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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O POVO DO FOGO – Segundo Volume / W. M. Gear
O POVO DO FOGO – Segundo Volume / W. M. Gear

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O POVO DO FOGO

Segundo Volume

 

Os fardos estavam pousados no chão, prontos, na luz rosada do amanhecer. Dos suportes do abrigo evolavam-se espirais azuis de fumo que iam tingir a parede cinzenta e irregular da escarpa calcária. A geada espalhava-se densa pelo chão e a respiração das pessoas condensava-se enquanto faziam os preparativos de última hora.

 

Estranhamente indiferente, Pequeno Dançarino afastou-se para o lado, observando. O sono não tinha vindo. Tinha estado deitado, quase sempre desperto, torturado por fragmentos de Sonhos quando conseguia passar pelo sono. Mais uma vez o seu mundo tinha mudado - e ele não sabia como ou porquê.

 

Cria Branca contornou a beira e caminhou penosamente até onde ele estava. Parecia comprimir-se sobre o cajado, olhos na lama em frente dele.

 

Mastigou as gengivas desdentadas e olhou para cima ao encontro do seu olhar. A véspera parecia tê-la envelhecido ainda mais.

 

- Eu estava enganada - disse ela suavemente. - Pensava que estavas à minha responsabilidade. - Abanou a cabeça levemente, os seus olhos nunca se afastando dos dele. - Sabia que tinhas muito que aprender. Nunca pensei que tivesse muito tempo. Compreendes? Pensei que poderia morrer antes de te poder ensinar.

 

De tudo o que ela podia dizer, ele não esperava aquilo. As palavras não saíram.

 

Ela olhou para cima, para a Teia-de-estrelas, e riu-se.

 

- Ele é o tal, o Homem do Sol, o Sonhador de Lobo. Ele treinar-te-á, Pequeno Dançarino. - Riu-se frouxamente, torcendo-se para lançar uma mirada aos outros. - Tolice minha, rapaz. Mas, então, é humano. Temos tendência para o orgulho, para pensar que somos mais do que aquilo que somos. Não admira que tenhamos estragado o Primeiro Mundo.

 

- Não compreendo Ela fungou no ar gelado.

 

- Eu também não. Pensei que o meu papel era maior do que é. Hum! Foi preciso ver a visão de ontem. Tudo ficou claro. Oh, eu tive o meu papel, tudo bem. Fui a chave da tua concepção e segurança. Sabes, a tua mãe verdadeira foi Água Límpida, minha filha. Eu criei o pai de Touro Esfomeado, para o gerar, para casar com Raiz de Salva, para tomar conta de ti. Fui chamada para te tirar a Castor Pesado mesmo no momento exacto. Estava aqui para te proporcionar um abrigo seguro para cresceres. Tenho mais um par de coisas para fazer, mas elas virão com o tempo.

 

Ele aproximou-se dela, surpreendido pela dor que sentia no coração:

 

- Eu voltarei.

 

Ela acenou em concordância.

 

- Ora, havemos de voltar a ver-nos. Penso que quando o tempo de Inverno estiver a acabar, vais aparecer junto à minha lareira. Nós ainda estamos ligados, rapaz. Mas lembra-te disto. As Espirais são o mais importante de tudo: mais importantes do que os que amas ou do que tu mesmo. Elas são os lugares do Poder onde os seus Sonhos são mais fortes.

 

- Não compreendo o que queres dizer. As espirais? Ela apontou para o seu abrigo.

 

- Como aquela junto ao fogo no abrigo. As que estão gravadas na rocha. As antigas nos lugares altos.

 

- Círculos dentro de círculos.

 

- Isso mesmo, rapaz. Tudo criação do Sábio Lá em Cima.

 

- Ficas bem aqui? Quero dizer, Sangue de Urso pode voltar. Ela afastou a ideia com um aceno.

 

- Vou ficar bem. Ora, adeus, eu vi um pouquinho do futuro. Sangue de Urso não me vai incomodar. Tenho comida suficiente e não falta lenha aqui à volta. - Ela ergueu a cabeça com um suspiro. - Foi sempre o Poder, como vês. ...O que tens de te lembrar sobre Cria Branca. Deixei Raposa Grande e o meu filho Sete Raposas para perseguir o Poder nas alturas. Então, quando me fixei aqui, encontrei Pena Cortada. O Poder juntou-nos... em mais de um sentido.

 

Ela coçou-se atrás da orelha e ele pode ver as memórias a girar em turbilhão na sua cabeça.

 

- Nós perdemo-nos durante uns tempos. Quero dizer, eu e ele. Algo acerca do amor e de união debaixo das roupas que ensina o modo como o Poder trabalha dentro de nós. Diminui a sede de Sonhar. Ah, mas foi bom! Uma paixão para enfraquecer a outra. A união dos corpos faz isso. Invade-nos a cabeça com delícia e deixa-nos a flutuar como num sonho. Mas o amor humano enfraquece o Poder. Eu dei-lhe Água Límpida e outra criança. Mas esta nasceu morta. Talvez eu devesse ter entendido nessa altura, mas levou mais algum tempo. Pena Cortada compreendeu. Deixou-me ir... e tomou conta da tua mãe.

 

- Foram sempre as alturas - gargalhou para si própria. - O Poder lá é mais forte. Chamou-me, tal como o lume chama uma borboleta para
a morte. Ele suga-nos, possui-nos e nós perdemo-nos na maravilha de alcançarmos esse outro lugar.

 

Ela hesitou, perdida em qualquer visão privada na sua mente.

 

- Penso que eles estão quase prontos - disse ele, apontando para onde Dois Fumos tinha levantado a volumosa carga e a sua rede. Agora, o tresmalhado aguardava. Os outros estavam em volta, falando no modo tranquilo de pessoas prestes a embarcar para o desconhecido.

 

Ela pareceu não ouvir, ainda pairando como uma águia nas correntes do pensamento.

 

- Penso que foi só por não ter compreendido. Quem me dera ter feito mais por ti. Gostava de ter sido o teu Sonhador.

 

Não parecia lúcida, aqueles velhos olhos ainda desfocados enquanto murmurava:

 

- ...Não, um Sonhador não. Um Dançarino. Dançarino do Fogo. Ele retesou-se. O Homem da Nuvem tinha-lhe chamado isso mesmo.

 

Que queria ele dizer?

 

- Tem cuidado. Voltamos em breve para te ver.

 

Ela ficou de pé, olhando fixamente para o infinito num ponto na sua mente que só ela conseguia ver.

 

Embaraçado, sem saber o que mais fazer, passou por ela, pegando no seu fardo junto ao abrigo onde o tinha deixado.

 

- Ela está bem? - perguntou Alce Encantado, vindo para junto dele.

 

- Eu... eu penso que sim.

 

- Ela está bem. Já a vi assim outras vezes. - Dois Fumos deu meia volta sobre o seu calcanhar são. - Julgo que ela o quer assim. Quer que partamos enquanto está a ter uma visão.

 

Coxeando, Dois Fumos começou a descer o caminho.

 

Pequeno Dançarino olhou para trás, recolhendo uma última imagem da anciã, ainda apoiada no seu cajado como uma garça paciente, o infinito nos seus velhos olhos nublados.

 

Pequeno Dançarino sentou-se num afloramento de arenito que se erguia sobre a cumeada como a espinha dorsal de um monstro. Desse ponto alto, ele podia olhar para oriente e para a chegada da noite. A terra estendia-se mosqueada, sombreada de alfazema e couro, onde as serranias se alongavam para norte e sul. Manchas de arvoredo pareciam sombrias, verde-azuladas na luz que desaparecia. Faixas amarelas de argila intercalavam-se com xistos cinzentos e brancos. Por detrás, o dourado das gramíneas arqueava-se e ondulava até à enevoada vastidão das planuras, espraiando-se ao longe, conduzindo o olhar até ao horizonte infinito de carvão e azul até se fundir com a bruma indistinta do céu encastelado de nuvens.
Castor Pesado esperava além, algures, com a sua fisionomia vulgar, conhecedora e poderosa. Esse sorriso superior - tão familiar à memória de Pequeno Dançarino - mantinha-se preguiçosamente sobre aqueles lábios grossos. A cicatriz do dardo anif’ah deformava-lhe a testa larga. Aqueles olhos fuliginosos pareciam calmos, escondendo as intenções criadas por uma mente e um coração perversos.

 

Pequeno Dançarino cerrou os olhos e abanou lentamente a cabeça.

 

- Eles não precisam de um rapaz com sonhos maus. Eles precisam de um herói, como o Primeiro Homem.

 

Por debaixo dele, a cumeada caía numa vertente íngreme, salpicada de salva e de moitas com flores amarelas ainda murchando. Blocos angulares de arenito, desprendidos do rebordo juncavam a encosta. Tentilhões rosados de boinas cinzentas volteavam sobre a salva nas suas asas ágeis. Um insecto grilava no silêncio. As ervas ressequidas sussurravam desconfortavelmente sob a promessa de um vento fresco.

 

O Outono da alma estendia-se à sua frente.

 

A gravilha estalou debaixo de um pé hesitante. Ele voltou-se, observando Alce Encantado que subia graciosamente a rocha acastanhada, afrouxando para se sentar junto dele, onde pudesse partilhar a vista.

 

- Perdido de novo dentro da tua cabeça?

 

Ele sorriu nervosamente, olhando para baixo, onde as suas mãos calejadas apertavam o arenito saibroso.

 

- Acho que sim.

 

Ela mudou de posição, dobrando as longas pernas debaixo de si e apoiando-se num braço. A brisa do oeste agitava os belos tons de corvo do seu longo cabelo.

 

- Dois Fumos diz que o Poder está em ti. Tu sente-lo? Quero dizer, o Poder?

 

Ele tentou dar uma resposta que não revelasse muito... e não conseguiu encontrar as palavras.

 

- Não sei. Penso que sim. Eu... eu não sei.

 

- Com que é que se parece?

 

Ele olhou-a rapidamente, notando-lhe a preocupação no olhar.

 

- Assustador.

 

- Tu és muito corajoso.

 

- Não me sinto assim.

 

Ela encolheu os ombros, compondo o vestuário enquanto procurava uma posição mais confortável.

 

- Creio que é porque as pessoas fazem o que devem fazer para se manterem vivas. Olha para mim. Há meia dúzia de dias eu era feliz, brincava com a Grilo e a Sanhaço e eram só risos e jogos. Hoje estou aqui porque o mundo mudou. Tornei-me mulher e Sangue de Urso queria-me. Agora, estou baralhada no meio de tudo.

 

- Estás assustada por causa disso?

 

Ela levantou a cabeça ao encontro do seu olhar inquisidor,

 

- Estou. - O fantasma de um sorriso pairou-lhe no canto dos lábios.

- Mas eu arrisco-me. Eu penso que não... bem, eu não me preocupo com o Poder do mesmo modo que tu. Penso apenas que ele acontece e aceito-o.

 

- Quem me dera que fosse assim tão simples. Ela empertigou a cabeça.

 

- Não serás tu quem o faz difícil?

 

- Talvez.

 

O silêncio estendeu-se enquanto ele apreciava a proximidade dela. Há quanto tempo não tinha ninguém com quem pudesse simplesmente falar? Se o Sonho da encumeada se repetisse, seria que Alce Encantado se transformaria em rocha e tentaria fazê-lo cair no abismo?

 

- Acho que a minha mãe e Touro Esfomeado vão passar a dormir juntos.

 

A simplicidade da afirmação dela chocou-o. Voltou-se para a fitar, de repente uma vez mais à deriva, procurando um esteio em que se pudesse apoiar para lidar com esta nova revelação.

 

- Mas ele... - Mãe? Será que ele pode esquecer Raiz de Salva? Assim sem mais nem menos?

 

Como se tivesse compreendido, ela perguntou:

 

- Há quanto tempo anda ele sem ninguém? Mais ou menos cinco anos, não? Ele parece um homem muito só.

 

Ele engoliu em seco e forçou a sua atenção a desviar-se para leste, para os lados da vasta bacia onde Castor Pesado agora controlava o Povo do Pequeno Búfalo.

 

- Sim - respondeu lentamente. - Há muito tempo - E Touro Esfomeado vivia solitário, talvez mais solitário do que ele próprio. Seria isto assim tão terrível? Seria uma traição aos mortos se ele dormisse com Cascos Trepidantes, que sorria docemente e tinha o riso a bailar-lhe nos olhos suaves?

 

- Pareces infeliz.

 

Ele abanou a cabeça ainda a pensar naquilo que estava a sentir.

 

- Não sei. Não, infeliz não. Apenas... perdido. Como se já não entendesse nada. Tem acontecido muita coisa e eu estou...

 

- Confuso?

 

Ele concordou, mirando-a rapidamente.

 

- Cada vez que começo a sentir como se soubesse onde estou, tudo muda outra vez.

 

Ela olhou-o, franzindo levemente as sobrancelhas.

 

- Posso ajudar-te?

 

- Não sei. - Depois tristemente: - Podes não querer. Parece que

 


levo sarilhos para onde quer que vá. Sabes a história da minha verdadeira mãe Água Límpida?

 

Ela sobressaltou-se, olhando-o espantada.

 

- Esse és tu? A história é contada entre os Mão Vermelha. Que ela teve o bebé e foi morta. Que Dois Fumos ficou aleijado e a criança morreu. Que Cria Branca chegou tarde de mais e só Dois Fumos estava vivo.

 

- Bem, não foi o que me contaram. E ninguém me diz quem foi realmente o meu pai. - Apoiou o queixo. - Estranho, não achas?

 

Ela mordeu o lábio, olhando fixamente para longe, enquanto a noite se aproximava rapidamente.

 

- Tu não sabes? De verdade?

 

- Não. Dois Fumos nunca mo quis dizer.

 

- Sangue de Urso. Ele inteiriçou-se.

 

- Sangue de Urso? O meu... - Abanou a cabeça perante a impossibilidade do facto. - Não. Não pode ser. Impossível.

 

Ela evitou-lhe o olhar, voltando a sua atenção para as mãos subitamente nervosas.

 

- Não sei. Ele esteve casado com Água Límpida. Tinha a ver com um Sonho dela. Então, ela deixou os Mão Vermelha juntamente com Dois Fumos. Sangue de Urso matou o sogro, Pena Cortada.

 

- Com quem Cria Branca foi casada. - A sua compreensão esfumou-se de novo, deixando-o frustrado e inseguro. - Eu não... Por que é que isto não é simples? Por que é que tudo parece aprisionado em círculos sem fim? - Respirou fundo, a alma traçando o esquema, compreendendo as palavras de Cria Branca.

 

- Que foi? Ficaste pálido.

 

- Sangue e esterco - rouquejou. - Nunca pára, pois não?

 

- Não entendo. - Ela tomou-lhe a mão, um toque quente junto à dele. - Pequeno Dançarino? Estás bem? Olha para mim.

 

Ausente, ele voltou a cabeça, notando o brilho ansioso dos olhos dela. A mão dela apertou a dele. Sorriu fracamente.

 

- Tudo bem. De verdade. - Mas a alma vagueava-lhe como fumo, retorcida, sem forma e sem abrigo, soprada aqui e além pelo vento.

 

- Estás frio. - disse-lhe ela, aconchegando-se a ele.

 

Uma sensação de desconforto formou-se-lhe no topo do estômago. Seria uma parte do Poder? Que ele estivesse sempre preocupado e deixado hesitante e desequilibrado? De facto, ele não sabia de fonte segura que Sangue de Urso era realmente o seu pai. Dois Fumos deveria saber... se o dissesse. Ou, então, tudo continuaria escondido, outra camada, outro círculo dentro de um círculo para saltar para ele quando menos esperasse.

 

Desesperado, abraçou Alce Encantado contra si, apoiando o queixo na cabeça dela, desfrutando a realidade da sua presença física. O aroma do cabelo dela encheu-lhe as narinas. Uma nova agitação cresceu nele, apenas associada com os Sonhos.

 

Afastou-a, de modo a poder fitá-la nos olhos preocupados. Ela estudou-o com ansiedade.

 

- Já não me conheço Ela assentiu suavemente.

 

- Posso ajudar?

 

Algo acerca de amor e união debaixo das roupas que enfraquece a forma como o Poder trabalha dentro de nós. Uni homem e uma mulher, unindo-se assim, enfraquecem o chamamento do Poder. Faz-nos menos receptivos à sede de Sonhar

 

Olhou-a nos olhos gentis.

 

- Já alguma vez...

 

Ela sorriu interrogativamente.

 

- Continua.

 

- Tu és uma mulher.

 

- Queres unir-te a mim? - Ela afastou os olhos para longe, um ligeiro carmim despontando-lhe nas faces. - Se o teu pai se casar com a minha mãe... - Ela engoliu em seco. - Que é... quero dizer, isso será incesto?

 

Ele fitou-a com gravidade

 

- Touro Esfomeado não é meu pai. A minha mãe era Água Límpida. E tu dizes que o meu pai foi... é Sangue de Urso.

 

Ela trincou o lábio antes de soltar uma gargalhada feliz.

 

- Pois claro! E ele nem sequer é do meu clã! Somos livres, Pequeno Dançarino. Há dias que ando preocupada com isto, mas nós somos livres.

 

- Então, vais permitir que eu...?

 

- Segundo o meu povo, um homem faz-se quando mata a sua primeira caça grossa. Tu mataste um búfalo.

 

Ele aquiesceu, desejando que o coração não lhe estivesse de novo aos saltos.

 

- Nunca estiveste com uma mulher antes? Ele sacudiu a cabeça

 

- Cria Branca nunca me quis à tua beira. Pensava que eu podia afectar o teu Poder.

 

- Eu sei.

 

- É por isso que te queres unir comigo? Ele sorriu nervosamente

 

- Talvez em parte. Mas também porque Sonhei contigo à noite... de como poderia ser.

 

- E nós unimo-nos? Ele acenou que sim.

 

- E plantámos semente? Ele acenou uma vez mais. Ela sorriu para si própria.

 

- Entre os nossos primos, o Povo da Garça Branca, diz-se que um Sonho como esse germina as almas. Se o par em questão se não unir em vida, as almas ficam doentes com a espera e pode-se mesmo morrer.

 

- Tenho sempre esta sensação ardente cada vez que olho para ti. Ela deu uma risadinha, puxando-o para se levantar.

 

- Anda daí, vamos até às árvores lá ao fundo. Creio que estou pronta para ser mulher em todos os sentidos. E não quero arriscar-me a que a tua alma adoeça.

 

Ela não lhe largou a mão enquanto desciam da rocha e se encaminhavam para o bosque de pinheiros.

 

Sanhaço adorava ter razão. Pôs-se em pé, no meio do caminho, bloqueando Corno Solto.

 

- Grande fardo. Vais fazer uma caçada? Ele começou, levantando os braços, frustrado.

 

- Tem cuidado, um destes dias vais assustar alguém que ainda te atravessa com uma seta.

 

- Queres apostar? - Cruzou os braços e troçou. - Tu não eras capaz de me acertar com uma seta nem que o quisesses. Posso não ser tão forte como tu, mas sou muito mais rápida.

 

Ele torceu a boca, abanando a cabeça.

 

- Talvez. Tudo bem, vou caçar.

 

Ela franziu os olhos perante o semblante carrancudo dele.

 

- E, agora, deixa-me ir. O que eu faço não te diz respeito. Ela concordou, um aperto de preocupação crescendo.

 

- É a Alce Encantado, não é? Vais atrás dela.

 

- Talvez.

 

- Isso não é teu, respostas curtas assim. Estás a pensar em mais alguma coisa.

 

- E se estiver?

 

- Estás apaixonado por Alce Encantado? Ele deu um pontapé no pó do caminho.

 

- E se estiver?

 

Sanhaço estudou-o com curiosidade.

 

- Tu tens estado irritado desde que voltaste. Tu e Sangue de Urso.

 

- Deixa-o fora disto!

 

- É o que tu me fazes lembrar. É aquilo que queres vir a ser? Como ele?

 

A fúria dele explodiu.

 

- Olha lá! Estás sempre a meter o nariz nos meus assuntos. Tenho-te aturado porque somos amigos. Mas agora basta. Vou afastar a Alce Encantado daquele rapaz do Pequeno Búfalo, aí está. Ouviste? Agora sai daqui.

 

E passou por ela, tremendo de raiva.

 

Sanhaço ficou a olhar para as suas largas costas à medida que ele se afastava a passo rápido. O rapaz do Pequeno Búfalo? O que vivia com a feiticeira?

 

Sanhaço olhou de esguelha para ele enquanto alisava o cabelo. Concordou para si própria. Aguilhoava-o uma raiva ardente como ela nunca tinha visto, algo perigoso e mortal. Se Corno Solto apanhasse o rapaz do Pequeno Búfalo, matá-lo-ia. Alce Encantado poderia ficar viúva antes de casar.

 

Dois Fumos observava, sentado nas sombras. Eles tinham estendido todas as peles sob o bosque de pinheiros. Agora, Touro Esfomeado, Três Dedos e Corvo Negro batiam os ramos com longas varas, malhando. Dos ramos vibrantes caía sobre as peles uma cascata de pinhões e caruma.

 

- Parece-te que já está tudo? - gritou Touro Esfomeado para Cascos Trepidantes.

 

- Chega por agora - respondeu ela, trepando de pés e mãos pelas peles, examinando o tamanho e qualidade da colheita.

 

Há quantos Invernos ele não ouvia aquela alegria na voz de Touro Esfomeado? Há quanto tempo ele não via a luz do riso naqueles tristes olhos castanhos?

 

- Dois Fumos?

 

Ergueu o pescoço para ver Pequeno Dançarino descendo cautelosamente das rochas, onde ele e Alce Encantado tinham estado à procura de dejectos de pequenos animais nos rochedos mais acima.

 

- Sim?

 

Pequeno Dançarino veio agachar-se junto dele, as mãos apertadas no regaço, vendo os homens e mulheres recolhendo as peles, levantando os bordos para despejar a colheita num saco de couro.

 

- Sangue de Urso é o meu verdadeiro pai, não é?

 

Dois Fumos ficou gelado. Estupefacto, olhou para o rapaz.

 

- Onde ouviste isso?

 

O sorriso torcido de Pequeno Dançarino não o sossegou.

 

- Um dos problemas de viver com gente dos Mão Vermelha é que eles conhecem a história. Água Límpida casou com Sangue de Urso. Quando o seu sangramento faltou, ela fugiu contigo para as planícies.

 

- É. Foi assim que aconteceu. - Ele sentiu-se mal.

 

- Então, Sangue de Urso é o meu pai?

 

- É. - Dois Fumos estremeceu perante a censura na voz de Pequeno Dançarino.

 

- Por que não me disseste antes? Tu és o tresmalhado, o homem que vive entre os mundos. Um tresmalhado compreende e aproxima. Ele compreende ambos os lados. - Uma pausa. - E tu não me disseste.

 

Dois Fumos levantou os olhos, vendo aquele jovem que nele confiara tão profundamente.

 

- Ter-te-ia feito algum bem? Teria tornado as coisas mais fáceis para Touro Esfomeado?

 

Pequeno Dançarino suspirou, os olhos saltando para o lugar onde Touro Esfomeado ria e espicaçava Três Dedos nas costelas com uma brincadeira qualquer.

 

- Não, mas...

 

- Mas tu detestas sabê-lo por terceiros.

 

- É como se... Bem...

 

- Como se alguém te tivesse enganado de algum modo. Como se o mercador te levasse uma dúzia de peles bem tratadas e te deixasse com um fardo de restos carcomidos.

 

Pequeno Dançarino abraçou os joelhos e inclinou-se para trás, sentando-se.

 

- É isso mesmo.

 

Dois Fumos expirou suavemente, recompondo a perna aleijada

 

- É isso mesmo, pois é. Mas eu não sabia que mais fazer. Agora, que encontraste Sangue de Urso também sabes outra razão por que eu nunca te disse. - Dois Fumos abanou a cabeça. - Ouvi dizer que, quando ele partiu, tudo aquilo de que era capaz de falar era da sua criança “roubada». De como iria recuperar a sua criança. Não é curioso que só tivesse querido levar a Trouxa de Lobo? Que nunca tenha perguntado por ti? Ele aceitou que as histórias eram verdadeiras e que tu estavas morto.

 

»Então, no dia em que assaltou o acampamento de Castor Pesado, ele teve ocasião de me matar... mas a Trouxa de Lobo era mais importante do que matar o homem que lhe tinha fugido com a mulher.

 

- Tu eras um tresmalhado.

 

- Eu era um tresmalhado... mas dormi com Água Límpida. Oh, sim. Não olhes para mim desse modo. Eu amava-a. Não sei, talvez a amasse como um homem ama uma mulher. Talvez a amasse como uma mulher ama outra. Não importa. O que importa é que eu a amei. Depois que Cinco Quedas morreu, nunca pensei voltar a amar ninguém.

 

- O amor é uma coisa bizarra. Dois Fumos resmungou:

 

- Dizes-me isso a mim? Creio que por dentro estás todo em fogo, quase sem poder esperar pela oportunidade de te escapares para as moitas e bombeares o teu sémen para dentro de Alce Encantado.

 

Recebeu em troca um olhar chamejante.

 

- Ora, adeus, Pequeno Dançarino. Não andas propriamente a enganar ninguém. Três Dedos e Corvo Negro andam a rir-se à socapa. Cotovia do Prado e Engraçadinha perguntam calmamente uma à outra se não serás demasiado jovem para entenderes no que te estás a meter... mas isso são as crenças do Povo do Pequeno Búfalo de novo em acção. E Touro Esfomeado anda tão perdido nos braços de Cascos Trepidantes que não se podia preocupar menos...

 

- E que é que tu pensas?

 

Dois Fumos sacudiu um moscardo, procurando afastá-lo.

 

- Penso que és mais velho do que os anos que tens. E creio que sei o que Cria Branca viu... Por que razão deixou de se preocupar com Alce Encantado e te deixou à vontade.

 

- E por que foi?

 

- Porque tu não te podes controlar. - Encontrou os olhos chamejantes do jovem e estremeceu. - Perguntaste-me o que eu pensava. Eu disse-to.

 

- Creio que sim. - Pequeno Dançarino enterneceu-se. - Mas ela é tão... Não sei. Só penso nela. Ela é alguém com quem sabe bem estar.

- Arrancou uma pedra do chão e atirou-a para o meio das moitas. Junto dela, não tenho de me preocupar.

 

Lá em baixo, o resto do grupo começou a mover a pilha de peles para debaixo de outra árvore, espalhando-as para apanharem o que conseguissem deitar abaixo.

 

- E tu pensas que se te enterrares tão profundamente em Alce Encantado os problemas dos Sonhos, das vozes e do Poder se evaporam como um charco de água num dia quente?

 

- Isso seria agradável - admitiu ele. Dois Fumos soprou uma gargalhada

 

- Se pudesse ser assim tão simples.

 

Sentaram-se em silêncio por momentos, observando os homens a fustigar os ramos da nova árvore e os pinhões, pinhas e caruma a choverem, em baixo, nas peles.

 

- Por que é que nunca voltaste para os Mão Vermelha? Dois Fumos pensou:

 

- Jurei pela Trouxa de Lobo que ia tomar conta de ti-

 

Sorriu, pensando naquele dia sob o sol ardente. Tinha segurado na criança enquanto Cria Branca fazia qualquer coisa, procurava comida ou algo semelhante. E tinha jurado tomar conta dela... só se dando conta de que o tinha feito pela Trouxa de Lobo quando já era demasiado tarde.

 

- Achas que valeu a pena? - quis saber Pequeno Dançarino. Dois Fumos recordou todo o sofrimento, os insultos, a dor de ser violado por homens soezes, os braços e pernas agarrados enquanto brutalmente o tomavam por detrás. O riso deles pelo seu rebaixamento ecoando rudemente. Lembrou-se das dores causadas pelos espancamentos incitados por Castor Pesado e dos dias finais quando a Trouxa de Lobo fora profanada. Reviveu o tempo desde a maldição de Raiz de Salva até à chegada de Cria Branca. E desde então? Tinha sido mais fácil?

 

- Acho que sim - reflectiu ele. - Porque durante uns tempos, pude sentir o Poder. - Ele tinha estado sempre lá, cálido, estendendo o seu brilho para ele, dia após dia... até que Castor Pesado ofendera a Trouxa quase para além de qualquer reparação. Por essas recordações, poder-se-ia suportar uma vida inteira de horror.

 

- Por mim, estou satisfeito por estar livre disso. As palavras aguilhoaram-no

 

- Não digas isso.

 

- Mas estou. - Pequeno Dançarino abraçou-se, cruzando as pernas debaixo de si. - Encontrei aquilo que procurava. Aqui - apontou o pacífico vale -, está tudo aquilo de que preciso. Alimento. Protecção. Aqui vou ver a minha família crescer. Castor Pesado está muito longe nas planícies a leste. Sangue de Urso está nas terras altas. Que razão podiam ter para nos vir incomodar? Não, não quero saber do Poder, nem das suas preocupações, nem dos círculos, nem... nem... Estou farto disso.

 

Dois Fumos sorriu ironicamente.

 

- O problema com o Poder é que tu nunca sabes. - Veremos, rapaz. Veremos! Mudando então de assunto. - Mas falando dessa tua mulher, vais deixá-la fazer toda a caça miúda?

 

- Encontrámos um par de ninhos lá em cima. Ela quis ir ver um pouco mais longe.

 

- Então, é melhor tratares dos teus paus de fogo. Sabes como se faz isso?

 

Pequeno Dançarino lançou-lhe um olhar céptico.

 

- Qual é a dificuldade? Acendo uma fogueira e pomos o estrume a arder. Quando o rato corre para fora, batemos-lhe com uma moca.

 

- Mas tens de ser muito, muito rápido. Pequeno Dançarino sorriu-se.

 

- Eu pareço um relâmpago. E Alce Encantado é ainda mais rápida. Dizendo isto, pôs-se em pé num salto e dirigiu-se para a sua trouxa.

 

Enquanto Pequeno Dançarino procurava os seus paus de fogo, Dois Fumos murmurou para si próprio:

 

- Espero que tenhas razão, amiguinho.

 


Ficou a ver Pequeno Dançarino a escalar de novo o rochedo, um jovem esperto e confiante que julgava poder lidar com tudo.

 

Homens jovens saltavam, os corpos engordurados captando a luz do fogo que realçava a protuberância dos músculos e a pintura do corpo. A grande fogueira no centro do acampamento estalava e estoirava, atirando espirais de faúlhas bem alto, para o céu da meia-noite. Por detrás dos confins iluminados do acampamento podia ver-se, facilmente, a grandeza da Teia-de-estrelas. Mas não aqui, não onde tanta luz enchia o ar.

 

Em volta do círculo de tendas, as mulheres observavam, umas entoando cânticos com o Cantor, outras apenas olhando, de faces impassíveis. Estavam em pé, mudas, as túnicas de búfalo apertadas firmemente sobre os ombros. Mulheres de todas as estaturas e compleições. Altas, baixas, umas magras, outras gordas... despojos da sua renovação do Povo.

 

Castor Pesado estava sentado sobre uma pele de búfalo branco, todas as suas sete esposas de pé por detrás de si. Duas Pedras, Assobio de Alce e Sete Sóis sentavam-se, vigiando para ambos os lados e um pouco para trás. Diante dele, cravada no chão, erguia-se uma longa vara decorada com penas de corvo e chocalhos de casco de antílope: a sua insígnia. Estava onde estivesse a sua tenda. Aquele estandarte semeara o medo entre os Cabelo Cortado, os Búfalo de Fogo e os Garça Branca.

 

Esta celebração, esta noite da Bênção, marcava a reunificação do Povo sob a liderança de Castor Pesado. Ele sorria feliz, na escuridão, imaginando a face severa da mãe. Fiz isto, mãe. Tu tinhas razão, como sempre. Tudo o que foi preciso foi disciplina... e um povo desesperado em busca daquilo que me ensinaste. Quando os meus jovens guerreiros nada tinham a perder para além da vida, fizeram maravilhas. Tudo o que tive de fazer foi Sonhar a nova via. Mãe, que acertada foi a tua visão.

 

Esta corrente de orgulho brotava nele. Os saltos rodopiantes dos dançarinos reflectiam as rotações arrebatadas dentro do seu próprio peito. Pela sua visão, ele tinha reformado o Povo. Contra bandos de guerreiros enviados para o deter os seus jovens tinham sempre triunfado, acreditando-se invencíveis. Entre povos que nunca tinham verdadeiramente feito a guerra, Castor Pesado tinha enviado fanáticos sedentos de matar até ao último homem. Contra os seus jovens mártires tresloucados, ninguém podia oferecer mais do que uma resistência simbólica.

 

O rufar do tambor e o subir e descer do cântico empolgaram-no. Esta noite palpitava de vida para ele. O que ele celebrava era a visão da mãe e a sua concretização que ele levara a cabo. Se ao menos ela pudesse ver, dizer-lhe...

 

Tu previste isto, mãe. Tu és o verdadeiro chefe. Eu apenas usei a força que me ensinaste. Abanou levemente a cabeça. Se deixasse a imaginação libertar-se um pouco, podia aperceber-se da voz da mãe no cântico dos Cantores. A cadência do tambor trovejante podia muito bem ser a do próprio coração dela que lhe falava.

 

- Agiste muito bem - admitiu Sete Sóis, do lado. - Nunca teria acreditado que tantos de nós voltassem a estar reunidos no mesmo sítio.

 

A velha voz áspera quebrou-lhe a concentração. O impulso de repreender o ancião levantou-se, manteve-se por um momento e decaiu quando um frio sopro de razão lhe dispersou a ira. Sete Sóis tinha ainda de ser conquistado. É assim mesmo, filho. Tem calma. Usa os teus sentidos e derrota-o totalmente. Nessa altura, podes pô-lo no seu lugar.

 

É o que ela teria dito.

 

Castor Pesado abriu os braços, deitou a cabeça para trás, a serenidade nos traços insípidos do seu rosto.

 

- Nós somos os novos caçadores das terras do búfalo. Como verdadeiros lobos, vagueamos e tomamos aquilo que precisamos. Mas é mais do que coragem estúpida dos nossos jovens. Vês aquele guerreiro além? Aquele alto, pintado de azul com o capuz de antílope?

 

- O que dança mais chegado ao fogo?

 

- Esse mesmo. Chama-se Duas Luas Azuis. É o filho mais velho do chefe do Povo do Cabelo Cortado, Cão Gordo. Veio ter comigo. Ofereceu-se ao novo Sonhador. Quando ele comanda um grupo guerreiro, a sua simples presença leva os nossos jovens a tentar fazer melhor do que ele. Raramente o conseguem. Mas o importante é a coragem, a destreza no combate que esse comportamento desenvolve.

 

- E isso é tudo, então? - Sete Sóis inclinou-se para a frente, gesticulando com a mão. - A vida deve ser mais do que guerra e a habilidade de desmoralizar os inimigos.

 

-Achas que sim? - Castor Pesado ergueu uma sobrancelha. - Olha à tua volta. Em tempos estávamos em farrapos, morrendo à fome, sempre a movermo-nos e a morrer, tentando encontrar cada vez menos búfalos.

 

- Tivemos alguns anos bons. Veio a chuva. As manadas começaram a crescer, nasceram crias.

 

- E agora as chuvas podem faltar outra vez. - Castor Pesado bocejou, deixando a alma baloiçar ao ritmo do tambor e do crescente lamento dos Cantores. Onde estava a voz da mãe? Ali,.suspensa mesmo no limite da consciência. - E se assim acontecer, Sete Sóis, não ficaremos limitados pelo velho acordo de caçar apenas nas terras banhadas pelo Rio da Lua. De facto, podemos caçar até ao rio da Areia no sul e até ao Grande Rio no norte. Podemos caçar onde a caça esteja e ninguém nos vai impedir. Não, nós caçamos mais do que búfalos. Nós caçamos gente. Se não encontrarmos búfalos para matar pelas peles, tomá-las-emos aos que o fizerem.

 

- E se os outros se tornarem...

 

- Não o farão. Não podem - A mãe, não os vai deixar. Ela cuida de nós, velho idiota trémulo. Tu conheceste-a. Devias ter reconhecido os seus talentos nessa altura.

 

Sete Sóis abanou lentamente a cabeça.

 

- Pareces muito seguro de ti próprio, Castor Pesado. O Sonhador de Espírito sorriu e acenou com a mão.

 

- Estou mesmo. Sonhei a nova via... e ela é como os espíritos me disseram. É uma nova era, um novo tipo de vida. Nós limpámos a poluição do Povo.

 

- E que é que se vai seguir?

 

- Vamos purificar também os outros. Não tenciono deixar os Cabelo Cortado, os Búfalo de Fogo ou os Garça Branca pensarem em voltar a desafiar-nos. O seu poder tem de ser quebrado, têm de ser tomadas mulheres suficientes para assegurar ligações matrimoniais e económicas com os nossos bandos. - Uma torrente de certeza aqueceu-o como o nascer matinal do sol. Esse era o caminho. Ele quase o podia sentir no próprio ar.

 

- E os Mão Vermelha? Como tencionas domar esses montanheses selvagens?

 

Castor Pesado riu-se por entre dentes.

 

- Oh, eles hão-de cair. De momento, a única vantagem que têm é o conhecimento do terreno lá em cima. Podem emboscar-nos à vontade. A chave é planear com antecedência. Quando tivermos abastecimentos suficientes e guerreiros treinados que bastem, iremos lá acima e exterminá-los-emos a todos.

 

Sete Sóis franziu o sobrolho, mordendo o lábio inferior.

 

- Há alguns dos meus antepassados que...

 

- Esquece-os. Não estamos em época para os velhos e velhas despejarem histórias sobre o Primeiro Homem ou os Gémeos Heróis. Aqui, neste novo mundo, estamos a construir uma nova via. Eu sou a lenda do novo mundo, Sete Sóis. A minha mãe teve esta visão. Ela previu este futuro. Ela teve Poder a correr-lhe nas veias como sangue. Eu estou apenas a vivê-lo em seu lugar.

 

A imagem que ele tinha conjurado apoderou-se dele. No seu sonho, o tambor reflectia o bater do coração dela. Ela tinha-se tornado no Povo. Ele acenou com a cabeça, escutando de novo o cântico, procurando as palavras dela. Elas pairavam no limiar da sua compreensão. Se ele ao menos pudesse derrubar aquela última barreira e compreender.

 

- Que foi? - perguntou Sete Sóis.

 

Castor Pesado ignorou-o, perdido, tentando desvendar o segredo das palavras da mãe.

 

-A água deixou de correr na Nascente do Osso do Monstro. A medida que o meu poder enfraquece, assim acontece com o do mundo. Até a rama de salva é desperdício. Será que não podes fazer nada? - implorou a Trouxa de Lobo à esvoaçante névoa dourada, o seu vibrante apelo desdobrando-se ao longo da sedosa linha prateada das Espirais.

 

A voz de Sonho de Lobo veio, brumosa, das Espirais.

 

- De momento, chegámos aos nossos limites. Temos de aguardar e ter esperança.

 

- E ver um mundo morrer”?

 

 

Touro Esfomeado ajudou Dois Fumos a descer um declive escarpado, circunvagando o olhar pelo novo abrigo. O velho tresmalhado conduziu-os para baixo, ao longo de um trilho coleante com uma suave poeira de neve caindo em volta deles, branqueando ombros, cabeças e fardos. Uma dispersão de zimbros alternava com pinheiros ao longo das linhas de água enquanto as encostas, voltadas a sul, tinham um ar acinzentado das moitas de groselhas e sorveiras. Rastos de veado mosqueavam o caminho que seguiam.

 

Em frente deles, o outro lado do desfiladeiro parecia frio e sombrio com os topos cónicos dos abetos a destacarem-se verde-escuros sobre o emaranhado dos pinheiros negros. Sobre o topo, porém, abriam-se largos prados que se esfumavam na bruma cinzenta da neve caindo e das nuvens.

 

- Os alces passam o Inverno ali - disse Dois Fumos, apontando para os altos prados. - Bom lugar para caçar durante os grandes frios.

 

- Bom acampamento em toda a volta - concordou Cascos Trepidantes. - Não parece que alguém tenha acampado aqui desde há muito tempo.

 

- Talvez - Dois Fumos encolheu os ombros.-A última vez que aqui estive ainda era jovem. Cinco Quedas veio aqui com o primo e passámos o Inverno. O acampamento era muito bom mas os ratos e os ratos-da-pradaria quase nos puseram doidos nesse ano.


- Mas vocês vieram assim tarde? - perguntou Cascos Trepidantes, torcendo o corpo sob a tumpelina para o poder ver.

 

- Mais cedo - Dois Fumos apontou para o desfiladeiro. - Mas fizemos o trabalho pesado nessa altura. Construímos uma armadilha para carneiros ali em cima. Não creio que demorasse muito tempo a montá-la. Temos a nova rede que eu e Alce Encantado temos estado a fazer. Logo que cacemos alguns carneiros, teremos peles e carne para uns tempos até que os alces regressem. Talvez aqui o Touro Esfomeado, Três Dedos e Corvo Negro possam matar um veado ou dois. Dessas peles podemos fazer armadilhas para alces.

 

- Ei lá! - gritou Corvo Negro. Tinha estado a escutar com a cabeça erguida, tentando entender as palavras anif’ah. - Será que ele disse armadilhar um alce?

 

Touro Esfomeado riu-se entre dentes.

 

- Caçar aqui é diferente. Vamos lá, vamos encontrar esse abrigo na rocha. - Piscou o olho a Cascos Trepidantes. - Talvez me possas ensinar a armadilhar alces e caçar carneiros?

 

Ela dirigiu-lhe um largo sorriso antes de voltar a concentrar-se no trilho.

 

- Penso que vais aprender. Mas vamos lá, está a começar a ficar escuro. É melhor estar fora deste talude enquanto vemos os nossos pés.

 

Hastes altas de centeio selvagem gigante - castanhas sob a mão do Inverno - escondiam a abertura do ressalto da rocha. O lugar parecia ter uns dez passos de comprimento e Touro Esfomeado alargou-o mais três passos logo que afastou a cortina de ervas. À luz que desaparecia, dificilmente se apercebeu do lixo de um grande ninho de ratos-da-pradaria no canto, ao fundo, onde o chão se unia à rocha.

 

- Podes ter razão acerca dos ratos-da-pradaria.

 

- Os que nós não enxotarmos, eu como. - Cascos Trepidantes suspirou enquanto se torcia, descarregando o fardo das costas e esfregando os braços. - Ei, grande caçador do Povo do Pequeno Búfalo, por que não nos fazes uma fogueira?

 

Três Dedos ajudou Dois Fumos a subir a escarpa e a entrar na escuridão do abrigo. Os restantes dispersaram-se no interior, um a um, suspirando, arrepiando-se e arquejando no frio enquanto espalhavam os fardos pelo chão.

 

- Então, é isto o lar! - exclamou Corvo Negro quando chegou, batendo levemente na rocha com os nós dos dedos.

 

Touro Esfomeado olhou-o enquanto vasculhava à procura dos paus de fogo:

 

- Preocupado?

 

Corvo Negro conduziu Engraçadinha pela mão, os três filhos olhando espantados em volta.

 

- Preocupado? - Corvo Negro levantou a cabeça, observando, enquanto os dedos ágeis de Touro Esfomeado colocavam a aguda ponta carbonizada do pau pequeno no orifício de fricção da peça de base. Soprando baforadas de vapor, começou a rodar as hastes enquanto Corvo Negro continuava:

 

- Não, não estou preocupado. É que é tudo novidade, só isso. Nós estamos... bem, não nos sentimos a encaixar aqui. É como se isto fosse outro mundo, percebes?

 

Touro Esfomeado concordou, sentindo-se melhor ao sentir o sangue circular pelos braços gelados.

 

- Senti-me assim quando deixámos o acampamento de Castor Pesado... mas Raiz de Salva tinha acabado de ser morta. Continuei como uma alma sem corpo.

 

Um restolhar das ervas assinalou a chegada de Alce Encantado e Pequeno Dançarino. Uma piada privada qualquer fazia-os rir com a vivacidade de juventude apesar do frio e da fadiga da longa jornada.

 

Os dentes de Engraçadinha começaram a bater de frio antes que o rodopiante pau de fogo levasse a madeira a libertar um ténue fio de fumo. Apesar dos dedos gelados, Touro Esfomeado sorriu mal consegui um brilho avermelhado.

 

- Tens lugar para isto? - perguntou a Corvo Negro.

 

Este, imediatamente, começou a procurar no seu fardo, tirando para fora um molho de palha de arroz e de casca de árvore esmagada, tudo em parte carbonizado. Engraçadinha pegou no ninho de rato-da-pradaria tirando do emaranhado ramas de salva, há muito secas, e bocados de pêlo. Algures, ao fundo do rochedo, começou a ouvir-se um leve batimento quando o aterrorizado roedor sapateava nervosamente com as patas traseiras.

 

- Ainda vem aí pior - prometeu Engraçadinha à pequena criatura. Touro Esfomeado vazou a madeira ardente no emaranhado de ervas de Corvo Negro e soprou cuidadosamente. A brasa brilhou, um brilhante olho vermelho. O fumo subiu num traço fino. A dança da chama nasceu e vorazmente devorou o feixe. Pouco a pouco, alimentaram-na com pedaços de galhos e paus, juntando pedaços maiores até terem uma fogueira crepitante.

 

- Ei. Olhem para isto! - Três Dedos apontou para a parede inclinada do fundo do abrigo. Uma larga secção de arenito tinha-se desprendido, o topo dela mal despontando acima do chão, há tanto tempo se dera a derrocada. Entretanto, o painel plano, criado pela queda do tecto, tinha sido escurecido pelo fumo e coberto de fuligem, mas não tanta que impedisse alguém de descortinar as figuras gravadas na rocha.

 

Uma grande espiral dominava o painel. Três Dedos aproximou-se, esfregando de lado para limpar a rocha.

 

- Sangue e esterco - murmurou. - Um monstro! Vejam! Vejam que bem isto está feito! Aqui está o dorso encurvado, os grandes dentes, e a espécie de cauda crescendo no focinho. - Esfregou a parede com a mão, limpando mais fuligem até que parou, gelado, olhando para a figura que acabara de descobrir.

 

Um homem com uma lança estava de pé a um lado, obviamente no acto de arremessar a arma mortal contra o flanco do monstro.

 

- Cria Branca sempre disse que o Povo matava os monstros como nós matamos os búfalos. - Touro Esfomeado chegou junto do amontoado de crianças, apinhadas em volta do fogo, de mãos estendidas para o calor. Desbastou um tição a arder e enfiou-o no lado do ninho de rato-da-pradaria.

 

Dirigiu um sorriso a Cascos Trepidantes.

 

- Não gosto de ratos-da-pradaria. Roem as coisas durante a noite. E também provocam sarilhos com o Poder do Espírito. Estava-me tudo a correr bem até que um rato-da-pradaria em tempos me roeu o meuatlatl.

 

Ela bateu-lhe no ombro.

 

- Esse ninho deve dar assados suficientes para um dia ou dois. Eu apanho-os quando começarem a sair por este lado.

 

Colocou-se em frente de uma das saídas com o bordão levantado. Alce Encantado foi para a outra saída enquanto o fogo crepitava ninho adentro.

 

Três Dedos abanou a cabeça, com a atenção pregada nas gravações da rocha enquanto Corvo Negro se lhe juntava.

 

- Não sei há quanto tempo isto estará aqui.-Dois Fumos sentou-se num pedaço angular de tecto caído. - Vi-as pela primeira vez ainda era rapaz, talvez da idade de Folha Dançante. - Apontou para a filha mais velha de Corvo Negro. - E já então eram velhas.

 

Três Dedos continuava a esfregar a fuligem quando Cascos Trepidantes gritou e bateu com o bordão num relâmpago acastanhado:

 

- Apanhei-te!

 

Do outro lado da Espiral, Três Dedos descobriu pinturas de dois animais, obviamente carneiros da montanha pelos cornos retorcidos da cabeça. Encontrou também um búfalo e um alce, ambos atravessados por lanças. Identificou uma série de sulcos na parte inferior da parede como esfregadelas, para a preparação da plataforma, para o fabrico de ferramentas de pedra lascada, mas, mais acima, escondida na sombra dançante do fogo, raspou a fuligem de uma última figura.

 

- Que é isso? - Touro Esfomeado esticou o pescoço para ver.

 

- Lobo! - sussurrou Três Dedos, dando um passo atrás quando as linhas do animal ficaram nítidas - Vejam! Parece vivo!

 

Pequeno Dançarino sobressaltou-se, quase assustando Touro Esfomeado.

 

Conseguiu entrever o rosto do filho, vendo a cor fugir-lhe das faces crestadas pelo vento.

 

- O Lobo era o Espírito Auxiliador do Primeiro Homem quando ele veio de debaixo do mundo - lembrou-lhes Dois Fumos, do sítio onde esfregava os braços arrepiados. Acenou lentamente. - Nunca limpámos a rocha quando estivemos aqui.

 

O bastão mortal de Alce Encantado estalou noutro assustado rato-da-pradaria enquanto o fogo consumia o ninho.

 

- E vão dois! Carne fresca esta noite!

 

Touro Esfomeado gargalhou quando Cascos Trepidantes apanhou mais um rato-da-pradaria. O calor das fogueiras tinha começado a penetrar-lhe no vestuário meio gelado.

 

- Não. Pode ser que não seja nada mau.

 

Foi então que avistou Pequeno Dançarino, ainda lívido, os olhos vidrados no Lobo, que, de cima, parecia olhá-lo fixamente.

 

Corno Solto estudava de longe o abrigo de Cria Branca não avistando ninguém para além da anciã. Esperou dois dias até ter a certeza de que os outros tinham partido. Furioso, olhou para o céu sombrio. Penugentos flocos brancos, caíam, húmidos e pesados. Agora já não havia pista. Devia ter procurado os sinais mais cedo. Ele soubera que o Povo do Pequeno Búfalo estava ali.

 

O rapaz do Pequeno Búfalo deveria ter descido por um dos trilhos, de modo a que ele pudesse arremessar um dardo mesmo através dele. Isso ensiná-lo-ia a não fazer disparates com a mulher que Corno Solto escolhera. Assim, mais ninguém se iria intrometer se ele a tomasse por esposa.

 

Para onde teriam ido?

 

A velha ovelha trotou para a frente, parando um momento para olhar por cima do pescoço.

 

- Espera aí! - gritou Cascos Trepidantes, a voz mal se erguendo no ar gelado.

 

Pequeno Dançarino parou onde estava, tentando manter-se na escarpa inclinada.

 

A luz do Sol caía, oblíqua, do céu de Inverno, aquecendo a encosta sul do desfiladeiro. Por detrás dos rochedos, sombras de neve mantinham-se nos recantos. Manchas de relva, plantas secas pelo frio e, ocasionalmente, manchas de silvados arrastavam a frágil existência na desagregada encosta da montanha.

 

- Não acredito que as pessoas cacem assim. - As palavras de Touro Esfomeado mal chegavam aonde Pequeno Dançarino esperava, tentando controlar a respiração.

 

À frente deles, a uma distância de talvez quatro lançamentos de dardo, o pequeno rebanho de carneiros da montanha parou, à sombra da velha ovelha, olhando para trás na sua direcção.

 

- E agora? - perguntou Pequeno Dançarino.

 

- Em frente! - gritou Cascos Trepidantes na sua voz gutural. - Um bocadinho de cada vez. Não queremos que elas se assustem e fujam. Se o fazem, escapam da armadilha.

 

Pequeno Dançarino repetiu a ordem, ouvindo-a passar ao longo da linha de pessoas serpenteando ao longo da escarpa.

 

Lá em baixo, o vale jazia sob um manto de neve. O fundo do regato, bordejado de salgueiros, permanecia numa sombra azulada, enquanto montes redondos de neve marcavam o curso sinuoso das margens da corrente amortalhada em gelo. Aqui e além uma mancha escura assinalava o local onde a água corria depressa de mais para congelar. Os salgueiros, desnudados pelo Inverno, tinham sido atravessados por rastos de veado e alce. A vertente oposta chocava as memórias do Verão. Os abetos, eternamente sombrios, dormiam recobertos por pesado forro de neve.

 

Pequeno Dançarino olhou para cima, para a abóbada azul-inverno do céu, surpreendendo-se como a cor podia ser assim, mais escura nos dias curtos. Uma leve cortina de nuvens rendilhava os céus para leste. A brisa cortante corria descuidada desfiladeiro abaixo. Curioso, aspirou o ar, tentando ver se conseguia sentir algum odor das ovelhas. O ar fez-lhe arder as narinas.

 

Mais abaixo, Alce Encantado escolhia cuidadosamente o caminho. Como se pudesse sentir o olhar dele, olhou para cima, sorrindo, enquanto arremessava o seu farto cabelo negro-azeviche por cima do ombro coberto de peles.

 

Um arrepio agradável subiu-lhe suavemente no peito. Finalmente, podia sorrir, rir, gozar a vida como ela devia ser vivida. Este pedacinho de terra tinha passado a ser deles. Aqui, eles viviam para além do medo de Sangue de Urso, para além do pesadelo de Castor Pesado.

 

Deu outro passo, tentando enterrar o pé calçado numa mocassina no lado da montanha. Gravinha e terra chocalharam e caíram em cascata debaixo do seu peso.

 

- Ei! - alertou Touro Esfomeado em voz surda.

 

Pequeno Dançarino lançou um riso abafado do fundo do estômago.

 

À frente dele os carneiros recomeçaram a mover-se, a velha ovelha saltando graciosamente de rocha em rocha, o sol brilhando no seu macio casaco de Inverno. Um velho macho seguia os demais, inquieto, penxiendo para trás, como se não soubesse o que fazer.

 

De onde Pequeno Dançarino abria o caminho ao longo da encosta, mal lhe conseguia ver o lombo achatado.

 

É altura de Alce Encantado ocupar o seu lugar lá em cima, em frente - acrescentou Cascos Trepidantes.

 

Lá do topo, para onde Três Dedos tinha escalado de um poleiro precário para outro, chegou a chamada ritmada de um tordo. Pequeno Dançarino sacudiu a cabeça perante a incongruência do canto da ave até se aperceber que tinha sido imitado pela talentosa mímica de Três Dedos.

 

Mais abaixo, Alce Encantado deslizou e começou a mover-se mais depressa, caminhando ao longo de rochas mais estáveis. Corvo Negro e Cotovia do Prado apressaram o passo, mantendo a linha mais ou menos regular. Touro Esfomeado manteve a sua posição.

 

A velha fêmea trotou em frente, atirando lama e seixos a ressaltar pela encosta abaixo. As ovelhas e carneiros mais jovens seguiram-na, saltitando através do cascalho solto. Ao alcançar a plataforma segura do outro lado, a ovelha guia, olhou para trás como se compreendesse o que se passava.

 

Pequeno Dançarino engoliu, pensando nas diminutas reservas de carne.

 

- Por favor, mãe - pediu.

 

Ela voltou-se para o fitar, por cima da espádua amarelada. Através da distância, ele sentiu os olhos dela fixos em si.

 

por favor, mãe - sussurrou ardentemente. - Precisamos da tua carne.

 

A linha de levantamento parou. A ovelha lançou um rápido olhar em direcção à armadilha. Levantou a cabeça, as orelhas espetadas por detrás das finas hastes curvadas. Uma larga via de fuga permanecia aberta. Ela olhou fixamente para o estreito intervalo por onde podia fugir e flanquear a linha de caçadores. A decisão parecia oscilar-lhe na cabeça.

 

por favor, mãe - repetiu Pequeno Dançarino num murmúrio.

 

Tentou chegar a ela, explicar-lhe a fome que podia acontecer a um povo sem a dádiva da carne. Punhos fechados, aclarou o espírito, tentando transmitir a necessidade.

 

O tempo corria. Nem se apercebeu que tinha caído sobre os joelhos, os braços levantados.

 

- Por favor, mãe.

 

A sensação fluiu, subindo da aguda rocha que lhe mordia os joelhos. Aquele instante de compreensão alongou-se, a Unidade envolvendo-o como nevoeiro da madrugada em volta da casca dos algodoeiros do vale.

 

Estamos famintos, mãe. Concede-nos a tua vida. Partilha o teu espírito connosco. - Não se lembrava de ter encontrado os olhos dela através da distância. Por um momento apenas o toque das suas almas importava. A sua consciência apenas sentia o pulsar do coração da ovelha, o fluxo do ar nos seus pulmões, a preocupação na sua mente.

 

- Alimenta-nos, mãe.

 

Compreensão, pena, aceitação, as emoções preencheram-no, possuíram-no. Sentiu-se voltar, caminhando em quatro pernas finas, começando a subir a vertente. Observou um mundo sem cor, agora monotonamente visível em tons de cinzento através dos olhos da ovelha. Através dos ouvidos dela, ouviu as restantes segui-la, as patas trémulas raspando o cascalho miúdo da montanha, martelando a rocha. Os aromas da terra e geada e folhas cheias de húmus debaixo da bitterbush1 e groselha índia, perduravam-lhe nas narinas, misturando com o cheiro forte da erva curada pelo Inverno. Ele apreciou o poder das pernas dela à medida que ela se encaminhava ladeira acima. Correu naqueles espantosos pés, bem calçados naqueles cascos almofadados, por onde um homem teria escorregado e caído.

 

Então, ela passou entre os dois afloramentos rochosos, coroando o topo da crista, descendo a correr entre as paredes laterais da armadilha, empilhadas de pinheiro negro. Os músculos levaram-na de um salto a entrar no cercado de caça, enquanto as outras se apinhavam por detrás.

 

A rede de Dois Fumos ergueu-se por detrás e as outras ovelhas e carneiros começaram a balir nervosamente. Ela esperou, partilhando o momento com ele, desassossegada, mas aceitando enquanto ele partilhasse a sua mente. Os balidos do rebanho e o resfolegar nervoso do velho macho espicaçavam todos os instintos.

 

Os gritos dos caçadores espalharam o terror pelo resto do rebanho, aumentando o pânico dos balidos e das correrias frenéticas. A rede empilhava-as para a frente, manobrada pelo aleijado Dois Fumos e pela ágil Cascos Trepidantes. Mostravam-se estranhamente fora de perspectiva, parecendo achatados e terríveis através dos olhos da ovelha. Ela mal vacilou quando a rede se abateu sobre ela, um peso que ela não entendia. As demais ficaram a tremer, tentando perceber esta coisa, este emaranhado de atilhos cheirando a homens e a casca de zimbro.

 

Ele entendeu as mocas. E, através dele, ela entendeu-as também. O levantar do zimbro endurecido pelo fogo, a sua descida em arco, a pancada seca destroçaram-lhe o ser. O cheiro forte do sangue foi levado pela brisa, o seu almíscar misturado com o odor dos humanos. Um a um, o resto dos carneiros foram caindo. A morte inevitável aproximava-se.

 

Pequeno Dançarino ergueu o olhar para o pai, agachando-se

 

1 Arvore rosácea, de madeira dura, cujo fruto (sorva) se usa para fabricar uma bebida alcoólica.

 

enquanto a moca se erguia contra o céu cinzento. Estremeceu quando o sibilante arco de madeira desceu. Escuridão.

 

Vozes.

 

- Está a acordar. Pequeno Dançarino? Estás a ouvir-me?

 

A sensação familiar de mãos - mãos humanas - embalou-o. O calor subiu-lhe pelo corpo, amparando-o. Gemeu, agitado, saboreando as sensações da vida, do coração batendo-lhe no peito. Uma sensação maravilhosa de arrepio entorpecente encheu-lhe as pernas e braços deixando-o a tremer.

 

Vivo!

 

- Que aconteceu? Caíste? - A preocupação de Alce Encantado arrancou-o às camadas da infinidade para abrir os olhos à luz brilhante de um sol oblíquo. Piscou os olhos, vendo-se nos braços de Alce Encantado. Touro Esfomeado inclinava-se sobre ele, segurando-lhe as mãos, com os olhos meio inquietos, examinando-lhe ansiosamente o rosto. Em volta, Três Dedos, Corvo Negro e Cascos Trepidantes inclinavam-se, de expressões tensas.

 

- Perdeste a caçada - Touro Esfomeado quase se riu com alívio. Caíste e...

 

- Eu estive lá - rouquejou ele, respirando fundo. - A ovelha e eu... Um. Nós fomos Um. Ela ia fugir, escapar da armadilha. Eu supliquei-lhe.

 

As memórias voltaram em catadupa, cada passo, cada respiração, cada batida do coração. O levantamento da moca, a inevitabilidade da morte. Um arrepio violento sacudiu-lhe o corpo.

 

- Temos de o aquecer - disse Cascos Trepidantes, algures lá de trás. Várias mãos ergueram-no, as pessoas falavam confusamente enquanto o corpo se movia fora do seu controlo.

 

- Cuidado com o degrau. - As palavras confundiam-se-lhe nos ouvidos.

 

Voltou à semi-inconsciência, intimidado pelo pensamento de que tinha morrido com a ovelha... e não tinha sido desagradável. Mas que tinha acontecido depois? Uma volátil sensação de flutuar...

 

Calor. O crepitar da fogueira. O fumo fez-lhe comichão no nariz. Lacrimoso, pestanejou para uma fogueira acesa numa cova baixa. O aroma de carne a assar encheu-lhe as narinas. Uma súbita fome invadiu-o.

 

- E ele continua a falar acerca do Um? - Ouvia-se Dois Fumos mais ao lado. - Eu vi a ovelha parar. Tive a certeza de que ela ia fugir e que as íamos perder todas. Aí uma sensação de Poder formigou no ar. Senti-o como um tresmalhado sente. Então, a ovelha voltou-se e caminhou direita à armadilha. Nem sequer mostrou medo, mas os olhos... o modo como se mantinha... possuída.

 

- Partilhada. - murmurou Pequeno Dançarino. - Partilhada. - E fitou as chamas crepitantes, evolando-se com as faúlhas.

 

- Que pensas do Pequeno Dançarino e das suas visões? - perguntou cautelosamente Três Dedos. - Sabes, ele não é uma criança que... Criança? Quer dizer, um homem. Ele matou o seu primeiro búfalo e é evidente que, à noite, debaixo das peles, ele - e

Alce Encantado são homem e mulher. Mas ele é tão novo... e tão velho ao mesmo tempo. Tu és pai dele, que pensas de tudo isto?

 

Touro Esfomeado expeliu um bafo gelado dos pulmões esforçados, enquanto olhava para a esteira de ramos cobertos de neve entrelaçados por cima deles num padrão tecido. Os caules dos abetos tinham um ar cinzento-deslavado contra o redemoinho da queda pulverulenta da neve.

 

Abanou a cabeça, parando para acamar um lugar para parar na neve que já lhe alcançava os joelhos, de modo a evitar escorregar e cair pelo íngreme caminho abaixo. As marcas das pegadas de alce contornavam a base desenraizada de uma árvore derrubada pela ventania e desapareciam no bosque. Como é que os alces podiam correr em cima de uma coisa assim? Magia!

 

- Estou preocupado com ele. - Que mais podia dizer?

 

- E Alce Encantado?

 

Touro Esfomeado encolheu os ombros, acomodando o fardo nas costas.

 

- Ele já é um homem, meu caro. Matou a sua carne e tomou uma mulher. Provou que a pode alimentar. Assumiu as responsabilidades de um homem... e age como tal. É forte e esperto e agora tem de seguir o seu caminho.

 

Três Dedos farejou o frio, olhando para trás ao longo do caminho tortuoso que eles vinham a subir pela falda da montanha. Do alto onde estavam, o declive parecia pior do que realmente tinha sido. A subida metia sempre menos medo do que a descida. Nas costas levavam enroladas longas cordas de pele entrançada.

 

- A gente sente-se constrangida aqui, como se não pudesse ver. Como se um monstro qualquer pudesse sair daquelas árvores e comer-nos ou coisa que o valha.

 

Touro Esfomeado riu-se entre dentes.

 

- O meu rapaz estranho, aquele que te preocupa tanto, Sonhar-te-ia de volta.

 

- Achas que é isso que ele fazia? - Três Dedos abanou a cabeça. Não sei, talvez fizesse. Cria Branca sempre disse que ele tinha Poder. E Dois Fumos, bem, sempre pensei que ele era... diferente. Mas, tu sabes, estes anifahs pensam que os tresmalhados têm uma espécie qualquer de Poder, como os mercadores.

 

- Como os mercadores, não... São tresmalhados.

 

- Seja assim, Poder tresmalhado. Posso começar a acreditar nisso.

- Três Dedos franziu o sobrolho, chupando ruidosamente os dentes antes de soltar o canto gutural de um gaio negro. O grito ecoou pelas árvores sombrias. Um chickadee1 chilreou-lhe em resposta.

 

Touro Esfomeado lançou um olhar furtivo à nesga de céu azul que podia ver mesmo por cima.

 

- Ei! Acho que o Pequeno Dançarino tem Poder. Ouço-o à noite enquanto dorme. Os Sonhos vem-lhe. Não como as pessoas normalmente sonham, mas Sonhos de Poder e muitas vezes ele acorda... mas sem acordar, percebes? Tu falas com ele e ele responde-te mas não está ali, não está contigo no abrigo.

 

- Eu vi. A noite passada. Chamaste-o e ele respondeu-te que era o fogo. Olhei e a fogueira pareceu-me bem. Ele tinha os olhos abertos, Touro Esfomeado. Pude ver isso... mas era como se ele não estivesse lá dentro.

 

- Estavas acordado quando esta manhã lhe perguntei sobre isso? Ele limitou-se a pestanejar, confuso.

 

- E. É quanto basta para pôr os meus cabelos em pé - resmungou Três Dedos. - A Engraçadinha está a ficar um tanto assustada com isso. Corvo Negro disse-lhe para ela ficar calma, que isto era uma fase passageira de que Pequeno Dançarino se libertava com a idade.

 

- Vamos embora. A neve está a gelar-me os pés, parados como estamos. - E tentou desesperadamente evitar o assunto que tinha começado a consumi-los a todos.

 

Deu outro passo, seguindo o caminho que o alce tinha subido antes deles. O alce conhecia o melhor caminho para chegar ao topo da montanha. Mas ali, o que um alce e um homem consideravam ser um caminho fácil, eram duas realidades diferentes.

 

- Então, vamos armadilhar um alce como se fosse um coelho? - Três Dedos resfolegava e esforçava-se a subir atrás de Touro Esfomeado, enquanto continuava a sua conversa chilreada com oschickadees. - Parece-me coisa de doidos!

 

- Porquê? - espantou-se Touro Esfomeado. - Tu ouviste o que disse Cascos Trepidantes. Nós só temos de...

 

1 Pequena ave insectívora, nativa da América do Norte.

 

- Eu não apanhei tudo. Ainda estou a tentar tirar algum sentido daquela pronúncia mastigada com que eles falam.

 

- Parece mastigado, não parece? - Touro Esfomeado tirou a mitene1 para se coçar atrás da orelha. - Em contrapartida, eles dizem que nós, ao falarmos, cacarejamos como um galo silvestre2.

 

- Galo silvestre? - Três Dedos explodiu com um resfolego. - Só me faltava ouvir esta! Nós não nos parecemos nada com galos silvestres quando falamos.

 

- Eles acham que sim.

 

- E que se passa contigo? Tu e a Cascos Trepidantes parecem muito felizes debaixo das roupas. Vocês vão continuar juntos? E Lançamento Certeiro? Não vos vai causar problemas?

 

Touro Esfomeado içou-se para cima de uma lage de onde o alce tinha já afastado a neve, arrastando-se sobre o ventre. Voltou-se e estendeu uma mão a Três Dedos.

 

- Ela diz que não vai haver problema. Diz que entre os Mão Vermelha uma mulher pode deixar um homem... tão simples como isso. No entanto, acho que deve ser boa educação fazer algo pelo marido anterior. Talvez um par de boas túnicas, talvez alguma carne.

 

- Mas Lançamento Certeiro casou com ela mais ou menos porque ela precisava de um marido. Pelo menos, segundo o que ela me contou. Lançamento Certeiro gosta mais da sua primeira esposa, uma mulher chamada Chuva Molhada. A Cascos Trepidantes gostava muito de ambos. Diz que eles a ajudaram a enganar Sangue de Urso quando este tentou tomar a Alce Encantado. Creio que é razão bastante para gostar deles.

 

- Bem, isso entendo eu. Qualquer um que deteste Sangue de Urso, para mim é um indivíduo às direitas. - Três Dedos parou para respirar fundo antes de acrescentar: - Mas então não julgo que estejamos a fazer as coisas muito bem para os Sonhadores ou chefes, nos dias de hoje.

 

- Não te preocupes. Agora estamos seguros. Podemos recomeçar de novo, aprender coisas novas e ficar fora do caminho de Castor Pesado.

 

- E Sangue de Urso?

 

- Não creio que ele nos incomode. Não, com Cria Branca do nosso lado.

 

- Hum, não quero chover na tua caçada ao búfalo, mas ela já não é tão nova como eu gostaria que fosse.

 

- Estás a pensar em mais uma esposa?

 

- Ora, adeus! Cria Branca? Outra esposa? Podia imaginar um punhado de maneiras melhores de me suicidar. Como esgueirar-me por

 

1 Luva que cobre, separadamente, o polegar e os quatro dedos.

2 Saguegrouse, no originai: ave galiforme aparentada com o faisão e o peru.

 

detrás de um búfalo louco e bater-lhe nos testículos com um cacto espinhoso. Mas, e se ela decide levar a alma à Teia-de-estrelas um dia destes? Que vamos fazer? A protecção da nossa Mulher de Espírito desaparecida e morta!

 

- É por isso que quero visitar os Mão Vermelha na Primavera. Vamos como parentes de Cascos Trepidantes, Alce Encantado e Dois Fumos. Vamos, visitamos, fazemos trocas e regressamos aqui. Cascos Trepidantes diz que, quando a Primavera chegar, teremos estrelas cadentes, raiz de bálsamo, cebolas, lírios1, raízes de biscoito e todas as espécies de coisas que crescem aqui. No fim do Verão e no Outono teremos sorveiras, groselhas, pinhões, galos silvestres e toda a espécie de coisas boas. Podemos ter de vaguear um pouco à procura das encostas com a melhor colheita. Creio que isso muda de ano para ano. Mas não vai ser mau.

 

- Tu gostas de tudo isso? Não gostas de comer búfalo? Touro Esfomeado deu umas pancadinhas na barriga.

 

- Põe as coisas deste modo. Cresci habituado a olhar para baixo e a ver o meu umbigo. Talvez não tão redondo como o do Corvo Negro, mas sossegado. Há muito tempo que não passo fome. Mas não só, coisas como os lírios são doces, maravilhosas. E raiz de biscoito assada não tem nada que se lhe compare. Podia comer disso, como tu comeres lombo de búfalo, pelo resto da vida.

 

- Não me parece bem. Todas essas escavadelas pelo chão. Touro Esfomeado lançou uma gargalhada.

 

- Ainda não há duas semanas disse o mesmo ao meu filho.

 

- E que te aconteceu?

 

- Cascos Trepidantes entrou na minha vida. O sol brilhou pela primeira vez desde que vi Cria Branca sobre a encosta naquele dia. Agora, bem, olha à tua volta. Isto é lindo, aqui em cima. O vento não é tão mau como lá em baixo nas planícies. Há cor aqui em cima, nas rochas, no solo, nas árvores e nas flores. E podemos montar armadilhas. A armadilha das ovelhas funcionou lindamente. Agora, perseguimos alces. Que há de melhor para caçadores do que caçar? E nenhum Castor Pesado anda por aqui a Sonhar sarilhos para nós.

 

- Mas isto é tão diferente dos velhos métodos.

 

- Tudo o que é novo é diferente. Por isso, aprende e diverte-te.

 

- Como Cascos Trepidantes ensinar-te a armadilhar ovelhas? Sangue e esterco, se Castor Pesado ouvisse isso! Um caçador aprender a caçar com uma mulher, hem? - Bateu nas pernas à gargalhada.

 

Touro Esfomeado encolheu os ombros.

 

- Quero lá saber. Sou feliz. Deixa-me dizer-te uma coisa, pensei que nunca ia voltar à vida, que a minha alma ia subir para a Teia-de-estrelas

 

1 Os bolbos de algumas espécies de lírio são comestíveis.

 

cor no fumo negro quando se queima gordura. Agora, Cascos Trepidantes chegou e é calorosa, dedicada e cuida de mim. E eu cuido dela. O vazio que se abriu no meu coração quando Raiz de Salva foi assassinada, bem, não desapareceu de todo, mas há uma parte de mim que está cheia onde eu não sabia que estava vazia. Agora, sinto-me completo.

 

Touro Esfomeado soltou o fardo, atirando-o para cima de uma plataforma à altura do peito e que o alce tinha saltado.

 

- Dá-me uma ajuda aqui. - Com a ajuda de Três Dedos arrastou-se para cima, voltando atrás para ajudar o amigo a subir. - Para além disso, as tuas crianças gostam disto aqui. Tenho estado a observar Duas Luas, Riso Constante e Gafanhoto, e a descendência de Corvo Negro. Estavam todos a fazer rolar pedras pelo monte abaixo, rindo e guichando para acordar os fantasmas.

 

- Gostam disto, sim. Vivíamos tão a leste com o bando de Sete Sóis que eles nunca tiveram grandes ocasiões de rebolar pedras. Todas as crianças deviam ter essa oportunidade.

 

- E a Cotovia do Prado e a Engraçadinha ainda gostam mais. O trabalho não é muito pesado aqui em cima. Não têm de ir longe recolher lenha no Inverno. A água está praticamente em todo o lado. A comida é mais fácil de encontrar. E não temos de carregar tanta coisa às costas.

 

Saíram de entre as árvores, caminhando num dos prados mais baixos. A neve estalava debaixo dos pés. Um corvo elevou-se no ar com um farfalhar de asas, deslizando para fora das vistas.

 

- Eu diria... ali! - Três Dedos apontou para uma estreita vereda entre as árvores que ligava aquele prado ao outro imediatamente acima. Junto dela, a neve tinha sido ondulada por leitos de alces e ponteada por rastos. O lugar tresandava com o forte odor almiscarado dos alces. Pilhas de escrementos e marcas de urina manchavam a neve.

 

- Aposto que eles atravessam por aqui. - Três Dedos deu um pontapé num montículo de neve impregnado de urina e cheirou-o, rindo como um louco exalando um bafo gelado.

 

- Achas que estas árvores são suficientemente fortes para aguentar um alce?

 

- E achas que a nossa corda é? - contrapôs Três Dedos.

 

- Creio que vamos acabar por sabê-lo - Touro Esfomeado abriu caminho através da clareira.

 

- Diz-me, até que ponto são os alces sensíveis ao cheiro do homem? perguntou Três Dedos. - Será que eles passam por aqui mesmo quando tudo cheira a gente?

 

- Cascos Trepidantes disse que devíamos urinar de ambos os lados da passagem entre as árvores. Disse que os alces cheiram e deixam a sua marca por cima da dos homens.

 

- Estás a gozar!

 

- Não é gozo nenhum. Ela disse-me que, quando esteve casada com o pai de Alce Encantado, ele costumava voltar pelo mesmo trilho e descobria que os alces o tinham seguido durante meio dia.

 

- Caçado e caçador, hem? Como os ursos cinzentos. - Três Dedos olhou por cima do ombro para a linha sombria das árvores.

 

Touro Esfomeado pôs o pé em cima do primeiro ninho de alce... e quase caiu. O corpo tépido do animal tinha derretido a neve e coberto o leito com um vidrado de gelo.

 

- Congelado. Já partiram há um bocado. - Apanhou uma bolinha de escremento da pilha e esmagou-a entre o indicador e o polegar.

 

A passagem através das árvores parecia excelente. O carreiro tinha sido alisado pelas patas dos alces.

 

Touro Esfomeado empurrou Três Dedos pela árvore acima para ele poder amarrar a ponta do laço. Juntos, suspenderam a laçada à altura certa para apanhar a cabeça do alce.

 

Acabado o trabalho manual, Três Dedos sacudiu a neve das suas mitenes e mordeu o lábio.

 

- Então, uma armadilha de alce é isto? E fi-la com as minhas próprias mãos.

 

- Também já armadilhaste ovelhas. E colheste pinhões nas árvores.

 

- E gostei - concordou Três Dedos. - Sim, acho-que me podia habituar a esta vida. Mas é um tanto solitária. Faz-me falta ouvir as velhas lendas. - Franziu as sobrancelhas. - Talvez devêssemos ter trazido Pequeno Dançarino. Ele poderia ter feito um sinal qualquer que atraísse os alces melhor do que a urina.

 

Touro Esfomeado encolheu os ombros. Começou a virar-se e ficou hirto, esticando-se para dar uma pancadinha no ombro do amigo. Três Dedos voltou-se, mas estacou de imediato.

 

O lobo estava de pé, na sombra das árvores, os olhos ardendo, estranhamente amarelos como se iluminados por um fogo interior.

 

- Grande, não achas?

 

- Chiii! - soprou Três Dedos.

 

Por uns momentos, observaram-se; de repente, como por magia, o lobo desapareceu.

 

Três Dedos pestanejou e esfregou os olhos.

 

- Nem sequer o vi mexer.

 

- Nem eu. - Um arrepio subiu pela espinha de Touro Esfomeado.

- Notaste a... Ora, não interessa. Deve ter sido da luz.

 

- Queres dizer, a maneira como ele olhava, tal qual o lobo desenhado na rocha no abrigo?

 

Touro Esfomeado concordou, fitando o lugar onde o lobo tinha estado.

 

- Mesmo como o lobo no abrigo. Mesmo como ele...

 

- Os búfalos estão preocupados - gritou a Trouxa de Lobo. - Tu podes senti-lo. Confusão, frustração, fome, estão meio loucos. Eles morrem um a um. Uma espécie enfrentando o esquecimento espalha o terror através da Espiral. Sabem que o tempo deles ainda não chegou. Mas que podem fazer? A alma da Terra está a gritar. Sentes a morte? Sente-la aproximar-se estrangulando o calor da terra? É este o nosso futuro? Sentes a cria do antílope na sua necessidade? Sede. A terra grita. Que podemos fazer? Estou torturada... a morrer com a terra. Sede, calor, que lhes podemos oferecer?

 

A voz cansada de Sonhador de Lobo decidiu na geada do crepúsculo:

 

- Esperança.

 

 

- Estás preocupada, rapariga.

 

Alce Encantado encontrou o olhar da mãe antes de contemplar de novo o vale lá em baixo. As encostas tinham agora uma leve sugestão de verde, que tinha começado a desafiar o castanho do ano anterior. As ramas da salva brilhavam num verde-azulado sobre o bronzeado do arenito. Por cima, o céu cristalino estendia-se numa infinidade azul que prenunciava a Primavera.

 

- Estava a pensar em algo que Dois Fumos me disse... a respeito de Sonhadores.

 

Cascos Trepidantes suspirou e instalou-se junto à filha no calor do sol.

 

- Já te tenho apanhado a olhar para o nada mais de uma vez. Tu pões-te com esse olhar distante quando julgas que ninguém te está a ver. Queres falar-me disso?

 

- Sempre pensei que seria Corno Solto. Depois encontrei Pequeno Dançarino. Amo-o com uma sensação como um fogo dentro de mim. Nunca pensei que poderia amar um homem deste modo. Ele é tão... bem, ele é gentil, sempre pensando em mim, e segura-me como se eu fosse a coisa mais preciosa do mundo.

 

- Já vi.

 

- Mas ele assusta-me. Há uma parte dele que não consigo partilhar. Algo para além de mim.

 

- E Dois Fumos? Disseste-me que te contou qualquer coisa acerca de Pequeno Dançarino?

 

Alce Encantado abanou a cabeça, o lábio preso nos dentes de baixo.

 

- Contou-me uma vez como o Poder usa as pessoas... como os humanos usam ferramentas para um certo fim e depois se desfazem delas. Falou de um dardo como um exemplo, como ele é tão cuidadosamente fabricado e depois atirado a um animal. Sabes o que acontece aos dardos! Umas vezes falham e acertam nas rochas. Quando isto acontece, a ponta parte-se e a haste quebra-se. Muito trabalho para nada. Outras vezes ficam perdidos na neve ou nas ervas altas, esquecidos. Abandonados para apodrecerem. - A imagem não lhe saía da ideia, obsessiva e dolorosa.

 

- E tu achas que o Poder é assim forte no Pequeno Dançarino? Ela encheu os pulmões, deleitando-se com a sensação do ar a correr-lhe pela garganta, sustendo a respiração para saborear a sensação de plenitude.

 

- Acho, mãe. Penso que ele é mais Poderoso do que julga. O dia da armadilha às ovelhas na montanha foi apenas uma amostra. Já vi armadilhas antes. Sabes, tão bem como eu, que elas iam fugir pelo lado errado. Ele Sonhou-as para dentro.

 

- Desde esse dia que tenho andado a observar Dois Fumos. Senta-se no fundo do abrigo, falando pouco, mas os olhos não largam o Pequeno Dançarino. E não só, quando o Pequeno Dançarino tem Sonhos, pela noite dentro, ele acorda e fica a olhar para a espiral da parede do fundo... ou para o lobo. E quando ele tem esses Sonhos, eu acordo. O mesmo faz Dois Fumos, apesar de dormir do outro lado do abrigo. Não creio que o Pequeno Dançarino dê por nada, mas Dois Fumos fica a vigiá-lo, olhando-o através dos olhos semicerrados.

 

- Já lhe perguntei a respeito disso. Ele sorriu de uma forma esquisita, como se o coração lhe estivesse a rasgar, e disse-me que um tresmalhado pode sentir o Poder, porque vive a meio caminho entre os mundos. - Alce Encantado encolheu os ombros. - E não me quis dizer mais nada. Limitou-se a pôr-me a mão no ombro, tranquilizador como um irmão, e foi-se embora.

 

Cascos Trepidantes pôs-lhe o braço em volta dos ombros.

 

- Sim, acho que o Pequeno Dançarino tem de facto Poder. Mas, no que me diz respeito, ele pode tomar conta de si. Quem me preocupa é a minha filha. Que é que tu achas? Ele vale o incómodo? Tu andas bem?

 

Alce Encantado olhou para cima, para aqueles olhos carinhosos.

 

- Eu... eu acho que sim. Ele vai ser um grande homem, mãe. Sinto-o. Talvez tão grande como o Primeiro Homem era quando trouxe o Povo do Primeiro Mundo para este.

 

- Mas as lendas dizem que o Primeiro Homem evitava as mulheres.

- Cascos Trepidantes ergueu uma sobrancelha a chamar-lhe a atenção.

 

Alce Encantado fixou o olhar no horizonte, onde as cordilheiras se erguiam contra o céu uma após outra até que a terra sombria e a rocha morena se encontravam com o azul-escuro do céu.

 

- E se ele for chamado, eu tive o meu aviso. - Ergueu a cabeça. Posso preparar-me para esse dia. E, quando isso acontecer, terei tido com ele todo o tempo que tive não é verdade? Quero dizer, se pudesses ter sabido o que ia acontecer ao pai, que só ias ter um certo tempo, que fazias? Fugias das suas peles?

 

Cascos Trepidantes estudou-a pensativamente.

 

- Não sabia que tínhamos começado a criar adultos em tão tenra idade. Na tua idade, logo que saí da tenda menstrual, estava era interessada em homens, em experimentá-los a todos, em aprender o que era fazer amor. A minha preocupação era fazer ciúmes a tantas amigas quantas pudesse. Tentei casar com o homem mais belo que estivesse disponível. E aqui estás tu, preocupada acerca de um único e do que ele vai fazer à tua vida. A maioria das raparigas da tua idade estão demasiado ocupadas consigo próprias para pensar a tal distância.

 

Cascos Trepidantes fez uma pausa, uma ruga formando-se-lhe na testa.

 

- Ou será que tu ainda só tiveste um homem? Talvez seja falta de experiência? Hum? Não será isso? Apostaste tudo no Pequeno Dançarino, porque é o único homem nas redondezas que...

 

- Não. - Ela abanou a cabeça teimosamente. - Já pensei nisso. Pensei em todas as coisas que eu, a Sanhaço e a Grilo prometemos a nós próprias que íamos fazer. Às vezes, fico acordada à noite a olhar a luz da fogueira na rocha por cima e tento pensar que outro homem eu gostaria de ter. Não apenas no nosso grupo... também dos Mão Vermelha. Corno Solto foi sempre aquele com quem sonhava. Mas comparado com o fogo de Pequeno Dançarino, Corno Solto é apenas um pálido clarão. Ainda o aprecio, e talvez se o Pequeno Dançarino me deixasse, ainda voltasse para ele. Mas Pequeno Dançarino é diferente.

 

- Todos são - lembrou-lhe a mãe, de esguelha.

 

- De verdade. Ele é... bem, tão terno. Ele foi magoado. Diz-me, quando o olhas nos olhos, que vês?

 

Cascos Trepidantes mudou de posição, sentindo-se desconfortável. Reconsiderou por um momento, as linhas suaves da face adquirindo um ar pensativo.

 

- Sim, acho que sei o que queres dizer. Vejo o mesmo nos olhos do pai. Mas eu posso confiar no Touro Esfomeado. Ele nunca me iria magoar. É maduro, um homem que se conhece a si próprio e que sabe onde estará amanhã ou no próximo ano. Tem esse sentido de identificação com os outros... o que lhe fizeram, ele não vai fazer a ninguém. Já conheci homens que não se coibiriam de fazer os outros pagar pelas suas penas. Sangue de Urso, por exemplo. Faria os outros pagar pelo que a vida lhe fizesse.

 

- Pequeno Dançarino não o faria. Ele não me magoaria.

 

- Conscientemente, não. - Cascos Trepidantes voltou-se, tomando, as mãos de Alce Encantado; os seus olhos calmos sondaram os da filha.

- O que me pergunto a mim mesma é se ele fará o que o Poder lhe pedir.

 

Engolindo em seco, Alce Encantado encolheu os ombros, saboreando o calor das mãos da mãe.

 

- Não creio que ele se conheça a si próprio. Já lhe perguntei e ele diz que não é o escolhido. Repete-o vezes sem conta.

 

- Como se tentasse convencer-se a si próprio? O coração de Alce Encantado deu um salto.

 

- Sangue e esterco, espero que não.

 

No entanto, sabia que já tinha tomado a sua decisão. Iria saborear cada momento com ele, guardar ciosamente cada um dos seus sorrisos. E se o Poder se revelasse mais forte do que ela? Bem, essa encosta rochosa e proibida teria de ser escalada quando chegasse a altura. Oxalá aprouvesse ao Sábio que ela o conseguisse fazer.

 

- Sabes... - Cascos Trepidantes parou, tentando escolher as palavras. - Os outros estão começar a ficar preocupados. Quando Pequeno Dançarino Sonha de noite e faz aqueles barulhos, acorda as crianças. A Engraçadinha e a Cotovia do Prado estão a ficar nervosas.

 

- Elas estão a viver numa nova terra e a aprender novas coisas. Estamos todos apertados naquele abrigo pequeno e o Inverno parece que nunca mais acaba.

 

- Eu sei, estamos todos cansados uns dos outros. Mas parte dessa tensão constante é causada por Pequeno Dançarino. - Cascos Trepidantes puxou o joelho para cima. - Eu própria tive uma conversa com Dois Fumos. Ele não é nenhum tolo; está a sentir as complicações a chegar.

 

Alce Encantado sentiu revolverem-se-lhe as entranhas.

 

- Sim, sim, filha, tu sabes, não sabes? Tu também já deste por isso.

 

- Que... que disse Dois Fumos?

 

Cascos Trepidantes ergueu levemente o queixo, apertando-lhe as mãos com mais força.

 

- Escuta, Alce Encantado, e lembra-te que eu não te quero magoar. Tu sabes isso, não sabes? Que és a minha mais preciosa...

 

- Eu sei.

 

- E sabes que só te digo aquilo que acredito honestamente que é melhor para ti. Que tu não és obrigada a fazer nada que não queiras e que eu só te posso aconselhar.

 

Alce Encantado aquiesceu, a angústia a espalhar-se.

 

- Dois Fumos pensa que Pequeno Dançarino precisa de ir ver Cria Branca. Espera! Ouve-me até ao fim. Dois Fumos pensa que Cria Branca pode ajudar o Pequeno Dançarino a encontrar o seu caminho, agora que o Poder mudou entre eles. Se o Pequeno Dançarino continuar a lutar consigo próprio, irá rasgar a alma ao meio. Quando essa ocasião chegar, vais ter de o deixar ir.

 

Alce Encantado engoliu, tentando controlar um súbito entorpecimento.

 

- Vais pensar nisso?

 

Ela concordou, um grito reprimido entre os lábios.

 

Sangue de Urso estava recostado, puxando uma das longas tranças com uma mão calosa. A outra mão batia com uma vara de salgueiro no couro coçado da Trouxa de Lobo. O rosto apertado, lançava um olhar mal humorado ao talismã do seu povo. Que quereria dizer tudo isto? A tenda, à sua volta, oprimia, sufocante e enfadonha. Este Inverno, ele tinha-se enervado, esperando pela Primavera e pela longa luz do Verão.

 

A Trouxa de Lobo descansava no seu tripé, dominando a tenda do mesmo modo que dominava os pensamentos dos Mão Vermelha. Sangue de Urso franziu as sobrancelhas. A Trouxa tinha mudado, parecia diferente, sombria e, sim, o rapaz tivera razão... fria.

 

Desde o dia em que tinha deixado o acampamento de Cria Branca que andava a magicar sobre as palavras do rapaz e sobre a sua ligação ao talismã. Cria Branca soubera qualquer coisa, apercebera-se de algo que ele não alcançara. E isso fazia a profecia dela aterradora. No momento em que o louco rapaz do Pequeno Búfalo se tinha aproximado da Trouxa de Lobo, uma sensação eléctrica tinha carregado o ar. Como ele estivera sentado quase na linha entre eles, tinha-o sentido pela primeira vez, um formigueiro como o que se sente momentos antes de um relâmpago atingir uma crista à distância de um par de lançamentos de dardo.

 

Para além disso, Cascos Trepidantes tinha sido defendida pelo caçador Pequeno Búfalo. Como é que ele se chamava? Touro Esfomeado? O homem tinha-o enfrentado, desafiado para combater pela mulher! E ela tinha-o aceitado. Essa afronta tinha de ser retribuída. Mas nessa altura, o seu próprio coração tinha disparado quando Cascos Trepidantes se erguera no extremo da sua lança e o encarara olhos nos olhos. Fora magnífica, face orgulhosa, o pesado cabelo negro selvagem ao vento. Que mulher, inconquistada, fremente de personalidade para salvar a louca filhinha de encontrar a feminilidade no tenso pénis de Sangue de Urso.

 

Então, a filha estava a manter-se virgem? E o que era isso comparado com a personalidade e o orgulho dos olhos da mãe? Qualquer homem podia submeter uma jovem esbugalhada às suas necessidades, mas que dizer a respeito de Cascos Trepidantes? Sorriu para a Trouxa de Lobo. Tal desafio revelara-se merecedor da sua atenção. Dobrar uma tal mulher à sua vontade, deveria dar uma satisfação gratificante.

 

Mirou e golpeou malevolamente a Trouxa de Lobo, vendo-a saltar e balouçar nos cordões de suporte. O tripé baloiçou para trás e para diante. O toco cicatrizado do dedo mindinho ardeu-lhe.

 

IE tive eu tudo na mão. Se Cascos Trepidantes não tivesse agido quando o fez, podia ter rachado a velha e tínhamos morto os refugiados do Pequeno Búfalo. E, então, podia ter tomado Cascos Trepidantes e a filha. Aquela velha bruxa da Cria Branca estaria fora do meu caminho e aquele louco do Touro Esfomeado teria provado a fundo o sabor do meu dardo.

 

Mas tudo se tinha virado tão depressa. O caçador tinha interceptado o lançamento e tudo se alterou como o estampido de alces assustados que se desviam no último momento, atirando-se para o lado, sem razão aparente.

 

Tem calma, Sangue de Urso. As palavras da anciã ecoavam-lhe na cabeça. Estás quase acabado. Oh, podes ter ainda algum tempo. Podes iludir-te mais algum tempo e gozar da tua posição. O Poder não está contigo... Recordou o formigueiro que sentira quando o rapaz se tinha aproximado da Trouxa de Lobo. Curioso como os olhos dele se tinham esgazeado, mas também muitas outras coisas tinham sido curiosas nesse dia. Uma “mudança» tinha dito a velha.

 

Uma mudança de quê?

 

Continuou a cismar, meneando-se no encosto à procura de uma posição confortável.

 

- Uma mudança no poder de Cria Branca, por exemplo. - Grunhiu uma aprovação às suas próprias palavras. A velha bruxa tinha sido demasiado poderosa entre os Mão Vermelha.

 

- Ei lá! - uma voz chamou, apesar do silêncio do entardecer. - Será que encontrei o acampamento dos Mão Vermelha?

 

Sangue de Urso riu-se da Trouxa de Lobo e apanhou a sua túnica de macia pele de bezerro. Baixando-se, saiu para o ar gelado e levantou a mão, protegendo os olhos contra o clarão feroz do sol-poente. A luz queimava, amarela sobre os campos nevados.

 

Um homem caminhava penosamente, cruzando a brancura. O dorso curvado por um fardo que lhe pousava, baixo, sobre as ancas. Mais Povo saía das tendas escurecidas pelo fumo para observar. O estranho trazia o bastão de mercador, a fina haste vergada num arco, balouçando penas brilhantes e chocalhos.

 

- Três Estrondos! - exclamou Sangue de Urso, saltando e gritando.

 

- Que te traz ao acampamento dos Mão Vermelha tão cedo no ano? Os trilhos apenas começaram a derreter.

 

O mercador resfolegou e anuiu, caminhando na neve pisada do acampamento, escolhendo cuidadosamente o caminho sobre o gelo ondulado, para evitar rasgar o entrelaçado dos sapatos de neve.

 

- Já não confio nas planícies. Há muitas coisas estranhas lá em baixo. O ano passado ouvimos dizer que um mercador do Povo da Pedra Esmagada tinha sido morto por guerreiros Pequeno Búfalo. Um mercador Búfalo de Fogo foi espancado e o seu fardo roubado. Dificilmente, escapou com vida. Este novo Sonhador que eles arranjaram é muito estranho! Nunca se sabe o que ele vai fazer ou porquê.

 

Sangue de Urso voltou-se, batendo palmas.

 

- Corno Verde! A Sanhaço que traga depressa um bocado de guisado à minha tenda. Põe algum desse veado nas brasas. Três Estrondos tem de comer. Ele traz notícias. E manda a Grilo trazer mais lenha para a minha fogueira.

 

Acrescentou para o mercador:

 

- Anda para a minha tenda e aquece-te. Os Mão Vermelha dão-te as boas-vindas. O nosso acampamento é teu.

 

As pessoas chamavam umas pelas outras, correndo de um lado para o outro, tagarelando excitadas. Todas queriam ouvir as notícias.

 

Três Estrondos sorriu largamente, embora as suas faces parecessem rígidas com o frio. A geada tinha congelado as presilhas onde o bafo da respiração tinha tocado. O colarinho do seu casaco, debruado a pele, estava esbranquiçado, encobrindo o fino forro de pele de raposa do capuz.

 

Martelo Estalado e Nunca Suado já aguardavam ansiosamente junto à aba da tenda de Sangue de Urso. Lançamento Certeiro e Chuva Molhada vieram atravessando o campo, de mãos dadas e falando animadamente. Corno Verde saiu agachada da tenda com uma coxa fumegante pendurada entre os punhos nodosos.

 

- Entra e aquece-te. - Sangue de Urso segurou a aba da tenda e encaminhou Três Estrondos para o lugar de honra, junto à Trouxa de Lobo. Alguém trouxe uma malga fumegante de caldo ao mercador, que a tomou com avidez. Carne assada, a escaldar, surgiu num prato de madeira escavada.

 

Respeitadas as leis da hospitalidade, Sangue de Urso olhou em volta da sua tenda apinhada. Todos os mais velhos se sentavam, amontoados, ombro com ombro, ocupando todo o espaço disponível. As faces estavam cheias de expectativa, os olhos ávidos pousados em Três Estrondos, enquanto esperavam que ele comesse, bebesse e aquecesse as mãos na fogueira.

 

- Conta-nos tudo - começou Sangue de Urso com um amplo gesto da sua mão, enquanto Três Estrondos colocava a taça de corno vazia no chão, à sua frente, e, polidamente, arrotava com prazer. - Dizes que um mercador da Pedra Esmagada foi morto o ano passado?

 

Os ouvintes sobressaltaram-se, alguns colocando a mão sobre a boca para exprimir o horror da notícia.

 

Três Estrondos confirmou, tirando o cachimbo de pedra do seu fardo.

 

Cuidadosamente, encheu-o com casca de salgueiro vermelho e retirou da fogueira uma haste meio queimada para o acender. Lançou uma baforada e passou o cachimbo a Sangue de Urso, que o fez circular de boca em boca em redor da tenda.

 

- Não sei os pormenores. Ouvi a história entre o Povo do Cabelo Cortado. O chefe deles, o velho Cão Gordo, não fala bem do Povo do Pequeno Búfalo... ainda que a sua mãe tivesse sido uma mulher de lá.

 

- De qualquer modo, e que eu seja fulminado por um raio se não vos contar do mesmo modo que ouvi, Cão Gordo contou-me que Castor Pesado diz que os seus espíritos Sonharam para ele que todo o antigo Poder é malévolo. E isso inclui o Poder especial sob o qual vivem os mercadores. Disse aos seus assaltantes que podem tomar aos mercadores aquilo que quiserem, sem receio.

 

- Parece que o mercador da Pedra Esmagada, que encontrei e: conheci como Pássaro Tonto, não deixou os guerreiros do Pequeno Búfalo tirar-lhe o fardo. Pelo contrário, usou o bastão para bater na cara de um dos jovens. Isto irritou de tal modo os guerreiros, que, no mesmo instante, o trespassaram de dardos e o deixaram lá ao sol, depois de lhe tirarem o fardo.

 

Um murmúrio surdo de descontentamento espalhou-se entre os mais velhos, cujas faces foram ficando carrancudas.

 

Sangue de Urso fitou o fogo através das pálpebras semicerradas.

 

- Esse louco não sabe que vai acabar com o comércio através das montanhas? Como é que ele espera arranjar pederneira do Rio da Faca no norte? Ou daquele peixe salgado que me deste em tempos, lá do sul? Como é que as pessoas podem saber o que se passa? Será que os mercadores vão passar a ir para oeste das montanhas?

 

Três Estrondos encolheu os ombros.

 

- Não sei. Honestamente, é uma jornada muito dura viajar a oeste das montanhas. A terra é toda atravessada por paredes de arenito e desfiladeiros imensos e altas montanhas aqui e além. Os rios são rápidos e profundos e mais perigosos de atravessar. É mais difícil encontrar água e não conheço todos os povos que vivem lá. Não sei se eles respeitam um bastão de mercador... e não sei os sinais para comunicar.

 

- Talvez possam ir através das montanhas, quem sabe? - sugeriu Lançamento Certeiro, apontando para o sul. Quando era novo, desci a crista das montanhas. Há grandes vales abertos que cobrem parte do caminho, embora as passagens sejam elevadas e os trilhos irregulares quando atravessam os bosques. De qualquer modo. é um caminho.

 

Três Estrondos tinha escutado, anuindo à medida que Lançamento Certeiro falava.

 

- É um caminho. Tens razão. E não sei como responder à tua pergunta. Pela minha parte, só posso dizer que não estou interessado em tentar os altos cumes. Creio que vou experimentar um caminho diferente, talvez ir para ocidente através das montanhas e apanhar o trilho que segue o Rio da Água Branca Revolta até ao Rio da Prata e ao oceano, onde Pai Sol mergulha no mar. O negócio parece ser bom para esses lados. É daí que vêm conchas, peixe fumado e boa obsidiana.

 

»Vou sentir a falta das planícies dos búfalos e de muitos amigos velhos, mas, mesmo agora, já não é o que era. Os Cabelo Cortado foram empurrados para sul do Rio da Areia. Os Pedra Esmagada estão nervosos ao verem os Cabelo Cortado fugirem para o sul. Há quem diga que lutaram entre eles sobre quem empurrava quem para fora das suas terras. O meu povo, os Garça Branca, foram assaltados pelos Pequeno Búfalo até moverem o nosso território de caça longe para norte, para além do Rio Grande, para evitar o Povo do Pequeno Búfalo. Mas aí, tivemos de lutar com o Povo da Máscara, que não nos querem nas terras deles. O Povo do Búfalo de Fogo, que vive onde o Rio Grande corre para o sul para a Água Pai, foi também assaltado. Juraram vingar-se no próximo ano, quando tiverem purificado os seus homens jovens e feito um novo Poder para os seus dardos.

 

»Com todos estes assaltos e guerras, não estou certo de querer andar a viajar sozinho, sem mais nada além de um bastão e o Poder do Mercador. Se Castor Pesado morrer de repente, com a sua pele a encarquilhar-se como as histórias dizem que acontece a quem molesta um mercador, pode ser que eu volte a viajar pelas planícies. Para já, nada aconteceu ao Castor Pesado apesar de os seus guerreiros terem morto um mercador.

 

- Talvez possa fazer todo o caminho ao longo do Rio Grande? - perguntou suavemente Sangue de Urso. Talvez o possas descer até onde ele encontra a Água Pai e descer esta até à água salgada?

 

Três Estrondos sorriu penosamente.

 

- Essa, meu amigo, é uma caminhada muito, muito longa. Não conheço as pessoas na Água Pai. Claro que ouvi histórias sobre elas, já que o Povo do Búfalo de Fogo troca túnicas e carne seca por peixe, tartarugas e esteiras de erva entrançada, mas não conheço a língua, nem sei se eles honram o bastão do mercador. Não, creio que vou para oeste, até ao Rio da Prata.

 

- E nós? Continuamos a ter o teu comércio? - Corno Verde não pôde deixar de perguntar. Tinha estado a baloiçar de um lado para o outro, empurrando toda a gente à sua volta. As suas velhas pernas não aguentavam as cãimbras da posição1 e tinham começado a adormecer debaixo dela. No entanto, ela não era capaz de se obrigar a erguer e sair... não, enquanto o mercador estivesse ali. Só o Primeiro Homem sabia quando voltariam a receber outro.

 

1 Sentado de pernas cruzadas, posição tradicional entre os índios.

 

Três Estrondos riu-se, contorcendo-se para sair do casaco, agora que tinha aquecido.

 

- Eu vou continuar a fazer o meu negócio com os Mão Vermelha. É um pouco fora do meu caminho, mas eu venho por aqui. Posso dizer-vos que posso negociar com colheres de corno de carneiro do monte, pão de raiz seca, pasta de pinhões e muitas outras coisas. Preciso de ver o que sai desta viagem.

 

- Como é que vais? - perguntou Nunca Suado, esfregando o nariz adunco.

 

Três Estrondos acomodou-se no casaco dobrado, estendendo as mocassinas para o fogo, apesar do apinhado da tenda. A medida que o calor as penetrava, o vapor evolava-se do forro de peles de castor do topo. A pele de búfalo fumada das solas, parecia completamente encharcada.

 

- O mais provável é seguir as montanhas para o sul até à bacia. Aí viro para oeste, até ao vale do Vento Quente e até às águas superiores da Água Branca Revolta e, então, para oeste. Não sei aí onde os trilhos vão dar. Pedra de Martelo Verde, filho da irmã do irmão do meu primo, foi para esses lados, mas não está de volta antes do Outono. Talvez devesse aguardar mais um ano e ir com ele, mas acho que a altura é agora.

 

Sangue de Urso aclarou a garganta.

 

- E acerca desse Castor Pesado? Tu já o encontraste. Que é que pensas dele?

 

Três Estrondos franziu as sobrancelhas enquanto fitava o fogo, escolhendo as palavras.

 

- Acho que ele é, bem... tocado por alguma coisa. Mas não sei que espécie de Poder é. É diferente. Não actua como qualquer um dos Sonhadores que eu já conheci. Não é nada como Cria Branca que vive com o Poder e que conhece os seus usos bons e maus. Ele é... oiçam, não creiam que eu sou louco, mas acho que ele criou o seu próprio poder. Imaginou-o e ele tornou-se realidade. - Três Estrondos ergueu os olhos para avaliar o efeito das suas palavras. - Sabem, como quando vocês acreditam numa mentira durante tanto tempo que acabam por acreditar que ela é mesmo verdade... mesmo quando sabem que não é.

 

Uma agitação inquieta percorreu a tenda. Para além da menção a Cria Branca - que trouxe à garganta de Sangue de Urso um sabor a fel -, as especulações sobre Castor Pesado acertaram num ponto sensível. Castor Pesado tinha sido quem atirara com a Trouxa de Lobo para a escuridão, caindo no meio das ervas daninhas. Quem sabe...

 

- De certeza que alguém vai conseguir ver alguma coisa - bufou Corno Verde. - Alguém tem de o desafiar, usando o Poder verdadeiro para o quebrar e à sua força, se ela não passar de uma mentira.

 

Três Estrondos ergueu as mãos com as palmas para cima.

 

- Não sei, avó. Pensei nisso há um par de anos quando ele começou a amaldiçoar pessoas que o enfrentavam. Nessa altura, pensei que alguém se lhe iria opor e apontá-lo como mentiroso. Ninguém o fez e todos Os que ele amaldiçoou morreram. Talvez ele tenha mesmo Poder ou talvez eles desejassem a própria morte.

 

-Mas o Sábio Lá em Cima fulminá-lo-ia! - insistiu Martelo Estalado, com a incredulidade no rosto tenso. - O Poder não gosta que trocem dele, tal como um caçador detesta que lhe digam que traz para casa caça miúda como trofeu!

 

- Talvez - concordou Três Estrondos. - Eu não tenho a pretensão de conhecer os caminhos do Poder, mas posso garantir que Castor Pesado tem mais controlo sobre as planícies do que qualquer homem de quem tenha ouvido falar. Os seus guerreiros correm desde o sul do Rio da Areia até ao norte do Rio Grande. Quando as caçadas são pobres, assaltam as pessoas que têm o que eles querem.

 

- Não tiveram ainda a coragem de nos assaltar - acrescentou Nunca Suado, examinando uma ponta de dardo que tinha retirado da bolsa. - Apanharam-nos uma vez, mas nós aprendemos. Não voltam a fazer o mesmo. Nós conhecemos os trilhos. Eles não.

 

Três Estrondos franziu os lábios, concentrando-se nas brasas. Sangue de Urso colocou um molho de grossa rama de salva no olho vermelho da lareira.

 

- Talvez ainda não - concedeu Três Estrondos. - Mas não contaria com isso durante muito tempo.

 

- Como não? - perguntou Lançamento Certeiro, erguendo atentamente a cabeça.

 

Três Estrondos torceu-se para desapertar a sua mocassina exterior. Já quase seco, o pêlo tinha começado a chamuscar. À medida que desfazia os nós, a voz calma prendeu-lhes a atenção.

 

- Penso que Castor Pesado quer cobrir a retaguarda. Ele está como um alce macho no cio. Para já, conseguiu escoucinhar cinco machos para fora dos seus flancos. Ao mesmo tempo, ouviu um sexto bramindo no vale vizinho e isso está a roer-lhe as entranhas. Durante anos, a piada esteve em que apenas miúdos loucos e comedores de esporeiras1 guerreavam os Mão Vermelha.

 

- Isso mesmo - rugiu Martelo Estalado, agitando um punho.

 

- Mas isso mudou. Castor Pesado apanhou de surpresa um acampamento Mão Vermelha. - Três Estrondos olhou em volta. - Os Garça Branca separaram-se dos Mão Vermelha por um punhado de razões. Havia um desacordo sobre a Trouxa de Lobo. Para além disso, temos gente de mais a caçar a mesma caça e a cavar à procura das mesmas raízes.

 

Planta ranunculácea.

 

A metade Garça Branca foi para norte do Rio Grande. Ao fazer isso, empurrámos o Povo do Pequeno Búfalo para o sul, contra os Cabelo Cortado. Nunca nos perdoaram isso. No entanto, ao longo dos anos, sempre enxotámos qualquer jovem ambicioso que viesse retomar-nos a terra. Agora, não é apenas um jovem ambicioso. É Castor Pesado... e feriu muitos dos nossos guerreiros.

 

-Nós somos Mão Vermelha - relembrou Sangue de Urso, e desejou ter mantido a boca fechada.

 

- Pois são. - Três Estrondos pareceu não dar pela ofensa. - Mas os Mão Vermelha nunca enfrentaram um homem como Castor Pesado. Ele está a afastar os seus rivais mais chegados, intimidando-os, tal como aquele alce de que estava a falar. - Três Estrondos tirou a sua mocassina exterior para expor outra maior também encharcada. - Logo que esteja razoavelmente seguro de que não precisa de se preocupar com rivais a morder-lhe os calcanhares, penso que virá até aqui, e não sai até que um macho ou outro controle todas as manadas.

 

Sangue de Urso tentou sorrir, mas podia sentir os lábios tremer com a tensão. Sem pensar, voltou os olhos para a Trouxa de Lobo. Bem, se as coisas se desenvolvessem como Três Estrondos sugeria, ele ainda podia inspirar os seus guerreiros. A guerra seria longa e difícil, ambos os lados esgueirando-se por entre as árvores, emboscando-se, sempre em movimento. Uma forma interessante de lutar. Tinha poucas dúvidas de que derrotaria Castor Pesado. Apesar de tudo, ele era Sangue de Urso, guardião da Trouxa de Lobo.

 

Um formigueiro irritava o coto do seu dedo mindinho.

 

Corvo Negro desceu a encosta íngreme, um fardo pesado sobre os ombros. Touro Esfomeado levantou-se, deixando as varas de salgueiro branco sobre a pilha de aparas que tinha feito enquanto as descascava e as endireitava para hastes de dardo.

 

O sol dava um toque de calor ao seu corpo gelado. Em dias como este, as pessoas ficavam no exterior tanto tempo quanto pudessem, evitando o apinhado constante do abrigo.

 

Touro Esfomeado alcançou Corvo Negro um pouco acima no trilho escorregadio.

 

- Que bom ver-te de novo. Cascos Trepidantes tem estado muito preocupada.

 

- Cascos Trepidantes? E então a minha mulher?

 

- Não creio que a Engraçadinha compreenda os perigos das montanhas do mesmo modo que Cascos Trepidantes. Que tal a caçada? O fardo parece cheio.

 

- Três porcos-espinhos. Esfolados, claro.

 

Touro Esfomeado tirou-lhe o pesado fardo, atirando-o por cima do ombro.

 

- Tive de sair. Ser eu próprio por um tempo. - Corvo Negro encolheu-se à medida que endireitava as costas. Esfregou o ventre redondo com a mão enluvada.

 

- Encontraste alguma coisa?

 

Corvo Negro lançou-lhe um olhar rápido.

 

- Pistas.

 

- De pistas só se fazem guisados aguados. Felizmente, encontraste porcos-espinhos em algumas. Suponho que tiveste de os matar para veres até que ponto as pistas eram frescas?

 

- Pistas humanas.

 

Touro Esfomeado estacou, voltando-se.

 

- Frescas?

 

- Talvez com uma semana. - Corvo Negro lançou um olhar furtivo ao sol. A respiração congelada espiralava-lhe em redor do rosto. Alguém anda aqui por cima. Pergunto a mim mesmo até que ponto um caçador anifah hesitaria em nos atravessar com um dardo, sozinhos como estamos.

 

- Eles sabem que estamos aqui, que não somos inimigos. Corvo Negro encolheu um ombro.

 

- Eu encurtei a caçada. Encontrei um lugar onde ele cruzou uma pista de alce. Olhou para elas e continuou o caminho.

 

- Muito antigas?

 

- Talvez. Tinham derretido tanto como isto. Diria que ele as encontrou frescas.

 

- Sangue de Urso?

 

- Ou qualquer outro. Mas tu e eu pensamos da mesma maneira. O que quer que seja que ele ande a caçar, não são alces.

 

Em volta dele, as árvores ardiam, o fogo saltando, laranja e amarelo, crestando, crepitando e rugindo, enquanto coníferas inteiras explodiam em ondas de chamas. Línguas brilhantes de luz saltavam para o negro céu nocturno, iluminando as massas nebulosas de fumo agitado com uma arrepiante tonalidade avermelhada, que se esbatia em borrões enfarruscados de sépia e rubi, à medida que subiam cada vez mais alto no céu flamejante.

 

, O ar bramia, precipitando-se para alimentar o tremendo inferno. Arvores inteiras rebentavam como trovões à medida que os troncos rachavam, vaporizando e soprando gases inflamáveis no muro turbilhonante de chamas.

 

 

O calor delas agredia como um punho, esmagando-o contra o solo crestado, triturando-o enquanto o mundo ardia à sua volta.

 

No coração do incêndio trovejante, uma figura movia-se, perseguindo a cinza branca como uma sombra.

 

Com o coração em sobressalto, Pequeno Dançarino observava enquanto o Lobo se aproximava, as orelhas pontiagudas levantadas.

 

- Por que não ardes? Que és tu?

 

- Sou o Sonhador do Povo. - E a figura esbateu-se quando uma parede de chamas se interpôs, crestando uma imagem remanescente no fundo do globo ocular.

 

Protegendo a vista com o braço erguido, Pequeno Dançarino semiCerrou os olhos, contando que o Lobo tivesse sido torrado em gordura crepitante e ossos enegrecidos. Em vez disso, um homem estava ali de pé, alto, bem-parecido, a luz berrante do mundo a arder, reflectindo-se na pele macia.

 

- Lobo? Que... Quem és tu?

 

- Eu sou tu, Pequeno Dançarino, e não sou tu. Sou o Sonho e a realidade. Conduzi-te aqui... e segui-te. Sou quem tu serás um dia e quem tu nunca serás. Sou o Caminho, o Espírito do Povo. Bebi do Coração do Lobo. Danço entre as estrelas e debaixo das rochas. Canto com os ventos do Sol e ouço os suspiros da Lua. Sou o Lobo, guardião do Povo.

 

O medo cresceu dentro de si, enquanto o rugido do fogo aumentava e se suavizava com as palavras da visão. Com uma garganta tornada seca, Pequeno Dançarino tentou engolir. Voltou-se para correr. As chamas chicoteavam e saltavam enquanto faúlhas revoluteavam como mosquitos no Verão no lado dos salgueiros, abrigado do vento. O fogo saltava, traçando caminhos sinuosos através da paisagem crepitante.

 

- Nós somos Um, amiguinho - arrulhou a voz cálida. - Bem vês, eu estou dentro. Sou tudo o que tu és... e tudo o que tu não és.

 

- Vai-te embora! Deixa-me em paz. Eu não sou o tal.

 

- Ir-me embora? E deixar-te aqui a arder? - A voz troçava dele, escarnecendo com a realidade quando uma lança de chama atravessava o coração de Pequeno Dançarino. Ele gritou, saltando para trás, apenas para sentir uma queimadura na nuca.

 

- Junta-te a mim. Eu sou o teu caminho através do fogo. Sou o teu caminho através do Poder. Vive em mim. Dança no Um e erguer-te-ás acima do mundo que te desilude. Mas tens de preparar-te. Um dia terás de responder por ti próprio. Que darás pelo Poder? Que darás pela justiça? Que darás para Dançar com o Fogo e sarar as queimaduras? És suficientemente forte?

 

- Eu não sou o tal!

 

- Dar-te-ei todo o tempo que puder, amiguinho. Então, quando já não puder esperar, vou ter que te pôr à prova. Até lá, prepara-te. Não

 

podes evitar de ser quem és, ou aquilo que vais ser. Só podes preparar-te e Dançar a Espiral. Só podes preparar-te... preparar-te...

 

- Eu NÃO sou o tal! O TAL NÃO! NÃO...

 

O fogo saltou com a seca explosão do relâmpago, atirando-o para o calor, queimando-o no próprio esqueleto da terra torturada, torcendo-se...

 

- Pequeno Dançarino! - O grito de Alce Encantado trespassou o seu sonho horrorizado como um dardo gelado.

 

Ele arquejou e acordou com um sacão, sentando-se nas suas roupas de dormir. Em volta, os outros sentavam-se nas suas peles, fitando-o com olhares desconfiados. Engraçadinha falava em voz arrulhada, acalmando Rato Corredor, que acordara, ecoando os gritos de Pequeno Dançarino.

 

- Estavas a sonhar outra vez - disse-lhe Alce Encantado, colocando-lhe uma mão fresca no ombro transpirado. - Estás aqui. Estamos todos aqui. Tudo está bem.

 

Ele lançou um olhar assustado aos olhos preocupados dela e engoliu, sentindo a garganta a arder, como se ainda estivesse no Sonho.

 

- Dorme agora, filho - disse-lhe Touro Esfomeado, de onde ele e Cascos Trepidantes se tinham levantado, sentando-se nas peles.

 

- Podes apostar! - gritou Corvo Negro da cama que partilhava com Engraçadinha. - Se algum desses monstros do sonho vier aqui, o Três Dedos atravessa-os com dardos uns a seguir aos outros.

 

- Ei! - gritou Três Dedos. - Alveja esses monstros dos sonhos tu próprio. Eu cá fujo mais rápido do que um antílope com uma vespa zangada no rabo.

 

Ninguém se riu, apesar do esforço.

 

Alce Encantado segurava-lhe a mão entre as dela. Ele inspirou fundo e acenou:

 

- Foi só um sonho, nada mais. Toca a dormir toda a gente. - Estou outra vez a começar a. ficar estranho.

 

Cascos Trepidantes fixou intensamente a filha, um olhar que comunicava algo privado. Dois Fumos observava, os olhos como fendas, de onde estava, enrolado no canto. Para Pequeno Dançarino poderia ter sido um predador avisado. A sua posição imitava a de um lince, esperando por cima de uma toca.

 

Pequeno Dançarino deitou-se de costas, observando a rocha do tecto, onde brilhava avermelhada pela luz das brasas remanescentes da fogueira da noite. Tal como as avermelhadas vagas de escuridão que se erguiam da floresta incendiada do Sonho.

 

Alce Encantado deitou-se junto dele, comprimindo tranquilizadoramente o seu corpo contra o dele, aconchegando-o e abraçando-o com força.

 

- Estou preocupada contigo - sussurrou. - Amanhã, Pequeno Dançarino, vamos sair para uma caminhada. Nós temos... penso que sei de uma maneira para acabar com os Sonhos. Amanhã... falamos disso.

 

- O quê?

 

- Amanhã - prometeu-lhe com voz tensa. - Esta noite abraça-me. Abraça-me como se fosse a última vez.

 

Ele puxou-a contra si, acariciando-lhe as longas tranças com dedos nervosos.

 

- Chiu! Agora dorme, eu estou bem.

 

Ela abraçou-se a ele com toda a força até os braços lhe enfraquecerem. Um calor suave começou a invadi-lo. Sim, deixar os Sonhos vir e fazerem o que lhes apetecesse. Enquanto a tivesse, ele poderia suportá-los. Por que lhe teria ela parecido tão só, tão desesperada e tão assustada?

 

A recordação do fogo ainda lhe ardia por detrás das pálpebras. Olhou fixamente para cima, memorizando cada um dos ângulos da rocha, reparando em qual tinha a fuligem mais espessa, escutando o vento da noite por detrás das cortinas que mantinham o abrigo quente e razoavelmente protegido.

 

Na escuridão, um lobo uivou, o som cortando-lhe o coração como uma lâmina de quartzito.

 

Olhou para a parede do fundo do abrigo, sobre a zona onde as crianças dormiam e a alma gelou-lhe. Ali, a efígie do lobo vigiava-o com olhos ardentes.

 

-Até que ponto tenho de suportar isto? Este... humano trata-me como um pedaço de esterco. A minha irritação cada vez é maior. Enfraqueço e, no entanto, dizes-me para me manter desamparada! O Poder esvai-se como o calor de um abrigo de Inverno e não posso fazer nada? Eu rachava-o, torcia-lhe os ossos como caules de erva. Fazia a alma murchar-lhe dentro do corpo. Tu já viste, já sentiste e a única coisa que fazes é atormentar-lhe o toco do dedo mindinho.

 

- Paciência - tranquilizou Sonhador de Lobo. - O rapaz está a caminhar para a nossa rede.

 

- Paciência? Já não me resta muita.

 

- Precisamos desesperadamente do rapaz. Os humanos vivem com o tempo. Eles tanto sonham o futuro como o passado.

 

-A minha paciência tem limites. Não vejo progressos no rapaz. Castor Pesado está a planear mandar os guerreiros para as montanhas com o degelo da Primavera. Que é que vamos fazer?

 

- Eu sei as opções que tenho. Tenho outra jogada para fazer.

 

- Igual à última?

 

- Espera. O Vigilante olha pelo rapaz.

 

- À medida que espero, o desespero cresce. Preciso de agir... ou morrer.

 

- Espera! Se não acabas por destruir tudo.

 

 

Com a anca a doer, Cria Branca abria o seu caminho, manquejando através da neve. Um fardo de lenha pendia-lhe de uma tumpelina que lhe comprimia a pele pergaminácea da testa. A respiração saía-lhe em espirais brancas a cada arquejo dos pulmões. O cabelo branco caía em madeixas desordenadas por debaixo do capuz de pele de raposa.

 

Caminhava penosamente, vinda de um espesso amontoado de madeira que ela, ao princípio, hesitara em recolher. Por uma razão simples, ficava numa encosta escarpada, o que aumentava o risco de cair no denso e entrelaçado emaranhado de ramagens. Na sua idade, sozinha, no Inverno, uma perna partida era a morte... embora também o fosse o congelamento por falta de lenha.

 

Parou, fazendo um esgar pela dor na anca e pelo tremor nas pernas exaustas.

 

- Estou a ficar muito... muito velha... para este tipo de coisas. - Engoliu, curvando-se para apoiar as mãos nos joelhos, aliviando a tensão nas costas.

 

Não se apercebera até que ponto a vida tinha sido mais simples com o Pequeno Dançarino a transportar-lhe lenha e água. E da alegria que tinha sido falar com Dois Fumos à noite junto à lareira. Na companhia do tresmalhado, podia sentar-se quando lhe apetecesse e lembrar-se de Bico Partido ou do velho Sem Juízo ou de Come Depressa de Mais. Já todos idos, agora; só viviam na sua memória. Será que isso constituía a soma e o total da existência? Só continuarmos a viver enquanto alguém ainda se lembrasse de nós? E depois? Rompia-se a frágil ligação entre este mundo e a Teia-de-estrelas? Se ao menos os espíritos pudessem falar em vez de apenas assombrar os lugares verdes, calmos e sombrios e as fendas escondidas sob a neve. Se ao menos lhes tivessem dado voz às suas meditações em vez de observarem, silenciosos, os caminhos do mundo.

 

Os pulmões fizeram-lhe um som asmático quando tentou recuperar o fôlego. Uma tremura começara-lhe na perna e a articulação da anca ardia-lhe como se alguém lhe tivesse deixado cair dentro uma pequena brasa de um fogo lento. Não se tinha apercebido de quanto envelhecera nestes últimos cinco anos desde o último regresso do acampamento de Castor Pesado.

 

Resmungou para si própria e olhou de soslaio para o céu. Pior, ela, Cria Branca, que sempre escolhera trocar a vida vulgar pela solidão de um Sonhador, sentia a falta da companhia de outros.

 

- Velha e amarga desculpa para um Sonhador, rapariga - remoneou para si própria.

 

Suspirando, resignada, puxou o fardo para cima com um sacão e começou a abrir um trilho, descendo a vereda. Apesar da recém-endurecida espessura da neve primaveril, o alce tinha pisado o caminho através do Inverno e alisado uma pista. Com essa pista, deslocar-se não era tão horrível como poderia ter sido. A Primavera, apesar dos dias de sol, tornava as deslocações muito mais difíceis. A neve, solta e quebradiça no Inverno, derretia e congelava à medida que a neve da Primavera, nova e húmida, cobria o gelo antigo. Nunca congelava o suficiente para suportar o peso de uma pessoa. Mais cedo ou mais tarde, o pé atravessaria o gelo fino, deixando-a a chafurdar e a praguejar enquanto lutava para se levantar de novo. Nem os sapatos de neve ajudavam grande coisa, já que cada crista fora limpa de neve pelo vento, deixando mato retorcido, rochas, paus e outras irregularidades para lhes perfurar o entrançado ou partir os arcos de salgueiro.

 

- Detesto a Primavera - resmungou, ao sentir a mordida fria do vento. - No pino do Inverno, o frio intenso fica na terra e é tudo. Mas a Primavera? Que importa se o ar está mais brando? É mais húmido e sopra a toda a hora. O vento parece mesmo que vai atravessar a gente. Então, deambulamos pela neve molhada e fica tudo encharcado. Chega, então, a escuridão, a temperatura desce, e em que assados estamos nós? Prefiro uma tempestade de neve em pleno Inverno em vez disto em qualquer dia.

 

Espetou o queixo num assentimento silencioso e prestou atenção à lama que tantos transtornos trazia às caminhadas na Primavera. Encolheu os ombros para si própria e varreu da mente todos os pensamentos sobre o assunto. Para quê estar deprimida quando tinha uma dura caminhada pela frente?

 

Sobre as pernas trémulas, rodeou a última curva do caminho e parou para tomar novo fôlego, esperando que os pulmões recuperassem e que o coração deixasse de tentar bater através do esterno. Só quando levantou o olhar se apercebeu do ténue traço de fumo que subia do abrigo onde ela se anichava debaixo da cinzenta escarpa calcárea.

 

- Quem... - Perplexa, conseguiu encontrar algumas reservas no fundo do seu velho corpo e forçou as pernas num vigor que elas já se tinham esquecido de alguma vez terem tido.

 

- Ei lá! - gritou. - Saudações! Quem está aí?

 

A surpresa aumentou quando Pequeno Dançarino apartou a aba e saiu, cerrando os olhos na luz brilhante. Sorriu e apressou-se para a ajudar, levantando-lhe facilmente a carga com uma mão e atirando-a para as costas. Ela semicerrou um olho... e fez um esgar retorcido com os lábios. A força parecia sempre ser desperdiçada nos jovens... que eram sempre demasiado tolos para apreciar aquilo que tinham.

 

- Obrigada! - arquejou ela. - Ui! Deixa-me recuperar o fôlego e eu digo-te olá.

 

Ele levantou a cabeça, inspeccionando-a:

 

- Pensei em seguir-te a pista, mas imaginei que tivesses ido lá acima à montanha. Sabes, lá acima, onde tens o círculo de pedras com as linhas nele. Não quis perturbar o teu Sonho.

 

Ela arquejou e resfolegou talude acima até às coberturas, esgueirando-se para dentro e bamboleando-se até às peles. Depois da neve e da luz brilhante do sol, o lugar parecia de noite. Apesar da vista se lhe estar a esfumar, ela sabia o caminho de cor. Grunhindo e rangendo, sentou-se e suspirou, fitando absorta o fogo crepitante.

 

- Podias ter seguido a minha pista. Por um momento, não tive a certeza de conseguir voltar.

 

Ele colocou o atado de lenha dela sobre uma pilha que - pelo menos aos olhos de Cria Branca - parecia de proporções mitológicas. Apontou para a lenha:

 

- Notei que estavas quase sem nenhuma, e resolvi ir buscar alguma.

 

- Já tens nome de homem?

 

Sacudiu a cabeça, levantando, envergonhado, um ombro.

 

- Não. Nunca tive... bem, nunca calhou. E, tu sabes, já não é assim tão importante.

 

Ela sorriu-lhe.

 

- Se não pensasse que isso me matava, levantava-me e dava-te um abraço.

 

Um tremor de preocupação cruzou-lhe o rosto:

 

- Não te estás a sentir bem?

 

Os pulmões contorceram-se-lhe, deixando-a a tossir. Ela acabou o esconjuro e afastou-lhe a preocupação com um gesto.

 

- Não, rapaz, não é isso. É só... bem, a idade, sabes? Parece que cada dia sou confrontada com o facto de que não vou viver para sempre.

 

- Vais continuar por aqui - disse-lhe ele simplesmente.

 

- Achas que sim?

 

- Ruim de mais para morrer.

 

Ela desatou à gargalhada e acabou por tossir de novo.

 

- Não costumavas tossir tanto.

 

- Só acontece quando abuso das minhas forças. - Mastigou as gengivas desdentadas e torceu os lábios. Parece que o bosque está cada vez mais longe. Mantém essa aba aberta, deixa entrar alguma luz. Já aqueceu o suficiente para não congelarmos e é uma desculpa para renovar o ar.

 

- Devias mudar o acampamento. Quando andava por aí, reparei que ao longo do vale a madeira já foi quase toda apanhada. Os ramos baixos foram todos despidos. As ramagens mortas foram arrancadas. Só deixaram os toros grandes.

 

Ela encolheu os ombros.

 

- Gosto disto aqui.

 

- Como vai a tua comida?

 

- Mandaram-te cá acima para fazeres perguntas? Ele sorriu-lhe, uma curva acentuada nos lábios.

 

- Não propriamente. Têm estado a falar, é claro. Dois Fumos anda doente de preocupação contigo. - Fez uma pausa, uma luz maliciosa brilhou-lhe nos olhos. - Talvez ele não esteja tão enganado como isso.

 

Ela rosnou-lhe, estreitando os olhos maldosamente:

 

- Então, por que é que tu realmente vieste? Só para me fazer sentir miserável? Bem, não te sentes aí como um cogumelo num cepo, responde-me. Que há de novo? Por que estás aqui? Não tens ninguém para te aborrecer?

 

Ele atirou mais um par de ramos para a fogueira enquanto ela desatava as mocassinas e as apoiava nas pedras junto das brasas. Secar mocassinas tinha de ser feito com perfeição. Para começar, tinham de ser feitas de couro muito bem fumado e curtido na perfeição, caso contrário encolhiam, endureciam ou gretavam. E se se aquecesse demasiado o calçado, o calor retirava-lhe os óleos e gorduras que ajudavam a impermeabilizá-lo.

 

- Já me aborreci o suficiente. - O sorriso esmoreceu-lhe. - Como eu disse, as pessoas começaram a preocupar-se por não saber se estarias bem. Nós tivemos...

 

- Estão todos bem? Ninguém doente ou ferido? Não vieste pedir ajuda para curar?

 

- Não, estão todos finos. Mas começámos a preocupar-nos contigo. Foi levantada mais de uma vez a ideia de mandar aqui alguém ver como estavas. - Piscou-lhe o olho ao acrescentar: - Talvez ter a certeza de que não ias congelar?

 

- Tretas. Ainda está para vir o dia! Ignorando a explosão, ele continuou;

 

- Eu ofereci-me mais ou menos como voluntário. Ela levantou vivamente a cabeça:

 

- Voluntário? Tu? Julguei que não me suportavas. - E estás-me a esconder qualquer coisa. Na, há mais do que isto. Mas o quê?

 

Ele fugiu-lhe com os olhos.

 

- Não é que não gostasse de ti. É só porque passavas a vida a espicaçar-me por causa do Poder. Parecia que sabias sempre quando eu Sonhava. Sabias sempre tudo. Querias que eu fosse mais do que aquilo que queria ser. É só isso. Não te detestava nem coisa que o valha.

 

Mentiroso! A velha perspicácia voltava.

 

- Então, por que resolveste vir? Os Sonhos ainda te estão a incomodar? - Ah, é isso! Olha para ele a torcer-se como um rato-da-pradaria num buraco de serpente.

 

Ele aquiesceu, esfregando as mãos uma na outra, subitamente nervoso.

 

- Olha, eu não sou o teu Sonhador. Não quero ficar todo enredado nisso outra vez.

 

- Calma, não te preocupes. Tu não és o meu Sonhador. - Ela voltou as mocassinas nas pedras, vendo o vapor subir das peles quentes.

 

- Ainda bem!

 

- Mas são os Sonhos, não são? É por isso que fizeste esta caminhada toda até cá acima.

 

Ele fitou silenciosamente as chamas, um leve franzido visível em volta dos lábios, linhas formando-se-lhe na testa. Baixando a voz, ela acrescentou suavemente:

 

- Não te vou espicaçar sobre isso. Eu... bem, cometi um erro. Conduzi tudo miseravelmente. Percebi isso no dia em que Sangue de Urso desceu aqui e tentou começar uma guerra. Foi quando tudo se esclareceu. - Fez um gesto como se afastasse tudo para longe. - Portanto fala. Eu ajudo naquilo que puder. Limito-me a ouvir, se assim quiseres.

 

Ele hesitou, pareceu gaguejar, mas disse:

 

- São os Sonhos. Estou a pôr toda a gente maluca menos o Dois Fumos. Touro Esfomeado diz que é como estar num pico debaixo de uma trovoada, nunca sabemos quando saltar.

 

- O Poder faz isso.

 

- De qualquer modo, os Sonhos vêm e vão... com mais frequência, ultimamente. Tenho um que vem, uma vez a seguir à outra. Estou sozinho no meio de uma floresta a arder. E o Espírito do Lobo caminha através das chamas e transforma-se num homem. Quando fala comigo, fala por enigmas que não percebo, acerca de ser tudo e nada ao mesmo tempo. Fico abalado durante dias.

 

“Também ouve outras coisas que aconteceram... como um sonho vivo. Uma vez fomos armadilhar carneiros bravos e eu... perdi-me na ovelha, acho que é como tu o dirias. - Engoliu em seco, mudando de assunto. Dois Fumos e Alce Encantado estão preocupados. Calculo que toda a gente está. Vejo-o nos olhos deles. Sabem que tenho Sonhos... mas não compreendem. Engraçadinha e Cotovia do Prado estão nervosas por causa das crianças. Não sei o que lhes faça. Alce Encantado e Dois Fumos pensaram que devia vir ver-te. Ela levantou uma sobrancelha:

 

- Alce Encantado? Ele mostrou um certo embaraço.

 

- Nós casámo-nos.

 

Ela abriu um largo sorriso e esfregou a testa no local onde a tumpelina tinha mordido tão fundo. O riso seco surpreendeu-o.

 

- Círculos, rapaz! - Abanou a cabeça. - Casado, hem? Bem, desejo-te melhor sorte do que a que tive.

 

- Sou feliz. Ela sabe que tenho problemas com os Sonhos.

 

- Ainda bem. Isso torna as coisas mais fáceis de explicar. - Pegou numa bolsa, tirou um pedaço de pão de lírio e atirou-lho. - Espero que Alce Encantado compreenda aquilo em que se está a meter. Não olhes para mim assim. Sei do que estou a falar. Eu própria fiz sofrer tanto Raposa Grande como Pena Cortada. Bem, pensando nisso, não sabia o que fazia quando casei com Raposa Grande. Foi a primeira vez. Era nova, bem, não tão nova como tu... mas nova. Pensei que podia simplesmente assentar e viver como qualquer pessoa. Pensei que podia negar os Sonhos.

 

- E não resultou? - Ele mascou distraidamente o pedaço de pão, as maxilas trabalhando debaixo da pele macia. Inconscientemente, os olhos continuaram a desviar-se para a espiral gravada na parede do fundo onde o sol a iluminava.

 

- Não. Nunca resulta. - Riu-se com a ideia. - Há qualquer coisa na forma como um ser humano é feito. Suponho que não somos diferentes do resto dos animais. Quero dizer, toma um castor, por exemplo. Não lhe interessa que tenha uma represa cheia de caules de salgueiro, todos cortados e empilhados no lodo. Ele continua a rastejar e a deitar árvores abaixo, até mesmo abetos, se forem as únicas árvores disponíveis. Creio que dirias que foi a forma como o Sábio Lá em Cima o fez. Com os seres humanos, bem, temos a necessidade de estar uns com os outros e quando homens e mulheres estão juntos, as túnicas abrem-se, o que faz os homens, os homens e as mulheres juntam-se. Tive todas essas necessidades e pensei que fazer amor iria dominar os Sonhos.

 

Ele ficou com ar miserável. Ela sorriu melancolicamente.

 

- Resulta por uns tempos. Ainda és capaz de te perder na Alce Encantado por uns tempos. É tudo novo e maravilhoso... e há também a própria união. Ah, sim, a união... - Por um momento perdeu-se em recordações antes de sorrir e voltar ao assunto. - O problema é que isso dilacera-nos. A atracção do Poder puxa contra a atracção da pessoa que amamos. E então? Não podemos ter ambos. - Sacudiu um dedo. – Não levantes assim o sobrolho. Quero dizer isso mesmo. Não podes ter ambos. Está bem, deixa lá, não precisas de acreditar em mim. De qualquer modo, hás-de vir a constatá-lo por ti próprio.

 

- Talvez.

 

Ela inclinou-se e massajou os dedos dos pés, já aquecidos pelo lume. As unhas estavam a ficar-lhe outra vez demasiado compridas. Ia ter de as aparar.

 

- Não sei por que razão o Sábio Lá em Cima fez isto assim. Parece uma vergonha, mas julgo ser mais uma consequência da forma como o universo foi feito no princípio.

 

- De que estás a falar?

 

- Círculos. Humm? Oh, falo acerca do modo como as pessoas aprendem as coisas. Verdades, se preferes... leis acerca do modo como o mundo funciona. Então, as pessoas envelhecem, ficam com tudo o que aprenderam empacotado nos miolos e não conseguem provar aos jovens por que motivo as coisas são como eles dizem. Os jovens têm de sair e aprender tudo da mesma maneira que os mais velhos aprenderam. Estupidamente ineficiente... a não ser, claro, que eu esteja a saltar por cima de alguma coisa importante.

 

»O velho Seis Dentes, o Homem de Espírito que me ensinou, costumava perguntar se não seríamos sempre a mesma pessoa vivendo a mesma vida de modos diferentes.

 

Ela perguntava-se: Será este o caminho? Quando tive o rapaz, não o tive. Agora, que foi entregue a si próprio, volto a tê-lo? Será uma partida que me estão a pregar? A lição que precisava de aprender? Talvez seja a Espiral do ensinamento, que o conhecimento não pode ser forçado... apenas retido. Mas que quer isso dizer?

 

- Isso não faz qualquer sentido. Como é que podemos viver a mesma vida de modo diferente em diferentes corpos?

 

- Ilusão.

 

- O quê? Ilusão? Eu não... Isso é loucura.

 

- Também o mundo inteiro. - Instalou-se melhor e apontou-lhe um dedo. - Diz-me, Pequeno Dançarino, que é que é real? O mundo? Este?

- fez um gesto em volta do abrigo e bateu com os nós dos dedos na rocha junto dela. - Ou... os Sonhos?

 

- Isto é real - cruzou os braços, esticando as pernas. Como se quisesse realçar este ponto, martelou com o calcanhar na terra batida.

 

- Como é que sabes?

 

- Porque se pegar numa dessas brasas e te a atirar para a planta dos pés, tu gritas.

 

Ela bateu as palmas, rindo.

 

- Achas que sim? Ou será que és apenas tu que pensas que sou eu a gritar? Talvez tudo à tua volta seja o teu Sonho daquilo que o mundo realmente parece?

 

- Então, se eu pensasse de outra maneira, tu não?

 

- E se isso depender da profundidade com que tu acreditares? Podes ter a certeza de que realmente sabes que queimares-me faz-me gritar? Podes ter a certeza de que não é um bocadinho qualquer da tua mente que diz “queima-a que ela grita»? Porque se te queimares, tu gritas. Talvez seja realidade partilhada, não? Pensas que eu sinto a dor do mesmo modo que tu... e eu também.

 

- Mas não sentes?

 

- Não é isso que estamos a discutir. - Continuou a bater-lhe com um dedo esticado. - Estamos a falar de como é que sabes o que pensas que sabes.

 

- Mas eu posso sentir-te, tocar-te, ouvir-te... e assim tarde, no Inverno, cheirar-te também.

 

- Tu pensas que sim. Mas diz-me, eu sou sempre assim? Que acontece quando não me vês, não me sentes e não me cheiras? Talvez não exista quando sais para além da aba do abrigo, que achas? Talvez Dois Fumos, Alce Encantado e Touro Esfomeado não existam até voltares e os encontrares onde contas que eles estejam. Talvez nós sejamos parte da tua imaginação do que é real.

 

- Eles existem - gritou. - Eu sei que sim. Quando voltar, Três Dedos terá feito novas pontas de dardo. O pai terá armadilhado mais alguns alces. Estará lá tudo quando eu voltar.

 

- Com certeza que sim, mas podes provar que está lá tudo neste preciso momento? Consegues ver?

 

Ele abanou a cabeça, confundido.

 

- Não, é óbvio que eles estão lá. Têm de estar! Caso contrário... caso contrário...

 

- Exacto, caso contrário... Bem vês, não tens maneira de provar a ti próprio que o teu pai realmente existe. Tu podes ter construído todo este mundo. A única pessoa que sabe que este mundo é real és tu. E não consegues provar-me que ele existe da maneira que tu acreditas que ele é.

 

Ele ficou de boca aberta.

 

- Mas supõe que pego no meu dardo e te atravesso com ele. Tu ias senti-lo... morrer por isso.

 

- Achas que sim? - Inclinou-se para trás e cruzou os braços. - Ou sou apenas uma parte do teu Sonho? Talvez tu apenas imagines que eu o sinto, que eu morro. Bem vês, tu não podes provar-me a mim que eu realmente existo.

 

Ele abanou a cabeça, confuso.

 

- Ah, Pequeno Dançarino. O velho Seis Dentes disse-me uma vez, há muito tempo, que a vista é o Grande Mistério, que apenas dentro de nós próprios podemos saber que o que pensamos é real. Não posso provar-te que tu és real. Não posso provar-te que esta fogueira é real... que não é apenas uma ferramenta do Sonho. Com certeza que me vai queimar se eu deixar, mas a dor será real? Ou é imaginada? Ilusão?

 

- É real.

 

Ela franziu os lábios sobre as gengivas desdentadas.

 

- Tenho dúvidas. Seis Dentes disse-me que em tempos tinha visto um Sonhador Dançar com o fogo. As velhas lendas, aquelas que vocês jovens já não ouvem, dizem que os antigos Sonhadores aprenderam com o Primeiro Homem... e Dançavam com o fogo.

 

Ele ficou pálido, antes de acrescentar rapidamente:

 

- Isso pode querer dizer um monte de coisas. Pode ser que eles o ondeassem à sua volta com paus e...

 

- Não - insistiu ela. - A memória é uma coisa cheia de armadilhas. A própria memória é ilusão. Mas lembro-me muito nitidamente de Seis Dentes e do aspecto dos seus olhos, como gotas cristalinas de água brilhando ao sol da Primavera. Ele tinha-o visto. Disse que o Sonhador Dançou com as brasas nas mãos. Dançou descalço no fogo e não se queimou. Segundo Seis Dentes, o modo como foi feito foi um retiro para o Um e mudar o Sonho de modo a que ele fosse real e este mundo uma ilusão.

 

- Eu acreditava era num dardo afiado - acrescentou ele. - Quer dizer, vou pensar nisso. Faço coisas a mim mesmo a toda a hora, corto-me ao lascar a pederneira sem dar por isso e depois vejo o sangue e pergunto a mim mesmo quando é que o fiz. Se eu imaginasse o mundo, como sugeres, eu não me imaginaria a ficar ferido. Isso não faz sentido.

 

- A não ser que a pedra Sonhasse que te estivesse a ferir.

 

- A pedra...

 

Ela observava-o através das pálpebras semicerradas.

 

- Julgas que o mundo à tua volta não Sonha? Como sabes que não és a ilusão de uma pedra? Ou de um morcego? Ou talvez de uma árvore? E que tal se um rato estiver enrolado algures na sua toca, Sonhando os teus pensamentos para ti neste mesmo instante? Podes provar-me, sem sombra de dúvida que tu não és parte dos Sonhos de alguém... ou de alguma coisa?

 

Ele pôs-se em pé de um salto, rodopiou em volta, de braços abertos. Quando parou, olhou para ela:

 

- Aqui está, vês, eu acabei de decidir fazer isto, eu decidi levantar-me e rodopiar. Eu. - Apontou para a própria cabeça. - Aqui, cá dentro. Eu pensei em fazer isto.

 

Ela entrelaçou os dedos, empertigando a cabeça.

 

- Achas que sim? Ou será que quem quer que te Sonha te plantou a ideia? Estou a falar com o Pequeno Dançarino? Ou com o Sonhador através da ilusão do Pequeno Dançarino?

 

A frustração avermelhou-lhe o rosto:

 

- Eu sou eu! Isto é de loucos! Como é que te posso provar que eu sou eu? O que quer que eu pense, tu dizes que é Sonhado. Que eu só o penso ou que alguém só o pensa. Eu...

 

- Tal e qual! - exclamou ela, batendo palmas. Ele ficou desanimado:

 

- Então, como podes acreditar no que quer que seja? Para que serve falares com outra pessoa? Ignora-me. Eu não sou real.

 

Ela piscou-lhe o olho:

 

- Porque, qualquer que seja o motivo porque estamos aqui, vivos e activos, existe uma razão. E se formos Sonhos, que interessa? Por agora, age como se o não fosses. Para além disso, a maior parte das vezes dá resultado aceitar a ilusão.

 

- Penso que é loucura. - Mas não parecia muito seguro de si quando o disse. Uma ruga tinha-se-lhe gravado na testa.

 

- Talvez - sussurrou ela, deixando repousar o queixo nos dedos. Por momentos, perdeu-se nas imagens de Seis Dentes e da sua surpresa por o homem poder Dançar com o fogo. Mas como? Pestanejou e olhou para cima, vendo a incredulidade divertida nos olhos de Pequeno Dançarino.

 

- Estás a pensar na hipótese de não seres real? - perguntou ele.

 

- Não, estava a pensar no que seria preciso para Dançar com o fogo.

 

- Pele feita de água. Mesmo que não existas, isso não é possível replicou Pequeno Dançarino.

 

- Há mais coisas que nunca são tentadas por serem impossíveis do que as que são tentadas porque as pessoas acreditam nelas. - Esticou-se para apanhar o bordão, a fim de espevitar o fogo. - Que tipo de mundo teríamos nós se as pessoas acreditassem no impossível? Pensa no que podíamos fazer. Aqui tens um Sonho para ti.

 

Ela apontou com o bordão:

 

- Aquela linha ali quer dizer que o pior do frio já passou. Quando o Sol nasce ali, quer dizer que estamos a meio caminho do solstício de Verão.

 

Pequeno Dançarino moveu-se ao longo do exterior do círculo, examinando como os rochedos estavam alinhados. Só as pontas cinzentas das pedras emergiam da neve soprada pelo vento que se tinha acumulado e começara a derreter à medida que o Pai Sol ia tomando um caminho mais a norte através do céu.

 

Quando se detiveram no topo da crista, os dedos cruéis do vento atravessaram-lhes as peles e a carne como dardos de ponta de obsidiana, congelando a própria alma. No entanto, esta crista elevada tinha uma vista ilimitada do horizonte irregular.

 

- Mas como foi que fizeste isto? - gritou ele para se sobrepor à ventania.

 

- Tempo, rapaz - cacarejou ela como uma galinha da pradaria sobre um rebento verde. - Observando o céu, o caminho do Pai Sol, e como a Teia-de-estrelas foi tecida sobre a terra. É tudo parte dos Círculos. Bem vês, quando te sentas aqui e olhas por esta linha, vês que no dia em que o Sol nasce sobre aquela rocha, estamos no pino do Verão. Os dias começam a ficar mais curtos até logo a seguir ao início dos grandes frios. Então, no dia mais curto, o Sol nasce sobre aquela rocha ali em baixo.

 

Ele percorreu o círculo de pedras, observando ao longo de cada um dos raios transversais:

 

- Então, sempre soubeste quando a estação muda? Nunca pensei que fosse assim tão fácil.

 

- Ora! - Ela acenou com a mão enquanto o vento lhe agitava a saia da túnica. - Muito do conhecimento de como o mundo funciona pode ser imaginado apenas pela observação. Por exemplo, em que direcção fica realmente o norte? Aponta.

 

Ele assim fez, apontando para a montanha que ele sempre acreditara ficar a norte.

 

Ela manquejou em volta do círculo, escolhendo uma linha de pedras.

 

- Ali. Põe-te aqui e olha. Estás a ver em direcção ao norte.

 

- E como é que sabes?

 

- É a coisa mais simples do mundo. Sentei-me aqui e marquei os pontos onde as estrelas nasciam no horizonte. Depois, marquei onde elas se punham. Uma pessoa senta-se toda a noite no mesmo lugar, marcando o caminho das estrelas; o ponto no meio é o norte. É assim que a estrela do norte é realmente a estrela do norte. Deve ser muito poderosa para não se mover na noite ao contrário das outras.

 

- Ou isso... ou está morta.

 

- Talvez, mas duvido. Cintila como todas as outras. Só que não se move. - Bateu com o bordão contra as rochas fazendo um som crepitante. - Sim, tudo o que é preciso é observar o tempo necessário e podes imaginar como as coisas funcionam. Claro que ainda não imaginei o que é que o Sol queima. Não pode ser madeira, porque não faz fumo. E a luz é muito brilhante. Já alguma vez notaste? Não é como a luz do fogo, não tem aquele tom amarelado. E há também a Lua. O que quer que ela queime, não faz calor... nem fumo também.

 

- Mas lembro-me de dizeres que tudo tem um espírito próprio. Ela concordou:

 

- E tem. O Poder do Espírito existe em tudo, é só uma questão de abrires parte da tua alma para o sentires. Os animais, claro, têm alma, mas também a têm as árvores e as montanhas, os ribeiros e as nuvens no céu. Tudo palpita e vibra, a toda a hora, à nossa volta. Só que acontece que os humanos estão sempre a atirar lama para a água das suas vidas para a emporcalhar. Só são felizes quando estão a flutuar em água suja, de modo a que não possam ver para onde vão nem o aspecto do canal.

 

Ele riu-se, estremecendo, apesar do aconchegado capote de pele de ovelha.

 

Ela viu e encolheu-se também.

 

- Anda daí, vamos embora daqui de cima. Quase que estou gelada até aos ossos.

 

- Não, tu não estás gelada. É tudo uma ilusão - troçou ele, ajudando-a a descer o trilho escarpado. Teve de lhe segurar bem a mão para a manter firme nas zonas mais traiçoeiras. Rolavam pedras debaixo dos pés e o gelo tinha coberto as zonas sombrias. - Quanto tempo te demorou a fazer a roda lá em cima?

 

- Um par de anos. Por vezes, está enevoado no Verão e é preciso esperar mais um ano para alinhar bem as rochas. A parte mais difícil é o Inverno. Tem muitas nuvens. E é preciso também uma boa dose de dedicação, ou idiotice, para ficar ali às escuras, esperando pelo amanhecer, enquanto o vento nos sopra a neve para a saia e a pele nos fica .azul. O gelo condensa-se no cabelo e ficamos a tremer tanto que ficamos sem ter a certeza se o alinhamento que tomámos no topo do sol-nascente está certo ou não, porque os nossos dentes batem com tanta força que abalam os olhos nas órbitas. Isto recorda-nos que este mundo pode ser uma ilusão... mas também que ela é poderosa como tudo!

 

- Que foi que te deu a ideia da roda de estrelas? Sonhaste-a? Ou calhou de te lembrares disso?

 

Ela abanou a cabeça e cambaleou na zona plana no fundo do trilho. A neve estalava debaixo das mocassinas.

 

- Esterco e moscas, não. Vi uma vez uma num monte sobranceiro ao Rio Grande quando lá fui com Pena Cortada para ver alguns dos seus conhecidos do Povo da Garça Branca. - Fez uma pausa, revendo-o de novo mentalmente. - Lembro-me de ter subido lá uma noite porque Garça Branca pensou que era um lugar de Poder. Deitei-me a dormir entre os raios e tive um Sonho maravilhoso. Acordei mesmo à alvorada. Levantei-me e estava a enrolar a minha esteira quando o céu se ergueu. Notei um raio apontado mesmo para o olho vermelho do Sol. Isso fez-me pensar e, por isso, observei a roda de estrelas durante um tempo. Durante todo o tempo que lá estivemos, observei onde o Sol nascia e onde se punha. Vi-o moverse em torno da roda.

 

»Não, eu não o inventei. Não penso que haja muita coisa a inventar no mundo. Bem vês, há a beleza da espiral. Tudo acontece e volta a acontecer, vez após vez. Como a vida. Uma criança nasce, aprende a andar, aprende a falar e a brincar e entra na juventude. Então, essa jovem pessoa aprende a ser adulta. Um pénis encontra uma vagina, outro bebé nasce, aprende a andar e a falar, e a fazer tudo de novo, mais uma vez. Círculos dentro de Círculos mas todos ligados: a Espiral.

 

Ele parou para dar uma pancada num ramo carregado de neve.

 

- E onde pensas que Castor Pesado se encaixa, no meio de tudo isso? Cria Branca percorreu com a língua o interior das faces, com um olhar determinado no rosto à medida que caminhava.

 

- O problema com o Castor Pesado foi que ele encontrou Poder sem saber como o conseguiu.

 

- Mas durante anos tu disseste-me que ele é um mentiroso, que o Poder dele foi todo inventado.

 

- E é. Bem vês, ele inventou-o. Mas pensa por um momento. Sei que detestas a ideia do mundo ser uma ilusão, mas considera isto porque é o segredo da força dele. O Poder de Castor Pesado está na cabeça dos outros.

 

Pequeno Dançarino parou, voltando-se nos calcanhares.

 

- O quê?

 

Ela lançou-lhe um olhar sabedor, com um traço de satisfação ao canto dos lábios.

 

- É isso. O Poder dele está na cabeça dos outros. Eles acreditam por ele. Se preferires, eles Sonham a realidade do Poder dele... e é tudo uma ilusão.

 

- Ilusão?

 

- Se for comparada com o Um.

 

- Mas... e se a Unidade também for uma ilusão?

 

- Então, é a ilusão definitiva. Mas funciona. Desde que chegaste aqui já me contaste acerca da armadilha dos carneiros. Contaste-me como Sonhaste os antílopes para virem à armadilha da tua mãe e alimentarem o Povo. Contaste-me acerca dos Sonhos, mas o que eu nunca te contei foi que o teu sonho com o Um, dessa vez, foi tão forte que o partilhei.

 

Ele fitou-a estupefacto:

 

- Tu?

 

Ela acenou em concordância.

 

- Oh, sim, senti-te e à tua fome. Tal como o antílope... e as ovelhas da montanha. É por isso que, se o Um é ilusão, é a mais poderosa. Pensa nisso e recorda-te de quando tivemos a nossa discussão no primeiro dia sobre provares-me que realmente existias. Eu sabia que tu eras real por ter partilhado esse Sonho. E é por isso que sabes que os antílopes e as ovelhas de montanha existem. Tu foste Um com eles.

 

Uma compreensão gelada, mais fria do que o vento glacial arremessando-se sobre as encostas rochosas, corroeu-lhe a própria alma. Por longos momentos ficou estático, fechado nos seus pensamentos à medida que as peças começavam a precipitar-se para os seus lugares. Aquiesceu, Num.

 

absorto, levantando o olhar espantado da neve endurecida, em flocos de gelo, para lhe perguntar mais, mas ela fora-se embora. Parou para dar um pontapé numa rama de salva, exultante, antes de correr atrás da silhueta que desaparecia.

 

Perdida nos pensamentos, Alce Encantado passou a Dois Fumos uma colher de corno cheia de guisado fumegante de ovelha da montanha. Afastou-se para se sentar de pernas cruzadas em frente ao abrigo, os olhos inconscientemente voltados para o trilho que descia da alta escarpa.

 

- Ainda à espera dele?

 

- É. - E o coração rasgou-se-lhe.

 

- Ele vai voltar - garantiu-lhe Dois Fumos, bebericando o guisado escaldante.

 

- Ele vai voltar - repetiu Cascos Trepidantes do lugar onde entrançava ervas para fazer um cesto de colheita.

 

Alce Encantado não precisou de se voltar para se aperceber da preocupação na face da mãe. Embora na altura ainda fosse criança, esse encorajamento tinha preenchido muitas noites na tenda do pai durante a longa Primavera da sua ausência. A frase não deixara de se ouvir até que Martelo Estalado encontrara o corpo caído no amontoado de neve na Primavera seguinte.

 

Mordeu o lábio como fizera naqueles dias com tanta frequência, um olhar ansioso percorrendo cada curva e cada volta do trilho, à medida que ele subia a encosta, por cima dos afloramentos e em volta dos maciços de sarças e salva.

 

- Ele tinha de ir - recordou a si própria, tentando não pensar nas coisas que podiam ter acontecido. Uma perna partida na floresta teria significado uma morte terrível. Um passo descuidado numa encosta instável teria desencadeado uma avalanche. Um escorregão num trilho gelado e uma queda, poderiam... Não, não penses nisso.

 

- Sim. - A voz de Dois Fumos acalmou-a. - Ele tinha de ir. Alguém tinha de ir ver como estava Cria Branca. Também creio que os Sonhos foram... Bem, ele precisava de falar com Cria Branca. Talvez tenha sido bom, apesar de todas as quezílias que tiveram ao longo dos anos. Talvez precisem deste tempo para finalmente falarem.

 

Ela não o podia negar. Quantas noites se tinha ele revirado e acordado em sobressalto para fitar a face do lobo que tinha sido gravada tão laboriosamente na parede do fundo do abrigo? Mesmo sentada ao sol como estava, podia sentir a efígie do lobo fitando-lhe a nuca. Por vezes, quando despertada pelo sono perturbado de Pequeno Dançarino, ela olhava para lá e podia jurar que os olhos brilhavam amarelos na noite.

 

E a tensão tinha baixado no abrigo. Ninguém se atirava a ninguém, olhando furtivamente para Pequeno Dançarino. O riso tinha voltado, a gente o Pequeno Búfalo aprendendo anif’ah enquanto os Mão Vermelha, por sua vez, aprendiam a língua deles. Tinham sido contadas histórias em ambas as línguas... uma cura. E a partida de Pequeno Dançarino desencadeara tudo.

 

A memória do último dia picou-a como a queimadura de um cacto num dedo.

 

- Tens de ir. Tens de ir ver Cria Branca.

 

- Não gosto dela. Ela passa a vida a espicaçar-me.

 

- Por favor - suplicou ela. - De outro modo os Sonhos despedaçam-nos. Dois Fumos sabe-o. Vai, pergunta-lhe. Eu amo-te, Pequeno Dançarino. Se não for por ti próprio ou pelos outros, fá-lo por mim. Por favor.

 

E ele fora, sabendo todo o tempo que tinha querido ir, mas recusando-se a admiti-lo para si próprio.

 

- Mas tanto tempo? - A questão que ela não ousava permitir-se, escapou-se.

 

Os pés da mãe rangeram sobre os seixos e uma mão terna apertou-lhe o ombro.

 

- Não foi assim há tanto tempo, filha.

 

- Há quase três luas.

 

- O tempo tem estado mau. Talvez Cria Branca precisasse dele. Pode ter sido ferida. Nunca se sabe.

 

Alce Encantado anuiu lentamente, uma imagem macabra do corpo bizarramente inchado do pai erguendo-se das profundezas da memória. Ao princípio, não tinha acreditado que aquela face hediondamente deformada fora a dele. Com os lábios todos arrepanhados para trás, expondo os dentes, a maxila erguida em ângulo debaixo das órbitas vazias, onde os seus suaves olhos castanhos em tempos haviam estado. Mas tinha-lhe reconhecido o vestuário.

 

Poderia aquela mesma máscara fantasmagórica pertencer agora a Pequeno Dançarino?

 

Pequeno Dançarino saiu, pestanejando da cinzenta luz matinal.

 

Cria Branca afastou as peles pendentes por detrás dele, empurrando as costas pequenas enquanto se endireitava.

 

- Parece que vai estar bom tempo para viajar. Tem cuidado com o declive da escarpa quando passares a linha divisória de águas. Nesta época do ano, vai ser uma caminhada traiçoeira. Nada diz o que está gelado ou o que está solto. E mudanças de vento, também.

 

- Eu tenho cuidado.

 

Cria Branca mastigou as suas gengivas desdentadas, olhando-o com olhos brilhantes.

 

- E dá um abraço por mim a Alce Encantado. Não sei o que lhe vais dizer. Suponho que apenas que estiveste a fazer disparates com uma mulher com idade para ser tua avó.

 

- Bisavó! - corrigiu Pequeno Dançarino. - Que és.

 

- Encontraste respostas para todas as perguntas?

 

- Acho que sim. Menos para aquele sonho.

 

- Aquele com o Lobo na floresta a arder?

 

Ele concordou, olhando para longe, ao longo do trilho descendente. Ela franziu os lábios.

 

- Pois, bem, diverte-te com Alce Encantado enquanto tens tempo. Ele inclinou a cabeça, fitando-a:

 

- O Homem-Lobo disse que eu tinha tempo. Para além disso sorriu de esguelha -, o Poder não me pode tornar naquilo que eu não quiser ser. Nem que eu me recuse a ser.

 

- Queres apostar? - perguntou ela secamente. Ele concordou sobriamente.

 

- Prometi à minha mãe. Cada vez que falas acerca do Poder, ouço as palavras dela ecoando-me na cabeça.

 

- A tua mãe foi Água Límpida.

 

- A minha mãe foi Raiz de Salva... E, para além disso, vê o que dar ouvidos ao Poder fez a Água Límpida.

 

Cria Branca sorriu, expondo as rosadas gengivas vazias.

 

- O problema com o Poder, rapaz, é que nós, mortais, só podemos ver uma ínfima parte da Espiral.

 

Ele deu-lhe uma palmadinha afectuosa nas costas.

 

- E eu nem tanto quero ver.

 

- Vai ter com a tua mulher. A cama dela está vazia há muito tempo. Se for tão apaixonada como eu era na idade dela, vai-te arrastar para o meio das peles antes que tenhas tempo de pousar a mochila.

 

Ele abanou a cabeça e deu-lhe um último abraço de despedida.

 

- Obrigado pela conversa... e pelas lições.

 

- Obrigada pela lenha. Volta quando quiseres. E manda também Touro Esfomeado e os outros. Gosto de companhia.

 

Ele acenou enquanto começava a descer o trilho.

 

À medida que aquecia os músculos adormecidos, tentou fazer algum sentido das ideias que lhe rodopiavam na cabeça. Já tinha uma estrutura, que tinha começado a separar-se, um meio de compreender os Sonhos, o caminho do Poder - e, esperava ele, o processo de evitar as suas ciladas.

 

Em frente, o trilho serpenteava através do bosque antes de se bifurcar, indo um dos ramos para baixo em direcção ao Rio Límpido enquanto o outro subia através das árvores até ao topo da crista e seguindo a rota dos alces para o sul. Tomou o carreiro elevado, seguindo o caminho dos alces, o caminho que conduzia a Alce Encantado.

 

Ao menos agora, após meses de conversa, de escuta dos pensamentos e palavras de uma velha Sonhadora, podia colocar os Sonhos em perspectiva. Mais tinha uma semana de viagem pela frente. Durante esse tempo, podia pôr as ideias em ordem, reexaminar as discussões com Cria Branca, imaginar como combater os Sonhos e manter-se feliz enquanto vivesse com a sua mulher. Tudo iria correr bem.

 

Ela diz que uma pessoa não pode ter ambos. Muito bem, Mãe, eu ouvi o teu aviso. O teu filho nunca fará o que Castor Pesado fez aos outros. Ninguém se vai sentir assim. Eu escolhi a minha mulher. Os Sonhos, o Lobo, e o espírito do Primeiro Homem podem seguir o caminho deles.

 

Pela primeira vez, desde a morte de Raiz de Salva e a profanação da Trouxa de Lobo, se sentiu satisfeito consigo mesmo e com aquilo que era.

 

Atacando o caminho, riu alto, deleitando-se com o fogo do sol-nascente por entre as nuvens.

 

Um movimento nas árvores chamou-lhe a atenção; enquanto olhava avidamente, esperando ver um alce, uma mancha negra deslizou através de uma aberta nas árvores.

 

Veado?

 

Então, o animal precipitou-se através de um pequeno prado entre as árvores. O enorme lobo negro parou, uma pata levantada enquanto fitava Pequeno Dançarino com os enormes e chamejantes olhos amarelos: o Vigilante!

 

Os pés perderam-lhe a ligeireza enquanto um aperto lhe comprimia o fundo da garganta impedindo-o de engolir.

 

- Vai-te embora! - acenou com os dardos ao animal. - Vai-te embora e diz ao Primeiro Homem que não sou o Sonhador dele. Tu e ele... bem, não podem fazer de mim o que não quero ser! Ouviste?

 

O Lobo não se mexeu.

 

- Sou Pequeno Dançarino... e só pertenço a mim próprio!

 

O Lobo baixou a cabeça, o focinho junto à neve gelada como se farejasse uma pista, os olhos desconfiados no Pequeno Dançarino.

 

- Vai! - apontou o bosque com os dardos.

 

O Lobo voltou-se, cabeça baixa, cauda descaída, e trotou silenciosamente em direcção às árvores.

 

Pequeno Dançarino sorriu, batendo as hastes dos dardos ritmicamente umas nas outras enquanto trauteava uma canção. A ligeireza tinha-lhe voltado aos pés e de novo ele praticamente dançou o seu caminho trilho abaixo. Imagens de Alce Encantado, em conjunto com a derrota do lobo, disputavam-lhe a primazia dos pensamentos.

 

Só então notou que os leves traços de nuvens no céu se tinham carregado, perdendo o aspecto inflamado do alvorecer. Agora pareciam escurecer. Chegado à crista, estudou o horizonte a ocidente, levemente enervado pelo banco de nuvens negras que rolavam ao seu encontro.

 

Corno Solto avançou pouco a pouco pelo trilho, firmando os pés. O dardo-tão cuidadosamente feito - repousava na alça do seu atlatl. Mediu a distância, e apontou para o centro das largas costas de Pequeno Dançarino. O jovem, absorto, caminhava, apenas tendo olhos para o caminho em frente. A esta distância, Corno Solto não podia falhar.

 

- Por Alce Encantado! - silvou entre dentes. Um formigueiro de vitória inflamou-lhe o coração. Um sorriso cruel bailou-lhe nos lábios.

 

O braço estendido, os músculos poderosos contraídos... e quase caiu para trás quando o atlatl foi agarrado pela retaguarda.

 

Um grito de surpresa morreu-lhe na garganta quando se virou para enfrentar o assaltante.

 

- Sanhaço!

 

Ela colocou um dedo nos lábios, fazendo-lhe sinal para a seguir. Deslizou então levemente para a espessura do bosque.

 

Ele seguiu-a, sentindo uma fúria ardente a crescer. Mal chegados à cobertura dos abetos, ele rangeu os dentes:

 

- Eu não acredito. Que raio de idiotice...

 

- Chiu! - atirou-lhe um olhar reprovador, erguendo-se para espreitar o trilho em baixo.

 

Ele sentou-se, praticamente tremendo de raiva.

 

- Desta vez foste longe de mais! Desta vez...

 

- Louco! - sibilou ela. - Anda daí, temos de falar.

 

Afastou-o para longe do trilho, deambulando através do bosque. Deslizou agilmente sobre um desmoronamento que ele teve de escalar.

 

Finalmente satisfeita, parou e voltou-se, as mãos na cintura elegante.

 

- Senta-te.

 

- Tu não vais...

 

- Sentar! - apontou para baixo com o dedo esticado.

 

A despeito de si próprio, ele baixou-se e ela deixou-se cair para o encarar.

 

- Acabo de te salvar do pior erro da tua vida.

 

- Pior erro! Eu quase...

 

- Te arruinavas! - Sanhaço sacudiu a cabeça, os olhos flamejantes.

 


Que é que tu julgas? Que o matavas e a Alce Encantado vinha a correr para os teus braços? Tens menos juízo que um alce no cio. Corno Solto fitou-a ferozmente.

 

- Escuta - explicou ela, de mãos abertas. - Alce Encantado ama-o, isso mesmo... ama-o

 

- Como é que sabes?

 

- Porque estive a observá-la. Tens procurado muito acima. Eles estão lá em baixo, na extremidade sul. Num abrigo num dos desfiladeiros.

 

- Sabia que ele tinha voltado para junto de Cria Branca.

 

- E depois? Ias matá-lo? Alce Encantado ia odiar-te pelo resto da vida! Ela ama-o. E se matasses o homem que ela ama, que aconteceria? Pensas que ela voltava sequer a olhar para ti?

 

- Como é que ela ia saber quem o matou?

 

- Como é que ia saber? - Sanhaço riu, uma mão delgada em frente da boca. - Quem mais passou o Inverno fora vagueando pelos bosques como um tolo? És o único, bezerro tonto! Aí está como ela ia saber. E cada acampamento Mão Vermelha fala disso, especulando.

 

Através do nevoeiro da ira e da confusão, aquilo fazia sentido.

 

- Até que enfim que entendes. - Ela sorriu-lhe. - Ouve, temos sido amigos há muito tempo. Não posso ver-te arruinar duas vidas só porque o teu pénis se sobrepôs ao teu cérebro.

 

- Como é que sabes isso tudo, rapariga? Um olhar endiabrado atravessou-lhe o rosto.

 

- Porque eu posso ser estranha. Mas sei ver. Vejo tudo... animais, pessoas. Sei o que faz as pessoas agirem como agem, porque sempre vivi à parte. Enquanto a maior parte das pessoas anda enredada nos seus problemas, eu observo, aprendendo por que razão fazem aquilo que fazem. Como animais.

 

Ele tentou imaginar o que fazer em seguida. A maior urgência era escapulir-se. Então, ela sorriu-lhe de novo e destruiu-lhe a linha de pensamento.

 

- E já não sou “rapariga» há três meses.

 

- Mas...

 

- Não, também não fui para a tenda menstrual. Eu sou a Sanhaço. Quando os sinais vieram pela primeira vez, fui para o bosque. Quando estiver pronta, deixo-os adular-me e pintar-me. Mas ainda não estou pronta.

 

Ele abanou a cabeça, confundido:

 

- Mas é a coisa mais importante que acontece a uma mulher. É especial!

 

- E eu sou Sanhaço. Sou especial à minha maneira.

 

- Não queres preocupar-te a evitar Sangue de Urso?

 

- Sangue de Urso? - deu uma risadinha para si própria. – Havia de ter uma bela caçada, tentando apanhar-me. Não, eu esfumava-me quando a cerimónia acabasse. E creio que a maior parte das pessoas tão à espera disso. Até minha mãe já desistiu. Corno Solto esfregou- a cara com a mão gelada.

 

- Então, estás a contar que eu deixe ir Alce Encantado?

 

- Claro. De qualquer modo, tu não foste feito para ela. És muito diferente. Ela quer mais do Que aquilo que podes dar-lhe. E isto não é uma bofetada na tua cara. Ela sonha de mais. Tu precisas de uma mulher mais prática.

 

- Sim? Quem?

 

- A Grilo. Ela morre de amores por ti. Tem andado pelo acampamento, de lado para lado», vigiando os trilhos, quase morrendo por dentro. Ela sempre amou-te sempre fugiste para fora do alcance dela

 

- Grilo?

 

- Sim, Grilo. E aqui “estás tu a tentar arruinar a tua vida a da Alce Encantado e a de Grilo. Se tu matares o namorado de Alce Encantado Grilo sentir-se-ia miserável.

 

- Mas ela ainda é uma garota!

 

- Isso é porque tu só tens tido olhos para o corpo da Alce Encantado. Tens andado cego.

 

- E tu? Talvez estejas ciumenta porque eu quero Alce Encantado? Sanhaço lançou-lhe um olhar avaliador.

 

- Não sei se estarei interessada em fazer amor contigo Por uma razão, os mais velhos iriam murmurar sobre incesto. Somos muito chegados, primos segundas. Para além disso, tu não conseguirias suportar-me. É divertido fazermos partidas um ao outro, mas tu ias querer uma esposa que estivesse sempre em casa contigo. Tu conheces-me Sabes o que gosto de fazer. Consegues imaginar-me como uma esposa?

 

Ele abanou a cabeça.

 

Ela levantou a cabeça para as nuvens ameaçadoras que caíam

 

- Escuta. Nós não vamos a lado nenhum. Conheço um lugar perto daqui. Esta tempestade vai ser dura. Vamos fazer uma fogueira. Tenho alguma carne curada na minha mochila. Chega para nos aguentar. Vamos ter imenso tempo para falar.

 

Ela pôs-se em pé, guiando-o para fora do bosque. !

 

Teria ela razão? Teria sido um erro matar o rapaz Pequeno Búfalo”? Alce Encantado tê-lo-ia odiado?

 

Pior, teria ele sido assim tão tolo?

 

- Espero que esse homem da Alce Encantado tenha juízo suficiente para se abrigar - resmungou Sanhaço, enquanto caminhava para fora das árvores.

 

Neve, padrões entrelaçados como espectros de vento, caíam nas folhas. Flocos com metade do tamanho de uma mão de mulher eram despejados do cinzento-opaco do céu, revoluteando, amontoando-se na terra, acumulando-se em corcovas sobre as altas ramas de salva e cobrindo as rochas como gigantescos cogumelos até os próprios topos desaparecerem... fundindo-se na espessura crescente.

 

Quando o grupo de Touro Esfomeado se amontoou no abrigo, podiam ouvir o bater dos flocos nas cortinas de pele.

 

- Neve aos montes - indicou Três Dedos, comentando o que era óbvio. - E veio bem tarde. - Assobiou como uma cotovia do prado, como se esse gorgeio lamentoso pudesse de algum modo pôr fim à monotonia de esperar pelo fim da tempestade.

 

- Detesto ser eu a lembrar, mas a situação da madeira começa a ser preocupante. - Corvo Negro coçou-se por detrás da orelha e levantou-se para afastar as peles, deixando apenas uma tira de luz cinzenta penetrar no abrigo. Levantou o pescoço enquanto examinava os flocos que caíam e deixou as cortinas fechar.

 

- Não estou para isso - murmurou Touro Esfomeado.

 

- Preguiçoso - queixou-se Cascos Trepidantes do lado. - Engraçadinha? Cotovia do Prado? Vamos tropeçar por aí, e ficarmos molhadas e geladas enquanto esses homens rijos tremem e vacilam?

 

- Os homens têm esse traço frágil na sua constituição - concordou Engraçadinha, um reflexo diabólico no olhar, enquanto observava o marido.

 

- E da última vez fomos nós. - Cotovia do Prado franziu os lábios, enquanto as crianças discutiam a respeito de qualquer coisa no fundo do abrigo. Por um instante, rosnaram entre elas num jogo barulhento que envolvia rastejar sobre os leitos enquanto cada qual segurava as pernas do outro para criar o que chamavam de verme monstro.

 

Cotovia do Prado sacudiu a cabeça:

 

- Se essa fosse a única vez em que tivesse de dar cobertura ao meu marido preguiçoso, creio que seria um milagre tão grande como se um búfalo branco me levasse no dorso a visitar a Teia-de-estrelas.

 

Pousou ao lado a sovela e o tendão, esticando-se para pegar no casaco de pele de ovelha.

 

- Está bem! - explodiu Três Dedos, pondo-se em pé. - Nós vamos procurar madeira! Talvez aquele abeto grande derrubado através do desfiladeiro. De qualquer modo, está no meio do trilho.

 

- Grande ideia. - Touro Esfomeado cruzou os braços no peito. - Tu racha-lo ao meio e chamas-nos quando estiveres pronto a movê-lo.

 

- E que tal uma coisa um pouco menos ambiciosa, tal como um par de cargas de coisas miúdas - sugeriu Corvo Negro, apontando um dedo a Três Dedos e erguendo uma sobrancelha.

 

- Aposto que Castor Pesado não apanha nenhuma lenha no meio de tempestades de neve.

 

A voz melodiosa de Cotovia do Prado tilintou:

 

- Quando quiseres podes ir viver com ele. Nunca tentarei impedir-te de uma coisa como essa.

 

Três Dedos acabou de calçar as mocassinas exteriores e sorriu para Touro Esfomeado, apontando o polegar para trás na direcção da mulher:

 

- Será isto gratidão? Depois de todos os anos que tomei conta desta mulher, que a protegi de...

 

- Sim? - Cotovia do Prado inclinou-se para a frente, os lábios afastados, à espera. - Tu fizeste o quê?

 

Três Dedos pôs-se rapidamente em pé, enrolando uma pele de ovelha em volta dos ombros e puxando um capuz de raposa para cima da cabeça.

 

- Nada. Vocês, dois caçadores, vêm à caçada? Ou são suficientemente loucos para se sentarem aqui com esse bando de galinhas da pradaria?

 

- Ai, os sacrifícios que fazemos em nome da tranquilidade da família. - Touro Esfomeado deu uma palmada no ombro de Corvo Negro e abaixou-se, saindo para a tempestade.

 

Dois Fumos riu-se entre dentes do seu lugar no fundo do abrigo, onde ele costurava um couro, estupendamente curtido, num novo par de mocassinas. Ninguém, nem mesmo os melhores, conseguiam competir com o trabalho de Dois Fumos.

 

Cascos Trepidantes deu um pontapé num grande amontoado de peles de dormir.

 

- Ei! Minha menina. Acorda.

 

- As peles levantaram-se e viraram-se, a face sonolenta de Alce Encantado espreitando debaixo do monte.

 

- O quê?

 

- Acabámos de mandar os homens à procura de lenha. Logo que eles tragam um carregamento, poderemos querer pegar em alguma dessa raiz de biscoito que desenterrámos no dia em que a tempestade começou e transformá-la em algo de tostável. Sabes, fazer uma cova funda para a fogueira e cozinhá-la bem.

 

Alce Encantado bocejou, esfregando os olhos:

 

- Continua a nevar?

 

- Como nunca viste em dias de vida.

 

- O Pequeno Dançarino ainda não voltou?

 

- Ora - replicou-lhe a mãe suavemente. - Não querias vê-lo a viajar num tempo como este. Pensa no piso e em como se não pode avaliar o estado da superfície do caminho. Caminhando nisto, um passo em falso pode deixá-lo... E há gelo e neve levemente gelada que... Bem, tu vais querê-lo são e salvo, não é, filha? - Cascos Trepidantes baixou os olhos, olhando para longe, enquanto mexia desajeitadamente com a bainha da saia.

 

- Ele vai continuar com Cria Branca enquanto isto durar - decidiu firmemente Engraçadinha. - Ela não o deixava sair numa trapalhada destas. Cria Branca é mesmo assim. Ela sabe. Uma mulher não chega à idade dela sem saber, pelo menos algumas coisas.

 

- Ela tem um pacto com o tempo - concordou Dois Fumos. Estava deitado junto das mocassinas e procurava no meio da sua colecção de ervas como se lhe ocorresse uma ideia. Ergueu uma após outra para inspeccioná-las contra a luz fraca. O ar confundido não abandonou a sua cara tisnada pelo tempo.

 

Alce Encantado puxou para trás o cabelo desordenado, pescando do fundo da sua mochila um pente de longos dentes, feito de uma omoplata de veado. Procurando os emaranhados, penteou os cabelos em longas madeixas brilhantes antes de o entrançar. Enrolando e arrumando o leito, ela saiu para o temporal, seguindo o trilho até aos salgueiros para se acalmar.

 

Vendo-a ir, Cascos Trepidantes comprimiu a testa com um punho fechado.

 

- Pelo Primeiro Homem, espero que ele volte. Ela é nova de mais para passar pelo que eu passei. - O rosto franziu-se. - Eu tinha-a a ela... e a Chuva Molhada. Mas ela é tão nova.

 

Cotovia do Prado pousou-lhe uma mão amiga no ombro:

 

- O que tiver de ser, será.

 

- Abanou a cabeça. - Não sei. Depois do que o Pequeno Dançarino passou, não creio que os espíritos o abandonem agora.

 

- A Cereja de Engasgar disse que ele ia fazer grandes coisas - lembrou Engraçadinha. - Vou confiar nela.

 

- Sou eu quem o conhece há mais tempo - suspirou Dois Fumos. Por mim, não creio que o Poder o vá abandonar. Não sei o que vai fazer do meu Pequeno Dançarino, mas não acredito que tenha chegado tão longe para ser deixado fora do caminho - sorriu e piscou um olho a Cascos Trepidantes. - Mas, então, tu sabes acerca dos tresmalhados. Nós sentimos coisas.

 

As crianças riam e guinchavam enquanto se rebolavam e lutavam sobre as peles.

 

- Ei! Vocês aí, seus furõezinhos, estejam quietos. Aqui vivem pessoas e não um bando de lontras. - Engraçadinha fustigou a pilha com um malho de ervas.

 

- Poder? - Cascos Trepidantes abanou a cabeça. - Por que será que a simples lembrança dele me põe nervosa?

 

- Porque há muito tempo que andas connosco... - disse Cotovia do Prado, meio a brincar. - E antes disso, nós estivemos junto de Castor Pesado muito tempo.

 

- Esperar para ver. - Dois Fumos colocou de novo a sua erva no saco de couro. - Quando as pessoas lidam com os longos prazos do Poder, tudo o que podem fazer é esperar. O Poder escolhe o seu próprio tempo e lugar. Faz o que tem a fazer quando entende que o deve fazer.

 

- Isso é muito tranquilizador - resmungou secamente Cascos Trepidantes. - Ela é minha filha.

 

Dois Fumos nada mais disse, baixando os olhos e entrelaçando os dedos em frente do ventre descaído, enquanto pensava nas suas ervas.

 

As abas afastaram-se e Alce Encantado entrou, a cabeça já polvilhada de neve. Sem uma palavra, dirigiu-se ao recipiente que armazenava as raízes recém-colhidas. Teve de passar por cima de crianças que se contorciam para alcançar a pedra de moer. Escovou a terra da casca das raízes com um punhado de ervas rijas. Então, usou o pilão para esmagar as raízes grossas antes de as moer. O pilão soava cavo no abrigo, raspando, batendo e raspando de novo.

 

A medida que trabalhava, os músculos dos antebraços de Alce Encantado saltavam e retesavam-se debaixo da pele macia, um reflexo do turbilhão da mente. Ela atacava as raízes, moendo as fibras contra a pedra como se, dessa maneira, pudesse exercer alguma represália sobre o mundo que tanto a frustrava.

 

Só Dois Fumos se apercebeu da lágrima que lhe escorregou pela face.

 

Pequeno Dançarino tremeu na cavidade deixada pela árvore caída. Por cima, as raízes retorcidas apontavam os cinzentos dedos esqueléticos em direcção ao céu tempestuoso. Presos no seu abraço, pedras, terra e uma massa de detritos, criavam um frágil abrigo contra a incessante dança da neve que caía.

 

Pestanejou, aconchegando fortemente os braços debaixo da roupa. Uma dor mordeu-lhe o lado da cabeça. Estúpido, louco... de todas as idiotices que ele alguma vez fizera, ele sabia fazer melhor do que viajar numa tempestade como esta. A primeira opção devia ter sido voltar para trás e correr para o abrigo de Cria Branca. A segunda deveria ser ter feito um abrigo, juntar lenha e esperar que a tempestade passasse.

 

Mas não. Imagens do rosto de Alce Encantado impeliram-no a continuar. Pensamentos do seu corpo quente contra o seu tinham-no espicaçado para a tempestade, levando-o a seguir um caminho que ele antes tinha trilhado apenas por duas vezes. Por uns tempos, tinha-se iludido a pensar que aquilo podia ser apenas mais uma tempestade de Primavera - húmida, selvagem e rápida a despejar a carga de neve e a apressar-se através das planícies paraleste. Pelo contrário, esta tinha-se mantido sobre as montanhas como um lince paciente sobre um coelho encurralado.

 

A esse pensamento, ele ainda tremeu mais.

 

Então, tinha subido até ao topo da crista, imaginando encontrar melhor caminho onde o vento tivesse varrido a neve. A cornija tinha-o enganado. Pousara o pé onde apenas a neve lhe suportava o peso. Recordava-se da contracção no estômago, do agitar dos braços e de cair...

 

Há quanto tempo estaria inconsciente na neve? Tinha tido sorte em chegar ali. Pestanejou, sentindo a mordedura do frio nos dedos e no rosto. Uma dor aguda fustigava-lhe o cérebro, um golpe coagulado ardera e aferroara-lhe a face, de onde o sangue tinha corrido para a neve e congelado.

 

Os dardos tinham desaparecido, bem como a mochila. Agora, apenas a esperança lhe restava. Esperança que um milagre acontecesse, de que a tempestade cessasse, de que um chinook substituísse o calor da vida que se evaporara da sua carne gelada.

 

Gemeu ao olhar por sob as raízes, fitando o céu tremendo. A queda incessante de flocos gigantes continuava a deslizar para fora das nuvens sombrias. Intermináveis, dançando no ar, os penugentos tufos de neve desciam, revoluteando, para virem bater no solo com um leve sopro.

 

- Tenho de... mover-me. Fazer calor.

 

Rangeu os dentes para evitar gritar e começou a bater com os pés. Uma dor intensa recordou-lhe que tinha caído mal sobre aquela perna. Não parecia partida mas a coxa tinha inchado e apertava nos calções de caça. Quase caiu quando notou que os pés estavam insensíveis.

 

Um tremor incontrolável tomou-o enquanto cambaleava, os braços apertados contra o peito. Tinha de criar calor pelo movimento, não importando que a dor da perna o trespassasse de agonia em cada passo. Há quanto tempo não comia nada para além de neve? Quanto tempo teria até que o corpo se esgotasse e já não pudesse produzir calor?

 

Pestanejando estupidamente, esbarrou contra os ramos carregados de neve de um abeto e gritou contra a poeira gelada que o atingiu quando a carga de neve desabou sobre ele. Batendo em si próprio com as mãos como se fossem mocas, continuou cambaleante, trocando os pés.

 

O mundo inclinou-se e bateu-lhe, a face contra a neve. Sobre os membros trémulos, ergueu-se sobre as mãos e os joelhos, o frio apertando-lhe a alma como as mandíbulas de um urso num osso de alce.

 

A visão esfumou-se como se olhasse através de um véu de lágrimas de prata.

 

Onde estou? Para onde vou? Por que estou aqui fora? Onde é a minha casa? Estou... perdido... perdido... Alce Encantado? Um grito soluçante ficou-lhe preso na garganta quando dedos de água gelada, de neve derretida, lhe invadiram o capuz e lhe escorreram pelas costas.

 

Estupidificado, lutou para se erguer, pontapeou o caminho por mais três passos, e caiu de novo sobre o rosto.

 

Até o coração parecia indolente no peito enquanto ele se esforçava para continuar a despeito da dor e do esgotamento.

 

Uma sensação tépida começou a substituir o entorpecimento dos pés e mãos - tepidez deliciosa - e ele estava tão cansado. Se ao menos se pudesse deitar por um momento... dormir... só por um momento...

 

A luz da fogueira projectava sombras vermelho-alaranjadas na rocha irregular do abrigo.

 

Alce Encantado arquejou, levantando-se subitamente no leito.

 

- Que foi? - perguntou-lhe Dois Fumos, sentado, vigiando o fogo sobre a cova cheia de odoríferas raízes de biscoito.

 

Alce Encantado lutou para recuperar a respiração, o pânico nas feições delicadas.

 

- Eu... - e enterrou a cabeça nas mãos.

 

Dois Fumos ergueu-se, movendo cautelosamente a perna aleijada, de modo a não incomodar quem dormia. Sentou-se na cama dela, colocando-lhe um braço sobre os ombros, enquanto ela soluçava suavemente para si própria.

 

- Chiu, calma. Então, vamos lá. O velho Dois Fumos está aqui. Diz-me o que está mal. Um sonho?

 

Ela fungou e limpou as lágrimas que lhe corriam dos olhos, assentindo com a cabeça. Recusou-se a olhar para ele, sofrendo sozinha.

 

- Vamos lá. Estás em segurança. Estás aqui, quente e rodeada por pessoas que te estimam. Que foi? Que sonho terrível foi esse?

 

Ela levantou o olhar, olhos desesperados ao encontro dos dele pela primeira vez.

 

- O P-Pequeno Dançarino - gemeu ela. - Está... Oh não... está morto. - E rompeu de novo em lágrimas.

 

Dois Fumos começou a dizer algo, abraçando-a com força, dando-lhe pancadinhas ternas, mas os olhos fixaram-se na efígie do lobo gravada na rocha fuliginosa.

 

O Poder tinha estado activo esta noite. Praticamente, podia sentir-lhe o gosto no ar. E ele tinha sentido o desamparo, a mesma sensação de dor que na noite em que a Trouxa de Lobo fora profanada.

 

O coração bateu-lhe em falso, porque podia jurar que os olhos do lobo, naquele breve instante, tinham brilhado com um ar de triunfo.

 

- Tão perto-sussurrou a Trouxa de Lobo.

 

- Estamos presos por um fio. Tens de brincar de forma tão arriscada com as paixões da juventude?

 

- A rapariga, Sanhaço, agiu por conta própria. A tempestade exigiu toda a minha habilidade. Esperemos que seja o suficiente. Tive de desequilibrar a Espiral para executar isto. - Sonhador de Lobo parecia cansado. Talvez tenha conseguido algum tempo. Talvez possa alcançar o Pequeno Dançarino. O Vigilante está a postos.

 

- Talvez nos tenhas condenado a todos.

 

- Está na hora do livre arbítrio. De Castor Pesado... e do rapaz.

 

 

Castor Pesado olhou ferozmente para a neve soprada pelo céu em volta do acampamento. Um vento gélido rugia, Montanhas do Búfalo abaixo, gemendo em volta da cobertura de rochas no abaulado das cristas, contorcendo-se através dos charcos, antes de se alinhar, soprando espectros de neve através dos campos de salva, empilhando-se como pequenos diamantes levados pelos ares, para se acastelarem por detrás das escarpadas ramas de salva.

 

Humedeceu os lábios, provando os flocos, sentindo os cristais fustigar-lhe a pele. Com os olhos semicerrados contra a ventania, fitou a tempestade, admirado. Nunca, desde os tempos que as histórias contavam, tinha havido uma tal tempestade tão tarde nas planícies. Nunca ele tinha visto o trigo mourisco, oflox1 e as asteráceas2 congelados nos seus caules.

 

Meditava sobre o destino dos guerreiros que tinha mandado bater o trilho até ao Rio Límpido, para além da Parede Vermelha e até ao território Anifah. A neve, nesta altura, deveria estar a derreter, os trilhos a abrir. Os acampamentos Anifah, esgotados pelo Inverno, deveriam ter sido presa fácil para os seus jovens.

 

Nem todos os jovens tinham ido para as terras dos Anifah. Muitos tinham ido à procura de búfalos da Primavera, esperando encontrar carne fresca das manadas juvenis e talvez emboscar antílopes ao mesmo tempo. Esta era a altura em que as corças deixam os grandes rebanhos,

 

Plantas polemoneáceas de flores variadas, nativas da América.

Plantas herbáceas semelhantes a malmequeres.

 

vagueando, isoladas, à procura de locais para dar à luz na salva espessa, onde os coiotes não conseguiriam encontrar os gémeos recém-nascidos.

 

E como se arranjaram esses jovens? Até ao momento, um punhado deles tinha regressado, cambaleante, pés gelados, faces ulceradas e queimadas. Nada bom. A carne tinha ficado negra naqueles que ele tratara. A capacidade de sentir o gelo num membro de um ser humano vivo aterrava-o. E os que não tinham regressado? Que lhes tinha acontecido? Tinham deixado o acampamento levemente vestidos para a caça, não envergando grande coisa como roupa. Apesar de tudo, um caçador não levava consigo um cão de carga. Que espécie de loucura seria essa?

 

O vento batia-lhe com violência, procurando empurrá-lo para trás, chicoteando-lhe as pernas com o vestuário e arrastando-lhe o forro de pele de raposa do capuz.

 

Impassível, enfrentou a tempestade, os olhos semicerrados, olhando em direcção das Montanhas do Búfalo e do povo que lhe resistia. Em breve iria mover-se em direcção a essas montanhas, com os seus viçosos prados verdejantes. Tinha de o fazer. A seca tinha voltado a roubá-los, as chuvas cada vez mais escassas. O búfalo tinha-se tornado quase tão escasso e distante como no ano em que amaldiçoara Raiz de Salva e quebrado o poder dos mais velhos entre o Povo. Agora, ele tinha necessidade dos terrenos de caça dos Anifahs. Se não conseguisse novas terras para o seu povo caçar, se não pudesse tirar mais despojos dos Cabelo Cortado, Garça Branca e Búfalo de Fogo, então, eles podiam começar a questionar a visão que ele lhes tinha transmitido.

 

- Os Sonhadores podem ser mortos! - sussurrou ele para o vento.

- Mas só os Sonhadores sem imaginação é que têm de se preocupar.

 

Enchendo os pulmões com o ar gélido, franziu as sobrancelhas em direcção à tempestade. Onde estariam os seus jovens? Teriam todos alcançado a segurança? Ou jazeriam mortos e gelados agora mesmo, os olhos cegos soprados pela neve, os dedos hirtos erguendo-se acima dos detritos, quais garras apontadas à ventania que os levava?

 

Ilusão. Vida, o mundo, tudo era criado de ilusão. Ele Sonhava...

 

...Afundando-se no calor suave, tal como uma pena no ar, ele vogava, deslizando para a frente e para trás à medida que se acomodava na neblina.

 

- Agora a tua alma podia ser minha. Estás no limiar da separação com o teu corpo, de te tornares um fantasma ou de subires à Teia-de-estrelas. Qual é o teu desejo, Pequeno Dançarino?

 

»Queres voltar a ver a tua mulher? Queres conceber os teus filhos? Vais entregar o teu povo aos métodos do falso Sonhador? Vais deixar morrer a Trouxa de Lobo? Por que irás fazer isso? Por que queres ignorar os lamentos da Espiral? Dos círculos? Do teu povo?

 

Na neblina, Pequeno Dançarino flutuava, gozando um sentimento de alívio, ciente de que o seu sofrimento ficara, algures, atrás dele - por detrás da neblina de calor que acalmava a sua alma cansada

 

- Mas é tão bom aqui. Tão... bom...

 

- O que sentes é o mundo da morte. A tua alma balança na fronteira. Uma superfície suave, que parecia ser uma mão humana gigante, susteve-lhe a queda, aconchegando-o enquanto o calor nebuloso se movia em volta como nuvens sobre cumes de montanhas.

 

- Que aconteceu? Onde estou?

 

Fora do calor ondulante, formaram-se as feições de um homem. A face brilhava, radiante, iluminada do interior. Olhos negros-brilhantes fitavam-no de ambos os lados de um nariz direito.

 

A respiração de Pequeno Dançarino suspendeu-se na garganta; nunca tinha visto um homem tão belo. Nunca tinha sido tão cativado pelo Poder e empatia nos olhos de um homem.

 

- Quem és tu?

 

O homem riu-se, o som enrugando a bruma, voltando-a para cá e para lá, como se ele estivesse a ver cardumes de vairões no Rio da Lua. O próprio ar parecia vivo com o riso, e a alma de Pequeno Dançarino deu um salto enquanto os seus nervos vibravam.

 

- Sou o Sonhador de Lobo, aquele a quem tu chamas o Primeiro Homem. Tive em tempos que fazer a escolha... tal como tu tens de a fazer agora. Só que talvez, naqueles tempos, as escolhas fossem um pouco menos difíceis.

 

- Por que estou eu aqui?

 

-Estás a morrer, Pequeno Dançarino. O teu corpo estáagelarea tua alma vagueia livre.

 

A brisa tépida que o rodeava alterou-se por momentos, deixando de ser informe para se transformar em flocos de neve batidos pelo vento. Quase debaixo de si pôde reconhecer a massa soterrada do seu corpo, coberto de neve, começando já a esconder-se na corrente que o rodeava.

 

- Bem vês, a escolha é tua. Vive e terás algum tempo com a tua Alce Encantado. - A cena mudou e Pequeno Dançarino viu-se a olhar para as profundidades familiares do abrigo de Touro Esfomeado, vendo Alce Encantado num sono agitado. De um lado, Dois Fumos olhava para cima, como se o pudesse ver. Através da visão, Pequeno Dançarino podia sentir a alma do tresmalhado saboreando o Poder.

 

Os olhos voltaram-se para Alce Encantado e o amor gritou-lhe do fundo de si. Tentou gravar a memória do seu rosto delicado, das linhas suaves das faces e do queixo firme. A riqueza do longo cabelo derramava-se sobre as peles, realçando a sua grande beleza.

 

Ele sofreu.

 

- Dar-te-ei tanto tempo quanto puder. A Espiral está a ficar cheia. Impedi Castor Pesado de se mover. Posso manter o teu povo em segurança durante mais algum tempo, dando-te mais tempo. És muito jovem, mas, na altura, Água Límpida também resistiu durante um longo tempo. Ela não podia suportar o pensamento de que Sangue de Urso lhe tocasse.

 

- Sangue de Urso? O meu pai?

 

-Precisavas da força dele, da sua coragem indomável... por muito estúpida e irreflectida que pudesse ser. Oh, eu dediquei-te muita atenção, a ti e à tua vida. Dei-te tudo o que podia dar... menos a vontade de fazer aquilo que tem de ser feito.

 

- A vontade?

 

- Isso mesmo. O Sábio Lá em Cima, o Criador, fez o universo assim. À medida que roda, os ciclos de estrelas e mundos e insectos, e até mesmo grãos de areia traçam o seu próprio caminho. O Criador permitiu o livre arbítrio, para as coisas escolherem. O que queres observar é o que será. Constróis o teu mundo à tua volta. Supõe que te dizia que o que parece rocha sólida é quase tudo espaço vazio?

 

- Que o mundo é ilusão?

 

- Cria Branca disse-te a verdade, só que ela ainda não alcança as profundidades da sua compreensão. Os padrões que são gerados são fascinantes, rodando, sempre a mudar. A verdadeira essência do universo é como uma tempestade de fermentação. É tão difícil abstermo-nos de vigiar, de nos maravilharmos...

 

- Então, por que o não fazes?

 

O Sonhador de Lobo sorriu-se, uma leve dor enchendo-lhe os olhos, cujo poder deixou Pequeno Dançarino em lágrimas.

 

- Não sou perfeito, meu pequeno amigo... nada na criação o é. Também tenho os meus defeitos. Eu... eu tenho demasiado amor no meu espírito. A sua maneira, demasiado amor é tão terrível como demasiado ódio. Ambos ferem. Tens de compreender que, se tudo existisse em harmonia, nada mudava e o universo ficava estagnado... e morria.

 

»Mas agora tens de escolher. Preferes viver? Ou preferes morrer? Se preferires viver, protejo-te até ao último momento. Deixo-te ter tanto prazer quanto puder. Por outro lado, o meu Povo, todo ele, precisa de ti. Castor Pesado mudou a Espiral.

 

O sorriso gentil de Sonhador de Lobo tornou-se pensativo:

 

- É curioso como uma simples ideia pode ser tão poderosa... como pode mudar o pensamento de tantos até à própria textura das ondulações do universo. No entanto, tu podes corrigir tudo. Podes enfrentar Castor Pesado e provar que ele é falso. Fazendo isso, podes colocar de novo a Espiral. Da última vez, perdemos o mamute, o camelo, o cavalo e a preguiça-

 

Desta vez, não vou perder o búfalo e o antílope e não vou deixar o Povo seguir o caminho de outros.

 

- E se eu escolher morrer?

 

- Será o teu desejo. Não te posso mentir, meu caro. O caminho da morte será muito mais fácil, mais agradável flutuar até à Teia-de-estrelas com Raiz de Salva, Garça Real, Água Límpida, Raposa Dançante e tantos outros. Aí, eles Cantam e Dançam e caçam com outras almas enquanto observam o universo em todo o seu esplendor.

 

Outra voz sussurrou através da neblina:

 

- E eu morrerei contigo.

 

- Quem falou?

 

- A Trouxa de Lobo. Os vossos destinos estão ligados. O Poder dela está já em declínio.Se decidires viver, terás de tomar a Trouxa de Lobo a Sangue de Urso. Para o fazeres, provavelmente, terás de o matar. Serás mais forte que o teu pai? Terás a força dele?

 

Pequeno Dançarino fitou os olhos suaves de Sonhador de Lobo.

 

- Não sei. - Não podia mentir... nem a si próprio, nem a Sonhador de Lobo... e nunca na posição em que se encontrava.

 

- Se decidires viver, vais acabar por saber. Há ainda mais uma coisa: não posso dar-te a certeza da vitória. Lembras-te do livre arbítrio? Tal como a rocha é o alicerce da terra, a vontade é o alicerce do universo.

 

A sua mente começara a trabalhar de novo, aguçada pelas discussões que tivera com Cria Branca.

 

- E se decidir viver, que é que isso me vai custar?

 

Os olhos de Sonhador de Lobo tremeluziram, cheios de lágrimas, tão tristes que doía olhar para ele.

 

- Tudo aquilo que te é querido. Quando começares a percorrer o caminho de um Sonhador, não podes voltar para trás. Cria Branca disse-te a verdade. Não podes ser as duas coisas.

 

- E se morrer? Que acontece? Que sucede a Alce Encantado e ao meu pai? Já me disseste que a Trouxa de Lobo morrerá... e que o búfalo também. E quanto às pessoas que amo?

 

A expressão de Sonhador de Lobo reflectiu a preocupação que sentia.

 

- Um espírito só pode ver um pouquinho do futuro... e nem tudo acontecerá como prevemos. Mas prevejo a fuga deles, encontrando um lugar seguro nas margens do oceano ocidental.

 

Pequeno Dançarino flutuou na mão de Sonhador de Lobo, olhando Para aqueles olhos gentis. As recordações escorregaram e deslizaram-lhe pela mente. As palavras da mãe ecoavam profundas, dominando-lhe os pensamentos. O arrogante sorriso de Castor Pesado arrastou-se e ele reviveu o momento em que o shaman avançava, a maça levantada Para lhe desfazer o crânio. A face zangada de Cria Branca formou-se por um momento, antes de se esbater nas feições ansiosas de Alce Encantado.

 

A Espiral, na parede do abrigo de rocha em frente dele, parecia pulsar com vida. A Trouxa de Lobo caiu do céu nocturno com um baque revoltante e o mundo cambaleou. No silêncio que se seguiu, ele pôde ouvir o eco do tambor de barro de Castor Pesado cantando a morte de Raiz de Salva. Morte... Ela sentara-se, apoiada no curvo tronco calcinado de um algodoeiro despido pela intempérie. As moscas passeavam-lhe pela face, levantando para pairar sobre os pulsos cortados e sugar-lhe avidamente o sangue. Os olhos mortos da mãe ardiam com Poder, crestando-lhe a própria alma.

 

- Quero viver. - As palavras feriram-lhe na garganta. - Dá-me só tanto tempo quanto puderes.

 

- Vai-te ser mais doloroso quando chegar a altura.

 

- Eu sei.

 

Sonhador de Lobo anuiu.

 

- Virei procurar-te. Sabê-lo-ás, claro está. Mas encontrar-te-ei... como agora... e falaremos. Tenho algumas coisas para te ensinar. - Uma pausa. - Por que fizeste a escolha que fizeste?

 

Olhou para dentro dos olhos de Sonhador de Lobo.

 

- Talvez... talvez, como tu... eu ame demasiado.

 

- O Lobo salvar-te-á. Levar-te-á para o seu covil e aquecer-te-á o corpo. Irá contigo, guardar-te-á, proteger-te-á, a ti e à tua família por tanto tempo quanto eu puder. Ele é o meu compromisso para contigo.

 

A névoa desceu, levando Sonhador de Lobo para longe. Como se Pequeno Dançarino tivesse saltado para um fundão, o corpo subiu, torcendo-se levemente enquanto baloiçava. À sua volta a confortável tepidez começava a desaparecer, substituída por um frio gélido que se infiltrava até aos ossos. Dor e medo começaram a martelar com cada batimento abafado do coração. Uma agonia palpitante queimou-lhe o lado da cabeça entorpecida.

 

Gemeu com a dor do corpo comprimido contra rochas pontiagudas. Chorando, tentou mover-se. A neve impedia-lhe a progressão. Dor. Frio dormente e paralisante... por sua causa a carne gritava-lhe. Quebrado e desgastado como estava, a recordação da cálida e esvoaçante neblina da morte esfumou-se na miserável realidade. Jazia, morrendo à medida que a luz se esbatia e a escuridão caía sobre a terra.

 

Levantou a cabeça, pestanejando devido ao gelo incrustado nas pestanas. A tremura tinha desaparecido, sinal de que a última réstea de calor se tinha esvaído. A morte estava próxima.

 

A forma negra destacou-se, aproximando-se furtivamente, rondando pouco à vontade.

 

- Lobo! - O som da sua voz quebrada assustou-o.

 

O grande animal negro farejou-lhe o rosto, ele mal lhe sentindo os bigodes quando lhe percorreram a pele dormente.

 

Pequeno Dançarino concentrou algumas reservas ocultas, e cambaleou, apoiado sobre as mãos e os joelhos. Todo o seu corpo sofria, pungente, doendo-lhe quando se apoiou sobre os quatro membros.

 

Quase caiu, estendendo-se, abraçando-se ao lobo, meio esperando que o animal se voltasse e o mordesse. Rastejou sobre pernas que se recusavam a mover. Apoiado num ramo partido, conseguiu pôr-se em pé.

 

Passo após passo, moveu-se teimosamente para a frente, mantendo-se à vista do grande animal negro. À sua volta o bosque acinzentava-se rumo à escuridão, como se fosse visto através de um orifício na noite. Cambaleou e tropeçou. Caminhou desorientado, imagens do Sonhador de Lobo suspensas na sua mente embotada.

 

- Não vou morrer - sussurrava, através dos lábios insensíveis. Não vou...

 

Caiu com violência, o impacte abalando-lhe o corpo torturado. Frio, terrivelmente frio. O choque pareceu causar-lhe um tilintar nos ouvidos. Exausto, lutou para se manter de pé, lutou para...

 

A consciência extinguiu-se.

 

Alce Encantado sentou-se na dureza desconfortável de um pedregulho gasto, que emergia da encosta. Podia ver toda a extensão do vale em direcção a sudoeste, para além das Montanhas do Búfalo, descendo para as colinas distantes. Uma escarpa abrupta escondia o horizonte longínquo que memorizara naquele entardecer em que se sentara junto de Pequeno Dançarino... para finalmente se unir a ele. Até ao dia em que morresse havia de lembrar a expressão dos seus olhos perdidos sobre as planícies. Um pressentimento de infortúnio; dor pelo que havia deixado para trás; confusão; tudo se tinha revelado no aspecto do seu rosto. Que herança cruel.

 

Agora, as sombras finais do terrível nevão derretiam já nos bosques das encostas a norte. Lá ao fundo, no vale, o ribeiro corria cheio com o escoamento das quedas-d’água impetuosas e trovejantes, serpenteando entre os rochedos do largo vale. Os salgueiros tinham-se tornado verdejantes ao calor do sol. Em redor, as ervas lançavam viçosas espigas de folhas atravessando as moitas acastanhadas de vegetação do ano anterior. A vida tinha regressado às montanhas... e encontrado apenas uma esterilidade cinzenta no seu coração.

 

As delicadas cabeças amarelas das flores de salva e as violáceas estrelas cadentes não lhe traziam qualquer cor à monotonia dos pensamentos. Nem sequer os apelos dos tentilhões rosa e dos bandos de emberizas das neves1 conseguiam penetrar nas longas orlas da sua dor. A recordação de

 

1 Variedade de tentilhão branco.

 

Pequeno Dançarino enchia-lhe a vida. As palavras dele assombravam-lhe os ouvidos. Ela via-lhe o rosto, o modo como o sorriso lhe passava de sério a irreverente. O corpo palpitava-lhe com o percurso das suas carícias. Os rins doíam-lhe pela falta dele, sabendo que a sua luz tinha brilhado e esbatera-se no mundo.

 

Pior, ela não ousava pensar nele, no aspecto que o seu corpo deveria ter quando a neve derretesse à sua volta. Tinha visto o pai, conhecia-o.

 

- Aqui estás tu.

 

Não o tinha ouvido aproximar-se. :

 

- Importas-te que me sente?

 

Ela encolheu os ombros, olhando-o com indiferença. Dois Fumos gemeu enquanto se baixava, acomodando a perna aleijada. Puxou para cima o joelho são, abraçando-o com os braços.

 

- A Primavera, finalmente, chegou. Cheguei a pensar que íamos passar o resto da vida a olhar uns para os outros. Já notaste como toda a gente desapareceu no último par de dias? Isto é o resultado de vivermos em cima uns dos outros durante demasiado tempo no mesmo abrigo.

 

Ela nada disse.

 

- Penso que o que faremos quando todos voltarem, é mudarmo-nos para o lado ocidental. Lá em cima há boa erva. Montes de lírios e raiz de bálsamo para desenterrar. Podemos encontrar um desses vales cortados através da rocha. Eles têm muitos abrigos, de modo que as pessoas não precisam de se amontoar todas juntas. Outro Inverno com aquelas crianças e prefiro cortar os pulsos com uma quartzite embotada.

 

Ela engoliu o nó da garganta, desejando poder responder... mas não encontrando palavras no deserto dos seus pensamentos.

 

- Também há bastante madeira. Não era preciso uma caminhada tão grande para recolhê-la como as que fizemos este ano. Conheço um par de sítios excelentes para armadilhar carneiros. Costumava haver búfalo lá em baixo, mas é preciso um grande esforço para trazer a carne para os abrigos.

 

Ela seguiu o caminho de um falcão de cauda vermelha dançando nas correntes aéreas. Não tardaria muito que os esquilos no chão desaparecessem, desconfiados do voo impetuoso do falcão. De momento, o falcão esperava, preferindo procurar um esquilo vermelho ou um coelho bravo descuidado.

 

- Sabes - acrescentou suavemente Dois Fumos -, gostava de saber o que sentes. Não posso trazê-lo de volta; os tresmalhados não têm esse tipo de Poder, mas talvez possamos falar. Pode fazer que o seu espírito repouse melhor.

 

O seu interior murchou e ela pôde sentir o queixo tremer. Bendito Sábio, isto tem de doer assim tanto?

 

- Durante toda a vida tomei conta dele. - Dois Fumos abanou a cabeça, o cinzento nas tranças brilhando-lhe prateado ao sol. - Não posso imaginar. Eu costumava sentir a ligação entre a Trouxa de Lobo e o Pequeno Dançarino. Aquela sensação de Poder, sabes?

 

Ela procurou-lhe a mão, sentindo-lhe o calor da pele debaixo dos seus dedos.

 

- A culpa é minha - acrescentou Dois Fumos. - Falhei tanto com a Trouxa de Lobo como com Pequeno Dançarino. Devia ter-me erguido naquela noite... e atravessado Castor Pesado com um dardo bem apontado. Podiam ter-me morto por isso, mas primeiro eu teria lavado o insulto no sangue de Castor Pesado. Talvez pudesse ter-nos salvo de tudo isto.

 

- Não é culpa tua - decidiu ela. - Dois Fumos, tu fizeste o melhor que podias. Ninguém pode saber o futuro. As pessoas só têm de fazer o melhor que podem.

 

- Talvez. Pode ser que não possamos saber o futuro, mas o passado é para sempre. Como te sentes? Que te vai no coração?

 

Ela levantou o olhar para ele, vendo as linhas que se tinham gravado tão profundamente no rosto. Um olhar perpetuamente furtivo, como o de um homem em sofrimento, causticou-lhe os olhos. Esses sinais, e o cabelo a embranquecer, mostravam que Dois Fumos havia passado o limiar da velhice. Mas ele era assim tão velho? Não, Cascos Trepidantes nascera até um ano ou dois antes de Dois Fumos. A vida tê-lo-ia tratado assim tão mal? O coração ferido bateu-lhe com simpatia pelo velho tresmalhado.

 

Levantou-se para o abraçar, enterrando-lhe a cabeça no peito para deixar as lágrimas aliviar a dor de ambos. Durante longo tempo ele abraçou-a, deixando que as suas lágrimas quentes lhe molhassem a frente da sua camisa decorada de penas.

 

- Somos parceiros, não somos? - murmurou, afagando-lhe o cabelo.

 

- É o mesmo que aconteceu ao meu pai - murmurou ela, e endireitou-se para fixar a distância, observando o falcão pairando lentamente ao sabor dos ventos. - Agora sei como a minha mãe se sentiu. Será que fizemos algo de errado? Mas o quê? Tudo o que fiz... foi amá-lo.

 

Dois Fumos inspirou fundo e abraçou-a.

 

- Não foste tu. Ele foi escolhido pelo Poder do Espírito para um fim qualquer. Lembras-te? Disse-to naquele dia lá em cima, no acampamento de Cria Branca. Não sabia era que se ia passar assim.

 

- Os outros continuam a dizer que ele vai voltar.

 

Dois Fumos sacudiu uma mosca que tinha começado a zunir à volta deles.

 

- Gostava de acreditar nisso. Só que eu acredito no teu sonho. Eu penso... bem, penso que o senti partir. Um tresmalhado pode fazer isso por vezes, sentir assim a alma de uma pessoa.

 

- Penso que terei sempre as recordações. Esterco e moscas, sempre soube que teria de o partilhar com os Sonhos. Poderia ter aguentado isso. Pelo menos, tê-lo-ia parte do tempo. Mas morto é... para sempre.

 

- Vamos lá. Deixa-me levar-te de novo para o abrigo. Esta manhã fiz algum pão de raiz de biscoito. Já deve estar cozido. Aposto que está quente e fumegante e tão doce que os teus dentes te vão doer ao mordê-lo.

 

Ela hesitou por um momento enquanto ele se levantava.

 

- Não sei. Pode ser que eu só...

 

- Menina, há dias que não comes. Anda daí. Se Dois Fumos viveu através de todos os tempos terríveis que viveu, aprendeu alguma coisa com isso. Antes de mais, comer. Mantém a tua força.

 

Ele ajudou-a a pôr-se em pé. Com a ajuda dela sobre os lugares mais ásperos, abriram o caminho ao longo da encosta. Em alguns lugares a lama permanecia escorregadia e traiçoeira.

 

Quando chegaram à crista, o acampamento ficou visível. As coberturas pareciam gastas e esfarrapadas pelo Inverno. O arenito amarelado do afloramento tinha um ar sombrio, tal como os trilhos pisados através dos salgueiros e ao longo das encostas.

 

Não serei capaz de voltar aqui, pensou ela, ouvindo Dois Fumos gemer quando a sua perna aleijada sofreu um sacão.

 

- Olha! Vem aí alguém. - Dois Fumos deteve-se, levantando um dedo para apontar.

 

Ela lançou um olhar para o topo da colina, vendo uma pessoa a caminhar com um grande cão negro.

 

- Parece que teve uma jornada dura. Quase cambaleando como se... E desatou a correr, pesadamente, monte acima, mal se apercebendo da palpitação nos pulmões à medida que ficava sem fôlego.

 

Abrandou até parar, pulmões exaustos, pernas trementes a olhá-lo. Ele sorriu fracamente. Um golpe terrível na maçã do rosto tinha cicatrizado. O vestuário pendia em farrapos, enlameado e sujo.

 

O grande cão negro tinha-se transformado num lobo, fitando-a com olhos amarelos desconfiados.

 

- Voltei - disse ele numa voz rouca. E ela atirou-se-lhe para os braços.

 

 

                            O DESAFIO DO HOMEM

 

- Onde estás tu? - chamou Sonhador de Lobo da brilhante riqueza das Espirais.

 

- Morte... está tudo a morrer - carpiu-se a Trouxa de Lobo.

 

- Chegou a altura.

 

- Ouves as lamentações? Ouves os últimos gritos do sofrimento?

 

- Trouxa de Lobo, chegou a altura.

 

- Talvez... tarde de mais...

 

O vento quente descia de noroeste, sugando os últimos restos de humidade de uma terra que não tivera nenhum Inverno. A pálida poeira de neve, que tinha caído no máximo do frio, tinha-se desvanecido como a recordação de um sorriso de desejo nos lábios de um ancião.

 

Podia contar-se com os dedos de uma mão o número de chuvadas que tinham passado este ano... e mesmo essas tinham sido vazamentos de nuvens que riscaram a terra e encheram as linhas de água com água barrenta, para em seguida se desvanecer no ar escaldante.

 

Onde em tempos pastavam os búfalos, redemoinhos - que alguns afirmam serem fantasmas infelizes dos mortos - levantavam aos céus plumas amareladas de poeira que se esvaíam por si sós.

 

Entre os búfalos, os velhos e fracos caíam na longa jornada entre covas de água. As fêmeas continuavam magras. Fetos abortavam do esforço, as frágeis carcaças ponteando o caminho assinalado pelas marcas poeirentas deixadas pelos cascos fendidos na argila crestada pelo sol. Atrás das manadas decadentes, bútios e corvos seguiam-nas, aguardando a sua vez. Os lobos saciados deixavam para os coiotes os restos, vermelhos e mastigados. Depois dos coiotes se retirarem, os ventres saciados, as aves tinham a sua oportunidade, e, quando partiam, só os roedores podiam ainda ter uso para os ossos branqueados. Nada restava sequer para as brilhantes varejeiras depositarem os ovos.

 

Sobre tudo isso o vento parecia eterno, soprando, desgastando os espíritos dos humanos e dos animais, levantando terra e areia, levando o saibro com tanta força que preenchia cada racha e cada fenda. As concavidades, por detrás das colinas, cediam, poeirentas, debaixo das passadas, enquanto o lado de barlavento1 se compunha de rocha nua, despida de erva, manchada aqui e além por um esqueleto desbastado de ramas de salva. Quando a chuva caía, na rocha exposta, podia apenas correr para as drenagens rasgadas, transportando ainda mais solo moribundo na sua longa marcha para o mar. Os rios corriam tão turvos que até mesmo os rijos antílopes hesitavam em beber.

 

Nas planícies, fustigadas pelo vento, permanentemente escurecidas pela terra soprada, o Povo lançava olhares cansados aos céus, seguindo o curso do dia desde o sangrento alvorecer até ao ocaso flamejante. Olhos cansados perscrutavam interminavelmente o horizonte a oeste em busca de nuvens de tempestade que nunca chegavam. Quando o Povo comia, a areia soprada rangia-lhe nos dentes. Quando os homens mais novos voltavam da caça - normalmente de mãos vazias -, as faces do Povo voltavam-se para o Sonhador do Espírito.

 

Castor Pesado deu um passo atrás, onde o seu acampamento se estendia, abrigado a sotavento2 de uma falésia coberta de salva. Tinha escolhido este lugar, mesmo acima das águas castanhas do Rio da Lua. Enquanto ele ali estava de pé, braços cruzados, o Sol descia a ocidente. Neste dia, o escancarado olho vermelho de luz - uma ferida macabra sangrava através do ar pesadamente empoeirado. Ia depositar-se numa elevação rochosa nas Montanhas do Búfalo. Mesmo de onde olhava para oeste, Castor Pesado podia ver o recuo da linha de neve nos altos cumes. Como sempre - independentemente da secura nas planícies - as montanhas tinham neve. Quando a neve derretia, as plantas cresciam verdes e os búfalos cresciam gordos.

 

- Este ano - prometeu ele-, este ano nós vamos, Anifah. Com todos os nossos bravos, vamos tomar as vossas montanhas. Eu sou a nova via. Não podeis interpor-vos diante da visão de minha mãe. Sou o novo Sonhador para todos os homens. Sou o depurador da poluição.

 

A hora tinha chegado; não tinha escolha. Se ele e os seus frustrados guerreiros não tomassem as terras Anifah, o Povo passaria fome.

 

1 Lado onde sopra o vento.

2 Lado abrigado do vento.

 

Quando um povo está esfomeado, começa a olhar para o Sonhador do Espírito que o guiou com falsidades. Já muitos sussurravam por detrás das mãos que o Poder de Castor Pesado se tinha começado a escapar, a esvair-se na memória como as chuvas que nunca caíam.

 

Se ele não conseguisse manter Duas Pedras, Sete Sóis e Assobio de Alce esmagados debaixo do peso do seu poder, então, um dia próximo, um dardo trespassaria as entranhas de Castor Pesado e um outro homem tomaria o seu lugar... e as suas mulheres estéreis.

 

- Preparai-vos, Anifah. Este ano nós vamos aí. Nada mais temos a perder. - E, mãe, mesmo a posse por maus espíritos será melhor que o fracasso.

 

As pernas de Alce Encantado doíam, uma dor aguda queimava-lhe na junta das ancas e cada músculo no fundo das costas e da pélvis gritava pedindo alívio. Mas ela não se recordava de momento mais feliz.

 

Nem todos os dias acabavam como este. Alce Encantado seguia o trilho que contornava a rocha de topo onde ela se inclinava sobre o desfiladeiro. Por detrás dela, para leste, levantavam-se os altos cumes, cobertos de neve e deslumbrantemente brancos contra a cristalina cúpula azul do céu. A Primavera tinha voltado... mais um ciclo terminado, um novo que se iniciava.

 

Ignorando a dor nas costas e a tensão nas pernas, ela sorria ao mundo que a rodeava. Para além do esforço, a sua preocupação maior era que se abrisse o fundo do fardo que carregava. Realmente, este era um dia especial. Tinha ido desenterrar raízes onde os bancos de neve alimentavam as viçosas encostas verdes e as excelentes raízes de biscoito que aí cresciam. Não precisou de revolver o solo por mais de uma hora com o seu duro pau de escavar, feito de cerejeira, para reunir um cesto cheio de raízes e verdura. Tinha parado para colher algum milefólio, recém-desabrochado, destinado a tempero, quando ouviu a corça.

 

Por pura sorte, o veado tinha-se levantado do local onde ela estivera acocorada nos zimbros, orelhas levantadas, curioso pela perturbação da sua sesta matinal.

 

Sem hesitação, o braço de Alce Encantado ergueu-se e ela atirou um dardo finamente trabalhado através do peito do veado. A corça saltou, rolou e não andou mais de cinquenta passos antes que os joelhos lhe enfraquecessem e dobrassem. Cambaleando sobre as patas, caiu, lutou para se erguer e voltou a cair.

 

Prudente, Alce Encantado ficou imóvel, esperando. Só um louco corria atrás de um animal ferido. Fazer isso, poderia dar à presa uma aguilhada final de medo e levá-la a uma correria desenfreada. Aconteciam assim muitos acidentes. Caçadores perdiam caça mortalmente ferida.

 

Nessas ocasiões, o espírito de um animal ferido podia perseguir o caçador, vigiando, assustando outra caça e trazendo má sorte.

 

Alce Encantado manteve-se quieta como atingida por um raio, esperando, observando a corça a sangrar, os flancos arfando cada vez mais à medida que o sangue lhe fugia pelos pulmões perfurados.

 

Por fim, a cabeça baixou e a corça repousou o queixo no solo rochoso da cor do couro. Suspirou uma ou duas vezes, um som áspero e alto provocado pelo sangue que lhe escorria das narinas e ia empapar a terra e a pedra árida. Alce Encantado só se aproximou, com todas as cautelas, quando deixou de se aperceber de qualquer movimento. No momento em que chegou ao pé da corça, já o espírito do animal se tinha afastado do corpo.

 

Respeitosamente, Alce Encantado dissera as orações, Cantando o espírito para os céus acima. Pediu fervorosamente que o espírito da corça pudesse correr com o vento e Dançar com as estrelas. Reconhecida, agradeceu à corça pela dádiva da vida e o que isso significava para a sua família. Então, endireitou e levantou uma pata, rolando o animal de ventre para cima.

 

Nem sequer Touro Esfomeado poderia ter feito um arremesso melhor! Tirou o estojo de açougue para fora da bolsa, pendurada no peito, e rapidamente abriu a brilhante pele branca da barriga. Com o cutelo de quartzite, separou as costelas do esterno. Esvaziou o coração do sangue coagulado e separou-o do saco duro que o envolvia. Em seguida, extraiu a traqueia. O fígado, os rins e os fetos foram colocados na mochila como acepipes para a festa dessa noite. Dividiu então a carcaça a meio, descarregando parte das raízes, de modo a poder carregar os órgãos e os quartos traseiros. O resto, suspendeu-o nos ramos do zimbro para arrefecer.

 

Só no fim de desmanchar a carcaça ela esvaziou a pança e o intestino. Voltando a pança do avesso, enrolou os intestinos e colocou-os no interior, onde estariam húmidos e ao abrigo das moscas. Voltaria antes de escurecer com Pequeno Dançarino e recolheria o resto das raízes e a carne e órgãos que ficavam.

 

Recordando os acontecimentos do dia, caminhava radiante e sorria, e entoava uma canção em surdina, tentando esquecer a dor que a carga lhe causava. Isso não a impedia de se preocupar com a tensão na mochila. Tinha cozido as presilhas ela própria, usando os tendões mais finos e a maior parte do couro tinha sido duplicado. No entanto, o que ela carregava devia ter cerca de metade do seu peso. Nem mesmo as melhores mochilas aguentavam tal carga por muito tempo.

 

Além do mais, ela tinha de regressar. Os seios tinham começado a doer-lhe com o leite, para além da dor nos músculos e nos ossos. Já podia sentir a humidade e cheirar o almíscar do leite derramado.

 

- Ei lá! - O grito chegou-lhe da retaguarda.

 

Abrandou e voltou-se, erguendo uma mão para proteger os olhos do brilho do sol. Um homem caminhava apressado, descendo o trilho com vivacidade.

 

- Ei lá! - respondeu ela, tentando reconhecer a figura. - Segue-me isto é pesado. - E recomeçou a descer o caminho rochoso, usando o pau de escavar para se equilibrar.

 

Ouviu-o aproximar-se, os pés pesados esmagando friáveis seixos de arenito que cobriam a rocha.

 

- Quem és tu? - perguntou.

 

- Sou Martelo Estalado, guerreiro dos Mão Vermelha e aposto que a parte da frente desse grande fardo é Alce Encantado, também dos Mão Vermelha e minha prima acima de tudo.

 

Alce Encantado mordeu o lábio, sabendo muito bem ao que ele vinha. Tinha esperado que Sangue de Urso não fosse suficientemente louco para mandar alguém cá abaixo. Esperava que tudo já tivesse passado, soprado como a poeira pelo vento do oeste para algum lugar muito distante.

 

- Olá, Martelo Estalado. Bem-vindo ao acampamento de Touro Esfomeado. Escolheste bem a ocasião. Trago veado fresco na mochila e raízes também... embora, por acaso, um pouco ensopadas de sangue.

 

Ele riu:

 

- Parei para ver. Danificaste um bocado os rastos, mas pareceu-me um abate limpo com um só arremesso. A que distância atiraste?

 

- Talvez uns vinte passos - sorriu, apesar da sua presença. Orgulho por qualquer coisa como aquela não era coisa que acontecesse todos os dias. - Quando a abri, o dardo tinha-lhe atravessado os pulmões.

 

- Bem, se fazes coisas dessas a toda a hora, por que não deixas esse teu Pequeno Dançarino e não vens ser a minha esposa número um? As outras podem ficar de lado perante uma caçadora assim.

 

- E nunca mais dormias - retorquiu ela. - Todas essas esposas que ias afastar para me dares lugar cortavam-te a garganta uma noite destas... e a minha também, não duvides. E se elas não o fizessem, alguém o acabaria por fazer, primo, porque casar contigo seria incesto.

 

Ele riu-se e ofereceu:

 

- Posso levar alguma coisa. Talvez essas pernas traseiras? Vejo os jarretes a sair por cima.

 

- Não vale a pena - arquejou ela. - Estamos quase lá.

 

O trilho bifurcava-se. O caminho da direita, menos usado, continuava a seguir ao longo da cobertura rochosa. O outro desviava-se para a esquerda e caía através de uma fenda no espesso arenito. Alce Encantado abrandou, colocando cuidadosamente os pés, fruto de longa prática.

 

- Ouvi dizer que tiveste outra criança. Um rapaz desta vez?

 

Ela estremeceu ao sentir a mochila roçar a rocha de ambos os lados do caminho estreito. Por favor, não deixes romper essas correias.

 

- Não, para desgosto de Touro Esfomeado, Pequeno Dançarino teve outra filha.

 

- Humm. Aposto que ouviste das boas por causa disso.

 

Ela seguiu cuidadosamente ao longo do topo da escarpa. Sarças, sorveiras e salva roçavam contra as mocassinas e a saia, arranhando fortemente a mochila. Um calor terno cresceu dentro dela.

 

- Não, Pequeno Dançarino não. Para ele, qualquer criança é uma bênção, uma prenda especial que ele aceita com gratidão... do mesmo modo que a maior parte das pessoas deviam considerar o nascer e o pôr do Sol. Porque nunca se sabe quando é o último.

 

Ele resmungou.

 

O pensamento do futuro caiu-lhe em volta do coração como uma teia de aranha gelada num dia azul de Inverno. Sim, ela sabia porque ele tinha vindo. A importuna ansiedade tinha começado a desgastar o entusiasmo tanto de um abate perfeito como de uma mochila cheia.

 

- É este o teu abrigo? - apontou ele, parando junto às moitas.

 

- O outro mais abaixo. Esse pertence a Três Dedos e Cotovia do Prado. - Enquanto ela falava, o Gafanhoto aproximou-se, subindo a encosta.

 

- Que apanhaste? Quem é esse? - perguntou Gafanhoto, saltando de pé para pé, olhos muito abertos enquanto estudava Martelo Estalado.

 

- Este é Martelo Estalado, guerreiro Mão Vermelha. Veio para ver Touro Esfomeado e os outros homens.

 

- Para os levar para a guerra contra o Povo do Pequeno Búfalo? - Os saltos aumentaram. - Sangue de Urso não mandou alguém também no ano passado e Touro Esfomeado e o meu pai não lhe disseram que não podiam lutar contra os parentes e...

 

- Sim, sim, mas este é outro ano. - Brincando, ela empurrou-o com o cajado. - Por isso, vai dizer ao teu pai e aos outros que Martelo Estalado está aqui. Vai lá. Pelo menos, vamos festejá-lo até que a barriga lhe arredonde e mandá-lo de volta, feliz e cheio de boas recordações.

 

Gafanhoto sorriu, gritando e saltando, enquanto disparava pelo trilho abaixo. Em frente do seu abrigo, ela avistou o grande lobo negro. Como sempre, um arrepio percorreu-lhe a espinha.

 

- Podia ajudar-te com a mochila - ofereceu novamente Martelo Estalado, evitando cuidadosamente a saída que Gafanhoto tinha aberto como uma cabaça madura de mais.

 

- O caminho aqui é melhor. Estamos quase em casa. - E é melhor não ficar mais em dívida do que o necessário.

 

À medida que se aproximavam do abrigo que ela habitava com Pequeno Dançarino, ouviu-se o grito zangado de uma criança.

- Aquele som irritando os teus ouvidos é da mais nova. O Pequeno Dançarino pode ser o melhor pai entre todos os povos do mundo, mas, por qualquer razão, as suas tetas não mantêm os miúdos felizes.

 

Martelo Estalado sorriu delicadamente e deu-lhe a mão para a ajudar a subir o terraplano em frente ao abrigo. O grande lobo negro retirou-se furtivamente do outro lado da pilha de restos de comida e parou a favor do vento, cheirando o ar prudentemente. Ela resmungou enquanto baixava a mochila e se libertava da tumpelina.

 

- Ei, meu homem preguiçoso! Anda ver o que a tua mulher arranjou enquanto andavas por aí a fazer disparates com as crianças.

 

Martelo Estalado olhou em volta, aspirando o ar.

 

- Imaginei que isto estaria um bocado mais como... bem, tu sabes como um acampamento fica quando se esteve a viver nele. E vocês estão aqui há quanto tempo?

 

Ela sorriu-lhe, ouvindo Pequeno Dançarino puxar a aba para trás, bocejando. Como conseguiria ele dormir com o bebé?

 

- Temos umaranchada de crianças por aqui. Precisam de ter alguma coisa para fazer, por isso limpam os excrementos de Inverno e atiram-nos para a linha de drenagem, onde as chuvas os arrastam.

 

- Jarretes de veado? - perguntou Pequeno Dançarino, pestanejando para acordar. Acenou para Martelo Estalado. - Sangue de Urso quer outra vez guerreiros?

 

- O Povo do Pequeno Búfalo voltou a mandar batedores pelos trilhos acima. Mais do que nunca. Apanhámos alguns, mas outros passaram. No entanto, estão a aprender. Tivemos três mulheres mortas e um par de crianças. Corno Solto e alguns outros apanharam-nos num lugar alcantilado e atiraram-lhes rochas lá de cima. Os que sobreviveram, foram alvejados com dardos e cortados. Os seus restos estão pendurados por correias por cima do velho trilho até ao Rio Límpido.

 

Pequeno Dançarino anuiu, hesitando ligeiramente, o que lhe acentuou a cicatriz na face.

 

- Senta-te. Está mais agradável aqui fora do que lá dentro. Tens sede?

 

- Um bocado de água sabia bem. É uma grande caminhada desde a última fonte.

 

- Por cima, pela Rocha do Monstro?

 

- É o que está gravado lá?

 

Pequeno Dançarino concordou, esticando-se para um saco de tripa de búfalo que pendia no interior da aba da porta.

 

- Penso que originalmente mostrava homens atirando dardos ao monstro, mas só o podes ver quando a luz é boa. Creio que isso prova que nem sequer a rocha dura para sempre.

 

Martelo Estalado tomou a água, bebendo avidamente.

 

- Como está Cria Branca?

 

- Imortal. - Martelo Estalado limpou a água dos lábios, devolvendo o saco. - Acho que não está diferente de quando a viste neste último Inverno. Quanto mais escanzelada está, quanto mais fraca fica, mais aguçado tem o raciocínio. Sangue de Urso parou lá com um grupo de guerra e ela empurrou-o e aguilhoou-o até que ele partiu descontente, resmungando que a devia ter morto há muito tempo. Ela só lhe faz observações contundentes e atira-lhas. Os Mão Vermelha adoram-na e muitos dos guerreiros mal podem esperar por chegar a casa para contar as histórias.

 

- Não confio em Sangue de Urso quando vai para as discussões com Cria Branca. Apesar de todos esses guerreiros Pequeno Búfalo vagueando por todo o lado, ela não pensa em se mudar?

 

- Duvido, ela diz que eles não a vão incomodar. Que lhes mostra o verdadeiro significado de Maldição se algum deles tentar qualquer coisa.

 

- Era melhor para toda a gente se os Pequeno Búfalo nos deixassem sozinhos e sossegados e voltassem para as suas planícies.

 

-Talvez.-Martelo Estalado instalou-se confortavelmente enquanto Alce Encantado se esgueirava para o interior. Depois de erguer a criança do berço de madeira, fez escorregar o ombro para fora da túnica e voltou a sair com ela avidamente agarrada ao seio direito.

 

Sentou-se aliviada, suspirando, enquanto as costas cansadas se relaxavam e a dor desaparecia das ancas.

 

- Bem, temos de voltar para ir buscar o resto das raízes e a metade da frente do veado. Pus ramagens por cima da cabeça, por isso, pode ser que os corvos e as pegas não lhe cheguem aos olhos. São a parte preferida do teu pai.

 

Pequeno Dançarino lançou-lhe um sorriso radiante.

 

- Um bom abate?

 

- Um só lançamento. - Ela sorriu abertamente. - A primeira coisa que fiz foi Cantar para o seu espírito.

 

- Bem, vamos pôr o Martelo Estalado confortável e fazê-lo sentir que está em casa. Depois, se me mostrares o caminho, eu trago a segunda carga.

 

- Cotovia do Prado talvez possa olhar por esta - indicou a criança.

 

- A tua outra filha não se fez devorar por um urso enquanto eu estava fora?

 

- Ela foi para a tenda de Corvo Negro infernizar a Rapariga do Berço.

 

- Franziu as sobrancelhas. - Pergunto a mim mesmo se isto não é a mãe a revelar-se nela.

 

Ela ergueu de sopetão o pau de escavar até que ele gritou que se rendia e fugiu a gatinhar.

 

Martelo Estalado ria-se com vontade.

 

- É bom ver de novo pessoas a divertir-se. - Suspirou fundo e levantou uma perna musculosa contra o peito. - Os Mão Vermelha preocupam-se tanto que penso que já não sabem o que é o riso. Alce Encantado ergueu a cabeça.

 

- Não nos chega grande coisa aqui no lado ocidental das montanhas. Está tudo assim tão mal?

 

Martelo Estalado baixou os olhos.

 

- Uma das mulheres mortas no assalto de que vos falei... bem, o seu nome era Chuva Molhada.

 

O estômago de Alce Encantado deu-lhe uma guinada, como se ela estivesse a cair.

 

- Então, que lhe vais dizer? - quis saber Alce Encantado. Pequeno Dançarino franziu os lábios e deu uma rápida mirada ao céu, avaliando quanto tempo faltava para escurecer.

 

- O que sempre lhes tenho dito. A guerra é deles. Enquanto Castor Pesado não vier aqui, não tenho de o enfrentar. E se receber um aviso, levo-vos daqui para fora antes disso.

 

- Estás preocupado com o Sonho, não estás?

 

Ele concordou lentamente, como sempre o fazia, os olhos perdidos no grande lobo cor de carvão que caminhava calmamente ao lado deles, a língua pendente, os olhos amarelos sempre alerta. O Sonho tinha-se esmaecido, quase como uma leve alucinação. A consciência tinha-lhe voltado no covil do lobo, naquele amargo dia de Inverno, com a recordação da escolha que tinha feito enquanto a alma pousava na mão de Sonhador de Lobo. Tinha escolhido a vida-e a dor-em lugar da suave maravilha da morte. Fiel à palavras do Primeiro Homem, o lobo guardião tinha-o salvado de gelar e arrastara-o para a sua toca. Ali, o animal tinha-se enroscado nele, o calor da vida infiltrando-se nele como a chuva da Primavera em mocassinas por curtir.

 

O animal nem sequer o abandonara na viagem miserável até ao abrigo de Dois Fumos. Tinha manquejado sobre a sua perna ferida e inchada, vivendo de bagas de roseira brava à medida que o vento afastava a neve que as cobria, partilhando as presas do lobo, e, por fim, arrancando os topos das raízes de biscoito e das estrelas cadentes que emergiam da neve. A caminho do acampamento, improvisou um tosco pau de escavar com ramos partidos de um zimbro derrubado e desenterrou raízes de biscoito, comendo crua a polpa rica e doce.

 

Os Sonhos não o voltaram a importunar até se aproximar de novo o inverno. Então, quando os Sonhos lhe invadiram o sono, o lobo ficou inquieto, lembrando que tinha chegado a altura de fazer a viagem para o abrigo de Cria Branca para lá passar os grandes frios. E todos os anos ele tinha ido, passando as noites gélidas em profundas discussões com a anciã, ouvindo as histórias, falando sobre os caminhos do mundo, como a Nascente do Osso do Monstro tinha quase desaparecido.

 

O mundo estava a mudar... e ela vivia os dias um por um, fazendo votos de que cada um não se estendesse e o arrebatasse.

 

- Fiz a minha escolha naquele dia na montanha - disse a Alce Encantado. - O Sonhador de Lobo disse-me que me daria tanto tempo quanto pudesse. Aquele mesmo nevão da Primavera gelou metade dos bravos sedentos de guerra de Castor Pesado. Essa perda deu-nos o tempo que tivemos até agora.

 

Ele voltou-se, procurando os olhos dela, revelando o amor que via reflectido neles.

 

- Escuta, eu fiz a promessa. No fim de tudo, é comigo. Eu sei-o, Sonhador de Lobo sabe-o e tu também o sabes. Vivemos um dia de cada vez, lembras-te?

 

Ela forçou-se a sorrir, sacudindo o queixo num assentimento. Aproximou-se para o abraçar com força, a força nos braços quase cortando a respiração dele.

 

- Amo-te, Dançarino. Não me deixes.

 

A maior dor da sua vida vinha do facto de ele nunca lhe dizer: “Não deixo.»

 

Sanhaço corria, os pulmões arfando enquanto fugia através das árvores. O inimigo tinha aparecido do nada. Num minuto estava deitada de barriga, queixo pousado nos cotovelos, vendo Grilo amamentar o novo filho. No minuto seguinte, os guerreiros Pequeno Búfalo tinham carregado a partir do bosque, gritando, arremessando dardos aqui e além, enquanto o acampamento se levantava como uma casa de loucos. Ela saltou, pegando no seu atlatl, tentando encaixar um dardo quando Grilo gritou.

 

Um homem alto agarrara a amiga por detrás pelo cabelo, dobrando-lhe o pescoço para trás. A reacção de Sanhaço foi instintiva. Agrediu o homem com o atlatl, esmagando-lhe a face. Quando ele cambaleou para trás, enterrou-lhe um dardo no ventre. Pegou na mão de Grilo e correu em pânico, os gritos agudos do guerreiro nos ouvidos.

 

Agora, tão longe do acampamento, Sanhaço atirou-se para o lado, mergulhando sob um abeto alto. Grilo, a arquejar e a gemer - o minúsculo filho de Corno Solto nos braços -, cambaleou a seguir.

 

Tentando acalmar o ardor dos pulmões, Sanhaço arrastou-se para olhar para trás na direcção de onde tinham vindo. Nada se movia.

 

Grilo tinha-se afundado, grata, sobre os joelhos, a criança gemendo suavemente. Os olhos fechados com desespero, arquejava para recuperar o fôlego, gotas de suor correndo-lhe pelo rosto congestionado.

 

- E... agora?

 

Os pulmões ávidos de Sanhaço lutavam por ar. - Não sei. Não podemos voltar.

 

- Mas... onde?

 

Há Já sei. O acampamento... de Alce Encantado. Sabes... o caminho? Sanhaço orientava entre arfadas.

 

- Para baixo, do... lado ocidental- Onde o... grande desfiladeiro... desce para... a bacia?

 

- Isso. Vai lá... reúne quaisquer outros... que encontres... no caminho... e vai lá.

 

- E tu?

 

Sanhaço sorriu de esguelha, sentindo a incerteza nas entranhas. O fôlego estava a voltar-lhe.

 

- Olha, és tu quem tem uma criança. Tens Corno Solto por marido. Eu ainda sou livre. Por todo o bem que foi feito, tanto faz deitar a semente de um homem numa rocha nua como dentro de mim.

 

- Sanhaço, por favor. Não faças isso a ti própria. Tu és a mulher mais bela dos Mão Vermelha. Podes ter qualquer homem para...

 

- Chiu! Que se passa contigo? O acampamento acabou de ser assaltado e tu queres falar acerca de mim? Vaá! Depressa! Toma o teu caminho para o trilho alto e atravessa para o vale que fica a oeste. A partir dali, só precisas de seguir o curso dos ribeiros a descer.

 

- E tu?

 

Sanhaço piscou o olho à amiga.

 

- Vou esgueirar-me para trás. Alguém tem de descobrir o que aconteceu. As minhas armas de caça estão lá atrás. Para além disso, Corno Solto anda fora com o resto dos homens - Precisam de saber para onde vamos. Temos de dizer às pessoas para correrem para Cascos Trepidantes e Alce Encantado. De que outro modo “o podem eles saber? Como o pode saber Corno Solto?

 

Não tendo escolha, Grilo concordou!-

 

- Tudo bem. Eu levo o bebé a Alce Encantado. Mas... - Ela aproximou-se, pousando uma mão no braço de Sanhaço.

 

- Mas o quê?

 

- Tem cuidado.

 

- Tu conheces-me. Nem sequer o fumo se move tão silenciosamente como a Sanhaço no bosque.

 

Grilo abanou a cabeça.

 

- Sei que és boa caçadora. Também sei que preferes andar por fora a vagabundear do que ficar dentro de uma tenda. Mas, Sanhaço, tem cuidado. Estou com um pressentimento terrível, só isso.

 

Sanhaço sorriu-lhe.

 

- Lembra-te, não pares até chegares ao abrigo da Alce Encantado. Ela toma conta de ti.

 

E forçou-se a pôr-se em pé, sentindo um formigueiro de excitação quando iniciou o regresso ao acampamento, perguntando a si mesma quem teria morrido e quem teria escapado.

 

Por que teria ela de ser diferente? Não admira que nenhum dos homens com quem ela se unira tivesse conseguido plantar nela uma criança. Ela movia-se de mais para que a semente pegasse.

 

Lançou uma mirada ao seu corpo esbelto como uma corda de chicote. Nem uma onça de gordura lhe forrava a carne firmemente musculada. Não, ela podia não ter a força de um homem, mas tinha aquele equilíbrio e velocidade especiais que lhe davam uma ligeira vantagem. Nenhum homem entre os Mão Vermelha conseguia atirar um dardo com tanta precisão como ela. Ela tinha olho para isso e o talento para a caça parecia ser inato - um Poder todo dela.

 

De repente, estavam de novo em volta dela. Ela não podia acreditar que tivesssem chegado tão longe tão depressa. Ela podia ter-se movido como o fumo como ela se gabara; no entanto, quatro homens saltaram das árvores. Ela girou como um veado e hesitou por um momento, já que a única via de fuga voltava na direcção de Grilo. Rapidamente, encolheu um braço e saltou para o lado - tarde demais. Braços fortes agarraram-na pela cintura num aperto que a esmagou contra o solo.

 

Ela lutou, quase conseguindo libertar-se antes que outro lhe agarrasse o braço. Ela voltou-se, olhando para o rosto desconhecido do inimigo. O homem sorriu-lhe, uma luz ardente no olhar cúpido.

 

Engraçadinha curvou-se sobre a pedra de moer, satisfeita com a sensação do pilão encaixado na mão. Os músculos dos antebraços contraíam-se e ondulavam a cada golpe. O grate-clack, grate-clack do pilão e da pedra produzia uma cedência cava através do abrigo enquanto ela reduzia os últimos pinhões do ano anterior a uma pasta fina. Quando encontrava um pinhão que tinha secado, ela usava o gume pontiagudo do pilão para o esmagar para a moagem.

 

Com as mãos hábeis, removeu a pasta e colocou-a num cesto de ervas, indo buscar o punhado final de pinhões por moer. Com um staccato de estalidos, usou a extremidade mais grossa do pilão para os esmagar, antes de recomeçar a moagem rítmica.

 

- É difícil acreditar como as coisas mudaram - comentou Corvo Negro, coçando o ventre saliente. Lançou um olhar furtivo à pilha de tiras de couro cru cuidadosamente cortadas e separadas em três rolos diante dele. Cada um contribuía para o longo pedaço de corda que ele entrançava para uma nova armadilha para alces.

 

Engraçadinha concordou, um ar atento na sua sobrancelha enquanto se concentrava na moagem.

 

Se eu tivesse de dar um palpite, nunca pensaria que os Anifah te iam procurar para lutar contra o Povo... e ainda menos por duas vezes seguidas.

 

- As coisas mudaram. - Ele hesitou, a cabeça deitada para trás, sentindo a ponta proeminente da sua maçã de Adão. Perscrutou o céu da tarde enquanto pensava. - Sabes, Pequeno Dançarino foi sempre o centro de tudo... como se todos os sarilhos numa matilha de cães pudesse ser concentrado num cachorro. Da próxima vez, talvez escolha melhor os meus amigos.

 

Ela riu-se com sarcasmo:

 

- Oh?

 

Ele lançou-lhe um olhar curioso:

 

- Gostas do que nos aconteceu? Toda esta correria, viver em buracos na rocha como ratos-da-pradaria? E búfalos para matar, cá em cima, só de vez em quando.

 

- Louco! - disse-lhe ela suavemente, uma luz terna nos olhos. Olha à tua volta. Este lugar é lindo. Ao contrário das planícies, onde a Primavera é verde e o resto do ano é castanho, aqui há cores e a terra muda a cada instante com o movimento do Sol.

 

»Nunca estive tão quente num abrigo de peles como estou nas rochas. Talvez o irmão rato-da-pradaria seja mais esperto do que pensas, não? E quando foi a última vez que passaste fome?

 

- Mas comemos sementes e raízes e coisas como essas!

 

- Sim, sim, e alces e carneiros da montanha e veados e lebres1 e... sim, até um búfalo de vez em quando. Tu consegues lembrar-te, Corvo Negro. Puxa pela memória e lembra-te de quanto búfalo comemos nos últimos anos com o Povo. - E apontou-lhe com o pilão.

 

Ele ergueu um ombro acanhado.

 

- Bem, talvez passássemos um bocado de fome.

 

- Além do mais, e se nós tivéssemos ficado e Castor Pesado nos amaldiçoasse com a morte? E então? Tinhas sido o único a ir para a montanha lutar com os terríveis Anifah. Pensa nisto. Agora, estamos aqui, do outro lado das montanhas. E estamos a salvo por uns tempos. - Fez uma pausa, um ar pensativo nos olhos enquanto fitava o oeste, onde o Sol baixava lentamente. O desfiladeiro escondia a vista, mas ela sabia o que ficava do outro lado.

 

- Para além disso, marido, se as coisas mudarem de novo, podemos

 

1 Jackrabbit, no original: tipo de lebre nativa das regiões centrais e ocidentais da América do Norte.

 

atravessar além da bacia. Talvez encontrar um lugar para viver naquela outra cadeia de montanhas.

 

- E se houver uma guerra por lá?

 

- Continuaremos a andar até encontrarmos um lugar onde não haja guerra. De que precisamos? Um lugar abrigado da chuva e da neve? Animais e plantas para comer e de que fazer roupas? Podes pensar em mais alguma coisa?

 

- Pessoas com quem falar. Ela piscou-lhe o olho:

 

- Estás cansado de Touro Esfomeado, de Três Dedos, de Cotovia do Prado, de...

 

- Não, eu quero dizer pessoas com quem falar - franziu as sobrancelhas para o entrelaçado que tinha entre as mãos. - Sinto falta das velhas histórias, de ver caras diferentes, de ouvir as piadas de alguém novo. Sinto falta da visita dos mercadores, e de ouvir o que eles viram. Aqui estamos isolados. É tudo.

 

Ela anuiu, as mãos calosas detendo-se enquanto recordava esses outros dias.

 

- Sim, também sinto a falta disso. - Por um momento, estiveram sentados em silêncio, até que Engraçadinha sacudiu a cabeça energicamente. - Mas não importa, não troco nada pelo destino de Raiz de Salva.

 

Estendeu-se e colocou uma mão empoeirada de branco no joelho dele.

 

- Sabes, marido, às vezes o mundo apenas muda. Talvez pudéssemos ter feito alguma coisa acerca disso se tivéssemos imaginado até que ponto Castor Pesado iria levar as coisas. Mas não fizemos. E mesmo quando finalmente comecei a interrogar-me e Cereja de Engasgar mo tentou dizer, mesmo assim, não acreditei. Mas isso já lá vai. É o búfalo fora da armadilha.

 

- Fora da armadilha e a fugir - pousou ternamente uma mão sobre as dela. - E nós temos crianças fortes e saudáveis que não gritam pela guerra. O mundo mudou, e depois? Temos o melhor dele, não temos?

 

- E com isso só restam os Anif’ah.

 

Ele concordou, olhando para Martelo Estalado, sentado ao sol, conversando com Cascos Trepidantes.

 

- Não podemos ir lutar contra o Povo. Não importa o que Castor Pesado os obrigou a fazer. São nossos parentes.

 

- E um destes dias, quando Sangue de Urso nos vier obrigar?

 

- Partiremos, mulher. Partiremos e vamos ver essas montanhas lá longe, do outro lado da bacia.

 

Martelo Estalado escolhera bem a altura da sua visita; pela primeira vez nesse ano, o ar tépido da bacia subia com a noite levando agradáveis brisas secas pelos desfiladeiros acima. O aroma delicado da salva, do zimbro e do pinheiro, combinava-se com o perfume áoflox em flor, dos rainúnculos e das campainhas amarelas.

 

Para a festa, uma grande fogueira crepitante tinha sido acesa diante do largo abrigo de Touro Esfomeado. A dança das chamas reflectia-se em tons amarelo-bronze nas arcadas salientes do arenito e lançava sombras esguias sobre os zimbros que cobriam as cercanias, parecendo ondear formas misteriosas sobre a escarpa do fundo. Desenhos de sombra saltavam de acordo com os altos e baixos da conversa, animada por gargalhadas.

 

Por cima de tudo, o céu da noite estendia-se sem fim. A Teia-de-estrelas cintilava em brilhante esplendor enquanto cada ponto de luz bruxuleava e dançava no veludo da noite.

 

O povo do bando de Touro Esfomeado sentava-se em volta, falando e gracejando, sabendo que a noite traria o bom e o mau. Martelo Estalado chegara com notícias... e Cascos Trepidantes cortara os cabelos em sinal de luto. Alce Encantado não só cortara o cabelo como vestira as suas piores roupas. Não se mudaria até que, pelo menos, uma lua tivesse passado. Entre os Mão Vermelha, a morte de uma mãe - embora por casamento - não ocorria sem tristeza.

 

Então, quando tivessem comido, falariam do pedido de guerreiros feito por Sangue de Urso.

 

Pequeno Dançarino encontrou na retaguarda um lugar para se sentar, de onde podia ver e ouvir e, na medida do possível, evitar envolver-se na conversa. No momento, apenas se deleitava com a noite, vendo a luz do fogo brincar com a linda face de Alce Encantado. Ele já sentia a falta do seu longo cabelo luxuriante. Como seria fazer amor com ela à noite e não ter toda aquela riqueza macia derramada à sua volta? Como iria ser não se poder chegar a ela durante a noite, como tantas vezes fazia, e fazer deslizar os sedosos fios entre os dedos?

 

A filha mais nova tinha caído no sono nos braços de Alce Encantado. A boca, rósea e desdentada, pendia entreaberta no rosto gorducho enquanto os frágeis punhos agarravam o nada. Tinha os olhos fechados com força, o que lhe dava ao rosto um aspecto tenso. Só as crianças de muito tenra idade trabalhavam tão duro a dormir.

 

Procurou com os olhos a filha mais velha. Dedo na boca, terra e fuligem enfarruscando a cara, observava de olhos esbugalhados enquanto o Gafanhoto tentava lascar uma ferramenta de pedra. Folha Dançante, segunda filha de Corvo Negro, mantinha-se de joelhos, dando conselhos sarcásticos... para imenso desgosto do Gafanhoto. O estalar da sua fútil alvenaria acrescentava um fundo aos altos e baixos da conversa dos adultos.

 

Cotovia do Prado e Engraçadinha pairavam em volta da fogueira e batiam ansiosamente com os seus paus de cavar, onde a cria de veado assava debaixo de camadas de terra coberta por um leito de carvões ardentes. A carne tinha sido envolta em folhas aromáticas e recheada com raiz de biscoito e folhas de milefólio para temperar. Assim envolta cozia a fogo brando nos seus próprios sucos. Uma cria, não nascida cozinhada sobre um fogo aberto, preenchia qualquer descrição de acepipe mas assada assim? O pensamento fazia crescer a água na boca de Pequeno Dançarino.

 

Cotovia do Prado lançava olhares cautelosos a Três Dedos que ouvia com interesse o que Martelo Estalado dizia. O caçador tinha ainda de se concentrar para manter o fio da língua anitah, mas ele tinha aprendido ao longo dos anos. Corvo Negro limitava-se a aquiescer, fumando casca de salgueiro no seu rectilíneo cachimbo de barro. Cascos Trepidantes vigiava a cova de assar cheia de pequenos pastéis de pinhão que Engraçadinha tinha preparado nessa tarde. O doce aroma já tinha começado a evolar-se através da camada isolante de terra para atormentar o olfacto dos convivas.

 

Dois Fumos, com um aspecto de ancião - em que realmente se tinha tornado -, sentou-se confortavelmente apoiado, a perna mutilada estendida. Usava uma pequena pedra para empurrar uma sovela de osso através de uma pele de alce, que tinha curtido e cortado no tamanho certo. A medida que abria o buraco, ele dava pontos duplos na costura do casaco em que trabalhava. A sua atenção não vagueava; nem uma palavra proferida por Martelo Estalado escapava aos seus ouvidos atentos. Só um observador cuidadoso notaria o clarão nos olhos quando Martelo Estalado narrava esta ou aquela ocorrência. A expressão tisnada do rosto parecia endurecer a cada menção que era feita a Sangue de Urso.

Para além do anel do fogo, Pequeno Dançarino podia ocasionalmente aperceber-se da sombra do lobo quando ele deslizava através das moitas de salva, permanentemente alerta. Essa ligação - agora tão familiar parecia nunca enfraquecer. Ambos esperavam, sempre sabendo o que deveria acontecer um dia qualquer. O lobo tolerava o Povo e eles observavam-no com incredulidade, percebendo instintivamente que ele não era apenas um animal deslocado, mas algo mais. Com o passar dos anos esse conhecimento colocara Pequeno Dançarino à parte. Mesmo Touro Esfomeado o tratava com respeito e com um pouco de embaraço

 

As pessoas não sabiam bem o que pensar das visitas anuais de Inverno. Aceitavam-nas simplesmente. Era bom ter por perto o Poder do Espirito - mas, ao mesmo tempo, era enervante

 

Pequeno Dançarino tinha construído a sua própria roda do Poder com pedras no topo plano, varrido pelo vento, acima do desfiladeiro. Ali encontravam-no tantas vezes quantas o Sol se levantava, verificando o alinhamento das suas linhas de pedras onde elas intersectavam o círculo. Olhavam para ele com espanto quando lhes dizia calmamente que um certo dia era o mais longo do ano ou que o Inverno não duraria mais de uma lua antes que o degelo final começasse.

 

Quando alguém se feria, vinham ter com ele, esperando que ele compusesse pernas partidas, cicatrizasse golpes e queimaduras e sarasse dores de dentes. No último Outono, um velho, conhecido por Texugo de Nariz Chato fizera todo o caminho desde o acampamento dos Mão Vermelha para pedir conselho sobre um inchaço que se lhe tinha formado debaixo da axila. Lembrando-se de algo que ouvira a Cria Branca, dera ao homem uma pele cheia de éfedra1 e mandou-o embora com instruções de fazer com ela uma infusão forte. Quando visitou de novo Cria Branca, soube que o homem morrera mas que a éfedra tinha ajudado a acalmar a dor.

 

Agora ele esperava, observando Touro Esfomeado, chefe do pequeno bando, caminhando para cá e para lá, ajudando a cozinhar, juntando madeira ao fogo, partilhando um gracejo com Martelo Estalado. Então, Touro Esfomeado censurou o Gafanhoto por causa do seu improvisado raspador de casca de tartaruga, ralhando-lhe pelos golpes que tinha feito nos dedos.

 

- Estás com um ar feliz, marido. - Alce Encantado aproximou-se para entrelaçar os seus dedos esbeltos com os dele.

 

- Está uma noite agradável. - Encheu os pulmões, deleitando-se com os aromas das plantas e da comida e com o cheiro familiar e penetrante do fumo de salva. - Este é o género de ocasião que uma pessoa deve saborear e memorizar, de modo a ter cada detalhe para desfrutar pelo resto da vida.

 

Ela apertou-lhe a mão, sinal de que sentia o seu desespero escondido. Inconscientemente, a sua atenção saltou para a escuridão, procurando a sombra fantasmagórica do lobo, nada mais vendo do que os espigões erguidos da salva emergindo dos aglomerados de folhas verde-brancas. No entanto, podia sentir o animal, esperando, guardando.

 

Sim, estás aí. O Sonhador de Lobo não precisava de te mandar. Tomei a decisão naquela altura na neve. Sei o que está para vir... mas não tenho de gostar disso.

 

Nesse momento, apercebeu-se do lobo. Apenas podia vislumbrar a cabeça, mas ambos os olhos ardiam na escuridão, captando e reflectindo a luz da fogueira, parecendo iguais aos da velha gravação na rocha do abrigo de Dois Fumos no lado sul da montanha.

 

1 Planta gimnospérmica, rica em efedrina, alcalóide semelhante à adrenalina.

 

Agora, quando pensava em coisas como essa, o caminho da Espiral podia ser seguido muito claramente. Muitas noites estivera acordado no leito, recordando no que tinha sido forçado a tornar-se e aonde o seu caminho ia eventualmente conduzir. Sentia-se frustrado, impotente; mas, então, que é que a resistência alguma vez lhe trouxera de bom? Quase com angústia, recordou a sua excitação no dia em que Cereja de Engasgar tinha tentado contar à mãe sobre o Poder do Espírito... e todo o tempo não tinha sido mais do que uma pena no vento do espírito. Entretanto, vagueava nas rajadas e redemoinhos, os amigos à sua volta, como aves em liberdade, atirando-se e revirando-se onde queriam, sem qualquer restrição.

 

E aí estava a ironia. Estudou Touro Esfomeado - o homem que sempre detestara o envolvimento com o Poder do Espírito, o homem que tinha sido expulso do seu povo e concordara relutantemente em chefiar este invulgar bando de refugiados. Touro Esfomeado, que parecia tão ao sabor da corrente na vida, podia voar onde queria, inconsciente da sua liberdade de escolha.

 

Ninguém se preocupava que Pequeno Dançarino - cujo Poder as pessoas tinham começado a venerar - permanecesse prisioneiro do Vento do Espírito, esperando que o Poder o soprasse para onde quisesse.

 

As coisas podem mudar. O Sonhador de Lobo preocupa-se com o livre arbítrio. Talvez alguém mate Castor Pesado. Talvez algum anifah o atravesse com um dardo ou alguma doença tome conta dele. Pode ser que não tenha de levar isto até ao fim. Pode ser que escape.

 

A esperança, como uma lasca de quartzo tratada pelo fogo, ergueu-se quente e afiada dentro do peito. Ardentemente, apertou a mão de Alce Encantado - pedindo com toda a alma que aparecesse um rasgão qualquer na rede do destino que lhe permitisse mexer-se livre.

 

- Ei - ela deu-lhe um puxão. - Estás quase a quebrar-me todos os ossos da mão! Estás a apertar com tanta força que o sangue vai espirrar-me da ponta dos dedos!

 

- Desculpa, eu estava... apenas... - Deixou-a retirar a mão, observando-a a friccioná-la enquanto o fitava atentamente com um leve sorriso nos lábios.

 

- Perdido em pensamentos, de novo?

 

Ele concordou - a ansiedade familiar bombeada com o sangue. Como poderia deixar isto ir-se? Como poderia voltar costas e deixar a mulher e as filhas? O simples pensamento rasgava-lhe o coração.

 

O grito de Touro Esfomeado chamou-lhe a atenção.

 

- Declaro esta comida pronta. - Olhou para o céu nocturno, elevando as mãos acima da cabeça. - Escutai-me, espíritos! Rogamo-vos que eleveis a mãe veado ao vosso paraíso seguro na Teia-de-estrelas. Elevai a sua cria não nascida e colocai-a num local honrado. Deles, nós recebemos vida. Assim, também um dia havemos de morrer na nossa forma física e voltar para a Terra Mãe. E de nós os vermes se alimentarão e o irmão coiote comerá a nossa carne alimentará as plantas que alimentam os veados. Somos a Espiral da vida. O que tomamos, um dia devolveremos. Talvez nesse dia, a mãe veado e a sua cria rezem o nosso caminho para a Teia-de-estrelas.

 

Pequeno Dançarino juntou a sua voz à prece. Cantando a corça e a sua cria para as estrelas, agradecendo às plantas pela sua dádiva, sentindo a harmonia da Espiral da vida.

 

E é por isso que não podes voltar as costas àqueles que amas. Porque conheces o teu lugar e as tuas responsabilidades. És a alavanca que vai reconduzir a espiral ao seu lugar.

 

- Mas não pode ser outro a fazê-lo? - perguntou ele em voz sumida.

 

 

O sabor do sangue morno na boca de Sanhaço deu-lhe forças. Sangue, a vida que bombeava a força através das veias de uma pessoa. O seu sangue, a sua vida, alimentando-a com a sua própria força... um Círculo interior.

 

De novo mordeu o lábio com força, a dor agindo como um meio de abafar o grito nascido no fundo da garganta. Tudo para evitar gritar, para evitar admitir a dor ou a realidade do que continuava a acontecer-lhe. Cada vez que mordia o interior da boca, mais sangue se infiltrava do lábio rebentado, alimentando-lhe a força, mantendo-lhe a resistência.

 

Há muito que tinha fechado os olhos, recusando ver o que não podia deixar de sentir. Os olhos podiam ser fechados - um pequeno conforto na sua situação. Os ouvidos, no entanto, continuavam a ouvir. O corpo continuava a sentir e o sofrimento permanecia, monótono, doloroso. A penetração dos homens e o movimento já não causavam uma dor dilacerante. No momento, os fluidos tinham abrandado o desconforto para uma irritação ardente. Onde a tinham mordido, a ferroada mantinha-se, irritada pelo suor salgado da pele deles roçando-se pelas feridas.

 

Sentiu inteiriçar-se o que estava em cima dela, arfando, o órgão pulsando no interior. Engoliu fundo, apreciando o gosto do sangue na boca, tirando força da sua vida.

 

Ele assentou flácido em cima dela, enquanto os outros tagarelavam entre eles na sua língua gutural.

 

Por quanto tempo iria isto continuar? Ainda não se tinham cansado? Ela mantinha os olhos comprimidos, fechados, o lábio sangrento apertado entre os dentes. Sentiu-o erguer-se, o ar fresco correr sobre o peito transpirado e o ventre.

 

Seria o último? Seria o...

 

Outro corpo caiu sobre o dela, quase esgotando o ar dos pulmões com o peso. Há muito que tinham deixado de lhe segurar as pernas e os braços, acreditando que lhe tinham quebrado a resistência. Mordeu o lábio quando ele investiu.

 

Já tinha perdido a conta, mas não tinham sido tantos, apenas sete no bando que a tinha capturado. Só sete mas jovens, ávidos, com aquele ar devorador nos olhos. Desse modo, podiam desforrar-se, fazer a ela o que não podiam fazer aos Mão Vermelha.

 

Ela mordeu mais uma vez o lábio quando ele a magoou, afogando o grito, alimentando-se com o sabor do sangue, lutando contra a dor que eles causavam ao afogar-se numa dor que ela controlava.

 

Eu vivo, juro-o, vivo e retribuo-vos a todos. Engoliu de novo, aguentando-se pela força que tirava a si própria.

 

Finalmente, ele ficou exausto em cima dela. Não se levantou. Ela esperou, esforçando-se para respirar debaixo do seu peso. Através das pálpebras cerradas, ela viu que se tinham sentado, falando sem nexo. A fadiga tinha-lhe invadido as faces, entorpecendo os olhos, descaindo-lhe os ombros musculosos. Cada um reuniu as suas armas, o acampamento às escuras para evitar que uma fogueira pudesse trazer os Mão Vermelha até eles.

 

Ela jazia imóvel, incapaz de se mover, sentindo o guerreiro em cima dela relaxar, voltando-se para dormir. Será que ele fazia o mesmo à sua mulher em casa? Era esta a sua fraqueza? Abriu os olhos na escuridão, procurando cuidadosamente alguma coisa para usar.

 

Alguém chamou. Ela fechou vivamente os olhos de novo, ouvindo passos na relva, sentindo o homem em cima dela mexer-se ao ser tocado pelo chefe.

 

O homem levantou-se e o dedo tocou-lhe. Ela olhou para cima, vendo-o gesticular e apontar para uma manta. O frio da noite gelava-lhe o suor dos homens em cima da pele. Ela combateu o gemido quando se sentou, sabendo quanto lhe doeria na manhã seguinte.

 

O chefe falou em tons graves, acenando em direcção ao seu próprio leito. Ela esperou.

 

Em resposta, ele pontapeou-a com força e ela não pôde reter o grito de dor. Entorpecida, gatinhou para a manta dele e encolheu-se numa bola, abraçando os joelhos contra os seios feridos, consciente da ardência interior. O seu captor ergueu-se alto, bem musculado e equilibrado, as tranças de cabelo negro pendentes sobre os ombros.

 

De uma mochila, ele tirou uma correia, gesticulando para ela estender as pernas. Ela assim fez e esperou.

 

Satisfeito, ele pousou os dardos ao lado e curvou-se para a amarrar.

 

Nesse instante, ela moveu-se, impulsionada pela força que reunira com o seu sangue. Agarrou-lhe os dardos, pontapeando, girando, usando toda a sua fúria para lhe enterrar a ponta afiada na carne e puxar.

 

Ele guinchou, recuando, agarrando-se futilmente à haste adornada de penas que emergia das suas costelas inferiores.

 

Ela ergueu-se, encaixando um dardo no atlatl dele, sabendo que o equilíbrio seria diferente. Ela segurava uma arma de homem, desajeitada para músculos de mulher. No entanto, atirou um dardo para o homem mais próximo e, voltando-se, disparou em direcção às árvores e ao abrigo seguro da escuridão.

 

Eles gritaram na noite atrás dela. Ela apertou os dardos, caminhando através das árvores, cabeça baixa devido aos ramos que a fustigavam, vergastando-lhe a pele nua. Ela usava os ramos como açoites, para manter alto o medo, para esporear o seu voo na noite.

 

Os pés doíam-lhe, feridos pelas pedras. Bateu com os dedos desprotegidos em paus, pedras e troncos. Correu silenciosa, os pulmões arfantes, o corpo ardendo. Agora nada mais restava do que a dor e a fuga.

 

O primeiro pânico cego escoou-se enquanto cambaleava. Não lhe podiam seguir o rasto antes de amanhecer. Abrandou, tomando nota das cercanias, acercando-se de uma clareira para examinar a aparência da Teia-de-estrelas. Orientando-se, continuou em frente, subindo uma escarpa para olhar através da confusa paisagem. Avistou o Pico da Nuvem, descobrindo onde se encontrava. Não tão longe do acampamento de Sangue de Urso - se ele ainda lá estivesse durante os assaltos. O abrigo de Cria Branca estava mais próximo. Voltou-se, localizando o vale do Rio Límpido e mudou de direcção, mantendo-se nas rochas e na caruma de pinheiro, onde estava mais espessa, debaixo das árvores. Os pés nus não deixariam marcas... enquanto não sangrassem muito.

 

Nas mãos ainda tinha dois dardos.

 

- Tu sabes, se não pudermos deter o Povo do Pequeno Búfalo, vocês também não estão seguros. - Martelo Estalado enfrentou os olhares deles um a um. - Eu ouvi as histórias. Vocês estão todos a fugir desse Homem de Espírito, desse Castor Pesado e da sua nova via. Só porque os vossos parentes estão entre os seus guerreiros, não quer dizer que eles não vos ponham no espeto. Posso não ser grande juiz do modo como os homens agem hoje em dia, mas aposto que vão adorar ter a hipótese de matar as pessoas que tiveram a coragem de partir.

 

Três Dedos franziu os lábios, uma ruga profunda atravessando-lhe a face enquanto fitava os pés.

 

Corvo Negro captou a expressão dos olhos duros de Engraçadinha e aclarou a garganta.

 

- Martelo Estalado, tudo o que dizes é verdade, não o negamos abriu os braços. - Mas eu pergunto-te, de anfitrião para convidado. Coloca-te no meu abrigo por um momento. Olha para o mundo através dos meus olhos. Viemos para aqui a convite de Cria Branca. Ela disse-nos que, se não tivéssemos mais nenhum lugar para onde ir, que viéssemos ter com ela. Assim o fizemos e Sangue de Urso veio com guerreiros, entre eles tu próprio, para nos matar.

 

- E eu, pela minha parte, já vos pedi perdão. Deves recordar-te quantas vezes.

 

- Nós sabemos. - Corvo Negro puxou a trança, preparando as palavras seguintes. - Mas muitas coisas aconteceram desde então. Cascos Trepidantes e Alce Encantado vieram viver connosco. Adoptámos muitos dos costumes dos Mão Vermelha, mas tornamo-nos em algo diferente... um novo Povo, nem Anifah nem Pequeno Búfalo. Nós somos nós, ainda que não sejamos muitos.

 

- E que vão vocês fazer quando Castor Pesado vier? - E Martelo Estalado cruzou os braços sobre o peito.

 

Touro Esfomeado apontou para oeste:

 

- Vamos para além, para aquelas montanhas. Ou, se não for possível, encontraremos um lugar onde os povos não guerreiem e possamos viver por nós próprios.

 

- Os Comedores de Peixe vivem para aí. - Os lábios de Martelo Estalado torceram-se. - Tu queres ser Comedor de Peixe?

 

- Em tempos preferia morrer a comer raízes e folhas. - O sorriso torcido de Touro Esfomeado enganava. - Comida é comida, meu caro. Enquanto ela conservar o sangue e os ossos fortes, a alma pode tomar conta de si.

 

- Estou de acordo com Touro Esfomeado - acrescentou Cotovia do Prado. - Não percebo as mudanças que estão a acontecer. O facto de os meus filhos estarem ameaçados por isto chega para mim. Conheço Castor Pesado. Cresci com ele. Talvez pudesse ter feito alguma coisa para o deter. Talvez ele me tivesse amaldiçoado também. Não sei. Tudo o que sei é que não posso manter a minha família alimentada e vestida se o meu marido louco partir e se matar na vossa guerra como o coração lhe está a pedir para fazer.

 

Três Dedos suspirou e ergueu as mãos.

 

- Sim, sim, eu também quero. Que posso dizer? Queria atirar um dardo mesmo através de Castor Pesado. Olha o que ele nos fez! Hoje em dia encontras problemas por todo o lado... e é Castor Pesado que está na origem de todos. - Olhou em volta. - Não gosto da ideia de lutar ao lado dos Mão Vermelha. Foram eles que mataram o meu pai.

 

- E o teu pai matou mais de um Mão Vermelha - lembrou Cascos Trepidantes, certamente lembrando-se de Chuva Molhada.

 

- A questão é mesmo essa - concordou Engraçadinha. - E ao mesmo tempo, Cascos Trepidantes, aqui estamos nós. Que chamamos a nós próprios? Somos algo de novo, um novo Povo feito a partir de dois antigos. Os teus parentes mataram os meus, os meus mataram os teus e nós estamos a viver felizes, partilhando brincadeiras, trabalho e comida. Tomas conta dos meus filhos quando vou caçar com Corvo Negro e eu abro-te a minha tenda como se fosses minha irmã. Abanou a cabeça, fazendo o gesto de “nunca mais» com as mãos. - Não, penso que se nos envolvermos, isso apenas conduzirá a problemas, a maus sentimentos e dor e ira entre nós próprios.

 

Alce Encantado aclarou a garganta, perguntando: Martelo Estalado, se não queremos envolver-nos nisto, que vai fazer Sangue de Urso? Vem aqui zangado e tenta matar-nos? Não conheço Castor Pesado, mas Sangue de Urso também não é razoável. Nunca se sabe o que ele vai fazer de um dia para o outro. Por favor, tu és meu primo. Em tempos, foste o melhor amigo do meu pai. Diz-mo do coração. Martelo Estalado esfregou os olhos.

 

- Não creio que Sangue de Urso venha cá. Pelo menos, enquanto os Mão Vermelha não tiverem rechaçado o Povo do Pequeno Búfalo para fora das montanhas de vez. E se perdermos? Não me parece que Sangue de Urso esteja entre os que se escapam para as montanhas. Penso que morrerá antes disso.

 

Cascos Trepidantes anuiu para si própria.

 

- Então, sugiro que fiquemos de fora desta loucura. - Olhou para Engraçadinha. - Desculpa o modo como falei.

 

Engraçadinha piscou-lhe o olho:

 

- A aflição faz isso. Amanhã, quando tiveres ocasião, vens cortar-me o cabelo? Quero partilhar contigo o teu desgosto.

 

Cascos Trepidantes, sempre invencível, aquiesceu lentamente, o lábio inferior tremendo enquanto desviava os olhos.

 

- Pequeno Dançarino? - perguntou Touro Esfomeado. - Tens mais alguma coisa a acrescentar?

 

Ele sacudiu a cabeça:

 

- Aceito o que os demais decidirem.

 

- Não podemos ir. - Touro Esfomeado resumiu as reacções do seu grupo. - Não podemos correr o risco de matar os nossos parentes. Não podemos correr o risco de dividir a nova família em que nos tornámos aqui. Se Sangue de Urso se zangar e quiser vingar-se de nós, peço-te, Martelo Estalado, como bravo e honrado guerreiro, que nos mandes dizer e sairemos daqui para qualquer outro lugar. Talvez o vale dos Ventos Tépidos.

 

- Fica certo que vos digo. - Martelo Estalado sorriu melancolicamente. - E se o Povo do Pequeno Búfalo nos derrotar, se eu viver e for bem-vindo posso trazer as minhas esposas e viver convosco?

 

- Tens lugar à nossa beira. Podes trazer já a tua família, se quiseres. Os nossos corações e os nossos lares estão abertos para ti. Esperemos só que não se chegue a tanto.

 

Sangue de Urso fitou o céu nocturno. Esta noite, como em tantas outras, não conseguia dormir. Em vez disso caminhava em volta do acampamento frio e escuro dos seus guerreiros, perseguindo as sombras, fitando a escuridão, perguntando-se o que viria em seguida.

 

O Povo do Pequeno Búfalo, nesse ano, entrara como uma inundação pelos trilhos das Montanhas do Búfalo. O que Castor Pesado tinha tentado anos atrás, só agora o pudera fazer. A estranha tempestade, que tinha desabado nas planícies cinco anos atrás, tinha semeado a devastação no Povo do Pequeno Búfalo. Muitos tinham gelado... e, nesse intervalo, os Garça Branca e os Cabelo Cortado tinham contra-atacado, procurando quebrar o poder dos Pequeno Búfalo.

 

O que Castor Pesado tinha tão laboriosamente criado vacilara - a sua aliança de bandos quase se rompendo sob a tensão. No entanto, tinha triunfado e afastado os seus inimigos das planícies. Agora, uma vez mais, podia voltar a sua atenção para os provocadores Mão Vermelha das montanhas e tentar separá-los dos seus ricos territórios de caça.

 

Havia tantos inimigos! Sangue de Urso deixou o olhar vaguear pela Teia-de-estrelas enquanto pensava. À sua volta a noite pesava fria sobre a terra, o ar carreegado com o aroma dos abetos e pinheiros. Insectos cantavam e zumbiam no silêncio. A terra vivia, pulsando para ele, partilhando-se nesta hora de aflição.

 

Todos os anos de vagabundagem tinham-lhe dado uma perícia quase sem igual entre os seus pares. Podia deslizar como uma sombra de águia através das árvores. Podia penetrar furtivamente nos acampamentos do inimigo à noite e matá-los um a um, mas não podia estar em toda a parte com os seus guerreiros. O que ele e os seus Mão Vermelha podiam fazer com astúcia e bravura, os Pequeno Búfalo podiam fazê-lo pelo número. De onde tinham vindo tantos?

 

Algo tinha acontecido aos Mão Vermelha, alguma fagulha especial tinha-lhes desaparecido dos olhos e dos corações. Lançou um olhar sombrio aos céus. O quê? Qualquer que fosse o modo como os exortava, parecia que o núcleo interior de resistência, que em tempos fora deles, se tinha evolado. Ele podia invocar, orar, dançar e cantar. Podia voltar ensopado em sangue e vitorioso, mas os seus guerreiros pareciam murchos e cansados apesar dos seus triunfos. Qualquer que fosse a linha de acção que tentasse - desde pendurar pedaços de corpos do inimigo nos trilhos, até oferecer os seus corações no fogo -, nada parecia tocar esse espírito enfraquecido. Porquê? Que lógica poderia usar? Que estímulo poderia impeli-los a lançar-se sobre o Povo do Pequeno Búfalo em vez de aguardarem que viesse ter com eles?

 

-Vamos ser destruídos! - sussurrou, fitando as estrelas. - Seremos soprados para longe como o fumo pelo vento. Só as rochas recordarão o nome dos Mão Vermelha.

 

E este pensamento enraiveceu-o. Enquanto se exasperava, baixou os olhos do firmamento e olhou em volta do acampamento. O seu grupo compunha-se de seis homens e duas mulheres, todos aguardando o próximo avanço do inimigo pelo trilho do Rio Límpido acima. Castor Pesado tinha de tentar forçar esta passagem. Fazia sentido, atendendo a que um grande grupo de guerreiros tinha tentado escalar o trilho alcantilado e retorcido da encosta norte. Só um louco não tentaria uma segunda ofensiva pela retaguarda

 

A raiva deixou-lhe um gosto amargo na boca.

 

Enquanto cismava, o olhar foi-lhe atraído pela forma pálida da Trouxa de Lobo, suspensa no seu tripé, no centro da clareira. O couro tinha estalado e descamara; as estranhas linhas, tão cuidadosamente desenhadas na pele, tinham desbotado onde não tinham sido corroídas. Maltrapilho, pensou ele, tal como as esperanças dos Mão Vermelha.

 

Maldosamente, bateu-lhe com as costas da mão, atirando-a aos trambolhões para o meio das ervas.

 

O acto tinha sido estúpido, reconheceu ele, fitando, como uma coruja, a escuridão em torno de si, grato que o resto do grupo permanecesse ferrado no sono. Pegou nela, recolocou-a no tripé mais ou menos como estava, verificando mais uma vez se ninguém tinha visto.

 

Massajou a dor súbita no coto do seu dedo mínimo. Símbolo louco de um povo moribundo - não admira que não pudessem vencer uma guerra - não com uma coisa parva como a Trouxa de Lobo. Ora, se ainda tivessem uma coisa poderosa como um crânio de urso pardo, ou...

 

Encolheu-se, alarmado pela dor súbita do dedo mindinho. De todas as coisas estúpidas que alguma vez fizera, cortar a ponta do dedo tinha sido loucura! Tudo o que ganhara com isso foram dores e ardências. Praguejou, ainda havia de ser a morte dele.

 

Ajuda-me! Chegou a hora, Dançarino do Fogo! Ajuda-me! AJUDA-ME! A voz trovejou-lhe dentro do crânio, estilhaçando o sonho em fragmentos denteados, explodindo-lhe no pensamento como o estrondo de um trovão junto a ouvidos negligentes.

 

Pequeno Dançarino gritou, aterrado, e lutou para sair do leito. O estômago revoltou-se. Vomitou violentamente, tentando recuperar a respiração apesar da loucura na sua boca e nariz. Uma vez mais o estômago descarregou, acompanhado de convulsões.

 

Tentou apertar-se contra a sensação de tontura, a sensação de que o mundo se estava a despedaçar. Tonto, arrastou-se com uma mão; com a outra apertava a garganta.

 

- Que foi? - A voz de Alce Encantado penetrou-lhe no tilintar dos ouvidos.

 

Finalmente, conseguiu inspirar para os pulmões ardentes, quase se engasgando com o cheiro do vómito. Tossiu, todo o corpo se sacudindo em resposta.

 

Uma parte remota da mente identificou o som que Alce Encantado fazia, pondo tudo em desordem enquanto procurava despertar uma brasa para a vida com uma mecha de salgueiro esfarrapado. As primeiras centelhas de luz fizeram doer os olhos subitamente sensíveis.

 

- Pequeno Dançarino?

 

Ele podia ter chorado pela preocupação na voz dela. O braço dela contornou-lhe os ombros, abraçando-o, quente e confortante contra o tremor que se apossara dele.

 

- Frio - sussurrou ele -, tão frio.

 

O peso do braço dela sobre os seus ombros quase o fez cair na confusão que as suas entranhas torturadas tinham espalhado pelo chão. Desde o dia em que quase tinha gelado, nunca ele experimentara um tal arrepio, como se os ventos do Inverno lhe soprassem através da alma.

 

- Estás a arder - disse-lhe Alce Encantado muito séria. - Febre. Pequeno Dançarino, tu...

 

- Não, não é febre - conseguiu ele dizer entre batimentos de dentes.

- Poder. A Trouxa de Lobo. - Abanou a cabeça, tentando combater a tremura que se enrolava nele como um emaranhado de videiras. - A última vez que senti isto... a Trouxa de Lobo...

 

- Chiu! Não fales assim.

 

- Está a chamar-me. Ouvi-a, as palavras ardem-me na cabeça. Ajuda-me, disse ela.

 

O lábio inferior dela começou a tremer. Um brilho encheu-lhe os olhos, como a chegada de lágrimas:

 

- Não - sussurrou ela lastimosamente.

 

- Não.

 

Ele tentou engolir, o gosto do estômago vazio quase o fazendo vomitar de novo.

 

- Anda daí, volta para a cama. Precisas de estar debaixo das peles. Aqui fora apanhas um resfriado... O Sábio sabe o que faz. Aqui, põe-te debaixo da cobertura. De manhã, falamos disso.

 

Ele deixou-a empurrá-lo de volta para o leito. Toda a força para resistir esgotada no seu tremor.

 

- As Trouxas de Poder podem morrer, sabes. Podem ser mortas, tal como um homem. Mortas... frias...

 

- Chiu! Agora dorme.

 

Ele pestanejou, consciente de que a visão se tinha tornado fluida como das vezes em que abrira os olhos debaixo de água e olhara para cima, para o tremeluzente mundo exterior.

 

Alce Encantado correu activamente em redor, raspando os dejectos, levando-os para a noite e atirando-os fora. Ele só conseguiu descontrair-se quando ela voltou, rastejou para junto dele e encostou contra ele o corpo arrefecido pela noite. Ela acarinhou-o, o corpo dela contra o dele, a sensação firme da carne dela tranquilizando-o.

 

Pequeno Dançarino tentou acalmar o coração galopante olhando para cima, para as coberturas, surpreendido por ver uma tira da Teia-de-estrelas onde as peles tinham sido puxadas para o lado. A silhueta não podia ser confundida. O lobo fitava-o.

 

Mesmo através da escuridão, podia sentir aqueles olhos amarelos ardendo nos seus.

 

- A Trouxa de Lobo - sussurrou, fitando lastimosamente a noite. Ela chamou-me.

 

Cria Branca gritou e sentou-se de um salto, acordada. Tentou controlar a respiração, engolindo pelo ar gelado da noite. O coração corria-lhe, a sensação nos seus membros entorpecidos como se tivesse feito uma dura corrida de um dia inteiro. Uma náusea agitava-lhe o estômago. A cabeça doía-lhe como se tivesse sido aberta com um machado de pedra.

 

Que tinha sido? Um sonho? Sentia-se como se tivesse sido atingida no estômago... e o formigueiro não a abandonava. Suores frios correram-lhe pela pele envelhecida.

 

Tremendo, sentou-se e envolveu-se na túnica. Gemendo com o esforço, arqueou-se sobre a cova da fogueira, remexendo as cinzas em busca de uma brasa. Quando encontrou uma, colocou mecha sobre ela e soprou até ter um dedo de chama. Esta, ela alimentou-a até o fogo crepitar. Estendendo os dedos, ela procurou o calor, só para descobrir que não lhe diminuía o arrepio da carne. Aquele frio vinha de dentro dela.

 

Olhou para cima, para a Espiral gravada na parede.

 

- Então o tempo já chegou totalmente? É isso?

 

Da mochila, retirou salva, molhou-a, atirando-a para o meio das

brasas. Pôs-se em pé, deixando a túnica escorregar dos seus velhos ombros. Nua, deu um passo para o vapor fumegante que se erguia do fogo, deixando-o lavá-la, purificá-la, depurando-lhe a própria alma. A salva, tonificante, infiltrava-se nos próprios poros.

 

Na luz difusa, olhou para baixo para o seu corpo, para os seios achatados que pendiam como abas. O ventre descaído, a pele solta e rugosa nas pernas e braços. Reentrâncias, como encaixes, tinham-se formado onde os ossos magros se espetavam para fora dos ombros. O cabelo brilhava branco onde as curtas tranças caíam sobre os ombros. O que em tempos tinha sido um emaranhado negro-brilhante em volta do púbis, agora consistia numas escassas madeixas brancas, que ela mal podia ver por sobre a proeminência do abdómen.

 

- Estás finalmente velha, Salgueiro Verde - gargalhou, lembrando-se da primeira menstruação e de como se sentira orgulhosa de se tornar mulher. Outro ano passara antes que conseguisse atrair Raposa Grande para se deitar com ela. Essas coisas eram difíceis quando uma mulher tinha a reputação de ser estranha, de falar com os espíritos; para além disso, os homens tinham ideias particulares acerca da sua masculinidade e do que o sexo com uma feiticeira podia fazer aos seus sagrados pénis.

 

Ela tinha tornado o desafio ainda mais difícil para eles, uma vez que fora de uma beleza invulgar. Nesse ano, até que Raposa Grande a tomou, os homens tinham lutado consigo próprios: o desejo pela sua jovem carne luxuriante contra o medo pelos Sonhos e Poder do Espírito com que ela se sentia tão à vontade. Finalmente, Raposa Grande, cheio de orgulho e virilidade, que nem sequer o medo do Poder podia intimidar, tinha acabado por se deitar com ela. Mesmo antes dos outros se terem convencido a experimentá-la, ela tinha concebido.

 

- Raposa Grande. - Disse-o melancolicamente, lembrando-se dos seus músculos agitados, do modo como sorria e brincava. Ai, se alguma vez tinha existido um homem feito para a paixão de uma mulher jovem, tinha sido ele. Não importava que ele atraísse todos os olhares, tinha sido um homem excepcional... e valera cada minuto que passara com ele.

 

Então, o Poder viera e introduzira-se nela com mais poder e vigor que o próprio Raposa Grande. Do mesmo modo que ele tinha tomado o corpo dela e lhe dera o seu, assim lhe tinha o Poder possuído a alma... e a alma não podia ser negada como o corpo.

 

Assim, ela tinha partido, seguindo o trilho que finalmente a conduziu até este abrigo, aprendendo os caminhos do Poder com Seis Dentes até que o ancião morreu e ela o arrastou pela escarpa acima, empurrando-lhe o corpo para uma fenda na rocha, emparedando-o, para manter os predadores de fora.

 

A sua beleza não diminuíra, porque da primeira vez que surpreendera

 

Pena Cortada a espiá-la, descobriu que ele se tinha perdido em conjecturas sobre os segredos do seu corpo. O que ela não podia partilhar com Raposa Grande-todas as especulações sobre o Poder do Espírito e sobre os Sonhos - podia discuti-los com Pena Cortada. Assim, tinham-se deitado juntos e, mais uma vez, ela concebeu. Unicamente, ao contrário de Raposa Grande, Pena Cortada tinha compreendido quando finalmente ela tivera de partir. Tinha sentido o poder do sonho e compreendera o enfraquecimento resultante da união física.

 

- Pena Cortada - sussurrou ela profundamente -, foste um bálsamo na minha alma. - Inclinou-se para a frente e deitou mais salva molhada no fogo, inalando profundamente o aroma vaporoso e expirando para limpar os pulmões.

 

-Assim, estamos quase no fim do círculo. Olha para ti, Cria Branca. Vê no que te tornaste no final da tua longa vida. - Meditou, tentando colocar tudo em perspectiva. Que propósito podia uma velha Sonhadora encontrar na vida? Das crianças que deu à luz, dos Sonhos que Sonhou, das lições que ensinou, que fez a vida ter valido a pena? As sensações? Os pensamentos? As acções?

 

Finalmente, ergueu as mãos para a Espiral, escarranchada sobre o fogo, sentindo o calor queimar-lhe dolorosamente as coxas. Como uma recordação, um fogo sexual acendeu-se uma vez mais, estimulado pelo calor pulsante e pela salva purificadora.

 

Perdida no prazer do momento fitou a espiral e fitou os olhos, vendo-a em pensamento. Círculos dentro de círculos, cada um conduzindo ao outro, nunca se tocando. Vida, espantosa vida.

 

O som das cortinas a abrir não a sobressaltou. Em vez disso, tomou outra profunda inspiração da salva e expirou. Engoliu e abriu os olhos, perdendo-se na espiral de novo. Só então se voltou.

 

A rapariga fitava-a, espantada, um ar aterrorizado no olhar. Ela também, estava nua, um atlatl na mão, um dardo encaixado e pronto a atirar. Tinham-lhe usado o corpo com brutalidade, sangrando nuns sítios, pisado noutros. Mantinha-se em pé, tremendo, pernas arranhadas, seios maltratados palpitando como se lutasse para respirar. A pele de galinha acentuava os arrepios que a percorriam. As linhas do ventre tinham um ar firme e musculoso. As ancas não tinham suportado o fardo da dilatação com uma criança.

 

No entanto, o rosto absorveu toda a atenção de Cria Branca. Olhos negros faiscantes - os de um puma fêmea enraivecido - encontraram os dela. Por detrás de um medo aterrador, estava o ar do Poder da raiva e do Juramento. As faces delicadas acentuavam a linha direita do nariz. Uma testa alta erguia-se sobre sobrancelhas graciosas. A maxila condiga com o queixo firme, embora o lábio inferior estivesse desproporcionalmente inchado.

 

- Entra, minha filha. - Cria Branca afastou-se do fogo, esticando-se para deitar mais um par de achas de lenha nas brasas. Anda, entra e aquece-te. Pareces toda desfeita.

 

A jovem deu um passo tímido para a frente, os olhos olhando em volta com suspeita.

 

- Que estás a fazer levantada... desperta a esta hora da noite? Cria Branca riu-se secamente, notando-lhe a carne maltratada, os arranhões no interior das pernas.

 

- Talvez mais do que tu sabes está acordado esta noite. Talvez estivesse esperando por ti. - Sim, a Espiral rodou. O fim está próximo.

 

A jovem inteiriçou-se, meio inclinada como para saltar. O ar desconfiado e perseguido tinha voltado.

 

- Ora, anda daí. Não estás em perigo. O Poder anda solto na noite.

 

- Apontou para a espiral. - Esta noite marca o fim de muitas coisas...É o começo de muitas mais. É uma noite de mudança... onde o Poder está a deslocar-se. Entra. Não estás em condições de correr por aí, por isso, bem podes descontrair-te e tomar refúgio para a noite.

 

Esticou-se, pegando na mão gelada da jovem. O sangue que a manchava tinha vindo de outrem. Então, ela tinha matado em retribuição? Os dardos que trazia pertenciam a um caçador do Povo... e ela obviamente pertencia aos Mão Vermelha. O caminho da violação tornou-se claro.

 

- Anda, põe-te por cima do fogo. Isso mesmo, como me viste fazer.

 

- És Cria Branca, a bruxa?

 

- E quem me chama bruxa? Ah, Sangue de Urso, é claro. Pobre louco!

 

- Por que devo ficar sobre o teu fogo?

 

- Porque isto é uma mudança da Espiral - apontou para a rocha.

 

- E porque isto pode ser uma mudança do Povo. - Cria Branca apontou para as suas próprias carnes descaídas. - Mesmo antes de tu chegares, estava de pé no calor, banhada pelo vapor da salva e meditando acerca da vida e de tudo o que fui e fiz.

 

Tomou a rapariga relutante e conduziu-a, colocando-a mesmo sobre a cova do fogo, atirando salva molhada para as chamas, a nuvem de vapor subindo numa coluna ondulada.

 

- Eu fitava a Espiral, pensando em tudo o que ela simboliza acerca da vida completar o círculo e como uma coisa conduz a outra, unidas e, no entanto, separadas.

 

- Trincou o lábio, vendo a jovem fechar os olhos enquanto o vapor tépido a banhava.

 

- Bem vês, onde estás agora, estive eu em tempos. Do mesmo modo que tens nas mãos o sangue de outro que te violou, também eu tive. Talvez seja o caminho da Espiral, não? Quero dizer que não podemos compreender a dádiva da vida até que a sua fragilidade e sofrimento nos é demonstrado.

 

A jovem abrira os olhos, fitando a Espiral.

 

- Não sou uma bruxa! - E a Espiral veio para ela: princípio e fim.

 

- Nem eu - acrescentou Cria Branca com um suspiro. Sim, tinha sido o que a fizera acordar. Transição. - Não, tu és agora a mãe do Povo, embora ainda não o compreendas. É curioso, vim aqui com Seis Dentes, para estar de pé e purificar-me como tu. Só que eu trazia um pau de escavar de cerejeira.

 

- E que fizeste com o teu pau de escavar, velha mulher? Cria Branca gargalhou.

 

- Está ali, contra a parede. Desse momento em diante tornou-se um cajado.

 

- Dardos de guerra não se transformam em cajados... mesmo se eu fosse suficientemente crédula para acreditar em ti.

 

- Não, suponho que não. Mas o Poder escolhe segundo as suas necessidades. Quando o Poder me chamou, ele queria o Sonho. Contigo, bem os dardos falam por si próprios. - Cria Branca fitou-a nos olhos ardentes, enfrentando-os, sentindo o seu Poder misturar-se com o daquela indomável mulher. - Vem aí um Sonhador, Sanhaço.

 

- Como sabes o meu nome?

 

- Sei muitas coisas. Escuta-me. Vem aí um Sonhador. Ele vem para fazer a paz entre o Povo e os Mão Vermelha. Não posso ver tudo; não tenho o Poder que gostaria de ter. Eu nunca o tive, bem vês. Oh, não importa, estou a falar de mim outra vez. Mas os Mão Vermelha são teus. Não posso dizer-te o que fazer com eles, mas eles vão-te ouvir. Tu, por tua vez, deves escutar o Sonhador.

 

- Não tenho a certeza, por agora, que queira escutar um homem qualquer. Não depois...

 

- Ele não é um homem qualquer. - Cria Branca passou as velhas mãos sobre a pele gelada da mulher, evitando as contusões, procurando restaurar a circulação e o calor. - Não poderias ter chegado assim tão longe sem te apoiares em algo profundo dentro de ti, alguma força que corre no teu próprio sangue.

 

Cria Branca captou o clarão nos olhos da mulher, um leve tremor nos lábios:

 

- Talvez!

 

- Talvez, nada. Esta é uma época para a força. Não quer dizer que seja uma época para estupidez... apesar do que Sangue de Urso possa levar os outros a crer.

 

- Ele é um grande guerreiro.

 

- Ele é um louco!

 

- O quê? Eu vi-o matar. Vi os corpos dos mortos que ele...

 

- Ele levou a Trouxa de Lobo a abandonar os Mão Vermelha! Por que julgas que nos estamos a dividir? Por que julgas que os problemas caíram em cima de nós? Por que julgas que foste violada lá fora? Por que é que o Povo invade as terras dos Mão Vermelha? Por que estão as Espirais a mudar?

 

Ardentes olhos negros flamejaram

 

- Que estás para aí a dizer? ATrouxa de Lobo vai com Sangue de Urso para todo o lado!

 

- E qual é o aspecto dela, Sanhaço? Qual é o aspecto do olhar de Sangue de Urso nestes dias? De um homem em paz consigo próprio? Ou de um homem conduzido a um desespero que não compreende?

 

Ela franziu as sobrancelhas, estremecendo como se aferroada em alguma ferida.

 

- Ele passa muito tempo a esfregar o dedo mindinho e com olhar preocupado. Mas é porque o Povo do Pequeno Búfalo...

 

- E porque está prestes a morrer. Sanhaço voltou-se com olhar irado:

 

- Ainda está para nascer o guerreiro capaz de trespassar Sangue de Urso com um dardo!

 

- O guerreiro já nasceu - admitiu Cria Branca, fatigadamente. Só que esse guerreiro ainda não o sabe.

 

- De que estás a falar?

 

- Deixa-te estar aí de pé. Deixa-me aquecer água e lavar esses golpes. Esses sinais de mordedura nos teus seios preocupam-me sobremaneira. Se se encherem de pus, vais lamentá-lo a sério.

 

Sanhaço olhou-a cautelosamente, algum do tremor já desaparecido dos seus membros. A pele de galinha tinha desaparecido para mostrar pele vermelha e arranhada.

 

Cria Branca assustou-se com a dor que a rapariga deveria estar a sentir enquanto lhe limpava as feridas; mas Sanhaço não mostrou qualquer mudança de expressão na face estóica, apesar de sentir uma agonia sem fim.

 

- Como disse, tu tens uma força interior. - Cria Branca franziu o sobrolho. - Talvez seja o que eu nunca tive. Ah, bem, esta é uma época para heróis.

 

- Continuo sem perceber.

 

Cria Branca encontrou uma túnica e estendeu-a a Sanhaço, que tinha começado a enervar-se e que, finalmente, se afastara do fogo com um leve brilho de transpiração nas pernas e ventre musculosos.

 

Cria Branca afastou-lhe as palavras com um gesto.

 

- Não precisas. Pelo menos por enquanto. Do que tens de te lembrar é de que tens de confiar no Sonhador. Tens de ser a força dos Mão Vermelha. Compreendes?

 

- Confiar no Sonhador? - Um sorriso retorcido começou a dobrar-lhe os lábios, até que ela vacilou com a dor.

 

- Confiar no Sonhador - concordou ardentemente Cria Branca. Diz-me, Sanhaço. És suficientemente forte? És capaz de...

 

A ponta acerada do dardo de Sanhaço pressionou a garganta de Cria Branca. Ela olhou ao longo da haste para os olhos mortais da jovem mulher.

 

- Eu matei duas das larvas rastejantes que me violaram, velha. Não me fales de força. Onde devia ter ficado um destroço partido, matei e fugi... e, assim me ajudem, pela Trouxa de Lobo, hei-de fazê-los arrependerem-se!

 

Cria Branca ignorou a picada da pedra acerada.

 

- Isso é paixão, necessidade de vingança. Qualquer um pode chicotear-se com a raiva e tentar o impossível. O que te perguntei foi acerca de força. Poderás tu fazer o que tens de fazer? Podes ultrapassar-te a ti própria. Podes carregar o peso e a responsabilidade pelos Mão Vermelha nos teus ombros? Podes chefiá-los, custando-te o que custar?

 

- Eu matei, não matei?

 

- Qualquer louco pode matar. Poderás dar-te toda pelos teus Mão Vermelha? Podes forçar-te a olhar para além da tua raiva? É isso que eu estou a pedir. Estou à procura de força... não de outro tolo fraco como Sangue de Urso.

 

- Chamas-lhe a ele tolo fraco?

 

Cria Branca anuiu, sentindo um fio de sangue a correr-lhe no pescoço.

 

- Ele não é melhor do que Castor Pesado... apenas menos capaz. Também ele despreza o Poder.

 

A ponta do dardo afastou-se. Sanhaço abanou a cabeça.

 

- Estou espantada. Se fosse eu que estivesse na ponta do dardo, pensaria que a minha vida estava acabada. Tu não tens medo, Cria Branca?

 

Ela tocou no sangue.

 

- Tenho medo. Mas não da morte. Tenho estado à espera dela. Tenho muitas questões que quero respondidas. Mas isso não vem ao caso.

 

- E a minha força vem? - ela ergueu uma sobrancelha. - Agora mesmo podia matar o mundo para o fazer pagar por...

 

- Isso é o que me preocupa. - Cria Branca encheu os pulmões. Quero saber se és suficientemente forte para usar a tua inteligência em lugar da tua ira. És capaz disso?

 

- Inteligência? Ira? De que estás tu a falar?

 

- Se não és capaz de o perceber, então, que o Sábio Lá em Cima nos ajude, porque com certeza vais matar os Mão Vermelha.

 

Sanhaço limitou-se a fitá-la, o ardente brilho da fúria pulsando-lhe por detrás dos olhos.

 

- Esquece. Tens aí a taça do guisado. Estás quase a cair de cansaço. Come e dorme, e se tivermos tempo, discutiremos isso de manhã.

 

Pequeno Dançarino agarrou-se a mais um apoio na rocha escaldante e içou-se, arquejando, como se lutasse para respirar. Debaixo dele, um penhasco abrupto caía para um amontoado de rochas partidas. O lobo sentara-se lá ao fundo, observando, a cauda enrolada em torno das patas da frente.

 

Do sítio para onde subira, a vista podia, literalmente, tirar a respiração a uma pessoa. Nem mesmo as águias tinham melhor perspectiva do mundo. De ambos os lados, a escarpa de arenito caía a partir do pináculo que Pequeno Dançarino escalara. Aqui, a terra tinha sido empurrada para cima, e ele podia avistar, através da bacia, as montanhas verde-azuladas a oeste. Aí, os picos erguiam-se cinzentos e recortavam-se, varrendo a abóbada azul do céu.

 

Os flancos das Montanhas do Búfalo alargavam-se em ressaltos deformados e recortados, cada um dos quais pontilhado de pinho e zimbro. Mais acima, densas matas de abetos cobriam as encostas até aos cumes arredondados, projectando-se, como crânios desgastados e estalados, para fora de cabeleiras esfarrapadas.

 

Perante este panorama, Pequeno Dançarino encerrou-se em si próprio, tentando exsudar as dúvidas e os estranhos dedos de medo que o apertavam e lhe deslizavam até ao fundo do coração. O perigo de uma queda, o risco de um passo em falso, apenas aumentavam o desafio - e a questão devoradora que o corroía por dentro.

 

Ele não podia ir. Podia sentir o chamamento, sentir a atracção da Trouxa de Lobo - mas Alce Encantado atraía-o ainda mais. Não podia olhar para os olhos das filhas e afastar-se para seguir o chamamento.

 

- Eu prometi - rouquejou através dos dentes cerrados. - Tomei a minha decisão. - Debaixo do rosto transpirado, o arenito pedregoso mordia-lhe na carne.

 

Estendeu-se para outro apoio.

 

- Sonhador de Lobo - gritou. - Onde estás tu?

 

Apesar das mãos sangrentas, agarrou-se e içou-se, os dedos dilacerados estendendo-se freneticamente para outro apoio. Os músculos vacilavam-lhe e doíam-lhe com o esforço.

 

- Sonhador de Lobo?

 

Conseguiu apoiar o pé numa saliência angular e impulsionou-se para cima. Com um último lampejo de esforço, caiu pesadamente sobre o topo do rochedo, arquejando, o suor ardendo-lhe enquanto escorria pelas faces febris e traçava caminhos irregulares por entre os cabelos.

 

Deitado de costas, fitou o céu, o rosto da esposa e das filhas revoluteando-lhe na memória.

 

- Não posso ir, Sonhador de Lobo. Não posso deixá-las. Amo-as demais

 

Gosto de ser quem sou. Não o que queres fazer de mim. Não sou um herói... não sou como tu. Sou apenas um homem, marido e pai. Toma outro qualquer, alguém mais forte para lutar a tua guerra por ti. As lágrimas corriam-lhe, misturando-se com o suor do rosto.

 

- Por favor, Sonhador de Lobo. Encontra um herói para fazer o teu trabalho. Não posso salvar a Trouxa de Lobo. Não posso destruir Castor Pesado. Amo de mais. Não posso lutar.

 

Só o sussurro quente do vento soava à sua volta. Algures, lá em baixo, um corvo crocitou... trazendo uma recordação gelada da maldição de Castor Pesado. Uma imagem fugaz de Raiz de Salva, pulsos abertos, moscas zumbindo, perpassou-lhe como flocos de neve através da mente.

 

- Eu não!

 

Rolou e pôs-se em pé. Ergueu-se sobre uma plataforma rochosa com não mais de quatro passos para leste, oeste, norte ou sul.

 

Pequenos tufos de vegetação agarravam-se desesperadamente às fendas da rocha. Lavada pelas chuvas, esfregada pelo vento, apenas permanecia uma sementeira de pedras do tamanho de cabeças.

 

Gelou, o coração batendo-lhe pesadamente no peito. O trabalho parecia antigo, desgastado pelo tempo aqui, nítido além. A poeira tinha enchido parte dos sulcos, ervas raquíticas tinham criado raiz. Empurrou um grande nó pela garganta abaixo. Todo o topo da rocha tinha sido laboriosamente gravado numa grande Espiral. Abanou a cabeça, tentando sair da grande gravação e apercebendo-se de que não tinha para onde ir. Paralisado, olhou para o céu, para o sol ofuscante.

 

Voltou-se para leste, erguendo as mãos.

 

- Sonhador de Lobo? Vem e fala comigo!

 

O sol dardejava sobre ele, torrando-lhe o corpo. Uma súplica na alma, deu um passo em frente, dedos contraídos tentando puxar o céu a si. Uma moita escamosa estalava-lhe debaixo dos pés, arranhando-lhe os tornozelos.

 

- Sonhador de Lobo?

 

De início a picada pareceu vir da moita pisada, depois a ardência crescente ultrapassou-lhe o desespero. Olhou para baixo, vendo a cabeça triangular mordendo-lhe a perna, injectando-lhe o veneno da sua ira. Negras pupilas fendidas fitavam-no maldosamente, a malha em losango das escamas captando o sol num brilho cinza-amarelado.

 

Ele gritou, pontapeando, entrevendo o réptil solto a enrolar-se no canto das rochas, a cauda que ele tinha pisado chocalhando furiosamente.

 

- Não! - gritou, curvando-se, fitando com horror as picadas na pele escura. - Não!

 

Caiu, a rocha dura batendo-lhe na carne enquanto se agarrava ao tornozelo. Uma vertigem cauterizante apertou-o, o estômago revolvendo-se enquanto lutava para provocar o vómito.

 

- Não!

 

Através do medo, sentiu o mundo baloiçar. Piscou com olhos vítreos, sentindo o veneno progredir dentro dele, queimando ao longo das suas veias. Freneticamente, olhou em volta, nada vendo com que pudesse perfurar as feridas... talvez sangrar algum veneno porque não conseguia dobrar-se para o sugar.

 

O matraqueado chegou-lhe dos dentes que batiam. Limpou as lágrimas dos olhos. Pôde sentir os sulcos que tinham sido gravados na rocha. Pestanejou, vendo que tinha caído no centro da Espiral. Início e fim nascimento e morte.

 

Aguardou, enquanto o sol deslizava através do céu. Enjoado, nauseado, sentiu a morte devorar o seu caminho ao longo da sua perna latejante e inchada. O Sol caiu para ocidente.

 

As palavras rodopiaram no ar límpido. Pequeno Dançarino fitou o ondulante envidraçado do céu, ouvindo a velha mulher tão claramente como se estivesse por cima dele.

 

Criaturas monstras no ventre rastejam.

 

Do homem o pé mordam, cair o vejam.

 

Sem pés, sem braços, cabelos de escama

 

Na cauda um guizo chocalha e abana.

 

Veneno nos dentes, martelo oco,

 

Que o sangue faz negro e choco.

 

- Quem... quem és tu?

 

O céu? Ai, sempre o céu

 

Crestando quente, branqueando o chão

 

Como queimado por ardente tição.

 

Os monstros Sonha para as estrelas distantes

 

Seus corpos branqueia nos ares escaldantes.

 

A terra ele muda e do Povo o viver.

 

Sem nova Via... irá tudo morrer.

 

Estuda a erva, a baga, a raiz,

 

Que o tempo é curto, e a vida infeliz

 

Esmaga e mói, mói e esmaga

 

Enquanto o vento quente, sopra e estraga.

 

- Que é que tu queres?

 

O vento seco soprou em resposta. Pestanejando freneticamente, Pequeno Dançarino elevou-se, subindo sempre, rumo à inevitabilidade azul do céu.

 

Há muitos anos que Castor Pesado não vira um Verão tão quente e seco. Desde o grande frio que nenhuma neve caíra, e mesmo nessa altura apenas um vestígio que tinha secado no dia seguinte. Segundo todas as informações, apenas as Montanhas do Búfalo tinham tido humidade bastante. Como se o compreendessem, os búfalos tinham seguido os trilhos para os altos prados, enchendo a terra dos Anifah com a sua riqueza. Outras manadas tinham-se dispersado, aqui e além, disseminando-se, até só se encontrarem animais isolados nas regiões montanhosas. Ao longo dos rios, onde a corrente alimentava as ervas ribeirinhas, os caçadores tinham-se emboscado e morto muitos dos animais, sabendo que estes tinham de voltar para a única água disponível.

 

Com o seu acampamento principal, Castor Pesado andava, seguindo o trilho deixado pelos guerreiros. O trilho serpenteava, manietado pela necessidade da disponibilidade de água. Caminhavam sobre uma terra torturada... os regatos tinham corroído o solo desnudado, apenas para se encherem com o pó e a areia trazidos pelo vento. Até os cães tinham um ar miserável, ofegantes e afadigados sob as cargas, à medida que as almofadas das suas patas rijas se magoavam nos seixos planos e se cortavam nas pedras afiadas.

 

Castor Pesado não chefiava o único bando do Povo. Duas Pedras vinha de mais longe, a leste, e os mensageiros de Sete Sóis informavam que ele se deslocava para sul a partir da foz do Rio da Lama, onde ele se encontrava com o afluente Búfalo do Rio Grande. Do sul, o bando esfarrapado de Assobio de Alce abria o seu lento caminho, subindo a partir do Rio da Areia, informando que a areia levantada pelo vento cobria agora o próprio céu, deixando negro o ar poeirento. Já tinham começado a comer os cães.

 

- Os Anifah comem raízes e sementes - dissera-lhe Sílex Vermelho. - Talvez seja uma maneira de afastar a fome?

 

Ele esbofeteou-a, fitando-a furioso quando ela caiu, com uma mão comprimindo a boca.

 

- Nós somos homens e não cavadores de terra como os Anifah. O Búfalo Lá em Cima e o Sábio colocaram os búfalos aqui para os homens comerem. A carne é o alimento da força, do Poder. As raízes enfraqueciam os meus guerreiros. - Olhou para a protuberância crescente das Montanhas do Búfalo com a sua ofuscante cobertura de neve. Nós iremos para onde o Búfalo Lá em Cima nos conduz. Este ano, sim, este ano vamos tomar as montanhas.

 

Mas ouviu outros quando o julgavam afastado:

 

Os Anifah comem raízes... e não vejo o sangue deles ficar fraco.

 

- Vou tomar as vossas montanhas! - prometeu Castor Pesado. Pela alma da minha mãe o juro. Pelo sangue que me corre nas veias não terei mulheres parvas a apanhar raízes, ganhando poder nas tendas através da comida que arranjam. Não. Nenhum homem será mantido refém por isso. Elas não vão derrubar dessa maneira a purificação do Povo. Prefiro que antes morram todos atravessados pelos dardos de guerra dos Anifah.

 

Cerrou um punho e acenou-o à cadeia de montanhas.

 

Trouxa de Lobo? Estende-te... estende-te para ele agora! Inunda-o com a tua necessidade. Actua. Actua agora!

 

 

Cria Branca acordou com uma sensação de presságio. O Poder tinha-he perturbado o sono, brincando com os cantos mais pequenos da sua mente Sonhadora. O último dos Sonhos, no entanto, tinha sido tão forte como a própria vida. As imagens permaneceram, recortadas, tão reais que ela quase as podia alcançar e tocar se ela lhes estendesse os braços ressequidos.

 

Assim, o seu tempo tinha, por fim, chegado. Abriu os olhos, focando-os no interior confortável do seu abrigo. Na paz da manhã, deixou a vista percorrer os seus pertences familiares que pendiam de cavilhas ou repousavam em nichos. A antiga Espiral gravada na parede do fundo, nesta manhã, parecia dominar o lugar. À medida que o Sol se erguia sobre as montanhas distantes, um estreito raio de sol atravessava as coberturas e cravava-se na espiral como uma brilhante haste de luz.

 

Cria Branca puxou o cabelo para trás, mexendo a boca para a libertar do sediço sabor da noite. Os ossos estalaram-lhe e gemeram quando se ergueu do leito, deslocando-se para espevitar as cinzas de ramas de salva da fogueira. Deitou alguma mecha nas brasas ardentes. Soprando suavemente, convenceu o fogo a erguer-se e começou a aquecer as pedras de ferver.

 

Sanhaço descansava entre as peles, um braço esbelto saindo para fora dos agasalhos. A mão elegante repousava descontraída, os dedos encurvados. Aqui e além madeixas de brilhante cabelo negro espreitavam para fora da protecção do leito.

 

Cria Branca chupou os lábios delgados entre as gengivas. Uma saudade projectou-se na rapariga. Era curioso como o Poder trabalhava.

 

Sanhaço, a rapariga bravia da floresta e da caça, tinha sido atraída, aspirada para dentro da Espiral.

 

Erguendo um fogo crepitante, Cria Branca esperou que as pedras aquecessem enquanto utilizava uma afiada lasca de sílex para raspar carne seca para dentro do saco de cozer. Quando a superfície da água ficou coalhada de raspas de carne, ela juntou raízes de biscoito, balsamina e o resto das suas cebolas, cuidadosamente conservadas. A pouca efedra que ainda tinha, juntou-a também. Sanhaço ia precisar dela.

 

Em seguida, passou por cima de Sanhaço e inspeccionou a pilha de coisas que tinha encostadas contra a parede do fundo. Pegou no seu atlatl e no feixe de dardos que fabricara com tanto cuidado. Inspeccionou-os um a um, procurando fendas na madeira e assegurando-se de que as penas não tinham sido danificadas por roedores. As ligações continuavam apertadas onde as mortais pontas de pedra estavam amarradas às hastes. Bom trabalho, do melhor que alguma vez fizera. As pontas tinham sido feitas por Três Dedos que - com a destreza dos homens das planícies criara as pontas mais perfeitas que alguma vez vira. Agora, a pedra murmurava na luz da manhã. Ela afagou os dardos a todo o comprimento com um dedo terno, abençoando-os, levando-os aos lábios para soprar neles um pouco da sua alma. Colocou os projécteis, juntamente com o seu atlatl junto dos dois dardos pertencentes a Sanhaço.

 

Voltou para junto do fogo, usando os seus paus de lareira para arrancar as pedras do fogo e deitá-las dentro do saco de ferver. Ao assobio e chiadeira da água, Sanhaço, de um salto, sentou-se, olhando, de olhos selvagens, em volta do abrigo.

 

- Vamos comer já. Não temos muito tempo esta manhã... mas deve chegar.

 

- Passas a vida a dizer isso. - Sanhaço penteou para trás o emaranhado de cabelo negro com os dedos longos e delgados.

 

- Pensei muito na noite passada. Esta manhã, eu sei. Os Sonhos andaram soltos na terra.

 

Sanhaço concordou, fechando os olhos e abanando a cabeça como para se libertar dos seus próprios fantasmas.

 

Cria Branca acenou para si própria, imaginando bem os pesadelos que Sanhaço tinha revivido. Pegou numa das suas colheres de corno maravilhosamente trabalhadas e mergulhou-a no caldo fumegante.

 

- Aqui, menina, come. Come tanto quanto puderes. Vais ter um dia difícil.

 

Sanhaço estremeceu enquanto se erguia, a cor fugindo-lhe do rosto.

 

Toma. Leva isto contigo. Mastiga-o quando precisares. - Deu à Jovem uma pequena bolsa.-É um extracto que fiz de casca de salgueiro. Tens de descascá-lo e fervê-lo e, quando retirares a água fervente, raspa o resíduo. Por qualquer razão, diminui a dor1. O salgueiro tem muitas propriedades maravilhosas.

 

Sanhaço deu um passo cuidadoso, tentando manter uma expressão neutra. Baixou-se cuidadosamente e pegou na colher, bebericando cuidadosamente o líquido fumegante. Levantou de relance os olhos:

 

- Falas como se soubesses que alguma coisa vai acontecer hoje. Cria Branca sorriu de forma ausente, os olhos fitos na imensidão.

 

- Sonhei... Sonhei como nunca tinha sonhado antes. Não compreendi tudo, pelo menos para já. Mas ouvi a Trouxa de Lobo. Sussurrou-me nos meus Sonhos.

 

Sanhaço estudou-a pelo canto de um olho desconfiado.

 

- Ah! Cepticismo. É o que Sangue de Urso vos ensinou a todos? Não admira que a coragem tenha fugido dos Mão Vermelha. No entanto, a Trouxa de Lobo sussurrou-me enquanto dormia. E sonhei com o Primeiro Homem, vi-o, brilhante e maravilhoso, sorrindo e aproximando-se de mim e, depois, a Trouxa de Lobo deu-me a sua mensagem.

 

Sanhaço esvaziou o corno e olhou-a por cima dele.

 

- E que mensagem foi essa? Que quer a Trouxa de Lobo que tu faças? Cria Branca sorriu, pousando o queixo nos punhos fechados.

 

- Não sou eu, rapariga. És tu a quem a Trouxa de Lobo quis falar. Disse: Diz à Sanhaço que ajude o Sonhador.

 

Sanhaço abanou a cabeça, levantando-se, estremecendo com a dor.

 

- Passas a vida a dizer isso. Há por aí algumas roupas para mim? Cria Branca suspirou, resmungando enquanto se erguia.

 

- Antes de te vestires, deixa-me limpar outra vez essas feridas. Tens razão, passo a vida a dizer isso. É verdade. Há dias que os Sonhos quase me deixam doida. Só não sabia quem tu eras.

 

Ela voltou-se, um fogo nos olhos negros cintilantes.

 

- Porquê eu? Que é todo este disparate?

 

Cria Branca encontrou os seus remédios e ergueu os olhos para a alta jovem.

 

- Porque, rapariga, se decidires ajudar o Sonhador, tornar-te-ás o chefe dos Mão Vermelha.

 

- Chefe dos Mão Vermelha?

 

- É um modo de restaurar a Espiral. Equilíbrio, entendes? Aquilo que o universo sempre tenta manter... e nunca consegue. Mas tens de correr o risco. Neste momento, só tens pensamentos para a tua revolta. No Sonho, a Trouxa de Lobo mostrou-me como isso vai acontecer. Se... e eu digo se... tu escolheres apoiar o Sonhador, destruirás os invasores do

 

1 Casca de salgueiro é rica em ácido acetilsalicílico, princípio activo de muitos analgésicos como, por exemplo, a aspirina.

 

Pequeno Búfalo. Caso contrário, bem, quem sabe? Talvez Dançarino do Fogo e Dois Fumos consigam, apesar de tudo, arranjar alguma saída.

 

- Dois Fumos? O tresmalhado?

 

Cria Branca anuiu, enquanto começava a tratar das feridas de Sanhaço.

 

- Disse-te que o Poder estava misturado com tudo isto.

 

- E estas armas aqui à minha beira?

 

- Vais precisar delas daqui a pouco É por isso que te sugeri que tomasses esse extracto de casca de salgueiro. Vai fazer as tuas dores...

 

- Que queres dizer com... eu vou precisar delas?

 

Cria Branca tratou das últimas mordidelas e escoriações antes de pegar numa túnica de pele de ovelha, um exemplo do talento de Dois Fumos a curtir e cozer. Até Sanhaço hesitou, demorando um instante a passar os dedos pelo couro finamente curtido. Um clarão radiante derramou-se-lhe pelos olhos enquanto a fazia deslizar por cima da cabeça. O couro, incrivelmente macio, não iria incomodar a sua carne maltratada.

 

- Não sei o que faça dos teus pés, mas as minhas mocassinas parecem ser do teu tamanho. Se não, podes andar com os exteriores de Inverno.

 

- Disseste que vou precisar das armas? - Sanhaço mirou-a, enquanto puxava o calçado para cima dos pés castigados.

 

- Vais, sim. Os Pequeno Búfalo que te capturaram estão a caminho.

 

- O quê? - A compostura gelada de Sanhaço desmoronou-se. Cria Branca sorriu maldosamente.

 

- Claro. Sonhei-os, bem vês. É um contrato com a Trouxa de Lobo. Trouxe-os para ti. Mas um tem de escapar... para ir contar a história.

 

- O quê?

 

Cria Branca suspirou pesadamente.

 

- De que outra maneira acreditarás tu no que eu digo, que a Trouxa de Lobo precisa de ti?... Que o Sonhador precisa de ti?

 

- Mas aqui? - O pânico de Sanhaço alastrava. Cria Branca fitou-a:

 

- Vais ser chefe dos Mão Vermelha? Ah! Então, é melhor começares a prová-lo, rapariga. Tens quatro homens para matar.

 

- Eles são cinco!

 

- Um tem de viver.

 

- Um?

 

Cria Branca baixou os olhos:

 

- Digamos que é o meu preço.

 

Madeira Desempenada seguia atrás, observando, enquanto Mão Esquerda seguia a pista. Pura sorte, era o que tinha sido. Depois de terem Perdido completamente o rasto da mulher anif’ah, um simples vestígio na terra tinha indicado o caminho. Nessa altura, a mulher devia ter acreditado que já os tinha despistado. Os rastos tinham de ser dela. Quantas mulheres andariam por ali descalças? E pelos vestígios, ela devia estar perto da exaustão e coxeando ligeiramente.

 

Mão Esquerda continuou num passo acelerado, apontando aqui e ali para um leve traço ao longo da pista. Tinham começado junto do Rio de Água Límpida, seguindo um trilho muito usado. Em frente, uma escarpa de arenito acinzentado erguia-se até um pico elevado acima do emaranhado verde-escuro das árvores.

 

- Olha! - apontou Dardo Firme. - Alguém apanhou lenha aqui. Madeira Desempenada podia ver os lugares onde os ramos tinham sido arrancados. Teria havido um acampamento anif’ah aqui? Deixou-se ficar ligeiramente para trás. Só cinco? Para atacar um acampamento Mão Vermelha?

 

- Não sei se isto será assim uma grande ideia. Com apenas cinco de nós, que acontece se entrarmos num...

 

-Ela matou Duas Luas Azuis e Formiga Pequena-insistiu Mão Esquerda, tentando manter a sua voz baixa.

 

Dardo Firme ergueu a mão, pedindo silêncio.

 

-Ela matou o nosso povo... um dos nossos maiores guerreiros. Muitos dos acampamentos deles são pequenos, com poucos homens... e os que têm são velhos. Digo que os ataquemos em força. Na confusão, matamos a mulher e, quem sabe, talvez os desbaratemos a todos. De qualquer modo, a coragem fugiu dos Anifah.

 

Mão Esquerda acenou brevemente com a cabeça, continuando a seguir o trilho.

 

Madeira Desempenada rangeu os dentes, tomando de novo a última posição. Mão Esquerda ergueu-se antes de as árvores se diluírem num largo prado. Do local onde se encontrava, Madeira Desempenada podia ver peles curtidas cobrindo o que parecia ser uma proeminência no rochedo. Nenhum outro sinal de acampamento, nenhum latido de cão, nenhuns gritos se ouviam no ar calmo. A velha mulher sentava-se ao sol, as pernas dobradas debaixo de si, o rosto erguido para o amanhecer.

 

- Uma velha. - Mão Esquerda acenou-lhes para avançarem. Madeira Desempenada sentiu aquele aperto no coração, a sensação de um pressentimento. Porquê? Não tinha Castor Pesado Cantado sobre ele tornando-o poderoso? Tranquilizado pelo pensamento, Madeira Desempenada continuou.

 

A velha podia ter sido ignorada. Madeira Desempenada estudou a situação. Ninguém podia deslizar até eles pela retaguarda. Um cinto de árvores crescia ao longo da base de calcário e era tudo. A não ser que dentro do abrigo estivesse escondido um grupo de guerra completa, apenas tinham pela frente uma velha e talvez a rapariga que tinha morto tão rapidamente depois de a violarem.

 

- Parem aí, guerreiros do Povo! - o débil grito ondulou no ar.

 

- Ela pertence ao Povo? - perguntou Mão Esquerda.

 

- Quem és tu?

 

- Sou Cria Branca. Não se aproximem se não morrem!

 

- A bruxa! - Madeira Desempenada sobressaltou-se, os pensamentos voltando-lhe ao dia em que Cria Branca aparecera e retirara o tresmalhado e o rapaz mesmo debaixo do nariz de Castor Pesado.

 

- Bruxa? - Mão Esquerda riu-se. - Tu és uma bruxa?

 

- Não. Mas ide embora. Tiveram esta oportunidade. De contrário, vão morrer.

 

O braço de Mão Esquerda recuou. Relâmpago humano, o corpo dobrou-se, colocando o peso por detrás do arremesso do dardo. Madeira Desempenada olhou, observando o delgado projéctil reluzindo ao sol. Podia ter sido um falcão, tão suavemente caiu do céu azul, descendo para trespassar o ventre da velha mulher com um baque surdo.

 

- Venham daí - gritou Mão Esquerda. - Vamos apanhar a rapariga. - E eles carregaram em frente.

 

Madeira Desempenada deambulou atrás, os olhos fitos na velha mulher, que continuava sentada no mesmo lugar, os dedos frágeis acariciando o dardo que lhe emergia das entranhas.

 

Não viu Mão Esquerda receber o dardo que o matou, mas o guerreiro tropeçou e caiu gritando horrivelmente.

 

- A rapariga - guinchou Dardo Firme, apontando, mudando a direcção da sua carga, esquecido do estado de Mão Esquerda. Os outros correram atrás dela. Ela esgueirou-se através das árvores com a graça de um veado em voo.

 

Madeira Desempenada hesitou, e, finalmente, caminhou, subindo o ligeiro declive, baixando os olhos para a velha mulher. Sim, esta era Cria Branca. Ela olhou para cima, fitando-o com os olhos negros flamejantes.

 

- Então - resmungou ela. - Mataste Cria Branca? Louco. Só atraíste a morte para o Povo.

 

- Os guerreiros de Castor Pesado estão em todo o lado, bruxa. Os Anifah fogem de nós. Muitos nem sequer nos enfrentam e lutam. Castor Pesado Sonhou a destruição deles.

 

Ela cacarejou e estremeceu com a dor:

 

- Com a minha morte, vocês cuspiram no Poder pela última vez.

 

- Que queres tu dizer, bruxa? Que sabes tu do Poder?

 

Cria Branca riu-se, feliz, os dedos enclavinhados em volta da haste do dardo.

 

- Onde está o teu grupo? Hem? Olha lá para baixo para onde eles correram. Que é que vês?


Madeira Desempenada arrancou o olhar dos olhos fulminantes da velha mulher e perscrutou o vale debaixo da sombra da sua mão. Olhou mesmo a tempo de ver Dardo Firme carregar direito a um projéctil atirado. O guerreiro guinchou, caindo de face para a frente. Queda Rápida, o último ainda em pé, deslizou até parar, voltando-se freneticamente, correndo para o bosque distante. O dardo apanhou-o ainda antes de ele começar, penetrando-o à altura dos rins. Caiu sobre a face e deslizou na relva, tentando arrastar-se penosamente para longe.

 

- Tu és o último. Foge. Corre como nunca correste, rapaz. E diz a Castor Pesado que um novo chefe se ergueu entre os Anifah. O nome dela é Sanhaço. E diz a Castor Pesado que o Sonhador... e a Trouxa de Lobo vêm à procura dele. Diz-lhe a ele e a todo o Povo... que vão ter de Dançar com o fogo.

 

Madeira Desempenada quase não ouviu o fim. Voltou-se sobre os calcanhares, correndo desarvorado através do prado, as costas fremindo, enquanto a pele arrepiada lhe pressentia a penetração por uma ponta acerada.

 

Apenas parou junto às árvores o suficiente para lançar um rápido olhar por cima do ombro. A visão deixou-o atónito. Saído da límpida manhã azul, um redemoinho formara-se diante do abrigo. Fustigou raivosamente a relva, aspirando detritos e poeira para as alturas, atirando tudo para o ar calmo e transparente. Subiu então ao longo do declive, centrando-se sobre a velha mulher, atirando-lhe o cabelo de um lado para o outro e sacudindo-lhe o vestuário. Finalmente ergueu-se, subindo pelo penhasco acima.

 

Madeira Desempenada gritou e correu como nunca tinha corrido na vida.

 

Quanto tempo? Três dias? A sucessão de nascer e pôr do Sol tinha desfocado a sua mente febril. Uma dor contínua subia pela perna ardente de Pequeno Dançarino impulsionada por cada batida do seu coração

 

- Sonhador de Lobo? - gemeu ele uma vez mais.

 

Só o leve sussurro do vento acompanhava os seus lamentos. Por vezes, quando o delírio o tomava, pensava escutar vozes familiares, mas não conseguia distinguir as palavras. Nesses momentos ele respondia, ouvindo Alce Encantado ou Touro Esfomeado ou talvez o estralejar trepidante do riso seco de Cria Branca.

 

Desconfortavelmente, adormeceu e o Sonho voltou-lhe. Ele foi um só com a águia pairando altaneira lá nas alturas, sentindo o controlo preciso dos músculos das asas e da cauda. Que liberdade poder deleitar- com as mudanças subtis de altitude ou com a tensão das penas que cortavam as correntes de ar.

 

De outras vezes, saltava com os ratos na noite, escutando cuidadosamente à procura do débil frémito das asas da coruja na escuridão. O nariz penetrante procurando a rica doçura das espigas de ervas em maturação.

 

- Estou a morrer - resmungou para si próprio, enrolado em posição fetal, enquanto o sol lhe fazia transpirar a última água do corpo. A dor tinha-o tornado quase demente. Tudo o que precisava era de arrastar-se até à beira do penhasco e deixar o corpo cansado precipitar-se pela borda, sobre as rochas do esquecimento lá em baixo.

 

Penosamente, ergueu a cabeça para examinar a perna; a visão do membro intumescido nauseou-o. Sob a pressão, a pele tinha inchado, quase para o dobro da outra perna. A cor tinha-se tornado horrível. Quando tocou a pele, ela parecia pronta a explodir, como uma bexiga sob pressão. A náusea envolveu-o.

 

- Estou a morrer

 

- Estás, sim.

 

Olhou para cima, de viés, para a luz do Sol, vendo as feições de Sonhador de Lobo formar-se do próprio entrelaçado dos raios dourados do sol. Erguia-se alto, cintilante, banhado pela luz dourada, a pele marcada pelos padrões do Mundo do Espírito.

 

Sonhador de Lobo instalou-se na rocha, fazendo tanto ruído como uma pluma a assentar na poeira. Cruzou as pernas com graça e sentou-se serenamente, as costas direitas, mãos no regaço. A beleza do rosto, a simpatia e a preocupação expressa pelos olhos tristes, enterneceram a alma de Pequeno Dançarino. A confusão, a preocupação e o desespero escoaram-se, substituídos por uma brisa suave que o acariciava.

 

Pequeno Dançarino sorriu, fendendo os lábios gretados ao fazê-lo. O fardo cortante do que tinha para dizer perdeu o gume afiado... não importando que as consequências o pudessem condenar.

 

- Não posso ser o teu Sonhador. Não posso deixar a Alce Encantado... ou as minhas filhas. Amo-as de mais. - Suspirou, as emoções embotadas pela agonia palpitante na perna. - Devia pedir-te perdão, mas não acho que o deva fazer, só por amar a minha mulher e as minhas filhas. Não é nada de que deva envergonhar-me. Bem vês, quando me perguntaste se viveria e seria o teu Sonhador, eu não sabia até que ponto eu...

 

- Não preciso das tuas explicações.

 

Pequeno Dançarino arregalou os olhos, a visão desfocada pela febre ardente.

 

- Não? Mas eu... Bem, pensei que quando alguém faz uma promessa au espírito e depois não a cumpre... bem, acontecem coisas. Tu sabes, como a história em que uma mulher queria ter o Poder para curar. Quando o alcançou, usou-o para a ajudar a ganhar em jogos de azar, os espíritos estropiaram-lhe as pernas como castigo.

 

- Não é o mesmo caso - acrescentou Sonhador de Lobo em voz suave.

- Eu sabia que ias amar assim a tua mulher. Sabia que o teu amor pelas tuas filhas te iria submergir.

 

- Sabias? - Pequeno Dançarino debateu-se, a mente rodopiante com a vertigem da febre. - Então, por que me deixaste viver? Por que me mandaste o lobo para cuidar de mim? Por que me levou ele para o covil quando não podia andar mais? Ele enrolou-se, aquecendo-me com o corpo. Por que fizeste tudo isto sabendo que eu poderia faltar ao prometido?

 

O sorriso aqueceu-o, atravessando a escuridão do remorso e do sofrimento como barras douradas de luz do Sol. As palavras vieram como um bálsamo.

 

- Talvez te custe um tanto a compreender, mas eu precisava da tua humanidade. De Água Límpida herdaste a capacidade de Sonhar. De Sangue de Urso recebeste a força. Dois Fumos ensinou-te a persistência. De Touro Esfomeado tu tiveste a vulnerabilidade. De Cria Branca aprendeste a sabedoria. Mas o dom mais precioso de todos, veio de Raiz de Salva; ela ensinou-te humanidade, essa identidade comum com os teus povos. Deu-te o desprendimento de si própria, sabendo o que estava para vir.

 

- E isso destruiu-a.

 

- E também te destruirá a ti... no fim.

 

- Espera. Tu não compreendes. Eu não sou o tal! Estou a morrer. E não abandonaria o meu povo. Não Alce Encantado, ou as minhas filhas, ou Touro Esfomeado, ou Cascos Trepidantes, ou...

 

- Ou o resto da humanidade que precisa de ti? - Sonhador de Lobo riu e bateu palmas. - Sim, aí está. E a família e os amigos, todos te amam, mas é do que eu preciso. Um Sonhador digno de ser amado, que seja forte, carismático e vulnerável. Serás perfeito, Dançarino do Fogo, mesmo perfeito.

 

- O meu nome é Pequeno Dançarino.

 

- Nunca tomaste um nome de homem.

 

Fitou a rocha debaixo de si. A pedra fora manchada pelo seu suor. Distraído, passou um dedo pelo sulco gravado da Espiral.

 

- Depois de tudo aquilo que vi, tomar um nome diferente não me pareceu assim tão importante.

 

- Estou agora a dar-te um nome novo. És um homem, mais do que o maior guerreiro ou o mais astuto caçador.

 

- Mas eu estou a morrer. O veneno está fundo dentro de mim. Eu vi mordeduras de serpentes. Conheço os sinais, a negrura do sangue, as tremuras à medida que os tecidos morrem.

 

- Diz-me, Dançarino do Fogo, por que subiste até aqui?

 

- Para te encontrar.

 

- E para que o fizeste?

 

- Para te dizer que não podia deixar a minha família. Que acabei por amá-los demasiado. Que não os podia deixar sós.

 

- Mas podias simplesmente ter ficado no acampamento. Não precisavas nada de ter vindo procurar-me.

 

- O lobo estava lá, observando-me.

 

- Alguma vez te ameaçou? Alguma vez agiu de modo a lembrar-te o teu dever?

 

Pequeno Dançarino cerrou os olhos, tentando pensar, lembrando-se apenas do olhar suave que o lobo lhe lançou na noite em que a Trouxa de Lobo o chamara.

 

- Não, mas pensei...

 

- Da primeira vez que nos encontrámos disse-te que o livre arbítrio não podia ser negado. Alguma vez te dei a entender que serias punido se não cumprisses o combinado?

 

- Não.

 

- Portanto, podias ter fugido. No entanto vieste, sabendo que, como disseste, eu te poderia destruir por dizeres que não o farias...

 

- Mas eu estava em dívida para contigo! - Pequeno Dançarino tentou sentar-se e arquejou pela dor na sua perna latejante.-Não podia fingir que nada acontecera lá em cima, na neve.

 

- És um homem que aceita a responsabilidade. - Sonhador de Lobo ergueu o rosto para o sol, fechando os olhos, parecendo deleitar-se com o seu calor.

 

- Não importa - murmurou Pequeno Dançarino. - A minha primeira responsabilidade é para a minha mulher... e as minhas filhas. Agora, parece que a cascavel usou também o seu livre arbítrio. Penso que agora, de qualquer modo, já não importa. Peço-te apenas uma última coisa. Por favor, se puderes, torna as coisas mais fáceis para Alce Encantado e as minhas filhas, eu...

 

- Não tenho intenção de te deixar morrer, Dançarino do Fogo. Agora, ainda menos do que tinha antes.

 

Mais uma vez, a vista pareceu oscilar e os olhos tiveram dificuldade em focar-se.

 

- O quê?

 

Sonhador de Lobo ergueu-se, levantando-se como o fumo e aproximou-se, colocando-se junto do corpo febril de Pequeno Dançarino.

 

- Oh, estás quase nas condições ideais. A tua mente vagueia, flutuando entre o real e o irreal. Durante quatro dias estiveste sem comida, nem água. Esse é o número sagrado. O veneno da serpente ainda diminuiu mais as tuas resistências. Os portões da tua mente estão abertos, o limiar quase transposto. Estás a baloiçar à beira de te perderes, ponto para tocar o Um. Em tempos, tive de usar cogumelos... como um dia hás-de usar outro veneno. Agora, é altura de te ensinar a Dançar com o Um.

 

- Mesmo tendo dito que não posso abandonar a minha família?

 

O sorriso de Sonhador de Lobo podia conter tudo de bom no universo. A alma de Pequeno Dançarino teria cantado para o ver de novo.

 

- Eu sei que os amas, Dançarino do Fogo, mas vou dar-te algo ainda mais poderoso. Vou dar-te o Sonho, vou dar-te o Um. Com ele tu vais Dançar a Espiral de volta ao equilíbrio. Serás o Um com o fogo, o ar, a água, mesmo com a Mãe Terra. Tudo tem laços com o Um. Até mesmo a tua família.

 

- Anda, toma a minha mão, juntos Dançaremos o veneno, e aprenderás que é apenas ilusão.

 

- Então, Cria Branca estava certa?

 

- Mais do que alguma vez pôde pensar.

 

Pequeno Dançarino encolheu-se da dor, engolindo em busca de ar, procurando acalmar a sua titubeante realidade. Estendeu-se para o homem de luz, os dedos agarrando firmemente um clarão brilhante.

 

Acordou, deitado de costas, olhando para cima, para o céu nocturno. Uma sede terrível queimava com a intensidade da febre. Na boca, a língua arranhava como couro seco.

 

Gemeu e forçou-se a sentar, olhando em volta como uma coruja, tentando descobrir onde estava. Uma espira solitária de rocha suportava-lhe o dorso.

 

- O quê? - O som da sua própria voz assustou-o.

 

Pestanejou, recordando-se. Tinha escalado a escarpa para encontrar Sonhador de Lobo. A serpente tinha-o mordido. Dedos frenéticos agarraram-se à perna, sentindo a carne firme e familiar. Olhou em volta, nada vendo de anormal na escuridão.

 

A memória de Sonhador de Lobo permanecia-lhe, cálida, na memória. Dançara com o Sonhador de Lobo; juntos tinham sido a Unidade, flutuando como o vento, Dançando com o pulsar do universo, cantando e entoando hinos com o ritmo do Criador. Desse modo, tinham sentido a rodopiante beleza das estrelas girando, ouviram os cânticos de sóis distantes e sentiram o palpitar da vida. Então, conhecera a liberdade. A alma tornara-se-lhe leve. A memória voltou-lhe com a rica doçura do mel aquecido.

 

Aquele pedacinho de carne que fora Pequeno Dançarino tinha sido deixado para trás, um pedaço de matéria, um composto de tecido que iludira. A glória do Um tremeluzia-lhe na memória, absorvendo-lhe os pensamentos, até que se apercebeu que o Sol se erguera no céu.

 

Poderia fazê-lo de novo? Poderia ele Dançar o Um, Sonhá-lo sem Sonhador de Lobo? Sentiu o chamamento, desesperado, anelante. Como uma melodia no vento, chegou até ele.

 

- A Trouxa de Lobo.

 

Arrastou-se até à beira do pináculo e olhou por cima da borda. O espírito das rochas murmurava por debaixo dele. Sem receio, deixou-se deslizar, procurando um apoio para o pé.

 

Os músculos gemeram-lhe com o esforço. Uma dor irritante fustigou-lhe os dedos enquanto a rocha lhe penetrava na pele.

 

Antes do mais, tinha de recuperar a Trouxa de Lobo. Nas profundezas da mente pôde sentir como sempre soubera que podia. A longa espera tinha chegado ao fim. Restava muito pouco tempo. Tinha de alcançar a Trouxa de Lobo, restaurar o seu poder... e tinha tanto que aprender...

 

Dois Fumos arrastou-se penosamente para cima da margem da drenagem, tremendo com a dor no joelho. Quanto mais envelhecia, mais parecia doer-lhe. Na mão segurava um delicado molho de arrozeiro. As espigas, cheias de semente e prontas a abrir, chocalhavam enquanto ele andava.

 

Parou por um momento para recuperar o fôlego e recomeçou a caminhar pesadamente para um largo seixo plano. Aí, prazenteiramente, baixou-se e puxou o rolo de couro da sua colecção de ervas, que viajava em segurança pendurado do cinto. Desenrolou a longa tira de couro, estudando as diferentes ervas que tinha reunido ao longo dos anos. Tinha inúmeros arrozeiros, claro, e agora estudava-os, admirando a sua frágil beleza.

 

Sobre ele um corvo cacarejava, voando em roda como se estivesse a fazer uma eventual inspecção. Um gafanhoto ergueu-se sobre as asas crepitantes, um brilho de prata no seu voo tremeluzente. O Verão envolvia-o, vivo com o som dos insectos e o canto das aves.

 

Dois Fumos deixou o sol queimar-lhe o rosto. Viver num dia como este, fazia que tudo valesse a pena. A temperatura amena compensava-o das tempestades que rolavam sobre a terra e lhe faziam doer o joelho aleijado. Este dia recompensava-o das longas neblinas, das vezes que tremera no vestuário ensopado pela chuva ou amontoado debaixo de Peles hirtas pelo frio.

 

Absorto, pegou num seixo arredondado de arenito e usou-o para esmagar uma espiga de arrozeiro, observando as sementes achatadas e os finos cabelos. Macerou outra e mais outra com excitação crescente.

 

- Velho estúpido. - Pestanejou, sentindo as peças da longa busca a encaixarem-se umas nas outras. Ali estava a resposta depois de todos os anos a mastigar sementes uma a uma, a moer espigas de ervas, a separar os rebentos para morder os caules adocicados da erva. Não, as pessoas não podiam comer o corpo das ervas, mas as sementes... sim, as sementes... podiam ser comidas.

 

O coração encheu-se até parecer rebentar e uma lágrima escorreu-lhe pelo rosto tisnado. Nunca tinha pensado em recolher as sementes. Eram a parte mais pequena da planta. Mas quantas vezes arrancara um caule só para ver as sementes cair e espalhar-se? E não importava que as sementes fossem pequenas, elas eram imensas. As ervas cresciam em toda a parte.

 

Olhou em torno de si, vendo as cabeças de relva a acenar, espalhando sementes por todo o lado. Enquanto o fazia, um movimento captou-lhe o olhar. O lobo negro saía do zimbro, seguido por Pequeno Dançarino.

 

Dois Fumos gargalhou para si próprio:

 

- Olha, anda cá! Descobri! Descobri o segredo das ervas! Anda ver! São as sementes! São as sementes! - Dois Fumos gritava e acenava com as mãos.

 

Pequeno Dançarino rodeou as moitas, um cambalear cansado no andar. Abria caminho como um homem num sonho. O lobo trotava velozmente a um lado, arquejando com o calor.

 

Dois Fumos só deu pela diferença quando ele parou diante de si. O êxtase permanecia-lhe no coração quando ele olhou para cima.

 

- Pequeno Dançarino?

 

Aquela face familiar tinha mudado. Até mesmo a cicatriz parecia proeminente, iluminada pelo interior.

 

- Descobriste o segredo?

 

Dois Fumos anuiu, consciente do estranho clarão nos olhos do jovem, como se ele estivesse a viver um sonho.

 

- São as sementes - fez uma pausa. - Podemos apanhar as sementes, num cesto, como fazemos com as bagas e... Pequeno Dançarino, que aconteceu?

 

- Sonhei com o Primeiro Homem. - A voz de Pequeno Dançarino soava distante. - Ele veio, encontrou-me no topo da rocha. Sonhámos juntos... e, Dois Fumos, foi tão belo... tão belo. - Sorriu, perdido nas recordações.

 

Então, tinha acontecido, apesar de tudo? Pequeno Dançarino encontrara o Poder?

 

- E Alce Encantado? Que vai ser dela?

 

Pequeno Dançarino sorriu, iluminando uma parte da alma do ancião.

 

- Sonhador de Lobo vai protegê-la. Pedi... pedi que todos vós sejais protegidos.

 

- E tu?

 

Pequeno Dançarino aproximou-se para lhe colocar ambas as mãos nos ombros. Dois Fumos estremeceu com o contacto, atravessado por uma dor súbita e ardente. Perdeu-se nas profundezas dos olhos castanhos fitando os seus, tão pensativamente.

 

- Dois Fumos, agora entendo. Deste tanto e nunca ninguém o compreendeu. Descobriste o segredo da erva?

 

- Descobri. Temos de colher as sementes. São pequenas, mas há-as por todo o lado. Sabes, não são as espigas que são importantes; são as sementes. Eu... eu nunca pensei em moê-las. É essa a diferença. E... e isso esteve diante dos meus olhos todo o tempo! Moer as sementes numa pasta como fazemos com as raízes de biscoito.

 

- E já o provaste?

 

- Bem, ainda não, mas posso fazê-lo. Vou fazê-lo, e aposto que vai ser maravilhoso.

 

Pequeno Dançarino fechou os olhos, atirando a cabeça para trás.

 

- Podes colher alguma? Fazê-lo para mim? A primeira... para levar comigo?

 

O coração quase parou no peito de Dois Fumos.

 

- Levares contigo? Tu vais Sonhar?

 

O rosto de Pequeno Dançarino afligiu-se ligeiramente, enfraquecendo o Poder nos seus olhos.

 

- Tenho de ir. ATrouxa de Lobo precisa de mim. Chegou a hora, velho amigo. A Espiral rodeou-me. Mas não sei como eu...

 

- Mas há uma guerra lá em cima! Pequeno Dançarino sorriu nervosamente.

 

- E pode ser que acabe agora. Pode ser que eu Sonhe o fim dela.

 

- Não podes Sonhar, embora todos esses Povos do Pequeno Búfalo, e Sangue de Urso...

 

- É o meu pai. Círculos. Dois Fumos, tudo corre em círculos... até mesmo a Espiral. - O toque, tão leve, nos ombros do ancião, ergueu-se.

- Faz-me o teu segredo da erva. Apesar da preocupação que vejo nos teus olhos, Dois Fumos, o teu coração está prestes a rebentar por isto. A tua felicidade brilha à tua volta como um fogo quente numa noite fria.

 

O sorriso de Pequeno Dançarino ondulou e ele olhou para longe, perdido nos seus pensamentos.

 

- Que te aconteceu? - perguntou Dois Fumos. - Estás diferente. É o Poder?

 

Pequeno Dançarino pareceu hesitar, inseguro.

 

- Eu... eu já não sei o que dizer. Pessoas... Alce Encantado... eles não... - Estendeu as mãos, uma expressão suplicante torcendo-lhe o rosto. - Dois Fumos, Sonhei com o Primeiro Homem. Vi a ilusão de tudo isto. - Com um gesto abarcou o mundo à sua volta. Ergueu as mãos, fítando-as com temor. - Nós tocámo-nos, Ele e eu, e Dançámos, e Sonhámos e Cantámos. Juntos, partilhámos o Um... a harmonia de... de... tudo.

 

Dois Fumos ouviu, concordando.

 

- Continua.

 

Pequeno Dançarino caiu sobre os joelhos, sem querer saber das rochas agudas.

 

- Mas eu... o Um é uma maravilha absoluta... A tua alma Canta, e Dança, e... e... - gaguejou uma pausa, um clarão reflectindo a experiência na sua mente. - É...

 

Dois Fumos baixou-se, tomando as mãos do jovem, puxando-o para o erguer.

 

- Conta-me. Conta-me sobre o Sonhador de Lobo e o Um. Conta-me sobre tudo isso.

 

O olhar angustiado voltou.

 

- É belo, como o rodar das estrelas, a alegria da luz, o coração de um floco de neve e o flutuar de um punhado de plumas. E a tua alma pulsa com o Poder, e o Um com ele. Respira com ele. - Os olhos abriram-se.

 

- Compreendes?

 

Dois Fumos franziu o sobrolho, apertando com força as mãos de Pequeno Dançarino.

 

- Mais ou menos. Ao fim e ao cabo, penso que sim. A Trouxa de Lobo costumava mandar um frémito de algo como isso através de mim. Era como se pudesse sentir a presença de uma vasta caverna. A ponta dos meus dedos apenas conseguia aflorar a borda.

 

- Eu caí através dela, e voltei de novo, dentro e fora na luz. - Os dedos de Pequeno Dançarino contraíram-se e distenderam-se. - Mas eu... eu...

 

- Sim?

 

- Não posso dizer-te. Não em palavras que tenham sentido. Não posso dizer-te o que é ficar perdido no Grande Mistério, no Sonho do Criador. As palavras não conseguem descrevê-lo. - Fez um gesto apaixonado. - É como... como explicar a uma rocha o que é um orgasmo.

 

Dois Fumos riu-se com a analogia de Pequeno Dançarino, bem como da expressão de pânico que lhe contorcia o rosto.

 

- Não te rias - protestou Pequeno Dançarino, pondo-se em pé de um salto, caminhando para trás e para diante, o pânico avolumando-se.

 

- Como vou contar às pessoas? Como vou fazê-las entender? - Rodou, batendo com os punhos de ambos os lados da cabeça. - Dois Fumos, eu já não me encaixo aqui. Estive para além deste mundo, Sonhei o Um, escutei o cântico das estrelas. Senti, senti a alma de Deus! Não compreendes? Como posso sentar-me e falar de caça... ou de como os bolbos de lírio são grandes este ano... ou rir-me de uma graça sem significado, ou...

 

- Abanou a cabeça freneticamente. - Nada disso significa o que quer que seja para mim. Não vês? Sinto-me como um adulto... e o mundo à minha volta está cheio de crianças. Nenhum dos seus problemas é impor tante.

 

- Deixou cair a cabeça. - Mas elas são, claro. Só que é tudo uma ilusão. A existência aqui, na terra... A realidade é tão diferente para todos. Todos nós a construímos. Mas como posso dizer-lhes isso? Dois Fumos suspirou e bateu com as mãos nos joelhos

 

- Eu compreendo.

 

- Não, não podes. A não ser que Sonhasses o Um, Dançasses com...

 

- Não o teu Sonho. Não é o que eu quis dizer.

 

Pequeno Dançarino fitou-o, um olhar profundo nos olhos apaixonados.

 

Dois Fumos encheu os pulmões, deleitando-se com a sensação da vida, da compreensão pela primeira vez.

 

- Sempre perguntei a mim mesmo por que razão tinha sido escolhido. Por que estava eu, um tresmalhado, ligado à tua vida?!

 

- Não compreendo.

 

- Não, suponho que não. É demasiado novo para ti. Estás perdido, chafurdando num rio inundado de novas experiências que te arrastam tão depressa que pensas que te estás a afogar. Mas entre os Mão Vermelha um tresmalhado é considerado. Somos chamados mediadores, vivendo nos mundos do homem e da mulher. Mas vivemos em dois outros mundos, o do Poder e a terra. Água Límpida veio ter comigo, a princípio, porque podia compreender-lhe os sonhos. Ela podia dizer-me o que queria dizer e eu podia ajudá-la a compreender.

 

- Lembro-me quando os Sonhos de Sangue de Urso começaram a preocupá-la. Ela não podia compreender a utilidade em deixá-lo possuí-la. Mesmo nessa altura era um homem violento. Precisava de magoá-la para ter prazer no sexo, para soltar a sua semente. Eu também não conseguia entender, mas era Poder e eu não podia ridicularizá-la. Então, quando a semente dele pegou, os Sonhos mudaram. Agua Límpida veio ter comigo contando-me como tinha necessidade de furtar a Trouxa de Lobo, como ambos tínhamos de fugir.

 

Dois Fumos sorriu para Pequeno Dançarino, recordando.

 

- Era Poder e acabei por amá-la nessa altura. Claro que fui com ela. Podia sentir o limite... como já te disse. Ah, esses dias, Pequeno Dançarino. Eu e ela caminhámos sós, mas juntos, e o Poder desceu e floriu à nossa volta. A Trouxa de Lobo quase zumbia com o Poder.

 

- Depois nasceste e ficámos felizes. Foi a primeira vez que usei a Trouxa de Lobo para um nascimento. Foi a primeira vez que a senti pulsar na minha mão e pude sentir a caverna, o Um, jazendo mesmo para além dos limites do meu alcance. Que coisa maravilhosa foi. Por isso podes imaginar o meu horror quando o búfalo escorneou a tua mãe e me deixou estropiado no pó. Que propósito podia ter aquela tragédia? Porquê conduzir-me todo aquele caminho para ser quebrado e atirado ao chão Para o pó e para a dor.

 

- Então, uma noite, depois que Cria Branca me salvou, jurei proteger-te e, loucamente, jurei sobre a Trouxa de Lobo o que me comprometeu para sempre.

 

- E cuidaste muito bem de mim. Nunca to agradeci - interrompeu Pequeno Dançarino.

 

- Nem estou acabado. Porque agora, nesta altura da tua vida, vou finalmente ser útil. - Sorriu, sentindo a verdade. Intimidado, conheceu o sentimento do Poder, da caverna, mesmo para além do seu alcance.

 

Pequeno Dançarino franziu os lábios, uma pergunta no olhar:

 

- Um tresmalhado vive entre os círculos, homem e mulher... terra e Poder. Por isso estou preparado. Tu viste para além. Se um homem está preocupado por a sua mulher ter relações com outro homem, tu importas-te com o seu dilema? Essa preocupação é fútil aos teus olhos. Tu apenas vês que o Um é verdadeiro. Tu estiveste para além da diferença, o eu e tu o isto e o aquilo deste mundo. O Poder guardou-me para este momento. Sou a tua ponte, Pequeno Dançarino. Através de mim, podes tocar este mundo a que tu chamas ilusão. Posso facilitar-te o caminho, ensinar-te e compreender-te, ao mesmo tempo que compreendo as pessoas à tua volta. É esta a razão porque fui escolhido. Só agora o compreendo. Só agora vejo porque fui trazido a este lugar para me sentar sobre esta rocha. Talvez seja por isso que o segredo da erva me escapou até este momento. O Círculo tinha de ficar completo.

 

- Mas que é que eu faço?

 

- Sonha, Pequeno Dançarino. É o que tu fazes. Tu sonhas a verdadeira via nova para o Povo. Tu sonhas a Espiral de volta. Deixa o resto comigo. Fui talhado para isto, tal como uma colher de chifre é talhada e escavada por um artesão. Louco que eu fui. Vou servir-te até ao fim... e através disso alcanço o meu desejo: vou tocar o Um. - Sorriu para o sol da manhã, elevando as mãos. - Obrigado por este dia, oh, Sábio Lá em Cima. Obrigado pela maravilha. Obrigado pela luz do entendimento. Eu, Dois Fumos, agradeço-te por me deixares finalmente ver.

 

Alce Encantado sentou-se no topo do trilho, olhando na direcção dos picos para onde Pequeno Dançarino tinha ido. Quanto tempo demoraria? Enquanto se sentava, esfregou grandes pedaços de casca de zimbro, para a frente e para trás entre as palmas calejadas. Tinha feito o descasque antes, utilizando uma grande lasca de quartzite para retirar a casca das árvores amadurecidas. Trabalhando vigorosamente a casca fibrosa, podia separá-la em fibras e amassá-las para fazer um absorvente para o fundo do bebé. E as crianças precisam de uma quantidade incrível de absorvente.

 

Mastigou com irritação o lábio, olhando rapidamente para ver que a criança dormia pacificamente na tábua-berço. Um bluebird1 passou como um relâmpago, aterrando num toco derrubado, trinando no ar tépido da manhã.

 

Avistou Dois Fumos manquejando no seu andar oscilante antes de se aperceber de Pequeno Dançarino e da silhueta esguia do lobo negro correndo através da salva. Algo no modo como Pequeno Dançarino andava, o curioso alheamento tão pouco próprio dele, lembraram-lhe um homem aturdido. Erguendo-se, correu para ele.

 

Dois Fumos gritou-lhe, tentando chamar-lhe a atenção, mas ela apercebeu-se da falta de energia que se revelava na expressão de Pequeno Dançarino. Um brilho por detrás dos olhos.

 

Ela esgueirou-se aos dedos estendidos de Dois Fumos e atirou-se-lhe para os braços. Ele abraçou-a desajeitadamente, mas a preocupação frenética que a possuía, ao princípio, escondeu-lhe o facto. Só quando ela o sentiu hirto e se afastou, ela ergueu os olhos, procurando-lhe no rosto algum sintoma do problema.

 

- Pequeno Dançarino? Tu estás bem?

 

- Estou óptimo - respondeu-lhe, pouco à vontade, o brilho familiar do amor nos olhos dele lutava contra algo mais, algo poderoso e assustador. - Sonhei, bem vês... toquei no Um.

 

- Alce Encantado? - Dois Fumos pousou-lhe a mão no ombro, terna e firme. - Alce Encantado, ele esteve no Mundo do Espírito. Sonhou, junto com o Primeiro Homem.

 

Ela fitou-o, avaliando o seu sorriso distante.

 

- Pequeno Dançarino?

 

Ele despertou, colocando as mãos de um e de outro lado do rosto dela. Naquele momento ele sorriu apenas para ela e a alma palpitou-lhe.

 

- Alce Encantado, minha maravilhosa Alce Encantado. - As lágrimas corriam-lhe pelo rosto enquanto ele a abraçava com força, esmagando-a contra o peito. - Eu compreendo. Tu também me ensinaste. É essa a razão porque vieste ter comigo. Sem ti, podia nunca ter entendido todos os caminhos do amor. Podia nunca ter entendido tanto sobre as pessoas e por que razão elas são como são.

 

Ela abanou a cabeça, confundida, feliz por ele a ter abraçado. Se ao menos não tivesse o pavor de que algo precioso tinha começado a deslizar para longe da sua vida.

 

- Anda - disse-lhe Pequeno Dançarino afastando-se, pegando-lhe na mão dela e também na de Dois Fumos. - Tenho de me preparar. Já não há muito tempo.

 

- Tempo para quê? - perguntou ela. Mas Pequeno Dançarino já tinha

 

1 Ave da família dos tordos, de colorido brilhante, nativa da América do Norte. N. do T.)

 

continuado o seu caminho, parando apenas para colocar as mãos nas faces do bebé antes de continuar a descer o trilho. Enquanto desamarrava a tábua-berço da árvore, notou que Dois Fumos a estudava pensativamente, preocupação misturada com angústia.

 

- Chegou a hora - disse suavemente. - Agora, ele tem de partir.

 

 

Sanhaço corria, exultante na agitação do ar nos pulmões enquanto os músculos das pernas saltavam. A sensação de suave poder, do equilíbrio das passadas e das suas reservas intactas arrepiavam-na. Pela primeira vez na vida, tinha encontrado o seu lugar. Onde em tempos tinha sido atormentada pelos seus modos estranhos, pelo desejo de caçar e seguir as pistas dos animais, agora podia provar o seu valor.

 

Esgueirou-se em volta das árvores, saltando rochas e troncos caídos no trilho. Sempre adorara correr através dos bosques, enfrentando o desafio dos frescos caminhos verdes, abaixando-se e iludindo os ramos. Como o alce, orgulhava-se da sua habilidade de caminhar rápida e silenciosamente. E, tal como o vento, ninguém podia competir com Sanhaço quando disparava através das árvores como um dardo dançante. Nem sequer o homem mais poderoso podia executar os seus passos velozes e evitar enredar-se nos ramos ou esmagar-se contra eles como um búfalo que perdesse o trilho. Aqui, no coração da montanha, era o elemento de Sanhaço.

 

Enquanto corria, os dardos chocalhavam-lhe surdamente na mão. Os dardos de Cria Branca... um legado de Poder e coragem,

 

- Então, está feito - sussurrou a anciã quando Sanhaço lhe ergueu do chão a velha cabeça. A pele de Cria Branca tinha-se afundado, ficado lívida, expondo as linhas do crânio.

 

- Cria Branca?

 

- Chiu! - A velha mulher tentou calá-la com um gesto. - Não tenho muito tempo. O meu Poder vai passar para ti, rapariga. Usa-o bem. Promete-me só que vais seguir o Sonhador. Ele está a chegar. Já o sinto. Sinto-o com as franjas da minha mente. O Poder está a chamar.

 

- Fiquei assustada quando vi o turbilhão.

 

- Foi bonito, não foi? Gostava de saber se fui eu que o fiz... ou se foi apenas sorte. Gostava de ver a cara deles quando esse guerreiro louco lhes contar... contar...

 

- Calma. Tem calma, Cria Branca.

 

- O Sonhador vem aí. Sonhador... - E os olhos da anciã pararam» olhando fixamente com o ar gelado da morte enquanto o corpo descaía nos braços de Sanhaço.

 

Agora ela corria, impulsionada pela ira, conduzida pela vontade de ver os seus dardos atravessar tantos Pequeno Búfalo quantos pudesse encontrar. Ela não descansaria enquanto o último se não tivesse entalado com a morte no sangue, enquanto as montanhas não estivessem livres dos seus pés imundos. Não voltaria a sorrir enquanto o Sol se não pusesse sobre o último dos seus corpos debicados pelos corvos e despedaçados pelos coiotes.

 

- Então, está a chegar um Sonhador? - Ela olhou para o trilho em baixo. - Também a morte, Povo do Pequeno Búfalo. E sou eu que a trago.

 

Os gritos flutuavam tenuemente através das árvores. Sanhaço abrandou, retendo a respiração, movendo-se com o silêncio de uma sombra da meia-noite, enquanto abria caminho através das espessas matas de abetos. Mais alto agora... conseguiu localizá-los.

 

Contornou um prado, apanhando um vislumbre de homens movendo-se através das ervas. Em frente dela erguia-se um afloramento de rocha apenas defendido por uns poucos, enquanto em volta um círculo de guerreiros gritava e agitava os punhos, Dançando ao seu Poder antes de arremessar dardos para as rochas acima.

 

Através do ar límpido, a voz de Nunca Suado chegava-lhe, enquanto se mantinha resolutamente em pé no topo do penhasco.

 

- Vem e morre, Pequeno Búfalo. Podeis matar-nos, mas nós escorraçaremos as almas dos vossos mortos para lá da Teia-de-estrelas.

 

Um rugido de insultos gritados irrompeu dos guerreiros circundantes, quando os atacantes lançaram lascas de morte.

 

A ira de Sanhaço soltou-se enquanto ela carregava precipitadamente na clareira, um dardo já encaixado no atlatl equilibrado. A alma de Cria Branca parecia pulsar através do lançador de dardos, palpitante, vibrante. O Poder atravessou-a, arrepiando-lhe o coração enquanto se precipitava no meio do inimigo, enterrando um dardo nas costas de um homem que se preparava para atirar aos defensores.

 

Das profundezas da alma enraivecida, Sanhaço gritou e rodopiou, suficientemente perto para atravessar outro com mais um dardo. Um cântico irrompeu-lhe do interior, ecoando a ira e o Poder da sua alma. O Espírito tomou-a, possuindo-a, Dançando-a por entre os dardos, transformando-a num turbilhão de morte.

 

Como numa bruma, ela lutou, rodando, largando os dardos um por um, cantando-os para dentro dos corpos dos inimigos. Um homem caiu, o dardo parecendo deslizar inofensivamente, enquanto ela retirava do cinto o pesado atlatl do Pequeno Búfalo e lhe esmagava o crânio. Os restantes agora moviam-se agitados, um dardo atirado falhando-a por Uln sussurro para se enterrar noutro guerreiro que carregava.

 

O Poder corria-lhe através das veias, dando-lhe a força e a agilidade para Dançar para longe dos dardos mortais e perto dos seus inimigos. As suas estocadas e golpes pareciam deslizar pelas guardas deles, trazendo sangue antes de ela saltar agilmente para longe. O pandemónio instalou-se quando eles a carregaram, incapazes de atirar os projécteis mortais sem empalar os amigos.

 

Em redor e através deles, Sanhaço Dançava a morte, a sua Canção soando-lhe nos ouvidos, submergindo-lhes os gritos e a confusão.

 

Então, o inimigo quebrou, correndo, pondo-se em fuga enquanto ela os perseguia, consciente de que Nunca Suado e os outros Mão Vermelha a seguiam, apanhando os dardos caídos para os enterrarem nas costas dos guerreiros Pequeno Búfalo.

 

O bando dela perseguiu-os, acossando os retardatários ao longo dos trilhos e no labirinto do bosque, onde o inimigo foi abatido um por um. Quando os dardos se lhes esgotaram, esmagaram crânios com os seus atláteis.

 

Sanhaço parou, consciente de que a última das suas vítimas jazia, gemendo, aos seus pés. Ela lutou para respirar, tremendo, enquanto se vergava para arrancar uma rocha pontiaguda do solo resistente. Gemeu com o esforço enquanto a erguia. O homem voltou-se, olhando para cima, um surdo lamento escapando-se dos lábios enquanto sacudia a cabeça, uma súplica nos olhos.

 

A pedra rebentou ossos quando a fez desabar sobre o rosto dele.

 

Em silêncio ergueu-se, a floresta misteriosamente calma, nem sequer quebrada pelo chiar de um esquilo. Um vento suave começou a suspirar através das árvores enquanto ela fitava o guerreiro morto.

 

Exausta, voltou-se, os pulmões arfando e, lentamente, continuou o caminho. No prado parou para retirar dardos dos mortos, espetando as pontas aceradas no coração dos feridos, apesar dos seus lamentos e pedidos de misericórdia.

 

Erguia-se na alta erva de Verão, observando os guerreiros de Nunca Suado saindo das árvores, rindo, saltando, dando palmadas nas costas uns dos outros. Foram-se calando à medida que se aproximavam, fitando os mortos em volta, nervosos, lançando-lhe olhares assustados.

 

De pé, junto do corpo de um guerreiro morto, ela baixou-se, colocando a mão no sangue derramado. Olhou-os um a um enquanto se endireitava, erguendo a mão sangrenta para o sol.

 

- Em tempos nós éramos os Mão Vermelha. Perdemos o direito a esse nome debaixo da chefia de Sangue de Urso. - Dito isto, bateu com a mão sangrenta no peito, deixando o líquido coagulado embeber o couro cuidadosamente curtido por Dois Fumos. - Agora, voltámos a sê-lo!

 

Alce Encantado chicoteou a erva com o seu pau de escavar. As sementes saltaram cada qual para seu lado, muitas falhando o cesto de recolha. Touro Esfomeado viu a zanga dela e endireitou-se antes de continuar. Ela inclinou-se sobre os joelhos, de cabeça baixa. O cabelo cortado de luto fazia-lhe cócegas na nuca e no pescoço. O entorpecimento do coração esmagava uma alma vazia. Mal sentiu a mão de Touro Esfomeado pousar-lhe no ombro.

 

- Nós sempre soubemos - disse ele gentilmente. Ela abanou a cabeça.

 

- Não assim. Nunca pensei que seria assim. - Lágrimas de frustração ardiam-lhe ao canto dos olhos, inudando-os e turvando-lhe a visão.

- Na noite passada. Nas peles. Nem sequer me tocou. Afastou-me. Disse que não podia... com os Sonhos não.

 

Limpou o nariz gotejante e aspirou.

 

- Já não o conheço. Não consigo alcançá-lo. É um estranho para mim.

 

Touro Esfomeado sentou-se junto dela, abraçando-a com força.

 

- Ele encontrou o Poder. É algo fora do nosso alcance. Dois Fumos estava a contar-me...

 

- Dois Fumos! Dois Fumos! Agora é tudo o que ouço! Dois Fumos é o único que consegue falar com ele? Eu... eu odeio-o! Odeio tudo. Talvez ele esteja melhor com esse tresmalhado! Que partilhe as peles com ele!

 

- Chiu. Tu não queres dizer isso. - A voz calma de Touro Esfomeado reflectia o seu próprio desassossego. - Agora estás zangada. Transtornada. Dois Fumos foi sempre gentil para todos nós. Mostrou-nos a todos como viver. Quando tiveste as tuas crianças foi Dois Fumos que esteve junto a ti toda a noite partilhando as tuas dores. Foi Dois Fumos que cuidou de ti quando estiveste doente daquela vez. Ama-te de todo o coração. E se te ouvisse dizer isso, tu matavas-lhe parte da alma. Não é culpa dele.

 

Ela levantou os olhos para ele, sentindo-se ainda mais miserável por saber que ele tinha razão.

 

- Anda, vamos daí, isto deve chegar por hoje. Ela abanou a cabeça.

 

- Fico contente por acreditares nisso. Posso sentir a mudança. Está em todo ele. Como pus num veado ferido.

 

Touro Esfomeado suspirou.

 

- Talvez. Mas ele nasceu para isso. Creio que nunca pensei realmente que seria assim. Sempre tentei evitar o Poder. Nunca o compreendi. Talvez seja por isso que Cria Branca o deixou entregue a mim. Talvez ele precisasse de viver assim.

 

Ela ergueu os olhos para ele, ressentindo-se do tempo a mais que Touro Esfomeado passara com o filho. Tempo de que ela tinha sido excluída. O pensamento envergonhou-a. Voltou a cabeça.

 

- Eu sei. Mas também o amo. - Touro Esfomeado acenou futilmente.

- Tenho a minha própria mágoa. Quando devia ter estado com ele, estava encarcerado no meu próprio coração. Gastei tempo de mais a chorar Raiz de Salva. Afogando-me em pena quando devia ter dado ouvidos às necessidades dele, ajudando-o a entender-se com os Sonhos. Mas eu fugi, guardei-me para mim próprio. - Uma pausa. - Tu deste-lhe os momentos mais felizes da vida dele, bem sabes.

 

- Por que é que não sinto isso assim?

 

- Porque a ferida é recente. E porque estás a fazer-te sofrer pelo que o futuro pode trazer.

 

- Não vejo as coisas melhorar. Tudo o que vejo é ele sentar-se na crista com aquele maldito lobo. Quando vou falar com ele, está fechado dentro da própria cabeça... Sonhando durante o dia. Quase não come. Não fala, a não ser para Dois Fumos. Está a pôr-me doida!

 

- Dois Fumos diz que vão em busca da Trouxa de Lobo.

 

- Eu sei.

 

- É o Poder, Alce Encantado. Ele é da maneira que é. Não o podemos controlar. Se uma árvore cai na floresta, está para além do nosso poder erguê-la de novo. O Poder é assim com o Pequeno Dançarino. O Poder faz parte do mundo, como o vento que sopra sobre as árvores. Quando vem, não volta para trás.

 

- Quando uma árvore é derrubada pelo vento, está morta.

 

- É uma das boas coisas no que respeita ao Poder. Ele não está morto.

 

- É como se estivesse.

 

Touro Esfomeado ergueu-lhe o queixo com um dedo calejado, procurando-lhe os olhos.

 

- Diz-me, se pudesses retirar-lhe o Poder e soubesses que isso lhe arruinava a vida... como se lhe cortasses uma perna... fá-lo-ias?

 

Ela olhou-o, a lassidão espalhando-se.

 

- Não.

 

- Não deverias estar grata por ele estar feliz? Não é esse o verdadeiro significado do amor? Aconteça o que acontecer, tu tens as raparigas. Tiveste o seu sorriso e todo o seu amor. Agora, ele tem de pertencer ao mundo e espalhar à sua volta aquilo que sabe. Dois Fumos acha que Pequeno Dançarino pode mudar as coisas, acabar com a guerra. Isso não vale nada?

 

Por um longo momento ela hesitou, sabendo que estava impotente para deter o torvelinho em que a sua vida tinha sido lançada.

 

- Acho que sim. - E sei que ele tem de o fazer. Pará-lo seria matá-lo. Só não sabia que me iria magoar tanto.

 

Ele sorriu e piscou-lhe um olho.

 

- Então, anda daí. Vamos encher esses cestos e ver se este esquema de fazer comida a partir da erva serve para alguma coisa.

 

- Vem aí alguém

 

O grito desviou a atenção de Castor Pesado dos pedaços de pena e osso que tinha derramado diante de si, na pele finamente curtida de fêmea de búfalo. Do outro lado do caminho, Sete Sóis observava com curiosidade massajando o pulso onde as articulações tinham começado a endurecer e a morder.

 

- Penso que isto são bons augúrios. Os Anifah vão mover-se tentando esconder-se nos bosques.

 

Sete Sóis estreitou os velhos olhos.

 

- Penso que não é preciso um Sonhador de Espírito para saber isso. Se eu próprio me pusesse no lugar dos Anifah, que poderia eu fazer contra um povo inteiro inundando o meu território?

 

Castor Pesado permitiu-se um sorriso casual. É melhor não ousares desafiar agora o meu poder, Sete Sóis. Já é tarde de mais para isso.

 

- Podes colocar-te no lugar de quem quiseres, velho amigo. Mas lembra-te do teu. - Deleitou-se com o endurecimento das feições marcadas de Sete Sóis. O velho parecia ter-se transformado em pedra. Só os olhos sabedores permaneciam expressivos... e, claro está, Sete Sóis conhecia a realidade da sua situação.

 

Vozes irromperam num murmúrio.

 

- Talvez deva ir ver o que é esta nova perturbação? - Castor Pesado ergueu-se, irritado pelo volume excessivo que tinha adquirido. Um Sonhador de Espírito devia ter uma aparência próspera, mas talvez ele devesse mover-se mais, vigiar a sua dieta. Gordura a mais podia ser tão prejudicial como gordura a menos.

 

Baixou-se através da aba da tenda e ergueu-se, observando o entardecer caindo sanguinolento sobre as montanhas que se erguiam por cima dele. Os algodoeiros crepitavam e rangiam ao sabor da brisa, enquanto a mata de zimbro e as altas moitas de salva por detrás do acampamento sussurravam. A Parede Vermelha ardia carmesim - cor quase dolorosa para os olhos - reflectindo o sol-poente. O amplo vale verde da Parede Vermelha alongava-se para norte e para sul numa deliciosa visão esmeralda de erva luxuriante. Bloqueando todo o horizonte a oeste, as montanhas erguiam-se como se a terra tivesse sido dobrada para cima. Pinheiros e zimbros salpicavam as encostas, levando a pensar que as suas sementes tinham sido dispersas à sorte pelo Sábio Lá em Cima. Uma fenda estreita na vertente erguida assinalava o desfiladeiro abrupto da confluência central do Rio Límpido.

 

Aqui, onde em tempos os Anifah tinham acampado, as tendas agrupadas do Povo apontavam agora os topos para a abóbada ressequida do céu chamuscado de Verão. A densa floresta de zimbro e salva, que se erguia por detrás do acampamento, estalava com a secura.

 

O murmúrio de vozes aumentou. Cães latiam e ganiam; os tons altos do choro das mulheres aumentava a confusão.

 

Castor Pesado voltou os passos para a agitação, rodeando uma tenda para se deparar com um cacho de pessoas amparando um guerreiro. Madeira Desempenada! Reconheceu o jovem que a multidão amparava. A cabeça do guerreiro pendia, baixa, uma perna sacudindo-se penosamente ao coxear.

 

- Sonhador de Espírito. - Madeira Desempenada engoliu com a garganta ressequida e estremeceu.

 

- Dêem-lhe água. Coloquem-no em peles para descansar. Alguém lhe traga comida.

 

Castor Pesado vigiou enquanto outros levavam Madeira Desempenada para uma tenda e o colocavam numa manta rapidamente arranjada. Depois de terem trazido água e comida, o Povo amontoou-se em volta até que Castor Pesado lhes ordenou que se afastassem, a palavra “Sonhador» ainda ecoando no seu espírito.

 

- Agora estás a salvo. Conta-nos o que aconteceu.

 

Madeira Desempenada olhou para cima, uma luz louca no olhar.

 

- Tínhamos capturado uma mulher anif’ah. Ela escapou e matou Duas Luas Azuis e Formiga Pequena. Seguimos-lhe o rasto e chegámos a uma saliência de rocha como aquelas em que os Anifah vivem. Uma mulher velha estava sentada na frente. Disse-nos para irmo-nos embora ou morrer. Mão Esquerda atravessou-a com um dardo e a mulher que tínhamos capturado correu. Aproximei-me para ver a mulher velha. Ela não tinha morrido. Ela era...

 

- Sim, sim, continua.

 

- Era a velha feiticeira... Cria Branca. Um sobressalto ergueu-se do povo.

 

Castor Pesado fez um esgar, fazendo-os calar.

 

- Isso não é problema. Eu amaldiçoei-a para morrer há já muito tempo. Ela era Poderosa. Foram precisos guerreiros que eu próprio abençoei para a matar. - Sorriu sonolentamente enquanto se voltava. - Bem vedes, meu Povo. Nem sequer uma feiticeira poderosa se pode erguer diante dos Sonhos de Castor Pesado.

 

- Então, é melhor Sonhares com mais força - arquejou Madeira Desempenada.

 

- Ela não morreu? - Castor Pesado voltou-se, fitando o jovem, pondo toda a sua malícia na expressão.

 

Madeira Desempenada aguentou o olhar.

 

- Ela morreu... penso eu.


- Pensas tu?

 

Madeira Desempenada engoliu fundo, a garganta, perlada de suor, palpitando.

 

- Não fiquei tempo suficiente para o saber. A rapariga anif’ah matou Mão Esquerda, Queda Rápida, Dardo Firme e os outros todos. A velha ficou ali sentada, a olhar, como se tivesse triunfado. Disse-me que tínhamos trazido a morte para o Povo. Ela disse: “Louco! Com a minha morte vocês cuspiram no Poder pela última vez.»

 

O Povo sobressaltou-se de novo, alguns dando um passo atrás, as mãos sobre a boca.

 

Castor Pesado gargalhou.

 

- Então, queres-nos fazer acreditar que uma mulher matou todos esses bravos guerreiros? - riu-se de novo, avaliando o efeito do seu desprezo no resto do Povo. Agora, tinha a atenção deles.

 

- Louco está correcto. - Abanou a cabeça. - Madeira Desempenada, conta-nos a verdade agora. Vocês combateram um grupo de guerreiros anifah, não foi? Ficaste assustado e fugiste, não foi?

 

Um ódio ardente subiu na bílis para carregar os olhos de Madeira Desempenada.

 

- Estás a chamar-me cobarde? Então escuta, Castor Pesado. Escutem-me bem, todos vós!

 

- Chega disto. - Castor Pesado reprimiu um bocejo forçado. - Eu creio que já sabemos toda a verdade a este respeito.

 

- Tu escuta, Castor Pesado! Escuta! - Madeira Desempenada levantou-se com esforço quase caindo quando o sangue fresco irrompeu, escorrendo-lhe pela perna.

 

Isto era realmente demasiado. Castor Pesado fez sinal a dois dos homens mais velhos:

 

- Ponham-no a descansar. Ele está febril.

 

- Cria Branca disse-me: “Tu és o último. Corre agora. Corre como nunca correste antes, rapaz. Diz a Castor Pesado que um novo chefe se ergueu entre os Anitah. O nome dela é Sanhaço. E diz a Castor Pesado que um Sonhador... e a Trouxa de Lobo vêm aí à procura dele. Diz-lhe a ele e a todo o Povo que vão ter de Dançar com o Fogo!»

 

Castor Pesado tinha dado dois passos antes de se deter e rir.

 

- Que é isto? Uma mulher? Uma mulher?Tu esperas que eu... e todo o Povo acreditem que uma mulher vai varrer os meus guerreiros para fora das montanhas?

 

Madeira Desempenada estendeu as mãos trémulas, os olhos implorantes.

 

- Recusas a ouvir-me. Acusas-me de cobardia. Então ouve isto. Eu fugi do acampamento de Cria Branca. Mas pensei que tinha sido louco. Encontrei Tem Força onde ele encurralara um grupo anifah nas rochas.

 

Então, pus-me à prova. Matei um dos anifah e carreguei contra a posição deles quando essa mesma mulher apareceu no meio dos nossos guerreiros. Ela matou à esquerda e à direita. Os dardos não a tocavam. Ela Dançou e Cantou com um estranho sorriso enquanto...

 

- Basta! - rugiu Castor Pesado, agitando as mãos. - Ouviremos o resto quando os guerreiros de Tem Força...

 

-Vais esperar muito tempo - gritou Madeira Desempenada. - Está morto! Como quase todos os do grupo. Ela deu coragem aos Anif’ah e eles carregaram pelas rochas abaixo. Não pudemos detê-los. Vieram, vieram e vieram até que fugimos. Ouviste isto, Castor Pesado? Fugimos todos!

 

Castor Pesado abanou a cabeça.

 

- Derrotados por uma mulher? - Apertou os lábios, adoptando uma expressão triste. - Levem-no. Ele está fora de si. Está delirante com a dor.

 

Madeira Desempenada levantou a camisa ensanguentada expondo as feridas do flanco.

 

- Sabes tanto, Castor Pesado. Viste feridas. Olha! Tu sabes a diferença de quando um dardo vem ou vai. Sofri esta enfrentando um homem.

 

- Estão a ver? - apontou Castor Pesado. - Não admira que esteja em delírio. Pobre homem. Levem-no. Mais tarde eu vou Cantar sobre ele, para tentar trazê-lo de novo ao seu estado normal.

 

Madeira Desempenada soprou com desgosto, deslizando lentamente para o chão, os pulmões arfando.

 

- E digo-te mais uma coisa que vi. Vi o espírito de Cria Branca erguer-se no ar. Todos ouviram a história. O seu espírito chamou um redemoinho e subiu nele para o céu.

 

»E talvez eu seja um cobarde. - Madeira Desempenada mastigou a boca seca. - Mas depois do que eu vi, Castor Pesado, espero que possas Dançar com o Fogo. Sei distinguir a verdade. E vi-a nos olhos de Cria Branca.

 

Os olhos de Castor Pesado cerraram-se como fendas.

 

- É bom que tenhas razão, rapaz, porque mentir unicamente para assustar o Povo e esconder a tua cobardia trará um destino muito mais terrível do que um dardo anifah.

 

E afastou-se bruscamente, rompendo através do anel de pessoas que os cercavam e que o observavam atentamente.

 

Os fogos brilhavam como olhos vermelhos na noite. Uma fina lage de arenito fora colocada sobre cada ardente cova de brasas. Na superfície da rocha, sementes de erva tinham sido moídas numa pasta, transformadas em bolachas e tostadas no calor seco. Ténues fantasmas de vapor erguiam-se na luz rubra das lareiras, enchendo o ar com um aroma delicioso.

 

Dois Fumos mudava a sua atenção de um fogo para o outro. Aqui, finalmente, podia sentir a solução do problema que o tinha preocupado durante anos. Ao mesmo tempo, tentou absorver o que Grilo e as outras relatavam.

 

As pessoas tinham começado a chegar na manhã anterior, falando da guerra nas montanhas. Vinham isoladas, aos pares ou em cordões até de cinco, caminhando com os cães e as mochilas. Mulheres e crianças, anciãos e jovens novos de mais para lutar. Todas tinham uma história semelhante sobre acampamentos surpreendidos, resistência simbólica e fuga.

 

Agora sentavam-se, falando em voz baixa para Cascos Trepidantes e Touro Esfomeado. Cotovia do Prado e Corvo Negro escutavam de um lado enquanto Três Dedos e Engraçadinha pairavam sobre outra fogueira, levantando pedras de ferver para as deixar cair na água, aquecendo um saco de ferver de pança de alce cheio de caldo de raízes.

 

A luz das chamas dançava nos rostos fatigados, alguns dos fugitivos apenas fitando o fogo, o cansaço e o desespero das almas reflectido nas expressões frouxas. Alguns mexiam desajeitadamente os dedos nervosos, pernas cruzadas, olhando em volta do acampamento, ou para a parede pendente de rocha que reflectia a luz ou ainda para a escuridão da noite, as mentes desocupadas. Em toda a assembleia, preocupação e derrota pareciam a sequência constante. Viu um povo desfeito, perdido, incapaz de compreender.

 

Dois Fumos lançou um olhar rápido a Pequeno Dançarino. O Sonhador estava sentado, semiescutando, os olhos focados num ponto para além do fogo, como se as belas formas se tecessem com a própria noite. O grande lobo negro sentava-se ao lado, as orelhas espetadas enquanto vigiava os cães, farejando em volta do perímetro do acampamento. Até os cães pareciam intimidados, receosos de desafiar o lobo, as suas naturezas caninas tão perturbadas como as naturezas humanas dos seus donos.

 

Alce Encantado parecia desgraçada, aconchegando a criança mais nova ao seio. O olhar espantado deslizava para os refugiados, para Grilo, que fora sua amiga, para os outros com quem tinha vivido e, inevitavelmente, de regresso para o marido. Através da atmosfera de tristeza, Dois Fumos podia sentir a sua preocupação e frustração.

 

Cascos Trepidantes viu distribuir o caldo entre os famélicos visitantes. Touro Esfomeado continuou a escutar, esperando educadamente que os hóspedes comessem, um olhar pensativo no seu rosto esguio. Preocupado, afagava o queixo.

 

Finalmente, Grilo pousou a tigela ao lado e arrotou alta e longamente para demonstrar o seu apreço pela comida. Apertou as mãos no regaço, olhando para Cascos Trepidantes e, com alguma suspeita, para Touro Esfomeado.

 

- Viemos aqui. Sanhaço sugeriu-o. Que fazemos?

 

Touro Esfomeado pôs-se em pé, tornando-se o centro das atenções.

 

- Escutei as vossas palavras. Também li a suspeita nos vossos olhos. Gostaria de vos dizer que são bem-vindos entre nós. Penso que podemos alimentar a maior parte de vós enquanto aqui estiverem. Dois Fumos descobriu o segredo da erva que nos dá uma nova comida. A erva está em todo o lado.

 

- E quanto às tuas ligações com o Povo do Pequeno Búfalo. - Lançamento Certeiro ergueu-se de onde estava, no limite do acampamento. Os seus velhos olhos cintilavam à luz da fogueira; o desgosto ainda lhe marcava o rosto.

 

Touro Esfomeado fez um gesto de resignação.

 

- Nós já não somos Pequeno Búfalo. Somos outra coisa, um bando diferente, nem Pequeno Búfalo nem Mão Vermelha. Nós também fugimos de Castor Pesado e dos seus Sonhos.

 

- Ele não é um Sonhador - sussurrou do lado Pequeno Dançarino.

- Ele não é do Um. Ele perverteu a Espiral.

 

As pessoas olharam-no, a curiosidade misturada com a circunspecção.

 

- Como eu dizia, Lançamento Certeiro, nós somos diferentes. Não temos laços com aqueles que em tempos foram nossos parentes. Vocês são bem-vindos entre nós. O nosso acampamento é vosso durante tanto tempo quanto quiserem. Os nossos filhos e os vossos já brincam, cada qual apreciando a companhia dos outros. Penso que é uma lição que devemos aprender com os nossos filhos.

 

Lançamento Certeiro inclinou a cabeça, olhos acerados fitos nos de Touro Esfomeado:

 

- E se os Pequeno Búfalo vierem pela montanha abaixo? Touro Esfomeado apontou para ocidente.

 

- Partiremos. Os Comedores de Peixe vivem do outro lado da bacia e...

 

- Sabe-se que os Pequeno Búfalo caçam na bacia.

 

- Mas os búfalos partiram - contrapôs Touro Esfomeado. - Só uma ou duas manadas pequenas ainda lá vivem agora. Com a seca moveram-se para baixo ao longo do Rio do Carneiro da Montanha. Eu cacei lá em tempos quando era rapaz. Sei que a erva de que Dois Fumos faz comida é espessa lá. E mais para o sul fica a Bacia do Vento Quente. Por detrás destas montanhas há outras. Em algum lado encontraremos um lugar para o nosso povo

 

- Os ossos do meu avô estão aqui - acrescentou Lançamento Certeiro. - Pedes-me para deixar este lugar?

 

Touro Esfomeado abanou a cabeça.

 

- Não, apenas vos digo o que o nosso povo vai fazer se Castor Pesad trouxer a sua guerra até aqui. Somos caçadores e apanhadores de plantas. É tudo.

 

Pequeno Dançarino ergueu-se.

 

- Vós não deixareis as montanhas. Amanhã vou reclamar a Trouxa de Lobo. O tempo do Fogo chegou. A Espiral está cheia. Eu vou Dançar o Um para restaurar os Círculos. Fazer isso, recolocará a Espiral no seu lugar. Castor Pesado deve ser enfrentado por um Sonho mais poderoso. O Fogo tem de abrir o seu caminho. O tempo chegou.

 

Sorriu para algo no interior da sua cabeça e caminhou através do fogo aceso no meio do acampamento, erguendo as mãos para o céu nocturno.

 

As pessoas observavam-no silenciosas, os olhos arregalados. O lobo ergueu-se e seguiu Pequeno Dançarino para a escuridão, seguindo o caminho da crista rochosa.

 

- Ah! - Lançamento Certeiro exalou com assombro. - Então é verdade. Ele é um Sonhador?

 

Alce Encantado encolheu-se, mordendo o lábio inferior. Fugiu do seu lugar, esgueirando-se através das abas para dentro do seu abrigo. Grilo seguiu-a rapidamente, afastando as peles e entrando.

 

Dois Fumos suspirou e levantou-se.

 

- Ele é um Sonhador. É um Sonhador como os Mão Vermelha já não vêem há muitos anos. - Encheu os pulmões e então contou a história de Água Límpida e da Trouxa de Lobo. Com grande determinação narrou a história completa da vida de Pequeno Dançarino, da maldição de Castor Pesado, das tentativas de Cria Branca para o treinar, dos Sonhos e frustrações. Finalmente, contou-lhes a visão.

 

- Pequeno Dançarino subiu à montanha para encontrar um lugar alto. Aí uma serpente mordeu-o e a sua perna inchou. Durante quatro dias esperou, morrendo, até que Sonhador de Lobo apareceu na luz do Sol.

 

- Tu sabes isso? - perguntou Lançamento Certeiro. Dois Fumos concordou:

 

- Sou um tresmalhado. Senti o Poder nas suas palavras. Juntos, Pequeno Dançarino e o Primeiro Homem Sonharam o veneno para fora da sua perna. Ainda podes ver as mordeduras no calcanhar, vermelhas e inflamadas. Eu próprio ouvi a Trouxa de Lobo chamando. Pequeno Dançarino foi mudado. Ele Sonhou a Dança. Disse-me que um novo chefe se tinha erguido entre os Mão Vermelha... um guerreiro que quebrará a força do Povo do Pequeno Búfalo. E quando isso acontecer, Pequeno Dançarino encontrará Castor Pesado e Sonhará as Espirais de volta de modo que o mundo não termine num deserto e os nossos irmãos, o búfalo e o antílope, não sejam caçados até à extinção como os nossos antepassados caçaram os monstros.

 

- Então - o rosto de Touro Esfomeado contraiu-se. - Tu vais partir com o meu filho?

 

Dois Fumos voltou-se, pousando a mão sobre o ombro de Touro Esfomeado, compreendendo, intuitivamente, a súbita preocupação e dor do homem e anuiu.

 

- Vamos em breve.

 

- Então, vou arrumar a minha mochila esta noite. Vou convosco.

 

- Não.

 

- Mas ele é meu filho! - Touro Esfomeado, meu amigo de há muito tempo. Ele não é teu filho. Tu só o criaste e amaste. Ele é filho do Poder. O Poder guiá-lo-á agora. - Dois Fumos apontou para o povo. - Tu nunca quiseste envolver-te com o Poder e os seus caminhos. Aqui, diante de ti, está a tua responsabilidade. Esta gente precisa de um chefe. Esta gente precisa de ti. É preciso preparar acampamentos. É preciso recolher comida. Hão-de vir mais Mão Vermelha nas próximas semanas. Neste Inverno tens de os alimentar a todos.

 

Touro Esfomeado sacudiu a cabeça, confundido.

 

- Mas se os Pequeno Búfalo vão ser quebrados, se Castor Pesado vai ser... Eu não compreendo.

 

- Compreendes sim, velho amigo. Durante esta guerra nenhuma comida foi armazenada. Os acampamentos foram destruídos. Pequeno Dançarino não me contou tudo, mas sei o bastante das suas palavras para te dizer que os Mão Vermelha vão passar fome nos acampamentos altos, este ano. O segredo da erva veio até mim quando veio, por alguma razão. Confia no teu velho amigo Dois Fumos.

 

Touro Esfomeado apertou os lábios, uma ruga desesperada na fronte.

 

- Mas o meu filho...

 

-Eu tomo conta dele. Toda a minha vida fui preparado para esta jornada. Vamos fazer o que pudermos.

 

Touro Esfomeado lutou para encontrar as palavras, mas só conseguiu olhá-lo.

 

- Anda, vamos experimentar esses bolos feitos de semente moída. Da erva, agora tiramos vida.

 

Touro Esfomeado cerrou os punhos e permaneceu de pé, uma expressão aturdida no rosto.

 

Ele sentou-se, imóvel, olhos fechados, à procura. Um pânico subtil cresceu e dilatou-se no interior. O Um estava ali, mesmo para além do alcance.

 

A noite pulsava com vida, com a sensação do Um que se entrelaçava em volta e através de si. As asas dos insectos batiam o ar, um coiote uivou à distância. Um rumor suave chegou, das brisas da noite correndo pelo zimbro. O ar deslizava fresco pelo seu rosto ardente. A rocha mordia-lhe ferozmente a carne. Um gorgolejo de fome agitou-lhe as entranhas Recordações de vozes clamavam por lembrança. Rostos em volta do fogo pairavam, novos e excitantes, no limiar da sua mente.

 

Dançarino do Fogo fez calar os pensamentos, lutando com as palavras e imagens que rastejavam para o distrair. A Trouxa de Lobo acenava o seu Poder fugindo-lhe como água de um saco perfurado, uma gota de cada vez.

 

Estou a caminho!, gritou Dançarino do Fogo, procurando traçar um caminho através das suas emoções misturadas. Ó rosto de Alce Encantado formou-se diante dele. O olhar de angústia que ela lhe lançou despedaçou a serenidade que ele procurava.

 

Eu estou a magoá-la. É minha culpa que ela se sinta desgraçada. Como posso levar tanta dor a alguém que amo? Ferindo-a ainda me fere mais. POR QUE ESTOU A FAZER ISTO A MIM PRÓPRIO... ÀQUELES QUE AMO?

 

A ligação que ele procurava desfez-se, dispersa como névoa ao sol. O Um acenou, o seu Poder brilhando, seduzindo, irresistível. Frenético, ele estendeu-se, nada agarrando. O Um permanecia, pairando, esquivo como uma espiral de fumo que pode ser cheirada mas nunca sentida.

 

O caminho tinha sido tão fácil quando Sonhador de Lobo o tinha levado para Dançar. Tinha experimentado o silêncio trovejante, a harmonia e a desarmonia. Tinha exultado... e nada sentido. O chamamento aumentou, conduzindo-o, como um homem sofrendo de sede enquanto o rio se retrai mesmo junto à ponta dos seus dedos.

 

Era tão fácil! Foi só pegar na mão de Sonhador de Lobo e atravessar. Por que não posso fazê-lo agora? Por que chego eu tão perto... só para o perder numa ilusão?

 

Concentrou-se de novo, esvaziando a mente, afastando da sua concentração as desilusões sofridas. Imobilidade, calma, estendeu a mente e a alma, esquecendo o mundo à sua volta. O Um pairou mais perto, a sua doçura acariciando-lhe a própria alma como o calor radiante de uma fogueira numa noite fria. Procurou as chamas, estendendo-se num esforço para as envolver.

 

Gargalhadas subiram no ar calmo, trazendo-lhe as emoções das pessoas. A imagem desvaneceu-se.

 

Dentro dele o pânico alastrou. O Um estava tão perto... e, no entanto, tão longe.

 

Deixar cair as barreiras foi tão simples. Eu consegui-o. Posso fazê-lo outra vez. É só deixar ir, pairar em volta do Um. Imaginou nisso a mão de Sonhador de Lobo. Os dedos agarrando em nada até os músculos tremerem, a dor comendo na concentração. Não, este não é o caminho. E uma tentativa em falso. Outra ilusão para te apanhar.

 

No fundo da mente uma voz lembrava-lhe:

 

- O tempo é agora. Precisas de ir e Sonhar. Precisas. Precisas...

 

Apertou os olhos já fechados, o desespero encerrado no peito ardente.

 

- E se eu não puder?

 

O pânico ardeu solto, até ele cair em lágrimas.

 

A alvorada tinha começado a atirar uma lamacenta neblina amarelada através da parede implacável das montanhas a leste. Os poderosos despenhadeiros de rocha erguiam-se firmes, inacessíveis à luz. Uma parede negra, gigantesca, levantava-se, irregular e denteada para bloquear a chegada do Sol.

 

Como a minha alma, pensou Alce Encantado.

 

Subiu o último pedaço da encosta íngreme, firmando-se na cobertura rochosa no frio ar da manhã. Um pisco chamou lamentosamente no amanhecer. Já um grupo de pessoas se erguia, desconfortável, as formas contrastando com as formas entufadas dos zimbros e moitas. De um lado, Pequeno Dançarino sentava-se, de pernas cruzadas, voltado para leste, mãos no regaço, olhos fechados, rosto inexpressivo.

 

O saibro estalava sob as passadas na rocha. Ela forçou os músculos a moverem-se, caminhando desajeitadamente como se para contrariar a sua graça natural. Atrás de si, os pés de Grilo arrastavam-se pela rocha. Nessa noite, não tinha conseguido dormir. Em vez disso, tinham falado de amor e vida e dor. Existiria mais alguma coisa neste mundo?

 

O coração batia-lhe surdamente no peito quando parou, fitando o marido. Recordações dos seus sorrisos, das suas graças e incertezas fervilhavam-lhe na mente. Tinha tudo chegado a isto?

 

Ele é a esperança do Povo, Mão Vermelha e Pequeno Búfalo. Ele tem de ir. Ele deve ir. E um guerreiro do Poder, lutando pelo seu mundo. Ela abanou a cabeça, recordando-se de como Dois Fumos a tinha prevenido. As narrativas de Grilo sobre medo e morte só tinham fortalecido a certeza de que o seu tempo chegara. Tenho de o deixar ir. Tenho de o libertar. Mas por que é que me dói tanto?

 

Como se a ouvisse, Pequeno Dançarino abriu os olhos, voltando a cabeça para olhar para ela. Ergueu-se. O lobo apareceu ao lado como por magia, seguindo-o, enquanto ele se aproximava. Os outros podiam não existir quando se aproximou para parar diante dela. A visão das suas feições torturadas, do desespero dele, rasgaram-lhe a compostura com agudeza de uma obsidiana afiada.

 

Que o atormentava tanto? Que terror lhe dava aquele ar de angústia? O freio das suas emoções quebrou-se e ela atirou-lhe os braços em volta, apertando-o com força. Os braços dele envolveram-na.

 

- Perdoa-me - sussurrou-lhe ele ao ouvido. - Tu entenderás um dia.

 

- Talvez já te entenda agora. Vai, Pequeno Dançarino. Sonha o mundo de volta ao normal. Eu Cantarei por ti. Farei tudo o que... pelo Sábio, estou tão orgulhosa de ti que até magoa.

 

-Amo-te. Nunca vou deixar de te amar. Talvez, bem, é a minha força no Sonho. Tinha de conhecer o amor, para querer desistir de tudo por ele. Tu deste-me o maior dos dons.

 

- Fico à tua espera. As tuas filhas, todos nós. Volta.

 

- Se puder. E afastou-se.

 

De olhos secos, ela fitou-o, vendo-lhe a dor nos olhos. Lentamente, ela abanou a cabeça.

 

- Estarei à tua espera. Todo o tempo que for preciso. Para sempre. O sorriso dele aqueceu-lhe a alma apesar do frio.

 

Ele deu um passo atrás, voltando-se para Grilo que lhe embalava a filha mais nova. Esticou-se para a filha que dormia nos braços de Grilo e tocou a fronte da criança, uma carícia tão terna como uma brisa da Primavera numa pele de corço. Um sorriso deliciado encurvou-lhe os lábios da filha e um gorgolejo soou.

 

Em seguida, Pequeno Dançarino parou em frente de onde a filha mais velha se erguia, um polegar tímido na boca.

 

- Vais portar-te bem? Vais dar atenção à tua mãe e crescer para seres tão bonita como ela?

 

Ela acenou concisamente e correu para os braços dele.

 

- Não vás. Não me deixes!

 

- Tenho de ir, pequenina. O Poder chama. Curvou-se para a beijar no topo da cabeça e as lágrimas secaram, iluminadas por um sorriso.

 

- Isto é bom.

 

- E o Poder, pequenina. Guarda-o contigo.

 

E ergueu-se, uma lágrima deixando-lhe um traço ao longo do rosto.

 

- Isto custa tanto.

 

O estômago de Alce Encantado contraiu-se como se tivesse sido pontapeado.

 

- Anda - disse suavemente Dois Fumos, caminhando para fora da multidão. - Temos um longo caminho pela frente.

 

Os protestos de Alce Encantado morreram-lhe na garganta. Em silêncio ficou a olhar enquanto Dois Fumos e Pequeno Dançarino tomavam o caminho para leste.

 

- Todo o tempo que for preciso - sussurrou ela.

 

Mal notou que a filha lhe tinha agarrado a mão, abraçando-lhe a Perna. Um lamento cresceu-lhe no peito. Apesar das promessas, os olhos inundaram-se de lágrimas, desfocando-lhe a visão de tal modo que ele se afastava numa neblina de prata.

 

 

Sanhaço observava o pôr do Sol, fitando o magnífico tufo de uma nuvem laranja-fogo que brilhava à luz do dia moribundo. Por cima, o céu tornara-se numa sombra permanente de azul-escuro em contraste com as cores berrantes do poente. A terra, lá em baixo, parecia ter sido tocada pelo fogo, iluminada pelos os raios carmesim que se difundiam do céu espectacular.

 

- Um mundo em chamas - meditou ela, antes de se forçar a desviar os olhos daquela maravilha e fazer mais uma inspecção da região circundante. Os grupos de guerra do inimigo podiam estar em qualquer lado, esgueirando-se através das árvores. Antes de se dissipar a última luz, quaisquer grupos perigosos de guerreiros tinham de ser localizados. Sanhaço não podia permitir outro ataque de surpresa. Nas semanas precedentes tinha liderado com sucesso o seu bando crescente. Tinham seguido as pistas dos grupos inimigos, emboscando-os, dispersando os guerreiros vagabundos do Pequeno Búfalo enquanto mais e mais Mão Vermelha se retiravam para Cascos Trepidantes e os acampamentos de lá.

 

Abaixo dela, nas rochas, os seus guerreiros instalavam-se para a noite, os fogos cuidadosamente dissimulados, o fumo subindo no ar parado da noite, de modo a não alertar os assaltantes. Este acampamento não podia ser surpreendido. Tinha batedores no exterior, passando a noite ao longo dos trilhos para dar o alarme.

 

Enquanto voltava de novo a atenção para o céu magnífico, não podia banir a ideia de que já tinham perdido. Apesar da sua coragem e da determinação que instilara nos seus guerreiros, permaneciam muito poucos contra muitos.

 

- Então, morrerei aqui - prometeu ela como já o tinha feito vezes sem conta. - Esta terra é minha. Foi-nos dada pelo Primeiro Homem.

 

Assim, ela tinha-se resignado. Ausente, deslizou os longos dedos sobre o atlatl, sentindo o seu Poder, sabendo que a alma de Cria Branca tinha realmente ido para dentro da arma. Quando lutava, ela Dançava e Cantava e chamava esse Poder para a frente. Com ele, continuava invencível. Os seus feitos ousados tinham quebrado mais do que uma luta acesa. Quando ela Dançava, inviolada, os guerreiros seguiam-na, estimulando a sua própria coragem até um calor raivoso.

 

Os dardos roçavam por ela, deixando-a intocada. O inimigo ficava assombrado, recusando-se a acreditar que uma mulher os podia matar, enquanto ela lhes esmagava os crânios e os seus dardos lhes atravessavam os corpos. Ela tinha escolhido com cuidado, encontrando uma rocha, dando-lhe forma e amarrando-a à haste do atlatl que tinha tomado a Duas Luas Azuis, para formar uma maça de guerra perfeitamente ajustada ao seu peso e equilíbrio.

 

A sua fama já se tinha espalhado, uma vez que os guerreiros Mão Vermelha vinham em busca do seu acampamento.

 

Enquanto vigiava, as nuvens ardentes avermelharam-se, enraivecidas pelo sol-poente.

 

- Assim está o meu mundo enlouquecido. Como o fogo, a minha raiva empurra-me. Assim, o Povo do Pequeno Búfalo sente o meu calor. É a chama da alma de Sanhaço.

 

Sem pensar, ergueu as mãos para as nuvens encasteladas que atiravam chamas através do céu. Seriam os olhos que a iludiam ou avistava a forma de um homem fitando-a com olhar ardente?

 

- Dá-me a fúria e a força para escorraçar os Pequeno Búfalo das minhas terras. Escuta-me, Primeiro Homem. Escuta a súplica de Sanhaço. Dá-me a arma para expulsar estas bestas das terras dos teus Mão Vermelha.

 

Um surdo rumor de trovão rolou através da terra.

 

Com a mesma rapidez, a cor das nuvens esmaeceu, ficando escuras e pesadas.

 

Baixou as mãos, pensativa. Voltando-se perscrutou de novo os bosques, procurando os prados e as frestas da floresta. Tudo seco. Não importava que as nuvens se amontoassem umas sobre as outras, nenhuma chuva caíra. Até onde podia avistar por sobre as bacias, elas permaneciam murchas e secas, uma terra ressequida. Até mesmo aqui, no alto das Montanhas do Búfalo, a madeira estava seca e as poucas fogueiras nocturnas, que se permitiam, eram cuidadosamente protegidas com receio que as faúlhas caíssem na erva seca ou pousassem nos ramos das árvores desesperadas.

 

- Uma terra que chora, sussurrou, baixando-se entre as ervas esmigalhadas. - E os Mão Vermelha choram com a terra.

 

Os búfalos tinham-se tornado mais abundantes, subindo das bacias devastadas pelo calor, procurando a água e a erva das terras altas. Assim, os Pequeno Búfalo viviam fora da terra, como o faziam os guerreiros dela. E no Inverno? Onde estaria a comida que os homens e mulheres deviam estar agora a armazenar? Quem poderia preparar-se Quando a guerra rugia e grupos lutavam nas sombras das árvores.

 

Abanou a cabeça, uma tristeza descendo com o cair da escuridão.

 

Serpenteando em volta das rochas, enrolou-se apertadamente na Sua pele contra o frio seco da noite. Não tinha visto qualquer movimento. Os batedores não tinham feito qualquer aviso. Esta noite deviam repousar em segurança antes de enviar mais grupos ao alvorecer, sangue e raiva nos corações enquanto procuravam pistas. Onde deviam estar à caça de balsamina e lírios, agora caçavam homens.

 

Exausta, permitiu que a tensão e a raiva se escoassem dos músculos fatigados. Um relâmpago estival flamejou na alta massa de nuvens para ocidente.

 

Encolheu-se dentro da túnica, desejando que os olhos se fechassem, desejando que o sono viesse.

 

E com ele o Sonho...

 

Sangue de Urso seguia à frente. Atrás dele, os restos do seu bando caminhavam curvados através do borque ressequido, pisando cuidadosamente os ramos caídos, as mocassinas fazendo estalar a caruma. O crepúsculo elevava-se por cima, apenas iluminado pelo poente ci