Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O REGRESSO DO LEPROSO / Michael Jecks
O REGRESSO DO LEPROSO / Michael Jecks

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

  

 

Walter Stapledon, Bispo de Exeter, observava o céu com uma sensação de mau presságio, tentando não se encolher, à medida que o cavalo balouçava suavemente debaixo dele.

- Parece que vai chover, não parece, meu senhor?

O Bispo resmungou cautelosamente. Aquelas escassas palavras resumiam a animosidade com que as pessoas viam o tempo. Durante os desastrosos anos de 1315 e 1316, as colheitas tinham-se afogado em chuva torrencial e milhares de pessoas tinham morrido nas épocas de fome que se seguiram. Em toda a Europa, poucas eram as famílias que não tinham sido atingidas pela necessidade, e até mesmo agora, no Outono de 1320, todos receavam uma repetição da calamidade. Stapledon olhou o companheiro com simpatia.

- Pelo menos as colheitas deste ano foram recolhidas em segurança - disse com seriedade na voz. - Deus deu-nos uma folga, independentemente do que Ele tiver guardado para o futuro.

O companheiro acenou com a cabeça, mas, à medida que observava as nuvens cor de peltre que se agrupavam por cima das suas cabeças, os seus olhos mantinham a expressão de alguém que vê a flecha a voar na sua direcção e que espera só para ver onde é que ela vai espetar-se.

- Rezo a Deus para que nos poupe também no ano que vem. Stapledon pôs de parte o comentário. A vontade de Deus estava para além da compreensão do homem comum, e o Bispo ficava satisfeito por esperar para ver o que Ele planeava. Pelo menos esta visita seria para descansar, pensou ele - longe do círculo de intrujões desonestos->e falsos que rodeava o Rei Eduardo.

O monge que seguia a seu lado, Ralph de Houndeslow, chegara a Exeter apenas alguns dias antes, a pedir um quarto para passar a noite. Quando soubera que o próprio Bispo se encontrava prestes a partir para a grande cidade de Crediton, a Noroeste de Exeter, ficara encantado por aceitar o convite de Stapledon para fazer parte da sua comitiva. Era mais seguro empreender uma viagem com companhia nestes tempos agitados, mesmo para um homem que usava tonsura.

Stapledon achara Ralph bastante diferente dos hóspedes anteriores. A maior parte das pessoas que pediam hospitalidade aos portões do Bispo eram tagarelas, pois estavam habituados a viajar, e deliciavam-se a falar das suas aventuras na estrada, mas Ralph era calado. Parecia estar a conter-se, como se estivesse consciente da pesada responsabilidade que estava prestes a cair-lhe sobre os ombros. Stapledon achava-o reservado e bastante aborrecido, um pouco demasiado introspectivo, mas isso não admirava. As palavras de Ralph sobre o tempo demonstravam uma linha que os seus pensamentos tomavam, mas o prelado sabia que havia outras coisas que o preocupavam. Era como se uma atmosfera imunda tivesse poluído o ar neste reino mergulhado nas trevas da ignorância, e não havia ninguém que não se apercebesse do veneno que agia à sua volta: traição!

Stapledon virou-se na sela para observar os homens que seguiam atrás. Eram quinze, na sua totalidade: cinco escudeiros, quatro criados e os restantes eram clérigos. Os escudeiros eram todos indivíduos duros recentemente contratados para servirem o Bispo, e ele olhava-os de soslaio. Desde que aceitara o elevado cargo que o Rei e o parlamento lhe ofereceram, fora considerado prudente que ele tivesse alguma protecção, e, após o terem persuadido, ele concordara em arranjar uma guarda pessoal. Sabia que a guarda era necessária para a sua segurança, mas isso não significava que ele tivesse de gostar da sua companhia. A sua única satisfação foi que, ao observá-los, viu que não se deixavam aprisionar por receios do futuro. Cada um deles sabia que uma caneca de cerveja aquecida e condimentada os esperava no final da viagem, e isso era suficiente para garantir o seu contentamento. Eram bandidos sem educação, e considerações mais elevadas eram, para eles, irrelevantes. Quando lançou um olhar aos seus criados, viu que, também eles, não eram atormentados por dúvidas, pois conheciam as suas funções, e obedeceriam cegamente ao seu senhor. Não, foi só quando olhou para os seus monges que viu a fatigada ansiedade.

Stapledon sabia o que se encontrava na base daquela ansiedade, e não era apenas o tempo atmosférico: os clérigos, tal como ele próprio, tinham plena consciência de que a guerra civil estava à espreita.

Tinham passado muitos anos desde que o avô do Rei, Henrique III, lançara Simon de Montfort em batalhas por todo o reino, mas o horror dessas batalhas era conhecido daqueles que tinham estudos e que sabiam ler as crónicas. A sua agitação reflectia-se em todos os súbditos do Rei, à medida que se espalhavam histórias sobre a tensão crescente que existia entre dois dos homens mais poderosos do reino. O Bispo não prestava atenção a tais rumores - não precisava. Testemunhara em primeira mão a forma como as relações entre o Rei, Eduardo II, e o conde de Lancaster tinham azedado.

Mais cedo nesse ano, Sir Walter tornara-se Tesoureiro-Mor, o homem que controlava a bolsa do reino. Em teoria, o cargo era de poder, mas fazia-o sentir-se tão seguro como um gatinho deixado sem protecção entre duas matilhas de cães de caça à solta. Independentemente da forma como se aguentava firme, tinha constantemente de olhar para trás. Havia muita gente, tanto no grupo de apoiantes do Rei como no do conde, que teria gostado de o ver destruído. Homens que antes o tinham evitado fingiam agora que eram seus amigos para poderem tentar destruí-lo - ou fazê-lo passar-se para a causa deles. Stapledon estava habituado aos esquemas corruptos da política e dos políticos, pois fora um activista-chave no grupo que tentara fazer com que o Rei Eduardo e o conde de Lancaster chegassem a qualquer tipo de entendimento, mas a perfídia e a falsidade de homens bem-nascidos e supostamente generosos repeliram-no.

Tivera esperança de que o Tratado de Leake pusesse fim à amargura, mas as rivalidades subjacentes ainda existiam. Stapledon não era o único homem no reino a estar desagradavelmente consciente da crescente inimizade. Lancaster comportava-se com uma insolência descarada; não se apresentava no Parlamento quando era chamado e perseguia ousadamente os seus próprios interesses à custa dos do Rei. Stapledon não tinha qualquer dúvida de que, se o conde continuasse a exibir o seu desdém pelo seu suberano, haveria guerra. E, se tal acontecesse, o Bispo sabia que os escoceses atravessariam mais uma vez a fronteira. Tinham concordado uma trégua no ano passado, em 1319, mas, mais recentemente, houvera desordem vinda do Norte. Desde o êxito que tinham alcançado em Bannockburn e da tomada de Berwick, os escoceses tinham-se tornado mais confiantes. Stapledon estava sombriamente convencido de que, se os demónios do Norte divisassem um meio de dividirem os ingleses, não o deixariam escapar. Stapledon sabia que os mesmos pensamentos dominavam os monges enquanto seguiam ao longo da estrada. Debruçando-se, deu uma palmadinha nas costas de Ralph. - Não vos preocupeis, meu filho, podemos pôr de lado todos os receios pelo futuro do país enquanto estivermos aqui em Devon.

- Se a guerra vier, chegará a todos os cantos do reino.

- É verdade, mas chegará aqui em último lugar, e não há necessidade de a antecipar agora. Talvez haja suficientes homens de boa vontade e de bom senso para a evitarem.

- Rezo a Deus para que possamos salvar-nos a ela. Stapledon fixou Ralph. Era irritante que a sua visão fosse agora tão má ao perto; via claramente as coisas a três metros ou mais de distância, mas qualquer coisa que se encontrasse mais perto era indistinta, como se a visse através de um vidro embaciado.

- Vereis que Crediton vos ajudará a esquecer os vossos receios. É uma cidade feliz e azafamada, e o deão, Peter Clifford, é um bom homem, e um excelente anfitrião.

Ralph de Houndeslow esboçou um leve sorriso. A hospitalidade de Peter Clifford era, para ele, irrelevante. Havia coisas muito mais importantes a considerar do que a generosidade de um deão para com monges errantes e um prelado importante - mas esta dificilmente seria a altura ideal para levantar tais questões. Estava aliviado por ver o Bispo regressar à silenciosa contemplação do caminho que tinham pela frente.

Havia pouco para ver. As colinas ondulantes erguiam-se de ambos os lados, cobertas de árvores antigas - carvalhos, ulmeiros, faias e castanheiros - e aqui e ali levantava-se uma fina coluna de fumo por cima dos ramos, até que era apanhada pela brisa leve, esvanecendo-se em seguida como que por magia. Era bom ver que os camponeses eram aqui diligentes; em tantos outros lugares, os vilãos eram carrancudos e preguiçosos. Desde a fome, muitos pareciam irritar-se de trabalharem para os seus senhores. Aqui, pelo menos, a madeira estava a ser cortada, os ramos a serem levados para fazer lenha e mobiliário, ou a serem empilhados para fazer carvão.

Mas Ralph ouvira falar nesta terra e não podia gostar dela. Sabia que quanto mais se aproximava de Crediton, mais se afastava da civilização.

Poucos desejavam ir tão longe para Ocidente como Dartmoor e a Cornualha. Essas eram terras selvagens, com uma população que se mantinha inalterável, pelo menos assim se dizia, desde os tempos remotos em que os primeiros homens tinham chegado a estas ilhas. Os homens de Devon e da Cornualha eram duros e sem lei, tão grosseiros e indomáveis como a própria charneca. Exeter era mais ou menos um porto de abrigo, um forte solitário nos limites do reino, muito semelhante aos castelos das fronteiras galesas ou escocesas, um farol de esperança isolado no baldio em redor.

Ao mesmo tempo que assim pensava, Ralph viu uma carroça. A visão de um veículo tão mundano fê-lo sentir-se um pouco idiota após a azeda consideração sobre a terra. Era como se o próprio Deus o estivesse a censurar por se deixar enredar por tão sombrias reflexões.

Stapledon ainda estava concentrado nas colinas à sua frente.

- Olhai - disse ele, apontando. - Aquele fumo, é Crediton.

Ralph seguiu a direcção do dedo do outro homem. Estavam a descer para um amplo vale, o rio à esquerda, enquanto que à sua direita os bosques se tornavam cada vez menos densos. Para além deles, Ralph via uma série de campos às tiras, grosseiramente perpendiculares à estrada. Uma profusão de ramos quebrados espalhados e de lama testemunhava a inundação que ocorrera um mês antes, quando a chuva engrossara todos os cursos de água e as planícies se tinham inundado. Uma grande parte da matéria arrastada fora removida desta estrada, mas ainda se viam sedimentos na margem mais perto da água. À sua frente, através das árvores, vislumbrou um muro caiado. Via que a estrada curvava para a direita e que desaparecia à medida que subia entre duas colinas, por cima das quais distinguia a leve neblina de fumo da lenha a arder. O vento trazia vagamente consigo o cheiro de madeira queimada vindo das fogueiras da cidade.

- Agora já não é longe - disse o Bispo, torcendo-se, desconfortável, na sua sela.

- Não, meu senhor - concordou Ralph. Tinham-lhe dito que o Bispo sofria de hemorróidas, o que tornava qualquer viagem a cavalo num suplício. Ralph nunca sofrera dessa enfermidade, mas a descrição dos sintomas, que trazia as lágrimas aos olhos de qualquer um e que assemelhava a dor à de estar sentado sobre uma adaga aguçada, tornou-o solidário com ele, independentemente do quanto alguns dos seus criados pudessem soltar um riso abafado nas costas do Bispo.

Encontravam-se agora quase a alcançar a carroça. Ralph via que o carroceiro era uma figura pequena e curvada, de cotovelos pousados nos joelhos, o tronco inclinado para a frente, as rédeas frouxas na mão, como se o próprio carroceiro ficasse contente por deixar o destino ao critério do seu velho cavalo. Ralph sentiu que a sua disposição se tornava mais leve perante aquela visão. Este era um bufarinheiro local, alguém que comprava pão e cerveja em quantidade para vender nas casas dos arredores; dificilmente seria o representante de uma raça antiga e brutal como o monge antecipara apenas alguns minutos antes. O clérigo tomou nota mentalmente para não se esquecer de admitir a sua estupidez da próxima vez que se confessasse.

- Bom dia - disse, ao mesmo tempo que alcançava o carroceiro.

O homem levou uma mão indiferente ao seu velho chapéu de feltro, levantando a ponta da aba tombada, e Ralph vislumbrou uns olhos castanhos vivos, que se estreitaram imediatamente num sorriso alegre, e em seguida o chapéu foi tirado com aquilo que o padre pensou ser respeito fingido, como se o homem estivesse a rir - embora não ao próprio Ralph. Era como se o carroceiro estivesse a partilhar uma piada secreta com Ralph, contra o mundo inteiro.

- Um vosso criado, senhor.

- Não sou senhor nenhum mas sabeis isso muito bem! - respondeu Ralph, mas riu por entredentes quando o indivíduo encolheu os ombros, bem-disposto. Já vira bastantes vendedores ambulantes como este, para saber que eles viviam da sua inteligência, persuadindo agricultores ou mineiros de estanho reticentes a separarem-se do dinheiro que tinham ganho com tanta dificuldade e que guardavam com tanto zelo. Este homem, com a sua aparência franca e honesta, sorriso fácil e rosto forte e quadrado, parecia capaz de vender um cavalo doente aos moços de estrebaria do próprio Rei. Piscou o olho a Ralph em jeito de conspiração, e o clérigo sentiu-se absurdamente honrado, como se tivesse sido submetido a um género de julgamento e tivesse ultrapassado as mais remotas expectativas do vendedor.

Mas nessa altura Ralph ouviu o Bispo inspirar rapidamente, e viu-o adoptar uma pose rígida na sua sela. O prazer do monge foi subitamente abalado, ao ouvir o Bispo dizer, sobressaltado:

- Meu Deus! Tu!

 

Sir Baldwin Furnshill pegou noutra caneca de sumo de maçã e bebericou. Levara alguns anos, mas Peter Clifford, o deão da Igreja de Crediton, aceitara finalmente o facto de que Baldwin preferia não beber álcool ao longo do dia, e agora, sempre que o cavaleiro vinha visitá-lo, havia sempre à disposição algum tipo de bebida que não o ameaçasse de embriaguez.

Era raro um homem evitar a cerveja e o vinho, mas Baldwin passara a sua juventude como um Pobre Cavaleiro de Cristo e do Templo de Salomão - um Cavaleiro Templário. Enquanto fora membro da Ordem, ele evitara rigorosamente bebidas fortes; agora que tinha quarenta e cinco anos, sabia que não era capaz de consumir a mesma quantidade que os outros homens da sua idade, e, assim, poupava-se ao embaraço preferindo aquelas bebidas que sabia que não o deixariam embriagado.

- Devem ser eles - disse Peter Clifford quando se ouviram vozes no pátio. Pouco depois, houve um tinir de arreios, um ruído surdo e prolongado de rodas de carroça e o bater metálico e oco de cascos no pavimento. O deão levantou-se, esvaziando a sua taça e estendendo-a ao criado que estava à espera. Baldwin colocou a sua caneca junto ao fogo e caminhou atrás do amigo, saindo para dar as boas-vindas ao Bispo.

Baldwin encontrara Stapledon em algumas ocasiões, e achara-o sempre um cavalheiro educado e refinado. Hoje o cavaleiro estava algo surpreendido por ver o Bispo de pé e de sobrolho carregado, enquanto os palafreneiros de Peter seguravam os cavalos. Os homens do Bispo andavam agitadamente de um lado para o outro, alguns a puxarem arcas e caixas da parte de trás da carroça, outros recolhiam as bagagens mais pequenas de montadas individuais. A sua actividade frenética era prova do seu próprio nervosismo, face à raiva do seu senhor. - Bispo, meu senhor, sois muito bem-vindo - disse Peter, e Baldwin ouviu a dúvida na sua voz. Peter também devia ter visto a disposição do Bispo. - Meu senhor, gostaríeis de tomar um pouco de vinho condimentado para afastar o frio da viagem?

- Meu amigo, é bom estar aqui mais uma vez - disse o Bispo automaticamente, embora num tom um pouco brusco. - Apresento-vos o novo responsável pela capela de St Lawrence, Ralph de Houn-deslow.

Baldwin reparara no clérigo antes de ser apresentado. Para o cavaleiro, a maior parte dos jovens monges tinha um aspecto que beneficiaria de exercício matinal todas as manhãs durante várias semanas; a sua pele exibia invariavelmente uma palidez doentia. Este era diferente. Era alto e desempenado, não tinha os ombros descaídos, e, a julgar pela sua cor rosada, poderia ter sido trabalhador. O rosto era magro, sem no entanto, ser doentio. Tinha um queixo sólido de aspecto belicoso, e os seus olhos azuis eram inteligentes, brilhando com uma confiança orgulhosa por baixo de uma cabeleira amarelo-acastanhada. O monge trouxe à lembrança de Baldwin alguns dos seus falecidos amigos templários.

À medida que regressavam ao salão do deão, Baldwin reparou que o Bispo não caminhava tão decididamente como em tempos fora seu costume. O prelado envelhecera no último ano. Embora continuasse alto, estava mais curvado do que antes. Parecia que o fardo do seu cargo se estava a tornar demasiado pesado para ele carregar. Baldwin conhecera-o aqui, em casa do deão, um ano antes, quando Stapledon o pressionara a confirmar a quem devia fidelidade - ao Rei ou ao conde. Nessa altura, Stapledon era alto, escorreito e poderoso. Mas Baldwin sabia que Stapledon estava envolvido na política que rodeava o Rei, e que a pressão devia ser esmagadora. Lembrava-se de que, doze meses antes, ambos receavam a guerra. Em retrospectiva, isso parecia ridículo: a situação não estivera nem de perto tão perigosa como agora.

Ralph sentou-se um pouco à esquerda do Bispo, deixando o homem mais velho próximo do fogo. Dois toros de carvalho irradiavam um brilho fosco, e, à medida que o Bispo se deixou cair no assento com um gemido, Baldwin empurrou-os com os pés, dando origem a uma chuva de fagulhas, antes de lhes atirar para cima toros de faia rachados. Antes de se sentar em frente aos hóspedes, Peter Clifford dava pressa aos criados para que fossem buscar o vinho, e Baldwin puxou um banco para junto de Ralph. À medida que as chamas subiam e se enrolavam, o monge viu o rosto do cavaleiro à cintilante luz cor de laranja do fogo, e, a julgar pela natureza fixa da sua expressão, os seus pensamentos não eram agradáveis.

Visto de perto, o cavaleiro parecia mais velho do que o monge pensara de início. Sir Baldwin era um homem de aspecto elegante, com os ombros e os braços fortes de um espadachim, mas, onde Ralph teria esperado ver crueldade e indiferença, ficou surpreendido ao ver exactamente o contrário. O cavaleiro tinha olhos generosos. Estavam incrustados num rosto moreno emoldurado por cabelo preto e curto, tingido de cinzento junto às têmporas. Uma barba bem aparada seguia-lhe a linha do maxilar.

A face exibia uma cicatriz alongada, que brilhava à luz das velas. Mas Ralph via também que a dor lhe perturbava as feições. Tinha a testa vergastada por marcas profundas, e, de ambos os lados da boca, viam-se rugas verticais que apontavam para anos de sofrimento. Dava a impressão de um resistente, embora o preço da sobrevivência fosse elevado.

O Bispo Stapledon também viu a indiferença de Baldwin e expressou um arrependido encolher de ombros.

- Sir Baldwin, por favor, perdoai a minha rudeza. Não era minha intenção ser grosseiro.

- Eu é que devia pedir desculpas; a minha mente andava a vaguear.

- No meu caso, eu reflectia sobre um encontro casual - disse o Bispo.

- A sério, meu senhor? - perguntou o deão Peter com interesse.

- Sim, deão. Encontrei um homem que não desejava voltar a ver - disse Stapledon com frieza. Aceitou uma taça de vinho aquecido que o criado lhe estendeu, cheirando o aroma e dando a sua aprovação com um gemido. - Como cheira bem! Estava frio no caminho para cá; juro que sinto o peso dos meus anos mais acentuadamente a cada Inverno que passa. Com a idade, a minha carne fica cada vez menos protegida contra o tempo, que não perdoa. Se fosse jovem, teria achado o tempo hoje tão suave que apenas merecia uma camisa,, mas agora que estou velho e débil tenho de deitar a mão a duas túnicas, uma jaqueta e um forte manto de lã. Deão Peter, o vosso vinho sabe tão bem quanto cheira! Obrigado, sinto o meu bom humor a regressar!

- Mas que foi que vos perturbou? - persistiu Peter, acenando ao criado para que enchesse a taça do Bispo Stapledon.

- Aquele homenzinho incorrigível, John Irelaunde.

- Oh - meu bom Deus!

- Não pareceis surpreendido, deão - observou o Bispo secamente. - Tenho a certeza de que me lembro de ter aconselhado que ele devia ser banido da cidade.

- Era difícil expulsá-lo. Não sou responsável pelo tribunal da cidade, como sabeis.

- Quereis sugerir que o bom povo desta cidade não aceitou a vossa recomendação, deão?

Ralph ouviu a voz do Bispo tornar-se dura. O deão estava a evitar o olhar penetrante de Stapledon, e, quando Ralph olhou para S/r Baldwin, reparou que o cavaleiro estava mais uma vez a fixar as chamas, mas agora com um leve sorriso a tocar-lhe a boca, como se tentasse esconder o seu divertimento. Ralph voltou a olhar o Bispo, desesperado.

- Mas, Bispo, meu senhor, quem era o homem? Pareceu-me inofensivo, apenas um vendedor ambulante a tratar do seu ofício, por que é que vos irritou tanto?

As feições do Bispo transformaram-se numa máscara azeda; o deão mexia pensativamente o seu vinho com um dedo. Restava a Baldwin responder. Sem abandonar a sua contemplativa observação dos toros, falou calmamente, os olhos a brilharem alegremente à luz do fogo.

- Esse homem, John de Irelaunde, é muito conhecido.

- Mas porquê, senhor?

- Não sou a pessoa mais indicada a quem perguntar. Tudo aconteceu há muito tempo, antes de eu próprio ter voltado para cá. Vivi muitos anos no estrangeiro, e foi só quando a minha mãe morreu num acidente que eu herdei a propriedade. Tudo o que sei é o que ouvi dizer.

Baldwin lançou a Ralph um olhar rápido. O monge viu-lhe as feições serem iluminadas por um súbito clarão vindo da lareira, e agora ouvia prazer na sua voz. E o Bispo também, pois Ralph ouviu-o resmungar de uma forma ríspida e mexer-se, irritado, no seu lugar.

O cavaleiro continuou:

- John Irelaunde chegou cá em 1315, penso que em Agosto, não foi, meu senhor? - O Bispo respondeu com um breve aceno de cabeça. - Como digo, eu próprio não me encontrava aqui nesse tempo, mas ouvi tantas vezes a história que quase que me sinto como se tivesse visto tudo. Mas antes que vos conte sobre Irelaunde, tendes de saber a origem de tudo, a história do outro homem, aquele que Irelaunde tinha encontrado na estrada. Compreendeis, é que o senhor Bispo aqui presente estava na igreja a celebrar uma missa...

- Era a missa de São Pedro advincula - disse Stapledon calmamente. - Orey veio cá na quarta-feira anterior ao dia 1 de Agosto. - Enquanto Baldwin continuava, a voz a descair para o riso, o Bispo via a cena com muita clareza com os olhos da mente.

Era um Agosto frio e húmido - todos os meses desse ano e do ano seguinte foram abismais - e a congregação estava encharcada. À luz amarela das centenas de velas, o Bispo via o vapor, como um estranho gás dos pântanos, a erguer-se das roupas das pessoas que se encontravam à sua frente, criando um ar bafiento e doentio. O fedor era inimaginável: lã encharcada, peles húmidas, o fétido cheiro animal do couro mal curado, o odor nauseabundo de corpos por lavar - Stapledon pensara que todos estes cheiros se combinavam com o sebo das velas a arder para criar uma atmosfera repelente e única. Sentia que não era forma de dar graças a Deus. Era de tal forma horrível que ele teve de se recriminar pela sua falta de concentração.

À medida que prosseguia a missa, entoando as longas passagens que, para ele, continham uma tão grande riqueza de significado, submetendo-se à influência das palavras que lhe eram familiares e às cadências apaziguadoras, a sua concentração foi abalada por um grito selvagem.

Era como se a bexiga de um porco tivesse sido cheia de ar e depois rebentada. O barulho era tão inesperado que, por direito próprio, constituía uma obscenidade. Stapledon ficou horrorizado, pensando, de início, que o próprio demónio maculara a cerimónia. Vozes gritavam, umas de condenação, outras de glorificação, e, enquanto o Bispo olhava, boquiaberto, sem compreender, viu que uma figura, de olhos esbugalhados, caminhava para ele aos tropeções, gritando:

- Milagre! Milagre!

- Mas o que é isto? Quem ousa interromper um encontro sagrado? - perguntou ele, mas a multidão começara a murmurar, e ele não conseguiu ouvir a resposta. Levantando a mão, olhou em redor, de semblante carregado, à espera que se fizesse silêncio.

O homem, Orey, distinguia-se por aquele género de nobreza andrajosa que era tão comum entre os comerciantes de berço pobre. Era um indivíduo pouco atraente. Baixo, sujo, deselegante, gordo devido à ingestão de cerveja em excesso, e corado. De queixo descaído e aparentemente nervoso, precipitou-se para à-frente e caiu de borco no chão em frente do altar, ficando deitado com os braços estendidos, como um penitente a imitar a crucificação. Um silêncio pasmado apoderou-se de todos os presentes, e Stapledon ficou à espera, na incerteza, olhando à esquerda e à direita, para os sacerdotes gerais. Não viu neles qualquer ajuda. Estavam tão confusos quanto ele próprio.

- Bispo, meu senhor, eu estava cego - entrei aqui com a minha mulher cheio de esperança e rezando para que Deus, na Sua infinita bondade, me concedesse um milagre e permitisse que eu voltasse a ver, e observai! Eu vejo! É um milagre, juro!

De olhos postos no chão como se receasse ver a expressão do rosto do Bispo, a voz de Orey soava embargada, mas foi ouvida por um número suficiente dos presentes. Um murmúrio de excitação perpassou a multidão. Houve uma pausa, como se toda a congregação inspirasse, e em seguida os gritos irromperam em torrente:

- Tocai os sinos! Louvai a Deus! Dai graças a Deus por este milagre!

Ao lado de Orey encontrava-se uma mulher, magra e cheia de cuidados, o cabelo prematuramente grisalho. Estendeu as mãos ao Bispo, suplicante:

- É verdade, meu senhor. O meu marido cegou há semanas atrás e sonhou que, se viesse à vossa missa, voltaria a ver. Viemos assim que pudemos, e agora ele já não está cego!

O Bispo Stapledon acenou lentamente a cabeça para si próprio, olhando a multidão com cepticismo, antes de se virar para o estupefacto clérigo a seu lado:

- Prendei-o.

Houvera indignação, com os crédulos a protestarem que o homem devia ser venerado, e não preso como um criminoso; outros, vendo a direcção dos pensamentos do Bispo, ameaçavam arrancar os membros a Orey, um por um, por heresia. Stapledon limitou-se a fazer sinal para que as pessoas se afastassem do altar e continuou imperturbavelmente a celebrar a missa.

Mas durante o resto da cerimónia, ele lutara para controlar a turbulência que lhe perpassava o corpo. Era impossível suprimir a esperança de que poderia verdadeiramente tratar-se de um milagre, o primeiro que alguma vez testemunhara.

Stapledon suspirou profundamente enquanto Baldwin terminava a sua história.

Ralph inclinou-se para a frente, mal controlando a sua excitação.

- Mas eu nunca tinha ouvido falar nisto! Ele estava a dizer a verdade? Baldwin esboçou um sorriso torcido.

- Ah, é exactamente essa a questão. Como é que o Bispo poderia saber?

- E não podia. Eu queria acreditar - é claro que queria! - mas sou demasiado velho para tomar a palavra de um camponês como pura verdade, quando ele jura ter sido objecto de um milagre como aquele.

- E que fizestes?

- Mandei interrogar Orey e a esposa. Ambos declararam que na quinta-feira anterior à Páscoa ele tinha ido deitar-se de perfeita saúde e que tinha acordado cego. Orey era de Keynesham, era o pisoador local, e mandámos interrogar os vizinhos. Havia bastantes preparados para confirmarem a história dele.

- Assim, o Bispo não tinha muitas opções - disse Baldwin.

- Não - disse Stapledon. - Tive de aceitar a palavra deles, especialmente porque todos juraram sobre os Evangelhos. Se tivesse havido uma sombra de dúvida, eu teria mandado prender Orey por fraude, mas, tal como as coisas estavam, todos confirmavam a sua história - até o padre local, embora pouco mais instrução tivesse do que o próprio Orey e passasse a maior parte do seu tempo livre a investigar os mistérios contidos nos barris de cerveja do que os da Bíblia. Não, tive de ordenar que tocassem os sinos, e celebrei um serviço de acção de graças pela misericórdia de Deus ao manifestar a doença em Orey e ao conceder-lhe a cura.

- E esse homem, Orey, é agora conhecido como John de Ire-launde? - perguntou Ralph, confuso.

- Não! - riu Baldwin. - Orey foi o homem que convenceu John, o vigarista, a vir aqui.

- Orey regressou ao seu ofício no mês de Janeiro seguinte - observou Stapledon secamente, olhando o cavaleiro. - Ora aconteceu que, quando ia a caminho, conheceu este vendedor ambulante, John de Irelaunde, e contou-lhe tudo sobre a sua cura miraculosa. Orey estava decidido a dar graças a Deus, após o que tinha a certeza de ter sido um milagre, e, aonde quer que ia, contava às pessoas o que lhe tinha acontecido. A esposa, tanto quanto sei, era uma testemunha prontíssima. Mas este vendedor ambulante, este John, mudou depois de direcção e veio para Crediton. Cobriu os olhos como um cego, caminhava com uma bengala, e perguntava a toda a gente que encontrava se o podia conduzir à igreja. Dizia que tinha sido subitamente atacado de cegueira, mas que Deus lhe tinha enviado um sonho que lhe mostrou que podia curar-se se fosse a Crediton assistir a uma missa.

- Foi tão evidente - Peter Clifford riu alto. - Aparecer assim, pouco tempo depois de Orey se ter ido embora, e sozinho na carroça - como se tivesse podido viajar tantos quilómetros cego e sem guia! Suponho que ele nunca pensou o quanto pareceria suspeito.

- Mas por que se daria ele ao incómodo? - perguntou Ralph. Stapledon lançou-lhe um olhar condescendente.

- Ralph, quando tiverdes vivido tanto quanto eu, aperceber-vos-eis do quanto as pessoas podem ser crédulas. A populaça daqui tinha enchido Orey de dinheiro, na esperança de que, através da sua caridade, um pouco da boa sorte dele recairia sobre eles próprios. Sem dúvida que Orey mencionou isso a John. As pessoas queriam associar-se a Orey, porque, afinal, Deus o tinha distinguido com os Seus favores. O que Irelaunde pretendia era visitar a igreja, demonstrar a sua própria recuperação maravilhosa, e ser favorecido de forma semelhante pelos generosos burgueses da cidade.

- Mas como pudestes ter a certeza de que ele não era verdadeiramente cego?

- Em primeiro lugar porque ele não podia apresentar testemunhas; em segundo lugar porque a sua história era demasiado improvável. Deus não envia curas miraculosas por grosso nem tão-pouco ao par; Ele proporciona-as ocasionalmente, como prova da Sua bondade e poder. E depois, é claro, o idiota foi visto a levantar a ligadura dos olhos.

- O nosso oficial da autoridade tem bons olhos - Baldwin riu, desistindo de todos os esforços para reprimir a sua hilaridade - e uma alma profundamente desconfiada. Quando vê um homem aparentemente cego a levantar uma ponta do tecido que lhe cobre os olhos para investigar o caminho antes de se dirigir directamente para a estalagem - na qual, ao chegar, dá todos os sinais de ser completamente incapaz de ver seja o que for -, o bom oficial da autoridade começa a perguntar-se que género de incapacidade visual está a testemunhar. O oficial da autoridade não tirou os olhos de John, e no dia seguinte, quando John fez a sua aparição na igreja, dirigiu algumas palavras ao Bispo.

- Duvidei do homem desde o início - murmurou Stapledon. - Era demasiado ter um segundo homem a aparecer com uma cegueira súbita; os milagres não são assim tão comuns. Não, mandei prender Ire-launde, e, quando ele não conseguiu apresentar uma única testemunha que apoiasse a sua defesa, eu disse que ele deveria continuar detido até poder ser julgado em tribunal.

- Não havia necessidade, meu senhor - disse Clifford. - Ele foi demasiado óbvio. Perguntei aos burgueses o que poderiam fazer, e transmiti a vossa sugestão, mas eles pareciam todos pensar que ele era um bobo, e apenas o fizeram passar uma manhã no cepo.

- Uma manhã? Uma manhã inteira! Meu Deus, que crueldade! - disse o Bispo fulminantemente.

Baldwin riu.

- Não sejais tão duro com a cidade por tamanha generosidade. Podeis imaginar como os burgueses devem ter visto a questão: por um lado, tinham uma prova fabulosa da santidade da sua igreja, um acontecimento que fora testemunhado pelo próprio Bispo, e algo que traria peregrinos de todo o país, e, por outro lado, um simples intrujão, alguém que poderia, se o seu caso viesse a ser conhecido, arruinar a reputação da cidade. Se se provasse que um homem era uma fraude, não se reflectiria isso automaticamente no primeiro milagre? Se John de Irelaunde era falso, as pessoas perguntar-se-iam se Orey também seria.

- Isso dificilmente demonstra o desejo legítimo de castigar um transgressor.

- Oh, não sei, Bispo. Certamente que é melhor castigar brandamente um homem do que talvez a cidade inteira injustamente - disse Baldwin, provocador. - Especialmente porque tal poderia aviltar um milagre genuíno: o de Orey.

Stapledon resfolegou.

Então o que tem ele andado a tramar desde essa altura? Presumo que deveis conhecê-lo bem para poderdes recordá-lo tão fácilmente, especialmente porque, como sublinhais, nem sequer aqui vivíeis quando tudo isto aconteceu.

O cavaleiro bebericou o seu sumo.

- É verdade que o tenho visto algumas vezes. - Decidiu que os rumores mais recentes que ouvira deveriam ser mantidos em segredo. Peter Clifford poderia saber alguma coisa deles, mas não havia necessidade de informar o Bispo quando isso só poderia servir para irritar o prelado. - Trouxeram-no à minha presença na minha qualidade de Defensor da Paz do Rei, mas nunca por causa de alguma coisa grave: vender pães com peso a menos, esse tipo de coisas.

- Isso já é bastante grave! - exclamou Ralph. Muitos pobres dependiam do pão para o seu sustento diário, e aqueles que enganavam os seus clientes nos trocos eram culpados de tentar fazer com que morressem de fome, na opinião dele.

- É verdade, mas não é uma coisa que possa levar a que um homem deva ser enforcado - afirmou Baldwin com firmeza. Sabia a dificuldade que algumas pessoas tinham em arranjar uma forma de sobrevivência, e não acreditava no excesso de severidade contra aqueles que apenas cometiam delitos para não morrerem de fome.

- Quer dizer que ele dificilmente é um burguês-modelo - comentou o Bispo.

- Não - mas acrescenta uma certa cor à vida da cidade - sugeriu Baldwin. - Tem uma coragem ousada. Acredito que ele era capaz de vender enxofre ao demónio, e tirar vantagens do negócio!

- Esse dificilmente será o género de comentário que o eleve a meus olhos - disse Stapledon com brusquidão e frieza, mas, no momento em que Ralph inspirou profundamente perante a sua irreverência, Baldwin viu que Stapledon escondia o seu próprio divertimento.

- Mas isso é muito certo - disse Clifford, com um género de fatigada resignação. - Irelaunde possui um certo dom natural para falar. Ainda na semana passada me convenceu a comprar uma parte do tecido que ele vendia. Eu sei como ele é, e embora tenha bastante certeza de que não há maldade nele, não lhe devia ter comprado nada.

- Se não há maldade... - interrompeu Ralph, confuso.

- Não tem de haver intenção maldosa - explicou Baldwin. - John pensa apenas no minuto seguinte ou nos dois minutos seguintes, e no que pode fazer. Se houver uma oportunidade de lucro, ele aproveita-a. Venderá qualquer coisa. Geralmente não será nada que possa ferir - mas não estará necessariamente de acordo com a elevada expectativa que o cliente tinha.

- E depois - acrescentou Clifford sombriamente -, ele tem sempre uma explicação pronta, que, à primeira vista, é razoável, e que mostra inevitavelmente que, de alguma forma, nos encontramos em falta. Tomemos o meu tecido, por exemplo: ele vendeu-mo por metade do preço corrente - unicamente, disse ele, porque tinha comprado uma boa quantidade, por bom preço, a um tecelão que, devido à idade, estava a abandonar o negócio, e ele preferia ver a igreja ficar com uma pechincha do que fazer mais dinheiro ou dar o benefício a um mercador já gordo.

- Isso deveria ter-vos posto de sobreaviso, Peter - disse Baldwin, num tom de reprovação trocista. - Ele de facto deu a entender que preferia ver-vos ganhar a vantagem do negócio do que tê-la ele próprio? Que outro aviso é que ele vos poderia ter dado?

- Ele foi muito convincente.

- Ele é sempre! Continuai, o que se passou com o tecido? Desfez-se à chuva? Ou evaporou-se ao Sol?

Peter Clifford comprimiu os lábios.

- O tecido era para fazer túnicas para alguns dos irmãos leigos e criados - admitiu ele, passado um momento. - Alguns deles usavam tecidos tão coçados que pouco melhor pareciam do que se andassem nus. Mas assim que o tecido de John foi lavado, encolheu. Nessa altura já tinha sido transformado em roupas, e não serviu para nada.

- E ele disse que a culpa era vossa?

- Pediu muitas desculpas, mas disse que deveríamos ter lavado o tecido antes de o cortar e coser. Suponho que ele tem razão, mas não se espera que encolha até àquele ponto! As camisas, depois de lavadas, só serviam para crianças.

- Isso só vem provar que eu tinha razão - afirmou o Bispo. - Ele devia ter sido expulso da cidade após a sua tentativa de fraude.

Baldwin via que esta conversa estava a embaraçar o amigo, e mudou de assunto.

- Quer dizer, Ralph, que estais prestes a ser o novo responsável pelo Hospital de St. Lawrence? Deixai-me ver. Isso significa que vindes do Convento da Trindade, não é verdade?

- Sim, senhor. De Houndeslow, a alguns quilómetros de West-minster.

- Um mosteiro bom e próspero, ouvi dizer - comentou Peter Clifford num tom de aprovação.

Baldwin observava o jovem monge enquanto ele respondia às perguntas do deão sobre o seu mosteiro. O cavaleiro sabia que os serviços religiosos da pequena capela do Hospital de St Lawrence eram celebrados por monges de Houndeslow, mas não se apercebera de que o velho Nicholas, que falecera no Verão anterior, iria ser substituído por alguém tão jovem. Baldwin tinha a certeza de que o rapaz não teria mais de vinte anos, e embora essa fosse certamente idade suficiente para qualquer homem iniciar uma carreira, era inquietante pensar que o indivíduo ia desempenhar um papel tão arriscado. Ralph tinha a autoconfiança de um homem muito mais velho, reparou Baldwin. Talvez ele fosse capaz de gerir os assuntos da sua pequena capela. Ao observá-lo, Baldwin ficou impressionado com a sua calma. O monge comportava-se com uma serehidade quase distante. Ao contrário de tantos jovens, via Baldwin, Ralph não mostrava inquietação, estando sentado com compostura, as mãos repousando no colo.

Baldwin pegou na sua taça e bebeu um gole. Era bom ver um jovem decidido a servir o seu Deus protegendo as pessoas que tinha a seu cargo, mas Baldwin estava fascinado por aquilo que poderia motivar alguém a aceitar tal cargo. Os pacientes internados no Hospital de St Lawrence não estavam doentes com fracturas nem cortes nos membros. Aqueles que viviam em St Lawrence constituíam um grupo muito mais horrível.

St Lawrence era o hospital dos leprosos.

 

Apenas a duzentos metros do local onde se encontravam, John de Irelaunde seguia ruidosamente pela estrada em mau estado, a caminho de casa.

Era raro ele não sorrir nem acenar àqueles que via na margem da estrada, embora fosse menos comum as suas saudações serem retribuídas. Uma rapariga que se encontrava junto a uma casa olhou-o com frieza quando ele lhe gritou; um pouco mais à frente na estrada, uma mulher que seguia à pressa com os dois filhos corou e afastou o olhar quando ele assobiou e lhe piscou o olho. Contudo, ele sentia que era adequadamente compensado por estas respostas, quando se aproximou de um grupo de raparigas que conversavam ao canto de uma rua estreita. Colocou-se em pé no leito da carroça, tirando o chapéu andrajoso e fazendo uma vénia, e as raparigas soltaram risinhos abafados. Uma delas olhou-o ousadamente nos olhos, e ele sorriu e acenou-lhe com o chapéu.

À medida que se voltava a sentar, as mulheres foram rudemente expulsas da sua mente. Vislumbrara um homem que cavalgava na sua direcção. O cavaleiro tinha entre trinta e trinta e cinco anos, um rosto um pouco gordo de mais devido a demasiada comida e bebida ricas, e uma barriga saliente que parecia repousar na cernelha do cavalo. John arredondou os lábios e soltou um assobio desafinado, baixando a cabeça para que o rosto ficasse escondido sob a aba do chapéu. Espreitando debaixo desta barreira, viu as pernas do cavalo aproximarem-se e depois passarem por ele. O carroceiro riu alto para si próprio:

- E um bom dia também para vós, Matthew Coffyn, meu senhor. Estou contente por vos ver a caminho. Espero que tenhais deixado todas as vossas coisas de valor em segurança!

Pouco depois passava pela casa de Coffyn. Era uma casa bem dimensionada, como era próprio do estatuto de que o homem usufruía na cidade, com tinta fresca na madeira, e cal imaculada, apesar do desgaste provocado pela acção do tempo que deteriorava a aparência de uma propriedade. John mantinha a cabeça baixa e observava de debaixo da aba do seu chapéu, à medida que passava pelos portões, mas não viu Martha Coffyn. A casa estava em silêncio, e ele acenou a cabeça para si próprio. Enquanto o amo estava longe, os criados haveriam de descansar. Sem dúvida que a maior parte se encontrava na despensa, a desfrutar da ausência do amo, ao mesmo tempo que desfrutava igualmente da sua melhor cerveja.

A seguir a essa havia uma construção mais nova. Esta, propriedade de Godfrey, era uma casa enorme, de bom granito rebocado e pintado, cercada de um muro suficientemente forte para deter uma multidão enfurecida. John olhou lá para dentro. Um jardineiro estava a tirar folhas do enorme maciço de couves, enquanto que outro espalhava palha por cima de um canteiro de legumes para os proteger da geada. Recolher-se-iam em breve, quando a luz começasse a desaparecer, pensou John com satisfação.

Quando chegou aos portões, a sua atenção foi captada por um par de mulheres jovens. Uma era de estatura média, com brilhantes olhos azuis que exibiam uma calma reservada, como se ela tivesse confrontado a dor e se tivesse descoberto capaz de suportá-la. O rosto era oval, com uma testa alta e larga sob o pequeno toucado. Tinha o corpo bem torneado de uma mulher madura. John sabia que ela tinha quase vinte e sete anos, e essa era demasiada idade para uma mulher solteira, especialmente para uma mulher tão atraente. Quando ele a viu olhar na sua direcção, presenteou-a com um sorriso feliz e acenou com a cabeça respeitosamente. Ela ignorou-o, virando-lhe as costas.

- Por amor de Deus, Cecily, sabes bem como ferir o orgulho de um homem - murmurou ele para si próprio, soltando um riso abafado, ao mesmo tempo que captava o olhar da outra mulher presente no jardim, a rapariga mais jovem. Ela encarou o olhar dele com firmeza, com um sobrolho condescendentemente erguido. Foi o suficiente para animar o coração de John, à medida que passava pela casa.

Mais à frente havia uma rua nova. Ele virou para entrar nela e subiu uma inclinação íngreme, o cavalo, preso aos tirantes, a abrandar o passo e a arquear o dorso, puxando com determinação.

- Vamos, donzela!

À sua direita erguia-se o muro de arenito que cercava o terreno de Godfrey. Fora um empreendimento dispendioso, construir esta barreira, pois John sabia que compreendia mais de um hectar, no interior do qual vacas e porcos se alimentavam da comida que lhes era dada até que eles próprios, por sua vez, serviriam de comida às pessoas da casa.

O cavalo de John parou alguns metros antes da encruzilhada seguinte, na extremidade mais longínqua do muro de Godfrey. Atando as rédeas em volta da tábua que tinha junto ao joelho, e deixando-as um pouco frouxas, John, de um salto, desceu da carroça. Crediton ficara para trás, à frente a terra era comunal, e à sua esquerda ficava um bosque, mas à direita, nas traseiras da casa de Godfrey de London, ficava a sua própria quinta.

O pequeno pátio estava escondido atrás da sebe. Até os portões de madeira estavam cobertos de tábuas. John dava valor à privacidade no seu domínio. Abriu o cadeado e libertou a corrente, empurrando os portões para que se abrissem de par em par, as dobradiças a guincharem em protesto. O barulho fê-lo semicerrar os olhos, e John tomou nota mentalmente para não se esquecer de voltar a oleá-los. Conduziu o cavalo para o interior e bateu com os portões, desengatando o animal e tirando-lhe os arreios, que pendurou num prego, enquanto o limpava e o escovava. Deixando-o junto a uma manjedoura acabada de encher, foi ver a sua mercadoria. Uma vez que estava armazenada no barracão encostado às traseiras da casa, foi buscar um jarro de cerveja e ficou de pé à ombreira da porta, a assobiar pensativamente. Estava virado para Oriente, mas agora, à medida que o Sol se punha, via os últimos raios reflectirem-se com um brilho vermelho e amarelo nas folhas das árvores em frente.

Sentia-se aqui bem. A casa era pequena, mas o lar que deixara na Irlanda também era. Pelo menos aqui havia muitas árvores completamente visíveis. Podia sentar-se aqui fora durante horas com uma caneca de cerveja, apenas a observar os pássaros e os esquilos dourados a saltarem e a brincarem no interior e entre os ramos. Durante a maior parte do ano ele podia adivinhar qual era a estação ao olhar simplesmente por cima da sua sebe. Na Primavera, as árvores vestiam-se de verde-claro, de folhas jovens e frescas; o Verão significava um tom de verde mais baço. Agora era Outono, e os carvalhos tinham sido dominados por um monótono ocre, à medida que as folhas se preparavam para cair.

Estas árvores davam-lhe toda a lenha de que precisava para o aquecimento, e, nesta altura do ano, ele também podia recolher a sua própria comida. Ao longo do Outono, guardava caixas de frutos secos, sobretudo avelãs e castanhas. Estas últimas eram as suas preferidas. Gostava delas assadas, comendo-lhes o miolo branco e macio quando ainda estava quente, ou cozinhando-as em leite e esmagando-as para fazer um estufado espesso e cremoso.

John suspirou, feliz. Fora desejo das pessoas da cidade que ele devia ser forçado a sentir-se excluído da vida de Crediton - e tinham ficado aborrecidas quando se aperceberam de que ele tencionava lá permanecer. A cidade estava unida contra ele; ele tinha de ser forçado a compreender o quanto as suas acções eram condenadas. Foi por isso que tinham recusado deixá-lo adquirir um terreno mais próximo do centro de Crediton. A intenção era castigá-lo pela sua tentativa de fraude, mas ele estava-lhes grato por terem querido afastá-lo. Isso fizera com que ele ficasse com esta vista da encosta da colina e por cima das árvores - e assegurava que podia tratar da sua vida sem ser observado.

E, por vezes, isso era importante para ele. Mexeu-se, à medida que a luz desaparecia, esticando ambos os braços acima da cabeça. Atravessando o seu pátio, certificou-se de que o cavalo estava acomodado, antes de pegar num pedaço de corda da porta do estábulo. No local em que o seu terreno se encontrava com o de Godfrey, ele não se dera ao incómodo de levantar uma sebe. O muro de Godfrey tinha aí quase dois metros e meio de altura, o suficiente para deter a maior parte dos visitantes indesejados. Agora John examinava-o, sugando os dentes pensativamente, enquanto fazia um laço. A bostos, tomou o peso à corda enrolada que tinha na mão. Alguns centímetros por cima dele, o ramo quebrado de um carvalho projectava-se para o seu lado. Lançou a corda, que rodeou o ramo, e testou-a um momento antes de a usar para o ajudar a subir. Uma vez aí, soltou o laço do ramo, assobiando distraida-mente, enquanto procurava, cauteloso, algum jardineiro alerta, e, em seguida, deixou-se cair para o chão.

Matthew Coffyn estava novamente ausente; acontecia muitas vezes. E, quando deixada por sua conta e risco, a esposa, Martha, era presa fácil do aborrecimento.

Mal quebrou o jejum na manhã seguinte, Ralph despediu-se tanto do Bispo como do deão e partiu para ocupar o seu novo cargo. Ralph esperara ir sozinho para a leprosaria, mas Clifford insistiu em que alguém lhe devia ensinar o caminho. Os leprosos encontravam-se na extremidade da cidade, assinalou, e seria fácil para Ralph perder-se en route.

Ralph seguiu o funcionário real encarregado da distribuição de esmolas através do guarda-vento, entrando no pátio e depois na estrada. No caminho, o velho monge apontou orgulhosamente para a imponente igreja nova. A pequena e movimentada cidade já estava acordada, viu ele. Em todas as ruas, as pessoas vendiam mercadorias de cestos. As lojas tinham as janelas abertas. As venezianas estavam articuladas na extremidade mais baixa, de forma a poderem ser descidas para pousarem em bancas, e agora exibiam produtos frescos de todos os géneros. À medida que caminhavam, chegou até Ralph o cheiro de pão acabado de cozer, de tortas e estufados que estavam a cozinhar, de aves de capoeira que estavam a assar, e um cheiro forte e penetrante a peixe, todos eles competindo com o fedor do esgoto pelo predomínio.

Isso fez com que ele se sentisse idiota após as suas reservas da tarde anterior. Em Houndeslow, esta cidade era considerada como um posto avançado fronteiriço, um local tão afastado da vida civilizada, que era um milagre que alguém aqui sobrevivesse durante muito tempo, mas, agora que aqui estava, Ralph achou que era um lugar próspero e agradável. Perguntou-se por breves instantes se a terra mais para Ocidente seria tão repugnante e selvagem como ele ouvira dizer, ou se se revelaria tão simpática como Crediton. Contrariamente àquilo que lhe tinham dito, esta não era uma cidade fronteiriça, não da mesma forma que Carlisle.

Os monges mais velhos do seu convento tinham-lhe contado muita coisa sobre os pântanos do Norte. Aí, tanto quanto ele compreendeu, os incursionistas e os ladrões vindos do lado escocês estavam continuamente a atacar, e era impossível viver-se em paz. Carlisle tinha de ser protegida por poderosas muralhas e por um castelo proeminente, atrás de cujos portões òs-civis podiam procurar abrigo quando os bárbaros escoceses chegavam montados nos seus pequenos cavalos, incendiando e pilhando tudo. Aqui em Crediton não havia qualquer muralha, no entanto as pessoas não pareciam sentir a sua falta.

Mais para o interior da cidade a atmosfera era outra. Aqui era o centro do comércio. Havia guinchos regulares vindos de um pátio onde um matador de porcos desenvolvia o seu ofício, um talhante, com o seu avental de couro, cortava os pêlos a carcaças ao ar livre, enquanto que, ao lado, outros cortavam e desmanchavam estoicamente. Um aprendiz esvaziava intestinos para um pequeno curso de água, enquanto que outro estava ajoelhado na corrente a lavar tripas e restos para fazer salsichas. O fedor era o dos curadores, um odor forte, e, à medida que continuavam a caminhar, Ralph deu consigo a passar por sapateiros e cordoeiros, pisoadores e tecelões. A cidade tinha um negócio invejável.

Mas o funcionário responsável pelas esmolas não levava Ralph a ver os trabalhadores nos seus ofícios - levava o monge para o seu novo cargo, e, a caminho, passaram por multidões que se amontoavam nas ruas, até que chegaram ao outro lado da cidade. Como que para se justificar, o funcionário das esmolas começou a falar da leprosaria e dos vários internados.

- Temos espaço para doze, mas raramente temos esse número. Não somos tão grandes como Tavistock, lá eles têm sempre os seus lugares preenchidos. - Soava quase que num tom de pesar, como se fosse um insulto para Crediton o facto de a cidade não conseguir ter a lotação completa. - Mas suponho que isso significa que as nossas despesas são inferiores às deles.

- Deve ser dispendioso sustentar os leprosos.

- Bem, sim, pode ser. A igreja cuida da conservação dos edifícios, e não só da Capela de St Lawrence e dos vossos aposentos, mas também dos próprios quartos dos leprosos - e depois também há as pensões. Fornecemos dois pennies por pessoa por semana. Isso sem pensar nas outras obras de caridade que temos de empreender em nome deles, arranjar-lhes tecido, rações suplementares de comida durante as feiras e festivais, e assim por diante.

- Deve ser um sorvedouro nos vossos recursos - disse Ralph. Sabia muito bem que os funcionários responsáveis pelas esmolas olhavam para o dinheiro com que lidavam como se fosse deles.

- E é, mas não é tão grave como possais pensar - respondeu o funcionário responsável pelas esmolas, e tocou de lado no nariz. - O bom Bispo tem sido muito generoso e aumentou as nossas receitas. Concedeu à cidade mais duas feiras, e nós recebemos um décimo de todas as portagens, e isso faz com que as nossas finanças sejam mais fáceis de gerir.

- Foi um gesto generoso da parte dele.

- Penso que o Bispo sempre teve um fraco por nós. A igreja colegial beneficiou, uma vez que o nosso precentor concordou em comemorar anualmente o aniversário do Bispo Stapledon. É no dia 1 de Fevereiro. E quando o bom Bispo falecer, comemoraremos todos os anos o aniversário da sua morte.

Ralph acenou com a cabeça.

- Só pode estar correcto que um grande homem como ele tenha o conforto das orações dos cânones para assegurar a sua entrada no céu.

- Com certeza. E o Bispo tem feito um trabalho tão bom que merece certamente ser lembrado. Mais do que alguma da nossa nobreza.

O tom de voz frio avisou Ralph de que o funcionário responsável pelas esmolas era daqueles que não gostavam de cavaleiros modernos. Actualmente, demasiados membros das classes de cavaleiros menosprezavam os seus deveres e passavam o tempo em servil adesão a enfatuados hábitos modernos. Fora um choque para muitos no país, após os anos de vestuário austero sob o reinado de Eduardo I, descobrir que os novos cortesãos do Rei preferiam gastar as suas fortunas em enfeites baratos do que em artigos de vestuário mais sóbrios. Agora eram comuns as túnicas e as calças de várias cores, e era difícil saber a classe social de um homem a partir das roupas que usava. Até se podiam ver camponeses vestidos de peles como os fidalgos. Ralph observou calmamente:

- Deveria haver leis que impedissem as pessoas de usarem coisas acima da sua classe social.

- Concordo. Mesmo entre a nossa própria condição social, há alguns que andam por aí como se fossem simplesmente mercadores. Já ouvi falar em homens das cidades - irmãos monges!- que vestem veludo e tecido de ouro, e, por vezes, até vão ao estrangeiro com barba! Ainda na semana passada me contaram que em Bristol foram vistos monges sem tonsura!

Ralph deixou continuar a voz escandalizada do companheiro. Também ele conversara com viajantes que falavam de estranhos comportamentos noutras partes do reino, mas, na generalidade, ele não se deixou impressionar pelos rumores. Viajara desde Houndeslow, e, onde quer que fazia uma paragem, ouvia falar de outros monges ou frades que se comportavam mal, mas não vira, ele próprio, qualquer prova disso. De qualquer maneira, tinha coisas mais importantes na cabeça. Queria ver o estado da sua nova capela.

Quando deixaram a cidade para trás, o responsável pelas esmolas, finalmente, calou-se. Ao contornarem um pequeno outeiro, ele parou e apontou:

- Ali está ela.

Ralph seguiu o dedo do seu guia. À sua frente encontrava-se uma pequena capela, um simples rectângulo, sem floreados nem ornamentação. Próximo, havia um terraço baixo de casas. Como a capela, eram de construção simples: o monge podia ver as pedras que formavam as fundações, enquanto que, por cima, havia uma argamassa macia, caiada, como a maior parte das casas da área, embora tivessem passado alguns anos desde que estas paredes tinham sido pintadas. O telhado de colmo também estava deteriorado. Ralph via grandes buracos onde os pássaros tinham feito ninho, e o beiral era pequeno. À medida que a palha começava a estragar-se, a massa de colmo encolhia, e, passados trinta ou quarenta anos, os beirais recuavam. Isso colocava as paredes em perigo: a chuva que escorria pelo telhado podia levar consigo a parte exterior da parede ou infiltrar-se nela, tornando, na melhor das hipóteses, a casa inabitável, e, na pior, causando o seu desmoronamento. Era um problema comum.

Mas apesar de toda a aura de negligência, o terreno dado aos leprosos cobria quase meio hectare, e estava rodeado por uma sebe espessa, com camadas bem colocadas, para servir de defesa contra os animais selvagens, enquanto que um portão forte bloqueava a única entrada. Tinha um aspecto suficientemente seguro para os internados em sofrimento, ao mesmo tempo que lhes dava espaço para cultivarem as suas próprias ervilhas e feijões.

O responsável pelas esmolas era um homem generoso. Quando olhou para Ralph, viu a expressão fixa, o olhar decidido e os lábios fortemente comprimidos, e sentiu um acesso de compaixão.

- É uma tarefa difícil, mas vereis que não vos faltarão amigos. Eu estou apenas a meia dúzia de passos de distância, e visitar-vos-ei com bastante frequência para ver como vão as coisas, por isso se precisardes de algum conselho...

As suas palavras bem intencionadas diminuíram de intensidade quando o jovem o olhou. Ralph sentiu apenas irritação pelo facto de o monge mais velho o estar a reter e a impedi-lo de realizar os seus deveres. Forçou um sorriso:

- Tenho a certeza de que estarei bem, mas agradeço a ajuda.

O responsável pelas esmolas acenou com a cabeça, disse que passaria por lá para ver se Ralph precisava de alguma coisa, e, pouco depois, Ralph encontrava-se sozinho. Estava prestes a entrar no recinto fechado quando um cavalo se aproximava num galope leve, pela vereda à sua direita, e ele preferiu esperar em vez de atravessar à frente dele.

Era um enorme cavalo preto, e brilhava como se tivesse sido oleado. Os arreios eram dos mais caros, feitos de couro preto bem trabalhado, com sinos de prata pendurados das rédeas e dos arreios para facilitarem a viagem ao cavaleiro com a sua música.

O próprio homem estava esplendorosamente vestido, de túnica e calças azuis resplandecentes por baixo de uma forte jaqueta de lã, e um pesado manto de veludo púrpura debruado a pele. Do macio chapéu de feltro com as suas penas alegres e alongado atrás, cobrindo-lhe parcialmente as costas, até ao couro fino e maleável das botas de montar, tudo nele o proclamava um homem rico.

- Bom dia, irmão!

Ralph baixou a cabeça em sinal de reconhecimento, à medida que o homem parava o cavalo à sua frente e tirava o esplêndido chapéu para coçar a cabeça.

- Um dia agradável para montar, senhor - respondeu educadamente.

O homem era de meia-idade, o cabelo meio grisalho a cair-lhe numa imitação de tonsura. Também lhe recuara à frente, o que apenas servia para enfatizar a altura da sua testa. Perspicazes olhos castanhos sorriam para baixo, para Ralph, mas o monge teve a impressão de que o homem teria a mesma facilidade em mostrar um semblante carregado. Havia uma certa severidade nas pequenas rugas entre as sobrancelhas, e os lábios eram finos e pálidos.

- Sim, irmão. Está bom tempo para galopar.

- Fostes longe?

- Até Bow e depois para cá - o homem parecia um pouco perturbado e Ralph reparou que tinha quebras de concentração. De momentos a momentos os seus olhos pousavam nos portões da capela.

- Viveis aqui, senhor? - perguntou Ralph, sentindo necessidade de preencher o silêncio.

Hã? Sim, lá atrás, seguindo pelo vosso caminho.

- Pelo meu caminho?

- Lá atrás, junto à igreja colegial - disse ele, fazendo um gesto com a cabeça. - Tenho uma casa na rua a seguir.

- Ah, estou a ver. E sois mercador?

- Eu? Não, era ourives, mas isso já foi há muito tempo, muito antes de ter vindo aqui para Crediton. Agora ajudo os outros...

Era grosseiro forçar as pessoas, mas Ralph tinha a certeza de que o cavaleiro queria aliviar-se de qualquer peso. Apesar de toda a prosperidade evidente, parecia inquieto, como se tivesse uma confissão a fazer. O seu semblante era demasiado familiar ao monge; os homens e as mulheres abordavam muitas vezes um monge ou um padre para falarem, e a razão era geralmente algum mau comportamento banal que podia ser perdoado com uma penitência menor. Em tais ocasiões, era sempre tentador evitar oferecer qualquer consolo, ou aconselhar uma visita à igreja, em vez de perder tempo a ouvir histórias idiotas. Só se encontrara com Peter Clifford uma vez, mas Ralph formara uma elevada opinião sobre ele. O deão era o vigário dos paroquianos, e Ralph tinha a certeza de que, se este desconhecido precisava de absolvição, Peter Clifford era bem capaz de lhe aliviar a mente. Contudo, ele devia saber quem era o seu vigário, por isso, por que estava ele tão aparentemente interessado em abordar um monge desconhecido na rua e em meter conversa com ele?

- Senhor, se sentis necessidade de falar com alguém, tenho a certeza de que o deão ficará contente em vos oferecer consolo, mas se preferis discutir as coisas comigo... - deixou que a sua voz se arrastasse interrogativamente.

Perante as suas palavras, o homem lançou-lhe um olhar rápido.

- Sim, irmão, eu gostaria de falar convosco, se me puderdes conceder algum tempo.

Ralph suspirou por dentro. O homem devia ter mais do dobro da sua idade, e aqui estava ele, à procura de respostas. O monge estava demasiado consciente da sua própria inaptidão para a tarefa, mas acenou com a cabeça, como se estivesse contente.

- Nesse caso, deveis dizer-me o vosso nome primeiro. Eu chamo-me Ralph.

- Perdão, irmão. O meu entusiasmo tomou-me a dianteira. O meu nome é Godfrey - Godfrey de London.

- Muito bem. Sendo assim, senhor, por que não vindes para a minha capela e eu ouvirei o vosso problema?

- A vossa capela? - perguntou Godfrey, o sobrolho erguido em sinal de surpresa.

Ralph acenou com a cabeça e direcção ao pequeno edifício.

- St Lawrence.

- Sois o responsável pelos leprosos?

- Sim, mas não tendes nada a recear, eu...

- O que sabeis vós de receio, mongezinho de meia-tigela? Não sabeis nada! Mal tendes idade para ter barba, por amor de Deus! Não podeis saber o que é ter uma filha que... Oh, para quê? - Chicoteando a sua montada e metendo esporas a fundo, Godfrey, de súbito, fez girar a cabeça do cavalo com força, e partiu estrada fora, afugentando os pombos à sua passagem.

Ralph ficou muito tempo imóvel e boquiaberto. Não era a rudeza que o fazia ficar a olhar para a estrada; era a paixão inquieta presente na explosão de Godfrey. Não fora dirigida a Ralph - disso o monge estava convencido. Era a explosão de um homem levado ao desespero, como se tivesse visto em Ralph alguém que o pudesse ajudar, apenas para ficar com as suas esperanças desfeitas.

Isso fez com que Ralph parasse, pensativo, mas tinha pouco tempo para perder a preocupar-se com burgueses ricos; tinha trabalho a começar. Caminhou até ao portão e deu-se a conhecer ao velho leproso que o guardava.

Ralph ficou inundado de compaixão pelo homem idoso. Tinha o rosto apodrecido, o palato desaparecera, e, com ele, os dentes de cima, dando-lhe um aspecto mais de animal do que de ser humano. Com as suas luvas grossas de dois dedos e o tecido grosseiro das calças, jaqueta e manto, parecia sub-humano, uma simples coisa. E Ralph sabia que essa era a forma como ele seria tratado pelas pessoas da cidade, como um ser inferior amaldiçoado e agredido a pontapé, insultado tanto por adultos como por crianças.

Engoliu o embargo que se lhe formara na garganta e que ameaçava sufocá-lo. O velho leproso indicou-lhe, com um gesto, o seu pequeno quarto, e Ralph deixou-o, acenando com a cabeça e saudando os membros do seu rebanho que encontrou pelo caminho. Estavam todos em silêncio, arrastando os pés e de olhos postos no chão, receosos de o olharem nos olhos enquanto não o conhecessem melhor, nervosos na presença do seu novo senhor, e Ralph teve de pestanejar para afastar as lágrimas de compaixão que lhe enevoavam os olhos ao ver as suas deformidades: muitos tinham cotos onde dantes estavam as mãos ou os pés; a maior parte tinha o rosto desfigurado e torcido em máscaras de pesadelo.

Contudo, depois de ter aberto a sua porta e de ter tomado posse do seu quarto, quando se encontrava encostado à ombreira da porta, os braços cruzados enquanto observava os seus bens, não pôde deixar de franzir a testa de preocupação. Não eram os homens à sua volta; os seus pensamentos não estavam agora com as criaturas disformes do campo.

Ralph era apenas um jovem, mas já cuidara de suficientes doentes e moribundos ao longo da sua vida para reconhecer a expressão que vira no rosto de Godfrey, e esse rosto não deixava de lhe vir à mente: revelava uma tristeza prudente - como se Godfrey albergasse um desespero infinito.

 

Saindo do talho, John de Irelaunde deixou-se ficar encostado à parede por um momento, a observar as pessoas a passar. Quando uma mulher jovem o olhava, ele sorria, quer ela reparasse nele quer não, e mantinha a sua atenção fixa nela até que a multidão a engolisse. De vez em quando uma rapariga apercebia-se de que estava a ser observada, e era para ver a forma como ela reagia que ele continuava a olhar por cima da multidão.

Havia algumas, as mais jovens, que baixavam a cabeça, embaraçadas, como se procurassem refugio atrás de outra pessoa anónima. Algumas traziam consigo mulheres jovens que não sabiam nada da forma como lidar com o interesse de um homem, e a estas ele lançava um longo olhar de desejo - não para ofender mas porque queria recordar a sua inocência. Sabia demasiado bem que tais tímidos rubores de menina não durariam; dentro de muito pouco tempo seriam inevitavelmente substituídos por sorrisos conhecedores.

Depois havia as mulheres mais velhas que coravam de raiva. Eram, muitas vezes, senhoras casadas que possuíam algum estatuto na cidade - e era por isso que John as atacava com o seu olhar. Quando encontrava uma mulher que lhe retribuía o olhar com arrogância, enquanto enrubescia de irritação, ele lançava-lhe deliberadamente um olhar de soslaio. Era delicioso atiçar-lhe a raiva. Eram mulheres como estas que lhe tinham dificultado a vida, ou que tinham tentado fazê-lo, e a impotência delas perante o insultuoso e libertino sorriso dele era bálsamo para a sua alma.

Gostava das raparigas bonitas, das mulheres jovens e frescas que lhe enfrentavam o olhar com ousadia. Valia a pena procurá-las. Era

sempre um encanto avaliar até que ponto a confiança delas era fan-farronice. Ofereciam o potencial para uma deliciosa especulação, não que ele se atrevesse a tentar a sua sorte com elas. Mesmo que ele ainda não tivesse uma mulher que lhe tivesse roubado o afecto, estas eram demasiado perigosas; ele estaria a desafiar a sorte, divertindo-se com mulheres jovens que podiam ter um pai ou um irmão rico que poderia desejar procurá-lo para se vingar. As raparigas podiam imaginar-se apaixonadas com demasiada facilidade, e, quando rejeitadas, eram propensas a procurar satisfação na ponta da espada de um irmão.

A última categoria eram as outras esposas - aquelas que não sacudiam a cabeça com arrogância nem comprimiam os lábios ao vê-lo. Eram as bonitas senhoras casadas com homens mais velhos, mulheres que queriam agitação na sua vida sem arriscarem a sua posição social. Num lugar como Crediton não havia um inesgotável fornecimento delas, mas havia-as em número suficiente para aqueles que sabiam procurar. Ele avaliava-as quando as via na rua, reparando nelas com o olho de um conhecedor de gado a examinar a manada. Estas mulheres enfrentavam-lhe o olhar com coragem, comportando-se descaradamente, quer se encontrassem com os maridos quer sozinhas; não coravam de vergonha nem de raiva, mas retribuíam-lhe o olhar melancólico, e, por vezes, os olhos delas faziam-lhe propostas mudas.

Para ele, esse fora sempre o encanto, reflectiu, à medida que, finalmente, se afastou da parede e se encaminhou, vagaroso, para casa, sondando a rua à procura de rostos familiares ou novos. Era a excitação da perseguição da caça. Sabia que as mulheres deviam ter ouvido falar nele; não era como se ele se tivesse escondido. John de Irelaunde gostava de mulheres. Gostava da companhia delas, gostava de lhes dar presentes - nada de demasiado caro, mas algo relacionado com lembrança - e adorava amá-las sem o risco de envolvimento financeiro. Era essa a sua reputação.

E era por isso que tantas tinham procurado a sua companhia. John era seguro. Era conhecido por não constituir ameaça para uma mulher que desejasse a oportunidade de um caso amoroso sem o marido descobrir. E numa época em que muitos homens enganados pegariam primeiro numa espada e só fariam perguntas quando as pernas, os braços e outros membros tivessem sido irremediavelmente perdidos, essa era uma consideração importante.

Perante este pensamento, o sorriso de John alargou-se. Ele fora sempre cuidadoso; nunca se deixara apanhar. Não era arrogância, mas a cuidadosa avaliação dos perigos que evitava a sua captura. Certificava-se sempre de que não havia hipótese de um marido o poder apanhar. E os benefícios tinham lá estado para ele lhes agarrar. As mulheres tinham-no apreciado por lhes proporcionar o afecto que lhes faltava nos seus casamentos aborrecidos, assim como a excitação do ilícito. Mas nada mais.

Não, porque John - o homem que tinha desfrutado dos favores de muitas senhoras, o homem que estava livre da loucura de se apaixonar, que evitava as ciladas astuciosas daquelas raparigas que se pavoneavam perante ele e que se ria da própria ideia de alguma vez voltar a casar - estava completamente apaixonado. E ele sabia que devia ser sério, pois não conseguia lamentar o facto.

Quando levantou o olhar, viu que o Sol estava a esconder-se atrás do horizonte. Em breve estaria a escurecer. Fez uma pausa para sorrir para si próprio antes de apressar o passo. Coffyn estava esta noite novamente ausente, e isso significava que o caminho de John estava mais uma vez livre.

Uma semana depois da chegada de Ralph a Crediton, disseram-lhe que tinha um novo internado.

Mais tarde, ele recordaria esta como uma daquelas manhãs de Outono, claras como o cristal que traziam consigo a promessa de um sol morno e nenhuma chuva. Quando ele abriu a porta da sua pequena casa, os terrenos do hospital encontravam-se cobertos por uma fina película de geada. Ralph teve de parar e de inspirar profundamente, bebendo a vista como vinho.

A pequena comunidade ficava situada fora do extremo ocidental da cidade, afastada do centro buliçoso, e embora ele visse o fumo a erguer-se como colunas no ar calmo, as casas e as lojas não eram visíveis daqui, escondidas do olhar pela curva da colina e pelas árvores que lhe cobriam a encosta. O único indício de habitação, era o clangor da população errante, à medida que as carroças rangiam pelas estradas, ou se batiam panelas e frigideiras umas nas outras, em preparação para o novo dia. As portas e as janelas cerradas, levantavam-se vozes quando os aprendizes eram chamados ou repreendidos com pragas por chegarem atrasados.

Ralph sorriu. O barulho de Crediton raramente era tão rouco, mas quando a manhã estava assim tão nítida, os sons propagavam-se tão distintamente pela estrada fora que ele podia imaginar que as pessoas se encontravam apenas a escassos metros de distância e não a cerca de meio quilómetro. Esse facto fazia desaparecer a sensação de isolamento, que era o risco profissional da sua carreira.

Da porta de sua casa, ele via todo o seu domínio. Logo em frente encontrava-se o portão para o mundo exterior, que os seus internados simultaneamente detestavam pelo facto de aí serem rejeitados, e que adoravam pela liberdade - e pela saúde - que representava. À sua direita encontrava-se a pequena capela, com a sua triste colecção de crucifixos de madeira para recordar os homens que lá tinham morrido. Os leprosos viviam em frente. Ralph sabia que alguns, os mais crentes, estavam neste preciso momento a preparar-se para o primeiro serviço do dia. A sua única possibilidade de liberdade vinha da capela: ou eram abençoados pelo milagre da saúde recuperada através da bondade de Deus, ou eram libertados. Ele conceder-lhes-ia misericordiosamente a morte, e um fim para o seu sofrimento.

Mas outros não se juntavam a ele em St Lawrence para assistir às suas missas. Esses eram os incorrigíveis, aqueles que já tinham desistido. Tinham sucumbido ao desgosto, ou tinham-se zangado com o seu Deus pela sua morte em vida. Ralph sentia que podia compreender a infelicidade deles, mas não podia perdoar o facto de terem perdido a fé. Ralph sentia que eles deviam confiar Nele. Foi com um género de desinteresse abstracto que se perguntou como é que ele próprio reagiria se se tornasse leproso. Era sempre possível que ele sucumbisse à doença maligna. Pedia apenas a Deus para poder ser como o primeiro grupo e aproveitaria de bom grado a oportunidade para louvar a Deus que lhe seria proporcionada - mas não tinha a certeza.

A mensagem chegou já a manhã ia avançada, enquanto ele varria o chão da capela. A lama e o lixo acumulavam-se aos cantos do velho edifício, e era uma tarefa diária assegurar que a casa de Deus permanecesse limpa. Quase tinha terminado quando Joseph, um velho leproso muito desfigurado, o chamou.

Um dos primeiros sintomas da doença era a dificuldade em respirar que a vítima sentia, assim como a rouquidão na voz. O pobre Joseph tinha suportado a sua doença durante mais de quatro anos, segundo tinham contado a Ralph, e o monge tinha muitas vezes dificuldade em compreender o que ele dizia, mas hoje depressa percebeu que necessitavam dele.

Junto ao portão principal encontrou uma mulher jovem à sua espera. Tinha pouco mais de vinte anos, rosto comum, mas com uma força interior que transparecia na gravidade e solenidade das suas feições. Ralph viu que não se tratava de uma mulher nobre de nascimento. A sua roupa era limpa, mas não era certamente cara; o tecido rasgara-se em vários locais e fora cuidadosamente remendado.

À medida que se aproximava dela, a atenção de Ralph fixou-se no seu rosto. A mulher parecia não dar pela presença dele: estava a observar Joseph. E, ao contrário de todas as outras pessoas que ele vira a observarem um leproso, o rosto dela não revelava medo, nem horror, nem nojo, mas apenas uma expressão de compaixão e de profunda tristeza. Isso fê-lo querer parar para memorizar todos os pormenores dela, tal como ali estava, de pé, irradiando bondade como uma Madalena moderna. Quando ele se aproximou, viu que as faces dela apresentavam riscas de lágrimas.

- Mandastes-me chamar?

- Sim, irmão. Foi o deão que me enviou para vos dizer que há outro homem que tem a doença.

- Oh, compreendo - Ralph fechou os olhos por breves instantes. Já tinha cinco internados. Mais outro seria uma sobrecarga para os seus recursos. O responsável pelas esmolas já tinha dado a entender que as colheitas não tinham sido tão boas como se esperava, e que seria melhor se os leprosos pudessem reduzir os seus pedidos à igreja. O monge desvalorizou o pensamento com um encolher de ombros.

- Irei imediatamente.

No interior da igreja colegial de Crediton, as velas e os candelabros lançavam uma luz sombria em comparação com a brilhante luz do Sol que entrava em torrente através das janelas. Não havia muitas pessoas presentes. Parecia que os monges e os irmãos leigos se encontravam quase sozinhos; somente alguns dos habitantes locais estavam a assistir. Não era de admirar, pois ninguém desejava ser lembrado da doença. Uma mulher soluçava, e um homem a seu lado segurava-a protectoramente pelos ombros. Ralph tinha a certeza de que eram os pais, tão óbvio era o seu desgosto. Não muito longe deles, Ralph ficou surpreendido ao ver o cavaleiro, Sir Baldwin, a cabeça baixa em oração.

O deão, na sua qualidade de vigário da paróquia, celebrava o serviço quando o monge entrou. Ralph dirigiu-se ao altar e ajoelhou-se, fazendo o sinal da cruz e baixando a cabeça em oração antes de olhar para o lado, para esta última vítima.

Edmund Quivil sentia-se como um ramo de árvore que caíra numa torrente apressada; estava a ser arrastado por um curso de procedimentos que não compreendia. Embrulhado numa mortalha, fora trazido para aqui numa padiola, como se já estivesse morto. Os seus movimentos eram mecânicos, enquanto obedecia às instruções do deão. À medida que ele se deitava no chão, cónegos trouxeram um pano mortuário, que foi colocado por cima dele, enquanto a missa de Requiem era cantada. Em seguida a voz sonora de Clifford continuou, monótona, cantando na curiosa língua internacional da Igreja.

E então Quivil lembrou-se do significado do rito.

Quase gritou. Era um esforço para não se levantar de um salto. Isto era o fim da sua vida. A partir de agora, estava morto, para a Igreja e para a Lei.

Fora-lhe explicado na noite anterior, quando o deão o visitara para confirmar que ele, de facto, tinha lepra. Fora difícil de aceitar. Quivil ainda não tinha vinte anos. Havia seis meses que andava a cortejar Mary Cordwainer, e os seus banhos eram para ter sido lidos na pequena igreja de Sandford quando ele contraíra a febre. Viera depressa, deixando-lhe todos os ossos a doer, e depois desapareceu. Mas voltara, e, desta vez, trouxera consigo uma persistente dor de cabeça que fazia com que qualquer movimento fosse uma tortura, e o nariz começou-lhe a sangrar abundantemente.

O ervanário fora muito prestável. Quando o segundo acesso o atacara, o monge viera generosamente visitá-lo e dera-lhe um pó que lhe reduzira um pouco as dores, mas quando esta segunda febre acalmara um pouco, o monge ficara visivelmente ansioso. Ele vira a pequena mancha branca na mão de Quivil, e pouco depois não era só uma, mas várias. Os inchaços amarelo-acastanhados multiplicaram-se-lhe pelo rosto e pelas mãos. Fora nessa altura que Quivil fora levado à cidade, numa carroça, para se submeter a um exame minucioso.

Estremeceu, cerrando os olhos com força. Foi apenas ontem, e agora a sua vida estava acabada.

Edmund sentiu as lágrimas silenciosas a escorregarem-lhe pelas faces. Abriu as mãos uma vez, para examinar, incrédulo, os pequenos nódulos que tinha na pele dos pulsos; levantou as mãos para tocar no rosto, sentindo os ligeiros inchaços. Era impossível que ele tivesse lepra! Era jovem e saudável, não um aleijado com apenas alguns anos de vida. Tem de ser engano! O irmão ervanário viria salvá-lo deste pesadelo acordado: não poderia continuar.

Mas a voz solene continuou a sua mensagem de morte. Nenhum irmão chegou à pressa para o salvar. Ficou desconfortavelmente deitado até que a missa chegou ao fim e se fez silêncio. Era como se o seu coração tivesse, na realidade, deixado de bater.

Ralph pôs-se em pé. O deão estava ajoelhado a rezar, e, quando terminou e se levantou, Ralph viu as lágrimas a brilhar. Os dois homens olharam-se por um momento, partilhando a dor e a tristeza da ocasião, como se fossem cúmplices da destruição de Quivil, e então Clifford soltou um suspiro áspero e dirigiu-se para a porta. Ralph colocou a mão no ombro do leproso, e o jovem estremeceu, levantando para ele o olhar desesperado. O monge tentou esboçar-lhe um sorriso encorajador, mas o rosto de Ralph parecia que ia estalar. Pronunciando uma oração a Deus para que lhe desse forças, ajudou Quivil a levantar-se e acompanhou-o até à porta.

Lá fora, Clifford estava à espera com os outros irmãos, junto a uma sepultura aberta de fresco. O último estádio do rito tinha de ser completado. Quivil deu consigo a ser novamente deitado, e, enquanto olhava para cima, para o padre, Clifford salpicou-lhe três vezes a cabeça de pó.

- Edmund Quivil, estás morto para o mundo. Renasce para Deus.

Agora Ralph pegava-lhe mais uma vez pelo ombro, e enquanto os monges cantavam Libera me, conduziu o leproso para longe dali, para o seu purgatório em vida: desprovido de vida, embora ainda não estivesse morto.

John viu o par a afastar-se, e abanou a cabeça, solidário. Toda a gente na cidade soubera da notícia sobre o pobre Quivil. As coscuvi-lhices desse tipo espalhavam-se rapidamente.

Mas o irlandês baixote não tinha tempo para andar na rua, tinha coisas para fazer. Caminhou de volta em direcção à igreja, e estava prestes a virar para a sua estrada quando ouviu chamarem o seu nome.

- Sim? Sir Baldwin, como estais neste belo dia?

- Bastante bem, John - disse Baldwin. Tirou as luvas e prendeu-as no cinto. Para dizer a verdade, não estava nada satisfeito. Testemunhar um dos habitantes da sua cidade a passar pelo Ofício para o Isolamento de um leproso tinha acabado com o prazer que ele sentira antes, ao ver o bom tempo que o dia prometia. - Mas o que andas a tramar, John?

- Eu, Sir Baldwin?

O cavaleiro perscrutou-lhe o rosto inocente.

- Sim, John, tu! Tenho ouvido rumores a teu respeito.

- Ah, certamente que não destes ouvidos a conversas infames sobre mim, senhor...

- Isso dependeria de quanto a conversa fosse falsa, não é verdade, John?

- Mas sabeis que sou um comerciante honesto, senhor. Eu nunca infringiria as leis da cidade.

- A sério? A propósito, ouviste falar em Isabella Gilbard?

John esforçou-se para que a voz lhe saísse natural, como se não só não tivesse ouvido falar nela, mas tendo também a certeza de que não queria ouvir falar.

- Isabella? Não, não me parece.

- Permiti-lhe que comprasse a sua liberdade da minha propriedade para poder casar. Casou-se em Junho, mas agora soube que deu à luz um rapagão, só três meses depois.

- É terrível quando as pessoas se comportam assim - disse John, acenando com a cabeça sensatamente. - Hoje em dia os jovens vilãos não têm as maneiras que os avós tinham.

- É verdade. Isso quer dizer que ela andava a fornicar antes de se casar; antes de ter comprado a liberdade. Suponho que terei de lhe impor o lairwite.

John comprimiu os lábios. O lairwite era a multa imposta às servas que revelavam ter a moral mais fraca do que deviam, e que davam à luz sem passarem primeiro pelo processo formal e necessário do casamento. O pagamento da multa podia ser exigido quando a mulher casava posteriormente numa tentativa de esconder a sua promiscuidade. E John sabia tão bem quanto o cavaleiro que havia outra multa, o child-ivite, aplicável ao homem que a engravidara.

Mas a multa era imposta a mulheres que não eram livres - às servas. Existia para impedir que os vilãos dessem origem a grandes números de bastardos que se transformariam então um sorvedouro de recursos do estado. E John não estava envolvido com nenhuma mulher que não fosse livre. Esboçou ao cavaleiro um sorriso confiante. Baldwin parecia ter-se esquecido da sua presença por um momento, e perdera-se em cogitações, olhando por cima da estrada, para a igreja nova. John estava inequivocamente interessado.

- Mas, Sir Baldwin, certamente que não a perseguíreis agora, depois de lhe terdes concedido a liberdade...?

O cavaleiro virou-se lentamente e examinou-o, e, de súbito, John desejou encontrar-se noutro lugar. Baldwin era conhecido pela sua generosidade e simpatia, um homem que tratava todos os homens com respeito e cortesia, mas agora o olhar do cavaleiro era frio, a sua voz de desdém.

- John de Irelaunde, eu sou o Defensor da Paz do Rei. É-me impossível perdoar o desprezo deliberado pela Lei - por parte seja de quem for. Que aspecto daria se eu permitisse a Isabella cometer este crime sem ser castigada? Outros criminosos poderiam pensar que eu era um fraco. Oh, não, John. Tenho de pensar no meu cargo, no que diz respeito ao caso dela - e a outros.

- Bem, Sir Baldwin, estou contente por nunca ter sido culpado de tal crime - disse John de ânimo leve, mas evitando o olhar de Baldwin.

- Nunca deste à luz uma criança, queres tu dizer? Ou queres dizer que nunca experimentaste os prazeres do amor ilícito? Pergunto-me se estarás assim tão inocente.

John esboçou um sorriso amarelo. As palavras do cavaleiro estavam a chegar demasiado perto da marca, e estava a formar-se nele uma terrível certeza de que Baldwin adivinhara tudo sobre os seus encontros nocturnos. A direcção que esta conversa estava a tomar não agradava nada a John, especialmente quando outro pensamento o assaltou: se as notícias já tinham chegado até Baldwin, a coscuvilhice na cidade já devia ter atingido um nível que o poderia colocar, a ele - e a ela -, em algum perigo.

Estava a fazer-se tarde. John desculpou-se como pôde e precipitou-se em direcção a casa, todo o caminho consciente do olhar do cavaleiro nas suas costas. Foi um alívio fechar o portão com força atrás de si. Descansou um momento com as costas viradas para ele, como se reunisse forças contra um súbito ataque. O cavaleiro tinha-o deixado inquieto, isso era um facto.

- Grande sacana! Estava a irritar-me!

De novo colina abaixo, assim que Baldwin viu o homem baixo entrar apressadamente no seu quintal, para todo o mundo como um coelho a correr para a sua toca ao ouvir o caçador e os cães, o rosto do cavaleiro rasgou-se num sorriso. Soltou uma sonora gargalhada, e teve de se encostar a uma sebe, enquanto ria até as lágrimas lhe aflorarem aos olhos.

- E agora arrecada a insinuação e deixa as boas esposas de Crediton em paz, grande libertino!

Sentado em frente à porta da estalagem, olhando, indiferente, o movimento na rua, Jack, o ferreiro, levantou outra caneca de litro e meio de cerveja e engoliu uns tragos.

Com a leve brisa, sentia uma sensação de frescura, após o calor abrasador da sua oficina, e era um alívio poder estar sentado a matar a sede, acenando afavelmente com a cabeça aos habitantes da cidade que passavam. Poucos ignoravam o ferreiro, pois ele era uma parte essencial da cidade. Quando as ferramentas se quebravam, ele repara-va-as; quando os cavalos precisavam de ferraduras novas, ele fazia-as; quando as carroças se quebravam, ele tinha de colocar os novos aros de aço para proteger a madeira. Em todos os aspectos da vida, havia pouca coisa que não necessitasse das suas capacidades numa altura ou noutra.

Terminou a bebida e pegou no seu pequeno barril acabado de encher de cerveja, instalou-o no seu pequeno carro de mão, e partiu para casa. Tinha duas correntes para reparar, retirando os elos e substituindo-os por novos, uma faca velha que precisava de um rebite novo no cabo, e devia forjar uma nova cabeça de machado. Levaria tempo a terminar tudo aquilo, e esperava que o aprendiz estivesse a alimentar os fogos e a fazer subir a temperatura.

Tinha apenas avançado alguns metros, enquanto passava em revista estas tarefas, quando viu o homem sentado e encolhido à beira da estrada, de matraca na mão e malga à frente, a gritar para todos os que passavam:

- Deus vos abençoe, senhora! - e - Deus vos salve, senhor! -, à medida que as moedas lhe eram atiradas à pressa, ao mesmo tempo que os doadores desviavam o olhar e passavam apressados.

Jack prosseguiu, o rosto fixo no caminho em frente, as feições prog-natas sem se moverem.

- Senhor! Podeis dar-me alguma coisa para...

- Para ti, não, renegado/ - Mas precisamos de comer e beber, como qualquer pessoa, senhor. Não podeis...

- Deixa-me em paz! Seu sacana repugnante, nunca devias ter nascido. Fazes com que me apeteça vomitar - sim, e a todas as outras pessoas normais!

O leproso fixou o olhar nele, e abriu a boca para falar, mas, à medida que o fazia, o ferreiro baixou a mão e pegou numa grande pedra do pavimento, avaliando o seu peso na mão. A luz de um género de loucura estava presente nos olhos de Jack, e o leproso, de súbito, sentiu medo. Afastou nervosamente o olhar, certo de que, a qualquer momento, a pesada pedra o atingiria na cabeça. Ouviu-se uma pancada sonora, e quando ele olhou para o lado, viu a ranhura na parede, no local em que a pedra batera.

- Não voltes a falar comigo, se não da próxima vez esmago-te o crânio! - vociferou Jack maldosamente e seguiu o seu caminho.

Nem ele nem o leproso repararam no homem que estava encostado à parede da estalagem. Nenhum deles sabia que se tratava de um guarda da casa de Matthew Coffyn - nem que ele ouvira a discussão. Naquele momento o homem não estava grandemente interessado no que se passara entre o leproso e o ferreiro, mas se o guarda, William, estava convencido de alguma coisa, era de que qualquer informação poderia vir a ter utilidade. Ele registara e armazenara a altercação na sua mente antes de o ferreiro ter sido engolido pela multidão.

 

Thomas Rodde estava encostado ao seu bordão, a descansar, enquanto esperava. O velho que se encontrava ao portão recusara deixá-lo entrar enquanto o seu senhor não desse consentimento. Isso fez com que Rodde lhe mostrasse um sorriso fugidio. Como se alguém que fosse saudável quisesse entrar num hospital de leprosos!

O Sol batia-lhe, morno, na túnica e no manto esfarrapados. Era bom sentir o calor. Havia tantos meses que ele vivia no Norte, onde o Sol era insípido em comparação com o Sul.

Thomas lembrava-se de dias quentes e calmos nas terras do Sul. Fora lá várias vezes com o pai quando era aprendiz do ofício, visitando lugares de peregrinação em países longínquos como Castela e Roma. Mas isso foi antes de ele ser leproso: essa vida terminara. Por vezes ele lembrava-a com um género de pasmo, como um sonho mágico em que a realidade podia ser suspensa por algum tempo, mas tentava evitar pensar na forma como vivera. Não valia a pena: estava decidido a não se atormentar a imaginar como as coisas poderiam ter sido, ou na forma como ele se poderia ter desenvolvido. Afinal, ele poderia facilmente ter morrido em qualquer altura, num acidente estúpido. Era tão provável como ele conseguir viver até uma velhice madura.

- Lá vêm eles.

O velho leproso apontou para a estrada. Thomas virou-se para ver Ralph e Quivil aproximarem-se. O homem que vinha com o monge cambaleava como se estivesse embriagado. Os seus olhos revelavam um terror frenético. Thomas vira uma vez um cavalo cair depois de ter saltado um muro. Enfiara um boleto num buraco de coelho. Depois ficara a tremer, a perna fracturada, os olhos a girarem de choque e medo.

Thomas cerrou os dentes. Vira o mesmo horror apavorado em demasiados olhos nos últimos anos.

O irmão Ralph reparou em Thomas Rodde, uma figura curvada vestida com as roupas andrajosas que indicavam outro leproso, mas ainda não tinha tempo para pensar nele, já que Quivil parou junto ao portão, de olhos esbugalhados, como um cavalo que recusava dar um salto. O monge falou calmamente:

- Quivil, entra. Sabes que...

- Não! Não, não posso! Tudo isto é um engano - abanava a cabeça enfaticamente, os pés agarrados ao chão.

- Tens de entrar. Sabes isso.

- Eu... eu não posso. Estou bem agora. É tudo um acidente. Tenho de ir para casa.

- Edmund!

Ralph girou para ver a mesma jovem mulher que o fora chamar à capela. Encontrava-se atrás deles na estrada, e o monge apercebeu-se de que ela estivera à espera deles.

- Mary? - gritou Quivil, e estava prestes a ir ter com ela, quando Ralph lhe agarrou o braço com força.

- Não deves! Quivil, pensa, homem. És um leproso: estás imundo, já estás condenado, também queres destruir a vida dela? ;

- Não, é engano, eu não estou doente - murmurou o leproso, ; mas a insistência desaparecera-lhe da voz.

Mary Cordwainer cobriu o rosto com as mãos. O seu corpo foi assolado por soluços de tortura.

- Eu não acreditei, pensei que estavas bem.

Quivil permanecia imóvel, como que transformado no mais puro mármore. Tinha os punhos cerrados de desespero. Quando falou, ouviu a sua própria voz áspera com o sofrimento que tinha de lhe dar a ela, à mulher que elegera.

Mary, estou morto. Não sou nada. Tens de cuidar de ti. Ralph soltou-lhe lentamente o braço. Quivil estava a tremer, os olhos cerrados, abrindo-se em seguida com uma força quase audível, e a cambalear, o rapaz atravessou o portão e entrou nos terrenos do hospital dos leprosos. A rapariga soltou um pequeno grito, e caiu de joelhos, a cabeça baixa, o rosto escondido nas mãos. Ralph quis ir ter com ela e dar-lhe algum conforto, mas pensou melhor. Não tinha nada a dizer; não havia palavras de solidariedade que pudessem compensar.

Abanou a cabeça, e estava prestes a seguir Quivil, quando Rodde avançou.

- Sois o responsável pelo hospital?

Ralph hesitou, acenando depois com a cabeça. Já tinha mais uma boca para alimentar e não precisava de outra.

Thomas Rodde viu a fadiga nos olhos dele e sorriu.

- Preciso de um lugar onde possa ficar, irmão, e ficar-vos-ia agradecido se pudesse fazer uso da vossa hospitalidade, mas não serei um fardo para vós. Posso pagar o que como.

- De onde és?

Rodde viu a dúvida no rosto do homem e sorriu:

- Eu vivia num hospital no Norte, mas foi saqueado pelos escoceses. Mas tenho aqui uma carta - estendeu um bilhete.

O monge pegou-lhe cautelosamente. Era raro um leproso afastar-se do local onde nascera, e Ralph não confiava neste homem ousado. A carta era de um irmão de uma pequena leprosaria perto de Carlis-le, e confirmava que o seu hospital fora destruído e saqueado por escoceses. Mencionava também o nome de Thomas Rodde e afirmava que ele não fora expulso.

Ralph devolveu o bilhete com alívio. Acontecia com demasiada frequência que os leprosos errantes eram aqueles que tinham sido expulsos dos seus antigos hospitais por desobediência. Os seus pecados tinham de ser extensos para sofrerem o castigo de não terem um lar e de se encontrarem sós.

- É claro que és bem-vindo. O próprio Cristo nos ordena que ajudemos os viajantes. - Não foi o dinheiro que fez com que Ralph se decidisse, foi o tom daquela voz calma, como se o desconhecido tivesse chegado ao limite das suas forças. Ralph fez-lhe sinal em direcção ao hospital. Thomas pegou na sua trouxa, atirando-a para cima do ombro num movimento bem treinado, e caminhou lentamente para o interior.

- Irmão, posso falar convosco?

Ralph ficou surpreendido ao ver que a rapariga recuperara a compostura. As lágrimas ainda lhe assinalavam as faces, mas ela estava resoluta ao lado dele. Ralph conseguiu esboçar um sorriso triste.

- Sim, minha irmã, com certeza.

Em sua casa, Matthew Coffyn resmungava, ao mesmo tempo que descia da sela. Fora uma longa viagem, e doíam-lhe as costas e as pernas como se tivesse feito o caminho inteiro a pé. Levou o cavalo para os estábulos de colmo que ficavam encostados à parte lateral da casa, estendendo-se da porta até ao bloco do solar. A janela do seu quarto dava para o telhado dos estábulos, e ele olhou para cima, esperando ver a esposa, ou, pelo menos, o brilho de uma vela, mas não havia nada visível. Deixou-se ficar a olhar, enquanto os criados foram buscar a grande arca à parte de trás da sua carroça. A luz estava a desaparecer, e Matthew sentia-se satisfeito por estar de volta antes que a escuridão descesse por completo.

Os criados levantaram a caixa grande e caminharam aos ziguezagues enquanto a carregavam através da porta, para o vestíbulo. Esperaram enquanto ele, com a chave, abria a porta para a arrecadação, e, em seguida, ora a arrastaram ora a carregaram para o interior. Coffyn voltou a fechar a porta à chave, depois de eles se encontrarem novamente no exterior, e mandou o criado ir buscar uma taça de vinho.

Fora uma boa viagem. Coffyn não gostava de viajar, era mais feliz a tratar dos seus negócios aqui em Crediton, mas, durante os últimos quatro meses, do princípio ao fim do Verão, ele deixara a casa e a esposa para vender os seus tecidos nas feiras; era um alívio o facto de esta ser a última do ano. Não haveria mais durante os meses de Inverno.

O seu negócio estava, finalmente, a dar lucro, e ele estava decidido a fazer o máximo de ouro possível, e não apenas a pagar as suas ruinosas dívidas. Cresciam rumores sobre perspectivas de uma guerra tanto no seu país como no estrangeiro. Matthew precisava da protecção que o dinheiro podia fornecer; o dinheiro era poder, e poder era segurança. Fosse o que fosse que se passasse entre os Franceses e os Escoceses, ele tinha dificuldade em compreender por que é que as pessoas queriam lutar umas com as outras, mas tudo o que ouvia nas feiras e nos mercados apontava para uma batalha entre o Rei e Lancaster, e, quando os soldados começassem a marchar, ele queria ter os maiores fundos possíveis. Por vezes a única defesa consistia em subornar os incursionistas.

Não que a guerra viesse tanto para Sul e Ocidente, pensava tele, engolindo um trago de vinho e sentando-se no banco em frente da fogueira. Os dois protagonistas ingleses provavelmente andariam em volta de Londres e de Iorque. Essas eram as áreas ricas, os locais em que os saques mais produtivos poderiam ser feitos, e qualquer chefe de homens sabia que a melhor forma de garantir a lealdade entre o seu exército era escolher um campo em que os melhores lucros estivessem disponíveis.

Mesmo que os próprios ingleses não fossem para a guerra, havia sempre o perigo vindo de piratas franceses ou de uma invasão. Considerara esta ideia várias vezes ultimamente, e, de novo, resolveu contratar alguns escudeiros. Os seus olhos dirigiram-se para a porta fechada à chave. Havia perigos inerentes à contratação de soldados itinerantes, mas as vantagens suplantavam-nos. Ele não estaria satisfeito enquanto não tivesse uma defesa melhor. Havia sempre homens em Exeter. Decidiu contratar alguns à primeira oportunidade.

Perguntou-se onde estaria a mulher, e gritou para chamar o criado.

- Onde está a minha senhora?

- Senhor, a vossa senhora foi para a cama esta tarde com uma indisposição.

Com um gesto impaciente, Coffyn mandou o criado embora. A cabra estava sempre doente. Engoliu mais vinho e arrotou, e a expressão carregada deixou-lhe o rosto por um momento, para ser substituída por um sorriso afectado. E se ela estivesse grávida?

Matthew Coffyn não era um homem particularmente cruel nem sequer rude. Fora educado numa quinta a Nordeste de Exeter, e, aos sete anos de idade, começara a ser aprendiz de um mercador de tecidos porque o pai estava desesperado para que o filho tivesse condições de o manter quando ele fosse velho. Mas o estratagema falhara, porque o pai falecera antes de ele ter terminado a sua aprendizagem.

Mas Coffyn prosperara, e, nas vésperas do seu vigésimo nono aniversário, ficara noivo e casara. Agora tinha quase trinta e quatro anos, e a esposa, a sua bonita Martha, tinha apenas vinte. No entanto, ele não conseguira fazer um filho varão, e a falta de filhos era exasperadora. Não estava certo que ele não tivesse filhos: não era bom para um homem passar pela vida sem um herdeiro a quem deixar o seu trabalho.

Suspirou e esvaziou novamente a sua taça. Era difícil culpar a mulher, pois, como ela sempre dizia, ele estava tanto tempo ausente durante o Verão que seria um milagre ela conceber. O optimismo, que nunca abandonava a sua natureza bem-disposta veio à superfície: o Inverno estava à porta, e oferecia oportunidades únicas para se ir cedo para a cama.

A casa estava em silêncio, e o assobiar e crepitar do fogo soavam quase ensurdecedores na ausência de qualquer outro barulho. À medida que Coffyn sorria perante o seu feliz casamento, ouviu uma porta bater no andar de cima, e o som inconfundível dos passos de Martha no corredor que vinha do solar. Matthew encheu rapidamente a sua caneca e levantou-se, mas, quando a porta se abriu e a mulher entrou no salão, ele ficou, por um segundo, convencido de que ouvia outra coisa. Era um roçar e uma pancada, como se alguém tivesse passado cautelosamente pelo colmo do telhado do estábulo e tivesse descido para o pátio.

O sangue de Coffyn gelou. O alfinete do ciúme picou-lhe o balão do prazer e, de súbito, toda a confiança que tinha na mulher lhe explodiu no rosto.

No seu rosto de cornudo.

- Jesus!- murmurou John, sem fôlego. Ganhara a segurança da árvore onde tinha a corda guardada, e parou apenas o tempo suficiente para atirar o laço por cima do pescoço, antes de se encaminhar silenciosamente em direcção ao muro e à sua casa.

Tinha o tornozelo a latejar devagar, com uma prolongada intensidade. Era um mau presságio para a manhã seguinte. Não estava nada fracturado, supunha, pois podia colocar o peso do corpo sobre o tornozelo, mas não conseguia esquecer o súbito acesso de pura agonia que sentiu ao descer silenciosamente da janela para o pavimento de pedras do pátio das traseiras. Devia ter sido isso que provocara esta situação, pensou, o maxilar cerrado para suportar a dor. Uma pedra solta devia ter-se deslocado debaixo do seu pé.

Que noite! Não era suposto que aquele maldito Coffyn regressasse tão cedo. Ele dissera à mulher que ou chegaria pela noite dentro, ou, mais provavelmente, não estaria em casa senão amanhã. Por que é que aquele estúpido calhau apareceu agora? John fora obrigado a gatinhar ignominiosamente para sair do salão antes que fosse descoberto. O irlandês descansou um momento encostado a uma macieira, enquanto desfrutava da sua amargura. Em seguida a boa disposição levou a melhor e ele sorriu para si próprio.

John não era dado a introspecções: sabia qual era o seu lugar no mundo, sabia o que lhe dava prazer, e não pensava nem racionalizava o motivo por que as coisas eram como eram. Mas tinha também o dom de ver o lado ridículo de qualquer situação, e, neste momento, era tentador soltar uma gargalhada perante a sua própria posição. Aqui estava ele, após ter gozado um Verão inteiro na companhia da mulher da sua eleição, a queixar-se porque o amo dela viera uma vez cedo para casa. E, em vez de estar deitado com ela na cama dela, John estava aqui, no escuro, com uma entorse e um muro enorme para escalar.

- Devia ter seguido o conselho do cavaleiro - murmurou. Abanando a cabeça perante a natureza caprichosa do destino, ele contornou, hesitante, o muro, em direcção ao seu carvalho. Aí, desenrolou a corda e levou o braço atrás para apanhar o ramo quebrado. Mas, à medida que levava o braço atrás, este foi subitamente agarrado. John ficou hirto, silenciosamente aterrorizado, ao mesmo tempo que a lâmina de uma faca comprida brilhava em arco à sua frente, reluzindo, ameaçadora, à luz das estrelas, antes de vir repousar junto ao seu pomo-de-Adão.

Engoliu em seco. Cuidadosamente.

- Ah - está uma óptima noite para um passeio, não é verdade, senhor?

Não era de estranhar que a leprosaria estivesse tão escura, já que os internados não tinham necessidade de iluminação. O seu dia começava com o nascer da aurora, e quando a escuridão avançava furtivamente pela terra, iam para as suas camas.

Quivil estava habituado à escuridão. Em sua casa, a tão poucos quilómetros de distância, os dias eram medidos pelo facto de os animais estarem acordados, e, a esta hora da noite, estavam todos a dormir. Sabia que, a esta hora, o pai estava sentado no seu velho banco, em frente da fogueira, lançando de vez em quando um olhar às ovelhas, enquanto elas resmungavam para si próprias, amontoadas no canto mais afastado dele. O pai estava ocupado a aparar um pau, interrompendo, de vez em quando, a tarefa para afiar a lâmina da faca na pedra junto à fogueira, cuspindo para lubrificar o metal.

Durante toda a sua vida, Quivil presumira que tomaria o lugar do pai ali, junto à fogueira. Pensara que substituiria o pai quando o homem idoso morresse, e nessa altura sentar-se-ia no banco a fazer bengalas e mobiliário à luz da fogueira, até que os dias se tornassem mais longos e cada hora em que estivesse acordado fosse preenchida por outras formas de trabalho. Vira-se a si próprio envelhecer e ficar curvado, tal como o pai era, sabendo quais eram as suas responsabilidades, sabendo que tarefas precisavam de ser realizadas diariamente. E no local em que a mãe estava sentada, junto ao marido, aí sentar-se-ia Mary, os olhos postos nele, a olhar para assegurar que ele estava satisfeito, tal como a mãe dele sempre olhara o pai com tanto amor. E agora ele não tinha nada para desejar. A sua vida estava acabada.

Do lado de fora da entrada chegou até ele um ruído, e a cortina foi afastada para o lado. Emoldurada no fundo do céu nocturno, Quivil viu uma forma mais escura. Resmungou para si próprio, puxou o cobertor para o apertar e virou-se para o outro lado. Este quarto era o lar de outro para além dele, e Quivil presumiu que devia ser o seu companheiro de quarto. Não desejava companhia, queria a paz da solidão.

Mas não se tratava de um homem a preparar-se para subir para a cama. Quivil ouvia vozes a murmurarem. Eram roucas devido à doença que partilhavam, mas não foi isso que fez com que o sangue se lhe gelasse. Foi o prazer cruel que leu nas vozes.

- O que estais a fazer? O que quereis? - perguntou ele, virando-se para as encarar.

- Queremos-te a ti.

E foi de imediato agarrado por quatro pares de mãos que o arrastaram do colchão. Não podia fazer nada: tinha a língua colada ao céu da boca, e tudo o que conseguiu pronunciar foi um gemido de terror.

Arrastaram-no da cabana e levaram-no para fora, para a noite negra. O frio perpassou-lhe o manto, fazendo com que uma fresca gotícula de terror gelado lhe descesse pela espinha. A sua mente, que havia já uns dias se encontrava num estado de verdadeiro pânico, estava paralisada de horror. Quivil perdera toda a vontade. Apavorado, tinha a certeza de que estava prestes a morrer, mas após a perda de todo o amor-próprio e da destruição da sua vida, não tinha forças para resistir.

Via-os à luz pobre, e, aos seus tensos sentidos, pareciam demónios: pequenos, extravagantes, disformes, inchados com a putrescência da lepra. Tinham a aparência de demónios balbuciantes, o fedor que emanavam era o cheiro nauseabundo do ossuário. Ele estava petrificado de horror.

Os homens pararam, e ele ouviu um deles soltar um riso abafado. Parecia o demónio em pessoa. Quivil sentiu os joelhos a enfraquecer, e teria caído, mas sentiu-se empurrado para a frente, para descobrir que estava a cair. À sua frente, o chão abria-se num buraco enorme, e ele gritou, produzindo um barulho estridente e penetrante, ao ver a terra levantar-se de ambos os lados.

Quando voltava a entrar nos terrenos, Rodde vira o petrificado Qui-vil ser arrastado para o pátio da capela. Escorregara para a protecção das paredes do edifício, quando o grupo passou por ele, e seguiu-o. Ao ver o jovem ser empurrado para a sepultura recentemente aberta, sentiu a raiva apoderar-se dele. Não precisou mais de um momento para cobrir os escassos metros que o separavam dos homens, e abanou o seu bordão. Atingiu o ombro de um leproso, depois girou para atacar os outros.

- Deixai-o, seus sacanas! - proferiu ele, encolerizado, o bordão elevado acima do peito.

- Deixa-nos em paz, desconhecido. Não é nada, fazemos isto a todos os novos - lastimou-se um homem.

Rodde sabia que era verdade. Fora obrigado a passar por uma cerimónia de iniciação semelhante quando fora levado para um campo pela primeira vez. Os outros leprosos tinham-no atirado para uma sepultura, depois espalharam terra por cima dele numa torpe imitação de um funeral; por vezes ele vira outras vítimas a contorcerem-se, enquanto os seus carrascos lhes urinavam para cima.

- Isto acaba agora - Rodde não pôde evitar que a sua voz tremesse de nojo. Vislumbrou uma figura a coxear perto dele, e o pau desferiu um golpe, atingindo o homem no peito. - Eu disse que acaba! Agora, deixai-nos.

Rodde adoptou uma atitude de protecção enquanto os leprosos, resmungando para si próprios, lhe viraram as costas e se dirigiram às suas cabanas, e só quando eles desapareceram é que ele baixou o olhar para o buraco. No fundo, Quivil estava ajoelhado, a soluçar, juntando mãos-cheias de terra e passando com elas pelo rosto, misturando sangue e lágrimas numa máscara de total desespero.

A aflição de Quivil era a angústia da humanidade. Rodde estava em silêncio ao lado da sepultura, o bordão ainda em punho para proteger o homem mais jovem, até que Quivil entrou num choro mais brando. Nessa altura ele atirou o bordão para o lado e desceu para ajudar Edmund a sair.

Quinze dias depois, o tempo mudara. Agora todas as manhãs a terra estava gelada, a erva coberta de geada. Os pequenos lagos e as valas estavam cheios de gelo, em cima do qual os patos e os gansos caminhavam a bambolear-se, protestando sonoramente e com alguma confusão contra a súbita perda do seu elemento preferido. Sir Baldwin Furnshill ainda sentia dificuldade em se adaptar ao tempo na Inglaterra, mesmo passados tantos anos após ter regressado à sua propriedade. O seu sangue enfraquecera com a sua estadia no Mediterrâneo e a subsequente vida pacata em Paris.

Parou junto ao pátio do seu estábulo, quando o crepúsculo caía, a gritar pelo criado e apeando-se do cavalo. Geralmente montava um gracioso cavalo árabe, mas hoje saíra cedo e escolhera outra montada, um sólido animal que sacudia a cabeça e se empinava caprichosamente, a respiração a atirar vapor no ar frio do final da tarde. O cavaleiro afagava-lhe o pescoço enquanto esperava pelos seus homens.

- Bem sei, bem sei - não fizeste hoje exercício suficiente. Vou ver se amanhã te levam mais tempo à rua. Acalma-te!

Até podia ser fria, mas Baldwin amava a sua terra. A pequena propriedade ficava situada a oito ou nove quilómetros a nordeste de Crediton, perto de Cadbury. Pertencera ao irmão mais velho, mas quando o pobre Reynald caíra do cavalo, quando andava à caça, e partira o pescoço, a terra viera parar às mãos de Baldwin. Após tanto tempo passado a errar, com pouco dinheiro e poucos confortos, o cavaleiro estava encantado por ser proprietário de uma região de Devon tão próspera e fértil - especialmente devido à confortável casa; especialmente com as recentes melhorias que levara a cabo. Estava decidido a impressionar os seus convidados. Um deles, melhor dizendo, emendou com um pequeno sorriso.

O Sol já desaparecera e o crepúsculo estava a dar lugar à noite. À distância, via uma serpentina de fumo semelhante a um espectro a erguer-se por cima de um bosque. Sabia que, aí, um dos seus rendeiros estava a acomodar-se com uma caneca ou duas de cerveja, cansado após um dia a trabalhar na cerca. Baldwin passara por ele no caminho. Por cima, as estrelas rompiam, à medida que o céu se tornava monótono e escuro. Era estranhamente relaxante, como se mal algum pudesse chegar a alguém que apreciasse a sua beleza, e o cavaleiro sentiu desvanecer-se uma parte da sua ansiedade e da sua melancolia anteriores.

Passando as rédeas ao criado, Baldwin saiu do pátio em direcção à porta da frente de sua casa. Antes de a abrir, olhou para trás por cima do ombro. Durante o tempo que levara a chegar à soleira da porta, a noite caíra. Ele conseguia distinguir os contornos ténues das encostas da colina a brilharem como peltre velho ao luar. Por cima dele, o céu era de um preto-azulado intenso, no fundo do qual vagueavam, indolentes, nuvens orladas de prata.

Abriu a porta. Instantaneamente, ouviu-se um arranhar, e ele vislumbrou a enorme forma.

- Oh, não, meu Deus, não!

A forma atirou-se a ele. Baldwin esbugalhou os olhos, com o choque, e logo a forma estava em cima dele, e o cavaleiro cambaleou para trás sob a força do ataque. Encalhou com o calcanhar num degrau e deu consigo a cair. No momento exacto em que o seu ombro tocava a terra batida do caminho, viu a bocarra abrir-se junto ao seu pescoço, cheirou o hálito pestilento, e fechou os olhos para não ver o inevitável.

- Boa tarde, senhor.

Baldwin ousou abrir uma pálpebra, defendendo-se do ataque o melhor que podia. Um espesso pedaço de saliva pousou-lhe, a tremer, na face, e ele estremeceu:

- Edgar, tira este bruto de cima de mim!

- Não foi ideia minha arranjar este monstro - disse Edgar, sem rodeios. - De facto, lembro-me de ter dito que seria uma estupidez substituir a cadela.

Baldwin sentiu o peso a abandonar-lhe o peito, à medida que o criado puxava pela forte coleira de couro, e colocou-se rapidamente de lado, antes de ganhar impulso para se levantar. O mastim estava agora sentado ao lado de Edgar, os quartos traseiros a moverem-se ao mesmo tempo que o animal tentava abanar a cauda. A baba pingava-lhe dos enormes maxilares pretos, e o cão gania, excitado, desesperado para saudar o dono com todo o entusiasmo que conseguia demonstrar. E Baldwin sabia que esse entusiasmo era muito.

Edgar tinha razão, pensou, mas isso dificilmente facilitava as coisas. Parecera tão boa na altura, substituir o seu velho mastim por um novo. Originariamente, Lionors era a cadela do irmão, e, quando o cavaleiro chegou após a morte de Reynald, Lionors transferira para ele, sem reservas, todo o seu afecto. De início, fora sufocante, pois Baldwin estava habituado a uma vida dura, de viagens constantes, e ter uma criatura tão dependente dele era maçador, especialmente quando a cadela começava a agarrar e a roer tudo o que podia numa demonstração de adoração ardente.

Mas ele ficara surpreendido com a sensação de perda que tivera quando o animal morreu. Acontecera bastante calmamente. Ela não viera ter com ele de manhã, quando ele se levantou, e ficara deitada junto à fogueira. Ben, o cão de guarda castanho e preto que Baldwin tomara a seu cargo no passado, ficara ao lado dela, sentado em silêncio, e olhando Baldwin com uma expressão de confusão ansiosa. Quando o cavaleiro tocou o velho corpo dela, ainda estava quente, mas não havia respiração a assobiar e a resfolegar através do focinho curto, esbranquiçado pela idade, e, de súbito, ele deu com os seus próprios olhos marejados de lágrimas, ao aperceber-se de que ela já não lhe roeria as bengalas, nem lhe babaria o colo enquanto ele comia, nem deixaria uma fétida lembrança da sua presença ao canto do salão. Descobriu que sentia a falta dela.

Por isso decidira ficar com um dos bisnetos dela para a substituir. Não ligara a Edgar e fora a um dos canis atrás dos estábulos, e, mal pusera os olhos na massa de gordura e pêlo amarelo-acastanhada, apontara e dissera:

- É aquele. - E, assim, Uther foi escolhido para guarda da casa. Só que o criado de Baldwin recusou-se a dignificar o animal com tal nome. Sentia que o monstro devia ser identificado por algo que reflectisse a realidade. Consequentemente, devido à constante repetição de Edgar, o animal, que agora tinha oito meses de idade, respondia a Chops.

- Este cão devia voltar para o canil, senhor - disse Edgar.

- Uther fica.

- Ele atacou Cottey esta manhã.

- Uther íi... - Baldwin lançou ao criado um olhar desconfiado. - Atacou Cottey? O que queres dizer com isso?

- Cottey veio falar convosco e o cão pregou-lhe um susto que o deixou estúpido.

- Queres dizer que Uther o tornou mais inteligente do que o normal! - resmungou ele.

- Não teve piada nenhuma. Quando lá cheguei, Uther tinha-o encurralado contra a mesa e...

- Contra a mesa? - uma luz brilhou nos olhos de Baldwin, que perguntou suavemente: - Quer dizer que isso se passou no salão, não é verdade?

Edgar acenou com uma mão.

- É irrelevante, a questão é que o cão aterrorizou o pobre...

- Uther é um cão de guarda. Cottey devia saber isso. Se ele caminhou directamente para o salão, não é de admirar que Uther tenha tentado defender o local. O cão estava a fazer o seu dever contra um ladrão.

Vendo que perdera aquela investida, Edgar arriscou um novo ataque.

- E os outros hóspedes? E se este cão pateta metesse na cabeça, por assim dizer, defender a casa de alguém que aqui estivesse hospedado?

A atitude de Baldwin alterou-se subtilmente. Havia agora um certo grau de dissimulação na forma como evitava o olhar do criado.

- Ele só precisa de um pouco de treino. De qualquer maneira, não molesta as pessoas a quem é apresentado.

- Ontem Chops esteve comigo toda a manhã. Deixei a sala por alguns minutos, e, quando voltei a entrar, ele ladrou-me! Eu tinha estado ausente o tempo suficiente para ir buscar uma caneca de cerveja à despensa. Durante esse tempo, o palerma tinha-se esquecido de mim, e estais a falar a sério quando sugeris que ele não vai molestar desconhecidos?

Baldwin afagou as orelhas do cão. Quando ele lhe tocou, Uther saltou, e o cavaleiro teve de virar o rosto, à medida que outro pedaço de saliva voava para cima.

- Ele é só afectuoso - disse ele calmamente, forçando o cão a descer. No seu peito, duas marcas de patas enormes e húmidas reflectiam a luz que entrava pela porta.

Edgar olhava-os fixamente.

- E Lady Jeanne?

O cavaleiro hesitou. Tinha de admitir que Edgar tinha razão nesse aspecto, enquanto olhava para a lama fresca que lhe salpicara a túnica. A viúva de Liddinstone devia vir visitá-lo um destes dias, na companhia de Simon Puttock e da esposa.

Seria bom vê-los a todos. Simon era o beleguim do Castelo de Lydford, um homem com a tarefa nada invejável de manter os mineiros de estanho e os proprietários das terras separados para evitar derramamento de sangue. Ele e Baldwin tinham reunido forças várias vezes para resolverem homicídios locais não esclarecidos. A esposa de Simon - Margaret - esforçara-se por ajudar Baldwin, apresentando-o a todas as suas amigas mais casadoiras; ela vira a solidão dele e tentara interessá-lo por mulheres que ela sabia que estavam disponíveis e de adequada posição social, no entanto, nenhuma o atraíra. Nenhuma até conhecer Jeanne, mais exactamente. A mulher esbelta e séria, de cabelo louro-arruivado. Talvez...

Talvez fosse melhor que Utherse encontrasse noutro sítio quando Jeanne chegasse. Baldwin teria de pensar no assunto.

- Basta! Traz-me vinho e água - ordenou ele, caminhando para o seu salão.

Como de costume, o velho cão de guarda preto e castanho estava deitado em frente da lareira, e mal levantou o olhar quando o cavaleiro atravessou para a sua cadeira, arrastando meramente a cauda para um lado e para o outro e observando sem mover a cabeça. Uther renunciou ao prazer de se estar ao lado da lareira e sentou-se de costas viradas para a cadeira de Baldwin, virando a cabeça para olhar o cavaleiro, até que ele se submeteu ao claro desejo do cão e pousou a mão no flanco do animal, afagando-o suavemente.

Edgar entrou com um jarro e uma taça, colocando-os junto à fogueira para aquecerem.

- Então como estava o senhor Bispo? O cavaleiro abanou a cabeça.

- Tem demasiadas coisas a preocupá-lo.

Verificando o vinho misturado com água, Edgar encheu a taça.

- O que tinha ele a dizer?

Baldwin conhecera Edgar naquele buraco infernal de Acre, quando ambos eram jovens. No momento em que a cidade estava claramente condenada, tinham sido ambos salvos pelos Cavaleiros Templários, que lhes tinham concedido espaço num navio que se dirigia para Chipre. Foi como prova da sua gratidão que ambos tinham tomado os votos de pobreza, castidade e obediência e se tinham juntado à Ordem. Baldwin tornou-se cavaleiro e Edgar seu escudeiro. Mais recentemente, uma vez que os Templários tinham sido destruídos por um rei francês avarento, Edgar tornara-se criado de Baldwin, assim como seu senescal de confiança. Após tanto tempo juntos, Baldwin sabia que podia confiar no seu criado.

- A guerra está próxima - disse ele rudemente. - Stapledon di-lo abertamente. Lancaster fechou-se no seu castelo e recusa encontrar-se com o Rei. Stapledon está convencido que é por que ele não confia nos novos conselheiros do Rei.

- Stapledon disse tudo isso?

Baldwin acenou tristemente com a cabeça.

- Stapledon, daquilo que percebi, é agora um dos poucos homens em cuja opinião o Rei confia mesmo. Eduardo sabe que o Bispo é honesto e de confiança, enquanto que outros membros da corte estão menos comprometidos com o Rei e mais interessados no que puderem conseguir para si próprios. Stapledon pensa que a família Despenser, em particular, tem ganho demasiado poder ultimamente. Está a ameaçar a paz do reino, e Lancaster não tolerará a forma como a força dela está a aumentar - pelo menos durante muito mais tempo.

O criado observava-o com um ar preocupado. Era raro o cavaleiro expressar os seus pensamentos tão explicitamente, mesmo com ele. À medida que Edgar voltava a encher a taça do amo, considerava as implicações. A guerra significaria que Baldwin devia ser chamado para auxiliar o seu senhor na batalha, e, da mesma forma, Edgar devia ir com o seu amo para lutar ao lado dele. A ideia de voltar a cavalgar para combater acendeu-lhe no peito uma centelha de excitação.

Mas parecia errado ir para a guerra devido a tal loucura, e esse facto moderou o seu encanto inicial. O Rei Eduardo II gostava demasiado dos seus favoritos. Até as pessoas aqui em Crediton tinham ouvido os rumores sobre a atracção do Rei por outros homens em detrimento da esposa, e agora que Gaveston fora morto, decapitado por outros senhores, os Despenser estavam entusiasticamente a apoderar-se do lugar dele na corte. Especialmente o filho, que, a julgar por aquilo que Edgar ouvira dizer, parecia ter pretensões sobre todo o País de Gales, da forma como estava a adquirir terra - e muitas vezes também por meios ilegais, a serem verdadeiros os rumores. Apoiar os Despenser e lutar contra Lancaster parecia absurdo, no entanto era demasiado provável que assim fosse.

Estava prestes a falar, quando Uther adoptou uma pose rígida e começou a rosnar, num tom baixo e insistente. Alguns momentos depois, os homens ouviram o bater de cascos, e olharam um para o outro. Era tarde para alguém vir de visita, tendo já caído a escuridão, especialmente uma vez que as estradas estavam tão escorregadias devido ao gelo.

Edgar apressou-se a sair, e Uther seguiu-o até à porta, arrastando-se pesadamente. O cão ficou aí, o pêlo eriçado, à espera e a guardar o seu domínio. Baldwin ouvia vozes, um tom de surpresa na de Edgar, em seguida os passos apressados, à medida que o criado regressava ao salão.

- Senhor, tendes de voltar a Crediton. Houve um homicídio!

 

Os cavalos levaram pouco tempo a preparar, e, pouco depois, Edgar e Baldwin seguiam a cavalo na companhia do mensageiro. Baldwin sabia que o seu árabe queria exercício, mas preferiu levar novamente a outra montada. O árabe tinha uma natureza excessivamente viva, e era perigoso levá-lo para a rua na escuridão, quando estava tanto frio e a estrada assim tão escorregadia. Baldwin certificara-se de que Uther ficava fechado no interior da casa. O cão haveria de querer seguir o dono, se pudesse.

- Quem é que morreu? - perguntou Baldwin quando partiram. O mensageiro, um rapaz que mal teria vinte anos, lançou-lhe um olhar ansioso por cima do ombro. Baldwin teve de lhe mostrar um sorriso de encorajamento. O cavaleiro reconhecia os sintomas: para um jovem camponês ou aprendiz, era assustador ser interrogado pelo mais alto funcionário do Rei a nível local. O rapaz acenou nervosamente com a cabeça.

- Senhor, foi o velho mercador de ouro, senhor.

- Mercador de ouro?

Vendo o seu desconcerto, Edgar interrompeu:

- Penso que ele se refere a Godfrey de London, senhor. Não me lembro de mais nenhum.

- Sim, é claro.

Baldwin comprimiu os lábios. Encontrara-se com Godfrey algumas vezes - o londrino era suficientemente rico para ser familiar a alguém da posição de Baldwin. À medida que seguia a um galope leve, amaldiçoando mentalmente a leve brisa que conseguia perpassar-lhe a túnica grossa e o justilho, Baldwin passou em revista o que ouvira dizer sobre o homem.

Não havia muita coisa. Chegara a Crediton alguns anos antes do próprio Baldwin, fazia agora sete anos. Para uma pessoa acabada de chegar, era difícil encontrar um bom terreno na cidade, mas Godfrey era um estrangeiro com dinheiro, e, passado pouco tempo, tinha a parcela de terra que queria, sem ser demasiado perto do centro, para poder ter a sua própria pastagem para gado e para porcos. Não havia muita gente em sua casa: uma filha que vivia com ele, um despenseiro e outros criados, assim como vários trabalhadores externos.

Baldwin suspirou; não valia a pena confiar na sua memória. Seria melhor formar a sua opinião sobre o assunto quando visse o corpo. Havia tantas perguntas neste estádio que ele poderia igualmente esperar até que chegassem à cidade. Além disso, com o vento a soprar-lhe no rosto, o cavaleiro estava rapidamente a perder toda a sensibilidade nas faces e na boca. Fez uma careta e puxou o colarinho para cima, tentando afundar a cabeça para proteger o pescoço.

Cobriram rapidamente a distância, cavalgando a ritmo certo em vez de depressa de mais, e, felizmente, nenhum deles encontrou gelo, mas Baldwin ficou contente quando sentiu o cheiro a fumo vindo da cidade. Passado pouco tempo, estavam a subir a rua que levava às traseiras da igreja, depois seguiram ao longo da sua fachada em direcção à rua principal. Foi aqui que viram o grupo.

Baldwin sentiu um arrepio subir-lhe pela espinha. Havia uma sensação de excitação no amontoado de pessoas. O cavaleiro via-as a sussurrar ao ouvido umas das outras, uma ou duas a apontarem, enquanto ele e a sua pequena comitiva subiam a rua ruidosamente.

Ele sabia que sempre a mesma coisa, mas não era obrigado a gostar. Numa localidade pequena como Crediton, os homicídios eram uma ocorrência rara. Não era de admirar que, quando alguma coisa de sensacional acontecesse, o povo quisesse lá estar para testemunhar tudo, mas estas pessoas não estavam aqui para ajudar numa investigação; elas eram impulsionadas por um desejo macabro de ver o corpo. Baldwin ouvia o murmúrio sibilante de satisfação, à medida que se aproximava, e sabia que havia homens a lançarem apostas sobre a forma como a vítima morrera, outros a especularem sobre a provável identidade do assassino, muitos a oferecerem as suas próprias ideias sobre qual poderia ter sido o móbil. E todos queriam testemunhar a prisão do suspeito e o consequente enforcamento. À luz vacilante emitida por três tochas, ele via os rostos - todos pálidos e excitados em presença da morte violenta - como uma imensidade de demónios. E sentiu que a boca se lhe torcia de repulsa.

Ignorando-os, continuou a cavalgar, e eles abriram alas em deferência ao seu cargo, deixando o caminho livre até ao portão. Aqui, impedindo-os de entrar, estava o oficial da autoridade.

- Viva, Tanner - disse Baldwin, parando.

O oficial da autoridade acenou sombriamente com a cabeça, indicando com ela a casa.

- Ele está no salão, Sir Baldwin.

- Quem o encontrou?

- O vizinho, Matthew Coffyn. Baldwin acenou com a cabeça.

- Enviaste homens para procurar o assassino?

- Assim que fui informado, mandei homens encetar uma perseguição pelas estradas principais, mas não é provável que vejam alguém a esta hora avançada da noite.

- Houve alguma informação de um homem que andasse a cavalo ou que estivesse em fuga?

- Não, senhor, nada. Tanto quanto sei, ninguém ouviu nada.

O cavaleiro sabia que essa era a parte mais difícil quando se procurava um assassino. Não servia de nada enviar homens atrás de um assassino quando não havia qualquer pista sobre quem pudesse ser o responsável. No entanto, se não se enviasse ninguém, o magistrado local olharia o oficial da autoridade de soslaio. E pelo menos o grupo de perseguição poderia espalhar a notícia do homicídio, colocando os agricultores que viviam longe da cidade em guarda contra outro ataque.

- Bem, talvez eles tenham sorte desta vez - murmurou ele. E talvez não tenham, acrescentou para si próprio. Talvez este fosse um homicídio cometido por alguém da cidade, alguém que estivesse ressentido para com o ourives e que se quisesse vingar. Quem é que poderia odiar tanto o homem a ponto de querer matá-lo?, perguntava-se Baldwin.

Deixando o mensageiro a segurar-lhes os cavalos, ele e o criado encaminharam-se para o salão.

A grande porta guarnecida com tachões estava aberta, e eles entraram para a barriga negra do corredor de guarda-vento. À porta que dava para o salão, através da qual se via uma luzinha, Baldwin hesitou, mas, passado um momento, caminhou até à porta que se encontrava na extremidade mais afastada do corredor. Deu consigo a olhar lá para fora, para um grande pátio. À esquerda do espaço pavimentado de pedras havia estábulos para, no mínimo, trinta cavalos, enquanto que a cozinha se situava à direita, a escassa distância da casa em si. Entre o salão e a cozinha, Baldwin conseguiu distinguir a parede divisória entre este local e o seguinte, o que significava que este pátio estava quase completamente cercado de muros. À sua frente havia uma entrada fortificada colocada entre dois grandes edifícios, um dos quais parecia um palheiro e depósito de carroças e equipamento, enquanto que o outro, a julgar pelos suaves mugidos que dele emanavam, servia de barracão para gado. A esta hora da noite, estava tudo em silêncio, e, em algumas janelas, ele via luzes amarelas a brilharem.

- Quereis ver o corpo? - perguntou Edgar calmamente. Perguntava-se por que motivo o seu amo espreitava tão atentamente lá para fora. Não era nada dele passar assim ao lado de uma vítima de homicídio. Para seu alívio, Baldwin acenou pensativamente com a cabeça. No caminho de regresso ao salão, Edgar ia à frente.

O cavaleiro encontrou-se numa sala apenas um nadinha maior do que a sua, mas que, com a rica tapeçaria iluminada por muitas velas, era infinitamente mais magnificente. Era uma casa nova, e não se poupara despesas na sua construção. As paredes eram de sólido granito, e uma boa fogueira ardia na lareira ao meio da sala. Cadeiras e bancos orlavam as paredes; grossas tapeçarias cobriam as janelas; na extremidade mais longínqua, um estrado elevado suportava a mesa do senhor, atrás da qual havia uma cortina, e Baldwin sabia que ela escondia outra porta, que levaria aos aposentos privados do bloco solar. Um edifício assim tão moderno teria, de certeza, aposentos de dormir separados para o senhor, para que ele pudesse desfrutar de um pouco de privacidade em relação aos criados no salão. Um armário coberto com uma toalha cortada em bisel estava encostado à parede ao lado do estrado, e o olhar de Baldwin pousou nele por um momento, antes de a sua atenção ser atraída para a figura que se encontrava no chão.

Baldwin vira muitos homens mortos ao longo da sua vida. Vira cadáveres às centenas em Acre, quando os egípcios atacaram; vira os seus companheiros morrerem de agonia nas piras porque tinham ousado testemunhar pela honra da sua Ordem; e vira muitas vítimas de homicídio desde que era Defensor. Como toda a gente, estava habituado a ver aqueles que tinham expirado de velhice ou de doença. Havia muitas formas de morrer.

Pelo menos, pensou para si próprio, esta é clara. Não podia haver dúvidas quanto à causa da morte de Godfrey de London. O sangue que lhe escorria do crânio esmagado deixava pouca margem de manobra à imaginação.

Baldwin não tirava os olhos do cadáver.

- Há alguma arma?

Havia um homem moreno e magro, com um assustador rosto redondo, que se encontrava junto à porta e que tinha na mão uma moca de carvalho. Edgar reconheceu-o como um moço de estrebaria da estalagem. Devia ter sido cooptado para guardar o cadáver.

- Não sei, meu senhor. Tanner só me disse que ficasse aqui e me assegurasse de que ninguém entrava até que chegásseis.

- Entrou aqui alguém?

- Não, senhor.

- Estavas aqui quando este homem foi encontrado?

- Não, meu senhor. Tanner chamou-me cá assim que chegou, para que eu guardasse a sala e protegesse a rapariga.

Baldwin levantou uma sobrancelha.

- Rapariga?

- Sim, meu senhor. Ela tinha sido encontrada aqui inconsciente. Com o homem.

- Homem? Que homem?

- Putthe, o despenseiro. Ele também aqui estava.

Baldwin fechou os olhos por um momento, depois falou devagar e cautelosamente.

- Vai até ao portão da frente e diz a Tanner que venha cá agora. Tu ficas lá e manténs as pessoas lá fora. Percebeste?

Depois de o moço de estrebaria ter saído precipitadamente da sala, Baldwin aproximou-se de uma grande vela que se encontrava alta num candelabro de parede. Pegando-lhe, levantou-a acima da cabeça para iluminar melhor a sala, e olhou cuidadosamente tudo em redor.

Havia agora pouco para ver, mas conseguiu discernir locais onde os juncos tinham sido pisados e arrastados e, consequentemente, mudados de lugar. Antes de se aproximar deles, baixou-se ao lado do morto.

O corpo estava a uns sete passos da porta, a cabeça a apontar para a janela mais próxima, uma que dava para o pátio das traseiras da casa, perto da cozinha. Aos olhos de Baldwin, a figura estava estendida de uma forma estranha, mas o cavaleiro sabia que os mortos assumiam muitas vezes poses esquisitas ou até bizarras. O braço direito de God-frey estava ao lado do corpo, enquanto que o esquerdo estava estendido para fora, dobrado no cotovelo, com a mão para cima. Se ele estivesse de pé, pensou Baldwin, pareceria que tinha a mão levantada como que para dizer a alguém que parasse. O aspecto estranho da pose consistia na sua própria naturalidade. Se não fosse a ferida hedionda, Baldwin teria pensado que o homem estava simplesmente a descansar.

O cavaleiro acocorou-se, a vela segura mais uma vez numa posição alta, à medida que ele observava o corpo e o chão em redor. Não via qualquer objecto no chão, perto do corpo, que pudesse ter infligido uma ferida tão perigosa. Este não fora um ataque súbito de loucura: o homem agredira com a moca, ao mesmo tempo que andava em redor da sala, e a arma caíra então, quando ele o assassino, horrorizado, se apercebeu do que fizera. E, no entanto, lembrou o cavaleiro a si próprio, havia muitos casos em que um assassino chacinara a sangue-frio, apressando-se depois a fugir, ainda com a arma do crime na mão.

Enquanto Edgar continuava a olhar, imperturbável, Baldwin pousou a vela e desenvolveu uma rápida investigação. Palpou a pele do homem na parte superior do tronco. Ainda estava quente. Em seguida, Baldwin cheirou a boca de Godfrey. Tanto quanto ele podia discernir, não havia qualquer odor doce e doentio a álcool. Calcou suavemente a ferida, que coagulava rapidamente. Por baixo dos dedos, sentiu os ossos esmagados a cederem, e acenou com a cabeça para si próprio. Vira bastantes feridas em cabeças. Esta era certamente do tipo que teria causado a morte.

Com esforço, voltou o corpo ao contrário para procurar outros ferimentos, e abriu a túnica do homem para verificar que não havia feridas causadas por punhal. Era demasiado comum um homem infligir uma ferida aparentemente óbvia num cadáver, após ter cometido um homicídio, numa tentativa de lançar as suspeitas sobre outra pessoa. Mas não se via nada.

Acabara de virar o corpo novamente para a sua posição original, quando Tanner entrou. Baldwin ignorou-o. Levantando-se devagar, apoiando-se apenas nos joelhos, que estalavam ao mesmo tempo que ele se elevava, Baldwin pegou na vela e aproximou-se da marca mais próxima nos juncos do chão.

Baldwin sabia que o oficial da autoridade era um homem sóbrio. Com uma constituição tão forte como um ferreiro, tinha as feições fatigadas e duras de um homem da charneca, com cabelo preto a escorregar para o grisalho. Deslocava-se com uma lentidão ilusória, como se tivesse de se concentrar para conseguir realizar a tarefa mais simples, mas Baldwin já o vira cheio de energia, e sabia que Tanner possuía uma força poderosa, e que, quando precisava, adquiria a velocidade de uma víbora a atacar. O oficial da autoridade esperava pacientemente, enquanto o cavaleiro estava acocorado sobre o soalho desarranjado.

Era perto da porta, mas, embora o cavaleiro examinasse a cova com cuidado, não via quaisquer pistas; era simplesmente um local que ficara a descoberto, e em volta do qual os juncos tinham sido levemente empilhados. Não havia aqui nada a descobrir. Baldwin levantou-se e dirigiu-se ao outro local onde os juncos se apresentavam mexidos.

Aqui parou. Esta parte encontrava-se mais perto de uma janela aberta. Enquanto Baldwin olhava para baixo, avaliou as distâncias. Ficava perto do corpo de Godfrey, e apontava para a própria janela, o que fez com que o cavaleiro franzisse o sobrolho. Por que teria alguém aberto a janela? Aproximou-se dela e olhou lá para fora, para o escuro bloco da cozinha. Isso, pelo menos, confirmou uma ideia: presumivelmente, o culpado escapara por aqui; em vez de fugir pela porta da frente e de arriscar ser capturado na rua, o assassino fugira pelas traseiras. No escuro, a rua principal de Crediton não era por demais movimentada, mas havia pessoas suficientes para repararem num homem a correr. Teria sido mais seguro para o assassino escapar-se pelo jardim sem ser visto.

- Tanner, encontraste o homem tal como ele está? Não viste nada fora do lugar?

- Não, Sir Baldwin. Ele estava estendido tal como o estais a ver agora. Era óbvio que ele não ia voltar a levantar-se, com um buraco assim na cabeça.

- Conta-me o que aconteceu.

- Eu estava na estalagem quando o criado do vizinho foi a correr chamar-me. Bem, ele não é propriamente um criado - Coffyn, o homem que vive ao lado, tem andado nervoso ultimamente, e contratou uns indivíduos para lhe protegerem a casa. São todos tipos duros, e este era um deles. Regressei com ele, e encontrei Godfrey aqui, tal como está agora - apontou para as marcas junto a Baldwin. - Aí mesmo era onde tinha estado a filha. Os pés perto da porta, a cabeça virada para a janela. Ela também tinha sido agredida e levaram-na para o quarto antes de eu chegar.

- Ela também foi agredida na parte de trás da cabeça, como este?

- Não - deram-lhe um soco, suponho. Tinha a boca toda ensanguentada. Aqui - disse ele, apontando para o local mais perto da porta onde os juncos tinham sido remexidos - aqui era onde Putthe, o criado, estava estendido. Estava também inconsciente. Também tinha sido agredido na parte de trás da cabeça, como o amo.

- Estava aqui mais alguém quando chegastes?

- Só o vizinho, Coffyn. Quando ele viu o que tinha acontecido, mandou logo o criado chamar-me, como devia fazer, ficando ele próprio aqui a guardar o local.

- Onde está esse tal Coffyn agora?

- Deixei-o ir para casa. Tinha o rosto um pouco verde, senhor, e eu não queria que ele andasse a vomitar pela sala toda. Já há aqui bastante porcaria.

- E o criado dele?

- Mandei-o também embora. Não é de cá, e eu não queria um estranho a meter aqui o nariz enquanto esperava por vós, senhor.

- Muito bem. Então e os dois que ficaram feridos, o criado e a filha: estão bem?

- Ela devia ficar bem depois de descansar um pouco, senhor, e Putthe tem uma cabeça dura como o granito. Quem quer que o agrediu terá sorte se puder usar o mesmo bastão outra vez. Agredir Putthe com força suficiente para o derrubar quebraria a maior parte das mocas.

Baldwin esboçou um sorriso fugidio.

- Devíamos deixar a rapariga recuperar um pouco, mas e esse despenseiro: pensas que ele estará pronto para responder a algumas perguntas? Ele ainda não está completamente restabelecido?

- Já recuperou os sentidos, senhor, mas está bastante confuso.

- Também eu estaria, se tivesse sido assim agredido. De qualquer maneira, antes de o visitarmos... Aquele guarda-louça parece mais do que um pouco vazio, não parece?

Tanner olhou a peça de mobiliário com alguma surpresa e seguiu o cavaleiro, à medida que Baldwin se aproximava dela.

Baldwin viu que era um excelente armário. Não era uma peça feita de madeira barata por um carpinteiro qualquer; era um trabalho em madeira de ulmeiro, construído por um carpinteiro de obra branca.

Havia quatro prateleiras, com portas por baixo, e Baldwin olhou a peça especulativamente durante algum tempo. Abriu as portas e espreitou para o interior. De ambos os lados havia chaleiras, jarros e pratos em peltre numa disposição perfeita, mas que dificilmente enchiam o espaço existente. Fechou novamente as portas. Nas prateleiras havia alguns pratos, de boa qualidade, quatro na prateleira de baixo e três em cada uma das outras. Um jarro solitário encontrava-se junto a um corno de beber em prata. Baldwin pegou-lhes, um de cada vez.

- Bom trabalho de ourivesaria, este - disse.

__O que é, meu senhor? - perguntou Tanner, depois de, um pouco confuso, ter olhado para Edgar.

- Hum? Oh, só que o mestre Godfrey deve ter sido um homem muito rico - afirmou o cavaleiro com uma súbita determinação. Bateu palmas. - Agora, vejamos se Putthe está pronto para responder a algumas perguntas.

 

O criado estava a repousar numa pequena cama quase escondida atrás de dois enormes barris. Estava pálido, e abriu os olhos com aparente dor, fazendo uma careta ao mesmo tempo que tentava fixar os três homens que se encontravam na sua despensa. A única vela existente era insuficiente, e Baldwin mandou Tanner ir buscar outra.

- Fica aí, Putthe, só quero fazer-te algumas perguntas - disse Baldwin calmamente, levantando a mão. Enquanto o fazia, reparou que o gesto lhe conferia a mesma pose que o corpo de Godfrey na porta ao lado. Se um homem estivesse de mão levantada, perguntava-se ele, cairia para o chão naquela mesma posição se levasse uma pancada que o fizesse cair morto num instante? E, se assim fosse, poderia ele ter estado de mão levantada para dizer a um ladrão que parasse?

Putthe recostou-se com um gemido. Era um homem baixo, de rosto redondo e sério. Baldwin viu que ele tinha lábios finos, que se abriam e fechavam enquanto o criado falava de uma forma estranhamente mecânica que fazia lembrar a Baldwin a viseira articulada de um elmo: só abria com relutância, e fechava com um estalido quando lho permitiam. Para uma tal compleição rosada, os olhos de Putthe eram de um azul curiosamente pálido e aquoso, fazendo-o parecer algo incompleto; um manequim por terminar. Por cima dos olhos, uma tira de tecido sujo apertava-lhe a cabeça.

Era esta ligadura que lhe causava agora a maior parte da dor. Parecia que a cabeça se lhe rachava ao meio, a parte de cima a rebentar com a pressão. Putthe sublinhou sombriamente que quem quer que fosse que o tinha agredido não tinha tencionado que ele se voltasse a levantar à pressa. À medida que o seu crânio tocava no tecido do travesseiro, ele estremecia e o ar expirado assobiava-lhe por entre os dentes. O seu atacante conseguira. Ele ficaria aqui deitado ainda por algum tempo - Senhor, em que posso ajudar-vos?

- Sabes que o teu amo está morto, Puthe - sabes quem pode ter feito isso?

- Foi aquele irlandês louco!

- Viste-o?

- Esta noite, meu senhor, sim. Lá fora no pátio. Ele já foi encontrado antes aqui no jardim. O meu amo viu-o lá apenas há algumas semanas atrás. Deixou-o ir embora, na altura, mas disse-lhe que se alguma vez voltasse a ser encontrado aqui, ele...

Baldwin levantou uma mão novamente.

- O que estavas a fazer este serão?

- Eu? Estava aqui.

Baldwin olhou em redor. Havia a habitual parafernália do local de trabalho do despenseiro: barris, jarros, chaleiras e canecas. Dois bancos encontravam-se perto um do outro, junto a uma pipa. Ao lado havia um par de jarros grandes. Olhando para Putthe, Baldwin viu-o estremecer.

Putthe teve de cerrar os olhos: a dor era como uma adaga a penetrar-lhe na têmpora. E tinha a cabeça a girar - o mundo enlouquecera! O comportamento de Godfrey; a estranha determinação da senhora de cuidar de um vulgar ferreiro e conceder aos criados um serão livre - e agora isto! Alguém entrara em casa e o amo estava morto! Agarrando a cabeça, Putthe gemeu.

Baldwin falou com suavidade.

- Lamento, Puthe, mas tenho de fazer estas perguntas. Presumo que correste daqui directamente para o salão...?

- Correcto, meu senhor. - Putthe tentou sentar-se na cama, mas apoiou as costas à almofada. Um fino orvalho de humidade brilhava-lhe na testa, fazendo-a reluzir à luz da vela. - Apressei-me a atravessar o corredor de guarda-vento, passei a porta e vi-os aqui estendidos. Estava prestes a aproximar-me, quando me bateram aqui - indicou cautelosamente o crânio magoado - e lá fui eu para o chão. A seguir só me lembro de estar aqui, deitado na minha enxerga.

- Havia alguém na sala à tua frente, quando entraste? É óbvio que estava alguém atrás de ti, mas viste alguém perto da janela?

- Corri directamente para o salão. Como podeis ver, daqui tive de virar para o corredor de guarda-vento, de frente para a porta que dá para o jardim, e de virar para a direita para o salão propriamente dito.

- E que viste? - perguntou Baldwin, impaciente.

- Senhor, quando corria pelo corredor, vi muito bem o pátio lá ao fundo. John de Irelaunde estava lá fora.

- Viste alguém lá fora? - disse Tanner, com ar trocista, regressando com mais velas e colocando-as em cima de barris. - De que distância? Através de um pátio às escuras, e, ainda por cima, à noite? Não estás bom da cabeça, homem!

- Eu sei o que vi!

Baldwin observou-lhe atentamente o rosto obstinado.

'- Agora pergunto eu: como podes ter tanta certeza de que era ele?

- Conheço John suficientemente bem. Ele magoou o tornozelo há pouco tempo, e este homem coxeava um pouco, mas, por outro lado, havia luz no pátio. O meu amo andava nervoso por causa dos homens que estavam em casa de Coffyn, tal como eu disse, e tinha uma tocha a arder para que ninguém pudesse aproximar-se dos cavalos ou dos aparelhos sem ser visto.

- Estás a falar a sério, quando sugeres que um idiota e um fraco como John foi capaz de matar o teu amo? - perguntou Baldwin, e levantou a sua caneca mais uma vez.

Putthe viu que ele não estava convencido. O cavaleiro recostou-se na cadeira, olhando-o por cima da sua bebida, com um ar magistral. Parecia um clérigo generoso a dar a absolvição por um crime menor. Abanando a cabeça, Putthe percebeu que tinha de apresentar a última pista.

- Senhor, não estais a compreender: John de Irelaunde era conhecido do meu amo.

- Fala com clareza - eu não consigo ler mentes.

- O meu amo encontrou John a atravessar o jardim - o seu próprio jardim. Pensou que John o estava a usar como um atalho protegido para passar para outro lado.

Agora Putthe via que captara a atenção do cavaleiro. Baldwin voltou a pousar a caneca devagar e inclinou-se para a frente com ambos os cotovelos apoiados nos joelhos.

- Por que motivo passaria ele por aqui para outro jardim?

- Correm rumores sobre o fraco que o homem tem por mulheres - especialmente por aquelas que são jovens e que sofrem de aborrecimento - disse Putthe, desviando o olhar.

- Referes-te a Martha Coffyn? O criado acenou com a cabeça.

- É isso que eu penso. Foi isso que o meu amo me contou.

- Também eu ouvi falar disso - murmurou Baldwin, e abanou a cabeça. - Por que entraria ele aqui e te agrediria, assim como à tua senhora e ao teu amo? O facto do seu adultério não é razão para assassinar. Mas podes não estar ao corrente da outra coisa - reparaste no armário esta noite?

Putthe lançou-lhe um olhar de total incompreensão.

- No armário? E que me importa isso?

- Putthe, o armário parece-me vazio - explicou Baldwin. - Podes dizer-me o que deveria estar lá exposto, para que eu possa verificar o que lá ficou?

O despenseiro fez uma careta em sinal de concentração. E recordou:

- Na prateleira de cima havia um par de pratos e um corno de beber em prata; na seguinte estava uma fila de seis pratos em peltre e um saleiro em prata em forma de cisne; na seguinte havia mais uma fila de seis pratos, mas havia também dois grandes frascos... e na última prateleira estava uma fiada de oito pratos mais pequenos.

- E tens a certeza disso?

- Claro que tenho!

- A maior parte desapareceu, Putthe.

- O quê? - o homem ferido começou a levantar-se da sua posição reclinada, estremeceu, levou as mãos à testa e deixou-se cair lentamente para trás. - Isso prova-o, então! Foi aquele sacana miserável do irlandês. Agrediu-nos e deixou-nos sem sentidos para roubar todas as peças valiosas, e agora fugiu sem deixar rasto!

- Antes de presumirmos uma coisa dessas, sabes de mais alguém que pudesse querer matar o teu amo?

- Não - respondeu Putthe com convicção. - O meu amo era um homem calmo. Só ajudava as outras pessoas. Se falardes com qualquer pessoa, todos vos falarão de mestre Godfrey de London.

- No entanto, dizes que John odiava mesmo o teu amo o suficiente para o matar.

- E tens a certeza de que foi John que viste lá fora no pátio? - perguntou Tanner novamente, com dúvidas.

- Por que não lhe perguntais?! O meu amo encontrou John nas traseiras há algum tempo; John tinha um caso com Martha Coffyn; John precisa de dinheiro. Se tendes razão e a baixela desapareceu, podeis ter a certeza de que é John que a tem! E agora, se não vos importais, preciso de descansar. Sinto-me como se a cabeça me fosse cair dos ombros!

- É demasiado tarde para visitarmos a rapariga agora - disse Baldwin à medida que deixavam o despenseiro. - Tanner, podes ir ter com ela e perguntar-lhe se falará connosco pela manhã? Em seguida, vai a casa do vizinho - disseste que o nome dele era Coffyn, não foi? - e diz-lhe, bem, diz-lhe a mesma coisa. E coloca um homem de guarda na sala onde está o corpo. Vou querer examiná-lo novamente à luz do dia, para o caso de me ter escapado alguma coisa. Por agora, preciso de pensar. - Regressou ao longo do corredor de guarda-vento e saiu, passando pela porta que dava para o pátio. Tanner e Edgar trocaram um olhar antes de o seguirem.

- O que é, senhor? - perguntou Edgar ao mesmo tempo que se juntava ao amo.

- Hmm? Oh, eu estava só a pensar que se alguém tivesse morto Godfrey e tivesse fugido imediatamente, não teria ido directamente pela porta da frente. Há sempre demasiada gente lá fora, na rua principal. Não, eu estava a perguntar-me se esse alguém poderia ter saído por aqui, pelas traseiras. E quanto mais olho cá para fora, nesta direcção, mais tenho a certeza de que o assassino fugiu pelo jardim.

- Ah - disse Tanner. - Mas ele não é desses, Sir Baldwin.

- Pensas que não? Ele estava pronto a enganar as pessoas da cidade em relação a ter perdido a visão, não estava?

- Oh, isso é muito diferente.

- E se ele estava a tentar roubar a baixela e foi interrompido? Pode ter agredido Godfrey sem intenção de o matar.

- Quereis que eu arranje alguém para o vigiar?

Baldwin fez uma careta de dúvida, abanando depois a cabeça.

- Não. Se ele fugisse, depressa o apanharíamos.

- Ele não é nenhum assassino, tenho a certeza, e também penso que ele não assaltaria uma casa.

- Eu também, mas não é isso que as outras pessoas pensarão, Tanner - disse Baldwin com voz calma, ainda olhando para o exterior, em direcção à pequena casa velha que se encontrava a escassas centenas de metros, colina acima. - Só nos resta esperar que não haja idiotas que lhes metam na cabeça que devem pensar dele o pior...

À medida que o trio virou costas, tendo Baldwin e o criado ido buscar os cavalos e tendo-se encaminhado para casa, John estava sentado na cama a esfregar o tornozelo torcido.

A enxerga era agora fina, e o colchão de corda por baixo fazia-lhe doer através do enchimento de palha, mas o irlandês de estatura baixa mal dava por isso. Pelos olhos do espírito, ele ainda via aquela sala, os dois homens no chão, a rapariga estendida junto à janela.

O coração ainda lhe batia furiosamente. O esforço de vir para casa furtivamente esgotara-o. Especialmente porque durante todo o caminho ouvira os gritos dos homens que o procuravam; os homens que o agarrariam para o levarem para a forca por causa do saco que trazia às costas.

Estava muito assustado; tinha de assegurar que não o revistavam - pelo menos enquanto não conseguisse tirar o saco de peltre que escondera debaixo do feno, no seu pequeno palheiro, e não o tivesse colocado num esconderijo mais seguro.

Edgar levantou-se antes do nascer do Sol, como era seu hábito. Sentia-se um pouco tonto devido à falta de sono, mas enfiou a cabeça no balde que se encontrava junto ao poço, arquejando com frio, à medida que se secava com uma toalha. Vestindo a sua túnica, deixou-se ficar por uns momentos, a observar o céu a Oriente, ao mesmo tempo que enclarecia.

Desde o tempo que passara com os Cavaleiros Templários que gostava desta altura matutina do dia. Transmitia-lhe uma sensação de serenidade, como se estivesse sozinho no mundo, e, para desfrutar ainda mais do momento, sentava-se no velho cepo de carvalho em cima do qual os toros eram rachados. Daqui, ao olhar ao longo do comprimento da casa, via o céu a mudar de cor, tingindo as nuvens de prata e púrpura, antes de as cobrir de cor de pêssego. Quase antes de ele se aperceber, a escuridão do céu nocturno desapareceu, e, em seu lugar, surgiu a palidez clara e fresca do novo dia.

Só quando o Sol começava a erguer-se por cima da colina é que ele se levantou e se dirigiu à despensa para preparar a refeição do seu amo. Como a maior parte das casas, a de Baldwin tinha uma cozinha separada para impedir que algum incêndio acidental ameaçasse o salão propriamente dito, mas Edgar conhecia bem o amo: Sir Baldwin havia de querer apenas carnes frias e pão para a sua primeira refeição.

O criado escolheu um pão de boa qualidade e trouxe-o juntamente com um frango assado frio, um grande presunto e um pedaço de carne de vaca assada. Distribuiu-os pela mesa de Baldwin, no salão, e, em seguida, verificou a lareira. Wat, o filho do tratador de gado, já lá estivera a soprar as brasas de forma a produzir chama, colocando uma mecha e uma pequena pilha de ramos por cima. Estes estavam agora a arder bem, e Edgar pousou cuidadosamente toros rachados em cima da pilha, acocorando-se ao lado para a vigiar até que os toros se ateassem. Quando houvesse calor suficiente, ele colocaria a chaleira por cima, apoiada na trempe. O cavaleiro podia não gostar de álcool em demasia, mas, ao pequeno-almoço, gostava da sua caneca de cerveja fraca, aquecida e adoçada.

Enquanto descansava, Edgar deu com os seus pensamentos a concentrarem-se no amo. Baldwin fora um cavaleiro generoso e leal, mas tudo isso estava prestes a mudar. Edgar sabia que ele esperava com ansiedade a visita de jeanne de Liddinstone, a viúva que conhecera em Tavistock no ano anterior, e Edgar estava convencido de que ele estava decidido a cortejá-la. Não havia nisso qualquer surpresa - a senhora era muito atraente, com o seu cabelo louro-arruivado e vivos olhos azuis. Edgar acenou com a cabeça contemplativamente. Ela não era o género de mulher que ele inevitavelmente escolheria para si próprio, pois ficava nervoso com mulheres que eram demasiado independentes, preferindo as que eram mais submissas à sua vontade, mas compreendia por que o amo se podia enamorar dela.

E uma esposa naquela casa significaria necessariamente mudança. Haveria de querer manter um olho nos assuntos do marido, haveria de querer assegurar que ele era bem tratado - e essa poderia não significar a mesma forma de que Edgar cuidara de Baldwin nos últimos anos.

Depois havia Cristine, da estalagem de Crediton. Edgar estava consciente de que os seus sentimentos eram cada vez mais atraídos para ela, embora ele não fizesse ideia porquê. Ela era bastante bonita, era verdade, mas dificilmente seria o tipo de mulher calma e condescendente que ele sempre procurara antes. Cristine era dona de uma vontade forte e poderosa, uma criada sempre com uma resposta pronta, e, em vez de ficar irritado e de a ver como uma harpia, Edgar dava consigo a sentir-se atraído para ela como uma igual. Era uma ideia alarmante.

E se ele correspondesse às expectativas dela (e, suspeitava ele,: também às de Baldwin) e casasse com ela, tal significaria uma alteração total na sua vida. Certamente que Jeanne de Liddinstone a veria com desconfiança, uma senhora delicada como ela era. Jeanne esperaria ter uma jovem criada que lhe cuidasse da costura, uma rapariga que tivesse tido uma educação sóbria, e não uma aldeã que fora educada na taberna, e cujo repertório de conversa de sala se resumia a piadas de gosto duvidoso contadas no salão da estalagem.

Edgar suspirou enquanto olhava as chamas. Quando o seu amo casasse, ele teria de partir e de começar uma vida nova na cidade. Era certo que haveria muitas mudanças dentro de pouco tempo.

- O que se passa, Edgar? Estás a cismar à lareira como um escudeiro apaixonado!

- Sir Baldwin, a vossa comida está pronta, mas o fogo ainda está demasiado frio para vos aquecer a cerveja.

Baldwin lançou um olhar azedo às pequenas chamas cujas línguas subiam da lenha.

- Dá um pontapé ao rapaz que preparou a maldita fogueira e diz-lhe que a faça melhor da próxima vez, se não usá-lo-emos como lenha para aquecer as minhas bebidas!

- Sim, meu senhor - disse Edgar a sorrir, ao mesmo tempo que o amo se dirigia para a sua cadeira e se sentava. Baldwin pertencia àquela raça rara de homens: alguém que acordava com uma disposição tranquila e alegre. Embora o seu tom fosse duro, Edgar sabia que ele estava a falar alto para ter a certeza de que a sua voz se ouvia no pátio das traseiras, onde Wat devia estar a empilhar toros.

Baldwin tomou um pequeno-almoço descansado, aceitando com gratidão uma taça de vinho misturado com água, em vez da cerveja. Enquanto mastigava, a sua mente estava fixa no corpo deixado no salão do ourives reformado, e as suas cogitações faziam-no exibir um semblante carregado pela concentração. Quando Wat entrou para empilhar toros junto à lareira, reparou na expressão do cavaleiro e deixou cair a sua carga com receio. Sob o olhar austero de Edgar, ele depressa apanhou os toros que se tinham espalhado e que rolavam pelo chão em direcção aos pés do amo, e colocou-os junto à lareira, antes de sair apressadamente da sala, grato pelo facto de a sua falta de jeito não lhe ter custado as chicotadas que esperava.

Edgar virou-se para o amo assim que a porta bateu ao fechar-se.

- Penso que ele terá mais cuidado com o fogo da próxima vez, senhor.

Baldwin riu por entredentes, mas o seu rosto depressa voltou a adquirir uma expressão distante. Tinha de regressar a Crediton e continuar a sua investigação ao homicídio de Godfrey - Godfrey de Lon-don. Baldwin reflectiu no nome.

- Que tipo de homem era ele, pergunto-me...?

- Senhor?

- Este calmo ourives. Que tipo de homem era ele? Quem é que achas que o terá conhecido melhor?

Edgar coçou o nariz pensativamente.

- Sei pouco dele. Não era um homem muito sociável, segundo o que ouvi dizer.

- Poderia valer a pena perguntar na estalagem se alguém o conhecia - disse Baldwin astutamente.

Edgar ignorou o olhar dele.

- Talvez. Posso ver o que consigo descobrir, se quiserdes.

- Muito bem! Quando se tem um espião no sítio certo, é um desperdício não se fazer uso dele - ou dela!

- É verdade, meu amo - disse Edgar com frieza.

- Mas precisamos de perguntar também o que os outros viram - acrescentou Baldwin, a boa disposição a esvanecer-se-lhe quando pensou nos problemas que tinha pela frente. - Temos de ir visitar esse vizinho e o guarda, e a filha do morto.

- E o irlandês.

- Sim - concordou Baldwin. - E John.

No entanto, custava-lhe a acreditar que o carroceiro tivesse alguma coisa a ver com o caso.

Iniciaram a viagem para Crediton num passo tranquilo, pois havia muito gelo nos troços planos de estrada, e, onde não o havia, a terra batida dos carreiros prenunciava outro perigo: era demasiado fácil um cavalo escorregar num sulco endurecido pela geada e torcer uma pata; se seguissem num galope brando, um cavalo podia fracturar uma pena. Baldwin não tinha qualquer desejo de ver o seu cavalo inválido, por isso seguiam calmamente.

O cavaleiro passou pelo salão do ourives, pelo pequeno grupo de pessoas que conversavam excitadamente, e entrou pelo portão de Mat-thew Coffyn.

A casa estava situada a escassas dezenas de metros da estrada, e Baldwin pôde examiná-la enquanto se aproximava. Era uma casa nova, uma das mais recentes da povoação, e, ao contrário da maior parte das casas vizinhas, esta era construída em pedra vermelha da região. Só esse facto em si era sinal de dinheiro. O salão principal era uma ampla massa cinzenta à sua frente, como o traço comprido de um "T" maiúsculo. Na extremidade da direita encontrava-se a parte de cima do "T", que era constituída por despensas com o solar por cima. O fumo que se erguia por cima do telhado de colmo indicava que a cozinha se situava por detrás.

O cavaleiro e o criado apearam-se à porta. A sua chegada fora detectada por um homem corpulento que se encontrava junto à soleira. O homem gritou por cima do ombro, e logo um jovem apareceu a correr, tirando-lhes as montadas e levando-as a beber.

Baldwin soltou um breve resmungo de desaprovação. Na sua juventude, os homens desempenhavam os seus cargos com dedicação. A velha tradição ditava que um homem se entregasse sem reservas ao seu senhor durante toda a vida, em troca de vestuário, equipamento, comida e alojamento, conforme o estatuto do seu senhor. À medida que o poder do seu senhor crescia ou diminuía, o mesmo acontecia à sua própria situação A moda nova de os homens se venderem puramente por dinheiro não os tornava melhores que banqueiros ou advogados. Um homem desses estava apenas a fazer uma cínica transacção financeira sem qualquer conceito do que é o verdadeiro dever. Um homem assim transferiria a sua fidelidade se lhe prometessem mais dinheiro.

- Senhor? - disse o homem interrogativamente.

Lembrava a Baldwin um mercenário errante. Não era pela roupa. Ele estava vestido como qualquer habitante da cidade, com uma simples túnica ocre e uma camisa de linho. Nem sequer usava uma espada, apenas um punhal de lâmina comprida que lhe balançava junto ao quadril. Tinha olhos atentos, alegres, e a boca parecia prestes a sorrir. A sua pose era relaxada, os polegares confortavelmente enfiados no cinto, e olhava o cavaleiro com uma expressão de respeito - mas apenas aquele respeito que se deve a um igual.

Mas a pose negligente era, em si, uma atitude. O homem estava preparado para defender a porta de alguém que fosse suficientemente louco para tentar forçá-la. Baldwin via isso na sua tranquilidade, e mais especialmente na/forma como a sua atenção se desviava de Baldwin para alguém que( se encontrava na rua atrás do cavaleiro, regressando novamente a este. Foi por isso que Baldwin descobriu que ele fora soldado. Possuía o instinto guerreiro de manter um olho alerta, à procura de perigo.

- Estou aqui para falar com Matthew Coffyn.

- E qual é o vosso nome, senhor?

- Podeis dizer-lhe que o Defensor da Paz do Rei está aqui - disse Baldwin, à-vontade.

O guarda acenou com a cabeça afavelmente, olhando depois para trás dele.

- Vai dizer ao teu amo, e despacha-te! Por favor, acompanhai-me, senhor.

Seguiram-no ao longo de um largo corredor de guarda-vento, até um amplo salão. Era como Baldwin suspeitara. Seis homens, todos sentados à mesa, desfrutavam da primeira bebida do dia, bebericando cerveja de grandes canecas e limpando a boca com as costas das mãos, enquanto o olhavam desconfiados. Apesar de estar ali presente o encanto de uma guarnição, Baldwin via que o salão estava bem equipado. Por cima da entrada havia um balcão de menestréis metido na parede, e o estrado ao fundo era suficientemente vasto para albergar vinte pessoas sentadas a uma mesa. Ao meio da sala estava a lareira, com um cone de madeiros que ardiam lentamente no interior de um anel de blocos de granito. Ele contou sete mesas de bom tamanho, para além das duas grandes que se encontravam no estrado.

Mas apesar das tapeçarias, que exibiam todas cenas de caça, havia uma atmosfera que desmentia a aparente simplicidade da cena. Os homens não eram manifestamente os criados de um homem rico, eram pouco mais do que salteadores, e as enxergas enroladas e as trouxas encostadas à parede eram prova suficiente de que a guarnição dormia e vivia ali.

Matthew Coffyn estava sentado à sua mesa, e Baldwin examinava-o, à medida que era conduzido à presença do mercador.

Coffyn era um homem alto, via Baldwin, com uma pança e um pescoço gordo que atestavam a sua riqueza - podia comprar toda a comida que queria. Apesar de tudo isso, tinha um aspecto infeliz, com um queixo irresoluto e pontiagudo e lábios finos, por baixo de um nariz direito e estreito. Os olhos eram escuros e encontraram os do cavaleiro com uma curiosa tristeza. Contudo, havia também nele uma certa impaciência, ciando a impressão de uma criança mimada. A isto acrescia a gaforina de rato e despenteada, que lhe dava o aspecto de um jovem, e também os sinais de uma energia nervosa. Embora Coffyn estivesse em silêncio e sentado muito quieto no seu lugar, de vez em quando levava a mão à boca e roía as unhas como um cão a procurar extrair o último vestígio de carne de um osso esbranquiçado. Baldwin viu finas marcas vermelhas em duas unhas que Coffyn já roera até ao sabugo a ponto de ter sangrado.

Em muitos destes pormenores Baldwin só veio a reparar mais tarde, enquanto falavam. O seu pensamento inicial foi: Este homem é presunçoso e arrogante. No entanto, Coffyn levantou-se quando Baldwin se aproximava da sua mesa, e deu-lhe as boas-vindas com todos os sinais de respeito, pedindo-lhe que se sentasse ao lado do mercador, e pressionando-o a aceitar vinho. Edgar ficou em pé atrás do amo, enquanto Coffyn acenava para os homens que estavam sentados à mesa, e que, gradualmente, mal-humorados, saíram em fila.

- Estais aqui, com certeza, por causa do terrível acontecimento de ontem à noite...

Baldwin inclinou a cabeça em sinal de assentimento.

- Pelo que sei, fostes a primeira pessoa a encontrá-lo.

- É verdade. Foi uma coisa horrível de ver. Pobre Godfrey! Tendes alguma ideia de quem o possa ter feito?

Esta última frase foi dita com um súbito brilho no olhar, e Baldwin foi assaltado pela convicção de que o homem já tinha o seu próprio suspeito arquivado e catalogado na sua mente - e julgado e enforcado também. O cavaleiro suspirou. As pessoas estavam tantas vezes ansiosas por atribuir a culpa e condenar com base em provas pouco consistentes. Sabia que, demasiadas vezes, tal se devia a preconceitos e a pura maldade para com outra pessoa.

- Ainda não, meu senhor.

- Não receeis, Sir Baldwin. Deus mostrar-vos-á quem foi o responsável.

- Entretanto, podeis contar-me o que aconteceu ontem à noite? Coffyn fez sinal ao criado, e o homem encheu-lhes novamente as canecas.

- Ontem estive fora; tive de ir a Exeter. Foi sorte eu ter regressado naquela altura, porque estava à espera de ter de lá passar a noite, mas os afazeres que lá me levaram resolveram-se depressa, e consegui regressar pouco depois de ter escurecido. Estava em casa havia pouco tempo quando ouvi gritos vindos da casa de Godfrey...

- Pudestes distinguir o que diziam?

- Oh, sim, Sir Baldwin. Era Godfrey, e gritava: "Com que então estás disposto a conspurcar também a minha filha, não é verdade?" Nós - isto é, os meus homens e eu - não nos teríamos preocupado com isso - quer dizer, ouvem-se as pessoas a discutir até nos melhores lares, e alguém a gritar pode não significar grande coisa, mas havia qualquer coisa no tom que me fez suspeitar de que havia algo de errado. De qualquer forma, apenas um pouco mais tarde ouviu-se um grito mais alto. Meu Deus! - Coffyn passou uma mão pela testa e tomou um generoso gole da caneca. - Meu Deus, foi horrível! Agora sei que era a alma dele a passar, mas naquele momento, juro que pensei que era o demónio! Foi um grito horrível, um grito rouco de angústia - algo que não vou esquecer enquanto viver.

Baldwin soltou um murmúrio solidário.

- Depois - continuou Coffyn - chamei o meu guarda para que fosse comigo e corremos para lá.

- Esperai! Entrastes pela frente ou pelas traseiras da casa de Godfrey?

- Pela frente, é claro! Queríeis que eu trepasse ao muro dele? - respondeu Coffyn. - Não esperámos para bater à porta dele, entrámos logo.

- Compreendo. E que encontrastes?

- Godfrey: morto. A filha, a pequena Cecily, estava perto dele, inconsciente. O criado, aquele velho sacana miserável com cara de maçã brava, estava junto à porta. Meu Deus, foi terrível!

- Não vistes mais ninguém na casa?

- Não.

- E lá fora na rua, quando correis para lá?

- Não, não havia ninguém. Tenho a certeza disso.

- E não ouvistes o som de alguém a correr, ou outra coisa qualquer?

- Não. Mas nós não, quero eu dizer, íamos a correr tanto... se alguém lá tivesse estado, dificilmente teríamos reparado.

- Está bem. E qual foi a impressão com que ficastes, quando entrastes pela primeira vez na sala? Pensastes que era assalto? Ou foi um ataque claro ao homem?

Coffyn dirigiu-lhe um olhar paciente, como se estivesse convencido de que Baldwin tinha o espírito fraco.

- Contei-vos o que ouvi. Pareceu que alguém estava a assaltar a casa? Penso que um intruso estava a tentar violar Cecily, e o pai dela atacou o canalha. Acreditai no que digo - quando falardes com Cecily, ficareis a saber que um homem estava a tentar desonrá-la.

- Suponho que é uma explicação possível - concordou Baldwin.

- Claro que é. O homem tentou conseguir dela o que pretendia, mas foi atacado pelo pai. Ele derrubou Godfrey com um golpe, e decidiu fugir, por isso agrediu a rapariga e pôs-se a andar. Mas não pode fugir à justiça de Deus!

- E o criado, Putthe?

- Atacou o homem e foi também agredido. O atacante esgueirou-se pelas traseiras e eu cheguei lá uns minutos depois - disse Coffyn num tom decidido.

- Não, não foi assim. Em primeiro lugar, Godfrey deve ter sido derrubado quando entrou na sala...

- Nada disso! Ouviram-no aproximar-se, por isso o homem escondeu-se atrás da porta e agrediu-o violentamente quando ele entrou.

- ... e, contudo, se Godfrey entrou a correr e gritou, como dizeis que ele fez, o violador deve ter estado à frente dele na sala. Assim, como é que ele foi agredido na parte de trás da cabeça?

- Deve ter havido alguma coisa que o distraiu... talvez tivesse ouvido Putthe a correr na sua direcção ao longo do corredor do guarda-vento, e virou-se, e foi nessa altura que o assassino o agrediu.

- Não me parece. Se fosse esse o caso, tenho a certeza de que Godfrey teria caído logo no sítio, e teria acabado virado para a entrada. Tal como as coisas são, ele caiu para o outro lado, como se tivesse sido derrubado alguns momentos depois de ter entrado na sala.

- Bem, isso vós é que tereis de descobrir. Disse-vos tudo o que posso - decidiu Coffyn, e fez um movimento, como que para se levantar.

Baldwin bebericava pensativamente o seu vinho.

- Dizei-me: tendes conhecimento de quaisquer inimigos que Godfrey pudesse ter tido? Haveria alguém que o detestasse, que fosse um tormento constante ou que sentisse inveja dele?

- Apenas uma pessoa, suponho - disse Coffyn com relutância. - O irlandês - nunca se deram bem. Mas não é de admirar, pois quem poderia ser amigo de um homem que estava preparado para extorquir dinheiro à igreja com base num embuste? Lembrais-vos da sua suposta cegueira? Reparai, penso que Godfrey não gostava dele por razões mais mundanas. Ele queria comprar o terreno onde John vivia, e John recusava-se a vendê-lo.

- Por que teria Godfrey querido um sítio pequeno e deteriorado como aquele?

- Godfrey era um homem rico. Tinha os seus caprichos. Penso que ele queria outro lugar para colocar o seu gado, e tem um número de criados cada vez maior - tinha, devo eu dizer. Aquele pequeno pátio com a casa teria sido o ideal, exactamente a confinar com a sua terra.

- Qual a impressão que tendes de John de Irelaunde? Alguma vez se mostrou agressivo para convosco?

O lábio de Coffyn franziu-se num sorriso sarcástico.

- Aquele sacana enfezado? Não se atreveria! Se tivesse ousado, eu teria soltado os meus homeas para que cuidassem dele, e logo veríamos se depois disso ele voltaria a ser desrespeitoso.

- De facto, tendes vários indivíduos novos aqui - afirmou Baldwin com voz calma.

O mercador lançou-lhe um olhar furioso.

- Estais a insinuar que um ou dois deles poderiam ter estado envolvidos nisto? - perguntou ele calorosamente, mas o tom arrefeceu-lhe tão rapidamente como aquecera. - As minhas desculpas, Sir Baldwin. Parece que só ouço queixas em relação aos meus homens. Não, sei que três deles estavam aqui ontem à noite antes de eu regressar, e os outros acompanharam-me na viagem. Mas quando regressei, tinha-os todos no meu pátio a ajudar-me a descarregar a carroça. E nenhum deles podia ter ido até à casa ao lado entre essa altura e o momento em que ouvi o grito vindo da casa de Godfrey.

- Estou a ver. Dizei-me, quando ouvistes o grito, onde estáveis?

- Quando cheguei a casa, mandei parar a carroça no pátio e entrei imediatamente para procurar a minha esposa. Ela não estava no salão, por isso eu disse a todos os guardas para ajudarem a descarregar as mercadorias e fui vê-la ao meu solar. Eu... eu pensei que tinha ouvido alguém nos meus aposentos privados, por isso dei uma vista de olhos em redor. Até chamei os guardas para me ajudarem. Foi então que ouvi o grito - quando estava no meu quarto.

- E não saístes imediatamente quando ouvistes o grito?

- Bem, não. Não, eu tinha a impressão de que estava aqui alguém, compreende? Só quando ouvi o grito é que me apercebi de que havia algo de terrivelmente errado em casa de Godfrey, e corri para lá com um dos meus homens.

- Deixando os outros guardas...?

- Deixei-os ainda à procura.

- De quem quer que fosse que pudesse ter estado nos vossos aposentos. - Baldwin acenou com a cabeça; não precisava de perguntar mais. O rosto do mercador corara, mas não de raiva, e agora evitava os olhos de Baldwin. Era bastante claro que Coffyn esperara encontrar alguém lá, e que não estava com vontade de desistir da busca. Fora por isso que deixara lá a maior parte dos seus homens, quando, finalmente, decidiu descobrir o que se passava na casa ao lado. Ele ainda tinha esperança de que eles pudessem apanhar o homem. - Dizei-me, que guarda levastes convosco? Ele pode ter reparado em algo que vos escapou.

Coffyn encolheu os ombros e berrou:

- William! Vem cá por um minuto.

O guarda da porta apareceu passados alguns instantes. Havia nele qualquer coisa de perturbador, qualquer coisa que raspava, e o cavaleiro tentou isolar o que pudesse ser. Na generalidade, o homem tinha um aspecto alegre e calmo, um comportamento tranquilo e uma atitude descansada: ainda tinha os polegares enfiados no cinto. A sua boca estava fixa num meio sorriso perpétuo, mas não havia nele nada de sarcástico; aquele sorriso fazia-o apenas parecer que sabia que conhecer alguém novo devia ser interessante e gratificante. Também os seus olhos pareciam francos e alegres, com pequenos pés-de-galinha aos cantos, como se estivesse preparado para, num instante, desatar a rir. Ficava-se com a sensação de que ele seria boa companhia em frente de um jarro de cerveja.

Mas ainda havia nele aquela sombra de prontidão para agir. Baldwin vivera entre soldados durante a maior parte da sua vida, treinara com eles, vira-os em acção, e este guarda tinha a mesma aura de perigo. Os seus olhos escuros eram quase indiferentes, mas eram também firmes e inteligentes; as suas mãos mal se moviam do cinto, mas isso significava que estavam sempre próximas do cabo da sua adaga; ele estava de pé, à-vontade, as pernas um pouco afastadas, mas estava também concentrado, como que preparado para repelir um ataque a qualquer momento.

- Penso que ontem foste com o teu amo à casa ao lado e que foi na companhia dele que encontraste o corpo de Godfrey...?

- É verdade, senhor. Fomos lá assim que ouvimos o grito, e encontrámos os três no chão.

- O teu amo depois mandou-te ir ter com o oficial da autoridade e levantar o clamor público?

- Sim, senhor. Ele ficou, para impedir que alguém entrasse e roubasse alguma coisa.

- Alguém entrou? - perguntou Baldwin a Coffyn.

- Só a criada. Quase assim que lá chegámos, ela desceu. Estava demasiado assustada para descer antes, mas quando eu gritei a pedir ajuda, ela entrou rapidamente e ajudou-nos a levar lady Cecily para o seu quarto. William e eu deixámos os dois lá, e foi nessa altura que o mandei ir buscar o oficial da autoridade. Pouco depois disso, o oficial da autoridade chegou e disse que podíamos ir-nos embora.

- Não viste mais ninguém na casa? - perguntou Baldwin, viran-do-se mais uma vez para o soldado.

- Vi apenas as três pessoas no chão e a criada.

- E não havia sinais de alguma coisa mexida ou roubada, tanto quanto viste?

- Não, senhor. Mas eu nunca lá tinha estado antes, por isso como poderia ter reparado?

- Espero que tenhais alguma razão para fazerdes todas estas perguntas, SirBaldwin, porque tenho muito que fazer, e certamente que tendes outras pessoas para interrogar - interrompeu Coffyn num tom irritado.

- Há outras pessoas com quem preciso falar, sim - disse Baldwin, levantando-se. - Agradeço a ambos pela vossa ajuda.

- Pelo menos sabeis que ninguém fugiu pela frente da casa; ele deve ter saído pelas traseiras. E parece que ele estava a tentar violar a filha de Godfrey. Isso parece claro.

- Parece? - Baldwin olhou o mercador. Havia uma ansiedade no seu rosto, um olhar quase ávido, como um cão que espera a recompensa depois de ter executado a sua habilidade. Baldwin sentiu pelo homem apenas repulsa.

 

- É mais tarde do que eu pensava - disse Baldwin depois de terem ido buscar os cavalos. Subiu ao estribo e montou, virando o animal para a estrada e partindo a passo lento. Junto ao portão, hesitou, dilacerado pela indecisão. Sabia que deveria ir examinar o corpo novamente, ver se podia falar com a rapariga, Cecily, e, daquilo que ouvira, falar com John de Irelaunde, assim como procurar outros suspeitos, mas não fazia mais nada senão estar sentado na sela a fixar a estrada, perguntando-se o que deveria fazer que fosse melhor.

Esta confusão era uma novidade. Geralmente Baldwin tinha a certeza do caminho que devia seguir, fossem quais fossem as questões que lhe confundissem o caminho. Se ele estivesse envolvido num assunto judicial, conseguia encontrar uma solução lógica; se investigasse um assalto ou um homicídio, conseguia decidir após um adequado curso de inquérito - afinal, a maior parte dos homicídios eram cometidos no calor de uma discussão, e o homicídio premeditado era uma raridade. Mas sempre que ele se dispusera a resolver um crime deste tipo, contara sempre com a ajuda do seu amigo Simon Puttock. Desta vez, Simon não estava por perto, e Baldwin considerava que a ausência dele era um vazio constante e perturbador. O cavaleiro nunca pensara antes que Simon fosse tão essencial para a sua função como servidor do Rei, mas agora que havia um crime grave para resolver, apercebia-se de que precisava do beleguim, não só na sua capacidade de óptimo conselheiro, mas também porque o amigo tinha o dom de pensar em pontos que o cavaleiro, com toda a sua educação e experiência, jamais teria considerado.

- Onde estás, velho amigo? - murmurou Baldwin.

- Senhor?

- Nada. Vamos comer alguma coisa antes de visitarmos a rapariga.

Thomas Rodde estava sentado a descansar encostado a um carvalho, perto da extremidade ocidental da cidade, e dormitava. O Sol era quente no seu rosto, a relva espessa da beira da estrada, por baixo dele, era tão macia como a mais fina penugem, e, por uns minutos, ele conseguiu esquecer o horror da sua doença e agarrar-se à recordação do que era a sua vida antes de ter adoecido.

Agora que tinha vinte e nove anos, aqueles dias distantes da sua juventude pareciam estar envoltos num brilho cor-de-rosa. Nada de mau ou de perverso alguma vez pareceu interromper o seu calmo curso. O tempo, tal como ele agora o recordava, era sempre um bálsamo - e quando chovia mesmo a sério, eram sempre aguaceiros suaves, e nunca gotas duras e amargas que parecia que tinham sido congeladas antes de caírem.

Estas reflexões fizeram-no esboçar um leve sorriso, os olhos ainda fechados contra o brilho do Sol. Sabia, logicamente, que a chuva, às vezes, fora amargamente fria, tal como sabia que vira trovoadas, sofrera ventos cortantes enquanto montava o Inverno inteiro, e, mais do que uma vez, sentira-se gelado até aos ossos, quando, em tempestades de neve, não tinha abrigo - no entanto, era difícil recordar tudo isso agora. Era como se a sua memória estivesse dividida em duas partes: uma antes da sua doença, a vida feliz, e a outra depois, a morte em vida. Tudo o que aconteceu nos seus primeiros anos de vida foi esplêndido: era como se a sua infância fosse um sonho perfeito em que até os elementos tinham conspirado para assegurar que as suas recordações eram maravilhosas - e agora, desde que contraíra lepra, toda a sua existência fora aviltada.

Sempre que Thomas pensava no Inverno, eram as planícies desoladas dos pântanos do Norte que lhe vinham à mente. O tormento - de estar constantemente húmido; de ter a chuva a fustigar-lhe o rosto, empurrada por um vento tão frio que lhe gelava o sangue nas veias; de caminhar através de poças de água e de arroios que podiam ter sido constituídos por puro gelo líquido, que lhe perpassava num instante os sapatos baratos; a dor que sentia quando os pés, de início, arrefeciam, para se tornarem depois vasos de puro fogo antes de perderem toda a sensibilidade, seguida da tortura da recuperação. Muitas vezes parecia-lhe que haveria de estar melhor ficando ao ar livre e deixando que a vida deixasse o seu corpo que gelava. Uma vez tentara fazer isso, permanecendo ao ar livre, à medida que o chão em seu redor endurecia e a respiração se lhe transformava em nevoeiro à frente dos olhos. Mas a sua vontade de viver estava profundamente enraizada na sua alma, e ele regressara, meio contrariado, para a protecção da fogueira da leprosaria.

Isso era tudo o que Thomas Rodde conseguia recordar dos baldios gelados de Nortúmbria. Detestara o clima, a terra e as pessoas. Fora um refugio em vários sentidos, um local onde podia esconder-se, longe do desgosto que via nos olhos dos amigos e da família, mas, como qualquer local de santuário, não era nenhum substituto da sua casa, especialmente quando a sua leve antipatia pela zona se transformou em feroz repugnância.

Isso era, em parte, devido à aparente lentidão da sua doença. A brusquidão com que surgira fora difícil de aceitar, mas se ele tivesse continuado a deslizar a passo firme para a morte, teria conseguido enfrentar o seu fardo. Não teve essa satisfação. Por qualquer razão, enquanto permanecera no Norte, ele gozara de um período de acalmia, e isso deixara-o a acalentar uma perversa e amarga fúria contra Deus. Thomas poderia ter suportado as provações da morte, mas saber que tinha de ficar afastado do contacto com a sociedade, que estava excluído de todas as actividades e de todos os prazeres que tornavam a vida tolerável, ao mesmo tempo que permanecia suficientemente em forma de corpo e alma, era insuportável.

Ficara lá durante seis anos, seis longos e intoleráveis anos, a viver naquela comunidade fechada de leprosos, a observar os outros a sofrerem, a tornarem-se horrivelmente desfigurados, a morrerem. E, por fim, foi forçado a partir. Os escoceses passaram a fronteira em torrentes, numa das suas incursões periódicas, e o pequeno refúgio dele foi destruído. Não havia nada que o segurasse lá. Para ele, até o próprio ar era desagradável, o clima era pior, e, gradualmente, Thomas encaminhara-se para Sul.

E agora era quase possível esquecer uma parte da dor e do sofrimento. Abriu os olhos e olhou para cima, para o céu azul-violáceo, desfrutando de um momento de serenidade. A árvore por cima dele era sólida e imóvel, havia no ar uma fragrância de tomilho e alho silvestre, e o seu contentamento foi realçado por um pequeno pássaro que se encontrava no alto, por cima da sua cabeça, e que cantava num tom claro e líquido. Voltando a fechar os olhos, ele pôde imaginar-se de volta aos campos da sua velha casa natal, nas terras planas de Step-ney, no condado de Middlesex.

As suas deambulações mentais foram subitamente interrompidas.

- Thomas? Estás acordado? Suspirando, Rodde endireitou-se lentamente.

- Viva, Edmund.

Quivil estava cansado, Rodde bem via. Tinha o rosto pálido da falta de sono, os olhos vazios e orlados de vermelho. Rodde ouvira-o de noite a praguejar e a murmurar para si próprio. Era irritante. Desde a cerimónia de iniciação abortada, Rodde e ele partilhavam uma cabana, por isso, quando Quivil não conseguia dormir, muitas vezes Rodde também não conseguia. Mas era impossível para Rodde falar-lhe com brusqui-dão. Talvez porque a incompreensão que Quivil manifestava em relação à injustiça da sua doença fosse tão semelhante à sua. Fosse qual fosse a razão, Rodde deu consigo a confortar o filho do agricultor, e, em troca, Quivil parecia olhar para ele com uma devoção quase servil.

- Pareces precisar mais de descanso do que eu - observou Rodde.

- Não dormi bem.

- Não. - Não era necessário mais nenhum comentário. Todos os leprosos sabiam como a depressão vinha com força redobrada com o chegar da noite, especialmente para aqueles que tinham sido recentemente depositados na estrumeira humana que era o hospital. A voz de Rodde era solidária. - O que queres?

- Vou à cidade recolher comida da igreja - disse Edmund, acenando em direcção ao seu pequeno carro de mão. - Ajudas-me?

Rodde levantou-se. Embora Quivil não tivesse dito tanto, Rodde sabia que o rapaz estava desesperado por arranjar companhia.

- Eu vou.

A aia estava mais silenciosa, agora que os habitantes da cidade estavam sentados nas suas casas a tomarem a sua refeição do meio-dia de bons tabuleiros de pão ou de malgas de madeira. Com os olhos do espírito, Rodde podia imaginá-los: confortáveis e prósperos comerciantes com as esposas e criados à sua volta, os filhos a correrem e a brincarem entre os juncos do chão, as fogueiras a brilharem e a acrescentarem o ar pesado, à medida que uns criados serviam estufados, outros cortavam pedaços de pão, e outros ainda enchiam canecas e taças, e, em redor, havia cães sentados a coçar-se ou a espera, observando, esperançados. E ele sabia que até as casas pobres teriam uma boa caneca de cerveja e um pão para o chefe da casa.

E Thomas ia com Quivil à igreja buscar o que a generosa caridade do responsável pelas esmolas considerasse adequado para eles. Isso fez com que a raiva de Thomas voltasse a crescer, e só com esforço é que ele a reprimiu, recordando a si próprio que as pessoas de Crediton não tinham culpa de que ele tivesse sido atacado por esta doença - fora apenas um desvio do destino: o acaso.

Momentos-depois, encontravam-se ao cimo da rua principal e podiam olhar para baixo, para a ampla via pública. Assim que eles apareciam, caminhando devagar com o pequeno carro de mão, o sino de Rodde a tocar no seu tom triste, a área à frente deles ficava desimpedida. Era tão chocante que Quivil parou por um momento.

Toda a sua vida abominara leprosos, mas agora que fora atacado pela doença, considerava terrível a necessidade que as outras pessoas tinham de evitá-lo, como se ele estivesse condenado. Sentindo Rodde agarrar-lhe o braço, ele voltou a caminhar, a cabeça caída com aversão por si próprio e de repulsa pelas pessoas que o rodeavam.

Uma criança, com os olhos cheios de horror, estava a vê-los aproximar-se, apenas para ser recolhida pela mãe no último minuto, antes que eles se aproximassem demasiado; um pequeno grupo de jovens corria à frente deles, a cantar: "Le-prosos! Le-prosos! Le-prosos malchei-rosos, fedorentos!"

Quivil avançava, evitando os olhos de quem quer que pudesse estar a observá-lo. Estas eram as pessoas com quem ele crescera, e agora detestava pensar que alguém que ele conhecia podia estar a vê-lo.

Não tinha a certeza de que tinha mais medo: expressões de repulsa vindas daqueles a quem ele chamara amigos, ou olhares de pena vindos das mesmas pessoas. Se tivesse escolha, teria fugido e regressado à leprosaria, mas a mão de Rodde continuava a agarrar-lhe o braço, e havia naquele aperto força suficiente para firmar a sua decisão. Prometera a Ralph que iria buscar as esmolas à igreja, e, com a ajuda de Rodde, fá-lo-ia.

Rodde era para ele um apoio - o único que tinha. O desconhecido alto e calado emanava uma calma autoconfiança que era à prova de escárnio de fedelhos e que fortalecia a própria coragem de Quivil.

Ele parecia dizer: "Sou mais forte do que vós. Olhai para mim, se vos atreverdes". O firme toe... toe...toe do seu bordão nas pedras do caminho estava imunizado contra o desdém e a aversão do mundo inteiro. Rodde caminhava como se escarnecesse de todos em seu redor.

Quivil sentia-se apaziguado pela presença do companheiro. Com Rodde a seu lado, sabia que não precisava de recear ninguém - o facto de ele o ter salvo do ataque na sua primeira noite fora prova disso. Quivil fora educado no ambiente simples de um camponês, sabendo que devia obedecer aos desejos do pai e do seu senhor, e às ordens da igreja. No espaço de escassos momentos, tudo isso fora revogado, e agora ele conhecia lealdade apenas para com o seu novo amigo.

Não teria sido tão difícil para ele, se tivesse havido amizades estáveis em que tivesse podido confiar, mas não havia nenhuma. Agora os seus amigos fugiam dele. Tentara falar com o aprendiz do talhante, um rapaz que conhecia desde a infância, cujo rosto ele empurrara para poças de água, que o derrubara quando jogavam à bola e que o obrigara a entrar numa vala cheia de lama, que competira com ele pelo amor das raparigas da terra, à medida ambos cresciam, e com quem ele tomara muitas centenas de canecas de cerveja - e Quivil ficara perturbado quando o seu velho amigo se afastara dele. A última rapariga por cujos encantos eles tinham competido era Mary Cordwainer; essa vitória, que, na altura, fora tão vital, tão crucial para o seu bem-estar, que parecia ter-lhe garantido uma felicidade para toda a vida, era agora desprovida de sentido. Ele jamais lhe poderia tocar, jamais poderia beijá-la, jamais poderia conhecer-lhe o corpo. Todo o futuro dele era estéril, a sua vida completamente sem sentido. Poderia igualmente ter terminado.

Quivil poderia ter chorado perante tal pensamento. Oh, por apenas um beijo - até um sorriso de reconhecimento da parte dela. Até mesmo o simples toque da mão da rapariga lhe acalmaria a alma. E a sua maldição era saber que tal era impossível.

Quando chegaram junto à estalagem, Edmund ouviu cavalos. Levantando o olhar, viu dois homens a cavalgarem em direcção a eles, e afastaram-se automaticamente para um lado. Ele viu que era SirBaldwin e o criado, e esperou que passassem, quando ouviu o cavaleiro puxar as rédeas e dizer..

- Amigos, se alguma vez precisardes de alguma coisa no hospital, dizei ao irmão Ralph que me mande chamar, e eu tentarei ajudar.

Edmund Quivil, lamento que te tenha acontecido isto. Informa-me se houver alguma coisa de que precises.

- Obrigado, senhor. O que poderia pedir-vos um pobre leproso? Baldwin ignorou a petulância da voz dele.

- Eu vou assegurar-me de que os teus pais não tenham falta de ajuda na terra deles, Quivil. Eles vão estar agora sob a minha protecção.

Quivil acenou com a cabeça, ingratamente, e começou novamente a afastar-se. Após uma curta pausa, ouviu o bater de cascos, à medida que o cavaleiro e o criado prosseguiam. A pena que ele sentia era demasiado evidente, e Quivil não queria a pena de ninguém. Queria a cura.

- Quem era? - perguntou Rodde calmamente.

- É o Defensor da Paz do Rei nesta cidade.

Rodde olhou o amigo. Para alguém que acabara de receber uma calorosa expressão de generosidade da parte de um cavaleiro, a sua brusquidão, era, na melhor das hipóteses, ingrata.

- Por que estava ele tão disposto a oferecer a sua ajuda?

- Eu trabalhava para ele. O meu pai é um dos seus rendeiros, tal como eu teria sido, se não tivesse...

Não havia necessidade de continuar, e pouco depois tinham outros assuntos a distraí-los.

A roda do carro de mão guinchava, um pequeno ruído irritante e insistente que ia e vinha, e que atraía mais a atenção para eles; no entanto, houve um grupo que não se virou para olhar, quando eles se aproximavam. Eram os homens e as mulheres que se amontoavam em volta do portão de Godfrey. Todos olhavam fixamente a casa de Godfrey, ignorando-os completamente, e até ninguém reparou no escárnio banal dos rapazes, que mantinham a distância mais à frente.

- Para que estão todos a olhar? - Quivil ouviu Rodde murmurar.

- Leprosos!

Este grito veio de uma jovem criada que, ao entrar na rua, quase que não evitou esbarrar com Rodde. A rapariga estremeceu e puxou o avental para a boca para se proteger das exalações malcheirosas que toda a gente sabia que os leprosos emanavam. Qualquer pessoa que respirasse o ar nocivo que exalavam podia infectar-se. A rapariga afastou-se. O grito foi suficiente para fazer com que a multidão recuasse, e um homem virou a cabeça para eles:

- Fora daqui, escumalha! Afastem-se das pessoas saudáveis!

- Desculpa, Arthur - disse Quivil. - Não queríamos fazer mal.

- Edmund? - perguntou o homem. Era um indivíduo pequeno e pomposo que sempre lembrara a Quivil um galo de combate, empertigando-se e exibindo-se nas proximidades de qualquer mulher, e, invariavelmente, a zurzir alguém que fosse mais fraco do que ele. Agora o homem olhava com atenção, e expirava com uma expressão de repugnância.

- Vá lá, dá meia volta! Não queres que os teus pecados infectem os outros, pois não? Isso seria a mesma coisa que homicídio, e não precisamos de outro.

- Outro quê? - perguntou Rodde.

- Homicídio, leproso. Não soubeste? Foi morto aqui um homem ontem à noite.

Quivil sentiu o aperto no braço tornar-se mais forte. Rodde perguntou com brusquidão:

- Aqui? Queres dizer que Godfrey de London está morto?

Baldwin não pôde deixar de olhar para trás, para a rua que descia, depois de ter desmontado. Um moço de estrebaria apressou-se a tirar-lhe as rédeas do cavalo da mão e a levar o animal para as traseiras da estalagem, onde podia receber comida e água, e ele entregou-as distraidamente.

Voltar a ver Quivil foi um choque. Tinham passado algumas semanas desde aquela terrível cerimónia na igreja, onde o pobre homem fora expulso da sociedade, e, com tantas outras coisas a ocuparem-lhe o tempo, Baldwin não dispensara muitos pensamentos ao filho do camponês da sua propriedade. O facto de ter visto o rapaz tão abatido enquanto as pessoas da cidade o evitavam, dilacerava o coração de Baldwin. Mesmo enquanto estava de pé, a abanar a cabeça, ouviu um assobio, e, em seguida, um grupo de rapazes de rua passou a correr, todos a gritarem insultos aos leprosos. Dominado por uma raiva súbita, Baldwin berrou-lhes para que se calassem, e eles apressaram-se a fugir, alguns de boca aberta de medo, mas outros a sorrirem. Para eles era apenas divertido, lembrou Baldwin a si próprio. Só aqueles que eram aptos, saudáveis e fortes estavam seguros neste país. Esta reflexão fê-lo suspirar, e virou-se para entrar na estalagem com um peso no coração, que não foi aliviado pelo pensamento de que ainda não decidira como prosseguir com a sua investigação.

Mas, assim que entrou no salão e ouviu os risos, a sua disposição alterou-se.

- Jeanne! - Aaa... e Margaret e Simon! Sede bem-vindos, todos vós, estou encantado por vos ver aqui!

John de Irelaunde fechou o portão e saltou para a sua carroça, gemendo de alívio quando se encontrava sentado na sua tábua, em segurança. Atirando a perna doente à frente do corpo para que pousasse em cima da tábua para os pés, deu um estalido com a língua e deitou a mão às rédeas.

Isso, pelo menos, era um problema que ele não tinha de considerar, pensava, enquanto a carroça rangia e chiava pelo caminho, em direcção à estrada principal de Crediton para Tedbum. O saco estava escondido em segurança no alpendre do moinho. O velho Sam, o moleiro, arrendara-o a John alguns meses antes, e agora, aos olhos do irlandês, parecia enviado por Deus, perfeito para o objectivo de esconder aquelas coisas com que o Defensor da Paz do Rei não devia preocupar-se.

À medida que o cavalo se inclinava para a frente, ao chegar às marcas de lama endurecida, para puxar a carroça colina acima, em direcção ao centro da cidade, John estremecia a cada salto e a cada pancada. Havia demasiados sulcos e buracos nesta estrada - era sempre tão movimentada com o trânsito que vinha de Exeter. Cada salto e cada pancada fazia com o tornozelo lhe embatesse contra a tábua de madeira para colocar os pés. John estava contente por a estrada estar a começar a ser arranjada. Agora parecia que estava apenas muito pisada.

Na cidade, ele depressa viu a multidão à espera junto ao portão de Godfrey. Alguns homens estavam a discutir com Tanner, sem dúvida a tentarem ganhar acesso ao salão para verem o corpo, mas Tanner estava determinado. Ninguém entraria enquanto o Defensor da Paz não lhe dissesse que o podiam fazer, e não importava quanto dinheiro oferecessem. John desviou o olhar para evitar ser levado para alguma discussão, mas perguntou-se, de facto, se poderia haver potencial nesta última viragem: talvez ele pudesse oferecer às pessoas oportunidade de entrarem saltando o muro de Godfrey a partir do seu pátio - em troca de uma pequena quantia, é claro. O delicioso projecto manteve-o a especular enquanto continuava a subir a colina.

No seu pátio, ele coxeou para o portão e abriu-o, conduzindo o cavalo para o interior, mas, quando se virou para fechar o portão, viu uma figura que se deslocava timidamente entrar no pátio atrás dele.

- O quê queres? - resmungou John, irritado.

- Eu, John? - perguntou Putthe astutamente, os olhos a percorrerem todo o pátio, como se procurasse a baixela que desaparecera.

- Só quero dar-te uma pequena ajuda - isto é, se me permitires.

 

Enquanto entrava, Baldwin acenou à criada que se encontrava mais próxima, o rosto a sorrir-lhe como prova do prazer que sentia. O salão era grande, com mesas espalhadas aleatoriamente pelo chão, e Baldwin e o criado foram forçados a dar uma volta em círculo até chegarem àquela em que os seus amigos estavam sentados.

Já tinham passado mais de seis meses desde que Baldwin vira Simon Puttock, o beleguim de Lydford, e mais tempo desde que encontrara a esposa de Simon, Margaret, mas nenhum deles ficou admirado quando o cavaleiro lhes ofereceu apenas uma saudação superficial. Ambos sabiam que havia doze meses que ele não falava com Jeanne de Liddinstone, ou seja, desde o caso dos homicídios na Feira de Tavis-tock.

Jeanne não mudara nesse espaço de tempo, e, para Baldwin, era bonita. Era alta e bem constituída, com pernas compridas e uma figura esbelta. O rosto era regular, com uma boca larga cujo lábio superior era um pouco carnudo de mais, conferindo-lhe um ar ligeiramente teimoso, mas o nariz dava a impressão contrária, sendo ambos pequenos e levemente arrebitados. Mas o mais importante para Baldwin eram os olhos dela: brilhantes e azuis-claros, inteligentes, e, quase sempre, sorridentes.

Usava uma longa capa de montar debruada a pele cinzenta, por cima de uma túnica azul-escura com flores bordadas na bainha e na gola. Na cabeça tinha um simples toucado, que dava ao cavaleiro um vislumbre torturante do cabelo louro-arruivado entrançado e preso por baixo. Ele pegou-lhe na mão e inclinou-se, e ela retribuiu-lhe com uma vénia trocista.

- Basta assim, Sir Baldwin? Doem-me os ossos todos depois de ter andado a cavalo todo o caminho até chegar aqui, e forçais-me a inclinar-me perante vós?

- Minha senhora, por favor... Quer dizer, por favor, deixai-vos estar sentada - disse ele, perturbado por poder ter causado ofensa.

Para Edgar, a cena estava impregnada de algo mais do que uma ténue sensação de déjà vu. Ele sabia que o amo tinha cortejado esta mulher quando se tinham encontrado pela última vez, e tinha conseguido apenas um êxito moderado. Na opinião de Edgar, foi, em larga escala, devido ao nervosismo e à ansiedade do cavaleiro para não magoar os sentimentos da senhora que ele não a conquistara. Agora ele via-a sorrir a Baldwin mais generosamente, e, para seu alívio, o seu amo relaxou ligeiramente e sentou-se com ela.

- Então, Baldwin, devemos partir imediatamente? - o tom de Margaret era de brincadeira, mas havia um fundo de aspereza.

- Minha senhora, estou confuso e ofuscado pela beleza de duas mulheres tão perfeitas. Como poderia um pobre cavaleiro como eu alguma vez sonhar em ser honrado com a presença de vós ambas ao mesmo tempo? É como se o próprio Sol tivesse caído nesta sala. Sinto-me tão completamente...

- Está bem, Baldwin - apressou-se Simon a interrompê-lo. -Já satisfizeste a avidez destas duas por elogios - agora, se não te importas, eu gostaria de tomar uma boa taça de vinho forte para limpar o sabor de todo o pó que engoli na viagem para cá!

- Já está pedido, penso eu - disse Baldwin, espreitando por cima do ombro do amigo em direcção à despensa. - Edgar, vê se podes apressá-los, está bem? Penso que hoje também celebrarei com vinho.

De boa vontade, Edgar afastou-se, pois esta era a estalagem onde a sua Cristine servia, e ele tinha esperança de a poder ter por sua conta durante uns minutos.

Foi Margaret que quebrou o curto silêncio.

- E como estão as coisas em Crediton?

As palavras dela fizeram com que Baldwin estremecesse. O cavaleiro estivera a observar Jeanne e a perguntar-se quando é que poderia falar com ela em privado, mas Margaret, sem saber, lembrara-o do corpo de Godfrey.

- Nada bem, receio. Houve um homicídio.

Simon debrúçou-se imediatamente sobre a mesa. Era um homem de cerca de trinta e cinco anos, forte e robusto, de cabelo castanho, ligeiramente grisalho. Quatro anos antes, fora um beleguim jovem e ambicioso a subir na vida; nessa altura o seu rosto não apresentava rugas, mas, desde a morte do filho pequeno, Peterkin, no ano anterior, perdera uma grande parte da sua aura de juventude. Agora exibia pregas profundas na testa, como as cicatrizes da batalha da vida.

O beleguim esperou enquanto Cristine distribuiu taças de vinho e regressou rapidamente-à despensa, e em seguida levantou a cabeça num gesto de interesse:

- Vá, conta-nos tudo.

Baldwin não precisou de muito tempo para descrever a cena que encontrara na noite anterior, nem para resumir os testemunhos oferecidos pelo criado e pela primeira pessoa a encontrar o corpo.

Quando terminou, Simon tomou um longo gole de vinho e sugou os dentes pensativamente.

- Então ainda não fizeste muita coisa. Falaste apenas com um vizinho e com um criado ferido. Ainda há esse outro vizinho... quem é ele? Alguém que eu conheça?

Baldwin sorriu. Simon vivera em Crediton e nos arredores durante muitos anos, antes de se mudar para Lydford quando tomou posse do seu novo cargo.

- Foi Irelaunde.

- Esse pequeno sacana!

- Simon!

- O que é, Meg? Oh - perdoai, Jeanne. Mas, por amor de Deus, Baldwin, se ele vive perto, é a primeira pessoa que deves interrogar. Bem sabes que tipo de homem ele é!

Baldwin recostou-se com um sorriso beatífico.

- É um alívio maravilhoso ter-te aqui, Simon. Até agora ainda não me tinha apercebido do quanto confiava na tua opinião e no teu racionalismo. Eu andava de um lado para o outro, desorientado, sem pensar no crime em si.

- Então vais visitá-lo imediatamente?

- Não. Vou falar com a filha do homem. Acabaste de me dizer como pensam todas as pessoas que aqui moram, e é melhor eu deitar a mão ao verdadeiro assassino antes que algum louco decida fazer justiça pelas suas próprias mãos e linche o homem errado!

Simon soltou uma curta gargalhada. Sabia que tinha muitas vezes tendência a tirar conclusões precipitadas, e, na generalidade, estava contente com essa característica. No essencial, enquanto trabalhava na charneca, resolvendo disputas entre mineiros e proprietários de terras, era uma capacidade útil ser capaz de ver quem era o mais provável culpado, ou quem era responsável. Em questões simples, como, por exemplo, quem devia ser autorizado a alterar o curso de um regato, ou se um rendeiro tinha direitos sobre a pastagem de um determinado terreno, não se exigia muita análise. Era mais uma questão de aplicar o senso comum e de manter uma atitude de honestidade. Para isso, a rápida intuição de Simon poupava, frequentemente, muito tempo.

- Estou contente por estares aqui, Simon - continuou Baldwin, num tom mais sério, e Simon sentiu que o seu sorriso se alargava. As palavras do cavaleiro carregavam demasiada sinceridade para que ele pudesse ser posto em causa.

- Então quando é que ides falar com essa rapariga? - perguntou Jeanne. - Há tempo para chegarmos a vossa casa primeiro?

- Com vossa permissão, minha senhora, vou enviar-vos com o meu criado. Simon, trouxeste Hugh contigo? - O beleguim acenou com a cabeça. - Nesse caso, Jeanne, tereis dois bons homens para vos proteger no caminho.

- Jeanne tem melhor protecção do que pensas, Baldwin - disse Margaret, bem-disposta.

O cavaleiro lançou-lhe um olhar confuso, mas não teve tempo para perguntar o que ela queria dizer com aquilo, pois ouviu-se uma agitação súbita vinda da despensa. Resmungando entredentes, Baldwin levantou-se, mas antes que pudesse descobrir a causa, a causa descobriu-o a ele.

Edgar surgiu da entrada, o braço em volta da cintura de Cristine, olhando a porta com um sorriso de puro regozijo. Fez-se um breve silêncio, depois Baldwin viu, surpreendido, o criado de Simon, Hugh, a sair precipitadamente, escorregando numa porção de juncos húmidos e estatelando-se no chão. Hugh sentou-se, esfregando um cotovelo esfolado e mostrando um semblante carregado, ao mesmo tempo que uma forma volumosa enchia a entrada.

- Já disse que bebeste o suficiente! - explodiu a forma. - Isso quer dizer que não vais tomar mais cerveja. Não vou permitir que um bêbedo escolte a minha senhora.

- Baldwin - disse Jeanne com voz doce -, a minha criada não foi comigo para Tavistock, por isso não a conheces, pois não? Esta é Emma.

Ralph atravessou o pequeno pátio em direcção à capela, e parou à entrada, passando a mão pela testa. Passara a noite anterior sentado à cabeceira de um dos internados mais velhos, enquanto ele desaparecia lentamente, falecendo pouco antes do romper da aurora. O monge suspirou. Era uma tarefa difícil, aquela que ele aceitara. A única certeza era a de que o seu rebanho diminuiria mais depressa do que qualquer outro.

Abrindo a porta, entrou, e estava prestes a pegar na vassoura quando ouviu as vassouradas regulares. O som trouxe-lhe aos lábios um sorriso cansado.

- Mary?

- Oh, irmão Ralph, não vos deixei preocupado, espero...

Ele via-lhe agora o rosto, vagamente ansioso, como se o facto de ela ter começado a limpar pudesse ser interpretado como um insulto à sua própria limpeza.

- Não, minha cara. Não, estou muito feliz por me ajudardes, mas... Certamente que tendes outras coisas para fazer...

- Não, meu senhor - disse ela, encostando-se ao cabo da vassoura e falando com uma certeza calma. - Quero ajudar os homens que aqui estão.

- Mary, sois jovem. Encontrareis outro homem com quem casar. Não está certo ficardes aqui, no meio de toda esta doença.

- Sei que o meu homem sempre foi uma alma boa. Era minha intenção casar com ele, e, se não posso, não casarei de todo. De qualquer forma, posso ser mais útil aqui, a trabalhar para vós, para os vossos leprosos, e para a minha alma, do que se me tornasse esposa de um agricultor. Não, eu estava preparada para casar com Edmund Qui-vil, e se ele vai morrer, pelo menos posso fazer com que ele morra sem pesos no coração. Ele saberá que sempre lhe fui fiel.

Ralph estava sentado num banco, e fez-lhe sinal para que ela o imitasse.

- Mas talvez a vossa presença não seja assim tão benéfica...

- O que quereis dizer, senhor?

- Bem, compreendeis, ele pode ver-vos aqui todos os dias, e isso deve ser inquietante para ele. Quivil ia casar-se convosco, como dizeis. Se ele vos amar, como se sentiria sabendo que estais aqui com todos os outros leprosos? - Ralph levantou uma mão para impedir que ela o interrompesse. - A vossa presença aqui, perto dele, deve ser sempre uma dolorosa tentação.

Neste ponto, ela riu.

- Oh, irmão! Pensais que ele poderia violar-me? O meu Edmund?

- Podeis ter dificuldade em acreditar, mas têm acontecido coisas piores a mulheres jovens em leprosarias. E mesmo que ele não o faça, não pensais que pode ser cruel lembrá-lo daquilo de que ele tem saudades?

- Como deixar o touro ver as bezerras, mas mantê-lo preso?

- Bem, aaa... sim. Mais ou menos isso.

- Suponho que é possível. Mas penso que o meu Edmund preferiria ver-me aqui e saber que me preocupo com ele a perguntar-se o que eu estaria a fazer lá fora. E se já ouvistes os rumores, não quero saber do que as pessoas dizem!

A última afirmação foi dita com uma paixão súbita, e Ralph acenou lentamente com a cabeça.

- As pessoas da cidade podem ser muito cruéis, mas tentai perdoá-las. Elas não compreendem, tudo o que sabem é que estão assustadas com a doença que temos aqui.

- Dizerem que não sou melhor do que uma prostituta!- declarou ela calorosamente. - Deviam ter juízo.

- Bem - suspirou ele -, algumas pessoas pouco sensatas acreditam que a lepra é um mal trazido pelo desejo. Pensam que é transmitida pelas relações íntimas, e que, por isso, os leprosos são especialmente libidinosos.

- Vós não pensais assim?

- Não, Mary, e mesmo que fossem, isso não se reflectiria em vós. Penso que as pessoas que estão ao meu cuidado estão preocupadas com coisas mais importantes do que a fornicação. Têm os olhos firmemente fixos no futuro, ou na forma como os seus pobres corpos torturados serão comidos e destruídos pela doença. De qualquer maneira, não acredito que a lepra seja sexualmente transmissível. É uma dádiva de Deus, e os que dela sofrem deviam sentir-se honrados. Concordo com S. Hugh de Lincoln, quando diz que, quanto mais desfigurados são, quanto mais sofrem aqui na terra, tanto mais as suas almas brilharão no Céu. A doença foi-lhes enviada para que nos ensinassem a todos como seremos atormentados de dor no Purgatório. O Purgatório deles é aqui e agora! , - Sim, irmão. Mas, se é uma dádiva de Deus, talvez Ele tencione honrar-me a mim também.

- Não devemos nunca ousar pedir tais coisas a Deus - disse ele num tom sentencioso. - Seja o que for que Ele decida para vós, deveis aceitá-lo.

- Mas não pode estar errado eu querer ajudar a cuidar dos Seus próprios eleitos.

- Não - disse ele com alguma dúvida. Sabia que se considerava que as mulheres eram capazes de cuidar de outros em determinadas circunstâncias. - Só que eu acho que devíeis pensar em começar uma nova vida sem Quivil. Ele agora está perdido para vós.

- É certo que está, mas isso não é razão para eu não vos ajudar, pois não? Especialmente porque ao fazê-lo estarei a ajudar aqueles que Deus, Ele próprio, escolheu para serem um sinal para todos nós.

- Bem... suponho que assim é.

- Nesse caso, é melhor eu continuar a varrer.

Ralph observou-a a avançar pela pequena nave lateral, oscilando ritmicamente à medida que movia a vassoura. Era a imagem de uma jovem camponesa rude e ignorante, com o corpo pesado e as mãos ásperas e sujas, e, no entanto, demonstrava mais generosidade de espírito e amabilidade do que muitos dos seus próprios irmãos padres. O pensamento fê-lo suspirar, mas trouxe-lhe também uma centelha de satisfação. Caminhou em frente e inclinou-se perante ao altar, oferecendo uma curta oração por ela e pelo amado condenado, antes de deixar a capela. Podia igualmente ir tratar de amortalhar o corpo do leproso falecido.

Afinal, pensou, que mal poderia advir de deixar Mary trabalhar na leprosaria?

- Meu Deus, Simon! - indignou-se Baldwin. - Como é que Jeanne pôde aliar-se àquilo?

- Não pode ter sido culpa dela. Ela deve ter-se afeiçoado à mulher desde tenra idade - disse Simon.

Estavam de pé à entrada da estalagem e observavam a pequena cavalgada desaparecer rua abaixo. Edgar ia à frente, Hugh na retaguarda com a besta de carga. Embora não deixasse de se virar para trás para lançar olhares suplicantes ao amo, Edgar teria preferido ficar. Baldwin não podia acusá-lo.

- A mulher é uma ursa, Simon, um animal louco e voraz! Como é que uma criatura frágil como Jeanne suporta viver com uma coisa assim?

Enquanto seguiam ao longo da estrada em direcção à casa de Godfrey, Simon riu.

- Ela não é tão má como parece, Baldwin. Até sabe dizer piadas.

- Piadas? Bem que até pode, mas não do tipo que eu quereria que um soldado ouvisse! E viste as verrugas que ela tem no queixo? E os braços dela são mais musculosos do que os meus, juro.

- Baldwin, não podes negar que ela é eminentemente capaz de proteger a sua senhora, pois não?

Aí, concordou Baldwin em silêncio, é que residia toda a questão. Com uma guarda tão terrível como Emma, seria muito difícil para ele apanhar Jeanne sozinha, a julgar pela exibição com Hugh. Ele não tinha qualquer objecção a que Jeanne estivesse protegida contra salteadores e malfeitores, mas isso era muito diferente de ela ser cuidadosamente mantida afastada dele pela criada. E ele não tinha qualquer dúvida de que Emma seria a mais decidida das guardiãs. Ele vira-o nos olhos dela quando lhe fora apresentada - olhos frios e astutos que pareciam ler-lhe os pensamentos com uma facilidade assustadora. Eram olhos castanhos, pequenos, mas sem nenhuma daquela suave maciez apática que Baldwin sempre associara à cor. Os de Emma eram duros e zangados, como os de um pequeno porco.

O resto da figura dela confirmava a analogia. Era baixa, mas com uma estrutura forte que a fazia parecer quase perfeitamente redonda. Carregava o peito como um género de apoio de armadura - ou talvez como a muralha de um castelo, emendou Baldwin, recordando a pavorosa imensidão do peito dela. Um exército, sentiu ele, podia sucumbir contra um obstáculo tão vasto.

Ao ver Baldwin tão concentrado, Simon riu.

- Esquece-a. Tens um homicídio para resolver. Por isso diz-me, quem é que vamos visitar agora?

- A filha do homem que foi assassinado. O nome dela é Cecily, e foi encontrada na mesma sala que o cadáver do pai. Foi agredida e ficou sem sentidos.

Pouco depois encontravam-se na casa. Era óbvio que a maior parte dos habitantes da cidade aceitara o facto de que Tanner não ia ser subornado e deixá-los ver o cadáver nem o local em que Godfrey foi assassinado, e tinham-se ido embora para se dedicarem aos seus afazeres.

Tanner afastou-se para os deixar entrar, e Simon foi à frente, mas não antes de Baldwin ter visto os homens bem lá atrás, quase na rua em frente. Isso fê-lo franzir o sobrolho por um momento, ver os leprosos ali, mas depois encolheu os ombros. Por que motivo deveria ele supor que os leprosos, por mera virtude da sua doença, não deveriam interessar-se pelo destino dos outros? Sabia que os homens idosos gostavam sempre de ouvir falar da morte dos seus iguais, ou dos mais jovens do que eles. Havia um ávido fascínio pela morte entre aqueles que provavelmente a experimentariam por si próprios num futuro próximo, e certamente que os leprosos entravam nessa categoria.

Contudo, quando olhou por cima do ombro, ficou surpreendido ao ver o entusiasmo com que uma das figuras andrajosas seguia o seu progresso em direcção à porta. Era o homem novo, aquele que ele vira antes com Quivil, e Baldwin fez um registo mental, para, quando tivesse oportunidade, não se esquecer de perguntar ao responsável pelos leprosos quem era o desconhecido.

A porta estava aberta, e logo a seguir, sentado num banco de onde podia ver tanto a porta da frente como a das traseiras, encontrava-se um guarda. Levantou-se e acenou com a cabeça a Baldwin, deixando passar ambos para o salão propriamente dito.

- Hiii...! Podias ter-me avisado, Baldwin!

- Estás enjoado, Simon? Pensei que te terias curado disso depois de investigares tantos homicídios.

- Uma coisa é uma pessoa habituar-se a ver homens mortos, outra muito diferente é ser-se subitamente confrontado com um cadáver, especialmente quando o fedor é tão forte!

O cavaleiro teve de concordar com isso. Alguém estivera lá dentro e pusera lenha no fogo, e, com a sala fechada, o ar estava pesado com o cheiro adocicado da morte. À medida que ele se aproximava do corpo, fez uma careta. O crânio esmagado já estava a alimentar as moscas. Afastando-as com as mãos o melhor que podia, acocorou-se para repetir a investigação da noite anterior.

Godfrey já não era um homem jovem, certamente com mais de cinquenta anos, e tinha o cabelo fino e grisalho. A julgar pelo tamanho da área ferida, uma conclusão parecia óbvia.

- Ele não pode ter-se apercebido de nada. - Algo captava a atenção de Baldwin enquanto falava. O nariz do homem estava arranhado, e, quando Baldwin olhou mais de perto, viu-lhe uma série de marcas curtas mas profundas no queixo, e outras no malar esquerdo. O ferimento na parte de trás da cabeça era do lado direito, um pouco acima do ponto em que a cabeça se juntava ao pescoço. - Sim, podemos ter a certeza de que, assim que foi atingido por este golpe, ele morreu - disse, pensativo.

- Óptimo - diverte-te, e eu vou respirar um pouco de ar puro, enquanto tu continuas.

Simon, se bem o disse, melhor o fez, e dirigiu-se à janela mais próxima, aquela em direcção à qual o corpo apontava. Pouco depois já tinha as venezianas abertas e respirava em tiradas profundas e satisfatórias. Havia algo na ansiedade com que Baldwin examinava as vítimas de morte violenta que sempre repugnara o beleguim. Ele tinha um prazer um pouco exagerado no seu trabalho. Hoje não era excepção. Neste exacto momento, Baldwin virava o corpo para um lado e para o outro à procura de mais ferimentos, abrindo a camisa do morto e examinando o tronco, sentindo a carne gelada à procura do início do rigor mor-tis, antes de forçar os lábios a abrirem-se para olhar para o interior da boca.

Simon desviou o olhar. Aquilo era demasiado mórbido para seu gosto. Quando um corpo estava morto, isso era o fim dele, tanto quanto lhe parecia. Os interesses de Simon encontravam-se nos motivos das pessoas para matar, e isso implicava interrogar todos os envolvidos; a convicção de Baldwin era de que qualquer corpo podia dizer como morreu, e isso podia fornecer pistas de quem foi o atacante. Era uma opinião cuja demonstração Simon vira bastantes vezes para não discutir o facto, mas sentia uma enorme gratidão por Baldwin estar sempre interessado em executar essa parte da investigação e não solicitar a ajuda de Simon. De facto, este sabia perfeitamente que o seu amigo estava contente por ficar sozinho a estudar possíveis pistas.

A janela era bastante baixa. Esta casa não fora concebida com objectivos de defesa, como tantas outras. De onde se encontrava, Simon podia ver o pátio dos estábulos à sua esquerda. Em frente estava a extremidade da parede da cozinha, que se estendia para a direita, até ao muro que separava a casa de Godfrey da de Coffyn.

Se alguém tentasse assaltar a casa, não tentaria fugir por nenhuma das janelas da frente. Certamente que só um louco fugiria por uma rua movimentada - mas, então, muitos criminosos eram loucos, lembrou a si próprio. Os homens inteligentes raramente recorriam ao crime. Mas se fosse esse o caso, e se fora roubada uma parte da baixela, então a melhor rota de fuga era pelas traseiras, e talvez saltando um dos muros.

A ideia conquistou-lhe a imaginação. Daquilo que Baldwin dissera, Godfrey gritara a alguém que tentava violar-lhe a filha. Isso implicava que o assaltante estava à janela. Por que outro motivo teria Godfrey tentado atravessar para esta janela? No entanto, se o ladrão se encontrava no interior, e Godfrey pensasse que ele estava a tentar violar ou fazer mal à filha, significaria isso que o homem levara a baixela com o consentimento da rapariga? Ou será que ele a colocou inconsciente e depois tirou a baixela - e, nesse caso, que diabo quereria Godfrey dizer quando gritara: "Com que então estás disposto a conspurcar também a minha filha, não é verdade?”

- Baldwin - disse ele -, diz-me outra vez onde é que os três corpos estavam.

- Hmm? Godfrey estava aqui, como vês. O braço levantado, como se tivesse sido morto instantaneamente pelo golpe que o atingiu na cabeça. Penso que essa hipótese é muito provável - o sangue corria livremente, como seria de esperar, e embora houvesse uma leve mancha debaixo do braço dele, o principal fluxo de sangue seguia a linha do braço. Mas este outro braço é interessante. E muito!

- Vá lá, diz-me onde estavam os corpos.

- Estás a ver, os nós dos dedos dele foram raspados, como se ele tivesse conseguido esmurrar um dos homens antes de ser morto.

- Isso não é admiração.

- Não, mas pelo menos sabemos que um dos atacantes pode ter sido ferido. Pode ajudar. Oh, muito bem, Simon, não te incomodes! O criado estava ali, mais perto da porta, como se fosse ter com o amo ou com Cecily.

- E a rapariga?

- Estava aqui - disse o cavaleiro, levantando-se com um gemido e um estalar de ossos. - Aqui, disse Tanner, entre o corpo e a janela. Porquê?

- Pergunto-me o que teria ela vestido?

- Simon, de que estás a falar? - perguntou Baldwin.

Em resposta, o beleguim apontou. Ao lado da janela, onde a veneziana se juntava à parede, a madeira estava lascada, e, na lasca estava preso um pedaço de tecido azul rasgado.

- E depois? Qualquer pessoa podia ter rasgado a túnica nisso - disse Baldwin, desinteressado.

- É verdade - concordou Simon, puxando-o com cuidado. - Mas parece muito recente. O tecido não está aqui há muito tempo - se estivesse, teria desbotado. Esta janela está virada para Sul, apanha Sol todo o dia, mas este tecido mantém a sua cor viva.

Baldwin inclinou a cabeça para um lado, olhando o amigo. Tirou-lhe o pedaço de tecido e virou-o na sua própria mão.

- De facto, parece novo - admitiu. - Pergunto-me se será de Cecily ou do ladrão.

- Vamos perguntar-lhe a ela.

 

O guarda foi buscar uma criada, uma jovem bonita de cabelo escuro e solto que se chamava Alison, e que era, disseram-lhes, criada da senhora Cecily. Ela levou-os de regresso pelo salão, para uma sala de estar aquecida. Aqui a criada disse-lhes que esperassem, e saiu. Alguns minutos depois, Cecily estava junto deles.

Simon atribuiu-lhe uns vinte e cinco anos de idade, talvez um pouco mais, mas ela tinha a graça natural e a elegância de uma mulher muito mais velha. Entrou suavemente, parecendo pairar por cima do chão. O beleguim não pôde deixar de a comparar à górgona que acompanhava Jeanne de Liddinstone. Emma e Cecily tinham mais ou menos a mesma altura, mas a semelhança terminava aí. Cecily tinha olhos grandes e luminosos de uma tonalidade de azul particularmente intensa, e uma tez fina e pálida que parecia quase transparente. As suas feições eram ovais e regulares, e havia uma agradável regularidade nos malares altos, na boca pequena e nas sobrancelhas delicadamente arqueadas.

Mas não foi nisso que Baldwin reparou nela. Foi a tristeza dela que o tocou. A testa alta não devia ter rugas numa mulher nascida num berço rico, mas as rugas atravessavam-lhe cruelmente a testa como cicatrizes paralelas, as faces eram chupadas, os lábios inchados e ensanguentados de terem sido esmurrados, os olhos tinham uma auréola vermelha da insónia e do choro. Todo o comportamento dela era o de um cachorro agredido, desgastado devido ao constante abuso, e a equimose cor-de-rosa claro e cor de malva que lhe marcava o queixo e a face apenas servia para enfatizar o seu sofrimento.

- Por favor, sentai-vos - disse o cavaleiro calmamente. - Seremos o mais breves possível.

Ela dirigiu-se a uma cadeira junto à lareira, sempre de cabeça baixa, a imagem do desgosto. Mas por um único momento, depois de ela se ter instalado e de ter composto a túnica à sua vontade, enfrentou o olhar dele, e Baldwin podia jurar que reconhecia um olhar cínico e dissimulado na sua expressão. Foi apenas passageiro, e foi imediatamente substituído por toda a aparência de um sofrimento autêntico, como ele teria esperado de uma filha extremosa quando o pai foi assassinado, mas o impacto daquele olhar fugaz para a mente dela não o deixava. Embora ele quisesse acreditar nela, não conseguia esquecê-lo.

- Estais aqui para me perguntardes o que aconteceu ontem à noite? - perguntou ela com voz doce, falando ligeiramente por entredentes, ao mesmo tempo que tentava mover a boca o menos possível.

- Sim, se isso não vos perturbar demasiado. Eu sou o...

- Eu conheço-vos. Sois o Defensor.

- Sim, e este é um amigo meu, que está a ajudar-me a tentar encontrar o assassino do vosso pai. Simon Puttock, beleguim do Administrador das Minas de Estanho de Lydford. Lembrais-vos do que vos aconteceu ontem à noite?

- Como se tivesse sido gravado na minha alma! - declarou ela, e arrepiou-se subitamente.

Isso, pelo menos, pensou Baldwin, parecia genuíno.

- Por favor, contai-nos tudo o que puderdes.

- Eu estava lá em cima no meu quarto quando escureceu, e vim cá para baixo. Quando cheguei ao salão, reparei que a tapeçaria que se encontrava por cima de uma das janelas estava solta. Por isso puxei-a e voltei a colocá-la na janela, e estava prestes a sair da sala para procurar o meu pai ou um dos criados, quando ouvi um barulho atrás de mim. Virei-me, e fui agredida. - Tocou a equimose que tinha junto à boca e que lhe causava dor.

- Ficastes imediatamente inconsciente?

- Sim.

- E tanto quanto pudestes ver, o vosso pai não estava lá nessa altura?

- Não. O meu pai tinha o hábito de dar uma volta pelos limites do jardim todos os dias ao final da tarde, e penso que ele ainda deveria estar lá fora quando eu fui atacada.

- De que vos lembrais a seguir?

- De nada. Quando recuperei os sentidos, encontrava-me no meu quarto, e a minha criada estava comigo.

- Esse homem que vos atacou - perguntou Simon -, como era ele?

Ela lançou-lhe um olhar carrancudo.

- Não seiEstava escuro, e penso que ele tinha o rosto coberto com uma tira de pano ou qualquer coisa do género.

- Era mais alto do que vós? Do que o vosso pai? Gordo ou magro? Musculoso ou fraco?

- Sinto que devia ser mais alto do que eu, mas, na verdade, não poderia dizer mais nada para além disso.

Baldwin inclinou-se para a frente.

- Ouvimos dizer que o vosso pai soltou um grito. Deve ter sido quando foi agredido. Não ouvistes nada?

Ela fechou os olhos por um momento.

- Se eu o tivesse ouvido, teria dito.

Baldwin mordeu-se para reprimir uma resposta ríspida, lembrando a si próprio que a própria rapariga sofrera um ataque. Respirando fundo, disse:

- Por favor, tentai concentrar-vos. Sei que deve ser muito difícil, mas, se queremos encontrar o assassino do vosso pai, precisaremos de alguma coisa, até do pormenor que pareça mais trivial...

- Pensais que eu não sei que o meu pai está morto? - explodiu ela. - Deus do Céu, se eu soubesse dizer-vos quem foi, di-lo-ia!

- Nesse caso, minha senhora, pensai bem. Vistes o que ele tinha vestido?

- Era tudo roupa escura, penso que tinha uma túnica escarlate, de bom tecido, e um manto pesado.

- De que cor era o manto? - insistiu Baldwin.

- Estava escuro, uma cor parece outra!

Baldwin recostou-se e lançou ao amigo um olhar perturbado. Simon abanou a cabeça. Era bastante óbvio que não chegariam a lado nenhum com a senhora Cecily, a não ser que ela se recordasse de mais alguns factos sólidos em que eles se pudessem apoiar. Baldwin acenou com a cabeça a si próprio, depois inclinou-se para a frente, os cotovelos apoiados nos joelhos.

- Há outra coisa que nos disseram - disse ele, hesitante. Estava relutante em abordar o assunto, pois tinha um sabor a lascívia. – Volto a apresentar as minhas desculpas, se for desagradável, mas disseram-me que ouviram o vosso pai gritar para o vosso atacante: "Com que então estás disposto a conspurcar também a minha filha, não é verdade?" Não ouvistes nada do género?

Cecily levantou o olhar para ele, e Baldwin viu uma lágrima a escorregar-lhe lentamente pela face, ao mesmo tempo que ela abanava a cabeça. A boca moveu-se-lhe ligeiramente, como que para emoldurar a palavra "Não", mas dela não saiu qualquer som.

- Putthe pensou que faltava alguma baixela. Verificastes tudo? Cecily agarrou-se ao braço da cadeira.

- A baixela? Esperais que eu conte toda a prata de meu pai, quando ele está ali morto no chão? Não sei nem me interessa se alguém a levou toda!

Simon mexeu-se.

- Baldwin, penso que devíamos agora deixar a senhora sozinha, ela disse-nos tudo o que sabia.

- Sim, com certeza. Minha senhora, estou-vos grato, fostes muito prestável, e lamento imenso ter-vos feito recordar tudo. Por favor, pedi à vossa criada que nos acompanhe até à porta.

Simon olhou-o com alguma surpresa. Geralmente Baldwin não era tão apegado a formalidades. A jovem mulher chamou com voz aguda, e ouviu-se uma sucessão rápida de passos leves, depois Alison já estava com eles. Baldwin levantou-se, fez uma vénia, e regressou ao salão na companhia da criada, deixando Simon a murmurar as suas próprias despedidas e a segui-los à pressa.

Encontrou mais uma vez o cavaleiro junto ao corpo. Baldwin parara, como que dominado por uma ideia súbita.

- Diz-me, Alison. A tua senhora - da última vez que a vi vestia uma túnica azul nova, penso eu. Muito escura. Não era isso que ela tinha vestido ontem à noite?

- Bem... Sim, meu senhor, era.

- Conta-nos o que ouviste, e o que encontraste quando entraste aqui e descobriste a tua senhora.

- Bem, meu senhor, não sei se deva. Eu...

- Vamos! Já contaste a todos os jardineiros e criados, não contaste? E aos teus amigos, por isso já toda a cidade sabe - disse Baldwin a sorrir.

- Ele não... quer dizer... - Ela parou, nervosa.

- Queres obrigar-me a interrogar todos os criados até descobrir quem é o teu amado? - O cavaleiro soltou um riso abafado. - Vamos lá, não estou a perguntar por nenhum motivo perverso. Tenho de tentar encontrar o assassino do teu amo.

Alison olhou-o pelo canto do olho, depois baixou a cabeça.

- Está bem, meu senhor. Eu estava lá em cima com a minha senhora ao final da tarde, mas, quando escureceu, ela desceu. E disse-me que esperasse.

- Era costume ela deixar-te lá em cima no quarto enquanto ia buscar alguma coisa para si própria?

- A senhora Cecily é muito amável e generosa. Se eu estiver ocupada, ela muitas vezes ajuda-me, e, sim, por vezes ela faz as suas próprias coisas.

- Quer dizer que estavas ocupada ontem à noite?

- Não particularmente. Eu estava a fazer a cama dela e a escolher algumas das suas roupas, só isso.

- E o pai dela estava lá fora, disse-nos ela. Isso era normal?

- Ultimamente sim. Com os...

- Sim? - incitou-a Baldwin suavemente.

Ela soltou um leve suspiro e encolheu os ombros.

- Bem, desde que o senhor Coffyn, da casa ao lado, arranjou estes soldados, o meu amo andava nervoso. Discutiu várias vezes com o senhor Coffyn por causa deles.

- Ouviste-os discutir?

- Era difícil não os ouvir, gritavam tão alto - Onde foi isso? - perguntou Simon.

- Ora, aqui no salão.

- Quer dizer que Coffyn costumava vir cá com bastante frequência? - forçou Simon.

- Oh, sim, meu senhor. O meu amo tinha investido muito dinheiro no negócio do senhor Coffyn nos últimos meses. Ele vinha cá muitas vezes para dizer ao meu amo como ia o negócio.

Baldwin trouxe-a de volta àquilo que lhe interessava.

- Mas o teu amo pensava que os homens de Coffyn podiam assaltar-lhe a casa?

- Sim, meu senhor. Não que eu visse algum deles por perto, mas sabeis que histórias se contam sobre soldados errantes como eles. Nenhum deles deve lealdade a ninguém a não ser por dinheiro.

Baldwin acenou com a cabeça. Ele estava perfeitamente consciente da crescente preocupação pública com tais pessoas, mas não desejava ser apanhado a debater a moral delas com uma criada.

- E falta alguma coisa? Coffyn ou os seus homens podiam ter levado alguma coisa?

Ela lançou-lhe um olhar rápido, em seguida examinou o guarda-louça. Quando voltou a encará-lo, encontrou o olhar dele com uma expressão que parecia de desafio.

- Não, meu senhor. Não falta nada.

Ele olhou-a atentamente, acenando lentamente com a cabeça.

- Muito bem. O que aconteceu quando a tua senhora te deixou e veio para aqui?

- Bem, meu senhor, ela tinha saído havia uns instantes quando ouvi o pai dela. Estava a gritar qualquer coisa sobre ela ser desonrada. Eu não sabia o que fazer. Ia descer quando ouvi outra coisa. Gelou-se-me o sangue nas veias, meu senhor, podeis acreditar. Era o pai dela. Soltou um grande grito surdo, e juro que não quero voltar a ouvir um barulho daqueles enquanto viver! - estremeceu ao recordar-se e limpou os olhos à manga, antes de continuar: - Eu estava louca de medo e não sabia o que fazer. A única saída do bloco do solar é através do salão principal, e se lá estivesse um doido a matar pessoas, eu não queria ir! Mas nessa altura, quando as coisas estavam calmas havia uns instantes, pensei que devia descer sub-repticiamente. Estava quase a descer quando ouvi outro grito, e...

- Outro grito?

- Sim, meu senhor, não tão profundo como o do meu amo, era assim mais como um género de grito agudo.

- Poderia ter sido Putthe? - perguntou Simon.

- Suponho que sim. Seja como for, ouvi passos que se afastavam a correr, e...

- Em que direcção?

- Hmm? Oh, lá fora nas traseiras... mas não a direito. Tenho a certeza de que o homem fugiu ao longo da casa. Penso que ele deve ter ido até ao muro que fica ao lado da casa, e que saltou o muro para a ruazinha.

- A rua que leva à casa de John?

- Sim, meu senhor, mas se tivesse sido John de Irelaunde, ele teria corrido pelo jardim e teria saltado o muro sem sair para a estrada.

Baldwin acenou com a cabeça. Era uma conclusão bastante lógica.

- Quanto tempo passou entre o grito e o ruído de corrida?

- Oh, não sei, meu senhor. Apenas alguns minutos.

- Não foi logo a seguir, então? Outra coisa, quantos passos ouviste a correrefin?

- Quantos, meu senhor?! - pela primeira vez, Alison pareceu confusa. Mordeu o lábio inferior, como se estivesse a concentrar-se, mas o rosto corou-lhe como se estivesse embaraçado.

O cavaleiro sorriu para a acalmar.

- Não é assim tão importante se não souberes. Por favor, continua.

- Não há muito mais para vos contar, senhor. Pouco depois de ter ouvido o homem a fugir, ouvi outros homens aqui em baixo e reconheci a voz do senhor Coffyn. Pensei que era melhor descer, com o senhor Coffyn e os seus homens eu devia estar suficientemente segura, supus. Encontrei a minha senhora aqui, não muito longe da janela, o pai ali, onde o vedes, e Putthe junto à porta. O senhor Coffyn estava de pé e fixava-os a todos de olhos esbugalhados.

- E depois?

Ela esboçou um sorriso tímido.

- Gritei-lhes que chamassem a guarda e o oficial da autoridade, disse-lhes que acordassem. O senhor Coffyn e o criado ajudaram-me a levar a senhora para cima, e depois o senhor Coffyn mandou o criado ir buscar Tanner. Quando o oficial da autoridade chegou, ele e o criado do senhor Coffyn levaram Putthe para o quarto dele, enquanto o senhor Coffyn voltou para casa.

Baldwin acenou com a cabeça e estava quase a sair da sala, quando Simon disse:

- Mas por que não entrou nenhum dos criados? Eles devem ter ouvido os gritos, se Coffyn ouviu. Por que é que todos os criados, com excepção de Putthe, não apareceram? Se eles ouviram uma luta aqui, e o amo a ser atacado, em que estavam a pensar?

- Oh, eles não estavam aqui, meu senhor. A senhora tinha-os mandado todos à estalagem.

- O quê? - explodiu Baldwin.

- Foi uma festa para eles. Ela até lhes deu dinheiro.

Margaret sorriu a Jeanne, à medida que subiam lentamente a colina, na estrada de Cadbury, em direcção à casa de Baldwin.

- Vais gostar da casa dele. Não é nova como algumas, mas ele disse-nos que a acrescentou este ano. Construiu um novo solar e uma cozinha.

- Estás a tentar vender-ma? - perguntou Jeanne num tom um pouco frívolo.

Margaret riu e, sensatamente, decidiu mudar de assunto.

- Pareceu-me que Baldwin estava ansioso. Espero que este homicídio não lhe ocupe demasiado o tempo.

- Penso que é um grande insulto o facto de ele passar o tempo a investigar um crime horrível quando vos devia estar a receber, minha senhora.

- Ora, Emma - disse Jeanne, com aquilo que soou a Margaret como um laivo de frieza. - Ele tem de tratar das suas responsabilidades. Não podemos esperar que ele esqueça as suas responsabilidades só porque, por acaso, nós chegamos na mesma altura em que um homem é assassinado.

- Eu pensava que um cavaleiro importante, um Defensor da Paz do Rei, nada mais nada menos, tinha bastantes funcionários para investigarem, enquanto ele cuidava da sua responsabilidade para convosco - respondeu a criada dela bruscamente. - É que vós não sois um hóspede qualquer, sois...

- Basta, Emma! Não te compete decidir quais são os deveres dele.

Margaret considerou interessante o facto de a criada ser tão directa nas suas opiniões. É claro que muitos criados eram assim, porque era comum serem os amigos e os conselheiros mais íntimos dos seus amos, e, muitas vezes, a opinião de um criado contava mais na consideração de um homem do que a de um médico ou advogado, que eram, afinal, meros mercenários atrás da riqueza de um homem. No entanto, para alguém da posição de Emma, criticar o anfitrião da sua senhora revelava, de facto, uma arrogância extrema.

E que criada que ela era! Enquanto que Jeanne era esguia e elegante como uma égua árabe de boa raça, Emma era ampla e desajeitada. Tinha um rosto severo, e Margaret pensou que os seus olhos fundos olhavam o mundo com uma desconfiança rancorosa. De que ela gozava da confiança da sua senhora, Margaret não podia duvidar, mas porquê era outro assunto, e a esposa de Simon deu consigo a perguntar-se como é que Jeanne podia ter mantido a seu lado uma criada assim.

A amiga de Jeanne surpreendeu-se a olhar Emma de soslaio. Depois de ter ouvido os comentários dela sobre Baldwin, Margaret sentia que a criada estava preparada para procurar qualquer defeito e para o realçar para desvantagem de Baldwin.

- Ainda falta muito? Parece que deixámos a cidade há séculos, e que há anos que vimos uma estrada decente pela última vez - perguntou Emma pouco depois.

Edgar seguia agora um pouco à frente. Na opinião biliosa de Margaret, ele estava a tentar interpor o máximo de espaço possível entre si próprio e Emma. Seria difícil perguntar-lhe.

- O que te parece, Hugh? - perguntou Margaret, olhando-o. Constrangido, Hugh continuou a cavalgar, as rédeas da besta de carga presas no punho. Era um daqueles homens da charneca que parecia estar agarrado a mais do seu passado celta do que a maior parte dos seus contemporâneos. Era ágil e baixo, com uma madeixa de cabelo escuro e desgrenhado que lhe caía sobre as feições taciturnas. O homem estava ao serviço de Simon havia muitos anos, e o beleguim jurava que com Hugh a seu lado ele não precisava recear nem salteadores nem outros malfeitores, pois a expressão de Hugh era tal que era certo que aqueles a quem ele mostrasse um olhar ameaçador se transformariam em pedra.

Hugh levantava agora o olhar para o Sol, depois para a estrada à sua frente, para as árvores de um e outro lado, e para a lama gelada nos cascos do seu cavalo.

- Falta cerca de mais uma légua.

- Podes dizer isso sem olhar para o céu e para as árvores? Ah! Ah! Suponho que pode muito bem ser o dobro, ou o triplo, a julgar pelo que sabes. E a minha pobre senhora ali cansada, depois de ter percorrido todo este caminho, também! Certamente que o cavaleiro deveria ter arranjado um quarto na estalagem para que pudéssemos interromper um pouco a viagem.

Francamente espantada, Margaret ouvia, acenando depois com a cabeça ao seu criado.

- Hugh? Diz-lhe como é que sabes que é uma légua.

- Aquele carvalho com um ramo quebrado - Hugh apontou -, perdeu aquele ramo no Inverno terrível de 1315, e estava no chão quando eu e o meu amo regressávamos de Tiverton. Sei isso por causa do ulmeiro em frente, aquele ali que tem como que um garfo nos ramos mais altos. Estais a ver? É bastante fora do comum. Não conheço outro como ele. E aquele azevinho, ali mais à frente, em cima, é o local onde eu uma vez vi um casal de tordos a atacarem uma pega que estava a tentar entrar no ninho deles. Mas não entrou.

- Foram os tordos que a assustaram? - perguntou Jeanne, mostrando interesse.

- Não - disse ele, simplesmente. - matei-a com a minha funda.

- Isso foi generoso - ela sorriu.

- Nem por isso - disse ele com voz grossa, os olhos fixos no pescoço do seu cavalo. - Eu estava a tentar atingir os tordos. Para fazer uma boa refeição de carne, bastam dois tordos.

Emma examinava-o com aversão mal dissimulada, e, ao ouvir isto, soltou uma leve exclamação.

- A minha senhora adora passarinhos que cantem. E tu mata-los para comeres? Não me tinha apercebido de que esta zona era tão pobre que os camponeses e os rendeiros comem pássaros que cantam.

Margaret viu a expressão de Hugh tornar-se ainda mais sombria, à medida que observava sombriamente o caminho à sua frente. Ela apressou-se a interromper-lhe os pensamentos antes que ele pudesse expressar os seus sentimentos, que ela via já terem sido certamente coloridos pela expulsão da despensa da estalagem que ele sofrera por parte de Emma.

- Penso que descobrirás que as pessoas que aqui habitam têm uma vida melhor do que as que vivem em Liddinstone, Emma. Sem dúvida que a tua ama tem uma propriedade próspera, mas aqui a terra é fertilíssima. Todas as culturas se dão bem nos campos de Baldwin. E depois, ele é conhecido pela sua amabilidade e generosidade para com aqueles que não podem prover o seu próprio sustento.

- É esse o problema de tantos cavaleiros hoje em dia. Não fazem ideia da forma como tratar os criados. Se eles têm com fome, é porque não fazem nada. Precisam mais de chicote do que de generosidade.

Ao ouvir isto, Margaret rendeu-se na batalha desigual. A criada era completamente incorrigível, e Margaret preferiu ignorá-la a ouvir o seu amigo cavaleiro ser caluniado. Ficou surpreendida pelo facto de Jeanne não o defender, e olhou-a. Jeanne exibia todos os sinais de raiva.

Tinha a boca comprimida numa fina linha, e fixava o caminho em frente sem pestanejar.

Margaret estava satisfeita. Mais tarde, Emma seria chicoteada pela língua da sua ama.

Quando chegavam ao cimo de uma longa subida, Edgar virou para um caminho irregular que os desviava para a direita, e elas partiram atrás dele.

Jeanne permitiu que a sua fúria se esvanecesse. Não fazia sentido enraivecer-se com aquela mulher estúpida, ainda menos agora que ela já se decidira. Jeanne conhecia Emma demasiado bem. A criada já decidira que Baldwin não servia para ela. Emma pensava que alguém que vivia tão longe daquilo a que ela chamava "civilização" devia ser um campónio.

Mas Jeanne também tinha consciência de que a antipatia que Emma sentia em relação a Baldwin não era causada unicamente pela preocupação para com a ama. Emma gostava de gerir a sua própria casa. A criada gozava de uma boa vida em Liddinstone, todos os outros criados tinham medo dela, e ela fazia o que queria com facilidade. Se ela se mudasse com a ama e viesse viver para Furnshill, não podia adivinhar qual seria a reacção dos novos criados para com ela.

Estas cogitações fizeram Jeanne suspirar. Emma estava com ela desde muito cedo - na verdade, em parte era por isso que o respeito que ela sentia pela criada roçava o medo. Quando Jeanne ficara órfã, o tio fora buscá-la para que ela fosse viver com ele em Bordéus, e incumbiu Emma da tarefa de ser a sua criada. Para a filha de um agricultor de Devon, as regras e os convencionalismos da sociedade educada de uma cidade tão importante eram confusos, mas, sob a rígida tutoria de Emma, Jeanne evitara alguns dos piores e mais embaraçosos fauxpas. Enquanto se tornava mulher, Emma estava sempre presente para a lembrar constantemente da dívida de honra e fidelidade que Jeanne tinha para com o tio. Sempre que ela colocava mal um pé, Emma falava-lhe com brusquidão para a corrigir; quando Jeanne fazia um comentário idiota, era Emma quem criticava. Mesmo quando ela casara e regressara a Devon como a senhora de Liddinstone, parecera impossível ver-se livre de Emma, e a criada ficara com ela.

Mas a presença dela não era relaxante, e agora, passados tantos anos, os laços de obediência para com o tio, os laços de lealdade e, para ser sincera, do hábito, começavam a irritá-la. Jeanne já não era agora nenhuma criança, e a sua deferência automática para com a tutora era cada vez mais difícil de manter.

Jeanne sabia que a criada estava infeliz com a ideia de ela poder estar prestes a casar novamente, mas os receios de Emma não eram, sentia ela, razão suficiente para que ela rejeitasse Baldwin. Divertira-se com ele quando se tinham encontrado pela última vez, e a forma como ele lhe sorrira na estalagem fizera com que o coração dela batesse mais depressa. Ela guardaria para mais tarde a sua decisão, mas de uma coisa tinha a certeza: independentemente da opinião de Emma, Jeanne decidiria sozinha se casaria com Baldwin ou não, e essa decisão seria tomada no seu próprio interesse - e não no da criada.

Determinada, Jeanne acenou a cabeça para si própria e dedicou-se a observar a paisagem.

Daqui a vista estendia-se por quilómetros no ar nítido do Inverno. À frente deles os bosques desciam em direcção ao leito do rio. A abafar o som dos cascos dos cavalos, ela ouvia a água a correr. No entanto, do lado direito, a terra ondulava suavemente, alternando entre suaves depressões e pequenas colinas, até subir novamente, muitos quilómetros a Sul. E aí, a Sul e a Ocidente, ela via as colinas azuis-escuras da charneca.

- Que vista perfeita!

- É encantadora, não é? - concordou Margaret com voz doce. - A paisagem é muito mais bonita aqui do que em Dartmoor, com os seus imensos e sombrios campos comunitários. Esta área é a mais maravilhosa que conheço.

Pela primeira vez, Emma ficou calada, e prosseguiram ao longo do caminho, que ia dar a um vale entre duas colinas cobertas de árvores, contornando depois a encosta de outro pequeno outeiro, até que, finalmente, Hugh apontou:

- Lá está!

Jeanne estava encantada. Uma grande casa caiada impunha-se à frente deles, comprida e baixa, construída a pensar no conforto e não na defesa, pois aqui havia pouca necessidade de se recearem ataques. O solo subia até chegar a ela, com uma vasta extensão de pastagem à frente, na qual se viam algumas ovelhas a pastar, enquanto que nos outros três lados a propriedade estava rodeada por árvores. Jeanne abriu a boca para exprimir a sua alegria perante o que via.

Emma tocou-lhe:

- Ugh! É minúscula, não é?

 

Simon e Baldwin saíram do salão e só quando se voltaram a encontrar na rua é que trocaram um olhar.

- Baldwin, sabes em que estou a pensar, não sabes?

- De facto, parece suspeito que ela tenha mandado os criados embora - admitiu Baldwin, cauteloso. - Mas poderá haver uma razão perfeitamente plausível para ela o ter feito. Há poucos indícios que apontem para ela, mas não há provas. E, tanto quanto sabemos, não há motivo para ela querer que o pai fosse assassinado.

- Talvez não haja - por enquanto! Mas se aquilo que ouvimos é verdade e ela mandou embora todos os criados, foi ela quem deu ao assassino acesso livre ao pai.

- Por que é que uma rapariga haveria de querer o pai morto? - Há muitas possibilidades. Para mencionar uma: talvez ele não gostasse do namorado dela.

- Do namorado dela?

- Sabemos que ela estava à janela. Tu próprio confirmaste que ela tinha vestida a túnica que deixou os fios na janela. Com quem é que ela estaria a falar, a não ser com um namorado?

Há outras possibilidades, Simon - sublinhou Baldwin secamente. - Mas examinemos seriamente a tua sugestão por um momento. Se tiveres razão, por que nos daria ela uma descrição das roupas dele, quando podia dar-nos logo o nome do namorado? E porquê dizer-nos que o homem usava uma túnica escarlate, quando afirma que não viu que tipo de capa é que ele tinha vestida? Se viu uma coisa nitidamente, também teria visto a outra, por isso estava a mentir, por alguma razão - embora eu não possa imaginar qual. E no que respeita 136 ao pedaço de túnica azul, não vimos o vestido que ela usava ontem à noite, por isso não podemos ter a certeza de que o pedaço era dele. Na realidade, descobrimos muito pouco.

- Baldwin, podes levantar objecções como essa enquanto quiseres, mas...

- E que estavam Putthe e a criada a fazer aqui?

- Hà?

- Pensa bem, Simon. Se a senhora Cecily estava tão interessada em ver-se livre de quaisquer testemunhas perigosas, por que é que fez excepções? Porquê deixar ficar duas?

- Suponho que ela podia confiar plenamente na criada Alison, por isso Cecily deixou-a ficar, ao passo que Putthe era o criado mais leal do pai, e devia guardar a casa. Presumivelmente alguém devia ficar com ela para a guardar. Mesmo que as damas-de-companhia não fossem tão competentes como parece ser a de Jeanne!

Baldwin ignorou a ironia.

- Por outro lado, o pai dela, quando gritou, referia-se a quê? Porquê dizer "conspurcá-la" - porquê não dizer simplesmente "violá-la"? - meditava ele.

- Isso é uma coisa que provavelmente nunca irás saber. Já não lhe podes perguntar - disse Simon, sem compaixão.

- Não - concordou Baldwin, pensativo. - E outra coisa: não compreendo o que se passa em relação à baixela. Por que motivo teria Putthe descrito uma remessa de coisas que não existem?

- Foi da pancada na cabeça.

- Não. Já vi homens perderem a memória, mas nunca vi um homem inventar coisas depois de ter levado uma pancada. Tenho a certeza de que ele estava a descrever a baixela quando falei com ele ontem à noite. Tu não estavas lá - ele foi absolutamente convincente. No entanto, a baixela não está lá, e Alison nega que falte alguma coisa.

- Por enquanto, o roubo, se houve algum, deve desempenhar um papel secundário em relação ao homicídio - disse Simon de uma forma decidida, e olhou para cima. - E é melhor regressarmos. É tarde, e não quero ter de fazer todo o caminho a cavalo para tua casa já com escuro.

- Hmm, suponho que tens razão - disse Baldwin. Ao passarem, acenou com a cabeça a Tanner, que se encontrava junto ao portão, e voltaram a subir os dois a rua em direcção à estalagem para irem buscar os cavalos.

Os moços de estrebaria vieram a correr, assim que Margaret ejeanne entraram no pátio. A esposa de Simon permaneceu sentada no cavalo enquanto todas as malas e caixas dos viajantes eram desamarradas da besta de carga, antes de saltar para baixo e de conduzir Jeanne até à porta da frente.

Por um momento, Jeanne deixou-se ficar a observar a paisagem. Desta posição ligeiramente elevada, ela descobriu que estava a olhar para um poço de relvado entre árvores que se erguiam de ambos os lados como muros. O céu estava quase completamente limpo e o Sol brilhava com um brilho frio sobre as pastagens ricas onde as ovelhas pastavam. Inspirou profundamente e expeliu o ar com lentidão, juntamente com um suspiro.

- É bonito!

- É, não é? Não fazes ideia da inveja que tenho por Baldwin poder olhar para esta vista todos os dias, quando tudo o que eu tenho para ver é aquela charneca desabrigada - disse Margaret, a seu lado. Não era totalmente verdade, uma vez que a pequena casa deles ficava situada na extremidade ocidental de Lydford, e a vista que tinham era sobre pastagens e bosques como este, mas Margaret estava irritada com as palavras que Emma pronunciara durante a viagem e pretendia assegurar que Jeanne apreciava a propriedade de Baldwin.

- Vamos entrar?

Jeanne arrepiou-se subitamente.

- Oh, sim! É espantoso como sentimos rapidamente o frio uma vez que nos tenhamos apeado do cavalo, não é? Não senti frio durante todo o caminho, e agora estou gelada. Vamos à procura de uma lareira!

Hugh apareceu, carregando uma caixa-forte grande e que parecia muito pesada, enquanto Emma ia atrás a aborrecê-lo. Jeanne, vendo as feições tensas dele, gritou bruscamente:

- Emma, abre-lhe a porta! Ele não pode carregar aquilo e abrir o ferrolho.

- Oh, muito bem, mas por que é que o cavaleiro não tem criados suficientes? Não me agrada nada pensar. Esperar-se-ia que um homem para abrir a porta não seria demasiado...

Neste ponto, Emma alcançara a porta. Levou a mão ao ferrolho. O polegar pressionou levemente a lingueta. A criada abriu a porta de par em par.

Margaret estava surpreendida. Esperara que Edgar estivesse lá para abrir a porta aos convidados. Ela viu-o, ouviu um ronco vindo não sabia de onde e apercebeu-se da expectativa no rosto dele. Por um momento, a esposa de Simon perguntou-se porquê.

Nessa altura Wat soltou um grito, que foi abafado pelo de Emma, quando o ronco se transformou num rugido e Uther irrompeu em direcção a eles.

Thomas Rodde hesitou. Era uma tentação ir atrás dos dois homens e tentar ouvir o que diziam, mas esse tipo de espionagem era mais fácil para as pessoas saudáveis. Com as suas roupas de leproso, era impossível ser discreto, e se ele se aproximasse demasiado, especialmente agora que o vento mudara de direcção, gritar-lhe-iam. Ele conhecia a lei: os leprosos deviam colocar-se sempre contra o vento em relação às outras pessoas, para que o contágio não se transmitisse pelo ar impuro que emanava da sua carne leprosa.

Sem excepção, toda a multidão abandonara o portão e só ficara o oficial da autoridade. Tomando uma decisão rápida, Rodde deixou Qui-vil, passando para a frente dele, a matraca a dobrar a finados, à medida que caminhava.

- Oficial, meu senhor - chamou.

Tanner virou-se bruscamente ao ouvir que gritavam o seu nome, mas, ao ver de quem se tratava, mordeu o lábio.

- Arreda, pecador.

- Perdoai, oficial, se vos assustei - disse Rodde, permanecendo a uma distância aceitável. - Mas tenho estado a observar, e perguntei-me se haverá alguma ideia de quem foi o assassino do pobre senhor Godfrey.

- Se soubéssemos quem ele era, tê-lo-íamos prendido - disse Tanner com brusquidão. Não era, por natureza, um homem cruel, mas detestava ver leprosos. Lembravam-lhe que, independentemente do quanto ele próprio fosse forte, um dia também ele cairia doente e pereceria. Estremeceu perante a ideia.

- Senhor, é que me perguntei quem poderia querer matar um homem como ele.

- Nesse ponto tens razão - disse Tanner, olhando por cima do ombro para o grande edifício escuro atrás dele. - Quer dizer, ele era rico, respeitado, e, que eu saiba, não tinha inimigos.

- Quer dizer que não há um suspeito óbvio?

Tanner mexeu-se e lançou ao leproso um olhar penetrante.

- Porquê, sabes alguma coisa sobre tudo isto?

- Não, meu senhor, nada. Nem sequer sou de cá. Mas quando se tem de usar estas vestes e de tocar a matraca para avisar outros para que se mantenham afastados, qualquer notícia é interessante.

O oficial da autoridade observou o leproso a afastar-se ao longo da rua, recolhendo o outro de caminho, as pequenas matracas de madeira de ambos a soarem com intervalos regulares. Tanner encostou-se à parede. Era um alívio vê-los ir: era inquietante tê-los por perto, os olhos famintos fixos nele, como se precisassem não só de comida, mas também de algo mais simples - mera companhia humana.

E esse pensamento fê-lo estremecer novamente, pois dava-lhe um indício do pior castigo que a lepra infligia às suas vítimas: a completa solidão. Olhou rua acima, tentado a oferecer aos dois homens uma bebida, ou dinheiro para um pão, mas eles tinham desaparecido.

Deixá-los, pensou. Mas, mesmo assim, benzeu-se, enquanto oferecia a Deus uma oração para que lhe desse uma morte rápida, e não uma angústia prolongada como a que vira nos olhos de Rodde.

Durante todo o caminho para casa, Baldwin estava curiosamente calado. Simon esperara comentários passageiros sobre o homicídio, ou talvez palavras que reflectissem o seu nervosismo por ter voltado a ver Jeanne, mas o cavaleiro não dizia nada.

Sem que o beleguim soubesse, o amigo repetia certas frases na cabeça, editando-as depois com fria brutalidade. Nenhuma delas era muito imaginativa, pois Baldwin nunca antes sentira necessidade de ensaiar expressões de amor. Foram precisos mais de oito quilómetros a cavalo para que ele desistisse da tentativa e apagasse da memória todo o esforço. Tudo o que podia fazer era rezar para que ela ficasse satisfeita com a sua óbvia devoção. Era tudo em que ele se sentia capaz de confiar - era certo que não podia confiar na língua.

A casa estava mergulhada em silêncio - um silêncio sinistro - quando Simon e Baldwin chegaram. Deixados os cavalos com os moços de estrebaria, os dois amigos encaminharam-se para a porta da frente. Simon quase deixou escapar uma gargalhada sonora ao ver como Baldwin caminhava lentamente.

Baldwin pressentia uma desgraça iminente. O facto de ter visto Jeanne na estalagem fora tão reconfortante como ele estava à espera. Ela era tão atraente como ele se recordava, e a sua decisão de tentar conquistar a sua mão foi fortemente reforçada - mas tal decisão era difícil de pôr em acção. De tudo o que ouvira dizer a outros, tratava-se apenas da simples questão de fazer a pergunta, ganhando a aquiescência solicitada após uma moderada demonstração de relutância, e, em seguida, "mandai vir o padre". Mas com Jeanne as coisas não era tão lineares. Ele já lhe pedira uma vez, no ano anterior, e embora ela não o tivesse firmemente rejeitado, também não lhe prometeu que uma repetição da sua oferta receberia uma resposta diferente. O único sinal favorável que ela lhe tinha dado foi a sugestão que fizera de o vir visitar aqui; na verdade, e como ele tantas vezes dissera a si próprio, para ver os recursos do marido em perspectiva antes de se comprometer.

- Vamos, Baldwin! Qualquer pessoa pensaria que estás nervoso!

- Tem muita graça! Eu estava apenas a pensar neste homicídio, só isso.

- Com certeza, Baldwin. Naturalmente. Mas não te parece que os teus convidados estão a perguntar-se o que estará o seu anfitrião a fazer escondido aqui fora ao frio quando está a anoitecer?

O cavaleiro dirigiu-lhe um olhar tão dolorosamente confuso que o beleguim esteve tentado a sugerir que ele voltasse a selar imediatamente o cavalo e se dirigisse para a fronteira da Cornualha. Em vez disso, Simon deu-lhe uma palmada nas costas.

- Vamos entrar. Tens cara de quem precisa de uma boa caneca de vinho quente.

- Sabes que não gosto de demasiado álcool, Simon.

- Lembras-te da criada da tua senhora?

- Talvez esta noite possa ser uma excepção!

À porta, Baldwin adoptou uma postura rígida e, decidido, atravessou a soleira. Estava prestes a entrar no seu salão, quando ouviu um barulho estranho. Franzindo o sobrolho, atravessou em direcção à porta oposta, e espreitou lá para fora. No pátio, estoicamente a empilhar madeiros, encontrava-se Wat.

- Para que é esse barulho todo? - perguntou Baldwin.

Wat limpou os olhos, enxugando as lágrimas e besuntando inci-dentalmente o rosto de muco verde dos toros. Este era o seu amo, o homem que ele tinha na mais elevada estima.

- Senhor, perdoai.

- O que é? O que fizeste? - perguntou o intrigado cavaleiro. Já era bastante estranho ver o jovem Wat a chorar, quanto mais vê-lo pedir desculpa. Nenhuma das coisas tinha a ver com o carácter duro do jovem.

- Foi Chops, senhor. Eu tinha-o comigo no salão, como de costume, e depois entra aquela mulher. Tentei segurá-lo, senhor, mas não consegui, e ela bateu-me tanto, senhor...

À medida que a voz de Wat deslizava para a lamúria, Baldwin levantou desesperadamente as mãos.

- Bem, tenho a certeza de que não o pudeste evitar, Wat. Agora deixa de fungar e acaba de arrumar esses madeiros, está bem?

Deixando o criado, Baldwin regressou ao guarda-vento, onde Simon o esperava, e dirigiram-se no salão.

- Estávamos a perguntar-nos aonde é que vos tínheis metido. Era Margaret, e, à medida que Baldwin entrava, ela colocou de parte a costura que estava a usar para passar o tempo, e levantou-se para o saudar. O cavaleiro acenou com a cabeça, irritado, a atenção a desviar-se-lhe de Margaret, mesmo enquanto lhe dava mais uma vez as boas-vindas a sua casa.

E a fonte da sua inquietação levantou-se com ar sério.

- Bom dia novamente, Sir Baldwin.

- Eu... aaa... Sois muito bem-vinda, minha senhora. Espero que o meu criado tenha providenciado para que vos sintais confortáveis.

- Oh, ele tem sido muito atencioso. No entanto, receio que a minha criada esteja aborrecida com o vosso cão!

Baldwin lançou um olhar a Edgar, que se encontrava junto à lareira, um grande jarro de vinho nas mãos.

- Hipocraz, Sir Baldwin?

O cavaleiro pestanejou em sinal de assentimento.

- Aaa... Sim, obrigado. - Havia muitos anos que o seu criado de confiança não se dava ao incómodo de se comportar tão formalmente para com ele, mesmo em público. Quando passava, Simon deu-lhe uma cotovelada, como que acidentalmente, murmurando baixinho:

- Avança, homem! - e ele, mudo, acenou com a cabeça.

- Simon, podes vir ajudar-me? Preciso de preparar-me para a refeição - disse Margaret docemente.

Jeanne observou-os a deixarem a sala com um leve sorriso.

- Edgar, penso que gostaria de um pouco mais de vinho. Este parece um pouco aguado. Podes ir buscar-me mais um pouco?

- Minha senhora, com certeza - disse o criado suavemente, e fez uma vénia ao sair da sala.

Vendo-o sair de sobrolho franzido, Baldwin quase que sentiu inveja. Havia um ano que estava à espera de estar a sós com Jeanne, e agora que isso acontecia, estava paralisado de timidez.

- Aaa... O que fez o cão?

- Não foi nada - disse ela, com ar alegre. - O animal assustou-a, só isso. Seria diferente se ele tivesse atacado. -Jeanne viu o embaraço de Baldwin, e ficou comovida com a sua timidez. - Sir Estou contente por finalmente ter vindo.

- Honrais-me com a vossa visita - disse ele.

A rigidez das palavras dele foi desmentida pela cor rosada das suas faces. Jeanne queria rir alto da falta de à-vontade dele, mas, em vez de o fazer, perguntou num tom brincalhão:

- Quer dizer que tendes convidado muitas viúvas sozinhas para o vosso salão?

- Não! - exclamou ele calorosamente, esboçando em seguida um sorriso envergonhado. -Jeanne, sois a primeira mulher que esteve aqui comigo a sós. Nunca vi Edgar confiar em mim antes.

- Ele hoje parece bastante confiante, Sir - Sim. Não vos preocupeis, tenho a certeza de que não vai durar. Mas dizei-me, e vós? É este o primeiro salão em que vos encontrais a sós com um solteirão perigoso?

- Perigoso? Que interessante! Mas sim. A minha querida criada só raramente me concede a oportunidade de cometer uma indiscrição.

- Que amável da parte dela arriscar a minha segurança.

Nesse momento ela riu, baixinho, para não atrair a tenção dos criados de ambos. Um instante depois, já séria, ela olhou-o directamente no rosto.

- Lamento não ter podido vir mais cedo. Parece que passou mais de um ano desde que nos vimos pela última vez.

- Eu tinha esperança de poderdes vir antes.

- Eu sei. Mas foi impossível, com todos aqueles problemas e as colheitas.

Baldwin acenou com a cabeça. Jeanne de Liddinstone era rendeira do abade de Tavistock, e era importante para ela ser vista como uma mulher em nada menos eficiente do que qualquer dos outros que viviam nas terras dele. Ela aceitara o convite de Baldwin para uma visita no início da Primavera passada, mas desde essa altura que a propriedade dela sofrera uma sucessão de catástrofes. No início do ano, a chuva devastara as jovens culturas, que foram depois sujeitas a uma '; enorme tempestade imediatamente antes das colheitas, e Jeanne perdera o seu maior celeiro num incêndio.

- Espero que o senhor abade tenha podido ajudar-vos. - O abade Champeaux fez tudo o que estava ao seu alcance - disse ela. - Enviou homens e forneceu-me os materiais para um novo celeiro. Mas eu fui obrigada a ficar. - Sim, com certeza. E o que importa é que estais aqui agora.

- Estou contente por aqui estar.

E Baldwin teve a certeza, quando a olhou nos olhos, de que ela estava a ser sincera.

- Talvez pudéssemos...

- Minha senhora? Minha senhora, este homem tem-me impedido de estar junto de vós! Informei-o de que precisaríeis de mim, mas ele não me deu ouvidos.

Jeanne virou-se discretamente, deslocando-se assim para ficar a uma distância menos comprometedora em relação ao cavaleiro, que só com grande esforço evitou que não se lhe lesse no rosto o que sentiu ao ver Emma entrar pesadamente na sala como um beligerante cavalo ^ de batalha.

Foi com dificuldade que Baldwin manteve a boca fechada. Naquele momento a criada era o epítome de tudo o que ele detestava. Por causa dela, as suas tentativas para se aproximar de Jeanne tinham todas dado em nada. Todas as frases bonitas que ele ensaiara de cabeça tinham sido em vão. O cavaleiro não conseguia compreender como é que Jeanne podia ter sido tão descuidada ao ponto de se ter ligado a tal monstro. A pensar nisso, dirigiu à criada um olhar frio, antes de se virar mais uma vez para Jeanne, e foi com uma sensação de alívio que viu uma raiva semelhante a brilhar-lhe nos olhos.

Assim que escureceu, ele saltou a sebe baixa que dava para o pátio das traseiras de Coffyn. Não era grande, não à mesma escala do de Godfrey, e teve de caminhar com toda a cautela para assegurar que não era visto. A Lua era um brilho prateado por trás das nuvens que se deslocavam rapidamente, e, com a brisa refrescante, ele estava confiante de que se preparava outra tempestade. Convinha aos seus objectivos, pois dificilmente seria provável que qualquer homem ou mulher razoável saísse numa noite de mau tempo.

Contornou o jardim, não abandonando a protecção adicional que lhe proporcionavam as árvores e os arbustos que o delimitavam, sempre a observar prudentemente a casa. Ouvia vozes, e, em determinada altura, chegou até ele o som inequívoco de uma mulher a soluçar. Isso fez com que ele parasse à escuta, mas tinha os seus próprios assuntos a tratar, por isso encolheu os ombros e seguiu o seu caminho.

Na noite, o muro era uma barreira de escuridão, aparentemente tão imaterial como uma sombra, mas a sua prudência natural prestava-lhe um bom serviço. Antes de se aproximar, ele acocorou-se lentamente, e escutou com atenção. Não se via nada, mas ele confiava nos seus instintos, e eles gritavam-lhe que tivesse cuidado. Algo à sua frente estava fora do sítio.

Passaram alguns minutos até que viu do que se tratava, mas nesse momento, ao mesmo tempo que a Lua se libertava do seu cativeiro celeste por escassos instantes e a área foi iluminada por um súbito brilho branco, ele viu um homem encostado a uma grande árvore.

O guarda estava em silêncio, a sua atenção aparentemente fixa no muro. Parecia que estava preparado para ali ficar toda a noite, e a figura acocorada atrás dele calculou depressa se haveria outro percurso que pudesse tomar, mas nenhum lhe veio à cabeça. Estava prestes a virar costas e a regressar pelo caminho por onde viera, quando o guarda se mexeu. Com um suave resmungo, afastou-se do muro. Houve um líquido a correr calmamente.

Sorrindo, e esperando que o acto de urinar lhe absorvesse toda a concentração, nem que fosse apenas por um momento ou dois, o violador de propriedade alheia apressou-se em direcção a uma secção do muro que ficava a alguma distância e subiu em silêncio. Uma vez no cimo, deixou-se lá ficar por um instante, observando o caminho que deixava para trás. O homem junto à árvore soltou um pequeno suspiro, arranjou-se e voltou a encostar-se para renovar a sua guarda solitária.

Ao ver que ele não dera por nada, a sombra desceu do muro e entrou na terra de Godfrey. Caiu automaticamente de cócoras, os olhos perscrutando o espaço à esquerda e à direita, à procura de quaisquer perigos novos, mas não viu nada que o alarmasse, e, pouco depois, dirigia-se sub-repticiamente para a janela que tão bem conhecia. Não chegou a ver a segunda forma deixar-se cair do muro atrás dele, e seguir-lhe os passos com firmeza.

Mas, após o homicídio, ele não era tào louco a ponto de caminhar directamente^para ela como fazia antes. Podia haver uma armadilha à sua espera. Afastou-se lentamente do muro em direcção a um grande ulmeiro, e parou, dirigindo-se depois para um azevinho que se encontrava um pouco mais perto, subindo em seguida para um abrigo oferecido por um loureiro que estava quase encostado ao muro do salão, sempre à espera, sempre à escuta, sempre a olhar para todos os lados. O perigo aqui era quase tangível, e ele não estava preparado para colocar a vida em risco sem motivo que o justificasse.

Finalmente, estava satisfeito. Avançou cuidadosamente, até se encontrar no edifício, e foi, em bicos de pés, até à janela. A veneziana estava fechada, a tapeçaria descida, deixando escapar apenas uma|uz fraca. Levantou o braço e arranhou suavemente a madeira da veneziana, produzindo um ténue ruído áspero, como se um rato estivesse a roer.

Teve de repetir o sinal três vezes, até ouvir Cecily dizer:

- Vai preparar o meu quarto. E providencia para que a minha cama esteja aquecida como deve ser. Estou gelada até aos ossos.

Por alguns momentos, não aconteceu nada, mas depois o canto da tapeçaria foi levantado, e ele viu o rosto doce dela.

- Thomas, estás aí?

 

O guarda quase que saltou da própria pele quando William se deixou cair suavemente do muro à sua frente. Levou a mão à espada, e tê-la-ia sacado, não fosse William ter-lhe falado com rispidez:

- Deixa esse pedaço de metal no sítio, se não queres que eu o use para enfiar alguma inteligência nessa tua cabeça dura.

Deixando o guarda estupefacto, William regressou pensativamente ao salão. Descobrira muitas coisas esta noite, e algumas delas poderiam bem ser úteis no futuro, mas não tinha a certeza se aquilo teria alguma coisa a ver com o seu amo, e William tinha uma firme crença na informação: quando era útil, tinha valor. Coffyn contratara William para ser o chefe dos seus homens e para guardar a casa, e não para ser seu informador, mas, mesmo assim, ele podia estar preparado para contar algo tão interessante quanto isto.

William atravessou até ao solar privado e bateu. Coffyn ainda estava acordado, os olhos irritados e escancarados estavam inchados e com olheiras devido à falta de sono. Como de costume, a esposa não se via em lado nenhum. Se William não a tivesse ouvido chorar mais cedo, poderia ter-se perguntado se ela ainda estaria viva - mas não acreditava na especulação sobre assuntos como esse, pelo menos quando eles afectavam o seu amo.

- Então?

- Alguém atravessou a vossa terra.

- O quê? Quem? - Coffyn debruçou-se para a frente, olhando de perto, os olhos inchados e remelosos ligeiramente cerrados em jeito de concentração. Roía as unhas, e William desviou o olhar.

Era sempre assim, pensou o guarda, a forma como os homens eram enganados pelas esposas ao confiarem nelas demasiado, apenas para descobrirem que tinham sido atraiçoados. Ele só podia sentir pena do amo.

- Diz-me! Foi o irlandês, não foi?

As suas palavras foram cuspidas com tamanha virulência como se fossem uma corrente de ar venenosa, e o facto de poder abanar a cabeça deu a William um certo prazer perverso.

- Oh, não, senhor. Não foi ele. Foi um leproso.

- Um leproso! - Coffyn afundou-se na cadeira, horrorizado. - Um leproso - repetiu suavemente.

Quinze minutos depois, William deixou o solar e encaminhou-se para a despensa para ir buscar uma caneca de cerveja. Tudo considerado, afigurava-se que esta seria para ele uma noite lucrativa, e sorriu ao tomar a bebida.

Baldwin deixou o seu salão pouco depois de Jeanne ter saído para mudar as roupas de viagem. Enquanto durasse a visita dela, Baldwin renunciara ao seu próprio quarto. Era o quarto mais novo da casa, e parecia continuar a ser o mais quente. O outro quarto no primeiro andar, o que ficava na extremidade oposta do salão, por cima da despensa, ele atribuíra a Simon e a Margaret. Isso deixava livre a pequena divisão por baixo do seu quarto. Era para este pequeno quarto que ela agora se dirigia, e, quando entrava, descobriu o criado sentado na sua arca a observar Uther, que, ao ouvir o dono, deixou imediatamente a sua malga de comida e saltou para ele.

- Para baixo, seu bruto! Edgar, como pudeste...

- Sim, Sir Baldwin, eu pensaria isso - apressou-se Edgar a dizer, e saiu da sala.

- Eu... Edgar? - Baldwin sentiu que a boca se lhe escancarava de espanto perante o comportamento do criado, e correu atrás dele. Encontrou Edgar no exterior, no pequeno terreno a que Baldwin, de uma forma optimista, chamava o seu pomar. - Edgar, por Deus, o que estás a fazer, a afastar-te de mim quando eu...

Em resposta, Edgar olhou para trás, para o edifício.

- Ouvi quase tudo o que Lady Jeanne disse à criada no quarto de cima.

- Mas eu... - o cavaleiro calou-se. Abriram-se subitamente perante ele duas possibilidades: uma era de que o criado acabara de o salvar de passar por uma vergonha ao insultar a criada de Jeanne ao alcance dos ouvidos de ambas as mulheres, algo que, independentemente do que Jeanne pensasse em relação a Emma, a devia ofender até certo ponto; a segunda era de que Edgar, certamente sem qualquer intenção, tomara conhecimento da opinião de Jeanne sobre a criada tal como, possivelmente, sobre o próprio Baldwin.

- Espero que não tenhas tentado ouvir a conversa delas. Isso seria bastante vergonhoso - disse ele prudentemente, ao mesmo tempo que Uther aparecia à porta e se sentava para se coçar.

- Não, senhor, tive o cuidado de não ouvir - disse Edgar.

Absurdamente, a resposta irritou Baldwin. Concordava em ser insultado - não detectou qualquer falha da parte de Edgar, mas devido a Emma ter interrompido aquilo em que Baldwin já estava a pensar como a sua primeira tentativa de romance. O facto de Emma a ter transformado numa tentativa abortada fez com que o cavaleiro quisesse partilhar a sua amargura.

- Eu também espero que não! - Uther sacudiu-se, atirando um pequeno pedaço de baba a voar contra a parede. - E quanto a Uther - como pudeste ter deixado Emma chegar à porta em primeiro lugar, assim, daquela maneira? Sabes que Uther é um cão de guarda.

- Eu esperava que Wat tivesse deixado Chopsie preso. Eu não podia imaginar que o cão estivesse solto. De qualquer maneira, desde então tenho o cão fechado no vosso quarto.

Algumas mulheres gostavam de cães, e Baldwin não tinha motivo para pensar que Jeanne não gostava, mas havia uma grande diferença entre um cãozinho de salão e Uther. Havia nele um entusiasmo vivo, confiante e baboso totalmente inexistente num pequeno animal de estimação de uma dama. Alguns cães podiam introduzir-se subtilmente num lar sem serem notados. Num momento havia um espaço livre em frente à lareira, no momento seguinte um pequeno cão sem raça definida tinha-o preenchido. Fora assim com o velho Ben, o cão de guarda de Baldwin. Um dia houvera espaço em frente da fogueira, no dia seguinte o pateta tinha-se lá intrometido, e era como se ele sempre lá tivesse estado.

Uther, por outro lado, era incapaz de se insinuar num pequeno espaço. Se houvesse um pequeno espaço, depressa se tornava do tamanho de Uther, à medida que ele abria caminho para lá ao empurrão. Quando Uther estava presente, era impossível achar falta dele. Não era simplesmente o facto de uma criatura com um peso que roçava os quarenta quilos fosse difícil de ignorar, nem o cheiro de trapos húmidos há três semanas que ele invariavelmente carregava consigo para onde quer que fosse. Não, era mais devido ao facto de que Uther exibia uma variedade de devoção canina que era comovente para alguém que gostasse de cães, e intensamente repulsiva para alguém que não gostasse. Mas Baldwin não ia admitir isso em frente do criado.

- Isso é um disparate! - disse com brusquidão. - Uther é o meu cão, e fica sempre no salão. De outra forma, como é que vai proteger a casa? Vais imediatamente voltar a dar-lhe o lugar dele no salão.

Edgar ergueu uma sobrancelha e abriu a boca como que para argumentar, mas Baldwin levantou a mão.

- Essa é a minha decisão. Está entendido?

- Sim, Sir Baldwin - disse Edgar, novamente com aquele servilismo irritante que parecia condescendência.

- Se é isso que quereis, vou providenciar para que assim seja.

- Óptimo.

- Mas...

Baldwin olhou-o com um ar irritado.

- O quê?

- Eu estava a pensar, senhor, se talvez fosse melhor se mantivéssemos Uther longe do salão enquanto estais a comer. Ele pode perturbar Emma - ou Lady Jeanne.

Era uma sugestão sensata. Baldwin acenou com a cabeça, afagou distraidamente a cabeça do cão e começou a caminhar de regresso ao seu novo quarto.

- E agora traz-me água e uma bacia. Preciso de me lavar.

A refeição não foi um sucesso incondicional. Edgar continuou com o seu melhor comportamento, o que significava que desenvolvia um ar de suave competência, respondendo a todas as ordens com uma delicadeza distante. O seu procedimento deixava Baldwin de mau humor; ele teria gostado de dar ordens ao seu criado, fazendo-o andar de um lado para o outro, para demonstrar que sabia manter o criado sempre ocupado.

Jeanne via que Simon e a esposa estavam mais interessadas nela e no seu anfitrião do que na comida, e isso era suficiente para a fazer manter uma calma reserva. Era mais fácil do que tentar fazer conversa de sala na qual todos os assuntos eram analisados à luz de um possível .segundo sentido.

No entanto, ela estava impressionada com a propriedade do cavaleiro. A casa era uma velha casa comprida, de argamassa e colmo, de generosas proporções, mas Baldwin fizera vários melhoramentos, segundo Baldwin e a esposa. Quando eles o tinham visitado aqui pela primeira vez, a casa não passava de um salão de um só piso com uma pequena leitaria nas traseiras, uma despensa e uma arrecadação de um lado. Agora cada extremidade continha quartos no primeiro andar, áreas separadas da zona dos criados e rendeiros que tomavam refeições em conjunto e dormiam no salão. Isso não era tudo, pois o novo bloco de grés vermelho contíguo à retaguarda da casa era a despensa nova de Baldwin, onde ele guardava todo o equipamento para fabricar cerveja. Isso significava que o cavaleiro tinha agora regularmente demasiada cerveja para satisfazer as necessidades das pessoas sob a sua responsabilidade e podia vender os excessos. A velha despensa ainda era usada, mas, tal como a pequena divisão por baixo do seu quarto, era usada mais como arrecadação do que como área de trabalho.

- Aquele estufado estava excelente - comentou ela, enquanto Edgar colocava à frente dela um tabuleiro de pão acabado de cozer.

- Estou contente por terdes gostado - disse Baldwin. - Antes, com a cozinha antiga, não era tão fácil.

- Quando mandaste construir a nova? - perguntou Margaret.

- Durante o Verão. Houve um incêndio na velha. Devo admitir que havia algum tempo que eu já andava a pensar em fazer alterações. Era demasiado pequena para aquilo que eu queria. Usei a pedreira de Cadbury para arranjar a pedra, e agora tenho uma cozinha suficientemente grande para dar de comer a um conde, se fosse necessário!

- Quer dizer que procuras promoção? - perguntou Margaret.

- Por Deus, não! - disse Baldwin, sinceramente chocado. - Que benefícios é que eu ganharia com um posto de senhor de pendão ou caldeira ou algo ainda superior? Tudo o que isso significaria seria que eu teria de pagar a mais homens sem ter daí qualquer lucro.

- Ora, Baldwin - disse Simon sensatamente. - O dom da dádiva é um atributo fundamental de um cavaleiro; devias ficar feliz por teres mais homens para poderes mostrar a tua generosidade.

- Esse poderá ser um bom princípio para um duque ou um príncipe ricos, mas é um conforto frio para um pobre cavaleiro rural que todos os anos gasta o seu rendimento a alimentar as bocas que já tem a viver nas suas terras.

- Dizeis-nos que sois impecunioso, Sir Baldwin? Com a vossa cozinha nova, solares novos e fábrica nova de cerveja? - perguntou Jeanne num tom de brincadeira.

- Talvez não impecunioso, mas não rico. A fábrica de cerveja é para os meus trabalhadores, pois precisam de sustento. A minha cozinha tinha de ser reconstruída, de qualquer forma, e fazia mais sentido ter alguma coisa que valesse a pena, em vez de uma cozinha que era pequena de mais para a minha comitiva. Mas se eu procurasse subir a um posto mais elevado, teria imediatamente de arranjar homens que se reunissem em volta do meu pendão em tempo de guerra, e eles seriam bocas suplementares que eu teria de alimentar.

- Alguns cavaleiros considerariam isso um preço pequeno a pagar pela sua elevação - resmungou Emma com a boca cheia de estufado.

- Alguns sem dúvida que sim - concordou Baldwin, olhando-a com desagrado. - Mas considero que o meu primeiro dever é proteger os pobres que vivem nas minhas terras e aqueles que não podem prover o seu sustento. Postos mundanos pouco importam em comparação com isso.

- Eu também penso assim - disse Jeanne, e Baldwin ficou contente ao ver que ela dirigiu à criada um olhar de fria desaprovação.

Depois de terem terminado a refeição, e enquanto Edgar dava pressa aos criados para que levantassem a mesa, Baldwin e os seus convidados mudaram-se para mais perto da lareira. Embora ainda não fosse Inverno profundo, as noites eram bastante frias e as chamas ofereciam alguma defesa. As portas tinham grandes frestas que deixavam passar as correntes de ar, e as tapeçarias que cobriam as janelas com venezianas mas sem vidros eram apenas parcialmente eficazes, mas, apesar de tudo isso, Jeanne sentia-se tão confortável aqui como se tivesse passado a infância nesta casa. Tinha um calor e uma serenidade que faltavam na sua.

Talvez fosse porque ficara órfã quando era muito jovem. Os pais tinham sido vítimas de um grupo de malfeitores, um grupo de ladrões assassinos que roubavam, assassinavam e pilhavam onde podiam. O pai dela fora assassinado, e a mãe violada e morta. A própria Jeanne, embora não passasse de uma criança, fora agredida com um machado, mas o assassino estava embriagado e falhara o alvo.

Jeanne fora salva e levada para Bordéus, onde esteve sob a protecção de parentes até que conheceu Ralph de Liddinstone e concordou em casar com ele. Mas a vida com ele revelou-se um pesadelo. Ele maltratara-a, agredira-a, insultara-a em frente dos amigos, e, por fim, começara a chicoteá-la. Foi um alívio quando o marido contraiu uma febre e ^morreu.

Já passara bem mais de um ano desde a sua morte - ele morreu no Verão antes de ela conhecer Baldwin - e, durante esse tempo, embora a propriedade tivesse sofrido desastres quase catastróficos, ela era agora mais feliz do que fora ao longo de muitos anos. O único acontecimento que abalara a sua decisão inicial de se manter livre e sem qualquer compromisso com homem algum foi o facto de ter conhecido Sir Baldwin de Furnshill.

Olhando-o, ela sentiu o rosto a encher-se de ternura perante o que via. O cavaleiro estava sentado, claramente à-vontade, as pálpebras a caírem devido à sonolência induzida por uma refeição pesada, a bebida a inclinar-se-lhe na mão, num ângulo perigoso, à medida que Baldwin tentava lutar contra o sono. Simon já desistira da batalha, e ressonava suavemente, os braços cruzados, a cabeça apoiada na lareira, Margaret acenando com a cabeça a seu lado. Pareciam sentir-se bem na companhia um do outro, e Jeanne sentiu uma súbita inveja. Ela nunca conhecera tal companheirismo com um homem, e parecia injusto que Margaret tivesse encontrado a felicidade com o primeiro homem com quem casara.

Baldwin parecia amável, pensou ela. Tinha olhos que gostavam de sorrir, e não de ralhar; o seu temperamento movia-se no sentido de proteger os outros em vez de tirar benefícios apenas para si próprio. A conversa sobre autopromoção que tinham tido à mesa confirmara isso, e ela recordava-se de conversas que tivera com ele em Tavistock em que o cavaleiro evidenciara compaixão pelos inocentes quando eram acusados, e por aqueles que eram incapazes de se defenderem. Tudo isso lhe dava a certeza de que ele faria um bom marido.

Naquela altura, Baldwin pedira-lhe que casasse com ele, mas ela procurou ganhar tempo. Não foi unicamente para manter o decoro por sentir que passara pouco tempo desde a morte do marido, já que o abade tê-los-ia casado, e ninguém ousaria colocá-lo em questão – era mais devido às suas próprias dúvidas. Depois de ter sofrido um casamento infeliz, ela não tinha qualquer desejo de repetir a experiência. E essa era a única fonte de incerteza que lhe restava. Seria Baldwin agradável apenas à frente dela, e um bruto em privado? Assim é que o marido fora: fora a civilidade e a generosidade em pessoa enquanto a cortejava, e só quando se casou com ele é que ela se apercebeu do seu verdadeiro carácter. Mas não havia como negar o facto de que se sentia só.

Enquanto contemplava a figura dele a dormitar, ouviu um suave bater de patas, que, subitamente, aumentaram a velocidade.

Uther estivera fechado no pequeno quarto agora ocupado por Baldwin durante as últimas duas horas, enquanto o dono comia, não que Uther soubesse ser essa a razão. Para a sua mente simples, tudo o que importava era que estivera muito tempo longe de Baldwin, e ele sabia que isso só acontecia quando ele se comportara mal. Agora que fora libertado, sabia que tinha de pedir desculpas ao dono por aquilo que pudesse ter feito. Ao entrar no salão a um passo rápido e certo, viu a forma familiar na cadeira ao lado da lareira, e lançou-se para a frente.

Era um sonho agradável aquele em que Baldwin se deixara cair. Caminhava mais uma vez com Jeanne no jardim do abade em Tavis-tock, preparando-se para lhe fazer a pergunta crucial, e, quando a fez, ela virou para ele o rosto doce, e ele viu os sorridentes lábios dela abrirem-se... e ela agrediu-o no estômago.

- Jeanne!

Baldwin abriu os olhos para uma máscara de horror. Uns enormes olhos castanhos olhavam os seus, uns queixos tremiam com saliva, que lhe caía no peito, e em seguida a bocarra abriu-se como a boca do inferno e ele viu a língua a estender-se para a frente, antes que conseguisse fechar os olhos.

Só mais tarde, muito depois de o mastim ter sido expulso, depois das abundantes desculpas de Edgar, depois da caneca de vinho forte que ele, sentindo-se inteiramente justificado, bebeu para acalmar os nervos em franja, só então é que Baldwin se lembrou das gargalhadas que Jeanne soltara.

Mas ainda mais tarde, já deitado na sua cama, recordou-se com um horror opressivo do que gritara quando o seu sonho foi interrompido por aquele maldito cão.

- De manhã, Simon ficou aborrecido por ter sido acordado antes do nascer do dia. Alguém lhe abanava suavemente o ombro, e o beleguim teve de fazer um esforço para não soltar uma praga quando reconheceu o criado.

- Hugh? O que é?

- SirBaldwin está a preparar-se para ir para a cidade, senhor. Pensou que queríeis fazer-lhe companhia.

- Pensou, não foi?

O desgrenhado beleguim vestiu-se e desceu para o salão. Aí encontrou o cavaleiro sentado na sua cadeira junto à lareira, que só há pouco tinha sido ateada e que fazia mais fumo do que chama. Wat estava sentado nos seus joelhos e soprava entusiasticamente para as débeis brasas.

- Estás com muita pressa de sair hoje - observou Simon, desconfiado.

- Desculpa, Simon, mas tenho um homicídio para resolver e há muitas pessoas com quem é preciso falar.

O beleguim observou-o a vestir um casaco forte e uma capa.

- Quer dizer que não tem nada a ver com o nervosismo de ver Jeanne assim que ela acorde?

- Nervosismo? Por que é que eu tenho de estar nervoso?

- Oh, por nada, por nada. Como está o teu cão hoje?

Baldwin fitou-o de semblante carregado, desdenhosamente. Quando Edgar apareceu e anunciou que os cavalos estavam prontos, o cavaleiro passou pelo beleguim com um ar de absoluto desprezo. Nada incomodado, Simon seguiu-o, ainda a apertar a sua capa e a assobiar desafinadamente, ao mesmo tempo que exibia um largo sorriso.

A cidade, quando os três homens lá chegaram, estava a acordar. Cães ladravam, galos cantavam as suas boas-vindas ao novo dia, venezianas batiam ao abrir-se de par em par, homens e mulheres praguejavam ou gritavam, e, por cima de tudo isso, havia um rebuliço de panelas e frigideiras, à medida que se preparavam refeições. Os amigos passaram por lojistas que deixavam cair as venezianas sobre bancadas, colocando mercadorias em exposição. Alguns reconheceram Simon do tempo em que ele vivera aqui - já tinham passado mesmo quatro anos desde que ele partira para Lydford? - e dedicavam-lhe um aceno de cabeça bem-disposto ou um sobrolho franzido de dúvida, conforme o grau de conhecimento que tinham com ele. Isso fazia-o sentir-se bem por estar vivo. Não se tinha apercebido do quanto sentira saudades da cidade.

- Para onde vamos primeiro, Baldwin?

- Lá para cima, visitar o nosso velho amigo John de Irelaunde. Ele seria o primeiro homem de quem o cidadão médio suspeitaria, e eu gostaria de ter uma oportunidade de falar com ele antes que alguém tente pendurá-lo de uma corda.

Depressa se encontravam na estrada que subia a colina e que levava à casa do irlandês. À esquina ficava a casa de Godfrey. Baldwin continuou em direcção à propriedade de John, mas Simon gritou-lhe.

- Está ali alguém a tentar captar a tua atenção, Baldwin. É Putthe?

Sem responder, Baldwin atravessou o portão a trote e aproximou-se da porta da frente.

- Putthe? Pensaste melhor?

- Eu? - Putthe, a ligadura cada vez mais suja, levantou o olhar, como que surpreendido pela pergunta. - Não, meu senhor. Quando vos vi na outra noite, ainda estava meio abalado, e terrivelmente perturbado, com o choque de ter perdido o meu amo. Esqueci-me de vos dizer uma coisa.

Baldwin e os outros desmontaram e seguiram o criado para a despensa. Aqui ele tinha uma pequena panela de cobre a aquecer sobre o fogareiro. O cheiro que emanava fez crescer água na boca de Simon. Era o cheiro de vinho açucarado, aquecido com aromáticas ervas doces. Após a viagem, era o tónico de que ele precisava.

Nem mesmo Baldwin pôde recusar uma caneca, e o cavaleiro suspirou de gratidão quando sentiu o primeiro gole abrir um caminho ardente esófago abaixo.

- Então, Putthe? Que assombrosas novidades tens para nós? Era difícil, mas agora Putthe sabia que estava errado ao princípio, e tinha de assegurar que John era protegido. Ele não precisava de mais problemas, e a sua senhora podia tornar-lhe a vida num inferno, se ele não protegesse o irlandês.

- Senhor, a minha memória estava fraca depois de eu ter sido agredido. Se não fosse isso, eu ter-vos-ia contado quando cá estivestes da outra vez.

- Deixa lá as desculpas, de que pistas maravilhosas é que te lembras agora?

- Na noite em que o meu amo foi assassinado, eu estava aqui. Não disse antes porque pensei que não interessava, mas eu tinha alguém comigo...

- Quem? - perguntou Simon imediatamente. - Já sabemos que a tua senhora tinha dado autorização para que todos os criados fossem à estalagens com excepção de ti e da criada dela. Quem estava aqui contigo?

Putthe baixou os olhos por um momento.

- Era Jack, o ferreiro. Ele vinha cá muitas vezes para tratar dos cavalos do meu amo.

- E tu partilhaste a melhor cerveja do teu amo com ele?

- Foi o que me pediram, senhor. Não era que houvesse algum problema nisso. Jack estava aqui para cuidar da égua da senhora Cecily - tinha perdido uma ferradura e ele teve de a voltar a colocar.

)- O que aconteceu realmente, Putthe? - perguntou Baldwin, pousando a sua caneca no chão.

- Como vos disse, senhor, apanhei um tal golpe na cabeça que não consegui lembrar-me de tudo imediatamente - disse Putthe reprovadoramente. -Assim que me lembrei, quis informar-vos. O que aconteceu foi o seguinte: Jack esteve aqui ao final da tarde, e a égua estava nervosa, não queria deixar que lhe pusessem a ferradura, por isso Jack ficou com muito calor e com sede. A senhora Cecily pediu-me que o convidasse a vir aqui. Em condições normais, eu não o teria feito, ele é um pouco grosseiro e vivaço, se me estais a seguir, mas depois de ele ter passado tanto tempo aqui com a égua, suponho que a senhora pensou que era apenas um gesto de delicadeza oferecer-lhe uma cerveja quando ele acabasse.

"O meu amo entrou pouco depois, e partilhou connosco uma bebida. Estava com uma disposição excelente, e saiu exactamente quando começava a escurecer. Era costume ele sair quando Coffyn estava ausente. Não confiava nos homens que Coffyn tinha contratado - pensava que podiam assaltar a casa. O senhor Godfrey estava preocupado com o facto de eles poderem decidir levar-lhe algumas ferramentas ou roubar um porco ou coisa assim. Nunca se pode confiar em homens do tipo deles!

"De uma maneira ou de outra, tinha sido um dia duro para mim e para Jack. Tomámos umas canecas juntos. Chegou um homem a perguntar pelo meu amo, mas foi-se embora quando eu disse que ele não estava aqui...

- Quem era? - perguntou Baldwin bruscamente.

- Apenas um dos homens de Coffyn. Disse que queria dar-lhe uma notícia sobre os negócios de Coffyn.

- Era normal os homens de Coffyn virem cá assim?

- Nem por isso - Puthe encolheu os ombros -, mas, às vezes, vinham. O meu amo tinha algum interesse em ajudar Matthew Coffyn, e isso acontecia havia vários meses.

- E que se passou depois?

- Depois de ele nos ter deixado, Jack e eu bebemos mais um pouco, e depois ele foi-se embora. Tomei mais uma caneca ou duas. Suponho que devo ter dormitado. Não sei o que me fez mexer. De repente, eu estava perfeitamente acordado. Levei um minuto a perceber onde estava, por assim dizer. Não ouvia nada, nem sequer um rato, por isso pensei que tivesse sido algum barulho vindo da rua. Por vezes acontece, com as carroças a passarem por buracos na estrada, e coisas do género. Mas depois ouvi aquele grito horrível!

Putthe parou e virou-se para Baldwin. Sabia que o Defensor era o mais importante dos dois homens, e era o cavaleiro que ele tinha de convencer. Aquele grito era um som que ele jamais esqueceria, nem que vivesse mais mil anos. A dor nele contida era grande de mais. Assim que o ouviu, Putthe reconheceu-o como tendo vindo do seu amo.

- Eu sabia que era o meu senhor. Não podia confundir aquela voz - mas, Sir Baldwin, era como se ele tivesse concentrado toda a sua alma naquele grito. Foi horrível - a agonia que continha. Meu Deus! Espero não voltar a ouvir nada parecido!

Baldwin olhou-o com fria indiferença. Na sua mente havia poucas dúvidas de que o criado estava a ser sincero ao lembrar-se do grito do amo, mas isso impunha a pergunta: será que antes ele tinha escondido tê-lo ouvido? O cavaleiro conhecera ferimentos na cabeça de muitos tipos - tanto em primeira mão, da sua prática de guerra, como de observar torneios onde outros eram feridos e derrubados. Não deixava de ser comum um homem acordar de um golpe assim tendo esquecido coisas, mas ele estava convencido de que Putthe tinha escondido isto intencionalmente.

- E?

Suspirando, Putthe encheu a panela de cobre e colocou-o mais uma vez a repousar em cima do fogareiro.

- Era impossível John tê-lo morto. Eu cheguei lá depressa de mais. Ele não tinha tempo de sair antes de eu chegar.

- Quer dizer que agora pensas que John não teve nada a ver com isto?

- Não,vmeu senhor. Não pode ter tido.

- Mas John odiavao teu amo porque Godfrey o encontrou no jardim? V_V - Bem, não sei, meu senhor - disse Putthe pensativamente. - Talvez eu estivesse errado e o meu amo detestasse mais John do que o inverso, se é que estais a compreender. Penso que Martha Coffyn lembrava ao meu amo a sua própria esposa, e talvez ele não quisesse pensar que alguém como John... bem, sabeis como é.

- A esposa de Godfrey morreu, não é verdade? Como é que ela morreu?

- Uma carroça na rua. O cavalo arrancou de repente e ela foi apanhada por uma roda. Parecia que não tinha nada, mas recolheu à cama imediatamente e finou-se passados dois dias.

- Há quanto tempo foi isso?

- Há oito ou nove anos, senhor - Putthe mexeu a bebida com a colher de madeira. Oito anos! Não parecia que tinha passado tanto tempo. Parecia que tinha sido ontem que Godfrey saíra do quarto com o rosto como se fosse rebentar a soluçar. - Foi depois disso que o meu amo decidiu deixar Londres para sempre e retirar-se para o campo.

- O que é que ele tem feito desde que veio para cá?

- Tem uma pequena propriedade lá para os lados de Exeter, senhor, e isso traz-lhe dinheiro suficiente para manter a casa. Depois, ele também tinha reservas em ouro e prata. Posso também dizer-vos que ele estava a ajudar pessoas aqui em Crediton. Emprestava dinheiro a pessoas que precisavam dele, pessoas como Coffyn. Ele realmente não precisava de se manter ocupado de mais. Penso que estava satisfeito.

- E tu disseste que ele deu com John no jardim e apercebeu-se de que o irlandês tinha um caso com a senhora Coffyn?

- Sim, meu senhor. Não é surpresa nenhuma, o sacana é conhecido por andar metido com as mulheres da cidade.

- Eu sei - disse Baldwin secamente. - Já falei com ele antes sobre isso.

Simon abanou a cabeça com um ar de consternação.

- Não faz sentido. Se ele pensava que John se andava a divertir com a esposa de outro homem - a esposa do vizinho, por amor de Deus! -, por que é que não disse simplesmente ao vizinho e não o deixou resolver o assunto?

- Porque ele jamais poderia fazer isso, senhor. O meu amo adorava a esposa, como eu disse, e penso que a senhora Coffyn o fazia lembrar-se dela, apenas um pouco, e ele não queria ouvir dizer que ela fora agredida ou chicoteada, muito menos morta. Não, ele pensou que era melhor fazer John parar. Bem, era por isso que ele estava lá fora todos os serões, para se certificar de que o sacana não voltava aos seus velhos estratagemas.

 

Matthew Coffyn estava de pé junto à mesa e, de semblante carregado, olhava lá para fora, por cima dos campos que ficavam atrás do jardim. A vista daqui era assombrosa, pois agora, a meio da manhã, o Sol estava baixo por cima da colina, e cada árvore e cada arbusto desenhavam-se em relevo no fundo dos campos verdes, cada um deles com uma sombra nítida, como uma cópia distorcida de si próprio, movendo-se lentamente através da paisagem, à medida que o Sol atravessava o céu.

As notícias que William lhe trouxera na noite anterior tinham-no impedido de dormir com tanta eficácia como a sua desconfiança em relação à esposa. A ideia de que leprosos podiam ter invadido a sua terra - de que podiam tê-la poluído com a sua presença imunda - fazia-o sentir-se fisicamente doente. Não era só o facto de terem estado estranhos no seu jardim, era o facto de eles serem leprosos.

Coffyn sabia muito sobre a doença. Vendia tecido em todos os grandes mercados do Sul de Inglaterra, e muitas vezes fornecia a padres e monges peças inteiras de tecido mais barato, que eles davam a leprosos e a outros beneficiários mais dignos. Foi enquanto esteve em Winchester que ficara a saber, através do responsável pelas esmolas de lá, como é que as pessoas contraíam a lepra.

O responsável pelas esmolas foi vago em relação a pormenores - não era físico nem padre - mas ele compreendeu com demasiada clareza o principal princípio. Os leprosos padeciam devido à sua degeneração moral; era uma manifestação física da perversidade da vítima. E isso queria dizer que eles eram perversos.

Coffyn passara a vida sem ter sido afectado por qualquer dificuldade significativa. Enquanto fora aprendiz, gozara de uma boa relação com o seu mestre. Quando terminou a sua aprendizagem e se estabeleceu por conta própria, já possuía conhecimentos suficientes para poder manter a sua posição contra todos os seus competidores, e nunca conhecera privações, nem sequer quando a fome atacara. A comida era mais cara do que antes, mas ele não sofrera tanto quando alguns; teve simplesmente de pedir mais dinheiro emprestado. Embora fosse verdade que não se tratou simplesmente de mais dinheiro, mas de muito mais dinheiro.

Muitos homens que dispunham de tal à-vontade tinham tendência a olhar para os seus semelhantes mais pobres com pena e tentavam mitigar as suas piores dificuldades, mas Coffyn não era desse género.

Tal como alguém que nunca conheceu a escassez de comida não consegue compreender a fome, Coffyn, que nunca experimentara uma doença de um dia, não podia acreditar que aqueles que eram atingidos por uma doença tão debilitante não a tinham chamado para cima de si próprios. A vida era uma dádiva de Deus, e a condição da vida de um homem era reflexo da forma como ele vivia: alguém com uma doença cometera pecado. Negar isso seria permitir que Deus podia errar - e tal era impensável.

Não, alguém que era tão perverso ao ponto de Deus o ter punido com este terrível castigo, devia merecê-lo.

Com o espírito de justiça típico do cidadão frustrado e respeitador da lei, bateu com um punho na palma da mão. Sabia que era errado o facto de os leprosos serem sustentados. Se eles eram perversos, por que deveriam receber caridade? Era um absurdo! Deviam ser expulsos; postos da cidade para fora e obrigados a vaguearem por qualquer outro local. Todo o tempo que permaneciam em Crediton deviam contaminar a cidade. Como poderia Deus conceder os Seus favores a uma cidade onde as Suas vítimas de eleição eram protegidas?

De olhos semicerrados com a intensidade da sua concentração, ele deixou-se cair lentamente na cadeira, e, gradualmente, espalhou-se-lhe um sorriso no rosto.

- O que te parece, Baldwin? - perguntou Simon quando deixavam o salão de Godfrey. Edgar já tinha sido enviado à estalagem para ver o que a sua encantadora espia lhe podia dizer, e encontravam-se agora os dois sozinhos, enquanto subiam a pé a colina em direcção à casa de John, levando as montadas pelas rédeas.

- Não sei que pensar, muito francamente. Parece estranho que Putthe esteja tão interessado em transferir a nossa atenção de John para o ferreiro, mas devo admitir que considero difícil acreditar que o irlandês possa ter assassinado Godfrey.

- Foi estranho que Putthe tenha querido envolver Jack nisto - divagou Simon.

- Isso também te surpreendeu, não é verdade? Sim, Putthe pode ter visto John lá fora no pátio, como começou por dizer, mas, se o viu, alguém já tinha agredido Cecily e assassinado Godfrey. Podia ter sido o ferreiro, Jack, é claro, mas pode também ter sido John. O que não compreendo é por que motivo John terá voltado a entrar para agredir Putthe, se já tinha deixado os outros dois caídos e estava prestes a fugir.

- Talvez John não se tivesse apercebido de que Putthe o tinha visto. Ou talvez tivesse pensado que essa era a única forma de calar Putthe para que ele pudesse fugir.

- Mas ele não fugiu, ainda cá está - sublinhou Baldwin, parando junto ao portão aberto da casa do irlandês. Viam o homem no interior, confortavelmente sentado num banco, de costas para a parede, a bebericar de um grande jarro de cerveja.

- Por que é que alguém atacaria desnecessariamente um homem como Putthe, e depois não se pôr a andar?

- Não se apercebeu de que seria descoberto - sugeriu Simon.

- Depois de um homicídio, parece-me que a maior parte dos homens prefere não arriscar assim - pelo menos quando é o seu próprio pescoço que está em jogo - disse Baldwin causticamente. - Um assassino teria fugido. Este homem não o fez.

- Assim como ninguém da cidade, não é verdade? - assinalou Simon sensatamente. - O que é lógico para John, certamente se aplica também a outra pessoa.

- Compreendo o que queres dizer, quem quer que seja o responsável, está a comportar-se descaradamente - e, de todas as pessoas desta cidade, não me ocorre ninguém melhor habilitado do que ele. Ele vive a enganar as pessoas.

- Quando falas, quase que parece que o admiras, Baldwin. O cavaleiro lançou-lhe um olhar trocista.

- Ai parece? Suponho que sim, que o admiro, de facto. He é gloriosamente desavergonhado. Tudo o que faz, fá-lo por prazer, sem embaraço. No entanto, uma atitude assim tão hedonística pode ser perigosa, especialmente numa cidade pequena como esta. É demasiado fácil fazer inimigos.

- Como ele parece ter feito.

- No entanto, confesso que acredito que a maior parte dos seus difamadores estão inclinados nesse sentido mais por princípio do que por genuína antipatia em relação a ele. É que ele não é suficientemente desagradável para perturbar muita gente, e, na verdade, a maior parte das pessoas gosta dele precisamente porque ele é atrevido e irreverente. Há algo de atraente num homem que nos trata como iguais quando ambas as partes sabem que não é.

Enquanto olhavam, John ergueu o seu jarro em jeito de saudação, como se lhes estivesse a oferecer uma bebida. Baldwin sorriu:

- Ah, bem, também podíamos ouvir o que ele tem a dizer em seu favor.

John, com um sorriso fixo no rosto, observou os dois a aproximarem-se. Sabia que não valia a pena estar nervoso, pois qualquer representante da lei teria tendência a interpretar isso como um sinal de culpa. John não sobrevivera os últimos anos sendo imprudente. Tratava o perigo com grande respeito; só que a sua noção de respeito era por vezes considerada pelos outros como excessiva ousadia.

- Meus senhores, eis um vosso criado. Em que vos posso ajudar? Estais a pensar comprar-me alguma coisa?

- Penso que sabes muito bem por que estamos aqui, John - disse Baldwin num tom calmo.

- Ora aí suponho que tendes razão. Posso tentar-vos a ambos com um pouco de cerveja, cavalheiros? Encontrais-vos na minha propriedade, afinal, e considero que a hospitalidade é uma das virtudes cardeais.

Não ficou surpreendido quando o Defensor recusou a oferta; a opinião de Baldwin sobre o álcool era suficientemente peculiar para se ter tornado um assunto de conversa fútil em Crediton. Ao ouvir a aceitação de Simon, John foi lá dentro e depressa regressou com um pequeno banco para os dois e outro jarro na mão livre.

- Admito que não foi feito pela minha própria mão, senhor, mas lá por isso não recusareis, tenho a certeza. Foi feito por uma encantadora viúva de perto de Tedburn, que ficou grata por eu lhe ter trazido os excessos em troca de alguns pequenos favores que eu tinha comigo na altura.

Baldwin acenou com a cabeça, carrancudo. Não tinha qualquer desejo de ouvir que tipo de favores tinham sido recebidos com tamanha alegria.

Ao ver sua expressão, John sorriu.

- Apenas velhas roupas, Sir Baldwin. Nada mais.

- A nossa visita está relacionada com a morte de Godfrey.

- Ah, sim, é terrivelmente triste para um homem morrer assim na sua própria casa. - Sabes como ele morreu? - apressou-se Simon a perguntar. John esboçou um leve sorriso, como que a pedir desculpa por ter evitado descuidadamente uma potencial armadilha.

- E, por esta altura, não o sabe já toda a cidade? O criado do homem contou a toda a gente na estalagem, e isso quer dizer que não poderá haver segredos sobre nenhum pormenor. Foi encontrado de barriga para baixo, a cabeça rebentada como um ovo quebrado, o criado de um lado, a filha do outro, e não havia sinal de estar outra pessoa na casa, com excepção da jovem criada da rapariga.

- Estiveste lá naquela noite, John?

O irlandês fez uma pausa, o jarro quase junto aos lábios. Uns olhos vivos fixaram os do cavaleiro.

- Por que é que eu haveria de lá estar? - perguntou inocentemente.

- Quanto a isso, podias ter estado a tentar visitar a senhora Coffyn, sabendo que o marido estava novamente ausente; ou talvez estivesses a tentar visitar outra pessoa...? Ou na esperança de levares a baixela de Godfrey...?

Enquanto engolia um longo gole de cerveja, John refez rapidamente os cálculos. De alguma forma, o Defensor adivinhara muitas coisas em pouco tempo, mas, obviamente, não podia ter chegado à verdade, caso contrário não estaria a fazer perguntas tão indirectas. Colocou cuidadosamente o jarro a seu lado e entrelaçou as mãos por cima da barriga.

- Ora bem, pareceis ter desenterrado algumas coisas que eu teria preferido manter caladas, mas não vos censuro por isso. Não, eu não ia a caminho para visitar a senhora Coffyn. Ela não é o meu tipo de mulher. Mesmo que fosse, eu não teria tentado visitá-la pelo menos com todos aqueles malditos guardas janotas para a protegerem. Eu não haveria de querer encontrá-los numa noite escura! Nem tão-pouco ia a caminho para roubar Godfrey. Não sou nenhum ladrão, e, se fosse, não seria assim tão estúpido que roubasse ao meu próprio vizinho.

- Então por que estavas lá? Viram-te lá.

- A mim? - John levantou as mãos, as palmas para cima, num gesto de franca despreocupação. - Quem é que podia ter-me visto?

- Dois homens, John - Simon mentiu maliciosamente. - Nem todos os criados de Godfrey tiveram autorização para saírem à noite. Ficaram lá dois homens.

- Ora, ora - disse John, mas a afirmação do beleguim deixara-o abalado. Ele sabia que Putthe o vislumbrara através da porta para o pátio e que estava aberta; o despenseiro avisara-o de que já tinha dito isso ao cavaleiro - mas outro? John levantou o jarro e esperou, refreando a sua impaciência.

- John, sei que estiveste lá por qualquer razão - declarou Baldwin. - Se não me disseres porquê, terei de presumir o pior. Talvez eu me pudesse perguntar se estavas, de facto, a tentar visitar a senhora Coffyn, estás a perceber? A única forma de eu poder verificar isso, se não falares, seria visitar Matthew Coffyn e perguntar-lhe se sabia que estavas por aqueles lados, naquela noite, e se podias ter chegado ao quarto da mulher dele sem que ele soubesse. E então, suponho, ele podia decidir vir aqui ter uma conversa contigo.

- Compreendo aonde quereis chegar, Defensor -John sorriu maliciosamente. - Mas podeis avisar-me antes de o irdes visitar?

- John, isto não é caso para rir. Tenho de saber o que estavas lá a fazer.

O sorriso não deixou o rosto do irlandês, mas tornou-se duro, como o de uma estátua, e a sua voz era fria quando disse:

- Viestes aqui com a suspeita de que eu era um assassino, e ameaçando expor-me como um adúltero, algo que faria com que eu fosse morto, e depois dizeis que não tenho o direito de me comportar como quiser? - Então, tão subitamente como surgira, a raiva abandonou-o. - Deixai que vos conte uma pequena história sobre um irlandês antes de responder às vossas outras perguntas, Sir Baldwin. Então compreendereis por que é que eu não ligo a nada do que me acontece.

"Era uma vez um irlandês, Sir Baldwin, que era um sujeito tão alegre como os outros que viviam naquela encantadora ilha. Tinha tudo o que queria: tinha uma esposa bonita que era dele desde que ambos tinham quinze anos, e uma pequena família tão feliz como qualquer pessoa deseja ser feliz. Tinha três filhos e duas filhas, e este homenzinho tinha a sua própria quinta, com gado de todos os tipos a crescer por ali em harmonia. Oh, mas se ele era um indivíduo feliz!

"E então, Sir Baldwin, chegou um dia em que o senhor deste homem lhe disse: "Homenzinho, o nosso país foi invadido. Os nossos lares estão ameaçados por monstros vindos do outro lado do mar, e temos de proteger as nossas, quintas e as nossas mulheres. Vem ajudar-me, porque preciso de um exército", e o homenzinho foi à oficina do ferreiro e comprou uma faca longa, que pensou que pudesse ser boa para cortar as sebes feitas de plantas, quando viesse, e um chapéu de couro para proteger os pequenos miolos que tinha na sua cabeça pequena, e partiu para se juntar ao seu senhor como soldado. E teve sorte, Sir Baldwin, porque o homenzinho não morreu com o seu senhor. Não, conseguiu escapar aos lunáticos que tentavam matá-lo só porque ele usava o distintivo errado, e voltou novamente para casa.

John ficou em silêncio durante um curto espaço de tempo, e estendeu o olhar lá para fora, por cima do muro, como se pudesse ver a cena na distância. Continuando, agarrou o jarro, como que a arranjar amparo, mas agora a sua voz era menos alegre. Havia nela um tom baixo de raiva.

- Só quando regressou, Sir Baldwin, é que descobriu que não havia casa para onde.regressar, se me entendeis. A sua pequena quinta estava destruída. Todos os animais estavam mortos ou tinham sido levados. A sua pequena família ainda se encontrava na pequena casa, e a pequena casa tinha sido incendiada, Sir Baldwin. E a pequena esposa, Sir Baldwin, estava muito pequena, pois não tinha sobrado muito dela depois de os soldados terem acabado de se divertir com ela.

John levantou-se, sem olhar para nenhum deles, e entrou. Quando regressou, o jarro estava novamente cheio.

- E então este homenzinho pensa de si para si: Bem, tenho sido um indivíduo bom todos estes anos, e o que é que eu ganhei com isso? Trabalhei muito para criar a minha pequena família, e agora não sobrou nada; fiz tudo o que podia para proteger a minha esposa, mas ela foi assassinada; construí a minha quinta, e agora desapareceu. Talvez seja melhor eu tentar divertir-me. Nunca mais trabalhar no duro para fazer com que a terra produza comida para me alimentar; de futuro vou dedicar-me a uma ocupação mais fácil. E aconteça o que acontecer, não vou ligar a nada, pois não me resta nada com que me preocupar. Estais a ver, Sir Baldwin, quando já se perdeu tudo, já não há nada que pareça assim tão sério.

Simon olhou o amigo. O cavaleiro franzia o sobrolho enquanto fixava o olhar na bota, mas levantou os olhos ao ouvir as últimas palavras de John: -___ - Perdoa-me. Falei sem pensar. Se pareci duro, aceita as minhas desculpas. Compreendo a tua sensação de perda.

Para o beleguim, parecia que os dois homens, o cavaleiro e o irlandês, se compreendiam perfeitamente. Olharam-se por um momento com um género de compreensão fatigada e recíproca. Simon sabia que Baldwin vira muitos dos seus amigos serem queimados no poste depois de o rei francês ter conseguido convencer o Papa a condenar as suas tropas mais leais, os Cavaleiros Templários, de cujo corpo Baldwin fizera parte. Ambos os homens tinham perdido tudo. Isso fez com que Simon se sentisse estranhamente à parte - e essa era uma sensação com a qual ele estava fervorosamente contente.

- E depois vieste para cá? - perguntou Baldwin com voz suave.

- Oh, depois de muitas proezas e aventuras interessantes, o homenzinho irlandês chegou a esta pequena e agradável cidade, sim. E instalou-se o melhor que pôde, pois na generalidade as pessoas são simpáticas. Gostam dos seus prazeres, e não se preocupam demasiado com os pontos fracos de um indivíduo. - Olhou o Defensor pelo canto do olho, e havia um brilho nos seus olhos. - Mesmo quando um indivíduo é tentado a recuperar a sua visão, com perfeita justificação, a meio de um serviço religioso.

- E na noite em que Godfrey morreu?

- Bem, eu disse que poderia falar depois de terdes ouvido a minha história, e fostes bastante paciente - disse John, e estendeu a perna. Ainda lhe doía, mas apenas intermitentemente. - Senhor, estive lá, embora não saiba dizer como é que aqueles sacanas me viram. Eu ia visitar uma pessoa, uma pessoa amiga, que precisava de uma pequena ajuda e de conselho. Mas, quando ia a caminho, ouvi, de repente, toda aquela gritaria vinda da casa de Matthew Coffyn. Ocorreu-me que todo aquele alarido podia trazer para a rua todos os criados de Godfrey, por isso recuei, esquivei-me cuidadosamente, e, ao fazê-lo, quase me cruzei com dois cavalheiros. Isso fez-me pensar que a coragem é muito bonita, mas talvez a discrição também seja uma característica útil - o que é algo que um soldado tem tendência a aprender nos primórdios da sua carreira, a não ser que a sua propensão para a aprendizagem seja truncada por uma espada. Assim, esquivei-me de volta em direcção à casa, não havendo outro local para onde eu pudesse ir.

- Espera aí! Estás a dizer que esses cavalheiros se encontravam no jardim-de Godfrey!

- Sim. E pareceu-me, naquela altura, que andavam à procura de alguém - mas talvez não andassem. É possível que eles próprios se estivessem a esconder de alguma perseguição.

Baldwin coçou a barba.

- Quer dizer que foste para o pátio das traseiras de Godfrey?

- Sim, e vi com algum prazer que estava sossegado, e que havia locais em que eu me podia esconder.

- Então por que foste em direcção à porta aberta?

- Ah, isso. Foi o barulho. Era tão alto que me perguntei o que poderia ser aquilo.

- Um barulho como uma pessoa a agredir outra na cabeça? - perguntou Simon.

- É possível, mas, beleguim, havia muitos anos que não ouvia um barulho daqueles. Não que, ao ouvir aquele barulho, eu tivesse pensado: Oh, quer dizer que alguém acabou de levar uma pancada na cabeça! Sou um indivíduo pacífico, não penso nessas coisas.

- Dizes - continuou Baldwin - que estavas a tentar evitar todos esses homens, e, no entanto, recuaste em direcção ao salão de Godfrey, para mais longe da tua própria casa, e, finalmente, entraste no salão. Porquê entrar?

- Perdoai-me a pergunta, mas se ides a passar por um grande salão como o de Godfrey, e não vedes ninguém, nem moços de estrebaria, nem criadas, nada, a não ser um grande número de tochas a iluminarem a casa, e uma porta aberta de par em par, e se depois ouvis um grande barulho vindo do interior, não vos sentiríeis um pouco intrigado? Certamente que haveríeis de querer dar uma espreitadela à porta, não é verdade?

- Quer dizer que viste lá os corpos e não fizeste nada? - perguntou Simon. - Viste a rapariga inconsciente, e o criado, e deixaste-os lá? Foste a primeira pessoa a encontrar o corpo de Godfrey e não levantaste o clamor público?

John lançou-lhe um olhar de desaprovação.

- Agora suponhamos que eu estava lá, e suponhamos que estava prestes a relatar que encontrara estas três pessoas no chão, quando ouvi os homens de alguém a correr na minha direcção. E suponhamos que eu sabia que corriam rumores na cidade de que eu praticava adultério com a mulher do vizinho, e suponhamos que eu tinha todas as razões para crer que esse vizinho poderia querer ver como o meu corpo estava unido, ao desmantelá-lo peça por peça. E supondes que eu ficava ali sentado como um bom menino, à espera dele e dos seus homens, com todos aqueles corpos estendidos à minha volta? Sei que as pessoas aqui não têm grande respeito pela inteligência de homens como eu, mas posso garantir-vos que, quando há homens a correrem de espada em punho em direcção a mim, posso ser muito ponderado em pouco tempo.

Baldwin soltou um riso abafado.

- Quer dizer que fugiste pelas traseiras da casa antes de Coffyn ter chegado?

- Quando ele entrou a correr, eu saltei lá para fora. Havia uma janela aberta, e foi por ela que saí. Era apertada, mas consegui.

- Se tudo isto é verdade - perguntou Simon lentamente -, não ouviste o grito que Godfrey soltou ao morrer? Disseram-nos que foi muito alto. Foi o que fez com que Coffyn viesse a correr.

- Ele disse-vos que veio imediatamente? Penso que ele deve ter exagerado - respondeu John com afectação, como se tivesse ficado ofendido por outra pessoa poder ter tentado enganar o Defensor. - Quando cheguei ao jardim de Godfrey, eu bem ouvi como ele e os seus homens percorriam toda a casa dele, como se procurassem alguém. Na verdade, ouvi qualquer coisa, e pode ter sido Godfrey, tanto quanto sei, mas nessa altura Coffyn e os seus rapazes estavam a gritar, e eu não estava concentrado em quem estava a dizer o quê, nem onde estavam. Estava atento aos meus próprios assuntos.

- Esses dois homens - disse Baldwin -, aqueles dois que te fizeram regressar à casa de Godfrey. Quem eram? Viste-os bem?

- Ora bem. Vi - e não vi. Vi-os, mas não posso jurar quem eram.

- Porquê?

- Senhor, estava escuro. E eu não ia esperar para lhes perguntar quem eram. Como digo, havia muito barulho vindo da casa de Coffyn, e parecia estar a aproximar-se. Eu não estava disposto a andar por ali.

- Os dois homens que viste em casa de Godfrey gritaram?

- Não, meu senhor. Da forma como se comportavam, pensei que estavam a tentar preparar-me uma emboscada.

- Onde é que eles estavam? - perguntou Simon.

- Aqui nesta extremidade do jardim, junto a esta parede - disse John, indicando o local com a cabeça. - Há ali alguns arbustos, e esses tipos estavam escondidos perto deles. Parecia que estavam à espera de alguém, e, com todo aquele barulho atrás de mim, e com aqueles dois à minha espera, considerei mais seguro ir na outra direcção.

- Eles não estavam lá quando por lá passaste ao sair? - sugeriu Baldwin.

- Que eu visse, não. Não me parece. E olhei atentamente para todos os lados.

- Por que passaste através do jardim de Godfrey? Certamente que não tinhas necessidade de violar a propriedade alheia...?

- Há algumas coisas que não gosto de fazer - e uma delas é anunciar aos quatro ventos o que ando a fazer, especialmente quando estou a proteger a honra de outra pessoa. De qualquer maneira, pensei que seria suficientemente seguro passar por lá. Sabia que Coffyn devia estar ausente, e que diabo é que ele tinha em mente para regressar a casa tão cedo, só Deus é que sabe!

- Qual era a tua missão?

- Isso não posso dizer.

Baldwin olhou-o de modo dúbio. O homem tinha um ar de à-von-tade, como se pedisse verdadeiramente desculpas por não poder dizer mais nada, mas havia também determinação na postura do seu queixo.

- Muito bem - disse o cavaleiro. - Mas diz-nos o que sabes sobre Godfrey. Que género de homem era ele?

- Era o género de homem que nos roubaria a carteira para ver como sobreviveríamos sem nada, para depois se rir quando nos visse a pedir esmola.

Simon ergueu as sobrancelhas.

- Ele era estimado na cidade.

- E depois? O que é que isso tem a ver comigo? Pedistes-me a minha opinião sobre ele. As pessoas de Crediton gostavam dele porque tinha dinheiro, não pelo seu carácter. Oh, Godfrey tinha muito dinheiro, e era útil a alguns. O próprio Coffyn pedia-lhe dinheiro emprestado, segundo me contaram, mas... Baldwin observou-o.

- Por que motivo pediria Coffyn dinheiro a Godfrey? Certamente que Coffyn tem bastante, e de sobra.

- Ele tem tido problemas nos últimos três anos, pelo que me parece. Bem, há quatro meses, desceu ao ponto de já não ter dinheiro para comprar mercadorias novas. Teve de pedir emprestado, e o primeiro homem que se ofereceu para o ajudar foi o senhor Godfrey de London.

- Como podes saber disso? - perguntou Simon. - Estás a inventar.

- Não preciso de inventar, Beleguim. As minhas informações provêm de fonte fidedigna.

Baldwin estava consciente de um sentimento fugaz de pena em relação a Matthew Coffyn. John estava certamente a insinuar que conhecia os negócios de Coffyn - e Baldwin suspeitava de que ele poderia tê-lo sabido através da sua relação adúltera com a esposa do homem. Outras pessoas da cidade ririam às custas do marido, se soubessem o que ele sabia.

- John, já ouvimos rumores de que tinhas um caso com Martha Coffyn. Também foste acusado de tentar violar Cecily. O que tens a dizer sobre isso?

John fixou o olhar por um momento, depois desatou a rir:

- Eu? Com uma delas? Meu bom Jesus! Bem, Sir Baldwin, talvez devêsseis perguntar-lhes a elas o que pensam de tais alegações!

 

Os dois homens deixaram-no pouco depois. A caminho da estalagem para irem buscar Edgar, Baldwin parou do lado de fora do portão da casa de Godfrey. Simon olhou para a sua expressão franzida.

- Há bastantes coisas a apontarem para John de Irelaunde como o possível homicida - disse.

- É suspeito que ele se encontrasse lá naquela altura, que ele não tenha negado ter sido visto por Putthe. Ele estava no jardim, certamente, e admite ter entrado na casa.

- E podia ter morto Godfrey, agredido Cecily com um soco, ter-se escapulido pela janela, ter-se apercebido de que fora visto por Putthe e ter voltado a entrar para o agredir e o deixar inconsciente também.

- É verdade, mas é-me difícil aceitar que Cecily não o tivesse reconhecido.

- Ora, Baldwin, estava escuro! Ela própria disse que não conseguiu ver nada do homem.

- Com excepção do escarlate rico da sua túnica - acrescentou Baldwin, virando costas à casa e seguindo, pensativo. - Mas se vislumbrasses alguém que conheces muito bem, não reconhecerias essa pessoa?

- Ela é uma rapariga bem-educada - lembrou-lhe Simon. - Provavelmente não liga aos criados, quanto mais a um vizinho pobre. Por que deveria fazê-lo? Está tão acima deles como uma leoa está acima de uma raposa. Se foi Irelaunde que estava na sala naquela noite, ela estaria tão petrificada de terror por encontrar ali alguém, que não teria sido capaz sequer de jurar se se tratava de um homem ou não!

- Bem visto - Baldwin acenou com a cabeça. - Quando vemos algo de estranho, é demasiado fácil dar asas à imaginação.

- Sim, por isso, se ela disse que reconheceu alguém, não se poderia confiar no seu testemunho.

Encontravam-se agora junto à casa de Coffyn, e Baldwin olhou para o interior. À porta principal, confortavelmente sentado, estava Wil-liam, que dirigiu ao cavaleiro um afável aceno de cabeça.

- Olha para ele - sugeriu Baldwin -, tem mais ou menos a altura e a estatura certas. Se estivesse embrulhado numa capa, com algo a esconder-lhe o rosto, poderia parecer John, não poderia?

- Só porque é baixo. Com excepção disso, não há muita coisa que o faça parecer-se com John - disse Simon rejeitando a ideia.

- Sim, mesmo conhecendo a pessoa há pouco tempo, seria difícil confundir um com o outro, não seria? E, no entanto, estás a sugerir seriamente que Cecily, que provavelmente vê John todos os dias, podia não o ter reconhecido.

- No calor do momento - no seu medo de encontrar dentro de casa alguém que ela não estava à espera, Cecily poderia não se ter apercebido de nada que pudesse identificar a pessoa. E, de qualquer forma, sabes como são as mulheres. Não são como os homens. Tu ou eu teríamos simplesmente batido no homem como sendo um intruso - mas as mulheres são irreflectidas. Funcionam com base em sensações, não em factos.

Baldwin estremeceu.

- Simon, tens uma boa esposa - queres sinceramente dizer-me que não confiarias na palavra de Margaret em comparação com a de um homem só pelo facto de ela ser mulher?

- Oh, não, isso é diferente! Ela é minha mulher.

- Sim, mas continua a ser uma mulher. Não, Simon, o teu argumento não tem lógica. Se acontecesse alguma coisa a Cecily, podes ter a certeza de que ela repararia tão bem como tu ou eu. Especialmente se fosse violada.

- Estás a pensar no que Putthe e Coffyn disseram?

- Sim. Ambos tentaram insinuar que John foi tão lascivo nos seus desejos que pode ter tentado violá-la. Não posso acreditar nisso.

- Não. Depois de termos falado com ele, ele, de facto, parece demasiado comum para tentar violar uma rapariga rica no salão do pai dela.

- Eu não quis dizer isso - eu estava a pensar nela. Ela não foi violada! Se tivesse sido, teria exigido que o culpado fosse capturado. Ela tinha provas suficientes, afinal, com aquele golpe no rosto. Não, ela não foi atacada sexualmente. - O cavaleiro recordou a expressão que surpreendera nos olhos dela. - Mas se ela quisesse esconder alguma coisa, seria perfeitamente capaz disso.

- O que queres dizer com isso? - perguntou Simon, mas o amigo permaneceu calado e pensativo. Para o fazer falar um pouco, Simon pensou num tópico novo. - Sabias de que John estava a falar quando disse que foi levado para ser soldado?

- Da invasão, é claro.

- Que invasão?

Baldwin esboçou um leve sorriso.

- Por vezes esqueço-me de que os teus interesses estão tão firmemente enraizados em Devon. Deixa que te dê uma pequena lição de história recente.

"Os Escoceses foram sempre rápidos a explorarem qualquer fraqueza da nossa parte. Bannockburn deu aos seus líderes razão para terem esperança de que poderiam ser capazes de nos empurrarem do Norte do nosso país, mas deu-lhes também uma pausa para pensarem. Se puderam derrotar o nosso Rei em batalha aberta, por que não levarem para si próprios algumas das suas outras possessões?. Seria dispendioso tentarem deslocar-se furtivamente para França para invadirem os territórios ingleses, mas o Rei Eduardo tem outras terras sob o seu domínio. E o Bruce conheciam bem uma delas.

"Eduardo Bruce desembarcou na Irlanda em 1315, no Dia da Anunciação de Nossa Senhora, num local chamado Larne. Tinha com ele milhares de homens temperados pela guerra, veteranos de Bannockburn e de outras lutas, e os pobres Irlandeses não estavam à altura deles. Lá, o povo não tinha experiência de luta a sério, e tinha de depender de requisições militares feitas pelos senhores feudais; onde quer que defrontassem os escoceses, eram derrotados. Por volta de Maio de 1316, Eduardo Bruce tinha conquistado a maior parte da ilha, e tinha-se autoproclamado Rei.

- Mas John estava aqui antes disso!

- Sim, parece que ele fez parte das requisições militares feudais, e viu a destruição da sua quinta e da sua família logo no início. Depois disso, não admira que tenha saído da ilha.

- Que aconteceu a Eduardo Bruce? Não morreu? - Simon franziu o sobrolho. Lembrava-se de ter ouvido dizer qualquer coisa sobre o assunto na igreja, mas foi exactamente quando ele tomava posse do seu novo cargo como beleguim, e o seu interesse por assuntos tão distantes não era tão importante como coordenar os mineiros de estanho na charneca.

- Sim, morreu. Como muitos que aspiram a grandes coisas, ele procurou levar o que queria o mais rapidamente possível. No final de 1316, o irmão Roberto juntou-se-lhe. Ora pensa, dois irmãos, e ambos com pretensões a tronos diferentes! Roberto trouxe com ele um exército novo, e passaram por cima da Irlanda, devastando a terra. E isto numa altura em que a Irlanda e a Inglaterra já tinham sido ambas assoladas pela fome.

- Como morreu Eduardo Bruce?

- Disse aos Irlandeses que queria expulsar os Ingleses e devolver a terra aos antigos Reis da Irlanda. Palavras bonitas, mas insistiu em que seria o novo Rei. Muitos não estavam convencidos de que ele seria um bom monarca - e embora os Irlandeses sejam pobres, e se queixem muitas vezes da perda da sua língua e das suas leis, apesar de tudo isso, são uma raça orgulhosa, e estão verdadeiramente determinados a preservar as suas liberdades. Após meses a ver como um exército escocês podia espezinhar tudo à sua passagem - ouviste o que John disse sobre a sua quinta -, muitos optaram por apoiar os Ingleses para livrarem o seu país dos invasores. Dublin lutou e obrigou os escoceses a baterem em retirada quando cercaram a cidade; em Con-naught, súbditos leais também os derrotaram, e depressa chegou outro exército - inglês, determinado a expulsar os irmãos da Irlanda para sempre. Roberto Bruce retirou-se para a Escócia, e o irmão ficou sozinho. Em 1318, foi derrotado, e morreu na batalha.

- Estou a ver - disse Simon calmamente. - Saber coisas do passado faz com que seja mais fácil compreender como John pôde ter chegado ao que é hoje. Deus sabe como é que eu reagiria se encontrasse a minha casa destruída, a minha família morta. O pobre diabo!

- Sim! - concordou Baldwin. - Faz sentido, uma vez que nos apercebamos da forma como o choque o deve ter afectado. A sua alegria de pessoa que não liga a nada e a sua atitude relaxada é mais compreensível.

O beleguim avançou uma curta distância, parando subitamente.

- O que é, Simon?

- Baldwin, estava aqui a pensar, se um homem como John perdesse a espaça, certamente que a primeira coisa que haveria de querer fazer seria vingar-se.

- Ah, mas quando se trata de uma guerra, Simon, as coisas...

- Não, não estás a perceber o que eu quero dizer. Se é assim, então, da mesma maneira, um homem que descubra que a esposa tem vindo a cometer adultério também haveria de querer vingança. - Simon olhou para trás, estrada fora, em direcção às duas casas. - E parece que toda a gente sabe que John se andava a encontrar com a mulher de Coffyn. Certamente que o próprio Coffyn deve ter sabido - então por que diabo não pegou numa adaga e não foi, ele próprio, ter com John?

Percorreram a rua devagar, e prenderam os cavalos ao gradeamento de madeira, à porta da estalagem. Lá dentro encontraram Edgar sentado sozinho a uma mesa perto da porta. Baldwin sentou-se a seu lado.

- E então?

Antes que o criado pudesse falar, Cristine apareceu e dirigiu-se a eles.

- Quereis vinho, Sir Baldwin?

O cavaleiro levantou a cabeça e sorriu-lhe, e ela retribuiu-lhe com um sorriso resplandecente. Como lhe convinha, lembrou ele a si próprio, forçadamente. Ela não era nenhuma idiota, e, ao ver como Edgar ficara enredado nos seus encantos, não se podia esperar outra coisa senão que ela tentasse conquistar também o amo de Edgar.

Mas, apesar de todo o cinismo dele, era difícil vê-la com severidade. Cristine era uma rapariga de trinta anos, roliça e alegre. Notavelmente, não apresentava quaisquer marcas da sua vida a servir os viajantes que passavam por Crediton, e as suas feições não revelavam na sua testa larga quaisquer sinais de fome ou crueldade. Um pouco acima da altura média, Cristine tinha em ambas as faces covinhas que lhe davam um ar feliz, ainda que ligeiramente tolo.

Mas Baldwin sabia que esse ar era uma máscara cuidadosamente fabricada para esconder uma mente viva, e ele fez-lhe sinal em direcção a um banco, e esperou que ela se sentasse antes de começar a falar.

- Cristine, sei que Edgar terá mencionado que eu quero fazer-te algumas perguntas. Para começar, diz-me o que sabes sobre Godfrey.

A rapariga lançou um olhar a Edgar, mas em seguida olhou o cavaleiro nos olhos enquanto respondia:

- Eu não o conhecia bem, Sir Baldwin. Ele só raramente cá vinha, e, nessas alturas, estava sempre com outra pessoa. Não era comum ele estar aqui sozinho, por isso, tudo o que realmente sei é aquilo que apanhei ao ouvir outras pessoas falarem dele aqui.

Quando ele acenou com a cabeça, ela continuou:

- Ele veio para Crediton há alguns anos, antes de eu própria ter começado a trabalhar aqui. Em casa dele, para além dele próprio, viviam a filha e alguns criados. Putthe é o único que resta; os outros foram-se todos embora. Putthe vem cá às vezes, geralmente com o camareiro-mor da casa de Godfrey, mas raramente falam do amo. Tenho a impressão de que Putthe é um género de homem fechado e cauteloso.

"O que ouvi dizer é que Godfrey era bastante pródigo com o seu dinheiro quando se tratava de cavalos, mas as outras pessoas podiam esperar sentadas, embora ele fosse conhecido por emprestar dinheiro a juros.

- Como era o carácter dele? - perguntou Simon. - Era do género de se envolver em brigas?

- Não que eu tivesse ouvido dizer, senhor. Fiquei com a impressão de que ele era um género de homem amargo e irritado. Falava connosco aqui com modos rudes quando éramos retidas por outros clientes e ele queria a sua bebida, e, por vezes, usava uma linguagem incorrecta. Também ouvi dizer que ele costumava bater na filha, mas nada disso quer dizer que ele encetaria uma briga com outros homens.

- Queres dizer que Godfrey era um fanfarrão - Simon fez o resumo por ela.

- No entanto, aparentemente estava a envolver-se numa briga com ladrões ou coisa assim, quando foi assassinado - sublinhou Baldwin, perguntando em seguida: - Diz-nos o que sabes sobre a filha dele.

- A senhora Cecily ainda se vê aqui mais raramente do que o pai se via, senhor - respondeu Cristine. - Ela é uma senhora demasiado importante para vir a uma casa humilde como é a nossa pequena estalagem!

- Mas deves ter ouvido dizer alguma coisa a respeito dela - pressionou Baldwin. - Tem admiradores? Há boatos sobre ela e algum homem da cidade?

- Que eu saiba, não. Do que tenho ouvido dizer, ela é uma rapariga sossegada, muito fechada. Mas é conhecida por ser generosa. Há apenas dez dias atrás, mais ou menos, vi-a na rua; viu um leproso e abriu a bolsa para lhe dar dinheiro. Quando ele disse qualquer coisa, ela pensou melhor e esvaziou a bolsa toda para a malga dele.

- Excepcionalmente generosa - murmurou Simon.

- Foi isso que eu também pensei, senhor. Depois disso, ela estava bastante pálida, e eu pensei que ela poderia ter inspirado o cheiro dele, por isso ofereci-lhe vinho, mas ela recusou e foi para casa.

- O que dizem dela as outras pessoas? - perguntou Baldwin. A rapariga inclinou a cabeça para um lado, como se ouvisse os ecos de vozes que poderiam ter falado da filha de Godfrey.

Era difícil recordar todas as coisas que ela ouvira sobre a rapariga. Cristine tinha de ouvir e fazer conversa de sala com todas as pessoas da cidade, e, geralmente, a sua contribuição não ia além de um interesse aparente, enquanto a sua mente estava ocupada com um turbilhão de outros assuntos. Não queria saber do que um agricultor pudesse pensar das técnicas de criação de porcos do vizinho, nem do que um curtidor sentia sobre a habilidade de um talhante para esfolar uma vitela eficientemente. Mas algumas coisas interessavam-na mesmo.

Quem foi?, perguntou-se ela. Fora há duas ou três semanas e ela ouvira alguém a falar...

- O responsável pela leprosaria! Baldwin pestanejou.

- O que tem ele? - Ouvi-o falar com outro monge a semana passada. Foi naquele dia mesmo quente, lembras-te? - apelou ela para Edgar, que sorriu em sinal de assentimento. - O responsável pela leprosaria e o monge que trata das esmolas estiveram aqui e partilharam os dois uma bebida lá fora no jardim. Eu tive de servi-los, e, de facto, ouvi-os a falarem dela.

- Para que poderiam eles querer falar dela? - perguntou Baldwin com franca surpresa.

- Penso que ela tinha falado com o responsável pela leprosaria para lhe perguntar pelos homens que tinha a seu cuidado e para se oferecer para o ajudar - com dinheiro, creio eu. Não como algumas pessoas.

- O que queres dizer com isso?

- Já lá está uma rapariga. Correm todos os géneros de rumores sobre ela.

- Oh, referes-te a Mary Cordwainer?

- Sim, pobre rapariga. Perdeu o homem dela, o jovem Edmund Quivil. Perdeu o futuro marido; perdeu todo o seu futuro, se compreendeis o que quero dizer. E algumas pessoas estão a deturpar mal-vadamente os seus motivos. Não, eu penso que Cecily queria ajudar com dinheiro. O responsável pela leprosaria estava a fazer perguntas sobre ela ao outro monge, tentando descobrir o que pudesse, mas duvido que o responsável pelas esmolas lhe soubesse dizer muito.

Cristine não teve necessidade de explicar as suas palavras. Todos sabiam tão bem quanto ela que ele andava pela cidade a distribuir esmolas e que entrava muitas vezes em lojas para comprar artigos de que os pobres precisavam, mas as casas em que ele entrava eram as dos que tinham sido atacados pela pobreza, não as dos ricos. Da mesma forma, ele dificilmente encontraria Cecily enquanto andava às compras. Os locais em que ele comprava tecido, sapatos ou comida não eram do género em que uma jovem senhora da classe de Cecily entrasse de boa vontade. O responsável pelas esmolas vivia numa esfera da cidade diferente da dela.

Mas, enquanto Cristine pensava nisto, outro pensamento lhe afluiu à mente, e ela lançou um olhar a Edgar, perguntando-se se devia contar-lhe para que ele pudesse falar nisso ao amo. No momento exacto em que vislumbrou a expressão dela, Baldwin disse com voz forte:

- Sim? Desembucha, Cristine!

Ela voltou a sorrir, baixando a cabeça quando encontrou o olhar dele.

- Perdoai, Sir Baldwin, mas estava a pensar: se quisésseis descobrir o que pudésseis sobre Cecily, certamente que seria melhor se falásseis com o deão, Peter Clifford. Ele é o padre da cidade, e é mais provável que ele a conheça, não é?

William entrou no salão com o ar descuidado de um homem que sabe que o seu próprio cargo está bastante seguro. Fosse qual fosse a razão para ter sido chamado de urgência, a consciência de William estava tranquila.

À medida que entrava, olhou em redor. Dois homens estavam a jogar memfejDerto da porta, e acenaram-lhe com a cabeça quando ele passou. Para além deles, havia apenas mais uma pessoa na sala - Matthew Coffyn.

William passou em revista as suas disposições: havia o homem à porta da frente, um junto aos aposentos particulares da senhora Coffyn, e os últimos dois no pátio dos estábulos. Ele vigiara-os a todos uns momentos antes de ter sido chamado, e tinha a certeza de que não havia nada com que se preocupar em relação a eles, por isso estava curioso relativamente aos motivos por que a sua presença fora solicitada.

- Senhor?

- Vem comigo, William.

William permitiu que o sobrolho se lhe erguesse enquanto seguia o amo através da porta situada atrás do estrado. Esta era a primeira vez que era autorizado a ver a casa-forte especial onde Coffyn guardava o dinheiro e a baixela.

Era uma pequena cela rectangular. Uma janela minúscula rasgada lá em cima na parede deixava entrar uma luz sombria, sob a qual William viu que a sala estava cheia. Duas grandes arcas estavam colocadas no chão, ambas sólidas e com fechaduras de metal. Em todas as paredes havia prateleiras, e nas prateleiras havia uma selecção dos melhores tecidos que William alguma vez vira. Mas isso não era tudo. Havia também alguma prata e algum peltre, embora não em tanta quantidade quanto William teria esperado. Sentia comichão nos dedos de vontade de lhes tocar, mas, agora que aqui estava, tinha a certeza de que se tratava de um teste, e enfiou as mãos no forte cinto de couro, deixando o polegar de fora, como um gancho. Não ousava parecer demasiado interessado. Era-lhe mais difícil controlar os olhos, que passeavam por cima dos pratos, das taças e das malgas com um desejo quase libertino.

- Estás a ver tudo isto?

A voz de Coffyn trouxe-o de volta ao presente com um estremecimento. Felizmente, o mercador tinha as costas viradas para ele, e não reparara na sua expressão. Cuidadosamente, William aventurou-se a dizer a palavra:

- Sim?

- Costumava ter mais. Tive de a vender ao desbarato como um camponês para pagar uma dívida. Geralmente são os judeus que nos esfolam, não é verdade? Mas agora são os florentinos, os genoveses ou também outros ingleses! Há sempre alguém preparado para lucrar com a pouca sorte de outra pessoa.

Girou sobre os calcanhares, de sobrolho carregado. William manteve a sua atitude desinteressada, mas estava intrigado, embora não o mostrasse. Queria saber o que estava por detrás deste encontro.

- Estive hoje a falar com um dos teus homens, William. Ele disse-me que regressaste há pouco de França. É verdade?

O guarda caminhou até junto de uma arca e sentou-se nela antes de pensar na pergunta. Revendo na sua mente as lutas em que estivera envolvido, não via como é que algum dos seus delitos passados ou das suas vítimas passadas podiam ter vindo assombrá-lo aqui em Inglaterra. Não fizera aqui nada de errado, disso estava convencido.

- Sim? - repetiu ele, interrogativamente.

- Aquilo dos camponeses é verdade? Revoltaram-se?

- Oh, sim! - William encolheu os ombros. Não podia acreditar que Coffyn o convidara a esta sala simplesmente para lhe perguntar sobre os assuntos da distante França.

- Conta-me como foi.

- Sei pouco sobre isso, senhor. Tem vindo a acontecer há alguns anos. Desta vez foi um grupo de camponeses que marcharam do Norte e se dirigiram para Sul. Afirmavam que os nobres eram ladrões e pior do que isso, aplicando impostos demasiado elevados aos camponeses, esse tipo de coisas. Diziam que o que um camponês produzia num ano seria consumido numa hora por um cavaleiro. As tretas normais que se ouvem aos pobres. - William tinha uma atitude simplista relativamente aos camponeses de França. Tinham comida e vinho que se aproveitavam, mas raramente qualquer meio de defesa, e podiam ser vistos como uma cómoda fonte de refeições gratuitas.

- E que aconteceu quando chegaram ao Sul?

Havia na voz de Coffyn um tom que fez com que William escolhesse as palavras cuidadosamente.

- Atacaram castelos, libertaram prisioneiros das cadeias, mataram beleguins e soldados, incendiaram paços de conselho e casas de registos, todas as coisas que se esperam de uma multidão desenfreada.

- E os judeus?

- Oh, esses! Bem, caíram-lhes em cima, é claro. Massacravam-nos sempre que podiam. Isso não foi surpresa. Os judeus é que têm o dinheiro todo, não é verdade? - Isso era algo que não preocupava William. Afinal até o Rei inglês tinha posto todos os judeus fora do país. Os Franceses expulsaram-nos em 1306, e muita gente tinha aplaudido a acção, pensando que todas as suas dívidas seriam apagadas, mas depois o filho do Rei francês, Luís X, admitiu-os novamente, sob condições que significavam que ele era detentor de dois terços de todas as dívidas que eles tentassem recuperar.

Assim, os camponeses estavam a pagar as deles da única forma que sabiam: na ponta de forquilhas e lanças.

Coffyn acenou com a cabeça perante a atitude, mas para ele havia uma razão diferente para aplaudir as acções.

Era um homem intensamente religioso. Isso era algo que lhe fora cuidadosamente incutido pelo mestre, quando ele ainda era aprendiz, e dominava nele a ideia de que os leprosos poderiam estar a colocar a cidade em perigo através da sua existência. O rosto corou-lhe de entusiasmo, à medida que se sentava em frente de William.

- Também foram outros atacados?

William encolheu os ombros. Havia uma avidez na atitude de Coffyn, quase como se ele estivesse a discutir comida. Era um olhar que o soldado já vira antes no rosto de fanáticos.

- Quase toda a gente com poder, ou aqueles que tinham dinheiro. O amo deu um clique irritante com a língua e estalou os dedos num gesto de desprezo.

- E depois? Esses pouco importam. Quando desaparecem, Deus reconhecerá os Seus. Aqueles que Ele ignora não deixarão saudades. Os bons irão para o Céu e deviam sentir-se gratos pela sua morte por ela os libertar desta vida de labuta! Não, são os outros: havia um grupo apedrejado e enforcado juntamente com os judeus, não havia? Os leprosos. Por que foram eles também mortos?

- Foram acusados de estarem associados aos judeus - concordou William. - Dizia-se que os leprosos tinham feito um pacto com os judeus, segundo o qual lhes dariam quaisquer mulheres que eles quisessem, nas cidades, e, em troca, eles envenenavam os poços.

- É como eu pensava!

- Meu amo, estas eram as fúrias dos camponeses - assinalou William, sensatamente.

- És soldado, William; não podes compreender como estas coisas acontecem - disse Coffyn com confiança. - Mas deves ter ouvido os padres falarem de leprosos. Cada marca e cada sinal de doença que eles apresentam é um castigo divino pelos pecados que cometeram.

- Que pecados? - perguntou William, recordando um amigo, de um exército em Espanha, que desenvolvera a doença.

- Concupiscência e orgulho.

- Oh. - Sim, pensou ele. Isso descreveria bastante bem o seu companheiro espanhol, excitado e arrogante. Então William mexeu-se, desconfortável, no seu assento, perguntando-se se não deveria, ele próprio, fazer uma visita à igreja.

- E é dever dos bons cristãos expulsar essa escória nojenta da nossa cidade - afirmou Coffyn.

- Isso não é ilegal?

- Os pecados monstruosos deles são tornados visíveis por Deus através das disformidades hediondas que apresentam.

- Mas eles estão sob a protecção da Igreja.

- Isso não precisa de impedir os cidadãos de nos ajudarem a libertar a cidade dessa gente.

- Como é que convenceríeis as pessoas a ajudarem a expulsá-los? Coffyn baixou a cabeça e sorriu.

- Ouviste o que eu disse? Essas pessoas são imundas e impelidas por um desejo incontrolável. Olha para aquela pobre Mary Cordwai-ner, a ir lá todos os dias. Poderá haver quaisquer dúvidas de que os doentes da leprosaria a tenham subjugado aos seus desejos?

- Quereis dizer que eles são...? - William fez um jeito com os lábios em sinal de repulsa.

- Sim. Mancharam-na e ligaram-na a eles através do seu comportamento depravado. Quem me disse foi o teu amigo ferreiro.

William comprimiu os lábios.

- O que ireis fazer?

- É mais o que eu quero que tu faças.

 

Baldwin e Simon esperaram enquanto Edgar foi buscar o cavalo ao pátio atrás da estalagem, e em seguida cavalgaram os três para a casa do deão.

Quando chegaram, a casa borbulhava de actividade, com criados a correrem de um lado para o outro e a esbarrarem uns nos outros, ao mesmo tempo que levantavam a mesa após uma refeição. Os odores vindos da cozinha fizeram nascer água na boca de Simon, e foi só então que ele se apercebeu do quanto estava esfaimado. Não comera toda a manhã.

Peter Clifford estava sentado no seu salão. O Bispo Stapledon estava mais uma vez de visita, e estava sentado a seu lado. Baldwin e Simon tomaram os seus lugares num banco próximo, enquanto o deão acabava de lavar e secar as mãos. O beleguim não pôde deixar de lançar um olhar faminto a um prato de pão. Clifford viu a direcção do olhar dele e, a sorrir, ordenou ao copeiro que trouxesse pães frescos e vinho e que os colocasse à frente do beleguim. Enquanto os outros falavam, Simon ouvia o melhor que podia, mastigando avidamente.

- O Bispo e eu estávamos exactamente a discutir o coro - disse Clifford. - Ele estava preocupado com o facto de não estar a ser executado com o grau de solenidade adequado.

- É importante assegurar que os serviços sejam conduzidos com a máxima dignidade - Stapledon acenou com a cabeça. - Eles existem para louvar o Senhor, e se não conseguem impressionar alguém tão pobre e ignorante como eu, como podemos esperar agradar-Lhe?

- E o que é que ficou decidido? - perguntou Baldwin.

- Concordei em designar quatro jovens funcionários para ajudarem: um para cuidar da sacristia, dos livros e dos ornamentos sob a tutela do Tesoureiro; outro para ser responsável pelos sinos; um terceiro para cuidar das ofertas junto ao altar-mor; e um último para dar instruções aos outros e para verificar como se comportam.

Baldwin olhou Clifford, que propositadamente lhe evitou o olhar. Impressionou o cavaleiro o facto de o Bispo ter concordado em investir num número que não era assim tão insignificante de funcionários novos para a igreja, quando o deão seria o principal beneficiário. Baldwin disse a si próprio para não ser cínico, mas via que o Bispo parecia cansado, e perguntou-se se o seu amigo Clifford não se teria aproveitado.

- A propósito, deão, sobre as feiras... Baldwin acomodou-se e resignou-se a esperar até que os dois padres acabassem de discutir os seus assuntos. Agora estavam a falar sobre as duas feiras que Stapledon concedera à cidade. Estava alarmado com a queda das portagens. Isso envolveu um estudo cuidadoso de velhos pergaminhos e rolos de números, e cada um deles teve de ser trazido por grupos de monges e cónegos, até Baldwin começar a ficar profundamente irritado. Acenou ao copeiro para que trouxesse comida, e pouco depois tinha à frente uma grande caneca de vinho misturado com água e um prato de carnes frias.

Passou meia hora até que Stapledon fez sinal aos seus funcionários para que se retirassem, e, então, olhou Baldwin. Havia anos que a visão lhe falhava e agora precisava de usar óculos, que lhe davam um pouco a aparência de uma coruja espantada.

- Tendes sido muito paciente connosco, Sir Baldwin. As minhas desculpas por vos ter feito esperar tanto, mas é muito melhor ficarmos livres destas coisas quando temos oportunidade. O meu tempo já não me pertence.

Baldwin rejeitou as desculpas como desnecessárias.

- Bispo, meu senhor, nós é que devemos pedir desculpa por termos aparecido sem avisar.

- Em que posso ser-te útil, Sir Baldwin? - perguntou Clifford.

- Peter, queria fazer-te algumas perguntas sobre uma rapariga da cidade - disse ele. - Trata-se de Cecily, a filha do morto. Tanto quanto sei ela é muito generosa para com os pobres, incluindo os leprosos.

- Sim, creio que ela ajudou com algumas boas obras. Porquê?

- Desde que o pai foi assassinado, temos tentado encontrar uma razão para homicídio, mas é possível que tenha sido apenas um assalto que correu màl Tenho quase a certeza de que uma grande parte da baixela de Godfrey desapareceu. Da mesma forma, não posso deixar de me interrogar sobre as últimas palavras do morto.

- E quais foram elas?

- Aparentemente: "Com que então estás disposto a conspurcar também a minha filha, não é verdade?”

- E que tem ela a dizer sobre isso?

- Ela não diz nada. É peremptória ao afirmar que foi agredida por um homem junto à janela e que não sabia nada da morte do pai.

Stapledon bebericava o seu vinho.

- E vós não acreditais nela.

- Eu não diria isso, meu senhor, simplesmente não sei. Mas, na verdade, parece-me estranho que ela tenha entrado no salão e que tivesse sido imediatamente atacada. A maior parte dos ladrões fugiria ao ouvir alguém aproximar-se. E aquelas palavras... dão azo a alguma especulação intrigante.

- Obviamente ele veio dar com alguém a tentar violar a pobre rapariga - disse Clifford.

Simon roubou um pedaço da carne de Baldwin.

- É isso que parece.

- O que quereis dizer com isso? - perguntou o Deão.

- Se se tratasse de um simples ataque dessa natureza, porquê dizer "conspurcar"? Se fosse uma violação, não teria ele dito apenas: "Com que então estás disposto a violar também a minha filha, não é verdade?" Certamente que estas são as palavras que mais facilmente viriam à cabeça de um homem.

- Eu não tenho tanta certeza - disse Stapledon. - Hoje em dia ouve-se cada história: sobre freiras que são violadas em conventos, mulheres a serem levadas das suas casas, os maridos a serem assassinados ou torturados para que mostrem onde guardam as coisas de valor. Estes malfeitores são animalescos. Se esse pobre homem entrou no seu salão e descobriu que aqueles homens tinham agredido a filha e que estavam a tentar violá-la, talvez tenha usado as primeiras palavras que lhe vieram à cabeça. Violar é uma palavra muito forte, mas quando é usada contra alguns dos salteadores que tenho visto no meu próprio tribunal...

Baldwin acenou lentamente com a cabeça. Também ele vira alguma dessa mesma escória social à sua frente nas audiências do tribunal. Perguntava-se como é que ele teria reagido ao ver um deles a pôr a pata em cima da sua filha? Se ele tivesse uma filha, adorá-la-ia, sentia ele, exactamente da mesma forma que Simon amava a sua; e se alguma vez encontrasse um canalha andrajoso a tocar no seu corpo jovem enquanto ela estava inconsciente, depois de ter sido agredida no rosto pelo seu atacante, Baldwin tinha a certeza de que usaria uma linguagem mais forte do que "violar". Mas, nesse caso, teria provavelmente usado também uma linguagem ainda mais forte do que "conspurcar". Na verdade, pensou, provavelmente não teria usado qualquer linguagem: teria sacado da sua espada ou puxado de um bastão, e teria exprimido os seus sentimentos de forma mais enérgica.

- Então o que queres de mim, Sir Baldwin? - perguntou o deão.

- Tudo o que me puderes contar sobre ela, sobre o pai, ou sobre qualquer pessoa que possa ter a ver com este horrível homicídio.

- Bem... - o deão fixava a meia distância, pensativo. - Sempre considerei que o pai tinha um carácter bastante forte. Não era muito prestável, nem particularmente popular, mas sempre me impressionou por ser um homem resoluto.

- Quando dizes que ele não era muito popular, é em que sentido?

- Oh, ele incomodava algumas pessoas. Costumava recusar dar esmolas a certas pessoas. Era bastante cruel para com os leprosos. Insultava-os, e uma vez até lhes atirou pedras a um que se encontrava demasiado próximo do portão dele. Mas nada de grave, o leproso não ficou ferido. No entanto, a sua atitude para com aqueles que não eram tão saudáveis nem tão ricos quanto ele era bastante discriminatória.

- Ele irritava-se com frequência? Clifford olhou o cavaleiro.

- Por vezes, sim, mas geralmente só quando se tratava de algo que tivesse a ver com a filha. Penso que era por isso que ele era tão áspero para com os leprosos, porque receava que um deles pudesse atacá-la.

- Por que pensaria ele uma coisa dessas? - interrompeu Simon. Foi Baldwin que respondeu.

- Porque muitas pessoas pensam que os leprosos têm um apetite insaciável por sexo.

- Sim - Clifford acenou com a cabeça. - Alguns pensam que a lepra é uma doença sexual, adquirida por aqueles que têm desejos anormais, e que mostra a natureza da alma da pessoa. Outros pensam que é causada por pais pervertidos, e que, na verdade, é a prova de um género de desvio moral. Penso que era o que Godfrey pensava, e queria manter a filha afastada de tal gente.

- E impedir que eles a conspurcassem - completou Simon.

- É possível - concordou Baldwin. - E como é ela, Cecily?

- Oh, é um tesouro. Enquanto que o pai era duro e inabalável, ela parece demasiado generosa. Ela mostra todos os sinais de compaixão e tolerância. Tenho tentado transmitir a opinião de Santo Hugo: os leprosos existem para nos mostrarem a todos o caminho para a redenção, demonstrando, através do seu sofrimento mundano, o que está para vir; Deus coloca-os perante nós para que não nos esqueçamos, para que sigamos sempre pelo caminho certo. Era essa a opinião de Santo Hugo, e, do fundo do meu coração, acredito que é a correcta. A senhora Cecily é uma das poucas pessoas da cidade que sentiu as minhas palavras.

- Deus seja louvado - murmurou o Bispo.

- E como é que ela evidencia este cuidado com os doentes? - inquiriu Baldwin.

- Falou com o responsável pelos leprosos no sentido de fazer um donativo pequeno mas regular para ajudar a leprosaria, e também porque queria oferecer uma dotação para missas.

Simon ficou a olhar, boquiaberto.

- Ela quer pagar missas regulares na capela dos leprosos?

- Sim. Não chegará ao ponto de lhes conceder um altar novo, mas disse que ficará contente por lhes dar dinheiro anualmente, se eles celebrarem uma missa em memória do pai, tanto no aniversário do seu nascimento como da sua morte.

- Isso é extremamente interessante - observou Baldwin. Os ricos, muitas vezes, ofereciam uma dotação à sua igreja preferida para poderem ser lembrados e para que se rezasse por eles enquanto permanecessem no Purgatório, mas o cavaleiro nunca tivera conhecimento que a oferecessem a um local de oração de leprosos.

- Por que teria ela pedido isso, pergunto-me...?

- Porque queria salvar a alma dele, Sir Baldwin - disse Clifford bruscamente.

O cavaleiro dirigiu-lhe um pedido de desculpas em forma de sorriso, pois o deão sabia que ele tinha pouca fé na Igreja como instituição; após a sua Ordem ter sido traída pelo Papa, a confiança dele ficara abalada.

- Não, Peter, penso que não estás a perceber o que eu quero dizer. Parece-me muito curioso o facto de ela doar fundos a esta pequena capela, especificamente para mandar rezar pelo pai, quando ela deve ter sabido o que ele sentia em relação aos leprosos. Fazê-lo é quase um insulto deliberado, não será? Por que não dar-te o dinheiro para a realização das missas na igreja canónica daqui, e não na leprosaria?

- Por vezes, Baldwin, consegues ser demasiado desconfiado! Tenho a certeza de que ela pretendia ajudar as pobres vítimas de St Lawrence, só isso. E por que não deveria fazê-lo? Se ela é verdadeiramente crente, deverá querer usar o seu dinheiro para salvar o máximo de almas que puder.

- Sem dúvida que tens razão, Peter - disse Baldwin, apaziguador. Via que tinha perturbado o padre, e falava agora com mais cuidado para o acalmar. - Diz-me, também ouvi falar da namorada de Edmund Quivil, a jovem Mary. É verdade que está lá a trabalhar para ajudar o teu novo responsável pela leprosaria?

- Sim, é assim. Também ela tem uma forte convicção e fé. Eu ficaria contente se mais pessoas nesta cidade demonstrassem metade da bondade daquelas duas mulheres jovens. - O rosto tornou-se-lhe sombrio. - E ficaria contente se alguns dos que tentam difamar a rapariga fizessem, eles próprios, alguma coisa de útil em vez de a caluniarem.

As sobrancelhas de Baldwin ergueram-se-lhe de espanto.

- Desculpa, Peter, eu não queria dizer...

- Não és tu!'São os outros. Algumas pessoas andam por aí a insultar aqueles que não o merecem. A jovem Mary Cordwainer tem sido insultada na rua por alguns que deviam pensar antes de dizerem as coisas. Ainda esta manhã soube que alguém anda por aí a dizer que ela só lá vai para, bem, salvo o devido respeito pela presença de Vossa Senhoria - para satisfazer os seus desejos ardentes.

Baldwin teve de tossir para reprimir o riso. Era novidade para ele ouvir Peter Clifford falar de uma maneira tão refinada. Baldwin sabia que duas semanas antes ele repreendera duramente um agricultor embriagado numa linguagem que o cavaleiro só ouvira antes a um comerciante de Cinq Ports, tudo porque o pobre homem deixara cair uma pipa de vinho de Bordéus que pertencia ao padre. Então ocorreu-lhe uma ideia.

- A quem é que ouviste isso?

- Ao ferreiro, Jack, que mora na estrada de Exeter. Podias falar com ele para que deixasse de fazer comentários deste género?

- Penso que sim. Pelo menos devíamos ir ver por que é que ele anda a espalhar esses boatos - disse Baldwin.

A oficina do ferreiro era um barracão baixo e térreo, e ficava situada na extremidade oriental da cidade, um pouco afastada do movimento da estrada. Baldwin sabia que era um local conveniente. Esta estrada era a mais movimentada a ocidente de Exeter, e o ferreiro tinha como clientes não só todos os agricultores e camponeses da cidade, mas também todos os viajantes que passavam e que pudessem precisar de uma roda refeita ou de um cavalo ferrado.

Havia um amplo pátio em frente da oficina, e quando Baldwin, Simon e Edgar chegaram, o local estava animado com o bater do aço. Como era costume, as portas estavam escancaradas - mesmo a meio do Inverno, o ferreiro muitas vezes tinha demasiado calor para as manter fechadas - e os três homens puderam ver uma figura a transpirar e a martelar uma peça de metal em brasa. Baldwin caminhou para a porta e entrou, os outros dois atrás dele. A percussão do metal a ser martelado, o tilintar da bigorna formavam uma cacofonia horrível, que fez com que Baldwin se sentisse como se lhe estivessem a bater na cabeça, e o cavaleiro foi tentado a tapar os ouvidos com as mãos.

O ferreiro virou-se, e, para além de um aceno de cabeça, não mostrou qualquer surpresa por alguém ter entrado. Atirando o metal ainda em brasa para dentro de um barril, o homem coçou o peito. O vapor ergueu-se, enquanto a água cuspia e borbulhava furiosamente. limpando a testa com um braço, Jack olhou-os interrogativamente, antes de beber de um enorme jarro de cerveja.

Para Simon, ele tinha a aparência de qualquer outro ferreiro. Não era particularmente alto, mas compensava a falta de altura com a largura. Tinha o tronco quase tão bem desenvolvido como o de um escudeiro, e quase não tinha pêlos. De ambos os lados do peitilho do pesado avental de couro havia uma série de vergões e cicatrizes, prova de erros cometidos no seu ofício, e perdera dois dedos da mão esquerda.

Mas foi o rosto do homem que despertou a atenção do beleguim. Tinha uma testa baixa e inclinada, que o fazia parecer que empurrava a cabeça agressivamente para a frente, com sobrancelhas espessas, um nariz largo e olhos pequenos e muito afastados um do outro.

Tudo isto o cavaleiro detectou com um olhar, mas havia mais qualquer coisa em que Baldwin reparou - o facto de que o ferreiro evitava olhá-lo nos olhos. Havia poucas características de que, ao longo dos anos, Baldwin aprendera a desconfiar, e esta era uma delas.

- Tu é que és Jack?

- Sim - resmungou o homem, baixando a bebida por um momento, e voltando, depois, a levá-la à boca. Quando o jarro estava vazio, pousou-o junto a um pequeno barril e ficou de mãos no quadril. - Então? É um cavalo, uma carroça, ou o quê?

- É para descobrir por que é que tens andado por aí a dizer coisas infames sobre uma rapariga da cidade.

- O que quereis dizer com isso?

Baldwin observou-o ao mesmo tempo que o homem dava um passo para mais perto deles. Os olhos do ferreiro estavam fixos algures em volta da orelha esquerda do cavaleiro.

- Soube que afirmaste que uma rapariga que passa o seu tempo a tentar aliviar a dor de pessoas afectadas pela lepra não passa de uma prostituta.

- Quem quer que disse isso é mentiroso. Quem é que diz isso? Heim? Quem é que me acusa?

A pergunta era dirigida à orelha direita de Baldwin. Aparentemente a emoção fizera com que a atenção dele mudasse de alvo. O cavaleiro mexeu-se para olhar o homem nos olhos, mas estes moveram-se com ele e Baldwin desistiu da tentativa.

- Houve padres que te ouviram. Eles contaram-me o que disseste. O que eu gostaria de saber é: que provas tens das tuas alegações?

- Não preciso de provas nenhumas.

- Precisas, sim, porque, sem elas, os teus comentários são calúnias vis. E podes ser obrigado a ir a tribunal por isso. Tens alguma prova?

O interesse do ferreiro deslocara-se para as pedras aos seus pés. O homem ficou a observá-las durante vários minutos, antes de abanar rapidamente a cabeça.

- O que foi que disseste sobre ela? Que era uma mulher desonesta?

- Se sabeis, por que me perguntais? - o tom dele era de amuo, e agora uma bota sua rompia por uma mancha de pó, varrendo-a, e trazendo-a depois de volta. A julgar pelo seu comportamento, Baldwin teria presumido que ele era um jovem aprendiz, e não um ferreiro de alguns vinte exyto anos.

- Jack, por que disseste tais coisas sobre ela?

- Ela não passa de uma jovem. Não é correcto ela lá estar, com aquela gente. - Cuspiu com cuidado para fora, através das portas. A forja estava a arrefecer sem a atenção de ninguém, e ele lançou-lhe um olhar sem brilho antes de se dirigir às portas e de as fechar.

- Não deves dizer mais nada sobre ela, Jack. Se o fizeres, posso mandar multar-te por difamação. Estás a perceber? Posso mandar multar-te por dizeres coisas infames às pessoas; coisas que sabes que não são verdade.

- Eu não sei se elas não são verdade. E se estiverem certas?

- Se houver alguma verdade nelas, mostra-me a prova, está bem? Por amor de Deus, homem, pensa no que estás a fazer! - Baldwin deixou o mar da sua frustração romper o dique do seu autocontrole - Ali está ela, a tentar ajudar a mitigar a pior dor que aqueles pobres diabos estão a sofrer, e enquanto ela lá está a fazer só Deus sabe o quê para ajudar a aliviar a agonia da doença deles, tu estás aqui a incitar as pessoas contra ela! Tens de parar com isso!

O ferreiro caminhou até ao seu barril e voltou a encher a caneca. Adoptando um ar de despreocupação, fixou o ombro direito de Baldwin.

- É tudo?

- Não! O que estavas a fazer em casa de Godfrey na noite em que ele foi assassinado?

- O quê? Só lá estive um bocado...

- Quando é que lá chegaste?

- Cheguei lá ao final da tarde. Uma égua tinha perdido a ferradura, e eu tive de...

Simon interrompeu-o.

- Quanto tempo levaste?

- Tudo o que tive de fazer foi voltar a pregá-la no sítio, e isso dificilmente...

- Vieste logo directamente para cá? - atirou Baldwin.

- Não! Não, fui à despensa de Putthe.

- Porquê?

- Para tomar uma bebida com ele. Isso não é ilegal!

- Durante quanto tempo?

- Não sei. Foi depois de ter escurecido, é tudo o que eu...

- Quantas cervejas tomaste? - perguntou Baldwin com voz áspera.

- Não sei, perguntai a Putthe, ele pode dizer-vos.

Simon lançou a Baldwin um olhar quase imperceptível, acompanhado de um leve encolher de ombros. O cavaleiro voltou a fixar o ferreiro.

- Então dizes que foste à casa de Godfrey ao final da tarde, fizeste uma ferradura nova...

- Não, tudo o que fiz foi voltar a colocar a velha.

- Então pregaste-a de novo, foste até à despensa - estava escuro nessa altura?

- Oh, não. Foi à vontade uma hora antes do anoitecer.

- E na despensa tomaste umas canecas de cerveja com Putthe. Ele deixou-te sozinho para continuar as suas obrigações?

- Não, ele disse que não tinha nada para fazer.

- Mas não te foste embora enquanto não escureceu?

- Correcto. Lembro-me perfeitamente: estava tão escuro lá fora que tropecei numa pedra solta da estrada, e pensei: se fosse de dia, tê-la-ia visto.

- E deixaste Putthe a dormir? - interrompeu Simon novamente. - Ouviste um homem gritar? Um grito, qualquer coisa do género?

- Não, meu senhor. Se tivesse ouvido, teria voltado atrás imediatamente. Não, se eu tivesse pensado que o pobre senhor Godfrey estaria morto tão pouco tempo depois de eu ter estado a beber à sua saúde com ele próprio e...

- Ele esteve convosco na despensa? - perguntou Baldwin. - Durante quanto tempo?

- Pouco tempo. Ele entrou antes de ir verificar a vedação. Pareceu surpreendido por me ver ali, mas tomou um gole de cerveja comigo e Putthe antes de sair.

- Viste lá mais alguém? A senhora Cecily entrou?

- Não, senhor. Ninguém, excepto o próprio dono da casa.

- Por que caminho regressaste a casa?

- Pela estrada principal, atravessei a cidade, passei pela igreja, e desci a colina até aqui.

- Viste mais alguém no caminho?

- Não, senhor, estava deserto. Mas era bastante tarde.

- Há mais alguma coisa que nos possas dizer sobre essa noite? Alguma coisa que sintas que pode ajudar-nos a encontrar o assassino?

Pela primeira vez, o ferreiro deixou que os seus olhos encontrassem os do cavaleiro, ainda que de fugida, e Baldwin viu que ele se debatia sobre se deveria mencionar algo, procurando confiança no Defensor antes de falar no assunto.

- Sim?

- Não é nada, creio eu, mas, quando eu ia a sair de lá, podia jurar que ouvia vozes no salão propriamente dito. Um homem e uma rapariga.

- Ela gritou, ou levantou a voz de alguma maneira?

- Já me perguntastes isso - disse Jack, aborrecido. -Já vos disse, ninguém gritou nem nada enquanto eu lá estava, mas eu tinha quase a certeza de que ouvia aquelas duas vozes. Falavam baixo, quase a sussurrarem. Mas havia uma coisa: a rapariga soava triste, pareceu-me. Mesmo triste.

 

Já a cavalo, deixando para trás a pequena oficina do ferreiro, Baldwin virou-se para Simon e estendeu as mãos num gesto de desconcerto.

- Então o que achas de tudo isto? Vou dizer-te, parece-me que com quanto mais pessoas falo, mais confuso tudo se torna.

Simon inclinou a cabeça para um lado.

- Sabes tão bem quanto eu que, muitas vezes, estes crimes são incompreensíveis enquanto não se está na posse de todos os factos, e, nessa altura, toda a imagem se encaixa. Pelo menos conhecemos as pessoas que estavam presentes, o que significa que podemos isolar quem poderia ter um motivo para partir a cabeça a Godfrey.

- Suponho que sim, mas quem me dera saber quem eram os dois que se encontravam no jardim de Godfrey.

- Se John estava a dizer a verdade e não estava simplesmente confuso ao ver dois arbustos no escuro, queres tu dizer? - Simon riu por entredentes. - Ora, Baldwin, não fiques tão sorumbático! Vais ao encontro da tua senhora!

- Oh, cala-te!

Simon riu. Encaminharam-se para a franja exterior da cidade, subindo depois em direcção à igreja. Aqui estavam prestes a virar à direita para se dirigirem para Norte, quando o beleguim viu a criada de Cecily ao portão dela.

- Baldwin?

Seguindo o olhar do amigo, o cavaleiro assobiou baixinho. À entrada da casa de Godfrey, escondida da estrada pelo muro, e apenas visível deste ângulo porque o portão estava meio aberto, Alison estava a rir e a conversar com John de Irelaunde. Enquanto observava, Baldwin viu John puxar um caracol da touca dela e dar-lhe pan-cadinhas debaixo do queixo.

- O sacana daquele irlandês é fresco! - resmungou Simon. - Olha para ele!

- É certo que parece dedicar-se aos seus prazeres sempre que pode - Baldwin riu por entredentes. - Ah, e quem é este?

Cavalgando em direcção a eles ia William. Sorriu-lhes abertamente, e afastou-se a trote pelo caminho por onde eles tinham vindo.

- Gostaria de saber aonde será que ele vai...

Jack limpou as mãos ao pesado avental de couro e ficou a contemplar a vista amargamente. O interrogatório que o Defensor lhe fizera deixara-o preocupado. Normalmente o ferreiro era homem de poucas palavras, e agora sentia-se como se tivesse sido forçado a ceder demasiado - algo de que podia arrepender-se mais tarde. Jack estava bem consciente dos riscos de contar demasiado aos agentes da lei. Isso levava muitas vezes a que um homem fosse preso e enforcado.

Ouviu um ruído de passos precipitados junto à forja, e virou-se para ver a sua gata deitada, a cauda a abanar, a observar uma ratazana enorme que procurava algum miolo de pão. Jack soltou uma praga e atirou uma bota à gata, que, apercebendo-se de que o dono não estava com disposição para lhe coçar as orelhas, baixou-as contra o crânio antes de correr para um canto escuro onde lhe parecia que estaria suficientemente segura.

Jack virou-se para a frente e bebericou a sua cerveja, examinando desconsoladamente o movimento do rio. Ainda estava ali de pé, a grande caneca na mão, quando lhe gritaram.

Um homem de aspecto alegre estava a entrar no pátio montado num palafrém muito decente.

- Ferreiro? Podes fazer-me uma ferradura? Aqui este meu amigo perdeu uma.

Jack levantou o olhar para o rosto de William e resmungou.

- Ainda bem que estás aqui - disse William com sinceridade, apeando-se da sela e dirigindo-se a um banco, enquanto Jack começou a manejar o fole. O guarda aproximou as mãos do fogo, um ligeiro franzir de sobrolho a enrugar-lhe a testa. Também ele vira John e a criada na estrada, e ficara muito interessado. Decidiu que teria de contar ao amo assim que regressasse à casa de Cofíyn. Mas, por agora, tinha outra tarefa a realizar.

Sorriu ao ferreiro.

- Os ferreiros sabem sempre todas as bisbilhotices antes das outras pessoas. Mas imagino que precises de um conto para dar em troca, não é assim? Já sabes o que os leprosos estão a tramar?

Baldwin entrou no seu salão e atirou as luvas para cima da mesa. Margaret estava lá, sentada à lareira a desfazer pontos de uma tapeçaria. Quando Simon entrou, ela levantou-se para o saudar, e ele baixou os olhos para o trabalho dela.

- Mas tu nunca te enganas na tua costura!

- Por vezes até a melhor costureira tem um mau dia - disse ela. - Como foi o teu?

Baldwin chamou Wat com um grito rouco e deixou-se cair na sua cadeira. As botas estavam-lhe demasiado apertadas, e, depois de as ter usado o dia inteiro, sentia como se os pés tivessem inchado tanto que nunca seria capaz de as descalçar.

- Onde está aquele maldito rapaz? WAT!

- Não lhe grites, Baldwin - apressou-se Margaret a pedir. - Não és a única pessoa que teve um mau dia.

Baldwin e Simon trocaram um olhar quando o rapaz entrou, a fungar. Logo atrás dele vinha Emma.

Aos olhos do cavaleiro, ela parecia tão ameaçadora como um cavalo de batalha a escavar o chão com as patas, e Baldwin estremeceu quando sentiu os olhos dela passarem por cima dele, registando as suas calças e a túnica salpicadas de lama, o cabelo agarrado à cabeça no local onde o chapéu estivera colocado, e as botas nos pés.

- Aquele vosso cão - afirmou ela sem hesitar - devia ser morto.

Emma estava mal-humorada. Este sítio ficava tão distante de qualquer local importante que ela estava seriamente receosa de que a sua senhora pudesse decidir casar com o cavaleiro e mudar-se para aqui permanentemente. Para aqui! Tão longe de qualquer cidade decente!

Já bastara quando lhe tinham dito que devia acompanhar Jeanne quando a rapariga que tinha a seu cargo se casara a primeira vez, com Ralph Liddinstone. Fora muito difícil, especialmente quando ela gostava tanto das lojas de Bordéus, das pequenas lojas de tortas e tendas de doçarias, onde podia comprar o que quisesse enquanto acompanhava Jeanne, mas aceitara que era necessário que a sua senhora casasse, e, por fim, concordara em ficar com ela.

Mas, para a pequena Jeanne, pensar em vir para um local mergulhado nas trevas da ignorância como este era intolerável! A estrada - hah!, aquilo a que aqui chamavam estrada, melhor dizendo - pouco mais era do que um lamaçal. Neste momento estava transformada em sulcos gelados de lama avermelhada, cada um dos quais ameaçava fracturar os ossos da perna de um cavalo, mas a cidade mais próxima ficava a quilómetros de distância, quer para Norte, até Tiverton, quer para Sul, até Crediton ou Exeter. Não havia literalmente nada no meio, a não ser alguns lugarejos cheios de camponeses sujos e de fedelhos maltrapilhos. Como é que a pobre Jeanne podia sequer pensar em viver num lugar como este?

Crediton não era assim tão mau, concordara ela ontem, ainda que com relutância, quando Jeanne lhe perguntara. Mas isso foi quando eles tinham acabado de entrar na cidade, e a atitude de Emma depressa mudara. Como ponto a favor, pelo menos Crediton tinha alguns pavimentos calcetados, e havia passeios para que as senhoras e os cavalheiros não tivessem de arrastar os seus trajes na imundície do esgoto, ou nos excrementos de cavalo que havia espalhados por todo o lado... ou nas fezes de cães e gatos, cabras e ovelhas, bezerros e vitelas. Nas verdadeiras cidades, lembrara ela à sua senhora de modo incisivo, só se viam tais dejectos na zona do mercado onde os talhantes e os curti-dores desenvolviam os seus ofícios, mas Crediton era uma daquelas cidades só com uma estrada em que os animais chegavam a todo o lado.

Esta quinta, onde vivia o "nobre" cavaleiro, dificilmente seria uma boa razão para se querer viver aqui. Emma só podia olhar em seu redor com desdém. Não havia belos quadros nas paredes, nem esculturas elaboradas; não passava de um sítio onde um camponês rico não teria parecido deslocado. Emma olhou em redor do salão. À extremidade mais distante estava uma mesa grande para Sir Baldwin e os seus convidados, e o resto do chão, coberto de juncos, continha outros bancos e mesas - na sua maior parte bancas que podiam ser facilmente levantadas. Não havia em todo o salão qualquer graça ou elegância.

E depois havia o cão.

- Morto? - repetiu Baldwin com horror. - Mas porquê? Uther é sempre tão simpático.

- Simpático? Suponho que pensais que quando o monstro vos faz cair de costas e fica a babar-se junto ao do vosso pescoço, ele está a ser brincalhão...? - Emma mordeu o lábio e esboçou um sorriso sarcástico. A lógica dela não tinha resposta, ela bem sabia. Sempre detestara cães de todas as raças. A sua obediência cega, as suas aduladoras demonstrações de afecto e a porcaria que comiam davam-lhe volta ao estômago. Como se isso não bastasse, ela tinha horror aos seus dentes enormes. Pareciam-se demasiado com os de um lobo. - O cão devia ser morto - disse ela novamente, colocando especial ênfase na última palavra.

- Mas, minha cara, devo dizer que penso que Utherestava apenas...

- Não sei por que pensais que a minha senhora consideraria a hipótese de viver numa cabana como esta, cheia de animais sarnentos e mordidos pelas pulgas. E, como se não bastasse o facto de ela ser certamente morta pelos vossos cães enquanto estiver a dormir, desconfio que ela dificilmente terá algum descanso, com tantas pulgas e outras coisas do género. Que bela casa! A única forma de tornar esta casa adequada a uma senhora como ela é pôr os cães aonde pertencem, nos canis.

Com isto, tendo confirmado que o rosto de Baldwin estava tão chocado como ela esperara, Emma rodou o seu corpo volumoso e traçou um trajecto através da porta, saindo da sala.

Baldwin passou ligeiramente uma mão pela testa.

- É mesmo verdade que ela saiu? - perguntou. -Juro, se eu tivesse aqui um dardo, ter-lho-ia atirado, fossem quais fossem as consequências!

- Não te preocupes, Baldwin - disse Margaret, solidária. - Tenho a certeza de que ela não é assim tão má, quando a conhecermos melhor. Talvez seja só o facto de ela estar um pouco longe de casa e se sinta um pouco insegura.

- Eu penso mas é que ela tem certezas de mais para meu gosto - sublinhou Baldwin com azedume. - E, afinal, o que foi que te deu, Wat, meu rapaz?

Em resposta, o rapaz começou a chorar e cobriu o rosto com as mãos.

- Meu Deus! - murmurou o cavaleiro. - Parece-me realmente que toda a gente nesta casa enlouqueceu de um dia para o outro. Wat, acalma-te - e, se não fores capaz, vai à despensa e enche-te de cerveja forte. Ah! Hugh - mas que diabo aconteceu aqui? O que se passa com ele?

Hugh observou o rapaz a sair da sala arrastando os pés, e adoptou uma expressão carrancuda.

- Foi ela - disse com desprezo. - Ela disse que o fogo no seu quarto não estava suficientemente quente, e quando Wat tentou fazê-lo arder melhor, deixou cair uma brasa no manto dela e fez um buraco. Ela puxou-lhe as orelhas por isso.

- Wat terá de aprender a ter mais cuidado - disse Baldwin. Para Hugh, o cavaleiro parecia muito pensativo, e não era devido ao homicídio, pensou. O criado de Simon conhecia o cavaleiro há vários anos, e Hugh vira-o a investigar bastantes outros crimes para conhecer um pouco as suas reacções, mas nunca ainda vira Baldwin com uma disposição tão irascível.

Não, o problema era que Baldwin estava muito interessado nesta mulher, Jeanne. O facto de ele a querer era tão óbvio como uma ovelha negra num rebanho branco. Mas estava aterrorizado com a criada dela.

Essa era uma posição que Hugh podia compreender. No seu entender, a cabra era louca. Na estalagem, com uma palmada, fizera com que Hugh deixasse cair a caneca que tinha na mão, desperdiçando mais de um litro de cerveja, só porque pensava que ele já bebera o suficiente - como se ela pudesse saber. Ele tinha bebido apenas duas canecas, e isso não era nada para ele. Especialmente após uma longa viagem a cavalo, como aquela que tinham feito para chegar a Crediton. Ela apareceu, deu-lhe uma palmada no pulso e lá se foi toda a cerveja a voar. Ele ficou tão chocado que não fora capaz de se queixar, nem sequer quando ela o agarrou pela parte superior da túnica e o atirou lá para fora, para o salão. Aterrar no chão daquela maneira tinha humilhante. E Hugh não gostava de ser humilhado.

E também não gostava de pessoas que detestassem cães. Hugh era filho de um agricultor do antigo lugarejo da charneca chamado Drews-teignton, e crescera no campo aberto das redondezas, passando uma grande parte do tempo, quando era jovem, a guardar os rebanhos. Conhecia os cães como qualquer pessoa que passasse a sua vida com apenas um par de cães de gado como companheiros: conhecia os seus pontos fortes e também as suas poucas fraquezas, e alguém que quisesse condenar um cão à morte sem qualquer motivo não era amigo de Hugh.

Um homem da charneca aprende desde muito cedo a dar valor à independência. Quando um homem vive na charneca, tem de se arranjar sozinho. Mas um pastor desenvolve outras capacidades: aprende a ser desleal, a colocar armadilhas e a destruir muitas coisas selvagens furtivamente. Hugh estava de pé, sombrio e em silêncio, quando Edgar entrou, trazendo Utherpela coleira, observou a forma como o cavaleiro lhe pousou uma mão na cabeça e, contemplativo, olhou o cão directamente no focinho. A expressão de Hugh tornou-se ainda mais carregada e a sala ficou em silêncio enquanto todos esperavam, ansiosos.

- Baldwin, não podes - disse Margaret com voz calma.

O cavaleiro segurou a cabeça do seu mastim com ambas as mãos e olhou-o nos olhos.

- Uther, velho amigo, não sei que fazer.

- Senhor, certamente que o devíeis fechar à chave longe daqui, nos estábulos ou coisa assim - disse Edgar.

- O quê? Não queres entregá-lo à espada imediatamente? Edgar deixou de se apoiar num pé para se apoiar no outro, quase embaraçado.

- Seria uma grande pena matar este bruto só porque uma criada optou por não gostar dele. O pobre Chopsie não é mau. Punha a minha mão no fogo por ele!

- Chopsie? - perguntou Margaret.

- Não perguntes! Fecha-o, então - disse Baldwin, e levantou-se. - E agora vou trocar de roupa. Com licença, Margaret.

Deixou a sala sem olhar para trás, o que pareceu a Hugh uma tentativa determinada para parecer satisfeito. Mas Hugh sabia o quanto o cão de Baldwin significava para ele, e, nesse momento, a sua mente começou a maquinar e a inventar métodos para vingar Uther.

William esperou que o casco fosse limpo e raspado, e que a nova ferradura fosse forjada e ajustada. Só quando esta foi pregada no sítio é que se ofereceu para pagar uma cerveja ao ferreiro.

Levou mais tempo do que William esperava. O ferreiro parecia ter uma sede insaciável, e, no entanto, conseguia continuar equilibrado. Não passou muito tempo até William dar consigo a ter de fingir que bebia para evitar que ele próprio ficasse demasiado embriagado e impedido de continuar o seu cuidadoso incitamento. A sua tarefa foi facilitada pela presença de um homem, Arthur, em que William reparara na rua, mas com quem nunca falara. Arthur, ficou ele a saber, era vendedor de peixe, e era possivelmente ainda mais fanático do que Jack. Por qualquer razão, Arthur estava convencido de que o único motivo pelo qual as suas vendas tinham descido era o facto de ter sido permitida a presença dos leprosos na cidade.

- O que eu quero dizer é: por que é que eles deverão poder entrar, heim? Que bem fazem eles? E estão sempre a perseguir as nossas mulheres e filhas.

- Aos olhos de Deus, são uma ofensa - acrescentou William, hipocritamente.

- Claro que são. Veja-se só para a forma como eles andam por aí a queixar-se e a pedir. Se eles realmente quisessem melhorar, iriam para a sua capela rezar - era isso que eu faria! Não ficava por aí sentado a lastimar-me e a exigir dinheiro de estranhos a toda a hora. Não, virava as costas e rezava a Deus, era isso que eu faria.

- Mas ouvem-se histórias sobre eles - disse William, baixando a voz até ao sussurro.

Arthur acenou com a cabeça, enfaticamente.

- É verdade. Os canalhas. Estão associados aos hereges e aos judeus. Juntaram-se todos para nos atacarem e ficarem com todos os nossos bens.

- E com as nossas mulheres - acrescentou Jack, tomando mais um trago de cerveja. - E depois? Isso é que eu gostava de saber. São todos uns canalhas porcos. Deus sabe o que estão a fazer à pobre Mary Cordwainer. Ela vai lá todos os dias. Ajudá-los, diz ela. Limpar e coisas assim. Quem é que acredita nela? Eu não, digo-vos. Não, eles obrigam-na a fazer-lhes outra coisa, é isso que eu penso - disse ele, e fez um gesto carregado de ênfase.

- Pensas que sim? - perguntou Arthur. - Isso é nojento, se é! Toda a vida conheci a pequena Mary, e nunca teria pensado...

- Bem, ela ia ficar noiva de Edmund, não ia? Não admira que lá fosse de início, mas para estar ainda a ir lá todos os dias? Não, ela deixou-se perverter por eles, foi isso que aconteceu. Pobre rapariga.

Jack fixava o seu jarro com uma expressão irritada. William quase disse algo para o incitar, mas depois decidiu não o fazer. O ferreiro tinha ar de quem levava tempo a chegar às suas conclusões, mas, com a inevitabilidade do metal fundido a escorrer lentamente de um recipiente de barro para um molde em U, uma vez que ele tivesse entrado num assunto, seguiria ao longo do caminho até chegar a uma conclusão que o satisfizesse.

Quando William deixou a estalagem, a puxar a capa de veludo verde em volta do corpo para se proteger do ar gelado, sentia-se contente consigo próprio.

Na leprosaria, Ralph terminou o trabalho e recostou-se no banco, os olhos fechados, dando-lhes um momento de descanso antes de arrumar as coisas e se preparar para a noite. Havia muito tempo que o dia terminara, e ele estava a escrever com a ajuda de uma pequena vela, cuja chama quase não estava à altura da tarefa de derramar um pouco de luz sobre o seu pergaminho. Contudo, sentia-se grato pela magra quantidade que ela lhe oferecia. Sabia que era fornecida pela generosidade de outros que não tinham necessidade de lhe dar nada.

Era frustrante escrever as suas notas desta forma, pela noite dentro, quando já estava cansado, mas havia tanta coisa para fazer durante o dia. Tinha a pequena horta para ajudar a cultivar, a capela para conservar impecavelmente limpa, os serviços religiosos para celebrar de forma a proteger o seu pequeno rebanho, e a interminável ronda para ajudar os pacientes a mudarem as ligaduras e a aplicarem unguentos.

Muitos deles revelavam o aparecimento dos sintomas mais sérios, e a sua dor era demasiado evidente. Era uma cruz demasiado dura aquela que Ralph tinha de carregar, mas o monge não tinha qualquer ideia do que poderia fazer a não ser limpar-lhes as chagas, ligar-lhes as piores feridas que purgavam, e tentar, através do seu próprio exemplo, mostrar como é que cada um deles poderia ter esperança em ganhar a entrada no Céu.

Três deles não mostravam sinais de aceitarem o seu destino. Isso era causa de constante preocupação para Ralph, pois o seu dever mais urgente e premente consistia em assegurar que todos eles atingiam aquele estado de graça em que poderiam morrer em paz com Deus e o mundo. O alívio da dor deles, quando tudo estava dito e feito, era apenas uma questão de pouco tempo. As almas deles é que importavam.

E, entre eles, um era mais urgente. Os outros dois, Thomas Rodde e Edmund Quivil, tinham muito tempo para descobrirem o erro dos caminhos que seguiam e para acabarem por agradecer a Deus. Não, o verdadeiro problema estava em Bernard.

Era difícil ao monge compreender o discurso dele, mas Ralph descobrira que a vida do homem fora repleta de dificuldades, pois fora, em tempos, um soldado importante ao serviço do Rei, lutando nos longínquos pântanos galeses, antes de ter contraído esta terrível doença ulcerosa. Agora o corpo que fora forte e cheio de vida, e que se tinha aguentado numa centena de campanhas sangrentas, estava a cair aos bocados, corroído por dentro.

Havia muito tempo que Bernard lutava contra o destino, e estava quase pronto a render-se, mas não com facilidade, e não de boa vontade. Para Bernard, a própria vida era a essência sagrada - ele simplesmente não podia, nem queria, compreender a insistência de Ralph em que ele se deveria entregar a Deus com entusiasmo. O velho guerreiro queria disputar cada passo, como se tomasse parte num combate com as tropas da retaguarda. Mas o seu inimigo era tão implacável como ele próprio, com maiores recursos e poderes. À medida que Bernard enfraquecia e se apagava gradualmente, Ralph estava cada vez mais consciente da Morte, à espera à beira do colchão.

Se ao menos Ralph o pudesse ter convencido a confessar os seus pecados, teria sentido que conseguira alguma coisa, mas a desditosa figura corcovada recusava. Agora tinha vindo a acontecer que ele permitia que o clérigo viesse tratar-lhe as feridas, mas deixou bem claro que preferia a companhia de Rodde e Quivil à sua cabeceira. Tinham os três um género de acordo em que todos aceitavam o seu estatuto de párias. Era como se a própria diferença que os separava da sociedade que os bania fosse, por si só, um crachá para ser usado com orgulho.

O monge considerava profundamente difícil falar com eles e explicar-lhes quão perigosas eram as suas acções. Se queriam gozar de alguma paz na outra vida, teriam de rejeitar a sua fixação pelo mundo secular e preparar-se para o Céu. Ainda na semana anterior o sugerira a Rodde. O desconhecido rira, com um ar calmo e distraído.

- Olhai para mim, irmão. Olhai para estas chagas e feridas. Pensais realmente que o facto de eu dizer a Deus "peço perdão por tudo aquilo que possa ter feito" fará com que eu conquiste um lugar no Céu? Eu nem sequer sei o que poderei ter feito para O ter ofendido!

- Meu filho, não está à nossa altura compreender a Sua vontade - respondera Ralph, mas sabia que estava a travar a batalha errada, pois ele próprio não acreditava nisso. Queria; queria pensar que o passaporte para o Céu era a simples aceitação de culpa, mas o seu cérebro lógico e letrado não podia adoptá-lo completamente como um princípio. Se o próprio Deus decidira causar esta doença e seleccionara estes homens para dar este exemplo cruel, Ralph tinha uma secreta suspeita de que não eram eles que deviam estar a pedir perdão. Mesmo sem a certeza da convicção, Ralph continuou:

- Olha para todas as boas pessoas à tua volta. Todas rezam por ti, para que te possas salvar, pois todos sabem que uma só alma salva é um interminável prazer para Deus e para os anjos. Elas querem que admitas os teus pecados perante Deus para que possas ser levado até Ele. Todas querem que avances, para teu próprio bem. Rezam por ti. Não és capaz de confessar? Isso faria com que te sentisses muito melhor.

- Pensais que todas essas pessoas desejam ver-me salvo? - neste ponto, Rodde desatou a rir. - Espero, irmão, que consigais conservar a vossa ingenuidade. Mas não fiqueis demasiado deprimido quando vos desiludirem, está bem?

Ralph mordeu a ponta da sua pena ao recordar-se desta conversa. Fixou a distância com a testa franzida, antes de pousar a pena com um gesto de impaciência. A expressão triste, magoada e vulnerável do rosto de Rodde fizera com que ele tivesse vontade de se atirar aos pés dele para rezar naquele mesmo local. Mais do que outros leprosos, Rodde parecia sentir a hedionda realidade da sua condenação. Ralph reparara antes nos sinais de delicadeza, nas marcas de um homem educado num meio social superior, e ofereceu-se-lhe pensar que deveria ser muito mais terrível para um homem com um futuro brilhante aceitar o julgamento de Deus desta maneira, do que para um servo bruto que pudesse apenas esperar trabalho duro e uma vida curta. Essa reflexão tornou Ralph ainda mais solidário.

E a diferença de Rodde era o que atraía os outros para ele. Era a sua sabedoria que fazia com que Bernard perguntasse por ele. Sussurravam os dois juntos sobre terras e povos estranhos de que Ralph nunca ouvira falar. Eram um par curioso, o velho a morrer no seu colchão, o mais jovem ajoelhado, agarrado ao seu sempre presente bordão.

Edmund Quivil era semelhante no facto de que também ele não podia acreditar que desapareceria dentro de pouco tempo. Também ele se mantinha à parte dos outros leprosos do hospital, e, sentindo-se revoltado, ligou-se naturalmente a Rodde e a Bernard. Estes três constituíam os incorrigíveis - aqueles que jamais se conformariam. Só que agora existiam apenas dois. O pobre Bernard morrera ao cair da noite, e Ralph teria de ir em breve preparar o corpo.

Suspirou. A seguir, ele sabia, seria a vez de Joseph.

Havia qualquer burburinho lá fora, e estava a interferir-lhe com os pensamentos. Resmungando, Ralph apagou cuidadosamente a vela - tais luzes eram demasiado valiosas para desperdiçar - e encaminhou-se para a porta.

Assim que a abriu, apercebeu-se de que era mais sério do que supunha. Ardiam tochas, e, à luz que delas emanava, viu pequenos grupos de leprosos de pé, receosos, olhando para o portão. Enquanto Ralph estava boquiaberto, viu Rodde entrar aos tropeções e cair sobre os joelhos logo ao entrar no complexo. O que Ralph tomara por um saco rolou das costas de Rodde e gemeu quando bateu no chão. Só então é que ele reconheceu Edmund Quivil.

Aproximando-se a correr, ajoelhou-se ao lado de ambos. Tocando no ombro de Rodde, murmurou baixinho:

- Quem te fez isto, meu filho? Quem se atreveu?

Os olhos abriram-se e Rodde revelou um sorriso torcido.

- Os nossos amigos, as pessoas as cidade. Lembrais-vos - aqueles que rezam por nós e que querem que encontremos paz junto de Deus. Foram eles, Ralph. Encontraram-nos na rua e resolveram dardos as boas-vindas atirando-nos pedras. São bons amigos, irmão. Sem dúvida que irão rezar por nós na próxima missa a que assistirem.

 

Margaret entrou no salão ao lado do marido, e, mal passou pela porta, espreitou para a mesa principal, à procura de Jeanne. Não havia sinal dela, e Margaret hesitou quando se apercebeu de que Jeanne ainda não chegara. Sentiu-se meio tentada a ir buscar a convidada de honra. O beliscão de Simon lembrou-a de que não podia. Pelo menos diante daquela gente toda.

Baldwin organizara uma festa para celebrar a visita de Jeanne e insistira em ter os criados e os servidores no salão a jantar com ele. O espaço estava cheio. Ao cimo, no estrado baixo que ele mandara recentemente instalar, a mesa de Baldwin estava ornamentada, e o cavaleiro mandou colocar o seu lugar ao meio, o guarda-louça com as suas duas prateleiras preenchidas com a sua baixela mais elegante e mais dispendiosa. Toda ela era de peltre, e Margaret tinha a certeza de que nenhuma dela seria de qualidade suficientemente superior para impressionar Jeanne, mas o facto de ele a estar a usar queria dizer alguma coisa. Jeanne já sabia que Baldwin levava a vida de um cavalheiro rural, e o facto de ele ter ordenado que os seus melhores e mais dispendiosos bens fossem exibidos só a podia impressionar com a importância que ele lhe atribuía a ela.

No entanto, Margaret estava preocupada. Sabia muito bem o quanto Baldwin ansiara pela chegada da jovem viúva. Embora tivesse passado pouco tempo com Jeanne, quando todos eles se encontravam em casa do abade de Tavistock, ele depressa ficara impressionado com a elegante senhora de Liddinstone; Margaret concordara rapidamente com a opinião que Baldwin logo formara de que ela seria a esposa certa para ele. Era triste para ela ver como esta visita, que Baldwin organizara com a intenção de pedir a Jeanne a sua mão em casamento, se estava a tornar tão depressa num desastre. Se ela pudesse, teria aconselhado Jeanne a mandar a criada embora imediatamente, pois o problema era Emma.

Mas, por agora, Margaret só tinha pensamentos para o cavaleiro. Baldwin estava sentado à sua velha mesa, acenando-lhe a ela e ao marido com todos os indícios de prazer. Os criados estavam à espera, um com a bacia da água e a toalha, o despenseiro com o seu bom pão branco, Edgar com os seus jarros e garrafas, Wat ansiosamente à espera de correr para a cozinha para lhes dizer que trouxessem a comida para a mesa assim que o último dos hóspedes aparecesse. Mas não havia sinal de Jeanne.

- Margaret, minha querida, por favor, senta-te aqui. Simon, senta-te ao lado dela - Baldwin olhou para a porta e reparou que Hugh entrava timidamente e se sentava ao lado de um dos responsáveis pelo gado de Baldwin. E eram todos, com excepção de Jeanne.

Foi então que ouviu um comentário sussurrado, e um passo leve, e, de súbito, a porta atrás dele, que dava para o solar, abriu-se e Jeanne entrou.

Baldwin nunca a vira mais encantadora. Tinha o rosto emoldurado pelo cabelo louro-arruivado, que estava entrançado e enrolado sob um leve véu, destacando-lhe as feições regulares, ainda que ligeiramente arredondadas. Tinha uma pele pálida, complementada na perfeição pela fina túnica escarlate que usava, com um bordado branco simples junto ao pescoço e na bainha. O rosto dela, com a boca a parecer grande e teimosa, o lábio superior mais proeminente, era, à primeira vista, sombrio, e Baldwin sentiu um súbito aperto no coração, como que perante um pressentimento, mas depois, quando os claros olhos azuis dela encontraram os dele, e ela reconheceu o pasmo maravilhado dele, o rosto abriu-se-lhe num sorriso.

Margaret, que os observava atentamente, sentiu um acesso de júbilo perante a forma como Baldwin conduzia calmamente a sua convidada até à cadeira e a sentava. Era como se caminhasse num sonho, extasiado com o encanto da sua convidada, e ela quase desejou que houvesse músicos para tocarem algumas melodias leves, graciosas e, sobretudo, alegres. Seria um acompanhamento adequado ao momento.

Mas a cena destruiu-se quando Emma surgiu e lançou um olhar ameaçador ao grupo que estava reunido. Presenteou com um sorriso escarninho os homens que estavam sentados nos seus bancos, antes de examinar a mesa mais acima. De imediato lhe brilhou nos olhos a luz da batalha.

Edgar colocou-se a seu lado e estava prestes a escoltá-la até um lugar no estrado, quando ela o gelou com um olhar. Em vez disso, a criada aproximou-se da sua senhora e deixou-se ficar de pé a seu lado, onde não podia ser ignorada.

- Minha senhora, pelo que vejo, devo sentar-me ali na mesa comum. Foi esse o vosso desejo?

Jeanne lançou um olhar incomodado ao lugar indicado.

- O que tem o lugar, Emma? É perto de mim, caso eu necessite...

- Não é para mim estar sentada com vulgares camponeses e servos! - sussurrou ela furiosamente, com a boca próxima da de Jeanne.

- Não vejo qualquer ameaça à tua pessoa por te sentares ali, Emma. Vai para o teu lugar e come!

- Muito bem. Mas nenhum bem virá daí. Lembrai-vos, senhora, de que vos avisei e que fostes vós própria que insististes para que me sentasse ali - disse a mulher, e desceu do estrado para se dirigir ao seu lugar.

Baldwin reparou que a altercação e os vizinhos vulgares não lhe afectaram o apetite. Emma lançou-se com satisfação, seleccionando cuidadosamente os melhores pedaços de carne do estufado, as melhores fatias da carne que era trazida. Tal comportamento mostrava uma desconcertante falta de maneiras e teria dado origem a um franzir de sobrolho no mais magro dos lares. Para a maneira de pensar de Baldwin, Jeanne era perfeita em todos os sentidos - era a sua mulher ideal -, mas agora ele descobria que, enquanto ele queria um contrato de casamento com ela, quando ele construía na sua mente a cena de felicidade doméstica que ela representava, não podia deixar de fora do encantador projecto a chaga humana que era Emma. Onde havia paz, ela traria inimizade; onde havia calma, ela traria conflito; onde havia conforto e bem-estar, ela envenená-los-ia inevitavelmente.

Baldwin queria Jeanne, mas, muito categoricamente, não queria Emma no contrato.

Via que Edgar fizera bem. As melhores carnes que havia foram trazidas para a mesa e eram consumidas com avidez. No entanto, Baldwin descobriu que não tinha apetite.

Na cidade, William chegou ao salão com um pensativo semblante carregado. Tinha feito o melhor que pudera e sentia-se razoavelmente satisfeito. Não levara muito tempo a instigar no ferreiro uma raiva rancorosa contra os leprosos em geral, e, quando William caminhava para casa, vira dois deles a coxearem e a arrastarem os pés de regresso à leprosaria. Sentira-se agradavelmente confiante de que encontrariam Jack e o amigo e parara, à escuta. De facto, não passou muito tempo que não ouvisse os sarcasmos e os insultos, e em seguida os gritos, à medida que os leprosos eram apedrejados.

Agora, encostando-se à porta e olhando para trás, para o caminho por onde viera, via que havia poucas fogueiras e poucas velas a arder. Era bastante tarde, e a maior parte das pessoas já estavam deitadas, mas aqui e ali um feixe de luz perdido iluminava a escuridão. O seu próprio amo ainda não estava na cama, ou, se estava, não dormia ainda, pois as venezianas do quarto de dormir do bloco privado viam-se claramente, delineadas pelo brilho amarelo, e William ouvia vozes: a dele - um ronco baixo; a dela - um sussurro malevolente. Uma porta bateu, e William ouviu Coffyn atravessar o salão. Olhando por cima do ombro, viu o amo junto ao guarda-vento. Matthew ignorou o guarda e saiu para o jardim.

William abanou a cabeça. Não era bom ver um casal tão amargo um com o outro. Deus sabia que acontecia com bastante frequência, mas isso não tornava as coisas melhores. O seu amo não era capaz de controlar a esposa, e isso estava errado.

Virando-se, atravessou o guarda-vento em direcção ao salão e espreitou para o interior. Dois dos seus homens estavam a beber e a jogar dados, enquanto que outro estava deitado num banco, a dormir, enrolado numa pesada capa. Olhando os jogadores de dados, William calculou que estavam a jogar Raffle. Era o único jogo de que o galês de barba espessa - que neste preciso momento estava a resmungar ao contar os seus pontos - sabia as regras.

Sorrindo ao ouvir as pragas proferidas em frente aos dados, William continuou a caminhar ao longo do corredor, saindo para o pátio atrás do amo. Algo - ele não sabia o quê - lhe estava a colocar os nervos em franja. De pé na soleira, encostou-se à ombreira da porta.

Havia outra luz, esta vinda da casa ao lado. Era ampla, como uma janela parcialmente aberta, e, enquanto observava, viu-a escurecer

e ficar encoberta, depois voltar a brilhar com intensidade. Parecia que alguém estava de pé em frente de uma veneziana aberta - ou a subir pela janela, escondendo por um momento a brilhante luz das velas existente no interior. Intrigado, avançou silenciosamente ao longo do caminho, até chegar ao muro de pedra que separava as duas propriedades.

Godfrey construíra o seu muro mais alto junto à estrada. Aqui, junto à fronteira entre a sua propriedade e a de Matthew, tinha apenas um escasso metro e meio de altura, e William podia simplesmente espreitar por cima. De início, não viu nada, mas William era experiente em assuntos de guerra, e um homem que tenha montado guarda em acampamentos aprende a observar e a escutar. Estava de pé, a boca ligeiramente aberta, a fixar o nada mas à espera de que um som ou um movimjento lhe despertasse a atenção. E ouviu-o pouco depois.

Era um leve roçar, depois o estalido de um galho a quebrar-se. Um homem contornava furtivamente o salão de Godfrey em direcção à cozinha. À medida que William se concentrava, conseguiu distinguir a forma abafada e coberta por um manto de alguém agachado, de alguém que caminhava cautelosamente ao longo da parede do salão. Mal se encontrou longe da área do pátio, que, embora estivesse escura e sem iluminação, deve ter parecido ameaçadora em virtude de se tratar de um grande espaço aberto, a figura ergueu-se, aparentemente a olhar para trás, para o caminho que percorrera. Enquanto observava, William viu o homem^ pois tinha a certeza de que era um homem - levantar uma mão e levá-la ao rosto por um momento, antes de a deixar cair.

Foi nessa altura que William decidiu fazer notada a sua presença, e comprimiu os lábios para soltar um penetrante assobio.

O homem deixou cair a mão, soltou um curto gemido como que de terror, e fugiu por detrás da cozinha, subiu o muro do pátio e desapareceu.

William ainda ria quando fechou a porta atrás de si e regressou ao salão.

Terminada a refeição, Baldwin lavou novamente as mãos na bacia de água morna e perfumada, e secou-as.

Jeanne observava-o com renovado interesse. Tinha começado a refeição irritada com a criada, mas, uma vez que Emma fora afastada e a comida começou a chegar, ela perdera o seu aborrecimento e, com o cavaleiro a seu lado a esforçar-se tanto para se certificar de que ela se sentia à-vontade, ela sentira-se a sucumbir àquela agradável sensação morna de ser desejada e mimada.

Havia convenções, é claro, e Baldwin era escrupulosamente educado e encantador, embora em determinados momentos ela lhe surpreendesse um brilho no olhar, como se ele estivesse a manter o aspecto exterior de formalismo com dificuldade, e preferisse levá-la lá para fora, para longe de todos estes olhos ansiosos, para um lugar onde pudessem falar e rir juntos sem constrangimento.

Era como aquela primeira refeição que tinham tomado juntos, há um ano atrás, em Tavistock: nessa ocasião tinham sido colocados juntos, e depois atentamente observados pelo abade, assim como pela esposa de Simon, recordava Jeanne. Durante todo o tempo, ela sentira o olhar de Margaret fixo nela, como que à espera da mais leve indicação de que Baldwin e ela pudessem estar preparados para se comprometerem um com o outro. Fora exasperador e causara a mesma reacção em ambos, o facto de nenhum deles querer falar com o outro. Foi só mais tarde, quando iam a sair da sala, que Baldwin, hesitante, lhe pedira que se lhe juntasse num calmo passeio, longe da vista de pessoas cujo único desejo era vê-los noivos, e cujo entusiasmo pela aliança era tão opressivo que ameaçava impedi-la.

Criados e rendeiros levantavam-se das mesas e ficavam a conversar em pé, mas ela viu que a atenção deles estava concentrada nela e no amo. Havia uma qualidade medidora dos seus olhares, como se avaliassem que tipo de senhora ela poderia ser para eles: se seria dura e se poderia mandar chicoteá-los por se atrasarem a trazer-lhe a comida ou lenha para a lareira; ou se seria generosa, uma senhora amável que mostraria compaixão para com eles, que cuidaria das suas necessidades, que faria com que os necessitados recebessem ajuda.

Não podiam saber que a própria Jeanne não tivera uma vida fácil. O seu primeiro marido falecera, Deus seja louvado! Quando ele morreu daquela febre súbita que o deitara abaixo, ela jurara a si própria que teria cuidado na selecção de um novo marido, caso alguma vez voltasse a casar, e jurara nunca mostrar crueldade desnecessária para com um criado.

Não havia nada que ela pudesse fazer que convencesse estas pessoas da qualidade do seu temperamento; ela só os conquistaria quando se tornasse senhora aqui - se alguma vez se tornasse senhora aqui, acrescentou para si própria.

- Jeanne...

Virou-se para encará-lo, e ficou surpreendida ao ver que a expressão dele era bastante lívida, como se ele mantivesse os seus próprios sentimentos escondidos atrás de uma fria máscara.

- Sim, Sir Baldwin?

- Algumas pessoas podem ter medo de cães, eu sei. De facto, sei que algumas senhoras os odeiam.

- Não consigo compreender porquê.

- Mas alguns cães... como o meu mastim, por exemplo... podem ter um aspecto bastante feroz. E algumas senhoras, mesmo aquelas que são bem-educadas e nobres, podem sentir repugnância por animais tão feios.

- Sir Baldwin - disse ela com voz doce, tentando suprimir um sorriso -, se estais a perguntar se tenho medo do vosso cão, não tenho; se pensais que o acho feio, não acho; se receais que eu não queira um cão assim na minha casa, tudo o que posso dizer é que me sentiria mais segura com um cão como ele na minha casa do que com dez escudeiros, porque Uther é fiel por natureza, não por dinheiro.

O cavaleiro esboçou um sorriso sincero de alívio e gratidão. Todos tinham comido até ficarem satisfeitos e o último vinho e cerveja tinham sido consumidos. Finalmente, ele levantou-se, e todos aqueles que tinham ficado sentados às mesas se levantaram. Baldwin estava prestes a sair da sala quando se apercebeu de que Jeanne não se mexera. Estava a observá-lo com uma sobrancelha erguida, e, ao olhá-la nos olhos, ele esboçou um sorriso de desculpas e estendeu a mão para a ajudar a levantar-se.

- Gostaríeis que eu mandasse fazer novamente a lareira, senhora? Ficaria feliz por sentar-me convosco. Há muita coisa de que gostaria de falar convosco.

Jeanne pareceu pensativa.

- Lembrais-vos daquele passeio que demos o ano passado?

- Com certeza! Foi aí que vimos o monge a fugir da rapariga.

- Eu estava a pensar - disse ela causticamente -, no prazer de passear convosco. Não no facto de que isso vos levou a descobrir um assassino.

- Eu sei - disse ele, e riu por entredentes. - Na verdade, eu também. Gostaríeis de passear esta noite pelos meus terrenos?

- Ora, Sir Baldwin, receio sentir frio.

Foi com aquelas mesmas palavras que ela o rejeitara de início, há um ano atrás. Nessa altura ele ficara de rastos, pensando que ela lhe estava a recusar qualquer oportunidade de falar com ela em privado. Agora ele fez uma vénia, meio a sério, meio a brincar, e inclinou a cabeça em direcção à porta.

- Mas se vos trouxessem a vossa capa ficaríeis bem, não é verdade?

O rosto dela estava transformado. A Baldwin parecia tão maravilhoso como observar luz do Sol a inundar a terra numa manhã clara de Verão. A expressão reservada, quase fria, que ela exibira durante a refeição tornou-se num sorriso brilhante e encantado. Fez sinal a Emma com a cabeça, e a criada, resplandecente, transpôs a porta para o solar. Escassos minutos depois estava de volta, trazendo no braço uma pesada capa de lã debruada a pele. E um forte casaco curto sobre as costas. Pelo canto do olho, Baldwin reparou que Hugh deixou silenciosamente a sala.

Jeanne pegou na capa e agarrou-a junto ao pescoço, acenando com a cabeça para o casaco.

- Não precisas de vir, Emma.

- Oh, preciso sim, minha senhora. Não posso deixar-vos sair sozinha - disse a criada, lançando um olhar desconfiado a Baldwin, que se encontrava perto, aterrado perante a ideia de as suas subtis tentativas de corte poderem ser conduzidas sob o olhar sinistro da criada, em quem ele agora pensava como a "harpia do Inferno".

- Penso que não. Vais ficar aqui.

- Eu preferia ir convosco, senhora - afirmou Emma, resoluta.

Baldwin transbordava de frustração. Detestava ver Emma, no entanto não podia ser grosseiro com ela. Ela não era criada dele, e não fazia ideia da consideração que Jeanne sentia por ela. Enquanto não soubesse o que Jeanne pensava, ele não ousava perturbá-la insultando a criada.

Nesse momento, Hugh voltou a aparecer e dirigiu-se a ele.

- Sir Baldwin? Pensei ter visto alguém a caminhar perto da estrada, por isso soltei Uther. Se houver algum violador de propriedade alheia, ele depressa o encontrará.

- Soltaste-o? - repetiu Baldwin. - Não devias tê-lo feito, bem sabes que ele...

- Aquele animal? Minha senhora, não deveis sair, pelo menos enquanto aquele cão louco andar à solta. Bem vistes como me atacou quando chegámos! Não podeis sair!

- Oh, não tenho medo de Uther. E Baldwin usará a sua espada, não é verdade?

- Heim? - Baldwin teve a impressão de que o olhar que passou entre Hugh e Jeanne continha mais do que uma simples troca de saudações. - Oh, sim, com certeza. Bem, uma adaga, mais exactamente.

Hugh disse:

- Edgar disse-me que tivesse cuidado, depois da maneira como Uther atacou aquele homem há pouco tempo. Cottey, não era?

- Estais a ver, minha senhora? Aquela criatura comer-nos-á vivas! Eu disse que ele devia ser destruído! É pior do que um lobo voraz.

- Emma, silêncio! Vou sair, e tu vais ficar cá dentro. -Jeanne deu meia volta, a capa a girar regiamente, e encaminhou-se para a porta. Baldwin teve de apressar o passo para a acompanhar. Junto ao guar-da-vento estavam vários dos trabalhadores de Baldwin, e Jeanne e o cavaleiro tiveram de abrandar o passo, enquanto todos os homens se desviavam do caminho.

Era visível que nenhum dos homens parecia ter medo do amo. Jeanne, que fora casada com um cavaleiro que inspirara terror nos corações dos seus camponeses, foi forçada a pensar no assunto.

Havia um género de temor respeitoso num homem que podia inspirar tal lealdade nos seus criados. O marido dela tinha chicoteado e agredido os seus homens até à submissão. Essa era a única forma de fazer com que se comportassem, sempre dissera ele. De outra forma, cairiam na indolência e na preguiça.

No entanto, este estranho cavaleiro de província tinha gerido eficientemente uma propriedade produtiva, sem levar os seus criados à completa submissão. À medida que Baldwin passava por eles, acenavam com a cabeça ou sorriam; não em sinal de cobardia, mas olhando-o nos olhos quase como iguais. E Baldwin tinha uma palavra para a maioria deles, recordando-se dos nomes de todos, perguntando por esposas, filhos, ou namoradas. Parou para falar com um dos homens, um homem mais idoso, andrajoso e de ar cansado, com um rosto tenso e pálido. Jeanne não ouviu as palavras dele, mas viu Baldwin tirar algumas moedas do bolso e empurrá-las para a mão do outro homem.

Viu também a forma como as pessoas a olhavam, e teve mais uma vez consciência da avaliação cautelosa de que era alvo, mas agora tinha a máxima certeza possível de que o homem com quem caminhava era tão oposto ao seu primeiro marido quanto era possível. À medida que se aproximavam da porta, viu-se forçada a caminhar mais junto dele, pois a pressão das pessoas era mais forte aqui, e, quando saíam para o ar claro do serão, ela encontrava-se ao lado dele, bastante próxima.

- Quem era aquele homem mais velho com quem estáveis a falar?

- O agricultor? Quivil. Ele e a mulher vivem no caminho para Crediton.

- Falastes com ele durante algum tempo.

- O filho dele contraiu lepra - explicou Baldwin. - Quis certificar-me de que ele estava bem, e oferecer a ajuda possível.

- Deve ser horrível perder-se um filho assim.

- De facto. Ver-se um filho condenado a anos de doença é pior do que uma morte simples, depois de uma doença curta.

- Sim, pois como poderíamos olhar um filho nos olhos, sabendo que vivemos e prosperamos, enquanto ele morre de forma tão lenta e horrível?

- Ah, mas não é só isso, pois não? Não é só a culpa de não se conseguir ajudar um filho a crescer saudável - disse Baldwin, fazendo uma pausa.

O cenário era todo prateado e cinzento, sob uma lua quase cheia. À sua luz clara, Jeanne via a paisagem a perder-se na distância, entre as árvores. Algo na voz de Baldwin fê-la olhar-lhe o rosto, e, sob o luar benevolente, ainda que frio, ela via que ele estava preocupado.

- Não é só o facto de o pai ou a mãe ver o filho ou a filha a escorregar cada vez mais para longe da vida - continuou ele devagar. - É também ver a inveja e a raiva no filho, conhecer a sua confusão, querer dar-lhe apoio e não ser capaz. Pergunto-me como se sentirá agora o pobre Edmund.

- É o filho de Quivil?

- Sim. E não se poderia esperar ver um rapaz mais feliz, mais cheio de vida, mais digno a arar um campo ou a ceifar cereais. Pobre Edmund! Estava prestes a casar.

- Talvez tenha sido sorte o facto de ele ter sido descoberto antes de se casar.

- Sim. Mas parece tão injusto um homem ser levado para o isolamento mesmo quando se encontrava quase a desfrutar da companhia da mulher da sua eleição. Exactamente quando se preparava para entrar no casamento, com o conhecimento de que dali para a frente teria o conforto de uma companheira na vida, esse conforto é-lhe roubado.

- Falais como se tivésseis pensado bastante nisso, Sir Baldwin. Ele esboçou um sorriso seco.

- E tenho. Por vezes tenho-me visto como um género de leproso social.

- Isso é uma coisa terrível de dizer.

- Como Defensor, e como cavaleiro, é difícil. Estou muitas vezes separado das outras pessoas devido ao cargo que ocupo.

- É-vos negada a companhia?

- Por vezes sinto que me é negada a companhia de uma mulher que me compreenda.

- Talvez possais descobrir essa mulher, afinal.

- Minha senhora, já a descobri.

Ela continuou a caminhar por mais um pouco, agarrando a capa com força em volta do corpo, as mãos cruzadas por cima do peito. O cavaleiro permaneceu no mesmo local, e ela teve de se virar para o encarar. A expressão dele era de desconfiança - quase de suspei-ção. Mas nela havia também nobreza. Jeanne sabia que ele ficara muito magoado quando ela recusara antes o seu pedido de casamento, e sabia que ele queria perguntar-lhe novamente se aceitaria a sua mão, contudo, receava ser rejeitado; não tinha a certeza se podia confiar que ela lhe daria a resposta por que ele ansiava.

- Jeanne, conheceis-me. Vistes a minha terra, a minha casa, a minha vida. Há alguma coisa a que não vos poderíeis acostumar?

Ela sentiu que a respiração se lhe suspendia. Por qualquer razão, esta oferta, que ela previa havia mais de um ano, que ela esperara e em que pensara desde que aqui chegara, era agora uma surpresa. Não esperara que ele lha atirasse para cima assim tão de repente...

- Eu... Não sei! / - É por causa do vosso anterior marido, senhora? É isso que vos faz hesitar?

- Como posso ter a certeza de como sois? Ele parecia tão amável e generoso antes de nos casarmos. Como posso ter a certeza de que não mudareis quando me casar convosco?

- EtÉ Mudar? Isto, isto sou eu! - gritou ele, e estendeu ambos os braços, abraçando a paisagem à frente, atrás, de ambos os lados, o céu por cima, as nuvens prateadas que o percorriam, apressadas, a Lua e as estrelas. Sorriu para cima, os olhos fixos nas distâncias insondáveis, e, lentamente, deixou cair os braços, e baixou o rosto para enfrentar o dela.

- Sabeis tudo a meu respeito. Eu sei o que preciso saber a vosso respeito. Não sou nenhum cavaleiro requintado, e se Deus quiser, nunca o serei. Sou o Defensor do Rei aqui, e isso basta-me. Será que poderei bastar-vos?

- Não sei, Baldwin. Não sei.

Simon deixou a esposa no quarto e desceu. Na despensa encontrou Hugh, que enchia morosamente um jarro de um grande barril. Quando o amo entrou, Hugh acenou com a cabeça.

- Cerveja, senhor?

- Sim, uma caneca terminaria o serão em beleza.

Tirando outra caneca da prateleira, Hugh pegou no jarro e, através do guarda-vento, saiu para o salão. Indo atrás dele, e a arfar levemente, Simon ficou surpreendido por encontrar Edgar à espera com o rapaz, Wat. O rapaz fixou o beleguim com um olhar desfocado, a sorrir estupidamente, mas Edgar fez-lhe sinal em direcção à porta.

- Senhor, por favor, fechai-a.

Surpreendido, Simon fez o que lhe foi pedido. Só então é que Edgar se levantou e abriu a porta para o solar. Instantaneamente, Uther saiu de rompante e olhou em redor, à procura do dono.

- O que está ele a fazer aqui? Pensei que ele estava lá fora à procura de violadores de propriedade alheia!

- Ah, deve ter decidido voltar - disse Hugh, distante.

- Mas disseste a Baldwin que ele estava de guarda para não deixar que uma certa pessoa se aproximasse.

- Sim, meu amo.

Enquanto Simon franzia o sobrolho de incompreensão, tinha a certeza de que ouvia uma voz de queixume. Estava prestes a dirigir-se ao solar, de onde o som parecia vir, quando Edgar estendeu uma mão para o impedir.

- Senhor, não quereis ir lá.

- Mas não ouves alguém?

- Senhor, penso que é o vento.

- Oiço alguém - é Emma! Ela está a gritar a pedir ajuda!

- Certamente que, se quisesse ajuda, ela desceria para pedi-la.

- Certamente, senhor - confirmou Hugh. - Teria apenas de abrir a porta do quarto e de descer até aqui, não é verdade?

Simon olhou para o criado, depois para Baldwin. Ambos lhe evitaram o olhar, examinando atentamente as suas cervejas. O beleguim olhou para Uther, que parecia partilhar a sua confusão, e coçou pensativamente uma orelha. Então Simon olhou para a entrada, e, lentamente, um sorriso enrugou-lhe as feições.

- Pensais que Uther está a proteger bem o dono mesmo neste preciso momento?

- Penso que o dono ficaria encantado ao saber com que eficiência o seu cão está a manter pessoas indesejáveis longe dele - observou Hugh, e arrotou.

John regressou para junto do muro e endireitou-se, silenciando o máximo possível a respiração ofegante, examinando nervosamente os arredores, à medida que procurava qualquer sinal de um guarda expec-tante.

O mesmo céu sob o qual, a tão poucos quilómetros de distância, Baldwin se encontrava estava a ficar congestionado de nuvens que pareciam compostas pelos mais finos fios tecidos a prata. Só de vez em quando se via a Lua. A maior parte do tempo estava obscurecida pelas nuvens, que se tornavam cada vez maiores.

Servia de alguma consolação a John, enquanto hesitava junto ao muro, o facto de a terra não se encontrar sob uma luz tão clara como antes. Quando, nesse mesmo serão, saíra de casa, o saco às costas cheio de peltre a tinir estridentemente, ele sentira-se como se se encontrasse sob o constante escrutínio de todos os homens e mulheres que viviam na cidade. Parecera-lhe que todas as árvores e todos os arbustos tinham deixado intencionalmente cair galhos e ramos para tentar passar-lhe uma rasteira e fazer com que o saco tinisse ainda mais alto, ou para assegurar que o próprio chão resmalhava e crepitava ruidosamente a cada passo seu, para denunciar exactamente o local onde ele se encontrava. A viagem até ao salão fora para ele uma viagem de horror, cada passo a aproximá-lo da possível destruição. Quando se encontrava quase a meio caminho da janela aberta, uma coruja-das torres soltara o seu grito rouco, e ele pensara que poderia ter acabado no cimo do carvalho a seu lado, tão alto saltou ao ouvir aquele barulho inesperado. Todos os cabelos da cabeça se lhe eriçaram em solidariedade para com o seu coração que batia apressado.

Graças a Deus, o saco passara para o outro lado sem incidentes, e John pôde ficar em pé no pátio, à sombra obscurecida de uma árvore, enquanto o saco era arrastado para dentro e guardado. Após algumas palavras sussurradas, John virara-se e partira novamente para casa, e fora então que ouvira aquele horrível assobio.

Enquanto que a coruja lhe colocara o coração a estoirar de medo repentino, o assobio fizera com que aquele órgão tentasse o feito oposto. Ele soltara um grito surdo de choque, a cabeça cheia de todas as combinações de histórias de espíritos, fantasmas, fadas, duendes e demónios que alguma vez ouvira. Em seguida foram substituídas pela lembrança dos soldados aquartelados em casa de Coffyn, e deu às de vila-diogo.

Foi uma sorte ter-se recordado do caminho de regresso ao seu muro, especialmente porque o trajecto era o mais indirecto que ele podia divisar. Colocando de parte o caminho directo, John apressara-se em direcção à estrada, recuara através de algumas árvores, virara numa mata, cortando, entretanto, as mãos num silvado, comprimira-se por entre as grades da janela dos estábulos, dirigindo sons apaziguadores aos intrigados cavalos que se encontravam no interior, e avançara, a correr, a partir da abertura mais escura junto ao canto mais distante da casa, apenas para ficar à espera, perscrutando desesperadamente o terreno à sua frente, à procura de perseguidores, antes de empreender o doloroso caminho de regresso à sua árvore e à sua segurança.

Observou atentamente, os olhos transformados em meras ranhuras, à medida que tentava detectar o mais ténue indício de movimento, mas não viu nada, e, por fim, estava satisfeito. Caminhando com uma postura erecta, testando o chão antes de lhe confiar o seu peso, percorreu, com infinita lentidão e cautela, a distância que o separava do muro. Depressa tirou a corda do ombro e dirigiu um último olhar ao caminho atrás de si. Não tinha qualquer desejo de ser apanhado, como acontecera da última vez. Seguidamente lançou. A corda agarrou, ele puxou duas vezes, e trepou. Já em cima do muro, desprendeu a corda e deixou-se cair para o outro lado, soltando um suspiro de alívio.

Enrolando a corda, olhou para cima. O céu estava a encher-se depressa de nuvens novas, e ele ficou um momento a observar, apreciando. Dirigindo-se à porta do estábulo, atirou a corda para o prego a que pertencia, afagou a égua e encaminhou-se para casa. Após a excitação do serão, sentia necessidade de duas boas canecas de cerveja. Abrindo a porta com um empurrão, aproximou-se da pequena lareira e reuniu as brasas com os pés, atirando-lhes uma mão-cheia de folhas secas para cima, e, colocando um toro a culminar, baixou-se para lhe dar vida com um sopro.

- Quer dizer, irlandês, que sentes o frio? Gelou.

- Não agrediríeis um homem no chão, pois não, senhor?

A resposta do homem foi um golpe lateral no crânio que o deitou ao chão. Gemeu, enquanto a dor explodia, tanto na cabeça como ao cimo do pescoço. Era como se tivesse caído das alturas e tivesse esmagado os ossos. Era uma dor atroz, e ficou tão atordoado que não foi capaz de gritar, e limitou-se a ficar deitado, entorpecido, incapaz de levantar os braços para tocar a ferida.

Viu o segundo golpe aproximar-se. Reparou que era um bastão, e viu a madeira pesada erguer-se lentamente, hesitar e depois abater-se sobre ele.

- Não, por favor...

Abateu-se sobre ele, e o seu último pensamento consciente, no momento em que a moca lhe tocava o crânio foi: quanto era estranho não conseguir ouvir a pancada. Mas nessa altura a dor regressou e tomou conta dele. Não teve consciência da mão que lhe agarrou a perna, erguendo-a suavemente, enquanto o bastão descia para estilhaçar o joelho de John.

 

Edgar estremeceu ao olhar para a lareira no salão. Não havia lenha seca suficiente para fazer chama. Ardera toda durante a noite, e ninguém ainda cuidara dela esta manhã. Podia ir buscar Wat; na verdade, devia dar um pontapé àquele pequeno demónio preguiçoso e arrancá-lo da sua enxerga na cozinha, mas, quando olhou lá para dentro, adivinhou que acordar o rapaz não ajudaria muito.

Em vez disso, dirigiu-se à pilha de madeiros. Tendo deixado cair uma descuidada braçada no chão, foi buscar o saco de acendalhas. Depressa estava ajoelhado, pedra de isqueiro e adaga a gritarem estridentemente e a tinirem ao rasparem uma contra a outra, enquanto ele tentava fazer nascer uma chama para acender a mecha. A soprar, conseguiu produzir um ténue fio de fumo, e alimentou-o com folhas e ervas secas, antes de acrescentar pequenos galhos que tinham sobrado da limpeza das árvores do Verão anterior. Todos os anos, quando as árvores eram desbastadas com o objectivo de se produzir lenha ou eram cortadas para se produzir madeira para vedações, mobiliário e carvão, os ramos mais pequenos e sem utilidade eram guardados para esta função.

Depois de ter conseguido uma pequena chama consistente e de ter colocado por cima dois madeiros ao lado um do outro, Edgar sentou-se sobre os calcanhares e, não muito confiante, ficou a vigiá-la por algum tempo.

- Podias ter feito menos barulho, se quisesses. Edgar sorriu perante o tom taciturno de Hugh.

- É verdade!

Edgar estava deitado num pesado banco, assim como outros dois ou três convidados de Baldwin da noite anterior, e resmungou para si próprio, à medida que se endireitava para se apoiar sobre um cotovelo, lançando a Edgar um olhar carrancudo. Deitou a mão ao cobertor grosseiro antes que este escorregasse para o chão.

- Onde está Wat? Pensei que ele é que tinha de tratar da lareira.

- Alguém o embriagou ontem à noite. Penso que se levantará tarde hoje.

Hugh soltou um riso abafado.

- Ele pareceu ter gostado de cerveja.

- Mas não devias ter-lhe dado aquela cerveja forte. Ele não sabe quanta é que pode tomar.

- Aconteceu a todos nós quando éramos jovens. Pensei que ele se aguentou bem.

- Até chegar cá fora - concordou Edgar. Assim que o rapaz, a cambalear, chegara à porta das traseiras e inspirou a primeira lufada do ar fresco da noite, soltou um soluço, depois começou a andar de um lado para o outro no pátio, cada vez mais depressa. Edgar e outro tinham ido vigiá-lo para se certificarem de que nada lhe acontecia, pois era comum um jovem adormecer e afogar-se no seu próprio vómito, mas Wat parecera óptimo - só que parecia não ouvir os gracejos proferidos na sua direcção. E depois sentira-se enjoado. Edgar ficara bastante surpreendido perante o volume que emanava de uma figura tão franzina.

Wat fora levado até à tina e fora forçado a gorgolejar e a lavar-se antes de ser enviado para a cama. Havia uma criada que costumava dormir junto à lareira na cozinha, e ela tomou a responsabilidade de cuidar dele durante a noite.

- Ele vai ter de limpar a porcaria toda que fez, antes de mais nada - observou Edgar. - Mas dormiu bem. Embora esteja muito pálido. Pensei que era melhor para ele se o deixássemos descansar um pouco mais. De qualquer maneira, ele tinha ar de quem era capaz de vomitar de novo, agora mesmo, quando fui espreitá-lo. Não me passou pela cabeça trazê-lo para que ele tentasse soprar o fogo para o atear, porque ele iria vomitar tudo para cima da lareira.

- Suponho que é melhor acordarmos os nossos amos - resmungou Hugh, espreguiçando-se aparatosamente. Colocou os pés no chão e retraiu-se perante a dor que sentiu na cabeça.

Olhando-o de lado, Edgar sorriu:

- Wat não foi o único a beber de mais ontem à noite.

Pousou a panela, já cheia de água, sobre as chamas, e foi até ao solar, onde Baldwin estava deitado a dormir. Abrindo a porta silenciosamente, foi recebido com um ronco em voz baixa. Quando deu um estalido com a língua, o ruído parou e o cão amarelo-acastanhado caminhou sobre as suas enormes patas, a cauda a abanar freneticamente. Raspou pelo tampo de uma arca quando o animal ia a passar, e varreu uma adaga, a bolsa de Baldwin e uma taça para o chão, produzindo um barulho inevitável.

- Meu Deus!

- Bom dia, Sir Baldwin - disse Edgar com voz suave. - Estou contente por Chops ter conseguido acordar-vos tão depressa.

De olhos remelosos, Baldwin observava-o.

- Há alturas, Edgar, em que me pergunto por que é que não procuro um camareiro novo.

- É manhã, senhor, e pedistes para serdes acordado cedo para poderdes regressar a Crediton.

- Oh! - Baldwin agarrou a cabeça enquanto se sentava na cama. Fechou os olhos, abrindo depois uma nesga de um. - Penso que ontem à noite bebi mais vinho do que é costume.

- Parece-me um comentário justo, senhor.

- Lembro-me agora por que motivo é que prefiro não beber de mais - resmungou Baldwin enquanto se colocava de pé.

- Mas o serão correu muito bem - disse Edgar, estendendo a túnica do cavaleiro e inspeccionando-a com ar de dúvida. - Está rasgada.

- O cão apanhou-a ontem à noite.

Edgar deixou o amo a vestir-se sozinho. Novamente no salão, viu que a lareira florescia numa profusão de chamas e colocou mais madeiros ao lado para secarem completamente. Regressando do local onde se guardavam os madeiros, encontrou Hugh, que acabara de acordar o seu próprio amo, e entraram os dois no salão, ao mesmo tempo que Emma o deixava.

A mulher lançou-lhes um olhar furioso. Não tinha provas, mas estava convencida de que estes homens eram responsáveis pelo seu isolamento da noite anterior. O cão fora deixado à porta do quarto dela para a impedir de proteger a sua senhora.

Emma não estava interessada na atracção da sua senhora por Sir Baldwin. Para a criada, todos os homens eram muito parecidos uns

com os outros, embora ela tivesse respeitado e se tivesse sentido solidária com Sir Ralph de Liddinstone. Era a comparação que ela estabelecia entre os dois que fazia com que ela sentisse tal aversão pelo cavaleiro de Furnshill. Ralph jamais teria convidado todos os seus rendeiros e servidores para uma festa como aquela que Baldwin dera na noite anterior; só a ideia dava vontade de rir. Não, aos olhos de Emma, Sir Ralph era um verdadeiro nobre. Era forte, e demonstrava a sua força impondo a sua vontade aos seus rendeiros, ao passo que o fraco cavaleiro de Furnshill achava melhor favorecê-los.

Na verdade, a virulência da sua aversão por Baldwin baseava-se na simples convicção de que, uma vez que a sua senhora gozara da companhia de um verdadeiro cavaleiro ilustre e poderoso, Lady jeanne aviltaria a memória do homem ao casar-se com um fraco artigo como era Baldwin. Era por isso que Emma estava determinada a impedir qualquer possibilidade de casamento entre os dois; e era por isso que se sentia irada por ter sido, para todos os efeitos, encerrada no seu quarto, na noite anterior, com aquele cão a babar-se e a passear-se à porta. Fora ele que a impedira de acompanhar a sua senhora e de a proteger das patéticas tentativas de corte amorosa por parte de Sir Baldwin.

Era a primeira vez, desde há muito, que Emma era contrariada desta maneira, e a mulher sentia-se furiosa por estes dois camponeses incultos terem conseguido os seus objectivos. E agora tinha de levar a recompensa ao cavaleiro. Isso enojava-a.

Hugh intimidou-se sob o olhar penetrante da mulher, e deixou-se ficar para trás, para que Edgar se encontrasse um pouco à frente e o protegesse. Emma olhou desdenhosamente Edgar de alto a baixo. Levava na mão uma trouxa mal feita. Após um momento se silêncio, ela atirou-lha para as mãos.

Edgar olhou a trouxa com alguma surpresa.

- O que é isto?

- É para o teu amo. Da parte da minha senhora. Ela pediu-me que te dissesse que lha entregasses.

Edgar levou imediatamente o embrulho leve ao amo. Baldwin estava prestes a sair do quarto, e lançou ao criado um olhar surpreendido quando este voltou a aparecer.

- O que é?

- Isto, senhor. É para vós, aparentemente.

Baldwin franziu o sobrolho, depois fez sinal a Edgar para que entrasse no quarto. O criado levou o embrulho para cima da cama e desamarrou o fio que o ligava. No interior, encontrou um colorido tecido carmesim. Abrindo-o, examinou-o.

- Uma túnica nova?

Baldwin sentiu o toque do fino tecido de lã.

- Lembras-te? No ano passado, em Tavistock, ela disse que me faria uma túnica nova - baixou o olhar pesaroso para o sua velha túnica branca, manchada e puída. - Penso que é melhor mudar de roupa - e suspirou.

Sentia a cabeça como se estivesse para lhe cair dos ombros. Quando abriu os olhos, tudo estava envolto em névoa, como se olhasse por uma janela de vidro mal acabado. Qualquer tipo de movimento era uma agonia; até o simples acto de pestanejar lhe trazia como que uma punhalada de dor às têmporas.

Gradualmente, à medida que recuperava os sentidos, John apercebeu-se do local onde se encontrava. Estava deitado no chão do seu quarto, ao lado da lareira que tentara atear. Estendeu uma mão, e, lentamente, com uma cautela infinita, virou-se sobre a barriga. Ao tentar ganhar impulso para se levantar, faíscas simultâneas como ferros em brasa queimaram-lhe a cabeça e a perna. Arquejando, teve de deixar-se cair para o chão, e perdeu os sentidos.

Só quando o Sol já ia alto e lhe entrou pela porta aberta é que ele pôde voltar a ganhar qualquer interesse pelo que o rodeava. Com a luz que entrava, pôde observar o quarto. Era evidente que alguém tinha rebuscado tudo. Todos os seus pertences estavam espalhados pelo chão, a arca estava aberta, e as cadeiras e as mesas de pernas para o ar. Isso fê-lo esboçar um sorriso forçado.

- Tarde de mais! - murmurou.

Por fim, conseguiu fazer uma segunda tentativa para se mexer. A pouco e pouco, obrigou-se a colocar-se numa posição em que pudesse rastejar, e arrastou-se, centímetro a centímetro, em direcção à porta, o suor a escorrer-lhe pela testa. Foi preciso recorrer a toda a sua força para o fazer sem gritar. Era uma ironia, pensou, o facto de a única coisa que trouxera consigo da Irlanda ter sido isto: o seu estoicismo.

Do lado de fora da porta estava a sua pequena pipa de água da chuva, e, ao lado, o seu banco. Olhou-os, os dentes cerrados. Parecia uma distância imensa, mas estava determinado a chegar lá; precisava de água, e tinha de ir até à luz para inspeccionar as feridas. O chão era duro, e de cada vez que a perna se arrastava por cima de uma pedra ou raspava num pedaço duro de lama seca, ele mordia o lábio para não praguejar.

Usou o último átomo da sua energia para se içar para cima do banco. Então, antes de olhar para a perna, forçou-se a empurrar a cabeça para dentro da água gelada. Emergindo a soprar e a arfar, o líquido a escorrer-lhe pelo rosto, depressa sentiu náuseas, e teve de engolir com força para manter a bílis no lugar, mas a sensação depressa passou, e ele pôde enterrar-se de novo no banco com um gemido e um suspiro.

Só então olhou para baixo, para a perna. O pé estava torcido, e não suportava tocar no joelho, muito menos movê-lo. Quando, com cuidado, tocou na cabeça, parecia que alguém lhe estivera a bater como um martelo de ferro numa bigorna. Ambos os lados do crânio estavam feridos e inchados. Retraindo-se e a tremer de dor e reacção, semicerrou os olhos em direcção ao portão: estava aberto. Atrás de si estava o barracão onde ele guardava a cerveja, e sentiu água na boca só de pensar num gole largo, mas rejeitou a ideia por estar para além das suas forças.

Tinha a perna fracturada junto ao joelho. Olhou-a com ar sombrio. Sentia a cabeça como se, implacavelmente, estivesse a quebrar-se em duas, e a sensação não era aliviada pela impressão ocasional de que a visão se lhe duplicava. Queria vomitar, mas não se podia dar a esse luxo; tinha de conseguir ajuda, de ir a um cirurgião ou a um monge e de cuidar da perna. Mas para o fazer tinha de arranjar maneira de chegar à cidade, e não podia arrastar-se o caminho inteiro. Se vivesse no centro da cidade, bastaria gritar da porta - mas, se vivesse na cidade propriamente dita, não teria sido atacado: os seus gritos teriam sido ouvidos. Não que tivesse podido fazer muito barulho na noite anterior, lembrou-se, taciturno.

Não, ninguém viria aqui. O sítio não ficava no caminho por onde todos passavam, e, mesmo que ficasse, não era provável que, a esta distância do caminho, alguém o localizasse no pátio.

John fora soldado. Percebia alguma coisa de arranjar ossos fracturados, e, por alguns momentos, olhou amargamente a perna em mau estado. A única forma de poder arranjar ajuda era se conseguisse ir até à igreja pedi-la. Puxou pela faca, despiu o casaco e começou a cortar o tecido às tiras.

Quando Baldwin entrou no seu salão, sentiu-se mais do que um pouco embaraçado. A sua túnica nova era de um vistoso tom vermelho, mais colorida do que tudo o que ele usara antes, e notou que Simon ficou surpreendido ao vê-lo tão resplandecente.

O cavaleiro ignorou o amigo e caminhou em direcção à mulher que se encontrava em silêncio junto à lareira. Estava vestida com uma túnica nova de veludo vermelho, e, quando a observou, Baldwin reconheceu o tecido. Era aquele que ele lhe tinha comprado em Tavistock.

- Minha senhora, sinto-me lisonjeado e honrado pelo vosso presente.

Se Baldwin soou um pouco formal de mais, o seu rosto desmentia-o. Jeanne retribuiu-lhe o sorriso, encantada por ver como a cor lhe ficava bem. Fora há doze meses que ela e Margaret tinham comprado o tecido, e Jeanne fizera rapidamente a túnica, quando regressou a casa depois do seu primeiro encontro com ele, mas não lhe parecera correcto, embora não soubesse porquê, enviar-lha simplesmente, com os seus cumprimentos. Quisera vê-lo usá-la pela primeira vez, e agora, ao poder ver como o rosto se lhe suavizava com a cor, e com o prazer que ele sentia, ela sentiu o coração inchar de orgulho por ter conseguido isto sozinha, apenas com as suas artes de costura.

- O prazer é meu, Sir Baldwin. Estou encantada por ver que vos fica tão bem quanto eu esperava.

Margaret sorriu, e, quando sentiu que o marido se preparava para oferecer um comentário humorístico, enfiou o braço no dele em sinal de advertência.

- Reconheceis este tecido? - perguntou Jeanne.

- É aquele que vos comprei em Tavistock - respondeu ele, sorridente.

Ela ouviu Emma, a seu lado, produzir um estalido com a língua, mas ignorou-a.

- Sim. Não o usei até hoje. Queria vesti-lo pela primeira vez quando tivésseis recebido o presente que tinha para vos oferecer.

- Talvez quando tiverem terminado de admirar a vestimenta um do outro possamos ir para Crediton encontrar esse ladrão e assassino... - sugeriu Simon secamente.

Baldwin lançou-lhe um olhar irritado, mas Jeanne riu em voz alta e empurrou-o em direcção ao beleguim.

- Penso que o vosso outro convidado está desejoso de partir.

- E se comêssemos alguma coisa antes?

Simon indicou-lhe uma pequena bolsa e um odre de vinho.

- Está tudo pronto! Podemos comer na viagem.

De má vontade, Baldwin resignou-se, e, pouco depois, os dois homens, seguidos de Edgar, estavam a caminho, o cavaleiro à frente.

À medida que iniciavam a longa e suave descida de Cadbury em direcção à cidade, Simon tomou um largo trago de vinho.

- Aonde vamos primeiro?

- À leprosaria. Quero falar com Ralph.

 

Quando chegaram ao pequeno portão da capela, encontraram o monge já à espera, uma sólida moca na mão.

- Sir Baldwin, estou tão contente por terdes podido vir, senhor.

- Porquê? Aconteceu alguma coisa?

- Não soubestes? Pensei que soubésseis. Apedrejaram dois dos nossos homens ontem à noite - um paciente recente e um viajante. Foram ambos apedrejados; podiam ter sido mortos!

Baldwin deixou-se cair do cavalo e amarrou-o a um ramo.

- Mostrai-mos! - pediu.

Atrás dele, Edgar saltou para o chão com bastante facilidade, mas Simon estava menos ansioso. Passou a perna por cima dos quartos traseiros do seu cavalo, e amarrou as rédeas a outro ramo, mas entrou no edifício contrariado. Nunca se encontrara antes numa colónia de leprosos.

Havia muitas leis para proteger a população dos leprosos, e todas tinham um objectivo: reconhecer o castigo de Deus. Os leprosos estavam conspurcados, e era dever da sociedade expulsá-los. Agora, dirigindo-se aos terrenos da capela, Simon sentia-se como se estivesse a entrar no próprio coração da conspurcação e da decadência. Quase podia sentir a exalação emanada pelas pessoas imundas e doentes como se ela o puxasse, tentando agarrá-lo no seu abraço gelado. Era uma ousadia entrar num local onde existia um perigo tão terrível.

A seu lado sentia a presença de Edgar, e sentia-se grato por ela. O criado, ainda mais do que o amo, parecia irradiar confiança e força, e Simon manteve-se junto dele, como se um pouco dessa confiança pudesse roçar por ele - e como se pudesse haver algum valor profilático nos números. Pela sua parte, estava receoso ao ponto de se sentir enjoado - não somente com náuseas, mas verdadeiramente perto de vomitar.

Ralph conduzia-os a passo ligeiro, tendo passado pela igreja, ao longo de um pedaço de relva orlado de geada, até que entraram num dos pequenos edifícios.

Baldwin olhou para o interior e quase recuou com o cheiro. Não era só o fedor da doença, mas também' de corpos por lavar, roupas sujas e imundície. Teve de engolir com força antes de se compenetrar para passar a soleira.

O monge deslocou-se com confiança para um canto na sombra, mas o cavaleiro teve de fazer nova pausa, desta vez para acostumar os olhos à escuridão. Era como se a exalação nojenta lhe obstruísse todos os sentidos, até os olhos, e o cegasse. De início era impossível ver fosse o que fosse. Depois, graças a Deus, o monge produziu uma chama usando pedra de isqueiro e aço, e Baldwin pôde olhar em redor.

Era uma simples cabana. Havia uma lareira ao meio, e, de ambos os lados, duas enxergas cheias de palha. Ralph encontrava-se entre as duas, a vela erguida ao alto para iluminar os doentes.

- Quivil! - exclamou Baldwin.

- Sir Baldwin!

A voz era tensa, mas não evidenciava apenas a rouquidão da lepra que tornava a voz fraca. Baldwin moveu-se, e Ralph aproximou a luz. Assim, Baldwin viu as equimoses, o sangue coagulado por cima do osso do nariz, o corte longo e irregular que lhe descia pela face, onde a carne fora rasgada como se fosse tecido.

- Quem ousou fazer isto? - perguntou Baldwin, irado.

- Foram as boas pessoas desta agradável cidade - disse outra voz, e Baldwin virou-se e fixou o homem que se encontrava na outra cama.

Thomas Rodde fez uma careta quando a vela se aproximou, fechando os olhos para os proteger da luz.

- Por que vos fariam elas isto?

- Têm medo de nós. Isso faz com que nos odeiem. São só precisos uns comentários estúpidos sobre a forma como um leproso possa ter seduzido uma rapariga, para que os bêbedos decidam vingar-se.

- Isto foi feito por bêbedos, dizes tu?

- Oh, sim. Pelo menos, penso que estavam bêbedos. Tinham um vocabulário interessante; não era o tipo de coisa que se espere que homens sóbrios digam.

- Reconheceste-los? Quivil voltou a falar.

- Arthur, e Jack, o ferreiro... - Os nomes eram todos familiares a Baldwin. Nenhum deles era grande provocador de sarilhos, mas todos eram conhecidos por tomarem as suas próprias medidas quando lhes apetecia, em vez de incomodarem os representantes da Lei.

- Jack - disse Baldwin, pensativo, lançando depois um novo olhar à outra cama.

- Não és desta cidade, pois não? O teu sotaque é estranho.

- Não, senhor. Sou de Londres, embora nos últimos anos tenha andado a viajar pelo Norte. Só cheguei a esta cidade há umas semanas atrás. Agora começo a lamentá-lo.

- Não te posso censurar - Baldwin sorriu em jeito de solidariedade. - Não é propriamente o género de boas-vindas que eu também gostaria de ter, se fosse novo na cidade. Insultaste alguém desde que chegaste?

- Eu? - Thomas Rodde teve de rir perante uma pergunta tão inocente. Quando voltou a falar, a sua voz tinha perdido todos os vestígios de humor, e os seus olhos eram frios. - O que vos parece, cavaleiro, meu senhor? Olhai para mim! Eu era um homem bastante digno: forte, poderoso e rico. Agora? Sim, olhai para mim! Sou uma casca do que era, algo que homens e mulheres de todas as condições evitam, talvez com pena, mas com repugnância. Olhai para mim, cavaleiro, meu senhor! Eu insulto toda a gente pelo simples facto de existir!

- Não me vou desculpar, amigo, pois tudo o que estou a tentar fazer é descobrir quem poderia ter tido razões para vos ferir - disse Baldwin num tom apaziguador. - Deves saber que preciso de fazer perguntas para descobrir por que é que isto aconteceu.

- Já vos disseram quem era responsável.

- E esses homens podiam ter sido induzidos a fazerem uma coisa destas - concordou o cavaleiro - mas espero sempre encontrar outra razão qualquer para explicar porquê. Da experiência que tenho, os homens não se enfurecem subitamente e atiram pedras a outros, não - nem tão pouco a leprosos -, sem terem uma boa causa. Sabes de alguma razão que possa ter levado estes homens a lembrar-se de vos atacarem nas ruas?

Vendo que ambos os leprosos permaneciam em silêncio, Ralph disse:

- Eu sei porquê, Sir Baldwin.

O cavaleiro viu que o responsável pelos leprosos falara num tom irritado e amargo. Tinha os lábios comprimidos, os olhos sem pestanejarem. A mão que segurava a vela não tremia, mas a outra não parava, o dedo médio a raspar a unha contra a do polegar para produzir uma percussão irritante.

- Porquê, então, irmão?

- Vinde comigo!

Ralph conduziu-os para fora da cabana e por cima da relva, em direcção à igreja. Abrindo a porta da capela, empurrou-a com força e entrou, os sapatos a produzirem uma estranha batida, à medida que o monge passava por cima das pedras do pavimento.

Simon entrou atrás de Baldwin, perguntando-se o que estaria o monge prestes a mostrar-lhes. Sentia uma estranha premonição de que havia outro morto no centro da questão, e a sua expectativa pareceu realizar-se quando ele entrou na nave e viu a carreta em frente ao altar. Era óbvio que a estrutura simples de metal, envolta no seu tecido preto barato, com as três velas em cada um dos suportes triangulares à cabeça e aos pés, cobria outro corpo sem vida, e Simon engoliu com força. Vira bastantes defuntos ao longo da sua vida, e quase todos eles vítimas de violência, mas nunca perdera a tendência para sentir náuseas. Era diferente quando o corpo era de um homem que morrera no sono, após uma vida longa e útil, a família e os amigos à sua cabeceira, o padre pronto a confortar o espírito que deixava este mundo; nesse caso tratava-se de um acontecimento natural e aceitável.

Aqui, na capela de St. Lawrence, Simon sabia que o corpo que se encontrava debaixo da carreta coberta era o de um leproso, alguém que vivera os seus últimos anos em dor e sofrimento, sempre consciente de que aqueles que tinham sido seus amigos e parentes agora o desprezavam pela sua terrível doença.

Foi com um alívio indescritível que ele se apercebeu de que o padre não se dirigiu em direcção ao corpo. Em vez disso, Ralph virou-se, fez a sua vénia, e encaminhou-se para uma pequena câmara ao lado. À medida que Simon se aproximava, ouviu um som estranho. Ao chegar mais perto da porta, apercebeu-se de que era um suave lamento que provinha do interior. De início o beleguim estava receoso do que pudesse encontrar lá dentro, mas quando o monge abriu a porta de par em par, viu que se tratava apenas de uma mulher jovem.

Baldwin estacou.

- Mary? Mary Cordwainer?

- Sim, meu senhor?

Os olhos dela estavam vermelhos e inchados de chorar - essa foi a primeira coisa em que Simon reparou. Pareciam luminosos na obscuridade da sala escura, que pouco mais era do que um armário ao lado do altar, um género de anexo ao lado da igreja que era usado como arrecadação e onde se guardavam escovas e outras coisas necessárias à limpeza do local.

Ralph estendeu-lhe os braços.

- Perguntai-lhe - perguntai a Mary o que se passou ontem à noite!

- Mary? Viemos agora de junto de Edmund e do amigo, sabes que eles foram agredidos? Podes dizer-nos alguma coisa sobre isso?

A voz do cavaleiro, tão calma e amável, foi suficiente para a ajudar a dominar-se. Respirou profundamente por duas vezes. De cada vez, o seu corpo estremeceu, como se ela estivesse prestes a soluçar novamente. Olhou para as mãos, vendo a pele gretada e seca, e cobriu os olhos com elas, enquanto que um estremecimento convulsivo lhe percorria o corpo, e, em seguida, deixou-as cair.

Estava exausta. Saber que o seu homem lhe tinha sido tirado, que lhe era negada a vida que planeara e pela qual rezara, fora um choque tremendo, mas agora ter de sofrer tanto mais, quando tudo o que tentava fazer era aliviar a angústia de outros, era ainda pior. Tinha procurado os amigos e os vizinhos para que a apoiassem no seu infortúnio, e todos a tinham rejeitado.

- Podes dizer-nos? - perguntou Baldwin.

- Sim, meu senhor. Sim, agora estou bem, obrigada.

O cavaleiro examinava-a. Lembrava-se dela de antes da doença de Quivil como uma rapariga viva e alegre, que era dada a pregar partidas quando ainda corria pelas ruas com o cabelo solto, que adoptara uma seriedade solene quando ficou noiva, como se esse fosse um comportamento mais adequado a uma futura esposa. O rosto dela ainda parecia mais feito para rir do que para chorar, mas todo o prazer fora apagado dele, como que por um pano embebido em perversidade.

O olhar de Mary passou por ele para se fixar no beleguim, que se encontrava à porta.

- Foram homens da cidade. Venho cá todos os dias para ajudar o irmão Ralph. Não há muita coisa que eu possa fazer, mas queria ajudar em tudo o que pudesse. Era a única coisa que eu podia fazer pelo meu pobre Edmund, estando ele tão em baixo após a sua doença. Bem, quem não estaria em baixo, sabendo que tem isto? - acenou com uma mão como que para indicar todos os pacientes e a doença que os afligia.

"Tenho vindo desde o dia em que o trouxeram para cá, para limpar o pó e varrer, para ajudar a mudar as ligaduras dos doentes, e, por vezes, para ficar sentada junto aos moribundos, como com aquela infeliz alma ali, Bernard, para que o pobre irmão Ralph possa descansar um pouco.

- Ela tem sido uma muralha de força para mim - murmurou Ralph.

- O pobre Edmund não tinha ninguém que o pudesse amar como eu podia - afirmou ela em jeito de defesa. - Quem mais o poderia ajudar nos seus últimos meses ou anos? Nem sequer a mãe viria aqui para o visitar, mas eu ousei fazê-lo, pois como poderia Deus deitar-me abaixo por ajudar os doentes? E se Ele o fizesse, eu iria para a cova sabendo que tinha feito tudo o que podia por outra criatura em sofrimento, e iria juntar-me ao meu Edmund, no Céu.

Baldwin acenou com a cabeça, compreensivamente. Tinha um rosto agradável, pensou ela. Um pouco parecido com a estátua de Jesus que se encontrava junto ao altar. A atenta concentração que o seu rosto denotava era atraente, e ela sentiu o coração entemecer-se por ele. Instintivamente, sentiu que podia confiar nele.

- Ontem à noite, tal como nos dias anteriores, saí daqui ao cair da noite para ir para casa. Vivo ainda com os meus pais, senhor, e é uma grande caminhada, por isso tento sair antes do anoitecer. Foi quando cheguei à encruzilhada junto à estalagem que me apercebi de que tinha deixado o casaco aqui. Voltei a correr, mas isso significou que quando saí da segunda vez já estava escuro, e, quando seguia pelas ruas, alguns homens gritaram-me, pensando que eu poderia andar a tratar de outro assunto.

O rosto dela tornou-se sombrio à medida que recordava as duas figuras a olharem-na de soslaio e a fazerem gestos sugestivos, enquanto elogiavam o seu corpo forte e jovem. Uma mulher na rua de noite, tinham eles dito, só devia andar à procura de uma coisa. Um deles tinha abanado a bolsa à frente dela, tentando convencê-la a ir com ele para uma rua estreita. Só quando um transeunte gritou que ela trabalhava todos os dias na leprosaria é que eles se afastaram, desdenhando dela com pragas, como se ela os tivesse incitado à devassidão.

E foi a pouca distância após esse incidente que ela encontrou Qui-vil e Rodde. Estavam ambos agachados junto a uma parede, os braços levantados para protegerem a cabeça das pedras, pedaços de lama seca, paus quebrados e lixo que estavam a ser-lhes atirados pela pequena multidão que se juntara, a escarnecer e a praguejar.

Ela ficara quieta por um momento, horrorizada, depois correu para a frente, agredindo com as mãos os homens que se encontravam mais próximos, abrindo caminho por entre eles e dando pontapés a todos os que se recusavam mover-se. Em poucos segundos, ela irrompera pela multidão compacta, e encontrava-se entre os homens e as suas presas.

- O que estais a fazer? Não vedes que estes homens estão indefesos?

Um dos homens soltara uma gargalhada desdenhosa.

- Queres protegê-los? Não pensava que as prostitutas se interessassem assim tanto pelas vergas deles!

- Quem me chama prostituta? - gritara ela, dominada pela cólera, pensando que era a cerveja a falar num homem, mas outros retomaram o insulto. Embora os leprosos se encontrassem em segurança naquela altura, a multidão estava ansiosa por atacar outro alvo. Mary viu que Edmund estava caído junto à parede, o sangue a gotejar de um rasgão na face e de outro no crânio, e o outro leproso estava de cócoras a seu lado, limpando as feridas o melhor que podia. - Como ousais chamar-me tal coisa?!

- Eu ouso - era Jack, o ferreiro. Estava de pé, as mãos nos quadris, e olhava-a nos olhos com firmeza. - Pensas que somos todos tão estúpidos que não nos apercebemos do que estás a fazer todos os dias naquela leprosaria, bem, sabemos! Dizes que cuidas dos homens de lá, mas quantos serves por dia, heim?

Ela sentira o sangue afluir-lhe às faces, o sangue quente da injustiça. O facto de ser acusada de se ligar a um homem qualquer era revoltante, mas insinuar que ela era capaz de atirar o seu corpo às pobres almas doentes do Hospital de St Lawrence, quando tudo o que estava a fazer era cuidar delas porque mais ninguém o fazia, espicaçava-a e obrigava-a a retaliar. Não disse nada, mas ficou muito tempo no mesmo lugar, lançando-se depois para a frente, os punhos cerrados e prontos a atacar.

O ferreiro soltou uma gargalhada de desdém. À medida que ela se aproximava, ele agarrou-lhe as mãos impetuosas e segurou-a com firmeza.

- O que acham, rapazes? Vale a pena levá-la?

- Agora não - respondeu outro, fazendo sinal com a cabeça em direcção aos dois leprosos. - Ela está imunda!

- Pois é! - disse Jack num tom sarcástico, o hálito a tresandar a álcool enquanto a mirava. - Vai, fica com os teus amigos, cabra. - E, com isso, empurrou-a com força. Ela cambaleou, chorando lágrimas de raiva, tropeçou numa pedra e caiu aos pés de Rodde. Ele abanou a cabeça, solidário, mas não podia pegar-lhe na mão em frente de toda aquela gente. Era proibido a um leproso tocar numa pessoa saudável. Quando ela voltou a olhar, todos os homens estavam a dispersar.

Quando Mary se aproximava do fim da sua história, Baldwin afagou-lhe a mão.

- E depois?

- Eu ia voltar para cá com Edmund e Rodde, mas Rodde disse que eu devia ir directamente para casa. Ele disse que não era bom para mim voltar aqui, que eu correria perigo, que a multidão podia atacar-me por comportamento indigno, que me podiam queimar no poste por heresia. Recusou-se a deixar-me ajudá-lo, e enviou-me para casa.

- Isso mostrou algum bom senso... e alguma estupidez - murmurou Baldwin. - E se tivesses sido novamente atacada no caminho para casa? Ele deveria ter pedido a alguém que te acompanhasse. De qualquer forma, esperemos que este seja o fim da violência. Mary, lamento, falarei hoje com o ferreiro e dir-lhe-ei claramente que, se houver qualquer outro distúrbio, ele estará na prisão antes de poder apanhar uma pedra para atirar. No ponto em que as coisas estão, multá-lo-ei por te ter difamado e por ter causado um tumulto. Isso custar-lhe-á muitas moedinhas!

- E a pobre Mary? - gritou Ralph. - Continua, rapariga, conta o resto ao cavaleiro. Conta-lhe o que aconteceu quando chegaste a casa.

O olhar de Mary baixou e pousou mais uma vez nas suas mãos, e ela permitiu que o rosto se lhe afogasse nelas. Não estava agora a chorar, pois sentia-se tão exausta de chorar que não lhe restava energia para alimentar o seu desgosto. Tudo o que tinha estava com ela - tudo ali embailhado no lenço junto à porta. Primeiro perdera o marido, mas agora perdera o resto. Era realmente uma desgraça mirabolante de mais para que ela a compreendesse completamente.

- Senhor, desde ontem à noite que tenho tentado entender Jack e os outros, e quase os tinha perdoado, pois qualquer homem poderia fazer uma figura triste depois de ter bebido demasiada cerveja, mas é difícil, tão difícil, após o que eles fizeram... - Os olhos dela rasaram-se mais uma vez, e ela teve de sentar-se em silêncio para se conseguir controlar. - Senhor, o meu pai não estava em casa quando eu cheguei. Ele vai muitas vezes à estalagem à noite. Eu estava sentada com a minha mãe quando ele regressou. Tinha sido abordado na rua por esse tal Jack e pelos outros, e eles tinham-lhe dito que eu não passava de uma prostituta. Disseram-lhe que a minha presença já não era desejada na cidade, e far-me-iam partir, assim como à minha família.

- Eles ousaram fazer isso? - indignou-se Baldwin, olhando o monge.

- Disseram que pegariam fogo à casa, a não ser que eu partisse, com todos nós lá dentro; disseram que não havia lugar em Crediton para uma mulher que se ligava a leprosos. - Ela ergueu os olhos para encontrar os do cavaleiro. - Assim, tudo o que tenho está aqui. Deixei a minha casa para que os meus pais e irmãos possam viver em paz. Que mais poderia eu fazer?

- Basta, Mary - disse Baldwin, e levantou-se. Tinha o rosto calmo, mas havia uma certa tensão na sua voz quando falou. - Esse tal Jack responderá perante mim pelas ameaças que tem proferido. Não precisais mais de recear nada dele nem dos amigos dele. Eu tratarei deles - agora mesmo/

Saiu imediatamente da sala, empurrando Simon na sua urgência, e só quando ele chegou à porta principal da capela é que o monge, apressado, o conseguiu alcançar.

- Sir Baldwin! Por favor, esperai um minuto!

- O quê, irmão Ralph?

- Não vades perseguir um homem pela sua estupidez! Esperai até pensardes no seu caso com mais calma. Não há qualquer razão para criar ainda mais mal-estar na cidade do que já existe.

- Penso que há. Se uma jovem mulher como Mary pode ser forçada a sair de casa sem ter para onde ir, há todas as razões para que estes cretinos se apercebam da culpa que têm.

- Concordo que é preciso cuidar dela, mas não vades atirar-vos a eles como um touro a uma cancela. Por um lado, tenho de perguntar-me se seria sensato ela ficar na cidade depois disto.

- O que quereis dizer com isso?

- Tudo o que quero dizer é que ela é tão boa enfermeira e tão dedicada à sua nova vocação que, em qualquer caso, poderia ser melhor para ela deixar a cidade. Se Mary ficar aqui, só pode ser sempre causa de conflitos. Não seria preferível ela ir para outro lugar, onde fosse apreciada? Penso que ela se ajusta idealmente a uma vida de oração.

- Pensais que ela poderia ir para um convento?

- Penso que ela poderia ser mais feliz lá. Estaria a salvo de mais comentários da parte de ignorantes, a salvo de calúnias e mentiras, e poderia dedicar a sua vida a ajudar os outros num hospital.

- E a cidade teria o seu furúnculo lancetado. - Baldwin lançou um olhar carrancudo e irado a Oriente, em direcção às colunas de fumo que se erguiam por cima da colina. - E os intolerantes teriam conseguido afastar uma pobre rapariga sem qualquer razão.

- É melhor isso do que alguém exaltado lhe incendiar à casa e a queimar a ela, juntamente com toda a família.

- É melhor um inocente sofrer em vez de muitos? - resmungou Baldwin, a morder o lábio, mas acenou ligeiramente com a cabeça. - Abomino o vosso argumento, irmão, mas considero-o oportuno. No entanto, irei na mesma visitar o ferreiro e dar-lhe a conhecer o meu ponto de vista. Não deixarei que ele envenene esta cidade. E também não deixarei que os leprosos sejam agredidos nas ruas.

 

À medida que o Sol se erguia no firmamento e projectava os seus raios no pátio, John teve de fechar os olhos para os proteger do brilho. Era demasiado doloroso, com a cabeça a latejar e a pulsarão mesmo compasso da perna despedaçada.

Após lutar durante o que lhe pareceram séculos, ele conseguira finalmente uma posição em que se sentia melhor. Fora difícil, pois para amarrar a velha bengala e o cabo do vasculho à perna, precisara de se dobrar, e, de cada vez que o fizera, fora invadido por uma nova onda de náuseas. A cada tentativa, fora forçado a cerrar os olhos e a manter-se absolutamente quieto por alguns minutos, até que a sensação passasse, e, todas as vezes, tivera de abrir os olhos e continuar.

Reservara uma ligadura para a cabeça. Do lado direito da cabeça, no local onde a moca o atingira, crescia-lhe um galo, e havia um mais pequeno do outro lado também. Teve de esboçar um sorriso torcido quando apertava a ligadura em volta da testa, pensando que, pelo menos, a constrição lhe fazia doer ambos os lados do crânio de igual forma; não ficaria desequilibrado quando tentasse mover-se.

Encontrara um bordão, um bom ramo de ulmeiro que guardara para cortar com o machado e transformar em lenha, e agarrou-o com força. Cerrando os dentes, elevou-se cautelosamente, o sangue a nascer-lhe na testa e a arrefecer-lhe nas costas, debaixo da camisa. Já tinha bastante frio sem o casaco, e esta humidade fazia-o tremer como se tivesse sezões, mas com uma expressão determinada e as maxilas firmemente cerradas, colocou o bordão no chão e deu um passo.

O chiar de ossos esmagados quase o fez perder os sentidos. A dor de cabeça voltou, latejando tão fortemente como se um homem o estivesse a agredir novamente; o estômago apertou-se-lhe. O mundo girou-lhe à frente dos olhos e ele teve de os fechar, mas nessa altura toda a sua concentração pôde fixar-se na dor aguda que sentia, e isso era insuportável; teve de os voltar a abrir.

Agora a sua visão de vaivém estava a estabilizar um pouco, e ele conseguiu engolir com força. Antes que pudesse perder toda a determinação, avançou outro passo. Desta vez deixou escapar um grito de angústia, quando o pé encalhou numa pedra e a sensação lhe subiu pela perna até ao coração. De olhos escancarados, titubeou, o fôlego a soluçar-lhe na garganta.

E deu outro passo.

Baldwin ditou o andamento de regresso à cidade, e era um galope irritado. Não dera tempo a Simon e a Edgar para falarem com ele, tendo subido imediatamente para o seu cavalo e tendo-se afastado, assim que eles chegaram ao portão, e os outros tiveram de apressar o passo para não o perderem de vista.

O cavaleiro não era estúpido nenhum, e não tinha qualquer intenção de intervir na agitação normal da vida de Crediton, mas isto era algo de diferente. Na generalidade, a cidade contava-se entre as mais calmas do reino, e ele sabia que outros oficiais do Rei o olhavam com um certo grau de inveja por não ter muita coisa para fazer; mas se algo desta natureza não fosse logo cortado pela raiz, podia crescer um fruto perverso cuja colheita seria a morte. Fora milagre os dois leprosos não terem sido assassinados na noite anterior, e um milagre ainda maior o facto de a rapariga não ter recebido mais do que agressões verbais. Se se permitisse que tal comportamento continuasse sem controlo, tal situação só poderia resultar em violentos distúrbios, e era dever de Baldwin fazer com que tais coisas não acontecessem.

Cavalgaram rapidamente ao longo da rua, dispersando as pessoas, até chegarem à casa em que Godfrey morrera, e, aí, Baldwin abrandou. Tinha um estranho pressentimento, e virou a cabeça para olhar para a casa. Havia algumas pessoas no jardim, a cuidar dos legumes, e, atrás delas, viu Putthe de pé, à entrada da porta, já sem ligadura, mas encostado a uma ombreira, como se tivesse dor de cabeça quando se encontrava em plena luz do dia.

Enquanto Baldwin observava, viu a ama de Putthe aparecer. O criado afastou-se para o lado, respeitosamente, e o cavaleiro reparou nos movimentos dele, lentos e cuidadosos. Era óbvio que ainda lhe doía a cabeça. Então Baldwin viu a sua atenção ser captada pela mulher ao lado de Putthe. Estava de pé, bem-disposta, e calçava as luvas com força sem tirar os olhos das pessoas que trabalhavam no jardim. À luz brilhante do Sol, o cabelo dela reluzia como se um fogo etéreo se encontrasse por cima dele. A mulher reparou na presença do cavaleiro e dirigiu-lhe um brusco aceno de cabeça, dando depois meia volta e voltando, com passo imponente, ao interior da casa.

- Parece que ela está a preparar-se para dar uma volta a cavalo, não é, Baldwin? - disse Simon.

- Sim. Parece, não parece? - disse Baldwin. - Simon, fomos enganados por aquela mulher.

- Enganados? De que estás a falar?

- Não viste o comportamento dela agora mesmo?

- Foi arrogante, não há dúvida, e depois?

- Penso que não te apercebeste da questão mais importante. Vamos precisar de voltar a falar com ela.

E, com isso, o cavaleiro deu esporas ao cavalo e arrancou; se tal fosse possível, na opinião de Simon, mais irritado do que antes. O intrigado beleguim olhou Edgar, que encolheu os ombros como que para indicar que havia alturas em que ele desistia de tentar compreender o amo, e seguiu-o.

Cecily não estava de bom humor quando se dirigia para os estábulos. A sua égua, que ordenara que tivessem pronta meia hora antes, ainda não estava selada, nem tão-pouco o garanhão para o seu acompanhante e guarda, um dos criados.

É claro que ela aceitava que era preciso tempo para que as rotinas diárias normais se acertassem, mas isso não era razão para que não se realizassem tarefas fáceis. Era como se os criados estivessem a tentar ser - ela não se lembrava de outra forma para colocar a questão - propositadamente incompetentes. Ela disse claramente o que pensava ao responsável pelos criados e tocou com o cabo do chicote no moço de estrebaria que levava a sua égua para o fazer apressar-se. Sabia que a única forma era assegurar-se de que os criados soubessem quem é que lhes pagava os salários a partir de agora. Cecily já não era a filhi-nha querida do amo deles, o bonito ornamento que sofria tanto com o pai tirano: era a dona da propriedade e de todo o dinheiro que God-frey tinha juntado.

A égua foi-lhe levada, e o moço de estrebaria estava taciturno quando ela subia os blocos de pedra e montava o animal. Olhando com frieza o rapaz, que esfregava o ombro, atravessou o jardim e entrou na estrada.

Não que ela fosse dura - não era - mas a senhora Cecily de Lon-don não era nenhuma idiota. Era maior, por isso estava suficientemente a salvo de cretinos metediços que a queriam proteger do mundo ao uni-la a qualquer homem que se interessasse, mas Cecily sabia que estava prestes a tornar-se conhecida como a mulher mais elegível do Devon central, e esperava confiantemente receber propostas de vários bobos mais ou menos bem-intencionados, de calças justas e elegantes túnicas, exibindo todos eles qualidades que uma senhora deveria exigir: dinheiro, cavalos, cães, quintas e acesso à melhor sociedade. O problema de Cecily é que não queria nada disso.

Era uma mulher perspicaz. Educada em Londres como uma jovem mimada, conhecia o valor dos círculos elegantes, e não nutria por eles uma estima elevada. Para ela, um marido bem-parecido e bem aperaltado era tão útil como um balde sem fundo. Não tinha uso para dar a nenhum deles.

Não, Cecily conhecia o seu próprio valor, e sabia perfeitamente que em breve se tornaria fonte de intensa especulação, mas tinha de rejeitar todas as propostas. E, para o fazer, tinha de mostrar capacidade de tratar dos seus próprios assuntos. Só parecendo forte é que ela poderia permanecer livre. Devia assegurar-se de que o pessoal se mantinha sempre ocupado. Essa era a forma de garantir que teria um poder ilimitado para continuar com o seu esquema. Não podia falhar e deixar de ir ao encontro das condições do juramento que prestara ao leproso de rosto duro vindo do Norte do país.

Esse pensamento fez com que os seus olhos brilhassem, e o acompanhante, reparando que ela os limpava, gritou, ansioso:

- Senhora! Estais bem?

O criado estava habituado ao seu carácter imprevisível, e fora avisado pelo velho Putthe de que ela podia mudar de humor mais rapidamente do que uma lebre perseguida mudava de direcção, mas ele não estava preparado para a sua fúria.

- Claro que estou bem! Pensas que sou alguma mulher fraca qualquer que não aguenta um grão de pó nos olhos?

Ele pensara que ela estava a pensar no pai. Até à morte dele, Cecily fora sempre tão calma, tão dócil e obediente ao tirano que era God-frey, que o moço de estrebaria presumira que a lágrima era sinal de tristeza feminina. O desdém mordaz da resposta dela foi tão inesperado como cruel, quando ele tentava apenas oferecer-lhe consolo. O rapaz resolveu não dizer mais nada durante o resto da viagem.

Cecily todos os dias cavalgava para fazer exercício, independentemente do tempo que fizesse, e a sua rotina apenas se alterara no dia que se seguiu à morte do pai. Agora ela insistia em que devia continuar como antes. O trajecto do costume era para evitar a cidade em si, e hoje o moço de estrebaria via que ela tencionava não sair dele. Ela é que ia à frente, virando à direita da entrada da casa, e subindo a colina em direcção aos bosques que se encontravam no cimo. Esta era a estrada que passava pela casa de John de Irelaunde, e ela olhou a casa algo surpreendida. Os portões estavam abertos.

Tendo passado por este caminho desde que John construíra esta casinha, ela sabia que John costumava ter sempre os portões fechados contra os curiosos. Mas hoje não. À medida que a égua a aproximava dos portões, viu que estavam abertos de par em par, e olhou para o interior com interesse. Era a primeira vez que era capaz de o fazer. Quase que tinha deixado a casa para trás, quando, com um sobressalto, reconheceu o que tinha visto.

Virando a cabeça da égua, entrou com ela, e apeou-se precipitadamente, atirando-se para a pequena trouxa de trapos que o moço de estrebaria já vira e a que não prestara atenção.

- Rápido! - gritou ela. - Para a igreja! Vai como se os próprios cães do demónio te perseguissem! Traz um monge que perceba de enfermagem. Não fiques aí de boca aberta, imbecil! Vai!

Cavalgaram a toda a brida para o pátio do ferreiro, e o cavalo de Baldwin levantou-se nas patas traseiras quando parou.

 

MICHAEL JECKS - Ferreiro! Vem cá fora, quero falar contigo!

Simon, que conhecia a maior parte dos estados de espírito do cavaleiro, ficou surpreendido ao ouvi-lo gritar num tom tão estridente. Para o beleguim, os leprosos eram uma fonte de repugnância e também de aversão, e, embora merecessem solidariedade, talvez, e também compaixão, a sua aparência repulsiva era razão suficiente, sentia ele, para que fossem vitimados. Pela sua parte, não era devido a qualquer crueldade. Simon era geralmente um homem bonacheirão, satisfeito consigo próprio e com a vida, e ficava feliz por ver os outros gozarem a vida o melhor que podiam. Não se sentia levado por qualquer absurda compulsão de oprimir aqueles que não compreendia, mas tinha receio da lepra; não só porque a doença podia agarrá-lo na sua hedionda teia, roubando-lhe a liberdade e a saúde, mas porque, de forma semelhante, podia atacar-lhe a esposa ou a sua preciosa filha. Não podia perdoar o facto de outra pessoa poder atacar leprosos por serem perigosos, mas também não podia encontrar no seu coração o desejo de os condenar. Os sentimentos deles eram simplesmente um pouco mais guiados pelo ódio do que os seus, que se inclinavam mais para o lado da piedade.

O assunto não tinha contornos tão difíceis para Baldwin. O cavaleiro sentia uma repulsa permanente por qualquer coisa que cheirasse a vitimação. Os seus amigos, os membros dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão - os Cavaleiros Templários - tinham sido acusados de crimes horrendos por um Rei francês avarento que ansiava pela propriedade e dinheiro que possuíam, e foram perseguidos por toda a França. Presos, encarcerados e condenados sem oportunidade de se defenderem, eram apenas culpados de terem acreditado na palavra do Rei e do Papa. E sua fé e integridade levou à sua morte nas fogueiras.

Baldwin sabia que esse era o resultado da intolerância misturada com os condimentos gémeos da repressão e da propaganda. Ele já o vira antes. Estava determinado a não o ver de novo.

- Ferreiro! Vem cá fora!

Simon deixou-se cair do cavalo e passou as rédeas a Edgar. Caminhando até à porta, bateu com o punho fechado.

- É estranho que ele ainda não tenha aberto a porta - reparou. - Era de esperar que, por esta hora, ele já tivesse a forja a trabalhar.

Enquanto falava, ouviu-se o som de uma pesada tranca de ferro a ser levantada dos encaixes. Um momento depois a porta abriu-se e os amigos depararam com o ferreiro.

Era evidente que Jack gostara da cerveja que bebera na noite anterior. Os olhos tinham uma auréola vermelha, e a sua pele, sob a camada de pó de carvão e cinzas, parecia quase transparente. O homem estremeceu, Baldwin não tinha a certeza se de frio se em reacção ao álcool. Olhando, confuso, de um para o outro, passou uma mão pela boca como que para retirar um gosto desagradável.

- O que é? - perguntou, carrancudo. - Um homem já não pode descansar sem ser acordado?

- A tua aparência explica um pouco o teu comportamento de ontem à noite - disse Baldwin com aspereza, e empurrou o confuso ferreiro do seu caminho. Os outros seguiram-no para o interior.

- O que significa tudo isto?

- Cala-te! Ontem à noite, tu e os teus amigos resolveram atacar um par de leprosos, e depois tiveste a má ideia de incutir o medo de Deus numa jovem mulher cuja única culpa é ter dedicado o seu tempo a cuidar daqueles que estão em pior situação do que ela. Hoje ouvi dizer que ameaçaste a família dela.

- Isso não é verdade - resmungou Jack. - Por que haveria eu de querer fazer isso?

- É precisamente isso que eu quero saber, e é melhor que a explicação seja boa.

Jack encolheu os ombros e dirigiu-se à sua forja, varreu as cinzas e retirou o lume velho. Enquanto trabalhava, colocando a mecha e produzindo uma chama com a ajuda da pedra de isqueiro e da lâmina da faca, falava como que para si próprio.

- Não vejo razão para se ficar perturbado por alguém tentar ver-se livre de gente como eles. Quem é que quer leprosos na cidade? Eles estão manchados pela sua doença, e mancham a própria cidade ao estarem aqui. Não é como se fossem normais. Estão marcados por Deus - e só o conseguiam se fossem especialmente perversos. Devem ter cometido os pecados mais horríveis.

- Duvido que seja verdade - disse Baldwin, e um certo tom na sua voz fez com que Simon o olhasse.

Para o beleguim, era claro que o cavaleiro estava a controlar a sua raiva com grande dificuldade. Era natural, pensou Simon, que o amigo desejasse defender a rapariga - Mary não fizera nada para merecer a perseguição de que era alvo - mas, na melhor das hipóteses, ele sentia-se ambivalente em relação aos leprosos. Tudo o que ouvira dizia que eles tinham sido marcados por Deus como castigo, como afirmava o ferreiro, e as hediondas deformidades que apresentavam provavam-no.

- Ninguém pode duvidar disso - disse o ferreiro, e baixou-se para soprar e fazer arder a mecha. Quando estava satisfeito, colocou ramos de árvore em volta da pequena fogueira, e pouco depois tinha uma chama viva. Só então é que a rodeou de carvão, criando uma pequena montanha, e atirou-se para cima do fole. Pouco depois o cone emanava um brilho vermelho quente, e o ferreiro levantou o saco inteiro de carvão e esvaziou-o, dando ao fole alguns apertões experimentais para assegurar que o lume pegava, e limpando depois as mãos enquanto esperava que a forja aumentasse o calor. - Seria heresia sugerir outra coisa.

- Seria heresia expulsá-los da sua própria leprosaria quando foi Deus que permitiu que aqui vivessem - disse o cavaleiro. -Julgas-te acima de Deus? Se eles estão marcados por Deus para Sua própria divina justiça, não podes ter qualquer direito a executar a tua justiça sobre eles. Não te compete decidir quem deve viver aqui e quem não deve.

- Eu sou um homem livre de Crediton. Tenho...

- Não tens razão, ferreiro! - gritou Baldwin, de súbito. Com dois passos, cobriu a distância que o separava do ferreiro e agarrou-o pelo colarinho da camisa de linho. Segurando o homem junto ao rosto, o cavaleiro fixou-o. - Não tens o direito de tomar decisões em relação à justiça divina ou secular, entendeste? Falo em nome do Rei deste país, e Peter Clifford fala em nome de Deus. Não precisamos que andes a meter o nariz em assuntos que não te digam respeito! Se voltares nem que seja a falar com um leproso nesta cidade, mando-te multar por praguejares; se eu souber que tentaste fazer-lhes mal, mando-te prender; se um leproso for agredido por causa das tuas calúnias vis e ridículas, farei com que cada dor provocada se reflicta no teu próprio corpo! Está percebido?

O ferreiro enfrentou com firmeza o olhar irritado do cavaleiro.

- E se eles nos matarem entretanto? É isso que eles querem, sabeis, matar-nos a todos para poderem tomar posse da nossa cidade. Vão envenenar todos os poços excepto os deles.

- O quê? - protestou o cavaleiro. - És tão idiota que acreditas que há uma conspiração dos leprosos para te matarem?

- Está a acontecer por toda a Europa, não soubestes? Foram os judeus que os incitaram a isso. Quando nos tiverem morto a todos, serão recompensados pelos judeus, e então tomarão as nossas filhas e as nossas mulheres para si próprios. Compete às pessoas puras e tementes a Deus como nós impedi-los.

Baldwin olhou no fundo dos olhos que se encontravam à sua frente. Não encontrou neles qualquer sensatez, e, de repente, sentiu um nojo que lhe revoltava as entranhas e se aproximava das náuseas.

- Cretino! Não sabes nada a não ser aquilo que o teu fanatismo quer acreditar, qualquer que seja a verdade. Pensas que eles envenenarão os poços com qualquer coisa que mate apenas os homens e que deixe todas as mulheres bem? És estúpido de mais para que alguém te leve a sério! - Desdenhosamente, afastou o homem de si com um empurrão.

Jack tropeçou num ferro e caiu. Antes que se pudesse levantar, Baldwin estava ajoelhado sobre o seu peito. Quando o ferreiro fez uma tentativa para se levantar, parou, e, pela primeira vez, os seus olhos revelavam medo.

- Sim - murmurou Baldwin calmamente. - Tenho uma adaga junto à tua garganta. Não é preciso mais do que um pequeno empurrão para a enterrar no teu cérebro, se é que eu conseguisse encontrar uma coisa tão pequena. Presta atenção ao que eu digo, seu idiota, presta muita atenção: não vais espalhar mais histórias sobre leprosos, e se ouvires outra pessoa a dizer disparates desses, vais dizer-lhes que parem. Está entendido? Não permitirei que eles sejam ainda mais desgraçados por causa de um ignorante como tu.

- Baldwin, não devias magoá-lo - disse Simon com voz calma. O beleguim levantara-se e encontrava-se agora a pouca distância dos dois homens.

Devagar, o cavaleiro libertou o ferreiro, que ficou estendido sem se mover, os olhos a brilharem de raiva.

- Dizes que és "temente a Deus", por isso vai falar com Peter Clif-ford e pergunta-lhe o que pensa Deus daqueles que espalham mentiras sobre outros e que incitam a multidão ao assassínio. Eu falarei com ele e dir-lhe-ei que te espere. Mas, por agora, lembra-te de que estarei à escuta de todos os rumores só para ouvir o que tens andado a dizer, e, se houver alguma coisa de maléfico em relação aos leprosos, pagarás por isso.

Enfiou a adaga na bainha e saiu da sala. Edgar apressou-se a segui-lo, mas Simon parou por um momento, baixando o olhar para o ferreiro.

- Ele é louco - disse Jack com indignação, sentando-se e sacudindo a terra da camisa.

Simon deu-lhe um pontapé no cotovelo e o ferreiro caiu para trás, batendo com a cabeça no chão e praguejando.

- Louco ele pode ser, por isso ajuda-me, se eu souber que tens andado a caluniar aquela doce rapariga, Mary - disse Simon num tom agradável -, voltarei aqui e asso-te na tua própria forja.

- Não poderíeis. Sois um representante da lei, vós próprio, Beleguim.

Simon dirigiu-lhe um sorriso preguiçoso.

- Não me ponhas à prova, Jack. O Defensor mantém-se sempre dentro da lei. Quanto a mim, estou habituado a ditar a minha própria justiça. Por isso ouve com atenção. Se eu souber que Mary foi insultada ou agredida por alguma coisa que tiveres feito, voltarei cá e impor-te-ei a minha própria vingança. Estás de parabéns. No espaço de algumas horas conseguiste fazer dois novos inimigos, e ambos oficiais, um do Rei, o outro do administrador das Minas de Estanho. Não nos obrigues a voltar aqui.

 

Cecily limpou com um lenço o suor da testa de John. O homem estava pálido como a morte e a sua respiração era irregular, ofegante num momento e funda no momento seguinte. Os seus rudimentares primeiros socorros estavam a soltar-se. Ela já lhe tirara a ligadura da cabeça, e as talas que ele com tanto cuidado construíra e amarrara à perna estavam soltas e a cair.

Ao ouvir o louco bater de cascos e ferro nas pedras da estrada, ela foi tentada a deixá-lo e a correr para o portão para que os homens viessem mais depressa, mas engoliu com força e ficou. A mão agarrada à sua era suficiente para a convencer de que era mais útil aqui, agarrada ao ferido, do que lá fora a entravar o caminho aos homens que chegavam a cavalo.

O primeiro a passar pelo portão foi o seu moço de estrebaria, que, mal o transpôs, desceu imediatamente da montada, saltando para junto dela. Em seguida entrou a carroça a galope, e o carroceiro teve de puxar as rédeas com força para parar os animais, antes de tratarem dos ferimentos de John.

- Senhora, permiti que vos ajude.

Cecily abanou a cabeça. Não tinha intenção de soltar a mão do homem enquanto John a agarrava. Um monge cojocou-se ao lado dela e pousou suavemente a mão na cabeça de John antes de examinar o seu estado e a sua cor.

- O diagnóstico não é difícil, de qualquer forma - murmurou. - O prognóstico é que será mais complicado.

- Como está ele?

- Como? - Era um monge idoso, com uma franja de cabelo quase grisalho em volta da cabeça e que apenas servia para sublinhar as rugas de apreensão e confusão que se lhe viam na testa. - Ora, com uma surra destas, é difícil dizer. Penso que tem um traumatismo craniano, o que significa que ele teria estado melhor deitado na sua cama, em vez de se ter levantado para andar nestas atitudes de bobo. O único efeito de ele ter andado aí de um lado para o outro será uma forte dor de cabeça.

- Mas... a perna!

- Sim. É óbvio que ele tinha de tentar arranjar ajuda. A perna está num estado lastimoso, mas pelo menos o pulso parece estável. Por vezes considera-se que um homem durará pouco tempo após um acidente grave. O pneuma, a força de vida que é produzida no coração a partir do ar que se junta nos pulmões, e que é levado para todo o corpo juntamente com o sangue até que...

- Podeis curá-lo? - interrompeu-o Cecily.

- Bem... sim, acho que sim. Penso que...

- Onde ireis curá-lo?

- No hospital junto à igreja, é claro, por isso...

- Por isso guardareis as vossas lições até que ele esteja lá instalado, não é verdade?

Cecily depressa mandou os homens tirarem a porta de John dos lemes, e eles levantaram-no cuidadosamente para cima da padiola improvisada, sofrendo a chicotada da língua de Cecily quando esta pensou que eles pudessem ter falhado nalguma coisa ou que pudessem tê-lo magoado de alguma forma. Pouco depois, John encontrava-se na parte de trás da carroça, e Cecily acompanhou-o, ainda a segurar-lhe a mão.

Partiram colina abaixo, o carroceiro de pé, embora cauteloso, a falar com as duas pessoas que tinha a seu cargo à medida que começavam a descer, pois esta era uma colina íngreme nalguns locais, e ele não queria dar motivos para que Cecily lhe chamasse a atenção pela sua condução descuidada. Enquanto seguiam, Cecily estava surpreendida por sentir a mão do irlandês ferido a apertar-lhe a sua. Baixou o olhar e sorriu-lhe.

Nesse momento, com o Sol por cima a iluminar-lhe a cabeça como um halo, John de Irelaunde ficou cego.

- Eu morri? Sois um anjo? - perguntou num tom de queixume. Antes que ela pudesse responder, a carroça passou por cima de uma pedra e deu um solavanco, fazendo com que a cabeça ferida dele embatesse na madeira dos lados. - Por Jesus! - praguejou ele, e, quando voltou a olhar para cima e viu o sorriso dela, retribuiu-lhe também com um sorriso, ainda que pálido. - Ah, senhora Cecily. Deveis ser um anjo - quase o melhor anjo que eu podia ter encontrado esta manhã. Espero que não vos importeis de levar um recado à minha doce donzela...

- Pobre John. Isto tudo foi por minha causa?

- Bem, penso que foi, mas não faleis nisso a ninguém, se não ele poderá ser levado, e nesse caso tudo isto terá sido em vão. Mantende segredo!

Simon seguia afundado no seu cavalo e sorria.

- Deves estar a perder o jeito, Baldwin. Esta cidade costumava ser calma e sossegada, e agora tens um ferreiro idiota a tentar incitar a multidão à desordem.

- Pensas que é por minha causa?

Simon sorriu ao cavaleiro e, a pouco e pouco, Baldwin relaxou, esboçando até um sorriso de admissão.

- Está bem, sou um pouco irritadiço. Mas aquele imbecil mexeu-me com os nervos.

- Não é apenas ele, é o homicídio. Parecemos ainda ter pouco em que nos basearmos.

- Não. Sabemos tanta coisa, mas nada parece fazer sentido. Por exemplo, não tenho a certeza por que motivo o ferreiro estava em casa de Godfrey.

- Queres voltar para trás e perguntar-lhe?

- Obrigado pela ideia, Simon, mas penso que não seria produtivo. No entanto, pergunto-me se haverá alguma coisa que ligue o ferreiro a Godfrey.

- Ele foi bastante desagradável, pensas que poderá ser o assassino?

- Quem, Jack? - Baldwin riu. - Oh, quem sabe? É antipático, é verdade, mas não gosto de julgar ninguém pela aparência. É disso que as pessoas como Jack são culpadas quando olham para os leprosos. Não quero cometer o mesmo crime que elas. - Baldwin pensou por um momento. - A dificuldade que tenho é que Godfrey o usou na tarde em que morreu...

- Sim. Para um cavalo que tinha perdido uma ferradura.

- E eles guardaram a ferradura para voltar a ser colocada.

- Um sinal de verdadeira avareza.

- De facto - disse Baldwin, mas havia nos seus olhos uma expressão distante. Muita gente teria atirado fora a ferradura velha, é certo, e teria mandado fazer uma nova.

Simon inclinou a cabeça para um lado, pensativo.

- E teria ido à oficina do ferreiro para arranjar uma do tamanho certo.

- É precisamente o que eu estava a pensar. Se eles tivessem pedido uma nova, isso teria significado que teriam de ter trazido cá o cavalo. Mas eles guardaram a velha, e isso significava que podiam mandar ir o ferreiro lá a casa. Tudo o que ele precisava era de uma raspadeira, alguns pregos e um martelo.

- Mas por que o quereriam eles lá?

- Deixa-me acabar: tirar uma ferradura é bastante fácil. Só é preciso arrancá-la. Pode muito bem ser que alguém quisesse o ferreiro daqui para fora, por isso tiraram a ferradura e fingiram que tinha caído para que Jack fosse lá a casa.

- Essa é uma explicação possível, Baldwin, mas não te esqueças de que há outra possibilidade. E se alguém quisesse que o ferreiro estivesse lá em casa? Tudo poderia muito bem ter sido feito para que o ferreiro se encontrasse em casa de Godfrey.

- É verdade, mas porquê Por que quereriam eles que Jack lá estivesse? E volto novamente a Putthe: ele poderia ter arrancado a ferradura velha para arranjar uma desculpa para a presença de Jack em casa de Godfrey.

- Estás a pensar que ambos poderiam ter estado envolvidos no homicídio? Mas isso não faz sentido! Tudo o que conseguiram em ter Jack lá em casa foi fazer dele um suspeito. Não houve testemunhas da sua partida, não houve testemunhas do seu regresso, ele não ganhou nada com isso. Efectivamente, tudo o que ele fez foi apontar para si próprio com um grande sinal, dizendo: "Olhem para mim! Eu estava lá na noite em que Godfrey morreu!" Isso só serviu para chamar a nossa atenção para ele.

- Talvez isso o ligasse também ao seu cúmplice... Se ele e Putthe eram sócios neste crime, talvez Putthe não confiasse o suficiente no seu associado e quisesse assegurar-se de que ambos corriam igual risco... - Atirou as mãos ao ar com descontentamento. - Não vale a pena, são só suposições. Tudo o que realmente sabemos é que, por qualquer razão, este homem se encontrava em casa de Godfrey. Se ele se encontrava lá movido pelos seus próprios fins ou pelos de outra pessoa, podemos nunca vir a saber.

- Mas há outro factor. E se o ataque aos leprosos tiver alguma coisa a ver com o assunto?

- O que queres dizer com isso?

- Não tenho a certeza, mas parece uma estranha coincidência o facto de Jack ter começado a fomentar distúrbios tão pouco tempo depois do homicídio. Presumo que isto era novo para ti. Não sabes que ultimamente tem havido uma carga de problemas relacionados com os leprosos?

Baldwin coçou a barba.

- Não, para mim foi uma completa surpresa. Mas antes de nos preocuparmos com essa ideia, vamos falar novamente com Putthe. Não estou convencido de que nos tenha dito tudo o que sabe. E enquanto lá estamos, também quero falar com a senhora Cecily.

- Não podes suspeitar que ela matou o próprio pai!

- Ela não nos disse a verdade - disse Baldwin. - Tenho a certeza de que mentiu.

- Sobre quê?

- Sobre ter estado inconsciente até ser acordada no seu quarto. Não acredito nela.

- Sir Baldwin! Sir Baldwin! Senhor!

O cavaleiro levantou o olhar. A correr na direcção deles, o hábito a roçar no chão, vinha um jovem noviço. Parou em frente deles, a arfar e de rosto vermelho do esforço.

- Sim? Tendes uma mensagem para mim?

- Senhor, alguém tentou matar o irlandês, e o meu deão pede-vos que vos junteis a ele logo que possais.

Simon e Baldwin trocaram um olhar e, sem uma palavra, os dois homens meteram esporas aos cavalos e galoparam para a casa de Peter Clifford.

Acordando de um sono curto e perturbado, Rodde gemeu, ao mesmo tempo que se virava na cama. Logo um pano fresco e húmido lhe foi colocado na testa, e ele sorriu, apesar da dor.

- Obrigado.

- De nada.

Abrindo ligeiramente os olhos, Rodde levantou o olhar para Mary.

- O que estais a fazer aqui? E se as pessoas da cidade souberem? Rodde sabia tão bem quanto ela que era proibido a quaisquer mulheres, com excepção das esposas ou parentes, visitarem leprosos nas suas cabanas. As "mulheres de bom nome" deviam ser excluídas da leprosaria, pois a bisbilhotice começava com demasiada facilidade.

- Está tudo bem. Eu também aqui estou - disse Ralph. Estava sentado perto da porta, olhando lá para fora, para o relvado. - Mary recusou deixar-me continuar a prestar-vos assistência.

- Já fizestes demasiado, irmão. Estivestes aqui toda a noite e pouco dormistes. Descansai agora, que eu cuido destes homens. - Irmã, tendes um grande coração - disse Ralph, encostando a cabeça à ombreira da porta. Pouco depois, estava a dormir, os braços cruzados.

Rodde ouvia Quivil a ressonar no seu canto. Falou baixinho.

- Mesmo assim, deveríeis ter cuidado, Mary.

- É demasiado tarde para isso - disse ela, e, enquanto a sua mão lhe acalmava a testa com água, contou-lhe o que acontecera.

- Quereis dizer que eles vos obrigarão a abandonar a vossa casa?

- Querem que eu saia da cidade e não só de minha casa. - Ele sentia a mão dela a tremer, embora a sua voz fosse calma e firme. - Mas ninguém se magoará. Eu vou.

O rosto de Rodde endureceu.

- Quer dizer que eles ganharam? O Defensor e os outros permitirão que isso aconteça e não vão fazer nada para o impedir?

- O Defensor ficou furioso, mas a decisão não é dele, é minha. Quero ajudar as pessoas que sofrem, por isso irei para um convento. Lá posso fazer mais bem do que aqui.

- Mary, puseram-vos bem o nome, sois tão boa e generosa como a própria mãe de Cristo. Mas é injusto! Serdes expulsa de vossa casa por vos preocupardes com as outras pessoas é um ultraje!

- Não, porque isso significa que irei fazer algo que valha a pena - disse ela com serenidade, ensopando mais uma vez o pano na bacia.

Rodde levantou-se. Colocando o chapéu na cabeça, pegou no seu bordão.

- Ides sair da leprosaria? - perguntou ela.

- Sim. Tenho um assunto a tratar na cidade. Mas lembrais-vos disto, Mary: enquanto eu viver, não precisareis de sair daqui. Confiai em mim! O ferreiro não voltará a incomodar-vos, isso eu prometo, e seja o que for que decidirdes fazer, as pessoas da cidade não vos forçarão a partir ou a fazer alguma coisa que não quiserdes. Isso eu juro!

Quando Baldwin e Simon entraram na sala, Clifford encontrava-se de pé junto à lareira, a aquecer as mãos.

- Perguntava-me quanto tempo levaríeis a chegar aqui.

- Peter, onde está ele?

- Na enfermaria. Foi sorte ele ter sido aqui trazido tão rapidamente. Ah, Cecily, como está o paciente?

Ela colocou-se ao lado dele e ficou de pé a aquecer as costas.

- Por agora, está bem, embora não me agrade pensar o que lhe teria acontecido se eu não tivesse passado por lá. Vê-lo assim, deitado na sujidade do pátio dele, foi horrível!

Baldwin examinou-a atentamente. Quando ela reparou que era alvo da atenção dele, levantou o queixo numa atitude de desafio.

- Pareceis muito afectada pela dor do irlandês.

- Não é o dever de um cristão sentir compaixão por uma pobre criatura?

- Poderia dizer-se a mesma coisa sobre o vosso pai, certamente...

- Fiquei muito triste com a sua morte - protestou ela.

- Mas preferistes não nos contar a verdade sobre o que aconteceu. E fingistes estar mais ferida do que na realidade estáveis.

- Não sei o que quereis dizer com isso.

- Penso que sabeis. Quando falámos convosco, dissestes que tínheis sido agredida por um homem que se escondia perto da janela, não é verdade?

- Sim.

- E na altura tínheis vestida a vossa túnica azul. - E que tem isso?

- Por que nos mentistes?

- Não menti!

- Com quem estáveis a falar?

Ela parou, a boca um pouco aberta. Havia no seu rosto algo que o cavaleiro não conseguia reconhecer, mas não era culpa, nem tristeza.

Era mais um género de cansaço, como se ela estivesse a tentar avaliar que meia verdade seria mais gostosa.

- Sabemos que estáveis a falar com alguém. Quem era?

- Quem é que disse isso? - perguntou ela.

- Não é da vossa conta! O que é da vossa conta, no entanto, é quem poderá ter morto o vosso pai.

Ela tentou uma última negação.

- Eu disse-vos o que aconteceu. Quando eu estava prestes a ir até à janela, o homem saltou para cima de mim.

- Não foi isso que aconteceu! Vós estáveis à janela, sei que estáveis. A vossa túnica rasgou-se numa lasca de madeira. - Os olhos dela semicerraram-se, e ela suspirou. - Deveis dizer-nos a verdade. De outra forma, o homem errado pode ser castigado pela morte do vosso pai. Já há quem pense que poderá ter sido John.

- Mas John não teve nada a ver com isso! Ele só entrou mais tarde.

- E que foi que lhe dissestes?

Ela hesitou - apenas por um momento, mas visivelmente.

- Eu estava inconsciente.

- Não acredito em vós. Estais a mentir. Ela sacudiu a cabeça, irritada.

- Espero que tenhais alguma justificação para essa afirmação! É uma vergonha o facto de um cavaleiro estar a importunar assim uma mulher que acabou de perder o pai.

- Ela tem razão, Sir Baldwin - censurou o confuso Clifford. - Que possível razão é que tendes para fazerdes tal alegação?

- Olha para ela, Peter! - Baldwin estendeu enfaticamente uma mão. - Olha para ela! Quantos homens tens visto inconscientes devido a agressão? E quantos deles é que conseguem mover a cabeça com tanta facilidade dois dias depois? Esta rapariga quer fazer-te acreditar que esteve inconsciente durante algumas horas, e, durante esse tempo, o pai foi morto, o criado Putthe foi agredido, e ela foi levada para o piso de cima e colocada na cama, não tendo acordado senão na manhã seguinte, no entanto, olha para ela! Consegue mover a cabeça para trás daquela maneira sem sequer um sinal de dor. É crível?

Simon e Clifford ficaram a olhar. O beleguim apercebia-se por fim do que vinha a perturbar o cavaleiro desde que tinham passado pela casa dela. Lembrava-se da cena com perfeita clareza: Putthe estava 261 de pé e encolhia-se de dor quando movia a cabeça, enquanto ela lhe dirigiu um firme aceno de cabeça em sinal de reconhecimento. E, todavia, era suposto ela ter estado inconsciente durante mais tempo do que ele!

Cecily evitou o olhar deles. Este cavaleiro metediço estava a estragar-lhe as coisas. Era ridículo ele ter descoberto a pequena mentira dela por causa de tal ninharia! Já recomposta, perguntou:

- E que tencionais fazer?

- Tudo o que eu quero é a verdade, minha senhora. O que aconteceu realmente? Com quem estáveis a falar?

- Minha filha, deveis contar ao cavaleiro tudo o que sabeis, pois de outra forma como pode o assassino ser apanhado?

- O segredo não é meu, Padre. Não posso contar nada ao cavaleiro.

- Cecily - disse Baldwin -, foi o vosso pai que morreu. O vosso pai! Como podeis proteger o seu assassino?

Nessa altura, ela levantou o olhar para ele, e Baldwin viu a fúria nua nos olhos dela.

- Ousais falar-me do meu pai? Do homem que fez com que a minha mãe morresse, do homem que desintegrou a minha família e que me manteve debaixo de uma rédea tão curta que eu não podia fazer nada sem a sua aprovação? - Cecily engoliu com força e forçou-se a acalmar-se, abrindo os punhos que, sem dar por isso, tinha cerrado na sua cólera. - Se vos pudesse ajudar, fá-lo-ia, mas não vos direi mais do que já disse.

- Ele agredia-vos com frequência?

- Se me agredia? - repetiu ela, os olhos fixos no cavaleiro. - Como adivinhastes?

Baldwin sentou-se num banco próximo.

- Foi ele que vos deu um soco naquela noite?

Cecily afastou-se dele. A mão levantou-se-lhe como que para se proteger dele, e soltou um curto suspiro.

- Eu podia acreditar que éreis o demónio em pessoa!

- Quer dizer que foi ele, então. E creio que foi porque viu com quem estáveis a falar à janela. Ficou tão enfurecido que vos arrancou com força da janela e vos agrediu. O que fez o vosso amigo? Saltou para dentro num frenesim assassino? Atacou com toda a sua força e matou Godfrey para vos proteger de mais ataques?

- Não direi mais nada.

- Porquê? Porque amais o vosso pretendente muito mais do que o pai, que se tinha tornado odioso a vossos olhos, a ponto de ficardes feliz ao vê-lo escapar à justiça?

- Não pode haver justiça para ele - disse ela, e Baldwin ficou preocupado ao ver que os olhos dela pareciam estar a encher-se de lágrimas.

Teve o cuidado de usar um tom de voz mais suave.

- Mas o vosso pai não merece justiça?

- Ele já morreu. Tenho de pensar nos vivos.

- Tendes um dever como filha!

- E não o esqueço!

- Nesse caso, quem foi? - perguntou Simon. Ela ignorou a explosão de Simon.

- Tendes estado a sonhar, Defensor. Não havia ninguém. Eu entrei na sala, e, quando me aproximava da janela, alguém saltou e me agrediu. Quando acordei, estava no meu quarto, na minha cama. É tudo o que sei. E agora, se não vos importais, vou para casa trocar de roupa. Tenho a roupa salpicada de sangue daquele pobre irlandês.

Peter Clifford seguiu-a com o olhar, quando ela deixou a sala, transferindo depois a sua atenção para Baldwin.

- Não consigo perceber isto. Ela afirma que não esquece o seu dever de filha, mas insiste teimosamente naquilo que tu obviamente pensas que é um engano. Quem é que ela poderá estar a proteger?

- Quando soubermos isso, teremos o assassino - disse Baldwin, pensativo. O cavaleiro ainda olhava a porta por onde a rapariga tinha saído, a testa ligeiramente franzida. Lembrando-se do motivo que o levava a casa do deão, encarou Clifford. - Agora conta-nos o que aconteceu a John. Só sabemos o que o teu mensageiro nos contou - o facto de ele ter sido encontrado gravemente ferido, após ter sido espancado, e que foi trazido para aqui numa carroça.

- É mais ou menos isso. Levou vários golpes na cabeça, e a perna foi fracturada por baixo do joelho. Penso que ficará coxo para toda a vida, a julgar pelo aspecto das coisas. Ele queixa-se de que não viu quem lhe fez aquilo, mas, com a cabeça amachucada daquela forma, penso que ele dificilmente se lembraria, mesmo que tivesse visto quem o atacou.

- Vamos descobrir.

 

O carroceiro estava deitado na enfermaria, num colchão baixo, um pedaço de tecido grosseiro e barato a cobri-lo. Um monge ajudava-o a tomar um pouco de vinho, quando entraram os três, e estava prestes a recostar-se, quando o deão lhe fez um gesto para que continuasse.

John estava mudado, pensou Simon. O vendedor alegre e despreocupado com o dom da conversa fácil e um sorriso cativante deixara de existir. Agora o indivíduo parecia que ganhara rugas. O rosto tinha uma palidez de cinza, os olhos um brilho doentio, e os lábios estavam gretados e secos. Nos locais onde o vinho tinto gotejava, parecia sangue.

A sua voz era fraca.

- Bom dia, senhores. Eu levantar-me-ia e faria uma vénia, mas, como podeis ver, hoje não estou no meu melhor.

- John, como te sentes?

- Bem, Defensor, para não embelezar muito a coisa e com licença da presença dos dois cavalheiros de ordens sacras que aqui se encontram, sinto-me na merda. Não recomendo que se deixe as pessoas usarem a nossa cabeça para praticarem a pontaria com mocas e paus. Isso deixa-nos com a mais horrível dor de cabeça que se possa imaginar.

- E como está a perna? - perguntou Simon.

Como resposta, John puxou para trás a ponta do cobertor grosseiro. Simon estremeceu ao ver o sangue a ensopar as ligaduras de linho acabadas de colocar.

Foi o enfermeiro que, numa voz suave e amável, falou.

- Tem uma fractura grave. Os ossos da canela foram esmagados. Ele deve permanecer imóvel durante pelo menos três meses, e, nessa altura, podemos ter a sorte de descobrir que ele não perdeu o uso dela.

- Espero que não, irmão - disse John com voz fraca. O monge dirigiu-lhe um sorriso e John retribuiu-lho. Estava imensamente grato pelos cuidados que o homem lhe dispensava, embora ainda se sentisse debilitado. Fora a primeira vez que John precisara de recorrer aos serviços de um enfermeiro, e não ansiava pelas dores de colocar os ossos no lugar. Só de pensar nos dedos decididos e dolorosos do homem tentando colocar no lugar fragmentos de osso fracturado - ficava enjoado. Engolindo com força, virou-se para o cavaleiro e falou, a voz carregada de dor. Ainda teve de encolher-se e de semicerrar os olhos, mesmo aqui no quarto relativamente obscuro.

- Quer dizer que estais aqui para me perguntar quem fez isto? Se é assim, lamento dizer que não sei. Não vi bem a pessoa.

- O que se passou de facto, John? - incitou-o Baldwin. O cavaleiro reparara que, enquanto John falava, os seus olhos se tinham virado para o deão.

- Eu tinha saído, e quando regressei a lareira estava quase apagada, por isso baixei-me para soprar e fazê-la reacender-se. Suponho que foi quando eu consegui fazer uma chama que me apercebi de que havia alguma coisa de errado. Talvez ele não visse bem ali para poder certificar-se do local exacto onde eu estava, por isso esperou até eu lhe ter fornecido alguma luz, e, nessa altura, atacou. E como atacou! Jesus Cristo! Oh, perdão, deão; perdão, irmão...

- Penso que devo permitir-te uma certa largueza, meu filho - disse Clifford afavelmente. - Quando estiveres novamente bem, dar-te-ei uma penitência.

John lançou-lhe um olhar desconfiado e tornou-se mais cuidadoso no seu discurso.

- Vi a moca. Era um simples pau de avelaneira ou freixo. Do género que se faz de uma árvore muito nova, onde o caule cresce alguns metros. O cabo era uma grande bola, e foi com isso que ele me agrediu. Eu vi-a vir, e... Bem, não tive tempo para sair do sítio. Atingiu-me e caí. Depois vi-a subir novamente.

- Lembras-te de tudo isso? - perguntou Baldwin. Da sua experiência de combate, ele sabia que, frequentemente, as lembranças se podiam tornar confusas ou imaginadas após um forte golpe na cabeça.

John foi bem claro.

- Oh, sim, Sir Baldwin. Sem dúvida que vi! Não esquecerei aquela imagem enquanto viver.

- Há alguma coisa de que te lembres que possa explicar por que te fizeram isto?

- Não, Sir Baldwin. Não faço ideia nenhuma. - Os olhos fundos, orlados de dor, viraram-se para ele com uma convicção dissimulada. - Por que razão haveria alguém de querer magoar-me?

- Estava a pensar, depois de alguns rumores que por aí correm sobre ti e - hum... - pensativo, Baldwin olhou para Peter. Não era o género de pergunta que ele sentia que o deão gostaria de ouvir. O deão captou o olhar e sorriu, antes de murmurar delicadamente qualquer coisa sobre as suas obrigações e de ter saído do quarto. Aliviado, Baldwin continuou: - E se fosse um homem? Alguém casado com uma esposa jovem e bonita?

- Sir Baldwin, há muitos rumores sobre mim, eu sei, mas posso assegurar-vos que isto não tem nada a ver com mulher nenhuma - pelo menos, que eu saiba.

- Nesse caso, quem poderia querer fazer-te isto?

- Relativamente aos motivos por que o haveriam de querer fazer, não faço absolutamente ideia nenhuma.

- Vamos, sê sincero connosco. Dizes que viste bem a arma - deves ter visto o homem.

- Ah, mas se eu vos disser, o que irá impedir que o indivíduo volte a fazer outro jogo de bastão e bola com a minha cabeça?

Havia nele um ar ansioso que o cavaleiro podia compreender.

- Quanto a isso, o que o impedirá de o fazer quando souber que não estás morto? A julgar pelo aspecto dos teus ferimentos, presumir-se-ia que ele estava a tentar matar-te. E pode muito bem regressar.

- Lá nisso tendes razão - disse John, tentando sorrir. Encolheu-se quando outro acesso de dor lhe emanou do joelho.

- Por que não quiseste falar em frente do deão?

- Bem, ora... é como dizeis: há muitos rumores sobre mim, e não quero ver o bom deão ser obrigado a acreditar neles. O que se diz sobre mim não é verdade.

- Então quem foi?

- Matthew Coffyn.

- Então foi por causa do teu adultério com Martha Coffyn - disse Baldwin com dureza. - Já te tinha avisado em relação à tua libertinagem. Só admira que ninguém te tenha agredido antes.

John suspirou com genuína indignação.

- Já vos disse, nunca cometi adultério com Martha Coffyn.

- Gozavas dos favores dela sempre que o marido se ausentava - acusou Baldwin grosseiramente. - A cidade inteira está cheia de falatório a esse respeito.

Devagar de início, mas logo depois com um género de desespero impotente, John desatou a rir.

- Jesus, Maria e todos os anjos, é uma ideia tão idiota que até é engraçada! Sir Baldwin, nunca toquei em Martha Cofíyn. Não gosto de Martha Coffyn, e Martha Coffyn nem sequer olharia para um indivíduo como eu. Ela pensa-se tão acima de mim como uma faia acima de uma margarida. Oh, por amor de Deus! - E desatou a rir novamente, gemendo de dor entre golfadas de hilaridade, à medida que as costelas e a cabeça se lhe queixavam. Acalmando-se, soltou, por fim, um suave suspiro. - Não, Sir Baldwin. Nunca tive nada a ver com a senhora. Mas suponho que, se vós acreditastes nisso, pelo menos isso explica por que razão Coffyn decidiu bater-me desta maneira.

- Se não tens nada a ver com Martha Coffyn, por que motivo estavas no pátio de Godfrey na noite em que ele morreu? - perguntou Simon.

A resposta dele foi um sorriso torcido.

- Eu nào iria mentir, Beleguim. Nunca toquei na senhora. Não, eu estava lá para me encontrar com outra rapariga.

- Quem? - pressionou-o Baldwin.

- Não vos posso dizer, senhor. Como eu disse, não posso trair a sua honra. Vós trairíeis a vossa própria senhora? Com certeza que não. Se eu vos dissesse, isso poderia afectar a reputação dela, e eu não farei isso, mas acreditai-me quando juro que nunca cometi adultério com Martha.

- Então quem cometeu?

- O segredo não é meu, mas se quereis saber, ide perguntar a Putthe.

Peter estava à espera no seu salão, rodeado de pilhas de papéis. Desde a chegada do Bispo, que se encontrava agora com o mestre do deão, o precentor da colegiada, Clifford fora obrigado a desenterrar todas as contas das diferentes capelas e igrejas de fora para ajudar o tesoureiro a fazer o relatório que teria de entregar a Stapledon. Foi para ele um alívio ser novamente interrompido quando Baldwin e Simon entraram.

- Conseguistes alguma coisa?

O cavaleiro encolheu distraidamente os ombros.

- Ele deu-nos uma pista, mas mais uma vez nos dizem para irmos perguntar a outra pessoa. De cada vez que alguma coisa acontece aqui, parece que somos enviados de regresso à casa de Godfrey. É possível que John esteja a dizer a verdade, mas isso depende do quanto outro homem foi, ele próprio, enganado.

- Eu teria dificuldade em confiar demasiado no que John vos diz - observou Clifford com sensatez. - Todos sabemos como ele é.

- Receio que estejas a ser injusto para com ele - comentou Baldwin.

- Pode até ser, mas ouvi algumas histórias sobre ele... O beleguim sorriu.

- Todos nós ouvimos, mas John acabou de as negar de forma bastante convincente, e não nos quer dizer com quem é que se tem vindo a encontrar.

- No entanto estava no pátio de Godfrey e viu os corpos, tanto quanto percebi... - Clifford estava perplexo. Também ele ouvira os rumores sobre John e Martha, mas não queria influenciar a investigação de Baldwin.

- É correcto - Simon acenou com a cabeça. - E desapareceu quando Matthew Coffyn chegou.

- Bem, isso não admira, se soubesse que Coffyn poderia andar à procura dele. - Suspirou, passando a mão pelos olhos. - Tudo parece tão confuso. E, enquanto especulamos, anda um assassino à solta. E pode voltar a atacar.

- Penso que não - disse Baldwin secamente. - É meu dever fazer com que ele não o faça - e, de qualquer maneira, tenho de acreditar que Godfrey foi assassinado por qualquer razão lógica e compreensível. Em Inglaterra as pessoas não matam sem terem uma razão; há sempre um motivo, se o conseguirmos ver. Mas tenho de conquistar Cecily e conseguir a sua cooperação. Tenho a certeza de que, de alguma forma, é ela quem tem a chave desta confusão toda.

- Por que é que alguém atacaria John? - perguntava-se Peter.

- Penso que já conhecemos a resposta a essa pergunta - disse o cavaleiro. - Muita gente na tua congregação pensa que John tem um caso com Martha.

Peter pestanejou, soltando em seguida um tímido suspiro. Devia ter-se apercebido de que o cavaleiro já teria descoberto algo que era tão prontamente discutido na cidade.

- Quer dizer que tinhas ouvido dizer isso? Devo confessar que sempre achei extremamente improvável. Ela considera-se uma grande senhora - o facto de poder envolver-se com um carroceiro parece, de alguma forma, incrível.

- John tem a certeza de que foi Coffyn que o agrediu.

Peter Clifford contraiu o rosto, enquanto avaliava o que Baldwin acabara de dizer.

- Porque Coffyn pensava que John andava a cometer adultério com a esposa?

Baldwin encolheu os ombros, mostrando assim a sua própria confusão.

- Essa é a conclusão lógica. É possível, mas por que motivo é que Coffyn pensaria que John andava a divertir-se com a mulher dele, se, de facto, isso não era verdade? Certamente que ele deve ter tido qualquer prova convincente que o fizesse tomar uma atitude tão drástica.

- Espero bem que sim! - disse o deão com voz cansada. Preparou para si uma grande taça de vinho e bebeu-a de uma vez. - Não podemos permitir que a nossa cidade fique perturbada desta maneira - homens a divagarem pelas ruas à noite, a invadirem casas particulares e a agredirem os ocupantes.

Baldwin acenou com a cabeça.

- Não há qualquer acaso nisso, Peter. John foi agredido daquela forma por qualquer razão, quer seja justificada ou não. Do mesmo modo, Godfrey não foi vítima de um acto selvagem e espontâneo. Ele foi assassinado intencionalmente. Este mistério tem uma explicação simples, se, ao menos, a conseguirmos descobrir.

- Sim - disse Simon com ar sombrio. - E se conseguirmos fazer com que Cecily nos diga a verdade.

Nesse momento, o objecto dos pensamentos deles encontrava-se em sua casa e caminhava apressadamente de um lado para o outro do salão, as mãos firmemente entrelaçadas junto ao peito, como que, Era absurdo! Não havia qualquer razão para que alguém atacasse John. Ninguém lhe quisera roubar nada e havia pouca coisa para levar, mesmo que o quisessem fazer. Não, ela tinha a certeza de que quem tivesse cometido aquele crime hediondo foi motivado por qualquer desejo de vingança, mas vingança de que? Seria quê? ele, sem se aperceber, tinha insultado alguém? Ou seria simplesmente que alguém na cidade odiava os irlandeses?

Mas isso era uma loucura. Ninguém podia odiar John. Todas as pessoas que o conheciam eram obrigadas a rir dele ou com ele. Era demasiado inofensivo para fazer inimigos. No entanto, a mente dela não parava de regressar ao facto de que os fenmentos de John tinham sido infligidos não para matar mas para causar o máximo de dor, como se a intenção fosse unicamente castigá-lo.

Ouviu-se um som de arranhar, e ela voltou-se, assustada. No jardim, Thomas sorria secamente. Ela parecia-se tanto com uma cria de cerva assustada por um ramo quebrado debaixo dos pés. Tudo bem, Cecily. Não vim assaltar-te.

- Thomas! Oh querido, meu queriddo Thomas! Não tinha a certeza se ainda virias. Oh, o teu pobre rosto! Como te sentes?

Desconfortável, ele encostou-se ao seu velho bordão de madeira - Um pouco em mau estado devido ao uso - admitiu ele.

- Soube o que te aconteceu. A cidade inteira parece ter enlouquecido.

- Porquê? O que aconteceu?

Rapidamente, ela contou-lhe o que se passara com John, terminando:

- E agora o Defensor da Paz do Rei apercebe-se de que eu tenho estado a mentir. Penso que ele acha que eu sei o que aconteceu ao meu pai. - Mas não pode saber! Mais ninguém viu nada.

- Sir Baldwin é muito perspicaz. Tem olhos difíceis de enganar. Parecem ver através de qualquer mentira.

Rodde esboçou um sorriso escarninho e inclinou o chapéu para trás.

- Deixá-lo tentar condenar um leproso. Um leproso não existe aos olhos da Lei.

- Um leproso pode ainda arder. É o que fazem noutros países a leprosos que são declarados culpados de crimes, Thomas - assinalou ela, desesperada. - E dizem que este cavaleiro é muito determinado, uma vez na pista de um criminoso.

Thomas encolheu os ombros.

- Ele terá de ser, de facto, muito determinado, se quiser apanhar o assassino de Godfrey. Não o encontrará com facilidade.

- Oh, por que tivemos de vir para cá! - desabafou ela, cobrindo o rosto com as mãos. - Se ao menos tivéssemos ficado em Londres, ainda lá viverias, resignado, e o meu pai estaria vivo. Em vez disso, ele agora está morto, e é tudo culpa minha. Se ao menos eu não te tivesse visto e...

- Não digas nada, Cecily - disse ele mais suavemente. Observando-a pela janela, ele esteve tentado a tirar a luva grosseira e desajeitada para lhe dar o consolo de que ela precisava. Mas não podia. - Não é culpa tua. Se alguém tem culpa, suponho que sou eu, por tentar voltar a ver-te. Se eu não tivesse vindo para cá, se não tivesse trazido o meu amigo, se não tivesse falado contigo com tanta frequência, ele poderia ainda estar vivo - mas nada disso é responsabilidade tua.

- Não podes imaginar o quanto tenho sentido a tua falta, Thomas.

- E eu a tua, Cecily.

- Quantos anos passaram?

Ele pensou, como se fosse difícil encontrar a lembrança.

- Sete anos? Ou oito?

- Há nove anos que deixaste Londres. Sempre fingiste não te lembrar de datas!

- O que te faz pensar que é fingimento?

Ela riu então, não com o riso forçado e infeliz que ele tantas vezes ouvira ultimamente, mas com o velho riso genuíno que ela usara quando ele brincava com ela.

- É bom ver-te voltar a rir assim.

Ela sorriu perante a suavidade da voz dele.

- Não temos assim tanta coisa de que rir, pois não?

- Não - concordou ele calmamente. - Temos muito pouco de que rir.

Jack esvaziou a sua caneca e arrotou, encolhendo-se perante o sabor azedo. Quando se deslocou em direcção ao seu barril de cerveja, deixou cair um martelo de cima do banco, e o ferro tiniu na laje, fazendo-o encolher-se e resmungar.

Era o vinho, disse a si próprio. Se não fosse isso, ele estaria bem. A cerveja da estalagem era de boa qualidade, e nunca lhe deixava a cabeça neste estado. Não, era o facto de ele ter misturado as bebidas: a cerveja na oficina esta tarde; vinho na estalagem, até que WiUiam os deixou; mais cerveja na estalagem; ainda cerveja em casa depois de ter visto o pai de Mary. Tinha na boca um sabor semelhante ao fundo da grade da forja. Sentia nos dentes uma textura arenosa que ele ansiava por lavar com cerveja, e um sabor amargo, quase a vómito, ao fundo da garganta. A cabeça latejava-lhe com tanta intensidade que parecia que alguém estava a usar nela um dos seus grandes martelos.

Inclinou o barril para encher a caneca e o semblante carregou-se-lhe quando concluiu que não havia cerveja que chegasse, afastando o barril com um pontapé. Sentado num banco baixo, fechou os olhos por um momento, protegendo-os da luz brilhante do Sol.

O cavaleiro era um idiota. Por que deveria Jack dar ouvidos a alguém que nem sequer era capaz de ver o perigo? Os cavaleiros pensavam que eram melhores do que toda a gente, só porque nasceram com dinheiro na bolsa, mas o dinheiro não comprava miolos. Jack sabia que tinha sorte. Nascera pobre, e tivera de aprender como fazer o seu próprio caminho na vida da maneira difícil, aprendendo sobre as pessoas e sobre o seu ofício, enquanto lutava para ganhar a vida. Não se encontrava um cavaleiro que fosse capaz de o fazer, pensou ele, enquanto, com uma expressão sombria, tomava um gole de cerveja.

Se tivesse tido uma vida mais fácil, Jack poderia ter sido diferente. Não era cruel por natureza, e nem tão-pouco era taciturno, mas fora marcado por uma vida dura, respirando todo o dia o fumo fedorento do seu carvão de lenha, trabalhando no duro, de peito nu, debruçado sobre pedaços de aço e ferro quentes, parando apenas o tempo suficiente para matar a sede com o seu barril de cerveja. Se tivesse estudado, se tivesse tido oportunidade de se debater intelectualmente com homens que argumentassem e que apreciassem a sua lógica, ele poderia ter chegado a compreender que aqueles que tinham uma aparência diferente não eram necessariamente diferentes nas suas motivações.

Mas Jack tinha apenas a companhia da taberna ou da estalagem, onde os seus preconceitos eram reforçados por outros que tinham as mesmas convicções que ele, e que eram propensos a embelezar as suas histórias para fazer com que fossem mais facilmente engolidas quando misturadas com cerveja. E o cérebro dele estava obscurecido pelos fumos que se erguiam todos os dias do carvão a arder.

O calor da oficina fê-lo vomitar a última cerveja que lhe restava; olhou para a caneca vazia, depois para o barril, que estava deitado a oscilar levemente. Não havia nada a fazer - teria de comprar um novo. Pegou no barril e colocou no pequeno carrinho de mão, empurrando-o à sua frente, a caminho da estalagem.

Quando partiu, não tinha intenção de contrariar as instruções do cavaleiro. O maldito aparecera e ameaçara-o, mas esse era o tipo de comportamento que era de esperar de um cabeça dura vestido de metal. Não serviam para mais nada senão para bater em inocentes que andavam a tratar da sua vida. Jack sabia isso, tal como sabia que um estrangeiro, alguém de um sítio que ficasse a uns nove ou dez quilómetros de distância, por exemplo, era provável que fosse um desordeiro. A maior parte deles só queria vir para Crediton para roubar ou para viver do trabalho de outros homens.

Contudo, enquanto caminhava, deu com os seus amargos pensamentos a virarem-se cada vez mais na direcção do mal que os leprosos representavam. Por que quereria o cavaleiro protegê-los? Enquanto pensava, aproximava-se da casa de Godfrey. Aí, viu uma figura negra esgueirar-se do portão, e ficou boquiaberto. Era aquele leproso, o estranho que viera de fora da cidade, aquele que decidira vir para Crediton.

Os seus dois ódios de estimação uniram-se só por ver esta figura detestada. Ele não só era leproso, como era também estrangeiro, pedindo dinheiro às pessoas generosas da paróquia, quando não fizera nada para o merecer - nem sequer nascera na cidade!

Jack encheu-se de um ódio súbito. Este era o género de escumalha que aquele cavaleiro e o amigo tinham tentado proteger. Um homem que, de todo, não era merecedor de qualquer caridade, alguém que devia ser perseguido e obrigado a abandonar a cidade. Inconscientemente, Jack abrandara o passo para acompanhar o do homem que coxeava à sua frente, e agora seguia-o conscientemente.

 

- Parece que agora estou a vir aqui de duas em duas horas - murmurou Baldwin ao mesmo tempo que se apeava do cavalo.

- E estás - Simon riu.

Tinham ido buscar Edgar à despensa do deão, e encontravam-se agora juntos em frente da casa de Godfrey. Baldwin olhava a porta, pensativo. Então, sacudindo a cabeça para que os outros o seguissem, tornou-lhes a dianteira e rodeou a esquina da casa em direcção às traseiras.

Reinava o silêncio, embora Baldwin ouvisse ruídos vindos do pátio, e o cavaleiro atravessou depressa a área coberta de empedrado, em direcção ao edifício baixo onde viviam os cavalos. Seguindo a fila de equídeos, descobriu apenas duas éguas, os outros animais eram todos garanhões, cavalos castrados e outros machos. A primeira, uma agradável égua ruana, ficou sossegada enquanto ele lhe levantava um casco de cada vez, mas não havia sinal de uma ferradura que tivesse sido recentemente colocada. A segunda era uma calma égua baia. Esta ficou demasiado feliz por deixá-lo examiná-la, e ele parou quando chegou ao segundo casco.

- Olha!

Simon baixou-se para ver. O casco tinha cabeças de pregos novas, quase intactas, mas a ferradura em si estava usada no interior e à frente.

- Esta deveria ter sido substituída por uma nova - disse.

O cavaleiro acenou com a cabeça, pousando o casco pensativamente e afagando a égua. Em seguida afastou-se do local em direcção aos portões grandes.

Logo à saída, havia duas carroças e, enquanto Baldwin observava, chegou um criado com um balde e começou a limpar a lama vermelha e seca que se juntara nas rodas.

- Por que fazes isso aqui fora e não lá dentro, no pátio? O homem virou-se e lançou-lhe um olhar desinteressado.

- A minha ama está com dor de cabeça. Disse que não queria barulho no pátio, mas quer estas coisas limpas. Onde é que vós as limparíeis?

- És moço de estrebaria? - perguntou Baldwin, mas, desta vez, contou com toda a atenção do homem. Começou a fazer girar uma moeda na mão.

- Sim, meu senhor.

- Então sabes tudo sobre a água da tua ama que perdeu uma ferradura no dia em que o teu amo morreu?

O homem acenou com a cabeça, o balde e o pano esquecidos, enquanto mirava a pequena moeda de prata a girar e a rodopiar no ar de uma forma tão airosa. Quase que podia ouvi-la a chamar por ele, exigindo um confortável local de descanso na sua bolsa.

- Godfrey era sovina com os cavalos?

- Não, tinha sempre o cuidado de assegurar que eles eram bem tratados, senhor.

- No entanto, desta vez mandou voltar a colocar uma ferradura no casco da sua égua. Por que não enviou ele a égua à oficina do ferreiro para que ele fizesse uma nova?

- Bem, a senhora viu que a sua égua tinha perdido uma ferradura, disse-mo quando regressou do seu passeio a cavalo, e disse que era uma pena mandar fazer uma nova quando a velha estava em bom estado.

- Queres dizer que ela viu a ferradura cair e que foi apanhá-la? - perguntou Simon, sem poder acreditar. - Pensas que isso é normal?

O criado lançou-lhe um olhar paciente, como se nada do que acontecesse nesta casa o espantasse muito.

- Às vezes o pai dela tinha mau feitio. Talvez ela estivesse nervosa por lhe causar uma despesa extra.

- Mas disseste que ele tinha sempre o cuidado de verificar que os cavalos eram bem tratados...

- Isso não quer dizer que ele gostasse de ver os outros a gastarem-lhe o dinheiro à-vontade.

Baldwin acenou com a cabeça.

- E a tua ama poderia ter ficado nervosa com a resposta dele? Tens motivos para supor que ele a trataria mal?

- Não o vi a bater-lhe, mas todos nós a ouvimos chorar. Especialmente nas últimas semanas.

- Quer dizer que Godfrey mudou, nesse período? Tratava toda a gente com mais dureza?

- Não, meu senhor. Geralmente, ele era melhor com todos nós - o criado franziu o sobrolho, como se ele próprio estivesse surpreendido com a lembrança. - Mas é certo que a senhora tem andado muito preocupada. Presumo que o pai lhe andava a bater. Por vezes ele adquiria um comportamento violento.

- Foi o que disseste. Muito bem, e então Cecily pediu-te que fosses à oficina do ferreiro.

- Sim, senhor. A égua dela perdeu a ferradura na manhã do dia em que o meu amo foi assassinado. Assim que a senhora chegou a casa, pediu-me que fosse buscar o ferreiro e lhe dissesse que viesse cá à tarde. Ele disse que estava bem, mas se a ferradura precisasse de ser substituída, ele teria de levar a água com ele à oficina para fazer uma nova. Mas a senhora convenceu-o a não se preocupar e que se limitasse a colocar a ferradura velha, e disse-lhe que, quando terminasse, podia ir ter com Putthe na despensa.

- Ouviste tudo isso? - insistiu Baldwin.

- Sim, eu estava lá quando eles examinavam a égua. A senhora disse que ele podia continuar, e ela voltou a entrar para casa.

- E isso foi ao início da tarde?

- Sim, penso que sim, quando o ferreiro cá chegou.

- Só uma coisa - perguntou Simon, de sobrolho franzido. - O ferreiro era amigo especial do despenseiro? Jack passava por cá muitas vezes para se encontrar com Putthe à frente de um jarro ou dois de cerveja?

- Ele?- o criado soltou uma gargalhada grosseira, deixando cair o pano no balde e agarrando o peito de tanto rir - Deveis estar a brincar! Putthe amigo de um ferreiro? Olhai, Putthe é despenseiro numa boa casa. Jurou fidelidade ao amo até ao fim da vida - e um homem como Putthe leva esse tipo de juramento muito a sério. Pensais mesmo que um indivíduo como ele seria companheiro de um camponês que conseguiu aprender um ofício? Não, Putthe e Jack não são amigos. Na melhor das hipóteses saúdam-se, mas nada mais do que isso.

- Então por que é que Putthe deveria entreter Jack na despensa e ficar na sua companhia?

- Sabeis como é, o amo ou a senhora dizem ao criado quem devem receber e com quem devem falar. Atrevo-me a dizer que Putthe não ficou satisfeito quando lhe disseram que entretivesse na sua sala um idiota de um campónio como Jack, mas uma vez que lhe ordenaram, o que é que ele poderia fazer?

- Penso que está na hora de irmos novamente falar com Putthe - disse Simon.

Rodde não se apercebeu dos passos atrás de si. Tinha outras coisas em que pensar. Para além do mais, doía-lhe a anca como se o osso estivesse fracturado - uma pedra atingira-o aí na noite anterior, e ardia-lhe como se tivesse sido marcado com ferro quente. Era uma dor tão forte que suplantava todas as outras equimoses e arranhões que tinha no corpo e fazia com que ele caminhasse devagar e a coxear.

Não era a dor que o tornava pensativo e que lhe enrugava a testa, mas sim as palavras de Cecily. Ele rejeitara-a, como devia, mas ela mostrara-se muito determinada, e ele não tinha a certeza de que ela dera ouvidos à condenação a que ele submetera a ideia que ela tivera. Seria loucura ela tentar conseguir um lugar na leprosaria - ele não podia permiti-lo. Rodde sabia que algumas mulheres, especialmente as doentiamente religiosas, copiavam, por vezes, Cristo e cuidavam dos doentes. As mais fanáticas beijavam as feridas de um leproso, demonstrando a sua fé através da devoção àqueles que Deus escolhera, mas para Thomas Rodde a ideia de Cecily se juntar aos leprosos era intolerável.

Sentia que só havia um caminho para ele, e estava agora determinado a segui-lo. Devia partir de Crediton e encontrar outro lugar onde terminar os seus dias. Esta cidade já não era segura nem pacífica. Desde que vira Cecily pela primeira vez, tornara-se um local de horror - especialmente agora que o pai dela morrera por causa dele. No entanto, era impossível, enquanto a perna lhe doesse assim. Não podia fugir quando fugir era impossível.

Aquela noite ficara gravada a fogo na sua mente. A forma como Godfrey entrara, arrastando a filha da janela, dando-lhe um soco e fazendo-a voar, antes de se virar para Rodde e de levantar a mão para lhe ordenar que não fugisse. Ouvir o grito de agonia dele, ver os olhos do homem virarem-se para cima até ficarem com o branco à vista, vê-lo cair lentamente para a frente como uma árvore abatida.

E atrás dele, a segurar o pesado bordão, o homem que apenas quisera proteger Rodde, o seu amigo Edmund Quivil.

Edgar bateu no carvalho escurecido pelo Sol. Ouviu-se um grito vindo do interior, e, pouco depois, passos a aproximarem-se.

- Vou já, vou já!

A porta abriu-se de par em par, e Putthe surgiu na soleira. O seu rosto, sombrio na melhor das hipóteses, adquiriu um ar carregado quando ele viu quem estava à espera à entrada.

- Podemos entrar? - perguntou Baldwin com voz suave, enquanto caminhava em direcção ao guarda-vento. - Penso que é mais fácil falarmos na tua despensa, não te parece?

Peter resmungou reservadamente e o cavaleiro entrou à frente.

- A tua cabeça parece que está um pouco melhor, Putthe - comentou Simon.

- Quem me dera sentir isso.

- Ainda te dói? Sei que as feridas na cabeça podem levar tempo a curar.

- Dói - admitiu ele, de má vontade.

- Mas não é para falar da tua ferida que aqui estamos - disse Baldwin, sentando-se no banco de Putthe e observando-o com ar pensativo. - Estamos aqui por causa da forma estranha como Jack apareceu aqui na tarde em que Godfrey morreu.

Putthe não era feito de material tão forte como a sua ama; estremeceu e lançou um olhar ao cavaleiro. Não estava à espera de que o maldito Defensor se tivesse apercebido de quão estranho aquele pequeno acontecimento era. Quando falou, o seu tom era de cautela.

- E que sei eu disso, senhor? Sou despenseiro, não sei o que se passa no estábulo.

- Quer dizer que também sabes que algo de errado se passou. Ou isso, ou suspeitas de alguma coisa, ou de alguém. O que havia de estranho em chamar Jack aqui daquela forma?

- Como é que eu hei-de saber?

- Não sei como hás-de saber, mas estás prestes a contar-nos. O que achaste de estranho em terem chamado Jack aqui naquele dia? Foi o facto de Godfrey normalmente não se poupar a despesas quando se tratava de cuidar dos cavalos, e a égua poder ter sido enviada à oficina do ferreiro? Ou foi o facto de Cecily parecer ter tido outro motivo para o fazer?

- Que tipo de motivo poderia ter a minha ama ao pedir ao ferreiro que viesse cá? - perguntou o despenseiro desdenhosamente.

- Isso - disse Simon, que se deslocara para trás do despenseiro - é o que queremos que nos digas. Que vantagem havia em ter o ferreiro aqui?

- Porque - acrescentou Baldwin com voz calma - há sempre a outra possibilidade: o facto de teres sido tu que trataste das coisas para que o ferreiro viesse cá.

- Eu? - disse o copeiro com voz aguda. - Que possível razão teria eu para pedir a um idiota desleixado como ele para que viesse cá?

- Para te dar um álibi.

Putthe ficou de boca aberta. Era como se um punho de gelo o tivesse atingido nas entranhas e ele se apercebesse de que toda a carne das suas costas se arrepiasse subitamente com uma expectativa gelada. Não era idiota. Se um homem fosse acusado cumplicidade num homicídio, era provável que a justiça fosse rápida e imprevisível. O despenseiro considerou rapidamente a sua situação, enquanto o cavaleiro pousava o queixo sobre a mão fechada. Putthe fizera tudo o que pudera, mas lealdade era uma coisa: a certeza de uma corda ao pescoço era outra.

- Senhor - e agora o seu tom de voz tinha uma certeza persuasiva -, juro perante Deus, tal como acredito na outra vida, que não tive nada a ver com a morte do meu amo. Nem sequer sabia que se estava a passar alguma coisa. A minha ama Cecily pediu-me que trouxesse cá o ferreiro, mas não foi com qualquer intenção maldosa.

- Conta-me tudo o que sabes.

O despenseiro suspirou e sentou-se num barril. Como uma ideia tardia, levou as mãos entre os joelhos e deitou para si um jarro de cerveja. Parecia não ter intenção de beber, mas segurava a bebida para o ajudar a concentrar-se, de forma muito parecida, pensou Baldwin, àquela com que um cavaleiro poderia brincar com uma espada ou uma adaga, enquanto regalava uma audiência com uma história.

- Já vos falei antes do facto de o meu amo ter encontrado John no jardim. Foi verdade. E mais tarde o meu amo contou-me. Pensou que era muito engraçada a forma como apanhara o irlandês baixinho. Mas agora ouvi dizer algo um pouco diferente. Agora dizem-me que o pequeno irlandês nunca teve um caso com Martha Coffyn; o homem que lá ia encontrar-se com ela não era o irlandês, mas o meu próprio amo!

Baldwin acenou lentamente com a cabeça.

- Quer dizer que cada vez que Matthew Coffyn partia de viagem, o teu amo costumava dizer que ia sair para dar uma olhadela às coisas e proteger o jardim dos bandidos contratados da casa ao lado, quando, na realidade, ia visitar a mulher de Coffyn?

- É isso, senhor. Sempre que Coffyn partia de viagem, avisava o sócio, o meu amo, por isso o meu amo sabia exactamente quando ir encontrar-se com Martha.

- Mas, para começar, por que investiria Godfrey no negócio? Oh, é claro!

- A última coisa que ele queria era que o negócio de Coffyn fracassasse. Isso teria significado o fim das viagens dele. Não, o meu amo estava feliz por garantir de que o negócio de Coffyn ia bem.

- E que tem isso a ver com o ferreiro? - perguntou Simon.

- Senhor, a minha ama tinha de mandar arranjar a ferradura da égua, e não queria que o meu amo soubesse, porque ele estava sempre a ralhar por causa do dinheiro que ela desperdiçava. Não que fosse justo. A senhora Cecily foi sempre bastante economizadora. Aliás, foi por isso que ela pediu a Jack que viesse cá e voltasse a colocar a ferradura velha, para poupar dinheiro.

- Teria poupado mais, se tivesse enviado a égua e a ferradura à oficina, e não tivesse pedido ao ferreiro que viesse cá - comentou Baldwin.

- Jack não cobra por vir cá - corrigiu-o Putthe.

- Mas o pai dela entrou aqui e viu o ferreiro - disse Simon.

- Ela não sabia que ele entraria aqui. De facto, foi tanto tempo depois de Jack ter terminado o trabalho, que não teve importância. O meu amo pensou que Jack estava cá apenas de visita.

Simon coçou a cabeça.

- Há uma coisa que ainda não sabemos, e é exactamente o que prometeste contar-nos: por que motivo queria Cecily que o ferreiro cá estivesse?

Putthe lançou-lhe um olhar lúgubre.

- Não vos poderia dizer ao certo. Aquele ferreiro é um tipo bastante repugnante e não é o tipo de homem que eu normalmente goste de entreter na minha própria despensa, mas a senhora pediu-me que cuidasse dele e fiquei feliz por fazê-lo.

- Que foi que ela te disse precisamente? - Baldwin franziu o sobrolho.

- Ela pediu simplesmente se eu o podia encher de cerveja quando ele acabasse de brincar com a égua. De facto, lembro-me de ela ter dito que lamentava fazer-me tal pedido, porque sabia que Jack não era a alma mais generosa da cidade. Ela fez um comentário sobre a forma como ele era intolerante.

Simon olhou-o sem compreender.

- "Intolerante"? O que teria ela querido dizer com isso?

- Por vezes, Jack pode ser um perfeito idiota. Reparai no comportamento dele com os leprosos naquela noite. Não havia desculpa para aquilo. Absolutamente nenhuma.

Baldwin acenou com a cabeça, tornando-se depois completamente quieto, olhando a distância. Alguns minutos depois, as rugas desapareceram-lhe da testa.

- Muito bem, Putthe. Foste muito útil. Avisa-me se te ocorrer mais alguma coisa, está bem? - Levantou-se e saiu da sala com um passo imponente.

Ao chegar ao guarda-vento, para surpresa de Simon, o cavaleiro parou e espreitou para o salão. Quando Simon se colocou a seu lado, viu o que o cavaleiro fixava.

A criada, Alison, encontrava-se junto ao armário e ocupava-se a arranjar o peltre nas prateleiras. Os olhos de Simon esbugalharam-se ao ver que as prateleiras tinham sido todas preenchidas. Na de cima estava um par de pratos de prata e um corno para beber; por baixo havia seis pratos de peltre e um saleiro de prata em forma de cisne; por baixo havia outra fila de seis pratos, ladeados por dois grandes garrafas; na prateleira de baixo via-se uma fila de oito pratos mais pequenos. Simon ia dizer qualquer coisa, mas, antes que pudesse falar, Baldwin levou um dedo aos lábios, e conduziu os passos para fora do edifício.

O Sol estava a declinar quando Rodde chegou ao cimo da rua alta, e deslocava-se mais lentamente à medida que o ar arrefecia. A anca atrasava-o, pois cada passo que dava causava-lhe dor. Muitos anos antes, caíra de uma escada e fracturara o ombro, e o seu estado agora lembrava-lhe essa altura, pois sentia uma dor constante e latejante que se expandia quando ele colocava o seu peso sobre ela. Esse facto fazia-o perguntar-se se, na verdade, fracturara alguma coisa.

Ao chegar à estalagem, parou. Cristine viu-o a encostar-se pacientemente ao bordão e saiu com um jarro de cerveja. Oferecendo-lhe um sorriso de mera gratidão, ele estendeu a malga. Era ilegal um leproso tocar num jarro ou caneca que pudessem ser usados por uma pessoa saudável, mas a rapariga deitou a cerveja directamente na malga, e o homem bebeu com avidez.

Cristine voltou a encher a malga, e ficou a observar, solícita, enquanto ele a esvaziava segunda vez. Ela não precisava de tentar dizer alguma coisa; a bondade dela ao dar-lhe cerveja a beber já era, só por si, bastante. De qualquer maneira, ela não se lembrava de nada que lhe pudesse dizer. Thomas Rodde não estava ainda tão hediondamente desfigurado como alguns dos outros, mas as feridas que apresentava no rosto eram suficientes para a fazerem querer manter a distância.

Terminando a sua bebida, ele fez-lhe uma vénia lenta e afastou-se, de regresso à leprosaria. Cristine deixou-se ficar durante algum tempo a vê-lo afastar-se, o bordão a bater com regularidade a seu lado, enquanto ele caminhava arrastando os pés. A rapariga estava a tentar imaginar como ele seria antes de ter sido atingido pela doença.

Nos olhos do espírito, ela endireitou-lhe as costas. Isso de certeza que acrescentaria quinze centímetros ou mais à sua altura, apercebeu-se ela, o que faria dele um homem alto, possivelmente com quase um metro e oitenta. Depois o cabelo, agora tão liso e besuntado de lama, ainda mostrava sinais da tonalidade escura subjacente, uma cor que o faria dar nas vistas. Os olhos não tinham mudado, ele ainda não perdera a visão, e eram de um peculiar azul-vivo, enquanto que a sua pele estava bronzeada da exposição ao sol. Era exactamente o tipo de homem com quem ela sempre sonhara. O tipo de homem com quem ela poderia ter conversado à toa na taberna antes de ter adquirido as cicatrizes da lepra.

Cristine sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Estou toda arrepiada, pensou ela, e benzeu-se automaticamente.

- Viva, Cristine. Podes encher-me isto?

- Já acabaste o barril? Jack, deves ter trabalho de mais, se a tua sede é assim tanta!

- A minha sede é muita, reconheço - murmurou ele, mas tinha os olhos fixos nas costas de Rodde.

Sob o olhar de Cristine, Jack partiu atrás do leproso, e, quando ela lhe gritou:

- Eh! E a cerveja? - ele limitou-se a acenar-lhe, respondendo:

- Venho buscá-la mais tarde.

A urgência dele fê-la hesitar, e o olhar dela deslocou-se em direcção ao homem que coxeava.

 

Sir Baldwin e Simon saíram para a rua, enquanto Edgar desamarrava as montadas para os seguir. Na estrada, Baldwin olhou Simon.

- Interessante.

- Desconcertante! Que raio poderá significar? Alguém roubou toda a baixela e agora devolveu-a?

- Não - Baldwin soltou um riso abafado. - Não, penso que é muito mais simples do que isso. Simon, estamos a aproximar-nos de uma solução deste problema. - Mordeu o lábio superior, sugando o bigode pensativamente. Por fim, soltou um leve suspiro. - Basta de especulação! É verdade, não é um dever agradável que temos de ir executar agora, mas tem de ser feito. Estás preparado?

Simon compreendeu-o imediatamente.

- Tão preparado como alguém pode estar. Não quero estar envolvido em recordar a um homem a infidelidade da esposa, mas temos de saber a verdade, não temos?

Baldwin acenou amargamente com a cabeça e passou pelo portão, entrando no jardim de Coffyn. Dirigiu-se à porta da frente e bateu com força. Edgar juntou-se a eles enquanto esperavam. Pouco depois encontravam-se no salão, e aí viram William e o amo sentados à mesa grande que se encontrava em cima do estrado. Não havia mais ninguém na sala, o que serviu de algum alívio a Baldwin.

O cavaleiro confrontou o mercador.

- Fostes responsável pela agressão a John de Irelaunde, ontem à noite. Ele não está morto, mas está muito ferido, e tereis de lhe pagar reparação. Se ele desejar apresentar queixa contra vós, eu ajudá-lo-ei.

Ao longo deste pequeno discurso, Coffyn permanecera friamente em silêncio. Até que falou:

- Não sei o que vos faz pensar que eu estive lá, cavaleiro, meu senhor. Estive neste salão quase toda a noite. Os meus homens estavam comigo.

- Fostes visto e reconhecido por John.

- O homem que ficou ferido? Talvez ele tivesse ficado com as ideias confusas. Pode acontecer, sabeis, quando um homem sofre ferimentos graves na cabeça. Neste caso, ele enganou-se. Estive aqui desde um pouco depois de ter escurecido, e não voltei a sair. Por que quereria eu magoar um indivíduo que nunca vi?

Baldwin abanou a cabeça.

- É bom, nas não suficientemente bom. Sabemos porque fostes molestá-lo.

Coffyn disfarçava bem, pensou Baldwin. Fazia uma grande exibição ao deitar vinho na taça e ao bebericar lentamente, concentrando-se sempre no rosto de Baldwin.

- Não tenho a certeza se compreendi o que quereis dizer.

- Pensastes que John estava envolvido com a vossa esposa. Ficastes ferido, naturalmente, e chocado, também, não tenho dúvidas. Não fazíeis ideia de quem poderia ter sido responsável, mas era fácil arriscar um palpite. Ou talvez não precisásseis - talvez tivésseis ouvido rumores da forma como John se comportava, e pensastes que não havia fumo sem fogo. Em qualquer dos casos, fostes vós que fostes a casa de John ontem à noite e que o atacastes de surpresa. Queríeis garantir que John compreendia que não toleraríeis aquele caso amoroso.

- Estais a dizer disparates - disse Coffyn, mas tinha o rosto pálido, e Baldwin viu que a mão que segurava a taça estava a tremer.

- Desejo falar com a vossa esposa - afirmou Baldwin rudemente.

- Isso não é possível.

- Matthew, assim não chegamos a lado nenhum. Podeis recusar-me permissão para falar com ela, se quiserdes, mas também precisais de ouvir a verdade. O homem que agredistes ontem à noite não era o amante dela. Já ouvi hoje isso de duas pessoas diferentes e que deviam saber. Por que não perguntamos à vossa esposa?

- Não tendes o direito de o exigir.

- Não, não tenho - disse Baldwin, sensatamente. - Mas acontece que sei que estais enganado ao pensardes que John tem alguma coisa a ver com ela. É claro que estais magoado e dominado pelo desgosto devido ao adultério dela...

Coffyn estremeceu e adquiriu um semblante carregado.

- ... mas isso não é motivo para atacardes o homem errado. John não teve nada a ver com a vossa esposa.

- Não acredito! Ele encontrava-se com ela sempre que eu viajava para uma feira ou mercado.

- Alguém se encontrava com ela, mas não John. John encontrava-se com outra pessoa.

- Eu ouvi-o saltar do meu telhado e atravessar o jardim.

- Não era John. Ide buscar a vossa esposa, e veremos o que ela diz.

- A minha esposa está indisposta. Não pode ver ninguém. Baldwin debruçou-se sobre a mesa de forma que o seu rosto ficou próximo do do mercador.

- Matthew Coffyn, não posso ordenar à vossa esposa que faça qualquer afirmação que vos possa incriminar. Mas se puder fazer com que acrediteis que John estava inocente, posso evitar que o volteis a agredir. Por favor, chamai a vossa esposa.

De má vontade, Coffyn rendeu-se. Acenou a William, e o escudeiro saiu da sala. Passou bastante tempo até que ele regressou, caminhando atrás da jovem esposa de Matthew Coffyn.

Esta era a primeira vez que Simon via Martha Coffyn desde que se mudara para Lydford. Naquela altura, ela era uma jovem elegante que tinha tendência para engordar um pouco, mas, com a sua natureza viva e sentido do divertimento, nunca lhe faltou popularidade. Antes de Coffyn ter conseguido enredá-la, ela atraíra um exército de admiradores não só de Crediton, mas também de locais a vários quilómetros de distância.

Mas a mulher que Simon agora via não era a mesma - pelo menos à primeira vista. Tinha ainda algum peso a mais, mas as suas medidas só lhe acrescentavam os voluptuosos encantos, sublinhando-lhe os seios amplos, o movimento das ancas largas e o comprimento das pernas. A diferença estava nos seus modos e no rosto.

A sua bonita cor pálida, que sempre lembrara ao beleguim as mais finas natas da abadia de Tavistock, estava sarapintada e manchada de vermelho. Os olhos pareciam em sangue de tanto chorar, o nariz brilhava, os lábios estavam inchados de soluçar, escarlates como o próprio sangue. Até o cabelo estava despenteado e sujo, dificilmente contido na sua touca.

Ela estava de pé em frente do marido, mas o seu olhar nunca fixou o dele. Em vez disso, ela olhava Baldwin com um género de desdém arrogante.

- Então, marido? Querias ver-me, aqui estou eu! O que queres, agora que testemunhaste a minha completa destruição? Que mais queres de mim?

Coffyn enterrou-se na cadeira.

- Estás enganada, minha senhora. Era este cavaleiro que desejava falar contigo. Por favor responde-lhe.

- Minha senhora, lamento ter-vos feito descer para vos fazer estas perguntas, mas tenho de evitar mais violência, se puder, e vós sois a chave. Sei que o vosso marido vos tem mantido fechada no vosso quarto, mas...

- Manter-me fechada no meu quarto? - perguntou ela, os olhos subitamente em chama. - Pensais que eu o deixaria fazer isso? Ele não fez tal coisa, Defensor. Oh, não, fui eu que decidi ficar no meu quarto.

- Por favor, Martha - murmurou Coffyn, levando uma mão à testa e protegendo os olhos do desdém dos dela.

- Por favor, Martha!- disse ela com um sorriso de escárnio. - Ele agora suplica-me, tentando impedir-me de vos contar o que sei, enquanto que...

- Martha, estes homens estão aqui porque ontem bati no teu amante até ele escapar à morte pela grossura de um cabelo - disse Coffyn friamente. - Querem que me digas que eu estava enganado e que quase matei o homem errado.

Ela olhou-o boquiaberta, antes de soltar uma gargalhada estridente. A Simon parecia o início da histeria, e estava prestes a colocar-se mais perto dela para lhe oferecer algum conforto, quando Martha levantou uma mão.

- Não vos aproximeis de mim - gritou. - Sinto-me perfeitamente, embora isso seja um milagre nesta casa. Quer dizer que este perfeito cretino teve a monumental estupidez de tentar matar alguém numa tentativa de fazer com que ele me deixasse em paz?

- Foi John de Irelaunde - murmurou Baldwin.

- Esse?! - vociferou ela desdenhosamente. - O bufarinheiro? Ousas pensar que eu me desonraria com um meia-leca desleixado como ele? - A voz dela tornou-se mais dura. - Pensas que me aviltaria com uma criatura patética assim? Como te atreves?

Simon estava intrigado com a raiva dela. Era inteiramente genuína, estava convencido disso, mas espantava-o o facto de a mulher se sentir tão humilhada por tal alegação. Martha Coffyn não sentia qualquer pudor devido ao seu adultério declarado, mas podia ficar consternada pela hipótese que o marido colocava de ela se entregar a um humilde carroceiro.

Baldwin interrompeu os protestos dela. A sua atenção fixara-se em Coffyn, cujo rosto tomara a aparência de um homem que vira um fantasma. A mão caíra-lhe, e agora estava sentado como que mudo de horror.

- Senhora Martha - disse Baldwin -, penso que dissestes o suficiente.

- Quem era, então? - A voz de Coffyn era um sussurro.

- O teu amigo, Matthew, meu querido! O teu preferido - o teu sócio. Godfrey era o meu amante, e há meses que o era. Nunca suspeitaste, porque nunca estavas aqui para ver, mas ele estava comigo todas as noites, sempre que tu partias de viagem. Ele entrava sorrateiramente no meu quarto todas as noites, e roubou-me o coração quando me deixou.

- Porquê, Martha? Tudo o que eu sempre quis foi agradar-te, dar-te conforto. Por que tinhas de me trair desta maneira?

- És patético! - A raiva dela tornou-lhe a pronúncia lenta e intencional. - Pensas que és dono de mim por causa de um contrato, mas nunca te deste ao trabalho de me satisfazer. Pensaste que ao comprar-me jóias e vestidos novos podias prender o meu amor - mas nunca te apercebeste de que para prenderes o meu amor, tinhas primeiro de me prender a mim! Por que tinha eu de te trair, perguntas tu? Por que tinha eu de permanecer fiel, quando isso significava viver a vida de uma celibatária?

Martha virou-se repentinamente, a saia comprida a arrastar-se pelo chão.

- Sir Baldwin, já respondi às vossas perguntas. Espero que o meu marido não seja suficientemente estúpido para tentar atacar mais alguém, mas, se lhe apetecer, talvez o próximo homem a quem ele se atire me faça o favor de mandar o meu marido para o Inferno. Não me serve para nada.

Com aquele remate de despedida, Martha marchou altivamente para fora da sala.

Matthew tremia e pousou a cabeça nas mãos. Nunca sentira antes a vastidão do desdém que a esposa sentia por ele. Ver Martha comportar-se desta maneira foi quase como se tivesse recebido um golpe físico no estômago. Sentiu-se enjoado, revoltado pela aversão absoluta que ela sentia por ele.

- Matthew, aceitais a palavra da vossa esposa? - perguntou Baldwin com voz calma.

- Acredito nela. - As palavras vieram como que extraídas à força da sua própria alma. Matthew Coffyn abanou a cabeça. Tinha o futuro destruído. Não podia haver esperança de paz nem de amor renovado no seu casamento. Antes da explosão dela, ainda havia hipótese, mas agora essa hipótese esvanecera-se. As palavras dela tinham-lhe queimado o orgulho. Era impossível ela poder alguma vez corresponder aos sentimentos que ele nutria por ela. Matthew tivera esperança de que, com o seu adversário fora do caminho, o amor dela por ele voltaria, em vez disso, a aversão dela por ele aumentara.

- Aceitais que John de Irelaunde não teve nada a ver com a infidelidade da vossa esposa?

- Parecia tão óbvio! - Matthew levantou suplicantemente a cabeça para o cavaleiro. - Toda a gente conhece a reputação de John. Assim que me apercebi do que estava a acontecer com a minha esposa, convenci-me de que tinha de ser aquele canalha!

- Na noite em que Godfrey morreu, estáveis aqui à procura de John, não estáveis? Viestes para casa mais cedo do que seria de esperar, e estáveis à procura dele na vossa casa quando ouvistes Godfrey gritar.

- Sim. Da última vez que parti em viagem, regressei pela noite dentro em vez de o fazer na manhã seguinte, e embora Martha tivesse vindo bastante rapidamente ter comigo, ouvi alguém a saltar do telhado e a atravessar o jardim. Bem, John vive nas traseiras da casa de Godfrey - e pensei que seria fácil para ele subir ao muro de Godfrey e daí entrar no meu jardim. Parecia tão óbvio que aquele sacana baixote estava a desonrar a minha esposa, que nem pensei duas vezes.

- Levastes muito tempo a decidir bater-lhe - comentou Simon.

- Eu pretendia apanhá-lo em flagrante. - O mercador virou para o beleguim os olhos irritados e sem pestanejar, roendo uma unha. O que teríeis vós feito? Eu não tinha nenhuma prova real. Foi por isso que inventei esta charada de uma última viagem. Disse que tinha de ir a Exeter por dois dias, mas, depois de ter passado algumas horas numa taberna que fica no caminho, regressei. Enviei os meus homens para o jardim para bloquearem qualquer fuga, enquanto eu corri lá para cima. Não havia sinais de ninguém, e a minha mulher insistia em que estava sozinha, mas eu procurei no quarto dela, e vi em todas as arcas. Não havia sinal dele. Pensei que John deveria ter-nos ouvido na rua antes de chegarmos, e então usou o mesmo caminho de fuga que costumava usar, subindo pela janela e saltando do telhado antes de desaparecer.

- Só que nunca foi John - lembrou-o Baldwin.

- Não. Em vez disso, quando corri para a casa ao lado para salvar o meu vizinho de ser atacado, eu estava, na verdade, a tentar salvar o homem que me estava a fazer corno. Oh, meu Deus! - gritou ele, e cobriu o rosto com as mãos. - Perdi a minha mulher e agora serei processado por me ter vingado do homem errado! Como é que pude ser tão estúpido!

Baldwin suspirou.

- Podeis achar que um pedido de desculpas a John o impedirá de vos levar a tribunal. Pela minha parte, desde que assegureis que não lhe falte dinheiro enquanto recupera, não tentarei fazer com que as coisas possam ir mais longe. Tudo isto não passa de uma ridícula confusão. De futuro, não façais justiça pelas vossas próprias mãos. Se tiverdes sido ofendido, levai o caso a tribunal e procurai lá reparação.

- Reparação, Sir Baldwin? - perguntou Coffyn, erguendo para o cavaleiro o olhar sem expressão. - Reparação por ter perdido a minha mulher? Que reparação posso eu esperar por me ter sido levada a vida, por me ter sido arrancado o futuro das minhas próprias mãos, por me terem sido roubadas as oportunidades de felicidade conjugal? Que esperança há para mim, Sir Baldwin?

Ralph deixou a capela. Via afastar-se do portão a figura de Rodde, a coxear, de regresso ao seu quarto. O monge perguntou-se se deveria ter uma conversa com ele. Rodde estava a passar demasiado tempo fora do hospital para seu gosto; os leprosos deviam permanecer no interior do seu espaço, dedicando-se à oração, e não a vaguear pelas estradas sempre que lhes apetecia. Ralph pensou, mas decidiu não falar com ele ainda. Tanto Rodde como Quivil pareciam precisar de tempo para si próprios. Se se demonstrasse compaixão para com eles, pensou Ralph, poderiam vir ambos a dar valor à misericórdia de Deus, e a encontrar a salvação no interior dos terrenos do hospital.

Tendo ponderado sobre este assunto por um minuto ou dois, Ralph estava prestes a dirigir-se ao seu pequeno quarto, quando ouviu vozes ao portão. Manifestando impaciência para si próprio perante esta interrupção da sua rotina, virou-se para procurar a fonte. Ficou boquiaberto de surpresa.

- O que é isto? - perguntou.

- Ela quer entrar para ver Rodde, o que chegou há pouco tempo. Eu disse-lhe que não pode, mas ela não quer ouvir.

- Minha senhora, é impossível. Isto é um hospital de leprosos, um local para homens que foram castigados pela doença. Não podeis entrar.

- Irmão, gostaria de falar convosco.

- Muito bem - Ralph suspirou. - Esperai aqui, que eu vou buscar um manto.

Fez sinal ao guarda do portão para que o mantivesse fechado e dirigiu-se ao seu quarto. O manto estava em cima da arca e ele colocou-o por cima dos ombros. O Sol já morria a Ocidente, e, com ele, o calor do dia estava a declinar rapidamente.

- Aqui estou eu, minha senhora. Agora dizei-me - o monge abriu o portão e saiu -, o que se passa? Porquê fazer tal espalhafato aqui?

- Tendes aqui um doente, um homem chamado Rodde, não é verdade?

- Sim, de facto. Chegou há umas semanas atrás - disse Ralph. Entretanto, viu o ferreiro ali perto a ouvir com interesse o que ela dizia. Ralph franziu o sobrolho ao homem, e começou a subir a colina, afastando-se da cidade, andando em redor do perímetro do complexo. - Veio algures do Norte. Felizmente, a sua doença não está muito avançada, e ele tem o seu próprio dinheiro, por isso não pesa muito nos recursos do hospital. Mas qual é o vosso interesse nele?

- Desejo visitá-lo no hospital.

- Receio que tal seja impossível. Ela sorriu e levou a mão à bolsa.

- Não é essa a dificuldade, senhora - declarou Ralph calorosamente. Enfiou resolutamente as mãos nas, mangas do hábito como que para evitar qualquer tentação. - Receio que os pacientes só tenham autorização para receber visitas de um certo tipo de mulheres.

- De um certo tipo, irmão? - perguntou ela com voz suave, erguendo uma sobrancelha.

- Não desse tipo, senhora - disse ele bruscamente. - A essas não é permitido sequer passarem o portão. Não, as únicas mulheres que têm autorização para entrar aqui são as que pertencem à família dos pacientes, e mesmo nesse caso só podem entrar durante o dia, para que nada de inconveniente aconteça.

- Tendes aí essa rapariga a ajudar.

- Referis-vos a Mary? Ela é diferente, é a governanta.

- Eu pensava que a governanta de uma leprosaria deveria ser uma mulher de aparência madura, que não fosse atraente aos olhos dos pacientes e não os tentasse a pensamentos ou actos lascivos; alguém que se distinguisse pela boa conversa, e pouco mais.

Ralph lançou-lhe um olhar irritado.

- É verdade - admitiu. - Mas quando mais ninguém mexe um dedo para ajudar estas pobres almas, é necessário aproveitar qualquer voluntário.

- Ela parece mesmo muito jovem.

- A idade dela é algo que não me incomoda. Mais importante é a vontade que ela mostra de proporcionar conforto aos homens que aqui estão. - Apercebendo-se da natureza ambígua da frase, ele corou, apressando-se a continuar: - O que eu quero dizer é que ela ajuda a manter a capela limpa e arrumada, e auxilia-me nas minhas tarefas. Ela já manifestou desejo de entrar para um convento e de oferecer a sua vida a Deus.

- É tão jovem.

- Tem idade suficiente para amar o seu Deus - retorquiu ele piamente.

- Mas ainda assim eu gostaria de entrar para visitar Thomas.

- Senhora...

- O meu nome é Cecily.

- Bem, Cecily, minha senhora, receio que não possa ser. Não é permitido.

- Conheço as regras bastante bem. Os parentes podem entrar.

- Sim, as mães e as irmãs. - Ralph viu com alívio que já quase tinham regressado ao portão do hospital. Em breve poderia deixar esta mulher para trás e voltar ao seu trabalho. As palavras que ela proferiu em seguida fizeram-no parar.

- E as esposas?

O monge ficou boquiaberto. Cecily ergueu uma sobrancelha e ergueu a cabeça em ar de desafio.

- Eu... mas isso é impossível! - gaguejou ele.

- Sou assim tão pouco desejável, irmão? - murmurou ela. - Interpretais mal as minhas palavras intencionalmente, minha senhora! Mesmo assim, não podeis entrar.

- Mas porquê? Pensei que a esposa de um homem não podia ser separada dele.

Ralph suspirou. Esse era o significado da lei no que se referia a homens e mulheres normais, era verdade, mas a mulher de um leproso era diferente. O leproso, uma vez entregue à sua condenação, fora declarado morto. O seu testamento fora executada ao entrar para a leprosaria.

- Se fostes casada com ele - tentou ele explicar -, sois agora legalmente sua viúva. Não podeis ter qualquer direito sobre ele, tal como ele não pode ter qualquer domínio sobre vós. Devíeis arranjar outro homem, alguém sem mácula.

- Irmão, eu amo-o. Quem sois vós para me dizerdes que o devo deixar sozinho agora? Ele está doente, e eu posso confortá-lo melhor do que qualquer outra pessoa.

- Mas deixastes de ter direitos sobre ele. Ele já não é vosso marido.

- Irmão - disse ela friamente, virando-se para o encarar. Ele via a raiva a borbulhar sob a aparência calma da mulher. - Ele é meu marido. Foi a vossa igreja que nos casou perante Deus, e aqui, perante Deus, afirmo o meu amor por ele. Se ele precisa de cuidados até à morte, eu, sua esposa, estarei a seu lado. Exijo o direito de me juntar a ele no vosso hospital.

Jack, enojado, assistia à discussão dos dois. Era espantoso! O facto de uma mulher jovem, perfeitamente saudável e atraente, e também bastante rica, pudesse de facto querer ir para junto dos renegados e pecadores do hospital era uma ofensa enorme. Uma rapariga normal e de boas famílias como era Cecily deveria querer passar o tempo com homens fortes e ricos. O ferreiro não podia considerar-se um partido adequado para ela, já que o abismo entre os estatutos de ambos era demasiado profundo, mas, na sua mente, não havia dúvidas de que ele era significativamente melhor para ela do que qualquer leproso.

Regressou à cidade. O seu aborrecimento devido ao que ouvira emprestou velocidade aos seus pés. Só quando chegou à parte oriental da cidade é que abrandou o passo, e, de repente, surgiu-lhe uma ideia.

Era impossível que uma mulher pudesse querer dormir com um leproso. Era ridículo, e, no entanto, aqui, em Crediton, duas mulheres, ambas bastante atraentes, pareciam querer fazer exactamente isso. Jack sabia que não era estúpido: deveria haver uma razão que fizesse com que estas duas mulheres quisessem ir para o hospital. O amor, ele podia excluir. Não podia acreditar que uma mulher pudesse, de sua própria vontade, escolher uma criatura doente e imunda como era um leproso como o foco do seu amor. Deveria haver outra razão.

Os leprosos deveriam estar a praticar alguma forma de magia negra sobre as mulheres da cidade.

 

Simon subiu a colina no caminho de regresso de Crediton a galope leve, Baldwin e Edgar a seu lado. Era um alívio estar a deixar a cidade para trás, e Simon nunca na sua vida se sentira tão contente por deixar a cidade que conhecia tão bem.

Deu consigo a pensar nisto. A cidade em si não mudara assim tanto, reflectiu. Saíra de lá havia uns quatro anos, quando lhe atribuíram o cargo de beleguim do castelo de Lydford, e até aí sempre vira Crediton como uma grande cidade cheia de vida, infinitamente maior do que Sandford, a pequena aldeia onde nascera, mas que, era, ainda assim, reconfortante. Contudo, agora estava satisfeito por estar a deixá-la.

Em parte, pensou, esta sensação tinha algo a ver com o facto de se estar a habituar ao espaço de Dartmoor. A charneca ondulada exercia sobre ele um certo fascínio. Parecia que tinha sido crestada nalguma batalha poderosa entre Deus e o Demónio, com os seus arbustos secos, as curiosas árvores junto ao riacho chamado Wistman's Wood, onde os carvalhos cresciam enfezados, nenhum deles atingindo uma altura superior a escassos metros. E depois havia os pântanos, de onde vinham os gritos horríveis de póneis e ovelhas que lutavam para se libertarem da sucção da lama. Dava uma impressão de força, de poder estéril, um poder que ele nunca sentira antes.

Em contrapartida, Crediton agora fazia-o sentir-se um pouco claus-trofóbico. Era sempre uma cidade tão agitada, com pessoas a correrem de um lado para o outro para ganharem a vida. Na charneca, poucos homens lutavam com o solo para o fazer ceder as suas riquezas, extraindo e fundindo o estanho e o chumbo ou cortando a turfa, mas o seu número era tão pequeno em comparação com Crediton que quando saía a cavalo podia imaginar que se encontrava sozinho, sem nenhum outro homem milhas em redor. Na charneca era possível andar a cavalo durante horas sem ver ninguém. Em Crediton, um homem não podia evitar outras pessoas.

Mas era mais do que simplesmente isto, disse a si próprio. Dava a impressão que Crediton mudara. O homicídio sem sentido de Godfrey envenenara o que ele sentia pela cidade mais do que teria esperado.

Simon Puttock vira mortos suficientes para saber que não ficara abalado simplesmente pela injustiça de ver um homem perder a vida, nem pelo aparente despropósito do fim de Godfrey. Não, era mais o facto de ninguém parecer lamentar a morte de Godfrey. A filha, embora demonstrasse a respeitadora tristeza de uma filha pela morte do pai, escondia coisas - disso Simon não tinha agora qualquer dúvida. O criado do homem, Putthe, que deveria ter-lhe sido fiel até à morte, também guardava coisas para si próprio. De facto, a única pessoa que parecia lamentar a sua perda era aquela mulher estranha, Martha Coffyn, e não era mais do que a amante do homem, tendo mantido com ele uma relação adúltera.

- A rever tudo outra vez? - perguntou Baldwin.

- Era assim tão óbvio?

- Só quando suspiraste tão alto! A morte de Godfrey parece não ter causado muita dor a ninguém, pois não?

- Era exactamente isso que eu estava a pensar. O único afecto verdadeiro por ele veio da parte da mulher de Coffyn, e esse não será um amor muito próprio. Suponho que é difícil dizê-lo, mas alguém ficaria feliz ao saber que a única pessoa de luto no seu funeral era uma mulher adúltera?

Baldwin lançou-lhe um olhar cheio de curiosidade.

- Provavelmente não, mas suponho que ficaria mais contente por ter nem que fosse uma prostituta a chorar pela minha morte do que não ter ninguém.

- Imagino que tenhas razão - concordou Simon. - Tudo o que posso dizer é que dou graças a Deus por ter uma esposa e uma filha para chorarem por mim quando eu morrer.

- Sim, tens sorte.

- Baldwin, desculpa. Sei que anseias pela companhia de uma esposa.

O cavaleiro esboçou um sorriso seco.

- Não há mal nenhum em se ter orgulho da nossa esposa, Simon. Qualquer homem se orgulharia de uma mulher como Margaret. E o mesmo se aplica a Edith. Ela é a filha que qualquer homem gostaria de ter.

- Sim. Tenho sorte - disse Simon com complacência. Em seguida comprimiu os lábios e assobiou, baixo e num tom melancólico.

- Está bem, Simon. O que é?

- O que é o quê? - perguntou o beleguim.

- Porque adoptaste esse comportamento inocente? Por que estás a assobiar como um vento fraco a sussurrar nas árvores? Resumindo, desembucha, seja lá o que for!

- Baldwin, realmente não sei a que te referes. Tudo em que eu estava a pensar era que mulher agradável Jeanne de Liddinstone é.

- Oh, santo Deus!

- Ela também é boa costureira - disse Simon, pensativo, lançando um olhar aprovador à túnica nova do cavaleiro.

- Hmm. Sim, ela foi muito simpática em ter-ma feito - disse Baldwin, tacteando inconscientemente o bordado junto ao pescoço.

- De facto, penso que és um homem com muita sorte - disse Simon judiciosamente.

- Simon... - Baldwin fez uma pausa. Era difícil abordar tal assunto até com o seu melhor amigo, especialmente quando sabia que o criado estava a ouvir tudo. Mas Edgar era seu criado há tantos anos que teria sido impensável mandá-lo embora, e o cavaleiro sabia, no fundo do seu coração, que podia confiar cegamente em Simon. - Simon, o que farias, no meu lugar?

- Eu? Casava-me com ela amanhã. Se a amas realmente, quero eu dizer, e certamente que a tua expressão quando ela aparece parece confirmar isso. De qualquer forma, as terras dela são boas, ela é bonita, e a maneira como costura é excelente.

- Sabes bem que não é a isso que eu me refiro.

- Oh, bem, se estás a perguntar qual é a melhor forma para lhe propores...

- Simon, pretendes ser o homem mais exasperador à face da Terra, ou é apenas uma capacidade com que nasceste? O que eu quero dizer é: como, por amor de Deus, é que eu me vou livrar daquela maldita górgona mascarada de criada? O que posso eu fazer em relação a Emma?

- Ah, essa agora! Eu nunca tive esse problema específico para resolver. Mas vou indicar-te a pessoa a quem deves perguntar o que fazer, e essa pessoa é Meg.

- A tua mulher?

- Ela pôs fora mais criados inúteis do que qualquer outra pessoa de que eu tenha conhecimento. Se ela não te puder ajudar, ninguém pode.

- Hei-de falar com ela. - Com esta determinação, Baldwin entregou-se a fixar a estrada à sua frente. Mal tinham ainda percorrido meio caminho, e o cavaleiro abanou os ombros para que o manto lhe assentasse mais equilibradamente, puxando pela ponta até cobrir o peito e ficar protegido do vento.

- Baldwin, quem achas que pode ter cometido este homicídio? O cavaleiro continuou em silêncio por algum tempo, e Simon quase chegou a pensar que ele não ouvira. Estava prestes a fazer novamente a pergunta, quando o cavaleiro, meditativo, começou a falar baixinho.

- Sei quem acho que não foi: Cecily. Parece-me altamente improvável que ela tenha cometido o crime, embora esteja convencido de que ela nos mentiu sobre os acontecimentos daquele serão. Isso faz com que me pergunte por que razão ela quereria mentir. A única hipótese lógica tem de ser que ela está a tentar proteger alguém - mas não sabemos quem.

- Depois há aquele pequeno carroceiro maçador. John pode ter tentado assaltar a casa - de facto, esse foi o meu primeiro pensamento, que ele pudesse ser o assaltante, e que o assalto tinha corrido mal e ele foi descoberto - mas não é esse o caso. Os bens estão outra vez lá, por isso não houve roubo.

- Não é possível que alguém tenha entrado na casa para roubar a baixela e que tenha sido descoberto? Talvez seja por isso que os objectos estejam lá todos de novo, porque alguém os foi buscar?

- Se foi esse o caso, porquê guardar segredo? Chamariam a autoridade para que os fosse buscar, e para se assegurarem de que o assaltante era preso.

- A não ser que quisessem vingar-se eles próprios. Podem ter pensado que seria mais adequado.

Baldwin pensou neste ponto.

- Queres dizer que o ladrão foi John e que foi agredido por causa do assalto e não por causa do suposto adultério? Se Coffyn não tivesse admitido o seu ataque, eu seria tentado por essa ideia em teoria. Mas o facto é que Coffyn confessou tê-lo agredido. Assim, resta-nos o motivo por que alguém roubaria a baixela apenas para a devolver. Nesse caso, por que a teriam levado, antes de mais nada? Por que razão é que as pessoas mudam a sua baixela de sítio?

- Tiram-na se houver incêndio - disse Simon, procurando eventuais razões.

- Não houve nenhum incêndio - assinalou o cavaleiro.

- Bem, as pessoas empacotam-na quando vão viajar.

- Não havia indício de que Godfrey fosse viajar, pois não? - De súbito, Baldwin franziu o sobrolho. - A não ser que...

Simon ficou à espera, mas o cavaleiro continuou sentado em silêncio, e, por fim, o beleguim não se conteve:

- E tiveste tu o descaramento de me acusar de ser frustrante! "A não ser" o quê?

- Estava a pensar: as pessoas levam consigo os seus objectos mais valiosos quando viajam, e deixam guardadas as coisas que não podem levar.

- Edaí?

- Daí que - talvez alguém tivesse levado as pratas de Godfrey e tivesse tomado conta delas. Não houve roubo porque está lá tudo outra vez. Godfrey não ia partir, não houve incêndio, mas talvez alguém tenha sentido que a baixela poderia correr perigo se ficasse no sítio em que estava, e, por isso, a tenha colocado num sítio seguro.

- Por que estaria segura agora, quando não estava antes? - perguntou Simon, intrigado.

- É óbvio que não estava segura quando todas as pessoas que se encontravam em casa estavam inconscientes. Agora que os habitantes da casa estão outra vez bem, é seguro voltar a colocá-la no mesmo lugar.

Simon abanou a cabeça.

- E os outros suspeitos, então? Só falaste de Cecily e de John.

- Quem mais? Putthe eu não consigo compreender. Eu suspeitaria mais dele se ele próprio não tivesse sido agredido. Uma vez que foi, não vejo de que forma é que ele poderia ter estado envolvido.

- Há o amigo dele, Jack, o ferreiro.

- Excepto que até o moço de estrebaria disse que Putthe não podia com o ferreiro. Eu precisaria de ver algum tipo de prova que confirmasse que eles se encontravam regularmente, antes de os ver como conspiradores. Não, acho difícil aceitar que Putthe possa ter assassinado o amo e que depois Jack o agrediu. Com que objectivo? Jack nem sequer pode ter assaltado a casa - o material está lã todo no guarda-louça agora.

- Coffyn disse que também entrou pela frente, por isso deveria ter visto Jack a fugir, se ele lá tivesse estado.

- É óbvio que quem quer que lá estivesse fugiu pelo jardim das traseiras. Isso, em si, não nos diz nada. Jack podia ter regressado, cometido os seus actos, e ter fugido pelas traseiras.

- É verdade. E ainda temos a questão daquele misterioso desconhecido à janela. Alguém com quem Cecily falava, e, presumivelmente, um homem, já que Jack ouviu um homem e uma mulher.

- Sim, e uma vez que a sua identidade nos está a ser ocultada, ele é, naturalmente, muito suspeito. - Baldwin acenou com a cabeça. - Gostaria de fazer mais perguntas a Cecily sobre ele, ou eles, se acreditarmos em John. Certamente que os dois que ele viu devem ser os mesmos. Isso é uma coisa que teremos de fazer amanhã.

- Muito bem. Entretanto, apressemo-nos a regressar a tua casa. O vento está a chegar-me aos ossos!

Baldwin riu e olhou em redor.

- Mais um quilómetro e meio, mais ou menos, no máximo. Vamos!

Deslocando-se a um trote rápido, aqueceram pouco depois. A terra estava calma quando passavam. O fumo erguia-se das lareiras das casas de campo, apenas para se dissipar à brisa suave. À medida que a noite caía, Simon deu consigo a olhar para cima mais, para as estrelas - o seu cavalo seguiria o de Baldwin sem precisar ser guiado. O céu já estava azul-escuro, borrifado de estrelas brancas que sobressaíam distintamente, como farinha finamente peneirada sobre um tecido escuro. Uma nuvem solitária pairava por cima dele, tão fina como uma pena de prata. Será que uma pena pairava no ar como se fosse feita de prata?, perguntou-se. Será que outros metais poderiam pairar se fossem cuidadosamente construídos nas mesmas dimensões de uma pena?

A ideia fê-lo esboçar um sorriso forçado perante a sua própria idiotice. Metal era metal! O metal era pesado e não podia pairar, nem no ar nem na água. A ideia era ridícula. Só porque se fez alguma coisa parecer-se com outra, só porque se mudou a sua aparência exterior, isso não significava que se tenha alterado a sua essência...

Seguiu aos solavancos por uns momentos, perdido nos seus pensamentos. As aparências, pensou, podiam iludir.

Inevitavelmente, os seus pensamentos viraram-se para Coffyn. O homem pensara que a mulher tinha um caso com o irlandês, e tudo porque todas as provas pareciam apontar nesse sentido. Contudo, na realidade, o culpado era o vizinho, um indivíduo sem escrúpulos que estava preparado não só para o fazer corno, como também se mostrava muito possivelmente disposto a espalhar o rumor de que o culpado era John, o que, em última análise, levara ao espancamento brutal de John às mãos do marido ciumento.

E, de súbito, Simon teve uma estranha ideia.

Na leprosaria, Ralph cuidava das feridas de Quivil. O homem estava abalado, mas os ferimentos causados pelas pedras estavam a melhorar rapidamente, e Ralph estava confiante de que ele andaria por ali, perfeitamente bem, dentro de uns dias. Levantando-se da beira da cama do leproso, pressionou os punhos contra os rins e espreguiçou-se. Estava a descobrir que cuidar das necessidades dos pacientes se estava a tornar doloroso. Era fácil ver por que motivo aqueles seus colegas que passavam os dias a cuidar dos doentes eram propensos a dores nas costas. Era devido ao facto de se encontrarem constante-mente debruçados sobre os doentes que tinham a seu cargo.

Edmund Quivil ressonava bastante calmamente, e Ralph ouviu os sinos da igreja a tocarem do outro lado da cidade. Dirigiu-se à porta e embrulhou-se melhor no hábito, quando viu o frio que estava. A tremer, atirou mais toros para a fogueira, antes de puxar a cortina grossa para tapar a entrada e de caminhar rapidamente para a capela.

No interior, encontrou à sua espera um par dos leprosos mais devotos, e foi com eles que celebrou a missa. Havia sempre tanta coisa para fazer, mas este era o serviço de que mais gostava. As velas tremeluziam, à medida que irradiavam a sua luz suave, reflectindo-se no metal e na pintura, lembrando-o dos seus deveres: cuidar das almas que a maior parte das pessoas presumia estarem entregues à sua condenação.

Foi com alegria que saiu da pequena capela. Estava sempre mais contente ao sair do que ao entrar; a pequena câmara transbordava do amor de Deus. Os quadros de Cristo e da Mãe pareciam quase brilhar de adoração. As próprias paredes eram construídas de bondade e generosidade. A sua atmosfera de incenso e de roupa suja era para Ralph a própria essência do culto, pois os dois cheiros demonstravam o amor do homem por Deus e o amor de Cristo pelos doentes e enfermos. Não podia haver melhor lugar para adorar a Deus, sentia ele, do que no interior da capela de uma leprosaria.

O chão chiava-lhe debaixo dos pés. Desde que entrara na capela, a geada cobrira a relva, e ele inalava o ar seco com satisfação. Deixava-lhe na boca um gosto a limpo, como uma fresca fonte de montanha. Do lado de fora da sua própria porta, cheirou o ar, satisfeito, e suspirou de prazer.

Sabia que muitos dos seus amigos e colegas monges o julgavam louco por querer cuidar de leprosos; em parte, era por isso que ele estava aqui, porque na altura da eleição para o posto não havia mais ninguém que quisesse o cargo. Mas Ralph estava convencido de que era a melhor forma de ele servir Deus. Esta era certamente também a melhor forma de salvar almas, e esse era o dever sagrado de todos os que usavam tonsura. Eram o exército de Deus, cuja única tarefa consistia em salvar a humanidade na batalha eterna.

Algo chamou a sua atenção, mas, de início, ele apenas se apercebeu de uma pequena irritação sem importância, algo que lhe interrompeu o curso dos pensamentos. Era como uma peça de carpintaria em que o mestre fora forçado a deixar o trabalho quando estava quase terminado. A pequena e última parte que ficou por acabar é um aborrecimento. Isto era semelhante; era uma ínfima parte do seu cenário normal que não condizia. Passou a vista por cima de todo o complexo, mas nada parecia fora do lugar. Em direcção à cidade não via nada de errado - até que se apercebeu de que havia um brilho, logo acima do cume da colina, onde ele nunca vira nenhum brilho antes. Parecia vacilar no ar da noite, e a visão fê-lo franzir o sobrolho.

Caminhou em direcção ao portão. Daqui tinha uma boa visão da estrada, e olhou para Oriente, tentando penetrar a escuridão, mas não era possível. No fim, estava prestes a regressar ao seu quarto e a procurar uma boa noite de sono, quando os viu.

Da cidade vinha o que se assemelhava a uma sólida massa de homens. Aproximavam-se inexoravelmente, alguns trazendo tochas a arder, vestidos de um silêncio perverso que era mais intimidante do que se viessem a cantar refrões ou a gritar.

Afastou-se do portão, as entranhas agitadas. Os sinais eram demasiado fáceis de reconhecer; aquilo era um ataque. Ele soubera dos homicídios em França através de um viajante, quando vivia em Houn-deslow. Lá, ouvira ele dizer, uma grande quantidade de leprosos fora capturada e queimada viva, sob o pretexto de que tinham estado envolvidos no envenenamento de poços. Era um disparate, é claro. Os leprosos dependiam das esmolas das pessoas saudáveis - se matassem os vizinhos, estariam a matar-se a si próprios - mas isso não convencera os camponeses, que queriam exterminar os "pecadores".

O olhar dele percorreu todo o complexo, de um lado ao outro. Não tinha outra alternativa senão defender o hospital, mas como?

 

Simon seguia um pouco à frente dos outros dois homens, quando chegaram ao pátio dos estábulos. Já estava escuro e não havia tochas acesas. Baldwin gritou aos criados quando passava pelos portões.

O beleguim estava impaciente por chegar à lareira. O seu cavalo empinou-se, as patas a baterem na terra batida, e Simon levantou os ombros para manter o pescoço quente. Com um pontapé, Baldwin libertou os pés dos estribos, e apeou-se com um salto, tropeçando e quase caindo. Ao ver isto, Simon soltou uma curta gargalhada.

- Muito engraçado! - resmungou Baldwin.

- É assim que fazes - disse Simon, e passou a perna por cima do pescoço do cavalo. Enquanto o fazia, a sua montada levantou a cabeça, apanhando o pé do beleguim. Simon viu a sua perna a subir cada vez mais alto. Não tinha rédeas para se segurar, tinha os pés fora dos estribos, e, de repente, deu consigo a cair, os olhos escancarados de surpresa. Atingiu o chão numa aparatosa queda, os ouvidos cheios do riso deliciado e trocista do amigo.

Margaret colocou de lado a sua tapeçaria quando os dois homens entraram. Sorriu e deu as boas-vindas a Baldwin, mas gelou ao ver o marido.

- Simon, o que andaste a fazer? - perguntou ela num tom lamentoso.

- Ele estava a exibir-se, Margaret! - foi a fria contribuição de Baldwin.

- Acabei de sofrer um acidente no pátio - disse Simon, e bocejou.

- Tens de ir mudar de roupa.

Baldwin viu aonde ela queria chegar. Simon estava coberto de lama e palha. Uma velha pilha de lixo e feno tinha-lhe amortecido a queda, mas ele estava prodigamente salpicado de lama vermelha.

- Meg, não posso. Estou exausto. Talvez daqui a pouco, depois de me aquecer um pouco.

Ao ouvir vozes, Jeanne entrou e deixou-se ficar em cima do estrado. Retribuiu o sorriso a Baldwin.

- Estava a perguntar-me se regressaríeis a casa hoje. É muito tarde.

- Tivemos um dia interessante - disse Baldwin, atravessando a sala e pegando-lhe cortesmente na mão para a conduzir até à lareira. Jeanne ouviu enquanto ele explicou tudo o que lhes tinha acontecido.

- Não estamos nada mais perto de descobrir o assassino de God-frey - acrescentou Simon num tom amargo, quando Baldwin terminou.

- Oh, eu não posso ser tão negativo, Simon. Podemos não ter resolvido o homicídio, mas pelo menos parece que resolvemos um roubo sem o saber, e evitámos a vitimação dos leprosos!

Novamente ao portão, Ralph teria rido se tivesse ouvido estas palavras. Segurava na mão um pesado bordão de carvalho, um bordão que ele tinha a certeza que faria um bom serviço, se fosse capaz de atingir alguém com ele. O monge não estava perturbado com a ideia de lutar para defender os seus pacientes. Era o dever natural de um religioso proteger o seu rebanho, quer o homem fosse um bispo que dirigia as pessoas desta cidade, de espada na mão, contra os bárbaros, ou o responsável por uma leprosaria a defender os seus doentes.

- Eles não têm aspecto de quem vai parar, irmão.

Ralph olhou para o lado. Thomas Rodde estava ali, o chapéu inclinado para a testa, à medida que olhava para a frente com os olhos semicerrados, fixando a horda que se aproximava. O leproso usava as suas luvas, e tinha na mão o forte bordão, mas a sua pose era a de um homem idoso, curvado na cintura e nos ombros.

Rodde não era idiota. Contou os homens e desistiu quando chegou a vinte. Tal número de homens fortes e saudáveis podia devastar todo o complexo numa questão de minutos. Havia apenas os poucos leprosos que ali viviam, e, deles, ele e Quivil, mesmo após a provação da noite anterior, eram ainda os mais saudáveis. Rodde sabia que a melhor coisa que tinha a fazer seria correr rapidamente. Tinha poucas forças, mas esta multidão de gente da cidade estava aqui para expulsar os leprosos. Se ele conhecia bem os ingleses, aquela gente não se incomodaria minimamente se tivesse de perseguir a sua presa. O objectivo deles era ver os leprosos longe de Crediton. O que acontecesse depois disso seria problema de outros.

- Irmão, não seria melhor para todos nós se fugíssemos? - sugeriu.

- Fugir daqui? Esta é a nossa casa! É aqui que pertencemos. Como podemos ir? E para onde?

Rodde encarou o olhar dele com determinação. Não estava a sugerir uma fuga de covarde, mas uma retirada sensata em face de uma desvantagem esmagadora.

- Nesse caso, permiti que sugira que mandeis chamar o oficial da autoridade, e também o precentor ou o deão da igreja. Precisamos de toda a ajuda que conseguirmos arranjar.

Baldwin lavou as mãos e recostou-se na sua cadeira. Percorria-o uma deliciosa sensação de calor, sentado aqui em frente da lareira. A presença de convidados persuadira-o a tomar um pouco de vinho forte, que agora lhe corria pelas veias como fogo. Ainda não bebera o suficiente para sentir o efeito soporífero, mas certamente que lhe avivara outros sentidos. Para a sua mente, Jeanne parecia ser arrasadoramente bonita.

De vez em quando, ela olhava na direcção dele. Vê-lo ali sentado tão calmo e satisfeito fê-la sentir-se curiosamente relaxada. Era uma sensação estranha, esta sensação de bem-estar - ela recusara colocar a questão de uma forma mais forte - que ela gozava quando se encontrava perto dele. Baldwin irradiava um ar de estabilidade e dignidade. Era como se, quando ele entrava numa sala, essa sala adquirisse, de súbito, um fresco esplendor, e tudo isso era devido à sua personalidade modesta e gentil.

Jeanne ainda não fazia qualquer ideia do passado dele ao serviço dos Cavaleiros Templários. Não fazia qualquer ideia do seu envolvimento com a Ordem, mas estava ao corrente da raiva latente que se escondia dentro dele, constantemente à procura de injustiças e de opressão. Este lado mais duro do seu carácter emprestava um encanto subtil ao seu comportamento geralmente calmo.

Examinando-o agora, enquanto ele fixava o fogo, os contornos do rosto suavizados pelo brilho das chamas, ela foi tomada por um desejo súbito. Via a confusão em que ele se encontrava, o facto de estar ainda a matutar sobre o homicídio ocorrido na cidade, e isso fê-la querer envolvê-lo num forte abraço e protegê-lo do mundo exterior. Baldwin era vulnerável. Jeanne sabia que o seu ar de fria racionalidade era uma máscara para esconder a sua falta de defesa contra um mundo que apenas compreendia parcialmente e que, na sua maior parte, detestava. Era um homem composto de opostos: era o Defensor da Paz do Rei, e, no entanto, duvidava da culpa absoluta de qualquer homem; era cavaleiro, e, no entanto, sentia-se solidário com os vilãos; era proprietário de terras, e, no entanto, partilhava os lucros da terra com as pessoas que a cultivavam para ele. Em suma, Baldwin era uma curiosa mistura.

Jeanne sentia-se tão atraída para o homem de acção, que ele, sem dúvida, era, assim como para o homem prudente mas generoso e amável que cuidava dos seus camponeses. Não havia como negar o facto de que ele era bem-parecido. Aos olhos de Jeanne, ele era quase perfeito. Até a cicatriz, reminiscência de alguma batalha antiga, que lhe marcava a face era atraente, e como que lembrava que não se tratava de uma gravura mas de um verdadeiro homem de carne e osso. Ela sorriu, e deu consigo mais uma vez a pensar como ela própria encaixaria bem nesta casa, com estes criados, com este homem. Baldwin teria mais dificuldade em adaptar-se do que ela, calculava Jeanne. Ela já fora casada, vivera com um homem; Baldwin nunca casara. Era solteirão, e, com mais de quarenta anos, deve ter os seus próprios hábitos estabelecidos. Mas a ideia não assustava Jeanne. Não era sua vontade fazê-lo mudar - se ela o mudasse, ele não seria o homem que ela desejava. Não, ela queria-o tal como ele era, e se viver com ele implicasse que ela tivesse de alterar um pouco o seu estilo de vida, então que assim fosse.

Sim, pensou. A decisão já estava tomada. Voltaria a ser uma mulher casada.

Simon gemeu e estendeu as pernas. O fogo ardia alegremente, e o manto que tinha sobre as costas impedia que a corrente de ar o incomodasse. Já tirara da cabeça os acontecimentos ocorridos em Crediton, e agora só ansiava por uma boa refeição e pela sua cama. Lançando um olhar à esposa, tentou chamar-lhe a atenção, tentado a sugerir que fossem para o quarto cedo para se dedicarem a algum exercício horizontal e assim estimularem o apetite, mas ela olhava para outro lado, mais precisamente para Baldwin.

De súbito, Margaret virou-se para ele e estendeu a mão. Em silêncio, conduziu-o para fora da sala. Surpreendido, mas de forma alguma contrariado, Simon seguiu-a.

Jeanne sentiu o coração bater apressado quando se apercebeu de que estavam sozinhos. Era óbvio o motivo por que Margaret levara dali o marido, e Jeanne compreendeu que agora, a qualquer momento, Baldwin devia pedir novamente a sua mão. Para sua delícia, embora com um pouco de medo à mistura, ela viu que o cavaleiro reparou nos lugares vazios, encarando-a depois. Baldwin sorriu e ela retribuiu-lhe o sorriso; ele levantou-se e ela imitou-o; ele estendeu as mãos para ela, e ela ergueu as suas antes de caminhar para ele.

E então ouviu-se um latido furioso, um grito, e Edgar entrou a correr.

- Santo Deus! Que diabo se passa desta vez?! - berrou Baldwin.

Jack encontrava-se um pouco à frente dos outros, uma tocha a arder numa mão, uma faca de lâmina comprida na outra. Estava exaltado. Não levara tempo nenhum a ganhar o apoio de Arthur, e, depois de terem falado com alguns outros homens na estalagem, depressa tinham reunido uma pequena multidão. Os homens que tinham recrutado ficaram, sem excepção, horrorizados ao tomarem conhecimento de que uma segunda mulher fora pervertida pelos leprosos. Quanto tempo levaria até que todas as mulheres jovens fossem enredadas?, perguntara Jack retoricamente.

- Saí do caminho, irmão. Todos eles deixaram de ser bem-vindos aqui, queremos que eles se vão embora todos. Não podeis impedir-nos!

Ralph assentou os pés bem firmes no chão e olhou os homens com indignação.

- Quantos sois? Que pessoas corajosas me saístes! Todos vós aqui para expulsar cinco ou seis pessoas doentes. E para onde os enviaríeis? Pô-los-íeis fora daqui para morrerem na charneca? Como pensais que Deus reagiria a isso?

- Deus? - disse Jack com um sorriso trocista. - Deus marcou-os com esta doença - é nosso dever como homens tementes a Deus apoiá-Lo no Seu castigo. Eles não merecem esmolas, merecem a morte!

- Isso é blasfémia! Acreditais que Cristo apoiaria a vitimação destas pobres almas? Ele não salvou Lázaro? Não lavou os pés aos leprosos? Como ousais sugerir que tendes a aprovação de Deus?!

- Basta! Distorceis as minhas palavras, irmão. Afastai-vos, se não nós próprios vos tiraremos do caminho. .

- Não sairei daqui. Estou aqui para defender os meus pobres doentes. Eles sofrem para vos lembrarem do Purgatório futuro, e vós ousais ameaçá-los, e a mim também? Não sairei daqui!

- Nesse caso tiramos-te nós do caminho, monge!

Jack enfiou a faca no cinto e acenou com a cabeça a outro homem.

Ralph estava consciente do murmúrio dos leprosos atrás de si. Um homem soluçava, e, a julgar pelo som, ele tinha a certeza de que se tratava de Quivil: o leproso não devia estar levantado, pensou o monge furiosamente, mas tinha outras coisas com que se preocupar. Os outros falavam num tom baixo e ansioso que mostrava o terror que sentiam. Todos tinham ouvido falar nos assassínios em França. A preocupação deles emprestou força ao monge. Os seus dedos apertaram com força o bordão, e ele ergueu-o como se fosse uma lança.

- Não tenteis entrar! Não vos deixarei passar!

- Tu, padreco? - gritou Jack, a rir. - E como pensas que vais impe-dir-nos? Heim?

De repente, dois homens juntaram-se a Ralph. Um, a fungar, ele reconheceu como sendo Quivil. O outro era Rodde. Ambos empunhavam os seus fortes bordões, e ambos estavam de pé, determinados.

Rodde apontou com o bordão.

- Tu, ferreiro, estás a infringir a lei. Incitaste o povo ao motim, e serás castigado. Qualquer homem que passe o portão quando o responsável pela leprosaria lhe recusou a entrada será preso e castigado. Se algum de vós tentar matar ou ferir algum leproso, terá de responder perante o Defensor da Paz.

- Não podes acusar ninguém de matar um morto.

- Eu respiro, como, bebo, urino, defeco, tal como vós fazeis. Se algum de vós duvida de que estou vivo, podeis discutir o assunto com o Defensor da Paz do Rei e com o Deão da igreja. Mas penso que tereis de ser muito persuasivos para os convencerdes!

Os seus modos e o seu à-vontade fizeram rir alguns homens entre a multidão, e Jack ficou furioso por ser contrariado desta forma.

- És um leproso - gritou. - Não tens direitos. Se pensas que tens, vai para um sítio onde te apoiem. Não ficarás aqui.

- Estou doente, imbecil. Estou a morrer, mas tu também estás. No teu caso, a morte pode vir amanhã, enquanto que a minha será daqui a quatro ou cinco anos, se Deus me poupar, mas ambos acabaremos na terra. E depois? Pergunto-me para onde enviará Deus um homem que incita a cidade ao assassínio.

- Nem sequer és de cá! Por que deveremos nós passar fome para alimentarmos a tua barriga inútil, heim? Vá! Sai da nossa cidade. Não és aqui bem-vindo.

- Ninguém passará este portão - disse Ralph com firmeza. - Estes homens estão aqui sob a minha protecção e sob a protecção da Igreja. Não tendes aqui direitos nenhuns, ferreiro. Ide para casa.

- Sim, vai para casa.

Jack virou-se para se encontrar frente-a-frente com o deão e o Bispo Stapledon.

Peter Clifford estava eriçado de raiva.

- Como te atreves a marchar para aqui, para a terra da Igreja e ameaçar um monge no seu trabalho santo? Como te atreves a incitar a multidão à violência? Este é um comportamento escandaloso até para um idiota como tu. Estás preso, ferreiro. Baixa a faca!

Por cima do ombro do padre, o ferreiro viu que o seu pequeno exército estava a diminuir, à medida que as pessoas se apercebiam de que as consequências de serem descobertos podiam ser terríveis - e caras.

- Temos o direito de ver realizada a vontade de Deus - declarou ele.

- Não aqui, meu filho - disse Stapledon com voz calma. - Sou o teu Bispo. Não tens quaisquer direitos aqui. Isto é um hospital para os doentes e moribundos. Cada ferida que vês nestes homens é-lhes dada pelo próprio Deus para te servir de sinal. As tuas acções desta noite são um insulto a Ele!

- Não acredito em vós! Eles são perversos, já conseguiram convencer duas das nossas mulheres, e não ficarão contentes enquanto não tiverem convencido todas as outras. Não lhes devia ser permitido continuarem aqui, deviam ser expulsos! - gritou Jack, lançando um olhar indignado de um para outro. De súbito, tirou a faca do cinto. Girando, correu para o portão.

- Jack, pára! - gritou Clifford, mas o homem que corria saltou por cima do portão e continuou a sua corrida desenfreada em direcção a Quivil.

O leproso foi tomado pelo choque de ver o ferreiro enlouquecido a dirigir-se a ele. Boquiaberto, ergueu o bordão que tinha na mão e Rodde moveu-se para o ajudar, mas no momento exacto em que Thomas viu o bordão de carvalho apontar para o ferreiro, viu-o cair.

- Edmund, não!

Tudo terminou num instante. Todos os presentes viram o olhar de medo desaparecer para ser substituído por um olhar de gratidão. Todos viram Quivil baixar a sua única arma de defesa, viram o leve sorriso que lhe passou pelo rosto e a expressão de vaga surpresa que se lhe seguiu, à medida que a faca se enterrava no peito dele até ao cabo.

- Não! - gritou Rodde, agitando o bordão, que se abateu sobre a cabeça de Jack, por cima da orelha. O ferreiro tombou para o chão aos pés de Quivil, deixando a adaga enterrada no corpo do leproso.

- Edmund! Como pudeste?

Rodde agarrou-se a Quivil quando este começou a cair.

Edmund sentia-se tonto. De súbito, os joelhos não tinham força suficiente para o segurarem, e ele estava grato por ter os braços do amigo. Sentia Rodde a deixá-lo cair devagar até uma posição de sentado.

- Por que não te defendeste? Podias tê-lo atingido e tê-lo mantido afastado!

Ralph aproximou-se do ferreiro caído. Jack estava estendido de borco, e, quando o monge tentava virá-lo, sentiu uma horrível viscosidade no ombro do homem. Curvando-se, viu que a parte de trás da cabeça dele estava esmagada, e Ralph soltou um gemido rouco pelo acto de Jack, antes de murmurar uma rápida oração.

Levantou-se e colocou uma mão no ombro do leproso que chorava. O chapéu de Rodde caíra-lhe da cabeça, e o cabelo desgrenhado pendia-lhe, solto, obscurecendo-lhe o rosto. Suavemente, o monge afastou as mãos de Rodde e baixou Quivil para o chão antes de fechar os olhos que já não viam.

Baldwin saiu a correr com o criado, deixando Jeanne na sala, silenciosamente irritada. No exterior, perto da cozinha, ele encontrou Emma, a soluçar histericamente e a segurar no braço.

- Foi o cão, o vosso maldito cão! Deveríeis tê-lo morto quando eu disse; deveríeis tê-lo morto. Está louco! Olhai para mim, olhai para a minha pobre mão, e tudo porque eu estava a tentar afagá-lo!

- Edgar, o que aconteceu?

O criado abanou a cabeça tristemente.

- Lamento, senhor, mas ela diz que Uther foi atrás dela. Ela tentava tratá-lo bem, e quando ia afagá-lo, ele mordeu-lhe.

Baldwin olhou-a cepticamente.

- Onde é que ele vos mordeu?

- Aqui! Olhai! - lamuriou-se ela, estendendo a mão.

À luz da Lua, Baldwin viu, no pulso da criada, as marcas dos dentes. O sangue escorria de dois arranhões no local em que os caninos tinham cortado a pele, mas não eram as feridas profundas de um braço mordido - não eram piores do que aquelas que o próprio Baldwin recebera quando lutava com o cão. Dentes como os de Uther fariam muito mais estragos do que aqueles.

- É só isso?

- Só? De que mais provas precisais, seu anormal?! Aquele cão é mau, é um bruto. O que quereis dizer ao perguntardes se é só isso? De que mais precisais? De um cadáver?

O cavaleiro olhava-a com frustração. De que ela estava assustada, ele não duvidava, mas dizer que Uther era de alguma forma feroz era ridículo.

- Olhai, Emma, talvez devêssemos entrar e tratar das vossas feridas.

- Porquê, para poderdes tentar convencer-me de que imaginei tudo isto? Olhai, sangue! O cão tem de ser morto. Agora!

- Onde está ele? Edgar respondeu.

- Hugh levou-o de volta para o vosso quarto, senhor.

- Sir Baldwin!

- O que é agora? Oh, desculpa, Hugh. Em que posso ajudar-te? Em resposta, Hugh não disse nada, mas passou por Emma em direcção a um arbusto junto à parede. Ficou a olhar por um momento, depois estendeu a mão e tirou de lá um pau comprido. Passando-o a Baldwin, o criado ficou de braços cruzados a olhar Emma.

O cavaleiro examinou o pau e olhou desesperado para o impassível criado.

- E então?

- Foi por isso que Uther lhe mordeu. Ela não parava de lhe bater com ele. Eu vi-a da janela.

Uma extremidade do pau fora afiada até ficar pontiaguda. Baldwin testou-a no dedo enquanto observava a criada. - É verdade? - O cão atacou-me. Está louco e é mau.

- É verdade que lhe batestes?

- Responde, Emma.

Baldwin virou-se para encontrar Jeanne a seu lado. Observava a criada com uma expressão de desprezo.

- Fizeste com que o cão tentasse morder-te?

- Não, eu só tinha o pau para me defender. Baldwin quebrou o pau ao meio e atirou-o fora.

- Aquele cão é menos cruel do que a maior parte das pessoas, e tentastes bater-lhe até que ele traísse a sua natureza. Fizeste-lo para que ele parecesse perigoso e assim fazerdes com que ele fosse morto. Sois menos humana do que ele.

- Emma, estás liberta do meu serviço. Não te darei um lar quando regressar a Liddinstone. Tens de encontrar outro lugar para viver - disse Jeanne com frieza, girando em seguida sobre os calcanhares e voltando a entrar no salão. Baldwin seguiu-a.

- Minha senhora, lamento se o meu cão foi a causa de terdes perdido a vossa criada.

- Acreditais que eu poderia querer que mandásseis matar o vosso melhor cão por causa de uma mulher idiota que o trata mal?

- Não, é claro que não. E penso que também não a poderia suportar a viver comigo.

Jeanne lançou-lhe um olhar surpreendido. Baldwin sorria amplamente, e a sua felicidade era uma mistura de satisfação perante o afastamento do obstáculo do seu caminho, e da confiança reconquistada. Agora ele tinha a certeza de qual seria a resposta dela. Estendeu novamente as mãos para ela.

- Vinde, penso que estávamos prestes a falar de uma coisa importante, quando a vossa criada nos interrompeu.

- Sim, Baldwin? - disse ela, e caminhou para os braços dele. Fora uma ideia infeliz a que Hugh tivera de libertar Uther da sua reclusão. Ainda mais, porque Utherse sentiu excluído quando viu o dono a beijar e a abraçar Jeanne. Assim, não foi de admirar que ele tivesse saltado para eles, embora tivesse ficado surpreendido pela forma como o dono lhe gritou.

Simon e a mulher não sabiam nada da cena. Lá em cima, no seu quarto, Simon atirou uma túnica a Margaret. Ela ainda estava nua na cama, passando languidamente as mãos pelo seu comprido cabelo louro.

- Devias vestir-te - disse-lhe ele com um sorriso.

- Foste tu que atrasaste o processo - respondeu ela, estendendo a túnica de veludo verde a seu lado, no local onde ele estivera deitado apenas uns momentos antes.

- Se não tivesses decidido atacar-me assim que aqui entrámos, eu já estaria pronta por esta altura.

- As minhas desculpas, senhora. De futuro, deixar-vos-ei vestir sozinha.

- Não me parece - disse ela, ao mesmo tempo que soltava um riso abafado. Em seguida levantou-se do colchão e enfiou uma camisa pela cabeça. Simon observava-a enquanto ela se vestia, sorrindo para si próprio. Quando Margaret estava pronta, e ele tinha vestido as calças, a camisa e a túnica, Simon estendeu a mão e saíram juntos do quarto.

Simon estava cheio de expectativas. Sabia muito bem o quanto Baldwin queria uma esposa, uma mulher que pudesse confortá-lo e dar-lhe filhos, e o amigo escolhera a viúva. Tudo o que Simon esperava era que ela o aceitasse e fosse a senhora por que ele ansiava.

Desceu até ao guarda-vento. O corredor estava fechado por cortinas. Margaret parou, e apertou com mais força a mão do marido.

- Achas que eles se entenderam?

- Está nas mãos de ambos.

Ele sorriu, mas ela viu a sua confusão: Simon queria entrar e ouvir boas notícias, mas não tinha a certeza de que era isso que iria acontecer.

- Entra, meu amor - murmurou Margaret, a boca ao ouvido dele. - A expectativa está a matar-me.

Com um movimento resoluto, Simon afastou a cortina para o lado e entraram. Jeanne estava sentada em frente da lareira. Baldwin não se via em lado nenhum. Jeanne levantou-se elegantemente, à medida que eles se aproximavam.

- Penso que Baldwin vai estar de volta daqui a pouco.

- Ele deixou-vos aqui? - perguntou Simon.

Jeanne captou o tom de interrogação da voz dele, e a sua sobrancelha ergueu-se.

- O cão dele entrou aqui e saltou para cima de nós - disse ela, e levantou o braço. Ali, por baixo do braço/dela, viam-se duas enormes marcas de patas enlameadas. - Baldwin está a tratar dele.

Simon abanou a cabeça. Queria dizer que o amigo fracassara. Mal ele tentava convencer Jeanne a casar com ele, o maldito cão arruinava tudo outra vez.

- Uther fez com que Emma deixasse de estar ao meu serviço - continuou Jeanne, sentando-se. - Receio que Baldwin estivesse bastante zangado com o cão. Não consigo imaginar porquê.

As palavras dela fizeram Simon cerrar os dentes. Jeanne estava a ser tão fria e insensível, no entanto Simon estava convencido de que ela sabia perfeitamente que Baldwin a queria para sua esposa, e também já devia ter-se apercebido de que ele adorava os seus cães - especialmente Chopsie.

- É uma pena - disse ele calmamente. - Espero que Baldwin não tenha nenhuma atitude precipitada para com Uther.

- "Precipitada"? Oh, não me parece que o tratamento que ele deu ao animal tivesse sido precipitado.

Nesse preciso momento ouviu-se um bater de palmas vindo de detrás deles. Simon virou-se para ver o amigo entrar, limpando as mãos a uma toalha como se estivessem sujas de terra - ou, pensou Simon, de sangue.

- Simon! Margaret! Estais prontos para comer?

O beleguim não pôde deixar de olhar para Jeanne. Baldwin viu o olhar e ergueu as sobrancelhas. Ela retribuiu-lhe o olhar, escancarando os olhos inocentemente.

- Eu disse-lhes que estavas a tratar de Uther - disse ela. - Já está resolvido?

- Baldwin, não o mandaste matar, pois não? - perguntou Margaret.

- Não - disse Baldwin.

- Mas... nesse caso, o que estiveste a fazer? - gaguejou Simon. O cavaleiro soltou uma sonora gargalhada.

- Não o quero a saltar para cima de mim enquanto estou a festejar! Simon, Margaret, apresento-vos a senhora que vai ser minha esposa! Jeanne de Liddinstone aceitou-me, na condição de eu manter o animal afastado dela enquanto ela estiver a usar a sua melhor túnica!

 

A meio da manhã, Simon e o animado cavaleiro seguiram a cavalo para Crediton. Foram directamente para o gabinete do deão, e foi aqui que tomaram conhecimento daquilo que quase foi um motim. Baldwin insistiu imediatamente em que se dirigissem à leprosaria para assegurarem que tudo estava bem agora. Encontraram Ralph a deambular taciturnamente sobre a área de relvado.

- Irmão Ralph, vim para vos oferecer as minhas desculpas por ontem à noite.

- Sir Baldwin, é muita generosidade da vossa parte. E também estou contente por vos ver, Simon. Sim, foi um choque horrível.

- E dois mortos?

- Sim. Edmund Quivil morreu imediatamente. Não voltou mais a falar. O outro, o ferreiro, também morreu pouco depois. Ficou com o crânio esmagado quando outro leproso tentava impedi-lo de matar o pobre Edmund.

- Terei de ir visitar os pais de Edmund - murmurou Baldwin, abanando a cabeça. - Mas foi uma perda ridícula. Se ao menos Jack tivesse sido sensato.

- Quereis ver os corpos?

- Onde estão?

- Tenho-os na capela. Pensei que podiam esperar lá até que o magistrado principal os possa examinar. Não os queremos ao ar livre a apodrecer.

- Sim, tendes razão.

Ele e Simon examinaram os cadáveres. O cavaleiro ficou chocado ao ver quanto Quivil emagrecera.

- Perdeu o apetite assim que lhe foi diagnosticada a doença, e perdeu peso enquanto aqui esteve - explicou Ralph.

- E dizeis que o outro homem que morreu* ficou com a cabeça esmagada?

- Sim, o amigo de Quivil, Thomas Rodde, tentou salvá-lo, mas o golpe já tinha sido desferido.

- Cheguei tarde de mais.

Baldwin virou-se para ver Rodde aproximar-se. Embora esta fosse a capela dos leprosos, Rodde obedecia às regras, permanecendo a cerca de três metros de distância dos outros, olhando tristemente o corpo frio.

- Ele podia ter-se defendido, se tivesse querido.

- Ele ofereceu a outra face, Thomas - disse o monge calmamente. - Comportou-se como um bom cristão devia comportar-se.

- Mas não precisava de fazê-lo.

- Penso que ele tinha perdido a vontade de viver. Tiraram-lhe tudo o que ele considerava mais querido.

- Sim. Até a mulher que ele tinha escolhido vai ser freira.

- Mary optou por esse caminho - assinalou Ralph com voz calma.

- E não permitis que a minha mulher entre para estar comigo?

- A tua mulher? - perguntou Baldwin. Ralph acenou com a cabeça.

- Este homem é o marido da mulher que conheceis pelo nome de Cecily.

Simon soltou um suspiro.

- Então era contigo que ela estava a falar na noite em que o pai foi assassinado!

Thomas Rodde esboçou um leve sorriso.

- Parece que sabeis muito de mim, senhor. Mas sim, eu estava lá.

- Vamos lá para fora para falarmos - disse Baldwin. - Temos muita coisa para te perguntar.

Saíram para a brilhante mas fria luz do Sol, e deixaram-se ficar junto ao portão onde duas pessoas tinham morrido na noite anterior. Rodde abanou a cabeça quando o seu olhar captou uma mancha vermelha acastanhada na relva.

- Ele era para ti um bom amigo? - perguntou Baldwin, reparando na expressão do outro homem.

- Sim. Trouxeram-no para aqui no dia em que eu cheguei. Nessa noite, ele foi atacado por dois doentes, e eu salvei-o. A partir desse momento, ficou meu amigo.

- Não admira que ele tenha decidido deixar que Jack o matasse, então - disse Simon. - Se o pobrezinho era aqui perseguido pelos seus iguais, e ameaçado lá fora pelas pessoas da cidade.

- Pois não - concordou Rodde. - No entanto, quem me dera que ele tivesse deixado que a doença seguisse o seu curso. Ele não precisava de morrer. Podia ter tido muita alegria nos anos futuros. Eu ter-lhe-ia mostrado como.

- E tu, há muitos anos que és doente? - perguntou Baldwin.

- Sim, meu senhor. Contraí a doença quando tinha quase vinte anos. O meu pai era ourives em Londres e vivíamos perto de Godfrey e da minha esposa. - Havia um certo tom de provocação na sua voz, como se desafiasse Baldwin a negar que ele, um leproso, podia, ainda assim, ser casado. Não vendo qualquer contestação nos olhos do cavaleiro, continuou: - Crescemos juntos, pois vivíamos quase ao lado um do outro. Era muito natural que nos casássemos.

- Que género de homem era Godfrey?

- Ele? - Rodde encheu as faces de ar enquanto pensava. - Naquele tempo era um homem bom e generoso. Só mais recentemente é que mudou, pelo menos é o que me parece. Assim que eu fui denunciado por isto - acenou com a mão para o rosto -, Godfrey ficou bastante histérico. A mulher dele, a mãe de Cecily, ficou horrorizada, e penso que enlouqueceu. Foi por isso que foi atropelada por uma carroça e morreu. Isso, penso eu, foi o que fez com que Godfrey mudasse. Até aí, ele tentara ajudar-me e ajudar Cecily. Tinha-me arranjado um bom lugar num hospital de leprosos, e dava para lá esmolas e dinheiro, e deixava que Cecily me fosse visitar. Mas quando a mulher morreu, tornou-se amargo. Culpava-me pela morte da mulher, e, por extensão, culpava também Cecily.

- Foi por isso que ele veio para aqui?

- Não. Eu vi o efeito que ele estava a ter sobre a minha mulher, e, em vez de lhe arruinar a vida, convenci o responsável pela leprosaria a libertar-me, e dirigi-me para Norte. Queria deixá-la para que ela arranjasse outro homem. Cecily não o faria enquanto eu ainda lá vivesse, mas eu tinha a certeza de que, uma vez que eu me fosse embora, ela encontraria outra pessoa. Algum tempo depois de ter partido, o que foi há uns bons nove anos atrás, Godfrèy trouxe Cecily para aqui.

- Por que veio ele para aqui? É um lugar estranho para um ourives de Londres escolher para viver.

- Cecily não me esquecia. É uma mulher fiel. Quando eu parti, ele culpava Cecily ainda mais pela morte da mãe. Penso que ele precisava de alguém a quem atirar a responsabilidade, e ela era um alvo fácil: ela é que decidiu casar comigo, e, assim, estava pelo menos parcialmente envolvida na morte da mãe. Cecily queria ficar em Londres, perto das recordações da nossa vida juntos, e penso que foi para a castigar que Godfrey decidiu mudar-se. Disse que queria levá-la para longe da doença e da corrupção da cidade, mas eu não acredito. Reparai, pode ser que ele também estivesse nervoso com a hipótese de eu regressar. Ele não tinha qualquer desejo de ser novamente confrontado comigo.

- E regressaste, de facto.

- Não era minha intenção. Passei muitos anos a viver no Norte, e detestei cada momento. Estava frio, e a chuva gelada encharcava-me até à alma, mas mesmo isso não me teria feito regressar ao Sul, onde podia perturbar a minha Cecily. Não, foi a incursão armada. Os escoceses prepararam mais um dos seus ataques periódicos e passaram a fronteira em torrentes. A minha leprosaria encontrava-se, por acaso, no caminho deles. O padre e eu tivemos sorte, pois não estávamos lá na altura - costumávamos caminhar a pé quando podíamos - e quando regressámos, o sítio estava arrasado. Tudo o que restava era fumo e cinza.

- Por isso vieste para aqui?

- Não, de início não. Regressei a casa, a Londres. Lá descobri que Godfrey e a filha tinham partido. Um homem da cidade disse-me que tinham vindo para este lado, embora ele pensasse que tinha sido para Exeter.

- E encontraste-os aqui?

- Por acaso, sim. Enquanto estava em Exeter, vagueava pelas ruas dos ourives e ouvi a conversa de alguns homens. Estavam de facto a discutir os empréstimos concedidos a Coffyn, mas um deles mencionou Godfrey. Quando alguém falou de um ourives reformado, de Londres, que tinha uma filha bonita, e cujo nome era Godfrey, não foi difícil adivinhar que a minha busca tinha chegado ao fim.

- E que pretendias? - perguntou Simon de rompante. - Pretendias prender a tua esposa aos seus votos e forçá-la a ir contigo?

Rodde olhou-o com um ar carrancudo.

- Pareço assim tão insensível? Vós, um homem saudável, podeis dar-vos ao luxo de serdes arrogante, mas se amásseis a vossa esposa como eu amo a minha, saberíeis que fazê-la descer ao meu nível seria o acto mais animalesco! Não, eu não queria levá-la, embora, se eu tivesse querido, teria estado no meu direito. Tudo o que eu queria fazer era vê-la e assegurar-me de que ela estava bem. Nunca pretendi que ela me visse, pois sabia que isso a perturbaria, mas quis, de facto, voltar a vê-la, só uma vez, antes de morrer. Está errado amar uma mulher assim tanto?

- Claro que não - disse Baldwin, apaziguador. - Mas ela viu-te mesmo, não viu?

- Fui um idiota. Mal tinha chegado aqui, quando a vi. Ela não me reconheceu, como podia reconhecer-me, quando eu usava todas estas coisas? Mas, um dia, ela aproximou-se para me dar dinheiro. Tentei esconder o meu rosto dela, mas ela reconheceu-me, não sei como, e deu-me tudo o que tinha na bolsa. Disse-me que fosse visitá-la. Não podíamos falar na rua, mas ela prometeu fazer com que todos os criados estivessem fora de casa a determinada hora para podermos conversar.

- E Godfrey também, é claro.

- Sim. Cecily confiava em Alison, mas em mais nenhum dos outros. Qualquer um deles pode ter contado a Godfrey.

- Incluindo Putthe? Thomas Rodde sorriu.

- Cecily sabia que ele contaria a Godfrey, por isso decidiu assegurar-se de que ele estaria ocupado.

- E ela tinha a certeza de que poderia arranjar maneira de o pai não estar em casa?

- Cecily não tinha de fazer nada. Ela sabia que, sempre que Matthew Coffyn se ausentava, o pai costumava visitar a senhora Coffyn. Tudo o que eu tive de fazer foi descobrir quando era a próxima viagem de Matthew. Godfrey não perderia a sua oportunidade de visitar Martha. Eu concordei em visitar Cecily assim que Coffyn fosse a próxima vez de viagem.

- E isso foi na noite em que Godfrey morreu?

- Sim, senhor. Eu estava do lado de fora da janela, mas Cecily estava convencida de que tínhamos muito tempo, e pediu-me que entrasse. Ela tinha-se livrado de todos os criados, e não havia hipótese de sermos vistos juntos. Quivil estava comigo, e ela pediu-lhe que entrasse também. Bem, estávamos lá havia apenas alguns minutos, quando ouvimos barulho vindo da casa de Coffyn. Suponho que estávamos demasiado ocupados com os nossos próprios pensamentos e não relacionámos o barulho com Godfrey, mas, de súbito, lá estava ele, alegre, rindo alto para si próprio. Viu-me e estacou,boquiaberto. Edmund tinha-se escondido atrás da porta, e Godfrey não o viu.

"Soltou um grito rouco, agarrou Cecily e deu-lhe um soco no rosto. Eu fiquei furioso, e ia atacá-lo. Godfrey levantou a mão, perguntou-me se eu estava a tentar destruí-la também a ela, ou coisa parecida. Edmund pensou que ele ia atacar-me, por isso...

- Edmund agrediu-o com o bordão, tal como tu agrediste Jack, o ferreiro, ontem à noite.

- Sim. Depois ouviram-se passos e Putthe entrou. Viu o amo e a senhora e deixou escapar um grito. Edmund não sabia que fazer, estava em pânico, por isso agrediu e deitou ao chão também Putthe.

- E depois?

- Bem, certifiquei-me de que Cecily estava bem; ela era tudo o que importava. Tinha o rosto ensanguentado, mas, para além disso, parecia estar bem. Eu estava com ela junto à janela, nem sequer olhei bem para Godfrey. Por que deveria fazê-lo, depois do que ele fez à minha mulher? De qualquer maneira, pensei que ele estava simplesmente inconsciente. Foi Cecily que nos disse para fugirmos. Saímos rapidamente pela janela, porque já ouvíamos barulho vindo do jardim, à medida que os homens de Coffyn procuravam Godfrey. Só no dia seguinte é que soubemos que ele estava morto.

"Uma vez na rua, afastámo-nos à pressa, mas, pouco depois, ouvimos passos atrás de nós. Não sabíamos quem poderia ser, e, depois do que tinha acontecido, não queríamos ser apanhados na propriedade de Godfrey, por isso escondemo-nos, não muito longe do muro de John. Bem, era nada mais nada menos do que John, e viu-nos, suponho. Estava tão assustado como nós, porque voltou a correr em direcção à casa de Cecily. Eu já ouvira falar bastante dele para duvidar deste irlandês, e, ao pensar na pobre Cecily sozinha, só com a criada para a proteger, fui atrás dele. Quando me dirigi à janela, vi-o ao lado de Cecily, a certificar-se de que ela estava bem, enquanto Alison se encontrava junto deles. Era óbvio que John não estava de modo algum a ameaçar as mulheres. Isso bastava-me, e deixei a casa. Fui buscar Edmund e caminhámos até às traseiras do jardim - há lá uma secção do muro que é fácil de subir, desde que se saiba que ela lá está. Regressámos à rua e à leprosaria.

- E a prata? - perguntou Simon. - Sabemos que desapareceu na noite em que Godfrey morreu, mas voltou a aparecer mais tarde.

- Sobre isso tereis de falar com a minha mulher - Rodde sorriu.

- Quer dizer que temos andado à procura de um assassino, quando, na realidade, foi um acidente - disse Baldwin, meditativo.

- Edmund não tinha intenção de o matar; o rapaz não era nenhum assassino. Quando ele soube que Godfrey estava morto, ficou tão horrorizado quanto eu.

- Compreendo. Bem, quero saber o que aconteceu à baixela, por isso vou visitar a tua esposa agora, mas agradeço-te a franqueza.

- Não há qualquer razão para proteger Edmund agora, pois não? - disse Rodde tristemente. - Ele já partiu para um tribunal superior ao vosso, Defensor.

- Humm. Só mais uma pergunta rápida, há quanto tempo dizes que tens lepra?

O homem, surpreendido, respondeu-lhe, e Baldwin acenou com a cabeça, mas com uma expressão de perplexidade.

Cecily estava sentada no seu pequeno solar e olhou o cavaleiro com desconfiança, quando os dois homens entraram.

- O que quereis desta vez? Quantas vezes tendes de me importunar?

- Senhora, peço perdão se estamos a incomodar-vos, mas estivemos a falar com o vosso marido e ele sugeriu que nos poderíeis ajudar num último ponto.

- Thomas contou-vos tudo? - perguntou ela, os olhos redondos de surpresa.

Baldwin apercebeu-se de que ela não sabia das duas mortes ocorridas na noite anterior. O cavaleiro explicou-lhe o que acontecera, e disse-lhe que sabia que Quivil tinha morto o pai dela.

Em resposta, os olhos dela marejaram-se de lágrimas, e ela virou as costas aos dois homens. Depois de ter fungado e de ter limpo o rosto, ela exclamou:

- É um enorme alívio! Oh, meu Deus! É como se eu tivesse sido libertada de uma maldição: incapaz de admitir o que sabia, ter de esconder o homem que matou o meu pai, tentar manter a calma para proteger o meu marido! Talvez seja estranho o facto de eu estar contente por saber que Edmund está morto, bem, não estou feliz por ele ter morrido. Mas é maravilhoso saber que, finalmente, posso dizer a verdade.

Afundou-se na sua cadeira como se estivesse exausta, fechando os olhos por um momento. Depois de ter recuperado um pouco, com a ajuda de um forte gole de vinho que lhe foi dado pela criada, Cecily começou a falar, e a sua história era idêntica à de Rodde.

- Foi um choque terrível vê-lo aqui depois de uma separação tão longa - confessou ela. - Eu já quase supunha o pior, que a doença tinha tomado conta dele, ou mesmo que ele tinha morrido. Vê-lo em Crediton foi como ver um homem que se tinha levantado dos mortos.

- Estáveis consciente quando os dois saíram?

- Sim. E, graças a Deus, pude salvar a nossa baixela.

- Era exactamente isso que eu queria saber - disse Baldwin, a sorrir.

- Reparastes que tinha desaparecido, não é verdade? Fostes muito perspicaz ao reparar nisso. Bem, não foi roubada. Tudo o que aconteceu foi o seguinte: quando Thomas e Edmund se foram embora, a minha criada desceu e entrou na sala. Gritou assim que nos viu a todos estendidos no chão. Chamei-a e disse-lhe que estava bem, mas, enquanto falávamos, John entrou a toda a velocidade.

- O que estava ele lá a fazer?

- A visitar a minha criada.

- Então era ela a mulher que John de Irelaunde visitava! Isso explica muita coisa!

- Eles vinham-se a encontrar com regularidade havia algumas semanas. Eu não via mal nenhum nisso, por isso não os impedi. John convenceu-me de que não estava simplesmente a aproveitar-se de uma rapariga jovem e impressionável.

- Quer dizer que, nesse serão, John entrou a correr, a pensar que havia algo de errado com a namorada.

- Sim. Não me parece que ele estivesse ansioso por minha causa! Ele entrou, e foi directamente ter com Alison. Mas, quando me viu, veio ao pé de mim. Eu disse-lhe que colocasse num saco o máximo de peças de baixela que pudesse.

- Porquê?

- O meu pai estava caído; eu estava ferida, embora não com gravidade; Putthe estava inconsciente e todos os outros criados estavam ausentes. Não havia ninguém que protegesse a nossa prata, a melhor de Crediton, mais valiosa do que a baixela da Catedral de Exeter! E sabeis tão bem quanto eu a quantidade de assaltantes que há por aí - homens que arrombariam uma porta por um pão, quanto mais quando se trata de uma fortuna em prata!

- Se tivésseis pedido a John que ficasse lá, ele poderia ter cuidado dela por vós.

- Eu não podia fazer tal coisa! Conheceis a reputação que John tem na cidade. Ele é visto como um intrujão e um ladrão, como é que as pessoas reagiriam ao encontrá-lo em minha casa com dois homens no chão, inconscientes, e eu, fraca, com a boca ensanguentada?

- Poderíeis tê-lo defendido - disse Baldwin sensatamente.

- Sir Baldwin, eu sentia-me pessimamente: enjoada, fraca, com uma tremenda dor de cabeça. Encontrava-me num terrível estado de choque e necessitava da minha cama. Se subisse e as pessoas entrassem e encontrassem John, ele seria posto na rua antes que alguém se desse ao incómodo de falar comigo. E enquanto ele não estava lá, qualquer pessoa poderia ter entrado e levado toda a baixela. Não, achei melhor que os artigos mais valiosos fossem escondidos até que eu soubesse que eles podiam estar protegidos.

- Quer dizer que John embrulhou a baixela numa trouxa e foi para casa?

- De início, não. Eu só lhe pedi que a colocasse toda num saco e que a levasse lá para cima, para o meu quarto, mas, nessa altura, ouvimos Coffyn e os seus homens a aproximarem-se.

Baldwin fechou os olhos.

- Deixai-me esclarecer uma coisa - disse ele. - O vosso pai gritou, e foi agredido e derrubado, depois Putthe entrou a correr, e, no fim, John chegou. John nunca ficou aqui sozinho?

- Não. Eu estive sempre aqui. Sentia-me demasiado fraca para me levantar.

- Sabemos que o vosso pai regressou para casa por causa da chegada dos homens de Coffyn. Assim, durante o tempo que Godfrey levou a regressar e a ser agredido, durante o tempo que John levou a entrar e a encontrar-vos, durante todo esse tempo, Coffyn e os seus homens andaram a correr de um lado para o outro, a abrir todos os armários e à procura no jardim. Quando terminaram é que vieram para aqui.

- É isso. Assim que lhes ouvimos os passos a aproximarem-se da porta, eu disse a John que se fosse embora, não fosse ele acabar por ser ferido. Ele não tinha a certeza se devia ir, pois não estava nada descansado por nos deixar sozinhas, mas nós insistimos, e ainda bem que ele foi. Pedi-lhe que levasse a prata com ele, e ele aceitou. Entretanto, mandei sair a minha criada e disse-lhe que escutasse à porta.

- Mas porquê? Estáveis quase a ficar em segurança, com Coffyn aqui.

Cecily lançou-lhe um olhar meio embaraçado.

- Poderia até ser, mas, na altura, tudo o que eu sabia era que vinha a caminho um homem desesperado por dinheiro, que tinha pedido dinheiro emprestado ao meu pai. O que faria ele quando encontrasse toda a baixela da casa sem qualquer protecção?

- Pensastes que Coffyn poderia ter tentado roubá-la?

- Ele precisa de dinheiro.

- Mas tanto quanto sabíeis, o vosso pai estava apenas inconsciente, e Putthe poderia ter acordado a qualquer momento. Por que vos roubaria Coffyn?

- Sir Baldwin, eu tinha reparado que, cada vez que Coffyn aqui vinha, olhava sempre a baixela com avidez. Ora, se alguém estivesse aflito por dinheiro e entrasse numa sala em que o dono da casa e o criado estivessem inconscientes no chão, não vos perguntaríeis o que essa pessoa poderia fazer? Na verdade, quando ele entrou na sala, eu vi o olhar dele voar em direcção ao armário. Não levou muito tempo a ver que a baixela tinha desaparecido. Só então é que se aproximou de mim para ver como eu estava. Chamou a minha criada e ordenou ao criado que a ajudasse a levar-me para cima. Quando me encontrava no meu quarto é que ele mandou chamar Tanner.

Simon franzia o sobrolho, confuso.

- Mas tudo o que ouvimos sugere que Coffyn agora é rico. Pensei que os problemas dele de dinheiro tinham acabado.

- Acabado? - Cecily riu. - Não, Matthew Coffyn devia ao meu pai uma pequena fortuna. Oh, ele pode ter conseguido manter o seu estilo de vida, mas só com a ajuda do meu pai. Não sei o que ele vai fazer agora.

- Quando é que John trouxe toda a baixela de volta? - perguntou Baldwin.

- Na noite em que foi atacado. Estava a regressar a casa depois de ter entregue a baixela, quando foi agredido, o pobre diabo!

Simon acenou com a cabeça.

- E a ferradura? Pedistes a Jack que cá viesse porque não queríeis que um homem que odeia tanto os leprosos visse Thomas na rua?

- Exactamente - como adivinhastes? Jack odiava ver leprosos. A última coisa que eu queria era que Thomas fosse atacado, ou que se espalhassem rumores de que ele viera cá. Qualquer uma das coisas seria um desastre. Ao mesmo tempo, isso permitia-me assegurar que Putthe estava também fora do caminho.

- E Putthe? - perguntou Baldwin. - Ele parece ter estado confuso o tempo todo. Na noite em que o vosso pai morreu, ele insinuou que John deveria ter roubado a baixela, depois que o ferreiro estava envolvido, isso foi porque lhe dissestes que nos confundisse?

- Por vezes, Putthe é um idiota. Não vos esqueçais de que ele não sabia em absoluto que a baixela fora dada a John para que a protegesse. Tudo o que ele sabia era que eu estava a encontrar-me com alguém, e depois reparou na presença de John no pátio, imediatamente antes de nos ter visto no salão. Ele conhecia a reputação de John - quem não conhece? - e, quando lhe dissestes que a baixela desaparecera, tirou a conclusão errada.

- Mas, da segunda vez, ele insinuou mais ou menos que o ferreiro devia ser o culpado.

- Nessa altura ele já sabia que John tinha levado a baixela e que cuidara dela. Também já tinha sido repreendido por Alison, que deixou bem claro o motivo por que John vinha de visita. Putthe ficou confuso. Conhecia Jack e não confiava nele. Quem mais é que ele haveria de pensar que fosse culpado?

- Estou a ver - disse Baldwin, e levantou-se. - E agora, penso que devemos deixar-vos sozinha. Devíeis estar a descansar após tanta excitação.

Ela sorriu melancolicamente.

- Sim, tem sido uma altura louca. Primeiro, voltar a ver o meu marido, depois o meu pai a morrer às mãos do pobre Quivil. Toda a minha vida parece ter mudado numa questão de dias. Mas não posso deixar que Thomas desapareça outra vez.

- Ele pode decidir ir-se embora para vos deixar começar uma vida nova - assinalou Simon.

- Não posso deixá-lo fazer isso. Quem mais estará na disposição de cuidar dele?

- De facto - disse Baldwin, mas disse-o com um ar distraído, e evitou o olhar dela.

 

Na rua, Baldwin virou a sua montada na direcção da casa do deão. Aí, o cavaleiro e o amigo dirigiram-se ao quarto de John. O carroceiro ficou bastante feliz ao confirmar os verdadeiros acontecimentos ocorridos na noite da morte de Godfrey, mas Simon reparou mais uma vez que Baldwin parecia estar a ouvir apenas com um ouvido. A sua atenção estava noutro lugar.

Para Simon, isso não era admiração. Baldwin estava noivo, e o cavaleiro tinha muito em que pensar. O beleguim só sabia que era um alívio Emma não poder envenenar o casamento. Algumas mulheres estavam tão apegadas às criadas que a possibilidade de ficarem em elas era intolerável. O próprio Simon se sentia assim em relação ao seu criado, Hugh. O homem era taciturno, sombrio e melancólico. Era lento e, muitas vezes, nada eficiente. No entanto, fazia parte da casa de Simon, e a vida sem ele era impensável.

Mas era também bastante óbvio que um homem como Baldwin, que estimava os seus cães acima de tudo o resto, detestaria ver alguém que tentara incitar o seu cão preferido a atacar, simplesmente para que o animal fosse destruído. Simon abanou a cabeça. Era-lhe difícil entender, porque ele sempre sentira que os cães eram como qualquer outro animal - não gostava de os ver serem agredidos ou apedrejados na rua, mesmo se os sarnentos e pulguentos tivessem de ser mortos -, mas não eram algo de que se gostasse particularmente; eram apenas guardas, e ganhavam de comer e beber ao protegerem o dono. O beleguim nunca teria colocado em risco a mão da sua esposa por causa de um maldito cão!

- Antes de me acusardes de fornicação, Sir Baldwin, devo dizermos que Alison já concordou em casar comigo.

- É bom saber isso - disse Baldwin. - Especialmente porque estou a par dos maus momentos que passaste na Irlanda. - Isso foi há muito tempo. Está na hora de eu voltar a ter uma vida.

- Uma coisa que ainda não compreendo é por que nos disseste que havia dois homens no jardim de Godfrey, e que eles te tinham feito regressar à casa - Baldwin franziu o sobrolho enquanto se sentava, juntamente com Simon, num banco junto à cama do irlandês.

John sorriu.

- Na altura eu sabia muito pouco. Alison não me tinha contado nada sobre o marido da sua senhora, por isso eu disse-vos simplesmente a verdade. Não me tinha apercebido de que a senhora Cecily quereria proteger os homens que tinham assassinado o pai, por que deveria eu ter-me apercebido? Eu só sabia que alguém tinha atacado a casa e, tanto quanto eu sabia, os dois homens que se encontravam cá fora, junto ao meu muro, poderiam ter sido os assassinos.

- Isso resolve todo o assunto - disse Baldwin.

- Só espero que o assunto desta perna fique resolvido tão depressa quanto o vosso mistério, Sir Baldwin - murmurou John com ar sombrio.

- Estes monges são os melhores do reino - disse Baldwin, sorridente. - E tens uma vida nova à tua espera. Tenho a certeza de que a tua futura mulher te visitará muitas vezes para te ajudar a recuperar.

O cavaleiro levantou-se, sorrindo tranquilizadoramente ao homem ferido, e o beleguim também deixou o banco.

Enquanto Simon observava o amigo, pensava no afecto do cavaleiro para com o cão. Isso levou-o até outro pensamento. O incidente com o cão era falso; fora encenado pela criada. Se a maquinação dela não tivesse sido testemunhada por Hugh, provavelmente Uther estaria morto e Emma estaria radiante. Simon ainda não estava convencido de que Baldwin pudesse mandar matar o cão. Lembrou-se da reflexão do dia anterior, quando regressava a casa de Baldwin: as aparências podiam iludir.

- Meu Deus!

A sua exclamação de espanto fez Baldwin levantar o olhar, momentaneamente arrancado aos seus sombrios pensamentos.

- O que foi?

- Aquele leproso, Quivil! Como era ele?

- Simon, em que estás a pensar?

- Ele estava debilitado, não estava? Lembras-te dos braços dele?

Pareciam linhas. Ralph disse-nos que ele tinha perdido o apetite desde que soube da doença que o afligia, não disse?

- E depois?

- Um homem num estado tão fraco poderia ter esmagado o crânio de Godfrey daquela maneira?

Baldwin ficou a olhar. Antes que pudesse dizer alguma coisa, John interrompeu-os.

- Há uma coisa que não percebi, senhores. Enquanto eu estava com Cecily, não me pareceu que Godfrey estivesse morto. Quer dizer, como soldado, vi muitos homens mortos ou quase mortos, mas Godfrey não parecia estar nessas condições. Estava apenas ali estendido como se estivesse a dormir, sabeis?

Agora Baldwin encontrou o olhar de Simon e acenou lentamente com a cabeça.

- Quando foste atacado, John, por que pensaste que a tua casa tinha sido rebuscada?

- Oh, porque estavam à espera de encontrar a baixela. Foi o que pensei na altura, e ainda penso a mesma coisa.

- Mas não nos podias dizer?

- A senhora Cecily queria manter em segredo o que aconteceu naquela noite. Era um segredo dela, não meu.

Simon agarrou o braço do amigo.

- Tal como Coffyn guardava o segredo da esposa! Queria manter em segredo o que se passava com ela - apressou-se ele a dizer.

- Aonde queres chegar, Simon?

- Baldwin, segundo Coffyn, havia algum tempo que ele suspeitava de que a esposa tinha um caso, e, no entanto, pouco ou nada fez em relação a isso até agora! Consegues acreditar? Qualquer homem teria aplicado a vingança que ele aplicou aqui a John assim que se apercebesse do que se estava a passar!

John olhava de um para o outro.

- Mas não se estava a passar nada! - protestou ele.

- Contigo não. Foi por isso que Coffyn não te atacou - suspirou ao ver a expressão do amigo. - Vamos, Baldwin, já sabemos o que aconteceu, não sabemos?

O cavaleiro levantou-se, e estava prestes a sair, quando o enfermeiro que cuidava de John regressou ao quarto. Baldwin hesitou, depois agarrou-o e disse-lhe qualquer coisa em voz baixa. Simon pensou que o monge parecia surpreendido por ser tratado com rudeza daquela forma, mas o beleguim viu-o franzir o sobrolho, a cabeça inclinada para um lado, enquanto ouvia, acenando depois duas vezes decididamente com a cabeça, em sinal de concordância, e, antes que o homem se aproximasse de John, Simon ouviu-o dizer:

- Sim, com certeza. Seria fácil de verificar, como dizeis.

- Muito bem. Agora, vem daí, Simon - chamou Baldwin por cima do ombro, à medida que saía do quarto a correr.

A porta estava entreaberta, e Baldwin escancarou-a com um empurrão e entrou no corredor. Trocou um olhar com Simon. A casa estava em silêncio. De todas as outras ocasiões em que aqui tinham entrado, havia um guarda à porta, os criados faziam barulho com tachos e panelas, os soldados gritavam ou riam enquanto jogavam merríls ou aos dados, no entanto, agora não se ouvia nada.

Passaram pelo guarda-vento, e, no corredor escuro, Simon deu com a mão a vaguear até à empunhadura da espada. Não havia velas nos castiçais, nenhuma porta aberta ao fundo, e a única luz que se via saía do próprio salão. Com a ausência de barulho, a situação era estranhamente intimidante, e Simon descobriu que não desejava entrar no charco de luz.

Baldwin sentia uma tensão semelhante. Estava ansioso por impedir outro homicídio. Foi um alívio quando reconheceu a sua presa no salão.

A sala estava quase vazia. William estava sentado num banco junto à parede, a oscilar as pernas ociosamente, e o amo estava sentado junto à lareira. A casa estava mergulhada num silêncio que não parecia nada natural.

- Estava quase a ir-vos procurar para confessar.

- Podeis fazê-lo agora. Poderá ajudar.

- Ajudará - disse Coffyn com convicção. Era um casco de navio ressequido, um pálido reflexo da sua personalidade anterior. Enquanto falava, tinha um nó dos dedos encostado ao queixo, como se estivesse preparado para roer novamente as unhas se a pressão se tornasse demasiada. - Agora não tenho razão para viver. Os meus homens foram-se embora porque sabem que não tenho nem uma moeda com que lhes pagar. A minha mulher deixou-me. Penso que foi para casa do irmão, em Exeter. O meu trabalho está acabado, porque ela limpou-me a casa-forte antes de partir. Não me resta nada. Deus destruiu-me, e, contudo, não sei porquê!

Baldwin sentou-se em frente dele, fixando o mercador com um olhar grave mas de compaixão. Acenou ligeiramente a William, que pareceu entender e que lhes foi buscar vinho. - Deus não terá ficado satisfeito com o vosso comportamento, Matthew - murmurou Baldwin.

- Heim? Como ousais dizer isso?! Claro que ficou! - afirmou o outro homem desdenhosamente. - Eu destruí um homem que estava a infringir um dos Seus mandamentos. "Não cometerás adultério", lembrais-vos? Deus terá ficado satisfeito com os meus esforços. E tudo o que fiz com os leprosos foi para realizar o Seu objectivo de os castigar.

Baldwin aceitou uma caneca de vinho aquecido que William lhe estendeu. O criado foi colocar-se ao lado do amo, embora o cavaleiro não tivesse a certeza se seria para lhe dar apoio ou para o agarrar.

- Quando é que vos apercebestes pela primeira vez de que God-frey tinha seduzido a vossa esposa? - perguntou Baldwin.

Coffyn lançou-lhe um olhar negro, antes de examinar as suas unhas.

- Pensais que foi ele que a seduziu? Que generoso da vossa parte, Sir Baldwin. Pessoalmente, eu hesitaria em tirar essa conclusão precipitadamente. Não importa! Eu nunca pensei que ele estivesse interessado nela até à minha última viagem de negócios. Antes disso, nunca nos tínhamos dado particularmente bem. De repente, há cerca de quatro meses, ele começou a interessar-se pelo meu trabalho. Assim que -soube que as coisas estavam a complicar-se, ofereceu-me ajuda.

"Agora parece tudo muito óbvio. Foi exactamente na mesma altura em que Martha começou a aperaltar-se. Quando ela exigiu roupas novas e bugigangas para exibir a sua beleza, o meu vizinho ofereceu-me dinheiro. Mas quanto mais eu pedia emprestado, mais ele exigia de juros, e mais a minha mulher queria túnicas e jóias. Nunca pensei que ele me faria corno, tal como nunca pensei que ela se desgraçaria.

- Quando é que tivestes a certeza?

- Eu tinha ouvido qualquer coisa na rua sobre John e a minha esposa. As pessoas costumavam calar-se quando me viam, e algumas apontavam e riam, mas eu sabia que ela não se tinha rebaixado a esse ponto. Ela não é do género de querer abraços ternos de um camponês miserável como ele. Não, apercebi-me de quem andava a dormir com ela, quando cheguei a casa cedo um dia e ouvi-o a saltar do meu telhado. Alguns dos meus homens estavam no jardim da frente, por isso quem quer que fosse devia ter fugido pelas traseiras, e isso queria dizer que quem quer que fosse tinha-se escapado por cima da sebe, para a terra de Godfrey. Isso fez com que eu começasse a duvidar de Godfrey. A próxima vez que me ausentei em viagem, na noite em que Godfrey morreu, pus lá um homem de guarda. Ele foi lá a casa e perguntou por Godfrey a pretexto de que eu queria verificar um empréstimo dele. Mas Godfrey não estava lá. Foi nessa altura que eu tive a certeza.

- Quer dizer que viestes para casa, procurastes em vossa casa, e, enquanto o fazíeis, ouvistes o grito dele.

- Ouvi-o gritar, sim, mas na altura não me apercebi de que era ele. O meu criado estava aqui e disse-me que Godfrey não estava em casa, por isso revistei a minha própria casa. Estava convencido de que ele estava algures por aqui.

- Mas quando fostes para casa dele?

- Corri para lá para o confrontar, não para salvar o canalha! A casa estava numa confusão. Cecily estava aparentemente a voltar a si, e a criada dela desceu quando eu entrei. William estava comigo. Disse-lhe que levasse Cecily para o seu quarto, e, enquanto eles foram, Godfrey começou a gemer.

"Eu estava zangado. Furioso! Essa é a minha única desculpa. Assim que ele começou a gemer, uma raiva terrível tomou conta de mim. De outra forma, eu não o teria feito; não o poderia ter feito.

- Agrediste-lo com quê, um pau?

Em resposta, Coffyn sacudiu a cabeça em direcção à lareira.

- Foi com uma moca de espinheiro negro. Eu costumava andar sempre com ela, mas, quando vi o que tinha feito, não fui capaz de a guardar. A bola do cabo estava toda manchada de sangue coalhado, e eu não podia suportar voltar a usá-la, por isso quebrei-a com o joelho e atirei-a para a lareira de Godfrey.

- Enquanto o vosso criado tinha ido buscar o oficial de autoridade?

- Sim. Tal como um bom cidadão deveria fazer. E quando ele chegou, eu disse-lhe que tinha encontrado Godfrey já morto, enquanto que os outros dois estavam meramente feridos. E fui para casa.

Interrompeu-se e olhou o cavaleiro com um semblante carregado.

- Não lamento tê-lo feito, Sir Baldwin. Godfrey era um canalha perverso e açambarcador de dinheiro. Enrolou-me no negócio e depois enrolou também a minha mulher. Não foi por ele me ter enganado, eu podia viver com isso. Não, foi por ele me ter tirado tudo o que eu tinha - dinheiro, casamento, tudo! Matei-o com tão pouca compunção como teria morto um escaravelho.

- EJohn?

- John de Irelaunde? - Coffyn levantou o olhar, sem perceber.

- Aquele sacana desonesto? Que tem ele?

- Ele estava inocente de qualquer envolvimento com a vossa esposa, no entanto não vos importastes de deixar que outros espalhassem o boato de que ele tinha tido um caso com ela...

- Essa foi a reputação que ele tinha cultivado para si próprio, cavaleiro, meu senhor.

- Mas não vos importastes de ir a casa dele e de o agredir, apenas para afastardes a atenção de vós próprio, pois não? Sabíeis perfeitamente que ele não tinha nada a ver com a infidelidade da vossa esposa quando lhe destes aquela surra bárbara.

Simon deixou cair a mão no ombro do amigo. A voz de Baldwin adquirira uma fria precisão, à medida que a raiva começava a dominá-lo. Sentindo a mão de Simon, o cavaleiro respirou fundo e obrigou-se a relaxar um pouco.

Coffyn estava sentado a abanar a cabeça, roendo com força um minúsculo fragmento da unha do polegar.

- Eu tinha de assegurar-me de que vós pensáveis que eu estava convencido da culpa dele. Se eu não fizesse nada em relação ao irlandês, podíeis ter-vos apercebido de que eu sabia de Godfrey - Sim. Foi por isso que tivestes tanto cuidado em deixar que ele vos visse. Era importante que ele pudesse jurar que éreis o seu atacante. - Baldwin levantou-se, e a sua voz baixou de tom. - Bem, Matthew Coffyn fizestes uma confissão completa, que apenas serve para clarificar a vossa culpa. Estáveis preparado para quase matar John sem justificação; a roubar a baixela do vosso vizinho; e a cometer homicídio. Só há um castigo para tudo isso: a corda!

Ralph acabara de arrumar a capela quando Mary entrou. Ela caminhou em silêncio até ao corpo que se encontrava na carreta e ficou ali, abanando a cabeça de desgosto.

- Mary, lamento muito.

- Ele tinha uma vida tão pequena.

- Mas agora tem uma vida grande - lembrou-lhe ele.

- Sinto-me grata por isso.

O monge ouvia a dúvida na voz dela.

- Mary, não acrediteis no que as pessoas sem cultura dizem sobre os leprosos: Edmund não era perverso. Certamente que não era um grande pecador, pois seguiu os ensinamentos de Cristo. Ofereceu a outra face; permitiu que outro o matasse sem usar a sua própria arma para se defender. Morreu ao recusar proteger-se de outro ataque. Cristo consideraria o jovem Edmund como amigo.

- Estou contente por isso - disse ela calmamente.

As lágrimas pareciam ser para ela um alívio. Ralph pensou que a tristeza dela parecia dominá-la, mas os olhos de Mary continham também gratidão, como se no meio do seu sofrimento, ela estivesse contente por ter conhecido o seu homem.

- Que fareis agora? - perguntou o monge.

- Com Jack falecido, penso que mais ninguém me dificultará a vida, mas não mudei de ideias.

- Ireis para o convento?

- Sim. O Bispo prometeu que me arranjava lugar n