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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O POVO DA TERRA - Segundo Volume / W. M. Gear
O POVO DA TERRA - Segundo Volume / W. M. Gear

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O POVO DA TERRA

Segundo Volume

 

- Vou-me embora. É tudo o que há a fazer. - Cinza Branca, que estava a empacotar as suas coisas, endireitou-se. Cruzou os braços e olhou desafiadoramente para Barriga Falsa.

 

Nervosamente, ele puxou o casaco de pele. Estava de pé, vestida com as peles admiravelmente trabalhadas que o sonhador lhe dera. Obtivera-as do Povo do Lobo. Vestia um casaco de pele de carneiro, de grandes cornos retorcidos, animal característico das montanhas do Oeste da América do Norte e semelhante ao argali asiático, um par de calças e uma camisa de pele de bezerro que fora decorada com marfim de alce, dentes de urso e penas entrançadas. A generosidade do velho estendera-se à mochila que Cinza Branca agora enchia.

 

Barriga Falsa suspirou, devorado pela premonição. Olhou fixamente para a vista maravilhosa que o abrigo de Pedras Cantantes oferecia enquanto ordenava os seus argumentos. o velho sonhador estava sentado na sua pedra de arenito, o rosto tão inexpressivo como um pedaço de madeira.

 

Barriga Falsa adoptou um tom compreensivo.

 

- Não tiveste a visão que eu tive. Vão acontecer coisas terríveis lá para cima e eu...

 

- Vou-me embora - insistiu ela.

- Mas o sonho. Terríveis...

 

- Especialmente o sonho - o maxilar dela endureceu. - Barriga Falsa, tuprecisas de mim. Que vais fazer? Hem? Tens alguma espécie de plano?

 

- Bem, eu...

 

- Já te dignaste pensar sobre tudo isto?

- Sei apenas que tenho de...

 

- É o que eu pensava.

 

Ele levantou o braço escorreito e deixou-o cair. Depois deu um pontapé na terra.

 

- O Povo do Lobo está para aqueles lados. Tu não queres ir, pois não? Sinceramente? Depois de te ter contado o que sonhei?

 

Ela fechou os olhos e abanou a cabeça.

- Não.

- Então porquê essa loucura? Porquê tentar...?

 

- Porque tenho de o fazer. - o rosto dela agitou-se como se tivesse avançado para mais perto dele e o olhasse dentro dos olhos.

- Porque não posso deixar que o faças sozinho. Porque se alguma coisa corresse mal desejaria morrer. Não gostaria de saber que a minha cobardia te tinha causado a morte.

 

Barriga Falsa encolheu os ombros com irritação.

 

- Muito bem. - Sentiu o coração a inchar quando lhe sorriu. Talvez seja um erro... mas julgo que, por agora, estou na idade de fazer asneiras, - Estendeu o braço para lhe alisar os cabelos com os dedos. - Aliás, penso que te quero comigo.

 

Ela respondeu-lhe ao sorriso com um dos seus.

- Então, vamos.

 

Agarrou no colar de dentes de peixe petrificados parcialmente completo, que estava junto da fogueira, e colocou-o na bolsa que lhe pendia do pescoço. Olhou a distância uma última vez, deixando a sensação da terra acalmar-lhe a alma preocupada. Depois, linhas de perplexidade enrugaram-lhe a fronte..

 

- Ai... que caminho tomar? Quero dizer, eu sei que estamos de partida para as montanhas do Prado de Erva, mas que trilhos devemos tomar? Como faremos para não nos perdermos?

 

- Vês? - Cinza Branca rejubilou. - É por isso que precisas de mim.

 

- Sigam durante três dias de marcha para leste ao longo dos topos da crista - disse Pedras Cantantes brandamente. - Sigam até onde o rio Água Estagnada aponta para norte, para dentro das colinas. Nas cabeceiras do rio, sigam a crista para leste; o andar deve ser bom ali. Deve levar-vos até ao arvoredo. Quando atingirem o arvoredo, encontrarão o trilho do búfalo. Sigam-no para norte até às montanhas do Prado da Erva.

 

Como vou saber onde está a Trouxa de Lobo?- perguntou Barriga Falsa. - Pergunto simplesmente por ela ao Povo do Lobo? Essa pergunta não parece ser lá muito inteligente - resmungou Cinza Branca.

 

Pedras Cantantes olhou para um e depois para o outro.

 

- Se fores digno, não precisas de te preocupar. o Poder não te deixará andar aos caídos por aí durante muito tempo. Nem se a Trouxa estiver a chamar por ti algo acontecerá para te mostrar o caminho.

 

Barriga Falsa escutou atentamente. «Serei digno?» Olhou para si, examinando-se. o que viu não lhe inspirou confiança.

 

- Que acontecerá depois de termos apanhado a Trouxa de Lobo? - Cinza Branca pôs a sua trouxa às costas. - Já pensaste nisso?

 

Barriga Falsa olhou-a sem expressão.

 

- Bem, não exactamente.

 

Cinza Branca virou-se para o sonhador.

 

- Obrigado por nos teres deixado estar contigo. Podemos cá voltar? Receber-nos-ias?

 

O velho sorriu serenamente.

 

- Voltarão... se estiverem vivos.

 

- Se estivermos vivos - murmurou Cinza Branca. Por detrás da sua expressão determinada, escondia-se um olhar assombrado.

- O Poder nunca te prometeu coisa nenhuma - recordou-lhe

 

Pedras Cantantes delicadamente. - Esperarei por vocês. Tenho muito para vos ensinar. A Trouxa tem muito para vos ensinar. Não será fácil.

 

- Se estivermos vivos - repetiu ela num sufoco.

 

Cinza Branca ajudou Barriga Falsa a colocar a mochila às costas e encaminharam-se para a orla do trilho. Confusão trotava alegremente à frente.

 

Barriga Falsa olhou para trás para Pedras Cantantes, sentado por debaixo do poleiro da pega.

 

- Obrigado por nos teres deixado ficar contigo. Voltaremos. o sonhador levantou a mão e sorriu.

 

- Boa sorte, Homem do Povo. Voltarei a ver-te, se for essa a vontade do Poder. Se não for, juntar-me-ei a ti no único.

 

Barriga Falsa fez um gesto com a cabeça e acenou em despedida antes de seguir o rasto de Confusão. Uma mistura curiosa de preocupação e felicidade lutava no peito dele. o sonho terrível assombrava-o com pedaços e fragmentos a repetirem-se-lhe na memória.

 

- E cá estamos de novo, tu, eu e o Confusão - disse calmamente.

 

Cinza Branca bufou de incredulidade.

 

Ele deixou o sol aquecê-lo ao caminhar. Como é que alguém podia pensar em morte e ruína num dia deliciosamente quente como aquele? Mas bastava-lhe fechar os olhos para ver o rosto demoníaco do sonhador.

 

- Quem pensas que é o guerreiro estropiado do sonho? Ela não respondeu logo.

 

- Não sei. Conheci vários homens estropiados durante a minha vida... mas todos eles estão agora mortos. Pelo que me contaste dos teus sonhos, não me quero encontrar com ele.

 

- Nem eu.

 

- Não nos parecemos nada com os heróis das histórias de Inverno, pois não?

 

À frente deles, Confusão saltitava pelo trilho que contornava a parede de arenito e conduzia ao topo da crista. Barriga Falsa disse: -,Sabes?, ainda não estou totalmente convencido de que o Poder não tenha cometido um erro disparatado. Quem devia ir atrás da Trouxa de Lobo devia ser alguém como Fogo Ardente. Ou talvez o teu Pés de Vento. Qualquer pessoa pensaria que o Poder escolhesse um jovem guerreiro forte e valente... não Barriga Falsa.

 

O trilho virava subitamente, seguindo uma estreita fenda na parede de arenito que conduzia até ao topo. Dava passagem a um veado e uma pessoa podia facilmente seguir por ali. Quando saíram do desfiladeiro, Barriga Falsa deteve-se para olhar pela última vez para a roda das estrelas.

 

Cinza Branca disse, enquanto um profundo franzir de sobrancelhas lhe riscava a face:

 

-Não percebo por que fomos escolhidos em vez de um guerreiro. Tenho tentado compreender, ver o sentido disto, mas não consigo.

- Fez uma pausa. - o Poder mudou a minha vida desde o princípio. Olha para mim. Devia estar em Três Confluências, tomando o meu lugar nas decisões que afectam o acampamento, aprendendo as minhas tarefas com Fogo Verde e Coruja Feliz. Já devia ter marido por esta altura e talvez um filho ou dois, com outro a inchar-me a barriga. Devia estar a preocupar-me com os espíritos e com os terrenos onde devem ser colhidas as raízes este ano. Mas estou aqui, em viagem para te ajudar a roubar a Trouxa mais sagrada do Povo do Lobo para que possa Sonhar um novo caminho para o Povo do Sol.

- Suspirou de aborrecimento. - Tudo isto é de lunáticos.

 

Barriga Falsa deu um sacão à mochila para poder pegar-lhe na mão.

 

- o caminho é longo. Vamos. Talvez possamos descobrir a Trouxa e raspar-nos antes de alguém dar por isso.

 

E se derem por isso? E se vierem atrás de nós? Ele lançou-lhe um longo olhar de soslaio.

 

Então, o Poder verá exactamente o cobarde que eu realmente SOU.

 

À recordação do sonho, o coração afundou-se-lhe no peito e o colar de dentes de peixe petrificados pareceu pesar-lhe no pescoço. Depois de toda a consideração que Mão Esquerda lhe dispensara e do presente com que o honrara, roubar a Trouxa de Lobo seria uma maneira suja de lhe pagar,

 

Pés de Vento sentou-se no local que Lua Negra lhe indicou. Acomodou-se de pernas cruzadas e tentou compor os seus pensamentos.

 

O facto de Lua Negra o ter colocado tão próximo da cabeça do círculo do conselho significava que o chefe da tribo lhe pediria parecer.

 

Os homens e as mulheres iam chegando aos pares e aos trios para se sentarem à sombra dos choupos. As mantas pesadas tinham sido deixadas nas cabanas e aparecera o vestuário com decorações garridas reservado para os dias mais quentes. Este seria um belo dia para tais vestimentas; o vento soprava prazenteiramente do alto das montanhas da Rocha Vermelha. o povo vestia o que tinha de melhor para este importante conselho: colarinhos duros de contas de osso, peitorais de osso de águia, conchas de ostra e de olivela mercadas na costa, penas brilhantes e peles sedosas. Muitos tinham pintado o couro das suas vestimentas de pele de veado e de antílope, sendo as cores favoritas o amarelo e, especialmente, a púrpura-escura obtida da púrsia.

 

Contrastando com os ornamentos que usavam, os rostos das pessoas traíam a sua preocupação e, em alguns casos, autêntico medo. «Nem eu os posso censurar. Os rumores têm corrido como o fogo na erva durante o último Verão. Fugimos dos Flauta Surda quando o povo teria preferido combater.» Mas não conseguia afastar a sensação de que eles baloiçavam à beira de um abismo medonho e que um passo em falso os mataria a todos.

 

Pés de Vento franziu os lábios e carregou o olhar para o céu. Por cima das cabeças, os choupos estavam frisados com as primeiras folhas verdes da Primavera. o rio da Água Fedorenta corria a um tiro de dardo para norte do círculo do conselho que fora instalado na clareira relvada defronte da cabana de Lua Negra. A tribo da Ponta Negra acampara ligeiramente ajusante das nascentes quentes que davam o nome ao rio. Mesmo num dia tão quente como este, podia ver-se o vapor onde o rio saía do desfiladeiro para oeste. Para lá das três fiadas sucessivas de colinas, as montanhas da Rocha Vermelha perfilavam-se contra o azul do céu.

 

Um simples monte isolado de encosta alcantilada marcava o horizonte setentrional: uma bossa redonda de arenito revestia-o, como se o Pássaro de Fogo ou o Grande Urso tivessem largado um coração gigante no topo da montanha.

 

- Eles puseram-te aqui à frente? - perguntou Casca de Caracol ao parar defronte de Pés de Vento.

 

- Penso que conheço o território.

 

- E tu trouxeste-nos até aqui. - Casca de Caracol olhou em redor do círculo que crescia. - Fizeste um grande número de amigos entre os guerreiros. Hoje, muitos escutarão as tuas palavras.

Fá-las tão astuciosas quanto possível e estaremos para além das tuas montanhas Atravessadas dentro de uma lua. Senta-te. - Pés de Vento afastou-se para partilhar a sua manta. Casca de Caracol sentou-se imediatamente, bem ciente de que ficava junto dos chefes. - Que pensas? - perguntou Pés de Vento. - Estás preparado para ir para sul, para o desconhecido? E se houver monstros... ursos prateados tão grandes como montanhas e ladrões de almas e outras bestas demoníacas?

 

Casca de Caracol fez um gesto de negação.

 

- Então só teremos de os matar e prosseguir com os nossos assuntos. Os Flauta Surda é que me põem nervoso. São tantos. Abanou a cabeça. - E vieram para ficar. o que vimos não foi uma migração de Verão para os terrenos de caça. Podia ver-se pela maneira como caminhavam. Podia ver-se a determinação... como o Poder no ar. Aposto no sul.

 

Lua Negra estivera a conversar com outros. Agora pedia uma saudação para Gordura Quente, que se encaminhava para dentro do círculo. o sol cintilava no cabelo prateado do velho libertador de almas. Os dois velhos falavam calmamente, acenando afirmativamente com a cabeça.

 

- Ah! Eis a neta de Gordura Quente. - Casca de Caracol acotovelou as costelas de Pés de Vento quando Faia Preta se ajoelhou na orla do círculo que se enchia. Muitos foram os olhos masculinos que se viraram na sua direcção.

 

- Faia Preta? É bonita. - Pés de Vento olhou para trás, para os velhos, mas o seu pensamento estava longe. - Falámos algumas vezes. Ela aparece muitas vezes para ouvir quando Gordura Quente e eu discutimos coisas.

 

- Bonita? Ela é mas é esquisita. - Casca de Caracol fez uma careta. - Aposto que não sabes que ela te observa.

 

- Hem?

 

Disse que ela te observa. Que se passa contigo? Estás preocupado por ires falar em frente de toda a tribo?

 

Não, estava apenas a pensar. Que disseste?

 

- Disse que Faia Preta te observa. Ela ignora o resto e observa-te.

 

Pés de Vento empertigou a cabeça. Porquê? Que fiz eu?

 

Casca de Caracol bateu com a mão na testa.

 

Es astucioso que nem uma pedra. Ela está interessada em ti. Enviuvou há meses e não levantou um dedo para qualquer um dos guerreiros importantes... como o que se senta junto de ti. Tu exibes-te e ela faz-te olhinhos. Que se passa? Podias ter a mais bela mulher da tribo... e não te interessas!

 

Pés de Vento riu e olhou para Faia Preta. Ela estivera a examiná-lo com aquele velado exame minucioso a que ele se acostumara. Não podia negar a beleza dela. Olhos grandes e negros olhavam numa face em forma de coração. Tinha um nariz delicado e as sobrancelhas eram emolduradas por uma farta e lustrosa cabeleira negra que lhe descia abaixo da cintura estreita.

 

- Tenho outra para encontrar. Boa sorte com Faia Preta.

- A tua Cinza Branca?

 

- A minha Cinza Branca. - «Minha?» Ao mencioná-la, as recordações de Pés de Vento agitaram-se, Conseguia vê-la rir enquanto aquela cintilação traquina lhe iluminava os olhos coruscantes. A espessa cabeleira negra captava a luz do Sol com um brilho azulado. Nos seus sonhos acordados, ela caminhava com o vestido de pele a oscilar a cada movimento do seu corpo insinuante.

 

«Amo-te... sim, casarei contigo... » As palavras ecoavam-lhe nos ouvidos como se acabassem de ser proferidas.

 

«Virei por ti. Antes das primeiras neves.» Ela avançou para ele, um sorriso apaixonado nos lábios carnudos, uma ousadia nos olhos baixos. As ancas meneavam com cada passo balançado. Os braços oscilavam com desenvoltura, enquanto os lábios se lhe entreabriam e a excitação lhe crescia nos olhos.

 

Um cotovelo pontiagudo nas costelas desfez-lhe o devaneio.

- Queres escutar isto? - sussurrou-lhe ao ouvido Casca de Caracol.

 

Pés de Vento sacudiu a cabeça para clarear as ideias enquanto o chefe da tribo falava. Gordura Quente sentou-se de pernas cruzadas ao lado de Lua Negra, dedos entrelaçados no regaço, olhar fixo na relva pisada, escutando com grande concentração. Do outro lado de Lua Negra sentava-se Homem Só, e exactamente atrás do seu ombro direito acocorava-se Punho de Pedra. Ambos estes homens estavam vestidos para viajar, com o vestuário manchado de lama e sarapintado de terra. Pés de Vento podia ver uma fadiga moderada nos seus olhos duros. Pareciam dois homens perigosos que tinham mais do que a sua quota-parte de preocupação.

 

Homem Só retorcia uma mão-cheia de erva nos dedos. Os relâmpagos tatuados nas bochechas contraíam-se quando as chupava. Homem Só e Punho de Pedra? Quando chegaram? Pés de Vento ouvira dizer que eles estariam ausentes a espiarem os Flauta Surda pelo menos durante dez dias - mas, então, bastava um olhar para dizer que eles já tinham descoberto alguma coisa. «E nós não iríamos gostar disso.»

 

- Apanhaste um mau caso de intoxicação de mulher - resmungou Casca de Caracol. - Ela deve ser uma mulher e tanto.

 

Pés de Vento olhou reprovadoramente para o amigo e voltou a atenção para Lua Negra que estava a dizer:

 

- veio. Ouvi-lo-ei contar-nos tudo quanto aprenderam, ele e Punho de Pedra.

 

Homem Só levou algum tempo a correr a vista pelo círculo de rostos. Um por um, olhou os velhos amigos nos olhos, acenando com a cabeça. Finalmente, os seus olhos encontraram-se com os de Pés de Vento e o chefe de guerra acenou com a cabeça com ar de satisfação. Clareou a voz na garganta e disse:

 

- Tudo quanto Pés de Vento, Casca de Caracol e Vento Azul nos disseram é verdade. Punho de Pedra e eu estivemos nas terras altas, por onde pudemos viajar sem sermos observados. À noite descemos em direcção aos acampamentos deles para ver o que conseguíamos ouvir ou aprender. Todo a tribo Flauta Surda veio para o vale do Castor Gordo.

 

Os sussurros estalaram por entre o povo.

 

Homem Só fez um gesto com as mãos tisnadas do sol.

 

-- Esperámos no escuro e capturámos uma das mulheres deles. Arrastámo-la suficientemente para longe do acampamento para estarmos em segurança e falarmos com ela. Ela disse-nos o seguinte: o Inverno a norte do rio Perigoso foi terrível. Os ventos chinook nunca vieram. A neve caía e deslizava pela terra e depois caiu mais neve. Nunca parava. Os guerreiros Flauta Surda descobriram lugares onde o búfalo ficara soterrado pela neve arrastada pelo vento e outros treparam para o dorso destes... para também ficarem soterrados. As planícies para o norte fedem com o cheiro da carne morta pela invernia. As grandes manadas desapareceram. Apenas se conseguem encontrar animais dispersos, e estes têm pouca carne em cima dos ossos.

 

Mas os Flauta Surda não fogem apenas da morte por inanição. Mais para o norte, o Inverno foi pior. Ao longo do rio do Percevejo, a tribo da Vespa e do Pássaro de Neve enfrentam a morte pela fome. o alce americano e o caribu morreram... alguns congelados em pé. As manadas setentrionais de búfalo podem estar todas mortas. Nestas circunstâncias trágicas, os Pássaro de Neve e os Vespa

 

Ventos quentes e secos que descem as encostas orientais das montanhas Rochosas, no caso vertente. Designação também dada aos ventos quentes e húmidos que sopram do mar para as costas noroeste da América do Norte. (N. do T.)

 

juntaram-se e fizeram um conselho. Decidiram que juntos podiam empurrar os Flauta Surda para fora dos seus territórios de caça e salvar as suas crianças da fome. Ocuparam as terras dos Flauta Surda em redor do rio Perigoso. Acreditavam que haveria ali melhor caça este Outono.

 

Lua Negra sacudiu a cabeça em sinal de descrença.

- Todas as tribos estão em marcha para o sul? Homem Só encolheu os ombros.

 

- Isto foi o que a cativa nos disse: os guerreiros Vespa e Pássaro de Neve caíram sobre os Flauta Surda mal começou o degelo. Atrás deles vem a tribo dos Pedra Verde, que abandonou a cintura de floresta e se dirige para os territórios de caça do rio do Percevejo mal os outros partam. Quando o Pedra Verde lá chegar, descobrirão que os outros já se foram embora... e provavelmente segui-los-ão para sul, matando o que puderem, comendo raízes e bagas pelo meio. o Verão é um bom período. o povo não morre à fome. No rio pode apanhar-se peixe com armadilhas e podem caçar-se aves e pequenos animais. Mas as tribos não verão grandes manadas de caça grossa e todos pensarão no Inverno que vai chegar. o único caminho que resta é o sul.

 

- Perguntámos à mulher se os Flauta Surda ficariam no vale do Castor Gordo e tentariam aguentar as tribos coligadas. Ela disse que ficariam apenas o tempo necessário para recuperarem força... ou até as outras tribos aparecerem e começarem a fazer incursões contra eles, o Flauta Surda está cansado de lutar. Cantaram ao Pássaro de Fogo por alma de muitas pessoas do seu povo.

 

- Depois viram o fogo verde no céu e tomaram-no por um sinal para se deslocarem ainda mais para o sul. Os mercadores disseram-lhes que os Invernos no sul não eram tão rigorosos. o frio intenso não é tão mau. o povo não morre à fome se os ventos chinook não vierem. A mulher disse-nos que o Flauta Surda está desesperado, que não voltarão a ver as famílias morrer de fome outra vez.

 

Os sussurros por entre o povo cresceram e tornaram-se mais audíveis. Mal o conselho terminasse, as suas expectativas seriam terríveis.

 

- Punho de Pedra e eu ouvimos aquelas palavras - acrescentou Homem Só. - Também ouvimos o desespero que as palavras evidenciavam. Ouvimos a alma da mulher falar connosco. Digo isto, meu povo: os Flauta Surda não serão forçados a regressar, e, mesmo que o pudessem ser, atrás deles vêm as tribos do Pássaro de Neve e da Vespa, e depois deles a tribo da Pedra Verde.

 

Lua Negra contorceu-se como se se tivesse arrepiado.

 

- Homem Só, tu és o nosso maior guerreiro. Sempre falaste com prudência e honestidade. Todos nós respeitamos o teu conselho. Que sugeres que façamos?

 

Homem Só inspirou profundamente e os ombros incharam-se-lhe.

 

- Em tempos, teria dito que os Ponta Negra os podiam expulsar. Devo ter sido um jovem e louco guerreiro que nunca vira o olhar nos olhos dos Flauta Surda. Esse deve ter sido o conselho de um homem que nunca vira uma tribo esvair-se dos seus guerreiros como sucedeu com a tribo do Homem Branco, conforme Pés de Vento lhes contará. Onde está agora a tribo do Homem Branco? De acordo com o relatório de Pés de Vento, foram quase completamente destruídos, reduzidos a um só acampamento, varridos pelo Povo do Lobo, empurrados para o sul das montanhas Atravessadas... montanhas que ainda não vimos.

 

- E essa mulher que capturaram? - perguntou Lua Negra. Punho de Pedra falou do seu lugar à retaguarda de Homem Só.

- Trouxemo-la connosco até atravessarmos o rio do Castor Gordo. Durante esse tempo, ela disse-nos o quanto sofrera no rio Perigoso. o que ela disse tocou-nos os corações. A mãe e o pai dela e os seus dois filhos... os seus únicos filhos... morreram gelados. Deixámo-la ir e desejámos-lhe tudo de bom.

 

Coelho de Fogo, o jovem guerreiro que combatera tão valentemente na emboscada dos Pedra Partida, pôs-se de pé e aguardou que Lua Negra o reconhecesse. Depois clareou a voz e olhou em redor.

 

- Se vamos manter os terrenos de caça de Castor Gordo, vamos precisar de toda a nossa coragem. Ao princípio não aprovei a vinda para este sítio. Agora reconheço que talvez não tenha sido um erro. Se os Flauta Surda tivessem caído sobre nós enquanto estávamos dispersos, teriam corrido connosco de Castor Gordo e matado muitos dos nossos guerreiros. Penso que, com as nossas forças combinadas, podemos correr com os Flauta Surda. Eles estão enfraquecidos. Uma incursão corajosa pode quebrá-los como nós quebrámos os Homem Branco há três anos nesse mesmo rio. Se os conseguirmos dispersar e expulsar a sangrar para norte, talvez as histórias deles façam as tribos do Pássaro de Neve e da Vespa pensar duas vezes antes de nos desafiarem.

 

Alguns grunhidos de assentimento fizeram-se ouvir quando Coelho de Fogo se sentou.

 

Homem Só clareou a voz.

 

- Noutras circunstâncias, concordaria com o meu amigo Coelho de Fogo. Agora não posso.

 

- Então que fazemos? - perguntou Coelho de Fogo. – Ficamos aqui sentados a conversar e a ver a nossa terra desaparecer? Olhou em redor, perscrutando os rostos do povo. Esticou os braços para a frente como se quisesse abraçá-los e virou a cabeça para o céu indolente e para os choupos sussurrantes. - Desistimos disto?

 

A mulher de Lua Negra, Arranja Lugar, levantou-se e olhou em volta. Os seus 50 Invernos podiam ler-se nas rugas da cara. Mexeu a boca, correndo a língua pelos intervalos de onde os dentes lhe tinham caído. Vestia uma túnica de pele de alce castanho-amarelada fumada, resplandecente de marfins de alce que soltavam cintilações brancas ao sol. Um desenho de conchas de olivela decorava-lhe a linha do pescoço.

 

Suspirou fundo e abanou a cabeça.

 

- Ouvi estas palavras... e o meu coração ficou frio. Estamos confrontados com um problema que nenhum de nós esperava. As tribos sempre combateram entre si, mas isso era feito para mantermos o nosso sangue forte.

 

Olhou de esguelha em redor do círculo, rodando sobre os tornozelos rígidos.

 

-As coisas mudaram no último par de anos. Desfizemos a tribo do Homem Branco. Quando o fizemos, sabíamos que o tínhamos feito para obter novos territórios de caça. Recordo-me que na altura os nossos guerreiros pularam e dançaram para celebrarem a sua força. Naquela altura, também cantei em louvor dos Ponta Negra, mas o meu coração estava perturbado. Em todas as lendas do povo, as tribos nunca sofreram o destino do Homem Branco. Algumas fundiram-se, outros dividiram-se e fizeram novos tribos... da mesma maneira que os Ponta Negra se separaram dos Vespa no tempo anterior àquele em que o meu avô viveu. Mas perturbou-me que tivéssemos destroçado o Homem Branco. A minha mãe era um elemento da tribo Homem Branco.

 

-Agora oiço as histórias contadas por Pés de Vento do Homem Branco a ser caçado e perseguido pelo Povo do Lobo. No outro tempo, nenhuma tribo do Povo do Sol receava os outros. Quando quisemos a terra do rio Perigoso a sul do Castor Gordo, corremos com aquele Povo do Pássaro Branco das terras. Corremos com eles para leste, através das planícies da Erva Rasteira. Talvez eles tenham dito ao Povo do Lobo para nos combaterem - eles eram aparentados, segundo as suas lendas. Talvez também possamos correr com o Povo do Lobo daqui para fora.

 

Empertigou a cabeça.

 

-Agora alguma coisa está a acontecer. Sempre nos deslocámos para sul. Deixámos de ser caçadores de focas e bois-almiscarados e passámos a caçar caribus e o búfalos. Viemos tanto para sul que já não vemos o caribu... e o alce americano apenas se encontra a norte daqui. Agora caçamos alces e antílopes quando o búfalo escasseia. Sabemos de onde viemos, mas fizemo-lo através de gerações. Hoje oiço que mesmo o Pedra Verde está a deslocar-se para sul. Não apenas mudando os acampamentos, mas talvez marchando para o sul para sempre. Tudo mudou. Eu mesma, a minha vida foi passada através de um grande número de incursões, mas nunca vira ou ouvira falar de tribos inteiras a serem forçadas a percorrer longas distâncias.

 

Esfregou o nariz e tossiu.

 

- Estou a ficar velha. Não quero ter de correr como um coiote esfomeado no Inverno como os do Homem Branco fizeram. Na minha opinião, temos três hipóteses, Ficar e tentar combater todas as tribos. Ir para leste e tentar empurrar os Pedra Partida para fora dos seus territórios. Ou viajar para o sul e percorrer essas montanhas Atravessadas. De todas as hipóteses, penso que o sul é a que faz mais sentido. Digo isto porque foi sempre esse o caminho que temos seguido.

 

Os ossos de Arranja Lugar rangeram ao sentar-se. Lua Negra virou-se para Pés de Vento.

 

- E quanto ao sul?

 

Pés de Vento pôs-se de pé, olhando em volta do conselho. o povo observava-o com curiosidade e respeito. As histórias a respeito do seu desafio a Homem Só, da armadilha a que conduzira os Pedra Partida e o seu ousado passeio pelo meio do acampamento de guerra dos Flauta Surda tinham-se espalhado.

 

Juntou os pés.

 

- As montanhas Atravessadas ficam a sul, para lá destas cristas. Para além delas fica a bacia da qual os mercadores nos falaram... onde vive o Povo da Terra.

 

- o meu conselho é para irmos para lá. o irmão do meu pai capturou uma... - Sorriu maliciosamente e ninguém pareceu dar pelo deslize. - Deixem-me começar de novo. Enquanto vivi com a tribo do Homem Branco, Espírito Sábio roubou uma rapariga ao Povo da Terra. Ela contou-me como vive o Povo da Terra. Eles têm mais do que o suficiente para comer, mas vivem de maneira diferente da nossa. Digo-vos que podemos marchar para sul, para esse território, e arranjarmos um lugar para nós.

 

Franziu as sobrancelhas.

 

- Temos de fazer uma escolha. E uma escolha dolorosa e eu sou o único que talvez possa falar dela, dado que a vivi. Todos somos do Povo do Sol. Quando fazemos guerra às outras tribos, fazemos guerra ao nosso próprio povo. Arranja Lugar falou com o Poder quando disse que o que aconteceu ao Homem Branco a deixou incomodada.

 

Olhou em volta, abrindo os braços a apelar aos ouvintes.

 

- Se formos para sul, teremos de fazer as coisas de maneira diferente. Disseram-nos que a caça não se desloca em grandes manadas. Ouvi dizer que a maior parte do povo lá em baixo come alimentos à base de plantas. Sabemos isso; temos feito negócio com essas coisas. Eu próprio não gosto da ideia de mudarmos a nossa maneira de viver. Ao mesmo tempo, recordo-me de quando olhava cuidadosamente e via dezenas e dezenas de cabanas da tribo do Homem Branco... e via tantas faces que não as conseguia conhecer a todas. Se combatermos o Flauta Surda... e o destruirmos... e se combatermos as tribos do Pássaro de Neve e da Vespa e os escorraçarmos para norte, quantas faces desaparecerão deste círculo? Olhem à vossa volta. Quando deixei o Homem Branco, havia cinco dezenas de pessoas. Ali...

 

- Nunca mais! - gritou uma voz da orla do acampamento. Pés de Vento esticou o pescoço, olhando. Um homem solitário caminhava por entre as cabanas, seguido por uma matilha de cães a farejar. Pés de Vento conhecia aquela maneira de andar, reconhecia os ombros musculosos que oscilavam a cada passada.

 

- Espírito Sábio? - sussurrou Pés de Vento, incrédulo.

 

o povo afastou-se do caminho de Espírito Sábio para ele entrar no círculo. Um rápido murmúrio ergueu-se de todos os lados. Brandindo os dardos e o atlatl numa das mãos, Espírito Sábio encaminhou-se para Pés de Vento. Parou, olhos rasos de água, lábios tremendo. Depois esticou os braços para a frente e Pés de Vento caiu-lhe nos braços, apertando-o firmemente contra o peito.

 

- Que fazes aqui? - perguntou Pés de Vento, amparando o tio nos braços estendidos para o observar. o vestuário de Espírito Sábio era uma massa de cabedal gasto, rasgado e maltrapilho. Perdera peso... transformado numa sombra doentia e andrajosa do homem que fora antes. Mas um orgulho forte cintilava por detrás daqueles sofredores olhos castanhos.

 

o rosto de Espírito Sábio mostrou dor.

 

- Não tenho mais nenhum lugar para onde ir - sussurrou, pestanejando em luta com as lágrimas. - A tribo do Homem Branco... desapareceu.

 

- Desapareceu? Que queres dizer com desapareceu?

 

- Morta - respondeu redondamente. - Morta. Varrida pelo Povo do Lobo.

Sussurros de surpresa e incredulidade correram através dos Ponta Negra. Mudaram de posição e esticaram-se para ouvir melhor.

 

Lua Negra avançou e cravou um olhar desconfiado em Espírito Sábio.

 

Vens ostentando armas.

 

Espírito Sábio assentiu com um aceno de cabeça.

 

- É bom ver-te de novo, Lua Negra. Depois de os Ponta Negra nos terem atacado no Castor Gordo, nunca pensei viver para me ouvir dizer isto. Mas, sim, vim ostentando as armas. Não sabia se o meu sobrinho ainda estava vivo. - Os dardos e o atlatl bateram no chão. Espírito Sábio engoliu em seco com força e ergueu os olhos para o chefe dos Ponta Negra. - Tivesse ele sido morto no desafio e eu teria vindo para combater. Não para desafiar... mas para morrer como o último Homem Branco.

 

Lua Negra inspirou profundamente e olhou em volta o círculo de povo.

 

Ouvi-te dizer que a tribo do Homem Branco estava morto... Cinza Branca! - disse abruptamente Pés de Vento, agarrando Espírito Sábio pelos ombros. o coração martelava-lhe no peito e uma curiosa fraqueza cresceu-lhe nos joelhos.

 

Espírito Sábio deixou cair a cabeça.

 

Não sei. Desapareceu quando o Povo do Lobo fez a incursão contra o acampamento. Sei que não a capturaram, mas capturaram algumas das outras... as mulheres jovens que ainda pudessem ter filhos.

 

Mas onde...

 

Não sei. - Espírito Sábio esfregou o rosto. - Percorri as montanhas Atravessadas, fui até Três Confluências e observei. Pensei que talvez... bem, com a tribo do Homem Branco morto, ela tivesse regressado para o Povo da Terra. Nunca a vi lá.

 

Um vazio rodopiante - como se tivesse sido estripado - percorreu Pés de Vento. o mundo pareceu diminuir e a cor desvanecer-se das folhas e o céu tornou-se desesperadamente violento.

 

- Quando? - perguntou.

 

- Na manhã em que partiste para a tribo dos Ponta Negra. Espírito Sábio ergueu o olhar para os ramos agitados pelo vento por cima da cabeça. - Estava a pé nessa noite... escondido nas rochas. Apenas queria estar só para pensar a respeito de Lua Brilhante e chorar em privado. Vi-te trepar a crista, ouvi a tua conversa com Cinza Branca. Observei-te quando partiste... e afastei-me para pensar. Caminhei até ao alvorecer e regressei ao acampamento. Ouvi os gritos. Mas já era demasiado tarde para que pudesse fazer alguma coisa. Em vez disso, escondi-me nas rochas e observei o Povo do Lobo a incendiar a última das cabanas. Depois de terem abandonado o acampamento, confirmei os mortos e não consegui encontrá-la. Depois andei às voltas e segui o Povo do Lobo. Cinza Branca não estava entre os cativos. Retirei-me e espiei o acampamento antes de me esgueirar para procurar mais uma vez o corpo de Cinza Branca. Homem Valente estava lá, andando por entre os corpos.

 

- Ele apanhou-a!

 

- Não. - Espírito- Sábio abanou a cabeça. - Também ele a procurava. Depois de Homem Valente se ter ido embora, começou a nevar. Entrei no acampamento e procurei entre os corpos. Ela não estava lá. Segui o rasto de Homem Valente para me assegurar de que não a levava com ele e segui-o durante um dia. - Inspirou profundamente. - Dirigiu-se para os Pedra Partida... como disse que faria. Foi então que virei para o sul e fui em reconhecimento ao Povo da Terra.

 

- Então onde é que ela está? - perguntou, assombrado, Pés de Vento.

 

Espírito Sábio apertou os punhos ossudos.

- Não sei. Não sei mesmo.

 

Pés de Vento lutou para controlar o desespero que crescia dentro de si.

 

Espírito Sábio olhou para Lua Negra.

- Que farás comigo?

 

Lua Negra examinou pensativamente Espírito Sábio, notando-lhe o vestuário andrajoso, lendo-lhe as rugas do rosto.

 

- Disseste que a tua tribo estava morta.

 

Espírito Sábio deu um estalo com a língua - o ruído soou de forma arrepiante pela falta de graça.

 

- Tudo quanto sempre fui... ou amei, está morto - apontou para Pés de Vento - excepto este jovem.

 

Gordura Quente aproximou-se de Lua Negra.

- Então desejas tornar-te Ponta Negra? Espírito Sábio abanou lentamente a cabeça.

 

- Não, libertador de almas. Eu sou o último dos Homem Branco. Morrerei como o último dos Homem Branco.

 

o espanto percorreu o povo, que observava como uma corrente de um rio profundo.

 

- Não - gritou Pés de Vento enquanto as palavras se afundavam. - Eles matar-te-ão, tio!

 

Espírito Sábio pousou as mãos calosas nos ombros de Pés de Vento. Um sorriso estranho encrespou-lhe os lábios.

 

- Então matam-me, sobrinho. Vim apenas para te ver pela última vez. Tinha de saber o que te sucedera. Tu és tudo quanto deixei.

 

- Reclamo-o para mim - gritou Pés de Vento. - Este homem é meu tio. Pode partilhar a minha cabana. Cuidarei dele. Homem Só veio colocar-se por detrás de Lua Negra, olhando de um lado para o outro. Lua Negra andou de um lado para o outro, mexendo os dedos. Virou-se e abriu os braços em cruz e perguntou a Gordura Quente:

 

- Que fazemos? Que nos aconteceu? Não posso ordenar a Homem Só que o mate. Depois de tudo o que ouvimos hoje aqui? Gordura Quente avançou para Espírito Sábio, olhos inteligentes cravados no rosto do Homem Branco.

 

- Quantos Verões passaram desde a última vez que te vi?

 

- Cinco, velho. Na reunião a norte do rio do Percevejo. Naquela em que Sete Touros casou com Ameixieira Brava.

 

Gordura Quente resmungou e coçou uma orelha.

- Já há tanto tempo?

 

Homem Só aproximou-se de Pés de Vento e disse calmamente:

- Oferecerei alguma da minha carne para alimentar Espírito Sábio.

 

o espírito aturdido de Pés de Vento recusava-se a servi-lo. Imagens fragmentadas de Cinza Branca lutavam com a preocupação por Espírito Sábio e com a dor pelos mortos do Homem Branco... e também por muitos amigos estremecidos.

 

Lua Negra levantou os braços e deixou-os cair. Virou-se para o povo.

 

- Ouviram Espírito Sábio. Ouviram as palavras de Homem Só, o que Arranja Lugar disse e o que Pés de Vento disse. Eu não posso falar pela tribo, mas não posso expulsar este homem. Não posso acrescentar o que já lhe aconteceu. o meu conselho é para o deixarmos ficar. Deixem-no ficar connosco como o último Homem Branco.

 

Homem Só levantou as mãos a pedir atenção.

 

- Todos vocês me conhecem. Conhecem a coragem de Homem Só. Lutei pelos Ponta Negra. Dei a minha alma pela minha tribo. Sabem que Homem Só é orgulhoso e forte. Todavia, não compreendo o que está a acontecer entre o Povo do Sol. Talvez uma nova via esteja a chegar para nós. Talvez devêssemos olhar todos para os Homem Branco... e pensar a respeito das coisas que lhes aconteceram. Talvez devêssemos parar um momento para aprender tudo o que pudéssemos enquanto experimentamos e vemos qual o caminho por onde o Pássaro de Fogo e o Urso nos guiam.

 

Depois o chefe de guerra dos Ponta Negra indicou Espírito Sábio com um gesto de cabeça.

 

- Digo que Espírito Sábio deve ser bem-vindo entre nós. - Correu um olhar duro pelo círculo. - Ele veio aqui sozinho, sabendo que teria de combater toda a tribo Ponta Negra. Um homem que fez isto demonstrou coragem e valor a Homem Só.

 

Coelho de Fogo pôs-se de pé de um salto com um punho erguido.

- Que está a acontecer aqui? A nós? A tudo? Pensem sobre tudo o que ouvimos aqui hoje. o Poder virou-se contra nós? Todas as coisas se desfazem como um casaco velho cosido com um tendão podre. Não me interessa que este velho venha viver connosco. Só tenho uma pergunta: que vamos fazer a respeito dos Flauta Surda?

 

A multidão agitou-se, alguns a gritar, outros discutindo, abanando as cabeças e gesticulando. A confusão instalou-se.

 

Lua Negra ergueu as mãos pedindo silêncio. Depois virou-se para Espírito Sábio.

 

- Disseste que estiveste a sul das montanhas Atravessadas? Espírito Sábio concordou com um aceno de cabeça.

 

- Estive lá. Duas vezes. A primeira, há muitos anos, porque o Poder me guiou até lá. Dessa vez fui à procura da minha filha. Lua Negra acenou com a cabeça e olhou em redor para o povo ansioso. Perguntou:

 

- E a respeito desse tal Povo da Terra? Têm tanto quanto dizem os mercadores? Podemos viver nas terras deles?

 

Espírito Sábio encolheu os ombros.

 

- Eles não vivem como nós, mas todavia têm tanto quanto os mercadores dizem. Raramente morrem de fome no Inverno, como sucede nos nossos acampamentos. Podíamos tomar-lhes o território e viver lá... mas isso significaria aprender o modo de vida deles. Homem Só olhou de soslaio, com satisfação.

 

- Dizes que podíamos tomar a terra deles? Eles têm guerreiros ferozes? Quantos de nós teriam de morrer para o conseguir? Espírito Sábio lançou-lhe um sorriso torcido.

 

- Ninguém vive para sempre, Homem Só. Alguns dos Ponta Negra morrerão, não importa com quem façam a guerra. Eu antes prefiro enfrentar o Povo da Terra do que os Flauta Surda. o Povo da Terra é mais numeroso... os seus acampamentos estão por toda a parte porque a terra é muito rica... mas eu conheço os Flauta Surda. Tens de os matar três vezes para os manteres mortos.

 

Lua Negra mascou o lábio.

 

- Dá-nos algum tempo para pensar. Entretanto, falem sobre o assunto. Amanhã será tempo de decidir o que fazer.

 

Pés de Vento mal ouvira. Cinza Branca enchia-lhe as recordações e os olhos dela fitavam-no dentro da alma. «Morta? Não pode estar morta! Pássaro de Fogo não a tomaria... não depois de eu ter arriscado tudo. Impossível. Não pode ser!»

 

Uma mão delicada pousou-lhe no ombro. Pés de Vento olhou para os olhos argutos de Gordura Quente.

 

- Vem - disse o libertador de almas. - Faia Preta vai preparar a refeição. Tu e Espírito Sábio vêm comer comigo.

 

- Perdi a vontade de comer, velho homem.

 

Espírito Sábio volveu os olhos tristes para o sobrinho. -Vamos. Se ela estiver algures, será a sul das montanhas Atravessadas. Se estiver viva, daremos com ela.

 

«Perdi-a para sempre. Sinto-o. A tribo do Homem Branco está morta... liquidada pelo Povo do Lobo. Por que não fui com ela quando tive uma oportunidade? Porquê?»

 

Pés de Vento olhou para o alto, os olhos a desfocarem-se ao mergulharem nas profundezas do firmamento. «Tenho sido enganado. Afastado da única felicidade que sempre conheci.»

 

 

Barriga Falsa rebolou o achado na mão antes de se sentar junto à pequena fogueira.,

 

- Não percebo. É pedra... e é madeira. Vês o grão? Os grãos? Como conseguiu isto crescer?

 

Cinza Branca examinou os curiosos objectos que ele descobrira ao princípio da manhã: um pedaço de pedra pouco mais comprido que o antebraço de Barriga Falsa. o comprido e delgado objecto era claramente pedra maciça, apesar de parecer exactamente como madeira gasta pelo tempo.

 

- Talvez provenha de alguma árvore que nunca vimos. - Percutiu a estranha pedra, correndo os dedos sobre a óbvia textura de madeira. - Mão Esquerda disse-te que os dentes com os quais estás a fazer o colar vieram de um peixe. E não te disse que havia ossos de pedra em volta de Areia Dourada?

 

Barriga Falsa acenou com a cabeça em sinal de concordância, enquanto a sua expressão meditabunda se acentuava. Procurou na bolsa e retirou um dos dez dentes negros e esfregou-o.

 

Tinham acampado numa concavidade entre dois penedos de granito desgastado. Abaixo deles corria um pequeno arroio de águas frias e límpidas. Faias pretas chocalhavam suavemente na brisa do fim da tarde. o ar cheirava a erva, a terra húmida e a coníferas. o prado que se estendia a todo o comprimento do vale crescia luxuriante e verde com a grama, o rainúnculo-amarelo e a cebola temporã. As nuvens rolaram do oeste, escurecendo a noite.

 

Confusão estava deitado do lado oposto da fogueira, onde as faúlhas não lhe podiam atingir o pêlo espesso. Olhava-os com ar feliz, olhos brilhantes à luz da fogueira, orelhas arrebitadas como se escutasse intencionalmente a conversa deles.

 

- É madeira - repetiu Barriga Falsa. - Como é que a madeira pode transformar-se em pedra?

 

Cinza Branca bocejou e espreguiçou-se.

 

- Talvez seja o Poder. Talvez o Poder possa transformar madeira em pedra tal como esta.

 

Barriga Falsa coçou uma orelha enquanto as visões da neve ardente o assombravam. Esfregou a extremidade fuliginosa da madeira de pedra onde tentara pegar-lhe fogo. Nada sucedera, nem mesmo quando a colocara no meio dos carvões incandescentes.

 

- Madeira que é pedra... e que não arde? Nem mesmo deita fumo no meio das chamas? Madeira feita de pedra? Talvez o Poder possa pegar fogo ao sol. Talvez seja por isso que nunca cheira a fumo quando o Sol está levantado. Ele queima esta espécie de madeira. Ela levantou uma sobrancelha céptica e olhou-o.

 

- Não sejas parvo. Se o sol queimasse madeira de pedra como esta, seria tão pesado que cairia do céu. Toma-lhe o peso. É pedra maciça. E, aliás, o sol não podia queimar madeira.

 

- Como sabes?

 

Ela apoiou o queixo nas palmas das mãos.

 

- Agarra um dos pedaços de madeira. Não olhes assim para mim como um maluco. Vamos lá, faz o que te digo.

 

Barriga Falsa poisou o pedaço de madeira petrificada e agarrou um dos ramos que ela quebrara de um junípero morto.

 

- Atira-o ao ar.

 

Ele encolheu os ombros e atirou-o ao ar. Confusão pôs-se de pé de um salto e lançou-se em perseguição. o ramo produziu um ruído seco ao bater no chão algures à retaguarda deles.

 

- E então? - Barriga Falsa levantou o braço escorreito. - Já o atirei ao ar.

 

- E ele caiu outra vez. - Ela sorriu com doçura e tamborilou com os dedos no queixo. A luz da fogueira brincava-lhe no rosto presumido. - E depois, se o sol queimasse madeira, também cairia do céu.

 

Barriga Falsa resmungou para consigo. Confusão apareceu, vindo da noite para poisar o ramo ao seus pés.

 

- Eu sempre disse que o sol não queimava madeira. Por outro lado, devias ver fumo à sua volta... mesmo que não conseguisses cheirá-lo.

 

Cinza Branca agarrou na madeira petrificada e sopesou-a.

 

- Há enormes quantidades desta coisa nos montes isolados e alcantilados exactamente a sul do rio Perigoso. Costumava interrogar-me a propósito disso quando era mais nova. o povo apenas olhava para isto e deixava ficar. Nunca se preocuparam com esta coisa. Como nunca ninguém o fez, eu também não.

 

- Há árvores de pedra no norte?

 

- Nenhuma que eu tenha visto. - Ela rodou o pedaço à luz da fogueira. - E alguém teria dito se encontrasse alguma a crescer. Pergunto-me se as folhas também são de pedra!?

 

Barriga Falsa enrugou as sobrancelhas enquanto pensava no assunto.

 

-As folhas teriam de ser verdes. - Empertigou a cabeça. - Ou deveriam ser? As folhas mudam de cor quando caem das árvores. Mas que acontece com folhas de pedra? Para onde vão? Devíamos ver pequenas lascas de folhas de pedra no chão.

 

- Xisto?

 

- Penso que não. o xisto é fino e liso, mas é preto ou cinzento. E não se parece com as folhas. Não vês nele nenhuma destas pequenas veias... e a forma não é a correcta.

 

o fogo estalou e saltou, enviando um redemoinho de faúlhas a tremeluzirem pela noite dentro. Na negra cintura de árvores por cima do acampamento, uma coruja de cornos emitiu um lamentoso hoo hoo hoooo.

 

Cinza Branca colocou-lhe a mão no braço e olhou-o de modo sério.

 

- o mundo nunca mais será o mesmo para mim, Barriga Falsa. Fizeste-o reviver. Talvez Pedras Cantantes e o sonho estejam correctos. Talvez eu tenha morrido no rio. - Apertou--lhe o braço.

- Desde que me salvaste a vida que tudo ficou melhor.

 

Ele sorriu e pôs a mão sobre as dela.

 

- Estou contente. Nunca antes fiz alguém feliz. Tenho esperança de que as coisas permaneçam assim. Agora estamos na terra do Povo do Lobo.

 

Ela olhou a noite.

 

- Tudo o que encontrámos foram velhos acampamentos.

 

- Está a verdejar. o tempo está quente e a neve começa a derreter-se nas encostas setentrionais. Talvez andem a escavar raízes. As prímulas estão a aparecer. As raízes de biscoito estão a crescer e as pontas são boas para comer antes da floração. o povo gosta de mudar das comidas feitas com coisas armazenadas.

 

- Julgo eu. - Ela bocejou e suspirou. - Pelo menos os sonhos não nos têm incomodado.

 

Ele ergueu os olhos para o céu escuro.

 

- Não sei se isso será bom ou mau. Eu de certo modo... bem, eu pensei que os sonhos nos dissessem onde ir. Há um território imenso por aí. Onde vamos descobrir a Trouxa de Lobo?

 

A mão dela apertou a dele.

 

- Talvez os sonhos não venham enquanto formos pelo caminho certo!?

 

- Tenhamos esperança nisso - concordou fervorosamente Barriga Falsa. Abriu os dedos e colocou o pedaço de madeira petrificada na bagagem. - Talvez amanhã descubramos o que procuramos.

 

Garra de Cotovia sentou-se debaixo do telheiro no exterior da cabana. o sol batia nos taludes protectores de granito que se erguiam à retaguarda do acampamento da Pedra Redonda. o calor reflectido pela pedra aquecida acalmava-lhe os ossos e as articulações envelhecidas. o telheiro consistia numa moldura quadrangular de junípero que suportava um telhado de esteira de salgueiro e palha de centeio silvestre gigante entrançada.

 

A Montanha Verde dominava a linha do horizonte para sul, erguendo-se qual monstro corcunda contra o azul sem fim do céu de fim de Primavera. Lá no alto, os prados entre as manchas de arvoredo cintilavam com o verde novo. Alimentada pelo degelo do Inverno, a erva crescera espessa este ano. Mesmo as árvores pareciam ter uma sombra mais rica de verde do que o habitual. Contrastavam com o verde azulado da salva nos terraços abaixo da montanha, mas mesmo ali a erva dera vida à paisagem.

 

«É muito mau não conseguir andar tão bem como habitualmente.» Garra de Cotovia deu um estalido com os lábios enquanto os olhos seguiam os caminhos para o topo da montanha. Como rapariga jovem, deliciara-se a trepar aquelas encostas, pau de cavar numa mão para extrair raízes e um saco na outra para carregar a colheita da ervilha, do olho-de-mochol e das cebolas silvestres.

 

’Painffirush no original. Infestante de origem europeia, Hieracium aura7ffiacum, também conhecida por Indianpaintbrush ou Orange hawkiveed, de flores raiadas de cor delaranja-vermelho brilhante, também chamada Leituga (Topis barbata). E espontânea em Portugal continental e na Madeira e tem suco leitoso. Na Madeira é conhecida por olho-de-burro. (N. do T.)

 

Olhou em volta do acampamento - tão curiosamente silencioso agora que as suas filhas, Mulher Bonita, Abeto Flexível e Semente de Flox, tinham ido lá acima com os homens apanhar prímula, raiz de biscoito e as primeiras folhas tenras da azeda. o acampamento repousava à luz intensa do Sol. Conseguia-se ouvir o zumbido das moscas destacando-se do pano de fundo do cantar dos pássaros tecido pelos tentilhões rosados, tordos da salva e pardais de cabeça branca que saltitavam em redor da salva. Melros de asas vermelhas e íscalos escapuliam-se através dos densos salgueiros ao longo do água Fria; uma cotovia-dos-prados cantava a sua alegria atrás do acampamento.

 

Os cachorros tinham ido com os outros para carregarem fardos, mas os velhos cães dormiam à sombra, rosnando ocasionalmente enquanto sonhavam. À maneira dos da sua raça, tinham acordado por momentos para olharem para ela com olhos tristes antes de se rebolarem sobre o flanco.

 

A reunião chegaria em breve. Este ano, o vale das Três Confluências receberia as tribos. «Melhor lá do que em Areia Dourada, como no ano passado. A caminhada para lá quase me matava.»

 

E no próximo ano? Se o acampamento de Galo Silvestre quisesse receber a reunião no rio do Galo Silvestre da Salva, conseguiria ela ir até tão longe?

 

Olhou para os tornozelos inchados.

 

- Estás a ficar velha, Garra de Cotovia. Demasiado velha. Olhou de soslaio para os feixes de luz que se infiltravam através do telheiro. Em breve chegaria a altura de abandonar os abrigos de terra. o povo fazia-o no Verão - deslocava-se pelo seu território, estabelecendo acampamentos temporários onde os campos de raízes pareciam ser mais rendíveis ou onde as manchas de erva-do-arroz e do centeio silvestre gigante produziam as sementes mais ricas. Os espíritos locais aprovisionavam bem desde que o povo os tratasse, a eles e aos seus terrenos de raízes e plantas, com respeito. Aliás, quem podia culpar um espírito por ficar louco se o povo viesse e comesse todas as plantas? Os espíritos tinham amor aos seus lugares - e às coisas que cresciam e viviam neles tal como os humanos amavam os seus acampamentos.

 

o andar de um lado para o outro também servia outros propósitos, Pela Primavera, o povo estava pronto para viver ao ar livre. Depois de muitas luas de Inverno, as cabanas de terra desgastavam uma pessoa. Como eram quentes e confortáveis no Inverno, a alma precisava de estar ao ar livre durante a estação quente.

 

- E exactamente o andar por aí às voltas ia deixar-te dorida e cansada - murmurou para consigo. - Ficando demasiado velha para teu próprio bem.

 

Um dos cães espetou as orelhas para o ar, fixando o olhar para oeste. Depois a velha cadela negra que dormia ao lado da porta de entrada da cabana pôs-se de pé e ladrou.

 

Garra de Cotovia levantou-se cambaleante e abandonou o telheiro para ver melhor. Teve de fazer sombra para os olhos por causa do sol. Uma figura solitária aproximava-se, deslocando-se num trote de papa-léguas.

 

- Rabo de Gato - disse, piscando os olhos por causa da luz. Suspirou e regressou ao telheiro onde se acomodou e esperou. «Que o traz de volta? Já escavaram raiz de biscoito em quantidade suficiente?»

 

Espiou para o alto da montanha Verde. Quando os ventos secos sopram quentes através da bacia da Água Fria e a artemísia ondula no ar aquecido, desejava estar lá no alto. Talvez este fosse um bom ano para acampar lá no alto, perto da nascente do musgo. o junco crescia nos solos encharcados da nascente. Deviam ter um ano húmido e os mosquitos viriam em nuvens. Nos terrenos altos podiam evitar o pior da praga. E não era só isso, pois uma mancha de abeto subalpino crescia lá no alto. A seiva podia ser recolhida e misturada com hortelã-pimenta e orégão da montanha e depois queimada para manter os percevejos afastados. A borra negra resultante servia para fumigar o vestuário e purificar o ar.

 

Precisavam de mais seiva. Queimara o resto do seu fornecimento com esporeira negra quando os piolhos apareceram no vestuário e nos cabelos de Trufa. Fumigaram todas as camas e peles para escorraçar os nocivos bichinhos dali para fora.

 

Rabo de Gato gritou uma saudação da orla do acampamento e parou o suficiente para mergulhar no interior da cabana de Abeto Flexível. Saiu com um cantil de pele e bebeu água avidamente. Trouxe a água consigo e juntou-se a Garra de Cotovia e acocorou-se à sombra.

 

- Saudações, avó. Foi uma corrida longa.

 

- E, para variar, um dia quente para correr. - Piscou os olhos face à constante irritação dos olhos. Demasiado fumo de madeira durante a vida, julgava ela. - Regressas cedo. Os sacos de recolha já estão cheios?

 

Rabo de Gato limpou o suor da testa larga e olhou de esguelha para lá da artemísia.

 

-A maioria. Os outros voltarão provavelmente amanhã de manhã.

 

Garra de Cotovia afastou uma mosca.

 

- E que mais?

 

Rabo de Gato descansou as mãos calosas nos joelhos e sentou-se para trás sobre os calcanhares.

 

- Dedo do Pé Pequeno passou por nós a caminho de Três Confluências, de regresso ao povo da mulher em Água Estagnada.

 

- E?

 

- Ele está preocupado. - Rabo de Gato bufou para manifestar a sua incomodidade. - Coruja Feliz está a falar de bruxaria.

 

- Três Confluências anda sempre preocupada com bruxarias.

- Eu sei. Mas Dedo do Pé Pequeno cresceu lá. Ele disse que Coruja Feliz é pior que Fogo Verde nestas preocupações. Disse que a tia está quase louca. Julgo que Baga de Sorveira, o homem que casou com Morugem, viu um bruxo.

 

Garra de Cotovia esticou-se.

- Viu um?

 

- É o que Dedo do Pé Pequeno diz. Alguém espia Três Confluências. Encontraram rastos... e Baga de Sorveira diz que viu alguém na artemísia.

 

- Mas não falou com ele? Não o reconheceu? Rabo de Gato fez uma careta.

 

- Pelo que Dedo do Pé Pequeno diz, não. Na verdade, ele não quer falar disso. Tivemos de lhe arrancar a história. Sente-se incomodado, um pouco assustado. Ele sabe o que Três Confluências sente acerca de bruxaria, mas também viveu com Anel de Osso o tempo suficiente para ter as suas próprias ideias. o pior é que, seja esse bruxo quem seja, andava por aí quando Fogo Verde morreu.

 

- Hum - grunhiu Garra de Cotovia. Lançou-lhe um olhar de soslaio pelo canto do olho. - E quanto ao resto?

 

- Lembras-te daquele rasto de luz verde que ardeu através do céu? Cesto perdeu uma criança quando isso aconteceu. Dedo do Pé Pequeno disse que a irmã está pior agora do que Fogo Verde ou mesmo do que Coruja Feliz alguma vez pensou estar. - Rabo de Gato continuou a olhar para as frias encostas da montanha Verde. Coruja Feliz está em vias de acusar Mão Negra de bruxaria durante a reunião.

 

Garra de Cotovia esfregou o rosto com a mão calosa.

 

- Isso não seria bom. - Pensou no assunto durante um momento. - Mas ninguém viu de facto Mão Negra.

 

Rabo de Gato abanou a cabeça.

 

- Não, ninguém realmente viu fosse o que fosse - pelo menos foi o que arranquei a Dedo do Pé Pequeno.

 

Garra de Cotovia semicerrou os olhos. Mão Negra devia vir para o acampamento da Pedra Redonda antes de ir para a reunião. Isso dava-lhe algum tempo.

 

- Sabes, se alguém acusar abertamente Mão Negra de bruxaria... especialmente no meio da reunião... isso circulará como fogo no mato seco. E ele viajará connosco.

 

Rabo de Gato mascou o lábio.

 

- Pensei que isto fosse suficientemente importante para vir dizer-te. Abeto Flexível está preocupada. Pensou que talvez Mão Negra já estivesse cá. Sei que está para chegar.

 

Ela examinou-o pensativamente.

 

- Que pensas tu mais, Rabo de Gato? Sempre tiveste uma boa cabeça sobre os ombros.

 

- Penso que, seja o que for que aconteça, Mão Negra está metido em trabalhos. Penso que ninguém o atacará na reunião. o povo apenas falará. Mas Três Confluências tem uma grande quantidade de estatutos. o que o povo lá disser terá o seu peso. - Rabo de Gato abriu as mãos. - Sempre gostei de Mão Negra. Se ele dissesse ao povo que perdera o Poder, isso seria um longo caminho para lhe escutarem os medos.

 

- Seria. - O povo sabe que um bruxo não casa.» Garra de Cotovia puxou o queixo. - Diz-me, sempre escutaste e observaste. Tu manténs um nó na língua e não a abanas pela felicidade de te ouvires a ti próprio a falar. Sempre respeitei isso em ti. Conhecemos Mão Negra há muitas estações. Que pensas dele e de Erva Amarga?

 

Rabo de Gato presenteou-a com um encolher de ombros desinteressado.

 

- Penso que ela ficará com ele. Sim, observei Mão Negra quando Fogo Ardente estava a morrer. Ele deseja-a... mas não podia deixar que se soubesse. Nem com o marido... que ela amava... a morrer à frente dos seus olhos. Conheço a minha irmã. o coração dela ainda dói por Fogo Ardente, mas é uma mulher prática. Penso que ela compreende o estatuto que ganhará através de Mão Negra. Ela sabe que o povo dirá que ele abandonou o Poder por ela.

 

Garra de Cotovía concordou com um sinal de cabeça.

 

- Isso saberão... e qualquer pessoa sabe que um bruxo não se deita com uma mulher. Ficaria sem Poder se o fizesse.

 

Rabo de Gato empertigou a cabeça.

- o melhor das duas situações? Garra de Cotovía sorriu de satisfação.

 

- Isso foi sempre o que eu quis. Isto tirará força às acusações de Coruja Feliz e as suas palavras perder-se-ão com o vento.

 

- Há algo mais que Dedo do Pé Pequeno mencionou. Ela aguardou.

 

Rabo de Gato inclinou a cabeça, uma cintilação no olhar.

- Não Três Confluências... mas Água Estagnada.

 

- Quê? - Garra de Cotovia bateu com as mãos nodosas nos joelhos ossudos. - Anel de Osso também está envolvida em bruxaria? Pensava que tivesse mais senso.

 

Rabo de Gato ergueu uma sobrancelha.

 

- Dedo do Pé Pequeno diz que Anel de Osso está inquieta com o Povo do Sol. Julgo que Meia Lua chocou com alguns guerreiros do Lobo. Ahistória é que aniquilaram um acampamento do Povo do Sol exactamente a norte das montanhas Atravessadas. Anel de Osso está a começar a ficar preocupada. Todos nós ouvimos histórias que vêm do norte a respeito de como o Povo do Sol faz a guerra. Quando não conseguem matar os outros e tomar-lhes os territórios, matam-se a si próprios. Anel de Osso precisa apenas de sair a porta e levantar os olhos para as montanhas Atravessadas directamente à retaguarda do acampamento para saber o quanto esse Povo do Sol está perto. Água Estagnada está mesmo ajusante de uma das passagens. Ela diz que o Povo do Lobo está nervoso, que alguma coisa aconteceu no norte e...

 

-Bah!- Garra de Cotovia chupou as gengivas desdentadas. o norte é o norte. o Povo do Sol não está a vir para cá. É apenas outra história para desviar a atenção do povo. Anel de Osso devia saber melhor. Deixem vir o Povo do Sol. Quando virmos os seus batedores neste lado das montanhas Atravessadas, enviar-te-emos a ti e aos outros para os perseguir de rabo entre as pernas para o norte. Que é para nós um bando de caçadores de búfalo selvagem? Não constituem ameaça.

 

Rabo de Gato inclinou a cabeça, inseguro, perdido nos seus pensamentos.

 

Garra de Cotovia voltou-se para as coisas importantes. «Sim. Mão Negra e Erva Amarga. É esta a resposta. Erva Amarga não é nenhuma doida.»

 

Homem Valente prosseguia o seu caminho ao longo do estreito trilho que serpenteava por entre as árvores. Aprendera a viver com a dor. Mas, neste dia, uma agonia de fazer mirrar aguilhoava-o pelo joelho acima para se misturar com o latejar da dor de cabeça permanente. A articulação sarara - os ossos cresceram em conjunto e fundiram-se. Aguentar-lhe-iam o peso, mesmo que não voltassem a dobrar-se. Sofria num silêncio angustiante.

 

Viajavam por entre arvoredo negro aqui, seguindo o trilho que os guerreiros tinham reconhecido. As montanhas do Prado da Erva pareciam um paraíso. o dédalo de trilhos umbrosos por entre o arvoredo deu lugar a prados isolados onde pastavam o alce e o búfalo. As alturas vertiginosas permitiam a um homem olhar sobre as planícies vastas e irregulares que se estendiam para leste a perder de vista até ao horizonte infinito. Verdadeiramente, este lugar devia ser o tecto do mundo.

 

Atrás dele vinha o grosso da tribo dos Pedra Partida. As jovens tinham deixado os filhos entregues aos cuidados dos mais velhos e espalhavam-se em leque para armadilhar caça e caçar - ou para dar o alarme para a defesa do bando caso alguém do Povo do Lobo deslizasse através das linhas dos guerreiros. Nem nenhum guerreiro se furtaria, ciente de que nenhum inimigo devia passar as suas linhas para que a sua família não fosse atacada.

 

Falcão Que Voa localizara o acampamento do Povo do Lobo, reconhecera-o e descobrira que estava cheio de gente. Relatou que havia quartos de alce e de búfalo pendurados das árvores. Segundo o relatório, este acampamento que tinham descoberto não era normal, mas um acampamento preparado para alguma espécie de cerimónia.

 

-Não há sinais de que saibam que estamos próximos - dissera Falcão Que Voa com um esgar de predador. - Com toda aquela carne pendurada, não terão grupos de caça fora. Os guerreiros estão deitados ao sol, jogando com ossos e contando histórias. As mulheres estão ocupadas a cozer raízes e as crianças brincam. Não vimos nenhumas sentinelas. Nem saberão o que os atingiu.

 

Contudo, os guerreiros de Homem Valente examinaram com toda a minúcia os trilhos que corriam por entre o arvoredo. Os Pedra Partida conheciam os caminhos desta terra. Antes de se deslocarem para o território do Castor Gordo, tinham caçado e guerreado nas montanhas florestadas que pontilhavam o território entre o rio Perigoso e o do Castor Gordo. Antes disso, tinham caçado nas terras cobertas de espruce e abeto que se estendiam através do norte. Agora deslocavam-se como fumo por entre as árvores.

 

Homem Valente mergulhou por debaixo do ramo baixo do abeto e encolheu-se com a agonia palpitante que o movimento lhe causou. Ouvia os passos suaves de Corvo Pálido atrás de si enquanto a vista se lhe embaciou com lágrimas súbitas. «Se ao menos pudesse acabar com a dor!» Fez um esforço para continuar.

 

Dissera aos guerreiros:

 

- Quando tomarem o acampamento, haverá uma mulher entre os cativos. o nome dela é Cinza Branca e em tempos foi Homem Branco. Ninguém a deve maltratar. Ela tem Poder. Tragam-ma. Ilesa.

 

Os guerreiros sorriram com ar conhecedor, olhos cintilando.

- Sonhaste com a vitória? - perguntou Falcão Que Voa. Homem Valente atirara com a cabeça para trás e rira, com as imagens do sonho da última noite ainda a bailarem-lhe na cabeça.

- Sonhei a maior das vitórias. Derrotaremos o Povo do Lobo. E depois dançaremos ao longo do dia e pela noite dentro. Acenderemos uma fogueira que brilhe até ao Acampamento da Morte para que todos possam conhecer o Poder de Homem Valente e dos Pedra Partida. - «E vi-me com Cinza Branca! Ela está ali à minha espera. Os sonhos transformar-se-ão em realidade. o meu Poder misturar-se-á com o dela e nem mesmo a neblina dourada me rejeitará. Entre o Povo do Sol, nenhum nome será pronunciado com tanta reverência como o de Homem Valente!

 

Homem Valente deu uma curva no trilho e aproximou-se de dois dos seus guerreiros agachados no emaranhado de árvores derrubadas. Para além deles, o trilho desaguava num prado. Deteve-se e curvou-se para espiar por entre os ramos.

 

- Não nos podemos aproximar mais - disse-lhe Pedra Amarela. - o Povo do Lobo está acampado para lá daquela mancha de arvoredo.

 

Homem Valente concordou com um aceno de cabeça.

 

- Os nossos guerreiros estão espalhados? - Levantou os olhos e observou a inclinação do Sol. Em breve seria noite.

 

- Estão. - Pedra Amarela sorriu mostrando os dentes enquanto fechava e agitava o punho. - Amanhã pela manhã, todo o acampamento estará cercado. Quando o Sol avermelhar o crepúsculo, estaremos prontos para o teu grito de guerra. Quando te ouvirmos a invocar o teu Poder, atacaremos por todos os lados. Nunca saberão o que lhes aconteceu. Quando o Sol crestar os picos das montanhas, terá soado uma nova hora para o Povo do Lobo.

 

Homem Valente inclinou a cabeça para trás, aspirando o odor rico dos abetos.

 

As vozes sussurravam dentro de si: «Em breve. Terás em breve Cinza Branca!»

 

o Sol obliquou por detrás dos picos - onde a neve ainda resistia ao tempo mais quente - e tingiu o arvoredo de amarelo e verde. Os pássaros faziam uma melodia no ar límpido da manhã.

 

- Confusão?

 

Cinza Branca sentou-se nas mantas ao apelo preocupado de Barriga Falsa. Pestanejou para afastar o sono dos olhos, espantada por terem dormido até tão tarde. Barriga Falsa estava de pé na orla do acampamento, espreitando para o mato. o colar em que estivera a trabalhar pendia-lhe da mão, a oscilar.

 

- Que se passa?

 

Voltou-se e ela viu a sua preocupação.

 

- Confusão desapareceu. Acordei ao alvorecer para acabar o meu colar e ele não estava aqui. Pensei que estivesse de volta até este momento.

 

Ela suspirou e bocejou.

 

- É cão, Barriga Falsa. Sabe o caminho de regresso.

- Mas... e se se perde?

 

Ela pôs-se de pé e espreguiçou-se, farejando o ar frio e límpido. A esta altitude, a manhã era fria. Conseguia ver a respiração.

 

- Bem, onde vamos procurá-lo?

 

- Não sei. - Ele sacudiu a cabeça. - Nem mesmo conseguimos descobrir ninguém do Povo do Lobo. Se não conseguimos encontrar o Povo do Lobo, como conseguiremos encontrar a Trouxa de Lobo? Se não conseguimos fazer isso, como conseguimos encontrar Confusão?

 

- Provavelmente, Confusão descobrir-nos-á - disse-lhe ela enrolando as coisas de cama e atando-as firmemente. Retirou vários bocados de carne seca do fardo de Pedras Cantantes e deu-lhas; depois fez uma pausa e olhou em redor.

 

Tinham acampado por debaixo de uma pequena elevação no topo da crista. Do outro lado da sebe de mato que protegia o acampamento, o calcário que revestia a crista caía em falésia alcantilada para um vale estreito e cheio de erva. Bosques de árvores erguiam-se num cerrado emaranhado de arvoredo negro.

 

Barriga Falsa preocupava-se em redor do acampamento.

- Confusão!

 

- Vem cá, come alguma coisa. Ele vai voltar. Estendeu-lhe um bocado de carne seca. - Acabaste o colar. Deixa-me vê-lo. Barriga Falsa passou-lhe o colar antes de aceitar a carne dura.

 

A preocupação marcava-lhe a cara modesta e não conseguia deixar de espreitar nervosamente para o mato, com se esperasse que Confusão aparecesse.

 

Ela deu-lhe uma palmada no ombro antes de examinar o colar.

- Estás com um parecer terrível. Tens a certeza de que é o Confusão que te preocupa?

 

Não foi capaz de esconder a angústia dos olhos.

 

- Bem, também tive uma daquelas visões na noite passada. Sabes?, parte de um sonho de Poder. Ouvi Trouxa de Lobo apressar-me. Alguma coisa está para acontecer em breve. Alguma coisa terrível.

 

- Maravilhoso - murmurou ela para consigo enquanto desfiava o colar, mal reparando no trabalho esquisito. Os dentes petrificados que Barriga Falsa brocara laboriosamente e enfiara numa guita de couro tinham um toque curiosamente frio.

 

Ela não conseguia olhar para ele. A cada dia que passava, ela arrastava mais os pés atrasando a avanço através da odiada terra do Povo do Lobo, pressionando Barriga Falsa a optar pelo trilho errado, fazendo-os perderem-se, qualquer coisa para afrouxar a progressão. E, durante tudo isto, o seu coração bombeara-lhe um medo evidente através das veias. E ainda o fazia. A destruição da tribo do Homem Branco e a violação por Três Touros pendiam como uma cortina sobre os seus pensamentos.

 

- E essa visão da última noite era sobre o futuro. De como ele poderá ser se não salvarmos a Trouxa de Lobo.

 

- Continua. - Ela olhou para ele. Ele franziu as sobrancelhas.

 

- Bem, é difícil explicar. Vi o povo escavando pedras e transportando-as ao longo de grandes distâncias para uma sala imensa... uma sala que não consegues imaginar. Suficientemente grande para ter um tiro de dardo de um lado ao outro. Lareiras gigantes foram escavadas nas paredes. Estava quente, angustiantemente quente. E os homens estavam a empurrar as pedras para as fogueiras que crepitavam nas covas. - Empertigou a cabeça, confundido.

 

E depois?

 

Barriga Falsa agitou a tira de carne seca no ar.

 

- Não vais acreditar nisto, mas as pedras derreteram-se e correram pelo chão como líquido amarelo. Os homens arrefeciam-no e batiam-no com martelos e transformavam-no em coisas. Algumas destas coisas eram bugigangas de brilho amarelo que iam para os chefes poderosos que se sentavam no topo das montanhas. Eram eles, vês? Os chefes. Faziam trabalhar aquela gente miserável naquele lugar quente e inflamável.

 

Ela mudou de posição.

 

- E então, que é que isso significa? Ele,olhou-a com olhos melancólicos.

 

- É o que temos de descobrir, não percebes? Temos de sonhar um novo caminho para o Povo do Sol... ou nunca conhecerão o único. E, se não conhecerem o único, mudarão a terra. Eles não sonharão com ele. Separar-se-ão dele e esquecerão o sonho.

 

Ela concordou com um aceno de cabeça, ganhando um vislumbre de compreensão. Sussurrou para consigo: «E eu sou a ponte? o caminho entre os Povos?» Olhou para as mãos; estavam fechadas em torno do colar de Barriga Falsa. Noutra altura ter-se-ia maravilhado com o trabalho do adorno, mas esta manhã sentia uma friagem no seio. Em silêncio, levantou os braços e colocou-lhe o colar em volta do pescoço. Por um breve instante, os seus olhos encontraram-se; depois Cinza Branca teve de afastar o olhar.

 

Barriga Falsa afastou-se até à orla da clareira e chamou:

- Confusão!

 

- Olha lá - ralhou ela queres atrair todo o Povo do Lobo das montanhas para cima de nós?

 

Barriga Falsa corou e respirou fundo.

 

- Não. Mas Confusão está perdido. Não tenho dúvidas. Ela levantou os olhos para o céu e abanou a cabeça.

 

- Voltará. Os cães são assim. Se calhar foi atrás de um coelho. Os cães têm grandes narizes; conseguem seguir os seus rastos para regressarem.

 

Barriga Falsa resmungou para consigo,

 

- Bem, não podemos ir a lado nenhum antes de ele aparecer. Ela foi ter com ele a mastigar a carne seca e colocou-lhe um braço em volta dos ombros, abraçando-o com força.

 

- Eu sei. É um belo acampamento. Temos água lá em baixo no arroiozito. A vista para oeste vai até às montanhas da Pedra Vermelha. Penso que podemos esperar até Confusão regressar. - Hesitou. - E teremos menos hipóteses de sermos vistos.

 

Ele deu-lhe uma palmada na mão.

 

- Tens estado com um medo de morte, não é verdade?

- Quando penso no Povo do Lobo, penso em Três Touros. Cerrou o punho, esquadrinhando os arredores com olhos preocupados.

 

- Já te disse que, se alguém do Povo do Lobo nos apanhar, diremos apenas que andamos à procura de Mão Esquerda.

 

- Se eu não vomitar.

 

- Isso seria um pouco grosseiro - acrescentou ele de modo ausente. - Mas julgo que lhes conseguia dizer que queremos comerciar ervas medicinais com Mão Esquerda.

 

Ela arrepiou-se.

 

- Está bem - disse-lhe Barriga Falsa. - Somos do Povo da Terra. Amigos do Povo do Lobo. Eles apenas estão em guerra com o Povo do Sol. Não digas nada na língua do Povo do Sol, e eles nunca saberão.

 

- Certamente - concordou ela. Dedos de gelo revolveram-lhe as tripas.

 

- Vamos, vamos...

 

No vale lá em baixo estalaram gritos.

 

- Povo do Lobo! - sussurrou Barriga Falsa com excitação. Seguiu à frente para a sebe de mato que debruava as falésias de calcário. Cinza Branca agachou-se na orla ao lado dele e olhou para baixo. Três mulheres - com crianças nos braços - e cinco crianças corriam pelo vale abaixo. Atrás deles um homem saiu das árvores. Mantinha-se a olhar por cima do ombro enquanto corria. Transportava um atlatl e dois dardos, um deles em posição de lançamento.

- Depressa! - o apelo do homem soava debilmente.

 

Em poucos momentos, os fugitivos tinham atravessado o vale e desaparecido entre as árvores.

 

Barriga Falsa sentou-se para trás sobre os calcanhares e mordiscou o polegar.

 

- Do que pensas que eles estão a fugir? Cinza Branca calou o pânico no seio.

 

- Guerra.

- Guerra?

 

Odiou a sensação estúpida na alma.

- Já vi o suficiente. É guerra.

 

- Oh, não - murmurou Barriga Falsa. - Guerra? E Confusão continua perdido no meio dela? Temos de...

 

Ela cravou-lhe uma mão cheia de medo no braço.

 

- Não vamos fazer nada desse gênero. Vamos sentar-nos ali. e ficar fora disto!

 

- Mas Confusão...

 

- Barriga Falsa, escuta-me. - Ela olhou-o nos olhos. - Tu nunca viveste isto. Tu não sabes como é. o Povo da Terra já há muito que não faz incursões nem guerras. As pessoas morrem, Barriga Falsa. As pessoas são trespassadas pelos dardos, ficam com os crânios amolgados. Os ferimentos infectam e o pus corre como rios enquanto as pessoas incham e ardem em febre. Morrem lentamente... horrivelmente.

 

Ele acenou com a cabeça.

- Eu sei.

 

- Então sabes o que nos pode suceder.

 

Ele fechou os olhos e concordou outra vez com um aceno de cabeça.

 

Mais gente saía das árvores e corria em pânico através do vale lá em baixo.

 

- Quem? - perguntou Barriga Falsa. - Quem fez a incursão contra o Povo do Lobo?

 

Ela semicerrou os olhos.

 

- o Povo do Sol. Mais provavelmente, os Pedra Partida. No último Inverno caçaram onde o rio do Veado Cinzento se junta ao Castor Gordo... a leste da região dos Ponta Negra.

 

- Exactamente como no sonho - sussurrou ele numa voz estrangulada. - Está a suceder como no sonho.

 

-Vamos. - o medo agitou as tripas de Cinza Branca. -Vamos pegar na trouxa e sair daqui. Fujam eles de quem fugirem, virão atrás deles.

 

Barriga Falsa seguiu-a quando ela se afastou da beira da falésia. Com dedos frenéticos amarrou o fardo de peles, depois relanceou o olhar em volta para se assegurar de que não se esqueciam de nada. Começou a encaminhar-se para o trilho que conduzia para o arvoredo.

 

- Espera! - gritou Barriga Falsa. Ela virou-se.

 

- Temos de sair daqui.

 

Ele engoliu em seco com dificuldade e olhou para cima, para o monte careca que ficava a cima do acampamento.

 

- Pelo menos deixa-me verificar se Confusão está lá em cima. Talvez um rato-de-campo tenha um ninho lá em cima, naquelas pedras. É apenas um minuto.

 

Ela respondeu-lhe com azedume:

 

- Está bem, mas despacha-te! Não queremos chocar com um bando de ninguém! Os Pedra Partida matar-nos-ão tão rapidamente como o Povo do Lobo... e qualquer estranho será um alvo.

 

Ele partiu a correr. Ela seguiu relutantemente, escolhendo o caminho através das pedras. Barriga Falsa chegou ao topo e parou. Ela trepou parajunto dele - e aos pés dela estava a orla da maior roda de estrelas que alguma vez vira. Estava no topo plano do afloramento, enquanto os lados se espalhavam em redor. Ela teria de alargar o passo para a atravessar em vinte passos. Os raios, compostos de pedras brancas do tamanho da cabeça, entrecruzavam o círculo em todas as direcções. A roda parecia velha, com erva a crescer em volta das pedras, e os sedimentos acumulavam-se nas mamoas que marcavam o centro e as direcções principais.

 

o céu devia ser todo visível - nem mesmo o topo das árvores quebrava o horizonte. A vista era espectacular, desde as montanhas da Pedra Vermelha a oeste até às planícies distantes no leste. Cinza Branca conseguia sentir o Poder daquele lugar... observando, pairando no ar.

 

Eram os ouvidos que a enganavam? Ou ouvira uma velha trautear um cântico?

 

-Olha -exclamou Barriga Falsa apontando. -Olha para isto! É maravilhoso! Pode seguir-se o rasto de todas as estrelas e do Sole...

 

- E o povo está a tentar matar-nos!

 

Barriga Falsa afastou os olhos do círculo e caminhou ao longo da orla do plaino, espreitando de lado à procura de Confusão. Cinza Branca colocou os seus fardos no chão e caminhou em volta pelo outro lado. Não conseguia ver nenhum rasto do cão de Barriga Falsa. «Isto é de loucos!»

 

- Barriga Falsa? Vou descer para o começo do trilho. Alguém tem de estar de olho no que se passa lá em baixo. Se aparecer mais gente, teremos de arranjar outro caminho para sair daqui para fora.

 

Ele acenou-lhe com a cabeça em sinal de concordância e agitou a mão, continuando a contornar o afloramento.

 

Cinza Branca agarrou no fardo e começou a descer o trilho, resmungando para consigo.

 

- Podemos morrer a qualquer instante, e ele preocupa-se com o cão que deve ter mais senso do que ele.

 

Poisou a trouxa junto do trilho que seguia para baixo, por entre as árvores, e rastejou para a orla da falésia de calcário. o prado pareceu-lhe ilusoriamente pacífico e vazio.

 

«Despacha-te, Barriga Falsa. Despacha-te.»

 

Irritava-se, odiando cada instante que passava; então dois guerreiros saíram das árvores e o coração parou-lhe. Ela conhecia o corte do vestuário deles. Aquelas compridas camisas de caça franjadas e os safões justos com franjas ao longo dos bordos laterais apenas eram usados por um povo: o Povo do Sol. Pedra Partida.

 

Cuidadosamente, não fosse fazer algum ruído, recuou da falésia e dirigiu-se para o mato. Começou a procurar a trouxa - e compreendeu que fora mexida.

 

Rodou face ao ruído ténue por detrás de si, observando apreensivamente quando o guerreiro avançou de detrás dos abetos que assinalavam o começo do trilho. Sorriu - o triunfo nos olhos.

 

- Da próxima vez não deixes a tua trouxa no trilho, Mulher Lobo.

 

- Não - sussurrou. Corre!

 

Virou-se rapidamente... e caiu nos braços de um segundo homem.

 

Abriu a boca para gritar, mas uma mão forte abateu-se sobre ela por detrás.

 

Homem Valente caminhou através do acampamento do Povo do Lobo. Outro Acampamento da Morte - mas desta vez ele despachara as vítimas.

 

- Algum de vocês escapará como eu fiz? Duvido disso. o Poder é meu. - Baixou os olhos para um jovem guerreiro que jazia ao sol com um dardo a sair-lhe da barriga ensanguentada. Alguém acabara o serviço esmigalhando-lhe os miolos com a clava de guerra.

 

Corvo Pálido caminhava ao lado de Homem Valente, dando fé, de forma vaga, das fogueiras fumarentas e das coberturas castanhas de fumo das cabanas que apanhavam o sol da manhã. Se não fossem os corpos, o local podia ter estado pacatamente à espera do regresso dos proprietários. Aqui e ali, fora levantada uma cabana, mas fora disso os pertences pessoais estavam onde tinham sido largados.

 

- Aconteceu como sonhaste - disse Corvo Pálido num temor respeitoso. - Tal e qual.

 

Homem Valente deu um estalido com a língua. A satisfação ameaçava rebentar-lhe o peito.

 

- Eu sou o novo caminho. Ninguém resistirá aos Pedra Partida. o Poder sussurra-me no espírito. Dentro em breve todo o Povo do Sol falará no meu nome.

 

Ela lançou-lhe um olhar malicioso.

- Começo a acreditar em ti.

 

Homem Valente parou junto de uma das lareiras. Estava lá carne a assar sobre os carvões cinzentos; a parte de baixo ficara carbonizada durante a luta, mas o suco borbulhava na parte de cima. Cheirou, gozando o odor saboroso da carne de alce.

 

- Devia comer um bocado desta coisa.

 

Corvo Pálido meteu a mão na bolsa que trazia pendurada do cinto e tirou de lá uma faca de sílex com cabo. Com destreza, cortou uma comprida fatia do topo e deu-lha. Ele soprou a carne quente para a arrefecer e tirou-lhe um bocado. Sucos quentes encheram-lhe a boca.

 

Mastigou compenetradamente enquanto olhava para o prado espezinhado. Vários dos guerreiros mais jovens guardavam o perímetro do acampamento, olhos nas árvores, não fossem alguns guerreiros fugitivos do Lobo voltar atrás.

 

No centro do acampamento estava uma cabana solitária - a maior do acampamento rodeada de um espaço desimpedido. A cobertura fora decorada com pinturas coloridas do Sol, do Lobo e do fogo, da Lua e das estrelas; e várias espirais enormes tinham sido pintadas a vermelho em cada aba da porta. Homem Valente atravessou o espaço aberto e deteve-se. Exactamente em frente da cabana, jazia de costas um velho de cabelo grisalho, de pernas e braços abertos. Um dardo trespassara-o completamente de lado a lado. Os olhos velhos fixavam, sem vida, o céu. Algo na expressão do velho - como se o xamane tivesse vislumbrado algum terror de pesadelo ao morrer - fez estremecer a alma de Homem Valente.

 

Homem Valente sacudiu de si a sensação de premonição. o Povo do Lobo cuidara do seu xamane. o seu vestuário fora talhado na mais fina pele de alce curtida e cosido por mão habilidosa. Cerdas de porco-espinho tingidas em diferentes cores tinham sido trabalhadas segundo intricados desenhos no peito, cabeçote e braços da camisa. o trabalho com as cerdas brilhava de maneira misteriosa à luz da manhã. Uma pele de lobo jazia por debaixo do corpo do velho; o sangue coagulara e secara na rica pele negra.

 

Homem Valente virou-se para a cabana e cerrou os dentes com dor ao mergulhar através da entrada baixa. Várias bolsas, feitiços feixes emplumados estavam suspensos dos postes da cabana. As peles mais finamente curtidas serviam de cama ao velho.

 

No lugar de honra, na face oposta à entrada, estava um tripé de madeira de salgueiro descascada e sobre ele repousava uma grande trouxa embrulhada em pele de lobo. Ao lado do tripé estava uma bela bolsa de couro cru - sem dúvida, o saco de transporte da trouxa. Esticou-se para ela com a dor a atazanar-lhe a perna.

 

«Sim», sussurraram as vozes. «Poder. Está aqui o Poder do Povo do Lobo. »

 

No momento em que os dedos de Homem Valente tocaram no envoltório de pele de lobo, uma descarga percorreu-lhe os músculos e fê-lo estremecer até aos ossos. Retirou as mãos de súbito, como se tivesse tocado numa serpente. Robustecendo-se, cerrou os dentes e ergueu a presa do tripé. Tremendo, retirou a pele negra. Alguma coisa caiu do envoltório para bater surdamente nas peles a seus pés.

 

Homem Valente gemeu ao baixar-se para apanhar uma efígie talhada em pedra. Rodou-a nos dedos: um lobo intrincadamente talhado numa pedra negra e polida até brilhar à luz.

 

«Belo! E agora é minha, tal como o Poder.» Colocou o lobo de pedra na sua bolsa.

 

o coração de Homem Valente disparou enquanto acabava de desenrolar a pele de lobo negro que envolvia a trouxa. Com a trouxa nas mãos, examinou-a. A cobertura de couro parecia ser muito velha e fora cosida com a forma de um coração. o topo fora pintado de branco para representar a gordura do coração, enquanto um vermelho sanguíneo - riscado de veias mais escuras - fora pintado na parte mais baixa. A cobertura estava esticada e tensa como se a trouxa estivesse completamente cheia. Cheia de quê?

 

Homem Valente espremeu-a... e estremeceu. Uma sensação de náusea revolveu-lhe as entranhas e uma dor como lascas de pedra quente trespassou-lhe a cabeça dorida.

 

«Sente o Poder!» Fechou os olhos e ignorou a dor de cabeça. Os sentidos pareciam nadar, ampliar-se. A alma vacilava. Conseguia sentir o Poder a tentar enrolar-se à sua volta, a cercá-lo como uma quente manta de Inverno muito aconchegada, para sufocar...

 

Com uma praga, precipitou-se de súbito para trás, arrancando aquilo da alma.

 

- Isto tentou matar-me! - bramou. Depois, cacarejou para a trouxa: - Não me apanharás dessa maneira. Sou mais forte que tu. E, por tentares enganar-me, vou destruir-te.

 

Homem Valente olhou com maus pensamentos para a trouxa e saiu para a luz do dia. Olhando com mais atenção, conseguiu ver a delicada costura que mantinha a trouxa sagrada fechada. o trabalho de costura fora executado por mão de mestre, pois as suturas eram tão pequenas que dificilmente se conseguiam ver.

 

- Outra presa? - perguntou Corvo Pálido. Estava a olhar para o cadáver do velho.

 

Homem Valente atirou a cabeça para trás e riu a despeito dos espinhos de dor que lhe pulsavam na cabeça.

 

- o coração do Povo do Lobo! Tenho o coração deles!

 

o Poder à Trouxa procurou-o uma vez mais, infiltrando-se-lhe na carne como a frialdade num dia de Inverno. Denegou-o, cerrando os olhos para se valer do Poder da dor e da raiva dentro de si. Perdeu o equilíbrio e caiu a ranger os dentes contra a agonia.

 

«Invoca a tua alma! Luta! Fugiste do Acampamento da Morte para morreres desta maneira?», guinchavam-lhe as vozes.

 

A voz perturbada de Corvo Pálido chamou-o por detrás da névoa vermelha da dor e do medo. Nada mais existia para ele excepto a batalha de vontades que travava com a trouxa.

 

«Vou destruir-te! Odeio-te, desafio-te! Assim como esquartejei o teu povo, assim te esquartejarei a ti!» A raiva brotou e ele retirou força dela. Soltou o ressentimento supurante que lhe enchia a alma, agredindo as gavinhas do Poder da Trouxa, que tentavam agitar-se em redor da sua alma. Uma fúria fervente enroscou-se no ser de Homem Valente e ele berrou ao quebrar o amplexo da Trouxa. «Venci! Tudo o que tenho de fazer é ódio! Sangue e medo são as minhas armas, o meu Poder.»

 

o Poder da Trouxa esvaiu-se e Homem Valente piscou os olhos ofuscados pela força do seu Poder pessoal. Ou fora a Trouxa que o deixara ir? Apertou a Trouxa nas mãos como se a quisesse estrangular.

 

- Não me podes magoar. Ninguém é tão poderoso quanto Homem Valente. Esta noite verás toda a extensão do meu Poder. Levantou os olhos, descobrindo-se cercado por gente assustada.

 

o Sol ia alto sobre as cabeças. Há quanto tempo acontecera? Corvo Pálido estava ajoelhada à sua frente com o vestido torcido nas mãos fortes.

 

Homem Valente rebolou sobre o flanco e abanou a cabeça para clarear a visão. o suor escorria-lhe pela cara abaixo.

 

- Estás bem? - trilou a voz de Corvo Pálido. - Que aconteceu? Tentei ajudar-te, mas... - Fechou os olhos e estremeceu.

 

- Destruí o Poder deles - disse Homem Valente com voz áspera.

 

As vozes dentro da cabeça sussurravam e davam risadinhas num triunfo estonteado. «Mata-o! Queima-o!»

 

Homem Valente semicerrou os olhos e ergueu a Trouxa-coração para o Sol.

 

- Vês? Vês o que te trago? Eu, Homem Valente, sou o Poder do Sol! Pássaro de Fogo, ofereço-te este coração!

 

Corvo Pálido olhou em volta, avaliando o acampamento.

- Ofereces isso ao Pássaro de Fogo?

 

- Esta noite - prometeu Homem Valente, apertando a Trouxa até os dedos fazerem covas nos lados. - Durante a dança. Enviarei isto para o Pássaro de Fogo no meio das cinzas do Povo do Lobo!

 

o medo de Mão Esquerda pulsava a cada batida de pânico do seu coração. Prendeu a respiração e escutou com atenção. Conseguia ouvi-los a aproximarem-se, conseguia ouvir os passos ligeiros dos guerreiros que se aproximavam. Frenético, sem lugar para fugir, deslizara para um bosque de abetos novos e enterrara-se no espesso tapete de agulhas, Obscurecido por uma teia de verdes galhos, esperava, cada segundo remanescente da sua vida medido pelo`pulsar do sangue nas veias. Um pedaço do tapete onde se enterrara soltou-se e caiu-lhe na orelha, fazendo-lhe cócegas.

 

Mão Esquerda lutou por limpar o espírito, para ser um com o solo putrefacto da floresta em seu redor. Se o encontrassem agora, nem se poderia defender. Lançara o seu último dardo e ganhara a pequena satisfação de o ver trespassar o flanco de um guerreiro inimigo. Felizmente, penetrara suficientemente fundo para lhe espetar as tripas.

 

- «Pelo menos um inimigo Morrerá miseravelmente com as entranhas em decomposição. Se ao menos os pudesse matar a todos dessa maneira... pagar-lhes o que nos fizeram hoje.»

 

Um dos guerreiros falou na língua estrangulada e gutural do Povo do Sol. Mão Esquerda conseguiu ouvir o vestuário a roçar contra os ramos grossos dos abetos. o medo inundou-lhe o corpo.

 

Não os deixes encontrarem-me. Lobo? Não deixes que isso aconteça.»

 

Um outro riu suavemente, batendo com uma mão calosa nos dardos. Faziam barulho ostensivamente. Do sítio onde estava enterrado no espesso tapete, Mão Esquerda podia ter-se esticado e agarrado o pé do guerreiro calcado com mocassin.

 

A distância, um grito assustador rompeu o silêncio da floresta. Os guerreiros acalmaram-se ominosamente; depois, sussurrando cautelosamente, afastaram-se e o ruído mortal dos seus passos desvaneceu-se.

 

Mão Esquerda expirou o ar que retivera.

 

«Está quieto, labrego. Não te mexas. Espera pelo escuro. Eles devem saber como perseguir o lobo, mas não conhecem todos os trilhos.»

 

Mexeu a língua seca na boca com um sabor péssimo e tentou engolir. Como acontecera aquilo? o povo juntara-se para a Acção de Graças. A dança devia ter começado hoje e o povo teria agradecido ao Lobo por o ter ajudado a suportar o terrível Inverno.

 

Ele acabara exactamente de se desembaraçar das mantas para se deslocar para a cabana do suor quando aquele grito arrepiante quebrara a quietude da aurora. Depois os guerreiros pareceram sair da própria terra e correr por entre as cabanas, lançando dardos e brandindo perigosas clavas de guerra.

 

Mão Esquerda mergulhara de novo na cabana à procura das armas. Aurora Brilhante, a sua amante, saltara das mantas, sobressaltada com o sono. Naquele instante, a cabana caíra-lhes em cima da cabeça.

 

o guerreiro do Sol tivera a surpresa da sua vida quando Mão Esquerda se levantara e lhe enfiara um dardo no peito.

 

- Foge! - gritara Mão Esquerda a Aurora Brilhante e precipitara-se na refrega.

 

Num relance, percebeu que estavam perdidos. Correra atrás de Aurora Brilhante, fugindo para o arvoredo e lançando os dardos para atrasar os guerreiros do Sol que o perseguiam.

 

Nas sombras do seu lugar de refúgio, Mão Esquerda cerrou os olhos com força. Até ao dia em que a sua alma se erguesse para a Teia de Estrelas Lá de Cima, ouviria aqueles gritos do seu povo cercado como carneiros-monteses apanhados iUma armadilha. Vira Assobio Bonito trespassado por um dardo. água Grande, sua mãe, tropeçara e caíra - apenas para lhe esmagarem o crânio com uma sibilante clava de guerra.

 

E Aurora Brilhante? Sobrevivera a amante? Ou fora destruído aquele Poder com o do resto do Povo do Lobo?

 

Os incontáveis guerreiros do Sol surgiram de todas as direcções, como se não tivessem fim. Tantos quantas as árvores da floresta.» As entranhas de Mão Esquerda retorceram-se violentamente.

 

E que acontecera à Trouxa de Lobo? Alguém se lembrara de a salvar nos últimos momentos?

 

«Tenho de regressar e descobrir!»

 

Homem Valente sentou-se defronte da cabana do xamane com o queixo apoiado no joelho são. No crepúsculo que o cercava, podia ouvir os Pedra Partida a rebuscarem as cabanas e a examinarem os despojos deixados pelo Povo do Lobo em fuga. Homem Valente mudou para uma posição mais cómoda em cima das peles que empilhara em frente do abrigo. As mulheres, crianças e velhos começavam a regressar da apanha da lenha na floresta. Todo o dia tinham arrastado para o acampamento árvores caídas, ramos e arbustos para a enorme pira que Homem Valente planeara para a noite que se aproximava.

 

Ele continuava a fixar pensativamente a Trouxa. o objecto estava poisado no tripé de paus de salgueiro que ele trouxera para fora da cabana. Conseguia sentir o Poder da Trouxa. Esta coisa do Povo do Lobo tentara matá-lo através de uma subtil constrição da sua alma.

 

Homem Valente ergueu os olhos para o firmamento purpúreo. A estrela da tarde brilhava por cima da linha de árvores a oeste. «Mas resisti. Falhaste, Trouxa de Poder... e no processo aprendi exactamente quanto a minha alma é de facto poderosa.»

 

Os seus guerreiros regressavam um a um, tendo garantido a si mesmos que o Povo do Lobo fugira em pânico. A Trouxa, ao contrário

 

Planeta Vénus. (N. do T.)

 

do Povo do Lobo, não podia fugir - mas aguardava a sua vontade. Que oferenda para o Urso e para Pássaro de Fogo! Os guardiões do Povo do Sol garantiriam Poder e coragem com uma oferenda como esta.

 

Uma mulher choramingou ao fundo e depois fez-se ouvir o riso de um homem. Os seus guerreiros estavam a saciar-se nas cativas, escravas para os Pedra Partida. As mulheres que tinham sido capturadas vivas dariam filhos robustos ao seu povo. Aliviariam o trabalho das mulheres da tribo Pedra Partida.

 

- Onde está Cinza Branca?

 

Uma visão parcial flutuou-lhe na cabeça - não a de Cinza Branca, mas de muitos trabalhando para poucos. Puxou a visão para si. Muitas pessoas suavam ao sol, trazendo-lhe os frutos do seu trabalho em grandes cestos. Ele sentava-se no alto com um diadema de penas erguendo-se sobre a testa enquanto se reclinava indolentemente em belas peles de marta, lontra e puma.

 

«Serei como um espírito poderoso. Implorar-me-ão, fazendo-me oferendas para que eu irradie o meu Poder em seu benefício.» A visão ondulou como uma miragem ao sol quente do Verão e desvaneceu-se, apesar dos seus esforços para a manter.

 

Homem Valente lançou um olhar rápido à Trouxa, conhecendo o traço denunciador do seu Poder. Sim, captara a visão a partir da Trouxa. Que outros segredos possuía ela? Por um longo momento, sondou-a, tentando vergar a Trouxa à sua vontade, mas os seus esforços revelaram-se fúteis e desistiu furioso, dando um pontapé no tripé.

 

Como conseguiria pôr todo aquele povo a trabalhar para si? No princípio, os problemas seriam óbvios. Como manter o controlo sobre tantos cativos? Que os impedia de, simplesmente, fugirem? E que quantidade de trabalho podiam fazer os escravos antes de os caçadores Pedra Partida empregarem mais energia a alimentá-los do que aquilo que eles rendiam?

 

Fechou os olhos. «Há aqui alguma coisa, algum Poder para o futuro. o Povo do Sol sempre fez prisioneiros... mas apenas mulheres para procriarem e crianças para resgatarem para outras tribos. Como é que os cativos podem ser usados para nos conduzirem a uma nova maneira de viver? Uma nova maneira de viver onde os Pedra Partida dissessem aos outros o que tinha de ser feito.»

 

Corvo Pálido veio da escuridão crescente para se acomodar nas mantas ao lado dele. Vestia um vestido leve de pele de alce que fora fumado para ficar com um tom castanho-dourado. Contas de osso tubular chocalhavam-lhe nas franjas que marcavam a bainha. Desenhos a púrpura tinham sido pintados no cabeção dos ombros com tinta feita de sementes de púrsia. Trazia o cabelo solto, uma cintilante cascata negra que o vento penteava.

 

- Acabou de chegar um estafeta de Falcão Que Voa - disse-lhe ela. - Todo o Povo do Lobo está a fugir para sul.

 

- Já encontraram Cinza Branca?

- Ainda ninguém passou palavra.

 

Homem Valente resmungou e relanceou o olhar irritadamente para a Trouxa que permanecia abandonada nas peles.

 

- Algum dos do Povo do Lobo respondeu ao ataque?

 

- Falcão Que Voa disse que um ou dois se encheram de coragem e tentaram emboscar os nossos guerreiros... mas que a maior parte do inimigo está completamente tomada pelo pânico.

 

Homem Valente cacarejou para consigo.

 

- Alguns tentarão. - Ergueu a Trouxa... aquilo desencadeou-lhe um formigueiro nas carnes... e voltou-a para a luz do entardecer. Amanhã libertarei uma das suas mulheres para contar aos que querem continuar a lutar contra nós que o seu coração foi queimado.

 

Corvo Pálido estremeceu, como se tivesse sido atingida pela crescente frialdade da montanha, e esfregou as mãos energicamente ao longo dos braços.

 

- Não gosto dessa coisa. Quase a consigo sentir. Como consegues segurá-la dessa maneira?

 

Ele segurou a Trouxa-coração defronte dos olhos e fez-lhe uma melancólica reverência.

 

- Porque o meu Poder é superior ao poder dela. Ela tentou combater-me... e perdeu. - Bateu na trouxa com um dedo grosso.

- Vês, o Sol é mais forte que o coração. Tudo vem do Sol. Mesmo o Pássaro de Fogo e o Urso. Antes de não haver nada, havia o Sol, o único criador e dador da Vida. o Povo do Sol é a nova via para o mundo... e eu sou a nova via para o Povo do Sol.

 

Corvo Pálido lançou-lhe um olhar prudente.

- Não desejo ser teu inimigo.

 

Ele riu-se, uma simpatia genuína a crescer por ela nos seus pensamentos.

 

- Nem eu teu. - Empertigou a cabeça. - Diz-me, como mataste Penas de Sol?

 

Abraçou os joelhos e entrelaçou os dedos, olhando para as árvores que escureciam.

 

Como podes estar seguro de que o fiz?

 

Perguntas ao homem mais poderoso entre os Pedra Partida? Perguntas ao sonhador que sonhou isto? - Fez um gesto para o acampamento. Aqui e ali uma fogueira iluminava o veludo alfazema do anoitecer.

 

Ela pensou um momento e depois disse:

 

- A idade mina a força de um homem... e ele era um homem velho. Vi que ele ia provocar-te problemas. Podia vê-lo no olhar dele, Ele não podia deixar que tu... um adolescente, um jovem Homem Branco... lhe arrebatasses o estatuto. Quando ele foi para a cabana, segui-o até lá dentro e disse--lhe que tinha algo para lhe dizer. Ele pediu-me para me sentar. Quando ele se baixava, estiquei-me na penumbra e enfiei-lhe uma bolsa de pele pela cabeça. Depois pus-me em cima dele e enterrei-lhe a cabeça em todas aquelas peles macias que lhe pertenciam. Ele tentou resistir, mas era demasiado velho, demasiado fraco. Aguardei bastante tempo depois de ter deixado de lutar. - Encolheu os ombros. - Era um belo saco o quelhe atei em volta da cabeça. Pensei que, se podia conservar a água, também não o podia deixar respirar.

 

- Odiava-lo?

 

Ela bufou de irritação.

- Entre outros.

 

Homem Valente estendeu a mão.

 

- Ajuda-me a levantar. Há mais guerreiros a regressar. É tempo de começar a dança.

 

Ela pôs-se de pé e ajudou-o a levantar-se. Contraiu-se quando o peso se apoiou no joelho errado. Colocou a Trouxa outra vez no tripé.

 

- Penso que temos lenha suficiente. Ela equilibrou-o e disse:

 

- Pela pilha que os fizeste juntar aqui, podíamos queimar a montanha inteira.

 

Ele ergueu os olhos para o firmamento nocturno.

 

- Exactamente para que possa ser vista do Acampamento da Morte.

 

Homem Valente manquejou até à fogueira mais próxima. Ali dois guerreiros sorriram-lhe enquanto comiam qualquer coisa que tinham encontrado numa das bolsas de couro cru capturadas. Corvo Pálido passou-lhe um tição ardente antes de ele se encaminhar para a enorme pilha de lenha que a tribo juntara. Acendeu a mecha na base. As chamas irromperam em direcção ao céu.

 

o povo começou a vir de todos os lados em redor, observando com os olhos esbugalhados enquanto falavam e apontavam para o fogo que crescia. Homem Valente inclinou a cabeça para trás, para observar as primeiras faúlhas a redemoinharem para o céu negro. Esta noite seria falada para todo o sempre.

- Tu, Pedra Amarela, traz as mulheres Lobo para aqui. Põem-nas à luz para que todos possam ver. Quero-as no centro da dança. Mas Cinza Branca não está no meio delas.

 

«Em breve», prometiam-lhe as vozes dentro da cabeça. «Tê-la-ás nesta mesma noite. Em breve... se o teu Poder for suficientemente forte... ela será tua.»

 

Riu alto, murmurando:

 

- Sim, espíritos, o meu Poder sujeitará Cinza Branca.

- Quê?

 

- Nada. - As chamas iluminaram o acampamento e o que ficava para além dele. Ele, Homem Valente, realizara isto. o seu Poder trouxera-o do Acampamento da Morte no Castor Gordo para chefiar os Pedra Partida nesta gloriosa vitória. Aquecia-se na admiração que irradiava dos olhos do povo.

 

Na orla do arvoredo, dois guerreiros ainda arrastavam das árvores um outro cativo que resistia. Outra mulher para os Pedra Partida. Despreocupadamente, perguntou-se se eles tinham gasto a virilidade alegremente e olhou de relance para Corvo Pálido. Nenhuma cativa poderia trazer a um homem a satisfação transbordante que Corvo Pálido lhe dera.

 

Homem Valente colocou-lhe o braço em torno dos ombros e virou-se para o fogo. As chamas disparavam para o alto, para dentro da noite.

 

«Onde está Cinza Branca?»

 

As vozes na cabeça soltaram um suspiro abafado. «Será tua esta noite. Mas temos de te avisar... cuidado. Cuidado com os trabalhos do Poder!»

 

Homem Valente atirou a cabeça para trás e riu. Os dois guerreiros arrastavam para mais perto do fogo a cativa que estrebuchava.

 

Mãos ásperas lançaram Cinza Branca por terra, prendendo-a ao chão.

 

- Apanhámos uma bonita, Cinco Dardos. Vamos partilhá-la... ou jogá-la para ver quem consegue ficar com ela.

 

Cinco Dardos riu alegremente.

 

- Vamos ter de tirar à sorte para ver quem a possui em primeiro lugar.

 

- Não vos fiz nada! Os vossos inimigos são o Povo do Lobo. Em nome do Pássaro de Fogo, deixem-me ir! - implorou Cinza Branca com a barriga a ficar tensa enquanto o discernimento se arrastava através dela.

 

Cinco Dardos empertigou a cabeça desconfiadamente.

 

- Falas como um ser humano. Não engoles as palavras como o Povo do Lobo faz.

 

Ganhou coragem.

 

-Eu... eu sou Homem Branco. Agora à sorte. Sabiam o destino do Homem Branco? Na reunião... a minha família pagaria para me ter de volta. Se não me fizerem mal, trabalharei para vocês. Apanhar lenha, cozinhar, curtir peles... até à reunião. Depois a minha família comprar-me-á.

 

Cinco Dardos lançou um excitado olhar de soslaio ao amigo.

- Pulos de Búfalo, disseram-nos para procurar uma mulher Homem Branco. - Espiava-lhe avidamente os olhos. - Como te chamas?

 

- Cinza Branca. -A esperança brilhou-lhe lá dentro. Ela teria dito qualquer coisa desde que pudesse comprar tempo para fugir. Pulos de Búfalo aplaudiu e pôs-se de pé como se tivesse sido impelido por uma mola, arrastando os pés numa dança de triunfo. As contas de osso de águia das mangas chocalhavam com as piruetas.

- Amarra-a! Conseguimos!

 

Cinco Dardos corou.

 

- o libertador de almas louvará os nossos nomes a Pássaro de Fogo. Colocar-nos-á a seu lado no próximo conselho!

 

Pulos de Búfalo puxou das correias da bolsa do cinto. Cinco Dardos rebolou Cinza Branca e puxou-lhe os braços para trás enquanto o seu amigo a atava com toda a destreza.

 

- Que estão a fazer? - gritou Cinza Branca. - Irei convosco. Não precisam de me magoar.

 

- Não queremos magoar-te, Cinza Branca. Nem por todas as mulheres do Povo do Lobo, nem por todas as mortes que pudéssemos fazer. És mais preciosa para nós que carne gorda em tempos de fome - garantiu-lhe Cinco Dardos.

 

Pulos de Búfalo apertou os nós.

- De pé.

 

Ela pôs-se de pé desajeitadamente. Enquanto Cinco Dardos a segurava, Pulos de Búfalo usou outra correia para lhe atar os tornozelos.

 

- Este comprimento deve estar bem - decidiu ele. - Podes andar... se tiveres cuidado. Mas não podes correr. Vamos. Apontou para o trilho que descia.

 

Cinza Branca concordou com um aceno de cabeça ansioso, recusando-se a olhar para trás em direcção ao afloramento de topo plano onde Barriga Falsa procurava o cão. Graças ao Pássaro de Fogo, ele não chamara outra vez por ele nem assobiara a Confusão.

 

Começou a descer o trilho, quase tropeçando quando a correia dos tornozelos esticou.

 

-Apanhámos Cinza Branca! -repetia sistematicamente Cinco Dardos.

 

Por que é que eu sou tão importante? - perguntou ela, o medo a alternar com a esperança enquanto caminhava aos tropeções com passos vacilantes.

 

o libertador de almas quer-te.

 

Libertador de almas? Quem? Penas de Sol? Vira o libertador de almas dos Pedra Partida na última reunião no rio do Percevejo. Que lhe quereria o velho homem? Pelo menos, não a violaria nem lhe bateria.

 

Pedras Partidas? Um frio gelou-lhe a alma. Homem Valente podia estar entre eles. Ele fora para lá - se o Povo do Lobo não o tivesse matado. Dissera ele alguma coisa a Penas de Sol? Talvez fizesse aquelas reivindicações de Poder!?

 

«Foge, Barriga Falsa! Afasta-te. Afasta-te destas malditas montanhas e volta para casa para a Pedra Redonda!» Atormentava-a pensar que ele a seguisse para a tentar libertar. Os Pedra Partida matá-lo-iam sem apelo nem agravo no momento em que lhe pusessem a vista em cima. E Barriga Falsa devia ser visto.

 

Concentrou a atenção no sítio em que punha os pés, mantendo o equilíbrio o melhor que podia. Quando pensou em Barriga Falsa a tentar salvá-la, as entranhas foram-lhe tão atacadas pelo apodrecimento como madeira putrefacta. Um homem que se perde na sua própria cabeça, que quase se despenhou das falésias porque não estava a prestar-lhes atenção...

 

o dia passava lentamente. A sede irritava-lhe a garganta. Caminhar desta maneira tão desastrada prendia-lhe os músculos das pernas e das ancas. A atadura nos tornozelos friccionava-lhe e queimava-lhe a cada passo a pele nua.

 

Podíamos ir mais depressa se me retirassem as ataduras sugeriu ela.

 

Cinco Dardos levantou uma sobrancelha e olhou para Pulos de Búfalo. Este abanou a cabeça.

 

Não, é melhor abrandar a marcha do que perdê-la. o libertador de almas poderia... Bem, não quero enfrentar a sua cólera. Cinza Branca mordeu o lábio e debateu-se, odiando aquilo todas

 

as vezes que eles a passavam por cima de uma árvore tombada ou a carregavam por cima de terreno irregular como um quarto de búfalo mole.

 

Passaram pelo primeiro cadáverquando o Sol começava a pôr-se no céu a ocidente e faixas de luz obliquavam através das árvores. Uma velha mulher jazia no trilho com a nuca esmagada.

 

- Por que é que atacaram o Povo do Lobo? - perguntou. Cinco Dardos sorriu de modo sinistro.

 

- o libertador de almas sonhou-o e Penas de Sol enviou-nos um sinal do Acampamento da Morte. Ele acendeu um fogo verde através do céu apontando o caminho.

 

Pulos de Búfalo levantou o queixo.

 

- Os Pedra Partida têm um novo libertador de almas, um poderoso libertador de almas. o nome dele é Homem Valente.

 

Cinza Branca tropeçou e caiu. Deitada no trilho, o cabelo desgrenhado ocultava-lhe o horror estampado no rosto. Uma terrível sensação de mal-estar, como o fluido cinzento gotejante que enchia as carcaças putrefactas, inundou-lhe a alma.

 

- Vamos. De pé - ordenou Cinco Dardos.

 

- Ela não quer - disse Pulos de Búfalo. - A menos que lhe batamos. Ela conhece Homem Valente. Ela sabe melhor do que nós. Ela pensava que seria capaz de implorar perante Penas de Sol. Agora sabes mais. Ajuda-me a levantá-la.

 

o céu do anoitecer passou a indigo e depois a violeta enquanto prosseguiam. Cinza Branca fazia tudo o que podia para ganhar tempo. Enganchou as correias que a prendiam nos ramos e nas pedras; debatia-se quanto podia, lutando inutilmente contra a força superior deles.

 

- Estou a ver o fogo da dança! - gritou Cinco Dardos. - Estamos quase lá.

 

- Por favor - sussurrou Cinza Branca. - Deixem-me ir. Vocês parecem ser guerreiros honrados. Não me façam isso a mim.

 

- Que fez a tribo do Homem Branco por mim? - perguntou Pulos de Búfalo. - o meu pai morreu com um dardo de guerra dos Homem Branco.

 

Empurraram-na para uma clareira, passaram por uma pilha de cadáveres que tinham sido arrastados para ali. Povo do Lobo. Homem Valente destroçara os implacáveis guerreiros das montanhas.

 

Um grupo de pessoas estava em volta de uma enorme fogueira de acampamento. Era para lá que estava a ser arrastada desapiedadamente.

 

- Libertador de almas? - chamou Cinco Dardos. Cinza Branca saltou para trás, escondendo-se na sombra de Pulos de Búfalo, contorcendo-se contra as correias que o homem segurava. Um vislumbre era tudo o que precisava. Reconheceu aquele perfil, a postura daqueles ombros largos.

Homem Valente virou-se. Alguma coisa parecia estar mal na perna dele.

 

- Sim?

 

- Eu sou Cinco Dardos e este é Pulos de Búfalo.

 

Homem Valente olhou para os homens com mais atenção.

- Sim?

 

Pulos de Búfalo fez um sorriso que lhe descobriu os dentes e passou-lhe a correia,

 

- Trazemos-te a mulher por quem procuravas. Trazemos-te Cinza Branca!

 

Homem Valente esticou-se e puxou Cinza Branca para fora da sombra de Cinco Dardos. Ela olhou para dentro daqueles olhos familiares e o coração bateu-lhe com força.

 

- Cinza Branca - sussurrou ele.

 

o pânico percorreu-a vivamente. «Pensa! Pensa, mulher, ou desejarás ter Três Touros de volta. Os pensamentos fragmentavam-se-lhe.

 

- Deixa-me ir, Homem Valente. Só te trarei complicações. Ele riu-se com um riso profundo que lhe vinha da barriga.

- Desta vez não tens Pés de Vento para vir em teu socorro.

- Então esta é que é Cinza Branca? - perguntou uma mulher alta que se aproximou para ver mais de perto. A luz da fogueira acentuava os seus traços atraentes e o comprido cabelo negro. Sim, Homem Valente, é bela. - Semicerrou os olhos. - Mas, mulher, és suficientemente boa? Es melhor que Corvo Pálido?

 

Cinza Branca tentou engolir o medo - e falhou.

 

A voz de Homem Valente exprimia uma alegria crescente ao dizer:

 

- Esperei muito por este momento. - Levantou um dedo e ergueu o queixo de Cinza Branca. - Agora, nada me pode deter no meu caminho. - Baixou a voz. - Esta noite, Cinza Branca, o teu Poder será meu. E tu mesma o gozarás. - Olhou de soslaio para a mulher alta que continuava a fixar em Cinza Branca uns olhos semicerrados. - Graças ao que Corvo Pálido me ensinou.

 

- Veremos, Homem Valente. Veremos para quem voltarás respondeu Corvo Pálido numa ameaça levemente velada. Homem Valente manquejou em direcção a uma grande cabana que se erguia isolada no centro do acampamento, ordenando:

- Tragam-na. Agora é minha.

 

Estropiado! Homem Valente estava estropiado! «Um guerreiro estropiado, dissera Barriga Falsa na noite do seu terrível sonho. «Pássaro de Fogo, não!»

 

Pulos de Búfalo agarrou-a com destreza quando tentou esgueirar-se e levantou-a. Da maneira como a agarrava, ela apenas podia espernear como louca sobre os seus ombros musculosos.

 

- Descontrai-te, Cinza Branca. - Corvo Pálido falava numa voz suave enquanto a seguia. - Eu treinei-o para ti. A sua alma tem um vigor que lhe possui a virilidade. Foi um aluno brilhante e eu ensinei-o bem. Acharás isto muito melhor do que rebolares com cio com o guerreiro vulgar.

 

- Fala com ele - implorou Cinza Branca. - Não deixes que ele me faça isso! Não te importas? Se o amas, queres realmente que ele me possua?

 

A voz de Corvo Pálido escorria sensualidade.

 

- Oh, penso que o terei de volta no fim. Tudo o que ele quer de ti é uma criança... e ganhar o teu Poder. Deixa-o plantar a semente, Cinza Branca. E também podes gozar com isso. Como te disse... ele é bastante bom.

 

Pulos de Búfalo parou em frente da cabana alta. Cinza Branca podia ver os símbolos do Poder - as Espirais, o Lobo e o Sol - pintados nas peles.

 

- Põe-na nas peles, aqui - ordenou Homem Valente. - o que acontecer aqui será visto do Acampamento da Morte.

 

Pulos de Búfalo depositou-a na pilha de peles. Cinza Branca cerrou os dentes e lágrimas inúteis toldaram-lhe a visão. A coisa ia acontecer outra vez. Não conseguia lutar tanto.

 

- Homem Valente? - perguntou Cinza Branca, tentando manter a voz firme. - Que te aconteceu? Não te recordas do que houve entre nós? Que aconteceu ao homem amável... ao homem que amei?

 

Ele levantou a cabeça para o céu nocturno onde as estrelas tinham começado a cintilar. A luz amarela da fogueira iluminava-lhe as pregas suaves do vestuário.

 

- o Poder chamou-me. o Poder não tem utilidade para os corações moles ou para os sentimentais. Esse Homem Valente que tu conheceste morreu no Acampamento da Morte. o Acampamento da Morte extirpou-me da alma as partes fracas, tal como a casca das árvores velhas. Apenas a madeira dura permanece.

 

- Por tudo o que deixámos para detrás de nós, não faças isso. Deixa-me sair. Nunca mais voltarei. Apenas quero...

 

- É demasiado tarde para isso. - Ergueu as mãos para as estrelas. - Surgiu um novo caminho e o Poder escolheu-me para o seguir.

 

Ela mascou o lábio.

- Porquê eu?

 

- As vozes disseram-mo há muito. Tu és poderosa. Por teu intermédio, encontrarei o caminho para a névoa dourada. Através do teu Poder aprenderei a controlar aquele lugar e a fazer um novo caminho. As vozes disseram-me que esta noite plantarei o meu filho... e ele será grande e poderoso como nenhum outro homem o foi antes.

 

Homem Valente inclinou-se e gemeu com as dores na perna. Levantou um objecto de cabedal de um tripé de salgueiro.

 

- Vês isto? É o coração do espírito do Povo do Lobo.

 

«A Trouxa de Lobo!» A visão de Barriga Falsa no sonho bailava-lhe na cabeça. «Demasiado tarde. Chegámos demasiado tarde. Lamento, Barriga Falsa. Eu devia fazer que nos apressássemos... com que nos despachássemos... para aqui chegar. Sinto-me culpada. Atrasei-me. o meu medo do Povo do Lobo... - E atirarás com isto para o fogo depois de teres feito aquilo comigo. - As palavras caíram-lhe da boca como cascalho. Homem Valente confirmou com um aceno de cabeça.

 

- Tu és poderosa. Tu sabes... e tu sabes porque tenho de te possuir. Tu sabes o que o Poder tem pensado para ti... e para mim. Assim será, Cinza Branca. Não importa o quanto me odeias, tenho de te vergar à minha vontade. Não te podes negar ao Poder... e eu possuo-o. - Agitou a Trouxa de Lobo. - Este objecto tentou matar-me... só que Homem Valente resistiu. Mesmo agora tenta, mas as vozes de espírito avisaram-me antes e, por isso, posso defender-me.

 

o discurso dele soava indistinto, como o de um velho que tivesse perdido os dentes. Cinza Branca animou-se.

 

- o único e o sonho do Primeiro Homem não são para ti. Tu não sabes o que criarás com o teu Poder.

 

- o Único? - Levantou uma sobrancelha. - É assim que lhe chamas?

 

Ela virou a cabeça. Homem Valente fez um gesto aos dois guerreiros.

 

- Podem ir. Ganharam a gratidão de Homem Valente. Se precisar de vocês, chamarei. - Cinco Dardos e Pulos de Búfalo fizeram um sorriso rasgado antes de se encaminharem para a fogueira. Um novo orgulho enchia-lhes os peitos.

 

Disse a Corvo Pálido:

 

- Não posso correr o risco de a desatar. Usa a tua faca para lhe cortares a camisa.

 

Corvo Pálido ajoelhou-se ao lado de Cinza Branca.

- Ele tem Poder e sabe como o usar numa mulher.

 

Cinza Branca fechou os olhos quando Corvo Pálido cortou à frente a bela camisa que Pedras Cantantes lhe dera. o ar da noite soprou-lhe frio pela pele quando o cabedal se separou. Os dedos de Corvo Pálido desataram-lhe os laços das calças. Com uma força surpreendente, a mulher arrancou-lhas das ancas.

 

Cinza Branca não conseguia deixar de tremer. Uma sensação de mal-estar cresceu-lhe nas entranhas.

 

- Como vai ser, Cinza Branca?- perguntou HomemValente. Aceitar-me-ás sem luta? Ou serei obrigado a chamar Cinco Dardos e Pulos de Búfalo para te segurarem? Satisfarás o meu Poder... aceitá-lo-ás? Ou o Acampamento da Morte e os meus guerreiros vão observar-te?

 

Ela engoliu o pânico e sibilou: -Acaba com isso!

 

Homem Valente colocou as mãos nos ombros de Corvo Pálido.

- Vai. Começa a dança e os cânticos. Guia-os em nome do Poder. Diz-lhes para cantarem com todo o coração quando invocarem o Pássaro de Fogo para que observe.

 

Corvo Pálido assentiu com um gesto de cabeça e encaminhou-se para a fogueira.

 

- Não faças isso, Homem Valente. Recorda-te de quem fomos, recorda-te do que os nossos antepassados...

 

- Eu sou o novo caminho. - Tirou a camisa pela cabeça. A luz da fogueira cintilou-lhe no peito poderoso. Desatou os laços que prendiam os safões franjados e gemeu de novo quando os afastou da perna estropiada. A articulação do joelho parecia bloqueada e grumosa como madeira de pinheiro sem nós.

 

Uma algazarra selvagem ergueu-se em redor da fogueira quando os homens começaram a dançar e a cantar os seus louvores ao céu nocturno.

 

Virou-se de face para o fogo e ergueu os braços.

 

- Ouve-me, Pássaro de Fogo! Tenho seguido o caminho do Poder! Sonhei a destruição do Povo do Lobo! Esta noite, perante ti, o Poder será unido! Um novo sonhador será feito neste local, nascido da minha semente e alimentado em Cinza Branca.

 

A respiração dele prendeu-se quando se baixou junto dela.

 

- Junta-te a mim, Cinza Branca. Tu conheces o caminho do Poder. Tu sabes o que tem de ser.

 

Como podia ela lutar? As mãos continuavam presas nas costas. As calças que faziam um chumaço em volta da correia que lhe prendia os tornozelos não a deixariam dar-lhe pontapés.

 

Choramingou quando ele se inclinou e a tocou, deslizando-lhe os dedos pela pele. o estômago revolveu-se-lhe e torceu-se-lhe e a pressão do vómito fez-lhe cócegas na garganta. Virou a cabeça - e, à luz bruxuleante da fogueira, a Trouxa de Lobo pareceu-lhe ensanguentada. Quando olhou, pôde sentir o seu Poder penetrar-lhe o medo. Não conseguia ignorar a sua atracção, apesar dos dedos de Homem Valente nos seus seios.

 

«Barriga Falsa, perdi-te... perdi o Poder. Se pudesse voltar atrás. oh, Barriga Falsa...

 

Os dedos de Homem Valente deslizavam-lhe para o estômago. Lutou para engolir o fel que lhe inundava a garganta.

 

 

Barriga Falsa corria tão depressa quanto podia. Um homem só com um braço não se conseguia equilibrar tão bem e tinha de usar a mão escorreita para segurar a bandoleira da trouxa. E não era só isso, ele nunca fora um corredor.

 

- Cinza Branca - gemeu ao saltar por cima de uma árvore derrubada sobre o trilho. A trouxa saltava-lhe de um lado para o outro nas costas e quase o fazia cair.

 

Não tendo descoberto nenhum vestígio de Confusão, fizera uma pausa para dar uma última olhadela à roda das estrelas, apesar de preocupado com o cão e com os guerreiros que corriam por entre as árvores lá em baixo. Não conseguia deixar de olhar uma vez mais para as linhas de pedras. No centro da enorme roda erguia-se uma mamoa de pedra. Incapaz de resistir, encaminhou-se para lá para a observar.

 

A mamoa central parecia velha e os ciclos de congelação e degelo tinham espalhado as pedras por uma área de dois passos de largura. Líquenes vermelho-laranja tinham crescido sobre a maior parte das pedras do tamanho de cabeças e muitas delas tinham-se afundado no solo e estavam quase totalmente cobertas de erva esparsa. Uma cintilação prendeu-lhe o olhar e inclinou-se sobre a mamoa. Uma lasca de pedra sobressaía dos sedimentos soprados pelo vento. Puxou por ela; não se moveu. Tirou uma sovela de osso da trouxa, sentou-se sobre os calcanhares e escavou o solo. A lasca de pedra transformou-se numa ponta dedardo. Cavou em volta dela, curioso por não a conseguir retirar do solo, e pôs a descoberto um osso uma vértebra na qual a ponta se embebera. Com uma pressa febril escavou o osso completamente. As raízes tinham aberto o seu caminho através dele, mas não havia possibilidade de erro com o achado. Um ser humano fora trespassado pelo dardo na barriga e a ponta alojara-se-lhe na parte da frente da vértebra.

 

Alguém pusera o corpo aqui, na mamoa. Quando as carnes se putrefizeram, os ossos caíram por entre as pedras onde os sedimentos arrastados pelo vento o tinham coberto. Quem? Há quanto tempo?

 

o coiro cabeludo de Barriga Falsa eriçou-se-lhe ao olhar ansiosamente para a roda das estrelas limpa pelo vento. Conseguia sentir o Poder crescendo em seu redor, ominoso, pressionando-o como uma muralha de água quente.

 

Vozes que falavam uma língua que Barriga Falsa nunca ouvira ergueram-se por cima do sussurro da brisa.

 

- Fantasmas? - perguntou-se. Naquele momento, um vento em redemoinho ergueu-se do chão numa súbita arremetida. Ventos violentos atingiram-no, fustigando-lhe as tranças e fazendo-lhe flutuar as franjas da camisa. Curvou-se contra a fúria do ar com os olhos fechados para se proteger do pó acerado que lhe picava a pele.

 

Uma voz assombrosa - velha e arranhada como a de uma velha arquejando por respirar - chamou do vórtice: «... sonhador... a chegar. Diz... a todo o povo... eles têm de dançar com o fogo. Um novo sonhador está a chegar. Corre agora. Corre como nunca correste antes, rapaz. »

 

o redemoinho ergueu-se no céu e as ervas aos pés de Barriga Falsa permaneceram quietas. Cuidadosamente, voltou a colocar o osso e a sua ponta macabra como os encontrara e afagou a terra até que só a base da ponta ficou visível.

 

As vozes falaram mais alto e compreendeu com um susto que vinham de baixo, de onde Cinza Branca está...!»

 

Pôs-se de pé num salto e agarrou na trouxa e depois espiou por cima do rebordo do topo plano do afloramento em direcção ao acampamento. Dois homens sujeitavam Cinza Branca, prendendo-lhe as mãos e os pés com correias.

 

- Culpa minha - sussurrou Barriga Falsa. - Minha e de Confusão. Por que não lhe dei ouvidos? Por que não fugimos?

 

Cinza Branca esperneava, falando para os homens numa língua estranha. «Povo do Sol! Pedras Partidas!»

 

Os guerreiros começaram a descer o trilho por entre as árvores em direcção ao vale verdejante lá de baixo.

 

Barriga Falsa apressou-se a descer a encosta com a trouxa pendurada do ombro, ora por aqui ora por ali, enquanto o coração disparava numa correria louca. Conseguiu ver onde os guerreiros e Cinza Branca derrubaram a erva. Com os músculos trémulos de medo, avançou a descoberto para o prado.

 

«Corre... corre como nunca correste antes, rapaz.» Repetira-lhe a voz da velha no espírito.

 

E agora corria desvairadamente através da clareira e para as árvores.

 

E se os perco? E se eles levam Cinza Branca ao guerreiro estropiado?» No seu pânico, quase se traía, derrapando para parar ao sair de uma curva no trilho e mergulhando de costas entre as árvores. Os guerreiros estavam a levantar Cinza Branca por cima de uma árvore caída que bloqueava o trilho. Apenas o estalar dos ramos com a luta abafou o ruído doido que Barriga Falsa fez ao procurar cobertura.

 

Barriga Falsa manteve-se fora das vistas, lendo os rastos pelas marcas raspadas que os pés de Cinza Branca faziam. Por entre cerradas manchas de arvoredo e através de prados abertos e cheios de erva, manteve-se à espreita no trilho deles. Durante o processo, passou alternadamente do medo à esperança e ao desespero ao tentar decidir uma modalidade de acção.

 

«Culpa minha.» Mergulhou em volta de um espruce e quase tropeçou numa velha. Jazia no meio do trilho, de rosto no chão, com as costas e a cabeça despedaçadas.

 

o estômago de Barriga Falsa agitou-se. As moscas já tinham posto ovos na ferida e os insectos elevaram-se num zumbido furioso quando passou por eles.

 

Prosseguiu. Espruces e abetos erguiam-se em manchas densas de verde melancólico, com os ramos entrelaçados por cima do trilho. o cabelo eriçava-se-lhe como se olhos assombrados o observassem das sombras silenciosas. Não mais de dez passos depois, entrou num bosque de delgados pinheiros e depois estava a arrastar-se silenciosamente através de um prado careca, sabendo que podia ouvir-se a qualquer momento um grito de alerta.

 

Que fazer? Olhou para o céu que escurecia. «Não sou guerreiro. Não sou herói.» Fez um gesto de desespero.

 

- Trouxa de Lobo? Não podias ter arranjado alguém melhor? Alguém valente?

 

Quando o Sol se pôs a oeste, apressou-se ainda mais, receoso de perder o rasto na escuridão. As agulhas de pinheiro estalavam por debaixo dos seus mocassins e uma vez pisou um graveto que estalou como um osso a partir.

 

Barriga Falsa sobressaltou-se com o ruído. «Tenha calma, seu doido.»

 

Redobrou de cuidados ao deslocar-se - e quase chocou com o guerreiro. Barriga Falsa deu um salto com o susto, pensando que morreria na próxima inspiração. Na sombra que o dissimulava, precisou de um momento para ver que o guerreiro estava de costas voltadas, com a atenção presa no prado aberto onde uma fogueira fora acesa na escuridão.

 

Barriga Falsa deu um passo para o lado com as pernas como borracha. Depois outro. Rezando em silêncio, esgueirou-se para dentro do arvoredo, começando a contornar o guerreiro. Se pudesse voltar atrás, apenas um pouco mais afastado, contornar o...

 

Um graveto estalou-lhe debaixo dos pés. o guerreiro rodou e perscrutou a noite -com olhos sagazes enquanto tomava posição para lançar um dardo já enganchado.

 

Barriga Falsa imobilizou-se como um coelho-bravo sob o olhar esfomeado de um falcão. A respiração parou-lhe nos pulmões. «Vais morrer!»

 

o guerreiro deu um passo, esticando o pescoço.

 

Barriga Falsa cerrou os dentes para evitar que batessem castanholas.

 

o guerreiro disse qualquer coisa suavemente - umas palavras guturais sem significado para Barriga Falsa. Com o braço puxado atrás para lançar o dardo com empenagem, o guerreiro deu outro passo, equilibrado, mortal.

 

Naquele momento, alguma coisa se mexeu à direita. o guerreiro rodou sobre os calcanhares, lançando o dardo com a rapidez de uma cascavel a dar o bote. Mas, rápida como o lançamento, a forma esguia no arvoredo demonstrou ser mais rápida e o lobo negro desapareceu na escuridão.

 

o guerreiro resmungou e começou à procura do dardo.

 

«Lobo, abençoado sejas mais todos os teus filhos.» Barriga Falsa prosseguiu o seu caminho cuidadosamente por entre as árvores, passando por cima de árvores derrubadas e andando em bicos de pés sobre o tapete de agulhas secas. Tentou dominar o bater irregular do coração. Perto. Tão terrivelmente perto!

 

Calmamente, contornou a posição do guerreiro e descreveu um círculo. Por entre os intervalos das árvores, podia ver o povo em volta da enorme fogueira. Cinza Branca devia estar ali. Deteve-se na orla da clareira. Um horrível monte de cadáveres fora cuidadosamente empilhado na orla das árvores. Para seu horror, os corpos produziam ruídos - gorgolejos e silvos - enquanto a decomposição da morte se deslocava furtivamente através deles.

 

As tripas de Barriga Falsa revolveram-se como vermes miudinhos. «Não., Visões do sonho vieram rodopiar-lhe na memória. «Não!» Recuou para a segurança do arvoredo - pronto a fugir.

 

A enorme fogueira da clareira trepava cada vez mais alto, projectando uma luz amarela nas cabanas cónicas e nos destroços espalhados, o povo comprimia-se em volta do fogo e ali, por entre as silhuetas das figuras, Barriga Falsa conseguiu ver mulheres cativas a serem arrastadas para o interior do círculo de espectadores.

 

O sonho! Está para acontecer. Cinza Branca... a Trouxa de Lobo!

 

Algumas figuras afastaram-se do grupo em redor da fogueira e Barriga Falsa abafou o grito na garganta. o chefe indistinto avançou com uma perna estropiada. à luz berrante, Barriga Falsa conseguiu ver que se aproximava um guerreiro conduzindo um cativo - uma mulher.

 

«Cinza Branca!» Não podia ser mais ninguém. Pedras Cantantes não tivera um vestido para oferecer, apenas as calças usadas pelo Povo do Lobo. Na sua necessidade, Cinza Branca não fora exigente.

 

A escuridão adensara-se. Barriga Falsa irritou-se contra o desejo de fugir. Em vez disso, contornou a pilha de mortos e internou-se na clareira escurecida. «Estou fora de mim! Estes são o Povo do Sol! Comem criancinhas! Eles... »

 

Tropeçou no braço de um cadáver e caiu pesadamente. Algo duro retumbou-lhe na parte de trás da cabeça com força suficiente para lhe pôr luzes a dançarem nos olhos.

 

«Já fui apanhado.» Engoliu com dificuldade e fechou os olhos, aguardando o golpe mortal... que nunca veio.

 

Pestanejou, rebolou e a trouxa deslizou-lhe pelas costas. Estendeu o braço e esfregou a cabeça, ficando a saber que se lhe ia formar um galo. Que é que lhe acertara? Desajeitadamente, procurou qualquer coisa em volta com o braço escorreito e apalpou a trouxa. A madeira de pedra.

 

«Amostra de herói! Por pouco não te punhas fora de combate,» «Depressa!» A voz parecia entrelaçar-se no ar.

 

Pôs-se de pé e precipitou-se para a frente para se esconder na sombra de uma cabana. Encostou o ouvido à cobertura, mas não ouviu nada. Arrastou-se vagarosamente em volta da cabana, esticando o pescoço até dar por um grupo de pessoas delineado pelo brilho da fogueira.

 

Barriga Falsa respirou profundamente e precipitou-se para a sombra da cabana próxima. Pilhas de coisas jaziam espalhadas em volta: fardos e bolsas de couro cru, vestuário, padiolas para cães e coberturas de cabanas saqueadas. Seguiu em frente, pé ante pé. Um ruído de vozes alertou-o. Aproximavam-se alguns guerreiros. Deitou-se no chão e enrolou-se numa bola entre os destroços.

 

Os dois guerreiros pararam a vários passos de distância e continuaram a conversar. A urina chapinhou no chão.

 

Barriga Falsa encolheu-se e aguardou o brado de alerta. As vozes afastaram-se. Olhou de esguelha para cima, para ver se o caminho estava desimpedido, e pôs-se de pé. Correu para a sombra da cabana seguinte e espreitou pelo lado do abrigo.

 

Um homem e uma mulher estavam de pé defronte de uma grande cabana no meio do acampamento. Um arrepio de frio percorreu a espinha de Barriga Falsa. Devia ser a cabana do Homem de Espírito - o local onde guardavam a Trouxa de Lobo. o homem alto deu um passo cambaleante, desastrado por causa da perna estropiada. Disse qualquer coisa na língua do Povo do Sol e a mulher dirigiu-se para a fogueira.

 

Depois o homem olhou para baixo, falando para uma cativa amarrada que Barriga Falsa mal conseguiu ver. Barriga Falsa não conseguiu entender as palavras, mas reconheceu o assustado pedido de Cinza Branca quando ela respondeu. o estômago revolveu-se-lhe.

 

o homem estropiado tirou a camisa pela cabeça e deixou-a cair. Depois desatou os safões e tirou-os. A dança e os cânticos ergueram-se do povo em volta da fogueira.

 

«E agora? Como vou eu fazer isto?» Barriga Falsa olhou para o céu nocturno, procurando pela luz ou por qualquer outro sinal do Poder. Este tipo de coisas acontecem sempre nas lendas. As estrelas cintilavam desoladamente contra o céu de veludo, mas nada mais.

 

o homem estropiado erguera as mãos, implorando ao céu nocturno. o cântico em fundo aumentou de volume.

 

- E eu apostarei que a sua alma tem um brilho verde aos olhos do espírito - resmungou Barriga Falsa num sussurro. o homem estropiado agachou-se na pilha de peles em frente da cabana.

 

Barriga Falsa inspirou profundamente e correu para a frente. Desta vez teve sorte. Não caiu, não tropeçou em coisa nenhuma e não fez nenhum ruído na relva espezinhada do acampamento saqueado.

 

Deslocando-se como um fantasma, progrediu ao longo das traseiras e do flanco da cabana do Homem de Espírito. Escutou a estranha fala do Povo do Sol. Os desesperados rogos de Cinza Branca faziam-lhe sofrer a alma.

 

«Estou a chegar, Cinza Branca. Aguenta!»

 

Como é que ia contornar a cabana sem ficar exposto à luz da fogueira? Sentiu uma dor ao dar uma pancada com o dedo do pé. Barriga Falsa agachou-se para descobrir em que é que dera a topada... e sorriu. Agarrou uma das estacas que fixavam a cobertura da cabana ao chão e soltou-a, depois outra e outra. Quando se deitou de barriga para se esgueirar por debaixo da cobertura, a madeira petrificada caiu-lhe de novo sobre a cabeça - exactamente no sítio onde o primeiro galo ainda cantava.

 

Sacudindo a cabeça, Barriga Falsa avançou contorcendo-se apenas para enganchar a trouxa na cobertura da cabana. Rodou e enredou-se na bandoleira da trouxa. Rodou para o outro lado e libertou-se da trouxa antes de rastejar por debaixo da aba. Dedos ágeis na bandoleira puxaram a trouxa atrás de si.

 

Movendo-se cautelosamente até à aba da porta, Barriga Falsa espreitou para o exterior. Lá estava Cinza Branca deitada. A luz da fogueira dançava-lhe nas carnes firmes, brilhando-lhe nos seios cheios e cintilando-lhe na farta mata de pêlos púbicos. o guerreiro estava deitado ao lado dela, rindo suavemente. Cinza Branca tinha os olhos fixos num tripé que estava ao lado. Barriga Falsa olhou e gelou. Conseguia sentir a presença do objecto cuja silhueta ali via, A paz - uma consciência familiar de Poder e rectidão - estabeleceu-se-lhe na alma.

 

o guerreiro estropiado deslizava as mãos possessivas sobre o corpo tremente de Cinza Branca, depois soergueu-se e afastou-lhe os joelhos de esticão.

 

«Luta! Cinza Branca, por que não...?» Mas conseguiu ver a maneira como as calças dela estavam atadas em volta da correia que lhe peava os tornozelos.

 

o guerreiro estropiado rolou cobrindo Cinza Branca. Um soluço desgraçado estrangulou-se-lhe na garganta.

 

«Não! Ele não pode! Nãolhe permitirei!» Barriga Falsa mergulhou através da aba - apenas para enganchar a trouxa na cobertura ao levantar-se demasiadamente depressa. Perdeu o equilíbrio, enredou-se na cobertura solta da cabana e abateu-se pesadamente com um gemido sobre a cabeceira da cama.

 

- Barriga Falsa! - arquejou Cinza Branca.

 

o guerreiro estropiado saiu de cima dela, pondo-se de pé, a voz furiosa.

 

Os dedos de Barriga Falsa tocaram em algo frio. Instintivamente, saltou para a frente quando o homem enchia os pulmões de ar para gritar. Com toda a força do braço escorreito, Barriga Falsa sacou da madeira fossilizada da trouxa e deu com ela no alvo mais próximo ao seu alcance: o joelho do homem estropiado.

 

o guerreiro abateu-se com um rugido abafado e Barriga Falsa atirou-se a ele. As peles deslizaram debaixo dele e rebolou. As mãos do homem agarraram no colar de dentes de pedra. Barriga Falsa atirou-se para trás e levantou o braço. Na sua posição desastrada, não podia reunir a força necessária. Duas coisas aconteceram: o Poder descarregou no próprio ar, mantendo o cabelo de Barriga Falsa continuamente de pé, e o seu golpe visou a parte lateral da cabeça do homem. o guerreiro estropiado arrancou o colar do pescoço de Barriga Falsa ao rebolar violentamente. Um som hediondo de gargarejo saiu da garganta do guerreiro ao agarrar-se à cabeça sem querer saber do colar entrelaçado nos dedos frenéticos.

 

- Depressa, Barriga Falsa! - Cinza Branca debatia-se na cama. o guerreiro Pedra Partida contorcia-se e arfava quando Barriga Falsa procurou na trouxa e retirou uma das afiadas lascas de sílex que trazia consigo. Precipitou-se para os pés de Cinza Branca e descobriu a correia. Cortá-la com uma mão não era fácil, especialmente com as calças de permeio, mas finalmente conseguiu fazê-lo.

 

- Volta-te. Depressa! - ordenou e serrou freneticamente as ataduras dos pulsos até que se separaram. - Vamos, vamos sair daqui.

 

Puxando Cinza Branca, correu para a escuridão e então sentiu a pressão do Poder. «A Trouxa de Lobo.»

 

- Foge!

 

Empurrou-a para a frente e agarrou subitamente a Trouxa. Um formigueiro disparou através dele quando os dedos pressionaram o espesso cabedal. o contorno da sua visão desvaneceu-se, tornando-se negra. Tudo o que conseguia ver era a Trouxa em forma de coração. Irradiava, como se um fogo ardesse dentro dela. o brilho espalhou-se pelas mãos e braços de Barriga Falsa até lhe engolfar o corpo inteiro num flamejante banho de luz. Nas profundezas dos seus pensamentos, ouviu um retinir de vozes frenéticas: «Chegou o novo guardião! Temos estado à tua espera, Água Mansa, à tua espera para Nos levares daqui. Não esperes! Vai-te. Vai-te embora!»

 

Cinza Branca arfava e gorgolejava. Os seus olhos viraram-se para Barriga Falsa como se também ela visse o fogo que irradiava das carnes dele.

 

- Depressa! - sibilou. Então correu desabaladamente para as árvores e para a protecção da escuridão.

 

Barriga Falsa olhou pela últimavez para o guerreiro que se rebolava na erva. A visão assombrar-lhe-ia os sonhos. o homem estropiado segurava a cabeça com ambas as mãos, choramingando com se lhe tivessem espetado estacas através do crânio.

 

Barriga Falsa virou-se e correu atrás de Cinza Branca.

 

Mão Esquerda deslizou pelo trilho de alce com um ruído não superior ao de uma sombra de coruja na erva batida pelo luar. Em ambos os lados, as árvores erguiam-se sombriamente contra o céu nocturno. Aqui e ali, brilhavam manchas de estrelas por entre a abóbada de ramos de abeto negro.

 

«Perto. Tenho de me aproximar.» Como se quisesse desafiar os seus pensamentos, o som de vozes ergueu-se num cântico trazido no ar da noite. Sim, ali para nordeste. Agora sabia onde estava. Podia circular para oeste, virar ao norte e dar uma volta completa, aproximando-se pela direcção de onde viera o Povo do Sol. Ali haveria menos guerreiros de guarda. o cântico aumentou de intensidade.

 

- A dança da vitória - sussurrou de modo abafado. A ideia provocou-lhe mal-estar. Que falhara? Onde tinham errado? Por que é que os sonhadores não viram que isto estava para acontecer?

 

Apertou os olhos como se assim pudesse espremer a angústia da alma. Teria a Trouxa de Lobo abandonado o povo? Teria o mundo inteiro desabado sobre eles?

 

Mão Esquerda olhou para trás por cima do ombro e gelou. Um pouco de branco agitava-se na escuridão. Agarrou com firmeza no atlatl, a única arma que trouxera. o ponto branco parou de súbito.

 

Mão Esquerda agachou-se, equilibrado nas pontas dos pés. Estava onde as sombras lhe obscureciam a silhueta. «Aproxima-te. Aproxima-te mais, meu gusano mamão... »

 

o branco moveu-se em silêncio e parou de novo como se hesitasse.

 

Um arrepio percorreu as carnes escaldantes de Mão Esquerda. Dar-se-ia o caso de o caçador ver no escuro? Ou teria alguma espécie de sentido, algum tipo de Poder? Mão Esquerda rilhou os dentes. Demasiado Poder já era azar.

 

o branco mexeu-se de novo e Mão Esquerda levantou a cabeça. Havia alguma coisa com aquilo. Era demasiado baixa. Um homem seria mais alto, mas na escuridão não podia ter tanta certeza.

 

Nem uma doninha fedorenta!» Nesse caso, aquilo não podia ser mau. o cheiro da doninha fedorenta trabalharia a seu favor. Um guerreiro vigilante que ouvisse alguma coisa na noite devia ignorá-la se lhe cheirasse a doninha fedorenta.

 

o branco aproximou-se mais e Mão Esquerda ergueu o atlatl. A mancha branca recuou.

 

- Que és tu? - chamou Mão Esquerda suavemente. - Um espírito?

 

Respondeu um ganido baixo. Mão Esquerda baixou o atlad. Um cão.

 

- Desaparece - sibilou, - Desaparece daqui. Não preciso de cão para me denunciar.

 

o animal aproximou-se mais a trotar e esfregou-lhe o nariz na mão. Curvou-se, espreitando através da escuridão, e empertigou a cabeça incrédulo,

 

- Confusão? Es tu? Como é que vieste até aqui? Onde está Barriga Falsa?

 

o cão farejou-o alegremente e tentou lamber-lhe a cara. Mão

 

Esquerda levantou-se, abanando a cabeça, e recomeçou a andar pelo trilho para ouvir o ganido de Confusão à sua retaguarda.

 

- Vai-te embora - gesticulou Mão Esquerda com irritação. Tu não precisas do Povo do Sol. - Curvou-se e sussurrou ameaçadoramente: - Eles comem cães pretos-e-brancos. Vai.

 

Recomeçou a andar mais uma vez pelo trilho, apontando a oeste para contornar as árvores e aparecer vindo de norte do prado do acampamento. Parou para examinar uma pequena clareira antes de se aventurar em campo aberto. Confusão ultrapassou-o apesar dos esforços frenéticos de Mão Esquerda para agarrar o cão.

 

Com a garganta seca, observou Confusão a saltar para a erva e para a salva rasteira; esperava gritos medonhos quando os guerreiros do Sol dessem pelo animal. Confusão parou e olhou para trás. Lambendo os lábios, Mão Esquerda aproximou-se da orla fora da protecção das árvores. Um brilho diáfano iluminou o horizonte a leste à sua retaguarda quando a Lua começou a coroar as montanhas. Olhou em volta nervosamente e apressou-se a atravessar para procurar o sítio onde o trilho do alce reentrava no emaranhado das árvores negras.

 

Confusão ganiu de novo, desta vez mais alto, insistentemente. Mão Esquerda arfou a sua frustração e virou-se, pensando que podia atirar com alguma coisa ao... Os seus pensamentos evaporaram-se-lhe quando uma forma negra deslizou para fora do arvoredo, com pés de veludo, à retaguarda de Confusão. Mesmo através da escuridão, Mão Esquerda conseguia sentir aqueles olhos amarelos.

 

- Lobo de espírito?

 

o grande animal manteve-se a observá-lo intencionalmente e Mão Esquerda sentiu um formigueiro na alma. o lobo afastou-se um negrume na sombra - e desapareceu no meio das árvores da parte oriental da clareira. Confusão recomeçou a andar e parou com uma pata no ar, inseguro.

 

Mão Esquerda esfregou o polegar para trás e para diante na pega de madeira do atlatl. «Se os seguir, sigo o Poder? Ou animais estúpidos?» Abanou a cabeça. «Que é que o Poder trouxe hoje ao Povo do Lobo?» Blasfemou ao rodar nos calcanhares para seguir a malha branca do dorso de Confusão em direcção ao leste.

 

o cão guiava-o alegremente, cauda a abanar, correndo para a frente e depois regressando, como se pretendesse que ele se despachasse. o negrume a deslizar por entre as sombras era a única indicação da presença do lobo na escuridão pegajosa. Mão Esquerda ofegava ao trotar. Os pés enredaram-se-lhe nos destroços da floresta e tropeçou nas raízes; os ramos vieram da noite para o vergastar.

 

«Estúpido! Por que não continuas a andar? Que estás...?» Confusão parara, cabeça levantada, orelhas espetadas.

 

o lobo negro estava parado, como se esperasse na orla de outra das clareiras que salpicavam a floresta. Esta, tal como a maior parte delas, consistia num prado estreito cheio de salva aberto por um fogo antigo. Mão Esquerda mal deu conta quando o cântíco à distância parou. o Povo do Sol estava ominosamente silencioso e então explodiu uma berraria na direcção do acampamento.

 

Mão Esquerda ajoelhou-se junto de Confusão e passou os dedos pelo denso e quente pelo do cão. Uma presença incómoda pairava no ar. o Poder enchia a noite. A alma apertou-se-lhe.

 

Um ruído diáfano fez que Mão Esquerda levantasse a cabeça. o quê? Um bordão a quebrar-se na noite? Apurou o ouvido: apenas os gritos desvanecidos vindos da direcção do acampamento.

 

Um gemido abafado e um baque - como se um corpo tivesse caído na escuridão -, o murmurar suave de vozes dificilmente audíveis e duas pessoas desembocando repentinamente na clareira. Num ápice, o lobo negro saltou para o lado, mergulhando silenciosamente no arvoredo cerrado e negro. Mas Confusão atirou-se para a frente, correndo ao encontro daqueles dois.

 

- Confusão? És mesmo tu? - o homem ajoelhou-se, abraçando-se ao cão que se saracoteava. - Olha, é o Confusão. Está de volta!

 

- Graças ao Poder. Mas vamos - insistiu a mulher. - Faremos a festa mais tarde. - Uma pausa. - Qual é o caminho?

 

Barriga Falsa pôs-se de pé.

 

- Não sei. o Povo do Sol está ali para trás. A Lua está ali, portanto, é leste. Deve haver um trilho algures... mas onde?

 

Mão Esquerda hesitou um momento e depois chamou suavemente:

 

- Barriga Falsa? Sou eu, Mão Esquerda. Por aqui.

 

Barriga Falsa já começara a avançar, com a mulher a segui-lo embaraçadamente.

 

- Mão Esquerda?- perguntou Barriga Falsa em voz baixa. Onde estás?

 

- Aqui, no trilho. - Avançou para o luar diáfano e Barriga Falsa abraçou-o vigorosamente, dizendo abruptamente: - Não vais acreditar em tudo o que aconteceu. Primeiro, Confusão perdeu-se durante a noite. Fui à procura dele e perdi-me também nas montanhas Atravessadas...

 

- Agora não, Barriga Falsa - disse nervosamente a mulher.

 

- Boa ideia - concordou Mão Esquerda. - Eu conheço os trilhos e talvez te consiga esconder ou despachar na direcção certa, Depois do que aconteceu, estás por tua conta.

 

- Não vens connosco? - perguntou Barriga Falsa.

 

- Tenho de regressar pela Trouxa de Lobo, Barriga Falsa. o Povo do Sol...

 

- Está comigo - vangloriou-se Barriga Falsa. - Está salva. Compreendes?, tive aquele sonho...

 

- Podemos falar mais tarde? - interrompeu a mulher, Homem Valente vai pôr os guerreiros a rastejar por toda esta montanha à nossa procura. Homem Lobo - martelou as palavras ao dizê-las -, se conheces um caminho para sairmos daqui para fora, um caminho para regressarmos a Pedras Cantantes...

 

- Sigam-me.

 

Mão Esquerda guiou-os para a clareira e encaminhou-se para sudoeste. «Barriga Falsa tem a Trouxa de Lobo? E quando os tinha perdido, um enorme lobo negro conduziu-me directamente a Barriga Falsa... e à Trouxa de Lobo. Mas a que preço? Que está a acontecer? Que está a passar-se de errado com o Poder?»

 

- Não sei nada de ti, Barriga Falsa - resmungou Mão Esquerda. - Estás ligado a tanto Poder que me dá arrepios.

 

«Pai das Águas, corres tão cheio vertes a água no rego.

 

Cultivam uma planta, tão alta e verde, o fruto é amarelo. Já vi.

 

Penas coloridas, os mortos estão expostos. Derrubam de lado a lado e a terra está preparada. Preguiça ociosa, em cestos transportada...

 

homem Sol e alta mulher estão casados.»

 

A voz da velha cantarolou por entre o sonho.

 

Das asas altaneiras, Cinza Branca olhou para baixo, vendo povo na margem verde de um grande rio. Onde o leito serpenteava em meandros semicirculares, as árvores tinham sido derrubadas e manchas de terra produziam plantas delgadas; o povo caminhava entre elas, mondando as ervas indesejadas. Conseguia ver os homens mais afastados na floresta a trabalharem com machados de pedra encabados. Quebravam a casca das árvores vivas - dando-lhes golpes circulares para as matar. Depois queimavam a madeira morta para que as cinzas enriquecessem o solo negro.

 

o Poder enchia os campos, resplandecendo em redor das plantas altas cujas folhas compridas dançavam na brisa. A vida pulsava entre os caules e no fruto amarelo que neles amadurecia.

 

Ao fundo, erguia-se um monte de terra contra o céu. No topo do monte, erguia-se uma estrutura de toros de madeira. As paredes tinham sido cobertas de casca de árvore e um telhado de colmo terminava em bico. Uma abertura sem porta olhava para sul e lá um homem com uma máscara de penas erguia as mãos para o Sol enquanto cantava as graças do Primeiro Homem e do Sol e da planta de cabeleira pálida.

 

- Diz a Mão Esquerda - a voz do Pássaro de Fogo fendeu o ar

- que tem de levar o Povo do Lobo para leste. o caminho será difícil. o Povo do Búfalo guerreará com eles e muitos morrerão nas planícies da Erva Rasteira. o Povo do Lobo deve seguir o rio do Alce para a Água Pai. Ali devem fazer a guerra aos dançadores mascarados e estabelecer um novo caminho. Ali devem continuar a sonhar e a renovar os dançadores mascarados.

 

- Dir-lhe-ei. - Abriu os braços como se fosse voar por si mesma. - Ele quererá a Trouxa de Lobo.

 

- A trouxa de Lobo sonha a verdade para Mão Esquerda, mas ele é mercador. No seu coração, ele não sabe o que deve fazer. Não sonha com o teu Poder. o Poder dele é diferente. Diz-lhe que um dia surgirá uma sonhadora que pode procurar a Trouxa deLobo e devolvê-la à Água Pai e ao Sangue do Primeiro Homem. Mas primeiro o seu povo tem de demonstrar que é merecedor.

 

- Dir-lhe-ei. - Pairou num arrebatamento, sentindo a força violenta e dolorosa do único a encher a névoa dourada que a rodeava.

 

Apareciam nuvens por debaixo, obscurecendo a terra. Com um toque de asa, o Pássaro de Fogo mergulhou na massa entumescida. Cinza Branca encolheu os joelhos para o peito. Flutuando e deslizando, caiu na penumbra, as orlas do único puxando-a, insistentemente, irresistivelmente.

 

Cinza Branca pestanejou e agitou-se, saindo do sonho brumoso. As penas do único roçaram-lhe as franjas da alma.

 

Por razões de segurança, escolheram dormir de dia e marchar de noite, quando os batedores Pedra Partida não os podiam espiar a partir dos pontos altos. Quando Cinza Branca se espreguiçou, o Sol começava a deslizar para debaixo da irregular linha do horizonte das montanhas da Pedra Vermelha do outro lado da bacia do Veado Cinzento sombreada de púrpura. Um indigo-profundo e translúcido enchia o céu a leste. Olhou para o panorama enquanto filamentos do sonho se entrelaçavam nos seus pensamentos.

 

Tinham acampado numa concavidade isolada, protegida por todos os lados excepto pelo oeste por faias pretas cheias do verde da Primavera. o branco resplendor da casca captava os últimos raios de sol. Puxou a manta para trás e fez uma inspecção rápida à procura de carrapatos antes de enfiar o vestuário. Com uma sovela e tendão fizera arranjos de ocasião na camisa.

 

Barriga Falsa bocejou e olhou de esguelha com ar carrancudo. A expressão não lhe favorecia o rosto vulgar. Cinza Branca examinou-o com espanto. Mudara. Sentia-o no íntimo. No momento em que as mãos dele tocaram a Trouxa Sagrada, uma nova força, uma presença, fora-lhe instilada na alma.

 

Mão Esquerda estava deitado numa pilha de erva, respirando pesadamente enquanto ruídos torturados lhe saíam da garganta. Depois sobressaltou-se e acordou de rompante, olhando em volta, assustado por um momento antes de expirar o ar dos pulmões e se sentar. Bagas de suor perlaram-lhe o rosto curtido pelas intempéries antes de deixar cair a cabeça nas mãos.

 

- Algum problema? - perguntou Barriga Falsa. Cinza Branca abanou a cabeça com lassidão.

 

- o sonho.

 

- Sonhos, queres tu dizer - arfou Mão Esquerda com voz rouca. - Sonhos terríveis.,Vi gente a fugir. Caminhando através de uma terra ressequida. Árvores. Vi árvores... e terra negra... e um enorme rio em turbilhão. - Olhou para cima então, a expressão assombrada. - E senti que parte da minha alma arrefecia, como se alguma coisa prodigiosa a tivesse possuído. - Piscou os olhos e sacudiu a cabeça. - Horrível... perda...

 

- Que foi que sonhaste? - perguntou Barriga Falsa a Cinza Branca, segurando-lhe a mão. - Conta-nos.

 

Ela olhou cautelosamente para o homem Lobo.

 

- Ergui-me nas nuvens, levada pelo Pássaro de Fogo. Pairámos nos ventos e viajámos para o leste. Há lá um grande rio. A terra é verde, cheia de árvores. Tu estás para levar o Povo do Lobo para lá. Mão Esquerda olhou de soslaio.

 

- Levar o Povo do Lobo para lá? Queres dizer, para longe daqui... do nosso lar?

 

Ela acenou calmamente com a cabeça, em concordância.

- o Poder mudou aqui.

 

Ele esfregou as mãos, sacudindo os ombros como para se libertar de um fardo desagradável.

 

- Quase acredito em ti. Não consigo evitar esta sensação de vazio. E as imagens...

 

- De morte e guerra e de uma planta com cabeleira amarela? Cinza Branca tentou adivinhar.

 

Ele empalideceu.

 

- Como...

 

Ela abanou a cabeça, o olhar fixo no dele.

 

- o Poder dá uma oportunidade a todos, mercador. Serás o próximo chefe do Povo do Lobo. Guiá-lo-ás para a morte às mãos do Povo do Sol? Ou seguirás o sonho?

 

- Morte? - o rosto dele contorceu-se com incredulidade.

 

- Há três noites que fugimos. Quantas vezes ouvimos guerreiros Pedra Partida? Com que frequência temos visto as suas fogueiras na noite?

 

- Demasiadas vezes.

 

- Nunca os tinhas visto fazer a guerra, mercador. Eu vi. Atrás dos Pedra Partida vêm os Ponta Negra. Atrás destes os Flauta Surda e os da Vespa e os...

 

- Estás enganada, Cinza Branca. Eu vi-os. Fui para o norte... com todas essas tribos - respondeu debilmente. - Mas este é o nosso lar. Foi aqui que o sonhador de Lobo nos conduziu. Aqui Dança No Fogo renovou o povo e dançou com o fogo.

 

- Esse tempo já passou - disse-lhe ela sem rodeios. - o Poder oferece-te uma nova via. o Povo do Lobo fugiu para o sopé das colinas. Tens muito pouco tempo para os convenceres da tua liderança e os levares para o leste.

 

- A maior parte do meu povo quererá retomar as montanhas. Esta terra contém os ossos dos nossos antepassados. As nossas almas são parte deste lugar. - Um desespero dorido tocou-lhe a voz.

- Não podemos sair daqui!

 

Cinza Branca inclinou a cabeça desolada. «Ninguém quer ser sonhador.» As palavras de Pedras Cantantes ecoaram. Porquê? Por causa da dor... por causa do que sabes que tens de fazer?»

 

- o Poder conduz-te por outro caminho, mercador. - Olhou para o céu. - Apenas posso dizer-te o que vi. É uma terra rica, a do leste. As árvores foram derrubadas. A planta alta fornece alimento para muita gente. Fechou os olhos, vendo aquilo outra vez. Vida... Poder... enchem a planta de cabeleira amarela.

 

- E que mais? - perguntou nervosamente Mão Esquerda.

 

- Uma montanha feita de terra, com uma cabana no topo. Ali o Homem do Espírito erguia as mãos em direcção ao Sol.

 

- E sou eu quem vai guiar o povo até lá? Ela acenou afirmativamente com a cabeça.

 

- Tens essa escolha. Ou podes deixar o teu sangue aqui. o Povo do Sol mudou o Poder. o povo tem o seu lugar na espiral. Onde irão dançar as vossas crianças, Mão Esquerda? Ao longo da Água Pai? Ou entre as almas dos mortos?

 

Mão Esquerda estremeceu outra vez, os olhos a ficarem sem expressão.

 

- Vi isso nos meus sonhos. - Olhou para trás por cima do ombro. - Palmilhei os velhos caminhos... e atrás de mim caminharam os espíritos dos mortos. Os ossos juncaram os trilhos e em breve serão cobertos pelas agulhas dos pinheiros que caem das árvores. Ela acenou com a cabeça em sinal de concordância.

 

- Então tu sabes. Quando o Primeiro Homem se transformou em Pássaro de Fogo disse-me para te dizer a ti. A escolha é tua. Mão Esquerda pôs-se de pé e caminhou vacilando para olhar para oeste através das faias pretas. o Sol ardia em vermelho e laranja nas nuvens que pairavam à distância sobre as montanhas da Pedra Vermelha. Apoiando uma mão no tronco branco de uma faia preta, abanou a cabeça.

 

- Os sonhadores deviam ter visto a vinda do Povo do Sol. Naquela noite, enquanto fugia, um lobo do espírito correu com o cão de Barriga Falsa... guiando-me ao teu encontro. Sempre que adormeço, os sonhos assombram-me.

 

Enfrentou-a, a boca mexendo.

 

- Sim, acredito no teu sonho, Cinza Branca. Ouvi as asas do teu Pássaro de Fogo naquela noite em que acampava com Barriga Falsa na Bacia do Vento. «Procura a Sonhadora», disse ele.

 

Desviou a atenção para Barriga Falsa.

 

- Tu encontraste-a, meu amigo. Desejo-te sorte. Penso que precisarás dela.

 

Barriga Falsa baixou o olhar.

 

Mão Esquerda respirou profundamente.

 

- Muito bem, Cinza Branca, irei. Dá-me a Trouxa de Lobo e pôr-me-ei a caminho.

 

- A Trouxa de Lobo vai para o sul connosco - disse-lhe Cinza Branca. - Água Mansa é o novo guardião. Ela chamou-o.

 

- Água Mansa? Barriga Falsa? - Mão Esquerda rodou, um olhar desvairado nos olhos. -A Trouxa de Lobo é o coração do povo! Pertence ao...

 

- Ao Primeiro Homem - interrompeu Cinza Branca avançando para o mercador e agarrando-o pelos ombros. Olhou-o dentro dos olhos, procurando-lhe a própria alma. - Busca o teu coração, Mão Esquerda. Sentiste o Poder quando sonhaste. Sabes a quem ela pertence.

 

Ela viu-lhe o medo quando a boca se lhe abriu e não proferiu palavra.

 

- o Primeiro Homem disse-me para te dizer que se o teu povo for para leste, renovar os dançadores mascarados e demonstrar merecimento, uma sonhadora virá e devolverá a Trouxa de Lobo aos vossos filhos. Mas primeiro tens de demonstrar merecimento.

 

- Mas eu...

 

- o Poder não vem de graça!

 

A sua resistência abateu-se face ao olhar perscrutador. Fez um último e débil apelo.

 

- Tenho de a levar. Se vou chefiar o meu povo, como dizes, eu.--- eu precisarei dela.

 

Ela abanou a cabeça.

 

- Água Mansa é agora o guardião. A Trouxa de Lobo chamou-o. Tem de ser sonhado um novo caminho para todo o povo ou o Primeiro Homem morrerá.

 

Barriga Falsa pôs-se de pé com uma expressão de mágoa e piedade.

 

- Se não for sonhado, a espiral mudará. Tive visões. Vi florestas derrubadas e o povo escravizado a fazer coisas terríveis. Vi as águas poluídas e o ar a ficar castanho. Vi animais encurralados... com as almas mortas embora ainda estivessem vivos. A espiral está em perigo. É tempo de Cinza Branca e eu mudarmos isso.

 

Mão Esquerda cerrou os punhos e os músculos incharam-lhe nos ombros. Apareceu-lhe um brilho nos olhos e projectou o maxilar para diante.

 

- Quando começámos a jornada que te conduziu a este lugar, dei-te um presente... dentes de peixe transformados em pedra. É assim que tratas o Poder de negociar? Por um presente... tu tomas o coração e a alma do meu povo?

 

- Basta! - gritou Cinza Branca, entrepondo-se entre ambos enquanto o rosto de Água Mansa se torcia com uma terrível culpa. Uma fúria contida ardeu dentro dela. -Não é obra dele, mercador. Pergunta ao Poder por que virou as costas ao Povo do Lobo. Pergunta ao Primeiro Homem e à Trouxa de Lobo por que chamou um novo guardião! Busca as tuas respostas nos sonhos que assombram o teu sono. Mas não culpes água Mansa pelas coisas que o Poder lhe exige.

 

Mão Esquerda respirou fundo e susteve a respiração ao afastar-se para fixar o olhar no pôr do Sol.

 

-Noutras circunstâncias, matava-te por isto, BarrigaFalsa. Abanou a cabeça, como um homem arrancado a tudo o que conhecera. - Sim, Cinza Branca, desde o princípio que soube que o Poder estava a trabalhar. Conseguia senti-lo.

 

água Mansa lambeu os lábios e disse com desespero:

 

- Um dia enviar-te-ei um presente, Mão Esquerda. Não sei o que será, mas seja como for...

 

- Esquece, Barriga Falsa. Já não há nada entre nós. Esse Poder morreu. - Virou-se para Cinza Branca com os olhos brilhantes de lágrimas. - Que posso eu fazer? Como posso lutar contra ti? Tu... tu és o Poder. Es a sonhadora que Barriga Falsa foi chamado a encontrar. E dizes-me que tenho de... de... - Virou-se violentamente para olhar de novo para o pôr do Sol.

 

- Mão Esquerda... - começou água Mansa, mas deteve-se ao toque de Cinza Branca.

 

- Não há nada que possamos dizer - disse-lhe. - É o Poder. E tujá sabes. A Trouxa de Lobo tocou-te pela primeira vez nos teus sonhos, chamou-te. Procura no teu coração... e diz-me o que sabes. Água Mansa franziu os lábios e baixou os olhos.

 

- Não é justo. É tudo.

 

- Quem disse que o Poder era justo? o Poder trabalha para os seus próprios fins. - A voz dela tornou-se distante. - Mesmo se destruir todos os povos.

 

Mão Esquerda assentiu com um aceno de cabeça.

- Eu sei. Mas nunca pensei...

 

- Eu era Homem Branco - disse-lhe ela. - Os guerreiros do teu povo mataram o último da minha tribo. Em tempos odiei todo o Povo do Lobo pelo que fizeram. Agora toda a minha alma partilha a tua dor. Vai. Agarra a oportunidade que o Poder te oferece e salva o teu povo. Guia-os para leste, Mão Esquerda. Segue os rios para a terra dos dançadores mascarados.

 

Face à dor no rosto dele, a terrível saudade poresta terra, ela não conseguiu suster as lágrimas. Ele olhava para o pôr do Sol que desmaiava sobre as montanhas da Pedra Vermelha como para o reter na memória.

 

- Eu... - Sufocou. - Acredito em ti, sonhadora. Estive naquelas terras. Sei a direcção... mas não o caminho para elas. Foi por isso que o Poder me chamou para ser mercador? Para descobrir o caminho para o meu povo?

 

Ela não tinha resposta e ele não esperava por nenhuma. Parou em frente de Água Mansa antes de lhe oferecer a mão.

 

- Adeus, meu amigo. Julgo que nunca saberemos como arde o Sol... mas, seja lá como for, não tenho a certeza de que sejabom para nós.

 

Depois desapareceu por entre as faias pretas, encaminhando-se para leste - um homem deprimido.

 

Desesperado, Água Mansa perguntou:

 

- Fará como pretendido? Como disseste? Ela baixou-se para agarrar na trouxa.

 

- Sim. Mas isso dói. Eu sei. Pedras Cantantes estava certo, Água Mansa. Ninguém gosta de se tornar sonhador.

 

Ele volveu-lhe uns olhos inseguros.

 

- Por que começaste a chamar-me pelo meu nome verdadeiro? A tristeza encheu-lhe os olhos negros.

 

- Renasceste, Água Mansa, Quando tocaste a Trouxa, as almas de todas as pessoas que alguma vez a tocaram fluíram para dentro de ti e mudaram-te. Senti-o como um raio de luz na minha alma. Nunca mais seremos de novo o que já fomos.

 

 

- Preciso de saber o que sentes a respeito disto. - Mão Negra caminhava com as mãos dadas atrás das costas, cabeça levantada para o céu nocturno.

 

Erva Amarga olhou para trás por cima do ombro. Tinham alcançado a cumeada de uma crista baixa. Abaixo deles, no buraco onde as fontes da Faia Preta esguichavam da rocha, os olhos indistintos das fogueiras do acampamento piscavam avermelhados. Imediatamente para sul, erguia-se a Barreira Cinzenta como uma mancha contra a escuridão. Nuvens esfarrapadas prateadas pelo luar obscureciam o recamado de estrelas lá do alto. A brisa transportava os odores da salva e do crisótano e um cheiro forte a terra seca. Erva Amarga raspou o solo macio com o pé.

 

- A Lua apareceu e desapareceu muitas vezes desde que Fogo Ardente jaz na sepultura. - Fez uma pausa. - Amá-lo-ei sempre. Será o primeiro no meu coração.

 

- Compreendo - respondeu Mão Negra. - Todos nós amaremos Fogo Ardente. Nunca te pediria para o esqueceres.

 

Ela suspirou e olhou para o alto, para a noite.

 

- Também compreendo as minhas responsabilidades e o que é bom para a tribo. - Abanou a cabeça. - A avó deu-me a conhecer os seus desejos.

 

Ele deu um risinho de satisfação.

 

- Sim, eu sei. Garra de Cotovia tem a subtileza de um urso prateado ferido. Erva Amarga, se não me queres, di-lo agora.

 

- Apesar do que a avó possa dizer?

 

Ele assentiu com um gesto de cabeça, agarrando-lhe as mãos.

- Garra de Cotovia não é dona de nenhum de nós. Por favor, sê franca comigo. Queres-me?

 

Ela fechou os olhos, deliciando-se com o calor das mãos dele.

 

Quanto tempo passara desde que Fogo Ardente deixara de partilhar o seu calor com ela? Se se deixasse ir, podia imaginar que era ele. Um desejo ardente encheu-a. As recordações detinham-se nos tempos em que riram, nas noites frias por debaixo das mantas quentes. Nas ternas manhãs de amor.

 

Ela não queria outro homem. Pensamento louco - o dever de uma mulher para com a tribo era estar casada. Um dia seria a chefe e todos os homens na reunião estariam de olho nela. Conseguia aguentar isso?

 

Conhecia Mão Negra há muito tempo. Recordava-se dele desde rapariga nova.

 

Deitavas-te com Garra de Cotovia. É verdade.

 

Respirou profundamente, lutando contra a inevitabilidade.

- E o teu Poder?

 

Ele colocou-lhe o braço em volta dos ombros, envolvendo-a na manta para a proteger do frio.

 

- Tem estado a desvanecer-se desde há vários anos... Não sei porquê. Mas quero que saibas que rezei com toda a minha alma pela vida de Fogo Ardente.

 

- Sei que o fizeste. - o calor da manta penetrou-a. Faltavam três dias para a reunião, dada a velocidade a que Garra de Cotovia agora viajava. Do alto da crista podia ver a sombra negra das montanhas do Monstro por detrás de Três Confluências.

 

Pedra Redonda ganharia um estatuto considerável com o casamento. No futuro, um tal casamento poderia significar um grande negócio para ela. Os rumores de bruxaria desapareceriam - e as queixas feitas por Três Confluências transformar-se-iam mais num divertimento do que numa ameaça. o povo olharia para ela e diria:

 

- Ali vai Erva Amarga, a mulher por quem Mão Negra desistiu do Poder.

 

Voltou-se para ele com as entranhas a revolverem-se - como se a sua decisão traísse Fogo Ardente.

 

- Serei tua mulher.

 

o braço dele apertou-se em volta dos ombros dela.

 

- Obrigado, Erva Amarga. Farei o meu melhor por ti.

- E eu por ti. - A dor misturou-se com o alívio.

 

Saboreou o calor do corpo dele quando ele puxou a manta para se enrolarem nela.

 

- Trouxeste uma manta enorme para uma noite tão amena. Ele sorriu-lhe.

 

- Esperava vir a precisar dela.

 

Ela assentiu com um gesto de cabeça indiferente e levou-o pela mão para um sítio abrigado na artemísia. Tirou-lhe a manta e colocou-a aberta no chão. Emoções curiosas brincaram dentro dela quando tirou o vestido pela cabeça. o ar frio acariciou-lhe a pele. o luar bailava na orla das nuvens e banhou-lhe o corpo com a sua luz suave.

 

Mão Negra suspirou com um olhar apreciador no corpo dela. Tirou a camisa de pele de alce pela cabeça e ela desatou-lhe os laços que lhe prendiam os safões.

 

o chão serviu-lhe de almofada quando se deitou de costas e experimentou o peso dele. A sensação recordou-lhe algo perdido e à deriva na alma. Um familiar desejo ardente que julgara para sempre desaparecido aqueceu-a por dentro e o corpo respondeu-lhe como Fogo Ardente o treinara.

 

Abriu-se e suspirou quando se uniram.

 

Alguma coisa na artemísía lá em baixo encheu a noite, fazendo que ela se sobressaltasse.

 

- Um coelho - sussurrou-lhe ao ouvido, parando apenas um momento os movimentos.

 

Deitou-se de costas e descontraiu-se enquanto as sensações doces e quentes cresciam. No fundo dela, uma voz pequenina repetia: «Fogo Ardente, perdoa-me. Perdoa-me.,.»

 

A terra mudara desde que Pés de Vento se sentara na mesma pedra e olhara lá para baixo sobre o acampamento da tribo do Homem Branco. A neve desaparecera com o calor do Verão. Os ventos gelados tinham-se suavizado em brandas brisas que refrescavam o calor do dia. «Isto podia ser um mundo diferente... algum lugar estranho e sonhado.» Fechou os olhos, recordando aquela fria noite de Inverno. o vento ululava, projectando cristais de neve gelada. A salva sussurrava sob a opulência das estrelas. A noite fria e negra oprimia-o enquanto na distância as montanhas se erguiam denteadas e cobertas de neve.

 

Quando abriu os olhos, tudo aquilo desaparecera; à sua frente estendia-se uma terra quente de salva aquática e pedra amarelo-clara desbotada pelo sol.

 

Movido por um impulso irreprimível, caminhou por entre os restos do acampamento antes de trepar à crista. Os ossos tinham sido limpos. o vestuário de pele endurecera, gretado pelo sol e pelo vento. Madeixas de cabelo negro quebradiço jaziam entre a erva. Postes e coberturas chamuscados de cabanas estavam espalhados perto de uma mancha de cinza negra onde se reunira o último conselho da tribo do Homem Branco.

 

Pés de Vento identificara alguns dos mortos pelas contas de osso e ornamentos de pedaços de concha espalhados junto dos ossos. Falcão Velho, que sorrira tão calorosamente. Lebre Sibilante, que fora tão sagaz. o cabelo grisalho agarrado aos restos desfeitos ao lado do velho chefe deviam ter pertencido a Esquilo Que Voa. Ao lado dos mortos insepultos, erguera os braços para o céu e entoara o antigo cântico do povo, implorando ao Pássaro de Fogo que procurasse as suas almas atacadas de surpresa. Depois gritara - o último choro pelo Homem Branco.

 

«E não consegui encontrar nenhum vestígio de Cinza Branca.» Olhou sobre a depressão cheia de sombras que guardava os restos da tribo do Homem Branco. «Nenhum daqueles macabros ossos descarnados é dela.»

 

Não fizera uma opção conscienciosa ao guiar os Ponta Negra por este caminho, Ou fizera? Se Espírito Sábio percebera ou se preocupara, nada dissera. Pés de Vento olhou para o solo pedregoso do topo da crista como para ver os rastos dela ali impressos através da neve há muito derretida.

 

Espírito Sábio disse que verificara todos os corpos. Se ela lá estivesse, o velho caçador tê-la-ia encontrado. Pés de Vento aguardou, observando, recordando enquanto o Sol declinava em direcção ao horizonte ocidental e caía por detrás das Montanhas da Pedra Vermelha. A escuridão estendia-se sobre a terra, acompanhada pelos uivos de uma alcateia de lobos e pela resposta do coro dos coiotes.

 

Olhando por cima do ombro para o norte, Pés de Vento podia ver os fogos bruxuleantes que assinalavam o acampamento Ponta Negra. Amanhã conduziria o povo em redor deste lugar para o lado de lá da crista, onde ele e Homem Valente tinham dado a volta para surpreender os búfalos.

 

Pés de Vento encheu os pulmões com o ar quente da noite e tentou acalmar a dor na alma. Esperara pela noite. Agora podia imaginar Cinza Branca trepando a encosta, esmagando a neve por debaixo dos mocassffis. Exactamente ali - tão presente na sua memória como na noite em que acontecera.

 

A Lua rompeu no horizonte e ele pôs-se de pé como fizera naquela noite, para refazer aqueles poucos passos. Aqui, neste ponto, ele tivera-a nos braços, escutara-a quando o desafiara a fugir com ela.

 

«Se ao menos tivesse sabido. Teria ido, Cinza Branca.» Inclinou a cabeça para trás e afogou-se em recordações. Os braços dela envolveram-no para aquele abraço final.

 

- Pés de Vento?

 

Todos os músculos do corpo se lhe contraíram. Por um breve momento, tudo rodopiou loucamente e o coração disparou-lhe a excitação pelas veias. «É lá possível!? Pode ser... »

 

- Pés de Vento? - A voz soou mais alta do que se recordava, mais musical.

 

Engoliu em seco com esforço e virou-se com o coração a galopar. A mulher estava de pé à sua retaguarda, banhada pelo luar - mais baixa, de construção mais delicada.

 

Deixou-se cair, abatido, para se sentar na sua pedra.

- Faia Preta? Que estás a fazer aqui?

 

Ela aproximou-se, o cascalho resvalando por debaixo dos mocassins.

 

- Vim à tua procura. o avô estava preocupado; disse que estavas com um aspecto terrível. Foi ele que me enviou.

 

Pés de Vento fez um aceno de cabeça, ao mesmo tempo irritado e agradecido.

 

Ela olhou em volta, avaliando o território com olho prático. Franziu o sobrolho, examinando-o ao luar.

 

- Foi aqui, não foi?

 

Ele engoliu em seco com dificuldade, mas a voz saiu-lhe áspera quando disse:

 

- Exactamente aqui.

 

Ela acomodou-se numa pedra ao lado dele.

 

Espero que esteja viva algures e que a consigas encontrar. Ele sorriu com lassidão.

 

- A sério?

 

- Sei o que se sente quando se perde alguém que se ama. - Levantou a mão para afastar o longo cabelo do ombro. - Primeiro morreu a minha mãe. Depois o meu pai. Ambos os meus irmãos. Finalmente, o meu marido... o homem que eu amava mais do que a vida. - Inclinou a cabeça para trás para olhar aquelas estrelas suficientemente brilhantes para destronarem o luar. - Ele está aqui, algures... tenho esperança.

 

- Tens esperança?

 

Ela concordou com um gesto de cabeça, o luar a derramar-se-lhe pelo rosto em forma de coração.

 

- Casámo-nos cinco dias antes de partir para uma incursão contra os Pedra Partida. Tocou cada um dos dedos de uma das mãos como se contasse os dias. - Nunca regressou. - Uma nota anelante encheu-lhe a voz. - Desconheci durante muito tempo o que lhe acontecera, apenas sabia que morrera. Homem Só finalmente contou-me. Fora louco... desobedecera às ordens do chefe de guerra e precipitara-se no meio dos Pedra Partida. - Abanou a cabeça. Era jovem. Talvez pensasse que era mais importante fazer nome por si mesmo. Se a sua coragem tivesse posto em fuga os Pedra Partida, teria regressado como um grande homem.

 

»Assim, como as coisas se passaram... - Hesitou. - Homem Só e os outros observaram os Pedra Partida a esquartejarem o seu corpo. - Os lábios dela comprimiram-se quando olhou para as estrelas. - É por isso que tenho esperança de que esteja ali... de que a sua alma consiga ir para onde o Pássaro de Fogo a possa levar para o Acampamento dos Mortos.

 

- Não sabia disso. - Pés de Vento mexeu-se desconfortavelmente.

 

- Não te preocupas muito com as outras pessoas. Ele lançou-lhe um olhar penetrante.

 

- Não?

 

- Não. Mas está tudo bem... por enquanto. o que perdeste ainda está fresco na tua memória. E precisas de tempo para sarares as feridas da tua alma.

 

Ele resfolegou de descontentamento.

- Pareces saber muito a meu respeito.

 

- Sei - respondeu-lhe calmamente. - Tenho passado muito tempo a observar-te, surpreendendo-me contigo.

 

- Pensava que tinhas coisas mais importantes a fazer. Ela levantou um joelho e apoiou nele o queixo.

 

- Penso que um homem... um guerreiro Homem Branco da tua idade... que conseguiu convencer os Ponta Negra a empreenderem esta viagem tão para sul é merecedor de um estudo profundo. Quero saber quem tu és e o que significa para o meu povo o teres-nos guiado para aqui. Ouvi com cuidado. A tribo está encurralada... e tu ofereces uma saída.

 

Ele olhou para trás, para norte.

 

- Nada deterá as tribos. o Povo do Sol está a deslocar-se como coiotes esfomeados. É melhor ir na frente do que ser apanhado a fazer a trouxa. A tribo do Homem Branco tentou ficar para trás a embalar a trouxa. - Apontou. - E ali estão eles. Vai lá abaixo, se quiseres. Os ossos falarão contigo.

 

- Não da maneira que te falam a ti. Ele concordou com um aceno de cabeça.

 

- Dizes que não penso muito acerca das pessoas, mas estás enganada. - A voz tornou-se-lhe rouca. - Penso nelas constantemente. Penso nos que deixaram os ossos lá em baixo. Penso na minha família Homem Branco. Também ela está morta... como os teus. Tu tens um avô. Eu tenho um tio... e, sim, ele ainda é meu tio.

 

A adopção pelos Ponta Negra não muda isso. Ele e eu temos um laço mais profundo que a consanguinidade.

 

Ela observou-o com os olhos grandes e negros enquanto ele prosseguia.

 

- Depois vi os Flauta Surda, vi o olhar assombrado nos seus olhos... e percebi-o demasiado bem. Já vi aquele olhar demasiadas vezes.

 

Faia Preta olhou pensativamente parà a depressão abrigada por debaixo da crista. A luz das estrelas dançava nos recôncavos.

 

- Agora compreendo-te melhor. Tens sido um homem de acção desde que apareceste entre nós. Preocupam-me os riscos que corres. Estás verdadeiramente preocupado com os Ponta Negra? Ou estás disposto a destruir-te, conduzindo-nos ao desastre? - Os olhos dela ardiam dentro dos dele. - Talvez desejasses fazer alguma coisa para vingar o ataque que os Ponta Negra fizeram ao acampamento do Homem Branco há anos. Talvez nos acuses de tudo. Muitas vezes, as pessoas têm razões para fazerem o que fazem.

 

- Tudo mudou. Não sei exactamente quando é que isso aconteceu. Talvez fosse no dia em que os Ponta Negra fizeram uma incursão contra o Homem Branco no Castor Gordo. Talvez fosse quando disse adeus a Cinza Branca. Talvez as tribos sejam a causa disto ou o Pássaro de Fogo ou o Sol. Mas o mundo inteiro tombou. Aquele fogo verde no céu era um sinal. As coisas não voltarão a ser o que foram antes.

 

- Não, não voltarão. Dizes que quando atravessarmos aquelas montanhas teremos de aprender uma nova forma de vida. Que é que isso significa para a tribo? Em que nos transformaremos? Quem seremos?

 

- Seja quem for, fazemo-nos a nós mesmos.

 

Fechou os olhos e vasculhou a alma à procura de Cinza Branca. A recordação dela levara-o a falar com grande veemência durante o conselho. Conseguiu admiti-lo? E agora? Procurou a presença dela na sua alma - e não encontrou nada.

 

Faia Preta fez um gesto de cabeça para o acampamento abaixo da crista.

 

- Ouvi os teus fantasmas, Pés de Vento. - Levantou-se para ficar de pé em frente dele. - E acredito que consegui resposta a muitas das minhas perguntas a teu respeito. Seguir-te-ei. Penso que serás um grande chefe.

 

Ele fez um gesto vago.

 

- Não quero ser um grande chefe, apenas quero evitar os erros do passado.

Ela colocou-lhe uma mão leve no ombro.

 

- Por isso é que te transformarás num grande chefe.

 

Por um longo momento, ele olhou-a nos olhos. Depois disse: Não vai ser fácil. Não sei o que nos espera para lá das montanhas Atravessadas. As tribos da Terra podem ter mais Poder do que esperamos.

 

- Muitos de nósjá começaram a preocupar-se com isso... e contigo. - Olhou por cima do ombro para o vale silencioso. - Várias pessoas vieram pedir a minha opinião a teu respeito. Agora sei o que lhes dizer.

 

É por isso que me tens observado?

 

Em parte. Também serve os meus propósitos. Os guerreiros que procuram mulher não são tão persistentes quando pensam que só tenho olhos para ti. Ainda não encontrei o homem certo. o meu marido... Bem, amei-o até o coração me doer.

 

- Não dizes o nome dele.

 

- Nem direi. É uma coisa para a minha alma. Apertou as mãos e pôs-se de joelhos.

 

- Ouvi dizer aos mercadores que entre outros povos é considerado uma coisa terrível falar no nome dos mortos. Pensam que traz má sorte, que trará o espírito de volta para os assombrar. Ou algumas vezes guardam o nome e dão-no a uma criança na qual se provou que a alma dele encarnou. Dizem que a alma do morto renasce numa nova vida.

 

- Acreditas no teu coração que voltarás a ver Cinza Branca? Respirou fundo.

 

- Esta tarde, quando acampámos, veio até mim o pensamento de que, se viesse até aqui, ficasse de pé onde estive com ela naquela noite, talvez soubesse. Aqui, antes de apareceres, estive com ela. Revivendo aquela noite. - Olhou para a Lua. - Agora, tudo o que sinto é... um vazio.

 

Ela levantou o queixo para o manto de estrelas cintilantes.

 

- Tivesse eu sabido disso e não te teria interrompido. Perdoa-me.

 

Ele encolheu os ombros e pôs-se de pé, olhando uma vez mais para o vale abrigado.

 

- Tudo bem. Para mim, pelo menos, os fantasmas podem descansar mais calmamente. Talvez esta noite seja um fim... e amanhã seja o nascimento de algo novo.

 

Água Mansa sentou-se pensativamente na manta com a Trouxa de Lobo na mão. Tinham acampado numa rocha saliente que mal dava para os abrigar a eles e à pequena fogueira. A chuva caía a cântaros dos céus sombrios e fazia fumo nas pedras. Os relâmpagos faiscavam, estalavam e ressoavam sobre a bacia do Vento a sul.

 

Cinza Branca observava-o com ar melancólico. o fogo estalou e ela esticou-se para trás, para o monte de lixo do rato-de-campo, a procura de outro cavaco para deitar nas brasas. A Trouxa de Lobo provocava-lhe estremecimentos na espinha. Conseguia sentir o Poder. Puxava por ela, aspirava-a. Ela ansiava esticar-se para lhe tocar - só que alguma precaução no fundo da alma a alertava contra isso. As sensações aumentavam quando fechava os olhos, pois o Poder pulsante da Trouxa brincava em torno dos seus sonhos, eternamente ali como pegadas na lama seca ao sol.

 

«Por que é que aquilo me atrai tanto? Que me põe tão nervosa e insegura quando Água Mansa põe aTrouxa de fora? Qual aintenção dela? Por que é que o Primeiro Homem me disse para a procurar? Agora, tomara eu que tivéssemos deixado Mão Esquerda levá-la consigo.»

 

Só ela via a preocupação de Água Mansa com o objecto sagrado do Povo do Lobo.

 

- Tens um ar triste nos olhos - disse-lhe ela.

 

Ele tentou sorrir, mas o sorriso morreu-lhe nos lábios.

 

- Estava a pensar em Mão Esquerda... e na dívida que tenho para com ele. Engraçado. Parte da minha alma ficou na feitura daquele colar. - Olhou para fora, para a chuva lúgubre, - Aquele colar era muito especial para mim. o Poder prega-nos partidas. Pensei que fosse um quebra-cabeças... sabes, como podiam os dentes de peixe transformar-se em pedra? E eu tinha aquilo em grande conta porque Mão Esquerda mo dera por amizade... embora soubesse que eu não lhe podia dar nada em troca naquela altura.

 

- Barriga Falsa, está calado, A culpa não é tua. A culpa...

 

- Não, não sou culpado. - Voltou para ela uns olhos tristes. o Poder fez o que fez, não fui eu. Não, é o colar que me aborrece. Quando uma pessoa acalenta alguma coisa e trabalha nela, uma parte da sua alma passa para essa coisa. - Deu um grunhido perplexo, fixando a atenção de novo na Trouxa de Lobo. - Quase acredito que tive de desistir dele para agarrar na Trouxa de Lobo... e em ti.

 

Água Mansa continuou a rodar a Trouxa de Lobo na mão.

 

- Talvez. Se for esse o preço do Poder, serás um homem de sorte.

- Ela olhou para as nuvens cinzentas. As nuvens amontoavam-se em torrentes de névoa que se filtravam por entre o pinheiro flexível e o junípero. Pequenas bolas de granizo batiam nas pedras escurecidas pela chuva para lá do limite do abrigo. Arrepiou-se e expeliu o ar que se condensou e desvaneceu no ar frio e húmido.

 

- Vou manter a promessa a Mão Esquerda - disse-lhe Água Mansa. - Não sei como, mas concluirei o negócio. Retribuir-lhe-ei o favor.

 

Os cheiros da chuva e da terra ensopada pairavam opulentos e almiscarados nas narinas dela. Os seus dedos ainda conservavam o odor do infeliz coelho que tinham apanhado. A sua boa sorte permitira-lhes caçá-lo. A má sorte do coelho fora uma pata partida do antecedente.

 

«Tenho de fazer alguma coisa ou ficarei louca,» Cinza Branca puxou ainda outro graveto do ninho do rato-de-campo e perguntou:

- Em que estás a pensar?

 

- Enquanto forvivo, nunca esquecerei o olhar de Mão Esquerda quando abalou. Partiu-lhe o coração deixar esta terra. - água Mansa esticou-se para a trouxa e guardou cuidadosamente a Trouxa de Lobo.

 

Cinza Branca suspirou quando as gavinhas do amplexo da Trouxa se lhe soltaram da alma. Água Mansa reclinou-se para trás e esfregou os dedos uns nos outros, como se uma presença se demorasse neles.

 

Olhou para o granizo que caía. o abrigo arrefecera mais.

 

- o mundo está louco, água Mansa? Todo ele vai morder e emaranhar-se como uma doninha fedorenta com a doença da boca espumante? Também nos vai morder e pôr da mesma maneira?

 

Ele chegou-se mais para junto do fogo.

 

- Não sei. Já não sei que pensar. Em tempos, disse-te que o mundo estava cheio de quebra-cabeças. Agora receio as respostas.

- Não dormiste bem a noite passada.

 

Ele abanou a cabeça.

 

- Pensei imenso sobre aquele colar. Quando finalmente adormeci, tive outra daquelas visões. Eu era um antílope... livre, a minha alma cantava enquanto corria. Depois os homens vieram e empurraram-me para uma armadilha. Ataram-me com cordas e levaram-me para longe, para leste... sobre planícies onduladas e através de incontáveis linhas de água... para um grande rio. Puseram-me a mim e a muitos outros animais numa coisa de madeira que flutuava na água. Flutuámos durante vários dias através de uma terra cheia de árvores e o ar cheirava a lama e podridão. A comida que traziam não era boa. A minha alma sentiu-se mal e enegreceu por dentro. Chegámos finalmente a um acampamento enorme com muros de madeira e gigantescas cabanas de madeira mais altas que árvores, Ali, levaram-me da coisa que flutuava para as ruas apinhadas de gente, - Fez uma pausa, olhando fixamente para o vazio. - Tanta gente.

 

- E depois?

 

- Puseram-me num pequeno lugar quadrado onde não podia correr. o povo vinha olhar para mim, constantemente... e a minha alma mirrou. Finalmente, os meus pulmões encheram-se de ar húmido e morri naquele lugar horrível. Nunca mais corri livre com o vento.

 

Cinza Branca fechou os olhos com força, tentando apagar completamente a imagem. o antílope vive para correr pelas planícies. Puxou os joelhos para o peito.

 

- E Homem Valente fará que esse sonho se transforme em realidade?

 

Água Mansa olhou-a de esguelha.

 

- Foi isso que a Trouxa de Lobo me disse que acontecerá se não sonharmos um novo caminho. Outros sonhadores terão de manter a espiral em equilíbrio quando desaparecermos, mas primeiro temos de a corrigir.

 

Esticou-se para apanhar outros gravetos para pôr no fogo e encolheu-se quando um espinho de cacto lhe picou um dedo.

 

- Ratos-de-campo... têm sempre de juntar cactos nos ninhos.

- Os coiotes também não gostam de cactos - observou ele e estremeceu ligeiramente. - É por isso que os ratos-de-campo põem cactos nos ninhos em primeiro lugar.

 

o trovão ribombou e reboou através da terra. Cinza Branca disse:

 

- Parece que isto não vai parar tão depressa.

 

o granizo lançara um manto branco sobre o chão,

 

- Penso que os Pedra Partida não irão dar-nos caça.

 

- Talvez seja boa ideia. Estou cansada, Água Mansa. Tudo o que temos feito é fugir e preocupar-nos e fugir ainda mais, Esticou-se e desfez os laços que seguravam a única manta que tinham entre si.

 

- Vamos dormir. Quando a tempestade passar, podemos fugir outra vez.

 

Ela deitou mais lenha seca na fogueira para aumentar asbrasas. Nem os Pedra Partida veriam o fumo com um tempo como este. Enroscou-se à volta dele enquanto Confusão se veio deitar sobre uma anca e enfiar o nariz na cintura. Deu-lhe uma palmada amigável e ouviu um grunhido de satisfação canina pelos seus esforços.

 

o trovão rugiu à distância e, enquanto o granizo abrandava, a chuva batia em seu lugar. Os pingos batiam no chão de modo uniforme.

 

- Água Mansa?

 

- Hum?

 

- Por que vieste à minha procura? Levantou um ombro desajeitadamente.

- Tinha de ser.

 

Ela abraçou-se mais a ele.

 

- Água Mansa, eu... Aconteça o que acontecer, amar-te-ei sempre. Com todo o meu coração.

 

Ele virou-se, procurando-lhe os olhos.

 

- Cinza Branca, a minha alma canta quando estás por perto. o relâmpago faiscou um branco quente no céu, seguido imediatamente por um tremendo estampido que rasgou o mundo.

 

- Este caiu perto - sussurrou ela. - Talvez o Poder o guie e apanhe Homem Valente.

 

- Basta-nos ter esperança. - Pestanejou pensativamente. Sabes?, não percebo isto. Eu atingi-o realmente nojoelho com força, mas não na cabeça. Aquele segundo golpe apenas resvalou.

 

- Atingiste-o onde o Ponta Negra o atingiu. Ele tem uma terrível cicatriz no escalpe. o cabelo tapa-a a maior parte das vezes. Ele diz que o golpe o matou e o enviou para o Acampamento dos Mortos. Segundo ele, fugiu e regressou à vida.

 

- Tomara eu que o tivesse enviado para lá para sempre. Sinto-me feliz por te ter encontrado a tempo. Que te estava ele a dizer? Respirou fundo e resmungou:

 

- Ele pensa que, possuindo-me, ganhará o meu Poder e tornar-se-á mais poderoso. - Estremeceu de repulsa, recordando como estivera deitada amarrada e desnudada para ele. - Chegaste a tempo.

 

- Foi por minha culpa que foste apanhada - disse-lhe ele. Não devia ter ido à procura de Confusão.

 

- E eu não devia ter feito que nos atrasássemos. Era o meu medo pessoal, Água Mansa. Desculpa-me.

 

Ele levantou o braço e deslizou os dedos suavemente pelas faces dela.

 

Ela puxou-o para mais perto dela, respirando profundamente para se encher com o cheiro dele.

 

- Tenho sido louca. Assustada com o que não devia.

 

- Tu és valente. Mais valente que qualquer um que eu conheça. Ele sorriu-lhe calorosamente e ela recordou-se do buraco que se abrira na sua alma quando pensou que ele podia morrer às mãos dos Pedra Partida. Agora estava deitada nos braços dele - em segurança, mesmo que só por um momento. Quanto tempo tinham? Quanto tempo até este mundo violento os apanhar para os morder com dentes demoníacos e espumantes? Olhou desejosamente para Água Mansa.

 

Uma imagem de Três Touros tremeluziu-lhe nas profundezas da alma.

 

«Vais continuar a deixar que Três Touros te dê cabo da vida? Ou vais derrotá-lo... provar que podes dominá-lo a ele e ao que ele te fez?»

 

o pegajoso frio do medo gelou-lhe as entranhas enquanto revivia os momentos em que Homem Valente a cobria com o corpo musculoso.

 

Mastigou o lábio e abraçou-se ainda mais a água Mansa. o coração começou a saltar-lhe quando se sentou e despiu a camisa, parando um momento para admirar a costura que fizera para remendar o cabedal rasgado,

 

- Que estás a fazer? Vamos gelar - protestou.

 

Ela sorriu-lhe, a alegria misturada com a ansiedade no seu coração. Pôs-se de pé e despiu as calças com os movimentos acelerados pelo frio do ar.

 

- Levanta-te - disse-lhe ela.

 

- Perdeste completamente o bom senso que sempre...

- Levanta-te. Depressa. Antes que me falte a coragem.

 

Ele lançou-lhe um olhar zombeteiro e levantou-se, deixando-a despi-lo. Confusão olhava-os com curiosidade, batendo com a cauda no chão.

 

Cinza Branca empurrou Água Mansa para o chão e aconchegou a manta.

 

- Estarias mais quente se... Que estás a fazer?

 

- Amando-te. Ela observou um compreensivo amanhecer nos olhos dele.

 

- Tens a certeza? E se... se...? Ela sentiu-o a responder ao toque.

 

- Tenho a certeza, água Mansa. Quase te perdi uma vez. Vejo-te a preocupação nos olhos. Vou desfazer-me da recordação de Três Touros. Enterrá-la em algo maravilhoso.

 

Ele fechou os olhos.

 

- E se eu não conseguir?

 

Ela rebolou de costas, puxando-o com ela.

 

- Então tentaremos de novo. As pessoas estão sempre a fazê-lo. Não pode ser assim tão difícil.

 

A chuva caía em cortinas prateadas para lá do abrigo. A respiração regular de Água Mansa dizia-lhe que ele estava a dormir. Um frágil contentamento enchia-a. Por que não podiam permanecer assim para sempre - amando-se um ao outro, partilhando as almas? Tinham mesmo de ir de novo para o mundo? Tinham mesmo de enfrentar a terrível tempestade que rugia tão violentamente em seu redor? Uma tempestade de Poder e de povos mais ameaçadora que qualquer temporal.

 

Vestígios permanentes do único deslizavam pela orla da sua alma. Mesmo de olhos fechados, sentia o fantasma dessa névoa cinzenta e a promessa da neblina dourada para além dela.

 

A presença oculta da Trouxa de Lobo puxou-a.

 

Um raio de luz penetrou a suave cortina de chuva e as cores brilhantes do arco-íris resplandeceram no céu.

 

Deslizou os dedos pelas costas de Água Mansa, fazendo-o agitar-se. o terrível desejo dele lutava com o desejo pelo único. Ele mudou de posição, expirando alegremente.

 

- Acorda - sussurrou-lhe ao ouvido.

- Que é? Que se passa?

 

- Nada - gracejou e deu-lhe uma dentada na orelha. - Quero-te outra vez. Só isso.

 

Se bem que apenas ela conseguia acreditar que o tinha para sempre.

 

Os abrigos tinham sido construídos com postes e cobertos com um entrançado de artemísia; confundiam-se com a espessa faixa de choupos cobertos de folhas verdes na larga várzea do rio do Espírito. Atrás da reunião, erguiam-se as colinas irregulares de xisto limoso azul e branco com os brejos de artemísia mais adiante. Espirais de fumo azul erguiam-se da fogueira para se desvanecerem no céu sem fim. Para oeste, as montanhas erguiam-se em lajes cinzentas espalmadas que davam lugar ao verde-frio das encostas florestadas e, finalmente, ao granito sarapintado de neve dos picos mais altos que se projectavam arrogantemente em direcção ao céu.

 

Garra de Cotovia suspirava ao descer a espinha da última crista. Como era hábito, chefiava a sua tribo, enquanto Pinheiro Flexível, Semente de Flox e Mulher Bonita lhe seguiam os passos. Atrás delas vinham as famílias.

 

Três dias de chuva tinham atrasado a progressão e ela amaldiçoara o temporal que os deixara, a ela e aos outros, molhados e gelados até aos ossos. Amaldiçoara duplamente a lama viscosa que se lhe colava aos pés e lhe aumentava o suplício dos passos cansados. Tinham chegado atrasados por causa dela. Os Pedra Redonda não podiam andar mais depressa do que as velhas pernas de Garra de Cotovia lhe permitiam,

 

Juntamente com o alívio deprimido de terem chegado finalmente, veio a certeza de que esta devia ser mesmo a última reunião a que ela assistiria.

 

-Vês, não perdeste a reunião. As tuas preocupações não se justificavam - disse-lhe Pinheiro Flexível, fazendo um gesto para o vale calmo.

 

- É o primeiro dia - resmungou Garra de Cotovia. - o conselho já está formado e o povo está a dar aos queixos por causa de disputas de fronteiras e de quem fez o quê a quem.

 

Pinheiro Flexível soltou um riso abafado.

 

- E tu perdeste as primeiras rondas de mexericos.

 

- Compensa saber os mexericos, rapariga. Nunca te esqueças disso. Sabe-se o que está para acontecer e podemos antecipar-nos se tiver de ser. Como pensas tu que mantive Pedra Redonda todos estes anos na alta estima de todos?

 

As crianças, rodeadas de cães latindo de excitação, corriam para lhes dar as boas-vindas, contando novidades, ansiosas por verem quem eram os recém-chegados.

 

Garra de Cotovia esforçava-se por andar mais depressa, odiando os inchaços nos tornozelos e nos joelhos. As ancas ardiam-lhe e os músculos tremiam-lhe, mas atravessou o espaço aberto até à sombra das árvores. Por que é que o Sol tinha sempre de queimar tão amaldiçoadamente depois da chuva?

 

o rio do Espírito corria quase a transbordar e com turbulência, águas lamacentas que emitiam um ruído sibilante como se pedissem silêncio. As cabanas tinham sido colocadas a esmo entre as árvores e volutas de fumo erguiam-se na brisa do meio-dia. Um cordão de povo estava sentado à sombra dos choupos.

 

Garra de Cotovia abrandou o passo, parando na orla dos espectadores. Ninguém dera pela sua chegada; o orador no extremo mais afastado prendia a atenção de todos.

 

- A bruxaria está a dividir-nos! - Coruja Feliz de Três Confluências invectivava o céu da manhã com o punho fechado. Pagámos o preço. Sabem as acusações que fizemos no passado. Agora o bruxo reclamou o bebé de Cesto e Fogo Verde!

 

Murmúrios inquietos ergueram-se do povo.

 

- E quem é o bruxo? -perguntou Anel de Osso irascivelmente. A chefe da tribo Água Estagnada sentava--se de pernas cruzadas à sombra, numa manta fina de pele de carneiro, o cabelo grisalho apartado em duas grossas tranças. Olhou para Coruja Feliz com modos adversos antes de acrescentar: - Esta conversa sobre bruxaria não tem sentido. Enquanto todas vocês estão aqui sentadas a grasnar e a lutar como emproadas galinhas-bravas, o coiote espreita na artemísia.

 

- o Povo do Sol não me assusta tanto, nem de perto nem de longe, como um bruxo! - Coruja Feliz cruzou os braços. - Quem é o Povo do Sol? Andrajosos caçadores de búfalos do norte, ora aí está! Podemos preocupar-nos com eles o tempo todo que quisermos, que, entretanto, os bruxos caminharão por entre nós e farão o seu trabalho demoníaco. Se pudesse escolher os problemas, escolheria o Povo do Sol em qualquer altura. Se aparecerem nos nossos territórios, enviaremos os nossos guerreiros para os repelir. Que é que caçadores de búfalos tresmalhados poderão contra os nossos homens? Um bruxo insinua-se por aí e faz o seu trabalho maligno por debaixo das carnes... como um verme nas entranhas... até estarmos fracos e a morrer.

 

- o Povo do Lobo varreu um acampamento dos teus «andrajosos caçadores de búfalos, exactamente do outro lado das montanhas do meu acampamento - acrescentou Anel de Osso. - Não tenho visto bruxarias... mas tenho ouvido o Povo do Lobo falar.

 

- Deixa que eles se preocupem! Eles não vão desistir da bacia do Veado Cinzento a favor do Povo do Sol! Deixa os seus guerreiros manterem o Povo do Sol lá no norte - respondeu Coruja Feliz erguendo as mãos enquanto observava os rostos à sua volta. - Não podemos estar preocupados com o que está a acontecer no norte, Isso é muito longe daqui. Temos de nos preocupar com o momento presente! Com o maligno que caminha no meio de nós.

 

- Muito bem - disse Anel de Osso. - Diz-nos quem é. Dá nome a esse bruxo. Ouvimos as tuas histórias sobre figuras sombrias na artemísia. Portanto, viram rastos na neve? E quanto a isto? A neve deixa bons rastos. Não me importa o que Fogo Verde gritou quando morreu. As pessoas vêem coisas quando morrem que podem estar lá ou não. Diz-me quem são esses bruxos.

 

Coruja Feliz respirou fundo e respondeu:

 

- Nós pensamos que Mão Negra se virou para o maligno. Pensamos que é ele o bruxo.

 

o murmúrio dos ouvintes cresceu. Garra de Cotovia abriu caminho a poder de cotovelada. Avançou para o espaço aberto e empertigou a cabeça, fixando Coruja Feliz.

 

- Uma acusação interessante. Mencionaste Mão Negra? Pensas que ele é bruxo?

 

Os olhos de Coruja Feliz semicerraram-se.

 

- Devias saber. Quem estava presente quando Fogo Ardente morreu? Pensa! Olha para o passado! Quantos morreram depois de Mão Negra ter cantado por eles? Conta-os. - Mantinha as mãos levantadas, apontando para as pontas dos dedos enquanto mencionava os nomes.

 

o povo agitava-se nervosamente, concordando com acenos de cabeça.

 

Garra de Cotovia riu alto.

 

- Pensava melhor de Três Confluências. Lamentei o dia em que ouvi dizer que Fogo Verde morrera. Ela não te ensinou a sensatez, rapariga?

 

Um silêncio pesado abateu-se sobre o conselho.

 

- Que pretendes, Garra de Cotovia? Qual é o teu interesse nisto? Estás a tentar protegê-lo? Mesmo depois de todos estes anos? o teu coração cega a tua alma? Onde está ele? Onde tem estado? Por que não está ele aqui para enfrentar o povo? Um bruxo esconde-se, desloca-se furtivamente durante a noite e faz as suas ruindades. Tens visto Mão Negra desde a morte de Fogo Ardente.,.?

 

- oh, tenho-o visto.

 

- Então és a única! Ninguém mais sabe dele.

 

o sibilar das vozes sussurrantes fez-se ouvir ainda mais alto. Garra de Cotovia empertigou a cabeça.

 

- Diz-me, chefe de Três Confluências, que é que um bruxo mais deseja? Qual é a única coisa da qual um bruxo nunca desistirá?

- o Poder dos espíritos malignos que ele controla. Não queiras brincar comigo.

 

Garra de Cotovia concordou com um gesto de cabeça, a sensação estonteante da vitória a correr-lhe nas veias.

 

- Também tu não queiras brincar comigo, Um bruxo precisa de obter o Poder, tem de procurar usá-lo. o desejo torna-se avassalador. Todos os momentos da sua vida são empregues a sonhar os caminhos dos espíritos que o ajudam nas suas práticas malignas. o desejo alimenta-se de si mesmo, cresce como um fungo até lhe encher a alma. Não consegue pensar em mais nada excepto em usar o seu corrompido Poder de espírito. É assim que um bruxo é!

 

- É a sua maneira de ser - concordou Coruja Feliz dando um esticão ao queixo num gesto de desafio.

 

- óptimo - disse Garra de Cotovia sensatamente. - Então deixa o nome do meu genro fora de bruxarias.

 

o sussurro recomeçou. Garra de Cotovia ficou inchada de orgulho. «Olhem para os rostos confundidos! É o melhor entretenimento que tiveram nas últimas dez dezenas de estações!»

 

- Genro? - Coruja Feliz olhou em volta, sentindo o chão fugir-lhe debaixo dos pés mas não segura quanto à razão.

 

Garra de Cotovia virou-se e chamou:

 

- Erva Amarga! Mão Negra! Venham cá. - Quando os dois

avançaram através do anel de povo, todos os olhos se concentraram neles. Mão Negra lançou à chefe dos Três Confluências um olhar de desdém.

 

Garra de Cotovia levantou um braço trémulo para a multidão.

- Reconheceram que ninguém vira Mão Negra? Um homem que anda a fazer a corte não gasta tempo em actividades sociais com outros. Ele apaixonou-se por Erva Amarga. Um bruxo, dizem? Garra de Cotovia riu por entre dentes. - Talvez seja. Tem estado a fazer muita coisa que eu não sei entre as mantas da mulher.

 

-Avó! - As feições morenas de Erva Amarga brilharam com o rubor súbito.

 

Um riso abafado borbulhou entre a multidão.

 

- Que bruxo desiste do seu Poder maligno por uma mulher? Hum? Responde-me, chefe de Três Confluências.

 

Coruja Feliz olhou-a com um olhar irritado e feroz; os músculos do rosto entumescidos ao cerrar os dentes. Ambas as mãos estavam cerradas e as veias salientes.

 

- Conheço os teus truques, Garra de Cotovia. Isto ainda não acabou.

 

Dito isto, a chefe de Três Confluências rodou nos calcanhares, acenando furiosamente à sua tribo. Morugem e Baga de Sorveira levantaram-se e seguiram-na. Cesta hesitou por um momento, um ar negro e estranho desfigurando-lhe o rosto, antes de também ela se afastar com grandes passadas.

 

Garra de Cotovia resfolegou e juntou as mãos.

 

- Que se passa com elas? - Olhou em redor, adoptando uma expressão confusa. - Disse alguma inconveniência?

 

Uma gargalhada roufenha elevou-se do povo.

 

- Talvez estejam num dia não - acrescentou Anel de Osso. Agora talvez possamos voltar ao Povo do Sol. Minhas amigas, é melhor acordarmos antes de nos transformarmos em carpideiras de guerreiros com medo de irmos para a cama à noite. Quero saber o que vamos fazer.

 

Garra de Cotovia abanou a cabeça.

 

- Isto vai ser uma reunião em que poderei dormir. Povo do Sol? Para vos mostrar que não guardo nenhum rancor a Três Confluências por causa da sua... digamos, imaginação, concordo com Coruja Feliz quanto ao Povo do Sol. Mas não quero que a minha boa amiga Anel de Osso pense que desprezo as suas preocupações. Ponho isto à vossa consideração: Quando o primeiro do Povo do Sol aparecer, enviaremos estafetas a todos os acampamentos. Reunimos todos os nossos caçadores e perseguimo-los. Anel de Osso, o teu Dedo do Pé Pequeno é um corredor rápido. Estrela Amarela tem um par de bons homens em Vento Quente. Todos podemos ser alertados a tempo. Os primeiros grupos pequenos que cruzarem as montanhas Atravessadas podem ser seguidos e destruídos. Deixaremos que um ou dois deles fujam para lá das montanhas para avisar os outros.

 

Anel de Osso estudou o conselho.

 

- Concordam com isto? Juram-no aqui pela nossa honra? o primeiro acampamento que descobrir o Povo do Sol ou sinal dele avisa os outros? Todos enviarão caçadores para os expulsar?

 

- Jurarei - disse Garra de Cotovia. - Os acampamentos de Água Estagnada e de Vento Quente podem contar com Pedra Redonda. - Riu de esguelha. - Se chegarmos a ver alguém do Povo do Sol, é isso.

 

Um a um, os outros chefes de tribo deram a sua concordância e fizeram as suas promessas.

 

Anel de Osso acenou com a cabeça a sua satisfação.

 

- Não virão tão cedo. Podem mesmo não vir tão longe. Mas... e no próximo ano? E no ano depois desse? Quem pode garantir? Garra de Cotovia avançou para o sítio que Coruja Feliz abandonara e sentou-se.

 

- Para além de bruxos que não eram e do distante Povo do Sol, de que falaram?

 

Naquela noite, quando o conselho se dispersou, Mão Negra acomodou-se junto de Garra de Cotovia.

 

- Obrigado. Manobraste muito bem.

 

Ela resmungou e deu-lhe uma palmada na perna.

 

- Ainda será falado logo que tenham tido tempo de pensar nisso. Aquele fogo verde no céu vai ser mencionado de novo.

 

- Coruja Feliz foi doida como uma doninha fedorenta com raiva. Garra de Cotovia fez um gesto de enfado com a mão.

 

-Não havia nenhuma outra maneira se não esfregar-lhe a cara naquilo. Ela nunca foi muito esperta. Uma chefe mais inteligente teria virado toda aquela gente contra mim... e ela tê-lo-ia feito se eu lhe tivesse dado uma oportunidade. Entretanto, tu e Erva Amarga faziam melhor se circulassem pelos outros acampamentos.

Riam, conversem, contem piadas e sejam compinchas. É difícil uma pessoa acreditar que o companheiro que conta histórias obscenas à sua fogueira seja realmente bruxo.

 

- Eu sei - murmurou Mão Negra. - Coruja Feliz perdeu aqui hoje muito respeito. Não esquecerá isso enquanto for viva. Se bem avalio a coisa, ela está pronta para assassinar.

 

- Acredito - concordou Garra de Cotovia. - Mas, pelo menos, não será a ti.

 

- E que pensas a propósito do Povo do Sol?

 

Garra de Cotovía piscou os olhos para aliviar os olhos quentes e inflamados.

 

- o Povo do Sol? Aqui? Ainda está para nascer o dia. E se vierem? Olha para a dimensão da reunião. Pensas seriamente que um bando de guerreiros esfomeados consegue prevalecer contra o poder reunido do Povo da Terra?

 

Mão Negra abanou a cabeça.

 

- Não. E nós também conhecemos o território melhor do que eles.

 

Garra de Cotovia mascou as gengivas.

- Exactamente. E eles sabem isso.

 

Água Mansa fez uma paragem onde o trilho descia através do esporão para o abrigo de Pedras Cantantes. A bacia do Vento estendia-se à frente deles - um panorama de fazer parar o coração. Cinza Branca suspirou ao olhar sobre a vasta bacia. Água Mansa arrastou o pé nervosamente no cascalho.

 

- Estamos de volta.

 

- Podíamos continuar a andar - respondeu Cinza Branca entorpecida. - Podíamos seguir o trilho que desce para a bacia e atravessá-la. E procurar um lugar para lá da Barreira Cinzenta, para lá da bacia da Terra Vermelha. Talvez algum lugar perto de Areia Dourada... ou mesmo a sul desse lugar.

 

- Podíamos. Entalou os lábios entre os dentes gastos. - Podíamos fazer uma cabana, estudar as plantas... e montar armadilhas para os coelhos e para os veados. Podíamos procurar um lugar para passarmos o Inverno que estivesse exposto ao Sul e depois deslocar-nos para as árvores durante o Verão. Há pinheiro flexível lá em baixo, Os pinhões caem como chuva.

 

- E fazem contas maravilhosas. o inhame e a armola de quatro folhas crescem lá em baixo. Ouvi os mercadores falarem de uma terra de arcos de arenito sobre os rios e onde o amaranto cresce tão cerrado que se tem de despejar as sementes dos mocassins depois de se andar por entre ele.

 

- Os Invernos lá são suaves. Mão Esquerda disse-me. A raiz de biscoito cresce nas encostas e o lírio sego e o mariposa cobrem o chão.

 

- Os patos aparecem para passar o Inverno nos lagos. Podíamos apanhá-los às dezenas - disse, sonhadoramente, Cinza Branca. Conseguiria viver muito tempo só com patos. Conheço uma maneira de os assar, de os cozinhar no seu próprio molho, que faz que a carne se separe dos ossos.

 

- E podíamos pescar nos rios, fazer redes e lançá-las nas águas profundas. o peixe deve ser grande no sul.

 

- Devia ser um lugar bom para criar os filhos sem preocupações de uma guerra os matar. Gostarias disso? Gostarias de ver os nossos filhos crescerem e sorrirem ao sol?

 

Ele acenou com a cabeça afirmativamente, com o coração lacerado.

 

- Um filho... e uma filha a quem ensinar todo o tipo de coisas. Poderíamos mostrar-lhes como a aranha constrói a teia e o que os pássaros fazem quando constroem o ninho.

 

Ela engoliu em seco com esforço e apertou-lhe a mão.

 

- Poderíamos estar juntos, tu e eu. Poderíamos estar nos braços um do outro à noite, por debaixo das mantas, e amar-nos um ao outro. Poderíamos fazer isso, Água Mansa. Poderíamos viver juntos para sempre se apenas continuássemos a andar.

 

- Seríamos felizes, tu e eu. Já vimos tanto, já fomos tão desgraçados. Há um futuro lá em baixo, para lá do horizonte meridional... uma coisa pela qual vale a pena ter esperança, uma coisa para construir.

 

A mão dela apertou a dele,

 

- Netos. Pensa nisso. Depois de os nossos filhos arranjarem parceiros, teríamos tempo para nós. Os filhos poderiam fazer o trabalho e tu e eu poderíamos sentar-nos ao sol a contar histórias um ao outro. Poderíamos olhar-nos nos olhos e rir enquanto o mundo endoidecesse por aqui.

 

- Poderíamos - sussurrou ele e fechou os olhos, vendo-o no espírito: a luz do Sol a brilhar dourada numa cabana de terra barrada

 

Planta da família do lírio, Calochortus nuttallii, originária do Oeste da América do Norte, de flores campanuladas brancas por dentro e verdes por fora. Sego é termo da língua paiute e quer dizer bolbo. (N. do T.)

 

Planta do género Calochortus do Oeste da América do Norte de flores berrantemente sarapintadas, também chamada tulipa-mariposa. (N. do T.)

 

de lama. o fumo a elevar-se numa voluta azul do buraco do fumo. Um secador vergado ao peso do quenopódio e do inhame. Via Cinza Branca rindo de satisfação, piscando os olhos ao sol brilhante. Ela estendia para ele os braços morenos e firmes e abraçava-o com força. Ao fundo, os guinchos alegres dos filhos rasgam o ar aprazível. Ele olhava-a ternamente nos olhos amorosos, e a visão tremeluziu, desviando-se para os lados até que apenas restou o indistinto prateado das lágrimas.

 

- É pedir muito? - perguntou-se Cinza Branca.

 

Quando ele olhou para ela, ela tinha os olhos fechados, vivendo o que dizia. A alma dele fundiu-se.

 

- Podíamos deixar a Trouxa de Lobo com Pedras Cantantes. Ele podia tomar conta dela.

 

- Podíamos, - Ela deu uma ênfase abafada às palavras. Mas outros pensamentos se amontoaram sobre os pensamentos felizes de água Mansa: o adeus final de Mão Esquerda; os corpos dos mortos no exterior do último acampamento do Povo do Lobo - corpos que gorgolejavam na noite. Asrecordações- o conhecimento do que tinham deixado para trás - permaneceriam para o assombrarem a ele e a Cinza Branca.

 

A trouxa que trazia ao ombro ficou mais pesada, com se a Trouxa de Lobo tivesse começado a pesar mais. As visões do futuro - do que Homem Valente sonharia - rodopiavam-lhe na cabeça: as minas malcheirosas, as florestas destruídas, as montanhas desgastadas. o povo a trabalhar como formigas. o sonho de Homem Valente. água Mansa agarrou-se ao estômago.

 

Estavam parados em silêncio, a olhar para sul. o desejo de paz cresceu até doer na alma dele.

 

Ela soltou-lhe a mão e tapou a cara, os ombros descaídos. Ele envolveu-a com o braço e apertou-a contra si.

 

- Que belo sonho, Água Mansa. Tão... belo.

- Eu sei.

 

Olhou uma última vez para o sul e a alma chorou-lhe pelo que nunca seria.

 

-Talvez opossamos sonharparamais alguém. Encaminhou-se para o trilho que seguia para o abrigo de Pedras Cantantes... e para o que quer que fosse que esperava lá por eles.

 

Pés de Vento caminhava à frente quando cruzaram a linha de divisão de águas na passagem das montanhas Atravessadas. Parou e olhou sobre a bacia que se espraiava para sul. Faia Preta veio até junto dele. Ergueu uma mão para proteger os olhos do brilho ofuscante do Verão.

 

A bacia do Vento estava à frente deles, terra caracterizada por colinas sarapintadas de cinzento e castanho, debruada de montanhas a oeste, enquanto à distância uma crista cinzenta e branca a bordeja a sul. Mais montanhas se erguem no leste distante, negras corcovas contra o longínquo horizonte.

 

A longa procissão do Ponta Negra parou, olhando quando a tribo alcançou a linha de cumeada.. A um lado e outro da passagem, erguiam-se picos escarpados em afloramentos de granito vermelho opalescente, estalado e fendido. A neve ainda aderia às bolsas protegidas.

 

Gordura Quente ofegava depois da longa subida, ao tomar lugar junto de Pés de Vento. Espírito Sábio veio a seguir. Homem Só e Lua Negra juntaram-se-lhes.

 

- A bacia do Vento... a terra do Povo da Terra - disse-lhes Espírito Sábio. - Os seus territórios estendem-se muito mais para lá do que conseguem abranger com a vista. Para lá daquela elevação suave, fica uma planície larga e coberta de erva onde os búfalos pastam ao longo do rio do Alce. Para lá dela, nem mesmo eu fui. Apenas os mercadores. Do outro lado daquela crista alta e cinzenta e para sul, fica uma terra da qual apenas as lendas falam. Supostamente, é uma bacia alta cheia de terra vermelha e com boas pedras para fazer ferramentas. A sul dela, dizem os mercadores, fica um território de margens elevadas onde se podem encontrar ossos feitos de pedra a saírem do solo,

 

Espírito Sábio apontou para sudoeste.

 

- Aquelas são as chamadas montanhas do Monstro. No outro lado fica o rio do Galo Silvestre. Corre tanto para o sul que apenas as lendas dizem aonde conduz. Ouvi dizer que corre por entre lugares onde o arenito se ergue quase até ao céu e depois entra num desfiladeiro tão profundo que entra pela terra dentro.

 

Apontou mais para longe, em direcção ao oeste.

 

- Por ali, a muitos dias de caminho para lá do rio do Galo Silvestre, fica um enorme território de artemísia e quenopódio. Lá existe um lago cheio de água tão salgada que não se pode beber. o povo que lá vive escava o sal do chão.

 

- E para leste? - perguntou Gordura Quente. Espírito Sábio fez um gesto.

 

- Para lá há planícies como as que se estendem a leste da confluência do rio do Castor Gordo com o rio Perigoso. Vivem lá muitos búfalos...

 

O Grande Lago Salgado, no actual Estado do Utá. (N. do T.)

 

mas a água não abunda. Os mercadores dizem que um homem pode andar durante dias sem ver mais nada que não seja erva e dizem que as únicas árvores que lá crescem são os choupos que seguem o leito do rio. Entre esses rios, um homem pode andar sem parar.

 

- E mesmo para o sul? - perguntou Pés de Vento.

 

- As montanhas Altas - disse-lhe Espírito Sábio. - Montanhas tão altas que tocam o céu. Um mercador disse-me que nenhum homem trepou essas montanhas; se o fizesse, seria comido pelos espíritos furiosos que lá vivem.

 

Homem Só soltou um riso abafado.

 

- Nunca encontrei nada no alto das montanhas excepto uma bela vista e muita neve. Mas deixemos os espíritos guardarem essas altas montanhas. o que me preocupa é o que está cá por debaixo.

- E quanto a caça? - perguntou Lua Negra.

 

- Esta bacia tem búfalos e antílopes e veados. o suficiente para nos alimentar, e mais que fossem. o mesmo se passa, segundo me disseram, com a bacia da Terra Vermelha, para além da Barreira Cinzenta... e também no vale do Galo Silvestre.

 

- E essas plantas que o povo come? - perguntou Faia Preta. Crescem por toda a parte?

 

Espírito Sábio riu e levantou os braços musculosos como se aqui sesse abraçar a terra à sua frente.

 

- Mais do que o Povo da Terra consegue usar. Eles apanham apenas o que precisam. o resto deixam para os espíritos que guardam os lugares.

 

- Espíritos - resmungou Homem Só. - Veremos quem é mais forte. Os espíritos que guardam os lugares... ou o Pássaro de Fogo que voa sobre a terra inteira, Aposto os meus dardos no Pássaro de Fogo.

 

- Aquilo que vês além é o rio do Veado Cinzento. - Espírito Sábio apontou para uma espessa faixa de verde mais escuro. - o Povo da Terra chama-lhe o rio do Espírito deste lado das montanhas Atravessadas. Por cima do Acampamento do Povo da Terra... onde roubei Cinza Branca... supõe-se que corre para dentro de uma montanha e sai da rocha a um nível inferior. o Povo da Terra pensa que há Poder nisso. Eles vão lá acima e lançam oferendas no buraco para que as águas possam levá-las aos espíritos da montanha. Pensam que, se os espíritos estiverem felizes, abençoarão as águas e deixá-las-ão continuar a correr para o outro lado.

 

- Então vamos ver essa terra.

 

Lua Negra olhou para trás e deu o sinal para continuarem a andar. Os Ponta Negra agruparam-se na passagem, de olhos arregalados e penetrantes, conversando animadamente.

 

Pés de Vento avançou, chocalhando os dardos, com uma curiosa excitação misturada com ansiedade. Se Cinza Branca tivesse ido para algum lugar, estaria lá em baixo, algures nessa tremenda bacia.

 

Faia Preta caminhava a seu lado e era uma presença que o confortava. A caminho do topo das montanhas Atravessadas, tinham gasto um grande bocado de tempo a conversar. Agora ele olhava-a de soslaio pelo canto do olho, observando a maneira como ela andava, como o cabedal do vestido lhe desenhava a elegância das ancas e as coxas musculosas.

 

Por que é que procuro sempre o seu companheirismo? Será porque ela e Gordura Quente são os únicos com quem consigo conversar? Nem mesmo Cinza Branca me escutava com a atenção que Faia Preta me dispensa. Ela começa a preencher os meus pensamentos.»

 

- Parece melhor que o território que acabámos de deixar disse-lhe ela. - Vê-se mais verde lá em baixo. Pelo aspecto da salva, as chuvas são mais frequentes.

 

- É uma boa altura do ano para virmos. - Semicerrou os olhos para o Sol que ia alto no céu. - Quando fugimos para sul do Castor Gordo, perdemos tudo. o primeiro Inverno não foi muito mau, mas quando o bando se dividiu as coisas pioraram. Penso que desta vez ficaremos melhor. Temos cabanas e muitos guerreiros. As trouxas estão cheias de abastecimentos e os cães estão de boa saúde e podem carregá-las a todas.

 

Ela lançou-lhe um olhar especulativo.

 

- E apenas tem de ser testada a força do Povo da Terra.

 

Ele contornou um afloramento de rocha negra sarapintada de líquenes. o solo tinha aqui uma tonalidade castanho-amarelada e o cascalho solto escorregava por debaixo dos pés. Ervas esparsas cresciam por aqui e por ali, enquanto nas encostas crescia a groselheira-da-índia, a uva-ursinal e a sorveira. Seguiam um trilho de caça que descia para o leito de uma linha de água pouco profunda. Para a esquerda, a crista começara a elevar-se. A margem direita do vale parecia mais íngreme e podiam ver-se afloramentos de rocha castanha.

 

- Nós queremos enfrentá-los - declarou ele. - E penso que eles cederão.

 

Ela franziu os lábios, com ar carregado.

 

1 Espécie de azevinho do Sul dos Estados Unidos. (N. do T.)

 

-Tenho estado a pensar nas coisas que tu e Espírito Sábio disseram acerca do Povo da Terra. Penso que devíamos capturar tantas das mulheres deles quantas as que pudéssemos.

 

Ele empertigou a cabeça,

- Oh!?

 

- Elas conhecem a terra. Conhecem as plantas.

 

Cada passo que ela dava esticava-lhe o macio vestido de pele de bezerro sobre as nádegas musculosas. Mordeu o lábio para afastar os pensamentos que o distraíam e tentou concentrar-se nas palavras dela - e no rosto de Cinza Branca,

 

- Naquela noite, por cima do acampamento do Homem Branco, falámos sobre como o Ponta Negra teria de mudar o seu modo de vida. Recordas-te? - Ela sorriu-lhe. - Tenho pensado muito nisso. Se há coisas novas para aprender, por que não capturar os que as conhecem? Disseste-me que as mulheres tomam todas as decisões, que conhecem os campos de raízes e onde podem ser encontrados certos alimentos. Elas sabem como conservar as coisas para que durem durante o Inverno. Elas sabem o que comer e o que não é comestível.

 

A lógica da sua sugestão encantou-o.

 

- Podemos usá-las para trabalhar. Se o nosso povo não tiver de o fazer, menos provavelmente mostrará descontentamento, menos provavelmente persistirá nos velhos métodos. o novo método providenciará por ele.

 

- o Povo da Terra podia fazer a maior parte do trabalho. - Ela atirou com a cabeça para trás, para o bando que os seguia. - Pensas que Pica e Coelho Bravo querem triturar essas sementes de erva que o Povo da Terra come? De maneira nenhuma. Trabalharão as peles, construirão cabanas e caçarão, mas não quererão apanhar sementes.

 

Pés de Vento chocalhou os dardos alegremente.

 

- Todo este tempo me tenho preocupado acerca do que aconteceria quando cá chegássemos. Já me deste a resposta.

 

Ela soltou um riso abafado.

 

- Então talvez nunca mais deixes de me levar a sério. Ele olhou para ela.

 

- Não sei se alguma vez o fiz. - Face à estranha recusa dela em o olhar nos olhos, ele mudou de assunto. - Não admira que tanta gente te procure para te pedir conselho.

 

Ela fez um gesto vago com as mãos.

 

- Mesmo as mulheres velhas começaram a perguntar o que eu penso acerca dos seus problemas. Às vezes, a minha cabeça está tão cheia dos problemas das outras pessoas que não tenho tempo para mim.

 

- Diz-lhes que estás ocupada.

 

o delicado sorriso dela tinha um trejeito melancólico.

 

- Não. Não posso fazer isso. Algunsjá dependem de mim. Eu escuto e depois penso acerca do que disseram. Se for sério, falo com o avô. Ele é um homem muito sensato.

 

- Qualquer dia, tomarás o lugar de Lua Negra. Olhou para a terra acidentada que se erguia em seu redor. Conseguia ver os carneiros-monteses no alto dos taludes pedregosos. Os seus flancos castanho-escuro e o traseiro branco contrastavam com a rocha. Um corvo atraiu uma águia dourada nas correntes de ar ascendentes; a águia movimentou-se rapidamente para o dorso dele, expondo as garras ao seu divertido companheiro negro.

 

Ela levantou uma sobrancelha e lançou-lhe um olhar curioso.

- Alguns começaram a dizer isso a teu respeito.

 

- Eu? - Quase tropeçava numa artemísia.

 

- o povo começou a escutar-te. Quando falas, não o fazes irreflectidamente. Tu dás uma grande importância ao que dizes. Antes de o conselho tomar uma decisão, pergunta-te. Ainda não deste por isso?

 

- Apenas lhes digo o que penso. Não tento discutir coisa alguma.

- É essa a questão. - Ela olhou fixamente para a nova terra.

- Tu dizes-lhes e deixas ficar. Um chefe da tribo não pode mandar ninguém fazer qualquer coisa. Apenas pode sugerir. Se o tempo provar a sua sabedoria, cada vez mais povo o escutará... até chegar o dia em que falará por todo o povo. Se tentares obrigá-los a fazer alguma coisa, ignorar-te-ão.

 

- Como Coelho de Fogo? - Tirou o casaco dos ombros, semicerrando os olhos ao sol ardente.

 

Ela levantou as mãos e bateu com elas nos flancos.

 

- Ele forçou demasiado. Está sempre a tentar chefiar, mas não a ser um chefe. Há uma diferença.

 

- Não estou a tentar ser chefe.

 

Uma expressão maliciosa moldou-lhe a fisionomia.

- Não estás?

 

Ele fez um gesto de negação.

 

- Como tu, não teria tempo para os meus problemas.

 

- Penso que devíamos ir por ali. - Ela apontou para a crista que se erguia à sua esquerda. - Uma linha de água como esta termina normalmente num desfiladeiro de paredes escarpadas com muito mato. Um caminho difícil para os mais velhos e para as padiolas dos cães.

 

- Tu és uma chefe.

 

Ela deu-lhe uma palmada divertida.

- Pára com isso.

 

Ele virou-se, obliquando ao longo da encosta rochosa. Quando atingiram o topo da crista, Pés de Vento reparou que a crista descia suavemente para a bacia, por debaixo de uma saliência rochosa. Desta posição dominante, podia ver que ela tivera razão. A parte mais baixa do desfiladeiro não apenas se reduzia a uma fenda escarpada como também o mato a enchia como um tapete verde.

 

Num único lugar na encosta suave à sua frente, um afloramento rochoso impedia o deslocamento fácil. Pés de Vento correu para lá e examinou-o.

 

- Por aqui. É o caminho mais fácil para descer.

 

Ela chamou por Lua Negra e apontou. Pés de Vento agarrou-lhe pela mão, ajudando-a a descer a superfície íngreme e pedregosa. Por um momento, fizeram uma pausa. A luz do Sol iluminava o rubor saudável do suave rosto dela. As carnes dele estremeceram, cientes daquele corpo flexível ali tão perto. o seu odor agradável enchia-lhe as narinas. Olhou-a no fundo dos olhos vivos e castanhos. As suas almas tocaram-se por um instante fugaz; depois deixou-lhe ir a mão e virou-se.

 

Teve de fazer um ar carrancudo para conseguir pensar em Cinza Branca.

 

Erva Amarga mergulhou na noite e entrou no abrigo da tribo da Pedra Redonda. Espreitou em volta, na escuridão, até os olhos se habituarem, e reconheceu a figura espojada nas mantas.

 

- Garra de Cotovi a? Que estás aqui a fazer? Pensei que ficasses lá fora com os outros até de madrugada a contar histórias.

 

- Já não sou assim tãojovem como era. - Garra de Cotovia sentou-se. - Por que estás aqui?

 

Erva Amarga olhou para a reunião. Um grande número de fogueiras assinalava a localização dos acampamentos. Silhuetas deslocavam-se para trás e para diante à luz das fogueiras entre os acampamentos. Por cima das cabeças, as folhas sussurrantes dos choupos reflectiam a luz tremeluzente em tons de âmbar; a abóbada celeste cintilava com uma infinidade de estrelas.

 

- Está a ficar mais frio. Pensei em ir buscar uma manta. - Erva Amarga esfregou a barriga ao sentar-se junto de Garra de Cotovia.

- Se comer mais alguma coisa, rebento.

 

- Há muita comida aqui. - Garra de Cotovia bateu na cama. Foi um bom ano. Fez uma pausa. - o povo tem-te tratado bem?

 

Erva Amarga apanhou a corrente de fundo.

 

- Mão Negra tem sido o espírito de cada acampamento que visitámos. Não é doido. Penso que a história de bruxariajá terminou. o povo está demasiado divertido para acreditar nesse disparate. É mais seguro assim.

 

- Isso é disparate. - Garra de Cotovia escarrou ruidosamente e cuspiu. - A tribo das Três Confluências foi posta no seu lugar, e tu e Mão Negra tiveram um bom começo. Que mais podes desejar? Erva Amarga fechou os olhos. «Fogo Ardente.»

 

- Mão Negra é um bom homem... Gosto dele.

- Onde está?

 

Erva Amarga fez um gesto para a escuridão.

 

- No acampamento de Areia Dourada. Exactamente por debaixo daquela crista ali.

 

- o das rochas?

- Exactamente.

 

- Mãe? - perguntou Lupina com a voz ensonada.

 

- Aqui, bebé. Erva Amarga esticou-se e acariciou a rapariga.

- Vamos levantar-nos?

 

- Não. Dorme. Onde está o teu irmão?

 

- Não sei... - Lupina mergulhou outra vez no sono.

 

- É rapaz. Quase um homem - recordou-lhe Garra de Cotovia.

- Anda por aí na brincadeira, atrás das raparigas. Quem sabe? É a reunião.

 

Erva Amarga suspirou.

 

- Já não é o mesmo. Penso que quando Fogo Ardente morreu levou um pedaço da alma de Trufa com ele.

 

- É difícil perder um pai.

 

- E, para vir aqui, pensei que tinha de me exaltar com ele mais de uma vez. Não disse mais de três palavras durante todo o caminho.

 

- Que esperavas? - perguntou Garra de Cotovia. - o pai do rapaz acabava de ser substituído. Podes ver a fúria nos olhos dele. Ele não gosta de Mão Negra. Tem ressentimento contra ele.

 

Erva Amarga esfregou os olhos.

- Uma mulher tem de se casar.

 

- E Trufa também. Talvez daqui a dois Verões arranje uma rapariga. Faço um bom negócio e envio-o para fora. - Garra de Cotovia fez uma pausa. - o povo é melhor para isso. Um homem jovem não deve ter de viver com o passado. Vai ter de ir para outro acampamento procurar uma vida nova. Não está na natureza dos homens assumir responsabilidades. São demasiado frívolos e temperamentais.

 

- Estás azeda.

 

Garra de Cotovia vangloriou-se.

 

- Eu? A que propósito? Esta manhã provei que ainda tenho o que preciso para conseguir o que pretendo. E, diz-me, Anel de Osso ainda está feliz com o negócio que fiz por ela?

 

- Está. Estava preocupada que Água Estagnada ficasse sozinha se o Povo do Sol aparecesse. Fê-la sentir-se melhor saber que tudo o que tem a fazer é enviar um estafeta para que apareçam os guerreiros para expulsarem o Povo do Sol.

 

Nas sombras, Garra de Cotovia esfregou as pernas como forma de acalmar as dores da idade.

 

- Anel de Osso é sensata. Sempre gostei dela. Mais ainda desde que ela e Fogo Verde tiveram aquela zanga por causa do casamento entre Dedo do Pé Pequeno e Agulha Cinzenta.

 

- E quanto ao Povo do Sol? - Erva Amarga apoiou o queixo nos joelhos, fixando as fogueiras bruxuleantes. Vozes elevavam-se e desciam na noite enquanto o povo ria e conversava. - Anel de Osso chamou a atenção para o facto de não haver aqui mercadores do norte. Nem mesmo do Povo do Lobo. Normalmente, mandam alguém.

 

- Não excluas o Povo do Lobo. Este ano, a bênção caiu muito em cima da reunião. Devem estar a terminar a dança por esta altura, Nós planeamos a reunião em função da fase da Lua; eles planeiam a bênção pela trajectória do Sol e pelo dia mais comprido. Espanta-me sempre que eles saibam isso.

 

- As estrelas são importantes para eles. Lembras-te daquela história que o mercador Mão Esquerda nos contou? Acerca de como o Povo do Lobo pensa que as estrelas giravam no céu por intermédio de uma aranha vermelha gigante? Perguntava a mim mesma de onde vinha aquela ideia.

 

- Uma aranha inteligente? Não sei. Talvez seja por as estrelas parecerem uma teia de aranha orvalhada à luz do Sol. Mas a razão por que o Povo do Lobo não está aqui é porque é tempo da bênção.

- Garra de Cotovia fungou alto e limpou o nariz. - Não é por causa de nenhum Povo do Sol. Não dês cabo da cabeça por causa do Povo do Sol, rapariga. Não está a vir para cá.

 

- o povo está a falar acerca dele. - Erva Amarga fixou o olhar pensativamente nas figuras de sombra em volta das fogueiras. Os troncos dos choupos avultavam misteriosamente na luz tremeluzente. Um estremecimento de premonição percorreu-lhe as costas. Abraçou-se a si mesma como para se acolher no aconchego da presença dominante de Garra de Cotovia. Porquê? Que mau agoiro se escondia no calor da noite?

 

- Deixá-los falar! - berrou Garra de Cotovia. - É para isso que serve a reunião. Falar a respeito do Povo do Sol dá-lhes alguma coisa de parvo com que se ocuparem... em vez da bruxaria. Se... e eu disse se... o Povo do Sol vier para sul, terá de passar primeiro pelo Povo do Lobo. Não o desejaria a ninguém.

 

- E os Caçadores de Carneiros?

 

- Esses também, se o Povo do Sol for suficientemente louco para se infiltrar nas montanhas da Pedra Vermelha... ou nas Montanhas do Repuxo. Devias ir até lá um dia destes. Os mercadores falam de água esguichando para o ar por toda a parte. A fazer fé nas histórias deles, há mais espíritos nas montanhas do Repuxo do que em qualquer outro lado.

 

Erva Amarga apanhou a manta e levantou-se. A noite oprimia-a; um desassossego ecoou no sussurro das folhas dos choupos.

- Vou à procura do meu marido. Durma, avó.

 

- Não te preocupes com o Trufa. Provavelmente, está a rir pela primeira vez desde que o pai morreu.

 

- Está bem.

 

Erva Amarga caminhou pela erva espezinhada. A brisa do rio do Espírito trazia o odor intenso a água fria e terra húmida. Três Confluências escolhera um belo local para a reunião. E o ano estivera bom. o povo viera com as trouxas a abarrotarem de raízes e carne seca. Um Verão bem-vindo depois de um Inverno de desespero. Fogo Ardente? Por que não podes estar aqui comigo?»

 

Erva Amarga contornou um magote que estava de pé em volta de uma fogueira crepitante. Cantavam um dos velhos cânticos. Ela deixou que o ruído lhe levasse a alma.

 

Lá fora, na artemísia, no sopé da crista, uma mulher jovem respondia com risadinhas às palavras gentis de um homem novo. Que viria dali? Um casamento? A reunião era um tempo para união e novos amores. Talvez também para ela nascesse um novo amor.

 

Avançou para a luz da fogueira do acampamento de Areia Dourada. Mulher Formosa estava sentada com Arenito Branco enquanto Homem Alto contava uma história a Mulher Querida da tribo da Água Estagnada.

 

- Estás de volta. - Mulher Formosa apontou para o guisado. Come um pouco mais. Linho Dourado estava no seu melhor quando o fez. Pode-se saborear a alma do antílope.

 

- Se comer mais alguma coisa esta noite, afundo-me no chão. Onde está Mão Negra? Foi-se embora sem mim?

 

- Está ali em cima - disse Homem Alto com um sorriso rasgado na cara redonda. - Julgo que comeu demasiado. o que entra... Bem, tu sabes.

 

Ela riu com ele e ouviu o resto da história. Depois disse:

 

- Talvez seja melhor ir à procura dele. Se não, lá terei de lhe dar algumas folhas de azeda para lhe soltarem as tripas.

 

Descobriu um pequeno trilho que subia a serpentear pelas rochas. Os insectos nocturnos zumbiam e chiavam. Um cântico irrompeu no acampamento de Areia Dourada para ser apanhado pelo acampamento mais próximo e pelo seguinte, até o vale inteiro ecoar com os sons. No cântico, Dança No Fogo ensinava ao povo a maneira de ceifar a erva-do-arroz antes de trazer o fogo do Sol para aquecer as cabanas no Inverno.

 

Andou um pouco mais para a frente, cantarolando a melodia por entre dentes. Um vento quente soprou do alto das colinas, transportando os odores da salva e do pó. As estrelas brilhavam intensamente. Se ao menos Fogo Ardente... Não, não penses nisso. Ele morreu. o seu espírito regressou à terra que o alimentou o trilho passava entre dois rochedos de arenito desgastado. Apoiou-se num deles com a mão e tacteou o trilho com o dedo do pé. o pé tocou em algo mole.

 

Arquejando, deu um sacão.

- Mão Negra?

 

o vento sussurrou por entre a salva enquanto o cântico do povo viajava na noite com asas de coruja.

 

Encheu-se de coragem e baixou-se nas sombras - e sobressaltou-se ao tocar num corpo. Alguém caíra?

 

- Mão Negra? - Assustada, gritou para o acampamento de Areia Dourada: - Ajudem-me! Tragam uma tocha! Alguém caiu! Homem Alto levou uma tocha pelo trilho acima, seguido de Mulher Querida.

 

- Que descobriste? Uma cobra? - perguntou Homem Alto ao chegar mais perto.

 

Erva Amarga olhou para baixo à luz bruxuleante - e para dentro dos olhos vazios de Mão Negra. o sangue ensopava-lhe a cabeça e encharcava o pó do trilho.

 

A dor de cabeça que espetava agulhas ardentes através do cérebro de Homem Valente ia e vinha. Neste dia, as dores eram excruciantes. Esquecera Corvo Pálido, que se ocupava na preparação da refeição da tarde. Os flancos queimados da cobertura da cabana desvaneciam-se-lhe na consciência. Estremecia com a palpitante agonia na cabeça e espremia o punho em volta do colar partido de grossas pedras negras que arrancara ao homem de um só braço naquela noite. Cinza Branca escapara-lhe. o homem de um só braço mal lhe atingira o lado da cabeça, mas as vozes gritaram de pavor.

 

A dor paralisara-o - estava habituado à dor -, mas o hediondo grito no seu espírito varrera-lhe os pensamentos, mesmo sem considerar a chaga terrível do joelho.

 

«Poder», sussurravam-lhe as vozes. O maneta tem Poder.» Sim, Poder. Homem Valente olhou espantado para o colar intrincadamente atado com nós e para as pedras triangulares polidas. A Trouxa de Lobo desaparecera então com todo o seu poder solto. Fora apanhado desprevenido, emboscado por uma inundação de Poder que lhe arrombou a alma. A Trouxa canalizara o Poder e usara-o contra ele. Um homem mais fraco teria morrido, com a alma arrancada do corpo.

 

«Mas eu era mais forte. Não importa que esteja prostrado de costas há quatro dias, lutando por manter a minha alma, sobrevivi.» Fechou os olhos, imaginando a Trouxa de Lobo. «Agora ainda estou mais forte do que antes. Aprendi. Da próxima vez controlar-te-ei.» Homem Valente semicerrou os olhos ao olhar para o colar. A Trouxa do Povo do Lobo revelara os seus segredos naquela tentativa desesperada. Outro Poder se lhejuntara, vindo de algures na orla da neblina dourada.

 

«Quando conseguir sonhar a neblina dourada, nada me deterá.» Tamborilou com os dedos calosos no joelho são. E tu não me consegues deter, Trouxa de Lobo. Nem tu... nem o teu maneta.»

 

o olhar de Corvo Pálido não lhe dizia simplesmente nada quando cismava.

 

Quem era o maneta? Que Poder possuía?

 

o maneta saíra da cabana. Fora uma aparição conjurada por entre as trouxas que estavam penduradas dos postes da cabana? Antes de enviar os seus guerreiros atrás de Cinza Branca, Homem Valente ordenara que a cabana fosse queimada - e com ela todas aquelas fontes de Poder do Lobo. Depois enrolara-se nas mantas, escondendo a cabeça nos braços para se proteger dos gritos que a alma lhe soltava ao lutar para lhe manter o controlo sobre o corpo sofredor. Durante esses longos quatro dias, Corvo Pálido sentara-se a seu lado, dizendo aos outros que ele lutava numa batalha muito para além do Acampamento dos Mortos.

 

Que fizera para arranjar uma mulher como esta? o seu Poder enviara-a até ele?

 

o fogo crepitou alegremente quando Corvo Pálido utilizou os gravetos em forma de grandes pinças para levantar as pedras quentes das brasas e as deitar no bucho dos guisados. As pedras levavam o calor dos carvões e faziam ferver o guisado.

 

«Hei-de encontrar o maneta. E, quando o fizer, vai conhecer o Poder de Homem Valente. » Homem Valente deu um nó no colar, no sítio onde lhe partira a correia, e colocou-o ao pescoço - um símbolo daquela promessa. Depois tirou da bolsa a pedra gravada com a efígie do lobo e examinou-a. A dura pedra negra fora afeiçoada durante horas de trabalho laborioso e polida com areia fina e couro até cintilar à luz. Não era muito maior que uma pinha e ajustava-se-lhe perfeitamente à palma da mão.

 

Corvo Pálido observava-o com expressão circunspecta. A luz apanhava-lhe as curvas do rosto nobre, acentuando-lhe a suave protuberância das faces e as linhas do nariz fino.

 

- A pensar de novo em Cinza Branca? - perguntou.

 

- Acabarei por a ter. Sinto-o. o Poder acabará por nos juntar. Olhou cuidadosamente para a gravação do lobo. Possuiria mais Poder do que a alma do artista que a fizera? «Devia deitar isto fora.»

 

- E esse maneta? - Levantou uma sobrancelha interrogativamente.

 

- Morrerá muito lentamente. Um mercador contou-me um dia uma história a respeito do Povo do Pântano. Quando um homem é acusado de possuir Poder maligno, eles abrem-lhe uma fenda na barriga e puxam para fora uma certa porção de intestino. Depois dobram-lhe as pernas e os braços para detrás das costas e suspendem-no sobre a água para que o peixe lhe puxe o intestino para fora a pouco e pouco. - Olhou para ela. - Imagina um homem suspenso daquela maneira sobre a toca de um texugo.

 

Os olhos dela endureceram até cintilarem e depois afastou o olhar.

 

A aba levantada da porta da cabana deixava entrar o ar frio e os cheiros a pinheiro, a abeto e a erva verde, o aroma da carne assada e o odor ligeiramente acre das peles a serem curtidas.

 

Lá fora, no azul do entardecer, as crianças chamavam umas pelas outras, gritando e rindo num jogo que envolvia muita perseguição. Os cães do acampamento latiam e ladravam como acompanhamento.

 

- Libertador de almas? - chamou uma voz lá fora. - Falcão Que Voa quer ver-te.

 

- Entra. - Homem Valente colocou de lado a estatueta polida do lobo e puxou a perna estropiada quando o chefe de guerra penetrou na cabana.

 

Falcão Que Voa acenou com a cabeça a Corvo Pálido e sentou-se de pernas cruzadas numa pele de carneiro-montês no lugar dos convidados.

 

Homem Valente remexeu na bolsa e tirou de lá um cachimbo de pedra que encheu de kinnikinnick e acendeu-o com um graveto tirado da fogueira. Puxou duas fumaças e passou-o a Falcão Que Voa. Depois de o outro partilhar a hospitalidade de Homem Valente, devolveu o cachimbo.

 

- Penso que ainda não te tinha visto nem por um instante começou Homem Valente. - Aconteceu alguma coisa?

 

Um sorriso perverso torceu os lábios de Falcão Que Voa.

 

- Penso que não devia ter vindo. Sim, aconteceu alguma coisa. Caçar o Povo do Lobo transformou-se num passatempo sem interesse.

 

- Oh?

 

Falcão Que Voa abriu as mãos.

 

- Foram-se. Todos excepto uns quantos doidos que ficaram.

- Foram-se?

 

Falcão Que Voa coçou a orelha.

 

- Alce Gordo foi com um grupo atrás deles... apenas para confirmar. Mas penso que partiram. Para sempre.

 

- Conta-me desde o princípio.

 

o chefe de guerra pensou durante um segundo e depois relatou:

- o Povo do Lobo reunira-se no sopé das colinas a leste das montanhas. Antes de eu conduzir os guerreiros até lá para os expulsar, pensei que devia esquadrinhar a floresta... para me certificar de que ninguém ficara à nossa retaguarda. Os batedores relataram que o Povo do Lobo estava a realizar um grande conselho junto à montanha. Entretanto, nós esquadrinhávamos o arvoredo e estudávamos os locais onde os homens acampariam. Batemos o terreno à procura de algum sinal dos guerreiros do Lobo a passarem em segredo... e não descobrimos nada. Seguro de que nenhum inimigo nos podia emboscar, reuni os homens e conduzi-os ao ataque do Povo do Lobo no sopé das montanhas. Havia lá uma barreira de arenito cor de sangue como uma barricada para as planícies. Foi quando encontrámos os tais loucos que voltaram para nos combater.

 

- E que aconteceu?

 

- o sangue deles misturou-se com o solo. As suas almas vagueiam agora em redor dos seus ossos. - Falcão Que Voa olhou pensativamente para o buraco do fumo por cima da cabeça. - Mas

 

Mistura de folhas secas de sumagre e de casca de salgueiro, outrora usada pelos índios norte-americanos como substituto do tabaco, especialmente no vale do Oaio. A palavra é de origem algonquim e significa mistura. (N. do T.)

 

os outros... Tinham partido quando descemos a montanha. Foram em direcção a leste através das planícies.

 

- Leste? - ponderou Homem Valente. - Que teriam lá encontrado?

 

- Nada. - Falcão Que Voa fez o sinal de negação. - Apenas planícies onduladas de erva rasteira e muito búfalo. Os animais não ficaram muito nervosos quando eles abateram uns tantos para se alimentarem. Quando vierem os maus tempos, podemos ir lá caçar outra vez.

 

Homem Valente levantou uma sobrancelha.

 

- Lembras-te do vento quando caçámos a norte do Castor Gordo? Um vento sem fim. Aquilo quase arrancava a alma do corpo de um homem. Há lugares melhores para o Inverno que as planícies abertas,

 

- Iremos então para o Castor Gordo quando vier o tempo frio? Homem Valente tamborilava sem descanso com os dedos no joelho estropiado.

 

- Há outra bacia para sul. Iremos para lá. Falcão Que Voa franziu o sobrolho.

 

- Mais para longe das nossas terras?

 

- Nossas terras? Chefe de guerra, as nossas terras ficam onde nós as quisermos. Não, o sul chama-nos. Os sonhos continuam a puxar-me. Ainda não consigo ver tudo. - Baixou a voz até a transformar num sussurro. - Mas seremos grandes. Maiores do que possas sonhar.

 

Falcão Que Voa lançou um olhar inseguro a Corvo Pálido. Ela fixou-o desafiadoramente. o brilho da fogueira iluminou-lhe o rosto por debaixo, projectando-lhe sombras irreais nas feições.

 

o chefe de guerra respirou profundamente e acenou com a cabeça.

 

- Guiaste-nos bem, libertador de almas. Irei onde sonhares. Isso quer dizer que não há reunião. Alguns já estão...

 

- Este ano não haverá reunião. E talvez nunca mais haja. Falcão Que Voa mexeu-se desconfortavelmente.

 

- Mas as regras da tribo...

 

Homem Valente riu e inclinou-se para trás, para se apoiar num cotovelo. Deixou o olhar parado vaguear pelas bolsas de couro cru empilhadas que marcavam os lados da cabana, pela espessa pilha de ricas peles onde ele e Corvo Pálido dormiam. A luz da fogueira cintilou no pêlo comprido e prateado de uma pele de urso pardo.

 

- Ali, eu sei. - Homem Valente olhou de soslaio para Falcão Que Voa. - Vocês estão preocupados acerca de quem casará com quem sem praticar incesto. Há mulheres por toda a parte, meu amigo. Quantos dos teus guerreiros tomaram para si mesmos mulheres do Lobo? - Fez uma pausa. - Talvez um guerreiro nesta mesma cabana?

 

- Muitos o fizeram. Sim, e eu também... mas até agora foi só isso que fiz com ela. Mas... todos nós nascemos do Sol. o Pássaro de Fogo insuflou-nos a vida quando nos fez da argila. Não nos podemos esquecer de quem somos.

 

- Não esqueceremos. Não, enquanto tivermos Poder... e dardos valentes para o apoiar. - Homem Valente examinou o polegar antes de levantar os olhos. - E quanto aos nossos laços com as tribos? Agora estamos a viver um novo género de vida. o Poder enche-nos. Lembras-te da forma como os mercadores falavam do Povo do Lobo? Diziam que o Povo do Lobo era um inimigo terrível e que choraríamos sobre os cadáveres dos nossos mortos se lutássemos contra eles. Onde estamos nós acampados agora? Quem disputa os nossos direitos a estas montanhas? Onde está o Povo do Lobo? Fugindo para leste, para as planícies, para ser disperso pelo vento.

 

- Ouvi as tuas palavras, libertador de almas. - Falcão Que Voa semicerrou os olhos. - E gosto do que dizes.

 

Homem Valente cerrou um punho, observando os músculos flexionando no antebraço.

 

- Já não precisamos mais das tribos. Que nos podem eles dar que não tenhamos já? Quando vier o Inverno, guiarei os que forem para sul. Os outros podem fazer como quiserem.

 

Falcão Que Voa encavalitou os dedos a pensar.

 

- o Povo da Terra vive a sul destas montanhas. Também podemos tomar-lhes as mulheres. - Um brilho especulativo apareceu-lhe nos olhos. - Um homem pode fazer-se grande à sombra dos seus sonhos, libertador de almas. Talvez maior que qualquer outro guerreiro que os Pedra Partida alguma vez conheceram.

 

Homem Valente riu. «Sim, compreendes, não compreendes, meu amigo? Compreendes ao que um homem pode aspirar sob o meu comando.»

 

- E ficará melhor. Tenho vislumbrado uma nova via, Pensa, Falcão Que Voa, pensa em tomar não apenas as mulheres mas também os homens. Imagina ganhar tanto Poder que os outros farão todo o trabalho por ti. Pode acontecer. Podemos sonhar para que assim seja.

 

Falcão Que Voa empertigou a cabeça e bateu com as mãos nos joelhos.

 

- Voltarei de manhã para te ver. Podemos falar mais nessa altura. Apenas queria que soubesses que a ameaça do Povo do Lobo se desvaneceu.

 

- Como a neblina numa manhã soalheira.

 

- Exactamente como isso. - Falcão Que Voa soltou um riso abafado. - A minha mulher, Duas Rosas, assou uma perna de cabrito-montês. Penso que é melhor ir comer um bocado daquilo. Há mais de uma lua que a não vejo. Talvez o meu espírito esteja pronto para lhe plantar outro filho... e na mulher do Lobo também. Se conseguir evitar que me esgatanhe os olhos, é isso.

 

- Vai. Apresenta as minhas saudações a Duas Rosas... e à tua nova mulher do Lobo.

 

Falcão Que Voa levantou-se.

 

- Duvido de que a minha nova mulher se preocupe com as tuas saudações, libertador de almas. Pergunto a mim mesmo se Duas Rosas já a ensinou a falar como um ser humano.

 

- Tenho a certeza de que sim.

 

o chefe de guerra saiu para o crepúsculo indigo. Homem Valente perguntou a Corvo Pálido:

 

- Leste? Porquê?

 

- Talvez a tua Cinza Branca esteja com eles. Se calhar, também ela seguiu para as planícies.

 

«Sul», sibilaram as vozes. «Sul... com o Poder.» Olhou de esguelha para a fogueira.

 

- Não. Saberia. o Poder saberia. Ela veio do Povo da Terra. A ele voltará.

 

Corvo Pálido verificou o guisado borbulhante e foi deitar-se junto dele.

 

- Falcão Que Voa tem razão, como sabes. Guiaste-nos bem, Nem mesmo duas dezenas de guerreiros morreram enquanto escorraçámos o Povo do Lobo. o teu Poder cresceu.

 

- o suficiente para separar os Pedra Partida dos seus velhos hábitos?

 

Pequeninas rugas encresparam-lhe a testa enquanto ponderava a questão. Ele admirou-lhe o conjunto das sobrancelhas delicadas e observou a luz da fogueira a bailar-lhe na pele macia do rosto. Estendeu o braço para lhe correr os dedos pela linha do maxilar e acariciar a garganta.

 

- Não sei - disse. - Enquanto os chefiares bem, sonhares com o Poder que tens, seguir-te-ão. Pela calada, e à noite nas mantas, estarão preocupados.

 

- Falcão Que Voa e os seus guerreiros não estarão. Ela lançou-lhe um sorriso divertido.

 

- Esses são lobos. Provaram o sabor do sangue fresco e estão esfaimados por mais.

 

Ele concordou com um aceno de cabeça.

 

- Tenho intenção de lhes dar sangue. Ela tomou-lhe a mão entre as suas.

 

- De verdade? Que disseste a Falcão Que Voa? Sonhaste algo grande para os Pedra Partida?

 

o rosto dele fechou-se.

 

- Ainda não consigo ver tudo... apenas vislumbres nos sonhos. Coisas que não consigo entender. Há uma montanha com quatro lados feita de pedras quadradas que os humanos construíram. E penas... Vejo penas, de todas as cores que é possível imaginar. No topo da montanha de pedras quadradas está um homem erguendo uma faca de obsidiana para o Sol. o sangue pinga da ponta. - Respirou. - Quando tive este sonho, os meus rins vibravam como se eu tivesse de plantar a semente que dá origem àquele homem.

 

Ela acenou com a cabeça como se estivesse a ver na alma.

- Talvez já o tenhas feito.

 

Ele examinou-a cautelosamente.

 

Ela mudou de posição para lhe correr os dedos compridos pelo lado da cabeça.

 

- Um povo poderoso. Um povo forte. É o que devemos fazer.

- Nós?

 

As comissuras dos lábios crisparam-se-lhe presumidamente. Os olhos pareceram ficar-lhe mais profundos para o engolir.

 

- Faltou-me o período, Homem Valente. o estômago fica-me doente de manhã. Comecei a ganhar peso. Penso que me plantaste o teu filho. Procura a tua Cinza Branca e toma-a as vezes que te apetecer. Vamos ver qual dos teus filhos sobe essa montanha de pedra e segura a faca ensanguentada.

 

Ao lado dojoelho de HomemValente, a pequena pedra negra com a estatueta do lobo cintilava à luz da fogueira.

 

 

- Purifica o teu espírito - disse Pedras Cantantes a Cinza Branca. - Escuta a voz que não está aí.

 

A tranquilidade enchia os olhos do libertador de almas quando a observou. Sentavam-se de pernas cruzadas nas pedras irregulares que juncavam o topo da crista elevada. o velho bem podia ser confundido com a própria pedra. o casaco de pele de carneiro-montês tinha a mesma cor castanho-amarelada-pálida das pedras circundantes. Um barrete de copa lisa, feito de pele de castor, cobria-lhe o cabelo prateado.

 

Cinza Branca concentrou-se nas palavras gentis do velho e franziu o sobrolho.

 

- Não percebo. Como podes ouvir o que não está lá?

 

- Ah, mas isso é o segredo para se alcançar o Poder. - Com uma mão mirrada, fez um gesto em direcção à vastidão enorme da Bacia do Vento. - o mundo está ali?

 

- É evidente que sim. A brisa da tarde agitava-lhe as tranças, dando-lhe piparotes nas madeixas negras para cá e para lá. As nádegas tinham começado a doer-lhe por se sentar nas pedras polidas pelo vento. Aqui e ali, as ervas âmbar estremeciam no ar agitado. A flox florescia em branco e azul-claro e o odor enchia-lhe as narinas. A roda das estrelas ficava-lhe à direita; a massa ominosa das nontanhas do Prado de Erva elevava-se sobre o seu ombro esquerdo. A sua frente, para sul, as características da bacia do Vento ondulavam num vibrante verde, branco e castanho-amarelado. Ilhas de nuvens esponjosas corriam céleres no céu azul sem fim.

 

- Fecha os olhos - ordenou Pedras Cantantes. - Conserva-os fechados. o mundo ainda lá está?

 

- Sim. Tudo o que tenho de fazer é abrir os olhos... e ele estará lá, exactamente como o recordo.

 

- É esse o teu problema. Estás cega pela tua opinião. Tolhida pelo que sentes. Surda pelo que ouves. Tudo em teu redor é ilusão. o que observas é apenas o que os teus olhos, ouvidos, nariz e carne experimentam. Os teus sentidos separam-te do único. Aquilo que é Cinza Branca é uma mentira. Apenas despojando-te de tudo o que és te transformarás em tudo o que não és.

 

Ela assentiu com um gesto de cabeça, lutando para compreender e obedecer - e falhar.

 

- Pedras Cantantes, tudo isso é muito lindo e fácil de dizer. Mas a minha bexiga está cheia e o meu traseiro está dormente. Pedras Cantantes soltou um riso abafado.

 

- Pelo menos, escutas e buscas. Vai... cuidar do teu corpo. Lembro-me dos problemas que tive no princípio. Os sonhos guiaram-me numa parte do caminho para o Único. Levei anos a descobrir o resto.

 

Ela levantou-se, dando um passo vacilante nas pernas sem sangue.

 

- Não compreendo. Tu tens o Poder. Tu sabes como alcançar e tocar o único. Por que precisas de mim?

 

Ele olhou para a bacia.

 

- Porque sou um velho. Tu... e água Mansa... têm de enfrentar um desafio que poucos sonhadores alguma vez conheceram: tens de sonhar e, ao mesmo tempo, viver entre o povo.

 

- Pára aí. Voltarei num instante e falaremos mais a respeito disso.

 

Estremeceu face ao formigueiro doloroso que o sangue lhe provocava ao correr pelas pernas dormentes. «Tudo o que aconteceu, aconteceu por minha causa. Espírito Sábio roubou-me de Três Confluências. Pés de Vento partiu. o Homem Branco morreu. Homem Valente atacou o Povo do Lobo. Água Mansa veio salvar-me. Eu conduzi-o à Trouxa de Lobo.» Invadiu-a um certo constrangimento. Mesmo aqui no topo da crista, a presença da Trouxa de Lobo permanecia-lhe na alma.

 

Depois de se aliviar, regressou e sentou-sejunto do velho sonhador. Parecia que não tinha mexido um músculo.

 

- Agora, acaba o que estavas a dizer-me. - Cinza Branca encolheu as pernas e agarrou os joelhos com as mãos. Não conseguia tirar os olhos do firmamento. Sombras de nuvens sarapintadas manchavam a terra, suavizando e amaciando a áspera essência da bacia. A terra parecia respirar com uma paciência langorosa.

 

Pedras Cantantes virou para ela os olhos brilhantes.

 

- Qualquer um pode sonhar. Tudo o que precisa e da vontade de procurar. o único está em toda a parte à nossa volta... denegado pelos sentidos, tal como te disse. Um sonhador tem de retirar as camadas de si mesmo. Já descascaste cebolas silvestres. Remove-se escama atrás de escama. E que encontras no núcleo?

 

Ela mascou o lábio, pensando naquilo.

 

- Uma cebola não tem núcleo. Apenas uma escama final. Não há lá nada excepto cebola.

 

- E a via para o único é o mesmo. - Pedras Cantantes fechou os olhos e as narinas dilataram-se-lhe ao encher os pulmões de ar.

- Tudo o que é Cinza Branca tem de ser removido. A tua alma tem de estar pura, silenciosa. Tem de escutar sem ouvir. Tens de te negar a ti mesma. Aprenderás isso, eventualmente. A tua alma já está perto do único.

 

- Mas disseste que eu enfrento um desafio que poucos sonhadores conheceram.

 

Pedras Cantantes levantou as sobrancelhas e sorriu melancolicamente.

 

- Senti a necessidade do Poder. As minhas visões deram-me vislumbres do futuro que poderá acontecer se o Povo do Sol não aceitar o sonho do Primeiro Homem. Tens de enfrentar esse Homem Valente e voltar ao Povo do Sol... sonhar o Poder deles na espiral. Para fazeres isso, tens de viver entre eles.

 

Ela esfregou as mãos nervosas ao longo dos braços.

 

- Já vivi entre eles antes,

 

-Mas não como sonhadora- contradisse Pedras Cantantes. Quando uma pessoa busca o sonho, vem para um lugar como este... afastado das distracções que perpetuam a ilusão da vida. É mais fácil concentrarmo-nos na solidão. As mulheres não riem, as crianças não choram. Os homens não contam histórias e os cães do acampamento não latem nem ladram. Os problemas que embaraçam as pessoas que vivem juntas não se intrometem.

 

Um nó apertOu-lhe a alma. «Viver com o Povo? Enfrentar Homem Valente? É isso que Pedras Cantantes vê?» Fechou os olhos e respirou fundo. «Nunca viverei com os Pedra Partida. Matar-me-ei primeiro.»

 

- Não compreendo qual é o problema. o Povo do Sol é saudável e forte. Têm o seu próprio libertador de almas para sonhar para eles. Por que precisam de mim?

 

Piscou os olhos e examinou-a, pensativamente.

- A vinda do Povo do Sol alterou a espiral.

 

- A espiral?

 

- Círculos dentro de círculos, sem princípio nem fim. A espiral é o mundo. As plantas crescem na terra. Alguns animais comem plantas. Os predadores comem os animais que comem as plantas. o homem come os animais bem como as plantas. Quando o homem e os predadores morrem, os seus corpos voltam à terra, Cresceriam as plantas se o corpo dos vivos não alimentasse a terra? Viveriam os animais se não pudessem comer as plantas? Onde começa isto? Onde acaba isto? A espiral representa tudo o que é... e que não é. Quando começa a alma? Quando acaba? o Poder flui através da espiral. o Primeiro Homem dança na espiral. A Trouxa de Lobo canta na espiral. A espiral é o único.

 

- Tudo isso é e não é. As palavras assombravam-na.

- E mais.

 

- Guardemos isso para depois. Eu quero é saber a respeito do Povo do Sol. Disseste que estavam a mudar a espiral.

 

-A espiral é parte do mundo... é não é. -Pedras Cantantes fez um gesto abrangente. - Pensa nisso como o reflexo num charco de água. o reflexo é parte da água? Ou parte da luz? Se a brisa encrespar a superficie da água, o reflexo estilhaça-se. Se a água estiver a correr, o reflexo é distorcido. Se escolheres mergulhar o dedo na água, a ondulação muda o reflexo. É isso que a vinda do Povo do Sol está a fazer à espiral. stão a enviar ondas através da espiral, porque não conhecem o Único. - Mas se tudo é parte do Único, eles também são.

 

- São? o sorriso que Pedras Cantantes lhe enviou tocou-lhe a alma.

 

Cerrou os punhos.

 

- Então não percebo. Se o «único é tudo o que é e que não é, o Povo do Sol tem de ser parte do único.

 

Ele ergueu o rosto para os raios do Sol.

 

- Eles são parte do Único... mas não o sabem. Mascararam-se na ilusão. Vivem separadamente. Quando viveste com o Povo do Sol, com que frequência ouviste falar a respeito do único? Com que frequência os seus sonhadores falavam do único ou deixavam os acampamentos para procurarem as visões?

 

Ela semicerrou os olhos.

 

- Ficavam nas suas cabanas e enviavam as almas para o Acampamento dos Mortos. Era lá que obtinham o seu Poder, Procuravam-no nas almas dos mortos.

 

A expressão dele não mudou.

 

- o Povo do Sol é novo nesta terra, É jovem e vigoroso. Tu viveste entre eles. Quando sentiste o único pela primeira vez?

 

- Quando Lua Brilhante morreu.

 

- E antes disso? Conheceste o único ou estavas satisfeita por saberes a maneira como o mundo é?

 

Ela respirou fundo.

 

- Pensava que sabia como é o mundo.

 

- Teu é o sangue do Primeiro Homem. Talvez seja por isso que ele te enviou para o Povo do Sol. Para os ensinares.

 

Ela abanou a cabeça.

 

- Mas eu também não ouvi o chamamento do único entre o Povo da Terra. Eles são descendentes do Primeiro Homem.

 

- É verdade. - Pedras Cantantes fez um imperceptível aceno de cabeça. - Mas também eles trocaram o «único por ilusão, Esqueceram a espiral da quem Dança No Fogo lhes falara. Tu e água Mansa estão próximos do Único, embora de formas diferentes. É da natureza da alma de Água Mansa sentir os reflexos do único em seu redor. É da vossa natureza sonhar. o Poder conhece-te, Cinza Branca. Tu és a ponte entre os mundos... da mesma maneira que um tronco atravessado sobre um rio caudaloso. Tu tocas ambas as margens.

 

- Como sabes tantas coisas? Quase me sinto desamparada. Ele sorriu-lhe com os olhos castanhos sem fundo, eternos.

 

- Os sonhadores são tão diferentes como as pessoas. - Juntou as palmas das mãos. - Quero contar-te uma história. Quando era jovem, senti o único. Apareceu-me nos sonhos e o chefe da minha tribo disse-me para ir a um curandeiro. A sensação de Poder tornou-se mais forte. Depois, um ano durante a reunião, Rabo de Gato trouxe a Trouxa de Lobo para o meio de nós. Toquei-lhe e senti o seu Poder. Naquela noite sonhei com o Povo do Sol e com o futuro. Deixei o Povo para vir para aqui aprender a sonhar.

 

Fez uma breve pausa, perdido nas suas recordações.

 

- Quando toquei a Trouxa de Lobo, abriu-se uma porta no meu espírito. Soube o que o Poder queria. Sonhei o Primeiro Homem enquanto dançava no fogo e me mostrava o caminho para o norte ao encontro do Povo do Sol.

 

- Mas não foste?

 

Pedras Cantantes abanou a cabeça.

 

- Tentei-o várias vezes, mas o sonho trazia-me de regresso aqui. Compreendes?, o sonho é uma armadilha. As coisas do mundo tornam-se cada vez menos importantes. Encontrara o único, o silêncio atroador, a escuridão que cega... a desolação extática.

 

A alma dela tocara aquela liberdade; compreendeu as suas palavras.

 

Ele baixou a cabeça, fixando o olhar nas mãos mirradas.

 

- Alguns homens estão obcecados com a copulação. Outros com a caça. Alguns com o estatuto social e o prestígio. Para mim, apenas havia o único. - Respirou e disse: - Como podia desistir dele? Eu não era suficientemente forte.

 

Ela conseguia sentir o Poder da alma dele. Perguntou num sussurro receoso:

 

- E pensas que eu sou? Ergueu as mãos.

 

- Para mim, o sonho é tudo. Para ti, tem de ser apenas uma parte. Sinto a preocupação do Primeiro Homem. o Povo do Sol não pode destruir o único... mas pode mudá-lo, mudar tudo quanto o Primeiro Homem sonhou. Pode transformar a espiral em outra coisa qualquer.

 

- Mas por que é que o Poder não interfere?

 

As rugas do seu rosto antigo encheram-se de mágoa.

 

- Os caminhos dos homens não são preocupação do Poder. o Primeiro Homem sonha a espiral, mas o «único não interfere com este mundo, embora o percorra. Lembras-te da história da Criação que te contaram em Três Confluências quando eras pequena?

 

Ela inclinou a cabeça para trás para olhar a imensidade do céu.

- o Criador fez o Primeiro Mundo. E fez todos os animais e plantas e insectos e povo. Mas o povo começou a causar problemas. Os animais ficaram malucos porque o povo pensava que era mesmo melhor que o Criador, Quando o Criador viu o que estava a acontecer, fez o Segundo Mundo no céu e moldou o Sol, a Lua e as estrelas.

 

O Povo do Lobo diz que ele se transformou numa aranha gigante para fazer aquilo. o Povo da Terra diz que ele fez aquilo apenas para se manter afastado do povo, mas as almas do Povo começaram a elevar-se e a perturbar o Segundo Mundo. É por isso que o Povo da Terra enterra os seus mortos... devolve-os ao terreno que os alimentou, o Criador pensou que, se fizesse um Terceiro Mundo, poderia ser capaz de resolver o problema. No Terceiro Mundo, pôs os espíritos para ajudarem e guiarem o povo. Entretanto, as coisas complicaram-se de tal maneira no Primeiro Mundo que nem mesmo os espíritos conseguiam ajudar. Finalmente, o Criador fez um Quarto Mundo... este mundo... e abriu um buraco no Primeiro Mundo através do qual o Primeiro Homem guiou o povo bom.

 

- Exactamente - assentiu Pedras Cantantes com um aceno de cabeça. - No Primeiro Mundo, o povo perdeu-se na ilusão e esqueceu o seu lugar.

 

Cinza Branca olhou nervosamente de soslaio para Pedras Cantantes.

 

- o Povo do Sol tem uma história diferente. Dizem que, no princípio, o mundo inteiro era feito de água. o Pássaro de Fogo não tinha sítio onde poisar e chamava. o Urso ouviu as preces do Pássaro de Fogo e mergulhou e trouxe lama para o Pássaro de Fogo se sentar. o Pássaro de Fogo ficou tão contente que amontoou a lama e fez uma grande montanha e o Urso sentou-se no alto dela. o Criador viu o que acontecera e fez os homens e os animais a partir da lama. Quando o Urso olhou para baixo e viu todos aqueles animais e povos, desceu e ensinou os homens a viver.

 

Uma cintilação iluminou os olhos de Pedras Cantantes.

 

- Uma história interessante. Qualquer dia, gostaria de ouvir outras histórias do Povo do Sol. As histórias têm Poder. São uma via para o conhecimento... libertam-te para saberes mais do que tu pensas que sabes. Diz-me, Cinza Branca, recordas-te do que aconteceu quando o Primeiro Homem atravessou o buraco entre os mundos?

 

- Recordo-me de que o Primeiro Homem tinha um irmão maligno que conduziu o outro povo perverso para este mundo. Mas não compreendo como o único é o Criador e...

 

- o único é o pulsar do coração do Criador. -Pedras Cantantes encheu os pulmões e depois deixou o ar escapar-se. - Lembras-te da cebola? Camadas dentro de camadas? Os mundos são assim. Cada um deles é uma camada. o único atravessa-os a todos. Pensa nele como o odor da cebola.

 

- A cebola é como a Criação inteira.

 

- És esperta, Cinza Branca. Podemos fechar o nariz ao odor do único, denegá-lo através da ilusão. Apenas nos sonhos conseguimos experimentar o único. Passa-se o mesmo com o Mundo de Espírito. É por isso que o Primeiro Homem tem de sonhar o único. Apenas através do «único é que os espíritos conseguem tocar este mundo. o Povo do Sol sonha o Acampamento dos Mortos, mas na sua ilusão ignora o único. É uma coisa da alma. Tu tens de ser a ponte.

 

Ela engoliu em seco e massajou a parte de trás do pescoço.

 

- Ou a espiral e o Poder de Espírito se transformarão em algo de novo?

 

- Homem Valente quer sonhar uma nova via para este mundo. Ao fazê-lo, mudará a espiral, Apenas tu e Água Mansa podem desafiar o seu sonho. A escolha ainda é vossa. o olhar fixo de Pedras Cantantes encheu-a como mel iluminado pelo sol.

 

- Regressámos, Pedras Cantantes. água Mansa e eu. Estamos aqui. Diz-me o que temos de fazer.

 

- Aprender... antes que seja demasiado tarde.

- Demasiado tarde?

 

o velho empertigou a cabeça e fixou o olhar na bacia.

 

- A noite passada sonhei. Vi o Povo do Sol na bacia do Vento, Vi um homem de espírito estropiado sobre o corpo de um jovem guerreiro. o jovem guerreiro era um homem formoso, com linhas azuis tatuadas na testa. o homem de espírito ergueu uma faca ensanguentada para o Sol... e nascia uma nova via.

 

«Homem Valente... e Pés de Vento!» A alma gelou-se-lhe.

 

Garra de Cotovia lutou por manter a respiração e alimentar os pulmões esfomeados. Parou no trilho que conduzia para o alto da Barreira Cinzenta. Para ambos os lados, a crista que seguiam descia para linhas de água de margens escarpadas. A salva e o crisótano ocasionais sarapintavam as encostas. o solo cinzento e branco produzia uma terra polvorenta que lhe revestia os mocassins. Aqui e ali, o arenito cor de camurça-claro aflorava nas encostas em seu redor como linhas de escamas. Lá no alto, o junípero e o pinheiro flexível esparsos agarravam-se à terra esboroada com raízes tenazes.

 

o medo agarrava-se-lhe ao coração. «Estamos corrompidos... inseguros mesmo aqui em plena luz do dia.» A alma estremeceu-lhe só de pensar naquilo. «Estamos todos conspurcados. Pelos espíritos da terra e do Sol no céu, vamos sofrer por esta louca abominação. Porquê... oh, por que tinha isto de acontecer a Mão Negra? Aos Pedra Redonda?

 

Pestanejou para deter as lágrimas da derrota e da futilidade.

 

As pernas tremiam-lhe. Apoiou-se no braço de Rabo de Gato e olhou para trás, para a bacia do Vento. As terras baixas sombreadas pelas árvores ao longo do rio do Espírito estavam ocultas pelas cristas dobradas, de argilas cinzentas e azuis dispostas em camadas, que se erguiam de permeio.

 

«Assim é melhor. Se ao menos pudéssemos fugir... ir para longe deste terrível lugar.» Engoliu em seco com dificuldade. Como é que uma pessoa fugia de uma conspurcação da alma?

 

Depois da descoberta do corpo de Mão Negra, o povo entreolhara-se com horror, reunira as crianças e amontoara-se desordenadamente em torno das fogueiras. Muitos agarraram-se aos fetiches para se protegerem do maligno. Antes de a primeira luz da manhã se ter infiltrado no vale, os acampamentos estavam levantados e as tribos fundiam-se em marcha como a neve na Primavera. Um assassino, um terrível assassino, perseguira um dos do Povo.

 

Garra de Cotovia franziu os delgados lábios castanhos sobre as gengivas chupadas e olhou com ar feroz e irritado na direcção de Três Confluências. Que espécie de maligno possuiu o demónio que esmagara a cabeça de Mão Negra? Arrepiou-se com o pensamento. E aquilo ferira a sua tribo! Todos suspeitavam de Coruja Feliz, mas quem o podia provar? Quem podia levantar uma tal acusação contra ela ou contra a sua tribo?

 

Garra de Cotovia olhou de relance para o seu povo. Aguardavam em silêncio no trilho que ela recobrasse as forças. Uma ansiedade ameaçadora pairava à volta deles como um fumo de fim de tarde. Erva Amarga olhava de olhos vazios e expressão de cinza. Apenas a disposição de espírito de Trufa voltara. o rapaz parecia ter renascido.

 

-Vai ser um mau ano - dissera Anel de Osso quando baixaram o corpo de Mão Negra à cova aberta apressadamente. Apenas as tribos da Água Estagnada e do Vento Quente tinham ficado para trás e ajudado no enterro. Depois, também eles se apressaram a partir, evitando o local onde o fantasma furioso de Mão Negra vagueava.

 

Nenhuma ofensa contra o Povo se podia comparar com o assassínio - nem mesmo a bruxaria. o fantasma do assassinado percorria a noite em busca do assassino. Desabafaria a sua cólera no primeiro que lhe aparecesse por perto. Se o bruxo de Coruja Feliz existia, procuraria o local do assassínio de Mão Negra e aliar-se-ia ao espírito. o inocente pagaria pelo que fora feito.

 

Garra de Cotovia olhou para cima, para a longa subida que tinha à sua frente. o cume parecia para lá do seu alcance, embora esperasse que as coisas corressem melhor para o Povo.

 

Recomeçou a caminhar, recusando-se a quebrar o silêncio, recusando-se a carpir o único homem que alguma vez amara. Ele viveria nas suas recordações como já vivera uma vez: um jovem amante apaixonado que partilhara o corpo e a alma com os dela.

 

Resolutamente, Garra de Cotovia colocou um pé à frente do outro, obrigando o corpo velho a trepar a longa subida.

 

«Vi a minha última reunião... e isso arrepia-me a alma.» Uma angústia profunda e excruciante encheu-lhe a alma. «Que mais acontecerá ao Povo? Que desgraça virá daqui?»

 

o Sol queimava as costas de água Mansa que descansava com Cinza Branca numa concavidade protegida que ficava entre desbotados pedregulhos arredondados que tinham caído da escarpa de granito sobranceira. A brisa suspirava nos pinheiros flexíveis e rodopiava na sua alcova escondida. No mato, os tentilhões rosados chilreavam e os insectos zumbiam.

 

Água Mansa rebolou de cima de Cinza Branca e deitou-se de costas. Expeliu profundamente o ar quente dos pulmões e olhou fixamente para os farrapos de nuvens que vogavam tão facilmente contra o azul sem fim do céu. A brisa acariciava-lhe a pele congestionada.

 

- Não devíamos estar a fazer isto - disse Cinza Branca com um suspiro. -Pedras Cantantes diz que copular distrai-nos de sonhar. água Mansa acomodou a cabeça para a admirar. A transpiração

 

deixara-lhe a pele morena a brilhar ao sol. As bagas de suor - mistura do suor de ambos - faiscavam na luz. Ele deliciava-se com a vista do corpo perfeito dela. Os seus músculos firmes tinham-se descontraído depois da paixão da cópula. Esticou-se e passou-lhe um dedo ao longo da curva da anca, contornando a humidade do umbigo e depois a mão a subir para lhe agarrar o seio inteiro. Uma satisfação profunda cresceu-lhe dentro da alma,

 

- Podíamos parar. Uma dor acompanhou-lhe o pensamento. Ela aguentou-lhe o olhar inquisidor. Por um momento, ele pareceu afundar-se na suavidade dos seus olhos castanhos. o sol acentuou-lhe a cova delicada das faces.

 

- Não quero.

 

A paz deslizou-lhe pelo corpo cansado.

 

- Sei que se espera que os sonhadores não copulem. E não foi só Pedras Cantantes que disse isso.

 

- Não me interessa - respondeu. - Amo-te muito. Os momentos como este preenchem-me uma necessidade da alma. - Levantou uma mão para esfregar a testa. - Sei que terei de desistir de muito de mim. Recuso-me a desistir também de ti. Se não puder amar e sonhar, então não sonharei.

 

- o Poder tem o seu preço - recordou ele.

- E eu tenho o meu.

 

Ficaram em silêncio por um momento antes de ela continuar.

- Mesmo que tenha de ser a ponte entre mundos, não desistirei de ti. De outro modo, o Poder não te teria enviado até mim. Talvez isto seja parte dele.

 

- Talvez - concordou. - Mas o Poder dispensa as suas ferramentas depois de as usar. Talvez me dispense a mim.

 

- Não pode.

 

- Oh? - Lançou-lhe um sorriso enviesado. - Sabes alguma coisa a respeito do Poder que eu não saiba?

 

- Agora, és o guardião da Trouxa de Lobo. Além disso... preciso de ti.

 

Ele olhou por cima do ombro para o embrulho que continha a Trouxa de Lobo. Não ia a sítio nenhum   sem ela.

 

- Julgo que sou. Resmungou de modo abafado e abanou a cabeça.

 

- Quê?

 

Ele coçou a orelha.

 

- Estava a pensar a respeito de como mudei. A pessoa que era Barriga Falsa desapareceu. Não sou o mesmo homem que era quando vivia em Pedra Redonda. Tornei-me alguém diferente. A Trouxa de Lobo... muda uma pessoa. Sou o que ela é e ela torna-se parte de mim.

 

- Eu sei. - Flexionou as mãos e os músculos mexeram-se-lhe por debaixo da pele morena e macia. - Sinto a Trouxa de Lobo... a puxar-me constantemente.

 

- Sabê-la por perto preenche-me alguma coisa na alma que um dia esteve vazia. E nunca soube que desaparecera. Compreendes? Ela apertou-lhe a mão que estava no seio.

 

- o meu amor por ti é assim. Nunca pensei que o amor pudesse ser tão rico e cheio. o que um dia pensei que fosse amor transformou-se numa pele oca... como o casulo de um insecto. Por fora, parece cheio, mas, quando o abrimos, não tem nada lá dentro.

 

- Então, talvez tu e eu tenhamos de aprender a sonhar juntos. Ela respirou profundamente e fixou os olhos no céu.

 

- Quem me dera saber, Água Mansa. Pedras Cantantes levou anos a aprender a sonhar. A Trouxa de Lobo também o mudou. Se as suas visões estão certas, eu não tenho tempo para aprender o caminho para o único.

 

Mascou o lábio antes de acrescentar.

 

- Eu consigo sentir o único, mesmo agora. Ele toca-me a orla da alma com o toque suave das penas na pele. Pedras Cantantes ensinou-me a limpar a mente, a não ver nem ouvir nada. Estou a aprender a meu respeito, acerca de como deixar a ilusão. Mas só o consigo fazer por um instante. Sinto-me como uma criança de tenra idade a aprender a ser um ser humano. Há tanta coisa para aprender. Tenho de aprender a falar e a andar e a actuar. Tenho de enfrentar de novo Homem Valente. Mas ele é um guerreiro e eu sou apenas uma criança pequena.

 

- o Poder não nos abandonará. - Ele engoliu em seco, esperando fervorosamente que fosse esse o caso. - Apenas temos de tentar com mais empenhamento.

 

- Eu sei. Eu quero. Mas às vezes quase consigo sentir o falhanço aproximar-se. E, se isso acontecer, nada do que, me aconteceu no passado se comparará com o que está para vir. Homem Valente quer... - Virou a cabeça para o outro lado.

 

o estômago de Água Mansa deu um nó.

 

- A pior parte é eu continuar a sonhar com o que acontecerá se não o detivermos. A última noite voei sobre dezenas e dezenas de pessoas. Mais gente do que folhas de erva. Todos olhavam para o alto, para mim, com a desgraça nos olhos. As suas almas choravam e esticavam-se para mim como se eu as pudesse salvar. «Como é que as posso salvar? Nem sequer sei como nos salvar.»

 

Agulha Cinzenta viajava com a dor na alma. Recordações do horror nos olhos de Dedo do Pé Pequeno,abrigavam-se dentro dela ao caminhar, A expressão tensa do marido estava reflectida nos rostos dos outros. o horror pairava sobre a tribo da água Estagnada como o bruxuleio de mosquitos sedentos de sangue. A tribo tinha laços com Três Confluências através de Dedo do Pé Pequeno. Ninguém fora capaz de dizer quem matara Mão Negra, mas a cabeça da serpente da suspeição fixava-se em Três Confluências. Se a tribo das Três Confluências albergava a abominação - o assassino -, Dedo do Pé Pequeno carregava a mácula. «E, através dele, também eu... e as nossas crianças!»

 

Agulha Cinzenta ficou horrorizada com o pensamento e virou a atenção para os homens que caminhavam à distância de vários tiros de dardo à frente do grosso da tribo. Apressavam-se no seu caminho, ombros descaidos e cabeças curvadas. Anel de Osso, a chefe da tribo, caminhava no meio da família; falavam em voz baixa. o maligno fora libertado. Uma pessoa podia senti-lo no vento e sentir o seu ruge-ruge por entre a erva seca.

 

Por entre os troncos sombreados de cinzento dos choupos nodosos que cresciam ao longo do rio do Espírito, Agulha Cinzenta podia ver que Dedo do Pé Pequeno permanecia a um lado, à parte e sozinho. Podia dizer pela sua postura que a culpa o cavalgava como um melro caça-carrapatos nas costas de um búfalo.

 

-A culpa não é dele - disse Agulha Cinzenta a Mulher Querida ao olhar para leste onde rochedos de arenito amarelo-escuro se erguiam em formações quadrangulares contra o céu. o vento soprava quente através da bacia, apanhando o calor escaldante do sol antes de este invadir o leito do rio mergulhado em sombras.

 

- Eu sei. Estava lá. - Mulher Querida franziu os lábios por debaixo do nariz comprido e fino. - Cinco Pedras, da tribo do Vento Quente, estava de visita ao acampamento de Três Confluências quando a coisa aconteceu. Ele disse-me que estavam lá todos os homens de Três Confluências. Também lá estava Coruja Feliz... resmungando a respeito da forma como Garra de Cotovia a humilhara a ela e à tribo. Cinco Pedras disse que nenhum deles tinha aquele ar... sabes?, como quem estivesse para ir fazer alguma coisa tão vil como um assassínio. Alguém que o desejasse fazer... especialmente numa reunião... estaria nervoso, olhando por cima do ombro para ver se alguém dava fé.

 

- Estavam lá todos?

 

- Todos excepto um par de mulheres que tinham saído para uma visita. Cinco Pedras disse que Cesta estava com um ar tão desgraçado que se ausentou. A perda do bebé mudou-a.

 

- Cesta é irmã de Dedo do Pé Pequeno. Costumam ser muito chegados... enviam presentes para cá e para lá. Ele disse-me que ela agora se está a transformar numa sombra assustadiça daquilo que era. Numa pessoa que ele quase já não conhece mais. -Agulha Cinzenta fez um gesto de impotência. - Alguém deve ter ouvido alguma coisa!

 

- Quem podia ouvir? - perguntou Mulher Querida. - Homem Alto conta uma história maravilhosa. Mão Negra foi morto por um belo lançamento de dardo do acampamento.

 

Agulha Cinzenta abanou a cabeça, examinando o marido com os olhos baixos.

 

- Ele está a assumir toda a culpa, receoso de nos macular.

 

- Não devia - interrompeu Anel de Osso. - Conheço Dedo do Pé Pequeno. É um homem bom. Tem de ser, pela maneira como irritava a velha Fogo Verde. - Resmungou: - Filha, a única coisa boa que veio de Três Confluências há muito tempo foi esse teu marido. Vou falar com ele. Por a ora não está com disposição para ouvir. Talvez quando chegarmos a água Estagnada já esteja.

 

Agulha Cinzenta sorriu agradecida, mas a coisa não acabaria. Nem daqui a muito tempo, se não mesmo nunca.

 

Mulher Querida disse com ar desgraçado:

 

- o assassínio praticado na reunião? Nada de bom virá dali.

- A conversa sobre bruxaria vai começar de novo. - Anel de Osso lançou um olhar mal humorado aos rochedos revestidos de arenito poeirento que se avistavam a leste. Limpou um pingo de transpiração que lhe deslizava por uma das faces redondas. - Não nos podemos dar ao luxo de ter esse tipo de problemas, sobretudo com o Povo do Sol a enviar grupos para sul.

 

Agulha Cinzenta olhou para trás, para o filho que vinha na trouxa da sobrinha Baga de Sabugueiro. A rapariga adorava a criança como se ela lhe pertencesse. Com o pensamento da criança, os seios de Agulha Cinzenta começaram a doer-lhe com o leite. O meu filho viverá o tempo suficiente para merecer um nome? Se assim for, a sua vida será sempre marcada por este terrível acto?

 

Deixou-se ficar para trás e tirou a criança a Baga de Sabugueiro. Enquanto amamentava a criança, Agulha Cinzenta escutou.

 

- Os outros acampamentos ajudarão a expulsar o Povo do Sol se ele aparecer - dizia Mulher Querida.

 

Anel de Osso fez um aceno de cabeça em sinal de assentimento.

- Eles... se não começarem a acusar-se uns aos outros de bruxaria. Isso seria a nossa ruína. - Fez uma pausa. - Protecção contra o Povo do Sol... bem, pelo menos conseguimos aquela promessa na reunião.

 

Mulher Querida limpou o suor que lhe escorria do cabelo e alongou a vista pela água fresca do rio do Espírito à sua esquerda. Os gafanhotos explodiam da erva a seus pés, afastando-se com estalidos secos enquanto a luz do sol lhes apanhava as asas sarapintadas.

 

- Não estou a gostar disto - acrescentou calmamente Agulha Cinzenta. - Sinto que o mundo se virou. o Poder deve estar ofendido. Não se comete um assassínio numa reunião sem ofender o Poder.

 

Anel de Osso olhou para ela de esguelha,

 

- Andas a rondar o Povo do Lobo há demasiado tempo. Agulha Cinzenta mudou o filho para o outro seio.

 

- o Poder é o Poder. Nós mantemos os espíritos apaziguados, mas não posso considerar o Povo do Lobo louco por causa das suas crenças. Dança No Fogo desceu daquelas montanhas quando nos conduziu até aqui. Espanto-me apenas com o que mudámos.

- Imenso, julgo eu. - Anel de Osso olhou de soslaio para trás, para se certificar de que toda a gente vinha, especialmente as crianças. As crianças tinham tendência para se atrasar num dia quente como este. - E há outra coisa. Não vimos ninguém do Povo do Lobo. Alguém devia ter vindo até cá. Eu sei que eles tinham a bênção, mas algum dos mercadores teria saído mais cedo para fazer a reunião.

 

- Isto nem parece deles. - Mulher Querida olhou em redor, nervosamente. - Apenas tive um mau pressentimento.

 

- Não admira - grunhiu Anel de Osso. - Deu-se um assassínio na reunião. Posso dizer-te isto, a partir de agora, faremos um longo desvio de um dia de caminho em redor deste lugar. - Semicerrou os olhos. - Se Três Confluências receava a bruxaria antes disto, agora rastejarão de medo sabendo que têm o acampamento mais próximo do espírito irritado de Mão Negra.

 

Uma sensação de que algo estava errado apertou as entranhas de Agulha Cinzenta.

 

- Talvez devêssemos chamar os homens. Sentir-me-ia melhor.

- Nervos, rapariga. - Anel de Osso olhou em volta desconfortavelmente. A terra ficara estranhamente calma. - E eu compartilho-os.

 

Os homens tinham saído das árvores e trepado a um terraço baixo truncado pelo rio do Espírito. o calor tremeluzia na terra trigueira, esbatendo as imagens.

 

- o povo vai pagar por esta reunião, sou eu que o digo acrescentou Anel de Osso meneando-se ao andar. - Trouxemos connosco para cá algum tipo de desastre.

 

- Mais dois dias e estaremos em casa. - Mulher Querida apontou em direcção às montanhas Atravessadas que se erguiam à sua frente numa miragem ondulante. - Talvez pudéssemos chamar Pedras Cantantes cá abaixo para cantar a protecção do espírito em redor do acampamento.

 

- Boa ideia, criança - concordou Anel de Osso. - Se alguém pode afastar o maligno, esse alguém é Pedras Cantantes. Tinham atingido o sopé do terraço. Agulha Cinzenta trepou, seguindo os rastos dos homens. o sol mordia agora sem piedade por terem deixado a protecção dos choupos. o suor punha um resplendor nos braços nus de Agulha Cinzenta e escorria-lhe pelo pescoço. Do topo do terraço podiam ver Água Estagnada e segui-lo até aos abrigos da tribo. Felizmente, a maior parte da viagem seria feita na várzea sombreada pelos choupos.

 

Agulha Cinzenta alcançou o topo e esperou por Anel de Osso. Duas protuberâncias de arenito desgastado emergiam do topo do terraço juncado de seixos. Os homens já tinham passado através da estreita passagem entre eles. A premonição de problemas cresceu, quase sufocando Agulha Cinzenta, que olhava através da poeirenta argila branca.

 

«Maluca! É o calor. o espírito de Mão Negra está a pesar-te. Estás preocupada, é isso. É apenas a conversa sobre bruxaria que te está a devorar.»

 

Quando o resto das mulheres atingiu o topo, ela olhou para a frente.

 

- Quando tivermos os homens à vista, vamos dizer-lhes para esperarem - disse Agulha Cinzenta, com o desconforto a começar a transformar-se em pânico.

 

- Ia sugerir a mesma coisa - concordou Anel de Osso.

 

o calor saía dos calhaus achatados, queimando através das solas dos mocassins de Agulha Cinzenta. Seguiu o trilho entre os blocos de arenito, serpenteando por entre os pedregulhos que lhe davam pelo peito e que juncavam esta ponta do terraço. Seguiu-o até à encosta que descia para a várzea antes de ver o marido de Mulher Querida, Meia Lua. Estava de borco, com o corpo estatelado na encosta.

 

A emboscada fora montada astuciosamente.

 

Gritos de medo írromperam à sua retaguarda. Agulha Cinzenta rodou para fugir, mas um homem saltou como uma mola de detrás de uma das rochas. Envergava vestuário de pele estranhamente talhado, com o casaco de caça pendendo até meio das coxas. Trazia estranhas figuras tatuadas nas faces e o cabelo negro-brilhante estava apanhado numa espécie de rabo-de--cavalo alto. Mãos poderosas agarraram-na. Atrapalhada com o filho, tentou resistir. Os gritos fenderam o ar.

 

Os guerreiros pareciam sair das próprias rochas, enquanto o seu captor a arrastava, esperneando e gritando, para o grupo. Outro dos guerreiros hediondos arrancou-lhe o filho. Erguendo a criança, gritou o seu triunfo numa língua estranha.

 

- Deixem-me ir embora! - implorou.

 

Olhos de lobo fixaram-se nos dela. Depois o guerreiro riu e falou-lhe numa língua que não conseguia entender. Puxou-lhe os braços para detrás das costas e amarrou-lhos com correias feitas de tendões. Arrastando-a para a pôr de pé e apontando para a parte de baixo da encosta, ordenou-lhe que avançasse.

 

o medo pulsava vivo nas veias tumefactas de Agulha Cinzenta. «Dedo do Pé Pequeno... onde estás?» Que estava a acontecer? Mulher Querida e uma choramingas Baga de Sabugueiro estavam a ser arrastadas por outros guerreiros.

 

- Quem és tu? - gritou Agulha Cinzenta. - Que estás a fazer?

 

Depois viu Dedo do Pé Pequeno. Jazia mais em baixo na encosta, tombado na salva. Dois compridos dardos de guerra saíam-lhe do corpo.

 

As pernas foram-se-lhe abaixo. o guerreiro deu-lhe um pontapé violento enquanto um grito de angústia e incredulidade lhe saltou dos lábios.

 

Outro dos guerreiros estava isolado a um dos lados. Olhava com olhos impassíveis, dardos espetados no chão à sua frente. Tinha cinco círculos negros tatuados na pele escura da testa. o guerreiro disse numa voz hesitante mas compreensível:

 

- Somos o Povo do Sol. Estes guerreiros são Ponta Negra. Tu pertences a este homem. Chama-se Coelho de Fogo.

 

Por um instante, a incredulidade sobrepujou-lhe a dor. Depois as lágrimas soltaram-se-lhe livremente, correndo-lhe pela cara abaixo. Nenhum guerreiro correra para alertar o Povo da Terra.

 

 

Cinza Branca concentrou-se na descontracção. Estava sentada, pernas cruzadas, numa pilha de peles macias no abrigo de Pedras Cantantes. Mantinha os olhos fechados. No seu íntimo, sentia o sangue ser bombeado nas veias. o pulsar do coração e a expansão e contracção dos pulmões tornaram-se eternos. Virou-se para dentro e até mesmo aquelas sensações foram deixadas para trás.

 

A radiação da Trouxa de Lobo pairava no nada envolvente e o seu Poder enroscava-se em redor dela. Resistiu à pressão para se lhe render e virou-se para dentro, afastando-se da direcção para onde a Trouxa de Lobo a queria arrastar. Tinha de estar sempre a pairar no limiar da sua consciência como uma constante distracção?

 

Deixou-se ir por si e usou todo o poder da vontade para limpar os seus pensamentos. Quando se enchera de nada, começou a remover as suas próprias camadas.

 

Uma sensação de deslizamento - como se estivesse a cair começou a apoderar-se dela. o toque do único, semelhante a penas, fechou-se em seu redor como fumo azul numa manhã enevoada. o corpo movia-se com ele, parecendo flutuar nas ondas.

 

A voz leve como penas saiu do único. «Procura... procura... »

- Onde estás?

 

A imagem fragmentou-se, a consciência do único engelhando-se enquanto ela regressava ao corpo. Cinza Branca pestanejou e olhou.em redor desorientadamente, Respirou fundo e suspirou. «Não consigo fazê-lo. Estive tão próximo... e foi o mais longe que consegui ir.»

 

- Esforças-te demasiado - disse Pedras Cantantes. Estava sentado nas peles, nu da cintura para cima, na parte de trás do abrigo. A espiral na parede apanhava a luz bruxuleante da fogueira. As sombras dançavam na pedra manchada de fuligem e brincavam sobre os fardos pendentes dos respectivos suportes.

 

Cinza Branca baixou a cabeça; a dor importunava-lhe as pernas tolhidas.

 

- Senti-o e penso que ouvi a voz do Primeiro Homem. - Abanou a cabeça. - Parece-me que quanto mais perto chego tanto mais longe o único está.

 

Pedras Cantantes uniu as pontas dos dedos com olhos conhecedores.

 

- Encontrarás o caminho.

 

Ela estendeu as pernas e estremeceu com a agonia do formigueiro. Ele dizia sempre aquilo, mas desta vez as palavras vieram muito em cima do seu falhanço.

 

- Quando? Quanto tempo nos resta? Tenho de sonhar. - Esfregou as pernas. - Talvez... talvez não seja a unica.

 

As rugas no rosto de Pedras Cantantes aprofundaram-se.

 

- Se acreditares nisso, nunca descobrirás o caminho. Apenas acreditando-te e denegando-te atingirás o único.

 

-Acreditar? Denegar? Palavras, Pedras Cantantes. Nada mais do que palavras.

 

água Mansa gemeu suavemente, adormecido nas mantas. o seu velho fardo - o único que albergava a Trouxa de Lobo - estava à cabeceira da cama. Acordou e esfregou o punho fechado nos olhos. Olhou fixamente para Cinza Branca com um olhar dorido e disse:

- A coisa começou.

 

Cinza Branca lançou-lhe um olhar fulminante e perguntou:

- o quê?

 

água Mansa sentou-se.

 

- o Povo do Sol está na bacia do Vento. Eu... eu sonhei-o. Voei com a Trouxa de Lobo, Vi o povo a ser morto. Mulheres a serem tomadas como cativas.

 

Ela arregalou os olhos.

 

- Mas Homem Valente não podia estar lá. Não tão rapidamente.

 

A expressão de Água Mansa não mudou.

 

- Não o vi. Mas, da última vez que tive um sonho como este, a coisa aconteceu mesmo. Exactamente como no sonho. Vi o acampamento que Homem Valente liquidou. Vi os dançadores naquela noite à volta da fogueira. Vi-o... a ti. Vi!

 

Ela mudou a atenção para Pedras Cantantes. o velho estava sentado imóvel.

 

- o Poder não espera por homem nenhum... nem mesmo por um sonhador.

 

Lá fora, na noite, uma brisa irritante gemeu por entre os pinheiros. A fogueira crepitou e estalou no silêncio. Exactamente para lá dos suportes do abrigo, uma coruja chorou lamentosamente o seu hoo hoo hoo.

 

Cinza Branca encolheu-se com medo. «Homem Valente? Na bacia do Vento?»

 

- E quanto ao nosso povo? - perguntou Água Mansa. - Temos de fazer alguma coisa. Não podemos apenas deixar que o Povo do Sol...

 

- Não podes fazer nada - interrompeu Pedras Cantantes. - A menos que queiras ir lá abaixo morrer com o resto deles.

 

Água Mansa cerrou os dentes e esmagou o punho nas mantas.

- Que está a acontecer? Porquê? Qual a finalidade de tanta guerra, morte e sofrimento?

 

Pedras Cantantes olhou para cima, para a pega; o pássaro estava poisado no seu poleiro com a cabeça debaixo da asa.

 

- Apareceu um novo caminho para a espiral. o Poder não se preocupa com o sofrimento humano. Apenas o Primeiro Homem sonha para manter a espiral em equilíbrio. Ele é o elo de ligação entre o povo e o mundo do espírito. Compete a Cinza Branca sonhar um novo caminho para o Povo do Sol. Apenas através do sonho é possível fazer o Povo do Sol entender.

 

O sonho. Vai sempre parar ao sonho... e a mim.» Deslizou as mãos nervosas pelo rosto.

 

- Talvez só consiga sonhar quando o Poder vem até mim. Talvez só quando...

 

- Isso sucede por estares presa na teia da tua própria ilusão. A luz da fogueira cintilou nos olhos de obsidiana de Pedras Cantantes.

 

- É isso exactamente! - gritou ela, exprimindo por gestos a sua inutilidade. - Talvez não consiga deixar de ser eu!

 

- Esforças-te demasiado.

 

- Maravilhoso! Esforço-me demasiado. Que mais posso fazer? Deixar de me esforçar... e deixar tudo cair em poder de Homem Valente? Talvez ninguém que esteja desperto toque alguma vez o único. Talvez seja a tua própria ilusão o que experimentas. Arrependeu-se mal estas palavras cortantes lhe saíram da boca.

 

A frustração apertou com força o nó no seu peito. Dera o coração e a alma para seguir as instruções do velho. Há quase uma lua, alcançara o limiar desse toque suave como penas, experimentando a sensação de queda. E de todas as vezes o sentimento do único evaporava-se quando lutava para atravessar o último limiar e cair na névoa cinzenta.

 

Cerrou os dentes, confusa e irritada. «Que se passa comigo? Talvez não seja a heroína que penso que sou. É pedir demasiado a um humano.»

 

Disse a Pedras Cantantes:

 

- Lamento. Não devia ter dito aquilo, o velho assentiu com um aceno de cabeça, num movimento sem disfarce.

 

- Conheço os sentimentos que te possuem. Como uma criança que se consegue manter de pé, tu não consegues dar o primeiro passo sem vacilar e cair.

 

Cinza Branca passou os dedos pela fímbria da camisa de pele de alce. «Também não estou certa de conseguir andar, velho.» Pedras Cantantes semicerrou os olhos como se lesse os pensamentos dela.

 

- o único está em toda a parte. - Fez um gesto para a pedra que estava por cima e depois para o chão e para as paredes. - Até tu permaneces cega a isto. Tens-te empenhado em ultrapassar toda uma vida de ilusão. Agora os teus pensamentos dizem-te que isso não pode ser conseguido. Desde que te oiças a ti mesma, falharás. Ela mordeu o lábio e depois disse:

 

-Tenho apenas a tua palavra... e o conhecimento de que um dia te sentaste no meio de uma manada de alces. Isso pode ser explicado. Talvez fosse um truque do vento. Ou tu alimentaste-los ou coisa assim.

 

água Mansa observava-os circunspectamente e puxava com dedos ansiosos pelas mantas da cama.

 

As rugas no rosto de Pedras Cantantes reorganizaram-se segundo um padrão pensativo.

 

- Ajudaria se visses a ilusão dominar? As sementes da dúvida foram semeadas no teu espírito. Alimentá-las-ás com a ilusão até que rebentem e cresçam?

 

- Ver a ilusão dominar? - perguntou Água Mansa com o cepticismo a crescer-lhe no rosto.

 

Pedras Cantantes olhou de soslaio para Água Mansa e depois olhou para Cinza Branca com um ar benevolente.

 

- Sinto a luta na tua alma. Levada pelo desespero, nunca conseguirás experimentar o único, nunca conseguirás sonhar. o desespero é uma ilusão. Ignora-o.

 

Ela cerrou o punho com força até enterrar as unhas nas palmas das mãos.

 

- Ignorá-lo? Com Homem Valente e o seu sentido distorcido do Poder a correrem à rédea solta? Tiveste visões do futuro que ele sonhará. Ouviste Água Mansa descrever as suas visões. Como podemos ignorar o facto de Homem Valente ir separar o povo do Ünico? Ele vai sonhar um caminho terrível para a vida!

 

- Tens de o ignorar. - Pedras Cantantes nunca hesitava. - É o único caminho. Mas nessa direcção fica a armadilha em que eu caí. Tu tens de fazer o que eu falhei. Tu tens de sonhar o Único... e recusar a sua fascinação. De outro modo, serás como Pedras Cantantes, uma traça atraída pela luz vacilante do fogo... incapaz de resistir às chamas.

 

A raiva dela irrompeu de novo.

 

- Esperas que eu... que nem mesmo consigo tocar o Único... faça o que tu não foste capaz de fazer? - Cinza Branca lançou as mãos para o alto, bateu-as nos joelhos e fixou furiosamente a rocha incrustada de fuligem que lhe ficava por cima da cabeça. A fogueira estalou e enviou para o ar um turbilhão de faúlhas que volteou no vazio.

 

Pedras Cantantes assentiu com um gesto de cabeça.

 

- Se te mostrasse, afastarias a fúria e a preocupação da tua alma? Confiarias em mim?

 

- Mostrar-me? - perguntou incrédula.

 

Pedras Cantantes fechou os olhos e começou a cantar, centrando-se em si mesmo como ensinara Cinza Branca a fazer. Com as costas hirtas, sentado frente à fogueira, o rosto sem tempo descontraído. A melodia suave do cântico encheu o abrigo e acordou a pega. o pássaro espreitou o ambiente e começou a passear nervosamente para trás e para diante no pau que lhe servia de poleiro, depois aquietou-se como se tivesse sido tocado pelo cântico cadenciado.

 

o cântico do velho subia e descia com as chamas saltitantes da fogueira. A pele de Cinza Branca arrepiou-se e lançou um olhar nervoso a Água Mansa que observava com os olhos esbugalhados. Parecia que o abrigo ecoava com o cântico, amplificando o som até as próprias rochas dançarem com ele.

 

o Poder crescia e Cinza Branca esqueceu a fúria e a frustração, Balançou-se ao ritmo do cântico. o próprio ar produzia um ruído seco com o Poder da Trouxa de Lobo. Como fumo dançante, ondulava e fluía através do ar carregado de electricidade estática. Sentiu Pedras Cantantes chamar pelo Poder da Trouxa de Lobo. Estremeceu quando a Trouxa de Lobo envolveu o velho na sua força.

 

Pedras Cantantes abriu os olhos, olhou com eles vazios, como se não estivesse mais dentro do seu próprio corpo. o cântico transformou-se num sussurro, mas os tons estavam lá.

 

Absorto, o velho ofereceu as mãos à luz. Inclinou-se para a frente, cambaleando ligeiramente, e meteu as mãos no fogo. Com o rosto erguido para a rocha sobre a cabeça, levantou os carvões do coração da fogueira, cantando para eles. Levando-os aos lábios, beijou-os e introduziu-os na boca. Longos momentos depois, retirou-os da boca e esfregou-os nos braços nus e no peito encovado.

 

Cinza Branca olhava incrédula e receosa. Não havia empolas nas carnes do velho. Nem vergões lhe desfiguravam os lábios. Nem ele reagia quando os carvões ardentes deslizavam ao longo da pele.

 

Pedras Cantantes continuava a cantar, devolvendo as brasas à fogueira. As chamas crepitaram, lançando uma luz mais brilhante por todo o abrigo.

 

Voltou a cabeça lentamente para olhar para Cinza Branca com olhos ausentes.

 

- Não te queimaste! - arquejou Água Mansa.

 

- o fogo é ilusão - sussurrou Cinza Branca. - Ele está a sonhar o único.

 

- Sim. - A voz de Pedras Cantantes soava estranhamente a oco. - A carne é ilusão. Apenas o único é. Olhou-a sem ver e agarrou uma sovela de osso de entre as coisas que estavam atrás de si. A sovela polida cintilou à luz da fogueira. Pedras Cantantes espetou-a através da carne mirrada do braço. Nem um esgar de dor lhe desfigurou a expressão quando a pele se levantou por debaixo da ponta afiada e se esticou antes de a extremidade penetrante a atravessar.

 

A respiração rouca de água Mansa produziu um ruído estrangulado.

 

o velho sonhador agarrou com os dedos ossudos na ponta do outro lado do osso comprido e puxou-o através do braço. A carne não apresentava nenhum ferimento. o sangue devia ter-lhe manchado a pele e a haste do osso afiado.

 

- Como? - arquejou Água Mansa.

 

- o osso é ilusão - sussurrou Pedras Cantantes. - Apenas o único é real.

 

o abrigo começava a pulsar com o Poder. Fendia o ar como uma rajada de vento nos pinheiros, Cinza Branca tapou os ouvidos com as mãos, procurando proteger-se das arremetidas. Lutava desesperadamente para afastar a presença da Trouxa de Lobo da alma para manter segura a sua própria essência.

 

Subitamente, o ar ficou parado.

 

Quando Pedras Cantantes falou, a voz parecia vir de muitas dezenas de gargantas.

 

- Não nos combatas, Mãe do Povo. Por nosso intermédio podes sonhar o único. Apenas a tua força salvará o sonho do Primeiro Homem. Apenas a tua coragem pode sonhar a espiral. o que está dentro de ti será a ponte entre os povos. Nós somos velhos segundo os homens. Nós vivemos neste mundo e dançamos a espiral. Nós sonhamos o único. Nós cantamos com o sonhador de Lobo. Onde dançámos com o Dança No Fogo, assim sonharemos o novo caminho contigo.

 

- Quem... quem és tu? - sussurrou Cinza Branca.

 

- Vais esquecer-nos, Mãe do Povo? Tens dentro de ti o que nem mesmo o sonhador de Lobo intentaria? Teu é o espírito mais forte que podíamos encontrar. Tu és a esperança da espiral. Nós pusemos em ti as nossas esperanças. Tu és a única. Não há tempo para procurar outra.

 

- Quem és tu? - perguntou de novo, erguendo as mãos como para se defender do Poder.

 

- Tudo o que é... e não é. Nós somos o único o os muitos. Sonha, Mãe do Povo. o tempo está a chegar. Nós somos o Poder. Tu és a esperança. Nós mostrar-te-emos o caminho para o único.

 

- Mas eu...

 

Pedras Cantantes tombou de costas nas mantas e gemeu suavemente. Cinza Branca sentia o Poder da Trouxa de Lobo decair no nada. A pega emitiu imediatamente um grito aterrorizado e disparou através de um buraco nas colgaduras e desapareceu na escuridão.

 

Cinza Branca ficou gelada durante várias batidas do coração. Depois saltou para o lado do velho. A respiração dele era arranhada e gemida. Água Mansa ajoelhou-se junto dela e levantou a cabeça de Pedras Cantantes para que o velho pudesse respirar mais facilmente.

 

A fogueira morrera e os carvões ardiam sem chama e na luz difusa ela encontrou os olhos aterrados de Água Mansa.

 

Pedras Cantantes recobrava a consciência e piscava os olhos. Engoliu em seco e abanou a cabeça com dificuldade.

 

- Não - sussurrou e olhou com horror para Cinza Branca. Não deixem isso acontecer.

 

- o quê? - implorou Cinza Branca.

 

- Não deixem a bruxa odienta assassinar-te a ti também.

 

- Assassinar? - perguntou Água Mansa com a cor a fugir-lhe do rosto.

 

- Desvanece-se - sussurrou Pedras Cantantes. - A visão está... a desvanecer-se.

 

- Quem está a assassinar quem? - perguntou Cinza Branca.

- Que está a acontecer?

 

- A matar... sonhadores. Mata... a Mãe... do...

 

- Pedras Cantantes? - Cinza Branca inclinou-se mais. Qual é o problema? Estás bem?

 

o velho sorriu serenamente.

 

- A cair para o único. Sonhando. A Trouxa de Lobo está... a chamar. A luz dourada... em toda a volta. - Os olhos ficaram-lhe em alvo. - Flutuando. Trouxa de Lobo, eu ouço-te. A chegar...

 

- Pedras Cantantes? - gritou ela em pânico.

 

Os olhos dele pareceram clarear por um momento, e olhou-a, o pasmo no rosto envelhecido.

 

- Tinha de te avisar. Nunca conheci o Poder da Trouxa de Lobo. Não devia ter chamado o seu Poder... - Gemeu de novo, com os olhos a obscurecerem-se-lhe. - Cuidado... Mãe do...

 

- Pedras Cantantes? - chamou Água Mansa.

 

o corpo do velho descontraiu-se, descaindo nos braços de água Mansa.

 

Cinza Branca emitiu um grito estrangulado e encostou-lhe um ouvido ao coração. Silêncio.

 

Levantou-se completamente desesperada. água Mansajá sabia. Procurou lenha e colocou vários bocados nas brasas amortecidas. Quando as chamas irromperam de novo, olhou desconfortavelmente para a espiral pintada nas traseiras do abrigo. As curvas vermelhas cintilavam de uma maneira misteriosa.

 

- Como vamos encontrar agora o caminho? - Cinza Branca cerrou os dentes perante a redemoinhante sensação de perda. Como, água Mansa?

 

Ele tentou disfarçar a angústia.

 

- Não sei. - Depois o rosto perdeu a cor e virou-se para enfrentar o embrulho que continha a Trouxa de Lobo.

 

Os músculos da barriga dela davam nós e constrangi am-se.

 

- Não - disse num sufoco. - Isso acabou de matar Pedras Cantantes... e ele era perito, poderoso. Eu, eu nem posso...

 

Devia ter sido o vento por detrás das colgaduras, mas dezenas e dezenas de vozes sussurraram nas brisas da noite: «Nós somos o caminho.»

 

A superfície irregular da pesada pedra que ele carregava feria os dedos de Água Mansa, que trepava pela terra solta no sopé da escarpa. Fez uma pausa para examinar a última morada de Pedras Cantantes: uma estreita fissura na parede de arenito do desfiladeiro. Ele e Cinza Branca tinham quase acabado de escavar o nicho. Agora ele ajustava a pedra ao seu lugar.

 

Cinza Branca deslocou-se com esforço pelo cascalho solto e grunhiu ao esticar-se para selar a sepultura com a pedra final. Água Mansa virou-se e olhou ao longo do desfiladeiro.

 

- Ele gostaria disto aqui. A vista é maravilhosa. Olha, consegue-se ver uma águia a voar sobre os pinheiros lá em baixo. Para lá da crista distante, a bacia do Vento permanecia seca ao

 

sol abrasador de meados do Verão. o vento sussurrava pela penedia e gemia por entre o junípero e o pinheiro flexível, trazendo consigo os odores secos a pó e a causticidade da púrsia, da salva, do áster e da prímula. Um rebanho de carneiros-monteses saltou agilmente por entre as rochas cor de camurça e conservou-se atento a eles.

 

Cinza Branca mordeu o lábio e olhou para a abóbada celeste manchada por algumas nuvens.

 

- É este o sítio onde ele queria ficar. Agora está com o único. Água Mansa encontrou um sítio para se sentar numa das lajes granulosas de arenito que tinham tombado do penhasco. Juntou as pernas e esfregou a parte de trás do pescoço suado antes de olhar de soslaio para a sepultura na encosta.

 

- Tinha tanta coisa para lhe perguntar.

 

Um olhar profundo surgira nos olhos de Cinza Branca.

- Eu sei.

 

Ela estava de pé ao lado da laje dele e colocou-lhe a mão no ombro. Melancolicamente, Água Mansa agarrou-lhe na mão, saboreando-lhe o calor.

 

Imagens do sonho brincavam-lhe através do espírito. o Povo do Sol guerreava na sua terra natal. o seu povo chegara ao fim do seu tempo. Como Pedras Cantantes, também eles estariam mortos em breve, desaparecidos da terra. Ele vira-o com grande clareza. As visões do futuro assombravam-no. Ele e Cinza Branca tinham tão pouco tempo para actuarem - e os riscos cresciam a cada batida do coração.

 

- E agora, que fazemos, Água Mansa?

 

Ele reclinou a cabeça na coxa dela, perdido em recordações da cabana em Pedra Redonda. A voz de Fogo Ardente subia e descia quando contava alguma história que fazia rir Erva Amarga e Rabo de Gato. As crianças olhavam de olhos arregalados embrulhadas nas mantas.

 

Não haveria mais noites como aquelas entre o Povo da Terra.

- Vamos procurar o sonho. - Ele deu-lhe uma palmada na mão. - É tudo o que podemos fazer, Agora estamos por nossa conta.

 

- Ele agarrou nas brasas e não se queimou. Furou a carne e não ficou ferido - sussurrava ela humildemente. - Ambos o vimos.

- E não foi a voz dele que falou connosco, - água Mansa estremeceu. - Podia sentir-se o Poder. Era a Trouxa de Lobo... e não só. Um arrepio percorreu-o quando olhou para a sua trouxa.

 

- Aquilo matou-o - disse ela num tom abafado. - Com nos envolvemos?

 

- Com o Poder, A espiral, Coisas que não entendo.

 

- E assassínio? Quem está a matar os sonhadores? Homem Valente? Eu sei que foi ele quem matou Falcão Velho.

 

Expirou ruidosamente.

 

- Não sei. Homem Valente podia enviar algum Poder através da Trouxa de Lobo para matar Pedras Cantantes?

 

- Nunca lhe tocarei para o descobrir. - Olhou em volta. - Talvez a devêssemos deixar com Pedras Cantantes.

 

- Penso que não. Não- parece correcto, Sabes o que quero dizer? Eu conheço o seu Poder. A Trouxa não é maligna.

 

- Pergunta a Mão Esquerda o que ele pensa. Digo que devíamos emparedá-la com Pedras Cantantes.

 

água Mansa franziu o sobrolho, lutando contra a ideia, Aquilo fazia sentido, mas, então, que era a ilusão e que era a verdade? Aqui estava um quebra-cabeças que ele desejava que não tivessem de resolver,

 

- o Poder. É esta a coisa que temos de compreender, - Empertigou-se, -Pedras Cantantes disse que o Poder está em toda a parte mas não interfere com as coisas deste mundo. Curandeiros, como Mão Negra, usam o Poder, dírigem-no. Mudam-no, Os bruxos usam-no para diferentes finalidades. Não, não é a Trouxa. Enterrá-la com Pedras Cantantes seria um erro.

 

- Ela matou-o!

 

- Matou? - Ergueu a cabeça para olhar para ela. - Ou foi ele que caiu dentro dela e se recusou a sair? Recordas-te? - Ele disse que ela o estava a chamar, Talvez ele não tivesse força para recusar o chamamento.

 

- Força? - Soprou por entre os lábios e acomodou-se na laje ao lado dele, Desalentou-o o medo solitário no rosto dela. - As vozes perguntaram se eu era suficientemente forte.

 

água Mansa pôs o braço em volta dela.

 

- Entre os Pedra Redonda fazia hastes para os dardos. Quando se planeia uma haste de dardo, tem de se encontrar o melhor pedaço de madeira. Primeiro tira-se-lhe a casca e observa-se-lhe a textura... para ver se o espírito pode funcionar na madeira. Depois aquece-se, submete-se ao vapor, endireita-se-lhe as curvaturas. Quando isto fica concluído, usa-se um raspador para a alisar. Mistura-se-lhe um pouco da alma e aquece-se ao fogo para endurecer o espírito da madeira. Depois, faz-se-lhe a gravação final.

 

- Isso tem um objectivo?

 

Ele assentiu com um aceno de cabeça, distraidamente.

- És uma haste de dardo, Cinza Branca?

 

- Sou uma mulher. - Fitou-o com ar zangado.

 

- Estou bem ciente disso. Estava a falar em termos de Poder. Ela procurou-lhe os olhos.

 

- Que queres dizer?

 

- o Poder talha as suas próprias ferramentas. - Abraçou-a com força, tranquilizado pela sensação do corpo dela contra o seu.

- Pensa em tudo o que te sucedeu. Espírito Sábio roubou-te de Três Confluências e treinou-te nos costumes do Povo do Sol. Disseste-me que ele o fez como promessa ao Poder. Talvez isso fosse a selecção da madeira em tosco. Talvez aprender os costumes do Povo do Sol fosse como retirar a casca e endireitar as curvaturas. A partir daqui, tudo o que aconteceu foi o processamento pelo fogo... o endurecimento da madeira. - Olhou para ela. - Tu és a pessoa mais forte que eu conheço. Foste agredida, violada, atormentada pela força... e passaste todas as provas.

 

Ela olhou para a bacia enquanto o vento lhe brincava com as madeixas do longo cabelo negro. Uma desolação cansada jazia para lá da sua expressão.

 

- Aconteceu tudo por minha causa.

 

- o Poder tem a sua haste de dardo. - Ergueu as sobrancelhas.

- Agora só falta a gravação final.

 

- E o gravador morreu. - Atirou com a cabeça para trás, na direcção da sepultura.

 

- Talvez.

 

Arqueou uma sobrancelha, interrogativamente.

 

Ele levantou um pé para o apoiar na laje e seguiu os seus pensamentos.

 

- A haste do dardo é apenas uma parte do todo. Talvez Pedras Cantantes lhe acrescentasse a empenagem. Ainda faltam a ponta de pedra e a união.

 

- Mas que fazemos agora? Onde vamos?

 

Guarnição de penas, ou outro material leve, que se coloca na parte posterior dos dardos e setas para estabilizar a trajectória. (N. da T.)

 

Ele aspirou o ar quente, enchendo as narinas com os odores do mato e da terra quente.

 

- Penso que o melhor é ficarmos aqui. Temos o abrigo de Pedras Cantantes. As covas de armazenagem têm comida suficiente. A roda das estrelas está lá em cima, no topo da crista.

 

- Mas, e quanto a todo esse povo lá em baixo? Talvez pudéssemos...

 

- o quê? Ir lá abaixo e morrer com eles, como disse Pedras Cantantes? Se tudo o que nos acontece acontece por uma razão, saberemos quando descer. o Poder o dirá, o lobo negro virá ou a Trouxa sonhará connosco. Ainda não estamos prontos. Talvez descubras entretanto o caminho para o Poder.

 

-Ainda podíamos abalar. Viajar de noite como fizemos quando fugimos dos Pedra Partida. Ir para sul, viver como queríamos.

 

A alma dele entristeceu-se.

- Podíamos?

 

Ela hesitou por um momento, boca fechada, rugas em volta dos olhos duros.

 

- Não, julgo que não. Com o passar das estações, nunca nos perdoaríamos a nós mesmos, pois não?

 

Olhou uma última vez para a sepultura de Pedras Cantantes e levantou-se. Agarrou na trouxa e fez um sorriso cheio de firmeza determinada.

 

-Vamos. Vamos ver se conseguimos aprender a sonhar juntos. o sorriso corajoso dela não escondia o facto de ter o coração dilacerado.

 

Erva Amarga apoiou todo o seu peso no pau de escavar endurecido pelo fogo e enterrou-o no chão. Estava a trabalhar na orla de uma série de dunas granulosas onde o solo arenoso retinha a água até tarde no ano. Puxou para trás, levantando o solo com um rebentamento de raízes, agarrou a planta da seurf-pea e tirou-a da terra. Depois deu umas pancadas com as raízes no pau para as libertar da terra solta, Colocando a planta na saca, deslocou-se para a seguinte.

 

Elevações irregulares e escarpadas alinhavam-se no horizonte meridional e sobressaíam do flanco oeste da montanha Verde. Erguiam-se num cume juncado de pedregulhos antes de caírem para a bacia da Terra Vermelha rica de dunas. Tinha uma claridade singular, aquele azul infinito do céu de fim de tarde. Os tordos da salva voavam por ali, olhando-a curiosamente enquanto chilreavam nos arbustos nodosos que chegavam aos joelhos.

 

A seurf-pea desenvolvera-se bem nesta estação. Com cada nova planta, ela murmurava uma oração de graças ao espírito que guardava estes campos. A seurf-pea era a favorita do povo. Garra de Cotovia anotara o tempo perfeitamente. As sementes estavam prontas para cair - e podia fazer-se um chá delicioso com elas. o resto da planta, incluindo as raizes, era um pitéu.

 

Deitou a planta na saca e olhou em volta. Aqui e ali, entre as dunas, trabalhavam outros membros da tribo, colhendo, as plantas abundantes. Tinham acampado a curta distância para leste, num terraço que dava para uma nascente. o acampamento de Pedra Redonda ficava a dois dias de caminho para além dela. Lá, Garra de Cotovia olhava pelas crianças com a ajuda de Trufa.

 

Erva Amarga olhava para o suave horizonte setentrional que disfarçava o declive acentuado da Barreira Cinzenta. Uma faixa verde de salgueiros obscurecia o curso do rio da Água Fria.

 

Arrancou outra planta do solo e colocou-a por cima das outras dentro da saca, calcando-as. Desprendeu-se um odor a folhas que lhe encheu as narinas. Estava na hora de levar a saca cheia para o acampamento. Pô-la em bandoleira e pos-se a andar.

 

Erva Amarga tentou compreender tudo o que lhe acontecera enquanto seguia o seu caminho através da salva que lhe dava pelos joelhos. Já ninguém dizia grande coisa. Um sinal de vida desaparecera da tribo, sorvido pelo assassínio de Mão Negra. Nos dias que se seguiram à tragédia na reunião, chegara a aceitar a ideia de viver sozinha o resto da sua vida. Que homem quereria uma mulher associada a assassínio - mesmo que viesse a herdar um acampamento inteiro?

 

o chão de cascalho dera lugar a um aluvião mais macio que lhe almofadava os passos. o chilrear dos pássaros acompanhava os pensamentos de Erva Amarga. A bandoleira da saca feria-lhe atesta. Tanta preocupação para todos. Apenas Trufa parecia não ter sido afectado pelo horror que se abatera sobre eles. Até a cintilação de desafio morrera nos olhos de Garra de Cotovia.

 

«Alguma coisa mudou.»

 

o acampamento fora estabelecido num local abrigado no extremo do terraço. Nas traseiras havia uma nascente que corria através da erva abundante em direcção ao Água Fria, a curta distância

 

1 Os índios americanos transportam as cargas às costas, mas apoiadas na testa por intermédio de uma correia larga, tal como hoje em dia se vê no Tibete e em outras regiões da Ásia e mesmo na região do Douro por ocasião das vindimas. (N. do T.)

 

para norte. Desceu para as margens e encaminhou-se para o acampamento antes de poisar a carga.

 

Espreguiçou-se para aliviar a dor nas costas e espevitou o fogo adormecido. Os abrigos de pele tinham sido colocados em volta da fogueira em semicírculo; passou por Pinheiro Flexível e Mulher Formosa antes de se ajoelhar na nascente. Rabo de Gato escavara uma bacia no musgo verde-claro para reter a água.

 

Saciou-se com a água fria e depois sentou-se na erva espessa a descansar. Mesmo que bebesse até rebentar, nunca poderia preencher o vazio doloroso que sentia dentro de si. Mão Negra fora, pelo menos, um amante ardente. Sorrira-lhe e tivera-a. nos braços nada que se comparasse a um substituto de Fogo Ardente, mas, pelo menos, não estivera só entre as mantas.

 

- Vou sentir a falta disso - sussurrou. - Não tenho mais ninguém com quem falar. Mesmo Barriga Falsa seria um alívio. Dirigiu o olhar para o norte. A tragédia também atingira Barriga Falsa?

 

- Tens-me a mim para conversar - disse uma voz estranha à sua retaguarda. Quando se voltou, viu um guerreiro solitário ali de pé.

 

Erva Amarga arquejou e pôs-se de pé num salto. o corte do vestuário dele diferia de tudo o que ela vira antes. Uma camisa de caça comprida e franjada descia-lhe até meio das coxas e as compridas franjas dos safões oscilavam ao vento. Nos pés tinha mocassins de sola grossa. Parecia o homem mais poderoso que ela alguma vez vira e numa das mãos trazia dardos compridos e mortais. Na testa alta, tinha cinco círculos negros tatuados.

 

- Pareces uma boa mulher - disse com sotaque. Examinou-a.

- Corpo forte.

 

Com o coração aos saltos, abriu a boca de espanto e depois perguntou em voz baixa:

 

- Quem és tu?

 

Ele sorriu de modo sinistro.

 

- Sou Espírito Sábio. Regressa ao teu acampamento. - Apontou com os dardos. - Não fujas. Sou mais rápido que tu.

 

Abanou a cabeça e levou o punho fechado ao peito. Um grito estrangulou-se-lhe na garganta.

 

- Nesta altura, as outras já foram apanhadas. Os vossos homens estão mortos. Não há por onde escapar. o Poder do Povo da Terra desapareceu.

 

Demasiado chocada para pensar, cambaleou em direcção às cabanas, olhando-o com medo enquanto ele a seguia. Uma vez no acampamento, parou,

 

- Os outros? Mortos?

 

Ele usou um dos dardos compridos para levantar as abas da porta de cada uma das cabanas, espreitando cuidadosamente para ver o que estava lá dentro. Só depois se virou para a enfrentar.

 

- Apenas conservámos as mulheres jovens e as crianças fortes. Os Ponta Negra têm-vos caçado durante todo o dia. o teu povo agora pertence aos Ponta Negra. Todo excepto tu. Eu fico contigo. Agora és uma Homem Branco. Como eu.

 

Ela virou-se para fugir, mas a mão forte dele agarrou-a. Perante a força daquele abraço, ela gritou e cessou de lutar. Ele puxou-a para si e ela pôde olhá-lo de perto. As suas longas tranças estavam raiadas de vários cabelos grisalhos. Rugas fundas riscavam-lhe o rosto - e podia sentir-lhe a tristeza nos olhos castanhos.

- Como falas a nossa língua?

 

Sorriu sem humor.

 

- Em tempos roubei uma rapariga ao Povo da Terra. Foi ela quem me ensinou. - o sorriso abriu-se-lhe. - E, desde que viemos para a bacia do Vento, tenho praticado imenso. Agora aprenderás a fala do Povo do Sol.

 

As pernas de Erva Amarga foram-se abaixo e ele deixou-a cair. Olhou para a saca dela, que estava a seus pés.

 

- Agora vais apanhar plantas para Espírito Sábio.

 

- Os outros virão - disse ela. - o Povo da Terra responderá. Ele agachou-se sobre os calcanhares com os dardos no regaço.

- Penso que não. o Poder deles desapareceu. Nós caçámos o Povo da Terra antes de eles nos poderem caçar a nós. Matámos os homens e as velhas. Os mortos não passam palavra aos outros acampamentos. Tomámos as mulheres novas e elas trabalharão agora para os Ponta Negra. - Olhou de esguelha para o Sol. - É um novo caminho... o caminho do Povo do Sol.

 

- Nunca - sibilou ela.

 

Divertido, levantou uma sobrancelha.

 

- Oh!? Eu penso que é para sempre. Agora és minha mulher. Espírito Sábio não é mau homem. Não te baterei, a menos que desobedeças. - Fez uma pausa e acrescentou: - Já lá vai muito tempo desde que Espírito Sábio teve mulher para cuidar dele. Observei-te quando apanhavas as plantas. És suficientemente velha para teres senso... mas ainda bonita. o teu corpo é forte. Segui-te, escutei-te a tristeza na voz. Também não tens homem. Talvez isto seja bom para ambos.

 

Ela acenou com a cabeça entorpecidamente. Onde estavam os outros? Este homem teria de facto companheiros ou Rabo de Gato apareceria para o expulsar?

 

Um grito estridente ecoou vindo dos campos de raízes.

 

Espírito Sábio empertigou a cabeça, olhando-a de relance pelo canto dos olhos.

 

- Os Ponta Negra estão a chegar. Prepara as plantas. Dá-nos de comer.

 

Garra de Cotovia sentava-se por debaixo do telheiro no acampamento da Pedra Redonda. As crianças riam e gritavam e corriam em círculos na área compacta entre as cabanas de terra banhadas pelo sol. Lupina trazia o bastão de salva na mãozita morena. Tinha de tocar nas outras com ele. Quando isso acontecia, a criança tocada agarrava no bastão de salva e perseguia as outras até que outra fosse tocada, e assim o bastão passava de umas para as outras.

 

Na sombra comprida da cabana de Erva Amarga, Trufa observava as crianças mais jovens com olhos cheios de ressentimento sem dúvida que o seu coração preferia estar a colher raízes. A própria maneira como se sentava irritava Garra de Cotovia.

 

Alguma coisa mudara no mundo. Ela quase podia esticar os dedos finos e sentir a diferença no ar. o Poder fora ofendido de forma devastadora. Podia senti-lo na sua própria alma. Apesar de o Verão já ir entrado, o espírito da terra retinha a sua respiração poeirenta. A quietude envolvia a salva.

 

«Oh, Mão Negra, que sucedeu de errado?» Deslizou para além da esfera do presente para os cálidos dias do passado. Conseguia vê-lo de novo, forte, musculoso e belo quando se riam um com o outro.

- Avó?

 

Trufa pusera-se de pé como uma pantera desassossegada. Raios o partam, por que é que o rapaz havia de ser tão malcriado? Podia ver-lhe a fúria latente pronta a libertar-se - embora tivesse sido notavelmente delicado nos dias que se seguiram à morte de Mão Negra. o rapaz pulara e cantara praticamente durante toda a marcha para Pedra Redonda. Depois, os seus modos desagradáveis tinham voltado de novo.

 

«Tenho de o casar tão depressa quanto possível, o rapaz é como um furúnculo... uma irritação constante. Olha para o ressentimento nos olhos dele. Enquanto estiver por perto, apenas se irrita mais.»

 

- Que queres, Trufa?

 

Ele lançou-lhe um olhar provocador.

 

- Penso que há qualquer coisa errada. Aquela velha cadela vermelha farejou o ar e rosnou. Tinha o pêlo eriçado e foi para o meio da salva. Depois acabou por se... aquietar. Estranho silêncio.

 

Ela lançou-lhe um olhar mal humorado.

- Por que me vens aborrecer com isso?

 

Perante o tom de censura na voz dela, a expressão dele azedou-se.

 

- Não a ouviste ladrar?

 

- Os cães costumam ladrar, rapaz. Agora desanda. Toma conta das fogueiras. Precisamos de mais lenha. Vai buscar alguma. Torna-te útil pelo menos uma vez.

 

Empertigou-se, os cantos da boca a tremer. Respondeu sob tensão.

 

- Apanhar lenha? - Bufou de indignação. - Eles deixaram-me aqui para te ajudar a tomar conta das crianças. Quem sou eu? Alguma besta de carga? Talvez Barriga Falsa é que fosse esperto.

 

Uma chama branca de fúria incendiou-lhe a alma. Espetou um dedo torto para ele.

 

- Rapaz, é melhor escutares e ouvires bem. Tens andado meio doido desde que Fogo Ardente morreu. Agora deixa-me em paz. Toma cuidado contigo... ou terei... Rabo de Gato...

 

Deteve-se, aterrada. Trufa, de olhos faiscando, dera um passo para ela com os dedos trementes erguidos na direcção da garganta da velha. Naquele breve instante, os olhos dela fixaram-se nos dele e leu uma violência sinistra mal reprimida.

 

- Trufa, não... - Mas as suas palavras caíram no vazio. o rapaz afastara-se a correr por entre as cabanas.

 

Garra de Cotovia respirou fundo e esfregou o rosto afogueado.

- Tenho de afastar esta alma danada logo que possível. - E mal o disse logo desejou poder retirar aquelas palavras. Olhou ansiosamente em volta para o granito desgastado que bordejava o acampamento subitamente silencioso. As sombras projectadas pelas cabanas tinham alastrado as suas formas corcovadas sobre a argila compacta.

 

Todas as crianças a olhavam com olhos solenes. o ar encurralado no peito débil explodiu e ela agitou os braços para elas.

 

- Bem, desapareçam! Voltem à brincadeira agora!

 

Mas o jogo do bastão de saga terminara. As crianças acocoraram-se num pequeno grupo e conversaram em voz baixa enquanto mexiam na terra com os dedos.

 

o velho cão negro, Dente Ainarelo, acordou em sobressalto, erguendo o nariz para aspirar a brisa. Um rosnido ameaçador vibrou-lhe na garganta; depois ladrou o velho aviso familiar que ela conhecia há anos.

 

- Aqui! Cala-te! - Garra de Cotovia resmungou ao pôr-se de pé enquanto se esticava para agarrar no seu pau de cavar. o resto dos cães acordou e começou a ladrar, arremetendo através da aldeia na direcção que Trufa tomara e depois virando em direcção à salva.

 

- Se esse maldito rapaz está a fazer alguma brincadeira com uma pele de urso, eu...

 

Para lá das cabanas, um cão uivou de dor. Depois veio uma série de ganidos e de guinchos caninos. Pensou ouvir um baque surdo o tipo de ruído que acontece quando alguém bate num animal.

 

O diabo do rapaz não tem o direito de descarregar a fúria nos cães. Se deu com a clava no velho Dente Amarelo, vou dizer a Rabo de Gato para lhe torcer o pescoço.» Levantou a voz.

 

- Trufa! És tu?

 

Um grito de rapaz rasgou o ar e cessou abruptamente - como se tivesse sido interceptado. o medo agarrou-se ao coração de Garra de Cotovia.

 

- Crianças, Venham para dentro. - Com o pau de cavar, apontou para a sua cabana.

 

Elas ficaram paralisadas, os rostos em pânico.

- Já!- ralhou ela.

 

Os pequenos corpos correram apressadamente para a porta da cabana.

 

Garra de Cotovia engoliu em seco, a garganta apertada, e avançou com passo incerto.

 

- Trufa? És tu? Que diabo de brincadeira é essa?

 

Uma cadela castanha arrastou-se em volta da esquina da cabana, com um dardo sangrento a trespassar-lhe os quartos traseiros. o animal abateu-se num charco de sangue, com um ganido de reconhecimento a escapar-se-lhe da garganta.

 

Dois guerreiros tatuados contornaram a cabana, espezinhando o sangue do animal com os pés calçados de mocassins sobre o solo de Pedra Redonda. Traziam nos braços um Trufa que esperneava.

 

Garra de Cotovia virou-se para fugir - apenas para ver mais guerreiros precipitando-se para dentro do acampamento vindos de todas as direcções. Por um instante, ficou paralisada. Eles acercaram-se dela, com as compridas clavas a baloiçarem nos pulsos poderosos.

 

Recobrou o entendimento juntamente com a velha arrogância.

- Fora do meu acampamento!

 

Enquanto a fúria a possuía, investiu com as pernas doridas brandindo o pau de cavar. Ouviu o macho cruel rir à sua retaguarda e tentou sustar a investida precipitada. o grito de Trufa fendeu o ar, mas ela mal o ouviu. o estalo do crânio ensurdeceu-a por um fugaz instante, antes de a escuridão lhe invadir os sentidos.

 

Pés de Vento olhou o rapaz de alto a baixo. o jovem aparentava ter mais de os 14 Verões que a mãe reivindicava. Os ombros já estavam bem desenvolvidos. o rosto empedernido do rapaz mantinha-se inexpressivo. Todavia, mais um par de Verões e as mulheres jovens olhariam duas vezes para ele.

 

Pés de Vento ponderou, examinando as cabanas de terra cor de camurça. Ao crepúsculo, os maciços arredondados de granito que se perfilavam por detrás do acampamento cintilavam contra o céu como pilhas de crânios de curiosos animais de sonho. Ao deslizar para uma posição mais baixa em direcção ao horizonte a oeste, o Sol mergulhante projectava uma coloração vermelha sobre a terra.

 

Lançou a Espírito Sábio um olhar avaliador.

- Queres conservar o rapaz?

 

Espírito Sábio assentiu com um aceno de cabeça.

 

- É forte. Pertence à mulher que capturei. Olha para ele; dará um bom guerreiro. Nunca tive um rapaz para ensinar. Apenas filhas... e esta mulher também tem uma filha.

 

- Sim, tem - concordou Pés de Vento. - Uma filha suficientemente jovem para aprender os hábitos dos Ponta Negra... e não para nos sobrecarregar com ma vontade. Tio, se conservares este rapaz, receio vir a encontrar-te um dia destes com um dardo enterrado através da tua pele dura.

 

Espírito Sábio encheu os pulmões de ar, entumescendo os músculos do peito.

 

- Perguntei ao rapaz. Ele diz que se tornaria Ponta Negra. Pés de Vento avançou para o rapaz, procurando-lhe os olhos.

- Ele que me diga a mim.

 

Espírito Sábio falou na língua sincopada do Povo da Terra.

 

o rapaz assentiu com um aceno de cabeça e uma estranha supuração nos duros olhos negros. Na linguagem enfática do Povo do Sol, o rapaz disse:

 

- Desejo ser guerreiro.

 

«Ou serias morto, e tu sabes disso», disse para consigo Pés de Vento. Olhou de novo para Espírito Sábio. Tio, quanta dor da tua própria alma não está neste teu gesto? Que estás a fazer? A tentar substituir a perda de Cinza Branca?»

 

- Vigiá-lo-ás? - perguntou Pés de Vento.

 

-Vigiá-lo-ei. -Espírito Sábio fez um sinal coma mão que indicava que seria como ele dissera.

 

- Então deixa-o ficar. Veremos como se comporta, mas garante que ele sabe que todos os olhos estarão em cima dele.

 

Espírito Sábio virou-se para o rapaz e falou e depois apontou. o jovem assentiu com um gesto de cabeça e encaminhou-se para o abrigo de terra que Espírito Sábio reclamara. A mãe do rapaz, uma mulher alta e formosa, aguardava-o lá e abraçou-o.

 

Pés de Vento massajou a parte de trás do pescoço.

- Espero que saibas o que estás a fazer.

 

Espírito Sábio lançou-lhe um largo sorriso de esguelha.

 

- Também eu. - Depois olhou para o Sol que se punha. - Ela não será Lua Brilhante. Mas mantém-me as mantas quentes. Para quem tem um filho desta idade, é forte. - Fez uma pausa. - Julgo que apenas consigo acalentar uma recordação durante pouco tempo.

- E tu és um de nós... embora afastado.

 

Espírito Sábio esfregou as mãos uma na outra.

 

- Mais ou menos isso, Sobrinho, agradeço-te o teres partilhado a tua cabana comigo, Mas chegou a hora de ter de novo a minha própria cabana. - Fez uma pausa. - Velhos hábitos custam a morrer... mas, mais do que isso, viver contigo faz-me sentir velho. Ainda não estou pronto para isso.

 

- Descobrirás o quanto estás velho se plantares outro filho nela. - Pés de Vento olhou de novo para a mulher. Ela olhava para o filho com os olhos vazios. Conseguia ver-lhe o volume dos seios contra o cabedal do vestido leve. Não admirava que Espírito Sábio tivesse escolhido aquela.

 

- Bem, vai ensinar a tua... família a falar como gente. - Pés de Vento acenou ao tio em sinal de despedida.

 

- E mais. Espírito Sábio sorriu ao encaminhar-se para a cabana.

 

Pés de Vento olhou o chão compacto entre os pés. «Quanto tempo pode um homem viver com o passado por único companheiro?» Olhou para a montanha Verde ao sul. «Cinza Branca? Ainda estás viva?»

 

- De novo perdido nos teus pensamentos? - perguntou Faia Preta por detrás dele.

 

Virou-se.

- Não te ouvi.

 

Pôs-se ao lado dele, acrescentando secamente:

 

- Podias ser surpreendido. Ao longo dos anos, aprendi a prestar atenção aonde ponho os pés. Espírito Sábio implorou pelo rapaz?

- Deixei-o ficar com ele. - Pés de Vento esfregou o queixo. - Mas isto preocupa-me. o rapaz sabe o que aconteceu ao resto da família. Virar-se-á contra nós?

 

-Vem - disse-lhe ela. - Come qualquer coisa. A preocupação não te traz nada de bom agora. o que for soará. Quem sabe, talvez Espírito Sábio faça dele um guerreiro.

 

Conduziu-o para uma fogueira que brilhava com cor vermelha perto de um telheiro de artemísia. o vestido abraçava-lhe as curvas das ancas e moldava-lhe a cintura fina. Movia-se com uma postura delicada que lhe complementava o espírito inteligente.

 

Pés de Vento acomodou-se numa manta que estava colocada no chão e olhou para Faia Preta quando esta levantava um assado do fogo. Com uma faca de quartzo, cortou algumas compridas e suculentas fatias de carne que empilhou numa travessa de corno de búfalo e que depois lhe passou com uma graça estudada. Quando se esticou para a travessa, os olhos deles encontraram-se - e ficaram presos. Ele fez um esforço para desviar o olhar e tentou afastar os seus pensamentos do que a alma dela dissera à sua.

 

Fogos semelhantes ardiam em torno de Pedra Redonda onde o povo do seu bando acampara. A maior parte do Povo do Sol não escolhera as cabanas de terra. Como ele, tinham-nas achado acanhadas, abafadas.

 

Pés de Vento provou a carne. Antílope. Doce, delicada. Os caçadores que o abateram tinham feito um bom trabalho. o antílope tem de ser abatido rapidamente e com segurança. Se foge ferido ou com as tripas perfuradas, a carne fica com um sabor forte. Nem o caçador devia deixar o animal ficar deitado antes de o esquartejar; tinha de lhe retirar as entranhas e a pele imediatamente e arrefecer a carne. Porque o antílope tem pêlo oco que retém o calor do corpo, demasiado calor que fazia que a carne apodrecesse.

 

Mastigou a carne pensativamente antes de perguntar:

- Como é que as mulheres estão a comportar-se?

 

Faia Preta encheu uma malga para ela antes de responder:

 

- Tinhas razão. Esta terra é rica. Desde que capturámos o acampamento, há três dias, cavámos novos esconderijos nas cabanas de terra e enchemo-las com plantas secas em quantidade suficiente para durarem semanas. Falar com as cativas ainda é dífícil, mas elas fazem o que nós dizemos. - Riu. - Que escolha têm? As últimas que tentaram fugir estão a alimentar os coiotes.

 

- A desobediência está a desvanecer-se? Lançou-lhe um olhar rápido.

 

- É melhor viver e trabalhar do que deixar os ossos a apodrecer. Estão a começar a compreender o que lhes aconteceu. Dada a situação, trabalharão. Ainda choram pelos seus homens, mas há piores destinos do que ter um estranho a mexer-se em cima delas no meio da noite.

 

o ar do entardecer trazia vozes abafadas. À distância, os cães do acampamento lutavam. Um homem vociferou e os latidos e os rosnidos cessaram.

 

- Os homens respeitam a tua norma. Não batem nas mulheres a menos que elas lutem.

 

Ele assentiu com um gesto de cabeça.

 

- Não compreendo. Esta gente actua como se os seus espíritos estivessem destroçados... como se estivessem antecipadamente derrotados quando chegámos.

 

Ela olhou para as primeiras estrelas que cintilavam a leste.

- Talvez o Poder deles tenha fugido. Espírito Sábio diz que eles continuam a falar da reunião e de algo terrível que lá aconteceu. Talvez seja isso que os faz tão mansos. - Bufou de indignação. Eu, eu lutaria até matar o meu captor... ou ser morta por ele.

 

- Talvez seja por isso que estamos aqui. Para trazermos um novo Poder à terra.

 

Poder. A referência ao Poder conduzia sempre os seus pensamentos para Cinza Branca. Teria ela esta facilidade para falar? Cinza Branca estivera preocupada com os seus sonhos, mas Faia Preta estava virada para as coisas do mundo e partilhava os problemas que ele enfrentava.

 

Olhou para ele pensativamente, com uma tristeza nos olhos grandes. Numa voz controlada, disse , - Ela não estava em Três Confluências.

 

A melancolia estabeleceu-se-lhe em volta do coração.

- Não. Não estava.

 

- Lamento, Pés de Vento. Tinha esperança de que a encontrasses antes disto.

 

Precisava de ser tão franca com ele? Sabia que ele a observava, sabia a direcção dos pensamentos dele. Contudo, nem uma só vez o ressentimento por Cinza Branca a possuíra; mostrara apenas que sabia compreender. E isso tornava mais forte a confusa afeição que lhe tinha, Quantas noites tinham falado, ele e Faia Preta? Quantas horas tinham gasto fazendo planos e aperfeiçoando--os antes de os oferecerem ao conselho?

 

Os esforços dela não se detinham aqui, À noite fazia rondas ao acampamento, escutando o povo, o seu conselho apaziguava sentimentos transtornados, suavizava as preocupações de um povo numa terra nova. Mantinha um olho nas cativas e no tratamento que lhes davam, Quando via que estavam para surgir problemas, sussurrava-lhe um aviso. Através dela, Pés de Vento recebia apoio total de Gordura Quente no conselho.

 

«Mas, e quanto a Cinza Branca?» Sim, ele ainda a amava. Mas, noite após noite, uma paixão que o definhava conduzia-o à cabana de Gordura Quente apenas para falar com Faia Preta.

 

Cinza Branca? Se estivesse viva, teria de saber que o Ponta Negra chegara. Se estivesse viva... Engoliu outro pedaço de carne e fez um gesto para a terra circundante.

- Capturámos todos os acampamentos a norte de Pedra Redonda. água Estagnada, Vento Quente, Arroio da Peçonha, Pedra Vermelha e todos os outros. - o Ponta Negra cobria completamente a bacia do Vento. Tinham trepado a Barreira Cinzenta e agora a bacia da Terra Vermelha estava à sua frente. Disse: - Espírito Sábio perguntou por ela em todos os acampamentos. Falou com todos os cativos. Ninguém sabe de Cinza Branca.

 

Ele conhecia o olhar triste que ela lhe lançou - vira-o tão frequentemente que se tornara para ele uma segunda natureza. - Espírito Sábio fez as pazes com o seu passado - disse suavemente.

 

A verdade destas palavras doeu-lhe. Ela tinha este procedimento com ele, sempre a ir ao âmago da questão. Pés de Vento engoliu sem mastigar o último pedaço da carne e poisou a malga.

 

- Eu sei.

 

Ela levantou-se e pegou-lhe na mão.

- Vem dar uma volta comigo.

 

Deixou-se guiar por ela para lá das fogueiras onde os guerreiros se sentavam à luz bruxuleante, comendo e conversando. As mulheres Ponta Negra riam e gesticulavam, enquanto as mulheres do Povo da Terra murmuravam entre si.

 

Conduziu-o em torno dos afloramentos de granito que protegiam a parte ocidental do acampamento e parou, examinando as cores que se desvaneciam no horizonte. Uma brisa quente trazia os odores da salva e da terra quente e seca.

 

- Os pulgões aqui não incomodam tanto - disse enquanto trepava à rocha e se sentava. - Queria falar contigo longe do acampamento, onde ninguém pudesse ouvir-nos casualmente.

 

Acomodou-se ao lado dela, sentindo-se desconfortável. Ela tinha uma expressão séria no rosto belo. A paz tranquila da noite deslizava em seu redor.

 

Com dedos ágeis, desfez as tranças e soltou o cabelo. As madeixas negras brilhantes derramaram-se em torno dela como um xaile, enquadrando-lhe o rosto e unindo-se-lhe aos seios. Ele fez um esforço para afastar os olhos.

 

- Nunca pensei que isto acontecesse desta maneira - disse. Quando planeias, não cometes erros. No conselho, apenas a voz de Lua Negra tem mais peso do que a tua. Até mesmo os guerreiros deixaram de murmurar a respeito de comerem plantas.

 

Ele sorriu.

 

- Ainda estão exultantes com a vitória. Mas nós procedemos correctamente. - Ele olhou para a noite que caía. Os pássaros do anoitecer piavam lamentosamente no mato. - Quem pensaria que pudéssemos conquistar uma terra inteira e perder apenas uma mulher e dois guerreiros? o nosso povo parece estar satisfeito.

 

Ela inspirou profundamente o ar quente da noite.

 

- Estão. Especialmente as mulheres. Trabalham menos e podem chefiar as cativas.

 

Ele agarrou-lhe na mão.

 

- Os acampamentos no sul não gostarão do que fizemos. Mas que podem eles fazer? Não têm força suficiente para lutar.

 

Ela deslizou da rocha e sentou-se mais próxima dele. Na luz que desfalecia, ele olhou-a nos olhos meigos e desenhou-lhe o rosto com a ponta do dedo. Ela pareceu derreter-se contra ele. o odor dela e o calor do seu corpo flexível envolveram-no.

 

Ela riu-se com a voz tremente.

 

- Que par, tu e eu, Pés de Vento.

 

Deslizou-lhe a mão pela perna abaixo, agitando-lhe a alma, Fechou os olhos, imaginando que o toque dela era de Cinza Branca, mas a ilusão desvaneceu-se perante a realidade.

 

- Faia Preta - sussurrou.

 

Ela olhou para ele e sorriu - com a tristeza nos olhos. Quando ela começou a afastar-se, ele reforçou a sua decisão.

 

Conseguia ver a indecisão dela.

 

- Lamento, eu... - Tropeçou nas palavras.

 

- A culpa é minha. Sei que Cinza Branca ainda está nos teus pensamentos.

 

Olhou para os campos cheios de salva em direcção ao rio da Água Fria.

 

- Engraçado, não é? Nunca pensei que viesse a amar de novo. Nunca pensei que encontrasse um homem com o calor suave que o meu marido tinha. Agora não sei que pensar. Tornaste-te o meu melhor amigo, Pés de Vento. Gostaria que nada acontecesse que te deixasse desconfortável.

 

Ânsia e confusão misturavam-se na alma dele.

- Não sei que dizer.

 

- Compreendo.

 

Olhou para ela. Um sorriso suave encrespava-lhe os lábios.

- Pés de Vento, gostaria de ser tua mulher. Penso que sabes isso. Pensei nisto durante muito tempo. Pesei o desejo que sinto por ti contra o que eu sei que pretendia de um homem. o corpo pode enganar a alma. Esperei até ter a certeza. Não te quero para levar o teu corpo para algo que mudaria a confiança que partilhamos,

 

. Ele mexia desajeitadamente e sem objectivo na bainha da manga. Uma nuvem passou em frente das estrelas, deslocando-se como uma sombra negra pela salva.

 

- Eu luto contra o desejo que sinto por ti, Todos os dias luto com ele.

 

- A decisão é tua. Eu posso viver contigo de uma maneira ou de outra, Pés de Vento.

 

Ele engoliu em seco,

- E Cinza Branca?

 

- Cinza Branca. - Um sorriso ansioso. - Se a encontrares, afastar-me-ei. Compreendo e aceito o que ela significa para ti.

- Como? Quero dizer.- Ela deu-lhe uma palmada na parte de trás do pescoço, acalmando-o.

 

- Porque te amo. Com excepção da segurança do meu povo, daria qualquer coisa para te ver feliz, Se isso significa Cinza Branca partilhando a tua cabana, sorrirei e ajudá-la-ei a levar as coisas dela lá para dentro. E depois desejar-vos-ei felicidades a ambos,

 

- Mas para fazeres isso destroçarias o teu coração, não destroçarias?

 

- Sobrevivi a coisas piores no passado. Imagino que poderei sempre ver-te... e a ela... todos os dias.

 

Quantas vezes ele e Faia Preta tinham rido e planeado juntos? Quantas vezes se tinha ela sentado a escutar-lhe as preocupações mais profundas? Tinham-se transformado numa equipa. o coração dele acelerava-se ao senti-la a, seu lado.

 

Fechou os olhos, tentando pensar a despeito do sangue que lhe batia ruidosamente nas veias. «Mesmo Espírito Sábio desistira.» Tremia quando agarrou na mão que lhe batera no pescoço e a puxou para o regaço,

 

- Nunca tive uma amiga como tu, Faia Preta, Penso em ti todos os minutos que passo longe,

 

Inclinou o rosto para ele e sorriu. Hesitantemente, inclínou-se e beijou-a. Ela passou-lhe os braços em volta da cintura e agarrou-se fortemente a ele.

 

- Estás seguro de que queres assim? - sussurrou,

 

Ele assentiu com um aceno de cabeça, deixando a mão deslizar-lhe sobre a curva da garganta e sobre os seios.

 

Faia Preta despiu o vestido de couro pela cabeça e colocou-o nas pedras e depois ficou de pé à frente dele, recortada pela luz das estrelas. A abundância do seu cabelo negro ondeava ao vento. Ele pôs-se de pé e tirou a camisa pela cabeça. Os dedos desajeitados desataram os laços que lhe prendiam os safões.

 

Agarrando no vestido, ela levou Pés de Vento pela mão e conduziu-o para as frias areias do deserto. Estendeu o vestido numa área aberta entre a salva fragrante.

 

- Tens a certeza? - perguntou ele numa voz rouca.

 

- Nunca estive tão certa - sussurrou e puxou-o para ela. Deliciou-se com a sensação do corpo dela contra o seu.

 

Estiveram abraçados durante um longo momento antes de ela suspirar e o puxar graciosamente para baixo, para cima do vestido e dela.

 

Cinza Branca- tentei encontrar-te.»

 

Cinza Branca meteu a mão no interior do saco de pança de veado que continha água. Tirou uma mão cheia de líquido frio e deixou-o pingar sobre as pedras quentes. o vapor sibilou na escuridão, elevando-se para encher a sauna que tinham construído.

 

água Mansa arfou e ofegou sentado em frente dela.

 

«Quando o sonhador de Lobo pretendeu purificar-se, fez vapor. Deu-o ao povo para purificar o corpo e a alma. Para se purificar a si mesmo.»

 

o sonho fora muito explícito. Entre o Povo do Sol, ninguém construía uma estufa, Entre o Povo da Terra, apenas os curandeiros e os que ofendiam ou tentavam falar com os espíritos suavam. Cinza Branca estava sentada na escuridão sufocante e deixava o vapor banhá-la. A pele estremecia quando a água lhe descia pelas curvas do corpo.

 

Fechou os olhos com o desconforto, cantando suavemente, repetindo as palavras de Pedras Cantantes na noite em que o Poder o possuíra.

 

«Descobre dentro de ti o lugar que escuta», ensinara-lhe Pedras Cantantes. Repetidamente, ela tentava manter a mente vazia.

 

Sweat lodge no original. Os banhos de vapor eram uma das formas de purificação usadas pelos índios americanos. Ainda no século passado, os Sioux precediam as cerimônias de casamento de uma sessão de transpiração numa cabana comunitária adequada para o efeito. (N. do T.)

 

«Tem de ser algures aqui.» Depois: «Silêncio, sua doida!» Lutava por encontrar um caminho para fugir ao ruído da cabeça.

 

Os pulmões ansiavam por uma lufada de ar frio. Torvamente, Cinza Branca desejava ignorar os gritos frenéticos do corpo para abandonar este calor abafado.

 

A Trouxa de Lobo escondia-se-lhe na orla da alma, com os tentáculos a pairarem sobre ela.

 

«Podemos ajudar-te.» As incontáveis vozes da Trouxa de Lobo deslizavam em volta dela. «Abandona-te a nós. Deixa-nos mostrar-te.»

 

Um atordoamento cinzento deixou-a a rodopiar. Caiu para dentro dele. Em volta das orlas, rodava uma névoa dourada cintilante, acenando.

 

«Estás a seguir o trilho correcto, Mãe do Povo. És suficientemente forte? És suficientemente persistente para continuares?» As vozes desvaneceram-se. Depois tornou-se consciente da frescura que descia sobre ela.

 

- Cinza Branca? -A voz de Água Mansa ecoava de muito longe. A consciência regressou lentamente. Pestanejou e achou-se nos braços de Água Mansa. o seu braço escorreito aguentava-lhe o peso, enquanto o braço estropiado a mantinha contra o peito. Lá por cima, as estrelas juncavam o céu excepto para sul, onde estavam ocultas por um sombrio banco de nuvens. Ele trouxera-a para fora da estufa.

 

- Que é? - Ela estremeceu com uma terrível dor que lhe martelava ruidosamente dentro da cabeça.

 

- Foste-te abaixo - disse-lhe ele. - Penso que o calor te fez mal. Demasiado mal e muito depressa.

 

, Resmungou e tentou sentar-se. o ar frio da noite arrepiou-a. água Mansa enrolou-lhe uma manta em volta dos ombros, com a mão a apoiá-la contra a vertigem que a dominava.

 

- o sonho estava correcto - anunciou. - Quase o consegui de novo. Ouvi a voz da Trouxa de Lobo. Senti a névoa cinzenta. o «único estava lá, só que fora do meu alcance.

 

Ele abanou a cabeça.

 

- Estava preocupado contigo.

 

Uma satisfação agradável preencheu-a, como se tivesse sido purificada pela primeira vez desde que Três Touros a violara e agredira.

 

- É o trilho correcto - disse ela. - o trilho correcto.

 

- Muito bem - Água Mansa concordou irresolutamente. Talvez seja de tentar de novo amanhã.

 

- Não. Esta noite. Preciso apenas de recuperar o fôlego.

 

Acocorou-Se à frente dela e ela pôde ver-lhe a preocupação nas profundezas dos olhos castanhos.

 

- Estás a forçar de mais - disse-lhe delicadamente. - Esta manhã estavas mal do estômago, É o quarto dia seguido. Tu não trabalhas nas coisas... apenas mergulhas de cabeça. Não podemos fazer isso devagar?

 

Agarrou-lhe na mão fria e comprimiu-a contra a face ensopada em suor.

 

- Tenho de estar pronta quando o Poder chamar. Tenho de ser suficientemente forte. É a nossa única oportunidade.

 

Ele hesitou.

 

- Por vezes assustas-me, E depois, se te matas?

 

- Então era porque não era suficientemente forte e é melhor ser desta maneira do que morta por um dardo de guerra dos Pedra Partida... ou pior. -Olhou para ele. -Quem te assusta mais? Eu... ou Homem Valente?

 

Franziu o sobrolho.

 

- Em primeiro lugar, vamos suar amanhã. Preparo-te outro grande dejejum e...

 

- Esta noite.

 

- Esta noite... - Inclinou a cabeça com relutância. - Muito bem. Deixa-me espevitar o fogo e aquecer as pedras de novo. Mas desta vez vou ficar perto. Quando caíste lá dentro bateste no chão com força. Se não fossem as peles que lá pusemos, tinhas rachado a cabeça.

 

Deitou-se de costas deixando a brisa fria da noite brincar-lhe sobre a pele escaldante. «Pedras Cantantes levou anos a descobrir o caminho para o Único. Antes disso, usara o Poder como curandeiro entre as tribos. Como poderei fazer o que tenho de fazer em tão pouco tempo?»

 

Homem Valente pôs-se de pé na crista alta e olhou sobre a vasta bacia do Vento, que se estendia para sul.

 

À sua frente, o flanco da montanha caía para o sopé coberto de erva salpicada de manchas de artemísia que se espalhavam pelas terras baixas ressequidas, Ao longe podia ver manadas de búfalos, bandos de antílopes e uma manada de alces-fêmea. Mais ao longe, para sul, conseguia reconhecer as orlas aguçadas das terras áridas com formações erosivas fantásticas e planaltos quase horizontais e os estratos dobrados da bacia onde as linhas de água corriam com o desenho de raízes.

 

- Libertador de almas?

 

Homem Valente voltou-se. Alce Gordo estava de pé entre os penedos tombados abaixo do pico, com uma mão a proteger-lhe o rosto do sol. Era visível o trilho que fizera por entre a erva espessa do prado atrás dele. o milefôlio e a balsamina salpicavam o verde com pontos de branco e manchas de amarelo.

 

Homem Valente desceu do pico rochoso, tomando especial cuidado com a perna estropiada. A dor amainara à medida que o osso se fortalecera. Se ao menos pudesse fazer alguma coisa pelas dores de cabeça. Algumas vezes elas pulsavam-lhe até ficar com visão dupla.

 

O negociar implica que alguma coisa tenha de de ser dada em troca de outra coisa qualquer. Para receber o Poder, tenho de dar dor.»

 

Começou a andar sobre uma laje de rocha inclinada e descobriu que era melhor caminhar na encosta solta por debaixo. o rosto de Alce Gordo estava inchado de excitação prudente.

 

- Descobriram alguma coisa? - perguntou Homem Valente enquanto caminhava de perna direita por entre a erva espessa do topo da crista em direcção aos espruces e abetos cerrados que ficavam do outro lado.

 

- Muita coisa - disse-lhe Alce Gordo com um olhar velado nos olhos semicerrados. - Foste sagaz quando nos mandaste sair. Mas não te vim contar as notícias que tu esperas.

 

Homem Valente entrou na cintura verde-escura dos abetos ramalhudos.

 

- Esperava que os Ponta Negra estivessem a deslocar-se para o território que o Homem Branco tentou ocupar.

 

- Os Ponta Negra não... os Flauta Surda.

 

Homem Valente deteve-se e examinou Alce Gordo nas sombras frias. o odor delicado às agulhas plenas de seiva enchia o ar. Flauta Surda? No vale do Castor Gordo?

 

Sim - disse-lhe Alce Gordo. - E o Pássaro de Neve está a caçar nas terras ocupadas no Inverno passado pelos Ponta Negra, enquanto o Vespa... bem, descobri um acampamento deles mesmo no terreno onde passámos o Inverno.

 

Homem Valente esmagou as agulhas castanhas debaixo dos pés e tacteou as curiosas pedras do colar que roubara ao maneta. Um pica-pau cinzento e preto agitou as asas e emitiu um grito rouco e áspero saltando de ramo em ramo lá no alto.

 

- Então, onde estão os Ponta Negra?

 

Alce Gordo levantou as mãos desamparadamente.

 

- Não te sei dizer. Mas sei isto, libertador de almas. Quase todas as tribos têm feridos. Tem havido combates... muitos.

 

- Os Ponta Negra eram fortes... mas, e se todas as tribos se deslocam para sul? Seguiram o caminho do Homem Branco?

 

Alce Gordo chupou o lábio nervosamente.

 

- Não tenho mais novidades, libertador de almas. As tribos Vespa enviaram grupos de reconhecimento para norte destas montanhas. Que fazemos? Expulsamos os Vespa que invadiram as nossas terras?

 

Homem Valente inclinou a cabeça, com os pensamentos a correrem à desfilada.

 

- Não, meu amigo. Deixem-nos ficar com esta pilha de pedras. Tenho um lugar melhor para aquecer os nossos dardos em sangue do que entre os Vespa. E talvez a tua virilidade também precise de se aquecer, hem? - Homem Bravo fez um gesto por cima do ombro.

- No sul, o Povo da Terra está à nossa espera.

 

Alce Gordo franziu o sobrolho.

 

- Estas montanhas não são más para se viver, libertador de almas.

 

- Não, não são, mas a glória está para sul. Que preferes? Honra e mais mulheres do que as que pudesses levar para a cama? Ou uma guerra sem fim com o Vespa?

 

- Que sonhaste?

 

Homem Valente atirou a cabeça para trás e riu.

 

- Sonhei que a tua família se tornava tão grande que passavas mais tempo a caçar para alimentar todas as crianças que plantaste do que a copular. Sul, meu amigo. Sul.

 

Alce Gordo esfregou a parte de trás do pescoço com uma expressão acanhada no rosto.

 

- Vou pensar no desafio, libertador de almas.

 

Homem Valente seguiu à frente pelo estreito e coleante trilho de alce. Espessas e verdes paredes de espruce e abeto sombreavam o trilho com os ramos entrelaçados em abóbada. Saiu do meio das árvores e desembocou numa clareira coberta de erva. Tinham estabelecido aqui o acampamento principal. As cabanas de pele curtida estavam dispostas em volta da cintura de arvoredo e ao lado de um ribeiro límpido que atravessava o prado. Os cães ladraram-lhe e, depois de lhe conferirem o cheiro, voltaram para a sombra para se deitarem.

 

- Alce Gordo?

 

- Sim, libertador de almas?

 

- o Pássaro de Neve... também te pareceu interessado no sul? Alce Gordo mudou de posição nervosamente.

 

- Sim, disse-te que estavam a deslocar-se para sul. Não percebo isso. Deviam estar lá para cima, para norte do rio Perigoso... e agora temo-los outra vez nos calcanhares. Penso que nem todos os guerreiros feridos que vimos foram atingidos pelos Flauta Surda. Homem Valente deu-lhe uma palmada nas costas.

 

- Fizeste um bom trabalho, meu amigo. Vai, faz o teu merecido descanso... e boa sorte para plantares a primeira daquelas crianças. Alce Gordo fez um sorriso rasgado e acenou com a cabeça, afastando-se a trotar em direcção à sua cabana.

 

«Os Flauta Surda a sul de Castor Gordo? Mas onde estão os Ponta Negra?»

 

«Sul», sussurraram as vozes. Sul? Impossível!»

 

Não obstante, o desassossego mordiscou Homem Valente enquanto se encaminhava para a sua cabana e se acomodava ao sol para pensar. E se tivesse de competir com os Ponta Negra pelo território do Povo da Terra?

 

Começou a reclinar-se sobre o cotovelo, mas alguma coisa na bolsa do cinto se lhe espetou na anca provocando-lhe dor. Torceu-se e puxou a negra pedra do lobo.

 

Puxou o braço atrás para atirar com aquilo fora, mas decidiu não o fazer. Em vez disso, ergueu-o à luz, admirando uma vez mais a perícia que fora precisa para fazer aquilo. A pesada efigie cintilava-lhe nos dedos com uma refulgência tão profunda que a estatueta parecia translúcida, como se olhasse para dentro de uma escuridão sem fim.

 

Contra a sua melhor opinião, voltou a colocar aquilo na bolsa e virou-se para o outro lado. Do outro lado do acampamento erguiam-se vozes em agradecimento. Sem dúvida os amigos de Alce Gordo dando-lhe as boas-vindas ao lar.

 

Examinou o topo dos abetos. Perfilavam-se contra o céu como pontas de dardo. Uma brisa brincalhona encrespou a erva. Estava muito perto de descobrir o caminho para a névoa dourada e para o Poder que ela representava. Noite após noite, enquanto Corvo Pálido dormia, sentava-sejunto do fogo e traçava o caminho que estivera a desenvolver na alma. Tinha de ser aquela a chave. Para descobrir o caminho, tinha de olhar para dentro de si. Estava cada vez mais perto, sentindo a névoa cinzenta indistinta. A sua alma ouvia o chamamento silencioso do Poder. Sabia que podia encontrar o caminho. Aquele assombroso Poder dourado podia ser seu. Com ele, ele, Homem Valente, podia mesmo controlar a Trouxa de Lobo - e a outra fonte do Poder que experimentara e o repudiara. Algum espírito maligno o atirara para fora da névoa dourada naquele dia a sul do rio do Castor Gordo. Ouvira a voz.

 

- E algum dia te hei-de enfrentar de novo - disse em voz alta.

 

- Quando o fizer, prometo que te dominarei. Ninguém é mais forte que Homem Valente. Sobrevivi ao Acampamento dos Mortos, não apenas na minha alma, como a maior parte dos libertadores de almas, mas no meu corpo! Tenho as vozes dos espíritos a sussurrarem-me no espírito. A Trouxa do Povo do Lobo não me pode destruir. Quero sonhar o novo caminho.

 

À distância, o trovão reboou surdamente.

 

Se ao menos os problemas mundanos não se metessem com ele. Esperava sair daqui precisamente depois das primeiras neves. Nessa altura, já haveria mais carne seca e pronta para a viagem. Mas agora? E se os Flauta Surda estivessem a empurrar os Ponta Negra para sul?

 

Corvo Pálido apareceu, dando a volta à esquina da cabana.

 

- Encontrei-o - disse por cima do ombro, dirigindo-se a alguém. E acrescentou para Homem Valente: - Há novidades? Ele agarrou-lhe nas mãos quando ela se ajoelhou a seu lado.

- Eu sei. Alce Gordo já me contou.

 

- Alce Gordo? - Uma breve confusão apareceu-lhe no rosto orgulhoso.

 

Osso Comprido contornou a esquina da cabana, olhando inquieto, A camisa de caça coberta de pó dojovem guerreiro estava esfolada aqui e ali, enodoada e manchada pela água. Os mocassins de cano alto pareciam gastos. Os ossos tatuados nas faces encarquilharam-se quando o guerreiro sorriu acanhadamente.

 

- E tu também estás de regresso! - saudou Homem Valente. Vem, senta-te. Mulher, traz-nos alguma coisa que se coma. Osso Comprido parece exausto.

 

Corvo Pálido mergulhou no interior da cabana enquanto Osso Comprido se afundava na erva para se sentar de pernas cruzadas. Homem Valente examinou-o, notando a fadiga nos olhos do homem.

 

- Quais são as notícias? Encontraste o Povo da Terra? Parecem desconfiados? Alarmados com a nossa presença?

 

Osso Comprido esfregou o rosto delgado.

 

- Não, libertador de- almas. Penso que não precisamos de nos preocupar com o Povo da Terra. Já não constituem problema para nós.

 

- Como assim? - Homem Valente levantou os olhos quando Corvo Pálido colocou um conjunto de malgas de corno diante de Osso Comprido.

 

o guerreiro agarrou na malga feita de corno de carneiro-montês e sorveu-lhe o conteúdo ruidosamente. Com os dedos, pescou os últimos pedaços de carne e de cebola silvestre antes de devolver a malga vazia a Corvo Pálido.

 

- Fui para sul até à bacia do Vento, tal como me pediste, libertador de almas. Senti-me orgulhoso por me teres confiado esta tarefa. Usei toda a perícia e astúcia que possuía. Ninguém viu Osso Comprido a deslizar por entre a artemísia. Cruzei em todas as direcções a terra que fica abaixo destas montanhas e descobri guerreiros de boa saúde. A bacia lá em baixo está eriçada deles.

 

- E têm aspecto de os podermos derrotar? Esse Povo da Terra é tão fraco como eu sonhei?

 

- Libertador de almas... os Ponta Negra já conquistaram a bacia ao Povo da Terra.

 

- Ponta Negra?

 

- Sim, libertador de almas. Estão por toda a parte, a deslocar-se para sul.

 

- Como? - gritou Homem Valente iradamente. - Como lá chegaram? Porquê? Alguma coisa fizera a Trouxa de Lobo? Talvez através do Poder do maneta que aparecera de dentro da cabana do xamane do Lobo?

 

- Não sei - disse nervosamente Osso Comprido -, mas uma noite aproximei-me bastante do acampamento deles. Havia um novo chefe de guerra entre eles. Um homem novo que não conheci.

- Sim, sim, continua!

 

Osso Comprido engoliu em seco.

 

-Corri um grande risco e rastejei até à orla do acampamento deles como uma serpente. Ouvi os guerreiros falarem. o próprio Lua Negra escutava esse novo chefe de guerra, bem como Gordura Quente. Vi-o, é um homem alto e jovem. Andava com uma mulher bonita com cabelo negro comprido.

 

Homem Valente ladrou:

- Ouviste-lhe o nome?

 

Osso Comprido acenou afirmativamente com a cabeça, circunspectamente.

 

- Pés de Vento.

 

«Pés de Vento? Como?» Homem Valente cerrou os punhos furiosamente. «Mais uma vez, velho amigo, nos enfrentaremos um ao outro. Desta vez vou matar-te.»

 

Semicerrou os olhos. Quando a luta pela bacia do Vento estivesse terminada, encontraria um lugar elevado e teria Pés de Vento atado de pés e mãos. Ali - como nas visões - levantaria a faca de pedra para o Sol e abriria o peito de Pés de Vento. E arrancar-lhe-ia o coração palpitante do corpo ainda vivo. Com o coração ainda a palpitar nas mãos ensanguentadas, erguê-lo-ia bem alto - uma oferenda ao Sol e ao Pássaro de Fogo. o pagamento pelo Poder. Os seus guerreiros observariam e ficariam com um temor respeitoso. Cinza Branca devia...

 

«Cinza Branca!» Tudo agora estava claro. Osso Comprido dissera que uma mulher bonita caminhava com Pés de Vento. Homem Valente gritou:

 

-Ele tem-na! Partiremos amanhã! Amanhã, Pés de Vento, irei à tua procura!

 

o vapor subia em espirais das pedras aquecidas para encher a escuridão da estufa. Cinza Branca estava sentada, imóvel. Deixou a alma oscilar com o cântico que Água Mansa murmurava junto de si. Abandonou-se, seguindo a via interior que aprendera com tanto esforço. o caminho veio facilmente, agora que o controlo sobre si mesma aumentava. o único estava apenas além.

 

Pairou no limiar, a paz a infiltrar-se-lhe na alma. A névoa cinzenta chamou-a, persuasiva. Encheu-se de coragem, procurando cruzar o limiar, forçar o caminho... e perdeu-o.

 

«Deixa-te ir por ti mesma», disse a Trouxa de Lobo num murmúrio suave através da névoa que se afastava. Segurou-se, refazendo o caminho para dentro de si. Na fronteira do único, hesitou. A alma pulsou-lhe e agitou-se-lhe, a doçura arrastada do único brincando em seu redor como asas de borboleta.

 

«Deixa-te ir.»

 

Confiar na Trouxa de Lobo?

 

Em desespero e consciente de não haver outra alternativa, deixou-se deslizar para a corrente do Poder confiada na Trouxa de Lobo, Como a corrente de um rio, o Poder arrastou-a para a névoa cinzenta. Caiu, agitando-se, desamparada... e o mundo tornou-se dourado.

 

«Sonha», disse-lhe a Trouxa de Lobo. «Sonha o único.»

 

o Poder encheu o ar como uma neblina delicada. A seu lado, Água Mansa resplandecia com a alma amarela e vermelha. As pedras quentes no centro da estufa oscilavam numa iluminação ignea. Apesar das peles amontoadas sobre a estrutura da cabana, ela conseguia sentir a vegetação e as rochas sombrias em seu redor. Insectos, pássaros, mesmo os ratos nos seus ninhos por debaixo das pedras pulsavam como pequenas fogueiras. Confusão aparecia como uma suave reverberação vermelho-esbranquiçada nos azuis e verdes ondulantes do único.

 

Esticou-se - e encontrou resistência.

 

- Não procures mais, Mãe do Povo. Detemos-te aqui - alertou a voz firme do homem dourado.

 

- Onde estamos?

 

Apareceu uma cintilação, uma luz a dançar como fogo. As feições douradas de um homem jovem, o belo homem jovem dos seus sonhos, flutuaram no único.

 

- Sou o sonhador de Lobo. Aquele a quem chamam Primeiro Homem. Tu és o meu sonho, Mãe do Povo. Abriste a passagem. Peço-te para não ires mais além, pois a iluminação apanhar-te--á como apanhou outros!

 

- Mas é tão bela.

 

- Estás a sonhar na orla do único, sentindo a espiral.

- Gostaria de experimentar mais. Conhecer mais.

 

- A tua hora ainda não soou. Precisamos de ti para sonhar. A Trouxa de Lobo é o caminho. Desta vez sonhaste o suficiente. Aprendeste depressa, Mãe do Povo. Mas não te percas como Pedras Cantantes fez. A fascinação do único é Poderosa. A tua hora de sonhares o único inteiro chegará.

 

- Deténs-me?

 

- Por ora, mas não te podemos deter para sempre. Tu tens uma força. Nós robustecemos-te, procurando virar-te para a nossa finalidade.

 

- Que finalidade é essa, sonhador de Lobo?

 

- Sonhar um novo caminho para o Povo do Sol. Sonhar a espiral para eles.

 

- E se eu não o fizer?

 

- Já sabes a resposta. A espiral mudará e o meu sonho mudará. o que é será diferente. Água Mansa viu o que virá. Podes salvar o sonho do Primeiro Homem. A escolha é tua.

 

Chorou perante a beleza. As luzes dançantes que iluminavam o único resplandeciam em dourado em redor dela. Uma grande paz infundia o próprio ar. o silêncio cantava com vozes maravilhosas. As almas tremeluziam, pulsando, deslizando da vida para a morte quando se infiltravam no único e alteravam a espiral, ainda que muito ligeiramente.

 

- Sonhador de Lobo, foi isto que Pedras Cantantes conheceu?

- E que não conseguiu recusar no fim. Sonhou e não conseguiu regressar. Consegues tu? Sonharás por nós? A Trouxa de Lobo espera por ti. Chama por ela.

 

- Não quero sair daqui.

 

- Então tudo está perdido. A espiral mudará. Homem Valente imporá o seu sonho terrível à espiral.

 

Cinza Branca recuou, retirou-se.

 

- Não!

 

A névoa cinzenta deslizou. Sentia uma mão agarrando-lhe as carnes ao cambalear.

 

- Cinza Branca? - o grito ansioso de água Mansa trouxe-lhe a alma de volta ao corpo. o calor sufocava-a. Sacudiu-se violentamente contra a mão que a amparava. HomemValente escarnecia da sua recordação.

 

- Cinza Branca! - gritou água Mansa. - Sou eu! água Mansa! Estás em segurança. Salva.

 

Arrepiou-se e um grito estrangulou-se-lhe na garganta. Caiu de costas, amparada pelo braço estropiado. Ele mexeu-se e ouviu-se o couro raspar na escuridão ao levantar a aba da cabana. A luz derramou-se no interior e cegou-a.

 

Arrastou-se para o exterior com dificuldade, para ficar deitada na superfície confortavelmente fria da terra. Nuvens negras mascaravam o céu. Reverentemente, tocou numa folha de erva que lhe fazia cócegas no rosto, consciente pela primeira vez de que tinha vida.

 

- Cinza Branca? - Água Mansa ajoelhou-se junto dela.

 

Ela abraçou a terra, como para a introduzir dentro de si e misturar com o bater do coração.

 

As lágrimas rebentaram-lhe ao sentir as mãos dele acariciarem-lhe o cabelo.

 

- Estás bem?

 

Assentiu com um aceno de cabeça, aspirando a humidade que lhe obstruía o nariz.

 

- Tão... belo. Oh, Água Mansa, aquilo pulsa como um coração, apenas de modo diferente, Falei com o Primeiro Homem. Belo. Tão... belo. A minha alma chora só de pensar nele.

 

Encostou os lábios ao solo e respirou para dentro dele, enviando cores a ondearem para o interior do solo.

 

- Como te sentes? - insistiu.

 

Rebolou, sem prestar atenção à terra que se lhe colava à pele, e olhou para ele. o seu amor dilatou-se. Vira-lhe a alma e o «único com ela. Este homem, que olhava para ela com tanta preocupação, resplandecia de amor.

 

Esticoú-se e puxou-o para baixo, apertando-o contra si.

- Estou bem, água Mansa. Estou bem.

 

- Gritaste - murmurou meio sufocado pelo abraço. - Um grito terrível.

 

- Eu sei - sussurrou, com as vozes da visão a ecoarem-lhe nos ouvidos. - Aqui... neste mundo, na ilusão... vejo. Pela primeira vez, realmente vejo.

 

Ele recuou, procurando-lhe os olhos.

- Não vou ggstar disso, vou?

 

- Sonhei o Único, Água Mansa. Sonhei-o.

 

- Senti... alguma coisa. - Rodou nos calcanhares. - Ouvi as vozes da Trouxa de Lobo. Penso que temos de ir.

 

- Também sonhaste o único?

 

Fixou-a, retirando-se para a sua própria visão.

- Se aquilo é o único, não quero nada dele. Agarrou-lhe as mãos.

 

- Conta-me.

 

o rosto dele endureceu.

 

- Vi um guerreiro estropiado, Homem Valente. Caminhava através de um mundojuncado de mortos. o sangue ensopava o solo e o povo, com o medo nos olhos, erguia as mãos para ele. No sonho, ele olhava para mim e o rosto estava cheio com o maligno. - Engoliu em seco. - Levantava a Trouxa de Lobo e sentia o seu Poder. o rosto de Água Mansa contorceu-se. - Virara-a contra o Povo, usando-a para o mal. Transformara-se num bruxo!

 

 

- Sinto-me perdida - sussurrou Cinza Branca a Água Mansa enquanto estavam deitados nas mantas.

 

A luz da fogueira tremeluzia nas pedras fuliginosas do abrigo de Pedras Cantantes. Confusão estava deitado ao comprido do outro lado dela; o cão observou-a com os olhos meigos e as sobrancelhas a tremerem. As marcas do único permaneciam-lhe no espírito, tão poderosamente vivas que o abrigo familiar parecia ter sido um local que ela nunca vira antes.

 

água Mansa abraçou-a com força.

 

- Eu estou aqui. Estarei sempre aqui por ti.

 

Fechou os olhos, cingindo-se ainda mais ao abraço dele.

 

- É como nascer num novo mundo. Nada é o mesmo. Não sei que fazer. o único chama por mim. - Abanou a cabeça. - Sei o que Pedras Cantantes queria dizer quando afirmou que era como uma traça em torno do fogo.

 

- Havemos de resolver isso. Tu e eu. - Fez uma pausa. - Somos mais fortes juntos do que separados. Talvez isso seja parte do quebra-cabeças.

 

Rolou o lábio sobre os dentes. Seria tão fácil fugir. A sua própria força podia levá-la a passar o Primeiro Homem e a penetrar no único. Fora isso que ele dissera. Podia ser livre de o experimentar todo, de dançar a espiral. «E o sonho do Primeiro Homem morrerá. Cessará a harmonia que o seu sonho infunde no mundo.»

 

Rolou e fixou os olhos gentis de Água Mansa.

 

- Nunca houve nada tão maravilhoso. Consegue ver-se a alma do mundo. Vi a tua alma... amarela e vermelha, resplandecendo. És um homem bom, Água Mansa.

 

Sorriu-lhe, estendendo-se para lhe acariciar o cabelo.

 

- E tu és uma boa mulher, Cinza Branca. Não poderia ter feito o que fizeste. Como Pedras Cantantes, levaria anos.

 

Ela pressionou a mão contra o rosto dele, procurando retirar-lhe força, - Sinto como se tivesse de caminhar sobre o fio de uma crista afiada como uma faca e com um abismo de cada lado. o problema é que eu, desafortunadamente, quero cair.

 

- Isto ainda é novo para ti. Passar-te-á. Quanto mais sonhares...

 

Colocou-lhe os dedos contra os lábios.

 

- Não. Não compreendes. É como... - Abanou a cabeça. - As palavras são ilusão. Não conseguem exprimir isto. Mas quanto mais se sonha o único tanto mais poderoso isto se torna. É como se a sua beleza crescesse na tua alma, crescendo cada vez mais até tu e o único se fundirem... não consegues suportar o afastamento, porque o afastamento é o mesmo que rasgares a tua alma. Como poderei experimentar uma tal bênção e regressar de livre vontade a este mundo e a toda a sua dor? Desta vez, o Primeiro Homem usou os meus medos mais profundos para me convencer a partir. Mas da próxima vez? Ou depois? - Arrepiou-se. - o sonhador de Lobo não sabe o que pede.

 

- Ele tem fé na tua força. Eu tenho fé na tua força. Apertou-se contra ele.

 

- Quem me dera partilhar da tua fé. Um só erro e serei puxada para dentro, sem vontade para resistir, incapaz de o fazer. - Inspirou hesitantemente. - oh, Pedras Cantantes, como o conseguiste durante tanto tempo?

 

- Talvez porque não me tinha a mim.

 

Correu-lhe a mão ao longo da face, desenhando-lhe o contorno da orelha.

 

Es parte da minha força, isso é verdade. Nunca teria descoberto o caminho sem ti. Cantaste para mim e encorajaste-me quando estava pronta a desistir. - Enterrou o rosto no peito dele.

- Não sabia que fosse capaz amar um homem assim tanto.

 

Escutou-lhe o coração, sentindo-lhe o braço mirrado contra os seios.

 

- Amar - sussurrou Água Mansa. - Outro quebra-cabeças. Que é? Por que funciona da forma que o faz?

 

Ela encolheu os ombros, procurando colar-se a ele o mais possível.

 

- Não é essa a minha preocupação de momento. É como controlar o sonho, como permanecer a meio caminho entre o único e o mundo.

 

Segurou-lhe o braço estropiado contra o corpo, correndo-lhe a mão até aos dedos recurvados. E dissera ele que nenhuma mulher quereria um homem com um braço como o seu. Agora ela acariciava-lho. o braço inútil era como Água Mansa: uma decepção - todo ele uma decepção desde os dedos dos pés até ao rosto vulgar. Tudo o que nenhuma mulher aceitaria terminava-lhe na pele. Se ao menos as outras pudessem ver as cores da sua alma magnificente.

 

Cinza Branca observou a luz da fogueira bruxulear nas paredes irregulares. Encontrara o caminho para atravessar a fronteira e provar o mel proibido. Mas... e se não conseguisse parar? E se não conseguisse evitar saciar-se na maravilha e na harmonia do outro lado? Que aconteceria a Água Mansa?

 

- Sinto a tua preocupação - disse-lhe.

 

Os seios doíam-lhe quando se comprimia contra ele. Por desfastio tocou-lhes, perguntando-se como os magoara.

 

- As coisas estão apenas a piorar.

 

- Encontraste o caminho para o sonho.

 

- Não é isso que quero dizer. - o bater do coração dele acalmou-a. - Que acontecerá quando sairmos daqui? Esqueceste que temos de lidar com o Povo do Sol, Qualquer um que não faça parte da tribo é inimigo. Como lhes vamos dizer que somos enviados pelo Poder? Em todo o caso, quem acreditaria nisto? água Mansa, eles matar-te-ão mal te ponham a vista em cima... mas a mim... ficarão comigo. Uma mulher é sempre útil para eles.

 

Os olhos dela desenhavam o padrão da espiral pintada. Por que não vira ela a verdade da espiral antes? A espiral era o mundo - a Criação. À distância, o trovão reboou sobre a bacia do Vento.

 

- Encontraremos uma solução. o Poder vai ajudar-nos sussurrou Água Mansa.

 

o estômago dela torceu-se.

 

- Só temos uma oportunidade. Como faremos? Infiltrarmo-nos no acampamento deles durante a noite? Com todos os cães de guarda? Aliás, eles estão em território não familiar, Haverá vigias por todo o lado a observarem os terrenos baixos, esquadrinhando o território.

 

Eles não deixam nada ao acaso. - Riu secamente. - Esquilo Que Voa, tinhas razão. o Povo do Sol guerreia até ser tão forte que nada possa prevalecer contra ele.

 

- Pensarei numa solução. Isto é outro quebra--cabeças. A confiança dele não a sossegava.

 

- E depois, quando estivermos entre eles, temos de descobrir a maneira de nos mantermos vivos. Se não tivermos sorte e dermos com o acampamento de Homem Valente, pensas que me vai dar uma oportunidade para sonhar? - Resmungou de repugnância. Dificilmente! Ter-me-á plantado a semente dele antes de me obrigar a deitar.

 

- Descobriremos o acampamento certo.

 

- Digamos que o conseguimos. E se,tiver a oportunidade de sonhar, que acontece se me perder no Único? Se não regressar, matar-te-ão, Água Mansa. Tu nem falas a língua deles.

 

- Pelo menos, darão por isso rapidamente. Estarei imediatamente atrás de ti nesse caminho, Mantém a minha alma debaixo de olho. Segundo compreendi, será a amarela e vermelha.

 

- Não brinques. Mas sentiu-se confortada,

 

- Regressarás. - Esfregou-lhe a cara no alto da cabeça. Amo-te demasiado para... - Ficou em silêncio.

 

Mudou de posição para olhar para ele. Estava perdido nos seus pensamentos.

 

- Que estavas a dizer? Ele riu triunfantemente.

 

- o Poder nunca deixará de me espantar.

 

- Queres deixar esse ar presumido e contares-me? A sua cara vulgar resplandeceu.

 

- Amor, obviamente.

- Quê?