Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O Rancho / Danielle Stel
O Rancho / Danielle Stel

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O Rancho

 

          

 

Em qualquer outro supermercado, a mulher que caminhava por entre filas de prateleiras com produtos enlatados e doçarias de todos os géneros, empurrando um carrinho com compras, pareceria estranhamente deslocada. Tinha cabelo castanho, impecavelmente penteado, que lhe tocava nos ombros, uma pele bonita, grandes olhos castanhos, uma figura elegante e bonitas mãos, de unhas bem arranjadas. Vestia um fato de linho azul-escuro que parecia ter sido comprado em Paris. Calçava sapatos de salto alto, azuis, levava ao ombro uma mala Chanel igualmente azul, e tudo nela rondava a perfeição. Poderia facilmente afirmar que nunca estivera num supermercado, mas a verdade é que se sentia surpreendentemente à vontade ali. Com efeito, ia muitas vezes ao Gristede, em Madison, no seu caminho para casa. A maior parte das compras era feita pela empregada, mas Mary Stuart Walker gostava, talvez de uma maneira um pouco antiquada, de fazer as suas próprias compras. Tinha prazer em preparar o jantar para o marido e nunca haviam tido uma cozinheira, mesmo quando os filhos eram pequenos. Apesar do seu aspecto impecável, gostava de se ocupar da família e estar atenta a todos os detalhes.

 

O apartamento em que viviam ficava na Rua Setenta e Oito, com uma vista esplêndida sobre Central Park. Tinham passado ali os últimos quinze anos, embora tivessem casado quase há vinte e dois. Mary Stuart mantinha a casa sempre impecável. Os filhos por vezes gracejavam com ela por querer sempre tudo perfeito, tudo com uma aparência impecável, e, olhando-se para ela, não seria difícil imaginar que assim fosse. Tratava-se de uma segunda natureza para Mary. Até mesmo num quente dia de Junho, em Nova Iorque, após seis horas de reuniões, às seis da tarde, ela conseguia manter um aspecto fresco. Bastava-lhe retocar o baton e não tinha um só cabelo fora do lugar.

 

Mary Stuart escolheu dois bifes pequenos, batatas, espargos frescos, alguma fruta e iogurtes, recordando como outrora o seu carrinho das compras estava sempre cheio de guloseimas para os filhos. Dizia sempre desaprovar tal coisa, mas nunca conseguia resistir a comprar as coisas que anunciavam na televisão e que os filhos pediam. Não fazia mal dar-lhes essas pequenas satisfações e não via qualquer vantagem em não os deixar comer coisas que lhes agradavam ou em forçá-los a comer outras, talvez mais saudáveis, mas que eles detestavam.

 

Como a maioria das pessoas do seu meio que vivia em Nova Iorque, Mary e Bill tinham grandes esperanças para os seus filhos, altos padrões para tudo, classificações quase perfeitas, capacidade atlética, integridade total e grande moralidade. Na verdade, Alyssa e Todd eram bonitos, inteligentes e brilhantes tanto dentro como fora da escola. Eram, na realidade, pessoas muito decentes. Bill costumava gracejar com ela, dizendo aos filhos que a mãe esperava que eles fossem perfeitos. Na altura em que tinham dez e doze anos, Alyssa e Todd já não suportavam ouvir essa palavra. No entanto, sabiam que havia uma certa verdade nas palavras do pai. Compreendiam que elas significavam que teriam de fazer sempre o melhor que pudessem, tanto na escola como fora dela, e que, mesmo que nem sempre conseguissem ter sucesso, deviam esforçar-se ao máximo para isso. Era esperar muito deles, mas a verdade é que Bill sempre estabelecera altos padrões e eles tinham correspondido. Embora a me pudesse por vezes parecer rígida, o pai é que era o verdadeiro perfeccionista, quem esperava tudo deles e da mãe. Era Bill que fazia pressão sobre todos eles, não só sobre os filhos, mas também sobre a mulher.

 

Mary Stuart fora a esposa perfeita durante quase vinte e dois anos, dando-lhe um lar perfeito, filhos perfeitos, fazendo o que era esperado dela, recebendo com requinte e mantendo uma casa que não só os colocava nas páginas da Architectural Digest, como era também um lar feliz. Não havia nada de ostentativo na maneira de viver deles. Tudo era meticulosamente bem feito, mas de uma forma discreta. Mary Stuart dava a sensação de fazer tudo sem esforço, embora muitas pessoas se apercebessem de que o que ela fazia não era tão fácil assim. Mas essa era a sua dádiva para o marido. Dando a impressão de que tudo era fácil, Mary organizara, durante anos, acontecimentos com fins beneficentes, que rendiam milhares de dólares para obras de caridade importantes, fazia parte da administração de vários museus e trabalhava afincadamente para ajudar as crianças doentes, deficientes ou sujeitas a grandes privações. Agora, com quarenta e quatro anos, com os filhos praticamente criados, fazia também trabalho voluntário para prestar assistência a crianças com problemas físicos e emocionais num hospital de Harlém.

 

Era membro da administração do Metropolitan Museum of Art e do Lincoln Center e ajudava a organizar ocasiões especiais para recolha de fundos, porque toda a gente queria a sua colaboração. Mantinha-se extraordinariamente ocupada, especialmente desde que deixara de ter os filhos em casa, pois Bill ficava sempre a trabalhar até tarde no escritório. Bill era um dos sócios principais de uma firma de advogados de nível internacional em Wall Street. Era ele que tratava da maior parte dos casos importantes entregues à firma relacionados com a Alemanha e a Inglaterra. Tomara-se conhecido como um excelente advogado, muito conceituado, e as actividades de Mary Stuart também contribuíam para aumentar a sua boa reputação. Mary recebia com grande requinte os convidados do marido, como, de resto, sempre fizera, embora esse ano tivesse sido muito tranquilo. Bill passara a maior parte do tempo em viagens para o estrangeiro, sobretudo os últimos meses. Preparava um importante julgamento em Londres, que o fazia passar muito tempo longe de casa. E Mary Stuart ocupara-se mais do que nunca com o seu trabalho voluntário.

 

Alyssa fora nesse ano estudar na Sorbonne, por isso Mary tinha mais tempo livre. Isso dera-lhe oportunidade de fazer uma quantidade de coisas. Empenhou-se mais nas suas obras de caridade, leu muito e chegou a trabalhar para o hospital aos fins-de-semana. Mas algumas vezes deixava-se ficar na cama até tarde, aos domingos, lendo um livro ou devorando o New York Times. Tinha uma vida cheia e atarefada e ninguém seria capaz de imaginar que lhe faltava alguma coisa para se sentir feliz. Parecia ser pelo menos uns cinco ou seis anos mais nova do que realmente era, embora tivesse emagrecido nesse ano, o que poderia dar-lhe um ar mais envelhecido, mas não dava. O seu aspecto era o de uma mulher jovem. Havia nela uma meiguice que atraía, sobretudo as crianças com as quais trabalhava. Mary irradiava uma bondade genuína que lhe vinha da alma e transcendia as distinções sociais, fazendo com que as pessoas não se apercebessem do meio a que ela pertencia.

 

Mary Stuart tinha tudo o que quase todas as pessoas desejam, e, no entanto, quem a via, sentia nela uma pontinha de tristeza. Era uma espécie de compaixão que mais se sentia do que se via, talvez um sentimento de solidão, o que parecia estranho. Como poderia uma pessoa como Mary Stuart, com o seu aspecto, fortuna e família, sentir-se só? Quando alguém se apercebia dessa tristeza achava que se tratava de algo pouco provável e duvidava da sua própria intuição. Não havia qualquer razão para pensar que Mary Stuart se sentisse só ou triste e, no entanto, quem a observasse bem sabia que era isso que sucedia. Havia algo de trágico nela por detrás da sua aparência elegante.

 

— Como está Mistress Walker? — perguntou-lhe o homem que se encontrava na caixa, sorrindo. Gostava dela. Era bonita e mostrava-se sempre delicada. Mary perguntou-lhe pela família, pela mulher e pela mãe, que vivera muitos anos com eles, antes de morrer. Costumava ir ali com os filhos e agora ia sozinha, mas conversava sempre com ele. Seria difícil não simpatizar com ela.

 

— Estou bem, obrigada, Charlie. — Sorriu-lhe, o que a fez ainda mais jovem. Pouca diferença fazia de quando era nova e, quando por vezes ali ia, aos fins-de-semana, vestindo umas calças de ganga e uma simples blusa, parecia quase da idade da filha. — Hoje está calor, não está? — perguntou Mary, embora não se mostrasse encalorada. Isso nunca sucedia. No Inverno andava sempre bem vestida, apesar do frio brutal e da quantidade de agasalhos que as pessoas tinham de usar, as botas por causa da neve, os gorros, os lenços do pescoço. E no Verão, quando todos andavam esbraseados com o calor, ela mantinha o seu aspecto fresco e calmo. Era uma dessas pessoas que parecem nunca perder o controlo nem fazer nada mal feito. Certamente que nunca se zangava. Costumava vê-la sempre alegre e bem-disposta com os filhos. A filha era muito bonita. O filho parecia bom rapaz... todos eles eram boas pessoas. Charlie achava o marido um pouco empertigado, mas era a sua maneira de ser, certamente. Tratava-se de unia família simpática. Charlie calculava que o marido estivesse de regresso, pois ela comprara dois filets mignons.

 

— Dizem que amanha ainda vai estar mais quente — afirmou Charlie, metendo as compras num saco, vendo-a olhar de relance para o Enquirer e fazer uma careta de desaprovação. Tanya Thomas, uma cantora muito popular, vinha na capa. O título dizia: «Tanya está prestes a divorciar-se de novo. O romance com o treinador desfez o casamento.» Viam-se fotografias horríveis dela e do musculoso treinador. Outra mostrava o marido, fugindo da imprensa, escondendo a cara na altura em que desaparecia no interior de um clube nocturno. Charlie olhou para o título e encolheu os ombros. — Isso são coisas de Hollywood. Eles lá dormem todos uns com os outros. Nem sei como ainda se incomodam a casar-se!

 

Era casado há trinta e nove anos e para ele os caprichos de Hollywood eram histórias de outro planeta.

 

— Não acredite em tudo quanto lê — disse Mary Stuart com uma certa severidade. Charlie olhou-a e sorriu. Os bondosos olhos castanhos de Mrs. Walker estavam perturbados.

 

— A senhora está sempre a desculpar toda a gente, Mistress Walker. Acredite que eles não são pessoas como nós.

 

Sabia, porque iam à sua loja alguns clientes que eram estrelas de cinema e que apareciam constantemente com parceiros diferentes. Tratava-se de gente sem juízo, de pessoas muito diferentes de Mary Stuart Walker. Tinha a certeza de que ela nem sequer compreendia o que ele estava a dizer.

 

— Não acredite naquilo que lê nos tablóides, Charlie — repetiu Mary Stuart, com uma firmeza pouco habitual. Depois pegou no saco das compras e despediu-se com um sorriso.

 

O percurso até ao edifício onde ela morava era curto, mas apesar de já passar das seis horas ainda havia calor. Mary pensou que Bill chegaria, como de costume, por volta das sete horas e que lhe serviria o jantar cerca das sete e trinta ou oito horas, conforme lhe apetecesse. Decidiu meter as batatas no forno quando chegasse a casa. Teria tempo de tomar um duche e mudar de roupa depois disso. Sentia-se cansada e com calor, após um longo dia de reuniões, embora não o parecesse. O museu planeava uma grande operação para angariar fundos e queria para isso organizar um baile em fins de Setembro. Queriam que ela presidisse ao comité organizador, mas ela declinara o convite, preferindo ser apenas consultora. Não tinha disposição para organizar uma festa desse género e preferia trabalhar no hospital com crianças deficientes ou vítimas de abusos, em HarlémO porteiro cumprimentou-a quando ela entrou, tirou-lhe o saco das compras das mãos e entregou-o ao rapaz do elevador. Mary agradeceu e manteve-se silenciosa até chegarem ao andar onde ficava o seu apartamento. O prédio era antigo, sólido e bonito. Era um dos prédios da Quinta Avenida que ela preferia e a vista que se desfrutava das suas janelas era espectacular, sobretudo no Inverno, com o Central Park coberto de neve, formando um nítido contraste com a linha do horizonte. No Verão também era encantadora, com todo aquele verde. Do alto do décimo quarto piso tudo parecia bonito e tranquilo. Não se ouvia o ruído lá de baixo, nem a sujidade, nem o perigo. Era tudo belo e verde e as flores da Primavera tinham finalmente desabrochado, após um longo e frio Inverno.

 

Mary Stuart agradeceu ao rapaz do elevador por a ter ajudado a levar o saco e, depois de entrar em casa, dirigiu-se para a grande cozinha branca. Gostava de divisões amplas e de linhas simples e funcionais como aquelas. Além de três gravuras francesas emolduradas, a cozinha era totalmente branca, com paredes, pavimento e grandes balcões de granito branco. Essa mesma cozinha aparecera nas páginas da Architectural Digest cinco anos antes, com Mary Stuart sentada num banco, vestida com calças e uma camisola de angora, ambas igualmente brancas. Apesar de ela ali preparar excelentes refeições, era difícil acreditar que alguém lá cozinhasse.

 

A empregada já tinha saído e a casa estava mergulhada em silêncio. Mary Stuart guardou as compras, ligou o forno e ficou a olhar demoradamente para o parque. Dali via o campo de jogos onde as crianças brincavam, recordando o tempo em que passava longas horas ao frio, observando os filhos a brincar com os seus amiguinhos ou andar nos balouços ou no escorrega. Parecia-lhe ter sido há mil anos... há muito tempo... como é que tudo passara tão depressa? Tinha a impressão de ter sido ainda na véspera que todos estavam em casa, jantando em família, falando ao mesmo tempo das suas actividades diárias, dos seus planos, dos seus problemas. Sentia a falta até das discussões entre Alyssa e Todd, muito mais reconfortantes do que o silêncio. Seria um alívio quando Alyssa voltasse no Outono, para o seu último ano em Yale depois daquele ano em Paris. Pelo menos iria passar alguns fins-de-semana a casa.

 

Mary Stuart saiu da cozinha e dirigiu-se para a sala onde costumava trabalhar. Era ali que tinham o atendedor de chamadas e ela ligou-o para saber se tinha mensagens. Ouviu a voz de Alyssa. Sorriu imediatamente ao perceber que era a filha.

 

«Olá, mamã... tenho pena de a não ter apanhado em casa. Só queria falar consigo e saber como está. Aqui são dez horas e vou sair com uns amigos para beber um copo. Venho tarde, por isso não me telefone. Ligo-lhe no fim-de-semana. Ver-nos-emos dentro de poucas semanas... Adeus...» Depois, como se de repente se tivesse lembrado, acrescentou: «Gosto muito de si...» Ouviu-se então um estalido e ela desligou. O aparelho registava a hora e Mary Stuart olhou para o seu relógio, com pena de não ter falado com a filha. Eram quatro horas em Nova Iorque quando Alyssa lhe telefonara, duas horas e meia antes. Mary Stuart estava ansiosa por ir ter com ela a Paris, dentro de três semanas. Seguiria depois de carro para o Sul da França e em seguida para a Itália, de férias. Tencionava ficar lá duas semanas, mas Alyssa só queria vir passar alguns dias a casa antes de as aulas começarem, em Setembro, e já declarara que depois de acabar o curso queria ir viver para Paris. Mary Stuart nem queria pensar nisso agora. O último ano, passado sem ela, fora demasiado solitário.

 

«Mary Stuart...» Agora era a voz do marido. «Esta noite não vou jantar a casa. Terei reuniões até às sete horas e descobri agora que tenho de ir jantar com clientes. Chegarei por volta das dez ou onze horas. Lamento.» Ouviu-se um estalido e a voz desapareceu. Transmitida a informação, a voz calou-se. Provavelmente os clientes estavam à espera dele enquanto falava, e, além disso, Bill detestava máquinas. Dizia que a sua constituição era incapaz de se relacionar com elas e era-lhe impossível deixar gravada uma mensagem pessoal. Mary gracejava com ele por causa disso. Na verdade, costumava gracejar acerca de uma porção de coisas, embora ultimamente não tanto. Fora um ano muito difícil para eles. Tanta coisa mudara, tinham-se dado tantas alterações... tivera tantos desapontamentos... to grandes desgostos! E, contudo, exteriormente parecia tudo tão normal... Mary Stuart admirava-se de como isso era possível. Como é que uma pessoa com o coração destroçado podia continuar a fazer café, a abrir camas, a comprar lençóis, a assistir a reuniões. Levantava-se, tomava duche, vestia-se, deitava-se, mas uma parte de si própria morrera. Outrora admirava-se de como as outras pessoas conseguiam fazer tal coisa. Era algo que exercia sobre si uma fascinação mórbida. Mas agora sabia. As pessoas continuavam a viver. Tinham de o fazer. O coração continuava a bater e recusava-se a deixá-las morrer. Caminhava-se, falava-se, respirava-se, mas por dentro doía tudo.

 

«Olá», dizia a mensagem seguinte, «daqui fala Tony Jones. O seu VCR está reparado. Pode vir buscá-lo quando quiser.» Depois mais duas mensagens sobre reuniões que tinham sido alteradas. Uma questão relativa ao baile do museu e ao comité formado para a sua organização e umas perguntas feitas pela chefe das voluntárias de um abrigo de Harlem. Mary tomou nota das alterações e lembrou-se de que tinha de desligar o forno. Mais uma vez Bill não ia jantar a casa. Ultimamente fazia muito isso. Trabalhava de mais. Era assim que sobrevivia. E, à sua maneira, ela própria fazia o mesmo, com as suas infindáveis reuniões e comités.

 

Desligou o forno e decidiu preparar apenas uns ovos para o jantar, mas ainda não lhe apetecia comer e dirigiu-se para o quarto. As paredes eram de um amarelo muito claro, com uma orla branca, e a carpete era antiga, bordada à mão, comprada por si própria em Inglaterra. Nas paredes viam-se aguarelas e gravuras antigas, havia uma lareira de mármore, e, sobre ela, molduras de prata com fotografias dos filhos. Dos dois lados da lareira encontravam-se dois confortáveis cadeirões onde ela e Bill gostavam de se sentar, a ler, junto do calor da lareira. Agora passavam quase todos os fins-de-semana na cidade, como, de resto, sucedera durante todo o último ano.

 

Tinham vendido a casa de Connecticut no Verão anterior. Sem os filhos e com Bill a viajar constantemente, nunca lá iam.

 

«Hoje em dia a minha vida parece ter entrado num círculo cada vez mais fechado», dissera Mary Stuart a uma amiga. «Sem os filhos e com Bill sempre fora, tudo é demasiado grande para nós. Até mesmo o nosso apartamento nos parece grande de mais.» Porém, nunca teria coragem de o vender. Os filhos haviam crescido ali.

 

Quando entrou no quarto e pousou a carteira sobre a cama, os seus olhos dirigiram-se involuntariamente para a pedra da chaminé. Ainda era tranquilizador ver ali os filhos, quando tinham quatro, e cinco, e dez, e quinze... e o cão que fora deles quando eram pequenos, um grande lavrador amigável cor de chocolate, chamado Mousse. Como sempre, sentiu-se atraída por eles e ficou a olhar para as fotografias. Era tão fácil olhá-las, ficar parada a recordar. Era como voltar a outros tempos, e ela desejava muitas vezes regressar a essa altura em que todos os seus problemas eram simples. O rosto alegre, de cabelos louros, de Todd fitava-a quando era rapazinho e ela conseguia ouvi-lo chamá-la outra vez... ou a correr atrás do cão... ou a cair na piscina, quando tinha três anos, fazendo-a mergulhar completamente vestida. Nessa altura salvara-o. Sempre estivera atenta a ajudá-lo, a ele e a Alyssa. Havia uma fotografia de toda a família tirada três Natais antes, rindo, de braço dado uns com os outros, pulando, enquanto um fotógrafo exasperado lhes pedia para ficarem quietos durante um bocado para tirarem a fotografia.

 

Todd insistira em cantar canções atrozes e Alyssa ria histericamente. Até mesmo ela e Bill não conseguiam deixar de rir. Sempre fora bom estar com eles. Isso fez com que o som da voz de Alyssa no gravador, nessa noite, ainda se tomasse mais pungente. Então, como fazia sempre, Mary afastou-se, virou a cara aos pequenos rostos que simultaneamente a acariciavam e atormentavam, que lhe despedaçavam o coração e o apaziguavam. Sentia um aperto na garganta ao entrar na casa de banho para lavar a cara. Depois olhou-se ao espelho com severidade.

 

— Pára com isso!

 

Fez um aceno afirmativo com a cabeça, em resposta às suas próprias palavras. Sabia que não podia fazer isso. Ter pena de si mesma era um luxo que não estava ao seu alcance. Tudo quanto podia fazer era seguir em frente. Mas entrara num terreno que não lhe era familiar, com uma paisagem de que não gostava, árida e despovoada, por vezes de uma solidão insuportável. Em certas ocasiões pensava que chegara ali sozinha, mas sabia que Bill também lá se encontrava, perdido no deserto, algures, no seu inferno particular. Há um ano que o procurava e não o encontrara ainda.

 

Pensou então em preparar o seu próprio jantar, mas decidiu que não tinha fome e, depois de se despir e vestir umas calças de ganga e uma camisola cor-de-rosa, voltou para a salinha, sentou-se à secretária e começou a examinar alguns papéis. Ainda havia luz lá fora. As sete horas, Mary resolveu ligar para Bill para lhe dizer que recebera o seu recado. Tinham muito pouca coisa a dizer um ao outro, além de trocarem impressões sobre o trabalho dele e as reuniões dela, mas, de qualquer maneira, telefonou-lhe. Era preferível isso a afastarem-se definitivamente. Embora no último ano andassem perdidos, Mary Stuart não estava preparada para desistir e provavelmente nunca estaria. Não era próprio da sua natureza desistir, abandonar. Deviam muito mais do que isso um ao outro, depois de tantos anos de vida em comum. Quando o barco está prestes a naufragar, não é altura de abandonar o navio. No entender de Mary Stuart, era preferível ir para o fundo com o navio, se fosse preciso.

 

Marcou o número dele e ouviu o telefone tocar. Por fim uma secretária atendeu, afirmando que Mr. Walker ainda estava em reuniões e que lhe diria que ela telefonara.

 

— Obrigada — replicou Mary Stuart suavemente, desligando e fazendo rodar lentamente a cadeira para olhar de novo para o parque. Se quisesse poderia ver casais que passeavam tranquilamente, gozando a suavidade daquele pôr do Sol de Junho; mas não queria ver. Tudo o que lhe traziam presentemente era mágoa e recordações dos tempos em que era feliz com Bill. Talvez voltassem a sê-lo. Talvez... Pensou na palavra, mas não na inevitável conclusão se isso não sucedesse. Era impensável, e Mary recusou pensar nisso e voltou aos seus papéis. Trabalhou durante uma hora, enquanto o Sol desaparecia, fazendo listas para os comités e sugestões para o grupo com o qual se reunira nessa tarde. Quando olhou de novo para fora estava quase escuro e a noite aveludada pareceu engoli-la. O apartamento encontrava-se de tal modo silencioso, tão vazio, que sentiu vontade de gritar ou de chamar alguém. Mas não havia ali ninguém. Mary inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos. Então, como se a Providência a tivesse escutado e ainda se importasse com ela, do que duvidava, o telefone tocou.

— Está?

 

Na voz dela havia um tom de surpresa, pois fora arrancada de repente aos seus pensamentos. E ali, na sala fracamente iluminada pela última claridade do dia, com os cabelos um pouco em desordem, ela estava incrivelmente bonita.

 

— Mary Stuart? — A voz era suave e ligeiramente arrastada e ao ouvi-la Mary sorriu. Era uma voz que conhecia havia vinte e seis anos. Não a ouvia há meses, mas parecia estar sempre atenta quando precisava dela, como se soubesse o que se passava. Ambas partilhavam o elo poderoso de uma amizade antiga. — Es tu? De repente pareceu-me a voz de Alyssa.

 

A voz do outro lado do fio era feminina, profundamente sensual, e tinha ainda um leve sotaque texano.

 

— Não, sou eu. Ela ainda está em Paris. — Mary Stuart suspirou, como se sentisse uma forte mão puxá-la para a margem. Era espantoso como ela aparecia sempre nos maus momentos. Isso sucedera muitas vezes. Ajudavam-se uma à outra, como sempre sucedera. Ao pensar nisso, Mary Stuart recordou o que sucedera em Gristede. — Como estás? Li uma notícia a teu respeito num jornal. — Mary Stuart franziu a testa ao pensar no que lera.

 

— Bonito, não é? E o mais espantoso é que tenho uma treinadora. Despedi o tipo que aparece na capa do Enquirer o ano passado. Telefonou-me hoje, ameaçando processar-me, porque a mulher dele está furiosa com a notícia. Tem muito que aprender a respeito dos tablóides... — Ela própria aprendera isso do modo mais difícil. — Mas estou bem, sim, mais ou menos. — A voz suave e arrastada fazia com que a maior parte dos homens ficasse de cabeça perdida, e Mary Stuart sorriu quando a ouviu. A voz da amiga era como uma lufada de ar fresco numa sala abafada. Sentira isso logo que a conhecera. Tinham ido para a universidade ao mesmo tempo, vinte e seis anos antes, em Berkeley. Eram todas muito novas e tinham passado um tempo feliz e descuidado. Haviam formado um grupo composto por quatro raparigas, que se tomaram amigas inseparáveis. Mary Stuart, Tanya, Eleanor e Zoe. Durante os dois primeiros anos tinham sido companheiras de quarto nas instalações da universidade e depois dessa altura resolveram alugar uma casa em Euclid.

 

Durante quatro anos tinham sido inseparáveis, como se fossem irmãs. Ellie morrera no último ano e depois as coisas alteraram-se. Após estarem formadas cada uma seguira a sua própria vida. Tanya casara logo a seguir, dois dias depois da cerimónia da formatura. Casara com o seu namorado de sempre, que conhecia desde criança, pois vivia na mesma pequena cidade que ela, a leste do Texas. Casaram na igreja, mas o casamento durara apenas dois anos. Um ano depois do casamento a carreira meteórica de Tanya lançara-a para os píncaros da fama, despedaçando ao mesmo tempo o seu casamento. Bobby Joe conseguiu aguentar a situação durante mais um ano, mas era demasiado para ele. Estava completamente fora do seu elemento, e sabia-o. Já era suficientemente assustador ter casado com uma mulher educada e talentosa, mas estar casado com uma estrela era mais do que podia suportar. Tentou, tentou verdadeiramente compreendê-la, mas o que realmente desejava era que ela abandonasse tudo e ficasse no Texas com ele. Não queria sair da sua terra nem abandonar os negócios do pai.

 

Eram empreiteiros e os negócios corriam-lhes bem. Ele sabia o que podia e não podia fazer. E, na verdade, não podia suportar os tablóides, os agentes, os concertos, os gritos dos ias e os contratos de muitos milhões de dólares não eram coisa que ele quisesse, embora fossem tudo para Tanya. Esta amava Bobby Joe, mas não estava disposta a desistir de uma carreira com que sempre sonhara. Separaram-se depois do segundo aniversário do casamento e no Natal estavam divorciados. Bobby levara muito tempo a esquecê-la, mas voltara a casar e tinha seis filhos. Tanya vira-o uma ou duas vezes durante esses anos. Comentara que ele estava gordo, careca e tão simpático como sempre. Tanya dizia isso com uma pontinha de tristeza e Mary Stuart sabia que a amiga tinha consciência do preço a pagar pelo sucesso, pela sua fantástica carreira. Vinte anos depois de a ter começado era ainda a cantora mais popular do género country.

 

Mary Stuart e Tanya tinham permanecido amigas. A primeira casara um ano após ter concluído o curso, mas Zoe fora para a Faculdade de Medicina. Fora sempre ela a rebelde do grupo, a que se entusiasmava pelas causas revolucionárias. As outras costumavam arreliá-la, dizendo que fora para Berkeley com dez anos de atraso, mas era ela quem as unia, que queria que tudo fosse feito com lealdade e justiça e que lutava denodadamente pelas boas causas. Fora também ela quem encontrara Ellie morta e quem, apesar de chorar desesperadamente, tivera coragem de telefonar aos tios de Ellie. Tinham sido tempos terríveis para as três. Ellie fora a mais íntima de Mary Stuart. Era uma rapariga meiga, encantadora, cheia de ideias idealistas e de sonhos. Os pais tinham morrido num desastre de automóvel no ano anterior e as suas colegas da faculdade passaram a ser a sua família. Mary Stuart pensava muitas vezes se ela teria podido enfrentar as pressões da vida. Era tão delicada que quase parecia irreal, e, ao contrário das outras, que tinham os seus planos e os seus objectivos, era totalmente irrealista, uma verdadeira sonhadora. Morrera três semanas antes de acabar o curso. Tanya estivera prestes a adiar o casamento por causa disso, mas todas as amigas lhe disseram que Ellie não gostaria que o fizesse e Tanya achara que Bobby Joe seria capaz de a matar se ela adiasse o casamento. Zoe e Mary Stuart tinham sido as suas únicas damas de honor.

 

Na altura em que Mary Stuart se casara estava Tanya no Japão, para o seu primeiro concerto nesse país, e Zoe não pudera sair da escola. Mary Stuart casara em casa dos pais, em Greenwich.

 

Mary Stuart vira o segundo casamento de Tanya nos noticiários. Tanya tinha então vinte e nove anos, casara com o seu manager e a cerimónia decorrera calmamente em Lãs Vegas, seguida pêlos jornalistas, câmaras de televisão, helicópteros e todos os membros da imprensa existentes num raio de centenas de quilómetros em redor de Las Vegas.

 

Mary Stuart nunca gostara do segundo marido de Tanya. Dessa vez Tanya queria ter filhos, pretendia comprar urna casa era Santa Bárbara ou Pasadena e ter urna «verdadeira vida». A ideia era boa, mas o marido não pensava assim. Só se interessava por duas coisas: a carreira dela e o dinheiro dela. E fez tudo quanto pôde para favorecer uma e conseguir a outra. Tanya sempre dissera que profissionalmente ele fizera coisas muito boas por ela. Fizera mudanças que ela nunca poderia ter feito sozinha, arranjara-lhe contratos para concertos em todo o mundo, conseguiu-lhe contratos para gravações que bateram todos os recordes e fez com que ela passasse de uma grande estrela para uma verdadeira lenda. Depois disso, Tanya podia pedir tudo o que quisesse. Durante os cinco anos em que estiveram casados recebeu três discos de platina e cinco de ouro, e ganhou inúmeros Grammys e outros prémios musicais. Apesar da pequena fortuna com que ele ficou quando se separaram, o futuro de Tanya estava assegurado, a mãe dela vivia numa casa de cinco milhões de dólares, em Houston, e comprara à irmã e ao cunhado uma propriedade em Armstrong.

 

Ela própria possuía uma das mais bonitas casas de Bel Air e uma casa na praia, em Malibu, que lhe custara dez milhões de dólares e onde nunca ia. Mas o marido quisera comprá-la. Tinha dinheiro e fama, mas não tinha filhos. Depois do divórcio achou que precisava de uma mudança e começou a entrar em filmes. Fez dois filmes no primeiro ano e ganhou um Oscar no segundo. Aos trinta e cinco anos, Tanya Thomas tinha tudo quanto se pensasse que podia desejar. O que nunca tivera fora a vida que podia ter tido com Bobby Joe, afeição, amor e apoio, alguém que estivesse com ela, que se preocupasse com ela, que lhe desse filhos. Decorreram seis anos até Tanya casar pela terceira vez. O marido tinha uma importante firma de compra e venda de propriedades na área de Los Angeles e estava habituado a acompanhar starlets. Não restavam dúvidas de que ele ficara impressionado com a carreira de Tanya, mas mesmo Mary Stuart, que defendia sempre a amiga, tivera de admitir que ele era uma pessoa decente e que, obviamente, gostava muito dela. O que preocupava as amigas de Tanya era se o marido seria capaz de suportar a vida agitada da cantora, ou se isso seria demasiado para ele. Pelo que soubera nos três últimos anos, Mary Stuart tinha a impressão de que as coisas corriam bem e sabia melhor que ninguém, visto manter-se em contacto com a amiga nos vinte anos da sua carreira, que os títulos que apareciam nos tablóides nada significavam.

 

Mary sabia que uma das coisas que atraíra Tanya para Tony fora o facto de ele ser divorciado e ter três filhos, um com nove, outro com onze e outro com catorze anos. Tanya gostava muito deles. O mais velho e o mais novo eram rapazes e adoravam Tanya. A pequenita estava completamente encantada com ela, e nem podia acreditar que Tanya Thomas fosse casar com o pai. Dava a notícia a todas as suas amigas e começara até a tentar vestir-se como a madrasta, o que não era apropriado para uma criança de onze anos. Tanya ia muitas vezes fazer compras com ela, escolhendo coisas que lhe ficassem bem e fossem adequadas para a sua idade. Tinha muito jeito para crianças e falava em ter um bebé. Mas casara com Tony aos quarenta e um anos e hesitava em engravidar. Receava ser demasiado velha e Tony não se mostrava interessado em ter mais filhos, por isso Tanya nunca forçou o assunto. Já tinha bastantes preocupações, mesmo sem ser obrigada a negociar com Tony por causa de ter um filho.

 

Nos dois primeiros anos do casamento teve concertos atrás uns dos outros, quase ininterruptamente, a imprensa não a deixava em paz e foi forçada a enfrentar dois processos. Era um ambiente de fazer enlouquecer e não era propício para quem desejasse ter um bebé. Era mais fácil dedicar-se aos filhos de Tony, e foi o que fez de todo o coração. Ele chegou a dizer que ela era melhor mãe para eles do que a verdadeira mãe. Mas Mary Stuart reparara que, apesar do seu ar amigável e bem-disposto, deixava que Tanya tratasse de tudo sozinha. Era ela quem se preocupava com contratos, organização dos concertos, falar com os advogados, enfim, era ela quem tinha todas as angústias e preocupações. Ele tratava tranquilamente dos seus negócios ou ia para Palm Springs jogar golfe com os amigos. Estava menos envolvido na vida dela do que Tanya esperara que estivesse. Mary sabia melhor que ninguém como a amiga trabalhava duramente, como se sentia só, como eram brutais as exigências dos admiradores e dolorosas as traições. No entanto, Tanya raramente se queixava, e Mary admirava-a por isso. Mas aborrecia-a ver Tony acenar para as câmaras quando iam à cerimónia de atribuição dos Oscares ou dos Grammys. Parecia estar sempre por perto nas boas ocasiões, mas nunca nas más. Mary Stuart lembrou-se disso ao ouvir a amiga dizer que o antigo treinador lhe telefonara a ameaçá-la por causa da notícia nos jornais. Tanya sabia melhor que ninguém que era impossível lutar contra esses tablóides.

 

— Na verdade Tony também não ficou encantado — acrescentou calmamente Tanya. O tom da voz dela preocupou Mary Stuart. Parecia só e cansada. Consigo passava-se o mesmo, e bem sabia o que isso significava. — De cada vez que os jornais anunciam que eu tenho um novo romance, ele fica doido. Diz que o embaraço perante os amigos e não gosta disso. E eu dou-lhe razão.

 

Suspirou, mas nada havia a fazer. Não havia maneira de os deter. E a imprensa gostava de a atormentar. Tanya tinha uma figura espectacular, uma abundante cabeleira loura e uns enormes olhos azuis. Era difícil alguém acreditar que se tratava de uma mulher como outra qualquer e que preferia beber Dr. Pepper do que champanhe. Mas notícias como essa não os fariam vender jornais.

 

Tanya mantivera sempre o cabelo louro e os constantes e eficientes cuidados com a beleza faziam-na parecer muito mais nova. Dizia ter agora trinta e seis anos e conseguira com sucesso esconder os oito anos adicionais que ela e Mary Stuart tinham em comum. Mas, ao olhá-la, ninguém suspeitaria de que mentia.

 

— Eu também não fico satisfeita quando me atribuem um romance com alguém. Mas as pessoas que apontam são geralmente tão ridículas que nem me importo... a não ser por causa de Tony, claro. E também por causa dos garotos. E embaraçoso para eles e para todos. Tenho a impressão de que têm uma lista de casos possíveis no computador e, quando lhes apetece, escolhem nomes de duas pessoas ao acaso.

 

Tanya encolheu os ombros e pousou os pés sobre a mesinha que tinha à sua frente, franzindo o sobrolho enquanto pensava em Mary Stuart. Havia meses que não falava com ela.

 

Eram as duas mais amigas do antigo grupo. Sabia que Mary Stuart não falava com Zoe há anos e ela própria quase perdera o contacto com ela. Falavam-se uma vez por ano e trocavam cartões de boas-festas no Natal. Zoe afastara-se muito delas. Trabalhava num hospital de São Francisco, nunca casara nem tivera filhos. Era completamente dedicada ao seu trabalho e passava os tempos livres em clínicas gratuitas. Era um género de trabalho em que sempre acreditara. Tanya não a via há cinco anos, desde o seu último concerto em São Francisco.

 

— E tu, como vais? — perguntou subitamente Tanya a Mary Stuart. — Que tens feito?

 

Tanya percebeu o tom inquisitivo na voz da amiga e preparou-se para isso.

 

— Oh!, estou bem. Faço sempre as mesmas coisas. Comités, reuniões, trabalho voluntário em Harlém. Ainda hoje passei a tarde no Metropolitan, a tratar de uma grande campanha para a angariação de fundos que planeamos para Setembro.

 

A sua voz era calma e controlada, como de costume, mas para Tanya isso não chegava. Mary podia iludir muita gente, até mesmo Bill, por vezes, mas não Tanya.

 

— Não é a isso que eu me refiro. — Houve uma pausa, enquanto as duas mulheres ficaram sem saber bem o que dizer e Tanya esperava pela resposta de Mary Stuart. — O que eu quero saber é como te sentes de verdade.

 

Mary Stuart suspirou e olhou pela janela. Escurecera e estava sozinha no apartamento silencioso. Praticamente há mais de um ano que estava sozinha.

 

— Estou bem. — A voz tremeu-lhe, mas só ligeiramente. Estava melhor do que quando Tanya a vira, um ano antes, num desastroso dia de chuva, em que ela desejara que a sua própria vida tivesse acabado também. — Vou-me habituando. — Mas tanta coisa mudara... Muito mais do que ela tinha esperado.

 

— E Bill?

 

— Também está bem, creio. Nunca o vejo.

 

— Isso não me parece muito bem. — Houve outra longa pausa, mas elas estavam habituadas a isso. — E Alyssa?

 

— Acho que está boa. Gosta de Paris. Dentro de umas semanas vou lá ter com ela. Vamos passar um mês a percorrer a Europa. Bill tem um julgamento importante em Inglaterra e vai lá durante o Verão, por isso pensei em ir ter com ela. - Parecia mais feliz ao dizer aquilo e Tanya sorriu. Alyssa Walker era uma rapariga de quem gostava muito.

 

— Vais estar em Inglaterra com ele? — perguntou Tanya com a voz arrastada e suave.

 

Mary Stuart hesitou, e depois respondeu apressadamente:

 

— Não, não. Ficarei cá. Ele tem muito trabalho e não me pode dar atenção durante um caso daqueles. Além disso, tenho muito que fazer aqui.

 

«Muito que fazer aqui.» Mary sabia o que havia de dizer para encobrir os factos, para ocultar o seu desespero. Frases como: «Está tudo bem... ele é fantástico... está cheio de trabalho... está em viagem... tenho de ir à Baixa... à Europa ver a minha filha.» Era a política de ocultar, de dizer as palavras correctas para esconder a solidão, o silêncio, e ter um sítio para chorar em paz, longe dos olhares piedosos. Era uma maneira de afastar as pessoas sem lhes dizer como as coisas estavam realmente más.

 

— Tu não estás bem, Mary Stuart — prosseguiu Tanya com a determinação que todos lhe conheciam. Não deixaria nenhuma pedra por virar até descobrir a verdade, a resposta, o culpado. Era essa determinação que ela e Zoe tinham em comum. Mas Tanya fora sempre muito mais subtil e muito mais afável quando descobria o que desejava. — Porque não me dizes a verdade, Stu?

 

— Estou a dizer a verdade Tan — insistiu Mary. Stu... Tan... Tannie... os nomes de antigamente... as promessas... as esperanças... o início. Agora parecia-lhes aproximar-se o fim, com tudo a desabar... com tudo a fugir-lhes e nada a encontrar. Mary Stuart detestava essa sensação na sua vida. — Estamos bem, é verdade — insistiu.

 

— Estás a mentir, mas não sei se te hei-de censurar por isso. Tens as tuas razões.

 

Era essa a diferença entre Zoe e Tanya. Zoe nunca a deixaria mentir, ocultar. Sentir-se-ia na obrigação de a fazer expor os seus problemas, lançar uma luz forte sobre o seu desgosto, para o poder curar. Tanya, pelo menos, achava que ela não podia fazê-lo. Também Tanya tinha agora as suas preocupações.

 

A imprensa mentia a respeito de ela ter um romance com outro homem, mas não andavam longe da verdade ao afirmarem que o seu casamento com Tony estava periclitante. Embora durante algum tempo ele tivesse achado uma certa graça à aura de sucesso que rodeava Tanya e que irradiava também sobre ele, há muito que começara a aborrecer-se de ter sempre as atenções dos jornalistas focadas sobre a sua vida privada. Era embaraçoso e doloroso, impedindo-os de ter uma vida familiar tranquila. Ultimamente, Tony não cessava de se queixar, e Tanya dava-lhe razão, mas não queria abandonar a sua carreira e, não o fazendo, era impossível alterar aquele estado de coisas. Apenas podiam fugir dali de tempos a tempos, mas uma viagem ao Hawai, ou mesmo a África ou ao Sul da França, não solucionava coisa alguma. Proporcionava-lhes umas tréguas, uns momentos de descanso, mas nada mais do que isso.

 

Por mais absurdo que parecesse, o sucesso fenomenal de Tanya, a sua celebridade, os milhões de admiradores que a adoravam faziam dela uma vítima. E, pouco a pouco, Tony começara a detestar tudo aquilo. De momento Tanya apenas lhe podia prometer ser o mais discreta possível. Nem sequer fora ao Texas ver a mãe, na semana anterior, com receio de alimentar os rumores se saísse da cidade. Tony declarava constantemente que a pressão sobre ele e os filhos era demasiada e Tanya sentia-se tomada de pânico ao ouvir isso, especialmente por não estar nas suas mãos fazer fosse o que fosse para alterar a situação. Os seus problemas tinham todos uma origem exterior.

 

— Estou a telefonar-te porque vou a Nova Iorque na próxima semana — explicou Tanya. — Pensei que com a tua vida atarefada fosse preciso marcar um encontro contigo, pois, caso contrário, poderias estar a jantar com o governador para obteres fundos para uma das tuas causas.

 

A verdade é que Tanya se mostrara sempre incrivelmente generosa para com os grupos que mais preocupavam Mary Stuart, e por duas vezes oferecera espectáculos cujos lucros reverteram a favor dessas obras. Mas ultimamente não o pudera fazer. O seu tempo estava demasiado ocupado. Parecia nunca ter um momento para si própria. O seu actual agente e manager eram mais exigentes do que quaisquer outros e arranjavam-lhe cada vez mais concertos. Ganhavam fortunas com discos gravados durante os concertos, direitos sobre a utilização do nome dela em bonecas, em perfumes e outros artigos, e Tanya era cada vez mais solicitada. Eles queriam explorar esse rico filão, mas, de momento, Tanya estava mais interessada em entrar noutro filme.

 

— Vou participar num espectáculo televisivo em Nova Iorque — disse ela —, mas estou em negociações com um agente para escrever um livro. Recebi um telefonema de um editor. Creio que não estou interessada, mas, em todo o caso, irei falar com eles. Que mais terão a dizer a meu respeito?

 

Já tinham sido publicadas quatro biografias não autorizadas, todas elas cruéis e cheias de inexactidões, mas Tanya não dava grande importância a isso. Quando saíra a primeira, o que lhe causara um choque terrível, telefonara a Mary Stuart a meio da noite, para que a amiga a pudesse reconfortar. Tinham-se apoiado mutuamente no decorrer dos anos e agora tinham a certeza de que assim seria sempre. Era uma amizade firme, com profundas raízes, impossível de surgir quando já não se é tão novo. Elas eram amigas desde a adolescência e as raízes dessa amizade tinham-se entrelaçado de tal modo que era impossível separá-las. A amizade delas era das que não podiam morrer.

 

— Quando é que chegas? Vou esperar-te ao aeroporto — propôs Mary Stuart.

— Não. Passarei por tua casa e poderemos ir para o hotel conversar. Chegarei terça-feira. — Tanya viajaria no avião da companhia discográfica, como sempre. Era como se tivesse um carro à sua disposição e a maneira prática que ela tinha de viajar divertia sempre Mary Stuart. — Telefono-te do avião — concluiu Tanya.

 

— Estarei à tua espera — insistiu Mary Stuart, sentindo-se como se fosse uma rapariga. Havia qualquer coisa na maneira como Tanya a animava que a fazia sentir novamente jovem, em vez de parecer que tinha mil anos. Sorriu à ideia de voltar a ver a amiga. Não a via há imenso tempo. Nem sequer se recordava de quando a encontrara pela última vez, embora Tanya se recordasse nitidamente.

 

— Adeus, garota, até terça — disse Tanya, sorrindo do seu lado da linha. Depois, mostrando-se mais grave e com a sua meiguice de sempre, acrescentou: — Gosto muito de ti.

 

— Eu sei. — Mary disse que sim com a cabeça, enquanto os olhos se lhe enchiam de lágrimas. As palavras de carinho é que Mary Stuart não conseguia tolerar. Era muito mais fácil enfrentar a solidão. — Também gosto muito de ti — murmurou, sufocada com as suas próprias palavras. — Desculpa... — Fechou os olhos, lutando contra a emoção que a invadia.

 

— Não, não te desculpes... está tudo bem... eu sei... eu sei...

 

Mas a verdade é que não sabia. Ninguém sabia. Era impossível alguém compreender o que ela sentia nesse momento. Nem sequer o marido.

 

— Até para a semana. — A voz de Mary Stuart parecia calma outra vez, mas Tanya não se deixou iludir. Havia um dilúvio de angústia por detrás do dique que Mary Stuart construíra para dominar a sua dor e Tanya não pôde deixar de pensar por quanto tempo é que a amiga poderia aguentar tal situação.

 

— Até terça. Veste umas calças de ganga. Vamos comer um hambúrguer a qualquer sítio ou pedimos que nos levem qualquer coisa ao quarto para conversarmos à vontade. Adeus.

A comunicação acabou e Mary Stuart ficou a pensar na amiga, nos tempos de Berkeley, antes de cada uma ter seguido a sua vida, com as suas alegrias e as suas tristezas. Tudo fora tão fácil então... até Ellie ter morrido, antes do fim do curso. Fora essa a entrada na vida real, e, ao pensar nisso, Mary olhou para uma fotografia colocada sobre a sua mesa-de-cabeceira, uma foto das quatro no primeiro ano. Agora pareciam-lhe crianças, mais novas mesmo do que a sua própria filha. Tanya com os seus longos cabelos louros, sex e sensacional Zoe com o seu rabo-de-cavalo ruivo, com um ar sério e intenso, Ellie, frágil, com uma auréola de caracóis louros, e ela própria com grandes olhos e pernas longas, de cabelo escuro e comprido, fitando directamente a câmara. Parecia-lhe ter sido há um século, e fora. Ficou a pensar nelas durante muito tempo e acabou por adormecer, completamente vestida.

 

Quando Bill chegou, às onze horas, encontrou-a ali. Ficou a olhá-la durante algum tempo e depois apagou a luz. Não lhe falou nem lhe tocou e ela dormiu, com as calças de ganga e a camisola cor-de-rosa, durante toda a noite. Quando acordou, na manha seguinte Bill já tinha voltado para o escritório. Limitara-se a passar por ela de novo, como um estranho, o que ele agora era.

 

Quando Tanya Thomas acordou, no seu quarto da casa de Bel Air, na manhã seguinte Tony já estava a tomar duche. Partilhavam o mesmo quarto e dois quartos de vestir separados, com a respectiva casa de banho. O quarto era grande e arejado, com uma mobília francesa antiga e enormes cortinados de seda cor-de-rosa, com metros e metros de tecido com flores. O quarto de vestir e a casa de banho eram de mármore rosa, com cortinados da mesma cor. Na casa de banho de Tony predominavam o mármore preto e o granito. Toalhas pretas e cortinas de seda preta davam-lhe um aspecto totalmente masculino.

 

Tanya comprara a casa havia alguns anos e quando casara com Tony mandara-a decorar de novo, conforme o gosto dele. Apesar de Tony ser também uma pessoa com êxito na sua vida profissional, Tanya sabia que gostava de exibir um pouco a celebridade dela. O ambiente de Hollywood sempre o atraíra e, após andar vários anos em seu redor, ser de repente catapultado para o seu centro parecera-lhe extraordinário. Apreciava muito mais do que Tanya comparecer às festas de Hollywood, conversar com as estrelas de cinema, assistir à entrega dos Oscares e dos Globos de Ouro, e especialmente frequentar os salões de Barbara Davis. Após dezoito horas de trabalho, Tanya preferia ficar em casa, mergulhar num banho quente e ouvir música cantada por outra pessoa.

 

Tanya vestiu um roupão de cetim cor-de-rosa por cima da camisa de noite de renda e desceu para preparar o pequeno-almoço para o marido. Havia ali outras pessoas que poderiam fazer isso, mas Tanya gostava de ser ela a prepará-lo e sabia que Tony ficava satisfeito com essa atenção da sua parte. Tanya era uma boa cozinheira e gostava de cozinhar. Quando podia, preparava refeições para os filhos dele. Fazia uns bifes excelentes e dera-lhes a provar papas de aveia. Eles gracejavam com ela por causa disso, mas gostavam. Também costumava preparar pratos com massa. Havia uma quantidade de coisas que ela gostava de fazer com Tony. Gostava de fazer amor com ele, de estar sozinha com ele, de viajar, de descobrir novos sítios na sua companhia, mas nunca tinha tempo suficiente. Havia sempre ensaios, gravações, filmagens e concertos, festas de beneficência, além de inúmeras horas passadas a examinar documentos e contratos com os seus advogados. Tanya era agora mais do que uma actriz ou uma cantora, era um império, uma indústria, e aprendera muito acerca dos negócios, da maneira mais dura.

 

Enquanto esperava por Tony, fez sumo de laranja e partiu os ovos para a frigideira, onde a manteiga alourava. E, enquanto metia as torradas na torradeira e ligava a máquina do café, ia abrindo o jornal matutino. Sofreu um choque ao ler uma das notícias da primeira página. Tratava-se de um seu antigo empregado, que afirmava ir processá-la por assédio sexual. A notícia apanhou-a de chofre, mas, ao ler o artigo, reconheceu o nome do guarda-costas que tinham tido durante duas semanas no ano anterior, e que fora despedido por roubar. Dera uma longa entrevista ao jornal, afirmando que Tanya tentara seduzi-lo e, como ele a repelira, fora despedido sem qualquer razão ou explicação.

 

Ao ler o artigo, Tanya compreendeu, com uma sensação de desgosto, que, como em todos os processos que lhe eram movidos, acabaria por pagar o que o homem pedia, para acabar com o assunto. Parecia não haver qualquer maneira de se defender, de provar que era inocente e que as acusações que lhe faziam não passavam de mentiras, de uma forma de fazer chantagem. Tanya sabia que o marido compreendia isso e era sempre ele o primeiro a aconselhá-la a pagar, por mais indigno que fosse o ataque ou o pedido de indemnização. Era mais simples dessa maneira. Mas sabia bem que Tony ficaria lívido ao ver o jornal. Dobrou-o cuidadosamente e escondeu-o. Passado um momento, Tony entrou na cozinha vestido para ir jogar golfe.

 

— Não vais trabalhar hoje? — perguntou Tanya, partindo um abacate e tentando mostrar-se descontraída.

— Onde é que tens estado nos últimos três anos? — perguntou ele, admirado. — Sabes perfeitamente que jogo golfe às sextas-feiras.

 

Tony era um homem bem-parecido, com cabelo escuro e constituição atlética, para os seus quarenta e oito anos. Jogava muito ténis e golfe e fazia exercícios no ginásio que mandara construir numa das extremidades da casa. Tinha o seu treinador particular, que não era aquele que aparecera recentemente nos tablóides.

 

— Onde está o jornal? — perguntou, sentando-se e olhando à sua volta. Lia todas as manhas o Los Angeles Times e o Wall Street Journal. Era um excelente homem de negócios e fizera fortuna com a sua firma de compra e venda de propriedades numa altura de grande prosperidade. Mas Tanya não tinha qualquer interesse pelo dinheiro dele. O seu temperamento carinhoso é que primeiro a atraíra; a sua honestidade, o valor que dava à família, aos filhos. Para ela Tony era uma pessoa comum, que ia todos os dias para o trabalho, regularmente, e que jogava à bola com os filhos aos fins-de-semana. E gostava particularmente do facto de ele não estar metido no «negócio». O que ela não poderia ter imaginado é que ele gostava da vida de Hollywood muito mais do que ela própria, embora não estivesse disposto a pagar o preço desse estilo de vida. Gostava do brilho, mas não do preço a pagar por ele. Mas Tanya sabia que não se podia ter um sem o outro. Com efeito, Tony queixava-se constantemente das provocações que tinham de suportar e das histórias ultrajantes que apareciam nos jornais.

 

«Não se pode ter as duas coisas», explicara-lhe. «Não se pode ter a glória sem o trabalho», dissera ela meigamente, prometendo retirar-se quando a imprensa voltasse a fazer-lhe acusações acerca dos seus antigos namorados. Mas Tony insistira para que ela não se retirasse. Achava que se aborreceria. Sugerira também que tivessem um filho e abandonassem tudo. Mas ele gostava do que ela fazia, tal como Tanya, por isso continuaram a resistir aos ataques da imprensa, às ameaças de morte, aos processos. Tanya continuava a recusar-se a ter guarda-costas a tempo inteiro, contratando apenas um quando tinha de usar uma grande quantidade de jóias que não lhe pertenciam.

 

— Então onde está o jornal? — repetiu Tony, começando a comer os ovos e olhando-a, percebendo imediatamente que algo se passava. — O que tens?

 

— Nada — respondeu Tanya, servindo-se de café.

 

— Então, Tanya — disse ele, mostrando-se aborrecido. — Está escrito na tua cara. Não ganharias um Oscar com esta representação.

 

Sorriu tristemente e encolheu os ombros. De qualquer modo, ele acabaria por descobrir. Só não queria que conhecesse a notícia enquanto tomavam o pequeno-almoço. Sem dizer uma só palavra, Tanya entregou-lhe o jornal, ficando a observá-lo enquanto ele o lia. Viu os músculos do pescoço e do queixo dele agitarem-se e não o ouviu dizer uma palavra até acabar de ler. Depois olhou-a com uma expressão sombria.

 

— Isto vai-te custar caro. Tenho ouvido dizer que o assédio sexual agora vale muito. — Falara sem qualquer emoção, mas era fácil perceber que estava furioso. — O que é que lhe disseste? — Os seus olhos fitaram-na fixamente e ela olhou para o marido com assombro.

 

— O que é que eu lhe disse? Estás louco? — Tanya olhou para o marido com espanto. — Achas que eu lhe disse alguma coisa? Apenas lhe disse onde era o estúdio e a que horas era o ensaio. Foi isso que eu lhe disse. Como é que... podes perguntar-me uma coisa dessas?

 

Havia lágrimas nos olhos dela ao fitá-lo e Tony bebeu um gole de café com ar comprometido.

 

 

— Só estava a ver se tinhas dito alguma coisa ao homem que lhe tivesse servido para inventar esta história. Que diabo, ele faz declarações espantosas!

 

— E o que sucede sempre. Trata-se de ganância e inveja. Sabe que há dinheiro e quere-o. Acha que pode causar-me embaraços e que lhe vou pagar para ele se calar.

 

Já passara muitas vezes por situações daquelas, sendo processada com falsas acusações, com ilegalidades, a pretexto de falsos acidentes, por parte de antigos empregados. Todos esperavam ganhar alguma coisa com os processos que lhe moviam. Não era nada que surpreendesse em Hollywood, mas quando sucedia não era agradável. E embora compreendesse as razões por que aquilo acontecia Tony não gostava. Dizia ser embaraçoso para ele e para os filhos. Afirmava que se tornava ridículo aos olhos das outras pessoas e que até a sua ex-mulher tinha razão para se queixar, e ele não tinha necessidade de que tal coisa se desse. Tanya sabia muito bem qual a reacção de Tony a essas histórias. Primeiro fingia não se incomodar com elas, e depois ia-se tornando cada vez mais desagradável à medida que a questão se desenrolava, acabando por fazer pressão sobre Tanya para que os advogados resolvessem rapidamente o assunto, pagando. E entretanto procedia como se fosse ele a parte ofendida. Depois de a ter castigado durante algum tempo, vinha, eventualmente, a perdoar-lhe. O processo repetia-se com frequência, e Tanya não gostava nada disso.

 

— Vais pagar-lhe para ele se calar? — perguntou ansiosamente.

 

— Ainda nem sequer falei ao meu advogado. Soube pelo jornal, tal como tu.

 

— Se tivesses feito bem as coisas quando o despediste, nada disto teria sucedido — replicou Tony, vestindo o casaco e falando junto da porta.

 

— Isso não é verdade, e tu bem o sabes. Não é a primeira vez que passamos por isto. São ossos do oficio e não o posso evitar, faça o que fizer. — Agira sempre de forma muito cuidadosa e circunspecta, mas isso de nada lhe servia. Nunca fora promíscua, nunca tomara drogas, não se portara mal, nem tratara mal os seus empregados, e nunca se embriagara em público. Mas, por mais que se fizesse ou não fizesse, as pessoas com o género de vida dela tinham sempre de enfrentar problemas daqueles, e, na maior parte dos casos, o público acreditava no que lia ou ouvia. E muitas vezes sucedia o mesmo com Tony.

 

— Já não tenho a certeza se sei o que fazes — disse ele, mostrando-se zangado. Detestava os embaraços que ela lhe causava. Tony deu meia volta e saiu. Poucos minutos depois ela ouviu o carro afastar-se a toda a velocidade.

 

Ligou para o seu advogado, Bennett Pearson, e este pediu-lhe desculpa. Recebera os jornais tarde, na véspera, e não tivera tempo de lhe telefonar para a avisar.

 

— Foi uma bela surpresa receber a notícia inesperadamente ao pequeno-almoço — disse ela, de forma bem texana. — Para a outra vez gostaria de ser avisada. Como sabe, Tony não aprecia grandemente este género de notícias.

 

Na semana anterior fora a história do seu treinador, no Enquirer, e agora era o guarda-costas. Além de ser alvo de chantagem e de processos de diferentes géneros, Tanya era também uma sex simbol e os jornais gostavam de publicar tudo o que podiam sobre ela. Quando desligou o telefone, depois de falar com o advogado, Tanya tinha os olhos cheios de lágrimas. O guarda-costas insistia em que ela lhe fizera propostas, o embaraçara, e que isso lhe provocara danos emocionais. E arranjara um psicanalista qualquer que se prontificava a testemunhar por ele. Segundo afirmavam os seus advogados, o que se estava a passar nada tinha de inusitado, mas ela lembrava-se de que o tipo era verdadeiramente manhoso e provavelmente continuaria a acusá-la. Nos primeiros anos da sua carreira talvez Tanya tivesse chorado lágrimas amargas por causa daquilo, mas haviam decorrido vinte anos e todos aqueles processos lhe eram familiares. E ela sabia porque aquilo sucedia. Tinha sucesso e era forte, conseguindo manter-se no topo da carreira com muito trabalho e uma incrível determinação. Havia pessoas que a invejavam, imensa gente frustrada que se sentia feliz por a atacar e denegrir. Não se tratava, de facto, de um procedimento muito ético, mas era, com certeza, vulgar.

 

Tanya perguntara ao advogado o que é que achava que ele podia fazer, e ele dissera-lhe para o esquecer. Ele trataria de tudo e estava certo de que, após a explosão inicial, o cavalheiro em questão estaria ansioso por ser pago para se calar. Tinha a certeza de que era, na verdade, o que ele queria e avisou-a de que uma indenização por assédio sexual poderia atingir facilmente milhões de dólares.

 

— Formidável! Que quer então que eu faça? Porque é que não hei-de dar-lhe a casa de Malibu? Pergunte-lhe se ele gosta de sol. Ou talvez prefira a casa de Bel Air, embora seja um pouco mais pequena.

 

Era-lhe impossível não ser sarcástica e ainda mais impossível não se sentir furiosa, defraudada e atraiçoada por pessoas dispostas a fazer-lhe mal, apesar de não a conhecerem. De certo modo, os ataques que lhe faziam eram tão óbvios e impessoais como um tiroteio ao acaso sobre pessoas que passassem na rua.

 

Eram agora nove horas e a sua secretária chegara, uma rapariga desembaraçada chamada Jean, que trabalhara anteriormente para o presidente de uma companhia discográfica e que há mais de um ano trabalhava para Tanya. Era eficiente e de confiança, mas Tanya não gostava da maneira que tinha de criar constantemente um ambiente de urgência em volta dela, em vez de tentar diminuí-lo. E fez exactamente isso nessa manhã. Na primeira hora que ali esteve, houve três telefonemas de Nova Iorque, dois de revistas femininas, pedindo entrevistas, e outro do estúdio de televisão onde ela iria aparecer. O advogado também lhe telefonou duas vezes e o agente ligou para a pressionar a tomar uma decisão sobre a sua próxima tournée de concertos. Tanya ainda não se comprometera, mas eles queriam saber imediatamente o que ela decidira, porque seria impossível incluir o Japão se não o fizesse. O agente que tinha em Inglaterra também lhe telefonou por causa de um contrato. Souberam que iria aparecer nova história noutro jornal e falaram por causa de um problema técnico e avisando-a de que teria de estar no estúdio para gravar ao meio-dia e que teria ensaios nessa noite para um espectáculo de beneficência. E o seu agente de cinema telefonou também para lhe falar de outro filme.

 

— Meu Deus, o que está a acontecer hoje? E lua cheia ou toda a gente nesta cidade perdeu a cabeça? — Tanya afastou o comprido cabelo louro com uma das mãos, enquanto Jean lhe entregava uma chávena de café e lhe lembrava que precisava de dar uma resposta acerca da tournée antes das quatro horas.

 

— Não sou obrigada a fazer tudo, e se não incluírem o Japão, paciência. Não estou disposta a deixar-me pressionar para tomar uma decisão antes de estar preparada para isso.

 

Tanya proferiu as últimas palavras com ar zangado, o que era incaracterístico nela. Geralmente era bem-disposta, mas a pressão que exerciam sobre ela era suficiente para provocar uma erupção num vulcão, e Tanya era um ser humano e não podia suportar tudo.

 

— E a respeito da entrevista para a Viei. Eles precisam de uma resposta esta manhã.

 

— Porque não falam com os meus relações públicas? — replicou Tanya, sentindo-se cada vez mais enervada. — Não deviam telefonar-me directamente. Porque não lhes diz isso?

— Tentei, mas não ligaram. Sabe como é, Tanya... Quando descobrem o seu número todos querem falar directamente consigo!

 

— Sim, e eu também. — Era Tony. Regressara de jogar golfe e encontrava-se parado à entrada do escritório dela, não parecendo nada satisfeito. — Posso falar um minuto contigo, Tan?

 

— Com certeza — respondeu Tanya, olhando-o e sentindo-se subitamente nervosa. Tinha de estar no estúdio dentro de meia hora, e ele não estava disposto a esperar nem mais um minuto. O que quer que fosse que o preocupava era urgente.

 

Jean deixou-os sós e Tanya esperou que Tony se sentasse. Parecia ter algo importante a dizer-lhe e ela não sabia se estaria preparada para o ouvir.

 

— Passa-se alguma coisa? — perguntou, num sussurro ansioso.

 

— N... não... — respondeu ele com um suspiro, olhando para fora através da janela. — Não mais do que o habitual. E quero que me compreendas. — Voltou-se e fitou-a. Tanya percebeu que ele ainda estava muito zangado, que se sentia traído, não só por ela, ou pela história do guarda-costas, mas pelo facto de a vida deles estar sempre sujeita a esse género de coisas e não haver maneira de fugir a tal tortura. Como celebridades, não tinham direito a privacidade, nem sequer à honestidade, e cada história inventada sobre ela e relatada na imprensa tinha a protecção da Constituição.

 

— Não estou zangado com o que li hoje no jornal. — Tony mentia mais para si próprio do que para a mulher, mas gostava de pensar que estava a ser justo para com Tanya, mesmo quando isso não sucedia. — Não é muito pior do que qualquer outra coisa que tenham dito a nosso respeito. Sinto um grande respeito por ti, Tan. Não sei como consegues suportar tanta coisa. — No Natal anterior tiveram que arranjar guarda-costas para todos eles, incluindo os filhos, pois haviam recebido sérias ameaças de morte, especialmente Tanya, e a ex-mulher de Tony ficara muito preocupada. — Considero-te uma mulher fantástica. — Mas Tanya não gostou do modo como ele a olhou ao falar. Os seus olhos dizia tudo, e havia mais de um ano que ela se apercebera do que ia suceder. Tony estava farto de tudo aquilo e a verdade é que queria afastar-se. O mal é que ela não podia. A diferença era essa. Mesmo que Tanya decidisse retirar-se nessa mesma tarde, aquele género de coisas continuaria a persegui-la durante muito tempo, talvez para sempre, e ela sabia-o.

 

— O que é que me estás a querer dizer? — Tanya tentou não se mostrar sarcástica, mas era difícil. Já passara mais vezes por situações semelhantes, de várias maneiras e com pessoas diferentes. Disse a si própria que estava preparada, mas no fundo do seu coração sabia que não era verdade. Não era possível deixar de ter esperança, deixar de pensar que dessa vez seria diferente, que ele seria suficientemente forte, que se preocuparia com ela e quereria ficar a seu lado para a ajudar. Era tudo o que ela desejava, talvez mesmo mais do que ter filhos, um relacionamento sólido, verdadeiro, com um homem que a apoiasse nos momentos difíceis, porque eles apareciam sempre. Dissera tudo isso a Tony no início. E ele mantivera-se firme durante quase três anos, mas ultimamente começara a ficar enervado. Demasiado enervado. - Estás a dizer-me que não és suficientemente bom para mim, que mereço melhor? Trata-se de um desses nobres discursos que me dão a impressão de que me estou a elevar, enquanto tu foges e bates com a porta?

 

Tanya falou com clareza, olhando-o de frente. Não valia a pena tentar adiar a questão.

 

— Isso não é verdade. Nunca fugi nem bati com a porta. — Tony estava magoado e Tanya lamentou ter dito aquilo. Talvez as suas acusações fossem prematuras.

 

— Não, mas estás a pensar nisso, não estás? — perguntou Tanya em voz baixa.

 

Ele ficou a olhá-la durante muito tempo, não confirmando nem negando o que ela acabara de dizer.

 

— Nem sei bem o que digo. Sinto apenas que estou a ficar farto. A tua vida é dura, mais dura do que qualquer pessoa possa pensar, antes de a conhecer.

 

— Eu avisei-te disso — retorquiu, sentindo-se como uma alpinista que se encontrasse a meio cainho para subir o Evereste e o seu companheiro começasse a fraquejar. — Eu disse-te como era. E uma vida dura. Há coisas maravilhosas, e eu gosto do meu trabalho, mas detesto as consequências do sucesso, o que elas me fazem, e a ti... e aos teus filhos... Sei como é difícil. Mas o mal é que nada posso fazer para impedir que tais coisas aconteçam.

 

— Eu sei... eu sei... e não tenho o direito de me queixar. — Olhou-a com uma expressão embaraçada e angustiada, e ela percebeu que estava tudo acabado com Tony. Estava cansado de Hollywood, o romance perdera o fulgor. — Sei como o teu trabalho é duro, e não quero tomar as coisas piores para ti. Compreendo que te dedicas totalmente ao trabalho, mas isso também é mau para nós. Não tens tempo para mim. A tua vida são os concertos, os ensaios, as gravações. Tu fazes grandes coisas, Tan, e, entretanto eu fico aqui sentado a ler as notícias que os jornais publicam a nosso respeito.

 

— E acreditando no que eles publicam? — perguntou Tanya, sem rodeios. Talvez fosse isso mesmo. Talvez ele achasse que era verdade. O guarda-costas que a estava a processar era um grande filho da mãe, mas não deixava de ser atraente.

 

— Não, não acredito — disse Tony com ar cansado -—, mas também não fico satisfeito. Os amigos com quem joguei golfe esta manhã fartaram-se de falar no assunto. Na verdade, alguns até acharam engraçado ter uma mulher que é processada por assédio sexual, quando a maior parte afirma que as mulheres deles nunca querem dormir com eles. — Tony mostrava-se embaraçado com o que dizia, mas Tanya percebeu o seu significado profundo. Os amigos atormentavam-no e Tony sentia-se humilhado. Tratava-se de uma queixa razoável, mas ela também se sentia cansada disso. O problema era que ele podia ficar livre em qualquer altura, e ela não. A imprensa e os potenciais «acusadores» queriam atacá-la a ela, não ao marido. Tony prosseguiu, com ar infeliz: - Nem sei o que te hei-de dizer. Isto assim não tem graça, pois não?

 

— Não, não tem — concordou tristemente Tanya, demasiado abalada pelas palavras dele para poder discutir. De certo modo, os maus é que venciam sempre. Os tablóides, os processos acusatórios, as ameaças e a pressão eram, de facto, demasiados para um relacionamento com um ser humano normal. — Estás a dizer que queres deixar-me? — perguntou Tanya, sentindo-se terrivelmente infeliz. Tony não seria o amor da sua vida, mas sentia-se bem junto dele, confiava nele, gostava dele e dos seus filhos. Se ele não a deixasse, ela nunca acabaria com o casamento.

 

— Não tenho a certeza — admitiu Tony. Havia algum tempo que pensava no assunto, mas não chegara ainda a qualquer conclusão. — Para ser sincero, digo-te que não sei se poderei aguentar muito mais isto. E não quero ser desleal para contigo. Realmente começo a estar farto, e penso que deves sabê-lo.

 

— Aprecio a tua honestidade — disse Tanya, olhando-o e sentindo-se triste por ele não a apoiar, por se sentir «embaraçado» por estar casado com ela e por querer abandoná-la por isso.

 

— Gostava que isso não me incomodasse. Nunca pensei que tal me sucedesse. Tudo nos parece fácil até estarmos metidos no assunto. Depois é tudo irreal, como em Alice no País das Maravilhas. Começa-se a cair, a cair... — disse ele. Ao ouvi-lo, Tanya recordou que o amava. Era um homem inteligente e, apesar das diferenças entre ambos, tinham muita coisa em comum.

 

— E uma maneira interessante de dizer o que sentes — murmurou Tanya sorrindo melancolicamente, sabendo por instinto que para ele estava tudo acabado. — E os teus filhos? Se nos separarmos vais continuar a deixar que eu os veja?

 

Tanya fez a pergunta com os olhos cheios de lágrimas. Até então tudo correra de um modo razoável. Era a primeira de várias conversas que iriam dar ao fim do seu casamento. Mas quando viu a expressão de tristeza no seu rosto Tony estendeu a mão para agarrar a dela. Sentia-se terrivelmente mal por a ver assim, mas sabia desde há muito que não podia continuar por muito mais tempo. E a história que lera nessa manhã no jornal fizera transbordar a taça.

 

— Ainda te amo, Tan — murmurou. Tanya detestou-o por dizer aquilo com um ar tão meigo. Ainda se sentia muito atraída por ele, era sexy, bem-parecido e inteligente, e embora nem sempre a apoiasse ela estivera constantemente disposta a perdoar-lho. — Quis apenas dizer-te o que sinto. E mesmo que as coisas entre nós não se componham, nunca te impedirei de ver os meus filhos. Eles gostam de ti — concluiu, olhando-a de uma maneira que lhe despedaçava o coração. Despedia-se dela sem dizer as palavras, mas Tanya sabia que não levaria muito tempo a dizê-las. Para ele estava acabado, embora não estivesse para ela.

 

— E eu gosto deles. — Começou a chorar baixinho e Tony foi sentar-se ao seu lado e pôs-lhe um braço por cima dos ombros.

 

— Eles também gostam de ti Tan, assim como eu, à minha maneira louca — disse Tony. Mas ela não acreditou. Se realmente gostasse dela não a quereria deixar.

 

— E a respeito de Wyoming? Eles irão? E tu? — quis saber Tanya, sentindo-se de repente desesperada e assustada. Ia perdê-lo e provavelmente a eles também. Por que motivo quereriam vê-la se o pai a deixava? O relacionamento que se estabelecera entre eles nos últimos três anos seria suficiente para que desejassem fazê-lo? Viu então que Tony a olhava de um modo estranho.

 

— Penso que devem ir contigo. Será uma grande experiência para eles — afirmou Tony com uma expressão perturbada. Ela compreendeu imediatamente o que ele estava a querer dizer.

 

— Mas tu não irás. E isso?

 

— Acho que não. Creio ser boa altura para termos férias separadas. Provavelmente irei à Europa.

 

— Quando é que surgiu essa ideia? Foi hoje, no golfe? — Que se estava a passar ali? Há quanto tempo estaria Tony a planear abandoná-la? Olhou-o e viu que ele tinha um ar comprometido.

 

— Há algum tempo que penso nisto Tan. Não foi uma ideia que tivesse tido hoje ao pequeno-almoço. Creio que foi apenas o catalisador. Foi o Enquirer a semana passada e o Star na semana anterior. Foram as acusações, os processos, as ameaças de morte e as notícias nos tablóides desde que nos casámos.

 

— Julguei que te estavas a habituar... — respondeu ela, mostrando-se surpreendida.

 

— Corno é que alguém se poderá habituar? Tu também não te habituas...

Tony preocupara-se muitas vezes com o stress a que ela estava sujeita. Sabia que até mesmo pessoas novas como ela podiam morrer devido ao excesso de stress. Admirava-se por ela suportar tudo tão bem e lamentava não poder dizer o mesmo de si próprio.

 

— Então que fazemos agora? — Tanya queria saber se devia ir para cima e arrumar as malas dele, ou se devia fazer apaixonadamente amor com ele e convencê-lo a desistir. Que esperaria Tony que ela fizesse? E mais importante ainda era saber o que ela queria. Sentia-se ainda demasiado magoada e assombrada por aquilo que o marido lhe dissera.

 

— Não sei bem o que devemos fazer — replicou Tony com sinceridade. — Quero pensar um bocado no assunto. Mas queria avisar-te da direcção que estou a tomar.

 

— E uma espécie de furacão, ou uma inundação. E uma verdadeira catástrofe natural — disse ela, tentando sorrir, mas com as lágrimas nos olhos... Nessa altura, Jean bateu à porta e espreitou para dentro da sala.

 

— Está uma hora atrasada para o estúdio. O produtor telefonou para a lembrar disso. Os músicos querem saber se podem ir almoçar já e voltar ao estúdio daqui a uma hora. O seu agente telefonou também, dizendo que precisa de uma resposta até às quatro e meia. Bennett Pearson ligou e pediu para falar com ele logo que possa.

 

— Está bem, está bem. — Tanya ergueu a mão, para a fazer calar. — Diga aos músicos para irem almoçar agora. Estarei lá dentro de meia hora. E diga a Tom para esperar, que mais tarde trataremos do assunto.

 

E como é que ela havia de cantar, decidir se ia ao Japão, se iria fazer outro filme, outra toornee, se devia pagar ao chantagista que dera a entrevista ao jornal, tudo ao mesmo tempo? Quando Jean saiu, Tanya voltou-se para o marido e disse:

— Tens razão. Nada disto é muito divertido, pois não?

 

— Por vezes é, mas a maior parte das ocasiões não é — respondeu Tony com sinceridade, levantando-se. — E preciso pagar muito caro pela fama. — Sentia-se terrivelmente mal, mas ao mesmo tempo estava aliviado. A vida dela era um verdadeiro pesadelo. — Vai fazer a tua gravação Tan. Lamento ter-te atrasado. Falaremos noutra altura. Não há nada a resolver agora. Desculpa ter-te roubado tanto tempo.

 

Não havia problema. Uma hora. Três anos. Fora divertido. Quem poderia censurá-lo por se querer ir embora agora? Viu-o sair da sala, sentindo simultaneamente ódio e tristeza.

 

— Está tudo bem? — Jean voltou com uma pilha de mensagens para Tanya e para lhe recordar que devia sair para o estúdio dentro de cinco minutos.

 

— Está bem, está bem. Estou óptima. — Óptima!... Estava sempre tudo óptimo, mesmo quando isso não sucedia. E não pôde deixar de pensar quanto tempo levaria a imprensa a descobrir, se Tony a deixasse. Era algo que não a devia preocupar, mas preocupava. A ideia de saber que iriam escrever nova série de histórias sobre ela fazia-a sentir exausta.

 

Lavou a cara antes de sair e tentou não chorar. Pôs óculos escuros e Jean foi a conduzir. Tanya respondeu do carro a alguns dos telefonemas e disse ao seu agente que faria a tournée, incluindo o Japão. No ano seguinte estaria em viagem durante aproximadamente quatro meses, vindo de avião a casa de tempos a tempos. Sabia como esses concertos seriam importantes. Dirigiu-se directamente para o estúdio logo que chegaram e permaneceu lá até às seis horas. Em seguida foi ao ensaio para a festa de beneficência, e só voltou a casa cerca das onze horas. Quando chegou viu um bilhete de Tony em cima da mesa da cozinha. Fora passar o fim-de-semana a Palm Springs. Tanya ficou imóvel durante longo tempo, pensando o que fora feito da vida deles e quanto tempo duraria até o seu casamento acabar definitivamente. Percebeu que ele escrevera apoiado numa parede, obviamente à pressa, antes de sair. Pensou em ligar-lhe para Palm Springs, para lhe dizer como o amava e como lamentava a dor que lhe causava. Mas quando pegou no telefone ficou parada, quieta. Porque não estava ele a seu lado? Porque não suportava os dissabores que se acumulavam sobre ela? Porque estava disposto a fugir? A única conclusão a que chegou, depois de pensar no assunto, foi que Tony Goldman nunca a amara verdadeiramente. E que, se assim fosse, ela nunca poderia saber a verdade. Pousou o telefone, e, com lágrimas nos olhos, dirigiu-se calmamente para o silêncio do quarto.

 

Tanya viajou para Nova Iorque no avião da companhia discográfica, e decidiu não levar a secretária consigo, para ficar sozinha. Na verdade, para um único espectáculo televisivo e um encontro com um agente literário não precisava de Jean. Além disso, precisava de tempo para pensar em Tony. Depois de passar o fim-de-semana em Palm Springs, Tony regressara no domingo à noite. Jantaram com os filhos e ele nada mais disse acerca de se sentir infeliz ou das histórias que apareciam na imprensa. Ela também não teve coragem nem energia para falar do assunto. Nem mencionou nada quando viu que a revista People também publicava o caso do ex-empregado que a queria processar. Sabia que já dissera o suficiente e quando saiu de casa para embarcar para Nova Iorque já Tony fora para o escritório.

 

O avião esperava-a. Era quase como se tivesse um avião comercial só para si. Um dos administradores da companhia viajava no mesmo avião. Obviamente sabia quem ela era, mas, após um breve cumprimento, nada mais lhe disse. Tanya tomou notas, fez telefonemas e trabalhou numa música. A meio da viagem recebeu um telefonema do advogado, informando-a de que o seu antigo guarda-costas queria um milho de dólares para desistir de a processar.

 

— Diga-lhe que nos encontraremos no tribunal — respondeu Tanya friamente.

 

— Não me parece que seja uma decisão inteligente — afirmou Bennett Pearson com grande calma.

 

— Não vou pagar a chantagistas. Ele não pode provar coisa alguma. Não tem nada que prove o que diz. E uma invenção absurda.

 

— É a palavra dele contra a sua, Tanya. Você é uma grande estrela e, segundo ele declarou, provocou-o, traumatizou-o e depois despediu-o. Diz que você lhe estragou a vida por ele não ter feito sexo consigo...

 

— Pronto, Bennett. Não precisa de contar a história toda. Eu sei o que ele disse.

 

— As pessoas podem ficar com pena dele. Os jurados são imprevisíveis. Tem que pensar nisso. E se a condenam a pagar-lhe dez milhões de dólares de indemnização? Que sentiria então?

 

— Vontade de o matar!

 

— Pense bem. Creio que seria melhor pagar para se livrar dele. Um milhão não é nada de extraordinário.

 

— Sabe quanto tenho de trabalhar para ganhar um milhão? Sabe bem que trabalho muito para o ganhar!

 

— No próximo ano vai fazer uma tournée. Tire o dinheiro daí e faça de conta que foi um azar, um fogo em casa que não esteja coberto pelo seguro.

 

— Isso é nojento! Não passa de um roubo...

 

— E verdade, e está sempre a suceder. Têm-no feito a si e a muitas outras pessoas.

 

— Fico doente por dar dinheiro a gente dessa.

 

— Pense bem no caso. Tem outras coisas que a preocupam, sem ter de estar a pensar num processo. A última coisa de que precisa é de fazer um depoimento que aparecerá em todos os jornais. Trata-se de um caso público e como tal...

 

— Está bem, está bem.

 

— Telefone-me de Nova Iorque.

 

Porque seria tudo tão desagradável? Não admirava que Tony quisesse deixar aquela vida. Às vezes também ela tinha vontade de sair da sua própria vida, mas era-lhe impossível escapar. Tudo aquilo estava tão preso a ela como uma carraça ou um cancro.

 

O voo para Nova Iorque levou apenas cinco horas e Tanya telefonou para Mary Stuart pouco antes de aterrarem. Disse-lhe que dentro de meia hora a iria buscar a casa, e Mary Stuart pareceu excitada ao ouvi-la. Tanya telefonou outra vez, do carro, e quando chegou a casa da amiga ela já estava à porta do prédio, à espera, vestindo umas calças de ganga e uma camisola de algodão. As duas mulheres abraçaram-se carinhosamente e Tanya observou melhor a amiga depois de entrarem no carro. Mary Stuart estava mais magra e tinha um ar mais sério do que era costume. O último ano fora, obviamente, muito difícil para ela. Sabia que com a filha, Alyssa, em Paris as coisas deviam ser ainda mais difíceis para a amiga.

 

Mas Alyssa tivera necessidade de ir para longe deles. Mary Stuart sabia-o, e por isso não se queixava.

 

— Céus! Estás sempre na mesma! — exclamou Mary, admirando a amiga, surpreendida por ver como ela se mantinha bonita, mesmo naquela idade. Era como se o tempo não passasse por ela. — Como é que consegues isso?

 

— Segredos profissionais, minha querida. — Soltou uma gargalhada, parecendo sex e misteriosa, e as duas começaram a rir. Para além de qualquer operação plástica que pudesse ter feito, Tanya tinha uma pele bonita, um belo cabelo e uma figura fantástica. E possuía também uma aparência juvenil que nunca a abandonara. Mary Stuart também tinha bom aspecto, mas aparentava mais a sua idade. Claro que Mary Stuart não tinha a mesma preocupação que Tanya em manter uma aparência jovem.

 

— Tu também tens bom aspecto, menina, apesar de tudo — atreveu-se a dizer Tanya. Era difícil de acreditar que decorrera um ano, o pior da vida de Mary Stuart, e provavelmente também de Bill, embora ele nunca o dissesse.

 

— Tenho a impressão de que fizeste um pacto com o Diabo — queixou-se Mary Stuart. — Não é justo. Que idade dizes agora que tens? Trinta e um? Vinte e cinco? Dezanove? Vão pensar que sou tua mãe.

 

— Oh!, cala-te! Pareces ter menos dez anos do que realmente tens, e sabes bem isso.

 

— Quem me dera! — Mary Stuart sabia perfeitamente como o último ano fora difícil. Apesar do que Tanya dizia, ela via-se ao espelho.

 

Foram ao J. G. Melon, como costumavam fazer há anos, e teceram comentários aos rostos que conheciam ou sobre os que já não viam ali; Tanya disse-lhe que iria fazer uma tournée nesse Inverno.

 

— O que é que Tony pensa disso? — perguntou Mary Stuart enquanto comia o hambúrguer. Houve uma breve pausa na conversa, mas a expressão de Tanya disse tudo.

 

— Ainda não lhe contei. De facto, nos últimos tempos, tenho-o visto pouco. Nós... eu... bem, creio que temos um problema. - Mary Stuart fitou-a com uma expressão preocupada. — Ele... hum... foi passar uns dias a Palm Springs e pensa que talvez seja bom fazermos férias separadas este Verão. Ele quer ir à Europa, enquanto eu levo os garotos para Wyoming.

 

— Vai em peregrinação religiosa, ou há alguma coisa que não queiras dizer?

 

— Não. — Tanya parou de comer e olhou calmamente para a amiga. — Creio que há qualquer coisa que ele não diz por enquanto, mas que dirá. Ainda não o sabe. Acha que está a tentar tomar uma decisão. Mas eu conheço os sinais. Ele já a tomou.

 

— O que é que te faz pensar isso? — Mary Stuart sentia pena dela, mas não se mostrava surpreendida. O género de vida de Tanya causava grandes problemas, e ambas o sabiam. Tanya estava desapontada e infeliz.

 

— Creio que o faz porque eu já não sou tão nova como o médico me faz parecer. — Mary Stuart sorriu ao ouvir o comentário dela. — Tenho visto muitas fatalidades. Ele já me deixou, embora não o saiba. Já não aguenta a pressão, os ataques da imprensa, os processos, os embaraços, as humilhações. Não posso dizer que o censuro.

 

— Não estás a esquecer nada? — murmurou suavemente Mary Stuart. — E as coisas boas?

 

— Penso que ele as esqueceu no meio da confusão. São coisas que se esquecem. Também me sucede a mim e, na verdade, não o posso censurar. As únicas ocasiões em que gosto do que faço é quando estou a cantar... para fazer uma gravação ou num concerto. Nem sequer me importam os aplausos. E só a música... e ele não tem isso. Ele apanha com todos os problemas. Eu tenho a glória. Suspeito de que está farto. Esta semana veio uma história num jornal contada por um ex-empregado que contratámos o ano passado. O tipo declarou que eu o persegui e que o despedi por ele me ter repelido. A história do costume, sabes... Apareceu na primeira página e embaraçou Tony perante os amigos. Creio que foi a última gota.

 

— E tu? Onde ficas tu no meio disso tudo? — Mary Stuart estava genuinamente preocupada. Havia anos que se preocupavam uma com a outra, embora não estivessem sempre em contacto e nem sequer vivessem na mesma cidade.

 

Mas ambas sabiam que podiam sempre contar uma com a outra. — Estás a dizer-me que ele não suporta a pressão e se vai embora?

 

— Ainda não o disse, mais vai fazê-lo. Neste momento quer umas tréguas e tempo livre para ir sozinho para a Europa. Isso vai fazer com que eu vá com os filhos dele para um rancho em Wyoming. Mas não me importo. Gosto muito deles.

 

— Sei que gostas, mas não me sinto nada impressionada pelo cavalheirismo e dedicação do pai deles.

 

— Conta-me novidades — pediu Tanya com ar melancólico, apertando a mo da amiga. — Que se tem passado contigo? Como está Bill? Tem sido tão mau para ele como para ti? — Estava estampado na cara da amiga o que ela tinha sofrido.

 

— Suponho que sim. — Encolheu os ombros. — Não falamos muito a respeito disso. Não há nada a dizer. Não se pode desfazer o que aconteceu. — Ou as coisas que tinham dito um ao outro a respeito do sucedido.

 

Tanya atreveu-se então a fazer uma pergunta que não fora capaz de formular no ano anterior e que suspeitava fosse a raiz do problema.

 

— Ele culpa-te? — As palavras dela pouco mais eram do que um sussurro, mas Mary Stuart ouviu-a, apesar do ruído que ali havia.

 

— Provavelmente — suspirou. — Suponho que nos culpamos ambos por no termos visto o que estava a suceder. Mas sei que inicialmente ele achou que eu devia ter-me apercebido do que ia passar-se. Eu devia ter sido capaz de prever o desastre antes dele nos atingir. Bill atribui-me qualidades mágicas, quando lhe apraz. De qualquer modo, acho que também me censuro a mim mesma. Isso não altera coisa alguma. A ilusão é pensarmos que podemos fazer parar o relógio e voltar atrás se deixarmos as culpas sobre alguém. Mas as coisas não são assim. Não interessa. Acabou. — Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas e Tanya arrependeu-se imediatamente de ter feito a pergunta.

 

— Desculpa... não devia ter dito nada...

 

Tanya censurou-se em silêncio por ter falado no assunto, enquanto Mary Stuart levava o lenço aos olhos e olhava tranquilizadoramente para a amiga.

 

— Não tem importância Tanya. O desgosto está sempre comigo. E como um membro amputado. E algo que fica para sempre, embora por vezes a dor seja insuportável e outras vezes menos profunda. Mas nunca deixa de doer. Tu não me magoaste Tan. A dor está sempre comigo.

 

— Não podes viver assim para sempre — murmurou Tanya, sentindo-se devastada pela dor da amiga. Era a pior coisa que tinha sucedido a qualquer delas e nada podia fazer para a remediar.

 

— Aparentemente, pode-se viver assim para sempre — respondeu, desesperada, Mary Stuart. — As pessoas fazem constantemente isso. Vivem com dores de todos os géneros, artrite, reumatismo, indigestão, cancro. Depois há destas dores, a destruição do coração, a morte da esperança, a perda de tudo o que mais amamos. E um desafio à alma — concluiu, mostrando-se angustiada, mas tão forte que Tanya quase não a conseguia olhar.

 

— Porque não vens comigo para Wyoming? — sugeriu subitamente Tanya. Era a única coisa que lhe ocorria para ajudar a amiga.

 

Mary Stuart sorriu.

 

— Vou ter com Alyssa à Europa. Se não fosse, gostaria de ir contigo. Gosto de montar a cavalo. — Depois franziu o sobrolho, confusa por uma antiga recordação e satisfeita por abandonar um assunto que lhe era insuportavelmente doloroso. — Mas não sabia que tu montavas.

 

— Não monto. Detesto tal coisa. — Tanya riu-se. — Mas tenho ouvido dizer que é um sítio fabuloso e creio que os miúdos vão adorar lá estar. — Pareceu embaraçada durante uns momentos. — Também achei que Tony gostasse, e afinal ele não vai. Mas os filhos têm respectivamente doze, catorze e dezassete anos agora, e gostam de andar a cavalo. Creio que irá ser perfeito para eles.

 

— Tenho a certeza que sim. E tu, vais aprender a montar?

 

— Depende dos professores... — replicou Tanya, num tom muito texano, e ambas riram. — Creio que sou a única rapariga do Texas que não gosta de cavalos.

 

Mas Mary Stuart lembrava-se de que ela sabia montar, embora não gostasse de o fazer.

 

— Talvez Tony mude de ideias e te acompanhe.

 

— Duvido — respondeu calmamente Tanya. — Ele já tomou a sua decisão. Talvez lhe faça bem passar algum tempo longe de mim. — Contudo, Tanya achava que isso não iria fazer qualquer diferença e Mary Stuart, embora não o dissesse, era da mesma opinião. As coisas pareciam estar definitivamente a deteriorar-se entre a amiga e o marido.

 

Conversaram durante um bocado a respeito de Alyssa, do próximo filme de Tanya e da tournée que ela iria fazer nesse Inverno. Mary Stuart nem imaginava como aquele poderia ser um trabalho exaustivo, e admirava Tanya por o ter aceitado. Em seguida falaram do show na televisão, na manhã seguinte. Era o programa diurno mais visto em todo o país.

 

— Como precisava de vir a Nova Iorque para a reunião com o editor, achei que poderia tomar parte no espectáculo. Espero que não queiram falar-me do processo. O meu agente já lhes disse que eu não queria falar nisso. — Depois lembrou-se de um convite que queria fazer à amiga. — Conheço uma actriz que se estreou recentemente no teatro. Dizem que a peça é boa e ela teve criticas muito favoráveis. Vão representá-la aqui durante o Verão e, se tiver êxito, apresentá-la-ão durante o Inverno. Arranjo-te bilhetes, se quiseres. Mas ela dá uma festa amanhã à noite e eu gostava que tu fosses comigo. Bill também quererá ir? Terei muito gosto em que vá, mas não sei se gostará ou se estará demasiado ocupado. — Nem sabia se ele falava normalmente com Mary Stuart.

 

— És uma querida. — Mary Stuart sorriu-lhe. Tanya trazia sempre excitação e alegria à sua vida. Lembrava-se de como ela era vinte anos antes. Era sempre Tanya quem reunia toda a gente, quem as fazia tomar parte nalgum projecto louco, quem as levava a divertirem-se, muitas vezes mesmo contra a vontade delas. Mary não imaginava que Bill quisesse ir. Havia muitos meses que não saíam juntos, a não ser por causa de negócios, e ultimamente Bill trabalhava até tarde todas as noites, preparando-se para ir para Londres. Partiria dentro de duas semanas e passaria lá todo o Verão, mas ela esperava que no fim da sua viagem com Alyssa pudessem passar um fim-de-semana juntos no Claridge. Contudo, Bill já lhe dissera que estaria demasiado ocupado para que elas pudesse estar mais tempo com ele. Por isso, Mary Stuart regressaria sozinha aos Estados Unidos. Bill dissera-lhe que a informaria de como iria decorrendo o julgamento e se ela poderia ir ter novamente com ele. De certo modo, a atitude do marido não lhe parecia muito diferente da de Tony para com Tanya. E provavelmente não era. Ambas estavam a perder os maridos e não tinham maneira de os deter.

 

— Não sei se Bill poderá ir connosco. Tem trabalhado até tarde na preparação do julgamento em Londres. Mas eu pergunto-lhe.

 

— Quererás ir sem ele? E uma rapariga muito simpática. — Então Tanya mostrou-se embaraçada. Estava a falar como se se tratasse de uma actriz desconhecida. — Se calhar é melhor eu dizer-te o nome dela, para não desmaiares quando eu ta apresentar. Trata-se de Felicia Davenport. Conheço-a há anos e é realmente fantástica.

 

— Mas que grande enganadora — exclamou Mary Stuart, rindo, pois Felicia era uma das melhores actrizes de Hollywood, que recentemente se estreara na Broadway. Mary Stuart lera essa notícia no New York Times de domingo. — Foi bom teres-me dito o nome dela. Caso contrário eu poderia desmaiar ali mesmo.

 

Saíram do restaurante a rir e Tanya disse que no dia seguinte lhe daria mais indicações sobre a festa. Mary Stuart prometeu vê-la na televisão. A festa seria na casa alugada por Felicia em Nova Iorque, em East Sixties.

 

Tanya deixou a amiga à porta de casa e as duas abraçaram-se carinhosamente.

 

— Obrigada por esta noite, Tan. E bom ver-te. Antes de se encontrar com a amiga nem sequer imaginara como se sentia só e frágil. Ela e Bill mal se tinham falado durante o ano inteiro, e sentia-se como uma flor que não tivesse sido regada. Mas falar com Tanya tivera nela um efeito revigorante, como se houvesse sido refrescada por uma chuvada. E ia a sorrir ao entrar no edifício onde vivia, caminhando com vivacidade.

 

— Boa noite, Mistress Walker — disse o porteiro, levando a mão ao boné para a cumprimentar, como sempre fazia. O rapaz do elevador disse-lhe que o marido chegara havia poucos minutos. Quando entrou, Mary encontrou Bill na sala separando uns papéis. Estava bem-disposta e sorriu-lhe quando ele se voltou. Bill mostrou-se espantado ao ver a expressão dela, como se ambos tivessem esquecido o que era passar um bocado agradável, sair com amigos, conversar um com o outro.

 

— Onde estiveste? — Bill parecia surpreendido. Via Mary como uma pessoa completamente diferente e não podia imaginar de onde ela viria àquela hora, vestindo calças de ganga.

 

— Tanya Thomas está em Nova Iorque. Jantámos juntas e gostei muito de estar com ela. — Mary sentia-se como uma ébria na igreja, sorrindo para o marido, parecendo esquecida da solenidade do último ano, do silêncio que se erguera como uma barreira entre ambos. Sentia-se de repente demasiado ruidosa, jovial e subitamente embaraçada diante do marido. — Lamento chegar tão tarde... deixei-te um bilhete... — balbuciou, sentindo-se encolher enquanto falava com Bill. Os olhos dele eram frios, a cara inexpressiva. O rosto simpático, de feições correctas, que ela amara durante tantos anos, transformara-se em pedra no passado ano, juntamente com tudo nele. Distanciara-se dela de tal modo que Mary já não o conseguia ver. Ouvia apenas um eco do que costumava ser.

 

— Não vi o bilhete. — Era mais uma constatação do que uma acusação. E, ao olhá-lo, Mary deu por si a pensar que preferia que ele não fosse tão atraente. Tinha cinquenta e quatro anos e mais de um metro e oitenta de altura, uma constituição atlética e um corpo esbelto. Os olhos azuis, penetrantes, eram agora gélidos.

 

— Lamento, Bill — disse em voz baixa. Mary tinha a sensação de passar a vida a pedir desculpa por uma coisa de que não deviam culpá-la. Mas sabia que ele nunca lhe perdoaria. — Deixei o bilhete na cozinha.

 

— Jantei no escritório.

 

— Como vão as coisas? — perguntou Mary, enquanto ele guardava os papéis na pasta.

 

— Muito bem, obrigado — respondeu o marido, como se falasse a uma secretária ou a uma desconhecida. — Estamos quase prontos. Vai ser um julgamento muito interessante — concluiu Bill, apagando a luz da sala, como que a despedi-la. Levava a pasta para o quarto, algo que ele nunca teria feito um ano antes. Era uma coisa sem importância e, de qualquer modo, já não interessava. — Creio que partiremos para Londres um pouco mais cedo.

 

Ainda nada lhe dissera até então. Limitara-se a fazer os seus planos, como se ela já não tivesse nada a ver com isso. Mary queria saber o que significava as palavras «mais cedo», mas não se atreveu a perguntar-lhe. Provavelmente só o iria aborrecer.

 

Se ele partisse mais cedo, ela faria o mesmo, embora não tivesse ainda os detalhes finais. Tinham reservado hotel em Paris, em St. — Jean-Cap-Ferrat, San Remo, Florença e Roma, e iriam ficar no Claridge com Bill em Londres. Seria uma viagem formidável, e Mary Stuart estava ansiosa por ir viajar com a filha, depois de passar tantos meses sem a ver. Alyssa fizera vinte anos em Abril. O aniversário dela era uma semana antes do do irmão. Os dois dias tinham sido importantes para Mary Stuart.

 

Quando Bill pousou a pasta e se dirigiu para a casa de banho para vestir o pijama, Mary Stuart lembrou-se do convite de Tanya e disse-lhe.

 

— Creio que se trata de um coquetel, ou coisa assim. A festa é oferecida por Felicia Davenport, que é amiga de Tanya. — Ao olhar para a cara de Bill, Mary sentiu-se como se fosse uma adolescente de catorze anos a pedir ao pai para ir ao seu primeiro baile. Ele pareceu assombrado por Mary ter ousado sequer fazer a pergunta. — Creio que gostarias de ir. A peça em que ela entra teve críticas muito boas e Tanya diz que é muito simpática.

 

— Estou certo que sim, mas amanhã preciso de trabalhar também até tarde. Estamos a preparar um caso muito importante, Mary Stuart. Julguei que tinhas percebido isso. — Era mais uma censura do que uma recusa e o tom de voz dele fê-la sentir subitamente aborrecida.

 

— Compreendo, mas tens de admitir que se trata de um convite invulgar. Acho que devíamos ir. — Ela queria ir. Estava farta de ficar sentada em casa a chorar. Ver Tanya fizera-lhe lembrar que existia um mundo fora daquelas paredes, embora também tivesse problemas, as preocupações, os processos, a imprensa. Apesar de tudo isso, Tanya não ficava sentada a um canto a chorar e fizera lembrar a Mary Stuart que existiam outras opções.

 

— Para mim está fora de questão - disse Bill com firmeza. - Mas tu podes ir, se quiseres. — Fechou a porta da casa de banho, mas, quando saiu, a mulher esperava-o com um ar decidido.

 

— Irei — declarou com uma expressão obstinada, como se esperasse que ele a proibisse.

 

— Irás? — Ele pareceu confuso com o que ela dizia. E, se não a conhecesse tão bem, diria que ela tinha bebido. Estava a comportar-se de um modo muito estranho. — Do que é que estás a falar? — perguntou Bill, mostrando-se aborrecido e sem se aperceber de que ela estava mais descontraída do que de costume e mais bonita.

 

— Irei à festa! — declarou com determinação.

 

— Óptimo. E eu não irei, compreendes? Deves gostar de encontrar pessoas desse género. Tanya parece, de facto, ter amigos interessantes, mas isso não é de surpreender...

 

Pareceu então esquecer o assunto e foi deitar-se, levando consigo uma pilha de revistas que precisava de consultar com propósitos legais. Tinham artigos a respeito de vários clientes seus. Mary Stuart entrou, por sua vez, na casa de banho e saiu de lá dez minutos depois com uma camisa de noite branca de algodão. Mas poderia ter usado correntes ou uma camisa de crina que ele não teria reparado.

 

Enquanto Bill lia, Mary Stuart ficou deitada, imóvel, meditando na sua conversa com Tanya e nas coisas que ela dissera a respeito de Tony. Pensava se Tanya teria razão e se, de facto, ele a deixaria em breve, ou se ficaria com ela e as coisas se comporiam. Pensou se Tanya não deveria tentar fazer qualquer coisa para o deter, em vez de aceitar sem luta a decisão dele. Era tão fácil olhar para a vida de outra pessoa e decidir o que ela devia fazer!... No entanto, durante o último ano, sentira-se completamente incapaz de inverter a situação ou mesmo de se aproximar de Bill de qualquer maneira. Ele estava completamente fora do seu alcance, por detrás de uma parede de gelo que se ia tomando cada vez mais densa. Parecia-lhe que não o via há meses e começava a perder a esperança de voltar a alcançá-lo. Não fazia ideia do que fariam acerca do seu futuro.

 

Ele também não queria discutir esse assunto. Tinha a impressão de que se lhe falasse nisso ele diria que ela estava louca. Como lhe dera a entender nessa mesma noite, ao vê-la chegar com um sorriso nos lábios e passos mais leves. Olhara como se ela viesse de outro planeta. Era óbvio que o riso não mais seria tolerado e a proximidade entre eles era coisa do passado distante. Mary só se apercebia verdadeiramente de como as coisas estavam más quando as via através dos olhos de outras pessoas. Alyssa ficara horrorizada quando estivera em casa no Natal e mostrara-se ansiosa por voltar para Paris. E, embora tudo isso fosse muito mau para todos, Mary Stuart não sabia como acabar com aquela situação. E Bill não queria.

 

Ele apagou a luz quando acabou de ler e nada disse a Mary Stuart. Ela estava deitada ao seu lado, de olhos fechados, fingindo dormir, pensando se ele voltaria a ser humano, se alguma vez se aproximaria dela de novo, se alguém viria a gostar dela, ou a tocar-lhe, ou a dizer-lhe que a amava. Ou se tudo isso pertenceria agora ao passado. Aos quarenta e quatro anos, a vida dela não se limitara a piorar de muitas maneiras. Acabara.

 

Mary Stuart permaneceu diligentemente em casa para ver Tanya na televisão na manhã seguinte e teve vontade de partir o ecrã quando ouviu o entrevistador saltar de uma pergunta relativa à infância de Tanya numa pequena cidade texana para lhe pôr questões sobre rumores recentes que a ligavam a um antigo treinador, fazendo uma referência insidiosa a respeito de um processo por assédio sexual de que estava a ser vítima. Mas, apesar de Mary Stuart se sentir furiosa, Tanya respondeu às perguntas graciosamente, com um sorriso amigável, afirmando-lhe tratar-se de chantagem e de notícias habituais em certos tablóides. Contudo, quando saiu do estúdio, sentia os braços colados ao corpo e tinha a impressão de ter despejado um copo de água em cada axila, para não falar do começo de uma terrível dor de cabeça.

 

— Belo programa, não há dúvida — disse para a publicitária que a acompanhara ao estúdio e que a escoltaria até à sua paragem seguinte, a entrevista com um agente literário que desejava publicar um livro sobre a sua vida. Mas, no fim da reunião, Tanya estava desiludida. Tudo aquilo tinha pouco interesse para ela. O que eles queriam era sensacionalismo, nada mais. Na altura em que telefonou a Jean, nessa tarde, estava farta de todos, descobrindo que o seu nome tinha aparecido novamente nos jornais e que também havia uma história acerca do marido ter passado o fim-de-semana em Palm Springs com uma estrela não identificada. A história não era bonita. Jean leu-lhe o artigo sobre o processo que lhe fora movido pelo ex-treinador e Tanya teve de se esforçar por não chorar enquanto a ouvia. O seu ex-guarda-costas afirmara que ela andava nua pela casa quando estavam sós, o que a teria feito rir, se não se sentisse tão desgostosa.

 

— Gostava de me lembrar da última vez que estive sozinha nessa casa — disse Tanya, sentindo-se deprimida. Podia imaginar a reacção de Tony. Declinou a oferta de Jean para lhe ler o artigo acerca dele. Quando desligou, saiu e foi comprar o jornal. O artigo era acompanhado por uma fotografia de Tony, tentando esconder-se do fotógrafo, acompanhado por uma jovem actriz que não teria mais de vinte anos. Mas era impossível saber se a foto teria sido computorizada para dar a impressão de que estavam juntos. Nunca se podia ter a certeza com as fotografias que se viam. Embora inicialmente tentasse resistir a esse impulso, Tanya acabou por lhe telefonar para o escritório. Apanhou-o justamente quando ele ia a sair.

 

— Já sei que o meu nome esteve outra vez em foco hoje — disse ela, tentando mostrar-se bem-humorada, apesar da situação.

 

— Bem o podes dizer. O teu amigo Leo parece ter muito que contar a teu respeito. Já leste? — perguntou ele, mal tentando ocultar a sua fúria.

 

— Jean leu-me a história. Não passam de mentiras. Espero que o saibas. — Tanya mostrava-se calma e controlada.

 

— Já não sei nada Tan.

 

— O que escreveram a meu respeito não é pior do que a história que contam sobre ti e a rapariga que supostamente levaste a Palm Springs. Até publicaram uma fotografia tua — continuou, tentando gracejar com ele. — E isso também não é verdade. Portanto, que importa?

 

Houve uma longa pausa e ele falou lentamente.

 

— Com efeito, é verdade. Ia contar-te, mas não tive oportunidade antes de te ires embora.

 

Tanya teve a sensação de receber uma pancada na cabeça. Ele enganara-a, vinha nos jornais e ele estava a confessar tê-lo feito. Ficou calada durante um grande bocado, sem saber que dizer.

 

— E uma bela história. Que esperas que eu diga agora?

 

— Tens o direito de estar zangada Tan. Não te censuro. Alguém os informou. Não faço ideia porque terão aparecido no hotel. Logo vi que a notícia apareceria nos jornais.

 

— Es velho de mais para seres tão ingénuo, sabes? Estás há demasiado tempo em Hollywood para não saberes como as coisas funcionam. Quem é que pensas que informou os fotógrafos? Foi ela. E um grande golpe para ela andar com o marido de Tanya Thomas. Como é que ela poderia deixar passar uma oportunidade dessas? — Era uma coisa desagradável de se dizer, mas provavelmente fora assim mesmo, e Tony sabia-o. Não lhe ocorrera na altura. E do lado dele fez-se um longo silêncio. — Es agora uma celebridade Mister Goldman. Que dizes a isso?

 

— Não posso dizer grande coisa, Tan.

 

— Não, não podes. Podias, pelo menos, ter sido discreto, ou ido com alguém que não te denunciasse.

 

— Não quero jogar este jogo contigo, Tanya — replicou Tony, embaraçado e zangado. — Amanhã saio de casa. — Houve outro longo silêncio, enquanto ela tentava não chorar.

 

— Sim, já calculava - murmurou com voz rouca.

 

— Não posso viver assim, sendo um alvo constante para os tablóides.

 

— Eu também não gosto Tony — retorquiu tristemente Tanya. — A única diferença é que tu podes fugir a isso e eu não.

 

— Tenho pena de ti — disse ele, embora não parecesse. Subitamente tornara-se mau. Fora apanhado em flagrante e não gostava que isso tivesse acontecido. Também não gostava de ter um lugar secundário em relação a ela, de ser traído, de fazer figura de parvo. Não gostava de nada disso, e estava desejoso de sair da casa e da vida dela, e das luzes da ribalta, onde fora forçado a estar por ser casado com ela. Inicialmente desejara-o, mas, quando as luzes se tomaram fortes de mais, deixara de gostar. — Desculpa, Tan... não queria dizer-te isto ao telefone. Queria dizer-te amanhã, quando viesses para casa. — Tanya não respondeu, com as lágrimas a correrem-lhe pela cara, e Tony perguntou se ela ainda estava, até que, por fim, respondeu:

 

— Sim, ainda aqui estou. — Estava o que restava dela. Tudo quilo era muito duro, e Tanya sentia-se insuportavelmente só. Passara por muita coisa, durante muito tempo fora explorada e expohada. O segundo marido roubara-a e Tony dissera-lhe agora que não podia suportar a pressão e enganava-a com jovens actrizes como a que ela vira na fotografia. Como é que não pensara que a notícia fosse parar às páginas dos tablóides? Como pudera ser tão descuidado e tão estúpido?

 

— Lamento... — murmurou novamente a voz de Tony do outro lado do fio, mas agora as palavras dele já não tinham importância.

 

— Eu sei... não faz mal... Vemo-nos quando eu voltar — disse Tanya, ansiosa por desligar. Ele já a magoara o suficiente. Nada mais tinha a dizer-lhe. Lembrou-se então de uma coisa. - E a respeito de Wyoming? - quis saber.

 

— Leva os garotos — disse magnanimamente. — Vai ser bom para eles. — Estava ansioso por se livrar dela e ir para a Europa acompanhado pela mesma jovem actriz com quem passara o fim-de-semana.

 

— Obrigada. Tony... eu também lamento... — Começou a soluçar e pouco depois desligou o telefone. Chorava ainda quando o ouviu tocar outra vez. Esteve quase para não atender, pois pensava que era o marido a saber se ela estava bem. Mas não. Era Mary Stuart, que percebeu imediatamente como a amiga estava perturbada. No meio dos soluços, Tanya explicou-lhe que Tony acabara de a deixar. Contou-lhe dos dois artigos e disse-lhe que Tony passara o fim-de-semana com uma mulher. Falou de uma maneira confusa, quase ininteligível, mas Mary Stuart conseguiu perceber o que se estava a passar e insistiu para que Tanya fosse a casa dela. Tinham muito tempo antes da festa, mesmo que acabassem por ir. Tanya só desejava agora voltar para casa, mas o avião só a viria buscar na manhã seguinte.

 

— Quero que venhas tomar uma chávena de chá comigo... ou um copo de água. Se não vieres, vou aí buscar-te — insistiu Mary Stuart. Tanya mostrou-se relutante, mas comovida com o convite.

 

— Eu estou bem — afirmou Tanya, chorando cada vez mais.

 

— Não, não estás bem, mentirosa. — Depois fez-lhe uma ameaça: — Se não vieres, telefono para os jornalistas — declarou firmemente Mary Stuart. E Tanya não pôde deixar de rir.

 

— És mesmo má — disse Tanya, rindo e chorando ao mesmo tempo. — Há um ano que não te via e no dia seguinte a voltar a ver-te o meu marido abandona-me.

 

— Pelo menos posso reconfortar-te. Agora venha, antes que eu telefone ao Enquirer, ao Globe, ao Star e a outros que consiga descobrir. Queres que eu te vá buscar, Tan? — perguntou meigamente. Tanya assoou-se e respondeu:

 

— Não, eu estou bem... Pronto, eu vou. Estarei aí dentro de cinco minutos.

 

E esteve, despenteada, com os olhos inchados e o nariz vermelho. Mas, apesar de tudo isso, continuava bonita e Mary Stuart disse-lhe isso mesmo, enquanto a abraçava carinhosamente, como se embalasse uma criança chorosa. Tivera grande prática, com Todd e Alyssa, pois sempre fora uma boa mãe. Durante os seus vinte e dois anos de casamento, muitas vezes consolara e reconfortara. Mas, infelizmente, isso não fora o suficiente para Todd. Se tivesse sido, talvez as coisas fossem diferentes.

 

— Nem posso acreditar no que ele me fez... em cinco minutos o nosso casamento desmoronou-se. — Mas ambas sabiam que, na verdade, esse desmoronamento já vinha a processar-se há muito tempo. Havia muito que Tony não suportava uma porção de coisas na vida dela, sem que, no entanto, o dissesse. Compreendia agora que ele se sentira infeliz durante muito tempo. Olhando para trás, podia aperceber-se disso, mas no meio do furacão que era a sua vida não dera pêlos sinais.

 

Mary Stuart preparou-lhe uma chávena de chá, apesar do calor que fazia lá fora, e Tanya sentou-se na imaculada cozinha branca e bebeu-o.

 

— Que fazes aqui? — perguntou Tanya, observando o que a rodeava. — Encomendas a comida de fora?

 

— Não. Cozinho aqui — replicou Mary Stuart, sorrindo para a amiga, que, embora triste e magoada, sentia-se um pouco melhor. — Mas gosto das coisas limpas e organizadas.

 

— Não — corrigiu Tanya. — Gostas das coisas perfeitas, sabes isso muito bem. Mas nem tudo pode ser sempre perfeito, por vezes fica tudo em desordem, e as coisas são assim mesmo e não se podem mudar. Talvez precises de aceitar isso. Continuo com a impressão de que te estás a punir pelo que sucedeu. — Era verdade, e Tanya desejava mais do que tudo libertar a amiga do tormento que podia ver nos seus olhos.

 

— Não te punirias, se fosses tu? — perguntou suavemente Mary Stuart. — Como não hei-de culpar-me? Bill culpa-me... bem o sei. Nem sequer consegue olhar para mim. Vivemos aqui como dois estranhos... Nem sequer somos inimigos... Inicialmente fomos, mas agora já nem isso.

 

— Ele vem para casa à noite? — perguntou Tanya, sentindo compaixão pêlos dois.

 

— Diz que tem de trabalhar até tarde no escritório — respondeu Mary Stuart.

 

— Está a esconder-se. — Como a maior parte das pessoas, tinha maior compreensão sobre o que se passava com a vida dos outros do que com a sua. Além disso, Tanya era mais inteligente do que a maioria das pessoas. Mas arranjava maridos que não prestavam.

 

— Sei disso — disse Mary Stuart, enquanto se dirigiam para o quarto. — Mas não o consigo encontrar. Procurei-o por todo o lado, mas não sei onde ele está. E como A Terra em Perigo. Vive aqui um homem que se parece com o Bill, mas que eu sei que não é o Bill. Não faço ideia onde meteram o verdadeiro.

 

— Continua a procurar — replicou Tanya, surpreendendo Mary Stuart com a sua sinceridade. — Nada acaba sem ter acabado — De certo modo, Tanya sentia que Mary e Bill tinham algo que valia a pena preservar. Estavam casados havia quase vinte e dois anos. Era muito tempo para se pôr de lado. No entanto, as pessoas faziam isso, e seria errado da parte dela desperdiçar toda a sua vida com ele se não o encontrasse. Mas não gostava de ver a amiga desistir tão depressa, depois de tantas coisas que lhe tinham sucedido. E era tão injusto Bill culpar Mary Stuart!

 

— Isso também é verdade para ti? — perguntou Mary Stuart enquanto se encaminhavam para a sala, passando por várias portas fechadas, que Tanya desconfiava fossem de quartos. — Não está acabado sem ter acabado?

 

— Creio que o meu caso é diferente — respondeu Tanya com um suspiro. — Talvez já tenha acabado há uns tempos sem eu me aperceber. Nunca compreendi como ele se sentia infeliz com todo esse lixo que eu não consigo controlar. Mas se isso o enlouqueceu, então nada posso fazer. — Ainda amava Tony, mas era suficientemente esperta para saber quando estava derrotada. E, de certo modo, nunca nada estivera completamente certo entre os dois, e ela sabia-o, embora detestasse admiti-lo.

 

Instalaram-se na sala e conversara durante u bocado. Depois Tanya levantou-se e disse que precisava de ir à casa de banho. Mary Stuart indicou-lhe onde ficava. Havia uma pequena casa de banho para as visitas ao fundo do corredor, à esquerda, e Tanya dirigiu-se rapidamente para lá. Abriu a porta, acendeu a luz e soltou uma exclamação abafada. Enganara-se na porta e encontrava-se no quarto de Todd, olhando para os trofeus, fotografias e recordações de todo o género que a rodeavam. Tudo ali continuava perfeitamente arrumado nos seus lugares, como se ele estivesse na escola e fosse voltar de Princeton a qualquer momento. E, enquanto estava parada a olhar para tudo o que a rodeava, não ouviu os passos de Mary Stuart atrás de si, nem a expressão devastada do rosto da amiga.

 

— Nunca aqui venho — disse num murmúrio que fez com que Tanya se sobressaltasse e se voltasse. Ao ver a expressão amargurada da amiga, abraçou-a instintivamente. Tanya achava que ela não devia ter deixado o quarto assim. Era como que um santuário dele, e sabê-lo ali tão perto dela, todos os dias, devia ser incrivelmente doloroso. Sobre a secretária havia uma maravilhosa fotografia de Todd com dois amigos. Tanya já não se lembrava bem como ele era parecido com a mãe quando sorria, mas agora recordava-se e isso fê-la chorar.

 

— Oh!, Mary Stuart... — murmurou, com os olhos cheios de lágrimas. — Desculpa... enganei-me na porta e fiquei parada, a olhar...

 

A mãe do rapaz sorriu por entre as lágrimas e ficou ao lado de Tanya a olhar para a mesma fotografia.

— Ele era tão maravilhoso, Tanny... Foi sempre um garoto formidável... fazia sempre o que estava certo... era sempre a estrela... o rapaz que servia de exemplo, de que todos gostavam...

 

As lágrimas rolavam-lhe lentamente pelas faces e Tanya continuou a olhar para a fotografia, como se esperasse que ele falasse ou aparecesse ali, mas ambas sabiam que isso não sucederia.

 

— Eu sei. Lembro-me perfeitamente dele... parecia-se muito contigo — disse meigamente Tanya.

 

— Ainda não posso acreditar que tenha acontecido - continuou Mary Stuart, olhando para Tanya e sentando-se na cama. Não fazia isso desde o Natal. Fora ali sozinha, de noite, na véspera de Natal, e ficara a chorar durante horas, agarrada à almofada dele. Como de costume, não se atrevera a dizer a Bill que estivera ali. Ele achava que o quarto devia ser fechado à chave, mas quando ela lhe perguntara o que havia de fazer às coisas de Todd, ele respondera-lhe que fizesse o que quisesse. Mary não tivera coragem de tirar nada dali. Não fora capaz de o fazer.

 

— Não achas que devias desfazer-te das coisas dele? — perguntou tristemente Tanya. Imaginava que seria difícil, mas achava que seria mais saudável para eles. Ou talvez fosse preferível venderem o apartamento. Contudo, não ousou dizê-lo.

 

— Não pude — respondeu Mary Stuart. — Não sou capaz de me desfazer das coisas dele — repetiu Mary, enquanto as lágrimas recomeçavam a cobrir-lhe as faces, pensando no filho que ali vivera. — Sinto imensamente a falta dele... todos nós sentimos. Bill nada diz, mas sei que ele também deve sentir. Está a matá-lo... está a matar-nos a todos. — Sabia como a morte do irmão também afectara Alyssa. Vira-a uma vez entrar no quarto dele. E não achava que fosse um mistério ela querer continuar em Paris. Quem a poderia censurar por isso? A casa tornara-se um local deprimente e de momento a situação não parecia melhorar. Nem Mary nem Bill estavam recompostos.

 

— A culpa não foi tua — disse repentinamente Tanya, segurando nos braços da amiga e fitando-a bem nos olhos. — Tens que acreditar nisso. Não o podias ter detido, uma vez que ele tomou a decisão.

 

— Como é que foi possível eu não ter visto o que lhe estava a acontecer? Como é que pude deixar de ver, se o amava tanto? — Mary Stuart sabia que nunca perdoaria a si própria por não ter previsto o que iria suceder.

 

— Ele não queria que tu visses. Era um homem e tinha o direito de ter os seus segredos. Não queria que soubesses, ou ter-te-ia contado. Não se pode esperar que vejas tudo, que leias as mentes dos outros. Não podias saber, Mary Stuart. Tens de acreditar nisto. — O que Tanya não podia imaginar era que Bill a tinha torturado durante o último ano, fazendo-a acentuar o seu sentimento de culpa, tanto pelas suas acções como pelo seu silêncio.

 

— Pensarei sempre que a culpa foi minha — disse tristemente Mary, mas Tanya não desistiu. Estava decidida a libertar a amiga das amarras que a prendiam.

 

— Tu não eras assim tão importante para ele. Ele tinha a sua própria vida, os seus amigos, os seus sonhos, desapontamentos e tragédias. Não o podias ter levado a fazer o que fez, mesmo que quisesses, e também não podias tê-lo impedido de o fazer, por mais que quisesses. A não ser que ele tivesse falado contigo, pedindo-te para o deteres. E ele nunca o faria. Era uma pessoa introspectiva, tal como tu.

 

Tanya olhou a amiga de frente, decidida a ajudá-la.

— Mas eu nunca faria uma coisa daquelas — disse Mary Stuart, ainda a olhar para a fotografia do filho, como se quisesse perguntar-lhe por que motivo aquilo sucedera. Mas agora todos sabiam porquê. Era pateticamente simples. A rapariga que ele amava há quatro anos morrera num acidente de automóvel, numa estrada gelada em Nova Jérsia, quatro meses antes, e ele mergulhara numa depressão cada vez mais profunda. Ninguém se apercebera de como era grande o seu desespero e de como estava deprimido.

 

Na Páscoa tinham pensado que ele estava a melhorar, mas, pensando agora nisso, Mary Stuart sabia que ele parecia mais feliz na Páscoa provavelmente por ter tomado a decisão de o fazer depois das férias. Nessa altura mostrara-se cada vez mais ligado à mãe. Tinham dado um longo passeio pelo parque, conversando filosoficamente e rindo. Ele falara até, em termos vagos, a respeito do seu futuro. Dissera-lhe que sabia agora que seria sempre feliz. E depois fizera aquilo, na noite em que regressara. Suicidara-se duas semanas antes de fazer vinte anos, no seu quarto, em Princeton.

 

O rapaz que ocupava o quarto ao lado fora-lhe pedir qualquer coisa emprestada e encontrara Todd na cama. A maneira como ele estava deitado despertou as suas suspeitas. Examinou-o rapidamente e tentou reanimá-lo até a Polícia chegar. Mas tinham dito que Todd já estava morto há horas quando ele o encontrara. Deixara um bilhete, dizendo que se sentia calmo e tranquilo e que por fim seria feliz. Sabia que era cobardia da parte dele e pedia desculpa pelo desgosto que lhes iria causar, mas não conseguia viver sem Natalie. E esperava que, quando lhe perdoassem, ficassem satisfeitos por saber que ele e Natalie estariam juntos para sempre no céu. Embora os pais o achassem muito novo para se casar, Todd tencionava casar com Natalie logo que acabasse o curso, no Verão seguinte. E, de certo modo, dizia Todd no bilhete, agora estavam casados.

 

Bill culpara Mary Stuart pelo sucedido, dizendo que, se ela não lhe tivesse enchido a cabeça com tolices e ideias romanescas, se não tivesse permitido que ele se envolvesse tão seriamente com Natalie e não lhe tivesse dado ideias religiosas, ele nunca teria tido aquela crença em Deus e no Além. Segundo Bill, fora Mary Stuart quem preparara o ambiente para o desastre. Fizera com que o suicídio do filho pesasse para sempre na consciência da mãe. Na altura, as palavras do marido quase a tinham feito sucumbir. Mas, pior do que tudo o que ele lhe pudesse dizer, era a angústia de ter perdido o filho... o primogénito... o único filho... que fora sempre a sua luz... que lhe dera tanta alegria e a fizera sentir orgulhosa.

 

Ao ouvir as palavras da amiga, Tanya sentiu vontade de ir ter com Bill e de o sacudir. As acusações dele eram as mais loucas que ela alguma vez ouvira e apercebia-se facilmente de que ele tentava assim diminuir a sua própria dor e o sentimento de fracasso, deitando as culpas sobre a mulher. Era cruel e insuportável. E era fácil ver o que isso fizera em Mary Stuart. Ela estava quase morta por dentro.

 

— Pobre rapaz — murmurou Tanya, soluçando baixinho, sentada ao lado da amiga no quarto de Todd, tentando perceber, um ano mais tarde, como é que ele pudera fazer tal coisa.

 

— Ele estava tão apaixonado por ela que julguei que ia morrer quando recebeu a notícia do acidente — disse Mary Stuart. E no fim morrera. Tinham morrido todos. Nada restava de Mary Stuart, de Bill, nem do casamento deles.

 

Tinham morrido todos com Todd, pelo menos a parte mais importante deles, os corações e as almas, todos os seus sonhos haviam desaparecido com aquele rapaz que tanto amavam, perdido tão injustamente.

 

— Alguma vez te sentiste zangada com ele por causa disto? — perguntou Tanya. Mary mostrou-se surpreendida.

 

— Com Todd? Como poderia fazê-lo?

 

— Porque ele os magoou a todos. Porque lhes tirou qualquer coisa. Porque se acobardou e devia ter tido a coragem de continuar a viver e devia ter-te dito o desgosto que sentia.

 

— Eu devia ter percebido — repetiu Mary Stuart, culpando-se de novo, mas Tanya não a deixou fazê-lo.

 

— Tu não podes saber tudo. Não tens capacidade para ler as mentes, és apenas um ser humano. E foste uma mãe maravilhosa para ele. Todd não te devia ter feito isso.

 

Mary Stuart nunca permitira a si própria fazer tais considerações e assustava-a ouvi-las.

 

— Não foi justo para contigo ao tirar a vida a si próprio — continuou Tanya. — E Bill também não está a ser justo em culpar-te. Talvez seja chegada a altura de te recompores e de te zangares com ambos. Têm posto uma carga demasiada sobre os teus ombros.

 

Mary ficou calada durante um longo momento.

 

— Desde a noite em que ele morreu que senti que a culpa foi minha.

 

— Sei que sentiste. Mas isso tem sido conveniente para todos. Não achas? Talvez que mesmo agora Todd tenha de ser responsabilizado por aquilo que fez. Talvez tu tenhas de fazer Bill ver isso e dizer-lhe o que pensas. Não te podes limitar a aceitar em silêncio todo o peso da culpa do que aconteceu. Todd fica a ser um herói e não um garoto tolo, doente, que cometeu um acto incrivelmente estúpido, que todos lamentaremos para sempre. Mas, fosse qual fosse a razão que o levou a fazer isso, talvez fosse o seu destino. Foi assim que sucedeu. E algo que não pode ser alterado agora. Não se pode voltar atrás. Nem a decisão foi tua, nem tu és culpada. Foi ele quem o fez. E Bill não tem o direito de te lançar as culpas. Faz isso para se absolver a si próprio. A culpada és tu e ele fica livre para se sentir infeliz e miserável. Mary Stuart, tu não és a parte responsável neste caso, tu és o bode expiatório.

 

— Eu sei — murmurou Mary. — Já me apercebi há algum tempo, mas isso nada altera as coisas. Bill nunca o admitir. No que lhe diz respeito, a culpa será sempre minha.

 

— Então talvez devas deixá-lo. Ou vais permitir que ele te castigue durante toda a vida? Vais ficar de joelhos durante quarenta ou cinquenta anos, dizendo mea culpa? E muito tempo para te sentires culpada. Es demasiado nova para isso!

 

Ao ouvir a amiga, Mary teve a sensação de que alguém abria as cortinas de um quarto escuro e deixava entrar a claridade. Estivera sentada num canto escuro durante um ano, chorando o seu desgosto. Sentia-se estranha estando ali a falar do que acontecera. Era quase como se Todd ali estivesse com elas. Ouvir as palavras de Tanya fez com que de repente tudo lhe parecesse muito diferente. Apetecia-lhe zangar-se com Bill, gritar com ele. Como podia ser tão estúpido? Como podia ter destruído o casamento deles?

 

— Já não sei o que hei-de pensar, Tanya. E tudo tão confuso. E a pobre Alyssa. Deve ter sido um pesadelo para ela vir a casa no Natal, o ano passado. Nós estávamos de tal maneira, que ela ansiava por regressar rapidamente a Paris. — A filha acabara por partir quatro dias antes do que previra e Mary ainda se sentira mais culpada por isso.

 

— Tens muitos anos para a compensares. O que precisas de fazer agora é de pensar em ti e no que tu precisas. Não podes continuar a deixar que Bill te faça isto. Tens de encontrar a paz, de ter uma longa conversa contigo mesma e com o teu filho, para veres o que daí sai. Depois terás de falar com Bill. Ele sente-se bem assim.

 

— Não creio — disse sensatamente Mary. — Penso que o desgosto dele é tão grande que se esconde atrás de um muro de gelo até ficar completamente dormente. Creio que tem medo de sair de lá agora.

 

— Se não o fizer, destrói-te a ti e ao vosso casamento. — «Se não o fez já», pensou Tanya. Não sabia o que é que a amiga conseguira salvar, mas pelo menos estava a pensar nisso. E sentia-se satisfeita por ter entrado no quarto de Todd e estar ali com ela.

 

— Obrigada, Tanny — disse Mary Stuart, levantando-se e indo abrir as cortinas. O quarto encheu-se então de luz e ela olhou o que a rodeava. — Ele era um rapaz fantástico. Ainda não posso acreditar que tenha desaparecido.

 

— De certo modo não desapareceu — disse suavemente Tanya. — Todos o recordaremos para sempre.

 

Ambas tinham lágrimas nos olhos ao saírem do quarto de braço dado. Foram outra vez para a cozinha, Tanya bebeu outra chávena de chá e saiu para ir para o hotel preparar-se para a festa. Depois de ela sair, Mary Stuart voltou ao quarto de Todd, correu as cortinas e fechou calmamente a porta, indo em seguida para o seu quarto. Talvez Tanya tivesse razão. Talvez a culpa não fosse sua. Talvez fosse apenas de Todd e de mais ninguém. Mas continuava a não conseguir ficar zangada com Todd. Era muito mais fácil zangar-se com Bill, assim como para ele censurá-la a ela por não ter previsto aquilo que se iria passar.

 

Estava ainda sentada a pensar no assunto, quando Alyssa telefonou. Conversaram durante um bocado, Mary falou na visita de Tanya, sem, contudo, mencionar o que se passara no quarto de Todd. Contou-lhe que Tanya a convidara para uma festa oferecida por Felicia Davenport, mas que não sabia se havia de ir. Sentia-se emocionalmente esgotada pela conversa com Tanya. Mas Alyssa ficou indignada por pensar que ela ia perder uma oportunidade dessas.

 

— Não faça isso! Aproveite para se distrair um pouco. Vá-se arranjar. Vou desligar para não a fazer perder tempo. Vista o vestido preto Valentino.

 

— Aquele que tu usas constantemente? — gracejou Mary. Mas sentia-se reconfortada por ter falado com a filha. Sempre tinham sido muito unidas, mas depois da morte de Todd a intimidade entre as duas tornara-se ainda maior. E Alyssa nunca deixara de apoiar a mãe. Mary teve vontade de lhe pedir desculpa por andar deprimida há tanto tempo, mas não quis falar nessa altura num assunto doloroso. Em vez disso, tomou um banho, envergou o vestido preto do costureiro Valentino, calçou sapatos de salto alto e escovou o cabelo até ficar a brilhar. Maquilhou-se cuidadosamente e pôs uns brincos com diamantes que Bill lhe oferecera há anos. Olhou-se ao espelho, viu que estava elegante e bonita e sorriu. «Estou bem», pensou, «talvez até um pouco melhor que bem», mas fazia-lhe impressão sair sem o marido.

 

Tanya ligou daí a pouco, dizendo que a ia buscar. Mary Stuart estava à espera, junto da porta, quando a limusina chegou. Entrou no carro e ficou impressionada ao ver Tanya. Esta trazia uma blusa cor-de-rosa, larga e quase transparente, por cima de umas calças de cetim preto que realçavam o seu corpo perfeitamente ginasticado. Calçava sapatos de cetim de salto alto e a sua cabeleira loura emoldurava-lhe o rosto. Estava incrivelmente bonita e muito sex, mas a sua apreciação de Mary Stuart também foi satisfatória.

 

— Estás muito elegante — disse com admiração. Havia algo em Mary Stuart que ela sempre invejara. Tudo nela era perfeito, até ao último detalhe, ao mais pequeno cabelo, à mais pequena unha. Tinha um cabelo e umas pernas sensacionais e nessa noite, pela primeira vez naquele ano, os seus grandes olhos castanhos pareciam um pouco menos melancólicos. — Estás óptima!

 

— Tens a certeza de que não farei má figura a teu lado? — perguntou timidamente Mary Stuart.

 

— Não é provável. Vais passar a noite a ter que enxotar os homens. — Sorriu e ergueu as sobrancelhas. — A não ser que não o queiras fazer, claro.

 

Mary Stuart abanou a cabeça ao ouvir essas palavras... Não queria ninguém. Pelo menos por enquanto. E provavelmente nunca iria querer. Mas não gostava de sentir que essa parte da sua vida estava completamente acabada, e no último ano fora isso que sucedera, mas, apesar da conversa com Tanya nessa tarde, ainda não via qualquer luz ao fundo do túnel. Contudo, sentia-se bem por estar arranjada, por sair à noite e encontrar pessoas diferentes. Quando chegaram à festa viram que era ainda melhor do que esperavam.

 

Felicia Davenport mostrou-se encantadora, afável e hospitaleira e Mary Stuart passou um grande bocado a conversar com ela, a falar de Nova Iorque, de teatro e até dos filhos. Mary Stuart simpatizou muito com ela. Era uma mulher fascinante e obviamente uma grande amiga de Tanya. Esta passou a noite rodeada de homens e Mary Stuart teve também o seu quinhão de admiradores. Disse a toda a gente que era casada e a sua aliança de casamento estava bem visível, mas conversou animadamente e a noite foi favorável para o seu ego. Quando finalmente saíram, Tanya convidou-a para irem comer um hambúrguer, mas ela preferiu ir para casa. Não queria exagerar a sua nova independência, nem afastar mais Bill.

 

Tanya foi deixá-la em asa. Mary Stuart convidou-a para subir, mas ela recusou. Queria voltar para o hotel, fazer alguns telefonemas, e descansar, visto Mary Stuart não querer ir aos hambúrgueres.

 

— Obrigada por um bocado tão bem passado... por muitas coisas... — Mary Stuart sorriu-lhe com gratidão. — Como de costume, salvaste-me a vida. E engraçado como fazes sempre isso.

 

— Não faço nada a não ser aparecer de ano a ano como uma moeda falsa.

— Agora toma conta de ti, ouviste? — recomendou Mary Stuart, enquanto se abraçavam. Mary ficou parada no passeio a acenar até o carro desaparecer e, quando se voltou para entrar no vestíbulo, sentiu-se como uma Cinderela. As visitas de Tanya transformavam sempre a sua vida e isso lembrava-lhe como elas tinham sido grandes amigas, ainda o eram e provavelmente seriam. Havia mais de um ano que não se sentia tão bem. Tanya chegara mesmo na altura apropriada e, apesar de ela própria ter problemas, conseguira ajudar a amiga.

 

— Mister Walker acaba de chegar — anunciou-lhe o rapaz do elevador quando a viu.

 

Momentos depois, ao entrar no apartamento, Mary viu Bill a dirigir-se para o quarto. Ele ouviu-a entrar, mas não se voltou para a olhar. Foi como se ele lhe desse uma bofetada, quando o viu afastar-se, recusando-se a vê-la.

 

— Boa noite Bill - disse ela, entrando no quarto logo a seguir ao marido. Só então ele mostrou dar pela sua presença, olhando-a por cima do ombro. Tinha a pasta na mão.

 

— Não te ouvi entrar — replicou ele, mas Mary sabia que mentia. Não a quisera ver. Era mestre na rejeição. — Como foi a festa?

 

— Foi boa. Conheci algumas pessoas interessantes e foi agradável. Felicia Davenport é encantadora e gostei da maior parte dos amigos dela. Foi pena não teres podido ir. — Pela primeira vez não sentia necessidade de rastejar diante dele, de pedir o seu perdão para uma falha imperdoável. Era estranho, mas tinha a sensação de que Tanya a libertara nessa tarde.

 

— Saí do escritório há vinte minutos, enquanto tu te estavas a divertir — disse antipaticamente, sorrindo. — Partiremos para Londres daqui a três dias.

 

— E muito mais cedo do que tinhas dito — replicou Mary, mostrando o seu desagrado, mas sentiu-se mais uma vez punida e abandonada. Não havia qualquer razão para ela não poder estar em Londres com ele, mas Bill tomara bem claro que isso estava fora de questão. Não a queria lá enquanto estivesse a trabalhar. Era mais uma maneira de a manter afastada, de a castigar pelas suas transgressões.

 

— Ver-nos-emos quando fores ter comigo com a Alyssa — disse Bill, como se estivesse a ler os seus pensamentos. Mas dois dias em dois meses dificilmente seriam suficientes para manter um casamento, sobretudo não havendo qualquer razão para ela não estar junto dele em Londres. Depois da sua viagem com Alyssa, poderia passar o resto do Verão em Londres, em vez de ficar sozinha em Nova Iorque. E, por momentos, Mary pensou em ir para a Califórnia fazer uma visita a Tanya durante alguns dias. Nada mais tinha a fazer, pois todas as suas ocupações ficariam paradas por causa das férias de Verão. Ocorreu-lhe a ideia, embora soubesse que não a poria em acção.

 

Momentos depois Bill entrou na casa de banho, voltando de lá já em pijama. Nem sequer olhou para a mulher, nem viu como ela estava vestida, nem reparou como estava bonita. Era como se Mary tivesse deixado de ser mulher para ele, no momento em que o filho morrera.

 

Mary Stuart entrou na casa de banho a seguir e despiu o bonito vestido preto, e com ele desapareceu a ilusão de ser atraente ou independente. Saiu da casa de banho de roupão e Bill voltou a não dar por ela. Encontrava-se de costas voltadas, lendo uns papéis. E, antes de se poder dominar, Mary sentiu como que uma força interior que a levou a confrontá-lo. Falou lenta e claramente e até ela ficou surpreendida com as suas próprias palavras, embora não tanto como ele.

 

— Não vou suportar isto para sempre Bill. — Mary ficou parada diante dele durante um momento e Bill voltou-se lentamente, com os óculos na mão e uma expressão de assombro.

— Que queres dizer exactamente com isso? — Falou como um advogado no tribunal, mas ela recusou-se a deixar-se intimidar. As coisas que Tanya lhe dissera tinham-lhe dado coragem.

 

— Significa exactamente o que acabo de dizer. Não vou viver assim para sempre. Não posso. Não falas comigo, ignoras-me, procedes como se eu não existisse. Agora vais três meses para Londres, ou pelo menos dois, e queres que eu fique satisfeita com uma visita de dois dias. Isto já não é um casamento. E escravidão, e as pessoas costumam ser mais simpáticas para os seus escravos do que tu.

 

Era a coisa mais violenta que ela lhe dissera no último ano e ele não gostou do que ouviu.

 

— Achas que me vou divertir? Pareces esquecer que vou trabalhar — respondeu Bill num tom glacial.

 

— E tu pareces esquecer que somos casados. Ele sabia exactamente o que ela queria dizer, sem precisar de mais explicações.

 

— Tem sido um ano terrivelmente difícil para ambos — disse Bill. O aniversário da morte de Todd passara recentemente e isso parecia ter tomado as coisas ainda piores.

 

— Tenho a sensação de que morremos os dois com ele — disse tristemente Mary Stuart, olhando para o marido, sentindo-se aliviada por estarem a falar. — E o nosso casamento está a morrer connosco.

 

— Isso não é necessariamente verdade. Penso que ambos precisamos de tempo — respondeu Bill, mas Mary percebeu que ele não estava a ser honesto, nem com ele próprio, nem com ela. Ele achava que bastava esperar até que as coisas se compusessem, mas Mary sabia que seria preciso muito mais do que isso.

— Passou-se um ano Bill — lembrou Mary, pensando até onde ele deixaria seguir a conversa. Suspeitava de que não seria até muito mais longe.

 

— Sei isso — afirmou Bill. Essas palavras foram seguidas de uma longa pausa. — Sei coisas que não sabia, como, por exemplo, que planeavas fazer-me um ultimato.

 

— Não o disse com essa intenção. Quis apenas informar-te, pois, mesmo que quisesse continuar a viver assim, creio que não conseguiria.

 

— Podes fazer tudo quanto quiseres.

 

— Então talvez não seja isto que eu queira. Não desejo ser tratada como uma peça de mobiliário durante o resto da minha vida. Isto não é um casamento, é um pesadelo. — Era a primeira vez que lhe dizia aquilo. E ele não respondeu, limitou-se a voltar-lhe as costas, voltou a pôr os óculos e concentrou-se na leitura. — Não acredito que continues a ignorar-me depois do que eu te disse.

 

Bill falou de costas voltadas para ela e era difícil, ouvindo-o, recordar que houvera afecto, amor e alegria entre eles. Era ainda mais difícil acreditar que ela estivera profundamente apaixonada por ele e que se tratava do pai dos seus filhos.

 

— Não tenho mais nada a dizer-te — replicou ele, continuando a ler. — Ouvi o teu depoimento e não tenho mais comentários a fazer.

 

Era inacreditável, e ela não pôde deixar de pensar se ele estaria tão profundamente assustado e magoado que se tivesse transformado num bloco de gelo. Mas, fosse como fosse, Mary encarou finalmente o facto de que não podia suportar aquela situação durante muito mais tempo.

 

Mary deitou-se Bill apagou as luzes e não voltou a dirigir-lhe a palavra. Mary ficou acordada, no escuro, durante muito tempo, pensando nas pessoas que encontrara na festa de Felicia. Apesar de já ter quarenta e quatro anos, existia ainda vida para ela, pessoas dispostas a falar com ela e a mostrarem um pouco de interesse. Era como se Tanya lhe tivesse aberto uma porta e ela se atrevesse a espreitar para fora pela primeira vez desde há muito tempo. Era tudo muito intrigante e não fazia ideia do que havia de fazer agora. E depois do que lhe ouvira dizer nessa noite, o marido também não sabia. Estavam presos nos lados opostos daquilo que se tomara para eles o Grande Canyon, e que fora antes o seu casamento.

 

Durante os três dias seguintes, os caminhos de Bill e de Mary Stuart raramente se cruzaram. Ele trabalhava até perto da meia-noite todos os dias e começava a dar a impressão de que vivia no escritório. Mas Mary já estava habituada. Estivera mais ou menos sozinha durante todo o ano e realmente as coisas não eram agora muito diferentes. A única diferença era ela não precisar de fazer o jantar. E o resultado era estar cada vez mais magra, o que outrora teria preocupado Bill. Agora, porém, nem dava por isso.

 

No dia anterior àquele em que Bill devia partir, Mary Stuart ligou-lhe para o escritório para lhe perguntar se queria que lhe fizesse as malas para ir para Londres. Calculava que quisesse, visto nunca as ter feito, mas ele disse-lhe que iria a casa nessa tarde para as fazer.

 

— Tens a certeza? — Ficou surpreendida, como se já não o conhecesse, ou pelo menos era essa a sua leitura da situação. Tinha a impressão de que haviam deixado de ser as mesmas pessoas. — Eu não me importo de o fazer. — Parecia-lhe que seria natural e assim manter-se-ia ocupada. Estava ainda a tentar absorver a ideia de que o marido se iria embora por dois ou três meses. Só tomara verdadeiramente consciência disso nesse dia. Exceptuando a sua viagem com Alyssa, iria ficar sozinha todo o Verão. E, de certo modo, isso assustava-a. O facto de Bill não querer que ela o acompanhasse a Londres tomava mais evidente o distanciamento entre os dois. Bill afirmava que seria aborrecido para Mary e que ela o distrairia do trabalho, mas anos antes nunca tal coisa lhe passaria pela cabeça. — Não me importo de te fazer as malas — insistiu Mary. Mas Bill declarou que precisava de ser ele a decidir o que levava, pois teria de ter muito cuidado com o que iria usar no tribunal.

 

— Estarei em casa às quatro horas — concluiu Bill, apressado. Era complicado abandonar o escritório durante vários meses e havia inúmeros detalhes a tratar. Bill levava uma das suas assistentes com ele, e, se se tratasse de uma mulher mais nova e mais atraente, Mary tiraria as conclusões óbvias. Mas era uma senhora forte, inteligente, mas sem qualquer atractivo, que devia ter mais de sessenta anos.

 

— Queres jantar em casa ou preferes ir jantar fora? — perguntou Mary Stuart, sentindo-se deprimida, mas querendo dar à ocasião um ar festivo. Tinha a sensação de ter deixado de haver qualquer fingimento entre ambos, nem mesmo a ilusão de intimidade, e essa sensação tornara-se mais forte à medida que a partida dele se aproximava.

 

— Comerei qualquer coisa que tenhas no frigorífico — disse Bill. — Não precisas de te incomodar. - Ambos detestavam agora os jantares silenciosos em que os dois se sentiam embaraçados e fora um alívio quando ele passara a jantar no escritório e a trabalhar até tarde. Em consequência disso estavam os dois mais magros.

 

— Vou comprar um prato frio no William Poll ou no Fraser Morris — replicou Mary.

 

Depois de desligar, saiu para fazer as compras. Precisava de ir buscar a roupa de Bill à lavandaria e queria oferecer-lhe um livro que sabia que ele apreciaria para ler no avião. Ao caminhar ao longo de Lezington, sentiu-se subitamente satisfeita por partir dentro de poucas semanas. Apesar do abismo que se abria entre eles, iria sentir-se incrivelmente só sem o marido.

 

Comprou alimentos frios no William Poll, o livro e algumas revistas, uns doces e pastilhas elásticas e quando regressou a casa pendurou todas as camisas dele no roupeiro, para que pudesse escolher as que queria levar. Bill chegou e foi logo fazer as malas, sem trocar uma única palavra com ela. Mary ouviu-o tirar as malas da parte de cima dos roupeiros e só voltou a vê-lo às sete horas, quando ele apareceu na cozinha. Trazia ainda vestida a camisa branca que levara para o escritório, mas tirara a gravata e tinha o cabelo ligeiramente despenteado. Subitamente achou que ele tinha um aspecto rejuvenescido, e o que ainda se tornava mais doloroso era o facto de ele lhe fazer lembrar Todd. Tentou corajosamente ignorar os seus sentimentos.

 

— Estás despachado? Não me teria custado nada fazer-te as malas — disse suavemente Mary, pondo o jantar na mesa.

 

O dia fora muito quente e era agradável comer carnes frias e não ter que cozinhar.

 

— Não quis dar-te essa maçada — replicou Bill, sentando-se num dos bancos altos ao lado do balcão de granito. — Não te faço feliz e não me parece justo dar-te trabalho e desgostos, ou pouco mais do que isso. Assim, prefiro não te incomodar, para tomar as coisas mais fáceis.

 

Era a primeira vez que ele falava na situação e Mary olhou-o com assombro. Quando ela tentara dizer-lhe qualquer coisa, uns dias antes, embatera com uma muralha de gelo e ele ignorara-a completamente. Mary nem sequer sabia se a ouvira.

 

— Não espero que tu não me dês maçadas — retorquiu Mary, sentando-se em frente do marido e fitando-o. Os olhos dela pareciam dois lagos de chocolate escuro. Bill gostara sempre de a olhar, de ver a expressividade dos seus olhos, mas a dor que se estampara neles durante o último ano fora demasiada para ele a poder suportar, e era mais fácil evitá-la. — O casamento não é para levar distanciamento, é para partilhar.

 

Eles tinham partilhado a alegria durante quase vinte e um anos e um desgosto infindável durante o último ano. O mal fora não partilharem esse desgosto. Cada um sofrera em silêncio, no seu canto.

 

— Ultimamente não temos partilhado muita coisa, pois não? — perguntou tristemente Bill. — Creio que tenho andado ocupado de mais no escritório.

 

Mas não era isso. Ambos o sabiam. Mary ficou calada, olhando-o, e ele estendeu lentamente um braço e tocou-lhe na mão. Era o primeiro gesto desse género desde há muitos meses e os olhos de Mary encheram-se de lágrimas ao sentir os dedos dele.

 

— Tenho sentido a tua falta — sussurrou Mary, mas ele limitou-se a dizer que sim com a cabeça. Também sentira a falta dela, mas no era capaz de lho dizer. — Vou ter saudades tuas quando estiveres em Londres — continuou calmamente Mary. Era a primeira vez que iam estar separados durante tanto tempo desde que se tinham casado. Mas ele mostrara-se peremptório em não querer que ela o acompanhasse. — E muito tempo.

 

— Vai passar depressa. Irás com Alyssa no próximo mês e eu conto estar de volta em fins de Agosto.

 

— Vamos estar juntos dois dias em dois meses — afirmou Mary, olhando-o, desesperada, começando a afastar a mão da dele, devagar. — Não é costume as pessoas casadas gostarem de estar tanto tempo separadas. Eu ficava no hotel e entretinha-me sozinha durante o dia. — Tinham muitos amigos em Londres, com os quais ela poderia conviver, e Bill sabia-o.

 

— Distrair-me-ias do meu trabalho — respondeu Bill com ar infeliz. Tinham falado muitas vezes no assunto e ele mostrara sempre que não queria que ela fosse a Londres, a não ser durante dois dias, com a filha.

 

— Mas é a primeira vez que pensas assim — replicou Mary, sentindo-se novamente suplicante, e detestando-se a si própria e a ele por isso. — De qualquer modo... bem... é muito tempo... acho que ambos sabemos isso,

 

 

Os olhos dele fitaram subitamente os dela e Mary percebeu que havia uma interrogação nos olhos do marido.

 

— Que queres dizer com isso? — pela primeira vez ele pareceu ficar preocupado. Bill era um homem atraente e Mary tinha a certeza de que muitas mulheres andariam atrás dele em Londres. Mas não podia imaginar que ele se pudesse preocupar com ela. Fora sempre uma esposa perfeita, mas ele também nunca a deixara sozinha durante um longo Verão, depois de um ano como aquele.

 

— O que quero dizer é que dois meses é muito tempo, especialmente depois de um ano como este. Vais-te embora por dois meses, possivelmente mais... Não sei bem o que hei-de pensar disto Bill. — Olhou-o com uma expressão preocupada e em seguida ficou ainda mais surpreendida.

 

— Nem eu. Pensei apenas que... que pudéssemos aproveitar o tempo da separação para... para avaliarmos a situação, pensarmos no que havemos de fazer e tentarmos encaixar as peças do puzzle.

 

— Não compreendo como é que uma separação nos poderá vir a aproximar mais — retorquiu prosaicamente Mary.

 

— Poderá ajudar-nos a aclarar ideias. Não sei... só sei que precisava de estar longe de ti, de pensar noutra coisa qualquer, de me embrenhar no trabalho. — Mary ficou surpreendida quando viu lágrimas nos olhos dele. Não o voltara a ver chorar desde o dia em que tinham ido buscar o corpo de Todd a Princeton. Mesmo no funeral mantivera um ar severo, sem derramar uma lágrima. Começara desde esse dia a esconder-se por detrás de uma muralha e era agora a primeira vez que se aventurava a sair detrás dela. Talvez se sentisse perturbado por se ir embora. Isso já era alguma coisa. — Quero estar sozinho para trabalhar, Mary Stuart. E que... — os seus lábios tremeram e os olhos encheram-se novamente de lágrimas, enquanto ela estendia de novo a mão para a dele e lha apertava meigamente — ... de cada vez que olho para ti... lembro-me dele... é como estarmos todos irremediavelmente ligados uns aos outros. Preciso de me afastar, de deixar de pensar nele, naquilo que poderíamos ter feito ou dito, ou sabido... ou em como as coisas poderiam ter sido diferentes. Isso quase me tem feito enlouquecer. Pensei que a ida para Londres pudesse ser uma boa maneira de alterar as coisas. Achei que afastar-me de ti pudesse ser bom para ambos. Deves sentir o mesmo a meu respeito, quando me vês.

 

Mary sorriu através das lágrimas, comovida mas entristecida pelas palavras dele.

 

— Pareces-te tanto com ele! Quando entraste na cozinha, há pouco, sobressaltaste-me.

 

Bill concordou com um gesto. Compreendia perfeitamente. Eram ambos perseguidos pela memória do filho. Estava farto do apartamento, do correio que ainda ocasionalmente chegava para Todd, do quarto que sabia estar intacto, mas no qual nunca entrava. Mesmo Alyssa lhe fazia lembrar Todd, em certas alturas, e ele tinha os olhos e o sorriso da mãe. Era tudo insuportavelmente doloroso.

 

— Não podemos fugir um do outro para escaparmos à recordação do nosso filho — disse Mary com tristeza. — Assim é uma dupla perda. Perdemo-lo e perdemo-nos um ao outro. — Com efeito, já tinham perdido, e ambos o sabiam.

 

— Irás ficar bem enquanto eu estiver fora? — perguntou Bill, pela primeira vez com um sentimento de culpa. Dissera a si mesmo que era sensato deixá-la. Afinal ia para Londres trabalhar. Sentira-se aliviado com a oportunidade de fugir da presença da mulher, e agora, embora essa decisão lhe parecesse disparatada e estúpida, não queria mudar de opinião e levá-la.

 

— Ficarei bem — respondeu Mary com mais dignidade que verdade. Que havia de dizer? Declarar-lhe que passaria os dias fechada em casa, a chorar? Que era mais do que podia suportar? No era. Estava quase habituada a isso. Bill abandonara-a quando Todd morrera, pelo menos emocionalmente. Agora estava apenas a levar o corpo consigo. Havia um ano que estava sozinha, e mais dois meses não fariam grande diferença.

 

— Podes telefonar-me sempre que tenhas qualquer problema. Talvez fosse bom ficares na Europa com Alyssa durante uns tempos.

 

Mary sentiu-se como uma parente idosa a ser afastada para casa de outros parentes ou aliciada para fazer um cruzeiro. Mas sabia que estaria melhor em sua casa do que sozinha em hotéis, por toda a Europa.

 

— Alyssa vai à Itália com os amigos. Tem os seus próprios planos.

 

E ele também. Todos tinham. Até mesmo Tanya tencionava ir a Wyoming com os filhos de Tony. Toda a gente ia fazer alguma coisa, excepto ela. Restava-lhe apenas uma curta viagem com Alyssa e passar o resto do Verão à espera. Era uma presunção extraordinária da parte dele, mas, dadas as circunstâncias a que chegara a sua vida, já nada a surpreendia.

 

Comeram o que ela comprara sem grande apetite, falaram de certas coisas que ela precisava de saber, de um prémio do seguro de que ele estava à espera, do correio que ele queria que lhe fosse enviado e do dinheiro que ela receberia. Bill esperava que ela pagasse as contas, pois teria muito pouco tempo livre quando estivesse a trabalhar em Londres. Depois de conversarem durante algum tempo Bill foi para o quarto acabar de arrumar os papéis. Estava na casa de banho, a tomar duche, quando Mary entrou no quarto. Quando voltou ao quarto Bill envergava um roupão e tinha o cabelo húmido. Cheirava a sabonete e a aftershave e por momentos, vendo-o assim, ela sobressaltou-se. Bill estava mais descontraído. Pensou se estaria assim por ter pena de a deixar ou por estar satisfeito por se ir embora.

 

Quando se deitaram, nessa noite, o marido não se chegou para ela, mas, mesmo assim, à distância, pareceu-lhe menos rígido. Mary gostaria de lhe dizer certas coisas sobre o que sentia e o que ainda esperava dele, mas achou que, apesar de um ligeiro abrandamento da guerra-fria, Bill ainda não estava pronto para que ela abrisse a sua alma, para que lhe dissesse o que pensava acerca do seu casamento. Sentia-se incrivelmente triste e estranhamente traída. Fora-lhe tirado um filho e a Todd fora roubado, ou roubara a si próprio, o seu futuro. Mas parecia que, quando ele desaparecera, levara os pais consigo. Seria bom poder dizer isso a Bill, francamente, mas, como sabia que quase não o veria nos dois meses seguintes, Mary achou que não era a altura apropriada para lho dizer. Ele não estava preparado para a ouvir. E ficou do seu lado da cama, a pensar nele. Bill adormeceu sem lhe dizer uma única palavra e sem lhe rodear o corpo com o braço. Dissera-lhe já tudo quanto era capaz, quando estavam os dois na cozinha.

 

Quando se levantou, na manhã seguinte Bill começou logo com pressa de se organizar. Telefonou para o escritório, fechou as malas, tomou duche, barbeou-se e mal teve tempo para olhar para o jornal enquanto tomava o pequeno-almoço. Mary preparara-lhe cereais, ovos e torradas de pão integral, que ele comia habitualmente. Em seguida fora arranjar-se e aparecera com um fato de calças e casaco de linho preto e uma blusa às riscas pretas e brancas. Como de costume, parecia saída da capa de uma revista.

 

— Tens alguma reunião hoje? — perguntou Bill, olhando-a de relance.

 

— Não — respondeu calmamente Mary Stuart, sentindo um aperto no estômago.

 

— Estás muito bem vestida para ficares em casa. Vais almoçar fora?

 

 

Mary não pôde deixar de pensar o que lhe importaria isso, visto estar fora dois meses. Que diferença lhe faria o que ela fizesse?

 

— Não quis levar-te ao aeroporto de calças de ganga — respondeu Mary, reparando que ele franzia o sobrolho.

 

— Não espero que me leves ao aeroporto. Vem um carro buscar-me às dez e meia. Mistress Anderson também vai e Bob Miller igualmente. Tencionamos ainda ver umas coisas no carro, a caminho do aeroporto.

 

Não podiam perder um momento. Eram verdadeiros robôs humanos. Ou seria para se livrar dela mais cedo?

 

— Não preciso de ir, se preferes que não vá — declarou calmamente Mary Stuart. E o marido voltou de novo a sua atenção para o jornal.

 

— Não me parece que faça muito sentido. Acho mais simples despedirmo-nos aqui.

 

— Sim. Mais simples e menos embaraçoso. Com certeza ele não queria que alguém pensasse que a amava. Mas amaria? A pequena afabilidade que mostrara na véspera desaparecera completamente. A muralha interpunha-se novamente entre eles, e Bill ocultava-se não só atrás dessa muralha, mas também atrás do jornal.

 

— Tenho a certeza de que terás coisas mais interessantes a fazer hoje. O aeroporto é uma confusão nesta altura do ano e ias levar horas a voltar à cidade.

 

Sorriu, mas sem sombra de afeição. Era o género de sorriso que se podia oferecer a um desconhecido. Mary fez um gesto de concordância e foi pôr os pratos no lava-louças, tentando não chorar. Era estranho vê-lo partir assim. E, quase sem ela dar por isso Bill chamou o elevador e colocou as malas no patamar. Envergava um fato cinzento-claro e estava terrivelmente atraente. Fora tacitamente decidido entre eles que Mary não o acompanharia ao aeroporto. Ficou à porta, vendo o rapaz do elevador pegar nas malas, enquanto Bill se dirigia para ela. Mary deu discretamente um passo atrás para o rapaz não os ver.

 

— Eu telefono-te — prometeu Bill, enquanto Mary se esforçava para que ele não lhe visse as lágrimas. Parecia-lhe impossível que partisse sem um único gesto de amor para com ela.

 

— Tem cuidado contigo - recomendou timidamente.

 

— Vou ter saudades tuas — disse Bill, inclinando-se para a beijar na face. Sem querer, Mary rodeou-lhe o pescoço com os braços.

 

— Lamento... tudo... — Lamentava o que se passara com Todd, o ano anterior, o facto de ele achar que precisava de um intervalo de dois meses no seu relacionamento. Lamentava o facto de o seu casamento estar destroçado. Havia tantas coisas a lamentar que era difícil recordar tudo, mas Bill percebia o que ela estava a dizer.

 

— Está bem... vai ficar tudo bem, Stu... — Não lhe chamara assim durante o ano inteiro. Ficaria? Já não acreditava nisso. Agora iam estar separados dois meses. Sabia instintivamente que essa separação os afastaria ainda mais, ao contrário do que ele dizia. Era insensatez pensar que seria bom para eles. Só poderia tomar ainda mais fundo o abismo que os separava. Bill recuou um passo, sem a beijar, e olhou-a com uma infinita tristeza. — Até daqui a umas semanas.

 

Mary pôde apenas dizer que sim com a cabeça, enquanto as lágrimas lhe corriam pelas faces. O rapaz do elevador esperava, com a porta aberta.

 

— Amo-te — sussurrou, quando ele ia a afastar-se. O marido voltou-se, quando a ouviu, mas limitou-se a dizer que sim com a cabeça. Depois a porta do elevador fechou-se silenciosamente. Partira sem lhe responder.

 

Quando ficou só no apartamento, Mary Stuart sentiu de tal modo a solidão que teve dificuldade em respirar. Não podia acreditar que ele se fora embora daquela maneira, que não voltaria a casa durante meses e que só o veria durante uns dias em companhia da filha. Pelo menos tinha a filha, mas sentia que o seu casamento estava acabado. Por mais que ele dissesse, o facto de precisar de passar algum tempo longe dela e de já não ser capaz de corresponder ao seu carinho dizia tudo.

 

Sentou-se no sofá e chorou durante um bocado, sentindo pena de si própria. Depois dirigiu-se lentamente para a cozinha. Meteu os pratos na máquina de lavar, deitou fora o resto do pequeno-almoço e quando o telefone tocou esteve quase a não atender. Pensou que pudesse ser Bill a ligar do carro para lhe dizer que se esquecera de alguma coisa, ou talvez que a amava. Mas era a filha.

 

— Olá, querida. — Mary Stuart tentou parecer animada. Não quis dizer a Alyssa como se sentia infeliz por o pai se ter ido embora. Já eram suficientemente infelizes sem ela se queixar por causa do seu casamento, especialmente à filha. — Como está Paris?

 

— Linda, quente e romântica — replicou Alyssa. Era uma palavra nova no seu vocabulário e Mary Stuart sorriu, pensando se haveria um novo amor na vida da filha. Talvez um jovem francês.

 

— Posso perguntar porquê? — disse, ainda a sorrir.

 

— Oh!, apenas porque é assim. Paris é uma cidade maravilhosa e eu adoro estar aqui. Não quero ir-me embora.

 

Mas teria de ir. Deixariam o apartamento depois dela ir ter com a filha a Paris.

 

— Não te posso levar a mal por isso — respondeu Mary, olhando de relance para Central Park pela janela da cozinha. Era também bonito e cheio de verdura, mas era, além disso, sujo, cheio de vagabundos e ladrões. Definitivamente não era o mesmo que Paris. — Estou ansiosa por ir ter contigo — disse, tentando não pensar na partida de Bill, uma hora antes. Devia estar agora no aeroporto, mas duvidava que lhe telefonasse. Não havia nada a dizer e ela fizera-o sentir-se mal mostrando as suas emoções. Percebera claramente isso. Mas Alyssa permaneceu estranhamente silenciosa. — Já organizaste a nossa viagem? — Mary Stuart pedira-lhe para ela comprar alguns mapas para as viagens que fizessem de carro. Essa parte da viagem era incumbência de Alyssa. A restante fora tratada pelo pessoal do escritório de Bill. — Já tens os mapas dos Alpes marítimos? Falaram-me de um pequeno hotel excelente nos arredores de Florença. — A filha continuava calada. — Alyssa? Estás bem? Passa-se alguma coisa? — Havia algum problema. Estaria apaixonada? Estaria a chorar? Quando ela falou de novo, percebeu que não chorava. Estava apenas embaraçada.

 

— Mamã... tenho um problema...

 

— Oh!, meu Deus! Estás grávida? — A filha tinha quase vinte anos e seria uma calamidade que Mary Stuart preferiria não ter de enfrentar, mas, se fosse necessário, enfrentá-la-ia.

 

Porém, Alyssa ficou indignada com a sugestão dela.

 

— Por amor de Deus, mama! Claro que não!

 

— Desculpa. Pensei... Qual é o problema? Alyssa respirou fundo e lançou-se numa história complicada, que Mary Stuart comparou às histórias que ela costumava contar-lhe quando andava na terceira classe e que pareciam nunca mais ter fim. Depois de muitas explicações, Mary acabou por perceber que um grupo de amigos de Alyssa ia fazer uma viagem aos Países Baixos e queriam que ela os acompanhasse. Tratava-se de uma oportunidade única, segundo Alyssa. Viajariam até à Suíça e à Alemanha, ficando hospedados em casas de amigos ou em pousadas para a juventude. Depois iriam até à Itália, onde já planeara encontrar-se com eles mais tarde. Mas a primeira parte da viagem fora já organizada e, na opinião de Alyssa, era uma ocasião que só aparecia uma vez na vida.

 

— Acho formidável, mas continuo a não perceber qual é o problema.

 

Alyssa suspirou. A mãe às vezes era tão estúpida... mas pelo menos não o era sempre, como o pai.

 

— Partem esta semana. Viajarão durante dois meses antes de nos encontrarmos, em Capri. Eu podia deixar agora o apartamento e ir com eles se não fosse... — Calou-se e Mary Stuart compreendeu. A filha já não queria viajar com ela pela Europa. Era compreensível, claro, mas não deixava de ser um grande desapontamento para si. Alyssa era tudo o que lhe restava nesse momento. E ansiava por aquela viagem com a filha, a única que lhe restava.

 

— Compreendo — retorquiu calmamente Mary Stuart. — Não queres ir comigo. — Depois arrependeu-se de pronunciar aquelas palavras. Não queria dizer aquilo tão cruamente.

 

— Não é nada disso, mamã. Irei consigo se realmente quiser. E que... pensei... trata-se de uma oportunidade tão boa... mas quando quiser... — Tentava mostrar-se diplomata, mas estava ansiosa por ir com os amigos e Mary Stuart sabia que seria muito mais divertido para ela. Não era justo impedi-la de ir.

 

— Acho maravilhoso — disse generosamente Mary Stuart. — Penso que deves ir.

 

— A sério? Pensa realmente isso? — Parecia uma garota e Mary imaginava-a aos pulos no apartamento de Paris. — Oh!, mamã, é a melhor mãe do mundo! Sabia que compreenderia, mas receava que pensasse... eu...

 

Então Mary Stuart compreendeu ainda mais, mas isso não a chocou.

 

— Há algum cavalheiro incluído nesse grupo? — Pela voz da filha percebeu que havia, e isso fê-la sorrir, mas também lhe causou uma certa nostalgia.

 

— Bem... talvez... mas não é por isso que quero ir com eles. Sinceramente, é por ser uma viagem fantástica.

 

— E tu és uma rapariga fantástica e eu gosto muito de ti. Ficas-me a dever uma viagem no Outono. Iremos para um sítio qualquer juntas, antes de voltares para Yale. Combinado?

 

— Prometo.

 

Mas Mary Stuart sabia que não seria o mesmo. A filha estaria ansiosa por ir a casa para em seguida regressar às aulas. Esquecer-se-ia facilmente. A viagem pela França e pela Itália seria maravilhosa para si própria, mas a viagem pêlos Países Baixos em companhia dos amigos iria ser muito mais divertida para a filha. E Mary Stuart nunca hesitara em sacrificar-se pêlos filhos.

 

— Quando é que partes?

 

— Dentro de dois dias, mas terei tempo de tratar de tudo. — Falaram sobre o modo como Alyssa havia de enviar as suas coisas para casa e dos pagamentos que tinham de ser feitos. Mary Stuart teria de lhe mandar dinheiro. Disse a Alyssa para comprar traveller's checks com esse dinheiro e quantos comprar, e conversaram durante muito tempo acerca dos detalhes da viagem de Alyssa. Depois a mãe quis saber se ela ainda planeava ir a Londres.

 

— Não me parece. Não tencionávamos ir a Londres e outro dia falei com o papá e ele disse-me que ia estar muito ocupado.

 

Mary viu então que o marido estava a afastar toda a gente, e não só a ela, mas isso não lhe servia de conforto.

 

Quando desligaram, Mary Stuart ficou sentada a olhar pela janela durante muito tempo, vendo as crianças brincarem no parque e as mães a vigiarem-nas, ou sentadas nos bancos, a conversarem. Recordava-se desses tempos como se ainda tivessem sido na véspera. Ela costumava passar as tardes no parque com os filhos. Algumas das suas amigas trabalhavam, mas ela sempre achara mais importante ficar em casa e sentira-se sempre feliz por o poder fazer. E agora os filhos tinham partido e ela sentia-se só. Uma tornara-se adulta e ia viajar pela Europa com um grupo de amigos. O outro fora para um lugar distante, na eternidade, onde ela esperava voltar a vê-lo um dia. Essa crença era a única coisa a que se podia agarrar.

 

«Tomem conta deles», apetecia-lhe murmurar às mães que via lá em baixo. «Segurem-nos, enquanto podem.» Passava tudo muito depressa e depois acabava. Como o casamento dela, que acabara também. Tinha a certeza disso. Havia meses que o percebera e recusara-se a acreditar, mas, ao pensar na maneira como ele partira, nas coisas que tinham ficado por dizer e do modo como se afastara dela quando lhe dissera que o amava, deixara de haver qualquer dúvida no seu espírito. E nem sequer tinha o conforto de pensar que havia outra mulher. Não era ninguém. Apenas ele, ela, o tempo, o facto de a tragédia os ter atingido e eles não terem sobrevivido. Era a vida. Mas, fosse o que fosse, sabia que o casamento deles tinha morrido. Agora só lhe restava adaptar-se. Tinha na sua frente dois meses de liberdade para ver se gostava.

 

Nessa tarde foi dar um passeio e pensou em tudo isso, em Alyssa, que ia viajar com amigos, em Bill, que passaria dois meses em Londres, e compreendeu algo que sempre soubera e receara, que iria ficar só. Cabia-lhe agora apanhar os bocados, continuar a viver, aceitar o que o filho fizera. Tanya tivera razão no que dissera. Ela não podia fugir ao sucedido para sempre. Talvez a culpa fosse dela, mas, mesmo que fosse, não poderia continuar a usar a morte dele como uma mortalha, até ela a matar.

 

Voltou para casa e quando entrou e pousou a carteira soube o que tinha a fazer. Soubera-o há muito tempo, mas nunca tivera coragem de o fazer. Teria preferido não ter de agir sozinha, mas era chegada a altura. Abriu a porta do quarto do filho e ficou ali parada durante muito tempo. Depois correu os cortinados e os estores e deixou entrar o sol. Sentou-se à secretária e começou a abrir as gavetas. Ao princípio sentiu-se uma intrusa, ao examinar todos os papéis de Todd. Havia cartas, antigos exames, recordações da sua infância e um antigo bilhete de Princeton relativo à apresentação no clube onde ia comer. Percorreu todas as gavetas, uma a uma, e em seguida, esforçando-se por não chorar, foi à cozinha e tirou de um armário várias caixas de cartão e levou-as para o quarto de Todd. Logo que começou a encher as caixas as lágrimas deslizaram-lhe pelas faces. Mas era quase um alívio chorar. Nessa noite passou horas no quarto de Todd e o telefone nunca tocou. Bill nunca telefonava. O avião devia aterrar em Londres às duas horas da manhã e estaria no Claridge às três e meia. Não fazia ideia do que ela estava a fazer e ele próprio lhe dissera que fizesse o que quisesse.

 

Levou várias horas a arrumar tudo, e quando acabou nada restava. Metera todas as roupas de Todd em caixotes e guardara apenas algumas coisas especiais, como o seu antigo uniforme de escuteiro, um casaco de cabedal de que ele muito gostava e uma camisola de malha que ela lhe fizera, que ia guardar numa prateleira. O resto seria dado e os papéis e livros iriam para a arrecadação que tinham na cave do prédio. Deixou todos os trofeus ganhos por Todd alinhados numa prateleira. Queria arranjar um sítio onde os pôr. As fotos que ali se encontravam foram espalhadas pela casa toda. Parecia que ele tinha repentinamente partilhado alguma coisa com eles, como se lhes tivesse oferecido um presente, uma recordação. Eram duas horas quando acabou de arrumar tudo e deixou-se ficar imóvel na cozinha branca, às escuras. Quase podia senti-lo junto de si, ver o seu rosto, os olhos, ouvir a sua voz. As vezes pensava que ia esquecer, mas sabia que isso nunca aconteceria. Todd significava muito mais para ela do que todas aquelas coisas. Nada daquilo importava agora. Desaparecera tudo e o que verdadeiramente interessava ficaria com ela para sempre.

 

Tirou as colchas verde-escuras das camas, guardou-as no armário para as mandar limpar e tomou mentalmente nota para mudar os cortinados. Nunca reparara como estavam desbotados. Era triste olhar para o seu antigo quarto, vazio e abandonado, com caixas cheias de objectos por todo o lado. Parecia que ele se ia mudar para outro sítio, e a verdade é que há um ano que ele o fizera. Ela já devia ter feito aquilo há um ano. Estava a despedir-se dele agora, mas nunca o esqueceria.

 

As coisas não mais voltariam a ser iguais. Era apenas uma questão de tempo até ter de desmanchar o resto do apartamento. Olhou à sua volta uma última vez e fechou lentamente a porta. No dia seguinte telefonaria para uma obra de beneficência para mandarem buscar as roupas de Todd, e o porteiro transportaria o restante para a arrecadação, na cave. E, ao encaminhar-se lentamente para o seu quarto, pensou em tudo o que sucedera no ano anterior e concluiu que todos eles estavam sós. Todd morrera, Alyssa encontrava-se na Europa com os amigos, e Bill passaria o Verão em Londres. E ela ali estava, pondo de parte velhas recordações do seu filho, o seu primeiro bebé.

 

Ficou muito tempo parada a olhar para uma fotografia dele. Os seus olhos, grandes, brilhantes e claros, pareciam rir. Com efeito, ele tirara a fotografia a rir. Ainda podia ouvir o som do riso dele. «Então, mamã... depressa.» Tinha o fato de banho molhado e estava com frio. Encontravam-se então em Cape Cod e ele fingira estar a estrangular a irmã, numa grande brincadeira. Depois disso correra pela praia com a parte de cima do biquini dela e Alyssa fora atrás dele, embrulhada na toalha e a gritar. Era como se tudo isso se tivesse passado há mil anos e a vida dela fosse agora feita de recordações, no apartamento vazio.

 

Mary Stuart só se deitou umas horas mais tarde e quando o fez sonhou com todos eles. Alyssa dizia-lhe qualquer coisa a respeito de ela abanar a cabeça e Todd agradecia-lhe por ter empacotado as suas coisas. E, ao olhar, vira Bill à distância, afastando-se dela. Quando o chamara ele não se voltara e continuara a andar, cada vez para mais longe.

 

Tanya não sabia bem o que iria encontrar no seu regresso a Los Angeles. Tony dissera-lhe que se ia embora, mas havia ainda a possibilidade de não ter ido. Logo que chegou a casa foi revistar os armários dele e viu que se encontravam vazios. Jean esperava-a, ansiosa por lhe dar as últimas notícias e mostrar-lhe os horrores que os tablóides haviam publicado. A sua foto estava nas primeiras páginas e as histórias que o ex-guarda-costas contava sobre ela eram espantosas. Alguém lhes dissera que Tony alugara um apartamento para ele, apenas temporariamente, segundo explicavam, e publicavam mais fotografias dele acompanhado pela jovem actriz, dessa vez enquanto jantavam.

 

— Está bem... está bem... — disse Tanya, mostrando-se cansada. — Já sei. Já vi. — Tinha comprado um jornal igual no aeroporto. — Creio que irei uns dias para Santa Bárbara.

 

Precisava de sair dali, de se afastar dos olhos que a espiavam, dos armários vazios, da casa deserta. Nem sequer tinha tempo para chorar por ele. Só podia pensar em proteger-se dos média.

 

— Não pode ir — declarou peremptoriamente Jean, entregando-lhe quatro folhas onde anotara tudo quanto ela tinha que fazer. — Amanhã à noite entra num espectáculo de beneficência, nos dois dias seguintes tem ensaios e no fim-de-semana tem de se encontrar com Bennett por causa do processo.

 

— Diga-lhe que não posso — replicou Tanya, aborrecida. — Preciso de dois dias de descanso.

 

Nunca faltaria a uma festa de beneficência nem aos ensaios, mas não iria passar ali o fim-de-semana por causa de preparar depoimentos com o advogado.

 

— Creio que terá mesmo de ir — afirmou Jean. — Já estão marcados os depoimentos no caso Leo Turner e Bennett disse-me que recebeu um telefonema do advogado de Tony esta manhã.

 

— Foi rápido — respondeu Tanya, deixando-se cair num confortável cadeirão de cetim cor-de-rosa no seu quarto. — Não perdeu tempo. — Era como se os três anos de casamento tivessem desaparecido repentinamente no ar e agora tivessem apenas de tratar de negócios. Tanya tinha a impressão de que, afinal, tudo se resumia a isso: negócios, ganância, dinheiro. Os agentes, os advogados, as pessoas que vendiam histórias a seu respeito, os que queriam que ela lhes pagasse para não a processarem, a imensidão de pessoas que achavam que ela lhes devia qualquer coisa por ter sucesso, por ter tido sorte e elas não. — Preciso de um dia para mim — declarou calmamente, dirigindo-se à secretária. Ninguém podia fazer ideia de como isso era verdade. Não podia continuar, não podia continuar a sorrir, a cantar e a trabalhar para todos. As vezes tinha a sensação de trabalhar apenas para pagar aos que a rodeavam. Não tinha vida própria. Só trabalhar e fazer pagamentos.

 

— Bennett acha que poderá comprar Leo por quinhentos mil dólares — disse Jean, continuando a pressioná-la, com as mãos cheias de notas para entrevistas e acusações. Mas Tanya tinha uma expressão sombria.

 

— Leo que vá para o diabo. E pode dizer a Bennett que foi isso que eu disse. — Jean respondeu que sim com a cabeça, mas não desarmou. Era implacável.

 

— Recebemos hoje um telefonema do Los Angeles Times. Querem saber todos os detalhes sobre o divórcio, se Tony pretende uma pensão ou se chegam a um acordo de outro género. E desejam saber se lha irá dar.

 

— Foi o advogado dele ou o jornal? — Tanya sentia-se confusa. Não havia realmente qualquer privacidade na sua vida, nem decência, nem coisa alguma, mesmo remotamente humana.

 

— Foi da parte do jornal, mas Tony também ligou. Queria falar-lhe a respeito dos filhos.

 

— Que têm eles? — Encostou a cabeça na cadeira e fechou os olhos, enquanto Jean se sentava na sua frente e prosseguia. Nunca desistia. Ainda tinha de falar a Tanya de todas as entrevistas marcadas. Um advogado, um contabilista, um decorador que pensava que ela iria redecorar a casa e um arquitecto que a ajudaria a alterar a cozinha da casa da praia.

 

Todos eles tinham de ser pagos, atendidos e ouvidos, e se por acaso achassem que ficava aquém do que esperavam dela, processá-la-iam. As coisas eram assim mesmo e Tanya sabia-o. E não importava o facto de o advogado dela os fazer assinar acordos confidenciais, garantindo que não venderiam informações aos tablóides. — Por que motivo quererá Tony falar-me acerca dos garotos? — perguntou Tanya a Jean, que foi verificar os seus apontamentos, para ver se tomara nota de alguma coisa. As vezes trabalhava dez e doze horas por dia. Não se tratava de um trabalho fácil, mas era bem pago e Tanya mostrava-se quase sempre simpática para com ela. E Jean gostava da glória que isso lhe dava, gostava de a acompanhar aos concertos, de ser vista com ela, de vestir a roupa que ela lhe oferecia, de viver praticamente à sua sombra. Também quisera cantar, mas não tinha a voz, a sorte ou o talento de Tanya e sentia-se feliz por estar perto dela.

 

— Não tenho a certeza — respondeu finalmente Jean. — Creio que não me disse. Mas pediu que lhe telefonasse.

 

Trataram de diversos assuntos durante mais meia hora e depois Jean lembrou-lhe que a empregada lhe deixara o jantar na cozinha. Tanya não quis saber do jantar, deitou vinho num copo e disse a Jean que lhe desse um dossier com contratos e alguns apontamentos. Tinham sido deixados ali pêlos seus advogados e eram todos dos promotores da tournée. Quando por fim Jean saiu, às nove horas, Tanya pegou no telefone e ligou para Tony.

 

Sentia-se completamente exausta. Fora um longo dia desde a sua partida de Nova Iorque, de manhã cedo, até àquela altura. As vezes admirava-se de conseguir sobreviver.

 

— Jean disse que me querias falar.

 

— Sim, é verdade — respondeu ele, parecendo pouco à vontade. — Como está Nova Iorque?

 

— Bem, como de costume. Vi Mary Stuart Walker, e só por causa dela e de Felicia Davenport mereceu lá ter ido. Na entrevista que dei à televisão atiraram-me à cara com todas as coisas que aparecem na imprensa a meu respeito. — Não era a primeira vez que lhe sucedia isso, já nada a surpreendia, mas continuava a não gostar. — E o agente literário também foi uma desilusão e uma perda de tempo. — Mas, enquanto falava, compreendeu que eleja não estava interessado na vida dela. — Isto já não te interessa, pois não? Agora só nos resta falar de negócios, não é?

 

— Nunca falámos de outra coisa, pois não? Só dos teus concertos, da tua carreira, da tua música.

 

— E assim que vês agora as coisas? Acho que deixaste algo de fora. O que fizemos juntos, as viagens... o carinho pêlos garotos... — Houvera muito mais na vida deles do que a sua carreira. Não era justo da parte dele vir dizer-lhe aquilo só para se absolver a si mesmo por a deixar, mas Tanya não queria discutir com ele. Não fora apenas o trabalho e as pressões que tinham feito com que Tony a deixasse. Ele sentira-se humilhado fora com as histórias publicadas constantemente acerca dela. Era preciso ter uma pele muito dura para amar uma pessoa metida no mundo do espectáculo, e aparentemente ele não a tinha. — A propósito, que disseste aos garotos? — perguntou Tanya. Estava preocupada com isso. Quisera telefonar-lhes de Nova Iorque, mas decidira não falar com eles antes de Tony o fazer.

 

— A mãe deles encarregou-se disso por mim — respondeu Tony, mostrando-se zangado. - Mostrou-lhes tudo o que têm escrito nos jornais.

 

— Lamento — murmurou Tanya com genuína humildade. Era doloroso para todos eles, especialmente para as crianças.

 

— Sim. Eu também — concordou Tony sem sinceridade. Parecia mais aliviado do que infeliz. Depois, de repente, mostrou-se embaraçado. — Com efeito, Nancy quer que eu fale contigo. Com tudo o que têm escrito a nosso respeito, ela acha que não... pensa que os garotos... não quer expô-los de momento ao teu estilo de vida. - Disse as últimas palavras como se as cuspisse.

 

— O meu estilo de vida? — Tanya ficou completamente assombrada com o comentário dele. — Que estilo de vida? O que é que mudou desde a semana passada? — Depois compreendeu. Nunca lera as histórias que escreviam sobre ela e as afirmações de Leo a seu respeito dizendo que andava nua pela casa e que lhe fazia assédio sexual. — Tony, os teus filhos viveram quase sempre connosco durante os últimos três anos. Isso fez-lhes algum mal? Que julga ela que eu vou fazer agora de diferente?

 

— Eu já não estou aí e ela acha que, não estando eu, eles também não devem estar. Podem ir visitar-te se eu estiver também. — Tony disse as palavras como se elas o sufocassem. Até ele se sentia incomodado com o que Nancy afirmara. — Ela não quer que eles fiquem contigo.

 

— Estás a falar em visitarem-me? Já chegámos aí? — Se estavam a falar de divórcio, onde se encontravam os seus advogados?

 

— Eventualmente falaremos disso — explicou ele. E falariam também de outras coisas, como da casa de Malibu, por exemplo, que Tanya comprara com o dinheiro dela, depois de casar com Tony, e da qual ele gostava muito. De resto, era ele o único que a usava. Ela nunca tinha tempo para lá ir. — Nancy está a referir-se agora à ida para Wyoming.

 

Houve um silêncio prolongado da parte de Tanya quando começou a perceber. Nancy não queria que ela levasse os enteados para Wyoming.

 

— Isso não poderá ser negociado? — perguntou Tanya, sentindo-se profundamente desapontada. Ia ser tão divertido e ela ansiava por isso há meses! Agora tudo corria mal. Tony deixara-a, e os filhos dele ficariam em casa com a mãe. — E um local fabuloso Tony. Toda a gente o diz e os garotos iam adorar. — Ao princípio ele não queria ir. Ninguém queria. E ela alugara uma vivenda luxuosa, com três quartos, por quinze dias. — Que vou fazer agora com a reserva?

 

— Cancela-a. Não te devolvem o dinheiro?

 

— Não. Mas não é essa a questão. Queria fazer algo de especial e de diferente com os garotos.

 

— Nada posso fazer, Tan — respondeu Tony, mostrando-se novamente embaraçado. Tudo aquilo o incomodava. Sabia como ela ansiava por aquelas férias e sentia-se mal, sobretudo por a ter deixado. — Nancy diz que não Tan. Fiz o possível por a convencer. Leva umas amigas. E se fosses com a tua amiga de Nova Iorque, Mary Stuart?

 

— Muito obrigada pelas sugestões — respondeu Tanya. Sabia que a amiga estava agora preocupada com outras coisas. — O que quero é saber o que se passa. Serei autorizada a voltar a vê-los? — Queria ouvi-lo da boca dele. Não era justo que lhe fizessem tal coisa. E, ao fazer a pergunta, os seus olhos encheram-se de lágrimas.

— Quem? — Ele tentou mostrar-se vago, mas sabia bem a quem ela se referia. E não era com ele, era com a mãe.

 

— Sabes muito bem o que estou a perguntar, que diabo! Não brinques comigo! Os garotos. Ser-me-á permitido vê-los?

 

— Com certeza... estou certo de que Nancy... — Tanya percebeu que ele estava a fugir à pergunta.

 

— Quero a verdade. O que é que combinaste com ela? Poderei vê-los? — Disse aquilo como se estivesse a falar com um estranho ou com alguém de outro planeta. Mas ele compreendera claramente, não sabia era como responder sem a fazer ficar furiosa.

 

— Terás de tratar do assunto com o teu advogado — respondeu Tony vagamente, evitando um confronto.

 

— Que diabo quer isso dizer? — Tanya gritou com ele, perdendo rapidamente o controlo. Sentia-se subitamente invadida por uma vaga de pânico. Porque é que toda a gente podia tirar-lhe tudo? O dinheiro que ela ganhava com tanto trabalho, a sua reputação, e agora até os filhos que ela considerava como seus. — Vais deixar-me vê-los ou não? — gritou novamente.

 

— Não é comigo Tan. Por mim podias vê-los sempre que quisesses. E a mãe.

 

— Uma ova é que é a mãe! Essa cabra não quer saber deles para nada e tu bem o sabes. Foi por isso que a deixaste.

 

Por isso e por outras coisas mais, como um problema de alcoolismo, uma tendência para o jogo e o facto de ter dormido com todos os homens que ele conhecia. Tivera, mais de uma vez, de ir procurá-la e aos filhos a Las Vegas. Mas, apesar disso, os miúdos eram formidáveis e Tanya sabia que fora boa para eles. Queria continuar a fazer parte da vida deles e Nancy não tinha o direito de a impedir.

 

— Fala com o teu advogado. — Trocaram algumas palavras durante mais uns minutos e desligaram. Tanya começou a andar de um lado para o outro pela casa como um leão enjaulado. Não podia acreditar no que lhe estava a acontecer. Tony deixara-a, levara os filhos, enganara-a em Palm Springs, pelo que fizera figura de parva na imprensa, e agora a mulher dele não a deixava ver os garotos! Mas quando o advogado lhe telefonou, nessa noite, as suas explicações não foram encorajadoras.

 

— Existe uma coisa chamada «direitos de padrastos» — informou pacientemente Bennett. Ela odiava cada vez mais o som da voz dele. Era sempre o mesmo. Explicavam os direitos que tinham as pessoas normais e os direitos das celebridades. Eram diferentes. E, em determinadas circunstâncias, não poderiam ser piores. — Mas tem de compreender, Tanya, que não tem sido descrita nos jornais como sendo a Virgem Maria, com o género de acusações que Leo lhe está a fazer. O tipo contou umas histórias bastante feias a seu respeito, e eu acho que a ex-mulher de Tony não quer os filhos expostos a esse género de comportamentos. Acho que, se fosse depor, meia hora depois de ser interrogada pêlos advogados dele ninguém permitiria que levasse os filhos à catedral de São Paulo, quanto mais deixá-los permanecer em sua casa ou irem passar férias consigo a Wyoming! — Tanya ouviu o advogado com lágrimas nos olhos. Ele não imaginava como a estava a magoar. — Lamento, Tanya. Mas as coisas são assim mesmo. Acho que não deve pensar nisso por agora. Pelo menos tem de deixar a poeira assentar sobre o processo.

 

— Mas em seguida vir outro. E depois? — Tanya assoou-se. Sabia bem como as coisas se passavam.

 

 

— Outro? — Tinha confundido Bennett. — Há outro processo? Não sei de nada!

 

— Não, mas tenho a certeza de que aparecerá. — O último tinha sido há uma semana.

 

— Não seja cínica — respondeu o advogado, embora soubesse que ela tinha razão. Tanya era um alvo constante. Não era de admirar que o marido a tivesse deixado. Nesse momento, ela odiava a sua vida tanto como Tony. — De qualquer modo, falemos de Leo — prosseguiu Bennett, ignorando a frustração dela relativamente aos filhos de Tony. Nada podia fazer a esse respeito e não queria discutir no tribunal, certamente em frente das câmaras fotográficas, se Tanya tinha ou não por hábito andar nua pela casa em frente do seu guarda-costas ou se dormia com o treinador. Tinha a certeza de que ela não fizera nenhuma das coisas, mas não conseguia livrar-se das difamações e das vinganças. Ela sabia o que fazia. Era uma mulher adulta.

 

— Não quero falar agora de Leo — respondeu Tanya peremptoriamente. Sentia-se infeliz e exausta.

 

— Ele está disposto a aceitar quatrocentos e noventa se nos decidirmos já. Francamente, acho que devia aceitar. — O advogado falou muito calmamente, mas Tanya deu um salto na cadeira e quase desligou o telefone quando o ouviu.

 

— Quatrocentos e noventa mil dólares?! — gritou. — Está doido? O tipo inventou a história toda e nós vamos dar-lhe meio milhão de dólares por isso? Porque é que ele não entra num filme?

 

— Porque ninguém ouviu falar nele e teria de trabalhar em quatro ou cinco filmes para ganhar isso. Poderia levar um par de anos para tal, se tivesse sorte. Processando-a ganha mais e mais depressa.

 

— Isso mete nojo. Nem posso acreditar. — Mas o pior é que era verdade.

 

— Se esperarmos, ele pode voltar a pedir o dobro. Posso telefonar para o advogado dele para lhe dizer que concordamos? Quero obrigá-los à confidencialidade, claro. O advogado disse-me que ele já tinha contactado uma das estações de televisão para fazer um filme.

 

— Oh!, meu Deus — gemeu Tanya, fechando os olhos outra vez. Em que espécie de pesadelo vivia ela? Não era de admirar que Tony se tivesse ido embora. Quem podia viver assim? Ela também gostaria de abandonar tudo aquilo, mas era a única maneira de ganhar a vida que conhecia. — Isto põe-me doente. Mas que vida é esta em que eu estou metida? Porque terei começado nisto e permanecido?

 

— Quer saber quanto ganhou no ano passado? Talvez isso lhe sirva de conforto...

 

Mas Tanya abanou a cabeça. Aquilo era de mais. Nunca pensara viver atolada naquele género de lodo.

 

— Sabe uma coisa, Bennett? Pensar naquilo que ganho não chega para me consolar. Essa gente brinca com a minha vida. E a meu respeito que dizem mentiras. Transformei-me numa coisa, numa caixa registadora, num objecto. — Todos aqueles que queriam extorquir-lhe dinheiro mentiam, difamavam, faziam chantagem sobre ela, e conseguiam assim tudo quanto queriam sem que ela se pudesse defender.

 

Bennett ficara silencioso ao ouvir as palavras dela. Detestava ter de a pressionar, mas sabia que tinha de o fazer.

 

— Então que digo ao advogado de Leo, Tan? Tenho de lhe dizer alguma coisa.

 

Houve um longo silêncio e, por fim, Tanya suspirou e falou com voz rouca:

 

— Está bem. Telefone-lhe e diga-lhe que pagamos... Patife... — Depois, tentando afastar os pensamentos deprimentes que lhe advinham de ter concordado em pagar meio milhão de dólares a um homem que só contara mentiras sobre ela, fez outra pergunta a Bennett. — E sobre Wyoming? Pode fazer alguma coisa sobre isso?

 

— Como, por exemplo? Que o compre para si? — Estava a tentar gracejar com ela, para ver se a animava, mas via bem que não estava a resultar e não a censurava por isso. Era difícil ser uma celebridade, apesar do que as pessoas diziam. Do lado de fora parecia formidável, mas por dentro abundavam os dissabores e os desgostos. Era impossível não levar essas coisas a sério. Todos o faziam. Eram pessoas como outras quaisquer.

 

— Queria que a convencesse a deixar-me levar os garotos comigo. Pelo menos uma semana, se isso servir para a demover — disse Tanya, embora tivesse alugado a casa por duas semanas.

 

— Tentarei, se quiser, mas creio que é inútil. E quase certo que aparecerá nos jornais a notícia de que Tony a deixou, o que não melhorará nada a sua imagem. E, visto estarmos a pedir confidencialidade a Leo, preferia que o assunto não fosse parar aos jornais.

 

— Obrigada — respondeu Tanya, tentando não se mostrar afectada pelas palavras dele.

 

— Lamento, Tan - disse o advogado com pena dela.

 

— Está bem, obrigada. Amanhã telefono-lhe — respondeu Tanya, a chorar.

 

— Eu telefono-lhe. Temos de estudar os contratos para a tournée.

 

Tanya desligou, sentindo o coração destroçado. A vida dela tornara-se um inferno no decorrer dos anos e só de tempos a tempos é que se apercebia disso. Apesar da adulação, dos aplausos, dos prémios, do dinheiro que ganhava, aquela vida fazia com que ela aparecesse aos olhos do inundo como uma mulher sem vergonha. O marido fugira-lhe e provavelmente não voltaria a ver os enteados, de quem tanto gostava. Era de admirar que em Hollywood alguém pudesse andar ainda de cabeça erguida.

 

Ficou sozinha na sua casa de Bel Air, sem dormir, pensando em tudo o que se passara e desejando estar morta, mas demasiado infeliz e assustada para fazer fosse o que fosse. Pela primeira vez desde há muitos anos pensou em Ellie e no filho de Mary Stuart, Todd. 0 que eles tinham feito parecia uma fuga fácil, mas não era. Era uma coisa totalmente errada e que, no entanto, requeria uma mistura de cobardia e de coragem para se fazer. E ela não tinha nem uma coisa nem outra.

 

Ficou sentada na sala até ao nascer do Sol, pensando em tudo aquilo, desejando odiar Tony e descobrindo que também não era capaz de o fazer. Só conseguia ficar ali sentada a chorar, durante toda a noite, sem que houvesse alguém para a ouvir. Por fim levantou-se e foi para a cama. Não fazia ideia do que iria resolver acerca de Wyoming, e já nem se importava. Cederia a casa a Jean, que poderia ir para lá com os amigos, ou à sua cabeleireira, ou deixaria que Tony fosse com uma amiga. Toda a gente tinha uma família, filhos e até mesmo uma reputação decente. A ela restava-lhe apenas uma pilha de discos de platina e de ouro, expostos numa parede, e por baixo uma porção de prémios enfileirados numa prateleira. Mas, para além disso, pouco mais tinha. Não conseguia imaginar que pudesse voltar a confiar em alguém, e supunha que nenhum homem poderia aceitar viver no meio de tanto lixo. Dava vontade de rir. Percorrera um longo caminho para chegar ao topo, para acabar por descobrir que não havia ali nada que pudesse interessar fosse a quem fosse. Ficou estendida na cama, a meditar sobre tudo isso e a pensar nos filhos de Tony, que provavelmente não voltaria a ver, ou que, pelo menos, só veria de passagem, durante alguns minutos. Era como se Tony, os filhos dele e a vida que tinham tido em comum desaparecessem no ar, como se nunca tivessem existido. Desaparecidos num jacto de fumo... numa chama gigantesca... uma vida inteira sumida por entre as labaredas ateadas pêlos tablóides.

 

Quando acordou, na manhã seguinte, Tanya sentia-se como se tivesse sido espancada. Mal conseguira dormir e as notícias que tivera no dia anterior, a respeito de Tony, dos garotos, do processo, davam-lhe a sensação de estar a ser perseguida e encurralada. Levantou-se e teve a impressão de estar com uma ressaca, embora na véspera nem um copo de vinho tivesse bebido. Olhou-se ao espelho e fez uma careta, dizendo para o seu próprio reflexo:

 

— Céus, se isto continua assim, vou precisar de fazer outra visita ao cirurgião plástico.

 

Depois foi para a casa de banho e pôs um banho quente a correr. Mergulhou lentamente na água perfumada e sentiu-se um pouco melhor. Iria cantar numa festa de beneficência e não queria faltar, pois tratava-se de uma causa que achava muito importante. Teria também um curto ensaio nessa tarde ê ao meio-dia já tinha de estar embrenhada nas suas múltiplas obrigações.

 

Vestiu o roupão e dirigiu-se para a cozinha, fez café e, quando se sentou para o tomar, estendeu a mão para o jornal da manhã. Pelo menos dessa vez a sua fotografia não aparecia na primeira página, nem a do seu futuro ex-marido, ou qualquer dos seus empregados, o que já era uma grande coisa. Virou cada página hesitantemente, como se receasse ver uma tarântula saltar de entre as folhas. Mas a única coisa que lhe chamou a atenção foi um artigo a respeito de uma médica de São Francisco chamada Zoe Phillips. Tanya leu avidamente a notícia e quando terminou sorria. Zoe era uma das suas antigas companheiras de quarto na universidade. Estava a fazer coisas notáveis, o que não era de surpreender. Fundara a mais importante clínica para tratamento de sida da cidade e era notável a angariar fundos. Dava de comer a pessoas sem casa e doentes com sida, alojava-os e tratava-os, assim como a parte da população infectada, mas com maiores recursos. O artigo fazia-a parecer uma irmã Teresa de São Francisco. E Tanya ficou tão comovida com o que leu, que pegou na sua lista telefónica, procurou o número e ligou. Havia dois anos que não falava com ela, mas mandavam sempre cartões de boas-festas uma à outra. Tanya sabia que era a única que se mantinha em contacto com Zoe. Mary Stuart perdera-a de vista anos antes. Nunca tinham colmatado a fenda que se abrira entre elas desde a morte de Ellie, e Mary Stuart nem sequer gostava que lhe falassem de Zoe. Mas Tanya era amiga das duas e quando uma enfermeira atendeu o telefone, perguntou pela Dr. Phillips.

 

A enfermeira começou por lhe dizer que a doutora estava a administrar um tratamento e perguntou se queria que lhe desse algum recado.

 

— Com certeza — respondeu imediatamente Tanya.

 

— Posso perguntar quem fala?

 

— Tanya Thomas.

Houve uma longa pausa. A enfermeira ainda julgou tratar-se de uma coincidência, mas a médica tinha jeito para pedir a celebridades que tomassem parte em festas de beneficência a favor da clínica, ou apenas que fizessem algum donativo em dinheiro.

 

— A Tanya Thomas?

 

— Acho que sim — respondeu Tanya, rindo. — Fui colega da doutora Phillips na universidade — explicou. Era evidente que Zoe nunca se gabava dessa amizade. Tanya só lhe interessava por ser sua amiga há muito tempo.

 

A enfermeira que a atendeu ficou obviamente impressionada por a médica e Tanya Thomas terem sido colegas e ofereceu-se para ir saber se a doutora já teria acabado o tratamento. Houve outra espera e um momento depois Tanya ouviu uma voz familiar ao telefone. Era uma voz suave e grave, com uma seriedade que se percebia mesmo através dos fios telefónicos.

 

— Tan? Es tu? — perguntou lentamente. — As minhas enfermeiras quase iam ficando doidas por saberem que eras tu.

 

— Pelo que estou a ler no jornal, pareces-me um verdadeiro doutor Salk. Tens estado muito ocupada e esqueceste-te de me mandar um cartão de boas-festas no Natal. — Quando falava com Zoe, Tanya sentia-se como se fosse outra vez uma garota, tal como sucedia quando falava com Mary Stuart.

 

— Não enviei nenhuns. Estive muito ocupada. Tive um bebé.

 

— Tiveste o quê? Casaste? — Duvidava de que a amiga o tivesse feito. Zoe nunca se interessara pelo casamento. Estava satisfeita com a sua carreira e com uma relação monógama, antiga, mas estava mais interessada em alterar o curso da história da medicina do que em casar. — O que é que me estás a dizer? Juntaste-te ao resto da população burguesa? Que sucedeu?

 

— Não te entusiasmes tanto. Adoptei. Não, não casei. Não mudei assim tanto. Mas tenho andado verdadeiramente ocupada.

 

— Que idade tem o bebé? — Era tão encantador pensar num bebé, e ao mesmo tempo não esperava isso de Zoe. Tanya nunca a considerara muito maternal. A julgar pelo que Zoe dissera, resolvera adoptar uma criança aos quarenta e três anos. Quisera experimentar a maternidade antes de ser demasiado tarde, mas era interessante não ter preferido ficar grávida.

 

— Tem quase dois anos. Pode-se dizer que «aconteceu» na minha vida. A mãe dela era minha doente, embora felizmente não tivesse sida, mas era indigente. Não quis ficar com a Jade, por isso eu adoptei-a. E coreana. E tem sido perfeito. Eu nunca teria tido tempo para ficar grávida.

 

E nunca estivera envolvida com ninguém a quem desejasse ficar permanentemente ligada. Pelo menos nos últimos anos. Dedicava-se de alma e coração ao seu trabalho e seria capaz de tudo para ajudar os seus doentes.

 

— Quando é que a verei? — perguntou melancolicamente Tanya, pensando na amiga e na pequenita coreana que ela adoptara. Jade. Gostava do nome. E era parecido com Zoe.

 

— Vou mandar-te uma fotografia — prometeu Zoe, ao mesmo tempo que fazia sinais a uma enfermeira que a esperava à porta. Apontou para o relógio e ergueu cinco dedos. Queria mais cinco minutos para falar com Tanya. Tinha mais de quarenta doentes à sua espera na sala, alguns demasiado doentes para ali se encontrarem. Era uma história familiar para Zoe, mas podia tirar pelo menos cinco minutos para falar dos velhos tempos.

 

— E se fizesses melhor do que enviar-me uma fotografia? Porque não vens passar uns dias de férias comigo a Wyoming? — Tanya sentira o impulso de a convidar naquele momento. Se Zoe fosse com ela, com Jade e Mary Stuart também? Mas sabia que era um disparate. Mary Stuart ia para a Europa com a filha. — Foi uma ideia que me ocorreu — explicou. — Aluguei uma bela casa num rancho de turismo, em Julho, e não tenho ninguém para ir comigo.

 

A sua voz denotava cansaço e tristeza, e Zoe apercebeu-se de que algo não corria bem com Tanya. Se assim fosse, tinha pena.

 

— E o teu marido? — perguntou.

 

— Isso prova o que eu sempre pensei a teu respeito. Não compras mercearias e não lês os jornais.

 

Zoe fora sempre muito magra e fazia inveja à maior parte das mulheres que a conheciam, mas riu do comentário de Tanya.

 

— Tens razão. Nunca tenho tempo para comer e não seria capaz de ler esse lixo, mesmo que me pagassem.

 

— Fazes bem. De qualquer modo, vou responder à tua pergunta. Tony foi-se embora esta semana. E agora a ex-mulher dele não me deixa ver os filhos, porque me estão a mover um processo por assédio sexual. Um antigo guarda-costas alega que eu tentei seduzi-lo. Na verdade, é tudo de tal modo nojento que não vale a pena tentar explicar esta trapalhada toda a um ser humano racional. Não te preocupes em imaginar o que se passa. Eu não consigo fazê-lo e vivo aqui. — Mas o que Zoe ouviu, mais do que as palavras, foi a tristeza na voz da amiga. Estava genuinamente infeliz com o estado da sua vida nessa altura.

 

— Isso parece-me terrível. Mas Wyoming deve ser formidável. Quem me dera poder ir contigo!

 

A enfermeira estava outra vez à porta a fazer-lhe sinais, mas Zoe não queria interromper Tanya, que precisava de alguém com quem falar. Por isso fez sinal à enfermeira para mais cinco minutos e ela afastou-se com uma expressão de desespero.

 

— Não achas que poderás ir Zoe? Talvez só para um fim-de-semana...

 

— Quem me dera poder! Não tenho ninguém a trabalhar aqui comigo neste momento. Precisaria de ter quem me substituísse, e alguns dos meus pacientes estão tão doentes que me querem sempre aqui.

 

— Nunca tens uns dias de descanso? — perguntou Tanya, com espanto. No que ela tivesse também muito descanso, mas, mesmo assim, o que ela fazia não era tão rigoroso como tratar de doentes a morrer.

— Raramente — confessou Zoe. — E a verdade é que é melhor eu voltar agora ao trabalho. Caso contrário ainda partem a porta do meu gabinete para me lincharem. Qualquer dia telefono-te. E não deixes que esses idiotas te atirem abaixo, Tan. São pessoas inferiores e não merecem que te preocupes por causa delas.

 

— Estou sempre a tentar lembrar-me disso, mas, de qualquer maneira, acabo por ficar magoada. De certo modo, eles vencem sempre, pelo menos aqui, ou nesta profissão.

 

— Tu não mereces isso — disse Zoe com a sua voz meiga, e Tanya sorriu pela primeira vez nessa manhã.

 

— Obrigada. Oh!, a propósito, estive há dias com Mary Stuart.

 

— Como está ela? — Zoe mostrou-se tensa ao perguntar por Mary, mas isso já era habitual e Tanya nunca ligara a tal coisa. Continuara sempre a dar-lhes notícias uma da outra e ainda tinha esperança de vir a juntá-las de novo, como antigamente.

 

— Ela está bem... mais ou menos. O filho morreu o ano passado. Creio que nenhum deles se recompôs ainda do que sucedeu e as coisas ainda estão um pouco tremidas.

 

— Diz-lhe que lamento muito. De que morreu ele? De acidente?

 

— Creio que sim - respondeu vagamente, não querendo dizer que se tratava de suicídio. Sabia que Mary Stuart não gostava de dizer que o filho se suicidara. — Estava em Princeton. Tinha vinte anos.

 

— Que pena! — Lidava constantemente com a morte, mas nunca se tornara indiferente a ela. Era uma derrota que ainda detestava e sabia que nunca aceitaria de bom grado. De cada vez que perdia um doente sentia-se ludibriada.

 

— Sei que tens muito que fazer... mas pensa em Wyoming, se puderes. Seria divertido, não achas? — Era um sonho louco, mas agradava a Tanya e Zoe sorriu. Para ela nem sequer era um sonho. Havia onze anos que não tinha uns dias de férias. — Telefona-me quando puderes. — A voz de Tanya era triste e Zoe desejou poder estar junto dela e abraçá-la. Era estranho pensar que uma pessoa com tanto sucesso na vida pudesse sentir-se tão só e vulnerável. As pessoas que não a conheciam não poderiam acreditar nos dissabores que ela e os artistas como ela sofriam e o preço que era preciso pagar pela fama.

 

— Vou mandar-te fotografias de Jade, prometo! — disse, antes de desligar. Assim que o fez aproximaram-se três enfermeiras a queixar-se da multidão que se acumulava na sala de espera, mas a enfermeira que recebera a chamada olhou-a com assombro.

 

— Nem podia acreditar que fosse realmente Tanya Thomas. Como é ela? — Toda a gente perguntava isso, embora fosse uma pergunta tola.

 

— E uma das pessoas mais simpáticas que conheço — respondeu Zoe. — Uma das mais decentes. Trabalha imenso e tem tanto talento que nem sequer se apercebe disso. Merece melhor sorte do que a que tem tido na vida. Talvez ainda a venha a ter... — acrescentou, enquanto seguia as enfermeiras até ao consultório. Mas a enfermeira que atendera o telefonema não podia compreender o que Zoe estava a dizer.

 

— Ela tem ganho Grammys, prémios da Academia, discos de platina, discos de ouro, dizem que ganha dez milhões de dólares por uma série de concertos e um milhão de dólares num só concerto. Que mais pode querer?

 

— Muitas coisas, Annalee, acredite. Você e eu temos mais do que ela. — Era comovente pensar que Tanya tinha de telefonar a uma amiga dos seus tempos de universidade para arranjar alguém para ir de férias com ela. Pelo menos ela tinha o seu bebé.

 

— Não compreendo — replicou a enfermeira, abanando a cabeça, enquanto Zoe entrava na sala de tratamentos. Entretanto, em Los Angeles, Tanya olhava para a fotografia de Zoe no jornal. Depois, lembrou-se de ligar para Mary Stuart.

 

— Adivinha com quem acabei de falar há cinco minutos? — perguntou Tanya.

 

— Com o presidente — respondeu Mary Stuart, gracejando, contente por ouvir a voz da amiga.

 

— Não. Com Zoe. Ela dirige uma clínica para tratar doentes com sida em São Francisco. Li um longo artigo publicado no Los Angeles Times sobre ela. Adoptou uma menina. E coreana, tem quase dois anos e chama-se Jade.

 

— Isso é bom — disse Mary Stuart, tentando sentir-se generosa para com a antiga amiga, mas, mesmo depois de decorridos vinte anos, algumas das suas antigas feridas ainda doíam. — Sinto-me feliz por ela — acrescentou com sinceridade. — E tão típico dela, não é? Refiro-me a ter adoptado uma criança asiática. Tornou-se realmente a pessoa que se esperava que viesse a ser. E a clínica para doentes com sida também não me surpreende. Ela casou?

 

— Não. Acho que é mais esperta do que nós. Bill já partiu para Londres?

 

— Ontem. — Ficou calada de repente, ao pensar no que estivera a fazer nessa noite. Sabia que Tanya acharia que ela fizera o que era correcto, embora isso tivesse sido muito doloroso. — Esta noite desfiz-me das coisas de Todd e desmanchei o quarto dele. Creio que já o devia ter feito há uni ano, mas não me sentia preparada para o fazer antes.

 

— Ninguém deve fazer o que não pode — disse meigamente Tanya. — Fazemos o que podemos para ir sobrevivendo aqui. — Depois contou a Mary Stuart que Nancy não a deixava levar os filhos para Wyoming. Estava muito desapontada e Mary apercebeu-se disso. Sabia o que os filhos de Tony significavam para ela. De certo modo, tinham sido a melhor parte do seu casamento.

 

— Que grande maldade — disse, com pena.

 

— Não é? E acabei por concordar em dar meio milhão de dólares àquele chantagista que foi contar mentiras aos jornais.

 

— Oh!, isso é terrível. Porquê uma tão grande quantia?

 

— Porque toda a gente tem medo. Os meus advogados têm um medo terrível dos júris. Acham que nunca poderiam ganhar num tribunal com jurados. A parte contrária faria com que eu fosse vista como um monstro a nadar em dinheiro. Não há maneira de os fazer retratar uma celebridade como sendo honesta e decente. Para eles «celebridade» equivale a «pouco decente», ou, pelo menos, alguém que merece que lhe sejam extorquidas grandes quantias a favor de outros menos afortunados, menos honestos ou extremamente preguiçosos. Deviam pôr estes significados no dicionário — concluiu Tanya, mastigando um pedaço de tosta. Mary Stuart sorriu.

 

Tanya estava triste, mas não tão destroçada como seria suposto, tendo em conta tudo o que lhe sucedera. Podia meter-se na cama a chorar, com a cabeça tapada, mas no o fazia. Sempre fora muito corajosa e Mary Stuart admirava-a por isso. Fosse o que fosse que a vida lhe fizesse, levantava-se de novo, arranhada, ferida, abalada, mas voltava a sorrir e a cantar. — Tiveste notícias de Bill? — quis saber Tanya, pois lembrara-se do que a amiga lhe dissera sobre a partida do marido. Achava, de facto, estranho que ele não quisesse que a mulher o acompanhasse a Londres. E pelo que Mary Stuart dissera não lhe parecia que ele a enganasse com outra mulher. Muito simplesmente não a queria junto dele.

 

— Ainda não. Quem me telefonou ontem foi a Alyssa. A nossa viagem foi cancelada.

 

— Foi? — exclamou Tanya, admirada. — Que sucedeu?

 

— Teve uma proposta melhor. Há um rapaz metido no caso. — Mary Stuart sorria, mas a sua voz não conseguia ocultar o desapontamento. — Na idade dela não há nada que consiga sobrepor-se a isso.

 

— Na minha também não! — exclamou Tanya, com uma gargalhada. — E tu, que vais fazer agora?

 

— Olha, nem sei. Estou a tentar imaginar o que hei-de fazer nos próximos dois meses. Bill falou comigo antes de ir para Londres e continua decidido a não querer que eu vá ter com ele. Acha que eu o «distrairia». Para te dizer a verdade, pensei em ir visitar-te durante uns dias, se tiveres tempo. Posso ficar num hotel. Nova Iorque é detestável em Julho e Agosto e este ano não alugámos casa para passar o Verão, porque sabíamos que Bill iria para Londres.

 

— Que dizes a ires comigo para Wyoming? — O rosto de Tanya iluminou-se com a ideia. Pelo menos poderia realizar metade do seu sonho. Embora Zoe não pudesse ir, Mary Stuart podia. Iriam as duas para Wyoming, brincar às cowgirls. — Queres ir comigo? Aluguei uma casa por duas semanas num grande rancho. Parece que é muitíssimo luxuoso, ao estilo do Oeste, e eu não posso suportar a ideia de ir sozinha. A reserva está feita e não posso voltar atrás. Ia ceder a casa à minha secretária ou a qualquer outra pessoa que trabalhe comigo.

 

Mary Stuart ficou um bocado pensativa e por fim respondeu:

 

— Parece-me uma boa ideia. Não tenho mais nada que fazer. Não sei se ainda saberei montar a cavalo, embora esteja bem almofadada...

 

— Não me venhas com isso, tens menos uns cinco quilos do que devias ter. Mas quem se importará se não montarmos? Quem o saberá? Poderemos ficar a olhar para as montanhas, ou sentadas a beber café, ou champanhe, ou a caçar garotos.

 

— Bonito! Depois aparecíamos na imprensa. Não vou para lado nenhum contigo se estragares a minha reputação! — exclamou Mary Stuart, rindo. Agradava-lhe a ideia de ir para um rancho com Tanya. Anteriormente, quando Tanya falara no caso, nem sequer pensara nisso, porque sabia que ia para a Europa ao encontro de Alyssa, enquanto a amiga iria para Wyoming com os filhos de Tony.

 

— Prometo portar-me bem. Vem comigo. Adorava que fosses, Stu! — exclamou Tanya com uma expressão radiante.

 

Mary Stuart sorriu quando ouviu o nome que as amigas costumavam chamar-lhe na universidade.

 

— Está bem. Quando partimos? — Tinha todo o Verão à sua frente.

 

— Logo a seguir ao Quatro de Julho. Compra umas botas. Eu ainda tenho umas.

 

— Vou hoje mesmo fazer compras. Como é que vou lá ter? — Tinha de repente muito que fazer: botas para comprar, preparativos para a viagem. Sentiu-se de súbito como uma colegial, e a ideia de passar duas semanas com Tanya encantava-a. Era exactamente do que estava a precisar.

— Porque não vens ter comigo a Los Angeles, para irmos as duas na minha carrinha? Chegaremos lá em dois dias. No caminho podemos dormir, comer, ler, ver filmes, o que quiseres. O meu motorista nem sequer fala comigo. Podemos fazer tudo o que quisermos até chegarmos a Jackson Hole. — Tanya tinha um verdadeiro autocarro de estrela rock, com duas grandes salas, cozinha, casa de banho em mármore. Uma verdadeira casa ambulante.

 

— E isso mesmo. Vou ter contigo.

 

— Irei esperar-te ao aeroporto.

 

Tanya indicou-lhe as datas e Mary Stuart anotou tudo cuidadosamente. Não era de modo algum o que esperara fazer, mas, de repente, percebeu que se tratava de um bilhete para a liberdade.

 

Logo que desligou, enviou um fax a Bill, dizendo-lhe que Alyssa cancelara a viagem e que não iriam a Londres. Em vez disso, ela e Tanya Thomas iriam passar duas semanas a Wyoming. Prometia dar-lhe detalhes quando os tivesse. Disse também que esperava que estivesse tudo a correr bem e que se encontrassem bem instalados no hotel. Acrescentou que partiria para Los Angeles na semana seguinte, depois do 4 de Julho, e que quando lá chegasse lhe enviaria outro fax. Assinou, enviando-lhe um beijo, mas dessa vez não disse que sentia a falta dele.

 

Depois de enviar o fax a Bill, saiu para ir comprar botas de montar ao Billy Martin's. Na Califórnia, Tanya andava aos saltinhos pela cozinha, como uma criança, pensando na viagem. Ela e Mary Stuart iriam ter umas férias em cheio. Esteve todo o dia bem-disposta a pensar nisso, e nessa noite, na festa de beneficência, apareceu deslumbrante, com um vestido preto com lantejoulas que moldava a sua figura extraordinária, e toda a gente achou que nunca actuara melhor.

 

— Foi fantástica — sussurrou Jean ao seu ouvido quando Tanya saiu do palco, cansada, mas satisfeita. Fora uma grande noite e a multidão adorava-a. Gritavam: «Es a melhor!» Foi chamada ao palco inúmeras vezes, cantou encores e as pessoas rodearam-na de todos os lados. Os admiradores atiraram-lhe flores e até se viram algumas peças de roupa lançadas pelo ar. Enquanto a Polícia a protegia para poder passar por entre a multidão dos seus fãs, Tanya pensava na loucura que era a sua vida, as loucas dicotomias de que a celebridade se compunha. Era amada por uns e odiada por outros.

 

O resto do dia de Zoe, depois de Tanya lhe ter falado, passou-se como de costume. Decorreu rapidamente, enquanto ela ia de doente para doente. A maior parte deles era composta de homens homossexuais, mas nos últimos tempos via um número crescente de mulheres e heterossexuais, que tinham contraído a doença sexualmente, ou por meio das agulhas com que injectavam as drogas, ou ainda que tinham apanhado a doença devido a transfusões. Mas os casos que ela mais detestava, e eram muitos, eram os de crianças. Parecia-lhe que estava a trabalhar num país subdesenvolvido. Não os podia curar e apenas lhes podia oferecer um pequeno alívio. Por vezes era apenas um gesto, um toque nas mãos, uma dádiva de tempo, um instante à cabeceira da cama antes de morrerem. Passava inúmeras horas a visitar os seus doentes. Era incansável e sempre o fora desde há anos, desde o aparecimento dos primeiros casos, no início da década de 80. Desde então a sida tornara-se a sua obsessão, a sua némesis e a sua paixão.

 

Ao fim de cada dia estava completamente esgotada tanto da sua energia como da emoção. O único ser humano que a podia fazer esquecer um pouco tudo aquilo era a filha. Tentava passar todo o tempo possível com ela, e às vezes ia almoçar a casa só para estar com a criança. Inicialmente levava-a consigo para a clínica e deixava-a no seu gabinete, dentro da alcofa. Mas logo que Jade começara a andar isso tornara-se impossível. Nesse dia, preparava-se para ir para casa ter com a filha, quando Sam Warner, o único médico que a podia substituir ali naquela altura, apareceu para se inteirar de como estavam as coisas. Era um bom médico e uma excelente pessoa. Zoe conhecia-o há anos e tinham sido bons amigos na Faculdade de Medicina, em Stanford. Haviam sido inseparáveis durante uns tempos, e quando eram novos Zoe achara que ele tinha uma paixão por ela, mas estivera sempre tão obcecada pelo seu trabalho que não dera mostras de o perceber e ele também nada fizera para lhe chamar a atenção para isso. Fora depois trabalhar para Chicago e tinham estado muito tempo sem se ver, o tempo bastante para que ele se casasse e divorciasse. Quando ele regressou à Califórnia encontraram-se casualmente e retomaram a sua antiga amizade. Mas agora nada mais era do que isso. Eram amigos e ele gostava de trabalhar na clínica.

 

— Como vão as coisas por aqui? — perguntou ele, metendo a cabeça pela abertura da porta. — Há semanas que não tenho notícias tuas. — Sam Warner tinha o aspecto de um enorme e simpático urso de pelúcia. Era alto, de ombros largos, tinha cabelo castanho um pouco desgrenhado e grandes olhos castanhos. O seu ar bondoso fazia esquecer o aspecto um tanto desalinhado. Zoe sabia que ele era óptimo para com os seus doentes. Sabia lidar com pessoas de todas as idades e era o único médico que ali ia substituí-la em quem ela confiava. — Nunca tiras um dia para descansar? — perguntou Sam com uma expressão preocupada. A especialidade dele era fazer locum tenens para vários médicos. Isso significava que não tinha um consultório particular e trabalhava a tempo inteiro na substituição de vários colegas. Gostava especialmente de trabalhar na clínica de Zoe. Ela era uma grande organizadora, uma grande médica e trabalhava num campo quase impossível nesse momento.

 

— Tento nunca tirar um dia de folga — afirmou Zoe em resposta à pergunta dele. — Os meus doentes não gostam. — Embora todos apreciassem Sam, ela sentia-se na obrigação de nunca os abandonar. Trabalhava afincadamente na clínica e. fazia visitas domiciliárias, muitas vezes aos domingos. Sam sabia bem isso.

 

— Precisas de ter algum tempo livre — disse ele, enquanto Zoe despia a bata e a atirava para a roupa suja. — E bom para ti, e além disso... — sorriu — o dinheiro faz-me falta.

 

— Creio que ainda te devo o da última vez, Sam. Tenho uma nova guarda-livros e até agora tem sido um verdadeiro desastre.

 

Zoe sorriu-lhe. Ele era sempre incrivelmente paciente com os pagamentos. Soubera, enquanto andavam na faculdade, que pertencia a uma família rica, do Leste, e que tinha rendimentos, mas nunca se referia a isso e nada nele revelava ostentação. Conduzia um carro velho, usava roupas simples, sobretudo calças de ganga e camisas práticas, e calçava quase sempre umas botas de que obviamente gostava e que pareciam ter sido usadas por mil cowboys.

 

— Algo de novo por aqui? — perguntou. Gostava de estar a par do que se passava na clínica, para não ser apanhado desprevenido quando ficava a substituí-la. E ela só o fazia quando estava doente ou tinha algum evento especial onde ir. Mas ultimamente isso sucedera raras vezes. Zoe chegava à noite extenuada e durante o dia estava sempre muito ocupada. Preferia ficar em casa com o seu bebé do que sair. Contudo, quando saía, o que fazia ocasionalmente, levava o seu beeper para poder ser contactada. Por diversas vezes saíra a meio de uma peça ou deixara um jantar mesmo antes de ter começado. Não era, de facto, uma pessoa interessante para se ter como companhia, mas não deixava de ser uma excelente médica.

 

— Nada de muito diferente. — Zoe foi-o pondo a par da situação enquanto mudava de sapatos. — Temos bastantes crianças pequenas, de momento. — Haviam apanhado sida durante a gestação.

 

— Depois de saíres vou fazer a ronda. — Zoe não se importava que ele visse as fichas dos doentes. Não tinha segredos para Sam. — Dá um beijo à Jade por mini.

 

— Obrigada.

 

Zoe sorriu e olhou rapidamente para o relógio. Era uma dessas raras noites em que ia sair com alguém e já estava atrasada. Eram seis horas e quarenta e cinco minutos e ela combinara encontrar-se com o Dr. Richard Franklin às sete e meia. Ele era um conhecido cirurgião de oncologia e tinham-se conhecido dois anos antes, durante uma convenção médica. Zoe ficara intrigada com a rivalidade natural dos seus dois campos de trabalho. Ele mostrara-se irritado com as atenções que a imprensa dedicava ao problema da sida, citando o facto de morrer muito mais gente com cancro da mama do que com sida e afirmando que os fundos deviam ser destinados, sobretudo à pesquisa da cura do cancro. Isso provocara uma viva discussão entre ambos e servira de base a uma interessante amizade. Durante os últimos dois anos saíra várias vezes com ele, especialmente nos últimos meses.

 

Era um homem brilhante e Zoe gostava da sua companhia, e algumas vezes mesmo mais do que isso, mas Richard Franklin não era um homem por quem se apaixonasse. Existiram outros homens na sua vida que tinham significado bastante para ela, mas nunca por muito tempo. O último homem a quem amara realmente morrera dez anos antes com sida apanhada devido a uma transfusão e Zoe fundara a sua clínica por ele lhe ter deixado todo o seu dinheiro. Houve mais um ou dois especiais na sua vida depois disso, mas nenhum que a fizesse desejar casar. E também não pensava casar com Richard Franklin.

 

Foi para casa na sua velha carrinha Volkswagen. Comprara-a quando adoptara Jade e utilizava-a muitas vezes para transportar doentes e, eventualmente, pensava usá-la para entrar em concursos de carros. E utilizava-a agora para chegar a casa o mais rapidamente possível. Comprara uma casa encantadora em Edgewood, perto do hospital de oncologia, próximo da floresta. Dava passeios pela floresta com Jade e a vista que se desfrutava da sua sala era espectacular. Via claramente Golden Gate e Marin Headlands. Logo que abriu a porta, ouviu o grito de excitação de Jade:

 

— Mamã! Mamã! — Zoe ergueu a filha nos braços e apertou-a contra si, acariciando-a, enquanto Jade agitava os braços e lhe contava uma história sobre um cão, um coelho, uvas e uns meninos. A conversa não era muito inteligível, mas Zoe sabia exactamente o que ela queria dizer. — oleio. oleio, mamã! — repetia, batendo as palmas. Zoe percebeu imediatamente que ela vira tudo aquilo em casa dos vizinhos.

 

— Eu sei, talvez também te compre um.

 

Zoe sentou então Jade na sua cadeirinha e provou uma colher do jantar dela. Era hambúrguer e arroz, preparado pela rapariga dinamarquesa, que tomava conta dela. Não era fabuloso, mas saudável, e Jade mostrou-lhe a cenoura crua que estava a roer. Depois Zoe subiu rapidamente para o seu quarto. Queria mudar de roupa o mais depressa possível, para ter ainda alguns minutos para brincar com Jade antes de sair com Dick Franklin. Era por essa razão que ela não gostava de sair à noite. Ficava sem tempo nenhum para estar com a filha. Mas as suas saídas eram raras, assim como as folgas.

 

Desceu as escadas vinte minutos mais tarde, envergando uma saia de veludo preto, comprida, e uma blusa de seda branca. Escovara bem o seu cabelo ruivo e entrançara-o de novo. Usava-o preso numa trança que lhe caía pelas costas, tal como na universidade.

 

— Mamã, mamã - disse a pequenita, batendo palmas outra vez, e Zoe sorriu, sentando-a no seu colo. Sentia-se incrivelmente cansada.

 

— Então como está a minha menina hoje? — perguntou, enquanto a criança se aninhava contra ela e Zoe sorria, apertando-a contra si. A vida era aquilo, não era a excitação, as festas, nem mesmo o dinheiro ou o sucesso, e não eram certamente as coisas de que Tanya lhe falara. O que era importante na vida, pelo menos para Zoe, era a saúde e as crianças, e ela nunca deixava de pensar na sua importância. Também no se podia esquecer. Isso era-lhe recordado diariamente.

 

Zoe e Jade brincaram durante algum tempo com grandes blocos Lego cor-de-rosa, e pouco depois a campainha tocou. Era Richard Franklin. Vinha muito elegante e fresco, com umas calças cinzentas e um blazer, mas Zoe reparou que ele trazia uma gravata cara e, como de costume, parecia ter acabado de cortar o cabelo. O Dr. Franklin andava sempre impecável, como se esperasse a todo o momento ter de fazer uma conferência na presença de importantes personalidades. Conhecia perfeitamente a sua especialidade e era impossível não admirar os seus conhecimentos, embora não se tivesse a mesma admiração pela sua maneira de ser. Ele e Zoe eram muito diferentes, mas, de certo modo, sentiam-se fascinados um pelo outro.

 

— Como está, doutor Franklin? — perguntou Zoe quando ele entrou. Continuava ainda sentada no chão a brincar com a filha.

 

— Estou impressionado — respondeu ele com um ar simpático, mas extremamente altivo. Zoe sempre o achara arrogante e suspeitava de que o que a atraía nele era o desejo de o domar. Mas até ao momento conseguira controlar esse desejo. — Faz isso muitas vezes? — Indicava o jogo que ela fazia com Jade, construindo uma grande casa cor-de-rosa com os blocos Lego, que Jade atirava rapidamente abaixo.

 

— Tantas quanto me é possível — respondeu honestamente Zoe, sabendo bem que isso o fazia sentir-se desconfortável. Há muito tempo que lhe confessara que não tinha jeito para crianças. Nunca tivera filhos e, como ela, nunca casara. Afirmava que nunca se apresentara uma oportunidade para o fazer na altura certa, mas Zoe percebia que ele era muito egocêntrico. — Quer jogar? — perguntou, em tom de brincadeira. Com efeito, nunca o imaginara sentado ou de joelhos no chão a brincar com uma criança. Poderia despentear-se ou amarrotar as calças. Zoe sabia que os colegas o achavam «empertigado», e de certo modo era-o, mas era também incrivelmente inteligente e, além disso, extremamente atraente, apesar dos seus cinquenta e cinco anos. Superficialmente parecia o tipo de homem com o qual a sua família gostaria que ela casasse, mas os pais haviam morrido há anos, e ela própria considerava exótico só o facto de sair com ele.

 

— Está pronta? — perguntou Franklin, que não se mostrava particularmente interessado em estar a vê-la brincar com Jade. Em menos de um minuto já se sentia farto. A reserva no Boulevard era para as oito horas e ficava a uma distância considerável de Edgewood. Tratava-se de um restaurante tão popular que não guardavam as mesas, mesmo para personalidades importantes.

 

— Estou pronta — respondeu Zoe, vestindo um casaquinho de veludo. Mesmo em Junho as noites eram frescas em São Francisco. Depois pegou em Jade e beijou-a.

 

— Gosto muito de ti, ratinha — disse, esfregando o nariz no dela e dando-lhe em seguida um beijo de borboleta, roçando as pestanas pela cara da criança, o que a fez rir de satisfação. — Até logo. — Ao ouvir essas palavras, o lábio inferior de Jade começou a tremer e Zoe percebeu que ela ia chorar. Passou-a rapidamente para os braços da jovem escandinava, que começou a girar com ela, para a distrair, e saiu rapidamente. No último ano Zoe tornara-se mestre em saídas rápidas.

 

— Faz isto muito bem — disse Franklin com admiração. Era invulgar para ele sair com mulheres que tivessem filhos pequenos. Preferia mulheres que estivessem tão envolvidas nas suas carreiras que não pensassem em casar e em ter filhos, o que era exactamente o retrato de Zoe quando ele a conhecera. Depois ela surpreendera-o adoptando uma criança. Não era de modo algum o que esperava dela e, de certo modo, alterara o seu relacionamento, mas continuava a achá-la terrivelmente atraente e gostaria de passar muito mais tempo com ela. Mas Zoe estava ocupada com os seus doentes e agora também com a criança, e ele tinha de se limitar a aceitar as migalhas da sua mesa. — Há duas semanas que não a vejo - queixou-se ele quando entravam no seu Jaguar verde-escuro.

 

— Tenho estado muito ocupada — respondeu simplesmente Zoe. — Tenho muitos doentes de extrema gravidade. — Ultimamente haviam morrido vários, o que era muito deprimente para ela, pois não conseguia deixar de viver a tragédia deles, principalmente para o fim, sempre comovedor e patético.

 

— Também tenho doentes muito graves — replicou Franklin, ligeiramente irritado, quando se dirigiam para o centro através de Haigh.

 

— Sim, mas você tem sócios.

 

— Sim. E você devia pensar em fazer o mesmo. Nem sei como consegue trabalhar desse modo. Ainda acaba por ficar doente, com hepatite, ou pior ainda, poderá apanhar sida, contaminada por algum dos seus doentes.

 

— Uma ideia muito agradável — retorquiu Zoe, olhando para fora, através do vidro.

 

— Sucede — afirmou ele com ar sério. — Devia pensar no que anda a fazer Zoe. Não há necessidade de ser uma heroína ou uma mártir.

 

— Tenho pensado nisso, mas só faço a minha obrigação. Os doentes precisam de mim.

 

— Também a sua filha. E não só. Devia ter mais tempo livre. — Era a segunda pessoa a dizer-lhe o mesmo nessa noite e Zoe fitou-o, para perceber que razão o levara a afirmar aquilo. Ele não era habitualmente tão solícito nem tão cuidadoso. — Tem um ar cansado, Zoe — afirmou o médico. Depois sorriu e deu-lhe uma palmadinha na mão. — Um bom jantar num restaurante vai fazer-lhe bem. Provavelmente nem come.

 

Zoe nem conseguia lembrar-se se tomara o pequeno-almoço ou se almoçara nesse dia. Quando chegava à clínica embrenhava-se no trabalho e não pensava em mais nada. E era todos os dias assim. Mas quando chegaram ao restaurante sentiu-se inclinada a concordar com ele. A sala era tão bonita e tão bem iluminada, a mesa tão convidativa, que ela lamentou não ir ali mais vezes. Franklin pediu vinho para os dois e decidiram comer a meias um prato de cordeiro e pediram souffle para a sobremesa. Era realmente muito diferente dos restos dos hambúrgueres que Jade deixava e da piza ria que tinha no frigorífico da clínica.

 

— Isto é encantador — murmurou Zoe, com ar satisfeito.

 

— Tenho sentido a sua falta — disse ele, estendendo a mão para a dela. Mas Zoe não estava com disposição para romances e havia qualquer coisa na arrogância dele que nunca deixara que se apaixonasse por ele, embora o achasse muito atraente. E nessa noite, apesar da luz das velas e do vinho, Zoe sentia-se inclinada a manter a distância.

 

— Tenho estado ocupada — respondeu, explicando assim as duas semanas de ausência.

 

— Demasiado. Que diz a irmos passar um fim-de-semana a qualquer sítio? Aluguei uma casa em Stinson Beach para Julho e Agosto. Que diz a ir passar lá um fim-de-semana?

 

— Com Jade? — perguntou Zoe, sorrindo. Conhecia-o melhor do que ele julgava. Ele hesitou e por fim disse que sim com a cabeça.

 

— Se preferir. Mas podia ser bom para si ir sem ela.

 

— Sentiria a falta dela — disse Zoe, rindo. — Creio que seria uma convidada indesejável. Ando tão cansada que provavelmente iria dormir todo o fim-de-semana.

 

— Posso pensar numa maneira de a despertar — replicou Franklin com um ar imensamente sensual, erguendo o copo para ela e bebendo um gole de vinho.

— Acredito que sim, doutor Franklin. — Zoe sorriu de novo e o jantar decorreu animadamente. Falaram do hospital onde ambos trabalhavam, das políticas próprias dos hospitais-escolas e de vários rumores intrigantes. Ambos falaram das suas especialidades e Franklin explicou-lhe uma técnica que aperfeiçoara e que vinha já nos livros de estudo. Ele era bom no que fazia e não se mostrava especialmente modesto, mas Zoe não se importava. A conversa era fascinante e Zoe gostava de falar sobre medicina com ele. Quando dizia o mesmo a Sam, ele respondia-lhe que ela só pensava numa coisa e que não gostava de jantar com médicas que só sabiam falar do seu trabalho e que discutiam transplantes do fígado enquanto comiam massa. Achava que ela devia expandir os seus horizontes e não suportava o Dr. Franklin. Achava-o pomposo.

 

Depois do souffle, ambos tomaram café. Nessa altura eram quase onze horas e, embora Zoe não o quisesse dizer, estava completamente exausta. Tinha dificuldade até em se manter acordada à mesa. E tencionava estar a passar a sua ronda aos doentes às sete da manhã, o que significava que teria de se levantar às cinco e meia, para ter tempo de brincar um bocado com Jade. Era a parte do dia de que mais gostava.

 

Mas Dick nem sequer pareceu reparar em como ela estava cansada quando a levou a casa e lhe lembrou novamente o fim-de-semana em Stinson.

 

— Diga-me quando lhe for possível. Estou à sua disposição.

 

— Primeiro tenho de combinar com o médico que me substitui e certificar-me de que a au pair pode ficar ao domingo. — Apesar do que lhe dissera, nunca levaria Jade a passar um fim-de-semana inteiro em casa dele. Ficaria doido, embora Jade fosse uma criança boazinha. Mas ele quereria ouvir música clássica, fazer amor da parte da tarde e discutir técnicas operatórias com ela, e não teria paciência para a ver mudar fraldas e dar de comer à filha. E Zoe compreendia isso. — Verei quando estiverem os dois livres e depois telefono-lhe. — Encontravam-se sentados no carro dele, em frente da casa de Zoe. Ele quisera levá-la a sua casa, em Pacific Heights, primeiro, mas percebera que ela bocejava enquanto ele conduzia. Zoe pediu desculpa por ser tão má companhia, e ele respondeu meigamente:

 

— O mal é não ser. De cada vez que saímos quero estar mais tempo consigo, mas está sempre muito ocupada. Contudo, Franklin compreendia isso. Ele próprio era um médico extremamente ocupado, com grande número de doentes para ver. Era considerado um dos cirurgiões mais proeminentes de oncologia e ainda conseguia dar conferências por todo o país.

 

— Talvez seja isso que torne as coisas interessantes — disse Zoe, sorrindo, sentada no carro confortável. Dick era imensamente afectuoso e bem-parecido, e ela apreciava bastante a companhia dele, mas sabia que nunca poderia amá-lo. — Talvez eu o aborrecesse se passássemos mais tempo juntos.

 

Ele riu ao ouvir as palavras dela.

 

— Não me parece muito provável — replicou Franklin. Era uma das mulheres que mais admirava e atraía-o de várias maneiras, como nessa altura. Conseguia ser simultaneamente vulnerável e inatingível, forte e gentil e os contrastes excitavam-no mais do que ele queria mostrar. — Suponho que não poderei convencê-la a chocar a sua au pair esta noite, pois não? — perguntou, esperançado, mas Zoe abanou lentamente a cabeça. Nunca fizera isso. Pelo menos estando a jovem dinamarquesa lá em casa com o bebé. E não iria começar a fazê-lo agora, nem mesmo com o Dr. Franklin.

 

— Acho que não, Dick. Lamento.

 

— Não estou surpreendido — confessou ele, bem-disposto. — Apenas desapontado. Bem, veja o seu calendário e arranje uma data para um fim-de-semana. Em breve, por favor.

— Sim, senhor.

 

Subiu as escadas com Zoe e abriu a porta com a chave dela. Depois beijou-a ao de leve nos lábios. Não merecia a pena começarem uma coisa que não podiam acabar, achava ele. E era um homem paciente, capaz de esperar uma ou duas semanas para a voltar a ver outra vez, embora tivesse preferido fazer amor com ela nessa noite. Mas estava disposto a aceitar as limitações dela. Zoe agradeceu-lhe o jantar e ele foi-se embora. No momento em que se afastou Zoe correu para o quarto, despiu-se e meteu-se na cama, sem sequer vestir a camisa de noite ou escovar os dentes. Estava tão cansada que apenas podia dormir, e morreu para o mundo até às seis horas da manhã seguinte.

 

Jade estava já acordada quando Zoe entrou no quarto dela. Brincava tranquilamente com os brinquedos que a jovem que tomava conta dela lá deixara com esse fim. Falava sozinha e cantarolava baixinho, mas logo que viu a mãe levantou-se e soltou um gritinho de alegria.

 

— Olá, macaquinha — disse Zoe, tirando-a da cama para lhe mudar a fralda. Mas, ao fazê-lo, achou que estava mais cansada do que de costume, ou ainda se sentia cansada da véspera. Isso sucedia-lhe cada vez mais frequentemente e fez-lhe lembrar que devia ir ao laboratório quando chegasse à clínica:

 

Saiu de casa às seis e quarenta e cinco, para fazer a ronda das sete no hospital de oncologia, e às oito e meia encontrava-se na clínica, onde já a esperavam duas dúzias de doentes. Foi um dos dias mais atarefados dos últimos meses e Zoe não teve tempo de ligar para o laboratório até à hora do almoço. Quando ligou, disseram-lhe que anda não tinham os resultados e, dessa vez Zoe perdeu a paciência.

 

— Estou à espera há duas semanas — disse ela. — Não é justo fazer esperar as pessoas tanto tempo — queixou-se. — Trata-se de situações de vida ou de morte. Não é uma simples análise de urina. Quando é que posso saber os resultados?

 

Do laboratório pediram desculpa pelo atraso e disseram-lhe que, se ela telefonasse às quatro horas, os teriam de certeza. Zoe só conseguiu parar um pouco às cinco e meia e voltou a ligar para o laboratório. Eles fizeram-na esperar um bocado, enquanto ela se enervava, remexendo os papéis na secretária, até que a voz do outro lado se fez ouvir de novo.

 

— Positivo — disse calmamente o técnico do laboratório. Não era surpresa nenhuma. Os seus doentes tinham sempre testes positivos. Por terem sida é que iam ter com ela.

 

— Positivo? — repetiu Zoe, como se nunca tivesse ouvido a palavra. — Positivo - Sentia a casa girar à sua volta.

 

— Foi o que eu disse — confirmou o técnico. — Desta vez ficou surpreendida?

 

E o mal é que não era surpresa. Explicava como se sentia cansada, exausta, o peso que perdera, a diarreia que tinha de tempos a tempos e os sintomas que a perturbavam havia seis meses, desde o último Natal. Os resultados eram de uma análise dela, dessa vez, e sabia exactamente como é que aquilo lhe sucedera. Picara-se acidentalmente, quase há um ano, com uma agulha que fora utilizada por um doente com sida, ao tirar sangue para análise a uma menina que morrera há dois meses, em Abril.

 

Agradeceu ao técnico do laboratório e desligou calmamente, sentindo-se como se o quando tivesse acabado, tal como sucedia com os seus doentes quando lhes dizia. O técnico falara sem subtilezas nem hesitações. Positivo... positivo... tinha sida... Que faria com Jade? Como iria trabalhar? Quem tomaria conta da criança quando ela casse doente? Que iria fazer agora? E, ao pensar na enormidade do que lhe sucedia, sentiu-se esmagada pela intensidade dos seus sentimentos. Inicialmente dera negativo, mas há semanas que ela suspeitava, desde que tivera uma estranha ferida nos lábios. A ferida desaparecera rapidamente, mas as suspeitas dela não. Os seus conhecimentos médicos obrigaram-na a enfrentar a situação e a fazer análises. Era exactamente o que se passava com os seus doentes. A preocupação que sentia fora suficiente para evitar encontrar-se com Dick Franklin nas últimas semanas, embora tivesse sido sempre extremamente cuidadosa com ele. Desde que o homem que ela amava morrera com sida, dez anos antes, tomara sempre todas as precauções e avisava sempre disso todos os homens que passavam pela sua vida. Dissera a Dick e ambos haviam sido extremamente cautelosos. Nunca o expusera a qualquer risco. Mas, se continuasse a andar com ele, teria de lhe dizer. Porém, não tinha qualquer desejo de o ver nem de lhe falar. Não podia imaginá-lo a cuidar dela, nem mesmo a mostrar-se muito simpático. Ele até a avisara dos riscos que corria com os seus doentes. Já sucedera que outros médicos tivessem sido contaminados. E não achava que valesse a pena correr tais riscos.

 

Dick era um cientista, os dois continuavam bons amigos, mas não se tratava do género de pessoa a quem se pusessem problemas. Era o tipo de homem com quem se saía e se passava uma noite agradável. Zoe tinha a certeza de que ele ficaria assombrado se ela contasse. E sabia que os encontros entre os dois tinham acabado. Assim como uma porção de coisas. A sua carreira como médica talvez não... por enquanto, mas com certeza o seu futuro. Sentia uma enorme vontade de chorar, mas sabia que não conseguiria. Precisava de ver ainda alguns doentes. Mas, subitamente, percebeu que nem conseguia pensar correctamente.

 

— Está alguém? — Sam Warner meteu novamente a cabeça pela porta entreaberta e ficou assombrado quando viu o aspecto dela. Parecia que tinha sido lançada da boca de um canhão. E tinha, de facto. — Sentes-te bem? Estás com um aspecto horrível! — declarou peremptoriamente.

 

— Creio que estou a ficar adoentada — respondeu vagamente Zoe, procurando uma desculpa para explicar o seu estado. — Uma constipação... urna gripe... qualquer coisa.

 

— Então não devias estar aqui — disse Sam com firmeza. — Sabes muito bem que os teus doentes não podem ser expostos a qualquer contágio.

 

— Usarei uma máscara — respondeu Zoe, procurando na gaveta da secretária, com mãos trémulas. Sam reparou nesse tremor quando ela tentou, em vão, dar um nó na máscara, mas nada disse. Apenas se mostrou preocupado. — Eu estou bem... na verdade... é apenas uma dor de cabeça...

 

— Estás num estado lastimoso — declarou Sam, tirando-lhe o estetoscópio do pescoço e colocando-o sobre a secretária. — Vai para casa. Eu vejo os doentes que faltam e não te cobro nada. E um presente meu. Há pessoas que não sabem quando hão-de parar. — Sam falou com ar decidido e quase a empurrou para fora da porta, e ela não lhe desobedeceu.

 

Subitamente não podia falar, não conseguia pensar, não podia crer no que lhe tinham dito. Tinha sida... sida... o vírus assassino que matava os seus doentes... a sua vida estava acabada. Não estava, claro, podia viver muitos anos, com os cuidados adequados, sabia isso. Mas rinha o vírus no sangue, à espera como um atirador oculto ou uma bomba de relógio.

 

— Vai para casa — dizia agora Sam. — Vai para casa e mete-te na cama. Mais tarde irei ver como estás.

 

— Não é preciso. Estou bem. E obrigada por acabares o meu trabalho por hoje.

 

Sam era fantástico e Zoe gostava imenso dele. Era incrivelmente meigo e paciente para com todos os doentes. Zoe hesitou em contar-lhe o que lhe sucedia. Era lógico dizer-lho, mas Zoe não queria que se soubesse. Pelo menos por enquanto. Não o diria enquanto não fosse obrigada a isso. Não contaria a Sam, nem aos seus amigos. Nem sequer às enfermeiras. Não diria a ninguém. Teria, contudo, de o revelar ao Dr. Franklin, embora tivesse sido sempre escrupulosamente cuidadosa nas suas relações com ele e soubesse que não o fizera correr qualquer risco. Mas, por uma questão de ética, queria dizer-lhe, embora não tencionasse voltar a dormir com ele. Mas não desejava partilhar a má notícia com mais ninguém. Como fazia com tudo o resto, guardaria aquilo para si. Zoe Phillips não chorava no ombro de ninguém.

 

Mas Zoe chorou durante todo o caminho para casa, ao volante da sua velha carrinha Volkswagen, e quando chegou tinha um aspecto quase tão devastado como se sentia. A sua jovem empregada olhou-a com ar admirada e até Jade pareceu estranhar a sua aparência.

 

— Mamã triste? — perguntou, parecendo preocupada.

 

— A mamã gosta muito de ti — disse Zoe, apertando-a contra si, pensando que teria de ter todo o cuidado para não se cortar e que não devia aproximar-se de Jade se ela fizesse qualquer golpe. Pensou se deveria usar máscara e luvas em casa e depois percebeu que se estava a deixar dominar pelo pânico. Era médica e sabia o que devia fazer. Mas aquilo era diferente. Tratava-se da vida dela. Era difícil ser racional e objectiva.

 

Zoe seguiu o conselho de Sam e foi para a cama. Jade foi-se deitar ao seu lado e Zoe permaneceu muito tempo abraçada à criança. Parecia que a menina tinha a percepção de que podia perder a mãe. Mas não era o caso de «poder» perder. Perderia mesmo, um dia. Zoe sabia que para uma pessoa infectada com o vírus da sida não era se, mas sim quando. Mas no seu caso, devido à maneira como fora infectada, seria mais cedo do que tarde, e sentiu-se novamente tomada de pânico ao pensar que não tinha ninguém a quem deixar Jade quando morresse. Teria de pensar no caso e de tomar decisões muito em breve.

 

Uma hora depois, Inge foi ter com ela para lhe dizer que o Dr. Franklin estava ao telefone. Zoe hesitou por um momento e depois abanou a cabeça. Pediu a Inge que dissesse que não estava em casa. Quando voltou para junto de Zoe, Inge deu-lhe o número de Stinson Beach. Mas Zoe não queria falar-lhe ao telefone, decidira já escrever-lhe. Seria mais fácil dizer-lhe por escrito. Tinha a consciência tranquila, porque fora escrupulosamente cuidadosa, e sabia que não o expusera a qualquer risco, mas, de qualquer modo, sentia que tinha de lhe dizer e esperava poder confiar nele para que não espalhasse a notícia. A comunidade médica era tão pequena que as novidades corriam céleres, mas ela não queria que ninguém soubesse, por enquanto, embora tivesse consciência de que, se ficasse muito doente, todos viriam a saber. Se tivesse sorte, isso poderia não suceder durante muito tempo. Entretanto, não queria que Dick Franklin contasse a toda a gente. Detestava que os colegas falassem acerca dela. Ninguém tinha nada a ver com o facto de ela ter sida. E embora não se sentisse ligada a Franklin, achava que tinha obrigação de lhe dizer. E, para tirar esse peso de cima, escreveu-lhe uma breve carta nessa mesma tarde. Disse apenas que fizera uma análise positiva e pensava que ele devia saber, mas recordava-lhe que ele nunca correra qualquer risco com ela. Disse-lhe também que precisava de ficar só durante uns tempos e que seria melhor afastarem-se.

 

Enfim, libertou-o muito graciosamente de qualquer ideia de compromisso e quando leu a carta, depois de a acabar, pensou se ele lhe telefonaria depois de a receber. Dick Franklin era interessante e inteligente, mas nunca fora particularmente afectuoso. Não o imaginava a oferecer-lhe qualquer conforto, nem mesmo a telefonar-lhe a saber como estava, muito menos a querer ajudá-la com a sua filha adoptiva. Dick era um bom companheiro para jantares, para ir ao teatro, à ópera, para um fim-de-semana com adultos. Era um bom companheiro para os bons tempos, não para os maus. Zoe nada esperava dele, queria apenas que não fosse contar a toda a gente no hospital de oncologia, e isso não lhe parecia pedir muito.

 

Depois de escrever a carta Zoe voltou para a cama e, passado pouco tempo, Inge foi buscar Jade para lhe dar o jantar e olhou para Zoe com uma expressão preocupada. Nunca a vira com aquele aspecto infeliz e Zoe nunca se sentira tão destroçada como agora, a não ser, talvez, quando a amiga morrera. Não se sentia doente, sentia-se apavorada. Só lhe apetecia fugir, tapar a cabeça e agarrar-se a alguém. Mas não tinha ninguém em quem se apoiar.

 

Não se preocupou em acender as luzes, pois ainda havia luz lá fora, embora estivesse a anoitecer... Ouvia Jade na sala ao lado do quarto a brincar com Inge, que lhe dava o jantar. Com esses sons reconfortantes Zoe mergulhou outra vez no sono e dormiu até ouvir alguém falar com ela. Abriu os olhos e ficou surpreendida ao ver Sam Warner, que lhe apalpava o pescoço para ver se ela tinha febre.

 

— Como te sentes? — perguntou Sam, e Zoe nunca se sentira tão grata para com ele como nesse momento. Não admirava que os doentes gostassem de Sam. Tinha bom coração e modos cheios de meiguice. Isso era por vezes mais importante do que ser um bom médico.

 

— Estou bem — disse ela com sinceridade. E estava, de momento, mas tão assustada que quase se sentia doente e estava zangada consigo mesma por ser tão patética.

 

— Não, não estás — declarou Sam firmemente. Sentou-se na beira da cama e olhou-a com cuidado, observando os seus olhos, a sua cor, sem nunca lhe tocar, e ficou perplexo. — Não tens febre, mas tens um péssimo aspecto. — Zoe parecia sobretudo perturbada, e de repente Sam pensou numa coisa e decidiu fazer-lhe a pergunta. — Estás grávida?

 

Zoe sorriu em resposta. Quem lhe dera que fosse assim tão simples e tão bom.

 

— Não estou — respondeu com tristeza —, mas é uma ideia encantadora. Quem me dera que estivesse!

 

— Gostaria de te ajudar no que puder. — Zoe riu e ele segurou-lhe uma das mãos. — Zoe, sei que isto pode parecer que ando à procura de trabalho, mas não ando. — Zoe sabia bem que não. Sam substituía já imensos colegas e não precisava que ela lhe desse trabalho. Ele continuou: — Precisas de umas férias. Não sei o que te preocupa, mas, de qualquer modo, precisas de descansar. — Começava a pensar que se tratava de algo mais emocional do que físico, mas era óbvio que ela necessitava de deixar o trabalho durante algum tempo. — Não podes dar-te a cem por cento constantemente sem sofreres as consequências. Porque não experimentas ir para fora? — Zoe lembrou-se do convite que Dick lhe fizera na véspera de ir para Stinson, mas isso era impossível agora, e, aliás, ela não queria ir. Por outro lado, também compreendia o que Sam estava a dizer. Precisava de fazer alguma coisa por si própria. E se tinha de ir lutar pela vida, teria de fazer tudo para a prolongar. Talvez fosse bom tirar agora umas férias para recuperar as forças.

 

— Vou pensar nisso.

 

— Não, não vais. Conheço-te. Amanhã de manhã lá estarás tu a visitar os doentes do hospital às sete da manhã. Porque não me deixas fazer isso por ti durante uns dias e não chegas ao consultório às nove horas, como uma pessoa civilizada?

 

A oferta era tentadora e Zoe ficou sem saber bem o que lhe havia de responder. Já se sentiria grata por uma noite de sono e por poder pensar no que deveria fazer.

 

— Serás capaz de me substituir hoje à noite e amanhã de manhã? — perguntou Zoe, sentindo-se novamente cansada. Não sabia se era da doença que rinha em si, ou por ter ficado emocionalmente exausta pela confirmação das suas suspeitas.

— Farei tudo o que quiseres — respondeu Sam afectuosamente, e Zoe sentiu a tentação de lhe contar o que tinha sabido. Mas não queria contar a ninguém, nem mesmo a Sam. Mais tarde iria precisar dele para a ajudar na clínica, mas era demasiado cedo para lhe falar no assunto e só pensar em falar disso a deprimia.

 

— Agradeço-te muito — disse suavemente, enquanto ele se levantava.

 

— Cala-te e dorme. Vou telefonar para o serviço, para avisar que irei substituir-te. Provavelmente amanhã, quando acordares, sentir-te-ás bem, mas não quero ver-te no hospital. Pensando bem, porque não hás-de ir só por volta das dez horas?

 

— Vais tornar-me mandriona, Sam — disse Zoe, recostando-se nas almofadas enquanto ele se dirigia para a porta.

 

— Não creio que alguém consiga fazer isso — replicou Sam, sorrindo. Gostaria de lhe dizer muitas coisas, acerca de respeito, de amizade e sobre o relacionamento do trabalho que partilhavam, mas parecia nunca haver oportunidade para tal. Desde que voltara para São Francisco que tivera vontade de a convidar para sair, no entanto ela mantinha-se sempre distante e ele vira-a uma ou duas vezes com o ilustre Dr. Franklin. Achava que não havia nada de sério entre eles, mas pensava que era impróprio perguntar. Apesar de serem amigos há longos anos, Zoe era uma pessoa muito fechada quanto à sua vida privada. Contudo, era-lhe difícil não se sentir atraído pela dedicação e pela compaixão que Zoe punha e tudo o que fazia. Admirava-a mais do que alguma vez lhe poderia dizer e seria capaz de fazer fosse o que fosse por ela.

 

— Obrigada, Sam — disse Zoe. Sam acenou-lhe e saiu, fechando a porta. Zoe ficou estendida na cama, perdida nos seus pensamentos, durante muito tempo. Tinha tanto em que pensar, nos seus doentes, na filha, na sua saúde, no seu futuro. Todos esses pensamentos rodopiavam no seu cérebro e quando fechava os olhos parecia-lhe tudo enevoado. Então, ali estendida na cama, lembrou-se subitamente de Tanya. Aquilo que a sua amiga condiscípula lhe propusera era exactamente o género de coisa que ela receitaria a uma doente sua, e ao pensar novamente nisso resolveu seguir o seu próprio conselho e telefonar a Tanya. Procurou na agenda e ligou o número. Sabia que era uma linha particular. O telefone tocou durante uns segundos e Zoe chegou a pensar que a amiga não estava em casa, mas ela atendeu ao quarto toque. Estava ofegante e Zoe ouviu música ao longe. Encontrava-se sozinha e estava a fazer exercícios junto da piscina.

 

— Está? — A sua voz era exactamente como quando andava na universidade. Era estranho como algumas coisas nunca mudavam nelas e outras mudavam tão radicalmente.

 

— Tanny? — A voz de Zoe era suave, cansada e vulnerável e ela teve o desejo de se atirar para os braços da amiga e chorar agarrada a ela, mas forçou-se a ser forte ao falar com Tanya, que não desconfiou como ela se sentia infeliz ou sequer que tinha um problema.

 

— Não pensei ouvir a tua voz tão cedo — exclamou Tanya, mostrando-se surpreendida, mas satisfeita. Tinham falado uma com a outra no dia anterior após um interregno de dois anos e estava surpreendida por Zoe lhe voltar a falar tão depressa. — Passa-se alguma coisa?

 

— Sucedeu hoje uma coisa louca. Muito louca, de facto — mas não disse o que era. — Há aqui um médico que me substitui de tempos a tempos e agora quase me pôs fora do consultório à força, por uns dias. Diz que precisa de dinheiro.

 

— Falas a sério? — Tanya estava admirada e ainda não compreendera de que se tratava.

 

— Estou... estava a pensar... na viagem de que me falaste... a Wyoming... suponho que tu não... não quero intrometer-me ou coisa assim... Vais sozinha? Pensei que...

 

Foi então que Tanya compreendeu a razão do telefonema e viu logo que era uma oportunidade perfeita para juntar Zoe e Mary Stuart. Mas sabia que se Zoe tivesse conhecimento da ida de Mary Stuart, provavelmente não iria. Tinha muito tempo para se explicar quando lá chegassem e estava certa de que, por fim, tudo ficaria bem entre as duas amigas.

 

— Não, vou sozinha - mentiu. Deu-lhe rapidamente todos os detalhes e sugeriu-lhe que fosse de avião directamente para Jackson Hole. Se Zoe fosse ter a Los Angeles para ir com elas no autocarro, poderia acontecer que Mary Stuart se recusasse a acompanhá-las. Mas estava certa de que se estivessem todas no rancho seria uma reunião maravilhosa. Antes de lá chegar não lhes queria dar oportunidade de recuarem.

 

— No entanto, só posso ir uma semana — disse firmemente Zoe. Estava já em pânico com a ideia de deixar a clínica, mas era isso mesmo que teria de fazer agora se queria conservar a saúde. De qualquer modo, uma semana seria suficiente.

 

— Óptimo. Talvez te consigamos convencer a ficares mais uma semana, depois de lá estares — disse Tanya, feliz. Não podia imaginar nada melhor do que passar umas férias com duas das suas mais antigas amigas.

 

— Não vais com um amigo, pois não? — perguntou Zoe. Tinha ouvido o verbo na segunda pessoa do plural, mas quando Tanya lhe disse que não, pensou que era apenas uma maneira de falar. Nunca lhe passaria pela cabeça que Tanya tivesse convidado Mary Stuart.

 

— E a tua filha? — perguntou Tanya, pronta para tratar de arranjar acomodações para ela. Zoe ficou a pensar na pergunta de Tanya um grande bocado.

 

— Não a levarei. Creio que será melhor para ela. E realmente muito pequena. Não iria apreciar a viagem com a idade que tem e talvez me faça bem ir sozinha por uns dias — disse por fim Zoe, embora detestasse a ideia de deixar a filha e os seus doentes.

 

— Mas tu estás bem, não estás?

 

Havia qualquer coisa no modo de Zoe falar que preocupava Tanya, mas era algo de indefinido e Zoe afirmava estar tudo bem. No entanto, qualquer coisa na voz de Zoe fez recordar a Tanya a voz dela numa altura em que se sentira terrivelmente infeliz, com a morte de Ellie. Mas não se viam há tanto tempo que Tanya não quis insistir nem acusá-la de estar a mentir.

 

— Estou bem — assegurou Zoe — e ansiosa por te ver. Zoe era uma boa amiga, sabia montar a cavalo e, com alguma sorte, pensou Tanya, logo na primeira noite Zoe e Mary Stuart fariam as pazes e ficariam juntas de novo, como nos velhos tempos.

 

— Então vemo-nos no rancho — disse Tanya, despedindo-se e sentindo-se muito feliz por Zoe lhe ter telefonado.

 

— Até qualquer dia. — Zoe desligou e voltou-se para o outro lado, na cama. Não era de sua vontade que abandonava tudo para partir de férias. Mas precisava de o fazer. Iria tentar tudo o que estivesse ao seu alcance para prolongar a sua vida. Sempre a achara uma dádiva preciosa, e agora, com a pequena Jade, era-lhe mais preciosa ainda. E conhecendo o que teria eventualmente de enfrentar, a viagem para Wyoming passou a ser, de repente, muito importante.

 

Na semana seguinte, Sam trabalhou com Zoe durante várias horas, para ficar a par de tudo o que se relacionava com os seus doentes. Alguns já ele conhecia das ocasiões e que a substituíra por algumas horas, mas, quando leu as fichas de todos os doentes, ficou admirado de ela conseguir cuidar de um tão grande número de pacientes. Tinha aproximadamente cinquenta doentes em estado terminal e todos os dias chegavam mais à clínica, e às vezes todas as noites.

 

Eram levados por parentes ou amigos, ou iam simplesmente por ter ouvido falar do que ela fazia. Estavam todos muito doentes, os que tinham sida e os que não tinham. Zoe aceitava-os a todos e Sam ficou especialmente comovido ao verificar o grande número de crianças que tinham a doença. Isso fazia que uma pessoa se sentisse grata por cada criança saudável que via.

 

— Nem posso acreditar que vejas diariamente tantos doentes — comentou Sam ao fim da tarde. — E desumano. Não admira que andes sempre cansada!

 

Teria sido simples dizer-lhe nessa altura que tinha apanhado sida. Mas o problema não era dele e Zoe já decidira que não iria sobrecarregar ninguém com a sua situação, pelo menos enquanto o pudesse evitar. Planeava poupar dinheiro para quando viesse a precisar de tratamento ou até de internamento, se fosse esse o caso. O único verdadeiro problema era resolver o que fazer com Jade, com quem a deixar quando morresse. Era terrível pensar assim, mas Zoe sabia que tinha de o fazer. Parte de si mesma resistia ainda à ideia, mas a outra parte aceitara já o seu destino. Parecia um fim incrível para uma carreira tão brilhante, e poderia lamentar a sua pouca sorte, mas não queria fazê-lo. Desejava apenas viver o melhor possível o tempo que lhe restava. Sabia que poderia viver vários anos, talvez mesmo uma década. Não era o que acontecia habitualmente, mas podia suceder, e ela ia fazer tudo para que assim fosse. A viagem a Wyoming fazia parte desse plano, o descanso, a paisagem, a altitude, o ar e o conforto de voltar a ver a sua velha amiga Tanya.

 

— E este? — perguntou Sam, interrompendo o devaneio de Zoe. Tratava-se da ficha de um rapaz extremamente doente. Tinha entrado já na última fase da doença e Zoe duvidava de que ele durasse muito mais tempo. Lutava corajosamente contra a morte desde há muitos meses, e agora pouco havia a fazer, a não ser dar-lhe conforto e consolar o seu amante. Zoe visitava-o todos os dias. Explicou tudo isso a Sam e ele abanou a cabeça. A maneira de trabalhar de Zoe era a menos ortodoxa de todas as que conhecia, mas era também a mais criativa em termos de tratamento, e sentia-se profundamente comovido com a compaixão que ela demonstrava. Zoe procurava constantemente descobrir novos antibióticos, medicamentos, modos de tratar infecções e dores. Procurava, além disso, conhecer novos tratamentos naturais. Fazia tudo quanto podia para vencer a doença, até ao último momento, e nunca deixava de confortar o doente.

 

— Um dia teremos sorte — disse tristemente Zoe. Mas, infelizmente, não seria suficientemente depressa para todos. Nem sequer para si própria!

 

— Creio que os doentes já tiveram sorte quando te encontraram — declarou Sam, olhando-a com uma admiração cada vez maior. Sempre gostara dela e agora gostava ainda mais. Não sabia se a sua dedicação pêlos doentes teria alguma coisa a ver com o homem que ela amara e que morrera com sida dez anos antes. Não sabia se ela teria amado alguém desde então, mas achava que não. Com certeza não amara Dick Franklin. Sam gostaria de se aproximar mais dela. Zoe mostrara-se sempre muito franca com ele, e muito amigável, mas nunca dera a entender que gostaria de ser mais do que uma boa amiga, uma pessoa que gostava de o ter como colaborador.

 

Zoe, por seu lado, achava que não podia ser íntima de ninguém. Sempre tivera o cuidado de manter uma certa distância entre ela própria e o resto do mundo, e sentia isso até mesmo com Sam, embora o conhecesse desde que ambos estudavam medicina. Não queria que ele pensasse que ela estava interessada nele como homem. Queria tomar bem claro que não estava disponível como mulher, mas apenas como médica. Pensara até em comprar uma aliança de casamento barata para usar, e forçava-se a não se lembrar que estava a seguir um caminho solitário.

 

Nesse dia, quando lhes faltava examinar apenas a filha de um doente, Sam olhou para Zoe e pensou se ela aceitaria ir jantar fora com ele. Tinham ainda muitas impressões a trocar e ele não tinha pressa de ir para casa.

 

— Que dizes a comermos qualquer coisa enquanto conversamos? Pensei em irmos comer pasta a qualquer sítio aqui perto. Estás de acordo? — perguntou, contendo a respiração e sentindo-se estúpido. As vezes Zoe fazia com que ele se sentisse como um garoto, mas gostava disso. Tudo em Zoe lhe agradava. Sempre assim fora. E com o passar dos anos admirava-a cada vez mais e gostava mais dela.

 

— Parece-me bem — respondeu Zoe, sem lhe passar pela cabeça que Sam a pudesse achar atraente. Também ela queria convidá-lo para lhe agradecer o facto de ele lhe possibilitar sair da cidade e ter umas verdadeiras férias. Sentia remorsos por deixar Jade, mas Sam prometera-lhe olhar por ela e ir vê-la todos os dias, antes de ir para casa.

 

— Es realmente um médico para todo o serviço — gracejou Zoe, enquanto se sentavam num compartimento de um pequeno restaurante italiano em Upper Haight. Havia anos que ela ali ia. A comida era boa e o ambiente agradável, tranquilo. Era a primeira vez, desde os tempos da faculdade, que ela e Sam iam jantar juntos para conversarem. Apesar de os seus caminhos se cruzarem regularmente nos últimos dezoito anos, nunca tinham tido tempo para estar juntos e sós. Andavam sempre a trabalhar.

 

Pediram ambos ravioli e Sam ofereceu-lhe vinho, mas ela recusou e retomaram a conversa sobre o trabalho. Estavam a meio do jantar quando Sam a olhou com o seu sorriso agarotado e com uma expressão tão afectuosa e amigável no olhar que Zoe se sentiu mais à vontade com ele do que nunca estivera.

 

— Não fazes mais nada a não ser trabalhar? — perguntou meigamente. Admirava-a, mas tinha pena dela. Zoe fazia tanto por tanta gente, mas parecia não ter ninguém que fizesse nada por ela! Sam sabia por experiência própria como o género de trabalho de Zoe era esgotante e não acreditava que ela sentisse algum verdadeiro conforto no seu relacionamento com uma pessoa como Dick Franklin ou outro como ele.

 

— Ultimamente não — respondeu Zoe. — A não ser estar com Jade.

 

— Nunca casaste? — Sam pensava que não e viu que tinha razão quando ela abanou a cabeça.

 

— Nunca. — Não parecia minimamente preocupada com isso. Sentia-se bem com a vida que tinha e feliz com a filha adoptiva. A sua vida estava completamente preenchida.

 

Mas Sam mostrou-se curioso e perguntou:

 

— Posso saber porquê? Isto é, se não te ofendes com a minha curiosidade...

 

Zoe sorriu. Não se importava nada. A não ser quanto à sua doença, não tinha segredos para ele.

 

— Nunca tive verdadeiramente desejo de casar quando era nova. O único homem com quem talvez pudesse ter casado morreu há dez anos. Contraiu sida devido a uma transfusão. Graças a ele fundei a clínica. Era um investigador brilhante e teve de pôr um bypass aos quarenta e dois anos. Essa operação veio a ser a causa da sua morte. Não chegou a viver um ano depois da transfusão. Tinha pensado em me dedicar à investigação científica com ele. Sempre me sentira intrigada com mistérios por solucionar e doenças remotas. Depois apareceu a sida e eu enveredei pêlos cuidados médicos e não pela pesquisa.

 

— Teria sido uma grande perda para muita gente se tivesses enveredado por um caminho diferente — declarou afectuosamente Sam. Zoe era, de facto, uma médica fantástica. Sam já ouvira falar no médico que morrera, mas por intermédio de outras pessoas. Enquanto Zoe falava, observava-a. Parecia-lhe triste, mas não destroçada. Era óbvio que se conformara com a perda, sem, no entanto, voltar a encontrar alguém que significasse tanto para si. — Antes de aparecer a sida, estive a trabalhar com casos de diabetes juvenil. De certa maneira, é uma praga semelhante a esta, mas à qual é dada muito menos atenção.

 

— Sempre me interessei por isso. Creio que sou uma espécie de abutre. Gosto de estar em contacto com o trabalho dos outros, de recolher certas informações, de resolver problemas, de fazer o que posso e depois seguir adiante. Nunca quis ter a minha clientela própria, o que poderá parecer irresponsável, mas detesto tudo quanto seja burocracia e papelada, tudo quanto é necessário para um médico se estabelecer e que nada tem a ver com a medicina. Talvez ainda não tenha atingido a maturidade. Estou sempre à espera que isso aconteça. Penso constantemente em juntar-me um dia a um grupo de médicos e abrir uma clínica, ou coisa assim, mas nunca o faço. Quase tudo o que vejo me afasta dessa prática, a não ser numa base rotativa, como faço contigo. Deste modo consigo trabalhar em várias frentes.

 

Zoe sorriu ao ouvi-lo. A filosofia dele assemelhava-se um pouco à dos médicos que se dedicam às chamadas de urgência. Querem lidar apenas com os doentes, sem terem de se preocupar com papelada e outros problemas. Mas, no caso dela, teria sentido a falta de um relacionamento a longo prazo, como o que mantinha com os seus doentes.

 

— Fazes-me lembrar um pouco o Lone Ranger — disse Zoe, sorrindo. — Os meus doentes gostam de ti e não te censuro por fugires de todas as maçadas que advêm de ter uma clínica ou um consultório particular. Realmente tem-me feito falta não ter associados, pois assim trabalho muito mais, mas também gosto de não ter de suportar as discussões, as invejas mesquinhas e todos os problemas que inevitavelmente teria. Quando Adam morreu, tomou-se possível fundar o género de clínica que eu queria e agir exactamente como achava que devia agir. Mas claro que é duro não ter um auxílio apropriado, a não ser ocasionalmente.

 

Zoe sorriu novamente e Sam pensou até que ponto ela estaria envolvida com o Dr. Franklin, mas receou perguntar-lho.

 

— Tencionavas casar com Adam antes de ele adoecer? Sam sentia curiosidade acerca dela, acerca da criança que adoptara e por que motivo parecia sentir-se tão bem sozinha.

 

Era uma mulher intrigante.

 

— Não. Talvez viéssemos eventualmente a casar, mas não falávamos nisso. Adam já tinha sido casado e tinha filhos. Eu estava muito ocupada como médica interna no hospital. Tive um consultório em sociedade com dois outros médicos, mas saí quando fundei a clínica. Nunca me senti compelida a casar ou a viver com alguém. Estávamos juntos muitas vezes, mas nunca vivemos juntos até ele estar quase a morrer. Pedi uma licença de três meses e tratei dele. Foi muito triste. — Zoe falou com uma expressão melancólica, mas calma. Recordava o caso com ar grave, mas sem dor. Passara-se muito tempo desde a morte de Adam e entretanto muitas coisas se tinham passado. Zoe ainda via os filhos dele de tempos a tempos, mas nunca estivera muito ligada a eles. Só depois de Jade ter nascido é que compreendera a alegria extraordinária de ter um filho. Sam também lhe fez perguntas a esse respeito e Zoe contou-lhe como sucedera. A mãe de Jade era uma rapariga de dezanove anos, solteira, e não mostrara vontade de ficar com o bebé. A família dela recusara-se a aceitá-la quando descobrira que era asiática. — Foi a melhor coisa que me sucedeu — declarou simplesmente Zoe. Depois passou ela a fazer as perguntas.

 

— E tu? — Sabia que ele casara em Chicago. — Que sucedeu ao teu casamento?

 

Tinham perdido o rasto um do outro durante os respectivos estágios, e quando Sam regressara a São Francisco Zoe soubera que ele se tinha divorciado e nada mais. Sam não falava disso e raramente tinham tido oportunidade de estar a conversar só os dois.

 

— O meu casamento durou dois infelizes anos, enquanto eu estive a fazer o estágio — explicou Sam com ar pensativo. — Pobre rapariga. Eu mal a via. Sabes como é. Ela detestava a vida que tínhamos. Jurou nunca mais se envolver com outro médico, mas estava geneticamente condenada. O pai dela era um eminente cirurgião torácico de Grosse Pointe, o irmão é médico de desporto em Chicago, e depois do divórcio acabou por casar com um cirurgião plástico. Tem três filhos e vive em Milwaukee. Creio que é muito feliz. Há anos que não a vejo. Quando vim para a Califórnia, vivi com uma mulher durante vários anos, mas nenhum de nós teve interesse em casar. Ambos havíamos tido experiências fracassadas e não estávamos preparados para novo casamento. De certo modo, tu és um pouco como ela. E uma espécie de santa, como tu. Sentia urna verdadeira necessidade de fazer algo de diferente e estava sempre a pressionar-me nesse sentido. Por fim, fez o que tinha a fazer e eu fiquei para trás. E enfermeira numa colónia de leprosos no Botswana.

 

Zoe recordava-se de ter ouvido vagamente falar dela, mas isso fora antes de Sam a ajudar na clínica e Zoe não a conhecera.

 

— Oh! Isso é sério! — Zoe olhou-o, fascinada pelo que estava a ouvir. — E nunca te convenceu a ires com ela? - Zoe achava que a ideia poderia tê-la atraído, mas Sam abanou a cabeça com uma expressão horrorizada.

 

— Nem pensar — replicou, sorrindo. — Por mais que gostasse dela, detesto cobras, bicharocos de qualquer espécie. Nunca pertenci aos escuteiros e acho que passeios para acampar e sacos-cama são uma verdadeira tortura. Decididamente não sou talhado para servir a humanidade na selva. Gosto de ter à noite uma cama confortável, uma boa refeição, de ir a um restaurante agradável, de beber um copo de vinho, e a vegetação mais selvagem que gosto de ver é a do Golden Gate Park aos fins-de-semana. Rachel vem aqui mais ou menos uma vez por ano e eu ainda gosto dela, mas somos apenas amigos. Ela vive com o chefe da colónia de leprosos e têm um bebé. Rachel adora a África e diz-me que não sei o que estou a perder.

 

— Por não teres filhos ou por viveres aqui? — perguntou Zoe, rindo, mas pensando que era uma história muito interessante.

 

— Pelas duas coisas. Rachel diz que jamais sairá de África, mas nunca se sabe. As políticas ligadas a esse continente são bastante assustadoras. De qualquer modo, não estou interessado. Rachel é uma grande mulher e fez o que estava certo para ela. Partiu há cinco anos e o tempo tem voado. Tenho quarenta e seis anos e creio que me tenho esquecido de me casar.

 

— Também eu — disse Zoe, rindo. — Os meus pais ficavam loucos com isso. Morreram ambos há poucos anos, portanto deixei de ter quem me fale no assunto. — E agora sabia que não voltaria a casar. Sam, depois de ter falado sobre a sua vida, sentiu-se mais corajoso e perguntou:

 

— E o doutor Franklin?

 

Sentia-se nervoso ao fazer a pergunta, mas tinha curiosidade. Zoe era muito ciosa da sua privacidade e Sam queria saber se era por causa de Dick Franklin ou se existiam outras razões. Talvez ela gostasse de alguém que ele nem sequer conhecesse. Era difícil de acreditar que uma mulher como Zoe só se interessasse pela filha adoptiva e pêlos seus doentes.

 

— Que tem o Dick? — exclamou Zoe, parecendo perplexa. — Somos bons amigos, nada mais. E um homem interessante — acrescentou afavelmente, enquanto Sam a olhava atentamente à procura de sentimentos mais profundos.

 

— Não revelas muito, pois não? - disse Sam. E ela riu outra vez.

 

— Que deseja saber exactamente, doutor Warner? Se é uma coisa séria? Não é. E a verdade é que não tenciono voltar a vê-lo. Não ando com ninguém e é assim que desejo continuar.

 

Havia algo de decisivo na voz dela ao dizer aquilo que o deixou perplexo. Mas a mensagem ficava ali, para quem a quisesse ouvir.

 

— Tencionas entrar em breve para um convento? Ou preferes o amor livre?

 

Zoe olhou-o e subitamente começou a rir-se. Aquilo era novo para ela. Percebia que podia ter aprendido muitas coisas com os seus doentes. Como é que eles faziam? O que diziam? Sabia que muitas pessoas que tinham sida avisavam as outras antes de iniciarem qualquer relacionamento. Mas ela também não queria fazer isso. Preferia guardar segredo e viver apenas para Jade. Seria diferente se houvesse alguém na sua vida, mas não havia e não haveria. Pelo que lhe dizia respeito, as portas estavam fechadas.

 

— Não tenho tempo para uma relação — declarou com simplicidade, e Sam mostrou-se surpreendido. A maneira como ela dissera aquilo parecera-lhe terminante e contrária à sua personalidade. Era uma pena que uma mulher com a idade de Zoe, tão calorosa e cheia de vida, não tivesse um homem ao seu lado. Isso perturbava verdadeiramente Sam.

 

— Estás a dizer-me que tomaste conscientemente essa decisão, com a tua idade? — Parecia horrorizado com a perspectiva.

 

— Mais ou menos. — Referia-se à decisão que tomara, mas não queria aprofundar o assunto, pois estavam a entrar em terreno perigoso. Mas Sam estava decidido a continuar a falar na questão e Zoe acabou por dizer: — Não posso dar nada a ninguém, Sam. Estou demasiado envolvida com a minha profissão e a minha filha. — Era uma desculpa, mas Sam percebeu que ela falava a sério.

 

— Isso é um disparate Zoe — declarou firmemente. — Estás enganada se pensas que não podes dar nada a ninguém. Há mais coisas na vida do que trabalhar e cuidar de um bebé... — Sam não percebia qual o motivo que a fazia mostrar-se tão decidida a ficar sozinha. Ainda choraria pelo seu antigo amor? Mas ele não acreditava nisso, pois sabia que Zoe andara com Richard Franklin. Por que motivo não quereria envolver-se com ninguém? Porque se esconderia? A obsessão com a filha e o trabalho não podia ser assim tão grande. Ou seria? — Es demasiado nova para fechar as portas a um relacionamento com um homem Zoe — declarou com firmeza. — Tens de repensar isso.

 

Sam Warner teve a sensação de sofrer uma perda pessoal ao olhar para Zoe e perceber que ela era sincera.

 

Ela sorriu-lhe, mas não se deixou demover pelas palavras dele.

 

— Pareces o meu pai, Sam. Ele costumava dizer-me que as mulheres com educação superior ameaçavam os homens e avisou-me de que estava a cometer um grande erro indo para Stanford. A faculdade estava bem, mas estudar medicina era de mais. Dizia-me que se eu queria praticar medicina poderia estudar enfermagem, poupando-lhe assim muito dinheiro.

 

Sam abanou a cabeça. Conhecia mais pessoas assim. Na família dele eram todos médicos, incluindo a mãe.

 

— Bem, devias ter estudado enfermagem, se o facto de seres médica te fez chegar a uma conclusão tão tola. E uma coisa estúpida, Zoe.

 

Pensou se ela teria sido violada, ou se teria passado por uma má experiência, ou se Franklin fizera alguma coisa que a tivesse perturbado, mas o mais certo era que tivesse uma relação secreta, talvez com um homem casado, que quisesse proteger. Ou talvez procurasse apenas dizer-lhe, de uma maneira simpática, que não estava interessada nele, mas esperava que também não fosse esse o caso. De outro modo não podia compreendê-la, embora ela se mostrasse muito firme.

 

Zoe levou a conversa para outro terreno, o que o frustrou ainda mais. Descobriu que ainda tinham mais coisas em comum do que ele pensara. Zoe possuía um grande sentido de humor e uma inteligência viva. Interessavam-se pelas mesmas coisas, tinham a mesma paixão pela medicina. Zoe viajara muito e havia nela algo de genuíno e de maravilhosamente honesto. Dizia as coisas como elas eram, analisava muito astutamente as situações e, enquanto lhe falava nos seus doentes, era bem visível como gostava deles. Era a primeira mulher que ele conhecia, desde há muito tempo, por quem estava verdadeiramente apaixonado e desejava ardentemente andar com ela. Havia anos que se sentia atraído por ela, mas sempre hesitara em mostrar-lhe o seu interesse. Agora, depois de jantar com ela e de estarem a conversar, sentia-se ainda mais apaixonado. Zoe tomava-se ainda mais apetecível por afirmar que desistira de qualquer relacionamento futuro e por nem sequer querer falar do caso com ele. Sam tinha a certeza de que existia alguma razão, possivelmente uma ligação com um homem casado. Podia ter-lhe dito. Com efeito, tudo na vida dela apontava para isso. O facto de ter tanta disponibilidade para o trabalho, de não querer casar-se, indicavam que andava com alguém e não queria que se soubesse. E ele sentia-se muito infeliz com isso.

 

Quanto a Zoe, ao observar Sam, enquanto comiam e conversavam, sentia que cada vez gostava mais dele. Era exactamente aquilo que sempre lhe parecera ser: um grande urso de pelúcia bonacheirão, um homem inteligente e bondoso, alguém com quem realmente se podia contar. E estava tão apaixonado como ela pela clínica. Achava que fora um empreendimento fantástico, o dela, e admirava-a por isso.

 

— De todas as maneiras que conheço de exercer medicina, a tua é a que mais me agrada e a que mais respeito. Gosto realmente do modo como tratas os teus doentes, especialmente dos cuidados que dispensas aos que se encontram em casa.

 

— Essa foi a parte mais difícil de organizar. Encontrar as pessoas certas para fazerem o que é preciso, sem ter de as dirigir constantemente, é muito custoso. Vigio-as de perto, mas, mesmo assim, ainda têm muitos desvios. No entanto, os doentes também têm grandes responsabilidades. A maior parte dos parceiros e das famílias dos doentes quer tratá-los em casa, sem qualquer assistência, quase até ao fim, e depois acabam por os meter em lares. Morrer com sida não é nada fácil.

 

Falaram mais um bocado sobre o que Zoe queria que Sam fizesse enquanto estivesse fora e ele sorriu ao ouvi-la. Sabia que ia ser duro para ela afastar-se e tentou tranquilizá-la, garantindo-lhe que os doentes ficavam em boas mãos com ele. E Zoe acreditava sinceramente nisso.

 

— Fala-me então da tua viagem a Wyoming — pediu Sam enquanto bebiam a segunda chávena de café. Já reparara que Zoe estava exausta. Nos últimos tempos notara várias vezes que ela andava muito cansada, mas não pensara muito nisso. O seu trabalho era tão esgotante que não se surpreendia por ela andar pálida, mas nessa noite reparou que estava também mais magra. Precisava realmente de umas férias e Sam sentiu-se satisfeito por ela as ir ter. — Vais com quem? Não vais acampar, pois não? — perguntou, desejando por momentos poder acompanhá-la.

 

Zoe riu da pergunta dele.

 

— Não me parece. Vou com uma antiga colega dos meus tempos da universidade. E uma mulher fantástica e há algum tempo que não a vejo, mas telefonou-me outro dia e convidou-me. Inicialmente disse-lhe que não, mas, como me sentia muito cansada, acabei por aceitar o convite. Como vou com ela, tenho a certeza de que não se trata de campismo. E ainda mais exigente do que eu. — Zoe também não gostava de acampar. Tal como Sam, detestava insectos, cobras ou qualquer género de bicharocos rastejantes. — Ela vive em Los Angeles e estou certa de que iremos para o rancho mais luxuoso que tenha descoberto.

 

— Quem é ela? E médica? — perguntou Sam, enquanto abria a carteira para pagar o jantar. Zoe sorriu antes de responder.

 

— Não. E cantora. Somos amigas de longa data e ela nunca mudou, embora poucas pessoas possam acreditar nisso.

 

Os média têm-lhe tomado a vida num inferno. Não é justo. — Olhou pensativamente para Sam e acrescentou: — Não gosto de dizer às pessoas quem ela é, pois tiram imediatamente mil conclusões inexactas.

 

— Sinto-me fascinado — replicou Sam, fitando Zoe, enquanto a empregada de mesa levava o dinheiro. Sentia-se cada vez mais intrigado com Zoe, com os seus profundos olhos verdes e tudo o que se lia neles. — Então quem é ela?

 

— Tanya Thomas — disse calmamente Zoe. Para ela era apenas um nome, para as outras pessoas era uma vida de luxo, de prazer, de mentiras. Era essa a imagem que vendiam dela e Sam teve a reacção habitual. Abriu muito os olhos e ficou por instantes de boca aberta. Depois riu da sua própria reacção.

 

— Isso é verdade? E tua amiga?

 

— Era a minha melhor amiga na faculdade. Fomos companheiras de quarto. Gosto mais dela do que de qualquer outra das minhas amigas. Não nos vemos muitas vezes, mas a nossa amizade continua a mesma.

 

— Oh! Estou impressionado! — exclamou sinceramente Sam. — Sei que parece tolice, mas tenho dificuldade em acreditar que as pessoas conheçam celebridades desse género e que comam piza com elas, bebam café e procedam em tudo como pessoas vulgares.

 

— Tanya tem sofrido muito por causa disso. Acho que está a divorciar-se outra vez. E impossível ter uma vida normal, com o género de pressões a que está sujeita. Quando saímos da universidade, casou com um excelente rapaz, o seu antigo namorado dos tempos do liceu, mas passado um ano ela tornara-se famosa. Ganhara um disco de ouro e iniciava uma carreira fabulosa. O sucesso destruiu o casamento deles. O pobre Bobby não era homem para suportar a celebridade, as luzes da ribalta sempre a incidirem sobre Tanny. Três anos depois casou com um tipo horrível, o seu manager que a explorou o mais que pôde. Creio que se tratava de um indivíduo típico daquele ambiente, mas tomou Tanya muito infeliz. E há três anos casou com um homem de Los Angeles, creio que tem uma firma de compra e venda de propriedades. Pensei que com esse o casamento durasse, mas ele saiu de casa e não a deixou levar os filhos dele, dos quais Tanya gosta muito, para a casa que ela tinha alugado num rancho, em Wyoming. Foi por isso que me convidou para ir com ela. Zoe contara a história com tal simplicidade que Sam lhe achou graça.

 

— Sorte a tua! — exclamou sinceramente. — Que divertido!

 

— Sim, o mais divertido vai ser estar com Tanya. Nenhuma de nós é louca por cavalos. Na verdade, eu quero apenas dormir durante toda a semana.

 

— Deve fazer-te bem — disse Sam, olhando-a com uma expressão preocupada. — Estás bem, não estás Zoe? Tens andado cansada e sei que não te tens sentido muito bem. Estás realmente a exagerar.

 

Sam falou meigamente e Zoe sentiu-se comovida com as suas palavras. Estava tão habituada a cuidar dos outros, que se surpreendia se alguém se preocupava com ela.

 

— Estou bem. Sinceramente — respondeu Zoe. Mas ficou a pensar no que ele poderia ter visto. Lembrou-se subitamente se pareceria doente. Estava cansada, mas não notara qualquer diferença na sua aparência exterior ao ver-se ao espelho. Não tinha feridas nem quaisquer outros sinais. Não havia nenhuma indicação de que pudesse ter sida, e sabia que poderia não haver durante muito tempo, ou poderiam surgir a qualquer momento. O maior risco que corria era o de ter infecções. Mas ela sabia o que devia fazer para se proteger e estava a ser cuidadosa.

 

— Agradeço a tua preocupação — disse para Sam, e ficou surpreendida quando ele estendeu o braço por cima da mesa e lhe segurou numa das mãos. Não esperava que ele fizesse isso.

 

— Preocupo-me contigo. Quero ajudar-te, mas tu és sempre muito obstinada. — Sam disse essas palavras de uma maneira que fez com que ela o olhasse nos olhos. Eram castanho-escuros e infinitamente meigos.

 

— Obrigada, Sam...

 

Zoe sentiu-se invadir por uma onda de emoção e desviou os olhos. Um momento depois retirou a mão. Sabia que tinha de estar em guarda. Por mais que ele a atraísse, não podia permitir a si própria deixar-se envolver.

 

Fora tão simples com Dick, quando tinham saído juntos. Eram apenas amigos e se, por momentos, eram um pouco mais do que isso, não tinha grande importância. Não alimentava ilusões a respeito dos sentimentos dele para com ela. Dick queria apenas uma companhia agradável, de tempos a tempos, alguém com quem ir ao teatro, a um concerto, a uma ópera ou com quem partilhar um jantar dispendioso. Mas não queria mais dela do que aquilo que ela lhe dava. Com efeito, ficaria assustado se Zoe lhe desse mais do que isso. Dick sabia exactamente até onde queria chegar com ela e tinha sempre o cuidado de manter as distâncias. E, embora tivesse gostado de ter um relacionamento sério com alguém, não houvera, de facto, ninguém que a atraísse dessa maneira durante muitos anos e fora-lhe fácil evitar as imitações baratas. Agora que a sua vida mudara, era pouca sorte descobrir que Sam Warner podia ter sido importante para ela. Nunca se apercebera de como era profundo, bondoso, compadecido, de tal modo em sintonia com a maneira de pensar dela. Apenas o considerava um bom médico e um bom amigo.

 

Agora que sentia que havia algo mais nele e também no que ela sentia por ele, era-lhe negado o direito de explorar esses sentimentos. A porta dessa parte da sua vida estava fechada para sempre. Que poderia ela oferecer agora a alguém? Uns meses? Alguns anos? Mesmo que fossem cinco ou dez, não seria justo. E, além de tudo, existiria sempre o risco remoto, mas potencial, do contágio. Passara por tudo isso com Adam e não queria que ninguém sofresse esse martírio por causa dela. Certamente não faria tal coisa a Sam. Não havia a mais pequena possibilidade de permitir que ele se aproximasse mais dela. Eram colegas e amigos, nada mais. Não permitiria que ele ultrapassasse os limites estabelecidos por ela e Sam apercebeu-se disso. Estava triste quando deixaram o restaurante. Gostava muito dela, mas sentia que Zoe o afastava e isso magoava-o. Não percebia porquê, mas sabia que nada poderia fazer para modificar esse estado de coisas.

 

Depois de entrarem no carro, Sam fitou demoradamente Zoe e murmurou:

 

— Passei uma noite fantástica, Zoe.

 

— Também eu, Sam.

 

— E quero que te divirtas em Wyoming — acrescentou, olhando-a nos olhos.

 

Zoe teve a sensação de estar a ler os pensamentos dele e não queria fazê-lo. Não queria que ele lhe abrisse o coração, ou lhe pedisse que lhe abrisse o dela, ou, pior ainda, que a obrigasse a contar-lhe, porque não podia. Achava que ninguém tinha o direito de saber.

 

— Obrigada por me ficares a substituir — disse Zoe. Era um alívio falar acerca do trabalho e não do que sentiam. Apercebia-se de que se encontrava em terreno perigoso com ele. Observou-o. Com o seu casaco de tweed, a camisola de gola alta e o seu ar bonacheirão, Sam era, de facto, muito bem-parecido. Procurou não se sentir atraída por ele, mas não era fácil.

 

— Sabes bem que estarei sempre pronto para te ajudar — respondeu ele, sem pôr o carro em andamento. Havia uma coisa que lhe queria dizer e não sabia como fazê-lo. — Quando voltares quero falar contigo.

 

Zoe não se atreveu a perguntar-lhe porquê. Receava que ele tivesse decidido pressioná-la. Não era justo que isso sucedesse agora. Infelizmente não tinham descoberto mais cedo a atracção um pelo outro. Estivera completamente cega quanto ao que Sam sentia por ela, e nem sequer se apercebera de como ele era atraente.

 

— Creio que o que dissemos esta noite merece ter um seguimento — afirmou decididamente Sam.

 

— Não tenho a certeza de que seja uma boa ideia — respondeu calmamente Zoe, sem deixar de o olhar. Havia uma expressão de profunda tristeza nos olhos dela e Sam teve de se conter para não a abraçar, mas sabia que, pelo menos nesse momento, não era isso que ela desejava. — Há coisas que é preferível não serem ditas, Sam.

 

— Não concordo contigo — insistiu Sam, fitando-a, pedindo-lhe mudamente que o ouvisse. — Es uma mulher corajosa, Zoe. Vi-te olhar a morte de frente e desafiá-la várias vezes. Não podes ser cobarde acerca da tua própria vida.

 

Por momentos Zoe sentiu-se tomada de pânico ao ouvir as suas palavras. Mas sabia que ele não podia ter descoberto o seu segredo. As análises feitas no laboratório não tinham nome. Eram identificadas por meio de números.

 

— Não creio que seja cobarde acerca da minha própria vida — respondeu tristemente. — Tomei decisões que julguei adequadas, não por cobardia, mas por sensatez.

 

— Que disparate! — exclamou Sam, inclinando-se perigosamente para Zoe, fazendo com que ela se afastasse e olhasse para fora, pela janela.

 

— Sim, não... não posso. — Os olhos dela estavam marejados de lágrimas, mas ele não as viu.

 

— Diz-me só uma coisa — pediu ele. Apetecia-lhe tomá-la nos braços e beijá-la, mas, por respeito por ela e pelas suas loucas ideias, não o fez. — Há outra pessoa? Diz-me sinceramente. Preciso de saber.

 

Zoe hesitou durante um longo momento. Era uma saída perfeita. Bastava-lhe dizer que havia outra pessoa na sua vida e Sam não insistiria. Mas era demasiado honesta para o fazer e por fim respondeu:

 

— Não, não há, mas isso não altera coisa alguma. Tens de compreender isso. Podemos ser amigos, mas não posso dar mais nada a ninguém. E simples.

 

— Não compreendo... — murmurou Sam, tentando não se mostrar zangado nem perplexo, como se sentia. — Ouve, Zoe, não te peço que te comprometas comigo. Peco-te apenas que sejas franca. Se não te interesso, se não há nada no nosso relacionamento que queiras explorar, muito bem. Mas tu dizes apenas que a porta para essa parte da tua vida está definitivamente encerrada, e isso é que eu não compreendo. E por causa do homem que amaste? Ainda choras por ele? — Passados onze anos não lhe parecia razoável, mas quem era ele para julgar?

 

Zoe abanou a cabeça lentamente.

 

— Não, não é por causa dele. Há muito que estou em paz depois da morte de Adam. Confia em mim, Sam. Sejamos amigos. — Sorriu e tocou-lhe meigamente na mão. — Acredita em mim, Sam. Sou uma pessoa difícil de aturar.

 

— Isso é verdade — concordou Sam, pondo o carro em andamento. Ela fascinava-o completamente. Havia anos que se sentia atraído por ela, mas sempre dominara os seus sentimentos, e desde há muito que aceitara a sua amizade, mas nunca esperara ficar completamente desanimado ao ouvi-la dizer que a porta atrás da qual se escondia estava fechada e selada para sempre. Essa ideia enlouquecia-o. E, enquanto conduziu o carro, não deixou de a olhar de relance. Zoe, calmamente sentada a seu lado, estava tão tranquila e bonita que parecia quase luminosa. Parecia uma jovem santa e tinha um espírito notável. Dizia a si próprio que não se pode ter tudo na vida, mas era uma injustiça ter ouvido aquelas palavras da boca de Zoe. Quando chegaram a casa dela, Sam foi abrir-lhe a porta do carro. Ajudou-a a sair e teve a sensação de estar a segurar o braço de uma criança.

 

— Tenta engordar um pouco no rancho — disse com ar preocupado. — Estás a precisar.

 

— Sim, doutor — concordou Zoe, olhando-o com ternura e quase desejando que as coisas pudessem ter sido diferentes. — Jantei maravilhosamente e passei um serão encantador. Obrigada. Quando eu voltar tens de vir jantar comigo e com a Jade. Faço uns cachorros deliciosos.

 

— Talvez eu leve as duas a jantar fora.

 

Sam sorriu, desejando poder arrancá-la da sua fortaleza. Tinha a sensação de que havia qualquer coisa que ela lhe ocultava. Não sabia porquê, mas via isso nos seus olhos, embora não conseguisse alcançá-la. Mas atingira-a mais do que pensava, e de tal maneira que ela se sentia assustada.

 

— Mais uma vez obrigada, Sam.

 

— Eu é que te agradeço... e desculpa ter-te pressionado. — Receava levá-la a esconder-se ainda mais.

 

— Não tem importância. Eu compreendo. — Compreendia mais ainda do que ele julgava. Sentia-se emocionada e lisonjeada, mas mantinha-se inflexível. A sua decisão era cada vez mais forte.

 

— Não tenho a certeza de que compreendas — replicou tristemente Sam. — Nem eu compreendo. Há muito que queria fazer isto. Desde os tempos da universidade. Talvez tenha esperado demasiado tempo — acrescentou com tristeza.

— Não te preocupes, Sam. Está tudo bem — disse Zoe, dando-lhe uma palmadinha no braço, enquanto ele a acompanhava lentamente até à porta. Quando pararam, ele desejou beijá-la. Não iria à clínica no dia seguinte, mas Zoe sabia que voltaria a vê-lo antes de partir e sentiu-se confortada com a ideia. Pelo menos poderia ocasionalmente trabalhar em conjunto.

 

— Até daqui a uns dias — disse Sam, beijando-lhe a testa. Depois, quando ela abriu a porta, desceu rapidamente as escadas e correu para o carro, ficando parado até a ver desaparecer. Zoe voltou-se e os olhos dos dois encontraram-se durante um último momento; ela disse-lhe adeus e entrou. Momentos depois, ouviu o carro afastar-se.

 

Sam, dentro do automóvel, parecia atordoado pela intensidade do que sentia. O serão não fora como ele esperara. E Zoe também não. E, apesar do que sentia por ela e da sua amizade, ela era, mais do que nunca, um mistério para si.

 

No dia em que partiu para Nova Iorque, Mary Stuart permaneceu durante muito tempo na sala da sua casa, observando o que a rodeava. Os estores estavam descidos, os cortinados fechados, o ar condicionado desligado e o apartamento aquecia lentamente. Na última semana houvera uma terrível vaga de calor. Falara na noite anterior com Alyssa, que se encontrava em Holanda. A filha afirmara-lhe estar a fazer uma viagem fantástica na companhia de cinco amigos e amigas. Mary Stuart desconfiava que ela estivesse a viver o seu primeiro verdadeiro romance. Sentia-se feliz por ela, mas ainda um pouco triste por ter perdido a oportunidade de viajar pela Europa em companhia da filha.

 

Também falara várias vezes com Bill. Ele dissera-lhe que tinha imenso trabalho e mostrara-se surpreendido ao saber que ela ia partir para Wyoming. Não conseguia compreender porquê e pensava que ela podia ir para Martha's Vineyard ou para Hamptons, para casa de amigos, como fizera no 4 de Julho. Na verdade nunca aprovara o seu relacionamento com Tanya Thomas. E não sabia o que ia fazer para um rancho de luxo. Não achava que ela gostasse muito de cavalos. Invocara todos os argumentos que, há uns anos, a teriam feito reconsiderar, mas que dessa vez não a afectaram. Queria passar duas semanas no rancho com a amiga. Queria conversar com ela, estar ao pé dela e olhar para as montanhas ao acordar.

 

Subitamente compreendeu que precisava de se afastar dali e reavaliar a sua vida. Se o marido não percebia isso, o problema era dele. Ia passar dois meses em Londres e não a queria junto de si, portanto não tinha o direito de a aborrecer com o que ela ia fazer. Perdera esse direito ao dizer-lhe que não a queria em Londres com ele. Desistira de uma quantidade de coisas nesse ano, intencionalmente ou não, e Mary queria meditar seriamente acerca disso. Não podia imaginar voltar a viver com ele da forma como viviam ultimamente. Não podia viver no ambiente sem ar, sem amor e sem alegria que ele criara. E, embora na noite anterior à sua partida ela tivesse entrevisto o antigo Bill, não havia qualquer promessa de voltar a encontrá-lo no fim do Verão. Ou noutra ocasião.

 

Mary começava a aperceber-se de que o amor que tinham um pelo outro desaparecera, provavelmente para sempre. E duvidava de que o que ficara em lugar desse amor valesse a pena ser conservado. Parecia-lhe impossível estar a pensar tal coisa. Mas não podia imaginar voltar para ele e viverem da mesma maneira, sem se falarem, sem se tocarem, sem se encontrarem. Tinham perdido os seus sonhos, as suas vidas, e não apenas o filho que morrera. Sentia isso de muitas maneiras. E a ida para Wyoming era um modo de deixar o que tinha agora e pensar no que ainda seria possível entre eles. E, por momentos, ao olhar à sua volta, sentiu que deixava a sua antiga vida para sempre. Nunca mais voltaria a ser o mesmo. Não mais voltaria para o homem que a deixara só e angustiada durante o último ano. Ou regressava para junto do homem que conhecera, ou não voltaria mais. E, em qualquer dos casos, queria dizer a Bill para vender o apartamento. Mas nada voltaria a ser o mesmo, nem o fora durante o último ano, e ela sabia-o.

 

A perspectiva de ficar sozinha na idade dela assustava-a. Mas a perspectiva de permanecer com Bill no túmulo que ele criara para ambos era ainda pior. Caminhou ao longo do corredor e parou por momentos em frente da porta onde fora o quarto de Todd. As cortinas tinham sido tiradas, as colchas das camas estavam na lavandaria, fora tudo levado dali e já nada restava dele. O que restava estava no seu coração e na sua memória. Ele estava finalmente livre.

 

Pegou na mala e dirigiu-se para a porta. Pensava em Todd, em Bill e em Alyssa. Como tinham sido felizes juntos e como as coisas agora eram diferentes. A mão cruel do destino fizera um gesto e o sonho findara. Tudo terminara tão rapidamente!... Era estranho pensar nisso agora. Tinha a sensação de ter tentado nadar num mar gelado durante muito tempo. Estivera prestes a afogar-se na água gélida, mas agora começava a avançar, ainda gelada, ainda atordoada e magoada, mas começando a pensar que poderia não se afundar. Agora havia uma leve esperança de conseguir salvar-se. E quando parou junto da porta com as chaves na mão desejou dizer adeus a alguém... ao marido... ao filho... à vida que tinham tido ali. «Amo-te», murmurou em voz baixa para o vestíbulo vazio, sem saber bem se se dirigia a Bill ou a Todd... ou à vida que haviam partilhado. Então, com um último olhar, fechou devagar a porta.

 

O porteiro chamou um táxi e chegou ao aeroporto menos de uma hora depois. O voo para Los Angeles decorreu sem incidentes. Em casa de Tanya a actividade era intensa. Quando saiu levava seis malas com roupa, duas caixas cheias de chapéus e nove pares de botas de cowboy de diversas cores, de pele de lagarto ou de crocodilo. A empregada colocou vários sacos com alimentos no autocarro e ela comprara uma dúzia de vídeos para se entreterem durante a viagem através do Nevada e de Idaho. O percurso seria longo e monótono, segundo lhe haviam dito, e levava consigo meia dúzia de scripts para ler. Tinha recebido propostas para trabalhar em vários filmes.

 

Eram onze horas e o avião de Mary Stuart chegaria ao meio dia e meia hora, mas ela queria fazer uma última paragem em Gelsen para comprar mais uns produtos alimentares. O autocarro estava já bem fornecido, mas Tanya desejava algumas coisas mais.

 

O motorista esperava pacientemente junto do autocarro enquanto ela dava um beijo de despedida ao cão, agradecia à empregada e fazia-lhe recomendações a respeito da segurança, agarrava no chapéu, na mala, na agenda com endereços e subia os poucos degraus com a cabeleira loura solta e um aspecto sensacional com as calças de ganga muito justas e uma T-shirt branca. Calçava umas botas de cowboy de um tom amarelo-vivo que comprara no Texas quando tinha dezasseis anos. Usara-as muitas vezes desde então e via-se que não eram novas, mas todos os que conheciam Tanya sabiam como ela gostava daquelas botas.

 

— Obrigada, Tom — disse, acenando para o motorista, e ele começou lentamente a manobrar o enorme veículo para passar pelo portão. O autocarro estava dividido em duas grandes salas. Uma delas, a sala de estar, era decorada com móveis de teca e veludo azul, com dois sofás, confortáveis cadeirões, uma mesa de jantar para oito pessoas e uma série de pequenos sofás formando recanto para se conversar. A outra sala estava decorada em tons de verde e transformava-se rapidamente num quarto. Entre as duas havia uma cozinha e uma casa de banho em mármore branco. Tanya comprara o autocarro quando ganhara o seu primeiro disco de platina. Assemelhava-se muito a um iate ou a um avião particular e fora quase tão caro como qualquer deles.

 

Durante a viagem ela e Mary Stuart dormiriam no quarto e estacionariam perto de um motel para Tom aí ficar instalado. Um complicado sistema de alarme mantê-las-ia em segurança. Por vezes Tanya levava segurança consigo, mas não achara que agora fosse necessário. Estava ansiosa por fazer a viagem e por poder conversar com Mary Stuart durante dois dias inteiros. Fazendo dez horas de viagem por dia, estariam em Jackson Hole no dia seguinte à hora do jantar.

 

Chegaram ao aeroporto dez minutos antes de o avião de Mary Stuart aterrar e Tanya esperava-a à saída, com óculos escuros e um chapéu de cowboy preto, quando Mary apareceu, vestindo calças de ganga e um blazer, e trazendo no braço um saco Vuitton. Como habitualmente, a sua aparência era impecável, como se alguém lhe tivesse passado o casaco a ferro durante a viagem e acabasse de sair do cabeleireiro.

 

— Gostava de saber como é que consegues isso — disse Tanya, sorrindo-lhe e abraçando-a. — Nunca te despenteias nem te amarrotas.

 

— E congénito. Os meus filhos detestam. Todd chegava a tentar «pôr-me em desordem» para eu ficar com um aspecto «normal».

 

Mary falou de maneira que parecia estar a desculpar-se, e foram-se encaminhando, de braço dado, para o sítio onde iam recolher a bagagem. Afastou-se um pouco para um dos lados com a amiga, e ainda não tinham decorrido muitos minutos quando viu cabeças a virarem-se para elas, sussurros, alguns sorrisos tímidos, e pouco depois um grupo de adolescentes dirigia-se para Tanya com papel e caneta na mão.

 

— Pode dar-me um autógrafo Miss Thomas? — perguntavam, com risinhos, empurrando-se uns aos outros. Tanya estava habituada àquilo e dava sempre autógrafos se lhos pediam, mas sabia que, se não saíssem rapidamente dali, seria rodeada por fãs em menos de cinco minutos. Sabia, por experiência própria, que, logo que era reconhecida, bastavam uns minutos para ser cercada pela multidão. Enquanto assinava o último pedaço de papel, murmurou para Mary Stuart:

 

— Temos que ir... daqui a pouco será uma loucura. Depois disse qualquer coisa a Tom. Mary Stuart entregou-lhe o bilhete para ele levantar a única mala que trouxera e Tanya conduziu-a o mais rapidamente possível para a saída. Mas havia já um grande grupo de mulheres e de jovens que se dirigiam para elas e, de súbito, aproximaram-se dois homens de aspecto rude, surgidos não se sabia de onde. Um deles segurou Tanya por um braço e pôs-lhe uma caneta em frente da cara.

 

— Tanya, e que tal assinares-me isto aqui? Podes fazer o desenho do teu soutien. — acrescentou, rindo ruidosamente.

 

— Obrigada... noutra ocasião... adeus... — e, antes que Mary Stuart se apercebesse do que se estava a passar, eles foram atirados pela porta fora, indo cair mesmo em frente do grupo de mulheres que avançava. Tanya e Mary correram para a saída, enquanto duas mulheres lhes tiravam uma fotografia. Mas Tom tinha a chave na mão e em menos de um segundo Tanya estava dentro do autocarro, seguida por Mary. Tudo se passara numa fracção de segundo, mas Mary apercebeu-se imediatamente de como a vida de Tanya era difícil. Nem se lembrara disso, mas sabia que coisas daquelas sucediam constantemente à amiga. No supermercado, no médico, no cinema. Não podia ir a lado nenhum sem atrair as atenções. Fizesse o que fizesse para se esconder, descobriam-na sempre.

 

— Foi terrível — disse sucintamente Mary, enquanto Tanya tirava duas Coca-Colas do frigorífico e lhe entregava uma.

 

— Habituamo-nos... Ou quase — respondeu Tanya, sorrindo. Depois acrescentou: — Obrigada, Tom. Foi muito oportuno.

 

— Sempre às ordens.

 

Lembrou-lhes que ia buscar a bagagem de Mary e recomendou que mantivessem a porta fechada.

 

— Bem, eu tinha pensado em sentar-me à porta a vender bilhetes.

 

Sorriu, com o chapéu de cowboy ainda posto. O chapéu e as botas davam-lhe um ar muito texano.

 

— Tenha cuidado — avisou novamente Tom. E quando ele saiu ia-se aglomerando uma pequena multidão no passeio, tirando fotografias ao autocarro, embora não tivesse qualquer identificação e não pudessem ver lá para dentro. Era apenas um autocarro preto, sem nada escrito. Mas as pessoas sabiam, A notícia correra de boca em boca. Quando Tom regressou, havia cinquenta pessoas junto do autocarro, falando e acotovelando-se. Quiseram deter Tom, impedindo-o de entrar, mas ele era um homem alto e forte e não se deixava intimidar. Antes que alguém pudesse chegar junto dele estava já dentro do autocarro, com a bagagem de Mary Stuart.

 

— Meu Deus, as pessoas estão agressivas, não estão? — disse Tanya, olhando para fora. As vezes ainda se sentia amedrontada com a multidão. Era assustador ser perseguida, devorada, caçada. Mary Stuart olhou-a com uma expressão de pena no rosto.

 

— Não sei como aguentas isto! — exclamou Mary Stuart, enquanto as duas se sentavam e o autocarro se punha em movimento.

 

— Nem eu — respondeu Tanya, pousando a sua lata de Coke em cima da mesa de mármore. — Tenho de aguentar, creio. E mesmo assim. O pior é que quando agarramos no microfone para começarmos a cantar ninguém nos avisa do que vem depois. Ao princípio julgamos que é por nossa causa e por causa da música, mas não é. Passado um certo tempo não tem nada a ver com isso. Deixamos de ter um momento de sossego, de privacidade. As pessoas comem-nos vivas, se deixarmos. Dão-nos tudo, os corações, as almas, os corpos, se os quisermos, e depois tiram-nos tudo, tudo o que temos, e não nos devolvem nada, se não tivermos cuidado. — Tanya sabia do que falava. Lutara muito para chegar onde estava e pagara um alto preço por isso, desistira de partes dela mesma que nunca recuperaria. Dera confiança e amor e trabalhara mais do que qualquer outra pessoa e, por fim, ficara sozinha no alto da montanha. Não era um local para se estar. Mary Stuart podia apenas imaginar. Mas Tanya sabia-o. — Então, como esto as coisas?... Como foi a viagem?... E como está Alyssa? — perguntou Tanya, sentando-se num dos cadeirões, para iniciarem a longa viagem que as levaria a Winnemucca, Nevada, onde iriam dormir.

 

— Alyssa está bem. Encontra-se agora na Holanda e está apaixonada. Parece-me tão feliz que quase me magoa ouvi-la. Bill também está bom — acrescentou, mas o seu rosto entristeceu ao falar no marido. — Está muito ocupado.

 

«E não me quer junto dele», pensou. Não disse mais nada, mas era bem visível que se sentia infeliz.

 

 

— Como vai isso? Ou não devo perguntar?

 

— Não tenho a certeza. — Hesitou durante um grande bocado, olhando para fora, pela janela. — Tenho meditado muito. — Depois fitou a amiga e recordou-se das conversas infindáveis em Berkeley, das horas que passavam a falar das suas vidas, dos seus sonhos e do que verdadeiramente desejavam. Tanya queria apenas casar com Bobby Joe. Mary Stuart desejava um emprego, um bom marido e filhos. Casara com Bill dois meses depois de ter concluído o curso e durante um certo tempo parecera ter tudo quanto desejara. Mas agora já não estava tão segura disso. — Não tenho a certeza se quero regressar depois das férias — murmurou. Tanya olhou-a, espantada.

 

— Não queres voltar para Nova Iorque? Mary Stuart abanou a cabeça ao ouvir a pergunta de Tanya.

 

— Não. Não sei se quero voltar para Bill. — Tanya ficou ainda mais surpreendida com esta resposta. — Não sei o que se passa com ele. Agora acha que pode fazer tudo quanto quer, ir para Londres sozinho durante dois meses, sem querer que eu fosse com ele. Claro que eu poderia ter ido. A firma pagaria a minha estada lá. Ele é que não quis. No entanto, contava que eu estivesse à espera dele, para tomar conta da casa, receber as mensagens e cozinhar o jantar. Mas deixou de me falar, de se preocupar e de sair comigo. Culpa-me em silêncio pela morte de Todd, ou pelo menos por não o ter impedido de fazer o que fez. Bill deixou de agir como meu marido. E o meu castigo. Eu sou casada, ele não é. Foi como se me tivesse condenado ao purgatório. Deixei que ele me punisse porque me sentia culpada. Mas aconteceu uma coisa estranha: quando esvaziei o quarto de Todd, libertei-me. Sinto uma grande tristeza, uma sensação de enorme perda e um terrível desgosto. — Chorara por ele na noite da véspera. Pelo filho morto e pelo seu casamento desfeito. Sentira que talvez nunca mais voltasse em paz ao apartamento. — Mas não me sinto culpada. A culpa não foi minha. Foi uma coisa terrível. Mas foi algo que Todd fez, e eu, embora fosse mãe, não o poderia ter evitado.

— Acreditas realmente nisso? — perguntou Tanya, aliviada. Fora exactamente o que ela quisera dizer à amiga, mas Mary Stuart não estava ainda preparada para a ouvir. Ou talvez tivesse sido ela a iniciar o processo. Esperava que sim.

 

— Agora acredito — declarou calmamente Mary Stuart —, mas não creio que suceda o mesmo com Bill. Ele quer continuar a castigar-me indefinidamente. — Mary olhou pela janela. Estavam a sair de Los Angeles. — Já não somos casados, Tan. Está tudo acabado. Se não estivesse, eu encontrar-me-ia em Londres com ele.

 

— Talvez ele ainda não consiga encarar-te — tentou dizer Tanya, embora desconfiasse que Mary Stuart tinha razão. Aquilo que ela lhe contara, em Nova Iorque, fora um verdadeiro pesadelo. O silêncio, a solidão, a angústia de se ver rejeitada. E o facto de ele não querer a mulher junto de si em Londres dizia tudo.

 

— Não creio que haja alguma coisa que me faça regressar. Levei muito tempo a aceitar os factos. Penso que foi especialmente difícil para mim, por achar que o nosso casamento era formidável. Mais de vinte anos não é mau. E quando estávamos bem, éramos tão felizes! — recordou tristemente Mary. — Dir-se-ia que a perda que sofremos nos aproximaria ainda mais.

 

— Creio que nem sempre é assim. Há muitos casamentos que não sobrevivem à morte dos filhos — disse com sinceridade Tanya. — As pessoas censuram-se mutuamente, ou parece que murcham por dentro. Não sei, mas tenho lido bastante a respeito disso. Não creio que o que te sucedeu seja surpreendente.

 

— Dá a impressão de que todos os anos anteriores não contam. Pensei que era como ter dinheiro no banco. Amealha-se para quando nos faz falta o termos. Mas connosco, quando o telhado caiu, descobri que o meu mealheiro estava vazio. — Sorriu com tristeza, mas, estranhamente, nas últimas semanas, começara a aceitar os factos. E tivera muito tempo para pensar no assunto depois de ele partir para Londres. — Não creio que possa voltar para a vida que tive o ano passado, e não me parece que voltemos a viver como dantes.

 

— Tentarias, se ele te pedisse? — Tanya sentia-se curiosa.

 

Tal como Mary Stuart, ela sempre pensara que o casamento ! de Mary e Bill era perfeito.

 

— Não tenho a certeza — respondeu cautelosamente Mary Stuart. — Por agora não sei. O que passei foi tão doloroso que não quero voltar para trás. Só para a frente.

 

Tanya e Mary ficaram silenciosas durante um bocado enquanto se dirigiam para as montanhas Sam Bernardino. Estavam ambas estendidas nos seus respectivos sofás. Tanya já tirara o chapéu e as botas. Mary achava que era uma excelente maneira de viajar. Ficou pensativa e passado um bocado perguntou:

 

— Que se está a passar com Tony?

 

— Nada de especial. Arranjou um advogado. O meu está a tratar do assunto por mim. E tudo bastante previsível e relativamente feio. Ele quer a casa de Malibu e eu não lha vou ceder. Fui eu que a comprei e fui eu que gastei quase todo o dinheiro necessário para a decorar, mas, no fim, terei de lhe dar uma porção de dinheiro para ficar com ela. E algumas outras coisas. Levou o Rolls, quer uma pensão e um acordo financeiro. Provavelmente consegui-lo-á. Declara que o meu estilo de vida lhe causou desgosto e sofrimento, e quer ser pago por isso. — Tanya encolheu os ombros, mas Mary Stuart ficou lívida.

 

— Julguei que ele tivesse vergonha de exigir tais coisas — disse Mary com ar de desaprovação. Sempre destestara o que faziam a Tanya. Parecia que achavam que tudo lhes era permitido por ela ser quem era. Até Tony acabara por fazer o mesmo. Tinham dificuldade em se lembrar de que ela era uma pessoa, e mais dificuldade ainda em resistir a tirar-lhe tudo quanto podiam.

 

Tanya também detestava que a tratassem assim, mas desde há muito que se habituara. Era o que sucedia a quem se tornava famoso.

 

— Poucas coisas fazem com que as pessoas se envergonhem — retorquiu Tanya, com as mãos atrás da nuca. — E assim, e pronto! Há alturas em que acho que estou habituada a tudo isto e noutras ocasiões fico doida. O meu advogado está sempre a dizer-me que é apenas dinheiro e que não devo perturbar-me por causa disso. Mas é o meu dinheiro e a minha vida, e tenho trabalhado como uma moura para o ganhar. Não sei porque é que um tipo qualquer há-de aparecer, viver comigo durante uns anos e depois levar metade do que é meu! E um preço muito caro por viver um tempo com um homem que ainda por cima me enganava. E a minha dor? O meu sofrimento? Acho que isso não interessa para o caso. Para o próximo mês iremos a tribunal e os media lá estarão.

 

— Achas que sim? — Mary Stuart mostrou-se horrorizada. Como é que lhe podiam fazer aquilo? Mas podiam e faziam-no quase há vinte anos.

 

— Claro que estarão. Os tribunais encontram-se abertos à imprensa e à televisão. Liberdade de expresso, não é? — disse Tanya sarcasticamente, mas sabendo que era assim mesmo.

 

— Isso não é liberdade de expressão. Isso é uma porcaria, e tu bem sabes!

 

— Diz isso ao juiz... — respondeu Tanya, cruzando os tornozelos. Estava belíssima, mas não havia ali ninguém para a ver. Era um dos seus raros momentos de privacidade. Tinha confiança em Tom, o seu motorista. Havia anos que trabalhava para ela e era uma discrição a toda a prova. Era casado, tinha quatro filhos e não dizia a ninguém para quem trabalhava. Admirava-a muito e seria capaz de tudo para a proteger.

 

— Não sei como suportas tantas coisas desagradáveis — disse Mary Stuart com admiração. — Eu acho que ficava completamente louca passados dois dias.

 

— Não, não ficavas. Habituavas-te, tal como eu. Sabes?, são todos uns aldrabões! Primeiro tudo são rosas, só começam a magoar-nos quando já é demasiado tarde e pensamos que, já agora, é melhor ficar até ao fim do espectáculo. Eu ainda não tenho a certeza de ter valido a pena. As vezes duvido. E outras vezes adoro.

 

Detestava a pressão que exerciam sobre si, a imundície que a imprensa lhe atirava para cima, mas continuava a gostar do que fazia e ia ficando por causa disso. No resto do tempo nem sabia como conseguia suportar aquela vida.

 

Mantiveram-se silenciosas durante algum tempo e depois Tanya levantou-se e foi à cozinha fazer pipocas. Mais tarde comeram sanduíches e Tanya levou uma a Tom, com uma chávena de café. Pararam apenas uma vez, para ele descansar, e após essa curta pausa prosseguiram. As duas amigas conversaram, leram e Tanya esteve a ver um filme que a Academia lhe emprestara e que ainda não fora exibido. Mary Stuart dormiu enquanto ela o viu. Estava exausta de tantas emoções. Desde que Bill se fora embora que pensava numa decisão a respeito do rumo que a sua vida iria tomar. E agora tomara essa decisão. Embora fosse triste, de certo modo era um alívio. Chegara a altura de se separarem. Tanya não discordava, más Mary Stuart sabia que Alyssa ficaria perturbada quando lhe contasse. E não fazia ideia de qual seria a reacção de Bill. Pensava que para ele também era um alívio. Talvez fosse isso que ele quisesse durante todo o ano e não tivesse tido coragem para lho dizer. Mary ia esperar para lhe falar quando ele regressasse de Londres, em fins de Agosto ou Setembro. Entretanto ia fazendo planos para o seu futuro próximo. Depois de passar as duas semanas no rancho, ficaria em Los Angeles com Tanya durante mais uma semana e decidira ir em seguida para East Hampton, para não estar na cidade. Tinha lá imensos amigos. Ia ser um Verão interessante.

 

Quando acordou da sesta, Mary viu Tanya que lhe sorria. Tinham-se afastado já da Califórnia do Sul e avançavam pelo Nevada.

 

— Onde estamos? — perguntou Mary Stuart, sentando-se e olhando à sua volta. Apesar de ter estado a dormir, o cabelo continuava impecavelmente penteado. Tanya inclinou-se e despenteou-a, como costumava fazer na faculdade, e ambas riram.

 

— Pareces ter doze anos, Stu. Detesto-te. Tenho passado metade da vida a fazer visitas ao cirurgião plástico e tu consegues o mesmo efeito naturalmente. E revoltante! — Apresentavam ambas uma excelente aparência e ninguém lhes daria a idade que tinham. — A propósito — disse Tanya com ar casual —, falei com a Zoe a semana passada. Está a fazer um trabalho fantástico em São Francisco, com a sua clínica para tratar doentes com sida.

 

Nenhuma delas se admirava de Zoe ter conseguido tal sucesso e Tanya comentou que era uma pena ela nunca ter casado.

 

— Creio que nunca pensei que ela casasse — disse Mary Stuart pensativamente.

 

— Não sei porquê! Tinha muitos namorados...

 

— Sim, mas a dedicação dela era com causas em grande escala... os órfãos do Camboja, as crianças com fome da Etiópia, os refugiados dos países subdesenvolvidos... A sua clínica para tratar doentes com sida não me surpreende nada. E exactamente o que se poderia esperar dela. A única coisa que me surpreende é ter adoptado um bebé. Nunca pensei que quisesse ter filhos. É demasiado idealista. Posso imaginá-la a morrer por uma causa em que acredite, mas não a limpar vomitado.

 

Tanya não pôde deixar de rir com a descrição. Acertava em cheio. Tinham sido sempre Mary Stuart e Eleanor a limpar a casa quando todas viviam juntas, na universidade. Zoe andava sempre em manifestações, em qualquer sítio, e ela própria, ou estava ao telefone com Bobby Joe ou a ensaiar qualquer música que iria cantar. Nenhuma das duas era dada aos trabalhos domésticos.

 

— Gostava muito de a ver — continuou Tanya cautelosamente, para ver qual seria a reacção de Mary e esperando que não fosse muito adversa. Teria um grande desgosto se alguma delas se recusasse a ficar no rancho. Mas se alguma das duas se fosse embora, achava que seria Mary Stuart e não Zoe. Mary Stuart é que ficara magoada com o que Zoe lhe dissera.

 

No entanto, quando Tanya disse que gostaria de ver Zoe, Mary Stuart não respondeu. Limitou-se a olhar para fora, pela janela, recordando o que sucedera. Tinham sido tempos trágicos para todas elas, mesmo antes do fim do curso. Fora uma má maneira de o terminarem. E não mais haviam voltado a reunir-se todas. Mary Stuart nunca mais vira Zoe, embora pensasse nela às vezes. Tanya dava-se com ambas, em alturas diferentes.

 

A viagem prosseguiu durante mais umas horas, enquanto elas liam. Mary Stuart levara um monte de livros e Tanya folheava revistas, satisfeita por não encontrar nelas qualquer referência à sua pessoa. Às nove horas chegaram finalmente a Winnemucca. Era uma cidadezinha cheia de restaurantes e casinos na zona central, que, na verdade, não passava de uma parte da estrada. Tom parou o autocarro no parque de estacionamento da Red Lion Inn, onde reservara um quarto. Tanya preferia dormir no autocarro com Mary Stuart, mas queria jantar num restaurante e jogar nas máquinas. Na realidade, era mais um café do que um restaurante, mas tinha umas cinquenta máquinas de jogos e algumas mesas de blackjack.

 

Calçou as botas, pôs o chapéu de cowboy e óculos escuros. Levara consigo uma peruca preta, curta, mas estava calor e a peruca fazia-lhe comichão, por isso resolveu não a pôr. Mary Stuart mostrava-se descontraída e bem-disposta enquanto as duas lavavam os rostos e retocavam o baton, rindo da ideia de irem jogar em Winnemucca.

 

— Pode ser que alguma de nós ganhe um jackpot — gracejou Tanya. — Mas se for eu não digas ao Tony. — Piscou um olho à amiga, com ar sério, e depois soltou uma gargalhada. Ela própria se sentia admirada de conseguir deixar rapidamente a sua vida com ele para trás e dos sentimentos entre os dois terem desaparecido tão depressa. Era como se mal se tivessem conhecido. Tanya sentia-se tão furiosa com ele que nem sentia a sua falta. De vez em quando tinha saudades, recordando bons momentos, mas logo a seguir pensava no resto e as saudades desapareciam. Fora um erro casar com ele. O casamento não devia ter passado de um romance ocasional. Custava-lhe, mas não tanto como receara, quando ele saíra de casa. Perguntou a si própria se estaria a ficar endurecida ou se, afinal, o casamento com Tony nunca teria sido como ela desejara. Era muito estranho ver o seu relacionamento com o ex-marido desaparecer como no meio do nevoeiro. Agora tinha apenas saudades dos filhos dele.

 

Saíram do autocarro sob a vigilância de Tom, mas Tanya disse-lhe para estar descansado. Podia descontrair-se, jantar, jogar, dormir, enfim, fazer o que quisesse. E ele entrou para confirmar a reserva do quarto e jantar. Tanya e Mary Stuart foram trocar duas notas de cinquenta dólares em moedas para jogar nas máquinas. Meteram as moedas num balde e divertiram-se imenso a jogar. De vez em quando ganhava um dólar, aqui e ali, e olhavam para as pessoas. Havia imensas mulheres com cabelo azul e tops de poliéster estampado, com flores ou em tons pastel. Muitas delas tinham o cigarro pendente dos lábios enquanto jogavam. Os homens jogavam nas mesas e bebiam. Também havia homens a jogar nas máquinas, mas as mulheres eram em muito maior número. Quando Tanya bateu palmas, ao ganhar dez moedas de um quarto de dólar, um homem que jogava numa mesa próxima sorriu-lhe e um minuto depois aproximou-se. Tinha pernas compridas e finas e era tão magro que as calças pareciam escorregar-lhe pela cintura. A barba devia ter pelo menos dois dias e as mãos eram calosas. Usava um chapéu de cowboy não muito diferente do de Tanya.

 

— Quanto é que ganhou? — perguntou, para meter conversa, e Mary Stuart olhou nervosamente para Tanya. Não estava disposta a ser agredida por um bêbado em Winnemucca.

 

— Uns dólares — respondeu Tanya, ignorando-o e franzindo o sobrolho, fingindo só prestar atenção ao jogo das duas máquinas em que estava a tentar a sorte.

 

— Já alguma vez lhe disseram que é parecida com Tanya Thomas? Só que é mais nova e mais alta.

 

— Sim, obrigada — replicou Tanya sem o olhar. Cher dissera-lhe uma vez que, não olhando uma pessoa nos olhos, era difícil reconhecerem-na. Por vezes isso resultara com ela, outras vezes não. — Dizem-me isso muitas vezes. Mas ela é, de facto, bastante mais baixa.

 

— Foi o que eu disse. Você é mais alta. Mas ela é boa. Gosta de a ouvir cantar?

 

— Canta bem — respondeu Tanya, retomando o seu antigo sotaque texano, e Mary Stuart fez um esforço para não se rir —, mas não gosto muito do seu tipo de música — continuou Tanya com ar descontraído.

 

— Na... ela é boa - contrariou o homem. — Gosto mesmo de a ouvir.

 

Tanya encolheu os ombros e pouco depois o homem voltou para a mesa e sentou-se. Mary Stuart inclinou-se para Tanya e murmurou:

 

— És muito corajosa. — Tanya respondeu-lhe com um largo sorriso e ganhou vinte dólares. Até agora, entre as duas, tinham o dinheiro quase gasto. Haviam combinado que, quando perdessem os cem dólares, deixavam de jogar. Jogariam enquanto tivessem dinheiro.

 

— E a única maneira de fazer isto — replicou Tanya. Momentos depois ouviram uma mulher dizer: «Olhem, é Tanya Thomas!», mas o homem que falara com ela disse logo que era parecida, mas bastante mais alta, e a mulher concordou imediatamente. — E mais nova — acrescentou Tanya em voz baixa, enquanto Mary Stuart a empurrava. Tinham agora só uns cinquenta dólares entre as duas. As dez horas entraram num restaurante para comer um hambúrguer e várias pessoas olharam para elas, mas Tanya fingiu não reparar. A empregada que servia às mesas observou-a com particular atenção, mas via-se que não tinha a certeza e envergonhou-se de perguntar, por isso conseguiram comer uma refeição em sossego, o que para Tanya era raro. Depois voltaram a jogar nas máquinas até perto da meia-noite. No fim restaram quarenta dólares e dividiram-nos entre as duas.

 

— Oh! Ganhámos quarenta dólares! - exclamou Mary Stuart, satisfeita, enquanto Tanya trancava a porta do autocarro.

 

— Não, minha tola. Perdemos sessenta. Não te lembras que levámos cem?

 

— E verdade — concordou Mary Stuart, mostrando-se momentaneamente desanimada, mas depois riram as duas, como crianças, enquanto se despiam e se preparavam para se deitar. Os dois compridos sofás da sala verde transformaram-se em duas confortáveis camas com uma mesa entre si.

 

— Sabes, pareces-te imenso com Tanya Thomas — disse Mary Stuart enquanto Tanya escovava a cabeleira loura na casa de banho. Era como se fossem outra vez companheiras de quarto. Tanya espreitou pela porta entreaberta. Fizera um pequeno implante no pescoço uns anos antes, ao mesmo tempo que uma lipoaspiração mais abaixo, o que fez com que ficasse com o pescoço de uma mulher muito jovem.

 

— Mas mais alta e mais nova — disseram em uníssono, rindo ainda mais.

 

— Não te esqueças do «mais nova» — lembrou Tanya. — Paguei uma fortuna por me fazerem esta porcaria.

 

— Es impossível! — exclamou Mary Stuart enquanto vestia a camisa de noite. Havia muitos anos que não ria tanto e pela primeira vez em muitos meses não sentiu a falta de Bill. Subitamente tinha a sua própria vida, e a rejeição dele parecia-lhe triste, mas muito menos importante. — Não estás diferente do que eras — disse Mary a Tanya, olhando-a pelo espelho. Mas ela também não, e nada fizera para isso.

 

— A questão é essa. Mas o que eu gostava de saber é como tu também não estás diferente, sem nada teres feito. Creio que estás a mentir.

 

Mas não, sabia que Mary dizia a verdade. O que ela tinha era bons ossos, boa pele, bons genes e era uma mulher muito bonita. Eram ambas.

 

Deitaram-se e ficaram a conversar até às duas da madrugada, com as luzes apagadas. Na manha seguinte só acordaram às nove horas. Tanya dissera a Tom que lhe ligaria para o hotel quando estivessem prontas.

Tanya foi para a cozinha fazer café e aquecer pãezinhos doces no microndas, enquanto Mary Stuart tomava duche. Depois foi a vez de Tanya ir para o chuveiro e ambas vestiram calças de ganga, sem se preocuparem com a maquilhagem.

 

— Eu nunca ando assim, sabes? — confessou Tanya, olhando para o espelho com ar admirado. Claro que em Los Angeles não podia andar assim, mas ali não tinha importância. Para ela era um verdadeiro luxo ter liberdade de o fazer. — Tenho sempre receio de encontrar um fotógrafo ou um repórter, mas aqui pouco me importa — acrescentou, sorridente. Sentia-se melhor só por ali estar, e o mesmo se passava com Mary Stuart. Estavam ambas livres das suas pesadas cargas.

 

Alguns minutos depois voltaram a entrar no casino. Tanya telefonara a Tom e dissera-lhe que estavam quase prontas para partir. Elas tinham fechado as camas e ele ia proceder à limpeza e meter gasolina no autocarro. As duas mulheres resolveram então ir gastar mais vinte dólares nas máquinas. E dessa vez ambas duplicaram o seu dinheiro. O homem da noite anterior não se encontrava ali, mas havia pelo menos uma dúzia como ele. Porém, nenhum prestou atenção a Tanya. Mary Stuart achou isso espantoso.

 

— Talvez devesses sair mais vezes sem maquilhagem — disse Mary quando se dirigiam para o autocarro. Tom esperava-as com café acabado de fazer.

 

— Obrigada, Tom — agradeceu Tanya ao ver como o autocarro estava bem arranjado. Mary Stuart teve de concordar com ela e pensou que era a melhor maneira de viajar. Não admirava que Tom lhe chamasse um iate para a terra.

 

Saíram de Winnemucca pouco depois das dez horas e continuaram a viagem pelo Nevada durante toda a tarde. Quando chegaram a Idaho, a paisagem começou a tornar-se mais verdejante. O deserto era incrivelmente árido. Mas Idaho era mais convidativo. A viagem prosseguiu como anteriormente. As duas leram, conversaram e dormitaram. Tanya ligou para o escritório e fez mais alguns telefonemas. Mas por uma vez não havia qualquer problema. Ninguém queria coisa alguma nem havia novos traumas ou processos contra ela.

 

— Que aborrecido — disse Tanya a Jean, gracejando, quando a secretária lhe disse que não havia novidades. Recebera apenas uma mensagem de Zoe, confirmando a hora a que o avião aterrava. Chegaria a Jackson nesse dia, pouco depois delas. Uma carrinha do hotel iria esperá-la ao aeroporto. Tanya nada disse a Mary Stuart sobre o assunto. Calculava que chegassem a Jackson Hole por volta das cinco e meia, a tempo de mudarem de roupa para irem jantar. Tanya hesitava em contar a Mary da chegada de Zoe. A amiga estivera tão descontraída durante a viagem que Tanya detestava estragar a sua boa disposição. Por isso calou-se. Durante as últimas horas da viagem ambas dormiram, e quando acordaram as Tetons encontravam-se na sua frente. Eram as montanhas mais espectaculares que qualquer delas alguma vez vira. Mary Stuart ficou sentada, a olhá-las. Tanya, sem se aperceber do que fazia, começou a cantarolar e depois a cantar.

 

Foi um momento que nenhuma delas esqueceria durante toda a vida. Tanya cantava e Mary Stuart deu-lhe a mão, enquanto passavam por Jackson Hole em direcção a Moose, Wyoming.

 

— Vais ter de verificar constantemente o nosso stock de AZT — avisou Zoe enquanto entregava as suas malas para serem pesadas. — Não calculas como se gasta depressa. E tento ceder o menos possível a amostras gratuitas. E caro - continuou, dando uma gorjeta ao funcionário e recebendo o talão para levantar a bagagem. — E tens de estar sempre a espicaçar o laboratório, para não levarem um tempo infinito. Então com as crianças é um desastre. E preciso saber o mais depressa possível o que se passa com os seus glóbulos brancos.

 

Falava constantemente enquanto recebia o bilhete e se encaminhava para a porta de embarque. Falava de testa franzida, tentando lembrar-se de todas as recomendações do último minuto.

 

— Pode ser que seja um choque para ti — disse Sam com gentileza, enquanto passavam pelo detector de metais e seguiam —, mas estudei medicina, formei-me e tenho licença para exercer clínica. E verdade. Juro! — Sam levantou a mão para prestar juramento. Zoe riu nervosamente. — Sei que não consegues, mas precisas de tentar descontrair-te, ou tens um ataque de coração aqui mesmo e não chegas a ir para Wyoming. E eu detesto fazer reanimação em lugares como este. Iria parecer um médico importante e não um humilde locum tenens.

 

Sam gracejava com ela e Zoe queria descontrair-se, mas não era capaz. Tinha tantos remorsos por deixar tudo nas mãos de Sam e abandonar Jade, que se sentia arrependida por ter aceitado o convite, e, se não fosse por achar que faria figura de parva, não iria. Mas prometera a Tanya ir e sabia que precisava de descansar. De outro modo teria ficado e continuado a trabalhar. Fizera exactamente o mesmo em casa com Inge, ditando-lhe mil recomendações, e, quando o bebé começara a chorar, Sam quase tivera de a puxar pela escada abaixo, com a mala.

— Estou a começar a perceber porque é que nunca vais a parte nenhuma — disse Sam, quando se encontravam sentados na sala de espera. Reparou que Zoe estava muito pálida e pensou outra vez se ela estaria doente. Ou talvez fosse apenas stress ou cansaço. Provavelmente seria um pouco de cada coisa. Estava satisfeito por Zoe ir ter urnas férias e agradava-lhe substituí-la na clínica. Gostava de trabalhar com ela, mas estava disposto a sacrificar-se, perdendo essa companhia, pois via bem que Zoe necessitava urgentemente de descansar.

 

Nunca mais tinham voltado a falar da vida pessoal dela. A partir da noite em que haviam saído juntos Zoe limitara-se a falar de assuntos profissionais. Mas Sam ainda não desistirá.

 

Prometera preparar um jantar para Zoe e para Jade quando ela regressasse de Wyoming e ela aceitara. Zoe via isso como uma oportunidade para continuarem a sua amizade. Ele não.

 

— Não te esqueças de ir ver o Quinn Morrison, está bem? Eu prometi-lhe que o irias visitar todas as tardes depois de saíres do consultório.

 

Morrison era um dos seus doentes mais queridos, um homem dos seus setenta anos, que apanhara sida depois de uma operação à próstata, e estava a passar muito mal.

 

— Juro — prometeu Sam. Ela tinha-lhe deixado também mil instruções na clínica. Sam olhou Zoe com um sorriso meigo e pôs-lhe um braço por cima dos ombros. — E também não me esquecerei de ir ver a tua filha e certificar-me de que Inge não a espanca nem faz amor na tua cama enquanto ela vê os desenhos animados.

 

— Oh!, Deus, não digas isso! — exclamou Zoe, horrorizada com a perspectiva. Nem sequer lhe passara pela cabeça que Inge pudesse fazer uma coisa dessas, e Sam riu-se da reacção dela.

— Vou receitar-te um Prozac se continuas assim. Ou, pelo menos, um Valium.

 

— Que bela ideia — replicou Zoe. A verdade é que começara nessa semana a tomar AZT como precaução. Era adepta do tratamento profiláctico, mesmo antes do aparecimento de sintomas, e recomendava-o a todos os seus doentes. Lembrara isso mesmo a Sam, para o caso de lhe aparecerem novos doentes. — Realmente não devia fazer esta viagem — disse Zoe, continuando a torturar-se. Sam sugeriu que fossem beber um café.

 

— Não conheço outra pessoa que mereça mais umas férias do que tu — disse Sam, depois de ter pedido dois cappuccinos. — Só tenho pena que não vás por duas semanas em vez de uma. — Mas ambos sabiam que ela nunca seria capaz disso.

 

— Talvez para o ano.

 

— Estou impressionado — gracejou Sam. — Pensas realmente que irás poder fazer isso? Julguei que fosse uma oportunidade que surgia uma vez na vida. — Podia ser, mas não pelas razões que ele pensava, mas Zoe não o disse.

 

— Veremos — murmurou. — Depende de eu gostar muito ou pouco.

 

— Como é que podes não gostar? — Sam estivera uma vez em Yellowstone Park e gostara imenso.

 

— Depende de esses cowboys me agradarem. — Zoe gracejava, e Sam sabia-o, mas mesmo assim não lhe agradava; no entanto, mostrou-se disposto a entrar na brincadeira.

 

— Oh!, linda coisa! Dizes-me que te vais fazer freira e agora queres ir para Wyoming perseguir cowboys. Formidável! Se ficar a substituir-te outra vez, vou dar placebos aos teus doentes.

 

— Não te atrevas! — disse ela, rindo.

 

— Eu também uso botas de cowboy, sabes? E posso comprar um desses chapéus idiotas, se é disso que gostas. Mas é estranho, não consigo imaginar Dick Franklin a fazer de cowboy — murmurou, fazendo com que ela se risse de novo. Sam gostava de a arreliar por causa do Dr. Franklin. Realmente não gostava dele. Achava-o um cretino pomposo. Tinham discordado a respeito do tratamento cirúrgico do cancro da mama numa reunião em Los Angeles, e Franklin tratara Sam como um novato. Embora ele não fosse cirurgião, tinha, com certeza, opiniões válidas. Mas Dick Franklin não pensava assim.

 

— Trago-te um chapéu de cowboy — prometeu Zoe. Ainda não conseguira convencê-lo da validade do seu celibato e ele tinha a intenção de continuar a persistir no assunto.

 

— Desde que não me tragas um cowboy...

 

— Eu telefono-te — disse Zoe. Iria de avião a Salt Lake City e depois transferir-se-ia para um avião mais pequeno até Jackson Hole, Wyoming. Marcara a hora da viagem para chegar ao mesmo tempo que Tanya.

 

— Dá cumprimentos à tua amiga. Gostava de a conhecer um dia. — Pegou na mala dela para a acompanhar até ao portão de embarque.

 

— Hei-de dizer-lhe para te telefonar — prometeu Zoe. Toda a gente queria conhecer Tanya. Era a rapariga dos sonhos de todos os homens.

 

Sam ficou subitamente sério quando pegou no saco dela para a acompanhar ao portão de embarque.

 

— Tem cuidado contigo. Precisas de descansar Miss Zoe. Aproveita estes dias para cuidares de ti. Bem o mereces! — Zoe disse que sim com a cabeça, comovida pela maneira como ele lhe falava e incapaz de lhe responder. Depois viu-o franzir a testa, como se se tivesse esquecido de alguma coisa. — Lembrei-me agora de uma coisa. Levas a tua mala de médica contigo?

 

— Sim. Porquê? Meti uma na minha mala da roupa, mas já foi para a bagagem. Porquê? Está alguém ferido?

 

Zoe era a primeira a correr para prestar auxílio se alguém tinha necessidade disso. Mas não estava a ver nenhum caso desses ali.

 

— Estás de férias, pateta. Logo vi que ias ter uma reacção dessas. Quero que deixes a mala de médica dentro da outra mala.

 

— Bem, não tencionava andar a passear pelo rancho com a maleta na mão, mas achei que a devia ter por perto, para o caso de suceder alguma coisa. — Zoe olhou-o com ar grave e perguntou: — Estás a querer-me dizer que não levas a tua maleta quando vais para qualquer sítio? Eu sentir-me-ia perdida sem ela — acrescentou, sabendo muito bem que com ele se passava o mesmo.

 

— Bem, isso é diferente. Eu substituo colegas — respondeu Sam levemente embaraçado. — Zoe riu-se e ele abraçou-a e puxou-a contra si, mas sabia muito bem que ela nunca permitiria que a beijasse. — Só te peço que sejas boa para ti mesma. Esquece-nos a todos, se puderes. Se precisar de ti, telefono-te.

 

— Prometes que o farás? — Zoe parecia genuinamente preocupada e Sam disse que sim com um gesto. Por isso é que ela gostava de entregar os seus doentes nas mãos dele. Ele ouvia-a, preocupava-se e fazia exactamente o que ela queria. No tentava virar tudo ao contrário quando ela voltava costas. Além disso, era realmente um grande médico e Zoe sabia-o. Sempre pensara que era uma loucura limitar-se a fazer locum tenens.

 

— Prometo telefonar-te se houver algum problema. Mas tu tens de me prometer que descansas e voltas de faces rosadas e um pouco mais gorda, mesmo que passes o tempo a perseguir cowboys. Apanha sol e dorme muito.

 

— Sim, doutor — replicou Zoe, sorrindo e agradecendo-lhe mais uma vez por tomar conta da clínica. Momentos depois encaminhava-se para o avião. Ele ficou a acenar até a perder de vista.

 

Sam continuou parado até o aparelho começar a rolar pela pista e depois saiu lentamente do aeroporto. Pouco depois o seu beeper começou a tocar e ele dirigiu-se para uma cabina telefónica para atender a chamada de um dos doentes de Zoe. Logo a seguir correu para o carro. Zoe estava já no ar, a caminho de Wyoming.

 

O avião para Salt Lake City levou mais de duas horas e teve de esperar outras duas pelo avião seguinte. Zoe pensou em telefonar para Jade, mas lembrou-se de que ela poderia ficar mais triste por ouvir a sua voz sem saber onde ela estava. Resolveu esperar até chegar ao rancho, por isso deixou-se ficar sentada a beber um café e a ler um jornal, perdendo-se de vez em quando nos seus pensamentos. Raramente tinha tempo para isso. Lembrou-se do facto de Dick Franklin lhe ter telefonado no dia anterior. Fora uma surpresa. Dissera-lhe ter ficado assombrado e muito comovido ao ler a carta dela. Não lhe pedira para a voltar a ver, mas dissera-lhe que, se precisasse de alguma coisa, lhe telefonasse. Apreciara a honestidade dela, mas não estava preocupado, e garantira-lhe que o seu segredo ficava bem guardado. Quisera saber como lhe sucedera contagiar-se e ela explicara-lhe. Ele afirmara não estar surpreendido. Quando desligaram Zoe ficou com a sensação de ter sido a última vez que ele a contactara. Mas não se importava com isso. Agora não havia lugar para ele ou para qualquer outro homem na vida dela.

 

Era um luxo estar ali sentada no avião, se telefones, se beepers, sem doentes, sem ninguém que precisasse dela, sem ter de pensar como é que poderia ajudar alguém. Embora gostasse muito do seu trabalho, sabia que iria gozar as férias. E queria realmente aumentar as suas energias e as suas forças. Sabia que iria precisar delas. Tencionava continuar a trabalhar até ao fim. Tomara já a sua decisão. Continuaria a dar aos seus doentes tudo aquilo de que eles precisavam, até isso lhe ser possível. E a Jade também. Mas teria de pensar no que iria fazer com a filha. Não tinha família com quem a deixar nem amigos que se pudessem responsabilizar por ela. Outros eram boas pessoas, mas não tinham jeito para crianças. Pensara em falar a Tanya, mas não fazia ideia do que ela pensaria do assunto. Porém, era uma possibilidade. Zoe sabia que, eventualmente, teria de fazer qualquer coisa.

 

O avião para Jackson Hole partiu a horas e Zoe desembarcou dentro do horário previsto: cinco horas e trinta minutos. Não sabia onde se encontraria Tanya nessa altura. Sabia apenas que chegaria à tarde. Planeara ir ter com ela ao rancho e o hotel enviaria uma carrinha ao aeroporto para a levar. As suas malas foram as primeiras a aparecer, o motorista da carrinha levou-as e correu tudo sem problemas.

 

O rapaz que conduzia a carrinha usava botas, calças de ganga e chapéu de cowboy, como qualquer outra pessoa em Wyoming. Era alto, magro, e tinha cabelo louro, cortado muito curto; disse que se chamava Tim e era do Mississipi. Frequentava a Universidade de Wyoming e trabalhava no rancho durante o Verão. Disse que gostava de lá trabalhar por causa dos cavalos. Enquanto o rapaz falava Zoe olhava as montanhas, fascinada. Era a paisagem mais bonita que já vira. O sol do fim da tarde fazia-as brilhar com reflexos rosados e azuis. No cimo havia neve. Zoe achou que lhe recordavam os Alpes suíços. Nunca vira nada assim.

 

— São espectaculares, não são? — disse o rapaz, que era falador. — Quase nos tiram a respiração, não é?

 

Zoe estava inteiramente de acordo com ele e deixou-o continuar a tagarelar durante a meia hora que levaram para chegar ao rancho. Tim contou-lhe então que tinha um tio que também era médico, um médico ortopedista que uma vez lhe tratara um braço partido. Fizera um bom trabalho, porque ele tomara parte no rodeo, no ano anterior, e o braço não o incomodara nada, mas partira o outro braço e uma perna. Porém, tencionava participar de novo nesse ano. A sua história tinha, de facto, o colorido típico local.

 

— Fazem rodeos aqui? — perguntou Zoe com interesse.

 

— Sim, miss. As quartas e sábados. Montam touros, laçam vacas, os rapazes mais novos montam novilhos. Já assistiu a algum rodeo

 

— Ainda não — respondeu Zoe, sorrindo, pensando que Tanya havia de gostar. Lembrava-se dela lhe falar de rodeos no Texas.

 

— A minha amiga é do Texas — concluiu.

 

— Eu sei. — O rapaz pareceu ficar um pouco embaraçado logo que disse aquilo. Depois explicou: — Sei quem ela é, mas não devemos falar disso no rancho. Mistress Collins fica furiosa se fazemos com que alguma celebridade se sinta desconfortável aqui. E de tempos a tempos temos cá algumas, sabe? Desde que trabalho no rancho temos tido bastantes. — O rapaz fitou-a e Zoe pensou que certamente fora por isso que Tanya escolhera aquele sítio. — Não damos informações a ninguém — concluiu Tim.

 

— Estou certa de que a minha amiga apreciará isso — respondeu afavelmente Zoe.

 

— Devem estar a chegar de autocarro a qualquer minuto. Zoe não percebeu por que motivo ele dissera «devem», mas achou que se referisse também ao motorista, e não pensou no assunto. Cinco minutos depois saíam da estrada e passavam por uns largos portões, começando a descer um caminho sinuoso que parecia nunca mais ter fim. Passaram-se mais dez minutos até chegarem ao sopé de uns montes. Zoe avistou uma dúzia de pequenas casas ali aninhadas e várias cavalariças cheias de cavalos. Viam-se árvores por toda a parte, as casas estavam num estado de conservação impecável e, pairando sobre tudo, erguiam-se majestosamente as Tetons.

 

Tim acompanhou-a quando entrou no edifício principal e na recepção disseram-lhe que Miss Tanya ainda não tinha chegado, mas receberam-na com toda a simpatia. A casa do rancho parecia antiga e era muito bonita. Estava decorada com cabeças de antílope, uma grande cabeça de búfalo nas paredes, belas peles no chão e tinha uma enorme janela envidraçada de onde se desfrutava uma vista espectacular das montanhas. A sala possuía também uma enorme lareira, onde cabia um homem em pé. Era um sítio confortável para passar um longo serão de Inverno e alguns hóspedes conversavam tranquilamente a um canto. A empregada da recepção explicou-lhe que àquela hora os hóspedes se encontravam quase todos nas cabanas, para se vestirem para o jantar, que seria servido às sete horas.

 

Entregaram a Zoe uma porção de folhas com informações e uma brochura, e em seguida Tim levou-a na carrinha até à cabana. Tratava-se de um humilde eufemismo para o que poderia ser uma bonita casinha para uma família de cinco pessoas nos subúrbios de qualquer cidade. Tinha uma grande sala confortável, com uma vasta lareira e um fogão bojudo, uma pequena cozinha e sofás cobertos com bonitos tecidos. O ambiente era do Sudoeste e um pouco navajo, mas parecia uma foto da Architectural Digest. A casa tinha três grandes quartos, todos com uma vista esplêndida, e estava cercada de árvores.

 

Era, de facto, um local muito belo e Zoe sentou-se confortavelmente, ainda com o saco na mão, enquanto Tim lhe ia buscar a mala. O rapaz perguntou-lhe qual o quarto que ela queria e Zoe disse que iria esperar por Tanya para ser ela a escolher. Um dos quartos era ligeiramente maior do que os outros, mas todos eles eram grandes, com enormes camas e mobílias rústicas. Cada quarto tinha a sua lareira. Por momentos, Zoe teve vontade de saltar em cima das camas e gritar, como se fosse uma criança, e quando Tim saiu ficou a sorrir. Andou um bocado de quarto em quarto, comendo uma nectarina que tirou de uma taça com fruta que se encontrava sobre uma mesinha baixa. Havia também uma grande lata com biscoitos acabados de fazer e uma caixa de chocolates. Tinham-se informado junto da secretária de Tanya sobre as suas preferências e a sala estava cheia delas. Havia flores por toda a parte, sodas e a sua cerveja preferida. O frigorifico continha também os iogurtes que ela costumava tomar ao pequeno-almoço. Nas casas de banho tinham posto o seu sabonete preferido e uma grande quantidade de toalhas.

 

Zoe admirou tudo, encantada, e sentou-se nu dos sofás, à espera. Viu o noticiário na televisão, foi buscar uma Coca-Cola Diet ao frigorífico, e dez minutos depois ouviu o ruído do autocarro, que se aproximava lentamente. Tanya chegava pontualmente à hora que indicara. Zoe abriu a porta e ficou no limiar, como se fosse ela a dona da casa. Pouco depois a porta do autocarro abriu-se; Tanya saiu e correu para ela logo que a viu. Abraçaram-se efusivamente, mas de súbito Zoe viu, por cima do ombro de Tanya, que outra pessoa saía do autocarro. Ficou petrificada de espanto, mas não tanto como Mary Stuart, que permaneceu pregada ao chão, sem saber se havia de voltar a entrar no autocarro ou avançar. Limitou-se, contudo, a ficar parada a olhar para Tanya. E quando as duas deram um passo atrás, viram que Mary Stuart as olhava, furiosa.

 

— Não posso crer que me tenham feito isto — disse, dirigindo-se a ambas, mas era óbvio que Zoe estava tão admirada como ela.

 

— A culpa não é dela — replicou rapidamente Tanya, enquanto Tom começava a tirar as malas do autocarro. — Deixem-me explicar.

 

 

— Não te incomodes — replicou secamente Mary Stuart. — Vou-me embora.

 

Tom pareceu espantado e olhou para Tanya numa muda interrogação. Mas ela estava demasiado ocupada a resolver a questão para lhe poder responder.

 

— Isso não é justo, Mary Stuart. Pelo menos dá-nos uma oportunidade. Há tanto tempo que não estamos juntas... pensei que...

 

— Bem, não devias ter pensado. Depois do ano que passei, não sei como pudeste fazer-me isto. Foi muito mau e tu devias sabê-lo.

 

Mary Stuart estava lívida e Tanya ouviu-a com os olhos cheios de lágrimas, percebendo que fora egoísmo da sua parte. Queria apenas ter as duas amigas consigo, mas ficara preocupada com isso desde que as convidara a ambas. Tinham-se passado vinte e dois anos e já era altura de as suas feridas sararem.

 

— Lamento, Mary Stuart — disse calmamente Zoe. — Eu não devia ter vindo. Tenho muito que fazer em São Francisco. Partirei depois do jantar.

 

Zoe falou com gentileza, muito calmamente, pois durante os últimos anos passara grande parte do seu tempo a lidar com pessoas muito doentes, muito infelizes, muitas vezes agitadas e dementes, por isso sabia manter-se calma, mesmo quando se encontrava agitada pelas suas próprias emoções.

 

— Não precisas de fazer isso — retorquiu Mary Stuart, tentando recuperar a calma e percebendo subitamente que se mostrara rude, mas ficara demasiado assombrada por a ver e o momento não fora oportuno. — Partirei amanhã de manhã para Nova Iorque.

 

— São ambas umas parvas — exclamou Tanya com lágrimas nos olhos. — Não posso crer que continuem com estes disparates passados vinte anos. Temos quase quarenta e cinco anos. Não têm mais nada que fazer se não ficarem zangadas com uma coisa que se passou quando éramos umas crianças? Meu Deus, tenho de aturar tantas porcarias todos os dias que já nem me lembro do que se passou a semana passada, quanto mais há vinte e dois anos. Tenham paciência, por favor! — Ficou a fitá-las e Mary e Zoe entreolharam-se, enquanto Tom trazia as malas para dentro. Tencionava ficar num hotel em Jackson Hole e estaria atento se Tanya o quisesse chamar para alguma excursão, mas agora estava sem saber o que iriam fazer. — Podemos ao menos entrar para falar sobre o assunto? — perguntou Tanya, mostrando-se zangada e magoada, enquanto Tom levava as mercearias para a cozinha e depois se retirava.

 

As três mulheres ficaram paradas na sala, com ar embaraçado. Tanya pensava no que havia de dizer. — Fazem o favor de se sentar? Estão a pôr-me nervosa — exclamou, começando a andar de um lado para o outro pela sala, enquanto Zoe a olhava. Ao contrário das duas, que eram da mesma idade Zoe era um ano mais velha, mas nenhuma delas aparentava a idade que tinha. — Pronto — disse Tanya quando se sentaram. — Provavelmente não devia ter feito o que fiz, e peço desculpa. Foi uma coisa estúpida, infantil, mas sonhava voltarmos a estar as três juntas. Tenho sentido a vossa falta. Não tenho outras amigas como vocês. Mais ninguém se interessa por mim, absolutamente ninguém! Não tenho marido, nem filhos, nem enteados. Só as tenho a vocês... e o que eu queria era que voltássemos a ser como dantes... nada mais... Talvez seja disparate... mas gostava que, pelo menos, tentassem.

 

— Ambas gostamos muito de ti — retorquiu Mary Stuart, tentando recompor-se. — Eu, pelo menos, gosto, e estou certa de que sucede o mesmo com Zoe. Se assim não fosse ela não estaria agora aqui. No viemos por causa da vista ou dos cowboys. — Zoe sorriu ao ouvi-la. Mary Stuart continuou: — O problema é não gostarmos uma da outra. Creio que seriam duas semanas muito desagradáveis se ficássemos todas aqui.

Zoe disse que sim com a cabeça e Tanya mostrou-se ainda mais desapontada. Esperara uma reacção negativa da parte delas quando se vissem, mas não pensara que insistissem as duas em ir-se embora. Percebia agora que a sua ideia fora estúpida. Devia ter convidado apenas uma delas e não ter tido planos tão ambiciosos.

 

— Não podem ficar apenas esta noite? Fizemos uma longa viagem de carro e estamos estafadas. — Falava de si própria e de Mary Stuart, mas logo a seguir dirigiu-se a Zoe: — Tiveste que apanhar dois aviões para chegares aqui e tens um ar cansado... estás com bom aspecto... — corrigiu —, mas cansada, claro. Estamos todas estafadas. Afinal, já não somos nenhumas crianças! — Disse a frase para ser um gracejo, mas nenhuma das outras duas sorriu. Estavam ambas a pensar no que deviam fazer. Tanya continuou: — Porque é que não passamos aqui a noite e amanhã decidem o que querem fazer? Eu nada lhes direi. Se estiverem irritadas e me mandarem ir dar uma volta, a culpa será minha. Mas nessa altura irei também. No vou passar duas semanas sozinha aqui. Seria demasiado deprimente!

 

Na verdade era um sítio lindo e era uma pena ficarem com as férias estragadas.

 

Zoe foi a primeira a falar e olhou para as duas quando o fez:

 

— Ficarei esta noite. Tens razão. A viagem de regresso é muito longa e eu nem sequer sei se terei avião hoje à noite. Isto não é exactamente o Aeroporto Kennedy — sorriu e olhou hesitantemente para Mary Stuart. — Convém-te, Stu? — perguntou, tratando-a naturalmente pelo seu antigo diminutivo.

 

— Por mim, está bem — declarou delicadamente Mary Stuart. — Mas eu é que irei para Nova Iorque amanhã de manhã.

 

— Não, não vais — ripostou Tanya, zangada. — Prometeste passar uma semana comigo em Los Angeles.

 

Achava que Mary Stuart estava a ser pouco razoável, mas sabia também como as feridas antigas eram profundas.

 

— Partirei de manhã — disse prosaicamente Zoe, e Tanya resolveu deixar as coisas assim. Passarem ali a noite já era um começo. E talvez se desse um milagre antes da manhã seguinte.

 

— Que quartos é que preferem? — perguntou Tanya, tirando o chapéu e atirando-o para o bengaleiro. Os quartos possuíam todas as comodidades possíveis, até descalçadeiras para tirarem as botas. Tinham mesmo luvas para calçarem, se as manhãs estivessem muito frias, e ponchos, nos armários, para o caso de chover. Tudo era confortável, luxuoso e bem pensado. Até Tanya estava admirada. — Gosto disto — disse Tanya com um sorriso tímido. Mas dessa vez as outras duas sorriram também. Apesar do assombro de se verem juntas, tinham de concordar que o rancho era fabuloso e a casa onde se encontravam ainda melhor.

 

— Fazem isto apenas para ti, Tan? — perguntou Zoe. — Ou toda a gente recebe este género de tratamento?

 

Duvidava que todos os hóspedes fossem recebidos daquela maneira, com tantos detalhes e retoques, incluindo todas as revistas que pudessem querer ler.

 

— Supostamente todas as casas serão assim — disse Tanya, abrindo uma cerveja. — A semana passada telefonaram à minha secretária para se informarem sobre os meus gostos alimentares, para saberem qual o meu sabonete preferido, quantas almofadas e toalhas queria, se desejava um fax no quarto ou linhas telefónicas adicionais. Disse-lhes que um telefone me chegava, mas mandei instalar um fax e três vídeos. Creio que têm tudo o que gostam para comer e para beber. Se quiserem mais alguma coisa, digam-lhes.

 

— Este sítio é espantoso — declarou Mary Stuart ao examinar os quartos. E quando voltou quase chocou com Zoe.

 

— Como tens passado, Stu? — perguntou solicitamente Zoe, e a expressão do seu olhar surpreendeu Mary Stuart, pois viu neles uma grande dor e tristeza.

 

— Tenho passado bem — respondeu, em voz baixa, Mary Stuart. Queria, por sua vez, perguntar a Zoe como fora a vida dela durante os últimos vinte anos. Mas sabia da clínica pelo que lhe contara Tanya.

 

— Lamento o que sucedeu ao teu filho — disse então Zoe, tocando-lhe instintivamente num braço. — Tanya contou-me... é tão injusto... lido constantemente com ela e nunca a aceito, mas especialmente na idade dele... Tenho muita pena...

 

— Obrigada, Zoe — respondeu Mary com os olhos cheios de lágrimas, virando-se para ela não as ver. Mas Zoe percebera, mais do que vira, essas lágrimas, e afastou-se para não a magoar mais.

 

— Já escolheram os quartos? — perguntou Tanya, voltando à sala e percebendo que Mary estivera a chorar. Pensou se teriam discutido, mas nenhuma das duas parecia zangada. Desconfiou que fosse por causa de Todd e ergueu as sobrancelhas para Zoe, que lhe disse silenciosamente que sim.

 

Por fim escolheram os quartos. O que era ligeiramente maior tinha banheira e Jacuzzi e tanto Zoe como Mary Stuart insistiram para que Tanya ficasse com ele, embora Tanya o tivesse cedido de boa vontade a qualquer delas. E quando concordou em ficar com ele disse-lhes que podiam usar o Jacuzzi sempre que quisessem. Ambas lhe responderam que partiriam na manhã seguinte. Tanya esteve prestes a dizer-lhes que eram ambas teimosas como burras, mas não o fez. Foi para o quarto mudar de roupa para o jantar e as outras fizeram o mesmo um momento depois.

 

Zoe ligou para casa do seu quarto e ficou a saber que estava tudo bem. Inge dava o jantar a Jade nessa altura e deu o telefone à filha, que nem sequer chorou quando ouviu a voz da mãe. Pensou em falar para Sam, mas desistiu da ideia. Já lhe bastavam os telefonemas dos doentes dela.

 

Pouco antes das sete horas estavam todas de novo na sala, vestidas para o jantar. Tanya tinha umas calças de pele pretas, muito justas, e uma blusa de vaqueiro com contas. Calçara botas de salto alto que comprara para a ocasião e os cabelos louros mantinham-se afastados da cara por meio de uma fita de veludo preta. Zoe vestira calças de ganga, uma blusa azul-clara, de um tecido macio, e calçava botas de alpinista. Mary Stuart trazia umas calças cinzentas, uma camisola bege e calçava sapatos Chanel. Ficavam, como sempre sucedera, surpreendentemente bem ao lado umas das outras. Eram compatíveis, embora fossem totalmente diferentes. Havia uma espécie de fusão entre elas que mesmo agora, com a fenda aberta entre duas, era ainda mais forte do que elas próprias. Tanya sabia que se as suas duas amigas fossem honestas consigo próprias admitiriam que sentiam isso mesmo. Ela sentia-o, achava que havia um cordão invisível entre as três que as unia. Quando voltou à sala, Mary Stuart fazia perguntas a Zoe a respeito da clínica e esta falava animadamente acerca dela, enquanto Mary Stuart a ouvia, fascinada.

 

— Que grande empreendimento — dizia Mary Stuart com admiração. Mas quando se sentaram à mesa, na sala de jantar, ficaram ambas caladas, como se se tivessem lembrado de que não deviam estar a falar uma com a outra. Porém, pouco a pouco, foram tomando parte na conversa. Tanya contou-lhes acerca da sua próxima tournée e do filme em que provavelmente iria entrar dentro de pouco tempo. As duas ficaram entusiasmadas. Era óbvio que eram verdadeiramente suas amigas e queriam protegê-la. A mesa delas ficava a um canto da sala e, apesar de repararem que muitas cabeças se voltavam, ninguém se aproximou para pedir autógrafos ou falar com elas, a não ser a directora do rancho Charlotte Collins, que lhes foi dar as boas-vindas.

 

Era uma mulher muito interessante, de sorriso aberto e penetrantes olhos azuis que parecia ver tudo, fazer tudo e observar toda a gente. Sabia exactamente o que fazia cada empregado a cada momento e aquilo de que cada hóspede necessitava. E conseguia, de certo modo, coordenar as duas coisas ao mais alto grau. Tanya estava imensamente impressionada com tudo isso, bem como as amigas, e todas exprimiram a sua admiração.

 

— Espero que gostem da vossa estada aqui connosco — respondeu ela. — E muito importante para nós.

 

Claro que nem Zoe nem Mary Stuart tiveram coragem de lhe perguntar os horários dos aviões para a manhã seguinte.

 

— Informar-me-ei na recepção amanhã, depois do pequeno-almoço — disse Mary Stuart quando Charlotte Collins se afastou. Havia muito tempo e ela poderia ir de avião até Los Angeles e passar uma noite no Beverly Wilshire. Ou ir até Denver. E a viagem de Zoe era bem simples. Regressaria pelo mesmo caminho que a levara ali, mas em sentido contrário.

 

— Não quero falar disso agora — declarou gravemente Tanya. — Quero que as duas pensem bem no que estão a fazer. Têm assim tantas amigas que possam perder uma pessoa que conheceram metade da vida?

 

Mas o que as separara fora brutal e Tanya sabia isso. No entanto, não queria que a zanga entre as duas melhores amigas durasse indefinidamente. Tinham o dever de acabar com ela. Todas precisavam umas das outras e não podiam afastar-se para sempre.

Depois conversaram a respeito de outras coisas, sobre Alyssa, durante um bocado, e sobre Jade, mas no sobre Todd. Nem Tanya nem Mary Stuart falaram dos maridos. Conversaram acerca de viagens, de música, de amigos comuns, de livros, da clínica de Zoe. Depois começaram a falar de reminiscências da faculdade. Das pessoas que mais tinham detestado, das engraçadas, dos marrões, dos calões, dos cómicos e dos heróis. Alguns dos rapazes que tinham conhecido na escola haviam morrido no Vietname pouco antes de a guerra terminar.

 

Fora especialmente cruel perder entes queridos nas últimas horas da guerra, mas isso sucedera. Outros tinham falecido mais tarde. Vários membros da classe delas haviam morrido com cancro e Zoe parecia estar ao corrente do assunto. Tivera conhecimento desses casos por intermédio da comunidade médica ou através de amigos, ou talvez por viver em São Francisco e muitos dos seus colegas nunca de lá terem saído. Fora uma viagem curta e fácil de Berkeley para a cidade. Durante toda a conversa nenhuma delas mencionou Ellie. Continuaram a falar de outros amigos até chegarem à cabana, e só quando se encontravam de novo na sala de estar é que Tanya abordou o assunto. Sabia que todas pensavam em Ellie e que seria mais fácil se alguém falasse nela. E foi o que fez.

 

— É espantoso, mas depois destes anos todos ainda sinto a falta dela.

 

Houve um longo silêncio e Mary Stuart disse que sim com a cabeça, murmurando:

 

— Também eu.

 

Com efeito, Ellie fora a alma e o coração do grupo formado por elas. Fora sempre a mais meiga de todas e, contudo, era frequentemente quem mais animava uma festa. Era uma rapariga divertida e endiabrada, capaz de ir a uma festa vestida apenas com tinta branca. Fizera isso uma vez, e noutra ocasião fora à igreja com um abajur enfiado na cabeça. Fazia coisas tolas, loucas, que as obrigavam a rir, e logo a seguir era capaz de as pôr a chorar. Destroçara o coração de todas elas quando morrera, especialmente o de Mary Stuart, a sua melhor amiga e companheira de quarto. E ficaram todas sentadas na sala, em silêncio, pensando nela, quando Zoe quebrou esse pesado silêncio.

 

— Quem me dera saber nessa altura o que sei agora — disse em voz baixa, voltando-se para Mary Stuart, enquanto Tanya as observava. — Não tinha o direito de te dizer o que disse. Agora até me custa a acreditar como fui estúpida. Tenho pensado muitas vezes nisso. Estive até para te escrever uma carta quando um doente meu se suicidou. Foi como que uma vingança de Deus por eu ter sido tão cruel e tão má para ti, como se Ele quisesse dar-me uma lição, ensinar-me que o que sucedeu com Ellie não foi culpa de ninguém, que não o podíamos ter evitado, mesmo que quiséssemos. Talvez o conseguíssemos fazer por algum tempo, mas no fim ela acabaria por fazer o que queria. Quando era nova, eu era muito ignorante. Pensava que uma de nós se devia ter apercebido, que tu devias, visto seres mais íntima dela. Não compreendia como é que não tinhas visto que ela tomava drogas e bebia. Creio que o devia fazer há muito, sem que ninguém desse por isso. Talvez pudesse não ter morrido. Mas não era isso que ela queria. Ela conseguiu, de facto, realizar o seu desejo. — Ao ouvir as palavras de Zoe, Mary Stuart começou a chorar. Parecia-lhe que ela falava a respeito de Todd, mas Zoe não sabia disso. Tanya passou-lhe um braço por cima dos ombros, carinhosamente. — Devia ter-te escrito, Stu — continuou Zoe com lágrimas nos olhos. — Nunca perdoei a mim mesma o que te disse, e acho que tu também não me perdoaste. Não te censuro — acrescentou, tristemente. A morte de Ellie destroçara-as e Zoe mostrara-se cruel para com Mary Stuart, acusando-a de não ter percebido que Ellie se queria suicidar. No funeral, recusara-se mesmo a sentar-se ao lado dela. Mary Stuart ficara acabrunhada pelas acusações e acreditara em Zoe. Levara anos a ultrapassar a sensação de ter falhado em salvar a vida da amiga. Era quase como se tivesse sido ela a matá-la. E anos mais tarde voltara a suceder-lhe o mesmo com Todd. Aquele horror parecia não mais ter fim. Mas desta vez fora ainda pior e fora Bill a acusá-la, não Zoe. — Tenho tanta pena — disse Zoe, atravessando a sala e indo sentar-se ao lado de Mary. — Tenho querido dizer-te isto durante toda a noite. Não me posso sentir bem comigo mesma enquanto não te tiver dito que procedi mal, que fui muito estúpida. Tens razão em me teres odiado durante todos estes anos. Peco-te que me perdoes.

 

Zoe disse as últimas palavras a chorar. Era importante para ela confessar os seus pecados e ficar em paz com as pessoas a quem ofendera. E durante toda a sua vida tinham sido muito poucas.

 

— Obrigada por me dizeres isso. — Mary Stuart abafou um soluço e abraçou Zoe. — Mas eu sempre me considerei culpada. Como podia não me ter apercebido do que Ellie estava a fazer? Como podia ser tão cega?

 

Eram as mesmas perguntas que fizera a si própria quando o filho morrera. A morte do filho fora, em certo sentido, muito semelhante à de Ellie. Parecia-lhe um pesadelo que se repetia. Apenas nunca acordava desse pesadelo. Ele prolongava-se indefinidamente.

 

— Ela era muito astuta e queria morrer — disse simplesmente Zoe. O seu contacto com os doentes ensinara-lhe muita coisa nas últimas duas décadas. — Não a podias ter impedido.

 

— Quem me dera acreditar nisso — murmurou Mary Stuart tristemente, sem saber bem se estava a falar do filho ou da sua antiga companheira de quarto.

 

— Eu sei — afirmou Zoe com a mesma determinação que vinte anos antes revelara. — Ela não queria que tu soubesses o que andava a fazer. Se quisesse, tu podias tê-la impedido, mas assim era impossível.

 

— Quem me dera tê-lo feito — murmurou Mary Stuart olhando para as mãos entrelaçadas, enquanto Zoe e Tanya a fitavam. Esta última tinha uma expressão preocupada. — Quem e dera poder fazê-lo — repetiu. — Das duas vezes.

 

Ergueu os olhos para as amigas e estas viram a angústia profunda que se estampava neles.

 

— Ambas as vezes? Que queres dizer com isso, Mary Stuart? — Zoe ficou confusa. Mary Stuart não disse nada e as outras ficaram caladas, à espera. Então, Mary Stuart fitou-a e Zoe compreendeu. Compreendeu o tormento que Mary Stuart tinha sofrido. A morte do filho fizera-a reviver tudo o que se passara com Ellie, mas agora era muito pior. Ao perceber o que havia sucedido Zoe começou a soluçar. — Oh!, meu Deus — sussurrou, abraçando a amiga e chorando as duas. — Oh!, Deus... Stu... perdoa...

 

— Foi terrível — murmurou Mary Stuart por entre os soluços... — Terrível... E Bill disse-me as mesmas coisas que tu e mais ainda... — Mary Stuart soluçava de tal maneira que parecia que o seu coração se ia partir. Mas ela sabia que isso não sucederia, pois se o coração se pudesse partir, isso já lhe teria acontecido há muito tempo. — Bill continua a culpar-me — explicou. — Odeia-me. Está agora em Londres sozinho, porque não pode suportar olhar para mim, e não o censuro. Pensa que fui eu que matei o nosso filho, ou, pelo menos, que o deixei morrer... exactamente o que tu pensaste a respeito de Ellie.

 

— Eu era uma tola nessa altura. Tinha vinte e dois anos e era totalmente ignorante e estúpida. Bill devia compreender melhor — replicou Zoe, ainda abraçada a Mary.

 

— Ele acha que eu o podia ter impedido...

 

— Então é preciso que alguém lhe conte a verdade a respeito dos suicídios. Stu, se ele estava realmente disposto a matar-se, nada nem ninguém o poderia deter. Se ele se queria matar não te daria qualquer aviso.

— E não deu — disse tristemente Mary, assoando-se ao lenço de papel que Tanya lhe entregou.

 

— Não podes culpar-te. Tens de tentar aceitar o que se passou. E algo que não podes alterar. Não o podes fazer agora e não o podias ter feito então. Podes apenas seguir em frente, continuar a viver, antes que te destruas e destruas tudo à tua volta.

 

— Na verdade, quanto a isso temos feito um bom trabalho — murmurou, limpando os olhos e sorrindo por entre as lágrimas. — Do nosso casamento não resta nada. Absolutamente nada!

 

— Se Bill te culpa, alguém tem de falar com ele - disse Zoe.

 

— Sim, provavelmente o meu advogado — retorquiu Mary Stuart com um sorriso triste. Parecia um pouco mais aliviada e segura de si. — Decidi desistir de me atormentar. Vou-lhe dizer isso mesmo quando ele voltar de Londres.

 

— Que está ele a fazer em Londres? — quis saber Zoe, curiosa. Achava que não era lá que eles viviam.

 

— Tem um julgamento importante em Londres e vai lá estar dois ou três meses, mas não quis que eu o acompanhasse.

 

Zoe ergueu uma sobrancelha e pareceu a rapariga desconfiada que fora vinte anos antes. Tanya pensou que abrandara bastante com a idade, mas ainda havia nela muito do seu antigo temperamento.

 

— Andará metido com outra pessoa?

 

— Na verdade, creio que não. Há um ano que não fazemos amor. Desde a véspera da noite em que Todd morreu. Desde então nunca mais me tocou. E um castigo, uma punição que me dá. Penso que se sente tão revoltado que não é capaz de me tocar. Mas não acredito que haja outra pessoa. Isso seria mais fácil de compreender do que o que se tem passado.

 

— Não concordo — retorquiu Zoe, mostrando o seu lado clínico. — Há pessoas que ficam geladas depois de grandes traumas. E um comportamento típico. Já ouvi falar disso. No entanto, não é boa terapêutica para um casamento.

 

— Realmente, não — concordou Mary com um leve sorriso. — Mas, de qualquer modo, acho que já sei o que devo fazer. Ele não mais me perdoará e eu talvez consiga ultrapassar o meu sentimento de culpa. No entanto, viver com ele é viver todos os dias com a minha culpa, e eu não posso fazer isso.

 

— Nem deves — replicou calmamente Zoe. — Ou ele fala sinceramente contigo, ou é melhor deixá-lo. Creio que pensas bem — concluiu. — E a tua filha?

 

Mary Stuart suspirou.

 

— Provavelmente vai achar que sou eu a culpada pelo divórcio. Não creio que possa compreender como o pai tem sido mau para mim. Acha apenas que tem muito trabalho. Eu também pensei isso, ao princípio. Mas ele tomou bem claro o que sentia. Não posso continuar a viver lá em casa. Deixei de ser a mulher dele. Não falamos, não vamos a lado nenhum, ele não quer estar comigo. Só de ver a expressão com que me olha, sinto-me agredida.

 

— Então sai — afirmou decididamente Zoe. Não se viam há vinte anos, mas parecia que o tempo tinha voltado para trás e estavam no princípio.

 

— Se Bill te faz tão infeliz, ficas melhor sem ele — disse gentilmente Tanya. — Eu sobrevivi. Tu também sobreviverás. Sobrevivemos todas!

— Somos casados há vinte e dois anos. E doloroso ver desaparecer assim uma tão grande parte da nossa vida!

 

— Parece que isso já sucedeu há um tempo — disse Zoe com a sua habitual franqueza. Mary Stuart concordou com um gesto e Tanya também não pôde discordar.

 

Depois de ter partido para Londres, Bill raras vezes lhe telefonara. E quando o fazia estava sempre com pressa, sem saber o que dizer. Ultimamente, Mary Stuart decidira enviar-lhe faxes, como fizera nessa noite, apenas para confirmar o local onde se encontrava. Mas mesmo assim ele não lhe respondia.

 

— Ainda és nova — disse Tanya encorajadoramente. — Podes encontrar alguém que queira estar junto de ti e tens uma vida inteira à tua frente.

 

Mary Stuart disse que sim com a cabeça, desejando poder acreditar. Não imaginava que alguém pudesse querer estar com ela, depois do modo como Bill a via.

 

— Parece-me que é chegada a altura de avançares — disse Zoe. Mary Stuart tinha de concordar com elas, mas lamentava que isso lhe tivesse acontecido tantos anos depois de casada. Detestava ter de dizer a Bill que se ia embora, fazer as malas, contar a Alyssa que se iam divorciar. Era tudo tão difícil! E estremecia só com a perspectiva de sair com outro homem. Era uma ideia quase insuportável. Mas estava na mesma situação de Tanya. Só que ela era Tanya Thomas e Mary Stuart disse isso mesmo.

 

— Estás a brincar? — exclamou Tanya. — Ainda não saí com ninguém desde que Tony se foi embora. Todos têm medo de num. Ninguém me quer convidar para sair, a não ser algum cabeleireiro, para depois se poder gabar de ter saído com Tanya Thomas. Sou um bocado como o monte Evereste. Ninguém lá quer viver, mas todos gostam de dizer que o escalaram!

Riram todas com as palavras de Tanya e Mary Stuart ficou sem saber se se sentia melhor ou pior. Só por ter falado nos seus planos, dava-lhe a sensação de que eram definitivos. De certo modo parecia-lhe uma traição a Bill, que nem sequer sabia o que ela estava a sentir e a pensar fazer no fim do Verão. Pelo menos tinha tempo de pensar no assunto, enquanto ele estava em Londres.

 

As três mulheres ficaram sentadas na sala a conversar durante muito tempo. Nada foi resolvido, mas a amizade entre elas ficou restaurada e nenhuma voltou a falar em ir embora na manhã seguinte. O pedido de desculpas de Zoe fora muito importante para Mary Stuart. E Zoe ficara profundamente comovida por saber como as suas palavras tinham angustiado a amiga durante tantos anos e que a situação se tornara ainda pior por o filho se ter suicidado, à semelhança de Ellie. A vida era muito cruel, por vezes. Isso sempre a preocupara, sobretudo por ser tão afortunada para outras pessoas. De manhã, quando o telefone tocou, às seis horas, foi Zoe quem atendeu. Estava habituada a despertar imediatamente quando o telefone tocava durante a noite. As outras duas ainda dormiam.

 

— Está?

 

— Zoe?

 

Era Sam, e ela pensou logo em Jade e ficou apavorada... seria uma apendicite?... Teria havido um tremor de terra?

 

— Jade está bem? - Foram as primeiras palavras que pronunciou. Era como se Jade fosse sua filha natural. Gostava dela como se a tivesse tido e sentia as preocupações de qualquer mãe.

 

— Está óptima. Lamento ter-te assustado, mas vim telefonar-te para te dizer uma coisa que sei que gostarias de saber, embora seja uma notícia triste. Quinn Morrison morreu há uma hora. Morreu pacificamente, rodeado pela família. Foi pena não estares aqui com ele, mas eu fiz tudo quanto pude. O coração não aguentou mais. — Sam sabia que Zoe ficaria aborrecida com ele se não lhe contasse. A morte de Quinn acabara por ser misericordiosa, e ela sabia-o, mas tinha sempre pena das pessoas que morriam, das velhas, das novas e especialmente das crianças. Quinn Morrison tinha setenta e quatro anos, tivera uma vida cheia e a sida só lhe estragara um ano da sua existência, que acabara por não ser muito mais curta do que a de muitas pessoas que tinham doenças diferentes. Mas, de qualquer maneira, ela ficava sempre triste, com uma sensação de perda e de ter sido derrotada. Era um sentimento que lhe era familiar, pois perdia muitos doentes devido à terrível doença. — Estás bem? — perguntou Sam, preocupado.

 

— Estou. Só tenho pena de não ter estado junto dele.

 

— Eu sei. Por isso é que te estou a falar. Mas Quinn disse-me que estava contente por teres ido para Wyoming.

 

Zoe sorriu. Ele era mesmo assim. Tinha passado o ano todo a dizer-lhe para se casar e ter filhos.

 

— E os outros, estão todos bem?

 

— Peter Williams passou uma noite bastante má. Tem outra vez pneumonia. Vou interná-lo na clínica amanhã de manhã.

 

Williams tinha trinta e um anos, mas também já entrara na fase terminal da doença. O seu caso era mais perturbador por ser tão novo.

 

— Parece que tiveste uma noite bem ocupada...

 

— O costume — respondeu Sam, sorrindo. Mas gostava do que fazia. Para isso é que estudara medicina. — E tu? Estás a gostar? Já encontraste muitos cowboys

 

— Só um. Parecia ter doze anos e dois metros de altura, um rapazinho do Mississipi. E incrível isto aqui. Mas estou a gostar muito.

 

— Como está a tua amiga?

 

— Óptima. E fez-me uma surpresa. Outra das nossas companheiras de quarto de Berkeley. E uma longa história. Eu e ela não nos falávamos há vinte anos. Quando me viu quis ir-se embora no avião seguinte para Nova Iorque. Mas creio que fizemos as pazes a noite passada. Eu fui realmente má para ela há vinte anos. Nunca tinha perdoado a mim própria por isso. E foi realmente bom pôr tudo para trás das costas.

 

— Bem, acho que também estiveste muito ocupada — disse afectuosamente Sam.

 

— Sim, creio que sim.

 

— Vai dormir outra vez. Desculpa ter-te acordado tão cedo.

 

Para ele eram apenas cinco e meia e esperava poder ir deitar-se um bocado. Mas quisera contar-lhe o que sucedera a Quinn Morrison logo após a sua morte. Sabia que Zoe gostaria que ele o fizesse.

 

— Obrigada por telefonares, Sam. Fico-te muito grata. Sei que fizeste tudo o que era possível por ele. Eu nada mais teria podido fazer.

 

Zoe estava a ser amável ao dizer aquelas palavras e Sam sentiu-se reconfortado. Zoe era uma boa pessoa.

 

— Obrigado, Zoe. E cuida de ti. Mais tarde telefono-te outra vez.

 

Sam desligou, sentindo-se triste ao pensar nela. Admirava-a e gostava muito dela, mas parecia não conseguir aproximar-se mais. E, ao mesmo tempo, apercebia-se da solidão dela. Havia em Zoe uma vulnerabilidade especial, dava a sensação de que se escondia atrás de qualquer coisa e que ele nunca a conseguiria encontrar.

 

No preciso momento em que Sam se estava a deitar, Zoe encontrava-se de pé na sala, vendo o Sol despontar atrás das Grand Tetons. As lágrimas corriam-lhe lentamente pelas faces ao presenciar a beleza daquele espectáculo. Pensou em Quinn Morrison e na vida que ele tivera. Tinha pena que tivesse morrido, tinha pena de todos eles. Havia tanta dor na vida...

 

Ellie... Todd... e todos os desgostos que presenciara. Mas, ao mesmo tempo, havia aquela beleza esmagadora. E, subitamente, ficou satisfeita por estar ali. Sucedesse o que sucedesse, vira uma vez na vida o Sol nascer por detrás daquelas belíssimas montanhas. Era impossível não saber que havia Deus ao ver tal maravilha. Voltou em bicos dos pés para o seu quarto e estendeu-se na cama, pensando em Sam e olhando para as montanhas.

 

Depois do telefonema de Sam, nessa manhã Zoe deitou-se e voltou a adormecer mais um bocado, mas acordou outra vez no momento em que Mary Stuart saía do seu quarto. Apercebeu-se de que alguém se levantara e saiu da cama. As duas mulheres encontraram-se na cozinha, onde Mary Stuart fazia café. Quando viu Zoe, sorriu-lhe. A médica parecia mais descansada e com um aspecto surpreendentemente jovem.

 

— Queres que te faça um café? — perguntou Mary Stuart. — Também há chá, se preferires.

 

Ambas encheram as respectivas canecas com café fumegante.

 

— Tanya ainda não se levantou? — perguntou Zoe, e sorriram as duas. — Acho que há coisas que nunca mudam...

 

Estavam ambas em camisa de noite e Mary Stuart olhou para a sua velha amiga com ar sério. Haviam estado afastadas durante tantos anos... Depois disse:

 

— Não, não mudam. Estou satisfeita por ter vindo. Muito satisfeita — concluiu, fitando-a nos olhos.

 

— Também eu, Stu. Quem me dera não ter sido tão estúpida como fui! Tenho pena de não nos termos encontrado durante tantos anos, mas sinto-me feliz por esta sombra entre nós ter desaparecido.

 

Ellie morrera havia mais de vinte anos e as antigas desavenças deviam ter desaparecido também. Olhando agora para trás, tudo isso lhe parecia uma tolice e uma patética perda de tempo.

 

— Ela é uma espertalhona, não é? — disse Mary Stuart, rindo. — Viemos todo o caminho juntas e nunca me deu a entender absolutamente nada. Antes de eu concordar em vir, reparei que ela disse várias vezes «nós», mas pensei que se referisse aos garotos. E a secretária também falou no plural e em três quartos, mas nunca me passou pela cabeça que ela tivesse convidado outra pessoa, por isso, quando Alyssa cancelou a viagem e fiquei sem nada que fazer, resolvi aceitar o convite de Tanya.

 

— Para mim também foi bom — murmurou Zoe. Lembrou-se do sol a iluminar as montanhas nessa manha, quando Sam lhe telefonara a dizer-lhe da morte de Quinn Morrison. Contou isso a Mary Stuart enquanto as duas bebiam vagarosamente o café, sentadas ao balcão da cozinha.

 

— O teu trabalho deve ser deprimente — disse, por fim, Mary Stuart. — Admiro-te por o fazeres, mas é um combate que nunca podes vencer.

 

Pensou em como foi horrível quando Todd morrera e disse para consigo que não poderia suportar aquilo todos os dias. Mas é claro que Todd era seu filho, não um doente seu.

 

— Podemos vencer durante uns tempos. As pequenas vitórias que conseguimos ensinam-nos a sermos mais determinados na nossa luta. Outras vezes perdemos.

 

Perdia muitas vezes. Era inevitável. Mas, frequentemente isso tinha que ver com as circunstâncias e com o facto de o paciente e a família estarem preparados. No caso de Quinn era chegada a altura. O que mais lhe custava era perder crianças e jovens, aqueles que ainda tinham muito para viver, aprender e dar. Como ela própria. Ainda não aceitara bem essa ideia.

 

— Tiveste sorte em ter encontrado o caminho certo para ti há tanto tempo — disse Mary Stuart, invejando-a, mas sentindo-se bem na companhia de Zoe. Era fácil recordarem como tinham sido tão amigas. O que se passara entre elas parecia-lhe agora sem importância. Com toda a honestidade, achava que isso desaparecera para sempre. — Em Nova Iorque faço trabalho voluntário em hospitais, trabalho para obras de caridade e faço parte de vários comités, mas estou a pensar em arranjar um emprego. Ainda não sei bem o que poderei fazer. Até agora tenho sido sobretudo mulher e mãe.

 

— Isso não é mau... — Zoe sorriu, apercebendo-se de como sentira a falta de uma amiga como Mary Stuart. E, no inesperado crepúsculo da sua vida, compreendia como precisava das duas amigas agora. As circunstâncias eram ainda mais dramáticas por ela sempre haver pensado que tinha muito tempo à sua frente, e de repente saber que não teria. Depois acrescentou em voz alta: — Ser mulher e mãe também é um emprego.

 

— Bem, nesse caso, creio que o meu está praticamente terminado — retorquiu Mary Stuart. — Alyssa é uma adulta, Todd desapareceu, e nem sequer sou já uma esposa para Bill. Vivemos apenas na mesma casa e o meu nome continua nos impressos dos impostos. Subitamente sinto-me inútil.

 

— Mas não és. Talvez seja chegada a altura de te mudares.

 

Zoe tinha razão, mas Mary Stuart pensara muito no assunto e o problema era não saber para onde ir ou o que fazer.

 

— Tenho perguntado a mim mesma o que hei-de dizer a Bill quando ele voltar, onde irei viver, o que irei fazer. Agora nem sequer me apetece falar com ele. Mas ele também não quer falar comigo. Raramente telefona. Deve estar a sentir o mesmo que eu e não o quer dizer. Deve ter percebido que está tudo acabado.

 

— Talvez seja melhor perguntares-lhe — aconselhou Zoe, olhando para o relógio e pensando a que horas se iria levantar Tanya. — Sabes a que horas é que é o pequeno-almoço?

— Creio que é às oito horas. — Eram sete e meia e elas ainda tinham de se vestir. Mary Stuart olhou para a amiga com uma expressão intrigada e perguntou afectuosamente: — Vais-te hoje embora?

 

Houve uma longa pausa e Zoe abanou a cabeça:

 

— Só vou se tu preferires que eu vá. Mas é contigo. Tu é que vieste de mais longe. Se alguém tiver de partir, devo ser eu.

 

— Eu quero que fiques Zoe — respondeu Mary Stuart com um sorriso meigo. — E também gostaria de ficar. Esqueçamos tudo o que se passou. Éramos ambas amigas de Ellie e ela gostaria que estivéssemos todas juntas. De nós todas era ela a mais meiga, a mais bondosa e altruísta. Ficaria com o coração destroçado se soubesse que no nos falávamos há vinte anos por causa dela.

 

Era verdade e ambas o sabiam. Zoe pensava nela, de testa franzida.

 

— Merecia ficar com o coração destroçado, depois do que nos fez. Acho que fui tão má para ti por estar furiosa com ela e não poder dizer-lho.

 

— Passei pelo mesmo com Todd. Durante os primeiros seis meses sentia-me zangada com toda a gente. Com Alyssa, com as amigas dela, comigo própria, com a empregada, com o cão, com Bill — disse tristemente. — E Bill ainda está zangado. Creio que irá continuar assim toda a vida.

 

— Talvez ele esteja petrificado — replicou afectuosamente Zoe. — Eu estive. Senti-me assim durante vários meses e quando voltei a mim cada uma de nós tinha ido para seu lado. Tu tinhas casado, eu estava na Faculdade de Medicina e fui deixando o tempo passar. Achei que era mais fácil. Talvez se esteja a dar o mesmo com Bill.

 

— Talvez. — Era uma avaliação possível e Mary Stuart concordou com um gesto. — Acho que ele saiu pela porta fora há uns tempos e que eu não me apercebi — disse em voz baixa. Depois sorriu e olhou novamente para o relógio. Eram agora sete e quarenta e tinham de se arranjar para o pequeno-almoço. — Que dizes a irmos acordar a Bela Adormecida?

 

Sorriam. Foram em bicos dos pés até ao quarto de Tanya e colocaram-se uma de cada lado da grande cama. Tanya tinha uma camisa de cetim branco e uma máscara de beleza na cara. Quando quiseram acordá-la, parecia que a estavam a despertar do mundo dos mortos.

 

— Oh! Acabem com isso... detesto-as... parem com isso... — Zoe fazia-lhe cócegas nos pés e Mary Stuart atirava-lhe almofadas. Pareciam duas miúdas e Tanya ficou irritada quando tentou esconder-se debaixo da roupa da cama e não conseguiu. — Parem... parem... Estamos a meio da noite... que disparate é este?

 

Tanya sempre fora difícil de acordar de manha e elas tinham-na arrancado muitas vezes à força da cama, para não faltar às aulas.

 

— Tira a máscara — disse Mary Stuart. — O pequeno-almoço é daqui a quinze minutos e os folhetos que nos deram dizem que temos de estar nas cavalariças às oito e quarenta e cinco para escolhermos os cavalos. Tira o rabo da cama e arranja-te!

 

Mary Stuart parecia ter assumido o comando e Zoe puxava-lhe por um braço para a puxar da cama. Tanya tirou a máscara e olhou para uma e para outra.

 

— Ouvi dizer que íamos às cavalariças? Isso significa que ficam?

 

— Pêlos vistos, não podemos fazer outra coisa — respondeu maliciosamente Zoe, olhando para Mary Stuart. — Se nos formos embora tu dormes toda a semana e só sais da cama à hora do jantar. Sabemos que detestas cavalos e não queremos que passes as férias sentada no Jacuzi a ver televisão.

 

— Parece-me uma excelente ideia! — exclamou Tanya, sorrindo, orgulhosa das suas amigas. Passados tantos anos tinham-se reconciliado e restaurado a sua amizade. — Porque é que não combinamos encontrar-nos à hora do almoço? Pensei em fazer um tratamento facial.

 

— Tire-me esse rabo da cama Miss Thomas — ordenou Mary Stuart. — Tem exactamente vinte minutos para lavar os dentes, escovar o cabelo e vestir-se.

 

— Céus! Que é isto? Vim para o exército? Sabia que não as devia ter convidado às duas. Podia ter trazido pessoas simpáticas, que me tratassem bem e me deixassem dormir. Eu sou uma pessoa muito importante.

 

— Quem te disse isso? — perguntou Mary Stuart com um grande sorriso. — Sai da cama e já! Mais tarde poderás tomar um duche.

 

— Lindo! Vou passar a cheirar a cavalo. Esperem até que os jornais descubram isso!...

 

Mary Stuart e Zoe olhavam-na, com as mãos nas ancas, enquanto Tanya saía com relutância da cama espreguiçando o belo corpo e bocejando. Depois dirigiu-se para a casa de banho, a resmungar.

 

— Vou-te arranjar uma chávena de café — disse Zoe, dirigindo-se para a cozinha.

 

— E melhor injectar-mo nas veias, doutora — respondeu Tanya, acendendo a luz da casa de banho e vendo-se ao espelho. — Oh!, Deus, parece que tenho duzentos anos! Chamem depressa um cirurgião plástico!

 

— Estás fantástica! — replicou Mary Stuart, rindo. Tanya era muito bonita, mas o mais engraçado é que não estava convencida disso. Achava-se realmente feia e Mary e Zoe sempre tinham rido dela por causa disso.

 

— Reparem no meu aspecto às oito da manhã e sem maquilhagem!

 

Mary Stuart franziu o sobrolho para a sua imagem no espelho. Escovara o cabelo até ele brilhar, a sua pele era ainda bonita e pusera apenas um pouco de bato rosado. Vestira uma camisa de homem de um tecido macio, azul-claro, e umas calças de ganga impecavelmente passadas. As botas eram de pele de lagarto, compradas recentemente no Billy Martins's.

 

— Olha para ti — queixou-se Tanya enquanto lavava os dentes e sujava a camisa de noite de dentifric. — Parece que acabaste de sair das páginas da Vogue.

 

— Ela faz isto para nos sentirmos mal — disse Zoe, entregando uma chávena com café a Tanya. Estavam habituadas. Mesmo na universidade, Mary Stuart andava sempre impecavelmente arranjada. Era o seu estilo e, de facto, todos gostavam. Era uma inspiração para todas elas. E os rapazes adoravam...

 

Zoe vestira umas calças de ganga com buracos nos joelhos, urna velha camisola confortável e umas botas de cowboy que tinha há anos. O seu cabelo de um ruivo-escuro, estava puxado para trás. Tinha um aspecto asseado e descontraído e aparentava sentir-se bem assim, mas ambas sorriram quando viram Tanya sair da casa de banho, cinco minutos depois. Mesmo sem maquilhagem e depois de ter sido arrancada da cama à força, o seu aspecto era sensacional. Tanya era, na verdade, uma estrela, mesmo que não quisesse parecê-lo. O seu espesso cabelo louro caía-lhe naturalmente até aos ombros. Não teve tempo de o prender e parecia ter sido propositadamente penteado assim. Vestira uma T-shirt branca, muito justa, que não era de modo nenhum indecente, mas tão sexy que nenhum homem deixaria de voltar a cabeça à sua passagem. As calças de ganga eram exactamente da medida certa, nem demasiado justas, nem largas, deixando adivinhar as suas belas pernas, as nádegas arredondadas, a cintura estreita. Calçara as velhas botas amarelas e pusera ao pescoço um pequeno lenço vermelho. Os brincos eram umas simples argolas de ouro. Pegou no blusão de ganga que levara, pôs os óculos escuros, o seu velho chapéu e, quando ficou pronta para sair, parecia preparada para fazer um anúncio sobre um rancho de luxo.

 

— Se não gostasse tanto de ti, detestava-te — disse com admiração Mary Stuart, enquanto Zoe sorria. Todas elas eram mulheres bonitas, mas não havia que negá-lo: Tanya tinha algo de especial.

 

— Nunca consegui perceber como fazes isso — declarou Zoe, no mesmo tom afectuoso de Mary Stuart. Nunca houvera a mais leve sombra de inveja entre elas. Vinte anos antes, as quatro eram como irmãs. — Sempre pensei que, se te visse vestir, aprenderia o que fazes — continuou Zoe ao saírem do quarto —, mas é como um desses truques de magia que podemos ver milhões de vezes sem conseguirmos perceber como é que o coelho aparece. Es a única pessoa capaz de entrar numa casa de banho e sair de lá três minutos depois parecendo uma estrela de cinema. Eu podia lá passar uma semana que continuaria a sair de lá igual, bem arranjada, decente, penteada, com a maquilhagem bem posta, mas continuando a ser eu. Mas tu apareces como uma princesa de um conto de fadas.

 

— É o milagre da cirurgia plástica — respondeu Tanya, sorrindo, satisfeita com as palavras das amigas, mas sem acreditar nelas. Porém, eram simpáticas em dizê-las. — Se corrigirmos tudo o que está mal no nosso rosto, nem precisamos de maquilhagem.

 

— Nada disso — emendou Mary Stuart. — Já aos dezanove anos te sucedia o mesmo. Levantavas-te da cama parecendo um caterpillar e logo que os teus pés tocavam no solo transformavas-te em borboleta. Sei exactamente o que Zoe quer dizer. Mas tu és demasiado insegura para o saberes e acreditares no teu encanto. Por isso é que gostamos tanto de ti!

 

— Oh!, julguei que era por causa do meu sotaque... — declarou Tanya. Com efeito, tinha ainda um ligeiro sotaque do Sul. Os seus admiradores gostavam, sobretudo quando cantava. — Nem posso crer que me tiraram da cama a uma hora destas! Não pode ser bom para a saúde, especialmente a esta altitude. Não é bom para o meu coração — queixou-se Tanya, enquanto as acompanhava, um pouco ofegante, na subida da encosta de uma pequena elevação, em direcção ao edifício principal.

 

— Pelo contrário, faz-te bem à saúde — retorquiu Zoe, sorrindo para Mary Stuart. — Logo à noite já estarás habituada. Mas não deves tornar bebidas alcoólicas.

 

— Porquê? — perguntou Tanya, admirada. Habitualmente não bebia, mas sentia curiosidade em saber porquê.

 

— Porque aos primeiros três goles vais ficar toldada e fazes figura de parva — explicou Zoe, rindo e recordando uma ocasião em que ela ficara inconsciente, num baile, e a tinham levado para casa, onde vomitara para cima da cama de Zoe, que ficara furiosa com ela. Mary Stuart e Zoe riam e Tanya mostrava-se um tanto envergonhada, embora já tivessem passado mais de vinte anos.

 

Tanya ainda tentou dizer-lhes que nessa altura estava com gripe, mas elas responderam-lhe que estava apenas bêbada, quando entraram as três na sala de jantar do rancho, como uma visão de beleza.

 

Havia pessoas sentadas às mesas e outras a servirem-se no bufete. Estavam todos calados e com aspecto sonolento, exceptuando alguns hóspedes aqui e ali, que pareciam mais animados e eram obviamente pessoas habituadas a levantar-se cedo. Corriam rumores de que Tanya Thomas se encontrava no rancho, mas ninguém estava preparado para a ver em pessoa. Rindo com as amigas, Tanya estava tão descontraída, tão bonita e tão espantosamente jovem que toda a gente parou para a olhar. Zoe teve subitamente pena dela. Ela e Mary cerraram fileiras em tomo da amiga e foram ocupar uma mesa distante, a um canto. Mary Stuart ficou sentada à mesa, com Tanya, enquanto Zoe foi buscar o pequeno-almoço, mas a sala inteira ficou subitamente a olhar para a mesa delas, ao mesmo tempo que se ouvia sussurrar. Ambas perceberam que aquilo não devia ser fácil para a amiga.

 

— O que é que pensas que sucederia se eu de repente me levantasse e cantasse para eles? — sussurrou Tanya, de costas voltadas para a sala e com os óculos escuros postos. Colocara o chapéu nas costas da cadeira e, mesmo vista por detrás, era espectacular. Era uma verdadeira estrela e toda a gente o sabia.

 

— Acho que causarias uma grande impressão — respondeu Mary Stuart.

 

Conversaram tranquilamente até Zoe chegar com um tabuleiro com três iogurtes, carnes frias e bacon.

 

— Mandei fazer ovos mexidos e cereais para as três — declarou Zoe. Tanya ficou horrorizada.

 

— Depois disto terei de passar seis meses numa clínica de emagrecimento. Não posso comer isso tudo ao pequeno-almoço!

 

— Faz-te bem — afirmou Zoe com toda a calma. — Estás a adaptar-te à altitude e vais fazer exercício. Come um pequeno-almoço substancial. Ordens da médica!

 

Zoe estava a seguir esse conselho para si própria. Tanya pegou num dos iogurtes.

 

— Não tenciono engordar cinco quilos aqui — insistiu Tanya. Mas a verdade é que tinha mais fome do que julgava e minutos depois serviu-se de uma salsicha. Zoe voltara ao bufete para ir buscar mais e Tanya olhou-a sombriamente quando ela voltou para a mesa. Sabia, mesmo sem ver, o que estava a suceder à sua volta. — E muito mau?

 

— O quê? A comida? Creio que é boa — respondeu Zoe, surpreendida. Achava que todos os alimentos tinham um excelente aspecto: o bacon, os pastéis e os ovos que acabavam de chegar tinham um cheiro delicioso. Mas Tanya não se referia aos alimentos. Referia-se às pessoas.

 

— Não estou a falar de comida, tola.

 

— Oh! — Zoe compreendeu e olhou para Mary Stuart, enquanto começava a comer os ovos. Não tencionava contar a Tanya a reacção dos outros hóspedes. — Oh!, isso! Talvez se preparem para fazer uma corrida.

 

— Digam-me o que se passa, para eu saber com o que posso contar. As pessoas parecem amigáveis?

 

Esperava que os hóspedes se desinteressassem dela. Às vezes sucedia isso, mas outras vezes tinha de ir embora para outro sítio, e agora não tencionava fazê-lo. Esperara não dar nas vistas e passar despercebida entre as outras pessoas, mas já vira que era impossível.

 

— Bem, vejamos — disse Zoe, admirada com a reacção das pessoas quando estavam perto de Tanya. — Quatro mulheres querem saber se o teu cabelo é verdadeiro, dois dos maridos discutiam se fizeste ou não alguma coisa ao peito, ou se é mesmo assim. Outro gosta do teu rabo. Três mulheres afirmam que fizeste uma cirurgia plástica à cara, mas outras cinco acham que não. Há um grupo de adolescentes mortinhas por te pedirem um autógrafo, mas as mães dizem que as matam se elas o fizerem. Além disso, todos os criados estão já apaixonados por ti e acham que és lindíssima. Creio que é tudo. Oh!, esqueci-me do cozinheiro mexicano que fez estes ovos, que gostaria de saber se és de origem hispânica. Disse-lhe que pensava que não, e ele ficou verdadeiramente desapontado.

 

Tanya ouvia-a, sorrindo. Zoe estava a exagerar um bocadinho, mas provavelmente não andava muito longe da verdade. Era sempre assim. Contudo, desde que se mantivessem à distância, talvez não ficassem com as férias estragadas.

 

— Diz ao tipo que gosta do meu rabo que ele é verdadeiro e se quiser posso enviar uma cópia à secretária dele.

 

— E a respeito dos seios? — perguntou Zoe com ar sério. — Estás preparada para fazer um depoimento acerca deles?

 

— Diz-lhes para lerem a revista People. Aparecerei lá na edição da próxima semana.

 

— Está bem. E há uma mulher que quer saber o teu signo. Jura que és Peixes, como a irmã dela. Diz que parecem gémeas. Quer mostrar-te uma fotografia.

 

— Não posso crer! — exclamou Mary Stuart, admirada.

 

— Como é que suportas isto?

 

— Não suporto. Sou um pouco louca — disse Tanya com um sorriso, comendo um bocadinho de papas de aveia. — Dizem que nos habituamos, e talvez tenham razão. Não sei.

 

A verdade é que ela estava disposta a aceitar muita coisa, só quando a perseguiam ou a atacavam cruelmente é que ficava magoada. E o problema era quase sempre esse. As perguntas, os signos, os pedidos de autógrafos eram inofensivos.

 

— Eu dava em doida — disse com sinceridade Zoe. — Ficava sempre com pena de ti quando via o teu nome nos jornais.

 

— Também eu — afirmou, por sua vez, Mary Stuart. — As vezes agarro num monte desses jornais, no supermercado, e escondo-os.

 

Tanya sorriu para as duas amigas. Era espantoso que, depois de estar há duas décadas em Holywood e conhecer tanta gente, ainda fossem aquelas duas mulheres as pessoas de quem mais gostava no mundo, junto das quais se sentia melhor e mais protegida.

 

— Não sei como se aprende a viver com isto — declarou Tanya com um suspiro. — Ainda me custa muito ver as mentiras que escrevem a meu respeito. Faz-me ter vontade de fugir, de me esconder. As vezes penso em voltar para o Texas. Mas o meu agente diz-me que agora é impossível escapar à notoriedade. Sou demasiado conhecida, e há muito tempo. Acha que se eu me retirasse continuavam a assediar-me durante muito tempo, por isso penso que não vale a pena fazê-lo. Pelo menos assim posso cantar e ganhar algum dinheiro.

 

— Algum dinheiro? — exclamou Mary Stuart, rindo. Algum dinheiro, para Tanya, era uma fortuna para os outros. Tanya viu as amigas rirem e riu também.

 

— Pronto, posso ganhar muito dinheiro. Que diabo, tenho que ter algumas compensações!

 

— Esta é uma delas — murmurou Zoe olhando à sua volta, agradecida por se encontrar ali. — Sabes, se não fosses tu, provavelmente não teria mais férias durante onze anos. Foi uma decisão inesperada, mesmo para mim.

 

— O que é que te fez decidir vir? — perguntou Tanya, pois esquecera-se de lhe perguntar. Zoe hesitou apenas uma fracção de segundo.

 

— Tive uma gripe e sentia-me muito em baixo. Além disso, arranjei um médico excelente para me substituir. Costuma fazê-lo ocasionalmente. Ganha a vida assim, a substituir outros médicos, durante folgas ou férias. Não tem clientela própria. Mas é um óptimo médico. Foi ele que me incitou a vir. Como me tinhas convidado...

 

— Deve ser boa pessoa — disse Tanya. — É casado?

 

— Não, mas não anda a passear com os meus doentes. Trata-os.

 

Tanya sempre fora casamenteira. Já na universidade gostava de arranjar encontros entre duas pessoas que achasse compatíveis.

 

— Não me estou a referir aos doentes. E tu? Tens saído com ele?

 

O radar infalível de Tanya captara qualquer coisa.

 

— Não. Andei com um cirurgião durante algum tempo. Mas não era nada de sério e acabou.

 

Mary Stuart soubera do caso de Zoe com Adam, mas desde então não tivera conhecimento de mais nenhum amor na sua vida. Perguntara a Tanya se havia algum homem na vida de Zoe e ela dissera-lhe que não.

 

— As médicas nunca saem com ninguém a não ser com médicos? — perguntou Tanya. — São como os actores. Falam sempre das mesmas coisas. Deve ser monótono...

 

— Não é, não. Fora da profissão é difícil entenderem-nos. As nossas horas de trabalho, as pressões. Na verdade, os nossos interesses são muito limitados.

 

— Então que tal é esse tipo que te substitui de vez em quando. E giro? — quis saber Tanya.

 

— Oh!, deixa-te dessas coisas - replicou Zoe. - E apenas um médico.

 

— Mas tu coraste! — acusou Tanya, enquanto Mary Stuart se ria. — Ah!, deve ser giro e não é casado. Qual é o aspecto dele?

 

— Parece um urso de pelúcia. E grande e corpulento, com cabelo e olhos castanhos. Estás satisfeita? Jantámos juntos uma vez e não tenciono andar com ele, o que, de resto, ele sabe.

 

Zoe respondeu desembaraçadamente à sua velha amiga, mas Tanya não estava disposta a dar o interrogatório por findo.

 

— Porquê? Ele não é... Bem... em São Francisco podia ser...

 

Tanya falou hesitantemente, como que a desculpar-se, e Zoe soltou um gemido.

 

— És insuportável. Não é... o que insinuaste. Tem bom aspecto. E solteiro e eu não estou interessada. Está bem? Ponto final!

 

Zoe mostrou-se firme com a amiga, mas ela não quis saber. Tanya achava que Zoe gostava dele, apesar de protestar tanto.

 

— Porquê? Por que motivo não estás interessada? Tem algum defeito grave? Mau hálito? Modos grosseiros? Cadastro prisional? Algo que devemos saber para concordar com a tua atitude, ou estás apenas a ser difícil?

 

— Não tenho tempo para andar com ninguém. Trabalho o dia todo e tenho uma filha.

 

— Isso é uma atitude terrível — ralhou Tanya. — Não podes viver sozinha toda a tua vida. Não é saudável.

 

— Não acredito nisso. Sou uma mulher de meia-idade e posso fazer o que quero. Sou demasiado velha para namorar. E, além disso, não quero.

 

— Obrigada por me avisares — replicou Tanya, afastando o prato. Tinha comido tudo, até mesmo os ovos. — Tens só mais um ano do que eu, por isso já sei que daqui a um ano estará tudo acabado para mim. E a propósito, se te atreveres a dizer a alguém que tenho a tua idade, mato-te.

 

— Não te preocupes — retorquiu Zoe, sorrindo. — Não acreditariam em mim.

 

— Podia ser que acreditassem, mas nessa altura eu dizia que eras uma mentirosa compulsiva. Bem, quero saber como se chama esse médico substituto. Deve ser formidável!

 

— Sam. E tu estás louquinha.

 

— Diz aos tablóides. Gosto dele. Parece-me óptimo.

 

— Não sabes nada sobre ele — replicou Zoe com firmeza, tentando manter-se calma. Não sabia porquê, mas Tanya tinha a habilidade de a enervar. Sempre fora capaz de o fazer.

 

— Sei que estás assustada com ele, o que significa que deve ser um relacionamento sério. Se fosse um pateta não te importarias. Creio que sabes que seria perfeito para ti. Há quanto tempo o conheces?

 

— Desde a Faculdade de Medicina. Andámos juntos em Stanford.

 

Zoe não percebia como estava a responder às perguntas dela e Mary Stuart sorria, retocando o baton. Era como nos velhos tempos. Costumavam ter discussões daquelas ao pequeno-almoço em Berkeley. Tanya estava tão apaixonada por Bobby Joe que achava que toda a gente devia estar apaixonada, noiva ou para casar. Não tinha mudado muito.

 

— Conhecem-se desde a Faculdade de Medicina? Porque é que não houve nada entre vocês até agora? — Tanya parecia quase ofendida.

 

— Porque estivemos ambos envolvidos com outras pessoas, outras vidas. Deixei de saber dele durante uns tempos e agora trabalha ocasionalmente para mim. E uma pessoa simpática, mas nada mais. E agora vamos ver os cavalos, ou ficamos todo o dia a falar sobre Sam?

 

— Penso que devias sair com ele e dar-lhe uma oportunidade — resmungou Tanya, levantando-se da mesa. Havia muitos anos que não se divertia tanto, nem as outras. — Voto por Sam. Temos de voltar a falar disto noutras ocasiões.

 

— Sem falta! — respondeu Zoe, erguendo os olhos para o céu, enquanto se dirigiam para as cavalariças. Foram as últimas a chegar e o aparecimento de Tanya causou novamente sensação. Houve murmúrios, pessoas a olharem-nas, garotos a acotovelarem-se e a apontarem de dedo espetado. Algumas pessoas tentaram fotografá-la, mas ela esquivou-se habilmente. Não se importava de ser fotografada com admiradores, de tempos a tempos, mas no estava disposta a permitir que se intrometessem na sua vida particular, e ali estava decididamente «fora de serviço». «A estrela está fora», cantarolou ao ouvido de Zoe. Mas as suas duas amigas eram hábeis em bloquear a passagem, e as três encontraram-se finalmente num canto afastado, enquanto a empregada que dirigia o serviço ia chamando pêlos nomes das pessoas, para indicar quais eram os seus cavalos. Na noite anterior todos tinham preenchido formulários que desresponsabilizavam o rancho por qualquer acidente e explicavam os seus conhecimentos ou desconhecimento relativamente a cavalos.

 

Tanya escreveu: «Sei montar/ Tenho receio/ Só montarei em nível intermédio na companhia de amigas.» Tanto Mary Stuart como Zoe montavam bastante bem. Mary Stuart tinha mais experiência, mas havia anos que não montava e só o fizera em Inglaterra. Zoe montara várias vezes, mas não recentemente. E nenhuma delas estava ansiosa por provar fosse o que fosse. Queriam apenas passear por trilhos fáceis. A empregada do rancho explicara-lhes que se encontravam ali muitos hóspedes na altura e que seria difícil mandá-las acompanhar separadamente das outras pessoas, mas Tanya dissera-lhe que não se importava de ir com um grupo. Se começassem a incomodá-la ou a querer tirar-lhe fotografias, poderia optar por deixar de fazer esses passeios a cavalo. Mas estava disposta a tentar.

 

Os nomes delas foram os últimos a ser chamados e na altura só faltavam outros três hóspedes. A directora da cavalariça foi falar pessoalmente com Tanya, enquanto um rapaz alto, de cabelo escuro, conduzia o cavalo para junto dela.

 

— Quisemos que partissem primeiro os grupos mais numerosos — explicou Liz Thompson. Era uma mulher alta e magra, com um aperto de mão vigoroso e um rosto de quem vivia a maior parte do tempo ao ar livre. Devia ter pouco mais de cinquenta anos. - Pensei que não gostasse de ter cinquenta pessoas a tirarem-lhe fotografias enquanto montava — disse sensatamente. Tanya agradeceu-lhe. — Reparei que não tem grande paixão por cavalos — continuou Liz, sorrindo —, mas creio que temos aqui um velho amigo para si.

 

Tanya não percebeu bem se ela se referia ao cavalo, se ao homem que o trazia, mas era óbvio, olhando para o homem, que não se referia a ele. Com efeito, devia ter cerca de quarenta anos, era alto, de ombros largos e bem constituído. Além disso, tinha um rosto bronzeado, interessante. Olhando-o mais de perto reparou que era até bem-parecido. As maçãs do rosto eram talvez um pouco largas e o queixo demasiado proeminente, mas o conjunto era harmonioso. Tanya viu que ele a olhava com interesse, mas sem agressividade. Quando lho perguntou, ele disse-lhe que era texano e, de facto, falava de uma maneira levemente arrastada, um pouco semelhante à dela. Mas tinham nascido em lados opostos do estado e ele não se mostrou inclinado a falar mais sobre o assunto. A maior parte das pessoas tentava encontrar algo de comum com ela. Ele parecia apenas interessado em selar o cavalo, ajustar os estribos e fazer com que os outros montassem. E assim que Tanya se sentou em cima de Big Max, que era o nome do cavalo dela, ele afastou-se. Tanya só ficou a saber o seu nome quando outro cowboy o chamou. Era Gordon.

 

A Zoe coube uma égua malhada cheia de vivacidade, mas Liz garantiu-lhe que era amigável e Zoe parecia surpreendentemente confortável sobre a sela. Mary Stuart montava um palomino. Big Max era um cavalo preto, grande, de longa crina e cauda quase a roçar pelo solo. Tanya vira-o agitar-se um pouco, na cavalariça, e receava que ele não fosse tão manso como Liz dissera. Não queria andar a lutar contra um cavalo selvagem por aquelas montanhas. Liz explicara-lhe que Big Max se aquietaria logo que saísse dos estábulos, pois não gostava de lá estar.

 

A directora da cavalariça mostrava-se muito atenciosa para com Tanya, muito mais do que Gordon, que se ocupava dos outros três hóspedes que tinham ficado em último lugar, um casal de meia-idade, que se apresentou como Dr. Smith e Dr. Wyman, mas que pareciam ser casados. Eram até parecidos um com o outro, o que divertiu Tanya, que murmurou qualquer coisa ao ouvido de Zoe. E havia também um homem sozinho. Parecia ter uns cinquenta e cinco anos e Mary Stuart não conseguia deixar de olhar para ele. Tinha a sensação de o conhecer. Era alto, magro, e possuía uma abundante cabeleira grisalha e penetrantes olhos azuis. Era um homem bem-parecido e até Tanya teve de admitir que tinha um ar distinto. Reparou que ele notara a presença dela e sorriu ao descobrir de quem se tratava, mas não se aproximou. Parecia igualmente interessado nas outras. Só quando já iam a caminho é que Mary Stuart aproximou o seu cavalo do de Tanya e murmurou:

 

— Sabes quem é? — Finalmente lembrara-se. Tinha-o visto uma vez, mas parecia-lhe diferente. Tanya não o conhecia. Olhou-o mais uma vez e abanou a cabeça, em resposta. — É Hartley Bowman.

 

Tanya levou um instante a recordar-se, forçando-se a não virar a cabeça para o olhar de novo.

 

— O escritor? — sussurrou. Foi a vez de Mary Stuart dizer que sim com a cabeça. Dois dos livros dele encontravam-se agora na lista dos best-sellers. E tinha uma carreira altamente respeitada.

 

— É casado? — quis saber Tanya. Mary Stuart ergueu os olhos para o céu. A amiga era incorrigível.

 

— Viúvo.

 

Mary Stuart lembrava-se de ter lido que a mulher dele morrera de cancro na mama, um ou dois anos antes. Lera na revista Time ou na Newsweek. Como escritor era extremamente considerado. Mary Stuart achava-o interessante e gostaria de conversar com ele, mas não queria comportar-se como as pessoas que incomodavam Tanya.

 

Mary Stuart e Tanya seguiram lado a lado durante um bocado. Zoe começara já a conversar com os dois médicos de Chicago. Tanya tinha razão. Os médicos gostavam muito de conversar uns com os outros. Eram ambos oncologistas e a mulher já tinha ouvido falar na clínica de Zoe. Conversavam animados, enquanto os cavalos percorriam tranquilamente o caminho habitual através do vale. Em tomo deles estendiam-se campos salpicados de flores azuis e amarelas e as enormes montanhas, com os seus picos cobertos de neve, pareciam olhá-los com complacência.

 

— E incrível, não é? — Mary Stuart ouviu uma voz atrás de si e sobressaltou-se. Tanya passou por ela em direcção ao cowboy que acompanhava o grupo. Big Max cansara-se de andar a passo de caracol e ela dera-lhe rédea solta por alguns minutos, o que fizera com que Mary Stuart ficasse sozinha, mas não por muito tempo. Hartley Bowman encontrava-se ao seu lado. — Já tinha aqui estado? — perguntou com ar casual, como se fossem conhecidos de há muito. A verdade é que o ambiente no rancho era bastante informal.

 

— Não, nunca — respondeu calmamente Mary. — E um sítio encantador.

 

Mary não pôde deixar de olhar de relance para ele enquanto cavalgava a seu lado. Era, com efeito, um homem bem-parecido. Tinha um aspecto agradável e impecável. Possuía bonitas mãos, reparou Mary ao vê-lo segurar as rédeas. E uma maneira de montar muito inglesa. Disse-lhe isso e ele riu.

 

— Nunca me sinto perfeitamente à vontade com selas ao estilo do Oeste. Costumo montar em Connecticut — declarou. Mary Stuart disse que sim com a cabeça. Então ele perguntou: — E da costa ocidental?

 

Sentia-se intrigado com ela e com as suas companheiras. Reconhecera imediatamente Tanya e achava que Mary Stuart estava de certo modo deslocada no grupo. Mas não quis fazer perguntas.

 

— Sou de Nova Iorque. Vim passar aqui duas semanas.

 

— Também eu — retorquiu ele, sorrindo, perfeitamente à vontade. — Venho todos os anos. Eu e a minha mulher gostávamos muito disto, mas é a primeira vez que venho desde a morte dela. — Mary Stuart suspeitava de que lhe custava muito estar ali sem a mulher, mas ele não disse nada sobre isso. Mary imaginava que, estando habituado a estar ali com alguém, se devia sentir muito só. — Vem muita gente do Leste para aqui. Vale realmente a pena fazer a viagem. Eu venho por causa das montanhas. Há nelas algo de curativo. Não tencionava voltar cá mais, e o ano passado não vim, mas este ano senti-me compelido a vir. Precisava de estar aqui. — O escritor disse estas palavras com ar pensativo, como se se sentisse surpreendido consigo mesmo por ali estar. — Normalmente prefiro o ar, mas existe algo de mágico em Wyoming e nestas montanhas.

 

Mary sabia exactamente o que ele queria dizer. Desde o dia anterior que sentia o mesmo. Talvez fosse por isso que Jackson Hole começara a ser tão popular nos últimos tempos. Era como a atracção por Meca.

 

— É engraçado ouvi-lo dizer isso — confessou Mary, sentindo-se estranhamente à vontade com ele, dado serem dois estranhos. Mas ele era uma pessoa tão aberta... — Eu também senti o mesmo. Senti-o ontem, quando chegámos. E como se as montanhas estivessem aqui à nossa espera... como se lhes pudéssemos contar os nossos problemas e elas quisessem abraçar-nos.

 

Mary receou ser tomada por tola, mas ele concordou com um simples baixar da cabeça.

 

— Deve ser difícil para a sua amiga o género de atenção que lhe dispensam — disse ele afectuosamente. — Reparei na transformação que se deu nas pessoas que se encontravam na casa de jantar quando vocês ontem entraram. Sem se aperceberem disso, as pessoas tomam atitudes perfeitamente idiotas. Não consegue passar um momento sem que as pessoas queiram aproximar-se dela, tirar-lhe fotografias, tentarem tomar parte da sua aura.

 

Era uma análise interessante e verdadeira. Mary Stuart ficou intrigada por ele a fazer tão claramente.

 

— Deve ser difícil para qualquer pessoa que seja muito conhecida — respondeu Mary, sem lhe querer dizer que o reconhecera, que lera os seus últimos livros e que gostara bastante. Não queria que julgasse que falava com ele por se tratar de uma pessoa conhecida. Convivendo com Tanya há tantos anos, sabia bem o que as pessoas na situação deles sentiam.

 

— Tem as suas desvantagens — retorquiu. Depois olhou para Mary Stuart com um sorriso. Percebera perfeitamente que ela sabia quem ele era. — Mas eu não estou na situação dela. Poucos estão. Só muito poucas pessoas no mundo têm de suportar o que ela suporta. Mas parece aceitá-lo de bom grado.

 

— Pois é — respondeu firmemente.

 

— Trabalha com ela?

 

Não queria mostrar-se curioso, mas tentava descobrir se as duas mulheres que se viam constantemente ao lado de Tanya Thomas eram suas assistentes.

 

— Fomos companheiras de quarto na universidade — explicou Mary com um sorriso.

 

— E ainda são amigas? E espantoso. E uma verdadeira história, mas... — acrescentou apressadamente, antes que ela se assustasse - para um livro, não para os jornais.

 

— Obrigada. Ela é constantemente injuriada. E tão injusto!

— Logo que alguém se torna uma estrela, certa imprensa deixa de a encarar como um ser humano. E tratado como lixo — concluiu tristemente.

 

Mary Stuart concordou com um gesto.

 

— Ela costuma afirmar que «é passar a vida como um objecto». Diz que a transformam numa coisa e que depois tudo quanto lhe possam fazer é permitido. Ela suporta muita coisa. Não sei como o consegue!

 

— Deve ser forte — replicou, sorrindo para Mary Stuart e admirando a sua aparência impecável. Gostava do estilo dela, mas não se atrevia a dizer-lho. — E tem a sorte de possuir boas amigas.

 

— E nós temos sorte por a ter como amiga — disse Mary Stuart, sorrindo de novo. — Foi inteiramente ocasional termos vindo. Foi tudo decidido no último minuto.

 

— Que sorte para nós - disse ele. - Vocês as três melhoram visivelmente a paisagem. — Olhou para Tanya, que ia mais adiante, cavalgando airosamente ao lado do cowboy. Mary Stuart reparou que eles não iam a conversar. — E uma mulher fantasticamente bonita.

 

Era evidente que não podia deixar de a admirar e Mary Stuart concordou, com um sorriso, sem qualquer sombra de inveja.

 

— Tenho todos os CD's dela — confessou, mostrando-se ligeiramente embaraçado. — Gosto realmente da música dela.

 

— E eu tenho todos os seus livros — retorquiu Mary, corando.

 

— Tem? — Ele ficou obviamente satisfeito e estendeu-lhe a mão, apresentando-se, o que não era necessário, mas apenas uma questão de boas maneiras. — Hartley Bowman.

— Eu sou Mary Stuart Walker.

 

Apertaram as mãos por cima dos pescoços dos cavalos e continuaram o caminho, conversando afavelmente. Tanya e o acompanhante do grupo iam mais à frente e os médicos tinham ficado para trás, discutindo artigos, questões de pesquisa e novas descobertas feitas recentemente em oncologia em Mast General.

 

Mary Stuart e Hartley conversaram durante um bocado a respeito de livros, de Nova Iorque, de outros autores e da Europa. Quando Mary Stuart disse que a filha estudava em Paris, isso foi o ponto de partida para inúmeros outros assuntos, e ficaram ambos surpreendidos quando o acompanhante voltou lentamente para trás e os conduziu de novo para a cavalariça. Estava quase na hora do almoço. Hartley e Mary Stuart continuavam ainda a conversar quando desmontaram e ela reparou numa expressão estranha no rosto de Tanya enquanto entregava as rédeas ao cowboy.

 

— Estás bem? — perguntou quando Tanya se aproximou dela. Depois de ser apresentada a Hartley Bowman, Tanya disse:

 

— Eu estou bem. Mas este homem que nos acompanhou é uma pessoa estranha. Não foi capaz de me dizer uma única palavra durante todo o caminho e procedeu como se eu tivesse peste bubónica ou coisa semelhante. Deve detestar-me!

 

Mary Stuart riu da avaliação da situação. Nunca conhecera um homem que detestasse Tanya. Pelo menos no primeiro encontro.

 

— Talvez seja tímido — lembrou Mary Stuart. — Pareceu-me bastante agradável. Não é conversador, pronto!

 

— Muitos deles são assim — explicou Hartley. — Nos primeiros dias mal nos falam, e quando nos vamos embora é como se fôssemos irmãos. Não estão habituados aos modos das pessoas das grandes cidades e não são tão faladores como nós.

 

Tanya sorriu-lhe.

 

— Até pensei que tinha dito alguma coisa que o ofendesse — Tanya parecia ligeiramente preocupada.

 

— Suspeito de que Liz lhe tenha recomendado para ter cuidado na maneira de tratar consigo. Deve ser impressionante para estes rapazes estarem junto de uma grande estrela como você. — Hartley sorriu, o que o rejuvenesceu, apesar do cabelo grisalho. Depois acrescentou: — Tenho todos os seus discos Miss Thomas. E gosto imenso deles.

 

— Também já li os seus livros e gosto deles. Gosto mesmo muito — respondeu Tanya com um sorriso. Ficava sempre surpreendida quando uma pessoa importante se mostrava impressionada com ela. Nunca compreendia bem isso. Sentia uma certa timidez diante de Hartley. Ambos estavam pouco confortáveis com os seus respectivos sucessos. O escritor parecia muito mais à vontade com Mary Stuart do que com Tanya. Depois, quando Zoe foi ter com elas, dizendo que passara uma óptima manhã e que gostara muito de falar com os dois médicos, Mary Stuart apresentou-a a Hartley.

 

— Qual é a sua especialidade? — perguntou-lhe o escritor enquanto se dirigiam vagarosamente para as cabanas para se arranjarem para o almoço.

 

— Sida — respondeu simplesmente Zoe — e problemas relacionados com a doença. Tenho uma clínica em São Francisco.

 

Ele disse lentamente que sim com a cabeça. Pensava há muito em escrever um livro sobre esse assunto, mas ainda não se decidira a iniciar a necessária pesquisa. Porém, ficou visivelmente fascinado com o trabalho dela e fez-lhe inúmeras perguntas. Ficou com pena de as deixar em frente da casa, e disse que se encontrariam à hora do almoço. Tanya viu-o afastar-se lentamente, de cabeça baixa e ar meditativo.

 

— Que homem interessante — comentou, enquanto tirava o lenço que tinha ao pescoço. O tempo aquecera desde manhã.

 

— E doido pela tua música — disse Mary Stuart encorajadoramente. Gostaria de ver Tanya com alguém como Hartley, embora tivesse de admitir que tinham pouco em comum. Hartley era muito delicado e muito ocidental, intelectual, mas ao mesmo tempo mundano, e muito educado. Tanya era muito mais exuberante e sensual, não selvagem, mas cheia de vida. Precisava de um homem mais forte para a dominar, ou, pelo menos, fazê-la feliz.

 

— Pode ser doido pela minha música — replicou sensatamente Tanya —, mas está interessado é por ti. Está-lhe escrito na cara. Não tirava os olhos de ti!

 

— Que disparate! Está intrigado com as três. Acha-nos uma espécie de Anjos de Charlie.

 

— Aposto o teu dinheiro em corno ele virá ter contigo antes de saíres daqui — declarou Tanya completamente segura de si, o que fez com que Zoe, que lavava as mãos na cozinha, erguesse os olhos para o tecto.

 

— Vocês as duas são insuportáveis. Não pensas em mais nada, querida?

 

— Não — respondeu Tanya com um sorriso malicioso. — Sexo. Só sexo. Lê os jornais! — Mas elas sabiam que não era assim. Tanya sempre fora e continuava a ser uma rapariga cheia de moralidade. Talvez ainda mais do que as outras. E sempre fora monógama. — Só estou a dizer o que vejo — insistiu Tanya. — O homem está doido por Mary Stuart!

 

— Como é que pode estar doido por mim? Foi a primeira vez que o vi!

 

— Bem, a mulher dele morreu há dois anos, não foi? Por isso ele deve estar doido de todo. Tem cuidado com ele, Stu. Poderá ser violento...

 

Mary Stuart e Zoe riram com gosto, enquanto Tanya prendia o forte cabelo louro no alto da cabeça, ficando com um ar ainda mais sexy do que tinha de manhã.

 

— Porque é que não usas um saco enfiado na cabeça, ou coisa assim? — exclamou Mary Stuart, fingindo-se irritada. — Não sei porque me dou ao trabalho de me pentear, se tu ficas assim, sem sequer olhares para o espelho.

 

— Sim. E vê lá para que me serve isso: o homem que nos acompanhou não pronunciou uma única palavra. Oh!, até pensei que tinha os lábios selados. Não disse nada, absolutamente nada. Que antipático!

 

— Agora também andas a tentar laçar cowboys? — perguntou Zoe com ar severo.

 

Tanya mostrou-se ofendida.

 

— Eu só queria alguém com quem conversar. Esse tal escritor, seja ele quem for, conversava animadamente com Mary; os médicos falavam contigo de assuntos repugnantes, que só de pensar neles me faz dar a volta ao estômago, e eu fiquei só com aquele Roy Rodgers. Bem, digo-lhes que merece um zero em conversação.

 

— Sempre é melhor do que se se mostrasse atrevido contigo — replicou sensatamente Zoe. — Ou se fosse um dos teus loucos fãs a fazer-te perguntas estúpidas.

 

— Sim — concordou Tanya. — Mas, de qualquer modo, foi aborrecido.

 

Ouviram tocar o sino para chamar para o almoço e quando se preparavam para sair o telefone tocou. Olharam as três umas para as outras, tentadas a não atenderem, mas sabiam que tinham de o fazer, e Zoe dispôs-se a fazê-lo. Podia ser Sam, por causa de algum doente, ou por causa de Jade. Mas era a secretária de Tanya. Precisava de falar com ela sobre um contrato. Ia enviar-lhe os originais para ela assinar, por causa da tournee; um exemplar do Federal Express, a pedido do advogado, que queria falar com ela logo que Tanya o tivesse lido. Quando a ouviu, Tanya ficou logo nervosa.

 

— Está bem, quando chegarem dou-lhes uma vista de olhos.

 

— Ele quer que lhos devolva logo que os leia.

 

— Está bem. Eu mando. Mais alguma coisa importante que eu deva saber? — perguntou Tanya. Uma das empregadas que despedira concordara em não a processar, o que era bom. A Vogue e a Harper's Bazaar queriam ambas entrevistá-la, e uma das revistas de cinema andava a fazer perguntas para escrever um artigo sobre ela. — Obrigada pelas boas notícias — disse Tanya, detestando ouvir aquilo. As palavras de Jean tinham-lhe feito recordar o feio mundo de que queria fugir, ali, em Wyoming. Estava ansiosa por desligar e ir ter com as amigas.

 

— Está tudo bem? — perguntou Mary Stuart, olhando-a com ar apreensivo. Tanya parecia outra vez preocupada e Mary Stuart detestava vê-la assim.

 

— Mais ou menos. Por agora não tenho mais ninguém a processar-me, e uma revista qualquer procura escrever uma história feia sobre mim. Nada de muito importante, creio.

 

Mas era como se lhe partissem a alma de cada vez que a caluniavam ou difamavam. E um dia acabaria por nada lhe restar da sua própria alma. Mas para os outros não faria diferença.

 

— Não lhes dês atenção — sugeriu Zoe. — Não leias o que escrevem.

 

Quando ela fundara a clínica tinham surgido algumas criticas desagradáveis a seu respeito, mas não era a mesma coisa, e Tanya sabia isso melhor que ninguém.

 

Os ataques que faziam a Tanya eram pessoais, ofensivos, e magoavam-na profundamente.

 

— Tenta esquecer - disse Mary Stuart. E saíram de casa de braço dado; dirigiram-se para a casa do rancho conversando animadamente. Entraram assim na casa de jantar, sem fazerem ideia da impressão que causavam. Eram três mulheres muito interessantes. Da sua mesa, sem que elas o vissem, Hartley Bowman não tirava os olhos de Mary Stuart.

 

O passeio que deram nessa tarde foi tão agradável como o da manhã. Os grupos foram organizados da mesma maneira, com os mesmos acompanhantes. Seria assim durante toda a permanência ali. Os cavalos também seriam sempre os mesmos. Liz, a directora da cavalariça, quis saber se toda a gente estava satisfeita e ninguém apresentou qualquer reclamação.

 

Zoe voltou a conversar com o casal de médicos e Tanya tentou não os ouvir, pois o tópico da conversa centrava-se nos transplantes, o que não era melhor que o da amputação de membros, tema da conversa matinal. Tentando distanciar-se de Mary Stuart e de Hartley, que falavam de um livro que ambos tinham lido, Tanya encontrou-se de novo ao lado do cowboy que os acompanhava. Mais uma vez percorreram o que lhe pareceu milhas em silêncio. Finalmente, sem poder suportar mais aquilo, Tanya olhou-o por cima do pescoço do cavalo, mas ele nem voltou a cabeça. Era como se não soubesse que ia alguém ao lado. Ela ia ali como se estivesse sozinha, pois ele nem parecia dar pela presença dela.

 

— Há alguma coisa em mim que o incomode? — perguntou Tanya com uma expressão irritada. Ele começava a aborrecê-la. Não estava a divertir-se e nem sequer simpatizava com ele.

 

— Não, minha senhora, absolutamente nada — respondeu o cowboy sem mudar de expressão. Tanya pensou que ele ia continuar silencioso e teve vontade de lhe dar um pontapé. Era o homem mais taciturno que alguma vez conhecera, e não o suportava. Habitualmente as pessoas falavam com ela, ou, pelo menos, olhavam-na. Nunca encontrara ninguém com as reacções de Gordon. Mas umas centenas de metros mais adiante, quando Tanya debatia consigo mesma se mereceria a pena tentar voltar a meter conversa com o seu silencioso companheiro, ele surpreendeu-a, dizendo: — E realmente uma boa cavaleira.

Ao princípio, Tanya nem podia acreditar que ele tivesse falado, e reparou que a olhou rapidamente, de relance, voltando logo a seguir a desviar o olhar. Era quase como se ela irradiasse uma luz ofuscante. Era isso que o incomodava, mas Tanya não sabia.

 

— Obrigada, eu não gosto muito de cavalos — disse Tanya, acrescentando mentalmente: «Nem de cowboys. Nem de pessoas que não falam comigo.»

 

— Vi isso no impresso, minha senhora. Alguma razão especial? Uma queda?

 

Tanya desconfiava que era o máximo que ele dissera a qualquer pessoa durante um ano inteiro, mas, pelo menos, estava a tentar falar. Tratava-se, obviamente, de um homem de poucas palavras, mas começava a pensar que Hartley talvez tivesse razão e ele fosse apenas tímido e não estivesse habituado às pessoas da cidade. «Então devia ter arranjado trabalho a fazer sapatos, e não a acompanhar hóspedes de um hotel», pensou Tanya, observando-o.

 

— Não. Nunca caí. Mas acho os cavalos estúpidos. Em criança andei muito a cavalo, mas nunca gostei.

 

— Eu cresci em cima de um cavalo — retorquiu ele prosaicamente. — A laçar novilhos. O meu pai trabalhava num rancho e eu trabalhava ao lado dele. — Mas não disse que o pai morrera quando ele tinha dez anos e que fora ele quem sustentara a mãe e quatro irmãs até elas casarem, e que continuava a sustentar a mãe. Também não disse que tinha um filho em Montana, a quem ajudava sempre que podia. Apesar do que Tanya pensava a respeito dele, Gordon Wahsbaugh era um homem bom e inteligente. — A maior parte das pessoas que aqui vem diz que sabe montar, acha que sim, mas não faz ideia do que está a fazer. Quase todos acabam por morder o pó e são perigosos, porque se podem magoar gravemente. — Era uma constatação evidente e ela sabia-o. Tanya olhou-o de lado e viu que ele sorria. — Nunca andei a cavalo ao lado de uma pessoa famosa. Isso toma-me um pouco nervoso.

 

Gordon mostrava-se tão sincero que Tanya se sentiu impressionada e arrependida das observações que fizera sobre ele ao almoço.

 

— Porquê? Não há razão para tal.

 

A noção que ele tinha sobre ela divertia-a. Era raro ver-se sob tal perspectiva. Nunca compreendera por que razão as pessoas se sentiam fascinadas ou intimidadas por ela.

 

— Não queria dizer nada que lhe desagradasse ou a pudesse fazer zangar.

 

Tanya soltou uma gargalhada, no preciso momento em que entravam numa clareira. A luz iluminava os montes que os rodeavam, tomando-os ainda mais belos, e ao longe via-se um coiote.

 

— Fiquei aborrecida por não ter falado comigo esta manhã — confessou Tanya com um sorriso, vendo que ele a olhava de soslaio, cautelosamente. Gordon não sabia se poderia falar descontraidamente com ela. Percebia isso muito bem. — Pensei que me detestasse, ou coisa assim.

 

— Porque havia de a detestar? Aqui toda a gente a quer conhecer. Compraram os seus CDs, querem pedir-lhe autógrafos. Até compraram um vídeo seu. Fomos informados de que não devíamos fazer-lhe perguntas nem aborrecê-la. Achei que era melhor não lhe dizer coisa alguma. Não queria maçá-la. Os outros fazem figura de idiotas. Tentei que pusessem outra pessoa no meu lugar. Não sou muito conversador. — Gordon mostrava-se tão sincero que, apesar do que pensara anteriormente a seu respeito, Tanya simpatizava com ele. E reparava que era surpreendentemente asseado e educado para cowboy. — Lamento tê-la magoado — acrescentou Gordon.

 

Tanya ia dizer que não a tinha magoado, mas a verdade é que tinha. O facto de ele não falar com ela magoara-a, e isso era algo de novo para Tanya. — Achei que seria mais repousante para si se eu ficasse calado.

 

— Bem, faça um pequeno ruído de tempos a tempos, só para eu saber que ainda respira — retorquiu Tanya com um sorriso, e ele riu.

 

— As pessoas não a devem deixar em paz. Eu nem podia acreditar quando vi as pessoas ficarem todas loucas quando souberam que vinha para aqui. Deve ser duro para si — acrescentou com ar casual, indo ao cerne da questão.

 

— De facto, é — disse Tanya com sinceridade, enquanto seguiam por um campo coberto de flores silvestres, em direcção à encosta da montanha. Era como se procurasse a verdade ou tivesse descoberto o nirvana. Havia algo naquele lugar que a comovia profundamente. Inicialmente tivera a ideia de ir para ali para distrair os enteados, depois as amigas, mas agora estava a descobrir algo que a sua alma perdera há muito, uma espécie de paz que há muito esquecera. — As pessoas a quererem agarrar-me, tirar-me sempre qualquer coisa, é como se me quisessem sugar o espírito, embora sem o saberem... às vezes penso que um dia isso me matará, ou mesmo que alguém o fará. — O pesadelo da morte de John Lennon, assassinado por um admirador, era algo bem vivo na memória de todas as pessoas famosas, que tinham multidões de admiradores, como ela. Mas havia outros pesadelos igualmente letais a longo prazo, embora menos óbvios do que a arma que matara Lennon. — A minha vida é uma loucura — murmurou Tanya pensativamente. — De início não era, mas tomou-se assim. E creio que nunca irá mudar.

 

— Devia comprar um rancho para viver aqui — disse ele olhando em frente, em direcção às montanhas. — Vêm cá muitas pessoas famosas para se esconderem um bocado, para fugirem, recuperarem o ânimo. Vêm para aqui, ou para o Colorado, ou Montana, com a mesma ideia. E também podia voltar para o Texas — concluiu, com um sorriso.

 

— Creio que já ultrapassei essa fase — confessou Tanya com uma expressão de desagrado. Gordon riu. A gargalhada dele era um som fresco, fácil, que se lhe adaptava perfeitamente e que fez com que Tanya sorrisse.

 

— Também acho. O Texas é demasiado quente, poeirento e deserto. Por isso é que vim para aqui. Sinto-me melhor nesta terra — acrescentou, olhando a paisagem que o rodeava. Era fácil ver porquê. Quem não se sentiria bem ali?

 

— Vive aqui durante todo o ano? — perguntou Tanya. Aquela conversa agradava-lhe. Mesmo que não voltasse a vê-lo, agora falavam como dois seres humanos. Ele sabia alguma coisa a respeito dela e ela acerca dele. Pensou que talvez escrevesse uma canção sobre ele. O Cowboy Silencioso.

 

— Sim, minha senhora — disse ele.

 

— E como é? — perguntou Tanya, pensando na canção.

 

— Frio. — Gordon sorriu e olhou-a novamente de relance. Ela era tão bonita que o assustava. Tornava-se mais fácil não a olhar. — As vezes chegamos a ter quase um metro de altura de neve. Em Outubro mandamos os cavalos para o Sul. Não se pode andar de um lado para o outro, a não ser num carro para fender a neve.

 

— Deve ser muito solitário — disse pensativamente Tanya, tentando imaginar como seria. Aquilo ficava a anos-luz da sua mansão de Bel Air, dos estúdios de gravação, dos concertos, dos filmes. Quase um metro de altura de neve, um homem solitário...

 

— Eu gosto — disse ele. — Mantenho-me ocupado. Tenho muito tempo para ler, para pensar. Escrevo umas coisas. Ouço música... — acrescentou cautelosamente, olhando-a de relance.

 

— Não me diga que me ouve quando está aqui, rodeado de neve por todos os lados, no Inverno!...

 

A ideia era-lhe de tal modo estranha que a espantava. No entanto, agradava-lhe.

 

— As vezes — confessou ele. — Também ouço outras coisas. Música popular. Costumava gostar de jazz, mas agora não ouço muito. Beethoven, Mozart...

 

Na verdade, aquele homem intrigava-a. Decididamente, tinha-o avaliado mal. Apetecia-lhe perguntar se era casado, se tinha família, apenas por curiosidade, não por ter qualquer interesse nele, mas achou que seria uma pergunta demasiado pessoal e sentia que ele ficaria ofendido. Gordon era cuidadoso em estabelecer limites e em escudar-se bem atrás deles. Mas antes que Tanya pudesse perguntar-lhe fosse o que fosse acerca da vida dele, os outros membros do grupo aproximaram-se.

 

Hartley e Mary Stuart conversavam animadamente e os médicos continuavam a falar de antigos doentes, encantados com as suas discussões. Era um grupo surpreendentemente bem-disposto e ficaram todos aborrecidos quando o passeio acabou. Eram quatro horas e estavam livres para irem para a piscina, fazer alpinismo ou jogar ténis, mas estavam todos exaustos, e o rosto de Zoe revelava isso mesmo. Desde a véspera que Tanya reparara que Zoe estava muito pálida. Sempre tivera uma pele muito branca, mas essa palidez acentuara-se.

 

O casal de médicos de Chicago foi dar um passeio para apanhar flores silvestres, e Hartley acompanhou as três mulheres até à casa delas. Ficaram surpreendidas ao repararem num rapazinho sentado nos degraus da entrada. Quando o viu, Mary Stuart teve uma reacção visceral. O garoto devia ter uns seis anos e parecia estar à espera de alguém.

 

— Olá — disse Tanya com familiaridade. — Andaste a cavalo hoje?

 

— Sim — respondeu ele, puxando o chapéu de cowboy vermelho para a nuca. Calçava botas de cowboy, pretas, com pequenos búfalos vermelhos, e tinha umas calças e um blusão de ganga. - O meu cavalo chama-se Rust.

 

— E tu, como te chamas? — perguntou Zoe, sentando-se ao seu lado, contente por descansar um momento. A altitude dificultava-lhe a respiração.

 

— Benjamin — respondeu ele com ar sério. — A minha me vai ter um bebé e não pode andar a cavalo. — O garoto estava mais que disposto a dar a informação e Zoe e Tanya entreolharam-se, sorrindo. Mary Stuart estava parada a pouca distância, falando com Hartley, mas tinha a testa franzida, sem se aperceber disso. O rapaz parecia-se tanto com Todd quando tinha a mesma idade que o coração se lhe apertou. Tanya pensou isso mesmo, mas não disse nada a Zoe, com receio de que Mary Stuart a ouvisse. E o mais estranho era o garoto olhar fixamente para Mary Stuart, como se a conhecesse. Era impressionante. — A minha tia é muito parecida consigo — disse finalmente o rapaz, fascinado com Mary Stuart, embora fosse a única do grupo que não lhe tinha falado, nem quisera fazê-lo. Não se afastara por causa dele, mas também não entrara na conversa. E Hartley viu qualquer coisa nos olhos dela que o intrigou.

 

— Tem filhos? — perguntou. Reparara na aliança que ela trazia no dedo, mas ficara com a impressão de que estava sozinha, devido ao que ela dissera sobre a maneira como decidira passar ali as férias. Porém, não sabia exactamente se estava casada ou não. E praticamente o mesmo se passava com a própria Mary Stuart.

 

— Sim, tenho... — respondeu vagamente à pergunta dele. — Uma filha... e um filho... que morreu — acrescentou em voz baixa. Hartley queria fazer-lhe mais perguntas, mas viu a tristeza nos olhos dela e não insistiu. Mary Stuart voltou as costas ao rapaz e entrou em casa com Hartley. Não queria continuar a olhar para a criança.

 

— Ele era... — Hartley hesitou. Queria chegar até ela, mas não sabia como —... era muito novo quando morreu? — perguntou cautelosamente, pensando se devia ter feito a pergunta. Mas queria saber mais coisas a respeito de Mary. Talvez fosse por isso que ela tivesse ido para ali. Talvez tivesse morrido num acidente com o pai... ou talvez ela ainda fosse casada. Havia perguntas que lhe queria fazer. Depois de ter conversado com ela durante todo o dia, sentia que eram amigos. Estavam tão isolados do mundo que conheciam, naquele local impressionante, reunidos por momentos!... Se iam tornar-se amigos, precisavam de saber tudo acerca um do outro muito rapidamente.

 

— Todd tinha vinte anos quando morreu — murmurou Mary Stuart, tentando não olhar para o rapazinho, que podia ver lá fora a conversar com Tanya e Zoe. — Foi o ano passado — disse, olhando para as mãos por um momento.

 

— Lamento muito — murmurou Hartley, atrevendo-se a tocar-lhe nas mãos por um instante. Sabia muito bem o que era perder um ente querido. Ele e Margaret haviam sido casados vinte e seis anos e nunca tinham tido filhos. Ela não podia. E ele aceitara o facto. De certo modo, sempre achara que isso os aproximava ainda mais. Mas agora olhava para Mary Stuart e mal podia adivinhar aquilo por que ela passara. — Deve ser terrível perder um filho. Não posso imaginar o que seja. Já foi muito mau quando Margaret morreu. Julguei morrer também. Ficava surpreendido ao acordar em cada manhã. Esperava morrer de desgosto e fiquei admirado por tal não suceder. Falo nisso no livro que escrevi este Inverno.

 

— Escrever deve ajudar — murmurou Mary, enquanto se sentavam no sofá da sala. As duas amigas continuavam lá fora a falar com o garoto, mas dali ela não as podia ver. — Gostava de poder escrever sobre o que se passou. Mas agora estou melhor. Consegui finalmente pôr de parte as coisas dele, antes de vir para aqui. Não fui capaz de fazê-lo mais cedo.

 

— Eu levei quase dois anos a suavizar o desgosto de perder Margaret — disse Hartley com sinceridade. Desde então só saíra com duas mulheres e ficara a detestar ambas por não serem ela. Conhecia bem a dor do reajustamento. Ela, pelo menos, não precisava de passar por isso, pensava ele, embora não soubesse qual era a sua situação com o marido. — Também deve ter sido muito duro para o seu marido — acrescentou Hartley, tentando obter informações, mas Mary não se apercebeu. Hartley vira a fina aliança no seu dedo, mas o modo como ela falava não confirmava que fosse casada.

 

— Na verdade — respondeu Mary com toda a franqueza —, também foi muito duro para ele. E o nosso casamento não sobreviveu.

 

Hartley disse que sim com a cabeça. Também sabia isso, não por experiência própria, mas por causa de um primo que passara pelo mesmo. Não era surpreendente.

 

— Onde está ele agora?

 

— Em Londres.

 

Hartley disse que sim de novo com a cabeça. Era o que queria saber. Mas julgou que ele vivesse lá. Mary Stuart não percebeu por que motivo ele fizera a pergunta e pensava que estava apenas a ser amigável. Havia muito tempo que um homem não mostrava interesse por ela e não compreendia que fosse esse o caso com Hartley. De momento, julgava que eram apenas pessoas que passavam férias no mesmo local, embora se sentisse bem na sua companhia e gostasse de conversar com ele.

Por fim Hartley perguntou se queriam jantar com ele e Mary disse que perguntaria às outras. Depois ele deixou-a para ir trabalhar um pouco e ler o correio. Prometeu encontrá-lo à hora do jantar e quando as amigas chegaram, Mary falou-lhes do convite. Como era de prever, ambas gracejaram com ela, especialmente Tanya.

 

— Que rapidez, Stu! Gosto dele. — Sorria, e Mary Stuart atirou-lhe com uma pequena almofada, fingindo-se zangada.

 

— Deixa-te de tolices! Ele convidou-nos às três e não apenas a mim. Perdeu a mulher, sente-se só e não tem ninguém com quem falar.

 

— Parece muito contente a falar contigo — prosseguiu Tanya, impiedosamente, e Mary Stuart chamou-lhe tola.

 

— E muito simpático, muito inteligente e está muito só.

 

— E muito interessado em ti. Não sou cega, embora tu sejas. Creio que és casada há demasiado tempo e nem te apercebes quando olham para ti.

 

— Então e tu com o cowboy — replicou imediatamente Mary Stuart. Pareciam duas colegiais. — Conseguiste desbloquear-lhe a fala. Até conseguiste que sorrisse!...

 

— E um verdadeiro carácter. Vive aqui sozinho durante o Inverno, rodeado de neve.

 

Não lhes contou que ele lhe dissera que ouvia a música dela. Claro que não existia nada de romântico entre eles. Apenas cavalos.

 

— Acho que são as duas cegas — declarou Zoe. — Hartley Bowman parece apaixonado por Mary Stuart e aposto que antes de nos irmos embora o teu cowboy vai ficar perdido por ti, Tanya. E uma previsão que eu faço.

Ambas riram e Tanya encolheu os ombros. Era um disparate tão grande que nem merecia comentários.

 

— E tu Zoe? Vais destruir um casamento e fugir com o médico de Chicago?

 

Ele era baixo, gordo e careca, e só a ideia dava Vontade de rir.

 

— Infelizmente, a mulher é mais interessante do que ele, o que é um verdadeiro problema. Teria de fugir com ela, e isso está fora da minha linha, portanto, acho que estou a salvo.

 

— Não te esqueças de Sam! — lembrou Tanya. Zoe resmungou. Não era recordação que lhe agradasse.

 

— Mete-te na tua vida. Mal sabe ele que tem aqui uma defensora. Olha, quando fores a São Francisco apresento-te e poderão sair juntos. Hás-de gostar dele.

 

— Combinado. Falemos agora sobre Mary Stuart. — Voltou a sua atenção para ela e Mary Stuart soltou uma exclamação de desagrado, prevendo o que se iria passar. — Fala-nos do teu novo amigo.

 

— Não há nada a dizer, já te expliquei. É apenas uma pessoa solitária.

 

— O mesmo sucede contigo. E comigo. E com Zoe. Que tem isso de especial? — replicou Tanya, estendendo-se no sofá. Doíam-lhe as pernas. Tinham andado muito tempo a cavalo.

 

— Eu não me sinto só — corrigiu Zoe. — Sou muito feliz.

 

— Já sei, és uma santa. Mas digo-te que apenas não sabes que te sentes só — concluiu Tanya, e todas riram.

— Esqueçam tudo isso — retorquiu Zoe. — Eu vou sair é com Benjamin — declarou Zoe com um sorriso. Era uma criança adorável e ambas tinham gostado dele.

 

— Bela ideia — aprovou Tanya. Mary Stuart ficou calada, mas depois perguntou o que decidiam a respeito do convite de Hartley Bowman. Deviam aceitar o convite dele? — Porque não? — perguntou Tanya. — Talvez consigamos que ele se aproxime mais de Mary Stuart.

 

— Calma — exclamou Mary Stuart, gravemente. — Eu ainda sou casada.

 

— Ele sabe disso? — perguntou Zoe com interesse. Mary Stuart trazia uma aliança de casamento, mas ele podia ter-se interrogado onde estaria o marido e por que motivo ela se encontraria no rancho com duas mulheres.

 

— Ele não me perguntou — respondeu Mary Stuart, o que confirmava a sua convicção de que estava apenas interessado na sua amizade. — Perguntou-me uma vez onde estava o meu marido e eu disse-lhe que se encontrava em Londres.

 

— Oh!... Oh!... — exclamou sensatamente Tanya. — E melhor esclareceres isso. Se perguntou pode ter ficado com uma impressão errada com a tua resposta.

 

— Disse-lhe que o nosso casamento não sobrevivera à morte do nosso filho — explicou Mary Stuart com naturalidade.

 

— Disseste-lhe isso? — perguntou Tanya, espantada. Era muito para contar a um desconhecido. Mas tinham passado seis horas a cavalgar lado a lado. Era mais tempo do que muitos casais passam juntos numa semana e ele mostrava-se muito interessado nela.

 

— Talvez eu lhe deva dizer que ainda sou casada — acrescentou Mary Stuart, embora não soubesse durante quanto tempo mais. Mas, de certo modo, parecia-lhe presunçoso fornecer-lhe voluntariamente essa informação. E se ele não estivesse interessado em saber se ela era casada? — Não sei. Verei o que é mais apropriado. Não creio que ele esteja interessado dessa maneira — declarou timidamente Mary Stuart. As outras duas troçaram dela. — Vocês são insuportáveis! — exclamou Mary. Foi tomar um duche, enquanto Zoe telefonava a Sam. Queria saber o que se passava na clínica, mas Sam estava na sala de tratamentos com um doente e Annalee disse-lhe que estava tudo a correr sem problemas. Depois disso, Zoe deitou-se e dormiu uma curta sesta antes do jantar. Ficou surpreendida por se sentir tão bem ao acordar. O sono fazia realmente muita falta.

 

Nessa noite jantaram as três com Hartley. Ele era inteligente, interessante e maravilhosamente culto. Viajara por toda a parte, conhecia coisas fascinantes e todo o género de pessoas. Além disso, era extremamente delicado, sabendo dividir a sua atenção pelas suas três convidadas. Nunca deixava ninguém fora da conversa e as três sentiram que ficara satisfeito por ter a companhia delas. Mas mais tarde, quando as acompanhou a casa, caminhou ao lado de Mary Stuart e falou com ela com uma entoação delicada, que parecia destinada apenas aos ouvidos dela e não das outras. Tanya e Zoe entraram em casa logo que chegaram e Mary Stuart permaneceu uns momentos no exterior com Hartley. Não sabia bem como tocar no assunto, mas achava que as amigas tinham razão ao dizerem-lhe que devia esclarecer o assunto a respeito do seu casamento.

 

— Sinto-me um pouco tola ao dizer-lhe isto — começou timidamente. Estavam sentados na varanda, iluminada por um luar muito azul, que fazia brilhar os topos das montanhas cobertos de neve. — Não faço ideia se o que lhe vou dizer poderá ter algum interesse para si, mas não lhe quero dar uma impressão errónea. Para ser sincera consigo, quero que saiba que sou casada — concluiu Mary Stuart, surpreendida ao ver uma expressão de desapontamento nos olhos dele. — Tenciono separar-me de Bill no fim do Verão. Precisava de algum tempo para decidir o que fazer, mas o nosso casamento morreu com o nosso filho e creio que é chegada a altura de acabarmos com a nossa infelicidade.

 

— O seu marido ficará surpreendido? — perguntou calmamente Hartley, olhando-a com atenção. Mal a conhecia e, no entanto, gostava da honestidade dela, da sua doçura, da sua franqueza. Ficou com pena de saber que ainda era casada. Talvez a longo prazo isso não tivesse importância. Ela parecia realmente decidida a acabar tudo com o marido. — Acha que o seu marido tem consciência do que está a sentir?

 

— Não vejo como não possa ter. Durante todo o ano mal me falou. Não temos casamento, nem vida, nem amizade. Ele culpa-me pela morte do nosso filho e creio que isso nunca se alterará. Não posso continuar a viver assim. Não quero estar a contar-lhe os meus problemas, desejo apenas que fique a saber que sou ainda casada, embora não julgue que o seja por muito tempo.

 

— Obrigado por ser tão sincera comigo — disse Hartley, sorrindo. Ele próprio achava incrível gostar tanto dela. Era a primeira mulher que lhe agradava desde a morte de Margaret e estava apaixonado por ela, apesar de só a conhecer há um dia. Mas o tempo ali parecia triplicar. Era como se estivessem a bordo de um navio.

 

— Espero que não me julgue tola por lhe falar do assunto. Tenho a certeza de que será indiferente para si... é apenas...

 

De repente sentiu-se mortificada por lhe ter dito tantas coisas e começou a atrapalhar-se com as palavras. Que diferença lhe poderia fazer que ela fosse ou não casada? Ficou furiosa com as amigas por a terem influenciado e sentiu-se realmente estúpida. Permaneceu sentada, imóvel, sentindo-se desconfortável, mas olhou-o e viu que ele sorria.

 

— Não sei o que estou a fazer aqui. Nem sequer queria vir este ano. Há dois anos que tenho pena de mim mesmo e não voltei a olhar para urna mulher. E de repente encontro-a como um radiante raio de sol iluminando as montanhas e digo-lhe que nunca me senti tão atraído por ninguém como por si. Não faço ideia do que sairá daqui, nem do que você fará, ou quererá, mas digo-lhe que gosto muito de si, apesar de mal a conhecer. Lamento o facto de ter perdido o seu filho — disse Hartley, pondo-lhe um braço em volta dos ombros e puxando-a suavemente para si. — Tive pena ao ver a expressão do seu olhar quando encontrou o rapazinho esta tarde e queria poder tirar-lhe essa dor. Na verdade, não gosto de saber que não está divorciada, embora não saiba se isso virá a ser importante. Não faço ideia se quererá voltar a ver-me depois da próxima semana, e provavelmente estou a fazer figura de parvo, mas, se assim for, diga-mo e eu apenas a cumprimentarei de longe durante o resto das férias. — Os seus olhos procuraram os dela e Hartley viu que estavam cheios de lágrimas. Ouvira todas as coisas que desejara que Bill lhe dissesse e que ele nunca dissera. Bill abandonara-a completamente e de repente ali estava aquele desconhecido que era a resposta a todas as suas preces. — Quero apenas estar perto de si, falar consigo, conhecê-la... e depois veremos o que acontece.

 

Que mais poderia pedir? Mary Stuart ficou parada a olhá-lo, incapaz de acreditar no que estava a ouvir.

 

— Estarei a sonhar? — perguntou, fitando-o com os olhos cheios de lágrimas e de desejos. Seria possível encontrar alguém como ele?

 

— Foi assim que eu me senti toda a tarde de hoje. Não queiramos ter ainda respostas. Gozemos apenas os momentos presentes — disse ele, sentindo o perfume dos cabelos dela. Ficou silencioso, imóvel, apenas com um braço em volta dos seus ombros, até sentir que ela estava a tremer. Mary Stuart tremia apenas parcialmente de frio, o resto era pura emoção. Chegara na noite anterior e vira-o pela primeira vez nessa manhã. Mas lera todos os livros dele e tinha a sensação de o conhecer. Haviam falado durante horas, desnudando as suas almas, e partilhavam uma forte atracção. — Está com frio. Vou levá-la para dentro — disse Hartley, desejando não ter de a deixar. Ela parou e olhou-o e mais uma vez e ele rodeou-lhe os ombros com os braços.

 

— Obrigada por tudo - murmurou Mary, sentindo-o perto de si. Depois ele acompanhou-a à porta e despediu-se. Mary entrou rapidamente, desejosa de que as amigas se tivessem ido deitar. Ficou satisfeita quando viu que sim. Mas, quando entrou no seu quarto, encontrou um fax de Bill na cama. Era dolorosamente simples: «Espero que tudo corra bem. O trabalho aqui em Londres é satisfatório. Cumprimentos à tua amiga Bill.» Mais nada. E, no fundo, com a sua caligrafia solta, Tanya garatujara, no fundo da página: «Se eu fosse a ti, telefonava ao advogado.» O bilhete era, de facto, seco, e subitamente a vida dava-lhe uma nova oportunidade. Fechava-se uma porta e abria-se outra. E através dela podia finalmente ver a luz do Sol nas montanhas.

 

Na manhã seguinte Zoe e Mary Stuart juntara-se para tirar Tanya da cama.

 

— Ergue-te e brilha! — gritou Zoe, enquanto Mary Stuart destapava a amiga e lhe arrancava a máscara da cara.

 

— Vocês são umas sádicas — gemeu Tanya, franzindo os olhos por causa da luz. — Meu Deus... o que é isto?... Vou ficar cega... — resmungou Tanya, voltando-se de barriga para baixo e recusando a mexer-se, enquanto as outras duas a puxavam para fora da cama, tal como costumavam fazer na universidade.

 

— Isto chama-se luz solar e há muita lá fora — replicou Mary Stuart, obrigando Tanya a sentar-se na cama, com o seu pijama cor-de-rosa. — Se não te conhecesse diria que eras bêbada, só pela maneira como acordas todas as manhãs.

 

— É da velhice. Preciso de dormir muito... — resmungou ela, cambaleando lentamente em direcção à casa de banho.

 

— Não te esqueças que Big Max está à tua espera - lembrou Zoe.

 

— Digam-lhe que volte para a cama. Sentir-se-á muito melhor — replicou Tanya, com um bocejo. Mas vinte minutos depois tinha tomado o seu duche e estava pronta, revelando um aspecto tão espectacular como habitualmente. Vestia calças num tom rosa-pálido, blusa de algodão da mesma cor, calçava as suas velhas botas e usava uma fita cor-de-rosa a prender-lhe os cabelos louros, que lhe caíam pelas costas numa longa trança. Cabelos mais curtos, encaracolados, emolduravam-lhe o rosto, dando-lhe um aspecto imensamente sexy.

— Isso deve atrair as atenções do teu cowboy — disse Mary Stuart ao vê-la. Subitamente sentiu-se ansiosa por se encontrar com Hartley. Pensara nele toda a noite e sentia-se como uma garota à espera de o ver nessa manhã. De momento eram apenas amigos, mas a possibilidade de serem algo mais intrigava-a.

 

Iam a caminho da casa de jantar quando encontraram outra vez Benjamin. Mary Stuart parecia ter visto um fantasma ao caminhar ao lado dele. O garoto queria estar ao pé dela e isso enervava-a e emocionava-a ao mesmo tempo.

 

— Onde está a tua mama, Benjamin? — perguntou Zoe, apercebendo-se do desconforto de Mary Stuart. Era fácil de perceber a razão dessa perturbação. Apesar de nunca ter visto Todd, reparara que aquela criança se parecia com Mary Stuart.

 

— Está a dormir — respondeu ele com naturalidade. — O meu pai disse-me para vir tomar o pequeno-almoço.

 

— Como é que ela pode estar a dormir e eu não? — quis saber Tanya.

 

— Ela está grávida de oito meses — explicou Zoe.

 

— Vou parecer uma velha se continuam a não me deixar dormir. Não é bom para a saúde uma pessoa levantar-se tão cedo!

 

— Quem disse isso? — perguntou Zoe, com um sorriso.

 

— Fui eu — declarou Tanya com uma expressão irritada, enquanto entravam na casa do rancho. Chegaram à sala de jantar seguidas de perto por Benjamin. Colava-se a elas como uma lapa à rocha e Mary Stuart estava decidida a ignorá-lo, mas, quando se sentaram à mesma mesa do dia anterior, ele sentou-se imediatamente com elas. Tanya achava-lhe graça e Zoe também gostava do garoto, mas nenhuma delas queria perturbar Mary Stuart. Sugeriram-lhe que se fosse sentar junto dos amigos, mas ele recusou-se a fazê-lo.

 

— Não faz mal — disse, por fim, Mary Stuart. — Não tem importância.

 

— Estás bem? — perguntou Tanya, e Mary Stuart disse que sim com a cabeça.

 

— Estou bem — disse. Não podia proteger-se dessa maneira. Era impossível criar um mundo sem crianças.

 

— Belo fax que recebeste do teu marido ontem à noite! Temo e cheio de emoção — comentou Tanya. — Desculpa, mas não pude deixar de o ler. Vais responder-lhe?

 

— Não tenho muita coisa a dizer-lhe — murmurou Mary. Mas, de súbito, lembrou-se de uma coisa. A noite anterior fora quase como um sonho e chegava a pensar que imaginara que Hartley a abraçara, a apertara contra ele e lhe dissera que gostava de a conhecer melhor. — A propósito, esclareci as coisas com Hartley. Vocês tinham razão. Eu não me fizera entender bem. Mas agora está tudo esclarecido.

 

— E ele importou-se?

 

— Porque havia de se importar? — retorquiu Mary Stuart, tentando falar com frieza, mas não conseguindo enganar as amigas.

 

— Porque não creio que ele esteja interessado em oferecer-te um emprego de secretária... — explicou Tanya. — O homem gosta de ti.

 

— Veremos o que vai suceder — replicou calmamente Mary Stuart, reparando que Benjamin a olhava.

— Parece-se com a minha mãe — disse o garoto — e com a minha tia Mary.

 

— Também me chamo Mary — respondeu ela, tentando conversar. — Mary Stuart. E estranho, não é? Stuart era o nome do meu pai e ele queria ter um rapaz, por isso deram-me este nome.

 

— Oh! — exclamou ele, dizendo que sim com a cabeça. — Tem filhos? — Via-se que estava mais interessado nela do que nas outras. Era como se se apercebesse de algo de diferente nela.

 

— Sim, tenho uma filha, mas agora é muito grande. Tem vinte anos.

 

— Também tem rapazes? — quis saber o garoto, comendo uma salsicha que Zoe lhe dera.

 

— Não, não tenho — respondeu Mary Stuart. Benjamin era muito pequeno para entender a razão das lágrimas que lhe marejavam os olhos.

 

— Eu gosto mais de rapazes — declarou Benjamin com naturalidade. — Espero que a minha mamã tenha um rapaz quando o bebé chegar. Não gosto de raparigas. São estúpidas!

 

— Algumas não são — disse Mary Stuart, mas ele encolheu os ombros, sem se deixar convencer.

 

— Choram muito quando as empurramos — retorquiu ele como explicação. Tanya e Zoe sorriram. Talvez fosse bom para Mary Stuart falar com o garoto. Era como uma espécie de vacina.

 

— Algumas raparigas são muito corajosas — replicou Mary Stuart em defesa do seu sexo, mas o garoto perdeu o interesse pelo assunto e dedicou-se a comer uma tira de presunto. Daí a pouco o pai entrou na casa de jantar e o miúdo foi ter com ele. Uns minutos depois apareceu a mãe, em adiantado estado de gravidez. O marido explicara a Zoe que a altitude fazia com que ela se sentisse mal.

 

— Espero que não acabes assistindo a um parto — sussurrou Tanya ao ouvido de Zoe. — Tenho a impressão de que ela vai ter trigémeos.

 

— Não, não o farei. Não trago fórceps comigo. E não assisto a um parto desde os meus tempos de interna. Além disso, há aqui um hospital. Assistir a um parto é mais assustador do que o que eu faço. Demasiadas coisas podem correr mal, são necessárias decisões rápidas e existem muitos elementos que não se podem controlar, e eu detesto tratar pessoas em grande sofrimento. Prefiro dermatologia do que obstetrícia — afirmou Zoe.

 

Mary Stuart achava que devia ser um trabalho alegre, pois o desenlace era geralmente feliz. Tanya disse então que gostava de saber como era ter um filho. Desejara ter muitos, quando era nova, mas as circunstâncias da vida não lhe tinham dado essa oportunidade. Mary Stuart tinha uma estranha sensação ao pensar que, das três, fora ela a única a ter filhos.

 

— Talvez tenha sido algo de subliminar que nos fosse dito em Berkeley — replicou Zoe, rindo. Sentia-se feliz por ter adoptado Jade.

 

— Eu teria gostado de ter filhos — disse Tanya. — Gostava dos filhos de Tony, de os ter à minha volta. Eram. umas crianças formidáveis!

 

Pensou se alguma vez voltaria a vê-los mais do que durante alguns minutos. Era tudo tão injusto, ter perdido o marido e os enteados! Ela cuidara deles, dedicara-se aos garotos e ele fora-se embora de um dia para o outro e levara-os. Isso fazia-a pensar que devia ter tido os seus próprios filhos. Nesse caso ninguém lhos poderia tirar, ficariam com ela para sempre. Ou talvez não, lembrou-se, pensando em Mary Stuart.

 

Acabaram de tomar o pequeno-almoço mesmo a tempo de se dirigirem para as cavalariças. Hartley já ali se encontrava e parecia satisfeito por ver Mary Stuart. Os seus olhos encontraram-se e fitaram-se durante um longo momento e ele ficou perto dela enquanto esperavam para montar os cavalos. Os médicos de Chicago também ali estavam e todos formaram os mesmos grupos que no dia anterior. Zoe seguiu ao lado deles e Hartley colocou-se junto de Mary Stuart, o que fez com que Tanya e Gordon ficassem de novo sozinhos à frente, e dessa vez ele tentou fazer um esforço para se mostrar agradável.

 

— Está muito bonita hoje — disse, olhando em frente e parecendo um robô a falar. Tanya reparou que ele corara levemente ao dizer essas palavras. Viu que estava verdadeiramente embaraçado e tentou pô-lo à vontade, mas levou um certo tempo a consegui-lo. Passado um bocado, Gordon fez-lhe algumas perguntas a respeito de Hollywood e das pessoas que ela lá conhecia. Quis saber se encontrara alguma vez Tom Cruise e Kevin Costner ou Cher, e disse-lhe que vira Harrison Ford em Jackson Hole nesse Verão. Tanya declarou que os conhecia a todos e que entrara num filme com Cher. — E estranho — disse Gordon, olhando para Tanya com os olhos franzidos —, mas você não se parece com esse género de pessoas...

 

— Que significa isso? — perguntou Tanya, confusa.

 

— Quero dizer que é uma pessoa verdadeira, não parece uma grande actriz ou uma grande cantora. E uma mulher normal. Anda a cavalo, gosta de falar, ri, tem sentido de humor. — Olhou-a de novo, esboçando um ligeiro sorriso, e dessa vez sem corar: — Passadas as primeiras impressões, é difícil acreditar que seja a mesma pessoa dos CD's e dos filmes.

 

— Se isso é um cumprimento, obrigada. Se me está a querer dizer que o desapontei, também não me importo. A verdade, afinal, é que sou uma rapariga do Texas.

 

Tanya disse isto sorrindo, enquanto ele admirava a blusa cor-de-rosa.

 

— Não. — Gordon abanou a cabeça, observando-a com ar atento. — E muito mais do que isso, e sabe-o muito bem. A verdade é que não soa a falso, como a maior parte deles.

 

— Deles quem?

 

— Outros actores e actrizes que tenho encontrado aqui. Nem sequer montam a cavalo. Temos tido no rancho gente de todo o género: políticos, actores, até mesmo cantores. A preocupação deles é exibirem-se e esperam sempre um tratamento especial.

 

— E eu pedi muitas toalhas e uma cafeteira para o café - confessou Tanya, rindo. — E escrevi no formulário que os cavalos não me agradavam.

 

— Eu não acreditei — replicou Gordon, mais descontraído do que na manhã anterior, o que era bastante melhor. Quando ele falava, Tanya até gostava de cavalgar ao seu lado. — Nasceu no Texas e isso significa alguma coisa. As pessoas do Texas gostam de cavalos. E você é uma mulher como outra qualquer — concluiu Gordon.

 

A verdade é que ela era justamente isso e ele sabia-o. Fora uma mulher como qualquer outra ao casar com Bobby Joe, mas Hollywood estragara tudo. Mais tarde quisera voltar a ser uma mulher vulgar com Tony. Mas Tony queria ser casado com uma estrela de cinema sem ter de suportar os problemas que daí advinham. Queria algo que, mesmo com as melhores intenções, ela não lhe poderia dar.

 

— Sou uma mulher como qualquer outra, mas o mundo em que vivo não me dá muitas hipóteses. A minha vida não tem privacidade e, para lhe dizer a verdade, acho que nunca virá a ter. Os média nunca me deixarão ter privacidade. Nem sequer as pessoas que me conhecem a podem ter! Eles querem que eu seja aquilo que julgam que sou e quando se aproximam de mim é para me magoarem.

 

Só pensar naquilo já era terrível.

 

— Parece-me horroroso — retorquiu Gordon, olhando-a com interesse. Sentia-se surpreendido por a achar tão simpática. De facto, Tanya era muito diferente daquilo que ele julgara. Fizera o possível para não ser o seu acompanhante e agora estava satisfeito por Liz não lhe ter dado ouvidos. Era realmente agradável estar com ela.

 

— E terrível — confirmou calmamente Tanya, abanando a cabeça. — Penso que um dia isso ainda me há-de matar. Ou talvez um fã o faça.

 

— Como é que consegue viver assim? Seja o que for que lhe paguem, não merece a pena — disse Gordon, enquanto os dois cavalos começavam a galopar.

 

— Não é pelo dinheiro. É pelo que faço. A minha vida é cantar. Não se pode voltar para trás. Não nos podemos esconder. Se quero fazer o que faço, tenho de sofrer as consequências.

 

— Não me parece justo...

 

— E não é. Mas é a realidade! — Tanya não gostava dessa realidade, mas nada podia fazer para a alterar. — Há outras pessoas que têm todos os trunfos.

 

— Deve haver alguma maneira de mudar isso ou de viver uma vida decente. Outras actrizes afastam-se, compram ranchos ou vão para sítios onde possam viver uma vida normal. Devia fazer o mesmo Miss Tanya. — Gordon falava com sinceridade e Tanya sorriu-lhe. Os cavalos diminuíram o andamento e Gordon olhou-a com admiração. — E uma grande cavaleira Miss Tanya.

 

— Não me trate assim — ralhou ela. — Tanya chega. Eram agora quase amigos. Tanya sentia com Gordon aquilo que Mary Stuart sentia com Hartley. Conversavam sobre os temas mais diversos. Dos sonhos, das esperanças, dos desapontamentos. Era como se as montanhas exercessem uma influência estranha e fizessem com que tudo avançasse rapidamente.

 

Hartley também falava com toda a sinceridade com Mary Stuart nesse momento. Pedira-lhe desculpa por ter ultrapassado os limites na noite anterior. Ao regressar a casa, sentira receio de a ter assustado por ter sido tão ousado. Mal se conheciam e, no entanto, sentia-se perto dela. Mas Mary tinha exactamente a mesma sensação e, ao contrário de ter ficado assustada, sentira-se confortada. Havia um ano que ninguém a abraçava e ela tinha fome disso. Não lho disse exactamente, mas ele compreendia bem que Mary Stuart não ficara de modo algum ofendida com o seu procedimento. Foi um grande alívio para ele vê-la sorrir-lhe quando os cavalos pararam para beber água de um pequeno riacho. Só o facto de ali estarem tinha magia, e ambos o sentiram.

 

— Quando me levantei, hoje de manhã, não conseguia pensar noutra coisa senão em vê-la — declarou com um sorriso juvenil. — Há vinte anos que não me sentia assim. Nem sequer me apetece trabalhar. E isso é raro suceder-me, pode crer.

 

Escrevia todos os dias, estivesse onde estivesse ou fosse quais fossem as condições da sua vida. A única altura em que não escrevera fora quando Margaret estava a morrer. Descobrira que não o conseguia fazer.

 

— Sei exactamente como se sente. E estranho. Quando pensamos que a nossa vida está acabada ela renasce outra vez. A vida engana-nos sempre, não é? Quando julgamos ter tudo, perdemos tudo, e quando julgamos que tudo está perdido, encontramos algo de infinitamente precioso — murmurou pensativamente Mary Stuart, olhando para as montanhas.

 

— Tenho a sensação de que Deus tem um grande sentido de humor — disse ele, enquanto os cavalos se punham novamente em movimento. — O que é que gosta de fazer em Nova Iorque? — perguntou Hartley, continuando a querer saber tudo a seu respeito. Estava excitado por saber que ela regressaria a Nova Iorque depois de passar uma semana com Tanya em Los Angeles. Tinha uns assuntos a tratar em Seatle depois de sair do rancho. Em seguida iria uns dias a Boston e regressaria a Nova Iorque mais ou menos na mesma altura que ela. - Gosta de teatro? — quis saber. Ficaram a falar sobre teatro durante muito tempo. Tinha vários amigos que eram dramaturgos e queria apresentá-los a Mary. Com efeito, queria apresentá-la a todos os seus amigos. Havia tanta coisa que queria mostrar-lhe, partilhar com ela, perguntar-lhe! Era impossível estar quieto. Os dois conversavam constantemente, riam, partilhavam ideias, e ambos ficaram surpreendidos ao voltarem à cavalariça à hora do almoço. Nem sequer tinham reparado no caminho que percorriam. Tanya e Gordon já haviam chegado e os médicos fechavam a marcha, sem pressas. Mary Stuart estava justamente a desmontar quando um cavalo passou velozmente por eles. Havia um pequeno vulto agarrado a ele, que Gordon vira primeiro que os outros. O cavalo passou pela porta da cavalariça em direcção ao celeiro e ele seguiu-o imediatamente a galope, tentando detê-lo, mas antes que o pudesse alcançar o pequeno vulto voou pêlos ares e foi cair sobre o caminho pedregoso. Ao princípio nem conseguiam ver quem era, mas Mary Stuart soube, mais por instinto do que por ver, de quem se tratava. Foi como se tivesse sentido antes de ver. O pequeno chapéu de cowboy vermelho estava caído também junto do corpo inanimado de Benjamin. O cavalo fugira com ele. Sem pensar, Mary Stuart saltou para o solo, logo seguida por Hartley. Quando chegou junto da criança, viu que estava inconsciente, e, quando se inclinou para ele, notou que mal respirava. Olhou para Hartley, horrorizada.

 

— Vá buscar Zoe — gritou-lhe, voltando-se para o garoto outra vez, receosa de lhe mexer, com medo de que ele tivesse o pescoço ou a espinha partida. Teve a impressão de que Benjamin parou de respirar nessa altura, mas no momento seguinte Zoe encontrava-se ajoelhada junto dele.

 

— Pronto, Mary Stuart... eu cuido dele.

 

Zoe pouco podia fazer e, tal como a amiga, teve o cuidado de não o mover. Bateu-lhe suavemente no peito, o garoto começou a respirar outra vez e ela ergueu-lhe as pálpebras. Percebeu que Benjamin não via nada e reparou que na parte da frente das calças do garoto havia uma larga mancha húmida, o que significava que ele estava mergulhado numa profunda inconsciência e que perdera o controlo das funções corporais.

 

— Têm o cento e doze aqui? — perguntou Zoe a Gordon. Ele disse que sim com a cabeça. — Chame-os. Diga-lhes que tenho aqui uma criança inconsciente, com traumatismo craniano e fracturas possíveis. Respira, mas as pulsações são irregulares. Está em estado de choque. Venham o mais rapidamente possível!

 

Olhou-o, para ver se ele tinha compreendido bem como o caso era urgente, enquanto os outros dois médicos se aproximavam com pressa, depois de terem desmontado, e Mary Stuart continuava ajoelhada junto da criança, segurando-lhe a mão. Zoe observava Benjamin com ar preocupado. Já tinha a certeza de que não fracturara o pescoço nem a coluna, e apalpava-lhe os membros quando, de repente, ele abriu os olhos e começou a chorar.

 

— Quero a minha mamã! Mamã! — gritou, engolindo o ar a grandes golfadas. Zoe ficou mais satisfeita ao ver aquela reacção.

 

— Isto agrada-me — disse Zoe para os outros dois médicos, que concordaram. Zoe tocou-lhe no braço esquerdo e Benjamin soltou um grito. Estava partido. Mas podia ter lesões piores. Então, no meio dos soluços, Benjamin viu Mary Stuart junto dele, chorando em silêncio.

— Porque chora? — perguntou, por entre soluços. — Também caiu do cavalo?

 

— Não, patetinha — disse ela, aproximando-se ainda mais. — Tu é que caíste. Como te sentes agora?

 

Tentava distrair a atenção da criança, pois Zoe fazia-lhe uma tala com uns paus que pedira a Gordon. Hartley também não se afastara e Tanya sentia-se abalada. Todos estavam.

 

— Dói-me o braço... — gemeu Benjamin, e Mary Stuart aproximou-se um pouco mais dele, tentando não incomodar Zoe. Alisou-lhe os cabelos e fechou os olhos. Se não olhasse, podia pensar que era Todd que ali estava escondido a seu lado. Quem lhe dera que fosse, que se tratasse de uma questão de membros fracturados ou mesmo traumatismo craniano. Estava vivo, coberto de terra, chorava... mas Todd desaparecera.

 

— Estás bem, queridinho — disse Mary Stuart com a mesma doçura que teria usado para com o seu próprio filho. — Vão-te tratar, põem-te gesso e vais ver que toda a gente o assina e faz bonitos desenhos nele.

 

— Promete que faz isso? — Só ligava a Mary Stuart e ignorava as outras pessoas. Ninguém sabia porquê, mas talvez isso não tivesse importância. Talvez ele estivesse ali para a comover, para lhe lembrar como fora Todd, ou que existiam outras crianças como ele. Mas de que lhe servia isso?... ela perdera o seu filhinho... e, contudo, de certo modo, aquela criança comovera-a. Era como que uma visita do filho, ou, pelo menos, do espírito dele. — Vai comigo para o hospital? — perguntou Benjamin.

 

— Claro que sim. Mas vamos ver se encontramos a tua mamã. Aposto que ela é que vai querer ir.

 

— Oh!, ela só se preocupa com o bebé — exclamou o garoto, começando outra vez a chorar estendido na estrada poeirenta, à espera que a ambulância chegasse. Então Mary Stuart compreendeu-o melhor. Ela parecia-se com a mãe dele, por isso o garoto sentira-se atraído por ela, pois ao mesmo tempo estava zangado com a mãe por causa do bebé. Mary Stuart não podia deixar de pensar se os seus caminhos se teriam cruzado para que ela o pudesse ajudar ou para que ele a pudesse ajudar a ela. Existia, obviamente, uma razão para se terem encontrado.

 

— Benjamin — disse Mary Stuart, sentando-se no chão ao seu lado, para poderem falar melhor, e nessa altura já estava tão suja como ele. — Aposto que a tua mama gosta mais de ti do que de qualquer Outra pessoa... os bebés não são assim tão excitantes. Claro que ela vai ficar feliz com o bebé, e tu também. Mas tu és especial. Foste o primeiro a nascer. Eu tive também um rapazinho como tu e também ele era especial para mim... sempre. Porque foi o primeiro de quem gostei. A tua mamã nunca irá gostar mais de ninguém do que gosta de ti. Prometo.

 

— Para onde foi o seu rapazinho? — perguntou o garoto. Estava intrigado com as palavras dela e compreendera-a perfeitamente.

 

Mary Stuart hesitou apenas um momento.

 

— Foi para o céu... e eu sinto muito a falta dele... ele era muito especial, tal como tu.

 

— Ele morreu? — Mary Stuart detestou ter de lhe responder, mas disse que sim com a cabeça. — O nosso cão morreu — declarou Benjamin com ar grave, fitando Mary Stuart e querendo partilhar com ela informações importantes. E de repente, sem qualquer aviso, vomitou por cima dela. Zoe não ficou surpreendida e disse a Mary Stuart, em voz baixa, que ele tinha sofrido um violento abalo.

 

— Estás bem, Benjamin, estás bem, querido? Mary Stuart limpou-o com uma toalha que alguém lhe entregou e ficou junto dele, como todos, até a ambulância chegar com os paramédicos.

 

Recuperara a consciência e Zoe sentia-se menos preocupada com ele. Estava convencida de que escapara com um braço partido, uma pancada na cabeça, alguns arranhões e nódoas negras. Tivera muita sorte. No momento em que a ambulância chegou apareceu a mãe, caminhando o mais depressa que podia. Gordon mandara alguém chamá-la. Logo que viu o filho começou a chorar, mas Zoe e os outros dois médicos apressaram-se a tranquilizá-la. Zoe explicou-lhe que pensava que os ferimentos tinha sido mínimos, apesar da gravidade da queda e de ele não usar capacete.

 

— Oh!, Benjie! — exclamou, ajoelhando-se junto dele e beijando-o. — Gosto tanto de ti, meu filhinho!

 

Estava muito assustada e nervosa e agradeceu a todos terem-no socorrido. Mary Stuart olhava-o, sorrindo e chorando ao mesmo tempo, querendo lembrá-lo do que lhe dissera antes, que a mãe dele nunca gostaria mais de alguém do que dele. Ela nunca amara ninguém mais do que Todd. Amava apaixonadamente a filha desde o instante em que ela nascera, mas nunca gostaria mais dela do que do filho. Nem menos, também.

 

Quando o levaram para a ambulância tocou-lhe na mão. Depois inclinou-se e beijou-lhe a face. Isso destroçou-lhe o coração, pois fez-lhe lembrar o toque suave de uma criança. Apesar do vomitado, da terra e do cheiro a cavalo, ele continuava a ter o cheiro de um rapazinho, pouco mais do que o cheiro de um bebé.

 

— Gosto muito de ti, rapazinho — sussurrou-lhe. Era quase como se o estivesse a dizer a Todd e causou-lhe grande sofrimento, embora também a reconfortasse. Parecia-lhe que aquela criança fora até junto dela para lhe abrir as comportas dos seus sentimentos. — Até breve.

 

A mãe agradeceu-lhe de novo, a chorar, e entrou na ambulância ao lado do filho. Esta partiu e Mary Stuart ficou parada a chorar, quando de repente sentiu dois braços fortes abraçarem-na. Sabia quem era e voltou-se para ele, encostando a cabeça no seu peito, sem conseguir parar de chorar.

 

— Sofro tanto... tanto...

 

Mary Stuart estava suja do vomitado da criança, chorosa, mas aquele homem que ela mal conhecia não se importava. Queria estar ali, junto dela.

 

— Oh!, pobrezinha... tenho tanta pena... gostava de ter estado junto de si para a ajudar.

 

Mary olhou-o e sorriu por entre as lágrimas, pensando como pudera subitamente ter tido aquela sorte. Talvez Deus achasse que ela sofrera bastante, ou talvez fosse um acaso, ou talvez estivesse a sonhar.

 

— Ele parece-se tanto com o meu filho... — tentou explicar. Mas não precisava de o fazer. A mãe do garoto era tão parecida com Mary Stuart que era fácil perceber a semelhança.

 

— Que desgosto terrível deve ter tido — disse ele, enquanto os outros os deixavam sós. Mary Stuart sentou-se num tronco para recuperar a compostura. A verdade é que só o facto de estar junto dele fazia com que se sentisse melhor. Talvez por Hartley também ter sofrido muito. A mulher dele morrera com grande sofrimento e ele acompanhara-a a cada momento. Mas, finalmente, ela morrera em paz e ele aceitara perdê-la. O médico dissera-lhe que devia fazê-lo para ela ficar espiritualmente livre e poder morrer em paz. E falecera nos seus braços, na manhã do dia de Natal.

 

— Lamento ter ficado neste estado. Aquela criança conseguiu tocar-me no coração. Não sei como isso aconteceu...

 

— Há coisas que acontecem não se sabe porquê — disse Hartley docemente, tentando imaginar como teria morrido o filho. E ela adivinhava o que ele estava a pensar.

 

— O meu filho suicidou-se — disse ela, como se respondesse a uma pergunta. Nunca dissera aquilo a ninguém anteriormente, a não ser a Zoe. E nunca ninguém lhe fizera a pergunta. — Ele estava em Princeton... E Mary Stuart começou a contar-lhe tudo, como era Todd, o choque que ela sofrera, a angústia, o funeral, a reacção do marido. Era uma história terrível.

 

— Que pesadelo horroroso para todos vocês. Não sei como conseguiu sobreviver — disse ele, olhando-a com admiração.

 

— Não sobrevivemos. O meu marido é um zombi, o nosso casamento morreu há um ano. Penso que a minha filha ficaria feliz se nunca mais voltasse a casa, e eu não sei se a hei-de censurar. Também eu quero sair de lá agora, para deixar tudo para trás das costas.

 

— Tem a certeza? — perguntou cautelosamente Hartley, duvidando, depois de ter ouvido a história. Estavam todos em estado de choque. Mas se conseguissem ultrapassar isso? Ela e o marido estavam juntos havia muito tempo...

 

— Creio que tenho a certeza — respondeu ela com sinceridade. — Queria o Verão para pensar bem no assunto. Nunca esperei que uma coisa destas pudesse acontecer-me — acrescentou, com um sorriso. Nem sequer sabia se algo sucedera, ou se viria a suceder. Talvez não mais voltasse a ver Hartley depois daquelas duas semanas no rancho. Era uma possibilidade. Não ia deixar Bill por causa dele. Fazia-o porque sentia necessidade de o fazer. — Quero caminhar com cuidado. Quero fazer o que for certo para todos, e creio saber o que isso é, agora.

 

 

Hartley disse que sim com a cabeça e ficou calado, abraçando-a. Poucos minutos depois acompanhou-a até casa. Zoe e Tanya bebiam café e convidaram Hartley para tomar uma chávena. Mary Stuart foi tomar um duche rápido. A campainha para o almoço acabara de tocar e Zoe e Tanya resolveram ir andando para a casa de jantar. Deixaram Hartley à espera de Mary Stuart. Os acontecimentos da manha tinham-nas entristecido. Mary Stuart ficou surpreendida quando saiu do quarto e encontrou Hartley à sua espera. Agradeceu-lhe a atenção, olhou-o afectuosamente e, de súbito, ficou preocupada com ele. Também ele sofrera muito e estava a ser muito generoso com ela. Não tinha o direito de o fazer sofrer por sua causa.

 

— Não quero fazer nada que o possa magoar — disse, encaminhando-se lentamente para ele. Estivera a pensar no assunto. Sentia-se atraída por ele, mas não queria ser egoísta. Ainda não conseguira decidir o que faria relativamente a Bill, embora estivesse mais ou menos segura do que queria. Mas precisava de mais algum tempo antes de tomar uma decisão. — Tem sido extremamente bom para mim, embora mal nos conheçamos. Tem sido melhor para mim do que qualquer outra pessoa que eu conheça, exceptuando Tanya.

 

— Obrigado — respondeu Hartley, sentando-se num braço do cadeirão, enquanto a olhava. Ela vestia uma camisola de algodão vermelha e umas calças de ganga e, ao vê-la, o seu coração começou a bater mais depressa. — Não se preocupe comigo, Mary Stuart. Sou um homem adulto. Ambos sofremos muito e não quero que nenhum de nós sofra ainda mais. Compreendo quais são os riscos. Deixe-me fazer isto. Quero estar aqui consigo.

 

Mary Stuart nem acreditava no que ouvia. Ele queria uma oportunidade de estar junto dela, queria ver o que se iria passar, saber se ela deixaria Bill. Então, sem mais uma palavra, Hartley deu dois passos para ela, tomou-a nos braços e beijou-a. Mary cheirava a sabonete, a pasta de dentes e a perfume, um aroma agradável e atraente, e ele passou-lhe as mãos pêlos cabelos enquanto a apertava contra si. Havia tanto tempo que não beijava uma mulher que quase esquecera como era, mas nenhum era suficientemente velho para desistir do que já tinham tido. Eram como duas pessoas que houvessem atravessado o canal entre a França e a Inglaterra a nado e tivessem finalmente chegado à margem. Tinham frio, estavam cansados e esfomeados, mas sentiam-se contentes por terem sobrevivido e por estarem juntos. Ele sorriu, fitando-a; beijou-lhe outra vez os lábios e ela sentiu a suavidade dos lábios dele. Suspeitava, mesmo sem o querer saber, que ele seria um amante maravilhoso. Não fazia ideia de como aquilo iria acabar, e ele também não, mas de momento estavam ali os dois, em Wyoming, juntos, e era tudo de que precisavam.

 

No terceiro dia em Wyoming, Zoe estava estendida na cama e espreguiçava-se sonolentamente. Ainda não eram sete horas e ia levantar-se daí a poucos minutos. Ouvia alguém na cozinha. Mary Stuart acabara de se levantar e bocejava, enquanto se dirigia para a cozinha para fazer café, e quase deu um salto quando viu Tanya.

 

— Que fazes aqui? — exclamou Mary Stuart, assombrada. Ela nunca se levantara àquelas horas, nem mesmo quando andavam na universidade.

 

— Parece-me que vivo aqui — respondeu Tanya. Tinha feito café, aquecido os muffins e tirara um iogurte do frigorífico. Além disso, estava penteada e lavada. Quando saiu do quarto Zoe ficou também surpreendida.

 

— Passa-se alguma coisa? — perguntou, preocupada. Tinha de haver uma verdadeira emergência para que Tanya se levantasse da cama tão cedo e nem podia acreditar no que via.

 

— Por amor de Deus, que se passa com vocês as duas? Apenas me quis levantar mais cedo... — retorquiu Tanya. Mas as outras não aceitaram a explicação.

 

— Eu sei o que é — disse Zoe com um largo sorriso. Agora era a sua vez. Tanya gracejara com ela por causa de Sam e com Mary Stuart por causa de Hartley. — E Gordon.

 

— Não sejas estúpida — retorquiu Tanya. — Ele é apenas um empregado do rancho!

 

— Que diferença faz isso? — replicou Zoe com naturalidade. — Ele olha para ti como se andasses sobre a água.

— Que disparate! — disse Tanya, andando de um lado para o outro na pequena cozinha. E havia mais verdade nas suas palavras do que ela dizia.

 

Na tarde anterior tinham falado de muitas coisas enquanto passeavam a cavalo. O acidente do pequeno Benjamin abalara-os a todos e fizera-os abordar assuntos mais sérios. Gordon falara-lhe do filho. Era crescido, e Gordon já não o via há dois anos, mas gostava visivelmente dele. Tanya falou do seu fracassado casamento com Bobby Joe, que considerava o único verdadeiro e lamentava ainda que Bobby não tivesse suportado os rigores da carreira dela, embora admitisse que provavelmente não se dessem muito bem se ainda vivessem juntos, mas de vez em quando ainda tinha saudades dele. E agora que se encontrava de novo sozinha perguntava a si mesma se valia a pena. Qual iria ser o seu futuro? Ficaria com um monte de discos de ouro, uma pilha de dinheiro, uma grande casa?! Mas não tinha marido, nem filhos, ninguém que cuidasse dela quando fosse velha, ninguém que lhe fizesse companhia, que partilhasse as suas vitórias e derrotas. Tudo lhe parecia inútil e vazio. Ela tinha o que todos em Hollywood queriam e a verdade é que isso nada significava para si. Haviam conversado sobre questões muito sérias, mas ele falara com bastante senso e reconfortara-a. Gordon era inteligente, tinha sentido prático e era simples como ela. De certo modo, havia muito de comum entre os dois. Gordon teria gostado de falar um pouco mais com Tanya, mas tiveram de regressar e os acompanhantes só eram autorizados a comer com os hóspedes aos domingos, a não ser que fosse dia de folga, o que era o caso de Gordon. Tanya também gostava de falar com ele. Na verdade, gostava de muitas coisas nele e não se importava com a sua simplicidade e a sua ocasional rudeza. Nunca era antipático ou indelicado, não havia nele nada de cruel ou ganancioso e era muito inteligente. Além disso, apreciava o facto de serem ambos texanos, mas não estava preparada para o dizer às amigas.

 

— Tens segredos para nós? — gracejou Mary Stuart e Zoe também riu. Mas Tanya ignorou-as e foi acabar de se arranjar. Nesse dia apareceu especialmente espectacular, com umas calças de ganga desbotadas e uma camisola de algodão cor de pêssego. Calçara até um par de botas novas, num tom semelhante ao da camisola, bordadas à mão, que comprara pouco tempo antes, no Texas.

 

Quando entraram na casa de jantar para tomar o pequeno-almoço Hartley esperava-as. Tinha um aspecto jovial e agradável, cheirando a sabonete e a aftershave, com umas calças de ganga e uma camisa branca. Cumprimentou-as afavelmente e passou um braço pêlos ombros de Mary Stuart. Tanya não pôde deixar de pensar que formavam um belo par. Pareciam feitos um para o outro, como disse mais tarde a Zoe, que concordou com ela.

 

O pequeno Benjamin estava à espera delas nas cavalariças e pedia a toda a gente que lhe assinasse o gesso. Tanya deu-lhe um grande beijo e um autógrafo e um grupo de raparigas pediu-lhe também um, e as mães deixaram-nas. As pessoas mostravam-se mais descontraídas com ela, mas ninguém tentava fotografá-la às escondidas, o que Tanya apreciava. Quando Gordon a viu acenou-lhe. Estava a selar os cavalos. Como de costume, faziam parte dos últimos grupos a partir, e Mary Stuart sentou-se num banco com Benjamin ao colo, acariciando-lhe o pescoço e falando-lhe. Ele era agora uma dádiva.

 

— Pregaste-nos um grande susto ontem, rapazinho — disse Mary, recordando a queda que ele dera, voando literalmente de cima do cavalo e indo embater na estrada rochosa.

 

— O médico disse que eu podia ter partido o pescoço, mas não parti.

 

— Foi uma sorte.

 

— A minha mama chorou — disse o garoto, olhando para Mary Stuart com ar sério. — Tinha razão. Ela disse que nunca iria gostar do bebé como gosta de mim. Contei-lhe que me tinha dito isso.

— Óptimo.

 

— Ela disse que eu seria sempre especial. — Depois fez-lhe vir outra vez as lágrimas aos olhos com um gesto que a atingiu como um soco no estômago. Beijou-a e murmurou: — Tenho pena do que sucedeu ao seu rapazinho.

 

— Também eu — disse ela, enquanto os olhos se lhe enchiam de lágrimas e os lábios lhe tremiam. Hartley observava-a. — Ainda gosto muito, muito dele — disse com voz trémula. — Continua a ser muito especial para mim.

 

— Consegue vê-lo às vezes? — perguntou Benjamin, perplexo perante a morte. Era o género de perguntas que Todd lhe fazia com a idade dele, e Mary tentaria responder-lhe com honestidade.

 

— Não. Não posso. Nunca mais. Só no meu coração. Ele está sempre no meu coração. E vejo-o nas fotografias.

 

— Como é o nome dele?

 

— Todd.

 

Benjie disse que sim com a cabeça, corno se essa apresentação lhe bastasse. Passado um bocado levantou-se, foi olhar para os cavalos e saiu, para ir ter com a mãe. Parecia satisfeito com a sua visita. Depois Tanya, Mary Stuart e os outros partiram com Gordon. Hartley olhava para Mary Stuart. Ela sorriu. Ainda lhe era doloroso estar junto de Benjamin. O garoto era muito directo nas suas perguntas, mas talvez isso fosse bom para ela. Não era com certeza fácil, e Hartley apertou-lhe com força a mão antes de ela montar a cavalo e disse-lhe que era fantástica.

 

— Não sei o que fiz para ter tanta sorte — respondeu Mary.

— Uma vida limpa — retorquiu ele, com um sorriso. Zoe estava cansada e seguiu vagarosamente ao lado de Hartley e de Mary Stuart. O casal de médicos fora numa expedição de barcos de borracha ao longo do rio. Gordon e Tanya iam à frente. Ele convidou-a para um rodeo nessa noite. Era um dos participantes.

 

— Está a brincar? O que é que vai montar?

 

— Touros e cavalos selvagens. Desde o Texas que o faço.

 

— E doido? — Tanya assistira a esses rodeos quando era garota. Os homens eram pisados e arrastados pelo solo. Muitos deles tinham lesões cerebrais antes dos trinta anos e outros ficavam com tantos ossos partidos que caminhavam como velhos aos vinte e poucos. — Isso é realmente uma coisa estúpida — continuou ela, zangada. — Você é um tipo esperto e arrisca a vida por umas centenas de dólares ou por uma fivela de prata?

 

Gordon tinha dez fivelas dessas em casa, mas de que lhe serviriam se ficasse aleijado?

 

— São como os seus discos de platina — retorquiu ele calmamente, sem se surpreender com a reacção dela. A mãe e as irmãs diziam o mesmo. As mulheres não percebiam aquilo. — E equivalente ao que você tem de passar para conseguir um disco de ouro ou um Oscar. A tortura dos ensaios, as ameaças, os maus modos, as histórias dos jornais. E muito mais fácil montar um cavalo selvagem durante noventa segundos!...

 

— Sim, mas eu não sou arrastada pelo solo sobre a porcaria dos cavalos até o meu cérebro ficar paralisado. Sou contra isso — concluiu severamente.

 

Gordon ficou desapontado. Afinal, talvez ela fosse uma rapariga das grandes cidades e não uma texana.

 

— Isso quer dizer que não irá esta noite? Gordon parecia desiludido. Tanya abanou a cabeça, mas sorriu.

 

— Claro que irei. Mas continuo a pensar que é doido. Gordon acendeu um cigarro e sorriu também.

 

— Que irá montar esta noite?

 

— Cavalos selvagens com sela. E fácil.

 

— Não diga isso.

 

Tanya estava excitada com a perspectiva de assistir ao rodeo. De qualquer maneira, já tencionava ir. Ele convidou-a para o ir ver às cavalariças e ela prometeu que iria, se o conseguisse encontrar. Nem sempre era fácil para ela movimentar-se. Se as pessoas a reconheciam, os seus movimentos ficavam condicionados e podia até ter de sair de certos sítios, se as pessoas a cercavam. Nunca ia a eventos públicos sem um guarda-costas, mas dessa vez não queria nenhum. Iria no seu autocarro com Tom, Zoe e Mary Stuart. E Hartley, se também quisesse acompanhá-las. Tanya estava ansiosa por ir assistir ao rodeo. E tinha justamente o traje apropriado para isso.

 

Parecia uma criança a arranjar-se para ir à feira quando se foram vestir, antes do jantar. Saiu do quarto envergando umas calças de camurça bege com franjas dos lados, um casaco do mesmo material, também com franjas, e um lenço para o pescoço, também da mesma camurça. O seu chapéu de cowboy era exactamente da mesma cor. Parecia tudo muito texano, mas fora comprado em Paris, e a camurça era tão macia que parecia veludo em contacto com o corpo.

 

— Oh! Vocês, as texanas! — queixou-se Mary Stuart. Ela vestira umas calças de um tom azul-esmeralda, uma camisola a condizer, e calçara botas de pele de crocodilo pretas, compradas na Billy Martin's. E Zoe usava calças de ganga elástica e um casaco militar Ralph Lauren. Como de costume, formavam o grupo mais elegante do rancho e Hartley começara a chamar-lhes as Hartley's Angels, o que as divertia.

 

Foi um jantar muito animado, o dessa noite. Benjamin corria de um lado para o outro, na sala, e a mãe estava prestes a entrar em trabalho de parto. Dizia que fora uma semana traumatizante e estava ansiosa por regressar a casa, em Kansas City. Mary Stuart não podia censurá-la. Não fora urna semana apropriada para uma mulher grávida de oito meses, mas sentia-se feliz por ter conhecido Benjie. O garoto pediu-lhe que assinasse o seu gesso pela segunda vez. Logo após o jantar meteram-se no autocarro de Tanya e partiram para Jackson Hole. Hartley concordara em acompanhá-las e estava encantado com o autocarro.

 

— Nem posso acreditar — disse ele. — E eu a julgar que fazia um figurão com o meu Jaguar.

 

— Pois eu conduzo uma carrinha Volkswagen com dez anos — confidenciou Zoe, o que o fez rir. Mas no caso dela era por uma boa causa. Todo o dinheiro que tinha era aplicado na clínica, para comprar remédios e equipamento.

 

— O mundo literário não pode competir com Hollywood — declarou. — Vocês batem-nos em toda a linha, Tanya.

 

— Está bem, mas veja as porcarias que temos de aturar! Vocês trabalham com gente civilizada. As pessoas com quem eu lido são selvagens, por isso mereço isto.

 

Todos riram da justificação, mas sem qualquer ressentimento. Ela trabalhava duramente para ganhar o seu dinheiro.

 

No confortável autocarro, o tempo que demorou o percurso de Moose para Jackson Hole passou rapidamente. Pouco tempo depois estavam no local do rodeo, quase com meia hora de avanço. O rancho arranjara-lhes bilhetes excelentes. Tudo aquilo tinha para Tanya algo de familiar, que lhe fazia recordar a infância. Costumava montar o seu potro e assistir ao espectáculo. Mais tarde chegara a montar a cavalo, mas o pai dizia que era muito dispendioso e ela não era uma grande apreciadora de cavalos. Gostava apenas da excitação. Era como o circo.

 

Sentaram-se e compraram pipocas e Coca-Colas. Logo a seguir um dos organizadores do rodeo aproximou-se de Tanya. Ela ficou preocupada, pensando se haveria algum problema grave, alguma ameaça de morte ou uma questão de segurança. O homem que se aproximou tinha um ar extremamente nervoso e Hartley levantou-se imediatamente e colocou-se ao lado dela, em pé, quando o homem pediu para falar com Tanya.

 

— Posso saber o que se passa? — perguntou delicadamente Hartley, julgando tratar-se de algum pedido ou de qualquer imposição.

 

— Gostava de falar com Miss Thomas — respondeu o homem com um sotaque que Tanya reconheceu facilmente como sendo texano e não de Wyoming. — Temos um favor a pedir-lhe — olhou-a por cima do ombro de Hartley —, como nossa conterrânea.

 

— Que deseja? — perguntou Tanya, aproximando-se, por sua vez. Achava que o homem era inofensivo, embora maçador.

 

— Pensávamos se... — Transpirava incontrolavelmente. Tinham delegado nele aquela tarefa e ele desejava que estivesse outro no seu lugar. O guarda-costas dela assustava-o um bocado. Alguém se lembrara de comprar um bilhete para Tom, mas Tanya não sabia onde ele se encontrava sentado. — Sei que provavelmente não faz isto, e nós não lhe podemos pagar coisa alguma... mas pensámos se... enfim, seria uma grande honra... — Tanya tinha vontade de o sacudir, para as palavras lhe saltarem da boca —... se cantasse o nosso hino agora.

 

Tanya ficou tão espantada que por momentos não respondeu. Já o fizera noutras ocasiões e havia algo de comovente naquele pedido. Era uma canção difícil de cantar, mas, de certo modo, até seria divertido cantá-la ali, ao ar livre, com as montanhas em torno deles. Era uma ideia tão delicada que Tanya sorriu para o homenzinho, imaginando o que diria Gordon se a visse cantar. De certo modo, iria cantar para ele, para lhe desejar sorte no seu número.

 

— Será uma honra — respondeu com seriedade. — Onde é que querem que eu cante?

 

— Importa-se de me acompanhar?

 

Tanya hesitou um instante, sempre um pouco receosa da multidão e do que lhe poderia suceder sem ninguém que a protegesse. As amigas olhavam-na com uma expressão preocupada, mas até então ninguém a reconhecera e era tentador acompanhar o homem e ir cantar.

 

— Quer que eu vá consigo? — perguntou Hartley, preparado para a seguir e proteger.

 

— Creio que não haverá perigo — respondeu ela em voz baixa. — Vou ficar num sítio aberto. Se vir algo de estranho, ou uma multidão a aglomerar-se, chame a Polícia o mais depressa possível, e a segurança.

 

Mas podiam não ser suficientemente rápidos, e ela sabia-o.

 

— Não devia fazer isto — comentou prudentemente Hartley.

 

— No entanto, é uma ideia simpática e significa muito para eles. — Ao mesmo tempo, era um presente que ela queria oferecer a Gordon. Queria fazer aquilo por ele e pela gente de Jackson Hole.

 

— Não se preocupe — disse Tanya a Hartley, dando-lhe uma palmadinha no braço e olhando de relance para as amigas.

 

Depois seguiu o homem, que transpirava, desceu um lanço de escadas e deu a volta à arena. Encontrava-se agora num sítio onde toda a gente a podia ver. Propuseram-lhe que se colocasse sobre um pódio, no meio da arena, com um microfone na mão e cantasse. Se preferisse, poderia cantar montada a cavalo. Era um cenário que ela preferia. Seria um alvo fácil tanto a pé como a cavalo, mas, no último caso, tinha mais mobilidade e montava suficientemente bem para conseguir fugir, se lhe dessem um cavalo capaz de o fazer.

 

Os organizadores do rodeei ficaram mais que encantados por ela querer cantar sentada num cavalo e deram-lhe um bonito palomino, que condizia com o cabelo e as roupas dela. De qualquer modo, era mais teatral dessa maneira. Só esperava não ser um alvo fácil para um louco qualquer com uma arma. O seu agente teria um ataque de nervos se soubesse o que ela ia fazer sem qualquer protecção e, ainda por cima, gratuitamente. Se, quando era criança, lhe dissessem que um dia iria cantar o hino num rodeo, não acreditaria. Mas ela era ainda uma rapariga do Texas e sempre sonhara fazer aquilo mesmo. Olhou à sua volta, pensando se conseguiria ver Gordon, mas não o viu. Ninguém parecia ter dado pela presença dela. Ninguém sabia que ela se encontrava entre a assistência, embora a rapariga que comprara os bilhetes para o rancho dissesse que sabiam para quem eram, o que a aborrecera um pouco, mas isso era impossível de controlar. Havia sempre alguém que dizia qualquer coisa. Porém, a multidão que assistia ao rodeo não estava de modo algum preparada para o anúncio que foi feito no início, e Gordon também não.

 

— Minhas senhoras e meus senhores — disse ao microfone o director do rodeo, sentado a meio da arena num grande cavalo negro. — Temos uma óptima surpresa para vos apresentar esta noite e para vos agradecer terem vindo aqui para verem os nossos touros, os nossos cavalos selvagens e os nossos cowboys. Vamos apresentar-lhes uma linda senhora que vai cantar o nosso hino. E uma rapariga do Texas e está familiarizada com os rodeos. Encontra-se de visita em Jackson Hole... — Quando ele disse aquilo, Tanya rezou mentalmente para que não se lembrasse de dizer onde ela estava, e as amigas tiveram a mesma preocupação, mas felizmente tal não sucedeu.

 

—Meus senhores e minhas senhoras... — Houve um rufar de tambores na banda que ia tocar e o homem concluiu: — Apresento-vos Tanya Thomas!

 

E logo que ele acabou de pronunciar estas palavras, um cowboy abriu a cancela que dava para a arena e Tanya galopou para o centro da mesma, montada no bonito palomino. Tanya causava uma impressão fantástica, com os seus longos cabelos louros a aureolarem-lhe a cabeça. Segurava o microfone numa das mãos e as rédeas na outra. O cavalo era mais vivo do que ela pensara e estava com receio de cair antes de acabar de cantar. Segundo o plano, Tanya deu uma volta à arena e depois parou no meio, sorrindo para a multidão e acenando, enquanto a assistência gritava e aplaudia. As pessoas tinham-se posto de pé, sem poderem acreditar na sua boa sorte. Por urna fracção de segundo, Tanya receou que se lançassem sobre ela. E também gostava de ver Gordon, mas não podia vê-lo. Ele encontrava-se por detrás dela, sentado numa cancela da cavalariça, sem poder acreditar no que estava a ver nem na reacção da multidão. Estava surpreendido por ela não o ter avisado, mas ficou a ver a multidão a gritar, a chamar pelo seu nome e a bater os pés ritmadamente. Então ela ergueu a mão e as pessoas sossegaram, para a poderem ouvir.

 

— Okay. Vamos lá... Também estou excitada por os ver, mas isto não é um concerto. É um rodeo... e vamos cantar o nosso hino, por isso peço silêncio. E uma grande honra para mim estar aqui — concluiu com tal seriedade que todos se aquietaram e prepararam para a ouvir. — E uma canção muito especial para nós, americanos — continuou ela, chamando-os ao coração. — Quero que pensem todos no que ela diz e que cantem comigo.

 

Tanya inclinou a cabeça durante um minuto, fez-se silêncio e a banda começou a tocar, melhor do que qualquer orquestra profissional que ela já tivesse ouvido. Tocavam para ela e Tanya cantou com toda a sua alma para o povo de Jackson Hole, para os turistas, para os texanos... e para Gordon. Cantou sobretudo para ele, e esperava que ele o soubesse. Compreendia que o rodeo era para ele o mesmo que tinha sido para ela própria quando era uma rapariguinha que vivia no Texas. Era o ponto alto da sua existência. Pelo menos sempre fora. Mas, nesse momento, ele apenas pensava nela, naquilo que estava a ouvir e a ver. Nunca vira nem ouvira nada mais bonito do que Tanya a cantar o hino e desejava ter podido gravá-lo, para o poder ouvir sempre. Sentiu as lágrimas virem-lhe aos olhos, e o mesmo se passava com todos os presentes.

 

Quando Tanya acabou de cantar, a multidão aplaudiu freneticamente. Ela fez um último aceno e galopou para fora da arena, antes que pudessem saltar para cima das barreiras e cercá-la. Antes que alguém se pudesse mexer já ela se encontrava fora da arena e colocava o microfone nas mãos do homem que a contactara. O homem beijou-a na face com tanta força que quase a fez cair do cavalo, mas logo a seguir Tanya desmontou e dirigiu-se rapidamente para as cavalariças, para ver se conseguia encontrar Gordon. Tremia de excitação.

 

Ninguém viu para onde ela se dirigia, pois Tanya afastara-se velozmente, desaparecendo por entre as inúmeras pessoas que ali se encontravam. Passado um bocado viu Gordon, que ainda se sentia atordoado, encostado à cancela da baia número cinco. Como se se tivesse apercebido da sua presença, ergueu os olhos e viu-a. Saltou imediatamente por cima da cancela, como um macaco, e parou junto dela. Tanya olhou-o e sorriu.

 

— Porque não me disse que ia cantar? Mostrava-se magoado por ela não o ter avisado, mas, por outro lado, estava ainda comovido.

 

— Eu também não sabia. Quando me sentei, um dos organizadores do rodeo foi pedir-me para cantar.

 

— Foi inacreditável — disse orgulhosamente Gordon. Mal podia acreditar que a conhecia. Os últimos dias tinham sido corno um sonho para ele e agora encontrava-se ali a falar com ela, como se sempre a tivesse conhecido. Usava uns safôes verdes e prateados e botas feitas à mão a condizer, uma camisa de um verde-forte e um chapéu cinzento. As esporas de prata tilintavam. — Nunca ouvi ninguém cantar assim — continuou com assombro, enquanto as pessoas passavam de um lado para o outro junto deles. Ainda ninguém parecia ter percebido com quem ele estava a falar.

 

— E uma tolice o que eu vou dizer — murmurou Tanya, sentindo-se subitamente tímida —, mas fi-lo por si. Pensei que pudesse dar-lhe sorte... que pudesse gostar...

 

O olhar que ele lhe lançou era uma verdadeira caricia, mas sentia-se tão tímido como ela.

 

— Não sei o que hei-de dizer... Tanya... Tanya Thomas... — Apetecia-lhe beliscar-se. Aquilo estaria realmente a acontecer-lhe? Estaria ela a falar com ele? Teria andado a cavalo ao lado dela desde segunda-feira? Era uma loucura e devia estar a sonhar.

 

— Foi um presente meu... agora dê-me também um. — Gordon sentiu-se assustado com o que ela poderia pedir-lhe, mas naquele momento teria feito fosse o que fosse que ela lhe pedisse. — Não se magoe. Tenha cuidado consigo. Mesmo que isso signifique ficar desclassificado. E só o que lhe peço. Não vale a pena ser de outro modo, Gordon. A vida é demasiado importante.

 

Tanya vira tantas pessoas entrarem e saírem da sua vida, tantas coisas estúpidas sucederem, tanta gente que tudo arriscava por uma coisa que nada significava! Não queria que ele se matasse por setenta e cinco dólares, montando um cavalo estúpido. De certo modo, os rodeos eram semelhantes às touradas. Era muito o que estava em jogo e às vezes era preciso saber perder.

 

— Prometo — respondeu ele com voz rouca, sentindo os joelhos perderem as forças.

 

— Tenha cuidado — repetiu Tanya, tocando-lhe num braço. Gordon sentiu o toque aveludado do casaco dela na sua mão e logo a seguir Tanya desapareceu literalmente. Reparara que os observavam e, antes que alguém lhe pudesse tirar uma fotografia ou os cercasse, quis voltar para o seu lugar na assistência. Poderia ser impossível permanecer ali, pois agora já sabiam onde ela estava, mas Tanya estava desejosa de ver Gordon actuar. Levou bem uns cinco minutos a voltar ao lugar, mas conseguiu fazê-lo sem problemas. O seu coração batia aceleradamente, mas por causa de Gordon, não devido a ter cantado ou a recear a multidão. Nunca se sentira tão atraída por ninguém como por ele, mas sabia que isso poderia ser perigoso para ambos. Não lhe agradava dar motivos para outro escândalo, nem ele podia ficar com a vida toda alterada por causa de uma cantora que se iria enfiar no seu autocarro e deixar a cidade daí a menos de duas semanas.

 

— Onde diabo te meteste? — perguntou Zoe quando Tanya se sentou ao seu lado. Estava preocupada, assim como Mary Stuart e até Hartley. Preparavam-se já para chamar a segurança quando ela aparecera.

 

— Peço imensa desculpa — disse Tanya. — Não queria afligi-los, mas levei um certo tempo a passar por entre as pessoas e depois encontrei Gordon.

 

 

Todos aceitaram a explicação, mas um minuto depois Mary Stuart inclinou-se para ela e disse-lhe:

 

— És uma grande aldrabona. Foste procurá-lo. Os olhos de Mary Stuart brilhavam maliciosamente e Tanya evitou fitá-la. Não queria confessar o que fizera. Estava realmente mais apaixonada por ele do que queria admitir.

 

— Claro que não fui — retorquiu, fingindo interessar-se pelo primeiro número do rodeo, que era apanhar gado a laço, e que sempre a aborrecera.

 

— Eu vi-te — afirmou Mary Stuart, olhando-a de frente. A amiga sorria. — Tem cuidado — sussurrou ao ouvido de Tanya. Mas nesse momento aproximaram-se umas doze pessoas, pedindo-lhe que assinasse autógrafos.

 

Visto que se tinha voluntariamente exposto aos olhos da multidão, Tanya achou que não podia recusá-los. E a cena repetiu-se durante todo o espectáculo, os laços, a corrida de barris, as tentativas para dominarem cavalos selvagens em pêlo, os touros, até que finalmente foi a vez de Gordon. Montava um fogoso cavalo selvagem com sela. O que Tanya mais detestava naquilo era que os cavaleiros tinham de pôr uma das mãos debaixo da sela. Tinham de saltar especificamente de um lado e ser capazes de libertar a mão. E se não o fizessem podiam ser arrastados de cabeça para baixo durante dez minutos, até os companheiros o irem apanhar. Tanya assistira a alguns acidentes terríveis, em criança, no Texas. Ficou horrorizada ao ver Gordon aparecer na arena montado num grande cavalo castanho, que fazia tudo quanto podia para se livrar do cavaleiro. Os seus pés estavam no ar como deviam estar, as pernas estendidas para a frente, o dorso e a cabeça inclinados para trás, e não tocou na sela com a mão livre. Montou até a campainha tocar, sem um falha, e saltou impecavelmente para o solo. Aguentara-se em cima do cavalo mais tempo do que qualquer outro e a sua pontuação foi quase perfeita. Quando a viu acenou-lhe com o chapéu e afastou-se em direcção às cavalariças. Fora uma grande vitória para Gordon. E fizera-o por Tanya.

Os quatro ficaram até ao final do espectáculo, constituído por uma recolha de touros e por rapazes de catorze anos que montavam novilhos, o que fez com que se admirassem por os pais autorizarem tal coisa.

 

— Essa gente devia ser presa por deixar os filhos fazerem isto! — Não seria realmente tão perigoso como se se tratasse de touros, mas quase, e Mary Stuart sentia-se indignada. Com efeito, um dos rapazes, um garoto de doze anos, fora pisado, mas pouco depois já estava de pé outra vez. Eles não o tinham perdido de vista.

 

Mas, apesar do barbarismo e primitivismo de tudo aquilo, Tanya confessava que gostara do espectáculo; fora uma coisa de que sempre gostara em criança. E quando se prepararam para partir, imensas pessoas começaram a pedir-lhe autógrafos, a tirar-lhe fotografias e a tentar tocar-lhe. Mas o director do rodeo tivera a amabilidade de mandar a segurança e a Polícia protegê-la, e Tanya pôde chegar ao seu autocarro sem grandes problemas. Quando entrou e o autocarro partiu ficaram ainda umas cinquenta pessoas a acenar, a gritar e a correr ao lado do veículo. Era um fenómeno espantoso, o da adoração, que surgia sempre antes do ódio. Se tivesse ficado ali tempo suficiente seriam capazes de a esquartejar, para ficarem com um pedaço dela, ou algum louco poderia realmente fazer-lhe mal. Esse ambiente fazia com que Tanya se sentisse sempre nervosa quando se encontrava no meio da multidão, em lugares públicos.

 

— Você é espantosa, Tanya — disse-lhe Hartley, enquanto o autocarro se afastava. Mostrara-se graciosa com toda a gente, conservando, no entanto, a sua dignidade, tentando dar-lhes o que eles queriam, mas mantendo, ao mesmo tempo, a distância. Porém, sentia-se constantemente como o equilíbrio da multidão era precário. — Eu ficaria horrorizado mesmo com uma pequena aglomeração como esta — continuou Hartley. — Sou um cobarde inveterado. — Mas Tanya estava habituada a realizar concertos perante setenta e cinco mil pessoas. No entanto, mesmo com uma multidão como a dessa noite, algum louco poderia facilmente descontrolar-se e matá-la. E ela sabia-o. — Além disso, você tem uma voz de ouro — continuou Hartley. — A nossa volta toda a gente chorava.