Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O POVO DA TERRA - Primeiro Volume/ W. M. Gear
O POVO DA TERRA - Primeiro Volume/ W. M. Gear

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O POVO DA TERRA

Primeiro Volume

 

Na novela o Povo do Lobo discutimos o recuo da última glaciação há cerca de quinze mil anos e a migração dos Nativos Americanos para as terras virgens do continente da América do Norte. Ao longo dos milénios seguintes, o clima tornou-se progressivamente mais quente e mais seco. Estas condições crescentemente quentes e secas restringiram o leque de animais de caça grossa, e isto, conjugado com a predação humana e a pressão ambiental, conduziu à extinção de muitas espécies de caça tais como o preguiça-gigante, o cavalo e o camelo. Há cerca de sete mil anos, o interior da América do Norte estava a braços com uma seca conhecida pelos pré-historiadores como o Altiterinal. A segunda novela da série, Povo do Fogo, desenvolve-se neste período, quando bandos de caçadores humanos se viraram de forma crescente para a actividade recolectora.

A exploração do ambiente parece ter-se especializado durante o Altitermal. Recentes descobertas arqueológicas, que resultaram do maior desenvolvimento energético e da protecção federal dos recursos culturais, trouxeram a lume uma grande quantidade de informação nova. Entre as descobertas mais excitantes, os investigadores escavaram os restos de estruturas de terra, as quais indicam que alguns dos grupos humanos podem ter restringido os seus territórios, tornando-se seminómadas e baseando a sua subsistência na utilização intensiva de recursos vegetais e animais num dado local. o aparecimento de tais estruturas há cinco mil e quinhentos anos (quatro mil anos antes dos seus congéneres Fabricantes de Cestos do Sudoeste) reorientou o nosso entendimento sobre o Arcaico Primitivo. Pensava-se que os povos do Arcaico Primitivo viviam no limiar incerto da morte por inanição, mas sabe-se agora que utilizavam o seu ambiente numa extensão talvez inigualável no registo arqueológico.

Numa dada altura dos últimos cinco mil anos, um grupo principal de Povos espalhou-se a toda a largura da porção ocidental da América do Norte. Hoje conhecemos estes povos pelas semelhanças das suas línguas: Uto-Astecas. No Povo do Fogo, posicionámos a migração dos povos Uto-Astecas em direcção ao sul no final do período Arcaico Primitivo.

A questão mais frequentemente levantada acerca dos nossos livros sobre a pré-História é: O povo falava realmente assim?» Está muito difundida aquela percepção geral de que os nossos antepassados pré-históricos eram selvagens grunhidores. Isso provém em grande medida dos filmes que retratam as tribos nativas americanas como bárbaros semi-humanos que falavam por meias frases. Esta imagem é muito simplesmente falsa. As nossas melhores teorias linguísticas, que investigam todas as línguas nativas modernas em busca das raízes das línguas» - a língua original ou línguas das quais as versões actuais saíram - sugerem que os povos pré-históricos na América do Norte falavam com tanta sofisticação como nós. As impressões dos primeiros Brancos sobre as línguas tribais reforçam ainda mais estas teorias. No século XVII, os missionários franceses entre os Hurões, referem que as línguas europeias não se podiam comparar em complexidade e complicação com a língua dos Hurões. Os Hopi ainda usam tempos verbais inaudíveis em inglês e os Arapalio comunicam por intermédio de duas línguas separadas, uma para uso comum e a outra para fins cerimoniais, como em tempos a Igreja Católica fez com o latim.

As personagens dos nossos livros falam com frases coerentes e refinadas, porque as melhores teorias científicas sugerem que eles assim faziam. E, como arqueólogos, o nosso objectivo primário ao escrevermos estas séries pré-históricas é fornecer ao leitor o retrato mais correcto que podemos dos modos de vida pré-históricos na América do Norte. Aqui não encontrará nenhum estereótipo conveniente.

 

 

Setembro de 1991

A poeira elevava-se numa leve nuvem castanho-amarelada atrás da grande carrinha branca com tracção às quatro rodas de Skip Gillespie. A Ford de três quartos de tonelada rolava pesadamente por cima dos buracos da estrada, projectando fragmentos de arenito com os pneus. Skip estremecia e saltava no interior da cabina enquanto a carrinha trepidava sobre a estrada, e bateu numa vala que o escoamento de águas abrira como um rasgão na estrada de terra batida.

 

- Diabo. Vai ser preciso uma brigada para alisar esta porcaria.

 

Olhou de relance para o local da construção que apareceu ao transpor uma crista baixa salpicada de artemísia, A estrada descia a serpentear para a bacia e contornava o miserável quenopódío até ao sítio da fábrica. Nesta fase inicial, não parecia grande coisa, era apenas terra rasgada e removida, onde o equipamento pesado começara a terraplenar a argila e a areia ressequidas. Um dia seria um centro de recolha e processamento de óleo e de gás natural, uma das maiores e mais dispendiosas fábricas do país. Mas, agora, as máquinas de remoção de terras brilhantemente coloridas estavam inactivas ao sol abrasador do meio-dia, enquanto os operadores almoçavam. o fumo negro elevava-se em colunas coleantes das chaminés a diesel, desvanecendo-se no ar quente e seco.

 

Skip seguiu a estrada que descia até ao vale, acelerando à frente do rasto das vagas de poeira que se iam erguendo.

 

Apesar da construção, não podia ignorar-se a presença eterna da terra pálida iluminada pelo Sol. A terra dominava desde o infinito azul-esmaltado do céu aos taludes marcados pela erosão que se

 

Arbusto típico dos solos alcalinos do Oeste dos Estados Unidos. (N. do T.)

 

avistavam à distância. Esperava ressequida, varrida pelo vento povoada apenas pela artemísia, pelo quenopódio e pela armolal e por manchas sem fim de ofuscante argila branca. Aqui e ali, sobressaíam as corcovas amareladas das dunas, com a sua vegetação esparsa, um pouco mais verde, nos locais onde roubava a humidade retida na areia. À distância, para o norte, erguiam-se montanhas azuis e verdes que pareciam flutuar na luminosidade de prata polida da miragem da quente bacia.

 

Skip inspirou profundamente e inalou o odor pungente da poeira e da artemísia e, com ele, a alma da terra árida. Olhou de soslaio irritadamente, sobre a planura desolada, enquanto tamborilava com os dedos no volante e murmurou:

 

- Que diabo de território. Quem me mandou deixar a Luisiana? Virou para o estaleiro, contornou dois armazéns e o edifício pré-fabricado verde e cinzento que abrigava os gabinetes temporários. Travou a fundo e colocou a alavanca de velocidades na posição de estacionar enquanto a poeira envolvia a carrinha. A grande Ford trabalhou brutalmente no vazio -talvez por causa do estafermo do filtro do ar, que estava novamente entupido. o consumo tinha sido uma desgraça na última semana. Não queria saber, era a companhia que pagava.

 

Red Swenson saiu do gabinete, através da poeira que se acumulara na porta, e acenou com a cabeça ao dirigir-se para a carrinha de Skip. Swenson vestia umas Levís desbotadas e uma camisa xadrez com a cor comida pelo sol e que em tempos fora vermelha. As mangas haviam sido arrancadas e a poeira infiltrava-se nas suas axilas. Despreocupadamente posto, um capacete de protecção amarelo repousava por cima do rosto tisnado do rude tractorista.

 

- Disseram-me que me querias ver - disse Skip pelajanela da carrinha com o braço pousado no peitoril.

 

Swenson acenou afirmativamente com a cabeça, rebolando um palito de um lado para o outro na boca. o Sol e o deserto tinham-lhe gretado e pelado os lábios.

- Tens um minuto? É junto à plataforma do compressor. Estou a fazer o trabalho sujo para a fundação.

 

Skip consultou o relógio.

 

- Ter um minuto... mas é tudo. Há uma reunião com os engenheiros dentro de meia hora. - Olhou para cima. - É importante?

 

1 Arbusto de folhas adocicadas típico dos solos secos e alcalinos, importante como forragem. (N. do T.)

Ponto morto específico para estacionar, próprio das caixas de velocidades automáticas e que não permite que o veículo deslize. (N. do T.)

 

Swenson anuiu com um aceno de cabeça antes de olhar de soslaio para o estaleiro; um remoinho de poeira assolava a terra esventrada.

 

- Sim. Primeiro pensei que devia cobrir aquilo, mas sei que aqueles tipos arqueólogos andam por aí a cheirar. Não quis meter-me em trabalhos e por isso pensei que seria melhor falar contigo. Tu é que estás encarregado desta fantochada.

 

Gillespie fez a sua pior cara ao olhar irritado para o Sol.

 

- Arqueólogos? É mesmo do que precisamos agora. Estamos dois meses atrasados e com meio milhão de dólares para lá do orçamentado e os estafermos dos arqueólogos podem encerrar-nos todo este projecto durante meses enquanto rebuscam por aí à procura de um punhado de índios mortos.

 

Suspirou e deu uma palmada no volante em sinal de resignação.

- Salta cá para dentro, Red. Vamos ver o que encontraste. Afastou a pasta e a garrafa-termo quando Swenson abriu a porta do outro lado e deslizou para dentro da cabina.

 

- Céus, o tipo cheira tão mal como um cachorro em putrefacção. Skip arrancou aos sacões através do complexo. A poeira elevou-se numa nuvem que rodopiava para dentro da cabina revestindo o painel de instrumentos com uma fina camada de pó. Bem, era melhor o pó que a lama. De outra forma, estaria a derrapar como um ás das quatro-rodas - e a blasfemar constantemente.

 

Skip lançou a Swenson um olhar rápido.

 

- Que encontraste?

 

- Raios me partam. Uma quantidade daquele carvão vegetal apareceu por debaixo da lâmina. Aquilo que aqueles arqueólogos procuravam. E também aquelas lascas de pedra.

 

- Merda. Já pagámos àqueles sacanas umas boas centenas de milhares de dólares para andarem por aí a cavar os seus pequenos buracos de todas as vezes que encontram pontas de flecha. - Skip abanou a cabeça. - Estafermo de país este em que vivemos. Temos uma fábrica de muitos milhões de dólares para construir e, em vez disso, andamos a escavar por aqui à procura de índios mortos. Onde é que este país vai parar?

 

Swenson grunhiu enquanto olhava para a terra ressequida. Skip virou para sul por uma picada de dois rodados, que fora aberta através da salva. Um tractor amarelo, parado ao lado de um monte de terra, assinalava a posição para o compressor. Travou e puxou o travão de mão enquanto observava a situação. o alegado solo arável fora amontoado a favor do vento, da maneira que os agentes do Governo federal queriam. Agora, vários metros de solo tinham sido removidos da superfície do solo e a metade da duna situada do lado oeste fora esventrada.

 

Swenson apontou com o dedo.

 

- Acolá.

 

Skip abriu a porta e desceu da carrinha para o remexido solo arenoso. Seguiu Swenson, irritado com a sensação da areia a raspar-lhe as botas de pele de avestruz de quinhentos dólares.

 

Swenson saltou uma das lombas deixadas pela lâmina do tractor e todo o seu corpo estremeceu.

 

- Vê aquilo.

 

Skip trepou para o lado dele e olhou para baixo, para o sítio onde a lâmina fizera o último corte. o carvão aparecera numa mancha negra quando a lâmina raspou a superfície, mas ele podia ver as grandes e redondas descolorações no solo. o carvão vegetal e o solo negro e rico em matéria orgânica contrastava com a areia castanho-amarelada, onde grandes covas tinham sido abertas na duna. Cada uma das descolorações media três passos de diâmetro.

 

Skip desceu dando pontapés no carvão. Lascas de pedra colorida juncavam o chão.

 

- Sim, são algumas daquelas casas dos índios que os arqueólogos queriam encontrar. Vi algumas delas quando trabalhei no Novo México.

 

Olhou em redor para os campos de salva. Nos restos da duna, a erva-do-arroz e o centeio silvestre ondeavam à brisa da tarde. As flores estreladas da cebola silvestre balançavam-se ao longo das margens da área remexida. À distância, uma manada de antílopes observava do alto de uma das dunas mais altas. Skíp sacudiu a cabeça, semicerrando os olhos à luz brilhante.

 

- Só Deus sabe o que aqueles índios idiotas viram neste território amaldiçoado.

 

Swenson desceu para dar uns pontapés na terra.

 

- Então, que se fez? Estava na reunião com aquele palerma do Gabinete de Administração do Território. Ele disse para nos calarmos se descobríssemos alguma coisa.

 

1 Rousepits no original. Habitações de alguns dos primitivos habitantes da América do Norte que consistiam numa escavação redonda ou oval até à cintura de um homem, que depois era coberta de terra colocada sobre esteiras apoiadas num sistema de pilares e traves. As pithouses, como também são designadas, tinham até 5 m de diâmetro e, pelo menos, 0,5 m de profundidade, segundo BrianM. Fagan,AiicieztNorthAme7-íca, Thaniesand Hudson Ine., Nova lorque, 1991. (N. do T.)

BLM - Bureau of Land Management. (N. do T.)

- E agora?

 

Skip mascou no polegar enquanto estudava o terreno. Os arqueólogos haviam de gostar de deitar as mãos a isto. E se descobrissem que o sítio era tão bom como parecia...

 

- Olha, não podemos ter de novo esses arqueólogos por cá. Pelo que sei, andariam por aí como malucos durante outro par de meses ou talvez mesmo um ano. Isso significa milhares de dólares... e atrasos. Tempo é dinheiro, Red. Somos uma indústria, não a National Geographic Society. Esses gajos já tiveram a sua oportunidade. Nós fizemos a nossa parte, cumprimos a lei e deixámos os arqueólogos meter o nariz em tudo. Temos um calendário a cumprir.

 

Swenson meteu os dedos nos bolsos traseiros das calças, olhando para os grandes círculos.

 

- Quem escavou um buraco deste tamanho? E para quê?

- Vai buscar a pá à carrinha. Deixa-me ver o que é isto. Quando Swenson regressou com a pá, Skip removeu a terra até a lâmina bater surdamente na pedra. Levantou um pedaço de arenito.

 

- Uma laje de moer - disse. - Vês onde eles desgastaram a parte superior como uma cuba? Isto servia para moer sementes e outras coisas.

 

- o que está por debaixo disso? - Swenson pôs-se de gatas e olhou. Afastou a areia e retirou um punhado de sementes chamuscadas.

 

- Cova de armazenagem. Exactamente como os Índios o deixaram. Têm estado aí à espera há milhares de anos. - Skip deu um estalo com a língua. - Li aquele maldito relatório que os arqueólogos devolveram.

 

Swenson olhou de soslaio com ar céptico.

 

- É melhor que sejam esses índios desmancha-prazeres do que eu. Só estarei neste território o tempo suficiente para ganhar quanto baste para voltar à civilização.

 

- Sim, bem, vamos ao trabalho. Nós pagamos-te à hora. Swenson fez-lhe um sorriso torcido.

 

- E tapa tudo para que o carvão não se veja, certo? Skíp sorriu, mostrando os dentes.

 

- Quero este sítio num brinco, para o caso de eles aparecerem. Diabo não os queremos a empatar um projecto de trinta milhões de dólares. E para quê? Os malditos dos Índios não estão para regressar. Que diabo podemos nós aprender com um bando de selvagens que vivia num território como este?

 

Skip curvou-se para apanhar uma pedra preta. Límpou-lhe a areia da face lisa e levantou-a. Por um instante, nem podia acreditar no que agarrava. Não era possível enganar-se com aquela pedra polida - um dente fossilizado de tubarão. E tinham-lhe brocado com toda a limpeza um buraco no centro, como se o dente tivesse sido em tempos um pingente ou um ornamento.

 

- Bem, que tal? Penso ter encontrado alguma coisa para a prateleira da minha lareira. - Fez uma pausa para pensar. - Mas onde raio é que eles apanharam um dente de tubarão?

 

- Estúpido, todo este território foi o leito de um oceano há cem ou cinquenta milhões de anos atrás. Em todo o caso, donde raio vieram os hidrocarbonetos que estamos a pesquisar?

 

Swenson dava pontapés na areia solta, tentando encontrar outro dente de tubarão. Pôs a descoberto um osso acastanhado pelos milénios passados no solo. Esticou-se para agarrar a pá de Skip, pondo a descoberto uma série de ossos incrustados de areia até desenterrar um crânio humano, cercado de mais dentes de tubarão negros e polidos.

 

- Que grande merda! - gritou Swenson, recuando.

 

Olhando com atenção, Skip pôde ver o local onde o corpo estivera deitado num buraco cuidadosamente escavado. A areia mudava de cor na orla da sepultura, marcando os limites da intrusão.

 

- Oh, Cristo! - grunhiu Gillespie. - Não nos faltava mais nada. Isto vai envolver os malditos dos índios. Depois vamos ter um observador índio a rondar por aqui e a dar-nos dores de cabeça. Olhou para o dente de tubarão que segurava na mão. - Sim, é parte de um colar enterrado com o esqueleto durante todos estes anos.

- o diabo de um morto! - sussurrou Swenson.

 

- Morto é a palavra. Está aqui enterrado há tantos anos que não se importará se cá ficar mais algum tempo. - Skip apontou para o topo da plataforma onde fora amontoada a terra saída da escavação.

 

- Queres dizer que pretendes que eu... - Swenson deixou cair o queixo, mostrando dois dentes em falta.

 

- O diabo é que o faço. - Skip fez um gesto, fixando o crânio que olhava para ele com os olhos vazios. - Mais uma passagem com o tractor e tinha-lo esborrachado. Qual a diferença? Olha lá, estás a ficar parvo por causa de um índio morto? Não varreste aquele bar da cidade?

 

- Sim, mas...

 

- Então, pega naquele tractor e vai-te a ele, Red. Quanto mais tempo esta coisa estiver exposta tanto mais nervoso eu fico. Swenson empertigou a cabeça, semicerrando os olhos para o sol.

- Sabes?, ouvi falar de um homem lá em Gillette. Encontrou um colmilho de mamute e levou-o para casa. Fez tudo isso pelo chefe da mina em que trabalhava.

 

Skip lançou-lhe um olhar avaliador.

 

- Sim, bem, Red, tu tapas essa coisa e poderá haver outro milhar de dólares no teu cheque no fim do mês. Mantém a boca fechada e haverá sempre trabalho num dos meus projectos.

 

Swenson encolheu os ombros acanhadamente.

- Tudo o que disseres.

 

Um milhar no bolso de Swenson era melhor negócio do que pagar cinquenta mil e perder meses enquanto os arqueólogos escavavam o sítio. Aliás, Red bebê-los-ia todos dentro de um mês ou dois, Depois voltaria a pedir horas extraordinárias para satisfazer as prestações da sua carrinha.

 

Gillespie regressou à Ford e atirou com a pá para a caixa. Sacudiu a areia das botas de pele de avestruz e deslizou para o assento do condutor.

 

O tractor amarelo cacarejou quando o tractorísta pôs a trabalhar o enorme diesel e recuou acompanhado pelo ruído de estridentes sinais de aviso. Skip observou Red a baixar a lâmina e a deslocar-se para a frente com as lagartas a cascalharem e a fazerem outro corte que destruiu a última prova do local das casas dos índios. Skip viu um dos ossos quando a pesada lâmina revolveu a cascata de terra. Red recuou para fazer outro corte, amontoando os restos do esqueleto no meio da terra removida.

 

Skip embraiou a carrinha e dirigiu-se para a picada irregular que o levaria ao complexo principal. E cinco minutos depois para a reunião com os engenheiros.

 

Ainda segurava o fóssil de dente de tubarão. A pedra dava-lhe uma sensação de frio e peso na mão. Quantos séculos jazera junto do esqueleto? Como é que um bando de índios ordinários brocou um buraco através de uma pedra como esta? Que diabo de índios teriam feito tal coisa?

 

Quem diabo se importava? Skip tinha um projecto para por de pé.

 

Acampamento das Três Confluências, Bacia do Vento,

5000 anos antes do tempo presente.

 

O arenito cor de sangue seco erguia-se numa crista alcantilada que se destacava das ricas pastagens do leito do rio. o formato da crista espicaçava a imaginação excitada de Espírito Sábio que jazia escondido entre a erva; era como se o dorso de um enorme búfalo emergisse da própria terra para abrigar o acampamento do Povo da Terra dos ventos dominantes. Olhou de novo para o acampamento que espiava. Espírito Sábio pertencia ao Povo do Sol- um membro do clã do Homem Branco. Ele caçava de novo aqui, nesta terra do sul. Opunha a sua habilidade e astúcia a um povo desconhecido. O fiasco significaria a morte rápida.

 

Um raio de luz rasgou as nuvens iluminando a pedra carmesim da crista até a rocha parecer que ardia. A erosão escavara as encostas; Espírito Sábio podia ver os ossos dentro da crista em forma debúfalo. Era aimaginação que lhe pregava uma partida ou a crista encerrava mesmo algum poder que não conseguia entender?

 

É esse o Poder do Povo da Terra? Eles retiram monstros da terra da rocha? As histórias contadas pelos Mercadores infestavam-lhe a memória - histórias dos Espíritos do Povo da Terra ligadas às rochas e às árvores. E se o Povo da Terra me apanha, que é que me faz? Mata-me? Prende-me a alma na terra para gemer para sempre na escuridão? Pássaro de Fogo ajuda-me! Inspirando profundamente para reforçar a coragem, voltou a sua atenção para o acampamento.

 

o local fora muito bem escolhido, virado a sul para apanhar sol no Inverno. Cinco pequenos montes de terra enrugavam o solo arenoso na base da crista. Cada um deles não tinha mais de quatro passos largos de diâmetro, assemelhando-se as habitações a ninhos

 

Thunderbii-d no original. Ave mítica que os índios acreditavam ser a causadora dos trovões e dos relâmpagos. (N. do T.)

 

de vespa ou a obra de alguma enorme abelha que trabalhasse a lama. As aberturas, ao nível do solo, estavam viradas a sudeste. Naquele momento, as abas das portas feitas em pele de animal curtida estavam enroladas para cima e atadas com tiras de couro.

 

Um grupo de homens e mulheres de certa idade sentava-se à sombra das artemísias no espaço calcado entre as estruturas. Uma fogueira que ardia sem chama punha vagos filamentos de fumo azul no entardecer. Com grande agitação de braços e discurso cacarejado, uma das mulheres velhas dominava o grupo enquanto contava uma história. Acenando e balançando as cabeças, os ouvintes escutavam extasiados. Espírito Sábio apercebeu-se da diferença no sítio onde estava deitado. A língua deles soava como o arrolhar e cacarejar de pombos selvagens - e tudo era incompreensível para ele.

 

O Poder trouxera Espírito Sábio para se esconder aqui, entre os grossos caules do centeio selvagem gigante que cresciam ao longo do rio. Aqui podia espiar as casas cobertas de terra do Povo da Terra. A visão dissera-lhe que o Povo da Terra o mataria se o apanhasse. Olhou em redor com ansiedade, espreitando através da erva alta para procurar fixar na memória qualquer itinerário potencial de fuga. Se alguém fizesse soar o alarme, para onde podia fugir? Não conhecia este território, não tinha aquela sensação de para onde a terra ia ou de como os trilhos se orientavam.

 

Espírito Sábio estendeu cuidadosamente a perna onde começara a sentir uma cãibra. Estava deitado sobre a barriga musculosa, enroscado em tufos de erva alta como uma serpente humana. o espesso cabelo negro, que lhe caía sobre a testa, fora puxado para cima numa coifa e pregado com uma mola feita de omoplata de búfalo; o resto pendia-lhe pelas costas abaixo numa corrente emaranhada e reluzente. A toda a largura da testa, fora-lhe tatuado cinco círculos negros. Os malares largos davam-lhe ao rosto um aspecto anguloso e a pele estava bronzeada pelo sol e curtida pelas intempéries. o nariz comprido projectava-se como o bico de uma águia sobre uma boca de lábios largos. Debaixo de espessas sobrancelhas, olhos penetrantes estudavam o acampamento do Povo da Terra. Ombros largos e braços pregueados de músculos: músculos para brandir o atlatlo e os dardos brilhantes seguros na mão direita, cheia de calos.

 

O medo deslizoú-lhe pela espinha com pés de gelo.

 

Propulsor para setas e dardos utilizado pelos Uto-Astecas. (N. do T.)

 

A visão trouxe-me até aqui. Conduziu-me pelo longo trilho até aqui. Ergueu os olhos, sussurrando tão alto quanto se atreveu:

- Onde está a criança? Não demonstrei já o meu valor? Olhou fixamente para o azul-profundo do céu do fim de tarde. Espírito Sábio sentira sempre um respeito saudável por poder - mas nunca pensara nisso da forma como alguns o faziam. Contentava-se em caçar, em ampliar a família e em amar a mulher. Chamar pelo Poder deixava-o perturbado; Poder e fogo tinham muito em comum. Podiam ser geridos e manipulados quando tratados com respeito ou, se tratados sem cuidado, podiam abrasar o mundo ou secar a vida no corpo de um homem incauto.

 

E aqui estou eu, longe do meu povo e da terra que eu amo. Onde está a criança? Ou o Poder virou-se contra mim? Estou em vias de ser destruído? Incinerado e transformado em cinzas sem ninguém para prantear a minha alma?

 

O Poder era o negócio dos feiticeiros - os Sonhadores e Libertadores de Almas. Eles conheciam as vias do Poder como as águias conheciam as vias das correntes de ar lá no alto sobre as cabeças. Os Libertadores de Almas podiam desprender-se do corpo e partir, rodopiando no sonho como a águia descreve círculos no céu.

 

Espírito Sábio nunca sentira o apelo para procurar o Poder. Um libertador de almas talvez soubesse como libertar o seu espírito e vogar como a águia nos ventos do Poder, mas Espírito Sábio soubera sempre que se precipitaria nas implacáveis rochas lá em baixo.

 

Os acontecimentos alteram a vida de um homem. o desespero leva o mais resoluto a procurar o que ele sempre evitou. A morte da filha de Espírito Sábio mudara-lhe a vida e a vida de Lua Brilhante, sua esposa. Aguilhoado pelo desgosto que via nos olhos de Lua Brilhante e pela dor na sua própria alma, Espírito Sábio erguera os braços e invocara o Poder, e o Poder guiara-o para o sul para espiar este curioso acampamento.

 

Espírito Sábio lutou contra um impulso para fugir, para se afastar desta terra e deste povo estranho. Mas se o fizesse ofenderia o Poder que o trouxera tão longe.

 

A minha alma é um pedaço de lanugem de cardo perdida ao sabordos ventos. Um arrepio - como a sensação irritante de patas de gafanhoto sobre a pele - desceu pela espinha de Espírito Sábio abaixo.

 

A tarde continuava a cair sobre o corpo quente e poeirento da terra. Farrapos de nuvens avermelhadas flamejavam à luz agonizante do Sol. Os insectos faziam alguns pequenos barulhos e davam estalidos no meio da erva circundante; uma brisa sussurrou nos ásperos caules verdes. Os mosquitos zumbiam irritantemente, mas sem a persistência incómoda dos que eram vulgares na sua terra natal lá para o norte. As rãs feriam o ar parado com o seu coaxar gutural.

 

Colinas inclinadas perfilavam-se para oeste, lajes cor de camurça de montanhas empinadas pontilhadas de pinheiro flexível e zimbro onde as árvores lançaram grossas raízes na rocha fendilhada. A face implacável da montanha fora cortada pelas três bifurcações do rio, da mesma maneira que uma faca de quartzo podia rasgar o chão de uma cabana. As águas corriam frias e límpidas através dos desfiladeiros sombreados e atravancados de arvoredo. Para detrás dele fica a cadeia de montanhas azul-cinzenta que atravessara na sua viagem. Subira gradualmente as encostas norte até atingir a linha de cumeada. Daqui o caminho tornara-se traiçoeiro, porquanto blocos redondos de granito desgastados pelas intempéries tinham rebolado dos penhascos alcantilados. Um passo em falso teria significado a morte. A crista estendia-se de leste para oeste, rodeando esta bacia de rochas, areia e argilas ressequidas.

 

Para lá daquelas montanhas, a várias semanas de viagem - a norte dos rios do Castor Gordo e Perigoso -, ficam as estepes irregulares suas familiares. Lá, ao longo das muitas linhas de água que alimentam o rio do Percevejo, a tribo do Homem Branco do Povo do Sol lutava para conservar o seu território. o seu domínio sobre aquela terra rica continuava a recuar, embora lentamente. Outras tribos do Povo do Sol deslocavam-se do norte para empurrarem a tribo do Homem Branco à sua frente, como paveias de erva à frente de um vento forte. Guerreiros de olhar penetrante das tribos da Pedra Partida, daVespa, da Ponta Negra, da Flauta Rouca e do Pássaro de Neve atacavam furiosamente - cada tribo era um aguilhão em brasa, cujo elevado efectivo causava uma conflagração através do norte.

 

A atenção de Espírito Sábio voltou-se de novo para as curiosas habitações. Pela maneira como vivia, este Povo da Terra podia ser um cão das pradarias.

 

Tal como o arisco roedor, eles levantam um monte de terra e vivem por debaixo dele. Uma casa feita de terra? E escavada para o interior da terra? Impossível de conceber. Como é que eles pensavam-estagente que vivianoregaço da Mãe Terra? Como é que não endoideciam como uma carraça de búfalo por nunca sentirem o vento redemoinhando nas suas casas, nunca serem capazes de enrolar as camas e irem espreitar o mundo? Quem teria pensado que os humanos pudessem viver desta maneira?

 

Um bando de crianças barulhentas saltou em coluna de dentro do buraco escuro de uma porta. Espírito Sábio franziu os olhos, estudando a delgada rapariga que corria rindo com os rapazinhos. Uma aceleração do seu coração correspondeu a uma curiosa sensação de alegria. o Poder agitou-se no ar em seu redor.

 

A criança!

 

Retesou-se, a excitação pulsando-lhe com o sangue nas veias. Os cantadores elevariam as suas vozes nas tendas de Inverno enquanto contassem a história da busca do espírito de Espírito Sábio.

 

Desde sempre, Espírito Sábio lembrava-se de que os mercadores contavam as histórias fantásticas do Homem Branco a respeito do Povo da Terra. Mas vê-los em carne e osso? Os mercadores tiveram a mesma sensação que ele tinha agora? Conheceram esta sensação de espanto? Os mercadores andavam por toda a parte com a magia do seu comércio protegida pelo Poder dos seus bastões de madeira. Espírito Sábio recordava-se das noites assombrosas em redor das fogueiras crepitantes do acampamento, quando comera os alimentos feitos pelo Povo da Terra - partilhou aqueles sabores e, fazendo-o, partilhou um pedaço da alma.

 

Foi isso que me trouxe aqui? o Poder do comércio? Foi assim que o laço se forjou?

 

Apoderou-se dele um curioso júbilo. Acariciara os colares e peitorais de contas de osso finamente trabalhadas e admirara os seus habilidosos trabalhos em couro pintado a púrpura, amarelo e vermelho.

 

E eles devem saber da nossa existência. Porque de certeza que os mercadores falaram da tribo do Homem Branco ao Povo da Terra e talvez os fabricantes de contas tenham comido búfalo, alce e veado, animais abatidos pela sua própria mão.

 

É isso o Poder do comércio? É uma partilha de espírito e alma? Todas as pessoas, independentemente das diferenças, fazem comércio de partes de si mesmas através das coisas que fazem?

 

No acampamento, a rapariga esbelta ria e batia as palmas enquanto vituperava um dos rapazinhos e o afastava de si. Ela movia-se com a graça de uma corça jovem. A luz que desfalecia fazia cintilar a pujança do seu comprido cabelo negro.

 

A velha interrompeu a sua história virando-se irada. Elevando a voz, repreendeu a rapariga. Os rapazes afastaram-se imediatamente, deixando-a só perante a cólera da velha. A velha megera irrompeu noutro acesso e a rapariga inclinou a cabeça e pôs os olhos no chão. Depois a criança escapou-se, o cabelo lustroso a flutuar-lhe nas costas.

 

Espírito Sábio começou a afastar-se cuidadosamente - a deslizar silenciosamente sobre o talude e a contornar o acampamento quando um movimento lhe prendeu o olhar. A boca secou-se-lhe,

 

Um enorme lobo negro observava-o da sombra dos quenopódios, As suas orelhas triangulares estavam espetadas para a frente, enquanto os cintilantes olhos amarelos pareciam penetrar-lhe a alma, avaliando, sondando. o Poder pulsava no ar.

 

É este o local. Fragmentos da visão voltaram até ele. Uma energia vertiginosa invadiu-lhe os músculos. A respiração acelerou-se-lhe nos pulmões. o Poder fazia isso, introduzia-se sorrateiramente num homem e explodia-lhe na alma como uma brisa gelada.

 

Engoliu em seco com força e olhou para as cabanas de terra do Povo da Terra. E agora? A rapariga agachara-se, afastada dos seus colegas de folguedo. Observava um dos rapazitos desenhando na terra com um pau. A sua postura abatida tocou fundo a alma de Espírito Sábio.

 

Sim, criança, és tu. Agora tenho de ser astucioso... e tão bravo como sempre fui. o coração começou a bater-lhe violentamente. Olhou para o lobo por cima do ombro - e sentiu um calafrio. Do animal, não havia nem rasto. Espírito Sábio encheu os pulmões de ar, o Poder a pressionar em seu redor como um manto velho de pele de búfalo.

 

OPoderestá aqui, em meu redor, à espera. o Poder conduziu-me até aqui, mostrou-me o lobo... tal como o sonho disse. Aquela rapariguinha é ela. O Poder mandou-me buscá-la.

 

Espírito Sábio serpenteou para mais perto do acampamento, confiando na penumbra para dissimular o seu movimento a olhares penetrantes. Embora não tivesse visto nenhum guerreiro, um homem nunca conhece o poder dos outros. A tribo do Homem Branco acreditava que o Pássaro de Fogo lhe dera o melhor do Poder, mas outros - especialmente aqueles ligados tão intimamente à terra podiam ter cativos os seus Poderes do Demónio para os ajudarem.

 

Tirar a criança seria difícil em si mesmo e levá-la para norte, para o acampamento do clã do Homem Branco no rio do Percevejo, desafiaria todos os seus talentos e perícias.

 

Tenho de o fazer! Um homem não esquece uma promessa feita ao Poder. Melhor fora que a sua carne quente parasse um dardo bem afiado do que regressar de mãos vazias violando o voto feito pela sua alma perante o Pássaro de Fogo e o Urso.

 

Precisamente por espreitar a criança é que a angústia nos olhos de Lua Brilhante o obcecava, incitando-o a tentar o seu melhor. juntos tinham transportado a sua última filha pelo trilho pedregoso batido pelo vento e deixado o seu corpo no cimo da crista onde a sua alma pudesse pairar livre e erguer-se para o Pássaro de Fogo. Ali, acocorado no frio húmido da noite primaveril, pousara a mão no ombro da esposa e elevara os olhos para as luzes do crepúsculo que enchiam o céu nocturno. As almas que o Pássaro de Fogo arrebatava para o Acampamento da Morte acendiam as suas fogueiras exactamente como os homens faziam.

 

- Não posso mais - gritara Lua Brilhante. - Que será de nós?

 

O quê?

 

- Mais tarde, guiara-a na descida da crista batida pelo vento, ciente da furiosa mordedura da tempestade primaveril que se aproximava. Recordava-se daquela sensação de vazio que sentira ao entrar na cabana. Olhara em redor, vendo o local onde as suas crianças viveram - e experimentou um vazio na alma. Dois dos seus filhos de tenra idade tinham morrido misteriosamente durante a noite e apresentavam um corpo azulado pela manhã. Uma das suas filhas fora mordida quando tentava acabar com uma briga de cães, e o ferimento agravara-se; o mal insinuara-se provocando pus e decomposição. Morrera a arder em febre. Outra filha durara cinco estações antes de um urso prateado a apanhar quando colhia bagas. A pele do urso ainda os cobria, a Lua Brilhante e a ele, nas noites frias - fraco refrigério por uma filha morta. A última fora Arco de Salgueiro. Tinha sido a mais robusta de todos os seus filhos, que iria transformar-se numajovem elegante e que casaria com um jovem robusto e lhe daria netos para ele ensinar e desfrutar quando fosse velho.

 

Então, num dia de Primavera, Arco de Salgueiro fez um disparate. Correra sobre o gelo quebradiço do rio do Percevejo quando Perseguia uma lebre atarantada. No sítio onde ela desapareceu sob o gelo, as águas corriam negras e silenciosas. Apenas por sorte tinham recuperado o corpo dela preso num obstáculo submerso mais abaixo na corrente. De outro modo - e Espírito Sábio arrepiava-se só de pensar nisso -, ela teria perdido a sua alma lá em baixo nas águas negras e ter-se-ía transformado numa alma penada, assombrando os acampamentos do povo nas longas noites de Inverno.

 

Naqueles dias desgraçados depois da morte da sua filha, o mundo perdera o seu colorido. o vento mordera com dentes ainda mais frios e as nuvens tinham parado no céu tempestuoso. o riso e a esperança tinham desaparecido. A dor fizera murchar o seu espírito- OS olhos de Lua Brilhante tinham-no destruído, feridas em carne viva pelas quais sangrava a sua alma torturada.

 

Por isso não importa se o Povo da Terra me apanhar, Eu tinha de vir... tinha de tentar recolher a criança. Não ter feito nada teria sido viver com um vazio interior... ver morrer lentamente de dor a alma de Lua Brilhante.

 

Espírito Sábio deslizou para mais perto, mantendo-se cuidadosamente a favor do vento, sabendo que tudo se podia perder se os cães do acampamento dessem pelo seu cheiro. Quase todos os animais pareciam ser velhos, embora, ao princípio do dia, tivesse visto uma cadela vigorosa com uma ninhada de cachorros.

 

Era melhor aproveitar esta oportunidade terrível do que viver com a dor. Fora ter com Falcão Velho, o feiticeiro do clã do Homem Branco, e implorara-lhe, cheio de angústia, que o ajudasse, explicando que a menstruação de Lua Brilhante cessara e que ela precisava de conceber mais uma criança.

 

- Toma isto. É o auxiliar do Rato - dissera Falcão Velho com um sorriso rasgado, entregando-lhe uma pele de rato recheada de erva. - Invoca o Rato que é sempre fértil. Não comas nem bebas durante quatro dIas e quatro noites. Canta todos os dias e, no quarto dia coloca o auxiliar do Rato debaixo da tua cama. o Poder virá ter contigo.

 

Tal como Falcão Velho prometera, o Poder veio - só que não fora o Rato. Em seu lugar, aparecera um adolescente misterioso e belo vindo das nuvens batidas pelo Sol e sorrira.

 

- Ouvi o teu Canto e vi a tua Dança e senti a tua purificação enquanto depuravas a tua alma. Passou o tempo de Lua Brilhante gerar filhos. Não há nada que tu possas fazer. Nenhum Poder laurará a sua fertilidade.

 

A alma de Espírito Sábio retorceu-se e gritou enquanto ele erguia as mãos trementes para o belo jovem.

 

- Que posso eu fazer? Olha para ela. Sente a sua dor. Ela diz que vai morrer... que não pode viver sabendo que todos os seus filhos estão mortos.

 

E o belo jovem sorrira.

 

E que darias tu por outro filho? Qualquer coisa!

 

Então vai para o sul, para longe de onde já estiveste antes. Atravessa o rio Perigoso, atravessa as montanhas. Continua para sul até veres o meu Auxiliar de Espírito, o Lobo Negro. Aí encontrarás um acampamento. Aí encontrarás uma jovem queprecisa de ser amada. Aoprincipio ficará assustada. Afamília dela matar-te-á se te apanhar; mas se fores forte e se fores astucioso e tomares boa conta dela, ela vírá a amar-te. Se fores valoroso, ela será uma grande e poderosa sonhadora para o povo.

 

- Pela minha honra perante o Pássaro de Fogo, que não levará minha alma para o Mundo da Morte, e pela minha honra serei valoroso. Tudo farei para ver o rosto da minha Lua Brilhante iluminar-se de novo.

 

O jovem então sorrira e apareceram chamas rodopiando em seu redor enquanto se erguia como fogo para o céu.

 

Na manhã seguinte, Espírito Sábio devolvera o feitiço do Rato a Falcão Velho. Juntou as suas coisas e abraçou a sua amada Lua Brilhante dizendo-lhe que ia buscar a sua nova filha, a que lhe fora dada pelo Poder do Espírito.

 

-E aqui estou eu -gemeu ele em voz baixa enquanto deslizava para dentro de uma sebe emaranhada de artemísia.

 

Um fluxo avermelhado debruava as montanhas para ocidente e sombras de indigo drapejavam o acampamento suavizando os contornos das cabanas em forma de abóbada. Alguém lançou mais artemísia no fogo onde os mais velhos estavam sentados a fumar e conversar.

 

Espírito Sábio aproximou-se mais, rastejando cuidadosamente para não fazer ruído. Agora conseguia cheirar o acampamento: odores de fumo de salva, de cães e de seres humanos. o odor da terra rica permanecia-lhe nas narinas.

 

Um dos velhos chamou alguém, agitando a mão para dar mais fwça à ordem. A rapariga saltou-lhe aos pés, olhando desconfiada, pâra o velho. Ela parecia ter cerca de 10 Invernos de idade, talvez pouco menos. Respondeu com ar neutro e retirou um saco de pele do tripé junto ao fogo. Pendurando-o no ombro escanzelado, dirigiu-se para o rio.

 

O coração de Espírito Sábio martelava quando se levantou e a seguiu silenciosamente na obscuridade que se adensava. Ela andava com uma graça e uma harmonia não usuais numa rapariga da sua idade. o espesso cabelo negro caía-lhe pelas costas até à cintura. Trauteava alguma canção do Povo da Terra enquanto serpenteava Por entre a artemísia, mocassins pisando ligeiros e de leve no trilho batido.

 

Espírito Sábio rondava como um falcão sobre um coelho desprevenido, deslizando suavemente com pés de gato silencioso. Ela Saltitou com leveza até à margem do rio, retirando o saco de pele do ombro. Por um momento, olhou para o alto, procurando os céus com o olhar. Depois suspirou e inclinou-se sobre a água, uma simples Sombra entre sombras. Ele conseguia ouvir os pés dela chapinhando.

 

A leste escurecera, e as primeiras cintilações desmaiadas das estrelas penetravam o manto do céu. Os tentilhões e os tordos chilreavam na escuridão que crescia; a noite caía mansamente sobre a terra.

 

À medida que se aproximava da criança, Espírito Sábio pedia licença a um pé para mexer o outro. Anos de caçadas treinaram-no para este momento; a perícia fluía através de si como uma espécie de Poder. A água gorgolejava enquanto enchia o saco que ela apresentava à corrente.

 

Cuidado, Espírito Sábio. Um movimento em falso e falharás. Se ela gritar, tudo estará perdido.

 

Ela pôs-se de pé, com a água pingando musicalmente dos flancos do saco a cobrir o ruído do seu movimento. A sua mão fechou-se sobre a boca dela enquanto a puxava para trás.

 

Mastigou uma praga quando ela lhe enterrou os dentes na palma da mão; depois, ela começou a espernear e a contorcer-se, os gritos sufocados na garganta. Agarrou-a como se ela fosse uma cria de antílope a lutar e avançou para dentro das águas calmas. Ela agredia-o sem desfalecimento, malhando-lhe nos flancos enquanto ele a segurava e iniciava a viagem canal abaixo.

 

- Pouco barulho - sussurrou num frouxo tom de voz.

 

- Não te quero magoar. Vou levar-te para o norte, para um novo lar, para o povo que te amará.

 

Ela contorcia-se, com sons abafados a saírem-lhe da garganta. Ele conseguia sentir o terror na sua luta desesperada. Atirou-se de costas, torcendo-se, tentando libertar-se.

 

- Aqui, calma. Não te consegues safar de Espírito Sábio. Foste-me prometida. Transformar-te-ás numa grande Mulher de Espírito... uma Libertadora de Almas... no seio do clã do Homem Branco. Sei-o. Um homem de fogo veio do céu e disse-mo.

 

Ela descontraiu-se ligeiramente nos seus braços, arquejando o seu medo contra as palmas da mão dele.

 

Espirito Sábio deu um salto quando um lobo uivou profeticamente à noite.

 

Que Inverno terrível.

 

Cinza Branca inclinou-se para a frente com o rosto contorcido e os músculos das costas retesados. Espreitou através das chamas para a pilha de peles que cobria o corpo de Lua Brilhante. A corrente de ar que se esgueirava pela orla da cabana criava formas no espesso leito de brilhantes carvões vermelhos e lançava uma luz cor de rubi sobre o interior da tenda. Podia ver o rosto de Lua Brilhante; a mãe dormia, finalmente.

 

Minha mãe? Curioso. Dificilmente me consigo lembrar da minha vida antes de Espírito Sábio me ter roubado do acampamento das Três Confluências. Agorapertenço aqui, aopovo da tribo do Homem Branco. Coruja Feliz poderá ter-me parido... mas Lua Brilhante amou-me mais. Cinza Branca esfregou uma mão nervosa no rosto e olhou para a velha mulher que agora dormia tão irregularmente, E tudo o que posso fazer é estar aqui sentada a vê-la morrer.

 

- Obrigado por tudo, Lua Brilhante - sussurrou suavemente com amargura. Ainda se Espírito Sábio não tivesse saído com os outros homens numa tentativa desesperada para apanharem caça. Fechou os olhos, dominada por uma dor física como um ranger de dentes no peito. Lua Brilhante estaria morta antes de ele voltar. Cinza Branca vivia com a tribo do Homem Branco há oito Invernos. Os primeiros seis destes anos foram maravilhosos. Enquanto crescia foi aprendendo os costumes e a língua do Povo do Sol. A tribo do Homem Branco deslocara-se para sul do rio do Percevejo em direcção ao rio do Castor Gordo para evitar as incursões no norte.

 

Sorriu ao lembrar-se dos dias despreocupados em que o Sol dourado brilhava no Verão e das cabanas confortáveis e quentes no Inverno. E, através de todos eles, o rosto de Lua Brilhante irradiara amor por ela. Brincara com Pés de Vento e com Homem Valente e Com outras crianças. Tinham corrido, contado graças e caçado ratos e coelhos.

 

Cinza Branca sacudiu a cabeça com um sorriso agridoce nos lábios. Há três anos, as coisas tinham começado a mudar. Tinham circulado rumores de que outras tribos estavam a começar a deslocar-se para sul à procura de novos territórios. Os guerreiros da tribo do Homem Branco tinham-se pavoneado entre as tendas, dando murros no peito, rosnando ameaças a respeito do que fariam se as outras tribos se aproximassem.

 

Depois a tribo da Ponta Negra atacou o acampamento no rio do Castor Gordo e apanhou toda a gente de surpresa. A tribo do Homem Branco fugiu numa confusão terrível e desintegrou-se, dividindo-se em três facções. Sucessivas derrotas dizimaram o que restava das suas fileiras. Mas o povo nunca estivera tão desesperado como agora. A guerra surgira de novo, trazendo morte e privações. A fome aproximava-se silenciosamente do acampamento, reflectida nos rostos esquálidos das crianças e dos mais idosos. o frio parecia aumentar, rasgando-lhes os corpos com as suas garras de gelo. A esperança fora-se com a sombra do Verão.

 

Esperança? Que esperança posso eu ter? Que fiz eu para merecer isto? Que esperança haverá para Cinza Branca? Fechou os olhos e abanou a cabeça tentando fugir às imagens nos sonhos. Obrigou-se a reviver os dias em que ela e Pés de Vento e Homem Valente riam e contavam uns aos outros o que esperavam do futuro. o sol era então mais radioso. As prateleiras da carne vergavam com o peso das ricas postas vermelhas. A tribo do Homem Branco estava inteira, poderosa. Rostos sorridentes espreitavam-na do passado - rostos de gente morta ou desaparecida com a ruptura da tribo. Rostos agora tão distantes como os do seu nativo Povo da Terra.

 

Lua Brilhante fez um barulho anelante que secou o espírito de Cinza Branca. Espírito Sábio, talvez seja melhor não saberes. Inclinou-se para a frente, apoiando o queixo num joelho, fixando o olhar no sítio onde a cama de Espírito Sábio devia ter estado. Várias bolsas de couro cru - sacos colapsáveis de pele por curtir tinham sido amontoados no chão contra o rodapé da tenda para funcionarem como isolamento suplementar contra o frio cortante. Os cães dormiam no exterior mas as mochilas permaneciam no interior, afastadas dos dentes ansiosos dos roedores matreiros e dos cães famintos. As varas descascadas, onde apoiavam as peles cuidadosamente cosidas à mão da cobertura da tenda, brilhavam à luz carmesim. Através da abertura para a saída do fumo, ela conseguia ver as estrelas oscilando no ar quente que atravessava o buraco manchado de fuligem.

 

Estava cansada, terrivelmente cansada. Doía-lhe a alma. Isto estava mesmo a acontecer-lhe? Relanceou o olhar pela pilha de peles onde Lua Brilhante jazia. Há quanto tempo fora? Uma eternidade?

 

Não, apenas dois longos dias desde que Espírito Sábio partira com os outros homens noutra tentativa de apanharem alguma caça qualquer coisa que aumentasse as minguadas reservas de alimentos. Eles não deviam ter-se estabelecido aqui no meio da bacía. Espírito Sábio dissera a Lebre Sibilante que a fome e o Povo do Lobo se escondiam aqui.

 

Mas quem permanecia são de espírito entre os restos acossados da tribo do Homem Branco? Eles não eram mais do que um pequeno bando do Povo do Sol, atormentado empurrado constantemente cada vez mais para o sul pelos Pedra Partida, Flauta Surda e Ponta I.

 

Os bandos do Norte tinham crescido, aumentado de tamanho até esgotarem os terrenos de caça e recolherem todas as bagas das matas.

 

As tribos não eram a unica ameaça. o Povo do Lobo, que vivia a oeste nas montanhas do Prado de Erva, odiava o Povo do Sol. Apenas há uma semana, tinham assolado violentamente um acampamento do Povo do Sol, arrasando a aldeia como uma manada de búfalos   furiosos, incendiando tendas e assassinando tudo à sua passagem. Tinham assassinado as mulheres e as criancinhas e esventrado as mulheres grávidas para lhes arrancar os filhos. O medo perseguia as tribos do Povo do Sol como um demónio maligno. Para ocidente, os Caçadores de Carneiros que caçavam nas montanhas da Rocha Vermelha tinham avisado a tribo do Homem Branco a respeito do que aconteceria se alguém loucamente forçara entrada nos desfiladeiros da sua área. Num mundo tornado

hostil, a única esperança de sobrevivência estava no sul, para lá das montanhas Atravessadas... talvez algures para lá da terra do Povo da Terra enquanto os homens caçavam, as mulheres palmilhavam extensos e sinuosos caminhos para inspeccionarem as armadilhas e procurarem concentrações de coelhos que pudessem ser enxotadas para uma armadilha. o frio permanecia, incómodo e sem fim.

- E eu tenho de enfrentar sozinha a morte de Lua Brilhante.

 

No dia seguinte à partida de Espírito Sábio, o frio acordara-a, devorando-a através das mantas, libertando-a de outro dos Sonhos estranhos. Pestanejara, perguntando-se por que razão Lua Brilhante - que tinha tanto orgulho e deleite em oferecer chá aos madrugadores - teria deixado apagar o fogo. Pestanejara na luz Crepuscular e sentara-se.

 

- Lua Brilhante? - chamara suavemente, e não obtivera resposta. Estendeu a mão para o fardo silencioso e levantou as peles. Lua Brilhante jazia deitada de lado, com os olhos vidrados por um pavor terrível. o seu cabelo grisalho, espalhado desordenadamente sobre as peles, contrastava com as tonalidades do vermelho da pele de raposa que tinha debaixo da cabeça.

 

- Lua Brilhante?

 

Um crocitar desesperado soltou-se da garganta da sua mãe adoptiva.

 

Cinza Branca entrara em pânico e vestira atabalhoadamente as roupas endurecidas pelo frio antes de se precipitar para a luz malva do exterior e correr desvairada à procura da tenda da velha Esquilo Voador.

 

A reputação da velha como autêntico chefe do bando crescera com o rodar dos anos. o seu marido, Lebre Sibilante, poderá proferir as decisões, mas a maior parte do povo suspeitava de que Esquilo Voador estava por detrás de cada uma delas. Não que o povo contestasse a chefia de Lebre Sibilante; eles respeitavam o seu conselho - e, obviamente, o de Esquilo Voador - e geralmente faziam como ele recomendava.

 

Esquilo Voador puxara um manto para os ombros magros e apressara-se através do acampamento coberto de neve. o vento açoitava as tranças prateadas da velha; a expressão da sua face enrugada tornara-se carregada ao caminhar através da neve granulosa. Mergulhara no interior da tenda e curvara-se para destapar Lua Brilhante.

 

- Lua Brilhante?

 

Apenas os olhos assustados se moveram, as lágrimas a escorrerem pelos cantos.

 

- Consegues ouvir-me?- insistira Esquilo Voador.

 

Lua Brilhante resmungou qualquer coisa entre dentes, sem mover os lábios, os olhos dardejando de cá para lá.

 

- Descansa, velha amiga. Vamos fazer uma fogueira e trazer-te alguma coisa para comer. - E voltara-se, fazendo sinal a Cinza Branca para que a seguisse.

 

Lá fora, onde não pudesse ser ouvida, Esquilo Voador encarou Cinza Branca com a resignação nos seus olhos cansados. Com a mão calosa, acariciou o rosto comprido reorganizando o padrão das rugas.

 

- Já vi isto antes. É a alma a desintegrar-se.

 

Cinza Branca fez uma curta inspiração, tomando uma atitude rígida. - A alma dela está a separar-se do corpo? Como o que aconteceu com o velho Sem Dentes?

 

Esquilo Voador assentiu com a cabeça.

 

- Não sei porquê. Apenas acontece entre a tribo do Homem Branco... mais do que entre os outros povos. Algumas vezes, é apenas um lado do corpo, e talvez consiga melhoras com o tempo. Mas com Lua Brilhante... Escuta, rapariga, há pouco mais de seis dezenas de Verões que ando nesta terra. Quando é assim tão mau, habitualmente são só uns dias até a alma sair completamente.

 

Cinza Branca engoliu em seco.

 

- Precisamos de um Libertador de Almas para cantar para ela... para a curar. Era melhor mandarmos um estafeta à procura de Falcão Velho. Talvez se ele regressasse da caça pudesse cantar a alma dela de volta...

 

- Por que estás a olhar para mim dessa maneira...?

 

A ternura na expressão de Esquilo Voador aprofundou-se.

 

- Porque, criança, eu sei que a amas. Eu sei a bênção que tem sido para Lua Brilhanteter-te nestes últimos oito anos. Mas não há nada que eu possa fazer.

 

Cinza Branca agitou os punhos com frenesi.

- Mas se Falcão Velho...

 

- Chiu! Qual dos rapazes enviarias? Tambor Jovem? Mal chega aos catorze Verões. Sabe como se manter vivo, mas, com todos os problemas que temos tido, pensas que os homens abandonam uma pista? Hum? E tu sabes como é no princípio da Primavera. Quente durante a manhã e um louco vento de neve durante a tarde. E se os homens encontram uma manada de búfalos? Quererias que Falcão Velho os deixasse e viesse a correr? Arriscarias o Poder da caçada?

 

- Mas ela está a morrer!

 

- Sim, rapariga. É verdade. E, se não acenderes essa fogueira na tenda, ela vai gelar antes de morrer. Vamos, eu tenho algumas brasas que podes trazer de volta. o fogo parecia morto como uma pedra. Toma tu conta dela e deixa o resto connosco. Todos nós amamos Lua Brilhante. Todos nós ajudaremos.

 

E assim fizeram. Alguns traziam um estufado espesso, o último das suas rações, cada vez mais aguado. Outros traziam madeira para a fogueira ou chá quente. Arganaz do Prado viera e sentara-se por uma hora e falara acerca do passado, gozando uma última vez uma troca de recordações antes que outro elo com os longos tempos idos se separasse para sempre. Enquanto isto, Lua Brilhante jazia ali imóvel, desamparada e a emurchecer.

 

Cinza Branca fazia o que podia, limpando a cama de Lua Brilhante, lavando a sua mãe adoptiva, segurando-lhe na mão o resto do tempo. E, finalmente, a velha mulher adormecia.

 

A lassidão pesou nas pálpebras de Cinza Branca; uma dor apunhalou-lhe a parte mais baixa das costas. Puxou outro pedaço de artemísia da pilha e lançou-o nas brasas vermelhas. Chamas de um amarelo-brilhante flamejaram antes de se transformarem em carvões ardentes.

 

Como seria capaz de enfrentar Espírito Sábio quando ele regressasse? Como o poderia olhar nos olhos e dizer-lhe que a esposa que ele amava mais do que à vida jazia em agonia na tenda? Como podia ela aguentar a dor dele? Espírito Sábio vivera para Lua Brilhante, partilhando com ela um amor que Cinza Branca nunca vira antes. Por Lua Brilhante, ele viajara para sul para roubar uma criança.

 

Ela nunca conhecera um homem tão bom como Espírito Sábio. Ele tornara-se o seu escudo contra o mundo. Quando os sonhos lhe apareceram, ele sorriu, cúmplice, e manteve-os em segredo em relação aos outros. E, quando ela o interrogou a respeito do Poder, ele pôs aquele olhar travesso nos olhos e um sorriso curiosamente melancólico encrespou-lhe os lábios. Mas nunca lhe falou a respeito daquilo, dizendo simplesmente:

 

- O Poder faz o que quer - E dera-lhe pancadinhas no ombro, o calor do amor nos olhos dele.

 

Olhou para Lua Brilhante. A velha mulher fora uma mãe maravilhosa - muito melhor do que a sua mãe verdadeira entre o Povo da Terra. Quando Lua Brilhante morresse, abrir-se-ia um buraco na alma de Cinza Branca tal como uma pedra rompe através do gelo fino de um charco. Um buraco que ela nunca mais taparia.

 

Tudo mudaria. Como seria a vida dela e de Espírito Sábio? E se a alma dele adoecesse? Isso acontecia algumas vezes; a alma ia definhando com o desgosto, perdida na dor, até se afastar pouco a pouco e deixar o corpo para trás como uma casca vazia.

 

Cinza Branca levantou a mão de dedos finos para massajar o rosto hirto. Os olhos ardiam-lhe; a fadiga esmagava-a com todo o peso opressivo de uma pele de búfalo acabado de esfolar. Espírito Sábio dependeria dela. Precisaria dela como nunca - e ela nem mesmo teria tempo para se afligir. Os seus ombros arcariam com o peso da tragédia.

 

Pior, Homem Valente não perderia a oportunidade para pressionar Espírito Sábio a deixá-lo casar com ela. Homem Valente. Estivera apaixonada por ele uma vez. Que acontecera ao jovem fogoso com quem folgara e rira? Ele fora estouvado, temerário e belo. Desejou que se pudesse lembrar dele simplesmente como ele fora, ver a centelha nos seus irrequietos olhos negros e gozar o sorriso gaiato nos seus lábios risonhos. Sentira uma afinidade especial por Homem Valente, uma sensação de destino em comum. No seu coração, soubera que deviam casar. o seu amor por ele crescera com o passar dos anos, enriquecendo-se, amadurecendo - até ao dia em que os Ponta Negra emboscaram o acampamento no rio do Castor Gordo. o fogoso Homem Valente fora ferido no ataque, ou talvez

- como ele dizia - Homem Valente tivesse morrido realmente no ataque. Rato das Pedras vira-o ser atingido na cabeça, observara-lhe a queda e vira o sangue saltar-lhe do rasgão no escalpe. Várias luas depois, Sem Dentes e Lince encontraram-no vagueando sem destino através das colinas cobertas de salva. Estranhamente mudado, curiosamente cheio de Poder, Homem Valente afirmava ter escapado do Acampamento da Morte. Um novo brilho iluminava-lhe os olhos vidrados quando falava das vozes que agora lhe sussurravam dentro da cabeça.

 

A repugnância cresceu como fel na garganta dela. A sua memória recuou para o último Verão...

 

Com grande astúcia, Homem Valente emboscara-a. no trilho, levando-a a espernear e a gritar para os densos salgueiros ao longo do rio do Veado Cinzento. A despeito da sua resistência, ficara desamparada nos seus braços poderosos. Arrepiou-se só de pensar naqueles músculos, entumescendo como seixos debaixo dos seus pulsos que batiam.

 

Ele lançara-a por terra com uma luz triunfante nos olhos enquanto a prendia debaixo dele. Ela continuara a lutar, sabendo quão fúteis os seus esforços eram.

 

- Rejeitaste-me pela última vez. - Um sorriso nervoso tremera ao longo dos seus lábios. - Os espíritos disseram-me para fazer isto. Eles sussurram-me, tu sabes. É o Poder. Quero-te.

 

Ela olhou-o com ar irritado e feroz.

 

- Tu não podes fazer isto! Não, deixa-te disso!

 

Ele riu e correu a mão por debaixo do seu vestido de pele de veado para lhe apalpar as coxas e o entrepernas.

 

- Eu posso. Entre a tribo do Homem Branco, o homem pode roubar qualquer mulher... desde que saiba onde a tomar. Eu tenho parentes entre a tribo dos Pedra Partida. Tu e eu iremos para lá. Serás minha esposa e dar-me-ás filhos. Ninguém terá tanto Poder como nós.

 

- E se eu não quiser? Ele sorriu ironicamente.

 

- Podes fugir. Mas, quando o fizeres, irei atrás de ti e trar-te-ei de volta. Eu escutei os espíritos. Eles disseram-me que tu és minha. As vozes disseram-me onde estavas. Um dia estaremos cheios de Poder. Tu e eujuntos. Sonhei-o. Sim, vi que tu és o caminho para a luz dourada.

 

- Terás de me bater até à morte! Ele encolhera os ombros.

 

- Talvez. Mas penso que o Poder não te deixará morrer. Tu és demasiado importante.

 

Ela retesou-se quando ele lhe levantou a bainha do ligeiro vestido de pele e depois desatou a correia que lhe segurava a tanga franjada. Ela choramingou à vista do seu órgão distendido.

 

- Não faças isso. Homem Valente, não... não... - A sua resistência não o comoveu quando lhe forçou um joelho entre as coxas e lhe abriu as pernas.

 

Ela fixou-o nos olhos, vendo-os vidrados como se pertencessem a outro. Ela podia sentir o seu Poder - e isso gelou-lhe a alma. Quando o pênis dele a tocou, ela contraiu-se, sabendo o quanto aquilo a magoaria, incapaz de se conter.

 

- Estás pronta? - sussurrou ele. - Pronta para a unidade do nosso Poder?

 

Um grito encheu-lhe a garganta quando ele avançou para a abrir e penetrar.

 

- Muito bem! - disse uma voz familiar vinda dos salgueiros. É então a isto que o meu amigo chama ir caçar esta tarde? Tenso, Homem Valente olhou por cima do ombro. o alívio percorreu a alma de Cinza Branca como uma inundação primaveril. Um ruído estrangulado saiu da garganta de Homem Valente antes de gritar:

 

- Desaparece! Se prezas a minha amizade, Pés de Vento, vai-te embora agora!

 

Belo, com a graça suave de um puma caçador, Pés de Vento apartou os salgueiros para se plantar nas pernas fortes com um punho insolentemente apoiado na anca. A outra mão segurava firmemente os dardos de caça e o atlatl. A luz sarapintada cintilava-lhe no espesso cabelo negro e faiscava-lhe nos olhos duros. As linhas da sua boca - mais dada ao riso - tinham-se estreitado.

 

- Deixa-a levantar-se.

 

Cinza Branca libertou-se e arrastou-se, agachando-se ao lado com os olhos desconfiados nos dois jovens.

 

- Ele queria levar-me para a tribo dos Pedra Partida.

 

- Eu ouvi. - Pés de Vento mordeu o lábio, pensativo, antes de se dirigir a Homem Valente. - Isto é difícil, meu amigo. Todos nós sabemos que os homens raptam mulheres, mas fazê-lo não é digno de quem eu sempre pensei que tu eras. Depois de ouvir que baterias em Cinza Branca... bem, isso surpreende-me. Foste demasiado longe!

 

Homem Valente levantou-se apertando a correia que lhe cingia a tanga. Os músculos rolavam-lhe debaixo da pele lisa. Depois atirou-se a Pés de Vento de punhos fechados - apenas para esbarrar na ponta acerada de um dardo.

 

- Atreve-te. - Pés de Vento sorriu, pois a sua acção não tinha qualquer intenção mortal. - E, sim, atravessar-te-ei sem pensar duas vezes. Um destes dias ainda me vais agradecer por isto.

 

- Pensava que eras meu amigo.

 

- E sou. Mas, por vezes, um amigo tem de fazer mais do que sentar-se atrás como um corvo num cepo. Algo te aconteceu desde há um par de Verões. Tens estado a mudar, desperdiçando demasiado tempo com a tua cabeça. Estavas à beira de fazer uma loucura, e eu não podia considerar-me um amigo e deixar-te fazer isso.

 

Os seus olhares fixaram-se, quentes, irritados. Cinza Branca observava-os, paralisada pela intensidade do momento. Tal como duas forças opostas - luz e escuridão ou água e fogo -, eles enfrentavam-se. Pés de Vento, o homem que ela começara a amar pelos seus modos amáveis e calmos, determinado a matar Homem Valente, o assustador jovem guerreiro cujas façanhas salvaram a tribo do Homem Branco mais de uma vez. Guiado pelas vozes que agora lhe sussurravam no espírito, Homen Valente era terrível no combate e matreiro na caça.

 

Homem Valente cedeu, rompendo através dos salgueiros, batendo os pés na terra enquanto corria. Pés de Vento inspirou profundamente enquanto o seguia com o olhar.

 

Cinza Branca começou a sacudir-se. Encostou-se a um tronco de choupo para se amparar, esfregando os braços com as mãos nervosas.

 

- Não imaginas como me sinto feliz por te ver.

 

- Não imaginas como me sinto feliz por ele ter desaparecido! Ela então sorriu-lhe, ainda fraca dos joelhos.

 

- Por que estavas aqui?

 

Pés de Vento corou ligeiramente e baixou os olhos.

 

- Porque te amo... e não te queria ver magoada.

 

Ela fixou-o com os seus olhos pasmados de susto, levando uma mão à boca.

 

- Quê? - Ama-ne? Será verdade? Pode lá ser? Demasiadas vezes no passado recente se surpreendera observando-o, mantendo-se perto na esperança de que ele lhe sorrisse ou se risse com ela a propósito de trivialidades. Agora a sua alma exultava, a felicidade procurando suplantar o terror inspirado por Homem Valente.

 

Ele sorria acanhadamente e olhava para o alto, para as folhas que amareleciam por cima da sua cabeça.

 

- Ouviste-me. Amo-te. E não te posso ter. Tu és filha do irmão do meu pai. Seria incesto.

 

Ela pestanejou.

 

- Mas eu não sou uma Homem Branco! Ele ergueu um ombro.

 

- Eu sei. Mas, ainda assim, é incesto para a tribo do Homem Branco. Tu és exactamente como minha irmã. Um irmão e uma irmã não casam, não copulam.

 

- Mas eu não nasci Homem Branco!

 

- Estás a tentar convencer-me de algo de que me deva arrepender?

 

Ela sobressaltou-se e abanou a cabeça.

 

- Não. Eu estava... eu pensava, eu... - Ele então piscou-lhe o olho com um brilho malicioso nos olhos. Uma luz cálida, como um raio de sol, percorreu-a. o pulso acelerou-se-lhe.

 

- Vamos, vamos ter com Espírito Sábio antes que o meu louco amigo perca de novo todo o seu senso. - Depois, em surdina, acrescentou: - Ou eu.

 

- Não, agora não. Não depois do que Homem Valente acabou de tentar fazer. Eu não poderia... não quereria daquela maneira. Não com o medo e a repugnância tão frescos no meu espírito.

 

Ele voltou-se de olhos bem abertos, com a boca a abrir-se e a cor a perder-se.

 

- Cinza Branca, por favor, nunca me tentes. Pensa no que o povo diria. Pensa no que isso afectaria o Poder. Incesto... - Estremeceu.

- Nada é tão terrível como isso. Nada. Não poderia, por mais que te amasse. Destruir-nos-ia.

 

Depois afastou o olhar com a cabeça inclinada.

 

- Talvez isto seja uma graça terrível, alguma tentação do Poder que me faz amar o que não posso ter enquanto Homem Branco. Abanou a cabeça antes de se voltar para ela com as feições alteradas. - E introduzi um espinho definitivo entre mim e Homem Valente. Por que é que isto teve de acontecer? Que se passa com o Poder da tribo do Homem Branco? As duas pessoas que me foram deixadas para amar são-me negadas. As leis do Povo mantêm-te afastada de mim. E as vozes na cabeça de Homem Valente... seja qual for o tipo de Poder delas sejam... afastaram-no da minha vida.

 

Ela fixou as folhas que sussurravam na brisa, vendo fragmentos irregulares de azul através do mosaico amarelo, demasiado desfeita pelos acontecimentos do dia para se interessar por outros.

 

- Eu olhei-o nos olhos, Pés de Vento. Ela não está bem. Algo vai mal dentro dele, pude senti-lo. - Fez uma pausa. Ele nunca te perdoará.

 

- Eu sei. Mas, então, é melhor assim do que estares ainda no chão debaixo dele, não é verdade? Ele... não sei. Algo mudou depois da incursão da tribo da Ponta Negra, depois de aquele guerreiro o ter atingido na cabeça. Rato das Pedras disse a todos que o golpe matara Homem Valente. Ela disse que o vira cair imediatamente antes de ela fugir. Depois Homem Valente aparece e diz que regressava do Acampamento da Morte. Talvez seja verdade. Ele não é a mesma pessoa que nós amávamos. Lembras-te de como ele era antes disso? Feliz, brincalhão. - A voz tornou-se melancólica. - Ele e eu, nós costumávamos correr, lançar dados e atirar ao arco. Então sonhávamos juntos... sonhávamos a respeito do que faríamos, das caçadas que faríamos e das incursões que faríamos nas outras tribos e do nome que teríamos como guerreiros. A pessoa que ele era então nunca te teria arrastado ou tentado violar. Eu apalpei-lhe a cicatriz da cabeça. Ele diz que as dores de cabeça lhe vêm de lá... e as vozes do Poder de Espírito que lhe sussurram no espírito.

 

- E tu acreditas nisso?

 

Pés de Vento ergueu as mãos.

 

- Não sei. Um Homem Valente diferente entrou no acampamento naquele dia com Lince e Sem Dentes. Alguém... alguma coisa... diferente no corpo do meu amigo.

 

Ela poisou uma mão carinhosa no ombro dele, odiando o desejo que se formava dentro dela. Sim, ela amava-o. Como poderia ela viver com a tragédia de nunca poder satisfazer aquele amor? Forçou-se a ignorar a questão e disse:

 

- Seja lá o que lhe aconteceu, ele está possuído por alguma coisa.

 

- Arrepiou-se. - Nada de bom virá deste dia. Eu... eu sinto-o como um inverno da alma.

 

O fogo crepitou trazendo-a de volta à tenda e à noite infindável da prolongada agonia de Lua Brilhante. Agora Homem Valente procuraria mais influência. Há dois anos que se tornara mulher. Cada regresso da Lua encontrava-a quatro dias na tenda da menstruação. Ela evitava as hipóteses de se esgueirar para os bosques com os homens disponíveis. Tornara-se algo de especial no seio da tribo do Homem Branco, talvez por causa do seu denegado amor por Pés de Vento.

 

E depois apareceram os sonhos...

 

Lá mais para o sul, ergueu-se da noite um canto cadenciado, subíndo e descendo como vozes geminadas no tempo com o bater de um grande tambor. Um zip-zippiig soava de um osso com entalhes percutido por um pau de cerejeira silvestre. Um estrépito suave e ritmado acompanhava o conjunto como se alguém agitasse uma matraca de cascos de antílope ao ritmo da música.

 

A cantiga, transportada no frio da noite, provinha da chaminé da cabana de terra, arrastando-se através das fendas da porta pendente, onde faixas de luz amarela deslizavam para se derramarem no terreno congelado. A música ecoava no solo endurecido do acampamento e vagueava pela artemísía. As notas carrilhonadas acariciavam as ervas amarelecidas pelo Inverno, pairavam sobre as sombras geladas da neve arrastada pelas águas, que o degelo tornava muito frias.

 

O cântico erguia-se, trinando no frio do entardecer, viajando até aos pontos de cristal da luz das estrelas e do Mundo do Espírito numa prece pela vida.

 

Barriga Falsa estacou por um momento com a cabeça erguida para o cântico do seu povo, que pedia ajuda ao Primeiro Homem, à Mãe Terra e aos Espíritos da Terra para salvar a vida de Fogo Ardente. A despeito da natureza desesperada da cerimónia que se desenrolava na cabana da sua avó, a beleza da noite cativava-o. Abandonara o interior quente e fumegante para sair e satisfazer as necessidades fisiológicas. Agora, de regresso, hesitava, o vento frio mordendo-lhe as bochechas, fustigando-lhe as tranças negras para a frente e para trás como caudas gémeas de arganaz. A Primavera estava para chegar, mas viveria Fogo Ardente para a ver?

 

Barriga Falsa não queria voltar para a tenda de Garra de Cotovia e enfrentar o olhar desdenhoso da sua avó ou a dor do seu cunhado, Fogo Ardente, a definhar. A sua irmã, Erva Amarga, ainda devia estar sentada no seu lugar do costume, donde observava o seu definhado marido com olhos assombrados.

 

Sacudiu a cabeça e suspirou. Qual era a sensação de saber que a mulher o amava? o seu casamento com Linho Dourado, misericordiosamente breve, fora tudo menos ditoso - finalmente, ela deixara-o. Erva Amarga, como qualquer outro, amava Fogo Ardente. Como enfrentaria ela a morte do marido?

 

E ele?

 

Barriga Falsa respirou fundo. Como é que um homem lida com a morte do seu único amigo? Imagens do rosto de Fogo Ardente agitavam as cinzas cinzentas da sua memória. Os olhos cintilantes de Fogo Ardente e o seu sorriso tranquilizador penduravam-se nos seus pensamentos com toda a amargura unida à doçura numa tempestade de areia.

 

No alto das rochas, à retaguarda do acampamento, um lobo uivou na noite, voz que se uniu à dos cantores que rogavam pela vida de Fogo Ardente. Barriga Falsa mordeu o interior do lábio, procurando extrair algum resultado da dor. Um arrepio apanhou-o de surpresa com a mudança da brisa fria. A escuridão pressionava em seu redor, infiltrando-se na sua vida, sugando-lhe a alma.

 

Como para o tranquilizar, Confusão trotou através da neve triturada para enfiar o nariz na mão de Barriga Falsa. Ausente, Barriga Falsa coçou as orelhas peludas do seu hirsuto cão preto e branco. A vida nem sempre fora assim tão difícil. Em tempos, tivera a possibilidade de saudar o sol da manhã com algo mais do que receio. Chamara-se Água Mansa em rapaz, embora duvidasse de que alguém se lembrasse disso agora. Tinham começado a chamar-lhe Barriga Falsa quando o estômago lhe começara a causar problemas e o nome pegara com a persistência da seiva de pinheiro a ferver. Lançou um olhar para cima, em direcção às estrelas, perguntando-se se o Criador - que sabia tudo - se lembrava do seu verdadeiro nome ou se preocupava que a última réstia de calor humano e companheirismo da sua vida se estivesse a extinguir naquele momento.

 

Fogo Ardente recordava-se - mas Fogo Ardente jazia na tenda de Garra de Cotovia, morrendo enquanto o curandeiro, Mão Negra, cantava por ele.

 

Tivesse o Poder deixado Barriga Falsa em paz e ele teria sido uma espécie de homem médio, não muito alto, não muito musculoso e não muito belo. Mas os espíritos caprichosos intrometeram-se. Quando era rapaz, enfiara a mão num buraco onde escondera um brinquedo especial. A cascavel - em busca de alívio do ardente sol de Verão - descobrira o mesmo buraco e escondera-se também lá.

 

Barriga Falsa estivera entre a vida e a morte enquanto Pedras Cantantes - o reputado curandeiro de Espírito - cantava sem parar por cima dele. Ou os cânticos funcionaram ou a sua avó pagara o suficiente ou sacrificara o suficiente ao Mundo do Espírito para lhe arrebatar a sua alma. Obviamente, fosse ele a primeira filha e Garra de Cotovia teria pago bastante mais e talvez Barriga Falsa tivesse escapado inteiro à sua experiência. Mas o seu braço direito nunca mais fora o mesmo. Agora pendia-lhe sem serventia: uma coisa extravagante e torcida que ele mantinha protegida contra o peito.

 

Pouco depois daquilo, Pedras Cantantes deixara o Povo para ir sonhar no alto das montanhas Atravessadas. Se ao menos ele estivesse agora aqui! o maior de todos os curandeiros, ele talvez tivesse feito a diferença para Fogo Ardente. Mas o velho homem desaparecera nos lugares elevados para procurar algo a que chamava o único.

 

Barriga Falsa caminhou pelo trilho acima até onde as rochas que emergiam do solo pedregoso avultavam negras na noite. Ergueu um pé sobre o granito tosco e olhou para cima, para a forma negra das montanhas da Pedra Redonda, que se erguiam por detrás do acampamento. Noutra altura, fora ali trepar e, por causa de ter apenas uma mão em condições, escorregara e caíra e ferira-se na perna direita. Felizmente que Fogo Ardente estava perto e o transportara de volta para o acampamento. Fogo Ardente estivera sempre ali nos tempos de provação.

 

As palavras de encorajamento e conforto de Fogo Ardente insinuavam-se através das difíceis recordações de Barriga Falsa. Ninguém mais o entendia e o tratava como um ser humano com valor. E agora Fogo Ardente jazia na tenda... não, não penso isso.

 

Fogo Ardente escutava as incessantes perguntas de Barriga Falsa a respeito de como eram as coisas. Ele não se ria quando a atenção de Barriga Falsa vagueava e ele perdia o fio aos seus pensamentos. Em vez disso, Fogo Ardente sorria e ajudava a proteger o seu cunhado quando a cólera de Garra de Cotovia explodia face às preocupações de Barriga Falsa.

 

- Não consigo evitá-lo - sussurrou Barriga Falsa à noite. Tudo tinha um segredo. Tudo evocava uma pergunta. Por que voavam os pássaros? De onde vinha o vento? Como podia a neve, a chuva, a saraiva, o trovão e o relâmpago... vir tudo das nuvens? A maior parte da sua gente, a tribo da Pedra Redonda, considerava-o um louco por pensar a respeito de tais coisas.

 

Barriga Falsa clareou a garganta deliciando-se com as geladas agulhas de frio trazidas pelo vento que lhe picavam a pele. A cabana de terra estivera quente, húmida, saturada pelo cheiro dos corpos humanos suados. Apenas ajudava o pungente alívio das folhas de artemísia ensopadas em água e milefôlio esmagado que Mão Negra aspergia sobre as pedras do lar. A artemísia - o que dava a vida - limpava as vias respiratórias, produzindo a magia da renovação.

 

Confusão afastou-se em direcção à cabana de Erva Amarga uma sombra branca e preta na escuridão.

 

Barriga Falsa encheu os pulmões com o ar frio. Era tempo de regressar. Tempo de pôr toda a sua alma nos Cânticos Que Curam, para pedir que o seu único amigo pudesse permanecer vivo e de saúde.

 

Ergueu os olhos ao céu crivado de estrelas e entoou:

 

- Criador, se tens de tomar uma vida, toma a minha. Deixa o meu amigo vivo. Dá-lhe força e felicidade. Toma a minha vida em lugar da dele. o povo precisa dele.

 

Pestanejando face ao ansioso eco da sua voz, fixou os céus. Apenas obteve o gemido do vento como resposta. Barriga Falsa começou a descer o trilho.

 

O ruído de garras raspando nas pedras fez que ele se voltasse e olhasse fixamente a escuridão. o enorme animal erguia-se recortado contra o sombrio manto da noite. De onde estava, Barriga Falsa podia ver os olhos cor de âmbar brilhando com uma luz interior própria. Um vislumbre de premonição revolveu-lhe as tripas.

 

Barriga Falsa recuou, pé ante pé, cuidadosamente, olhos vidrados nos do lobo, Animal do Espírito, que fazes aqui? Vieste por uma alma? És a resposta à minha prece?

 

Encheu-se de coragem e repetiu em voz alta:

- Leva-me. Deixa Fogo Ardente viver.

 

o lobo baixou a grande cabeça e pôs as orelhas para trás enquanto os beiços arreganhados mostravam os dentes brilhantes. Um ruído abafado saiu da garganta do animal - um gemido surdo cruzado com a sombra de um grito.

 

o calcanhar de Barriga Falsa prendeu-se na salva. Vacilou por momentos, com os braços a fustigarem o ar, antes de cair de costas com um grito a sair-lhe dos lábios quando bateu desamparado no chão. A neve estalou quando se levantou e olhou.

 

O lobo desaparecera.

 

- Leva-me! - pediu ele erguendo o braço mirrado num gesto sem esperança. Apenas o vento uivando através da salva dura e o ruído abafado dos farrapos de neve cristalizada voando ao sabor do vento lhe responderam.

 

Rodou a cabeça antes de se firmar nas pernas e dirigiu-se para a cúpula de terra da cabana. Olhou para trás, para a redonda massa informe de granito, com a esperança abafada no peito. Dela não restava nem mesmo uma sombra. Pesarosamente, puxou a aba da porta para trás e mergulhou no calor húmido e na luz bruxuleante que inundava a cabana de Garra de Cotovia. o frio que lhe refrescara o corpo tolhera-lhe a alma.

 

As últimas notas ritmadas do Cântico Que Cura de Mão Negra morriam quando ele entrou. A cabana, talvez com três passos largos de diâmetro, consistia numa estrutura circular em abóbada abatida que fora cavada no terreno até à altura da cintura de um homem. Quatro robustos suportes do telhado em pinho flexível erguiam-se de cada lado da fogueira em direcção a uma estrutura quadrangular de cordas que rodeava o buraco por onde saía o fumo. As traves tinham sido lançadas das cordas para a orla da cova escavada. Trouxas e bolsas pendiam das traves presas por correias, e peles enroladas serviam de apoio às pessoas que se sentavam, ombro a ombro, em redor da periferia da cabana.

 

Ninguém parecia ter dado pela falta de Barriga Falsa. As atenções concentravam-se no curandeiro do espírito que se sentava na parte da cabana oposta à porta, no lugar de honra. Mão Negra talvez tivesse passado dos 40 Invernos, embora Barriga Falsa suspeitasse de que o homem fosse mais velho. Vestia um casaco de pele de alce pintado que lhe descia até meio das coxas e longas polainas franjadas. Adornavam-lhe o peito vários colares, algumas conchas brancas de brilho estranho trazidas pelos mercadores de tão longe como as águas do Ocidente para lá da terra do Povo do Antílope. Um peitoral de contas polidas de osso de águia cobria completamente o peito de Mão Negra.

 

A cabeleira negra do curandeiro não apresentava nenhum vestígio de cabelo branco, mas tinham-se formado linhas finas em redor da sua boca severa. Agora rezava com a cabeça inclinada para trás e os olhos fechados, enquanto fazia os gestos da bênção com mais artemísia húmida, oferecendo-a ao Leste, Oeste, Norte e Sul e depois ao céu e à terra antes de lançar as folhas molhadas no fogo. O vapor irrompeu numa nuvem sibilante e crepitante.

 

Fogo Ardente jaz de flanco com os joelhos encolhidos ao lado de Mão Negra. o coração de Barriga Falsa estremeceu com a aparência do seu cunhado; a carne das faces cavadas derretera-se até ele parecer pouco mais do que uma planta seca pelo Inverno. A velha centelha desaparecera-lhe dos olhos sem brilho. Fogo Ardente tossiu, um ruído de pulmão doente. Causava dor só de ouvi-lo. Definhava ao longo do dia, dificilmente capaz de respirar. Um som abafado saiu da garganta enquanto o peito se lhe oprimia. Como é que um homem tão belo e forte podia estar reduzido a isto?

 

Barriga Falsa pestanejou com a dor dentro de si. Ele amava Fogo Ardente - amava-o com todo o seu coração. Assistir à sua morte lenta... isso roía-o por dentro, ferindo-lhe a alma. Os seus olhos encontraram-se através do fogo. o sorriso fatigado de Fogo Ardente queimou-o ainda mais profundamente.

 

Ninguém mais sorriu a Barriga Falsa.

 

A direita de Mão Negra, a velha Garra de Cotovia olhava com uma expressão de dureza irascível enquanto piscava os olhos nervosamente. Sentava-se no meio de ricas peles, com a luz da fogueira a tremeluzir-lhe nas rugas profundas que a idade lhe gravara na face. Observava Mão Negra tal como um falcão que observasse um bando de jovens esquilos doidos no chão. Ela compunha sempre aquela expressão severa quando os seus iguais estavam por perto. A sua face lembrava a Barriga Falsa uma ameixa silvestre guardada durante um ano demasiado longo, mirrada e chupada. Ao longo dos anos, os seus dentes tinham caído até a queixada avançar, bicuda e irritante. Um nariz grosso pendia-lhe sobre os lábios castanhos e finos, e tinha tendência para pestanejar demasiado, como se alguma coisa lhe incomodasse os olhos.

 

Quando Garra de Cotovia morresse, o acampamento e os seus territórios passariam para a mãe de Barriga Falsa, Abeto Flexível

- a filha mais velha. Ela estava agora sentada ao lado de Garra de Cotovia, com as mãos no regaço e o rosto largo marcado e gasto pelo tempo. Podia ter sido uma cópia mais nova da mãe, excepto pelo nariz comprido e adunco que lhe dominava o rosto. Abeto Flexível daria uma cabana a cada uma das suas irmãs, Semente Vermelha e Mulher Bonita, segundo o costume. Mas, quando elas morressem, tudo iria para Erva Amarga, a irmã mais velha de Barriga Falsa. o povo fazia as coisas desta maneira. A herança circulava através das mulheres. Quando os homens se casavam, iam viver nas cabanas das suas novas esposas.

 

Barriga Falsa assim fizera quando Garra de Cotovia o casara. Se as coisas tivessem sido diferentes entre ele e Linho Dourado... Acabou-se. Esquece.

 

A tia de Barriga Falsa, Semente Vermelha, e o seu marido, Carriço Pequeno, sentavam-se ao longo da parede traseira, olhando nervosamente para Fogo Ardente. No lado oposto a Abeto Flexível, sentava-se Rabo de Gato, pai de Barriga Falsa. A idade começara a produzir os seus efeitos em Rabo de Gato, aumentando-lhe e aprofundando-lhe as rugas aos cantos dos olhos e da boca. Uma vez, quando era um homem jovem, Rabo de Gato conduzira um grupo de guerra contra o Povo do Lobo nas montanhas do Prado de Erva e capturara o sagrado Feixe do Poder que eles tinham fortemente guardado. Todas as tribos receavam aquele feixe. As histórias antigas diziam que fora o feixe do primeiro homem, que Dança no Fogo dera ao Povo da Terra precisamente depois de ele próprio ter dançado com o fogo para renovar o mundo.

 

Rabo de Gato afirmava que no momento em que tocara o feixe, naquele dia já tão distante, a sua alma irrompera em chamas e o feixe gritara-lhe que ele não estava-preparado para ser o guardião do feixe. o espírito do feixe transportara Rabo de Gato até às nuvens, num redemoinho luminoso, e ordenara-lhe que o devolvesse ao seu legítimo guardião. Uma hora mais tarde, o Povo do Lobo descia até à congregação, implorando a paz para reaver o seu feixe. Rabo de Gato devolvera-o voluntariamente e o Povo do Lobo abastecera a tribo da Rocha Redonda de carne e pinhões durante dez anos depois daquilo. Garra de Cotovia aproveitara-se da oportunidade de juntar Rabo de Gato à sua família, desta forma ganhando um grande prestígio para a sua filha.

 

Fogo Ardente recomeçara a tossir, rodando a cabeça enquanto deglutia os fluidos que lhe subiam à garganta.

 

Barriga Falsa estava ao lado de Erva Amarga. Esta olhou-o, e os olhos de Barriga Falsa reflectiram preocupação e amor pelo marido dela que morria. Tomou-lhe as mãos escaldantes nas suas mãos frias, apertando-lhas com força, encorajadoramente. Erva Amarga sempre o tinha estimado, talvez por causa da amizade de Fogo Ardente pelo seu irmão caprichoso.

 

- Ele está a morrer - sussurrou Erva Amarga com um olhar misterioso. - Que farei? Que farei, Barriga Falsa?

 

- Mão Negra é um grande curandeiro. Espera para veres. - Ele não podia ajudar, olhando para o sítio onde os filhos de Erva Amarga, Trufa e Lupina estavam sentados. Eles tentavam manter um rosto estóico enquanto lançavam olhares de um lado para o outro entre Fogo Ardente, a mãe e o curandeiro.

 

A garganta de Barriga Falsa apertou-se. Que faria ele se o seu melhor amigo morresse? Fechou os olhos com a dor que o avassalava.

 

Cansado e esmagado pela dor, Barriga Falsa abandonou a cabana fria de Erva Amarga para saudar os laivos carmesim da aurora que flamejavam por entre as nuvens altas. A respiração gelada rodopiava em redor do seu rosto antes de se desvanecer no ar frio. Aspirou pelo nariz o odor da terra gelada e da artemísia. As cabanas amontoavam-se desordenadamente em seu redor, com as abas das portas descidas e apertadas por causa do frio. Arabescos de fumo azul-esbatido elevavam-se das cabanas de Garra de Cotovia e de Abeto Flexível. Erva Amarga passara a noite com o marido na de Garra de Cotovia.

 

Confusão ergueu a cabeça e bocejou, agitando a cauda numa saudação feliz. Barriga Falsa inclinou-se para o animal, para lhe coçar as orelhas, agradecido pelos quentes olhos castanhos que fixavam respeitosamente os seus. Garra de Cotovia odiara Confusão desde o tempo em que, como cachorro, roubara um quarto de antílope da prateleira da carne e o arrastara alegremente pelo chão antes de o mastigar. Apenas os rogos de Barriga Falsa salvaram nesse dia o cão do vingativo machado de pedra de Garra de Cotovia.

 

Barriga Falsa examinou o monte de terra e paus que abrigava Fogo Ardente. Este seria outro longo dia de espera. Barriga Falsa passara a maior parte da manhã na estufa, purificando-se no vapor que limpa enquanto rezava pela vida de Fogo Ardente com todo o seu coração, pedindo aos Espíritos da Terra que salvassem o seu amigo ou que enviassem um grande curandeiro. Se ao menos Pedras Cantantes...

 

- Se ele estivesse mesmo vivo... - Barriga Falsa abanou a cabeça. Depois do desaparecimento de Pedras Cantantes, Mão Negra tornara-se o melhor curandeiro. Se alguém podia curar Fogo Ardente, era ele.

 

Mão Negra fizera um longo percurso - puro desde o rio do Bosque do Dardo - para cantar por Fogo Ardente. A sua presença demonstrava a estima que o povo sentia por Fogo Ardente, bem como o estatuto social que a família de Garra de Cotovia acumulara através dos anos. o coração de Barriga Falsa devia estar dilatado face ao prestígio que a tribo da Pedra Redonda ganhava com a presença de Mão Negra - mas não estava.

 

Se ao menos Pedras Cantantes não tivesse partido.

 

Barriga Falsa tentou afastar a sua melancolia e voltou em direcção ao trilho que conduzia até ao cimo da crista por detrás do acampamento. Confusão seguiu-o, farejando aqui e ali. Barriga Falsa parou na crista e olhou através do vale cujos suaves contornos a aurora iluminava. Para o sul, a montanha Verde erguia-se na sombra, coberta de grande quantidade de arvoredo, a neve em camadas espessas sobre os abetos densamente reunidos. As clareiras brilhavam onde as tempestades de Inverno tinham coberto os prados com um manto branco que seria substituído por luxuriantes prados verdes com o sol de Verão. No sopé da montanha havia terraços paralelos à cordilheira; a neve deslizara para o fundo nas encostas a sotavento. Acima dos terraços, uma manada de alces deslocava-se para cima, para junto das árvores mais baixas, os seus grandes corpos não avultando mais do que pequenas manchas na distância. Abaixo, campos planos de salva desciam em direcção ao rio da Água Fresca, que corria sempre de leste para oeste em direcção ao rio do Alce. Uma vez aqui, cortava através de desfiladeiros pedregosos das montanhas Negras de cumes fortemente elevados.

 

Voltou-se quando as montanhas da Pedra Redonda se inundavam de luz, inflamando um cor-de-rosa-avermelhado na aurora rosada, contrastando com o azul-profundo do cristalino céu matinal. Apenas os vagos traços da brisa enrugavam o vale lá em baixo, uma indicação do vento a vir mais tarde durante o dia. No sopé da crista, o acampamento estava protegido numa angra de rocha, abrigada dos ventos. Uma nascente nas traseiras corria todo o ano em quantidade suficiente para alimentar um campo de salgueiros, capim e faia preta. o junco e a junca cresciam por ali para aumentarem a dieta do povo durante o Verão. Abaixo do acampamento, onde a crista se juntava ao leito de cheia, as dunas de areia tinham-se estabilizado debaixo da artemísia e do quenopódio.

 

Ele amara sempre o vale. Magoara-o deixar o vale quando casara com Linho Dourado.

 

«Tio?» Trufa trepava pelo trilho acima. o rapaz já chegava ao peito de Barriga Falsa; nada mau para 13 Invernos. A avaliar pela largura dos ombros, Trufa deveria ser um homem excepcionalmente forte. Fogo Ardente já começara a ensinar ao filho a arte da caça. Trufa sabia deslocar-se através do bosque tão silenciosamente como a sombra do Falcão. Podia dizer-se que tipo de rapaz ele era apenas olhando para ele. Finalmente, um homem fora capaz de quebrar o que parecia ser a tradição da família de Garra de Cotovia. Evidentemente que fora Fogo Ardente que o fizera.

 

- Bom dia, sobrinho. - o rosto do rapaz parecia fechado, desfigurado... mas quem o não tinha?

 

Trufa paroujunto de Barriga Falsa e deu umas palmadas no seu casaco de pele de alce para aquecer as mãos. Exalou uma baforada nevoenta e permaneceu quieto por um momento, escutando o silêncio pesado da manhã.

 

- Estás bem?

 

O rapaz lançou-lhe um olhar rápido, a reserva nos seus olhos castanhos sensíveis.

 

- Não sei. Espero que sim.

 

- Vamos dar um passeio. Assim ficamos mais quentes. Se apanhares artemísia, eu levo-a.

 

Trufa encolheu os ombros, voltando-se para caminhar ao lado de Barriga Falsa.

 

Barriga Falsa perscrutou o céu, lendo os sinais do tempo para o dia: ventoso e fresco. Suavemente, perguntou:

 

- Viste o teu pai esta manhã?

 

- Está na mesma. Talvez um pouco pior.

 

Uma tonalidade estranha ensombrou a voz do rapaz. Barriga Falsa olhou de lado para ele.

 

- Que se passa?

 

Trufa deu um pontapé de despeito num buraco de coelho.

 

- Estou preocupado a respeito de Mão Negra. Não sei... é apenas uma sensação.

 

- Que espécie de sensação?

 

- Penso que o devíamos mandar embora.

 

Barriga Falsa apontou para uma artemísia examinou Trufa cuidadosamente. Arranca esse arbusto. Eu levo-o. Tens alguma razão para mandares embora Mão Negra?

 

O rapaz puxou pelo arbusto sem entusiasmo.

 

- Mão Negra falou ontem à noite com Garra de Cotovia, depois de toda a gente ter ido dormir. Disse que o meu pai morreria hoje. Barriga Falsa estremeceu. Evidentemente que Mão Negra sabia esse tipo de coisas. Isso vinha com a capacidade para usar o Poder, para ver o caminho da alma e como ela aderia ao corpo.

 

- Ele é curandeiro.

 

As costas do rapaz curvaram-se ao atirar com todo o seu peso contra a planta teimosa e ao torcê-la insistentemente. A raiz estalou audivelmente ao quebrar-se.

 

- Então devia curar!

 

- Por vezes, nem o melhor curandeiro o consegue.

 

- Talvez - respondeu Trufa mal-humorado. - Mas sabia que Fogo Verde, de uma ponta a outra das Três Confluências, acusou Mão Negra de enfeitiçar pessoas?

 

- Mão Negra disse isso?

 

- Sim, e também muitas outras coisas. Pensavam que eu estava a dormir. Sabes como as pessoas falam quando pensam que uma criança está a dormir. Mas, Barriga Falsa, se ele enfeitiçou pessoas, que o impede de garantir que o meu pai morra hoje... para provar o seu Poder?

 

Barriga Falsa apertou a cerdosa artemísia por debaixo do braço são.

 

- É só conversa, Trufa, mais nada.

 

- Mão Negra está preocupado com o facto de alguém o poder atacar durante a noite.

 

- Ele disse por que razão as pessoas pensaram que ele estava a enfeitiçar?

 

- Morreram demasiadas pessoas que ele tratou. Uma delas foi o marido de Fogo Verde. Penso que ele partira um dedo ou coisa parecida e Mão Negra consertou-lho. Quatro dias depois, ele morreu. Morreu, simplesmente. Depois foi a rapariga que desapareceu, Cinza Branca se chamava ela. Fogo Verde pensa que foi bruxaria.

 

- Fogo Verde sempre se preocupou demasiado com a bruxaria. Todas as vezes que um coelho salta de forma errada, ela pensa que é uma bruxa que é responsável.

 

Trufa semicerrou os olhos.

 

- O marido dela continua morto.

 

- E que disse Mão Negra?

 

- Que coisas como essas acontecem algumas vezes, que as pessoas morrem simplesmente. E Garra de Cotovia assentiu com a cabeça e recordou-lhe o tempo em que ele fizera uma cura a um guerreiro qualquer. Eles fizeram um suadouro no meio do Inverno

 

O guerreiro sentiu-se melhor e levantou-se e correu para a neve rebolou-se por ela... e morreu.

 

- Todos nós morremos numa altura qualquer.

 

- Não gosto das pessoas que dizem que o meu pai vai morrer hoje. Não gosto das pessoas que dizem que Mão Negra está a embruxar as pessoas.

 

A boca de Trufa tremia e Barriga Falsa expeliu uma curta baforada e semicerrou os olhos para o Sol, agora um enorme disco amarelo sobre as cristas dentadas das montanhas Negras.

 

- Não penso que ele ande a embruxar as pessoas - disse ele ao sobrinho.

 

- Penso que é apenas a maneira como ele actua que põe as pessoas nervosas. Sabes?, se gostares de um curandeiro, ele é um homem bom e cheio de Poder. Mão Negra, porém, bem, é de um tipo diferente. Nem toda a gente sabe falar com o Poder. Ele está no ar, e espíritos diferentes vivem nas nascentes e nos lugares altos e em certas rochas. Os espíritos escutam quando os mais velhos lhes oferecem presentes especiais para conseguirem que a erva cresça e que os animais apareçam. Mão Negra faz assim. Intercede pelos humanos como nós. Ele vive lá em baixo naquele abrigo de rocha isolado. É preciso praticar para falar às pessoas quando se esteve a falar com os espíritos.

 

Trufa olhou para o alto com a hostilidade nos olhos.

 

- Sabias que ele e Garra de Cotovia costumam copular? Barriga Falsa ergueu uma sobrancelha com um meio-sorriso a tentar formar-se nos lábios. Agora aquilo exigia alguma imaginação!

 

- Tens a certeza de que ouviste bem ontem à noite?

 

Trufa grunhiu, firmando-se ao torcer outra artemísia e ao puxá-la bruscamente. A raiz partiu-se satisfatoriamente.

 

- Ouvi muito bem ontem à noite. Talvez eles não tivessem falado se os crescidos estivessem a dormir por perto. As pessoas sempre subestimam um rapaz.

 

- Não eu.

 

- Eu sei. Mas tu és diferente. Tu és um... - Trufa parou embaraçadamente.

 

- Continua.

 

- Nada. Mas ouvi dizer que tinham morrido as últimas quatro pessoas para quem Mão Negra cantou. A família de Fogo Verde não é a única a falar. Mão Negra está preocupado.

 

- E que disse Garra de Cotovia?

 

- Que era tudo má-língua. Que mais ninguém tinha Poder como Mão Negra e que tudo acabaria bem. Que as coisas entravam nos eixos... com sorte. Umas vezes as coisas andavam bem, outras vezes andavam mal, mas isso sempre se viraria ao contrário.

 

- Normalmente é assim.

 

- Não se o meu pai está em vias de morrer como parte disso. Os olhos de Trufa cintilaram, cheios de ódio.

 

Barriga Falsa agarrou na artemísia que o rapaz continuava a puxar e ajudou-o. Por um curto momento, invejou a força do rapaz, tentando lembrar-se de como as coisas seriam se tivesse duas mãos saudáveis para manipular o mundo.

 

- Sabes, há uma grande verdade a respeito da vida - disse.

 

- Qual é?

 

- Que se tem de viver antes de morrer.

 

- Que é que isso quer dizer?

 

- Que ou Fogo Ardente, que nos deu algo de maravilhoso a todos nós, recupera a saúde ou o seu espírito se junta à terra. Ele deu-te a vida e ensinou-te muitas coisas que saberás até morrer. Como caçar, como dissimular as tuas pegadas e como montar uma emboscada. Ele ensinou-te as velhas histórias de Dança no Fogo e do Poder de Pedra Branca Que Cintila, que sonhou uma nova vida para o povo. Ele falou-te a respeito do Criador que fez o Primeiro Mundo e de como o primeiro homem conduziu o povo através do buraco do Primeiro Mundo para este. Toda a vida é uma dádiva, Trufa, independentemente da sua duração.

 

O rapaz grunhiu, olhando para Barriga Falsa pelo canto do olho. Barriga Falsa não podia culpar Trufa por este não duvidar das suas palavras - pois elas soavam a oco mesmo aos seus próprios ouvidos. Que seria perder um pai - e logo como aquele? Mas ele compreendeu. Podia sentir a frustração e a raiva e o medo que dominavam Trufa. Aquilo queimava quase como um calor físico.

 

-Estou preocupado como rapaz. Se Fogo Ardente morre, Trufa nunca mais será o mesmo. A injustiça disto devorá-lo-á, fermentará na sua barriga como um bolor gotejante.

 

Barriga Falsa tentou ainda agarrar outro arbusto nodoso que o rapaz lhe entregava.

 

- Trufa, já chega. Temos de apanhar mais tarde. Felizmente, a artemísia cresce por toda a parte. Não apenas essa, mas em todos os sítios de onde arrancámos artemísia crescerá quenopódio no próximo Verão.

 

- Eu sei.

 

Quando Barriga Falsa se voltou, tropeçou em Confusão e abriu mão da fragrante artemísia. A maior parte da carga caiu no chão, saltando e rebolando em redor. Suspirou quando se conseguiu pôr de pé e reparou na irritação nos olhos de Trufa.

 

- Aqui, tio, deixa-me ajudar. Não podes levar cargas. Tu só és bom a falar.

 

Barriga Falsa estacou face àquelas palavras azedas; a dor na sua alma lembrava-lhe a ferroada urticante de um espinho de cacto. Trufa ergueu os olhos, subitamente envergonhado.

 

- Desculpa, tio.

 

- Não, está bem. Todos nós temos os nervos em franja. Quando a morte espreita por sobre o ombro da gente, ninguém consegue pensar correctamente. - E, silenciosamente, amaldiçoou o braço aleijado.

 

Cinza Branca oscilava para diante e para trás entre os mundos. Precisamente quando passava pelo sono, Lua Brilhante gemeu a dormir. Cinza Branca despertou. Quando começava a deslizar, havia sempre alguma coisa que a trazia de volta à vigília interminável. A cabana começava a sufocá-la - uma caixa para a sua alma, opressiva, pesada, como uma cortina entre ela e o mundo. o nó de fome no seu estômago apertava e torcia.

 

- Lua Brilhante? Faria qualquer coisa para te ajudar. Qualquer coisa... - Quantas vezes ao longo dos anos Lua Brilhante lhe sorrira com o amor e a felicidade a transbordarem-lhe dos olhos? Recordas-te dos bons tempos? Lembras-te, Lua Brilhante? Consigo ver o teu sorriso, ouvir a tua voz. Vivem no meu espírito. Lembras-te de quando me cortei no braço? Fizeste uma cataplasma de raiz de holly-grapel e ataste-a ao meu braço para combater a infecção. Lua Brilhante, foste tu que me ensinaste os cânticos da tribo do Homem Branco. Ensinaste-me como o Pássaro de Fogo mergulhou quando o mundo era todo água e trouxe lama à superfície para o Urso se sentar. Sim, vês a centelha nos teus olhos quando me contavas as histórias? Vês o teu sorriso alargar-se quando batias palmas e rias?

 

A dor crescia dentro dela enquanto fixava o farrapo em que a mãe se transformara, e aproximou-se para aconchegar as peles onde elas estavam frouxas. Quantas vezes aconchegara Lua Brilhante as peles quentes em redor de Cinza Branca nas noites em que o frio intenso caía sobre a terra?

 

- Se ao menos eu te pudesse salvar. Daria qualquer coisa... até mesmo a minha alma... para te compensar das histórias que me contaste, pelos prazeres especiais de que te privaste. Como podes morrer quando nunca tive uma oportunidade para te demonstrar o quanto te amo?

 

Lua Brilhante jazia silenciosa, de boca aberta, expondo os intervalos entre os gastos dentes castanhos.

 

Cinza Branca esfregou-lhe o rosto e massajou-lhe os olhos ardentes. Se ao menos ela conseguisse dormir... por pouco que fosse. De olhos fechados, imaginou que conseguia ver os carvões brilhantes da lareira. As negras e oblongas pedras do lar tremeluziam, ora focadas ora desfocadas, desenhando a forma de um rosto no fundo vermelho-alaranjado dos carvões. Onde as lajes de arenito delimitavam a cova, pareciam-se com cabelo negro, brilhando na luz berrante.

 

Por que é que Lua Brilhante tinha de morrer? A pergunta repetia-se-lhe na cabeça aturdida.

 

- É assim o Poder. - A voz ergueu-se fantasmagoricamente dos carvões.

 

Um arrepio de medo atingiu o pescoço de Cinza Branca.

 

- Quem és tu?

 

A voz continuou como se a não tivesse ouvido.

 

-Tu és a via... Mãe do Povo. Eles vêm do norte. Tu conhece-los. Os caminhos do Povo estão a mudar. Tu és o futuro. Tu permaneces entre os povos. Tu és o Poder e o Sonho... se assim o escolheres.

 

Ela fixou o olhar no rosto no fogo e viu um jovem belo sorrir-lhe. A luz dourada da sua expressão aqueceu-lhe a alma cansada.

 

- Poder?

 

- A via do sonho, uma passagem entre os mundos.

 

- Quem? Quem és tu?

 

- Tudo o que tu és. e não és. o Sonho, de Lobo que Dança Fogo e Canta as Estrelas, Deus e o Malvado. Extase e sofrimento. Distende, solta os limites da tua alma. Sente o único.

 

Outra voz, a de uma velha mulher, ergueu-se no vento, sussurrando através da salva para lá da cobertura da cabana. Um fantástico apelo assombrado, perdido em devaneio...

 

Sul, vamos sempre para o Sul... descobrir um fim à neve que sopra. Morte nos altiplanaltos. Outros vêm.

 

Eles seguem a nossa velha passagem.

 

Eles cavam abrigos no chão. Fazem-nos como buracos redondos.

 

Mais distante... para o Sul mais distante eles vão. Abrigos.

 

Rocha empilhada alto. Erguem as crianças ao Deus no céu.

 

Terra, olá, terra, da sua expansão. Erguem da Morte o mundo subterrâneo.

 

- De que é que ela está a falar?- Cinza Branca gritou, movida pelas palavras cadenciadas.

 

- Sonho de Lobo. A Espiral roda, a terra e o povo mudando sugeriu a voz delicada. - Vosso é o sangue do Primeiro Homem. Tu és a Mãe do Povo. Tu és a ponte entre a terra e o céu. Os opostos cruzam-se. Segue o caminho. Procura... procura...

 

Cinza Branca caiu numa neblina quente e cinzenta que a envolveu como uma pele de marta, macia, reconfortante e quente. Podia sentir uma alma, assustada, insegura, pairando perto dela. Tentou ver, penetrar na neblina, descobrindo apenas cerração.

 

- Lua Brilhante? És tu? Onde estás?

 

- Ela está precisamente para lá de único - disse-lhe a voz familiar. - Sente a liberdade. Tu e Lua Brilhante são um... e tu não és. Vocês as duas estão escondidas de vocês mesmas nos mantos da ilusão. Vives o sonho... até o corpo falhar como o dela fez. Procura, Cinza Branca. Procura o Poder. Segue os Sonhos. o «único trouxe-te aqui. o Povo muda... a Espiral roda. o caminho foi sempre para sul. Pedras Cantantes sabe. Prepara-te. Sonha nos lugares altos. Pedras Cantantes sabe o caminho para o Feixe de Espírito do Primeiro Homem. Quando o fogo arder, tu és tudo o que fica. Tu serás tu própria em breve. Tu podes tornar-te o fogo ou a escuridão. A Verdade ou a ilusão. Procura o Feixe... procura...

 

A neblina cinzenta ergueu-se em vagas em seu redor, pulsando com o bater do seu coração. Ela podia sentir a alma de Lua Brilhante que passava, deslocando-se em seu redor     como uma corrente de água em redor de uma rocha, desvanecendo-se na neblina cinzenta até que nada restou excepto uma recordação doce.

 

A dor coseu-lhe as costas, a cabeça caindo-lhe molemente para a frente. Com um esticão, recuperou, pestanejando acordada na luz indistinta da cabana. Diante dela, o fogo ardera até se transformar em carvões isolados. Os primeiros dedos do frio tinham-se insinuado por debaixo da porta de pele. Instintivamente, agarrou noutra cavaca de artemísia e lançou-a no fogo.

 

Ergueu os olhos para Lua Brilhante. Os olhos da mãe estavam abertos e um sorriso alindava-lhe os lábios. Cinza Branca gelou, o sonho a repetir-se no seu espírito.

 

- Lua Brilhante? - Acercou-se, sabendo ao fazê-lo que a alma da mulher se fora. Sentira esse voo em direcção a Pássaro de Fogo, partilhara o calor da sua passagem.

 

- Mãe... - Uma dor cresceu-lhe no peito. Agarrou na mão fria de Lua Brilhante. Num sussurro vazio, disse: - Vou sentir a tua falta. Vai em paz.

 

Fatigada, excessivamente fatigada, estendeu-se e desenrolou a cama. Espevitando o fogo uma última vez, permitiu-se mergulhar num sono agitado. Fragmentos do sonho maravilhoso brincavam através dela como a luz do Sol através dos ramos de abeto batidos pela brisa. A sensação do único permanecia como o sabor do mel na língua.

 

As palavras ecoavam-lhe na cabeça.

 

- Procura o Feixe... procura...

 

Barriga Falsa sentou-se com as costas apoiadas contra as peles alinhadas ao longo da parede de terra da casa-cova de Erva Amarga. Ele dera o seu contributo para a escavação da cova. Apesar de ter apenas uma mão capaz, podia usar o peito contra o coto almofadado de um pau afiado endurecido pelo fogo para retirar tiras de argila húmida. Agora podia imaginar o solo atrás das peles, ainda estriado com entalhes deixados pela escavação. Fogo Ardente, com o marido de Semente Vermelha, Carriço Pequeno, e o pai de Barriga Falsa, Rabo de Gato, tinham feito a parte mais pesada do trabalho, retirando o solo macio enquanto a sua mãe e as suas tias carregavam a terra para um dos lados em cestos. Depois de os apoios do telhado terem sido espetados no chão, foram passadas cordas, e os postes para as traves foram colocados a partir da superfície exterior do terreno para formarem as paredes inclinadas. Das margens do Água Fria fora cortada e atada madeira de salgueiro. Depois de a madeira de salgueiro ter sido entrelaçada nas traves, foi colocada erva sobre o entrançado e a terra escavada fora compactada sobre o conjunto. Parte da alma de Fogo Ardente ficara na construção da estrutura que abrigava Barriga Falsa do vento e da intempérie.

 

Fogo Ardente fora como as paredes da cabana, abrigando a existência de Barriga Falsa na tribo da Rocha Redonda - um amortecedor de protecção contra a censura da sua família.

 

Barriga Falsa meteu uma haste de salgueiro por debaixo do braço deformado e usou uma lasca de quartzo para lhe arrancar a casca em tiras compridas. Aperfeiçoara-se ao longo dos anos na utilização da mão esquerda. Ninguém conseguia endireitar um pedaço de salgueiro ou fazer um dardo melhor do que Barriga Falsa. Aprendera os segredos de submeter a madeira ao vapor de água, usando um endireitador talhado em úmero de alce para forçar as marrecas de um pedaço de pau. A ponta do pau, talhava-a na dura madeira de cerejeira, a qual não se fendia com o impacte. o trabalho preenchia a sua necessidade de produzir, de fazer alguma coisa para compensar a parte de alimentos que comia. Olhou para o produto acabado, sabendo que parte da sua alma permanecia na madeira trabalhada misturando-se com o espírito das plantas que reside na própria semente.

 

A aba foi puxada para trás e a avó mergulhou através dela. Garra de Cotovia varou-o com um olhar irritado. Os seus lábios desgastados pelo tempo estavam chupados para dentro em torno de gengivas desdentadas, o que lhe dava uma expressão azeda. Que lhe ficava bem.

 

Barriga Falsa retesou-se quando ela se endireitou para esticar o queixo carnudo. Garra de Cotovía anunciou numa voz gelada:

 

- Ele quer ver-te.

 

Barriga Falsa atirou com os seus materiais para o lado e pôs-se de pé.

 

- Está melhor?

 

A avó abanou a cabeça, examinando-o como se fosse decidir o que lhe havia de dizer.

 

- Ele quer ver-te... a sós.

 

Parecia que se tinha formado um nó apertado na garganta de Barriga Falsa.

 

- A sós? É isso que a está a pôr desconfiada?

 

Correu para o exterior, para o frio revigorante. Confusão desaparecera do seu lugar junto da porta - mas agora fizera o que sempre fazia quando via Garra de Cotovia aproximar-se. Os outros cães junto à porta latiram e abanaram o rabo. Desta vez, Barriga Falsa não parou para os afagar como de costume.

 

Perdido nos seus pensamentos, correu através da neve espezinhada para o abrigo de Garra de Cotovia. o Mundo de Espírito voltara uma orelha surda para a sua prece. Porquê? Que possível benefício podia advir de o deixar a ele vivo e tomar a vida de Fogo Ardente? Todos precisavam de FogoArdente. o Povo dependia dele. Em tempos de fome, o sorriso de Fogo Ardente trazia refrigério, como se a própria expressão do seu rosto espalhasse esperança, devolvesse o sorriso aos rostos magros, fazendo que os dias difíceis parecessem mais curtos.

 

«Comparado com aquilo, que valor tenho eu?» Vira o pensamento reflectido nos olhos irritados de Garra de Cotovia. As palavras de Trufa soavam-lhe na memória.

 

Barriga Falsa mergulhou através da aba na realidade sufocante da cabana de Garra de Cotovia. Erva Amarga lançou-lhe um sorriso nervoso lá de onde estava sentada segurando na mão de Fogo Ardente. Mão Negra saudou com a cabeça e saiu, deixando a aba a balançar atrás de si.

 

Barriga Falsa mudava de um pé para o outro, nervosamente. Então Fogo Ardente voltou a cabeça e sorriu. A despeito da cor cinzenta da sua pele e das carnes chupadas, aquele sorriso rasgou a névoa densa como um raio de luz.

 

Barriga Falsa devolveu o sorriso, esperando que Fogo Ardente pudesse sentir o amor e a esperança na sua alma.

 

- Garra de Cotovia disse que me querias ver?

 

O fraco aceno de Fogo Ardente traiu a sua debilidade.

 

Erva Amarga aconchegou a cabeça de Fogo Ardente numa pele enrolada antes de se levantar e de se dirigir para a porta. Em voz baixa, avisou:

 

- Não fiques com ele muito tempo. Não o fatigues. - Mergulhou pelo buraco da porta com os moccasins a arrastarem na argila endurecida.

 

Barriga Falsa contornou a fogueira e acomodou-se na espessa pilha de peles ao lado do amigo.

 

- Como estás?

 

Fogo Ardente tossiu, e o ruído arrepiou Barriga Falsa até aos ossos,

 

-Como uma fossa fétida. Cá dentro, tudo está apodrecido e esfacelado.

 

- Ficarás bom dentro em breve.

 

Fogo Ardente fechou os olhos, engolindo em seco.

 

- Sabes mais do que isso. - o peito dele erguia-se em inspirações curtas e arranhava como arenito na madeira. - Sinto-me a boiar. Tal como a minha alma, que está pronta para se ir embora. É como fumo, sabes? Pronto para se erguer e seguir o vento.

 

- Talvez seja o que a cura faz sentir.

 

o sorriso de Fogo Ardente assombrou-lhe os lábios exangues. Tossiu de novo.

 

- Lamento, velho amigo. Odeio a preocupação nos olhos do povo. Falei a Trufa. Tentei explicar.

 

- Ele é jovem. Ele...

 

- Mas preocupo-me mais contigo.

 

Barriga Falsa deu um risinho com forçada desenvoltura.

 

- Não. Estou bem. Guarda as tuas forças e usa-as para ligares o teu espírito ao corpo.

 

Fogo Ardente abanou a cabeça num gesto débil.

 

- Eu vi. Penso que é mais difícil para ti.

 

- Estou a fazer uma nova haste de dardo para ti. Uma que voará como um falcão... a direito para o flanco do búfalo. É para ti. Para a tua próxima caçada.

 

- Se houver caçadas entre os espíritos. - Fogo Ardente lambeu os lábios. o ruído gorgolejante dos pulmões alagados penetrou Barriga Falsa até ao coração. - Sentirei demasiado a tua falta. Tu trouxeste felicidade à minha vida.

 

A resposta gelou na garganta de Barriga Falsa.

 

- Preocupo-me contigo. - Fogo Ardente sorriu, absorto. Erva Amarga cuidará de si própria. Criará as crianças. Encontrará um novo marido para ficar com ela. É uma mulher forte. Mas tu... tive um sonho.

 

- Ficarei bem. Tu conheces-me. Cá me arranjo.

 

A mão de Fogo Ardente ergueu-se, com a palma para fora, no velho sinal dos caçadores para silêncio. - Tu não estás destinado a este lugar.

 

- A minha família é esta.

 

- Escuta. Não tenho muito tempo. Sei que tu... os conheces. Quando me for... parte.

 

- Não posso partir. Este é o meu...

 

Com a paixão que podia reunir, Fogo Ardente repetiu:

 

- Vai, meu amigo. Vai... para qualquer sítio. Para norte. Penso que era essa a direcção no sonho.

 

- Sonho? Que sonho é esse?

 

Fogo Ardente pestanejou, embora isso lhe exigisse um grande esforço.

 

- Um sonho lindo. Estás destinado à grandeza, Água Mansa. Salvarás Aquela Que Sonha.

 

- Chamaste-me pelo meu verdadeiro nome.

 

Fogo Ardente convulsionou-se num terrível acesso de tosse. Barriga Falsa levantou a cabeça do amigo, ajudando-o a respirar mais facilmente.

 

- Sim... - Fogo Ardente suspirou. - Parte. Ela precisa de ti, tu sabes. Tens de a encontrar. o mercador está a chegar. Vai. Descobre o caminho certo. Está na tua alma, na tua maravilhosa, rica e bela alma.

 

A garganta de Barriga Falsa apertou-se-lhe.

 

- Tu sempre...

 

- Eles vão destruir-te aqui. Vão espezinhar-te uma e outra vez. Como a uma flor que nasce no trilho. o pé é demasiado pesado aqui. Vai. Descobre um lugar onde possas desabrochar a tua verdadeira beleza. Ela precisa de ti, precisa de compaixão na sua alma, precisa do teu amor.

 

- Ela?

 

Fogo Ardente divagou como se não ouvisse.

 

- E o que eu sempre admirei em ti. o amor. Está nos teus olhos, brilhando ali como um fogo na noite escura. Eles não percebem... nunca perceberam. Tu és o melhor deles todos, Água Mansa. Fizeste a minha vida valer a pena. Deste tanto... tanto... -Adormeceu, olhos fechados, músculos do pescoço descontraídos. Outro acesso de tosse acordou-o de novo e um líquido manchado de vermelho escorreu-lhe pelo canto da boca.

 

Barriga Falsa limpou-o e estremeceu com a febre que queimava o corpo de Fogo Ardente.

 

- Eu sou o único que está em dívida para contigo. Recordas-te de quando me feri na perna e me trouxeste para dentro? Recordas-te de quando tu...? - Aproximou-se e aconchegou a cabeça de Fogo Ardente no regaço.

 

- Não! - gritou Fogo Ardente. - Eu vi no sonho. Tu és o importante. o Poder quer-te. Es o único que a podes salvar, que a podes trazer de volta. Eu... o Poder enviou-me aqui. Por ti. Vi isso agora. Eu tive de te conhecer, de tomar conta de ti até ao tempo certo. o Poder tem estranhos caminhos. Funciona curiosamente.

 

- É a doença que te faz dizer essas coisas. Verás... amanhã, quando estiveres melhor, rirás a propósito disto. Riremos ambos.

 

- Tu e eu - Fogo Ardente arrepiou-se violentamente -, nós nunca mentimos um ao outro. Nós éramos especiais, tu e eu. Eles nunca entenderam. Não mentirei agora. Sinto a minha alma a flutuar. Apenas tive de te avisar... de te dizer para ires procurar Aquela Que Sonha. Promete-me. Promete que partirás. Vai para o norte. Descobre Aquela Que Sonha. Promete!

 

Barriga Falsa limpou o suor que perlava atesta de Fogo Ardente, não sabendo que dizer.

 

- Promete! - Fogo Ardente pestanejou como se a sua visão se tivesse desfocado. o seu olhar febril fixou-se em Barriga Falsa. Promete!

 

Ao seu grito, Erva Amarga deslizou através da aba. Como um gato furioso, atravessou o espaço intermediário de olhos faiscando.

 

- Que fizeste? Deixa-o descansar!

 

Barriga Falsa olhava de um lado para o outro, confuso, sentindo-se apanhado entre eles.

 

A mão escaldante de Fogo Ardente enclavinhara-se na de Barríga Falsa com uma pressão dolorosa, a despeito da fraqueza dele.

- Promete-me. É o último presente que me podes dar.

 

- Eu... eu prometo.

 

- Prometes o quê? - perguntou Erva Amarga, caindo de joelhos.

 

-Abençoado sejas, Água Mansa. Descobrí-la-ás. Ela precisa de ti, precisa do teu amor.

 

- Prometes o quê? - repetiu Erva Amarga enquanto lançava um olhar indignado a Barriga Falsa.

 

- Entre... nós, mulher. Deixa-o em paz. Ele é... o caminho. o caminho para a Espiral. A tribo nunca entendeu. - Fogo Ardente tossiu de novo e virou a cabeça para cuspir sangue.

 

A Espiral? Que queria ele dizer? Barriga Falsa mordeu os lábios, um buraco a formar-se-lhe nas tripas.

 

- Descansa. Descansa, meu amigo.

 

- Fica, Água Mansa. Fica e ampara-me. Quero ver a tua alma. E a brilhar. Como o Sol. A brilhar... - Fechou os olhos, sentiu o corpo descontrair-se enquanto adormecia.

 

Erva Amarga afastou a trança de Fogo Ardente da mancha de sangue brilhante que ele tossira. Baixou a voz.

 

- Que prometeste? Quem é essa ela de que ele falava? Barriga Falsa hesitou e depois abanou a cabeça.

 

- É uma coisa entre nós. Uma coisa privada. - Encolheu os ombros. - Talvez apenas uma conversa febril.

 

Ela fitou-o com insolência, querendo arrancar-lhe a verdade, receosa de acordar o marido do seu sono agitado.

 

Barriga Falsa evitou os olhos dela. «Que queria dizer Fogo Ardente? Partir? Procurar uma tal Aquela Que Sonha? Qual Aquela Que Sonha? Onde?» Engoliu em seco com força, com o suor a escorrer-lhe pela cara congestionada. «Eu prometi. Mas não sei o que prometi fazer. Não me abandones, Fogo Ardente. Não percebi.

 

Garra de Cotovia entrou acompanhada de Mão Negra. o Curandeiro aproximou-se e curvou-se para apalpar a testa de Fogo Ardente.

 

- Ele está a ficar mais fraco.

 

Garra de Cotovia examinou Erva Amarga antes de olhar para Fogo Ardente e Barriga Falsa.

 

- Que aconteceu?

 

- Nada - murmurou Barriga Falsa, e voltou a sua atenção para memorização do rosto de Fogo Ardente. Examinou o nariz forte, forma como a boca de Fogo Ardente fora concebida para rir. Como um homem a trabalhar um osso, gravou as linhas e feições na sua alma para as fixar para sempre. Agarrou, com reverência, na cabeça de Fogo Ardente, recordando os tempos em que tinham rido, partilhando uma boa chalaça. Noites esquecidas em volta do fogo reviviam na sua memória. Tão nítidas como se tivessem acabado de acontecer, recordou-se das preocupações de Fogo Ardente quando corria os dedos experientes pela perna ferida de Barriga Falsa.

 

Não está partida, mas fazias melhor se me deixasses carregar contigo. E fê-lo.

 

Quando Barriga Falsa ergueu os olhos, a expressão de Erva Amarga traía-lhe a irritação. Garra de Cotovia estava a lê-la como a um rasto de búfalo na neve.

 

- Volta para o teu trabalho, Barriga Falsa. - Garra de Cotovia sentou-se no seu lugar. - Já agitaste demasiado as coisas. Vai acabar a tua haste de dardo.

 

- Ele pediu-me que ficasse. Para o amparar. - A cólera mordia-lhe as tripas. - Tu não podes pedir-me para sair. Não quando ele me pediu para ficar.

 

A dureza da cara dela falava-lhe mais eloquentemente do que as palavras.

 

- Eu amparo-o - disse Erva Amarga, chegando-se para a frente.

 

Barriga Falsa cerrou os olhos por um momento. Com relutância, afastou-se para o lado, descansando a cabeça de Fogo Ardente no regaço de Erva Amarga. Por que não o deixavam elas amparar o seu amigo? Fogo Ardente quisera-o. Por que razão Erva Amarga não dizia nada? Apoiá-lo ao menos desta vez?

 

Curvou-se com a intenção de limpar uma gota de suor que começara a escorrer na bochecha de Fogo Ardente.

 

- Vai. - A voz gutural de Garra de Cotovía fê-lo suspender o gesto. - Ele precisa de paz.

 

Retirar a mão pareceu-lhe a coisa mais difícil que alguma vez fizera. Voltou-se, um olhar irritado e feroz fixo no dela.

 

- Posso desafiá-la?

 

Uma cintilação iluminou os olhos da velha mulher, uma vontade para o desafiar, para o destruir e humilhar.

 

- Não vale a pena. Destruir-me-ía. Fogo Ardente está certo. Nada de bom vem disto. Não há nada a ganhar lutando enquanto o meu amigo morre...

 

Quando se pôs de pé, o corpo de Fogo Ardente convulsionou-se. Sem acordar, gritou:

 

- Não! o brilho está a desaparecer... deixem-me... flutuar. Barriga Falsa voltou-se: os maxilares cerrados e a mão sã fechada em punho. Garra de Cotovi a voltara-se para Fogo Ardente, não vendo o olhar de ódio que o neto lhe lançou.

 

- Está a começar a delirar. A sua alma está a desequilibrar-se no corpo - anunciou Mão Negra. - Precisamos de fumegar mais glicéria para purificar o ar.

 

Os olhos de Garra de Cotovia apertaram-se até ficarem reduzidos a uma frincha quando olhou para Barriga Falsa e sacudiu bruscamente a cabeça em direcção à porta.

 

Ele saiu para a luz do entardecer, experimentando um arrepio mais frio do que o trazido pelo vento. «Ela nem mesmo me deixou ampará-lo enquanto morria.» Uma lágrima solitária desceu-lhe pela face, mudando de trajecto consoante o vento.

 

A neve esmagava-se por debaixo dos mocassins de Inverno de Homem Valente, embrulhados em pele, enquanto abria caminho de regresso à parte de trás da crista. Aqui, no sotavento da crista íngreme, a deriva acumulara espessas camadas de neve, alternadamente congelando e derretendo na encosta traiçoeira.

 

«Em breve», sussurravam-lhe as vozes dentro da cabeça. «Carne em breve.»

 

Homem Valente resmungou consigo mesmo, estremecendo com as dores de cabeça que lhe apunhalavam o crânio e queimavam o cérebro. As dores de cabeça aumentavam quando o Poder vinha até ele. Algumas vezes, como agora, levavam-no até à loucura.

 

Sorveu um hausto frio e bateu ruidosamente com os pés num sítio plano na neve.

 

- Tomando fôlego? - perguntou Pés de Vento mais abaixo. Homem Valente assentiu com a cabeça, arquejando e pestanejando perante a súbita agonia que lhe trespassava o crânio. Contudo, empertigou a cabeça e estremeceu. Reparou que os olhos de Pés de Vento se fixavam nele e carregou o sobrolho. «Eu vi o olhar nos teus olhos, velho amigo. Observa tudo o que quiseres que nunca verás toda a extensão da dor. Nem mesmo conhecerás a plenitude do Poder.»

 

Ele odiava as feições correctas de Pés de Vento - odiava a maneira como as mulheres jovens o olhavam, a um tempo com amizade e com admiração. Pés de Vento mantinha-se alto e direito, com os ombros bem musculados a encherem-lhe o casaco de caça de pele de alce. Os olhos divertidos expunham a alma alegre de Pés de Vento e davam vida às suas faces bochechudas. A sua boca móvel era adequada às gargalhadas e aos sorrisos cálidos. Na testa, tinham-lhe tatuado linhas azuis paralelas - o símbolo da sua velocidade e resistência.

 

O coração de Homem Valente endureceu. Uma vez, a jovem também olhara para ele daquela maneira. Eles tinham especulado a respeito do tipo de marido que Homem Valente daria. Cinza Branca amara-o então, sonhara o futuro com ele. Mas isso fora antes de ele ter sido morto e ter fugido do Acampamento da Morte. Isso fora antes das dores de cabeça e das vozes. Desde então, tatuara cruzes negras nas faces - o sinal de Poder e força. Permanecera friamente belo por tudo aquilo: o maxilar forte, o nariz proeminente e direito e o sobrolho cheio e elevado sobre os olhos penetrantes.

 

Homem Valente forçou uma expressão de falsa calma e parou para esquadrinhar o terreno à retaguarda deles. Terreno ondulado pontilhado de salva espalhada abaixo da crista que trepavam. A artemísia parecia desigual, espessa e pela cintura de um homem nas linhas de água e delgada e enfezada, muitas vezes não indo além do artelho de um homem, no topo das cristas e onde o solo era pobre e pedregoso. Um homem podia avaliar a terra pela artemísia - dizer da riqueza do solo e da probabilidade de encontrar água. Quando a artemísia grande se misturava com o centeio selvagem gigante, o solo devia ser húmido.

 

Aqui, na parte sul desta bacia miserável, a artemísia crescia pequena e cheia de nós. Felizmente, as montanhas bordejando a leste, sul e oeste apanhavam as nuvens e alimentavam rios que corriam através de terra ressequida e pedregosa.

 

Lá mais para o fundo da encosta, o resto dos homens esperava com os dardos na mão. Homem Valente encheu os pulmões e começou a subir, levantando bem os pés sobre a neve e enterrando os calcanhares com força para quebrar a crosta. Atrás dele, Pés de Vento seguia-o com a neve a fustigar-lhe o vestuário.

 

Homem Valente parou a curta distância da crista e espreitou para a sua frente. Ainda um outro vale desolado se desdobrava à sua frente. Resmungando irritado, colocou uma mão em pala para proteger os olhos do vento e examinou a crista à distância, deixando o olhar seguir a pista de...

 

Riu por entre dentes para consigo próprio quando as vozes sussurraram: «Vês? Nós dissemos-te. Carne. Carne em breve.» Quatro pontos negros - búfalos - pastavam no topo ralo da crista para sudoeste.

 

Homem Valente subiu para a crista e levantou a mão para avisar Corre Com o Vento. Um a um, os caçadores da tribo do Homem Branco treparam, sacudindo a neve dosmocassins batendo com os pés no chão.

 

- Ali - apontou Homem Valente. - Quatro. Carne. o Poder disse-me. - A sua dor de cabeça diminuía de intensidade.

 

- Vamos fazer assim - disse Texugo. - Homem Valente, tu e Pés de Vento contornam esta crista. Apareçam pelo lado mais afastado, mas não deixem o vento traí-los. o Búfalo não vê bem, mas tem narinas sensíveis. Observem o vento e apareçam abaixo do cume da crista, Lebre Sibilante e o resto de nós atravessaremos o vale aqui para formar o círculo. Quando estivermos prontos, alguém correrá para que os búfalos o possam cheirar. Quando isso acontecer, acorremos e empurramo-los para a neve amontoada. Tu e Pés de Vento cortam qualquer retirada. Quando os búfalos atravessarem a crusta, ficarão atolados durante pouco tempo. Essa é a nossa oportunidade. Se aquele monte de neve for firme, podemos correr e alvejar todos os quatro antes de eles saberem o que aconteceu.

 

- Vamos. - Pés de Vento deu uma palmada amigável no ombro de Homem Valente. A familiaridade queimou-o como sumo de cacto num corte.

 

Sem vontade de deixar Pés de Vento ir na frente fosse para onde fosse, Homem Valente forçou os músculos ainda mais. Afastou-se da acumulação de neve, atravessando e investindo através da neve endurecida. Mesmo esse esforço lhe exauriu as forças.

 

«Comida. Precisas de comida», sussurravam-lhe as vozes no espírito. «Corpo fraco.»

 

Homem Valente abriu caminho na encosta coberta de neve abaixo da neve amontoada e serpenteou através da salva.

 

- Tu ainda estás desvairado comigo - observou Pés de Vento à retaguarda. - Tu ainda não esqueceste o facto de te ter impedido quando pretendias possuir Cinza Branca.

 

Homem Valente virou-se, batendo com um dedo no peito do amigo.

 

- Interferiste com o Poder, meu rapaz. Ela é minha. Ela e eu devemos estar juntos... para o futuro.

 

Pés de Vento examinou-o com curiosidade, a expressão afligida.

 

- Ainda pensas que estava errado ao deter-te? Ela ter-te-ia odiado, tu sabes.

 

Homem Valente abanou a cabeça, afastando-se, forçando as pernas cansadas a meterem a trote. Atirou por cima do ombro:

 

- Apenas adiaste o inevitável... e me irritaste... e ao Poder.

 

- Hum-hum.

 

- Tu não compreendes, Pés de Vento. Eu fui escolhido, apartado pelo Poder por uma razão. o Poder está à nossa volta como uma grande teia. Os fios correm por toda a parte, através das rochas e dos arbustos e também através das almas dos homens. Eu fui para além... ao sítio que os libertadores de almas temem e procuram. Eu escapei do Acampamento da Morte. Rastejei sobre os corpos. Foi então que os espíritos entraram na minha cabeça e começaram a sussurrar-me o caminho. Quando vi Cinza Branca, depois de Sem Dentes e Lince me terem encontrado, pude sentir o Poder dela. As vozes disseram-me que ela seria minha. Juntos, ela e eu faremos um novo futuro para o povo. Juntos, traremos Poder ao povo e por ele ninguém mais ficará faminto de novo.

 

- Velho amigo, tu podes conhecer o Poder, mas não conheces Cinza Branca.

 

- E tu julgas que a conheces? Conhece-la há mais tempo do que eu? Passaste mais tempo com ela? Partilhou a sua alma contigo? Que sabes tu?

 

- Que ela te teria matado por a teres violado. Oh, talvez tivesses de fugir para a tribo dos Pedra Partida e renunciar a tribo do Homem Branco. Talvez a pudesses guardar para ti, mas há uma força nela que eu penso que tu esqueceste. Talvez o golpe na tua cabeça atrapalhe a tua capacidade de pensar, mas recorda-te de que parte da alma dela ainda é Povo da Terra.

 

- Ela é uma de nós.

 

Pés de Vento bufou de indignação.

 

- Uma de nós. Talvez. E talvez ela te tenha esquecido por causa da tentativa de violação. Mas, se a tivesses arrastado como a um cativo de guerra para a tribo dos Pedra Partida e se tu a tivesses penetrado mesmo, ela ter-te-ia matado, Homem Valente.

 

- Louco! o Poder nunca teria deixado que isso acontecesse. Não, isso teria sido apenas um instante, mas no fim voltaria para mim... para o Poder.

 

- Acreditas nisso, não acreditas? - suspirou Pés de Vento. Não sei o que te aconteceu. Que aconteceu ao jovem valente que foste? Escuta, por que não deixas Falcão Velho cantar pela tua...?

 

- Louco! - Homem Valente fitou-o por cima do ombro. Nunca te perdoei pelo que fizeste naquele dia. Talvez nunca o faça. Por que te preocupas? Não a podes ter. Ou o teu pênis lateja com o incesto?

 

Corre Com o Vento carregou o olhar em sinal de desagrado.

 

- Nunca lhe tocarei. Não, dado que é minha prima.

 

- Então deixa-a seguir o seu destino.

 

A raiva crescente de Homem Valente estimulou-o a acelerar. Passou o topo da crista e procurou pelos búfalos. Continuavam a pastar, despreocupados, na crista.

 

Ele e Pés de Vento deixaram-se cair numa linha de água e aproximaram-se.

 

- Quanto tempo pensas que temos antes de eles darem pela armadilha? - perguntou ansiosamente Pés de Vento.

 

Homem Valente olhou para as nuvens, avaliando a localização do sol obscurecido.

 

- Não muito. É melhor corrermos, ou o Povo poderá morrer de fome.

 

Arquejando e resfolegando, Homem Valente subiu a última encosta. A massa da crista dissimulava a sua progressão da caça perseguida. As pernas tremiam-lhe e fraquejavam e a dor de cabeça recomeçara a bater-lhe nas têmporas. À retaguarda, os mocassins de Pés de Vento marcavam a cadência na neve. Mesmo que morresse, devia manter a dianteira, fazendo qualquer coisa para impedir de o bater no sítio da emboscada.

 

Cuidado - sussurrou Pés de Vento entre irregulares arquejos da respiração quando se aproximavam do topo.

 

Homem Valente sacudiu a cabeça num curto aceno e avançou gradualmente a coberto da neve amontoada. Aqui a neve parecia perfeita. Arrastou-se vagarosamente até à cornij a acerada e ergueu os olhos. Podia ver o topo de uma bossa hirsuta talvez à distância de lançamento de dois dardos. Perto, muito perto.

 

Pés de Vento apontou para a bacia. Homem Valente mal podia reconhecer Falcão Velho, a dançar, braços erguidos para o céu sombrio. Sorria-lhe tolamente. o velho homem não sabia nada do Poder.

 

Um grito soou na distância.

 

Prepara-te - sussurrou Homem Valente, assegurando-se de que tinha um dardo firmemente seguro no atlatl. Ergueu-se até poder descobrir os búfalos. Estes tinham-se agrupado e começado a deslocar-se para o alto da crista a um trote rasgado. Subitamente, estacaram e começaram a andar em círculo. Um berro formidável ecoou no ar e os búfalos viraram, debandando em direcção à neve amontoada.

 

- Agora! - bradou Homem Valente. Saltou, rompendo através da orla arborizada da neve acumulada e rastejou pela crusta dura da neve. Com o coração a desatinar, pôs-se de pé e rezou para que a crusta o aguentasse.

 

Os búfalos chafurdavam na neve profunda, saltando com as costas arqueadas e escoiceando enquanto lutavam por apoiar as patas. A respiração gelava em baforadas em torno dos focinhos besuntados de neve enquanto mugiam com o esforço e o medo.

 

As vozes guinchavam na cabeça de Homem Valente quando parou de súbito, puxou o braço atrás e projectou o peso do seu corpo atrás de um lançamento. o dardo fez um baque surdo quando penetrou no couro do flanco do bicho. o impacte projectou a haste principal para a retaguarda, quase até aos pés de Homem Valente, mergulhando a ponta profundamente até aos pulmões do búfalo e aos grandes vasos sanguíneos que lá se encontram.

 

Homem Valente berrou, deslizando para o lado quando acertou com o seu segundo dardo. Um animal de 1 ano, pouco mais que um vitelo, baliu de terror, a respiração gelada elevando-se no ar frio. Homem Valente riu quando fixou os olhos do bicho brancos de medo. Lançou-lhe o seu míssil quando o vitelo tentava virar-se. o dardo atingiu uma costela, separando a ponta e quebrando com um estalido seco a ponta de quartzo, exactamente pela atadura.

 

Homem Valente resmungou para consigo quando travou o seu terceiro dardo, saltou em frente e lançou. Desta vez, acertou perfeitamente e mergulhou a ponta assassina profundamente na cavidade do tórax do vitelo.

 

Virou-se com o último dardo pronto para ser lançado contra o búfalo remanescente. As costas largas de Pés de Vento tapavam-lhe o alvo.

 

Uma possível visão do futuro atingiu-o: o seu dardo penetrando o casaco de Pés de Vento, furando a pele das costas do homem, cortando através dos músculos ao partir as costelas e entrando no tecido branco e rosa dos pulmões de Pés de Vento. A pedra acerada devia trespassar o coração e derramar sangue vermelho-vivo na cavidade do peito antes de a ponta afiada como uma agulha se embeber no esterno do outro lado.

 

«Um acidente!», riam alto as vozes. «Ninguém podia saber. Os acidentes acontecem no meio de uma caçada.»

 

O corpo de Pés de Vento torceu-se quando expediu um dardo contra um búfalo-fêmea que se debatia.

 

Homem Valente ouviu o ruído do baque do impacte e observou a haste do dardo saltar para trás, voando alto para ser apanhada pelo vento e transportada rapidamente por cima da orla da neve amontoada. A fêmea mugiu de fúria e dor ao saltar, colocando uma pata dianteira na neve endurecida. Mugiu de novo formidavelmente quando o seu peso fez colapsar a crosta. o sangue saía-lhe pelas narinas, esparrinhando a neve.

 

Homem Valente olhou em redor. o quarto búfalo jazia de lado com o Peito palpitando e o sangue escorrendo das narinas e da boca. Voltou-se para trás, olhando para os seus próprios animais, abatidos sobre a barriga e apoiados na neve espessa.

 

- Comida - sussurrou Pés de Vento caindo de joelhos e erguendo as mãos para os céus nublados. Um cântico de agradecimento saiu-lhe dos lábios.

 

«Os acidentes acontecem», sussurrava a voz no espírito de Homem Valente. Curvou-se, apanhando uma das hastes dos seus dardos.

 

Retirou uma ponta da bolsa pendente do cinto, enfiando-a no soco e rodando-a para a colocar em posição. Tudo o que precisava fazer... Ah-eia! - gritava Lebre Sibilante enquanto trotava por cima do cume da linha de crista. - Todos os quatro! Mortos! Comida! Comida!

 

O corpo de Fogo Ardente tinha um aspecto terrível. A sua carne podia ter sido retirada da argila morta da margem do rio. A pele pendia solta, cavada em torno do crânio. Contudo, Garra de Cotovia e Abeto Flexível tinham pintado a cara dele com ar alegre e as vestes do cabedal mais fino adornavam-lhe o cadáver. Contas de osso de coelho, garras de urso, conchas de olivella e penas brilhantes de tangará mostravam qual o seu lugar nos corações da tribo. Agora jazia junto do buraco redondo que seria o seu último lugar de repouso. o vento brincava com as suas tranças sem vida na areia gelada.

 

Tinham descido o trilho desde o acampamento enquanto cantavam o cântico do luto. Rabo de Gato, Carriço Pequeno, Mão Negra e o marido de Mulher Bonita, Salgueiro Alto, transportaram o corpo aos ombros. À retaguarda viera Abeto Flexível, Garra de Cotovia e Erva Amarga, as crianças e depois as tias de Barriga Falsa e os seus filhos.

 

Garra de Cotovia decidira onde enterrar Fogo Ardente: na crista ventosa de uma duna de areia que olhava o vale e a massa emergente da montanha Verde para sul. o espírito de Fogo Ardente teria uma bela vista do vale do rio da Água Fria. Próximo do rio, a artemísia enfezada dava lugar a erva abundante. A duna formara-se no fim do granito desgastado que protegia o acampamento da tribo da Rocha Redonda dos ventos dominantes. Para lá disto, os picos cinzentos arredondados captavam o sol matinal. Aqui, nas dunas, o espírito de Fogo Ardente alimentaria a flox e as azedas encaracoladas, a artemísia e o quenopódio. Havia lugares piores para se ser enterrado, já que uma pessoa tinha de morrer - mas neste caso Garra de Cotovia não tivera dúvidas em escolher um lugar onde também não fosse difícil cavar. As dunas de areia, mesmo quando endurecidas pela congelação, não eram difíceis de escavar.

 

Barriga Falsa aguardava à retaguarda da linha dos familiares enlutados. Confusão estava a seu lado, orelhas levantadas enquanto o vento lhe penteava o pêlo branco e preto. Garra de Cotovia dirigira ao cão um olhar terrível quando ele descia do acampamento. Barriga Falsa não fora capaz de o mandar embora - dadas as vezes que Fogo Ardente brincara com o cão e o livrara de maus tratos.

 

Confusão gania suavemente como se também ele entendesse que um homem gentil deixara o mundo. Agora, apenas Barriga Falsa lhe guardaria pedaços de carne.

 

Nuvens esfarrapadas deslizavam rapidamente através do céu cinzento, arrastadas pelo vento agreste que assobiava de oeste. A existência tornara-se tão fria como o solo gelado onde o cortejo fúnebre se encontrava.

 

Como seria a vida sem Fogo Ardente? Com quem falaria Barriga Falsa? Erva Amarga? Não, estaria demasiado ocupada com as crianças, agora que Fogo Ardentejá não estava por perto para a ajudar. Devia casar-se outra vez pela Reunião, evidentemente; como viúva jovem capaz de ter filhos - e herdeira do acampamento e dos seus recursos -, devia ser pretendida. Quando não fosse com Trufa e Lupino, o seu tempo seria gasto escutando Abeto Flexível e Garra de Cotovia a planearem as próximas actividades sazonais.

 

«Fogo Ardente, pediste-me para ficar e para te amparar. Eu tê-lo-ia feito, velho amigo. Eu tê-lo-ia feito se elas me tivessem permitido fazê-lo.» Ele apenas não fora capaz de desafiar a ameaça nos olhos de Garra de Cotovia. A vergonha inundou-o.

 

«Nunca mais. Não posso fazer isso. Não posso continuar a odiar-me porque não consigo enfrentá-la.»

 

A dor aguda nas tripas de Barriga Falsa agudizou-se quando Abeto Pequeno e Salgueiro Alto baixaram o corpo de Fogo Ardente ao buraco pouco fundo que tinham aberto no flanco da duna virado ao vento. Flectiram as pernas de Fogo Ardente de encontro ao peito e dobraram-lhe o corpo para que coubesse.

 

As lágrimas inundaram as faces redondas de Trufa e escorreram-lhe para o queixo. Ao ver isto, Barriga Falsa não pôde suster as suas próprias lágrimas. Partilharam esta perda - ele e o sobrinho. Mão Negra cantou o Cântico do Espírito à Mãe Terra, implorando que recebesse a alma de Fogo Ardente no seu seio.

 

Erva Amarga segurou fortemente a mão de Lupina, como se também a pequena rapariga pudesse deixá-la. Com 5 anos de idade, Lupina dificilmente percebia o que estava a passar-se. Olhava com os grandes olhos castanhos e um dedo na boca. o vento brincava com as franjas do seu vestido de pele de antílope, vergastando-lhe as delgadas pernas castanhas.

 

Garra de Cotovia permanecia ao lado de Mão Negra, fixando intensamente o cadáver com olhos brilhantes, como se recordasse algo de um passado há muito ultrapassado e recentemente esquecido. Contra o fundo da neve acumulada pelo vento, a sua silhueta corcovada lembrava a Barriga Falsa um grou especado nos baixios, pronto a retirar um vairão das águas. Os outros apinhavam-se em volta, olhos sem expressão relanceando de Erva Amarga para Mão Negra e para o cadáver cinzento no tosco buraco.

 

Barriga Falsa virou as costas ao ouvir o cântico que se elevou quando toda a gente cantou encomendando o corpo de Fogo Ardente à terra, recordando à sua alma que todos tinham sido bons para ele e que não tinha motivos para regressar e os atormentar.

 

Garra de Cotovia ergueu as mãos, suspendendo o Cântico.

 

- Primeiro Homem! Mãe Terra! Ouçam-nos! Neste dia devolvemos-vos o corpo de Fogo Ardente. Tomem a força do seu corpo. Deixem que as coisas que crescem usem a sua carne. Deixem a erva crescer espessa aqui para que o antílope e o búfalo a possam comer. Tomem o seu Espírito e dêem-lhe um lugar especial onde o quenopódio possa crescer verde e farto em sementes.

 

- Mãe Terra, tomamos de ti o nosso sustento. A ti regressaremos todos, um dia. Primeiro Homem, assim como nos deste, assim nós te retribuímos. Toma este Fogo Ardente. É um homem bom, um homem forte, que a ti regressa antes do seu tempo. Com a dádiva do seu corpo e alma, nós pedimos-te que oiças as nossas preces por bom tempo, plantas boas e muitos búfalos, alces e antílopes.

 

»Nós, o teu povo, agradecemos-te e honramos-te pelas coisas que nos tens dado. - Aqui, ela, a mais velha da tribo, curvou-se para o chão e apanhou um punhado de areia fria. Avançou e aspergiu com ela o peito de Fogo Ardente.

 

Trufa chorou agarrado ao vestido de Erva Amarga, escondendo o rosto enquanto berrava. Uma a uma, as pessoas da tribo da Pedra Redonda apanharam punhados de areia e lançaram-na sobre o corpo comprimido de Fogo Ardente.

 

Barriga Falsa fez um esforço para avançar, sentindo as pernas como que talhadas em madeira. Curvou-se para o chão e agarrou uma mão-cheia de areia. o frio violento insensibilizou-lhe a carne. Hesitou ao fixar o olhar no corpo salpicado de areia no interior do buraco. «Não, Fogo Ardente. Jamais uma sombra de maldade se abrigou naquela alma terna.»

 

Sacudiu a mão e abriu os dedos. A areia desfeita atingiu o corpo com um ruído cavo. A tristeza que lhe brotava do interior deixou Barriga Falsa vazio, com se a chama que aquecia a sua alma se tivesse apagado. Fixou o olhar sobre o vale do rio da Água Fria, onde a salva e a neve criavam um mosaico gelado. «Que me restou? Que farei agora que Fogo Ardente se finou? Quem me amará?»

 

Pestanejou repentinamente. o lobo negro permanecia imóvel e observando por detrás de uma sebe de artemísia à distância de lançamento de um dardo. Barriga Falsa começou a apontar, mas, sabendo que o animal desapareceria por entre os penedos antes de as pessoas olharem, pensou melhor naquilo. Podia sentir à distância aqueles olhos amarelos penetrantes queimando-lhe o íntimo.

 

«Vai. Sai daqui... » As palavras de Fogo Ardente obcecavam-no. «Descobre Aquela Que Sonha.»

 

O topo de uma crista é um lugar miserável para esquartejar um búfalo.

 

Pés de Vento curvou-se sobre a pequena fogueira, estendendo os dedos agradecidos. Minúsculas chamas lambiam avidamente a artemísia e a salva que alimentavam o fogo. o vento cravava-lhe lâminas de frio nas costas e sacudia-lhe violentamente as tranças que lhe pendiam para fora do capuz de pele de raposa.

 

Com os olhos franzidos, fixava a paisagem coberta de neve que cercava o local da matança. À sua frente, a colina descia para os terraços de quenopódio. Para lá disto, a terra erguia-se numa série de linhas de altura com solos nus expostos nas encostas viradas ao vento e a neve acumulada em espessos amontoados nos lados a sotavento. Superfícies deflaccionadas de pedras arredondadas e curtas franjas de salva coroavam a maior parte das cristas. Ocasionalmente, afloramentos de arenito castanho-amarelado emergiam da neve. o céu pendia carrancudo sobre as cabeças - cinzento e pesado com uma ameaça de tempestade. Outra rajada de vento vergastou-o, projectando cristais de neve contra as suas costas e espevitando as chamas, que passaram a um amarelo-vivo quando as cinzas e os carvões incandescentes se espalharam sobre o solo gelado.

 

Pés de Vento resmungou para consigo. A caçada fora perfeita. Olhou de esguelha para o tempo tempestuoso, observando por sobre o ombro o local onde os outros homens trabalhavam duramente, meio escondidos pelo torturado solo batido pela neve, enterrados até aos quadris no monte de neve ensanguentado. Carne: uma graça divina - a despeito dos ventos fustigantes que sugavam o calor de um homem. Quatro búfalos que salvam vidas.

 

Enquanto um homem trabalhava as carcaças quentes, conseguia sentir os dedos. Mas, mal se levantava para levar um bocado de carne para o local onde ela ficaria a congelar dentro da neve, agulhas de gelo feriam-lhe os dedos e tolhiam-lhe as articulações. Sangue e neve derretida ensopavam os mocassins, congelando quando o vento vidrava o gelo na pele gasta. Trabalho desagradável este - e ao mesmo tempo tão maravilhoso.

 

Homem Valente subiu ao piso mais firme do cume da crista e agachou-se apanhando um bastão de chifre para tirar lascas do gume embotado de um biface de quartzito que usava como ferramenta de magarefe. o bastão produziu um ruído cavo e violento contra o gemido de fundo do vento. As delgadas lascas de pedra tilintaram musicalmente aos pés do guerreiro.

 

As tripas de Pés de Vento retesaram-se. Que se passava com Homem Valente que o punha tão enervado? Todas as vezes que estiveram juntos naquele dia, ele sentira que só um cabelo os separara da violência. A atitude de Homem Valente tornara-se reservada, transportando e sustentando ameaças que disfarçava muito mal.

 

«Está à espera.» Um arrepio que nada tinha a ver com o vento gelado deslizou pela espinha de Pés de Vento. «Se aquelas vozes na cabeça dele lhe disserem para o fazer, ele mata-me.»

 

As imagens do passado voltaram: os tempos em que eles tinham caçado um com o outro, lançado dardos e atirado ao arco, apanhado cobras e pássaros e lutado no meio da erva. Agora, a sua amizade desfizera-se - rasgada como madeira apodrecida por uma marreta de pedra. Como era possível que dois bons amigos estivessem de costas voltadas? Homem Valente podia ter tido Cinza Branca por esposa. A despeito do desejo ardente no coração de Corre Com o Vento, ele aceitara o amor dela por Homem Valente. Alimentar qualquer outra ideia seria brincar com o incesto. E ela amara o velho Homem Valente com todo o seu coração. Mas... e este novo Homem Valente? Este estranho? Ele matara-lhe o amor tão brutalmente como matava os inimigos da tribo do Homem Branco.

 

Pés de Vento abanou a cabeça, confundido. o Poder fazia coisas engraçadas às pessoas - especialmente àquelas que podiam afirmar ter estado no Acampamento da Morte. Excepto no caso de Homem Valente, Pés de Vento não podia estar seguro de que algo não corrompera o Poder - tornando-o malvado.

 

- Estás a tentar monopolizar esta fogueira? - perguntou Espírito Sábio enquanto se aninhava junto de Pés de Vento, estendendo os dedos incrustados de sangue para a chama minúscula.

- Está bastante frio.

 

- Na verdade - Espírito Sábio fungou com o nariz a pingar. Escuta, é preciso que alguém regresse ao acampamento e lhes diga. É melhor deslocar o acampamento para aqui do que levar tudo isto de volta.

 

Pés deVento olhou deesguelha emredor, observando o território

 

Pedra trabalhada nas duas faces para permitir a sua utilização como instrumento de corte, nomeadamente como raspador, faca, ponta de seta, etc., durante a Idade da Pedra. (N. do T.)

coberto de neve. Montes triangulares de neve ondulavam a superfície, erguendo-se em bico para lá da artemísia.

 

- Onde? Não vejo muitas condições de abrigo por aqui. Espírito Sábio arrepiou-se, balançando-se para a frente e para trás para manter os pés quentes.

 

- Vou mandar Lince e Homem Valente darem uma vista de olhos em volta, para verem se conseguem encontrar algum local aqui perto. A menos que, é isso, tu queiras atirar com um par destes búfalos para cima dos ombros e correr para casa com ele!?

 

Pés de Vento riu, mostrando os dentes brancos e certos.

 

- Certamente, tio. Levarei dois... se levares o resto.

 

Espírito Sábio partilhou a graça com um sorriso a enrugar-lhe a face.

 

- E por outra razão que quero que regresses ao acampamento. Sinto qualquer coisa. Não sei o que seja, apenas um desassossego. E algo que tem a ver com o acampamento. Vais e vês por mim? Toma conta de Lua Brilhante e Cinza Branca. Assegura-te de que estão todos bem.

 

Pés de Vento lançou-lhe um olhar curioso.

 

Falaste com Falcão Velho a respeito disto? Talvez seja um sonho de espírito.

 

Espírito Sábio franziu os lábios, olhar absorto no fogo.

 

,   - Não. É apenas uma sensação. - Fez uma pausa. -Vai e traz o acampamento. Encontraremos lugar adequado para ele.

 

Vai ser preciso um longo dia para regressar ao acampamento. Depois talvez dois dias para trazer toda a gente até aqui. Os velhos e as crianças pequenas não andam depressa. Também não queremos acampar ao relento neste plaino completamente aberto. o vento sopraria sobre nós directamente do alto das montanhas do Povo do Lobo.

 

O rosto de Espírito Sábio ficou tenso. Os olhos dardejaram sobre as colinas nevadas como se procurassem por guerreiros inimigos escondidos, deslizando por entre a salva. Nem sequer penso nisso.

 

- Desejo que tenhamos mais algum sítio para onde ir.

 

- Talvez para sul... talvez lá para baixo, para além daquelas montanhas. - Espírito Sábio protegeu o rosto do vento e fixou o olhar nos picos irregulares que se erguiam contra o horizonte a sul.

 

- Já lá estive uma vez. O Poder levou-me lá uma vez. Roubei Cinza Branca ao Povo da Terra. Talvez possamos encontrar um lugar onde o Povo da Terra nos deixe em paz. Espírito Sábio abanou a cabeça. - Cinza Branca era então uma jovem, mas ela sabia que o Povo da Terra sempre tivera o suficiente para comer. Ao contrário de nós, eles conhecem as plantas. Quando os animais escasseiam, eles comem sementes, raízes e folhas secas. Os mercadores dizem mesma coisa, que o Povo da Terra tem sempre comida.

 

- Estás a pensar em comer plantas? Espírito Sábio riu nervosamente.

 

- Aí está uma coisa boa de dizer quando se sabe que se vai ter barriga cheia.

 

- o alce e o búfalo comem plantas. Por enquanto, não dei fé de espessas camadas de gordura no lombo deles.

 

- O Povo da Terra apanha as plantas no Verão e no Outono. Apanham sementes e secam-nas ao fogo. Chamuscam algumas ao ar livre para não apanharem bolores. Depois armazenam tudo o que apanharam para o Inverno... e caçam ao mesmo tempo. o alce e o búfalo não armazenam plantas. Eles apenas deixam a neve cobrir todos os seus pastos.

 

Eles também não caçam.

 

É por isso que o homem tem a melhor de todas as coisas. Nós também podemos comer plantas e caçar.

 

- Queres realmente comer plantas?

 

- Sei que trocamos uma grande quantidade de carne de búfalo seca por aqueles bolos de pinhão que os mercadores trazem do norte. Corre Com o Vento resfolegou.

 

- Deste-me algo para pensar enquanto vou até ao acampamento. Quatro búfalos não duram muito com todos estes meses de fome. Talvez consiga matar alguma coisa no caminho. Sempre acalma um pouco a fome.

 

- Faz isso. E toma cuidado com a tua tia. Estou preocupado com ela.

 

- Está descansado. Também eu fico com maus presságios quando fazes esses discursos. Se bem me lembro, tiveste uma premomição a respeito daquele acampamento lá em cima no rio do Castor Gordo... exactamente antes de o Clã da Ponta Negra aparecer e nos expulsar. - Pés de Vento pôs-se de pé, usando a unha do polegar para descamar o sangue seco das cutículas. -Vou levar um pouco desta carne. Alguém pode precisar dela.

 

- Eu ajudo-te a fazer a trouxa.

 

Quando Pés de Vento partiu do acampamento, olhou para trás, para os últimos carvões da sua fogueira que estavam a ser arrastados pelo vento para morrerem na neve. o Poder estivera sempre junto de Espírito Sábio. Que significava aquela sensação? Pés de Vento parou, examinando os restos da cinza espalhada... e arrepiou-se.

 

Homem Valente cortou através da crista, fixando o olhar pensativamente na figura de Pés de Vento, que desaparecia lentamente para lá do cume da colina. Uma simples mancha preta na neve que balançava enquanto se afastava para norte. Alguma coisa se azedou na barriga de Homem Valente.

 

«Pois então, meu velho amigo, vais trazer o Povo. E com ele trarás Cinza Branca.» Soltou um riso abafado e olhou para cima, para o céu cinzento, onde a tempestade desenhava formas nas nuvens. Farrapos ocasionais de neve deslizavam lá do alto - flocos pequenos e delicados que passavam por ele nas sempre presentes rajadas de vento.

 

Sonhara durante a noite, revivendo a caçada enquanto estava deitado enrolado na roupa. o vento estivera bravo, gemendo na escuridão antes de abrandar entre rajadas e sussurrar na salva. Neste estado intermédio, quase sonho quase pensamento, ouvira a voz do vento. Sussurrara-lhe, falando-lhe à maneira do Poder de Espírito. Sentira a sedução da névoa cinzenta, compreendera as suas promessas e a sua natureza. Algo maravilhoso, poderoso, permanecia para lá da neblina que o toldava. Dela ouvira vozes erguendo-se num cântico. Sentira as gavinhas do Poder acariciarem-lhe a alma. Se ao menos pudesse descobrir o caminho para o centro dessa maravilha mística. As vozes disseram-lhe que algo importante aconteceria em breve. De novo as vozes lhe prometeram Cinza Branca - e o Poder que seria dela.

 

- Vou ter de te matar algum dia, Pés de Vento. Consigo sentí-lo através do Poder... sentir a forma como isso será, quando o teu sanguejorrar, vermelho e quente, na minha mão.

 

Homem Valente fechou os olhos com uma punhalada de dor que cegava. A dor de cabeça começara outra vez a latejar, dilacerando-lhe os pensamentos. Conseguia recordar-se de quando estivera deitado na erva enquanto ele e Pés de Vento contavam graças e se riam. Que acontecera à sua amizade? Para onde fora? o Poder viera até ele, mas a que preço?

 

Antes de escapar do Acampamento da Morte, nunca ouvira as vozes. Durante aquele ominoso Verão - há dois anos atrás; há já tanto tempo? - a tribo do Homem Branco acampara nas margens do rio do Castor Gordo, para norte. Ali cresciam em abundância as folhas estreitas do choupo nos prados verdes. As ervas luxuriantes trouxeram manadas de bisontes para gozarem aquela abundância. A caçada fora boa. Então, ele e Pés de Vento eram íntimos, partilhando um só coração quando discutiam as perspectivas da humanidade. Cinza Branca desabrochara numa mulherzinha, lançando a Homem Valente íntimos olhares de promessa.

 

Tudo mudou quando a tribo da Ponta Negra destruiu o acampamento num ataque de surpresa. A tribo da Ponta Negra necessitava desesperadamente de novos terrenos de caça - e a tribo do Homem Branco mantinha o vale do Castor Gordo. Naquela manhã, os guerreiros Ponta Negra apareceram subitamente nos choupos, ululando os seus gritos de guerra, correndo entre as cabanas enquanto o acampamento acordava em estado de choque.

 

No dia anterior, Homem Valente e Pés de Vento tinham brincado entre aquelas mesmas árvores, lançando os seus dardos contra os alvos, falando a respeito de como seriam tatuados como homens antes que o próximo Inverno acabasse. Conversaram sobre caçadas e sobre a guerra, sonhando e rindo juntos enquanto permaneciam deitados na erva espessa às voltas com os mosquitos.

 

-Então sonhámos. Antes de te virares contra mim, velho amigo.

 

- Homem Valente cuspiu na neve.

 

Aos gritos de alerta, acordara na tenda de seu pai. Tal como todos os outros, afastara as roupas, agarrara no atlatl e nos dardos e precipitara-se para fora da tenda, nu e assustado. Lá fora reinava a confusão. Os guerreiros gritavam e incitavam-se enquanto carregavam através do acampamento. As mulheres esganiçavam-se e as crianças choravam de terror.

 

Um guerreiro de elevada estatura agarrou Rato de Pedra pelo cabelo quando ela saía da tenda, puxando-a por cima das costas e lançando-a ao chão. Homem Valente fez um esgar ao reviver a cena, vendo o sol reluzir numa clava de guerra com o cabo em pedra erguida para esmigalhar os miolos da mulher. Reagindo por instinto, Homem Bravo firmou-se nos pés introduzindo um dardo no gancho do seu atlatl. Com toda a sua força - enorme mesmo naquela altura -, lançou um dardo contra as costas do homem. Por azar, possuía apenas um dardo de rapaz equipado com uma ponta toscamente talhada. Um dardo de homem, com a sua ponta finamente trabalhada, teria penetrado claramente o guerreiro e tê-lo-ia parado onde ele estava.

 

O guerreiro guinchou, soltando o cabelo de Rato de Pedra e rodando sobre si mesmo. Nesse instante, Homem Valente carregou um segundo dardo, lançando-o violentamente contra o peito do homem. o guerreiro carregou em frente e Homem Valente aguentou a carga cravando-lhe um terceiro dardo, à mão, na barriga. Juntos caíram no chão com Homem Valente a lutar pela vida, pontapeando e gritando, sem se importar com a força de adulto do guerreiro de elevada estatura. Fixou os olhos enlouquecidos do homem... e viu a morte. o guerreiro esmorecia, com o sangue a começar a escorrer-lhe dos cantos da boca,jorrando quente na cara de Homem Valente a cada exalação forçada.

 

Homem Valente esborrachou a palma da mão no rosto do homem, afastando-se. Ficou de pé, olhando com temor respeitoso o guerreiro a tentar rastejar para ele. Sangue espumoso escorria da boca do homem, manchando o chão com pingos carmesim.

 

Nunca soube o que aconteceu depois daquilo. Apenas mais tarde Rato de Pedra lhe contou que ela o chamara em voz alta, apontando; outro guerreiro aparecera vindo da retaguarda. Rato de Pedra disse-lhe que ele começara a virar-se - e que o golpe lhe caiu no alto do crânio abrindo-lhe o escalpe e atirando-o por terra.

 

«Mas sobrevivi.» A imagem embotou-se e deslizou-lhe para as brumas da memória.

 

Enquanto permanecia de pé na neve, observando Pés de Vento a afastar-se, Homem Valente acariciava a cicatriz recortada oculta pela cabeleira espessa. As vozes cacarejavam-lhe nos ouvidos, acalmando-lhe a dor de cabeça. Lembranças recompostas, filtrando-se através de uma neblina confusa...

 

Homem Valente reganhara consciência no escuro. Uma dor terrível trespassou-lhe a cabeça. A sua visão estava enevoada; as coisas pareciam imprecisas, enquanto manchas de luz dançavam na escuridão. o crepitar das folhas dos choupos à brisa nocturna soava-lhe como ossos a dançar, chocando-se e entrechocando-se.

 

Tropeçou nos seus próprios pés, deu dois passos e caiu sobre o cadáver de um guerreiro morto pelos dardos de brincar de um rapaz. No Acampamento da Morte gritou aterrorizado e cambaleou em redor das tendas vazias. Cambaleou, avançando aos ziguezagues por entre os cadáveres que jaziam por toda a parte. Reconheceu o rosto do pai, inchado, meio devorado por algum necrófago. o corpo da sua mãe jazia em decúbito ventral com as tripas destroçadas. Em fundo, formas negras vagueavam com passos furtivos entre a morte, evitando o seu caminho enquanto deslizavam por entre as sombras com pés silenciosos.

 

Através da agonia da sua cabeça palpitante, conseguia ouvir vozes que o impeliam a fugir. Possuído por um horror motriz, começou a correr para logo tropeçar num poste de tenda partido. Aterrou sobre outro cadáver, um corpo de mulher já inchado e expelindo gases asfixiantes.

 

Voltara para trás, ciente do fedor nas mãos depois de se ter afastado do cadáver. Balbuciando de medo, partiu de repente do Acampamento da Morte para o prado situado para além dele. As almas da morte colérica sussurravam no ar, agarrando-o com dedos corrompidos. Sentia o seu amplexo viscoso. Depois o mundo girou em seu redor, erguendo-se e caindo, rodopiando e enegrecendo... Não sentiu a queda, mas luzes explodindo através da cabeça quando bateu no chão. Jazera aturdido, o rico odor da erva a encher-lhe as narinas enquanto a consciência o abandonava empurrada pela dor esmagadora dentro do crânio.

 

Quando voltara a si, o Sol flutuava alto no céu, ferindo-lhe e cegando-lhe os olhos turvados. Estendera-se ao comprido na erva alta enquanto os pássaros cantavam e chilreavam nas árvores por cima dele. A cabeça doía-lhe e martelava ruidosamente, a visão ainda fendida e fragmentada. As vozes dentro da cabeça sussurravam-lhe e chamavam por ele, algumas vezes rindo, outras vezes chorando horrivelmente.

 

Quando tentara sentar-se, tudo tremeluziu e passou a cinzento. Logo ao primeiro olhar, as árvores fenderam-se em várias imagens, misturando-se com as que lhes estavam próximas. Rastejou em direcção ao acampamento, vendo guerreiros que lhe não pareciam familiares a andar por entre as tendas. Alguns atulhavam as trouxas com bens que tinham saqueado. Imagens do acampamento da morte prolongavam-lhe a escuridão do espírito.

 

As vozes gritaram-lhe, impelindo-o a fugir, a correr e a esconder-se daquele horror. Chocado pelo medo, esforçara-se por se apoiar nas mãos e nos joelhos. A náusea inundara-lhe o corpo e enjoara enquanto o mundo girava em seu redor. Rastejara durante muito tempo, arrastado pela dor explosiva da cabeça. As moscas zumbiam-lhe em volta do sangue empastado no cabelo.

 

Tinha de se manter a rastejar. Se parasse, a morte apanhá-lo-ia. A ameaça escondia-se exactamente à sua retaguarda, esperando que ele cometesse um erro, esperando que a coragem lhe falhasse, por um instante que fosse.

 

Os dias seguintes nunca fizeram sentido para ele. A sua memória fora como uma ponta de obsidiana finamente talhada esmagada por um pesado martelo de quartzito - estilhaçada em demasiadas lascas para se ajustarem de novo. Recordou-se de instantes e de fragmentos: tempos de fome, quando apanhou e comeu gafanhotos e roubou os ovos dos ninhos dos pássaros; escondendo-se na erva, lamuriando-se e chorando enquanto as vozes lhe ralhavam. A dor na cabeça palpitava e amainava, alternadamente. o sol queimou-lhe as costas nuas. Quando as tempestades rolaram pelos céus, arrepiou-se e tremeu à chuva fria. Os pés queimavam-no com os espinhos dos cactos, depois estalaram e sangraram enquanto as ervas e as silvas lhe arranhavam vermelhos vergões na pele.

 

Depois de quatro dias sem comer e sem beber, um sonho de Poder possuiu-o. Adormecera no cume de uma crista pedregosa, demasiado exausto para continuar. Ouvira o cântico, sentira o Poder. A alma flutuara-lhe, deslizando e caindo, erguendo-se como uma folha ao vento. Sentira o coxim macio da neblina cinzenta e chorara de prazer. Deslizara na névoa e finalmente acomodara-se até que pôde aperceber-se de um brilho dourado.

 

«Quem és tu? Em que te transformaste?» Uma voz bonita - tão diferente dos sussurros da morte - inundou as configurações entrelaçadas do ouro tremeluzente. o ruído de um fogo atroador algures na distância encheu o ar melífluo.

 

- Sou Homem Valente. Fugi do Acampamento da Morte. «Que farás com o Poder? Tu não és o quejá foste. A tua alma mudou.» o ouro ergueu-se em vagas e comprimia-se.

 

- Destruirei... como os meus inimigos tentaram destruir-me. «Está mudado», proclamava um coro de vozes através da névoa. «Tal como uma ferramenta de pedra que fosse tratada pelo calor durante demasiado tempo, ele transformou-se em algo diferente. Misturou Poder com dor e sofrimento. A sua alma desviou-se das nossas necessidades... contaminada por uma verde brasa de raiva.»

 

- Onde estás? - chamou Homem Valente, procurando a fonte do Poder, apenas para ser repelido, empurrado para trás, afastado da névoa dourada. Lutou, procurando o arrebatamento maravilhoso, e gritou a sua miséria quando o Poder o repeliu com violência.

 

Acordou, arquejante, as pedras a torturarem-lhe as carnes nuas. Gemeu então, devastado pela beleza doce da névoa dourada que lhe fora negada.

 

- Hei-de descobrir-te - prometeu aos céus de nuvens negras.

- Senti o teu Poder... e vou tê-lo por mim próprio. - Ergueu um punho fechado para os céus. - Juro-o pela minha honra! Nada deterá Homem Valente! Eu QUERO DESTRUIR-TE!

 

Fora-se completamente abaixo, então, e chorara a sua frustração solitária enquanto um lobo uivava ominosamente na noite. «Sul», sussurravam-lhe as vozes da morte na cabeça. A palavra cravara-se-lhe no espírito e forçara-o a nadar na inundação crescente do rio do Castor Gordo, que corre aos saltos sempre em direcção ao sul. Permanecera nos leitos de drenagem, evitando o terreno áspero das terras altas e comendo o que lhe aparecia à mão.

 

«Mas sobrevivi. Demonstrei o meu valor ao Poder. Fugi do Acampamento da Morte e do horror que me perseguia.»

 

Quando Sem Dentes e Lince finalmente o encontraram, choraram um agradecimento amistoso. Olhara para eles, conhecera-os, ainda confuso a respeito de quem eles eram. Embrulharam-no numa pele macia e disseram-lhe que tinham pensado que ele estivesse morto, que o Ponta Negra o matara. Rato de Pedra vira aquilo acontecer com os seus próprios olhos.

 

Os dois amigos cuidaram dele e disseram-lhe o que acontecera depois da incursão. o Povo fugira para sul através do Castor Gordo e que lá houvera uma acesa discussão no conselho. Águia Negra e Trovão Cinzento separaram-se do bando de Lebre Sibilante, cada um deles levando os da tribo do Homem Branco que os quiseram seguir. Alguns foram para oeste ao longo do Castor Gordo, outros para leste. Lebre Sibilante ficou com um terceiro bando - o único que descobrira - e apontou a sul.

 

Sem Dentes e Lince trouxeram-no, em farrapos e morto de fome, para o acampamento de Lebre Sibilante. Ali Falcão Velho cantara o Cântico que Cura e Homem Valente melhorara. A sua memória regressara e os discursos desorientados tornaram-se menos frequentes. Os pés cicatrizaram, bem como os arranhões e os cortes. Pés de Vento vinha sentar-se com ele e conversar. Mas o mundo mudara para Homem Valente. Os Espíritos sussurravam-lhe ao ouvido, fazendo-lhe promessas e avisos de perigo. A recordação da doce névoa cinzenta e do arrebatamento dourado estava mascarada, escondida exactamente para além do seu alcance.

 

- Fugi do Acampamento da Morte - recordava a si próprio. o Poder viera até ele. Fora escolhido. Todos sabiam que os libertadores de almas podiam purificar-se cantando e jejuando. Quando o faziam, podiam libertar as suas almas dos corpos e voar para o Acampamento da Morte para recuperar almas perdidas; mas isso exigia anos de preparação e um libertador de almas especializado para ensinar o caminho.

 

- Mas eu atravessei com o meu corpo. Ninguém tem Poder como Homem Valente. - Quando disse isto, os espíritos balbuciaram para consigo próprios em concordância.

 

Na crista, Homem Valente franziu os olhos fixando-os em Pés de Vento. Estremeceu face à ligeira dor que lhe atingiu o lado da cabeça. «Algo acontecerá em breve», prometiam as vozes. «Em breve.»

 

-Abeto Flexível? Tu e os outros vão deixar-nos?- Na parte de trás da cabana onde ela se sentava junto a Mão Negra, Garra de Cotovia fazia sinal a sua filha com uma mão como uma garra. Abeto Flexível, sempre respeitosa, assentiu com a cabeça, agarrando Rabo de Gato e Semente Vermelha. As crianças de Semente Vermelha, ambas rapazes, há muito que se tinham casado nas tribos do Arenito Branco e do Choupo. Ambos fizeram bons casamentos, casamentos que trouxeram prestígio e a permissão para caçarem nos territórios daquelas tribos se sobreviessem tempos difíceis para a tribo da Pedra Redonda.

 

Quando a porta pendente deslizou para o seu lugar, Garra de Cotovia inclinou o pescoço, esfregando o alto do nariz. Os seus olhos tinham-se enevoado recentemente e já não conseguia ver tão bem no escuro. Chegou-se para trás e deitou mais artemísia no fogo. As chamas saltaram e iluminaram os quatro postes centrais que sustentavam o telhado. Estudou as chamas por um momento antes de se inclinar para trás nas espessas peles que forravam a parede de terra da cabana. A luz do fogo brilhou avermelhada no travejamento e brincou nos fardos pendurados justamente por cima das cabeças.

 

- Pois. - Voltou-se para Mão Negra. - Fala-me a respeito dessa coisa de bruxaria. Três Confluências está preocupado com isso? Queres que eu descubra?

 

Mão Negra estendeu o seu corpo comprido e arqueou as costas. A sua expressão era tensa como se estivesse com dores.

 

Ela cacarejou secamente:

 

- Esse velho ferimento ainda te incomoda?

 

- Sim. Um homem como eu devia saber fazer melhor do que virar as costas a um búfalo apanhado numa armadilha... mesmo quando pensa que ele está morto. - Abriu as mãos. - Não sei... sim, se quiseres. Vê até que ponto as queixas de Fogo Verde são realmente graves e até que ponto são resultado da cólera causada pela morte do marido. Ele era um homem velho... fraco da alma. Eu não embruxei ninguém.

 

Garra de Cotovia esfregou a testa e mastigou com as gengivas desdentadas.

 

- Bem, podia enviar Barriga Falsa a Três Confluências.

 

- Ele? Tens a certeza? Quero dizer, ele... bem... - Mão Negra lançou-lhe um olhar deprimido.

 

Garra de Cotovia estendeu uma mão em garra e deu umas pancadinhas no joelho.

 

- Ele fará tudo o que eu lhe disser. Para além de aceitar as ordens como um cachorrinho ao qual se berra, não tem serventia para muito mais. Ele é apenas meio-homem com aquele braço defeituoso. Trabalha tanto como uma criança e come como um homem. Não sei que fazer com ele. Para que presta? Fez-me perder quase três anos para o casar e depois deu cabo de tudo. Começou a fazer perguntas e a escarafunchar onde não devia. Ela mandou-o embora.

 

Mão Negra riu.

 

- Linho Dourado também não é exactamente flor que se cheire. Ela tinha os seus próprios equívocos e problemas estranhos. Garra de Cotovia fez um esgar.

 

- Não sei que aconteceu. Talvez Espíritos malvados rondassem quando Barriga Falsa nasceu. Com todas as suas falhas, jamais se adivinharia que Rabo de Gato fosse o pai. Barriga Falsa parece sempre trazer má sorte.

 

- Ele não é mau, entendes? Apenas nunca pensa a respeito do que está a fazer. Sempre fechado em si mesmo, preocupado com coisas sem interesse. Queres saber onde apareceu pela primeira vez a raiz do biscoito? Pergunta-lhe. Queres saber onde é que os juncos farão o ninho na próxima Primavera? Ele mostrar-te-á... e não falhará.

 

- Isso não é exactamente de somenos importância. Esse tipo de conhecimento pode salvar uma tribo durante tempos difíceis. Mão Negra agarrou-se ao queixo, fixando o olhar pensativamente no fogo. - Realmente, não gostas dele, pois não?

 

Ela semicerrou os olhos.

 

- Não, julgo que não. Ele não é... bem, do jeito que um homem deve ser. Não sai para caçar e fazer reconhecimentos e para construir coisas. Diz-lhe para ir buscar um punhado de flores de prímula porque Mulher Bonita está com dores menstruais e ele volta meio-dia depois de mãos vazias... porque se esqueceu do que procurava. Pergunta-lhe por elas e ele dir-te-á que ficou a pensar a respeito da proveniência das nuvens. Como podes gostar de alguém que procede assim? Ele tem uma grande falta de senso!

 

- Ele tem um braço deformado. Não podes esperar que ele faça o mesmo que um homem completo.

 

- Isso repetiu Cinco Seixos na tribo do Choupo.

 

- Eu amputei-lhe o braço. - Pausa. - Foi o «único que viveu.

 

- Deixa-te disso.

 

Mão Negra deixou escapar um suspiro exasperado.

 

- Preocupo-me com isso. E como se... bem, como se o meu Poder estivesse a desaparecer. Por vezes, quase acredito que perdi a capacidade de canalizar o Poder do espírito. Os sonhos são quase tão cheios de Poder como sempre, mas não se transferem para este mundo.

 

1 Pássaro da família dos fríngílidas muito vulgar na América do Norte. Tem bico cor-de-rosa, cabeça e dorso de cor cinza e grandes penas brancas dispostas lateralmente na cauda. (N. do T.)

 

Se o Poder está a desvanecer-se, julgo que não deves querer ser de novo meu amante!? - Lançou-lhe um olhar de desafio. Ele riu.

 

- Não. Penso que não conseguiria aguentar o escândalo. Que idade tinhas então? Quarenta? Trinta?

 

- E tu mal chegavas aos vinte! Ah! Mas eu era mesmo boa, não é verdade?

 

- Não espanta que Mão Direita tenha morrido. Deste cabo dele. Ela cacarejou e odiou a dor aguda que apareceu. As costelas dela já não eram tão flexíveis como dantes.

 

- Também teria gostado da possibilidade de dar cabo de ti. Há um certo prazer em ser possuída por um jovem. Penso que é uma força no sangue que o mantém pronto e ardente. Sinto-me melhor quando copulo com um jovem. É como se eu retirasse algo da semente. Tu és curandeiro. Que pensas? Uma velha retira forças de um homem jovem? Será que ele projecta um pouco da sua alma robusta no interior do seu útero?

 

- Não sei dizê-lo.

 

- Queres tentar fazer-me forte outra vez?

 

- Um homem que pode estar a perder o Poder não brinca com esse tipo de coisas. Se estivesse inclinado a interessar-me de novo por uma mulher, seria Erva Amarga que eu procuraria.

 

Garra de Cotovía atirou-lhe com um riso desdentado.

 

- Primeiro terias de passar por mim. Eu ainda governo este acampamento.

 

- E se se tornar público que o meu Poder está a desvanecer-se? E se eu tiver algum interesse em Erva Amarga?

 

As suas pálpebras a pestanejar revelaram um olhar melancólico. -Poderás falar-me disso desde que me possas mostrar quais as vantagens para a tribo da Pedra Redonda.

 

Mão Negra fixou os olhos no fogo - absorto.

 

- Sabes?, terei saudades tuas quando te fores. Tens uma chama para a liderança. Sempre te admirei por isso.

 

- Se escolheres Erva Amarga em vez de seguires o Poder, diz-me.

 

Chupou os lábios, um olhar carregado a aprofundar-se-lhe no rosto.

 

- Poderei pensar nisso. Mas regressemos à bruxaria. Eu...

 

- Pensas que eles desistirão de te mandar chamar? Que tentarão evitar-te?

 

O sorriso dele parecia sem humor.

 

- Talvez. Talvez algo mais.

 

- Declarar-te proscrito?

 

Ele assentiu com a cabeça, amargamente.

 

Ela examinou-o pelo canto do olho. Ele tornara-se mais belo com o rodar dos anos, se é que isso era possível. o coração dela batia mais depressa. Por uma razão ou outra, esquecera-se de ter um homem forte na sua vida.

 

Mão Negra encavalitou os dedos.

 

- Um homem de espírito não devia ter de se preocupar com o banimento. Por que está isto a acontecer? Que fiz eu? Nunca embruxei ninguém. Tenho de estar liberto para me concentrar no Poder, senti-lo, procurá-lo. Talvez seja esse o meu problema. Estou demasiado assustado com conversas desagradáveis, gosto muito de fogueiras e das pessoas e de ouvir conversas fúteis.

 

- És demasiado tentado pela paixão?

 

Por um momento, a velha chama voltou aos olhos dele.

 

- Podia ser. Tu ainda és uma distracção. «Mentiroso!» Mas ter ouvido aquilo dele aqueceu-a.

 

- Já pensaste procurar por Pedras Cantantes? Ele está a viver num abrigo de rocha no topo sul das montanhas do Prado de Erva... se ainda estiver vivo.

 

- Pensava que não gostasses dele. Garra de Cotovia resfolegou.

 

- Odeio-o... e ao mesmo tempo respeito-o. Ele é um dos poucos... oh, não interessa.

 

- Um dos poucos que não conseguiste ter às tuas ordens. - Mão Negra ergueu as mãos num gesto defensivo. - Não olhes para mim dessa maneira. Conhecemo-nos há demasiado tempo. Foste sempre uma força a ter em atenção e, por isso, ficaste tão louca como um vitelo na Primavera quando Pedras Cantantes te lançou aqueles olhares divertidos e enigmáticos.

 

Por um momento, fulminou-o com o olhar e depois enterneceu-se.

 

-Talvez. Mas, precisamente porque não consegui manipulá-lo, isso não significa que não respeite o seu Poder. É assim que as coisa se passam, tu sabes. Poder. Quando ele olha para o mundo, é através de olhos que vêem para lá das motivações humanas. Ele não é deste mundo. o Poder está sobre os seus ombros como um manto de búfalo branco.

 

- Tu não gostaste quando ele começou a falar a respeito de o Poder estar disponível para qualquer um, tanto quanto me recordo.

 

- Tudo o que sei a respeito do Poder é que ele me serve para que a tribo acredite que eu tenho uma melhor relação com ele do que os outros. Evita que os outros tenham ideias. Pedras Cantantes costumava dizer que o Poder estava em toda a parte. Isso aborrecia-me.

 

Correu os dedos ao longo da prega de uma pele de raposa que ela usava para aquecer as mãos durante o tempo frio.

 

- Costumava? Falas dele como se já tivesse morrido. Garra de Cotovia levantou um ombro.

 

- Ele fez-me um favor quando desapareceu. Quando o Poder lhe disse para ir lá para cima para as montanhas. Com ele longe, consigo mais coisas feitas à minha maneira. Foi engraçado quando partiu. Alguma coisa a respeito do feixe que Rabo de Gato roubou. Recordo-me desse dia na reunião. Pedras Cantantes avançou para o interior do círculo da assembleia e parou defronte daquela pele de lobo onde estava o feixe. Agarrou no feixe e os músculos incharam-lhe nos braços e os tendões tornaram-se salientes nas costas das mãos. Todo ele estremeceu antes de soltar um grito agudo e estrídente e cair de joelhos. Disse que viu uma forma de homem brilhando onde o sol perfurava as nuvens. Disse que o feixe tinha de ser devolvido ao guardião do Povo do Lobo ou nós sofreríamos por isso.

 

- Não tinha ainda passado uma hora quando o Povo do Lobo se apresentou. Fizemos as coisas correctamente, penso eu. Devolvemos-lhes o feixe em troca de carne e pinhões para dez Invernos. E fizemos a paz com o Povo do Lobo. De acordo com a lenda, alguns dos nossos antepassados vieram dessa tribo.

 

Mão Negra bufou com ansiedade.

 

- Não posso ir lá para cima para os Prados de Erva. Não para o ver.

 

Ela empertigou a cabeça.

 

- Ouvi dizer que tu e ele discutiram uma vez.

 

Mão Negra continuou a fixar um ponto a alguma distância, que apenas ele conseguia ver.

 

- Discutimos sobre o Poder. Ele disse-me que eu não sabia como o procurar, que eu me preocupava demasiado com este mundo e não com o único. Fosse lá o que fosse. Olhou para mim precisamente como se pudesse ver-me a alma. Depois grunhiu para consigo e foi-se embora.

 

- Não deixes que isso te preocupe. Ele foi-se.

 

- Talvez, mas eu ainda aqui estou... com sussurros de bruxaria a percorrerem os acampamentos.

 

Ela raciocinou por um momento antes de tomar uma decisão.

 

- Tal como eu disse, talvez mande Barriga Falsa a Três Confluências. As pessoas gostam de falar com ele. Ele consegue comer a comida deles. De qualquer modo, está a fazer caretas. Nunca consegui perceber o que Fogo Ardente via nele. Fogo Ardente... sangue e bosta, a sua morte é uma desgraça. Ele era um bom e sólido partido para Erva Amarga. o homem tinha senso... mesmo sendo proveniente desse rebanho lá de baixo em volta de Pau de Areia.

 

O silêncio prolongou-se. Mão Negra quebrou-o ao gemer e erguer os braços num gesto de desalento.

 

- Talvez estejas certa. Talvez eu goste verdadeiramente de mais das pessoas. Pensei que se fosse ao encontro daquele abrigo de pedra no rio do Pau de Dardo... sem quaisquer distracções... me seria devolvido o meu Poder.

 

- E não foi?

 

Ele sorriu-lhe com lassidão.

 

- Desde que aqui estou, só consigo pensar em Erva Amarga. Pasmo com o muito de ti que há nela. Enquanto estava a cantar por Fogo Ardente, não parava de reparar nos seios dela e nas ancas que lhe esticavam o vestido. Um curandeiro não devia notar tais coisas. Ela ergueu uma sobrancelha.

 

- E dizes isso a uma velha amante? Mão Negra fez um gesto neutro.

 

- Por que não? Nunca possuíra uma mulher quando me levaste para as tuas mantas. Tu é que me despertaste o desejo. E ele nunca mais desapareceu. Quando durmo, travo uma batalha constante. Os sonhos de Poder competem com outros sonhos... sonhos de copulação contigo ou com outras mulheres. Quando sair daqui, sofrerei do mesmo hábito por Erva Amarga. Esfregou uma mão nervosa nos seus safões de pele de alce. - E se eu realmente quisesse desistir do Poder? E se eu realmente a quisesse e te conseguisse persuadir de que havia uma vantagem neste casamento? Ela aceitar-me-ia?

 

Garra de Cotovia virou os olhos para a fogueira, observando as centelhas erguerem-se em formas espiraladas. Através de um tal casamento, podia advir uma grande dose de prestígio para a tribo da Pedra Redonda. Aumentaria o seu próprio estatuto pessoal - e o da sua tribo - se o Povo viesse a saber que um curandeiro desistira do seu Poder a favor de uma mulher do Pedra Redonda. Que significaria isso para a -atracção pelas mulheres do Pedra Redonda? A filha de Semente Vermelha estava a chegar à idade.

 

- Ela aceitar-te-ia. Eu velaria por isso. Mas ainda não está na altura certa. Podes esperar? Dá-lhe tempo para esquecer o choque da morte de Fogo Ardente e para curar a dor. Dá a ti mesmo algum tempo, também. Vê o que sucede ao teu Poder.

 

Ele assentiu com a cabeça.

 

- Se ela esperar.

 

- Esperará. Eu sei como lidar com Erva Amarga. Aliás, a reunião será um ponto de viragem na vida dela. Os homens desejam-na e lutarão por ela. Tu estarás lá. Enquanto todos os de sangue na guelra estiverem em luta, sê simplesmente amigo dela. Sê carinhoso com ela. Eu farei a minha parte para vos juntar. Copula com ela se quiseres. Eu sei que lhe dizer entre este momento e essa altura para que ela te aceite. Vê se a fantasia do corpo dela permanece contigo depois. Se assim for, manterei os pretendentes afastados. Depois vê o que acontece no próximo ano. Se ainda a quiseres, faremos negócio.

 

- Não sentirá que está a ser empurrada? Que estás a interferir na vida dela?

 

- Não, Erva Amarga é uma mulher esperta. Ela é bastante nova, e Fogo Ardente era fogoso entre as mantas. Ela sentirá a falta. Tu viste o suficiente de Fogo Ardente para saberes como ele era. Ela procurará esse tipo de homem... e, se não te esqueceste das habilidades que te ensinei, agradar-lhe-ás.

 

- Es uma perdida.

 

- Sou. Uma das minhas filhas, Corça Jovem, cresceu com tanta repulsa por mim que se foi embora para viver com o povo do marido, o Vento Ardente. Fez uma pausa. - Um destes dias vou fazê-la arrepender-se disso.

 

- Essa é a minha questão. Não quero que afastes Erva Amarga... para a alienares da mesma maneira que fizeste a Corça Jovem. Passou uma mão cansada pelo rosto. - Mas penso deixar-te fazer isso à tua maneira.

 

Ela atirou-lhe um olhar de esguelha, dando fé do desespero na sua voz.

 

- Queres falar disso?

 

Começou a querer dizer que sim, mas hesitou, fixando-a francamente.

 

- Não deves mencionar isto a ninguém. Ele olhou de novo para a fogueira com o rosto comprido assombrado.

 

Ela pensou que ele decidira manter a sua paz; depois disse lentamente:

 

-A razão pela qual estou tão preocupado a respeito das acusações de bruxaria é que tenho estado a ter este sonho. É uma noite clara... estrelada. o vento está a soprar pela salva. Pode cheirar-se a poeira. Um trilho corre entre dois grandes blocos arredondados de arenito. Estão de certo modo arredondados, desgastados. Pode ouvir-se todo o Povo a cantar em fundo. Eu estou jazendo no trilho entre os blocos de pedra, de rosto no pó... e o cocuruto da minha cabeça está metido para dentro.

 

Barriga Falsa aceitou os bolos de raiz de biscoito que Erva Amarga lhe passou. Embebeu o pão duro em chá de milefólio até o amaciar e depois mastigou-o pensativamente. A pequena Lupina estava deitada nas mantas, aparentemente adormecida, com um punho espetado junto da boca e uma perna atirada para o lado. A luz da fogueira tremeluzia dentro da cabana. Filamentos de fumo azul elevavam-se e escapavam-se através do buraco do fumo. As camas estavam empilhadas à retaguarda, retiradas de onde Erva Amarga destapara uma cova para armazenagem cavada no chão de terra. Da cova retirara vários pedaços de raiz de biscoito seca. Depois recolocara a cobertura de laje de arenito e estendeu de novo as camas.

 

Durante um longo momento, Erva Amarga fixou, absorta, o fogo. Ao longo dos anos dera cinco filhos a Fogo Ardente. Deles, apenas Trufa, o primogénito, e Lupina, a sua mais nova, continuavam com ela. Os outros tinham morrido de doenças debilitantes: a febre, gerada pela morte rápida das entranhas, enfraquecia as crianças até que as suas almas se desprendiam.

 

- Não consigo acreditar que ele se foi - disse ela, calmamente, a Barriga Falsa. - Parece impossível. Continuo à espera de o ver aparecer através daquela porta, rindo de alguma piada ou ansioso por me contar alguma coisa maravilhosa que viu. Ele não morreu. o meu coração diz-me que tal não pode ter acontecido.

 

- Posso ajudar? Tu choras mais durante a noite. - Barriga Falsa chegou-se a ela e pôs-lhe a mão quente no braço. -A dor vai passar. É sempre assim.

 

Tentou dizer para consigo que assim seria, que o vazio que a morte de Fogo Ardente deixara no seu coração também se desvaneceria. Voltaria a haver outro arco-íris na sua vida? Outro nascer do Sol de esperança e desígnio?

 

Erva Amarga abanou a cabeça, correndo os dedos nervosos pela farta cabeleira negra.

 

- Não sei. Metade de mim morreu com ele, Barriga Falsa. Já não estou inteira. Sinto-me como... como uma sombra. Nada disto é real.

 

Ele meteu na boca o que sobrava do bolo de raiz de biscoito e mastigou-o antes de acrescentar:

 

- Eu sei. Ele era o meu único amigo. Também me sinto perdido sem ele. Ele compreendia-me.

 

Erva Amarga tentou sorrir e falhou, desviando os olhos.

 

- Eu sei que é difícil para ti. A avó... bem...

 

Tinha o braço aleijado aconchegado protectoramente no regaço.

 

- Ela não sabe que fazer comigo. Sou um fardo para ela e um embaraço.

 

- Não é verdade. Não está certo recriminares-te, Barriga Falsa. Nunca mais foste o mesmo desde que regressaste do acampamento de Linho Dourado. A avó apenas não... quero dizer, ela fez o melhor que sabia. Ela apenas não sabia que Linho Dourado causaria tantos problemas.

 

Ele levantou uma sobrancelha.

 

- Quê? Não acreditas que dois coxos fazem um inteiro?

 

Erva Amarga corou, os dedos nervosos brincando com a bainha franjada da saia.

 

- Linho Dourado não era coxa. Não lhe podes chamar uma coisa dessas.

 

- Cara irmã, os coxos surgem sob várias formas e feitios. Eu, eu sou um coxo facilmente identificável, basta olhar...

 

Por favor, Barriga Falsa... para o meu braço para se ver isso. Com Linho Dourado, o problema dela reside no interior... uma alma coxa, se quiseres. Tu sabes, o Povo não perdoa uma mulher pelo incesto. Menos ainda quando ela o praticou com o pai.

 

Erva Amarga empalideceu, olhando em redor rapidamente para se certificar de que Lupina dormia profundamente.

 

- Quem dera que não dissesses isso. Tu sabes que ela não pôde evitá-lo. Ele violou-a. Que pode fazer uma pequena rapariga? Ela não podia entender.

 

Barriga Falsa alcançou outro pedaço de artemísia e lançou-o no fogo, observando as chamas brilhantes enroscarem-se nas folhas secas e nos raminhos.

 

- Não, a falta não foi dela. Mas, aos olhos do nosso Povo, ela ainda está manchada. Quisesse ela ou não que aquilo acontecesse, aquilo aconteceu mesmo. Ela está corrompida, e ninguém o esquecerá... muito menos ela.

 

- Nunca a perdoarei por te ter escorraçado daquela maneira. Foi uma coisa vergonhosa.

 

Barriga Falsa fixou o olhar no fogo, recordando o dia miserável após aquela ainda mais miserável noite. Ele estivera ausente do acampamento de Arenito Branco durante três semanas. o dia estivera ventoso e as nuvens negras tinham-se acumulado lá no alto. Linho Dourado dissera-lhe para se ir embora, que ela não o queria. o olhar de desespero nos seus olhos torturados ainda lhe queimava a alma.

 

- Procura o meu filho. Está atrasado para a ceia. Se não comer, vai enfraquecer como o pai.

 

- Talvez o seu apetite não tenha...

 

- Raios te partam! Não quero discutir isso. Respondes sempre a tudo com uma pergunta! Vai apenas procurar o teu sobrinho. Ficarei preocupada com o que está a fazer e porque. Barriga Falsa embrulhou-se rapidamente numa manta de pele de alce antes de deslizar para a noite.

 

Fora da cabana, os olhos precisaram de um momento para se adaptarem à escuridão. Um cinzento-desmaiado demorava-se sobre as cristas pedregosas do horizonte a ocidente. Uma coruja piou lamentosamente na noite. Confusão levantou a cabeça, latiu e levantou-se antes de esticar a parte da frente e depois a traseira. Agitou a cauda alegremente e caminhou calmamente para bater com o nariz nas pernas de Barriga Falsa.

 

Este Inverno fora longo e difícil. E, com a morte de Fogo Ardente, um sinal de vida abandonara o acampamento. Barriga Falsa seguiu em frente, ignorando o nariz de Confusão, e parou deixando o sentido do acampamento infiltrar-se na sua consciência. Ouviu os coiotes ganindo em coro à distância.

 

A presença de Fogo Ardente permanecia no ar da noite. o seu espírito devia permanecer sobre a cova da fogueira central, contando a história de uma perfeita caçada ao búfalo, enquanto o resto da família escutava inebriadamente. Barriga Falsa conseguia visualizar os gestos do seu amigo enquanto descrevia a maneira como rastejara até ao búfalo. Conseguia ver o braço de Fogo Ardente ir atrás, projectar o atlatl para diante para lançar um dardo imaginário contra o grande animal. Ecos de vozes flutuavam sobre o campo gelado. Para além, perto das pedras de moer onde as mulheres moíam sementes secas da erva-do-arroz para fazerem massa, Fogo Ardente agachara-se na sombra para talhar uma nova ponta de caça e escutar Barriga Falsa a falar a respeito de como as vespas viviam juntas nas margens do arroio. Para lá do acampamento, nos juníperos, Fogo Ardente pendurara uma vez um gordo antílope-macho, rindo enquanto esfolava o animal com o sangue vivo a manchar-lhe as mãos. A conversa desse dia fora a respeito de Trufa e do tipo de homem que se tornaria.

 

Barriga Falsa fechou os olhos e suspirou. Pouco a pouco, a presença da alma de Fogo Ardente desvanecia-se - como a humidade depois de um aguaceiro numa tarde de Verão.

 

«Nunca compreenderão... o Poder trouxe-me aqui... tu és o importante. o Poder quer-te. Tu és o único que a podes salvar, que a podes trazer de volta.» As estranhas palavras de Fogo Ardente zumbiam como moscas de Verão em volta do sangue. «Promete... promete... »

 

- Mas, Fogo Ardente - sussurrou Barriga Falsa para a fria escuridão -, não posso deixar este lugar. É o meu lar.

 

Abanou a cabeça com determinação para clarificar as ideias e volveu os passos para a sepultura de Fogo Ardente. Sabia onde encontrar Trufa.

 

Cinza Branca carregava o corpo da sua mãe adoptiva em peso sobre o ombro enquanto subia a encosta pedregosa. Caminhar na neve era traiçoeiro e escorregadio. o vento gelado e os flocos acerados de neve a soprarem lá de cima não ajudavam nada. Era um dia miserável e tempestuoso para executar uma tarefa tão terrível.

 

Gafanhoto - a mulher de Lince - e a alta e delgada Rato de Pedra, ajudavam-na a transportar a carga. Tinham embrulhado o corpo de Lua Brilhante na pele de alce mais finamente curtida do acampamento, fumada com uma cor de siena carregada. o aroma do fumo infiltrava-se nas narinas de Cinza Branca. Tinham sido cuidadosamente tingidos uns desenhos no couro para que a mortalha ficasse adequada.

 

Por que é que os mortos parecem pesar sempre mais que os vivos? Será que o cadáver se torna mais pesado uma vez desaparecida a flutuabilidade da alma ou assim parece apenas para a pessoa triste que carrega com o peso: uma lembrança da inevitável mortalidade?

 

Apesar do tempo cruel, Lua Brilhante tinha de ser cuidada para que a sua alma não se sentisse desconsiderada e não se enchesse de raiva. Se ao menos Espírito Sábio tivesse vindo. Se ao menos... Que palavras tolas, cheias de esperança e tão sem sentido.

 

Farrapos de nuvens, cinzento-escuro e branco, continuavam a fustigar os altos picos cobertos de neve das montanhas da Pedra Vermelha para oeste. Passavam baixo por sobre as cabeças e como perseguidos por demónios loucos, deslocando-se a grande velocidade para o extremo afastado das montanhas do Prado de Erva no desigual horizonte a leste. Flocos de neve rodopiavam como minúsculos fantasmas. o vento frio agredia as faces de Cinza Branca e explorava-lhe cada prega do vestuário com dedos de gelo. A artemísia, os ramos como garras procurando dificultar-lhe o andamento, raspava-lhe os mocassins.

 

Os seus pulmões arfavam sob o esforço da subida, mas a morta tinha de ser levada para um lugar elevado para que a alma pudesse erguer-se para o vento e para o Sol, logo que a alma estivesse a pairar, o Pássaro de Fogo encontrava-a e levava-a para o Acampamento da Morte, lá no alto. Os velhos amigos que se tinham finado antes acolheriam Lua Brilhante junto das suas fogueiras. Ela passaria todo o tempo rindo, dizendo graças e contando velhas histórias.

 

Cinza Branca acreditava que assim era. Que estranho era o seu Povo nativo colocar os seus mortos num útero de terra para reporem o que tinham retirado em vida. Para os elementos da tribo do Homem Branco, a ideia tresandava a horror. A alma permaneceria encerrada na escuridão, aprisionada pela terra em redor. Que fé mais desgraçada se podia imaginar do que ter a alma fechada para sempre, incapaz de se mexer, esmagada pela terra negra e pelas pedras?

 

Fungou e limpou o nariz. Qual delas estava correcta? Como é que o Povo da Terra - que vivia num só lugar - podia abandonar os seus mortos por ali no topo das montanhas? Que coisa terrível seria caminhar por aí todos os dias e ver o apodrecimento progressivo e o desmembramento de uma pessoa amada! A tribo do Homem Branco, por outro lado, deixava os seus mortos e seguia. Se regressassem ao mesmo sítio, seria depois dos abutres, coiotes e falcões terem limpo os ossos.

 

Quando Cinza Branca atingiu o cume do monte, o vento apanhou-a em cheio no rosto. A neve feriu-lhe a pele exposta. Curvou as costas, avançando com determinação.

 

- Espero que Lua Brilhante não sinta o frio - grunhiu Gafanhoto.

 

- A alma não sente frio - respondeu Cinza Branca, automaticamente, recordando-se da sensação de deslizamento do Sonho.

 

- E tu sabes isso?

 

Cinza Branca sorriu, a recordação amada no seu espírito.

 

- Sim. Senti-a ir. Senti a passagem da alma dela. É maravilhoso.

 

- Hum-hum.

 

Cinza Branca assustou-se com o cepticismo deles. Bem, agora eles devem ter começado a aceitar que ela era diferente.

 

- Sonhei-o.

 

Não houve resposta. Baixaram o corpo de Lua Brilhante e colocaram-no de modo a ficar de face para o horizonte a oeste e para o pôr do Sol. o vento dava puxões na mortalha de pele de alce colorida e fazia flutuar as tranças da morta num macabro folguedo. Um pó fino de neve - empurrado pelas rajadas implacáveis - começou a acumular-se em redor do corpo.

 

A velha Esquilo Que Voa arquejou ao chegar ao cimo do monte; os seus olhos estavam reduzidos a fendas por causa do vento e a respiração gelada desfazia-se quando exalada. o resto das mulheres e das crianças do acampamento seguiam os passos da velha. Uma a uma, formaram um círculo em redor do corpo de Lua Brilhante.

 

Esquilo Que Voa foi colocar-se à retaguarda do cadáver, erguendo as mãos para os céus carregados. A sua voz gritou, titubeante:

 

- Que os céus e o Sol e as estrelas abençoem esta alma. Lua Brilhante, vai e recorda-te do teu povo que te amou. Obrigado pela felicidade que trouxeste às nossas vidas. Ao contrário dos teus ossos que desaparecerão, tu viverás para sempre na nossa memória. Vai agora. Leva os nossos melhores votos aos nossos antepassados e aos nossos entes queridos que se finaram antes de ti.

 

O vento flagelou as pessoas enlutadas enquanto pedaços de neve crepitavam suavemente através dos calhaus arredondados polidos pelo vento do topo da crista.

 

- Sentiremos a falta do teu sorriso. Sentiremos a falta das tuas piadas amistosas. Tu trouxeste-nos alegria. Vai com a nossa bênção, Lua Brilhante. Vai com as nossas preces.

 

Cinza Branca pestanejou por causa das lágrimas, sem saber se elas corriam devido ao vazio na sua alma ou por causa dos gelados golpes de vento. «Ela morreu. Nunca mais ouvirei a sua voz. Nunca mais sentirei o calor do seu afecto.» Cinza Branca cambaleou com se tivesse perdido o equilíbrio. o vazio expandia-se, procurando envolvê-la, para a sugar com violência. Apenas tinha para se agarrar com firmeza os vestígios duradouros do sonho.

 

Uma a uma, tiritando e batendo os dentes, as outras acrescentaram os seus elogios, exaltando a mulher que Lua Brilhante fora em vida, pedindo à sua alma que as lembrasse aos espíritos assim como elas a recordariam aos seres deste mundo. Finalmente, falara a última.

 

- Desejas acrescentar alguma coisa? - perguntou gentilmente Esquilo Que Voa, colocando uma mão enluvada no ombro de Cinza Branca.

 

- Ela tornou-se minha mãe. Ela amou-me. Vou sentir a sua falta para sempre. Formara-se-lhe um nó nos músculos por debaixo da língua.

 

- Vem então. Fizemos o nosso melhor por ela.

 

Cinza Branca mal sentia a mão de Esquilo Que Voa a afastá-la daquela forma brilhantemente colorida que jazia no chão. Desceu o trilho aos tropeções, mergulhada numa névoa, dificilmente ciente de estar a pisar a artemísia retorcida ou as pedras angulosas amortalhadas em neve.

 

Caminhou penosamente pelo acampamento, apercebendo-se vagamente das cabanas, todas elas debruadas a neve nas costuras e nos sítios onde os telhados vergavam. Os postes de Suporte projectavam-se tristemente dos buracos do fumo com as extremidades enegrecidas pela fuligem hirtas contra o céu cinzento.

 

Esquilo Que Voa mantinha Cinza Branca segura pelo cotovelo, guiando-a para lá da cabana de Espírito Sábio para a que partilhava com Lebre Sibilante. Cinza Branca mergulhou pela aba da porta e sentou-se nas mantas que Esquilo Que Voa lhe indicou.

 

Esfregou as mãos e sacudiu a neve das pregas do casaco. Esquilo Que Voa mantinha a cabana arrumada. Bolsas de couro cru alegremente pintadas alinhavam-se em volta e serviam de encosto às pessoas. Fardos embrulhados em pele tinham sido atados aos postes manchados de fuligem por cima das cabeças. Várias camas enroladas tinham sido guardadas na parte de trás.

 

- Pensei que talvez quisesses falar, que talvez não quisesses estar só.

 

Cinza Branca assentiu com a cabeça, perdida no vazio interior.

 

- Lá no alto da crista tudo se torna real. Que ela se foi deste mundo, quero eu dizer. Que fará Espírito Sábio? Ele amava-a muito. Isto vai matá-lo.

 

Esquilo Que Voa suspirou, atiçando a fogueira central para avivar os carvões. Atirou com algumas cavacas de artemísía e junípero para o lume e curvou-se para o chão para soprar as brasas, a segurar as tranças grisalhas com uma mão.

 

- Bem, ele viverá ou morrerá disto. Não sei. Já vi gente que eu pensava que era feita de pedra ir-se abaixo e desfazer-se quando a pessoa que amavam finalmente morreu. Outros, que eu pensava que mais facilmente se atirariam de um penhasco do que se separariam do finado, desabrocharam como a artemísia e o rainúnculo amarelo na neve. Por agora, não estou preocupada com Espírito Sábio. Esquilo Que Voa fixou-a com olhos preocupados.

 

Cinza Branca limpou o nariz, fixando entorpecidamente a fogueira. Sentia-se à deriva, perdida algures no vazio esmagador que pressionava em Seu redor.

 

- Estou bem. Estive lá. Senti-a ir-se. Recordar-me-ei sempre disso. Talvez... talvez fosse o último presente que ela me deu. Esquilo Que Voa verteu o guisado para uma malga de corno de bisonte.

 

- Eu sempre pensei que tu e Lua Brilhante eram mais chegadas do que se tivesses nascido filha dela. Ela amou-te com todo o seu coração.

 

Cinza Branca sorriu melancolicamente.

 

- Talvez o Poder do espírito nos ligasse.

 

- Tu mantiveste-a viva todos estes anos. Tu sabes isso, não sabes? Tu eras a sua razão de viver. Ela era assim. Tudo o que lhe importava eram as crianças. Quando as dela morreram, bem, foi quando Espírito Sábio teve aquele sonho de espírito. - Uns penetrantes olhos negros sondaram os dela. - Talvez o Poder tenha estado entre vocês todos.

 

Cinza Branca lançou-lhe um olhar rápido.

 

- Fala-me dos Sonhos, rapariga. Diz-me o que acontece. Cinza Branca encolheu um ombro.

 

- Vejo coisas estranhas. Algumas vezes um homem sai de uma floresta em chamas e transforma-se num lobo. Ou são animais que vêm e me falam de segredos, como o que as pessoas realmente pensam quando fazem alguma coisa... dizem alguma coisa. Algumas vezes aparece nos meus sonhos um grande lobo negro e avisa-me.

 

- A respeito de quê? Esquilo Que Voa puxava pelo queixo, dando diferentes padrões às rugas profundas da sua pele acobreada. Observava Cinza Branca através dos olhos franzidos.

 

- Oh, por exemplo, para não comer isto ou aquilo, ou talvez para me dizer que eu devo ir para um lugar elevado e dormir. Habitualmente, os sonhos surgem mais facilmente lá em cima. E uma vez Espírito Sábio teve uma inflamação na garganta e eu sonhei que se usasse chá de cerejeira silvestre a inflamação desapareceria. Dei-lhe o chá e resultou. Depois, no ano passado, estávamos a morrer de fome nas colinas deste lado do rio de Veado Cinzento, lembras-te? Lembras-te de quando Espírito Sábio saiu e matou aqueles antílopes? Eu sonhei com o lugar onde ele devia ir.

 

- Tens tido esses sonhos durante toda a tua vida?

 

- Sim, mesmo quando era pequena.

 

- E que pensava a tua mãe?

 

- Oh, tu conheces a Lua Brilhante. Ela não se importava desde que fizesse o que éra preciso e a ajudasse com o...

 

- Não, eu quero dizer a tua mãe verdadeira, a tua mãe do Povo da Terra. Que pensava ela?

 

Cinza Branca lambeu os lábios, esfregou as mãos nervosamente antes de agarrar no guisado quente e o tragar em pequenos goles.

- Lembro-me de que ela não gostava. A coisa assustava-a. O nome dela era Coruja Feliz e o nome da minha avó era Fogo Verde. Lembro-me de que Fogo Verde costumava falar a respeito de como o seu pai fora embruxado. Ela odiava o Poder, receava que fosse usado contra ela. Penso que ela esperava que isso acontecesse realmente. Sempre que eu tinha um sonho... como ouvir os animais falarem... Coruja Feliz tentava assustar-me. Costumava dizer-me que o Primeiro Homem me puniria se eu não parasse de brincar com o Poder.

 

- Quem é o Primeiro Homem?

 

- o Povo da Terra acredita que depois de o Criador fazer o mundo, fez o Primeiro Homem e a Mãe Terra para ajudar os seres humanos. o Primeiro Homem guiou o povo através do buraco no solo desse mundo e a Mãe Terra ensinou-os a viver boas vidas.

 

- Esse Primeiro Homem soa-me um pouco ao nosso Pássaro de Fogo.

 

- Sim, bastante parecido.

 

- Talvez tenhas vindo até nós por uma razão especial. Porque Pássaro de Fogo sabia que podias aprender a sonhar se vivesses connosco.

 

- Talvez. Recordo-me de que tive um sonho na noite anterior àquela em que Espírito Sábio me roubou. o grande lobo negro apareceu-me, dizendo-me para me ir embora, que um outro povo cuidaria de mim.

 

- Essa Coruja Feliz não tratava de ti?

 

- Oh, tratava. Sabes?, o acampamento teria sido meu um dia. o Povo da Terra faz as coisas daquela maneira. Cada tribo possui um certo território onde as mulheres têm o direito de caçar e apanhar plantas. Cada tribo tem mais terra do que a que precisa, pelo que se... bem, por exemplo, se a erva-do-arroz arder num incêndio no campo, o povo sabe onde ir apanhar pinhões. Ou se a raiz de biscoito não nascer num dado ano, eles sabem onde ir apanhar rizomas de lírio. Se os búfalos não aparecerem, então todos sabem onde ir caçar coelhos.

 

»As mulheres conhecem o território; aprenderam durante toda a vida. Elas tomam as decisões relativas a quem irá, aonde irá e ao que pode apanhar. Apenas os homens casam fora e vão para outras tribos. Eles vão para os territórios das suas mulheres, onde poderão não saber onde encontrar as coisas durante um ano mau. Mas as mulheres velhas sabem. Elas sabem o que os Espíritos gostam e como fazer-lhes oferendas para que as plantas cresçam ou os animais venham. Os Espíritos são todos diferentes e têm de ser tratados da maneira correcta ou ficarão ofendidos e afastam os búfalos e os veados ou fazem que as bagas nasçam pequenas e engelhadas. A mulher velha recorda-se de onde o centeio selvagem gigante se dá em anos de seca e onde se pode cavar em busca de água quando as correntes secam. As nossas almas são parte da terra, estão ligadas a ela. Nascemos dela e regressamos a ela quando morremos.

 

- Enterrados? Parece horrível. - Esquilo Que Voa estremeceu.

 

- Tão bom como espetar uma estaca no teu pé.

 

Cinza Branca franziu as sobrancelhas, pensando.

 

- Não sei. É apenas a maneira de ser deles. Eles não fazem guerra uns aos outros como as tribos do Povo do Sol. Vocês guerreiam-se mais entre vocês do que com os outros.

 

- Isso mantém-nos fortes. - Esquilo Que Voa fez estalar a língua e depois franziu o sobrolho. - Mas... é difícil prová-lo. As tribos dos Pedras Partidas e da Ponta Negra empurraram-nos para sul... e posso garantir-te que esta velha mulher não verá de novo o rio do Percevejo. A tribo dos Pedras Partidas está a ser empurrado pela tribo do Pássaro de Neve, e assim por diante. Algures lá para o norte, algo está a empurrar o povo para o sul. Porquê? Com que finalidade?

 

Os olhos de Esquilo Que Voa humedeceram-se.

 

- Estás espantada, não é verdade, rapariga? o Poder controla o mundo. Por que nos guiou para aqui? Como é possível que estejamos a ser desgastados como um banco de areia durante uma enxurrada?

 

- E que vos trouxe a vossa maneira de ser? o Povo da Terra ainda lá está, forte e saudável. Não fazem a guerra contra o seu próprio povo. Qual das vias é a melhor?

 

Esquilo Que Voa franziu os lábios gastos pelas intempéries sobre as gengivas desdentadas.

 

- O Urso veio das altas montanhas para nos explicar como viver. o Urso fez-nos como somos. Devemos voltar-nos contra o seu Poder?

 

- Bem, como acabei de dizer, entre o Povo da Terra a responsabilidade pelo território pertence às mulheres. De acordo com a lenda, os homens costumavam fazer a guerra contra os que caçassem o búfalo, o veado e o alce em qualquer área. Eles combatiam contra os que colhessem nos territórios de origem ou apanhassem dos pinheiros ou colhessem as sementes. Houve um ano em que estalou a guerra durante a reunião de Verão, onde todas as famílias e tribos comparecem para tocar e cantar e também para apalavrar os casamentos. No ano seguinte, para evitar a repetição do acontecido, foi convocada uma grande assembleia. Durante vários dias, os homens argumentaram a respeito de quem devia determinar os limites territoriais para as tribos. Finalmente, estalou uma grande luta e muitos homens foram mortos, todos eles querendo ser o chefe do Povo.

 

»Entretanto, uma mulher, Pedra Branca Cintilante, teve um sonho e convocou as mulheres. Disse-lhes que fora dormir num lugar elevado, carpindo a morte do marido na luta. Enquanto ela dormia, aparecera um homem de fogo e dissera-lhe como acabar com todos os problemas. Sob a sua chefia, as mulheres estabeleceram as fronteiras. Depois agarraram nas crianças e foram para casa. Os homens olharam em redor, compreendendo que as suas esposas tinham partido. Apenas Pedra Branca Cintilante permaneceu e falou aos curandeiros a respeito do sonho e de como o Primeiro Homem lhe aparecera com a solução para acabar com a guerra. Ela disse-lhes que, se eles lutassem, inevitavelmente se matariam uns aos outros até morrer o último homem. Entretanto, os outros podiam regressar ao lar e às suas esposas e ter mais filhos e caçar como sempre tinham feito. A maior parte dos homems fez isto e o Povo viveu feliz desde aí.

 

- Mas a nossa forma de viver faz-nos fortes!

 

- E a maneira de viver do Povo da Terra fá-los fortes.

 

- Bah! Esquilo Que Voa agitou as mãos manchadas pela idade.

 

- Vivem de raízes e de ervas e os seus homens são mandados pelas mulheres. Quando os enfrentarmos, murcharão como folhas de Verão numa geada!

 

- Como o Povo do Lobo a leste daqui? Eles mataram as tribos do Sol da maneira mais brutal que puderam... como uma lição para nós sobre a sua força. Ou como a tribo dos Caçadores de Carneiros que vive lá em cima nas montanhas Vermelhas?

 

Esquilo Que Voa olhou-a com um olhar irritado e feroz.

 

- Pensas que o teu Povo da Terra se aguentará frente a guerreiros como Homem Valente? Não matou ele à mão quatro dos guerreiros do Povo do Lobo durante a última incursão?

 

- E não mataram eles quarenta deste acampamento... e roubaram toda a carne?

 

Cinza Branca sacudiu a cabeça, comprimindo as têmporas com as mãos delicadas.

 

- Que estamos nós a fazer? Isto é um argumento sem qualquer sentido. Não interessa. A guerra seria terrível para todos. Muita gente morreria e ninguém venceria.

 

- O Povo do Sol venceria.

 

- Oh?

 

Esquilo Que Voa assentiu com a cabeça.

 

- Aquilo que tens de recordar é que há muito tempo que combatemos entre nós. Talvez a tribo do Homem Branco esteja desgastada como os dentes de uma velha, mas atrás de nós vem o resto. Nem mesmo eu sei os nomes das tribos lá de cima, mas todos eles estão a deslocar-se para sul. Por isso, que importa que o teu Povo da Terra mate a tribo do Homem Branco até ao último? Depois terão de matar as tribos dos Pedras Partidas ou da Ponta Negra e depois o do Pássaro de Neve e da Flauta Rouca e das Vespas. E por aí fora.

 

- E todos eles estão a deslocar-se para sul? Cinza Branca franziu o sobrolho para a fogueira com raiva.

 

- Sim, estão a deslocar-se para o sul. Há gerações que estamos a fazer isso. Não sei de onde vimos todos. De algures lá para o norte. Mas as tribos continuam a deslocar-se em direcção ao sul.

 

- E o Povo da Terra está correcto no seu modo de ser.

 

O pensamento irritou-a. Porquê? Que lhe importava que o seu antigo povo fosse varrido pela migração do Povo do Sol?

 

Todavia, o seu estômago revolveu-se-lhe face ao pensamento das cabanas vazias e dos cadáveres que deveriam encher os trilhos.

 

Barriga Falsa esperou acanhadamente depois de se ter sentado no lado oposto ao da avó. A luz da fogueira tremeluzia nas feições de Garra de Cotovia, marcadas pelo tempo, e iluminava as linhas paralelas dos postes do travejamento atrás da cabeça dela. A luz amarela dançava nas peles macias que a envolviam, estilhaçando as sombras dos fardos que pendiam suspensos do tecto enegrecido pelo fumo. o ar abafava-o, quente, bafiento e pesado com os odores próprios da cabana de uma mulher velha. A alma de Barriga Falsa sentia-se apertada.

 

«Ela faz-me sentir sempre como se tivesse de justificar a minha existência. Estou aqui, é tudo. Não pedi para nascer no acampamento dela. Aconteceu, nada mais. Por isso, por que razão tenho de sentir-me sempre como se a culpa fosse minha?»

 

Mão Negra sentou-se a um lado, compactando cuidadosamente a casca de salgueiro no seu cachimbo de pedra de esteatite antes de o acender com um graveto.

 

Garra de Cotovia sorriu a Barriga Falsa com os olhos de velha semícerrados.

 

- Quero que me faças uma coisa. Fá-la-ás, não é verdade? Barriga Falsa mexeu-se, incomodado com o calor e com o olhar cintilante dela e com o brilho da grande fogueira. Apesar da chama, a cabana parecia mais escura do que habitualmente.

 

Precisamente porque ela sabia que ele a faria, respondeu:

 

- Evidentemente, avó. - «Ela podia ser a Aranha inteligente que enreda as teias em redor das nossas vidas... e eu não sou mais do que um percevejo na sua rede.»

 

- Preciso que vás até Três Confluências. Quero que perguntes a Fogo Verde se ela necessita de alguma coisa de mim para a próxima reunião. Quero que verifiques o trilho e decidas onde devemos acampar no trajecto. Lembra-te da minha idade quando escolheres os locais para acampar. Já não consigo andar mais depressa do que um antílope.

 

- Compreendo.

 

Passou com um dedo ossudo ao longo do bordo de um balaio de palha entrançada.

 

- Enquanto lá estiveres, escuta as histórias. Vê se alguém diz alguma coisa a respeito de bruxaria. Há falatório nos acampamentos. Não quero ir meter-me no meio de uma disputa; temos coisas demasiado importantes para fazer este ano. Erva Amarga tem de se casar em breve. Se o povo vai estar preocupado com outras coisas, quero sabê-lo com antecedência.

 

- Bruxaria?

 

Não conseguiu evitá-lo e olhou para Mão Negra, que começava a fumar o seu cachimbo com uma expressão neutra. Gavinhas de fumo azul elevaram-se da extremidade do cachimbo de pedra cinzenta para deslizarem para o buraco do fumo. Olhou demasiado descontraído. As acusações de Trufa invadiam a memória de Barriga Falsa.

 

«É verdade! E Fogo Ardente morrera quando Mão Negra cantava uma cura. Devia haver mais rumores, mais acusações.»

 

- E se ninguém falar disso?

 

Garra de Cotovia gesticulou abstractamente.

 

- Eles conhecem-te, Barriga Falsa. Tu gostas de ouvir as pessoas. Se as pessoas estiverem preocupadas com isto, falarão.

 

A voz dela endureceu como quem dá uma ordem directa.

 

- Nós não temos preocupações relativamente a bruxaria em Pedra Redonda. Não precisas de especular enquanto lá estiveres. Escuta apenas. É tudo.

 

Barriga Falsa assentiu com a cabeça e resistiu à tentação de olhar para Mão Negra.

 

- Quando queres que eu parta?

 

- Amanhã. Parece que o tempo está a limpar. Sê apenas tu mesmo. Deixa o povo falar contigo. Sempre pensei que Fogo Verde gostava de ti. Sei que o marido de Coruja Feliz... Faz Pipas de seu nome... gosta de ti. Ouvirás bastante do que se está a passar. Quero saber tudo que possa trazer problemas.

 

Tornou a concordar com um sinal de cabeça e um aperto no peito. Tinha de ser um espião perfeito. «Criador, ajuda-o se ele cometer algum erro.»

 

- Bem, então temos apenas uma coisa para esclarecer.

 

A forma como os olhos dela pestanejaram - uma coisa nervosa que sempre o distraía - aumentou-lhe o constrangimento. Barriga Falsa aguardou. Ele conhecia aquele olhar, sabia como a mente dela trabalhava. Finalmente, não o aguentou mais - como ela soubera que ele não aguentaria.

 

- E que mais?

 

Garra de Cotovia mexeu os lábios finos, chupando-os para dentro e para fora sobre as gengivas.

 

- Tu falaste com Fogo Ardente antes de ele morrer. Erva Amarga disse que havia qualquer coisa a respeito de uma promessa. Ela diz que não lhe quiseste dizer o que era.

 

Barriga Falsa inspirou profundamente, - Era uma coisa entre nós os dois.

 

Garra de Cotovia não disse nada, os olhos negros implacáveis e exigentes.

 

- Apenas uma coisa entre amigos... só isso.

 

Sabia que soava a falso. Ela esperava, imóvel, com os olhos duros penetrantes, insistentes. A forma da boca dela traía uma cólera crescente.

 

«Raios a partam!» Sentara-se ali e dominava-o com aqueles olhos rancorosos. Barriga Falsa começou a ficar com pele de galinha e a suar - como se aquele olhar de obsidiana o pudesse queimar. A tensão aumentava, podia senti-la praticamente a estalar no ar.

 

«Não posso falar. Não posso. Prometi a Fogo Ardente. Ela voltar-se-á contra mim... contra todos. Será como uma alavanca, exactamente como um pau de cavar usado para levantar uma rocha do chão. Ela usará isto contra a memória de Fogo Ardente... e contra Erva Amarga... e Trufa e Lupina.»

 

O silêncio prolongava-se.

 

Barriga Falsa limpou a testa, o seu olhar pasmado fixava a fogueira para evitar a fúria cortante que ele sabia que vinha dos olhos da velha.

 

- Barriga Falsa? - disse ela em tom cuidadoso, baixo, ameaçador.

 

Ele engoliu em seco, a garganta apertada.

 

- Foi... entre nós. Só isso.

 

Ela suspirou como se estivesse debaixo de um fardo pesado.

- Tudo o que acontece neste acampamento me preocupa. Tu és minha preocupação. Fogo Ardente estava a morrer, a sua alma estava a desprender-se do corpo. Não posso permitir que qualquer coisa estúpida que ele possa ter dito provoque problemas entre nós. A boca de Barriga Falsa secou.

 

- Foi só entre nós dois.

 

Ela tamborilou no joelho com os dedos em garra.

 

- Gostaria de não ser forçada a castigar-te. Fazê-lo não seria bom para a tribo. Não agora, não tão próximo da morte de Fogo Ardente.

 

As faces tremeram-lhe, os músculos agitaram-se-lhe e retesaram-se-lhe. Das tripas subiu-lhe uma sensação de náusea.

 

- Pergunto-me, Barriga Falsa, alguma vez pensas nos outros? Se for forçada a adoptar medidas drásticas, como pensas tu que isso afectará as crianças? Não te preocupas com Lupina? Trufa?

 

- Sim.

 

A voz saiu-lhe desfeita.

 

- Então talvez devas mostrar alguma responsabilidade para com as pessoas, ao menos uma vez. Fogo Ardente está morto. As coisas já não são entre vocês os dois. Agora és só tu. És tu sozinho. Que era essa promessa?

 

Fogo Ardente nunca se deixaria cilindrar pela velha. Nunca se teria sentado ali a suar o seu medo como uma lebre acossada. «Por que razão não consigo ser como ele?»

 

- Avó, é uma coisa da alma. Uma promessa. Só isso. Simplesmente, não lhe posso dizer. Prometi.

 

Os olhos dela estreitaram-se, o olhar fuliginoso prometendo retribuição.

 

- Só te pergunto uma vez mais.

 

Pôs os olhos no chão, um formigueiro na pele por causa do que poderia resultar disto.

 

- Foi entre mim e Fogo Ardente. Ela bufou a sua irritação.

 

- Rua. Encontrarei alguém para enviar a Três Confluências. Entretanto, pensa a teu respeito, Barriga Falsa. Pensa a respeito do povo daqui que te alimenta e aquece. Pensa a respeito do que deves à tribo. Pensa a respeito de responsabilidade.

 

Ele ergueu-se irresolutamente, incapaz de a olhar nos olhos. Sem olhar para trás, mergulhou através da aba da porta e saiu para o mundo exterior, para a liberdade e para o espaço. o seu coração em pânico batia desvairadamente contra as costelas.

 

Encontrou Confusão deitado no seu posto habitual, a cauda a abanar, ansioso por que lhe coçassem as orelhas. Barriga Falsa fez sinal ao cão, afastando-se para os juníperos atrás do acampamento. Ali, ao abrigo das árvores, puxou Confusão para junto de si, enterrando a face na pele espessa e quente.

 

Pés de Vento ofegava e corria. A geada acumulara-se em torno do forro do capuz de pele de raposa. Continuou o seu caminho, com as pernas a tremer e a vacilar, ziguezagueando ao longo da espinha pedregosa da crista que se dirigia para norte. Dois dias antes, ao anoitecer, dera pelos perseguidores pela primeira vez. E despistara-os durante a noite - esperava. Agora aparecera outro grupo, mais pequeno que o primeiro, para lhe seguir a pista. Tinham os caçadores cortado este trilho da mesma maneira que fizeram ao primeiro? Um seguidor de pistas habilidoso podia ter retrocedido pelo rasto, descoberto onde ele circundara e escapara.

 

Em seu redor, a terra esperava silenciosamente pela chegada desta raça implacável. Saliências rochosas projectavam-se através da neve endurecida como espectadores sombrios. A luz do Sol iluminou os montes de neve acumulados pelo vento com raios ofuscantes. Aqui e ali, a artemísia despontava. As espigas abanavam descuidadamente ao vento como uma recordação da última queda generosa de sementes. À distância, as cristas cobertas de arenito amarelo-claro erguiam-se uma atrás da outra em linhas sinuosas - obstáculos desafiadores através dos quais tinha de fazer o seu caminho. Para além, as montanhas perfilavam-se firmes como muralhas contra o céu, encostas cobertas de remendos de neve verde-azulada e amarelo-acetinado. Por cima da cabeça, o céu estirava-se numa infinita abóbada azul, desfigurada aqui e ali por nuvens penugentas.

 

Pés de Vento caminhava aos ziguezagues, passando pelos montes de neve endurecida e ferindo as solas dos pés nas pedras angulosas agora presas no solo bloqueado pelo gelo. Arespiração estrangulada na garganta arfava-lhe nos pulmões a arder. Todos os músculos do corpo lhe doíam. o suor inundava-lhe a pele e ensopava-lhe os espessos agasalhos que vestia.

 

Tivera sorte e vira-os quase imediatamente: sete homens a correr ao longo do seu trilho. Sete homens desconhecidos transportando dardos que brilhavam à luz do sol. Era mais provável que fossem do Povo do Lobo das montanhas do Prado de Ervas. Talvez fossem de outros. Toda a gente do mundo, fora da minguante tribo do Homem Branco, tinha de ser considerada inimiga. A última coisa que ele queria fazer era guiar os guerreiros para o seu acampamento vulnerável. As mulheres da tribo do Homem Branco podiam defender-se a si mesmas e, provavelmente, expulsariam os guerreiros, mas alguns morreriam, talvez muitos.

 

Não, era muito melhor levar os seus perseguidores a extraviarem-se e a perderem-se.

 

Ninguém conseguia correr com o poder e a energia de Pés de Vento. Mudara lentamente de direcção, ultrapassando o acampamento por um bom meio-dia de marcha para leste. Durante um segundo dia completo, correra para o norte seguindo os topos das cristas livres de neve e onde fazia bom tempo. Agora parava periodicamente e olhava para trás a partir dos pontos altos para os ver seguirem-lhe o rasto; como lobos humanos, trotavam em fila muito para detrás dele.

 

Pés de Vento estava a jogar um jogo perigoso, esse de perder os seus perseguidores, mas vários factores trabalhavam a seu favor: os seus inimigos - fossem eles do Povo do Sol ou do Povo do Lobo deviam saber que, se um acampamento do Povo do Homem Branco estava estabelecido aqui perto, um homem sozinho podia sempre ser reforçado. Os seus perseguidores teriam de se deslocar cautelosamente para que não caíssem numa emboscada. Deslocando-se com cuidado, Pés de Vento deslizou por entre a artemísía, procurando tanto quanto possível disfarçar a pista. Tudo o que os atrasasse, que lhe permitisse ganhar tempo, o ajudava.

 

Saltava de um pequeno maciço de saJva para outro enquanto trepava a encosta da crista virada ao vento. Atingido o cume, olhou em redor. Estava no extremo sul de uma vastidão de arenito fendido limpa pelo vento que se estendia tão longe para norte quanto a vista conseguia alcançar. Os campos de neve estendiam-se em todas as outras direcções - um vasto plaino descoberto. Na orla da crista baixa, onde a rocha desgastada pelo vento se afundava na neve, estendia-se para sul uma vastidão uniforme deneve fortemente endurecida. Um solitário tufo de artemísía emergia da neve como um dardo lançado da orla do arenito.

 

o seu coração batia ruidosamente. Excelente.

 

Desceu cautelosamente para a extremidade do arenito pedregoso e inspeccionou a pista à sua retaguarda, Quanto tempo teria antes de os perseguidores se recortarem na linha do horizonte?

 

Experimentou a crosta onde a neve forrava a superfície irregular da encosta. Não aguentaria o peso de um homem.

 

Engolindo com dificuldade, Pés de Vento deitou-se e embrulhou o atlatl e os dardos no casaco. Começou a rebolar com cuidado para não fazer marcas com os cotovelos e com os joelhos, usando todo o comprimento do corpo para distribuir o peso sobre a neve endurecida, Teria tempo? E se quebrasse a superfície?

 

«Então sou um homem morto.»

 

A mancha de artemísia que vira parecia estar infinitamente afastada; e se os caçadores atravessassem a crista e o vissem aqui a descoberto na neve lisa? Era melhor confiar no Poder e esperar do que pensar em alternativas.

 

As vertigens apoderavam-se dele enquanto continuava a progredir e a rebolar, Pestanejou, tentando manter-se a direito. «Cuidado! Não abras os cotovelos ou deixarás marca.» Debaixo dele, a neve gemia com o peso. E se uma artemísia enterrada tivesse criado um oco por debaixo da crusta?

 

«Por que é que não rebolo, simplesmente? Por que é que não procuro um lugar melhor? Isto é loucura!»

 

Esforçou-se por expulsar o pensamento do seu espírito, ignorando o suor de medo que lhe escorria pelo corpo. A que distância estava? Quanto faltava? o mundo rodopiava loucamente enquanto o horizonte se erguia e baixava, se erguia e baixava, enquanto rebolava.

 

Tão perto! Serpenteou em redor da artemísia solitária, assustando um coelho no seu esconderijo no tufo protegido a sotavento. o animal disparou, graciosamente, pisando de leve e detendo-se, apoiando-se nas patas traseiras para o observar.

 

Encheu um buraco com neve, enrolando-se como uma bola atrás da artemísia, tentando vencer a vertigem. Reduzindo ao mínimo os movimentos, puxou do atlatl e dos dardos de dentro do casaco, estremecendo perante os estragos produzidos nas penas daqueles dardos compridos e belos.

 

Olhou para trás através dos plainos de neve vidrada e gelou: sete formas oscilantes estavam a atravessar a crista ao longe.

 

o coração pulava-lhe de encontro ao esterno. Pés-de Vento engoliu em seco. Passo a passo, os guerreiros tinham seguido o seu rasto, seguindo-o desde onde saltara de artemísia em artemísia até alcançarem a crista pedregosa e nua.

 

Pés de Vento pestanejou com rapidez, odiando a tremura dos músculos exaustos. Com toda a sua concentração, limpou o espiríto, forçando-se a não pensar em nada, atento aos movimentos dos seus perseguidores pelo canto dos olhos.

 

Conseguia ouvi-los chamarem-se uns aos outros. Ninguém entre o Povo do Sol falava tal língua... e conseguia ver que eles usavam o vestuário pesadamente guarnecido do Povo do Lobo.

 

«Quieto! Não penses. Nem uma palavra.» Cerrou os dentes, procurando acalmar os pulmões pesados. Conseguiriam os seus perseguidores ver a suarespiração gelada àquela distância? Talvez.

 

Não respires. Não penses. Não te mexas. Tu és como a neve... sem pensamentos, fria, silenciosa.»

 

Um dos caçadores desceu do arenito careca para o sopé da crista e olhou para a neve em direcção à artemísia que dissimulava Pés de Vento. o homem levantou a mão para proteger os olhos do brilho branco.

 

Pés de Vento sentiu aqueles olhos penetrantes através dos ramos da artemísia queimados pelo vento. Lutando por aguentar a respiração, de olhos firmes nosjoelhos listrados de neve, aguardou.

 

Sentia, mais do que via, o homem voltar-se para fixar o olhar na encosta. o coelho aproveitou aquele momento para disparar através da neve compactada.

 

Mão Esquerda, o mercador, assobiava enquanto caminhava, meditando sobre os sonhos que o tinham deixado nervoso e preocupado. Olhou para cima, para o céu sem fim do meio-dia e semicerrou os olhos. «É como se o Poder estivesse a apressar-me.»

 

Estava a seguir o topo de uma crista, como todas as pessoas sensatas faziam nesta altura do ano. A neve derretera-se ao calor dos raios do Sol, deixando os cimos das cristas limpos. A simples ideia de viajar pelo fundo dos vales azedava-lhe o espírito. Com os dias quentes, a neve fundida deixava charcos de água que ensopava o melhor couro de mocassin curtido pelo fumo. Os mocassins empapados ficavam mais pesados e magoavam mesmo os pés calosos de um mercador. Pior do que isso, a lama pegajosa transformava cada passo num tormento. Caminhar numa superficie tão viscosa não se podia considerar se não uma coisa incerta, e uma escorregadela significava um trambolhão na lama - e, indubitavelmente, em cima de algum cacto que pudesse estar por ali. As encostas abaixo das cristas permaneciam mergulhadas em neve húmida. Uma caminhada em tais circunstâncias não só esgotava as energias de uma pessoa como saturava os safões e gelava o vestuário teso depois do pôr do Sol.

 

Mão Esquerda deteve-se por um momento. A matilha de cães parou imediatamente atrás dele, gozando o descanso enquanto arquejavam com os fardos oscilando sobre o dorso.

 

Segurava o bastão de mercador com firmeza na mão esquerda calosa, com as penas pendentes do topo em forma de argola balançando à brisa.

 

Atravessara o água Fria naquela manhã e agora seguia-lhe a corrente para leste. o acampamento da Pedra Redonda do Povo da Terra estava algures à sua frente. Levantou uma mão contra o Sol e examinou o terreno. Segundo se lembrava, o acampamento devia ficar ao virar do próximo afloramento granítico desgastado pelo tempo, enfiado numa angra que, no Inverno, os raios solares aqueciam, evitando também o embate do vento de oeste.

 

Mão Esquerda transportava um pesado fardo de peles de búfalo suspenso de uma correia passada pela testa; vestia uma jaqueta enfeitada de contas de osso e compridos safões dos quais a maior parte das franjas tinham sido cortadas para vários arranjos na trouxa e nos arneses dos cães. Os infindáveis dias de sol tinham-lhe dado ao rosto coberto de suor a cor da madeira de cerejeira silvestre. Um nariz de falcão sobressaía das faces largas. A pele mostrava as rugas da gargalhada e dos esgares forçados pelo mau tempo. Uma espessa pele de urso com pêlo pendia-lhe dos ombros para o aquecer nos dias frios. Conservava o cabelo comprido puxado para trás numa trança solitária e trazia um gorro de pele de castor.

 

Atrás dele, os cães esperavam em fila indiana, olhos alegres postos nele e as línguas rosadas contorcidas com a respiração apressada. As pessoas falavam com admiração dos cães de carga de Mão Esquerda. Comprara os melhores - animais fortes e grandes, capazes de carregarem cargas pesadas. Eram de cores variegadas, malhados de branco, castanho e negro. As cargas volumosas amarradas ao dorso dos cães transportavam os proveitos da sua viagem de troca às terras da bacia para sudoeste. Lá, os Invernos eram consideravelmente mais suaves.

 

o Povo dos Traficantes de Sal, que vivia para sudoeste, trocava todo o tipo de coisas em falta com o Povo do Lobo. Para alguma coisa tinham eles sal - grandes blocos que arrancavam do fundo da bacia junto ao enorme lago salgado. Tinham pastéis de erva-armoles, éfedra para chá, bonecas de fio entrançado feito com folhas de iuca, peixe seco e aves aquáticas que não se podiam apanhar nas terras altas durante os meses de Verão. o melhor de todos, o Povo do Antílope, lá mais para o sul, tinha vários tipos de pão feito com as doces e carnudas sementes aladas de pinheiro que apanhavam na queda. Também faziam um pão de chimisa que tinha uma textura leve e fofa. Aquilo trocava-se muito bem com o Povo do Lobo.

 

A Lua estava cheia quando começou a sua viagem de regresso ao lar. Desde então,já vira passar mais duas luas cheias. A viagem fora longa, com várias paragens para caçar carne para os cães. Cada paragem disparava-lhe aquela sensação incómoda, como se as paragens o colocassem em perigo.

 

«Talvez esteja apenas afastado de casa há demasiado tempo.» Esta ideia rodou-lhe na cabeça.

 

Arbustos que se dão em solos salinos, (N, do T.)

 

À sua frente, não muito distante, estava um dos acampamentos do Povo da Terra. A perspectiva de uma noite em Pedra Redonda significava que tería gente com quem conversar - e talvez lhe dissessem alguma coisa que explicasse o desassossego que se apoderara dele enquanto avançava para norte. o Povo da Terra falava uma língua semelhante à sua, mas comiam as palavras, o que fazia que o discurso soasse um pouco estranho ao ouvido. Pelo menos não teria de utilizar a linguagem gestual comum a todos os mercadores. Podia ouvir as histórias, rir com as piadas e passar uma noite agradável contando as notícias dos povos da bacia. No acampamento da tribo da Pedra Redonda, eles alimentá-lo-iam e aos seus cães e talvez negociassem alguma coisa especial.

 

Podia ter visitado vários outros acampamentos, mas nenhum outro ficava em linha recta com a montanha - e os sonhos tinham-no guiado no seu caminho. Não apenas isso, mas quando um mercador aparecia esperava-se que comerciasse. Se um homem o fizesse em demasia, regressaria a casa sem nada de especial para o seu próprio povo. uma coisa aqui, outra acolá, e dentro em breve os seus fardos estariam cheios de carne de búfalo, de alce, de antílope, raiz de biscoito, quenopódio - tudo coisas naturalmente disponíveis. Alguns mercadores comprometiam-se em transacções arriscadas, evidentemente, simplesmente pelo prazer de verem povos diferentes, e não se preocupavam com o que traziam para casa. o Poder do mercador aparecia sob as mais diferentes formas. o próprio acto de mercanciar possuía em si mesmo um Poder. E os que eram chamados a mercanciar passavam por onde desejassem, protegidos pelo Poder simbolizado pelo bastão e pelo serviço que prestavam.

 

Assobiou aos cães e pôs-se de novo em marcha. Desceu um esporão da crista e rodeou as encostas onde a neve derretia em arroios e corria pelas linhas de água que conduziam ao rio Água Fria. Para evitar a lama escorregadia dos leitos, ele seguia a orla das colinas de granito que se erguiam abruptamente da planície. o Sol flutuava lá bem no alto, no céu limpo, enquanto ele caminhava e assobiava. o bastão desafiava a brisa brincalhona e as penas flutuavam alegremente. Para a sua esquerda, o granito brilhava e faiscava com uma desmaiada cor vermelha, que ruborizava o cinzento da rocha desgastada pelas intempéries.

 

Percorrera já mais de metade da distância em direcção ao acampamento da Pedra Redonda quando viu o homem a arrancar a artemísia. o companheiro parecia esforçar-se desastradamente; um monte considerável de salva desenraizada estava já pronta para ser carregada.

 

«Ho-yeh!», gritou Mão Esquerda.

 

O homem rodou e olhou espantado. «Ho-yeh!», foi a resposta.

 

Mão Esquerda mudou a sua rota. Ah! Então era isso. o braço direito do homem parecia sem serventia. Trabalhava apenas com o braço esquerdo. Não era de admirar que parecesse desequilibrado. Como é que o estropiado esperava levar aquele enorme fardo para o acampamento?

 

- Bem-vindo, mercador. Sou Barriga Falsa... da tribo da Pedra Redonda.

 

Barriga Falsa voltou-se e ordenou a um cão preto e branco que saía das artemísias para se deitar. o animal obedeceu imediatamente. Mão Esquerda ficou surpreendido pelo afecto evidente na voz do homem. A maior parte das pessoas socava os seus animais, gritando-lhes e ameaçando-os.

 

- Eu sou Mão Esquerda, mercador do Povo do Lobo.

 

Mão Esquerda encolheu os ombros por debaixo do pesado fardo de pele de búfalo e examinou o estropiado da cabeça aos pés. Barriga Falsa era um pouco mais baixo que amédia;os seus traços fisionómicos eram suaves, vulgares. Usava o cabelo preso em duas tranças e o vestuário parecia um tanto encardido. o odor forte da salva pairava em seu redor como uma manta. Delicados olhos castanhos, turvados por uma profunda tristeza, encontraram o olhar fixo de Mão Esquerda. A alma do homem chorava? Aqueles olhos tocaram-no, falaram a algo de profundo no coração de Mão Esquerda.

 

- Lenha para a fogueira? - perguntou o mercador, ainda atraído pelos olhos perturbados.

 

Barriga Falsa acenou com a cabeça.

 

- Sim.

 

Mão Esquerda examinou o molho.

 

- Uma grande quantidade delienha. Foi o meu Poder que me trouxe ao lugar certo na altura certa? Talvez uma festa? Alguma ocasião especial? - Esperava que assim fosse, esperava que a tragédia nos olhos de Barriga Falsa não traísse doença ou fome.

 

Barriga Falsa abanou a cabeça.

 

- Não, não é uma festa. Estou apenas a cumprir a obrigação.

 

- Pensava que esse tipo de trabalho fosse para as mulheres e para as crianças. Arrependeu-se mal acabou de proferir estas palavras.

 

Barriga Falsa olhou para longe com ar magoado.

 

- Tenho de fazer a minha parte, só isso.

 

Mão Esquerda censurou-se. Tropeçara e caíra na primeira regra do comércio: nunca ofender. Rápido a emendar a mão, ofereceu-se:

 

- Posso ajudá-lo. Parece-me que veio aqui várias vezes. Não estamos longe do acampamento de Garra de Cotovia, pois não?

 

- Ao virar das pedras, ali. - Barriga Falsa agitou o seu braço são.

 

- Não é longe. - Mão Esquerda fez sinal aos cães para se deitarem. Tinham começado a avançar, desvairados por farejarem este novo estranho homem e o seu cão. - Nós os dois fazemos isto num instante.

 

Barriga Falsa enrugou os lábios e franziu as sobrancelhas.

 

- Poderá não ser uma boa ideia.

 

- Por que não?

 

Barriga Falsa encolheu os ombros com embaraço.

 

Mão Esquerda passou por cima de um pedregulho e sentou-se onde pudesse gozar o sol.

 

- Bem, pelo menos, conta-me as novidades. Estive lá para baixo, no país do mercador de sal e para além, entre o Povo do Antílope. Que aconteceu por aqui? Alguma novidade sobre o Povo do Lobo?

 

Barriga Falsa sorriu - o efeito do brilho do sol depois da chuva. Algum espírito especial iluminou os seus traços, tornando os ângulos rasos do seu rosto singelo felizes e serenos.

 

- Oh, muitas novidades. Rabo de Gato foi até Três Confluências para se informar a respeito da reunião. Bem, talvez isso não seja importante para ti. Mas deixa ver. Oh, sim, circulam rumores de que o Povo do Sol se deslocou para a bacia do Veado Cinzento a norte das montanhas Atravessadas e que o teu Povo do Lobo os atacou um par de vezes. Outros rumores dizem que mais tribos do Povo do Sol se estão a mover para sul. Alguns falam de guerra, outros falam de se encontrarem com o Povo do Sol para verem se eles regressam ao norte.

 

Mão Esquerda deu uma pancada no queixo.

 

- Encontrarem-se com eles não os enviará de regresso ao norte.

 

- Oh!?

 

- Negociei lá por cima há um par de anos. Regressei com um dos seus mercadores, de facto, e mostrei-lhe o trilho para as terras do Povo do Barco, lá muito para oeste. - Mão Esquerda abanou a cabeça. - Eles não regressarão apenas porque alguém lhes pede para o fazerem. Eles lutam mais entre si do que com os outros povos. Não sei. Eles são estranhos.

 

Barriga Falsa assentiu com a cabeça, um ar aflito no rosto.

 

- Eles ainda não estão aqui. Pareces preocupado - disse Mão Esquerda.

 

- Apenas a pensar no lobo. Saltou-me ao espírito, só isso.

 

- Que lobo?

 

- Um negro e grande que me observa. Apareceu agora e nessa altura. - Os olhos de Barriga Falsa tornaram-se vazios.

 

- Queres falar-me desse lobo?

 

Barriga Falsa olhou em volta constrangidamente. Mão Esquerda fez uma boa tentativa.

 

- Sabes?, entre o meu povo, o lobo é um animal do espírito. Especialmente o lobo negro. E o mensageiro do Sonhador do Lobo, a quem vocês chamam Primeiro Homem. Lembras-te de quando vocês roubaram o Feixe Sagrado? Aquilo é o nosso Poder, a alma do. nosso Povo, o qual nos fora dado pelo Sonhador do Lobo. Diz-me, acreditarei em ti. Se fosse o lobo, o Auxiliar do Espírito, talvez fosse um sinal para ti. Nós tomamos o Poder muito a sério. E também os sonhos.

 

- Sonhos?

 

o rosto de Barriga Falsa tornou-se um caso de emoções em conflito.

 

- E os sonhadores?

 

Mão Esquerda assentiu com a cabeça, ponderadamente.

 

- Especialmente os sonhadores. Qual é o problema? Tens tido sonhos?

 

Barriga Falsa arrastou os pés.

 

- Não são sonhos. Nada disso. Não como os do Poder. Mão Esquerda inclinou-se para trás e levantou a cabeça.

 

- Sou apenas um mercador, não te esqueças, mas conheço bastante bem as pessoas. Assim sendo, tenho um pressentimento a teu respeito. Estás metido num problema qualquer? Há alguma coisa sobre Pedra Redonda que eu deva saber? Tal como, talvez, não passar aqui a noite?

 

- Não, não. - Barriga Falsa lançou um olhar nervoso em direcção ao acampamento. - Não há problema nenhum. É apenas comigo. Eu... - o rosto ruborizou-se-lhe. Respirou profundamente, agachando-se para se sentar numa pedra no lado oposto ao de Mão Esquerda. Apontou para o braço estropiado. - Não sou de grande serventia para eles. É só isso.

 

- Tu estás em dificuldade. Hum. Não pareces exactamente o tipo.

 

- Como assim?

 

o apelo sincero despertou alguma coisa na alma de Mão Esquerda. o homem parecia tão inocente, tão gentil. Todos deviam gostar dele.

 

- Bem... - Mão Esquerda passou os dedos pelo queixo, examinando Barriga Falsa. - Tu não és muito astuto. Geralmente, as pessoas que são astutas arranjam problemas. Tentam armar confusões. Sabes?, tirar vantagem. Tu és demasiado honesto, a tua alma brilha através dos teus olhos. É isso. Tu preocupas-te demasiado.

 

Depois de um silêncio desconfortável, Barriga Falsa bateu com a mão sã no joelho, agitando a cabeça como para afastar um súbito pesar.

 

- Suponho que não vivo de acordo com o que Garra de Cotovi a pensa que eu devia ser. Talvez, como disseste, eu não seja astuto. De facto, não me preocupo em tirar vantagem e em tentar fazer que as pessoas façam o que não querem.

 

- Bem, que queres fazer?

 

Barriga Falsa gesticulou em redor.

 

- Olhar para este mundo que nos rodeia. Há tantas coisas para ver. Coisas que nos fazem pensar. Como... o sol.

 

- O Sol?

 

Mão Esquerda olhou para cima, para o globo ofuscante.

 

- O Sol. - Barriga Falsa sorriu, absorvido com alguma coisa na cabeça. - Pensa. Podes sentir o calor do Sol. Dá luz, como o fogo.

 

- Hum-Hum. E depois?

 

- Depois, que o faz arder? Lenha? Não há fumo. Já alguma vez viste um fogo que não deite fumo? Até mesmo a madeira mais seca deita fumo. E não apenas isso, mas tu nunca cheiraste o fumo. Mesmo que o fumo fosse invisível, ainda assim o cheirarias, não é assim? Tu consegues cheirar muitas coisas invisíveis.

 

Mão Esquerda baixou os olhos para o rosto pensativo de Barriga Falsa. o homem parecia radiante.

 

- Suponho que nunca antes pensei a propósito disso.

 

- A maior parte das pessoas não pensa nisso. E há outra coisa. o Sol põe-se a ocidente, certo? Isso significa que ele tem de dar a volta ao mundo para aparecer a leste. Sendo assim, por que é que o solo não aquece durante a noite? o Sol deve estar por debaixo dos nossos pés. Talvez num túnel algures... como um túnel de citelo.

 

- Se, de facto, ele for para debaixo do chão.

 

- Então, se ele não vai para debaixo do chão, para onde vai?

 

- Talvez um Sol morra e outro nasça.

 

Barriga Falsa fez um sorriso largo que lhe pôs os dentes a descoberto e lhe deu uma animação nova aos olhos.

 

- Ah. Bem pensado, mas pensa a respeito disto. Se o Sol nasce todas as manhãs, então nunca cresce. De facto, ele aparece enorme quando desponta no horizonte e vai diminuindo até cruzar o horizonte a ocidente, onde fica de novo enorme. Quantas coisas destas conheces tu que façam isso? Precisamente a Lua. E, falando da Lua, por que não arde ela com o calor do Sol? E também não penso que a Lua morra todas as noites.

 

- E por que é que isso é assim, Barriga Falsa?

 

- Porque parece sempre a mesma. Mesmo quando passa de redonda a uma lasca e volta de novo a ficar redonda. A Lua tem sempre as mesmas marcas. Quantas coisas conheces tu que morram e nasçam de novo vezes sem conta e pareçam sempre as mesmas? Mesmo os esquilos vermelhos e os ratos e os pássaros têm marcas diferentes, sabes... pequenas mudanças aqui e ali que te permitem distinguir uma da outra.

 

Mão Esquerda riu à socapa. Não admirava que Barriga Falsa tivesse problemas. Mão Esquerda encontrara-se uma vez com Garra de Cotovia, há cinco Verões: uma mulher terrivelmente prática e matreira. Deixara-o a sentir-se desconfortável. Para além da sua própria experiência com ela, a sua reputação espalhara-se largamente. As pessoas temiam-na e respeitavam-na. Poucas eram as decisões que o Povo da Terra tomava sem a consultar. E Barriga Falsa vivia no seu acampamento? Não admirava que ela o tivesse mandado para ali para apanhar artemísia.

 

- E há mais - continuou Barriga Falsa. - Por que razão o Sol muda de trajectória através do céu? Por que razão os dias são mais compridos no Verão e mais curtos no Inverno? Por que razão não consegues ver a forma como a rota muda através das estações? Por que razão não toma ele um dia o trilho do sul através do céu e o do norte no dia seguinte?

 

- Não sei, mas isso nunca aconteceu - disse Mão Esquerda abstractamente.

 

- Como sabes isso?

 

Mão Esquerda acenou em direcção às montanhas.

 

- Nós temos círculos de pedra com rochas colocadas exactamente assim. Pode observar-se o Sol a aparecer de manhã e a alinhar com as rochas. Observando as rochas, pode traçar-se a mudança na rota do Sol.

 

Os olhos de Barriga Falsa brilharam.

 

- O que eu não daria para ver isso!

 

- Constrói o teu próprio. Procura o topo de uma crista e faz um círculo. Apenas precisarás de estar lá em cima ao nascer e ao pôr do Sol. Olha através do círculo e alinha as pedras, é tudo.

 

A excitação morreu nos olhos de Barriga Falsa. Não posso. Garra de Cotovia...

 

... não te deixaria?

 

Barriga Falsa encolheu os ombros. Ela é um bom chefe para a nossa tribo. Ela tem de tomar decisões por todos nós... tem de garantir que todos executam.

 

Mão Esquerda apoiou os cotovelos nos joelhos.

 

- Sabes, esse é o problema entre ti e o Povo da Terra.

 

- É?

 

Mão Esquerda riu.

 

- Quer dizer que tu pensas a respeito do Sol e da Lua, a respeito das marcas dos ratos e não pensas a respeito do teu próprio povo e por que razão faz o que faz?

 

- Oh, eu penso constantemente acerca das pessoas. Eu interrogo-me sobre a razão por que as pessoas actuam como actuam. Algumas vezes acontecem coisas e nós simplesmente actuamos... sabes?, tal como sacar a mão do fogo. Outras vezes pensamos primeiro a respeito do que faremos, planeamos. Uma é diferente da outra? Alguma vez te interrogaste a propósito disso?

 

- Oh, sim. Um mercador pensa constantemente a propósito disso.. Se conseguirmos saber como pensam as pessoas, teremos sempre a mercadoria certa para mercanciar na altura certa. É por isso exactamente que eu penso que o Povo do Antílope vai querer carne de búfalo. Ou que haverá procura daqueles pinhões quando chegar a altura de regressarmos a casa. Mas não foi isso que eu perguntei. E a respeito da maneira como o teu povo vive? Quero dizer, tu não encaixas.

 

Barriga Falsa fechou o pulso.

 

- Evidentemente que encaixo.

 

- Então, por que razão te mandou Garra de Cotovia para aqui para apanhares artemísia para o lume? Para a Garra de Cotovia que eu conheço, tanto se lhe dá que o Sol viaje por debaixo da terra como não.

 

Barriga Falsa espraiou o olhar enquanto esfregava nervosamente a mão boa no couro manchado de gordura das calças.

 

- Tive um amigo que se preocupava. Morreu.

 

- Lamento. - Mão Esquerda baixou a voz. - Ele era o único que te escutava, não era? Os outros não entendiam, não é verdade? Barriga Falsa estremeceu como se ouvisse palavras vindas do passado. A garganta doeu-lhe ao engolir em seco; mexeu nervosamente os olhos, quiçá à procura de alguma resposta escondida na forma das sombras da artemísia ou na configuração das pedras.

 

Mão Esquerda mal ouviu as palavras sussurradas por Barriga Falsa de mistura com a respiração. «Mercador chegando. Ele disso isto. Ele sabia.»

 

Mão Esquerda levantou-se e deu uma palmada nas costas de Barriga Falsa.

 

- Vamos, vou ajudar-te a levar o molho para o acampamento.

 

- Garra de Cotovia poderá não^ gostar disso.

 

- Ela não vai querer ofender um mercador, especialmente quando ele está a ser prestável...

 

Mão Esquerda seguiu os passos de Barriga Falsa carregando um braçado de cavacas de salva e o seu bastão de mercador. A expressão assombrada no rosto de Barriga Falsa feriu-lhe o espírito como seiva de pinheiro a ferver. Pelo escroto peludo do búfalo, ele apenas gostara do homem.

 

Mão Esquerda olhou para cima, para o céu. «E, precisamente, que faz o Sol arder, não me dirão?»

 

Cinza Branca atirou-se ao tedioso trabalho de arrancar a artemísia do solo. Trabalhava nos plainos a norte do acampamento onde o solo tinha uma maior profundidade e crescia a salva mais alta. o dia pesava-lhe - o céu era de chumbo e negro com nuvens. A terra estava endurecida, atulhada de neve e cinzenta. Trabalhava com energia, odiando a fraqueza dos seus músculos, pois queria abafar a tristeza com a exaustão.

 

O mato enfezado era um combustível maravilhoso para a lareira. Fazia pouco fumo, acendia facilmente e ardia como uma tocha durante vários minutos antes de a madeira dura se transformar em carvão. Quando se punha uma quantidade suficiente de pedras no fogo para absorver o calor, elas devolviam-no durante a noite. Quando se fazia um espesso leito de carvões, a lareira deitava calor durante, pelo menos, dois dias. E a artemísia crescia por toda a parte. Ao longo das linhas de água atingia a altura de um homem. Nas bacias podia atingir a altura dosjoelhos de um homem. No topo das cristas e nos locais onde o solo era fraco, não ultrapassava o tornozelo - mas toda ela ardia.

 

A raiz separou-se com uma crepitação e um estalo. Ela endireitou-se e lançou a sua presa para a pilha que crescia ao seu lado. Por hábito, observou as cristas, e desta vez captou uma sugestão

 

de movimento - o de um homem. Olhou com os olhos semicerrados para ver melhor e notou a maneira fatigada como caminhava. Afrouxou a trouxa retirando o atlatl - mais leve que o do homem, adequado para o equilíbrio da mulher. Tirou também alguns dos seus dardos delicados e verificou a colocação das hastes dianteiras, cada uma delas equipada com uma ponta mortal de translúcido quartzo castanho. Olhou em redor e, não vendo mais ninguem para alertar, lançou-se para a frente.

 

Correu um pouco, gozando o exercício, observando a figura cambaleante à sua frente. Parecia-lhe... Pés de Vento! Estava certa disso. Desatou a correr. Talvez eles tivessem abatido alguma coisa!? Se ao menos não tivessem demorado tanto tempo; cinco dias tinham passado desde que Lua Brilhante morrera. o tempo que entretanto passara na cabana fora miserável. A presença de Lua Brilhante permanecia, destilava dos postes manchados da tenda e do couro fumado da cobertura. Ali, entre as recordações, ela esperara pacientemente pelo regresso de Espírito Sábio.

 

- Corre Com o Vento!

 

Ele parou, olhando através da neve derretida com os olhos semicerrados, e depois acenou. À medida que se aproximava, ela podia ver que ele tinha um aspecto terrível - desvairado e fatigado. A lama e a água ensopavam-lhe e manchavam-lhe o vestuário. o rosto estava magro e seco; as faces estavam encovadas abaixo dos malares. Uma série de escarificações atravessavam-lhe, irregularmente, as linhas azuis tatuadas na testa alta e tinha folhas de salva espetadas nas tranças negras e brilhantes.

 

- Que aconteceu? - perguntou ela, abraçando-o. - Os homens estão bem?

 

- Sim... penso eu. Fizeram um abate... há cerca de uma semana. Escuta, temos de deslocar o acampamento. Há gente do Povo do Lobo por toda a parte. Não sei, talvez aquele bando que nos atacou há dois meses tenha voltado e contado aos outros. Tive de me desenvencílhar de dois grupos distintos para chegar aqui.

 

Ela lançou um olhar rápido por cima do ombro dele. As cristas pareciam suaves à distância, com as superfícies sarapintadas de neve acumulada pelos deslizamentos.

 

- Vem. Esquilo Que Voa tem estado preocupada e meio adoentada. Ela não o quererá admitir, mas eu posso contar-te.

 

- Sim, bem, matámos búfalos a um par de dias de marcha para sul daqui. Depois disto, talvez fosse melhor continuarmos esse caminho. E pararmos só quando atingirmos aquelas montanhas a que chamamos Atravessadas.

 

- Atravessadas porque sobem suavemente deste lado e depois caem em escarpa do outro.

 

Chert no original. Trata-se de uma rocha que faz lembrar o sílex mas que é constituída essencialmente por quartzo criptocristalizado e calcedónia fibrosa. (N. do T.)

 

Ele sorriu, mostrando os dentes, aquele sorriso estúpido de quem está exausto.

 

- Depois vamos deslocar o que resta da tribo do Homem Branco através delas. Como estão as coisas por aqui? Não viram incursores? Nem batedores, nem pistas?

 

- Nada a não ser o vento e a neve. - Ela inspirou profundamente. - Lua Brilhante morreu. A alma dela separou-se do corpo. Durante um par de dias não se conseguiu mexer e depois finou-se durante a noite. Estava em paz. Não sofreu.

 

Pés de Vento deu um passo em falso e quase caiu, semicerrando os olhos com a dor.

 

- Não... isso não. Isso vai matar Espírito Sábio. Ele teve um pressentimento. Ele enviou uma mensagem por meu intermédio, para dizer a Lua Brilhante que estava bem e a comer muita carne de búfalo enquanto pensava nela.

 

Cinza Branca olhou para longe, procurando esconder a sua dor.

 

- Por agora, temos o Povo do Lobo para nos preocuparmos. Tens a certeza de que andam à nossa procura?

 

Fez um aceno brusco e curto com a cabeça.

 

- Admitia um só grupo a caçar por aí. Mas dois? Não, eles andam atrás de nós. Penso que querem empurrar-nos para norte, como aviso a outros para que não se desloquem para o território deles.

 

- Mas, se voltarmos para trás, vamos a direito para o território do Ponta Negra.

 

- Correcto. Por isso, que nos resta? Ela lançou outro olhar para detrás dele.

 

- As montanhas Atravessadas. E, bem, para além disso há o Povo. Somos tão poucos. Talvez eu saiba de um lugar que possamos ocupar sem violar o território deles.

 

- Onde quer que isso fique, era melhor apressarmo-nos... e deixarmos poucos vestígios do processo.

 

Esquilo Que Voa assumiu o comando após Pés de Vento ter feito o relatório. A tribo do Homem Branco passou imediatamente à tarefa de desmontar o acampamento. As crianças reuniram os cães e ajustaram-lhes os arneses de couro apesar da choradeira e dos ganidos. Os escassos pertences foram enrolados e arrumados em sacos de couro, os quais foram por sua vez amarrados firmemente a padiolas de arrasto prendidas aos cães subitamente ansiosos.

 

Os Travois no original. Primitivo veículo usado pelos índios das Pradarias, constituído por duas varas que serviam de varais e as quais se ligava uma plataforma ou rede para a carga. (N. do T.)

 

Postes das tendas foram retirados apressadamente do interior; as coberturas das tendas, cuidadosamente curtidas, flutuaram ao vento em redor dos que ainda trabalhavam no interior.

 

Cinza Branca lançou um olhar rápido a Pés de Vento; ele abatera-se sobre um rolo de peles e caíra imediatamente no sonho. A terrível viagem reflectia-se no seu rosto descontraído. Por um momento, ela lutou com o impulso para se inclinar e lhe acariciar as faces. Não, fazê-lo apenas o embaraçaria. Raios partissem as preocupações dele com as estúpidas regras de casamento da tribo do Homem Branco.

 

Com a eficiência que Lua Brilhante lhe ensinara, Cinza Branca embalou os seus pertences, mantendo os cães em ordem e fazendo caretas por causa da maneira como as costelas dos impacientes animais se mostravam salientes. A fome atormentava a barriga de todos. Quatro búfalos jaziam a dois duros dias de marcha para sul. E o trilho podia estar cheio de guerreiros hostis. Mais de uma vez deu com ela à procura de Lua Brilhante, esperando ouvir os comentários dela. o vazio alargou-se no seu peito.

 

o Sol já declinava para oeste e as sombras alastravam no azul, na fria Primavera precoce, enquanto a tribo do Homem Branco iniciava a sua desesperada viagem para sul.

 

Por cima do estalar do fogo na cabana de Erva Amarga, Barriga Falsa conseguia ouvir os sons amortecidos provenientes da cabana de Garra de Cotovia do outro lado do acampamento. Gargalhadas e exclamações transportadas mesmo através das paredes de terra da casa-cova.

 

As ordens de Garra de Cotovia tinham sido explícitas.

 

- Vela para que as crianças estejam bem. Mantém as fogueiras acesas em todas as cabanas. Faz que os nossos cães não lutem com os do mercador.

 

Barriga Falsa objectara.

 

- Quero ouvir as notícias trazidas pelo mercador.

 

Ela fixara-o com um olhar que deitava fumo ao pestanejar.

 

- Alguém tem de olhar pelo acampamento. Nós depois contamos-te o que o mercador disser.

 

«Ela ainda está a punir-me por não lhe ter revelado o conteúdo da minha promessa a Fogo Ardente.»

 

Olhou para o sítio onde Trufa e Lupina dormiam, com Lupina enroscada nos braços protectores do irmão mais velho. Trufa tornara-se taciturno, escondendo uma raiva surda no peito desde a morte do pai. Só há um par de anos é que deixara a meninice. Carregaria ele essa raiva explosiva até à idade adulta?

 

«Mercador chegando. Vai. »

 

Fogo Ardente soubera. o sonho fora real, não o delírio de um homem com febre. Barriga Falsa franziu o sobrolho enquanto deslizava as pontas dos dedos pela concavidade oca da mó de Erva Amarga, a laje de moer, onde ela esmagava as sementes e as raízes para as transformar em farinha. Desenhou arabescos no pó que enchia o pesado arenito... e depois fitou pasmado o que fizera: o contorno de um lobo.

 

E o lobo negro estivera ali. Como não vira o rasto do animal? Todas as vezes que algo importante acontecia, o lobo negro aparecia, fitando-o das sombras. Ou era a imaginação que o enganava?

 

«Parte... Vai... » As palavras de Fogo Ardente espicaçavam-no como os espinhos do quenopódio.

 

Barriga Falsa virou-se para apanhar a haste do dardo que preparara para Fogo Ardente com toda a sua perícia. A madeira parecia pulsar-lhe na mão fechada, como a recordar-lhe a promessa feita. Tomou o peso da haste perfeita na mão... e deixou cair lágrimas de frustração.

 

Mão Esquerda- um mercador de outro povo - ouvira-o com a mesma atenção que Fogo Ardente uma vez lhe demonstrara.

 

«Tu não encaixas.» As palavras amarguravam-no.

 

Com todo o cuidado para não lhe danificar a empenagem de penas, Barriga Falsa voltou a colocar a haste no mesmo lugar. Suspirou, levantou-se e mergulhou na noite através da aba da porta. o dia escondia-se precisamente no horizonte; Garra de Cotovia falara a maior parte da noite. Os ruídos que se escapavam da cabana do velho chefe da tribo tinham baixado de volume, saindo agora esporadicamente.

 

«Nós levamos os sonhadores muito a sério.»

 

«E presume-se que eu salve um sonhador?» Barriga Falsa levantou os olhos para as estrelas. Esta noite, o vento soprava quente, anunciando a chegada da Primavera - exactamente como a chegada do mercador anuncia a mudança das estações. Em toda a parte, os mercadores estavam de partida, dirigindo-se para vários destinos, fardos pejados de coisas interessantes. Como seria viajar assim?

 

Barriga Falsa coçou a garganta de Confusão e foi verificar os cães do mercador. Estavam deitados em círculo, em torno da pilha de fardos, montando-lhes guarda como se esperava e mantendo os roedores e outra bicharada à distância. Os cães do acampamento permaneciam nos seus lugares em volta das cabanas, tendo sido convencidos, à custa de bordoada, de que os animais do mercador não eram para ser molestados.

 

«Destruir-te-ão aqui. Darão cabo de ti a pouco e pouco.» Barriga Falsa dirigiu-se até ao monte de salva que ele e Mão Esquerda tinhamjuntado e apanhou algumas cavacas nodosas. Parou fixando o olhar no montículo a recordar o trabalho da tarde. Ele e Mão Esquerda tinham-se divertido de facto, conversando a respeito das rochas que viram no sul e do enorme lago de águas tão salgadas que não se podia beber dele. Que fazia que um lago fosse límpido, outro lamacento e outro ainda completamente salgado?

 

Obrigado à tarefa, reabastecera as fogueiras em cada uma das cabanas, remexendo nas brasas em volta das pedras e acrescentando mais salva.

 

Feito isto, Barriga Falsa levantou a aba da cabana de Erva Amarga e olhou para dentro, para se certificar de que as crianças ainda dormiam sossegadamente. Depois acocorou-se na sombra da cabana olhando a Lua que se elevava por cima da crista da Pedra Redonda. Quase redonda, parecia uma bola de argila que tivesse sido atirada contra o chão duro pela maneira como um dos lados estava mergulhado na sombra.

 

Sombra? Algo - o Sol? - brilhava nela? Talvez não tivesse fogo próprio!? A ideia atraiu-o. Deslizou para o interior do abrigo e encontrou uma pedra redonda entre os seus pertences. Contra a luz da fogueira, podia ser a Lua. Dependendo da maneira como a segurava, podia imitar os ciclos da Lua.

 

A excitação estonteante agarrou-o apenas por um momento. Quem quereria ouvir a sua ideia? Talvez Mão Esquerda. Mão Esquerda estava sentado no centro da cabana de Garra de Cotovia

- e Barriga Falsa tinha mais que fazer do que interromper uma reunião daquelas por algo tão disparatado como a Lua estar na sombra.

 

Voltou de novo para o exterior com a pedra na mão e olhou para a Lua. Mal podia compreender a Lua escurecida. Sim, exactamente como uma sombra. A dor excruciante apoderou-se dele. Num outro dia, num tempo agora passado, teria corrido imediatamente a contar a Fogo Ardente. A sensação da perda apertou-lhe o coração.

 

Ouviu passos e ergueu os olhos. Mão Esquerda estava ali.

 

- Vejo que tomaste boa conta dos meus cães.

 

- São uns bons cães. Pareces triste.

 

- Estava apenas a pensar.

 

- A respeito de Fogo Ardente? Garra de Cotovia falou-me dele. Ela fez grande questão de me explicar que o curandeiro, Mão Negra, tinha tanto Poder crepitando em seu redor que as pedras quase flutuavam. E como a alma de Fogo Ardente se foi apesar dos esforços heróicos do curandeiro. Geralmente, as pessoas não falam tão pormenorizadamente sobre a grandeza de um curandeiro.

 

Barriga Falsa encolheu os ombros, agradecido por a noite lhe ocultar a expressão do rosto.

 

- Mão Negra é o melhor que temos agora.

 

- Há algo sobre a morte de Fogo Ardente que preocupa Garra de Cotovia. E não é Mão Negra...

 

Oh!? Mão Esquerda sentou-se em silêncio em frente de Barriga Falsa.

 

- Fogo Ardente deve ter sido um homem maravilhoso.

- Sim. Sinto a falta dele. A vida já não é a mesma.

 

Mão Esquerda deixou-se ficar em silêncio durante um momento antes de responder.

 

- Sou mercador. Penso que isto é uma parte do Poder, mas às vezes capto uma sensação ao observar as pessoas. Tu e ele, vocês eram muito íntimos, não eram?

 

Barriga Falsa deixou-se ficar.

 

- Essa é uma das razões por que Garra de Cotovia está aborrecida contigo. Podia senti-lo pela maneira como ela falava.

 

- Fogo Ardente disse-me para abandonar este lugar - sussurrou Barriga Falsa com ar ausente, dificilmente consciente do que dissera. - Não digas a ninguém. Por favor. - Aquele sentimento de amizade que ele nutria traía-o. Isso e a necessidade de falar de novo com alguém. Agora as tripas apertavam-se-lhe.

 

Mão Esquerda fez um gesto largo.

 

- Não há outro acampamento para onde possas ir? Onde gostem de ouvir essas coisas em que pensas? Imagino que seria bom ter-te à roda da fogueira nas longas noites de Inverno.

 

Barriga Falsa bateu nervosamente com o punho no chão.

- Ninguém quereria ofender Garra de Cotovia.

 

- Pensaste algumas vezes que isso talvez seja o teu Poder? Que talvez precises de encontrar a tua própria vocação? Eu, eu descobri a minha quando erajovem. Subi a um lugar elevado ejejuei durante quatro dias. o Poder de mercador veio até mim e soube que estava no caminho certo. Estive em toda a parte. Vi lugares que tu apenas podes imaginar. Saboreei as águas salgadas das Aguas do Ocidente e cavalguei as ondas com o Povo do Barco. Comi o grande peixe que eles arpoam no rio da Prata e fumam sobre fogueiras de amieiro. Vi os lugares onde vive o Povo do Antílope... lá em baixo nos desfiladeiros de arenito vermelho, onde as águas correm por debaixo de arcos de pedra. Fui até ao grande rio no leste, onde o Povo do Dançarino Mascarado vive nas florestas e trata dos campos de arroz-silvestre. Eles flutuam nas águas em troncos escavados e lançam redes para apanharem peixe e usam máscaras para se parecerem com os espíritos. Caminhei pelas pradarias da Erva Rasteira e partilhei as cabanas de pele do Povo do Búfalo. Em volta das fogueiras dos acampamentos do Povo do Pântano, onde a Água se junta ao mar do Sul comi seres cujas formas tu nem consegues imaginar. Tantas coisas... tantas. - Mão Esquerda sorriu ao recordar-se. Talvez não tenhas encontrado ainda o teu Poder.

 

- Tenho algum? - Barriga Falsa não conseguia ignorar o apelo de Fogo Ardente. «Vi no Sonho. Tu és o importante. o Poder quer-te.»

 

- Todos têm Poder. - Na escuridão, Mão Esquerda inclinou a cabeça para trás e fixou os olhos nas estrelas. - Nós temos uma lenda. Uma vez o Povo do Lobo e o teu povo estavam em guerra. Nessa altura, o teu povo vivia como o Povo do Búfalo nas pradarias da Erva Rasteira. Os seus guerreiros vinham das pradarias, esfomeados, prontos a expulsarem-nos das montanhas, pois todos os buracos de água tinham secado e as chuvas nunca mais caíam. Nós estávamos perdidos, e no meio de uma grande batalha levantou-se um sonhador... um sonhador que levou os vossos guerreiros a lançarem fogo às árvores. Nessa altura, ele dançou com o fogo e trouxe-vos aqui, para a Bacia do Vento, e ensinou-vos as questões da terra e como usar as sementes na alimentação.

 

- Dança Com o Fogo?

 

- Sim, Dança Com o Fogo. E fez a paz entre nós. Ao longo dos anos, nós fizemos incursões de vez em quando. Outras vezes. Geralmente, os nossos povos têm estado juntos. Entre o meu Povo do Lobo, os mais idosos guardam as lendas. Eles estudam-nas, palavra por palavra, para recordarem a intenção de Dança Com o Fogo. Disseram-nos que Dança Com o Fogo deu ao vosso povo a visão, a maneira de procurar o seu próprio Poder. Desde essa altura, vocês perderam essa visão. Perguntaste-me se tinhas algum Poder. Sim, meu amigo, tens. Todos têm.

 

O rio Mississípi. (N. do T.) O golfo do México. (N. do T.)

 

«Meu amigo. Foi isso que ele me chamou.» A alma de Barriga Falsa doeu-lhe.

 

- Não sei - Mão Esquerda continuou. - Penso que é a maneira como vives que te mudou. Entre o teu povo, apenas os curandeiros e os chefes das tribos mantêm o Poder. É como se ele tivesse sido retirado a todos excepto aos chefes. Algures, lá em cima. - Apontou para o céu. - Mas não é assim, compreendes? Poder é o que tu sentes em teu redor. Faz parte das rochas, das árvores, das plantas e dos animais. Enche o solo assim como o céu. Precisas apenas de o procurar para te permitires senti-lo.

 

- Sei do que estás a falar. - Barriga Falsa sorriu para a noite. Tive essa sensação quando observei os antílopes a parir. Ou talvez quando o pôr do Sol está raiado de vermelho e laranja.

 

- Penso que talvez tenhas. Consigo vê-lo em ti. Mas... e os outros? Penso que começaram a retirar-se a eles próprios do mundo. Talvez seja a maneira como os vossos abrigos são construídos. Talvez seja o facto de vocês permanecerem num só local. Estive a ouvir Garra de Cotovia a falar sobre o Espírito que vive na nascente nas traseiras do acampamento. Mais tarde, ouvi-a referir-se ao Espírito que habita num velho tronco morto lá em cima na montanha Verde. E dei comigo pasmado com essas coisas. Vocês tomaram o único e dividiram-no em pedaços.

 

- Como sabes que não é assim que as coisas são?

 

- Não sei. Mas isso não me parece correcto. Penso que o Povo da Terra está a mudar. Penso isso por causa da maneira como vocês vivem. Talvez Garra de Cotovia esteja certa. Talvez haja espíritos separados... mas a minha alma sabe que tudo é parte do único.

 

Barriga Falsa correu os dedos ao longo do braço tolhido e murcho.

 

- Garra de Cotovia disse-me uma vez que os espíritos deviam pensar que eu era louco por fazer tantas perguntas. Ela disse que não era nada bom observar constantemente as coisas, que os espíritos não tinham nenhuma utilidade para um homem que estava sempre fechado na sua cabeça. Que uma pessoa com responsabilidades devia empregar o seu tempo a fazer que os Espíritos não ficassem desvairados consigo... que, de outro modo, podiam dar sumiço a alguma coisa, impedir a raiz do biscoito de crescer ou fazer que a colheita do pinhão falhasse ou trazer uma seca.

 

Mão Esquerda coçou uma orelha.

 

- Penso que tudo é parte do único. A espiral muda e as coisas rodam com a espiral. Talvez a raiz do biscoito não apareça numa Primavera. É a rotação da espiral. Ela aparece sempre na Primavera seguinte ou na que se lhe segue, não é assim?

 

«Fogo Ardente falou a respeito da espiral.»

 

Barriga Falsa puxou os safões com os dedos, dizendo de modo pouco convincente:

 

- É evidente que sim, É porque damos oferendas aos espíritos que fazem crescer a raiz do biscoito.

 

- Estás a ver, essa é uma diferença fundamental entre nós. o Povo do Lobo não tem de dar coisas. Nós apenas temos de ser. Nós apenas precisamos de viver com o único. Nós chamamos pelo alce ou pelo cabrito montês e eles parfilham-se connosco. Para os renovar, nós cantamos as suas almas à Teia de Estrelas. Vocês pensam que têm de dar algo primeiro, que os espíritos são egoístas... uma espécie de pessoas.

 

- Ainda não sei se estás certo. Mão Esquerda examinou-o.

 

- Então deixa-me fazer-te uma pergunta. Se o Poder do espírito funciona realmente dessa maneira, se tens de aplacar o Poder do espírito, então o meu povo devia estar a morrer de fome, certo? Não damos pequenos presentes curiosos para manter feliz o Mundo do Espírito. A raiz do biscoito, o rizoma do lírio e a estrela cadente continuam a aparecer. o alce e o veado e o cabrito montês ainda nos deixam matá-los. Não padecemos fome.

 

O rosto de Barriga Falsa contraiu-se enquanto pensava.

 

- Mas os nossos curandeiros sempre procederam assim. Eles deviam saber, não deviam? Eles conhecem as formas do Poder.

- Pedras Cantantes veio até às nossas montanhas à procura do único.

 

Pedras Cantantes, o maior de todos os curandeiros. Barriga Falsa víra-o apenas uma vez quando o velho homem cantara sobre o seu braço e lhe salvara a vida. Ainda se conseguia recordar do olhar distante nos olhos do curandeiro.

 

- E tu? - perguntou Mão Esquerda. - Que vais fazer? Partir, tal como o teu amigo pediu?

 

- Quem me dera.

 

- Deves fazer o que desejas.

 

- Este é omeu povo, a minha tribo e a minha família. -Abanou a cabeça. - É dificil. Para onde devo ir? Que devo fazer? Eu... eu não sei.

 

- Receoso?

 

Barriga Falsa hesitou. Era então isso?

 

- Acho que sim. Isto é tudo o que conheço. Aqui as pessoas cuidam de mim. Tenho um lugar aquecido para estar. Comida em quantidade. Se me ferir ou adoecer, alguém cuidará de mim. Os meus antepassados estão aqui enterrados... continuam a observar.

 

Se eu partir? Bem, a última vez que parti não foi bom. Há gente estranha no mundo, animais perigosos como o urso prateado e guerreiros como o Povo do Sol e muitas outras coisas que podem suceder a um homem.

 

- Tu tens de encontrar o teu próprio Poder. - Mão Esquerda suspirou. - Mas pensa nisto. Se acordares um dia destes, daqui a muitos Invernos, e disseres para contigo: «Fogo Ardente sempre quis que eu partisse. Eu sempre quis descobrir coisas, observar coisas, seguir a rota do Sol através do firmamento e ver para lá da cadeia de montanhas mais afastada. Por que nunca parti? Bem, isso seria uma coisa terrível, não seria? Saber que viveste toda a tua vida e nunca seguiste os teus sonhos?

 

- Mas... e se algo acontecesse? Se gelasse até morrer ou caísse ou me ferisse? Isso já sucedeu uma vez. Aqui o povo toma conta de mim.

 

Mão Esquerda sorriu compreensivamente.

 

- Cada um de nós tem de viver a sua vida de acordo com a sua própria maneira de ser, Barriga Falsa. As pessoas estão sempre a morrer e o mundo fora da tua tribo é perigoso. - Fez uma pausa.

- Mas eu pergunto-me: como pode viver neste vale toda a sua vida um homem que pergunta o que faz arder o Sol?

 

Barriga Falsa lambeu os lábios, irritado com o súbito bater do coração. Fogo Ardente contara-lhe que o Mmercador estava para vir. Garra de Cotovia nem mesmo o deixara ficar quando o amigo estava a morrer. A noite parecia pressioná-lo, espalmá-lo, o ar estava pesado e opressivo. «Se não partir agora, nunca mais o farei.»

 

- Fiz uma promessa.

 

- Não percebi o que disseste. Murmuraste.

 

- Para onde vais? - Barriga Falsa fechou os olhos, o desespero a apertá-lo como um nó corredio em torno da garganta.

 

- Para norte.

 

«Norte. Procura a Sonhadora. Promete.»

 

Barriga Falsa esfregou os dedos uns nos outros; a garra febril de Fogo Ardente fechava-se-lhe fantasmagoricamente na carne.

 

- Querias... quero dizer... podia ir contigo? Norte? Pelo menos durante algum tempo?

 

Mão Esquerda examinou-o no escuro.

 

- Depois de ter tentado tão arduamente fazer-te falar? Porquê?

- Por causa de uma promessa que fiz a Fogo Ardente. A que Garra de Cotovia tinha tanto empenho em conhecer.

 

Pés de Vento meteu a passo quando tudo o que queria era dormir. A despeito da sua fraqueza, foi inundado por um êxtase curioso. Dois grupos separados de guerreiros hostis tinham-no perseguido - e ele despistara-os! Não importava que os músculos e os ossos lhe doessem, intrujara ambos os grupos - vencera-os a todos em astúcia - e escapara enquanto guiava os perseguidores para longe do seu povo. A reputação estava nisso... juntamente com uma pulsante euforia de triunfo. Vivera quando outros o queriam morto.

 

- Então, por que te ris? Pareces prestes a cair. Fez um sorriso rasgado para Cinza Branca.

 

- Estava apenas a pensar numas coisas.

- Coisas?

 

- A respeito de como me mantive vivo quando estava a ser caçado como um coelho.

 

Ela acenou com a cabeça e lançou um olhar para trás, para a fila de cães que lhes seguiam o rasto. Os varais das padiolas arrastavam surdamente pelo chão. Ela e Pés de Vento marchavam na frente, dado que ele conhecia o local da matança. Os sessenta e tal sobreviventes do povo da tribo do Homem Branco seguiam em coluna, um por um, Esquilo Que Voa e o jovem Tambor cerrando a fila. Não podiam dissimular o rasto, mas, se se deslocassem suficientemente depressa, poderiam evitar a perseguição até descobrirem um local que pudesse ser defendido. Talvez o búfalo lhes desse força para continuarem o caminho mais para o sul.

 

- Parece quase o fim da tribo do Homem Branco. Pés de Vento abanou a cabeça e suspirou fatigadamente.

 

Cinza Branca olhou para o Sol, que agora picava, quente e brilhante. A neve começara a transformar-se em papa e o solo a desfazer-se em lama. Viajar na Primavera fora sempre um problema. À noite os mocassins estariam ensopados, bem como o resto do vestuário - e a escuridão traria um frio renovado.

 

- Talvez seja isso. Esquilo Que Voa e eu falámos a respeito disso. Por que não te vais juntar aos Ponta Negra? Tens lá parentes. Eles aceitavam-te... desde que renunciasses a todos os laços com a tribo do Homem Branco.

 

Pés de Vento encolheu um ombro com ar ausente.

 

- Penso eu. A irmã da minha mãe, Dois Antílopes, casada com Punho de Pedra, um guerreiro Ponta Negra. Falariam a meu favor. Teria de declarar a morte da minha tribo. Penso que todos nós podíamos ir. Seríamos como... bem, não seríamos como povo verdadeiro, não seríamos parte da tribo mesmo se vivêssemos com eles. Ninguém nos daria ouvidos no conselho. Não teríamos nada a dizer sobre para onde ir ou o que fazer. Seríamos estranhos no meio deles.

 

- Há outras soluções. Ouviste Cauda de Búfalo. É um dos velhos

 

mais respeitados no conselho dos Pedras Partidas. Ele era originalmente um Ponta Negra. Ganhou os seus direitos em duelo.

 

- Eu acabo de despistar dois grupos de guerra do Povo do Lobo. Não estou interessado em combater para arranjar um lugar para mim.

 

Ou estava? Sobrevivera quando o mais natural seria ter morrido. o Poder honrava os homens de coragem que ousavam para se experimentarem.

 

Com indiferença, ela disse:

 

- Talvez não seja assim tão mau. Pelo menos, podias encontrar uma mulher para casar. Talvez uma linda jovem, uma que te possa dar muitos filhos. - Quando viu a expressão dele, fez um gesto como se arremessasse as palavras para longe. - Desculpa. Perdoa-me por dizer   isto. Não queria magoar-te. Penso que talvez quisesse magoar-me a mim própria. Ainda sinto a perda de Lua Brilhante e a dor da sua morte. - Fez uma pausa. - Odeio-me só de pensar que vou ter de contar a Espírito Sábio.

 

- Isso vai partir-lhe o coração.

 

Deixou o tema mudar, desejando falar mais sobre o seu amor por ela - mas ao mesmo tempo receava fazê-lo. «Por que continuas a torturar-te? Um homem esperto tentaria ignorá-la, mantê-la à distância.» Resmungou. «Não sou exactamente um esperto, é isso.»

 

Caminharam em silêncio. Olhou-a furtivamente, vendo os pensamentos reflectidos no rosto dela ao ponderar como se aproximar de Espírito Sábio.

 

Por um longo momento admirou-lhe a beleza, desejando estender a mão e tocar-lhe. o balanço das ancas dela cativou-o. A dor dela torturava-lhe a alma. «Não posso amá-la, por mais que o queira. Ela é filha da minha tia. Entre a tribo do Homem Branco, tenho de lhe chamar irmã. Todavia, separtisse, se fosse para o meio dos Ponta Negra e ganhasse lá o meu lugar, podia casar com ela. Renunciaria à minha tribo... morto. Não teria parentes.» A ideia aturdiu-o quando a revolveu no espírito, observando-a de todos os ângulos. Haveria riscos, evidentemente. Teria de lutar por um lugar entre os Ponta Negra. Conseguiria fazê-lo? Conseguiria vencer?

 

À distância, para oeste, dificilmente visível contra os sopés das montanhas que se erguiam, um bando de gansos estava a voar para o norte... norte...

 

Aquilopodia resultar. o pensamento apanhou-o, robusteceu-se pela exaustão que lhe mascarava o ser. Pensa apenas na expressão de Homem Valente quando soubesse que Pés de Vento propusera casamento a Cinza Branca! Homem Valente. Podia ser um problema entretanto.

 

- Tens outra coisa em que pensar, sabes? - disse ele. Ela lançou-lhe um olhar circunspecto.

 

- Homem Valente vai trabalhar Espírito Sábio. Lançando sugestões, procurando conquistar o favor dele. Ele vai querer casar contigo.

 

- Direi não. Espírito Sábio, mesmo que o seu coração estale, não me fará casar com um homem que eu não quero.

 

Pés de Vento olhou carrancudo para o horizonte.

 

- Algum dia vais ter de casar. A tribo do Homem Branco está a ficar sem hipóteses para ti.

 

Ela riu, dardejando-lhe um sorriso.

 

- Há apenas um homem entre os Homem Branco com quem eu quero casar.

 

Baixando a voz, ele disse-lhe:

 

- Já falámos disso antes. És filha da minha tia. Entre a tribo do Homem Branco... é incesto, eu sei. Mas eu não sou tua irmã, por mais que a tua gente chame assim aos primos em primeiro grau.

 

Ele fitou o horizonte com os olhos semicerrados. «Devo dizer-lhe? Quero comprometer-me já? Não. Espera. Tal como o bom caçador, não te apresses.»

 

Encolheu os ombros com ar ausente.

 

- É a maneira de ser do meu povo. Não posso virar as costas à minha tribo ou às crenças do meu pai e do pai do meu pai. Um homem não é nada sem o seu povo, não mais do que um animal. Ela não respondeu.

 

- Desculpa. Se as coisas fossem diferentes, se Espírito Sábio não te tivesse criado como sua... não te tivesse chamado filha no conselho, já serias minha esposa.

 

- E por que não te casaste? Rosa Que Dança rastejaria para debaixo das tuas mantas se não fosses tão cego para ela.

 

- Porque... - respondeu ele suavemente.

 

- Porque quê?

 

-Apenas porque. -Inspirou ebaixou a voz. -Tu sabes porquê. Ela olhou-o com uns olhos que lhe feriram a alma.

 

- E se Homem Valente me raptar de novo à força?

 

- Então irei atrás dele, e trago-te de volta. E, se ele resistir, trespasso-o com um dardo.

 

Ela retesou-se. Entre o Povo da Terra não havia maior horror do que o assassínio - nem mesmo o horror do incesto. Mais de uma vez vira o Povo do Sol virar-se violentamente contra si próprio. A guerra habitava nas suas almas. Rastejara para a sua?

 

O sorriso dela tornou-se agridoce.

 

- Já não sei quem sou, Pés de Vento. Se matasses Homem Valente, eu... bem, não sei. Talvez eu compreendesse finalmente o que tu pensas do teu povo. É algo que cresce connosco. Eu, eu consigo entender o vosso incesto... compreendendo os meus sentimentos a respeito de como é horrível o assassínio entre o Povo da Terra.

 

- E quem mais há para te casares? Apenas Homem Valente.

 

- Que aconteceu aos bandos de Águia Negra e Trovão Cinzento? - perguntou ela.

 

- Não ouvi dizer nada a respeito deles. E tu? Há quase três anos que nos separámos do acampamento de Aguia Negra. Ela pensava que podia manter a terra mais alta lá no rio do Castor Gordo. Eu sempre pensei que ele estava a exibir-se outra vez. Agora, bem, não estou tão certo disso.

 

- Eu não quero Homem Valente. Mais facilmente copularei com um urso branco do que com ele.

 

Um arrepio disparou-lhe pela espinha acima. Talvez houvesse uma solução. Se Homem Valente tentasse raptar de novo Cinza Branca à força, ele teria de matar o seu velho amigo. Demasiadas coisas tinham mudado entre ele e Homem Valente. E se ele se fosse embora para os Ponta Negra e casasse com Cinza Branca, Homem Valente viria caçá-lo - lavando o insulto da tribo do Homem Branco e tomando de volta Cinza Branca.

 

Barriga Falsa inclinou o corpo para a frente e ajeitou a correia que sustentava o seu fardo. Endireitou-se, tomando-lhe o peso. À sua volta, as sombras do crepúsculo matutino suavizavam os contornos do acampamento da Pedra Redonda. o ar fresco da manhã arrepiava-o e o frio do chão insinuava-se nos mocassins grossos. Olhou em volta para o acampamento, e uma súbita sensação de plenitude apertou-lhe o peito.

 

Erva Amarga fez-lhe uma última inspecção.

 

- Levas os teus gravetos?

 

- Vão na trouxa.

 

Ela olhou-o de alto a baixo.

 

- Bem, tem cuidado. Se aparecer uma tempestade de Primavera, hiberna. Não te aventures.

 

- Fica descansada.

 

- Barriga Falsa - argumentou ela uma última vez, inclinando a cabeça da maneira autoritária que a avó fazia -, estás a ser um idiota... exactamente como é hábito. Desiste dessa busca. Vais meter-te em trabalhos. Por que me estás a fazer isso a mim? Não tomei eu sempre conta de ti? Pensas que este mercador vai tomar conta de ti? E quanto à tua responsabilidade para com o...

 

- Erva Amarga. Pouco barulho.

 

- Não estás preparado para isso, Barriga Falsa, e tu sabes disso. Por que não mostras alguma sensatez pela primeira vez na tua vida e não actuas como um homem desta vez? Estás a ponto de cometer o pior...

 

Erva Amarga!

 

erro que alguma vez cometeste. E cometeste uma quantidade deles. Eu apenas não queria ter este...

 

- Filha? - disse Rabo de Gato colocando uma mão no ombro dela. - Deixa o teu irmão fazer o que deseja.

 

Barriga Falsa lançou um olhar de gratidão ao pai. Erva Amarga mordeu os lábios e assentiu com a cabeça com alguma relutância e o ressentimento nos olhos.

 

Mão Esquerda prendeu as cargas dos seus últimos cães e endireitou-se, o orgulho nos olhos ao olhar para os animais. Depois ajustou a sua correia de transporte, ergueu-se e verificou o equilibrio da carga.

 

Barriga Falsa voltou-se para partir, sem se surpreender por verificar que apenas o pai e a irmã tinham vindo para se despedirem. Abeto Flexível, Semente Vermelha e Mulher Bonita estavam provavelmente na cabana de Garra de Cotovia conspirando com a velha. Talvez estivessem a discutir o insulto que era para o acampamento a saída de Barriga Falsa com um mercador.

 

O estômago de Barriga Falsa doía-lhe. Não fora tão difícil como pensara. Garra de Cotovia não lançara um ataque em forma. Um mercador tinha Poder. As pessoas não ofendiam os mercadores como Garra de Cotovia bem sabia. Fazê-lo daria má reputação a Pedra Redonda, fazendo que outros mercadores evitassem futuramente o acampamento.

 

«Ela não queria deixar-me ficar com o meu amigo que agonizava... nem mesmo quando Fogo Ardente me pediu. Ele nunca mais voltou a falar depois de eu sair.» Agora, que se equilibrava no limiar da liberdade, uma nova emoção faiscou-lhe nas tripas: raiva.

 

O olhar que a velha lhe lançara permaneceria gravado na sua memória. Ela grunhira um riso irritante e atirara entre dentes:

 

- Então vai! Vai-te com o mercador! Vira as costas à família e à tribo. - E despedira-o com o mesmo gesto que usava para enxotar uma mosca incómoda.

 

Rabo de Gato tentara sorrir, mas perdera a vontade por qualquer razão e apenas olhava como um pateta. Disse:

 

- Tem cuidado contigo quando chegares às montanhas. Um passo em falso lá por cima e arriscas-te a ficar com uma perna como o braço.

 

- Terei cuidado, pai.

 

Rabo de Gato pensou por instantes.

 

- Mantém-te nas cristas. Aí a lama não é tão má. Cá em baixo é impossível por causa das linhas de água. Verás. Se caminhares nessa lama pegajosa durante um par de dias, vais aprender exactamente o quanto isso pode ser cansativo. Logo que alcançares as colinas de areia, a viagem será mais fácil.

 

- Espero que Mão Esquerda conheça o caminho. Rabo de Gato sorriu melancolicamente.

 

- Eu sei que isto aqui tem sido difícil para ti. És um bom homem, meu filho. Apenas um pouco diferente, é tudo. - Baixou a voz, aproximando-se mais. - Não te censuro nem um pouco. De facto, fico orgulhoso. Adeus. Boa sorte.

 

- Diz à avó... nada. Deixa lá.

 

- Ela está desgostosa com isto. Todos nós estamos - disse Erva Amarga severamente, aproximando-se. Depois, em voz baixa, acrescentou: - Mas talvez eu também não te censure.

 

Barriga Falsa fez um sorriso de despedida, espantado face ao olhar que ela lhe lançou. Abeto Flexível, Semente Vermelha e Mulher Bonita nem sequer lhe tinham dito adeus. Apenas o tinham fixado com um olhar de condenação. Por que tinham de fazer aquilo? «É culpa. Não sabem que fazer comigo. Por isso, quando eu saio e me meto em trabalhos por causa de um urso prateado ou de um grupo de guerra do Povo do Lobo, pensam que a culpa é deles.» o pensamento não o confortou.

 

Amanhã parecia estar aromper. o dia devia ser claro e soalheiro e não havia dúvidas de que o vento sopraria lá do alto das montanhas do Monstro em rajadas ribombantes. Caminhar contra o vento é desgastante para uma pessoa.

 

Mão Esquerda levantou uma sobrancelha e fez um gesto em direcção ao trilho.

 

Barriga Falsa inspirou fundo, enchendo os pulmões do ar do acampamento da Pedra Redonda. Olhou em volta uma última vez para gravar a imagem na memória. Nascera exactamente ali, na cabana de Abeto Flexível. Aqui vivera enquanto rapaz, correndo e rindo, quase morrendo com a mordedura da cascavel. Sentado à sombra, gozara horas de conversa com Fogo Ardente. o seu trabalho e suor tinham ficado na construção da cabana de terra de Erva Amarga. Parte da sua alma ficaria ali. Um estranho sentimento de melancolia misturou-se com a excitação que sentia pela viagem que tinha pela frente.

 

«Um homem perde algo de si quando abandona o lar. É uma pequena morte que marca uma viragem na sua vida.»

 

- Pronto - disse a Mão Esquerda. Fez uma pausa, sorrindo a Confusão. - Vamos.

 

Confusão saltou e rodopiou em volta como se sentisse a importância desta partida. Baixou o peito e esfregou-o no solo frio, a cauda abanando de um lado para o outro.

 

Juntos desceram o trilho agreste que seguia na direcção do rio da Água Fria.

 

Barriga Falsa, ajoujado com o peso da carga, caminhava lentamente para os músculos das pernas aquecerem, sentindo a firmeza das articulações. Eles tinham estado a olhar para ele até o perderem de vista. Por isso, recusou-se a olhar para trás, recusou-se a dar-lhes a satisfação de um aceno final para descanso das suas consciências.

 

Quando ele e Mão Esquerda ultrapassavam o esporão da crista, Barriga Falsa reconheceu a silhueta de Trufa na luz matutina. o rapaz estava de pé na cumeada da duna onde Fogo Ardente fora enterrado, olhando fixamente o chão.

 

- Mão Esquerda? Espera um momento.

 

Barriga Falsa ordenou a Confusão, com a mão, que ficasse e foi ao encontro do rapaz. Este adeus não podia ser ignorado. Pobre Trufa, sofrera tanto quanto Barriga Falsa, talvez mais.

 

Trufa ouviu-o aproximar-se e ergueu a cabeça. Depois, tal como um coelho assustado, o rapaz saltou para o outro lado e correu completamente inclinado para dentro da salva, passando sem tocar nos arbustos baixos, seguindo a grande velocidade como se fosse perseguido pelos fantasmas da morte desassossegada.

 

- Olha cá! Trufa! Sou eu, Barriga Falsa! Trufa correu ainda mais depressa.

 

Barriga Falsa franziu as sobrancelhas depois de o rapaz desaparecer. Depois olhou para baixo... e viu o buraco onde Fogo Ardente jazera. Os coiotes tinham dado com ele, escavando grandes bocados de terra gelada. Não tinham conseguido tirar todo o corpo de Fogo Ardente, mas tinham pilhado o que puderam.

 

Barriga Falsa fechou os olhos por um momento, procurando aguentar a dor que o sufocava. Era assim o mundo. Os coiotes tinham a sua própria natureza. Todavia, Rabo de Gato e Carriço Pequeno deviam ter cavado uma cova mais funda.

 

Virando costas, regressou ao trilho onde Mão Esquerda esperava.

 

Gritos de alegria ergueram-se da tribo do Homem Branco quando Pés de Vento os guiou para o topo da crista onde os búfalos tinham sido mortos. Ainda havia manchas de sangue marcadas na neve espezinhada.

 

- Parece que o Povo do Lobo não os descobriu - observou Cinza Branca, incapaz de partilhar a alegria que enchia os seus companheiros. A comida estava aqui. Mas ela teria de enfrentar Espírito Sábio.

 

Alguns dos caçadores acenavam, vindo ao seu encontro de dentro dos seus abrigos de ocasião, feitos de entrançado de artemísia, onde guardavam a carne. Na frente, Cinza Branca podia ver a figura musculosa de Espírito Sábio. Homem Valente ultrapassou o pai dela e desatou a correr.

 

As cãibras tolheram as pernas de CinzaBranca earaivadeu-lhe nós na barriga contraída. A garganta apertou-se-lhe.

 

Homem Valente correu para ela e parou. o seu sorriso conhecido alargou-se enquanto uma cintilação lhe iluminava os olhos negros. As cruzes negras tatuadas no rosto pareciam projectar-se da carne gelada.

 

- Carne. Para todos nós. Partilha o meu fogo e a minha carne na minha companhia. Temos de conversar, tu e eu, a respeito de... Ela seguiu em frente, odiando o sorriso tolo e pretensioso que moldava a cara dele, odiando-o com uma futilidade amarga. «Como pude amá-lo?» Espírito Sábio aproximou-se, sorrindo uma luz de felicidade nos olhos enquanto olhava para além dela, na esperança de ver Lua Brilhante.

 

- Espírito Sábio? - chamou ela, suavemente.

 

Ele volveu-lhe um olhar penetrante. Aquele sorriso quente de reconhecimento destruiu-a, arruinou-lhe todas as palavras que ela compusera com todo o cuidado.

 

O céu azul-brilhante, o quente vento agreste, o cheiro da salva e da neve derretida - tudo se extinguiu. A própria terra pareceu escurecer quando ele encontrou o olhar dela, desvanecendo-se-lhe o sorriso.

 

- Que aconteceu? - As suas palavras cortavam como o fio de uma lasca de obsidiana.

 

- Vem comigo. Temos de falar. - Ela deixou cair a cabeça, as lágrimas a lutarem para se soltarem. Conduziu-o para a encosta de barlavento, afastando-se da mole de gente. o ruído dos passos apressados de Espírito Sábio desmancharam-lhe a compostura.

 

No sopé da crista, um afloramento de arenito erguia os ossos estéreis do abraço do solo. A neve acumulara-se contra a base da rocha, curvando-se num crescente em torno das enormes pedras arredondadas. Ela virou-se, deixando a brisa embrulhar-lhe o longo cabelo negro em volta do rosto.

 

Espírito Sábio examinou-a com os olhos brilhantes de preocupação. Os cincos círculos tatuados na sua testa sobressaíam completamente da pele subitamente pálida.

 

Lua Brilhante? - A voz tremia-lhe.

 

Cinza Branca mordeu os lábios, acenando lentamente com a cabeça.

 

As fortes mãos dele cravaram-se-lhe nos ombros. Ela estava vagamente consciente da dor enquanto os dedos poderosos lhe corroíam a carne entorpecida. «Nunca esquecerei a sua expressão. Nunca esquecerei a sua dor.»

 

- A alma dela... separou-se do corpo. Estive com ela o tempo todo. Ela não sofreu. Eu... eu senti-a ir-se. Senti-lhe a alma ir-se livre para a noite. Quente. Feliz com o único.

 

Fez um esforço para erguer os olhos, para cair nos braços da angústia reflectida nos olhos dele.

 

O aperto nos ombros dela tremia e afrouxava.

 

- Não.

 

- Não havia nada a fazer. Esquilo Que Voa...

 

Ele afastou-se e voltou-se. Escondendo o rosto, deu dois passos cambaleantes e parou.

 

- Onde... onde está ela?

 

- Lá atrás no antigo acampamento. Colocámo-la na crista a oeste e rezámos. A sua alma flutuou livre numa maravilhosa névoa quente. Ela sorria, Espírito Sábio. Ela sorria.

 

Vou regressar. Vou regressar e ficar com ela. A velar... Não! - Agarrou-o subitamente e empurrou-o. As lágrimas corriam-lhe pela cara abaixo, assustando-a. - Ela não devia querer isso. Apenas te ias torturar. Talvez morrer, também.

 

- E se o fizesse? - A voz dele modificou-se. - Sem... não há nada... nada.

 

Ela exaltou-se e endireitou as costas.

 

- Eu preciso de ti. Todos nós precisamos de ti. Ela foi-se. Deixa-a ir. - Abanou a cabeça, procurando sobrepor-se às imagens que os seus pensamentos conjuravam: do corpo de Lua Brilhante a ser devorado pelos necrófagos; de Espírito Sábio no topo gelado da crista, solitária companhia para um cadáver em putrefacção. Não sei nada a respeito do Mundo do Espírito, mas... e se a magoas? Impedindo o Pássaro de Fogo de a levar para o Acampamento da Morte? Provocando o regresso dela das estrelas? Ela morreu em paz. Deixa-a ir, pai.

 

O seu olhar assombrado despedaçou-a.

 

- Preciso dela!

 

Ela foi-se abaixo então e estreitou-o nos braços, Ele abraçou-se a ela, esmagando-a contra o peito enquanto ela enterrava o rosto no cabedal macio do casaco dele. o seu vestuário gasto transportava os odores familiares do corpo, odores de suor cediço e sangue de búfalo, de fogueiras de Inverno - de uma vida que não seria mais a mesma.

 

No topo da crista, Homem Valente afastou-se da confusão do povo aglomerado no sítio da matança. As vozes sussurravam-lhe no espírito, impelindo-o para Cinza Branca. Deslizou para um dos lados, descrevendo um círculo de modo a colocar a massa da crista entre ele e olhares indiscretos. Deslocando-se cautelosamente, alcançou uma posição de onde podia espiar.

 

Observou como Cinza Branca e Espírito Sábio se abraçavam, mergulhados na dor profunda da sua perda. «Um obstáculo a menos no meu caminho para te possuir, Cinza Branca. Não poderás recusar-me muito mais tempo. Espírito Sábio vacilará. Não terá coragem para argumentar enquanto a sua alma estiver presa a Lua Brílhante.»

 

As vozes sussurravam-lhe dentro da cabeça: «Em breve. Algo está para acontecer em breve. Está pronto... pronto para aproveitares a tua oportunidade. o Poder vem.»

 

- o Poder vem - sussurrou ele, olhando para o azul sem fim do firmamento. - Ouve-me, Mundo do Espírito. -As vozes dentro da sua cabeça calaram-se por instantes. - Para onde quer que eu tenha de ir, seja o que for que eu tenha de fazer, terei Cinza Branca. Juro-o pela minha alma! Usarei a sua força. Com o seu Poder, não conseguirás expulsar-me da neblina dourada.

 

As vozes cacarejaram-lhe no espírito o seu assentimento.

 

- Que vantagem há em ir mais para o sul? - perguntou Rabo de Gato do seu poiso no círculo do conselho. As linhas cinzeladas do rosto curtido pelo tempo, reflectido nas cintilações da luz da fogueira, mostravam o seu desconforto. As pegadas tatuadas nas faces diluíam-se com a sua expressão. Estava sentado embrulhado numa manta gasta de pele de búfalo. - Não consigo entender isso. Não avistamos um único alce desde que deixámos o rio Perigoso. Esta terra parece mais seca que aquela que deixámos para trás de nós. Os búfalos estão dispersos, são poucos e só aparecem de longe em longe. A erva não é luxuriante. Crescem aqui espécies diferentes de plantas. Não vejo qual o bem que possa vir do nosso deslocamento para terras onde não há muita caça.

 

Por cima das cabeças, o firmamento pejado de estrelas empalidecera no brilho da Lua que se erguia. A tribo do Homem Branco montara acampamento numa reentrância que cortava o sotavento de um maciço abaulado de arenito. A reentrância oferecia protecção contra o embate do vento e gozava de uma exposição a sul que captava os raios do Sol. o solo arenoso oferecia boa drenagem, ao contrário da argila pouco consistente dos plainos.

 

Enquanto os lobos uivavam à noite, a luz da fogueira tremeluzia no exterior das cabanas e lançava sombras alongadas e cónicas na neve espezinhada e na artemísia. Algures um cão ladrou e calou-se. Desta vez, a brisa fria que soprava do alto das montanhas não trazia a mordedura do Inverno.

 

Lebre Sibilante, o velho chefe do bando, abriu os braços, e as franjas da suajaqueta de pele de alce ondularam. Os olhos tinham perdido o brilho e a preocupação traía-se pela pele enrugada do rosto.

 

- Não tenho a certeza de termos alguma escolha. Estamos a ser caçados pelo Povo do Lobo. Penso que eles nos julgam mais para o norte. E atrás deles vêm os Ponta Negra e os Pedras Partidas. No Verão passado estas tribos passaram a maior parte do tempo a guerrearem-se uns aos outros. No próximo Verão deverão virar a sua atenção para nós.

 

- Nunca tive tanta fome como neste Inverno - declarou Salta Na Erva, mulher de Lince, com o seu olhar quente saltando de rosto em rosto. Os outros grunhiram a sua concordância.

 

Cinza Branca sentava-se no lugar de Espírito Sábio no círculo do conselho. Desde que o acampamento fora estabelecido que o pai não saía da cabana. Ficava nas mantas, olhando com o olhar vazio para o lugar onde Lua Brilhante deveria estar.

 

A fogueira central ardia enquanto o jovem Tambor lançava diligentemente mais artemísia para as chamas. Os chefes da tribo do Homem Branco sentavam-se em volta da luz indistinta com as caras carrancudas.

 

- Não podemos ficar aqui - insistiu do seu lugar, ao lado de Lebre Sibilante, a velha Esquilo Que Voa. Corria com ar ausente os dedos pelo desgastado peitoral que usava; a unha do polegar dava estalidos sobre as linhas de contas de osso de coelho separadas por discos cortados de conchas marinhas mercadas no oeste. - Pés de Vento escapou com dificuldade com vida. Aqueles grupos de guerra... vão encontrar o nosso trilho, se não estiverem já a farejar por aí. Lince, não importa o quanto nos demos bem no norte, desperdiçámos o suficiente da nossa energia tentando aguentar a terra. Temos cantado demasiado por alma dos nossos guerreiros ao céu e ao Pássaro de Fogo. Não nos fizeram nenhum bem lá no Acampamento da Morte. Só me resta um filho vivo. Um filho em quatro.

 

Abanou a velha cabeça esmagada pelos seus pensamentos.

 

- Talvez seja o Poder a fazer-nos isto. Nós somos o Povo do Sol. Talvez o Sol nos esteja a forçar a ir para sul por alguma razão. No sul vive outro povo. E uma terra que nos sustentará.

 

Cinza Branca começou quando a velha mulher olhou para ela. Todos os olhares se dirigiram para ela.

 

Cinza Branca concentrou-se, olhando de um rosto para outro. o povo vive muito bem no sul. Não caçam mais do que nós, mas também não passam fome. Do outro lado das montanhas Atravessadas, vive o Povo da Terra há muitas gerações. Os acampamentos eram poucos e afastados uns dos outros ao princípio. Como cresceram, alguns cindiram-se e fizeram novos acampamentos. Ao contrário de nós, apanham sementes e plantas e guardam-nas para o Inverno.

 

- Mas eles vivem em cabanas feitas de terra! - gritou Homem Valente. - Nunca me apanharás a viver na terra!

 

- Os mais velhos deles não congelam até morrer - replicou Cinza Branca acaloradamente. - Também não precisam de morrer em longas marchas, porque as pessoas não precisam de se afastar muito para procurarem alimentos.

 

Texugo cruzou os braços sobre o peito.

 

- Não gosto da ideia de comer sementes e plantas.

 

Falcão Velho, o libertador de almas, levantou um braço das mantas firmemente aconchegadas e agitou um dedo.

 

- Mas tu negoceias esses bolos de raiz sempre que podes! Texugo gesticulou desamparadamente.

 

- Bem, há que negociar com os mercadores. É o Poder. Não quero ofender o Poder, só isso.

 

- E não foste tu que me disseste o quanto eram doces esses bolos de raiz? - Falcão Velho mostrou os dentes a rir. - Penso que podias dar um pouco de carne de búfalo por aqueles bolos... especialmente quando isso significa comê-los sem medo de um dardo dos Pedra Quebrada te aterrar nas costas.

 

- Estou cá para ver isso.

 

Homem Valente olhou em volta do círculo.

 

- Não foi exactamente uma agradável surpresa o que encontrámos ao deslocarmo-nos mais para sul. Matei quatro dos últimos guerreiros que tentaram o poder da tribo do Homem Branco. E quanto a esse Povo da Terra? Pensam que eles nos deixarão simplesmente acampar e caçar nas suas terras? o meu Poder avisa-me contra isto.

 

o povo mexeu-se irresolutamente. Ninguém sabia que pensar do Poder de Homem Valente. Falcão Velho suspirou.

 

- Escutem-me - apelou Homem Valente, persuasivamente. Se formos mais para sul, não sei que acontecerá. Em vez disso, venham comigo. Deixem-me levá-los de volta ao Castor Gordo. Sei uma maneira de viver onde as manadas são fartas. Sigam-me, e eu manter-vos-ei em segurança.

 

Apenas os ruídos da brisa nocturna perpassando pela salva para além do acampamento e o crepitar do fogo do conselho quebravam o silêncio escandalizado. Uma a uma, as pessoas voltaram-se para Lebre Sibilante e Esquilo Que Voa.

 

Lebre Sibilante ergueu-se em toda a sua estatura.

 

- E onde nos conduziri as tu, Homem Valente? Que farias tu de diferente?

 

Homem Valente sorriu tão confiadamente que os dentes lhe cintilaram à luz vermelha da fogueira.

 

- Levá-los-ei de novo para o norte. Declararei extinta a tribo do Homem Branco... Esperem! Escutem-me. Declararei extinta a tribo do Homem Branco. Eu, sozinho. Quando o fizer, desafiarei o chefe de guerra da tribo da Pedra Partida. Quando derrotar o melhor guerreiro deles, arranjarei um lugar para o Homem Branco entre os Pedra Partida.

 

Cinza Branca ficou de boca aberta, tão estupefacta como todos os outros, tentando acreditar no que acabara de ouvir.

 

- Pensem nisto! - Homem Valente gesticulou apaixonadamente. - Eu posso conseguir um lugar para todos nós entre os Pedra Partida. Eu posso salvar todos nós! Percebem? Eu, Homem Valente, posso manter-vos vivos a todos! Não teremos de ir para sul. Nunca mais teremos de fugir.

 

Lince resmungou no silêncio abafado.

 

- Os meus antepassados pertencem à tribo do Homem Branco desde o começo do mundo. Não os posso repudiar. o caçador grisalho olhou em redor. - Talvez possa comer raízes e apanhar plantas, mas os meus filhos e os filhos deles depois deles pertencerão à tribo do Homem Branco.

 

Homem Valente abanou a cabeça em sinal de desaprovação.

 

- E se não houver mais filhos? E então? E se nós aqui neste círculo formos os últimos da tribo do Homem Branco?

 

- Então somos os últimos da tribo do Homem Branco, - disse, tranquilamente, Lince. - É tudo o que tenho a dizer. Irei para sul, de preferência a fazer seja o que for com os Pedra Partida. - Terminou com o sinal da mão para... nada mais.

 

- Ouvi o meu amigo Lince. - o rosto de Texugo parecia uma máscara. - Também eu quero morrer como o último Homem Branco.

 

- Vocês estão a ser parvos. - Homem Valente lançou-se para a frente como se quisesse abraçar os caçadores. - o Poder fala no meu espírito. Sigam-me! As vozes indicam-me o caminho. Enquanto tribo, não podemos continuar assim. Seremos varridos como grãos de areia num vento forte.

 

Lebre Sibilante abanou lentamente a cabeça.

 

- Por mim, não posso ir para os Pedra Partida. Nada sei a respeito do Poder de Homem Valente. o que realmente sei é que somos Homem Branco. Quem quiser ir para os Pedra Partida com Homem Valente pode fazê-lo. É assim que somos. Poderá não ser assim tão mau. Entre o Povo do Sol, muitos mudaram da tribo. Se algum de vós quiser fazê-lo, que vá com os meus melhores votos. Eu não posso.

 

O povo concordou com a cabeça, olhando de um lado para o outro para procurar nova coragem nos olhos uns dos outros.

 

Cinza Branca olhou para Pés de Vento, que escutava sentado com um ar dilacerado no rosto. Dilacerado? Porquê? Seguramente que não podia levar Homem Valente a sério? Sobretudo depois do fosso que se aprofundara entre ambos.

 

- Tenho de falar por mim e por Espírito Sábio - disse Cinza Branca. - Iremos para onde Lebre Sibilante decidir.

 

O velho chefe tributou-lhe um secreto sorriso, agradecido. Esquilo Que Voa acrescentou rapidamente

 

- Penso que devemos embalar a trouxa à primeira luz e apontar a sul pelas montanhas Atravessadas. Nada de bom nos virá se permanecermos neste lado. Talvez o Criador, o Sol ou o Pássaro de Fogo velem para que não encontremos nenhum grupo de guerra até estarmos a sul das montanhas. Ninguém pensará em nos procurar por lá.

 

- Excepto o Povo da Terra - recordou-lhe Homem Valente. Uma tensão crescente enchia-lhe a voz. - Escutem-me. Eu sou a vossa única esperança.

 

Falcão Velho pigarreou para aclarar a voz,

 

- Não sei que pensar do teu Poder, Homem Valente. Penso que tens um tipo diferente de Poder, talvez mais forte que o de outros ou talvez não. Escapaste do Acampamento da Morte, e eu compreendo o Poder disso, pois numa ocasião a minha própria alma voou para a terra da morte. Mas os homens devem ouvir as vozes do Poder e depois tomar as suas próprias decisões. A minha alma diz-me que eu devo ir para sul. Não sei por que temos sido tão empurrados. o Poder usa as pessoas de diferentes maneiras para os seus próprios propósitos. - o seu olhar gentil vírou-se para Cinza Branca. - No passado, o Poder deu-nos indicações de que o nosso caminho é o sul.

 

- Tu acreditas nisso, velho homem. Isso será a tua morte! Homem Valente olhou com ar irritado e feroz para o libertador de almas.

 

Cinza Branca retesou-se. o povo em redor da fogueira endireitou-se mais, rugas severas debruando-lhes as bocas. Ninguém usava aquele tom com um libertador de almas - especialmente com um com a reputação de Falcão Velho. Os que se sentavam mais perto de Homem Valente mexeram-se, tentando distanciar-se.

 

Absorto, Homem Valente continuou a fitar Falcão Velho através dos olhos semicerrados.

 

- Penso que devemos desmontar o acampamento à primeira luz de amanhã e seguir para sul o mais depressa que pudermos murmurou Esquilo Que Voa numa voz apenas suficientemente alta para ser ouvida.

 

Lebre Sibilante assentiu com a cabeça, de olhos apreensivos em Homem Valente.

 

- Irei para sul com a primeira luz da alvorada. Os que quiserem podem seguir-me.

 

Um a um, levantaram-se e regressaram às suas cabanas, os sussurros ansiosos abafados pela noite.

 

Cinza Branca levantou-se e dirigíu-se para a sua cabana. Olhou em volta para a artemísia ensombrada com olhos inquietos. Conseguia sentir a perturbação suspensa da noite, observando e pronta a saltar. Homem Valente perdera o juízo ao desafiar Falcão Velho daquela maneira!

 

Olhou para trás exactamente antes de mergulhar no interior da cabana de Espírito Sábio. Apenas Homem Valente e Falcão Velho permaneciam sentados junto da fogueira, de olhos grudados um no outro.

 

- Toma agora uma pata de coiote. Quando a deixas algum tempo ao relento e toda a pele e tendões e músculos apodreceram, vês que é muito parecida com uma mão humana.

 

- Mas os ossos têm de ser diferentes – protestou Mão Esquerda.

 

Tinham rumado a norte, seguindo um vale estreito através das montanhas da Pedra Redonda. De um lado e doutro,,erguiam-se contra o céu azul bossas de granito cinzento desgastadas pelo tempo com a forma de cúpulas fendilhadas e partidas. Uma linha de água serpenteava pelos fundos, o solo arenoso cheio de quenopódio, crisótanol e salva. Feixes de erva-do-arroz, de centeio silvestre gigante e grama apareciam em medas amarelo-acastanhadas ao longo do caminho. A terra cheirava a Primavera. Aqui e ali, despontavam folhas verdes fusifórmes dos campos de erva do ano passado. Duas águias voavam em círculos por cima das cabeças, descendo e subindo consoante as correntes de ar.

 

- Bem, são diferentes - concordou Barriga Falsa. - Os ossos são mais pequenos e mais delgados. Mas toma cada um dos ossos da mão do homem e consegues descobrir um semelhante na pata do coiote. Consegues ver as semelhanças,

 

Mão Esquerda suspirou e pareceu derrotado.

 

- Está bem, talvez os animais tenham realmente os mesmos interiores que os humanos. o Sábio Lá de Cima fez as pessoas depois dos animais. E depois?

 

Barriga Falsa coçou-se entre as omoplatas e fez um gesto.

 

- Penso que tudo isto é curioso. Quero dizer, por que é que o Sábio Lá de Cima não fez alguns animais... bem, sem dentes ou coisa assim? Estás a perceber?, apenas para serem diferentes.

 

Mão Esquerda resmungou para consigo.

 

- Não admira que tenham posto Garra de Cotovia maluca. Barriga Falsa franziu o sobrolho.

 

- Se estiver a começar a aborrecer-te, diz-me para me calar. Mão Esquerda abanou a cabeça.

 

- Não. Estou a gostar disso. Tu és um tipo diferente de pessoa. Descobriste uma nova maneira de olhar para o mundo. Já sentia a falta de estar com alguém tão bonacheirão como tu.

 

Barriga Falsa suspirou, sentindo uma sensação estonteante no peito, como asas de borboleta batendo.

 

- Sínto-me alguns anos mais novo. Não fazia ideia de que isto ia ser assim.

 

- Que queres dizer?

 

- Julgo que estou feliz... e, ao mesmo tempo, assustado.

 

Mão Esquerda caminhava com facilidade, erguendo bem alto o seu bastão de mercador.

 

Arbusto rasteiro típico dos solos alcalinos do Oeste da América do Norte, caracterizado por folhas lineares inteirasecachos deflores amarelo-douradas, (N. do T.)

 

- Por que pediste para vir? Pensei que nunca o farias. Pensei que não terias coragem.

 

Barriga Falsa bateu na mão mirrada. «Posso dizer-lhe? Fogo Ardente acharia isso correcto?»

 

- Prometi ao meu amigo que partiria. Ele... ele disse-me... Oh, nada. Foi uma coisa entre nós. - Barriga Falsa olhou para o alto para o céu cristalino. - Mesmo que isto me mate, Mão Esquerda, eu tinha de partir. Prometi-o ao meu único amigo. Uma promessa...

 

- E tu pensas seguir este caminho até ao fim? - Mão Esquerda examinou-o pelo canto do olho. - Podes morrer, compreendes. Podes ter um acidente, cair, talvez ser surpreendido por um urso prateado.

 

Barriga Falsa estremeceu.

 

- Tenho pesadelos por causa disso. Mas, Mão Esquerda, mesmo que eu não tivesse prometido a Fogo Ardente, que pensas que seriam as coisas se eu voltasse agora?

 

- Tu sabes que não seriam fáceis. Se decidires ser mercador, o caminho será sempre mais comprido que aquilo que pensas.

 

- Não. Em primeiro lugar, eu... eu tenho alguém a quem procurar.

 

- Alguém?

 

Barriga Falsa sorriu contrafeito.

 

- E se eu te dissesse que era o Poder?

 

- Tiveste um sonho?

 

- Eu não. Fogo Ardente. Ele contou-mo precisamente antes de morrer.

 

- Bem, onde é que ele te disse para ires?

 

- Norte.

 

- É uma grande porção de território. Se quiseres, podes vir comigo até ao Povo do Lobo. Ou posso dízer-te como alcançar os outros lugares. Isto é, quais os trilhos a seguir. Onde encontrar água e bons acampamentos. Exactamente, onde queres parar?

 

Hum, suponho que, realmente, não pensava ir tão longe. Vem comigo. Vais gostar do Povo do Lobo. Podias arranjar um lugar para ti entre nós. Ou podias ser mercador.

 

- Disseste que, em primeiro lugar, eu tinha de encontrar o meu Poder.

 

- Sim, tens. - Mão Esquerda parou e virou-se para Barriga Falsa. - Escuta, para um mercador, a jornada é parte do Poder. Não é algo para se empreender de ânimo leve. Aqui. - Mão Esquerda estendeu a mão para o cinto e desatou os laços que prendiam uma pequena bolsa de couro e estendeu-a a Barriga Falsa.

 

- Que é isto? Com os dentes, Barriga Falsa desatou o cordel que fechava a bolsa. Dentro podia ver uma colecção de curiosas pedras negras triangulares, polidas e brilhantes.

 

- Um presente para o trilho, meu amigo. - A voz de Mão Esquerda suavizara-se.

 

- Um presente?

 

Mão Esquerda assentiu com a cabeça.

 

-Abase paraummercador, actualmente. Eu soumercador, não te esqueças.

 

Barriga Falsa sentiu um buraco de ansiedade nas tripas.

 

- Mas eu não tenho nada para negociar. Apenas umas poucas de coisas no meu fardo. Um par de bolos de raiz de biscoito que... Mão Esquerda deu uma gargalhada.

 

- Nem todos os mercadores se fazem ao mesmo tempo. Pensa nisto como uma garantia... uma garantia de Poder. Mercar é uma coisa da alma, uma partilha. Um dia encontrarás por acaso um presente para retribuíres este... algo tão importante para ti como esses dentes foram para mim. Eu confio na tua alma, Barriga Falsa. E tu não me esquecerás.

 

- Dentes? - Barriga Falsa retirou da bolsa uma das curiosas pedras chatas.

 

- Dentes. - Mão Esquerda voltou de novo ao trilho. - Por mim, não o teria sabido, mas mostrei-as a um mercador nas terras do Povo do Antílope. Ele transportara um carregamento de conchas de olivella da Ãgtia Ocidental e contou-me que isto eram dentes de um peixe terrível que nadava lá... mas esse mercador nunca vira dentes assim tão grandes ou de pedra.

 

- Então, onde os encontraste? Mão Esquerda riu de satisfação.

 

- Isso é parte do Poder de negociar, Barriga Falsa... e ao mesmo tempo um mistério. Obtive-os de Maneta Velho, no acampamento do Arenito Branco. Ele disse que os encontrara na terra lavada, lá em baixo, no País da Margem. Ele diz que há lá grande quantidade de ossos e que todos estão à superfície. Mas essa não é a parte curiosa.

 

- Não? - interrompeu apressadamente Barriga Falsa, na ânsia de ouvir mais.

 

- oh, sim, a parte curiosa é que todos os ossos são pedra. Agora. Já viajei mais do que qualquer outro mercador que conheço e nunca vi um animal com ossos de pedra.

 

Barriga Falsa inspeccionou o dente de novo, notando as orlas serrilhadas e como eram chatas.

 

- Estes dariam um colar maravilhoso.

 

Mão Esquerda concordou com um aceno de cabeça.

 

- Tu e eu temos muitos pensamentos semelhantes. Mas diz-me, Barriga Falsa, onde vais começar a procurar o teu Poder? Barriga Falsa franziu as sobrancelhas. Onde é que se começava para procurar o Poder? Nos seus dedos, o dente de pedra do peixe era frio e pesado.

 

O sonho dominou Cinza Branca, fazendo-a levitar como a uma pena no vento. Sacudia-se e rodopiava, elevando-se e depois caindo, e a sua alma vogava nas correntes.

 

Estabelecera-se numa neblina cinzenta, familiar e confortável. A névoa rodopiava em seu redor, tornando-se dourada com um brilho de mel. Parecia adensar-se, formando as feições de um belo jovem. A luz mudou, tornando-se mais brilhante e mais escura por etapas.

 

- Quem és tu?

 

«Tudo o que tu és... e não és. Dança o fogo e canta as estrelas é o que eu sou.»

 

- Por que estou aqui?

 

O teu tempo está a chegar. Tem de ser traçado um caminho. Tu és parte da espiral: o círculo sem princípio nem fim. o teu Povo... todo o teu Povo... precisará de ti. Tu és o caminho... e não o és.»

 

- Que queres dizer, o caminho e não o caminho?

 

O jovem sorriu-lhe e a alma de Cinza Branca doeu-lhe com a beleza dele. o seu amor parecia irradiar como o calor dos carvões brilhantes, ínundando-lhe a alma de êxtase.

 

O tempo chegou. o trilho que segues será difícil. És suficientemente forte? Consegues aprender tudo o que precisas?»

 

- Não sei. De que falas?

 

«Uma nova senda começa agora para ti. Procura... e analisa-te. o Poder tem as suas razões. Tu podes ser aquela que buscamos. o feixe está à tua espera... se conseguires encontrar o caminho e confiares em ti própria.»

 

A névoa tremeluziu, esbatendo a imagem do homem jovem.

 

- Espera! Volta!

 

«Procura. Primeiro conhece-te a ti própria. Conhece o amor e o ódio. Conhece a felicidade e a infelicidade. Conhece a dor e o prazer. Aprende.»

 

- Volta!

 

Procurou-o, mas a neblina dourada agitou-se e ela caiu, arrebatada de súbito pelo nada sedoso enquanto a luz se esbatia e os matizes dourados se tornavam cinzentos.

 

Caindo - o seu estômago subia e vibrava -, caindo, despenhando-se como uma pedra num abismo.

 

Cinza Branca gritou e acordou de súbito. Arquejou no ar frio e sentou-se. Um suor quente corria-lhe pela cara abaixo enquanto ela piscava os olhos na escuridão. Algures à distância, um lobo uivou. o vento sussurrava em redor dos postes da cabana e fazia bater a aba do buraco do fumo de um lado para o outro. Cinza Branca chegou-se para a frente e escarafunchou nos carvões. Uma chama delicada tremeluziu. Gelava; as mantas de Espírito Sábio estavam vazias. A preocupação apoderou-se dela. Ele ficara sentado silenciosamente na cabana enquanto ela assistia ao conselho. Quando ela lhe repetira o que fora dito, ele escutara-a com o olhar sem brilho.

 

- Onde estás, Espírito Sábio? Não me digas que também perdeste o juízo.

 

Cinza Branca puxou o cabelo para trás e procurou o casaco coçado. Agarrou nos mocassins que tinham ficado junto do fogo para secar e enfiou-os nos pés; depois saiu pela aba da porta.

 

A Lua estava baixa sobre a crista para oeste. Cinza Branca examinou com atenção a paisagem envolta em sombra que a rodeava. Os pertences de Espírito Sábio permaneciam na cabana, por isso não fora para longe.

 

Caminhou em redor do acampamento, observada pelos cães que erguiam as cabeças e espetavam as orelhas. As cabanas projectavam sombras fantásticas que a faziam pensar no Acampamento da Morte de Homem Valente.

 

Associada às imagens do sonho, a noite deprimiu-a como se a abafasse. o acampamento parecia demasiado calmo. Mesmo o habitual ressonar se calara nas cabanas. o vento chorava, fazia bater as coberturas das cabanas e morria. No firmamento, as estrelas mais brilhantes cintilavam com uma luz fria.

 

Um arrepio - não só provocado pelo frio - percorreu-lhe a espinha de cima a baixo.

 

Os seus pés esmagavam a neve granulosa e o ruído chiava na noite. A pele arrepiou-se-lhe como se olhos invisíveis a seguissem das sombras protectoras. Virou-se rapidamente, sentindo uma presença maligna escondida por detrás de si, seguindo-a furtivamente com pés de predador.

 

Espírito Sábio podia ter-se desvanecido no ar cristalino. Uma súbita rajada surda de vento apanhou-lhe o cabelo solto ao longo do rosto. Ela pestanejou. Os varais da padiola de arrasto para os cães erguiam-se como dedos fantasmáticos. Cinza Branca encheu-se de coragem e meteu-se pela salva dentro para poder olhar para o alto da crista de arenito.

 

Uma silhueta difusa movia-se contra o luar.

 

Espírito Sábio? Caminhando durante a noite, perdido na sua dor por Lua Brilhante? Um coiote? Ou algo mais?

 

Avançou cautelosamente pela encosta coberta de sombras. Um roçagar na salva provocou-lhe um sobressalto no coração. Olhou através da escuridão: nada. Prosseguiu contrafeita, pé ante pé, cheia de medo.

 

Acocorou-se ao chegar à cumeada da crista, receosa de se mostrar recortada na linha do horizonte. A figura mergulhada na sombra - definitivamente um homem - moveu-se lentamente ao luar, mãos atrás das costas a olhar para as estrelas. Avançou em silêncio por entre a artemísia rasteira até poder ver distintamente ohomem.

 

- Pés-deVento?

 

Ele virou-se, agachando-se ligeiramente antes de a reconhecer.

 

- Que estás a fazer aqui a esta hora da noite? - perguntou ele calmamente.

 

- Estou à procura de Espírito Sábio. Mas também te podia perguntar o mesmo.

 

Ele baixou a cabeça, escondendo as feições na sombra.

 

- Não sei. Apenas uma sensação. Não conseguia dormir.

 

Ela esfregou os braços, olhando em redor. Para ocidente, as montanhas da Pedra Vermelha jaziam nas sombras. As cristas de arenito sobrelevadas para o norte pareciam ter emergido de um mundo de fantasmas; projectavam-se para cima sem harmonia na luz azul e branca e na sombra. o vento amainara.

 

- Não é uma noite para dormir. o Poder anda à solta. Escavou no solo com o pé calçado com o mocassin.

 

- Sentes como se algo estivesse para acontecer. Como se todas as nossas vidas fossem mudar numa noite como esta. Tu interrogaste se a manhã virá mesmo.

 

Ela olhou para as estrelas.

 

- Virá. Em breve, de facto. - Fez uma pausa. - Por que estás aqui em cima?

 

- Estou a tentar decidir o que fazer.

 

- Que queres dizer com «o que fazer»? - Um punho fechado espetou-se-lhe nas tripas.

 

- Penso partir amanhã.

 

- Partir?

 

- Ir para o norte. Para o Ponta Negra. Espantada, abanou a cabeça.

 

- Não podes! Nós precisamos de ti. És um dos melhores caçadores.

 

Ele aproximou-se mais dela e agarrou-a pelos ombros. Conseguia sentir o seu olhar penetrante.

 

- Vou fazer isto por ti. Ela afastou-se.

 

- Por mim? Não. Isso não faz sentido. É... é...

 

- Faz perfeito sentido. Posso ir para os Ponta Negra. Renuncio à minha tribo. Ganho um lugar entre eles. E, quando o fizer, posso pedir-te para casares comigo. A minha família será declarada morta. Então não terei parentes.

 

Por instantes, não conseguiu articular palavra. Finalmente gritou:

 

- Isso é uma loucura! Casa comigo agora. Eu amo-te! Estás a jogar um jogo com esta coisa da consanguinidade, como se ela existisse. Sou tanto tua irmã como... como estas pedras. Fujamos... para algures onde não haja ninguém do Povo do Sol. Apenas tu e eu.

 

- Não posso - disse-lhe ele. - Esta é a minha gente. Como se sentiriam se soubessem que fugimos para viver em incesto?

 

- Como se sentirão quando fugires e os considerares mortos? Isso não tem significado para ti?

 

- Mas eles vão entender por que o fiz... que não foi feito para os magoar, mas porque honro as suas tradições. - Ergueu as mãos e depois deixou-as cair. - Repara, o povo tem de viver de acordo com normas. Nós recebemos as nossas. Tu e eu, ambos sabemos que este é o único caminho.

 

- Não faças isso.

 

Ela conseguiu ver-lhe o sorriso.

 

- Um homem não podia fazer menos do que isto pela mulher que ama. Por ti, desafiarei todos os Ponta Negra e virei por ti à testa de dez dezenas de guerreiros.

 

- Vais destroçar o coração dos teus parentes. Ele perguntou-lhe suavemente:

 

- Amas-me? Di-lo agora. Di-lo do fundo da tua alma.

 

Ela engoliu em seco com força, aguilhoada pela sua missão para com o povo. «Conhece-te a ti própria.» A voz ecoou-lhe na cabeça.

 

- Sim,

 

- Serias minha mulher? Sim.

 

Ele acenou com a cabeça, o luar a cintilar-lhe no longo cabelo negro.

 

- Espera por mim. Promete-me que não aceitarás Homem Valente.

 

Promete-me que não te entregarás a nenhum outro homem da tribo do Homem Branco.

 

- Não ficam muitos por onde escolher. Ele riu-se com gosto, então.

 

- Eu sei. Melhor ainda, vem comigo para norte agora. Tu e eu, juntos, iremos para norte. Dessa maneira, não terei de regressar. Não terei de enfrentar a possibilidade de ter de lutar por ti... e talvez matar um dos membros da tribo do Homem Branco durante o processo.

 

Ela fechou os olhos e inspirou profundamente.

 

- Não posso. Tu sabes isso. Espírito Sábio precisa de mim. o povo aqui precisa de mim.

 

Ele virou-se de perfil, fixando o olhar nas linhas irregulares das cristas que brilhavam à luz branca e suave.

 

- Virei por ti. Seguirei o caminho para sul até te encontrar.

 

- Se eles não te matarem durante o desafio. - o coração começou a doer-lhe. - Terás de enfrentar o seu melhor guerreiro, um homem que matou muitos...

 

- Não me matarão. Não com a mais bela mulher do mundo à minha espera.

 

- Não. Por favor. Por mim, não faças isso.

 

- Quando disseste que casavas comigo, a minha decisão ficou tomada.

 

- Então não casarei contigo. Ele levantou-lhe o queixo.

 

- És capaz de me dizer isso, olhos nos olhos? Ela abanou a cabeça.

 

- Mas também não consigo enviar-te para a morte. Ele soltou um riso abafado e descarado.

 

- Não vou para a morte. Consigo senti-lo. Não     voltarei por ti. Agarrou-a e puxou-a para si. Os braços envolveram-na da forma que ela sempre sonhara. Durante longos momentos, ela apertou-o contra si, com o desejo por ele a pulsar-lhe no sangue.

 

Finalmente, ele afastou-a, mantendo-a à distância do braço estendido.

 

- Não demorarei. Estarei de volta por ti nunca depois da primeira queda de neve. Tem muito cuidado com Homem Valente. Ele é perigoso... mas depois da última noite não ficará. - Fez uma pausa. - Engraçado como as coisas acontecem. Eu estou orientado para o Ponta Negra, ele para o Pedra Partida. Quando brincávamos em rapazes, quem pensava que acabaríamos como grandes inimigos?

 

- Há algo que eu possa fazer para,te dissuadir?

Ele abanou a cabeça.

 

- Não. É a nossa única saída. Ambos o sabemos. Agora, vai procurar Espírito Sábio. Leva o povo para sul amanhã. Diz-lhes o que fiz e porquê. Eles compreenderão.

 

Ela concordou com um aceno de cabeça, sentindo um novo entorpecimento dentro de si. Ele deu alguns passos para as artemísias e apanhou os dardos e o atlatl e depois pôs a pequena bagagem em bandoleira. Fez uma pausa.

 

- Suceda o que suceder, amar-te-ei sempre.

 

- Também te amarei.

 

Ele voltou-se para seguir.

 

Por favor! Pés de Vento, não faças isso.

 

Antes da queda das neves. Prometo. E acenou enquanto começava a seguir o seu caminho através da salva, aproado a norte. Ela ficou a vê-lo até as sombras o encobrirem.

 

Cinza Branca inclinou a cabeça, a angústia envolvendo-a como um pântano morto.

 

Quando alcançou o sopé da encosta, tinha conseguido controlar a dor interior. Por que é que os que ela amava tinham sempre de a deixar? Por que não mentira ela, dizendo-lhe que nunca casaria com ele? «Criador abençoado, condenei-o à morte.» Excepto... ele parecera-lhe tão determinado, tão seguro da vitória, apesar do conhecimento que tinha de ter para enfrentar o melhor dos poderosos guerreiros dos Ponta Negra.

 

Olhou para trás, para a crista, acinzentada agora nos primeiros alvores do crepúsculo matutino. «Nunca mais o verei.»

 

Começou a fazer outra volta em torno do acampamento e deu fé da sombra nas artemísias. Aproximou-se mais, espreitou. Um homem jazia ali, de rosto no chão. Um frio perpassou-lhe pela alma.

 

- Espírito Sábio?

 

Ele não se moveu. Conseguia sentir que algo estava errado, a sensação de abuso de Poder. Inclinou-se e tocou-lhe com os dedos: estava frio como o chão gelado. Agarrou-lhe subitamente pelo casaco de pele de búfalo e rodou-o. A luz indistinta do amanhecer, conseguiu reconhecer-lhe as feições. «Falcão Velho!»

 

Sobressaltou-se perante a mancha negra na testa. o sangue Congelara e coagulara onde o crânio fora aberto.

 

Cambaleou para trás, com uma mão na boca. Depois gritou no crepúsculo calmo:

 

- Lebre Sibilante! Vem cá. Vem cá rapidamente! Falcão Velho está morto! Assassinado!

 

Mal acabara de gritar quando o ar se encheu de gritos agudos e imprecações. Formas negras carregavam vindas da salva, as armas erguidas sobre as cabeças. Demasiado chocada para compreender, Cinza Branca agachou-se rapidamente. Em breve compreendeu que as formas cobertas pela sombra que lançavam dardos por entre as cabanas eram guerreiros. «Guerreiros inimigos!» Compreendeu a língua em que gritavam - familiar, todavia tão diferente. As palavras soavam indistintas; os incursores vociferavam insultos e gritos de triunfo: «Povo do Lobo!»

 

Os cães ganiam e ladravam. Alguém gritou de dor. Cinco, dez, depois uma enchente de guerreiros ululantes irrompia pelo acampamento.

 

«Não. Não! Não pode ser. Eles são de mais.» A tribo do Homem Branco era esmagada pelo número, desgraçadamente. Rato das Pedras, que sobrevivera ao ataque no rio Castor Gordo, saiu aos tropeções da sua cabana, o cabelo ao vento enquanto corria. Uma clava de guerra esmagou-lhe o crânio. Lebre Sibilante emergiu da cabana ajustando um dardo ao atlatl... quando uma lança com ponta de pedra lhe penetrou no abdômen. Lince precipitou-se para fora da cabana, rugindo a sua raiva enquanto se precipitava para o meio da confusão - e cambaleou quando as flechas lhe penetraram no corpo.

 

O massacre desenrolava-se perante os olhos de Cinza Branca. Em desespero, olhou em redor. Os guerreiros inimigos estavam por toda a parte. «Não há hipóteses! Não os podemos repelir... não conseguimos escapar!»

 

Um dardo assobiou-lhe aos ouvidos - o lançamento falhou devido à luz diminuta. o míssil mortal libertou-a das garras do terror. Virou-se e correu com todas as ganas.

 

Atrás de si, gritos de pânico rasgavam o crepúsculo sombrio numa confusão de morte e medo.

 

Barriga Falsa aconchegou melhor as mantas ao pescoço; estava deitado de costas e fitava o céu nocturno. o vento forte da Primavera corria veloz por entre a salva e gania em volta dos topos da crista. A seu lado, Confusão era uma bola de pêlo comprimida; o seu calor infiltrava-se nas mantas de Barriga Falsa.

 

No firmamento, as estrelas tremeluziam e cintilavam - pontos de luz fria no manto negro da noite.

 

Emoções curiosas brincavam no peito de Barriga Falsa como ratos correndo precipitadamente pela erva seca. Partira. Cumpria a promessa a Fogo Ardente. E agora? Para onde devia ir? Para o Povo do Lobo? Queria seguir a senda do mercador? Era esse o caminho do seu Poder? A bolsa com os dentes de pedra do peixe estava pesada e tranquilamente poisada sobre o seu peito, pendurada ao pescoço pela correia. Aquele presente tornara-se o seu bem mais precioso, o único do qual nunca se separaria - nem mesmo à custa da própria alma.

 

Virou a cabeça, examinando as sombras negras da reentrância onde acampavam. Mão Esquerda jazia enterrado nas mantas e os cães em círculo em redor das cargas. A fogueira ardera até as mais pequenas brasas não serem mais do que pontos vermelhos matizados na noite.

 

O vento chamava melancolicamente por Barriga Falsa, falando nas línguas das almas penadas.

 

«Para onde vou agora?» o mundo esperava, hostil, desconhecido, adverso. o perigo escondia-se exactamente para lá do topo da crista mais próxima ou nas sombras lúgubres da salva.

 

Desde que deixara Pedra Redonda que passava os dias na conversa. Ele e Mão Esquerda tinham rido e gracejado, falado do Poder do espírito e das suas vias e a respeito de como os outros povos viviam e actuavam. o cérebro de Barriga Falsa pulsava cheio de ideias: o apelo romântico das coisas estranhas e excitantes acenava-lhe.

 

Se ao menos as coisas não fossem tão assustadoras.

 

Voltou a apoiar a cabeça no braço, sentindo a força do vento. o vento fustigara-os durante todo o dia durante a caminhada. As suas palavras tinham sido sugadas para longe nas violentas rajadas e sopradas para a salva vigorosa.

 

Deslizou, com os pensamentos amolecendo como a neve da Primavera ao sol. De tão cansado que o corpo estava que bem podia ter estado a flutuar numa corrente opressiva. o sonho veio com o toque suave do fumo numa manhã brumosa, arrastando-se vagarosa e silenciosamente em redor do seu torpor, expandindo-se para o interior da sua alma...

 

Barriga Falsa estava de pé num ponto alto e pedregoso que sobressaía acima de uma fendilhada e desgastada cadeia de montanhas. Abaixo da sua posição elevada, a montanha despenhava-se em fracturas dentadas e dobras de rocha lançadas para o alto que caíam em abismos azuis e verdes. Estava de pé no reino das águias. o granito anguloso feria-lhe os pés, áspero e implacável. Por cima, o céu estava inflamado. o Sol a pôr-se fria as nuvens de amarelo e laranja. Um vento quente atirava-se contra ele, sugando-lhe a humidade do corpo.

 

Nas encostas em baixo, espessas matas furavam com as pontas em lança de árvores altas, enquanto uma luz garrida disparava sombras misteriosas no interior das profundidades escondidas da floresta. Os irregulares afloramentos rochosos cintilavam nos raios de luz fantasmagóricos projectados pelo firmamento a sangrar.

 

As narinas de Barriga Falsa inflamaram-se ao cheiro do fumo. o vento caíra e o ar ondulava. Silêncio. Então um cascalhar soou à sua retaguarda, ominoso, ameaçador.

 

O coração de Barriga Falsa veio-lhe à boca enquanto uma sensação de náusea lhe fazia cócegas no estômago. Gelados filamentos de medo enrolavam-se-lhe na alma.

 

O fumo enrolava-se em seu redor e adensava-se.

 

Barriga Falsa protegeu os olhos da luz e espreitou as imagens que se formavam no fumo. Conseguiu ver homens aprisionando antílopes num pequeno cercado, rindo enquanto colocavam nós corredios entrançados em volta do pescoço dos animais assustados. A visão mudou e grupos de homens trabalhavam numa encosta ao sol forte, usando utensílios brilhantes para cortar. Um a um, cinzelavam quadrados de rocha do interior da montanha, colocavam-nos às costas brilhantes de suor e marchavam numa linha interminável. Ao fundo, a terra mudara, aplanara. Em pequenos talhões quadrangulares de terra, crescia uma única espécie de planta alta e direita debaixo do Sol. Entre os talhões caminhavam homens com lanças e facas brilhantes - com o comprimento de um braço de homem - que brilhavam como prata à luz do Sol. Usavam-nas no povo que trabalhava, forçando-o a cumprir as ordens.

 

Que é isto?

 

O que deve ser, Homem do Povo», respondeu uma voz. Dominado pelo medo, Barriga Falsa voltou-se e a floresta atrás de si explodiu em chamas. As chamas engolfaram o conjunto das árvores. Os ramos agitavam-se e abanavam enquanto línguas amarelas as lambiam e devoravam. o fogo rugia, saltava e dançava em volta de Barriga Falsa, que tentava afastar-se dele. o incêndio respondia lançando faúlhas na sua direcção.

 

O pânico inundou-lhe as veias. Freneticamente, olhou em redor e não encontrou saída do pináculo de rocha. «Apanhado! Estou apanhado aqui em cima!»

 

As chamas projectavam-se para o alto para perfurarem as nuvens e brincarem no meio delas como espíritos que tivessem enlouquecido.

 

«Homem do Povo?»

 

Voltou-se ao ouvir a voz, inclinando-se e tentando abrigar-se.

 

- Ajudem-me!

 

«Barriga falsa... Homem do Povo.»

 

- Quem és tu? Onde estás? Vamos morrer.

 

«A morte é uma ilusão.» Algo se moveu na cinza agitada das profundezas do Inferno. Barriga Falsa estremeceu e agachou-se na rocha com lágrimas de terror a escorrerem-lhe pela cara.

 

Um homem de fogo caminhava pelas chamas. A figura difusa parou a não mais do que a distância de um braço estendido, e o calor dulcificou-se.

 

«Barriga Falsa. Homem do Povo.»

 

- Vai-te embora! Deixa-me em paz! Não fiz nada aos espíritos! Deixa-me!

 

«Deixaste Pedra Redonda. Cumpriste a tua promessa. »

 

- Fogo Ardente? - Será que o seu amigo se transformara neste... nesta aparição de pesadelo?

 

«Eu sou o Primeiro Homem... Sonhador de Lobo. Eu danço a espiral. Eu sou tudo o que é... e o que não é. Eu sonho o único.»

 

- Por que estás aqui? Que fiz eu?

 

«Não estou aqui pelo que fizeste.... mas pelo que podes fazer.»

 

- Não farei! Não farei isso. Prometo. Deixa-me em paz! Vai-te embora, espírito! Eu não sou mau!

 

O pesadelo riu-se e o som ressoou pela rocha, até aos pés.

 

«Tu és tudo menos mau, Homem do Povo. Tu és uma alma pura que não procura se não descobrir-se. Darás mais? Serás suficientemente forte para a salvar? Terás coragem suficiente para ousares tudo pelo sonho? Podes salvar o único? Serás suficientemente forte para arriscares tudo pelo sonho de Lobo?»

 

- Arriscar tudo? Não percebo. Por que vieste ter comigo? Que fiz eu?

 

«Tu deste oprimeiropasso. Cumpriste apromessa feita a um homem que morria, Estás disponível para cumprir uma promessa ao Poder? É o que procuras, não é?»

 

- Eu... bem...

 

«Vai. Prepara-te. Tens dentro de ti aquilo de que o Poder vai precisar.»

 

- Porquê eu?

 

«Teu é o sangue do Primeiro Homem. Teu é o legado dos sonhadores.»

 

- Mas eu nunca sonhei!

 

«Tu nunca procuraste. o caminho para o Poder é imprevisível... e nunca isento de perigo. Prepara-te. Procura o caminho.»

 

Barriga Falsa tentou retirar-se apressadamente quando o ser ígneo abriu os braços. Em seu redor, as chamas fundiam-se numa neblina dourada.

 

- Quem és tu?

 

«Eu sou o Primeiro Homem... o sonhador de Lobo... Dança Com o Fogo.» A figura cresceu e modificou-se, transformando-se em lobo. O Povo do Sol vem. A espiral está a mudar. Antes que uma árvore cresça, tem de enterrar as raízes no solo. A árvore do Sol crescerá a tempo. Agora, as raízes têm de ser levadas para dentro do sonho. Caso contrário, a espiral será rodada... e o mundo mudará.»

 

Um desespero incrível apoderou-se de Barriga Falsa, uma perda imensa tão terrível que se abateu sobre a rocha. Gritando de horror estupidificante, cravou as maxilas no vazio que lhe sugava a alma e com os dedos agarrou com firmeza a pedra áspera até ter cãibras e sangrar.

 

A neblina rodopiava e escurecia, transformando-se numaencosta de montanha iluminada por luzes cintilantes como sóis minúsculos. Os homens trabalhavam com instrumentos brilhantes, debicando na montanha enquanto eram observados por capatazes. Os homens retiravam pedras dos ossos da montanha e empilhavam-nas por debaixo das luzes.

 

A visão guiou Barriga Falsa ao interior da montanha. Ali, quais toupeiras, homens e mulheres afadigavam-se de mãos e pés no chão através de galerias que rasgavam na barriga da montanha. Sujos, curvados e miseráveis, trabalhavam para partir grandes blocos de pedra solta. Alguns tossiam, os olhos cintilantes, a carne amarela e lívida. Outros faziam o seu trabalho penoso em silêncio.

 

- Que loucura é esta? - gritou Barriga Falsa, e a visão desvaneceu-se de novo na neblina dourada.

 

O fim da espiral. o fim da harmonia do sonho.»

 

Barriga Falsa gritou quando o lobo incandescente começou a mudar de forma. Enquanto olhava, as patas dianteiras da besta ardente afastaram-se e transformaram-se em asas com longas penas de chamas. Cintilando, uns olhos dourados fixaram-se nos olhos de Barriga Falsa. o enorme pássaro sibilou e agarrou-se à rocha com garras negro-azeviche. Depois o animal saltou para o céu gritando tão estridentemente como uma águia enfurecida.

 

Barriga Falsa comprimiu-se contra a rocha, batido pelo adejar ardente das asas. Lá no alto dos céus carmesim, o pássaro-espírito pairou - e desvaneceu-se. Um rugido de trovão rasgou o céu e abanou o solo antes de se desvanecer num rumor distante.

 

Barriga Falsa estremeceu e libertou-se das mantas. Com o suor a fazer-lhe comichão na pele quente, olhou em volta para o acampamento

escuro. A mão sã estava enredada no grosso cabedal da sua camisa de pele de gamo sobre o coração. Mão Esquerda, meio agachado nas mantas, tinha um dardo preso no atlatl.

 

- Que...? - sussurrou Mão Esquerda. - Que aconteceu?

 

- Sonho. - Barriga Falsa engoliu o nó que se lhe formara na garganta febril. - Sonho de espírito...

 

Mão Esquerda observou nervosamente a noite em redor, torcendo os pés na confusão das mantas.

 

- Sonho de espírito? Não ouviste?

 

Barriga Falsa apertou os olhos para expulsar a visão da sua alma. Fora o Pássaro de Fogo? o auxiliar do espírito do Povo do Sol? Por que viria ter com ele um tal ser? Arrepiou-se.

 

- Ouviste?

 

- O trovão. Explodiu no acampamento como uma flecha de relâmpago.

 

Barriga Falsa abriu os olhos e olhou com receio para o cristalino céu nocturno. Nem uma nuvem. A recordação das enormes e ígneas asas perturbou-lhe de novo a alma.

 

O medo esporeava Cinza Branca, pronto a rebentar-lhe o coração, enquanto corria velozmente pelo estreito vale acima. Encostas suaves juncadas de artemísia erguiam-se de ambos os lados e um arroio estreito serpenteava pelos fundos planos. Os seus pulmões ardiam e a respiração rasgava-lhe a garganta. As lágrimas saltavam-lhe dos olhos. Os soluços tentavam sufocá-la quando curveteava a artemísia rasteira e esmagava a neve endurecida por debaixo dos pés.

 

O Sol erguera-se mais alto no firmamento, coroando a crista arredondada à sua esquerda. o dia prometia ser quente e soalheiro. Como o solo aquecia, seria mais difícil disfarçar o rasto.

 

Quantos teriam sobrevivido? Que acontecera ao seu mundo? Espírito Sábio? Afastara-se ele o suficiente - ou fora o primeiro a morrer, morto para comprar o silêncio para o ataque do Povo do Lobo?

 

«Pés de Vento fê-lo. Estava longe, lá para o norte, à hora a que o ataque se deu.»

 

Um medo mais frio instala-se nela como gelo: Falcão Velho fora morto antes do ataque. o golpe que o matou viera cedo na noite, ou o sangue não teria congelado daquela maneira. Nem a carne perderia o seu calor.

 

Ocorreu-lhe uma recordação fantasmagórica: Homem Valente e Falcão Velho sentados em frente um do outro depois da reunião do conselho e o olhar de desafio entre ambos. Mas matar? E de uma maneira tão brutal?

 

Os olhos possessos de Homem Valente olharam-na de esguelha como quando revivia o momento em que ele a tentara violar. Aquele brilho poderoso não conhecia o que estava certo ou errado - vira isso na alma dele naquele dia.

 

. Que importava isso agora? Testemunhara a destruição da tribo do Homem Branco. Aqueles gritos finais obcecá-la-iam para sempre. Tudo o que podia ser amado e acalentado fora obliterado - como rastos na areia depois de um vendaval.

 

Ofegava ao forçar as pernas a andarem para manter a distância. o pânico começava a desvanecer-se numa cauterização da alma. Saiu do vale e levou o corpo exausto pela encosta acima. Os pés puncionaram a neve endurecida como gelo.

 

Com os pulmões arquejando e as pernas tremendo, avançou serpenteando através da salva densa e cambaleando até ao topo da crista. Antes dela, as cristas corriam em todas as direcções a partir do sopé das montanhas da Pedra Vermelha. Uma grande linha de água corria entre ela e as montanhas Atravessadas.

 

Os picos das montanhas Atravessadas reluziam quando o sol lhe feria os virginais campos de neve. Uma barreira intr     ansponível. Demasiado íngreme. Naqueles vales fechados pelo gelo, não encontraria nada para se alimentar.

 

Não apenas isso, naquela altura do ano não haveria muito que comer, qualquer que fosse o sítio. Alguns ranúnculos amarelos da artemísia tinham começado a florir com o recuo da neve. Podiam ser comidos depois de cozidos em três ou quatro águas, para lhes retirar o amargor. A prímula e a raiz de biscoito estariam crescidas na próxima Lua. Mas agora?

 

Caiu de joelhos, respirando profundamente, tentando recarregar o organismo esgotado. o vento importunava-lhe o cabelo emaranhado numa negra teia em redor da cabeça.

 

Olhou para trás, para o oeste, em direcção às inesquecíveis encostas das montanhas da Pedra Vermelha. Farrapos penugentos de nuvens disformes flutuavam em redor dos altos picos. Abanou a cabeça. A neve seguia os dias quentes, como se o tempo quente fosse apenas uma cruel brincadeira - um arremedo de melhores tempos.

 

Animou-se, levantou-se e começou a descer aos ziguezagues o lado mais afastado da crista. Linhas de água como um dédalo de fendas cortavam a paisagem áspera e pedregosa. Aqui, a artemísia dava-lhe pelo artelho e parecia afectada pelas intempéries - o que era indicação de solos pobres. Mais ao longe, tufos pálidos de quenopódio enchiam o solo branco das várzeas. Ervas crestadas pelo Inverno ondulavam ao vento, umbelas compridas há muito despojadas das sementes. Uma terra de pedras secas e cristas torturadas não podia oferecer muita coisa.

 

Mordeu o lábio, hesitante sobre o que fazer e para onde ir. Atrás dela, para o norte, os Ponta Negra e Pedra Partida empurravam sempre para sul. E que tipo de vida podia ela encontrar ali?

 

«Pés de Vento, seu doido, eles vão matar-te!» Que outra hipótese podia ela aceitar? Aquela juventude solitária - mal tinha 20 Verões de idade - conseguia vencer o mais valente e mais ardiloso dos veteranos guerreiros do Ponta Negra?

 

Para oeste, os caçadores de cabras caçavam nas montanhas da Pedra Vermelha, guerreiros implacáveis que tinham aprendido os trilhos e caminhos das montanhas desde o berço. Para leste, do outro lado da bacia, ficava o Povo do Lobo - e ela vira já a sua misericórdia.

 

Para sul, para lá das montanhas Atravessadas, ficava o seu nativo Povo da Terra. «A minha única esperança.»

 

Fez uma pausa no topo da crista seguinte, irritada com a fadiga que lhe devorava os músculos. o melhor caminho, o único caminho, seria bordejar o sopé irregular das montanhas Atravessadas, seguindo as linhas de água para leste, e procurar uma passagem que não estivesse bloqueada pela neve.

 

«Conquanto encontre o suficiente para me alimentar. Conquanto não gele. Conquanto... um ror de coisas.»

 

As suas acendalhas, o seu atlatl e osdardos, a sua trouxa de mantas para dormir tinham desaparecido troféus do último embate em que o Povo do Lobo esmagara a tribo do Homem Branco. A primeira coisa que ela precisava de encontrar era um canteiro de erva do arroz. Os caules carbonizados eram o melhor iniciador de fogo. Felizmente, a bacia do Grande Veado Cinzento era rica em pedra para ferramenta. Lascar instrumentos cortantes seria relativamente simples. Desde que encontrasse a madeira certa para fazer acendalhas, acender fogueiras. Os dias que estavam para vir seriam dificeis, mas a terra providenciaria.

 

Olhou para leste com ar irritado e feroz e uma raiva a arder-lhe no coração. O teu tempo é limitado, Povo do Lobo. o Povo do Sol está a vir do norte. Incomoda-Os nem que seja um pouco e eles responderão uma vez e outra. E o Pode deles... a maneira de eles fazerem a guerra.» Abanou a cabeça. «E a força deles.»

 

Avançou, e cada passada era uma desolação para a alma.

 

Barriga Falsa assentou o pé com cuidado e parou de cabeça levantada. Eles estavam algures por perto. Os exerementos que estavam no húmus cinzento por debaixo da artemísia só podiam ser da última noite. Estava de pé no lado oriental de uma comprida encosta. Aqui a artemísia crescia grossa e pelos joelhos de um homem. Um panorama ondulado de cristas estendia-se para leste até ao horizonte enevoado. o Sol declinava, projectando sombras na terra. A parede escarpada das montanhas Atravessadas elevava-se ameaçadoramente para norte. Vales estreitos cortados através das encostas desgastadas pelo tempo, como se um gato de espírito tivesse arruinada a própria pedra com as garras.

 

Tacteou com os dedos a pedra redonda que tinha na mão. Uma vez, usara-a como uma imagem da Lua quando traçava as suas sombras diante da fogueira da cabana; agora esperava que matasse.

 

Com paciente perícia, examinou a opulência verde-azulada da salva. Farejou o ar fresco e deixou os aromas da salva e da terra húmida mitigarem a esbatida consciência das saudades do lar. Ali, fixava-o um olho castanho de um corpo perfeitamente camuflado. Barriga Falsa mexeu-se, procurando o seu equilíbrio. Anos de prática recompensaram-no quando atirou a pedra. A pedra apanhou o lagópodel em cheio; a ave ferida esvoaçou e cacarejou.

 

Barriga Falsa segurou a grande ave com um pé e apertou-lhe o pescoço e depois torceu-lho para a matar. Recuperou a pedra e deu a volta à salva. Perturbados pelo tumulto, dois outros lagópodes agitaram as cabeças ao seguirem o seu caminho através dos arbustos densos, conscientes de que algo errado se passara. Como todos os Lagópodes, estes eram demasiado estúpidos para levantarem voo ao verem um humano.

 

Barriga Falsa esperou pacientemente. Uma das aves sarapintadas de cinzento surgiu por detrás de uma artemísia. A pedra lançada bateu violentamente na ave que estava à vista. o galináceo caiu aturdido, soltando estalidos.

 

Barriga Falsa deu um passo, depois outro, enquanto o galináceo se afastava esvoaçando com uma asa e uma perna partidas. o terceiro pavoneava-se calmamente na salva, esquecido do estado lamentável dos seus companheiros.

 

Barriga Falsa recuperou a pedra, agarrou a vítima esvoaçante e torceu-lhe o pescoço. Cautelosamente, aproximou-se do terceiro.

 

1 Galináceo silvestre das regiões frias. (N. do T.)

 

Em poucos minutos, a sua pedra mortal reclamava o último lagópode.

 

Acenou, e Mão Esquerda desceu da crista com os cães atrás.

- É comida - cumprimentou Barriga Falsa. - Esta noite vamos comer bem.

 

Mão Esquerda empertigou a cabeça.

 

- Três aves? Uma para nós... e duas para todos estes cães? Isso é que é comer bem?

 

- Nunca se sabe o que se encontrará para o resto do dia. Barriga Falsa apontou para o sopé das colinas. - o acampamento de Água Má fica algures para além, ao longo do arroio. Devemos atingi-lo por volta do meio-dia de amanhã. Eles vão alimentar-nos, e aos cães também. Três aves vão aguentar-nos até lá.

 

Mão Esquerda concordou com um aceno de cabeça enquanto examinava as montanhas e o caminho que a elas conduzia.

 

- Se não, levaremos um dia a ver se apanhamos um antílope numa emboscada. E eu ainda não vi o local certo para a fazer. Barriga Falsa olhou com suspeição para o amigo.

 

- Estamos no território de água Má. Anel de Osso não se importa com um par de lagópodes, mas faríamos melhor em obter permissão antes de caçarmos qualquer coisa como um...

 

- Eu sou mercador. - Mão Esquerda ergueu o bastão e bateu com o polegar no peito. - Tu, Povo da Terra e o teu território não significam nada para um mercador.

 

-Anel de Osso decide as coisas emÁgua Má. Encontrei-me com ela uma vez. É uma mulher de armas.

 

Mão Esquerda riu por entre os dentes.

 

- Diz-me honestamente, Garra de Cotovia teria lançado um ataque se encontrasse um mercador a comer um antílope que ele tivesse abatido nas suas terras? Não, nem mesmo Garra de Cotovia, dura e mesquinha como ela é, se queixaria por um mercador encher a barriga ou alimentar os seus cães. Além disso, eles conhecem-me em água Má. Anel de Osso dá-se com o Povo do Lobo. Há alguns anos, ela enviou-nos um par de fardos de sementes de erva do arroz quando as coisas estavam um pouco frouxas.

 

Barriga Falsa olhou por cima do ombro para as montanhas mais afastadas para oeste. Uma neblina cinzenta cobrira os picos.

 

- Parece que vem aí uma tempestade. Vamos ter de hibernar em Água Má. Seria bom ter uma cabana aquecida para dormir se as coisas se tornarem tão más como parecem.

 

- Anel de Osso tratará de nós. Provavelmente, ficará com metade do que trago na bagagem se lá pararmos... mas teremos uma cabana aquecida e as barrigas cheias.

 

Barriga Falsa resmungou.

 

- Negociar é coisa que nunca fiz bem. Se as pessoas queriam negociar, eu acabava por lhes dar tudo.

 

Mão Esquerda retomou a marcha, rumando à extensa crista que separava o água Má do resto da bacia.

 

- Diferentes mercadores fazem as coisas de diferentes maneiras. Depende do teu Poder. - Lançou um olhar a Barriga Falsa.

- Mas então um homem que sonha trovão no céu nocturno... bem, conta-me.

 

As tripas de Barriga Falsa deram um nó.

 

- Não sei que pensar. Nunca tivera um sonho como este. Mão Esquerda respirou fundo e disse delicadamente:

 

- Talvez não fosses merecedor antes.

 

- Merecedor?

 

- o Poder tem os seus desígnios. E tu não me contaste tudo a respeito da morte de Fogo Ardente e do que ele te fez prometer. Não se trata do que te perguntei, não te esqueças. o Poder não é algo do qual se possa falar com ligeireza. Um companheiro como eu conhece o suficiente a respeito disso para ser cauteloso. Talvez a morte de Fogo Ardente fosse um sinal para ti. Como o tal lobo de que falas. Barriga Falsa baixou os olhos.

 

- Nada sei de sinais e dessas coisas. Sou apenas eu.

 

Uma nota de reverência instilou-se na voz de Mão Esquerda.

 

- Nunca se conhece o Poder. Ele está em toda a parte... à nossa volta. Mas recordo-me de em rapaz ter escutado um sonhador. Ele dizia que o Poder está neste mundo e não está.

 

- Como pode ser essa coisa de estar e não estar neste mundo ao mesmo tempo?

 

- Olha à tua volta, Barriga Falsa. o Poder está em toda a parte, mas consegues vê-lo? Tocá-lo? Não. Está aqui e não está. É por isso que tens de o procurar. Entre o meu povo, uma pessoa tem de se preparar e trepar a um lugar alto. Compreende, o Poder apenas se dará a conhecer quando tiveres purificado o teu corpo e a tua alma. E a razão por que aparece em sonhos. Tu tens de te encontrar com o Poder num mundo diferente deste. Nos sonhos... quando a alma está livre.

 

Barriga Falsa torceu a boca.

 

- Mas por que veio ele até mim na noite passada? Por que nunca aparecera antes? Tenho tido muitos sonhos. Toda a gente tem.

 

- Sonhos de Poder?

 

- Não, este é o primeiro. - É essa a questão.

 

Barriga Falsa lançou-lhe um olhar céptico.

 

-Olha -Mão Esquerda fez um gesto, agitando o bastão de mercador -talvez não fosses merecedor de seres reconhecido até deixares Garra de Cotovia. Talvez a tua partida fosse uma prova. Sabes?, o que quer que tenhas prometido a Fogo Ardente, tinha de ser cumprido. o Poder não se dá simplesmente. Tens de ser merecedor.

 

Barriga Falsa deixou pender a cabeça, recordando-se da sua incapacidade para enfrentar Garra de Cotovia quando Fogo Ardente jazia na agonia. Odiara-se naquele momento, odiara-se sempre desde então por não permanecer com Fogo Ardente - independentemente das consequências. A partida libertara-o daquela culpa. Olhou em redor, sentindo o vento livre nos ombros.

 

- A avó sempre soube fazer os outros sujeitarem-se. É uma mestra nessa arte. - Suspirou. - Cresci aterrorizado por ela. Era melhor uma pessoa atravessar-se no caminho de um urso prateado do que irritar Garra de Cotovia. Ela vingava-se em ti e, enquanto isso, todos sofriam com o que tu fizeras.

 

- Mas tu partiste.

 

Barriga Falsa concordou com um aceno de cabeça.

 

- Sim. Parti. Ela mandou-me embora quando Fogo Ardente estava a morrer. Eu... não podia... Bem, agora acabou-se.

 

- E o Poder está interessado em ti. Passaste a primeira prova.

- Da maneira como o dizes, não estou certo de querer passar mais alguma.

 

Um olhar enevoado toldou os olhos de Mão Esquerda.

 

- A primeira é sempre a mais fácil. Esse espírito curioso no teu sonho disse mais alguma coisa? Perguntou-te alguma coisa?

 

- Disse que me devia preparar... e procurar. - Carregou o sobrolho e deu uma patada no chão. - E vi coisas. Visões de pessoas fazendo coisas que não consegui entender. Algo terrível está para vir. Uma mudança na espiral, se é que sabes o que isso signífica. É algo que tem a ver com o Poder do Povo do Sol... e do que farão para sonhar. Talvez uma mudança de todo o mundo.

 

- Sabes, Barriga Falsa, assustas-me.

 

- Assusto-te?

 

Mão Esquerda compôs um rosto que lhe franziu as linhas em volta da boca.

 

- Os desígnios do Poder deixam nervoso qualquer homem são. Fogo Ardente disse que sonhara que eu estava para chegar. o Poder disse-lhe isso. Eu tenho tido os meus próprios sonhos. Nada que eu consiga entender, apenas fragmentos de visões... e um sentimento de que tinha de me apressar. o Poder juntou-nos. Talvez ele me tenha escolhido porque eu tenho um grande respeito pelo Poder.

 

Conheço o suficiente a respeito de como funciona o Mundo do Espírito para saber que não sou a pessoa certa para falar contigo.

 

O estômago de Barriga Falsa azedou ainda mais.

 

- Então, se tu não és, quem será então? No sonho, sonhador de lobo disse-me...

 

- Sonhador de lobo? - Mão Esquerda olhou por cima do ombro para fixar a cinzenta camada de nuvens que obscureciam agora as montanhas distantes.

 

- Bem, foi o que ele disse. Algo a respeito do sonho de lobo... e Dança Com o Fogo... e transformou-se num lobo... e num pássaro flamejante e...

 

- Não vamos parar em Água Má.

 

- Não?

 

Mão Esquerda olhou com as sobrancelhas carregadas para as montanhas Atravessadas que se erguiam à sua frente.

 

- Não. Penso que quanto mais cedo te levar a Pedras Cantantes tanto melhor será para mim.

 

- Pedras Cantantes? Mas eu pensava...

 

- É o sonhador mais poderoso que eu conheço.

 

- Não estou a gostar nada da maneira como me olhas. Mão Esquerda esfregou a testa.

 

- Não sei o que se está a passar, Barriga Falsa, mas quanto mais depressa me afastar de ti tanto melhor me vou sentir.

 

Barriga Falsa apontou.

 

- Mas está a aproximar-se uma tempestade!

 

- Mais de uma, meu amigo. Mais de uma. Apenas espero que estejas preparado.

 

- Preparado? Estás a falar por enigmas. o olhar nervoso de Barriga Falsa andava de um lado para o outro, da tempestade que se aproximava para Mão Esquerda.

 

- Vamos lá. Foi uma boa coisa teres matado aqueles lagópodes. Os cães vão precisar deles.

 

- Os cães? Mas eu... Que é que vamos comer?

 

- Os fardos estão cheios, Barriga Falsa. Vão manter-nos vivos. Se isso significar a perda de toda uma estação de negócio, tudo bem. Se apenas custar isto, ficarei mais do que contente...

 

- Mas eu pensava...

 

- Pouco barulho. - Mão Esquerda fez o gesto de silêncio. - o Poder guia todo o mercador. É por isso que é sagrado. o que está na bagagem pertence ao Poder. Se tivermos de viver disso, é isso que faremos. o acto de negociar depende do Poder. Quem sou eu para insultar o que me dá a minha felicidade? Mão Esquerda afastou-se a largas passadas, quase correndo.

 

- Olha lá, abranda!

 

- Temos hoje muito que andar.

 

Barriga Falsa resmungou para consigo, apressando-se enquanto Confusão trotava atrás dele, felizmente absorto. Barriga Falsa cerrou os dentes. o mundo virara-se contra ele outra vez.

 

«Por que sinto como se tudo estivesse fora de controlo? Que fiz eu desta vez?»

 

Olhou para trás. As nuvens tinham encoberto completamente as montanhas afastadas. A tempestade viria - e parecia ominosa.

 

Cinza Branca entrara no largo vale que corria para nordeste em direcção ao rio do Veado Cinzento. Agora seguia pelo vale, atravessando linhas de água que corriam entre compridas encostas que desciam das montanhas Atravessadas. Os choupos bordejavam as margens do ribeiro e ela podia ver os pendões no alto dos ramos entre os rebentos grossos. No alto das colinas, para sul, o pinheiro flexível e ojunípero salpicavam as encostas de mistura com a salva esparsa e a ocasional púrsia. Um vento gelado descia de oeste.

 

Ao observar o solo enquanto caminhava, descobriu uma pedra arredondada de quartzito exactamente com o tamanho certo. Ajustava-se comodamente na palma da mão dela. Pouco depois, localizou um segundo seixo que poderia utilizar como martelo de pedra.

 

Verificou o peso e o equilíbrio do martelo de pedra; depois, com pancadas certeiras, arrancou lascas de um dos lados do seixo de quartzito. Quando acabou de fazer um gume rendilhado, voltou-o do outro lado para continuar o processo. Examinou o utensílio com olho crítico. Cinzelando ambas as faces, criara um gume de corte dentado.

 

Correu um dedo ao longo da lâmina afiada e dirigiu-se para a mata de pinheiros na encosta acima dela. Ignorou as nuvens baixas que o vento arrastava e que corriam do oeste quando começou a cortar a casca da primeira árvore que alcançou. A casca interior do pinheiro podia ser mastigada. Devia ser uma comida amarga - e exigindo mais esforço para mastigar as fibras do que o miolo -, mas ela precisava de comida de sobrevivência para entreter o estômago... especialmente desde que os primeiros flocos de neve tinham começado a cair em turbilhão.

 

Cinza Branca cortou uma comprida secção de casca da madeira amarelo-clara. Noutras circunstâncias, teria esfolado a casca para lhe retirar a superfície exterior dura e escamosa e depois fervido a parte interna. Desta vez não haveria fervedura. Até agora, não encontrara a madeira certa para fazer acendalhas. E precisava de um recipiente para ferver - o que significava matar um animal ou encontrar um morto pelo Inverno e que não tivesse sido despedaçado pelos necrófagos.

 

Uma rajada fria de vento rasgou-a com dedos de gelo que lhe atravessaram o vestuário gasto. Devia ser uma neve fria e húmida - o tipo de Primavera perigosa.

 

Trabalhava desesperadamente para rapar a salvadora casca interior solta. Começou imediatamente a mascar os filamentos que libertara. o sabor agridoce da casca fez-lhe crescer água na boca. A sensação indistinta da seiva a pegar-se-lhe aos dentes foi um bálsamo para a alma. Seiva significava vida.

 

Empunhou a pedra com ambas as mãos e atacou outra vez a árvore. Podia transportar várias fatias de casca e a sua próxima necessidade premente era encontrar abrigo que a protegesse da tempestade que se aproximava.

 

Tendo arrancado da árvore tudo quanto podia transportar, apressou-se a seguir viagem. o frio crescente infiltrava-se-lhe nos mocassins: a sola exterior desgastara-se e abrira buracos. A sola interior iria a seguir. Logo que encontrasse abrigo, tinha de ser capaz de tecer tiras de casca de junípero que lhe permitiriam aumentar a vida do cabedal deteriorado.

 

A neve começou a cair em flocos espessos. As cristas arredondadas tinham um ar polido que não auguravam nada de bom relativamente a abrigo. A artemísia raquítica não era suficientemente alta para se entrelaçar e fazer uma choupana.

 

A noite começava a estender-se sobre a terra enquanto a neve caía em espirais rodopiantes, obscurecendo-lhe a visibilidade sobre o território.

 

Puxou o capuz para cima e continuou a andar. Algures, escondido na tempestade, tinha de descobrir um lugar seco abrigado do vento e da neve que sopravam. Ali podia mascar as finas tiras de casca - e, talvez, manter-se viva.

 

Quase falhava aquilo enquanto lutava para prosseguir. Na obscuridade progressiva do fim da tarde, a pedra suspensa confundia-se com a neve que turbilhonava. Parou e olhou, protegendo o rosto dos cristais que esvoaçavam.

 

Com um grito de alívio, precipitou-se para o interior do abrigo rochoso. Não era mais do que uma laje de arenito escavada pela base, mas serviria. Sacudiu a neve agarrada ao vestuário antes de se agachar de costas contra a rocha e se encolher como uma bola. Por um momento devia descansar, acalmar os nervos crispados, deixar o corpo cansado recobrar algumas das suas reservas.

 

. Fechou os olhos, agitando a cabeça. Tinha sobrevivido alguém da tribo do Homem Branco? o seu povo não passava de uma recordação?

 

«Pés de Vento, tu podes ser o único com sorte. Diz ao Ponta Negra que o Homem Branco desapareceu da face da Terra. Agora não tens ninguém a quem ofender. Apenas os espíritos dos mortos enraivecidos.»

 

Apoiou a cara nas mãos; o poço das lágrimas secara. «Agora só me tenho a mim. Estou só. Ninguém... nada mais. Nada a não ser frio e miséria.

 

Esteve ali sentada enquanto a noite escurecia e a neve continuava a cair. Ao princípio não reconheceu o ruído: um ligeiro pisar - neve comprimida por debaixo de pés humanos.

 

Pôs-se de pé num salto e caiu directamente nos braços de um homem. Ele agarrou-a facilmente e dominou-a. Rindo, atirou-a violentamente para o chão e sujeitou-a.

 

- Deixa-me ir! - gritou ela, batendo-lhe com os punhos.

 

Os odores a fumo, suor de Inverno e cabedal encheram-lhe as narinas. A respiração dele vinha quente contra o rosto dela.

 

- Foi uma longa perseguição - disse-lhe ele -, mas Três Touros apanhou-te.

 

Ela estremeceu reconhecendo a língua do Povo do Lobo.

 

- Deixa-me ir - sussurrou ela na língua do Povo da Terra. Eu pertenço a Três Confluências. o meu povo está em paz com o teu.

 

- Três Confluências não vive com o Povo do Sol. Não, persegui-te durante todo o dia. És minha. Se Três Confluências te quer, podem negociar-te mais tarde.

 

- Que... que vais fazer comigo?

 

Ele riu-se então, aconchegando o rosto contra o pescoço dela.

 

- Que faz qualquer homem com uma mulher? Vais levar lenha Para a minha cabana e cozinhar as minhas refeições. Vais trabalhar para mim, curtir as peles e coser. E, evidentemente, vais aquecer as minhas mantas à noite e dar-me prazer.

 

- Vais atrair a cólera de Três Confluências sobre ti. Fogo Verde...

 

«Quieta!», murmurou para consigo.

 

- Esta noite a tempestade vai ser fria e húmida. Juntos, tu e eu estaremos quentes. Há muito tempo que Três Touros não aquece. Talvez ele esteja muito cheio de semente!? Talvez a sua semente também seja quente?!

 

- Não!

 

A carne dela arrepiou-se quando a sua mão fria se estendeu e lhe levantou a bainha do vestido.

 

Barriga Falsa acordou de sonhos confusos que não entendia. Todas as florestas tinham sido derrubadas e queimadas para darem lugar a cereais de cabeleira dourada. Ouvira a alma da terra gritar quando as chuvas lavaram os solos em torrentes lamacentas, enquanto os pés dos homens calcorreavam trilhos duros sobre o território. o uivo de um lobo entristecido permanecia-lhe na memória, lamentoso - como a morte de um sonho - gelando-lhe o espírito. Fora aquilo real... ou apenas parte do sonho?

 

Pestanejou na noite, consciente de que o calor do corpo de Confusão já não o mantinha aquecido. Tirou a cabeça para fora das mantas e olhou em redor. A neve - com uma mão de profundidade caíra no pequeno acampamento, e flocos pesados e húmidos continuavam a rodopiar no céu nocturno. Podia ver-se a depressão circular deixada por Confusão, bem como o rasto do cão que seguia para o alto do desfiladeiro de paredes alcantiladas que eles utilizaram para acampar.

 

Barriga Falsa suspirou suavemente, fechando os olhos. Provavelmente, coiote fêmea em cio algures. Da última vez, Confusão seguira o engodo e voltara a casa a coxear com grandes golpes fundos no couro por ter lutado - e perdido, sem dúvida - pela fêmea.

 

Barriga Falsa levantou-se e sacudiu o lençol de neve das mantas antes de se enrolar nelas. Bateu surdamente com o pé em alguma coisa e esticou-se para pescar a bolsa de dentes de pedra do meio da neve fofa. Estivera a dedilhá-los exactamente antes de adormecer, planeando o colar que faria com eles.

 

Acordar Mão Esquerda? Não, ele já causara demasiados problemas a Mão Esquerda. Deixá-lo dormir. No fim de contas, tudo o que Barriga Falsa tinha de fazer era seguir o rasto de Confusão até um pouco acima do desfiladeiro e assobiar. Num abrir e fechar de olhos, estariam de novo a dormir debaixo da neve sem ninguém dar por nada.

 

Barriga Falsa resmungou para consigo, imaginando o que devia fazer a Confusão. Mas, independentemente do que ameaçasse, nunca poderia magoar o seu amigo. Os cães são apenas cães. Aquela era a maneira de ser deles. Inclinou-se para baixo e espreitou à   luz difusa; o rasto de Confusão estava a ser tapado mesmo enquanto o observava. As imagens mais recentes do sonho acrescentaram-se à sua apreensão enquanto se apressava ao longo do rasto do cão.

 

Quando pensou que fora suficientemente longe para não acordar Mão Esquerda, Barriga Falsa assobiou e chamou:

 

- Confusão? Olá, Confusão! Vamos. Isto é loucura. Confusão? Vais fazer uma confusão dos diabos com esses coiotes e eu vou ter de te carregar todo o caminho até Pedras Cantantes. Confusão?

 

Os rastos já não pareciam tão recentes. Pior, o trilho era mais íngreme. Barriga Falsa coçou o queixo onde um floco de neve derretera e correra em fio.

 

- Confusão, talvez te vá bater até te deixar meio morto. Olha para mim. Vou ficar húmido e frio e miserável para o resto da noite. Tu és um cão. É normal que os cães sejam miseráveis. Tu arranjaste esse maravilhoso casaco de pele.

 

o vento redemoinhava e soprava em rajadas. Aqui as árvores eram mais densas. Um trilho de caça descia a serpentear em roda das rochas e através da densa sorveira que atapetava o leito do desfiladeiro. o sombrio pinheiro flexível e o abeto misturavam-se com o junípero - escuras manchas que se escondiam no véu da neve que redemoinhava.

 

Barriga Falsa parou bufando. A que distância se encontrava?

 

- Confusão?

 

Confusão nunca fora assim tão longe - nem mesmo quando vivia em Pedra Redonda e conhecia o território.

 

Barriga Falsa mascava os lábios e pensava. «Se eu fosse medianamente inteligente, dava meia volta e regressava. Raios te partam, Confusão, se foste capaz de vir até aqui também podes dar com o caminho para o acampamento. Só que Confusão é o meu melhor amigo. Ele nunca me deixou ficar mal.» Barriga Falsa continuou, embora com dificuldade. Quanto faltava para a alvorada? Que diria Mão Esquerda se perdesse tempo de viagem?

 

Barriga Falsa continuou esforçadamente pelo íngreme desfiladeiroacima. A neve funda -pela altura dos joelhos ondedeslizara - dificultava-lhe a progressão. Enfiou-se por debaixo de um abeto, procurando o rasto de Confusão. o cabelo do pescoço pôs-se-lhe em pé. Entre os rastos de Confusão podia distinguir os de um lobo.

 

«Oh, Confusão. Um coíote, bem, és capaz de escapar com vida. Mas um lobo?» Precipitou-se ao longo do rasto, gritando a plenos pulmões:

 

- Confusão!?

 

o vento fustigou Barriga Falsa quando saiu aos tropeções do desfiladeiro para o espaço aberto. Através da placa de neve que caía, não conseguiu reconhecer nenhuns pontos de referência. o rasto de Confusão era apenas desvanecidas depressões na brancura. Forçando-se a continuar, Barriga Falsa correu, agitando-se violentamente atrás do rasto de Confusão.

 

Um monte de pedras - redondas e desgastadas pelo vento e pelos temporais - surgiu à frente, entre a neblina. Os rastos serpenteavam para dentro e para fora por entre o afloramento e na direcção dos plainos mais além. o vento fustigou Barriga Falsa, que cambaleava, sabendo que Confusão não podia estar longe.

 

- Raios te partam, cão. Não te consigo ajudar se vais mais depressa do que eu, mas, juro, vou dar-te uma carga de bordoada tão grande que te vai ficar de emenda para o resto da vida! Estás a ouvir-me? Confusão?

 

Caminhou penosamente em redor das linhas de água e ultrapassou árvores anãs, nodosas e torcidas pelo vento. Em todo o caso, até onde trepara? Os pés doíam-lhe e pulsavam-lhe com o frio.

 

- Mão Esquerda vai dísparatar. Estás a ouvir-me, cão? Tudo o que ele tem feito é bom para nós, e nós estamos a ponto de o fazer arrepender-se de nos ter aceite!

 

A tempestade rugia à sua volta enquanto avançava. UM frio crescente tolhia-lhe as mãos. A bolsa com os dentes de pedra oscilava no punho fechado. Murmurando para consigo, Barriga Falsa passou a correia pelo pescoço para não perder a bolsa.

 

«Devia ter acordado Mão Esquerda. Ele vai ficar doente de preocupação.» Enterrou-se até à cintura numa profunda depressão cheia de neve acumulada pelo deslizamento e chafurdou na lama até à outra margem.

 

- Confusão?

 

Um latido cheio de contentamento veio de algures à frente.

 

- Vem cá! Confusão?

 

Barriga Falsa carregou em frente, aliviado. Finalmente, encontrara o cão antes do lobo. Confusão surgiu aos saltos da cortina de neve com a cauda a abanar.

 

Barriga Falsa caiu de joelhos, abraçando contra o peito o cão coberto de neve.

 

- Confusão? Que se passa contigo? Eu devia partir-te todos os ossos do corpo.

 

O cão dava sacões e contorcia-se no abraço de Barriga Falsa, esforçando-se por se esticar para lhe lamber a cara. A negra e felpuda cauda açoitava a neve macia como um chicote.

 

- Seguindo um lobo? E arrastando-me durante toda a noite? Vamos. Vamos embora. Temos de alcançar o acampamento antes de Mão Esquerda acordar e descobrir que desaparecemos.

 

Barriga Falsa tomou o caminho de volta, seguindo agora em sentido contrário, seguido por Confusão. Atravessou a depressão com neve acumulada e trepou a encosta onde os rastos se iam desvanecendo cada vez mais. No alto, observou em volta - e não descobriu nada a não ser neve batida pelo vento.

 

- Qual o caminho? Olhou para trás, para o cão. - Para casa, Confusão. Busca o caminho.

 

Confusão fixou os olhos nele, orelhas espetadas e a cabeça empertigada.

 

- Casa! - ordenou Barriga Falsa, apontando para a neve, Busca!

 

Confusão ladrou e baixou o nariz para a neve, rompendo a trote.

 

- Isso mesmo, meu rapaz. - Barriga Falsa começou a andar atrás do cão. Algumas horas depois, quando o sol acinzentou o horizonte a leste, Barriga Falsa chegava à conclusão de que, onde quer que estivesse, nunca ali estivera antes. Devia ter vindo pelo afloramento de rochas que rodeara durante a noite, depois devia encontrar as árvores e o desfiladeiro escarpado. Pior, o caminho que vinham seguindo agora não tinha nada de encosta escarpada - e a encosta estava do lado errado.

 

Barriga Falsa olhou em redor; qualquer ponto de referência permanecia escondido na tempestade de neve batida pelo vento. Abanou a cabeça lenta e tristemente.

 

- Confusão, onde me meteste? Agora estamos perdidos.

 

Uma violenta rajada de vento por pouco o não tombava. A neve fina insinuava-se pelos intervalos da manta bem aconchegada. Confusão deitou-se pesadamente no pó branco para mascar a neve amassada do intervalo das palmas das patas. Resfolegou antes de olhar para cima com uns curiosos olhos castanhos.

 

- Uma coisa é certa. o rasto desapareceu... e nós temos de encontrar abrigo.

 

Barriga Falsa tomou a única opção que lhe restava. Começou a descer a colina.

 

Três Touros levantou-se e saiu para a neve. Voltou-se, olhando para baixo, para Cinza Branca, com um sorriso lúbrico no rosto anguloso. Ela lançou-lhe um olhar cheio de indignação e ódio ao procurar sobrepor-se à satisfação enfatuada dele com o desgosto e a fúria dela. Ele riu, levantando a fralda do seu saiote de guerra para se aliviar.

 

Ela estremeceu, afastando o olhar, incapaz de aguentar a visão da sua carne de macho - aquele mesmo órgão que a violara. A dor juntara-se ao medo e à aversão. Até mesmo o refúgio do seu corpo, o santuário final, fora profanado.

 

Ao ruído da sua água a tamborilar na neve, ela agachou-se. Fragmentos de pensamentos deslizaram-lhe soltos pela cabeça. «Foge! Corre!»

 

Tirou as pernas de debaixo do corpo, olhando-lhe furtivamente para as costas. Ele expirou e o ar gelado redemoinhou-lhe em torno da cabeça. Ela deu um passo cuidadosamente e colocou um pé na rocha desgastada. Deu outro passo, o último antes que a neve estalasse e a denunciasse.

 

- Grande temporal - murmurou Três Touros para consigo. Olha para o céu. Negro, escuro. Esta tempestade está para durar. Bela coisa eu ter-te apanhado, hem?

 

A neve tornaria a fuga muito mais difícil. Ele podia segui-la sem esforço; mas ela tinha de a tentar! o desespero deu nova energia aos seus músculos lassos quando se precipitou para a escuridão.

 

Correu, fazendo apelo a todas as reservas exaustas do seu corpo. Com os braços a oscilarem como quem dá à bomba, atirou-se pela encosta abaixo, rezando para que o piso a não traísse. Se conseguisse ganhar um pequeno avanço, talvez o conseguisse enganar, fazer um falso...

 

Primeiro estatelou-se de ventas na neve macia, derrubada pelo impacte do choque dele. Mãos fortes agarraram-na pelos cabelos, puxando-a violentamente para trás.

 

A voz dele arrulhou-lhe aos ouvidos:

 

- És uma cativa de Três Touros. Tive demasiados problemas como este com mulheres. Vou ensinar-te a não fugires.

 

O punho apanhou-lhe a cabeça de lado, explodindo em luzes icomo relâmpagos dentro dos olhos. Ele sentou-se sobre ela, empurrando-a para dentro da neve. Com uma mão torceu-lhe o cabelo e com a outra bateu-lhe.

 

- Não! - gritou ela, estrebuchando debaixo dele.

 

Depois a vista esvaiu-se-lhe. A dor estilhaçou-se em lantejoulas de luz que se harmonizavam com os ruídos nauseantes do punho dele contra a sua carne aturdida.

 

Homem Valente desceu da crista para o acampamento em ruínas. A maior parte das coberturas das cabanas tinham sido empilhadas numa grande fogueira ao ar livre, ateada pelos postes das cabanas. Os fardos tinham sido esventrados e o conteúdo - aquilo que os atacantes não podiam utilizar estava espalhado por toda a parte.

 

Os coiotes esconderam-se com medo entre a artemísia, formas amarelo-acastanhado à espera da partida dele para recomeçarem a despedaçar os mortos. Os corvos crocitavam e erguiam-se batendo as asas para circularem no céu ou se empoleirarem nos topos das cristas à espera de que ele passasse.

 

Homem Valente caminhou por entre os cadáveres, notando as faces familiares agora já sem olhos, pois os corvos já lá tinham ido por eles em primeiro lugar. Os coiotes esperavam sempre pelas tripas. Lebre Sibilante jazia estatelada de, face,,Texugo recebera um dardo nas costas antes de alguémlhe trespassar o coração com outro. Lince fora crivado de dardos antes de ser golpeado na garganta. o pequeno Tambor recebera um dardo nos rins e, pelo rasto de sangue, rastejara um bocado antes de um segundo dardo o ter trespassado entre as espáduas. Esquilo Que Voa jazia de barriga para baixo com o crânio aberto e os miolos expostos. Um a um, identificou-os a todos.

 

- Mas não encontrámos Cinza Branca.

 

As vozes sussurraram-lhe dentro da cabeça: «Ela vive!»

 

Parou junto ao corpo de Falcão Velho, olhando para baixo, para os restos da cara do velho homem. o seu único golpe acertara entre os olhos de Falcão Velho.

 

- Lamento, libertador de almas. Desafiaste o meu Poder. Foi melhor assim. Foi melhor morreres às minhas mãos do que às do Povo do Lobo. Tiveste de saber no fim. Sentiste uma espécie de Poder verdadeiro do qual apenas suspeitavas.

 

Homem Valente não planeara a morte de Falcão Velho, mas o homem libertador de almas encaminhou-se com ele até à orla do acampamento e ameaçou-o com o exílio da tribo.

 

A dor irrompera na cabeça de Homem Valente, fazendo-o fechar os olhos por momentos. o ímpeto da fúria incendiara-lhe as veias quando se voltou para o libertador de almas e sussurrou:

 

- Adeus, Falcão Velho.

 

Antes que o velho pudesse reagir, Homem Valente levantara a clava. o gume afiado apanhou Falcão Velho em cheio na testa. Esquírolas de osso espalharam-se na noite.

 

Agora, à luz do dia, o que restava de Falcão Velho parecia deploravelmente quebrado e desprezível.

 

- Voltei apenas para roubar Cinza Branca. Tivesse eu sabido que o Povo do Lobo estava tão próximo e tê-la-ia tomado nessa noite, homem velho. Agora tenho de a descobrir.

 

Voltou as costas ao cadáver e caminhou para o meio do acampamento onde estavam espalhadas peles que ardiam sem chama e hastes partidas de dardos. o Povo do Lobo até levara os cães, pelo menos os que não matara no ataque.

 

- Mas Cinza Branca não está aqui. Desapareceu com Neve Macia, Rosa Que Dança, Mulher de Erva e Vaca Vermelha. «Prisioneiras do Povo do Lobo», sussurraram-lhe as vozes. -Apenas as mulheresjovens e algumas crianças foram levadas.

 

- Olhou pelo trilho abaixo, acariciando os dardos. Dois dias de avanço? o Povo do Lobo estaria a deslocar-se lentamente dado que não tinha de se preocupar com retaliações.

 

As vozes murmuraram-lhe um alerta.

 

- Eu sei! - berrou irritadamente. - Mas preciso de procurar um pouco mais. o corpo de Pés de Vento devia estar aqui. E também não vejo Espírito Sábio.

 

Pôs-se a estudar o padrão dos rastos que revelavam que os guerreiros e os cativos tinham marchado para leste. Demasiados pés tinham espezinhado o local para que ele conseguisse seguir um rasto individual.

 

- Será Cinza Branca com Pés de Vento?

 

«Não. » As vozes riam ominosamente. «Povo do Lobo! Eles têm-na.» Olhou para o alto quando os primeiros flocos de neve caíam em turbilhão. Virou-se e farejou, captando o odor da tempestade que se aproximava. As vozes cacarejaram consigo.

 

- Tempestade húmida. Grande.

 

As vozes incitavam-no, sussurrando-lhe: «Pedra Partida. Pedra Partida.»

 

Concordou com um aceno de cabeça.

 

- Se o Povo do Lobo a tem, ela deve estar nas montanhas. Vai ser preciso um destacamento de guerra de guerreiros da tribo da Pedra Partida para a tirar de lá. - Riu para consigo. - Sim, mesmo que tenha de destruir todos os homens, mulheres e crianças do Povo do Lobo, vou tê-la. Juntos, Cinza Branca e eu sonharemos o Poder. Urdiremos a nova via.

 

Pela segunda vez na sua vida, Homem Valente afastava-se do Acampamento da Morte. E, ao fazê-lo, o Poder cresceu dentro dele.

 

Cinza Branca jazia de olhos fechados, presa de uma deplorável aflição. Estavam ali fechados há já três dias.

 

O seu captor estava deitado enroscado à volta dela, respirando profundamente enquanto dormia. o calor do corpo dele e a manta que os cobria protegia-a do frio cortante da neve que se infiltrava por cima, polvilhando o interior da saliência.

 

Cinza Branca chupou o lábio - agora rasgado onde o mordera todas as vezes que o guerreiro a possuíra. A sua alma engelhava-se e enroscava-se, carbonizada como um pau reduzido a brasas incandescentes.

 

Cerrou os dentes em silêncio, odiando as recordações - constantemente avivadas pela dor na vagina. Ele magoara-a ao forçar a introdução. Quando ela resistiu, ele esmurrara-a de lado na cabeça, agarrando-a pela garganta para lhe sufocar a vontade de lutar. Os seios doeram-lhe quando os dedos calosos dele os espremeram até os ferirem.

 

Uma lágrima deslizou-lhe por entre as pálpebras fortemente fechadas. o ódio e a fúria lutavam por se sobreporem ao asco e à imundície que sentia dentro de si.

 

Uma rajada de vento cortou o ar para lá do abrigo. Ela conseguia sentir o frio na pedra por debaixo. o horror de ser possuída por Três Touros cresceu mais com o conhecimento de que teria morrido gelada na tempestade se ele a não tivesse encontrado. Ela vivia porque este homem do Povo do Lobo a violara. Ela vivia porque ele viera da noite para a violar, para a cobrir com o seu calor e com a sua manta de búfalo. A comida da trouxa dele alimentara-a. A fogueira dele aquecera-os.

 

Ele murmurou algo durante o sono, mudando de posição em cima dela.

 

Cinza Branca retesou-se e a sua reacção involuntária acordou-o.

 

- Terrível tempestade - disse ele calmamente. - Boa ideia ter-te perseguido. Devias estar morta.

 

Ela não respondeu, rezando desesperadamente para que ele voltasse a adormecer. Calculou a distância até aos dardos. Demasiado afastados. Ele mantinha-os sempre para lá do alcance dela.

 

Bocejou, repetindo-lhe a história que lhe contara já tantas Vezes.

 

- Pensei que te vi a correr quando destruímos o acampamento. A luz era má, mas vi o teu cabelo a esvoaçar solto enquanto corrias. Depois de termos matado o último do Povo do Sol, deixei-me ficar Para trás, observando. Descobri o sítio onde trepaste pela neve. Segui-te. Não há homem melhor que Três Touros para seguir um rasto.

 

Levantou uma mão para lhe apalpar os seios doridos. Ela cerrou os maxilares, o corpo tremendo. Ele apertou a mão, forçando-a a arquejar.

 

- Terrível tempestade. Frio.

 

Ela estrangulou um grito na garganta.

 

- Precisamos de estar quentes, tu e eu. Estou a sentir frio outra vez.

 

Resistiu à tentação de gritar quando ele se levantou para lhe puxar para cima a bainha do vestido coçado.

 

- Vai ser uma noite longa - sussurrou-lhe ao ouvido. - Tu e eu precisamos de estar muito quentinhos.

 

Riu baixo e de forma selvagem quando se pôs em cima dela. Sentiu o frio nas coxas quando a manta de búfalo se levantou. Voltou a cara para o lado com os olhos firmemente fechados. Tentou fazer que o corpo se descontraísse, na esperança de que a entrada dele não a magoasse demasiado desta vez.

 

Aguentou. Os movimentos dele dentro dela agoniaram-na; o vómito fez-lhe cócegas no fundo da garganta. Ele grunhiu, os músculos tensos, e as tripas dela revolveram-se com a descarga dele. Ele ficou sem energia, a suspirar.

 

Mudou de posição ao estender-se para puxar a manta que lhe deslizara das costas - e ao fazê-lo expôs a mão dela ao chão frio. Os seus dedos roçaram em algo redondo e frio que jazia no arenito pedregoso. o fogo da esperança correu-lhe velozmente - pelas veias.

 

Barriga Falsa avançou com díficuldade para uma ponta rochosa batida pelo vento e olhou para a terra que se estendia lá em baixo. Estava de pé num promontório que se projectava da encosta norte das montanhas Atravessadas. Declives em socalcos erguiam-se para os picos irregulares - todos eles mergulhados num contínuo manto branco. Enquanto observava, a luz do Sol penetrou através dos tufos de nuvens e veio manchar a terra coberta de neve em retalhos de cintilante-branco, suficientemente brilhante para ferir os olhos. Aqui e ali, o azul- vivo do céu deixava-se ver através dos intervalos irregulares das nuvens.

 

Barriga Falsa olhou para trás, para a longa encosta, e abanou a cabeça. Passara quatro dias miseráveis a descer dos cumes. Agora, há dois dias que o estômago lhe roncava de fome. Caminhar através da neve espessa esgotara-lhe as forças e o frio chegava-lhe aos ossos. - E tudo por tua causa - murmurou para Confusão. o cão estava de pé ao lado dele, feliz, farejando o vento e olhando para o território de orelhas espetadas. Depois ganiu e bocejou, agitando a cauda.

 

Barriga Falsa voltou a olhar para o terreno que tinha na sua frente. Imediatamente para oeste, o rio do Veado Cinzento corria ao longo de um desfiladeiro nas montanhas Atravessadas. Meio cego pela neve soprada pelo vento, quase caiu de uma daquelas falésias escarpadas quando vagueava demasiado próximo da borda.

 

Para o norte estendia-se o esqueleto pedregoso da bacia. Para aqueles lados caçava o Povo do Lobo quando descia das montanhas do Prado de Erva que se erguiam para leste como sentinelas.

 

Uma série de cristas vermelho-escuras erguiam-se onde o rio descrevia uma curva através das terras baixas. A espinha das rochas cintilava onde as faces íngremes do arenito permaneciam arrogantemente expostas. Para lá de uma curva do rio, a meio dia de distância e num ponto de escarpas amarelo--claras, erguia-se uma coluna de vapor.

 

- As nascentes de água quente - sussurrou Barriga Falsa. Coçou o queixo enquanto olhava. «Um lugar de Poder.»

 

Ouvira muitas histórias a respeito de enormes nascentes onde a água, demasiado quente para que se lhe tocasse, fervia para fora da terra. Curiosas formações mantinham a água em pequenos lagos naturais antes de correr para o rio do Veado Cinzento, Garra de Cotovia gostava de contar histórias sobre como fora até às nascentes quentes em rapariga e se banhara nas águas. Enquanto lá estivera, tivera uma visão que lhe disse para voltar para casa porque a irmã mais velha morrera por acção de um espírito malvado. Regressara a Pedra Redonda e cantara um cântico de Poder que afastou o espírito mau, e reclamou o acampamento para a tribo.

 

Barriga Falsa mordiscou o lábio inferior, olhando para o vapor ondulante. De tantas vezes ter ouvido a história, chegara a acreditar que Garra de Cotovia fora a algum lugar fora deste mundo. Agora estava a olhar para o lugar autêntico. Uma sensação de maravilha apoderou-se dele.

 

Uma massa de nuvens rasgou-se e a luz do Sol derramou-se em seu redor. Semicerrou os olhos; a cegueira da neve podia atingir um homem naquela altura do ano. Quando o sol atingia a coluna de vapor, o vapor cintilava luminosamente. Devia ir até lá abaixo ver as nascentes quentes antes de tropeçar na próxima calamidade que o esperava.

 

- Bem, vamos embora. Mão Esquerda está provavelmente a caminho do seu povo neste momento. - Fez uma careta perante o focinho feliz de Confusão. -Tinhas mesmo de ir atrás daquele lobo, não tinhas? Olha para a trapalhada em que nos metemos.

 

Confusão olhou para cima com a cauda a abanar.

 

Barriga Falsa contorceu o rosto numa expressão irritada e olhou para o céu nublado.

 

- Fogo Ardente, não sabias onde me ias meter quando me fizeste prometer. Agora é que tenho mesmo problemas... como se os não tivesse já que chegassem. Vou lá a baixo e vou ser morto por algum guerreiro do Povo do Sol ou coisa parecida.

 

Começou a descer a encosta em direcção à fita prateada do rio do Veado Cinzento.

 

Num mundo de branco, Cinza Branca precipitava-se aos tropeções para a frente, sem destino. Os seus pés pontapeavam os macios flocos de neve húmida enquanto a neve profunda sugava o cabedal dos seus mocassins ensopados. o manto branco encobria pedras e arbustos. Mais de uma vez tropeçara e caíra. Cada queda desgastava-lhe ainda mais as suas fracas energias e enchia-a de neve húmida que derretia ensopando-lhe o vestuário. Sentia-se exausta, separada do mundo.

 

Teimou em avançar, passo a passo, um padrão de movimento simples que a sua mente entorpecida conseguia entender. Não pensara na direcção a seguir, empenhada apenas em pôr a maior distância possível entre ela e aquela horrível saliência rochosa.

 

As manchas vermelhas do sangue de Três Touros secaram-lhe na manga e por debaixo das unhas. Divertira-se com o calor impetuoso do sangue dele a esguichar que lhe ensopou as mãos. o ruído do seixo de quartzito aguçado batendo insistentemente nos ossos dele ecoar-lhe-ia nos seus sonhos enquanto fosse viva.

 

- Fui realmente eu? - perguntou-se entorpecidamente, recordando o poder cheio de medo dos seus músculos enquanto o atacava. Só quando se sentiu exausta é que largou finalmente o seixo de quartzito. A sua alma fora então tomada pelo terror; a imagem das feições dele destroçadas ardia-lhe na memória. Nunca esqueceria o corpo dele jazendo no arenito esboroado.

 

Enfiou um pé num arbusto escondido e voltou a cair e a fria humidade da neve queimou-lhe o rosto e as mãos. Debateu-se para se pôr de pé. Recuperou da neve, onde os deixara cair, todos os dardos de Três Touros.

 

Pelo menos tivera senso suficiente para trazer a trouxa dele antes de abalar. Agora tinha acendalhas de madeira dura e o atlatl e os dardos dele. Com armas e a capacidade para fazer fogo, podia sobreviver.

 

Algo sussurrou no silêncio atrás de si. Cinza Branca choramingou ao lançar um olhar assustado por cima do ombro. A neve constrói estranhas e assombrosas formas, quase como rostos humanos, que parecem precipitar-se para a frente com asas geladas. Sobressaltou-se e disparou em frente. Tropeçou e caiu de novo. Sentia uma presença oculta espiando-a, esperando-a, seguindo-lhe o rasto.

 

«Corre! Voa! Desaparece!» Levantou-se atabalhoadamente com o estômago a doer de fome. Os músculos das pernas tremiam-lhe de fadiga, tinha arrepios e respirava com dificuldade e vacilava de exaustão. o mundo redemoinhava e a vista nublava-se-lhe. Indistinta. Depois cinzenta...

 

Cinza Branca estava quase a estatelar-se na neve. Não conseguia sentir as mãos nem os pés. Semicerrou os olhos contra o turbilhão cinzento que rodopiava em redor dos seus pensamentos enevoados.

 

Cambaleou, perdeu o equilíbrio e caiu pesadamente. Uma sombra negra cresceu sobre ela.

 

- Não! Deixa-me em paz! - gritou cheia de terror, e pôs-se de novo de pé com um esticão, esforçando-se por correr, a orla da visão a desfocar ao olhar para trás, e a não ver nada. A terra rodopiava e tornava-se de novo cinzenta...

 

A mordedura fria da neve no rosto fez-lhe recobrar de novo a consciência. Quanto tempo estivera prostrada desta vez? «Fui demasiado longe. Até o corpo me falhou.» Foi sacudida por arrepios violentos que lhe estilhaçaram a visão.

 

Semicerrou os olhos e olhou para o céu. A luz do Sol rompia em faixas por entre as nuvens. Era a luz que a enganava? Uma imagem formava-se nas nuvens desiguais. Um homem de fogo olhava para ela lá do alto, com o rosto preocupado.

 

Pôs um pé por debaixo do corpo, estremecendo para se levantar. A vagina ardia-lhe como uma ferida. Os seios ardiam-lhe devido à fricção contra o cabedal do vestuário. o rosto tratado com rudeza tornara-se pergaminho com o frio e as equimoses demasiado frias para doerem.

 

Apoiou-se na haste do atlatl para se pôr de pé. Um pé à frente do outro, cambaleou em frente. Os seus pensamentos em ruína recusavam-se a recompor-se. Qual o caminho a seguir?

 

«A descer. A descer é mais fácil.» Aturdida, com o equilíbrio incerto, esforçou-se por se manter de pé; tinha os pés tão entorpecidos que não conseguia sentir o chão por debaixo deles.

 

Caminhou sem destino, mal se apercebendo de que a terra se tornara plana e desembocara num grande vale. Cambaleava em frente, guiada apenas pelo instinto ferido.

 

«Estou só. Nada ficou. Nem o meu povo. Nem Pés de Vento. Nada... »

 

Cinza Branca passou, absorta, por entre os troncos cinzentos do choupo despontando entre a neve e a erva espessa. Embateu de encontro a um tufo de salgueiros e olhou aturdida para um rio. Que rio? Espiou em volta como a coruja. Um desfiladeiro de paredes escarpadas cortava em direcção a sul as montanhas Atravessadas. o rio do Veado Cinzento?

 

Pestanejou perante a corrente lodosa e deslizou até à beira da água com o coração a doer por causa da barreira que tinha à sua frente. «E agora?»

 

Um persistente ruído difuso - como pés calçados insínuando-se pela neve espessa - veio da sua retaguarda. Arquejando de pânico, olhou para trás através da várzea e não viu nada, apenas os seus próprios rastos na neve virginal.

 

«Estou a ouvir coisas. É isso. Estou a ficar louca... como o mundo inteiro.» Espreitou para jusante ao longo do rio que corria suavemente.

 

«Água, posso... posso limpar-me. Tudo excepto a alma.» Atormentavam-na as imagens terríveis do olhar lúbrico de Três Touros. Cinza Branca tirou o vestuário. Ao cheiro da violação, a garganta apertou-se-lhe com a premência do vómito. Apanhou areia do rio com as mãos que tinham perdido toda a sensibilidade; mesmo a queimadura do frio tinha desaparecido. Começou a esfregar-se, atirando com a água contra as coxas e a barriga. Arrepios violentos tomaram conta dela.

 

Pelo canto do olho, captou um movimento. «Quem? o quê?» Rodou sobre si. A náusea varreu-a.

 

- Quem és tu? - gritou à negra aparição que se agitava nos turbilhões de neve.

 

«Atravessa! Tens de fugir! Tens de... desaparecer.» Agarrou no vestuário e na trouxa e atirou-se para a frente, afoitando-se no frio cortante do rio, mal dando pelo gelo à deriva que chocava contra si. Arrepiando-se descontroladamente, correu com passos rápidos pelas rochas escorregadias. Ao afundar-se, o frio cortante sugou-lhe o calor que lhe restava. A água gorgolejava e borbulhava em volta da cabeça, enrolando-lhe o cabelo em volta do rosto numa rede estranguladora.

 

Lutou debilmente contra a corrente. A alma deslizou-lhe como se se tivesse libertado.

 

«Estou a morrer... a morrer... Este pensamento envolveu-a como um sudário. «Serei livre, flutuante e quente como Lua Brilhante. Talvez no Acampamento da Morte possa sorrir de novo.»

 

Barriga Falsa pôs-se de pé, sacudindo o casaco e espantando o frio e a humidade que se infiltrara quando caíra pela encosta abaixo. No vale em baixo, o rio do Veado Cinzento cintilava num fogo opalescente.

 

- «Procura o Sonhador», disse Fogo Ardente - murmurou Barriga Falsa. Atirou com neve a Confusão enquanto este agitava a cauda depois de ter pulado pela encosta abaixo nas quatro patas ágeis. Apanhou a bola de neve e mordeu-a, esperando avidamente por mais.

 

- Tinhas de seguir algum lobo no meio da noite, não tinhas? Aposto que se falasses também me dizias que era um lobo negro. Algum animal do espírito apostado em meter-me em apuros.

 

Barriga Falsa caminhou todo arrepiado. Alcançou o leito do rio e patinhou através da neve da larga várzea. Os salgueiros permaneciam cinzentos e hirtos, com os ramos pontilhados de rebentos negros que se erguiam para as nuvens disformes no céu, empenhados numa luta pelo Verão que parecia nunca mais chegar.

 

Parou na densa orla de salgueiros ao longo das margens e olhou demoradamente para o rio de águas turvas. Arrepiou-se de novo com o frio a acentuar-se ainda mais à vista dos pedaços de neve e gelo a flutuarem nas águas revoltas e negras.

 

Virou para norte, para seguir o rio até às nascentes de água quente, e vislumbrou uma figura vacilante ao longo da margem oposta. Por instinto, segurou Confusão precisamente antes de o cão começar a rastejar através dos salgueiros - sem dúvida para ir beber ao rio.

 

A segurar o cão, Barriga Falsa acocorou-se.

 

Não podia dizer muita coisa a respeito da figura agasalhada, excepto que transportava dardos e um atlatl. Era o suficiente para lhe criar uma sensação de mal-estar nas tripas vazias.

 

Olhou em volta. o seu rasto podia ser visto da margem oposta? Quem quer que fosse, havia boas hipóteses de não se importar com um estranho solitário como Barriga Falsa.

 

A figura desceu a margem, cambaleando ligeiramente como se estivesse exausta ou ferida. o homem estremeceu e olhou demoradamente para a retaguarda, para o caminho que fizera - o tipo de coisa que uma pessoa faria se suspeitasse de que estava a ser perseguida.

 

- oh, Confusão, que vamos fazer? Meter-nos numa espécie qualquer de guerra? - Barriga Falsa resmungou, examinando o rasto do fugitivo. A única coisa que conseguia ver era as encostas estéreis elevando-se para oeste.

 

O homem na margem oposta começou a despir-se.

 

- Isto é completamente insensato! Quem no seu perfeito juízo...?

 

- A voz parou instantaneamente para se transformar num... Ela?

 

Ignorando o frio gélido, a mulher lavava-se de uma maneira tal que fez Barriga Falsa corar, a despeito do frio que sentia.

 

Ela esfregava-se desesperadamente, como para purificar cada uma das partes do corpo arrepiado. Depois saltou de novo, como se estivesse assustada, e precipitou-se de cabeça no rio.

 

- Não! Não faças isso! - Barriga Falsa abanou a cabeça e murmurou para Confusão: - Ela não parece suficientemente forte. E que vai suceder quando ela alcançar esta margem? Estará meio... A mulher ergueu-se, escorregou e caiu.

 

Barriga Falsa pôs-se de pé de um salto e começou a trotar ao longo da margem. A trouxa e a manta que ela trazia redemoinhavam, afastando-se na corrente. Ele saltava de um pé para o outro. Conseguia ver as forças dela a faltarem e como ela se debatia e conseguia imaginar o frio doloroso que lhe tolhia os músculos.

 

Ia deixar a mulher afogar-se defronte dos seus olhos? Barriga Falsa arrancou o casaco e despiu o saiote, os safões e as calças. Correu para o rio, aterrorizado pelo receio de que ela estivesse morta quando a alcançasse.

 

O frio chocou-lhe as carnes já frias ao chapinhar em direcção a ela. Os pés faltaram-lhe nas escorregadias pedras redondas. Falhou com o braço são, levantou a cabeça e estatelou-se na corrente frígida.

 

Grãos de areia projectados pela corrida provocaram-lhe um formigueiro na pele que entorpecia rapidamente. Esticou-se para ela, pondo-se na ponta dos pés, com a respiração presa nos pulmões enquanto o frio intenso lhe estonteava cada um dos nervos do corpo.

 

Barriga Falsa agarrou uma mão-cheia de cabelo dela. Ela debateu-se debilmente.

 

- Pendura-te em mim! - disse com voz arquejante através das cordas vocais estranguladas pelo gelo.

 

A mulher manobrou para deslizar os braços em redor do pescoço dele num abraço sufocante enquanto ele se debatia com o braço são para se manter à tona e com os entorpecidos dedos dos pés empurrava as pedras limosas do fundo. Submergiram muitas vezes; o abraço que a mulher lhe dava no pescoço cortou-lhe a respiração.

 

Os membros de Barriga Falsa estavam a perder força por causa do frio terrível. Sentia os Músculos a endurecerem e a perderem a força.

 

- Vamos morrer - murmurou ele enquanto a corrente o levava a descrever uma curva. Fez um último esforço para se desviarem para águas mais lentas quando os pés lhe tocaram na areia. Enterrou os dedos dos pés na areia, inclinando-se contra a corrente até conseguir pôr-se de joelhos na água represada, dentes a baterem castanholas com tal violência que a vista se lhe turvou.

 

Tentou pôr-se de pé, rezando para que as pernas lhe obedecessem. o abraço estrangulador da mulher atirou-o de costas, fazendo-o arquejar desesperadamente. ’

 

Barriga Falsa debatia-se desesperadamente na água saibrosa. Torceu-se e sacudiu-se, compreendendo que a mulher desmaiara - mas o braço enrolara-se-lhe na tira de couro em volta do pescoço dele. Fez força - e a correia rebentou.

 

Ela ficou deitada inerte no seu amplexo enquanto ele agarrava de súbito a bolsa e os seus preciosos dentes antes de a corrente a arrastar para longe.

 

- Foi bom para ti eu ter isto ou terias ido com a corrente. Arrastou-a para o banco de areia. Ela gemeu, tossindo a água. Exausto, gelado até aos ossos, Barriga Falsa chapinhou para fora dos baixios e puxou-a para a margem pedregosa ao seu lado.

 

- N-ã-ã-ão po-po-po-demos fi-fi-car a-a-a-qui - gaguejou através do bater dos dentes, Com inépcia, procurou levantá-la. o exercício devia trazer calor. Colocou o seu braço são por debaixo dela e levantou-a. Confusão veio a correr pela margem com a cauda a abanar descontroladamente enquanto ladrava o seu contentamento.

 

Barriga Falsa colocou a mulher de pé. Ela parecia ter encontrado algures uma reserva de energia e foi andando a cambalear com ele. A neve queimava-lhe os pés enquanto eles se afastavam. As cãibras causavam-lhe a agonia das pernas.

 

Sem saberem como, chegaram às roupas dele. Ele enrolou-a no casaco, enfiando os mocassins e colocando os safões sobre os pés doridos. Os seus arrepios dificultavam-lhe duplamente o trabalho.

 

O pensamento de Barriga Falsa tornou-se sombrio ao tentar visualizar o que fazer. Calor, precisavam de calor ou morriam ambos. Ela deitara-se e parecia ter perdido a consciência. Ele olhou os arredores brancos. o penacho das nascentes quentes erguia-se numa peanha branca coberta de terra em direcção ao norte.

 

Nascentes quentes? Água quente? Agora não pareciam longe. Tudo o que tinha de fazer era seguir o rio.

 

Como podia levá-la até lá? o espírito toldou-se-lhe.

 

«Usa a manta como um trenó.» As palavras ecoaram-lhe aos ouvidos.

 

Rolou o corpo desmaiado para cima da manta e pôs-se a caminho. Os pés doíam-lhe e aguilhoavam-no. Semicerrou os olhos de fadiga. Calor. Abençoado, maravilhoso calor a curta distância à sua frente.

 

Gemia e arquejava ao determinar-se a avançar, forçando os músculos rebeldes a funcionarem - esquecendo a razão pela qual se esforçava tanto. A razão parecia-lhe como um peixe escorregadio. Por que estava a fazer isto? Quem era a mulher que rebocava? Onde estava ele, no fim de contas? Olhou para o território desconhecido e perdeu a vontade.

 

«Puxa a mulher até às nascentes quentes. Puxa, Barriga Falsa. Puxa.» As palavras soavam em seu redor, rodopiando no ar glacial. Puxá-la para as nascentes quentes. o mundo oscilava e abanava. Os dedos cravaram-se na manta de pele. A paisagem desaparecia por largos instantes enquanto a arrastava. Caminhava passo passo, mantendo o rio a sua esquerda enquanto prosseguia sobre terreno irregular.

 

Ele ainda estava a lutar, com a concentração fixada no seu objectivo, quando a manta deixou de deslizar.

 

Olhou estupidamente para a rocha que aparecera por debaixo dos pés. Arrepiou-se e arfou, perplexo com o problema. Maldito espírito mau, por que não deslizava a manta? Deslizara tão bem até ali.

 

Confusão ladrou e saltou para a frente com o correspondente chapinhar. Barriga Falsa rodou a cabeça de um modo um tanto ou quanto perdida e abriu a boca para Confusão, que resfolegava com o acre odor a enxofre do vapor que se elevava de um quente charco azul-esverdeado.

 

Quente? Sem neve?

 

Barriga Falsa olhou para a rocha onde estava. Rocha e não neve. Arrastara a mulher e a manta até solo seco. Chegara às nascentes quentes! Puxou com toda a sua alma, rebocando a resistente manta por cima de pedra mineralizada até à beira do charco.

 

Desorientado, atirou-se para a água, chocando as carnes pela segunda vez naquele dia. Um calor maravilhoso desenvolveu-se ao longo da pele, fazendo-a arder como se milhares de agulhas aceradas lhe perfurassem as carnes. Encheu completamente os pulmões de vapor sulfuroso e chapinhou com deleite... até suceder que o olhar lhe caiu na mulher inconsciente.

 

Perplexo, fixou-a, perguntando-se a respeito da proveniência dela. Saiu do charco e puxou a mulher para fora da manta. Despiu-lhe o casaco e meteu-lhe o braço são por debaixo do ombro, levantando-a e estatelando-se com ela dentro de água. Acomodou-a dentro do charco e arfou com o calor que lhe inundava o corpo arrepiado.

 

Manteve-lhe o nariz levantado, gozando a sensação do seu cabelo espalhado em redor. Tentou pensar mas desistiu. o frio mortal fazia isso, fechava a mente. Por momentos, queria simplesmente sentar-se e deixar o calor da água afastar-lhe o frio dos membros.

 

Horas mais tarde, o Sol mergulhara contra as altas escarpas a oeste. Os pensamentos de Barriga Falsa continuavam fragmentados e a cabeça confundida, com penugem como o amentilho.

 

Ela agitou-se nos braços dele, murmurando para consigo própria.

 

- Sentes-te bem? - perguntou Barriga Falsa.

 

Ela agitou-se tomada de pânico, batendo na água.

 

- Tem calma, aqui estás em segurança - disse ele. - Em segurança.

 

Ela torceu-se nos braços dele, olhando para cima com olhos vagos. Depois fez a coisa mais incrível. Começou a gritar até cair para trás, inconsciente.

 

- Está tudo bem - garantiu-lhe ele suavemente enquanto a apertava contra si. - Agora estás em segurança.

 

Cinza Branca vogava no calor, confusa e com os pensamentos fragmentados. Um odor pungente - o do enxofre e de minerais tóxicos - abafava-lhe as narinas.

 

O pesadelo surgia de novo. Gritou quando Três Touros a obrigou a submeter-se, com a respiração quente nas suas faces. Reviveu a dor de quando ele a penetrou. Imagens fantasmagóricas da incursão do Povo do Lobo contra a tribo do Homem Branco insinuavam-se como pano de fundo enquanto soluçava de desespero.

 

- Nada resta - choramingou para consigo. - Toda a beleza desapareceu do mundo. Apenas resta o sofrimento. o sofrimento e o ódio e o frio.

 

«Para viveres, tens de renascer», sussurrou-lhe uma voz profunda no espírito.

 

A alma estremeceu-lhe de medo. Fragmentos de sonhos redemoinhavam, não mais do que volutas de fumo num dia ventoso. Uma luz dourada filtrava-se em faixas através de uma névoa cinzenta. Envolveu-a a sensação quente e doce do único. Uma face formou-se na incandescência dourada. o jovem belo sorriu-lhe e abriu uma senda até ao coração dela.

 

O Feixe espera por ti, Mãe do Povo. Prepara-te. Conhece-te. o que era, tal como a vida toda, já não será. Para saberes, tens de aprender. Para sentires, tens de experimentar. Para sonhares, tens de ter esperança. Tudo o mais é fantasia e imaginação... ilusão. o caminho tem de aparecer através do conhecimento dopassado, a dor do presente e a esperança no futuro. o que parece real não o é. Tudo o que te diz respeito é ilusão. Tal como o dardo é talhado na madeira, na pedra, na pena e na tripa informes, assim também um chefe de um povo é moldado. o Poder do sonhador vem da força. Tal como a haste do dardo endurecida ao fogo, tu podes tornar-te mais do que eras... ou menos.»

 

- Falas por contradições.

 

O sol brilhou nos olhos dele enquanto a incandescência dourada se aprofundava. o único pulsava em seu redor.

 

«Contrastes, bom e mau, luz e sombra, são a fonte da vida.... e da ilusão. Apenas o único não tem contrastes. Apenas o único é verdadeiro. Tudo o que é e não é. Prepara-te e procura o feixe. Através de ti, experimentarás o único. Tens de preparar o caminho. As sementes do futuro serãoplantadas pelas tuas palavras, pelas tuas acções. Mãe do Povo, apenas tu podes renovar o sonho.»

 

- Quem és tu?

 

Ele riu, raios de fogo disparando como dardos para iluminarem uma floresta dourada envolta em chamas que dançavam de ramo em ramo. A imagem da floresta em chamas fundiu-se numa visão curiosamente quente de uma terra de neve e gelo mas limpa de tempestades de neve batida pelo vento. Um homem jovem erguia o coração de um lobo no ar frígido, sugando avidamente o sangue quente do músculo fumegante.

 

«Sonho de Lobo!», ecoou-lhe uma voz de velha vinda misteriosamente da neve a redemoinhar.

 

A visão girou, a tempestade desvanecendo-se numa neblina dourada. Um homemjovem ajoelhava-se numa clareira cercada de bastiões de rocha protuberantes. Defronte dele jaz a carcaça de um lobo negro. o homem estendeu as mãos e retirou o coração do corpo enquanto uma iluminação difusa crescia em seu redor.

 

Cinza Branca sentia o Poder renovado como se uma multidão de almas gritasse de júbilo. o coração que o homem jovem erguia para o céu nocturno tornou-se brilhante como uma estrela e elevou-se numa névoa cintilante.

 

Sentiu-se levitar, sustentada no ar pelo Poder do cintilante homem de luz. Como uma águia, olhou para baixo, para o mundo. Apesar da escuridão, conseguia ver-se flutuando numa nascente quente a erguer-se através das vagas de vapor. Voou como um pássaro, embalada nos braços quentes e seguros dele.