?--perguntou Craig.
René interveio:
--Priem despreza-o, e bem o mostra.
Craig pegou num grande sobrescrito castanho e entregou-lho.--Tem aí informação sobre todas as pessoas que vai encontrar no castelo. Estude isso como se de tal dependesse a sua vida, porque na realidade assim é.
Um toque à porta e Julie entrou.
--Chegou o cabeleireiro.
--Bom!--concluiu Craig.--Continuamos mais tarde.
--Como Genevieve se preparasse para sair, acrescentou:
--Antes de se ir embora, só uma fotografia mais.
O arquitecto principal do sistema de defesa da Muralha do Atlântico. O homem que receberá no próximo fim-de-semana, em Voincourt.
Colocou cuidadosamente sobre a mesa uma fotografia do marechal-de-campo Erwin Rommel. Ela quedou-se no lugar, contemplando atónita a fotografia, ao mesmo tempo que Munro se levantava e se dirigia para ela, com um molho de papéis na mão esquerda.
--Como vê, minha querida Genevieve, não exagerava quando lhe disse que o seu trabalho neste fim-de-semana pode muito bem afectar o decurso de toda a guerra!
O cabeleireiro chamava-se Michael e era um homenzinho activo, de meia-idade, cabelos negros e suíças brancas, que, obviamente, Julie já conhecia há muito tempo.
--Oh! Mas é extraordinário, verdadeiramente extraordinário!--exclamou ele mal entrou, observando Genevieve.
Abriu uma mala já gasta, cheia de todo o tipo de coisas
--principalmente, cremes de beleza--e pegou numa pasta de cartão.
--Eu tinha estudado a fotografia, mas a realidade é
superior às minhas melhores esperanças!--Despiu o casaco de bombazina azul e tirou da mala um pente e uma navalha de barba.--Vamos então ao trabalho!
--Não a podiam entregar a melhores mãos!--exclamou Julie, enquanto lhe cobria os ombros com uma toalha.--Michael fui durante muitos anos chefe de caracterização nos Estúdios de Cinema Elstree.
--Exacto!--continuou ele, ripando o cabelo com o pente.--Trabalhei para Sir Alexander Korda, e fiz a caracterização de Charles Laughton, quando fez o papel de Henrique Oitavo. Isso é que foi um trabalho! Levava horas, todas as manhãs. Claro que, na minha idade, já não me posso esforçar tanto, de modo que dirijo agora um teatro em Falmouth. Um espectáculo diferente, todas as semanas. Como se trata de uma base naval, temos uma assistência à base de marinheiros, o que é muito bom.
Contemplando-se ao espelho, assistiu à sua progressiva transformação na Anne-Marie, minuto após minuto. Não se tratava só do cabelo, que ele arranjou rapidamente, com um perfeito à-vontade no trabalho que executava.
Foi a cor do baton, o carmim que cuidadosamente lhe espalhou nas faces, o creme para as pestanas e o perfume, Chanel n.? 5, que Genevieve nunca usava.
A transformação completa ocupou-lhe cerca de hora e meia. Quando terminou acenou com a cabeça, visívelmente satisfeito.
--Uma maravilha, embora seja eu a dizê-lo!--Tirou da mala um estojo de marroquim.--Tem aqui tudo o que precisa. Lembre-se de usar a pintura com liberalidade.
Provavelmente, isso vai custar-lhe um pouco, pois não me parece que seja o género de mulher que se pinta muito.--Fechou o estojo com um estalido e deu uma palmadinha carinhosa na face de Julie:--Tenho de ir.
Há espectáculo, hoje à noite.
A porta cerrou-se atrás dele. Genevieve ficou, observando a sua imagem no espelho. "Eu, e todavia não sou eu", pensou.
Julie ofereceu-lhe um cigarro:
--Fume um Gitane.--Ia recusar, mas Julie antecipou-se-lhe:--Anne-Marie não o faria... Tem de habituar-se!
Genevieve aceitou o cigarro e o isqueiro que Julie lhe oferecia, mas tossiu, ao sentir o fumo arranhar-lhe a garganta.
--?ptimo!--disse Julie.--Vá agora ter com Craig.
Está na cave, na sala de tiro, à sua espera.
A porta para a cave situava-se logo a seguir à pesada cortina verde que tapava a porta da cozinha. Começou a ouvir o som do tiroteio, mal a abriu. Tinham construído a linha de tiro aproveitando dois compartimentos da cave, cuja parede de separação fora removida. A iluminação brilhante do extremo da sala fazia sobressair uma fileira de silhuetas de cartão representando soldados alemães, encostadas a sacos de areia. Craig Osbourne, de pé, carregava um revólver, junto a uma mesa com algumas armas portáteis. Ouvindo-a aproximar-se, olhou casualmente sobre o ombro. Ficou petrificado.
--Santo Deus!
--O que significa, como é óbvio, que estou bem.
Empalidecera.
--Na verdade, bem o pode dizer. É fantástico!-Fechou o tambor do revólver.-Disseme há pouco que nunca tinha atirado?
--Uma vez, numa feira, disparei uma espingarda de pressão de ar.
Ele sorriu-se:
--Não há nada como começar pelo princípio. Só vou falar-lhe das duas armas de fogo que muito provavelmente encontrará, e ensiná-la a fazer fogo com elas.
--Tão próximo do alvo quanto possível, não foi o que disse?
--Julga que é fácil, como nos filmes de cowboys? Muito bem, vejamos do que é capaz!--Entregou-lhe um revólver.
--A distância é pequena, cerca de quinze metros.
Aponte para o centro do alvo. Para disparar, só precisa de premir o gatilho.
A arma era muito pesada, o que a surpreendeu, mas a mão adaptava-se bem ao punho. Claro que era um desafio mostrar-lhe do que era capaz. Estendeu o braço, piscou um olho, apontou, apertou o gatilho e falhou.
--Choca sempre, a primeira vez!--comentou ele.-É que nos parece impossível. Como se pode falhar um homem que está tão perto!? Oh! Mantenha ambos os olhos abertos.
Ao dizê-lo, voltou-se, assentou um joelho no chão, estendeu o braço com o revólver, e, sem que ela o visse apontar sequer, disparou rapidamente várias vezes.
Quando os ecos dos tiros se apagaram, Genevieve pôde distinguir claramente quatro orifícios no centro do alvo do meio. Ele deteve-se por um momento, pleno de poder e controlo, uma espécie de máquina letal eficiente. Quando se voltou para a olhar, apenas lhe lobrigou nos olhos cinza o reflexo da morte.
--Claro, para fazer isto é preciso grande prática!--Pousou o revólver e pegou numa das outras armas.--A Luger e a Walther são pistolas automáticas, usadas por grande parte do Exército alemão. Vou mostrar-lhe como se carregam e como se faz fogo com elas. Pouco mais posso fazer, em tão pouco tempo. Aliás, isto não será muito do seu agrado, não é assim?
--Na verdade, não é!--respondeu Genevieve, calmamente.
Ele passou pacientemente vinte minutos a mostrar-lhe como encher um carregador, como o introduzir na arma e como puxar a culatra atrás. Só quando ela demonstrou ser capaz de o fazer sozinha a conduziu para o outro extremo da linha de tiro.
Era uma Walther que ela agora utilizava, equipada com um silenciador C0swell, especialmente preparado pela SOE para uma morte silenciosa. Quando disparava, fazia um ruído semelhante ao som do tossir.
Pararam a um metro dos alvos.
--Aproxime-se do seu homem, mas não suficientemente perto para que ele a possa desarmar, agarrando-a.
Deverá ter isto bem presente na memória, sempre.
--Muito bem.
--Agora, segure-a à altura da cinta, ponha os ombros direitos e prima o gatilho, não o puxe!
Ela fechou os olhos quando disparou, não obstante ter tentado não o fazer, e viu que tinha atingido o alvo no estômago.
--Muito bem--disse Craig Osbourne.--Eu não lhe disse que era muito fácil, se estivesse suficientemente perto? Bom! Vamos lá repetir, novamente.
Passou o fim da tarde e o princípio da noite a reler as notas vezes e vezes seguidas, até ficar convencida que conhecia realmente todos os pormenores sobre aquela gente.
Dirigiu-se em seguida à biblioteca, para mais uma longa sessão com René.
Depois disso, foi o jantar na cozinha com Craig, Munro e René, com os esplêndidos petiscos de Julie. Comeram bife e pudim de rim, batatas assadas e couves, a que se seguiu uma tarte de maçã. Havia vinho, um esplêndido Borgonha tinto, que no entanto não modificou minimamente o comportamento de Craig. Parecia mal-humorado e preocupado, e o ambiente geral era tenso.
--Uma perfeita refeição inglesa tradicional.--Munro beijou Julie na face.--Que sacrifício para uma francesa!
--Voltou-se para Craig:--Vou dar uma volta até ao bar. Quer vir comigo?
--Talvez não--respondeu Craig
--Como queira, meu caro. Vem comigo, René? Que tal uma bebida?
--Isso é coisa que não posso perder, mon géneral!-René riu-se, saindo ambos juntos.
Julie disse:
--Levo o café para a Sala Azul. Craig, leve Genevieve.
Era uma sala agradável junto à biblioteca, com mobília cómoda, um grande e belo piano de cauda e uma lareira acesa.
Genevieve levantou a tampa do piano e ajustou com cuidado a vara de suporte. Tempos houvera em que isto fora a sua maior aspiração na vida, mas, enfim, raras vezes a vida trazia o que mais se desejava.
Começou a tocar um prelúdio de Chopin, grave, lento, martelando as cordas da gama baixa e concluindo com um lamento da morte infinitamente doce, nas notas altas.
Julie chegara com a bandeja, colocando-a ao pé do fogo, e Craig tinha-se aproximado contemplando Genevieve, encostado do outro lado do piano.
Os olhos formulavam-lhe uma interrogação, quando ela começou a tocar Clair de Lune, belo e dolorosamente triste. Ela tocava bem melhor, disse-o a si própria, do que jamais o fizera. Quando terminou, ergueu os olhos e procurou-o. Tinha saído. Foi em busca dele.
Encontrou-o sentado ao fundo das escadas, no terraço, fumando no escuro. Desceu e encostou-se à balaustrada.
--Toca muito bem--disse ele.
--Se estiver suficientemente perto?--ironizou Genevieve.
--Pois seja! É evidente que a tenho obrigado a dar o máximo, mas assim tem de ser. Não faz ideia do que é aquilo por lá!
--Mas que pretende, a absolvição?--inquiriu ela,-Tenho de ir para França, até
foi o senhor que o disse.
Nada disto é culpa sua. O senhor é apenas um instrumento.
Ele levantou-se e lançou fora o resto do cigarro, que rolou no saibro e brilhou como um carbúnculo: --Temos um dia tremendo amanhã--disse.--Tem de voltar a trabalhar com Munro. São boas horas de dormir.
--Não tardo muito a ir para a cama.--Tocou-lhe o braço.--E obrigado por, ao menos uma vez, ter agido como um ser humano.
A voz soou de um modo estranho, quando respondeu:
--Não seja amável comigo. Não, agora não. Ainda não acabámos o que tínhamos a fazer consigo.
Voltou-lhe as costas, e entrou rapidamente na sala.
Vieram buscá-la durante a noite. Acordaram-na com rudeza, lanterna sobre os olhos, roupas puxadas para trás. Puxaram-na para cima.
--Chama-se Anne-Marie Trevaunce?--inquiriu brutalmente uma voz em francês.
--Quem raio se julga o senhor?--Ela ficara deveras encolerizada, tentando levantar-se. Alguém a esbofeteou.
--Chama-se Anne-Marie Trevaunce? Responda-me!
Só então viu que ambas as figuras na sombra, para além do círculo de luz, usavam fardas alemãs, compreendendo subitamente a razão daquele pesadelo.
--Sim, sou Anne-Marie Trevaunce!--respondeu em francês.--Que pretendem?
--Foi melhor, muito melhor! Vista um roupão, e venha connosco.
--Chama-se Anne-Marie Trevaunce?
Devia ser pelo menos a vigésima vez que lhe faziam a mesma pergunta, desde que entrara na biblioteca. Tinham-na sentado ao pé da mesa, quase cega sob o foco das luzes brancas e fortes que lhe haviam voltado contra a cara.
--Sim!--respondeu com ar cansado.--Quantas vezes tenho de o repetir?
--Vive no Chateau Voincourt com a sua tia?
--Sim.
--A sua criada, Maresa. Diga o que sabe da família dela.
Inspirou profundamente.
--A mãe é viúva. Tem uma quinta pequena, a quinze quilómetros do castelo. Explora-a com um filho, Jean, que é um pouco sobre o atrasado mental. Maresa tem outro irmão chamado Pierre, que é cabo num regimento de cavalaria francês. Trabalha num campo de trabalho em Alderney, nas ilhas do canal.
--Sobre o general Ziemke... que sabe a respeito dele?
--Já lhe disse o que sabia a respeito dele, tudo o que sei a respeito dele, pelo menos quatro vezes.
--Diga-o de novo!--disse a voz, de modo paciente.
De súbito, tudo terminou. Alguém atravessou a sala, e ligou a luz do tecto. Eram dois, conforme tinha pensado, ambos com fardas alemãs. Craig Osbourne acendia um cigarro, de pé, junto da lareira.
--Nada mal. Mesmo nada mal.
--Muito divertido!--comentou ela.
--Pode voltar para a cama.--Ela dirigiu-se para a porta e ele chamou-a.--Genevieve?
Ela voltou-se de novo para ele.
--Sim?--respondeu, de modo cansado.
Fez-se um silêncio pesado. Olharam-se ambos. Tinha-lhe armado a mais velha das armadilhas!
--Tente não voltar a cair noutra, está bem?--disse ele, de modo calmo.
@Oito
De manhã, acordou com a sensação de estar a viver um pesadelo. A mistura de personalidades de que começava a dar-se conta assustava-a sobremaneira, e a insistência constante em assumir o papel de Anne-Marie Trevaunce quase a levava a aceitá-lo como real, nos momentos de maior tensão.
Sentou-se à janela, fumando um Gitane e tossindo agora um pouco menos.
Gradualmente, o dia fez-se mais claro e os primeiros raios dourados do sol deslizaram sobre a copa das árvores, fazendo reflexo nas águas do lago, lá
no fundo.
O que se passou em seguida foi fruto de um mero impulso. Descobriu um roupão velho dependurado atrás da porta do quarto de banho, vestiu-o e saiu. Descendo a escadaria principal, passou pelo átrio, que estava deserto e silencioso, mas ouviu ruídos para os lados das traseiras da casa, e a voz de Julie, trauteando indistintamente uma canção, para lá das cortinas verdes da porta.
Abriu outra porta e entrou numa espécie de sala de estar com portas envidraçadas que davam para o terraço.
Atravessou-a e pisou a relva. O orvalho frio da manhã
provocou-lhe um calafrio, começando a correr encosta abaixo, com o roupão branco esvoaçando atrás dela.
O lagozinho do covão era ouro e prata sob a luz do sol-nascente, e alguns laivos de um nevoeiro já moribundo encaracOlavam-se ainda à superfície das águas. Despiu o roupão e tirou a camisa de noite, puxando-a pela cabeça; pulou os caniços da margem e mergulhou em águas profundas.
A água estava tão fria que nem sentiu o corpo a entorpecer, deixando-se vogar numa espécie de limbo, a observar os juncos ondulantes ao sabor da brisa, e as árvores, mais para além. Como estavam tranquilas as águas, quase parecendo vidro negro!
Recordou com grande pormenor um sonho que tivera a noite anterior, em que Anne-Marie ascendia ao seu encontro, com os braços a estenderem-se na sua direcção, como que pretendendo puxá-la para baixo, para junto dela.
Mais em consequência de uma reacção súbita do que propriamente por medo, Genevieve voltou-se e nadou em direcção aos juncos da margem, donde prosseguiu a pé, para terreno seco. Vestiu o roupão e começou a secar os cabelos com a camisa de noite, caminhando por entre as árvores, de regresso a casa.
Craig estava sentado na balaustrada do terraço, fumando o inevitável cigarro, muito quieto, de tal modo que não deu pela sua presença até estar a meio caminho, no relvado da encosta.
--Gostou do banho?
--Esteve a observar-me?
--Sim. Via sair e segui-a.
--Como cumpre a um bom oficial de informações!
Que pensou que fosse fazer? Afogar-me? Isso, de facto, seria tremendamente incómodo para o senhor.
--Terrivelmente.
Quando abriu a porta do quarto encontrou Julie dispondo o pequeno-almoço na mesinha ao pé da janela.
Vestia um casaco caseiro verde, que lhe ficava muito bem.
--Vê-se logo que não está nada satisfeita, chéne. Que se passa?
--Aquele homem danado! --exclamou Genevieve.
--Craig?
--Sim. Fui dar um mergulho no lago, e seguiu-me.
A vigiar-me!
Julie falou de modo a acalmá-la:
--Beba o café e experimente os ovos mexidos. São uma especialidade minha.
Genevieve assim fez:
--Parece que nos comprazemos em nos irritarmos mutuamente!--disse ela, atacando os ovos.
Julie sentou-se em frente, beberricando também um pouco de café.
--Na verdade? Eu diria precisamente o contrário.
A porta voltou a abrir-se e Craig entrou, sem bater.
--Ora, cá estamos nós!
--Deus meu! Cada vez pior! Continua a não haver sossego possível!
Ele ignorou a observação.
--Munro gostaria de falar consigo com a maior brevidade possível. Grant leva-o para Londres, hoje de manhã. Espero por si na biblioteca.
Saiu, fechando a porta. Julie comentou:
--Muito gostava de saber o que quer de si o Munro!
--Talvez desejar-me boa sorte! Quem sabe?--Genevieve fez um trejeito de indiferença.--Pois que espere!
Vou tomar mais uma chávena de café--e serviu-se da cafeteira.
Não fazia a menor ideia do que tinha sucedido aos homens que a tinham interrogado na noite anterior. Ao descer as escadas, notou que a casa estava silenciosa, não se ouvindo ruído da presença de gente. Craig lia um jornal, ao pé da lareira da biblioteca, e levantou os olhos casualmente: --É melhor entrar já. A última porta.
Dirigiu-se para o outro extremo da biblioteca, parou à
porta estofada a cabedal e bateu. Não houve resposta.
Hesitou, abriu-a e entrou. Não havia janelas na sala, mas apenas uma porta, do lado oposto, e o mobiliário era o usual de um escritório pequeno. A gabardina Burberly de unro estava estendida sobre uma cadeira e havia uma pasta sobre a secretária, donde saía parte de um mapa em escala muito grande. Pôde distinguir imediatamente a região--uma zona da costa francesa. Em cabeçalho, lia-se a legenda "Objectivos Preliminares--Dia D". Enquanto o observava, a porta abriu-se e Munro entrou.
--Por conseguinte, aqui a temos!--parou de repente, franziu as sobrancelhas e atravessou rapidamente; o gabinete em direcção à secretária, dobrando o mapa.
Pareceu-lhe que ia dizer algo, mas, por qualquer motivo, mudou de ideias, reacondicionando o mapa dentro da pasta e fechando-a.--É fantástica a diferença no seu aspecto!
--Acha que sim?
--Têm-lhe feito a vida dura?--Sorriu.--Não, não merece a pena responder-me. Conheço o modo como Craig trabalha. --Pôs-se por detrás da secretária, de mãos atrás das costas, de cara subitamente séria.--Sei perfeitamente que isto não tem sido fácil para si, de modo nenhum!, mas não posso deixar de lhe fazer notar a importância deste caso. Quando chegar o grande dia, quando invadirmos a Europa, a batalha vai ser decidida nas praias. Uma vez que consigamos estabelecer uma testa-de-ponte, a vitória resumir-se-á a uma questão de tempo.
Sabemo-lo perfeitamente, e sabem-no os Alemães.
Parecia que estava a fazer um discurso a um grupo de oficiais jovens.
--É essa a razão por que Rommel foi encarregado do sistema de defesa da Muralha do Atlântico. Pode portanto compreender a razão por que qualquer informação que nos consiga neste fim-de-semana pode revestir-se de importância crucial.
--Pois claro! Posso ganhar-vos a guerra de um golpe só!
Ele conseguiu sorrir:
--É isso que eu aprecio em si, Genevieve. O seu sentido de humor.--Pegou na gabardina.--Bem, tenho de ir.
--Não o sabíamos já todos?--exclamou ela.--Diga-me uma coisa, senhor brigadeiro.
O seu trabalho dá-lhe
prazer?
Ele agarrou na pasta. Observando-o, notou que o olhar se lhe tornou sombrio.
--Adeus, Miss Trevaunce!--disse, com ar formal.
Fico aguardando notícias suas.--E saiu.
Quando Craig regressou, veio encontrá-la junto da lareira, de pé.
--Foi-se embora?--perguntou ela.
--Sim. Não estava muito bem-disposto. Que lhe fez?
--Levantei-lhe um bocado a pedra sobre a qual se abriga.
Continuou de mãos nos bolsos, observando-a com ar grave.
--Bem, isso não é coisa de que se goste.--Aproximou-se da mesa.--Tenho uma coisa para si.
Entregou-lhe uma cigarreira de prata e ónix. Era realmente muito bela. Abriu-a, e verificou que estava cheia de Gitanes.
--Oferta de despedida?
--Uma oferta muito especial.--Voltou a pegar na cigarreira.--Vê esta gravação, nas costas?--Introduziu a unha do polegar no sulco e fez saltar para fora uma placa de prata, mostrando uma lente minúscula e um mecanismo de máquina fotográfica.--O génio que a construiu diz que tira fotografias nítidas mesmo sob fracas condições de luz. Por conseguinte, se vir mapas ou documentos, sabe o que tem a fazer.
Vinte exposições. Está carregada
e pronta a funcionar. Tudo o que tem a fazer é enquadrar e disparar aqui, nesta coisa.
--Tendo sempre presente que devo estar suficientemente perto.
Percebeu que o tinha magoado, desta vez, e não se sentiu feliz por isso. Podia ter ficado calada e mordido a língua, mas já era tarde.
Entregou-lhe a cigarreira e aproximou-se da mesa, passando a questões práticas:
--Sugiro-lhe que, durante o resto do dia, reveja os seus apontamentos, as fotografias e todo o processo, até o saber de cor e salteado.
--E amanhã?
--Recapitularei novamente toda a história consigo, até
que a saiba de trás para a frente. Levantamos voo um pouco depois das onze.
--Nós?!
--Sim, eu acompanho-a até ao ponto de largada.
--Compreendo.
--Se tudo correr de acordo com o plano, Miss Trevaunce e o René são recolhidos pela gente da Resistência local, que lhes darão transporte até Saint Maurice, pela estrada. Uma vez lá, aguarda em casa do chefe da estação até que passe o comboio da noite proveniente de Paris.
O René aparece então e recebe-a no carro, tal como se tivesse acabado de sair do comboio, conduzindo-a de regresso a casa, até ao chateau.
--Onde ficarei entregue a mim própria.
--Tem René perto--disse ele.--Qualquer informação que pretenda transmitir, passe-lha. Ele tem um rádio e pode contactar-nos aqui, por intermédio de uma estação de apoio, na costa.
--Aqui? Mas nunca aqui vi ninguém, para além daqueles seus amigos de ontem à
noite!
--Só porque eles se mantêm fora das vistas... Posso dizer-lhe que temos um departamento de rádio muito eficiente.
E também um departamento de guarda-roupa, de que Julie é a responsável: pouco haverá, em matéria de fardas, roupas ou documentos que ela não possa arranjar.
Ficaram calados--uma barreira de silêncio a separá-los. Finalmente, ele falou, numa voz inusitadamente gentil:
--Há alguma coisa em que lhe possa ser útil?
--Anne-Marie. Estou preocupada com ela. Se alguma coisa me suceder...
--Eu tomo conta das coisas. Dou-lhe a minha palavra de honra. --Ergueu-lhe o queixo com um dedo.
--E nada lhe vai suceder. É uma pessoa com sorte!
Tenho a certeza.
Quase rebentou em lágrimas, sentindo-se subitamente vulnerável.
--E como é que se conhece isso, com mil raios!?
--Sou um homem de Yale!--respondeu ele, com simplicidade.
Trabalhou toda a manhã com os papéis. Julie tinha-lhe dito que descia para o bar à hora do almoço, de modo que, mal soou o meio-dia, Genevieve deixou de trabalhar, lançou mão de um casaco de pele de carneiro que encontrou dependurado no armário do átrio e encaminhou-se para a aldeia.
Parou no molhe, para observar o Lili Marlene, onde dois membros da tripulação esfregavam o tombadilho.
Hare debruçou-se para fora da casa do leme.
--Não quer vir a bordo?
--Obrigada. Já aí vou!
Desceu a prancha desajeitadamente, e um dos homens estendeu-lhe uma mão.
--Aqui, para cima!--chamou Hare.
Subiu a escada de aço e seguiu-o até à casa do leme.
--Isto é bonito!--disse ela.
--Gosta de navios?
--Sim, muito!
--Os alemães chamam-lhe um navio rápido: Schnellboot, pois é isso precisamente que ele é. Dificilmente se pode considerar um navio agradável, mas sem dúvida que é a coisa mais eficiente, no seu tipo, que jamais lançaram à água!
--Que velocidade atinge?
--Com três motores diesel Dai"ller-Bens, e mais alguns melhoramentos que os britânicos acrescentaram, consegue chegar quase aos quarenta e cinco nós.
Correu as mãos sobre os comandos:
--Gostava de dar uma volta no mar.
--Venha daí. Vou mostrar-lhe o navio.
Levou-a até à casa das máquinas, à minicozinha, à sala de oficiais, ao seu próprio camarote, minúsculo. Viu os dois tubos lança-torpedos, sentou-se atrás da bateria antiaérea no convés da proa e remirou a metralhadora Bofors, montada no tombadilho da ré.
Quando acabaram, Genevieve comentou:
--Tudo isto mete medo! Tanta coisa metida em tão pouco espaço!
--É isso mesmo!--concordou ele.--Estes alemães são muito completos, muito eficientes. Sei-o bem. A minha mãe era alemã.
--Tem vergonha disso?--perguntou ela.
--De Hitler, de Goebbels e de Hirnmler? Bem, desses, tenho! Mas agradeço a Deus pela dádiva de Goethe, Schiller, Beethoven e alguns mais que nem merece a pena referir.
Ela ergueu-se na ponta dos pés e beijou-o na face:
--Gosto muito de si, Martin Hare.
Ele sorriu com afecto:
--Oh! Deixe-se disso, por favor! Quase um quarto de século mais velho, é o que sou, jovem, mas olhe que ainda pode arranjar algum problema!
--Promessas!--respondeu ela.--E tudo o que consigo!
--Ah! Isso é que não! Sempre lhe arranjo de almoçar!--e, pegando-lhe por um braço, ajudou-a a subir a prancha de desembarque.
Parecia que todos se tinham concentrado nO Enforcado.
A tripulação completa do Lili Marlene, Craig, e até
John Edge, que se tentava armar em bom tipo com toda a gente. Julie trazia da cozinha pastéis de carne quentes, cozinhados à moda da Cornualha, e Schmidt fazia gala do seu habitual bom humor. Trouxe três para Genevieve, Hare e Craig, sentados à mesa junto à janela.
--Isto não é comida judaica, e cheira bem que se farta!
--disse.
Craig parecia mais animado. Ele e Hare disseram algumas graças, bebendo cerveja com o pastelão, enquanto Genevieve tentava mais um Gitane. Bem o queria negar, mas o facto é que começava a apreciá-los.
Craig disse:
--Desculpem-me por um momento, mas tenho de falar a Julie sobre um assunto.
Passou para a cozinha, por trás do balcão. Hare saboreava o pastel com gosto. Genevieve estava cônscia de Edge na outra ponta do balcão, vigiando-a, de olhos brilhantes. Começou a sentir-se pouco à vontade.
Hare exclamou:
--Céus! Estes pastéis estão uma maravilha. Parece-me que ainda como outro!
Levantou-se, e Genevieve disse:
--Está a apetecer-me um pouco de ar fresco! Vou dar uma volta.
Saiu, sentindo os olhos de Edge colados às suas costas Já estava irritada, pois até parecia que ele a tinha feito sair de si. Começou a andar depressa, de cabeça baixa, seguindo a vereda que serpenteava por entre as árvores, até às arribas. Momentos após, Edge saiu do bar e seguiu-a apressadamente, cortando uma curva, após um bocado, prosseguindo por outro caminho e começando a correr.
Martin Hare, no lugar ao pé da janela, recebia o pastel que Schmidt lhe entregava, no preciso momento em que viu Genevieve desaparecendo por entre as árvores, e Edge correndo atrás dela. Pôs a comida de lado e levantou-se.
--Parece-me que deixo isto para daqui a um bocado!
--Talvez não seja má ideia, meu comandante--disse Schmidt.
Hare saiu imediatamente e seguiu célere pela vereda.
Craig fumava um cigarro, encostado à pia da cozinha, e observava Julie a preparar os pastéis.
--Portanto, pretende algo de especial, não é verdade?
--Sim. A Julie, eu, o Martin, o René e a Genevieve.
E a última noite que passa connosco. Parece-me que caía bem!
--Pois, porque não? Só para vós. Tenho por aí um bocado de cordeiro, não é lá muito, mas chega. E ainda há três garrafas de champanhe, na cave. Moet, se bem me lembro --Que mais se podia arranjar?
--E seja simpático com ela, Craig.--Tocou-lhe no braço, manchando-o com farinha.--Essa pequena gosta de si, sabe?
Abriu-se a porta e entrou Schmidt.
--Peço desculpa, patrão.
--Que se passa?--perguntou Craig.
--Tenho a impressão que se prepara um pequeno drama. Miss Trevaunce foi dar uma volta pelo caminho do bosque. Logo a seguir, o tenente Edge foi atrás dela.
Bem, meu major, o senhor comandante parece que não gostou e foi atrás deles.
--E depois?--perguntou Craig.
--Por amor de Deus! É que ele só tem um pulmão em condições. Quer dizer, se as coisas chegarem a vias de facto...
Mas Craig saíra já porta fora, e, na verdade, até ia a correr.
Começou a chuviscar um pouco quando Genevieve chegou às primeiras árvores. Foi dar a uma clareira onde havia uma casa meio arruinada, relíquia da exploração de estanho do século anterior. Hesitou à porta e entrou.
Embora já não tivesse telhado, fazia escuro e tudo era mistério, lá dentro, como se estivesse no interior de um cortiço monstruoso.
Edge declamou: "Whither away, oh maiden, so palely loitering?"l Ela voltou-se, vendo-o encostado à porta, e tentou sair. Ele impediu-a, barrando-lhe o caminho com um braço.
--Que é necessário para a tornar mais amigável?
--Nada que tenha para oferecer.--Ele puxou-a contra si, pelo cabelo, tacteando-a entre as pernas com a mão livre. Ela gritou, dando-lhe murros na cara. Edge esbofeteou-a com as costas da mão e a jovem cambaleou para trás, tropeçando numa pedra e caindo. Num segundo, ele ajoelhou-se, montando-a --Ora, então--disse--, vamos lá aprender boas maneiras!
Martin Hare correra os últimos cem metros, algo que
' Whuher away, oh maiden, so palely loiterin8: "Aonde ides, donzda, vagueando tão pálida?", citação adaptada de La Bdlc Dame Sans Mer&i, dc John Keats (1795-1821). (N. do T.) ele tinha sido veementemente aconselhado, pelos médicos que o tinham tratado, a nunca fazer. Ao atravessar a porta, em corrida, o coração martelava-lhe no peito e faltava-lhe o ar. Mesmo assim, teve ainda a energia suficiente para agarrar Edge pelos cabelos e puxá-lo para trás.
Edge, de pé, voltou-se com um grito de raiva, e socou-o, do lado direito da cara. Hare tentou levantar os braços, mas, de repente, sentiu-se quase impossibilitado de respirar. Tombou para trás e Edge ergueu-lhe um joelho para a cara. Genevieve puxou-o pelo casaco, por trás, e Edge praguejou e socou-a com violência, enquanto Hare c£úa sobre os joelhos.
Edge voltou-se, e tinha já Genevieve segura pela garganta, quando Craig Osbourne chegou, correndo. Craig aplicou-lhe um golpe sujo com os nós dos dedos, nos rins. Edge gritou e Craig voltou a atingi-lo do mesmo modo, agarrando-o pela garganta e lançando-o porta fora.
Quando se voltou, Genevieve auxiliava Hare a levantar-se. O comandante sorriu pesarosamente: --Fraca utilidade a minha!
--Para mim, há-de ser sempre um herói! respondeu-lhe Genevieve.
--Deixe-se de disparates!--volveu Craig.--É a intenção que conta. Venha daí, eu pago-lhe uma bebida.
E tu--voltou-se para Edge--, tenta nova brincadeira destas e eu próprio arranjarei modo de seres levado perante um Tribunal Militar!
Saíram, deixando Edge de gatas, aspirando em grandes haustos, e regressaram a Cold Harbour.
Não lhe era possível, ainda, vestir-se como Anne-Marie. As malas dela estavam no Rolls-Royce, escondido por René em Saint Maurice. Apesar disso, Julie arranjou-lhe um vestido azul de antes da guerra, e, quando Genevieve desceu as escadas e se deteve no patamar, a sua imagem no espelho giratório era perturbantemente satisfatória.
Julie tinha posto a mesa na biblioteca, tendo-a arranjado com o melhor de que dispunha a abadia. Baixela de prata, toalhas de mesa do melhor linho, travessas delicadas de porcelana chinesa. O ambiente era maravilhoso, sob a luz tremulante de um único candelabro com velas e do fogo da lareira.
Julie, muito atraente, num vestido negro tipicamente francês, com o cabelo apanhado atrás por um laço de veludo, tinha posto um avental branco e insistia em ser ela a tratar de tudo na cozinha, ajudada apenas por René, que servia de criado de mesa.
--Isto é uma noite à francesa--dizia.--Ninguém mais pode fazer nada. E a cozinha, mês a mis, terá de ser mesmo francesa, já que o brigadeiro nos deixou em paz... que Deus o ajude!
Um jantar delicado. Pasta de fígado com pão torrado, perna de cordeiro temperada com ervas, batatas novas da Cornualha, salada, tudo seguido por um preparado de fruta com chantilly, que se derretia na boca.
--Pensei que estivéssemos em guerra--observou Craig, enquanto ela dava a volta à mesa, enchendo os copos, muito elegante no seu vestido.
Martin Hare sentara-se frente a Genevieve, ainda no seu papel de oficial da Kriegsmarine, usando camisa e gravata, em deferência pelo momento, e uma medalha suspensa do pescoço.
Genevieve estendeu o braço, tocando-a.
--Que condecoração é essa?
--A Cruz de Cavaleiro.
--Destina-se a quê?
--É semelhante à nossa Medalha de Honra do Congresso, ou à vossa Victoria Cross. Significa usualmente que aquele que a usa deveria ter morrido.
--Não me disse que Max Priem tinha sido condecorado com uma?
--Com folhas de carvalho e espadas--acrescentou Craig.--Significa isso que lhe foi concedida por três vezes. Não há dúvida que esse tipo vive tempo roubado ao cemitério!
--Embora seja um homem de coragem!--disse ela.
--Sem dúvida.--Craig ergueu o copo.--Brindemos com este excelente champanhe aos homens de coragem em todo o mundo.
Julie entrou com os cafés, numa travessa.
--Esperem por mim!--pediu ela, pousando o tabuleiro e erguendo a taça.
As labaredas subiram, como que ateadas por uma súbita corrente, e Genevieve tremeu, engolindo o champanhe gelado e sentindo o corpo em pele de galinha, como se uma brisa gelada a tivesse tocado. De onde estava, podia observar a porta envidraçada reflectida no espelho sobre a lareira, com as cortinas corridas e a encurvarem em concha para fora a serem abertas abruptamente por três homens, que entraram e pararam, já dentro da sala.
Parecia que tinham saído do livro de uniformes alemães que Craig lhe tinha mostrado--pára-quedistas com capacetes sem aba e os dólmanes camuflados muito compridos. Dois deles apontavam pistolas-metralhadoras e ostentavam um ar de homens duros, perigosos. O do meio tinha arma idêntica suspensa do pescoço e atravessada no peito, e segurava na mão direita uma Walther com silenciador, semelhante à que Craig lhe tinha mostrado.
--Terminem as vossas bebidas, senhoras e cavalheiros, por favor!--Atravessou a sala até à mesa, tirou a garrafa de champanhe do balde e leu o rótulo.--Mil novecentos e trinta e um.
Nada mau!--Serviu-se de um
copo.--A vossa saúde. Chamo-me Sturm e pertenço ao Esquadrão de Missões Especiais, do Nono Regimento de Pára-Quedistas.--Falava num inglês muito razoável.
--E que deseja de nós?--perguntou-lhe Craig Osbourne.
--Ora, meu major, apenas o que lhe vou dizer. A missão especial desta noite é levá-lo a si, à senhora presente e ao Fregattenkapitan para território ocupado pelas forças do Reich, tão depressa quanto possível.
--Na verdade? Não me parece que seja assim tão fácil.
--Não vejo porque não.--Sturm saboreou o
champanhe.--A parte difícil foi o lançamento de pára-quedas e chegar à praia precisamente na devida altura da maré. Será muito mais fácil desaparecer no mar, no torpedeiro tão providencialmente oferecido por este nosso amigo da Kriegsmarine, aqui presente.
Genevieve viu tudo e dificilmente conseguiu evitar rir à gargalhada. Mas forçou-se a si própria a actuar como Anne-Marie o faria e voltou-se para Craig Osbourne, com um sorriso cínico nos lábios.
Só que Craig não se ria, e René, de face contorcida pela raiva, meteu uma mão dentro do casaco e puxou de uma pistola.
--Sale Boche!--gritou.
A mão de Sturm ergueu-se, a Walther tossiu uma vez, e René foi projectado para a sua cadeira, largando a pistola, de mão no peito.
Olhou o sangue no peito, como
que surpreendido, voltou-se para Genevieve, num apelo mudo, e deslizou para o chão.
Julie gritou aterrorizada, de mãos na cara, voltou-se e lançou-se em corrida pela biblioteca, tentando chegar à porta do lado oposto. O braço de Sturm voltou a levantar-se.
--Não!--gritou Genevieve.
A Walther tossiu uma vez mais, e Julie pareceu tropeçar, cambaleou para um lado e caiu de borco. Genevieve correu para ela, mas Sturm agarrou-a por um braço.
--Fique aqui, Fraulein.
Os outros dois homens cobriam os presentes com as pistolas-metralhadoras, e Sturm atravessou a sala e ajoelhou-se numa perna, ao lado de Julie. Levantou-se e recuou.
--Morta. Uma pena!
--Carniceiro!--gritou Genevieve.
--Apreciação essa que depende do lado em que se está!--Sturm voltou-se para Hare.--A sua tripulação está a bordo do torpedeiro, neste momento?--Hare não respondeu e Sturm replicou:--Então, meu comandante!
Depressa o saberemos, quando lá chegarmos. Pode bem dizê-lo, agora!
--Pois bem!--disse Hare.--Suponho que o chefe de máquinas está a fazer um trabalho qualquer nos motores, e que o Obersteuermann' Langsdorf está de quarto.
--E os restantes estão naquela estalagem que utilizam como messe? Bem lá podem ficar! Tenho a certeza que será capaz de se fazer ao mar sem dificuldade, ajudado pelo chefe das máquinas e pelo Obersteuermann.--Voltou-se para Craig.--Parece-me que tem a reputação de ser um homem de acção, major Osbourne. Aconselho-o muito a sério a não tomar qualquer atitude, nesta ocasião.--Agarrou em Genevieve por um braço, e encostou-lhe o silenciador na cara.--As consequências para Fraulein Trevaunce, apanhada em fogos cruzados, poderiam ser de extrema gravidade. Fiz-me compreender?
--Perfeitamente--respondeu-lhe Craig.
--Muito bem! Vamos, então. Deixamos o vosso jipe no pátio, cavalheiros, e seguimos a pé, pelo jardim. Não há qualquer necessidade de dar a conhecer a nossa presença.
Levou Genevieve pela mão, como se se tratasse de um namoro, e passou pela porta envidraçada, segurando a Walther contra a coxa. Craig e Hare seguiam-no, sob a ameaça das pistolas-metralhadoras dos outros dois pára-quedistas.
Estava frio, e Genevieve tremia, ao passarem do jardim para o bosque e chegarem às primeiras casas da aldeia.
--Sente-se bem, Fraulein? Está a tremer!--perguntou Sturm.
--Certamente que também estava se usasse um vestido de seda. Está um frio de rachar.
--Não se preocupe. Não tarda muito que estejamos a bordo.
"E depois?", pensou ela. "Que me aguarda do outro lado da Mancha? E que se tinha passado tão tremendamente mal?"
Passavam agora pelO Enforcado, de cortinas corridas, só com uma estreita fenda de luz visível. Ouviam-se risos e canções, de um modo curiosamente remoto.
Só se via uma luz muito fraca na casa do leme e no tombadilho do Lili Marlene, mal oculto na escuridão.
Desceram a prancha de embarque, um a um.
Sturm ordenou:
--Agora, meu comandante, vamos falar com o Obersteuermann, enquanto um dos meus homens desce a convencer o seu chefe de máquinas.
Abriu-se a porta da escada da escotilha, deixando que a luz do interior iluminasse a coberta, e Schmidt saiu.
Ria-se, como se estivesse a falar com alguém, mas o riso sumiu-se-lhe, ao vê-los.
--Hem! Que raio se passa aqui?--perguntou, em inglês.
A Walther de Sturm ergueu-se de novo, fazendo Schmidt rolar pela escada.
Sturm fez um gesto para um dos homens:
--Desce e vigia o homem das máquinas. Quanto aos restantes, para a ponte.
Subiu a escada, seguido por Genevieve, Craig e Hare, cobertos à retaguarda pelo outro pára-quedista.
Langsdorff estava sentado à mesa dos mapas e olhou para cima, levantando-se, atónito.
--Ponha esta coisa a andar!--comandou Sturm.
Langsdorff olhou para Hare, que fez um aceno afirmativo.
--Faça o que lhe dizem!
Houve uma pequena pausa. Langsdorff falou para a casa das máquinas. Um momento mais tarde, os motores começaram a trabalhar.
--Temos de soltar as amarras! --informou Hare.
Sturm voltou-se para Craig.
--Trate disso, e volte.
Craig fez o que lhe diziam. As cordas escorregaram lentamente para a água. Momentos mais tarde, o Lili Marlene afastava-se do cais e vogava no porto.
--Vê como é tudo tão simples?--disse Sturm.--Só
há aqui uma coisa que me tem estado a incomodar. Muitos homens corajosos morreram por essa medalha, meu Comandante. Não concordo que a use. Não deve ser usada por actores de teatro!
Arrancou a medalha do pescoço de Hare, que, simultaneamente, lhe agarrou o pulso, forçando-o a desviar a Walther p;&a o lado. Ouviu-se um som rouco, ao disparar-se. Genevieve cravou as unhas na cara de Sturm, í, pontapeando-o nas canelas.
--Tire-a daqui, Craig. Agora! --gritou Hare, enquanto ele e Sturm se agarravam.
Craig escancarou a
porta, agarrando a mão de Genevieve e puxando-a atrás de si. Ela perdeu um sapato, tropeçou, e, do tombadilho da proa, lá em baixo, o outro pára-quedista disparou a pistola-metralhadora, abrigado atrás dos dois botes de borracha que ali estavam arrumados. Craig empurrou-a para o lado do corrimão da escada.
--Salte, por amor de Deus! Já!
Genevieve pôs um pé no outro corrimão, e ele levantou-a por detrás, lançando-a para a água. Ela mergulhou, e Craig saltou em seguida, caindo ao seu lado, no momento em que ela emergia. O torpedeiro afastava-se já, escuridão adentro. De repente, línguas de fogo de pistola-metralhadora, disparada sem resultado e, então, o silêncio. Ficaram a flutuar, juntos.
--Está bem?--perguntou ele, tossindo.
--Parece que sim. E Martin, Craig?
--Não se preocupe com isso, agora. Siga-me.
Nadaram na escuridão. Estava um frio terrível e, então, ela ouviu o ruído surdo dos motores do torpedeiro.
--Está a voltar!--exclamou ela, em pânico.
--Deixe lá! Continue a nadar.
Os motores ouviam-se agora muito próximos. Ela deu algumas braçadas e, então, um holofote de bordo agarrou-a na água. Logo em seguida, outro o fez, do cais, onde estava toda a tripulação do Lili Marlene e Dougal Munro, envergando um pesado sobretudo, de mãos nos bolsos.
--Muito bem, Genevieve!--gritou ele.
O Lili Marlene acostava mais à frente. Lançaram cordas para o cais. Iluminados pelo holofote, via-se Martin Hare e, a seu lado, Sturm e Schmidt, encostados à amurada.
Ela voltou-se para Craig, rindo, apesar de tudo:
--Seu filho da mãe!
Mãos prestáveis ajudaram-na a subir os degraus para o cais. Alguém lhe deu um cobertor, e Munro avançou, com Sturm e Hare atrás dele.
--Excelente, Genevieve. tão bem como num filme.
Deixe que lhe apresente o capitão Robert Shane, dos Serviços Especiais da Força Aérea.
Shane riu-se, cumprimentando:
--É um prazer trabalhar consigo.--Levou a mão à
face arranhada.--Bem, nem sempre.
Julie apareceu no grupo, com René atrás.
--Todos nós fomos muito bem. E, agora, tratem de ir para casa, antes que apanhem uma pneumonia. Uisque para todos.
Voltaram-se, seguindo para O Enforcado. Craig envolveu-a com um braço, pelos ombros.
--Isto foi apenas um aperitivo do que pode de facto suceder--disse ele.--Portou-se muito bem!
--Não me venha dizer que está orgulhoso de mim!-exclamou ela, com os dentes a bater.
--Algo parecido!--disse, abrindo a porta do bar, e fazendo-a entrar.
@Nove
Seriam cerca das sete horas da manhã seguinte quando Himmler, saindo do carro, entrou no Quartel General da Gestapo, na Prinz Albrechtstrasse, em Berlim. Tinha o mau hábito de aparecer a horas impróprias, o que acabava por significar, de certo modo, que a sua chegada nunca era inesperada: os guardas prestavam-lhe continência, os funcionários ficavam subitamente atarefadíssimos com documentos sem a menor importância. Envergava o uniforme negro de Reichsfiihrer-SS e a face atrás das lunetas de prata apresentava-se vazia de expressão, como habitualmente.
Subiu as escadas de mármore, seguiu pelo corredor e entrou no seu gabinete. Na sala de espera, a sua secretária--uma mulher de meia-idade com a farda das auxiliares da SS, aguardava-o, de pé, detrás da secretária.
Himmler obrigava o pessoal do seu gabinete a trabalhar em turnos de vinte e quatro horas seguidas.
--O Haupsturmfiihrer Rossman encontra-se no edifício?--perguntou Himmler.
--Vi-o a tomar o pequeno-almoço na cantina, há uns momentos, Reichsfiihrer.
--Chame-o imediatamente.
Himmler entrou no gabinete, pousou a pasta e o boné
sobre a secretária, e dirigiu-se à janela, onde se manteve, de mãos atrás das costas. Alguns momentos após, ouviu-se um toque à porta, entrando um capitão jovem, de farda negra e com as mangas do dólman ostentando a legenda prateada "RFSS Reichsführer der SS", usada apenas pelo pessoal do gabinete de Himmler. Bateu os calcanhares.
--Às suas ordens, Reichsführer.
--Ah! Rossman!--Himmler sentou-se à sua
secretária.--Esteve no turno da noite? É a sua vez de descansar?
--Sim, Reichsführer.
--Gostaria que continuasse.
--Não há problema. Terei todo o prazer em servi-lo.
--Muito bem!--Himmler fez um aceno de cabeça.
--Sabe, estive com o Führer a noite passada, e ele falou-me dessa reunião que vai realizar-se esta semana no Castelo de Voincourt, na Bretanha. Abrimos processo deste assunto?
--Creio que sim, Reichsführer.
--Traga-mo.
Rossman saiu. Himmler abriu a pasta, tirou alguns papéis e começou a lê-los.
Algum tempo depois, Rossman
voltou, trazendo o processo. Entregou-o a Himmler, que o folheou durante algum tempo. Recostou-se na cadeira.
--Muralha do Atlântico?--Riu-se, friamente.-O Führer estava preocupado com este caso, a noite passada, e tinha toda a razão para isso, de facto. Está a tramar-se qualquer coisa.--Olhou para cima.--Posso contar com a sua lealdade?
--Até à morte, Reichsführer!
--Bom! O que lhe vou contar tem carácter pessoal e muito confidencial. Como sabe, tem havido numerosos atentados contra a vida do Führer.
--Claro, Reichsführer!
--Graças a Deus, têm falhado sempre, mas, no caso desta reunião, o mal esconde-se atrás das aparências.-Himmler acenou a cabeça em concordância, como reforço do seu ponto de vista.--Generais do nosso Alto-Comando, homens que prestaram o juramento sagrado de servir o Führer, mancomunaram-se numa conspiração para assassiná-lo.
- Meu Deus!--exclamou Rossman.
--Tenho vigiado generais como Wagner, Stieff, Von Hase.--Pegou uma folha de papel da pasta.--E há mais nomes na lista, alguns dos quais muito o surpreenderiam.
Rossman correu os olhos pela lista, e olhou-o, atónito.
--Rommel?
--Sim, o próprio marechal-de-campo. O herói do povo !
--Incrível!--exclamou Rossman.
--Por conseguinte--continuou Himmler--, e como o Führer salientou, estaremos a fugir ao nosso dever se não procurarmos averiguar se esta conferência não constituirá na realidade cobertura para algo bem diferente.
Reunião de comandos sobre a Muralha do Atlântico!
Que disparate!--Himmler riu-se sem alegria.--Um disfarce, Rossman! O próprio Rommel estará presente.
Por que razão se dará ele ao trabalho de se deslocar até à
Bretanha, na realidade?
Rossman, que há muito verificara que a concordância pagava dividendos políticos, anuiu prontamente: --Tem toda a razão, evidentemente!
--Por exemplo, este general Ziemke, que está
encarregado do local. Tenho a certeza que também está envolvido.
Rossman, procurando uma forma de tirar proveito pessoal do caso, disse:
--Há uma circunstância a nosso favor nesta tramóia de Voincourt, Reichsführer.
--E qual é?
--A segurança está a cargo da Waffen-SS.
--Na verdade?--Himmler olhou-o, imediatamente atento.--Tem a certeza?
--Absoluta, Reichsführer.--Rossman folheou o processo.--Veja, o oficial responsável pela área da segurança e informação é o Sturmbannführer Max Priem!
--Um autêntico herói, este Priem! --comentou Himmler, lendo o currículo de Priem.
--Cruz de Cavaleiro com folhas de carvalho e espadas, Reichsführer. A única razão por que não se encontra na frente de combate é fruto dos gravíssimos ferimentos que recebeu na Rússia.
--Compreendo.--Himmler tamborilou os dedos na secretária, enquanto Rossman esperava, ansioso.--Sim, parece-me que este major Priem servirá perfeitamente o nosso objectivo. Vou falar-lhe pessoalmente.
Nesse preciso momento, Max Priem corria através da mata do outro lado do lago do Castelo de Voincourt: com perto de um metro e oitenta, a face perlada de suor, o cabelo negro revolto.
Vestia um fato de treino velho, com
um lenço à volta do pescoço, e era acompanhado por um dos lobos-da-alsácia da segurança.
--Para futuro, deverá ter sempre presente
--recomendara-lhe o cirurgião, quando tivera alta do hospital
--que, embora tudo tenha corrido bem até aqui, um homem com uma placa de prata na cabeça caminha a passo.
Ande, não corra. Este passará a ser o seu novo lema.
"Pois bem, que se lixe!", dizia Priem a si próprio, contornando o lago e atravessando a relva em direcção à entrada principal, num arranque de velocidade final, com Karl, o lobo-da-alsácia, correndo atrás dele.
Subiu as escadas, passando pelas sentinelas, que lhe prestaram continência, e entrou no átrio. Seguiu pelo corredor à direita, parando no guarda-roupa para se munir de uma toalha, com a qual enxugou a cara. O primeiro gabinete era o do seu ajudante, Haupsturmfiihrer Reichslinger.
Priem atravessou-o, ouvindo o telefone tocar no seu gabinete.
Continuando a secar a face, abriu a porta e encontrou Reichslinger, que tinha vindo do seu gabinete, a atender o telefone.
--Sim, fala do gabinete do Sturmbar&nführer Priem.
Não, mas acaba de chegar.--Fez uma pausa e passou o telefone a Priem, com os olhos pequenos arregalados.-Meu Deus! Mas é o próprio Reichsführer Himmler!
Priem estendeu a mão para o telefone, com o rosto impassível. Apontou o outro gabinete. Reichslinger dirigiu-se para a porta, cerrou-a e correu para o telefone sobre a sua secretária, levantando-o lentamente.
Ouviu a voz de Himmler:
--Priem?
--Sim, Reichsführer.
--Considero-o um membro leal da nossa irmandade, a SS. Posso contar com o seu auxílio e a sua discrição?
--Mas certamente, Reichsführer!
--O seu passado é notável. Temos muito orgulho em si.
"Que raio está a esconder o sacana?", pensou Priem de si para si.
--Ouça-me com atenção--continuou ele.--A vida do nosso Führer poderá estar nas suas mãos.
Priem deu umas palmadas no pescoço do lobo-da-alsácia, sentado a seu lado.
--Por conseguinte, que deseja que eu faça, R
tchsführer?--perguntou? após Himmler ter terminado.
--Que vigie a reunião que se vai realizar este fim-de-semana, que, em minha opinião, é espúria. Esse general Ziemke parece-me altamente suspeito, e, quanto ao Rommel, esse já pisou os limites da honra. É uma desgraça para o Corpo de Oficiais.
Pese embora o clamoroso repúdio do maior herói alemão em toda a guerra, Priem manteve-se calmo.
--Depreendo, por conseguinte, não se tornarem necessárias prisões por agora, Reichsfuhrer?
--É evidente que não. Vigilância total, registo de todos os presentes e, naturalmente, de todos os telefonemas do marechal-de-campo e dos restantes oficiais generais.
Considere isto uma ordem directa, Priem.
--Zu befehl, Reichsführer--respondeu Priem, automaticamente.
--Muito bem! Fico aguardando o seu relatório.
O telefone foi desligado do outro lado da linha, mas Priem não pousou o seu. Ouviu um pequeno estalido no auscultador. Olhou para a porta do gabinete, sorriu levemente, pousou o telefone com cuidado e atravessou o gabinete, seguido pelo lobo-da-alsácia. Quando abriu a porta, Reichslinger colocava o telefone no descanso, muito devagar. Dando por Priem, voltou-se, com cara de culpado.
--Ouça-me, seu miserável!--interpelou-o Priem.-Se o volto a apanhar a fazer isso, obrigo o Karl a comer-lhe os tomates!
O lobo-da-alsácia contemplava Reichslinger fixamente, de língua dependurada. Lívido, respondeu: --Não tinha má intenção!
--Com o seu acto, teve acesso a um segredo de Estado da máxima gravidade!--atirou-lhe Priem.--Ponha-se em sentido, Reichslinger!
--Zu befehl, Sturmbannführer!
--O senhor prestou juramento de lealdade ao Führer, um juramento sagrado. Repita-o, agora!
Reichslinger proferiu, em voz nervosa:
--Obedecerei incondicionalmente ao Führer do Reich e do Povo Alemão, Adolf Hitler, Comandante Supremo das Forças Armadas, e, como militar pundonoroso, estarei sempre pronto a sacrificar a vida por este juramento.
--Perfeitamente. Mantenha a boca fechada e lembre-se que o fracasso é sinal de tibieza.
Priem dirigiu-se para o seu gabinete e abriu a porta, mas Reichslinger chamou-o:
--Também eu gostaria de lhe recordar uma coisa, meu major!
--É o quê, pode-se saber?
--É que o senhor também prestou o mesmo juramento!
Max Priem nascera em 1910 em Hamburgo, filho de um mestre-escola morto em 1917 na frente ocidental, como cabo de infantaria. A mãe morrera em 1924, deixando-lhe uma pequena herança, que lhe permitiu entrar para a Universidade de Heidelberga, onde estudou Direito.
Por volta de 1933, conseguira uma boa qualificação profissional, mas não arranjava emprego. A SS, bem como o partido nazi, procurava jovens brilhantes. Priem, como tantos outros jovens, aderiu ao partido, mais na esperança de um emprego do que por outra qualquer razão.
A facilidade de discurso que revelou determinou que fosse recrutado para o SD, ou seja, para os serviços de informação da SS. Todavia, com o advento da guerra, conseguiu ser transferido para uma unidade combatente na Waffen-SS. Quando se formou o 21.? Batalhão de Pára-Quedistas, foi um dos primeiros a oferecer-se, tendo prestado serviço em Creta, no Norte de África e na Rússia. Estalinegrado foi o fim: uma bala na cabeça, de um franco-atirador russo. Por isso, sentava-se agora atrás de uma secretária, a milhas da guerra, num castelo de conto de fadas nos belos campos da Bretanha.
Subiu a escadaria para o quarto, tomou um banho de chuveiro e fardou-se, inspeccionando-se ao espelho, depois de pronto. À parte a caveira de prata no boné e o distintivo do posto, na SS, o uniforme que envergava era o dos pára-quedistas. Não no azul-cinza da Luftwaffe, mas no verde-oliva do Exército. Blusão de voo, calças de montar e botas altas. Um galão dourado indicando ferimento em combate, a Cruz de Ferro de Ea classe e o distintivo ouro e prata dos pára-quedistas no lado esquerdo do peito, com a Cruz de Cavaleiro com folhas de carvalho e espadas suspensa do pescoço.
--Muito bem!--disse, falando baixo.--Não há
nada como manter as aparências.
Saiu para o patamar no momento em que passava Maresa, a criada de quarto de Anne-Marie, carregando uma pilha de toalhas.
--Sabe dizer-me se o senhor general Ziemke se encontra com a senhora condessa?-perguntou, em excelente francês.
Ela fez uma pequena vénia.
--Vi-o entrar no apartamento da senhora condessa há
cinco minutos. Pediram o café.
--Muito bem. A sua senhora volta amanhá?
--Sim, senhor major.
Ele agradeceu.
--Obrigado. Pode prosseguir com o seu trabalho!
Ela afastou-se. Priem respirou fundo, atravessou o patamar sobre o átrio da entrada e dirigiu-se para as escadas que conduziam ao quarto da condessa de Voincourt.
Chovia continuamente em Cold Harbour, com o nevoeiro a cair sobre as árvores e a envolver a abadia em mistério. Genevieve e Julie, ambas vestindo casacos e chapéus de oleado, dirigiram-se para a aldeia.
--E está tudo dito, no que respeita ao boletim meteorológico!--comentou Julie.-Essa gente nunca acerta!
--Mas que vai suceder, então?
--Sabe Deus! Hão-de sair-se com alguma, por certo!
Foram até ao local de atracação do Lili Marlene. Hare saiu da casa do leme e começou a subir pela prancha de desembarque.
--Vão ao bar?--perguntou ele.
--Precisamente. Tenho de preparar o almoço!
--respondeu Julie.
Hare sorriu para Genevieve.
--Já recuperou da noite passada?
--Mais ou menos.
--Muito bem! Vou convosco. O Craig e o Munro entraram há pouco, com o Grant.
Parece-me que se
reuniram em conselho de guerra.
Encontraram os três homens nO Enforcado, sentados à mesa da janela. Munro olhou-os: --Ah! Ainda bem que chegaram! Estávamos a discutir o nosso problema. Juntem-se a nós.
Craig continuou:
--Como viram, o tempo não está grande coisa. Diga-lhes o que se passa, Grant.
--Previa-se que, hoje à noite, o tempo estivesse seco e houvesse luar--informou-os o jovem piloto.--Seriam as condições ideais, mas isto, assim, fede que tresanda!
É que não se trata apenas do problema da visibilidade.
O avião aterra em qualquer terreno... mas, se estiver empapado em água, já não conseguimos levantar voo.
--E daí?
Craig prosseguiu:
--Há uma hipótese, de acordo com a gente da meteorologia, que o tempo possa abrir por volta das sete ou oito da noite.
--E se não abrir?
--Terá de ir de qualquer forma, minha cara, pois não podemos retardar a sua ida--respondeu Munro.--Portanto, se não puder ser o avião, terá de ser o torpedeiro, em travessia nocturna, por cortesia da nossa Kriegsmarine.
--Com todo o gosto!--respondeu Hare.
--Por conseguinte, protelamos a decisão até às sete da noite. Então se verá.
Julie levantou-se.
--Toda a gente toma café?
Munro suspirou.
--Mas quantas vezes já lhe disse, Julie, que sou homem de chá?
--Ora, senhor brigadeiro--respondeu-lhe ela, com brandura--, não posso deixar de me lembrar do que o senhor é, cada vez que olho para si!--E entrou na cozinha.
Priem bateu à porta com os nós dos dedos, abriu-a e entrou na antecâmara. Chantal estava sentada numa cadeira, ao pé da porta que dava para o quarto--com ar de poucos amigos, como era habitual.
--Sim, senhor major?
--Veja se a senhora condessa me pode receber.
Abriu a porta, entrou e voltou a fechá-la. Voltou pouco depois:
--Pode entrar.
Hortense de Voincourt estava sentada na cama, reclinada nas almofadas. Vestia um roupão de seda e usava uma espécie de touca no cabelo, ruivo-claro. Tinha uma bandeja na sua frente e comia um bolo com manteiga.
--Bom dia, senhor major. Já alguma vez lhe tinha dito que o senhor parece o próprio Diabo entrando por essa porta nessa farda absurda?
Priem gostava imenso dela--sempre tinha gostado.
Bateu os calcanhares, cumprimentando militarmente:
--Está radiante como a manhã, senhora condessa.
Ela beberricava champanhe com sumo de laranja de um copo alto, de cristal.
--Mas que disparate! Se é com o Carl que deseja falar, ele está no terraço. Não permito que se leiam jornais alemães nesta casa.
Priem sorriu, saudou de novo e saiu pela porta envidraçada que dava para o terraço, onde Ziemke estava sentado a uma mesinha, com uma taça alta de champanhe na sua frente. Levantou os olhos e sorriu: --Pelo que leio na página da frente, estamos a ganhar a guerra.--Priem ficou em pé, olhando-o, e Ziemke deixou de sorrir.--Que se passa, Max?
--Tive uma chamada telefónica do Reichsführer Himmler.
--Não me diga! ?
--Sim.--Priem acendeu um cigarro e apoiou-se no parapeito.--Parece que o Castelo de Voincourt é um velhacoito de conspiradores. Não só o senhor, mas outros generais que aqui vamos receber, incluindo o próprio Rommel, encontram-se sob suspeição de pretenderem atentar contra a vida do Führer.
--Santo Deus!--exclamou Ziemke, dobrando o jornal.--Obrigado por me ter prevenido, Max.--Levantou-se e pôs uma mão no ombro de Priem.--Pobre Max! Um herói da SS, e nem sequer é nazi! Isto deve tornar-lhe a vida extremamente difícil.
--Enfim, cá me vou arranjando!--respondeu-lhe Priem.
Ouviu-se um murmúrio de vozes no interior do quarto e Chantal entrou no terraço logo em seguida: .
--Uma ordenança trouxe isto, senhor general.
Ziemke leu a mensagem, e, no final, deu uma gargalhada:
--Sacana esperto! No fundo, continua a pensar como um criador de galinhas. Começa por comprar-lhe os seus serviços. Ouça isto, Max! "Do Reichsführer SS para Max Priem. Em reconhecimento por serviços acima do dever prestados ao Reich, é promovido ao posto de Standartenführer, a partir desta data. Heil Hitler".
Priem tomou a mensagem das mãos de Ziemke e leu-a, atónito. Ziemke empurrou-o para o quarto: --Que pensas disto, querida?--perguntou, dirigindo-se à condessa.--Max foi promovido duas vezes, de uma assentada só. Agora é coronel.
--E que tem ele de fazer, por causa disso?
Priem sorriu tristemente:
--Aguardo a chegada de sua sobrinha, senhora condessa. Amanhã, suponho eu.
--Sim, vamos precisar dela para receber Rommel, este fim-de-semana--disse Ziemke.--Parece que, desta vez, deveríamos fazer algo diferente. Um baile, de preferência a simples danças.
--É uma óptima ideia!--anuiu Priem.
--Sim, Anne-Marie tem estado no Ritz Hortense de Voincourt a Priem.
--Bem, já lhe telefonei três vezes, mas ela estava sempre fora.
--Que espera? Ir às compras a Paris ainda continua a ser ir às compras em Paris, mesmo com esta guerra horrível.
--Pois bem! Permita-me que me retire, tenho assuntos a tratar!--Priem saudou militarmente e saiu.
Hortense olhou para Ziemke:
--Problemas?
Ele tomou-lhe a mão:
--Nada que eu não possa resolver, e nada a ver com Max, que foi apanhado de permeio.
--Uma pena!--Abanou a cabeça:--Sabes uma
coisa, Carl? Gosto imenso desse rapaz!
--Também eu, lieblingl.--Tirou a garrafa de champanhe do balde e voltou a encher a taça.
Anoitecia, e começou a fazer frio em Cold Harbour, com a chuva martelando sem cessar os vidros da cozinha.
Julie e Genevieve estavam sentadas frente a frente, na mesa da cozinha, e a francesa baralhava um baralho de Tarot. Do gira-discos vinha uma voz de homem, muito agradável, acompanhada por uma banda de jazz. A canção chamava-se A Foggy Day in London Town.
--Muito apropriado, sem dúvida, se atendermos ao tempo que faz!--comentou Julie.--Al Bowlly. Para Liebling: "amor, querida". (N. do T.) mim, o melhor de sempre. Costumava cantar nos melhores clubes nocturnos de Londres.
--Vi-o uma vez--disse Genevieve.--Um encontro com um piloto da RAF, em quarenta. Levou-me ao Monseigneur, em Piccadilly. Bowlly cantava lá, com a banda de jazz Roy Fox.
--Dava tudo por o ter visto, ao vivo. Sabe, morreu no Blits.
--Sim, eu sei.
Julie ergueu o baralho do Tarot.
--Dizem que tenho um dom para isto. Baralhe-as, e dê-as com a mão esquerda.
--Quer dizer que pode predizer o meu futuro? Não tenho a certeza se quero conhecê-lo!--Genevieve, no entanto, anuiu ao pedido de Julie, devolvendo-lhe as cartas.
Julie cerrou os olhos por um momento, e espalhou as cartas de face para baixo, sobre a mesa da cozinha.
Olhou para Genevieve:
--Bastam três cartas. Escolha uma, e volte-a.
Ela assim fez. As cartas eram muito antigas, com gravuras sombrias e nomes em francês. Um lago, guardado por um lobo e por um cão, com duas torres ao fundo e, no céu, a lua.
--Isto é bom, chérie, pois a carta está direita. Simboliza uma crise na sua vida. A razão e a inteligência nada têm a ver com o caso, pois só o instinto a pode fazer ultrapassar o problema. Deve deixar-se levar sempre pelo instinto. Pelos seus próprios sentimentos. Só assim poderá salvar-se.
--Está a brincar, certamente--disse Genevieve, rindo, não muito segura de si própria.
--Não, isto é o que a carta me revela--corrigiu Julie, pondo-lhe uma das mãos sobre as dela.--Diz-me ainda que conseguirá ultrapassar a situação. Escolha outra carta.
A carta era "O Enforcado", uma réplica da tabuleta da estalagem.
--Não significa aquilo que está a pensar. Destruição e mudança, a conduzirem à renovação. Removeu-se um obstáculo de importância. Pode seguir em frente por sua própria cabeça, pela primeira vez? sem precisar de outrem.
Fez-se uma pausa. Genevieve tirou a terceira carta.
Estava ao contrário, e representava um cavaleiro montado, com um pau na mão.
Julie explicou:
--É um homem seu conhecido. Há conflito, por gosto do próprio conflito.
--Será um militar?--perguntou Genevieve.
--Sim--respondeu Julie.--Provavelmente.
--Uma crise, que só o meu instinto poderá auxiLiar-me a ultrapassar. Mudança, um obstáculo importante removido. Um homem, possivelmente um militar, interessado em conflitos.--Genevieve encolheu os ombros.
--Em que se traduz tudo isto, no fim de contas?
--Di-lo-á a quarta carta. A carta que não sabia que tinha de tirar.
Genevieve hesitou, com o dedo pousado, e então tirou uma carta. A Morte contemplava-as, um esqueleto com uma foice que não segava trigo, mas cadáveres.
Genevieve tentou rir-se, mas a garganta secou-se-lhe.
--Presumo que não signifique coisa boa?
Antes que Julie pudesse responder, a porta abriu-se, e Craig entrou: --Munro deseja-nos na biblioteca. Chegou a altura de tomar uma decisão.--Deteve-se, sorrindo.--Então, Julie, de volta com essas coisas, de novo? Qualquer dia ainda acaba numa tenda, na Feira da Primavera, em Falmouth.
Julie sorriu, juntando as cartas:
--Uma ideia interessante.
' Na arte de deitar as cartas do Tarot, o significado de cada uma depende do facto de estarem direitas ou invertidas. Genericamente, o arcano da Morte, se direito, augura o aniquilamento do eu; se estiver invertido, poderá significar, entre outras coisas, escapar à morte por um triz. Talvez para manter maior emoção na narrativa, o autor não indica a posição da carta tirada por Genevieve... (N. do T.) Levantaram-se, Julie deu a volta à mesa e apertou a mão a Genevieve, num gesto de simpatia. Ambas o seguiram.
Munro e Hare estavam na biblioteca, debruçados sobre uma carta do Almirantado em escala grande, que tinham desdobrado sobre a mesa. Estudavam a região entre a ponta Lizard e o cabo Finisterra, na Bretanha.
René estava sentado à lareira, fumando um dos seus cigarros, numa atitude de quem aguarda ordens.
Munro ergueu os olhos.
--Ah! Chegaram. Como vêem, o tempo não melhorou e os rapazes dos meteorológicos não garantem coisa nenhuma. Por conseguinte, está em causa o plano inicial, que previa que o avião levantasse voo às onze horas.
A porta abriu-se e Joe Edge entrou. Munro perguntou:
--Há novidade?
--Parece-me que não, meu brigadeiro. Acabei de falar com o major Smith, em Londres, que chefia o Departamento de Meteorologia do SHAEF. Confirmou aquilo que já sabíamos. As coisas podem melhorar, mas há uma probabilidade superior a cinquenta por cento de que não melhorem.
Genevieve olhou-o, com curiosidade. Desde o incidente que se mantivera afastado e deixara até de frequentar O Enforcado. Cara séria, inexpressiva, mas os olhos espelhavam ódio, nada mais.
Munro concluiu:
--Portanto, ponto final na questão do tempo. Já não podemos protelar a decisão, pois será necessário partir mais cedo, no caso de uma travessia por mar.--Voltou-se para Hare.--Por conseguinte, meu comandante, terá de fazer a viagem.
--Muito bem, meu brigadeiro--disse Hare.--Partimos às oito. Não tem muito tempo, Genevieve, mas assim terá de ser. O nevoeiro não é contínuo, pois há falhas, ao nível do mar. A previsão para três a quatro milhas da costa é de aguaceiros e rajadas de vento. O tempo ideal para uma viagem à socapa.
--Para onde?--perguntou Genevieve.
Hare voltou-se para Osbourne:
--Craig!
O americano respondeu:
--Já falámos ao Grand Pierre pela rádio, na previsão desta hipótese.--Traçou uma linha a lápis, na carta.-Fica aqui Léon e o farol de Grosnez, na baía onde o Lili Marlene me recolheu. Grand Pierre disse que os alemães encerraram o farol há dois dias.
--Porquê?--perguntou Genevieve.
--Têm estado a encerrar faróis, de há uns tempos para cá. Receio da invasão!--explicou Hare.
--O caso é que há uma pedreira nas arribas, precisamente por baixo do farol de Grosnez. Já não é explorada desde mil novecentos e vinte, mas tem um cais de águas profundas que os navios usavam antigamente, para carregarem granito.
--Que se adapta perfeitamente ao nosso objectivo-comentou Hare.
Craig continuou:
--Vou confirmar ao Grand Pierre a mudança de planos.
Ele estará à nossa espera, com o devido meio de transporte. Tem de chegar a horas a Saint Maurice.
--Com esse cais, é caminho directo, ida e volta-ajuntou Hare.--Sem qualquer problema.
--E se alguém estiver nas imediações, que verá? O
orgulho da Kriegsmarine, fazendo o seu serviço.
Genevieve contemplou a carta, sentindo-se muito calma.
-- Pois seja!--exclamou, em voz baixa.
@Dez
Genevieve e Craig ficaram em baixo, a pedido de Hare, enquanto o Lili Marlene saia do porto. Sentados à mesa, na pequena sala de jantar, Genevieve deu por si a fumar um Gitane, quase como se de um acto reflexo se tratasse.
Craig deu-lhe lume.
--Está mesmo a tirar prazer do cigarro, não é verdade?
--Um mau hábito--concordou ela.--Tenho o
pressentimento horrível de que isto me vai perseguir pelo resto da vida.
Encostou-se para trás, e recordou-se da despedida, no cais. Munro, envergando um capote antigo de cavalaria, apertando-lhe a mão, com um ar sério e estranho, Edge, em segundo plano, observando-a com rancor durante todo o tempo. E, finalmente, o abraço rápido e carinhoso de Julie, e as últimas palavras, sussurradas: --Lembre-se do que lhe disse.
O balanço do torpedeiro já era muito pronunciado i quando Schmidt abriu a porta, balanceando o corpo e trazendo da cozinha uma bandeja com três canecas.
--Chá--disse ele.--Doce e quente. Com muito leite condensado.--Genevieve fez uma careta.--Beba-o, minha linda. Faz bem ao estômago, numa viagem destas.
Não a deixa enjoar.
Ela tinha fortes dúvidas a tal respeito, mas levou-o a sério e lá conseguiu beber aquela mistela enjoativa.
Passado um bocado, ele voltou a aparecer, dizendo:
--O patrão diz que podem subir, se quiserem.
--?ptimo!--exclamou Genevieve. Voltou-se para Craig:--Vem?
Ele levantou os olhos do jornal que estava a ler, dizendo:
--Daqui a um bocado. Suba.
O que ela fez, juntamente com René, seguindo pela escada da escotilha. Quando abriu a porta, o vento fustigou-lhe a cara com chuva. O Lili parecia vibrante e cheio de vida, arfando sob os seus pés, enquanto ela se agarrava à corda de segurança, em direcção à ponte. A chuva a bater-lhe na cara e o esforço de se içar escadas acima faziam-na sentir-se excitada. Finalmente, chegou à casa do leme e abriu a porta.
Langsdorff estava ao leme e Hare sentava-se na mesa dos mapas. Fez rodar a cadeira giratória, para ver quem entrava, e levantou-se: --Sente-se aqui. Fica mais confortável.
Assim o fez, e observou o compartimento.
--Isto é bonito. Estimulante.
--Bom, tem algumas vantagens.--Dirigiu-se a Langsdorff, em alemão:--Eu tomo conta do leme durante um bocado. Pode ir tomar um café.
--Zu befehl, Herr Kapitan--respondeu formalmente o Obersteuermann, saindo.
Hare aumentou a velocidade, fugindo do mau tempo que ameaçava a leste. O nevoeiro era tão irregular que, por vezes, navegavam num mundo escuro e só deles, outras emergiam de súbito em zonas límpidas, onde por vezes brilhava a lua, não obstante as bátegas de água, impelidas pelas rajadas de vento.
--O tempo parece nem saber para que lado há-de cair!
--Nunca sabe, por estas bandas. É isso que torna isto excitante.
--Diferente das ilhas Salomão.--Era uma afirmação e não uma pergunta.
--Bem pode dizê-lo.
Entretanto, o tempo voltara a piorar, com o Lili Marlene mergulhando de proa, e o chão da casa do leme a tomar uma inclinação tal que obrigava Genevieve a firmar-se com força nos pés, para não cair da cadeira abaixo. A visibilidade piorara novamente, e, quando as ondas quebravam, havia um toque de fosforescência na água.
Abriu-se a porta e Schmidt entrou cambaleando, com o casacão de oleado escorrendo água. Trazia uma garrafa-termo numa das mãos e uma lata de biscoitos na outra.
--Café na garrafa, minha linda, e sanduíches na caixa
--informou ele, de modo alegre.--Há canecas no armário que está debaixo da mesa. Que lhe faça bom proveito!
Saiu, batendo a porta, e Genevieve tirou as canecas.
--Este Schmidt é mesmo um ponto. Tem uma graça pronta para todas as situações, como se fosse um actor de teatro.
--É verdade!--concordou Hare, recebendo uma caneca das mãos de Genevieve.--Mas já reparou que ele raras vezes sorri? O humor, muitas vezes, é apenas uma capa que oculta a dor. Os judeus conhecem melhor essa síndrome que qualquer outra raça da Terra!
--Compreendo--disse ela.
--Ouça isto. Schmidt tinha uma prima, que adorava.
Uma linda moça judia de Hamburgo, que tinha vivido com a família dele, em Londres, durante alguns anos.
Regressou inesperadamente à Alemanha, mesmo antes da guerra, porque a mãe, viúva, falecera subitamente. Tentaram persuadi-la a não ir, pois ela ainda era cidadã alemã. Já era muito tarde para o funeral, mas havia problemas de família a resolver, e, na realidade, ninguém em Inglaterra acreditava nas histórias que corriam de boca em boca.
--Que sucedeu, depois?
--Schmidt insistiu em ir com ela. Foram ambos presos pela Gestapo. O cônsul britânico em Hamburgo conseguiu salvá-lo, dada a sua qualidade de cidadão britânico.
Recebeu ordem de expulsão no prazo de dois dias.
--E a prima?
--Tentou saber do seu paradeiro. Era uma rapariga loura, muito bonita, que, ao que parece, foi escolhida para o programa de bordéis ao serviço das tropas, não obstante as relações sexuais com judeus serem proibidas. As últimas notícias que teve dela davam-na como tendo sido enviada num comboio a caminho da fronteira leste, pouco antes da invasão da Polónia.
--Que coisa horrível!--disse ela, muito chocada.
--É assim que as coisas se passam por lá, Genevieve.
Deixe-me contar-lhe como trabalha a Gestapo.
--Eu sei. Já vi as unhas das mãos de Craig.
--Sabe como é que eles vergam uma mulher? Não é
com ferros nem com chicotes nem com pinças. Violação múltipla. Fazem turnos, uns após os outros, e depois voltam a repetir o ciclo. É de facto revoltante, mas tremendamente eficiente.
Recordando-se de Anne-Marie, Genevieve disse:
--Sim, bem o posso imaginar!
--Raio de boca a minha!--Hare olhou-a, verdadeiramente preocupado.--Esqueci-me de sua irmã!
--Também sabe o que se passou?
--Oh! Sim, Munro contou-me. Disse ele que melhor seria que eu soubesse de tudo o que se tinha passado.
Ela tirou um cigarro do maço de Gitanes.
--Há que suportar as coisas com alma de soldado, não acha?
--Não será essa uma frase muito própria para um tenente-aviador...
--Para um quê?--perguntou Genevieve, com o isqueiro nas mãos, aceso ainda.
--Todas as agentes em serviço exterior são graduadas numa patente de oficial. Quanto às francesas, colocam-nas habitualmente no Corpo Auxiliar Feminino. Muitas das inglesas são colocadas no Corpo de Enfermeiras.
--No FANY?
--Isso mesmo. Mas Munro gosta de ter maior controlo sobre o pessoal. Segundo sei, foi incorporada como oficial de voo da WAAF, ontem. Na verdade, o azul da RAF diz-lhe bem com a cor da pele, se alguma vez tiver oportunidade de vestir a farda.
--Ele não me disse nada!
--Quem, Munro?--Hare fez um gesto de desalento--Um velhaco manhoso, é o que ele é, pois tudo o que faz tem uma finalidade. Em primeiro lugar, o facto de ser oficial poderá ter interesse, em caso de cair nas mãos dos alemães.
--E que mais?
--Confere-lhe controlo pessoal sobre a Genevieve A desobediência a ordens em tempo de guerra pode levar ao fuzilamento.
--Às vezes, parece-me que toda a vida estivemos em guerra--disse ela.
--Também a mim.
Abriu-se a porta e Craig entrou:
--Como vamos?
--Bem!--respondeu Hare.--Cumprindo o horário.
--Voltou-se para Genevieve:--Se fosse a si, ia lá
para baixo, tentar dormir um pouco. Sirva-se do meu camarote.
--Está bem. Parece-me que vou.
Deixou-os, atravessou o tombadilho arfante, e desceu para o minúsculo camarote. O catre era tão pequeno que ela mal podia estender-se ao comprido. Deixou-se ficar, de joelhos levantados, contemplando o tecto. Tinha acontecido tanta coisa, e tudo se lhe baralhava na cabeça; no entanto, acabou por adormecer após escassos minutos.
O nevoeiro ao largo da costa do cabo Finisterra continuava com abertas, com a Lua a aparecer ocasionalmente entre as nuvens. O Lili Marlene dirigiu-se lentamente para terra, com os silenciadores ligados. A tripulação ocupara postos de combate e guarnecera os canhões da proa e da popa. Hare estava armado com uma pistola, que trazia num coldre sobre a coxa. Langsdorff estava ao leme, e Hare e Craig vigiavam a praia com binóculos nocturnos. Genevieve, atrás deles, aguardava, com René ao pé. Viu-se um ponto de luz à frente, por um breve momento.
--Lá estão eles!--exclamou Hare.--Perfeito!-Pôs a mão sobre os ombros de Langsdorff.--Devagarinho, agora. Muito devagarinho.
O cais de Grosnez surgiu das sombras, mesmo em frente--uma estrutura alta, esquelética, com as ondas a ressoar por baixo, fragmentando-se contra os grandes pilares de ferro semicorroídos. Bateram contra a base, e alguns membros da tripulação haviam-se postado junto da amurada, com cordas. Viu Schmidt no tombadilho, de pistola-metralhadora Schmeisser aperrada.
Ouviu-se uma voz no cimo do cais, chamando em francês:
--Quem são?
--Grand Pierre--respondeu Craig.--Toca a andar com isto!
Genevieve e René passaram à frente e Craig e Hare seguiram-na. No cais, ela voltou-se para olhar para o convés. Schmidt sorriu-lhe:
--Não deixe que os sacanas a apanhem, minha linda!
Craig aproximou-se:
--Um presente para si. --Deu-lhe uma pistola Walther, com um carregador suplente.--Guarde-a no bolso. Nenhuma moça devia andar sem uma coisa destas!
--Pelo menos, por estes sítios--disse Hare, terminando a frase e pondo-lhe o braço pelos ombros.
--Tenha cuidado!
Craig voltou-se para René:
--Traga-a de volta ou corto-lhe os tomates!
René encolheu os ombros:
--Se suceder alguma coisa à mamselle, também me sucederá a mim.
Craig continuou com voz calma, dirigindo-se a Genevieve:
--Pronto, meu anjo, avante é o caminho! O melhor papel de toda a sua carreira. Como se costuma dizer, figas pró Demo!
Ela voltou-se com rapidez, quase a chorar, e subiu pelas escadas até à plataforma superior, com René atrás dela. Estava um camião na outra ponta do cais, junto do qual se viam algumas sombras a moverem-se. Aproximou-se um homem ao encontro de ambos: olhando, apercebeu-se que jamais vira expressão mais asquerosa em toda a vida. Trazia boné de pala, casaco de algodão grosseiro, safonas e camisa sem colarinho. A barba de três dias não ajudava, e menos ainda a cicatriz na face direita.
--Grand Pierre?--perguntou René.
Genevieve meteu a mão no bolso, certificando-se de que a pistola ainda lá se encontrava.
--Não pode ser este o nosso homem!--sussurrou ela a René, tão fora de si que até falou em inglês.
O homem da cicatriz parou a cerca de um metro e sorriu:
--Peço imensa desculpa em a desapontar, minha cara amiga!--exclamou ele em inglês, com um irrepreensível sotaque de Oxford.--Mas, se é Grand Pierre o homem que procura, então, tem-no na sua frente!
Atrás dele, uma dúzia ou mais de homens saíram das sombras armados com pistolas-metralhadoras Sten.
Detiveram-se, olhando-a, sem proferirem uma palavra.
Ela murmurou para Grand Pierre
--Não sei o que fazem aos alemães, mas, a mim, assustam-me!
--Sim, são formidáveis, não é verdade?--Bateu as palmas, e disse, falando desta vez em francês correcto e dirigindo-se ao pessoal:--Toca a andar, corja de malandros!
E cuidado com a língua, que temos uma senhora connosco!
Era uma camioneta a gasogénio, operada pelo gás gerado por um fogão de carvão, montado na retaguarda da viatura. Os homens de Grand Pierre tinham saído um quilómetro atrás, e ele conduzia bastante depressa, assobiando desafinadamente entre dentes.
Genevieve perguntou:
--Que sucede se depararmos com uma patrulha alemã?
--Se depararmos com o quê?--Ele cheirava mesmo mal, assim tão perto.
--Uma patrulha alemã!--repetiu ela.
--Pouco provável, por estas bandas. Eles só saem quando é necessário. O que equivale a dizer que só saem durante o dia, e em força. Se houvesse alguma patrulha num raio de vinte quilómetros, pode ter a certeza que há muito o saberia!
Poderia ter-se rido, pois tudo se lhe afigurava macabro, fantástico: --Por conseguinte, tem o sistema montado?
--Sempre gostei de a ouvir ao telefone. Ainda bem que a conheço pessoalmente--disse ele.--Foi alguma vez a Oxford?
--Nunca.
--E a NorfoLk?
--Também não.
Chegaram ao cimo de uma colina no momento em que o céu clareava e mostrava a Lua, a cuja luz se distinguia a linha do caminho de ferro e a povoação de Saint Maurice, no fundo do vale.
--É uma pena! Costumava caçar por esses lados. Perto de Sandrigham, onde o rei tem uma propriedade. Um sítio lindo.
--Sente-lhe a falta?
--Nem por isso. Faço de conta que sim, para ir andando. Quer dizer, que faria eu sem esta gente? Cheire-me.
Formidável, não acha? Falem depois no regresso à
natureza...
--Que fazia antes disto?
--Antes da guerra, quer dizer? Ensinava literatura inglesa numa escola secundária do Estado.
--Diverte-o, este trabalho?
--Oh! Mas claro que sim, é como se fosse uma espécie de escutismo para rapazes, eu sei lá! Lembre-se, Miss Trevaunce, que as dores maiores na vida são causadas pelas pétalas de rosa que fizemos murchar, e não pelos espinhos que nos picaram! Não concorda?
--Nem sequer tenho a certeza de o estar a compreender muito bem.
--Exactamente o que costumavam dizer os meus alunos.
--Estavam a entrar na aldeia e ele começou a
' Ausweis: bilhete de identidade. (N. do T.) abrandar. --O cais de mercadorias, ali mais adiante --informou.
Passaram por dois enormes postes de portão e foram sacolejando pela calçada adiante, até a uma casa à esquina.
A camioneta parou. Alguém abriu a porta da casa e espreitou. René saltou para terra. Genevieve seguiu-o.
--Muito obrigada!--agradeceu ela.
--Ora! Foi um prazer!--Grand Pierre sorriu-lhe--As pétalas de rosa que fizemos murchar. Pense nisto Afastou-se, conduzindo a camioneta. Voltou-lhe as costas e acompanhou René para dentro da casa.
Sentou-se em frente do espelho, no pequeno quarto, com as malas de Anne-Marie sobre a cama, a mala de mão aberta e os documentos espalhados sobre a colcha Um bilhete de identidade francês, o Ausweisl alemão; cartões de racionamento e carta de condução. Aplicou a máscara de beleza com cuidado. Madame Dubois abriu a porta e entrou: era uma mulher baixa, de pele escura, com uma cara cansada e um vestido cinzento já muito usado. As meias tinham buracos e os sapatos estavam muito esbeiçados.
Era notório que não lhe agradava o que via. Olhando o vestuário elegante espalhado sobre a cama, os lábios comprimiram-se-lhe numa linha fina; era o fato azul de Paris, com a saia pregueada, eram as meias de seda, era a blusa de seda cinzento-clara...
Lembrando-se de quem pretendia ser, Genevieve disse com brusquidão: --Da próxima vez, bata primeiro. Que pretende?
Madame Dubois encolheu os ombros, em gesto de defesa.
--O comboio, mamselle. Acaba de chegar. O meu marido pediu-me para lhe dizer.
--Muito bem. Diga ao René para trazer o carro. Des ço Ja
Saiu. Genevieve aplicou um pouco de baton nos lábios, hesitoU e voltou a pôr um pouco mais, lembrando-se do que Michael, o cabeleireiro, lhe dissera em Cold Harbour. Vestiu-se rapidamente-roupa interior, meias, combinação, blusa, saia: tudo de Anne-Marie. À medida que se vestia, parecia-lhe ir-se desfazendo de um pouco de si própria.
Vestiu o casaco e olhou-se ao espelho: não sentia medo, apenas uma certa excitação. A verdade é que estava muito bem, e tinha consciência disso. Fechou a mala com um estalido, pôs o casaco comprido de lã cardada azul sobre os ombros e saiu.
Encontrou Henri Dubois com a mulher na cozinha.
Era um homem baixo, de faces cavadas e aspecto simples, a última pessoa que se poderia imaginar metida num problema daqueles.
--René foi buscar o carro, mamselle.
Tirou a cigarreira de prata e ónix da carteira e acendeu um cigarro: --Traga as minhas malas para baixo.
--Sim, mamselle.
Saiu. Genevieve acendeu o cigarro e dirigiu-se para a janela, cônscia dos olhos da mulher sobre ela, hostil e cheia de censura, mas isso pouco interessava. Nada mais interessava do que o trabalho que tinha entre mãos.
O Rolls-Royce saiu de um dos barracões de mercadorias e parou junto da porta, no momento em que ela a abria. René, de uniforme de motorista, saiu do carro e deteve-se ao fundo das escadas, olhando-a, impassível.
Abriu lhe a porta do carro sem proferir palavra e ela sentou-se no assento de trás.
Dubois desceu com as malas. Colocou-as no porta-mala do carro, e veio até à janela, enquanto René se
sentava ao volante:
--Peço à mamselle que apresente os meus respeitos à
senhora condessa.
Genevieve não respondeu, limitando-se a fazer subir o vidro e a tocar no ombro de René. Quando saíam do recinto, notou os seus olhos no espelho retrovisor, vigiando-a, uma vez mais como que toldados por uma sombra de receio.
"É a partir de agora que tudo começa, na realidade!", pensou ela, encostando-se, agitada, e tirando outro Gitane.
À medida que foram andando, a paisagem foi-se tornando familiar, campos verdes e floresta, montanhas à esquerda coroadas de neve, o rio a brilhar ao sol da manhã, no vale, lá em baixo. Um pastor, de casacão de pele de carneiro, tocava o rebanho encosta acima.
--As colinas da infância. Nada muda.
--Ou tudo muda, mamselle.
Como é evidente, ele tinha razão. Aconchegou-se no .
casaco, pois estava bastante frio. Aproximavam-se de uma aldeiazinha, de que ela ainda se lembrava e que se chamava Pougeot.
.
Inclinou-se para a frente, dizendo:
--Quando éramos crianças, tu costumavas parar aqui, ao pé do café da praça, para nos comprares gelados. Era o Danton e a filha que exploravam a loja. Ainda são eles os donos?
--O pai foi fuzilado o ano passado, por actividades terroristas, no dizer dos boches. A filha está na cadeia de Amiens. A propriedade foi confiscada e vendida. Quem a comprou foi Combould.
--O tio Combould? Mas como é possível?
--É muito simples. Como tantos outros, ele trabalha para eles, faz negócio com eles e, entretanto, vai fazendo fortuna. Pessoas como ele alimentam-se de carne da França. Como lhe disse, mamselle, tudo muda.
Havia trabalhadores nos campos, e, ao passarem pela aldeia, achou as ruas estranhamente desertas.
--Não se vê muita gente por aqui!
--Grande parte dos homens capazes foram deportados para campos de trabalho da Alemanha e as mulheres é que tratam das quintas. Até teriam mandado um cão velho como eu, só com um olho e tudo, não fosse a intervenção da senhora condessa.
--E ela não pôde fazer nada pelos outros?
--Ela faz o que pode, mas em França, nestes tempos, é difícil fazer-se qualquer coisa, como o vai descobrir muito em breve.
Após uma curva, surgiu-lhes pela frente um Mercedes preto, na berma da estrada. A tampa do motor estava levantada, e um soldado alemão parecia trabalhar no mesmo.
A seu lado um oficial alemão fumava um cigarro.
--Santo Deus! É Reichslinger!--disse René, observando o oficial, que entretanto se voltara e levantava uma mão.--Que fazemos?
--Paramos, evidentemente.
--Ela despreza este tipo, e dá boas mostras disso!
--E, quanto mais ela o despreza, mais ele insiste?
--Exactamente.
--Bem. Vejamos então como nos portamos, está bem?
Abriu a mala, tirou a Walther que Craig lhe tinha dado e meteu-a no bolso do lado direito. O carro parou, e, vendo Reichslinger aproximar-se, baixou o vidro da janela.
Tal qual a fotografia que lhe tinham mostrado: cabelo louro, olhos pequenos sob o boné, um ar de maldade que a farda, com os caracteres rúnicos da SS na carcela do colar, em nada contribuia para melhorar.
Ele sorriu, e, ao fazê-lo, ainda tornava a fisionomia mais desagradável.
--Estou com sorte!--disse ele em francês.
--Não me diga!--respondeu Genevieve com frieza.
O alemão apontou o carro.
--A bomba de gasolina está com problemas, e este imbecil, ao que parece, não consegue dar conta do recado.
--E então?--perguntou ela.
--Dadas as circunstâncias, sou forçado a pedir-lhe boleia.
Deixou-o suspenso por um momento, fazendo-o esperar, com as faces amarelentas a corarem aos poucos, e então disse: --A raça superior a exercer a sua superioridade? Que mais posso eu dizer senão que sim?
Encostou-se para trás e subiu o vidro. Ele deu a volta ao carro, sentou-se a seu lado, e René afastou-se.
Tirou mais um cigarro, e ele acendeu o isqueiro, de imediato.
--Espero que tenha passado uns dias agradáveis, em Paris!--O francês era suficientemente bom, mas o sotaque era tremendo.
Respondeu-lhe:
--Nem por isso. Os serviços são abomináveis, hoje em dia, e é-se constantemente detido e revistado, o que se me afigura extremamente incómodo. Claro, vocês, os militares, têm de representar o papel que vos compete, suponho eu.
--Mamselle, posso garantir-lhe que tudo isso é
absolutamente necessário. Os meus camaradas da SS, em Paris, têm conseguido sucessos brilhantes na busca de terroristas.
--Na verdade? Não vejo então porque é que todos esses militares ainda não conseguiram eliminar totalmente o movimento da Resistência!
--Não faz ideia das dificuldades...
--Para lhe ser franca, nem faço nem quero fazer. Não se trata de assunto que me interesse minimamente!
Conseguira irritá-lo, mas ela ofereceu-lhe um daqueles belos sorrisos que haviam tornado a irmã famosa, e teve a satisfação de o ver engolir em seco.
--Como está o general?--perguntou.--Espero que esteja de boa saúde.
--Tanto quanto sei...
--E o major Priem?
--Standartenfuhrer, desde ontem.
--Coronel? Mas que simpatia! --Riu-se: --Claro, ele leva tudo muito a sério, mas deverá concordar que é eficiente, de facto.
Reichslinger fez cara de desagrado:
--Com os outros a fazer-lhe o trabalho!--Não fora capaz de se conter.
--Sim, presumo que o senhor se sinta aborrecido.
porque não pede uma transferência? Penso que a Rússia deveria ser óptimo. Honra e glória, por lá!
Ela estava mesmo a divertir-se, pois ele tinha-a indubitavelmente aceite como Anne-Marie Trevaunce. De certo modo, via agora que este encontro fora o melhor que lhe podia ter sucedido.
--Tenho muita honra em ir para onde o Führer determine
---respondeu ele, rigidamente.
Entravam nessa altura numa curva, e René teve de desviar o carro bruscamente de uma velha que conduzia uma vaca pela estrada. Genevieve foi arremessada contra o canto, juntamente com Reichslinger também, e sentiu-lhe a mão no joelho.
--Não se magoou, mamselle?
A voz era rouca, e a mão no joelho apertava com mais força.
Ela respondeu gelidamente:
--Gostaria que tirasse a mão do meu joelho, Reichslinger, caso contrário terei de lhe pedir para sair do carro.
Estavam perto da aldeia de Dauvigne e René, pressentindo problema, começou a chegar-se à berma da estrada, abrandando a marcha para deter o carro. Reichslinger, que já tinha ido longe de mais para voltar atrás, subiu a mão um pouco mais.
--Que se passa?--perguntou.--Acha que não sou suficientemente bom para si, é isso? Posso mostrar-lhe que sou tão bom quanto Priem, em todos os dias da semana.
--Na verdade, nem é. É que o coronel é um cavalheiro, o que o senhor não é, de nenhum modo! Para ser perfeitamente honesta consigo, o senhor está bastante abaixo de mim!
--Sua cadela arrogante, eu já lhe mostro...
--Não mostra coisíssima nenhuma!--Tirou a mão do bolso, apontando-lhe a Walther. Fez deslizar a patilha de segurança num movimento suave, tal como Craig a ensinara a fazer, e encostou-lhe a boca do cano ao flanco.
--Saia do carro!
René travou e o carro deteve-se. Reichslinger afastou-se dela, os olhos arregalados de raiva. Abriu a porta do carro e saiu, tropeçando. Ela fechou a porta e René afastou-se imediatamente.
Genevieve olhou para trás, e viu
Reichslinger na berma da estrada, com um ar de cão abandonado.
--Saí-me bem?--perguntou ela.
--Sua irmã teria tido orgulho em si, mamselle.
--?ptimo!
Reclinou-se no assento do carro e acendeu mais um cigarro.
Passaram o cimo da colina. A cerca de um quilómetro avistava-se o Castelo de Voincourt, cinzento sob a luz do sol e abrigado entre o arvoredo, com as montanhas como fundo. Casa nobre, sobrevivente das guerras religiosas, da Revolução, de sucessivos tempos maus. Como sempre sucedera cada vez que aqui voltava, desde os tempos de criança, sentia-se invadida de uma sensação de tranquilidade e felicidade total, que a simples contemplação da paisagem lhe provocava de imediato.
Ao prosseguirem pela estrada estreita, o chateau desapareceu durante alguns momentos, na passagem pela mata de pinheiros. Voltou a surgir pouco após, trinta metros acima da encosta, como se, hoje como no passado, aguardasse a sua vinda, oculto por detrás das paredes cinzentas.
Os portões estavam abertos, mas a passagem era vedada por uma cancela levadiça. Ao lado, a casa da guarda, de madeira, e uma sentinela armada de pistola-metralhadora: não obstante fazer serviço na SS, não era mais do que um rapaz, e, inclinando-se para a frente, pediu, em mau francês: --Os documentos.
--Mas eu vivo aqui!--exclamou ela, parecendo muito surpreendida.--Não me conhece?
--Lamento, mamselle, mas são as ordens que tenho.
Tem de me mostrar os documentos.
--Muito bem!--disse ela.--Rendo-me! Sou uma espia inglesa e vim dinamitar o chateau!
Uma voz calma cortou a conversa, falando em alemão.
Não entendeu uma única palavra, contrariamente à sentinela, que correu a levantar a cancela. Voltou-se para o homem que saiu da casa da guarda, um coronel da SS
com o blusão de pára-quedista, cinzento, a Cruz de Cavaleiro suspensa do pescoço, a caveira no boné brilhando ao sol da manhã. Uma coisa era certa. Não precisava de René para lhe dizer de quem se tratava.
--Max, que amável.
Max Priem abriu a porta e entrou:
--Prossiga!--disse a René.--A propósito, o moço só cá está há três dias.--Beijou-lhe a mão.--Nunca entendi o prazer que tem em provocar os meus homens.
Baixa-lhes o moral. Reischslinger fica extremamente irritado.
--De momento, não--comentou ela.--Tem outras preocupações.
Os olhos azuis tornaram-se subitamente mais atentos.
--Explique-se.
--O carro em que vinha avariou perto de Pougeot.
Dei-lhe uma boleia.
--Sério? Não o vejo!
--fi-lo descer novamente, perto de Dauvigne. Não faço ideia de qual tenha sido o treino que recebeu, mas certamente que nele não se incluía o modo de se comportar com uma senhora.
A boca sorriu-se, mas os olhos não.
--E de saiu do carro calmamente? Reichslinger? É isso que me quer dizer?
--Com uma pequena ajuda deste meu amigo.
Apresentou-lhe a Walther, e ele tomou-lha das mãos.
--Isto é uma arma do Exército alemão. Onde a arranjou?
--Um empregado de bar meu conhecido, em Paris.
Coisas dessas são fáceis de arranjar no mercado negro, e uma rapariga, hoje em dia, precisa de se proteger de qualquer modo!
--Paris, disse?
--Bom, espero que não se convença que lhe vá dizer o nome do moço.
Sopesou a pistola por um momento, e voltou a entregar-lha. Genevieve meteu-a na mala.
--Que tal a viagem?
--Não foi grande coisa. Paris já não é aquilo que foi!
--E a viagem de comboio?
--Abominável.
--Como assim?
Por qualquer motivo, sentiu alguma ironia na voz dele.
Olhou-o de relance rapidamente, de olhos semicerrados, um pouco desconcertada e sem o compreender. Pararam ao fundo das escadas que conduziam ao portão principal.
Ele ajudou-a a descer, e René deu a volta ao carro, tirando para fora as malas.
--Eu levo-lhas--disse Priem.
--Sem dúvida que, hoje, está a mortificar a carne-disse ela.--Um coronel da SS, com uma mala em cada mão, como se fosse um porteiro de hotel? Devia ter uma máquina fotográfica, neste momento. Certamente que em Paris ninguém o acreditaria. As minhas felicitações pela sua promoção, coronel.
--Um dos nossos lemas é que nada é impossível para um homem da SS--respondeu ele.
Ela começou a subir os degraus. René dirigiu-se-lhe, dizendo, em voz alta: --Mais alguma coisa, mamselle?--E, num sussurro:
--Não se esqueça que o Quarto Rosa é que é o seu.
O da senhora condessa é na porta seguinte.
Era desnecessário recordá-lo, pois tinha decorado em Cold Harbour a situação actual no chateau. Ele estava com algum receio, bem o podia ver. Gotas se suor perlavam-lhe a testa.
Respondeu-lhe:
--Nada mais, obrigada, René.--Voltou-se e subiu as escadas, atrás de Priem.
Havia uma sentinela de cada lado do portão da entrada, mas o átrio estava tal qual o recordava, até ao pormenor das decorações e dos quadros nas paredes. Subiram juntos as escadarias de mármore.
Perguntou:
--Como passa o general?
--Aquela perna dele está um pouco presa. Com esta chuva que tem caído! Vi-o há pouco, a passear no jardim.
Entraram no corredor. Parou em frente do Quarto Rosa e aguardou. Ele suspirou, pousou a mala e abriu-lhe a porta.
Quando ainda criança, tinha dormido muitas vezes neste quarto. Era claro e arejado, com portas envidraçadas dando para uma varanda. Os cortinados eram de veludo vermelho e a mobília não tinha sido mudada. Mogno polido. Cama, toucador, guarda-roupa. Tudo.
Priem fechou a porta, atravessou o quarto e colocou as malas na cama, voltando-se em seguida. Um sorriso ligeiro e grave entreabria-lhe os lábios, e tinha um ar de expectativa, como se estivesse à espera de qualquer coisa.
--Bem?--disse ela.
--Bem seja!--Sorriu-se.--Pobre Anne-Marie. Paris estava assim tão mal?
--Acho que sim.
--Então, temos de tentar melhorá-lo, para si.--Bateu os calcanhares, de um modo formal.--Mas o dever chama-me. Falaremos mais tarde.
Sentiu um enorme alívio quando a porta se fechou atrás dele. Lançou o casaco sobre a cama, abriu as portas envidraçadas e saiu para a varanda. Dava para uma parte do jardim. A entrada principal situava-se mais à direita, e a varanda da tia ficava próxima da esquina.
Havia uma cadeira de baloiço de faia trabalhada, de que se lembrava muito bem. Sentou-se nela, fazendo-a balançar com suavidade. O sol batia-lhe na cara. Quantas vezes Anne-Marie fizera isto mesmo?
Priem atravessou o corredor e parou no cimo da escadaria, escutando o barulho das botas das sentinelas, prestando continência a alguém, lá em baixo. Momentos mais tarde entrou Reichslinger.
--Reichslinger!--chamou Priem.
--Meu coronel?
--No meu gabinete. Já.
Reichslinger tinha um ar de lebre perseguida.
Atravessou o átrio e desapareceu no corredor. Priem desceu lentamente, deteve-se ao fundo das escadas para acender um cigarro e atravessou o átrio. Quando entrou no gabinete, o jovem Hauptsturmführer estava de pé, ao lado da secretária. Priem fechou a porta.
--Ao que sei? esteve a brincar aos rapazes, novamente.
Reichslinger parecia de mau humor.
--Não percebo o que quer dizer!
--Mademoiselle Trevaunce. É minha impressão que o senhor não se esforçou o suficiente para se comportar como um cavalheiro.
--Ela tinha uma pistola, Standartenführer, uma Walther.
--Que o senhor a obrigou a usar, provocando-a?
--A pena para um civil que esteja na posse de uma arma é a morte, como muito bem sabe.
--Reichslinger--respondeu-lhe Priem, com ar paciente.--Aqui dentro, há rodas que fazem girar rodas.
Coisas das quais o senhor nada sabe. Por outras palavras, meta-se na sua vida.
E Reichslinger, incapaz de conter a raiva por mais tempo, exclamou, com ódio na voz: --Que esta rapariga Trevaunce é assunto seu, sei-o eu demasiado bem, Standartenführer.
Priem pareceu ficar muito quieto, com a face calma.
Olhando-o, Reichslinger teve medo. O coronel aproximou-se e apertou-lhe um botão do dólman, com muito cuidado.
--Mal ataviado, Reichslinger. Não pode ser! Não posso permitir que um dos meus oficiais constitua tão mau exemplo para os homens.--Deu a volta à secretária e tirou um documento de um tabuleiro.--Uma mensagem de Berlim. Deprimente. Os batalhões da SS, na Rússia, estão com grande falta de oficiais. Pergunta se podemos dispensar algum.
A garganta de Reichslinger ficou seca.
_ Standartenführer?--murmurou.
--Uma colocação sem grande interesse, até porque o Exército leva a efeito uma retirada total, na frente leste.
Reichslinger disse:
--Desculpe, mas não era minha intenção...
--Sei perfeitamente qual era a sua intenção.--De repente, Priem pareceu o próprio Diabo.--Se alguma vez me voltar a falar da forma que o fez, se uma vez só voltar a sair da linha...--E dizendo-o, levantou no ar a mensagem.
A cara de Reichslinger tornara-se da cor da cinza.
--Sim, senhor.
--E agora, saia.--O jovem dirigiu-se para a porta e abriu-a. Priem acrescentou:--Reichslinger!
--Standartenführer?
--Se voltar a incomodar Mademoiselle Trevaunce do modo que o fez, pode crer que o abato a tiro.
Genevieve, sentada na cadeira de balanço do Quarto Rosa, recordava--sem razão aparente--um incidente que se dera quando tinha catorze anos. Agachada no escuro, no patamar, observava um dos bailes de Hortense, a horas em que ela e a irmã deveriam já estar na cama.
Anne Marie tinha descoberto que o jovem mais bem-parecido em toda a sala era também o mais rico em toda a França.
--Se vir que não tenho dinheiro suficiente, quando for mais velha, caso-me com ele.. Faremos um par perfeito. Ele é tão louro e eu sou tão morena!
Genevieve acreditara nela. A voz ainda soava, após tantos anos, e, então, compreendeu que Anne-Marie tinha mudado necessariamente um pouco, pois assim sucedera com tudo na vida. A rapariga de quem se recordava na infância e que vira pela última vez há quatro anos--não tendo em conta Hampstead, é evidente-modificara-se. Forçosamente. Era imperioso que repensasse de novo todo o problema.
Sempre tivera o receio de ser completamente posta de parte por causa de Anne Marie, do mesmo modo que sempre tivera a sensação de que, por uma razão que lhe era totalmente estranha, nunca deveria ter nascido.
Sentada ali, recordando tudo, via agora que sempre houvera um laço qualquer entre as duas--como que uma espécie de ressentimento mútuo, resultante do facto da existência da outra.
Era estranho como este lugar tão tranquilo lhe provocava pensamentos tão estranhos. Em certo momento, apercebeu-se de movimento no quarto. Levantou-se e entrou. Vestido preto, avental branco, meias e sapatos escuros, a criada de quarto perfeita, Maresa debruçava-se sobre as malas.
--Larga isso!--ordenou Genevieve.
A voz irritada e, lá bem dentro, um poucochinho de medo. Mais uma que tinha de convencer, mais alguém que a conhecia muito intimamente.
--Quero dormir!--disse.--A viagem foi horrível.
Podes desfazer as malas mais tarde.
Por um momento, julgou pressentir ódio nos olhos negros, e cogitou o que poderia ter Anne-Marie feito para o merecer.
Maresa perguntou:
--Talvez a mamselle deseje um banho quente...
--Mais tarde, rapariga.
Fechou a porta, após Maresa sair. Encostou-se à parede Ao entrar na sala de estar da tia, Genevieve teve a sensação de ter passado a outro mundo. Uma das paredes estava inteiramente coberta por um mural que certo artista chinês de fama tinha feito propositadamente para ela. Era delicado, belo, com pormenores complexos tão primorosamente pintados quanto as árvores verdes e os estranhos e insólitos templos e personagens. Do tecto pendiam até ao chão pesadas cortinas de seda azul.
Hortense estava ajoelhada sobre uma chaise-longuel desbotada, olhando para o jardim.
Da última vez que aqui estivera, o jardim reflectia o encanto e o calor de um Verão antecipado, com as roseiras enleando-se em redor da estátua de Vénus. Agora, embora ainda não houvesse flores, lá se encontravam no entanto as coisas de que se lembrava, como a enorme fonte de pedra, com o rapaz e o golfinho, no meio do relvado.
O general Ziemke estava sentado num banco, ao pé do talude à direita: o cabelo branco-prateado, mais prateado do que nas fotografias, e, pela cara, observado a distância, parecia ainda um homem na força da vida. Passara pelos ombros um capote com uma enorme gola de pele, e fumava um cigarro numa boquilha longa. Parecia imerso em pensamentos e coçava ocasionalmente a perna doente, como que Para lhe tentar restabelecer a sensibilidade.
--Que desejas?
Genevieve voltou-se e viu-a, tal como da última vez que aqui estivera.
--Chantal, pregaste-me um susto!
A cara feia e rígida não suavizou a expressão nem um pouquinho.
--Que desejas?--voltou a repetir.
--Ver a minha tia, claro. Fazes objecção?
--Está a descansar. Não te deixo incomodá-la.
Cara de machado, era o que ela lhe costumava chamar, severa e incansável, e nunca ninguém lhe conseguira levar a melhor.
Genevieve ripostou-lhe, com voz paciente:
--Ao menos uma vez, Chantal, faz o que te dizem. Sê
simpática, e pergunta à tia Hortense se me recebe. Se não o fizeres, entro à mesma.
--Sobre o meu cadáver.
--Bom, posso resolver o problema.--Ficara subitamente impaciente, a personalidade de Anne-Marie tomando o controlo da situação.--Por amor de Deus, não sejas tão irritante!
Os olhos de Chantal faiscaram com a blasfémia, pois era extremamente religiosa.
--Sabes para onde vais, não é verdade?
--Desde que lá não estejas!
A porta atrás dela estava ligeiramente entreaberta.
Quando Genevieve se voltou para entrar, ouviu a voz ainda familiar, a despeito dos anos decorridos, e sentiu a boca secar-se-lhe e o coração apressar a batida.
--Se tem tanta pressa de me ver, é porque alguma coisa se passa. Deixa a entrar!
Chantal abriu a porta, e Genevieve viu a tia sentada na cama, encostada a travesseiros, a ler um jornal. Passou, fez um sorriso simpático e disse: --Obrigada, Chantal.
Porém, mal se viu dentro do quarto, sentiu-se perdida.
"Que vou dizer?", pensou. "Que diria Anne-Marie?"
Respirou fundo e avançou:
--Porque é que ainda a suporta?--exclamou, lançando-se sobre uma cadeira ao pé da lareira, e olhando para a cama.
Tinha a consciência de uma sensação de
intensa excitação, e de que só desejava lançar-se nos braços da tia.
Dizer-lhe que era ela, Genevieve, que voltara após tantos anos.
--Desde quando te preocupas com isso?--Era uma voz sem corpo, vinda detrás do jornal. Baixou-o. Era ainda a Hortense que conhecera mas muito envelhecida em relação à última vez que a vira.
--Dá-me um cigarro!--atirou-lhe ela.
Genevieve abriu a mala de mão, tirou o isqueiro e a cigarreira de prata e ónix, e lançou lhos sobre a cama.
--Nova!--disse Hortense, abrindo a.--Muito linda!
Acendeu um Gitane. Genevieve apanhou a cigarreira, pô-la na mala e passou lhe o isqueiro, deixando que a manga da blusa lhe subisse pelo braço. Hortense hesitou, de olhos inexpressivos, e devolveu-lho.
--Paris foi uma maçada!
--Calculo que sim.--Inalou o fumo com força.-Chantal diz que devia deixar de fumar. Quando lhe peço um maço de tabaco, sempre arranja forma de se esquecer.
--Livre-se dela!
Hortense ignorou-a por um momento, dando-lhe azo a adaptar-se melhor à situação. Da última vez que a vira, a tia aparentava uns escassos quarenta anos--ela sempre parecera mais nova. Na realidade, não se podia dizer que tivesse um ar avelhentado, mas apenas que envelhecera mais do que os quatro anos que haviam decorrido desde a última vez que a vira.
--Queres alguma coisa?--perguntou Hortense.
--Quem? Eu?
--É o costume.--Puxou mais uma fumaça, e passou o cigarro a Genevieve.--Acaba-o, só para não incomodar a Chantal.
--Não te vai acreditar. Aquilo é um cão de caça, bem o sabes.
--É uma brincadeira nossa. Pouco mais se pode fazer.
--Então, e o general Ziemke?
--Carl, a seu modo, é perfeito. Pelo menos, é um cavalheiro, o que é mais do que se pode dizer dos outros, lá em baixo. Escumalha como o Reichslinger, por exemplo.
Para eles, boa educação é sinónimo da arte de bem montar um cavalo, apenas.
--E Priem?, que dizes dele?
--Se bem sei, foi ele quem te trouxe as malas do carro.
Está apaixonado por ti?
--Tu é que mo podes explicar. No final de contas, és uma autoridade no assunto.
Recostou-se nas almofadas, olhando fixamente para Genevieve, com os olhos reduzidos a fendas: --Uma coisa te digo. É um homem, esse alemão. Mas só ele.
--Não me diga!
--Não é um tipo qualquer, com quem se possa brincar impunemente. Se fosse a ti, passava-lhe ao largo.
--Isso é um conselho ou uma ordem?
--Nunca foi da tua inclinação fazer o que te tenham aconselhado!--disse ela.--Mas, também, nunca te considerei parva. Sabes bem que, por via de regra, costumo ter razão nestas coisas.
Genevieve debatia-se agora com um problema, pois Hortense era aquela pessoa que sabia sempre tudo o que se passava em casa, mas, ao mesmo tempo, não queria envolvê-la. De qualquer modo, nada lhe contaria sobre ela própria. Por amor dela, melhor seria mantê-la na ignorância absoluta do que se estava a passar.
--Que tal, se te contasse porque te vim falar?
--Provavelmente, mentir-me-ias.
--Um banqueiro suíço desesperadamente apaixonado!
--O amor verdadeiro, finalmente? Uma coisa dessas, passar-se contigo, Anne-Marie?
--Não acreditas numa palavra do que te estou a dizer, não é verdade?
--Não será sempre o caminho mais seguro? Ora, diz-me lá o que pretendes e dá-me mais um desses teus cigarros.
Pegou na mala de Genevieve e abriu-a antes que esta a pudesse impedir, e vasculhou o que continha. Fez uma pausa, ficou muito quieta e tirou a Walther.
--Tem cuidado!--exclamou Genevieve, tentando agarrá-la e deixando uma vez mais que a manga lhe subisse pelo braço.
Hortense largou a pistola e agarrou-lhe o pulso direito com uma força tremenda, de tal modo que a fez cair de joelhos, ao lado da cama.
--Uma vez, quando ainda eras menina de oito anos, entraste no lago do jardim inferior, o do rapaz com a corneta. Disseste-me mais tarde que querias trepar pela estátua e beber a água que lhe jorrava da boca.-Genevieve abanou a cabeça, estupidamente. A pressão da mão aumentou.--Um dos dedos de bronze da estátua estava partido. Quando desceste, escorregando, feriste-te no braço. Mais tarde, neste mesmo quarto, sentaste-te nos meus joelhos, enquanto o doutor Marais te fazia o tratamento.
Quantos pontos foram... cinco?
--Não! Estás enganada!--Genevieve esbracejava freneticamente.--Foi a Genevieve!
--Claro que foi!--Hortense correu o dedo ao longo da fina cicatriz branca, perfeitamente visível na parte de dentro do antebraço direito.--Eu vi-te chegar, cherie-disse ela.--Da janela deste quarto.--Abrandou a pressão dos dedos, e passou-lhe a mão pelos cabelos.
--Desde o momento em que saíste daquele carro, desde esse momento! Julgavas que não era capaz de vos distinguir?
Havia lágrimas nos olhos de Genevieve. Lançou-lhe os braços em volta do pescoço. Hortense beijou-a com doçura, apertou-a contra si durante um momento e depois disse, com doçura: --E agora, chérie, a verdade.
Quando acabou o seu relato, ainda estava ajoelhada ao lado da cama. Fez-se uma pausa longa e, então, Hortense deu-lhe umas palmadinhas na mão.
--Gostaria de beber um cálice de conhaque. Ali, no armáriO de laca chinesa, ao canto.
--Mas não lhe fará mal? A sua saúde...
--De que estás para aí a falar?--Hortense mostrava-se aborrecida com a recomendação.
--Disseram-me que sofria do coração. O brigadeiro Munro disseme que não passava bem!
--Mas que disparate! Achas me com cara de doente?
Estava quase encolerizada. Genevieve respondeu:
--Não, está com óptimo aspecto, se é que o deseja saber. Vou-lhe buscar o seu brande.
Abriu o armário. Por conseguinte, mais uma prova de falta de honestidade da parte de Munro, só para a empurrar um pouco mais na direcção que ele pretendia que ela fosse e a que Craig Osbourne aquiescera. A mão tremia-lhe um pouco, ao deitar um pouco de Courvoisier num cálice de cristal, que levou à tia.
Hortense bebeu-o de um gole rápido, e olhou pensativa para o fundo do copo.
--Pobre Carl!
--Porque diz isso?
--Pensas que voltarei a consentir que ele me ponha as mãos em cima, agora que sei o que esses animais fizeram a Anne-Marie?--Colocou o copo na mesinha-de-cabeceira.
--Anne-Marie e eu vivíamos em estado de conflito permanente. Ela era egoísta e completamente insensível a tudo o que se referia à satisfação dos seus desejos... mas era minha sobrinha, meu sangue e minha carne. Uma De Voincourt.
--E actuou como tal, nestes últimos meses.
--Sim, e tens razão ao dizer que não se pode perder o que fez até agora.
--E é essa a razão por que estou aqui.
Hortense estalou os dedos:
--Dá-me mais um cigarro, e diz a Chantal para me preparar a água. Vou tomar um banho de imersão durante uma hora, para repensar as coisas um pouco melhor, e ver o que podemos fazer em retribuição a esses cavalheiros lá de baixo. Vai dar uma volta, chérie. Volta dentro de uma hora Chovia em Cold Harbour. Craig entrou na cozinha, procurando Julie. Ela reparou no uniforme, na gabardina que usava.
--Vai-se embora?
--É verdade. O tempo levantou, em Croydon. Sigo para lá com o Munro, no Lysander.--Passou-lhe um braço pela cinta: --Sente-se bem? Nem parece a mesma.
Ela sorriu com desalento:
--Eu sei que faz troça do meu baralho de Tarot, Craig, mas é mesmo verdade que eu tenho um dom para deitar as cartas. Pressinto quando as coisas não se vão passar como deviam.
--Explique-se melhor!
--Genevieve e a irmã. Há aqui qualquer coisa que nos escapa. Ou melhor, muita coisa. Tenho a sensação que o que Munro nos contou nem de perto nem de longe se assemelha à verdade.
O estômago deu-lhe uma volta: é que, na realidade, acreditava no que ela dizia.
--Genevieve!--pronunciou ele docemente, apertando os ombros de Julie com as mãos.
--Eu sei, Craig, eu sei. Tenho medo!
--Não tenha. Vou tratar do assunto--Sorriu-lhe:-Tem cá o Martin, apoie-se nele, fale-lhe no assunto.
Diga-lhe que vou fazer algumas averiguações, quando chegar a Londres.--Beijou-a na face.--Tenha confiança em mim. Sabe bem o traste que sou quando me fazem zangar.
Sentou-se ao lado de Munro, no avião. O brigadeiro tirou uns papéis da pasta e estudou-os. Sabia perfeitamente que não valia a pena atacá-lo frontalmente, nesta altura.
Dirigiu-se-lhe:
--Nesta altura já ela está bem enfronhada na situação.
--Enfronhada na situação?--Munro olhou para cima.--De que está a falar?
--De Genevieve. Já lá deve estar, a estas horas.
Chateau de Voincourt.
--Ah! Voincourt!--Munro fez um aceno com a cabeça.
--Vamos a ver como as coisas se passam. Trata-se de uma amadora, claro, será bom que não o esqueçamos.
--Foi coisa que não pareceu incomodá-lo muito, logo à partida--respondeu-lhe Craig.
--Bem, não podia desmoralizá-la, não é verdade, meu caro? Quero dizer que não podemos esperar dela grandes resultados. Dois terços das mulheres que lançámos em operações tiveram um mau fim.
Regressou aos papéis, imperturbável. Craig continuou revolvendo os pensamentos na cabeça. Julie tinha razão.
Há mais qualquer coisa. Procedeu a uma análise passo a passo, recapitulando os factores intervenientes, a forma como as coisas tinham acontecido. A questão central era Anne-Marie, na verdade. Se o que lhe acontecera não tivesse sucedido, se não fosse tão importante Munro falar com ela, cara a cara... Craig recordou-a tal como a vira da última vez, e estremeceu. A pobre rapariga, naquela cave em Hampstead, e Baum, a quem estava entregue, e que nem sequer era capaz de chegar perto dela!
Craig endireitou-se no lugar. Estranho, esse medo.
Muito estranho, realmente. Um médico que não conseguia aproximar-se de um dos seus doentes. Tinha de haver uma razão para o facto.
O voo não teve problemas. Enquanto se dirigiam para a limusina que os esperava em Croydon, perguntou a Munro:--Precisa esta noite de mim, meu brigadeiro?
--Não, meu caro, não preciso. Divirta-se, divirta-se.
--Sim. Talvez tente o Savoy--disse Craig, abrindo-lhe a porta do carro.
--As reuniões são sempre na biblioteca--esclareceu Hortense.--No resto do tempo, Priem usa-a como gabinete. Até dorme lá. Tem um gabinete mais pequeno a seguir ao de Reichslinger, para os problemas de rotina.
--Mas que dedicação a dele!
--Os papéis importantes, esses guarda-os no cofre da biblioteca.
--Atrás do retrato de Isabel, a décima primeira condessa?
--Ah! Ainda te lembras?
--Como é que soube disto tudo?
--Mais cedo ou mais tarde, cherie, todos os homens da minha vida me contam tudo... um hábito que criei, o hábito de encorajar. Carl não é diferente dos outros. Sabes, ele não é nazi, Deus me valha. Nem tão-pouco concorda com os nazis. De modo que, quando eles o incomodam, fala. Uma espécie de compensação.
--Sabe que Rommel vem cá depois de amanhã?
--Sim. Para discutir o sistema de defesa costeiro.
--A Muralha do Atlântico?
--E é por causa disso que vieste cá?
--Por causa das informações que possa conseguir.
--O que equivale a dizer que terás de ir ao cofre, pois é o único sítio onde poderás encontrar algo que valha a pena.
--Quem tem as chaves: o general?
--Não, Priem. Nem o próprio Carl tem liberdade de acesso ao maldito cofre. Queixa-se disso constantemente.
Quando eles vieram para cá, não tive outro remédio senão entregar-lhes as chaves!
--Mas não tinhas também uma chave sobressalente?
Hortense inclinou a cabeça, em sinal de concordância:
--Tinha, pois, mas eles também ma pediram. São muito eficientes, estes alemães. Todavia...--Abriu uma gaveta na mesinha de-cabeceira, tirou um cofre de jóias e levantou a tampa. Revolveu as jóias, procurando, e tirou uma chave.--Mas não lhes dei esta. Digamos, a sobressalente da sobressalente.
Genevieve exclamou:
--Oh!, tia, tu és maravilhosa!
--Claro, isto é apenas uma ajuda. Pois a falta de documentos dessa importância, se retirados do cofre, logo seria detectada.
--Evidentemente. Mas eu tenho uma máquina fotográfica!--Genevieve tirou a cigarreira, e tacteou a parte de trás, até conseguir fazer saltar o minúsculo opérculo.
--Estás a ver?
--Muito engenhoso.--Hortense fez um aceno de cabeça, em concordância.--Bem, a reunião realiza-se da parte da tarde. À noite há uma recepção e um baile, depois do qual Rommel regressará imediatamente a Paris.
Quer isto dizer que, se pretendes ver o que está no cofre, só o poderás fazer durante o próprio baile.
--Mas como?
--Parece-me que há um processo de o conseguir, chérie. Podes ficar descansada!--Hortense deu-lhe uma palmadinha na face.--Mas preciso de descansar um pouco, agora. Deixa-me só, por uns momentos.
--Claro!--Genevieve beijou-a e atravessou o quarto, dirigindo-se para a porta. Quando já a abria, Hortense disse: --Mais uma coisa!
Genevieve deteve-se:
--O que é?
--Bem-vinda a casa, querida! Sê bem-vinda!
Quando regressou ao quarto sentiu-se verdadeiramente cansada. A cabeça latejava-lhe, doendo-lhe de tal modo que quase lhe provocava náuseas. Correu as cortinas e deitou-se na cama, completamente vestida. Por conseguinte, Munro fora absolutamente desonesto com ela.
Vistas as coisas do seu ponto de vista, ainda o podia aceitar, porém, no que se referia a Craig Osbourne... Por outro lado, só assim tinha conseguido voltar para Hortense.
Por isso, quanto mais não fosse, tinha de lhe estar agradecida.
Acordou com Maresa a abaná-la docemente pelos ombros.
--Pensei que a mamselle gostaria de um banho quente antes do jantar...
--Sim, obrigada--concordou ela.
Maresa ficou obviamente desconcertada com a gentileza da resposta, e Genevieve apercebeu-se imediatamente que não estava a seguir o seu papel.
--Pronto! Despacha-te, rapariga!--acrescentou, com rispidez.
--Sim, "ulmselle.--Maresa entrou no quarto de banho e Genevieve ouviu o som de água a correr. Quando a moça voltou, ordenou-lhe: --Desfaz as malas e limpa isto, enquanto tomo banho!
Passou ao quarto de banho, largando a roupa no chão, tal como a irmã fazia desde que tinha cinco anos, e entrou na banheira. Não confiava em Maresa, e perguntou a si própria se ela não andaria a vigiar Anne-Marie Trevaunce por conta de alguém. Era uma bela rapariga, um pouco para o forte e para o indolente, mas não era estúpida. Aparentemente, mantinha-se calma e era educada, mas não podia deixar de recordar o lampejo de ódio que lhe vislumbrara nos olhos aquando da chegada.
Preguiçou durante algum tempo na água quente. Passado um bocado, ouviu um toque discreto na porta.
--São seis e meia, mamselle. O jantar hoje é às sete horas.
--Se me atrasar, atrasei-me. Que esperem!
Considerou por instantes a hipótese de se oferecer mais uns momentos de descanso, deixando-se ficar no quarto, alegando cansaço. Sim, mas não podia esquecer-se do general. Quando mais depressa se encontrassem, tanto melhor.
Saiu do banho a contragosto, lançou mão do roupão dependurado atrás da porta e entrou no quarto. Sentou -se ao toucador, e Maresa começou imediatamente a escovar-lhe o cabelo--um serviço que Genevieve sempre considerara irritante em extremo, mas que se forçou a aceitar, tal como Anne-Marie teria procedido --E que vestido vai a mamselle usar esta noite?
--Sabe Deus. Talvez seja melhor ir ver.
O que era de facto a única solução razoável, pois os guarda roupas estavam repletos de vestidos dos tipos mais diversos. A irmã tinha estilo, sem dúvida, e gostos caros a condizer. Acabou por escolher um chiffonT com azuis e cinzentos-pálidos, vaporoso e elegante. Os sapatos ficavam-lhe um pouco apertados, mas teria de se habituar a isso. Viu as horas. Já passavam cinco minutos das sete.
--Tempo de ir andando, ao que parece.
Maresa abriu-lhe a porta. Ao passar, quase podia jurar que a rapariga se ria à socapa.
Chantal subia as escadas, transportando uma bandeja coberta.
--Que se passa?--perguntou Genevieve.
--A condessa decidiu comer no quarto esta noite.-Como era hábito, sempre de maus modos.--Ele está lá.
Genevieve abriu-lhe a porta. Hortense estava sentada numa das poltronas de orelhas, em frente da lareira, vestindo um espaventoso roupão chinês, em preto e ouro.
O general Ziemke apoiava se nas costas da poltrona, impecável no uniforme de gala. Era realmente um homem muito elegante. Quando se voltou e viu Genevieve, a cara abriu-se-lhe num sorriso de boas-vindas, que era de facto acolhedor.
--Finalmente!--exclamou Hortense.--Talvez consiga agora um pouco de sossego. Há
momentos em que
me dá ideia de estar rodeada de imbecis.
Ziemke beijou a mão a Genevieve.
--Sentimos a sua falta.
--Oh! Saiam daqui!--exclamou Hortense, impaciente.
Fez um aceno a Chantal, para avançar com a bandeja.
--Que trazes aí?
Ziemke sorriu.
--Uma qualidade essencial em qualquer general é
saber escolher a melhor oportunidade para a retirada. Parece-me que chegámos a um momento desses.
Abriu a porta a Genevieve, inclinou a cabeça e saiu.
Havia cerca de vinte pessoas sentadas à mesa, a maior parte das quais homens. Duas das mulheres pareciam secretárias, e traziam vestidos de noite, e duas raparigas muito bonitas estavam fardadas, com um distintivo simulando um raio no braço esquerdo. Pessoal feminino do departamento de transmissões. René tinha-lhe falado a respeito delas-Muito solicitadas pelos oficiais, dissera ele. Observando-as, Genevieve não teve dúvidas em o acreditar.
Max Priem sentara-se na sua frente, e Reichslinger estava na outra ponta da mesa, com alguns oficiais da SS.
Quando olhou na direcção dela, os olhos brilharam-lhe de ódio, fazendo-a recordar-se muito particularmente de Joe Edge. Não havia qualquer dúvida que fizera dele um inimigo.
Um par de ordenanças, devidamente uniformizadas e usando luvas brancas, circulavam em redor da mesa com vinho, lembrando-se então que Anne-Marie detestava vinho tinto, mas era capaz de beber vinho branco em maior quantidade do que Genevieve jamais conseguiria.
Notou com azedume que se tratava de vinho de Sancerre, o orgulho das adegas da tia, o qual deveria por certo ter levado forte desbaste até ao presente.
Reichslinger riu alto, sobrepondo-se ao murmúrio geral da conversação. A avaliar pela expressão das faces dos camaradas, não seria propriamente muito popular.
Ziemke inclinou-se para Genevieve:
--Espero que a condessa esteja amanhã mais bem-disposta.
--Conhece-lhe as birras tão bem como eu.
--Depois de amanhã, recebemos a visita do general Rommel. Naturalmente, realizamos uma recepção em sua honra, seguida de um baile. Se a condessa estiver com uma das suas enxaquecas...--Encolheu os ombros.
--Seria mesmo uma grande maçada!
--Compreendo-o perfeitamente, senhor general.
--Genevieve deu-Lhe uma palmadinha na mão.--Farei tudo o que estiver ao meu alcance.
--Detestaria ter de lhe determinar que comparecesse.
De facto--continuou--, receio até que seja forçado a fazê-lo.
No dia em que eu e o Priem chegámos... a Anne-Marie não estava cá, mas... Meu Deus! Como ela baralhou tudo à nossa volta! Não é verdade, Priem?
--Quanto a mim, foi amor à primeira vista!--disse o coronel.
--É o que habitualmente sucede às pessoas que a conhecem!
--sublinhou Genevieve.
O sorriso dele pareceu-lhe tão inquietante que teve de desviar o olhar dos seus olhos, azuis e penetrantes, sentindo o coração a galope. Tinha a estranha sensação que ele tinha a capacidade de lhe ler os pensamentos.
O general voltou a falar:
--Se bem me lembro, estava na aldeia, no dia em que chegámos. A sua tia impediu-nos a entrada, durante algum tempo. Quando finalmente conseguimos entrar, viam-se espaços em branco nas paredes.
--Já experimentou as nossas caves?
Ele riu-se, deliciado, e, durante o resto da refeição, manteve-se na melhor das disposições. Quanto a Genevieve, o esforço de desempenhar o seu papel começou a deixá-la particularmente tensa.
--Café na sala de estar, suponho eu--anunciou finalmente Ciemke Encantado--disse ele. Reparou como o uniforme lhe ficava bem, e imaginou o que lhe poderia suceder se alguma vez a gente do ma&uis o agarrasse num canto escuro, a este francês da SS.
Ziemke atravessou a sala, em direcção às portas envidraçadas do terraço.
--É melhor assim!--exclamou.--Ar puro. Fuma um cigarro?
Ao aceitá-lo, disse:
--Está preocupado com essa reunião. É assim tão importante?
--O próprio Rommel, minha querida. Que esperava?
--Não, há algo mais, para além disso--disse Genevieve.--O senhor general não concorda com eles, deixou de concordar com eles. Não é isso?
--A Anne-Marie torna as coisas muito complicadas.
Vamos falar de defesas, e eu sei o que pensa a maioria dos intervenientes.
Era esta a conversa que lhe interessava, na verdade.
--E discorda deles?
--Discordo.
--Mas não vai tratar-se de uma reunião preliminar?
--Sim, mas as conclusões a que chegarmos manter se-ão para o futuro. A não ser que o Führer tome a decisão --Eu atendo.--Beijou lhe a mão.--Boa noite, mi
@Doze
Dormiu de um sono só, sem sonhos, e acordou tão bruscamente que teve consciência imediata que alguma coisa fora do usual a tinha despertado. Ficou quieta, tentando descobrir o que se passara. As chicotadas dos disparos fizeram-se ouvir de novo. Saltou da cama num ápice, lançou mão do roupão e correu para a varanda.
Alguém lá fora gritou uma ordem em alemão, logo seguida de um objecto que se elevava rapidamente no ar e se desfazia em inúmeros bocados, em simultâneo com o estampido de um disparo. Olhou para baixo, e viu Priem, mesmo sob a varanda, a carregar uma espingarda de caça e fechá la em seguida. Atrás dele, uma ordenança ajoelhava-se no solo, ao lado de uma caixa de lançamento de pratos. Priem gritou, o soldado destravou o mecanismo e mais um disco se elevou no céu azul: o cano da espingarda subiu e acompanhou-o, e ele premiu o gatilho.
Observou o prato a fragmentar-se, protegendo os olhos contra o céu brilhante.
--Bom dia!--gritou Genevieve.
Ele interrompeu-se e olhou para cima:
--Acordei-a?
--Como é evidente!
Entregou a caçadeira à ordenança.
--Pequeno-almoço na sala de jantar dentro de dez minutos! Faz nos companhia?
--Não! Vou mandar servi-lo no meu quarto, hoje.
--Como queira.--Sorriu. Ela voltou-se, com a respiração ligeiramente mais rápida, e entrou no quarto.
Hortense mandou recado por Chantal para que lhe fosse falar, logo após o pequeno-almoço. Quando Genevieve entrou, ainda estava no banho.
--Resolvi ir à missa esta manhã. Podes vir comigo-disse-lhe a tia.
--Mas já tomei o pequeno-almoço!
--Que falta de consideração! Mas vens, de qualquer modo. É forçoso que venhas.
--Para a salvação da minha alma imortal?
--Não. Para dar uma oportunidade de revistar o teu quarto àquele trastezinho da Maresa. Chantal ouviu o Reichslinger dando-lhe instruções em tal sentido, ontem à noite.
Genevieve continuou:
--Por conseguinte, o tipo suspeita de mim?
--E porque não? Pois se fizeste dele um inimigo acérrimo! Isto será provavelmente o início de uma campanha para te conseguir incriminar de qualquer modo. Um panfleto de propaganda da RAF seria o suficiente para te denunciar como inimiga do Reich. Temos de arranjar forma de o tiro lhe sair pela culatra.
--Mas que vou eu fazer?
--Quando voltares, vais ter a desagradável surpresa de descobrires que os teus brincos de diamantes desapareceram, o que de facto terá sucedido, pois Chantal, por essa altura, já os deverá ter transferido para um esconderijo suficientemente estúpido no quarto de Maresa. Será natural que armes um chinfrim dos demónios. Vais logo falar com Priem, que, no final de contas, é o responsável pela segurança.
--E que acontecerá então?
--Ora! Ele é um tipo muito esperto, e logo descobrirá
os brincos no quarto de Maresa. Ela protestará a inocência, mas os factos falarão por si. Nessa altura, a estúpida da rapariga começa a chorar...
--... e confessa que actuou sob instruções de Reichslinger?
--Exactamente!
--Não há dúvida que levas a melhor ao próprio Diabo nessas intrigas, sabias?!
--Claro!
--Mas achas que o Priem vai acreditar?--perguntou Genevieve.
--Parece-me que sim. Sem fazer alarde, sem confusão. Tratará do assunto com Reichslinger, em particular, mas podes ter a certeza que trata. É um homem duro, este teu coronel, quando é preciso sê-lo.
--Meu coronel? Que queres dizer com isso?
--Pobre Genny. --Há anos que ninguém a chamava assim.--Desde que chegaste a uma idade suficiente para trepar para o meu colo que leio em ti como um livro aberto. Este homem faz-te sentir pouco à vontade, não é verdade? Sentes o estômago vazio da excitação que a simples circunstância de estares ao pé dele te provoca!
Genevieve respirou fundo, tentando acalmar-se, e levantou-se.
--Farei tudo o que possa para resistir à tentação, podes ter a certeza disso. Já falaste com a Chantal?
--Só lhe disse que Anne-Marie está metida até ao pescoço em actividades subversivas. Verás que ela te tratará com mais complacência, de agora em diante. O irmão dela, Georges, está num campo de trabalho na Polónia.
--Muito bem!--disse Genevieve.--E agora, quanto ao plano da campanha?
--Tudo estudado. Discutimo-lo mais tarde. Sê uma boa menina e manda Maresa dar recado ao René que preciso do Rolls.
Genevieve sentiu-se novamente a criança que lhe fazia os recados. Claro que fez precisamente o que lhe pedira a tia. Nada mudara.
Tiveram o primeiro choque na porta de entrada, ao descerem a escadaria. Não havia sinal de René nem do Rolls, pois apenas ali se encontrava Max Priem e um Mercedes preto.
Cumprimentou, com ar grave:
--Ao que parece, o seu carro tem uma pequena avaria esta manhã, senhora condessa. Mandei os nossos mecânicos tratarem do problema. Entretanto, coloco-me totalmente à sua disposição. Deseja ir à igreja, segundo suponho?
Hortense hesitou um momento, mas entrou de imediato no carro, fazendo um ligeiro trejeito de indiferença.
Genevieve seguiu-a.
Ele próprio as conduziu, e Genevieve teve de ficar ali, observando-lhe a nuca, sentindo-se extremamente desconfortável. Hortense ignorou-o, vendo as horas.
--Já estamos atrasadas. Não é que haja problema, pois o curé' espera por mim. Já tem setenta anos, mais dia, menos dia, sabias? Foi a minha primeira paixão.
Moreno, elegante e tão crente. A fé atrai, num homem.
Nunca mais assisti a tanta missa!
--E agora?--perguntou Genevieve.
--Tem cabelos brancos, e, quando sorri, faz tantas rugas à volta dos olhos que nem lhos vês!
Genevieve sentiu a desagradável sensação de estar a ser observada no retrovisor por Priem, com olhos plenos de riso. E assim também Hortense, que não gostou e disse, com frieza: --Ao que me é dado saber, o pessoal da SS não acredita em Deus, senhor coronel?
--Segundo fontes dignas do maior crédito, o Reichsführer Himmler acredita, no entanto.--Priem parou à porta da igreja, apeou-se e abriu a porta de trás:--Se fazem o favor, minhas senhoras.
Hortense ficou imóvel por um momento, mas aceitou a mão que lhe estendia, e saiu.
--Sabe, Priem, gosto de si. É uma pena...
--... que seja alemão, senhora condessa? A minha avó
materna nasceu em Nice. Isso ajuda?
--Muito.--Ela voltou-se para Genevieve:--Não é
necessário entrares. Vai visitar o jazigo de tua mãe. Não demoro muito.
Desceu o véu e subiu a calçada até ao portão da velha igreja.
' Curé. padre-cura, abade. (N. do T.)
Priem comentou:
--Uma senhora notável.
--Sem dúvida.--Fez-se um pequeno silêncio, e ele manteve-se ali, de mãos atrás das costas, como se se tivesse transformado numa personagem de fantasia, envergando aquele uniforme magnificente, com a cruz suspensa do pescoço. Ela disse:--Peço que me desculpe. Vou até à campa de minha mãe.
--Mas, por certo!
Entrou no cemitério. A campa estava idealmente situada, num recanto afastado, sob um cipreste. A pedra tumular era de uma simplicidade maravilhosa, conforme Hortense desejara que fosse. Havia flores frescas num vaso.
--Hélène Claire de Voincourt Trevaunce--pronunciou Max Priem, passando para o outro lado. Teve então uma atitude insólita. Fez uma continência rápida, de um modo perfeitamente militar, sem qualquer mistura nazi.-Bem, Hélène Claire--disse, com um modo tranquilo--, tem uma filha muito bela. Teria orgulho nela.
Genevieve perguntou:
--E a sua família?
--O meu pai morreu na guerra passada, e a minha mãe alguns anos depois. Fui criado por uma tia em Francoforte, professora primária. Morreu num bombardeamento, o ano passado.
--Por conseguinte, temos alguma coisa em comum?
--Oh! Mas que ideia! E o pai inglês, médico na Cornualha? E a irmã de que fala tão pouco? Genevieve, não é?
Assustou-se então, porque ele sabia tanto, e porque se sentia em equilíbrio precário num precipício perigoso.
Uma chuvada repentina salvou-a do prolongamento do suplício. Mal começou a cair, ele agarrou-lhe a mão, dizendo: --Depressa, temos de nos abrigar.
Correram para o pórtico da igreja, e ela reparou que ele parecia respirar com dificuldade, e se deixava cair sobre o banco de pedra.
Perguntou:
--Sente-se bem?
--Não é nada, pode crer.--Sorriu forçadamente, e ofereceu-lhe um cigarro, passando-lhe a cigarreira aberta: --Um cigarro?
--Foi ferido na Rússia?--perguntou.
--Sim.
--Tenho ouvido dizer que a campanha de Inverno por lá foi muito dura.
--Acho melhor, talvez, dizer que foi uma experiência inesquecível.
Ela continuou--Reichslinger e os outros, bem, até parece que vivem em mundos diferentes. O senhor coronel é...
--... um alemão cujo país está em guerra. Na realidade, muito simples. Talvez seja uma pena, mas é mesmo muito simples.
--Talvez.
Ele suspirou, e a expressão do seu rosto suavizou-se.
--Desde rapazinho que gosto da chuva.
--Também eu.
Ele sorriu, com ar grave.
--?ptimo! Afinal, talvez tenhamos mesmo alguma coisa em comum!
Ficaram ali, aguardando Hortense. A chuva aumentou de intensidade. Razão tinha a tia, pensou, pois nunca se sentira tão nervosa em toda a vida.
Em Londres, Craig Osbourne tocou a campainha do apartamento de Munro, em Haston Place. Abriram-lhe .
a porta e ele subiu as escadas, indo encontrar Jack Craig à sua espera, no patamar.
.
--Ele está, Jack?
--Não, não está. Foi chamado ao Ministério da Guerra. Ainda bem que vieste cá, pois já ia mandar um dos .
agentes à tua procura. A tua gente quer-te falar.
--O OSS? Sobre quê?
--Bem, ao que parece, nunca chegaste a fazer o relatório do caso do Dietrich.
Eles estão aborrecidos por
Munro se ter valido da autoridade de Ike para te trazer para aqui, mas, ao mesmo tempo, também estão satisfeitos contigo, pela forma como trabalhaste para eles. Ao que parece, está para aparecer por aí mais uma medalha.
--Já tenho medalhas que bastem!--disse Craig.
--Bem, vê lá se és bom menino e dás uma saltada a Cadogan Place, quanto mais não seja para os deixar satisfeitos. Mas, afinal, que te trouxe cá?
--Prometi à Genevieve que cuidaria da irmã. Embora tivesse tentado vê-la na casa de repouso, os guardas não me deixaram entrar.
- --Bem, tivemos de reforçar as medidas de segurança, i por razões de vária ordem.--Carter sorriu.--Mas descansa que telefono ao Baum. E digo-lhe para te receber.
--?ptimo!--disse Craig.--Vou então ao Quartel-General do OSS.--Voltou-lhe as costas e desceu rapidamente as escadas.
Num filme de espionagem que Genevieve vira, o herói tinha colocado um cabelo sobre uma porta, para assim poder vir a saber se alguém tinha entrado, durante a sua ausência. Utilizou o mesmo ardil com duas das gavetas da mesinha-de-cabeceira. Mal voltou da igreja, a primeira coisa que fez foi verificá-las. Alguém as abrira.
Maresa não estava, pois, antes de sair, dissera-lhe que não precisaria dela até depois do almoço. Acendeu um cigarro, para se manter ocupada durante alguns momentos, e dirigiu-se em seguida ao gabinete de Priem.
Encontrou-o sentado à secretária, na biblioteca, e Reichslinger a seu lado, estudando ambos umas listas.
Ambos a olharam:
--De facto, senhor coronel, já começa a ser de mais.
Que, enfim, a sua gente nos reviste os quartos, uma vez ou outra, lá teremos de o suportar, bem contra nossa vontade. Todavia, o que eu não posso admitir de nenhum modo é que me levem um par de brincos de diamantes, com pérolas encastoadas em prata, que, ainda por cima, são uma jóia de família.
--O seu quarto foi revistado?--perguntou Priem, com muita calma.--Como pode dizê-lo?
--De dúzias de maneiras, como coisas que encontrei em posições diferentes das que as tinha deixado, e claro, pela falta dos brincos.
--Talvez a sua criada os tivesse arrumado. Já falou com ela?
--Não é possível. Dei-lhe a manhã de folga, antes de ter saído para a igreja.
Perguntou a Reichslinger:
--Sabe alguma coisa a este respeito?
Reichslinger estava branco.
--Não, Standartenführer.
A não ser que se processasse sem meu conhecimento.
Reichslinger manteve-se calado. Genevieve perguntou:
--E então?
O coronel respondeu-lhe
Genevieve ficou à espera no quarto, um pouco nervosa, tentando ler, ao pé da porta envidraçada da varanda.
No entanto, Hortense acertara: pouco mais de uma hora após a ida à biblioteca, alguém bateu à porta do quarto e Priem entrou.
--Pode dispensar-me um momento?--perguntou ele, atravessando o quarto e lançando-lhe os brincos sobre o regaço.
--Quem foi?--perguntou
ela.
--A sua criada de quarto. Como vê, tinha razão.
--Mas que ingrata me saiu a ordinária! Tem a certeza?
--Lamento informá-la que sim--disse ele, em voz
////
Priem fez um gesto de aquescênia:
,
calma.--Bem gostaria de
saber o que se teria passado
--Para além do m&us, está fora de questão que tal bus-I entre ela e Reichslinger.
--Bem, se assim é... volta para a quinta!
--A meu ver, foi apenas um gesto irreflectido, fruto do momento, sem outro significado. Uma rapariga estúpida, que insistiu sempre na sua inocência, não obstante a ter confrontado com o facto de lhe ter encontrado os brincos no quarto. De qualquer modo, seria extremamente difícil ter-se escapado sem que fosse descoberta.
--Pretende sugerir que lhe devo dar nova oportunidade?
--Para isso, teria de ter um pouco de caridade, que é
um artigo muito raro, nos tempos que correm.--Priem admirou por uns momentos a paisagem, da porta da varanda.--Realmente, este quarto tem lindas vistas. Ainda não me tinha apercebido.
--Sim, tem--aquiesceu ela.
Ele sorriu com ar grave:
--Bom. Tenho mesmo muito que fazer, por causa da visita do marechal-de-campo amanhã. Peço que me desculpe.
--Mas certamente!
Fechou a porta atrás de si. Genevieve aguardou alguns momentOs, e saiu também, rapidamente.
--Eu trato do problema, e depois digo-lhe qualquer coisa.
--Obrigada, senhor coronel.--Voltando-se, saiu rapidamente.
Priem acendeu um cigarro e olhou para Reichslinger:
--Então?
--Standartenführer?--A cara de Reichslinger estava húmida de suor.
--A verdade, homem! Tem cinco segundos para me dizer tudo. Já estava avisado!
--Standartenführer, ouça, por favor. Apenas cumpri ?
meu dever. Aquela Walther... estava preocupado, sabe.
Pensei que pudesse haver outras coisas.
--E vai daí, obrigou a criada de quarto de Mademoiselle Trevaunce a revistar o quarto da patroa, e a estúpida da rapariga, ao fazer o trabalho, sujou as mãos com grude, não é verdade? Grande ajuda a sua, Reichslinger, não concordará?
--Standartenführer, que mais posso dizer?!
--Nada!--disse Priem, com ar cansado.--Descubra a Maresa e traga-ma cá.
--Maresa anda metida com um desses militares-disse Hortense--, segundo me informou a Chantal.-Volveu o olhar para a velha criada, por instantes.--Podes trazê-la aqui, agora.
--Qual é a ideia da tia?--perguntou Genevieve.
Hortense permitiu-se um sorriso fugaz:
--O militar da Maresa está de serviço extraordinário à porta da biblioteca, esta noite, e ela está muito aborrecida. Parece-me que lança a culpa sobre ti.
Genevieve olhou-a, pasmada:
--Mas por que razão?!
--O soldado que estava de sentinela ao portão, no dia em que chegaste--explicou a tia.--Aquele a quem tu não quiseste mostrar os documentos. Quando a história chegou aos ouvidos do Reichslinger, já o rapaz era boçal e indisciplinado. Visto isso, o capitão achou que o facto se reflectia nele próprio, pelo que tomou a devida acção disciplinar. A dar crédito à Chantal, a Maresa ficou mesmo danada contigo.
--Portanto, estás a pensar usá-la de algum modo?
Quer dizer, toda a tramóia teve como finalidade isso mesmo?
--Como é evidente. Uma vez que tens de entrar na biblioteca, só durante o baile o poderás fazer. Terás de inventar um pretexto para te ausentares por uns momentos.
Ora, o ferrolho de correr da terceira porta envidraçada da biblioteca está precisamente como há trinta anos...
partido. Se a empurrares com a força e o jeito devidos, consegues abri-la. Quanto tempo pensas que demorarás a abrir o cofre e a tirar as fotografias, com essa tua máquina?
Cinco minutos? Dez?
--Mas, e a sentinela cá fora?--retrucou Genevieve.
--A que está no terraço?
--Ah! Claro, o rapaz da Maresa. Eriç parece que é
assim que se chama. Suponho que podemos confiar nela para o levar até ao escuro das árvores durante um espaço de tempo razoável. No final de contas, todos os outros se estarão a divertir...
--Santo Deus!--exclamou baixinho Genevieve.-Tens a certeza que nunca houve um Bórgia na nossa família?
Maresa apareceu após alguns minutos, escoltada por Chantal, de cara inchada de tanto chorar.
--Por favor, mamselle--pedia ela.--Não fui eu quem lhe roubou os brincos, juro.
--Mas foste tu quem revistou o meu quarto por ordem de Reichslinger, não foi?
espantada, abriu a boca, e ficou de tal modo abalada que nem o tentou negar.
--Sabes, não há nada que possas esconder-nos, minha estúpida. Não é só o coronel Priem que sabe tudo!-disse Hortense.--Ele obrigou-te a dizer a verdade, e depois deu-te ordem para te calares com a história...
foi ou
não foi?
--Sim, senhora condessa.--Maresa ajoelhou-se.-Reichslinger é um homem danado!
Ele ameaçou que me
mandava para um campo de trabalho se eu não fizesse o que ele dizia!
--Levanta-te, rapariga, por amor de Deus!--Maresa levantou-se, e Hortense continuou. --Queres que te mande de volta à quinta, é isso que queres? Queres desgraçar a tua mãe?
--Não, senhora condessa, por favor. Faço tudo o que quiser para a compensar!
Hortense pegou num cigarro e sorriu friamente para Genevieve.
--Vês?--disse ela.
Craig Osbourne foi forçado a ficar a maior parte do dia no Quartel-General do OSS. Era já noite quando conseguiu sair, e passava das sete quando chegou à casa de repouso de Hampstead. O guarda não abria a porta, limitando-se a atendê-lo através das grades.
--Que deseja, senhor?
--Major Osbourne. Suponho que o doutor Baum me espera.
--Parece-me que saiu, mas vou verificar.--O guarda entrou num gabinete, donde voltou momentos depois.-Bem tinha razão. Saiu há coisa de uma hora, pouco antes de eu entrar de serviço.
--Raios!--exclamou Craig, voltando-se para se ir embora.
--Era problema urgente, meu major?--perguntou o guarda.
--De facto, é.
--Parece-me que o poderá encontrar no gabinete reservado do Grenadier, o bar de Charles Street. É mesmo ao fundo da rua... não se pode enganar! Ele vai para lá quase todas as noites!
--Oh! Pois... muito obrigado!--agradeceu Craig, indo-se embora.
Os oficiais do castelo davam uma pequena festa à noite, em preparação do grande acontecimento, e Ziemke tinha pedido a Genevieve para assistir, especialmente porque Hortense lhe tinha dado a conhecer mais uma vez a intenção de jantar nos seus aposentos.
--Prometi desempenhar o meu papel para o Rommel e isso terá de bastar!
Genevieve vestira-se e aprontara-se para descer antes das sete, razão pela qual mandara embora Maresa. Pouco antes das sete, quando se preparava para sair, ouviu um ligeiríssimo toque na porta. Abriu-a e deparou com René Dissard, segurando uma bandeja.
--O café que mamselle pediu--disse, com ar sério.
Hesitou por um brevíssimo instante:
--Obrigada, René, entra--disse, afastando-se para o deixar entrar.
Ela fechou a porta, e ele pousou o tabuleiro, voltando-se rapidamente.
--Só um momento, mamselle. Recebi ordem de entrar em contacto com um dos membros mais importantes da Resistência.
--Para quê?
--Talvez seja uma mensagem de Londres.
--Consegues sair do castelo?
--Não se preocupe comigo. Sei o que faço.--Sorriu.
--Vai tudo bem?
--Sem problemas, até à data.
--Amanhã, durante a manhã, entro em contacto consigo, mamselle, mas agora tenho de ir. Boa noite.
Abriu a porta e saiu. Pela primeira vez desde que chegara, teve a sensação de estar verdadeiramente pouco à vontade. Uma patetice, sem dúvida. Serviu-se do café
que ele tinha trazido, e sentou-se a bebê-lo junto à porta que dava para a varanda.
Tinham-se valido da sala de música para sala de baile, para o que fora colocado um piano de cauda num estrado ligeiramente sobreelevado, a um canto pouco iluminado.
Recordou-se da última vez que tinha tocado para Craig Osbourne, e formulou o desejo de que ninguém lhe pedisse para tocar.
Anne-Marie sempre fora mais dotada do que ela, até
porque se esforçava muito mais. Poderia ter-se tornado profissional, mas teve o cuidado necessário em não atingir a perfeição a tanto necessária. Dizia ela que pouco lhe interessava o que as pessoas pretendiam que ela chegasse a ser--e, muito provavelmente, até era capaz de ter razão, como habitualmente.
Genevieve desempenhava perfeitamente o seu papel de aristocrata--o que constitúa a melhor forma de manter à distância as pessoas que tinha por obrigação reconhecer. Alguém abrira a janela do terraço, o que provocava uma corrente de ar fresco. Estava presente muita gente.
Durante a tarde, chegara um brigadeiro-general da SS, chamado Seilheimer, acompanhado da mulher e de duas filhas, e de um coronel do Exército com um braço suspenso de uma faixa ao pescoço, que parecia ser muito consideado pelos oficiais mais jovens. Pela forma como se aglomeravam à sua volta, tratava-se de um herói da guerra, provavelmente. A presença de Ziemke e do brigadeiro constrangia um tanto as pessoas, pelo que--talvez porque se houvessem dado conta disso mesmo--se tinham retirado mais cedo, para conversar. A partir dessa altura, a música passara a ser um pouco mais alegre.
Dois oficiais tinham-se revezado no gira-discos, durante a primeira hora, mas cedo passaram a tarefa a uma das ordenanças, tentando a sorte com as filhas do brigadeiro, que não tinham mais de dezassete anos e estavam excitadíssimas com toda a atenção que lhes era dispensada.
Claro que aguardavam ansiosamente o baile, e a oportunidade de se encontrarem com o grande Erwin Rommel.
A mais jovem dizia, com um risinho irritante, que jamais vira numa sala tantos jovens tão elegantes. E que pensava Genevieve daquele coronel moreno das Waffen-SS? Ela falava em francês--o que quase todos os alemães tentavam fazer com a maior das aplicações.
Aquela última frase tinha sido pronunciada talvez um tudo-nada alto. Max Priem, com um copo de conhaque na mão, continuou, sério, em conversa com o coronel do Exército, mas, ao dirigir um relance de olhos muito rápido para Genevieve, perpassou-lhe pelo olhar um lampejo de divertimento.
Ela observou-o durante algum tempo, este homem que nada se parecia com o que esperara. Todos os alemães eram nazis boçais, do tipo de Reichslinger--assim o julgara durante muito tempo, pois assim fora condicionada a acreditar.
Ora, Priem era diferente de todos os homens que conhecera. Quando o olhava, compreendia o que se pretendia dizer com a frase feita "soldado nato". E, no entanto, havia o facto do que ele e pessoas como ele tinham feito.
Ela própria vira algumas coisas, nos breves dias que se tinham passado, e havia outros factos, ainda mais lúgubres. Os campos de concentração, por exemplo.
Estremeceu ligeiramente. Estúpidos, tais pensamentos. Estava ali com uma finalidade, e só tinha de se agarrar a isso.
Tocavam uma mistura curiosa de músicas, nem sempre alemãs. Melodias francesas e até um boog1e americano. Amanhã, as coisas passar-se-iam de outro modo. As luzes seriam fortes, e a música dignificada, tocada por uma orquestra. Beberiam ponche e carradas de champanhe, pelas taças de prata de Voincourt, e os soldados servi-los-iam de luvas e uniforme de gala.
Um tenente jovem aproximou-se e pediu-lhe para dançar de um modo tão tímido que ela fez-lhe o mais brilhante dos sorrisos de Anne-Marie e mostrou-se encantada.
Era um esplêndido dançarino--provavelmente o melhor, em toda a sala--e corou, quando o felicitou pelo facto.
Enquanto mudavam o disco, ficou conversando no meio da sala, quando uma voz a interrompeu, dizendo: --E a minha vez, agora.
Reichslinger meteu-se entre da e o rapaz, de tal modo que o jovem tenente teve de dar um passo atrás.
--Eu gosto de escolher a minha companhia--disse ela.
--Também eu.
Quando a música começou, Reichslinger tomou-a pela mão e pela cintura com firmeza. Sorria todo o tempo, gozando o domínio temporário de que desfrutava, sabendo que ela pouco poderia fazer até o disco acabar.
--Da última vez que nos encontrámos--ia dizendo ele--, disseme que eu não era um cavalheiro. Que eu devia aprender a melhorar as minhas maneiras.
Riu-se, como se tivesse proferido uma frase excepcionalmente espirituosa, e só então se apercebeu de que ele
estava um pouco mais do que ligeiramente embriagado.
Quando o disco terminou, pararam junto de uma das portas envidraçadas do terraço e ele empurrou-a para fora.
--Parece-me que já chega!
--Oh! Mas não, ainda não.--Agarrou-lhe ambos os
- braços e segurou-a contra a parede. Lutaram ambos, e ele divertia-se, rindo, pois usava apenas uma fracção da sua força. Ela defendeu-se, pisando-lhe o peito do pé com toda a força.
--Cadela!--exclamou.
Girou o braço para a esbofetear, e então apareceu uma mão que o puxou para trás.
--Nunca ninguém lhe disse que não tem boas maneiras?--interveio Max Priem.
Reichslinger deteve-se, olhando fixamente para Max Priem, que o enfrentava, de mãos nas ancas, com um ar estranhamente ameaçador.
--Entra de serviço às dez, não é assim?
--Sim--respondeu Reichslinger, com a voz rouca.
--Sugiro-lhe que vá tratar do que tem a tratar.
--Reichslinger olhou para Genevieve com um ar feroz.
Priem acrescentou:--E uma ordem e não uma sugestão.
A disciplina de ferro da SS tomara o controlo da situação.
--Zu befehl, Standanenführer.--Fez a saudação nazi, de modo impecável, e foi-se embora.
--Obrigada!--disse Genevieve, um pouco impropriamente.
--Não se estava a portar muito mal. É isso que vos ensinam na escola de boas maneiras?
--O currículo é muito variado.
Tinham posto outro disco a tocar. Com um choque, reconheceu a voz: Al Bowlly, o favorito de Julie.
--Também eu gosto de escolher a minha companhia
--disse Priem.--Concede-me esta dança?
Passaram à sala de baile pelas portas de vidro. Ele era um excelente dançarino, e, subitamente, tudo se tornou agradável. Não obstante, ela continuava a ser uma espia, rodeada pelo inimigo. Se o descobrissem, que lhe fariam?
Mandá-la-iam para essas caves da Gestapo, em Paris, onde tinham torturado Craig? Era difícil reconciliar tais factos com o riso e a alegre conversação.
--Em que pensa?--murmurou ele.
--Em nada de especial.
Era maravilhoso deslizar no salão, com as luzes envoltas numa névoa de fumo.
Continuava a ouvir-se a mesma
melodia, e apercebeu-se então do que cantava All Bowlly
--Little Lady Make-Believel.
Uma escolha curiosa. A última vez que ouvira a canção fora durante o blitz de Londres. Enfermeira praticante, com algumas horas de folga e demasiado cansada para dormir, tinha ido a um clube nocturno, com um piloto americano do Eagle Squadron. All Bowlly morrera há pouco, durante um bombardeamento, e o americano rira-se quando ela dissera que era sinistro estarem ali a ouvi-lo. Tentara apaixonar-se por ele, só porque todo o mundo parecia estar apaixonado, mas o sonho de mocinha de dezoito anos esfumou-se quando o rapaz lhe pediu para ir para a cama.
Priem disse.
--Deve ter notado que a música acabou.
--O que prova como estou cansada. Parece-me que vou para a cama. Passei uma noite interessante, assim poderá dizer-se. Peço-lhe que apresente os meus cumprimentos de despedida ao senhor general Ziemke.
Aproximou-se uma ordenança com uma mensagem.
Priem pegou nela e leu-a. A curiosidade obrigou-a a permanecer ali, só para ver se se tratava de alguma coisa importante. Nem um músculo se lhe moveu na face, metendo o documento no bolso.
--Boa noite, então--disse ele.
--Boa noite, senhor coronel.
Pareceu-lhe que a despedia, e teve uma sensação estranha a propósito daquele papel, como se contivesse alguma coisa que devesse saber. Teria a sua graça que Rommel, afinal, não viesse, e que tudo tivesse sido cancelado.
Não, não teria graça, não. Seria maravilhoso. Continuaria no chateau. Vogariam ao sabor dos acontecimentos até que a guerra fosse ganha, e, então, poderia voltar para casa, para junto do pai. Já lá ia algum tempo desde a última vez que pensara nele, recordou-se ela, pouco à vontade.
Subiu as escadas e seguiu para o seu quarto pelo corredor. Quando entrou, sentiu pela primeira vez a presença sombria de Anne-Marie, e teve de sair, pelo menos até à varanda, onde não fazia vento e havia sossego e frescura.
Sentou-se na cadeira de baloiço, no escuro, e lembrou-se de Arme-Marie e do que lhe sucedera. Os carrascos haviam sido os homens da Waffen-SS, tal como Max Priem, e era a isso que tudo se resumia. Mas que disparate! Ele era diferente.
Ouviu passos abafados. Olhou para baixo e viu uma silhueta delineada contra a luz da sala donde acabara de sair. A sombra deteve-se e ela reparou que tinha deixado de se mover e mal respirava.
Não deu pelo passar do tempo que esteve a visgiá-lo, oculta pelas sombras. Ele manteve-se imóvel. Criara-se uma harmonia silenciosa entre ambos, uma espécie de campo magnético, de que tanto mais se dava conta quanto sentia ser-lhe desconhecida a sua presença. Ele voltou-se, com a luz de uma das salas a iluminar-lhe a face, e olhou para a varanda.
--Olá!--disse ela, da sombra.
Passou-se um instante antes de ele responder, e ela deixou que o silêncio se prolongasse, não o quebrando.
--Não tem frio?--perguntou ele.
Lá para os lados do muro da propriedade, um cão uivou, e logo outros se lhe juntaram. Priem dirigiu-se para o parapeito, com o corpo rígido, tenso. O ar fantasmagórico do primeiro uivo tinha desaparecido--os cães eram mesmo reais. Ouviram-se ruídos no jardim inferior, vozes altas, o tremular de uma lanterna.
Alguém ligou um holofote, e o seu rosto viajou pelo solo como uma cobra amarela, até passar pela matilha, cinco ou seis lobos-da-alsácia, e logo em seguida a caça, um homem aos saltos, mesmo na frente deles. Apanharam-no ao pé da fonte. Caiu e os cães saltaram-lhe em cima. Momentos mais tarde, chegaram os guardas, que afastaram os cães.
Genevieve ficou gelada de horror, vendo o desgraçado a ser erguido do chão, coberto de sangue. Priem gritou uma ordem em alemão, e um sargento ainda novo atravessou o relvado, relatando o sucedido. Alguns momentos após, o sargento regressou ao grupo junto da fonte, cães e prisioneiro foram levados para longe.
--Um caçador furtivo à procura de faisões--disse Priem, baixo.--Foi um erro grave.
Nesse momento odiou-o, por aquilo que ele representava: a brutalidade da guerra, a violência que tão facilmente tocava a vida de pessoas vulgares. Todavia, ela era uma Voincourt, uma família que, um século antes, teria mandado cortar a mão direita do camponês, em troca do fausão.
Respirou fundo, controlando a voz:
--Parece-me que, agora, sempre vou para a cama.
Boa noite.
Retirou-se para a sombra. Ele manteve-se onde estava, com a luz a dar-lhe na cara, olhando para cima. Só um pouco mais tarde se afastou.
@Treze
O Grenadier ficava a um canto de uma antiga cavalariça calcetada, na Charles Street. Quando entrou, Craig viu-se num bar londrino típico, com mesas de tampo em pedra-mármore, uma lareira com um borralho de carvão numa grelha pequena, um balcão de mogno e as garrafas alinhadas em prateleiras contra um espelho enorme, ao fundo da sala. Não tinha muita gente. Dois soldados da defesa antiaérea jogavam ao dominó ao pé do lume. Quatro homens de fato-macaco bebiam cerveja a um canto.
Uma loura de meia-idade e ar maternal, vestindo uma blusa de cetim muito justa, levantou os olhos da revista que lia. À vista do uniforme, os olhos sorriram-lhe.
--Que deseja, querido?
--Uísqui e água--respondeu ele.
--Eu nem percebo porquê, mas vocês, os americanos, pedem o céu e a terra! Nunca ouviu falar em racionamento? Bem... talvez lhe arranje uma gota!
--Esperava encontrar aqui um amigo meu, o doutor Baum.
--Um medicozinho estrangeiro dessa casa de repouso lá do fundo da rua?
--Precisamente.--Ela servia-lhe a bebida fora das vistas dos restantes clientes, atrás do balcão.--Está no reservado a seguir à porta de vidro, querido. Todas as noites vai para lá. Gosta de se isolar.
--Obrigado--Craig pagou e pegou na bebida.
--Ele nem metade do que leva consegue mandar para dentro... refiro-me à pinga, claro! Veja lá se arranja modo de ele emborcar menos.
- --Pelos vistos, é cliente habitual?
--A modos que é. Desde que dirige a clínica, e já lá
devem ir uns três anos.
Por conseguinte, era possível conseguir aqui alguma informação. Tirou o maço de cigarros do bolso e ofereceu-lhe um.
--Ele não pode ter estado a beber assim este tempo todo!
--Bom Deus! Claro que não! Costumava vir todas as noites, sempre à mesma hora, sentava-se no banco ali àquela ponta do balcão, lia The Times, tomava uma bebida e abalava porta fora.
--Mas que aconteceu, então?
--Bem, morreu-lhe a filha, não foi?
--Mas isso já foi há muito tempo. Antes da guerra.
--Oh! Mas não, meu querido, aí é que você se engana. Foi há coisa de seis meses.
Bem me lembro. Tremendamente abalado, isso é que ele estava. Foi pró reservado e segurou a cabeça nas mãos. Chorou, fartou-se de chorar. Dei-lhe um uísqui duplo, e perguntei-lhe o que lhe sucedera. Que tinha recebido más notícias, que lhe morrera a filha!
Craig manteve-se calmo.
--Bom, devo ter percebido mal. Não faz mal. Vou falar com ele, agora.--Esvaziou o copo.--Traga-me outro destes, e outro também do que Baum está a beber.
Abriu a porta de vidro fosco, ao bom estilo da rainha Vitória, e passou ao reservado. O balcão prolongava-se para ali, e, nos bons tempos, destinava-se apenas a senhoras. Bancos de cabedal ao longo da parede, e havia mais uma lareira com borralho de carvão numa grelha.
Baum estava sentado ao pé do lume, de copo na mão. Tinha um ar deprimido, desleixado, com as roupas como que dependuradas. Os olhos estavam raiados de sangue, e tinha uma barbicha curta no queixo.
Craig cumprimentou:
--Viva, doutor.
Baum levantou os olhos, surpreendido. Falava de modo arrastado, em consequência evidente da bebida.
--Major Osbourne. Como passa?
--Bem.--Craig encostou-se ao balcão, e a loura surgiu do outro lado da divisão com as bebidas.
--Ah! Lily, para mim! Uma simpatia!--exclamou Baum.
--Beba com calma, doutor!--disse ela, voltando ao salão principal.
--Jack Carter disseme que lhe telefonava, que me arranjava forma de eu poder visitar a casa de repouso-informou Craig.--É que prometi a Genevieve que cuidaria da irmã.
Baum passou uma mão pela cara, franziu o sobrolho e anuiu.
--Sim, o capitão Carter telefonou-me.
--Como passa a moça?
--Não muito bem, major.--Abanou a cabeça e suspirou---Pobre Anne-Marie!--Pegou no cálice de porto que lhe tinham trazido.--E, de Miss Genevieve, já tiveram noticias?
--Noticias dela?--perguntou Craig.
--Sim, de lá. Do outro lado.
--Então, quer dizer que tem conhecimento do que se está a passar?
Baum tomou uma expressão de manha e pôs um dedo sobre os lábios.
--Não há muita coisa de que eu não saiba! Torpedeiro, travessia nocturna. Deve ser uma actriz formidável, essa rapariga!
Craig deixou correr o marfim, calmamente.
--Lily disseme que a sua filha morreu há seis meses.
Baum abanou a cabeça afirmativamente, sentimentalão por força do álcool ingerido, com os olhos inundados de lágrimas.
--A minha querida Rachel. Foi terrível.
--Mas, com ela na Áustria, como conseguiu descobrir?--perguntou Craig, com a voz calma.--Por intermédio da Cruz Vermelha?
--Não--respondeu Baum automaticamente.--Foi a minha gente. O movimento judaico clandestino. Conhece? Os Amigos de Israel, --Claro!--respondeu Craig.
Subitamente, Baum pareceu preocupado.
--Mas porque me faz estas perguntas?
--E que estava convencido que a sua filha tinha morrido antes da guerra, antes de vir para Inglaterra.
--Bom, estava errado! --Baum parecia ter ficado mais lúcido e levantou-se:--Preciso de ir. Tenho trabalho à minha espera.
--E quanto à Anne-Marie? Gostava de a ver.
--Talvez noutra ocasião. Boa noite, major.
Baum passou ao bar e Craig seguiu-o. Lily comentou:
--Aquele foi-se com um foguete no rabo!
--Foi, não foi?
--Mais um, querido?
--Não, obrigado. Preciso de dar uma grande volta, para assentar umas ideias. Talvez nos voltemos a encontrar mais tarde.
Fez um sorriso simpático e saiu. Um dos soldados dirigiu-se ao balcão.
--Duas canecas, Lily. Deus, viste as medalhas daquele americano?
--Claro, tinha o peito cheio!
--Uma carrada delas!--comentou o outro.--Esses gajos dão-nas por uma coisinha qualquer!
Eram nove e meia da manhã quando Craig subiu as escadas para Haston Place, tocando a campainha do apartamento da cave.
--É Craig, Jack--respondeu à voz no intercomunicador.
A porta abriu-se. Entrou, seguiu ao longo do corredor até às escadas para a cave. Carter aguardava-o no patamar, ao fundo.
--Então, que tal isso do OSS?
--Fizeram-me perder quase um dia inteiro.
--Entra.--Carter voltou-se e entrou no apartamento, e Craig seguiu-o.
--Uma bebida?--perguntou Carter.
--Não, obrigado. Se não te importas, fumo um cigarro. --Acendeu-o. Obrigado pelo telefonema para o Baum.
--Viste-o, então?--Carter serviu-se de uísqui.
--Sim, digamos que sim. Mas não na casa de repouso. Encontrei-o num bar. Olha que ele está mesmo a beber de mais, nestes últimos tempos.
--Não sabia--disse Carter.
--Parece que tudo começou há seis meses, quando soube, por intermédio dos Amigos de Israel, que a filha tinha morrido às mãos dos alemães.
--Sim, também me parece que isso bastava para me pôr a beber!--comentou Carter, sem pesar as palavras.
--Claro! Só que há aqui um facto que não encaixa nesta história--disse Craig. --Segundo bem sabia, Baum saiu da Áustria por um triz, após a morte da filha pelos alemães, antes do princípio da guerra. O próprio Munro mo disse uma noite, em Cold Harbour, enquanto tomávamos uma bebida. Eu estava interessado no que se passava na Casa de Repouso Rosedene, pois tinha lá estado internado, e, além disso, havia o caso de Anne-Marie.
--E depois?--perguntou Carter, com calma.
--O Munro disseme que Baum tinha oferecido os seus préstimos aos serviços. Que queria vingar-se. Não o aceitaram, pois consideraram que não tinha capacidade para ser utilizado como agente no exterior.
--Bem, quanto a isso, parece-me que acertaram!-disse Craig.
--O que é falso e o que é verdadeiro, Jack? A filha morreu em trinta e nove ou há seis meses atrás?
--Olha, Craig, há muitas coisas neste caso que tu não conheces.
--Experimenta--disse Craig.--Ou, melhor, deixa que seja eu a experimentar. Considera esta hipótese: os nazis prendem a filha de Baum, e sugerem-lhe que entre para os Serviços Secretos ingleses, caso pretenda que a filha se mantenha viva... continuando a trabalhar para eles, claro.
--Tens andado a ler muitos romances de espionagem interrompeu Carter.
--Mas as coisas correm mal, pois a rapariga morre num campo de concentração. Os patrões de Baum não lhe dão conhecimento de nada, mas a rede clandestina judaica fá-lo. Baum, que, acima de tudo, é um homem decente, só fez o que fez por amor da filha. Mas, agora, quer mesmo vingar-se.
--E como conseguiria fazê-lo?
--Indo ter com Munro e confessando tudo. Não se trata agora de o condenar. É demasiado valioso como agente duplo.--Carter não comentou e Craig abanou a cabeça.--Mas há mais. Anne-Marie e Genevieve. A história é muito mais complicada do que o que parece. Que se passa, Jack?
Carter suspirou, levantou-se e abriu a porta.
--Meu caro Craig, tens trabalhado de mais. Tens passado uns tempos muito maus!
Vai para o apartamento do
rés-do-chão. Vê se consegues dormir em termos esta noite. De manhã, hás-de sentir-te melhor.
--Tu és um bom tipo, Jack, um homem decente, como Baum.--Craig fez um aceno negativo com a cabeça.
--Olha, quem me preocupa é aquele tipo lá em cima.
Convenceu-se que os fins justificam os meios.
--E tu não acreditas nisso, também?--perguntou Carter.
--De modo nenhum! Se assim fosse, seríamos tão reles quanto a gente que combatemos. Boa noite, Jack.
Subiu as escadas. Carter levantou imediatamente o auscultador do telefone que estava ao pé da porta, e ligou para o apartamento de Munro: --Meu brigadeiro, tenho de falar consigo urgentemente. Craig Osbourne desconfia de alguma coisa, no caso Baum. Está bem, eu subo.
A porta ficara ligeiramente entreaberta. No corredor escuro, Craig Osbourne escutara tudo, ao cimo das escadas. Ouvindo Carter subir as escadas, dirigiu-se em pontas dos pés para a porta da frente e saiu para a rua silenciosamente.
Chovia muito, e pouco passaria das dez quando Craig voltou à casa de repouso em Hampstead. Do outro lado da rua e sob o abrigo dos plátanos, observou o portão durante uns momentos. Nem valia a pena tentar o caminho, pois era evidente que Baum, assustado, tinha dado ordens no sentido de não permitirem a sua entrada.
Tentou uma travessa lateral, que dava para uma estrebaria antiga, com casas com terraços. Havia um edifício de dois andares a uma ponta que parecia uma oficina, com uma escada de ferro de um dos lados. Subiu calmamente e parou no patamar do cimo. Como a parede da casa de repouso ficava apenas a um metro de distância, foi espantosamente fácil subir para o corrimão, dar um passo para o muro e saltar para o jardim.
Dirigiu-se cautelosamente para a casa, evitando a porta da frente. Havia duas luzes fracas no primeiro andar, mas o rés-do-chão estava totalmente às escuras. Quando deu a volta para as traseiras, viu luz numa fresta por entre as cortinas corridas, num quarto que dava para o terraço.
Subiu as escadas para lá e espreitou pela nesga de luz.
Era um gabinete com muitos livros. Baum estava sentado a uma secretária, com a cabeça entre as mãos, e uma garrafa de uísqui e um copo na sua frente. Craig tentou abrir o trinco da porta envidraçada, mas o ferrolho estava corrido. Pensou durante um instante e bateu na janela com energia.
Tentando uma pronúncia tão inglesa quanto possívd, disse: --Doutor Baum. É o guarda-portão!
Deu um passo atrás e aguardou. Uns momentos depois a porta abriu-se e Baum espreitou: --És tu, Johnson?
Craig moveu-se rapidamente, passou-lhe um braço pelo pescoço e empurrou-o para o quarto. Os olhos de Baum quase lhe saltavam das órbitas, enquanto Craig o impelia pelo quarto até à cadeira da secretária.
--Mas que é isto?--perguntou com voz rouca, quando Craig o largou.--Está louco?
--Não.--Craig sentou-se à borda da mesa, tirando um cigarro.--Mas parece-me que se têm passado por aqui alguns factos estranhos. Por conseguinte, chegou o tempo das perguntas e respostas, para si e para mim.
--Não tenho nada a dizer--disse Baum, com voz trémula.--O senhor está louco. Quando o brigadeiro souber disto, lá se lhe vão os galões.
--?ptimo--disse Craig.--Ficarei livre para um trabalho mais honesto.--Levantou a mão esquerda.-Vê como estão tortos, estes dedos? Foi a Gestapo, em Paris. Partiram-mos, um a um, e tiraram-me as unhas com pinças. Também experimentaram comigo a tortura da água... metem um tipo na água até se afogar, depois reanimam-no, depois repetem tudo, e assim sucessivamente.
Deram-me tantos pontapés nos testículos que acabaram por me fazer uma rotura.
--Meu Deus!--murmurou Baum.
--Infelizmente, Ele devia estar ocupado por outros lados. Sabe, Baum, eu sou um perito. Estive lá. Há muito que deixei de me preocupar com o quer que seja.--Craig agarrou Baum pelo queixo e apertou-lho.--Genevieve Trevaunce é infinitamente mais importante do que o senhor. Sim, as coisas são muito simples. Estou disposto a tudo para o fazer falar. Por conseguinte, talvez seja melhor para si responder às perguntas que lhe fizer, como um bom menino.
Baum estava absolutamente aterrorizado:
--Sim!...--gaguejou.--Tudo o que queira!
--O senhor não fugiu aos nazis. Eles tomaram a sua filha como refém e obrigaram-no a pedir asilo político, clamando que lhe tinham morto a filha e oferecendo-se para trabalhar nos Serviços Secretos ingleses.
--Sim--confirmou Baum--, é verdade.
--Como é que lhes passava as informações?
--Tinha um contacto na Embaixada de Espauha, que enviava as mensagens no correio diplomático. Danos causados pelos bombardeamentos, movimentos de tropas, etc. Tudo isso. Para o caso de uma emergência havia outro agente, uma mulher que reside numa vivenda em Romney Marsh, e que tem um rádio.
--E tudo funcionou? Isto é, manteve as coisas assim até que, há seis meses, soube pelo movimento clandestino judaico que a sua filha tinha morrido?
--Isso mesmo!--Baum limpou o suor da testa.
--Depois disso, foi ter com Munro de moto próprio, e despejou o saco?
--Sim!--Acenou afirmativamente com a cabeça.-Ele deu-me ordem para continuar o meu papel, como se nada tivesse sucedido. Até deixaram em paz a mulher de Romney Marsh!
--Como é que ela se chama?
--Fitzgerald. Ruth Fitzgerald. Uma viúva, casada em tempos com um médico irlandês, mas de origem sul-africana. Odeia os Ingleses.
Craig levantou-se e passou para o outro lado da mesa.
--E Anne-Marie Trevaunce? Que se passou com ela?
--Baum olhou de um lado para outro com um ar de animal encurralado. Craig lançou mão de uma régua de metal que estava sobre a secretária, e voltou-se: --Primeiro, os dedos da mão direita, Baum. Um de cada vez. É muito doloroso.
--Por amor de Deus, eu nem tive culpa!--disse Baum.--Só lhe dei a injecção. Fiz apenas o que Munro me ordenou.
Craig ficou muito quieto:
--E que injecção foi essa?
--Uma espécie de soro da verdade. Uma ideia nova, que eles decidiram pôr em prática com todos os agentes que viessem do exterior, não fosse o Diabo tecê-las. Está a ver? É excelente... quando resulta.
--E no caso dela, não resultou?--perguntou Craig, de ar soturno.
A voz de Baum estava reduzida quase a um sussurro:
--Um efeito secundário imprevisível. Os danos no cérebro são irreversíveis. A única circunstância menos triste em todo este drama é que ela pode morrer em qualquer momento.
--Há mais alguma coisa?
--Sim--gritou Baum, completamente desorientado.--Deram-me ordem para destruir a cobertura de Genevieve.
Craig olhou-o, assombrado.
--Munro mandou-o fazer isso?
--Sim. Há três noites que enviei uma mensagem para a Fitzgerald transmitir por rádio, em Romney Marsh, na qual informava os alemães sobre Genevieve.
Abriu-se uma porta muito devagar por detrás de Craig, mas Baum não deu por isso.
--Munro quer que eles a prendam, major. Não sei porquê, mas ele quer que eles a prendam.
--Oh! Mas que língua comprida nós temos!--exclamou Dougal Munro.
Craig voltou-se e viu o brigadeiro à porta, com as mãos nos bolsos do velho capote de cavalaria. Jack Carter estava a seu lado, arrimado à bengala, com uma Browning na outra mão.
--Sacana!--exclamou Craig.
--Meu caro, às vezes, torna-se necessário imolar um cordeiro em sacrifício. Azares da guerra que tivesse de ser Genevieve Trevaunce.
--Mas porquê?--disse Craig.--A reunião da Muralha do Atlântico. Rommel. Tudo isso são mentiras?
--De modo nenhum, mas está realmente convencido de que uma amadora como Genevieve tenha a mínima hipótese de lançar mão de tal informação? Nem pense nisso, Craig. A Operação Overlord está prevista para muito em breve. Dia D e medidas de decepção são o nome do jogo. É fundamental que os Alemães se convençam que a invasão se vai verificar onde a não pretendemos fazer.
Patton é o comandante de um exército que não existe, em East Anglia, cuja tarefa aparente será a invasão na área de Pas-de-Calais. E outros pequenos projectos darão mais verosimilhança a esta sugestão.
--E daí?--disse Craig.
--E então eu tive uma ideia realmente brilhante, que foi a razão real da chamada de Anne-Marie. Quando Genevieve a substituiu, o plano manteve-se. Eu permiti que ela visse, por acaso, uma carta topográfica que se encontrava sobre a minha secretária, em Cold Harbour. Tratava-se da área de Pas-de-Calais, e tinha o título de "Objectivos Preliminares--Dia D". A genialidade deste pequeno incidente, de que ela não se deu conta, é a importância da informação. Fará com que pareça tanto mais genuína quando lha extraírem, o que sem dúvida farão. Claro que a deixarão em paz, durante os tempos mais próximos. Esse tipo, Priem, não lhe fará nada, porque quer saber o que eh prepara. Aliás, era o que eu faria, já que, vistas bem as coisas, ela não pode fugir para lado nenhum.
Craig perguntou:
--Era isso que pretendia fazer com Anne-Marie?
Também a teria traído?
A expressão de Craig era terrível. Avançou um passo, mas Carter apontou-lhe a arma.
--Fica quieto, Craig.
Craig voltou-se para Munro:
--Seria capaz de tudo, não é verdade? Tanto o senhor como a Gestapo têm muitas coisas em comum!
--É a guerra! Às vezes, há sacrifícios necessários.
A semana passada, o senhor assassinou o general Dietrich. Sabia perfeitamente que isso iria custar vidas inocentes, mas, no entanto, seguiu avante. Qual foi a contagem de cadáveres? Vinte reféns abatidos?
--Para salvar mais vidas do que isso!
--É esse o caso, meu caro. Por conseguinte, para quê discutirmos?--Craig manteve-se em pé, de punhos cerrados, e Munro suspirou.-Põe-no na cave, Jack. Fecha-o bem, e diz ao Arthur para ter cautelas suplementares. Amanhã falaremos.
Voltou as costas e saiu. Craig disse:
--Que tal, gostas de trabalhar para ele, Jack?
Carter parecia incomodado:
--Então, meu velho, não me metas em trabalhos.
Craig desceu as escadas para a cave à frente dele. Estava tudo muito silencioso, não se ouvia qualquer ruído no quarto de Anne-Marie, mas Arthur, o surdo, estava sentado na sua cadeira, lendo um livro, como se nada se houvesse passado.
Carter manteve-se bem afastado de Craig, ao passarem por outra cela.
--Para dentro, como um bom menino.--Craig assim fez, e Arthur levantou-se e avançou. Carter falou mesmo em frente da cara do homem, de modo que ele pudesse fazer a leitura dos lábios.
--Vigia bem o nosso major, Arthur. O nosso brigadeiro e eu voltamos amanhã de manhã. E toma cuidado, Arthur, olha que ele é um homem perigoso.
Arthur, com um físico maciço, flectiu os músculos.
Quando falou, a sua voz tinha um timbre metálico estranho: --Não o somos todos?--disse ele, dando uma volta à
chave.
A grelha da porta não era de fechar, e Craig olhou através das grades: --Dorme bem, Jack... se fores capaz!
--Farei o que puder, meu velho.
Ia a voltar-lhe as costas, mas Craig chamou-o:
--Jack, só uma coisa.
--Sim.
--René Dissard? Como se ajusta ele na história?
--Dissemos-lhe que Anne-Marie tinha tido uma fraqueza cerebral. A história da violação tornava-se necessária para dar a devida motivação a Genevieve. O
brigadeiro persuadiu Dissard que era da maior importância que ele concordasse com o plano.
--Por conseguinte, até o seu velho amigo René a traiu.
--Boa noite, Craig.
Os passos de Carter deixaram de se ouvir, e Craig começou a inspeccionar os seus aposentos. Havia uma cama militar de ferro, com um colchão, e nada mais. Nem janela, nem sequer um balde para os fins habituais, nem lençóis. A porta era sólida. Não havia maneira de fugir.
Sentou-se na cama, que afundou imenso, sob o seu peso. Puxou o colchão, e observou as enormes molas em espiral, já ferrugentas da idade. Teve uma ideia.
Tirou do
bolso do dólman um pequeno canivete e começou a trabalhar.
Eram quase seis da manhã quando Anne-Marie começou a gritar. Craig, deitado na cama à espera do controlo pelo Arthur--que nunca chegou a fazê-lo--, levantou-se e dirigiu-se para a porta, com a pesada mola da cama balançando numa das mãos. Espreitando pela grade, conseguiu ver o assento de Arthur. Estava vazio. O terrível lamuriar continuava a fazer-se ouvir. Passaram-se cinco minutos, e, então, ouviu o som de passos que se acercavam. Olhou para o outro lado, e viu Arthur, trazendo uma caneca esmaltada numa mão.
Craig pôs uma mão de fora. O homem voltou-se e olhou.
--Preciso de ir à retrete--disse Craig.--Desde ontem à noite que não vou lá!
Arthur não respondeu, limitando-se a prosseguir.
Craig sentiu um baque no coração. Momentos após, o homem reapareceu, com uma chave na mão e um velho revólver Weble, da ordenança na outra.
--Muito bem. Saia cá para fora, com muito cuidadinho. Um movimento errado, e parto-lhe o braço direito.
--Não serei assim tão estúpido-- respondeu-lhe Craig, seguindo pelo corredor, no preciso momento em que rodava num pé, golpeando a mão que segurava o revólver com a mola de ferro da outra mão. Arthur gritou, largando a arma, e a mola descreveu um arco, atingindo-o no lado da cabeça.
Craig agarrou o pulso direito do
homem, ergueu-lhe o braço num golpe de luta corpo a corpo, e empurrou-o de cabeça para dentro da cela. Fechou a porta e deu uma volta à chave. Quando seguia já no corredor, Arthur começou a gritar, e, na cela ao lado, os gritos de Anne-Marie elevaram-se em crescendo, abafando o som da voz do outro. Craig fechou a porta almofadada no fim do corredor, cortando o som, e subiu as escadas.
O problema, agora, era saber o que fazer. A casa estava muito sossegada. Ficou à escuta no átrio, e entrou no
gabinete de Baum, fechando a porta com cuidado. Sentou-se atrás da secretária, levantou o telefone e pediu ao operador para lhe ligar para o número da Abadia de Grancester. A campainha tocou algum tempo, do outro lado da linha, até que alguém atendeu o telefone, ouvindo-se a voz sonolenta de Julie.
--Fala Craig. Desculpe tê-la tirado da cama, mas trata-se de uma emergência.
--Que se passa?--perguntou ela, imediatamente desperta.
--Tinha toda a razão quando dizia que algo de errado se estava a passar, só que nem no pior dos sonhos podia imaginar do que se tratava. Ouça com atenção...
Quando acabou, ela perguntou:
--Que vai fazer?
--Conte tudo a Martin Hare. Diga-lhe que preciso de uma passagem rápida para França. Estou convencido que não a recusará, depois de conhecer os factos. Vou para aí o mais depressa que possa.
--Como pretende vir? De avião?
--Sabe uma coisa, Julie? Teve mesmo uma boa ideia!
Até mais ver!
Recolocou o telefone no descanso, tirou a carteira e procurou o cartão de segurança da SOE. Sorriu silenciosamente. Valia sempre a pena atacar em força. Aliás, já nada tinha a perder. Saiu pela porta envidraçada do terraço, encaminhou-se para o muro por entre os arbustos, içou-se até ao cimo e saltou para o patamar da escada de ferro. Instantes depois, corria pela estrebaria e saía para a rua. Bem podia dizer que estava com sorte, pois, ao chegar à esquina seguinte, um condutor de táxi, em transito para o início do turno da manhã, avistou-o e parou junto do passeio.
--Para onde, patrão?--Sorriu.--Aposto que passou uma bela noite! Deus, estes americanos!
--Baker Street--disse-lhe Craig, entrando.
Estava a correr um risco, agora, jogando no facto de que a sua disputa com Munro era ainda coisa entre ambos. Saiu do táxi, subiu as escadas para o Quartel-General da SOE em Baker Street, apresentou o passe e foi controlado pela segurança. Viam-se já sinais de actividade, pois o serviço era permanente--tal como noWindmill Theatre, que nunca fechava. Subiu as escadas das traseiras dois a dois e entrou na Repartição de Transportes. A sua boa sorte mantinha-se. O oficial de serviço, que só era substituído às oito horas, era um major de infantaria na reserva, chamado Wallace, que fora chamado ao serviço por causa da guerra. Craig conhecia-o desde os seus primeiro tempos na SOE.
--Olá, Osbourne!--exclamou Wallace, surpreendido.--Que bons ventos o trazem cá, tão cedo?
--Problemas importantes. Munro quer ir a Cold Harbour. Fiquei de me encontrar com ele em Croydon.
Arranje-me a autorização do costume para a RAF, e depois telefone para Croydon, prevenindo-os para estar à nossa espera. Precisamos do Lysander.
--Claro, estamos a tentar ganhar a guerra a toda a pressa, não é verdade?--Wallace abriu uma pasta, tirou o impresso próprio e preencheu-o.
--De facto, bem melhor seria que ele se interessasse pela pesca.--Craig sentou-se na beira da secretária, e acendeu um cigarro.--Ah! Talvez fosse melhor levar a requisição do voo.
--Como queira.
Wallace entregou-lhe os documentos. Craig agradeceu:
--?ptimo. E melhor ir andando. Não se esqueça de telefonar para Croydon, está bem?
--Claro!--respondeu pacientemente Wallace, pegando no telefone. Craig saiu.
Chovia continuamente em Croydon, mas a visibilidade era boa. Craig, no assento de trás do? jipe, passou o portão principal. Seguiram para o ponto de partida do costume, onde o Lysander os aguardava, com dois mecânicos ao lado. Craig mandou embora o condutor-auto, entrou na barraca Nissen, onde encontrou Grant, de farda de voo, tomando uma chávena de chá com o oficial de serviço.
Grant recebeu-o, dizendo:
--Olá, meu velho, olhe que ia ter hoje o meu dia de folga. Onde está o brigadeiro?
--Alteração de planos--informou-o Craig.--Há-de ir mais tarde. Aqui tem a requisição do voo.
Entregou-lha, e o oficial de serviço verificou-a.
--Perfeito! Tudo em ordem!
--Então, meu velho, é melhor irmos andando--disse Craig. Saíram ambos, e correram para o Lysander, fugindo da chuva.
Eram nove e meia. Deram pela falta do Arthur na cozinha e Baum desceu para ver o que se estava a passar.
Entrou em pânico, sentou-se a suar no gabinete e só por volta das dez horas conseguiu reunir coragem suficiente para telefonar para o apartamento de Haston Place.
Munro tinha trabalhado durante grande parte da noite, pondo a papelada em dia e estava a tomar um pequeno-almoço já tardio quando Carter se lhe juntou. O capitão olhou pela janela durante algum tempo, com uma chávena de chá na mão.
--Que pretende fazer com Craig, meu brigadeiro?
--Se o pateta não tomar juízo, mantenho-o fechado enquanto o caso não se resolver--respondeu Munro calmamente, barrando uma fatia de pão torrado com manteiga.--Não lhe agrada a solução, não é verdade, Jack?
--Tudo isto é um negócio muito sujo!
Tocou o telefone.
--Atenda--disse o brigadeiro.
Carter levantou o aparelho, ouviu e encostou-o ao peito, com um sorriso fugaz nos lábios:
--Baum, meu brigadeiro. Parece que o Craig foi mais esperto do que o Arthur e fugiu.
--Meu Deus! O homem é pior que o Houdini.
--Que fazemos, meu brigadeiro?
Munro tirou o guardanapo.
--Diga a Baum que eu trato do assunto.--Carter assim fez e Munro levantou-se.--Uma coisa é certa.
Não podemos transformar isto num escândalo. Isso é que não pode ser, de modo algum.
--Não, de facto.
--Chama o condutor, Jack. Vou-me fardar e vamos para Baker Street.
A cantina em Baker Street servia um pequeno-almoço esplêndido. Wallace estava ainda no edifício, descendo as escadas, quando Munro e Carter entraram.
--Bom dia, meu brigadeiro. Mudança de planos?
--De que raio está a falar?--perguntou Munro.
Wallace disse-lhe.
Joe Edge estava ao pé do hangar de Cold Harbour, observando o Lysander a levantar e a entrar na nuvem, que se aproximava do lado do mar. Grant regressava a Croydon. Ouviu a campainha do telefone, no gabinete envidraçado do hangar.
Edge disse aos mecânicos que atendia, entrou no gabinete e levantou o telefone.
--Sim?
--És tu, Edge? Fala Munro.
--Sim, meu brigadeiro.
--Notícias de Osbourne?
--Sim, aterrou há uma hora. Grant acaba de levantar, de regresso a Croydon.
--Onde está agora Osbourne?
Edge pressentiu problemas e respondeu com vivacidade:
--Hare levou-o num dos jipes. Julie estava com ele.
Foram para o bar.
--Ouve com cuidado, Edge--disse Munro.--Parece-me que Osbourne está com ideias de persuadir Hare a fazer uma viagem não autorizada a França. Tens de impedir lSSO.
--Como, meu brigadeiro?
--Bom Deus, de qualquer forma que sejas capaz. Toma a iniciativa. Logo que Grant volte e se reabasteça, vamos para aí.
Desligou. Edge colocou o telefone no descanso, com um sorriso nos lábios, que nada tinha de agradável.
Abriu uma gaveta, tirou o cinturão e o coldre da Luftwaffe, com a Walther. Saiu rapidamente, meteu-se no jipe e dirigiu-se para a aldeia, parando a cerca de cinquenta metros do bar. Encaminhou-se para o pátio das traseiras, e espreitou através dos vidros da porta da cozinha. Estava vazia. Abriu a porta com cuidado e entrou.
A tripulação do Lili Marlene estava encostada ao balcão, ouvindo o que Hare dizia.
--Ouviram os factos. Tudo o que precisam de saber.
Miss Trevaunce está em tão maus lençóis quanto se possa imaginar e é tudo obra de Munro. O major e eu desejamos fazer alguma coisa, mas não temos autorização. Se algum de vós entender que não deve vir, que o diga já.
Não o tomarei de ponta, por causa disso.
--Por amor de Deus, meu comandante, porque esperamos?--disse Schmidt.--Temos de preparar o navio.
--Ele tem razão, Herr Kapitan--apoiou Langsdorff, impassível.--Se sairmos ao meio-dia, chegamos a Grosnez às seis... isto, se quiser usar o cais novamente.
Craig e Julie estavam sentados atrás do balcão, prestando atenção. Edge ouvia tudo, na cozinha.
Hare preveniu:
--Será uma travessia diurna. E sempre perigoso.
--Já o fizemos antes disto!--recordou-lho Langsdorff.
Schmidt riu-se:
--Para os bravos da Kriegsmarine, tudo é possível.
Hare voltou-se para Craig:
--Portanto, pode ir.
Craig disse:
--Vou levar Julie a casa, lá em cima. Preciso de umas coisas do guarda-roupa e preciso que ela mande uma mensagem para o Grand Pierre.
Edge saiu imediatamente da cozinha e correu para o jipe. Saltou para o volante e afastou-se rapidamente, no momento preciso em que a tripulação começava a sair d'O Enforcado.
Quando Craig e Julie saltaram para o outro jipe, Hare sorriu-se secamente: --Pronto! Lá se vai a minha carreira!
--Qual carreira?--perguntou Craig, fazendo uma careta e afastando-se.
Do guarda-roupa de Julie tirou um uniforme negro de Standartenführer da Brigade Charlemagne da Waffen-SS.
Julie entrou.
--Já fiz o bilhete de identidade que queria. Passeio em nome de Henri Legrande. Para dar sorte.
Craig dobrou o uniforme:
--Quando as coisas são difíceis, prefiro o preto-disse-lhe.--É uma forma de meter o terror de Deus na pele das gentes!
--Que é preciso dizer a Grand Pierre?
--Que deve esperar-me no cais de Grosnez às seis horas, e que tem de me fornecer o devido transporte militar. Um Kubelwagen, ou coisa que o valha.
--Muito bem. Eu trato disso.
Craig sorriu-lhe:
--Já se apercebeu de que Munro a manda fuzilar, ou algo que se pareça, quando aqui chegar?
--Para o inferno com Munro!
A porta deu um estalido e, ao voltarem-se, surgiu Edge, de pistola na mão: --Na realidade, meu velho, não vai a lado nenhum.
Acabei de falar ao telefone com o brigadeiro Munro, que me deu ordens precisas para o reter.
--De facto?--disse Craig, atirando-lhe com o dólman das SS sobre a mão, cobrindo-lhe a Walther e lançando-lhe o braço contra a parede de tal modo que Edge largou a arma. Simultaneamente, aplicava-lhe um forte murro no queixo.
O piloto dobrou-se sobre si próprio e Craig arrastou-o pelo colarinho para a grande mesa de trabalho.
--Passe-me um par dessas algemas, Julie.--Ela entregou-lhas e ele algemou-lhe os braços às pernas.
--Deixe-o ficar assim, até Munro e Jack Carter chegarem.
Ela pôs-se em bicos de pés e deu-lhe um beijo.
--Tenha cuidado, Craig.
--Não tenho sempre?
Saiu, batendo com a porta, e logo em seguida ouviu o barulho do jipe a arrancar. Suspirou, deixou Edge onde estava e dirigiu-se Para a sala de transmissões.
Meia hora depois saiu para a parte mais afastada do jardim, de onde podia avistar todo o caminho para a aldeia. Aproximava-se uma vaga de nevoeiro, vinda do mar. Ia ser uma travessia má. Enquanto observava, o Lili Marlene saiu do porto, com a bandeira vermelha e negra da Kriegsmarine içada no mastro, bem visível, até o navio ser engolido pelo nevoeiro, como se fosse um fantasma.
@Catorze
Quando o Lili Marlene deixou Cold Harbour, o marechal-de-campo Erwin Rommel acabava de entrar no Chateau de Voincourt. Genevieve aguardava-o no cimo das escadas, em companhia de sua tia, do general Ziemke e do pessoal do seu estado-maior, do qual constava Max Priem, para lhe apresentar as boas-vindas.
A coluna de viaturas era surpreendentemente pequena, dada a importância do visitante. Rommel tinha viajado num Mercedes aberto. Era um homem baixo, entroncado, e trazia um capote de cabedal, com um lenço branco à volta do pescoço, e os famosos óculos do deserto, que sempre usava puxados acima, sobre o boné. Genevieve observou-o a corresponder à continência e a apertar a mão ao general Ziemke e ao brigadeiro da SS Seilheimer, após o que aquele lhe apresentou sua tia, e, logo a seguir, ela própria.
Falava francês impecavelmente:
--Uma honra, mademoiselle--disse, a olhá-la bem nos olhos, como se a estivesse estudando. Genevieve pressentiu o poder, o enorme dinamismo do homem.
Rommel inclinou a cabeça, e levou-lhe a mão aos lábios.
Passaram ao átrio. Hortense disse a Ziemke:
--Deixamo-lo, agora, senhor general. Sem dúvida que tem problemas importantes a tratar. Senhor marechal-de-campo, voltaremos a encontrar-nos à noite, não é verdade?
--Terei todo o prazer, senhora condessa--Rommel correspondeu com um cumprimento cortês.
Quando subiam as escadas, Genevieve observou:
--Em quarenta e dois, realizou-se um inquérito em alguns sectores da opinião pública inglesa no qual se perguntava qual era o maior general. Muitos escolheram este nosso amigo.
--Sabes agora porquê--respondeu Hortense.--Desejo falar contigo, mas não no quarto. No pavilhão velho, dentro de quinze minutos.
Dirigiu-se para o quarto. Quando abriu a porta, Maresa acabava de fazer a cama.
--Vou dar uma volta--disse-lhe Genevieve.--Descobre-me aí qualquer coisa quente que possa usar. Está fresco, lá fora.
Maresa tirou do guarda-roupa um casaco de caça com uma gola de peles.
--Isto serve, mamselle?
--Parece-me que sim.--A rapariga estava muito pálida, com os olhos ainda um pouco encovados. Genevieve notou, e disse-lhe:--Não estás com bom aspecto. Sentes-te bem?
--Oh! Mamselle, estou tão assustada!
--Também eu--disse-lhe Genevieve--, o que não impede que faça o que tenho a fazer, tal como tu.
Segurou-a pelos ombros, com firmeza. Maresa inclinou a cabeça, com ar fatigado.
--Sim, mamselle.
--Bom--disse Genevieve.--Podes preparar o vestido comprido branco. Vou usá-lo esta noite.
Saiu, e Maresa ficou no quarto, com um ar pateticamente infeliz.
Estava agradável no jardim. Sentiam-se os prenúncios da Primavera no ar, com a erva bem verde sob as árvores, e o sol filtrando-se por entre a folhagem a formar desenhos estranhos e a transformar as folhas em ouro. Um momento de paz inesperado passou sob um arco, num muro de pedra encontrou Hortence sentada na beira da fonte, com o pavilhão de Verão por detrás dela, todo branco--mas com zonas de musgo verde nas paredes-e algumas das janelas partidas.
--Dantes, sentia-me bem aqui--disse Genevieve.-Quando éramos crianças, costumavas dar-nos o chá neste pavilhão.
--Tudo passa.
--É verdade. É uma pena.
--Dá-me um cigarro--pediu Hortense.--Parece-me que prefiro vê-lo como está agora, em decadência.
Aquele musgo, por exemplo. Verde-escuro sobre branco.
Cria uma atmosfera que não existia antes. Uma sensação de coisas perdidas.
--Filosofia da velhice?
Perpassou um lampejo de divertimento pelos olhos da tia.
--Interrompe-me, se voltar a acontecer!--Um dos soldados de patrulha passou a alguns passos, de pistola-metralhadora suspensa do ombro, e um lobo-da-alsácia pela trela.--Ouviste o que se passou ontem à noite?
--Vi tudo.
--Um problema muito aborrecido. Philippe Gamelin, da aldeia. Um caçador-furtivo que há anos nos invade a propriedade. Disse a Ziemke para não ser muito duro, mas ele insiste que tem de fazer um exemplo deste caso, em interesse da segurança futura.
--Que é que lhe vão fazer?
--Provavelmente, será enviado para um campo de trabalho.--Ela estremeceu, de asco.--A vida está a tornar-se mais maçadora, dia a dia. Espero em Deus que os Aliados se apressem e efectuem esse desembarque que há tanto tempo nos prometem. Bem, e quanto à noite de hoje? Sabes precisamente o que vais procurar?
--Parece-me que sim.
--Parece-me... é pouco, criança. Tens de saber.-Hortense sombreou os olhos e contemplou a fachada da casa e o Quarto Rosa.--Da tua varanda ao terraço que distância vai? Seis metros? Tens a certeza que és capaz de o fazer?
--Desde os meus dez anos de idade--garantiu-lhe Genevieve.--E às escuras. A alvenaria, no pilar, faz saliências, que servem de degraus.
--Muito bem. O início do baile está previsto para as sete. Eles não querem mais tarde, porquanto Rommel deverá seguir para Paris de noite. Eu desço um pouco antes das oito. Sugiro que subas ao teu quarto logo a seguir, mal tenhas uma oportunidade.
--Maresa combinou encontrar-se com Eric no pavilhão, às oito horas.
--Bem, por muito grandes que sejam os seus encantos, não podemos esperar que ela o consiga manter lá mais de vinte minutos--disse Hortense.--Chantal fica à espera no teu quarto, para te ajudar no que precises.
--Se tudo correr bem, devo demorar dez minutos no caminho até à biblioteca, tirar as fotografias e regressar--assegurou Genevieve.--E estarei de volta ao baile às oito e meia, com o cofre fechado, sem quaisquer vestígios da abertura e sem que ninguém tenha dado por nada.
--Excepto nós--concluiu Hortense com um sorriso frio--, e isso, minha querida, acho que será altamente gratificante.
Pouco antes das seis, com a luz do dia quase no fim, o Lili Marlene singrava intrepidamente em direcção ao cais deserto de Grosnez. Havia uma neblina ligeira, o mar estava calmo e a bandeira da Kriegsmarine pendia molemente do mastro. Langsdorff estava ao leme e Hare perscrutava a praia com o binóculo.
--Sim, lá estão eles.--Riu-se baixo:--Ora esta!
Olha-me aquele descaramento! Trouxe duas viaturas: um Kubelwagen, ao que parece, e uma limusina preta, e eles estão fardados!
Passou o binóculo a Craig, que o focou para o cais.
Havia três homens com uniformes do Exército alemão, de pé, junto do Kubelwagen. Grand Pierre também lá estava, encostado ao carro, a fumar um cigarro.
--Não restem dúvidas de que este tipo tem classe!-considerou Craig.--Bom, será melhor descer e fardar-me.--E saiu da casa do leme.
Hare disse a Langsdorff:
--Muito devagar!
Desceu para o convés, onde a tripulação montara já
postos de combate, com todos os canhões guarnecidos, e daí seguiu para baixo. Quando entrou no minúsculO
camarote, Craig abotoava já o dólman da farda da Waffen-SS.
Hare acendeu um cigarro:
--Que pensas a respeito disto?
Craig respondeu:
--Em todos os livros que li desde os meus dez anos, o herói volta sempre, para levar a rapariga. Foi como que um pré-planeamento da minha forma de pensar, não me deixando grandes possibilidades de escolha.--Estava pronto, com uma Walther à cinta, e a fivela da SS resplandecente. Pôs o boné.-Que tal?
--Ninguém te porá em dúvida com uma farda dessas, desde a polícia militar à sentinela do portão!-disse Hare, saindo.
Ao acostarem ao cais inferior, Grand Pierre desceu a escada ao encontro deles, extremamente sujo, como usualmente. Sorriu-se: --Céus! Sinto-me transportado aos bailes de máscaras dos meus tempos de Oxford. Osbourne, acho que está mesmo elegante.
--Antes do mais, temos de esclarecer um ponto, Grand Pierre--disse Craig.--Isto é um problema particular. Viemos buscar a rapariga por nosso absoluto alvedrio!
--Deixe-se disso, meu velho. Julie Legrand pôs-me ao corrente do problema. Para lhe ser franco, a minha malta não estava lá muito interessada. Quero com isto dizer que a vida de uma moça, agente inglesa ou o que quer que seja, não tem para eles uma importância por aí além. Já estão habituados a grandes contagens de cadáveres, entre os quais se incluem ocasionalmente as próprias famílias. Sucede, porém, que sempre tive uma certa capacidade de persuasão...
Arranjei-lhe um belo Mercedes e
um Kubelwagen, com três dos meus rapazes devidamente fardados, para o escoltarem. Um toque final artístico.
Claro que se piram, mal cheguem ao Chateau.
Craig perguntou:
--Fica a aguardar-me nas imediações?
--Mas claro, lá em cima, na mata, com alguns dos meus rapazes. O torpedeiro espera?
Hare voltou-se para Langsdorff.
--Reparação do motor, suponho eu?
Langsdorff respondeu com um aceno de cabeça.
--De qualquer modo, durante a noite ainda, Herr Kapitan!
--Deus sabe quando estaremos de volta!--disse Craig.
--Cá estaremos!--respondeu Hare, sorrindo.
A tripulação aguardava, em silêncio. Craig prestou-lhes continência: --Homens!--disse em inglês--Foi uma honra
servir convosco!
O pessoal do convés postou-se em sentido. Apenas respondeu Schmidt: --Boa sorte, patrão! Desfaça-me esses sacanas!
Subiram as escadas para o nível superior, e aproximaram-se dos automóveis. Grand Pierre falou em francês aos três rapazes de uniforme alemão:
--Pronto, seus trastes, tratem dele. E se foderem tudo, não voltem!
Eles riram-se e entraram no Kubelwagen. Craig sentou
-se ao volante do Mercedes.
Grand Pierre disse:
--Tenham cuidado, agora. A propósito, eles dão um baile, esta noite. Parece que vai haver grande alegria!
Gostaria de ir convosco, mas não trouxe smoking!
O Kubelwagen afastou-se, e Craig ligou o Mercedes e seguiu-os, observando Grand Pierre a diminuir no retrovisor e a desaparecer, ao iniciar a subida da colina.
O vestido era realmente maravilhoso, de uma espécie de malha de seda muito linda. Maresa ajudou Genevieve a vesti-lo e colocou-lhe uma toalha nos ombros quando ela se sentou, para acabar a maquilhagem.
--Viste hoje o René?--perguntou Genevieve, de um modo casual.
--Não, não vi, mamselle. Não apareceu ao jantar, no refeitório do pessoal. Mando chamá-lo?
--Não vale a pena, não era nada de importante. Já
tens de sobra em que pensar! Sabes o que tens a fazer?
Tens a certeza?
--Encontrar-me às oito com Eriç no pavilhão, e aguentá-lo lá o mais que puder!
--O que significa uns vinte minutos, pelo menos!
--disse Genevieve.--Menos do que isso, não interessa.--Deu uma palmadinha na face da rapariga.-Não fiques tão preocupada, Maresa. Trata-se de uma partida que queremos pregar ao general, nada mais!
Genevieve viu perfeitamente o ar céptico da moça, mas não se preocupou. Pegou na malinha de baile, sorriu, como em jeito de auto-encorajamento, e saiu.
O baile realizava-se na Galeria Longa, e era evidente que eles se tinham esforçado no arranjo. Quando Genevieve entrou, pareceu-lhe que já lá estava toda a gente.
Os candeeiros brilhavam, havia flores e uma pequena orquestra tocava uma valsa de Strauss. Rommel ainda não chegara, mas já lá se encontrava o general Ziemke, de pé, com Seilheimer e a mulher. O general, vendo Genevieve, desculpou-se e atravessou a galeria, onde os dançarinos se afastaram, para lhe dar passagem.
--A sua tia?--perguntou, com ar ansioso.--Desce?
Passa-se alguma coisa?
--Pelo que sei, tudo vai bem. E o marechal-de-campo?
--Estava aqui há momentos, mas recebeu uma chamada de Berlim. Salvo erro, do próprio Führer.--Limpou o suor da testa com um lenço.--Temos aqui muita gente sua conhecida. Os Comboult, por exemplo.
Estavam do outro lado da sala. Maurice Comboult
--"Papá Comboult" para os trabalhadores--com a mulher e a filha. Cinco vinhas, duas fábricas de conservas e outra de maquinaria agrícola. O homem mais abastado do distrito, e que mais rico ia ficando com a colaboração que prestava aos Alemães. Genevieve ocultou, a custo, a ira.
O marechal-de-campo Rommel surgiu à porta, com Priem a seu lado. Ziemke desculpou-se e foi ter com ele.
O jovem tenente da noite anterior--aquele que dançava extremamente bem--acercou-se dela e pediu-lhe a
valsa seguinte. Dançou tão bem como sempre e, quando a orquestra parou, ofereceu-se para lhe trazer uma taça de champanhe.
Ficou ao pé da coluna, aguardando que Hortense descesse. Ouviu a voz de Priem atrás de si: --Estava convencido que seria difícil parecer mais bela do que o habitual, mas devo dizer-lhe que está maravilhosa esta noite!
--Que simpatia a sua!--exclamou ela, sentindo realmente o que dizia.
A orquestra começou a tocar outra valsa, ele tomou-a nos braços, sem uma palavra, e começaram a rodopiar.
Pôde ver o tenente observando-os com ar de censura, segurando uma taça de champanhe em cada mão.
A música parecia continuar para sempre, e as coisas revestiam-se de um ar de irrealidade, com os ruídos soando abafados, como se estivesse debaixo de água.
A valsa terminou, por fim, e ouviram-se algumas palmas.
Rommel não estava presente na sala. Ziemke fez um aceno a Priem, que se desculpou e saiu.
Foi este o momento que Hortense escolheu para fazer a sua entrada na sala. As faces pareciam mármore esculpido, e tinha penteado o lindo cabelo ruivo para cima, fazendo um alto sobre a cabeça. O vestido, de veludo azul-escuro, varria o solo, fazendo um contraste perfeito com o cabelo ruivo e os olhos líquidos.
Cessaram as conversas, porque as pessoas se voltavam para a ver, e Ziemke apressou-se ao longo da galeria para a receber, inclinando-se sobre a sua mão. Ofereceu-lhe então o braço, e acompanhou-a até à outra extremidade, onde tinha sido estrategicamente colocado um conjunto de cadeiras Luís XIV.
Genevieve viu as horas. Passavam precisamente cinco minutos das oito e a orquestra tocava novamente. Esgueirou-se por entre a multidão, abriu a porta da sala de música e entrou.
Fora sua ideia encurtar caminho para o átrio, mas, em vez disso, teve um choque tremendo ao encontrar o marechal-de-campo Erwin Rommel sentado numa cadeira ao pé do piano, fumando um cigarro.
--Ah! Mamselle Genevieve. --Levantou-se. --Já
farta?
--Apenas uma dor de cabeça--disse ela, com o coração a bater aceleradamente. Sem pensar, passou a mão pelas teclas do piano.
--Mas, sabe tocar?!--perguntou Rommel.
--Só um pouco.
Sentou-se, pois seria o que mais naturalmente podia fazer, e começou a tocar Clair de Lune. Fê-la pensar em Craig, naquela noite, em Cold Harbour. Rommel inclinou-se para trás na cadeira, com um ar de agrado no semblante.
Foi o destino que a salvou, pois, subitamente, a porta abriu-se e Max Priem entrou.
--Ah! Mas está aqui, meu general! Novamente o telefone, desta vez de Paris.
--Vê, mamselle? Não me deixam em paz.--Rommel sorriu com simpatia.--Talvez mais tarde possamos continuar?
--Por certo, senhor general--respondeu Genevieve.
Saiu. Priem sorriu-lhe durante um instante e seguiu-o.
Correu para a outra porta, passou ao átrio e subiu rapidamente a escadaria.
Chantal aguardava-a no quarto, com uma camisola preta e um par de calças na cama.
--Está atrasada!--ralhou ela.
--Deixa lá isso agora! Ajuda-me a tirar este vestido.
Correu-lhe o fecho para baixo, e a maravilhosa criação da moda deslizou para o chão. Vestiu umas calças largas, e enfiou a camisola pela cabeça. Meteu a chave e a cigarreira de prata e ónix num bolso, uma lanterna no outro, e dirigiu-se para fora.
--Para a guerra, pois então!
Chantal beijou-a sem jeito na face:
--Vai, faz o que tens a fazer, e volta, Genevieve Trevaunce.
Genevieve olhou-a, pasmada.
--Desde quando sabes?
--Acham que sou estúpida, tu e a condessa, não é?
Chantal, a velha estúpida. Mudei-te muitos cueiros, ainda nem tinhas um ano de idade. Convenceste-te que eu já não seria capaz de te distinguir dela, não foi?
Mas não havia tempo para recriminações, claro. Genevieve sorriu, deslizou por entre as cortinas para a escuridão da varanda. Tudo parecia muito sossegado, ali, ouvindo-se ao longe o som da música. Sentiu-se com doze anos, fugindo à socapa com Anne-Marie, que a tinha desafiado a montar a cavalo de noite. Saltou a balaustrada, agarrou-se à alvenaria e começou a descer rapidamente.
Na esquina, espreitou para o terraço, que estava deserto e silencioso. Seguiu rente à parede até à terceira porta envidraçada, e empurrou-a pelo centro, pelas fasquias de encosto das meias-portas. Sentiu uma certa resistência, que já esperava, mas a porta acabou por ceder. Deslizou por entre os reposteiros.
A biblioteca estava escura e a música ouvia-se melhor.
Acendeu a lanterna e procurou o retrato de Isabel, a décima condessa de Voincourt. Muito parecida com Hortense, olhava-a friamente lá do cimo. Genevieve rodou o quadro nas dobradiças, descobrindo a porta do cofre. Girou a chave com facilidade e abriu a porta.
Como deveria ter calculado, o cofre estava cheio de papéis. Sentiu um baque no coração, e quase entrava já em pânico quando viu uma pasta de cabedal com a inscrição Rommel em letras douradas na aba.
Abriu-a rapidamente, com as mãos a tremer. Continha apenas um processo com documentos, e, ao abri-la, as fotografias de plataformas de canhões e de dispositivos de defesa nas praias bastaram para lhe dar a perceber que tinha encontrado o que procurava.
Voltou a pôr a pasta no cofre, abriu o processo na secretária de Priem e acendeu o candeeiro. Tirou do bolsoa cigarreira, e, precisamente nesse momento, ouviu distintamente a voz de Priem, do outro lado da porta.
Nunca na vida se movera tão depressa. Encostou a porta do cofre, sem tempo para a fechar à chave, e voltou a pôr o retrato na sua posição. Apagou o candeeiro, pegou no processo e na lanterna.
Quando a-chave girou na porta, já ela voava para fora da sala, deslizando por entre as cortinas e encostando as meias-portas. Alguém abriu a porta da biblioteca e acendeu a luz, e, por uma nesga entre os reposteiros, viu Priem entrar na sala.
Oculta pela escuridão do terraço, pensou um pouco no que fazer, mas não tinha outra alternativa: dobrou a esquina e trepou de regresso ao quarto.
Chantal correu as cortinas, mal entrou.
--Que sucedeu? Correu mal alguma coisa?
--Priem apareceu de repente e quase me apanhou em flagrante. Nem sequer tive possibilidade de tirar as fotografias. Vou tirá-las agora.
Pôs o processo sobre o toucador, e foi buscar o candeeiro da mesinha-de-cabeceira, para ter mais luz.
--E que vais fazer, agora?
--Volto lá. Espero que ele tenha voltado ao baile, de modo a que eu possa repor o processo no cofre, antes que dêem pela falta dele.
--E Eric?
--Bom, há que ter confiança na capacidade de persuasão da Maresa!
Pegou na cigarreira, acendeu a lâmpada, fez saltar a tampa e começou a tirar fotografias, exactamente como Craig Osbourne lhe tinha ensinado, com Chantal a voltar as páginas. Vinte exposições, era o que ele lhe tinha dito, e havia mais páginas do que isso. Teria de se governar com as exposições de que dispunha.
Quando acabou, bateram à porta. Ficaram paralisadas.
Chantal sussurrou:
--Eu fechei-a!
;
Voltaram a bater à porta e a maçaneta da porta rodou.
Genevieve compreendeu oue tinha de resDonder.
--Quem é?--perguntou.
Ninguém respondeu. Empurrou Chantal para o quarto de banho.
--Entra para aí e fica quieta!
A outra assim fez. Genevieve enfiou o ficheiro de Rommel na gaveta mais próxima, e voltou-se, agarrando no vestido. Ouviu-se uma chave girar na fechadura, que empurrou para fora a chave do lado de dentro. A porta abriu-se e Max Priem entrou.
Ele sentou-se na borda do toucador, balançando uma perna, olhando-a com ar grave. Estendeu a mão e disse: --Entregue-mo!
--De que raio está a falar?
--Do processo que acaba de tirar da pasta do marechal Rommel. Posso mandar revistar o quarto, mas só Miss Trevaunce o poderia ter feito. Mais ninguém! Considerando, ainda por cima, a sua interessante mudança de vestuário...
--Muito bem! --Ela interrompeu-o bruscamente, abriu a gaveta e tirou o processo.
Colocou-o sobre a mesa:
--Lamento que isto se tenha passado!
--Só o lamenta porque está do lado errado.--Abriu a cigarreira e tirou um Gitane.
--Não o escolhi, mas há um ponto que pretendo esclarecer desde já, Miss Trevaunce. Eu sei quem é.
Ela aspirou o fumo com força, tentando acalmar-se:
--Não o percebo.
--São os olhos, Genevieve--disse ele, com brandura.--Nunca poderá dissimular a esse ponto... são exactamente da mesma cor dos dela, e, no entanto, a luz que os faz brilhar é totalmente diferente. Como tudo o mais em ambas, sempre igual, e, todavia, nunca igual, de modo algum.
Não soube que responder. Ficou para ali, à espera que caísse o machado.
--Ensinaram-lhe tudo o que havia a ensinar sobre ela, não é verdade? Forneceram-lhe Dissard como guia e orientador, mas, no final de contas, esqueceram-se de um pormenor essencial, o mais importante de todos.
Aquele que, desde o início, me deu a conhecer que não podia ser Anne-Marie Trevaunce.
A despeito de si própria, já totalmente desarmada, Genevieve fez a pergunta errada: --E qual foi ele?
--É simples. É que ela trabalhava para mim!--respondeu ele.
Ela sentou-se e, não obstante a realidade, sentia-se curiosamente calma e sob controlo--pelo menos, assim o afirmou a si própria. Priem afastou os cortinados, e a chuva continuava batendo contra os vidros com dedos invisíveis, como se Anne-Marie estivesse lá fora, tentando entrar. Ele continuou a falar, sem se voltar.
--Outra coisa que nada a ajudou foi que eu recebi informação da sua verdadeira identidade mesmo antes de ter chegado, por intermédio de um dos nossos agentes em Londres, uma toupeira que introduzimos na SOE há já muito tempo.
Genevieve ficou chocada.
--Não acredito!
--É verdade, pode crê-lo, mas já voltaremos ao assunto. Conversemos a respeito da sua irmã.--Voltou-se: --Quando viemos para aqui, é evidente que sabíamos perfeitamente que iríamos atrair as atenções sobre nós, de modo que decidi fornecer a Londres um agente, e quem mais poderia ter sido senão Anne-Marie Trevaunce?
--Que, em troca, poderia continuar a viver do modo a que estava habituada... é isso que pretende dizer?
Ele correu as cortinas e voltou-se.
--Não propriamente. Ela nunca se vendeu por pouco, fosse o que fosse.
--Então?
Não respondeu, continuando a expor o caso com voz calma.
--Ela deu à gente da SOE informação suficiente para os manter sossegados, a maior parte da qual era relativamente pouco importante, como poderá calcular. Recorria a um homem que sabíamos pertencer à Resistência, e que deixamos em sossego. Até lhe permitimos que se servisse de Dissard, para tornar mais perfeita a encenação.
Então, Londres descobriu que se ia realizar uma reunião importante, e tiveram um gesto sem precedentes. Chamaram-na lá, e eu autorizei-a a ir.
--E ela fez sempre o que lhe mandou?
--Evidentemente. Sabe, nós tínhamos Hortense. A única fraqueza de Anne-Marie, o único traço em comum consigo, é esse amor pela vossa tia.--Genevieve olhou-o, sem expressão no rosto.--A única razão que a justificava, desde o início, não está a ver?--Abanou a cabeça, em sinal de reprovação.--Parece-me que nunca a conheceu muito bem, essa sua irmã.
A chuva caía com mais força. Genevieve continuou sentada, incapaz de falar, tão grande era a sua emoção.
--Sabendo que jogava um jogo comigo, achei melhor ter uma conversa com Dissard.
--René?--perguntou ela, num murmúrio.
--Sim, aquela mensagem que o levou a sair com tanta urgência. Quando ele chegou ao seu destino, Reichslinger e os seus homens aguardavam-no.
--Onde está ele? Que lhe fizeram?
--Nada. Ele matou-se, com um tiro na cabeça, antes que os outros tivessem a possibilidade de o desarmar --respondeu Priem.--Suponho que o fez para a proteger. Ele sabia perfeitamente que não se aguentaria muito tempo às mãos de Reichslinger. Não há ninguém que não ceda à tortura, mais cedo ou mais tarde. Aliás, isso não tinha a menor importância. O nosso homem em Londres tinha já fornecido toda a informação que pretendíamos.
A nossa toupeira na SOE, um tal doutor Baum, que suponho conheça. O único problema com este homem é que eu sabia, há já algum tempo, que ele também trabalhava para o outro lado.
Tenho uma fonte em Londres
ainda mais digna de crédito.
--Está a mentir!--disse Genevieve.
--A sua irmã encontra-se neste momento na cave de uma casa da Raglan Lane, em Hampstead. Segundo me informaram, está absolutamente louca, mas já o sabe, não é verdade?
A resposta de Genevieve, fremente de raiva, foi instintiva e escaldante:
--Foram os alemães, seus porcos imundos, que a puseram assim. Era vossa agente e, no entanto, foi uma patrulha da SS que a violou. Destruíram-na para sempre, esses animais. Sabia isso?
--Isso não é verdade--disse ele, agora com um certo brilho de piedade nos olhos.--Foi a sua gente que a pôs assim, mais ninguém.
O quarto estava silencioso, e ela sentia-se aterrorizada.
--Que diz o senhor?--murmurou.--Que pretende dizer?
--Minha pobre Genevieve--disse ele.--Acho melhor que me ouça.
O que ele lhe disse foi--embora ela não o soubesse-praticamente o mesmo que Baum contara a Craig Osbourne. A verdade, a verdade autêntica sobre a irmã, o médico, a casa de repouso Rosedene e Munro.
Quando terminou, ela ficou para ali, as mãos agarradas com força aos braços da cadeira. Após algum tempo, pegou na cigarreira e tirou um cigarro. Era fantástico o auxílio que um cigarro podia dar. Dirigiu-se até às portas envidraçadas da varanda, abriu-as e contemplou a chuva.
Priem seguiu-a.
Voltou-se para ele.
--Porque devo eu acreditá-lo? Como é possível que tenha conhecimento disto tudo?
--Os Ingleses trabalham com agentes duplos e nós também. E um jogo entre nós. Como já lhe disse, o movimento clandestino judeu informou Baum de que a filha tinha morrido, e ele foi ter com Munro. Para tornar os contactos connosco mais verosímeis, não se podiam permitir a eliminação do contacto que ele utilizava, a senhora Fritzgerald. Também a esta deram a escolher. Trabalhar como agente duplo ou enfrentar a execução, na Torre de Londres. Como é evidente, ela escolheu a hipótese mais razoável, ou, pelo menos, pareceu fazê-lo.
--Pareceu fazê-lo?
--A senhora Fritzgerald é uma sul-africana de origem holandesa, que odeia os Ingleses. O seu falecido marido era um irlandês que ainda odiava os Ingleses mais do que ela, e que tinha servido no IRA em mil novecentos e vinte e um, sob as ordens de Michael Collins. Ela fez de facto o que Munro pretendia que fizesse, mas o que o bom do brigadeiro nunca chegou a saber foi que ela mantém contactos com o IRA, em Londres, e que eles simpatizam connosco. Por conseguinte, e por intermédio destes, ela preveniu-nos há alguns meses da defecção de Baum, o que significa que estamos perfeitamente conscientes j de que ele, agora, trabalha totalmente para o outro lado: informa-nos do que eles pretendem que saibamos, o que significa que, no seu caso, eles pretendiam que nós soubéssemos quem era. As informações que ele não nos enviava enviava-as a senhora Fitzgerald por intermédio dos nossos amigos no IRA.
--Que disparate!--exclamou Genevieve, apercebendo-se, no entanto, da verdade em toda a sua terrível dimensão.
--Qual era a finalidade da sua missão? A reunião do marechal Rommel? Os planos do Muro do Atlântico? -- Abanou negativamente a cabeça.--Nunca poderia ter sido. Enviaram-na para que fosse traída por Baum, em cuja palavra pensam que ainda confiamos.
--Mas porque fariam isso?
--Os Reichslingers deste mundo podem ser muito persuasivos. Esperava que cedesse, a sua gente. Desejava que cedesse. Disse-lhe tudo, deixou escapar o que quer que fosse, algo de que, neste momento, nem sequer se recorda. Algo que, aparentemente, teria a maior das importâncias.
Lembrou-se de Craig Osbourne no Lili Marlene, voltou a sentir a força da sua mão sobre a sua e tentou não acreditar. Mas, então, ocorreu-lhe a cena de Munro, no gabinete em Cold Harbour, do mapa na secretária, que ele tão rapidamente escondera, após lhe ter permitido que visse as áreas de desembarque do Dia D.
Priem estivera a observá-la atentamente todo o tempo.
Sorriu:
--Viu o que era, não é verdade?
Concordou, subitamente exausta.
--Sim. Gostaria de saber?
--Dir-mo-ia?
--Tentarei não o fazer, não vá dar-se o caso de estar errada. Provou-me, de facto, que há gente do meu lado tão imunda e sem escrúpulos quanto do vosso, mas, mesmo assim, prefiro que seja o meu lado a ganhar esta guerra. Há muito boa gente de onde eu venho, e detestaria ver a SS em Saint Martin.
--?ptimo. Era isso precisamente que esperava de si.
Ela respirou fundo.
--Que vai agora passar-se?
--Volta a vestir o seu vestido e regressa ao baile.
Começava a sentir-se um pouco estúpida.
--Está a brincar?
--De modo nenhum. O marechal-de-campo Rommel parte com a comitiva dentro de uma hora. Segue para Paris durante a noite. A Genevieve encontrar-se-á entre os que se vão despedir dele e desejar-lhe boa viagem.
Trocará algumas palavras com ele. Tudo bom material para os fotógrafos. Ele prosseguirá viagem com toda a segurança e a Genevieve continuará a dançar.
--A rainha da festa?
--Pois claro. Claro que talvez se possa argumentar que poderá aproveitar uma qualquer oportunidade para fugir, por muito fraca que seja. Mas isso equivaleria a deixar a condessa em nosso poder, o que de facto seria indesejável. Está a seguir o meu raciocínio?
--Completamente.
--Portanto, a máxima confiança entre nós os dois.-Beijou-lhe a mão.--Sabe, apaixonei-me um pouquinho por si. Só mesmo um pouquinho. Nunca foi como ela, Genevieve. Foi sempre igual a si própria, muito simplesmente.
--Isso passa-lhe.
--Evidentemente.--Deteve-se, com uma das mãos sobre a maçaneta da porta, finamente trabalhada.--Tudo passa, com o tempo. Mas, isso, descobri-lo-á por si própria.
Ao abrir a porta, Genevieve interrompeu-o:
--Está realmente convencido que a conhecia, não é
verdade?
Ele voltou-se, ligeiramente surpreendido:
--Quem, Anne-Marie? Tão bem quanto poderia desejar.
A cólera que sentia era tão profunda que não pôde contê-la.
--O nome de Grand Pierre diz-lhe alguma coisa?
Ele ficou imóvel.
--Porque o pergunta?
--É um dirigente da Resistência muito importante, não é verdade? Tenho a certeza que pagaria bem por lhe pôr as mãos em cima. Surpreendia-o muito que a minha irmã tivesse contactos com ele?
Priem ficou subitamente pálido:
--Sim, para lhe ser totalmente franco, surpreendia mesmo.
--Não conseguiram apanhar o assassino do general Dietrich. Sabe porquê?
--Não, mas parece-me que mo vai dizer.
--Anne-Marie fê-lo desaparecer debaixo do nariz da sua preciosa SS, escondido sob o assento da retaguarda do Rolls-Royce.--Sorriu com raiva, gozando a sua pequena vitória. --Por conseguinte, coronel Priem, ela nunca foi totalmente aquilo que pensava que ela fosse.
Ele contemplou-a durante um longo instante, voltou-se e saiu, fechando a porta sem ruído. Genevieve respirou fundo, dirigiu-se ao quarto de banho, e disse.
--Fica aí até eu sair.
--Está bem--sussurrou Chantal.
A chuva batia nos vidros, e ela ficou imóvel, ouvindo-a durante alguns segundos. Pois bem--como dizia o poeta--era assim que o mundo acabava'. Sem grande estrondo. Tal como Priem fizera notar, havia Hortense a considerar. Tudo escapara ao seu controlo e nada podia fazer para remediar a situação. Pior ainda, nem vontade de o fazer tinha, sequer. No final de contas, a ironia maior residia no facto de que, à parte os punhos de renda, Max Priem era Craig Osbourne e Craig Osbourne era Max Priem.
Por conseguinte... respirou fundo e começou a vestir-se.
@Quinze
Como se sonhasse, desceu as escadas pelo braço de Priem, que sorriu com simpatia para um oficial com quem se cruzaram. Contra sua própria vontade, ela riu alto, e Priem olhou-a, surpreendido, fazendo mais força com a mão que lhe segurava o braço: --Sente-se bem?
--Nunca me senti melhor.
--?ptimo.--Atravessaram o átrio e detiveram-se à
entrada da galeria.--Prepare-se para a entrada, agora.
Sorria, sorria sempre. As pessoas esperam que o faça.
Uma ordenança abriu a porta e entraram. A orquestra tinha deixado de tocar, no momento, mas ouviam-se risos e vozes, sentia-se um ar de bem-estar, viam-se mulheres lindas e uniformes por todos os lados, reflectidos pelos grandes espelhos das paredes.
Hortense estava sentada numa das cadeiras douradas do outro lado da sala, com um coronel de infantaria inclinado atenciosamente para ela. Ria-se de qualquer coisa que ele acabara de dizer, e, então, os seus olhos encontraram-se com os de Genevieve. Fez-se uma pausa mínima, e ela sorriu com encanto, levantando os olhos para o coronel, novamente.
--Posso falar a minha tia?--pediu Genevieve a Priem.
--Certamente. Será conveniente para todos que ela conheça a situação do jogo. Suponho que não vai tentar negar que ela não sabe distinguir a Genevieve da Anne-Marie.
Genevieve seguiu sem pressa por entre a multidão. Ao chegar, Hortense sorriu e elevou a face, para receber um beijo.
--Estás a divertir-te, chérie?
--Mas, evidentemente!--Genevieve inclinou-se sobre o braço da cadeira.
Hortense entregou a taça vazia ao coronel.
--Não se importava de me trazer outra, mas talvez um pouco mais seco, desta vez?--Ele bateu os calcanhares, em sinal de obediência, e afastou-se. Tirou um cigarro da cigarreira da sobrinha e disse casualmente, enquanto Genevieve acendia o isqueiro.
--Alguma coisa correu mal. Leio-to nos olhos. Que se passou?
--Priem chegou quando não devia. Sabe de tudo.
Hortense sorriu com alegria, acenando para alguém do outro lado da sala:
--Que tu não és Anne-Marie?
Genevieve notou que o coronel atravessava a sala, com uma taça em cada mão, e disse com voz calma, um sorriso artificial na cara: --Munro enviou-me para aqui para ser traída. É a finalidade da missão. Acabei de o saber por Priem.
Uma história suja, desde o início. A propósito, René
morreu.
A história abalou profundamente Hortense, como nada até então o conseguira, apagando-lhe o sorriso dos lábios.
Genevieve agarrou-lhe a mão:
--Firme, minha querida, firme! Vai ser uma noite longa, muito longa.
O coronel estava a seu lado, oferecendo-lhe a bebida com galanteria. Genevieve deu-lhe uma palmadinha na face.
--Tia, porta-te bem!--disse-lhe, rindo, e afastando-se.
De modo automático, serviu-se de uma taça de champanhe de um dos tabuleiros que passava, e, quase imediatamente, a mesma foi-lhe tirada das mãos e colocada sobre uma mesinha próxima.
--Não, parece-me que não, Genevieve--disse Priem.
--Precisa das ideias bem claras esta noite.
Ela nem se preocupou em voltar-se, limitando-se a olhá-lo através do espelho. Como sempre, o seu aspecto era impecável, muito elegante, com as condecorações resplandecentes e a Cruz de Cavaleiro suspensa do pescoço.
Aguardava uma resposta, com um sorriso tranquilo e grave. Estabelecera-se novamente uma atmosfera de intimidade entre os dois, e isso não estava certo, nada certo mesmo.
--Por conseguinte, não há desculpas?
A orquestra voltou a tocar nesse momento, uma valsa, e ele inclinou a cabeça, fazendo uma vénia ligeira.
--Uma volta pela sala, talvez?
--Porque não?
Segurava-a com leveza, ao dançarem. Ainda se lembrou de sorrir, ao passarem pelo general, reparou no marechal-de-campo Rommel a falar com a tia de um modo cortês, e, sobranceiros a todos, olhando-os das sombras lá de cima, os retratos de antepassados obscuros e de há muito esquecidos.
--Strauss--disse ela.--Um contraste enorme com Al Bowlly. Pretendia brincar comigo, avisar-me, ou, mais simplesmente, gosta da melodia?
--Estamos a entrar em terreno perigoso--disse ele, com ar grave.--Para ambos, parece-me.
--Se é o que pensa...
--Mas claro que é. De momento, vamos limitar-nos ao essencial. No fim do baile, depois de o marechal-de-campo ter partido, será acompanhada até ao seu quarto, e bem assim a sua tia, como seria normal. A única diferença será que terão guarda montada à porta.
--Naturalmente.
Pelo canto dos olhos pareceu-lhe vislumbrar, no limiar da percepção das coisas, a imagem pouco clara de alguém, como que uma memória indefinida e persistente, uma inclinação de cabeça e um gesto de acender um cigarro que lhe eram muito familiares. Mas era impossível --totalmente impossível.
Viu-o de novo, muito claramente agora, encostado à
parede, com a cabeça envolta em fumo, de cigarro na mão. Sorria prazenteiramente, como se estivesse a vê-la pela primeira vez: Craig Osbourne, impecável no uniforme negro de coronel da Brigade Charlemagne, a brigada francesa de Waffen-SS.
E isto não fazia sentido, pois, se era verdade o que lhe dissera Max Priem, não havia a mínima razão para que Craig Osbourne se encontrasse ali. Porque se dirigia para eles, pararam de dançar, com Priem de sobrecenho ligeiramente franzido.
--Anne-Marie, como está maravilhosa. Esperava encontrá-la aqui.--O francês era perfeito.--Isto está maravilhoso!--Voltou-se para Priem.--Peço que me perdoe, se interrompo. Mademoiselle Trevaunce e eu somos amigos de longa data.--Tomou-lhe a mão, e beijou-a ligeiramente.--Julho de trinta e nove. Um Verão longo e quente, há mais de mil anos!
A expressão de Priem era agora de divertimento sardónico, e Anne-Marie compreendeu que ele a imaginava verdadeiramente perturbada, desempenhando o papel de Anne-Marie com um amigo de quem nem o nome sabia.
--Henri Legrande--apresentou-se Craig, de voz tranquila.--Coronel...
Priem bateu os calcanhares.
--Priem. Às suas ordens, Standarteneführer.
Retirou-se. Craig enlaçou-a com firmeza e começaram a dançar.
Estranho, saber o que ela sabia de todo o caso, e, não obstante, a sua preocupação imediata foi apenas por ele.
--Deve estar louco!
--É verdade. Já a minha mãe não se cansava de mo dizer. Não se mostre tão preocupada. Conserve nos lábios esse seu sorriso deslumbrante.--O braço apertou-lhe um pouco mais as costas.--Daniel na caverna do leão,, é o que eu sou. A Força do Senhor. Vou sair daqui muito calmamente e levo-a comigo. Foi para isso que vim. Foi uma armadilha, meu anjo. Munro pôs-lhe a cabeça no cepo, como se fosse um cordeiro no altar do sacrifício. Eles tramam-na sempre, faça o que fizer.
--Isso são notícias já velhas!--disse eh.--Tentei o golpe esta noite, mas fui apanhada em flagrante. Priem sabe de tudo, Craig. Contou-me tudo. Sobre Baum, sobre Anne-Marie, sobre toda esta história imunda. Ele controla-me totalmente, não está a ver? E sabe que farei tudo o que me mande fazer, por causa da tia Hortense.
Vigia-me todos os movimentos.
Ele parou de dançar e ofereceu-lhe o braço.
--Nesse caso, vamos dar-lhe algo em que pensar!-respondeu-lhe, conduzindo-a com segurança por entre a multidão, até às portas envidraçadas do terraço.
Chovia e havia uma certa frialdade na atmosfera, pelo que se mantiveram abrigados sob as colunas.
--Seja simpática e comporte-se normalmente. Uma gargalhada ocasional não seria má ideia, e um cigarro ajudava um pouco--disse ele.
Observou-o à luz do fósforo que lhe ardia nas mãos em concha, iluminando-lhe a face viril.
--Mas porquê, Craig? Porquê?
--Que lhe disse Priem?
--Que Anne-Marie trabalhava para ele.
Craig assobiou baixinho.
--Essa certamente vai abalar Munro. Significa isso que a Genevieve não tinha a mínima hipótese desde o início, mesmo que Baum a não tivesse traído.
--Está a tentar dizer-me que não sabia? Nem por sombras acredito em si! Fui usada por si, Craig, tal como Alusão ao episódio bíblico (Daniel, 6): o profeta Daniel fora nomeado ministro pelo rei medo Dario, que muito apreciava a sua integridade.
Todavia, por força de intrigas movidas pelos inimigos, o rei, contra sua vontade, vê-se obrigado a mandá-lo lançar para uma cova, onde havia várioS
leões. A fé em Deus livra Daniel, nenhum mal lhe fazendo as feras.
Anne-Marie o foi. Sei toda a verdade. Sei o que os da SOE lhe fizeram.
--Compreendo. E René?
--Morreu. Matou-se para me proteger, pois iam submetê-lo a interrogatório.
Fez-se silêncio. A chuva assemelhava-se a neblina, ao incidir-lhe a luz que jorrava das portas do terraço. Ele continuou: --Bom, pode acreditar ou não o que lhe vou dizer, mas foi assim que as coisas se passaram. O problema da sua irmã com a tal droga foi um acidente: tratava-se de um produto que iam experimentar com todos os agentes que viessem do exterior, e que deu resultados errados. Só o vim a saber por intermédio de Baum, a noite passada.
A história que lhe contaram, das atrocidades da SS, foi ideia de Munro. Para o bem da causa, e tudo o mais, só para que se sentisse mais motivada. A mim, contaram-me precisamente a mesma versão dos acontecimentos.
--E Baum?
--Em primeiro lugar, eu nada sabia a respeito dele, e muito menos da ligação que tivera com os Serviços Secretos alemães. O que lhe disseram a si disseram-me a mim. Que a mandavam cá com um único objectivo: tentar ocupar o lugar de sua irmã, e ver se conseguia informação sobre a reunião com Rommel, relativa à Muralha do Atlântico.
--Se isso fosse verdade, como poderia Munro ter autorizado a sua vinda aqui, em tais condições?
--Mas é que não autorizou coisíssima nenhuma! Vim cá por minha única iniciativa. Ele deve estar pior que mil demónios, por esta altura!
.
De súbito, teve uma enorme sensação de alívio, porque acreditou no que ele lhe dizia. Acreditou totalmente.
--Quem me deu a primeira deixa foi Baum, ao admitir, completamente bêbedo, que a filha tinha morrido há seis meses.
--Eu sei. Priem contou-me.
--Munro confirmou tudo. Disseme para não ser criança. Que a guerra era um inferno, e coisas do género.
Prendeu-me numa cela durante uma noite, para que eu pensasse no problema, mas consegui fugir. Fui a Cold Harbour, e Martin Hare e os rapazes dele trouxeram-me cá no torpedeiro. Julie preveniu o Grand Pierre, pela rádio, para me esperar. O
barco está à nossa espera, em
Grosnez. Não foi problema entrar aqui, nem poderia sê-lo, com este uniforme.
Tenho até a desagradável impressão que me sinto bem dentro dele.
--Mas que loucura!
--Já uma vez lhe disse que sou um homem de Yale, não disse? Bom, conte-me agora a situação por cá.
Fez-lhe o relato dos acontecimentos que lhe diziam respeito em meia dúzia de frases curtas. Quando acabou, ouviram-se passos no terraço e o jovem tenente de há pouco deteve-se casualmente junto à balaustrada, observando a chuva. Genevieve riu-se alegremente, aceitando o cigarro que Craig lhe oferecia e inclinando-se sobre ele, ao utilizar-se do lume que lhe oferecia.
--Eles vigiam-me permanentemente. Vá-se embora, Craig, faça-o enquanto pode!
--Nem por sombras! Imagina que a vou abandonar a esses cães? Para a mandarem para as celas da Gestapo na Rue Saussaies? Já lá estive, e o que lá fazem às pessoas é muito feio. Ou vamos juntos, ou ninguém vai!
--Não é possível! Nunca abandonaria a tia Hortense, mesmo que pudesse fugir. Tem possibilidades de fugir.
Aproveite-as!
Ele respondeu-lhe de modo incisivo:
--Que raio julga que vim cá fazer? Terá sido assim tão cega em Cold Harbour? Será possível que alguma vez se tenha convencido que era a ela que eu via cada vez que olhava para si?
Por amor dele, e não por ela, apenas restava uma saída a Genevieve, que a aproveitou. Libertou-se e correu para dentro da sala, sem chegar a apercerber-se completamente do que estava a fazer Priem estava ao pé da lareira, fumando um cigarro.
Lançou-o nas chamas e avançou ao seu encontro.
--Deixou só o pobre do coronel?--Observando-a, franziu os olhos:--Há problema?
--Pode dizê-lo. Um antigo apaixonado de minha irmã, que ainda se lembra dela. A minha recordação... talvez lhe dê prazer sabê-lo... acompanhou-o durante toda a campanha da Rússia!
--Estes franceses são mesmo românticos!--comentou.--A propósito, o marechal-de-campo vai partir.
Perguntou por si. Sente-se bem?
--Claro.
Por um breve instante, aflorou-lhe um sorriso aos lábios.
--Genevieve, sem dúvida que tenho de a considerar uma mulher notável.
--Sei disso, e, noutras circunstâncias...
--Isso começa a parecer-se com um drama de segunda categoria.
--A vida é assim a maior parte das vezes. Mas, agora, parece-me que ganhei o direito a uma taça de champanhe, não acha?
O marechal-de-campo Ervin Rommel deixava o Castelo de Voincourt. Tal como Priem lhe dissera para fazer, Genevieve e Hortense assistiram à sua partida, sorriram-lhe e desejaram-lhe boa viagem. Não voltou a ver Craig, o que a tranquilizou um pouco. O calafrio que sentia no corpo tornou-se mais intenso. Não desejaria voltar ao quarto da irmã, jamais!
A multidão começou a rarear e Priem dirigiu-se-lhes, a ela e a Hortense:
--Uma boa oportunidade de se retirarem, minhas senhoras. Foi uma noite longa.
--Tão simpático, não é?--ironizou Hortense.
Genevieve ofereceu-lhe o braço e começaram a subir as escadas, seguidas por Priem e pelo tenente, que, notava-o agora, levava consigo uma pistola-metralhadora Schmeisser.
--Na primeira oportunidade que tenhas, foges, ouviste-me bem?--murmurou Hortense.
--E deixo-a só? Imagina que eu seria capaz de o fazer?
Chegavam ao corredor de cima. Priem acenou ao jovem tenente, que trouxe uma cadeira e a colocou em sítio de onde pudesse observar as portas de ambos os aposentos. Tinha um aspecto diferente, mais duro. Pálido e resoluto.
--Na realidade, acho-o muito preocupado com o nosso bem-estar esta noite, senhor coronel--comentou Hortense.
--Senhora condessa, o tenente Vogel está de serviço, apenas, bem como o homem que o capitão Reichslinger postou sob a sua varanda. Desejo-lhe uma noite tranquila.--Ela hesitou, olhou de relance para a sobrinha, e entrou.
Ele dirigiu-se a Genevieve:
--Parece-me que tudo correu bem. O marechal-de-campo divertiu-se. É evidente que, se tivesse tido conhecimento que um certo processo lhe tinha desaparecido da pasta, mesmo que apenas temporariamente, não se sentiria tão satisfeito. Mas isso, penso eu, é coisa que podemos guardar para nós, apenas.
--Naturalmente. Também não seria muito agradável para si, não é verdade? E, agora, posso recolher aos meus aposentos?
Ele abriu-lhe a porta:
--Boa noite, Miss Trevaunce--disse, com formalismo.
Poderia tê-lo mandado para o Diabo, mas pouco interesse havia nisso. Por conseguinte, limitou-se a entrar, fechou a porta e encostou-se contra ela. Ouviu o murmúrio das vozes e o som de passos que se afastavam. Notou a falta da chave da porta, e, depois de melhor a observar, do ferrolho também. E, claro, da pistola que tinha usado no treino de tiro.
Tirou o vestido, vestiu novamente as calças e a camisola e saiu para a varanda.
Chovia ainda e estava escuro.
Apercebeu-se dos passos do guarda, lá em baixo, e, passados alguns momentos, ouviu alguém tossir. Por conseguinte, era assim que estavam as coisas. Quanto ao beiral que rodeava a esquina e dava para o quarto da tia, era de facto tão estreito que só um montanhista hábil seria capaz de o usar.
Regressou ao quarto, pegou na cigarreira e abriu-a.
Não restava um único cigarro, apenas o rolo de película fotográfica no compartimento secreto --e, mesmo quanto a esse, sem a mínima utilidade prática, agora.
Sentindo-se cansada e com frio, vestiu o casaco de caça de Anne-Marie e meteu a cigarreira no bolso.
Tirou a colcha da cama, envolveu-se nela e sentou-se na poltrona ao pé da janela, deixando a luz acesa, como uma rapariguinha temerosa do escuro.
Dormitou uns momentos e acordou, rígida e mal-disposta. Os reposteiros oscilaram levemente. Alguém os correu, e Craig Osbourne entrou no quarto, de Walther na mão direita. A farda, ainda a da SS. Levou um dedo aos lábios, a pedir silêncio.
--Vamos levar a sua tia, também. Satisfeita?
Genevieve sentiu-se presa de uma súbita excitação, e, simultaneamente, calma: --Como conseguiu chegar até aqui?
--Trepei para a sua varanda.
--Supus que tivessem um homem, lá em baixo.
--Já não têm.--Tocou na porta.--Que há do outro lado?
--Um tenente, de pistola-metralhadora.
--Chame-o aqui. Diga-lhe que ouviu um barulho estranho na varanda, ou qualquer coisa do género.
Guardou a pistola no coldre e tirou do bolso um objecto que não viu. Ouviu um estalido, e observou, fascinada, o brilho sombrio de uma lamina. Craig deu-lhe um pequeno empurrão e Genevieve dirigiu-se para a porta, bateu com os nós dos dedos na madeira e abriu-a. Vogel acorreu imediatamente, com a pistola-metralhadora em riste, pronta a disparar.
--Que se passa? Que deseja?--perguntou ele, em mau francês.
Tinha a garganta tão seca que mal podia falar. Forçou-se a fazê-lo, apontando os cortinados da varanda, que oscilavam, sob acção de uma brisa ligeira.
--Lá fora, na varanda. Ouvi barulho.
Ele hesitou, mas entrou. Craig Osbourne moveu-se ao mesmo tempo, passou-lhe um braço pela garganta e aplicou-lhe o joelho na espinha, dobrando Vogel para trás, em arco. Genevieve nem chegou a ver a faca a atingi-lo, ouvindo apenas um gemido, e recordando-se de como ele tinha dançado tão bem, subitamente agoniada. Um arrastar de pés no chão e Craig levou-o de rojo até ao quarto de banho. Quando voltou, trazia a Schmeisser.
--Não há novidade?
--Não.--Respirou fundo.--Estou bem!
--Então, toca a andar.
Hortense estava sentada na cama, com um xaile pelos ombros, lendo um livro. Não pareceu ficar surpreendida, mantendo o controlo sobre si própria, como sempre.
--Pelos vistos, Genevieve, fizeste um amigo.
--Que não é o que parece.
--Major Osbourne, madame.
--Presumo que tenha vindo buscar a minha sobrinha.
--E a senhora também. Ela não se vai embora sem a levar.
Hortense tirou um cigarro da caixa na mesinha-de-cabeceira e acendeu-o com o seu isqueiro de prata.
Genevieve tirou do bolso a cigarreira vazia e encheu-a rapidamente.
--Já alguma vez leu a obra do romancista inglês Charles Dickens, major Osbourne?--perguntou Hortense.
--Refiro-me especificamente a Uma Historia de Duas Cidades, onde um certo Sidney Carton, num acto glorioso de auto-sacrifício, vai para a guilhotina, na vez de outro?
Segundo reza a tradição, nós temos considerado esse incidente como relacionado com um membro da nossa família.--Expirou o fumo com força, como se fora uma longa pluma.--Claro que os Voincourt sempre prezaram os gestos magnânimos.-Dirigiu-se a Genevieve: --Por muito pouco apropriados que fossem.
--Temos pouco tempo, minha senhora!--disse Craig pacientemente.
--Nesse caso, sugiro-lhe que partam, major, enquanto podem. Ambos!
Genevieve entrou em pânico e tentou puxar as roupas da cama para trás. Hortense agarrou-lhe o pulso com uma força surpreendente.
--Ouve-me bem!--A voz tinha agora um timbre metálico:--Disseste-me uma vez que sabias que eu sofria do coração.
--Mas não é verdade! Foi mais uma patranha que me fizeram engolir para me convencerem a vir para cá!
--Na qual Anne-Marie acreditava. Uma invenção minha, para explicar certas tonturas que me vêm dando cada vez mais frequentemente. Mantive comigo a verdade.
Sabes, às vezes tem-se um certo orgulho.
O quarto estava tão silencioso que Genevieve ouvia o tiquetaque do relógio.
--E qual é a verdade?--perguntou, em voz baixa.
--De aqui a um mês, talvez dois, no máximo, começará a ser doloroso. O doutor Marais não me enganou.
E demasiadamente meu amigo para o fazer.
--Não é verdade!--Genevieve ficara encolerizada.
--Nada disso é verdade!
--Já alguma vez pensaste de onde te vêm esses teus olhos, chérie?--Segurava ambas as mãos de Genevieve.
--Olha para mim.
Verdes e cor de âmbar, salpicados de luz dourada e repletos de amor, mais amor que Genevieve alguma vez imaginara que existisse. Ela dizia a verdade, bem o sabia.
Teve a impressão que a infância lhe fugia, que desaparecia. Invadiu-a uma sensação de desolação total, quase insuportável.
--Por mim, Genevieve.--Beijou-lhe suavemente ambas as faces.--Fá-lo por mim. Tu ofereceste-me o teu amor, totalmente, sem egoísmos. Posso agora dizer-te que esse amor foi até hoje o que de mais precioso tive na vida. Negar-me-ás, porventura, o direito de oferecer menos?--Genevieve recuou, de mãos trementes, incapaz de responder. Hortense continuou: --Deixa-me uma das suas pistolas, senhor major?
--Era uma ordem e não um pedido, e Craig tirou a Walther do coldre e colocou-a na cama, a seu lado.
--Tia Hortense?
Genevieve estendeu os braços, mas Craig susteve-a.
--Vai!--disse-lhe a tia.--Depressa, por favor!
Craig abriu a porta e puxou Genevieve. Escaldavam-lhe os olhos. As lágrimas não brotavam. Na sua última visão da tia, viu-a sentada na cama, sorrindo, com uma das mãos sobre a pistola.
Desceram a escadaria silenciosamente. O átrio estava na sombra, sem vivalma.
--Onde estará Priem?--sussurrou Craig.
--No seu gabinete, na biblioteca. Dorme lá.
Via-se uma luz sob a porta. Deteve-se, com a Schmeisser pronta, girou lentamente a maçaneta da porta e entraram.
Priem ainda estava fardado, sentado perto do fogo. Lia uns papéis, à luz do candeeiro, e parecia totalmente absorvido no seu trabalho.
Levantou os olhos, mas não
mostrou surpresa, mantendo-se calmo e totalmente sob controlo, como sempre.
--Ah! O amante! Que não é o que parecia!
--Tire-lhe a pistola!--disse Craig, em inglês.
--Americano?--Priem acenou com a cabeça.--Uma rajada dessa Schmeisser acordava a casa inteira.
--E deixava-o morto!
--Sim, também me ocorreu essa ideia.
Levantou-se, apoiando as mãos na secretária. Genevieve passou para trás dele e tirou-lhe a Walther do coldre.
--E agora--disse Craig--, os documentos. Tudo o que se refira à Muralha do Atlântico. No cofre que está atrás de si, talvez?
--Quanto a isso, está realmente a perder o seu tempo.
A última vez que os vi estavam numa pasta, dentro da mala do marechal-de-campo Erwin Rommel, que deverá estar neste momento a meio caminho de Paris. Pode verificar, naturalmente.
--Não é necessário, Craig.--Genevieve tirou a cigarreira do bolso e mostrou-lha.--Tive essa pasta na minha posse durante cinco minutos, há bocado, como o co- .
ronel sabe perfeitamente. Fiz uso desta coisa, tal como me ensinou. As vinte exposições, todas elas.
--Mas isso foi formidável!--disse Craig.--Não concorda, coronel?
Priem suspirou.
--Disse-lhe há pouco que era uma mulher notável, não é verdade, Genevieve? Portanto...--Deu a volta à secretária.--Que se passa, em seguida?
--Saímos pela porta do cavalo--disse Craig.--Pela porta do vestiário. Em seguida, dirigimo-nos ao pátio das traseiras, onde está o Mercedes do general, segundo verifiquei há momentos.
Priem ignorou-o:
--Nunca conseguirá passar. É o próprio Reichslinger quem está de serviço ao portão hoje à noite.
--Vai dizer-lhe que o marechal Rommel se esqueceu de papéis importantes no castelo--disse Craig.--Se algo correr mal, mato-o, e, se eu não o fizer, fá-lo ela. Ela vai no assento de trás.
Priem parecia ligeiramente divertido.
--Acha que seria capaz, Genevieve? Olhe que tenho as minhas dúvidas!
Também ela. Sentiu pele de galinha, só de o pensar.
A mão que segurava a Walther tremeu e sentiu-a humedecer-se na palma.
--Chega de conversas!--atalhou Craig.--Ponha o boné na cabeça, como manda o regulamento, e toca a andar daqui para fora.
Saíram, prosseguindo sob a chuva pelo pavimento empedrado do pátio das traseiras. Tudo estava extraordinariamente tranquilo, e o chateau, às escuras, parecia desabitado. Nem uma folha se ouvia bulir, e Genevieve aumentou a pressão no punho da Walther no bolso direito do casaco de caça.
Chegaram ao Mercedes. Abriu a porta da retaguarda e aninhou-se no espaço entre os assentos, segurando a pistola. Priem sentou-se atrás do volante, com Craig ao lado. Ninguém falou. O motor arrancou e afastaram-se.
Começaram a abrandar pouco depois, até que pararam.
Ouviu a sentinela interpelando Priem, e o bater de calcanhares, ao tomar a posição de sentido.
--Desculpe, Standartenführer.
Priem nem tinha precisado de dizer uma palavra. Ouviu um ligeiro estalido da cancela a subir, e, repentinamente, soou uma voz ríspida no interior da casa da guarda. Reichslinger.
Genevieve susteve a respiração, ao ouvir-lhe os pés a pisarem o saibro. Talvez não tivesse reconhecido Priem imediatamente, pois apenas havia a luz difusa do lampião da casa da guarda. Inclinou-se e disse qualquer coisa em alemão, que não percebeu.
Priem respondeu-lhe. A única palavra que reconheceu foi Rommel, donde concluiu que, afinal, ele estava a cumprir as instruções de Craig. Fez-se uma pequena pausa, e as botas fizeram-se ouvir novamente, esmagando o saibro. Supondo que os passos se afastavam, espreitou cautelosamente para cima e, para seu horror, viu-lhe a cara mesmo por cima, olhando-a pela janela lateral.
Vendo-o saltar para trás e tentar sacar a pistola, Craig levantou a Schmeisser e disparou através da janela, espalhando bocadinhos de vidro sobre ela e empurrando para trás Reichslinger, que pareceu executar uma dança trôpega. Sem qualquer pausa, encostou a boca da arma ao pescoço de Priem.
Avançaram na noite, com Priem a acelerar e a guinar furiosamente, mal a sentinela abriu fogo. Perderam-se na escuridão e afastaram-se.
--Está bem?--perguntou Craig.
Tinha sangue na face direita, lacerada por um estilhaço de vidro. Limpou-a com as costas da mão, sem que lhe doesse, sentindo apenas o ar fresco da noite e a chuva que entravam pela janela partida.
--Sim, estou bem.
--Boa pequena!
Atravessaram a aldeia de Dauvigne, silenciosa como um túmulo, e enveredaram pela estrada da montanha.
--Trabalho escusado--disse Priem.--Neste momento, todos os postos militares das cercanias foram alertados por rádio. Dentro de uma hora, estarão montadas barragens em todos os locais que possa imaginar.
--Tempo mais do que suficiente para aquilo que pretendemos fazer--concluiu Craig.--Continue a guiar e faça o que lhe dizem.
Hortense de Voincourt estava na cama, encostada a algumas almofadas, ouvindo o pandemónio que se seguira ao tiroteio no portão principal. Soaram gritos no átrio do primeiro piso, passos martelando o corredor e, então, um pesado toque à porta. Tirou um cigarro da caixa de prata e acendeu-o, ao mesmo tempo que a porta se abria com estrondo e entrava Ziemke, de pistola na mão, acompanhado de um cabo da SS
empunhando uma Schmeisser.
--Então, Carl, estás muito nervoso!
--Mas que se passa?--perguntou ele.--Acabo de ser informado que Anne-Marie, Priem e o Standeenfiihrer francês saíram pelo portão principal. O maldito francês matou Reichslinger. A sentinela viu tudo da guarita.
--As melhores notícias que me chegam aos ouvidos de há muito tempo para cá!--informou-o ela.--Nunca gostei de Reichslinger.
Ele ficou muito quieto, de cara ligeiramente franzida.
--Hortense? Mas que dizes tu?
--Que acabou a comédia, Carl. Chegou o momento de eu proceder como uma Voincourt, e de me recordar que tu e os teus homens invadiram a minha pátria.
--Hortense?--A voz denotava a sua enorme surpresa.
--Tu és um homem decente, Carl, mas isso não invalida o facto de que és o inimigo.--Tirou a mão de debaixo da roupa.--Adeus, meu caro.
Disparou a Walther duas vezes, atingindo-o no coração e empurrando-o para trás. O cabo da SS mergulhou para fora do quarto, passou o cano da Schmeisser pela porta e disparou em rajada até esvaziar o carregador. Para Hortense de Voincourt, a escuridão foi imediata e misericordiosa.
Atravessaram a aldeia de Saint Maurice, onde não se via vivalma. Vinte minutos mais bastaram para chegar à estrada da costa e a Léon, dada a velocidade a que Priem conduzia. A Lua saía detrás de uma nuvem quando chegaram à mata das arribas de Grosnez.
Craig tocou no ombro de Priem.
--Pare aqui.
O alemão travou, detendo o carro e desligando o motor.
--E agora? Uma bala na cabeça?
--Nada disso!--Craig sorriu-se.--Vem para Inglaterra connosco. Há uma pessoa que eu gostaria que conhecesse, e que vai ver em si uma mina de informações, garanto-lhe.--Saiu do carro.--Grand Pierre?
--chamou.
Havia homens lá para cima, saindo da mata. Vestiam casacos de pele de carneiro e usavam boinas, uns com caçadeiras, outros com armas de guerra. Detiveram-se, observando a estrada, e Grand Pierre avançou.
--Vivam!--saudou, com entusiasmo.
Priem tinha um leve sorriso pespegado na face. Observou Genevieve no espelho e disse: --Tem sangue na face.
--Nada de importância. Só um golpezinho.
--Ainda bem.
Craig abriu a porta do condutor e Priem estendeu a mão sob o painel de instrumentos, tirando uma Luger.
Aterrorizada, reagiu instantaneamente, encostando-lhe a Walther contra a espinha e puxando duas vezes o gatilho.
Ele estremeceu, e Genevieve sentiu o cheiro de queimado e de cordite nas narinas. Muito lentamente, inclinou-se para a frente e rodou um pouco, com a admiração espelhada nos olhos, mais do que qualquer outro sentimento. Jorrou-lhe sangue da boca e caiu sobre o volante.
Craig ajudou-a a sair do carro, mas ela empurrou-o:
--Não, deixe-me, por favor!
Ele ficou quieto, olhando-a fixamente, de semblante carregado. Desabotoou o dólman da SS e lançou-o nc Mercedes. Grand Pierre atirou-lhe um casaco de pele de carneiro, voltou-se e acenou a um dos seus homens, que se inclinou sobre o corpo de Priem e destravou o automóvel. Não foi preciso empurrar muito para que o Mercedes ultrapassasse a beira do promontório, esmagando-se no mar, lá em baixo.
Genevieve reparou que ainda agarrava a pistola, tremeu um pouco e meteu-a no bolso.
--Ele nunca pensou que eu fosse capaz de o fazer-murmurou ela.--E eu muito menos, mesmo que surgisse a necessidade.
--Pronto! Agora já sabe como é. Bem-vinda ao clube!
Os homens ficaram no nível superior, enquanto Grand Pierre, acompanhando Craig e Genevieve, descia as escadas, dirigindo-se para o local onde o Lili Marlene aguardava.
Schmidt exclamou:
--Com mil diabos, ele voltou! Trá-la com ele!
Ouviu-se um murmúrio de excitação da tripulação, e Hare gritou da ponte:
--Parabéns! Mas agora é tempo de andarmos!
Os motores começaram a trabalhar. Craig saltou sobre a amurada e estendeu a mão a Genevieve.
Ela agradeceu a Grand Pierre:
--Obrigada por tudo.
--Folhas de roseiras que fizemos murchar, Miss Trevaunce, não se esqueça!
--Alguma vez conseguirei esquecer o que fiz hoje
--Tudo passa. Agora, embora para casa!
Apoiou-se na mão de Craig e passou. Mal pisou o convés, a tripulação soltou as amarras e o Lili Marlene fez-se ao mar, entrando na escuridão.
Himunler passava muitas vezes a noite num pequeno estúdio adjacente ao seu gabinete na Prinz Albrechstrasse.
Eram quatro da manhã quando o Haupsturmführer Ross man se aproximou
da porta com certo nervosismo, hesitou,
e bateu. Quando entrou, já o Reichsführer acendera o candeeiro, sentando-se na cama estreita.
--Que se passa, Rossman?
--Más notícias, Reichsführer.--Rossman mostrou uma mensagem.--Sobre o caso do Castelo de Voin court.
.
Himmler pegou nos óculos, ajustou-os no nariz e estendeu a mão.
--Deixe lá ver isso.--Leu a mensagem rapidamente, e devolveu-a.--Um ninho de traidores, esse chateau!
Não sei se está a ver, Rossman, mas eu tinha razão: afinal, havia muita coisa sob as aparências. E Priem, desapareceu por completo?
--Ao que se supõe, Reichsführer.
--Presumo que não o voltaremos a ver. Esses tipos do
?
movimento terrorista francês, Rossman, são uns animais, que não se detêm perante nada.
Rossman perguntou:
--Mas qual o significado disto? De que se trata?
--Eu devia tê-lo previsto, pois era óbvio. Rommel era n nhiPrti&n TTm prande Polne. do ponto de vista deles!
@Dezasseis
Ora, de acordo com o relatório sobre os movimentos do marechal, que me mostrou antes de me deitar, ele saiu do baile ainda cedo e viajou para Paris durante a noite.
Enganaram-se no horário, é tudo!
--Pois claro, Reichsführer. Estou agora a compreender. Todas as unidades da região se encontram em regime de alerta total, passando a zona a pente fino.
Determina mais alguma coisa?
--Sim, reféns. Cem, pelo menos, recolhidos em todas as aldeias da área. Execuções ao meio-dia. Temos de dar uma lição a essa gente.--Tirou os óculos e colocou-os sobre a mesa-de-cabeceira.
--Ás suas ordens, Reichsfiuhrer.
--Acorde-me às seis--disse Himmler calmamente, desligando o candeeiro.
Ainda estava escuro quando Munro desceu da abadia para Cold Harbour. Abrigava-se sob o guarda-chuva e trazia um boné de fazenda bem enterrado na cabeça.
Com a mão livre, apertava a gola do capote de cavalaria contra o pescoço.
Na estalagem O Enforcado coava-se uma réstia de luz por uma fresta das cortinas corridas, e a tabuleta balançava ao vento, produzindo um chiar lúgubre.
Ao abrir a porta, viu Julie Legrande sentada ao lume, de copo na mão.
--Ah! Está aqui!--disse, escorrendo a água do guarda-chuva e colocando-o a um canto.--Não consegue dormir, como eu?
--Notícias?--perguntou ela.
--Nenhumas, até agora. Jack está na sala de transmissões. --Tirou o casaco e o chapéu, estendeu as mãos para o fogo.--Que está a beber?
--Uísqui--respondeu ela.--Com sumo de limão, açúcar e água a ferver. Quando era criança, era um remédio que minha avó usava contra a gripe. Neste momento, é um remédio, apenas.
--Talvez ainda seja cedo para beber álcool.
--Um remédio para muitas coisas, senhor brigadeiro.
--Bem, não vamos começar tudo de novo, Julie. Já a informei do meu desejo de passar por alto a sua participação nesta infeliz história. Por favor, acabe com as recriminações. Deixe as coisas como estão.
Posso beber
uma chávena de chá?
--Certamente. Na cozinha, há uma chaleira ao lume, uma caixinha com chá e um quartilho de leite ao lado.
--Oh! Então, é assim que quer, não é verdade?
Passou para trás do balcão e entrou na cozinha. Julie atiçou o lume e foi até à janela, afastou as cortinas e espreitou para a rua. Já havia alguma claridade, lá fora.
Não muita, mas adivinhava-se o início da alvorada. Cerrou as cortinas, voltou à lareira e Munro entrou na sala,
mexendo uma chávena de chá com uma colher. Nesse momento, ouviu-se o ruído de uma viatura a parar.
A porta abriu-se, entrando uma rajada de vento, Jack Carter e Edge.
Carter sorria, com uma espécie de terror na face:
--Ele vem aí, meu brigadeiro. Craig safou-se mesmo.
Conseguiu tirá-la de lá.
Julie deu um salto:
--Tem a certeza?
--Absoluta.--Carter desabotoou a trincheira.--Recebemos uma mensagem de Grand Pierre, há coisa de quinze minutos. Hare ficou à espera com o Lili Marlene ao largo de Grosnez, enquanto Craig foi ao chateau. Saíram de Grosnez pouco depois da meia-noite. Com um pouco de sorte, chegam aqui dentro de hora e meia.
Julie lançou-lhe os braços em redor do pescoço, e Munro exclamou:
--Eu bem tenho dito que esse homem é o próprio Houdini, que voltou a este mundo só para nos assombrar!
Edge envergava a trincheira negra do uniforme da Luftwaffe. Desapertou-a lentamente, passou para trás do balcão e serviu-se de uma grande dose de gim. A face estava calma, mas o olhar chispava-lhe de ódio, tocado por uma ponta de loucura.
--Não é fantástico, meu brigadeiro?--disse Carter a Munro.
--Extremamente dramático, Carter, mas muito contraprodutivo--respondeu-lhe o brigadeiro.
Julie riu-se com crueldade.
--Craig estragou-lhe esse seu plano sórdido, não é assim? Tinha-lhe dado muito mais jeito que não tivesse conseguido regressar? Que nenhum deles voltasse?
--E uma ideia, embora ligeiramente histérica. -Munro pegou no capote e vestiu-o.--Tenho mais que fazer. Leve-me a casa.--Voltou-se para Edge:--Quer uma boleia?
--Não, obrigado, meu brigadeiro. Vou até lá fora.
Preciso de tomar um pouco de ar.
Saíram. Julie, irada ainda, passeava para trás e para diante:
--Mas que homem! Que grande estupor!
--Descreveu-o bem, sem dúvida!--Edge pegou numa garrafa de gim detrás do balcão e meteu-a no bolso.
--De qualquer forma, parece-me que preciso de bater uma soneca. Foi uma noite muito comprida.
Quando saiu, o vento estava a refrescar. Foi até ao cais e observou o mar. Desrolhou a garrafa de gim e bebeu um grande trago.
--Maldito sejas, Osbourne!--disse, baixinho.-Maldito sejas, tu e a porca da tua cadela, lá nos quintos do Inferno! Malditos sejam todos!
Tornou a meter a garrafa no bolso e começou a subir a calçada que passava pela aldeia.
//
Com o mar a fazer carneirinhos e a chuva a fustigar os vidros, o Lili Marlene singrava para a costa da Cornualha, qual galgo sem trela.
A alvorada tingia o céu para
oriente. Genevieve, espreitando através das vigias da minúscula sala de oficiais, observava a desoladora paisagem de terras bravias.
Craig estava sentado na sua frente, vestindo ainda o casaco de pele de carneiro.
Schmidt entrou, trazendo chá
da cozinha de bordo:
--Inglaterra, pátria e beleza. Já pouco falta, agora!-Trazia um colete salva-vidas sobre o casaco de oleado amarelo.
--Para que é isso?--perguntou Craig.
--Ordens do comandante. Diz ele que o mar vai ficar feio.--Schmidt pousou as canecas na mesa.--Os vossos encontram-se no armário debaixo desses assentos.
Saiu e Genevieve tirou as pernas do caminho, para que Craig abrisse o armário e tirasse um par de coletes da Kriegsmarine. Ajudou-a a pôr um, e ele próprio enfiou o outro. Voltou a sentar-se na sua frente, bebendo chá.
Ela ofereceu-lhe um Gitane:
--Parece-me que terei de ter mais cuidado com isto.
--Mostrou-lhe a cigarreira.--Se entra água, lá se vai o filme.
--Não se preocupe!--disse ele.--Essa coisa foi desenhada por um génio.
Ficaram silenciosos durante uns instantes. Genevieve perguntou:
--Que vai suceder agora?
--Quem sabe? A situação modificou-se. Na verdade, a sua missão teve êxito. Trouxe as fotografias dos planos da Muralha do Atlântico, sem que os alemães soubessem disso, o que tem muita importância, pelo que não vão alterar nada.
--Isto torna-a uma heroína, não acha? Se Martin e eu não a tivéssemos ido buscar...--Encolheu os ombros.
--Munro vai ter de gostar, e terá de deixar as coisas como estão. De qualquer modo, também terá o seu momento de glória. Ike vai considerá-lo um mágico, quando ele lhe mostrar essas belas fotografias.
--E depois?
--Um passo de cada vez. Vamos até lá acima, apanhar um pouco de ar fresco.
Ao passarem pelo tombadilho, a água corria em catadupa sob as lonas de protecção da amurada. Ambos os carlhões de 20 mm da proa e as Bofors da ré estavam guarnecidos, com duas praças em cada, com casacos e chapéus de oleado. Genevieve subiu a escada para a ponte, com Craig atrás de si, e entrou na casa do leme.
Langsdorff estava de serviço e Hare traçava a rota da atracação.
--Como vamos?--perguntou Craig.
--Bem. Uma hora, o máximo. Talvez menos. O mar está a atrasar-nos. Vai piorar, é mais que certo, mas havemos de lá chegar.
Craig passou-lhe um braço pela cintura.
--Tive uma ideia formidável. Jantar no Savoy, champanhe, baile.
Antes que ela respondesse, Martin Hare disse:
--Tenho uma ideia ainda melhor.--Procurou uma moeda no bolso, e tirou meia coroa.--Vamos tirar à sorte a primeira dança.
Por volta das cinco e meia, chovia copiosamente em Cold Harbour. Joe Edge estava na abadia, sentado a uma janela, bebendo gim de uma caneca de lata e contemplando melancolicamente a alvorada cinzenta. Já fizera desaparecer mais de metade da garrafa, e estava bêbedo, completamente dominado pela ira e presa de enorme excitação. Já pouco faltava para o Lili Marlene demandar o porto. O regresso dos heróis, de Hare e dessa estúpida cadela da Trevaunce. Recordou então o modo como o americano o humilhara e mais encolerizado ainda ficou.
Deitou na caneca mais uma dose de gim. Ao levá-la à boca, deteve-se a meio do gesto, pois via agora a forma perfeita de saldar as contas. Com todos eles.
--Meu Deus! Mas que maravilha!--Deu uma gargalhada, completamente bêbedo.--Os pulhas! Vão saber o que é o medo de morrer!
Levantou o telefone do auscultador e chamou o mecânico-chefe, sargento Henderson, que estava aboletado com o resto da tripulação de terra nas barracas Nissen atrás do hangar. Tocou durante muito tempo antes que levantassem o aparelho do outro lado da linha. Atendeu Henderson, com voz sonolenta: --Quem fala?
--Sou eu, estúpido!--respondeu-lhe Edge.--Tens dez minutos para me preparar o gu.
--Que se passa, é uma emergência?--Henderson ficara desperto num ápice.
--Evidentemente! Já nos vemos!--Edge pousou o telefone, e tirou as botas e o blusão de voo do armário.
Fardou-se rapidamente, saiu do quarto e desceu as escadas.
Munro não chegara a ir para a cama, na esperança de que o Lili Marlene chegasse. Trabalhava nuns documentos na biblioteca quando ouviu o estrondo da porta da frente. Levantou-se e foi até à janela, a tempo de ver Edge afastar-se num jipe.
A porta abriu-se e Carter entrou coxeando, com uma bandeja nas mãos.
--Chá, meu brigadeiro?
Munro encarou-o.--Edge acaba de sair, num dos carros. Sempre gostava de saber que terá ido fazer.
--É capaz de ter ido a O Enforcado, meu brigadeiro.
Eles devem estar a chegar.
--Também me parece!--disse Munro.--Sirva lá o chá, que já não temos muito tempo.
O sargento Henderson nem chegara a despir o pijama, pois vestira o fato-macaco por cima. Já tinha tirado o gunkers para fora do hangar, e acabava de sair do avião quando Edge chegou, de jipe. Sem se deter, o piloto enfiou na cabeça o capacete e os óculos de voo e ajustou a correia sob o queixo, vacilando ligeiramente.
--Tudo em ordem, sargento?
--Pronto a levantar voo, meu tenente.
Edge cambaleou mais pronunciadamente e Henderson estendeu um braço para o amparar.
--Sente-se bem, meu tenente?--perguntou, sentindo no ar fresco da manhã o cheiro penetrante do gim.
--Claro que me sinto bem, idiota!--respondeu-lhe Edge.--Vou divertir-me um pouco, a dar uma lição a um torpedeiro.--Riu-se:--Quando tiver acabado, Hare e Osbourne saberão quem é o herói por estes sítios.
E Munro até me vai ficar agradecido!
Dirigiu-se para o avião, mas Henderson agarrou-o por um braço:
--Um momento, meu tenente! Parece-me que não está em condições de voar!
Edge empurrou-o com violência, e puxou da Walther do coldre:
largue-me!--gritou, disparando para o chão, próximo dos pés do sargento, que mergulhou sob a fuselagem do gunkers, protegendo-se do outro hdo. Ouviu o baque metálico da portinhola na fuselagem fechando-se, logo seguido do arranque dos motores radiais BMW.
O avião começou a avançar, e Henderson correu para o interior do hangar, dirigindo-se para o gabinete onde estava o telefone.
Na abadia, Munro e Jack Carter acabavam de tomar o chá, quando ouviram o ruído de um avião sobre a ca beça.
--Santo Deus! Mas que é isto?--perguntou o brigadeiro.
Atravessou a sala até à porta envidraçada do terraço, e abriu-a, a tempo ainda de ver o gu88 sobrevoar o porto a baixa altitude e começar a subir, em direcção à alvorada cor de chumbo.
--Mas que raio se está a passar, John?--clamou.
O telefone da biblioteca começou a tocar. Carter atendeu. Munro observou o avião, prestando atenção ao som da voz atrás de si. Voltou-se e encarou Carter, que pousava o telefone, de cara preocupada.
--Que se passa, Jack?
--Era o sargento Henderson, meu brigadeiro. Ao que parece, Joe Edge tirou-o da cama para preparar a saída dogu. Disse que era uma emergência.
--Uma emergência? Mas que emergência?
--Disse que ia dar uma lição a um torpedeiro. Disse que, quando tivesse acabado, Hare e Osbourne ficariam a saber quem era o verdadeiro herói, e que o senhor, ainda por cima, lhe ficaria verdadeiramente agradecido.
Munro quedou-se, assombrado.
--Mas o homem está doido-varrido!
--E bêbedo também. Tão bêbedo que disparou a pistola para o chão, para perto dos pés de Henderson, quando este tentou detê-lo.
--Santo Deus!--Munro ficara lívido.--Mas que vamos fazer, Jack?
--Não podemos fazer nada, meu brigadeiro. O Lili nunca usa o rádio para comunicar com terra. É uma norma que sempre cumpriram religiosamente. O meu brigadeiro nunca quis que a Armada ou a Guarda Costeira soubessem da sua existência e se metessem neste assunto.
Não temos qualquer possibilidade de avisar o torpedeiro.
Só há uma coisa que podemos fazer: ir até às arribas e esperar que cheguem.
--Nesse caso, vamos até lá, Jack!
Munro vestiu a Burbelry e saiu.
Ao aproximarem-se dO Enforcado noutro jipe, com Carter a conduzir, Julie saiu. Carter abrandou e ela perguntou: --Mas que se passa? O que é que Joe pretende?
--Entre!--ordenou Munro.
Ela trepou para o assento de trás, e Carter afastou-se, exclamando: --Parece que avariou da tola!
--Bem, não sabemos nada, Jack--disse Munro.-Bebeu uns copos e está a fazer papel de parvo, é tudo!
Não vai haver problema.
--O quê?--insistiu Julie. Carter explicou o que se tinha passado, subindo o caminho para as arribas. Quando acabou, Julie comentou:--Ele nunca foi muito são do juízo, mas agora endoidou de vez!
Ultrapassaram o cimo da montanha e entraram no prado que se estendia até à borda do promontório. Carter parou o jipe e, remexendo com as mãos no porta-luvas, disse:
--Deve haver aqui um binóculo. Deixei-o cá há já algum tempo.--Acabou por o encontrar, tirando-o.
Saíram do carro e aproximaram-se do precipício. Um alvorecer esquisito, com as nuvens muito baixas e negras, estendendo-se em linha no horizonte. Havia algum nevoeiro ao nível do mar, mas o vento rasgava grandes abertas. A ondulação era alta, com as vagas a quebrarem-se contra a praia, mais abaixo.
De súbito, Julie apontou:
--Ei-los!
O Lili Marlene emergia da alvorada cinza a cerca de uma milha de distância, avançando rápido para Cold Harbour, com a bandeira da Kriegsmarine desfraldada, bem em evidência. De repente, o gunkers saiu das nuvens, como se fosse uma ave de rapina, e lançou-se sobre o torpedeiro. Momentos após ouviu-se o troar do canhão.
Edge tinha aberto fogo muito ao largo do Lili Marlene, e descaíra de asa para estibordo. Craig e Genevieve tinham-se junto a Hare, na casa do leme, para assistirem à entrada no porto.
--Jesus! É Edge!--disse Craig.--Mas que raio de brincadeira é a dele?
Hare voltou-se para o aparelho de rádio que, por via de regra, nunca utilizava, ligou-o e pegou no microfone.
--Alô! Edge alô! Que se passa?
O gunkers voltou a cair de asa, avançando direito a eles, e novamente abriu fogo de canhão, a bombordo.
--Pum! Pum! Morreram todos!--soou a voz de Edge no altifalante, muito nítida, dando gargalhadas histéricas.--Ouves-me, Hare?--Subiu, ao sobrevoá-los.-Na verdade, arranjaste-nos uma carga de problemas!
O pobre do brigadeiro está raladíssimo! Bem melhor teria sido que nem tu nem o Osbourne nem essa puta da
Trevaunce tivessem aparecido!
Voltou a mergulhar de asa, a estibordo. Hare abriu um armário, tirou uma bandeira embrulhada, empurrou Langsdorff e disse-lhe: --Ou me engano muito, ou vamos ter mesmo encrenca. Diz a um dos homens para arriar a bandeira e hastear esta!
A proa levantou, ao aumentar a velocidade, e fez girar o leme, guinando para estibordo. Langsdorff saiu. Wagner, que subia a escada, recebeu a bandeira do Obersteuennann, que lhe transmitiu a ordem e voltou a entrar.
--Ainda estão aí?--A voz de Edge voltou a ouvir-se no altifalante.--Vamos tentar outra vez, está bem? Vejam só como eu posso acertar tão perto.
Voltou a mergulhar de asa, aproximando-se da popa a quinze metros acima da água, ao mesmo tempo que Wagner arriava a bandeira da Kriegsmarine. Instantes depois, a bandeira das faixas e das estrelas subia no mastro sobre a casa do leme. À vista dela, a fúria de Edge aumentou: --Malditos americanos!
Edge estava agora muito próximo, e abriu fogo de metralhadora, desta vez, mas falhou a pontaria, talhando um rasto no convés da ré, a estibordo, e matando Hardt e Schneider instantaneamente, fazendo-os saltar sobre a amurada e mergulhar no mar.
--Jesus! Está totalmente louco!--disse Craig.
Wagner e Bauer abriram fogo com a metralhadora Bofors do convés da ré, com as tracejantes fazendo um arco para cima, em perseguição do gunkers, que se afastava, e Wittig martelava-o com as metralhadoras antiaéreas do convés da proa.
O gunkers vacilou sob o impacto das balas na asa de estibordo.
--Muito bem, seus sacanas!--gritou.--Assim o quiseram!
Desceu novamente, voando perigosamente baixo, e avançou novamente para a ré.
Hare forçava o Lili Marlene à
sua velocidade máxima, com os motores Daimler-Benz a impelir o navio a mais de quarenta nós, ziguezagueando de um lado para o outro. Edge sempre fora um óptimo piloto, mas a loucura que o atacara nessa manhã dava-lhe um toque de génio, levando-o a aproximar-se a menos de nove metros e a mais de quatrocentos quilómetros por hora.
Craig agarrou Genevieve por um braço.
--Para o chão!--gritou, lançando-se sobre ela.
Edge voltou a abrir fogo de metralhadora, rasgando o convés da ré, segando Wagner e Bauer na metralhadora Bofors, estilhaçando as janelas da casa do leme, atingindo Langsdorff nas costas e projectando-o de cabeça pela porta.
Subitamente, o Lili Marlenc começou a abrandar.
Craig levantou-se, e Genevieve, ao fazê-lo também, viu Hare caído para a frente, com sangue no blusão. Tinham desaparecido metade dos comandos e lá em baixo, no convés da proa, Wittig pendia da metralhadora antiaérea, preso apenas pelos apoios de ombro da arma.
--Está ferido, Marlin!--gritou ela, pondo-lhe uma mão sobre o ombro.
Enquanto o voltava, o bunkers voltou de novo de bombordo, fazendo estremecer todo o navio, sob o fogo do canhão. O Lili Marlene estava em chamas e, entre as labaredas, lá em baixo, viu Schmidt cambalear pelo convés da proa, afastar Wittig e guarnecer a metralhadora.
Hare disse:
--Já não nos safamos! Faça saltar a Genevieve!
Craig empurrou-a à sua frente. A água já passava sobre o convés. Hare seguiu-os. Ele e Craig conseguiram desamarrar um dos botes de borracha do convés da ré, e passaram-no sobre a amurada.
Craig segurou-o pela corda.
`
--Depressa, entre!--ordenou a Genevieve, que obedeceu, perdendo o equilíbrio e enfiando de cabeça no bote. Entretanto, Edge avançava muito baixo para a popa.
Hare gritou:
--Eu arrebento com o filho da puta!--e lançou-se sobre a metralhadora Bofors.
Craig hesitou, mas acabou por largar a corda, e, antes de compreender o que se passava, Genevieve afastava-se mais de dez metros do torpedeiro.
--Craig!--gritou, embora tarde de mais.
Ele tinha-se juntado a Hare, na Bofors, já com a água pelos joelhos.
--Aponta para o bojo!--gritou Craig.--Lembra-te dos depósitos de óxido nitroso.
O gunkers avançava, com Edge a fazer fogo com todas as armas. A metralhadora Bofors respondeu e Genevieve viu Hare subir no ar e desaparecer. Era Craig quem agora guarnecia a metralhadora, rodando para seguir o gunkers, que passava por cima e subia.
A explosão, quando a ouviu, foi o que de mais catastrófico alguma vez presenciara. O gunkers desintegrou-se no ar, transformando-se numa enorme bola de fogo, em consequência da explosão dos depósitos de óxido nitroso, com fragmentos da fuselagem a cair no mar por todos os lados.
Uma onda enorme levantou o bote. Genevieve já estava a mais de cinquenta metros, e afastava-se rapidamente. Viu a proa do Lili Marlene subir fora de água, não conseguindo descortinar nem Craig nem Schmidt, nem quem quer que fosse sobre a água. A proa subiu ainda um pouco, com a bandeira das faixas e das estrelas a drapejar durante breves instantes, até o Lili Marlene se afundar pela ré, e desaparecer sob as águas.
Nas arribas, Dungal Munro baixou lentamente o binóculo, a cara cor de cinza.
Julie Legrande chorava. Carter
passou-lhe um braço pelos ombros, tentando confortá-la.
--E agora, meu brigadeiro? Pareceu-me ver um bote, lá em baixo.
--Voltamos à aldeia, Jack. Informa a Guarda Costeira. Não demorará muito ao salva-vidas de Falmouth a
chegar aqui. Há sempre uma esperança!
O bote balançava violentamente. Genevieve já vomitara tantas vezes que já nem forças tinha para o voltar a fazer. O céu estava mais escuro, e chovia abundantemente.
Com mais de um palmo de água dentro do bote, sentia-se encharcada até à medula dos ossos. Deixou-se ficar deitada a um canto, com a cabeça apoiada sobre a borda, sentindo-se mais desgraçada que o mais desgraçado dos seres.
Talvez se tivessem passado três horas após o afundamento do Lili Marlene, quando ouviu o ruído de um motor que se aproximava. Ergueu-se e viu o salva-vidas de Falmouth já perto. Cinco minutos depois estava dentro da cabina, envolta em cobertores, com um dos membros da tripulação a dar-lhe uma caneca de café.
Apareceu-lhe na frente um homem de meia-idade, com um casaco de oleado, de cabelo grisalho e face prazenteira.
--Sou o patrão do barco, miss. Sente-se bem?
--Sim--respondeu ela.
--Não conseguimos encontrar mais ninguém.
--Nem me parece que encontrem!--respondeu ela, a voz lúgubre.
--Vamos continuar a procurar por mais uma hora, e levamo-la depois a Cold Harbour. São as ordens que tenho.--Hesitou um momento.-Que se passou aqui?
Que sucedeu?
--Não sei bem! Uma brincadeira que saiu mal! Uma espécie de estupidez ao mais alto grau, tal como a guerra.
Ele franziu a cara, sem compreender, encolheu os ombros e saiu. Genevieve envolveu a caneca com as mãos, procurando algum conforto no seu calor, e deixou-se ficar sentada, com o olhar perdido no espaço.
No quarto escuro, com Munro a seu lado, Carter desenrolou o filme com cuidado.
--Está bom, Jack?--perguntou o brigadeiro.--No final de contas, ela esteve no mar uma data de tempo.
--Parece-me perfeito. Tinha de estar! Até os cigarros estavam completamente secos!--Ergueu o filme contra a luz.
Munro continuou:
--E diz ela que estão aí as fotografias da pasta de Rommel?
--Ao que parece. Disse que havia mais documentos, mas que só tinha vinte exposições.
--Um milagre, Jack. Um dos maiores golpes de espionagem da guerra. Eisenhower e o Estado-Maior, quando virem isto, no SHAEF, até sobem aos céus!
--Abanou a cabeça:--Ela conseguiu-o, Jack, aquela insignificância de gente! Uma simples amadora! Claro que eu não tinha razão!
--Sim, conseguiu-o, meu brigadeiro... mas a que preço?
--A Luft vaffe voltou a bombardear Londres ontem à
noite, Jack. Houve gente que morreu. Quer que continue?
--Não, meu brigadeiro, admito o seu ponto de vista.
Munro fez um aceno com a cabeça.
--Tenho chamadas a fazer para Londres. Encontramo-nos na biblioteca, dentro de trinta minutos.
--E Genevieve, meu brigadeiro?
--Mas, claro, traga-a consigo!
Genevieve deixou-se ficar no banho quente que Julie lhe arranjara até a água começar a ficar fria. Saiu e secou-se com cuidado, pois tinha pisadelas por todo o corpo, embora não sentisse dores. Na realidade, nem sentia nada. Julie tinha-lhe deixado sobre a cama roupa interior, um camisolão, umas calças e um casaco de bombazina. Vestiu-se rapidamente, e estava já a acabar quando Julie entrou no quarto.
--Como está, chérie?
--Bem, nada que dê motivo para preocupação.--Hesitou um pouco e perguntou calmamente:--Nada de novo?
--Infelizmente, não.
--Não esperava que houvesse.
--Encontrei Jack mesmo há bocadinho. Diz ele que o filme está impecável. Pediu-me para lhe trazer isto.
Entregou-lhe a cigarreira de prata e ónix. Genevieve sorriu levemente e recebeu-a: --Uma recordação interessante. Posso ficar com ela?
--Não sei. Jack disse que Munro gostava de lhe falar, na biblioteca.
--?ptimo--respondeu Genevieve.--Dá-se o caso de que também eu gostava de lhe falar.
Dirigiu-se para a porta, mas deteve-se, pegando no casaco de caça de Anne-Marie, que estava a um canto, juntamente com as roupas que despira. Apalpou um bolso e tirou a Walther.
--Mais outra recordação interessante--disse ela, metendo a pistola no bolso.
Abriu a porta e saiu.
Julie deteve-se por um momento, franzindo a cara com ar de ansiedade, mas logo a seguiu.
Munro estava sentado na poltrona de orelhas junto do lume, beberricando brande de um cálice de cristal.
Quando Genevieve entrou, Carter estava de pé junto do aparador, servindo-se de um uísqui.
O brigadeiro, vendo-a entrar, exclamou:
--Ah! Genevieve, permita-me que a veja bem!-Acenou a cabeça.--Nada mal, pelo que vejo. Ora, bem!
Já sabe as boas novas sobre o filme que trouxe. Um golpe de mestre! Mostrou verdadeiro talento para este tipo de trabalho. Posso usá-la na SOE, sem dúvida nenhuma.
Dará boa conta do recado.
--Um raio que o leve é que dou!
--Mas claro que dará, piloto-aviador Trevaunce. Tem a patente de oficial e isso impõe-lhe obediência às ordens que receber. O Lysander chega dentro em pouco, e vem connosco para Londres.
--É assim tão simples?
--É evidente que lhe darão uma condecoração qualquer, e sem dúvida que a merece.
Os franceses, muito
provavelmente, concedem-lhe a Legião de Honra. Algumas das nossas raparigas em operações foram elevadas a Membro do Império Britânico, mas não me parece que seja condecoração apropriada para o seu caso. Talvez se consiga arranjar uma Cruz Militar. Pouco frequente numa mulher, mas não constituiria caso sem precedentes.
--Sei do que se passou com minha irmã --disse ela.
--Baum disse a Craig e Craig contou-me. Até o próprio Priem sabia.
--Lamento--disse Munro, com calma.--Um acidente da guerra.
Genevieve continuou:
--O senhor está aí muito calmamente sentado, beberricando brande, e, no entanto, traiu-me. Pior do que isso, desde o início que me armou uma cilada, com o maior dos sangues-frios. E, afinal, sabe o que tem mais piada nisto tudo, senhor brigadeiro?
--Não faço ideia, mas espero que mo diga.
--E que nem sequer era necessário que Baum me traísse. Segundo parece, Anne-Marie também trabalhava para o outro lado, de modo que eu não tinha a mínima hipótese com Max Priem, logo à partida. A propósito, tive de o matar. Com dois tiros nas costas, com isto. -Tirou a Walther do bolso.
Munro fez cara de pena:
--Lamento, minha cara. Presumo que estava convencida que não seria capaz de o fazer.
--Sim.
--Mas foi, compreende? Não lhe disse que tinha aptidão para este género de trabalho? E tem a certeza, a respeito de Anne-Marie?
--Mas é claro que tenho. Mas há mais ainda.--Franziu a cara, tentando concentrar-se:--Aquela mulher em Romney, a Fitzgerald, que os seus serviços têm utilizado como agente duplo. Sabia que o marido dela trabalhou com Michael Collins no IRA, durante os problemas com a Irlanda?
Munro ficou imóvel.
--Não, não me parece que soubéssemos disso. Porque o pergunta?
--Porque ela enganou-vos, a todos, e continua a trabalhar para os serviços de espionagem alemães, por intermédio de contactos do IRA em Londres.
--Não me diga!--Os olhos de Munro chisparam, ao voltar-se para Carter. --Ligue à Divisão Especial da Scotland Yard, mal cheguemos a Londres. à Secção Irlandesa. Com um pouco de sorte, apanhamo-los a todos.
--Voltou a encará-la:--Ike vai ficar encantado com isto. Cópias do Plano da Muralha do Atlântico de Rommel, com a vantagem de que ele de nada suspeita --Formidável! Será que ele lhe oferece um cigarro?
Munro respondeu com ar calmo:
--Claro, vai-me dizer que sou um pulha... da espécie dos que ganham a guerra.
--Para o que se valem de pessoas como eu!
--Se assim for necessário.
Genevieve caminhou para a mesa, encostando-se nela, com a Walther bem apertada na mão:
--Sabe, tinha em mente fazer um discurso sobre os padrões da honra, sobre o que se passa quando não se respeitam as normas. Mesmo num jogo estúpido como este, o senhor é tão mau quanto os que pretende vencer.
--E o que foi que a fez mudar de ideias?--perguntou Munro.
@Dezassete
Na tarde do dia seguinte, Jack Carter levou-a à agência funerária em Camberwell. Jack ficou à espera na rua, e Genevieve entrou para uma sala de espera pequena, forrada a madeira de carvalho e bastante agradável, com candelabros, um ramo de açucenas brancas num vaso metálico, perto da porta, e um cheiro a velas e a cera.
O homem que a atendeu tinha o cabelo totalmente branco, as mãos bastante trémulas e era muito velho, e, provavelmente, apenas ali se mantinha por causa da guerra.
--Sim, sim. Telefonaram para cá por sua causa, miss.
É o féretro no compartimento número três. Só há uma pequena dificuldade. É que já lá está um cavalheiro.
Deixou-o e entrou num pequeno corredor. No primeiro cubículo, viu um caixão selado, o segundo estava vazio, mas, no terceiro, tinham corrido uma cortina verde de pano grosso. Uma voz recitava em voz baixa as orações dos mortos, em hebraico. Tinha-as ouvido várias vezes no Hospital de S. Bartolomeu, durante o Bli&.
Afastou a cortina e Baum encarou-a. Usava um solidéu na cabeça e tinha um livro de orações na mão. Corriam-lhe lágrimas pelas faces.
--Lamento, como lamento tudo! Tomo Deus por minha testemunha que nunca na vida pretendi que isto acontecesse.
Atrás dele viu Anne-Marie, de braços cruzados sobre o peito, com a face, agora tranquila--a sua própria cara-iluminada pelo candeeiro e emoldurada pela sombra. Ela tomou-lhe a mão entre as suas, e nada disse, pois nada havia a dizer.
Era uma manhã cinzenta, com nevoeiro, e nesse momento do dia o cemitério de Highgate não seria propriamente o melhor sítio do mundo. Uma vez mais, Carter levou-a até ao portão, numa limusina verde, Humber.
--Não precisa de esperar. Volto sozinha.
Embora fosse de esperar uma insistência, ele não argumentou, arrancando com o carro. Genevieve entrou no cemitério, de mãos enterradas nos bolsos do casaco. Não precisou de procurar o número da campa, pois logo avistou os coveiros, a um canto afastado. Estavam presentes o velho da agência funerária, vestido de sobretudo negro, com o cabelo muito branco em destaque na manhã cinzenta, e de chapéu alto na mão, dois coveiros apoiados às pás e um sacerdote de sotaina preta, que procedia à celebração da oração fúnebre.
Esperou até que a cerimónia acabasse e o sacerdote e o cangalheiro se fossem embora, aproximando-se apenas quando os coveiros começaram a tapar a cova com terra.
Eles olharam-na--homens já velhos, muito para além da idade do serviço militar.
Um deles parou de trabalhar.
--Posso ser-lhe útil em alguma coisa, miss? Era alguém seu conhecido?
Olhou para o caixão simples, parcialmente coberto de terra.
--Penso que sim, há muito tempo. Agora, não tenho bem a certeza..--Começou a chover, e Genevieve olhou para o céu.--As vezes, pergunto a mim própria se Deus alguma vez desejou que houvesse manhãs destas!
Olharam-se ambos, com caras preocupadas.
--Sente-se bem, miss?
--Oh! Perfeitamente, estejam descansados!--respondeu.
Voltou-se, para se ir embora, e deparou com Craig Osbourne a observá-la, em pé, a apenas alguns metros de distância.
Estava fardado. Boné, impermeável. Tirou-o, e reparou que trazia o uniforme de combate verde-azeitona, com as calças metidas dentro das botas. As fitas das medalhas sobressaíam na manhã cinzenta, bem como as asas duplas da manga direita.
--Parece bem melhor que da última vez que o vi.-disse ela, acrescentando: -Refiro-me à farda, claro!
Ele pôs-lhe o impermeável pelos ombros, sem dizer palavra. Desceram o caminho entre os túmulos, com o nevoeiro a redemoinhar, embora chovesse, e a reduzir o mundo a uma esfera que apenas a ambos continha.
A chuva tornou-se torrencial, e correram ambos para um abrigo com bancos junto a uma fonte. Surgiu-lhe na mente a imagem de outro cemitério, também à chuva, e a de Max Priem.
Sentou-se. Craig tirou do bolso um maço de tabaco e ofereceu-lhe um cigarro.
--Lamento muito!--disse ele.--Só ontem à noite Munro me falou de Anne-Marie.
--Não me disseram que se tinha salvado! Nem sequer o Jack!
--Já passava da meia-noite quando cheguei cá. Disseram-me que vinha aqui, hoje de manhã.--Encolheu os ombros:--Fui eu que pedi ao Jack para nada lhe contar. Queria que o soubesse por mim!
--Mas, como foi possível?
--Quando o Lili foi ao fundo, eu consegui afastar-me.
O mesmo sucedeu ao Schmidt. Agarrámo-nos um ao outro, durante muito tempo.
Acabámos por vir dar a uma
praia perto da ponta Lizard.
--E Martin?
--Desapareceu, Genevieve. Desapareceram todos.
Ela fez um aceno com a cabeça, e tirou um cigarro.
--E agora, que lhe vai suceder? Munro não deve estar nada satisfeito!
--A principio, estava pior do que uma cobra. Disse que me ia mandar para a China. Que vão iniciar lá um projecto do OSS, de treino de comandos chineses em golpes de bate-e-foge, salto de pára-quedas, e coisas do género --E então?
--O comandante-chefe viu umas ampliações daquelas fotografias que tirou.
--E tudo mudou?
--Mais ou menos. Está para breve o grande dia, Genevieve. Decidiram lançar em França unidades dos SAS
e OSS, muito à retaguarda das linhas alemãs, de modo a estabelecerem ligação com os maquis e, quando for oportuno, provocarem a maior desorganização possível.
--Por outras palavras... Munro descobriu que voltou a precisar de si?--perguntou ela.--Para quê, major?
Mais uma grinalda de folhas de carvalho para a sua Cruz de Serviços Distintos.
Ele não respondeu, dizendo apenas:
--Jack disseme que o traste velho a quer na SOE?
--Ao que parece.
--Mas não haverá um raio que o parta!--Colocou-lhe as mãos sobre os ombros.-Lembre-se que não foi a recordação dela que a dominou: só a Genevieve existiu, nunca Anne-Marie.
"O mesmo lhe dissera Priem." Fantástico, como ambos eram parecidos. Fez um gesto de anuência.
Craig ficou de pé, olhando-a.
--Portanto, é tudo?!
--Parece que sim.
Ele afastou-se bruscamente, e desapareceu, tragado pelo nevoeiro.
Mal, bem mal iam as coisas. Era a guerra. Vivia-se o dia de hoje, tomava-se o que se conseguia tomar. tão simples quanto isso!
Genevieve correu atrás dele, chamando-o.
--Craig!
Ele voltou-se, de mãos nos bolsos da trincheira.
--Não tinha falado de um jantar no Savoy?
Jack Higgins
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