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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O REGRESSO DA MÚMIA / R. L. Stine
O REGRESSO DA MÚMIA / R. L. Stine

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O REGRESSO DA MÚMIA

 

       - Gabe, estamos quase a aterrar - disse-me a hospedeira, debruçando-se sobre o assento. - Vai alguém ter contigo ao aeroporto?

       - Sim. Provavelmente um antigo faraó egípcio - disse-lhe. - Ou talvez uma repugnante múmia completamente apodrecida.

       Fitou-me, semicerrando os olhos.

       - Não. A sério - insistiu. - Quem é que vai ter contigo ao Cairo?

       - O meu tio Ben - redargui. - Mas ele adora pregar partidas. às vezes, veste uns estranhos fatos e tenta assustar-me.

       - Disseste-me que o teu tio era um famoso cientista - disse a hospedeira.

       - E é - retorqui. - Mas também é estranho.

       Riu-se. Gostei muito dela. Tinha um lindo cabelo louro. E adorei a maneira como inclinava a cabeça para o lado quando falava.

       Chamava-se Nancy e estava a ser muito simpática comigo durante este longo voo até ao Egipto. Sabia que era a primeira vez que eu voava sozinho.

       Estava sempre a perguntar como é que eu me sentia. Mas tratou-me como um adulto. Não me trouxe um daqueles livros idiotas de passatempos, nem um daqueles alfinetes com asas de plástico que dão sempre às crianças nos aviões. E esteve sempre a passar-me pacotes extra de amendoins, embora não fosse suposto fazê-lo.

       - Porque é que vais visitar o teu tio? - perguntou Nancy. - Só por diversão?

       Confirmei com um aceno de cabeça.

       - Também o fiz no Verão passado - disse-lhe. - Foi mesmo fantástico! Mas este ano, o tio Ben tem estado a fazer escavações numa pirâmide inexplorada. Descobriu um antigo túmulo sagrado. E convidou-me para assistir quando o abrir.

       Riu-se e inclinou um pouco mais a cabeça.

       - Tens uma grande imaginação, Gabe - disse. Depois, virou-se e afastou-se para responder à pergunta de um passageiro.

       Tenho mesmo uma grande imaginação. Mas, desta vez, não estava a inventar.

       O meu tio, Ben Hassad, é um famoso arqueólogo. Há muitos anos que faz escavações em pirâmides. Já li artigos de jornal sobre ele. E uma vez vi-o na revista National Geographic.

       No Verão passado, toda a minha família veio visitar o Cairo. Eu e a minha prima Sari - a filha do tio Ben - partilhámos umas aventuras espantosas nas câmaras da Grande Pirâmide.

       "A Sari também lá estará neste Verão", lembrei-me, observando pela janela do avião o céu todo azul. Era óptimo que, desta vez, não passasse o tempo todo a gozar-me.

       Gosto de Sari, mas é tão competitiva! Tem sempre de ser a primeira, a mais forte, a mais esperta, a melhor. É a única rapariga de treze anos que conheço que consegue transformar numa competição um simples pequeno-almoço!

       - Os assistentes de bordo devem preparar-se para a aterragem - anunciou o piloto pelo altifalante.

       Ajeitei-me no assento para ter uma vista melhor da janela. à medida que o avião ia baixando, eu consegui ver a cidade do Cairo debaixo de nós. Uma fina fita azul recurvava-se ao longo da cidade. Era, isso já sabia, o rio Nilo.

       A cidade alongava-se para lá do rio. Espreitando a direito para baixo, consegui ver altos arranha-céus de vidro e templos térreos e abobadados. Onde a cidade terminava, começava o deserto. A areia amarela estendia-se no horizonte.

       Comecei a sentir o estômago um pouco agitado. As pirâmides ficavam algures no deserto. E, dentro de um ou dois dias, estaria a descer para o interior de uma delas, seguindo o meu tio para entrar num túmulo que há milhares de anos não era aberto. O que iríamos encontrar?

       Retirei a pequena mão de múmia do bolso da T-shirt e olhei para ela. Era tão pequena - não era maior do que a mão de uma criança. Tinha-a comprado por dois dólares a um miúdo numa daquelas vendas de garagem. Ele dissera que lhe chamavam "Invocador". E que podia invocar antigos espíritos do mal.

       Parecia uma mão de múmia. Tinha ligaduras de gaze sujas, enroladas em torno dos dedos, pondo a descoberto um bocadinho negro de resina.

       Pensei que fosse uma imitação, feita em borracha ou plástico. Quero dizer, nunca pensei que fosse uma mão de múmia verdadeira.

       Mas, no Verão passado, a mão tinha-nos salvo a vida. O rapaz que ma vendera tinha razão. Deu mesmo vida a um punhado de múmias! Foi um espanto!

       Claro que quando regressei a casa nem os meus pais nem os meus amigos acreditaram na minha história incrível. E não acreditaram que o Invocador tivesse mesmo funcionado. Disseram que não passava de uma mão de múmia a fingir, produzida numa fábrica qualquer. Provavelmente, fabricada em Taiwan.

       Mas eu levo-a comigo para onde quer que vá. É o meu amuleto da sorte. Não sou muito supersticioso. Quero dizer, estou sempre a passar debaixo de escadas.

E o meu número da sorte é o treze.

       Mas acredito mesmo que esta mãozinha de múmia me protegerá.

       O que de mais estranho acontece com a mão de múmia é o facto de estar sempre quente. Não dá a sensação de plástico. Dá uma sensação quente, como se se tratasse de uma mão humana.

       Ainda em casa, no Michigan, tive um ataque de pânico quando a mãe e o pai estavam a preparar-me a mala para a viagem. Não conseguia encontrar a mão da múmia.

E, claro, não admitia sequer a hipótese de partir para o Egipto sem ela. Fiquei tão aliviado quando, finalmente, a encontrei! Estava escondida no bolso de trás de uns jeans amarfanhados.

       Nesse momento, o avião baixou o nariz em direcção ao solo, preparando-se para a aterragem. Estendi a mão para a mão da múmia no bolso da minha T-shirt. Tirei-a - e senti que me faltava o ar.

       A mão estava fria. Fria como gelo!

 

       Por que razão havia a mão da múmia ficado fria de repente?

       Seria uma espécie de mensagem? Um aviso?

       Estaria eu prestes a enfrentar um perigo qualquer?

       Não tive tempo para pensar nisso. O avião aproximou-se a deslizar da porta de desembarque e todos os passageiros se esforçavam atabalhoadamente por retirar as suas malas de mão e avançar com dificuldade para a saída do avião.

       Voltei a guardar a mão da múmia nos bolsos dos jeans, peguei na mochila e dirigi-me para a parte da frente do avião. Despedi-me de Nancy e agradeci-lhe os amendoins. Depois, segui no encalço dos outros, descendo a longa rampa coberta de desembarque e dando entrada no aeroporto.

       Tanta gente!

       E todos pareciam estar cheios de pressa. Tropeçavam praticamente uns nos outros. Homens de negócios com fatos escuros. Mulheres com túnicas soltas e os rostos cobertos por véus. Raparigas de jeans e T-shirts. Um grupo de homens morenos, de expressões sérias em fatos brancos de seda que lembravam pijamas. Uma família com três crianças pequenas, todas a chorar.

       Senti-me subitamente desanimado. Como é que alguma vez poderia encontrar o tio Ben no meio daquela multidão?

       Comecei a sentir a mochila muito pesada. Ia passando os olhos freneticamente de trás para diante. Senti-me rodeado por estranhas vozes, todas a falar tão alto. Nenhuma delas falava inglês.

       - Ai! - não contive um grito quando senti uma dor aguda de lado.

       Virei-me e percebi que uma mulher me havia acertado com o seu carrinho das bagagens.

       "Mantém-te calmo, Gabe", ordenei a mim próprio. "Tenta simplesmente manter-te calmo."

       "O tio Ben está aqui, à tua procura. Há-de encontrar-te. Só tens de te manter calmo."

       "Mas, e se o meu tio se tivesse esquecido?", perguntei-me. Se tivesse confundido o dia da minha chegada? Ou se estivesse tão ocupado na pirâmide que tivesse

perdido a noção do tempo? Consigo mesmo atormentar-me quando me concentro nisso.

       E nesse momento estava com preocupações que chegavam para três pessoas!

       "Se o tio Ben não está cá, vou procurar um telefone e ligo-lhe", decidi.

       Pois, pois.

       Já estava a ouvir-me: "Telefonista, se faz favor, será que podia ligar para o meu tio, que está nas pirâmides?

       Nada disto me parecia possível.

       Não tinha o número de telefone do tio Ben. Nem tinha a certeza de que ele tivesse um telefone no sítio onde estava. Só sabia que ele estava a viver numa tenda, algures nas proximidades da pirâmide onde estava em escavações. Olhando freneticamente em torno da apinhada área de chegadas, estava quase a ceder ao mais absoluto pânico quando um homem corpulento se encaminhou na minha direcção.

       Não consegui ver-lhe o rosto. Envergava uma longa túnica branca com capuz. Chama-se um albornoz. E tinha a cara enterrada no capuz.

       - Táxi? - perguntou, numa voz estridente, penetrante. - Táxi? Táxi americano?

       Rompi numa gargalhada.

       - Tio Ben! - gritei, sentindo-me muito feliz.

       - Táxi? Táxi americano? Apanhar táxi? - insistiu.

       - Tio Ben! Estou tão contente de o ver! - exclamei. Lancei-lhe os braços à cintura e dei-lhe um grande abraço. Em seguida, divertido com o seu estúpido disfarce, estendi a mão e puxei-lhe o capuz.

       O homem do capuz tinha a cabeça calva, rapada, e bigode negro retinto. Lançou-me um olhar furioso.

       Nunca na minha vida o tinha visto.

 

       - Gabe! Gabe! Aqui!

       Ouvi uma voz chamar-me. Desviando num relance o olhar do homem furibundo, vi o tio Ben e Sari. Estavam a acenar-me em frente do balcão das reservas.

       O rosto do homem ficou de súbito escarlate e gritou-me qualquer coisa em árabe. Felizmente, não o conseguia compreender. Continuou sempre a resmungar enquanto

ia puxando para cima o capuz do seu albornoz.

       - Desculpe lá! - gritei. Em seguida, esquivei-me, passando por ele e apressei-me a cumprimentar o tio Ben e a minha prima.

       O tio Ben apertou-me a mão e disse:

       - Bem-vindo ao Cairo, Gabe. - Envergava uma T-shirt desportiva branca, e de mangas curtas, e calças de algodão largas.

       Sari vestia uns calções de ganga gastos e uma camisola justa sem mangas, verde-viva. Já se estava a rir de mim. Um mau começo.

       - Era algum amigo teu? - gozou.

       - Eu... enganei-me - confessei. Olhei de relance para trás. O homem ainda me fitava, com uma expressão carrancuda.

       - Pensaste mesmo que era o papá? - indagou Sari.

       Resmunguei entredentes qualquer coisa em resposta. Sari e eu tínhamos a mesma idade. Mas reparei que ela ainda tinha uns três centímetros a mais do que eu.

Tinha deixado crescer o cabelo. Usava-o caído pelas costas, numa só trança. Os olhos grandes e escuros faiscavam, tomados de excitação. Adorava gozar comigo.

       Descrevi-lhes a viagem enquanto nos íamos encaminhando para a zona das bagagens, para ir buscar a minha mala. Falei-lhes de Nancy, a hospedeira que estava sempre a passar-me pacotes de amendoins.

       - Eu vim num voo na semana passada - contou-me Sari. - A hospedeira deixou-me sentar na primeira classe. Sabes que na primeira classe podes pedir gelado?

       Não, não sabia. Estava mesmo a ver que Sari não tinha mudado nada.

       Anda num colégio interno em Chicago, uma vez que o tio Ben tem passado o tempo todo no Egipto. Claro que tira as melhores notas. E é uma verdadeira campeã a fazer esqui e a jogar ténis às vezes, chego a ter pena dela. A mãe dela morreu quando Sari tinha cinco anos. E Sari só pode estar com o pai nas férias e durante o Verão.

       Mas, naquele momento, enquanto esperava que a minha mala aparecesse no tapete rolante, não sentia pena alguma dela. Não parava com as suas fanfarronadas, afirmando que esta pirâmide era duas vezes maior do que aquela em que havíamos estado no Verão passado. Também se gabava de já lá ter estado várias vezes e dizia

que me levaria numa visita guiada - se eu não tivesse muito medo.

       Finalmente, a minha bojuda mala azul lá apareceu. Arrastei-a para fora do tapete rolante e deixei-a cair aos meus pés. Pesava uma tonelada!

       Tentei levantá-la, mas mal consegui movê-la.

       Sari afastou-me do caminho com um empurrão.

       - Deixa-me pegar nisso - insistiu. Agarrou a pega, soergueu a mala do chão e largou com ela.

       - Eh... - chamei, já no seu encalço. Que exibicionismo!

       O tio Ben sorriu-me.

       - Acho que Sari tem andado a fazer exercício - declarou. Pôs-me a mão no ombro e conduziu-me em direcção às portas de vidro. - Vamos para o jipe.

       Largámos a mala na parte de trás do jipe e dirigimo-nos para a cidade.

       - Tem estado um calor sufocante durante o dia - disse-me o tio Ben, limpando com um lenço a testa alta. - E, depois, à noite está frio.

       O trânsito arrastava-se na rua estreita.

       Estavam constantemente a soar buzinas. Os condutores não largavam as buzinas, quer circulassem quer estivessem parados. O ruído era ensurdecedor.

       - Não vamos parar no Cairo - explicou o tio Ben. - Vamos direitos à pirâmide em Al-Jizah. Estamos lá a viver em tendas para podermos estar ao pé do nosso trabalho.

       - Espero que tenhas trazido repelente de insectos - lamentou-se Sari. - Os mosquitos são grandes como rãs!

       - Não exageres - repreendeu o tio Ben. - Gabe não tem medo de alguns mosquitos... pois não?

       - Nem pensar - retorqui, serenamente.

       - Então e escorpiões? - perguntou Sari.

       Ia ficando menos trânsito à medida que deixávamos a cidade para trás e nos dirigíamos para o deserto. A areia amarela cintilava ao sol quente da tarde. Vagas de calor iam-se perfilando diante de nós à medida que o jipe avançava, aos saltos, na estreita estrada de duas faixas.

       Pouco depois, avistávamos uma pirâmide. Por detrás das vagas de calor do deserto, parecia uma miragem vacilante. Não parecia verdadeira.

       Ao fitá-la, senti que a garganta se me estreitava de excitação. Já tinha visto as pirâmides no Verão passado. Mas não deixava de ser uma visão impressionante.

       - Custa-me a acreditar que as pirâmides tenham quatro mil anos! - exclamei.

       - Sim. Ainda são mais velhas do que eu - brincou o tio Ben. Mas, de súbito, a sua expressão tornou-se séria. - Sinto- me orgulhoso cada vez que as vejo,

Gabe - admitiu. - Pensar que os nossos antepassados tiveram inteligência e engenho suficientes para edificar estas maravilhas...

       O tio Ben tinha razão. Suponho que as pirâmides tenham para mim um significado especial pelo facto de a minha família ser egípcia. Da parte dos meus avós,

ambos os lados provêm do Egipto. Foram para os Estados Unidos por volta de 1930. A minha mãe e o meu pai nasceram no Michigan.

     Vejo-me como um típico miúdo americano. Mas continua a haver algo de excitante em visitar o país de origem dos nossos avós.

       à medida que nos íamos aproximando de carro, a pirâmide parecia agigantar-se à nossa frente. A sua sombra formava um longo triângulo azul sobre o amarelo da areia.

       Carros e autocarros de excursões comprimiam-se num pequeno parque de estacionamento. Reparei numa fileira de camelos com sela amarrados num dos lados do

parque. Uma multidão de turistas espalhava-se pela areia, a admirar a pirâmide, a tirar fotografias e a conversar ruidosamente.

       - Era capaz de matar por um cone de gelado! - lamentou-se Sari. - Nunca tive tanto calor na minha vida.

       - É melhor não falarmos do calor - retorquiu o tio Ben, com o suor a escorrer-lhe da testa para as espessas sobrancelhas. - Vamos falar do teu contentamento

por veres o teu pai depois de tantos meses de separação.

       Sari resmungou.

       - Estaria ainda mais contente de o ver se me trouxesse um gelado.

       O tio Ben riu-se.

       Um guarda num uniforme de caqui postou-se diante do jipe. O tio Ben mostrou-lhe um cartão de identificação azul. O guarda acenou-nos quando passámos por ele.

       à medida que íamos seguindo a estrada por detrás da pirâmide, começámos a avistar uma fileira de tendas baixas de lona.

       - Bem-vindos ao Hilton das Pirâmides! - troçou o tio Ben. - A nossa suite de luxo é ali - apontou para a tenda mais próxima. - É bastante confortável - disse, estacionando o jipe junto à tenda. - Mas o serviço de quartos é péssimo.

       - E tens de ter cuidado com os escorpiões - alertou Sari.

       Estava sempre disposta a dizer qualquer coisa para tentar assustar-me.

       Descarregámos a minha mala. De seguida, o tio Ben conduziu-nos até junto da base da pirâmide.

       Uma equipa de filmagens estava a empacotar o seu equipamento. Um jovem, coberto de pó, assomou a uma entrada baixa, escavada num dos quadrados de pedra calcária.

Cumprimentou o meu tio com um aceno e dirigiu-se apressadamente para as tendas.

       - Um jovem da minha equipa - murmurou o tio Ben, entredentes. Apontou para a pirâmide.

       - Bom, cá estás, Gabe. Um bocado longe de Michigan, hum?

       Confirmei com um aceno de cabeça.

       - É espantoso - observei, escudando os olhos com as mãos para poder admirar o topo da pirâmide. - Tinha-me esquecido de como as pirâmides parecem maiores

quando estamos ao pé delas.

       - Amanhã, levo-vos aos dois até ao túmulo - prometeu o tio Ben. - Vieram mesmo na altura certa. Há meses e meses que andamos em escavações. E finalmente

estamos prestes a quebrar o selo e a conseguir entrar no próprio túmulo.

       - Uau! - exclamei. Queria aparentar uma grande calma diante de Sari. Mas não consegui evitar. Estava mesmo empolgado.

       - Suponho que vai ficar ainda mais famoso depois de abrir o túmulo, hum, pai? - perguntou Sari. Enxotou uma mosca do braço. - Ai!

       - Vou ficar tão famoso que as moscas vão ter medo de te picar - retorquiu o tio Ben. - Já agora, sabes como é que costumavam chamar às moscas no antigo Egipto?

       Sari e eu meneámos as cabeças, na negativa.

       - Nem eu! - ripostou o tio Ben, sorrindo. Mais uma das suas tolas piadas. A sua expressão alterou-se subitamente. - Oh, isso faz-me lembrar que tenho um presente para ti, Gabe.

       - Um presente?

       - Mas onde é que o pus? - enfiou as mãos nos bolsos das largas calças de algodão.

       Enquanto procurava, vi algo mover-se atrás dele. Sobre o ombro do meu tio, avistei uma sombra junto à abertura baixa que dava acesso à pirâmide.

       Mantive-me a observar, de soslaio.

       A sombra moveu-se. Distingui uma silhueta que caminhava vagarosamente.

       A princípio, julguei que fosse o sol nos olhos que me pregava partidas.

       Mas quando me esforcei por ver melhor, percebi que não me enganara.

       A silhueta deu um passo para o exterior da pirâmide - tinha a cara coberta de gaze, gasta e amarelecida. Tal como os braços. E as pernas.

       Abri a boca para gritar - mas a voz sumiu-se na garganta.

       Enquanto tentava reunir forças para tentar alertar o meu tio, a múmia estendeu os braços muito hirtos e avançou cambaleante por detrás dele.

 

       Vi os olhos de Sari arregalarem-se de medo. Soltou um suspiro surdo.

       - Tio Ben!... - consegui finalmente gritar. - Vire-se! É... é...

       O meu tio fitou-me, semicerrando os olhos, confuso.

       Cambaleando, a múmia aproximou-se mais, estendendo os braços de modo ameaçador, prestes a agarrar por detrás o pescoço do tio Ben.

       - Uma múmia! - exclamei, num grito estridente.

       O tio Ben virou-se. Surpreendido, não conteve um grito.

        - Ela anda! - gritou, apontando para a múmia com um dedo trémulo. Ia recuando à medida que a múmia avançava. - Ela anda!

       - Ohhh! - Um estranho gemido escapou-se dos lábios de Sari.

       Virei-me e preparei-me para largar numa corrida.

       Mas, nesse preciso momento, a múmia desatou às gargalhadas.

       Baixou os braços amarelecidos.

       - Buuu! - gritou, e soltou nova gargalhada.

       Virei-me e reparei que o tio Ben também se ria. Tinha os olhos escuros a faiscar, de tão alegres.

       - Ela anda! Ela anda! - repetiu, abanando a cabeça. Rodeou com o braço os ombros da múmia. Fiquei boquiaberta, a olhar para os dois, ainda com o coração aos saltos.

       - Este é o John - informou o tio Ben, desfrutando a partida que nos havia pregado. - Tem estado aqui a fazer um anúncio de televisão. É sobre umas ligaduras quaisquer, mais adesivas.

       - Ligaduras adesivas Bird - explicou-nos John. - Era mesmo disto que a sua múmia estava a precisar!

       à conta disso, ele e o tio Ben soltaram outra gargalhada. Em seguida, o meu tio apontou para a equipa de filmagens, que acondicionava o seu equipamento numa pequena carrinha.

       - Por hoje, acabaram. Mas John concordou em demorar-se mais um pouco e ajudar-me a pregar-te um susto.

       Sari revirou os olhos num gesto de impaciência.

       - Bela tentativa - exclamou, secamente. - Tem de fazer melhor do que isso, papá, para conseguir assustar-me. E, em seguida, acrescentou: - Pobre Gabe. Já viste a cara dele? Estava tão apavorado! Pensei que fosse entrar em combustão espontânea ou coisa parecida!

       O tio Ben e John riram-se.

       - Oh... nem pensar! - insisti, sentindo-me corar. Como é que Sari podia dizer aquilo?

       Quando a múmia apareceu a cambalear, bem vi como Sari se assustou e começou a recuar. Estava tão assustada quanto eu!

       - Também te ouvi gritar! - disse-lhe. Não era minha intenção ser tão queixinhas.

       - Só fiz isso para te assustar - insistiu Sari. Atirou a sua longa trança por cima do ombro.

       - Tenho de me apressar - declarou John, olhando de relance para o seu relógio de pulso. - Quando voltarmos para o hotel, atiro-me à piscina. Sou capaz de ficar debaixo de água durante uma semana! - acenou-nos com a mão enfaixada e correu para a carrinha.

       Porque é que não reparara que usava um relógio de pulso?

       Senti-me um autêntico idiota.

       - Foi a última vez! - gritei, num tom furibundo, dirigindo-me ao meu tio. - Nunca mais volto a cair numa das suas tolas partidas! Nunca mais!

       Sorriu-me e piscou-me o olho.

       - Queres apostar?

       - Então e o presente para o Gabe? - perguntou Sari. - O que é?

       O tio Ben tirou algo do bolso e segurou-o diante de si. Parecia uma pedra suspensa de um fio. Feita de vidro cor de laranja transparente. Cintilava ao sol.

       Estendeu-ma. Passei a mão pela pedra, sentindo a sua lisura enquanto a examinava.

       - O que é? - perguntei-lhe. - Que espécie de vidro é este?

       - Não é vidro - retorquiu. - É uma pedra transparente chamada âmbar - aproximou-se para a examinar comigo. Segura-a e olha para o interior da pedra.

       Segui as suas instruções. Vi um volumoso insecto, castanho, no interior.

       - Parece uma espécie de escaravelho - declarei.

       - É um escaravelho - disse o tio Ben, semicerrando um olho para ver melhor. - É um escaravelho sagrado do antigo Egipto. Foi apanhado no âmbar há quatro mil anos. Como podes ver, está perfeitamente conservado.

       - É mesmo nojento - comentou Sari, fazendo uma careta. Deu uma palmada nas costas do pai. - Belo presente, pai. Um insecto morto. Lembra-me para não te deixar fazer as nossas compras de Natal!

       O tio Ben riu-se. Depois virou-se para mim.

       - O escaravelho era muito importante para os antigos egípcios - disse, rolando o pendente de âmbar entre os dedos e deixando-o cair na palma da minha mão.

- Acreditavam que os escaravelhos eram um símbolo de imortalidade.

       Observei a carapaça escura do insecto, as suas seis patas espinhosas, perfeitamente preservadas.

       - Possuir um escaravelho significava imortalidade - prosseguiu o meu tio. - Mas a mordedura de um escaravelho significava morte imediata.

       - Que estranho - murmurou Sari, entredentes.

       - Tem um belo aspecto - disse-lhe. - Tem mesmo quatro mil anos?

       O tio Ben confirmou com um aceno de cabeça.

       - Usa-o ao pescoço, Gabe. Talvez ainda possua alguns dos seus antigos poderes.

       Enfiei o fio pela cabeça e ajustei-o sob a T-shirt. A pedra de âmbar de encontro à pele provoca-me uma sensação de frio.

       - Obrigado, tio Ben - disse. - É um belo presente.

       O tio Ben limpou o suor da testa com um lenço.

       - Vamos voltar para a tenda e arranjar qualquer coisa fresca para beber - sugeriu.

       Deu uns passos - e estacou de súbito quando reparou no rosto de Sari. Todo o seu corpo tremia. Fitava-me de boca aberta e apontava para o meu peito.

       - Sari, o que é? - gritou o tio Ben.

       - O... escaravelho... - gaguejou. - Fu... fugiu! Eu vi-o! - Depois apontou para baixo. - Está ali!

       - Hum? - Virei-me e debrucei-me para procurar o escaravelho.

       - Ai! - Não contive um grito quando senti uma dolorosa e aguda picada na parte de trás da perna.

       E apercebi-me de que o escaravelho me tinha mordido.

 

       De tão alarmado que estava, sentia dificuldade em respirar, mas as palavras do tio Ben sobre o escaravelho não deixavam de me ressoar na mente. "Possuir um escaravelho significava imortalidade. Mas a mordedura de um escaravelho significava morte imediata."

       Morte imediata?

       - Nãoooo! - soltei um gemido e virei-me.

       E vi Sari ajoelhada. A sorrir. Com a mão estendida.

       Compreendi de imediato que me tinha dado um beliscão na perna.

       Com o coração a bater ainda descompassado, agarrei o pendente e espreitei a pedra laranja de aparência vidrada. O escaravelho permanecia imóvel no interior, tão imóvel como sempre se mantivera ao longo de quatro mil anos.

        - Aaaaaaah! - Não contive um grito de raiva. Estava sobretudo furioso comigo mesmo.

       Iria cair em todas as partidas tolas que o tio Ben e Sari me pregassem nessa viagem? Se assim fosse, iria ser um longo Verão.

       Sempre gostara da minha prima. A não ser nas alturas em que se armava em competitiva e superiora, sempre nos tínhamos dado mesmo bem.

       Mas, nesse momento, tinha vontade de lhe dar um murro. Estava mesmo desejoso de lhe dizer umas coisas desagradáveis.

       Mas não conseguia pensar em nada de suficientemente desagradável.

       - Isso foi mesmo maldoso, Sari - declarei, num tom sombrio, metendo o pendente para dentro da T-shirt.

       - Sim, pois foi... não foi? - retorquiu, muito contente consigo própria.

       Nessa noite, estendi-me de costas na minha estreita cama de campanha, mirando o tecto baixo da tenda, à escuta. A ouvir o roçar do vento de encontro à entrada

da tenda, o suave ranger das estacas da tenda, a lona a enfunar. Não me parece que alguma vez me tenha sentido tão desperto.

       Virando a cabeça, reparei no brilho sumido do luar que jorrava através de uma frincha na porta da tenda. Também conseguia ver umas folhas secas de plantas

do deserto, lá fora na areia. E distinguia algumas manchas de humidade na parede da tenda sobre a cama. "Nunca vou conseguir adormecer", pensei, tristemente.

       Empurrei e esmurrei a almofada lisa pela vigésima vez, esforçando-me por a moldar. O áspero cobertor de lã fazia-me comichão no queixo.

       Não era a primeira vez que dormia longe de casa. Mas dormira sempre num quarto. Nunca no meio de um vasto e arenoso deserto, numa tenda de lona a enfunar e a ranger.

       Não estava assustado. O meu tio estava deitado a ressonar na sua cama de campanha do outro lado da tenda.

       Estava simplesmente desperto. Muito, muito desperto.

       Tão desperto que conseguia ouvir o silvo do vento nas palmeiras lá fora. E conseguia ouvir o ruído surdo dos pneus dos automóveis a quilómetros de distância na estrada estreita.

       E ouvi o baque do meu coração quando algo se me retorceu sobre o peito.

       Estava tão desperto. Senti-o instantaneamente.

       Só um comichar. Um movimento rápido.

       Só podia ser uma coisa. O escaravelho a mover-se no interior do pendente de âmbar.

       A sério desta vez.

       A sério. Moveu-se.

       Procurei desajeitadamente o pendente às escuras, atirando com o cobertor. Segurei-o à luz do luar. Conseguia distinguir o gordo escaravelho, muito preto na sua prisão cor de laranja.

       - Mexeste-te? - murmurei-lhe. - Retroceste as pernas?

       De repente, senti-me completamente estúpido. Então eu estava a falar a um insecto com quatro mil anos? Estaria a imaginar que ele estava vivo?

       Irritado comigo mesmo, voltei a meter o pendente para dentro do pijama.

       De modo algum podia saber como esse pendente iria, em breve, tornar-se importante para mim.

       De modo algum podia saber que o pendente guardava um segredo que tanto poderia salvar-me a vida... como matar-me.

 

       A tenda já estava quente quando acordei na manhã seguinte. A luz do Sol, brilhante e amarela, jorrava através da aba aberta da tenda. Fitando a luz de soslaio, esfreguei os olhos e espreguicei-me. O tio Ben já tinha saído. Doíam-me as costas. A pequena cama de campanha era tão dura!

       Mas estava demasiado excitado para me preocupar com as minhas costas. Nessa manhã, ia descer à pirâmide, até à entrada de um túmulo antigo.

       Enfiei uma T-shirt lavada e os jeans que havia usado no dia anterior. Ajustei o pendente do escaravelho debaixo da camisola. Depois, guardei cuidadosamente a pequena mão da múmia no bolso de trás das calças. "Com o pendente e a mão da múmia, estou bem protegido", disse para comigo. "Nada de mau pode acontecer-me nesta viagem."

       Passei repetidamente a escova pelo cabelo espesso e negro e pus o meu boné preto e amarelo dos Michigan Wolverines. Em seguida, apressei-me a dirigir-me à tenda da messe para tomar o pequeno- almoço. O Sol flutuava ao longe, sobre as palmeiras. A areia amarela do deserto refulgia, brilhante. Inspirei fundo.

       "Iagh. Deve haver camelos aqui próximo", determinei. O ar não era exactamente fresco.

       Descobri Sari e o tio Ben a tomarem o seu pequeno-almoço, sentados num dos extremos de uma mesa comprida na tenda da messe. O tio Ben envergava as suas habituais calças largas de algodão e uma T-shirt desportiva, branca e de mangas curtas, com nódoas de café no peito.

       Sari tinha o longo cabelo negro preso num rabo-de-cavalo. Vestia uma camisola vermelha justa e sem mangas sobre uns calções de ténis brancos.

       Esboçaram um cumprimento quando entrei na tenda. Servi-me de um copo de sumo de laranja e, uma vez que não tinha visto flocos, enchi uma taça com farinha de cereais com passas.

       Três dos trabalhadores do tio Ben comiam no outro extremo da mesa. Conversavam animadamente sobre o seu trabalho.

       - Podemos entrar hoje - ouvi um deles dizer.

     - Pode demorar dias a romper o selo na porta do túmulo - retorquiu uma mulher bastante jovem.

       Sentei-me junto de Sari.

       - Conte-me tudo sobre o túmulo - pedi ao tio Ben. - De quem é o túmulo? O que é que há lá?

       Soltou um riso abafado.      

       - Deixa-me dar-te os bons-dias antes de começar a palestra.

       Sari debruçou-se sobre a minha taça de cereais.

       - Oh, olha... - exclamou, apontando. - Consegui muito mais passas do que tu!

       Já tinha dito que ela conseguia transformar um pequeno-almoço numa competição.

       - Bom, o meu sumo de laranja tem mais polpa - retorqui.

       Era só uma piada, mas Sari verificou o seu copo de sumo para se certificar.

       O tio Ben limpou a boca com um guardanapo de papel. Bebeu um longo trago de café.

       - Se não estou enganado - começou -, o túmulo que aqui descobrimos pertencia a um príncipe. Na verdade, a um primo do rei Tutankhamon.

       - É o rei Tut - disse-me Sari, interrompendo.

       - Eu sei isso! - redargui, num tom cortante.

       - O túmulo do rei Tut foi descoberto em 1922 - prosseguiu o tio Ben. - A vasta câmara funerária estava repleta com a maior parte dos tesouros de Tut. Foi o mais espantoso achado arqueológico do século - um sorriso cruzou-lhe o rosto. - Até agora.

       - Acha que descobriu algo ainda mais espantoso? - perguntei. Ainda não tocara nos meus cereais. Estava demasiado interessado na história do meu tio.

       Encolheu os ombros.

       - Não há maneira de sabermos o que se encontra por detrás da porta do túmulo até o abrirmos, Gabe. Mas estou a fazer figas. Creio que descobrimos a câmara funerária do príncipe Khor-Ru. Era o primo do rei. E dizia-se que era tão rico quanto o rei.

       - E acha que todas as coroas, as jóias e os haveres do príncipe Khor-Ru foram enterrados com ele? - perguntou Sari.

       O tio Ben bebeu o último trago de café e fez deslizar a caneca branca pela mesa.

       - Quem sabe? - redarguiu. - Pode lá haver tesouros espantosos. Ou pode estar vazio. Uma simples sala vazia.

       - Como é que poderia estar vazia? - perguntei. - Porque é que haveria um túmulo vazio na pirâmide?

       - Saqueadores de túmulos - explicou o tio Ben, com uma expressão grave. - Lembrem-se, o príncipe Khor-Ru foi enterrado por volta do ano 1.300 antes de Cristo.

Ao longo dos séculos, muitos saqueadores conseguiram entrar nas pirâmides e roubar os tesouros de muitas câmaras funerárias. - Levantou-se e soltou um suspiro. - Podemos ter andado a escavar durante estes meses todos para acabarmos por encontrar uma sala vazia.

       - Nem pensar! - gritei, excitado. - Aposto que vamos encontrar lá a múmia do príncipe. E jóias no valor de milhões de dólares!

       O tio Ben sorriu-me.

       - Chega de conversa - disse. - Acabem o pequeno-almoço para podermos ir embora.

       Sari e eu seguimos o tio Ben para fora da tenda. Acenou a dois jovens que saíam da tenda de mantimentos carregando equipamento para escavações. Em seguida,

dirigiu-se-lhes para lhes falar. Sari e eu deixámo-nos ficar para trás. Sari virou-se para mim, com uma expressão séria no rosto.

       - Oh, Gabe - disse, suavemente -, desculpa-me por ter sido tão chata.

       - Tu? Chata? - retorqui, sarcasticamente.

       Não se riu.

       - Estou um bocado preocupada - confessou. - Com o papá.

     Olhou de relance para o tio Ben. Ia aplicando umas palmadas nas costas dos jovens enquanto falava. Alegre como sempre.

       - Porque é que estás preocupada? - perguntei a Sari. - O teu pai parece estar muito bem disposto.

       - É por isso que estou preocupada - murmurou. - Anda tão empolgado e feliz. Está mesmo convencido de que esta descoberta o irá tornar famoso.

       - E então? - perguntei.

       - Então e se acontece encontrar uma sala vazia? - retorquiu Sari, observando o pai com os seus olhos escuros. - E se os saqueadores de túmulos pilharam mesmo o lugar? E se afinal não for o túmulo do tal príncipe? E se o papá romper o selo, abrir a porta... e não encontrar mais que uma sala velha e vazia, cheia de pó e pejada de cobras? - Suspirou. - O pai vai ficar desfeito. Completamente desfeito. Está a contar tanto com isto, Gabe. Não sei se será capaz de aguentar uma desilusão.

       - Mas de que serve estar a ver as coisas pelo lado mais negro? - retorqui. - E se...

       Detive-me porque o tio Ben já se apressava a regressar para junto de nós.

       - Vamos até à câmara - disse, num tom excitado. - Os trabalhadores acham que devemos estar muito perto de descobrir a entrada do túmulo. - Colocou os braços sobre os nossos ombros e conduziu-nos até à pirâmide.

       Ao entrarmos na sombra da pirâmide, o ar ficou mais fresco. A entrada baixa, escavada na base da parede de trás, já se avistava. Tinha o tamanho à justa para que entrássemos um de cada vez. Espreitando pela estreita abertura, vi que o túnel se afundava numa íngreme descida.

       "Espero não cair", pensei, sentindo que, com o receio, um nó se me estreitava no estômago. Imaginei-me a cair e a cair, sumindo-me numa cova escura e infindável.

       Sobretudo não queria cair diante de Sari. Sabia que ela nunca mo deixaria esquecer.

       O tio Ben estendeu-nos uns capacetes amarelos. Tinham lanternas embutidas como os capacetes dos mineiros.

       - Mantenham-se sempre juntos - ordenou. - Lembro-me do Verão passado. Vocês os dois perderam-se e arranjaram-nos uma quantidade de sarilhos.

       - Não... não nos perdemos - gaguejei. Tentava não aparentar nervosismo, mas não consegui evitar.

       Olhei de relance para Sari. Estava a ajustar o capacete amarelo na cabeça. Parecia tão calma e confiante como sempre.

       - Eu indico o caminho - disse o tio Ben, apertando a correia do capacete sob o queixo. Virou-se e começou a descer pelo buraco.

       Mas um grito estridente de alguém por detrás de nós fez com que todos estacássemos e nos virássemos.

       - Parem! Por favor... parem! Não entrem!

 

       Uma jovem lançou-se a correr pela areia na nossa direcção. O seu longo cabelo preto esvoaçava atrás de si enquanto corria. Carregava uma pasta castanha numa

das mãos. Uma máquina fotográfica, presa com uma correia em torno do pescoço, oscilava diante de si.

       Estacou à nossa frente e sorriu ao tio Ben.

       - Dr. Hassad? - perguntou, ofegante.

       O meu tio confirmou com um aceno de cabeça.

       - Sim? - esperou que ela recuperasse o fôlego.

       "Uau. Era mesmo bonita", pensei. Tinha o cabelo preto comprido, muito liso e brilhante, cortado em franja sobre a testa. Tinha os mais lindos olhos verdes que eu alguma vez vira.

       Estava toda vestida de branco. Um casaco branco e uma blusa branca sobre umas calças brancas. Era baixa - só uns três a cinco centímetros mais alta do que Sari.

       "Deve ser uma estrela de cinema ou coisa do género", disse para comigo. Era mesmo espectacular!

      A jovem pousou a pasta castanha na areia e, com um gesto, atirou o cabelo, longo e negro, para trás.

       - Lamento ter gritado, Dr. Hassad - disse ao meu tio. - Foi só porque precisava realmente de falar consigo. Não queria que se sumisse no interior da pirâmide.

       O tio Ben fitou-a, estreitando os olhos, examinando-a.

       - Como é que passou pelos guardas da segurança? - perguntou, retirando o capacete.

       - Mostrei-lhes o meu cartão de imprensa - retorquiu. - Sou repórter no jornal Sun do Cairo. Chamo-me Nila Rahmad. Contava que...

       - Nila? - interrompeu o tio Ben. - Que bonito nome.

       Sorriu.

       - Sim. A minha mãe chamou-me assim por causa do rio da Vida, o Nilo.

       - Bom, é um nome muito bonito - retorquiu o tio Ben. Os seus olhos cintilaram. - Mas não estou preparado para ter quaisquer repórteres a escrever sobre o nosso trabalho aqui.

       Nila franziu as sobrancelhas e mordeu o lábio inferior.

       - Falei com o Dr. Fielding há uns dias - declarou.

      Os olhos do meu tio arregalaram-se de surpresa.

       - Falou?

       - O Dr. Fielding autorizou-me a escrever sobre a vossa descoberta - insistiu Nila, sem despegar os seus olhos verdes do meu tio.

       - Bom, ainda não descobrimos nada! - declarou o tio Ben, num tom ríspido. - Pode não haver nada para descobrir.

       - Não foi isso que o Dr. Fielding me disse - redarguiu Nila. - Parecia muito confiante em como estavam prestes a fazer uma descoberta que iria surpreender o mundo.

       O tio Ben riu-se.

       - Por vezes, o meu colega entusiasma-se e fala de mais - explicou o tio Ben.

       Os olhos de Nila pareciam suplicar ao meu tio.

       - Posso entrar na pirâmide consigo? - Olhou de relance para Sari e para mim. - Vejo que tem outros visitantes.

       - A minha filha, Sari, e o meu sobrinho, Gabe - retorquiu o tio Ben.

       - Bom, posso descer com eles? - implorou Nila. - Prometo que não escrevo uma palavra no meu jornal até me dar autorização.

       O tio Ben esfregou o queixo, pensativo. Com um gesto, voltou a colocar o capacete na cabeça.

       - Nem fotografias - resmungou, entredentes.

       - Isso quer dizer que posso ir? - perguntou Nila, entusiasmada.

       O tio Ben confirmou, com um aceno de cabeça.

       - Como observadora - estava a tentar o mais possível parecer duro. Mas apercebi-me de que ela lhe agradava.

       Nila lançou-lhe um sorriso caloroso.

       - Muito obrigada, Dr. Hassad.

       Estendeu a mão para um carro com equipamentos e entregou-lhe um capacete amarelo.

       - Hoje não vamos fazer nenhumas descobertas espantosas - alertou-a. - Mas estamos a aproximar-nos bastante... de qualquer coisa.

       Enquanto colocava o pesado capacete, Nila virou-se para Sari e para mim.

       - É a primeira vez que vão à pirâmide? - perguntou.

       - Que ideia. Já lá estive três vezes - vangloriou-se Sari. - É mesmo fantástico.

       - Eu só cheguei ontem - disse. - Portanto é a primeira vez que desço... - Detive-me quando vi a expressão de Nila alterar-se.

       Porque estaria a olhar para mim daquela maneira?

       OLhei de relance para baixo e apercebi-me de que tinha os olhos fixos no pendente de âmbar. Estava boquiaberta, de tão surpreendida.

       - Não! Não acredito nisto! Não acredito mesmo! Isto é tão estranho! - exclamou.

 

       - O... o que é que se passa? - gaguejei.

       - Somos gémeos! - declarou Nila, puxando de um pendente que usava em volta do pescoço.

       Um pendente de âmbar, exactamente da mesma forma do meu.

       - Que extraordinário! - exclamou o tio Ben.

       Nila segurou o meu pendente entre os dedos e baixou a cara para o examinar.

     - Tens um escaravelho dentro do teu - disse-me, fazendo revirar o pendente entre os dedos.

       Largou o meu e estendeu-me o dela para que o visse.

       - Olha, Gabe. O meu está vazio.

       Examinei o seu pendente. Parecia vidro cor de laranja transparente. Nada lá dentro.

       - Acho o teu mais bonito - disse Sari dirigindo-se a Nila. - Não gostaria nada de andar com um insecto morto ao pescoço.

       - Mas dizem que dá sorte ou coisa que o valha - retorquiu Nila. Voltou a arrecadar o pendente sob o seu casaco branco. - Espero que não dê azar andar com um pendente vazio.

       - Também espero - comentou secamente o tio Ben. Virou-se e conduziu-nos à abertura da pirâmide.

      Não tenho bem a certeza de como é que me perdi.

       Sari e eu caminhávamos juntos, atrás do tio Ben e de Nila. Estávamos mesmo atrás deles. Podia ouvir o meu tio a explicar que as paredes do túnel eram de granito e pedra calcária.

       Tinha as lanternas do capacete acesas. Os estreitos feixes de luz amarela jorravam e entrecruzavam-se sobre as poeirentas paredes e a superfície do túnel, enquanto nos embrenhávamos cada vez mais no interior da pirâmide.

       O tecto começava a ser demasiado baixo e tivemos de caminhar vergados. O túnel continuava a encurvar-se e ramificava-se em vários túneis mais pequenos. "Partidas em falso e encruzilhadas sem saída", chamou-lhes o tio Ben.

       Era difícil ver alguma coisa à luz vacilante dos nossos capacetes. Tropecei uma vez e raspei com o capacete na parede rugosa do túnel. Ali em baixo estava surpreendentemente fresco e comecei a desejar ter vestido uma camisola mais grossa ou coisa do género.

       A nossa frente, o tio Ben ia falando a Nila do rei Tut e do príncipe Khor-Ru. Parecia-me que o tio Ben estava a tentar impressioná-la. Comecei a perguntar-me se estaria a ficar apaixonado ou coisa que o valha.

       - Isto é tão emocionante! - ouvi Nila exclamar. - Foi tão simpático da sua parte e da do Dr. Fielding deixarem-me ver isto.

       - Quem é o Dr. Fielding? - perguntei a Sari.

       - É o colega do meu pai - respondeu Sari, devolvendo-me o sussuro. - Mas o pai não gosta dele. Provavelmente vais conhecê-lo. Anda sempre por aí. Também não gosto muito dele.

       Detive-me para examinar uma estranha inscrição na parede do túnel. Parecia ter a forma de uma cabeça de um animal qualquer.

       - Sari, olha! - murmurei. - Um desenho antigo.

       Sari revirou os olhos.

       - É o Bart Simpson! - sussurrou. - Um dos trabalhadores do pai deve tê-lo desenhado aqui.

       - Eu sabia! - menti. - Era só para te testar.

       Mas quando é que eu iria deixar de fazer figura de idiota em frente da minha prima?

       Virei as costas ao estúpido desenho na parede e Sari tinha desaparecido.

       Conseguia distinguir o estreito feixe de luz do seu capacete à minha frente.

       - Eh... espera! - chamei. Mas a luz sumiu-se no ponto em que o túnel descrevia uma curva. Nesse momento, voltei a tropeçar.

       Bati com o capacete na parede do túnel. E a luz apagou-se.

       - Eh... Sari? Tio Ben? - Chamei-os. Encostei-me pesadamente de encontro à parede, receoso de me mover naquela escuridão total.

       - Eh! Alguém consegue ouvir-me? - A minha voz ecoou no estreito túnel.

       Mas ninguém respondeu.

       Tirei o capacete e remexi na lanterna. Virei-a, tentando apertá-la. Depois, agitei o capacete. Mas a luz não voltou.

       Com um suspiro, voltei a colocar o capacete na cabeça.

       "E agora?" pensei, começando a sentir-me um bocado assustado. Também começava a sentir o estômago agitado. E a garganta seca.

       - Eh... alguém me ouve? - gritei. - Estou no escuro aqui atrás. Não posso andar!

       Não houve resposta.

        Onde é que estava toda a gente? Não teriam reparado que eu desaparecera?

       - Bom, vou ficar simplesmente aqui à espera deles - murmurei para comigo.

       Encostei o ombro à parede do túnel - e senti-me cair através da parede. Nada que me permitisse restabelecer o equilíbrio. Nada a que me agarrar. Estava a cair, a cair na mais completa escuridão.

 

       Ia esbracejando loucamente ao cair.

       Procurava desesperadamente alcançar algo a que me agarrar.

       Aconteceu tudo demasiado depressa para que conseguisse gritar.

       Aterrei, desamparado, sobre as costas. Senti a dor alastrar aos braços e às pernas. Num torvelinho, a escuridão envolvia-me.

       Senti-me incapaz de respirar. Vi uns clarões vermelhos, brilhantes, mas logo tudo voltou a ficar negro. Esforcei-me por respirar, mas não consegui inspirar nenhum ar.

       Sentia um peso horrível no peito, como quando uma bola de basquetebol nos atinge no estômago.

       Finalmente, consegui sentar-me, esforçando-me por ver alguma coisa naquela escuridão total.

       Ouvi um ruído suave, como se alguém arrastasse os pés. Algo a raspar no solo de terra.

       - Eh! Alguém consegue ouvir-me? - A voz saiu-me num sussurro rouco.

       Doíam-me as costas mas começava agora a respirar normalmente.

       - Eh! Estou aqui! - gritei, um pouco mais alto.

       Não houve resposta.

       Não teriam dado pela minha falta? Não andariam à minha procura?

       Estava encostado para trás, apoiado nas mãos, e começava a sentir-me melhor. Comecei a sentir comichão na mão direita.

       Estendi a mão para a coçar e rocei em qualquer coisa.

       Apercebi-me de que também estava com comichão nas pernas. E senti algo a rastejar no meu pulso direito.

       Sacudi a mão com toda a força.

       - O que é que se passa aqui? - murmurei.

       Sentia um formigueiro no corpo todo. Sentia umas alfinetadas ligeiras nos braços e nas pernas.

       Sacudindo ambos os braços, levantei-me de um salto. E bati com o capacete num rebordo baixo qualquer. Com um estalido, a luz acendeu-se.

       Senti que me faltava o ar quando vi as rastejantes criaturas iluminadas pelo estreito feixe de luz. Aranhas. Centenas de aranhas brancas, gordas, apinhando o chão da câmara.

       Avançavam apressadamente, trepando umas para cima das outras. Quando me levantei bruscamente, e a luz as varreu de súbito, reparei que também cobriam as paredes de pedra. As aranhas brancas faziam com que a parede parecesse mover-se, como se estivesse viva.

       Havia aranhas suspensas de teias invisíveis do tecto da câmara. Pareciam balouçar e flutuar no ar.

       Sacudi uma delas das costas da mão.

       Soltando um grito de surpresa, apercebi-me então do que me levava a ter comichão nas pernas. Tinha aranhas a rastejar por elas acima. Até aos braços. Pelas costas abaixo.

       - Socorro! Ajudem-me! Por favor! - consegui gritar.

       Senti que uma aranha se deixara cair em cima da minha cabeça.

       Sacudi-a com uma palmada furiosa.

       - Socorro! Ajudem-me! - gritei. - Ninguém me ouve?

       Foi então que vi algo de assustador. Muito mais assustador. Uma cobra assomou a deslizar por cima de mim, descendo rapidamente, direita ao meu rosto.

 

       Ao ver que a cobra se deixava silenciosamente cair na minha direcção, curvei-me de súbito para me esquivar e tentei cobrir a cabeça.

       - Agarra-a! - ouvi alguém gritar. - Agarra-a!

       Com um grito de surpresa, levantei os olhos.

       O feixe de luz acompanhou o meu movimento. E vi que não era uma cobra que se alongava por cima de mim - mas uma corda!

       - Agarra-te a ela, Gabe! Depressa! - gritou Sari, insistentemente, lá muito em cima.

       Sacudindo as aranhas, esperneando freneticamente para sacudir as aranhas dos meus sapatos de ténis, agarrei a corda com ambas as mãos.

       E senti-me ser puxado, içado através da escuridão até ao cimo, à superfície do túnel.

       Alguns segundos depois, o tio Ben estendeu as mãos para me alcançar e agarrou-me pelos braços. Enquanto me içava, consegui distinguir Sari e Nila que puxavam a corda com toda a força.

       Incapaz de me conter, rompi em exclamações de júbilo quando os meus pés pisaram finalmente terreno firme. Mas não tive muito tempo para festejar. Sentia o corpo todo a arder!

       Desatei a espernear loucamente, a sacudir as aranhas dos braços, a enxotá-las das costas, esmagando-as com os pés à medida que me ia conseguindo desembaraçar delas.

       Num relance súbito, reparei que Sari se ria de mim.

       - Gabe, como é que chamas a essa dança? - perguntou.

       O tio Ben e Nila também se riram.

       - Como é que caíste ali em baixo, Gabe? - perguntou o meu tio, espreitando nas profundezas a câmara das aranhas.

       - A parede... cedeu - disse-lhe, coçando freneticamente as pernas.

       - Pensei que ainda estivesses comigo - explicou Sari. - Quando me virei... - adiantou em voz sumida, sem concluir.

       A luz do capacete do tio Ben iluminou a câmara do nível inferior.

       - É uma grande queda - observou o tio Ben, virando-se de novo para mim. - Tens a certeza de que estás bem?

       Confirmei com um aceno de cabeça.

       - Sim. Acho que sim. Primeiro, fiquei incapaz de respirar. Depois, as aranhas...

       - Deve haver centenas de câmaras como esta - observou o meu tio, olhando de relance para Nila. - Os construtores das pirâmides criaram um labirinto de túneis e de câmaras... para tentar ludibriar os saqueadores de túmulos e impedir que encontrassem o verdadeiro túmulo.

       - lagh! Que aranhas tão gordas! - exclamou Sari, recuando.

       - Há milhões delas lá em baixo - disse-lhe. - Nas paredes, penduradas do tecto... por toda a parte.

       - Vou ficar com pesadelos por causa disto - declarou Nila, suavemente, aproximando-se mais do tio Ben.

       - Tens a certeza de que estás bem? - perguntou de novo o meu tio.

       Preparava-me para responder. Mas, nesse momento, lembrei-me subitamente de uma coisa. Da mão da múmia. Tinha-a guardado no bolso das calças.

       Teria ficado esmagada quando aterrara em cima dela?

       Senti que o coração me parava no peito. Não queria que nada de mau sucedesse àquela mãozinha. Era o meu amuleto da sorte.

       Estendi as mãos para o bolso dos jeans e retirei-a. Segurando-a à luz do capacete, examinei-a cuidadosamente.

       Não contive um suspiro de alívio quando verifiquei que estava intacta. Ainda parecia estar fria. Mas não havia sido esmagada.

       - O que é isso? - perguntou Nina, aproximando-se e debruçando-se para ver melhor. Sacudiu o seu longo cabelo da cara. - É o Invocador?

       - Como é que sabes isso? - perguntei, segurando a mão de maneira a que ela pudesse ver melhor.

       Nila fitou-a fixamente, parecendo absorta.

       - Sei muito sobre o antigo Egipto - retorquiu.

       - Tenho passado a vida a estudá-lo.

       - Pode ser uma relíquia antiga - interrompeu o tio Ben.

       - Ou pode não passar de uma lembrança toda esfarrapada - acrescentou Sari.

       - Tem mesmo poderes - insisti, sacudindo-a cuidadosamente. - Aterrei em cima dela ali em baixo - apontei para a câmara das aranhas - e não ficou esmagada.

       - Acho que deve ser mesmo um amuleto da sorte - disse Nila, virando-se para o tio Ben.

       Então porque é que não impediu que Gabe caísse por aquela parede? - troçou Sari, com uma risadinha.

       Antes que pudesse responder, vi a mão da múmia mover-se. Os pequenos dedos encurvaram-se lentamente, estendendo-se e contraindo-se.

       Com um grito, quase a deixei cair.

       - Gabe... o que foi agora? - indagou o tio Ben, num tom ríspido.

       - Hum... nada - respondi.

       De qualquer modo, nunca acreditariam em mim.

       - Acho que por agora já explorámos o suficiente - disse o tio Ben.

       Enquanto nos encaminhávamos para a entrada, fui segurando a mão da múmia diante de mim. Não estava a ver coisas. Disso tinha a certeza. Os dedos tinham-se realmente movido. Mas porquê?

       Estaria a mão a tentar fazer-me algum sinal? Estaria a tentar avisar-me de algo?

 

       Dois dias depois, os trabalhadores do tio Ben alcançaram a entrada para a câmara funerária.

       Sari e eu tínhamos passado esses dois dias a descansar na tenda e a explorar a área exterior da pirâmide. Uma vez que era sobretudo areia, não havia muito a explorar.

       Passámos uma tarde inteira a jogar scrabble, um jogo a seguir ao outro. Jogar scrabble com Sari não era nada divertido. Jogava sempre à defesa e passava horas a tentar descobrir maneiras de bloquear o tabuleiro, impedindo-me de arranjar quaisquer palavras de jeito.

       De cada vez que conseguia alinhar uma palavra mesmo boa, Sari começava imediatamente a reclamar, alegando que a palavra não existia e que não podia valer.

E uma vez que não tínhamos nenhum dicionário na tenda, foi bem sucedida na maior parte das discussões. O tio Ben, entretanto, parecia realmente enervado. Pensei que o enervasse o facto de estar finalmente iminente a abertura do túmulo.

       Mal nos dirigiu a palavra, a mim e à Sari. Em vez disso, passou imenso tempo em reuniões com pessoas que não reconheci. Estava com uma expressão muito séria, como se andasse a tratar de negócios. Nada das suas habituais brincadeiras e palmadinhas nas costas.

       O tio Ben também passou muito tempo a conversar com Nila. A principio, ela havia dito que pretendia escrever sobre a sua descoberta na pirâmide. Mas agora tinha decidido escrever um artigo sobre ele. Escrevia praticamente todas as palavras que ele dizia num bloco que andava sempre consigo.

       Mas, nesse momento, ao pequeno-almoço, o tio Ben sorriu pela primeira vez em dois dias.

       - É hoje o dia! - anunciou.

       Sari e eu não conseguimos dissimular o nosso entusiasmo.

       - Levam-nos convosco? - perguntei.

       O tio Ben confirmou com um aceno de cabeça.

       - Quero que estejas lá - declarou. - É possível que hoje façamos história. Talvez seja um dia de que nos iremos recordar para o resto das nossas vidas. - Encolheu os ombros e acrescentou, num tom pensativo: - Talvez.

       Alguns minutos depois, seguimos os três pela areia no encalço de vários trabalhadores que se dirigiam à pirâmide. Estava um dia cinzento. No céu pairavam umas nuvens escuras, ameaçando chuva. A pirâmide destacava-se, muito escura, de encontro às nuvens.

       Quando nos aproximámos da pequena abertura na parede de trás, Nila apareceu a correr, com a máquina fotográfica a balouçar à sua frente. Envergava uma camisa de ganga de manga comprida sobre uns jeans largos e gastos. O tio Ben dispensou-lhe um cumprimento caloroso.

       - Mas continuo a não querer fotografias - disse-lhe, num tom firme. - Está prometido?

       Nila sorriu-lhe. Os seus olhos verdes brilhavam, entusiasmados. Levou uma mão ao peito.

       - Prometido.

      Todos tirámos capacetes amarelos do depósito de equipamento. O tio Ben trazia uma grande maça de pedra. Baixou-se para entrar na abertura e seguimo-lo.

       Sentia o coração acelerado enquanto me apressava para tentar acompanhar Sari. As luzes dos nossos capacetes iluminavam o estreito túnel. à nossa frente, a alguma distância, conseguia ouvir as vozes dos trabalhadores e as batidas regulares das suas ferramentas a escavar.

       - Isto é mesmo fantástico! - exclamei, ofegante, dirigindo-me a Sari.

       - Talvez o túmulo esteja cheio de jóias - murmurou Sari, enquanto íamos avançando pelo túnel que descrevia agora uma curva. - Safiras, rubis e esmeraldas.

Talvez ainda possa experimentar uma coroa cheia de jóias usada por uma princesa egípcia.

      - Achas que haverá uma múmia no túmulo? - perguntei. Não estava muito interessado em jóias. - Achas que vamos lá encontrar o corpo mumificado do príncipe

Khor-Ru, à espera de ser descoberto?

       Sari fez uma careta de desagrado.

       - Só consegues pensar nisso? Em múmias?

       - Bom, nós estamos numa antiga pirâmide egípcia! - ripostei.

       - Pode haver jóias e relíquias no valor de milhões de dólares naquele túmulo - declarou Sari, em tom de censura. - E só consegues pensar num velho corpo bolorento todo envolvido em resina e gaze. Meneou a cabeça. - Sabes, a maior parte dos miúdos consegue superar esse fascínio por múmias por volta dos oito ou nove anos.

       - O tio Ben não superou! - retorqui.

       Isso bastou para a calar.

       Seguimos Nila e o tio Ben, em silêncio. Passado um bocado, o estreito túnel descrevia uma curva acentuada. O ar ia-se tornando mais quente à medida que avançávamos.

       Consegui distinguir algumas luzes à nossa frente. Dois focos alimentados por baterias estavam apontados à parede do fundo. Quando nos aproximámos mais, apercebi-me de que não era uma parede. Era uma porta. Quatro trabalhadores - dois homens e duas mulheres - estavam ajoelhados, a trabalhar com pequenas pás e picaretas. Estavam ocupados a raspar da porta os últimos pedaços de terra.

       - Está maravilhoso! - gritou o tio Ben, correndo para os trabalhadores. Estes viraram-se para o cumprimentar. - Isto é fantástico, no verdadeiro sentido da palavra! - declarou.        Nila, Sari e eu postámo-nos mesmo atrás dele. O tio Ben tinha razão. A porta antiga, era realmente fantástica!

       Não era muito alta. Apercebi-me de que o tio Ben teria de se inclinar para entrar. Mas parecia uma porta talhada para um príncipe.

       A madeira escura de mogno - agora petrificada - devia ter sido trazida de muito longe. Sabia que essa espécie de madeira não se encontra em nenhuma das árvores que crescem no Egipto.

       Uns estranhos hieróglifos recobriam a porta de alto a baixo. Reconheci as figuras de pássaros, gatos e outros animais, entalhados em profundidade na madeira escura.

       A visão mais surpreendente era a do selo que vedava o acesso à porta - uma cabeça de leão em relevo, esculpida em ouro. A luz dos focos fazia com que o leão reluzisse como se estivesse ao sol.

       - O ouro é brando - ouvi um dos trabalhadores dizer ao meu pai. - O selo cederá facilmente.

       O tio Ben pousou no chão a pesada maça. Fitou durante um longo momento a reluzente cabeça de leão e, depois, voltou-se novamente para nós.

       - Pensaram que este leão assustaria quaisquer intrusos que se aproximassem do túmulo - explicou. - Julgo que o conseguiram. Até agora.

       - Dr. Hassad, tenho de registar em fotografia o momento da ruptura do selo - disse Nila, avançando um passo para junto dele. - Tem mesmo de me deixar. Não pode deixar de registar este momento.

       Ele fitou-a, pensativo.

       - Bom... está bem - concordou.

       Um sorriso de contentamento cruzou o rosto de Nila quando ergueu a máquina fotográfica.

       - Obrigada, Ben.

       Os trabalhadores recuaram. Um deles estendeu ao tio Ben um martelo e uma delicada ferramenta que lembrava o bisturi de um médico.

       - É toda sua, Dr. Hassad - disse.

       O tio Ben ergueu as ferramentas e avançou para o selo.

       - Uma vez que eu rompa o selo, abriremos a porta e entraremos numa sala que há 4.000 anos não é vista por ninguém - anunciou.

       Nila empunhava com firmeza a sua máquina fotográfica, ajustando cuidadosamente as lentes na objectiva.

       Sari e eu avançámos para junto dos trabalhadores.

       O leão de ouro pareceu reluzir ainda mais quando o tio Ben ergueu a ferramenta. No túnel, fez-se silêncio. Sentia-se a ansiedade, a tensão no ar.

       Que suspense!

       Apercebi-me de que sustinha a respiração. Expirei, lenta e silenciosamente, e inspirei de novo.

       Olhei de relance para Sari. Mordiscava nervosamente o lábio inferior. E comprimia as mãos contra si, com força.

       - Alguém tem fome? Talvez devêssemos esquecer isto e encomendar uma pizza! - gracejou o tio Ben.

        Todos riram muito alto.

       Para que vejam como é o tio Ben a dizer uma graça tola naquele que bem poderia ser o momento mais emocionante da sua vida.

       Um silêncio tenso voltou a instalar-se. A expressão do tio Ben tornou-se de súbito séria. Voltou a virar-se para o antigo selo. Ergueu o pequeno cinzel e aplicou-o ao fundo do selo. Começou então a levantar o martelo. E uma voz profunda ressoou:

       - POR FAVOR, DEIXEM-ME REPOUSAR EM PAZ!

 

       Larguei um grito de surpresa.

       - DEIXEM-ME REPOUSAR EM PAZ! - repetiu a voz profunda.

       Vi o tio Ben baixar o cinzel. Virou-se, com os olhos arregalados de surpresa.

       Apercebi-me de que a voz provinha de trás de nós. Virei-me e deparei com um homem que ainda não tinha visto, meio oculto no túnel sombrio. Encaminhou-se na nossa direcção, em passos largos e firmes.

       Era um homem alto e magro, tão alto que tinha de curvar os ombros no túnel baixo. Quase completamente calvo, excepto nas franjas de cabelo escuro em redor das orelhas, tinha o rosto esguio e franzia os lábios finos numa expressão pouco amistosa.

       Envergava um casaco de safari perfeitamente engomado sobre a camisa e gravata. Com os seus olhos negros como passas, lançou um olhar indignado ao tio Ben.

Perguntei-me se alguma vez comeria. Era tão magro como uma múmia!

       - Omar! - exclamou o tio Ben. - Não te esperava já de regresso do Cairo.

       - Deixem-me descansar em paz - repetiu o Dr. Fielding, mais brandamente desta vez. - Foram estas as palavras do príncipe khor-Ru. Inscritas na antiga lápide que encontrámos no mês passado. Era esse o desejo do príncipe.

       - Omar, já tivemos esta conversa - retorquiu o meu tio, suspirando. Baixou o martelo e o cinzel.

       O Dr. Fielding passou por mim e por Sari, afastando-nos violentamente com um empurrão. Estacou diante do meu tio e passou uma mão pela cabeça calva.

       - Se assim é, como te atreves a romper o selo? - perguntou o Dr. Fielding.

       - Sou um cientista - retorquiu, lentamente, o meu tio, pronunciando cada palavra clara e distintamente. - Não posso deixar que a superstição interfira no rumo de uma descoberta, Omar.

       - Também sou um cientista - ripostou o Dr. Fielding, ajeitando a gravata. - Mas não estou disposto a profanar este túmulo antigo. Não estou disposto a contrariar as últimas vontades do príncipe Khor-Ru. E não estou disposto a encarar as palavras do hieróglifo como mera superstição.

       - É nesse ponto que discordamos - observou suavemente o tio Ben. Apontou para os quatro trabalhadores. - Passámos aqui demasiados meses, demasiados anos, para nos determos agora no limiar desta porta. Chegámos até aqui, Omar. Agora temos de ir até ao fim.

       O Dr. Fielding mordeu o lábio inferior. Apontou para a parte de cima da porta.

       - Olha, Ben. São os mesmos hieróglifos da lápide. O mesmo aviso. Deixem-me repousar em paz.

       - Eu sei, eu sei - respondeu o meu tio, com uma expressão carrancuda.

       - O aviso é muito claro - prosseguiu acaloradamente o Dr. Fielding, semicerrando os seus olhinhos cor de passa e fitando o meu tio. - Se alguém perturbar o príncipe, se alguém repetir cinco vezes as antigas palavras inscritas no túmulo, o príncipe mumificado ganhará vida. E procurará vingar-se daqueles que o perturbaram.

       Estremeci ao ouvir estas palavras. Fitei fixamente o tio Ben. Porque é que nunca nos havia falado, nem a mim nem a Sari, da ameaça do príncipe? Porque é que nunca tinha mencionado as palavras de aviso que haviam encontrado na antiga lápide? Temeria que isso pudesse assustar-nos?

       Estaria ele próprio assustado?

       Não. Que ideia.

       Não parecia de todo assustado nesse momento, a discutir com o Dr. Fielding. Percebia-se que já haviam tido a mesma discussão. E percebia-se que o Dr. Fielding jamais conseguiria impedir o meu tio de romper o selo e de entrar no túmulo.

       - Este é o meu último aviso, Ben... - disse o Dr. Fielding. - Por todos quantos estão aqui... - indicou com uma mão os quatro trabalhadores.

       - Superstição - ripostou o tio Ben. - Não será uma superstição que me fará parar. Sou um cientista - ergueu o cinzel e o martelo.. - O selo será quebrado.

       O Dr. Fielding levantou as mãos, exprimindo todo o seu descontentamento.

       - Recuso-me a participar neste acto - declarou. Girou sobre si próprio, quase batendo com a cabeça no tecto do túnel. Depois, resmungando consigo mesmo, afastou-se precipitadamente, sumindo-se com rapidez na escuridão do túnel.

       O tio Ben ainda ensaiou uns passos na sua direcção.

       - Omar? Omar?

       Mas podíamos ouvir os passos do Dr. Fielding, tornando-se cada vez mais ténues à medida que se ia encaminhando para a saída da pirâmide.

       O tio Ben suspirou e debruçou-se sobre mim.

       - Não confio neste homem - murmurou. - Na verdade não está nada interessado em velhas superstições. Quer simplesmente roubar-me este achado. Só por isso é que tentou impedir-me de franquear a porta.

       Não soube o que responder. As palavras do meu tio deixaram-me estupefacto. Pensei que os cientistas tinham regras que determinavam quem é que podia ficar com os louros de uma descoberta.

       O tio Ben murmurou algo a Nila. Depois, recuou de novo até junto dos quatro trabalhadores.

       - Se algum de vós concordar com o Dr. Fielding - disse-lhes -, tem inteira liberdade para sair neste momento.

       Os trabalhadores entreolharam-se.

       - Todos vocês ouviram as palavras de aviso da porta do túmulo. Não quero forçar ninguém a entrar no túmulo - disse-lhes o tio Ben.

       - Mas trabalhámos tanto - disse um dos homens. - Não podemos parar aqui. Não temos alternativa. Temos de abrir aquela porta.

       Um sorriso cruzou o rosto do meu tio.

       - Concordo absolutamente - disse, voltando-se de novo para o leão do selo.

       Olhei de relance para Sari e apercebi-me de que também ela estava a olhar para mim.

       - Gabe, se estás assustado, o papá deixa-te sair - murmurou. - Não tens de ter vergonha.

       Ela nunca desiste!

       - Eu fico! - ripostei num murmúrio. - Mas se queres que eu vá deixar-te na tenda, eu vou.

       Um ruidoso tinido forçou-nos a olhar de novo para a porta. O tio Ben esforçava-se por levantar, manejando as ferramentas em jeito de alavanca, o leão de ouro do selo. Nila tinha a sua máquina fotográfica em posição. Os trabalhadores mantinham-se imóveis, tensos, acompanhando todos os movimentos do tio Ben.

       O tio Ben trabalhava devagar, cuidadosamente. Fez deslizar o cinzel por detrás do antigo selo e prosseguiu, raspando e examinando.

       Alguns minutos depois, o selo caiu nas mãos do meu tio. Nila afadigava-se a tirar fotografias atrás de fotografias. O tio Ben passou-o cuidadosamente a um dos trabalhadores.

       - Não é nenhum presente de Natal - gracejou. - Vou guardar isso para colocar em cima da lareira.

       Todos se riram.

       O tio Ben agarrou com firmeza a orla da porta com ambas as mãos.

       - Eu entro primeiro - anunciou. - Se não voltar dentro de vinte minutos, digam ao Dr. Fielding que ele tinha razão!

       Mais risos.

       Dois dos trabalhadores aproximaram-se para auxiliar o tio Ben a fazer deslizar a porta. Encostaram-lhe os ombros, pressionando com toda a força.

       A porta nem se moveu.

       - Talvez precise de ser oleada - gracejou o tio Ben. - Afinal, há quatro mil anos que está fechada.

       Redobraram de esforços durante vários minutos, com picaretas e cinzéis, esforçando-se cuidadosamente por desobstruir a porta. Depois tentaram de novo, pressionando os ombros de encontro à pesada porta de mogno.

       - Sim! - gritou o tio Ben quando a porta deslizou um centímetro.

       Depois novo centímetro. E outro.

       Todos empurraram, ansiosos por ver o antigo túmulo.

       Dois trabalhadores moveram os grandes focos, apontando-os para a porta.

       Enquanto o tio Ben e dois dos seus ajudantes empurravam a porta, Sari e eu aproximámo-nos de Nila.

       - Não é espantoso? - gritou Nila, entusiasmada. - Mal posso acreditar que sou a única repórter aqui! Tenho tanta sorte!

       "Também eu tenho sorte", percebi. Quantos miúdos não dariam qualquer coisa para estarem aqui no meu lugar? Quantos miúdos não adorariam ser uma das primeiras pessoas no mundo a entrar num túmulo com quatro mil anos numa pirâmide egípcia? Ocorreram-me de súbito os rostos de alguns dos meus amigos. Apercebi-me de que estava ansioso por lhes contar a minha aventura!

       A porta ia arrastando ruidosamente, no chão de terra. Mais um centímetro. E mais outro.

       A abertura estava quase suficientemente ampla para que uma pessoa, encolhendo-se, conseguisse entrar.

       - Aponta a luz mais para aqui - ordenou o tio Ben. - Mais alguns centímetros e podemos entrar e apertar a mão ao príncipe.

       A porta arrastou-se mais um centímetro. Com um forte empurrão, o tio Ben e os seus ajudantes conseguiram forçar mais alguns centímetros a abertura da porta.

       - Sim! - gritei radiante.

       Nila tirou uma fotografia.

       Avançámos, ansiosos.

       O tio Ben foi o primeiro a esgueirar-se pela abertura.

       Sari afastou-me com um empurrão e atalhou para passar à minha frente.

       Sentia o coração a bater com toda a força. Fiquei com as mãos subitamente geladas. Não me interessava quem entrasse primeiro. Só queria entrar!

       Um por um, fomos entrando cautelosamente na antiga câmara.

       Finalmente, chegou a minha vez. Respirei fundo, esgueirei-me pela abertura e vi... nada.

       Para além de uma quantidade de teias de aranha, a câmara estava vazia.

       Completamente vazia.

 

       Soltei um suspiro prolongado. Pobre tio Ben. Tanto trabalho para nada. Senti-me tão desapontado. Passei os olhos pela câmara vazia. à luz dos focos, as espessas teias de aranha reluziam como prata. As nossas sombras alongavam-se pelo chão de terra como fantasmas.

       Virei-me para o tio Ben, esperando vê-lo também desapontado. Mas, para minha surpresa, tinha um sorriso no rosto.

       - Tragam as luzes - disse a um dos trabalhadores. - E as ferramentas. Temos outro selo para remover. - Apontou para a parede ao fundo, no outro extremo da sala vazia. Mesmo àquela luz pálida, consegui distinguir o contorno de uma porta. Selada com outro ledo esculpido.

       - Sabia que não era esta a verdadeira câmara funerária! - gritou Sari, sorrindo-me.

       - Como já disse, os egípcios faziam isto frequentemente - explicou o tio Ben. - Construíam diversas câmaras falsas para ocultar a câmara real dos saqueadores de túmulos. - Tirou o capacete e coçou a cabeça. - De facto - prosseguiu -, podemos encontrar ainda diversas câmaras vazias antes de encontrarmos a última morada do príncipe Khor-Ru.

       Nila tirou uma fotografia ao tio Ben examinando a porta recém-descoberta. Sorriu-me.

       - Devias ter visto a tua expressão, Gabe - disse. - Parecias tão desapontado.

       - Pensei... - ia começar a dizer. Mas o raspar do cinzel do tio Ben em torno do selo fez com que me detivesse.

       Virámo-nos para o observar enquanto trabalhava a zona do selo. Percorrendo com o olhar a câmara coberta de teias de aranha, tentei imaginar o que nos esperaria do outro lado da porta.

       Outra câmara vazia? Ou um príncipe egípcio com quatro mil anos, rodeado pelos seus tesouros?

       O trabalho na porta decorreu lentamente. Fizemos um intervalo para almoço e regressámos depois. Nessa tarde, o tio Ben e os seus ajudantes trabalharam durante mais umas duas horas, tentando cuidadosamente remover o selo sem o danificar.

       Sari e eu sentámo-nos no chão, observando-os enquanto trabalhavam. O ar estava quente e um tanto acre. Acho que devia ser ar antigo. Sari e eu conversámos sobre o Verão passado e sobre as aventuras que havíamos tido na Grande Pirâmide. Nila tirou-nos uma fotografia.

       - Estamos quase a conseguir - anunciou o tio Ben.

       Começámos de novo a sentirmo-nos entusiasmados. Sari e eu levantámo-nos e atravessámos a sala para ver melhor.

       O leão do selo deslizou, livre, da porta. Dois dos trabalhadores colocaram-no cuidadosamente em cima de uma grade de madeira. Em seguida, o tio Ben e os outros dois trabalhadores lançaram-se ao trabalho procurando empurrar a porta para a abrir.

       A porta ofereceu ainda mais dificuldades do que a anterior.

       - Está... mesmo... encravada - lamentou-se o tio Ben. Pegando em mais ferramentas e manejando-as como uma alavanca, ele e os trabalhadores desataram a tentar remover com cinzel a dura crosta que, ao longo dos séculos, se fora acumulando sobre a porta.

       Uma hora depois conseguiram que a porta deslizasse um centímetro. Depois, outro centímetro. E mais outro.

       Quando a conseguiram fazer deslizar o suficiente para ficar meio aberta, o tio Ben retirou a lanterna do seu capacete e iluminou a abertura com o feixe de luz. Espreitou pela abertura durante imenso tempo sem dizer uma palavra. Sari e eu aproximámo-nos mais. Começava de novo a sentir o coração acelerado.

       "O que estaria ele a ver?", perguntava-me. O que é que estaria a observar tão silenciosamente?

       Finalmente, o tio Ben baixou a lanterna e virou-se para nós.

       - Cometemos um grande erro - disse, serenamente.

 

       Um silêncio de surpresa invadiu a sala. Engoli em seco, atordoado com as palavras do meu tio.

       Mas, nesse momento, o rosto abriu-se-lhe num largo sorriso.

       - Cometemos um erro ao subestimar o nosso achado! - exclamou. - Isto vai ser mais importante do que a descoberta do rei Tut! Este túmulo é ainda mais grandioso!

       Exclamações de júbilo ecoaram pelas paredes de pedra. Os trabalhadores apressaram-se a avançar, para apertar a mão e felicitar o tio Ben.

       - Estamos todos de parabéns! - declarou o tio Ben, exultante.

       Rindo e conversando alegremente, fomo-nos esgueirando pela estreita abertura e penetrando na câmara seguinte.

       Quando os feixes de luz iluminaram a vasta sala, apercebi-me de que estava a contemplar algo que jamais poderia esquecer. Nem mesmo a espessa camada de pó nem as teias de aranha conseguiam dissimular os espantosos tesouros que atulhavam a câmara. Passei os olhos rapidamente pela divisão. Esforcei-me por obter uma imagem nítida de tudo quanto via. Mas havia demasiado para ver! Tanto que cheguei a sentir-me atordoado.

       As paredes estavam cobertas, do chão ao tecto, de hieróglifos, talhados na pedra. O chão estava pejado de móveis e outros objectos. Lembrava mais a arrecadação ou o sótão de alguém do que um túmulo!

       Um alto trono, de espaldar direito, chamou-me a atenção. Tinha um radioso sol dourado gravado nas costas do assento. Por detrás dele, distingui cadeiras, bancos e uma espécie de sofá comprido.

       Encostados à parede, encontravam-se empilhados vasos de pedra e barro. Alguns estavam rachados e partidos. Mas muitos estavam em perfeitas condições.

       Uma cabeça dourada de macaco estava deitada de lado, no meio do chão. Atrás dela, alinhavam-se várias arcas.

       O tio Ben e um dos trabalhadores levantaram cuidadosamente o tampo de uma das arcas. Ficaram boquiabertos a olhar para o interior, de olhos arregalados.

       - Jóias! - declarou o tio Ben. - Está cheia de jóias de ouro!

       Sari aproximou-se por detrás de mim, com um sorriso de excitação no rosto.

       - Isto é fantástico! - murmurei.

       Confirmou com um aceno de cabeça.

       - Fantástico!

       Só os nossos murmúrios rompiam o silêncio pesado. Mais ninguém falava. Todos se sentiam demasiado impressionados com a espantosa visão que se lhes oferecia.

O som mais alto que se ouvia era o do disparar da máquina fotográfica de Nila.

       O tio Ben avançou para junto de Sari e de mim e colocou as mãos sobre os nossos ombros.

       - Isto não é inacreditável? - gritou. - Está tudo em perfeitas condições. Permaneceu intocado durante quatro mil anos.

       Quando o fitei, reparei que tinha lágrimas nos olhos. De súbito, tive consciência de que assistíamos ao momento mais importante da vida do tio Ben.

       - Temos de ser muito cuidadosos... - principiou o tio Ben. Mas deteve-se a meio da frase, e vi a sua expressão alterar-se.

       Enquanto nos conduzia e atravessávamos a sala, percebi para onde é que olhava. Um grande túmulo de pedra, de uma múmia, oculto na sombra, jazia encostado à parede do fundo.

       - Uau! - murmurei enquanto nos encaminhávamos na sua direcção.

       Talhado em pedra lisa, cinzenta, o pesado tampo apresentava uma longa fenda ao centro.

       - O príncipe estará ali sepultado? - indagou Sari, num tom ansioso.

       O tio Ben demorou um momento a responder.

       Manteve-se no meio de nós, sem desgrudar os olhos do antigo túmulo da múmia.

       - Em breve saberemos - acabou, finalmente, por responder.

       Enquanto o tio Ben e quatro trabalhadores se esforçavam por remover o tampo, Nila baixou a sua máquina fotográfica e deu um passo em frente para também observar.

Os seus olhos verdes acompanhavam, absortos, o lento deslizar do tampo. No interior, encontrava-se um sarcófago, talhado com a forma da múmia. Não era muito comprido.

E era mais estreito do que pensei que seria.

       Os trabalhadores removeram lentamente o tampo do sarcófago. Sustive a respiração e agarrei a mão do tio Ben, enquanto, a múmia era posta a descoberto.

       Parecia tão pequena e frágil!

       - O príncipe Khor-Ru - murmurou o tio Ben, olhando fixamente o interior do sarcófago.

       O príncipe jazia de costas, com os braços finos cruzados sobre o peito. Resina negra tinha-se infiltrado entre as ligaduras. A gaze rasgada havia posto a descoberto a cabeça, revelando o crânio coberto de resina. Ao debruçar-me sobre o sarcófago, sentindo o coração na garganta, os olhos escurecidos pela resina pareciam lançar-me um olhar desesperado.

       "Há uma pessoa verdadeira ali dentro", pensei, sentindo um arrepio pelas costas abaixo. Tem sensivelmente o meu tamanho. E morreu. E cobriram-no com panos e resina quente. E jaz naquele sarcófago há quatro mil anos. Uma pessoa verdadeira. Um príncipe verdadeiro.

       Fitei a resina manchada e fendida que lhe recobria o rosto. Fitei os farrapos de algo semelhante a gaze, todos desfiados e amarelecidos. Fitei o corpo hirto, tão pequeno e frágil.

       "Em tempos, esteve vivo", pensei. "Será que alguma vez sonhou que, quatro mil anos depois, alguém lhe abriria o sarcófago para olhar para ele? Para olhar o seu corpo mumificado?" Recuei um passo para recuperar o fôlego. Era demasiado emocionante.

       Reparei que Nila tinha lágrimas nos olhos. Tinha ambas as mãos apoiadas na orla do sarcófago e debruçava-se sobre o corpo do príncipe, sem largar os olhos do seu rosto, enegrecido.

       - Estes são possivelmente os despojos mais bem conservados jamais encontrados - declarou calmamente o tio Ben. - Claro que teremos de realizar muitos testes para determinar a identidade deste jovem. Mas, a avaliar por tudo o resto nesta câmara, julgo que será seguro dizer...

       A voz sumiu-se-lhe quando ouvimos sons que pareciam provir da câmara exterior. Passos. Vozes.

       Virei-me para a porta no momento em que quatro polícias, de uniforme negro, irrompiam no compartimento.

       - Muito bem. Recuem todos um passo - ordenou um deles, levando a mão ao coldre da arma que tinha à cintura.

 

       Gritos de surpresa ressoaram pela sala. O tio Ben virou-se, com os olhos arregalados de surpresa.

       - O que é que se passa? - gritou.

       Os quatro polícias do Cairo, com as feições contraídas em expressões severas, avançaram rapidamente para o centro da sala.

       - Tenham cuidado! - avisou o tio Ben, postando-se diante do sarcófago como se o pretendesse proteger. - Não mexam em nada. É tudo terrivelmente frágil. - Tirou o capacete. Fitou cada um dos polícias. - O que é que estão aqui a fazer?

       - Fui eu que os chamei - disse da entrada uma voz grave e ressonante.

       O Dr. Fielding entrou, com uma expressão de triunfo no rosto. Os seus olhos pequenos dançavam de excitação.

       - Omar... não compreendo! - disse o tio Ben, dando uns passos em direcção ao outro cientista.

       - Pensei que seria melhor colocar sob protecção o conteúdo desta sala - retorquiu o Dr. Fielding. Lançou um olhar apressado à sala, observando os tesouros.

       - Maravilhoso! Isto é maravilhoso! - gritou. Com um passo em frente, deu um aperto de mão entusiástico ao meu tio. - Parabéns a todos! - bramiu, na mesma voz grave. - Isto é quase inacreditável!

       A expressão do tio Ben suavizou-se.

       - Ainda não compreendi a necessidade da presença deles - disse, indicando os carrancudos polícias. - Nesta sala ninguém se prepara para roubar nada.

       - Certamente que não - retorquiu o Dr. Fielding, ainda a apertar a mão do tio Ben. - Certamente que não. Mas a informação irá em breve espalhar-se, Ben.

E pensei que deveríamos estar preparados para montar guarda ao que quer que encontrássemos.

       O tio Ben lançou um olhar desconfiado aos quatro polícias. Mas, logo de seguida, encolheu os ombros.

       - Talvez tenhas razão - declarou, dirigindo-se ao Dr. Fielding. - Talvez seja uma decisão inteligente.

       - Limita-te a ignorá-los - redarguiu o Dr. Fielding. Deu uma palmada nas costas do meu tio. - Devo-te uma desculpa, Ben. Foi um erro da minha parte ter tentado deter-te. Como cientista, deveria ter sabido tomar outra posição. Devíamos ao mundo a abertura deste túmulo. Espero que me perdoes. Por agora, temos muito que festejar... não temos?

       - Não confio nele - confidenciou-me nessa noite o tio Ben, enquanto saíamos da tenda para ir jantar. - Não confio absolutamente nada no meu colega.

       Estava uma noite clara, surpreendentemente fria. Milhões de estrelas, brancas e tremeluzentes, pontilhavam o céu púrpura. Uma brisa regular fazia as palmeiras

oscilarem, no horizonte. O grande fogo de campo, diante de nós, agitava-se ao sabor do vento.

       - O Dr. Fielding vem jantar connosco? - perguntou Sari. Envergava uma camisola verde-clara e umas calças justas pretas.

       O tio Ben meneou a cabeça.

       - Não, estava cheio de pressa para fazer uns telefonemas no Cairo. Acho que estava ansioso para contar as boas notícias aos nossos patrocinadores.

       - Pareceu realmente entusiasmado quando viu a múmia e tudo o resto - observei, olhando de relance para a pirâmide que se erguia sombriamente, destacando-se no céu nocturno.

       - Sim, suponho que ficou - admitiu o meu tio.

       - Pelo menos, mudou depressa de opinião! Mas estou de olho nele. O Omar daria tudo para se apropriar do projecto. Também vou manter aqueles polícias debaixo de olho.

       - Papá, esta deveria ser uma noite feliz - repreendeu Sari. - Não vamos falar do Dr. Fielding. Vamos falar só do príncipe Khor-Ru e de como vamos ser ricos e famosos.

       O tio Ben riu-se.

       - Está combinado - disse-lhe.

       Nila estava à nossa espera junto ao fogo de campo. O tio tinha-a convidado a juntar-se-nos num churrasco. Trazia vestida uma sweatshirt branca sobre uns jeans largos. O seu pendente de âmbar reflectia a luz da Lua que começava a erguer-se sobre as tendas. Estava realmente bonita. Lançou ao tio Ben um sorriso caloroso quando nos aproximámos. Só pela expressão do seu rosto, era fácil perceber que gostava dele.

       - Sari, és mais alta do que o Gabe, não és? - comentou Nila.

       Sari sorriu. Adorava ser mais alta do que eu, apesar de eu ser ligeiramente mais velho.

       - Menos de três centímetros - apressei-me a declarar.

       - As pessoas estão definitivamente a ficar mais altas - disse Nila, dirigindo-se ao meu tio.

       - O príncipe Khor-Ru era tão baixo. Hoje em dia seria um anão!

       - Faz-nos pensar como é que pessoas tão baixas conseguiram construir pirâmides tão altas - disse o tio Ben, sorrindo.

       Nila sorriu e deu-lhe o braço.

       Sari e eu trocámos olhares. Compreendi o que Sari estava a pensar. A sua expressão dizia: "O que é que se passa entre estes dois?"

       Tivemos um belo jantar. O tio Ben deixou queimar um bocadinho os hamburgers. Mas na verdade ninguém se importou.

       Sari devorou dois hamburgers. Eu só consegui comer um. O que lhe deu mais um motivo para se vangloriar.

       Começava realmente a ficar farto das gabarolices da minha prima. Dei por mim a tentar descobrir uma maneira de a suplantar.

       Nila e o tio Ben divertiram-se muito.

       - Aquela câmara funerária parecia um cenário de cinema - gracejou Nila. - Era tudo demasiado perfeito. Todo aquele ouro. E aquela tua múmia perfeita. É tudo falso. É isso que eu vou escrever no meu artigo.

       O tio Ben riu-se. Virou-se para mim.

       - Verificaste a múmia, Gabe? Esta também usava um relógio de pulso?

       Abanei a cabeça.

       - Nada de relógio de pulso.

       - Estás a ver? - disse o tio Ben, dirigindo-se a Nila. - Não havia nenhum relógio de pulso. Portanto, tem de ser verdadeira!

       - Suponho que isso deve chegar como prova - disse Nila, sorrindo calorosamente para o meu tio.

       - Papá, sabe as palavras para dar vida à múmia? - interrompeu Sari. - Sabe, aquelas palavras que o Dr. Fielding mencionou?

       O tio Ben engoliu a última dentada do hamburger. Limpou a gordura do queixo com um guardanapo.

       - Custa-me acreditar que um cientista sério tome como verdadeira semelhante superstição - murmurou.

       - Mas quais são as seis palavras para dar vida à múmia? - perguntou Nila. - Vá lá, Ben. Diz-nos.

       O sorriso do tio Ben desvaneceu-se. Abanou o dedo para Nila em sinal de negativa.

       - Oh, não - declarou. - Não confio em ti. Se te disser as palavras, és capaz de dar vida à múmia só para conseguires uma boa fotografia para o teu jornal!

       Rimo-nos. Estávamos sentados em torno do fogo de campo, vendo a sua luz laranja tremeluzir sobre os nossos rostos. O tio Ben pousou o prato no chão e estendeu

as mãos para a fogueira.

       - Teki Kahru Teki Kahra Teki Khari! - entoou numa voz profunda, agitando as mãos sobre as chamas.

       A fogueira crepitou. Senti um baque no coração quando um pequeno galho emitiu um estalido sonoro.

       - São essas as palavras secretas? - perguntou Sari.

       O tio Ben confirmou solenemente, com um aceno de cabeça.

       - São essas as palavras dos hieróglifos sobre a entrada do túmulo.

       - Então é possível que nesta altura a múmia já se tenha sentado e espreguiçado? - perguntou Sari.

       - Ficaria muito surpreendido - retorquiu o tio Ben, levantando-se. - Estás a esquecer-te, Sari... tens de entoar as palavras cinco vezes.

       - Oh! - Sari deixou-se ficar, pensativa, a fitar a fogueira.

       Repeti mentalmente as palavras. "Teki Kahru Teki Kahra Teki Khari!". Tinha de decorar as palavras. Tinha um plano para assustar Sari.

       - Onde é que vais? - perguntou Nila, dirigindo-se ao meu tio.

       - à tenda de comunicações - retorquiu. - Tenho de fazer um telefonema. - Virou-se e encaminhou-se rapidamente pela areia em direcção à fileira de tendas de lona.

       Nila não conteve um risinho de surpresa.

       - Nem sequer deu as boas-noites.

       - O papá é sempre assim - explicou Sari - quando está concentrado em alguma coisa.

       - Bom, acho que é melhor também ir andando - disse Nila, levantando-se e sacudindo a areia dos jeans. - Vou começar a escrever o meu artigo para o jornal.

       Despediu-se e afastou-se rapidamente, com as suas sandálias a ressoarem na areia.

       Sari e eu deixámo-nos ficar sentados, a olhar para a fogueira a crepitar. A Lua estava agora alta no céu. Ao longe, o topo da pirâmide reflectia a sua luz pálida.

       - Nila tem razão - disse a Sari. - Aquilo parecia mesmo um cenário de cinema.

       Sari não respondeu. Continuava a fitar a fogueira, sem pestanejar, pensando, absorta. Mais uma vez, algo na fogueira soltou um estalido. O ruído pareceu despertá-la dos seus pensamentos.

       - Achas que Nila gosta do papá? - perguntou-me, sem despegar os seus olhos escuros dos meus.

       - Sim, parece-me que sim - retorqui. - Está sempre a sorrir-lhe daquela maneira - imitei o sorriso de Nila. - E parece que está sempre a brincar com ele.

       Sari pareceu reflectir na minha resposta.

       - E achas que o papá gosta dela?

       Sorri.

       - De certeza - levantei-me. Estava ansioso por voltar para a tenda. Queria pregar um susto a Sari.

       Encaminhámo-nos até às tendas em silêncio. Calculei que Sari ainda estivesse a pensar no seu pai e em Nila.

       O ar da noite estava fresco, mas no interior da tenda ainda estava calor. A lona filtrava a luz do luar. Sari puxou o seu baú de debaixo da cama de campanha e ajoelhou-se para vasculhar nas suas roupas.

       - Sari - murmurei. - Achas que me atrevo a pronunciar cinco vezes as palavras antigas?

       - Hum? - desviou o olhar do baú para me fitar.

       - Vou entoar cinco vezes as palavras - disse-lhe. - Sabes. Para ver se acontece alguma coisa.

       Esperei que me implorasse para não o fazer. Esperei que ficasse assustada e me suplicasse: "Por favor, Gabe... não faças isso! Não! É demasiado perigoso!"

       Mas, em vez disso, Sari voltou-se de novo para o seu bau de roupa.

       Oh, se quiseres, experimenta - disse-me.

       - Tens a certeza? - perguntei-lhe.

       - Claro. Porque não? - retorquiu, puxando de uns calções de ganga.

       Fiquei a olhar para ela do outro lado da tenda. Seria medo aquilo que via nos seus olhos? Estaria a simular aquele ar tão despreocupado?

       Sim. Julgo que Sari estava um tanto assustada. E a esforçar-se bastante por não o demonstrar.

       Dei alguns passos na sua direcção e entoei as palavras antigas, na mesma voz grave a que o tio Ben recorrera:

       - Teki Kahru Teki Kahra Teki Khari!

       Sari deixou cair os jeans e virou-se para me observar.

       Entoei uma segunda vez:

       - Teki Kahru Teki Kahra Teki Khari!

       Uma terceira vez.

       Uma quarta vez.

       Hesitei. Sentia uma brisa fria entorpecer-me a nuca.

       Deveria entoar as palavras uma última vez? Deveria entoá-las pela quinta vez?

       Fitei Sari.

       Tinha fechado a tampa do baú e estava agora encostada a ele, a olhar para mim. Apercebi-me de que estava assustada. Mordeu o lábio inferior. Deveria entoar as palavras pela quinta vez?

       Senti novo arrepio na nuca.

       "É só uma superstição", disse para comigo. Uma superstição com quatro mil anos.

       Não há qualquer hipótese de que aquele velho príncipe, bolorento e mumificado volte à vida só porque pronunciei seis palavras de que nem sequer sei o significado!

Não há qualquer hipótese.

       Ocorreram-me de súbito todos os filmes que alguma vez alugara sobre múmias no antigo Egipto. Nos filmes, os cientistas ignoravam sempre as antigas maldições que os avisavam para não perturbarem os túmulos das múmias.

       Normalmente, sucedia depois as múmias voltarem à vida para se vingarem. Andavam por ali a cambalear, agarravam os cientistas pela garganta e estrangulavam-nos.

       Filmes idiotas. Mas eu adorava-os.

       Agora, a olhar para Sari, apercebi-me de que estava de facto assustada.

       Respirei fundo. Percebi subitamente que também eu estava assustado.

        Mas era demasiado tarde. Tinha ido demasiado longe. Não podia acobardar-me agora.

       - Teki Kahru Teki Kahra Teki Khari! - gritei Pela quinta vez.

       Fiquei transido de medo... e aguardei. Não sei de que é que estava à espera. Talvez do súbito clarão de um raio.

       Sari levantou-se. Puxou uma madeixa do cabelo.

       - Admite. Estás completamente assustada - disse-lhe, incapaz de conter o sorriso que me aflorava ao rosto.

       - Nem pensar - insistiu. - Vá lá, Gabe. Entoa outra vez as palavras. Entoa-as cem vezes! Nunca conseguirás assustar-me! Nem pensar!

       Mas sentimos ambos que nos faltava o ar quando vimos, subitamente, uma sombra escura estender-se sobre a parede da tenda.

       Senti, então, que o coração quase parava quando ouvi uma voz rouca murmurar para dentro da tenda:

       - Estão aí?

 

       Com as pernas a tremer, recuei aos tropeções, aproximando-me de Sari.

       Reparei nos seus olhos, arregalados de surpresa... e medo.

       A sombra moveu-se rapidamente em direcção à abertura da tenda.

       Não tivemos tempo para gritar. Não tivemos tempo para pedir socorro.

       Fitando boquiaberto a escuridão, vi a aba da tenda ser aberta... e alguém deitar uma cabeça lisa para dentro da tenda.

       - Ohhh - soltei um gemido, aterrorizado, no momento em que a escura silhueta se baixou subitamente na nossa direcção.

       A múmia estava viva! - foi o pavoroso pensamento que me passou pela mente enquanto recuava. A múmia estava viva!

       - Dr. Fielding! - gritou Sari.

       - Hum? - mirei-o de soslaio para ver melhor. Sim. Era o Dr. Fielding.

       Esforcei-me por o cumprimentar. Mas tinha o coração a bater com tanta força que não consegui falar. Respirei fundo e sustive o ar.

       - Estou à procura do teu pai - disse o Dr. Fielding, dirigindo-se a Sari. - Tenho de o ver imediatamente. É extremamente urgente.

       - Ele-ele foi fazer um telefonema - retorquiu Sari, numa voz trémula.

       O Dr. Fielding virou-se e curvou-se para sair da tenda. A aba fechou-se com um ruído suave atrás dele.

       Virei-me para Sari, com o coração ainda a bater com toda a força.

       - Pregou-me um susto de morte! - confessei.

       - Pensei que ele estava no Cairo. Quando enfiou aquela cabeça magra e careca pela tenda...

       Sari riu-se.

       - Parece mesmo uma múmia, não parece? - O seu sorriso desvaneceu-se. - Gostaria de saber porque é que está com tanta pressa de encontrar o meu pai.

       - Vamos segui-lo - propus. A ideia acabara de me passar pela cabeça.

       - Sim! Vamos! - Não estava à espera de que Sari concordasse tão rapidamente. Mas já estava a abrir a aba da tenda.

       Segui-a e também saí da tenda. A noite estava mais fria. Um vento cortante fazia com que todas as tendas parecessem estremecer.

       - Para que lado é que ele foi? - perguntei, num murmúrio.

       Sari apontou.

        - Acho que aquela tenda ali ao fundo é a tenda de comunicações - respondeu, começando a correr pela areia.

       Enquanto corríamos, a areia, levantada pelo vento, batia-nos nas pernas. Ouvi música e vozes numa das tendas. Os trabalhadores estavam a festejar a descoberta desse dia.

       A Lua projectava uma faixa de luz no nosso caminho, que lembrava uma passadeira à nossa frente, consegui distinguir o corpo alto e magro do Dr. Fielding, inclinado para a frente, avançando em desastradas guinadas em direcção à última tenda. Sumiu-se por um dos lados. Sari e eu estacámos, a algumas tendas de distância.

Afastámo-nos da zona iluminada pelo luar, para nos confundirmos com as sombras onde ninguém poderia ver-nos.

       Conseguia ouvir a voz grave e ressonante do Dr. Fielding na tenda de comunicações. Falava rápida e exaltadamente.

       - O que é que ele está a dizer? - murmurou Sari.

       Não conseguia perceber as palavras.

       Alguns segundos depois, duas silhuetas emergiram da tenda. Transportando potentes lanternas, atravessaram a faixa banhada pela claridade do luar e prosseguiram em passos rápidos pelas sombras.

       O Dr. Fielding parecia arrastar o tio Ben na direcção da pirâmide.

       - O que é que se passa? - murmurou Sari, agarrando-me a manga. - Ele está a obrigar o pai a ir com ele?         O vento levantou a areia num remoinho diante

de nós. Não contive um arrepio.

       Os dois homens falavam ao mesmo tempo, gritando e gesticulando com as lanternas. Apercebi-me de que estavam a discutir sobre alguma coisa.

       O Dr. Fielding tinha uma mão sobre o ombro do tio Ben. Estaria a empurrar o tio Ben em direcção à pirâmide? Ou seria o tio Ben quem conduzia?

       Era impossível dizer.

       - Vamos! - murmurei a Sari.

       Afastámo-nos da tenda e principiámos a segui-los. Caminhávamos lentamente, de maneira a vê-los, mas tendo o cuidado de não nos aproximarmos demasiado.

       - Se eles se virarem, vêem-nos - murmurou Sari, encostando-se mais a mim enquanto nos movíamos, silenciosa e vagarosamente, pela areia.

       Ela tinha razão. Num deserto, não havia árvores nem arbustos onde nos pudéssemos esconder.

       - Pode ser que não se virem - retorqui, esperançado.

       Silenciosa e vagarosamente, aproximámo-nos. A pirâmide erguia-se, sombriamente, diante de nós.

       Vi o Dr. Fielding e o tio Ben estacarem junto à abertura lateral. Conseguia ouvir as suas vozes exaltadas, mas as palavras eram levadas pelo vento. Parecia que discutiam.

       O tio Ben foi o primeiro a desaparecer para dentro da pirâmide. O Dr. Fielding seguiu-o imediatamente.

       - Ele empurrou o papá? - perguntou Sari, numa voz aguda, assustada. - Pareceu-me que o tinha empurrado lá para dentro!

       - Não... não sei! - gaguejei.

       Encaminhávamo-nos para perto da entrada. Depois estacámos os dois, fitando a escuridão.

       Sabia que estávamos ambos a pensar na mesma coisa. Sabia que tínhamos nos lábios a mesma pergunta:

       Deveríamos segui-los até lá dentro?

 

       Sari e eu entreolhámo-nos.

       A pirâmide parecia muito maior de noite, muito mais escura. As rajadas de vento uivavam em torno das paredes, como se nos avisassem para nos mantermos afastados.

Avançámos lenta e silenciosamente para junto de uma pilha de pedras ali deixadas pelos trabalhadores.

       - Vamos esperar aqui que o papá saia - sugeriu Sari.

       Não discuti com ela. Não tínhamos lanternas, não tínhamos luz de espécie alguma. Não me parecia que fôssemos muito longe vagueando sozinhos pelos túneis escuros.

       Encostei-me às paredes lisas e olhei para a abertura da pirâmide. Sari contemplava a Lua. Avançando a flutuar, uns finos feixes de nuvens encobriram-na.

O solo escureceu diante de nós.

       - Não te parece que o papá esteja metido nalgum sarilho, pois não? - perguntou Sari. - Quero dizer, ele disse-nos que não confiava no Dr. Fielding. E depois...

       - Tenho a certeza de que o tio Ben está bem - disse-lhe. - O Dr. Fielding é um cientista. Não é um criminoso nem coisa parecida.

       - Mas porque é que ele obrigou o pai a entrar na pirâmide a meio da noite? - perguntou Sari, numa voz aguda. - E sobre o que é que eles estavam a discutir?

       Encolhi os ombros em resposta. Não me lembrava de alguma vez ter visto Sari tão assustada. Normalmente, tê-lo-ia apreciado. Estava sempre a vangloriar-se de ser corajosa e destemida... especialmente quando comparada comigo. Mas, de modo algum, poderia apreciar isto agora. Sobretudo porque estava tão assustado quanto ela!

       Parecera realmente que os dois cientistas estavam a discutir. E parecera realmente que o Dr. Fielding havia empurrado o tio Ben para o interior da pirâmide.

       Sari cruzou novamente os braços sobre o peito e fitou a abertura da pirâmide, contraindo os olhos. O vento fazia-lhe esvoaçar o cabelo, soprando-lhe madeixas para a testa. Mas ela não tentou sequer sacudi-las.

       - O que é que poderia ser tão importante? perguntou. - Porque é que tiveram de ir à pirâmide agora? Achas que alguma coisa foi roubada? Aqueles polícias do Cairo não tinham ficado lá a guardar o lugar?

       - Vi os quatro polícias irem-se embora - disse-lhe. - Meteram-se no carro e largaram daqui mesmo antes do jantar. Não sei porquê. Talvez os tenham chamado à cidade.

       - Eu... estou tão confusa - admitiu Sari. - E preocupada. Não me agradou a expressão do Dr. Fielding. Não me agradou nada a maneira como foi rude, irrompendo na tenda daquela maneira. Pregou-nos um susto de morte. Nem sequer nos disse olá.

       - Calma, Sari - disse-lhe, suavemente. - Vamos esperar. Vai tudo correr bem.

       Sari soltou um suspiro, mas não disse nada.

       Esperámos, em silêncio. Não sei quanto tempo passou. Pareceram-me horas e horas.

       As fiadas de nuvens vogaram para longe da Lua. O vento continuava a uivar misteriosamente em torno da pirâmide.

       - Onde é que eles estão? Que estarão a fazer? - perguntou Sari.

       Preparava-me para responder... mas detive-me quando avistei uma luz que tremeluzia à entrada da pirâmide.

       Agarrei o braço de Sari.

       - Olha! - murmurei.

       A luz tornou-se mais brilhante. Logo emergiu uma silhueta, içando-se rapidamente.

       O Dr. Fielding. Ao avançar para a zona iluminada pelo luar, apercebi-me da estranha expressão no seu rosto.

       Tinha os olhos pequenos e negros muito abertos. Pareciam girar, loucamente. Tinha as sobrancelhas franzidas. A boca aberta num esgar. Parecia ofegante. O Dr. Fielding sacudiu-se e começou a afastar-se da pirâmide. Andava e cambaleava, em passadas longas e rápidas, com as suas pernas altas e magras.

       - Mas... onde é que está o papá? - murmurou Sari.

       Afastando-me das rochas, consegui avistar claramente a abertura da pirâmide. Não distingui luz alguma a tremeluzir. Nenhum sinal do tio Ben.

       - Ele... ele não sai?! - gaguejou Sari.

       E, antes que eu pudesse reagir, Sari saltou do nosso esconderijo por detrás das pedras... e interpôs-se no caminho do Dr. Fielding.

       - Dr. Fielding - exclamou, num grito estridente -, onde é que está o meu pai?

       Afastei-me das pedras e apressei-me a juntar-me a Sari. Apercebi-me de que os olhos do Dr. Fielding ainda giravam, desenfreadamente. Não respondeu à pergunta de Sari.

       - Onde é que está o meu pai? - repetiu Sari, numa voz aguda.

       O Dr. Fielding comportava-se como se nem sequer tivesse visto Sari. Prosseguiu, passando por ela, caminhando de um modo muito hirto e desastrado, com os braços caídos ao longo do corpo.

       - Dr. Fielding? - gritou Sari, no seu encalço.

       O cientista prosseguiu apressadamente, no escuro, em direcção à fileira de tendas.

       Sari virou-se para mim, com as feições contraídas de medo.

       - Ele fez alguma coisa ao pai! - gritou. - Eu sei que fez!

 

       Voltei-me de novo para a abertura da pirâmide. Ainda estava escura e silenciosa.

       Agora, o único som era o uivo do vento, em redor das paredes da pirâmide de pedra.

       - O Dr. Fielding ignorou-me completamente! - gritou Sari, denunciando no rosto toda a sua fúria. - Passou por mim de rompante como se nem sequer me visse!

       - Eu... eu sei! - gaguejei, numa voz débil.

       - E viste a expressão dele? - perguntou. - Tão má! Tão má!

       - Sari... - principiei a dizer. - Talvez...

       - Gabe, temos de ir à procura do pai! - interrompeu Sari. Agarrou-me o braço e começou a empurrar-me para a abertura da pirâmide. - Despacha-te?

       - Não, Sari, espera! - insisti, libertando-me com um puxão. - Não podemos andar por aí na pirâmide, a tropeçar no escuro. Iríamos simplesmente perder-nos.

Nunca encontraríamos o tio Ben!

       - Vamos voltar à tenda e buscar luzes - retorquiu. - Depressa, Gabe...

       Levantei a mão para a deter.

       - Espera aqui, Sari - ordenei. - Fica a vigiar, à espera do teu pai. O mais provável é que esteja para aí a aparecer dentro de momentos. Eu vou a correr buscar lanternas.

       De olhos fitos na escura abertura, Sari parecia preparar-se para discutir. Mas logo mudou de ideias e concordou com o meu plano.

       Com o coração a bater, corri de volta à tenda. Estaquei junto da entrada da tenda e olhei para a fileira de tendas, procurando o Dr. Fielding.

       Nem sinal dele.

       Na tenda, agarrei em duas lanternas. Regressei logo de seguida, numa corrida, para junto da pirâmide. "Por favor", implorava silenciosamente enquanto corria,

"por favor, saia da pirâmide, tio Ben. Por favor esteja bem."

       Enquanto caminhava sobre a areia, conseguia ver Sari. Mesmo à distância, notei a sua expressão assustada, andando de trás para diante em frente da abertura da pirâmide.

       "Tio Ben, onde é que está?", perguntei-me. "Porque é que não sai da pirâmide? Está tudo bem consigo?"

       Sari e eu não proferimos palavra. Não era preciso.

       Ligámos as lanternas e encaminhámo-nos para a abertura da pirâmide. Parecia muito mais íngreme do que me lembrava. Quase perdi o equilíbrio ao tentar descer até à superfície do túnel.

       As nossas luzes cruzavam-se sobre o chão de terra. Ergui a minha, iluminando o tecto baixo. Mantendo a luz ao alto, fui conduzindo o caminho pelo túnel sinuoso.

       Avançando lenta e silenciosamente, ia arrastando uma mão pela parede para me firmar. A parede parecia mole e quebradiça. Sari manteve-se junto de mim, com o seu feixe de luz brilhante a mover-se diante dos nossos pés. Estacou subitamente quando, numa curva do túnel, deparámos com uma pequena câmara, vazia.

       - Como é que sabemos que vamos na direcção certa? - perguntou, num murmúrio trémulo.

       Encolhi os ombros, ofegante.

       - Pensei que soubesses o caminho - murmurei.

       - Só estive aqui com o papá - retorquiu, espreitando por cima dos meus ombros, procurando a câmara vazia.

       - Vamos continuar até a encontrarmos - disse-lhe, fazendo um esforço para aparentar mais coragem do que aquela que realmente sentia.

       Sari deu um passo diante de mim, iluminando as paredes da câmara.

       - Papá! - gritou. - Papá! Consegue ouvir-me?

       A sua voz ecoou pelo túnel. Até o eco soou do um modo assustador.

       Ficámos ali, transidos de medo, à escuta, à espera de resposta.

       Silêncio.

       - Vá lá - apressei. Tive de baixar a cabeça para entrar no estreito túnel que se seguia.

       Onde é que conduziria? Estaríamos a dirigir-nos para o túmulo do príncipe Khor-Ru? Encontraríamos aí o tio Ben?

       Perguntas e mais perguntas. Esforcei-me por impedir que outras me ocorressem. Mas não deixavam de me assaltar, importunando-me, repetindo-se, ecoando-me na cabeça, enquanto íamos seguindo as curvas do túnel.

       - Papá? Papá... onde é que está? - Os gritos de Sari iam-se tornando mais frenéticos à medida que nos embrenhávamos cada vez mais na pirâmide.

       O túnel descrevia agora uma subida íngreme, nivelando-se logo acima. Sari estacou subitamente. Surpreendido, fui de encontro a ela, quase fazendo-a deixar cair a lanterna.

       - Desculpa - murmurei.

       - Gabe, olha! - gritou, apontando o feixe de luz para um ponto mesmo à frente dos seus sapatos de ténis. - Pegadas!

       Baixei os olhos para o pequeno círculo de luz. Consegui distinguir um conjunto de marcas de botas na terra. Um calcanhar e marcas de espigões.

       - Botas de trabalho - murmurei.

       Sari circundou o solo com a luz. Havia várias marcas diferentes na terra, tomando a mesma direcção que nós.

       - Isto quer dizer que estamos no caminho certo? - perguntou.

       - Talvez - retorqui, estudando as marcas. - É difícil dizer se são recentes ou antigas.

       - Papá? - gritou Sari, ansiosamente. - Consegue ouvir-me?

       Não houve resposta.

       Com um olhar carregado, fez-me sinal para que a seguisse. Avistar as marcas deu-nos nova esperança e avançámos rapidamente, arrastando as mãos pelas paredes para nos firmarmos enquanto caminhávamos. Gritámos ambos de felicidade quando verificámos que tínhamos alcançado a câmara exterior do túmulo. As nossas luzes moveram-se sobre os velhos hieróglifos que cobriam a parede e a porta.

       - Papá? Papá? - A voz de Sari rompeu o pesado silêncio.

       Precipitámo-nos pela câmara vazia e esgueirámo-nos pela abertura que conduzia ao túmulo. A câmara funerária do príncipe estendia-se diante de nós, escura e silenciosa.

       - Papá? Papá? - Sari tentou de novo.

       Também gritei.

       - Tio Ben? Está aqui?

       Silêncio.

        Varri com o feixe de luz a sala atulhada de tesouros, passei-o sobre as pesadas arcas, as cadeiras, os vasos de barro empilhados ao canto.

       - Não está aqui - exclamou Sari, com a voz estrangulada, num soluço de desapontamento.

       - Então para onde é que o Dr. Fielding trouxe o tio Ben? - perguntei, pensando em voz alta. - Não há mais parte nenhuma na pirâmide por onde eles possam ter vindo. Sari acabou por apontar a luz para o grande túmulo de pedra da múmia. Examinou-o, semicerrando os olhos.

       - Tio Ben! - gritei, inquieto. - Está aqui?

       Sari agarrou-me o braço.

       - Gabe, olha! - gritou. Mantinha a luz apontada para o túmulo da múmia.

       Não conseguia perceber o que estaria a tentar mostrar-me.

       - O que é que tem? - perguntei.

       - A tampa - murmurou Sari.

       Lancei um olhar à tampa. A pesada laje de pedra cobria firmemente o túmulo.

       - A tampa está fechada - prosseguiu Sari, distanciando-se de mim e aproximando-se do túmulo da múmia. Mantinha a luz sobre o tampo.

       - Sim. E daí? - Ainda não estava a perceber.

       - Quando saímos esta tarde - explicou Sari -, a tampa estava aberta.

       - De facto, recordo-me de ter ouvido o papá a dizer aos trabalhadores para deixarem a tampa aberta por hoje.

       - Tens razão! - gritei.

       - Ajuda-me, Gabe - implorou Sari, pousando a lanterna aos pés. - Temos de abrir o túmulo da múmia.

       Hesitei por um segundo, sentindo um arrepio de medo percorrer-me o corpo. Mas logo respirei fundo e me movi, disposto a auxiliar Sari.

       Já estava a empurrar a tampa de pedra com ambas as mãos. Postei-me junto dela e empurrei também. Empurrei com toda a força.

       A laje de pedra deslizou muito mais facilmente do que eu havia suposto. Num esforço conjunto, Sari e eu aplicámos toda a nossa força ao tampo, empurrámos... empurrámos. Conseguimos movê-la cerca de trinta centímetros.

       Depois, debruçámo-nos para espreitar o interior do túmulo da múmia... e, horrorizados, sentimos que nos faltava o ar.

 

       - Papá! - exclamou Sari, num grito estridente.

       O tio Ben estava deitado de costas, com os joelhos erguidos, as mãos encostadas ao corpo, os olhos fechados. Com um forte empurrão, eu e Sari conseguimos abrir a pesada tampa de pedra mais uns trinta centímetros.

       - Ele está... está... - gaguejou Sari.

       Encostei a mão ao peito do tio Ben. O coração batia compassadamente.

       - Está a respirar - disse-lhe.

       Debrucei-me sobre o túmulo da múmia.

       - Tio Ben? Consegue ouvir-me? Tio Ben?

       Não se mexeu.

       Levantei-lhe a mão e apertei-a. Senti-a quente, mas flácida.

       - Tio Ben? Acorde! - gritei.

       Os seus olhos não se abriram. Voltei a baixar a mão até ao fundo do túmulo da múmia.

       - Está inconsciente - murmurei.

       Sari manteve-se atrás de mim, pressionando a face com ambas as mãos. Fitava fixamente o tio Ben, com os olhos arregalados pelo medo.

       - Eu... eu não acredito nisto! - gritou, numa voz débil. - O Dr. Fielding deixou aqui o pai para que ele morresse asfixiado! Se não tivéssemos aparecido... - disse, num tom sumido.

       O tio Ben soltou um gemido surdo.

       Sari e eu fitámo-lo, esperançados. Mas não abriu os olhos.

       - Temos de chamar a Polícia - afirmei, dirigindo-me a Sari. - Temos de lhes contar sobre o Dr. Fielding.

       - Mas não podemos simplesmente deixar aqui o papá - retorquiu Sari.

       Preparava-me para responder... mas ocorreu-me uma ideia assustadora. Senti um arrepio de medo percorrer-me o corpo.

       - Sari? - principiei a dizer. - Se o tio Ben está deitado no túmulo da múmia... então onde é que está a múmia?

       Sari ficou de boca aberta, a olhar para mim, num silêncio atónito.

       Nesse momento, ambos ouvimos os passos.

       Passos lentos, a raspar no chão.

       E vimos a múmia, cambaleante, hirta, entrar na sala.

 

       Abri a boca para gritar... mas não saiu nenhum som.

       Hirta, numa guinada, a múmia passou pela entrada da câmara. Olhava a direito com os seus olhos vazios, enegrecidos pela resina. Sob as velhas camadas de resina, a sua caveira sorriu-nos. Um raspar. Outro raspar.

       Os seus pés arrastaram-se sobre o chão de terra, arrastando farrapos de gaze apodrecida. Lentamente, levantou os braços, com um terrível ranger.

       Um raspar. Outro raspar.

       Senti um aperto de terror na garganta. Todo o meu corpo começou a tremer.

       Recuei, afastando-me do túmulo da múmia. Sari manteve-se imóvel, transida de medo, pressionando a face com ambas as mãos. Agarrei-lhe o braço e puxei-a para junto de mim.

       - Sari... Para trás! Para trás! - murmurei.

       Aterrorizada, Sari não tirava os olhos da múmia, que se aproximava. Não consegui perceber se me ouvira ou não. Puxei-a mais para trás.

       As nossas costas atingiram a parede da câmara.

       Sempre roçando o chão, a múmia aproximou-se. Aproximou-se mais. Fitando-nos com os seus olhos vazios, com as órbitas enegrecidas, estendeu na nossa direcção as mãos amarelecidas, incrustadas de resina. Sari soltou um grito agudo.

       - Foge! - gritei. - Sari... foge!

       Mas estávamos com as costas de encontro à parede. A múmia bloqueava-nos a passagem para a porta.

       Com os mesmos movimentos hirtos e cambaleantes, o velho cadáver arrastou-se para mais próximo.

       - A culpa é toda minha! - declarei, numa voz trémula. - Disse as palavras cinco vezes. Trouxe-o de novo à vida!

       - O que... o que é que podemos fazer? - gritou Sari, num murmúrio abafado.

       Não tive resposta.

       - Tio Ben! - soltei um grito agudo. - Tio Ben... ajude-nos!

       Mas o túmulo da múmia permaneceu silencioso. Nem os meus gritos desesperados conseguiram despertar o tio Ben.

       Sari e eu deslocámo-nos vagarosa e cautelosamente ao longo da parede da câmara, com os olhos fitos na múmia que se aproximava. Os seus pés cobertos de ligaduras

raspavam no chão, levantando nuvens escuras de pó enquanto se movia pesadamente em direcção a nós.

       Um cheiro acre pairava na sala. O cheiro de um cadáver de quatro mil anos a regressar à vida.

       Pressionei as costas de encontro à pedra fria da parede da câmara, esforçando-me por raciocinar rapidamente. A múmia estacou junto do túmulo, virou-se, hirta, e prosseguiu, num balanço súbito, na nossa direcção.

       - Eh! - gritei quando de súbito me ocorreu uma ideia.

       A minha mãozinha de múmia. O Invocador.

       Porque não tinha pensado nele antes? Tinha-nos salvo no Verão passado, devolvendo a vida a um grupo de múmias.

       Conseguiria agora invocá-lo de modo a que as múmias desaparecessem? Conseguiria fazê-las morrer de novo?

       Se invocasse a mão de múmia para o príncipe Khor-Ru, conseguiria detê-lo tempo suficiente para que Sari e eu conseguíssemos fugir?

       Daí a breves segundos, iria agarrar-nos.

       Valia a pena tentar.

       Estendi a mão para o bolso das calças, procurando a mão da múmia.

       Desaparecera.

 

       - Não! - Soltei um grito de surpresa e vasculhei desesperadamente nos outros bolsos.

       Não encontrei a mão de múmia.

       - Gabe... o que é que se passa? - perguntou Sari.

       - A mão de múmia... desapareceu! - respondi, com a voz sufocada pelo pânico.

       Um raspar. Outro raspar.

       O horrível odor ia-se tornando mais forte, à medida que a velha múmia se arrastava para mais próximo.

       Estava desesperado por encontrar a minha mão de múmia. Mas sabia que agora não havia tempo para pensar nisso.

       - Temos de tentar fugir - disse a Sari. - A múmia é lenta. Se conseguirmos passar por ela...

       - Mas então e o papá? - gritou. - Não podemos deixá-lo aqui!

       - Temos de ser - disse-lhe. - Vamos buscar ajuda. Depois, vimos buscá-lo.

       A múmia avançou com um ranger quebradiço. O som de um velho osso a partir-se.

       Mas prosseguiu direita a nós, movendo-se, hirta, mas firmemente, com os braços estendidos.

       - Sari... corre... agora! - gritei.

       Dei-lhe um forte empurrão para a arrancar dali.

       Senti que a sala se tornava cada vez mais escura quando me forcei a mover-me.

       A múmia rangeu de novo. Debruçou o corpo para a frente, quando tentámos esquivar-nos, contornando-a.

       Tentei lançar-me sob o braço estendido da múmia. Mas senti os seus velhos dedos rasparem-me na nuca... dedos frios, duros como os de uma estátua.

       Sabia que jamais esqueceria aquele toque.

       O pescoço ardia-me. Baixei a cabeça para me libertar daquela mão... e mergulhei para a frente.

       Sari soluçava enquanto corria. Com o coração a bater, apressei-me a apanhá-la. Forcei-me a correr, mas sentia as pernas tão pesadas como se fossem de pedra.

       Estávamos quase junto da porta quando vimos uma luz.

       Sari e eu gritámos e estacámos subitamente, resvalando, quando um feixe de luz varreu a sala. Por detrás da luz, assomou uma silhueta.

       Erguendo as mãos para proteger os olhos do brilho súbito, esforcei-me, ansioso, por tentar ver de quem se tratava.

       - Nila! - gritei quando ela virou para o tecto o feixe de luz da lanterna. - Nila... ajuda-nos! - gritei, numa voz sufocada.

       - Ele está vivo! - gritou-lhe Sari. - Nila... ele está vivo! - apontou para trás de si, para a múmia do príncipe.

       - Ajuda-nos! - gritei. Os olhos verdes de Nila arregalaram-se de surpresa.

       - O que é que eu posso fazer? - perguntou. E nesse momento a sua expressão alterou-se, tomada pela fúria. - O que é que eu posso fazer com vocês, miúdos?

Não deviam estar aqui. Vão estragar tudo!

       - Hum? - gritei, estupefacto.

       Nila deu um passo para o interior da sala. Ergueu a mão direita.

       A luz difusa, esforcei-me por ver o que segurava na mão.

       A minha mão de múmia.

       Ergueu-a, virando-a para a múmia.

       - Vem a mim, meu irmão! - gritou Nila.

       - Onde encontraste a minha mão de múmia?

       O que é que estás a fazer? - perguntei.

       Nila ignorou as minhas perguntas. Segurava a lanterna com uma mão. Agarrava a pequena mão na outra, empunhando-a, virada para a múmia que se aproximava.

       - Vem aqui, meu irmão - gritou, acenando o Invocador e chamando a múmia. - Sou eu, a princesa Nila!

       Com as pernas a ranger, os seus ossos frágeis a quebrarem-se no interior dos invólucros de gaze, a múmia avançou obedientemente, arrastando-se.

       - Nila... pára com isso! O que é que estás a fazer? - exclamou Sari, num grito agudo.

       Mas Nila continuou a ignorar-nos.

       - Sou eu, a tua irmã! - gritou, dirigindo-se à múmia. Um sorriso de triunfo cruzou-lhe o belo rosto. Os seus olhos verdes refulgiam como esmeraldas verdes

a cada movimento rápido da luz. - Esperei tanto por este dia - disse Nila, dirigindo-se à múmia. - Tantos séculos, meu irmão, esperando que algum dia alguém pusesse

a descoberto o teu túmulo e pudéssemos de novo reunir-nos.

       O rosto de Nila reluzia de entusiasmo. A pequena mão da múmia tremia-lhe na mão.

     - Trouxe-te de volta à vida, meu irmão - gritou para a múmia. - Esperei durante séculos. Mas valeu a pena. Eu e tu iremos partilhar este tesouro. E, com os nossos poderes, governaremos juntos o Egipto... como o fizemos há quatro mil anos!

       Baixou os olhos para me fitar.

       - Obrigada, Gabe! - gritou. - Obrigada pelo Invocador! Logo que o vi, soube que tinha de o ter. Sabia que podia devolver-me o meu irmão! As velhas palavras não eram suficientes. Precisava também do Invocador!

       - Devolve-mo - pedi, tentando alcançá-lo. - É meu, Nila. Devolve-mo.

       Uma gargalhada cruel escapou-se da garganta de Nila.

       - Não vais precisar dele, Gabe - disse, suavemente.

       Acenou com a mão à múmia.

       - Destrói-os, meu irmão! - ordenou. - Destrói-os agora! Não pode haver testemunhas!

       - Não! - Sari soltou um grito agudo. Precipitámo-nos ambos para a entrada. Mas Nila moveu-se rapidamente para bloquear a nossa passagem.

       Dei-lhe um encontrão com o ombro, tentando empurrá-la como um jogador de râguebi. Mas Nila defendeu o seu terreno com uma força surpreendente.

       - Nila... deixa-nos ir! - pediu Sari, ofegante.

       Nila sorriu e meneou a cabeça.

       - Não pode haver testemunhas - murmurou.

       - Nila... só queremos tirar o papá daqui. Depois, podes fazer o que quiseres! - insistiu desesperadamente Sari.

       Nila ignorou-a e ergueu os olhos para a múmia.

       - Destrói-os a ambos! - gritou. - Não podem sair vivos deste túmulo!

       Sari e eu virámo-nos e vimos a múmia deslocar-se pesadamente em direcção a nós. Arrastava longas faixas de gaze amarelecida pelo chão de terra enquanto se ia aproximando. Aproximava-se cada vez mais.

       Virei-me de novo para a porta. Nila bloqueava a passagem. Passei os olhos freneticamente em torno da câmara.

       Não havia fuga possível.

       A múmia arrastou-se pesadamente para junto de nós.

       E estendeu as suas mãos frias, tão frias, para obedecer à cruel ordem de Nila.

 

       Sari e eu movimentámo-nos subitamente para a frente, em direcção à porta. Mas Nila bloqueou-nos a fuga.

       Com os olhos vazios fitando-nos cegamente, o maxilar imobilizado num medonho sorriso de caveira, a múmia lançou-se contra nós.

       Estendeu os braços, muito hirtos. Estendeu as mãos. Numa derradeira guinada desesperada, lançou-se para cima de nós.

       Para minha surpresa, passou por Sari e por mim... e lançou as suas mãos revestidas de resina em torno do pescoço de Nila.

       A boca desta abriu-se num grito sufocado de protesto.

       A múmia inclinou a cabeça para trás enquanto a agarrava. Os seus lábios cobertos de resina moveram-se e uma tosse seca rompeu no ar. E então as palavras sussurradas, secas como a morte, escaparam-se da garganta da múmia:

       - Deixa-me... repousar em paz!

       Nila soltou um grito de surpresa. A múmia estreitou ainda mais o seu enlace cruel em torno do pescoço de Nila.

       Virei-me e agarrei-lhe o braço.

       - Larga-a! - gritei.

       Um arquejar seco irrompeu do crânio recoberto de resina. Com as mãos apertadas em torno do pescoço de Nila e as costas dobradas, empurrava-a para o chão.

       Nila fechou os olhos, derrotada. Levantou as mãos, sem força. A lanterna e o Invocador caíram ao chão.

       Agarrei a pequena mão da múmia e enfiei-a no bolso dos jeans.

       - Larga! Larga! Larga! - exclamei, num grito agudo. Saltei para as costas da múmia e tentei tirar-lhe as mãos do pescoço de Nila.

       A múmia soltou um urro de desafio, um áspero murmúrio de fúria.

       Depois ergueu-se, direita e esforçou-se por me sacudir dos seus ombros. Senti que me faltava o ar, surpreendido com a força inesperada da múmia.

       Ao deslizar pelas costas enfaixadas da múmia, estendi a mão, agarrando-me desesperadamente, agarrando o vazio, tentando não cair.

       A minha mão agarrou o pendente de âmbar de Nila.

       - Oh! - Não contive um grito quando a múmia me sacudiu com mais força.

       Caí violentamente.

       A corrente do pendente partiu-se. Caiu da minha mão, embateu no chão... e fez-se em pedaços.

       - Nãoooooooo! - O gemido horrorizado de Nila fez estremecer as paredes.

       A múmia ficou imóvel. Nila virou-se para se libertar das mãos da múmia. Recuou. Com os olhos arregalados de terror.

       - A minha vida! A minha vida! - bramiu, num grito agudo.

       Debruçou-se e tentou apanhar do chão fragmentos de âmbar. Mas o pendente ficara desfeito numa centena de pedaços minúsculos.

       - A minha vida! - gemeu Nila, olhando para os fragmentos lisos na palma da mão. Ergueu os olhos para Sari e para mim. - Eu vivi dentro do pendente! - gritou.

- De noite, arrastava-me lá para dentro. Manteve-me viva durante quatro mil anos, e agora... agora... ohhhh...

       Enquanto a sua voz se sumia, Nila começou a encolher.

       A cabeça, os braços, todo o seu corpo se tornou mais pequeno... mais pequeno... até se sumir por completo dentro da roupa.

       Alguns segundos depois, enquanto Sari e eu continuávamos a fitar o chão, boquiabertos de horror, um escaravelho negro assomou a rastejar por debaixo da sweatshirt e dos jeans. De início, parecia movimentar-se de um modo vacilante. Depois, largou apressadamente pelo chão de terra, desaparecendo na escuridão.

       - Aquele... aquele escaravelho... - gaguejou Sari. - Era Nila?

       Confirmei com um aceno de cabeça.

       - Acho que sim - disse, olhando para as roupas amarrotadas de Nila.

       - Achas que ela era mesmo uma antiga princesa egípcia? A irmã do príncipe Khor-Ru? - murmurou Sari.

       - É tudo tão estranho - retorqui. Esforçava-me por pensar, tentando reconstituir todas as peças, procurando que aquilo que Nila havia dito fizesse sentido.

       - Ela voltava à sua forma de escaravelho todas as noites - disse a Sari, pensando alto. - Rastejava até ao âmbar e esgueirava-se para o interior. Manteve-se

viva... até... até teres desfeito o seu pendente de âmbar - murmurou Sari.

       - Sim - confirmei com um aceno de cabeça. - Foi um acidente...

       Mas fiquei sem palavras quando senti uma mão fria no ombro.

       E percebi que a múmia me tinha agarrado por detrás.

 

       A mão manteve-se pousada no meu ombro. O frio penetrava através da minha camisola.

       - Larga-me! - gritei.

       Virei-me... e senti o coração parar.

       - Tio Ben! - gritei.

       - Papá! - Sari deu um salto e lançou-se-lhe nos braços. - Papá... está bem!

       O tio Ben tirou a mão do meu ombro e esfregou a nuca. Pestanejou, indeciso e meneou a cabeça, ainda um tanto atordoado.

       Atrás dele, vi a múmia arqueada, imóvel. De novo sem vida.

       - Ainda estou tonto - disse o tio Ben, passando uma mão pelo cabelo negro e espesso. - Esta foi por pouco.

       - Tudo por minha culpa - admiti. - Repeti as palavras cinco vezes, tio Ben. Não queria trazer a múmia de novo à vida, mas...

       Um sorriso cruzou o rosto do meu tio. Rodeou-me os ombros com os braços.

       - Não o fizeste, Gabe - disse, suavemente. - Nila chegou lá primeiro. - Suspirou. - Não acreditei no poder da invocação - prosseguiu, no mesmo tom suave.

- Mas agora acredito. Nila roubou a tua mão de múmia e entoou as palavras antigas. Usou o Invocador para dar vida à múmia. Tanto o Dr. Fielding como eu suspeitávamos dela.

       - Suspeitavam? - gritei, surpreendido. - Mas pensei...

       - Fiquei com suspeitas em relação a Nila ao jantar - explicou o tio Ben. - Lembram-se? Ela perguntou-me quais eram as seis palavras para devolver os mortos à vida. Bom, eu nunca havia revelado que eram seis. Portanto, comecei a pensar como é que Nila saberia que eram seis palavras.

       O tio Ben pôs também um braço em torno dos ombros de Sari e conduziu-nos até junto da parede. Depois, encostou-se à parede, esfregando a nuca.

       - Foi por isso que me precipitei para a tenda de comunicações logo a seguir ao jantar - prosseguiu o tio Ben. - Telefonei para o Sun do Cairo. Nunca tinham ouvido falar de Nila no jornal. Portanto, soube que ela se fazia passar por alguém.

       - Mas vimos o Dr. Fielding puxá-lo para fora da tenda - interrompeu Sari. - Vimo-lo forçá-lo a entrar na pirâmide e...

       O tio Ben soltou um riso abafado.

       - Vocês não são muito bons como espiões - disse, num tom de censura. - O Dr. Fielding não me forçou a fazer nada. Ele tinha visto Nila a esgueirar-se para a pirâmide. Por isso, foi ao meu encontro na tenda de comunicações. E apressámo-nos os dois a ir até à pirâmide para vermos o que Nila pretendia.

       - Chegámos demasiado tarde - prosseguiu o tio Ben. - Ela já tinha trazido a múmia de regresso à vida. O Dr. Fielding e eu tentámos detê-la, mas ela atingiu-me com a lanterna na cabeça. Arrastou-me até ao túmulo da múmia. Acho que me fechou lá. - Esfregou a cabeça. - É tudo quanto me lembro. Até agora. Até acordar e ver Nila transformar-se num escaravelho.

       - Vimos o Dr. Fielding sair muito apressado da pirâmide - relatou Sari. - Passou mesmo ao meu lado. Estava com uma expressão tão estranha...

       Deteve-se, de boca aberta. Todos ouvimos os sons ao mesmo tempo.

       Pés a rasparem no chão no exterior da câmara funerária.

       O coração saltou-me à garganta. Agarrei o braço do tio Ben.

       Os passos aproximaram-se.

       Mais múmias.

       Mais múmias que ganharam vida, a cambalear em direcção ao túmulo do príncipe.

 

       Estendi as mãos para o bolso dos jeans, à procura da minha mão de múmia. Pressionando as costas de encontro à parede, ergui os olhos para a porta da câmara - e aguardei. Esperei que as múmias aparecessem.

       Mas, para meu espanto, o Dr. Fielding irrompeu pela sala, seguido por quatro polícias de uniforme escuro, com as mãos nos coldres.

       - Ben... estás bem? - gritou o Dr. Fielding, dirigindo-se ao meu tio. - Onde é que está a jovem?

       - Fugiu... - respondeu o tio Ben. Como é que ele poderia explicar que Nila se havia transformado num insecto?

       Prudentemente, os polícias vasculharam a sala. Acabaram por ver a múmia, imóvel na mesma posição junto à porta.

       - Ben, fico tão contente por estares bem - disse o Dr. Fielding, colocando calorosamente uma mão sobre o ombro do tio Ben. Depois virou-se para Sari. - Acho que te devo uma desculpa, Sari - disse, franzindo as sobrancelhas. - Quando saí daqui a correr, devia estar em estado de choque. Lembro-me de te ter visto no exterior da pirâmide. Mas não me lembro de te ter dito nada.

       - Não faz mal - retorquiu Sari, suavemente.

       - Lamento ter-te assustado - disse o Dr. Fielding. - Aquela jovem louca havia deixado o teu pai inconsciente. Só consegui pensar em chamar a Polícia o mais depressa possível.

       - Bom, a agitação terminou - disse o tio Ben, sorrindo. - Vamos sair daqui.

       Encaminhámo-nos para a porta, mas um polícia interrompeu-nos.

       - Posso só fazer uma pergunta? - questionou, fitando a múmia na vertical, ao centro da sala. - Aquela múmia andou?

       - Claro que não! - apressou-se o tio Ben a responder, com um sorriso no rosto. - Se pudesse andar, que estaria a fazer nesta lixeira?

       Bom, mais uma vez, acabei por ser o herói do dia. E, claro, mais tarde, na tenda, não tardei em vangloriar-me da minha coragem a Sari.

       Sari não teve alternativa. Teve de aguentar. Afinal, fora eu quem conseguira deter a múmia e transformar Nila num escaravelho quando lhe esmagara o pendente.

       - O que vale é que não ficaste muito vaidoso! - retorquiu Sari, revirando os olhos. Pouco convincente como resposta. Pouco convincente mesmo.

       - Bom, aquele escaravelho desapareceu a rastejar - lembrei.

       Um sorriso maldoso cruzou os lábios de Sari.

       - Aposto que aquele insecto está à tua espera, Gabe. Aposto que está à tua espera na cama de campanha, à espera para te morder.

       Ri-me.

       - Sari, eras capaz de dizer qualquer coisa para me tentar assustar. Não podes simplesmente suportar a ideia de eu ser o herói.

       - Tens razão - retorquiu, secamente. - Não suporto a ideia. Boa noite, Gabe.

       Alguns minutos depois, estava de pijama e pronto para ir para a cama. Que noite! Que noite espantosa!

       Ao deslizar para a cama de campanha e ao puxar as cobertas, soube que jamais esqueceria essa noite.

 

                                                                                            R. L. Stine  

 

                      

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