Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O PRIMEIRO MINISTRO / Arthur Hailey
O PRIMEIRO MINISTRO / Arthur Hailey

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O PRIMEIRO MINISTRO

 

 “Na tarde e no começo da noite do dia 23 de dezembro, três fatos, aparentemente irrelacionados, ocorreram a quilômetros de distância uns dos outros. Um foi uma chamada telefônica, por linha estritamente reservada, do Presidente dos Estados Unidos para o Primeiro-Ministro do Canadá; a conversa, que decorreu num tom grave, durou quase uma hora. O segundo fato foi uma recépção oficial na residência do Governador-Geral de Sua Majestade; o terceiro, a atracação de um navio, em Vancouver, na costa ocidental do Canadá.”

Assim começa a história deste livro, uma obra-prima de ficção política: a história humana, violenta e arrebatadora de uma crise que tem como personagem central a figura de James McCallum Howden, o Primeiro-Ministro.

 

23 de Dezembro

NA tarde e no começo da noite do dia 23 de dezembro, três fatos, aparentemente irrelacionados, ocorreram a quilômetros de distância uns dos outros. Um foi uma chamada telefônica, por linha estritamente reservada, do Presidente dos Estados Unidos para o Primeiro-Ministro do Canadá; a conversa, que decorreu num tom grave, durou quase uma hora. O segundo fato foi uma recepção oficial na residência do Governador-Geral de Sua Majestade; o terceiro, a atracação de um navio, em Vancouver, na costa ocidental do Canadá.

O telefone tocou primeiro. A ligação foi feita do gabinete do Presidente na Casa Branca e o Primeiro-Ministro atendeu de seu gabinete na ala leste do Parlamento.

A atracação do navio foi o seguinte. Era o Vastervik, um barco de 10.000 toneladas, de nacionalidade liberiana, cujo Capitão, Sigurd Jaabeck, era norueguês. Atracou às três horas no cais La Pointe no porto do Estreito de Burrard, nos arredores da zona sul da cidade.

Precisamente uma hora depois, em Otawa, onde, devido às três horas de diferença do fuso horário, já era noite, começavam a chegar os primeiros convidados da recepção ao palácio do Governador. Não era propriamente uma recepção de gala, mas uma simples festa que Suas Excelências costumavam oferecer anualmente aos membros do Gabinete e suas esposas, na antevéspera do Natal.

Só dois dos convidados — o Primeiro-Ministro e seu Secretário de Estado para assuntos externos — tinham conhecimento do telefonema do Presidente. Nenhum dos presentes jamais ouvira falar do navio Vastervik, nem tampouco, na ordem natural das coisas, teriam condições de saber.

Não obstante, irrevogável e inevitavelmente, os três acontecimentos estavam fadados a se entrelaçar como os planetas e suas nebulosas, cujas órbitas, de modo estranho e misterioso, colidem e participam da cintilação de um período.

 

O Primeiro-Ministro

Fazia Bastante frio em Otawa e tudo indicava, com o céu carregado de nuvens, que iria nevar antes do amanhecer. A capital da nação — assim diziam os entendidos — estava sujeita a um Natal borrascoso.

No banco traseiro de um Oldsmobile preto, dirigido por um chofer, Margaret Howden, esposa do Primeiro-Ministro do Canadá, segurava a mão de seu marido.

— Jamie — disse ela — você parece cansado.

Suâ Excelência James McCallum Howden, membro do Conselho Privado, licenciado em Direito, Conselheiro da Rainha, membro do Parlamento, com os olhos fechados, procurava relaxar no calor do carro. Nesse instante os abriu.

— Para dizer a verdade, não estou — detestava admitir em qualquer circunstância que estivesse cansado. — Apenas relaxando um pouco. Estas últimas quarenta e oito horas...

Conteve-se, lançando um olhar nos ombros escuros do motorista. O vidro de separação estava levantado, mas mesmo assim conviria ser prudente.

A claridade da rua refletida no vidro permitia-lhe ali contemplar-se como num espelho: um rosto de falcão, compacto; um nariz semelhante ao bico de uma águia e um queixo saliente.

Sua esposa, a seu lado, disse-lhe brincando:

— Pare de se mirar ou você se tornará... como é que se diz em Psiquiatria?

— Narcisista — James sorriu, revirando seus olhos de pálpebras pesadas. — Mas sempre o fui. Em política é uma norma profissional.

Fez-se uma pausa. Depois ficaram novamente sérios.

— Alguma coisa aconteceu, não foi? — disse Margaret em voz baixa. — Alguma coisa importante.

Virou-se para ele, com um olhar inquieto. James, embora preocupado como estava, pode admirar a beleza clássica de seus traços. Margaret era ainda uma mulher bonita, pensou ele, e ainda se sentiam excitados toda vez que entravam juntos num quarto.

— Sim — confirmou.

Por alguns instantes pensou em confidenciar a Margaret, contar-lhe tudo que tinha acontecido tão rapidamente, desde o telefonema secreto da Casa Branca, do outro lado da fronteira, há dois dias; a segunda chamada, naquela tarde. Depois resolveu: não era o momento.

Margaret, ao seu lado, dizia:

— Você tem estado tão ocupado ultimamente, que são raros os momentos que passamos juntos, a sós.

— Eu sei.

James estendeu seu braço e segurou na mão dela. Era como se o gesto tivesse dado vazão a palavras até então contidas.

— Vale a pena? Já não fez bastante? — Margaret Howden falava depressa, consciente da brevidade do tempo disponível, sabendo que poucos minutos de carro separavam sua casa do palácio do Governador-Geral. Dentro de mais um minuto ou dois estaria terminado aquele instante de calor e de intimidade. — Estamos casados há quarenta e dois anos, Jamie, e a maior parte do tempo só o possuí parcialmente. E não é grande coisa o que nos resta de vida.

— Não tem sido fácil para você, hem, querida? — James falava calmamente, com sinceridade. As palavras de Margaret tinham-no comovido.

— Não, nem sempre — havia um tom de incerteza. Era um assunto embaraçoso que raramente abordavam.

— Chegará o dia, prometo-lhe. Se outras coisas... — ele parou, lembrando-se dos imponderáveis a respeito do futuro que os dois últimos dias deixavam entrever.

— Que outras coisas?

— Mais uma tarefa. Talvez a maior que já tive.

Era impossível responder. Até a Margaret, tantas vezes sua confidente, não podia jamais manifestar sua mais profunda convicção: pois não tinha nenhuma outra que não fosse de minha própria envergadura, intelecto e visão, para tomar as grandes decisões num futuro bem próximo.

— Por que você? — perguntou Margaret de novo.

Entraram nos jardins da residência do Governador. Os pneus rangeram no cascalho. Na escuridão, as margens da estrada deslizavam de ambos os lados.

James experimentou, momentaneamente, um profundo sentimento de culpa em suas relações com Margaret. Ela aceitara sempre com lealdade sua vida política, muito embora não fosse de seu gosto, como era do dele. Mas há muito percebia que sua esposa alimentava a esperança de que um dia ele abandonaria a política, de modo que pudessem viver mais juntos, como nos primeiros tempos.

De outro lado, tinha sido um bom marido. Não tivera nenhuma outra mulher em sua vida... a não ser numa certa época do passado: um caso de amor que começara e durara quase um ano, até que, resolutamente, lhe pos um ponto final, antes que pudesse arruinar seu casamento. Mas, às vezes, era tomado de um sentimento de culpa... e de nervosismo também, com receio de que Margaret um dia viesse a saber de tudo.

— Conversaremos à noite — disse conciliadoramente, — quando voltarmos.

O carro parou e a porta traseira foi aberta. Um soldado da cavalaria vestido num uniforme escarlate fez uma elegante saudação, ao descerem o Primeiro-Ministro e sua esposa. James Howden sorriu agradecido, apertou a mão do policial e apresentou Margaret. Era a espécie de coisa que Howden sempre fazia com elegância e sem condescendência. Ao mesmo tempo, tinha certeza absoluta de que o policial comentaria depois o episódio era surpreendente como os sussurros podiam estender-se de um simples gesto dessa espécie.

Quando entraram na mansão do Governador um ajudante de campo — um oficial bastante moço da Real Marinha Canadense — avançou garbosamente na direção deles. O uniforme dourado do ajudante parecia inconfortavelmente apertado; era, provavelmente, o resultado de muito mais tempo vivido na burocracia de Otawa de que na lida marítima, pensou Howden. Os oficiais tinham de esperar sua vez para servir no mar, agora que a Marinha não passava de uma força simbólica — de certo modo um brinquedo, embora um brinquedo caro para os cofres públicos.

Foram conduzidos do vestíbulo ornado de altos pilares até uma linda escada de mármore sobre a qual estendia-se um rico tapete vermelho e, dali, passando por um amplo corredor de tapeçaria, foram introduzidos na comprida sala de visitas onde, em geral, se davam pequenas recepções como a daquela noite. Era uma grande sala, comprida, retangular como uma caixa de sapatos, de forro alto, com vigas transversais, com a familiaridade de um saguão de hotel, embora dotada de um pouco mais de conforto. Até então, porém, as cadeiras e os sofás, convidativamente dispostos, forrados em tons suaves de turquesa e narciso, estavam ainda vazios. Os sessenta e tantos convidados estavam em pé, prosando em grupos informais. Altaneiro, do alto da parede, um quadro da Rainha, de corpo inteiro, dava para as janelas do outro lado da sala, das quais pendiam cortinas, agora descerradas, de rico brocado dourado. Na extremidade do salão, luzes festivas de uma decorada árvore de Natal acendiam e apagavam. O burburinho da conversação diminuiu perceptivelmente quando entraram o Primeiro-Ministro e sua esposa, Margaret Howden num vestido de baile de renda lilás claro, com seus ombros descobertos.

O oficial, que ainda os precedia, levou-os diretamente para perto de uma lareira acesa onde o Goveraador-Geral estava recebendo. O ajudante anunciou:

— O Primeiro-Ministro e a Sra. Howden.

Sua Excelência, o digníssimo Marechal-do-Ar Sheldon Griffiths, portador da Cruz de Vitória, condecorado com a Cruz do Ar, membro da Real Força Aérea Canadense, Governador-Geral de Sua Majestade no Domínio do Canadá, estendeu sua mão.

— Boa noite, Primeiro-Ministro — em seguida, inclinando cortesmente a cabeça: — Margaret.

Margaret Howden fez uma reverência com rematada desenvoltura, incluindo no seu sorriso Natalie Griffiths que se achava ao lado de seu marido.

— Boa noite, Excelência — disse James Howden. — Vossa Excelência tem um aspecto saudabilíssimo.

O Goveraador-Geral, de cabelos grisalhos, rosado, de porte militar e ereto, apesar de sua idade, vestia um impecável traje de noite com uma longa enfiada de medalhas e condecorações. Inclinou-se para frente e disse confidencialmente:

— Sinto-me como se o diabo de meu estabilizador estivesse pegando fogo — num gesto, se referindo à lareira, acrescentou: — Já que o senhor chegou, afastemo-nos deste inferno.

Juntos, os quatro passaram a percorrer a sala, revelando-se o Governador-Geral um anfitrião cortês e amável.

— Vi o seu novo retrato de Karsh — disse a Melissa Tayne, a graciosa e plácida esposa do Dr. Borden Tayne, Ministro da Saúde e do Bem-Estar. Está lindo e quase conseguiu fazer-lhe justiça. — Seu marido, ao seu lado, ruborizou-se de satisfação.

Logo depois deles, Daisy Cawston, pesada, maternal e descuidada, balbuciou:

— Venho tentando persuadir meu marido a posar para Karsh, Excelência, pelo menos enquanto lhe restam alguns fios de cabelo na cabeça.

A seu lado, seu marido, Stuart Cawston, Ministro da Fazenda e conhecido dos amigos e dos adversários como Stu Risonho, sorriu complacentemente.

O Goveraador-Geral inspecionou gravemente a cabeça de Cawston cuja calvície progredia sensivelmente.

— É melhor seguir o conselho de sua esposa, meu caro. Não lhe resta mais muito tempo — o tom em que foram ditas as palavras lhes roubava qualquer sentido de ofensa e um coro de risadas se fez ouvir, a que aderiu o Ministro da Fazenda.

Ora, enquanto o Governador e seus acompanhantes desfilavam pela sala, James Howden ficou para trás. Seu olhar cruzou com o de Arthur Lexington, Ministro do Exterior, que se encontrava num grupo à parte com sua esposa Susan, e lhe fez um sinal discreto com a cabeça. Lexington desculpou-se casualmente e veio na sua direção. Era um tipo um tanto angelical, com seus cinquenta e tantos anos de idade, cujas maneiras indolentes e avunculares escondiam uma das inteligências mais perspicazes em política internacional.

— Boa noite, Sr. Primeiro-Ministro — disse Arthur Lexington! Sem mudar de expressão abaixou a voz. — Tudo vai indo bem.

— O senhor falou com o Angry? — perguntou Howden incisivamente. Sua Excelência Phillip B. Angrove, Angry para seus amigos, era o Embaixador dos Estados Unidos no Canadá.

Lexington bateu com a cabeça que sim.

— Seu encontro com o Presidente está marcado para o dia 2 de janeiro — disse baixinho. — Em Washington, naturalmente. Temos ainda dez dias.

— Não podemos perder tempo.

— Eu sei.

— Discutiu o programa?

— Sem pormenores. No primeiro dia lhe será oferecido um banquete oficial, com as frivolidades habituais; depois, o encontro privado, só de nós quatro, no dia seguinte. Acho que será nessa ocasião que entraremos no assunto.

— Que acha de uma nota anunciando esse encontro?

Lexington fez um sinal de advertência com a cabeça e o Primeiro-Ministro acompanhou seu olhar. Aproximava-se um garçom com uma bandeja de bebidas. Entre os copos havia um só de suco de uva, a única bebida que, segundo se dizia, James Howden, abstêmio, se permitia tomar. Indiferente, tirou um copo.

Quando o garçom se afastou e Lexington bebia uísque com água, Aaron Gold, Diretor-Geral dos Correios e o único membro judeu do Gabinete, aproximou-se deles.

— Estou com os pés que não aguento — anunciou. — Será que o senhor não poderia dizer uma palavrinha à Sua Excelência pedindo-lhe pelo amor de Deus que se assente, para que nós outros nos possamos aliviar do nosso próprio peso?

— Nunca o vi tão apressado para se livrar de seus pés, Aaron — disse Lexington sorrindo. — A julgar por suas palavras.

Stuart Cawston, que estava por perto e ouvia a conversa, aparteou de onde estava:

— Com os pés cansados, Aaron? Seria de entregar cartões de Natal?

— Tenho de aguentar humoristas — disse o Diretor-Geral melancolicamente — quando na verdade preciso é de compaixão.

— Tinha a impressão de que já a tivesse — disse Howden em tom jocoso. O idiota contraponto, pensava ele: um cômico diálogo de bastidores com Macbeth. Todavia, talvez fosse necessário. As nuvens que tão inesperadamente surgiram no horizonte, ameaçando a própria existência do Canadá, eram por demais temíveis. Quantos naquela sala, além de Lexington e dele mesmo, tinham qualquer ideia... Os outros agora se afastaram.

Arthur Lexington disse em voz baixa:

— Conversei com Angry sobre o anúncio do encontro e ele telefonou de novo para o Departamento de Estado. Responderam-lhe que o Presidente pedira que, por enquanto, não se desse nenhuma publicidade. Parecem querer dizer que se essa notícia fosse dada logo depois da nota russa, haveria de provocar implicações óbvias.

— Não posso ver tanto mal nisso — disse Howden, pensativo. — Teremos de anunciá-lo brevemente. Mas se é assim que ele quer...

Ao redor deles conversava-se e se ouvia o trincar de copos.

— Perdi sete quilos, depois descobri aquela bendita padaria. E os quilos voltaram de novo...

— ... desculpei-me dizendo que não tinha visto o sinal vermelho porque ia correndo para me encontrar com meu marido que é ministro de estado...

— ... escreverei a respeito disso para Time; até as distorções são interessantes...

— ... Realmente, o povo de Toronto hoje em dia é insuportável; parece passar por uma indigestão cultural...

— ... De modo que lhe disse, se quisermos estúpidas leis antialcoólicas, é problema nosso; em todo caso, tente agora mesmo fazer uso do telefone em Londres...

— ... Acho os tibetanos inteligentes; há um quê de homem das cavernas...

— ... A senhora já observou como os magazines estão enviando as contas com menos prazo? Antigamente levavam umas duas semanas para serem entregues...

— ... Deveríamos ter contido Hitler no Reno e Kruschev em Budapeste...

— ... Não se iluda: se fossem os homens que se engravidassem, haveria muito menos partos... obrigada, gim e tônica.

— Quando fizermos o anúncio — disse Lexington em voz ainda mais baixa. — Diremos que o encontro gira em torno de acordos comerciais.

— É — concordou Howden. — Acho que é melhor.

— Quando comunicará ao Ministério?

— Não decidi ainda. Penso talvez que em primeiro lugar deva dar ciência ao Conselho de Defesa. Haveria algumas reações — Howden esboçou um sorriso sombrio. — Nem todos possuem sua compreensão dos negócios internacionais, Arthur.

— Bem, acho que tenho certas vantagens — Lexington fez uma pausa. Seu semblante comum exprimia reflexão, seus olhos interrogavam. — Mesmo assim, levará muito tempo para que me acostume com a ideia.

— É — disse James Howden. — Também acho.

Os dois interlocutores se separaram, voltando o Primeiro-Ministro para o grupo do Vice-Rei. Sua Excelência estava apresentando suas condolências a um membro do Gabinete cujo pai tinha morrido uma semana antes. Mais adiante, congratulou-se com outro cuja filha conquistara honras acadêmicas. O sujeito saía-se muito bem, pensava Howden — era o perfeito equilíbrio de afabilidade e de dignidade, sem excesso nem de uma coisa nem de outra.

James Howden perguntava-se até quando o culto de reis e de rainhas e de um representante real duraria no Canadá. Viria certamente o tempo em que ó país haveria de romper os vínculos com a monarquia britânica do mesmo modo, como há anos, se desfizera do jugo do Parlamento inglês. A ideia de cerimônias reais — protocolos antiquados, carruagens douradas, lacaios e serviços de jantar de ouro — não estava mais em sintonia com os tempos modernos, sobretudo na América do Norte. Aliás, grande parte das cerimônias ligadas ao trono já tinha um quê de engraçado, semelhante a um enigma pitoresco. Quando vier o dia, e esse dia haverá de chegar, quando o povo começar a rir alto, então terá início a decadência de verdade. Ou talvez, antes disso, algum secreto escândalo real viria à tona e o desmoronamento se processaria rapidamente tanto na Grã-Bretanha como no Canadá.

A ideia de realeza fê-lo lembrar-se de uma questão que devia abordar naquela noite. O pequeno cortejo parou e, agora, afastando o Governador-Geral dos outros, disse-lhe Howden:

— Creio que no mês que vem Vossa Excelência estará de partida para a Inglaterra.

O “excelência” era estritamente pró-forma. Na intimidade, há muitos anos que se tratavam pelo próprio nome.

— No dia 8 — respondeu o Governador-Geral. — Natalie quer a todo custo que eu vá de navio a partir de Nova York. Não acha que é um absurdo para um ex-Chefe de Estado-Maior da Aeronáutica?

— Naturalmente haverá de estar com Sua Majestade em Londres — disse o Primeiro-Ministro. — Quando estiver, espero que levante a questão da visita oficial que sugerimos para março. Acho que uma palavrinha sua a respeito apressará uma decisão favorável.

O convite à Rainha tinha sido formulado há várias semanas, através do Representante do Canadá em Londres. Tinha sido calculado — pelo menos por James Howden e seus companheiros mais velhos de partido — como uma manobra para antes de uma eleição do fim da primavera ou do início do verão, uma vez que uma visita real era uma fonte abundante de votos para o partido no poder. Ora, com os últimos acontecimentos e os problemas novos e vitais de que o país dentro em breve iria tomar conhecimento, essa visita era duplamente importante.

— É verdade, soube do convite — o tom de voz do Governador-Geral tinha um quê de reserva. — Aliás, um tanto superficialmente, diria. O Palácio de Buckingham parece gostar de um aviso pelo menos com um ano de antecedência.

— Sei disso — Howden sentiu-se momentaneamente aborrecido pela pretensão de Griffiths de instruí-lo sobre um assunto que lhe era familiar. — Mas, às vezes dá-se um jeito nessas coisas. Acho que seria muito oportuno, para o país, Excelência.

Apesar do “excelência” de novo usado, James Howden fez ver pela inflexão de sua voz que estava dando uma ordem. E, refletiu, assim praticamente deveria ter sido recebido o convite quando chegou a Londres. A Corte estava plenamente consciente da posição do Canadá como o membro mais rico e mais influente da vacilante Commonwealth, e caso pudessem desvencilhar-se de outros compromissos, certamente a Rainha e seu marido atenderiam ao convite. Na realidade, interpretava o retardamento da resposta provavelmente como uma simples intenção de impressionar; mas, mesmo assim, seria conveniente lançar mão de todos os meios de que se dispunha para impressionar.

— Transmitirei sua opinião, Primeiro-Ministro.

— Obrigado — a conversa fez lembrar a Howden a necessidade de começar a pensar num sucessor de Sheldon Griffiths, cujo mandato duas vezes prorrogado iria expirar no ano seguinte.

Do outro lado do saguão tinha-se formado uma fila que ia da sala de visita para o bufete da sala de jantar. Não era de admirar; o cozinheiro da casa do Governador-Geral, Alphonse Goubaux, era famoso pela sua habilidade culinária. Certa feita correu o boato de que a esposa do Presidente dos Estados Unidos estaria tentando atrair o cozinheiro Goubaux de Otawa para Washington. Até que o boato fosse desfeito, a questão quase tomou o aspecto de um incidente internacional.

Howden sentiu Margaret lhe tocar no braço e foram ambos ajuntarem-se aos outros convidados.

— Natalie está alardeando a lagosta na galantina; diz ela que só provando para crer.

— Avise-me quando for a hora de comer, querida — respondeu Howden e sorriu. Era uma velha brincadeira entre eles. James Howden tinha muito pouco interesse por comidas e, a menos que fosse lembrado, muitas vezes se esquecia inteiramente das refeições. Outras vezes comia preocupado e aconteceu no passado ter consumido pratos especiais que Margaret lhe preparara, sem se lembrar depois do que tinha comido. No início de sua vida conjugal, Margaret angustiava-se e chorava por causa do desinteresse do marido pela culinária, que ela apreciava, mas há muito tempo já vivia resignada.

Olhando o farto bufete, onde um garçom atento segurava dois pratos prontos, Howden observou:

— Parece formidável. Que tens aí?

Lisonjeado pela distinção de servir o Primeiro-Ministro, o garçom começou a recitar o nome de cada prato: caviar, ostras Malpeque, patê maison, lagosta na galantina, foie gras Mignonette, filé assado, galantina de capão, peru defumado, presunto de Virgínia.

— Obrigado — disse Howden. — Dê-me apenas um pedaço de bife bem passado e um pouco de salada.

Diante do desapontamento do garçom, Margaret sussurrou:

— Jamie!

E o Primeiro-Ministro acrescentou imediatamente:

— E mais alguma coisa que minha esposa me esteve recomendando.

Quando voltavam da mesa reapareceu o ajudante naval.

— Desculpe-me, Sir. A Senhorita Freedeman chama-o ao telefone.

Howden depôs seu prato intacto.

— Está bem.

— Mas por que tem de ser agora, Jamie? Percebia-se o aborrecimento no tom de voz de Margaret.

Howden respondeu afirmativamente com a cabeça.

— Milly não me chamaria se pudesse esperar.

— O telefone está na biblioteca, Excelência — após uma reverência a Margaret, o oficial o precedeu.

Poucos minutos depois:

— Milly — disse Howden ao telefone. — Garanti que se tratava de coisa importante.

A agradável voz de contralto de sua secretária particular respondeu:

— E é, a meu ver.

Ele às vezes gostava de conversar, só pelo prazer de ouvir a fala de Milly.

— Onde você está? — perguntou Howden.

— No escritório; voltei. Brian está aqui comigo. É por isso que lhe estou telefonando.

Howden experimentou um súbito sentimento de ciúme de Milly Freedeman sozinha com alguém... Milly, com quem outrora mantivera um romance de que naquela noite se lembrara com um resquício de culpa. Naquele tempo o amor de um pelo outro era apaixonado e abrasador, mas quando terminou, e já sabia desde o começo que devia terminar, voltaram ambos a viver sua vida privada como se tivessem fechado e trancado uma porta de dois quartos que continuavam contíguos. Nem um nem outro abordava mais o passado. Ocasionalmente, porém, como agora, Howden sentia-se excitado de novo ao ouvir ou ver Milly, como se ainda fora jovem e ávido, apesar dos anos...

Mas sucedia invariavelmente a inquietação, a inquietação de quem — na vida pública — não podia dar-se o luxo de ter penetrada a fenda de sua armadura.

— Está bem, Milly — disse o Primeiro-Ministro. — Passe o fone a Brian.

Seguiu-se uma pausa e o ruído do telefone mudando de mão. Em seguida uma voz masculina e forte declarava secamente:

— A imprensa de Washington deixou transpirar alguma coisa, chefe. Um repórter canadense descobriu ali que o senhor está sendo esperado na Capital para um encontro com o chefão. Precisamos de um pronunciamento de Otawa, caso contrário, se as notícias vierem de Washington, pode parecer que o senhor esteja sendo chamado pelo Presidente.

Brian Richardson, de 40 anos de idade, o enérgico presidente e organizador nacional do partido, não perdia tempo com conversas. Suas comunicações, orais ou escritas, retinham ainda um sabor, do tipo de anúncio claro, sucinto que gostava de fazer, primeiro como planejador de anúncios, depois como diretor de uma agência de primeira categoria. Agora, porém, a propaganda era algo que delegava a outros, sendo seu dever principal assessorar James McCallum Howden sobre os problemas diários, visando manter a opinião pública favorável ao Governo.

Howden perguntou ansioso:

— Transpirou alguma coisa sobre o assunto?

— Não — respondeu Richardson. — Quanto a isso não se preocupe. Só transpirou o fato do encontro.

Nomeado para o cargo logo após o próprio acesso de Howden à liderança do partido, Brian Richardson já dirigira duas campanhas eleitorais vitoriosas, além de outros sucessos nesse meio tempo. Sugaz, engenhoso, com uma inteligência enciclopédica e uma extraordinária capacidade de organização, era Brian um dos três ou quatro homens do país cujas chamadas telefônicas eram inquestionavelmente ligadas a qualquer hora para o painel privativo do Primeiro-Ministro. Era também um dos mais influentes e nenhuma decisão oficial de maior envergadura era tomada sem seu conhecimento ou parecer. À diferença da maioria dos ministros de Howden, que não tinham ainda ciência do futuro encontro de Washington, ou de seu teor, Richardson fora avisado imediatamente.

E, não obstante, fora de um círculo limitado, o nome de Brian Richardson era quase desconhecido e nas raras ocasiões em que sua fotografia aparecia em algum jornal estava sempre em lugar modesto — na segunda ou terceira fila de um grupo político.

— Tínhamos acertado com a Casa Branca que não se daria qualquer nota nesses dias — disse Howden. — Depois faríamos uma declaração de despistamento de que a conversação versará sobre comércio e política fiscal.

— Ora essa, chefe, o senhor tem ainda uma saída — disse Richardson. — A declaração será apenas um pouco antecipada, é tudo... amanhã de manhã, por exemplo.

— Qual é a alternativa?

— A especulação sobre tudo, inclusive sobre o assunto que queremos evitar. O que um Zé descobriu hoje, outros podem ficar sabendo amanhã — o presidente do partido continuou num tom firme. — No momento, só um repórter sabe que o senhor está planejando uma viagem: é o Newton do Express de Toronto. É um sujeitinho muito vivo; telefonou para seu editor e o editor ligou para mim.

James Howden sacudia a cabeça. O Express era um forte partidário do Governo, às vezes chegava a ser quase um órgão do partido. No passado tinha havido troca de favores.

— Posso sustar a notícia por umas doze horas, talvez quatorze — continuou Richardson. — Mais do que isso, corre-se risco. Não pode o Ministério do Exterior forjar uma declaração qualquer por enquanto?

Com sua mão livre, o Primeiro-Ministro coçava seu nariz aquilino, fino como um bico de passarinho. Depois disse decisivamente:

— Vou recomendar isso ao Ministro do Exterior.

As palavras seriam o presságio de uma noite atarefada para Arthur Lexington e seus auxiliares. Teriam de entrar em contato com a Embaixada americana e com Washington, naturalmente, e a Casa Branca tomaria providências logo que soubesse que a imprensa já farejava alguma coisa; já estava habituada a essa espécie de problemas. Além disso, uma declaração de despistamento plausível era tão útil para o Presidente como para si próprio. Os verdadeiros problemas por detrás desse encontro, dentro de dez dias, eram delicados demais para serem divulgados no momento.

— Já que estamos conversando — disse Richardson — há alguma novidade quanto à visita da Rainha?

— Não, mas conversei há poucos instantes com Shel Griffiths a respeito. Vai ver o que poderá fazer em Londres.

— Espero que dê certo — o presidente do partido parecia duvidar. — Esse sujeito está sempre querendo bancar o equilibrado. O senhor lhe disse para dar um empurrão na Rainha?

— Não exatamente nesses termos — Howden sorriu. — Mas foi essa a essência de minha sugestão.

Richardson sorria também do outro lado da linha.

— Contanto que venha. Isso nos ajudaria muito no próximo ano, juntamente com outras medidas.

Já ia desligar, quando lhe ocorreu uma ideia.

— Brian.

Sim.

— Apareça no dia de Natal.

— Obrigado. Estarei lá.

— E sua esposa?

Richardson respondeu jovialmente:

— Acho que terá de contar só comigo.

— Não quero ser intrometido — James Howden hesitava, certo de que Milly estava mais ou menos por dentro da conversa. — As coisas não melhoraram?

— Eloise e eu vivemos num estado de neutralidade armada — respondeu Richardson de modo prosaico. — Mas isso tem suas vantagens.

Howden podia imaginar a espécie de vantagens a que Richardson se referia e uma vez mais experimentou um ciúme irracional pensando no presidente do partido e em Milly juntos e a sós.

— Sinto muito — disse em voz alta.

— É admirável como ainda tem tempo para pensar nessas coisas. Eloise e eu no mínimo sabemos como estamos, isto é, separados. Mais alguma coisa, chefe?

— Não — disse Howden — nada mais. Vou conversar agora mesmo com Arthur.

Howden voltou da biblioteca para a sala de visitas; o sussurro da conversação diminuiu de intensidade com a sua chegada. A atmosfera agora estava menos pesada; as bebidas e o jantar contribuíam para a relaxação do ambiente. James evitou vários grupos cujos membros pareciam esperá-lo, sorrindo e passando adiante.

Arthur Lexington estava em pé junto a um grupo de pessoas sorridentes que apreciavam o Ministro da Fazenda, Stuart Cawston, a fazer pequenas mágicas — um passatempo com que, de vez em quando, aliviava o tédio durante os intervalos das reuniões do Ministério.

— Vejam este dólar — dizia Cawston. — Vou fazê-lo desaparecer.

— Ora essa! — gritou alguém em tom de protesto. — Isto não é truque coisa nenhuma; o senhor faz isso diariamente.

O Governador-Geral, que fazia parte do pequeno público, aderiu à risada geral.

O Primeiro-Ministro tocou no braço de Lexington e pela segunda vez chamou o Ministro do Exterior à parte. Explicou o teor do telefonema do presidente do partido e a necessidade de um pronunciamento para a imprensa ainda naquela noite. Lexington, como lhe era peculiar, não fez perguntas desnecessárias. Exprimindo seu assentimento com a cabeça disse:

— Irei à Embaixada e conversarei com Angry e depois porei meu pessoal a trabalhar — sorriu. — Experimento sempre um sentimento de importância quando mantenho outros fora da cama.

— Ora vejam vocês dois! Nada de negócios de estado esta noite — era Natalie Griffiths que tocou de leve em seus ombros.

Arthur Lexington voltou-se, sorridente.

— Nem mesmo uma crisezinha mundial?

— Nem isso. De resto, tenho uma crise na cozinha. Isso é muito mais importante — a esposa do Governador saiu andando na direção de seu marido. Cochichou-lhe aflita aos ouvidos, pretendendo dizer um segredo, que acabou sendo ouvido pelos circunstantes mais próximos.

— Além de tudo, Sheldon, não temos conhaque.

— É impossível!

— Psiu! Não sei como aconteceu, mas aconteceu.

— Temos que providenciar um suprimento de emergência.

— Charles telefonou para o rancho da aeronáutica. Estão trazendo um pouco.

— Que coisa! — havia um tom de lamento na voz de Sua Excelência. — Será que nunca podemos receber sem que ocorra algo de errado?

Arthur Lexington murmurou:

— Acho que devo beber meu café puro — olhou para o copo de refresco de suco de uva que alguns minutos antes tinha sido trazido, para James Howden. — Não se preocupe. Provavelmente devem ter barris disso.

O Governador-Geral estava resmungando zangado.

— Arrancarei o couro de alguém por causa disso.

— Ora, Sheldon — continuavam os cochichos do anfitrião e da anfitrioa esquecidos de seu público entretido. — Isso acontece e você sabe quanto devemos ser escrupulosos no trato com os empregados.

— Que vão para o inferno.

— Achei que devia saber — disse Natalie Griffiths com toda paciência. — Deixe as coisas por minha conta, querido.

— Está bem — Sua Excelência sorriu, num misto de resignação e de afeto, e juntos voltaram ao seu lugar primitivo junto à lareira.

— Sic transit gloria. A voz que inaugurou milhares de aviões não pode agora verberar uma copeira — isso foi dito num tom provocador e alto. O Primeiro-Ministro franziu o sobrolho.

O locutor era Harvey Warrender, Ministro da Cidadania e da Imigração. Estava ali agora ao lado deles. Era um sujeito alto, rechonchudo, com o cabelo mal penteado e um vozeirão de contrabaixo. Sua atitude era habitualmente didática — um remanescente, talvez, dos anos que passara como professor de faculdade, antes de entrar na política.

— Calma, Harvey — disse Arthur Lexington. — Você está ofendendo a realeza.

— Às vezes — respondeu Warrender com a voz mais baixa — pergunto-me indignado por que diabo os generais sempre sobrevivem.

Seguiu-se um silêncio incômodo. A referência foi compreendida perfeitamente. O filho único dos Warrenders, um jovem oficial da Força Aérea, morrera heroicamente durante a II Guerra Mundial. O orgulho do pai pelo filho o acompanhava sempre, juntamente com sua dor.

Sua observação quanto aos generais poderia facilmente ser respondida. O Governador-Geral lutara bravamente em duas guerras, e ninguém é agraciado levianamente com a Cruz da Vitória... A morte e o sacrifício na guerra não respeitam os limites de categoria e de idade...

Todavia, pareceu melhor não dizer nada.

— Bem, continuemos a festa — disse Arthur Lexington com animação. — Desculpe-me, Ministro Harvey — fez uma inclinação com a cabeça e atravessou a sala para juntar-se à esposa.

— Por que será — disse Warrender. — Que certos assuntos são constrangedores para certas pessoas? Ou existiria um tempo proibido de ser lembrado?

— Acho que é principalmente uma questão de tempo e de lugar — James Howden quisera não prosseguir sobre o assunto. Às vezes chegara a desejar dispensar Harvey Warrender do Governo, mas por motivos imperiosos não o podia fazer.

Procurando mudar de assunto, disse o Primeiro-Ministro:

— Harvey, há muito tempo que preciso conversar com você sobre seu Ministério — estava sendo importuno, supunha, servindo-se de uma reunião social para tratar de assuntos estritamente oficiais. Mas dos muitos assuntos que ultimamente vinham merecendo de sua parte uma consideração prioritária, a imigração era um deles.

— É para me elogiar ou censurar que quer falar comigo?

A pergunta de Harvey tinha um toque de beligerância. Era evidente que o copo que segurava não devia ser o primeiro.

Howden lembrou-se de uma conversa que tivera há alguns dias com o presidente do partido, quando discutiram problemas da política atual. Brian Richardson dissera: “O Ministério da Imigração tem-nos criado repercussões desfavoráveis na imprensa e, infelizmente, é um dos poucos problemas que os eleitores podem entender. O senhor pode fazer o diabo com tarifas e taxas bancárias, sem prejuízo apreciável em termos eleitorais. Mas quando os jornais estampam a foto de uma mãe e uma criança sendo deportadas — como aconteceu no mês passado — isso, sim, é que o partido deve temer.”

Howden experimentou por alguns instantes um sentimento de repugnância por ter de se ocupar de coisas triviais — principalmente agora — quando problemas mais vitais e mais importantes estavam a exigir toda a sua atenção. Depois refletiu que a necessidade de misturar coisas corriqueiras com grandes negócios tinha sido sempre a arte do bom político. Muitas vezes fora a chave da conquista do poder: nunca perder de vista os pequenos fatos entre os grandes. E a imigração era um assunto que sempre o incomodara. Tinha tantas facetas, que iam das armadilhas às vantagens políticas. A dificuldade estava em saber ao certo quais eram.

O Canadá era ainda uma terra da promissão para muitos e provavelmente continuaria sendo; por conseguinte, todo governo devia controlar as portas de entrada com extrema precaução. Um número excessivo de imigrantes de uma origem, muito poucos de outra, podia ser suficiente para alterar o equilíbrio do poder dentro de uma geração. Temos, de certo modo, nossa própria política do apartheid, pensava o Primeiro-Ministro, embora, felizmente, as barreiras raciais e da cor sejam levantadas discretamente e postas em execução além de nossas fronteiras, nas embaixadas e consulados canadenses no exterior. E definidas como estão, podemos pretender que no Canadá mesmo não existam.

Algumas pessoas no país, ele sabia, queriam mais imigração, outras, menos. O primeiro grupo incluía idealistas que escancarariam as portas a todos os chegantes, e empregadores, que seriam favorecidos com uma maior força de trabalho. A oposição à imigração vinha geralmente dos sindicatos operários, que começavam a gritar contra o “desemprego” toda vez que a imigração era posta em discussão, e se negavam a reconhecer que o desemprego, pelo menos em certo grau, era um fato econômico necessário. Desse lado estavam também os setores anglo-saxões e protestantes — em número surpreendente — que protestavam contra o “excesso de estrangeiros”, sobretudo se, por acaso, esses imigrantes fossem católicos. Muitas vezes o Governo era obrigado a andar na corda bamba para evitar perder um lado ou outro.

Decidiu que era chegado o momento de ser rude.

— Seu Ministério tem proporcionado péssimas manchetes aos jornais, Harvey; e acho que em grande parte a culpa é sua. Desejaria que você assumisse pessoalmente o comando dos acontecimentos e deixasse de passar a seus funcionários problemas que são de sua competência. Substitua alguns, se for o caso, mesmo na cúpula; não podemos dispensar servidores públicos, mas temos muitas prateleiras para acomodá-los. E, por amor de Deus, não deixe sair nos jornais aqueles casos controvertidos de imigração. Aquele do mês passado, por exemplo — da mulher e da criança.

— Aquela mulher possuía um bordel em Hong-Kong — disse Harvey Warrender. — E era portadora de doenças venéreas.

— Talvez não seja um bom exemplo. Mas tem havido muitos outros, e quando surgem esses casos de sensibilidade, você faz o Governo parecer um cruel bicho-papão. E isso nos prejudica a nós todos.

O Primeiro-Ministro exprimira-se de modo sereno, mas com firmeza, com os olhos fixos no seu interlocutor.

— É evidente — disse Warrender. — Minha pergunta está respondida. O louvor não faz parte da ordem do dia.

Ao que James Howden retrucou rispidamente:

— Não se trata de louvor nem de censura, É uma questão de bom senso político.

— E seu senso político tem sido sempre melhor do que o meu, Jim, não tem? — Warrender falava olhando vagamente para cima. — Caso contrário eu poderia ser o líder do partido em vez de você.

Howden não respondeu. O álcool tinha evidentemente transtornado a mente de seu Ministro. Warrender então acrescentou:

— O que meus funcionários estão fazendo é aplicar as leis vigentes. Acontece que na minha opinião estão fazendo um bom trabalho. Se você não gosta disso, por que não nos reunimos para emendar a lei sobre a imigração?

Cometera um erro, concluiu o Primeiro-Ministro de si para si, ao escolher aquele momento e aquele lugar para conversar. Procurando por termo à conversa, disse:

— Não podemos fazer isso. Temos questões muito mais importantes em nosso programa legislativo.

— Bolas!

Foi como se um chicote tivesse estalado na sala. Houve um segundo de silêncio. As cabeças se viraram. O Primeiro-Ministro viu o Governador-Geral olhar na direção deles. A conversa foi recomeçada, mas Howden pode perceber que outros estavam escutando.

— Você tem medo da imigração — disse Warrender. — Todos nós temos medo... aliás, como todos os governos anteriores. Eis por que não queremos admitir honestamente certas coisas, até entre nós mesmos.

Stuart Cawston, que tinha terminado alguns instantes atrás seus passes de mágica, caminhava aparentemente por casualidade na direção deles.

— Harvey — disse o Ministro da Fazenda em tom jovial. — Você está fazendo papel de bobo.

— Tome conta dele, Stu — disse o Primeiro-Ministro. Howden pode perceber que sua raiva estava aumentando; se continuasse a discutir haveria o perigo de perder sua calma, inconstante como era de temperamento, e agravar ainda mais a situação. Afastou-se e foi-se juntar a Margaret e a outro grupo.

Mas podia ainda ouvir Warrender, dessa vez dirigindo-se a Cawston.

— Quando se fala de imigração, não tenha dúvida, os canadenses são uma corja de hipócritas. Nossa política de imigração — a política que executo, meu amigo — tem de dizer uma coisa e significar outra.

— Deixe isso para depois — disse Stuart Cawston. Fazia ainda esforços para sorrir, mas quase não conseguia.

— Não, agora mesmo — Harvey Warrender segurara firmemente o Ministro da Fazenda pelo braço. — Este país precisa de duas coisas se quiser continuar a se desenvolver, e todo mundo nesta sala sabe disso. Uma é um grande pool de desempregados em benefício da indústria e a outra é uma contínua maioria anglo-saxônia. Mas quem tem coragem de admitir isso em público? Ninguém!

O Ministro da Cidadania e da Imigração fez uma pausa, olhou ao redor e prosseguiu:

— Mas essas coisas requerem uma imigração cuidadosamente equilibrada. Temos que deixar entrar os imigrantes, porque quando se expandir a indústria, a mão-de-obra deverá estar pronta e disponível... não na semana seguinte, ou no mês seguinte ou no próximo ano, mas no momento em que as fábricas precisarem dela. Mas escancaradas as portas da imigração, ou abertas muitas vezes, ou ambas as coisas, o que aconteceria? A população perderia seu equilíbrio. E não seriam necessárias muitas gerações dessa espécie de erros para que os debates na Câmara dos Comuns se fizessem em italiano e um chinês governasse o país.

Dessa vez houve vários comentários de desaprovação dos outros convidados junto aos quais chegava a voz de Warrander a vociferar cada vez mais alto. Além disso, o Governador-Geral tinha ouvido claramente a última observação e o Primeiro-Ministro vira-o acenando para um ajudante-de-ordem. A esposa de Harvey Warrender, uma mulher pálida, frágil, dirigira-se casualmente para junto de seu marido e segurara seu braço. Mas ele a ignorava.

Dr. Borden Tayne, Ministro da Saúde e do Bem-estar e ex-campeão de boxe na faculdade, que se destacava por sua elevada estatura, disse num cochicho audível:

— Pelo amor de Deus, deem-lhe um soco na cara! — estava junto de Cawston que se encontrava ao lado de Warrender.

Uma voz murmurava com insistência:

— Tirem-no daqui!

Outra respondia:

— Não pode. Ninguém pode sair antes do Governador.

Warrender, impassível, continuava:

— Quando falamos de imigração — declarou em voz alta — estejam certos: o público quer sentimento, não fatos. Os fatos são incômodos. O povo gosta de pensar no seu país como uma porta aberta para o pobre e o sofredor. Isso o leva a se crer nobre. Só que, logo que chegam o pobre e o sofredor são mantidos longe de sua vista e nada de catar piolhos nos subúrbios ou enlamear as pretensiosas igrejas modernas. Não, meus senhores, o povo deste país não quer uma imigração de portas escancaradas. E mais ainda, sabe que o Governo jamais o permitirá, de modo que não há nenhum risco em protestar. Desse modo, todos podem ser virtuosos e se sentir em segurança ao mesmo tempo.

No fundo, o Primeiro-Ministro reconhecia que tudo que Harvey estava dizendo era verdade, mas não era uma política viável.

— Quem começou tudo isso? — perguntou uma das senhoras.

Harvey Warrender ouviu a pergunta e respondeu:

— Começou porque fui convidado a mudar minha maneira de dirigir o meu Ministério. Esclareço, porém, de antemão que estou simplesmente executando a lei sobre a imigração... a lei — olhou para a falange de homens que o cercavam. — E hei de executar a lei até que vocês, bastardos, concordem em mudá-la.

— É possível que amanhã você não tenha mais um ministério, meu caro — disse alguém.

Um dos ajudantes-de-ordem — dessa vez um oficial da Força Aérea — apareceu ao lado do Primeiro-Ministro e anunciou serenamente:

— Sir, Sua Excelência mandou-me avisá-lo que se retira.

James Howden lançou o olhar para a entrada principal. O Governador-Geral estava sorrindo e apertando a mão de alguns convidados. Com Margaret a seu lado, o Primeiro-Ministro atravessou a sala. O grupo dissolvou-se.

— Espero que o senhor não me levará a mal por me retirar mais cedo — disse o Governador. — Natalie e eu estamos um pouco cansados.

— Peço-lhe desculpas, Excelência — começou Howden.

— Não se preocupe, meu caro amigo. Faça de conta que não vi nada — o Governador sorriu animadamente. — Feliz Natal para o senhor, Primeiro-Ministro. E para você também, querida Margaret.

Com uma dignidade firme, serena, precedidos por um ordenança, enquanto as mulheres faziam mesuras e seus maridos se curvavam, Suas Excelências se retiraram.

 

No carro, de volta do Palácio do Governador, Margaret perguntou:

— Depois do que aconteceu esta noite, Harvey Warrender pedirá demissão?

— Não sei, querida — respondeu James Howden pensativamente. — Pode não querer.

— Você pode forçá-lo?

Howden se perguntava o que diria Margaret se respondesse com toda a franqueza: Não, não posso obrigar Harvey Warrender a renunciar. E a razão é que em algum lugar nesta cidade — num cofre de segurança, talvez — há um pedaço de papel com algo escrito de meu próprio punho. E se exibido e tornado público, poderia ser o obituário — ou o aviso de suicídio de James McCallum Howden.

Em vez de responder, disse:

— Harvey tem muita influência no partido, como você sabe.

— Mas isso não justifica o que aconteceu hoje à noite.

Howden não respondeu.

Ele nunca falou da convenção com Margaret, sobre o acordo que fizera com Harvey há nove anos sobre a liderança do partido; o acordo firmado a duras penas, com os dois líderes sozinhos num camarim enquanto no grande salão do teatro de Toronto suas facções rivais se agitavam na expectativa da votação que tinha sido inexplicavelmente adiada — inexplicavelmente, isto é, exceto para os dois chefes adversários que, jogando suas cartas, enfrentavam-se atrás dos bastidores.

Nove anos. Os pensamentos de James Howden voltavam ao passado...

... Iriam vencer na próxima eleição. Todo mundo no partido sabia disso. Todos estavam animados; prelibava-se a vitória, o futuro eram favas contadas.

O partido tinha-se reunido para eleger um novo líder. Havia uma certeza virtual de que quem quer que saísse vencedor tornar-se-ia Primeiro-Ministro no ano seguinte. Era um prêmio e uma oportunidade com que James McCallum Howden sonhara durante toda sua vida política.

A escolha estava entre ele e Harvey Warrender. Warrender liderava a ala intelectual do partido. Tinha muitos eleitores entre o povo. James Howden tinha penetração em todas as camadas. Ambos eram bastante fortes.

Do lado de fora da sala do encontro havia muito alarido e animação.

— Estou disposto a retirar minha candidatura — disse Harvey. — Mas condicionalmente.

— Que condições — perguntou James Howden.

— Primeiro: um lugar no Gabinete da minha própria escolha, durante todo o tempo em que estivermos no poder.

— Você terá qualquer Pasta, com exceção das Relações Exteriores e da Saúde.

Howden não tinha a intenção de criar um bicho-papão para competir com ele. As relações exteriores podiam manter seu titular constantemente nas manchetes. O Ministério da Saúde pagava abonos de família e seu titular desfrutava da grande simpatia do público.

— Aceito — disse Harvey Warrender. — Contanto que concorde com a outra.

Os delegados do lado de fora começavam a ficar impacientes. Embora a porta estivesse fechada, Harvey e James podiam ouvir pés a bater e gritos de impaciência.

— Diga-me qual é a segunda condição — falou Howden.

— Quando estivermos no Governo —disse Harvey pausadamente. — Haverá muitas mudanças. A televisão, por exemplo. O país está crescendo e há lugar para mais estações. Já declaramos que reconheceremos o Conselho dos Diretores de Programas. Podemos preenchê-lo com pessoal nosso, e com alguns outros, com a continuação — parou.

— Continue — disse Howden.

— Quero a concessão de TV para. . . — declinou o nome de uma cidade, o centro industrial mais próspero do país. — No nome de meu sobrinho.

James Howden começou a assobiar baixo. Se fizesse isso, seria o protecionismo em alta escala. A concessão de TV, o achado dos achados. Os solicitantes do favor, entre eles grandes interesses financeiros, já se atropelavam na fila.

— Isso significa dois milhões de dólares — disse Howden.

— Eu sei — Harvey Warrender parecia um pouco constrangido. — Mas estou pensando na minha velhice. Os professores universitários não ganham fortunas e nunca economizei um tostão na política.

— E se descobrirem...

— Ninguém descobrirá — disse Harvey. — Cuidarei disso. Meu nome não aparecerá em nada. Poderão suspeitar de quem quiserem, mas não descobrirão nada.

Howden sacudiu a cabeça num gesto de dúvida. Do lado de fora mais outra explosão de gritos. Agora eram miados e algumas canções irônicas.

— Prometer-lhe-ei uma coisa, Jim — disse Harvey Warrender. — Se por uma razão ou outra algo vier a ser descoberto, eu assumirei sozinho a culpa e não o envolverei. Mas se me demitir ou deixar de me apoiar numa questão honesta, aí, sim, não me aterei a nenhum compromisso.

— Você não poderia provar...

— Quero-o por escrito — disse Harvey. Fez um gesto na direção da sala. — Antes de você sair. Caso contrário, iremos à votação.

Era um pacto secreto. Ambos sabiam disso. James Howden visava a taça que preparara e agora lhe fugia das mãos.

— Eu o farei — afirmou. — Dê-me alguma coisa em que possa escrever.

Harvey lhe passou um programa da convenção e ele escreveu as palavras no verso, as palavras que poderiam destruí-lo por completo se um dia fossem usadas.

— Não se preocupe — disse Harvey, pondo o papel no bolso. Estará seguro. E quando sairmos ambos da política eu lho darei de volta.

Saíram então do quarto — Harvey Warrender para fazer um discurso renunciando à liderança — um dos mais belos de sua vida política — e James Howden para ser eleito, aplaudido e carregado em triunfo através da sala da convenção...

O pacto firmado vinha sendo mantido por ambos os lados, muito embora, com o correr dos anos, o prestígio de James Howden tivesse subido e o de Harvey Warrender, diminuído consideravelmente. Era difícil acreditar hoje que Warrender tivesse sido outrora um sério contendor da liderança partidária; no momento, pelo menos, não se encontrava em nenhum lugar na linha de sucessão. Mas essas coisas soem acontecer na vida política; toda vez que um político se eclipsa numa disputa pelo poder, sua estatura parece ir diminuindo com o tempo.

O carro acabava de contornar os jardins do palácio e se dirigia agora para a residência do Primeiro-Ministro, na Avenida Sussex, 24.

— Às vezes, tenho a impressão — disse Margaret quase de si para si — que Harvey Warrender é um tanto maluco.

Aí estava a dificuldade, pensava Howden: Harvey era um tanto maluco. Daí porque não se podia estar certo de que não poderia tornar público o acordo escrito de nove anos atrás, muito embora assim fazendo acabasse por destruir-se a si próprio.

Como encararia Harvey aquele pacto de tantos anos atrás, era o que Howden se perguntava. Tanto quanto sabia, Harvey Warrender até aquela data tinha sido honesto na política. Desde então, o sobrinho de Harvey conseguira sua concessão de TV e, a ser verdade o que se dizia, fizera uma grande fortuna. Harvey, provavelmente, participava dela; seu atual padrão de vida estava muito além dos proventos de um ministro, embora, por felicidade, procedesse discretamente e não se permitisse mudanças bruscas.

Na ocasião da concessão houve muitas críticas e insinuações. Mas nada fora provado e o Governo Howden, recém-eleito com uma grande maioria na Câmara dos Comuns, dominou seus críticos e finalmente — como já sabia que iria acontecer — o povo se cansou do assunto que acabou sendo esquecido.

Mas Harvey se estaria lembrando disso? E estaria sofrendo um pouco sob o aguilhão de uma consciência culpada? E procurando, talvez, emendar-se de modo um tanto forçado e tortuoso?

Ultimamente notava-se um fato estranho a respeito de Harvey — uma preocupação quase obsessiva de fazer o certo e pautar-se na letra da lei, mesmo em casos insignificantes. Em várias reuniões recentes do Conselho de Ministros tinha havido discussões — Harvey objetando porque uma ação proposta teria reflexos de interesses políticos; Harvey argumentava que toda cláusula de qualquer lei devia ser observada escrupulosamente. Quando isso acontecia, James Howden não se importava muito com os incidentes, deixando-os passar como casos de pura excentricidade. Mas agora, lembrando-se da insistência alcoólica de Harvey naquela noite de que a lei da imigração deveria ser aplicada exatamente como estava lavrada, começou a se preocupar.

— Jamie, querido — disse Margaret. — Harvey Warrender não tem algum domínio sobre você, tem?

— É claro que não! — depois, achando que tivesse sido um pouco enfático, acrescentou: — O negócio é que não quero ser precipitado em tomar uma decisão. Veremos amanhã como será a reação. Afinal de contas, lá só havia gente nossa.

Howden sabia que Margaret estava olhando para ele. Será que percebia sua mentira?

 

Entraram na grande mansão de pedra — a residência oficial do Primeiro-Ministro durante seu mandato — pela porta principal que era protegida por um toldo. Do lado de dentro, Yarrow, o mordomo, veio ao encontro deles e lhes tirou os sobretudos.

— O Embaixador americano esteve à sua procura, Excelência — anunciou o mordomo. — A Embaixada chamou duas vezes e disse que o negócio era urgente.

Howden fez um sinal afirmativo com a cabeça. Washington provavelmente já teria também conhecimento de que o negócio transpirara pela imprensa. Se assim fosse, a tarefa de Arthur Lexington haveria de ser muito mais fácil.

— Aguarde mais uns cinco minutos — ordenou Howden. — Depois avise a telefonista que já estou em casa.

— Sr. Yarrow, queira-nos servir o café na sala de estar — disse Margaret. — E uns sanduíches, por favor, para o Sr. Howden que não jantou — Margaret deteve-se no toucador da sala principal para arrumar o cabelo.

James Howden seguira na frente, passando por corredores até a terceira sala, com suas grandes portas francesas dominando o rio e, para além, os Montes Gatineau. Era uma vista que sempre o arrebatava, e até à noite, orientado pelos pontos luminosos, podia figurá-la; o Rio Otawa, largo e cheio de listras feitas pelo vento; o mesmo rio que o aventureiro Etienne Brule navegara há três séculos e meio; depois Champlain; e mais tarde os missionários e mercadores, traçando sua rota lendária na direção dos Grandes Lagos e do Norte, rico de peles. E para além do rio está a distante linha da praia de Quebec, romanceada e histórica, testemunha de muitas mudanças: muitas sobreviveram e muitas um dia teriam fim.

James Howden achava sempre difícil não se ter em Otawa o senso da história. Sobretudo agora que a cidade — outrora bela e agora enfeada pelo comércio — começava de novo a florescer: toda arborizada e embelezada com lindas avenidas, graças à Comissão da Capital Nacional. É verdade que os edifícios do Governo eram em grande parte inexpressivos, exibindo a marca do que um crítico chamara de “a mão bamba da arte burocrática”. Mas mesmo assim, havia neles um quê de austeridade e com o tempo, com a restauração da beleza natural, Otawa poderia um dia igualar-se a Washington como capital e, talvez, mesmo ultrapassá-la.

Atrás dele, sob a escada larga e recurvada, um dos dois telefones dourados, em cima de uma mesinha lateral, tocou duas vezes. Era o Embaixador americano.

— Alô, Angry — disse James Howden. — Estou sabendo que seu pessoal deixou o gato fugir.

Sua Excelência, o Embaixador Phillip Angrove, retrucou com sua fala arrastada de bostoniano:

— Eu sei, Primeiro-Ministro, e estou realmente envergonhado. Em todo caso, para nossa felicidade, só saiu a cabeça do gato, o resto do corpo está bem seguro nas minhas mãos.

— É um alívio ouvir isso — disse Howden. — Mas precisamos fazer uma declaração conjunta, sabe? Arthur está indo para aí...

— Já está aqui comigo, atalhou o Embaixador. Vamos tomar umas e outras e logo após, mãos à obra. O senhor quereria aprovar antes a declaração?

— Não — disse Howden. — Deixo isso aos cuidados seus e de Arthur.

Conversaram ainda durante alguns minutos e, em seguida, o Primeiro-Ministro recolocou o fone no gancho.

Margaret tinha ido na frente para a grande e confortável sala de estar com seus sofás cobertos de chita, poltronas do Império e cortinas cinza descorado. A chama de um toro de lenha clareava o ambiente. Margaret pusera um disco de Tchaikovsky que tocava suavemente. Era a espécie de música favorita de Howden; raramente ouviam os clássicos mais pesados. Poucos instantes depois, uma criada entrou trazendo o café com um prato de sanduíches. A um gesto de Margaret a moça ofereceu os sanduíches a Howden que apanhou um distraidamente.

Quando a empregada saiu, ele desatou sua gravata branca, afrouxou o colarinho apertado e foi assentar-se perto de Margaret, junto à lareira. Afundou-se prazenteiramente numa poltrona bem acolchoada, puxou um supedâneo para perto e pôs os pés em cima.

— Isso é que é vida — disse tirando um profundo suspiro. — Você, eu... e mais ninguém... — abaixou o queixo e fora de seus hábitos começou a passar os dedos na ponta de seu nariz.

Margaret esboçou um sorriso.

— Deveríamos tentar isso mais vezes, Jamie.

— Tentaremos, haveremos de tentar — disse seriamente. Depois mudando de tom: — Tenho uma notícia a lhe dar. Iremos brevemente a Washington. Acho que gostará de conhecê-la.

Margaret que se servia de café, levantou as vistas.

— É uma resolução imprevista, não é?

— Sim — respondeu Howden. — Mas aconteceram algumas coisas muito importantes. Preciso falar com o Presidente.

— Bem — disse Margaret — ainda bem que comprei um vestido novo — fez uma pausa, pensativa. — Preciso comprar um par de sapatos e uma bolsa que combine; e luvas também — uma expressão de ansiedade estampou-se no seu rosto. — Espero que haja tempo, não há?

— Apenas o suficiente — respondeu Howden, rindo-se em seguida da incongruência.

Margaret declarou categoricamente:

— Irei a Montreal fazer compras logo depois do Natal. Em Montreal há muito mais para se ver do que aqui em Quebec. E a propósito, como vai sua situação financeira?

Howden franziu os sobrolhos.

— Não está muito boa; estamos com nossa conta a descoberto no banco. Tenho a impressão de que teremos de vender mais algumas apólices.

— De novo? — perguntou Margaret preocupada. — Não nos restam muitas.

— Não. Mas pode ir — Howden olhou sua esposa com afeto. — Não será um dia de compras que irá fazer diferença.

— Bem... se você está certo disso.

— Sem dúvida.

Mas a única coisa de que estava realmente certo, pensava Howden, era de que ninguém processaria o Primeiro-Ministro por um atraso de pagamento. A escassez de recursos para suas despesas pessoais era uma fonte constante de preocupação. Os Howdens não tinham outros meios de vida além de modestas economias do seu tempo de advocacia, e era uma característica do Canadá — uma mesquinhez nacional que persiste em muitos lugares — de que a nação deva pagar seus líderes com avareza.

Era uma pungente ironia, pensava Howden muitas vezes, o fato de um Primeiro-Ministro canadense, que guia o destino de seu país, receber salário e abonos inferiores aos de um congressista americano. Não tinha carro oficial, mantinha o seu próprio com uma verba insuficiente e até a provisão de uma residência era uma medida relativamente nova. Não fazia muito tempo, ainda em 1950, o então Primeiro-Ministro Louis St. Laurent vira-se obrigado a residir num apartamento de dois quartos, tão pequeno que Madame St. Laurent guardava os pertences da família debaixo da cama. Além disso, depois de uma vida dedicada ao Parlamento, o máximo que um ex-Primeiro-Ministro poderia receber como aposentadoria era uma pensão anual de três mil dólares proveniente de um plano de pensão para o qual contribuíra. O resultado disso no passado era que os primeiros-ministros tendiam a se apegar ao cargo na velhice. Outros se aposentavam na indigência e passavam a viver da caridade dos amigos. Os demais ministros e deputados ganhavam menos ainda. É realmente surpreendente, pensava Howden, como a maioria de nós permanece honesta. No fundo, ele nutria uma certa simpatia por Harvey Warrender pelo que fizera.

— Você teria feito melhor se tivesse desposado um homem de negócios — disse a Margaret. — Os presidentes de companhias têm mais dinheiro para gastar.

— Eu acho que há outras compensações — respondeu Margaret sorrindo.

Graças a Deus, pensava Howden, que fizemos um bom casamento. A vida política pode-nos privar de muitas coisas como preço do poder — sentimento, ilusões, e até a integridade — e sem o calor de uma mulher junto dele o homem pode-se converter numa concha vazia. Howden afastou o pensamento de Milly Freedeman, embora com aquela espécie de inquietação que experimentara momentos antes.

— Estive pensando outro dia — disse ele. — Na vez em que seu pai nos apanhou. Você se lembra?

Já faziam quarenta e dois anos e o fato se passara nas montanhas a oeste da Cidade de Medicine Hat, quando ele, Howden, tinha vinte e dois anos — o produto de uma escola de orfanato e então advogado recém-formado, sem clientes nem perspectivas imediatas. Margaret completara dezoito e era a mais velha das sete filhas de um leiloeiro de gado que, fora de seu ofício, era um homem severo e pouco comunicativo. Segundo os padrões da época, a família de Margaret era abastada em comparação com a pobreza de James Howden, no fim de seus estudos.

Numa tarde de domingo antes de ir para a igreja, Howden e Margaret se esconderam na sala de visitas. Estavam abraçados e se beijavam apaixonadamente, Margaret com as vestes em desalinho, quando seu pai entrou à procura de seu livro de orações. No momento não fez qualquer comentário, limitando-se a murmurar um “desculpe-me”. Mais tarde, porém, à cabeceira da mesa, na hora do jantar, olhou sombriamente para a outra extremidade e fixou James Howden.

— Meu jovem — começou a falar, enquanto sua esposa, gorda e plácida, e suas outras filhas observavam interessadas. — No meu ramo de vida, quando um homem passa a mão num ubre, isso indica mais do que um simples interesse passageiro pela vaca.

— Senhor — respondeu James Howden, com a segurança que mais tarde lhe seria útil na vida — eu gostaria de desposar sua filha mais velha.

A mão do leiloeiro caiu pesada sobre a mesa de refeição, exclamou:

— Dou-lhe três! — em seguida, com uma verbosidade fora do comum e olhando para as outras filhas, terminou: — Lá vai uma, pele Lord Hurry! Restam ainda seis.

Casaram-se algumas semanas mais tarde. Depois disso foi o leiloeiro, há muito falecido, que ajudara seu genro a se estabelecer como advogado e mais tarde a entrar na política.

Tiveram filhos, embora ele e Margaret poucas vezes os vissem na atualidade. Duas filhas já estavam casadas e residiam na Inglaterra e James McCallum Howden Jr., o mais novo de todos, dirigia uma equipe de pesquisadores de petróleo no extremo leste. Mas a satisfação e o prestígio de ter tido filhos ainda perdurava e isso era importante.

O fogo da lareira estava-se extinguindo e Howden o avivou atirando-lhe um pedaço de bétula. A casca começou a estalar e logo se inflamou. Assentado ao lado de Margaret, Howden observava o crepitar das chamas a consumir a lenha.

— Sobre o que você e o Presidente irão conversar? — perguntou Margaret despreocupadamente.

— Amanhã sairá uma declaração a respeito. O encontro versará sobre comércio e política fiscal.

— Mas é realmente a respeito disso?

— Não — disse Howden — não é.

— Sobre o quê, então?

Outras vezes já havia confiado a Margaret informações sobre assuntos de estado. Todo homem — sem exceção — precisa ter alguém em que possa confiar.

— A maior parte será sobre a defesa. Está-se delineando uma nova crise mundial e, antes que se torne uma realidade, os Estados Unidos poderão assumir muitas das obrigações que até agora tinham sido nossas.

— Obrigações militares?

Howden assentiu com a cabeça.

— Passarão então a controlar nosso Exército... tudo mais? — perguntou Margaret em voz baixa.

— Sim, querida, parece que podem.

Margaret franziu a testa, pensativa.

— Se isso acontecer, o Canadá não terá mais sua própria política externa, terá?

— Na realidade não, é o que receio — Howden suspirou.

— Estamos caminhando para isso, há muito tempo.

Seguiu-se um silêncio, cortado em seguida pela pergunta de Margaret:

— Significará isso nosso fim, Jamie... como um país independente?

— Não, enquanto eu for o Primeiro-Ministro — respondeu Howden com firmeza. — E se eu puder planejar da maneira que quero — sua voz ia-se elevando de tom à medida que aumentava sua convicção. — Se nossas negociações com Washington forem adequadamente concluídas; se as justas decisões forem tomadas para os próximos um ou dois anos; se formos fortes, mas realistas; se houver visão e integridade de ambos os lados; se houver tudo isso, então poderá ser renovado. No fim poderemos estar mais fortes e não mais fracos. Poderemos valer mais, e não menos, no mundo — sentiu a mão de Margaret no seu braço e sorriu. — Desculpe-me, querida, até parece que estou fazendo um discurso.

— Estava começando, Jamie. Coma outro sanduíche. Mais um pouco de café? — Howden acenou com a cabeça que sim.

Ao servir o café, Margaret perguntou serenamente:

— Você acha realmente que vamos ter guerra?

Antes de responder, Howden espichou seu corpo comprido, ajeitou-se mais comodamente na cadeira e cruzou os pés sobre o supedâneo.

— Acho — respondeu friamente. — Estou mesmo certo de que haverá. Sou, porém, de opinião que ainda há possibilidade de retardá-la um pouco mais... um ano, dois anos, talvez mesmo três.

— Por que terá de ser assim? Por quê? — pela primeira vez havia emoção na voz de sua esposa. — Sobretudo, agora, quando todo mundo sabe que isso significaria o aniquilamento do mundo inteiro?

— Não — respondeu James Howden, falando em voz baixa — não significaria necessariamente o aniquilamento. É uma falácia de nossos dias.

Desceu o silêncio entre eles. Howden depois prosseguiu, escolhendo cuidadosamente as palavras.

— Você compreende, querida, que fora desta sala, se a mesma pergunta me fosse feita, minha resposta haveria de ser negativa? Teria de afirmar que a guerra não é inevitável, pois toda vez que admitimos sua inevitabilidade é como se estivéssemos apertando um pouco mais o dedo numa arma já engatilhada.

Margaret pusera a xícara de café diante dele.

— Então seria melhor não a admitir, mesmo para você mesmo. Não seria melhor conservar a esperança?

— Se eu fosse apenas um cidadão comum — respondeu seu marido — acho que desse modo estaria iludindo a mim mesmo. Tenho a impressão de que não seria difícil fazê-lo ... sem saber o que se estivesse passando no fundo dos acontecimentos. Mas um chefe de governo não pode dar-se ao luxo da ilusão; é impossível, se deve servir ao povo que confiou nele — como deve.

Mexeu o café, bebeu-o sem o saborear e, em seguida, abaixou a xícara.

— A guerra é inevitável, mais cedo ou mais tarde — disse Howden em voz submissa — pois tem sido sempre inevitável. E sempre o será, enquanto os seres humanos forem capazes de se odiar e se desavir seja lá por que for. Você sabe, toda guerra é exatamente uma pequena briga humana multiplicada por mil. Para se abolir a guerra seria necessário apagar o último vestígio da vaidade humana, da inveja e da maldade. E isso não pode ser feito.

— A ser verdade tudo isso — protestou Margaret — então nada, absolutamente nada vale a pena.

Seu marido balançou a cabeça.

— Não é assim. A sobrevivência tem o seu valor, pois sobreviver significa viver e a vida é uma aventura — Howden virou a cabeça, procurando com o olhar o rosto de sua esposa. — No nosso caso tem sido sempre uma aventura. Você gostaria de mudá-la?

— Não — respondeu Margaret Howden — não creio.

— Oh, eu sei o que se diz a respeito de uma guerra nuclear — falava agora em tom mais alto; — que varreria tudo e extinguiria toda a vida. Mas quando pensamos bem, já se fizeram os piores prognósticos em torno de toda arma, desde o canhão de retrocarga até a bomba de avião. Você sabe que quando foi inventada a metralhadora, alguém calculou que duzentas metralhadoras disparando continuamente durante mil dias matariam toda a população da terra?

Margaret sacudiu a cabeça, Howden prosseguiu, sem fazer pausa.

— A raça humana sobreviveu a outros perigos a que logicamente não poderia ter sobrevivido: a Época Glaciária e o Dilúvio são dois muito conhecidos de todos nós. Uma guerra nuclear seria uma calamidade e, se eu pudesse, acho que daria a minha vida para evitá-la. Mas toda guerra é uma calamidade, posto que nenhum de nós morre mais de uma vez, e talvez fosse uma maneira mais fácil de se ir do que alguns dos meios mais antigos — como uma flecha através do olho ou a crucificação.

— De qualquer maneira, atrasaríamos a civilização. Ninguém pode negar isso e talvez voltássemos à idade das Trevas, se é que há alguma mais tenebrosa do que esta. Acho que perderíamos a noção de nosso sistema de vida, não sabendo mais inclusive como explodir bombas, o que em si não seria mau durante algum tempo.

— Mas o aniquilamento, não! Não creio nisso! Alguma coisa sobreviverá, sairá rastejando das ruínas e recomeçará tudo de novo. E esse seria o pior dia que se poderia imaginar, Margaret. Acredito que o nosso lado — a parte livre do mundo — poderá ser mais bem sucedido. Se agirmos devidamente agora e se aproveitarmos o tempo que nos resta.

James Howden ao dizer essas últimas palavras tinha-se levantado. Atravessou a sala e voltou.

Olhando para ele, Margaret ponderou em voz baixa:

— Vocês vão fazer uso dele, não vão? ... Do tempo que nos resta?

— Sim... vou — tinha agora uma expressão de ternura. — Talvez não lhe deveria ter falado tudo isso. Causei-lhe muita preocupação, não foi?

— Fiquei triste. O mundo, a humanidade... qualquer que seja o nome que lhe dermos... temos construído tanto e vamos desperdiçar tudo — fez uma pausa e, em seguida, disse suavemente: — Você precisava contá-lo a alguém.

Howden assentiu.

— A muito poucas pessoas posso falar com liberdade.

— Então fico contente por me ter contado — Margaret, fora de seus costumes, ajuntou as louças do café. — Está ficando tarde. Não acha que é hora de ir dormir?

Howden sacudiu a cabeça.

— Ainda não. Vá você, eu irei mais tarde.

A meio caminho da porta, Margaret parou. Sobre uma mesa de jogo do tipo Sheraton estava uma pilha de papéis e recortes de jornais vindos de manhã do gabinete de Howden no Parlamento. Ela apanhou um folheto e começou a passar suas páginas.

— Você certamente não lê esta espécie de literatura, lê, Jamie?

A capa trazia um título — Astrologia. Em torno os signos astrológicos.

— É claro que não — Howden corou-se um pouco. — Vez por outra dou uma olhadela, só a título de distração.

— Mas aquela senhora que habitualmente lhe enviava essas coisas já morreu, não?

— Acho que alguém continua me mandando — a voz de Howden tinha um tom de irritação. — É difícil sair de uma lista de correio depois que se entra nela.

— Mas este exemplar é de assinante — insistiu Margaret. — Olha, foi renovada. Pode-se ver pela data na etiqueta.

— Ora, Margaret, como é que você pode saber como, quando e onde foi renovada? Faz ideia da quantidade de correspondência que me é endereçada diariamente? Não tenho condições de conferi-la. Não tenho tempo nem mesmo de lê-la. É possível que alguém no escritório tenha tomado essa iniciativa sem me dizer nada. Se isso a aborrece, amanhã mesmo mandarei suspender a remessa.

— Não há necessidade de se irritar — disse Margaret calmamente — não me aborreço com isso. Estava apenas curiosa. E mesmo se você o lesse, por que tanta bulha? Talvez lhe ensine como tratar com Harvey Warrender — recolocou o livrete no lugar. — Está certo de que não precisa ir deitar-se agora?

Certíssimo. Tenho muito que fazer e muito pouco tempo.

Era uma velha experiência.

— Boa noite, querido — disse Margaret.

Ao subir a escada larga e recurvada, Margaret se perguntava quantas vezes em sua vida conjugal passara noites solitárias ou fora assim, sozinha, para a cama. Eram tantas, talvez, que nunca as pudera contar. Sobretudo ultimamente, era comum a James Howden ficar acordado até tarde, pensando em política ou nos negócios de estado, e, geralmente, quando se recolhia, Margaret já estava adormecida e raramente acordava. Não eram as intimidades conjugais que lhe faltavam, dizia para si mesma com franqueza feminina; essas, de qualquer modo, já se tinham tornado canalizadas e organizadas há anos. Mas a companhia no fim do dia era o que mais sensibilizava uma mulher. Tivera muitas coisas boas no casamento, pensava Margaret, mas teve também a solidão.

A conversa sobre a guerra deixara nela uma tristeza fora do comum. A inevitabilidade da guerra, supunha, era algo que os homens aceitavam, mas as mulheres, jamais. Quem faz a guerra são os homens, não as mulheres, a não ser em raras exceções. Por quê? Seria talvez porque as mulheres nasceram para penar e sofrer, enquanto os homens devem procurar seus próprios sofrimentos e penas? De repente sentiu saudades dos filhos; não pensava neles para confortá-los, mas para ser confortada por eles. Seus olhos encheram-se de lágrimas e sentiu a tentação de tornar a descer as escadas, para pedir que pelo menos uma noite, na hora do sono, não queria estar só.

Em seguida, disse para si mesma: estou fazendo o papel de tola. Jamie receber-me-ia bem, mas nunca compreenderia.

 

Após a saída de Margaret, James Howden ficou, ainda um pouco, entregue a seus pensamentos diante da lareira — uma candente vermelhidão de um fogo cujas chamas se extinguiam. O que Margaret dissera era a verdade; a conversa tinha-o aliviado e algumas coisas ditas naquela noite tinham sido expressas em voz alta pela primeira vez. Mas agora precisava fazer planos específicos, não só para a entrevista de Washington, mas para seus futuros contatos com o país.

A parte essencial, naturalmente, era conservar-se no poder; era como se o destino lhe acenasse. Mas os outros veriam isso da mesma maneira? Esperava que sim, mas era melhor certificar-se disso. Daí porque, mesmo dessa vez, precisava traçar uma linha prudente e segura na política nacional. Para o bem do país, era vital uma vitória eleitoral de seu partido nos próximos meses.

Como se procurando um alívio nos problemas de menos importância, sua imaginação voltou-se para o incidente daquela noite com Harvey Warrender. Era a espécie de coisa que não devia ocorrer de novo. Precisava por as cartas na mesa com Harvey, decidiu, e seria no dia seguinte. Uma coisa era decidida — o Ministério da Cidadania e da Imigração não criaria mais casos para o Governo.

A música parara e Howden dirigiu-se para a radiola para por outro disco. Escolheu uma seleção de Mantovani chamada Joias para Sempre. Ao voltar, apanhou o livrete sobre o qual comentara Margaret.

O que ele lhe dissera era a pura verdade. Era um montão de correspondências que entrava diariamente no seu gabinete, do qual aquele livrete era apenas um fragmento insignificante. Era claro que muitos jornais e revistas nunca chegavam às suas mãos, a não ser quando faziam alguma referência à sua pessoa ou quando traziam sua fotografia. Mas há anos que Milly Freedeman vinha incluindo aquele livrete entre uma pequena seleção. Não se lembrava de jamais lhe haver pedido para fazê-lo, mas tampouco alguma vez objetara. Supunha, também, que Milly tivesse renovado automaticamente a assinatura quando se esgotou.

Todo o assunto, naturalmente, era pura tolice — a astrologia, o ocultismo e suas patranhas inseparáveis — mas era interessante ver como os outros podiam ser tolos. Estava ali o único motivo de seu interesse, embora tivesse de certo modo parecido difícil explicá-lo a Margaret.

Começara havia alguns anos atrás em Medicine Hàt quando se estava tornando um próspero advogado e já no início de sua carreira política. Aceitara uma questão de assistência jurídica gratuita, uma das muitas e boas causas que pegara naqueles anos, e a ré era uma senhora de cabelos brancos e de aspecto maternal, acusada de furto numa loja. Sua culpa era de tal modo patente e sua vida um rosário de crimes semelhantes, que parecia não haver nada a fazer senão admitir os fatos e pedir clemência. Mas a velha senhora, uma Sra. Ada Zeeder, argumentava de outro modo, sendo sua principal preocupação adiar o julgamento por uma semana. Howden lhe perguntara por quê.

— Porque o juiz não me condenará, seu tolo — respondeu-lhe. Instada para que dissesse a razão, explicara: — Nasci sob o Sagitário, querido. A semana que vem é uma semana favorável aos nascidos sob o signo do Sagitário. Você verá.

Para satisfazer à velha, pediu adiamento do julgamento e entrou com um pedido de absolvição. Para sua grande surpresa, e depois da mais frívola das defesas, foi absolvida por um juiz conhecido por sua severidade.

Depois daquele dia no tribunal, nunca mais vira a velha Sra. Zeeder, mas durante anos e anos, até sua morte, escrevia-lhe regularmente aconselhando-o sobre sua carreira, baseando-se no fato de ter nascido também ele sob o signo de Sagitário, conforme descobrira. Howden lia as cartas, mas quase não lhes dava atenção, a não ser por divertimento, embora uma vez ou duas tivesse ficado estupefato com predições que pareciam ter-se realizado plenamente. Mais tarde ainda, sua velha amiga fez a assinatura de uma revista de astrologia para ele e quando suas cartas finalmente cessaram, os exemplares continuavam a chegar.

Abriu ao acaso nas páginas de uma seção intitulada “Seu Horóscopo Individual — 15 a 30 de dezembro”. Para cada dia de duas semanas havia um parágrafo de conselhos para os nascidos naquela data. Passando ao Sagitário do dia seguinte, 24, leu:

“Um dia importante para decisões e uma boa oportunidade para tornar os acontecimentos a seu favor. Será notável sua capacidade de persuasão e, por conseguinte, o progresso que puder ser feito agora não deve ser deixado para mais tarde. Tempo para reuniões. Cuidado, porém com a pequena nuvem que não é maior do que a mão de um homem.”

Era uma coincidência absurda, disse para si mesmo. Além disso, tudo era dito de modo muito inteligente, as palavras eram vagas e podiam ser aplicadas a qualquer circunstância. Mas tinha decisões a tomar e estivera considerando uma reunião da Comissão de Defesa do Ministério para o dia seguinte, na qual teria necessidade de persuadir outros. Começou a pensar o que poderia significar a nuvem que não era maior do que a mão de um homem. Algo talvez com relação a Harvey Warrender. Depois se conteve. Isso era ridículo. Largou o livrete, pondo-o de lado.

Tinha-se entretanto lembrado de uma coisa: a Comissão da Defesa. Talvez a reunião devesse, afinal de contas, realizar-se no dia seguinte, apesar de ser véspera do Natal. A declaração sobre sua ida a Washington seria publicada e ele precisava conseguir o apoio do Gabinete para ter condições de persuadir outros a aceitar suas próprias opiniões. Começou a pensar no que iria dizer à comissão. Seus pensamentos atropelavam-se na sua mente.

Já eram duas horas quando se recolheu. Margaret já estava dormindo. Howden se despiu sem acordá-la, acertando um pequeno despertador de cabeceira para as 6 da manhã.

De início dormiu sono pesado, mas por volta do amanhecer seu repouso foi perturbado por um estranho sonho que teve: uma série de nuvens que se levantavam de pequenas mãos e tomavam formas sombrias e ameaçadoras.

 

O Vastervik

Na costa ocidental do Canadá, a cerca de 3.700 quilômetros de Otawa, enquanto pelo céu passavam aviões a jato, o navio Vastervik ancorava no dia 23 de dezembro debaixo de um forte aguaceiro.

O vento no Porto de Vancouver era frio e borrascoso. O piloto de porto, que subira a bordo uma meia hora antes, ordenara que se soltassem três anetes da corrente da âncora e agora o Vastervik atracava lentamente, com seu casco roçando, como uma gramadeira, o fundo liso e lodoso do porto. O reboque que ia na frente deu um pequeno arranco e uma corda foi puxada na direção da praia, seguida de outras.

Dez minutos depois, às 3 horas da tarde na hora local, o navio estava amarrado e sua âncora recolhida.

O cais La Pointe, onde o navio estava atracado, era um dos vários que se estendiam, na forma de dedo, da praia cheia de edifícios e movimentada. Perto do navio recém-chegado e nos cais vizinhos outros navios estavam carregando ou descarregando mercadorias. As cargas subiam e desciam com rapidez pelos guindastes. Vagões fechados manobravam confusamente nos ramais de trilhos das docas, enquanto caminhões de carga iam e vinham dos navios para os armazéns. De um ancoradouro vizinho um navio cargueiro de cor cinza afastava-se na direção do mar, com um rebocador na frente e um barco de cabo atrás.

Um grupo de três homens aproximou-se intencionalmente do Vastervik. Caminhavam em passos cadenciados, contornando habilmente os obstáculos e grupos de trabalhadores. Dois deles traziam uniformes. Um era oficial aduaneiro, o outro era da polícia canadense de imigração. O terceiro estava em trajes civis.

— Que diabo! — disse o funcionário da alfândega. Está chovendo de novo.

— Vamos para meu barco — disse o civil sorridente. Era o agente da companhia de navegação. Lá está mais seco do que aqui.

— Sei lá — disse o funcionário da imigração. Tinha uma fisionomia severa e falava sério. — Em alguns desses seus cargueiros chove mais dentro do que do lado de fora. Como é que conseguem mantê-los flutuando, é um mistério para mim.

Uma prancha de ferro já estragada estava sendo baixada do Vastervik.

Olhando para o costado do navio, disse o agente da companhia:

— Às vezes também eu me faço a mesma pergunta. Ora, tenho a impressão de que se aguentará ainda por muito tempo — subiu pela prancha oscilante, seguido dos outros.

Na sua cabina imediatamente abaixo da ponte, o Capitão Sigurd Jaabeck, um tipo ossudo, fleumático e com uma fisionomia descorada de marinheiro, arrumava os documentos de que precisaria para a inspeção portuária de seu cargueiro e tripulação. Antes de atracar, o Capitão trocara sua suéter e calças de trabalho habituais por um uniforme azul de casaco trespassado, mas trazia ainda os chinelos de feltro já fora de moda que usava na maior parte do tempo a bordo.

Que bom, pensava o Capitão Jaabeck, ter ancorado de dia e à noite poder cear em terra. Seria um alívio ficar livre daquele cheiro de fertilizantes. O Capitão franziu o nariz num gesto de repugnância pelo odor penetrante, que sugeria uma mistura de enxôfre molhado e repolho estragado. Durante dias e dias estivera filtrando-se do porão número três para em seguida circular por todo o navio pelos ventiladores de ar quente. Seria tão bom, pensava ele, que a próxima carga do Vastervik fosse de madeiras canadenses, recém-saídas da serraria.

Agora, com os documentos na mão, subiu à coberta superior.

Na ala do alojamento da tripulação, que se localizava na popa, Stubby Gates, um marinheiro de primeira classe, atravessou a pequena sala quadrada do rancho que servia também de sala de recreio. Aproximou-se de outra personagem que estava em pé, espiando em silêncio através de um postigo.

Gates era natural de Londres. Tinha um tipo de lutador, atarracado, com o rosto irregular, cheio de cicatrizes, e braços compridos que balançavam dando-lhe um aspecto simiesco. Era o sujeito mais forte do navio e também o mais gentil, desde que não fosse provocado.

O outro homem era um jovem de pequena estatura. Tinha rosto redondo e de linhas vigorosas e olhos fundos. Sua cabeleira preta de tão grande já lhe cobria o pescoço. Sua expressão tinha muito mais de criança do que de adulto.

Stubby Gates perguntou:

— Em que está pensando Henri?

Durante algum tempo o outro continuou a olhar para fora como se não tivesse ouvido. Sua fisionomia estampava uma estranha ansiedade, seus olhos pareciam fixos no horizonte, contemplando a cidade de edifícios altos, limpos, que se via para além das docas. O barulho do tráfego chegava até o mar através do porto. O jovem, então, de repente contraiu os ombros e se voltou.

— Não estar pensando em nada — falava com um sotaque pesado, gutural, embora não fosse desagradável. Estava aprendendo o inglês com dificuldade.

— Vamos ficar por aqui durante uma semana — disse Stubby Gates. — Você já esteve em Vancouver antes?

O jovem, que se chamava Henri Duval, meneou negativamente a cabeça.

— Eu já estive aqui três vezes — disse Gates. — Conheço lugares melhores. Mas tem mulher à beça, é só escolher — olhou maliciosamente para o lado de Duval. — Acha que dessa vez vai poder desembarcar, meu chapa?

O jovem respondeu amuado, com uma expressão de desalento. As palavras eram difíceis de ser compreendidas, mas Stubby Gates pode compreender.

— Tenho às vezes a impressão — disse Henri Duval — de que nunca mais irei a terra.

 

O Capitão Jaabeck foi ao encontro dos três homens que subiram a bordo. Apertou a mão do agente da companhia que, por sua vez, apresentou o funcionário da alfândega e da imigração. Os dois funcionários — agora todos formais — cumprimentaram polidamente o Capitão, mas não lhe apertaram a mão.

— Sua tripulação está reunida, Capitão? — perguntou o representante da imigração.

O Capitão Jaabeck respondeu que sim.

— Siga-me, por favor.

A rotina era familiar e nenhuma instrução tinha sido necessária para que toda a tripulação se encontrasse na sala de refeições dos oficiais. Os marinheiros estavam perfilados do lado de fora, enquanto os oficiais esperavam dentro da sala.

Stubby Gates cutucou Henri Duval quando o grupo, guiado pelo Capitão, estava passando.

— São os cara do Governo — murmurou Gates. — Eles é que decidem se você vai ou não a terra.

Henri Duval voltou-se para o marinheiro mais velho.

— Mim tentar — disse baixinho. Havia um entusiasmo juvenil em seu sotaque carregado. A depressão anterior tinha desvanecido. — Mim tentar. Tomara conseguir.

— Isso, Henri — disse Stubby Gates cordialmente. — Não desanime!

No interior da sala tinha sido colocada uma mesa e uma cadeira para o funcionário da imigração, que se assentou e começou a correr a vista numa lista datilografada com os nomes dos tripulantes, que o Capitão lhe entregara.

No outro lado da sala o funcionário da alfândega folheava um manifesto de carga.

— Trinta oficiais e marinheiros, e um clandestino, leu em voz alta o funcionário da imigração. Está certo, Capitão?

— Exatamente — respondeu o Comandante.

— Onde embarcou o clandestino?

— Em Beirute. Chama-se Duval — continuou o Capitão. — Há muito tempo está conosco. Demais mesmo.

O homem da imigração não mudou de expressão.

— Começarei pelos oficiais. Acenou para o primeiro oficial da fila, que lhe apresentou um passaporte sueco.

Depois dos oficiais, foi a vez dos marinheiros que estavam em fila do lado de fora. O exame dos documentos era breve. Nome, nacionalidade, lugar do nascimento, algumas perguntas superficiais. Em seguida, cada qual passava pelo interrogatório do oficial da alfândega.

Duval foi o último. As perguntas a ele dirigidas pelo funcionário da imigração eram menos perfunctórias. Duval respondia cuidadosamente, com gravidade, num inglês vacilante. Alguns dos marinheiros, entre eles Stubby Gates, tinham ficado para ouvir a conversa.

Sim, seu nome era Henri Duval. Sim, era clandestino do navio. Sim, embarcara em Beirute, no Líbano. Não, não era cidadão libanês. Não, não tinha passaporte. Nunca tivera passaporte. Nem certidão de nascimento. Nenhum documento. Sim, sabia onde tinha nascido. Era francês da Somalilândia. Sua mãe era francesa, seu pai inglês. Sua mãe morrera, seu pai, não conhecera. Não, não tinha nada para provar que estava dizendo a verdade. Sim, não lhe tinha sido permitido entrar na Somalilândia. Não, os funcionários dali não tinham acreditado na sua história. Sim, tinham-lhe proibido o desembarque em outros portos. Foram muitos portos. Não podia lembrar-se de todos. Sim, tinha certeza de não possuir qualquer documento, de qualquer espécie.

Era uma repetição dos questionários de outros lugares. Enquanto prosseguia, a esperança, que por um instante irradiara a fisionomia do jovem, foi-se transformando em desalento. Mas, no fim, tentou mais uma vez.

— Mim querer trabalhar — suplicou, buscando na face do funcionário o vislumbre de uma reação. — Por favor, eu saber trabalhar. Querer trabalhar no Canadá — Henri pronunciou meio sem jeito a última palavra, como se tivesse aprendido, mas não muito bem.

O homem da imigração abanou a cabeça negativamente.

— Aqui não, aqui você não trabalhará — e voltando-se para o Capitão: — Emitirei uma ordem de detenção contra este clandestino, Capitão. O senhor será responsabilizado se ele for a terra.

— Deixe isso por nossa conta — disse o agente da companhia.

O funcionário da imigração concordou.

— O resto da tripulação está livre.

Os que tinham permanecido já iam saindo quando Stubby Gates falou.

— Uma palavrinha, seu moço?

— Pois não — respondeu surpreso o funcionário da imigração.

Houve uma parada à saída da porta e um ou dois marinheiros voltaram para ouvir.

— É a respeito desse moço, Henri.

— Que é que há com ele? Havia um tom de irritação na voz do funcionário.

— Bem, como depois de amanhã será dia de Natal e vamos ficar no porto, alguns colegas e eu achamos que fosse possível levar Henri conosco para terra, só por uma noite.

O oficial da imigração respondeu rispidamente:

— Estou acabando de dizer que ele terá de permanecer a bordo.

Stubby Gates levantou a voz.

— Já sei disso. Mas será que nem por uns cinco minutos o senhor não poderia esquecer o diabo de sua burocracia? Ele não queria inflamar-se, mas experimentava o desprezo de marinheiro pela oficialidade de terra.

— Está encerrado o assunto! — disse o funcionário rudemente, com o olhar furioso.

O Capitão Jaabeck aproximou-se. A marujada estava tensa.

— Pode estar encerrado para você, seu bolha — disse Stubby Gates em tom agressivo. — Mas quando um sujeito passa quase dois anos dentro de um navio e chega o dia de Natal...

— Gates — disse o Capitão serenamente. — É bastante.

Fez-se silêncio. O funcionário da imigração tinha-se ruborizado, mas depois se acalmou. Olhava agora hesitante para Stubby Gates.

— Você está querendo me dizer que este moço Duval há dois anos que não vai a terra?

— Não chega a dois anos — atalhou calmamente o Capitão Jaabeck. Falava um inglês claro, mas com um sotaque de sua língua materna, o norueguês. — Desde que esse jovem entrou em meu navio como clandestino, há vinte meses, que nenhum país me permite desembarcá-lo. Em todos os portos é sempre a mesma coisa: Não tem passaporte, não tem documentos. Por isso não nos pode deixar. É nosso — o Capitão levantou suas mãos grandes de marinheiro, abriu os dedos, num gesto de interrogação: — Que é que vou fazer com ele? Dá-lo de comida aos peixes porque nenhum país o quer aceitar?

A tensão tinha desaparecido. Stubby Gates tinha-se retraído, em silêncio, por deferência ao Capitão.

O funcionário da imigração, agora sem aspereza, disse em tom de dúvida:

— Diz ele que é francês, nascido na Somalilândia Francesa.

— É a verdade — concordou o Capitão. —•Infelizmente, os franceses também exigem documentos e esse moço não tem nenhum. Jura-me que nunca possuiu um e eu acredito. É um sujeito sincero e trabalhador. Vinte meses são mais do que suficientes para se conhecer uma pessoa.

Henri Duval acompanhava o diálogo, com seus olhos a fixar ora um rosto, ora outro. Agora tinha-os fixos no oficial da imigração.

— Sinto muito, mas ele não pode desembarcar no Canadá — o funcionário parecia perturbado. Apesar de sua dureza aparente, não era um homem mau e às vezes desejava que os regulamentos de seu ofício fossem menos rígidos. Tentando explicar, acrescentou: — Receio não poder fazer nada por ele, Capitão.

— Nem mesmo uma noite em terra? — era Stubby Gates, ainda insistindo com sua tenacidade britânica.

— Nem mesmo uma noite — a resposta foi dada num tom de quem quer encerrar o assunto. — Emitirei agora o ato de detenção.

Já fazia uma hora que o navio atracara e lá fora começava a escurecer.

 

Pouco depois das 23 horas, em Vancouver, cerca de duas horas após se ter recolhido, em Otawa, o Primeiro-Ministro, um táxi parava, debaixo de uma chuva copiosa, à entrada do cais La Pointe.

Dois homens desceram do carro. Um era repórter, o outro, fotógrafo do Post de Vancouver.

O repórter, Dan Orliffe, um tipo grandalhão, de quase quarenta anos, tinha um rosto de bochechas largas e coradas e um modo bonachão que o fazia parecer mais um fazendeiro obsequioso do que um jornalista de sucesso e, às vezes, impiedoso. Wally de Vere, pelo contrário, era um tipo magricela, de um metro e oitenta de altura, que se mexia nervosamente e parecia tomado de um eterno pessimismo.

Quando o táxi partiu, Dan Orliffe olhou ao redor, fechando a gola do paletó para se proteger contra o vento e a chuva. No começo, encandeados pela luz dos faróis do carro que se retirava quase não podiam ver nada. Ao redor de onde se achavam divisavam sombras indistintas que pareciam fantasmas e trechos de escuridão mais profunda e, mais adiante, o brilho ondulante das águas do mar. Edifícios desertos e silenciosos agigantavam-se confusamente, com seus perfis envoltos na escuridão da noite. Depois, adaptando pouco a pouco a vista à escuridão, as sombras mais próximas iam-se transformando em focos e agora podiam ver que se achavam numa larga rampa de cimento construída em linha paralela à praia.

Atrás, por onde o táxi os trouxera, destacavam-se os altos silos e galpões das docas escuras. Mais adiante, pilhas de carregamento de navios, cobertas com lona, estavam espalhadas ao longo da rampa, da qual estendiam-se dois desembarcadouros como se fossem dois braços na direção do mar. De ambos os lados dos desembarcadouros havia navios ancorados e algumas luzes fracas mostravam que ao todo eram cinco navios. Mas não havia em parte alguma qualquer sinal de vida ou de movimento.

De Vere trazia pendurados nos ombros sua câmera e equipamentos. Agora caminhava na direção dos navios.

— Qual deles? — perguntou.

Dan Orliffe serviu-se de uma lanterna de bolso para consultar uma nota que o redator de plantão lhe entregara meia hora antes, depois de um telefonema.

— O navio é o Vastervik — disse. — Suponho que deva ser um desses. Virou à direita, seguido pelo fotógrafo. Tinham deixado o táxi havia um minuto ou dois e seus sobretudos já estavam encharcados. Dan sentia que as pernas de suas calças iam-se tomando pesadas e um fio de água escorria inconfortavelmente por debaixo de seu colarinho.

— O que está faltando aqui — queixou-se De Vere — é uma boneca num balcão de informação.

Continuavam a caminhar cuidadosamente através de uma mixórdia de caixotes quebrados e tambores de óleo — Quem é, afinal de contas, esse sujeito que procuramos?

— Chama-se Henri Duval — respondeu Dan. — Conforme o redator, é um indivíduo sem pátria e nenhum país quer recebê-lo.

O fotógrafo balançou a cabeça, pensativo.

— Uma história comovente, não é? Imagine: não ter um lugar na hospedaria numa véspera de Natal.

— É um ângulo — reconheceu Dan. — Talvez você deva escrevê-lo.

— Eu não — respondeu De Vere. — Quando acabar aqui vou para a câmara escura com as fotos. Além disso, aposto com você dez contra cinco que esse moço é um vigarista.

Dan sacudiu a cabeça.

— Nada feito. Você é capaz de ganhar.

Estavam agora na metade do caminho ao longo da mão direita do porto, andando cuidadosamente ao lado de uma fileira de vagões de carga da estrada de ferro. A cento e cinquenta metros adiante a água do mar brilhava na escuridão e podiam ouvir o ruído da chuva a cair sobre as águas paradas da enseada.

Ao se aproximarem do primeiro navio, esticaram o pescoço para ler o nome. Era um navio russo.

— Vamos — disse Dan — não é aqui.

— Será o último — predisse o fotógrafo. — É sempre assim.

Mas era o seguinte. O nome Vastervik estava bem visível, escrito bem no alto sobre o costado mal iluminado e por baixo dele chapas enferrujadas que apodreciam.

— Será que essa caçamba flutua mesmo? — De Vere parecia duvidar. — Ou não seria algum trote?

Subiram por uma prancha estragada e chegaram ao que parecia ser o convés principal do navio.

Visto das docas, mesmo na escuridão, o Vastervik parecia um navio em decadência. Agora, de perto, os sinais de velhice e de negligência acumulada eram ainda mais evidentes. A pintura descorada apresentava grandes manchas de ferrugem que se estendiam sobre a superestrutura, portas e anteparas. Em outro lugar o resto da pintura descia em faixas descascadas. À luz de uma lâmpada solitária por cima da prancha puderam ver uma camada de sujeira sobre o convés e por perto deles várias caixas abertas cheias do que lhes pareceu ser lixo. Mais um pouco adiante, um ventilador de aço, de tão enferrujado, despencara de seu encaixe. Provavelmente irrecuperável, fora abandonado ali na coberta.

Dan farejou.

— É, estou sentindo também — disse o fotógrafo.

O mau cheiro de fertilizante irradiava do interior do navio.

— Vamos ver se entramos — disse Dan. Abriu uma porta de aço logo à frente e desceu por um corredor estreito.

A poucos metros adiante o corredor se bifurcava. À direita dava-se para uma série de portas de cabinas — eram sem dúvida-as cabinas dos oficiais. Dan virou à esquerda, seguiu na direção de uma porta a pouca distância, de onde saía uma luz. Era a cozinha do navio.

Stubby Gates, usando um macacão seboso, estava assentado à mesa lendo uma revista de garotas.

— Alô meu chapa — disse ele — quem é você?

— Sou do jornal Post de Vancouver — respondeu Dan. — Estou à procura de um moço chamado Henri Duval.

Ao abrir a boca num sorriso amplo, o marinheiro exibiu uma carreira de dentes horrivelmente manchados.

— Henri estava aqui agora mesmo, mas já foi para o seu quarto.

— O senhor acha que podemos despertá-lo? — perguntou Dan. — Ou devemos falar primeiro com o Capitão?

Gates meneou a cabeça.

— É melhor deixar o patrão em paz. Ele fica muito chateado quando é despertado num porto. Mas acho que posso levá-lo ao Henri. Lançando um olhar em De Vere: — Quem é esse moço?

— É o fotógrafo.

O marinheiro pôs-se de pé, enfiando a revista feminina no seu macacão.

— Está bem, senhores — disse Stubby Gates. — Sigam-me.

Desceram duas gaiútas na direção da proa do navio. Num corredor sombrio, iluminado apenas por uma só lâmpada de pequena voltagem, Stubby Gates bateu a uma porta, virou a maçaneta e a abriu. Ao entrar acendeu uma lâmpada.

— Levante-se, Henri — gritou. — Estão aqui dois senhores que querem vê-lo. Afastou-se, acenando para Dan.

Dan aproximou-se da porta e viu uma pequena figura sonolenta assentada numa tarimba de ferro. Em seguida correu os olhos ao redor.

Meu Deus! pensou, como é que se pode viver aqui?

Era uma cabina de ferro — um cômodo de mais ou menos cinco metros quadrados. As paredes há muito tempo tinham sido pintadas de oca descorada, mas, agora, grande parte da pintura já não existia mais e a ferrugem a substituía. Tanto a pintura como a ferrugem estavam cobertas por uma fina camada de umidade, só interrompida aqui e ali por gotas d’água mais pesadas que escorriam para o chão. Ocupando o comprimento de uma parede e quase tomando toda a largura do cômodo estava a cama de ferro. Por cima dela, uma pequena prateleira de uns cinquenta centímetros de comprimento. Debaixo da tarimba, um balde de ferro. E era tudo.

Não havia janela nem postigo, mas só um respiradouro no alto de uma parede.

O ar era insuportável.

Henri Duval esfregou os olhos e olhou para o grupo do lado de fora. Dan Orliffe ficou impressionado com a pouca idade do clandestino. Tinha o rosto redondo, simpático, traços proporcionais, olhos fundos e pretos. Vestia uma camiseta, uma camisa de flanela desabotoada e calças de brim ordinário. Seu corpo por baixo de suas roupas parecia vigoroso.

— Bon soir, Monsieur Duval — disse Dan. — Excusez-nous de troubler votre sommeil, mais nous venons de la presse et nous savons que vous avez une histoire intéressante à nous raconter.

O clandestino balançou a cabeça lentamente.

— Não adianta falar francês — atalhou Stubby Gates. — Henri não compreende essa língua. O que ele sabe de francês é uma mistura de línguas que falou na sua infância. É melhor falar em inglês, mas vá devagar.

— Está bem. Voltando-se para o clandestino, disse Dan pausadamente: — Sou repórter do Post de Vancouver. É um jornal. Gostaríamos de conhecer sua história. Está-me entendendo?

Houve uma pausa. Dan tentou de novo.

— Gostaria de conversar com você. Depois escreverei sobre o seu caso.

— Por que escrever? — as palavras, as primeiras que Duval pronunciou, tinham um quê de surpresa e de suspeita.

— Talvez eu possa ajudá-lo — disse Dan pacientemente. — Você quer sair deste navio?

— O senhor ajudar eu sair do navio? Arranjar emprego? Viver em Canadá? — as palavras eram enunciadas em voz clara, embora com dificuldade e com uma indisfarçável impaciência.

Dan sacudiu a cabeça.

— Não, eu não posso fazer isso. Mas muita gente lerá o que eu escrever. Talvez algum leitor possa ajudá-lo.

Stubby Gates interveio na conversa.

— Que tem a perder com isso, Henri? Mal nenhum lhe fará, poderá mesmo ser de vantagem para você.

Henri Duval parecia estar considerando.

Observando-o de perto, Dan chegou à conclusão de que qualquer que fosse sua origem o jovem clandestino possuía uma dignidade instintiva, modesta.

Henri então concordou.

— Tá bem — disse simplesmente.

— Conte tudo a ele, Henri — disse Stubby Gates. — Levante-se e vá lavar o rosto. Eu e esses moços vamos esperá-lo na cozinha.

O jovem assentiu e levantou-se da cama.

Ao se retirar, disse De Vere em voz baixa:

— Coitado!

— Está sempre ali dentro? — perguntou Dan.

— Só à noite, quando estamos num porto — respondeu Stubby Gates. São ordens do Capitão.

— Por quê?

— Para estar certo de que não saiu. O Capitão é responsável por ele, como sabem — o marinheiro fez uma pausa no alto de uma gaiúta. — Aqui porém não está tão pior para ele, como nos Estados Unidos. Enquanto estivemos ancorados em São Francisco passou o tempo todo amarrado à sua cama.

Chegaram à cozinha e entraram.

— Que tal uma xícara de chá? — perguntou Stubby Gates.

— Não é mau — disse Dan. — Obrigado.

O marinheiro apanhou três canecos e foi buscar um bule de chá esmaltado em cima de uma chapa quente. Serviu uma mistura muito preta à qual já tinha sido adicionado o leite. Colocou os canecos sobre a mesa da cozinha e fez um sinal convidando os dois a se assentar.

— Quem vive num navio como este — disse Dan — deve encontrar toda espécie de gente.

— Sem dúvida, meu chapa — respondeu Stubby Gates com um sorriso largo. — De toda espécie, cores e tamanho. Alguns tipos esquisitos, também — olhou intencionalmente para os jornalistas.

— Qual é sua opinião sobre Henri Duval? — perguntou Dan.

Stubby Gates sorveu um longo trago de seu caneco antes de responder.

— É um sujeitinho legal. A maioria de nós gosta dele. Faz os trabalhos que lhe pedimos, embora como clandestino não esteja obrigado a fazê-los. É a lei do mar — respondeu inteligentemente.

— O senhor já estava no navio quando ele se escondeu a bordo? — perguntou Dan.

— Nós o descobrimos dois dias depois de ter partido de Beirute. Estava tão magro que parecia um cabo de vassoura. Tenho a impressão de que o pobre diabo estava morrendo de fome antes de vir para o navio.

De Vere tinha provado seu chá e colocado a xícara sobre a mesa.

— Está horrível, não é? — disse o anfitrião cordialmente. — Tem o gesto de concentrado de zinco. Fizemos uma grande provisão dele no Chile. Este material fedorento penetra em tudo... no seu cabelo, nos olhos, até no chá.

— Obrigado — disse o fotógrafo. — Agora já tenho o que contar no hospital.

Dez minutos depois Henri Duval entrava na cozinha. Nesse ínterim, tinha lavado o rosto, penteado o cabelo e se barbeado. Por cima de sua camisa trazia uma jersey azul de marinheiro. Suas roupas eram velhas, mas limpas. Dan observou um rasgão nas calças, cuidadosamente serzido.

— Entre e assente-se, Henri — disse Stubby Gates. Encheu um quarto caneco e o pôs diante do clandestino, que agradeceu sorrindo. Era a primeira vez que sorria na presença dos dois jornalistas. O sorriso iluminou sua fisionomia, tornando-o ainda mais moço.

Dan começou logo a fazer perguntas.

— Que idade tem você?

Após uma brevíssima pausa, Duval respondeu:

— Vinte e três anos.

— Onde nasceu?

— Num navio.

— Como se chamava o navio?

— Não saber.

— Então como sabe que nasceu num navio.

Outra pausa.

— Não compreender.

Dan, pacientemente, repetiu a pergunta. Dessa vez Duval entendeu.

— Minha mãe me contar.

— De onde era sua mãe?

— Francesa.

— Onde está ela agora?

— Morta.

— Quando morreu?

— Muito tempo... Addis Abeba.

— Quem era seu pai? — perguntou Dan.

— Não conhecer ele.

— Sua mãe falava dele a você?

— Ele inglês. Marinheiro. Nunca ver ele.

— Nunca ouviu seu nome?

Uma negativa com a cabeça.

— Teve outros irmãos ou irmãs?

— Nenhum irmão, nenhuma irmã.

— Quando morreu sua mãe?

— Desculpe, não saber.

Dan reformulou a pergunta:

— Que idade você teria quando sua mãe morreu?

— Seis anos.

— Depois disso, quem cuidou de você?

— Eu cuidar de mim.

— Você nunca foi à escola?

— Nenhuma escola.

— Sabe ler ou escrever?

— Escrever nome meu: Henri Duval.

— E nada mais?

— Escrever nome meu — repetiu Duval. — Eu mostrar. Dan passou uma folha de papel e um lápis para o outro lado da mesa. Lentamente e com mão trêmula, infantil, o clandestino assinou seu nome. Era legível, e só.

Dan perguntou:

— Por que se fez clandestino deste navio?

Duval encolheu os ombros.

— Querer arranjar pátria — lutava para achar as palavras, depois acrescentou: — Líbano não bom.

— Por que o Líbano não bom? — Dan involuntariamente repetiu a frase abreviada do clandestino.

— Não ser cidadão. Se polícia descobre... cadeia.

— Como chegou ao Líbano?

De navio.

— Que navio?

— Navio italiano. Desculpe, não lembrar nome.

— Era passageiro do navio italiano?

— Eu clandestino. No navio um ano. Tentar sair. Ninguém querer.

Stubby Gates entrou na conversa.

— Tenho a impressão de que esteve naquela espécie de cargueiros italianos que vivem pra lá e pra cá no Oriente Médio. Certamente encostou em Beirute e apanhou o moço. Entende?

— Compreendo — respondeu Dan. Em seguida, a Duval: — Que fazia você antes de se fazer clandestino no navio italiano?

— Eu andar com caravanas de camelo. Davam comida mim. Trabalhava. Eu estar Somalilândia, Etiópia, Egito — pronunciava as palavras com dificuldade, procurando ajudar-se com as mãos. — Mim menino travessar qualquer fronteira, não dificuldade. Quando crescer não poder mais... ninguém querer eu.

— E o que aconteceu quando se fez clandestino do navio italiano? — perguntou Dan. — Andou tudo bem?

O jovem assentiu com a cabeça.

— Você tem algum passaporte, documentos ou qualquer coisa que prove a nacionalidade de sua mãe?

— Não documentos.

— Você pertence a algum país?

— Não ter país.

— Você quer uma pátria?

Duval pareceu perplexo.

— Quero dizer — disse Dan lentamente, — você quer sair deste navio. Você me disse isso.

Uma vigorosa afirmativa com a cabeça.

— Então você quer ter uma pátria... um lugar para viver?

— Trabalhar — insistiu Duval. — Eu trabalhar muito.

Dan Orliffe, mais uma vez, observou pensativo o jovem clandestino. Seria verdadeira sua história de homem errante e sem lar? Seria, na realidade, um rebotalho, um enjeitado que ninguém reclamara ou quisera? Seria realmente um homem sem pátria? Ou seria tudo invencionice, uma engenhosa urdidura de mentiras e meias verdades calculadas para angariar simpatia?

O jovem clandestino parecia, contudo, bastante ingênuo. Mas quem era ele?

Seu olhar era suplicante, mas havia nele algo de inescrutável. Haveria por detrás disso algum indício de astúcia, ou seria uma imaginação ardilosa?

Dan Orliffe hesitava. Qualquer coisa que escrevesse, sabia ele, seria criticado e testado pelo vespertino rival do Post, o Colonist, de Vancouver.

Sem um limite de tempo imediato, podia tomar o tempo que quisesse para fazer sua reportagem. Resolveu testar sua dúvida de modo definitivo.

— Henri — perguntou ao clandestino, — você confia em mim?

Por um instante a suspeita inicial estampou-se de novo nos olhos do jovem. Em seguida, assentiu vigorosamente com a cabeça.

— Confiar — respondeu com sinceridade.

— Está bem — disse Dan. — Talvez eu possa ajudá-lo. Mas quero saber de tudo a seu respeito, tudo desde o começo — lançou um olhar para o lugar onde De Vere estava montando seu equipamento de flash: — Primeiro faremos algumas fotografias, depois conversaremos. Não salte nada e não se apresse, pois isso vai levar muito tempo.

 

Henri Duval estava ainda sonolento na cozinha do Vastervik.

O jornalista era um homem de muitas perguntas.

Era difícil, pensava o clandestino, estar às vezes certo do que ele queria. O homem perguntava demais e queria respostas precisas. E toda resposta que dava era escrita rapidamente nas folhas de papel que estavam ali em cima da mesa diante deles. Era como se o próprio Duval estivesse sendo retratado pela ponta de um lápis apressado e sua vida passada cuidadosamente esquematizada. E não obstante, a maior parte de sua vida transcorrera sem ordem, como peças desconexas. E tantas coisas eram difíceis de ser traduzidas em palavras claras — nas palavras claras daquele homem — ou mesmo se lembrar de como aconteceram.

Se ao menos tivesse aprendido a ler e escrever, para se servir de lápis e papel e gravar as coisas que lhe vinham à mente, como fazia aquele moço e outros iguais a ele. Então também ele — Henri Duval — poderia conservar os pensamentos e a lembrança das coisas passadas. E não teria de guardar tudo de memória, como se sua mente fosse uma prateleira, certo de que não se perderia no esquecimento, como algumas das coisas que parecia ter feito e das quais agora não conseguia mais se lembrar.

Sua mãe lhe falara certa feita de escola. Ela própria aprendera a ler e a escrever quando criança. Mas fazia muito tempo e sua mãe morrera antes que ele pudesse começar a frequentar qualquer escola. Depois disso não houve ninguém mais que se preocupasse com a sua educação.

Franziu as sobrancelhas, contraiu seu rosto juvenil, procurando concentrar-se, tentando responder às perguntas, lembrar-se, lembrar-se, lembrar-se...

Primeiro foi o navio. Sua mãe lhe falara dele e foi no navio que ele nascera. Tinham partido de Djibouti, na Somalilândia Francesa, um dia antes de seu nascimento e tinha a impressão de que sua mãe lhe falara uma vez do destino do navio, mas há muito tempo esquecera. E se lhe disse a nacionalidade do barco, tinha-se também esquecido disso.

O parto fora difícil e não havia médico a bordo. Sua mãe ficou fraca e febril e o capitão do navio voltou ao Porto de Djibouti. Ali a mãe e a criança foram levadas para um hospital de indigentes. Suas economias eram escassas e assim continuaram dali por diante.

Henri lembrava-se de sua mãe como uma pessoa carinhosa e meiga. Tinha uma vaga lembrança de que era bela, mas talvez fosse apenas uma fantasia, pois sua imagem já desvanecera na sua memória e agora, quando pensava nela, via seu rosto de modo vago e indistinto. Mas lhe dera amor, disso estava certo, e se lembrava disso precisamente porque fora o único amor que já conhecera.

Os primeiros anos eram fragmentos dispersos em sua mente. Sabia que sua mãe tinha trabalhado quanto podia para arranjar o pão para si e para ele, embora às vezes faltasse por completo. Não se lembrava da espécie de trabalho que sua mãe fazia, mas tinha a impressão de que fora outrora bailarina. Ele e sua mãe viajaram muito — da Somalilândia Francesa à Etiópia, primeiro para Addis Abeba, depois para Massawa. Duas ou três vezes fizeram a viagem Djibouti—Addis Abeba.

No início, embora pobremente, viviam entre os demais franceses. Mais tarde, quando se tornaram ainda mais pobres, mudaram-se para o bairro nativo. Então, quando Duval tinha seis anos de idade, sua mãe morreu.

Depois da morte de sua mãe suas recordações do passado embaralhavam-se de novo. Durante algum tempo — não conseguia lembrar-se por quanto tempo — vivera nas ruas, esmolando o pão e dormindo à noite no primeiro buraco ou canto que encontrasse. Nunca procurara as autoridades; jamais pensara em fazê-lo, pois nos círculos que frequentava a polícia era tida como um inimigo.

Depois um somali já idoso, que vivia só num casebre no bairro nativo, o recebeu e lhe deu abrigo. O arranjo durou cinco anos; depois, não sabia porquê, o velho desapareceu e Henri Duval ficou de novo sozinho.

Dessa vez passou da Etiópia para a Somalilândia Britânica, trabalhava onde arranjava serviço e durante outros quatro anos foi ajudante de um pastor para serviços diversos, cabreiro e barqueiro, levando uma existência precária e se remediando com salários que raramente iam além do alimento e do abrigo.

Daí por diante atravessar as fronteiras internacionais tornara-se coisa corriqueira. Havia tantas famílias com crianças, que os funcionários dos postos fronteiriços não se incomodavam com as crianças isoladas. Naqueles momentos, bastava agregar-se a uma família e passar despercebido entre os guardas. Com o tempo, ficou perito no assunto. Mesmo na adolescência, sua pequena estatura continuava a lhe permitir isso. Até que, aos vinte anos, depois de viajar com alguns nômades árabes, parara pela primeira vez e voltara para a fronteira da Somalilândia Francesa.

Duas verdades se manifestavam agora diante de Henri Duval. A primeira: acabara-se o tempo de suas travessias de fronteiras com grupos de crianças. A segunda: a Somalilândia Francesa, que até então tinha considerado como sua pátria, estava fechada para ele. Da primeira coisa já tinha suspeitado; a segunda lhe causara um choque profundo.

De modo inevitável e fatal, estava diante de um dos fundamentos da sociedade moderna: de que sem documento — os importantíssimos pedaços de papel, sendo o mínimo deles uma certidão de nascimento — o homem não era nada, oficialmente não existia e não pertencia a nenhum pedaço de terra territorialmente dividida.

Se as pessoas instruídas acham às vezes difícil aceitar esse estado de coisas, para Henri Duval — que não tinha instrução de qualquer espécie e fora obrigado a passar sua infância como uma criança sem afeto — fora um impacto esmagador. Os nômades árabes foram-se, deixando Duval para trás, na Etiópia, onde sabia não ter tampouco direito de morar, e durante um dia e uma noite escondeu-se perto do posto de fronteira em Hadele Gubo...

Era a cavidade de uma rocha descorada e gasta pelo tempo. No seu abrigo o jovem de vinte anos — ainda uma criança em seus modos — permaneceu imóvel e sozinho. Bem na sua frente estendiam-se as áridas planícies das Somalilândias semeadas de penedos erráticos, frias sob o clarão da lua e descampadas à luz do sol do meio-dia. E através da planície, serpeando sinuosamente como uma serpente de cor ruça, estava a estrada poeirenta que levava a Djibouti — o último e tênue elo entre Henri Duval e seu passado, entre sua infância e sua idade adulta, entre seu corpo, só documentado por sua presença viva, e a cidade litorânea queimada de sol cujas ruas com cheiro de peixe e os desembarcadouros incrustrados de sal ele considerara como sua terra natal e seu único lar.

De repente, o deserto lhe pareceu familiar e uma terra atraente. E como uma criatura impelida por uma espécie de instinto primitivo para o lugar de seu nascimento e para o amor materno, ansiava por voltar a Djibouti, mas isso agora era impossível, como aliás muitas outras coisas estavam fora de seu alcance e como tal permaneceriam para sempre.

Depois, atormentado pela sede e pela fome, levantou-se. Deu as costas à sua pátria proibida e tomou a direção do norte, pois precisava ir a alguma outra terra, para a Eritreia e o Mar Vermelho...

A caminhada para a Eritreia, território da costa ocidental da Etiópia, era uma das que mais se lembrava. Lembrava-se também de que nessa viagem começou a roubar sistematicamente pela primeira vez. Anteriormente tinha furtado alimentos, mas só em desespero de causa quando não podia trabalhar ou quando escasseavam as esmolas. Agora não pedia mais esmolas e vivia exclusivamente do roubo. Continuara a furtar alimentos sempre que tivesse oportunidade, assim como objetos ou bugigangas que pudesse vender por pequenas somas. Tudo que conseguia recolher desaparecia logo, mas alimentava sempre a esperança de acumular o suficiente para comprar uma passagem de navio — para algum lugar onde pudesse viver, integrar-se e começar vida nova.

Com o tempo chegara a Massawa, porto de coral e portão da Etiópia para o Mar Vermelho.

Foi em Massawa que esteve a ponto de receber a paga por seus furtos. Misturando-se à multidão perto de uma banca de peixeiro, surripiara um peixe, mas o negociante de olhos vivos dera pelo fato e partira ao seu encalço. Várias outras pessoas, inclusive um policial, aderiram à caça e, em alguns segundos, Henri Duval estava sendo perseguido por algo que aos seus ouvidos de jovem amedrontado, parecia uma turba enfurecida. Correndo desesperado arrastava a multidão ao redor de edifícios de coral e através de ruas tortuosas do bairro nativo. Finalmente, logrando uma frente suficiente para alcançar o porto, escondera-se entre volumes de cargas de navios que aguardavam embarque. Observara de um buraco seus perseguidores a procurá-lo, e, em seguida, viu-os desistirem e voltarem.

A experiência, porém, o impressionara. Resolvera abandonar a Etiópia por qualquer meio que pudesse. Em frente de seu esconderijo estava ancorado um cargueiro e chegada a noite penetrou furtivamente a bordo, escondendo-se num compartimento escuro por dentro do qual esgueirou-se para o convés inferior. O navio partiu na manhã seguinte. Duas horas depois era descoberto e conduzido à presença do comandante.

O navio era um velho barco italiano, tocado ainda a hulha, que fazia constantemente a linha entre o Golfo de Aden e o Mediterrâneo Oriental.

O indolente capitão italiano estava ociosamente limpando as unhas, quando Henri Duval, tremendo foi colocado diante dele.

Após vários minutos, o capitão fez uma pergunta ríspida em italiano. Não teve resposta. Tentou o inglês, depois o francês, mas sem resultado. Duval tinha esquecido há muito tempo o pouco de francês que aprendera com sua mãe e sua língua era agora uma mistura de árabe, somali e aramaico, intercalada com palavras isoladas das setenta línguas da Etiópia e de mais dois tantos de dialetos.

Vendo-se impotente para se fazer entender, o capitão encolheu os ombros com indiferença. Os clandestinos não eram novidade a bordo e o capitão, imune de escrúpulos incômodos com relação ao direito marítimo, mandou Duval trabalhar. Sua intenção era livrar-se do clandestino no primeiro porto que tocasse.

O que o comandante não previra, entretanto, era que sendo Henri Duval um homem sem pátria, haveria de ser taxativamente rejeitado pelos funcionários da imigração em todos os portos da escala, inclusive Massawa, onde o navio aportou vários meses depois.

Com a prolongada permanência de Duval a bordo, ia aumentando proporcionalmente a ira do capitão até que, passados dez meses, reuniu-se em conferência com seu contramestre. Conceberam um plano que o contramestre explicou cortesmente a Duval por meio de um intérprete — que a vida do clandestino iria tornar-se tão insuportável, que mais cedo ou mais tarde ele se veria obrigado a deixar o navio. E finalmente, depois de cerca de dois meses de trabalho excessivo, de pancadas e fome, foi exatamente o que fez.

Duval lembrava-se em detalhes da noite em que deslizou silenciosamente pela prancha do navio italiano. Fora em Beirute, no Líbano — o pequenino estado-tampão entre a Síria e Israel, onde, segundo a lenda, São Jorge matou o dragão.

Fugira do mesmo modo que entrara, na escuridão; a fuga fora fácil porque não tinha nada para levar, a não ser a roupa rasgada que usava. Uma vez desembarcado, sua primeira iniciativa foi correr pelo porto pretendendo chegar à cidade. Mas à vista de um uniforme numa área mais adiante iluminada ficou nervoso e foi obrigado a se retirar à procura de abrigo na escuridão. Reconhecimentos ulteriores revelaram que o porto era cercado e patrulhado. Começou a tremer. Estava com vinte e um anos, magro de fome, incrivelmente solitário e em verdadeiro pânico.

Mais alguns passos e divisou uma outra sombra. Era um navio.

De início pensou que estivesse diante do cargueiro italiano e seu primeiro impulso foi de voltar a bordo. Preferia a miséria que conhecera à prisão que o esperava, se fosse apanhado pela polícia. Depois verificou que a sombra não era do navio italiano, mas de um navio maior e escapuliu para bordo como um rato numa corda. Era o Vastervik, como ficaria sabendo dois dias depois e já a vinte milhas distante da costa quando a fome venceu o medo e o obrigou a sair tremendo de seu esconderijo.

O Capitão Sigurd Jaabeck do Vastervik era muito diferente de seu colega italiano. Era um norueguês de fala baixa, cabelos grisalhos, um homem firme, mas justo, que respeitava tanto os preceitos de sua Bíblia como as leis do mar. O Capitão Jaabeck explicou a Duval, de modo severo, mas circunspecto, que um clandestino não era obrigado a trabalhar, mas que o podia fazer voluntariamente, embora sem remuneração. De qualquer maneira, trabalhasse ou não, receberia a mesma ração da tripulação do navio. Duval preferiu trabalhar.

Como o comandante do navio italiano, o Capitão Jaabeck estava decidido a se desfazer do clandestino no primeiro porto que tocasse. Mas, à diferença do italiano — depois que se convenceu de que não poderia dispor tão rapidamente de Duval — não lhe ocorreu o pensamento de maltratá-lo.

E assim, Henri Duval permanecia a bordo há vinte meses, enquanto o Vastervik errava, à procura de carga, pela metade dos oceanos do mundo. Arrastaram-se na monotonia de um navio cargueiro sem carreira regular através do Mediterrâneo, do Atlântico e do Pacífico. Tocaram a África do Norte, o norte e o sul da Europa, a Inglaterra, a América do Sul, os Estados Unidos e o Canadá. E por toda parte, o pedido de Henri Duval para desembarcar e permanecer era recebido com um não enfático. O motivo, quando os funcionários do porto se dignavam explicar, era sempre o mesmo o clandestino não tinha documentos, nem identidade, nem pátria, nem direitos.

Com o correr do tempo, quando o Vastervik decidiu aceitar a permanência de Duval, o jovem clandestino se tomara algo semelhante a um animalzinho de estimação do navio.

A tripulação do Vastervik era uma miscelânea internacional que incluía poloneses, escandinavos, láscares, um chinês, um armênio e vários marinheiros ingleses dos quais Stubby Gates era o reconhecido líder. Foi este último grupo que adotara Duval e tornara sua vida, se não agradável, pelo menos tão tolerável quanto permitiam as difíceis condições a bordo. Ajudaram-no a aprender inglês e, agora, embora seu sotaque fosse duro e sua frase difícil, com um pouco de paciência de ambas as partes, podia-se fazer entender.

Foi uma das poucas gentilezas autênticas que Henri Duval já havia recebido e a ela correspondeu com o mesmo entusiasmo com que um cachorro animoso corresponde aos sinais de aprovação de seu dono. Fazia trabalhos pessoais para a tripulação, ajudava o despenseiro dos oficiais e levava recados a bordo. O pessoal retribuía com presentes de cigarros e caramelos quando regressavam de terra em algum porto e, ocasionalmente, o Capitão Jaabeck dava-lhe pequenas quantias de dinheiro que outros marinheiros gastavam da parte de Duval. Mas apesar de tudo, o clandestino continuava ainda prisioneiro e o Vastervik, outrora um refúgio, tomara-se sua prisão.

Henri Duval, cuja pátria era o mar, chegara assim às portas do Canadá na véspera de Natal.

 

O interrogatório levou quase duas horas. De vez em quando Dan Orliffe repetira algumas de suas primeiras perguntas em termos diferentes, procurando apanhar o jovem clandestino em alguma contradição. Mas o ardil falhara. A não ser algumas obscuridades de expressão, que eram esclarecidas no decorrer do diálogo, a história fundamental permanecia a mesma.

Já para o fim, depois de uma importante pergunta formulada com deliberada imprecisão, Duval não respondera. Em vez, encarou com seus olhos prêtos seu interrogador.

— Senhor me provar. Acha eu mentir — disse o clandestino, e mais uma vez o jornalista percebeu a mesma dignidade natural que já observara.

Envergonhado por ter sido apanhado em seu próprio ardil, dissera Dan Orliffe:

— Estava apenas conferindo. Não o farei de novo. E passaram a outro assunto qualquer.

Agora, de volta à sua escrivaninha na sala comprimida e desordenada do Post, de Vancouver, Dan desdobrou suas notas e apanhou um feixe de papel de cópia. Enfiando as folhas de papel carbono, gritou para o redator de plantão, Ed Benedict:

— Ed, é uma boa reportagem. De quantas palavras posso dispor?

O redator de plantão pensou, depois respondeu:

— Até mil.

Puxando sua cadeira para perto da máquina, Dan assentiu. Seriam suficientes. Gostaria de dispor de mais espaço, mas mil palavras bem arrumadas poderiam dizer muita coisa.

Começou a escrever.

 

Otawa, Véspera de Natal

ÀS 6h15m DA MANHÃ DA VÉSPERA de Natal, Milly Freedeman foi despertada por um telefone que tocava insistentemente em seu apartamento no moderno Edifício Tiffany na Avenida Otawa. Jogando um roupão de veludo amarelo descorado por cima do pijama de seda, procurou com os pés os mocassins de salto que empurrara com os pés na noite anterior. Sem poder localizá-los, a secretária particular do Primeiro-Ministro dirigiu-se de pés descalços para a sala contígua e acendeu a luz.

Mesmo tão cedo e vista por olhos ainda sonolentos, a sala que a luz revelava estava atraente e confortável como sempre. Havia uma grande distância, sabia Milly, dos chiques apartamentos de solteirona tantas vezes reproduzidos em revistas sofisticadas. Mas era um lugar que ela amava, para onde gostava de vir toda noite, geralmente cansada, e atirar-se imediatamente nas almofadas do grande sofá — aquele sofá que dera tanto trabalho à transportadora quando o trouxe para ali da casa de seus pais em Toronto.

Desde então o velho sofá tinha sido recoberto no tom verde preferido de Milly e estava agora ladeado pelas duas poltronas que comprara num leilão fora de Otawa — um pouco surradas, mas admiravelmente confortáveis. Estava decidido que dentro de pouco tempo teria de mandar cobrir as cadeiras com chita de cor de outono, para compor as paredes do apartamento e peças de madeira pintadas num tom quente de cogumelo. Ela própria executara a pintura num fim de semana, convidando alguns poucos amigos para jantar e depois, com sua lábia, induzindo-os a ajudá-la a terminar.

Na extremidade da sala de estar havia uma velha cadeira de balanço, à qual tinha um profundo apego, pois nela, quando criança, se entregara a muitos devaneios. E ao lado da cadeira, em cima de uma mesa de café trabalhada em couro, pela qual pagara um preço exorbitante, estava o telefone.

Acomodando-se na cadeira, com um balanço preliminar, Milly levantou o fone. Quem chamava era James Howden.

— Bom dia, Milly — disse o Primeiro-Ministro num tom apressado. — Gostaria de reunir o Conselho de Defesa às onze horas de hoje — não fez qualquer comentário explicando por que estava telefonando tão cedo, nem Milly o esperava. Há muito tempo já se tinha acostumado com o gosto de seu patrão de se levantar cedo.

— Hoje às onze? — com a mão livre Milly ajustou o roupão. Fazia frio no apartamento por uma janela que deixara meio aberta na noite anterior.

— Exato — respondeu Howden.

— Vai haver queixas — observou Milly. — É véspera de Natal.

— Sei disso. Mas o assunto é importante demais para ser adiado.

Após pendurar o fone, olhou as horas num pequeno relógio de viagem que estava ao lado do telefone e resistiu à tentação de voltar ao leito. Ao invés, fechou a janela, em seguida foi à cozinha e ligou o fogão para fazer o café. Voltou depois à sala e ligou um rádio portátil. O café estava começando a ferver quando o noticiário radiofônico das 6h30m transmitia o comunicado ofical das futuras conversações do Primeiro-Ministro em Washington.

Meia hora depois, ainda de pijama, mas dessa vez com seus mocassins nos pés, começou a telefonar para a casa dos cinco membros do Conselho.

O Ministro do Exterior foi o primeiro. Arthur Lexington respondeu jovialmente:

— Como não, Milly? Passei em reuniões a noite toda, uma a mais não faz diferença. A propósito, você ouviu o noticiário?

— Sim — respondeu Milly. — Acabei de ouvir agora mesmo.

— Que tal uma viagem a Washington?

— Minhas viagens jamais foram além do teclado de uma máquina de escrever.

Você precisa me acompanhar em uma das minhas — disse Lexington. — Nunca preciso de datilógrafa. Todos os meus discursos são escritos nas costas de carteiras de cigarros.

— E são melhores do que a maioria dos que não o são — observou Milly.

— Vou desligar — disse Lexington, — há um grande acontecimento em nossa casa: estou tomando café com meus filhos. Eles querem ver quanto mudei desde a última vez que estive em casa.

Milly sorriu ao imaginar que espécie de café se estaria realizando naquela manhã em casa de Lexington. Uma verdadeira balbúrdia, provavelmente. Susana Lexington, que fora outrora secretária de seu marido, era notoriamente uma fraca dona de casa, mas a família parecia sempre unida ao realizar algo em conjunto quando o Ministro estava em casa, em Otawa. Pensando em Susana Lexington, Milly lembrou-se de uma coisa que já lhe havia sido observada: as secretárias têm destinos diferentes; algumas vão para a cama e se casam, outras ficam velhas e atormentadas. Até o momento, pensava ela, estava no meio do caminho. Não estou velha, nem tampouco me casei.

Poderia talvez se ter casado, naturalmente, se sua vida tivesse sido menos orientada para a vida de James McCallum Howden...

Havia cerca de doze anos, quando Howden era simples membro obscuro do Parlamento, embora uma figura poderosa e crescendo em prestígio dentro de seu partido, Milly, sua jovem secretária de meio-expediente, apaixonara-se cegamente por ele a tal ponto que ansiava por cada novo dia e pelo deleite de sua proximidade física. Estava então, com seus vinte anos de idade, pela primeira vez fora de sua casa em Toronto, e Otawa oferecia um mundo viril e excitante.

Pareceu ainda mais viril naquela noite em que James Howden, tendo percebido seus sentimentos, a amara pela primeira vez. Ainda agora, dez anos depois, lembrava-se de como tinha sido: caíra a noite; a Câmara dos Comuns suspendera a sessão para o jantar; ela estava separando a correspondência no escritório de Howden no Parlamento quando ele entrou silenciosamente. Sem dizer uma palavra, trancara a porta e, tomando Milly pelos ombros, voltou-a para si. Ambos sabiam que o outro parlamentar que partilhava a sala com Howden estava fora de Otawa.

Howden a beijou e ela correspondeu apaixonadamente, sem fingimento ou restrições, e depois a levou para o sofá de couro do escritório. Ela mesma ficara surpresa com sua paixão excitante, abrasadora, e com a ausência total de inibições.

Foi o início de uma época que em alegria não se comparava a nenhuma outra na vida de Milly, nem antes nem depois. Dia após dia, semana após semana, seus encontros clandestinos eram planejados; inventavam desculpas, aproveitavam de intervalos de minutos... O romance às vezes tomava a forma de um jogo de habilidade. Outras vezes era como se a vida e o amor fossem criados para se devorarem.

A adoração de Milly por James Howden era profunda e abrasadora. Estava menos certa dos sentimentos dele por ela, embora Howden frequentemente os declarasse idênticos aos seus. Mas Milly fechava sua mente às dúvidas, preferindo aceitar agradecida o presente que as circunstâncias tinham criado. Mais cedo ou mais tarde, sabia, chegaria a um ponto crítico do qual não havia mais saída, ou por causa do casamento dos Howdens ou por causa de James Howden ou dela mesma. Sobre o resultado eventual alimentava alguma esperança, vagamente, mas com pouca ilusão.

E não obstante, num determinado momento — quase um ano após o início de seu romance — a esperança parecia mais forte.

Aproximara-se o tempo da convenção em que seria escolhido o líder do partido e uma noite James Howden lhe dissera: “Estive pensando em abandonar a política e pedir o divórcio a Margaret”. Após o primeiro intante de emoção, Milly perguntara se a convenção decidiria se ele Howden, ou Harvey Warrender, conquistaria a liderança que ambos pleiteavam.

— Sim — respondeu Howden, com uma expressão sombria e coçou pensativo seu nariz de bico de águia. — Tenho pensado nisso. Se Harvey vencer, abandonarei a política.

Ela seguira com interesse a convenção, sem ousar pensar na coisa que mais desejava: a vitória de Warrender. Pois se Warrender ganhasse, seu futuro estaria assegurado. Mas se Warrender perdesse e Howden ganhasse, Milly tinha a impressão de que seu romance haveria de se encerrar inevitavelmente. A vida pessoal de um líder partidário a caminho de se tornar Primeiro-Ministro devia ser impecável e fora de qualquer suspeita e escândalo.

No fim do primeiro dia de convenção os números estavam a favor de Warrender. Mas, depois, por algum motivo que Milly nunca compreendeu, Harvey retirou sua candidatura e Howden ganhou.

Uma semana depois, no escritório de Howden no Parlamento, teve fim o romance que ali mesmo começara.

— Tem de ser assim, querida Milly — dissera James Howden. — Não há outro meio.

Milly fora tentada a replicar dizendo que havia outro meio, mas sabia que era perder tempo e esforço. James Howden estava empolgado. Ficara intensamente excitado depois de sua eleição para a liderança do partido e, ainda agora, embora sua emoção fosse autêntica, escondia um pouco de impaciência, como se para afastar o passado para que o futuro pudesse entrar em ação.

— Você permanecerá, Milly? — perguntara.

— Não — respondera, — acho que não terei condição para isso.

Howden assentira compreensivo.

— Não posso dizer que a censuro. Mas se algum dia mudar de ideia...

— Não mudarei — disse Milly. Mas seis meses depois mudara. Após umas férias nas Bermudas e um outro emprego que a entediava, tinha voltado e permanecido. A volta, de início, tinha sido penosa e nunca conseguiu afastar um sentimento do que poderia ter sido. Mas a tristeza e as lágrimas escondidas nunca se transformaram em exasperação e, no fim, o amor se convertera numa generosa lealdade.

Milly às vezes se perguntava se Margaret Howden teria tido conhecimento da intensidade e da duração do amor de quase um ano da secretária de seu marido; as mulheres teriam uma intuição dessa espécie de coisa que falta aos homens. Mas se é que sabia, Margaret prudentemente não dissera nada, nem antes nem depois.

Agora, com sua mente voltada para o presente, Milly fez a chamada seguinte.

Foi para Stuart Cawston, cuja esposa respondeu meio adormecida informando que o Ministro da Fazenda estava debaixo do chuveiro. Milly transmitiu uma mensagem que foi passada adiante e ouviu Stu, o Sorridente, responder com um grito: “Diga a Milly que já vou.”

Adrian Nesbitson, o Ministro da Defesa, foi o seguinte de sua lista e teve de esperar vários minutos até que o velho se arrastasse até o aparelho. Quando lhe falou da reunião, respondeu resignado:

— Se é ordem do chefe, Senhorita Freedeman, tenho de comparecer. Será que não poderia deixar para depois do Natal?

Milly solidarizou-se calorosamente com ele, embora estivesse certa de que a presença ou a ausência de Adrian Nesbitson faria pouca diferença para a espécie de coisa que seria decidida naquela manhã. O que sabia ainda, mas Nesbitson ignorava, era que James Howden pensava em fazer várias mudanças no Gabinete no ano novo e entre os Ministros a serem afastados estaria o atual Ministro da Defesa.

Hoje, pensava Milly, parecia estranho lembrar que o General Nesbitson fora outrora uma figura heroica da nação — um lendário veterano da II Guerra Mundial, muito condecorado e com uma fama de intrepidez, se não de fantasia. Fora Adrian Nesbitson que conduziu uma vez um ataque blindado contra panzers, de pé num jipe aberto, com seu tocador pessoal de gaita escocesa assentado no banco traseiro a tocar.

E tanto quanto são amados os generais, Nesbitson tinha sido amado por todos os homens que lhe serviram.

Depois da guerra, porém, Nesbitson, civil, não teria tido mais nenhuma projeção se James Howden não tivesse precisado de alguém bem conhecido, mas administrativamente fraco, no Ministério da Defesa. O objetivo de Howden, entretanto, tinha sido o de manter a aparência de um corajoso Ministro da Defesa, mas ao mesmo tempo, de controlar ele próprio a Pasta.

Essa parte do plano funcionara muito bem — às vezes, até demais. Adrian Nesbitson, o soldado garboso, estava completamente por fora no terreno dos mísseis e da força nuclear e era excessivamente inclinado a fazer exatamente como lhe era dito sem se dar o trabalho de objetar. Infelizmente, nem sempre compreendera as instruções de seus próprios funcionários e, ultimamente, diante da imprensa e do público, tinha o ar caricatural de um Coronel Blimp cansado e atormentado.

A conversa com o velho militar deprimira Milly. Tomou a encher a xícara de café e se dirigiu ao banheiro para se refrescar um pouco antes de dar os dois telefonemas restantes. Fazendo uma pausa antes de voltar, contemplou-se no espelho comprido sob a luz de uma lâmpada fluorescente. Viu uma mulher alta, atraente, ainda jovem, se fizermos uso da palavra com tolerância, e seios rijos; um pouco cadeiruda também, pensou com um sorriso de crítica. Tinha ainda uma boa ossatura, um rosto bem feito e vigoroso, com as clássicas maçãs ossudas e salientes e sobrancelhas espessas que depilava intermitentemente quando pensava nelas. Tinha olhos grandes, vivos, de cor verde clara e grandes para seu rosto. Um nariz comprido, largo na base, sobrepunha-se a lábios grossos, sensuais. O cabelo castanho escuro era curto. Milly olhava-o com ar de crítica, perguntando-se se já não seria tempo de cortá-lo de novo. Detestava os salões de beleza e preferia lavar, pentear e escovar a seu gosto seu próprio cabelo. Para isso, porém, precisava ser bem cortado, o que parecia ser frequente demais.

O cabelo curto, entretanto, tem uma grande vantagem — a de se poder passar a mão nele, como Milly muitas vezes fazia. James Howden também gostava de fazer isso, como também gostava do velho roupão amarelo que ela ainda usava. Pela vigésima vez decidiu que devia tirá-lo logo.

De volta à sala de estar do apartamento, fez as duas chamadas restantes. Uma foi para Lucien Perrault, Ministro da Produção da Defesa, que se mostrou francamente aborrecido com a chamada tão cedo, e Milly por sua vez ficou irritada quando ponderou que estava cumprindo seu dever. Depois se sentiu um tanto arrependida disso, lembrando-se de que alguém já dissera que o direito de ser irritadiço pela manhã era como a sexta liberdade humana, e na maior parte das vezes Perrault — que era o manto da liderança do Canadá francês — a tratava com muita cortesia.

A última chamada foi para Douglas Martening, Secretário do Conselho Privado e o Solon processual de todas as reuniões do Gabinete. Com Martening, Milly era mais respeitosa do que com os demais. Os Ministros podiam ir e vir, mas o Secretário do Conselho Privado, enquanto no cargo, era o servidor civil mais velho em Otawa. Tinha também a fama de insocial e na maioria das vezes que Milly falava com ele tinha a impressão de quase não tomar conhecimento dela. Mas, hoje, coisa fora do comum, estava melancolicamente parlador.

— Será provavelmente uma longa reunião, entrando talvez pelo Natal adentro.

— Não me surpreenderia, Sir — disse Milly. Depois, conjeturando: — Se acontecer, não deixarei faltar sanduíches de peru.

Martening resmungou e mais uma vez surpreendentemente retrucou:

— Não é de sanduíches que preciso, Senhorita Freedeman. Mas de alguma outra espécie de trabalho em que se possa viver mais um pouco em casa.

Milly depois refletiu: seria um desencanto infeccioso? Estaria o grande Sr. Martening para aderir à debandada de servidores civis que abandonavam as fileiras do Governo para empregos mais compensadores na indústria? A pergunta fez com que pensasse em si mesma. Seria o momento de sair, a hora de mudar antes que fosse tarde demais?

Quatro horas depois ainda se fazia a mesma pergunta, quando os membros da Comissão de Defesa do Governo começaram a chegar ao gabinete do Primeiro-Ministro no Parlamento. Vestida num costume bem feito, de cor cinza, com uma blusa branca, Milly ia-os introduzindo na sala.

O General Nesbitson fora o último a chegar, com sua figura insignificante, atarracada, metido num pesado sobretudo e de cachecol. Ajudando-o a tirá-los, Milly ficou impressionada ao verificar como o velho estava indisposto, e agora, como para confirmar sua impressão, foi tomado de um súbito acesso de tosse.

Milly encheu um copo de água gelada e lhe ofereceu. O velho guerreiro a bebeu, agradecendo com a cabeça. Depois de um intervalo e de outro acesso, conseguiu respirar.

— Desculpe-me, esse maldito catarro. É sempre assim quando passo o inverno em Otawa. Estou acostumado a passar o inverno no sul. Mas não posso ausentar-me daqui agora, com tantas coisas importantes para resolver.

No próximo ano, talvez, pensou Milly.

— Feliz Natal, Adrian — era Stuart Cawston que acabava de entrar, com sua cara feia, mas simpática, sempre brilhante como um anúncio iluminado.

Lucien Perrault falou por detrás dele.

— E olha quem está a fazer esses votos, exatamente quem atravessa nossas almas com a adaga de seus impostos.

Elegante e simpático, cabelos pretos, bigode eriçado e olhar chistoso, Perrault falava o inglês com a mesma fluência que o francês. Às vezes, não agora, seus modos traíam um quê de grandeza, um resquício de seus antepassados senhoriais. Com trinta e oito anos de idade, apesar de ser o membro mais jovem do Governo, sua influência era na realidade muito mais forte do que indicaria seu cargo relativamente obscuro. Mas o Ministério da Produção da Defesa tinha sido escolhido pelo próprio Perrault e por ser um dos três ministérios de favores (sendo os outros, o Ministério de Obras Públicas e o Ministério dos Transportes), que assegurava os melhores contratos para os patrocinadores financeiros do partido, era considerável sua influência na hierarquia partidária.

— Não conserve sua alma tão perto de sua conta bancária, Lucien — respondeu o Ministro da Fazenda. — Em todo caso eu sou o Papai Noel de vocês. Você e Adrian é quem compram os brinquedos mais caros.

— Mas explodem com muito estrondo — disse Lucien Perrault. — Ademais, meu amigo, o Ministério da Produção de Defesa cria trabalho e emprego que lhe proporcionam mais impostos do que nunca.

— Existe uma teoria econômica a propósito — disse Cawston. — Infelizmente nunca pude compreendê-la.

O interfone tocou e Milly atendeu. A voz metálica de James Howden anunciou:

— A reunião será na sala do Conselho Privado. Estarei lá dentro de alguns instantes.

Milly viu o Ministro da Fazenda levantar os sobrolhos um pouco surpreso. A maioria das pequenas reuniões políticas, com exceção das reuniões de todo o Gabinete, realizava-se geralmente e de modo informal no escritório do Primeiro-Ministro. O grupo, porém, obedientemente encaminhou-se através de um corredor para a Sala do Conselho que ficava a alguns metros adiante.

Guando Milly fechou sua porta atrás de Perrault, o último a sair, o carrilhão da Torre da Paz batia onze horas.

Coisa fora do comum, estava perplexa sem saber o que fazer. Havia muito trabalho acumulado, mas na véspera de Natal não tinha disposição para começar nada. Todos os expedientes da época — os telegramas de rotina para a Rainha, para o Primeiro-Ministro da Commonwealth, para os chefes de estado dos países amigos — tinham sido redigidos e datilografados no dia anterior para serem despachados naquele dia. Tudo mais, decidiu, poderia esperar para depois do Natal.

Como seus brincos estivessem incomodando, tirou-os. Eram brincos de pérolas e redondinhos como botões. Nunca gostara de joias e sabia que não a ajudavam em nada. Tudo quanto sabia era que com joia ou sem joia era atraente para os homens, embora nunca compreendesse exatamente por quê...

O telefone de sua mesa tocou e ela atendeu. Era Brian Richardson.

— Milly — disse o presidente do partido, — já começou a reunião do Conselho de Defesa?

— Acabam de entrar na sala.

— Com os diabos! — Richardson parecia sem fôlego, como se tivesse corrido. Abruptamente perguntou: — O chefe lhe disse alguma coisa a respeito da briga de ontem à noite?

— Que briga?

— É claro que não lhe contou. Houve praticamente uma desavença na casa do Governador-Geral. Harvey Warrender perdeu as estribeiras, enxarcado de álcool, suponho.

— Na casa do Governador? Durante a recepção?

— É o que corre pela cidade.

Mas por que o Warrender?

— Estou curioso também — admitiu Richardson.•— Tenho a impressão de que teria sido por causa de um assunto que comentei outro dia.

— Sobre o quê?

— Sobre a imigração. O Ministério de Warrender vem produzindo péssimas manchetes na imprensa. Pedi ao chefe para por um freio nisso.

— E talvez tenha freado demais.

— Não é coisa de se rir, menina. Briga entre Ministros do Governo não ganha eleições. Gostaria de falar com o chefe logo que estiver livre, Milly. Há ainda outra coisa de que pretendo adverti-lo: a menos que Harvey Warrender tome providências imediatas, vamos ter de enfrentar mais um caso de imigração na costa ocidental. Estou sabendo que há um caso fervendo agora mesmo, e isso é muito importante.

— Qual é a dificuldade?

— Recebi um telefonema de meu pessoal ali, esta manhã — disse Richardson. — Parece que o Post, de Vancouver, publicou uma reportagem sobre um inteligente clandestino que reclama não estar sendo tratado com justiça pela Imigração. Diz meu informante que o diabo do repórter enche toda a primeira página de lamúrias. É exatamente o tipo de caso para o qual venho chamando a atenção de todo mundo.

— E vai ser liberado, o clandestino?

— Pelo amor de Deus, quem está falando nisso? — a voz do presidente do partido retiniu no receptor. — Só quero que deixe de ser notícia. Se o único meio de fazer calar os jornais for deixar entrar o miserável, então que entre e acabe com o negócio.

— Puxa! — disse Milly, — como você está violento.

— Se estou — retrucou Richardson, — é porque às vezes fico cheio de tipos estúpidos como Warrender que arranja abacaxis políticos e, depois, eu é que vou descascá-los.

— Além da vulgaridade — disse Milly casualmente, — não seria uma metáfora um tanto exagerada? — ela achava refrescante a rudeza da linguagem e do caráter de Brian Richardson em comparação com a delicadeza profissional e os chavões batidos dos políticos que conhecia. Talvez fosse isso, pensava Milly, que a levara ultimamente a pensar com mais ternura em Richardson — na realidade, muito mais do que sempre pretendera.

Esse sentimento havia surgido seis meses atrás quando o presidente do partido começou a pedir encontros com ela. De início, na incerteza de gostar dele ou não, Milly aceitara os convites por mera curiosidade. Mais tarde, porém, a curiosidade se transformara em amizade e, na noite que, há um mês, terminara no seu apartamento, acabara em atração física.

O desejo sexual de Milly era bastante vigoroso, mas não chegava a ser veemente. Era suficiente, como ela algumas vezes pensava. Conhecera um bom número de homens desde o ano de paixão por James Howden, mas raras e espaçadas tinham sido as ocasiões que terminaram na cama. Eram ocasiões que reservava para aqueles por quem experimentava uma afeição genuína. Nunca adotara a teoria, como outras, de que o debater-se na cama era um gesto de agradecimento pelo programa e talvez fosse essa qualidade de reserva que atraía os homens tanto quanto seu charme sensual, casual. A noite, porém, com Richardson, que terminara surpreendentemente como terminara, pouco contribuiu para satisfazê-la e simplesmente demonstrou que a rudeza de Brian Richardson ia além de sua língua. Depois, achou que se tinha enganado...

Desde então não se tinham encontrado mais e, nesse ínterim, Milly decidira que não se deixaria apaixonar pela segunda vez por um homem casado.

Mas agora a voz de Richardson dizia ao telefone:

— Se fossem todos inteligentes como você, boneca, minha vida seria um sonho. Há quem diga que as relações públicas sejam uma relação sexual entre as massas. Em todo caso, fale com o chefe para me telefonar logo que acabar a reunião, OK? Esperarei no escritório.

— Ele o chamará.

— E Milly?

— Também.

— Que tal um passeio hoje à noite? Digamos, às sete? Houve um silêncio. Em seguida Milly falou em tom de dúvida:

— Não sei.

— Por que não sabe? — a voz de Richardson tinha a entonação prosaica, de quem não pretende ser desconcertado. — Já tem algum compromisso?

— Não — respondeu Milly, — mas... — ela hesitava. — A tradição não manda passar o Natal no lar?

Richardson sorriu, embora fosse um riso falso.

— Se é só o que a preocupa, esqueça-se disso. Posso assegurar-lhe que Eloise já tomou todas as suas previdências para a véspera do Natal e certamente não estou incluído nelas. Na verdade ela lhe deveria agradecer pela garantia de que não me vou intrometer.

Milly ainda hesitou, lembrando-se de sua resolução. Mas agora... vacilava; poderia ser uma longa espera... Procurando ganhar tempo, disse:

— Estaríamos sendo prudentes? As mesas telefônicas têm ouvidos.

— Então não lhes demos tantas deixas — disse Richardson decididamente. — Às sete horas?

— Está bem — respondeu Milly meio indecisa e desligou. Fora de seus hábitos, depois de telefonar, recolocou seus brincos.

Por alguns instantes permaneceu perto da escrivaninha, com o fone na mão, como se a ligação ainda permanecesse. Em seguida, pensativa, dirigiu-se à janela de arcada que dava para o pátio anterior do Parlamento.

Desde a hora que ali chegara o céu tinha escurecido e começara a nevar. Agora, a neve, em flocos brancos e espessos, cobria com um véu branco a Capital da nação. Da janela podia ver o seu centro: a Torre da Paz, fina e alcantilhada contra um céu plúmbeo, dominando sombriamente a Casa dos Comuns e o Senado; as torres góticas e quadradas da Ala Oeste e, atrás, o Edifício da Confederação, arqueado pesadamente como uma espécie de lúgubre fortaleza; o Rideau Club contrastando com sua colunata, com a casa branca de arenito da Embaixada americana; e em frente, a Rua Wellington, com seu tráfego — como sempre — confuso. Às vezes, podia ser um cenário rude, sombrio — simbólico, pensava Milly algumas vezes — do clima e do caráter canadense. Agora, na sua roupagem de inverno, sua rudeza e angularidade já se estavam transformando em serenidade. As previsões tinham-se confirmado, pensou ela. Otawa ia ter um Natal borrascoso.

Seus brincos a incomodavam ainda. Milly, pela segunda vez, os tirou.

 

James Howden, de fisionomia carregada, entrou na sala do Conselho Privado de forro alto e coberta de tapete bege. Os outros —•Cawston, Lexington, Nesbitson, Perrault e Martening — já estavam assentados perto da cabeceira da grande mesa oval com suas vinte e quatro cadeiras de carvalho trabalhado e couro vermelho, cenário das mais importantes decisões que afetaram a história canadense desde a Confederação. Numa pequena mesa à parte, via-se um estenógrafo — um senhor de pequena estatura, modesto, de pince-nez, com um caderno de anotações aberto e uma série de lápis apontados.

À entrada do Primeiro-Ministro os cinco que já estavam fizeram menção de se levantar, mas Howden com um gesto mandou que se assentassem, enquanto se dirigia para uma cadeira de espaldar alto, que parecia um trono, à cabeceira da mesa.

— Podem fumar, se quiserem — disse.

Em seguida, puxou a cadeira, mas permaneceu em pé e em silêncio por alguns instantes. Quando começou a falar, sua voz tinha uma inflexão metódica.

— Convoquei esta reunião e ordenei que fosse realizada nesta sala, meus senhores, por uma razão: para lembrá-los do juramento de sigilo que todos fizeram ao se tomarem Conselheiros Privados. O que é dito aqui é segredo absoluto e assim deve permanecer até o momento adequado, mesmo para os nossos amigos mais íntimos — James Howden fez uma pausa e lançou um olhar para o estenógrafo oficial. — Acho que seria melhor dispensar o registro taquigráfico.

— Perdão, Primeiro-Ministro — era Douglas Martening, com sua cara de coruja por detrás de grandes óculos de aro de chifre. O secretário do Conselho Privado era, como sempre, respeitoso, mas categórico. — Acho melhor que as atas sejam registradas. Isso evita algum desacordo subsequente sobre a exatidão do que foi dito e por quem.

Os olhares de todos convergiram para o taquígràfo que estava cuidadosamente registrando a discussão que girava em torno de sua presença, Martening acrescentou:

— As atas estarão seguras e o Sr. McQuilian, como o senhor sabe, já é depositário de muitos segredos no passado.

— Realmente — a resposta de James Howden foi cordial com um toque da formalidade que lhe era peculiar. — O Sr. McQuilian é um velho amigo — ligeiramente ruborizado, McQuilian levantou as vistas para o Primeiro-Ministro.

— Está bem — concedeu Howden, — a discussão pode ser registrada, mas em face da gravidade do assunto, lembro ao taquígrafo a aplicação da Lei dos Sigilos de Estado. Quero crer que o senhor está a par dessa lei, não está, Sr. McQuilian?

— Sim, senhor — o amanuense registrou conscientemente a pergunta do Primeiro-Ministro e sua própria resposta.

Olhando de relance para todos os presentes, Howden começou a expor seus pensamentos. A preparação da noite anterior tinha-lhe mostrado a sequência dos passos que devia seguir antes da reunião em Washington. O primeiro de todos seria conquistar seus colegas de Governo para seu próprio ponto de vista e era por isso que convocara aquele primeiro grupo inicialmente. Se conseguisse entender-se com eles, haveria de ter então uma boa base para induzir os ministros restantes a endossá-la.

James Howden esperava que os cinco homens que tinha diante de si compartilhariam de sua opinião e veriam claramente os problemas e suas alternativas. Poderia ser um desastre se a reação de elementos medíocres provocasse um atraso desnecessário.

— Não pode haver mais nenhuma dúvida — disse o Primeiro-Ministro, — da intenção imediata da Rússia. Se houvesse qualquer dúvida, os acontecimentos destes últimos poucos meses estariam aí para desfazê-la. A aliança da semana passada entre o Kremlim e o Japão; antes disso, os golpes comunistas na Índia e no Egito e agora os regimes satélites; nossas últimas concessões sobre Berlim; o eixo Moscou-Pequim, com suas ameaças para a Australásia; o aumento das bases de mísseis visa à América do Norte — tudo isso só admite uma equação. O plano soviético de dominação mundial está caminhando para o seu clímax, não em cinquenta ou mesmo vinte anos, como já supusemos outrora comodamente, mas agora, em nossa geração e dentro desta década.

— É claro que a Rússia preferiria vencer sem precisar recorrer à guerra. Mas é igualmente compreensível que o jogo da guerra possa ser empreendido se o Ocidente resistir e os objetivos do Kremlim não puderem ser alcançados por outros meios.

Houve um murmúrio relutante de aprovação. Howden continuou.

— A estratégia russa nunca se preocupou com baixas. Na história, seu descaso pela vida humana tem sido muito menor do que o nosso e estão hoje preparados para não ter medo. Muitas pessoas, naturalmente — aqui e em outras partes do mundo — continuarão a contemporizar, do mesmo modo como se esperou que Hitler um dia deixaria espontaneamente de tragar a Europa. Não estou criticando a esperança, é um sentimento digno de ser cultivado. Mas quanto a nós, não nos podemos permitir esse luxo e devemos planejar, inequivocamente, nossa defesa e a nossa própria sobrevivência.

A essa altura, James Howden lembrou-se das palavras que dissera a Margaret na noite anterior. O que era mesmo que havia dito? Vale a pena sobreviver, porque a sobrevivência significa vida e a vida é uma aventura. Esperava que fosse uma verdade, tanto no futuro como agora.

Continuou.

— O que eu disse, naturalmente, não é novidade. Nem constitui novidade que até certo ponto nossa defesa tem-se integrado na dos Estados Unidos. Mas a novidade está na proposta direta que há cerca de quarenta horas recebi do Presidente dos Estados Unidos, visando uma integração tão importante quanto dramática.

Um vivo interesse já se estampava no olhar de todos os presentes.

— Antes de lhes comunicar a natureza da proposta — disse Howden, medindo as palavras, — há um outro aspecto que precisa ser esclarecido — virou-se para o Ministro do Exterior. — Arthur, pouco antes de eu vir para aqui, pedi sua opinião sobre as atuais relações internacionais. Gostaria que a repetisse.

— Perfeito, Primeiro-Ministro — Arthur Lexington pos em cima da mesa um isqueiro que estivera girando na mão. Sua fisionomia angelical tomou um aspecto de solenidade fora do comum. Olhando em volta, para a direita e para a esquerda, afirmou magistral: — Na minha opinião, a atual tensão internacional é mais grave e mais perigosa do que qualquer outra desde 1939.

As palavras calmas, precisas, traduziam uma certa tensão.

— As coisas estão realmente tão pretas? — perguntou Lucien Perrauit.

— Sim — respondeu Lexington, — estou convencido disso. Concordo que seja difícil de aceitar, pois nos firmamos numa ponta de agulha tão comprida que nos acostumamos com crises como fatos diários. Mas finalmente se chegará a um ponto além do crítico. E acho que já estamos bem perto dele.

— As coisas devem ter sido mais fáceis há cinquenta anos — disse Stuart Cawston lugubremente. Pelo menos as ameaças de guerra eram feitas em intervalos bastantes toleráveis.

— Concordo — havia cansaço na voz de Lexington. — Acho que eram.

— Então uma nova guerra... — a pergunta foi de Perrault, que não a terminou.

— Minha opinião pessoal — disse Arthur Lexington, — é de que, apesar da situação atual, não teremos guerra dentro de um ano. Talvez possa decorrer mais tempo. Como precaução, entretanto, recomendei a meus embaixadores que estejam sempre prontos para incinerar seus documentos.

— Isso é para a antiga espécie de guerra — disse Cawston, — com todas as suas bugigangas diplomáticas — tirou uma bolsa de fumo e um cachimbo que começou a encher.

Lexington encolheu os ombros. E com um sorriso forçado, disse:

— Talvez.

Durante um intervalo calculado, James Howden relaxara seu domínio sobre o grupo. Agora, como que reassumindo o comando, retomou a exposição.

— Minha opinião — disse firmemente o Primeiro-Ministro — é idêntica à de Arthur. Tão idêntica, que ordenei uma imediata ocupação parcial dos postos ds emergência do Governo. Seus ministérios receberão memorandos secretos sobre o assunto dentro de alguns dias — depois de um esforço para respirar, Howden acrescentou severamente: — É melhor cedo demais do que um pouco tarde demais.

Sem esperar qualquer comentário, continuou:

— O que vou dizer em seguida não tem nada de novo, mas convém lembrar qual haverá de ser nossa posição quando começar uma terceira guerra mundial.

Howden examinou os presentes através da nuvem de fumaça que começava a encher a sala.

— No atual estado de coisas, o Canadá não pode enfrentar uma guerra... pelo menos como um país independente... nem podemos ficar neutros. Não temos capacidade para a primeira hipótese, nem situação geográfica para a segunda. Isso não é uma opinião, mas um fato evidente.

Todos os olhos em torno da mesa estavam fixos nos seus. Até aquele momento, observara, não tinha havido nenhum gesto de discordância. Mas poderia vir mais tarde.

— Nossa própria defesa — disse Howden, — tem sido e continua sendo obra exclusiva da natureza. E não é segredo que o orçamento dos Estados Unidos para a defesa do Canadá, embora não seja tão elevado como são os orçamentos de defesa, é muito maior do que o total do nosso próprio orçamento.

Adrian Nesbitson falou pela primeira vez:

— Mas não é por filantropia — disse o velho, asperamente. — Os americanos defenderão o Canadá porque precisam defendê-lo para sua própria salvaguarda. Não temos nenhuma obrigação de lhes sermos gratos.

— Não se trata de obrigação de gratidão — respondeu James Howden imediatamente. — Embora admita, às vezes, que devemos dar graças a Deus por termos dignos amigos, em vez de inimigos, como vizinhos.

— Apoiado, apoiado! — foi Lucien Perrault, com um charuto entre os dentes, apontado airosamente para cima. Agora tirara o charuto da boca e bateu com a mão nos ombros de Adrian Nesbitson que estava a seu lado. — Não se preocupe, colega, eu me encarrego de ser grato por nós dois.

A exclamação e sua origem surpreenderam Howden. Por tradição presumira que a maior oposição a seus planos imediatos deveria vir do Canadá Francês, cujo representante era Lucien Perrault: o Canadá Francês, com seu velho receio de usurpação; sua enraizada desconfiança histórica da influência estrangeira e de alianças. Teria julgado mal? Talvez não; mas era ainda cedo demais para afirmar. Pela primeira vez, porém, estava em dúvida.

— Permitam-me lembrar alguns fatos — mais uma vez a voz de Howden assumiu o tom firme, de comando. — Estamos todos familiarizados com os possíveis efeitos de uma guerra nuclear. Depois de uma guerra dessa espécie, a sobrevivência dependerá de alimentos e da produção de alimentos. A nação cujas áreas agricultáveis forem contaminadas pela precipitação radioativa já terá perdido a batalha pela sobrevivência.

— Muita coisa além dos alimentos será aniquilada — disse Stuart Cawston, sem exibir seu sorriso costumeiro.

— Mas a produção de alimentos é o que mais importa — Howden levantou a voz. — As cidades podem ser reduzidas a ruínas, e muitas o serão. Mas, se depois disso houver uma terra limpa, incontaminada, terra para plantar, então o que sobrar poderá levantar-se das ruínas e recomeçar tudo de novo. Alimentos e terra para produzi-los... é precisamente isso que importa. Viemos da terra e à terra voltaremos. Aí está o caminho da sobrevivência, o único caminho!

Na parede da sala do Conselho Privado pendia um mapa da América do Norte. James Howden atravessou a sala, enquanto todas as cabeças o seguiam.

— O Governo dos Estados Unidos — disse — está convencido de que as áreas agricultáveis devem ser prioritariamente defendidas. Seu plano é proteger as suas a qualquer preço — sua mão correu sobre o mapa. — As regiões leiteiras, o norte do Estado de Nova York, Wisconsin, Minnesota; a cultura mista da Pensilvânia, o cinturão de trigo, as Dakotas e Montana; o milho de Iowa; a pecuária de Wyoming; as culturas especiais: Idaho, o norte de Utah, até o sul; e tudo o mais — Howden abaixou o braço. — Essas regiões serão defendidas em primeiro lugar, depois as cidades.

— Sem nenhuma provisão para as terras canadenses — disse Perrault em voz baixa.

— O senhor está enganado — afirmou James Howden. — Há uma provisão para as terras canadenses. Estão reservadas para campo de batalha.

Mais uma vez voltou ao mapa. Com o indicador de sua mão direita apontou para uma série de pontos na direção do sul do Canadá, partindo da costa atlântica para o interior.

— Eis a linha das plataformas dos mísseis americanos... as plataformas de lançamento de mísseis defensivos e mísseis intercontinentais, com os quais os Estados Unidos protegerão suas áreas agricultáveis. Os senhores as conhecem tão bem como eles, tão bem como qualquer iniciante no serviço secreto da Rússia.

Arthur Lexington murmurou:

— Búfalo, Plattsburg, Presque Isle...

— Exatamente — disse Howden. — Esses pontos representam a ponta de lança da defesa americana e, como tais, constituir-se-ão no primeiro e principal alvo de um ataque soviético. Se esse ataque — pelos mísseis russos — for repelido por intercepção, esta ocorrerá exatamente sobre o Canadá — Howden correu a palma da mão sobre a parte canadense do mapa. — Eis o campo de batalha! Ali, no plano atual das coisas, é que a guerra, será travada — os olhares acompanhavam o movimento de sua mão. Sua trajetória descrevera uma faixa ao norte da fronteira, separando o Oeste agrícola e o interior industrializado do Leste. Dentro dela estavam as cidades de Winnipeg, Fort William, Hamilton, Toronto, Montreal e comunidades menores entre elas. — A precipitação radioativa será mais densa aqui — disse Howden. — Nos primeiros dias da guerra podemos contar com o desaparecimento de nossas cidades e nossas áreas agricultáveis tornar-se-ão envenenadas e inúteis.

Do lado de fora o carrilhão da Torre da Paz tocava o quarto de hora. Dentro da sala só a respiração pesada de Adrian Nesbitson quebrava o silêncio, e o ruído do papel quando o taquígrafo passava a página de seu caderno. Howden se perguntava em que estariam pensando, se é que estavam pensando em alguma coisa; e se estivessem, a menos que previamente condicionado, haveria entre eles alguém capaz de compreender exatamente a importância do que estava sendo dito? Quanto a isso, poderia algum deles compreender realmente, antes de acontecer, a sequência dos fatos futuros?

O sistema fundamental, naturalmente, era de uma simplicidade aterradora. A menos que ocorresse um acidente de alguma sorte, ou um falso alarme, os russos, quase com certeza, serão os primeiros a disparar. Quando o fizerem, a trajetória de seus mísseis será descrita exatamente sobre o Canadá. Se os sistemas conjuntos de alarme funcionarem com eficiência, o comando americano terá um aviso prévio do ataque vários minutos antes — o tempo suficiente para lançar seus próprios mísseis defensivos de pouco alcance. A série inicial de intercepções ocorreria, na melhor das hipóteses, à altura do norte dos Grandes Lagos, no sul de Ontário e de Quebec. As armas de curto alcance americanas não teriam ogivas nucleares, mas as soviéticas as teriam, e explodiriam pelo contato. Por conseguinte, o resultado de cada intercepção bem sucedida seria uma explosão de hidrogênio que tornaria, em comparação, a bomba atômica de Hiroshima insignificante e arcaica. E por baixo de cada explosão — seria demasiado otimismo esperar que fossem simplesmente uma ou duas, pensava Howden — estender-se-iam cerca de doze mil quilômetros quadrados de devastação e radioatividade.

Imediatamente, em sentenças concisas e claras, transformou essas imagens em palavras.

— Como os senhores podem ver — concluiu, — as possibilidades de nossa sobreviência como uma nação atuante não são muito alentadoras.

Voltou o silêncio. Dessa vez Stuart Cawston o rompeu, falando calmamente.

— Eu sei disso tudo. Acho que todos sabemos. E não obstante nunca encaramos a realidade... o senhor disse a coisa como é; outras coisas desviam a atenção... talvez porque queremos que interfiram...

— Temos todos alguma culpa — disse Howden. — A questão é: podemos enfrentá-la agora?

— O senhor se referiu a um “a menos que” não foi? — dessa vez foi Lucien Perrault, com seus olhos profundos a indagar curioso.

— Sim — respondeu Howden. — Há um “a menos que” — lançou um olhar sobre os outros e depois encarou Perrault. Tinha a voz firme. — Tudo que descrevi ocorrerá inevitavalmente a menos que prefiramos, sem tardança, fundir nossa nação e sua soberania com a nação e a soberania americanas.

A reação foi instantânea.

Adrian Nesbitson pôs-se de pé e bradou:

— Nunca! Nunca! Nunca! — estava roxo de raiva.

A expressão de Cawston foi de escândalo.

— Seriamos condenados à execração pública!

Douglas Martening, perplexo, perguntou:

— Primeiro-Ministro, o senhor considerou seriamente... — a sentença não pode ser terminada.

— Silêncio! — Lucien Perrault com o punho fechado bateu em cima da mesa. Assustados, todos se calaram. Nesbitson acalmou-se. A expressão de Perrault assumiu um aspecto ameaçador. Bem, pensava Howden, perdi Perrault e com ele se vai toda minha esperança de unidade nacional. Quebec — o Canadá Francês — ficará de fora. Tem sido sempre assim. Quebec era uma rocha — inamovível, escarpada — sobre a qual outros governos soçobraram no passado.

Poderia convencer os outros hoje, ou a maioria deles; continuava a acreditar nessa possibilidade. A lógica anglo-saxônia veria no fim o que tinha de ser visto e, depois, o Canadá Inglês sozinho poderia ainda lhe proporcionar a força de que precisava. Mas a divisão seria profunda, com amargura e luta, e as cicatrizes nunca seriam apagadas. Esperou que Lucien fosse retirar-se.

Em vez, disse Perrault:

— Quero ouvir o resto — e acrescentou carrancudo: — E sem o choro das viúvas.

James Howden mais uma vez ficou admirado. Mas não perdeu tempo.

— Há uma proposta que, na eventualidade de uma guerra, poderia mudar nossa situação. É uma proposta muito simples. Trata-se de transferência de plataformas de mísseis americanos — mísseis intercontinentais e mísseis de pouco alcance — para o norte do Canadá. Se isso fosse feito, uma grande quantidade de precipitação radioativa de que falei ocorreria sobre uma terra desabitada.

— E os ventos? — perguntou Cawston.

— É verdade — reconheceu Howden. — Se os ventos soprarem do norte, não escaparemos de um certo grau de precipitação. Mas lembrem-se de que nenhum país sairá ileso de uma guerra nuclear. O máximo que podemos esperar é a redução de seus piores efeitos.

Adrian Nesbitson protestou:

— Já cooperamos...

Howden cortou a frase do idoso Ministro da Defesa.

— O que temos feito são meias medidas, medidas paliativas, contemporizadoras! Se a guerra estourasse amanhã, nossos medíocres preparativos seriam insignificantes! — alteou a voz. — Somos vulneráveis e virtualmente indefesos, e seríamos esmagados e devastados como a Bélgica tem sido devastada nas grandes guerras da Europa. Na melhor das hipóteses, transformar-nos-íamos num campo de batalha nuclear, nossa nação seria totalmente destruída e nossas terras ficariam estéreis durante séculos e séculos. Não obstante, isso não é inevitável. O tempo é curto. Mas se formos rápidos, honestos e acima de tudo realistas, poderemos sobreviver, aguentar e, talvez, quem sabe, chegar a uma grandeza com a qual nunca sonhamos.

O Primeiro-Ministro parou, suas próprias palavras o comoviam. Experimentou momentaneamente um sentimento de ansiedade, de estímulo na sua própria liderança, diante da perspectiva dos grandes acontecimentos que se delineavam no futuro. Talvez, pensava ele, fosse assim que Winston Churchill se sentia quando impelia outros para o destino e para a grandeza. Por um momento considerou o paralelo entre Churchill e ele. Seria tão obscuro? Alguns, supunha, poderiam não o ver agora, embora mais tarde não pudessem deixar de o reconhecer.

— Falei de uma proposta, de uma proposta que me fez o Presidente dos Estados Unidos há quarenta e oito horas — James Howden fez uma pausa. Em seguida, disse em termos claros e firmes: — A proposta de um solene ato de união entre nossos dois países. Seus termos incluiriam a responsabilidade total dos Estados Unidos pela defesa canadense; a dissolução das Forças Armadas do Canadá e seu recrutamento imediato pelas forças americanas sob um comando conjunto da Aliança; a abertura de todo o território canadense como parte da área de manobra militar dos Estados Unidos; e — o mais importante — a transferência, o mais rápido possível, de todas as plataformas da lançamentos de mísseis para o extremo norte do Canadá.

— Meu Deus! — disse Cawston. — Meu Deus!

— Um momento — disse Howden. — Isso não é tudo. O ato de união, conforme proposto, proviria também uma união tarifária e a condução conjunta dos negócios internacionais. Mas, fora dessas áreas, e as outras que nomeei especificamente, nossa entidade e independência nacionais permaneceriam intactas.

Deu um passo para frente e colocou as pontas dos dedos em cima da mesa oval. Falando pela primeira vez com emoção, disse:

— É, como os senhores veem logo, uma proposta ao mesmo tempo terrível e drástica. Posso, porém, lhes garantir que a considerei cuidadosamente, encarando todas as suas consequências e, na minha opinião, é o único recurso se quisermos sobreviver, como nação, a uma guerra futura.

— Mas por que tem de ser assim? — a voz de Stuart Cawston era nervosa. Nunca o Ministro da Fazenda parecera mais perturbado ou perplexo. Era como se o velho mundo se estivesse desmoronando em torno dele. Bem, pensava Howden, está-se desmoronando para todos nós. Cada mundo tem o seu modo de chegar a isso, embora cada homem pense que seu próprio mundo esteja em segurança.

— Porque não existe nem outro meio nem outra ocasião! — Howden formava as palavras como a crepitação de uma metralhadora. — Porque a preparação é vital e temos trezentos dias e talvez, queira Deus, um pouco mais, mas não muito. Porque a ação deve ser corajosa! Porque o tempo de timidez já acabou! Porque até agora, em toda reunião do conselho conjunto de defesa, o espectro do orgulho nacional tem-nos assediado e paralisado toda decisão, e nos perseguirá e nos paralisará ainda mais se tentarmos correr mais perigo e improvisar! O senhor me pergunta — por que deve ser assim? Repito-lhe: porque não há outra saída.

Agora, serenamente, no seu melhor tom de conciliador, falou Lexington.

— Tenho para mim que o que nós todos gostaríamos mais de saber é se poderíamos permanecer como uma nação sob esse acordo ou se seriamos simplesmente um satélite americano — uma espécie de quinquagésimo primeiro estado não registrado. Uma vez renunciado o controle de nossa política externa, como aconteceria, quer declarássemos ou não, seria necessário muito tempo para nos acostumarmos a isso.

— Caso viesse a se realizar esse acordo, que não acho muito provável — disse Lucien Perrault pausadamente, com seus olhos pretos e sorumbáticos fixos em Howden, — haveria, naturalmente, um termo específico.

— O período sugerido é de vinte e cinco anos — disse o Primeiro-Ministro. Haveria, naturalmente, uma cláusula segundo a qual o ato de união poderia ser dissolvido por um acordo mútuo, embora não por um só dos contratantes. Quanto a isso, seria necessário uma boa dose de confiança... sim, teríamos certamente de agir assim. A questão é: em que preferimos confiar... numa vã ilusão de que a guerra não ocorrerá, ou na palavra dada de um vizinho e aliado cujo conceito de ética internacional é de certo modo igual ao nosso.

— Mas o país! — disse Cawston. — Poderíamos jamais convencer o país?

— Sim — respondeu Howden. — Acredito que poderíamos.

Continuou a lhes explicar por que: o método que havia imaginado; a oposição que esperava; o plebiscito sobre a questão pela qual deveriam lutar e vencer. A conversa continuou. Passou de uma hora, duas, duas e meia. O café tinha sido servido, mas a não ser por breve espaço de tempo, a discussão não foi interrompida. Os guardanapos de papel que acompanhavam o café traziam o desenho de azevinho, observou Howden. Parecia um lembrete singular — de que o Natal estava apenas a algumas horas. O nascimento de Cristo. O que ele nos ensinava era tão simples, pensava Howden: que o amor é o único sentimento digno — um ensinamento lógico e certo, quer se acreditasse no Cristo como o Filho de Deus, ou em Jesus, como um homem santo e mortal. Mas o animal humano nunca acreditara no amor — no amor puro — e jamais acreditaria. Corrompera a palavra de Cristo com preconceitos, e suas igrejas o ofuscaram; e assim estamos aqui, pensava Howden, fazendo o que estamos fazendo numa véspera de Natal.

Stuart Cawston estava a encher de novo seu cachimbo talvez pela décima vez. Perrault tinha esgotado seus charutos e fumava agora os cigarros de Douglas Martening. Arthur Lexington — que como o Primeiro-Ministro não fumava — abrira uma janela por alguns instantes, mas logo teve de fechá-la por causa da corrente de ar. Um manto de fumaça estendia-se sobre a mesa oval e, como a fumaça, havia um sentimento de irrealidade. Parecia impossível o que estava acontecendo; não podia ser verdade. E, não obstante, James Howden, pouco a pouco, podia sentir que a realidade ia-se impondo, que a convicção dela já se apoderara dos outros, como já se tinha apoderado dele.

Lexington estava com ele; para o Ministro do Exterior não havia nada de novo no que tinha sido dito. Cawston vacilava. Adrian Nesbitson ficara a maior parte do tempo caíado, mas não podia contar com o velho. Douglas Martening de início tinha ficado perplexo, mas afinal de contas era funcionário público e finalmente teria de fazer o que lhe fosse ordenado. Restava Lucien Perrault — sua oposição era esperada, mas até o momento não se tinha declarado.

O secretário do Conselho Privado disse:

— Haveria vários problemas constitucionais, Primeiro-Ministro — seu tom de voz era de desaprovação, mas muito moderada, como se estivesse objetando contra alguma mudança acidental de regime.

— Resolvê-los-emos então — disse Howden decisivamente. — Eu, por exemplo, não pretendo aceitar o aniquilamento só porque certos recursos não estão previstos no regulamento.

— Quebec — disse Cawston, — nunca conseguiríamos arrastar Quebec.

Chegara o momento.

— Devo admitir que a dificuldade já me ocorreu — disse James Howden calmamente.

Todos os olhares se voltaram para Lucien Perrault — Perrault, o eleito, o ídolo e porta-voz do Canadá Francês. Como outros fizeram antes dele — Laurier, Lapointe, St. Laurent — ele sozinho nas duas eleições anteriores fez pender a força de Quebec a favor do Governo Howden. E atrás de Perrault vinham três séculos de história: Nova França, Champlain, o Governo Real de Luiz XIV, a conquista britânica — o ódio dos franceses aos seus conquistadores. O ódio desaparecera com o tempo, mas a desconfiança — bilateral — nunca. Duas vezes, nas guerras do século XX que envolveram o Canadá, suas disputas dividiram o país. A transigência e a moderação têm salvado uma difícil unidade. Mas agora...

— Parece que não há necessidade de falar — disse Perrault agastado. — Parece que vocês, meus colegas, estão em conexão com minha mente.

— É difícil ignorar os fatos — disse Cawston. — Nem a História.

— A História — disse Perrault em voz baixa e depois bateu a mão em cima da mesa que tremeu. A indignação fez aumentar o tom de sua voz. — Ninguém lhes contou que a História evolui, que as mentes progridem e mudam, e que as divisões não duram sempre? Ou vocês dormiram, dormiram enquanto as mentes mais esclarecidas amadureceram?

A mudança na sala foi instantânea. As palavras surpreendentes caíram como um raio.

— Como vocês nos consideram, a nós de Quebec? — perguntou Perrault excitado. — Sempre como camponeses, tolos e analfabetos? Somos ignorantes, cegos e indiferentes a um mundo em evolução? Não, meus amigos, somos mais sabidos do que vocês e menos bestificados por aquilo que se chama passado. Se for necessário fazer isso, será feito com angústia. A angústia não é coisa nova para o Canadá Francês; nem o realismo tampouco.

— Bem — disse Stuart Cawston com serenidade, — nunca se pode saber para que lado vai pular o gato.

Era o que estava faltando. A tensão, como se por um passe de mágica, dissolveu-se numa gargalhada geral. Um barulho de cadeiras sendo recuadas. Perrault, chorando de tanto rir, deu um vigoroso tapa nas costas de Cawston. Somos um povo esquisito, pensava Howden: uma mistura imprevisível de mediocridade e de gênio, de quando em vez com lampejos de grandeza.

Talvez seja o meu fim — Lucien Perrault encolheu os ombros, num gesto gálico de indiferença. — Mas apoiarei o Primeiro-Ministro e talvez possa persuadir outros.

Era uma obra-prima da moderação e Howden sentia crescer, aumentar seu sentimento de gratidão.

Só Adrian Nesbitson permaneceu calado na última discussão. Agora, com sua voz surpreendentemente forte, disse o Ministro da Defesa:

— Se os senhores pensam dessa maneira, por que parar em meias medidas? Por que não nos vendermos por completo aos Estados Unidos? — cinco cabeças voltaram-se simultaneamente na sua direção.

O velho estava inflamado, mas continuou com pertinácia:

— Sou de opinião de que devemos manter nossa independência, custe o que custar.

— Até o ponto, sem dúvida, de repelir uma invasão nuclear — disse James Howden em tom glacial. Depois de Perrault, as palavras de Nesbitson caíram como uma ducha de água fria. Agora, com uma indignação controlada, Howden acrescentou: — Ou talvez o Ministro da Defesa disponha de meios que ainda desconhecemos.

Com amargura íntima, Howden lembrou-se de que esse era um exemplo típico da estupidez obtusa, cega, que teria de enfrentar nas próximas semanas. Por alguns instantes imaginou outros Nesbitsons que haveria de ter pela frente: soldadinhos de papelão com penachos envelhecidos e desbotados, uma cavalgada de nacionalistas românticos caminhando cegamente para o esquecimento. Era irônico, refletia, que devesse gastar sua inteligência para convencer tolos como Nesbitson da necessidade de se salvar.

Havia um silêncio incômodo. Não era segredo entre os membros do Governo que ultimamente o Primeiro-Ministro não estava muito satisfeito com seu Ministro da Defesa.

— Este Governo no passado — continuou Howden, dirigindo suas palavras diretamente a Adrian Nesbitson, num tom frio, — preocupou-se principalmente com a manutenção de nossa independência nacional. E sempre tornei público meu pensamento a respeito — houve um murmúrio de assentimento — A decisão pessoal a que acabo de chegar não foi fácil e acho que posso dizer que ela requer um pouco de coragem. O caminho fácil é o caminho temerário que muitos podem conceber como coragem, mas, no fim, seria a maior covardia — à palavra “covardia” o General Nesbitson ficou vermelho como brasa, mas o Primeiro-Ministro não tinha terminado. — Há mais ainda. Quaisquer que sejam nossas discussões nas próximas semanas, não espero ouvir entre os membros deste Governo, expressões grosseiras como “vender-se aos Estados Unidos”.

Howden tivera sempre domínio sobre seu Gabinete, repreendendo às vezes a incontinência verbal de seus ministros e nem sempre em caráter particular. Mas nunca sua indignação chegara àquele ponto.

Os outros ministros olhavam constrangidos para Adrian Nesbitson.

De início pareceu que o velho guerreiro ia rebater. Moveu-se para frente em sua cadeira, com o rosto vermelho de raiva. Começou a falar. Em seguida, de repente, como uma mola velha que se rompe, Nesbitson moderou-se visivelmente, tornando-se mais uma vez o homem ultrapassado, inseguro e desatualizado entre problemas que estavam longe demais de sua própria experiência. Murmurando algumas palavras a respeito, “Talvez tenha sido mal entendido... uma frase infeliz,” recolheu-se em sua cadeira, desejoso de não ser mais objeto de atenção.

Como se por comiseração, Cawston apressou-se em dizer:

— A união tarifária teria uma grande atração do nosso ponto de vista, desde que tivéssemos mais a ganhar.

— Quando os outros se voltaram para ele, o Ministro da Fazenda fez uma pausa, avaliando com sua astúcia as possibilidades. Então continuou: — Mas qualquer acordo deveria ir muito mais longe do que isso. Afinal de contas, os americanos ao comprarem sua defesa estão também comprando a nossa. Deve haver garantias para a industrialização, para a ampliação de nossas indústrias...

— Nossas exigências não serão pequenas e pretendo tornar isso claro em Washington — disse Howden. — Em qualquer tempo que nos restar deveremos reforçar nossa economia, de modo que depois da guerra possamos emergir mais fortes do que qualquer um dos principais contendores.

Cawston observou em voz baixa:

— Poderia ser assim. No final das contas poderia realmente ser assim.

— Há ainda outra coisa — disse Howden. — Outra exigência ... a maior de todas... que pretendo fazer.

Houve um silêncio que Perrault rompeu.

— Estamos ouvindo atentamente, Primeiro-Ministro. O senhor falou de outra exigência.

Arthur Lexington estava brincando com um lápis, pensativo.

Não ousaria lhes dizer, decidiu Howden. Pelo menos por enquanto. O conceito era grande demais, ousado demais e de certo modo absurdo. Lembrou-se da reação de Lexington no dia anterior numa conversa privada, quando o Primeiro-Ministro lhe revelou seus pensamentos. O Ministro do Exterior objetara: “Os americanos nunca concordariam. Nunca.” E James Howden respondera serenamente: “Se estiverem muito desesperados acredito que aceitarão.”

Agora, estava na frente dos outros, resoluto.

— Não lhes posso dizer — disse taxativamente, — a não ser que se essa exigência fosse satisfeita haveria de ser a maior realização do Canadá neste século. Além disso, até depois do encontro na Casa Branca, peço que confiem em mim — levantando sua voz, disse em tom de comando: — Os senhores confiaram sempre em mim. Peço que continuem a me dispensar a mesma confiança.

Ao redor da mesa as cabeças iam assentindo sucessivamente.

Observando isso, Howden experimentou o começo de uma nova exultação. Via que todos estavam com ele. Pela persuasão, lógica e força de liderança tinha defendido seu ponto de vista e vencido. Fora o primeiro teste, e o que fizera uma vez poderia ser feito em qualquer outra parte.

Só Adrian Nesbitson permanecia quieto e calado, com os olhos baixos, com seu rosto sulcado numa expressão sombria. Lançando um olhar sobre a mesa, Howden sentiu renascer a raiva. Muito embora Nesbitson pudesse ser um tolo, como Ministro da Defesa precisava de seu apoio específico. Em seguida a raiva foi passando. Poderia prontamente se desfazer do velho que, demitido, não incomodaria mais.

 

Senador Richard Deveraux

O Post, de Vancouver, um jornal que não era dado a comprometimentos decorosos, tinha dispensado um tratamento cheio de interesse humano à reportagem de Dan Orliffe sobre o pretenso imigrante Henri Duval. A reportagem ocupou o canto esquerdo superior da primeira página em todas as edições da véspera de Natal, só sendo suplantada por um crime sexual ocorrido no dia anterior e que predominava como notícia no jornal.

Um título de quatro colunas dizia:

Pária do Oceano Sem Lar

Tem Natal Desolado e Solitário

Embaixo, também em quatro colunas e quarenta linhas, vinha uma fotografia do jovem clandestino de costas para um escaler. Coisa rara numa fotografia de imprensa, a câmera registrara uma profundeza de expressão que a revelação grosseira do jornal não apagara inteiramente; combinava uma sugestão de ansiedade e de algo próximo da inocência.

O efeito da reportagem e da fotografia foi de tal monta, que o diretor do jornal rabiscou sobre a prova: “ótimo, não deixe esfriar,” e a enviou ao redator. O redator telefonou para Dan Orliffe que se encontrava em casa e lhe disse:

— Dan, procure descobrir um novo ângulo para quinta-feira, e veja o que pode conseguir do pessoal da Imigração além da Polícia. Parece que a coisa vai despertar muito interesse.

Em Vancouver o interesse começou muito cedo e se estendeu pelo dia de Natal. Na cidade e em seus arredores, o clandestino do Vastervik era o assunto principal das conversações nas casas, nos clubes e nos bares. Uns se comoviam com o drama do jovem, outros se referiam enraivecidos ao “diabo da burocracia” e à sua “desumanidade.” Trinta e sete telefonemas, uma hora depois da publicação, elogiaram o Post pela iniciativa de chamar a atenção do público para o assunto. Como acontece nessas ocasiões, todas as chamadas foram cuidadosamente registradas, de modo que depois os anunciantes pudessem ver a extensão do impacto de um furo típico do Post.

Houve outras demonstrações. Cinco locutores locais referiram-se com simpatia ao assunto, dedicando um deles uma gravação de Noite Feliz a Henri Duval, “caso nosso amigo dos sete mares esteja ouvindo a estação mais popular de Vancouver”. Em Chinatown, entre aplausos, uma dançarina dedicou seu strip-tease “ao moço solitário do navio”. E nos púlpitos, pelo menos oito sermões de Natal foram revistos às pressas, para incluir uma referência ao “estranho que está dentro de nossas portas”.

Quinze pessoas se emocionaram o suficiente para escrever cartas ao redator, das quais quatorze foram depois publicadas. A décima quinta, muito incoerente, explicava o incidente como parte de um complô de infiltração do espaço exterior, apontando Duval como um agente marciano. Com exceção da última, a maioria dos missivistas estava de acordo em que algo teria de ser feito por alguém, mas não eram bastante claros quanto a que e por quem.

Alguns tomaram iniciativas práticas. Um oficial do Exército de Salvação e um padre católico prometiam visitar Henri Duval e de fato o visitaram. A elegante viúva de um rico ex-explorador de ouro fez pessoalmente um embrulho de alimentos e cigarros e o enviou ao Vastervik no seu Cadillac branco dirigido por um motorista uniformizado. Pensando melhor, mandou também uma garrafa do uísque favorito de seu falecido consorte. O chofer, de início, pensou em roubá-la, mas, no caminho, descobrindo tratar-se de uma marca muito inferior à de sua preferência, tornou a embrulhar a garrafa e a entregou como lhe fora recomendado.

Um negociante de aparelhos elétricos, desesperadamente atormentado por uma provável falência, tirou um rádio portátil novo de seu estoque e, sem saber por que, escreveu o nome de Duval na caixa e a enviou para bordo. Um idoso ferroviário aposentado encurvado pelo peso dos anos, que se remediava com uma pequena soma mensal que mal lhe bastaria se o custo de vida tivesse permanecido no nível de 1940, meteu dois dólares num envelope e os pos no correio aos cuidados do Post, para serem entregues ao clandestino. Um grupo de motoristas de ônibus, tendo lido o Post antes de ir para o trabalho, fez uma coleta de sete dólares e trinta centavos correndo um quepe do uniforme. O dono do quepe foi levá-los pessoalmente a Duval, na manhã de Natal.

A notícia espalhou-se para além de Vancouver.

A primeira reportagem apareceu na edição do Post, às 10 da manhã do dia 24 de dezembro. Por volta das l0hl0m o serviço telegráfico da Canadian Press tinha reescrito e condensado o artigo e o tinha transmitido à imprensa e às estações de rádio do Oeste. Outro serviço telegráfico transmitira a notícia aos jornais do Leste e a CP em Toronto a encaminhara à Associated Press e a Reuters em Nova York. As agências americanas, carentes de notícias durante os dias de Natal, enfeitaram um pouco mais a história e a espalharam pelo mundo afora.

O Star, de Johannesburg, dispensou uma polegada ao artigo e o Europa Press, de Estocolmo, a quarta parte de uma coluna. O Daily Mail o noticiou em quatro linhas e o Times of Índia fez um editorial. O Herald, de Melboume, destacou um parágrafo, do mesmo modo que La Prensa, de Buenos Aires. Em Moscou, o Pravda citou o incidente como um exemplo da “hipocrisia capitalista”.

Em Nova York, o representante peruano nas Nações Unidas soube do caso e ameaçou convocar a Assembleia-Geral se nada pudesse ser feito. Em Washington, o Embaixador da Inglaterra soube da história e ficou horrorizado.

A notícia chegou a Otawa no começo da tarde, ainda em tempo para sair nas últimas edições dos dois vespertinos da Capital. O Citizen trouxe na primeira página o despacho da CP e o enfeitou:

Homem Sem Pátria Implora “Deixe-me Entrar”

O Jornal, mais ponderado, trazia o caso na terceira página sob o título:

Clandestino de Navio Pede para Entrar no País.

Brian Richardson, que estivera meditando sobre o problema que o partido haveria de enfrentar quando as propostas secretas de Washington viessem finalmente à luz, leu ambos os jornais no seu escritório mal mobiliado na Sparks Street. O presidente do partido era um homem alto, de compleição atlética, olhos azuis, cabelo ruivo e bochechas rosadas. Sua expressão traduzia quase sempre um ceticismo divertido, mas podia irar-se facilmente e havia nele um sentido de força latente. Nesse momento seu corpo pesado, de ombros largos, estava deitado numa cadeira com ambos os pés em cima de uma secretária em desordem e um cachimbo apertado entre os dentes. O escritório estava vazio e silencioso. Seu substituto, assim como os secretários, pesquisadores e escriturários que formavam a importante equipe da sede do partido, há muito tempo já tinham ido para casa, alguns carregando pacotes de Natal.

Tendo passado a vista nos dois jornais, voltou ao artigo sobre o clandestino. A longa experiência proporcionara a Richardson um faro especial para descobrir dificuldades políticas e esse faro agora estava em ação. Comparado com os problemas maiores que estavam pendentes, sabia que a matéria não tinha muita importância; mas de outro lado, era a espécie de coisa que o público tinha probabilidade de pegar. Suspirou: havia épocas em que as dificuldades pareciam não ter mais fim. Desde a manhã daquele dia que telefonara para Milly, não conversara mais com o Primeiro-Ministro. Aborrecido, jogou os jornais para um lado, tornou a encher o cachimbo e mais uma vez se acomo+dou para esperar.

 

A menos de quinhentos metros de Brian Richardson, dentro do sacrossanto claustro do Rideau Club na Wellington Street, o Senador Richard Deveraux, que estava matando o tempo à espera da hora de voo de um avião a jato para Vancouver, leu também ambos os jornais. O Senador colocou seu charuto num cinzeiro e sorridente destacou das páginas dos vespertinos a reportagem sobre o clandestino. À diferença de Richardson, que esperava ardentemente que o caso não trouxesse piores consequências para o Governo, o Senador — chefe do partido da oposição — estava feliz e confiante, certo das dificuldades que se poriam para o Governo.

O Senador Beveraux tinha-se inteirado da notícia na sala de leitura do Rideau Club — uma sala quadrada e majestosa que dava para o Parlamento e a cuja entrada via-se um austero busto de bronze da Rainha Vitória. Para o velho Senador, tanto a sala de leitura como o próprio clube era um ambiente bastante familiar.

O Rideau Club de Otawa (como seus membros às vezes o chamavam), é tão reservado e discreto que nem mesmo seu nome aparece do lado de fora do prédio. Um pedestre ao passar por sua porta jamais tomaria conhecimento de sua existência, a menos que lhe dissessem e, se fosse curioso, poderia tomá-lo por uma mansão particular, embora um tanto mal cuidada.

No interior do clube, em cima de um saguão de entrada, reforçado com pilares e uma escada ampla e dividida, a atmosfera é rarefeita. Não há regra sobre o silêncio, mas na maior parte do dia predomina um silêncio sepulcral e os membros mais novos procuram falar em voz baixa.

O Rideau Club, embora não seja partidário, é composto da elite política de Otawa — ministros de estado, juízes, senadores, diplomatas, chefes militares, altos funcionários civis, alguns jornalistas credenciados e alguns poucos representantes no Parlamento que se podem dar ao luxo de despesas elevadas. Mas, apesar da política não-partidária, ali se faz muita política. Na verdade, algumas das principais decisões que afetam o desenvolvimento do Canadá tem sido formuladas, entre bebidas e charutos, pelos sócios do Rideau Club, afundados em suas poltronas de couro vermelho, como agora se encontrava o Senador Deveraux.

Aos setenta e poucos anos, Richard Borden Deveraux era uma figura imponente — alto, ereto, com olhos claros e uma robustez sadia que adquirira numa vida inteiramente isenta de exercícios. Sua barriga era suficientemente grande para se fazer notar, mas não chegava a ser ridícula. Suas maneiras tinham um misto de franqueza rude e de intimidação que produzia resultados, mas raramente ofendia. Era prolixo e dava a impressão de não ouvir, embora, na realidade, quase nada lhe escapasse. Tinha prestígio, influência e uma enorme riqueza proveniente de um império madeireiro no oeste canadense legado por um Deveraux mais antigo.

Agora, levantando-se de sua cadeira, o Senador encaminhou-se, com um charuto na boca, para um dos dois modestos telefones — linhas de ligação direta — no fundo do clube. Discou duas vezes para conseguir falar com a pessoa que procurava. Na segunda chamada localizou o Deputado Bonar Deitz, líder da oposição parlamentar. Deitz estava no seu escritório do Bloco Central do Parlamento.

— Bonar, meu jovem — foi dizendo o Senador Deveraux, — estou edificado, se não surpreso, com tanta assiduidade até numa véspera de Natal.

— Estava escrevendo umas cartas — respondeu Deitz laconicamente. — Já estou indo para casa.

— Excelente! — gritou o Senador. — Pode fazer uma paradinha aqui no clube? Há uma novidade que gostaria de comentar com você.

Houve o começo de um protesto do outro lado da linha, logo interrompido pelo Senador.

— Ora, meu jovem, você não tem razão, se é que deseja que nosso partido ganhe as eleições e faça de você o Primeiro-Ministro, em vez daquele cabeça de vento, James Howden. E você quer ser Primeiro-Ministro, não quer? — a voz do Senador assumiu o tom de carícia. — Bem, haverá de ser meu caro Bonar, não tenha receio. Não demore. Estou esperando.

O Senador, sorridente, encaminhou-se para uma cadeira na sala principal do clube, já maquinando a maneira de tornar proveitosa para a Oposição a notícia que acabara de ler. Não demorou para que se formasse por cima dele uma nuvem de fumaça dos charutos que nunca deixava de fumar quando se entregava ao seu favorito exercício mental.

Richard Deveraux nunca fora um estadista, nem quando jovem nem agora velho, e tampouco um sério legislador. Seu terreno preferido era a manipulação política que exercera em toda sua vida. Comprazia-se no exercício de um poder semi-anônimo. Dentro de seu partido tinha ocupado poucos cargos eletivos (seu mandato atual como presidente da organização foi uma surpreendente exceção), não obstante, nos assuntos partidários gozava de uma autoridade como muito poucos antes dele. Não havia nada de estranho nisso. Baseava-se simplesmente em dois fatores — a natural sagacidade política que no passado tomara seu parecer muito procurado, e o uso judicioso do dinheiro.

Com o tempo, e durante um de seus períodos no poder no seu próprio partido, essas duas atividades proporcionaram a Richard Deveraux a suprema recompensa dispensada a um fiel membro do partido — uma indicação vitalícia para o Senado do Canadá, cujos membros já foram descritos com exatidão por um de seus próprios integrantes como “a mais alta classe de pensionistas do Canadá”.

Como a maioria de seus colegas mais velhos no Senado, o Senador Deveraux raramente assistia aos poucos e breves debates que a Câmara Alta realizava como prova de sua existência e só em duas ocasiões levantara-se para falar. A primeira foi para propor a ampliação do estacionamento para os senadores no Parlamento, a segunda para se queixar do sistema de ventilação do Senado, que estava produzindo correntes de ar. Ambas as reivindicações resultaram em ação que, como o Senador Deveraux não se cansaria de repetir friamente, “é mais do que se pode esperar da maioria dos discursos no Senado”.

Já fazia dez minutos que telefonara e o líder da oposição não tinha ainda aparecido. Mas ele sabia que Bonar Deitz viria e, enquanto isso, fechou os olhos para cochilar. Em poucos instantes — a idade e um lauto almoço tiveram sua parte nisso — estava adormecido.

 

A Ala Central do Parlamento estava deserta e silenciosa quando o Deputado Bonar Deitz bateu atrás de si a pesada porta de carvalho de seu escritório, na sala 407S. Seus passos ligeiros sobre o chão de mármore do Parlamento ecoava através do longo corredor, com o som subindo e descendo pelos seus arcos góticos e abobadados e ressoando pelas paredes de rocha calcária de Tyndall. Ficara escrevendo notas pessoais mais tempo do que pretendera e agora a ida ao Rideau Club para se encontrar com o Senador Deveraux o atrasava ainda mais. Achou, porém, que valeria a pena ir ver o que o velho queria.

Para não se dar o incômodo de esperar pelo elevador, usou a escada quadrada que dava para o corredor anterior do andar central. Eram apenas dois lanços e desceu depressa os degraus, com seu arcabouço comprido e ossudo a se mover a sacudidelas, semelhante a um soldadinho de brinquedo com bastante corda.

Uma mão fina e delicada tocava ligeiramente o corrimão de bronze da escada.

Quem não conhecesse Bonar Deitz o tomaria pela primeira vez como um intelectual e de fato o era — e não como um líder político. Os líderes, tradicionalmente, tem robustez e autoridade, e Deitz externamente não possuía nem uma coisa nem outra. Nem tinha o rosto triangular e ossudo — um caricaturista malicioso tinha-o desenhado com uma cabeça de amêndoa num corpo parecido com uma vagem de feijão — nem qualquer uma das qualidades físicas que atraem votos para políticos, independentemente do que digam ou façam.

Não obstante, possuía uma surpreendente eleitorado no país — entre pessoas perspicazes, diziam alguns, que podiam descobrir em Deitz qualidades mais finas e mais profundas do que as de seu principal adversário político, James McCallum Howden. Na última eleição, entretanto, Howden e seu partido derrotaram Deitz com uma grande margem.

Quando entrou no saguão da Confederação, a sala externa abobadada, com suas elevadas colunas de sienito escuro e polido, um atendente uniformizado conversava com um jovem — parecia um adolescente — de calças castanho-amarelado e paletó Grenfel. Podia ouvi-los perfeitamente.

— Sinto muito, meu jovem — dizia o atendente, — mas não sou eu que faço as normas.

— Eu sei disso, mas será que o senhor não poderia fazer só essa exceção? — o moço tinha um sotaque americano, se não fosse do extremo sul dos Estados Unidos, seria de bem perto. — Tenho dois dias, é tudo. Meus parentes voltam...

Bonar Deitz parou involuntariamente. Não era de sua conta, mas havia algo com o rapaz... Perguntou:

— Há algum problema?

— Esse moço quer ver a Casa, Sr. Deitz — disse o atendente. — Expliquei-lhe que não é possível, pois hoje é feriado...

— Estudo na Universidade de Chattanooga, Sir — disse o jovem. — Estou fazendo um curso especial de História Constitucional. Quero aproveitar enquanto estou aqui...

Deitz olhou o relógio.

— Se você andar depressa, eu mesmo lhe mostrarei a casa. Venha comigo — acenando para o atendente, voltou pelo caminho por onde tinha vindo.

— Puxa, como é grande! — o estudante desengonçado caminhava ao lado dele, a passos largos, — É realmente formidável.

— Se está estudando História Constitucional — disse Deitz, — você sabe que existe uma diferença entre nosso sistema de governo e o seu.

O rapaz assentiu com a cabeça.

— Acho que sei, no essencial. A principal diferença é que elegemos um Presidente, enquanto seu Primeiro-Ministro não é eleito.

— Ele não é eleito como Primeiro-Ministro — explicou Deitz. — Para assentar-se na Câmara dos Comuns, entretanto, precisa ser eleito como membro do Parlamento, do mesmo modo como todos os demais representantes. Após uma eleição, o líder do partido majoritário torna-se Primeiro-Ministro e então forma um Ministério com os seus próprios colegas.

Deitz continuou explicando:

— O sistema canadense é uma monarquia parlamentar com uma única e contínua linha de autoridade desde o eleitor comum, através do Governo, até a Coroa. Seu sistema é uma autoridade dividida com a separação de poderes — o Presidente com alguns, o Congresso com outros.

— Controle e equilíbrio — disse o moço. — Só que às vezes há tanto controle, que não se pode fazer nada.

Bonar Deitz sorriu.

— Não quero discutir isso. Poderíamos perturbar as relações diplomáticas.

Chegaram à ante-sala da Câmara dos Comuns. Bonar Deitz abriu uma das pesadas portas duplas que davam para o recinto da Casa. Pararam. O silêncio — quase fisicamente sentido — os envolvia. Só algumas lâmpadas estavam acesas e, mais adiante, as altas galerias e as paredes externas da Câmara estavam envoltas na escuridão.

— Quando a Câmara está reunida, é muito mais vivo — disse Deitz friamente.

— Prefiro vê-la assim — disse o rapaz em voz baixa. — É... tem uma espécie de solenidade.

Deitz sorriu.

— Tem velhas tradições — aproximaram-se um pouco e ele explicou como o Primeiro-Ministro e o próprio Líder da Oposição ficavam diariamente de frente um para o outro no recinto da Câmara. — Como você sabe, nós achamos que a franqueza tem muitas vantagens. Segundo nosso sistema de governo o Executivo é responsável diante do Parlamento por tudo que faz.

O moço olhou com curiosidade para o seu guia.

— Se seu partido tivesse sido majoritário, Sir, o senhor seria hoje então Primeiro-Ministro em vez de Líder da Oposição.

Bonar Deitz assentiu.

— Sim, seria.

Com uma franqueza espontânea, perguntou o estudante:

— O senhor acha que o conseguirá algum dia?

— De vez em quando — disse Deitz com uma careta, — eu me faço a mesma pergunta.

Ele tivera a intenção de gastar apenas alguns minutos. Mas via-se agora envolvido pela simpatia do jovem e quando pararam de conversar tinha decorrido muito tempo. Mais uma vez, pensou Deitz, tinha-se deixado desviar. Isso acontecia frequentemente. Perguntava-se às vezes se essa não seria a verdadeira causa de não ter sido mais bem sucedido na política. Outros que conheceu — James Howden era um deles — seguiam uma reta, uma linha sem desvio. Deitz nunca o fizera, quer na política quer em outras coisas:

Estava com um atraso de mais de uma hora quando chegou ao Rideau Club. Ao pendurar seu sobretudo lembrou-se pesaroso de que havia prometido à sua esposa passar a maior parte do, dia em casa.

Na sala de estar do andar superior do clube, o Senador Deveraux, dormindo ainda, ressonava com suaves modulações.

— Senador! — disse Bonar Deitz em voz baixa. — Senador!

O velho abriu os olhos, levando alguns instantes para firmar as vistas.

— Oh, meu caro — levantou-se do fundo de sua enorme cadeira. — Parece que estive cochilando.

— Creio que pensou estar no Senado — disse Bonar Deitz. Assentou-se numa cadeira vizinha, retorcido como um parafuso.

O Senador Deveraux deu uma risadinha.

— Se tivesse pensado nisso, já teria acordado há mais tempo — movendo-se em torno, meteu a mão num bolso e retirou o artigo de jornal que recortara há pouco. — Leia isso, meu jovem.

Deitz ajustou os óculos sem aro e leu cuidadosamente. Enquanto lia, o Senador aparou um charuto e o acendeu.

Levantando as vistas, Deitz disse calmamente:

— Tenho duas perguntas a fazer, Senador.

— Faça, então, meu jovem.

— Minha primeira pergunta: uma vez que já estou com sessenta e dois anos, não poderia deixar de me chamar de “meu jovem”?

O Senador sorriu.

— É uma das preocupações que mais atormentam vocês jovens: querer tomarem-se velhos antes do tempo. Não se preocupe, a velhice vem por aí mesmo. Agora, meu jovem, qual é sua segunda pergunta?

Bonar Deitz suspirou. Achou melhor não discutir com o colega mais velho que parecia querer apoquentá-lo. Ao invés, acendeu um cigarro e perguntou:

— Que acha desse sujeito de Vancouver, Henri Duval? Sabe de algo a respeito?

O Senador Deveraux acenou com o charuto que não.

— Não sei de nada, a não ser que no momento que fiquei sabendo do caso desse jovem infeliz e de sua reivindicação infrutífera de entrar em nosso país, disse para mim mesmo: está aí uma oportunidade para botar uma pedra no sapato de nossos adversários.

Outras pessoas tinham entrado na sala e saudavam Deitz e o Senador Deveraux ao passar. O Senador abaixou a voz num tom de conspiração.

— Soube do que se passou ontem à noite na residência do Governador? Uma briga! ... uma briga entre membros do Governo!

Bonar Deitz assentiu.

— Pense bem, no nariz do digno representante de nossa graciosa soberana.

— Isso acontece — disse Deitz. — Lembro-me de que uma vez numa festa de nosso pessoal...

— Por favor! — o Senador Deveraux parecia perplexo. — Você está cometendo um pecado mortal em política, meu jovem. Está querendo ser justo.

— Olha — disse Bonar Deitz, — prometi à minha mulher...

— Serei breve — passando o charuto para o lado esquerdo da boca, o Senador juntou suas mãos, marcando os pontos com seus dedos rechonchudos. — Primeiro ponto: sabemos que há dissensões entre eles e como prova disso está a desagradável ocorrência da noite passada. Segundo: de acordo com meus informantes, a centelha que produziu a explosão foi a imigração e Harvey Warrender... aquele cabeça de ovo com gema podre. Está-me acompanhando?

Bonar Deitz acenou com a cabeça que sim.

— Estou ouvindo.

— Muito bem. Terceiro: no tocante à imigração, os casos individuais que tem chamado a atenção pública últimamente — aqueles casos que podemos chamar de sentimentais — tem sido tratados com espantoso descaso... espantoso do ponto de vista dos nossos adversários, não do nosso, naturalmente... espantoso descaso pela política profissional e pelo impacto desses casos sobre a consciência pública. Concorda?

— De acordo.

— Esplêndido! — o Senador Deveraux vibrou. — Agora chegamos ao quarto ponto. Parece também provável que nosso inábil Ministro da Imigração trate do caso desse jovem infeliz, Duval, com a mesma inépcia de costume. De qualquer maneira, esperemos que sim.

Bonar Deitz sorriu.

— Por isso — a voz do Senador abaixou ainda mais — por isso, digo, patrocinemos... nós, o partido da oposição... a causa desse jovem. Transformemos o caso numa questão pública, desfechando um golpe contra o obstinado Governo Howden. Vamos ...

— Compreendendo — disse Bonar Deitz. — Tratemos de conseguir também alguns votos. Não é uma má ideia.

O Líder da Oposição olhava o Senador Deveraux pensativo através de seus óculos. Era verdade, dizia para si mesmo, que o Senador estava sob certos aspectos tornando-se senil, mas ao mesmo tempo, pondo-se de lado seus tediosos micawberismos, o velho ainda possuía uma admirável sagacidade política. Deitz disse em voz alta:

— O que mais me preocupa nesta manhã é o anúncio de um encontro de Howden com o Presidente em Washington. Dizem que é para assuntos comerciais, mas tenho o pressentimento de que há algo mais envolvido. Minha ideia era de exigir maiores explicações do que pretendem discutir.

— Por favor, não faça isso — o Senador Deveraux sacudiu a cabeça com ar severo. — Isso pode não nos atrair nenhuma simpatia pública e você poderá parecer petulante para muitos. Por que negar até a Howden o pequeno regalo de uma viagem de serviço para ir tomar a benção na Casa Branca? É uma das prerrogativas do cargo. Você o fará algum dia.

— Se se trata realmente de entendimentos comerciais — disse Bonar Deitz calmamente, — por que tem de ser agora? Não há nenhum problema urgente; não há nada de novo em discussão.

— Exatamente — a voz do Senador tinha uma nota de triunfo. — Portanto, que melhor oportunidade... quando tudo corre normalmente... para Howden ser manchete uma ou duas vezes e se deixar fotografar ao lado de alguém importante. Não, meu jovem, não faça isso, não o ataque. Além disso, se for de comércio que irá tratar, quem se importará com isso além dos importadores e dos exportadores?

— Eu — respondeu Bonar Deitz — e como eu todos deveriam importar-se.

— Ah! mas uma coisa é o que se deve fazer, outra é o que realmente se faz. É na média dos eleitores que devemos pensar e a média dos eleitores não entende de comércio internacional e, mais ainda, não quer entender. Ocupam-se das coisas que podem entender — problemas humanos que provocam suas emoções; pelos quais possam chorar ou que possam aplaudir; algo semelhante a esse jovem perdido e solitário, Henri Duval, que precisa tanto de um amigo. Você será seu amigo, meu jovem?

— Bem — disse Bonar Deitz pensativo, — talvez o senhor tenha um pouco de razão.

Fez uma pausa, refletindo. O velho Deveraux estava certo num ponto: a Oposição precisa realmente de uma boa questão popular para malhar o Governo, pois ultimamente tinha havido muito poucas.

Havia outra coisa. Bonar Deitz estava plenamente consciente de certas críticas à sua pessoa entre seus próprios partidários. É muito brando em seus ataques como Líder da Oposição ao Governo, diziam. Bem, talvez a crítica tivesse fundamento; tinha sido muito condescendente às vezes e achava que isso fosse resultante de sua capacidade de ver sempre o ponto de vista de outra pessoa. Na luta renhida da política essa moderação pode ser prejudicial.

Mas uma questão bem definida de direitos humanos — como essa parecia ser e dava a impressão de poder ser — bem, a coisa seria diferente. Poderia lutar com veemência, atingir o Governo na sua parte mais sensível e, talvez, desse modo, sua própria folha de serviço fosse equilibrada. Mais importante ainda, seria a espécie de questão que os jornais e o público podem compreender e aplaudir.

Mas isso ajudaria o partido na próxima eleição? Era um teste de verdade, sobretudo para si próprio. Lembrava-se da pergunta que o estudante lhe fizera naquela tarde: “Acha que o conseguirá algum dia?” A verdadeira resposta era que a próxima campanha iria decidi-lo de uma maneira ou de outra. Bonar Deitz tinha liderado a Oposição numa campanha eleitoral que resultara em derrota. Uma segunda derrota marcaria o fim do seu próprio mandato de líder e sua ambição de se tornar Primeiro-Ministro.

Valeria a pena encetar a espécie de campanha que o Senador estava sugerindo? Sim, resolveu, provavelmente ajudaria.

— Obrigado, Senador — disse Bonar Deitz. — Acho boa sua sugestão. Se for feita, transformaremos esse Duval num problema e há muitas outras coisas sobre a imigração que podemos atacar ao mesmo tempo.

— Agora é você quem fala — disse o Senador exultante.

— Será preciso tomar algumas precauções — Deitz olhou para outras pessoas na sala, certificando-se de que não estava sendo ouvido. — Precisamos estar certos de que o moço de Vancouver seja realmente o que diz ser, e de bom caráter. Isso é claro, não é?

— É claro, meu jovem, é claro.

— Como acha que devemos começar?

— A primeira coisa a fazer é arranjar um advogado para o moço — disse o          Senador Deveraux. — Cuidarei disso em Vancouver, amanhã.           Depois disso, faremos as demarches legais, durante as quais, espero, o Departamento de Imigração comportar-se-á com sua costumeira insensibilidade. Bem... o resto ficará a seu encargo.

O Líder da Oposição assentiu com a cabeça.

— Parece razoável. Há, porém, uma coisa com relação ao advogado.

— Acharei o homem indicado... alguém em que possamos confiar. Pode ficar tranquilo.

— Talvez fosse conveniente que o advogado não pertencesse ao nosso partido — Bonar Deitz falava baixo, pensando alto. — Desse modo, quando entrarmos em cena a coisa não parecerá muito com uma peça montada. O advogado, na verdade, não deveria pertencer a nenhum partido.

— É uma boa ideia. Mas o negócio é que a maioria de nossos advogados pertence a um partido ou a outro.

— Nem todos — disse Bornar Deitz circunspecto. — Pelo menos os novos, por exemplo. Os iniciantes na profissão, recém-saídos da escola.

— Excelente! — Deveraux esboçou um sorriso pachorrento. — É isso, meu jovem! Descobriremos um inocente — seu sorriso alargou-se. — Um cordeirinho que conduziremos.

 

Nevava ainda, embora com umidade, quando Brian Richardson, com seu cachecol bem apertado, sapatos bem engraxados e a gola do sobretudo levantada, deixou seu escritório na Sparks Street para a pequena caminhada para o Parlamento. O Primeiro-Ministro finalmente o tinha chamado e lhe dissera: “É melhor você se levantar; temos muita coisa para conversar.” Agora, com passadas longas através da multidão que fazia suas compras de Natal, Richardson tremia de frio, que parecia intensificado pela obscuridade que aos poucos ia envolvendo a cidade.

Richardson não gostava do inverno e do Natal com igual imparcialidade — o primeiro por causa de um desejo físico de calor, o segundo por causa de um agnosticismo que, na sua opinião era compartilhado pela maioria, embora não o admitisse. Uma vez dissera a James Howden: — O Natal é dez vezes mais falso do que qualquer político que já se viu, mas ninguém ousa dizê-lo. Todos lhe dirão que “o Natal está por demais comercializado”. Ora bolas! — seu lado comercial é a única coisa que tem sentido.

Alguns dos aspectos comerciais impunham-se à consciência de Richardson quando passava agora pela porta das lojas, ostentosamente iluminadas na sua maioria, com seus temas forçosamente natalinos. Achou graça de uma combinação de letreiro que notara. Na vitrina de um mostruário de aparelhos domésticos um painel verde brilhante exibia em néon uma citação errada, PAZ NA TERRA BOA VONTADE PARA COM OS HOMENS. Embaixo, Um segundo letreiro, igualmente brilhante, dizia: GOZE DISSO AGORA — PAGUE DEPOIS.

Fora alguns presentes — inclusive um para Milly Freedeman, que precisava comprar naquela noite — Brian Richardson sentia-se feliz por não haver outro papel a desempenhar dentro do esquema natalino. Como James Howden, por exemplo, que seria obrigado a ir à igreja na manhã seguinte, como o fazia na maioria dos domingos, muito embora sua crença religiosa fosse tão fraca como a sua própria.

Uma vez, anos atrás, quando Richardson trabalhava como agente de publicidade, um importante cliente industrial tinha apoiado uma campanha de “frequente a igreja” que Richardson concebera. A um determinado ponto o freguês sugerira oportunamente que Richardson seguisse também o conselho contido no seu próprio anúncio e se tornasse um frequentador da igreja. Ele fora; o lado industrial da conta era importante demais para correr riscos com ela. Mas se sentira intimamente aliviado quando a agência mais tarde perdeu a conta e aquele freguês particular não precisava ser mais contentado.

Essa era uma das razões por que gostava tanto de seu trabalho hoje em dia. Não havia fregueses a satisfazer e todo e qualquer apaziguamento necessário era conduzido por outros sob a direção de Richardson. Não havia tampouco alguma frente a ser mantida; essa espécie de coisa era negócio de políticos. Longe de se preocupar com as aparências, o presidente do partido tinha o dever de ficar na obscuridade e na obscuridade poderia levar a vida que lhe agradasse.

Essa era uma das razões por que ficara menos preocupado do que Milly Freedeman com algum possível espreitador quando marcaram seu encontro para aquela noite, embora talvez, pensou, por consideração devesse ser mais discreto outra vez. Se houvesse outra vez.

Chegou a pensar nisso que era algo a considerar e talvez depois daquela noite fosse prudente correr a cortina sobre o incidente com Milly. Amá-las e deixá-las, pensou. Afinal de contas, havia uma porção de mulheres de cuja companhia — na cama e fora da cama — um homem bem estabelecido podia desfrutar.

Gostava de Milly, naturalmente; ela possuía um calor pessoal e uma profundidade de caráter que o atraíam, e não fora nada má — embora um tanto inibida — quando tiveram relações. Não obstante, se ambos continuassem a se encontrar haveria sempre o perigo do envolvimento emocional — não para ele, pois pretendia evitar aquela espécie de coisa por muito tempo. Mas Milly poderia apaixonar-se — as mulheres tendem a levar a sério aquilo que os homens consideram como simples passatempo — e isso era algo que preferia que não acontecesse.

Uma jovem feiosa vestida num uniforme do Exército da Salvação sacudiu uma sineta diante dele. A seu lado, sobre um banco, estava um jarro de vidro cheio de moedas, a maior parte moedinhas de pouco valor.

— Prive-se um pouco, Sir. É Natal, conforte os necessitados — a voz da moça era estridente, como se tivesse, sido gasta pelo uso; seu rosto estava vermelho de frio. Richardson meteu a mão no bolso e seus dedos encontraram uma nota entre alguns trocados. Era uma nota de dez dólares e, num impulso, deixou-a cair no jarro de vidro.

— Deus esteja com o senhor e abençoe sua família — disse a moça.

Richardson sorriu. Se explicasse, pensou, prejudicaria o quadro; se explicasse que nunca tivera uma família, com filhos, como ele sonhara um dia naqueles instantes que hoje considerava como horrivelmente sentimentais. Seria melhor não explicar que ele e sua mulher, Eloise, tinham chegado a um acordo segundo o qual cada um podia seguir seu caminho, atendendo a seus interesses individuais, guardando porém as aparências do casamento; na medida em que participavam do mesmo teto, de vez em quando faziam refeições juntos e, ocasionalmente, conforme ditassem as circunstâncias, saciavam o apetite sexual com o refinado uso do corpo, um do outro.

Além disso nada mais havia, nada mais restava, nem mesmo as altercações acaloradas que costumavam ter outrora. Ele e Eloise não brigavam mais hoje em dia, ambos aceitavam o abismo entre eles como tão amplo que nem as divergências podiam transpor. E ultimamente, como outros interesses tinham-se tornado predominantes — sobretudo seu trabalho para o partido — o resto cada vez mais parecia fazer menos diferença.

Algumas pessoas poderiam perguntar-se por que se preocupavam em manter o casamento, uma vez que o divórcio no Canadá (com exceção de duas províncias) era relativamente fácil, bastando um simples falso testemunho para que fosse aceito pelas cortes. A verdade era que tanto ele como Eloise se sentiam mais livres como casados do que se estivessem separados. No atual estado de coisas, cada qual podia ter suas aventuras e tinham. Mas quando o negócio se tornava complicado, o fato da existência do casamento era um motivo para escapar. Além disso, a própria experiência os tinha convencido de que um segundo casamento provavelmente não haveria de ser mais bem sucedido do que o primeiro.

Richardson apressou os passos, ansioso para fugir da neve e do frio. Entrou na Ala Leste, silenciosa e deserta, subiu as escadas e entrou no gabinete do Primeiro-Ministro.

Milly Freedeman, usando um sobretudo leve de lã vermelha e calçados de neve bem fornidos e de salto alto, estava-se mirando num espelho e ajeitando um chapeuzinho branco de pele de vison.

— Deixaram-me ir para casa — disse ela olhando ao redor. — Pode entrar, mas se o assunto for semelhante ao do Conselho de Defesa, não vai sair tão cedo.

— Não posso demorar muito — disse Richardson. — Tenho um encontro mais tarde.

— Talvez precise cancelá-lo — Milly deu uma volta. O chapéu estava no lugar; era o chapéu de inverno mais bonito, mais prático e atraente, pensou. Tinha o rosto afogueado e seus olhos grandes verde-cinza brilhavam.

— Cancelar coisa nenhuma — disse Richardson. Correndo os olhos nela, estava francamente a admirar. Depois, preveniu-se da decisão que tomara para aquela noite.

 

Quando parou de falar, James Howden, cansado, empurrou sua cadeira para trás. Do outro lado da antiga mesa de quatro pernas em que trabalhara uma sucessão de primeiros-ministros, Brian Richardson assentou-se calado e meditabundo, enumerando e absorvendo mentalmente os fatos de que acabava de tomar conhecimento. Embora já soubesse das propostas de Washington, só agora se inteirava de seus detalhes. Howden lhe contara também a reação da Comissão de Defesa. Nesse momento, os pensamentos do presidente do partido, como veias e artérias do corpo humano, distendiam-se ativamente de um tronco comum, avaliando créditos e débitos, implicações e eventualidades, ações e contra-ações, tudo com habilidade profissional. Os detalhes seriam completados posteriormente; muitos detalhes. O necessário agora era elaborar um grande plano estratégico — um plano, sabia Richardson, mais importante e decisivo do que qualquer outro já concebido. Pois, se falhasse, significaria derrota para o partido e talvez, mais do que derrota, seu desaparecimento.

— Há outra coisa — disse James Howden. Tinha-se levantado e estava agora em pé junto à janela, olhando para a colina do Parlamento. — Adrian Nesbitson precisa ser afastado.

— Não! — Richardson sacudiu a cabeça enfaticamente. — Mais tarde, talvez, agora não. Se você afastar Nesbitson, qualquer que seja a razão que possa oferecer, isso será interpretado como uma cisão no Governo. É a pior coisa que poderia acontecer.

— Temia que pensasse assim — disse Howden. — O negócio é que se está tornando completamente inútil. Mas acho que podemos contornar, se for necessário.

— Fora disso, pode mantê-lo na linha?

— Acho que sim — o Primeiro-Ministro esfregou seu nariz comprido e recurvado. — Creio que haja alguma coisa de que possa precisar. Posso servir-me disso para negociar.

— Não sei se conviria a barganha — disse Richardson em tom de dúvida. — Não se esqueça de que o velho tem fama de duro.

— Lembrar-me-ei de seu conselho — sorriu Howden. — Tem mais algum?

— Sim — disse o presidente do partido friamente, — e muitos. Mas, primeiro, conversemos sobre o calendário. Concordo que, em se tratando de coisa tão importante, deve haver uma delegação do país — ficou pensativo. — Sob todos os aspectos uma eleição de outono seria a nossa melhor oportunidade.

— Não podemos esperar tanto — disse Howden decisivamente. — Terá de ser na primavera.

— Exatamente quando?

— Pensava em dissolver o Parlamento logo após a visita da Rainha, e as eleições poderiam ser em maio.

Richardson assentiu.

— Talvez dê certo.

— Tem de dar certo.

— Quais são seus planos depois do encontro de Washington?

O Primeiro-Ministro ficou pensativo.

— Penso em fazer uma proclamação à Câmara, digamos, dentro de três semanas.

O presidente do partido deu uma risada.

— É aí que vai começar o tiroteio.

— Também acho — Howden sorriu ligeiramente. — Isso dará tempo também para que o país se acostume com a ideia do Ato de União antes da eleição.

— Certamente ajudará muito se conseguirmos trazer a Rainha — disse Richardson. — Estaria aqui entre a proclamação e a eleição.

— É minha opinião também — concordou Howden. — Ela será o símbolo do que conservamos e isso haveria de convencer o povo — de ambos os lados da fronteira — de que não temos a intenção de perder nossa identidade nacional.

— Aposto como não haverá qualquer sinal de concordância até depois da eleição.

— Não. Terá de ser compreendido que a eleição constitui a verdadeira decisão. Mas faremos de antemão nossa negociação de modo que não se perca tempo depois. O tempo é o que mais importa.

— Como sempre — disse Richardson. Fez uma pausa, depois continuou pensativo: — Faltam portanto três semanas para que o assunto se torne público, depois quatorze semanas para a eleição. Não é muito tempo, mas pode ter suas vantagens... conseguir fazer tudo antes que as dissensões se aprofundem — sua voz tornava-se mais metódica. — Eis, portanto, minha opinião.

Howden voltara da janela para sua cadeira. Inclinando-a um pouco para trás, juntou as pontas dos dedos e se preparou para ouvir.

— Tudo — disse Brian Richardson deliberadamente, — e na realidade quero dizer tudo, depende de uma só coisa: confiança. Deve haver confiança absoluta num indivíduo... você. E uma confiança de todo o país e em todos os níveis. Sem essa espécie de confiança perderemos; com ela, venceremos — fez uma pausa, depois, refletindo profundamente, continuou: — O Ato de União... por falar nisso, acho que devemos arranjar outro nome... mas a espécie de união que você está propondo não é ultrajante. Afinal de contas, há mais de meio século que estamos caminhando para ela e, de certo modo, seriamos insensatos se quiséssemos detê-la. Mas a Oposição fará o possível para fazê-la parecer ultrajante e tenho a impressão de que dificilmente vocês poderão censurá-la. Há anos, pela primeira vez, terão uma questão realmente palpitante e Deitz e companhia aproveitarão disso ao máximo. Gritarão palavras como “traição” e “entreguismo” e o chamarão de Judas.

— Já ganhei muitos nomes antes, mas estou aqui, não é?

— O negócio é aguentar — Richardson estava sisudo. — O que é preciso fazer é consolidar sua imagem de modo tão claro na opinião pública, que as pessoas confiem cegamente em você e confie em tudo que lhes recomendar para o seu próprio bem.

— Estamos hoje tão longe disso?

— A fatuidade não ajudará a nenhum de nós — retrucou Richardson rudemente, enquanto o Primeiro-Ministro corou-se, mas não fez nenhum comentário. O presidente do partido continuou: — Nossas últimas pesquisas demonstram que o Governo — e você — perderam quatro por cento em popularidade desde o ano passado, e você pessoalmente é o mais fraco no Oeste. Felizmente é uma pequena diferença, mas de qualquer maneira é uma tendência. Podemos, entretanto, mudar a tendência, se trabalharmos muito e agirmos rapidamente.

— Qual é a sua sugestão?

— Terei uma longa lista delas depois de amanhã. A primeira e principal seria sair daqui — Richardson fez um sinal com a mão indicando o escritório — e andar pelo país afora, conquistando adesões, conseguindo cobertura da imprensa, tempo na televisão, onde pudéssemos conseguir. E precisamos começar logo, imediatamente após seu regresso de Washington.

— Não está esquecido de que em menos de duas semanas o Parlamento estará reunido.

— Não estou esquecido. Dentro de alguns dias você terá de estar em dois lugares ao mesmo tempo — Richardson esboçou um sorriso. — Espero que não tenha perdido aquela facilidade de dormir em avião.

— Você acha então que parte desse giro deve ter lugar antes da proclamação à Câmara.

— Perfeito. Podemos arranjar isso se agirmos logo. Tanto quanto pudermos, gostaria de condicionar este país para esperar o que está para acontecer e é aí que seus discursos serão importantes. Acho que devemos contratar mais pessoas para redigi-los — pessoas realmente de alto gabarito que o tornem parecido com Churchill, Roosevelt e Billy Graham juntos.

— Está bem. É tudo?

— Por enquanto é só — disse Richardson. — Oh, exceto uma coisa; um assunto aborrecido, infelizmente. Temos uma encrenca muito séria de imigração em Vancouver.

— De novo? — perguntou Howden irritado.

— Há num navio um clandestino que não tem pátria e quer entrar no país. Parece que a imprensa levantou o seu caso e quer que seja resolvido imediatamente.

Contou os detalhes que apareceram nos jornais da tarde.

Howden tentou, embora por poucos instantes, desconsiderar o assunto. Afinal de contas, havia limites para o número de casos em que um Primeiro-Ministro devesse envolver-se pessoalmente, sobretudo casos como esse... Lembrou-se então de sua intenção de ter um acerto de contas com Harvey Warrender... de sua própria convicção de que pequenos problemas podiam às vezes tornar-se importantes. Mas estava ainda hesitante.

— Conversei com Harvey Warrender na noite passada.

— Sim — disse Richardson friamente. — Ouvi dizer.

— Quero ser justo — Howden estava ainda debatendo-se com sua consciência. — Algumas coisas que Harvey disse na noite passada eram certas... sobre a proibição da entrada no país. Aquele caso particular de que você me falou... da mulher que foi deportada. Fiquei sabendo que era dona de um bordel em Hong-Kong, e portadora de doenças venéreas.

— Mas os jornais não publicariam isso, mesmo se deixássemos transpirar — disse Richardson com irritação. — Tudo que o povo vê é uma mãe e uma criança sendo enxotadas pela insensibilidade do Governo. A Oposição na Câmara se aproveitou disso quanto pode, não foi? Vocês precisaram de galochas para pisar num chão de lágrimas.

O Primeiro-Ministro sorriu.

— Está aí por que vocês precisam por termo imediato a esse caso de Vancouver — insistiu o presidente do partido.

— Mas certamente não vai querer que se admitam indesejáveis... como aquela mulher, por exemplo, como imigrantes.

— Por que não? — arguiu Richardson. — Se tem por finalidade evitar a má publicidade? Pode ser feito simplesmente por um decreto do Conselho. Afinal de contas, no ano passado houve mil e duzentas admissões, a maior parte para satisfazer a membros de nosso próprio Parlamento. Pode estar certo de que há muito capricho nisso, portanto, que diferença faz admitir mais alguns?

O número de mil e duzentos surpreendeu Howden. Não era novidade, naturalmente, o fato de serem frequentemente violadas as leis de imigração do Canadá, e o processo de forçar a lei era uma forma de favorecimentos aceita por todos os partidos políticos. Mas o surpreendente era o número.

— Foram realmente tantas? — perguntou.

— Na verdade um pouco mais — disse Richardson. E acrescentou friamente: — Felizmente o Ministério reúne indiscriminadamente de vinte a cinquenta imigrantes em cada portaria e ninguém se preocupa em fazer a soma.

O Primeiro-Ministro fez uma pausa, depois disse calmamente:

— Harvey e seu substituto são de parecer que devemos executar a Lei da Imigração.

— Se você não fosse o Primeiro-Ministro da Rainha — respondeu Richardson, — seria tentado a replicar como uma palavrinha curta e sucinta.

James Howden fechou a cara. Richardson, pensou, ia às vezes um pouco longe demais.

Indiferente à desaprovação, o presidente do partido continuou:

— Todo governo, nos últimos cinquenta anos, serviu-se da Lei da Imigração para ajudar seus próprios correligionários. Por que deveríamos então de repente parar de fazê-lo? Não tem nenhum sentido político.

Não, pensava Howden, isso não tem sentido. Dirigiu-se ao telefone.

— Está bem — disse a Richardson. — Vamos fazer como você quer. Vou chamar aqui Harvey Warrender. — Deu as seguintes instruções à telefonista do Parlamento: — Chame o Sr. Warrender. Provavelmente estará em casa — com uma mão tapando a boca do fone, perguntou: — Além do que falamos, acha que lhe deveria dizer mais alguma coisa?

Richardson sorriu.

— Você poderia tentar lhe sugerir que fique calado, pois desse modo evitaria de vez em quando comer moscas.

— Se eu disser isso a Harvey — observou Howden, — provavelmente haveria de me citar Platão.

— Nesse caso você poderia redarguir com Menandro: “Quanto mais alto maior a queda"

O Primeiro-Ministro levantou os sobrolhos. Havia em Brian Richardson certas coisas que o surpreendiam constantemente.

A telefonista voltou a falar e Howden ouviu e depois recolocou o fone no lugar.

— Os Warrenders foram passar o feriado fora... na sua casa de campo nos Laurentians e ali não têm telefone.

— Você releva muito as faltas de Harvey Warrender, não releva? — observou Richardson curioso. — Mais do que as de qualquer outro.

— Dessa vez não — disse Howden. Depois da discussão não abrigava mais dúvida na sua mente. — Eu o chamarei aqui depois de amanhã e esse caso de Vancouver não vai transbordar. Garanto-lhe.

6

Eram sete e meia quando Brian Richardson chegou ao apartamento de Milly Freedeman e levava dois pacotes, um contendo um vidro de Guerlain, um perfume que sabia ser da preferência de Milly e o outro, uma garrafa de gim.

Milly adorou o perfume. Quanto ao gim estava menos certa, embora o levasse para a quitinete para preparar os drinques.

Esperando na sala de estar suavemente iluminada, Richardson observava, assentado em uma das duas grandes poltronas. Esticou seus pés voluptuosamente sobre o tapete bege, feito a mão, o único objeto de luxo que Milly pudera comprar quando decorou o apartamento. Depois disse em tom de aprovação:

— Você sabe, muita coisa que tem aqui, Milly, outras pessoas jogariam fora. Mas a maneira de você as arrumar torna sua casa a mais acolhedora que já vi.

— Suponho que seja um cumprimento — da quitinete, Milly voltou-se para trás. — De qualquer maneira, fico satisfeita porque você gosta dela.

— Com certeza, gosto. Quem não gostaria?

Brian mentalmente ia estabelecendo a comparação com o seu apartamento, que Eloise tinha remodelado há um ano. Tinha paredes de marfim, tapete branco feito a mão, uma mobília de nogueira sueca e cortinas azul pavão. Há muito tempo tornara-se indiferente a tudo isso e nada exercia qualquer efeito sobre ele. Mas se lembrava da briga que tivera com Eloise quando lhe apresentou a conta que ele, protestando, descrevera como “o apartamento de Presidente num bordel”.

Milly, pensava, saberia sempre tornar um lugar atraente e pessoal... um pouco desarrumado, livros empilhados em cima das mesas, um lugar onde se podia relaxar.

Milly voltara de novo à quitinete. Ele a observava pensativo.

Antes de sua chegada, Milly tinha mudado a roupa que estivera usando pela manhã e vestira calças cor de laranja e uma suéter preta comum realçada apenas por um colar de pérolas de três peças. O efeito, pensou Richardson, era simples e fisicamente excitante.

Quando Milly voltou à sala de estar Richardson surpreendeu-se admirando sua elegância. Havia um ritmo e moderação em cada movimento de Milly e raramente ela desperdiçava um gesto.

— Milly — disse, — você é uma garota admirável.

Milly atravessou a sala com seus drinques preparados, com as pedras de gelo a tilintar. Richardson estava observando suas pernas delgadas e suas coxas firmes debaixo das calças; sempre aquele ritmo espontâneo de movimento... como um cavalo novo de corrida, de pernas compridas, pensou paradoxalmente.

— Admirável em quê? — perguntou Milly. Ofereceu um copo a Richardson e seus dedos se tocaram.

— Bem — disse ele, — sem o delicado roupão caseiro, calças e tudo mais, você é a coisa mais sexual que já vi sobre duas pernas.

Colocou o copo que ela lhe dera em cima da mesa, ficou em pé e a beijou. Alguns instantes depois, Milly soltou-se gentilmente e se afastou.

— Brian — disse Milly, — há alguma vantagem nisso?

Nove anos atrás ela soubera o que o amor significava e depois disso a angústia insuportável da privação. Supunha não estar apaixonada por Brian Richardson, como estivera por James Howden, mas experimentava ternura e excitação; e poderia ser mais, sabia, se o tempo e as circunstâncias o permitissem. Mas tinha a impressão de que não permitiriam. Richardson era casado... era um tipo prático; e no fim significaria outra vez rompimento ... separação...

Richardson perguntou:

— Vantagem em quê, Milly?

— Você sabe — respondeu no mesmo tom.

— Sim, eu sei — Richardson tinha-se voltado para o seu copo. Segurou o copo contra a luz, examinou e em seguida o recolocou sobre a mesa.

Queria amor, pensava Milly. Seu corpo ansiava por amor. Mas subitamente, era esmagada pela necessidade de algo mais além do amor físico... Precisava de uma certa estabilidade. Outrora, quando amara James Howden, estivera disposta a concordar com menos.

Brian Richardson respondeu calmamente:

— Acho que poderia enganá-la com um bocado de palavras, Milly. Mas já somos ambos adultos; não creio que você o quisesse.

— Não — respondeu, não quero ser enganada. Mas tampouco quero ser apenas um animal. Deve haver algo mais.

— Para algumas pessoas não há nada mais — respondeu Richardson asperamente. — Não há, quando são honestas para consigo mesmas.

Um momento depois ele se perguntava por que dissera isso: um excesso de franqueza, talvez, ou simplesmente autocomiseração, um sentimento que desprezava nos outros. Mas ele não quisera ofender Milly, cujos olhos se encheram de lágrimas.

— Milly — disse Brian, — perdoe-me.

Milly sacudiu a cabeça e Richardson aproximou-se dela. Tirando um lenço do bolso, enxugou seus olhos delicadamente e as lágrimas que escorriam.

— Olha, eu não devia ter dito isso.

— Está bem — disse Milly. — Eu estava sendo apenas feminina, suponho.

Oh, meu Deus, o que me estava acontecendo, pensava — a Millicent Freedeman que tanto confiava em si própria... a chorar como uma adolescente. O que significa isso para mim? Por que isso já não tinha o mesmo sentido que tivera na minha vida?

Brian Richardson a envolveu em seus braços.

— Preciso de você, Milly — disse ele suavemente. — Não sei outra maneira de dizê-lo a não ser que preciso de você.

Ele levantou de novo sua cabeça e a beijou. Dessa vez ela correspondeu. Pouco depois Richardson começou a desabotoar sua blusa.

A hesitação a assaltou.

— Não, Brian! Por favor, não!

Mas não fazia qualquer esforço para se desvencilhar dele. Quanto mais a acariciava, mais o desejo crescia. Agora, não tinha dúvida, sentia desejo. Depois, viria de novo a solidão, o sentimento de perda. Mas agora... agora... seus olhos se fecharam, seu corpo tremia... agora.

— Está bem — tinha a voz rouca.

O interruptor estalou no silêncio. Do lado de fora chegava o ruído esganiçado de um avião a jato que passava sobre a cidade. O som se tornou mais intenso, depois diminuiu quando o aparelho de voo noturno para Vancouver — entre seus passageiros estava o Senador Deveraux — voltou-se para oeste, ganhando altura na escuridão da noite.

— Seja delicado, Brian — sussurrou Milly. — Desta vez, seja delicado.

 

Alan Maitland

Na manhã de Natal em Vancouver, Alan Maitland dormiu até tarde e quando acordou sentiu um gosto saburroso na boca, devido às bebidas que havia tomado em casa de seu sócio de advocacia na noite passada. Bocejando e coçando o cocuruto, de cabelo escovinha, lembrava-se de que ele, Tom Lewis e Lilian, a esposa de Tom, tinham consumido umas duas garrafas de uísque. Na realidade, era uma extravagância, uma vez que nem ele nem Tom tinham dinheiro para esbanjar daquele modo, sobretudo agora que Lilian estava grávida e Tom se achava em dificuldades para pagar a hipoteca de uma casinha que havia comprado há seis meses na zona norte de Vancouver. Alan depois pensou: Ora, que é que tenho com isso, e revirando para fora da cama seu corpo de atleta de um metro e oitenta de comprimento dirigiu-se de pés descalços para o banheiro.

De volta, vestiu umas calças velhas de flanela e uma camisa de estudante já descorada. Em seguida, preparou um café instantâneo, fez torradas e se serviu um pouco de mel de abelha de um vaso. Assentou-se, para tomar café, na cama que ocupava a maior parte do espaço disponível do apartamento de solteiro, mal arrumado, na Gilford Street, perto da Baía Inglêsa. Mais tarde a cama seria embutida na parede do mesmo modo como se recolhe uma prancha de desembarque, mas só muito raramente é que Alan se apressava em fazer isso, preferindo enfrentar o dia gradativamente, como sempre, desde quando descobrira, muitos anos atrás, que podia fazer melhor a maioria das coisas atacando-as metodicamente.

Estava indeciso se deveria dar-se o incômodo de fritar um pouco de bacon quando o telefone tocou. Era Tom Lewis.

— Escute, seu palerma — disse Tom. — Por que nunca me falou sobre seus amigos da alta sociedade?

— Não sou sujeito que goste de se vangloriar. Os Vanderbilts e eu ... — Alan engoliu um pedaço da torrada meio mastigada. — Que amigos da alta sociedade?

— O Senador Deveraux, por exemplo. O Richard Deveraux. Ele quer que você vá à sua casa hoje. Depressa, depressa!

— Você está maluco!

— Maluco, pois sim! Acabo de receber um telefonema de G. K. Bryant — de Culliner, Bryant, Mortinmer, Lane e Roberts, conhecidos também como “nós, o povo”. Eles, segundo parece, cuidam da maior parte dos problemas jurídicos de Deveraux, mas dessa vez o Senador procurou por você especificamente.

— Como assim? — Alan estava cético. — Alguém cometeu algum erro; um equívoco de nomes, certamente.

— Olhe, rapaz — disse Tom, — se a natureza o dotou de uma estupidez acima da média, trate de não a aumentar. O homem de que precisam chama-se Alan Maitland da próspera firma... pelo menos, seria, se tivéssemos uns dois clientes... dos jovens advogados, Lewis e Maitland. É você, não é?

— Certamente, mas...

— Agora, porque um homem como o Senador Deveraux prefere um Maitland quando pode conseguir um Lewis, que é mais velho um ano de formado em Direito e consideravelmente mais inteligente, como demonstra essa conversa, é coisa que não posso compreender, mas...

— Espere um pouco — interrompeu Alan. — Você disse Deveraux?

— Não mais de seis vezes, o que admito, não é suficiente para uma penetração...

— Conheci uma Sharon Deveraux no meu último ano de faculdade. Encontramo-nos algumas vezes, embora depois nunca mais a tivesse visto. Quem sabe se ela...

— Talvez sim, talvez não. Tudo que sei é que o Senador Deveraux, nesta clara e ensolarada manhã de Natal, está esperando Alan Maitland em sua residência.

— Irei — disse Alan. — Talvez na sua árvore haja um presente para mim.

— Tome o endereço — disse Tom e quando Alan acabou de anotá-lo, continuou: — Rezarei por você. Podia também telefonar para o senhorio de nosso escritório e lhe pedir para rezar também; afinal de contas, seu aluguel depende disso.

— Diga-lhe que farei o possível.

— Ninguém duvida disso — acrescentou Tom. — Boa sorte.

 

O Senador Deveraux, como não era de admirar, pensou Alan Maitland, morava na zona aristrocrática da cidade, que ele conhecia muito de nome e através de contatos ocasionais durante seus anos de faculdade. Estava situada na parte alta da Cidade de Vancouver, de frente para o braço norte do Rio Fraser que se estende na direção da ilha pastoril, Lulu; era uma meca social e sede de muita riqueza acumulada. De quase todos os lados, era.notável a vista ao longo da avenida onde residia Deveraux; nos dias claros podia-se ver, ao longe, a fronteira com os Estados Unidos e o Estado de Washington. Era também, como sábia Alan, uma vista simbólica, desde que a maioria das pessoas que ali viviam, ou tinha alcançado a proeminência social ou nela nascera. Um segundo simbolismo estava nas grandes barreiras de troncos flutuantes, padronizados, atracados no fundo do rio ou arrastados imponentemente por rebocadores para as serrarias. A madeira constituíra a fortuna da Província da Colúmbia Britânica e ainda agora continuava sendo sua principal fonte de riqueza.

Alan Maitland olhava de relance para o Rio Fraser, ao mesmo tempo em que procurava localizar a casa de Deveraux. O Senador, pensava Alan, deve ter uma das mais belas vistas ao longo da avenida marginal.

O dia estava ensolarado e cintilante quando se dirigiu para a grande mansão de estilo Tudor. A casa era protegida da curiosidade dos transeuntes por uma cerca alta de cedro e bem recuada da avenida, com uma alameda de acesso em curva, fechada na entrada por um portão duplo de ferro forjado encimado por duas gárgulas. Um brilhante Chrysler Imperial estava ali parado e Alan Maitland estacionou atrás dele seu velho Chevrolet de cores já desbotadas. Caminhou na direção da maciça porta da frente, ornada de tachões e assentada num pórtico baronial, e tocou a campainha. Um mordomo atendeu quase imediatamente.

— Bom dia — disse Alan, — chamo-me Maitland.

— Entre, por favor — o mordomo era um homem franzino, de cabelos brancos, que caminhava como se tivesse os pés feridos. Conduziu Alan através de uma coberta de telhas a um grande vestíbulo. À entrada viu surgir à sua frente a figura esbelta e suave de uma mulher.

Era Sharon Deveraux, exatamente como se lembrava dela — não era linda, mas delicada, quase uma criança, de rosto comprido e olhos fundos e graciosos. Seu cabelo estava diferente, observou Alan. Era comprido e de cor preta lustrosa, mas agora estava cortado baixo e elegante, pensou.

— Como vai — disse Alan. — Ouvi dizer que está precisando de um advogado.

— No momento — respondeu Sharon prontamente, — preferiria um bombeiro. O vaso do banheiro de vovô não para de vazar.

Havia algo mais de que se lembrava — uma covinha em sua bochecha esquerda que surgia e desaparecia quando ela sorria, como acontecia agora.

— Este advogado — disse Alan, — trabalha também de bombeiro nas horas vagas. As coisas ultimamente não tem sido muito animadoras para o lado dos livros de Direito.

Sharon riu.

— Então me sinto feliz de me ter lembrado de você.

O mordomo retirou-lhe o sobretudo e Alan olhou ao redor com curiosidade.

A casa, por dentro e por fora, revelava riqueza e solidez. Tinham parado diante de um grande átrio, com suas paredes lambrisadas de madeira branca, seu teto de estilo Renascença, sobre um chão de tábuas de carvalho cavilhado e brilhante. Numa imponente lareira Tudor, ladeada por pilastras estriadas, um fogo de toros iluminava alegremente, e perto da lareira um arranjo de flôres vermelhas e amarelas enfeitava uma mesa elisabetana. Sobre um tapete Kerman, de cores vivas, uma elegante poltrona Yorkshire estava de frente para um sofá Knoll, e do outro lado, no canto mais afastado do átrio, cortinas de renda feitas a mão emolduravam janelas de sacada.

— Vovô regressou ontem à noite de Otawa — disse Sharon, voltando à conversa, — e ao café da manhã falou que estava precisando de um jovem Abraão Lincoln. Disse-lhe então que conhecera alguém chamado Alan Maitland que ia ser advogado e tinha toda espécie de ideais... ainda os alimenta?

— Acho que sim — respondeu Alan um tanto constrangido. Percebeu que impressionara mais aquela moça do que se lembrava. — De qualquer maneira, agradeço-lhe por se ter lembrado de mim — estava quente dentro de casa e ele torceu seu pescoço dentro da camisa branca engomada que vestira com o seu único terno bom, de cor cinza-escuro.

— Vamos para a sala de visitas — disse Sharon. — Vovô virá logo.

Alan a seguiu através do átrio. Sharon abriu uma porta por onde penetrou a luz do sol.

A sala era maior do que o átrio, porém mais clara e menos séria, pensou Alan. Sua mobília era do estilo Chippendale e Sheraton, com delicados tapetes da Pérsia, as paredes cobertas de damasco e ornamentadas com candelabros dourados e de cristal. Havia alguns quadros originais — Degas, Cézanne e um mais moderno, de Lawren Harris. Uma grande árvore de Natal, decorada, ocupava um dos cantos da sala, perto de um piano Steinway. Janelas de batentes com caixilhos de chumbo, agora fechadas, davam para um terraço de laje.

— O vovô, suponho, é o Senador Deveraux — disse Alan.

— Ah, esqueci que você não sabia — apontou-lhe um sofá Chippendale e assentou-se numa poltrona de frente. — Meus pais, sabe, divorciaram-se. Papai mora na Europa... a maior parte do tempo, na Suíça... enquanto mamãe casou-se de novo e foi para a Argentina, e eu moro aqui. — Sharon disse isso sem constrangimento ou qualquer vislumbre de queixa.

— Muito bem, muito bem. Aí está o nosso jovem — uma voz ecoou da entrada da porta junto à qual o Senador Deveraux, de cabelos brancos, estava em pé vestindo um fraque impecavelmente bem passado. Trazia uma pequena rosa vermelha na lapela e quando entrou estava esfregando as mãos.

Sharon fez as apresentações.

— Peço-lhe desculpas, Sr. Maitland — disse o Senador cortesmente, — por tê-lo chamado aqui num dia de Natal. Espero não lhe ter causado transtorno.

— Absolutamente, Sir —: disse Alan.

— Bem. Antes de entrar no assunto, talvez gostaria de tomar conosco um copo de xerez.

— Obrigado.

Em cima de uma mesa de mogno estava uma bandeja com copos e um jarro de cristal. Enquanto Sharon servia o xerez, Alan arriscou uma opinião:

O senhor tem uma linda casa, Senador.

— Sua opinião me lisonjeia, meu caro jovem — o velho parecia realmente satisfeito. — Durante toda a minha vida tive sempre o prazer de me cercar de coisas esquisitas.

— Vovô tem a fama de colecionador — disse Sharon. Ofereceu os copos de xerez. — O único incômodo é que se tem muitas vezes a impressão de se viver num museu.

— Os jovens zombam do que é antigo, ou fingem zombar — o Senador Deveraux sorriu complacentemente para sua neta. — Mas tenho minhas esperanças com Sharon. Ela e eu arrumamos juntos esta sala.

— É impressionante o resultado — observou Alan.

— Quero crer que seja verdade — o Senador correu um olhar complacente pela sala. — Temos algumas coisas um tanto especiais aqui. Veja, por exemplo, esse esplêndido modelo da dinastia T’ang — estendeu a mão e acariciou levemente um soberbo cavalo e cavaleiro de barro, graciosamente coloridos. A peça estava em cima de um tamborete de tampo de mármore. — Foi desenhado há dois mil e seiscentos anos por um artífice exímio numa civilização talvez mais esclarecida do que a nossa de hoje em dia.

— É lindo — disse Alan. Pensava: deve haver uma fortuna só nesta sala. Refletia no contraste entre esse ambiente e a casinha de dois quartos de Tom Lewis, onde estivera na noite anterior, tão pequena que parecia uma caixa.

— Mas agora vamos ao negócio — o tom de voz do Senador tornou-se enérgico e formal. Todos três sentaram-se.

— Como já disse, meu jovem, peço-lhe desculpas por este convite imprevisto. Há, entretanto, um problema que desperta meu interesse e compaixão e que, a meu ver, não pode sofrer delongas — seu interesse, explicou o Senador Deveraux, era pelo clandestino do navio, Henri Duval, aquele jovem infeliz, sem lar e sem pátria, que estava à nossa porta, apelando em nome da humanidade, para que lhe fosse permitido entrar no país.

— É verdade — disse Alan, — li a respeito disso na noite passada. Lembro-me de ter achado que quase nada se poderia fazer por ele.

Sharon, que estivera ouvindo atentamente, perguntou:

— Mas, por que não?

— Sobretudo — respondeu Alan — por causa da lei canadense de imigração que é muito precisa sobre quem pode e quem não pode entrar no país.

— Mas de acordo com o jornal — protestou Sharon, — não lhe querem dar nem mesmo o direito de ser ouvido.

— É verdade, meu jovem, que me diz a respeito disso, hein? — o Senador levantou as sobrancelhas num gesto de interrogação. — Onde está a nossa decantada liberdade quando um homem, não importa quem seja, não tem direito de ser julgado?

— Não me levem a mal — disse Alan. — Não estou defendendo as coisas como estão. Na verdade estudamos a lei da imigração na escola de Direito e acho que está um bocado errada. Mas estou considerando a lei como ela é. Se o problema é mudá-la, então o caso é mais com o senhor do que comigo, Senador.

O Senador suspirou.

— É difícil, difícil, com um Governo tão inflexível como o atual. Mas, diga-me, você acredita realmente que não há nada que se possa fazer por aquele jovem infeliz... naturalmente, é claro, em termos legais?

Alan hesitou.

— É uma opinião pessoal, é claro.

— É claro.

— Bem, supondo que os fatos sejam realmente verdadeiros como diz o jornal, Duval não tem direito algum. Antes de poder ter direito a ser ouvido... mesmo se isso fosse proveitoso, o de que duvido... teria de ser desembarcado oficialmente no país e isso, de acordo com a legislação vigente, parece improvável — Alan olhou para Sharon. — O que vai acontecer, na minha opinião, é que o navio partirá e Duval com ele... do mesmo modo como veio.

— Talvez, talvez — o Senador ficou pensativo, com o olhar fixo numa paisagem de Cézanne que estava na sua frente. — Não obstante, de vez em quando se descobrem brechas na lei.

— Muito frequentemente — concordou Alan, fazendo sinal com a cabeça. — Eu disse que era apenas uma opinião pessoal.

— É verdade, meu filho — o Senador parou de fixar o quadro e de novo a conversa assumiu o tom de negócio. — É por isso que eu quero que o senhor estude mais profundamente o assunto e veja se existe alguma brecha. Em suma, quero que o senhor seja o advogado daquele jovem.

— Mas suponhamos que ele. . .

O Senador Deveraux levantou uma mão admonitória.

— Por favor, ouça-me. Pretendo pagar todas as custas e demais despesas que possam ocorrer. Em troca lhe pediria que minha participação no assunto fosse confidencial.

Alan mexeu-se no sofá irresoluto. Aquele instante, sabia, poderia ser importante, tanto para ele como para outros. A própria questão poderia não dar em nada, mas, se conduzida adequadamente, poderia estabelecer conexões no futuro, com outros casos posteriores. Quando viera ali naquela manhã não sabia ainda o que o esperava; agora que sabia, deveria estar satisfeito. Não obstante, uma dúvida o incomodava. Suspeitava que houvesse algo mais por debaixo da proposta que o velho lhe estava a fazer. Percebia claramente que Sharon não tirava os olhos dele.

De repente, perguntou:

— Por que, Senador?

— Por que o que, meu jovem?

— Por que devo manter em segredo seu patrocínio?

O Senador, momentaneamente, pareceu aturdido, em seguida animou-se.

— Tenho a impressão de que há um trecho do Evangelho onde se lê: “Quando deres esmola, não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita.”

Era dramático. Mas Alan sentiu um estalo na cabeça. Perguntou calmamente:

— Esmola ou política, Sir?

O Senador abaixou os olhos.

— Infelizmente não o posso seguir.

Bem, pensou Alan, aí está, vou estragar o negócio e perder o primeiro grande cliente que já tive. Disse estudadamente:

— O direito de imigração é hoje um importante problema político. Esse caso particular já apareceu nos jornais pode provocar um bocado de aborrecimentos para o Governo. Não é isso que o senhor tem em mente, Senador, servir-se simplesmente desse homem do navio como uma espécie de joguete? Não é por isso que o senhor me quer. . . um advogado jovem e imaturo em vez de sua firma de advogados que seria identificada com o senhor? Sinto muito, Sir, mas essa não é a espécie de questão com que pretendo iniciar minha carreira profissional.

Falara com mais vigor do que pretendera inicialmente, mas a indignação tomara conta dele. Perguntava-se como iria explicar a seu sócio Tom Lewis e se Tom teria agido da mesma maneira. Achava que não; Tom tinha mais senso do que ele para jogar fora uma questão de modo tão quixotesco.

Alan tinha a impressão de estar fazendo um discurso retumbante. Para sua surpresa, verificou que o Senador estava rindo.

— Jovem e imaturo, se não me engano, foi o que o senhor disse — o Senador fez uma pausa, riu de novo, suspendendo um pouco seu cinto. — O senhor pode ser jovem, mas não é imaturo. Qual é sua opinião, Sharon?

— Eu diria que o senhor foi apanhado em flagrante vovô — Alan estava certo de que Sharon o olhava com respeito.

— É verdade, querida, fui apanhado em flagrante. Você me descobriu um jovem inteligente.

Sua situação mudara um pouco, constatava Alan, embora não estivesse certo de que modo. A única coisa de que tinha certeza era de que o Senador Deveraux era um homem de muitas facetas.

— Bem, assim sendo, pusemos ambos nossas cartas na mesa — o Senador mudara sutilmente seu tom de voz; agora era menos enfadonho, como se estivesse conversando de igual para igual. — Suponhamos que tudo que o senhor alega seja verdade. Não obstante, o jovem clandestino do navio não tem direito a uma assistência jurídica? Deve-lhe ser negado uma mão caridosa porque acontece que os motivos de um indivíduo, no caso, os meus, estejam misturados? Se estivesse morrendo afogado, meu caro, você se incomodaria se aquele que nadou para salvá-lo o fez porque achou que você vivo lhe pudesse ser útil?

— Não — respondeu Alan, — acho que não.

— Qual é, então, a diferença? Se é que há alguma diferença — o Senador Deveraux inclinou-se um pouco para frente na sua cadeira. — Permita-me lhe fazer uma pergunta. Você acredita na reparação de uma injustiça?

— Naturalmente que creio.

— Naturalmente — o Senador balançou a cabeça, assentindo. — Consideremos, então, aquele moço do navio. Não possui direitos jurídicos, segundo se informa. Não é canadense, ou um imigrante de verdade, nem mesmo um passageiro que desembarcou e vai embarcar de novo. Aos olhos da lei, ele nem existe. Por conseguinte, muito embora possa querer apelar para a lei... pleitear junto a um tribunal o ingresso nesse ou naquele país... não pode. Está certo isso?

— Eu não o poria exatamente nesses termos — respondeu Alan, — mas em substância está correto.

— Em outras palavras, sim.

Alan esboçou um ligeiro sorriso.

— Sim.

— Suponhamos ainda que, hoje à noite, no navio que está ancorado no Porto de Vancouver, o mesmo homem cometesse um assassinato ou provocasse um incêndio. O que lhe aconteceria?

Alan fez um sinal de aprovação com a cabeça. Pode compreender o sentido da pergunta.

— Seria desembarcado e julgado.

— Exatamente, meu caro. E se fosse declarado culpado, seria punido e ninguém se preocuparia com seu status ou com a falta dele. Como o senhor vê, a lei pode alcançar Henri Duval, muito embora ele não possa alcançar a lei.

Era um argumento realmente bem acondicionado. Não era de admirar, refletiu Alan, que aquele homem tivesse uma insinuante capacidade de debate.

Mas, habilidoso ou não, o argumento era lógico. Por que a lei só funciona de um modo — contra um homem e não a favor dele? E muito embora os motivos do Senador Deveraux fossem políticos, nada mudava o fato essencial que destacara: de que a um indivíduo, presente na comunidade, esteja sendo negado um direito fundamentalmente humano.

Alan ponderava. O que podia fazer a lei pelo clandestino do navio? Alguma coisa ou nada? E se nada, por quê?

Alan Maitland não tinha ilusões com a lei. Apesar de novato na profissão, estava convencido de que a justiça não era nem automática nem imparcial, e que a injustiça às vezes triunfava sobre o direito. Sabia que a situação social tinha muito a ver com o crime e o castigo, e que os felizardos que podiam dar-se ao luxo de fazer uso de todos os processos legais estavam menos sujeitos à terrível punição pelo pecado do que aqueles que, sendo menos ricos, não o pudessem. A lentidão da justiça, estava certo, às vezes negava ao inocente seus direitos e alguns que mereciam desagravo deixavam de consegui-lo em virtude das grandes despesas de um dia num tribunal. E na outra extremidade da escala estavam os juízes dos tribunais sobrecarregados de questões, dispensando uma justiça de panela de pressão, sem atinar muitas vezes com os direitos de um acusado.

Chegara a conhecer essas coisas quase do mesmo modo como todos estudantes e jovens advogados vão aos poucos e inevitavelmente tomando conhecimento delas. Isso às vezes o fazia sofrer profundamente, como de igual maneira mortificara muitos de seus colegas mais velhos cujo idealismo não se extinguira durante seus anos de tribunal.

Mas com todos os seus defeitos, a lei tinha uma grande virtude. Existia. Seu maior mérito era sua disponibilidade.

A existência da lei não era um reconhecimento de que a igualdade dos direitos humanos constituísse um objetivo digno. Quanto aos seus defeitos, com o tempo iriam sendo corrigidos; as correções sempre vinham, embora às vezes com atraso. Entrementes, tanto para o pobre como para o rico, as portas do tribunal estavam sempre abertas.

Exceto, ao que parecia, para um homem chamado Henri Duval.

Alan estava certo de que o Senador o observava esperando uma resposta. Sharon tinha um olhar ligeiramente carrancudo.

— Senador Deveraux — disse Alan, — caso viesse a aceitar essa questão, na hipótese de estar o clandestino disposto a se fazer representar — ele é que seria meu cliente. Correto?

— Acho que o senhor poderia explicá-lo desse modo.

Alan sorriu.

— Em outras palavras, sim.

O Senador jogou a cabeça para trás, com uma gargalhada.

— Estou começando a gostar de você, meu rapaz. Queira continuar.

— Muito embora o senhor esteja por detrás, Senador — disse Alan cuidadosamente, — qualquer ação tomada da parte de meu cliente seria da decisão exclusiva dele e de mim próprio, sem nenhuma consulta a terceiros.

O velho olhou Alan com astúcia.

— Você não acha que quem paga o tocador é o dono. . .

— Não, Sir, não nesse caso. Se tenho um cliente, devo fazer o que achar que seja melhor para ele e não o que seja mais conveniente sob o ponto de vista político.

O sorriso do Senador desapareceu e sua voz tinha agora um tom de absoluta frieza.

— Eu poderia lembrar ao senhor que essa é o tipo da oportunidade que muitos jovens teriam o prazer de aceitar.

Alan pôs-se de pé.

— Nesse caso, Sir, sugiro uma consulta às páginas amarelas — e voltando-se para Sharon: — Sinto muito se a decepcionei.

— Um momento! — era o Senador. Levantara-se também e agora encarava Alan e explodia: — Quero-lhe dizer, meu jovem, que o considero impaciente, impertinente, ingrato, mas aceito seus termos.

Apertaram-se as mãos em sinal de acordo e depois Alan declinou a um convite do Senador para ficar para o almoço.

— É melhor que eu vá ainda hoje ver meu constituinte — disse Alan. — Tratando-se de um navio, não posso contar com muito tempo.

Sharon mostrou-lhe a porta. Ao vestir seu sobretudo, Alan sentiu sua proximidade e um perfume suave.

— Gostei muito de revê-la, Sharon — disse Alan um tanto sem jeito.

Ela sorriu.

— Eu também — mais uma vez a covinha apareceu e desapareceu. — E mesmo que não queira dar informações a vovô, venha ver-nos de novo.

— O que me torna perplexo — disse Alan jovialmente, — é como passei tanto tempo afastado.

 

A chuva da noite anterior deixara poças d’água ao longo do porto e Alan Maitland as contornava cautelosamente, de vez em quando olhando para cima e para a fila de navios cujas silhuetas se destacavam sombrias contra um céu de nuvens baixas e cinzentas. Um vigia armado acompanhado de um cão mestiço — a única pessoa que encontrara no porto deserto e silencioso — tinha-o encaminhado para ali e, agora, lendo os nomes dos navios atracados, pode ver o Vastervik, o segundo da fila.

Uma tênue coluna de fumaça, dissipada pelo vento logo que subia, era o único sinal de vida a bordo. Em torno do navio os sons eram fracos; o bater da água e o ranger de madeira um pouco mais abaixo; e acima, o grito melancólico de gaivotas a voar. Os sons do porto eram sons desolados, pensava Alan, e se perguntava se o homem que ia ver teria escutado os mesmos sons nos outros tantos portos por onde passara.

Perguntava-se também que espécie de pessoa seria o clandestino Henri Duval. Na verdade, a reportagem tinha-o pintado como uma figura simpática, mas a imprensa muitas vezes diz as coisas sem fundamento. O mais certo, pensava Alan, é que o sujeito deve ser da pior espécie de tunante do mar que ninguém queria e por bons motivos.

Chegou à prancha de ferro do navio e subiu por ela. Ao chegar na extremidade suas mãos estavam cobertas de ferrugem.

Atravessada à entrada do convés uma corrente fechava o caminho. Pendurada na corrente estava uma placa de madeira compensada com um letreiro mal escrito:

Entrada Proibida a Estranhos

Por ordem do Cap. S. Jaabeck

Alan retirou a corrente e prosseguiu. Tinha dado alguns passos na direção de uma porta de aço quando uma voz gritou:

— O senhor leu o aviso! Nada de repórteres!

Alan voltou-se. O homem que se aproximava ao longo do convés devia ter seus trinta e poucos anos de idade; era alto e magro. Trazia um terno marrom amarrotado e tinha barba eriçada. Seu sotaque, pela pronúncia dos rr, revelava o escandinavo.

— Não sou repórter — disse Alan. — Gostaria de falar com o Capitão.

— O Capitão está ocupado. Sou o terceiro oficial — o homem alto teve um acesso de tosse, limpou a garganta e cuspiu delicadamente por cima do costado.

— O senhor apanhou uma gripe feia — disse Alan.

— Atchim! É o país de vocês... úmido e frio. Na minha pátria, na Suécia, faz frio também, mas o ar é afiado como uma faca. Para que deseja ver o Capitão?

— Sou advogado — disse Alan. — Vim ver se posso ajudar o clandestino de vocês, Henri Duval.

— Duval! Duval! De repente tudo é Duval! Tornou-se agora a coisa mais importante aqui. Bem, o senhor não o ajudará. Estamos, como se diz?, num aperto. Ele ficará conosco até o navio afundar — o homem alto riu sarcasticamente. — Olhe em sua volta, não vai demorar muito.

Alan olhou para a ferrugem e a pintura que descascava. Fungou. O cheiro de repolho podre era muito forte.

— Sim, eu sei o que o senhor quer dizer.

— Bem — disse o homem alto. — Uma vez que o senhor não é repórter, talvez o Capitão o receba — fez um sinal com a mão. — Venha! Como presente de Natal eu o levarei ao Capitão.

A cabina do Comandante estava horrivelmente quente. Seu ocupante naturalmente devia gostar disso, pois ambos os postigos que davam para o convés externo, observou Alan, estavam hermeticamente fechados. A atmosfera estava também carregada com a fumaça de fumo forte.

O Capitão Jaabeck, em mangas de camisa e com os velhos chinelos de feltro já fora de moda, levantou-se de uma cadeira de couro quando Alan entrou. Estava lendo um livro grosso e interrompeu a leitura.

— Foi bondade sua me receber — disse Alan. — Chamo-me Maitland.

— E eu, Sigurd Jaabeck — o Capitão estendeu uma mão áspera e cabeluda. — Meu terceiro oficial diz que o senhor é advogado.

— Exato — reconheceu Alan. — Li a respeito de seu clandestino e vim ver se posso ajudá-lo.

— Assente-se, por favor — o Capitão mostrou uma cadeira e voltou à sua. Em contraste com o resto do navio, observou Alan, a cabina era confortável e limpa, suas peças de madeira e de bronze brilhavam. Havia lambris de mogno em três paredes, cadeiras de couro verde, uma pequena mesa de jantar e uma escrivaninha com tampa corrediça bem polida. Uma porta com cortina dava provavelmente para o quarto de dormir. Os olhos de Alan correram ao redor, depois se fixaram curiosamente no livro que o Capitão pusera de lado.

— É Dostoievsky — disse o Capitão Jaabeck — Crime e Castigo.

— O senhor o está lendo no original russo — disse Alan admirado.

— Muito devagar — disse o Capitão. — O russo é uma língua que não leio bem — apanhou um cachimbo de um cinzeiro, bateu o fornilho e começou a enchê-lo. — Dostoievsky acredita que no fim a justiça sempre triunfa.

— O senhor, não?

— Às vezes não se tem muita paciência, sobretudo quando se é jovem.

— Como Henri Duval?

O Capitão ficou pensativo, chupando seu cachimbo.

— O que espera poder fazer por ele? Não é ninguém. Não existe.

— Talvez nada — respondeu Alan. — De qualquer maneira, gostaria de lhe falar. Ele despertou interesse e muitos gostariam de ajudá-lo, se pudessem.

O Capitão Jaabeck olhou Alan com ironia.

— Será esse interesse duradouro? Ou é meu jovem clandestino o que os senhores chamam de sensação passageira?

— Ainda assim — disse Alan, — não acabou de passar.

Mais uma vez o Capitão fez uma pausa antes de responder.

Depois disse, medindo bem as palavras:

— O senhor compreende que é meu dever livrar-me desse homem. Um clandestino custa dinheiro e hoje em dia o dinheiro está muito escasso no mar. Os lucros são pequenos, dizem os proprietários, e por conseguinte devemos fazer economias. O senhor já viu o estado do navio.

— Compreendo, Capitão.

— Mas esse jovem permanece comigo há vinte meses. Durante tanto tempo formam-se, digamos, opiniões e até apegos — o Capitão falava lentamente. — O moço não teve uma vida feliz! Talvez nunca venha a ter e acho que o problema não é meu. E, não obstante, não gostaria de alimentar suas esperanças, para em seguida destruí-las cruelmente.

— Tudo quanto posso dizer-lhe — afirmou Alan, — é que há pessoas que gostariam de que lhe fosse dada uma oportunidade aqui. Pode não ser possível, mas se não tentarmos, nunca poderemos saber.

— Isso é verdade — assentiu o Capitão. — Muito bem, Sr. Maitland, mandarei chamar Duval e poderá conversar com ele aqui. Gostaria de ficar a sós?

— Não — disse Alan. — Preferiria que o senhor ficasse.

Henri Duval apreensivo ficou em pé junto à porta. Seu olhar caiu primeiro sobre Alan Maitland, depois sobre o Capitão Jaabeck.

O Capitão acenou para Duval, para que entrasse.

— Não tenha receio. Este senhor, Sr. Maitland, é advogado. Veio ajudá-lo.

— Li ontem a seu respeito — disse Alan, sorrindo. Estendeu a mão e o clandestino a apertou hesitante. Alan observou que na realidade era mais novo mesmo do que fazia parecer sua fotografia no jornal, e que seu olhar profundo expressava prudência e ansiedade. Ele estava usando calça azul e uma jersey de marinheiro serzida.

— Estar bom, o escrito? — perguntou o clandestino ansiosamente.

— Estava muito bom — respondeu Alan. — Eu vim para saber o que há de verdade nisso.

— Tudo verdade! Eu dizer verdade! — a expressão era de ofensa, como se lhe tivesse assacado uma acusação. Alan pensou: Preciso ter mais cuidado ao escolher as palavras.

— Estou certo de que a disse. O que quis dizer era se o jornal teria dito tudo exatamente.

— Eu não compreender — Duval sacudiu a cabeça, com uma expressão ainda de ofendido.

— Esqueçamos disso por alguns instantes — disse Alan. Começara mal, parecia. Agora prosseguiu: — O Capitão lhe disse que sou advogado. Se for de seu agrado, eu o representarei e tentarei levar seu caso aos tribunais de nosso país.

Henri Duval olhava ora para Alan, ora para o Capitão.

— Não ter dinheiro. Mim não poder pagar advogado.

— Não vai pagar nada.

— Quem pagar então? — mais uma vez a ansiedade.

— Alguém pagará.

O Capitão interrompeu:

— Há algum motivo por que não lhe pode dizer quem vai pagar, Sr, Maitland?

— Sim — disse Alan. — Tenho instruções para não revelar o nome da pessoa. Tudo quanto posso dizer é que se trata de uma pessoa bondosa e que gostaria de ajudar.

— Aparecem às vezes pessoas bondosas — disse o Capitão. Manifestamente satisfeito, fez um gesto de encorajamento para Duval.

Lembrando-se do Senador Deveraux e de seus motivos, Alan teve um momentâneo escrúpulo de consciência. Lembrando-se também dos termos em que insistira, acalmou-se.

— Se mim ficar, mim trabalhar — insistiu Henri Duval, — ganhar dinheiro e pagar.

— Bem — disse Alan, — espero que possa fazer isso se quiser.

— Eu pagar — a expressão de Duval era toda ansiedade. A desconfiança por um instante desapareceu.

— Devo-lhe dizer, porém, que talvez não possa fazer nada por você. Compreende?

Duval parecia perplexo. O Capitão explicou:

— O Sr. Maitland fará o possível. Mas talvez a Imigração diga não... como antes.

Duval assentiu lentamente com a cabeça.

— Compreender.

— Ocorre-me uma coisa, Capitão Jaabeck — disse Alan.

— Desde que chegou aqui o senhor levou Henri Duval ao Ministério da Imigração e solicitou uma apreciação de seu requerimento de desembarque?

— Um oficial da Imigração esteve a bordo...

— Não — insistiu Alan. — Além disso, o senhor o levou ao Edifício da Imigração e pediu um inquérito oficial?

— Que adianta? — o Capitão encolheu os ombros. — É sempre a mesma resposta. Além disso, disponho de tão pouco tempo no porto e tenho muito que fazer no navio. Hoje porque é Natal, é que estou lendo Dostoievsky.

— Em outras palavras — disse Alan conciliador, — o senhor não o levou e pediu um inquérito completo porque tem estado muito ocupado, não é? — teve o cuidado de manter um tom de voz que denotava despreocupação, embora a ideia que lhe ocorrera estivesse ganhando forma em sua mente.

— Exatamente — respondeu o Capitão Jaabeck. — Naturalmente, se algum bem pudesse advir...

— Deixemos isso para depois — disse Alan. Sua imaginação estivera divagando e talvez não chegasse a nada. De qualquer modo precisava de tempo para ler tudo sobre as leis de imigração. Mudou abruptamente de assunto.

— Henri — disse a Duval, — no momento gostaria de repassar tudo quanto já lhe aconteceu e de que se pode ainda lembrar. Eu sei que muitas coisas já estão no jornal, mas pode haver outros fatos omitidos e outros de que você se lembrou depois. Por que não começar do princípio? Qual é a primeira coisa de que se lembra?

— Minha mãe — disse Duval.

— De que mais recorda a respeito dela?

— Ela boa para mim — disse Duval com simplicidade. Depois ela morta, ninguém mais bom... até este navio.

O Capitão Jaabeck tinha-se levantado e dado as costas para Alan e Duval. Estava enchendo lentamente seu cachimbo.

— Fale-me de sua mãe, Henri — pediu Alan. — Com que se parecia, de que gostava de falar, o que faziam juntos.

— Minha mãe linda, eu achar. Abraçava mim pequeno, eu ouvir ela cantar — o jovem clandestino falava pausadamente, com cuidado, como se o passado fosse algo frágil, que só pudesse tocar com delicadeza, com medo de desaparecer. — Uma vez ela dizer: um dia nós tomar navio e encontrar nova pátria. Nós dois, juntos — hesitante em certos momentos, mais confiante em outros, continuou a falar.

Sua mãe, achava, teria sido filha de uma família francesa que voltara para a França antes de seu nascimento. Por que não teve relações com seus pais era objeto de meras conjeturas. Talvez tivesse algo a ver com seu pai que (conforme lhe dissera sua mãe) vivera pouco tempo com ela em Djibouti, mas depois a deixara e voltara para o mar.

Em substância era a mesma história que já contara a Dan Orliffe dois dias atrás. Durante todo o tempo Alan ouviu atentamente, estimulando onde necessário e intercalando uma pergunta ou reconstituindo os fatos quando pareciam confusos. Mas a maior parte do tempo olhava o rosto de Henri Duval. Era uma fisionomia convincente que refletia a tristeza quando os incidentes eram revividos na mente do narrador. Havia momentos também de angústia e os olhos do jovem clandestino encheram-se de lágrimas quando descreveu a morte de sua mãe. Se isso fosse um testemunho num tribunal, dizia Alan para si próprio, eu acreditaria no que estava dizendo.

Para terminar, perguntou:

— Por que você quer ficar aqui? Por que o Canadá? — dessa vez, pensou Alan, a resposta certamente será falsa: vai dizer provavelmente que é um belo país e que sempre pensou em viver aqui.

Henri Duval refletiu cautelosamente. Depois disse:

— Os outros todos dizer não. Canadá ser último eu tentar. Se não possível, não haver mais lugar para Henri Duval, nunca.

— Bem — disse Alan, — acho que obtive uma resposta honesta.

Sentiu-se estranhamente comovido e experimentava uma emoção que não esperara. Viera com ceticismo, preparado, se necessário, para simular ações legais, embora não esperasse ser bem sucedido. Mas agora queria mais. Queria fazer algo por Henri Duval no sentido positivo; tirá-lo do navio e lhe oferecer a oportunidade de construir uma vida para si mesmo de um modo que até então o destino lhe vinha negando.

Mas poderia fazê-lo? Haveria alguma brecha na lei de imigração através da qual esse homem pudesse passar? Talvez houvesse, mas então não haveria tempo a perder para descobri-la.

Durante a última parte da entrevista, o Capitão Jaabeck entrara e saíra várias vezes. Agora estava no fundo da cabina, quando Alan perguntou:

— Quanto tempo ficará em Vancouver?

— Deveria ficar no máximo cinco dias. Infelizmente, porém, os motores estão precisando de consertos e por isso teremos de permanecer duas semanas, talvez três.

Alan assentiu. Duas ou três semanas é muito pouco, mas em todo caso é melhor do que cinco dias.

— Para representar Duval, preciso receber uma procuração dele por escrito.

— Então o senhor terá de escrever o que for necessário — disse o Capitão Jaabeck. — Ele só sabe assinar o nome e só.

Alan tirou um caderno de notas do bolso, refletiu por alguns instantes, depois escreveu:

“Eu, Henri Duval, atualmente detido no navio Vastervik no Cais La Pointe de Vancouver, Canadá, venho por este instrumento requerer a permissão para ser desembarcado no porto acima citado e contratei Alan Maitland da firma Lewis & Maitland para agir por mim como meu advogado em todos os assuntos referentes a este requerimento.”

O Capitão ouviu atentamente a leitura que Alan fez em voz alta da procuração.

— Está boa — disse a Duval. — Se quiser o auxílio do Sr. Maitland, assine o que ele acaba de escrever.

Servindo-se de uma caneta que o Capitão lhe ofereceu, Henri Duval assinou o caderno de notas devagar e sem jeito, com uma letra infantil e esparramada. Alan observava com impaciência. Seu único pensamento agora era sair logo do navio e estudar profundamente a ideia que lhe passara há pouco pela cabeça: experimentava uma exaltação crescente. É claro que o que tinha em mente seria um tiro no escuro. Mas era a espécie de risco que tinha apenas uma chance, uma mera possibilidade de sucesso.

 

O Deputado Harvey Warrender

A pequena trégua de Natal passara tão depressa como se não tivesse existido.

No dia de Natal, os Howdens foram cedo à igreja e, de volta à casa, receberam cumprimentos até a hora do almoço. As visitas, na sua maior parte, eram de caráter oficial e de alguns poucos amigos da família. Na parte da tarde, vieram os Lexingtons, e o Primeiro-Ministro e Arthur Lexington passaram duas horas encerrados no gabinete do Ministro a discutir os pormenores da viagem a Washington. Mais tarde, Margaret e James Howden conversaram pelo telefone com suas filhas, genros e netos, que passavam o Natal juntos, em Londres. Foi uma longa chamada, pois cada qual queria falar um pouco e James Howden, dando uma olhadela no seu relógio, tranquilizou-se ao pensar que seria seu rico genro industrial e não ele quem iria pagar a conta. Mais tarde ainda, os Howdens jantaram sossegados em casa. Em seguida, o Primeiro-Ministro ficou a caminhar de um lado para outro de seu gabinete, enquanto Margaret assistia a um filme na televisão. Era a triste e suave história de James Milton, Adeus, Mr. Chips, e Margaret lembrava com nostalgia que ela e seu marido já haviam assistido a esse filme na década de 30. O artista, Robert Donat, e o autor da peça há muito tempo já tinham morrido e hoje em dia os Howdens não iam mais a cinema. . . Às 11h30m, depois de dar boa noite, Margaret foi-se deitar, enquanto James Howden continuou trabalhando até 1 hora da manhã.

 

O Natal de Milly Freedeman tinha sido menos árduo, mas também menos interessante. Levantara-se tarde e, depois de um pouco de indecisão, fora à igreja, mas não comungara. À tarde, tornou um táxi para a casa de uma velha amiga de Toronto que estava agora casada e morava em Otawa e a tinha convidado para a ceia de Natal. Havia muitas crianças na casa, que depois de certo tempo começaram a chorar e, mais tarde ainda, a conversa fastidiosa sobre a educação dos filhos, vida doméstica e custo de vida. Mais uma vez — como em outras ocasiões — Milly constatou que não estava enganada ao pensar que essas cenas, assim chamadas de alegrias do lar, não tinham nenhuma atração para ela. Preferia seu confortável apartamento, a independência, o trabalho e a responsabilidade que tinha. Pensou então: Talvez esteja simplesmente ficando velha e rabugenta, mas, de qualquer maneira, foi um alívio quando chegou o momento de ir embora. O marido de sua amiga a levou de carro para casa e, no caminho, fez propostas amorosas que Milly rejeitou firmemente.

Durante o dia pensara muito em Brian Richardson, imaginando o que estaria fazendo e se telefonaria. Não tendo telefonado, ficara profundamente desapontada.

O senso comum advertia Milly contra um envolvimento emocional mais sério. Lembrou-se do casamento de Richardson, da improbabilidade de algo permanente entre eles dois, de sua própria vulnerabilidade... Mas, ainda assim, a imaginação superava a razão, puros devaneios, um eco de palavras pronunciadas num murmúrio: Sinto necessidade de você, Milly. Não tenho outro modo de me exprimir, a não ser que sinto necessidade de você... E no fim, foi esse pensamento que perdurou deliciosa e sonhadoramente, como última lembrança do dia transcorrido.

 

Brian Richardson tivera um Natal atarefado. Deixara o apartamento de Milly de madrugada e, depois de dormir quatro horas, foi acordado pelo seu despertador. Eloise, observara, não tinha voltado para casa, coisa que não o surpreendia. Depois de tomar seu café, rumou para a sede do partido na Sparks Street, onde permaneceu a maior parte do dia, elaborando os detalhes do plano da campanha nacional que discutira com o Primeiro-Ministro. Uma vez que só ele e o zelador estavam no edifício, livre de interrupções, conseguira produzir muito e, finalmente, voltara ao seu apartamento vazio com um sentimento de satisfação. Uma ou duas vezes, durante o dia, surpreendeu-se pensando em Milly, na maneira como ela estivera na noite passada. Duas vezes pensou em lhe telefonar, mas um sentimento de cautela o advertiu para que não o fizesse. Afinal de contas, tudo não ia além de um mero passatempo, que não deveria ser levado muito, a sério. À noite leu um pouco e foi cedo para a cama.

E agora o Natal tinha passado.

Eram 11 horas do dia 26 de dezembro.

 

— Mr. Warrender está à sua disposição esta manhã, se quiser falar com ele — anunciou Milly Freedeman. Entrara no gabinete do Primeiro-Ministro com uma bandeja de café, no momento em que seu secretário executivo deixava a sala. Elliot Prowse, assim se chamava seu secretário executivo, um jovem diligente, ambicioso e de atitudes independentes, estivera entrando e saindo durante toda a manhã, recebendo instruções e trazendo os resultados para James Howden no meio de uma torrente ininterrupta de outros funcionários com despachos. Grande parte da atividade, sabia Milly, estava ligada às futuras conversações de Washington.

— Por que devo falar com Warrender? — James Howden, um tanto irritado, levantou os olhos de uma pasta de papel — uma de uma série sobre sua mesa, marcada com letras bem grandes — ultra-secreto — e relacionada com a defesa intercontinental, para a qual tinha voltada sua atenção. Os assuntos militares nunca tinham interessado muito a James Howden e, mesmo agora, precisava concentrar-se para poder assimilar os fatos. De vez em quando entristecia-se porque lhe restava tão pouco tempo para se dedicar ao bem-estar social que constituíra outrora sua preocupação dominante na política.

Servindo o café de uma garrafa térmica, Milly respondeu calmamente:

— Lembro-me de que procurou por Mr. Warrender na véspera de Natal e ele estava fora — pos os quatro tabletes de açúcar, como de costume, misturou o creme com abundância e colocou a xícara cuidadosamente sobre uma folha de mata-borrão, com um pratinho de chocolates ao lado.

James Howden pos a pasta de lado, apanhou um chocolate e o mordeu.

— Estes são melhores do que os últimos — disse num tom de aprovação.

Milly sorriu. Se Howden estivesse estado menos preocupado poderia ter observado que ela estava extraordinariamente radiante naquela manhã, atraentemente bem vestida num costume de listras azuis e blusa azul-claro.

— É verdade, procurei-o — disse o Primeiro-Ministro depois de uma pausa. — Havia um caso de imigração em Vancouver — e acrescentou esperançoso: — Quem sabe, a esta altura já terá sido resolvido.

— Acho que não — disse-lhe Milly. — Mr. Richardson telefonou esta manhã para deixar um lembrete — consultou uma caderneta de anotações — Pediu-me para lhe dizer que há um caso muito grave no Oeste e que os jornais do Leste estão começando a se interessar — deixou de dizer que Brian Richardson acrescentara também amorosamente: — Você é uma linda pessoa, Milly. Estive pensando nisso e conversaremos logo depois.

James Howden suspirou.

— Acho melhor ver logo Harvey Warrender. Seja como for, tenho de enquadrá-lo, dez minutos serão suficientes.

— Está bem — disse Milly, — cuidarei disso esta manhã.

Sorvendo o café, Howden perguntou:

— Há muito serviço atrasado esperando?

Milly sacudiu a cabeça.

— Nada que não possa esperar um pouco. Passei alguns casos urgentes para o Sr. Prowse.

— Ótimo — o Primeiro-Ministro assentiu com a cabeça. — Contitinue a fazer assim, Milly, nas semanas que vem.

Às vezes, como agora, experimentava um sentimento nostálgico de Milly, muito embora o desejo físico já tivesse desaparecido. Muitas vezes se perguntava como poderia ter tudo isso acontecido... o romance entre eles: a própria intensidade de sentimento na época. Uma parte era devida à solidão que, naturalmente, sempre perseguia os parlamentares em Otawa; a sensação do vazio, com tão pouco a fazer para preencher as longas horas quando a Casa estava reunida. E, na época, Margaret estivera ausente durante um bom espaço de tempo... Mas tudo isso parecia distante, muito longe.

— Há, porém, uma coisa e detesto incomodá-lo com a notícia — Milly hesitou. — Há uma carta do banco. Outro lembrete de que sua conta está em descoberto.

Voltando atrás em seus pensamentos, Howden disse desanimado:

— Receio que isso aconteça em breve.

Como da vez que Margaret tocara no assunto três dias atrás, sentiu-se magoado com a necessidade de se ocupar de coisas como estas num momento como aquele. Achava que de certo modo a culpa era sua. Sabia que bastaria deixar transpirar sua situação entre alguns membros ricos do partido ou entre generosos amigos americanos e o dinheiro viria rapidamente e com abundância, sem alarde. Outros primeiros-ministros agiram assim, mas Howden se recusara sempre a imitá-los, principalmente por uma questão de orgulho. Sua vida, raciocinava, tinha começado com a caridade num orfanato e afastava a ideia de que depois de uma vida de realizações viesse a se tornar de novo um dependente da caridade.

Lembrou-se da preocupação de Margaret com a rapidez com que estavam desaparecendo suas modestas economias.

— Gostaria que você telefonasse para a Curadoria Montreal — instruiu. — Pergunte se o Sr. Maddox pode vir falar comigo.

— Imaginei que quisesse falar com ele — respondeu Milly, — e marquei a entrevista. O único momento disponível na sua agenda será amanhã à tarde e ele virá nessa hora.

Howden concordou. Era sempre grato a Milly por suas providências eficientes.

Esvaziou a xícara de café — gostava do café quase fervendo, além de doce e cremoso. Milly a encheu de novo. Inclinando sua cadeira para trás, relaxou conscientemente, gozando de um dos poucos momentos de sossego do dia. Dez minutos depois voltaria a ficar nervoso e preocupado, desenvolvendo um ritmo de trabalho que seu estafe tinha dificuldade em acompanhar. Milly sabia disso e com os anos aprendera também a relaxar nesses pequenos intervalos, coisa que sabia ser do agrado de James Howden.

— Você leu a ata? — perguntou ele agora.

— Do Conselho de Defesa?

Tomando outro chocolate, Howden acenou afirmativamente com a cabeça.

— Sim — disse Milly. — Li.

— Qual é sua opinião?

Milly pensou. Apesar de toda casualidade da pergunta, sabia que James esperava uma resposta honesta. Certa feita o Primeiro-Ministro lhe dissera em tom de queixa: “Procuro muitas vezes descobrir o que pensam as pessoas, mas não me dizem a verdade, mas o que acham ser do meu agrado.”

— Não sei o que restaria de nós como canadenses — disse Milly. — Se isso acontecesse, isto é, o Ato de União, não sei como poderíamos voltar ao estado de coisas anterior.

— Nem eu tampouco — disse Howden.

— Bem, não seria então apenas o começo de um processo de destruição? No fim seríamos parte dos Estados Unidos. No fim toda nossa independência teria desaparecido — mesmo ao fazer a pergunta, Milly se interrogava: que importaria se fosse verdade? O que era a independência, senão uma ilusão de que falavam os povos? Ninguém era realmente independente, nem poderia ser, e o mesmo acontecia com as nações. Perguntava-se como Brian Richardson se sentiria; gostaria de conversar com ele, agora mesmo, a respeito disso.

— Provavelmente seremos engolidos, ou parecerá que o estamos sendo por algum tempo — disse Howden calmamente. — É possível também que depois de uma guerra o resultado possa ser outro — fez uma pausa, depois continuou, com uma expressão sorumbática: — As guerras tem o seu modo de mudar as coisas, como você sabe, Milly; de esgotar nações e reduzir impérios, e às vezes, aqueles que pensam que venceram uma guerra, na realidade a perderam. Roma experimentou isso, do mesmo modo que outras nações: os filisteus, os gregos, os espanhois, os franceses, os ingleses. O mesmo pode acontecer com a Rússia ou os Estados Unidos; talvez aconteça com ambos no fim, deixando o Canadá fortíssimo — parou e depois continuou: — Um erro que as pessoas costumam cometer é supor que as grandes mudanças da história ocorrem sempre em época que não são a sua própria.

Havia também um pensamento em sua mente que Howden não exprimiu. Um Primeiro-Ministro canadense poderia facilmente ter mais influência numa relação conjunta do que sob uma independência total. Poderia tornar-se um intermediário, com autoridade e poder que poderiam ser reforçados e ampliados. E no fim — caso o próprio Howden fosse o único a controlá-los — a autoridade poderia ser usada em benefício do seu próprio país. O importante, a chave do poder, seria não deixar jamais escapar a ponta do fio da independência canadense.

— Acho que é importante transferir as bases de mísseis para o norte — disse Milly, e compreendo o que disse sobre a defesa contra a radioatividade de áreas agricultáveis. Mas estamos realmente caminhando para uma guerra, é o que isso significa, não é?

Devia Howden transmitir sua própria convicção sobre a inevitabilidade da guerra e sobre a necessidade de se preparar para ela em termos de sobrevivência? Resolveu que não. Era uma questão da qual se deveria abster publicamente e agora poderia começar a praticar.

— Estamos escolhendo um partido, Milly — respondeu prudentemente, — e o estamos fazendo enquanto a escolha pode ainda significar alguma coisa. De certo modo, acreditar no que acreditamos é a única escolha que podemos sempre fazer. Mas somos sempre tentados a procurar evasivas, a evitar uma decisão, a cruzar os braços esperando que passem verdades amargas — sacudiu a cabeça. — E nada mais.

Milly, por conjetura, perguntou:

—Não será difícil convencer o povo?

O Primeiro-Ministro esboçou um rápido sorriso.

— Creio que sim. As coisas podem vir a se tornar um tanto confusas aqui.

— Nesse caso — disse Milly, — procurarei pô-las em ordem — com essas palavras, Milly sentiu nascer uma afeição e uma admiração por esse homem que, há tantos anos, vira realizar tanto e propunha agora arcar com maiores responsabilidades. Não era o velho e persistente sentimento que outrora experimentara, mas, de um modo mais profundo, precisava protegê-lo e defendê-lo. Com satisfação, experimentou a sensação de ser útil.

James Howden disse calmamente:

— Você sempre pos as coisas em ordem, Milly. Isso significa muito para mim — colocou a xícara de café em cima da mesa: um sinal de que o pequeno intervalo estava terminado.

Quarenta e cinco minutos mais tarde e depois de três entrevistas, Milly introduziu o Deputado Harvey Warrender.

— Assente-se, por favor — disse Howden friamente.

O Ministro da Cidadania e da Imigração acomodou seu corpo alto e protuberante numa cadeira de frente para a mesa de Howden. Mexeu-se inconfortavelmente.

— Olha, Jim — disse, procurando ser cordial, — se você me chamou para dizer que fiz um papelão naquela noite, permita-me que eu o diga primeiro. Realmente o fiz e me penitencio disso.

— Infelizmente — disse Howden mordazmente, — é um pouco tarde para se arrepender. E além disso, se você quer proceder como um bêbado de rua, uma recepção de um Governador-Geral não é lugar adequado para começar. Quero crer que já sabe que toda Otawa já tem conhecimento do ocorrido — Howden observou com desaprovação que o terno que Warrender usava estava precisando de ferro.

Warrender evitava o olhar grave do Primeiro-Ministro por cima de seu nariz afilado. Agitava uma mão num gesto de humildade:

— Eu sei, eu sei.

— Eu teria motivos suficientes para pedir sua demissão.

— Espero que não o faça, Primeiro-Ministro. Espero sinceramente que não o faça — Harvey Warrender inclinara-se para a frente, movimento que revelou gotas de suor na superfície calva de sua cabeça. Haveria em suas palavras e na maneira de dizê-las alguma ameaça velada? perguntava-se Howden. Era difícil saber. — Se pudesse acrescentar um pensamento — disse Warrender sorrindo, tranquilamente... tinha recuperado um pouco de sua costumeira autoconfiança — graviora quaedam sunt remedia periculis, ou numa tradução livre de Virgílio, alguns remédios são piores do que os males.

— Há também a citação sobre o zurro do asno — retrucou Howden irritado; as citações clássicas de Warrender sempre o aborreciam. O Primeiro-Ministro continuou a falar pouco comunicativo: — Ia-lhe dizer que decidira não tomar nenhuma atitude além de uma advertência. Sugiro não me obrigar a mudar de ideia.

Warrender avermelhou-se, depois encolheu os ombros, murmurando calmamente:

— É melhor eu ficar calado.

— O motivo principal por que o chamei aqui era para conversarmos acerca desse último caso de imigração que surgiu em Vancouver. Parece ser a mesma espécie de situação embaraçosa que, venho insistindo, devemos evitar.

— Ah — os olhos de Warrender brilharam com vivo interesse. — Tenho um relatório completo sobre o assunto, Primeiro-Ministro, e posso informar-lhe tudo a respeito.

— Não preciso de informações — disse James Howden com impaciência. — Isso é assunto de seu Ministério e, além disso, tenho assuntos mais importantes — seu olhar caiu sobre as pastas abertas com os documentos referentes à defesa intercontinental; estava ansioso para voltar a estudá-los. — O que quero é que o caso seja resolvido e saia dos jornais.

Warrender franziu o cenho.

— Você não está sendo contraditório? Agora mesmo me disse que era assunto de meu Ministério e agora manda que resolva o caso...

Howden o interrompeu rudemente.

— Estou dizendo que o senhor precisa enquadrar-se na política do Governo — na minha política: que é evitar casos contenciosos de imigração, sobretudo agora, nas proximidades de uma nova eleição e — hesitou — de outras coisas que estão para acontecer. Falamos sobre isso naquela noite — depois, mordazmente: — Ou, talvez, não se recorda?

— Eu não estava completamente bêbado! — agora era Harvey Warrender que estava zangado. — Disse na ocasião o que pensava da nossa assim chamada política de imigração e mantenho minha apreciação. Ou promulgamos novas leis, honestas, sobre a imigração, que admita o que estamos fazendo e o que todo governo antes de nós...

— Que admita o quê?

James Howden tinha-se levantado e estava em pé junto à sua escrivaninha. Olhando para ele, Harvey Warrender disse calmo, mas com firmeza:

— Que admita que temos uma política de discriminação; e por que não, o país é nosso, não é? Que temos barreiras de cor e quotas de raças, que recusamos negros e orientais, e foi sempre assim, por que iríamos mudar agora? Que queremos anglo-saxões e precisamos de um pool de desempregados. Admitamos que temos uma quota muito reduzida para italianos e que estamos atentos a uma porcentagem de católicos. Deixemos de ser impostores. Façamos uma lei honesta sobre a imigração que diga as coisas como elas são. Deixemos de ter uma face nas Nações Unidas, privando com os homens de cor, e outra no Canadá...

— Você está louco? — James Howden, incrédulo, quase sussurrante, fez a pergunta. Tinha os olhos fixos em Warrender. Naturalmente, pensava ele, já tivera essa impressão no dia da recepção no Palácio do Governador... mas no início achava que fosse efeito do álcool... Depois se lembrou das palavras de Margaret: Tenho às vezes a impressão de que Harvey não é lá muito certo.

Harvey Warrender respirava pesadamente; suas narinas tremiam.

— Não, não estou louco, mas apenas cheio de tanta hipocrisia.

— A honestidade é uma bela coisa — disse Howden. Sua raiva tinha passado. — Mas a dessa espécie é suicídio político.

— Como poderemos saber se ninguém ainda a tentou? Como poderemos saber que o povo não gostaria de ouvir o que na realidade já sabe?

James Howden perguntou calmamente:

— Qual é a sua alternativa?

— Quer dizer, se não fizermos uma nova lei de imigração?

— Sim.

— Executar então a única que temos — disse Harvey Warrender firmemente. Eu a aplicarei sem exceção, camuflagem ou estratagemas, para evitar a imprensa. Assim talvez possamos apresentá-la na sua verdadeira face.

— Nesse caso — disse Howden friamente, — receberia com satisfação sua exoneração.

Os dois homens entreolharam-se.

— Oh, não — disse Harvey Warrender, em voz baixa, — oh, não.

Fez-se silêncio.

— Peço que seja explícito — ponderou Howden. — Você tem algo em mente?

— Acho que você sabe.

O Primeiro-Ministro tinha uma expressão dura, seu olhar era inflexível.

— “Explícito”, foi a palavra que usei.

— Muito bem, se é isso que você quer — Harvey Warrender tinha voltado à sua cadeira. Agora, em tom de conversa, como se estivesse discutindo assuntos corriqueiros, disse: — Fizemos um acordo.

— Isso já faz muito tempo.

— O acordo não estipulou prazo.

— Não obstante, já expirou.

Harvey Warrender sacudiu a cabeça obstinadamente.

— O acordo não teve prazo. Tateando no bolso interno do paletó, tirou um papel dobrado e o jogou em cima da secretária do Primeiro-Ministro.

— Leia e veja.

Ao estender o braço, Howden viu que sua mão tremia. Se fosse o original, o único exemplar... Era uma fotostática.

Por alguns instantes perdeu o controle.

— Você é um irresponsável!

— Por quê? — perguntou Harvey com um semblante tranquilo.

Uma fotostática?...

— Ninguém viu o que estava sendo copiado. Além disso fiquei o tempo todo na frente da máquina.

— As fotostáticas têm negativos.

— Eu tenho a negativa — disse Warrender calmamente. — Guardo-a num cofre na eventualidade de vir a precisar de mais exemplares. O original está também em segurança — fez um gesto. — Por que não lê? É sobre isso que estavamos conversando.

Howden baixou a cabeça; as palavras lhe saltavam aos olhos. Eram simples, concisas e escritas do seu próprio punho.

1. H. Warrender retira sua candidatura à liderança e apoiará J. Howden.

2. O sobrinho de H. Warrender (H.O’B.) receberá a concessão do canal ... de TV.

3. H. Warrender receberá uma pasta a escolher (com exceção das Relações Exteriores ou da Saúde). J.H. não demitirá H.W. a não ser por indiscrição, escândalo. Na última hipótese H.W. assumirá toda responsabilidade, sem envolver J.H.

Em seguida vinha a data — de nove anos atrás — e a rubrica de cada um.

Harvey Warrender disse tranquilamente:

— Como você vê, é como eu disse, não se fala de prazo.

— Harvey — ponderou serenamente o Primeiro-Ministro, — valeria a pena apelar para você? Temos sido amigos... — a cabeça girava. Um exemplar nas mãos de um só repórter seria um instrumento de execução. Não haveria explicação, nem acordo, nem sobrevivência política, mas desmascaramento, desgraça... Suas mãos suavam.

Harvey sacudiu a cabeça. Howden tinha consciência de estar diante de uma muralha irracional, intransponível. Tentou de novo — Já paguei um preço elevado, Harvey; isso e mais. E agora?

— Eu lhe direi! — Warrender debruçou-se sobre a secretária, sua voz era um sussurro ameaçador e veemente. — Deixa-me ficar; deixa-me fazer algo digno para compensar. Se promulgarmos talvez uma nova lei de imigração e se a fizermos honestamente ... interpretando as coisas como as fazemos na realidade ... a consciência do povo talvez fosse excitada e passaria a querer uma mudança. É possível que tenhamos de mudar a maneira de fazer as coisas; talvez seja essa mudança que será necessária no fim. Mas não podemos começar sem que primeiro sejamos honestos.

Howden, perplexo, sacudia a cabeça.

— Você parece ter perdido o juízo. Não compreendo.

— Então deixe-me explicar. Você falou de um preço elevado. Acha que não reconheço isso? Acha que não voltaria atrás e desfaria o acordo que fizemos se isso fosse possível? Confesso-lhe que tenho passado noites e noites acordado até o amanhecer, recriminando-me pelo que fiz naquele dia.

— Por que, Harvey? — talvez fosse interessante provocar uma conversa sobre o assunto... poderia ajudar...

— Eu me vendi, não me vendi? — Warrender falava agora emocionado. — Vendi-me por um prato de lentilhas que não valia esse preço. E desde então desejei milhares de vezes poder de novo me encontrar naquela sala da convenção para competir com você... mesmo nas condições atuais.

Howden disse tranquilamente:

— Ainda assim eu venceria, Harvey — sentiu por um momento uma profunda compaixão. Nossos pecados voltam a nos visitar, pensou, de uma maneira ou de outra, conforme nós mesmos.

— Não estou certo disso — ponderou Warrender, com a voz submissa. Depois levantou os olhos. — Nunca estive certo, Jim, de que não poderia estar aí no seu lugar, nessa secretária.

Aí estava, pensou Howden: tudo quanto imaginara, com mais algum ingrediente extra. Consciência mais devaneios de glória frustrados. Era uma combinação terrível. Cauteloso, perguntou:

— Não estaria sendo incoerente? Há pouco você disse que amaldiçoa o acordo que fez e agora insiste em se apegar aos seus termos?

— É o lado bom que quero salvar e se eu lhe permitir que me dispense, estarei arrasado. É por isso que me apego ao acordo — Harvey Warrender tirou um lenço e enxugou sua testa que transpirava abundantemente. Houve uma pausa, após a qual disse com mais calma: — Às vezes chego a pensar que seria melhor confessarmos a verdade. Somos ambos impostores... você e eu. Talvez fosse essa a maneira de acertar a escrita.

Seria perigoso.

— Não — atalhou Howden rapidamente, — há outros métodos melhores, creia-me — de uma coisa estava certo agora: Harvey Warrender estava mentalmente instável. Precisava ser conduzido, adulado, se necessário, como uma criança. — Muito bem, esqueceremos a conversa da renúncia.

— E a lei da imigração?

— A lei permanece como está — disse Howden firmemente. Havia um limite para as transigências, mesmo nessas circunstâncias. — Além disso, quero que seja dada uma solução rápida ao caso de Vancouver.

— Agirei nos termos da lei — disse Warrender. — Vou reexaminá-lo, prometo-lhe, mas dentro da lei, nada mais.

Howden suspirou. Tinha de ser assim. Assentiu com um gesto de cabeça, significando que a entrevista estava terminada.

Quando Warrender saiu, assentou-se pensativo, pesando mais esse problema intempestivo que tinha de enfrentar. Seria um erro, decidiu, subestimar a ameaça à sua própria segurança. O temperamento de Warrender tinha sido sempre caprichoso; agora, a instabilidade emocional tornava-o ainda mais perigoso.

Pos-se a pensar por que fizera o que fizera... comprometer-se por escrito quando a experiência de advogado e da própria vida o deveria ter advertido do perigo. Mas a ambição impunha coisas estranhas ao homem, levava-o a assumir riscos, às vezes riscos supremos, e outros já se comportaram também como ele. Visto através dos anos, seu papel parecia estúpido e irracional. E, não obstante, na ocasião, sob o impulso da ambição, deixara de considerar o futuro...

O mais seguro, pensava Howden, era deixar Harvey Warrender em paz, pelo menos por enquanto. A conversa inamistosa sobre a nova redação da lei da imigração não punha um problema imediato. De qualquer maneira, não via probabilidade de Harvey conseguir o apoio do seu próprio secretário-geral e os servidores públicos mais antigos tem sua maneira de protelar medidas com as quais não concordam. Nem uma nova lei poderia ser proposta sem o consentimento do Gabinete, embora fosse conveniente evitar um atrito direto entre Harvey Warrender e os demais membros do Governo.

A solução, portanto, a que chegara foi a de não fazer nada e dar tempo ao tempo — a velha panaceia política. Brian Richardson não ficaria satisfeito, é claro; era evidente que o presidente do partido estava esperando uma ação firme e decisiva, mas seria impossível explicar a Richardson porque não poderia fazer nada. Do mesmo modo a situação em Vancouver iria pegar fogo, com o próprio Howden sendo obrigado a apoiar Harvey Warrender em qualquer solução que fosse dada pelo seu Ministério. Bem, isso era desagradável, mas, pelo menos, era um pequeno problema capaz de provocar críticas de menor porte das quais o Governo já sabia como se livrar e, não havia dúvida, haveria de superá-las de novo.

O essencial, pensava James Howden, era a preservação de sua própria liderança. Tantas coisas dependiam dela, tanto no presente como no futuro. Devia a outros a sua permanência no Governo. Não havia ninguém no momento capaz de substituí-lo satisfatoriamente.

Milly Freedeman entrou sem se fazer notar.

— Gostaria que lhe trouxesse o almoço aqui? — perguntou com sua voz de contralto.

— Não — respondeu o Primeiro-Ministro. — Prefiro mudar de cenário.

Dez minutos depois Howden saía do Bloco Leste em passos rápidos na direção da Torre da Paz e do restaurante do Parlamento. O dia estava claro e frio; o ar, fresco e revigorante, com as pistas e os passeios a secar ao sol, e os montões de neve nos meios-fios. James Howden experimentou uma sensação de bem-estar e correspondia cordialmente aos respeitosos cumprimentos dos que passavam e às continências da guarda do Parlamento.

Já havia esquecido o incidente com Warrender; havia muitas coisas mais importantes com que se ocupar.

Milly Freedeman, como fazia quase diariamente, mandou vir café e um sanduíche. Depois entrou no gabinete do Primeiro-Ministro e apanhou um feixe de memorandos do qual retirou os assuntos não urgentes que podiam esperar. Deixou os papéis com carga de entrada numa pequena caixa de expediente sobre a escrivaninha desordenadamente cheia de papéis, que Milly preferiu não arrumar, sabedora de que James Howden durante o dia gostava de achar a mesa como a deixava. Uma folha de papel em preto e branco, diferente das outras, chamou-lhe a atenção. Virando-a com curiosidade viu se tratar de uma fotostática.

Foi preciso ler duas vezes para compreender seu conteúdo. Milly tremia diante do terrível significado do documento que tinha nas mãos. Explicava muitas coisas que durante anos nunca pudera compreender: a convenção... a vitória de Howden... sua própria perda.

O documento podia também, sabia-o perfeitamente, significar o fim de duas carreiras políticas.

Por que estava ali? Evidentemente tinha sido discutido... hoje... na reunião de Harvey Warrender com o Primeiro-Ministro. Mas por quê? Que proveito teria para um ou outro? Onde estaria o original?... Seus pensamentos se precipitavam. As perguntas aterravam-na. Antes tivesse deixado o papel virado, antes nunca o tivesse visto. E não obstante...

Subitamente, sentiu nascer e se avolumar uma raiva contra James Howden. Por que fizera isso? Precisamente quando se amavam tanto, quando poderiam ter partilhado uma felicidade comum, um futuro, bastando para isso perder a liderança... perder na convenção. Perguntou-se emocionada: por que não agiu com correção?... pelo menos dar-lhe uma chance de vencer. Mas sabia que nunca houvera uma chance...

Em seguida, quase tão rápida como surgira, a raiva se fora e a tristeza e a compaixão tomaram seu lugar. O que Howden fizera, sabia Milly, fizera-o por que fora obrigado a fazer. A necessidade do poder, da derrota de rivais, do sucesso político... tudo deve ter sido consumidor. Ao lado de tudo isso, a vida pessoal... até o amor... não valiam nada. Esta fora sempre a verdade: nunca tivera uma chance...

Devia, porém, pensar em coisas práticas.

Milly parou, para pensar com toda calma. Era evidente que havia uma ameaça para o Primeiro-Ministro e talvez para outros. Mas só James Howden lhe interessava... experimentava a sensação de uma volta ao passado. E exatamente naquela manhã, lembrava-se, tinha resolvido protegê-lo e ampará-lo. Mas como poderia ela... fazendo uso desse conhecimento... conhecimento que só ela e mais ninguém deveria possuir, talvez nem mesmo Margaret Howden. Sim, quanto a isso, tomara-se finalmente mais íntima de James Howden do que sua própria esposa.

Não havia nada de imediato a fazer. Mas talvez pudesse surgir uma oportunidade. O feitiço volta-se às vezes contra o feiticeiro. Seu pensamento era vago, efêmero... como se estivesse tateando no escuro. Mas se acontecesse... se surgisse uma oportunidade... precisava estar em condições de provar o que sabia.

Milly olhou o relógio. Conhecia bem os hábitos de Howden. Levaria ainda uma meia hora para voltar. Não havia ninguém na sala contígua.

Impulsivamente levou a fotostática a uma máquina copiadora na outra sala. Agindo rapidamente, com seu coração a bater quando ouviu passos de alguém que se aproximava e depois se afastou, meteu a folha na máquina. A cópia — reprodução de uma reprodução — era de má qualidade e manchada, mas suficientemente legível e a letra inconfundível. Dobrou-a apressadamente e a meteu no fundo de sua bolsa. Repôs a fotostática no lugar, virada como a encontrara.

Depois, naquela tarde, James Howden virou a folha e empalideceu. Esquecera-a ali. Se a tivesse deixado durante a noite... Olhou para a porta. Milly? Não, segundo um velho costume seu, sua mesa nunca era arrumada ao meio-dia. Apanhou a fotostática e levou-a para o banheiro contíguo ao seu gabinete. Rasgou o papel aos pedacinhos, jogou-os no vaso e com a descarga fê-los desaparecer até o último.

 

Esboçando um ligeiro sorriso, Harvey Warrender recostou-se confortavelmente no banco do carro que o reconduzia ao Ministério da Cidadania e da Imigração, na Elgin Street. Apeando-se do carro, entrou no edifício de tijolos marrom, de forma quadrada, enfrentando uma onda de funcionários que saíam apressados na hora do lanche. Tomou um elevador para o quinto andar e entrou no seu gabinete através de uma porta direta. Em seguida, atirando negligentemente sobre uma cadeira sobretudo, cachecol e chapéu, dirigiu-se à sua mesa e apertou o botão do interfone que o ligava com a sala do seu secretário-geral.

Senhor Hess — disse Harvey Warrender — se estiver livre, faça o favor de vir aqui.

Fez um agradecimento igualmente polido, após o qual passou a esperar. Levaria no mínimo uns cinco minutos, para chegar o secretário; sua sala, embora no mesmo andar, estava um pouco distante, talvez como sinal de que o chefe de administração de um ministério não devesse ser importunado por nada ou com muita frequência.

Harvey Warrender caminhava pensativo de um lado para outro sobre o tapete grosso feito a mão. Tinha ainda uma sensação de elação de seu encontro com o Primeiro-Ministro. Não havia a menor dúvida, pensava ele, levara a melhor, transformando o que poderia ter sido um revés, ou coisa pior, numa vitória decisiva. Além disso, a relação entre eles dois estava agora clara e distintamente redefinida.

Após a elação adveio-lhe uma excitação de satisfação e de posse. Estava onde deveria estar: no Governo; se não no pináculo, pelo menos num trono secundário de poder. Um trono bem estofado também, refletiu, lançando um olhar em torno com satisfação, como fazia muitas vezes. O gabinete do Ministro da Imigração era o mais luxuoso de Otawa, projetado e decorado com prodigalidade por um seu antecessor do sexo feminino — uma das poucas mulheres do Canadá que já pertenceram ao escalão do Governo. Ao tomar posse, Harvey deixara tudo como tinha encontrado, o tapete cinza-escuro, cortinas cinza-claro, uma agradável mistura de mobílias do período inglês — o que invariavelmente impressionava os visitantes. Era tão diferente de seu cubículo gelado do tempo de faculdade onde labutara anos atrás sem recompensa e, apesar dos escrúpulos de consciência que confessara a James Howden, tinha de admitir que seria difícil ter de deixar os confortos físicos que a condição social e o sucesso financeiro proporcionavam.

O pensamento de Howden fê-lo lembrar-se de sua promessa de reexaminar o caso incômodo de Vancouver e de agir estritamene dentro das normas da lei vigente. E iria cumprir a promessa. Estava decidido a não permitir que ocorresse algum equívoco ou erro nesse sentido pelo qual Howden ou outros pudessem censurá-lo depois.

Uma pancadinha à porta e seu assistente introduzia seu secretário-geral, Claude Hess, um imponente funcionário civil que se vestia como um próspero agente funerário e tinha às vezes um modo pontifical de falar.

— Bom dia, Sr. Ministro — disse Hess. Como sempre, o secretário-geral procurava combinar uma judiciosa mistura de respeito e de familiaridade, embora de certo modo deixando perceber que vira ministros eleitos vir e ir-se e que estaria ainda exercendo seu poder quando o titular atual se fosse.

— Estive com o Primeiro-Ministro — disse Warrender — Falamos francamente — Harvey tinha adquirido o hábito de falar francamente com Hess, sentindo-se bem recompensado pelos criteriosos conselhos que recebia em troca. Nessa base e em parte porque Harvey Warrender tinha sido Ministro da Imigração durante dois mandatos do Governo, suas relações corriam bem.

A fisionomia do secretário-geral assumiu a expressão de comiseração.

— Imagino — já tinha conhecimento detalhado, é claro, pelos boatos que correm entre as repartições públicas, da briga no Palácio do Governador, mas preferia discretamente não a mencionar.

— Um dos motivos — disse Harvey, — foi o caso de Vancouver. Muita gente não gosta de nosso apego à lei.

O secretário-geral suspirou perceptivelmente. Já se acostumara a retiradas e a subterfúgios impostos às leis de imigração pelos políticos. Mas a declaração seguinte do Ministro o surpreendeu.

— Disse ao Primeiro-Ministro que não recuaremos — afirmou Warrender. — Ou agimos assim ou reformularemos a lei de imigração e faremos o que devemos fazer, às claras.

— O secretário-geral perguntou timidamente:

— E Mr. Howden...

— Temos carta branca — disse Harvey, interrompendo-o. — Concordei em reestudar o caso, mas depois disso tomaremos a nossa própria decisão.

— É uma notícia muito boa — Hess pos em cima da mesa uma pasta de documentos que trouxera e os dois homens assentaram-se de frente um para o outro. Não era a primeira vez que o rechonchudo secretário especulava sobre a relação entre seu próprio Ministro e Sua Excelência James McCallum Howden. Era evidente que havia uma espécie de relação especial, uma vez que Harvey Warrender parecia gozar sempre de um grau de liberdade fora do comum, em comparação com os demais Ministros. Era, todavia, um fato que não devia ser desprezado e que tinha tornado possível a tradução em ato de algumas das próprias diretrizes do secretário-geral do Ministério. Quem está de fora, refletia Claude Hess, pensava muitas vezes que a política era uma prerrogativa exclusiva de representantes eleitos. Mas até certo ponto o processo do Governo consistia em fazer transformar em lei pelos representantes eleitos as ideias de uma equipe da elite de secretários-gerais.

Franzindo os lábios, Hess disse pensativo:

— Espero que não tenham falado a sério quanto à revisão da lei de imigração, Sr. Ministro. No conjunto é uma boa lei.

— É claro que pense assim, tomando-lhe a palavra, pois foi o senhor que a redigiu.

— Bem, devo admitir um certo apego paterno.

— Não concordo com todas as suas ideias sobre população — disse Harvey Warrender. — O senhor sabe que não concordo, não sabe?

O secretário sorriu.

— No decurso de nossa convivência já percebi isso. Mas, se me permite dizer, o senhor é ao mesmo tempo um realista.

— Se quer dizer que não quero o Canadá invadido por chineses ou negros, o senhor tem razão — ponderou Harvey energicamente. — Continuou em seguida mais calmo: — Mesmo assim, de vez em quando tenho minhas dúvidas. Possuímos quase dez milhões de quilômetros quadrados de terras, as mais ricas do mundo, somos um país despovoado, subdesenvolvido; e a terra está cheia de gente procurando abrigo, uma nova pátria...

— Nada resolveria — disse Hess sentencioso — a abertura de nossas portas a todos os chegantes.

— Não para nós, talvez, mas que dizer a respeito do mundo... das guerras que podem ocorrer de novo se não houver uma saída para a expansão demográfica?

— Seria um alto preço a ser pago por eventualidades que talvez nunca ocorressem — Claude Hess cruzou uma perna sobre a outra, ajustando o vinco de suas calças bem feitas. — Sou de opinião, Sr. Ministro, — e o senhor sabe disso, é claro — de que a influência do Canadá nos assuntos internacionais pode ser muito maior como estamos, com o nosso atual equilíbrio populacional, do que nos permitindo ser infestados de raças menos desejáveis.

— Em outras palavras — disse Warrender calmamente, — agarremo-nos ao privilégio de ter nascido aqui.

O secretário-geral teve um sorriso forçado.

— Como já disse há pouco, somos ambos realistas.

— Bem, talvez o senhor tenha razão — Harvey Warrender tamborilou seus dedos em cima da mesa. — Há algumas coisas que nunca pude compreender e uma delas é esta. Mas de uma estou certo, é de que o povo deste país é responsável por nossa lei de imigração e precisa ser convencido disso, mas nunca se convencerá enquanto estivermos mudando e vacilando. É por isso que executo a lei ao pé da letra, enquanto estiver assentado nesta cadeira, doa a quem doer.

— Bravo! — disse o rechonchudo secretário-geral, sorridente.

Fez-se uma pausa durante a qual o olhar de Harvey Warrender se fixou num ponto acima da cabeça do secretário. Sem se voltar, Hess sabia para onde o Ministro estava olhando: um retrato a óleo de um jovem vestido num uniforme da Real Força Aérea Canadense. Tinha sido pintado depois da morte em ação do filho de Harvey Warrender. Claude Hess já vira muitas vezes antes os olhos do pai desviarem-se para o quadro e às vezes conversavam a seu respeito.

Warrender, como reconhecendo o pensamento do secretário, disse:

— O senhor sabe, penso muitas vezes em meu filho.

Hess assentiu lentamente com a cabeça. Não era um assunto novo e às vezes o evitava. Hoje, porém, resolveu responder.

— Nunca tive um filho, só filhas. Compreendemo-nos muito bem, mas tenho a impressão de que deve haver algo especial entre um pai e um filho.

— Há — disse Harvey Warrender. — Há e nunca morre, pelo menos para mim — continuou emocionado. — Penso muitas vezes no que seria hoje meu filho Howard. Era um rapaz extraordinário, sempre corajoso. A coragem era sua qualidade característica; e no fim morreu heroicamente. Digo-me muitas vezes que tenho de que me orgulhar.

O secretário se perguntava se o heroísmo seria a espécie de coisa de que se lembraria de um filho seu. Mas o Ministro já repetira isso tantas vezes, tanto para ele como para outros, que parecia não ter consciência da repetição. Harvey Warrender descrevia às vezes com detalhes gráficos o furioso combate aéreo em que seu filho tinha perecido até um ponto em que não se sabia onde terminava a dor e onde começava a adoração do heroi. Às vezes se comentava isso em Otawa, embora nas mais das vezes caridosamente. A dor fazia coisas estranhas, pensava Claude Hess, chegando mesmo a produzir uma paródia da dor. Ficou satisfeito quando o tom de voz de seu superior tornou-se mais prático.

— Está bem — disse Warrender, — falemos sobre o caso de Vancouver. De uma coisa quero estar certo, de estarmos absolutamente dentro da lei. Isso é importante.

— Sim, eu sei — Hess assentiu circunspecto, depois tocou na pasta de papéis que tinha trazido. — Trouxe de novo os relatórios, Sir, e estou certo de que não há nada com que se preocupar. Só uma coisa preocupa-me um pouco.

— A imprensa.

— Não, com essa temos de contar — Na realidade, a publicidade aborrecera Hess que estava convencido de que a pressão política levaria o Governo a recuar quanto à aplicação da lei da imigração, como já acontecera tantas vezes antes. Todavia, aparentemente não tivera razão. Agora continuou: — Estava pensando no fato de não termos atualmetne em Vancouver um homem experimentado. Williamson, nosso chefe de distrito, está licenciado para tratamento de saúde e faltam muitos meses para voltar, se é que voltará.

— É verdade — disse Warrender. Acendeu um cigarro, ofereceu um ao secretário-geral que o aceitou. — Estou-me lembrando disso agora.

— Se se tratasse de um caso de rotina, não haveria motivos de preocupação; mas se ocorrer a pressão, como pode ocorrer, gostaria de ter alguém ali em que pudesse confiar e pudesse controlar a imprensa.

— Acho que o senhor tem algo em mente.

— Sim — Hess estivera pensando muito. A decisão de ficar firme o agradara. Warrender às vezes era excêntrico, mas Hess acreditava na lealdade e agora precisava proteger a posição de seu Ministro de todo modo possível. Disse pensativo: — Eu poderia transferir algumas responsabilidades aqui e abriria mão de um de meus diretores executivos, que então poderia assumir o cargo em Vancouver — até que tivéssemos notícia de Williamson, naturalmente, mas na realidade para se ocupar desse caso específico.

— Concordo — disse Warrender vigorosamente. — Quem acha que deva ir?

O secretário-geral tirou uma baforada. Esboçava um leve sorriso.

— Kramer — disse em voz baixa. — Com sua aprovação, Sir, mandarei Edgar Kramer.

 

No seu apartamento, Milly Freedeman, irrequieta, analisava mais uma vez os acontecimentos do dia. Por que tinha tirado uma cópia da fotostática? Que poderia fazer com ela, se é que pudesse fazer algo? Onde estava sua lealdade?

Desejava que pudesse haver um fim para o conluio e as manobras em que fora obrigada a entrar. Como estivera pensando uns dois dias atrás, pensou em deixar a política, abandonar James Howden e começar algo inteiramente novo. Perguntava-se se não haveria em alguma parte, em algum grupo de pessoas, um refúgio onde a intriga nunca tivesse penetrado. De modo geral, duvidava disso.

Sua divagação foi interrompida pelo toque do telefone.

— Milly — disse rispidamente a voz de Brian Richardson — Raoul Lemieux, um velho amigo meu do Ministério do Comércio, está oferecendo uma recepção. Estamos ambos convidados. Que tal?

Milly sentiu seu coração saltar e perguntou impulsivamente:

—•Será alegre?

O presidente do partido deu uma risadinha.

— As festas de Raoul geralmente o são.

— Barulhentas?

— Na última vez — disse Richardson, — os vizinhos chamaram a polícia.

— Há música? Pode-se dançar?

— Há uma pilha de discos; na casa de Raoul vale tudo!

— Irei — disse Milly, — com certeza, irei.

— Passarei aí dentro de meia hora — tinha um tom de voz alegre.

— Muito obrigada, Brian, muito obrigada — disse Milly impulsiva.

— Agradeça-me depois — ouviu-se um estalido quando a ligação foi desfeita.

Sabia exatamente o vestido que devia usar: um vestido de seda carmesim, bem decotado. Alvoroçada, com uma sensação de alívio, chutou seus sapatos pela sala de estar.

 

Edgar Kramer

Nas trinta e seis horas durante as quais Edgar S. Kramer passara em Vancouver, chegara a duas conclusões. Primeiro, decidira que não havia nenhum problema no setor ocidental do Ministério da Cidadania e da Imigração que não pudesse resolver facilmente. Segundo, desolado, não tinha mais dúvida de que o embaraçoso mal físico de que estava acometido dia a dia mais se agravava.

Numa sala quadrada, mobiliada funcionalmente no segundo andar do Edifício da Imigração, de frente para o mar, Edgar Kramer analisava mentalmente ambos os casos.

Kramer era um homem magro, de olhos claros, de aproximadamente cinquenta anos de idade, cabelo castanho e ondulado, partido ao meio, usava óculos sem aro e era dotado de espírito lúcido e lógico que já lhe proporcionara uma longa carreira no serviço público, partindo de um início modesto. Era industrioso, honesto a toda prova e imparcial na aplicação literal das normas legais. Não suportava o sentimentalismo, a ineficiência e o desrespeito às leis e à ordem. Um seu colega observara uma vez que “Edgar cortaria a pensão de sua própria mãe se houvesse uma vírgula fora de lugar no requerimento”. Embora exagerada, a acusação tinha um fundamento de verdade, pois se poderia também dizer de Kramer que seria capaz de ajudar seu pior inimigo se assim o exigissem os regulamentos de sua função.

Era casado, mas não tinha filhos. Sua esposa era uma mulher simples que dirigia seu lar com uma espécie de pálida eficiência. Já estivera à procura de um apartamento nos bairros da cidade que, segundo ela, fossem respeitáveis e, por conseguinte, à altura da posição de seu marido.

Nos escalões superiores do serviço público, Edgar S. Kramer tinha-se tomado um dos poucos homens pré-marcados, pré-indicados — em grande parte por sua competência, mas em parte pela facilidade de se projetar — para altos postos. No Ministério da Imigração era considerado como um seguro solucionador de problemas e corria uma predição de que dentro de alguns anos, conforme permitissem as promoções e as aposentadorias, seria um futuro candidato ao cargo de secretário-geral.

Plenamente consciente de sua situação privilegiada, Edgar Kramer procurava constantemente salvaguardá-la e melhorá-la. Ficara imensamente feliz com sua designação temporária para Vancouver, especialmente depois que soube que o próprio Ministro tinha aprovado sua escolha e estaria atento a seus resultados. Por esta razão, não poderia ser mais inoportuno o mal de que era vítima no momento.

Em poucas palavras, o mal era o seguinte: Edgar Kramer era obrigado a urinar com uma frequência incômoda e humilhante.

O urologista, a quem seu médico particular o havia encaminhado algumas semanas atrás, resumira sua situação: “O senhor está sofrendo de prostatismo, Sr. Kramer, e antes de melhorar terá de se sentir ainda pior.” O especialista descrevera os sintomas incômodos: micção frequente durante o dia, pouca pressão e, à noite, a necessidade de aliviar-se, interrompendo seu sono e tomando-o cansado e irritadiço no dia seguinte.

Perguntara quanto tempo iria durar isso e o urologista respondera compassivo: “Tenho a impressão de que serão necessários de dois a três anos para que o senhor chegue a um ponto em que seja viável uma intervenção cirúrgica. Quando isso acontecer, faremos uma resseção que deve tomar as coisas mais fáceis.”

Era um pequeno consolo. Muito mais depressivo era o pensamento de que seus superiores viessem a saber que tinha contraído prematuramente uma doença de velho. Depois de todos os seus esforços — os anos de trabalho e de dedicação, com a recompensa final à vista — temia, pensando nas possíveis consequências desse fato.

Procurando esquecê-lo por alguns instantes, voltou às várias folhas de papel pautado espalhadas em cima de sua mesa. Nelas, com uma caligrafia precisa e clara, tinha disposto em quadros as providências tomadas desde sua chegada a Vancouver, e aquelas que pretendia tomar. De modo geral achava que o distrito estava funcionando bem e em boa ordem. Alguns processos, entretanto, precisavam de revisão inclusive um pouco de aperto na disciplina e havia outra mudança que já tinha feito.

Acontecera no dia anterior, na hora do almoço, quando pediu uma amostra da refeição servida aos prisioneiros nas celas de detenção — pessoas que entraram ilegalmente no país, ou que tinham sido expulsas e aguardavam a deportação. Para sua contrariedade, o prato, embora bem temperado, não era nem quente nem da mesma qualidade do que lhe fora servido no dia anterior na cantina da direção. O fato de alguns dos deportados estarem vivendo uma vida que nunca tiveram antes e de outros terem estado a morrer de fome algumas semanas atrás pouco importava. O regulamento que regia o tratamento de prisioneiros era específico e Edgar Warner mandou chamar o cozinheiro-chefe, um tipo corpulento que se sobrepunha ao superintendente magro e franzino. Kramer — que nunca se impressionava com o tamanho de ninguém — passou-lhe uma severa repreensão e, de agora em diante, determinara, toda alimentação dos prisioneiros deveria ser cuidadosamente preparada e quente quando servida.

Agora começava a considerar a disciplina. Pela manhã, tinham ocorrido algumas impontualidades nos escritórios gerais e observara também uma certa negligência na apresentação dos oficiais uniformizados. Vestindo-se ele próprio com esmero — seus temos escuros eram sempre bem passados, com um lenço branco dobrado no bolsinho do paletó — esperava que seus subordinados mantivessem um padrão semelhante. Começava a fazer uma anotação, quando, para seu desprazer, experimentou mais uma vez a necessidade de aliviar-se. Uma olhadela no relógio revelou que da última vez transcorreram apenas uns cinco minutos. Resolveu que não iria... forçaria a necessidade a esperar... Tentou concentrar-se. Em seguida, depois de alguns instantes, suspirando desalentado, levantou-se e deixou a sala.

Quando voltou, a jovem estenógrafa que, por enquanto, fazia as vezes de sua secretária, estava esperando em sua sala.

Kramer se perguntava se a moça teria notado quantas vezes ele entrara e saíra, muito embora tivesse se servido de uma porta direta para o corredor. É claro que podia sempre dar desculpas, dizendo que ia a alguma parte do edifício... Poderia ser necessário fazer isso logo... Precisava inventar meios para não chamar a atenção.

— Há um senhor que lhe deseja falar, Sr. Kramer — anunciou a jovem. — Um Senhor Alan Maitland que se diz advogado.

— Está bem — disse Kramer. Tirou seus óculos para limpá-los. — Mande-o entrar, por favor.

Alan Maitland caminhara uns quinhentos metros de seu escritório até a beira-mar e tinha sua face afogueada pelo vento frio que soprava do lado de fora. Não usava chapéu, mas apenas um sobretudo leve que tirou ao entrar. Trazia uma pasta na mão.

— Bom dia, Sr. Kramer — disse Alan. — É bondade de sua parte receber-me sem audiência marcada.

— Sou um servidor público, Sr. Maitland — respondeu Kramer com sua voz precisa e meticulosa. Com um sorriso polido, formal, fez um gesto para Alan, apontando-lhe uma cadeira e assentou-se ele próprio na sua. — A porta está sempre aberta... para objeto de serviço. Em que lhe posso ser útil?

— Como sua secretária talvez lhe tenha dito, sou advogado.

Kramer acenou com a cabeça que sim. Um advogado jovem e inexperiente, pensou. Edgar Kramer tinha conhecido muitos advogados e terçou armas com alguns deles. A maioria não o impressionara.

— Há cerca de dois dias, li a respeito de sua nomeação e resolvi esperar até que assumisse — Alan media cuidadosamente suas palavras com receio de contrariar aquele homenzinho que estava à sua frente, cuja boa vontade poderia ser importante. Pretendera, inicialmente, interpelar o Departamento de Imigração da parte de Henri Duval logo após o Natal. Mas, depois de passar um dia todo lendo as leis e os precedentes jurídicos sobre imigração, os vespertinos do dia vinte e seis traziam um breve comunicado segundo o qual o Ministério da Imigração tinha nomeado um novo chefe para o Distrito de Vancouver. Depois de conversar a respeito disso com seu sócio Tom Lewis, que fizera também algumas pesquisas discretas, chegara a uma decisão — mesmo com o prejuízo de vários e preciosos dias — iria esperar pelo novo titular.

— Bem, aqui estou. O senhor talvez me dirá por que me esperou — Kramer esboçou um sorriso. Se pudesse ajudar esse noviço, resolveu, certamente o ajudaria, contanto que quisesse cooperar com o departamento.

— Estou aqui da parte de um cliente — disse Alan cautelosamente. — Chama-se Henri Duval que atualmente se encontra detido num navio, o Vastervik. Gostaria de lhe mostrar que estou autorizado a agir em seu nome — abriu sua pasta e tirou dela uma folha de papel — uma cópia datilografada da procuração que o clandestino assinara no dia da primeira entrevista.

Kramer leu atentamente o documento, pondo-o depois sobre a mesa. À menção do nome de Henri Duval franzira ligeiramente a testa. Agora, com um certo cuidado, perguntou:

— Se me permite, Sr. Maitland, há quanto tempo o senhor conhece seu cliente?

Era uma pergunta fora do comum, mas Alan preferiu não se mostrar ressentido. De qualquer maneira, Kramer parecia bastante amistoso.

— Conheci meu cliente há três dias — respondeu de bom grado. — Na verdade, o conheci primeiramente através da imprensa.

— Sei — Edgar Kramer juntou as pontas dos dedos sobre a mesa. Era o seu gesto favorito toda vez que estivesse pensando ou fazendo cálculos. É claro que obtivera um relatório completo sobre o caso Duval logo à sua chegada. O secretário-geral, Claude Hess, lhe falara sobre a preocupação do Ministro no sentido de que o problema fosse resolvido com absoluta correção e Kramer estava satisfeito porque isso já tinha sido feito. Com efeito, no dia anterior já tinha a propósito respondido a perguntas dos jornais de Vancouver.

— Talvez o senhor não tenha visto os artigos dos jornais — Alan tornou a abrir sua pasta e começou a remexê-la.

— Não se incomode, por favor — Kramer estava decidido a ser cortês, mas firme. — Li um deles. Mas nós aqui não nos baseamos em jornais. Como o senhor sabe — esboçou um leve sorriso — temos acesso aos arquivos oficiais, que consideramos bem mais importantes.

— Não deve haver muita coisa nos registros oficiais sobre Henri Duval — disse Alan. — Tanto quanto me é dado saber, não foi feita muita pesquisa oficial sobre o assunto.

— O senhor está com razão, Sr. Maitland. Não há necessidade de se pesquisar muito, uma vez que a situação está, perfeitamente esclarecida. O sujeito do navio não tem status, nem documentos e, ao que parece, não é cidadão de nenhum país. Por conseguinte, no que concerne a esse departamento, não há possibilidade de considerá-lo mesmo como imigrante.

— Esse sujeito, como o senhor o chama — disse Alan, — tem alguns motivos fora do comum para não ter cidadania. Se o senhor leu os jornais, deve ter conhecimento disso.

— Sei que tem havido alguns pronunciamentos na imprensa — mais uma vez sorriu. — Mas se o senhor tivesse a experiência que tenho, saberia que entre as notícias dos jornais e a realidade há às vezes alguma discrepância.

— Eu também não creio em tudo que leio — Alan começou a se incomodar com o sorriso intermitente e a atitude de Kramer. — Tudo quanto lhe queria pedir, e é para isso que vim aqui, é que investigasse um pouco mais o assunto.

— E tudo quanto lhe tenho a dizer é que toda e qualquer investigação é inútil — dessa vez havia uma evidente frieza no tom de voz de Edgar Kramer. Ele tinha consciência de sua irritabilidade, talvez por causa do cansaço: tivera de se levantar várias vezes durante a noite e estava longe de se sentir repousado quando se levantou naquela manhã. Agora continuou: — O indivíduo em pauta não tem nenhum direito assegurado pela lei neste país, nem há probabilidade de adquirir algum.

— É um ser humano — persistiu Alan. — Isso não vale nada?

— Há muitos seres humanos no mundo e alguns são menos felizes do que outros. Meu dever aqui é atender àqueles que se apresentam dentro das provisões da lei da imigração, e Duval não está entre eles. — Aquele advogadozinho, pensou Kramer, não era de modo algum compreensivo.

— Peço-lhe — disse Alan, — que abra um inquérito formal sobre a situação de meu cliente.

— Não o farei — respondeu Edgar Kramer firmemente.

Os dois se entreolharam com os primeiros sinais de desagrado. Alan Maitland teve a impressão de estar diante de uma muralha de presunção invencível. Edgar Kramer via uma juventude impudente e desrespeitosa da autoridade. Sentia-se também incomodado por uma nova necessidade de urinar. Era ridículo, naturalmente... tão depressa. Mas observara que uma excitação mental tinha às vezes esse efeito. Procurou ignorá-la. Devia resistir... não ceder...

— Não poderíamos ser mais razoáveis? — Alan se perguntava se talvez não teria sido rude demais. Era uma falta ocasional contra a qual devia prevenir-se. Agora perguntava — e com esperança de estar sendo persuasivo. — O senhor me faria o favor de receber pessoalmente aquele moço, Sr. Kramer? Estou certo de que ficaria impressionado.

Kramer sacudiu a cabeça.

— Ficar ou não impressionado não vem ao caso. Meu dever é aplicar a lei como ela é. Eu não faço a lei nem aprovo suas exceções.

— Mas o senhor pode fazer recomendações.

Sim, pensou Edgar Kramer, podia. Mas não tinha a intenção da fezê-lo, mormente nesse caso de colorido sentimental. Quanto a entrevistar um pretenso imigrante, sua própria condição, funcional punha-o hoje em dia muito longe disso.

Houve um tempo, é claro, em que fizera muitas dessa espécie de entrevista — no estrangeiro, depois da guerra, nos países devastados da Europa... selecionando imigrantes para o Canadá e rejeitando outros quase do mesmo modo (ouvira um dia alguém dizer) como se escolhe os melhores cães de um depósito. Fora naquela época em que homens e mulheres venderiam suas próprias almas, como às vezes venderam, por um visto de imigrante e havia muita tentação para os oficiais da imigração, a que alguns sucumbiam. Mas ele próprio nunca vacilara e, embora não se preocupando muito com o trabalho — preferia a administração a pessoas — saíra-se muito bem.

Ficara conhecido como um funcionário austero, que defendia minuciosamente os interesses de seu país, só aprovando imigrantes do mais alto padrão. Muitas vezes sentia-se orgulhoso dos bons elementos... ativos, industriosos, sadios... que deixara entrar.

Rejeitar aqueles que estivessem abaixo do padrão, por qualquer motivo, não o incomodava como às vezes acontecia com outros.

Seus pensamentos foram interrompidos.

— Não estou pedindo a admissão de meu cliente como imigrante... ainda não, pelo menos — disse Alan Maitland. — Tudo que estou solicitando é o primeiro passo: uma audiência deste Departamento, fora do navio.

Apesar de sua primeira determinação de ignorar sua necessidade física, Edgar Kramer podia sentir crescer a pressão de sua bexiga. Estava também aborrecido com a suposição de vir a cair num estratagema de um advogado elementar. Respondeu rispidamente:

— Compreendo perfeitamente o que o senhor está querendo, Sr. Maitland. O senhor quer que este departamento reconheça aquele homem oficialmente, depois o rejeite oficialmente, de modo que depois possa dar os primeiros passos na justiça. Então, enquanto estiver providenciando todos os processos de apelação — tão lentamente quanto possível, não há dúvida — o navio partirá, deixando aqui seu pretenso cliente. Não é isso que o senhor tinha em mente?

— Para lhe ser franco, era — disse Alan, sorrindo. A estratégia tinha sido concebida juntamente por ele e Lewis. Mas agora que estava descoberta, não parecia haver vantagem em negá-la.

— Exatamente! — retrucou Kramer. — O senhor estava preparado para se entregar a um baixo artifício jurídico! — ignorava o sorriso amistoso assim como uma voz interior que o advertia de que não estava conduzindo bem o caso.

— Só a título de registro — disse Alan Maitland calmamente, — acontece que não concordo tratar-se de artifício e muito menos baixo. Tenho, entretanto, só uma pergunta a fazer: Por que o senhor se refere a meu “pretenso cliente?”

Era demais. O desconforto físico a consumi-lo, a ansiedade de semanas e noites de cansaço acumulado combinaram-se para produzir uma resposta que em outras circunstâncias Edgar Kramer, habilidoso e versado em diplomacia, jamais se permitiria dar. Tinha também uma viva consciência da vigorosa saúde do jovem que o encarava. Observou asperamente:

— A resposta seria perfeitamente óbvia, tanto quanto é óbvia para mim, de que o senhor aceitou essa questão absurda e sem perspectiva só com um intento... ganhar com ela publicidade e fama.

Durante o espaço de alguns segundos reinou o silêncio naquela pequena sala quadrada.

Alan Maitland sentiu o sangue lhe subir ao rosto irado. Por um instante pensou em pular para o outro lado da mesa e esbofetear aquele homem.

A acusação tinha sido inteiramente falsa. Longe de cortejar a publicidade, já havia discutido com Tom Lewis a maneira de evitá-la, uma vez que ambos estavam convencidos de que uma excessiva preocupação da imprensa poderia prejudicar uma solução a favor de Henri Duval. Era esse um dos motivos que o trouxera discretamente ao Departamento da Imigração. Estivera disposto a sugerir que não fosse feita por enquanto nenhuma declaração à imprensa...

Seus olhos encontraram os de Edgar Kramer. O olhar do funcionário público tinha uma intensidade feroz, curiosamente suplicante.

— Obrigado, Sr. Kramer — disse Alan calmamente. Levantou-se, apanhou seu sobretudo, e botou sua pasta debaixo do braço. — Muito obrigado por me sugerir o que agora pretendo fazer.

 

Durante três dias após o Natal, o Post, de Vancouver, manteve viva nas suas páginas noticiosas a história de Henri Duval, o homem sem pátria. Do mesmo modo, mas em menor proporção, os outros dois jornais da cidade — o vespertino rival, o Colonist, e o matutino mais moderado, o Globe — embora com certo ceticismo, uma vez que o fato fora descoberto primeiro pelo Post.

Mas agora a história estava perdendo o interesse.

— Já esgotamos todos os recursos, Dan, e tudo que conseguimos foi muito interesse e nenhuma ação. Esqueçamos, portanto, o assunto até que o navio parta dentro de alguns dias, depois você pode escrever um artigo nostálgico sobre o triste rapazinho que se vai.

Eram 7h45m da manhã na sala da redação do Post. Quem falava era o redator Charles Woolfendt e quem ouvia era Dan Orliffe. Distribuindo as tarefas do dia, Woolfendt, que tinha a fala calma de erudito e, segundo alguns, uma mente que funcionava como uma máquina IBM, fizera um aceno para que Dan se aproximasse da mesa da redação.

— Está certo, chefe — Orliffe encolheu os ombros. — Ainda assim, gostaria que lhe fosse dado mais um dia.

Woolfendt olhou para Dan indagadoramente. Respeitava a opinião de Orliffe como de um homem amadurecido, mas havia outros problemas a ponderar. Hoje uma nova notícia local estava em curso e deveria sair na edição vespertina e para isso precisava de vários repórteres. Uma alpinista tinha desaparecido no Monte Seymor, perto da cidade, e apesar de uma busca intensiva não tinha sido ainda localizada. Todos os três jornais estavam fazendo a cobertura rigorosa e havia uma crescente suspeita de crime por parte do marido da vítima. O redator-chefe já havia enviado uma nota a Woolfendt naquela manhã, que dizia: “Daisy caiu ou foi empurrada? Se estiver viva, alcancemo-la antes de seu marido.” Dan Orliffe, refletiu Woolfendt, seria o homem indicado para subir o monte.

— Se pudéssemos estar certos de que algo importante estivesse acontecendo sobre a história do clandestino, prosseguiríamos — disse Woolfendt. — Mas com isso não quero dizer que não se possa abordá-la sob outro ângulo.

— Eu sei — concordou Dan. — Precisamos de novo interesse humano com impacto. Quisera poder garanti-lo.

— Se pudesse, concederia hoje mais um dia — disse Woolfendt. — Caso contrário, usaria você nesse novo caso.

— Continue — replicou Dan. Ele sabia que Woolfendt, para quem trabalhava há muito tempo, estava-o sondando. — Você é o chefe, mas a outra reportagem poderia ser uma história ainda melhor.

Ao redor deles, com a chegada do pessoal do turno do dia, a sala de redação começava a ficar movimentada. O redator-chefe dirigiu-se à sua mesa ao lado da do diretor do jornal. Do outro lado, na mesa principal de notícias, os originais tinham começado a passar através dos condutos para a composição e a paginação três andares abaixo. Já havia um ritmo constante, regular, que seria seguido de uma sucessão de pontos máximos quando as últimas do dia entrassem e saíssem.

— Estou desapontado também — disse pensativo o redator-chefe. — Pensei realmente que muita coisa mais acontecesse ao nosso clandestino — começou a apontar nos dedos. — Fizemos a cobertura dele, do navio, da reação pública, do pessoal da Imigração — nada; registramos as reações internacionais, sem nenhum resultado; telegrafamos à ONU — irão considerar o caso, mas sabe Deus quando, e enquanto isso tenho um jornal para sair. Que mais?

— Esperava — disse Dan, — que alguém de influência pudesse se interessar pelo caso.

Um jovem da revisão, apressado, colocou provas das primeiras páginas internas ainda úmidas de tinta fresca sobre a mesa do diretor.

Woolfendt fez uma pausa. Por trás de sua testa abaulada sua mente penetrante pesava os prós e os contras. Depois, disse resoluto:

— Está bem — anunciou, — eu lhe darei mais vinte e quatro horas. Isso significa mais um dia para descobrir um São Jorge num cavalo branco.

— Obrigado, Stu — disse Dan Orliffe com um sorriso largo, enquanto ia-se afastando. Virou-se para trás e gritou. — Lá em cima do monte deve estar fazendo muito frio.

Sem ter nada específico em mente, foi em casa tomar o café já atrasado, com sua esposa Nancy, para em seguida ir levar à escola sua filha Patty de seis anos de idade. Quando voltou à cidade e estacionou seu carro junto ao Edifício da Imigração, já eram quase dez horas.

Não tinha nenhum motivo especial para ir ali, uma vez que já tinha entrevistado Edgar Kramer no dia anterior, sem conseguir nada além de uma insípida declaração oficial. Mas parecia um lugar lógico para começar.

— Estou procurando um São Jorge montado num cavalo branco — disse à jovem que estava fazendo as vezes de secretária de Edgar Kramer.

— Saiu naquela direção, para o manicômio.

— Muitas vezes me pergunto — observou Dan, — como é possível serem as moças de hoje tão atraentes e, não obstante, tão inteligentes.

— Meus hormônios tem um alto Q.I., e meu marido me ensinou um bocado de respostas.

Dan suspirou.

— Para terminar com essa conversa engraçada — disse a moça, — o senhor é repórter e gostaria de falar com o Sr. Kramer, mas no momento ele está muito ocupado.

— Não pensei que se lembrasse de mim.

— Não me lembrava — afirmou a secretária com petulância. — É porque se pode farejar um repórter de longe. Geralmente são um pouco birutas.

— Este aqui não ficou ainda — disse Dan. — Na verdade, se a senhora não se incomoda, esperarei.

A moça sorriu.

— Não vai demorar muito, pelo que parece estar acontecendo lá dentro. Apontou para a porta fechada da sala de Edgar Kramer.

Dan ouviu vozes excitadas e inflamadas. Apurou os ouvidos e pode escutar a palavra “Duval”. Pouco depois Alan Maitland saía com o rosto afogueado.

Dan Orliffe o acompanhou até a entrada principal do prédio.

— Desculpe-me, senhor. Tenho a impressão de que estamos defendendo interesses comuns.

— Não creio — retrucou Alan, sem fazer qualquer sinal de querer parar. Tinha-se apoderado dele uma raiva violenta, uma reação retardada de sua calma no início daquele dia.

— Fique tranquilo — caminhando ao lado dele, Dan acenou com a cabeça para o edifício que acabavam de deixar. — Não sou um deles, mas apenas um jornalista — apresentou-se.

Alan Maitland parou na calçada.

— Perdão — deu um suspiro profundo, depois sorriu timidamente. — Já estava para estourar e acontece que você estava à mão.

— Sempre às ordens — disse Dan. Mentalmente já havia observado a pasta e a gravata da Universidade da Colúmbia Britânica. — Este é o meu dia de palpites. Será que o senhor é advogado?

— Será, não, sou.

— Representa Henri Duval?

— Represento.

— Podemos conversar um pouco em algum lugar?

Alan Maitland hesitou. Edgar Kramer acusara-o de procurar publicidade e a própria resposta irritada de Alan tinha dado a entender que iria procurá-la. Mas não era fácil enfraquecer o instinto de advogado de evitar declarações à imprensa.

— Confidencialmente — perguntou Dan Orliffe sereno, — as coisas não estão indo muito bem, estão?

Alan fez uma careta de nojo.

— Confidencialmente, também, não poderiam estar piores.

— Nesse caso — perguntou Orliffe, — o que o senhor... ou Duval... tem a perder?

— Nada, acho — respondeu Alan, calmamente. Era verdade, pensou; não havia nada a perder e talvez pudesse haver algo a lucrar. — Está bem — disse, — vamos tomar um café.

— Tive um pressentimento de que hoje seria um dia bom — disse Dan Orliffe satisfeito. — A propósito, onde amarrou seu cavalo?

— Meu carro? — Alan olhou intrigado. — Eu vim a pé.

— Não ligue — disse Dan. — Costumo às vezes ser excêntrico. Vamos no meu carro.

Uma hora depois, após a quarta xícara de café, Alan Maitland comentava:

— O senhor me fez uma série de perguntas, mas certamente Duval é mais importante.

Dan Orliffe sacudiu sua cabeça enfaticamente.

— Hoje, não. Hoje a notícia é o senhor — olhou o relógio. — Só mais uma pergunta, depois vou escrever.

— Continue.

— Não me leve a mal — disse Dan. — Mas por que é que com tantos grandes nomes e grandes talentos na advocacia numa cidade como Vancouver, foi o senhor o único a se apresentar para ajudar àquele moço?

— Para lhe ser franco — respondeu Alan, — eu também me faço a mesma pergunta.

 

O edifício do Post de Vancouver era um prédio de tijolos pardacentos com escritórios na frente, as oficinas atrás e a torre da redação que se erguia acachapada por cima de ambas as partes como um dedo polegar curto e desarticulado. Dez minutos depois de haver deixado Alan Maitland, Dan Orliffe estacionou sua camioneta Ford no parque dos empregados do outro lado da rua e entrou. Tomou o elevador da torre e, na sala de redação, agora movimentada, acomodou-se a uma mesa desocupada para escrever:

Um jovem advogado de Vancouver, indignado, está-se preparando, como Davi, para um ataque a Golias.

Chama-se Alan Maitland, de 25 anos de idade, nascido em Vancouver e formado pela Faculdade de Direito da Universidade do Canadá.

Golias é o Governo do Canadá — sobretudo o Ministério da Imigração.

Os funcionários do Ministério recusam-se obstinadamente a prestar atenção ao pedido de admissão de Henri Duval, “o jovem sem pátria”, agora prisioneiro de um navio no porto de Vancouver.

Alan Maitland constituiu-se advogado de Henri Duval. O andarilho sem amigos já tinha quase perdido a esperança de conseguir um auxílio jurídico, mas Maitland ofereceu voluntariamente seus serviços. O oferecimento foi aceito com gratidão.

Dan escreveu a palavra “segue” e gritou:

— Original! — tirou a folha que um jovem contínuo puxou de sua mão e entregou ao redator.

Automaticamente Dan olhou a hora. Eram 12h27m, dezesseis minutos para o encerramento da edição continental. Essa edição era a principal do dia — a edição da entrega a domicílio e de maior tiragem. O que estava a escrever seria lido à noite em milhares de lares... lares confortáveis, quentes, com seus ocupantes seguros...

Os leitores do Post recordar-se-ão de que este jornal foi o primeiro a revelar a trágica reivindicação de Henri Duval que — por um capricho do destino — não tem nacionalidade. Há quase dois anos, em desespero, fez-se clandestino de um navio. Desde então, país após país vêm-lhe negando a admissão.

A Inglaterra prendeu Duval enquanto seu navio permaneceu no porto. Os Estados Unidos algemaram-no. O Canadá não fez nem uma coisa nem outra, pretendendo em vez que ele não existe.

— Vamos mais uma tentativa, Dan! — era Stu Woolfendt, que falava de sua escrivaninha. Chamou de novo o contínuo. Tirou a folha da máquina e botou outra.

Haveria possibilidade de o jovem Henri Duval entrar no Canadá?

As medidas legais poderiam ajudá-lo?

Pessoas mais velhas e de cabeça mais fria diziam que não.

O Governo e o Ministro da Imigração, dizem, tem poderes que é inútil desafiar.

Alan Maitland discorda.

— Meu cliente está sendo privado de um direito humano fundamental — disse hoje, — e pretendo lutar por ele. Escreveu mais três parágrafos da quota que lhe tocava sobre Henri Duval. Eram incisivos e objetivos.

— Continue, Dan! — repetia o redator-chefe, e agora, ao lado de Woolfendt, aparecera também o diretor do jornal. A história da alpinista tinha sido desapontadora — a mulher desaparecida fora encontrada viva, nada de crime e seu marido estava justificado. A tragédia tornava as notícias mais vivas do que os epílogos felizes.

Dan Orliffe escrevia sem parar, com sua mente a formar sentenças, enquanto seus dedos a acompanhavam com agilidade. Consiga ou não Alan Maitland seu objetivo, haverá uma luta contra o tempo. O navio de Duval, o Vastervik — um cargueiro irregular que talvez nunca mais aportará ao Canadá — deverá partir mais ou menos em duas semanas. O navio já devia ter partido, mas está detido por necessidade de reparos.

A folha seguinte continha mais antecedentes. Encheu-a, abreviando os acontecimentos.

O assistente do redator tocou-lhe agora no cotovelo.

— Dan, você conseguiu uma fotografia de Maitland?

— Não tive tempo — respondeu sem olhar para cima. — Mas ele jogou futebol num time da Faculdade.

— Ótimo!

12h23m. Restavam dez minutos.

“A primeira coisa que estamos tentando é obter uma audiência oficial do caso de Henri Duval” declarou Maitland ao Post.

“Pedi essa audiência como questão de simples justiça. Mas foi indeferida categoricamente e, na minha opinião, o Ministério está agindo como se o Canadá fosse um estado policial.”

Em seguida, mais alguns dados sobre Maitland... Então, com imparcialidade, tornou a citar a posição do Ministério da Imigração, conforme a declaração de Edgar Kramer no dia anterior... De volta a Maitland — uma citação de contestação, em seguida uma descrição do próprio Maitland.

Diante do teclado, Dan Orliffe podia imaginar o rosto do jovem advogado, de aspecto sombrio, como o vira naquela manhã ao sair do gabinete de Kramer.

É um tipo impressionante Alan Maitland. Quando fala seus olhos brilham, seu queixo torna-se saliente; temos a impressão de que é o tipo que gostaríamos de ter como amigo. Talvez, hoje à noite, fechado em sua cabina solitária no navio, Henri Duval experimente também a mesma impressão.

12h29m. O tempo estava-se esgotando; mais alguns tatos, outra citação e pronto. Ampliaria a história na edição final, mas o que escrevera ali era o que a maioria das pessoas haveria de ler.

— Está bem — disse o diretor instruindo o grupo que o cercava perto da mesa da redação. — Manteremos ainda o cabeçalho com a procura da mulher, mas lhe dispensem pouca matéria e publiquem a história de Dan Orliffe no alto à esquerda.

— A seção de esportes tem uma fotografia de Maitland — disse o assistente do redator-chefe. Cabeça e ombros, uma coluna. É de três anos atrás, mas não está má. Vou mandar descê-la.

— Arranjem uma fotografia melhor para a edição final — ordenou o diretor. — Mande um fotógrafo ao escritório de Maitland e faça uma fotografia dele com alguns livros de Direito no fundo.

— Já tirei — disse o assistente prontamente. Era um jovem magro, impetuoso, às vezes quase agressivamente ativo. — E supus que o senhor iria querer livros de Direito e assim o fiz.

— Meu Deus! — bufou o diretor. — Esses jovens bastardos me arrasam. Como é que posso dar ordens aqui se esses pirralhos pensam em tudo primeiro? — voltou resmungando para a sua sala, enquanto encerrava a edição continental.

Poucos minutos depois, antes que os números do Post chegassem às bancas, a essência da reportagem de Dan Orliffe estava sendo transmitida pela Canadian Press.

 

Alan Maitland, no fim da manhã, não fazia ideia da extensão em que em breve seu nome se tornaria conhecido.

Ao deixar Dan Orliffe, voltara ao modesto escritório nas proximidades do centro comercial da cidade, partilhado por ele e Tom Lewis. Localizado sobre um bloco de armazéns e um restaurante italiano de onde frequentemente exalava o cheiro de pizza e de espaguete, consistia em duas peças separadas por uma parede de vidro e com uma pequenina sala de espera, onde cabiam duas cadeiras e uma mesinha de estenógrafo. Três manhãs por semana essa mesa era ocupada por uma viúva já idosa que, por uma soma modesta, fazia todo o trabalho de datilografia.

No momento, Tom Lewis estava assentado à escrivaninha, da primeira sala, com sua figura rechonchuda encurvada sobre uma underwood de segunda mão que compraram barato alguns meses atrás.

— Estou rascunhando meu testamento — disse jovialmente, olhando para cima — Resolvi doar meu cérebro à Ciência.

Alan tirou seu sobretudo e o pendurou na sua saleta.

— Cuide de pagar você mesmo por ele e lembre-se de que tenho direito à metade.

— Por que não me processar, só para treinar? — Tom Lewis saiu de perto da máquina — Como vão indo as coisas?

— Mal. Alan relatou concisamente a substância de sua entrevista no Departamento da Imigração.

Tom coçou o queixo, pensativo.

— Esse sujeito Kramer não é nada burro. Conseguiu descobrir sua manobra de retardamento.

— Acho que a ideia não é tão original — disse Alan pesaroso. — Outros provavelmente já a tentaram.

— No Direito — observou Tom, — não há ideias originais, mas só uma interminável variação das já usadas. Bem, e agora? Há um plano número dois?

— Não dignifique isso como um plano. É a maior das jogadas, ambos sabemos disso.

— Mas vai dar confusão?

— Vai — Alan assentiu com a cabeça. — Mesmo que fosse só para chatear aquele enfatuado Sr. Kramer. — Depois acrescentou em voz baixa: — Oh, como eu gostaria de dar uma lição naquele bastardo no tribunal!

— Isto! — disse Tom Lewis sorrindo. — Nada tempera a vida como uma raivazinha. — Enrugou o nariz e fungou — Homem de Deus! Está sentindo cheiro de molho de espaguete?

— Estou — respondeu Alan. — E se continuarmos comendo esse prato na hora do lanche só porque trabalhamos aqui perto, dentro de dois anos você será um porco gordo.

— Faz parte de meu plano parar por aqui mesmo — anunciou Tom. — O de que estou precisando é de mandíbulas reforçadas e queixo triangular, como advogados nos filmes têm. Isso impressiona muito os clientes.

A porta externa abriu-se sem nenhuma batida e por ela apareceu um charuto logo seguido de um sujeito atarracado e de nariz afilado, usando um casacão de camurça e chapéu surrado, inclinado para trás. Trazia uma câmera, com uma sacola de couro a tiracolo. Falando com o charuto na boca, perguntou:

— O senhor é o Maitland?

— Sim, sou — respondeu Alan.

— Quero uma foto, tenho que pisar no pedal, para levar para a edição final. O fotógrafo começou a montar seu equipamento. — Maitland, fique em pé de costas para os livros de Direito.

— Permita-me perguntar — disse Tom. — Mas que diabo é isso?

— Oh, sim — respondeu Alan. — Eu já lhe ia dizer. Dei com a língua nos dentes e acho que podemos chamar isso de Plano Número Três.

 

O Capitão Jaabeck tinha-se assentado para almoçar, quando Alan Maitland apresentou-se na cabina do Comandante do Vastervik. Como da vez passada, a cabina estava bem arrumada, com os lambris de mogno polidos e as peças de bronze brilhando. A uma pequena mesa quadrada que tinha sido afastada da parede e forrada com uma toalha de linho branco sobre a qual se viam artigos de prata, estava assentado o Capitão Jaabeck servindo-se de um prato que parecia ser de verduras cortadas. Quando Alan entrou, recolocou o prato em cima da mesa e se levantou cortesmente. Estava usando naquele dia um terno marrom, mas trazia ainda os chinelos de feltro já fora de moda.

— Queira-me desculpar — disse Alan. — Não sabia que estava almoçando.

— Ora, não se incomode, Sr. Maitland — o Capitão fez um gesto mostrando a Alan uma poltrona de couro verde e voltou ao seu lugar à mesa. — Se o senhor não almoçou ainda...

— Já, obrigado — Alan tinha rejeitado a sugestão de Tom Lewis do espaguete ao meio-dia, preferindo ao invés um sanduíche e leite tomados às pressas, a caminho do navio.

— Talvez o senhor gostasse — o Capitão apontou para o prato principal — Um jovem como o senhor poderia não se satisfazer com a comida de um vegetariano.

Alan, surpreso, perguntou:

— O senhor é vegetariano, Capitão?

— Há muitos anos. Há quem diga que isso seja... — parou. — Como é a palavra?

— Uma excentricidade respondeu Alan, arrependendo-se em seguida de ter sido tão precipitado na resposta.

O Capitão Jaabeck sorriu.

— É isso mesmo, mas não é verdade. O senhor não se incomoda, se continuo...

— Oh, de modo algum.

O Capitão mastigou várias garfadas de salada. Depois fez uma pausa.

— A crença vegetariana, como o senhor provavelmente deve saber, é mais antiga do que o cristianismo.

— Não sabia — disse Alan.

O Capitão balançou a cabeça afirmativamente.

— Muitos séculos. Para o verdadeiro vegetariano a vida é sagrada. Por conseguinte, todas as criaturas viventes devem ter o direito de gozar dela sem temor.

— O senhor acredita nisso?

— Sim, Sr, Maitland, acredito — o Capitão serviu-se mais da salada. Parecia estar pensando. — O negócio, sabe, é muito simples. A humanidade nunca viverá em paz enquanto não superarmos a selvageria que existe entre nós. É a selvageria que nos leva a matar outras criaturas, para comer, e o mesmo instinto selvagem nos impele às disputas, às guerras e, talvez, no fim, à nossa própria destruição.

— É uma teoria interessante, observou Alan — cada vez mais se impressionava com aquele marinheiro norueguês. Começou a compreender por que Henri Duval tinha-se tornado no Vastervik objeto de mais bondade do que em qualquer outra parte.

— Como o senhor diz, é uma teoria — o Capitão escolheu uma tâmara entre várias que estavam numa travessa. — Mas, infelizmente, tem um defeito como todas as teorias.

— Que espécie de defeito? — perguntou Alan com curiosidade.

— Está provado hoje por cientistas que a planta também tem compreensão e sensação — o Capitão Jaabeck mastigou uma tâmara, depois num gesto delicado limpou os dedos e a boca com um guardanapo de linho. — Segundo me informaram, existe uma máquina, Sr. Maitland, tão sensível que pode ouvir os gritos mortais de um pessego quando arrancado e despelado. Por conseguinte, no fim, talvez, o vegetariano não signifique coisa alguma, sendo tão cruel para a couve indefesa como o carnívoro para a vaca e o porco — o Capitão sorriu e Alan se perguntou se não estaria querendo fazê-lo de bobo.

— Bem, Sr. Maitland, em que lhe posso ser útil? — perguntou o Capitão agora mais sério.

— Gostaria de conversar sobre uns dois pontos. Mas pediria que meu cliente estivesse presente.

— Perfeitamente — o Capitão atravessou a cabina na direção de um telefone de parede, apertou um botão e falou energicamente. Voltou e disse secamente: — Fui informado de que seu cliente está ajudando a limpar os porões. Mas virá logo.

Poucos minutos depois Henri Duval batia à porta, hesitante, e entrava. Vestia um macacão todo manchado de gordura e rescendia dele um cheiro de óleo diesel. Havia manchas de gordura no seu rosto, que se estendiam até o cabelo emaranhado e em desordem. Ficou em pé, desconfiado, segurando um gorro de lã com ambas as mãos.

— Bom dia, Henri — disse Alan.

O jovem clandestino sorriu um tanto desconcertado. Olhou contrafeito para sua roupa suja.

— Não fique nervoso — disse-lhe o Capitão, — nem envergonhado dos sinais de um trabalho honesto — acrescentou em seguida, no interesse de Alan: — Às vezes chego a pensar que não é vantagem para Henri possuir a boa natureza que tem, dando-lhe trabalhos que outros não escolheriam. Mas ele os executa bem e de boa vontade.

A estas palavras, Henri Duval abriu-se num largo sorriso.

— Primeiro eu limpar navio — anunciou. — Depois Henri Duval. Estar os dois muito sujo.

Alan deu uma gargalhada.

O Capitão sorriu gravemente.

— O que está dizendo de meu navio, infelizmente, é verdade. O dinheiro é tão pouco e a tripulação tão reduzida. Mas quanto ao nosso jovem amigo, desejaria que não passasse a sua vida a limpá-lo. Talvez o senhor nos traga alguma notícia, Sr. Maitland.

— Não propriamente — respondeu Alan. — A não ser que o Departamento de Imigração recusou conceder uma audiência oficial ao caso de Henri.

— Arre! — o Capitão Jaabeck levantou as mãos com impaciência. — Por conseguinte, mais uma vez não há mais nada a fazer — os olhos de Henri Duval, que se tinham iluminado, estavam agora empanados.

— Não chegaria a tanto — disse Alan. — Na realidade há um ponto que quero discutir com o senhor, Capitão, e é por isso que pedi para que meu cliente estivesse presente.

— Pois não.

Alan percebia que o Capitão não tirava os olhos dele. Considerou cuidadosamente as palavras que deveria usar em seguida. Era uma pergunta que tinha de fazer e uma resposta que esperava conseguir. A resposta exata do Capitão abriria o caminho para o que Tom Lewis chamara de Plano Número Dois.

— Quando estive aqui da outra vez — disse Alan refletidamente, — perguntei-lhe, se, como Comandante deste navio, o senhor levaria Henri Duval ao Departamento de Imigração e pediria para que recebessem seu requerimento de desembarque. Sua resposta na ocasião foi negativa, e as razões apresentadas — Alan consultava umas anotações que havia feito — eram de que estava muito ocupado e de que, na sua opinião, não iria adiantar nada.

— Exato — confimou o Capitão. — Lembro-me de ter dito isso.

Enquanto os dois conversavam, o olhar irrequieto de Duval pousava ora em um ora em outro.

— Quero fazer-lhe agora a mesma pergunta, Capitão — disse Alan calmamente, — se o senhor levará meu cliente Henri Duval deste navio ao Departamento de Imigração e ali pedirá uma audiência formal.

Alan segurava a respiração. Queria receber a mesma resposta. Se o Capitão dissesse não, outra vez, mesmo por acaso e sem qualquer motivo, então tecnicamente estava configurada a prisão de Duval a bordo de um navio... de um navio em águas canadenses, sujeito às leis do Canadá. E muito compreensivelmente — baseado na declaração ajuramentada nesse sentido — um juiz poderia conceder um mandado de habeas-corpus... uma ordem para conduzir o prisioneiro à justiça. Era uma filigrana da lei... a grande jogada de que ele e Tom tinham falado. Mas sua sorte iria depender da resposta correta que pudesse conseguir agora, de modo que a declaração pudesse realmente ser feita.

O Capitão parecia perplexo.

— Mas o senhor acaba de me informar que a Imigração respondeu pela negativa.

Alan não disse nada. Ao invés olhou o Capitão firmemente. Foi tentado a explicar, para pedir as palavras de que precisava. Mas agir assim seria violar a ética profissional. Na verdade era uma distinção sofisticada, mas era necessária e Alan tinha consciência disso. Só lhe restava esperar que a mente astuta do Capitão...

— Bem... — hesitou o Capitão Jaabeck. — Talvez o senhor tenha razão e tudo deve ser tentado. Talvez, consiga enfim dispor de algum tempo...

A coisa estava indo mal. Não era isso que ele queria. A sensatez do Capitão estava com efeito fechando a única saída legal... uma porta, ligeiramente entreaberta, estava sendo fechada. Alan mordeu os lábios, numa expressão de desapontamento.

— Não é isso que o senhor queria? Não foi isso que perguntou? — de novo a voz do Capitão revelava perplexidade.

Alan o encarou firmemente e lhe disse com deliberada formalidade:

— Capitão Jaabeck, minha pergunta continua de pé. Devo, porém, adverti-lo de que, se o senhor não a considerar, reservar-me-ei o direito de, no interesse de meu cliente, continuar a tomar qualquer providência que julgar necessária.

O Capitão esboçou um ligeiro sorriso.

— Sim, agora estou compreendendo. O senhor deve agir pelos meios que lhe faculta a lei.

— E meu pedido, Capitão?

O Capitão Jaabeck meneou a cabeça e disse solenemente:

— Sinto não poder atender. Tenho muito o que fazer a bordo enquanto o navio permanecer no porto e não disponho de tempo para perder com clandestinos imprestáveis.

Até então Henri Duval tinha a testa franzida em concentração, embora evidentemente estivesse compreendendo muito pouco do que estava sendo discutido. Mas à úlima observação do Capitão tomou-se subitamente surpreso e ofendido. Era, pensou Alan, como se uma criança, abrupta e inexplicavelmente, tivesse sido repudiada pelo próprio pai. Mais uma vez tentou explicar, mas achou que já tivesse ido longe demais. Segurando a mão de Henri Duval, disse-lhe:

— Estou fazendo tudo que posso. Brevemente tornarei a vê-lo.

— O senhor pode retirar-se — disse o Capitão dirigindo-se com seriedade ao jovem clandestino. —Volte para os porões! E faça seu trabalho direito.

Duval, de olhos baixos, infeliz, saiu da cabina.

— Como o senhor vê — disse o Capitão Jaabeck calmamente, — sou também um homem cruel — apanhou seu cachimbo e começou a enchê-lo. — Não compreendo exatamente o que é que o senhor deseja, Sr. Maitland. Mas espero não me ter saído mal.

— Não, Capitão — disse Alan sorrindo, — para lhe ser franco, a meu ver não se saiu mal de modo algum.

 

Quase na extremidade do porto estava estacionado um MG conversível com sua capota levantada. Quando Alan Maitland se aproximou, vindo do Vastervik, com a gola de seu casaco levantada, por causa do vento frio que soprava do mar, Sharon Deveraux abriu a porta da direção.

— Olá — disse ela. — Telefonei para seu escritório e o Sr. Lewis mandou-me esperá-lo aqui.

— O velho Tom de vez em quando tem ideias geniais — disse Alan alegremente.

Sharon sorriu, mostrando a covinha. Não trazia chapéu, mas estava vestida num casaco bege e trazia luvas da mesma cor.

— Entre — disse ela, — que o levarei aonde quiser ir.

Alan passou para o outro lado e procurou cuidadosamente enfiar seu corpo comprido no carro de dois assentos. Na segunda tentativa o conseguiu.

— Muito bem — disse Sharon em tom de aprovação. — Vovô já tentou, mas nunca conseguimos botar sua segunda perna para dentro.

— É — disse Alan, — não só sou ainda moço, como também mais flexível de que seu avô.

Em três rápidas manobras, Sharon virou o carro e se afastaram rapidamente aos solavancos pela avenida portuária. O interior do MG era curto e estreito. Seus ombros se tocavam e ele sentiu o mesmo perfume que percebera na última vez que se encontraram.

— A propósito de flexível — disse Sharon, — outro dia estava começando a me perguntar. Para onde vamos?

— Para o escritório, suponho. Preciso fazer uma declaração.

— Por que não faz aqui? Conheço a maior parte das palavras.

Alan sorriu.

— Não percamos tempo com a rotina da morena boba. Não caio nessa.

Sharon voltou a cabeça. Seus lábios estavam vermelhos, carnudos e levemente abertos num sorriso de bom humor. Alan mais uma vez estava consciente de sua qualidade de criança.

— Está bem, trata-se portanto de alguma espécie de ato jurídico. Voltou a olhar para a estrada. Fizeram uma curva fechada e seu corpo comprimiu o dela. O contato foi agradável.

— É uma declaração ajuramentada — disse ele.

— Se não contraria suas insípidas normas legais, poderia dizer-me como vão indo as coisas? Refiro-me ao moço do navio.

— Não sei ainda o que dizer — respondeu Alan seriamente. O pessoal da Imigração nos repeliu, mas eu já esperava por essa.

— E daí?

— Aconteceu uma coisa hoje... agora mesmo. E com ela parece haver uma chance, embora remota, de levar o caso à justiça.

— Valeria a pena?

— Talvez não, é claro — Alan já se fizera a mesma pergunta que agora ouvia de Sharon. Mas com essa espécie de problema só se pode dar um passo de cada vez e esperar o melhor depois desse.

— Por que quer levar o caso à justiça, se não vale a pena? — eles avançavam através do tráfego, acelerando para aproveitar uma sinaleira cuja luz já se tinha mudado para o amarelo. Na rua transversal, os freios guincharam.

— Você viu aquele ônibus? — perguntou Sharon. — Pensei que viesse em cima de nós — fizeram uma curva fechada, primeiro à esquerda, depois à direita, em torno de um caminhão de lei, quase atropelando seu motorista. — Você estava falando em levar o caso à justiça.

— Há diferentes espécies de justiça — disse Alan, — e maneiras diversas de consegui-la. Poderíamos andar um pouco mais devagar?

Sharon, condescendentemente reduziu a marcha de oitenta para sessenta quilômetros.

— Fale-me sobre a justiça.

— Nunca se pode saber com antecedência o que vai resultar de um depoimento — disse Alan. — Às vezes há coisas de que nunca se pode tomar conhecimento de outra maneira. Os detalhes da lei também. E nesse caso há ainda outra razão.

— Continue — pediu Sharon. — É formidável!

O velocímetro voltou a marcar oitenta.

— Bem — explicou Alan, — seja qual for o resultado, não temos nada a perder. E quanto mais mantivermos as coisas de pé, maior será a chance de o Governo mudar de opinião e dar a Henri a oportunidade de se tomar imigrante.

— Não creio que vovô gostaria disso — disse Sharon pensativa — Ele espera transformar o caso numa grande questão política e se o Governo ceder não haverá mais motivo para a luta.

— Para lhe ser franco — disse Alan, — pouco me importa o que quer seu avô. Estou mais interessado no que posso fazer por Henri.

Fez-se silêncio, pouco depois cortado por Sharon:

— Você o chamou duas vezes pelo nome. Gosta dele?

— Sim, gosto — disse Alan. Viu que estava falando com convicção. — É um moço excelente, que só tem encontrado reveses na vida. Não creio que um dia será presidente de alguma coisa, ou que ficará rico, mas gostaria de lhe propiciar uma oportunidade na vida.

Sharon olhou de relance o perfil de Alan, e depois voltou as vistas para a estrada. Alguns instantes depois perguntou:

— Sabe de uma coisa?

— Não. Conte-me.

— Se eu me achasse em dificuldades — disse ela, — você, Alan, seria o único de quem gostaria de receber ajuda.

— Estamos em dificuldade... agora — observou Alan. — Deixe-me dirigir?

Os pneus guincharam. O carro foi parando aos poucos.

— Por quê? — perguntou Sharon inocentemente. — Aqui estamos.

O cheiro da mistura do molho de pizza e do espaguete era inconfundível.

No escritório Tom Lewis estava lendo a edição nacional do Post. Deixou cair o jornal quando eles entraram.

— A Ordem dos Advogados vai cassar seu alvará — anunciou. — Depois de uma degradação pública no Parque Stanley. Você conhece as leis sobre a publicidade?

— Deixe-me ver. Disse Alan. Apanhou o jornal. — Disse apenas o que pensava. Na ocasião va um bocado agastado.

— Isso salta às vistas — disse Tom.

— Meu Deus! — Alan tinha diante de si a primeira página do jornal, com Sharon a seu lado. — Não pensei que saísse assim.

— Saiu no rádio também — informou Tom.

— Mas pensei que fossem falar mais de Duval...

— Para ser honesto —•confessou Tom, — estou morrendo de inveja. De certo modo, mesmo sem tentar, você parece ter dominado a importante questão, uma publicidade de heroi, e agora parece...

— Oh, estava-me esquecendo. Esta é Sharon Deveraux.

— Sei — disse Tom, — estava chegando a ela.

Os olhos de Sharon cintilaram alegremente.

— Afinal de contas, o senhor também está citado no jornal. Lê-se distintamente: Lewis & Maitland.

— Serei eternamente grato por essa migalha — Tom vestiu seu sobretudo. — Oh, a propósito, preciso sair para ir ver um novo cliente. É dono de uma peixaria e creio tratar-se de uma questão de locação. Infelizmente ele não tem ninguém para cuidar do depósito, de modo que sou obrigado a procurá-lo na sua peixaria. Vocês não gostariam de um pedaço de bacalhau para o jantar?

— Hoje à noite, não, obrigado — disse Alan meneando a cabeça. — Estou planejando sair com Sharon.

— Ah, sim — observou Tom, — estava com essa impressão.

Quando ficaram a sós, Alan observou:

— Preciso redigir a declaração. Tem que ficar pronta para poder apresentá-la amanhã a um juiz.

— Posso ajudá-lo? perguntou Sharon. Sorria e sua covinha aparecia e desaparecia. — Posso datilografar.

— Venha comigo — disse Alan, tomando-a pela mão e a introduzindo na sua saleta de paredes de vidro.

 

General Adrian Nesbitson

Todo o gabinete, com exceção de três Ministros que estavam ausentes de Otawa, compareceu ao aeroporto de Uplands para assistir à partida do Primeiro-Ministro para Washington. Não era um fato fora do comum. No início do seu Governo, James Howden manifestou o desejo de receber os cumprimentos de todo o Ministério por ocasião de suas partidas e chegadas de viagens. E isso se aplicava não só a viagens oficiais, mas a todas as suas idas e vindas da Capital.

O costume tinha-se tornado familiarmente conhecido entre os membros do Gabinete como “a revista”. De vez em quando, havia algum resmungo, e, certa feita, algumas queixas chegaram aos ouvidos de James Howden. Mas o seu próprio ponto de vista — explicado a Brian Richardson que lhe levara as queixas — era de que essas ocasiões constituíam uma demonstração da solidariedade do Governo e do Partido, com que o presidente concordou. O que o Primeiro-Ministro não mencionava era a lembrança do tempo de adolescente que às vezes lhe ocorria.

Há muitos anos, o jovem James Howden viajara de seu orfanato para Edmonton, a cerca de quinhentos quilômetros de distância, onde deveria submeter-se a um exame de admissão para a Universidade de Alberta. Recebeu uma passagem de volta e tomou o trem sozinho. Três dias depois, transbordante de alegria pelo sucesso alcançado, que sofregamente queria participar a todos, voltara a uma estação vazia, sem ninguém para recebê-lo.

No fim, carregando sua valise de papelão, caminhara a pé para o seu orfanato a cinco quilômetros da cidade, desaparecendo no caminho seu primeiro entusiasmo. Depois disso, tinha horror de começar ou terminar uma viagem sozinho.

Hoje não haveria solidão. Além dos Ministros, outros vieram ao aeroporto, e do assento traseiro de seu Oldsmobile, com Margaret a seu lado, James Howden observava os chefes de Estado-Maior — do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, uniformizados, com seus ajudantes — e o Prefeito de Otawa, o Comissário da Real Polícia Montada do Canadá, vários diretores de departamentos do Governo e, discretamente, no fundo, Sua Excelência, Phillip B. Angrove, Embaixador dos Estados Unidos. Num grupo separado estava o inevitável enxame de repórteres e fotógrafos e, com eles, Brian Richardson e Milly Freedeman.

— Meu Deus! — cochichou Margaret, — tem-se a impressão de que vamos partir como missionários para a China.

— Eu sei — respondeu Howden. — É aborrecido, mas o povo parece gostar dessa espécie de coisa.

— Não seja ridículo — disse Margaret calmamente. — Você mesmo gosta disso tudo e não haveria motivo para não gostar.

O carro passou sob um grande arco que dava acesso à rampa do aeroporto e parou suavemente perto do Vanguard de luxo, com sua fuselagem brilhando ao sol da manhã e sua tripulação da Real Força Aérea Canadense em posição de sentido ao longo de sua extensão. Um guarda da Real Polícia Montada do Canadá abriu a porta do carro e Margaret apeou seguida de James Howden. Os militares e os policiais bateram continência e o Primeiro-Ministro levantou seu chapéu de feltro novo que Margaret lhe comprara quando de sua ida a Montreal. Havia uma atmosfera de expectativa entre as pessoas que o aguardavam, pensou; ou talvez fosse o ar frio, cortante, que castigava o aeroporto, que tornava suas feições tão tensas. Perguntava-se sobre o sigilo — se teria sido guardado, ou se alguma coisa teria transpirado, deixando entrever a verdadeira finalidade daquela viagem.

Stuart Cawston avançou, jubiloso. Stu, o Sorridente, como o membro mais velho do Gabinete, substituiria o Primeiro-Ministro durante sua ausência.

— Meus cumprimentos, Sir, e a Margaret — disse o Ministro da Fazenda. Depois ao se apertarem as mãos: — Como veem, somos um grupo bastante animado.

— Onde está a fanfarra? — perguntou Margaret irreverentemente. — A meu ver é só o que falta.

— Tudo foi feito em segredo, segundo me consta — respondeu Cawston alegremente, — mas já os mandamos na frente para Washington disfarçados em fuzileiros navais americanos. Portanto, se vir algum, presuma que seja dos nossos. — Cawston tocou no braço do Primeiro-Ministro. Fez-se sério e perguntou:

— Há mais alguma determinação — prova ou refutação?

James Howden sacudiu a cabeça. Não havia necessidade de explicações; a pergunta era a mesma que o mundo todo vinha fazendo há quarenta e oito horas. Moscou tinha anunciado a destruição de um submarino nuclear americano, o Defiant, no Mar da Sibéria Oriental. De acordo com a versão russa — que Washington vinha negando — o submarino tinha invadido as águas territoriais soviéticas. O episódio levara a um aumento evidente das tensões mundiais das últimas semanas.

— Não há possibilidade de se obterem provas, por agora — disse Howden calmamente. O grupo das despedidas seguia de perto a conversação quando Howden disse seriamente a Cawston: — A meu ver é um ato calculado de provocação e devemos resistir a qualquer tentação de retaliação. Pretendo insistir nesse ponto na Casa Branca, pois precisamos ainda de tempo — tanto quanto possamos conseguir.

— Concordo — disse Cawston.

— Venho-me negando a qualquer declaração ou protesto — disse o Primeiro-Ministro e o senhor deve compreender que não convém fazer nenhuma a menos que Arthur e eu decidamos em Washington, e nesse caso o faríamos dali. Está claro?

— Perfeitamente claro — respondeu Cawston. — Francamente é uma satisfação para mim que seja o senhor e Arthur e não eu.

Voltaram-se para o grupo que aguardava e James Howden começou a apertar a mão de cada um. Ao mesmo tempo os outros três membros do Gabinete que o acompanhariam a Washington — Arthur Lexington, Adrian Nesbitson e Styles Bracken, do Ministério do Comércio — ficaram para trás.

Adrian Nesbitson parecia bem mais saudável, pensou Howden, do que da última vez que o vira. O velho guerreiro, corado, com um cachecol de lã bem apertado, chapéu de pele e um pesado sobretudo, tinha um aspecto de quem ia a uma parada e evidentemente estava adorando a ocasião, comportando-se com toda cerimônia. Precisava conversar com ele, durante o voo, pensava Howden; não tivera essa oportunidade desde a reunião do Conselho de Defesa e era até certo ponto indispensável enquadrá-lo. Muito embora Nesbitson não fosse tomar parte direta em suas conversações com o Presidente, não deveria haver qualquer sinal de dissensão do lado canadense.

Atrás de Nesbitson, Arthur Lexington exibia aquele ar despreocupado de um Ministro do Exterior para quem as viagens pelo mundo eram um negócio de rotina. Aparentemente indiferente ao frio, trazia um chapéu de feltro e sobretudo leve, com sua costumeira gravata borboleta aparecendo. Bracken, Ministro do Comércio, um saudável ocidental que passara a integrar o Ministério havia apenas alguns meses, integrava a comitiva para salvar as aparências, uma vez que, segundo se dizia, os assuntos comerciais constituiriam o principal tópico de Washington.

Harvey Warrender estava na fila dos Ministros.

— Feliz viagem — tinha uma atitude respeitosa, sem o menor indício do choque que tivera com Howden. E acrescentou: — Para você também, Margaret.

— Obrigado — respondeu o Primeiro-Ministro. Sua resposta foi muito menos cortês do que a que dispensara aos outros.

Margaret, inesperadamente, perguntou:

— Harvey, não tem nenhuma citação latina para nós?

O olhar de Warrender se dividiu entre os dois.

— Tenho às vezes a impressão de que seu marido não gosta de minhas brincadeiras.

— Não se incomode com isso — disse Margaret. — Pois eu as acho engraçadas.

O Ministro da Imigração esboçou então um sorriso.

— Nesse caso, se é verdade: vectatio, interque, et mutata regio vigorem dant.

— Só conheço a palavra vigorem — disse Stuart Cawston. —Que significa o resto, Harvey?

— É um pensamento de Sêneca — respondeu Warrender. — Viajar, passear e mudar de lugar dão vigor.

— Sinto-me vigoroso, com ou sem viagem — disse Howden declaradamente ríspido. A conversa o aborrecera e, tomando Margaret firmemente pelo braço, afastou-se na direção do Embaixador americano que avançou, tirando o chapéu. Os demais, quase instintivamente, se afastaram.

— Angry, é uma agradável surpresa — disse Howden.

— Pelo contrário, Primeiro-Ministro, é uma honra e privilégio para mim. O Embaixador fez uma ligeira inclinação para Margaret. Phillip Angrove, um grisalho diplomata de carreira com amigos pelo mundo inteiro, tinha uma maneira de ser cortês, nessas ocasiões protocolares, que parecia toda pessoal e às vezes de fato o eram. Temos uma tendência exagerada, pensava Howden, de considerar tudo que é dito polidamente como exclusivamente superficial. Observou que o Embaixador tinha os ombros mais inclinados do que de costume.

Margaret também o notara.

— Espero, Sr. Angrove, que sua artrite não o esteja mais aborrecendo.

— Lamento, mas está — um sorriso pesaroso. — O inverno canadense tem suas delícias, Sra. Howden, mas também suas penas para nós reumáticos.

— Pelo amor de Deus, não seja condescendente para com o nosso inverno! — exclamou Margaret. — Meu marido e eu nascemos aqui e ainda não nos acostumamos com ele.

— Talvez não seja tanto — o Embaixador falava pausadamente, com seu rosto enrugado, numa expressão meditativa. — Acho muitas vezes, Sra. Howden, que os canadenses devem agradecer a Deus por seu clima: intrepidez e firmeza, mas no fundo muito calor e cordialidade.

— Se é assim, é mais uma razão de termos tanto em comum. James Howden estendeu a mão — Encontrar-nos-emos em Washington, suponho.

O Embaixador respondeu afirmativamente com a cabeça.

— Meu avião parte poucos minutos depois deste — ao se apertarem as mãos: — Boa viagem, Sir, e uma volta com honra.

Quando Howden e Margaret se voltaram na direção do avião que os esperava, a imprensa os cercou. Eram uns doze repórteres credenciados junto ao Parlamento e representantes de agências noticiosas, juntamente com um pomposo entrevistador de TV acompanhado de uma equipe de cinegrafistas. Brian Richardson postara-se num ponto de onde pudesse ver Howden e ser visto por ele. O Primeiro-Ministro cumprimentou-o com um sorriso e um amistoso aceno de cabeça, a que respondeu Richardson. Já haviam discutido anteriormente os detalhes da viagem e tinham chegado a um acordo de que os tópicos principais da declaração para a imprensa — embora não revelassem ainda os principais envolvidos — deveriam ser anunciados à sua chegada a Washington. Mesmo assim, Howden sabia que precisava prover alguma coisa para o uso da imprensa local. Falou um pouco, empregando alguns dos lugares-comuns concernentes às relações americano-canadenses. Em seguida, esperou as perguntas.

A primeira foi formulada pelo entrevistador da TV.

— Sr. Ministro, correm alguns rumores de que essa viagem envolve outros assuntos além de meras conversações de caráter comercial?

— Bem, isso é verdade — disse Howden com aparente seriedade. — Se tivermos tempo, o Presidente e eu jogaremos uma partida de pingue-pongue — foi uma gargalhada geral; tinha-se saído muito bem, levando vantagem sobre o entrevistador sem ser descortês.

— Mas além do lado esportivo, Sir — o moço da TV sorriu respeitoso, expondo duas carreiras de dentes alvos e certos. — Não se fala de decisões de caráter militar a serem tomadas nessa ocasião?

Afinal de contas, o negócio tinha transpirado, embora evidentemente só de modo geral. Realmente não era de admirar, pensava Howden! Já ouvira alguém dizer que quando um segredo pertencia a mais de uma pessoa já não era mais segredo. Mesmo assim era uma advertência de que um assunto de vital importância não poderia ser mantido muito tempo em sigilo e, depois de Washington, deveria agir rapidamente, se é que desejasse controlar ele próprio a liberação das notícias importantes.

Agora, falando cautelosamente e cônscio de que o que dissesse poderia ser citado depois, respondeu:

— É claro que o assunto de nossa defesa comum será discutido em Washington, como acontece sempre em ocasiões como esta, juntamente com outros assuntos de interesse mútuo. Mas quanto a decisões, qualquer decisão só será tomada em Otawa com o pleno conhecimento do Parlamento e, se necessário, com sua aprovação.

Ouviram-se algumas palmas entre os espectadores.

— Pode-nos informar, Sr. Howden — perguntou ainda o entrevistador da TV, — se o recente caso do submarino será discutido e, se for, qual será a posição canadense?

— Estou certo de que será discutido — respondeu Howden, com sua fisionomia séria, de nariz comprido e pontiagudo, — e evidentemente compartilharemos com os Estados Unidos sua profunda inquietação pelo trágico desaparecimento do Defiant e de sua tripulação. Quanto ao mais, no momento, não tenho outras declarações a fazer.

— Nesse caso, Sir... — recomeçou o moço da TV, quando foi interrompido por outro repórter impaciente.

— Você não acha que cada um deve ter sua vez, meu chapa? Como você sabe, os jornais não foram ainda abolidos.

Houve um murmúrio de assentimento entre o grupo da imprensa e James Howden sorriu intimamente. Viu o entrevistador da TV corar-se e depois fazer um aceno de cabeça para a equipe de filmagem. Aquela parte especial do filme, supôs o Primeiro-Ministro, seria deturpada depois.

O jornalista que reclamara era George Haskins, um homem de idade madura, ativo, que trabalhava para o Free Press, de Winnipeg.

— Sr. Ministro, gostaria de lhe fazer uma pergunta — disse ele, — não sobre Washington, mas sobre a posição do Governo com relação ao problema do homem sem pátria.

James Howden franziu a testa. Intrigado, perguntou:

— A quem se refere, George?

— Refiro-me ao moço Henri Duval, Sir, que o Departamento de Imigração de Vancouver não quer deixar entrar no país. O senhor nos poderia explicar a posição do Governo nesse caso.

Howden percebeu que Brian Richardson olhava para ele. O presidente do partido deu um passo à frente.

— Senhores — disse Richardson, — o momento não é oportuno...

— Ora essa, Brian! — gritou o repórter Haskins encolerizado. — É a notícia mais palpitante do momento.

— Com a TV e os relações-públicas quase não se pode mais fazer perguntas — acrescentou outro mal-humorado.

James Howden sorridente, atalhou:

— Responderei a toda pergunta que puder. Aliás tenho feito sempre assim, não é?

— É verdade, Sir. São outros que querem tentar o bloqueio — olhou com uma expressão de acusação para Brian Richardson, que estava de vistas baixas, impassível.

— Minha única dúvida — disse o Primeiro-Ministro, — e com certeza também a dúvida do Sr. Richardson, é se o momento comporta essa matéria — esperava poder desviar o assunto; caso contrário, tiraria algum proveito dele. Às vezes, pensava, devia ser interessante ter um secretário, de imprensa — como o Presidente dos Estados Unidos — que cuidasse dessa espécie de coisas. Mas evitara sempre nomear um com receio de ficar longe demais dos acontecimentos.

Tonkiws, do Star, de Toronto, um inglês culto e educado, muito respeitado na Capital, disse cortesmente:

— O negócio, Sir, é que a maioria de nós vem recebendo telegramas de nossos editores pedindo uma declaração sua sobre o caso Duval. Há muita gente, ao que parece, interessada com o que lhe irá acontecer.

— Compreendo — não havia meio de evitar o assunto. Até um Primeiro-Ministro, se quisesse ser prudente, não poderia desconhecer essa espécie de interesse. Era de dar raiva verificar que parte da atenção para sua viagem a Washington pudesse ser prejudicada. Howden refletia prudentemente. Pode ver Harvey Warrender que se aproximava, mas preferiu ignorá-lo, lembrando-se de sua obstinada estupidez que deixara isso acontecer. Encontrou o olhar de Richardson. A expressão do presidente do partido parecia dizer: “Eu lhe avisei que viria a ter dificuldades se não enquadrasse Harvey Warrender.” Ou talvez agora Richardson tivesse descoberto outro fator envolvido; seu olhar era bastante indicativo. Mas de uma maneira ou de outra, com a ameaça de Harvey Warrender a pairar como uma guilhotina, o próprio James Howden teria de enfrentar o problema da melhor maneira que pudesse. De uma coisa estava certo, raciocinava: o caso, embora no momento embaraçoso, era o tipo de coisa que ferveria durante alguns dias e depois seria esquecida. Notou que o pessoal de filmagem da TV estava de novo em ação; talvez, afinal de contas, fosse uma boa ocasião para explicar a posição oficial que o Governo tinha de tomar por força da lei e silenciar as críticas.

— Está bem, senhores — declarou rispidamente o Primeiro-Ministro, eis o que tenho a dizer.

Os repórteres tiraram seu lápis e se puseram a escrever quando ele começou a falar.

— Tenho observado que a imprensa vem dispensando uma considerável cobertura ao caso do indivíduo cujo nome foi mencionado há pouco pelo Sr. Haskins. Algumas das reportagens, permitam-me dizê-lo com franqueza, tem sido de natureza um tanto sensacionalista, com a tendência de ignorar certos fatos... fatos que o Governo, por força de suas responsabilidades, não pode ignorar.

— Pode-nos dizer quais são esses fatos, Sir? — dessa vez era a Gazette de Montreal.

— Se tiver paciência chegarei até lá — a voz de Howden refletia um tom de irritação. Ele não gostava de interrupções e de vez em quando não tinha cerimônias de lembrar a repórteres que não estavam entrevistando algum ministro novato. — Ia observar que há muitos casos individuais que não recebem qualquer publicidade e que, não obstante, são tratados regularmente pelo Ministério da Cidadania e da Imigração. E tratar de casos como esses, com justiça, e humanidade, mas não obstante dentro da lei, não é uma experiência nova nem para este Governo nem para seus auxiliares no Ministério da Imigração.

O Journal, de Otawa, perguntou:

— O caso agora não é um tanto diferente, Sr. Ministro? Quer dizer, por se tratar de um homem sem pátria e sem nada?

— Quando tratamos de seres humanos, Sr. Chase, todo caso é diferente — respondeu James Howden serenamente. — Eis por que, para prover uma medida de imparcialidade e coerência, temos uma lei de imigração aprovada pelo Parlamento e pelo povo canadense. O Governo, por força de sua própria Constituição, age dentro da estrutura dessa lei e, no caso de que estamos falando, é exatamente isso que tem sido feito — fez uma pausa, esperou que os repórteres terminassem de escrever, depois continuou: — É claro que não possuo os detalhes do caso. Mas fui informado de que o requerimento do jovem em pauta foi devidamente considerado em seus méritos e que, nos termos da lei vigente, não há condições de permitir sua entrada neste país.

Um jovem repórter, que Howden não conseguia reconhecer, perguntou:

— O senhor não acha, Sr. Ministro, que em certas ocasiões as considerações de ordem humana são mais importantes do que as questões de ordem técnica?

Howden sorriu.

— Se o senhor me estivesse fazendo uma pergunta retórica, responderia que as considerações humanas são sempre importantes e este Governo tem dado frequentes demonstrações disso. Mas se sua pergunta se restringe ao caso de que estamos falando, permita-me repetir que os fatôres humanos devem ser tomados em consideração tanto quanto possível. No entanto, devo lembrar ainda que o Governo está — e assim deve estar — obrigado a agir dentro das normas legais. O vento soprava forte e James Howden percebeu que Margaret tremia a seu lado. Era bastante, decidiu; a pergunta seguinte seria a última. Dessa vez partiu do maneiroso Tomkins que começou em tom de explicação:

— O Líder da Oposição fez uma declaração esta manhã, Sir — o repórter passou as páginas de seu caderno, consultando suas notas, depois prosseguiu: — Disse o Sr. Deitz: “O Governo deve resolver o caso de Henri Duval à base de princípios de humanidade e não por um teimoso apego à letra da lei. O Ministro da Cidadania e da Imigração tem poderes, se quiser fazer uso deles, para baixar uma portaria permitindo àquele pobre moço entrar no Canadá como imigrante.”

— O Ministro não tem esse poder — retrucou James Howden. — O poder está investido na Coroa, na pessoa do Governador-Geral. O Sr. Deitz sabe disso como qualquer outra pessoa.

Houve um momento de silêncio. Em seguida, o repórter com ar de inocência, perguntou:

— Mas o Governador-Geral não faz sempre o que o senhor lhe recomenda, Sir? Inclusive ferindo a lei da imigração como, segundo consta, já aconteceu algumas vezes?

Apesar de toda a sua aparente moderação, Tomkins era dotado de uma das mentes mais argutas da imprensa de Otawa, e Howden verificou que tinha sido apanhado numa armadilha verbal.

— Sempre entendi que a Oposição não gosta de que o Governo governe por portarias e decretos — disse abruptamente. Olhou para Brian que estava vermelho de raiva — e com razão, pensou Howden. Não só o foco da atenção se deslocara da importante missão de Washington para aquele assunto secundário, como também ele próprio não se tinha saído bem.

Resolveu recuperar-se da melhor maneira possível.

— Lamento saber, pela referência ao Sr. Deitz, que o assunto de que estamos falando pudesse converter-se talvez num problema entre partidos políticos. Na minha opinião isso nunca deveria acontecer — fez uma pausa, depois continuou seriamente. — Como já fiz ver antes, a admissão de Duval no Canadá não tem amparo legal, conforme as leis vigentes. E conforme é do meu conhecimento, muitos outros países agiram da mesma maneira. Nem vejo por que o Canadá é que deva ser obrigado a fazer o que os outros países não querem fazer. Quanto aos fatos, tanto os conhecidos como os alegados, permitam-me assegurar mais uma vez que foram todos examinados exaustivamente pelo Ministério da Cidadania e da Imigração antes de se chegar a uma decisão. E, agora, senhores, por favor, é tudo.

Fora tentado a acrescentar alguma coisa sobre a conveniência de manterem os jornais um senso de proporção das notícias, mas preferira não o fazer; a imprensa, embora se fizesse guarda de seu irmão, ressentia-se violentamente quando criticada. Ao invés, aparentemente sorridente, mas no seu íntimo furioso com Harvey Warrender, o Primeiro-Ministro tomou Margaret pelo braço e se encaminhou para o avião, seguidos de aplausos e vivas de seus partidários.

 

O Vanguard, turbo-hélice de luxo, mantido pelo Governo para voos oficiais, era dividido em três compartimentos — uma seção convencional na frente para os acompanhantes não ministeriais que embarcaram antes da chegada do Primeiro-Ministro; uma cabina central, mais confortável, agora ocupada pelos três Ministros e vários deputados; e no fundo, uma sala de estar bem mobiliada, pintada a pastel num tom azul, com um dormitório compacto, mas cômodo.

A cabina mais ao fundo, que tinha sido projetada originalmente para o uso da Rainha e de seu marido em suas visitas oficiais, devia ser utilizada agora pelo Primeiro-Ministro e Margaret. O comissário, um sargento da Real Força Aérea Canadense, ajudou-os a apertar os cintos de dois sofás confortáveis e depois se retirou discretamente. Lá fora, a pulsação profunda e abafada dos quatro motores Rolls Royce era intensificada, enquanto o aparelho taxiava na direção da pista

Quando o comissário se retirou, James Howden perguntou rispidamente:

— Que necessidade havia de estimular a vaidade de Warrender com seus versos latinos?

— Realmente não havia necessidade — respondeu Margaret calmamente. — Mas se quer saber, acho que você se estava comportando de modo excessivamente rude e, por isso, quis contornar as coisas.

— Ora essa, Margaret! — levantou sua voz. — Tinha razões de sobra para ser rude com Harvey Warrender.

Sua esposa retirou o chapéu cuidadosamente e o colocou sobre uma mesinha ao lado de sua cadeira. Era um delicado chapéu de veludo e filó pretos que comprara em Montreal.

— Por favor, não seja impertinente comigo, Jamie. Você pode ter tido suas razões, mas eu não tinha e, como já lhe tenho dito, não sou papel-carbono de suas rabujices.

— Não é isso coisa nenhuma...

— Sim, é exatamente isso! — Margaret agora tinha as faces coradas. Era sempre lenta em se zangar, razão pela qual suas brigas eram relativamente raras. — A julgar pela maneira como você se comportou agora mesmo com os repórteres, eu diria que Harvey Warrender não é o único a ser acusado de vaidade.

— Que quer dizer com isso? — perguntou Howden abruptamente.

— Você se aborreceu com aquele Sr. Tomkins, só porque não era suficientemente tolo para aceitar todos os seus pomposos contra-sensos a respeito da justiça e da humanidade. Se lhe interessa saber, nem eu tampouco aceito.

— Por certo, pelo menos nisso tenho direito a alguma lealdade — advertiu Howden.

— Oh, não seja ridículo — protestou Margaret excitada. — E, pelo amor de Deus, pare de se dirigir a mim como se estivesse numa reunião política. Sou sua esposa, não sou? Já o vi nu. É perfeitamente óbvio o que aconteceu. Harvey Warrender o colocou numa posição difícil...

— Uma posição impossível — atalhou Howden.

— Muito bem, impossível. E por alguma razão você acha que deve mantê-lo, mas porque não lhe agrada agir assim, está descarregando seu mau humor em todo mundo, inclusive em mim — coisa fora do comum, havia algo de capcioso nas últimas palavras de Margaret.

Fez-se o silêncio entre eles. Do lado de fora aumentava o barulho dos motores que se preparavam para a decolagem; o avião deslizou sobre a pista e poucos instantes depois alçava voo. Howden pegou na mão de Margaret.

— Você tem toda razão. Estava mesmo rabujento.

Era assim que terminavam em geral suas brigas, mesmo as sérias, e na verdade tinha havido poucas em sua vida de casados. Invariavelmente um deles aceitava o ponto de vista do outro. James Howden se perguntava se haveria realmente casais que vivessem juntos sem brigar. Se existissem, deviam ser pessoas insípidas e desprovidas de espírito, pensava.

Margaret estava com a cabeça virada para o outro lado, mas retribuiu o aperto de mão.

Pouco depois, Howden ponderava:

— Não há nada de importante com relação a Warrender... com relação a nós, quero dizer. Tem sido um empecilho, é tudo. Mas conseguiremos.

— Creio que estou sendo também um pouco tola. Talvez porque tenha estado pouco com você ultimamente — Margaret tinha tirado um lencinho de cambraia de sua frasqueira e com ele tocou delicadamente o canto dos olhos. E prosseguiu calmamente: — Às vezes sinto um ciúme terrível da política, uma espécie de desamparo. Chego mesmo a preferir que você tivesse uma amante por aí. Pelo menos saberia como competir.

— Você não precisa competir — disse Howden. — Você nunca competiu — por alguns instantes sentiu remorso, lembrando-se de Milly Freedeman.

— Se Harvey Warrender é tão difícil — perguntou Margaret abruptamente, — por que lhe dar o Ministério da Imigração? Não poderia designá-lo para outro posto onde pudesse ser menos nocivo, por exemplo, o Departamento da Pesca?

James Howden suspirou.

— Infelizmente Harvey quer ser o Ministro da Imigração e ainda tem bastante influência para fazer valer seus desejos — Howden se perguntava se Margaret teria realmente acreditado na segunda afirmação, mas ela não deu mostras de querer interrogar.

O Vanguard descrevia uma curva na direção do sul, subindo ainda, agora, porém, menos a pique. O sol de meio-dia penetrava brilhante através das janelas do lado do mar, e, à direita, de dois mil metros de altura via-se Otawa lá embaixo como uma cidade miniatura. O Rio Otawa era um talho de prata entre margens cobertas de neve. A oeste, perto dos estreitos das Quedas Chaudiére, correntes esbranquiçadas apontavam como dedos para o Supremo Tribunal e o Parlamento, que pareciam insignificantes vistos de cima.

A Capital ia aos poucos ficando para trás, sucedendo-se a vista de um país completamente plano. Dentro de uns dez minutos estariam cruzando o São Lourenço e sobrevoando o Estado de Nova York. Um míssil teleguiado, pensava Howden, teria coberto a mesma distância não em minutos, mas em segundos.

Voltando-se da janela, perguntou Margaret:

— Você acha que o povo tem alguma ideia de tudo que acontece no Governo? As composições políticas, os favores trocados e tudo o mais?

James Howden momentaneamente ficou surpreendido. Não era a primeira vez que tinha a impressão de que Margaret penetrava seus pensamentos. Então respondeu:

— Alguns sabem, é claro; aqueles que estão mais por dentro. Mas tenho para mim que a maioria não sabe, ou pelo menos não se preocupa em saber. E há outros que não acreditariam mesmo diante de provas documentadas e juramentos.

— Somos tão apressados em criticar a política americana — disse Margaret refletidamente.

— É um fato — concordou Howden. — E muito ilógico, é claro, pois na mesma proporção temos tanto protecionismo e subornos como os americanos, talvez até mais. O negócio é que somos muito mais discretos e de vez em quando oferecemos um sacrifício público de alguém que se tomou guloso demais.

Os avisos luminosos de bordo tinham sido desligados. James Howden retirou seu cinto de segurança e ajudou Margaret a tirar o seu.

— É claro, querida — disse ele, — você deve constatar que um de nossos maiores predicados nacionais é o nosso senso de farisaísmo. É algo que herdamos dos ingleses. Lembra-se de Shaw? “Não há nada tão mau ou tão bom que um inglês não faça, mas um inglês nunca será apanhado no erro.” Essa espécie de convicção ajuda muito a consciência nacional.

— Você, às vezes — disse Margaret, — parece rejubilar-se verdadeiramente com as coisas erradas.

Seu marido fez uma pausa, pensativo.

— Não pretendo parecer assim; o negócio é que quando estamos a sós, procuro desfazer-me das aparências — esboçou um ligeiro sorriso. — Restam-me poucos lugares onde posso ficar à vontade.

— Sinto muito — o tom de voz de Margaret traduziu uma preocupação. — Eu não deveria ter falado assim.

— De modo algum! Não gostaria que nenhum de nós tivesse algo que não pudesse dizer ao outro, fosse o que fosse — seu pensamento voltou-se rapidamente para Harvey Warrender e para o negócio que fizera com ele. Por que nunca contara a Margaret? Talvez um dia lhe contasse. Agora continuou: — Grande parte do que sei de política me entristece. Sempre me entristeceu. Mas então começo a pensar na nossa mortalidade e na fraqueza humana, lembrando-me de que nunca houve poder com pureza, em nenhuma parte. Se quisermos ser puros, teremos de ficar sozinhos. Se procurarmos fazer coisas positivas, realizemos alguma coisa, deixemos o mundo um pouco melhor do que o encontramos, depois temos de escolher o poder e nos desfazer um pouco de nossa pureza. Não há outra alternativa — continuou meditativo: — É como se estivéssemos todos à mercê de uma forte correnteza e, embora o quiséssemos, não pudéssemos mudar subitamente o seu curso. Tudo quanto se pode fazer é se deixar levar e tentar moderá-la num sentido ou no outro.

Um interfone branco sibilou musicalmente perto da cadeira do Primeiro-Ministro que o atendeu. A voz do Comandante do avião anunciou:

— Fala Galbraith, Sir.

— Sim, Comandante de Esquadra — Galbraith, piloto veterano com a fama de competência, estava em geral no comando de missões especiais fora de Otawa. Já havia conduzido os Howdens várias vezes.

— Estamos a cerca de seis mil metros de altura e a estimativa de voo até Washington é de uma hora e dez minutos. O tempo ali está bom e claro, a temperatura é de 18°C.

— Boa notícia — disse Howden. — Já cheira a verão — voltou-se para Margaret e lhe falou sobre o tempo em Washington, depois disse ao interfone: — Segundo me consta nossa Embaixada oferecerá amanhã um lanche, Comandante. Espero encontrá-lo lá.

— Obrigado, Sr. Ministro.

James Howden recolocou o fone. Enquanto estivera conversando, o comissário de bordo reaparecera, dessa vez com bandejas de café e sanduíches. Havia também um único copo de suco de uva. Margaret observou:

— Se você realmente gosta tanto disso, mandarei fazer em casa.

Howden esperou que o comissário se retirasse, depois abaixou a voz.

— Já estou ficando saturado de tanto suco. Fui dizer uma vez que gostava disso e pronto, estão sempre a me oferecer essa bebida. Agora compreendo por que Disraeli tinha horror às prímulas.

— Pois eu sempre achei que ele adorasse as prímulas — disse Margaret. — Não eram suas flôres preferidas?

Seu marido meneou a cabeça enfaticamente.

— Disraeli só disse isso uma vez em certa ocasião, por polidez para com a Rainha Vitória que lhe havia enviado algumas. Mas depois, seus admiradores fizeram chover prímulas sobre ele até que à simples visão de uma era suficiente para irritá-lo. Como você vê, os mitos políticos custam a morrer — sorrindo, apanhou o suco de uva, abriu a porta do fundo da cabina e o despejou no vaso.

— Sabe — disse Margaret pensativa, — há momentos em que acho que você se parece muito com Disraeli, embora talvez um pouco mais violento — sorriu. — Pelo menos tem nariz para isso.

— É verdade — concordou Howden, — e essa minha cara de pau tem sido uma marca registrada — coçou seu nariz de bico de águia, depois disse rememorativo: — Antigamente eu ficava surpreendido quando me diziam que eu parecia violento, mas depois de algum tempo, quando aprendi a me dominar, essa qualidade tornou-se muito útil.

— Que beleza — disse Margaret, — sermos nós mesmos por alguns instantes. Quanto tempo falta para chegar a Washington?

Howden fez uma careta.

— Falta pouco, infelizmente. Preciso falar com Nesbitson antes de aterrarmos.

— Realmente, Jamie? — era mais um pedido do que uma pergunta.

— Sinto muito, querida — respondeu Howden pesaroso.

Margaret suspirou.

— Logo vi que estava bom demais para durar. Bem, vou descansar um pouco, de modo que você possa ficar mais à vontade — levantou-se e apanhou sua frasqueira e seu chapéu. À porta do pequeno dormitório, ela se voltou — Vai intimidá-lo?

— Provavelmente, não, a menos que seja obrigado.

— Espero que não seja — disse Margaret seriamente. — É um pobre homem. Penso sempre nele assentado numa cadeira de rodas com um cobertor e outro soldado a empurrá-lo.

O Primeiro-Ministro abriu-se num largo sorriso.

— Todos os generais aposentados deviam ficar assim. Mas, infelizmente, ou se metem em política ou se põem a escrever livros.

Quando Margaret desapareceu, tocou a campainha chamando o comissário e por seu intermédio mandou um recado cortês ao General Nesbitson, pedindo-lhe para vir estar com ele.

 

— Que excelente aspecto, Adrian — disse James Howden.

Do fundo da cadeira macia que Margaret tinha deixado há pouco, Adrian Nesbitson, segurando entre suas mãos rechonchudas o copo de uísque e soda, assentiu satisfeito balançando a cabeça.

— Tenho-me sentido muito bem nestes últimos dias, Primeiro-Ministro. Parece que finalmente fiquei livre daquele maldito defluxo.

— Apraz-me ouvir isso. Tenho a impressão de que o senhor se sobrecarregou um pouco durante certo tempo. Aliás, todos nós. Isso nos torna a todos impacientes uns com os outros — Howden estudava cuidadosamente seu Ministro da Defesa. O velho realmente estava mais saudável, distinto mesmo, apesar da calvície avançada. O espesso bigode branco ajudava bastante; cuidadosamente aparado, conferia uma aura de dignidade àquele rosto quadrado que retinha ainda um resquício de autoridade militar. Talvez, pensava Howden, iria dar certo o plano que concebera. Lembrava-se, porém, da advertência de Brian Richardson: “Cuidado com a barganha; o sujeito tem a fama de ser duro.”

— Impacientes ou não — disse Nesbitson, não posso ainda compartilhar de seu ponto de vista sobre um possível ato de união. Estou certo de que poderemos obter o que quisermos dos americanos sem precisar conceder tanto.

James Howden impôs-se a calma, ignorando o crescendo de raiva e de frustração que lhe ia na alma. Nada, sabia ele, seria obtido pela perda de controle, gritando bem alto como lhe ditava o impulso: “Pelo amor de Deus, acorde! Acorde e reconheça o que é óbvio; já é tarde demais e não há mais tempo para velhas e tediosas panaceias.” Mas, em vez, disse calmamente:

— Gostaria de que você fizesse alguma coisa por mim, Adrian, se quisesse.

O velho mostrou-se um pouco hesitante antes de perguntar:

— O quê?

— Reflita bem, pese a situação, o tempo de que dispomos, o que foi dito outro dia, depois as alternativas e sua própria consciência.

— Já o fiz — a resposta foi taxativa.

— Não o pode fazer outra vez? — Howden era todo persuasão. — Como um favor pessoal a mim?

O velho General tinha acabado de esvaziar o copo. O uísque o esquentara e ele abaixou o copo.

— Bem, concedeu, não me incomodo em fazê-lo. Mas advirto-o de que minha resposta continua sendo a mesma: devemos manter nossa independência nacional... integral.

— Obrigado — disse Howden... Apertou um botão e quando o comissário apareceu: — Traga mais uísque e soda, por favor, para o General Nesbitson.

Quando chegou a segunda dose, Nesbitson bebericou, depois inclinou-se para trás, pondo-se a apreciar a cabina. Com a velha aspereza de voz de seu tempo de militar, disse o General aprobativamente:

— Tem uma bela estrutura esta cabina, Primeiro-Ministro, se é que posso dizer assim.

Era a abertura que James esperava.

— Não é má — reconheceu, brincando com os dedos sobre a superfície fria do copo de suco de uva que o comissário trouxera, juntamente com o uísque do Ministro da Defesa. — No entanto, quase não a uso. Este avião é mais do Governador-Geral do que meu.

— É mesmo? — Nesbitson parecia surpreso. — Quer dizer que Sheldon Griffiths costuma fazer viagens como esta?

— Oh, sim, quando quer — o tom de Howden era deliberadamente casual. — Afinal de contas, o Governador-Geral é o representante de Sua Majestade. Tem direito a um tratamento especial, não acha?

— Suponho que sim — o General tinha uma expressão aparvalhada.

Mais uma vez, casualmente, como se a conversa o fizesse lembrar-se de alguma coisa, disse Howden:

— Acho que o senhor já ouviu dizer que Shel Griffiths vai aposentar-se no próximo verão. Já mora há sete anos no Palácio e acha que já é tempo de descer as escadas.

— Já ouvi alguma coisa a respeito — disse Nesbitson.

O Primeiro-Ministro suspirou.

— É sempre um problema quando um Governador-Geral se aposenta — encontrar o melhor para substituí-lo: alguém experiente e disposto a servir. É preciso lembrar que é a mais alta honra que a nação pode dispensar.

Howden acompanhava atentamente os movimentos do velho que agora sorvia uma boa dose de uísque.

— Sim, certamente é a maior honra — disse circunspecto.

— É claro — ponderou Howden, — que o cargo tem seus espinhos. Há muito cerimonial: guardas de honra por toda a parte, aplausos das multidões, saudações de artilharia etc. — e acrescentou casualmente: — A salva de Governador-Geral é de vinte e um tiros, o senhor sabia? Igual à da Rainha.

— Sim — disse Nesbitson calmamente, — eu sei.

— Naturalmente — continuou Howden, como se estivesse pensando em voz alta, — é necessária uma boa dose de experiência para saber conduzir-se bem. Geralmente quem melhores condições tem para isso é alguém com um passado militar.

O velho guerreiro molhou com a língua seus lábios ligeiramente abertos.

— É — disse ele, — quero crer que sim.

— Francamente — disse Howden, — sempre achei que você um dia pudesse vir a ser o Governador-Geral.

O General arregalou os olhos.

— Eu? — sua voz era quase inaudível — Eu?

— Bem — disse Howden, como se afastando o pensamento, — veio na hora errada. Você não quereria deixar o Gabinete e nem eu certamente o quereria perder.

Nesbitson fez um movimento como se fosse levantar-se da cadeira da cabina, mas depois se acomodou. A mão que segurava o copo estava trêmula. Tomou um gole, tentando manter sua voz sob controle e o conseguiu parcialmente.

— Na verdade, há algum tempo que venho pensando em deixar a política. É um tanto pesado para minha idade.

— É verdade, Adrian? — o Primeiro-Ministro permitiu-se mostrar-se surpreso. — Eu sempre pensei tê-lo conosco ainda por muito tempo — fez uma pausa para pensar. — É claro que, se você aceitasse, isso resolveria muitos problemas. Não temo afirmar que, conforme vejo as coisas, depois do ato de união este país atravessará épocas muito difíceis. Precisaremos de um sentimento de unidade e de continuidade do sentimento nacional. Quanto a mim, encaro o cargo do Governador-Geral, desde que confiado a boas mãos, como um grande contribuidor para essa finalidade.

Por alguns instantes Howden achou que tinha ido longe demais. Ao dizer isso, o velho levantou os olhos e ambos se olharam face a face. Era difícil ler o que seus olhos diziam. Seria desprezo, ou desconfiança, ou ambas as coisas com uma mescla de ambição? De uma coisa podia estar certo. Embora Adrian Nesbitson, sob certos aspectos, fosse um tolo, não era tão obtuso que não pudesse compreender o que lhe estava sendo oferecido: uma proposta, o preço mais alto possível por seu apoio político.

Era com a avaliação que o General fazia do prêmio que James Howden contava. Alguns homens, sabia, jamais cobiçariam o cargo de Governador-Geral em quaisquer termos que lhes fosse oferecido; para eles seria mais um castigo do que uma recompensa. Para uma mentalidade militar, entretanto, que adora cerimônias e pompas, era o supremo ideal.

James Howden nunca acreditara no ditado dos cínicos, segundo o qual todos os homens têm o seu preço. Conhecera em sua vida muitos indivíduos que nunca puderam ser comprados, com honras ou com riquezas, ou mesmo com a tentação — à qual tantos sucumbiam — de fazer o bem, de ser úteis a seus amigos. A maioria, porém, dos que militavam na política tinha seu preço, de uma maneira ou de outra eram obrigados a ter para sobreviver. Alguns preferiam usar eufemismo como “conveniência” ou “transigência”, mas no fim tudo se reduzia à mesma coisa. A questão era: teria avaliado corretamente o preço do apoio de Adrian Nesbitson?

O conflito interior estampava-se na face do velho General: uma sequência de expressões, que mudavam rapidamente como um calidoscópio de criança, em que a dúvida, o orgulho, a vergonha e a ânsia se misturavam...

Podia lembrar-se dos estrondos dos canhões... o ataque da 88ª divisão alemã e do fogo de resposta... uma manhã iluminada de sol; Antuérpia ficara para trás, a Schsdt na frente... a divisão canadense escalava, avançando; depois, reduzira a marcha, vacilara, disposta a bater em retirada... Era o ponto decisivo da batalha e ele se apoderara do jipe, fizera um aceno para o tocador de gaita escocesa e mandara o motorista avançar. De pé, de frente para os canhões alemães, liderando e animando, conseguira, ao som das gaitas, reunir as fileiras que praguejavam. Com nomes feios apressava os atrasados; os homens xingavam-no pelas costas e o seguiam.

Fragor, poeira, motores acelerados, o cheiro de cordite e de óleo, gritos de feridos... Avança-se, de início lentamente, depois mais rapidamente... A admiração nos olhos de todos — dele, ali em pé, orgulhoso, um alvo ao alcance de qualquer atirador inimigo...

Foi o supremo instante de glória. Parecia impossível, mas conseguiram arrebatar a vitória. Tinha sido um suicídio, mas sobrevivera prodigiosamente...

Chamaram-no de o General Louco e de o Louco Combatente. Depois disso, no Palácio de Buckingham, um homem magro e esbelto, que ele reverenciara, com um tartamudeio pregou-lhe uma medalha no peito.

Os anos, porém, tinham passado e com eles as recordações; e poucos se lembravam do instante de glória e um número ainda menor lhe dava o devido valor. Ninguém mais o chamava de o Louco Combatente. Se lhe dessem algum apelido, certamente omitiriam o “Combatente”.

Às vezes, embora por poucos instantes, ansiava de novo pelo gosto da glória.

Adrian Nesbitson, demonstrando uma certa inquietação, disse:

— O senhor parece muito seguro a respeito desse Ato de União, Primeiro-Ministro.

— Sim, estou. Será feito porque não há outra alternativa — Howden tinha o rosto sério e a voz grave.

— Mas haverá oposição — o velho General franziu a testa em concentração.

— É claro. Mas no fim, quando forem consideradas a necessidade e a urgência, isso não fará diferença — a voz de Howden assumiu o tom de persuasão. — Eu sei que seu primeiro pensamento, Adrian, era opor-se a esse plano e todos o respeitamos por isso. Suponho também que se achou que devesse continuar a resistir, seriamos obrigados a nos separarmos politicamente.

— Não vejo necessidade disso — retrucou Nesbitson carrancudo.

— Não há necessidade — disse Howden, — sobretudo quando, como Governador-Geral, você terá muito mais condições de servir ao país do que no deserto político.

— Bem — disse Nesbitson, olhando suas mãos. — Acho que considerado sob esse ponto de vista...

Era tudo tão simples, pensava Howden. O padroado, o poder de dar empregos, envolvia muitas coisas. Disse em voz alta:

— Se concordasse, eu teria o prazer de comunicar à Rainha o mais cedo possível. Estou certo de que Sua Majestade ficaria imensamente feliz com a notícia.

Adrian Nesbitson, inclinando a cabeça, disse com dignidade:

— Como quiser, Primeiro-Ministro.

Puseram-se de pé e se apertaram as mãos solenemente.

— Sinto-me feliz, feliz — disse James Howden. E acrescentou informalmente: Sua      nomeação para Governador-Geral será anunciada em junho. No mínimo ainda o teremos conosco no Governo até aquela data e sua companhia durante a eleição nos será de grande valia — estava resumindo, esclarecendo sem nenhuma sombra de dúvida a natureza da negociação. Quanto a Adrian Nesbitson, não haveria deserção do Governo, nem crítica do Ato de União. Nesbitson, ao invés, trabalharia durante a eleição com o que restasse do partido — apoiando, endossando, participando da responsabilidade...

James Howden protelava uma dissidência, se é que houvesse. Não havia nenhuma.

Há pouco os motores do avião tinham mudado de passo. Desciam calmamente e a terra embaixo não estava mais coberta de neve, mas era um mosaico variegado de verde e marrom. O interfone deu o sinal e o Primeiro-Ministro atendeu.

A voz do Comandante Galbraith anunciou:

— Dentro de dez minutos estaremos aterrando em Washington, Sir. Temos a prioridade da pista e fui solicitado a lhe comunicar que o Presidente está a caminho do aeroporto.

 

Depois que o avião do Primeiro-Ministro levantou voo, Brian Richardson e Milly voltaram do Aeroporto Uplands no Jaguar de Richardson. Durante a maior parte do trajeto para Otawa, o presidente do partido manteve-se calado, com o rosto sombrio e seu corpo tenso de raiva. Dirigia seu carro — o que em geral fazia com suavidade — como se fosse ele o responsável pela malograda entrevista na rampa do aeroporto. Mais do que outros, talvez, já podia imaginar o vazio das declarações de James Howden sobre a imigração e sobre Henri Duval quando aparecessem na imprensa. O pior ainda, bufava Richardson, o Governo — na pessoa do Primeiro-Ministro — tinha assumido uma posição da qual muito dificilmente poderia sair.

Umas duas vezes depois de ter deixado o aeroporto, Milly olhara de relance para o lado, mas, percebendo o que se estava passando na mente do companheiro, evitou tecer comentários. Mas ao chegar perto da cidade, depois de uma curva violenta, tocou no braço de Richardson. Nenhuma palavra foi necessária.

O presidente do partido diminuiu a marcha, virou a cabeça e sorriu.

— Perdão, Milly. Estava descarregando a pressão.

— Eu sei — as perguntas dos repórteres no aeroporto tinham afligido a Milly também, ciente como estava agora da secreta limitação de James Howden.

— Gostaria de tomar um drinque, Milly — disse Richardson. — Que tal irmos ao seu apartamento?

— De acordo — já era quase meio-dia e por uma hora ou duas havia pouca urgência para que Milly estivesse de volta ao gabinete do Primeiro-Ministro. Atravessaram a Ponte Dunbar sobre o Rio Rideau e viraram a oeste, para a Avenida Queen Elizabeth, na direção da cidade. O sol, que há pouco estivera brilhando, recolhera-se sob nuvens sombrias e o nevoeiro já envolvia na sua sombra os tristes edifícios de pedra da Capital. As rajadas de vento sibilavam, levantando redemoinhos de pó, folhas e papéis, cabriolando em sulcos e ao redor de montes de neve de uma semana, agora sujos e enfeados pela lama e pela fuligem. Os pedestres corriam, com o colarinho dos sobretudos levantado, apertando seus chapéus e cingindo-se aos edifícios. Apesar do calor do Jaguar, Milly tremia de frio. Era a época do ano quando o inverno parecia não acabar mais e ela ansiava pela primavera.

Richardson estacionou o carro junto ao prédio do apartamento de Milly e subiram juntos o elevador. No apartamento, como de costume, Milly começou a preparar os drinques. Brian Richardson pos uma mão no seu ombro e lhe deu um rápido beijo na face. Olhou por alguns instantes diretamente para o rosto de Milly, depois abruptamente a soltou. O efeito que experimentara impressionara-o; era como se, por um instante, tivesse voado para algum outro megacosmo, como num sonho, etéreo...

— Deixa-me preparar os drinques. O lugar de um homem é no — disse de modo mais prosaico.

Apanhou os copos e, enquanto ela observava, despejou medidas iguais de gim, partiu um limão e espremeu uma banda em cada copo. Adicionou cubos de gelo, abriu uma garrafa de tônica e a dividiu em partes iguais para os dois copos. Era simples e espontâneo, e Milly pensava: que beleza compartilhar as coisas — mesmo uma coisa tão simples como a mistura de um drinque — com a pessoa que se quer bem.

Milly tomou seu copo e foi assentar-se no sofá. Provou-o e o abaixou. Inclinando-se para trás, encostou sua cabeça confortavelmente nas almofadas, saboreando o luxo de um descanso ao meio-dia. Experimentou a sensação de momentos roubados ao tempo. Espreguiçando-se, estendeu suas pernas metidas em meias de nylon, com os pés fora dos sapatos apoiados na ponta dos calcanhares.

Richardson andava de um lado para outro dentro da pequena e confortável sala do apartamento, segurando seu copo, com a testa franzida, absorto.

— Não posso compreender, Milly. Realmente não compreendo. Por que Howden se comporta de uma maneira como nunca se comportou? Por que, sobretudo, dá tanto apoio a Harvey Warrender? Ele não acredita no que está fazendo; podia-se ver isso hoje. Então qual é o motivo? Por que, por que, por quê?

— Oh, Brian! — disse Milly, — não poderíamos esquecer disso por um instante?

— Esquecer? Como é possível? — as palavras traduziam raiva e frustração. — Asseguro-lhe que somos uns imbecis por não cedermos e deixarmos entrar o diabo daquele clandestino do navio. O caso pode ir crescendo, crescendo até nos custar uma eleição.

Milly ilogicamente foi tentada a perguntar: E que importância teria isso? Era um erro, sabia ela, pensar daquela maneira, mas, há pouco, sua ansiedade tinha sido tão grande como a do próprio Richardson. Mas subitamente foi tomada de fastio pelas questões políticas: as táticas, as manobras, as vantagens mesquinhas sobre o adversário, as certezas auto-implantadas da razão. No fim, o que significava tudo aquilo? A aparente crise de hoje seria uma ninharia a ser esquecida na semana ou no ano seguinte. Em dez ou cem anos, todas as causas insignificantes e as pessoas que as esposaram teriam desaparecido no olvido. Eram os indivíduos e não os políticos que importavam mais. E não apenas as outras pessoas... mas eles próprios.

— Brian — disse Milly suave, mas firmemente, — vamos fazer amor, agora.

Brian parou de caminhar. Fez-se silêncio.

— Não diga nada — sussurrou Milly, fechando os olhos. Era como se alguém estivesse falando por ela, outra voz que habitasse em seu corpo. Tinha que ser assim, uma vez que ela mesma nunca poderia ter dito aquelas palavras de alguns instantes atrás. De certo modo, supunha, precisava calar a voz do estranho, apagando o que fora dito, recuperando sua própria identidade. Mas uma sensação de delicioso langor a conteve.

Ouviu o ruído de um copo sendo posto sobre a mesa, de pés que se moviam maciamente, de cortinas corridas e depois sentiu que Brian estava a seu lado. Envolveram-se nos braços um do outro, seus lábios se encontraram ardentemente e seus corpos uniram-se apaixonadamente.

— Oh, Milly! — respirou Brian ofegante, sua voz tremia. — Milly, eu te quero, eu te amo.

 

Na quietude do apartamento o telefone tocou sonoramente. Brian apoiou-se num cotovelo.

— Ainda bem que não tocou há dez minutos — tinha a impressão de estar falando por falar, fazendo uso de palavras comuns como escudo de sua própria incerteza.

— Eu não o teria atendido — disse Milly. O langor tinha-se ido. Estava agora tomada de um sentimento de excitação e de expectativa. Dessa vez tinha sido tão diferente, tão diferente das outras de que se lembrava...

Brian Richardson beijou-a na testa. Que diferença havia, pensou ele, entre a Milly que o mundo conhecia e a Milly que viera a conhecer agora. Naquele instante ela parecia adormecida, com seus cabelos desordenados, quente...

— É melhor atender — disse Milly. Levantou-se e saiu na ponta dos pés na direção do telefone.

Era uma das secretárias-estenógrafas do gabinete do Primeiro-Ministro.

— Julguei por bem lhe telefonar, Miss Freedeman. Há um monte de telegramas. Começaram a chegar esta manhã e agora já são setenta e dois, todos para Mr. Howden.

Milly passou a mão no cabelo. Perguntou:

— Sobre o quê?

— Todos se referem ao moço do navio, aquele que a Imigração não quer deixar entrar no país. Há alguma coisa mais a seu respeito nos jornais desta manhã. A senhora viu?

— Sim, vi — respondeu Milly. — Que dizem os telegramas?

— Na sua maioria dizem a mesma coisa de modo diferente, Miss Freedeman: que o Ministro deveria deixá-lo entrar e lhe dar uma chance. Achei que a senhora talvez precisasse saber.

— Fez bem em me chamar — disse Milly. — Classifique os telegramas segundo a procedência e faça o resumo de seu teor. Chegarei aí daqui a pouco.

Milly recolocou o fone no gancho. Iria avisar a Elliot Prowse, o secretário-executivo; a essa altura estaria em Washington. Então ficaria a seu alvitre transmiti-los ou não ao Primeiro-Ministro. Provavelmente iria transmiti-los. Jamais Howden levava muito a sério as cartas e os telegramas, insistindo para que lhe fossem apresentados diariamente, mensalmente, quadros de correspondências com seu conteúdo e procedência, que eram minuciosamente estudados por ele mesmo e pelo presidente do partido.

— Que está acontecendo? — perguntou Brian Richardson e Milly lhe disse.

Como uma máquina engrenada, sua mente voltou às preocupações de ordem prática. Ficou de novo inquieto, como Milly já esperava.

— Deve estar sendo organizado por alguém, caso contrário não chegariam tantos telegramas juntos. Ainda assim, a coisa me cheira tão mal como o resto — e acrescentou sombriamente: — Estou sem saber que diabo hei de fazer.

— Talvez não se possa fazer nada — disse Milly.

Brian olhou para ela com interesse. Depois, voltando-se, pos suas mãos gentilmente sobre os ombros dela.

— Milly, querida — disse, — está acontecendo algo que não posso saber, mas eu acho que você sabe.

Milly sacudiu a cabeça.

— Ouça, Milly, insistiu. Somos do mesmo lado, não somos? Se devo fazer alguma coisa, preciso saber.

Seus olhos se encontraram.

— Você confia em mim, não confia? — perguntou Brian docemente. — Sobretudo agora.

Milly experimentava sentimentos conflitantes de amizade e de lealdade. Queria proteger James Howden, sempre tinha...

Não obstante, de repente, suas relações com Brian tinham mudado. Dissera-lhe que a amava. Com certeza, entre eles agora não havia lugar para segredos. De certo modo seria um alívio...

Brian apertou seus ombros com as mãos.

— Milly, preciso saber.

— Está bem — desvencilhando-se de suas mãos, Milly apanhou as chaves na sua frasqueira e abriu uma gaveta inferior de um pequeno birô ao lado da porta do dormitório. A cópia fotostática estava ali num envelope fechado que ela abriu e lhe entregou. Quando Brian começou a ler, Milly observou que desaparecera aquele mau humor de poucos minutos atrás, como uma bruma diante de uma brisa matutina. Mais uma vez era o negócio de costume: política.

Brian Richardson assobiava baixinho enquanto lia. Agora levantou a cabeça, numa expressão de assombro e de ceticismo.

— Meu Deus! — exclamou — Que horror!


 

 

O Mandado Nisi

O Supremo Tribunal da Província de Colúmbia Britânica fechava diariamente as pesadas portas de carvalho de seu Departamento de Registro de Vancouver, exatamente às quatro horas da tarde.

Às dez para as quatro do dia seguinte à sua segunda entrevista a bordo com o Capitão Jaabeck e Henri Duval (quase à mesma hora — dez para as sete em Washington — em que o Primeiro-Ministro e Margaret Howden estavam-se vestindo para um jantar oficial na Casa Branca), Alan entrava no Departamento de Registros do Foro, com uma pasta na mão.

Lá dentro, Alan hesitou, olhando a sala comprida e de forro alto, com toda uma parede ocupada por armários de arquivo e um balcão de madeira bem polido correndo em quase toda a sua extensão. Depois aproximou-se do balcão, abriu sua pasta e tirou alguns papéis de dentro. Ao fazê-lo, observou que as palmas de suas mãos estavam mais úmidas do que de costume.

Um funcionário já idoso, o único ali presente, aproximou-se. Era um sujeito ananicado, corcunda, como se os anos de intimidade com a lei tivessem pesado sobre seus ombros. Perguntou cortesmente:

— Que deseja, senhor...?

— Maitland — disse Alan, entregando-lhe uma pasta de documentos que preparara. — Quero arquivar isso e desejaria falar com o juiz de plantão.

O funcionário respondeu impaciente:

— Os juízes só atendem às 10h30m da manhã, Sr. Maitland, e a lista de pedidos de hoje já está encerrada.

— Se o senhor não me levasse a mal — Alan apontava para os documentos que acabara de entregar, — é uma questão de liberdade para um indivíduo. Acho que tenho direito a uma audiência imediata — nesse ponto, pelo menos, estava certo de seus direitos. Em qualquer processo que envolvesse a liberdade humana e prisão ilegal, a lei não admitia nenhuma delonga e, se necessário, um juiz poderia ser tirado da cama durante a noite.

O funcionário tirou seus óculos sem aro de um estojo, ajustou-os e inclinou-se para ler. Tinha uma atitude de indiferença, como se nada o surpreendesse. Alguns instantes depois, levantou a cabeça.

— Peço-lhe desculpas, Dr. Maitland. É claro, o senhor tem razão — puxou um livro grosso com capa de pano. — Não é todo dia que temos requerimento de habeas-corpus.

Depois de fazer as devidas anotações no seu livro, o funcionário apanhou uma toga preta de um cabide e a enfiou nos ombros.

Acompanhe-me, por favor.

O funcionário ia na frente de Alan ao longo de um corredor de lambris; passaram por uma porta dupla de vaivém, chegaram ao vestíbulo do Foro onde uma larga escada de pedra conduzia ao andar superior. Reinava silêncio no prédio; seus passos ecoavam. A essa altura do dia a maior parte das sessões já tinha sido suspensa e já tinham sido apagadas algumas lâmpadas do edifício.

Ao subirem as escadas, pisando cuidadosamente degrau por degrau, Alan foi tomado de um nervosismo tenso e fora do comum. Resistiu a um impulso infantil de voltar e correr. Antes, ao considerar os argumentos que pretendia apresentar, ele e Tom acharam-nos plausíveis, muito embora alguns se apoiassem em frágeis fundamentos jurídicos. Mas agora, abruptamente, a estrutura de seu caso parecia tola e ingênua. Não iria fazer um papelão na augusta presença de um juiz do Supremo Tribunal? E se o fizesse, quais seriam as consequências? Com juízes não se brinca, nem se pede uma audiência especial sem motivo justo.

Gostaria de certo modo de ter escolhido outra hora do dia, com o tribunal repleto, como acontecia pela manhã e na primeira parte da tarde. A visão de outras pessoas poderia ter sido confortadora. Mas escolhera de propósito aquela hora, para evitar chamar a atenção e, mais ainda, evitar a publicidade que nesse ponto poderia ser prejudicial. Esperava que a maioria dos repórteres e jornalistas do Foro a essa altura já devia ter voltado para casa, e tivera o cuidado de não deixar transpirar para os repórteres que lhe haviam telefonado naquele dia qualquer indício do que estava planejando.

— O juiz de plantão hoje é o Juiz Willis — disse o funcionário. — O senhor o conhece, Dr. Maitland?

— De nome, é tudo — disse Alan. — Ele sabia que a lista dos juízes de plantão mudava regularmente, tendo cada juiz sua vez no Supremo para atender nas horas fora do expediente normal. Por conseguinte, ser esse ou aquele juiz, era uma questão principalmente de sorte.

O funcionário pareceu que ia falar, depois mudou de ideia. Alan o estimulou:

— O que é que o senhor ia dizendo?

— Bem, apenas uma sugestão, doutor, sem querer ser presunçoso.

— Vamos, diga — insistiu Alan.

Chegaram ao final da escada e viraram para um corredor escuro.

— Bem, Dr. Maitland — o funcionário baixou a voz, — Sua Excelência é um homem nmito educado, mas é exigente em matéria de protocolo, especialmente no que tange a interrupções. Exponha seu argumento como quiser e ele lhe concederá todo o tempo que julgar necessário. Mas uma vez que ele próprio começa a falar, não admite interrupções, nem mesmo perguntas, até que acabe. Fica uma fera quando isso acontece.

— Obrigado — disse Alan agradecido, lembrar-me-ei de seu conselho.

Parando diante de uma porta maciça, marcada com uma única palavra: privado, o funcionário bateu duas vezes, encostando a cabeça para ouvir melhor. De dentro veio uma voz quase imperceptível: “Entre.” O funcionário abriu a porta e introduziu Alan.

Era uma grande sala, em lambris, atapetada e com uma lareira ladrilhada. Em frente da lareira, uma estufa elétrica portátil tinha dois dos seus elementos ligados. Uma escrivaninha de mogno, com pilhas de papéis e de livros, ocupava o centro da sala, com mais livros e papéis em cima de outra mesa atrás. Cortinas de veludo marrom das janelas estavam corridas, deixando ver a poeira do lado de fora das vidraças, com as luzes da cidade e do porto que começavam a tremeluzir. Dentro da sala só uma lâmpada acesa, com abajur, envolvendo a mesa com um jato de luz. Fora do círculo luminoso, uma figura ereta e magra estava vestindo um sobretudo e pondo um chapéu, preparando-se para sair, quando o funcionário e Alan entraram.

— Excelência — disse o funcionário, o Dr. Maitland tem um pedido de habeas-corpus a apresentar.

— Pois não — foi a única resposta dada num tom ríspido. Enquanto Alan e o funcionário esperavam, o Juiz Stanley Willis retirou cuidadosamente o sobretudo e o chapéu, colocando ambos numa estante atrás dele. Depois, encaminhou-se para o círculo de luz ao redor da mesa, assentou-se e disse mal-humorado:

— Aproxime-se, Dr. Maitland.

Sua Excelência, calculou Alan, devia ser um homem de uns sessenta e dois anos, grisalho e franzino, mas de ombros ossudos e largos e uma postura ereta que o fazia parecer mais alto do que era. Tinha o rosto comprido e angular com um queixo dominante e saliente, espessas sobrancelhas brancas e uma boca quase retilínea. Seus olhos eram penetrantes e vivos, sem, no entanto, nada deixar transparecer de si próprio. O hábito da autoridade assentava bem nele.

Ainda nervoso, apesar de seu raciocínio, Alan Maitland aproximou-se da mesa, enquanto o funcionário permaneceria à porta como exigia o protocolo. Alan tirou de sua pasta cópias datilografadas de sua petição e declaração que tinha registrado no Cartório. Limpando a garganta, anunciou:

— Excelência, aqui está o material e este é o meu requerimento.

O Juiz Willis recebeu os documentos com um ríspido movimento de cabeça, aproximou-se mais da luz e começou a ler. Enquanto ele e o funcionário aguardavam em pé, o único som que se ouvia era o farfalhar das páginas folheadas.

O Juiz, ao acabar de ler, levantou os olhos, numa expressão de impassibilidade. Com a mesma frieza de antes perguntou:

— O senhor pretende fazer uma exposição oral?

— Se Vossa Excelência o permitir.

— Mais um assentimento com a cabeça.

— Prossiga.

— O fato é o seguinte, Excelência — Alan, em seguida, recitou o caso de Henri Duval a bordo do Vastervik, como havia decorado antes, citou a recusa do Capitão do navio em duas ocasiões de apresentar o clandestino às autoridades da imigração em terra, e o próprio requerimento de Alan — apoiado em sua declaração juramentada — segundo o qual seu constituinte estava ilegalmente detido em violação dos direitos humanos fundamentais.

O ponto decisivo da questão, como Alan bem o sabia, seria provar que a presente detenção de Henri Duval estava processualmente errada e, era, por conseguinte, ilegal. Se pudesse provar isso, a Justiça — na pessoa do Juiz Willis — deveria conceder automaticamente um mandado de habeas-corpus, ordenando a libertação do clandestino do navio e seu comparecimento na justiça para a consideração de seu caso.

Ordenando os argumentos e citando leis em seu apoio, Alan sentiu voltar a sua confiança. Tinha o cuidado de se estribar apenas em artigos da lei, deixando de lado o aspecto emocional da situação do clandestino. O direito e não o sentimento era o que valia no momento. O Juiz o escutava impassível, com uma expressão inalterável.

Passando da questão de detenção ilegal para o estado atual de Henri Duval, declarou Alan:

— O Departamento de Imigração argumenta, Excelência, que uma vez que meu cliente é um clandestino e, segundo consta, sem documentos, não possui direitos legais e, por conseguinte, não pode requerer... como outros fazem em qualquer porto do Canadá... um inquérito especial sobre seu estado de imigrante. Mas a meu ver o fato de ser ele um clandestino e de não ter certeza do lugar de seu nascimento não o priva de modo algum desse direito.

— Queira Vossa Excelência considerar certas possibilidades: um cidadão canadense de nascimento, viajando pelo exterior e mantido ilegalmente em custódia, privado de seus documentos, poderia verificar que o seu único meio de escapar seria fazer-se clandestino de um navio que soubesse destinar-se a seu país. Nessa hipótese, pelo simples fato de sua caracterização como clandestino e da ausência de documentos, seria relegado a uma aparente não-existência, sem condições de provar seu legítimo direito de entrar no Canadá, porque lhe teria sido negado um inquérito pelo Departamento de Imigração? Sou de opinião, Excelência, de que essa situação absurda poderia de fato existir se o atual regulamento do departamento fosse levado à sua conclusão lógica.

O Juiz levantou suas sobrancelhas espessas.

— O senhor por acaso está sugerindo que seu constituinte Henri Duval seja cidadão canadense?

Alan hesitou, depois respondeu cautelosamente:

— Não é minha sugestão, Excelência. De outro lado, um inquérito da Imigração poderia revelar sua cidadania canadense, um fato que não poderia ser estabelecido sem que antes se proceda a um inquérito — quando se tem um caso fraco e se tem conhecimento disso, pensava Alan, temos de nos agarrar até às palhas.

— Bem — disse o Juiz Willis que pela primeira vez esboçou um leve sorriso — é um argumento engenhoso, embora um tanto sibilino. É tudo, Dr. Maitland?

Alan instintivamente disse para si mesmo: vamos parar enquanto vai tudo bem. Fez uma ligeira inclinação:

— Com meus respeitos, Excelência, é meu requerimento.

Sob a luz da lâmpada sentou-se o Juiz Willis em meditação. O sorriso momentâneo desaparecera e sua face mais uma vez se cobrira com aquela máscara dura e imóvel. Os dedos de sua mão direita tamborilavam de leve sobre a escrivaninha. Pouco depois, começou:

— Há, naturalmente, uma questão de tempo envolvida — a questão da partida do navio...

Alan interrompeu:

— Com a permissão de Vossa Excelência, quanto ao navio...

Já ia explicar a estadia do Vastervik em Vancouver para reparos, mas se conteve abruptamente. A feição do juiz anuviou-se visivelmente de raiva, seu olhar era de uma frieza glacial. Alan pode perceber a desaprovação do funcionário no outro lado da sala. Engoliu as palavras.

— Perdão, Excelência.

O Juiz Willis olhou friamente por alguns instantes para o jovem advogado. Depois continuou:

— Como ia dizendo, embora esteja envolvido um limite de tempo, isto é, a questão da partida do navio, isso não pode de modo algum interferir na questão da justiça individual.

O coração de Alan saltou. Isso significava que o mandado de habeas-corpus ia ser concedido?... Que depois disso poderia dispor de tempo para o processo, movendo-se lentamente através dos recursos legais até que o Vastervik partisse, deixando atrás Henri Duval?

— De outro lado — continuou o Juiz num tom inalterável, — como uma questão de política administrativa, e em consideração para com a companhia de navegação, que no caso é um circunstante inocente, é igualmente válido que tudo deveria ser feito para apressar o processo de modo a fazer com que se chegasse a uma decisão final antes da partida do navio.

O otimismo, por conseguinte, fora prematuro. Alan refletia com tristeza que não só Edgar Kramer, mas agora também o juiz descobrira seu ardil de uma ação retardadora.

— Considero como não provada a acusação de detenção ilegal — sua Excelência puxou a petição e fez uma anotação. — Mas nem tampouco fica provado o contrário. Estou disposto a ouvir mais esclarecimentos. Darei por conseguinte um mandado nisi.

Não era, portanto, uma derrota, mas uma vitória parcial e Alan experimentou um sentimento de alívio. Na verdade conseguira menos do que tinha esperado, mas pelo menos não havia feito papel de bobo. O mandado nisi — o antigo processo legal inglês significava “a menos que”. Só o mandado nisi não era suficiente para tirar Henri Duval da prisão a bordo e trazê-lo à justiça. Mas significava que Edgar Kramer e o Capitão Jaabeck haveriam de ser convocados para prestar esclarecimentos. E a menos que seus argumentos prevalecessem — ou os de seu advogado — o mandado de habeas-corpus seria dado a favor de Duval.

— Para quando está prevista a partida do navio, Dr. Maitland?

O Juiz Willis tinha os olhos em Alan que prudentemente fez uma pausa antes de responder, depois de se certificar de que a pergunta lhe era dirigida diretamente.

— Tanto quanto é de meu conhecimento, Excelência, o navio ficará ainda umas duas semanas.

O juiz bateu com a cabeça.

— Seria suficiente.

— E a audiência sobre o mandado, Excelência?

O Juiz Willis puxou um calendário de mesa.

— Poderíamos marcar a data, acho, para dentro de três dias, se julgar conveniente.

Era a tradicional troca de cortesia entre juiz e advogado, por mais jovem que o advogado pudesse ser.

Alan inclinou a cabeça.

— Sim, Excelência.

— O senhor mandará minutar os documentos, é claro.

— Com a sua permissão, Excelência, já os tenho prontos — Alan abriu a pasta.

— Um mandado nisi?

— Sim, Excelência. Previ essa possibilidade.

No momento em que essas palavras lhe saíam da boca, Alan censurava sua própria irreflexão e impetuosidade. De ordinário, o mandado teria sido datilografado e submetido no dia seguinte à apreciação do juiz para a competente assinatura. Tinha sido ideia sua preparar um mandado já pronto para ser assinado e Tom Lewis sugerira acrescentar um mandado nisi. Agora, com um pouco menos de segurança, Alan depositava em cima da mesa do juiz as páginas datilografadas e grampeadas.

A expressão do Juiz Willis mantinha-se inalterada, a não ser quanto a uma ligeira crispação em torno dos olhos. Disse impassivelmente:

— Nesse caso, Dr. Maitland, haverá poupança de tempo e sugiro a realização da audiência para mais cedo. Digamos, depois de amanhã, está bem?

Alan Maitland denunciava mentalmente sua própria estupidez. Em vez de favorecer o retardamento que buscava, conseguira simplesmente acelerar os acontecimentos. Perguntava-se se deveria pedir mais tempo, alegando a necessidade de preparação. Percebeu o olhar do funcionário que meneava a cabeça quase imperceptivelmente.

Com uma resignação interior, disse Alan:

— Está bem, Excelência, depois de amanhã.

O Juiz Willis leu o mandado, depois o assinou cuidadosamente, enquanto o funcionário o enxugava com o mata-borrão e apanhava as páginas. Enquanto observava, Alan se lembrava das medidas que planejara tomar se seu plano fosse bem sucedido. Tom Lewis iria ao Vastervik, à noite, com uma cópia para o Capitão Jaabeck e lhe explicaria o conteúdo. Tom, de qualquer maneira, estava ávido para ir ao navio e encontrar-se tanto com o Capitão como com Henri Duval.

Quanto a si próprio, Alan reservara-se o que considerava como um prazer todo especial: comparecer ao Departamento de Imigração para apresentar pessoalmente o mandado a Edgar S. Kramer.

 

A escuridão da noite, que já tinha envolvido o porto e a Cidade de Vancouver, encontrava ainda lâmpadas acesas na sala do superintendente no Edifício da Imigração à beira-mar.

Edgar S. Kramer, embora meticuloso no começar diariamente o expediente na hora exata, raramente se preocupava em terminar seu dia de trabalho no horário estabelecido. Estivesse em Otawa, Vancouver ou em qualquer outro lugar, permanecia geralmente pelo menos uma hora a mais do expediente normal, depois que todo o pessoal já estivesse saído, em parte para desassociar-se do êxodo geralmente atropelado, em parte para evitar a acumulação de documentos em cima de sua mesa. O hábito de não deixar nada para depois e de despachar prontamente os papéis que chegavam à sua mesa eram duas das razões do brilhante sucesso de Edgar Kramer no serviço público. Durante essa sua longa ascensão criara para si muitas aversões pessoais e, em alguns casos, antagonismos mais profundos. Mas ninguém, mesmo seu desafeto, poderia acusá-lo razoavelmente de preguiça ou protelação.

Um bom exemplo da diligência de Kramer tinha sido sua decisão naquele dia e descrita num memorando com o título inverossímil de “Guano de Pombo”. Edgar Kramer ditara o memorando pela manhã e agora, lendo as cópias datilografadas que no dia seguinte seriam encaminhadas ao supervisor do edifício e a outras pessoas interessadas, aprovava com a cabeça sua própria fertilidade de expedientes.

O problema lhe chamara a atenção no dia anterior. Examinando a proposta orçamentária anual do Departamento de Imigração da Costa Ocidental, glosara várias despesas na manutenção do edifício, inclusive um item de 750 dólares — que aparentemente se repetia todos os anos — para “limpeza das abas do telhado e das bicas”.

— Edgar Kramer mandara chamar o supervisor do edifício — um sujeito de pescoço grosso, de fala grossa, que se sentia mais feliz atrás de uma vassoura do que diante de uma carteira — que respondeu de modo convincente: — Ora, Sr. Kramer, é claro que é muito dinheiro, mas são os excrementos dos pombos — atravessou a sala do superintendente, chegou à janela e fez um gesto. — Olha aqueles diabos! — lá fora, observavam, o ar estava repleto de milhares de pombos que se aninhavam, voavam e ciscavam na área que dava para o mar.

— Fazem cocô durante vinte e quatro horas por dia, numa sequência ininterrupta — resmungou o supervisor. — E quando precisam ir ao vaso, voam para cima de nosso telhado. É por isso que temos de limpar as calhas e as bicas seis vezes por ano — ficam cheias de excremento de pombos. Isso custa dinheiro, Sr. Kramer.

— Compreendo o problema — disse Kramer. — Não haveria um meio de reduzir o número de pombos, matando alguns?

— Basta atirar uma só vez nesses diabos, observou o supervisor do edifício, mal-humorado, será um Deus-nos-acuda. A Sociedade Protetora dos Animais cai em cima da gente. Dizem que há uma lei em Vancouver que proíbe isso. Mas eu tenho um meio: podíamos botar veneno em cima do telhado. Então quando viessem fazer...

— A palavra é guano... guano de pombo — disse Edgar Kramer interrompendo-o abruptamente.

— No meu dicionário tudo é...

— E além disso — interferiu Kramer firmemente, — se os pombos são protegidos pela lei, então a lei deverá ser cumprida — refletiu. — Temos de achar outra solução.

Dispensara o supervisor e, agora, sozinho, considerava o problema cuidadosamente. De uma coisa estava certo: o desperdício de 750 dólares por ano devia ser eliminado.

Finalmente, depois de imaginar vários expedientes, concebeu um plano baseado numa ideia. Em essência, o plano consistia em esticar fios de arame sobre o telhado do edifício em intervalos de seis polegadas um do outro, apoiados em vários tarugos de quinze centímetros de altura. A teoria era de que um pombo podia deixar passar seus pés através dos fios, mas não suas asas. Por conseguinte, quando um pássaro pousasse, o arame não o deixaria abaixar as asas e ele voaria imediatamente.

Naquela manhã Edgar Kramer mandara instalar experimentalmente uma rede dessa espécie no telhado. A invenção funcionara a contento. Agora o memorando que aprovara recomendava a instalação de todo o sistema. Embora o custo inicial fosse de mil dólares, eliminaria definitivamente a despesa anual de 750 — uma economia para os contribuintes do imposto de rendas, embora poucos o soubessem.

A ideia alegrou Edgar Kramer, que, como sempre, se deleitava com seus escrúpulos. Havia ainda outra satisfação: a legislação local tinha sido observada, continuando os pombos a ser tratados com justiça e de acordo com as normas.

Fora (para Edgar Kramer) um dia feliz. Entre outras coisas que o alegravam, estava a diminuição de sua frequente micção que parecia definitivamente assentada. Olhou o relógio. Já fazia quase uma hora desde a última vez e tinha a esperança de poder suportar mais, muito embora experimentasse uma leve pressão.

Uma leve batida na porta e Alan Maitland entrou.

— Boa noite — disse friamente, — e colocou uma folha de papel dobrada em cima da mesa.

O aparecimento do jovem advogado fora súbito e surpreendente.

Edgar Kramer perguntou abruptamente:

— De que se trata?

— É um mandado nisi, Sr. Kramer — respondeu Alan calmamente. — Acho que não preciso explicar.

Abrindo a folha de papel dobrada Kramer leu rapidamente. Ficou vermelho de raiva.

— Que diabo significa isso? — gaguejou. Ao mesmo tempo percebeu que a leve pressão da bexiga que experimentara há pouco tinha-se intensificado subitamente.

Alan teve a tentação de replicar causticamente, mas achou melhor não o fazer. Afinal de contas, conseguira apenas uma vitória parcial e o próximo round poderia ter um resultado diferente. Por isso, respondeu com toda polidez:

— O senhor não me quis atender, lembra-se, quando lhe pedi um inquérito especial sobre o caso de Henri Duval.

Edgar Kramer momentaneamente admirou-se de seu próprio ressentimento orgulhoso desse jovem e inexperiente advogado.

— É claro que não quis atender — retrucou. — Não havia razões suficientes para isso.

— Acontece que não participo de sua opinião — observou Alan calmamente, apontando para o mandado nisi. Isso é para que a Justiça decida sobre quem está com a razão, o senhor ou eu.

A pressão estava-se tornando torturante. Kramer, reprimindo-se, disse num assomo de cólera:

— Isso é um problema da alçada exclusiva do Departamento. Nenhum juiz tem direito de interferir no assunto.

Alan Maitland estava sério.

— Se o senhor quer um conselho — disse tranquilamente, — se eu fosse o senhor não diria isso a um juiz.

 

A Casa Branca

Da janela da biblioteca da Blair House, James Howden contemplava a vista que dava para a Pennsylvania Avenue. Eram 10 horas da manhã do segundo dia de sua estada em Washington e o encontro entre ele, o Presidente, Arthur Lexington e o secretário do Presidente estava marcado para dentro de uma hora.

Uma brisa fresca e suave agitava as cortinas transparentes da janela. Lá fora, o tempo estava excelente: perfumado e primaveril, ensolarado e morno. Do outro lado da avenida, o Primeiro-Ministro podia ver o gramado bem tratado da Casa Branca e no fundo a mansão presidencial banhada de sol.

Voltando-se para Arthur Lexington, Howden perguntou:

— Qual é sua impressão até agora?

O Ministro do Exterior, que usava um confortável terno de duas cores em vez do sobretudo que poria mais tarde, desviou o olhar da TV em cores que estivera experimentando, desligou o aparelho e ficou pensando.

— Posto em seus termos mais crus — disse Lexington, — diríamos que temos um mercado firme. Os Estados Unidos precisam, precisam desesperadamente das concessões que temos de fazer. E mais ainda, tem plena consciência disso.

James Howden e Lexington tinham tomado o café da manhã em separado, o Primeiro-Ministro com Margaret em seu apartamento e Arthur no andar térreo com os demais membros da delegação. Os canadenses eram os únicos hóspedes na espaçosa casa de hóspedes do Presidente, para onde voltaram na noite anterior depois do jantar oficial na Casa Branca.

Howden assentiu com a cabeça:

— É também a minha impressão.

O Primeiro-Ministro apreciava a biblioteca comprida e atraente. Com seus sofás e cadeiras bem estofadas, uma grande mesa Chippendale e suas paredes cobertas de livros, parecia um recanto suave de paz e serenidade. Era ali, naquela sala, pensava ele, que Lincoln outrora repousara e conversara; era ali que os Trumans recentemente passavam suas horas de lazer durante a remodelação da Casa Branca; ali, na biblioteca, o Rei Saud da Arábia dormira guardado por seus próprios soldados armados de cimitarras; foi ali que De Gaulle se preparara para invectivar, Adenauer para seduzir e Kruschev para esbravejar... e tantos outros. Perguntava-se se ele próprio seria um dia lembrado naquela longa procissão. E se o fosse, com que veredicto?

— Pequenas coisas levam-me a essa convicção — disse Lexington pensativo. — A espécie de recepção que lhe foi oferecida ontem, por exemplo. Nunca ouvi dizer que o Presidente viesse ao aeroporto para receber canadenses. Somos sempre recebidos por escalões inferiores e tratados como primos... até os Primeiros-Ministros. Uma vez, quando John Diefenbaker foi a um jantar na Casa Branca, puseram-no à mesa entre um grupo de ministros presbiterianos.

Howden sorriu ao se lembrar do caso.

— É verdade, lembro-me. Ele ficou furioso e não lhe posso tirar a razão. Não foi daquela vez que Eisenhower fez um discurso e falou sobre a “República” do Canadá?

Lexington assentiu, sorrindo.

James Howden assentou-se comodamente numa poltrona.

— Certamente nos cozinharam a noite passada, observou. Era de esperar que, se estão realizando uma mudança, sendo amáveis e assim por diante, deveriam ser um pouco mais sutis.

Os olhos de Arthur Lexington faiscaram no seu rosto redondo e corado por cima do nó da gravata infalivelmente bem dado. O Ministro do Exterior, pensava Howden, parecia-se às vezes com um benevolente mestre-escola acostumado a tratar firme, mas pacientemente, com crianças turbulentas. Talvez fosse isso que o fazia parecer sempre jovem, muito embora os anos estivessem chegando, como aliás para todos os outros.

— A sutileza e o Departamento de Estado moram em casas separadas — disse Lexington. — Você sabe, eu sempre achei que a diplomacia americana segue dois caminhos — ou considera a rapina ou está pronta a sofrê-la. Dificilmente surge uma terceira alternativa.

O Primeiro-Ministro sorriu.

— O que é que me diz do momento? — Howden invariavelmente gostava dos instantes que passava a sós com Lexington. Eram velhos amigos que confiavam plenamente um no outro. Uma das razões disso era talvez a não existência de competição entre eles. Enquanto outros Ministros aspiravam aberta ou discretamente o cargo de Premier, Arthur Lexington, como Howden o sabia muito bem, não tinha ambições nesse sentido.

Lexington, na realidade, preferiria ter continuado como Embaixador, feliz, passando suas horas vagas em seus dois passatempos prediletos, coleção de selos e ornitologia, não o tivesse Howden persuadido a se afastar da carreira diplomática, para entrar no partido e mais tarde se integrar no Governo. A lealdade e um forte senso de dever ali o conservara, mas não fazia segredo de sua esperança de um dia se retirar da vida pública.

Lexington caminhou um pouco ao longo do pequeno tapete vermelho-granado, antes de responder à pergunta do Primeiro-Ministro. Agora parou e disse:

— Como você, não me importo de ser violentado.

— Muitos porém haverão de dizer que fomos.

— Muitos o dirão qualquer que seja o caminho que tomarmos. Haverá também pessoas bem intencionadas no meio dessas... e não só os agitadores.

— Sim, já pensei nisso — disse Howden. — Tenho a impressão de que o Ato de União afastará muita gente do nosso partido. Mas estou convencido de que não há outra saída.

O Ministro do Exterior afundou-se numa poltrona em frente. Puxou um supedâneo para perto, estirou as pernas e colocou os pés em cima.

— Desejaria estar tão certo disso como o senhor, Primeiro-Ministro — enquanto Howden o olhava com perspicácia, Lexington sacudia a cabeça. — Oh, não me leve a mal; seja como for, estarei a seu lado. Mas a rapidez com que as coisas se estão passando me preocupa. A dificuldade é que estamos vivendo num período de história condensada, mas no entanto poucos tem consciência disso. Mudanças que levavam cinquenta anos para se realizar, hoje se fazem em cinco anos ou menos e não podemos impedir porque as comunicações o impõem. Tudo quanto espero é que possamos manter um sentimento de unidade nacional, mas não será fácil.

— Nunca foi — disse Howden. Olhou o relógio. Teriam de deixar a Blair House dentro de trinta minutos para comparecer a uma entrevista coletiva na Casa Branca antes do início das conversações oficiais. Mas achou que dispunha ainda de tempo para discutir com Lexington um assunto que estivera martelando sua mente há algum tempo. Dessa vez o momento parecia oportuno.

— A propósito de identidade — disse pensativo, — lembro-me de uma coisa que a Rainha mencionou não faz muito tempo, na última vez que fui a Londres.

— Sim?

— Sua Majestade sugeriu... na realidade poderia dizer insistiu... que restabelecessemos os títulos. Sua Majestade discorreu sobre um ponto a meu ver muito interessante.

James Howden fechou os olhos, lembrando-se da cena como se passara há cerca de quatro meses e meio: foi numa suave tarde de setembro em Londres; ele se encontrava no Buckingham numa visita de cortesia. Fora recebido com o devido respeito e conduzido imediatamente à presença real...

— Vossa Excelência aceita um pouco de chá? — perguntara a Rainha e ele recebeu a delicada chávena dourada, sem poder resistir ao pensamento — embora reconhecendo sua ingenuidade — de que a monarca inglesa estava servindo chá em seu palácio ao órfão de Medicine Hat.

— Um pouco de pão e manteiga, Sr. Ministro? — James Howden se servira. Havia pão branco e pão preto cortado em fatias finas. Agradeceu a geleia — havia três qualidades numa bandeja dourada. Por assim dizer, era necessário a habilidade de um prestidigitador para equilibrar tudo na hora do chá inglês.

Estavam a sós na sala de estar dos aposentos privados — um lugar amplo e arejado, de frente para os jardins do palácio, formal segundo os padrões americanos, entretanto menos opressiva de ouro e cristal do que a maioria das outras salas do palácio. A Rainha trazia um modesto vestido de seda azul, com seus tornozelos bem feitos casualmente cruzados, e calçando sandálias de pele da mesma cor. Nenhuma mulher, pensou Howden com admiração, tem tanto porte como as mulheres inglêsas da classe superior, sem afetação.

A Rainha espalhou a geleia sobre sua fatia com abundância, depois observou com sua voz precisa e solene:

— Meu marido e eu comentamos frequentemente que o Canadá por si mesmo merece uma maior consideração.

James Howden fora tentado a replicar que era um grande negócio distinguir o Canadá, comparado com as atuais realizações britânicas, mas achou que poderia ser mal interpretado. O instante seguinte comprovou que teria sido.

A Rainha acrescentou:

— Distingui-lo num sentido de diferença, isto é, dos Estados Unidos.

— A dificuldade, Majestade — respondeu Howden polidamente, — é que é difícil manter uma aparência distinta quando os dois países vivem de modo tão semelhante e tão íntimo. De vez em quando, procuramos enfatizar nossa distinção, mas nem sempre o conseguimos.

— A Escócia conseguiu manter perfeitamente sua identidade — observou a soberana. Mexeu o chá, com uma expressão inocente. — Os canadenses talvez pudessem tomar umas duas aulas com os escoceses.

— Bem... — Howden sorriu. Era verdade, pensou. A Escócia, que tinha perdido sua independência há dois séculos e meio, possuía mais nacionalidade e individualidade do que o Canadá.

A Rainha continuava a falar pensativa.

— Uma razão talvez é que a Escócia nunca abriu mão de suas tradições. O Canadá, perdoe-me dizê-lo, parece que tem pressa em se desfazer das suas. Lembro-me de que meu pai dizia a mesma coisa — a Rainha sorriu conciliatoriamente, retirando de suas palavras qualquer sentido de ofensa. — Mais um pouco de chá?

— Obrigado, Majestade — Howden entregara sua xícara a um criado de uniforme que entrara trazendo mais água quente para o bule de chá. Tinha uma expressão de alívio por ter equilibrado tudo sem acidentes.

— Espero que Vossa Excelência não tenha ficado aborrecido com o que eu disse, Primeiro-Ministro — a Rainha tornou a encher sua xícara enquanto o criado se retirava.

— De modo algum, Majestade — afirmou Howden. Era a sua vez de rir. — É um prazer de vez em quando ouvir falar de nossos defeitos, mesmo quando não sabemos o que fazer com eles.

— Há talvez algo que possa ser feito — disse a Rainha deliberadamente. — Meu marido e eu temos lamentado muitas vezes a inexistência de uma lista de honrarias para os canadenses. Seria para mim um grande prazer se as honras fossem de novo restabelecidas.

James Howden franziu os lábios.

— Os títulos de nobreza é um problema muito delicado na América do Norte, Majestade.

— Numa parte da América do Norte, talvez, mas não estamos falando de nosso domínio do Canadá? — embora dito com delicadeza, era uma repreensão e Howden corou-se, apesar de seu esforço para se dominar. — Na verdade — observou a Rainha com o mais cândido dos sorrisos, — tive a impressão de que nos Estados Unidos, os nobres britânicos eram muito apreciados.

Exato! pensou Howden. Como era verdade! — Os americanos adoravam um lorde.

— Nossa concessão de títulos tem sido muito bem recebida na Austrália, conforme estou informada, continuou a Rainha calmamente, e aqui na Inglaterra, é claro, continua sendo muito apreciada. No Canadá talvez isso os ajudasse a se distinguir melhor dos Estados Unidos.

James Howden se perguntava: como se iria arrumar com essa espécie de coisa? Como Primeiro-Ministro de um país independente da Commonwealth, seu poder era mil vezes maior do que o da Rainha, não obstante, a praxe o obrigava a assumir um papel fictício de uma respeitosa deferência. Os títulos hoje em dia — Barões, Condes — não tinham mais sentido, é claro. O Canadá desde 1930 não os recebia mais e os poucos títulos remanescentes entre canadenses mais idosos eram geralmente citados com sorrisos discretos.

Com um sentimento de repugnância, o Primeiro-Ministro desejava que a soberana se contentasse com a sua própria posição ornamental, como em geral era considerada, em vez de estender as teias de aranha reais. Por detrás da sugestão da Rainha, suspeitava, estava o temor sempre experimentado em Londres — de que o Canadá estava escapulindo como as outras nações da Commonwealth e de que nada, nada — nem mesmo um fio de seda — deveria ser tentado para conter a tendência.

— Informarei o Governo a respeito dos sentimentos de Vossa Majestade — disse James Howden. Era uma mentira delicada; não tinha a intenção de propor nada dessa espécie.

— Como achar melhor — Sua Majestade inclinou a cabeça graciosamente e prosseguiu. — A propósito, uma de nossas mais agradáveis prerrogativas de conceder honrarias é a de tornar condes os primeiros-ministros que se afastam do cargo. É um costume que gostaríamos de estender ao Canadá — seus olhos inocentes se encontraram com os de Howden.

Um condado. Apesar de sua própria convicção, isso estimulou sua fantasia. Era um dos mais altos títulos de nobreza britânica. Acima dele só os marqueses e os duques. É claro que nunca aceitaria, mas se aceitasse, como haveria de se chamar? O Conde de Medicine Hat? Não, muito exótico; o povo acharia graça. O Conde de Otawa? Oh, sim! Soava bem e teria um sentido mais profundo.

A Rainha apanhou um guardanapo de linho, limpou delicadamente a ponta de um dedo que se sujara de geleia, depois se levantou, seguida de Howden. O chá estava terminando e, deliberadamente, como o fazia frequentemente em ocasiões informais, a Rainha caminhou um pouco com Howden.

Estavam no meio da sala quando o marido da Rainha entrou alegremente. O Príncipe passara por uma porta estreita camuflada por um espelho comprido de frisos dourados.

— Ainda tem chá? — perguntou jovialmente. E ao ver Howden: — Como? Já nos vai deixar?

— Boa tarde, Alteza — Howden inclinou-se. Achou que era melhor não retribuir a informalidade. O Príncipe tinha sido responsável por uma boa parte da liberalização do trono, mas exigia ainda a deferência e seu olhar podia faiscar e seu tom de voz tornar-se glacial quando notava sua ausência.

— Se está saindo, acompanho a Vossa Excelência — anunciou o Príncipe. Howden curvou-se para beijar a mão da soberana que a estendia, em seguida, com uma formalidade momentânea, recuava o resto do caminho para fora da sala — Cuidado! — advertiu o Príncipe. — Cadeira à popa — Howden fez um movimento irresoluto tentando apoiar-se.

A soberana tinha uma expressão pétrea quando eles saíram, dando a entender a Howden que achava que a vivacidade de seu marido ia às vezes um pouco longe demais.

Lá fora, numa elegante ante-sala, os dois homens apertaram-se as mãos enquanto um criado de libré esperava para conduzir o Primeiro-Ministro até seu carro.

— Até logo — disse o Príncipe imperturbável. — Antes de voltar para o Canadá, dê um pulo por aqui.

Dez minutos depois, descendo a Mall, já longe de Buckingham Palace e correndo na direção da Casa do Canadá, James Howden sorria, lembrando-se. Admirava o desejo do Príncipe de ser informal, embora quando se alcançava uma posição permanente como a de marido da Rainha era fácil ser formal ou deixar de ser quando bem entendesse. Era uma estabilidade dessa espécie que determinava a diferença total com os políticos, como ele próprio que estava certo de que um dia, mais cedo ou mais tarde, seu mandato findaria. É claro que na Inglaterra quase todos os primeiros-ministros eram agraciados com títulos de nobreza como testemunho de que serviram bem ao seu país. Mas hoje em dia o sistema estava fora de moda... uma charada absurda. Seria ainda mais ridícula no Canadá... o Conde de Otawa, nada mais nada menos. Como seus colegas se divertiriam!

E não obstante, sinceramente, achava ser de seu dever examinar cuidadosamente a proposta da Rainha antes de rejeitá-la. O argumento de Sua Majestade era a necessidade de uma distinção entre o Canadá e os Estados Unidos. Talvez, afinal de contas, conviria sondar o Gabinete, como prometera. Se fosse para o bem do país...

O Conde de Otawa...

Mas não sondara o Gabinete, nem abordara o assunto com ninguém até aquele momento em Washington com Arthur Lexington. Agora, embora omitisse a referência pessoal da Rainha à sua pessoa, explicava, com toques de humor, a conversação que tivera lugar.

No fim, olhando o relógio, viu que só faltavam quinze minutos para atravessar a Pennsylvania Avenue e ir para a Casa Branca. Levantando-se, caminhou ainda um pouco pela biblioteca vazia. De costas, perguntou a Lexington:

— Bem, qual é sua opinião?

O Ministro do Exterior tirou seus pés do supedâneo e levantou-se, espreguiçando-se. Tinha uma expressão divertida.

— Não há dúvida de que nos diferenciaria dos Estados Unidos, mas não no sentido que nos conviria.

— Sou praticamente da mesma opinião — disse Howden.

— Mas devo confessar que desde a conversa com Sua Majestade venho considerando a questão da distinção. No futuro, você sabe, tudo que possa ajudar o Canadá a se distinguir e torná-lo uma entidade terá muita importância — percebendo o olhar curioso de Lexington, acrescentou: — Se você se sensibiliza demais, esqueceremos todo o assunto, mas em vista do pedido da Rainha achei que todos nós deveríamos discuti-lo.

— A discussão não fará mal algum — concedeu Lexington.

— Começou de novo a caminhar.

— O negócio — disse Howden, — é que não sei se não seria você a apresentar a questão ao Gabinete. Acho que seria melhor partindo de você do que de mim. Eu guardaria minha opinião até que os demais apresentassem as suas.

— Gostaria de pensar no assunto, Primeiro-Ministro, se não se incomodar — disse Arthur Lexington, hesitante.

— É claro, Arthur, faça como achar melhor — evidentemente, pensava Howden, o assunto deverá ser tratado com toda cautela, se o for.

Lexington parou ao lado de um telefone sobre a polida mesa do centro. Esboçando um ligeiro sorriso, perguntou:

— Vamos pedir café antes de nosso encontro com o destino?

 

Do outro lado da extensão da relva da Casa Branca que os separava, o Presidente despediu-se jovialmente com sua voz forte e cheia do grupo de fotógrafos que se acotovelavam e se empurravam.

— Vocês já devem ter matéria demais para um longa-metragem — em seguida, para o Primeiro-Ministro que estava ao seu lalo: — Que acha, Jim? Podemos entrar e começar?

— É pena, Sr. Presidente — disse James Howden. Depois do desagradável inverno de Otawa, Howden se deleitava com o calor e o sol. — Mas acho que é melhor — fez um gesto afirmativo com a cabeça para o homem de pequena estatura, de ombros largos, com rosto ossudo e angular, e queixo quadrado. A entrevista ao ar livre que ambos acabavam de conceder aos jornalistas credenciados junto à Casa Branca tinha agradado muito a Howden. Durante toda a entrevista, o Presidente mostrara sempre deferência para com o Primeiro-Ministro, falando pouco e passando as perguntas dos repórteres para Howden, de modo que fosse ele o citado naquele dia, e no dia seguinte, na imprensa, na TV e no rádio. Depois, quando perambulavam juntos sobre a relva da Casa Branca, para satisfazer aos fotógrafos e às câmeras de TV, o Presidente procurava cuidadosamente colocar James Howden — uma rara experiência para um canadense em Washington — poderia contribuir muito para sua posição na pátria.

Sentiu a mão grossa e comprida do Presidente agarrada no seu braço, dirigindo-o, e ambos se encaminharam na direção das escadarias da mansão presidencial. A expressão do Presidente, com sua cabeleira já meio grisalha, descuidada, com uma pequena mecha na testa, estava relaxada e irradiava simpatia.

— Que tal, Jim... — perguntou o Presidente com aquele sotaque do Centro-Oeste usado com tanta eficiência nas Conversas ao Pé da Lareira da TV — que tal se deixarmos desse negócio de Sr. Presidente? — um sorriso astuto. — Acho que você sabe meu nome.

Howden, realmente deleitado, replicou:

— É uma honra para mim, Tyler — no fundo se perguntava se seria possível deixar transpirar aquela intimidade para a imprensa. No Canadá desmentiria alguns críticos que estavam sempre lamentando a falta de influência do Governo Howden em Washington. É claro, reconhecia que a maior parte das cortesias de que estava sendo objeto era devida à forte posição de barganha do Canadá — que pretendia manter. Mas não havia razão para não estar satisfeito, ou não tirar proveito político toda vez que pudesse.

Ao atravessar o gramado, com o terreno macio debaixo de seus pés, disse James Howden:

— Não tive ainda a oportunidade de me congratular pessoalmente com você pela sua reeleição.

— Ora, Jim, muito obrigado! — o Presidente, com sua mão pesada, dessa vez bateu com força no ombro do Primeiro-Ministro. — Sim, foi uma eleição maravilhosa. Sinto-me orgulhoso de dizer que reuni a maior votação já obtida por um presidente americano. E vencemos no Congresso de ponta a ponta, como você sabe. Há ainda mais: nenhum presidente jamais desfrutou de tanto apoio como tenho atualmente, tanto na Câmara como no Senado. Posso afirmar-lhe confidencialmente que não há nenhuma lei que eu queira que não seja aprovada. É claro que faço algumas concessões de vez em quando, mas nada de importância. É uma situação singular.

— Singular para você, talvez — disse Howden. Achou que algumas alfinetadas ditas com bom humor não fariam mal algum. — Mas, é claro, no nosso próprio sistema parlamentar o partido no poder pode conseguir as leis que quiser.

— Certo! Certo! E não pense que de vez em quando eu — e meus predecessores — não tenhamos tido inveja de você. O milagre de nossa Constituição, você sabe, é que ela funciona bem — o Presidente continuou ardoroso. — O negócio foi que os Pais Fundadores estavam tão ansiosos para cortar todos os laços com os ingleses, que se desfizeram tanto de coisas boas como das más. Mas cada qual faz o que pode, quer na vida política quer na pessoal.

Com estas últimas palavras, chegaram às largas escadarias com balaustrada sob o recurvado Pórtico Sul de colunatas. Precedendo seu hóspede, o Presidente subia os degraus de dois a dois e, James Howden, para não ficar para trás, fazia o mesmo.

Mas na metade da escada o Primeiro-Ministro parou, sem fôlego e transpirando. Seu terno de lã azul-escuro, ideal para Otawa, era mais do que incômodo em Washington quente e ensolarada. Pensou, antes tivesse trazido um de seus ternos mais leves, mas, tendo-os examinado, nenhum convinha àquela ocasião. Diziam que o Presidente era meticuloso no trajar e, às vezes, mudava de terno várias vezes por dia. Mas o chefe do executivo americano não estava sujeito às restrições financeiras de um primeiro-ministro canadense.

O pensamento levou Howden a se lembrar logo de que não tinha ainda comunicado a Margaret a gravidade de sua situação financeira. O homem da Procuradoria de Montreal fora bastante claro: a menos que parasse de drenar os poucos mil dólares do pouco de capital que restava, seus recursos por ocasião de sua aposentadoria seriam iguais aos de um modesto artífice. É claro que nunca chegaria a esse ponto: poderia apelar para a Fundação Rockefeller e para outras organizações — Rockefeller doara a Mackenzie King cem mil dólares no dia da aposentadoria do Primeiro-Ministro — mas a lembrança de procurar ativamente uma ajuda americana, embora generosa, era bastante humilhante.

Poucos passos depois, o Presidente se deteve e disse contritamente:

— Perdoe-me. Estou sempre me esquecendo e fazendo isso aos outros.

— Eu devia ter sido mais precavido — o coração de James Howden estava saltando: suas palavras eram interrompidas por sua respiração ofegante. — É a isso que chama de preparo físico — como todo mundo, aliás, conhecia a grande e constante paixão do Presidente pelo preparo físico, seu e daqueles que o cercavam. Uma sucessão de ajudantes da Casa Branca, inclusive alguns generais e almirantes, desanimados, ficavam atordoados e exaustos com as partidas presidenciais diárias de andebol, tênis e peteca. Uma das queixas frequentes do Presidente era de que “esta geração tem barrigas de Budas e ombros parecidos com orelhas de rafeiros”. Foi o Presidente também que revivera o passatempo de Theodore Roosevelt de fazer passeios campestres em linha reta, passando por sobre os objetos — árvores, estábulos, montes de feno — em vez de contorná-los. Tentara algo semelhante em Washington e, lembrando-se, perguntou Howden:

— Como foram essas suas incursões locais, a ideia de ir de A a B?

O Presidente riu à socapa enquanto juntos subiam as escadarias lentamente.

— No fim tive de desistir: arranjei alguns problemas. Não podíamos passar por cima de edifícios, a não ser dos menores, de modo que começamos a passar por eles sempre que houvesse uma linha reta que ali nos conduzisse. Chegamos a lugares esquisitos, inclusive a um banheiro no Pentágono, entrando pela porta e saindo pela janela — riu, recordando-se. — Mas um dia eu e meu irmão fomos parar na cozinha do Statler Hotel — entramos no frigorífico e se não fosse por meio de uma explosão, nunca mais teríamos saído dali.

Howden sorriu.

— Talvez tentemos fazer isso em Otawa. Há alguns tipos na Oposição que eu gostaria de ver partir em linha reta — sobretudo se continuassem sempre caminhando.

— Nossos adversários são mandados para nos tentar, Jim.

— Acho também — concordou Howden. — Mas há uns que tentam mais do que outros. A propósito, trouxe algumas novas amostras de pedra para sua coleção. O pessoal de nosso Departamento de Minas e Recursos Naturais informou-me que são únicas.

— Obrigado, Jim — disse o Presidente. — Sou-lhe muito grato. E queira agradecer a seu povo também.

Da sombra do Pórtico Sul passaram ao interior fresco da Casa Branca, depois seguiram salas e corredores até o gabinete do Presidente no canto sudeste do prédio. Abrindo a porta única pintada de branco, o Presidente introduziu Howden.

Como de costume, nas várias ocasiões que ali estivera, o Primeiro-Ministro admirava a simplicidade do ambiente. Era uma sala de forma oval, com lambris à altura da cintura e coberta de tapete de cor cinza. Seus móveis principais consistiam num birô largo de tampo delgado, colocado no centro da sala, uma cadeira giratória com almofada, atrás e, por detrás da cadeira, duas bandeiras com adornos dourados — a bandeira dos Estados Unidos e a bandeira pessoal do Presidente. Janelas de batente que iam do piso ao teto e uma porta francesa dando para um terraço, em frente da qual estava um sofá de cetim damasco que ocupava a maior parte da parede, à direita da escrivaninha. No momento, o sofá estava ocupado por Arthur Lexington e o Almirante Levin Rapoport, este último um homem pequeno, magro, vestindo um terno marrom-claro, de cara de falcão e uma cabeça grande demais para o resto de seu corpo, que parecia de anão. Os dois homens levantaram-se quando o Presidente e o Primeiro-Ministro entraram.

— Bom dia, Arthur — disse o Presidente cordialmente, estendendo a mão a Lexington. — Jim, você já conhece Levin, não conhece?

— Sim — respondeu Howden. — Já nos fomos apresentados. Como vai, Almirante?

— Bom dia — o Almirante Rapoport fez um rápido e frio gesto com a cabeça. Rararamente fazia mais do que isso, sendo notoriamente conhecido pela sua aversão pelas conversinhas ou pelas etiquetas sociais. O Almirante — secretário extraordinário do Presidente — tinha sido um ilustre ausente do banquete oficial da noite passada.

Quando os quatro homens se assentaram, um servente filipino entrou com uma bandeja de bebidas. Arthur Lexington preferiu uísque e água, o Presidente um xerez seco. O Almirante Rapoport sacudiu a cabeça recusando, enquanto diante de James Howden o servente sorridente colocava um copo de suco de uva gelado.

Enquanto os drinques estavam sendo servidos, Howden observava o Almirante dissimuladamente, lembrando-se do que já ouvira a respeito daquele homem que (diziam alguns) era hoje virtualmente tão poderoso quanto o próprio Presidente.

Há quatro anos o Capitão Levin Rapoport, da Marinha americana, era um oficial que se achava no ponto de ser aposentado compulsoriamente — compulsoriamente porque seus almirantes superiores por duas vezes tinham-no passado para trás na ocasião das promoções, apesar de uma carreira brilhante e notória no campo das plataformas submarinas de mísseis intercontinentais. A dificuldade era que quase ninguém gostava pessoalmente de Levin Rapoport e um número surpreendente de influentes superiores alimentava sentimentos de ódio contra ele. A maior parte desse ódio era proveniente do hábito inveterado de Rapoport de ser intransigente em todo e qualquer problema de importância que afetasse a defesa naval e depois nunca hesitava dizer um “Eu lhe disse”, chamando pelo nome aqueles que discordaram dele.

Além disso, era dotado de uma grande dose de vaidade pessoal (inteiramente justificada, mas, não obstante, desagradável), de grosseria, de impaciência com a burocracia e a rotina, e de um manifesto desprezo por aqueles a quem considerava como intelectualmente inferiores, como era a maioria dos que o cercavam.

Mas o que a Marinha não tinha previsto ao decidir a aposentadoria de seu gênio controverso foi o protesto veemente do Congresso e do povo diante da perspectiva do prejuízo para a nação, caso o cérebro de Rapoport não estivesse mais ruminando ativamente seus problemas. Como disse um deputado de modo sucinto: — Que diabo, nós precisamos desse sujeito.

Por conseguinte, pressionada tanto pelo Senado como pela Casa Branca, a Marinha recuou e promoveu o Capitão Rapoport a Contra-Almirante, evitando assim sua aposentadoria. Dois anos e mais duas promoções, após uma série de recentes sucessos, Rapoport (agora Almirante e mais irritadiço do que nunca) tinha sido trazido da órbita da Marinha para Chefe do Estado-Maior do Presidente. Dentro de poucas semanas, com seu zelo, eficiência e habilidade, o novo nomeado estava exercendo um poder mais direto do que predecessores seus como Harry Hopkins, Sherman Adams ou Ted Sorenson.

Desde então, a lista de realizações diretas, conhecidas e desconhecidas, tinha sido formidável; um programa externo de promoção de iniciativas próprias, embora tardiamente, estava granjeando respeito em vez de desprezo pelos Estados Unidos; no país, uma política agrícola que os produtores combateram ferozmente alegando que não funcionaria, mas que, como Rapoport tinha afirmado desde o princípio, funcionara; um programa intensivo de pesquisas e, a longo prazo, a integração da educação científica na pesquisa pura; e no terreno do Direito, uma punição severa da fraude industrial de um lado e, do outro, uma limpeza no campo do trabalho, com a destituição e prisão de Lufto, ex-chefe dos movimentos subversivos dos trabalhadores.

Alguém (lembrava-se James Howden) teria perguntado certa feita ao Presidente: — Se Rapoport é tão bom assim, por que não é ele o Presidente? — o Presidente (dizem) sorriu e respondeu: — Simplesmente porque eu posso ser eleito, enquanto Levin não receberia nem seis votos para pegador de cachorros.

Entrementes, enquanto o Presidente era aplaudido pela sua sabedoria na escolha de talentos, o Almirante Rapoport continuava a atrair animosidades e ódio quase na mesma proporção que antes.

James Howden perguntava-se como esse homem austero e rígido poderia afetar o destino do Canadá.

— Antes de começarmos — disse o Presidente, — gostaria de perguntar: não lhes tem faltado nada na Blair House?

Arthur Lexington respondeu sorrindo:

— Estamos sendo mimados.

— Bem, fico satisfeito em saber disso — o Presidente tinha-se instalado confortavelmente atrás de sua grande mesa. — De vez em quando temos algumas pequenas dificuldades por aqui como os árabes queimando incenso e parte da casa também. Suponho todavia que vocês não irão levantar os lambris como fizeram os russos à procura de microfones escondidos.

— Prometemos que não o faremos — disse Howden, — contanto que nos diga onde eles estão.

— O Presidente deu uma boa risada.

— Acho melhor você telegrafar ao Kremlim. De qualquer maneira, não me surpreenderia se não instalaram seu transmissor quando ali estiveram.

— Poderia não ser uma má ideia — disse Howden despreocupadamente. — Pelo menos conseguiríamos entrar em contato com eles. Não parece que estejamos fazendo grande parte do trabalho por outros meios.

— Não — concordou o Presidente calmamente, — infelizmente, não.

Fez-se um súbito silêncio. Através de uma janela meio aberta chegava o ruído do tráfego da B Street e gritos de crianças no jardim da Casa Branca. De algum lugar por perto, amortecido pelas paredes intervenientes, sentiam-se mais do que se ouviam as batidas de uma máquina de escrever. Howden constatou que o ambiente ameno tinha-se transformado sutilmente em um ambiente grave e sombrio.

— A propósito, Tyler, você ainda é de opinião de que um amplo conflito, dentro de um espaço de tempo relativamente curto, seja inevitável?

— Com todo meu coração — respondeu o Presidente, — gostaria de dizer que não. Infelizmente continuo achando que sim.

— E não estamos preparados, estamos? — perguntou Arthur Lexington com sua cara de anjo, pensativo.

O Presidente inclinou-se para frente. Atrás dele as cortinas e as duas bandeiras eram agitadas por uma leve brisa.

— Não, senhores — disse tranquilamente, — não estamos prontos e não estaremos até que os Estados Unidos e o Canadá, agindo em nome da liberdade e da esperança de um mundo melhor tenham juntos guarnecido nossas fronteiras e nossas fortalezas comuns.

Bem, pensou Howden, estamos entrando rapidamente no assunto. Com os olhos dos interlocutores postos nele, disse em tom prosaico.

— Tenho considerado muito sua proposta de um ato de união, Tyler.

Havia o vislumbre de um sorriso na fisionomia do Presidente.

— Acredito, Jim.

— Há muitas objeções — disse Howden.

— Quando se trata de algo dessa magnitude — disse a voz do outro lado da mesa — seria surpreendente se não houvesse.

— De outro lado — declarou Howden, — posso-lhe afirmar que meus colegas e eu estamos atentos às vantagens substanciais da proposta, mas só se satisfeitas certas considerações e se forem dadas algumas garantias específicas.

— O senhor fala de garantias e de considerações — era o Almirante Rapoport, com a cabeça estufada, falando pela primeira vez. Sua voz era tensa e ríspida. — Não tenho dúvida de que o senhor e seus colegas, aos quais se refere, tenham levado em consideração que qualquer garantia, venha ela de onde vier, seria inútil sem a sobrevivência.

— Sim — disse Arthur Lexington, levamos esse aspecto na sua devida conta.

O Presidente interrompeu prontamente:

— Um ponto que gostaria que tivéssemos em mente, Jim — e você, também, Arthur — é que o tempo está contra nós. É por isso que lhes peço toda urgência. É por isso também que devemos falar com toda franqueza, mesmo se arrepiarmos algumas penas ao fazê-lo.

Howden esboçou um sorriso sombrio.

— Não haverá penas arrepiadas, a não ser na sua águia. Que sugere primeiro?

— Gostaria de cobrir o terreno primeiro, Jim; eis o que eu gostaria de fazer. Continuar a falar sobre o assunto de meu telefonema na semana passada. Entendamo-nos mutuamente. Depois veremos os pontos a acertar.

O Primeiro-Ministro olhou para Lexington que assentia com levíssimos movimentos com a cabeça.

— Muito bem — disse Howden, de acordo. — Quer ser o primeiro a falar?

— Sim, quero — o Presidente acomodou-se na sua cadeira giratória, fez uma meia volta na direção da luz do sol. Depois voltou à posição primitiva, encontrando-se seu olhar com o olhar de Howden. — Referi-me ao tempo — disse calmamente. — O tempo de que dispomos de nos preparar para o ataque que sabemos haverá de ocorrer inevitavelmente.

— Quanto tempo acha que teremos? — perguntou Arthur Lexington.

— Não há tempo — respondeu o Presidente. — Pelo cálculo, pela razão e pela lógica já o gastamos todo. E se tivermos tempo... para alguma coisa... será exclusivamente pela graça de Deus — e em voz baixa: — Você acredita na graça de Deus, Arthur?

— Bem — respondeu Lexington sorrindo, — é algo um tanto nebuloso.

— Mas há, creia-me — por cima da mesa uma mão se levantou, com os dedos abertos, como se estivesse abençoando. — Salvou outrora os ingleses quando ficaram sozinhos e pode ainda nos salvar. Vivo rezando para que isso aconteça e rogo pela dádiva de um ano. Não pode haver mais.

Howden interrompeu:

— Trezentos dias é o máximo que espero.

O Presidente concordou.

— Se o conseguirmos, será pela graça de Deus. E o que quer que consigamos, amanhã será um dia a menos, e uma hora depois desta, será uma hora a menos — a voz com seu sotaque de Centro-Oeste, animou-se. — Consideremos o quadro como o vemos agora em Washington.

Ponto por ponto, com um instinto magistral de ordem e concisão, expos seus pensamentos em rápidas pinceladas. Primeiro os fatores que Howden tinha descrito para o seu próprio Conselho de Defesa: a proteção prioritária das áreas agricultáveis pelos Estados Unidos — a chave da sobrevivência, depois de um ataque nuclear; as plataformas de mísseis na fronteira do Canadá com os Estados Unidos; a impossibilidade de evitar uma intercepção de mísseis sobre o território canadense; o Canadá transformado num campo de batalha, indefeso, destruído por explosões e precipitações radioativas; suas terras cultiváveis envenenadas ...

Vinha então a alternativa: plataformas de mísseis ao norte, uma maior capacidade americana de ataque, uma intercepção antecipada com a redução de precipitação radioativa para ambos os países, a poupança do Canadá como campo de batalha e a chance de sobrevivência. Mas a necessidade desesperada de rapidez e de autorização para que os Estados Unidos pudessem agir rapidamente... O Ato de União como fora proposto; os americanos assumiriam a responsabilidade total da defesa do Canadá e de uma política exterior conduzida em termos comuns; a dissolução de todas as forças armadas canadenses e um recrutamento imediato sob a égide da Aliança; a abolição das restrições fronteiriças; união alfandegária; o termo de vinte e cinco anos; uma garantia da soberania canadense em todas as matérias não interditas...

O Presidente declarou simplesmente:

— Em face de nosso perigo comum, que não conhece fronteiras nem respeita soberanias, oferecemos o Ato de União em espírito de amizade, de estima e de honra.

Fez uma pausa. O olhar do homenzinho vigoroso atrás da mesa caiu ironicamente sobre os outros três. Uma mão subiu para jogar para trás a familiar mecha de cabelo que se ia tornando grisalho. Seus olhos refletiam inteligência e vivacidade, pensava Howden, mas por detrás deles estava uma tristeza inconfundível, a tristeza talvez de um homem que tivesse realizado tão pouco do sonho de sua vida.

Foi Arthur Lexington que o interrompeu serenamente:

— Quaisquer que sejam os motivos, Sr. Presidente, não é fácil abandonar a independência e mudar o curso da história da noite para o dia.

— Não obstante — observou o Presidente, — o curso da história será mudado, quer o dirijamos ou não. As fronteiras não são imutáveis, Arthur; nunca foram na história da humanidade. Toda fronteira que conhecemos mudará ou desaparecerá com o tempo, tanto a do Canadá como a nossa própria, quer apressemos o processo ou não. As nações podem durar um século ou dois e até mais; mas no fim deixarão de existir para sempre.

— Concordo com o senhor nesse ponto — Lexington sorriu timidamente. Pousou o copo que estivera segurando. — Mas todos concordarão?

— Não, todos não — o Presidente sacudiu a cabeça. — Os patriotas, os fanáticos, pelo menos, tem ideias curtas. Mas outros — se tudo lhes for bem explicado — encararão os fatos como devem.

— Talvez possam com o tempo — disse James Howden. — Mas como você observou, Tyler, e eu concordo, o tempo é um artigo de que carecemos.

— Nesse caso, Jim, gostaria de ouvir o que sugere.

Chegara o momento. Era a hora, pensava Howden, de falar claro, de negociar para valer. Estava ali o momento decisivo em que o futuro do Canadá — se existisse — seria determinado. Na verdade, mesmo se se chegasse agora a um amplo acordo, haveria posteriormente mais negociações, e casos específicos — muitos específicos e detalhes infindos — teriam de ser discutidos por peritos de ambos os lados. Mas isso viria depois. Os grandes problemas, as principais concessões — se alguma tivesse de ser extorquida — seriam então ali e agora decididos entre ele e o Presidente.

O silêncio reinava na sala oval. Não se ouviam mais os rumores do tráfego nem os gritos das crianças do lado de fora — talvez o vento tivesse mudado de direção: e o datilógrafo tivesse parado de escrever à máquina. Arthur Lexington mudou de posição no sofá; a seu lado, o Almirante Rapoport mantinha-se impassível, na mesma posição do início, como se estivesse atado no lugar. A cadeira do Presidente ringiu quando ele se voltou ligeiramente, numa expressão de angústia e de curiosidade, e fixou o olhar no rosto sorumbático do Primeiro-Ministro. Somos apenas quatro homens, pensava Howden... homens mortais e comuns, de carne e osso, que um dia morrerão e serão esquecidos ... e, não obstante, o que decidirmos hoje afetará a história do mundo durante séculos e séculos.

Por alguns instantes, em meio àquele silêncio, James Howden sentiu-se atormentado pela indecisão. Agora que chegara à realidade, a dúvida — como antes — o assaltou. Um senso da história entrou em choque com uma serena apreciação de fatos conhecidos. Seria sua presença ali por sua própria natureza, uma traição ao seu país?

O objeto de sua vinda a Washington seria motivo de vergonha ou de virtude? Eram espectros que já tinha enfrentado, temores que mitigara. Mas agora, eis que de novo surgiam, vivos e desafiadores.

Raciocinava então, como o fizera alguns dias atrás, que o curso da história humana tinha demonstrado que o orgulho nacional — aquele orgulho nacional inflexível — era o pior inimigo da humanidade e o povo comum pagava seu preço em sofrimentos. Nações houve que desapareceram por causa de sua vanglória, quando a moderação poderia tê-las civilizado e salvado. O Canadá, estava decidido, não cairia.

— Para que isso possa ser feito — disse James Howden, — precisarei de um mandato de nossos eleitores. Isso significa que tenho de enfrentar uma eleição e ganhar.

— E faço votos que assim seja — disse o Presidente. — Será logo?

— Farei o possível para que seja no início de junho.

O Presidente anuiu com a cabeça.

— Não creio que o posse fazer mais cedo.

— Será uma breve campanha — observou Howden, — e enfrentaremos uma forte oposição. Por conseguinte, devo ter coisas específicas para oferecer.

— Estou certo, Sr. Presidente — interveio Arthur Lexington, — de que o senhor mesmo como um político militante há de ver que isso é necessário.

O Presidente abriu-se num largo sorriso.

— Quase que receio concordar com medo de vocês se aproveitarem disso. Admitamos que eu diga sim, estou certo de que a oposição vai fazer um barulhão com vocês, mas afinal de contas isso não é novidade para nenhum de nós aqui. Você vencerá, Jim, disso estou certo. Mas quanto ao outro ponto, sim, compreendo.

— Há vários pontos — disse Howden.

O Presidente inclinou-se um pouco para trás na sua cadeira giratória.

— Vamos, diga!

— A indústria canadense e sua capacidade de emprego devem ser salvaguardadas depois do Ato de União — a voz de Howden era clara, seu tom enfático. Não estava suplicando, esforçava-se para ser claro, mas falava de igual para igual. — Os investimentos e a indústria americanos no Canadá devem continuar a expandir-se. Não queremos ver a General Motors retirar-se por causa da união alfandegária, fundindo-se com Detroit, ou a Ford com Dearbon. Diga-se o mesmo quanto à pequena indústria.

— Concordo — disse o Presidente, brincando com um lápis em cima da mesa. — A fraqueza industrial seria uma desvantagem para todos nós. Temos de pensar nisso, mas lhe asseguro que o Canadá terá mais e não menos indústrias.

— Uma garantia específica?

— Sim, uma garantia específica — anuiu o Presidente. — Nosso Departamento de Comércio e seu pessoal do Comércio e das Finanças poderão imaginar uma fórmula de incentivo fiscal.

Tanto o Almirante Rapoport como Arthur Lexington estavam fazendo anotações em blocos de papel.

Howden levantou-se da cadeira de frente para o Presidente, deu alguns passos pela sala, depois voltou.

— As matérias-primas — anunciou. — O Canadá controlará as permissões de exportação e queremos uma garantia contra o contrabando. Os americanos não terão minas nem tirarão materiais para processar em outra parte.

O Almirante Rapoport interrompeu-o rispidamente:

— Os senhores nunca se negaram a vender seus próprios recursos naturais no passado, contanto que fosse por preço alto.

— Isso foi no passado — retrucou Howden. — Estamos discutindo o futuro — começava a compreender por que era tão generalizada a antipatia do secretário do Presidente.

— Não se incomode — interveio o Presidente. — Haveria mais indústrias secundárias locais e isso ajudaria a ambos os países. A seguinte!

— Acordos de defesa e auxílio externo — disse Howden. — O Canadá precisará de indústrias de maior porte — de aviões e de mísseis e não só de porcas e parafusos.

O Presidente suspirou.

— Vai haver o diabo. Mas de qualquer maneira aceitamos — mais anotações.

— Quereremos um de nossos próprios Ministros aqui na Casa Branca — disse Howden. Assentou-se de novo. — Alguém que esteja a seu lado e tenha condições de interpretar nossos próprios pontos de vista.

— Já havia pensado em lhe oferecer algo semelhante — observou o Presidente. — Que mais?

— O trigo! — anunciou o Primeiro-Ministro. — Suas próprias exportações e quebras tomaram o que outrora constituía nossos mercados. O que é mais, o Canadá não pode competir com uma produção subsidiada na escala americana.

O Presidente olhou para o Almirante Rapoport que pensou um pouco e depois disse:

— Poderíamos oferecer uma garantia de não-interferência, suponho, com relação às vendas comerciais do Canadá e assegurar que os excedentes da produção canadense — até as cifras do último ano — seriam vendidos primeiro.

— Está bem? — o Presidente olhou maliciosamente para Howden.

O Primeiro-Ministro levou algum tempo para responder. Depois disse pausadamente:

— Gostaria de aceitar a primeira parte da proposta e deixar a segunda para ser discutida. Se sua produção aumentar, a nossa também deve aumentar, com iguais garantias.

— Você está querendo pressionar um pouco, Jim? — perguntou o Presidente num tom de frieza.

— Não é minha intenção — Howden encarou seu interlocutor. Não pretendia ainda fazer concessões. Além disso, sua maior exigência estava ainda para vir.

Fez-se uma pausa, após a qual o Presidente anuiu.

— Está bem, negociemos.

Continuaram a falar sobre comércio, indústria, emprego, relações exteriores, atividades consulares, intercâmbio cultural, economias nacionais, autoridades dos tribunais canadenses sobre as Forças Armadas americanas... Em cada caso as concessões solicitadas pelo Primeiro-Ministro eram atendidas, às vezes com pequenas modificações, em alguns casos depois de alguma discussão, mas na maioria das vezes sem nenhuma. Era realmente surpreendente, pensava Howden. Evidentemente a maioria de suas propostas certamente tinha sido prevista e o Presidente viera parlamentar preparado para a ação.

Se se tratasse de uma época comum — tanto quanto pode ser ordinária qualquer época da História, pensava Howden — as concessões que já tinha arrancado removeriam os obstáculos para o desenvolvimento canadense que os governos anteriores há gerações vinham procurando afastar. Mas era obrigado a se lembrar, os tempos não eram ordinários, nem o futuro oferecia qualquer segurança.

Já passava da hora do almoço. Absortos, comeram um bife frio, salada e café, no escritório do Presidente.

Por sobremesa o Primeiro-Ministro mordiscou uma barra de chocolate que pusera no bolso ao sair da Blair House. Fazia parte do suprimento que o Embaixador americano enviara no dia anterior. Era muito conhecido de seus amigos seu gosto por doces.

E, finalmente, chegara o momento por que James Howden esperara.

Pedira um mapa da América do Norte que, durante o almoço, fora pendurado na parede de frente da escrivaninha do Presidente. Era um mapa político em grande escala com o território canadense pintado de rosa, o dos Estados Unidos de sépia e o do México verde. A fronteira entre o Canadá e os Estados Unidos — uma longa linha preta — estendia-se através do centro. Ao lado do mapa na parede estava encostada uma flecha.

James Howden agora se dirigia diretamente ao Presidente:

— Como você observou há cerca de duas horas, Tyler, as fronteiras não são imutáveis. Nós do Canadá — se o Ato de União se tornar uma realidade para nossos dois países — estamos dispostos a aceitar uma mudança de fronteira como uma realidade da vida. Eis o problema: vocês também estão?

O Presidente inclinou-se um pouco com o cenho franzido.

— Não sei se o estou seguindo, Jim.

O Almirante Rapoport tinha uma fisionomia inexpressiva.

— Quando começar a batalha nuclear — disse o Primeiro-Ministro, falando pausadamente, — tudo poderá acontecer. Podemos sair vitoriosos ou podemos ser derrotados e invadidos e, nesse caso, de nada adiantarão os planos atuais. Ou, em pouco tempo poderemos chegar a um empate, com o inimigo tão reduzido e indefeso como nós.

O Presidente suspirou:

— Dizem nossos acima chamados peritos que nos destruiremos mutuamente em questão de dias. Sabe Deus o que vai nisso de verdade, mas é preciso elaborar planos sobre alguma coisa.

Howden sorriu ao lhe passar uma ideia pela mente.

— Eu sei o que entende por peritos. Meu barbeiro tem uma teoria segundo a qual depois de uma guerra nuclear a terra partir-se-á ao meio e se romperá em pedaços. De vez em quando eu me pergunto se não o deveria nomear para o Departamento da Defesa.

— O único problema que se põe — acrescentou Arthur Lexington, — é que se trata de um excelente barbeiro.

O Presidente deu uma risada. O rosto do Almirante Rapoport enrugou-se ligeiramente numa expressão que poderia ter sido um sorriso.

O Primeiro-Ministro, de novo sério, continuou:

— Segundo a nossa proposta atual acho que devemos considerar a situação de pós-guerra na hipótese de que não sairemos derrotados.

O Presidente anuiu com a cabeça.

— Concordo.

— Nesse caso — disse Howden, — parece-me que há duas importantes possibilidades. Primeiro, de que ambos os nossos Governos — do Canadá e dos Estados Unidos — possam ter cessado completamente de funcionar, de modo que o direito e a ordem não existam mais. Nesse caso, nada do que dissermos ou fizermos aqui poderá ter alguma utilidade naquela época; e suponho, de qualquer maneira, nenhum de nós nesta sala estaria por aqui como observadores.

Como se falava casualmente de tudo isso, pensava: vida e morte; sobrevivência e aniquilamento; a vela acesa, a vela apagada. E, não obstante, em nossos corações, na realidade, nunca aceitamos a verdade. Presumimos sempre que alguma coisa impedirá de certo modo o fim supremo.

O Presidente tinha-se levantado silenciosamente de sua escrivaninha. Deu as costas para os demais, correu uma cortina e ficou a olhar pela janela o gramado da Casa Branca. O sol tinha desaparecido, observou Howden; o céu estava coberto de nuvens cinzentas e pesadas. O Presidente, sem se virar, disse:

— Você se referiu a duas possibilidades, Jim.

— De fato — consentiu Howden. — A segunda possibilidade é a que julgo mais provável.

O Presidente saiu da janela e voltou à sua cadeira. Seu semblante, pensava Howden, parecia mais deprimido do que antes.

— Qual é essa segunda possibilidade? — perguntou o Almirante Rapoport. — Vamos, continue.

— É a possibilidade — disse Howden calmamente, — de que nossos Governos sobrevivam até certo ponto, mas que o Canadá, em virtude de sua maior proximidade do inimigo, receba o golpe mais pesado.

O Presidente tomou então a palavra e falou num tom persuasivo:

— Jim, juro-lhe diante de Deus que faremos o possível... antes e depois.

— Eu sei — disse Howden, — e é esse “depois” que estou considerando. Se restar um futuro para o Canadá, é preciso que nos deixem a chave.

— Que chave?

— O Alasca — disse James Howden serenamente. — O Alasca é a chave.

Tinha consciência do ritmo de sua própria respiração, de um súbito minueto de sons misturados que vinham de fora: a buzina distante e abafada de um carro; os rufos das primeiras gotas da chuva; o suave chilrear de um pássaro. Arthur Lexington, raciocinava inconsequentemente, era capaz de dizer que espécie de pássaro era... Arthur Lexington, ornitólogo... Sua Excelência Arthur Edward Lexington, conselheiro, doutor em Direito, Ministro do Exterior, seu despacho em cada passaporte canadense: “Em nome de Sua Majestade a Rainha ... permito ao portador entrar livremente sem estorvo nem embaraço... concedo assistência e proteção.” Arthur Lexington... desafiando agora com ele, James Howden, o poderio e a união dos Estados Unidos.

Vocês tem que nos dar o Alasca, repetia em sua mente. O Alasca é a chave.

Silêncio. Imobilidade.

O Almirante Rapoport, ao lado de Lexington no sofá: calado. Nenhuma cordialidade, nenhuma mensagem, nenhuma sinuosidade no rosto apergaminhado, na cabeça descomunal. Só um olhar glacial, de aço. Vamos... diga aonde quer chegar... não me faça perder tempo... como ousa!

Como ousa ele... Como ousa enfrentar no outro lado da escrivaninha ladeada de bandeiras, o titular do mais poderoso cargo do mundo... e ele mesmo líder de uma potência menor, mais fraca — aparentemente calmo, intimamente nervoso, depois de fazer aquela exigência absurda e despropositada.

Lembrava-se de sua conversa com Arthur Lexington, onze dias atrás, na véspera da reunião do Conselho. “Os americanos nunca aceitariam, nunca”, dissera Lexington. E ele respondera: “Se estiverem desesperados, quem sabe, talvez aceitem.”

O Alasca. O Alasca é a chave.

O olhar do Presidente era de perplexidade, espelhando a incredulidade.

O silêncio continuava.

Depois de alguns instantes que pareciam não ter mais fim, o Presidente girou na sua cadeira. Disse tranquilamente:

— A menos que não o tenha compreendido, não posso crer que esteja falando sério.

— Nunca falei mais sério — disse James Howden, — em toda minha vida política.

Agora, pondo-se de pé, disse clara e convincentemente:

— Foi você, Tyler, quem falou hoje de nossa “fortaleza comum”; foi você quem declarou que nossa política deve pensar mais no “como” do que no “se”; você falou da urgência, da falta de tempo. Bem, digo-lhe agora, e em nome do Governo do Canadá, que há concordância com tudo que você diz. Digo-lhe ainda mais que para a nossa própria sobrevivência — e disso não abrimos mão caso seja realizado o Ato de União — o Alasca deve tornar-se canadense.

O Presidente falou sério e em tom de súplica:

— Jim, isso nunca poderá ser feito, creia-me.

— O senhor está maluco! — era a vez do Almirante Rapoport, vermelho como lacre.

— Pode ser feito! — as palavras de Howden ecoaram pela sala. — E não estou louco não, estou bastante são para querer a sobrevivência de meu país; bastante são para lutar por ela, como, com a ajuda de Deus, lutarei!

— Mas não desse modo...!

— Ouçam-me! — Howden dirigiu-se para o mapa e, resoluto, apanhou a flecha. Correu a ponta da flecha descrevendo um arco de leste para oeste, ao longo do paralelo 49. — Entre esta parte e essa — traçou uma segunda linha ao longo do paralelo 60 — dizem seus peritos e os nossos que haveria devastação e precipitação radioativa, talvez em grandes manchas pelo país, se tivermos sorte, e talvez total, se não formos felizes. Por conseguinte, nossa única chance de recuperação, nossa única esperança de consolidar o que restar do Canadá é criar um novo foco, um novo centro nacional longe da devastação até que nos possamos reunir de novo e voltar, se o pudermos fazer algum dia.

O Primeiro-Ministro fez uma pausa, estudando inflexivelmente a fisionomia dos circunstantes. O Presidente tinha os olhos fixos no mapa. O Almirante Rapoport ia abrindo a boca como se fosse objetar de novo e tornou a fechar. Arthur Lexington observava discretamente o perfil do Almirante.

— O reagrupamento territorial canadense — continuou Howden — deve satisfazer a três necessidades primordiais. Deve estar ao sul da linha florestal e da zona subártica; caso contrário, as comunicações e o apoio de vida estariam além de nossas possibilidades. Segundo, a área deve estar a oeste de nossa linha conjunta de mísseis ao norte; e terceiro, deve ser um lugar em que não haja precipitação ou, se houver, que seja mínima. Ao norte do paralelo 49 só há um lugar que satisfaz a todos esses requisitos — o Alasca.

— Como pode estar certo da precipitação? — perguntou o Presidente.

Howden tornou a encostar a vareta na parede.

— Se neste momento eu tivesse de escolher o lugar mais seguro no Hemisfério Norte durante uma guerra nuclear, respondeu, esse lugar seria o Alasca. Está fortificado contra uma invasão. Vladivostock, o alvo mais próximo, está a quase cinco mil quilômetros de distância. A precipitação, venha ela dos ataques soviéticos ou mesmo dos nossos, não será improvável. Uma coisa é absolutamente certa — o Alasca será poupado.

— Sim — disse o Presidente, — acho que estou de acordo com você, pelo menos nesse ponto — suspirou. — Mas quanto ao outro... é uma ideia engenhosa e devo admitir que muita coisa nela tem sentido. Mas você certamente deve ver que nem eu nem o Congresso temos poderes para negociar um Estado da União.

— Nesse caso — retrucou Howden friamente, — muito menos razão haverá para meu próprio Governo negociar um país.

O Almirante Rapoport bufou de raiva.

— O Ato de União não envolveria nenhuma barganha.

— Não parece ser verdade — interveio Arthur Lexington rispidamente. — O Canadá pagaria um alto preço.

— Absolutamente! — a voz do Almirante assumiu um tom agressivo. — Longe de pagar um preço, seria um ato de surpreendente generosidade para com um país ganancioso, vacilante, que tem um passado nacional de timidez, oportunismo e hipocrisia. O senhor fala em reconstruir o Canadá, mas por que se preocupar com isso? Os Estados Unidos já o fizeram uma vez para vocês e provavelmente o farão de novo.

James Howden tinha voltado à sua cadeira. Agora, com o rosto afogueado pela raiva, pos-se de pé e disse friamente:

— Não acho que seja obrigado a ouvir isso, Tyler.

— Não, Jim — disse o Presidente calmamente. — Não creio que seja. Só que concordamos em falar francamente e às vezes as coisas são ditas de modo melhor quando ditas sem rebuços.

Tenso e ressentido, Howden explodiu:

— Então devo presumir que você subscreve esse malévolo libelo?

— Bem, Jim, concedo que o que foi dito poderia ter sido expresso de modo mais hábil, com mais tato, mas não é do estilo de Levin; mas se você quiser, peço-lhe desculpas pela escolha das palavras — a voz arrastada do Presidente atravessava a sala e chegava até o Primeiro-Ministro que se conservava de pé. — Mas devo dizer também que ele chamou a atenção para o fato de o Canadá estar sempre querendo uma grande vantagem. Mesmo agora, com tudo que estamos oferecendo no Ato de União, vocês ainda querem mais.

Arthur Lexington levantara-se também e se pusera ao lado de Howden. Agora caminhava para a janela e virando-se fixou o olhar no Almirante Rapoport.

— Talvez seja porque tenhamos direito a mais — observou.

— Não! — a palavra do Almirante soou como uma flecha sibilante. — Eu disse que sua nação era uma nação ávida e é isso mesmo — elevou sua voz fina. — Há trinta anos queriam um padrão de vida americano, mas o queriam de uma noite para o dia. Preferiram ignorar que os padrões americanos tinham um século de suor e privações. Desse modo, vocês abriram mão de suas riquezas naturais que, ao invés, poderiam ser poupadas; deixaram os americanos entrar, desenvolver seu patrimônio, correr riscos e reger o espetáculo. Foi assim que vocês adquiriram seu padrão de vida... depois escarneceram das coisas que tínhamos em comum.

— Levin... — reclamou o Presidente.

— Eu disse hipocrisia — como se não tivesse ouvido o Presidente o Almirante continuou furioso. — Vocês venderam sua progenitura, depois foram à sua procura com conversas de canadianismo. Bem, já houve outrora um canadianismo, mas vocês o deixaram morrer e nem todas as suas Comissões Reais acumuladas jamais o descobrirão de novo.

Com ódio do Almirante, exclamou James Howden com a voz trêmula de raiva:

— Não o deixamos morrer. O senhor deve ter ouvido falar de uma lista de duas guerras mundiais: S. Eloi, Vimy, Dieppe, Sicília, Ortona, Normandia, Caen, Falaise...

— Há sempre exceções — retrucou o Almirante. — Lembro-me também de que, enquanto os fuzileiros navais americanos estavam morrendo no Mar de Coral, o Parlamento do Canadá debatia ainda sobre o recrutamento — que nunca foi feito.

— Houve outros fatores... Quebec, transigências...

— Transigências, oportunismo, timidez... que diferença faz quando se trata de um passado nacional? E vocês estarão ainda em cima da cerca no dia em que os Estados Unidos defenderem o Canadá com armas nucleares... satisfeitos por vê-las em nossas mãos, mas também excessivamente mesquinhos para empregá-las pessoalmente.

O Almirante se levantara e estava em pé de frente para Howden. O Primeiro-Ministro resistiu a um violento impulso de esbofeteá-lo, de lhe quebrar a cara. O Presidente ao invés interrompeu o silêncio hostil.

— Uma sugestão. Por que vocês dois não se reúnem amanhã de manhã ao nascer do dia à margem do Potomac? Arthur e eu seremos os padrinhos e lhes emprestaremos pistolas e espadas.

Lexington perguntou friamente:

— Qual das duas armas o senhor recomendaria?

— Oh, se eu fosse Jim, escolheria pistolas — disse o Presidente. — O único navio que Levin comandou errava todos os alvos.

— Tínhamos pouca munição — observou o Almirante. Pela primeira vez divisou-se em sua face pétrea um ligeiro sorriso. — O senhor na época não era o Secretário da Marinha?

— Já fui tantas coisas — respondeu o Presidente. — É difícil lembrar.

Apesar do arrefecimento dos ânimos, Howden estava ainda tomado de indignação. Queria retaliar; devolver palavra por palavra, contradizer o que tinha sido dito; atacar, como o podia fazer tão prontamente: uma acusação de avidez não procedia de uma nação que se tornara farta e opulenta... A acusação de timidez dificilmente poderia ser assacada pelos Estados Unidos que praticaram um isolacionismo egoístico até que foram forçados a abandoná-lo... Até a vacilação canadense valia mais do que a inépcia, a ingenuidade ou disparate da diplomacia americana com sua fé crua no dólar como resposta para todos os problemas ... Os Estados Unidos com seu ar insuportavelmente virtuoso de estar sempre com a razão; sua recusa em acreditar que outros conceitos, outros sistemas de governo pudessem às vezes ter suas virtudes; seu apoio obstinado a regimes desacreditados de títeres no estrangeiro... E no próprio país conversas manhosas, volúveis, de liberdade pela mesma boca que difamava os dissidentes... e mais, e muito mais...

Quanto a falar... com altivez, rudeza... James Howden se conteve.

Às vezes, pensou, no silêncio também havia estadismo. Nenhuma lista de faltas poderia ser sempre unilateral e a maior parte do que dissera o Almirante Rapoport era uma verdade incômoda.

Além disso, fosse o que fosse o Almirante Rapoport, o fato é que não era um tolo. O Primeiro-Ministro percebeu sutilmente que uma cena tinha sido montada, tendo ele próprio como protagonista. Teria havido uma deliberada tentativa, perguntava-se, habilmente perpetrada pelo Almirante para fazê-lo perder o controle? Talvez; talvez, não; mas brigar não adiantava nada. Estava determinado a não perder de vista a questão original.

Ignorando os demais, Howden encarou o Presidente.

— Devo deixar bem claro, Tyler — anunciou calmamente, — que sem a concessão do Alasca não há condições de acordo entre nossos respectivos Governos.

— Jim, você deve compreender que isso é inteiramente impossível — o Presidente parecia calmo e controlado, impassível como sempre. Mas os dedos de sua mão direita, observara Howden, estavam tamborilando nervosamente sobre a mesa. E continuou: — Não podemos voltar atrás? Falemos sobre as demais condições. Talvez haja outros pontos que possamos ceder, coisas que possamos substituir em benefício do Canadá.

— Não — Howden meneou a cabeça firmemente. — Primeiro, não acho que seja impossível e, segundo, ou falaremos sobre o Alasca ou não falaremos de nada.

Estava agora convencido de que tinha sido arquitetado o ardil para levá-lo à perda do controle. É claro, mesmo que tal tivesse sucedido, o outro lado não poderia ter ganho vantagem alguma. Mas de outra parte, poderia apenas ter dado a entender até que ponto estava disposto a ceder, se necessário. O Presidente era um negociador experimentado, manhoso, que jamais haveria de perder uma sugestão como essa se fosse oferecida.

O Primeiro-Ministro coçou de leve a ponta de seu nariz comprido.

— Gostaria de lhe expor — disse, — as condições que temos em mente. Antes de mais nada, haveria uma eleição livre no Alasca, sob a supervisão de ambos os países, para se escolher entre o “sim” e o “não”.

— Vocês nunca venceriam — disse o Presidente. Mas aquela voz tão cheia já não tinha o mesmo tom dogmático como antes. Howden tinha a impressão de que de um modo sutil e indefinível o domínio das negociações tinha passado para ele. Lembrou-se das palavras de Arthur Lexington naquela manhã: “Nos termos mais crus eu diria que estamos num mercado firme. As concessões que tivermos para oferecer são as de que mais precisam os Estados Unidos, desesperadamente”.

— Francamente, acho que venceríamos — disse Howden, — e partiríamos em campanha dispostos a isso. Houve sempre uma boa dose de sentimento pró-Canadá no Alasca, que ultimamente tem-se tornado mais intenso. E mais ainda, quer seja ou não de seu conhecimento, o movimento tem sua motivação na área oficial. Vocês não tem feito tanto pelo Alasca como esperavam seus habitantes que vivem agora desolados. Se ficarmos com eles, criaremos dois centros de Governo. Faremos de Juneau, ou talvez de Anchorage, uma Capital secundária do Canadá. Concentraríamos nossos esforços prioritariamente no desenvolvimento do Alasca. Daríamos a seus habitantes a sensação de não viverem mais à parte.

— Sinto muito, Jim — disse o Presidente categoricamente, — não posso aceitar tudo isso.

Era o momento, sabia Howden, de jogar sua cartada.

— Talvez você acreditará mais prontamente — anunciou tranquilamente, — se eu lhe disser que a primeira abordagem sobre o assunto não partiu do Canadá, mas do próprio Alasca.

— O Presidente levantou-se. Seus olhos estavam fixos nos de Howden.

— Explique-se, por favor — disse rispidamente.

— Há dois meses — declarou o Primeiro-Ministro, — fui procurado reservadamente por um porta-voz de um grupo de eminentes políticos do Alasca. A proposta que eu lhe fiz hoje é a proposta que me fizeram naquela ocasião.

O Presidente deixou sua escrivaninha. Aproximou-se de Howden e ficou com o rosto quase colado ao dele.

— Os nomes — disse. Seu tom de voz traduzia incredulidade. — Eu gostaria de saber os nomes.

Arthur Lexington tirou uma folha de papel. O Primeiro-Ministro a recebeu e a passou ao Presidente.

— Eis os nomes.

Ao ler, a estupefação estampou-se na face do Presidente, que no fim passou a lista para o Almirante Rapoport.

— Não tenho a menor dúvida... — pela primeira vez as palavras vinham com certa hesitação. — Não tenho a menor dúvida, dizia, de que esses nomes e a informação que lhe estou transmitindo constituam um grande choque para vocês.

James Howden ficou calado, esperando.

— Vamos supor — disse o Presidente calmamente, — mesmo por hipótese que haja um plebiscito, vocês perderão.

— Como já disse, não o creio. Apresentaríamos atraentes propostas específicas, do mesmo modo como vocês fizeram ao se tratar do Ato de União. E você mesmo exigiria um “sim” na base da unidade e da defesa americanas.

— Eu exigir? — o Presidente arregalou os olhos.

— Sim, Tyler — respondeu Howden firmemente, — isso faria parte de nosso acordo.

— Mas mesmo assim, vocês perderiam — persistiu o Presidente. — O voto poderia ser “não”.

— É evidente que se isso acontecesse, nós aceitaríamos o veredicto. Os canadenses acreditam também na autodeterminação dos povos.

— E nesse caso, em que ficaria o Ato de União?

— Não seria afetado — disse James Howden. — Com a promessa do Alasca... ou pelo menos do plebiscito... ganharíamos as eleições no Canadá e um mandato para o Ato de União. O plebiscito viria depois e qualquer que fosse o resultado, não se poderia tornar sem efeito o que já tivesse sido realizado.

— Bem... — o Presidente olhou para o Almirante Rapoport cuja face estava inescrutável. Em seguida, a meia-voz, como se estivesse pensando: — Isso significaria uma convenção constitucional no Estado... Se apresentasse isso ao Congresso quero crer que aquelas condições torná-la-iam discutível...

— Permita-me lembrá-lo de sua própria afirmação de indiscutível liderança no Congresso — observou Howden calmamente. — Se não me engano foram estas suas palavras. “Não há lei que eu queira que não possa obter.”

O Presidente bateu com um punho na palma de sua mão.

— Arre, Jim! Você está-se servindo das palavras de um homem contra ele próprio.

— Devo adverti-lo, Sr. Presidente — disse Arthur Lexington, — que esse senhor tem uma memória de gravador para palavras faladas. Às vezes, no Canadá, achamos isso incômodo demais.

— Por Deus, eu devia saber disso! Jim, permita-me fazer-lhe uma pergunta.

— Pois não.

— Por que acredita que possa lutar até o fim pelo que está exigindo? Vocês precisam do Ato de União e você sabe disso.

— Sim — respondeu James Howden, — acho que precisamos. Mas, francamente, acho que vocês precisam mais do que nós e, como você disse, o tempo é que conta.

Fez-se silêncio na pequena sala. O Presidente deu um suspiro profundo. O Almirante Rapoport, com um gesto de ombros, virou-se para um lado.

— Suponhamos, apenas por hipótese — disse o Presidente afavelmente, — que eu concorde com seus termos, sujeitos, naturalmente, à aprovação do Congresso. Como planeja tornar isso público?

— Uma comunicação à Câmara dos Comuns dentro de onze dias.

Fez-se mais uma pausa.

— Você compreende... estou apenas supondo... — as palavras saíam com relutância, com esforço. — Mas se tal acontecesse, eu seria obrigado a fazer uma idêntica comunicação diante de uma sessão conjunta do Congresso. Você vê que nossos dois pronunciamentos teriam de coincidir até em segundos.

— Perfeito — disse Howden.

Conseguira, sabia. Experimentou na boca o sabor da vitória.

Na cabina privada do Vanguard, Margaret Howden, elegantemente trajada num vestido novo azul-claro, com um chapéu de veludinha pousado delicadamente em sua bela cabeleira já grisalha, esvaziara o conteúdo de sua frasqueira sobre uma mesinha colocada na frente de sua poltrona. Arrumando notas americanas e canadenses amarrotadas — a maioria de pequeno valor — lançou um olhar no seu marido que lia absorto o editorial do Daily Star, de Toronto, do dia anterior. Há quinze minutos atrás, depois de uma cerimoniosa despedida do Vice-Presidente, abrilhantada pela guarda de honra dos fuzileiros navais americanos, partiram de Washington naquele voo especial. Agora, voavam suavemente por cima de cúmulos esparsos na direção do Canadá, na claridade de uma manhã ensolarada.

— Você sabe — disse Howden, passando as páginas do jornal, — muitas vezes me tenho perguntado por que não entregamos o poder aos editorialistas, para que governem o país. Eles tem solução para tudo. Embora, é claro, pensou, se governassem o país, houvesse sempre o problema de quem iria escrever os editoriais.

— Por que não haveria de ser você? — perguntou Margaret. Colocou as notas ao lado de uma pequena pilha de moedas de prata já contadas. Talvez só assim você e eu pudéssemos passar mais tempo juntos e eu não precisaria ir fazer compras para encher o tempo durante as viagens. Oh querido! Tenho a impressão de que fui muito extravagante.

Howden sorriu sem o querer. Abaixando o jornal, perguntou:

— Quanto?

Margaret conferiu o dinheiro que estivera contando com a soma de uma lista escrita a lápis, com os recibos anexos.

— Quase duzentos dólares — respondeu pesarosa.

Howden pensou em protestar delicadamente, mas depois se lembrou de que não tinha revelado a Margaret sua verdadeira situação financeira. Agora o dinheiro já estava gasto, que mais se poderia fazer? Além disso, uma discussão sobre suas finanças — o que sempre tornava Margaret preocupada — consumiria mais energia do que estava disposto a despender naquele momento. Ao invés, disse:

— Estou isento de taxas alfandegárias, mas você não. De modo que pode entrar com mercadorias até o valor de cem dólares, sem taxas, mas declare o resto e terá de pagar alguma coisa.

— Ah, isso não! — exclamou Margaret. — É a coisa mais absurda que já ouvi. Você sabe que o pessoal da alfândega nunca se aproximará de nós, a menos que você insista. Você tem direito a privilégios, por que não fazer uso deles? — como que instintivamente, cobriu com a mão as pequenas pilhas de dólares restantes.

— Querida — disse Howden pacientemente — não era a primeira vez que discutiam sobre o assunto — você sabe como penso a respeito dessas coisas. Acontece que acredito que eu deva proceder como um homem comum diante da lei.

Margaret ruborizou-se um pouco e disse:

— Tudo quanto posso dizer é que você está sendo absolutamente infantil.

— É possível — insistiu bondosamente. — Seja como for, é minha maneira de ser.

Mais uma vez experimentou a relutância de se deixar envolver em explicações mais profundas; de demonstrar a sabedoria política de ser honesto a toda prova nas pequenas coisas, evitando mesmo os pequenos contrabandos que a maioria dos canadenses praticava de vez em quando ao voltar de uma viagem ao exterior. Além disso, sabia plenamente como era fácil pessoas como ele na vida pública ser apanhado em pequenas e, às vezes, inocentes transgressões. Existiam mentes tacanhas, especialmente entre os partidos rivais, à procura do menor deslize que os jornais depois publicariam satisfeitos. Já vira políticos ser afastados da vida pública, cair na desgraça por causa de pequenas transgressões que em outros círculos não provocariam mais do que uma leve censura. Depois havia outros que durante anos e anos se locupletaram com dinheiro público, mas foram apanhados, geralmente por falta de cuidado, em coisas insignificantes.

Dobrou o jornal e o pos de lado.

— Não se exalte, querida, só porque vai pagar uma taxa. É só esta vez, num futuro próximo não haverá mais taxas nem processos alfandegários. Ele já havia exposto a Margaret, na noite passada, as linhas gerais do Ato de União.

— Bem — disse sua esposa, — quanto a mim creio ser a coisa mais acertada. Sempre achei ser uma imbecilidade haver tantas formalidades: abrir malas, declarar pertences, entre dois países tão intimamente unidos.

Howden sorriu, mas resolveu não explicar a Margaret a história das tarifas canadenses que tinham tornado possíveis os termos extremamente favoráveis do Ato de União. E foram termos realmente favoráveis, pensava ele, recostando-se comodamente em sua poltrona. Mais uma vez, como já fizera várias vezes nas últimas vinte e quatro horas, James Howden pensava no sucesso inconteste de suas negociações em Washington.

É claro, mesmo no fim, o Presidente não tinha assumido um firme compromisso sobre a questão do Alasca. Mas se comprometera com um plebiscito no Alasca, disso estava Howden convencido. A ideia, naturalmente, requeria tempo para ser aceita. Primeiramente, a proposta como um todo — como fora concebida originalmente pelo próprio Primeiro-Ministro — parecia ultrajante e impossível para Washington. Mas considerada cuidadosamente, era uma extensão lógica e razoável do Ato de União, em que o Canadá teria de ceder tanto.

Quanto ao plebiscito no Alasca, juntamente com o apoio que já tinha, o Canadá poderia tornar os termos de um “sim” tão atraente, que não correria qualquer risco de perder. Além disso, proclamaria de antemão uma generosa indenização para os habitantes do Alasca que preferissem não permanecer sob um novo regime, embora esperasse que a maioria certamente haveria de querer. Em todo caso, com o Ato de União em vigor, as fronteiras entre o Alasca, o Canadá e o restante dos Estados Unidos continentais seriam simplesmente imaginárias. A diferença no Alasca seria simplesmente a do Código Civil canadense e de novos governantes.

Um dos principais fatores que não tinha discutido com o Presidente era a possibilidade de o Canadá, apesar da suposta devastação, poder surgir, depois da guerra, como o sócio mais forte e mais importante do Ato de União. Mas quanto a isso e a seus efeitos práticos só o tempo poderia decidir.

Os motores a jato gemiam, enquanto o Vanguard voava para o norte. Olhando pela janela da cabina, Howden divisou ainda lá embaixo campos verdejantes.

— Onde estamos, Jamie? — perguntou Margaret.

Howden olhou o relógio.

— Deixamos há pouco Maryland, por conseguinte devemos estar sobre a Pensilvânia. Depois, só o Estado de Nova York e poucos minutos após o Canadá.

— Faço votos que não esteja nevando em Otawa — disse Margaret, afastando suas notas de compras e seus dólares. Gostaria que fosse esfriando gradativamente.

Howden pensou divertidamente: há coisas que gostaria de fazer também gradativamente. O ideal é que houvesse uma lenta e esmer