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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O REI DAS FRAUDES / John Grisham
O REI DAS FRAUDES / John Grisham

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O REI DAS FRAUDES

 

Os TIROS QUE ATINGIRAM a cabeça de Pumpkin foram ouvidos por nada menos de oito pessoas. Três delas instintivamente fecharam as janelas, verificaram as fechaduras da porta e se retiraram para a segurança, ou pelo menos para a reclusão dos seus apartamentos. Duas outras, ambas com experiência no assunto, fugiram da vizinhança, com a mesma rapidez, ou talvez mais depressa do que o atirador. Outra, o fanático do bairro por reciclagem, examinava o lixo à procura de latas de alumínio quando ouviu o som agudo da arma. Saltou para trás de uma pilha de caixas de papelão, esperou cessar os tiros, então foi até o beco onde viu o que restava de Pumpkin.

 

As duas pessoas restantes viram quase tudo. Estavam sentadas em caixas de plástico, de leite, na esquina da Georgia com Lamont, na frente de uma loja de bebidas, parcialmente escondidas por um carro, de modo que o atirador, que olhou brevemente em volta antes de seguir Pumpkin até o beco, não as viu. Os dois homens disseram à polícia que viram o garoto tirar a arma do bolso, viram muito bem a arma, uma pequena pistola preta. Um segundo depois, ouviram os tiros, mas não viram Pumpkin ser atingido na cabeça. Mais um segundo e o garoto com a arma saiu do beco e, por algum motivo, correu na direção dos dois. Ele corria com o corpo curvado para a frente, como um cão assustado, culpado como o demónio. Calçava ténis de basquete vermelhos e amarelos que pareciam cinco números maiores do que seus pés e batiam na calçada quando ele corria.

 

Quando passou por eles ainda segurava a arma, provavelmente uma 38 e hesitou apenas por um instante quando os viu e compreendeu que eles tinham visto demais. Por um apavorante segundo, ele pareceu erguer a arma para eliminar as testemunhas, que conseguiram se levantar das caixas de plástico numa louca confusão de braços e pernas. Então ele se foi.

 

Um dos homens abriu a porta da loja de bebidas e gritou para alguém chamar a polícia, que acabava de acontecer um tiroteio.

 

Trinta minutos depois a polícia recebeu um telefonema dizendo que um jovem cuja descrição combinava com a do que tinha atirado em Pumpkin, fora visto duas vezes na rua Nove com uma arma bem visível na mão e agindo de modo estranho. Ele tentara atrair pelo menos uma pessoa para um terreno baldio, mas a suposta vítima tinha escapado e relatado o incidente.

 

A polícia encontrou seu homem uma hora depois. O nome dele era Tequila Watson, negro, vinte anos, com a habitual ficha de uso de drogas. Sem nada do que se pudesse chamar de família. Nenhum endereço. O último lugar em que dormira era uma unidade de reabilitação na rua W. Ele tinha conseguido jogar a arma em algum lugar e, se roubou Pumpkin, tinha também jogado fora o dinheiro ou fosse lá o que fosse. Seus bolsos estavam vazios, bem como seus olhos. Os tiras estavam certos de que Tequila não estava sob a influência de drogas quando foi preso. Depois de um interrogatório superficial, na rua, ele foi algemado e empurrado para um carro da polícia de Washington, D.C.

 

Eles o levaram para a rua Lamont, onde providenciaram um encontro imediato com as duas testemunhas. Tequila foi levado ao beco onde tinha deixado Pumpkin.

 

- Já esteve aqui antes? - perguntou um tija.

 

Tequila não disse nada, apenas olhou para a poça de sangue fresco no concreto sujo. As duas testemunhas foram levadas discretamente para o beco e para perto de Tequila.

 

- E ele - os dois homens disseram ao mesmo tempo.

 

- Está com a mesma roupa, com o mesmo ténis de basquete, tudo, menos a arma.

 

- É ele.

 

- Não há nenhuma dúvida.

 

Tequila entrou outra vez no carro e foi levado para a cadeia. Foi fichado por assassinato e trancado sem nenhuma chance imediata de fiança. Fosse por experiência ou por medo, Tequila não

 

disse uma palavra para os tiras que tentavam fazê-lo falar com agrados e até mesmo com ameaças. Nada incriminador, nada que ajudasse. Nenhuma indicação de por que teria querido matar Pumpkin. Nenhuma pista para a história da polícia se é que havia uma história. Um detetive veterano fez uma breve anotação na ficha segundo a qual o crime parecia um pouco mais inexplicável que de costume.

 

Nenhum telefonema foi pedido. Nenhuma menção de advogado ou de um prestador de fiança. Tequila parecia atordoado, mas satisfeito em ficar sentado na cela cheia de prisioneiros, olhando para o chão.

 

O PAI DE PuMPKIN não podia ser encontrado, mas sua mãe trabalhava como guarda de segurança no subsolo de um grande prédio de escritórios, na avenida Nova York. A polícia levou três horas para determinar o nome verdadeiro do filho dela - Ramón Pumphrey -, para localizar seu endereço e para encontrar um vizinho disposto a dizer se ele tinha ou não mãe.

 

Adelfa Pumphrey estava sentada atrás de uma mesa, no lado de dentro da entrada do subsolo, supostamente observando uma fileira de monitores. Era uma mulher grande e gorda, com um uniforme caqui muito justo, uma arma na cintura, uma expressão de completo desinteresse. Os tiras que se aproximaram dela tinham feito isso centenas de vezes. Deram a notícia e foram falar com o supervisor da mulher.

 

Numa cidade onde os jovens matavam uns aos outros todos os dias, o assassinato tinha endurecido a pele e o coração de todos e cada mãe conhecia muitas outras que tinham perdido os filhos. Cada perda trazia a morte um passo mais perto e todas elas sabiam que qualquer dia podia ser o último. As mães tinham visto as outras sobreviverem ao horror. Sentada à sua mesa com o rosto apoiado na mão, Adelfa Pumphrey pensou no filho e no seu corpo estendido em algum lugar da cidade naquele momento, inspecionado por estranhos.

 

Ela jurou vingar-se dos assassinos do filho.

 

Amaldiçoou o pai dele por ter abandonado o filho.

 

Chorou por seu bebé.

 

E sabia que ia sobreviver. De algum modo ia sobreviver.

 

ADELFA FOI AO TRIBUNAL para assistir à leitura formal da acusação. A polícia disse que era a primeira vez que o punk que matara seu filho comparecia a um tribunal e que seria uma questão de rotina. Ele se declararia inocente e pediria um advogado. Ela estava na última fila, entre o irmão e um vizinho, enxugando as lágrimas num lenço já ensopado. Ela queria ver o garoto. Queria também perguntar por quê, mas sabia que jamais teria essa chance.

 

Os criminosos foram levados como gado para um leilão. Eram todos negros, todos vestiam macacões cor de laranja, estavam algemados e eram todos jovens. Um desperdício.

 

Além das algemas, Tequila estava adornado com correntes nos pulsos e nos tornozelos, uma vez que seu crime era especialmente violento, mas ele parecia completamente inofensivo quando entrou no tribunal com outra leva de criminosos, arrastando os pés. Olhou em volta rapidamente para ver se havia alguém conhecido, se havia alguém que estava ali por sua causa. Sentou em uma das cadeiras enfileiradas e um dos meirinhos achou de bom alvitre inclinar-se para ele e dizer:

 

- Aquele garoto que você matou. Aquela é a mãe dele, lá atrás de vestido azul.

 

Tequila virou lentamente á cabeça abaixada e seus olhos encontraram os olhos inchados da mãe de Pumpkin, mas só por um segundo. Adelfa^olhou-para o garoto magricela de macacão laranja folgado, imaginando onde estaria a mãe dele e como ela o tinha criado, se ele tinha pai e o mais importante, como e por que seu caminho se cruzara com o do seu filho. Os dois tinham mais ou menos a mesma idade que todos os outros ali, quase vinte ou vinte e poucos. Os tiras tinham dito que, ao que parecia, pelo menos inicialmente, o crime nada tinha a ver com drogas. Mas ela sabia. Pumpkin usava maconha e crack e fora preso uma vez, por simples posse, mas nunca fora violento. Os tiras estavam dizendo que parecia um crime cometido ao acaso. Todos os crimes de rua eram ao acaso, seu irmão tinha dito, mas todos tinham uma razão.

 

De um lado do tribunal estava a mesa das autoridades. Os policiais cochichavam para os promotores, que folheavam dossiês e relatórios e tentavam valentemente manter os processos adiante dos criminosos. No outro lado estava a mesa na qual os advogados de defesa se revezavam à medida que a fila se adiantava. O juiz batia o martelo rapidamente para acusações relativas a drogas, roubo à mão armada, algum vago ataque sexual, mais drogas, várias violações da condicional. Quando seus nomes eram chamados, os acusados eram levados para a frente da mesa do juiz, onde ficavam em silêncio. Papéis eram consultados e então eram levados de volta para as celas.

 

- Tequila Watson - um meirinho anunciou.

 

Ajudado a se levantar por outro meirinho, ele arrastou os pés para a frente, as correntes tilintando.

 

- Sr. Watson, o senhor é acusado de assassinato - o juiz anunciou em voz alta. - Qual a sua idade?

 

- Vinte - Tequila disse, com os olhos baixos.

 

A acusação de assassinato ecoou pelo tribunal provocando um silêncio temporário. Os outros criminosos com macacões laranja olharam para ele com admiração. Os advogados e os policiais estavam curiosos.

 

- Pode pagar um advogado?

 

- Não.

 

- Foi o que pensei - o juiz resmungou e olhou para a mesa da defesa. Os campos férteis do Tribunal Superior Criminal de D.C.

- Divisão de Crime Doloso eram atendidos diariamente pelo gabinete do defensor público, a rede de segurança para todos os acusados indigentes. Setenta por cento dos casos ficavam a cargo de defensores indicados pelo tribunal e quase sempre havia meia dúzia deles por perto, com seus ternos baratos e mocassins muito usados, com papéis aparecendo para fora das pastas de documentos. Naquele momento preciso, entretanto, apenas um estava presente, o ”ilustre” Clay Cárter II, que passou por ali para verificar o andamento de dois casos muito mais leves e agora via-se sozinho, e tudo o que queria era sair imediatamente do tribunal. Olhou para a direita e para a esquerda e percebeu que o Meritíssimo olhava para ele. Para onde tinham ido todos os DPs?

 

Uma semana antes, o dr. Cárter tinha terminado um caso de assassinato, que durou quase três anos e finalmente foi encerrado, com seu cliente condenado à prisão de onde jamais sairia, pelo menos não oficialmente. Clay Cárter estava satisfeito por seu cliente ter ido para a prisão e aliviado por não ter nenhum caso de assassinato na sua mesa.

 

Isso evidentemente iria mudar.

 

- Dr. Cárter? - o juiz disse. Não era uma ordem, mas um convite para se adiantar e fazer o que se esperava que todos os DPs fizessem - defender o indigente, independentemente do caso. O dr. Cárter não podia demonstrar fraqueza, especialmente com os policiais e promotores olhando. Ele engoliu em seco, desistiu de esquivar-se e foi até a mesa do juiz como se fosse pedir um julgamento com júri, imediatamente. Apanhou o dossiê das mãos do juiz, olhou rapidamente para o parco conteúdo, ignorando o olhar suplicante de Tequila Watson e então disse:

 

- Registraremos uma declaração de inocente, Meritíssimo.

 

- Muito obrigado, dr. Cárter. E nós o designamos como defensor do caso?

 

- Por enquanto sim. - O dr. Cárter já estava imaginando desculpas para passar o caso para algum outro DP.

 

- Muito bem. Obrigado - disse o juiz, estendendo a mão para o próximo dossiê.

 

Advogado e cliente se reuniram na mesa da defesa por alguns minutos. Cárter ouviu toda a informação que Tequila estava disposto a dar, que era muito pouca. Prometeu passar pela cadeia no dia seguinte para uma entrevista mais longa. Enquanto os dois confabulavam em voz baixa, a mesa de repente se encheu de jovens advogados do gabinete do defensor público, colegas de Cárter que pareceram materializar-se do nada.

 

Seria uma armação?, Cárter pensou. Teriam desaparecido ao saber que havia um acusado de assassinato no tribunal? Nos últimos cinco anos ele tinha feito isso. Fugir dos piores casos era uma arte no gabinete do defensor público.

 

Cárter pegou sua pasta e saiu rapidamente pela passagem central, passando por filas de parentes preocupados, passando por Adelfa Pumphrey e seu pequeno grupo de apoio, chegando ao corredor cheio de mais criminosos com suas mães, namoradas e advogados. Alguns do gabinete do defensor público juravam que viviam para o caos do tribunal H. Cari Moultrie - a pressão dos julgamentos, a sugestão de perigo, as pessoas compartilhando o mesmo espaço com tantos homens violentos, o doloroso conflito entre vítimas e seus assaltantes, as agendas desesperadamente superlotadas, o chamado para garantir ao pobre e ao inseguro um tratamento justo da parte dos tiras e do sistema.

 

Se Clay Cárter alguma vez se sentiu atraído por uma carreira no gabinete do defensor público já não lembrava mais por quê. Em uma semana seu quinto aniversário no gabinete chegaria e iria embora sem nenhuma comemoração e, infelizmente, sem que ninguém soubesse. Clay estava queimado aos trinta e um anos, atolado num gabinete que tinha vergonha de mostrar aos amigos, procurando uma saída sem ter para onde ir, e agora onerado com outro caso de assassinato sem sentido que ficava mais pesado a cada minuto.

 

No elevador, ele se amaldiçoou por ter-se deixado apanhar para defender um assassinato. Era um erro de principiante. Ele estava na profissão havia muito tempo para cair numa armação daquelas, especialmente num cenário tão familiar. vou me demitir, prometeu a si mesmo, como havia um ano prometia-se quase diariamente.

 

Havia duas pessoas no elevador. Uma funcionária do tribunal, com os braços carregados de pastas. A outra, um cavalheiro de uns quarenta anos com jeans preto de grife, camiseta, paletó, botas de crocodilo. Ele segurava um jornal e parecia ler com os pequenos óculos na ponta do nariz longo e elegante; na verdade estava observando Clay sem que ele percebesse. Por que alguém prestaria atenção numa pessoa num elevador daquele prédio?

 

Se Clay Cárter estivesse alerta, em vez de ansioso e aborrecido, teria notado que o cavalheiro estava bem-vestido demais para ser um acusado, mas muito casualmente para ser advogado. Não tinha nas mãos nada além do jornal, o que era de certa forma estranho porque o tribunal H. Cari Moultrie não era conhecido como um bom lugar para ler. Ele não parecia um juiz, um funcionário, uma vítima ou um acusado, mas Clay nem notou sua presença.

 

EM UMA CIDADE DE 76 mil advogados, muitos deles faziam parte de megafirmas dentro do alcance

 

de tiro do Capitólio - firmas ricas e poderosas, onde os sócios mais brilhantes recebiam bónus obscenos e os mais apagados congressistas recebiam acordos de lobbyes lucrativos e os mais quentes litigantes tinham agentes próprios - o gabinete do defensor público ocupava um lugar bem abaixo na hierarquia: Baixo A.

 

Alguns advogados do GDP eram diligentemente comprometidos com a defesa do pobre e do oprimido e, para eles, o emprego não era um degrau para outra carreira. Independentemente do pouco que ganhavam ou de quanto era apertado seu orçamento, eles tinham prazer com a solitária independência do seu trabalho e com a satisfação de proteger os desprivilegiados.

 

Outros diziam a si mesmos que o emprego era transitório, apenas o duro treinamento necessário para se lançar em carreiras mais promissoras. Aprenda tudo do modo mais difícil, suje as mãos, veja e faça coisas das quais nenhum sócio de uma grande firma jamais sequer chegará perto, e algum dia uma firma com uma visão real premiará seu esforço. Experiência ilimitada de tribunal, um amplo conhecimento dos juizes, dos funcionários e dos policiais, gerenciamento da carga de trabalho, habilidade para tratar com clientes difíceis - essas eram algumas das vantagens que o DP tinha para oferecer depois de apenas alguns anos de prática.

 

O gabinete do defensor público tinha oito advogados, todos trabalhando em dois andares apertados do prédio de serviços públicos do distrito de Columbia, uma estrutura de concreto pálida e quadrada conhecida como ”O Cubo”, na avenida Massachusetts, perto do círculo Thomas. Tinha cerca de quarenta secretárias mal pagas e três dúzias de paralegais distribuídos pelo labirinto de cubículos. A diretora Glenda passava a maior parte do tempo fechada em seu gabinete porque sentia-se mais segura.

 

O salário inicial de um advogado do GDP era de 36 mil dólares por ano. Aumentos eram minúsculos e espaçados. O advogado mais antigo, um homem gasto e envelhecido de quarenta e três anos, ganhava 57.600 dólares e há dezenove anos ameaçava se demitir. A carga de trabalho era espantosa, porque a cidade estava perdendo a guerra contra o crime. Era infindável o número de criminosos indigentes. Anualmente, havia oito anos, Glenda submetia um pedido de orçamento para mais dez advogados e uma dúzia de paralegais. Nos quatro últimos orçamentos recebera menos dinheiro do que no ano anterior. Seu dilema no momento era quais paralegais devia demitir e quais advogados devia obrigar a trabalhar apenas meio período.

 

Como a maioria dos defensores públicos, Clay Cárter não tinha entrado para a faculdade de direito pensando em fazer carreira, nem mesmo por um breve tempo, na defesa de criminosos indigentes. De modo algum. Quando estava ainda no preparatório e, depois, na faculdade de direito, seu pai tinha uma firma na capital. Clay trabalhou na firma em meio expediente durante anos e tinha um escritório só para ele. Os sonhos eram ilimitados então, pai e filho advogando juntos e o dinheiro jorrando.

 

Mas a firma fechou quando ClaV estava no último ano da faculdade e seu pai saiu da cidade. Essa era outra história. Clay tornou-se defensor público porque ria última hora não havia outros empregos disponíveis.

 

Levou três anos para manobrar e conseguir um gabinete que não fosse compartilhado por outro advogado ou um paralegal. Mais ou menos do tamanho de um modesto closet suburbano, o gabinete não tinha janelas e a mesa ocupava metade do espaço. O escritório que tinha na firma do pai era quatro vezes maior, com vista para o Monumento a Washington e, embora tentasse, ele não conseguia esquecer isso. Cinco anos depois, ele às vezes ainda sentava à mesa e olhava para as paredes que pareciam estar mais próximas a cada mês, e se perguntava exatamente como tinha despencado daquele escritório para este?

 

Jogou o dossiê de Tequila Watson na mesa muito limpa e muito arrumada e tirou o paletó. Seria fácil, naquele ambiente desalentador, não se preocupar com a aparência do gabinete, deixar empilhar as pastas e os papéis, permitir a desordem e pôr a culpa no excesso de trabalho e na falta de pessoal. Mas seu pai acreditava que uma mesa organizada era sinal de mente organizada. Se você não pudesse encontrar alguma coisa dentro de trinta segundos, estava perdendo dinheiro, era o que ele sempre dizia. Responda aos telefonemas imediatamente era outra regra que Clay aprendera a obedecer.

 

Por isso era exigente com a ordem da mesa e do gabinete, para divertimento dos colegas afobados. Seu diploma da faculdade de direito Georgetown pendia no centro da parede, numa bela moldura. Nos dois primeiros anos no GDP, ele recusou mostrar o diploma, temendo que os outros advogados perguntassem por que alguém formado em Georgetown estava trabalhando por um salário tão pequeno. Pela experiência, ele dizia a si mesmo, estou aqui para ganhar experiência. Um julgamento por mês - julgamentos difíceis contra promotores difíceis perante júris difíceis. Para o treinamento no pior ambiente, a luta com os punhos nus que nenhuma grande firma proporcionava. O dinheiro viria mais tarde, quando ele fosse um litigante duramente treinado, quando ainda muito jovem.

 

Olhou para a pasta fina de Watson no centro da mesa, imaginando como podia passar o caso para outra pessoa. Estava cansado de casos difíceis e do soberbo treinamento e de todas as outras bobagens com que tentava justificar o fato de ser um DP mal pago.

 

Havia seis ,mensagens telefónicas em papel cor-de-rosa, na sua mesa. Cinco relacionadas ao trabalho, uma de Rebecca, sua namorada há muito tempo. Ele ligou primeiro para ela.

 

- Estou muito ocupada - ela informou, depois das amabilidades iniciais.

 

- Você me telefonou - Clay disse.

 

- Sim, só posso falar por um minuto. - Rebecca era assistente de um congressista sem importância, presidente de algum subcomitê inútil. Porém, como era o presidente, tinha um gabinete adicional que devia ser equipado com auxiliares como Rebecca, que trabalhava freneticamente o dia inteiro preparando a próxima série de audiências às quais ninguém compareceria. Seu pai tinha manejado os cordões para conseguir aquele emprego.

 

- Eu também estou atolado em trabalho - Clay disse. - Acabo de pegar outro caso de assassinato. - Conseguiu imprimir uma sugestão de orgulho na voz como se fosse uma honra ser o advogado de Tequila Watson.

 

Era um jogo que eles faziam: quem era o mais ocupado? Quem era o mais resistente? Quem estava sob maior pressão?

 

- Amanhã é aniversário de minha mãe - ela disse, depois de uma breve pausa, como se Clay devesse saber. Ele não sabia. Ele não se importava. Ele não gostava da mãe dela. - Eles nos convidaram para jantar no clube.

 

Um dia péssimo ia ficando muito pior. Ele deu a única resposta possível, a mais rápida:

 

- Claro. - Por volta das sete horas. Paletó e gravata.

 

- É claro. - Eu preferia jantar com Teqiiila Waíson na cadeia, ele pensou.

 

- Tenho de desligar - ela disse. - Vejo você então. Eu o amo.

 

- Amo você.

 

Era uma conversa típica entre os dois, algumas frases rápidas e correr para salvar o mundo. Cárter olhou para a foto dela na sua mesa. O romance tivera complicações suficientes para afogar um casamento. Seu pai certa vez processara o pai dela e nunca ficou muito claro quem venceu e quem perdeu. A família de Rebecca afirmava ser originária da antiga sociedade de Alexandria; Clay fora um filho do Exército. Eles eram republicanos, da ala direita, ele não era. O pai dela era conhecido como Bennett, a Escavadeira, desde a construção - do tipo implacável derrube e queime

- de um complexo, nos subúrbios do norte da Virgínia, perto da capital. Clay detestava o complexo do norte da Virgínia e discretamente contribuía com dinheiro para dois grupos ambientalistas que eram contra os construtores. A mãe dela era uma agressiva arrivista social que queria ver as duas filhas casadas por dinheiro. Clay não via sua mãe havia onze anos. Ele não tinha nenhuma ambição social. Não tinha dinheiro.

 

Durante quase quatro anos o romance sobreviveu a uma briga por mês, a maioria delas provocada pela mãe de Rebecca. Continuava vivo por amor, sexo e pela determinação de ter sucesso, apesar de toda a oposição. Mas Clay percebia uma certa fadiga em Rebecca, um cansaço sutil provocado pela idade e pela constante pressão da família. Ela estava com vinte e oito anos. Não queria uma carreira. Queria um marido, uma família e longos dias passados no clube de campo, mimando as crianças, jogando ténis, almoçando com a mãe.

 

Paulette Tullos apareceu do nada e o assustou.

 

- Pegaram você, não foi? - ela disse com um sorriso. - Um novo caso de assassinato.

 

- Você estava lá? - Clay perguntou.

 

- Eu vi tudo. Vi a coisa chegando, vi acontecer, não tive jeito de salvar você, amigo.

 

- Obrigado. Devo uma a você.

 

Ele a teria convidado para sentar, mas não havia nenhuma cadeira no gabinete a não ser a sua. Não havia lugar e, além disso, cadeiras não eram necessárias porque todos os seus clientes estavam na cadeia. Sentar e conversar não fazia parte da rotina diária do GDP.

 

- Quais as minhas chances de me livrar dele?

 

- Quase impossíveis. Para quem poderia dar?

 

- Eu estava pensando em você.

 

- Desculpe. Já tenho dois casos de assassinato. Glenda não vai mudar isso por você.

 

Paulette era sua melhor amiga no GDP. Produto de um bairro turbulento, com dificuldade passou pelo preparatório e pela faculdade de direito noturna e parecia destinada à classe média até que encontrou um cavalheiro grego, mais velho, que gostava de mulheres negras jovens. O grego casou com ela e a instalou confortavelmente no noroeste de Washington e então depois de um tempo, voltou para a Europa, onde preferia morar. Paulette suspeitava que ele devia ter uma ou duas mulheres lá, mas não se preocupava muito com isso. Estava bem de dinheiro e raramente sozinha. Depois de dez anos, o arranjo funcionava com perfeição.

 

- Eu ouvi a conversa dos promotores - ela disse. - Outro crime de rua, mas com motivo questionável.

 

- Não exatamente o primeiro na história da capital.  

 

- Mas sem motivo aparente.

 

- Sempre há um motivo, dinheiro, drogas, um novo par de Nikes.

 

- Mas o garoto era bastante calmo, sem história de violência?

 

- As primeiras impressões raramente são verdadeiras, Paulette, você sabe disso.

 

- Jermaine teve um caso muito parecido dois dias atrás. Nenhum motivo aparente.

 

- Eu não sabia.

 

- Deve tentar falar com ele. Jermaine é novo e ambicioso e quem sabe, você pode passar o caso para ele.

 

- vou fazer isso agora mesmo.

 

Jermaine não estava no escritório, mas a porta de Glenda, por algum motivo estava entreaberta. Clay bateu de leve e entrou.

 

- Tem um minuto? - ele perguntou sabendo que Glenda detestava conceder um minuto a qualquer pessoa do gabinete. Ela fazia um trabalho passável dirigindo o pçssoaj^gerenciando a distribuição dos casos, segurando o orçamento e o mais importante, fazendo política na prefeitura. Mas não gostava de gente. Preferia trabalhar atrás de uma porta fechada.

 

- Claro - ela disse bruscamente, sem nenhuma convicção. Estava claro que não gostou da intrusão, exatamente a recepção que Clay esperava.

 

- Esta manhã aconteceu que cheguei à Divisão Criminal na hora errada, me pegaram com um caso de assassinato, que eu preferia passar para outra pessoa. Acabo de resolver o caso Traxel que, como você sabe, durou três anos. Preciso de um descanso de assassinatos. Que tal um dos caras mais novos?

 

- Está pedindo demissão, dr. Cárter? - ela ergueu as sobrancelhas.

 

- Absolutamente. Quero tratar de drogas e roubo por alguns meses. E tudo que estou pedindo.

 

- E quem sugere que pode ficar com o... qual é mesmo o caso?

 

- Tequila Watson.

 

- Tequila Watson. Quem deve ficar com ele, dr. Cárter?

 

- Na verdade não me importa. Eu só preciso de um descanso. Glenda recostou na cadeira, como um velho e sábio diretor

 

presidente, mastigando a ponta de uma caneta.

 

- Não é o que nós todos precisamos, dr. Cárter? Nós todos adoraríamos um descanso, não é mesmo?

 

- Sim ou não?

 

- Temos oito advogados aqui, dr. Cárter, só a metade qualificada para tratar de casos de assassinato. Todos têm pelo menos dois. Passe adiante se puder, mas eu não vou contribuir para isso.

 

Saindo da sala, Clay disse:

 

- Eu bem que poderia ter um aumento, se a senhora quiser pensar a respeito.

 

- No próximo ano, dr. Cárter. No próximo ano.

 

- E um paralegal.

 

- No ano que vem.

 

O dossiê de Tequila Watson continuou no gabinete muito arrumado e organizado de Jarrett Clay Cárter II, Advogado.

 

AFINAL DE CONTAS o prédio era uma cadeia. Embora de construção recente e da inauguração ter

 

sido motivo de grande orgulho para um punhado de líderes da cidade, era uma cadeia. Desenhado por consultores quebra-galhos da defesa urbana e adornado com instrumentos de segurança de alta tecnologia, ainda assim era uma cadeia. Eficiente, seguro, humano e embora construído para o próximo século, estava lotado no dia em que abriu. De fora parecia um bloco de concreto apoiado numa das extremidades, sem janelas, sem esperanças, repleto de criminosos e de inúmeros guardas. Para que alguém se sentisse melhor, recebeu o nome de^ Centro Criminal de Justiça, um eufemismo moderno usado largamente pelos arquitetos desse tipo de projeto. Era uma cadeia.

 

E era definitivamente parte do território de ClayCaftér. Ele encontrava quase todos os seus clientes ali, depois que eram presos e antes de serem soltos sob fiança, quando podiam pagar. Muitos não podiam. Muitos eram presos por crimes não-violentos e culpados ou inocentes, ficavam na cadeia até sua última apresentação no tribunal. Tigger Banks tinha passado quase oito meses na cadeia por um roubo que não cometeu. Perdeu dois empregos de meio expediente. Perdeu seu apartamento. Perdeu sua dignidade. O último telefonema de Tigger para Clay foi um pedido de dinheiro de cortar o coração. Ele estava outra vez cheirando crack, na rua, e encaminhando-se para sérios problemas.

 

Cada advogado criminal da cidade tinha uma história de Tigger Banks, todas com finais infelizes e ninguém podia fazer nada. Cada preso custava 41 mil dólares por ano. Por que o sistema estava tão ansioso para queimar dinheiro?

 

Clay estava farto dessas questões e farto dos Tiggers da sua carreira, cansado da cadeia e dos mesmos guardas mal-encarados que o recebiam na entrada do subsolo, usada por quase todos os advogados. E estava farto do cheiro do lugar, e dos pequenos procedimentos idiotas criados por amanuenses que liam manuais sobre como manter as cadeias seguras. Eram 9 horas da manhã de quarta-feira, mas para Clay todos os dias eram iguais. Foi até a pequena janela de correr, sob uma tabuleta que dizia ADVOGADOS e depois da funcionária certificar-se de que ele tinha esperado bastante tempo, abriu a janela e não disse nada. Nada precisava ser dito porque ela e Clay havia quase cinco anos se entreolhavam carrancudos, sem se cumprimentar. Ele assinou um registro, devolveu e ela fechou a janela, sem dúvida à prova de balas para protegê-la dos advogados violentos.

 

Glenda passara dois anos tentando implementar um método simples de telefonema prévio, com o qual advogados do GDP, e qualquer outra pessoa, podiam telefonar uma hora antes da sua chegada e seus clientes estariam nas vizinhanças da sala de conferência dos advogados. Era um pedido simples, e essa simplicidade sem dúvida foi a causa do seu fracasso no inferno da burocracia.

 

Havia uma fileira de cadeiras encostadas numa parede onde os advogados deviam esperar enquanto seus clientes eram trazidos a passo de lesma por alguém lá em cima. As 9 horas da manhã havia sempre alguns advogados esperando, folheando papéis nas pastas, murmurando em celulares, ignorando uns aos outros. Em dado momento de sua jovem carreira, Clay tinha levado grossos livros de direito para ler e marcar com marcador amarelo alguns trechos, desse modo impressionando os outros advogados com sua intensidade. Agora ele tirou do bolso o Post e abriu na seção de esportes. Como sempre, olhou para o relógio para ver quanto tempo ia perder esperando por Tequila Watson.

 

Vinte e quatro minutos. Nada mal.

 

Um guarda o levou pelo corredor para uma sala dividida por uma grossa parede de Plexiglas. O guarda apontou para o quarto cubículo e Clay sentou-se. Através do vidro ele podia ver que a outra metade do cubículo estava vazia. Mais espera. Tirou papéis da pasta e começou a pensar no que ia perguntar para Tequila. O cubículo à sua direita estava ocupado por um advogado no meio de uma conversa tensa, mas em surdina, com seu cliente, uma pessoa que Clay não podia ver.

 

O guarda voltou e murmurou para Clay, como se a conversa fosse ilegal.

 

- Seu garoto teve uma noite má - ele disse, agachando e olhando para as câmeras de segurança.

 

- Tudo bem - Clay disse.

 

- Ele foi para cima de um garoto mais ou menos às duas horas da manhã, espancou à beça, fez uma bagunça e tanto. Foram precisos seis homens para separar a briga. Ele está horrível.

 

- Tequila?

 

- Watson, esse mesmo. Mandou o outro garoto para o hospital. Na certa terá algumas acusações adicionais.

 

- Tem certeza? - Clay perguntou, olhando por cima do ombro.

 

- Está tudo gravado em vídeo. - Fim da conversa. Ergueram os olhos quando Tequila foi levado à cadeira por

 

dois guardas, cada um de um lado, segurando seus cotovelos. Ele estava algemado, embora os prisioneiros habitualmente fossem libertados das algemas para falar com seus advogados. Ele sentou. Os guardas afastaram-se apenas um pouco.

 

Tequila estava com o olho esquerdo fechado, inchado, com sangue seco nos cantos. O direito estavá aberto, com a pupila vermelha. Tinha um curativo com gaze e esparadrapo no centro da testa e um Band-Aid em forma de borboleta no queixo. Os lábios e as mandíbulas estavam tão inchados que Clay não tinha certeza de estar com o cliente certo. Alguém, em algum lugar tinha espancado para valer o homem ali sentado atrás do vidro a um metro de Clay.

 

Clay apanhou o fone negro e fez sinal para Tequila fazer o mesmo. Ele o segurou desajeitadamente com as duas mãos.

 

- Você é Tequila Watson? - Clay procurou o maior contato visual possível.

 

Ele balançou a cabeça afirmativamente, muito devagar, como se ossos soltos estivessem mudando de posição dentro da cabeça.

 

- Você foi ao médico?

 

Fez que sim com a cabeça novamente.

 

- Os tiras fizeram isso?

 

Sem hesitar ele balançou a cabeça. Não.

 

- Foram os outros caras na cela?

 

Inclinou a cabeça. Sim.

 

- Os tiras disseram que você começou a briga, bateu num garoto e ele foi parar no hospital. É verdade?

 

Outra vez a cabeça. Sim.

 

Era difícil imaginar Tequila Watson, com seus setenta e cinco quilos, provocando alguém numa cela lotada, na cadeia da capital.

 

- Você conhecia o garoto? Movimento lateral da cabeça. Não.

 

Até então ele não tinha precisado do fone e Clay estava cansado da linguagem de sinais.

 

- Por que exatamente você espancou o garoto?

 

com grande esforço os lábios inchados finalmente se abriram.

 

- Eu não sei - ele grunhiu, as palavras lentas e dolorosas.

 

- Isso é formidável, Tequila. Assim tenho com que trabalhar. Que tal autodefesa? O cara o atacou? Deu o primeiro soco?

 

-Não.

 

- Ele estava drogado ou bêbado? -Não.

 

- Estava xingando você, fazendo ameaças, esse tipo de coisa?

 

- Ele estava dormindo.

 

- Dormindo?

 

- Isso aí.

 

- Estava roncando muito alto? Esqueça.

 

O contato visual foi quebrado pelo advogado que de repente precisou escrever alguma coisa no seu bloco de notas amarelo. Clay anotou o dia, a hora, o lugar, o nome do cliente e não encontrou mais nenhum fato importante para anotar. Tinha cem perguntas na mente e depois dessas outras cem. Elas raramente variavam na primeira entrevista, apenas os fatos básicos da vida miserável do cliente e como chegaram a se encontrar. A verdade era guardada como jóia rara para ser passada através do Plexiglas só quando o cliente não era ameaçado. Perguntas sobre família, escola, empregos e amigos eram geralmente respondidas com uma boa margem de honestidade. Mas perguntas relacionadas com o crime eram sujeitas a um jogo de habilidades. Todo advogado criminal sabia como não falar muito sobre o crime na primeira entrevista. Procure os detalhes em outro lugar sem orientação do cliente, a verdade pode aparecer mais tarde.

 

Mas Tequila parecia diferente. Até aquele momento não parecia temer a verdade. Clay resolveu economizar muitas e muitas horas do seu tempo precioso. Inclinou-se para a frente e abaixou a voz.

 

- Dizem que você matou um garoto, deu cinco tiros na cabeça dele.

 

A cabeça inchada se inclinou de leve.

 

- Um tal de Ramón Pumphrey, conhecido como Pumpkin. Você conhecia esse cara?

 

A cabeça se inclinou. Sim.

 

- Você atirou nele? - A voz de Clay era quase um murmúrio. Os guardas dormiam, mas a pergunta era ainda uma que os advogados não faziam, pelo menos não na cadeia.

 

- Atirei. - Tequila disse mansamente.

 

- Cinco vezes?

 

- Pensei que tinham sidV$eis.      

 

Oh, muito bem, nem vai precisar de julgamento. Fecho este caso em sessenta dias, Clay pensou. Um rápido pedido de acordo. Uma declaração de culpado em troca de prisão perpétua.

 

- Um negócio de droga? - Clay perguntou.

 

- Não.

 

- Você o assaltou para roubar?

 

- Não.

 

- Então me ajude, Tequila. Você teve um motivo, não teve?

 

- Eu conhecia o cara.

 

- É isso então? Você o conhecia? Essa é sua melhor desculpa? Ele fez que sim com a cabeça, mas não disse nada.

 

- Uma mulher, certo? Você o pegou com sua namorada? Você tem uma namorada, não tem? Ele balançou a cabeça. Não.

 

- Teve alguma coisa a ver com sexo?

 

- Não.

 

- Fale comigo, Tequila. Eu sou seu advogado. Sou a única pessoa no planeta que está trabalhando neste momento para ajudar você. Dê alguma coisa com que eu possa começar a trabalhar.

 

- Eu comprava drogas de Pumpkin.

 

- Agora você está falando. Há quanto tempo?

 

- Uns dois anos.

 

- Muito bem. Ele devia dinheiro a você ou alguma droga? Você devia alguma coisa a ele?

 

-Não.

 

Clay respirou profundamente e pela primeira vez notou as mãos de Tequila. Estavam cheias de pequenos cortes e tão inchadas que não se viam as juntas.

 

- Você briga muito?

 

Talvez um sim, talvez um não com a cabeça.

 

- Não mais.

 

- Mas antes brigava?

 

- Coisa de criança. Lutei com Pumpkin uma vez. Finalmente. Clay respirou fundo outra vez e ergueu a caneta.

 

- Muito obrigado, senhor, por sua ajuda. Quando, exatamente, você brigou com Pumpkin?

 

- Há muito tempo.

 

- Que idade vocês tinham?

 

Um erguer de ombros em resposta a uma pergunta idiota. Clay sabia por experiência que seu cliente não tinha noção de tempo. Eles foram roubados ontem ou foram presos no mês passado, mas querer saber o que aconteceu há mais de trinta dias e toda a história se confundia. A vida na rua era uma luta para sobreviver hoje, sem tempo para lembranças e nada no passado para ter saudades. Não havia futuro, por isso esse ponto de referência era também desconhecido.

 

- Garotos - Tequila disse, continuando com respostas de uma palavra, talvez um hábito, com ou sem o maxilar quebrado.

 

- Que idade você tinha?

 

- Uns doze.

 

- Foi na escola?

 

- Jogando basquete.

 

- Foi uma briga feia, cortes e ossos quebrados e coisa assim?

 

- Não. Os caras maiores apartaram.

 

Clay largou o fone por um momento e fez um sumário da sua defesa. Senhoras e senhores do júri, meu cliente deu cinco ou seis tiros no sr. Pumphrey (que estava desarmado) à queima-roupa, num beco sujo, com uma arma roubada, por duas razões; a primeira, ele o reconheceu, a segunda, eles tiveram uma briga num playground há uns oito anos. Pode não parecer grande coisa, senhoras e senhores, mas nós todos sabemos que em Washington, D.C. essas duas razões são tão boas quanto quaisquer outras.

 

Outra vez com o fone no ouvido ele perguntou:

 

- Você via Pumpkin com frequência? -Não.

 

- Quando foi a última vez que o viu, antes dele levar os tiros? Tequila deu de ombros. De volta ao problema do tempo.

 

- Você o via uma vez por semana? -Não.

 

- Uma vez por mês?

 

- Não.

 

- Duas vezes por ano?

 

- Talvez.  

 

- Quando você o viu, dqis dj^s^atrás, discutiu com ele? Ajude-me aqui. Tequila, estou me esforçando demais para saber os detalhes.

 

- Não discutimos.

 

- Por que você entrou no beco?

 

Tequila largou o fone e começou a mover a cabeça para a frente e para trás, muito devagar, para aliviar alguma câimbra. Evidentemente sentia dor. As algemas pareciam cortar sua pele. Quando pegou o fone outra vez disse: - vou dizer a verdade. Eu tinha uma arma e queria atirar em alguém. Qualquer pessoa, não importava quem. Saí do Campo e comecei a andar para lugar nenhum, procurando alguém em quem atirar. Quase peguei um coreano no lado de fora da loja dele, mas tinha muita gente por perto. Então eu vi Pumpkin. Eu o conhecia. Conversamos por um minuto. Eu disse que tinha algumas pedras se ele quisesse um lance. Fomos para o beco. Eu atirei no garoto. Não sei por quê. Eu só queria matar alguém.

 

Quando ficou claro que a narrativa tinha terminado, Clay perguntou:

 

- O que é o Campo?

 

- Lugar de reabilitação. Era onde eu estava.

 

- Há quanto tempo estava lá?

 

Tempo outra vez. Mas a resposta foi uma grande surpresa.

 

- Cento e quinze dias.

 

- Você estava limpo havia cento e quinze dias?

 

- Isso aí.

 

- Estava limpo quando atirou em Pumpkin?

 

- Isso mesmo. Ainda estou. Cento e dezesseis dias.

 

- Já tinha atirado em alguém antes?

 

-Não.

 

- Onde arranjou a arma?

 

- Roubei da casa do meu primo.

 

- O Campo é um lugar fechado? -É.

 

- Você fugiu?

 

- Eu estava tendo duas horas. Depois de cem dias a gente pode sair por duas horas, depois volta.

 

- Então você saiu do Campo, foi à casa do seu primo, roubou a arma e começou a andar na rua à procura de alguém para matar e encontrou Pumpkin?

 

Tequila começou a balançar a cabeça afirmativamente quase no fim da frase.

 

- Foi o que aconteceu. Não me pergunte por quê. Eu não sei. Eu simplesmente não sei.

 

Talvez houvesse a sugestão de umidade no olho direito vermelho de Tequila, culpa ou remorso, mas Clay não tinha certeza. Tirou alguns papéis da pasta e os passou pela abertura no vidro.

 

- Assine nas linhas com uma marca vermelha. Volto dentro de uns dois dias.

 

Tequila ignorou os papéis.

 

- O que vai acontecer comigo? - ele perguntou.

 

- Falaremos disso mais tarde.

 

- Quando vou poder sair?

 

- Pode demorar um longo tempo.

 

Os DIRIGENTES DO Campo de Libertação não viam necessidade de fugir dos problemas. Não faziam qualquer esforço para sair da zona de guerra de onde tiravam suas casualidades. Nada de facilidades da tranquilidade do Campo. Nada de clínica isolada num lugar melhor da cidade. Seus acampados vinham das ruas e voltariam para as ruas.

 

O Campo dava para a rua W ao norte de Washington, com vista para uma fileira de casas de dois andares fechadas com tábuas, às vezes usadas por traficantes de crack. Bem à vista ficava o famoso terreno baldio de um antigo posto de gasolina. Ali traficantes se encontravam com seus fornecedores e faziam negócio, sem se importar se alguém estava olhando. Segundo relatórios não oficiais da polícia, o terreno tinha produzido mais mortos a tiros do que qualquer outro território da capital.

 

Clay seguiu de carro lentamente pela rua W, portas fechadas, as mãos segurando a direção com força^oihos virando para todos os lados, ouvidos esperando o inevitável som do tiroteio. Um homem branco naquele gueto era um alvo irresistível, independentemente da hora.

 

O Campo de Libertação era um antigo armazém, há muito abandonado por quem o utilizara por último para armazenar mercadorias, condenado pela prefeitura, então leiloado por poucos dólares a uma organização náo-comercial que de algum modo viu o potencial. Era uma estrutura pesada, o tijolo vermelho pintado com spray de cima a baixo, com os níveis mais baixos pintados novamente pelos especialistas em grafite da vizinhança. Espalhava-se pela rua e ocupava uma quadra inteira. Todas as portas e janelas laterais eram cimentadas e pintadas, de modo que não precisavam de uma cerca nem de rolos de arame farpado.

 

Quem quisesse fugir precisaria de um martelo, uma talhadeira e um dia inteiro de trabalho árduo e ininterrupto.

 

Clay estacionou seu Honda Accord bem na frente do prédio e, por um momento, pensou se seria melhor ir embora ou descer do carro. Uma pequena tabuleta acima do conjunto de grossas portas duplas dizia: CAMPO DE LIBERTAÇÃO. PARTICULAR. Proibida a entrada. Como se alguém pudesse ou quisesse simplesmente entrar. Na rua havia a habitual coleção de tipos de rua: alguns jovens durões, sem dúvida negociando drogas e armas de assalto suficientes para impedir a ação da polícia; um ou dois bêbados cambaleando um atrás do outro e o que pareciam ser membros da família esperando para visitar alguém lá dentro do Campo. Seu trabalho o levava aos lugares mais indesejáveis da capital e ele estava treinado em disfarçar o medo. Eu sou um advogado. Estou aqui a trabalho. Saia do meu caminho. Não fale comigo. Em quase cinco anos com o GDP nunca levara um tiro.

 

Clay trancou o Accord e o deixou junto ao meio-fio. Enquanto fazia isso, admitia tristemente que poucos ou nenhum dos maus elementos da rua se interessariam por seu pequeno carro. Tinha doze anos e quase 300 mil quilómetros rodados. Podem levar, ele pensou.

 

Prendeu a respiração e ignorou os olhares curiosos da gangue da calçada. Não há nenhum outro rosto branco num raio de três quilómetros, Clay pensou. Apertou um botão ao lado das portas e uma voz disse no interfone:

 

- Quem é?

 

- Meu nome é Clay Cárter. Sou advogado. Tenho hora marcada às onze horas com Talmadge X. - Ele disse o nome claramente, ainda certo de que devia ser um engano. No telefone tinha perguntado à secretária como se soletrava o sobrenome do sr. X e ela disse, com certa aspereza, que não era um sobrenome. Era um X. Aceite ou não. Não ia mudar por isso.

 

- Um minuto - disse a voz, e Clay começou a esperar. Olhou para as portas, tentando desesperadamente ignorar tudo à sua volta. Percebeu um movimento à sua esquerda, alguma coisa muito próxima.

 

- Diga, cara, você é advogado? - veio a pergunta numa voz estridente de homem negro jovem, suficientemente alta para que todos pudessem ouvir.

 

Clay virou e olhou para os óculos escuros funk do seu provocador.

 

- Isso mesmo - ele disse, com a maior frieza possível.

 

- Você não é advogado - o jovem disse. Um pequeno grupo se formava atrás dele, olhando embasbacado.

 

- Temo que sim - Clay disse.

 

- Não pode ser advogado nenhum, cara.

 

- De jeito nenhum - disse um da gangue.

 

- Tem certeza de que é advogado?

 

- Tenho - Clay disse, entrando no jogo.

 

- Se é advogado, por que tem uma merda de carrinho como aquele?

 

Clay não sabia ao certo o que magoava mais - o riso da calçada ou a verdade do que ele acabava de dizer. Então ele piorou as coisas.

 

- Minha mulher tem um Mercedes - ele disse, numa péssima tentativa de humor.

 

- Você não tem mulher nenhuma. Não tem aliança.

 

O que mais eles teriam notado?, Clay pensou. Eles riam ainda quando uma das portas se abriu com um leve estalo. Ele conseguiu entrar casualmente em vez de mergulhar para dentro, para a segurança. A área de recebção era urrja casamata com chão de cimento, paredes de concreto, portasse metal, nenhuma janela, teto baixo, pouca luz, tudo, exceto sacos de areia e armas. Atrás de uma mesa longa, doada pelo governo, uma recepcionista atendia dois telefones. Sem erguer os olhos, ela disse:

 

- Ele estará aqui em um minuto.

 

Talmadge X era um homem magro e intenso de uns cinquenta anos, sem um grama de gordura no corpo, sem a menor sugestão de um sorriso no rosto enrugado e envelhecido. Os olhos eram grandes e marcados por décadas de vida nas ruas. Ele era muito negro e sua roupa muito branca - camisa e calça de brim de algodão muito engomadas. Botas negras de combate, perfeitamente engraxadas. A cabeça brilhava também, sem nenhum sinal de cabelo.

 

Ele apontou para a única cadeira no escritório improvisado e fechou a porta.

 

- Tem os papéis? - ele perguntou bruscamente. Estava claro que conversa fútil não era o seu forte.

 

Clay entregou os documentos necessários, todos com a assinatura indecifrável das mãos algemadas de Tequila Watson. Talmadge X leu cada palavra de cada página. Clay notou que ele não usava relógio, nem gostava de relógios. O tempo fora deixado no lado de fora da porta da frente.

 

- Quando ele assinou isto?

 

- São datados de hoje. Eu estive com ele há cerca de duas horas na cadeia.

 

- E é o defensor designado para ele? - Talmadge X perguntou. - Oficialmente?

 

O homem tinha estado mais de uma vez às voltas com a justiça criminal.

 

- Sim. Designado pelo tribunal e pelo gabinete do defensor público.

 

- Glenda ainda está lá?

 

- Sim.

 

- Nós nos conhecemos há muito tempo. - Era o mais perto que chegariam de uma conversa descontraída.

 

- Já sabiam do crime? - Clay perguntou, tirando um bloco de notas da pasta.

 

- Não até seu telefonema, há uma hora. Sabíamos que ele saiu na terça-feira e não voltou, sabíamos que alguma coisa estava errada, mas sempre esperamos que alguma coisa saia errada. Suas palavras eram lentas e precisas, seus olhos piscavam bastante mas não se desviavam. - Diga-me o que aconteceu.

 

- Isto é confidencial, certo? - Clay disse.

 

- Sou conselheiro dele. Sou também seu ministro religioso. Você é seu advogado. Tudo que for dito nesta sala fica nesta sala. Combinado?

 

- Certo.

 

Clay deu os detalhes que tinha, incluindo a versão de Tequila. Tecnicamente, eticamente ele não devia revelar a pessoa alguma o que o cliente tinha dito. Mas quem ia se importar? Talmadge X sabia muito mais sobre Tequila Watson do que Clay jamais saberia.

 

À medida que a narrativa continuava e os eventos eram revelados para Talmadge X, ele finalmente se emocionou e fechou os olhos. Levantou a cabeça para o teto como perguntando a Deus por que aquilo tinha acontecido. Ficou ausente, imerso em pensamentos e profundamente preocupado.

 

Quando Clay terminou, Talmadge X disse:

 

- O que eu posso fazer?

 

- Eu gostaria de ver a ficha dele. Tequila me autorizou. A pasta estava na mesa, na frente de Talmadge X.

 

- Mais tarde - ele disse. - Mas vamos conversar antes. O que o senhor quer saber?

 

- Vamos começar com Tequila. De onde ele vem?

 

O olhar não estava mais ausente. Talmadge estava pronto para ajudar.

 

- Da rua, de onde todos eles vêm. Foi enviado pelo Serviço Social porque era um caso sem esperança. Sem o que se possa chamar de família. Não conheceu o pai. A mãe morreu de AIDS quando ele tinha três anos. Criado por uma tia ou duas, passou pela família toda, lares adotivos aqui e ali, entrando e saindo de tribunais e de centros para a juventude. Largou a escola. Caso típico para nós. Você sabe alguma coisa sobre o Campo de Libertação?

 

- Não. x

 

- Pegamos os casos maís-difíçeis, os permanentemente viciados. Nós os mantemos presos durante meses, damos a eles um ambiente de campo de treinamento militar. Somos oito aqui, oito conselheiros e todos fomos viciados. Uma vez viciado, sempre viciado, mas o senhor deve saber disso. Quatro de nós são agora ministros religiosos. Eu servi treze anos por uso de drogas e roubo, depois encontrei Jesus. De qualquer modo, nos especializamos nos jovens viciados em crack que ninguém mais pode ajudar.

 

- Só crackt.

 

- Crack a droga, homem. Barato, abundante, leva a sua mente para longe por alguns minutos. Quando se começa não se pode parar.

 

- Ele não me disse muita coisa sobre ficha criminal. Talmadge X abriu a pasta e folheou as páginas.

 

- Provavelmente porque ele não lembra muito. Tequila passou anos chapado. Aqui está uma porção de coisas pequenas quando era ainda da classe juvenil, furto, roubo de carros, o de sempre, o que nós todos fizemos quando começamos a comprar drogas. com dezoito anos cumpriu quatro meses por roubo de lojas. Pegou três meses por posse no ano passado. Não é uma ficha muito ruim para um de nós. Nada violento.

 

- Quantos crimes dolosos?

 

- Não vejo nenhum.

 

- Acho que isso pode ajudar - Clay disse. - De certo modo.

 

- Parece que nada pode ajudar.

 

- Disseram que há pelo menos duas testemunhas oculares. Não estou otimista.

 

- Ele confessou para os tiras?

 

- Não. Eles disseram que ele ficou de boca fechada quando o prenderam e não disse nada.

 

- Isso é raro.

 

- Sim, é - Clay disse.

 

- Está parecendo perpétua sem condicional - disse Talmadge X, a voz da experiência.

 

- Acertou.

 

- Não é o fim do mundo para nós, sabe dr. Cárter. De muitos modos, a vida na prisão é melhor do que na rua. Eu tenho uma porção de companheiros que preferem. O triste é que Tequila era um dos poucos que podia conseguir.

 

- Por quê?

 

- O garoto tem um cérebro. Quando ficou limpo e saudável, sentiu-se tão bem! Pela primeira vez na sua vida adulta ele estava sóbrio. Não sabia ler, então nós ensinamos. Gostava de desenhar, então encorajamos a arte. Nunca nos entusiasmamos por aqui, mas Tequila nos deixou orgulhosos. Ele estava até pensando em mudar de nome por motivos óbvios.

 

- Vocês nunca se entusiasmam?

 

- Perdemos sessenta e seis por cento, dr. Cárter. Dois terços. Eles vêm para cá, doentes como cães, drogados o corpo e o cérebro cozidos em crack, desnutridos, até passando fome, doenças da pele, queda de cabelo, os viciados mais doentes que a capital pode produzir e nós os engordamos, secamos, os fechamos num treinamento básico, fazendo-os levantar à seis horas da manhã, esfregar os quartos e esperar a inspeção, desjejum às seis e meia, depois lavagem cerebral contínua com um rigoroso grupo de conselheiros que estiveram exatamente onde eles estão, sem besteiras, perdoe minha linguagem, nunca sequer tentem nos trapacear porque nós todos fomos trapaceiros. Depois de um mês, eles estão limpos e muito orgulhosos. Não sentem falta do mundo lá fora porque não há nada de bom à espera deles, nenhum emprego, nenhuma família, ninguém os ama. É fácil fazer a lavagem cerebral e nós somos inflexíveis. Depois de três meses, dependendo do paciente, podemos começar a mandá-los de volta às ruas uma ou duas horas por dia. Nove em dez retornam, ansiosos para voltar aos seus pequenos quartos. Ficamos com eles durante um ano, dr. Cárter. Doze meses, nem um dia a menos. Tentamos ensinar alguma coisa, talvez uma profissão, talvez um pequeno treinamento com computadores. Nos esforçamos ao máximo para arranjar empregos. Eles se formam, nós todos choramos. Eles vão embora e dentro de um ano, dois terços deles estão usando crack outra vez e caminhando para a sarjeta.

 

- Vocês os recebem de volta?      

 

- Raramente. Se eles souberern que podem voltar, é maior a probabilidade de recaída.

 

- O que acontece com a outraVterça-parte?

 

- Por isso estamos aqui, dr. Cárter. Por isso sou conselheiro. Essa gente, como eu, sobrevive no mundo e faz isso com um rigor que ninguém compreende. Pomos ao inferno e voltamos e é uma estrada muito feia. Muitos de nós, sobreviventes, trabalhamos com outros viciados.

 

- Quantas pessoas podem acomodar de uma vez?

 

- Temos oito leitos, todos ocupados. Temos espaço para duas vezes mais do que isso. Mas nunca há dinheiro suficiente.

 

- Quem os financia?

 

- Oito por cento é de subvenção federal, sem garantia de ano para ano. O resto conseguimos de particulares. Somos muito ocupados para levantar muito dinheiro.

 

Clay virou a página e fez uma anotação.

 

- Não há nem uma pessoa da família com quem eu possa falar?

 

Talmadge X folheava o dossiê, balançando a cabeça.

 

- Talvez uma tia em algum lugar, mas não espere muito. Mesmo que encontre alguma, como isso pode ajudá-lo?

 

- Ela não pode. Mas é bom ter uma pessoa da família para contato.

 

Talmadge X continuou a folhear o dossiê como se tivesse alguma coisa em mente. Clay suspeitava que ele procurava anotações ou observações para remover, antes de entregar a pasta.

 

- Quando posso ver isso? - Clay perguntou.

 

- Que tal amanhã? Eu gostaria de fazer uma revisão primeiro. Clay deu de ombros. Se Talmadge dizia amanhã, então tinha

 

de ser amanhã.

 

- Muito bem, dr. Cárter. Eu não compreendo o motivo dele. Pode me dizer por quê?

 

- Não posso. Diga você. Você o conheceu por quase quatro meses. Nenhuma história de violência ou armas. Nenhuma propensão para brigas. Parece que ele era um paciente ideal. Você viu tudo. Você me diz o motivo.

 

- Eu vi tudo - disse Talmadge X, os olhos mais tristes do que antes -, mas nunca vi isto. O garoto tinha medo de violência. Não toleramos brigas aqui, mas garotos sempre serão garotos e sempre há um pequeno ritual de intimidação. Tequila era um dos fracos. De modo algum ele sairia daqui, roubaria uma arma, escolheria uma vítima ao acaso e a mataria. E de modo algum ele atacaria um cara na cadeia e o mandaria para o hospital. Eu simplesmente não acredito.

 

- Então o que eu digo para o júri?

 

- Que júri? E um caso de admitir a culpa e você sabe disso. Ele vai para a prisão para o resto da vida. Tenho certeza de que ele conhece muita gente lá dentro.

 

Houve uma longa lacuna na conversa, uma quebra que não pareceu incomodar nem um pouco Talmadge X. Ele fechou a pasta e a empurrou para o lado. O encontro estava para terminar. Mas Clay era o visitante. Era hora de ir embora.

 

- Volto amanhã - ele disse. - A que horas?

 

- Depois das dez - Talmadge X respondeu. - Eu o acompanho até a porta.

 

- Não é necessário - Clay disse, encantado com a escolta.

 

A gangue era maior agora e parecia esperar a saída do advogado do Campo L. Estavam sentados e encostados no Accord, que continuava onde ele o deixara, e inteiro. Fosse qual fosse a diversão que podiam ter planejado, desistiram quando viram Talmadge X. com um rápido movimento da cabeça ele dispersou a gangue e Clay saiu rapidamente, intocado e temendo a volta no dia seguinte.

 

Dirigiu por oito quarteirões, encontrou a rua Lamont e depois a esquina da avenida Georgia, onde parou por um momento para um rápido olhar em volta. Não faltavam becos onde era possível atirar em alguém e ele não ia procurar manchas de sangue. O lugar era tão desolado quanto o que ele acabava de deixar. Voltaria depois com Rodney, um paralegal negro que conhecia as ruas e então examinariam a área e fariam perguntas.

 

O CLUBE DE CAMPO POTOMAC, em McLean, Virgínia, fora fundado há cem anos por algumas pessoas ricas esnobadas pelos outros clubes de campo. Gente rica pode tolerar quase qualquer coisa, mas não rejeição. Os rejeitados investiram seus recursos consideráveis no Potomac e construíram o melhor clube de Washington, D.C. Escolheram alguns senadores dos clubes rivais e atraíram outros membros como trofeus e em pouco tempo o Potomac tinha comprado respeitabilidade. Quando o número de sócios era suficiente para mante-lo, o clube começou a prática obrigatória de excluir outros. Embora ainda considerado um clube novo, parecia, sentia e agia como todos os outros.

 

Porém, era diferente num ponto importante. O Potomac jamais negou que seus títulos podiam ser comprados se a pessoa tivesse dinheiro suficiente. Esqueça listas de espera, comités de seleção e votos secretos da diretoria de admissão. Se você estava há pouco tempo na capital, ou se ficasse rico de repente, então status e prestígio podiam ser obtidos de um dia para o outro se seu cheque fosse bastante grande. Como resultado, o Potomac tinha a melhor pista de golfe, as melhores quadras de ténis, as melhores piscinas, a mais bela sede, restaurantes, tudo que um ambicioso clube de campo pode desejar.

 

Pelo que Clay sabia, Bennett Van Hom tinha assinado o grande cheque. Independentemente de qual nuvem de fumaça ele estava soltando no momento, os pais de Clay não tinham dinheiro e certamente não teriam sido aceitos no Potomac. Seu pai processara Bennett há dezoito anos por causa de um mau negócio imobiliário em Alexandria. Na época, Bennett era um corretor de imóveis fanfarrão, com muitas dívidas e poucos bens não taxados.

 

Não era então sócio do Potomac, embora atualmente agisse como se tivesse nascido ali.

 

Bennett, a Escavadeira, descobriu a mina de ouro no fim dos anos 80 quando invadiu as colinas ondulantes do campo da Virgínia. Os negócios deram certo. Sócios foram encontrados. Ele não inventou o estilo derrubar-e-queimar da construção nos subúrbios, mas sem dúvida o aperfeiçoou. Nas colinas imaculadas ele construiu galerias comerciais. Próximo a um campo de batalha sagrado, construiu uma subdivisão. Aplainou um povoado inteiro para um dos seus projetos planejados - apartamentos, condomínios, grandes casas, casas pequenas, um parque no centro com um lago enlameado e raso, e duas quadras de ténis, um rebuscado shopping que parecia bonito no escritório do arquiteto mas nunca foi construído. Ironicamente, embora Bennett não compreendesse a ironia, ele chamou seus projetos delicados na paisagem que estava destruindo, de Prados Ondulantes, Carvalhos Murmurantes, Colinas da Floresta etc. Juntou-se a outros artistas da construção, fazendo lobby na legislatura estadual em Richmond, conseguiu mais dinheiro para mais estradas para que mais subdivisões pudessem ser construídas e mais tráfego criado. Fazendo isso, tornou-se uma figura no jogo político e seu ego inflou.

 

No começo dos anos 90, seu grupo BVH cresceu rapidamente com a renda crescendo um pouco mais depressa do que os pagamentos dos empréstimos. Ele e a mulher, Barb, comprararn uma casa numa parte muito prestigiada de McLean. Entraram para o Clube Potomac e se tornaram figuras permanentes. Trabalharam com afinco para criar a ilusão de que sempre-finham sido ricos.

 

Em 1994, de acordo com os arquivos do SEC, Departamento de Fiscalização do Comércio Imobiliário, que Clay estudara diligentemente e dos quais tinha cópias, Bennett resolveu abrir o capital da sua companhia e aumentá-lo para 200 milhões de dólares. Planejava usar o dinheiro para pagar algumas dívidas, porém o mais importante era para ”... investir no ilimitado futuro do Norte da Virgínia”. Em outras palavras, mais cavadeiras, mais complexos do tipo derrubar-e-queimar. A ideia de Bennett corn todo aquele dinheiro, sem dúvida entusiasmou os vendedores locais da Caterpillar. E teria horrorizado os governos locais, se eles não estivessem dormindo.

 

com um banco de investimento blue-chip abrindo o caminho, as açóes do grupo BVH subiram para 10 dólares cada uma e atingiram o pico de 16,50 dólares; nada mal, contudo, muito aquém do que seu fundador e chefe-executivo previa. Uma semana antes da abertura do capital ele declarou no Daily Profit, um tablóide comercial local, que ”... os rapazes de Wall Street têm certeza de que chegarão a quarenta dólares por ação”. No mercado Over, a transação de títulos não cotados na bolsa, as ações flutuaram de volta à terra e pousaram com um tranco na classe de seis dólares. Bennett insensatamente recusou-se a se desfazer de algumas ações como faz todo bom empresário. Ficou com os quatro milhões de ações e viu seu valor de mercado baixar de 66 milhões para quase nada.

 

Todos os dias úteis, de manhã, só por divertimento, Clay verificava o preço de uma ação, só uma. O grupo BVH estava sendo negociado a 0,87 cada ação.

 

”Como vão suas ações?”, era o grande tapa no rosto que Clay nunca teve coragem de dar.

 

- Talvez esta noite - ele resmungou, quando chegou com o carro na entrada do Clube de Campo Potomac. Como havia um casamento em potencial num futuro próximo, as deficiências de Clay eram o assunto preferido no jantar, mas não as do sr. Van Horn.

 

- Ei, meus parabéns, Bennett, as ações subiram doze centavos nos últimos dois meses - Clay disse em voz alta. ”Chutando traseiros, não é mesmo, meu velho! Hora para outro Mercedes?”, eram as coisas que ele queria dizer para Van Horn.

 

Para evitar a gorjeta do manobrista, Clay escondeu seu Accord num estacionamento distante, atrás de algumas quadras de ténis. Quando ia a pé para a sede do clube, ajeitou a gravata e continuou a resmungar. Detestava aquele lugar, detestava por todos os cretinos que eram sócios, detestava porque não podia ser sócio, detestava porque era território dos Van Hom e eles queriam que ele se sentisse como um invasor. Pela centésima vez naquele dia, como em todos os dias, ele se perguntava por que foi se apaixonar por uma mulher cujos pais eram tão insuportáveis. Se Clay tinha algum plano, era fugir com Rebecca e se mudar para a Nova Zelândia, longe do gabinete do defensor público e o mais longe possível da família dela.

 

O olhar da recepcionista dizia, eu sei que você não é sócio, mas vou levá-lo à sua mesa assim mesmo.

 

- Siga-me - ela disse com a sugestão de um sorriso falso. Clay não disse nada. Engoliu em seco, olhou direto para a frente e tentou ignorar o nó apertado no estômago. Como podia ter prazer numa refeição naquele ambiente? Ele e Rebecca tinham jantado ali duas vezes, uma com o senhor e a senhora Van Hom, outra só os dois. A comida era cara e muito boa, mas afinal Clay vivia de presunto de peru, por isso sabia que seus padrões eram baixos.

 

Bennett não estava presente. Clay encostou o cotovelo gentilmente na sra. Van Hom, um ritual que ambos detestavam e ofereceu um patético ”Feliz aniversário”. Beijou Rebecca levemente no rosto. Era uma boa mesa, com vista para o décimo oitavo buraco do golfe, uma localização muito privilegiada, porque dava para ver os velhos chafurdando nas armadilhas de areia e perdendo a última tacada.

 

- Onde está o sr. Van Horn? - Clay perguntou, esperando que ele estivesse fora da cidade, ou melhor ainda, hospitalizado com alguma doença grave.

 

- Está vindo - Rebecca disse.

 

- Ele passou o dia em Richmond, numa reunião com o governador - acrescentou a sra. Van Hom, por segurança. Èks eram inflexíveis. Clay queria dizer: ”Vocês venceram! Vocês venceram! Vocês são mais importantes do que eu!”

 

- No que ele está trabalhando? - Clay perguntou cortesmente, mais uma vez admirado com a própria capacidade de parecer sincero. Clay .sabia exatamente por que a Escavadeira estava em Richmond. O Estado estava quebrado e não tinha meios para abrir novas estradas na Virgínia do Norte, onde Bennett e seus iguais exigiam que fossem abertas. Os votos estavam na Virgínia do Norte. A legislatura estava considerando um referendo local de impostos sobre vendas para que as cidades e os condados ao redor da capital pudessem abrir as próprias estradas. Mais estradas, mais condomínios, mais galerias comerciais, mais tráfego, mais dinheiro para o grupo BVH agonizante.

 

- Coisas de política - Barb disse. Na verdade, ela provavelmente não sabia o que o marido e o governador discutiam. Clay duvidava que ela soubesse o preço atual da ação do BVH. Ela sabia quando o clube de bridge se reunia, e sabia que Clay ganhava pouco, mas a maior parte dos outros detalhes ficava a cargo de Bennett.

 

- Como foi o seu dia? - Rebecca perguntou gentilmente mas com rapidez, desviando a conversa da política. Clay tinha usado a palavra espalhar duas ou três vezes conversando sobre certos assuntos com os pais dela e as coisas ficaram tensas.

 

- O de sempre - ele disse. - E o seu?

 

- Vamos ter audiências amanhã, por isso hoje o gabinete estava em alvoroço.

 

- Rebecca me disse que você tem outro caso de assassinato Barb disse.

 

- Sim, é verdade - Clay disse, imaginando quais outros aspectos do seu emprego de defensor público elas costumavam comentar. Cada uma tinha um copo de vinho branco na frente. Cada copo estava pela metade. Ele chegara no meio de uma conversa, provavelmente a seu respeito. Ou estaria sendo excessivamente sensível? Talvez.

 

- Quem é seu cliente? - Barb perguntou.

 

- Um garoto da rua.

 

- Quem ele matou? :

 

- A vítima era outro garoto da rua.

 

Isso a aliviou de certo modo. Negros matando negros. Quem se importava com isso?

 

- Ele é culpado? - ela perguntou.

 

- Até agora é supostamente inocente. É assim que acoisa funciona.

 

- Em outras palavras, ele matou.

 

- Parece que sim.

 

- Como você pode defender gente como essa? Se sabe que são culpados, como pode trabalhar com tanto afinco tentando libertá-los?

 

Rebecca tomou um grande gole de vinho e resolveu deixar passar a pergunta. Ultimamente ela ia cada vez menos em socorro de Clay. Uma ideia incómoda era que, enquanto a vida podia ser mágica com ela, seria um pesadelo para os dois. Os pesadelos estavam vencendo.

 

- Nossa Constituição garante a todos um advogado e um julgamento justo - ele disse com ar condescendente, como se qualquer idiota soubesse disso. - Estou só fazendo meu trabalho.

 

Barb revirou os olhos novos e depois olhou para o décimo oitavo buraco. Muitas senhoras do Potomac tinham usado um cirurgião plástico cuja especialidade evidentemente era a aparência asiática. Depois da segunda sessão os olhos ficavam repuxados nos cantos e embora livres de rugas, pareciam grosseiramente artificiais. A velha Barb fora beliscada, dobrada e botoxada sem um plano a longo prazo e a transição simplesmente não estava funcionando.

 

Rebecca tomou outro longo gole de vinho. Na primeira vez que tinham comido no clube com os pais dela, Rebecca tirou um sapato debaixo da mesa e passou o pé para cima e para baixo na perna dele, como dizendo: ”Vamos dar o fora daqui e rolar na cama.” Mas não nessa noite, estava fria e parecia preocupada. Clay sabia que ela não estava pensando em nenhuma audiência sem sentido que teria de preparar no dia seguinte. Havia outros assuntos sob a superfície e ele imaginou se esse jantar podia ser uma revelação, um acerto de contas sobre o futuro próximo.

 

Bennett chegou apressado, pedindo desculpas insinceras pelo atraso. Bateu nas costas de Clay como se fossem irmãos de urna fraternidade e beijou os rostos das duas mulheres.

 

- Como vai o governador? - Barb perguntou, com voz suficientemente alta para ser ouvida no outro lado da sala.

 

- Muito bem. Mandou lembranças. O presidente da Coreia estará na cidade na próxima semana. O governador nos convidou para uma festa a rigor na mansão. - Isso também dito a todo o volume.

 

- Oh, é mesmo! - Barb disse com entusiasmo, o novo rosto contorcido numa expressão de prazer.

 

Deve se sentir à vontade com os coreanos, Clay pensou.

 

- Vai ser um estouro - Bennett disse, tirando do bolso uma coleção de celulares e enfileirando-os na mesa. Logo um garçom apareceu atrás dele com um scotch duplo, Chivas com pouco gelo, como sempre.

 

Clay pediu chá gelado.

 

- Como vai meu senador? - Bennett inclinou-se para Rebecca e olhou para a direita, certificando-se de que o casal na mesa próxima tinha ouvido. Eu tenho meu próprio senador!

 

- Ele está ótimo, papai. Mandou lembranças. Anda muito ocupado.

 

- Você parece cansada, doçura, um dia difícil?

 

- Não muito.

 

Os três Van Hom tomaram um gole. A fadiga de Rebecca era um tópico favorito dos pais. Achavam que ela trabalhava demais. Achavam que ela não devia trabalhar. Ela estava perto dos trinta e era hora de casar com um jovem que tivesse um emprego bem pago e um futuro brilhante para que pudessem ter seus netos e passar o resto da vida no Clube de Campo Potomac.

 

Clay não se preocuparia muito com o que eles queriam a não ser pelo fato de Rebecca ter certos sonhos. Certa vez ela tinha falado de uma carreira no serviço público, mas depois de quatro anos no Senado estava farta de burocracias. Queria um marido e filhos e uma casa grande num bairro elegante.

 

Os menus foram distribuídos. Bennett recebeu um telefonema e descortesmente o atendeu ali mesmo. Algum negócio estava dando errado. O futuro da liberdade financeira da América estava em jogo.

 

- O que devo vestir? - Barb perguntou para Rebecca, enquanto Clay se escondia atrás do menu.

 

- Alguma coisa nova - Rebecca disse.

 

- Tem razão - Barb concordou imediatamente. - Vamos fazer compras no sábado.

 

- Boa ideia.

 

Bennett salvou o negócio e fizeram os pedidos. Ele os brindou com os detalhes do telefonema - um banco não estava se movendo com bastante rapidez, ele precisava acender uma fogueira, blá, blá, blá. Isso continuou até chegarem as saladas.

 

Depois de algumas garfadas, Bennett disse, com a boca cheia, como de hábito.

 

- Quando eu estava em Richmond, almocei com meu grande amigo lan Ludkin, presidente da Assembleia Legislativa. Você ia gostar dele, Clay, um verdadeiro príncipe. Um perfeito cavalheiro da Virginia.

 

Mastigando, Clay assentiu, inclinando a cabeça, como se mal pudesse esperar para conhecer todos os bons amigos de Bennett.

 

- De qualquer modo ele me deve certos favores, a maioria deles lá mesmo em Richmond, por isso eu toquei no assunto.

 

Depois de um segundo, Clay percebeu que as mulheres não estavam comendo. Seus garfos descansavam e elas olhavam e ouviam avidamente.

 

- Qual assunto? - Clay perguntou porque os três pareciam esperar que ele dissesse alguma coisa.

 

- Bem, falei sobre você, Clay. Jovem advogado brilhante, talentoso, esperto, trabalhador, faculdade de direito Georgetown. bonito, bom caráter e ele disse que está sempre procurando novos talentos. Deus sabe que são difíceis de encontrar. Disse que tern uma vaga para advogado. Eu disse que não tinha ideia se você estaria ou não interessado, mas teria prazer em perguntar. O que você acha?

 

”Eu acho que estou sendo posto contra a parede”, Clay quase disse. Rebecca olhava para ele atentamente, esperando sua reação. Seguindo o scrift, Barb disse:

 

- Parece maravilhoso.

 

Talentoso, brilhante, trabalhador, instruído, até bonito. Clay estava atónito com a brusca subida no valor do seu portfólio de ações.

 

- E interessante - ele disse, com alguma sinceridade. Era interessante sob todos os aspectos.

 

Bennett estava pronto para atacar. E claro, ele tinha a vantagem da surpresa.

 

- É uma ótima posição. Trabalho fascinante. Vai conhecer quem realmente manda lá. Nunca um momento de tédio. Muitas horas de trabalho, pelo menos quando o legislativo está em sessão, mas eu disse que você tem ombros largos. Muita responsabilidade.

 

- O que exatamente eu teria de fazer? - Clay conseguiu perguntar.

 

- Oh, eu não conheço todo esse negócio de direito. Mas se estiver interessado lan disse que terá prazer em arranjar uma entrevista. Mas tem de ser resolvido logo. Ele disse que os currículos não param de chegar. Tem de ser rápido.

 

- Richmond não é tão longe - Barb disse.

 

Um bocado mais perto do que a Nova Zelândia, Clay pensou. Barb já estava planejando o casamento. Ele não sabia o que Rebecca pensava. Às vezes ela se sentia estrangulada pelos pais, mas raramente demonstrava desejo de se afastar deles. Bennett usava seu dinheiro, se é que ainda tinha algum, como uma isca para manter as duas filhas perto de casa.

 

- Bem, obrigado, eu acho - Clay disse, cedendo ao peso dos ombros largos recentemente adquiridos.

 

- Salário inicial de 94 mil dólares por ano - Bennett disse, uma ou duas oitavas mais abaixo, para não ser ouvido fora da mesa.

 

Noventa e quatro mil dólares era mais do dobro do que Clay ganhava no momento e todos sabiam disso. Os Van Hom adoravam o dinheiro e eram obcecados por salários e renda líquida.

 

- Minha nossa - Barb disse, seguindo o script.

 

- Um belo salário - Clay admitiu.

 

- Nada mal para começar - Bennett disse. - lan diz que você vai conhecer os grandes advogados da cidade. Fazer contatos é tudo. Faça isso durante alguns anos e vai estar garantida sua entrada como sócio de uma grande firma. E onde está o dinheiro de verdade, você sabe.

 

Não era reconfortante saber que Bennett Van Hom de repente se interessava em planejar o resto da vida de Clay. O planejamento, é claro, não tinha nada a ver com Clay, mas tudo a ver com Rebecca.

 

- Como pode recusar? - Barb disse, entrando de sola.

 

- Não force a barra, mamãe - Rebecca disse.

 

- É uma oportunidade tão maravilhosa - Barb disse, como se Clay não pudesse ver o óbvio.

 

- Pense no assunto. Durma sobre ele - Bennett disse. O presente estava entregue. Vamos ver se o garoto é bastante esperto para aceitar.

 

Clay devorava a salada com determinação. Inclinou a cabeça afirmativamente, como se não pudesse falar. O segundo scotch chegou e interrompeu o momento. Bennett falou então sobre o último boato de Richmond, a possibilidade de uma franquia para o beisebol profissional na área da capital, um dos seus tópicos favoritos. Ele estava à margem de um dos três grupos de investimentos pretendentes à franquia, se e quando fosse aprovada, e estava entusiasmado com as últimas notícias a respeito. Segundo um artigo recente no Post, o grupo de Bennett estava em terceiro lugar e perdendo terreno a cada mês. Suas finanças não eram claras, estavam definitivamente abaladas, segundo uma fonte não identificada e o nome de Bennett Van Hom não era mencionado nem uma vez no artigo. Clay sabia que ele tinha dívidas enormes. Vários dos seus projetos foram cancelados por um grupo de ambientalistas que tentavam preservar o que restava de terra na Virgínia do Norte. Ele estava processando antigos sócios. Suas ações praticamente não tinham nenhum valor. No entanto ali estava ele tomando seu scotch e tagarelando sobre um novo estádio de 400 milhões de dólares e uma franquia de 200 milhões, com uma folha de pagamento de pelo menos 100 milhões.

 

Os bifes chegaram, logo que a salada foi terminada, poupando Clay de outro momento de conversa torturante sem ter nada para colocar na boca. Rebecca o ignorava e ele certamente a ignorava. A briga não ia demorar.

 

Foram contadas histórias sobre o governador, um amigo pessoal muito chegado, que estava organizando sua máquina para se candidatar ao Senado e, é claro, queria Bennett envolvido no movimento. Um ou dois dos seus acordos mais quentes foram revelados. Ele falou sobre um novo avião, mas era uma conversa mais ou menos antiga e Bennett não conseguia encontrar o que queria. O jantar pareceu durar duas horas, mas só noventa minutos tinham passado quando eles declinaram a sobremesa e começaram a se preparar para sair.

 

Clay agradeceu a Bennett e Barb o jantar e prometeu outra vez resolver rapidamente sobre o emprego em Richmond.

 

- A chance de toda uma vida - Bennett disse, gravemente. Não faça bobagem.

 

Quando teve certeza de que eles tinham ido embora, Clay pediu para Rebecca ir com ele até o bar por um minuto. Esperaram que os drinques fossem servidos para começar a falar. Quando as coisas estavam tensas os dois tendiam a esperar que o outro falasse primeiro.

 

- Eu não sabia do emprego em Richmond - ela começou.

 

- Acho difícil acreditar. Parece que toda a família estava sabendo. Sua mãe certamente sabia.

 

- Meu pai só está preocupado com você, nada mais. ”Seu pai é um idiota”, Clay gostaria de dizer.

 

- Não, ele se preocupa com você. Não pode deixar que você case com um cara sem futuro, por isso resolveu fazer nosso futuro. Não acha presunção da parte dele resolver que não gosta do meu emprego e sair por aí à procura de outro?

 

- Talvez ele esteja só tentando ajudar. Ele adora o jogo da troca de favores.

 

- Mas por que ele supõe que preciso de ajuda?

 

- Talvez você precise.

 

- Sim. Finalmente a verdade.

 

- Você não pode trabalhar lá para sempre, Clay. Você é bom no que faz e se interessa por seus clientes, mas talvez esteja na hora de mudar. Cinco anos no GDP é um longo tempo. Você mesmo disse.

 

- Talvez eu não queira morar em Richmond. Talvez eu nunca tenha pensado em deixar a capital. E se eu não quiser trabalhar para um dos amigos do seu pai? Suponha que a ideia de trabalhar no meio de um bando de políticos locais não me agrade? Eu sou advogado, Rebecca, não um burocrata.

 

- Ótimo. Como quiser.

 

- Esse emprego é um ultimato?

 

- Como assim?

 

- De todo modo. O que acontece se eu recusar?

 

- Acho que já recusou, o que, diga-se de passagem, é bem típico de você. Decidiu de estalo.

 

- Decisões de estalo são mais fáceis quando a escolha é óbvia. Eu procuro meus empregos e certamente não pedi ao seu pai nenhum favor. Mas o que acontece se eu disser não?

 

- Oh, tenho certeza de que o sol vai nascer amanhã.

 

- E seus pais?

 

- Tenho certeza de que ficarão desapontados.

 

- E você?

 

Ela deu de ombros e tomou um gole do drinque. O casamento fora discutido em várias ocasiões mas não tinham chegado a nenhum acordo. Não estavam noivos, certamente não havia nenhum prazo marcado. Se um deles quisesse desistir tinha espaço suficiente, embora não muito grande. Mas depois de quatro anos (1) não namorando mais ninguém, (2) continuamente reafirmando o amor de um pelo outro e (3) fazendo sexo pelo menos cinco vezes por semana, o relacionamento caminhava para o status de permanente.

 

Entretanto ele não estava disposto a admitir a verdade de que ela queria deixar de trabalhar por algum tempo, ter um marido e uma família e talvez nunca mais voltar ao trabalho. Estavam ainda competindo, ainda fazendo o jogo de quem era mais importante. Ela não podia admitir que queria um marido que a sustentasse.

 

- Eu não me importo, Clay - ela disse. - É só uma oferta de emprego, não uma indicação para o gabinete. Recuse se quiser.

 

- Muito obrigado. - E de repente, ele se sentiu como um cretino. E se Bennett estivesse simplesmente tentando ajudar? Ele gostava tão pouco dos pais dela que tudo que eles faziam o irritava. Era problema seu, não era? Eles tinham o direito de se preocupar com o futuro do companheiro da filha, o pai dos seus netos.

 

E Clay relutantemente admitia, quem não se preocuparia, tendo um genro como ele? ......

 

- Eu gostaria de ir - ela disse. -Claro.

 

Clay a acompanhou para fora do clube e vendo Rebecca andando na sua frente, quase sugeriu que tinham tempo de ir ao apartamento dela para uma rápida sessão. Mas Rebecca não parecia disposta e, dado o tom daquela noite, teria prazer em rejeitálo sumariamente. Então Clay se sentiria um tolo incapaz de se controlar, exatamente o que ele era nessas ocasiões. Assim, ele se conteve, apertou os maxilares e deixou passar o momento. Quando a ajudava a entrar no BMW, ela murmurou:

- Por que você não vai ao meu apartamento por alguns minutos?

 

Clay correu para o seu carro.

 

ELE SE SENTIA DE CERTO MODO mais seguro com Rodney, além disso eram 9 horas da manhã, cedo demais para os tipos perigosos da rua Lamont. Estavam ainda dormindo para se livrar dos venenos consumidos na noite anterior. Os comerciantes começavam a chegar. Clay estacionou perto do beco.

 

Rodney era um paralegal de carreira no GDP. Há uma década matriculara-se na faculdade noturna de direito e abandonara o curso, sempre dizendo que algum dia ia se formar e entrar para a Ordem dos Advogados. Mas com quatro adolescentes em casa, o dinheiro e o tempo eram escassos. Conhecia bem a vida das ruas da capital porque era de onde tinha vindo. Parte da sua rotina dia- • ria era o pedido de um advogado do GDP, geralmente branco, assustado e inexperiente, para acompanhá-lo ou acompanhá-la às zonas de guerra e investigar algum crime hediondo. Era um paralegal, não um investigador, e declinava do pedido tantas vezes quantas o atendia.

 

Mas nunca disse não para Clay. Os dois tinham trabalhado juntos em muitos casos. Acharam o local do beco onde Ramón tinha caído e inspecionaram cuidadosamente a área, sabendo que a polícia já fizera isso várias vezes. Gastaram um rolo inteiro de filme e foram procurar testemunhas.

 

Não havia nenhuma, o que não era surpresa. Quando Clay e Rodney estavam havia quinze minutos na cena do crime, a notícia tinha se espalhado. Há estranhos no local, investigando o último crime, portanto tranquem as portas e não digam nada. As testemunhas das caixas de leite na frente da loja de bebidas, homens que passavam muitas horas todos os dias no mesmo lugar, tomando vinho barato e vendo tudo, há muito tinham desaparecido e ninguém os conhecia. Os comerciantes pareciam surpresos ao saber dos tiros. ”Por aqui?”, um deles perguntou, como se o crime nunca tivesse chegado ao gueto.

 

Depois de uma hora foram para o Campo L. Enquanto Clay dirigia, Rodney tomava café num copo de papel. Café ruim, pela cara dele.

 

- Jermaine teve um caso similar há alguns dias - ele disse. Garoto na reabilitação, passou alguns meses na prisão, saiu, não sei se fugiu ou foi solto, mas dentro de vinte e quatro horas encontrou uma arma e atirou em duas pessoas. Uma delas morreu.

 

- Atirou ao acaso?

 

- O que é acaso por aqui? Dois caras de automóvel, sem seguro, dão uma batida e começam a atirar um no outro. Isso é acaso, ou crime justificado?

 

- Foi droga, roubo, autodefesa? -Acaso, eu acho.

 

- Onde era o local de reabilitação? - Clay perguntou.

 

- Não era o Campo L. Uma casa perto de Howard, eu ache, Não vi o dossiê. Você sabe como Jermaine é lerdo.

 

- Então você não está trabalhando no caso?

 

- Não. Fiquei sabendo por ouvir dizer.

 

Rodney controlava os boatos e rumores do escritório e sabia mais do que Glenda, a diretora, sobre os advogados e sobre seus casos. Quando entraram na rua W, Clay disse:

 

- Você já esteve no Campo L?

 

- Uma ou duas vezes. É para os casos difíceis, a última parada antes do cemitério. Lugar duro, dirigido por caras durões.

 

- Conhece um cavalheiro chamado Talmadge X -Não.

 

Não havia nenhum ajuntamento na calçada que os obrigasse a abrir caminho. Clay estacionou na frente do prédio e entraram depressa. Talmadge X não estava, fora atender a uma emergência num hospital. Um colega chamado Noland apresentou-se agradavelmente e disse que era conselheiro-chefe. No seu escritório, de pé, ao lado de uma pequena mesa, mostrou a eles a ficha de Tequila Watson e os convidou a examiná-la. Clay agradec.eu, certo de que fora purgada e limpa, preparada em seu benefício.

 

- Nossas regras mandam que eu fique na sala enquanto vocês examinam a ficha - Noland explicou. - Se quiserem cópias, custam vinte e cinco centavos cada uma.

 

- Está bem - Clay disse. As regras não eram passíveis de negociação. E se ele quisesse todo o dossiê, podia conseguir com um mandado. Noland sentou-se à mesa onde o esperava uma impressionante pilha de papéis. Clay começou a folhear o dossiê. Rodney tomava notas.

 

O histórico de Tequila era triste e previsível. Fora admitido em janeiro, enviado pelo Serviço Social depois de ter sido salvo de uma overdose de alguma coisa. Pesava 60,5 quilos e tinha l,55m de altura. O exame médico foi feito no Campo L. Tequila tinha um pouco de febre, arrepios, dor de cabeça, o que não era raro em viciados. Além de subnutrição, um leve caso de gripe, e o corpo devastado pelas drogas, não havia nada mais importante, segundo o médico. Como todos os pacientes, durante os trinta primeiros dias ficou preso e foi alimentado continuamente.

 

Segundo as anotações de TX, Tequila começou a se desviar aos oito anos quando ele e o irmão roubaram uma caixa de cerveja de um caminhão de entregas. Beberam metade, venderam metade e com o dinheiro compraram um galão de vinho barato! Foi expulso de várias escolas e tinha mais ou menos doze anos quando descobriu o crack e deixou de estudar. O roubo se tornou um meio de sobrevivência.

 

Sua memória funcionou até ele começar a usar crack, de modo que os últimos anos eram obscuros. TX tinha feito o acompanhamento em detalhe e havia cartas e e-mails confirmando algumas das paradas oficiais ao longo da dolorosa trilha. Aos catorze anos, Tequila passara um mês em uma unidade de viciados na capital. Centro Juvenil de Detenção. Quando foi solto, foi direto a um traficante e comprou crack. Dois meses na Orchard House, um famoso estabelecimento de detenção para adolescentes viciados em crack, tiveram pouco resultado. Tequila admitiu para TX que consumia tantas drogas dentro da OH quanto fora. Aos dezesseis anos foi admitido no Ruas Limpas, um estabelecimento rigoroso, muito similar ao Campo L. Um ótimo desempenho durou cinquenta e três dias, e então ele saiu sem dizer uma palavra. A notação de TX dizia ”... duas horas depois de sair, estava completamente chapado com crack”. O juiz da Infância e Juventude o mandou para um acampamento de verão para adolescentes problemáticos quando ele tinha dezessete anos, mas a segurança era falha e ele ganhou dinheiro vendendo drogas para os companheiros do acampamento. O esforço final para a sobriedade, antes do Campo L, foi um programa da igreja Grayson, sob a direção do reverendo Jolley, um conhecido conselheiro de drogados. Jolley mandou uma carta para Talmadge X dizendo que Tequila era um dos casos trágicos provavelmente ”sem esperanças”.

 

Por mais deprimente que fosse a história, havia uma ausência notável de violência. Tequila fora preso e condenado cinco vezes por roubo, uma vez por roubo em lojas e duas vezes por posse indevida. Tequila nunca tinha usado uma arma para cometer um crime, pelo menos nunca fora apanhado com uma. Isso não passou despercebido a TX que, em uma anotação no 39° dia dizia: ”... tem tendência para evitar a menor ameaça de conflito físico. Parece realmente temer os maiores e muitos dos menores também.”

 

No 45° dia, ele foi examinado por um médico. Seu peso era saudável: 69 quilos. Sua pele não apresentava ”... abrasões ou lesões”. Não havia anotações sobre seu progresso na leitura, e no seu interesse pela arte. com o passar dos dias, as anotações se tornavam muito mais curtas. A vida dentro do Campo L era simples e virara rotina. Alguns dias se passaram sem nenhuma anotação.

 

A anotação do 80° dia era diferente. ”Ele chegou à conclusão de que precisa de orientação espiritual elevada para permanecer limpo. Não pode fazer isso sozinho. Diz que quer ficar para sempre no Campo L.”

 

100° dia: ”Comemoramos o centésimo dia com biscoitos e sorvete. Tequila fez um breve discurso. Ele chorou. Ganhou um passe de duas horas.”

 

104° dia: ”Passaram as duas horas. Ele saiu, voltou em vinte minutos com um picolé.”

 

107° dia: ”Mandado ao correio, demorou quase uma hora, voltou.”

 

110° dia: ”Passe de duas horas, voltou, sem problema.”

 

A entrada final era no 115° dia: ”Passe de duas horas. Não voltou.”

 

Noland os observava quando estavam chegando ao fim do dossiê.

 

- Alguma pergunta? - ele disse quando achou que já tinham desperdiçado muito seu tempo.

 

- É muito triste - Clay disse, fechando a pasta com um suspiro profundo. Tinha muitas perguntas, mas nenhuma que Noland pudesse ou quisesse responder.

 

- Num mundo de miséria, sr. Cárter, é sem dúvida uma das mais tristes. Eu raramente choro, mas Tequila rne fez chorar. Noland estava se levantando. - Querem copiar alguma coisa? - A entrevista tinha terminado.

 

- Talvez mais tarde - Clay disse. Agradeceram a Noland o seu tempo e o acompanharam à área de recepção.

 

No carro, Rodney prendeu o cinto de segurança e olhou para fora. Muito calmo, ele disse:

 

- Tudo bem, fizemos um novo amigo.

 

Clay olhava para o marcador de gasolina, esperando que tivesse bastante para voltar ao gabinete.

 

- Que tipo de amigo?

 

- Está vendo aquele jipe cor de vinho a meio quarteirão daqui, no outro lado da rua?

 

Clay olhou e disse:

 

- O que tem?

 

- Tem um cara negro na direção, um cara grande, com um boné dos Peles-Vermelhas, eu acho. Ele está nos vigiando.

 

Clay firmou a vista e mal deu para ver o motorista, a raça e o boné.

 

- Como você sabe que ele está nos vigiando?

 

- Ele estava na rua Lamont quando chegamos, eu o vi duas vezes, disfarçando, fingindo que não estava olhando para nós. Quando estacionamos para entrar no Campo eu vi o jipe a três quarteirões naquela direção. Agora está ali.

 

- Como você sabe que é o mesmo jipe?

 

- Cor de vinho não é comum. Está vendo aquele amassado no pára-lama dianteiro, no lado direito?

 

- Sim, acho que estou.

 

- O mesmo jipe com certeza. Vamos passar por ele para ver mais de perto.

 

Clay entrou na rua e passou pelo jipe cor de vinho. Um jornal foi levantado na frente do motorista. Rodney anotou a placa.

 

- Por que alguém ia nos seguir? - Clay perguntou.

 

- Drogas. Sempre drogas. Talvez Tequila estivesse traficando. Talvez o garoto que ele matou tivesse alguns amigos malvados. Quem sabe?

 

- Eu gostaria de descobrir.

 

- Não vamos nos aprofundar muito agora. Continue dirigindo que eu vigio nossa traseira.

 

Seguiram para o sul na avenida Porto Rico por trinta minutos e pararam num posto de gasolina perto do rio Anacostia. Rodney observava cada carro enquanto Clay abastecia.

 

- Desistiram - Rodney disse, quando saíram do posto. Vamos para o gabinete.

 

- Por que iam desistir? - Clay perguntou. Ele teria acreditado em qualquer explicação.

 

- Não tenho certeza - Rodney disse, ainda olhando para o espelho lateral. - Pode ser que fosse só curiosidade para ver se íamos ao Campo. Ou talvez tenham percebido que os vimos. Fique atento ao retrovisor por algum tempo.

 

- Isto é ótimo. Nunca fui seguido antes.

 

- Trate de rezar para que eles não resolvam te pegar.

 

JERMAINE VANCE COMPARTILHAVA o gabinete com outro advogado novato que no momento estava ausente, por isso ofereceu a Clay a cadeira vazia. Compararam notas sobre seus mais recentes clientes de assassinato.

 

O cliente de Jermaine era um criminoso de carreira, de vinte e quatro anos, chamado Washad Porter e, ao contrário de Tequila, tinha uma longa e assustadora história de violência. Como membro da maior gangue da capital, Washad fora ferido gravemente duas vezes em tiroteios e condenado uma vez por tentativa de assassinato. Sete dos seus vinte e quatro anos foram passados atrás das grades. Demonstrara pouco interesse em ficar limpo. A única tentativa de reabilitação foi na prisão e claramente malsucedida. Era acusado de atirar em duas pessoas quatro dias antes da morte de Ramón Pumphrey. Uma das vítimas morreu instantaneamente, a outra ainda lutava para sobreviver.

 

Washad passara seis meses no Ruas Limpas, preso, e evidentemente sobreviveu ao rigoroso programa. Jermaine tinha falado com o conselheiro e a conversa foi muito parecida com a que Clay tivera com Talmadge X. Washad ficou limpo, era um paciente modelo, estava com boa saúde e aumentando a auto-estima a cada dia. O único obstáculo no caminho foi quando ele saiu às escondidas, se drogou, mas voltou e pediu perdão. Então passou quatro meses sem praticamente nenhum problema.

 

Foi solto do Ruas Limpas em abril e no dia seguinte atirou em dois homens com uma arma roubada. As vítimas aparentemente foram escolhidas ao acaso. A primeira era um entregador de produtos agrícolas que fazia seu trabalho perto do Hospital Walter Reed. Algumas palavras, alguns empurrões e então quatro tiros na cabeça e Washad foi visto fugindo. Washad usou as duas balas restantes num pequeno traficante com quem tivera uma desavença. Foi seguro por amigos do traficante que em vez de matá-lo o entregaram para a polícia.

 

Jermaine tinha falado uma vez com Washad, brevemente, no tribunal, durante seu primeiro comparecimento.

 

- Ele negava os crimes - Jermaine disse. - Tinha aquele olhar vazio e não parava de me dizer que não acreditava que tivesse atirado em alguém. Disse que foi o antigo Washad, não o novo.

 

CLAY LEMBRAVA DE APENAS outra ocasião nos últimós quatro anos em que tinha telefonado ou tentado telefonar para Bennett, a Escavadeira. O esforço terminara em desapontamento quando não conseguiu penetrar nas camadas de importância que circundavam o grande homem. O sr. BVH queria que todos pensassem que passava o tempo todo ”trabalhando”, o que para ele significava estar ao ar livre, entre as máquinas que removiam a terra, onde podia dirigir tudo e sentir de perto o ilimitado potencial da Virgínia do Norte. Em casa tinha grandes fotos suas ”trabalhando” com o capacete feito sob medida, com monograma, apontando para cá e para lá enquanto a terra era aplainada e mais galerias e centros comerciais eram construídos. Ele dizia que era muito ocupado para conversar e que detestava telefones, mas sempre tinha uma coleção por perto para tomar conta dos negócios.

 

Na verdade, Bennett jogava muito golfe e jogava mal, segundo o pai de um dos colegas de classe de Clay. Rebecca mais de uma vez deixara escapar que seu pai jogava pelo menos quatro partidas por semana no Potomac e que seu sonho secreto era ganhar o campeonato do clube.

 

O sr. Van Hom era um homem de ação e sem paciência para passar a vida atrás de uma mesa. Passava pouco tempo no escritório, ele mesmo dizia. A.pit buli que atendia o telefone do ”grupo BVH” relutantemente concordou em passar a ligação de Clay para outra secretária dentro da companhia.

 

- Desenvolvimento - a segunda voz de mulher disse rudemente, como se a companhia tivesse ilimitadas divisões. Só pelo menos cinco minutos depois ele conseguiu falar com a secretária pessoal de Bennett.

 

- Ele não está no escritório - ela disse.

 

- Como posso encontrá-lo?

 

- Ele está trabalhando.

 

- Sim, imaginei isso. Como posso falar com ele?

 

- Deixe um telefone que eu junto às outras mensagens.

 

- Oh, obrigado - Clay disse e deixou o número do telefone do seu gabinete.

 

Trinta minutos depois Bennett retornou a ligação. Ele parecia estar dentro de casa, talvez na sala de descanso dos homens do Clube de Campo Potomac, com um scotch duplo na mão, um grande charuto, num jogo de gin rummy em andamento com os rapazes.

 

- Clay, como vai você? - ele perguntou, como se há meses não se vissem.

 

- Muito bem, sr. Van Hom, e o senhor?

 

- Ótimo. Gostei do jantar ontem à noite. - Clay não ouviu nenhum motor roncando, nenhuma explosão.

 

- Oh, sim, foi muito agradável. Sempre um prazer - Clay mentiu.

 

- O que posso fazer por você, filho?

 

- Bem, eu queria que o senhor compreendesse que agradeço muito seu esforço para me arranjar aquele emprego em Richmond. Eu não esperava e o senhor foi muito gentil em intervir daquele modo. - Uma pausa enquanto Clay engolia em seco. Mas, francamente, sr. Van Hom, não vejo como me mudar para Richmond num futuro próximo. Eu sempre morei na capital e aqui é meu lar.

 

Clay tinha muitas razões para rejeitar a oferta. Ficar na capital estava no meio da lista. O motivo principal era evitar que sua vida fosse planejada por Bennett Van Hom e ficar devendo a ele.

 

- Não está falando sério - Van Hom disse.

 

- Sim, estou falando muito sério. Obrigado, mas não obrigado. - A última coisa que Clay planejava era ouvir alguma bobagem daquele cretino. Em momentos como aquele adorava o telefone, um maravilhoso igualador.

 

- Um grande erro, filho - Van Hom disse. - Você não está vendo todo o quadro, certo?

 

- Talvez não. Mas não tenho muita certeza de que o senhor veja.

 

- Você é muito orgulhoso, Clay, como eu. Mas é também muito ingénuo. Precisa aprender que a vida é um jogo de favores e quando alguém tenta ajudá-lo, você aceita o favor. Talvez algum dia você tenha oportunidade de pagar. Está cometendo um erro, Clay, um erro que pode ter sérias consequências.

 

- Que tipo de consequências?

 

- Isso pode realmente afetar seu futuro.

 

- Bem, é o meu futuro, não o seu. Eu escolherei meu próximo emprego e o seguinte. No momento estou satisfeito com o que tenho.

 

- Como pode estar satisfeito defendendo criminosos o dia inteiro? Eu não compreendo.

 

Não era uma conversa nova e, se seguisse o curso habitual, as coisas iam deteriorar rapidamente.

 

- Acho que o senhor já fez essa pergunta antes. Não vamos tocar nisso.

 

- Estamos falando de um enorme aumento de salário, Clay. Mais dinheiro, melhor trabalho, você passará o tempo com gente sólida, não com um bando de punks da rua. Acorde, garoto! Havia vozes ao fundo. Onde quer que Bennett estivesse naquele momento, certamente representava para uma plateia.

 

Clay rilhou os dentes e deixou passar o ”garoto”.

 

- Não vou discutir, sr. Van Horn. Telefonei para dizer não.

 

- Acho melhor reconsiderar.

 

- Já reconsiderei. Não, obrigado.

 

- Você é um perdedor, Clay, sabe disso. Eu o conheço há algum tempo. Isso só confirma essa opinião. Está rejeitando um emprego promissor para continuar numa rotina e ganhar salário mínimo. Você não tem ambição, não tem visão.

 

- Ontem à noite eu era trabalhador, tinha ombros largos, muito talento e era decidido.

 

- Retiro tudo isso. Você é um perdedor.

 

- E eu era instruído e até bonito.

 

- Eu estava mentindo. Você é um perdedor.

 

Clay desligou primeiro. Bateu o fone com um sorriso, orgulhoso por ter irritado tanto o grande Bennett Van Horn. Mandara uma mensagem bem clara de que não seria manipulado por aquela gente.

 

Falaria com Rebecca mais tarde e não ia ser agradável.

 

A TERCEIRA E ÚLTIMA VISITA de Clay ao Campo L foi mais dramática do que as duas primeiras. com Jermaine no banco da frente e Rodney atrás, Clay seguiu um carro de polícia da capital e estacionou outra vez bem na frente do prédio. Dois policiais jovens, negros e fartos do trabalho de entregar intimações, trataram da entrada deles no Campo. Em poucos minutos estavam num confronto tenso com Talmadge X, Noland e outro conselheiro, um cabeça quente chamado Samuel.

 

Em parte por ser o único rosto branco presente, mas principalmente por ser o advogado responsável pela intimação, os três conselheiros focalizaram sua ira em Clay. Ele pouco se importava. Nunca mais ia ver aquela gente.

 

- Você viu o dossiê, homem! - Noland gritou para Clay.

 

- Eu vi o dossiê que vocês queriam que eu visse - Clay retrucou. - Agora eu quero o resto.

 

- Do que está falando? - Talmadge X perguntou.

 

- Eu quero tudo que tiverem com o nome de Tequila escrito.

 

- Não pode fazer isso.

 

Clay voltou-se para o policial que estava com os papéis e disse:

 

- Quer por favor ler a intimação?

 

O policial levantou o papel para que todos vissem e leu.

 

- Todos os arquivos relacionados com a admissão, avaliação médica, tratamento médico, diminuição de drogas, aconselhamento sobre abuso de drogas, reabilitação e alta de Tequila Watson. Por ordem do Meritíssimo juiz E Floyd Sackman, Divisão da Corte Criminal Superior de Washington, D.C.

 

- Quando ele assinou isso? - perguntou Samuel.

 

- Cerca de três horas atrás.

 

- Nós mostramos tudo - Noland disse para Clay.    

 

- Eu duvido. Sei quando um dossiê foi rearranjado.

 

- Muito arrumadinho - Jermaine acrescentou finalmente.

 

- Não estamos brigando - disse o policial mais encorpado, deixando pouca dúvida de que uma boa luta seria bem-vinda. Por onde começamos?

 

- As avaliações médicas são confidenciais - Samuel disse. - O privilégio médico-paciente, acredito.

 

Era um bom argumento, mas um pouco fora de propósito.

 

- As fichas do médico são confidenciais - Clay explicou -, mas não o paciente. Tenho uma autorização e permissão de Tequila Watson para ver todo o seu dossiê, incluindo as fichas médicas.

 

Começaram numa sala sem janelas, com arquivos de cores diferentes encostados nas paredes. Depois de alguns minutos, Talmadge X e Samuel desapareceram e a tensão começou a aliviar. Os policiais puxaram cadeiras e aceitaram o café oferecido pela recepcionista. Ela não ofereceu aos cavalheiros do gabinete do defensor público.

 

Depois de procurar durante uma hora não tinham encontrado nada de útil. Clay e Jermaine deixaram que Rodney contiriuasse a procura. Tinham de se encontrar com outros policiais.

 

A batida no Ruas Limpas foi muito semelhante. Os dois advogados entraram no gabinete da frente, com os dois policiais atrás deles. A diretora foi tirada de uma reunião. Lendo o mandado de busca ela resmungou alguma coisa sobre conhecer o juiz Sackman e falar com ele mais tarde. Estava muito irritada, mas o documento falava por si só. A mesma linguagem, todos os dossiês e papéis relacionados com Washad Porter.

 

- Isto não era necessário - ela disse para Clay -, nós sempre cooperamos com os advogados.

 

- Não foi o que me disseram - Jermaine disse. Realmente, Ruas Limpas tinha fama de contestar o pedido mais benigno do GDP

 

Quando ela terminou de ler o mandado pela segunda vez, um dos policiais disse:

 

- Não vamos esperar o dia inteiro.

 

Ela os levou a um escritório grande e chamou uma assistente que começou a apanhar as pastas.

 

- Quando vão nos devolver isso? - ela perguntou.

 

- Quando terminarmos - Jermaine disse.

 

- E quem fica com os arquivos?

 

- Ficam trancados no gabinete do defensor público.

 

O ROMANCE COMEÇOU no Abes Place. Rebecca estava com duas amigas quando Clay passou, a caminho do banheiro. Seus olhos se encontraram e ele parou por um segundo, sem saber ao certo o que fazer. As amigas logo foram abandonadas. Clay deixou os amigos com quem estava bebendo. Os dois sentaram no bar, conversando sem parar, durante duas horas. O primeiro encontro foi na noite seguinte. Sexo em menos de uma semana. Ela o manteve longe dos pais durante dois meses.

 

Agora, quatro anos depois, as coisas estavam paradas e ela sob pressão para seguir em frente. Parecia apropriado terminar tudo no Abes Place.

 

Clay chegou primeiro e ficou no bar, com um grupo de Hill Rats que bebia sem parar, e todos ao mesmo tempo falavam depressa, em voz alta, sobre problemas cruciais que tinham passado longas horas resolvendo. Ele amava a capital e odiava a capital. Amava sua história, sua energia e importância. E desprezava os inúmeros idiotas que se lançavam num jogo frenético para ver quem era mais importante. A discussão mais próxima e apaixonada era sobre as leis que regiam o tratamento da água usada nas Planícies Centrais.

 

Abes Place não passava de um bar estrategicamente localizado perto do Capitólio, a sede do Congresso, para atrair a multidão sedenta antes de ir para suas casas, nos bairros elegantes. Mulheres belas. Bem-vestidas. Muitas delas à caça de homem. Clay atraiu alguns olhares.

 

Rebecca estava quieta, determinada e fria. Foram para uma mesa entre duas divisórias baixas e pediram drinques fortes para a jornada que tinham pela frente. Ele fez algumas perguntas sem importância sobre a audiência do subcomitê que tinha começado, sem fanfarra, pelo menos segundo o Post. Os drinques chegaram e eles dedicaram toda a atenção à bebida.

- Eu falei com meu pai - ela começou.

 

- Eu também.

 

- Por que não me disse que não ia aceitar o emprego em Richmond?

 

- Por que você não me disse que seu pai estava movendo os cordões para me arrumar um emprego em Richmond?

 

- Você devia me ter dito.

 

- Eu deixei bem claro.

 

- Nada é claro com você.

 

Os dois tomaram goles dos drinques.

 

- Seu pai me chamou de perdedor. É essa a ideia que sua família tem de mim?

 

- No momento, sim.

 

- E você compartilha dela?

 

- Tenho minhas dúvidas. Alguém tem de ser realista por aqui.

 

Tinha havido uma séria interrupção no romance, na melhor das hipóteses uma falha miserável. Mais ou menos há um ano, os dois resolveram deixar as coisas esfriarem um pouco, continuar como bons amigos, mas olhar em volta, talvez namorar, certificando-se de que não havia ninguém por ali. Barb tinha engendrado a separação porque, como Clay descobriu mais tarde, um jovem muito rico do Clube de Campo Potomac acabara de perder a mulher, vítima de câncer. Bennett era amigo pessoal da família etc. Ele e Barb se encarregaram da armadilha, mas o viúvo farejou a isca. Um mês perto da família Van Hom e o cara comprou uma casa em Wyoming.

 

Mas esta era uma separação muito mais grave. Era quase certo o fim. Clay tomou outro gole da bebida e prometeu a si mesmo que qualquer coisa que fosse dita, em nenhuma circunstância ele diria algo que pudesse magoar Rebecca. Ela podia dar golpes baixos se quisesse. Ele não.

 

- O que você quer, Rebecca?

 

Eu não sei.

 

- Sim, você sabe. Quer terminar?

 

- Acho que sim. Os olhos dela se encheram de lágrimas.

 

- Há outra pessoa?

 

- Não.

 

Não ainda, de qualquer modo. E só dar alguns dias a Barb e Bennett.

 

- É só que você não está indo a lugar nenhum, Clay - ela disse. - Você é inteligente e talentoso, mas não tem ambição.

 

- Puxa, é bom saber que sou inteligente e talentoso outra vez. Há poucas horas eu era um perdedor.

 

- Está tentando ser engraçado?

 

- Por que não, Rebecca? Por que não dar uma boa risada? Acabou, vamos reconhecer. Nós nos amamos, mas eu sou um perdedor que não vai a lugar algum. Esse é seu problema. Meu problema são seus pais. Eles vão mastigar o pobre coitado com quem você se casar.

 

- O pobre coitado?

 

- Isso mesmo. Tenho pena do coitado que se casar com você porque seus pais são insuportáveis. E você sabe disso.

 

- O pobre coitado com quem eu me casar?

 

- Escute, eu faço uma oferta. Vamos nos casar agora mesmo. Largamos nossos empregos, fazemos um casamento rápido, sem convidados, vendemos tudo que temos e voamos, digamoSTpãra Seattle ou Portland, algum lugar bem longe daqui e vivemos de amor por algum tempo.

 

- Você não vai para Richmond mas iria para Seattle?

 

- Richmond é perto demais dos seus pais, certo?

 

- E depois?

 

- Então arranjamos empregos.

 

- Que tipo de empregos? Há falta de advogados no Oeste?

 

- Está esquecendo de uma coisa. Lembre-se da noite passada, eu sou inteligente, talentoso, instruído, esperto e até bonito. Grandes firmas de advocacia vão correr atrás de mim. Serei sócio em oito meses. Teremos filhos.

 

- Então meus pais vão aparecer.

 

- Não, porque não diremos a eles onde estamos. E se descobrirem, mudamos nossos nomes e vamos morar no Canadá.

 

Mais dois drinques foram servidos e eles não perderam tempo em rerminar os primeiros.

 

O momento leve passou rapidamente. Mas serviu para que lembrassem do quanto se amavam e do quanto gostavam da cornpanhia um do outro. Sempre houve mais alegria do que tristeza, embora isso estivesse mudando. Menos riso. Mais discussões sem sentido. Mais influência da família dela.

 

- Não gosto da Costa Oeste - disse ela finalmente.

 

- Então escolha um lugar - Clay terminou a aventura. O lugar tinha sido escolhido para ela e Rebecca não estava indo para muito longe da mamãe e do papai.

 

Fosse o que fosse o que ela levara para o encontro tinha de ser dito. Um longo gole do drinque e ela se inclinou para a frente, olhando nos olhos dele.

 

- Clay, eu preciso realmente de um descanso.

 

- Não se preocupe, Rebecca. Faremos o que você quiser.

 

- Obrigada.

 

- Um descanso de quanto tempo?

 

- Não you negociar, Clay.

 

- Um mês?

 

- Mais do que isso.

 

- Não, não concordo. Vamos passar trinta dias sem nenhum telefonema, certo? Hoje é 7 de maio. Vamos nos encontrar aqui no dia 6 de junho, bem aqui, nesta mesa, e conversaremos sobre a extensão do prazo.

 

- Uma extensão?

 

- Chame como quiser.

 

- Obrigada. Estou falando em terminar, Clay. O big bang. Separação completa. Você segue seu caminho, eu sigo o meu. Podemos conversar daqui a um mês, mas não espero nenhuma mudança. As coisas não mudaram muito neste último ano.

 

- Se tivesse aceitado aquele emprego horrível em Richmond, você estaria fazendo isso?

 

- Provavelmente não.

 

- Isso quer dizer alguma outra coisa além de não?

 

- Não.

 

Então, foi tudo uma armação, não foi? O emprego, o ultimato? A noite passada foi exatamente o que pensei que fosse, uma armadilha. Aceite esse emprego, garoto, se não...

 

Ela não negou. Em vez disso disse:

 

- Clay, estou cansada de brigar, certo? Não me telefone durante trinta dias.

 

Pegou a bolsa e se levantou rapidamente. De saída conseguiu plantar um beijo seco e sem sentido na testa dele, mas Clay não correspondeu. Ele não a viu sair.

 

Rebecca não olhou para trás.

 

O O APARTAMENTO DE CLAY FICAVA num antigo complexo em Arlington. Há quatro anos, quando ele o alugou nunca ouvira falar do grupo BVH. Mais tarde ficou sabendo que a companhia tinha construído o lugar no começo dos anos oitenta, um dos primeiros empreendimentos de Bennett. O empreendimento faliu, o complexo foi comprado e vendido várias vezes e o aluguel pago por Clay nunca foi parar nas mãos do sr. Van Horn. Na verdade, nenhum membro da família sabia que Clay morava numa coisa construída por eles. Nem mesmo Rebecca.

 

Ele dividia uma unidade de dois quartos com Jonah, um velho amigo da faculdade, que por quatro vezes foi reprovado no exame para a Ordem dos Advogados, antes de conseguir passar e agora vejidia computadores. Trabalhava nas vendas em meio expediente e rnesmo assim ganhava mais do que Clay, um fato que estava sempre muito à tona.

 

Na manhã depois da separação, Clay apanhou o Post no lado de fora da porta e sentou à mesa da cozinha com a primeira xícara de café. Como sempre, foi direto para a seção financeira do jornal para uma rápida e satisfeita olhada no desempenho fraco do grupo BVH. As ações quase não foram negociadas e os poucos investidores mal informados que tinham algumas, queriam se livrar delas por apenas 0,75 centavo cada uma.

 

Quem era o perdedor?

 

Não viu nenhuma palavra sobre o crucial depoimento do subcomitê de Rebecca.

 

Quando terminou sua pequena caça às bruxas passou para a seçao de esportes dizendo para si mesmo que estava na hora de esquecer os Van Horns. Todos eles.

 

Às sete e vinte, a hora em que habitualmente ele comia seus cereais com leite, o telefone tocou. Clay sorriu e pensou, é ela. Já de volta.

 

Ninguém mais telefonaria tão cedo. Ninguém a não ser o namorado ou o marido de alguma senhora que estivesse curtindo a ressaca com Jonah no outro quarto. Clay tinha recebido vários desses telefonemas em todos aqueles anos. Jonah adorava mulheres, especialmente as comprometidas com outra pessoa. Eram um desafio maior, ele dizia.

 

Mas não era Rebecca e não era nenhum namorado ou marido.

 

- Dr. Clay Cárter - disse uma voz estranha de homem. - Falando.

 

- Dr. Cárter, meu nome é Max Pace. Meu trabalho é recrutar pessoal para firmas de advocacia de Nova York. Seu nome chamou nossa atenção e tenho duas propostas muito atraentes que podem interessá-lo. Será que podemos almoçar hoje?

 

Completamente sem fala, Clay lembraria mais tarde, no chuveiro, que a ideia de um bom almoço foi, estranhamente, a primeira coisa na sua cabeça.

 

- Ha, claro - conseguiu dizer. Caçadores de cabeças faziam parte da profissão, como de qualquer outra. Mas raramente passavam o tempo procurando no gabinete do defensor público.

 

- Ótimo. Vamos nos encontrar no saguão do Willard Hotel, digamos ao meio-dia?

 

- Meio-dia está ótimo - Clay disse, olhando para a pilha de pratos sujos na pia. Sim, era real. Não era um sonho.

 

- Obrigado. Então vejo o senhor ao meio-dia. Dr. Cárter, prometo que vai valer seu tempo.

 

- Ha, claro.

 

Max Pace desligou rapidamente e por um momento Clay ficou segurando o fone, olhando para os pratos sujos e imaginando quem da sua classe na faculdade estaria por trás dessa brincadeira. Ou podia ser Bennett, a Escavadeira, completando sua vingança?

 

Não tinha o telefone de Max Pace. Não teve sequer a presença de espírito de perguntar o nome da companhia para a qual ele trabalhava.

 

Também não tinha um terno limpo. Clay tinha dois ternos, um grosso e um fino, ambos muito velhos e muito usados. Seu guarda-roupa do tribunal. Felizmente, o GDP não tinha código de vestimenta, por isso ele usava calças caquis e um blazer azulmarinho. Quando tinha de ir ao tribunal, usava gravata, que tirava assim que voltava para o gabinete.

 

No chuveiro, resolveu que a roupa não importava. Max Pace sabia onde ele trabalhava e devia ter pelo menos uma vaga ideia do pouco que ganhava. Se Clay aparecesse na entrevista com calça caqui puída, então podia exigir mais dinheiro.

 

No tráfego lento da ponte Arlington Memorial decidiu que era coisa do seu pai. O velho fora banido da capital mas ainda tinha contatos. Finalmente tinha apertado o botão certo, pediu um último favor, encontrou um emprego decente para o filho. Quando o alto perfil legal de Jarrett Cárter terminou num longo e colorido fiasco, ele empurrou o filho para o gabinete do defensor público. Agora, o aprendizado tinha terminado. Cinco anos nas trincheiras, estava na hora de um emprego de verdade.

 

Que tipo de firmas estariam à sua procura? O mistério o intrigava. Seu pai detestava as grandes companhias e os muitos centros de lobby das avenidas Connecticut e Massachusetts. Não queria nada com pequenas firmas que anunciavam nos ônibus e nas ruas e entupiam o sistema com casos frívolos. A antiga firma de Jarrett tinha dez advogados, dez lutadores do tribunal que ganhavam veredictos e eram muito procurados.

 

- E para lá que estou indo - Clay murmurou, olhando para o rio Potomac lá embaixo.

 

DEPOIS DE SUPORTAR A MANHÃ mais improdutiva de sua carreira, Clay saiu às onze e meia e se dirigiu lentamente para o Willard, agora oficialmente conhecido como Willard InterContinental Hotel. Foi imediatamente recebido no saguão por um jovem musculoso que parecia vagamente familiar.

 

- O sr. Pace está lá em cima - ele explicou. - Ele gostaria de se encontrar com o senhor lá, se não for inconveniente. Estavam andando para os elevadores.

 

- Claro - Clay disse. Gostaria de saber como fora reconhecido tão facilmente.

 

No elevador um ignorou o outro. Desceram no nono andar e o jovem bateu na porta da suíte Theodore Roosevelt. A porta se abriu imediatamente e Max Pace disse olá com um sorriso formal. Era um homem de quarenta e poucos anos. Cabelo ondulado, bigode negro, todo o resto negro. Jeans de sarja negro, camiseta com manga, negra, botas de ponta fina negras. Hollywood no Willard. Não exatamente a aparência de uma grande companhia como Clay esperava. Quando trocaram um aperto de mãos, Clay teve a primeira insinuação de que as coisas não eram o que pareciam ser.

 

com um rápido olhar, o guarda-costas foi dispensado.

 

- Obrigado por vir - Max disse, quando entraram numa sala oval cheia de mármore.

 

- Claro. - Clay estava absorvendo a suíte, couros e tecidos luxuosos, portas de quartos por todo lado. - Belo lugar.

 

- É meu por mais alguns dias. Achei que podíamos almoçar aqui, pedir alguma coisa para o serviço de quarto, assim podemos conversar com completa privacidade.

 

- Para mim está bem. - Uma pergunta apareceu em sua mente. O que um caçador de cabeças de Washington fazia numa suíte de hotel horrivelmente cara? Por que não tinha um escritório ali perto? Será que precisava mesmo de um guarda-costas?

 

- Alguma coisa em particular para o almoço?

 

- Não sou exigente.

 

- Eles fazem um ótimo prato de capellini e salmão. Eu comi ontem. Soberbo.

 

- you experimentar. - Naquele momento Clay experimentaria qualquer coisa. Estava faminto.

 

Max foi para o telefone enquanto Clay admirava a vista da avenida Pensilvânia, lá embaixo. Quando o almoço foi pedido, sentaram perto da janela e passaram rapidamente pelo tempo, pela temporada de azar dos Orioles e o estado lamentável da economia. Pace era articulado e parecia à vontade falando sobre qualquer coisa pelo tempo que Clay quisesse. Era um dedicado levantador de peso e queria que todos soubessem disso. Sua camisa era muito justa e ele gostava de puxar os pêlos do bigode. Sempre que fazia isso, seus músculos retesavam e cresciam.

 

Um duble de filmes talvez, mas não grande coisa na liga dos caçadores de cabeça.

 

Dez minutos de conversa e Clay disse:

 

- Essas duas firmas, por que não me fala um pouco sobre elas?

 

- Elas não existem - Max disse. - Admito que menti. E prometo que nunca mais you mentir.

 

- Você não é um caçador de cabeças, certo? -Não.

 

- Então o quê?

 

- Sou bombeiro.

 

- Obrigado, isso realmente esclarece as coisas.

 

- Deixe-me falar por um momento. Preciso explicar uma coisa e quando terminar prometo que ficará satisfeito.

 

- Sugiro que fale depressa, Max, ou dou o fora daqui.

 

- Acalme-se, dr. Cárter. Posso chamá-lo de Clay?

- Ainda não.

 

- Muito bem. Sou um agente, um empreiteiro, umfreelancer com uma especialidade. Sou contratado pelas grandes companhias para apagar fogo. Eles fazem bobagens e percebem seu erro antes que os advogados percebam, então me contratam para entrar em cena discretamente, limpar a desordem e com isso economizo muito dinheiro para eles. Meus serviços são muito procurados. Meu nome pode ser Max Pace ou qualquer outra coisa. Não importa. Quem sou e de onde venho é irrelevante. O importante é que fui contratado por uma grande companhia para apagar um incêndio. Perguntas?

 

- Muito numerosas para serem feitas agora.

 

- Espere um pouco. Não posso dizer o nome do meu cliente agora, talvez nunca. Se chegarmos a um acordo, então poderia dizer muito mais. Aqui vai a história. Meu cliente é uma multinacional que fabrica produtos farmacêuticos. O senhor vai reconhecer o nome. Fabrica uma grande variedade de produtos, desde remédios comuns, caseiros, que estão no seu armário neste momento, até drogas complexas contra o câncer e a obesidade.

 

Uma companhia antiga, blue-chip, com excelente reputação. Cerca de dois anos atrás, fabricou uma droga que pode curar o vício do ópio e dos narcóticos derivados da cocaína. Muito mais avançada do que a metadona, que, embora ajude muitos viciados, cria hábito também e é usada abusivamente. Vamos chamar essa droga maravilhosa de Tarvan, que foi seu apelido por algum tempo. Foi descoberta por engano e logo usada em todos os animais de laboratório. Os resultados foram magníficos, mas acontece que é difícil provocar o vício do crack num bando de ratos.

 

- Precisavam de cobaias humanas.

 

Pace puxou os pêlos do bigode e seus músculos apareceram.

 

- Sim. O potencial de Tarvan era suficiente para manter os responsáveis acordados a noite inteira. Imagine, tomar um cornprimido por dia, durante noventa dias e ficar completamente limpo. Sua necessidade da droga desaparece. Você abandona a cocaína, a heroína, o crack - assim, sem mais nem menos. Depois de estar limpo, tome Tarvan de dois em dois dias e está livre para o resto da vida. Uma cura quase instantânea para milhões de viciados. Pense nos lucros, cobre o que quiser pela droga porque alguém em algum lugar terá prazer em pagar. Pense nas vidas que serão salvas, nos crimes que não serão cometidos, nas famílias unidas, nos bilhões não gastos tentando reabilitar viciados. Quanto mais eles pensavam no quanto Tarvan podia fazer, mais depressa queriam lançar a droga no mercado. Mas, como o senhor diz, precisavam de seres humanos.

 

Uma pausa, um gole de café. A camiseta perfeita estremecia. Ele continuou.

 

- Então eles começaram a cometer erros. Escolheram três lugares, Cidade do México, Cingapura e Belgrado, locais distantes da jurisdição da FDA, Administração de Alimentos e Medicamentos. Disfarçados em uma vaga organização de auxílio, construíram clínicas de reabilitação, na verdade belas instalações fechadas onde os viciados podiam ser completamente controlados. Pegaram os piores viciados que puderam encontrar e os limparam com Tarvan, embora eles não tivessem ideia do que estava acontecendo. Na verdade não se importavam. Era tudo de graça.

 

- Laboratórios de seres humanos - Clay disse. Até ali a história era fascinante e Max o bombeiro tinha o dom da narrativa.

 

- Nada mais do que laboratórios humanos. Longe do sistema americano de fraudes. E da imprensa americana. E dos órgãos reguladores americanos. Um plano brilhante. E a droga agia maravilhosamente. Depois de trinta dias, Tarvan eliminava a necessidade das drogas. Depois de sessenta dias, os viciados pareciam felizes por estarem limpos e depois de noventa dias não tinham medo de voltar para as ruas. Tudo monitorado, dieta, exercício, terapia, até conversas. Meu cliente tinha pelo menos um empregado como paciente, e essas clínicas tinham cem leitos cada. Depois de três meses, os pacientes eram soltos com a promessa de voltar à clínica a cada dois dias para tomar o Tarvan. Noventa por cento continuaram com o Tarvan e continuaram limpos. Noventa por cento! Só dois por cento voltaram ao vício.

 

- E os outros oito por cento?

 

- Eles viriam a ser o problema, mas meu cliente não tinha ideia da gravidade do mesmo. Seja como for, os leitos continuaram ocupados durante dezoito meses e cerca de mil viciados foram tratados com Tarvan. Os resultados estavam além do previsto. Meu cliente via um lucro de bilhões. E sem competição. Nenhuma outra companhia estava fabricando uma droga contra o vício. A maioria delas desistiu há muitos anos.

 

- E o erro seguinte?

 

Depois de uma pausa de um segundo, Max disse:

 

- Houve tantos...

 

Uma campainha tocou. O almoço tinha chegado. Um garçom entrou com o carrinho e passou cinco minutos arrumando tudo. Clay ficou de pé na frente da janela, olhando para o topo do Monumento a Washington, mas muito absorto em pensamentos para ver alguma coisa. Max deu a gorjeta para o garçom e finalmente ele saiu da sala.

 

- Está com fome? - ele perguntou.

 

- Não. Continue falando - Clay tirou o paletó e sentou na cadeira -, acho que está chegando na parte boa.

 

- Boa, má, depende de como você vê. O erro seguinte foi trazer o show para cá. É onde começa a ficar feio. Meu cliente examinou o globo deliberadamente e escolheu um local para caucasianos, um para hispânicos e um para asiáticos. Precisava de alguns africanos.;

 

- Temos bastante na capital.

 

- Foi o que meu cliente pensou.

 

- Você está mentindo, não está? Diga que está mentindo.

 

- Eu menti uma vez para o senhor, dr. Cárter. E prometi não mentir outra vez.

 

Clay levantou-se lentamente deu a volta na cadeira, voltou para a janela. Max o observava atentamente. O almoço estava esfriando, mas nenhum dos dois parecia se importar. O tempo fora suspenso.

 

Clay virou para Max e disse:

 

- Tequila?

 

com um gesto afirmativo, Max respondeu:

 

- Sim.

 

- E Washad Porter?

 

- Sim.

 

Passou-se um minuto. Clay cruzou os braços e encostou na parede, de frente para Max que alisava o bigode.

 

- Continue - Clay disse.

 

- Alguma coisa saiu errada em cerca de oito por cento dos pacientes - Max disse. - Meu cliente não tem ideia do quê, como, ou de quem está correndo algum risco. Mas o Tarvan os faz matar. Simplesmente. Depois de mais ou menos cem dias, alguma coisa acontece no cérebro e eles sentem um impulso irresistível de derramar sangue. O fato de terem ou não uma história de violência não faz nenhuma diferença. Idade, sexo, raça, nada distingue os assassinos.

 

- Isso significa oitenta pessoas mortas?

 

- Pelo menos. Mas é difícil obter informação nos bairros pobres da Cidade do México.

 

- Quantas aqui na capital?

 

Foi a primeira pergunta que pareceu embaraçar Max e ele se desviou dela.

 

- Direi isso em alguns minutos. Deixe-me terminar a história. Quer, por favor, sentar-se? Não gosto de olhar para cima quando falo.

 

Clay atendeu o pedido.

 

- O erro seguinte foi contornar a Administração de Alimentos e Medicamentos.

 

- É claro.

 

- Meu cliente tem muitos amigos importantes nesta cidade. É praticamente um profissional na compra de políticos com dinheiro do PAC e em dar emprego às suas mulheres, namoradas e antigos assistentes, o costumeiro jogo com dinheiro que se faz aqui. Foi feito um negócio sujo. Incluía gente importante da Casa Branca, do Departamento de Estado, da Administração de Alimentos e Medicamentos, do FBI e mais umas duas agências, nada por escrito. Nenhum dinheiro mudou de mãos, não houve subornos. Meu cliente fez um bom trabalho convencendo um número suficiente de pessoas de que o Tarvan podia salvar o mundo se conseguisse resultados de mais um laboratório. Uma vez que a FDA levaria dois ou três anos para aprovar, e como a Administração tem poucos amigos na Casa Branca, o acordo foi feito. Todas aquelas pessoas importantes, nomes agora perdidos para sempre, encontraram um meio de contrabandear o Tarvan para algumas clínicas de reabilitação da capital, financiadas pelo governo federal. Se funcionasse aqui então a Casa Branca e os figurões conseguiriam pressionar implacavelmente a FDA para uma rápida aprovação.

 

- Quando esse acordo estava sendo feito, seu cliente sabia dos oito por cento?

 

- Eu não sei. Meu cliente não me contou tudo e nunca vai contar. Também não faço perguntas. Meu trabalho é outro. Porém, suspeito que ele não sabia dos oito por cento. Do contrário, fazer experiências aqui seria um risco grande demais. Tudo isso aconteceu muito depressa, dr. Cárter.

 

- Pode me chamar de Clay agora.

 

- Obrigado, Clay.

 

- De nada.

 

- Eu disse que não houve subornos. Isso também foi o que meu cliente disse. Mas sejamos realistas. A estimativa inicial do lucro do Tarvan nos próximos dez anos é de trinta bilhões de dólares. Lucro, não venda. A estimativa inicial de economia de impostos sobre o Tarvan é de cem bilhões, no mesmo período. Evidentemente algum dinheiro mudaria de mãos no processo.

 

- Mas tudo isso é história?

 

- Oh, sim. O medicamento foi retirado de uso há seis dias. Aquelas maravilhosas clínicas na Cidade do México, em Cingapura e Belgrado fecharam as portas no meio da noite e todos os ótimos conselheiros desapareceram como fantasmas. Todas as experiências foram esquecidas. Todos os papéis picados. Meu cliente nunca ouviu falar em Tarvan. Queremos que isso continue assim.

 

- Sinto que neste ponto entro em cena.

 

- Só se quiser. Se recusar, estou preparado para procurar outro advogado.

 

- Recusar o quê?

 

- O acordo, Clay. O acordo. Até agora cinco pessoas foram mortas por viciados em Tarvan na capital. Uma delas está em coma, e provavelmente não vai sair dessa. A primeira vítima de Washad Porter. Isso faz um total de seis. Sabemos quem são, como morreram, quem as matou, tudo. Queremos que você represente as famílias. Você convoca os familiares, nós pagamos, tudo muito rápido, muito quieto, sem processos judiciosos, sem publicidade, sem nenhuma impressão digital em lugar algum.

 

- Por que eles iriam me contratar?

 

- Porque não têm a menor ideia de que têm um caso. Ao que eles sabem, seus entes queridos foram vítimas da violência ocasional das ruas. É um estilo de vida por aqui. Seu filho leva um tiro de umpunk da rua, você o enterra, opunk é preso, você vai ao julgamento esperando que ele pegue prisão perpétua. Mas você nem pensa em processo legal. Você vai processar o punk da rua? Nem o advogado mais faminto aceitaria esse caso. Eles o contratam porque você os procura, diz que têm um caso e que você pode conseguir quatro milhões de dólares num acordo muito rápido e muito confidencial.

 

- Quatro milhões - Clay repetiu, sem saber ao certo se era muito pouco ou demais.

 

- Aí está o nosso risco. Se o Tarvan for descoberto por algum advogado e, para ser franco, você é o primeiro a ter uma vaga noção do que se trata, então pode haver um julgamento. Diga- mós que o advogado é muito bom numa corte criminal e escolhe um júri só de negros aqui na capital.

 

- Isso é fácil.

 

- Claro que é. E digamos que esse advogado de algum modo consiga a evidência certa. Talvez alguns documentos que não foram inutilizados. Ou, o mais provável, alguém que trabalha para meu cliente resolve denunciá-lo. De qualquer modo o julgamento é ótimo para a família do morto. Pode haver um enorme veredicto. Pior ainda, pelo menos na minha opinião, a publicidade negativa seria horrível. O preço das ações desmoronaria. Imagine o pior, Clay, pinte seu pesadelo e acredite, esses caras também vêem isso. Mas estão também tentando limitar seus danos.

 

- Quatro milhões é uma pechincha.

 

- E e não é. Veja Ramón Pumphrey. Vinte e dois anos, trabalhando meio expediente, ganhando seis mil dólares por ano. com uma expectativa normal de mais cinquenta e três anos de vida e supostamente uma renda anual de duas vezes o salário mínimo, o valor económico de sua vida, descontado em dólares atuais, é cerca de meio milhão de dólares. É quanto ele vale.

 

- Punição por danos materiais seria fácil.

 

- Depende. Seria muito difícil provar este caso, Clay, porque não há nenhum documento. Os dossiês que você conseguiu onterruião-íevelam coisa alguma. Os conselheiros do Campo L e do Ruas Limpas não tinham ideia do tipo de droga que estavam administrando. A FDA nunca ouviu falar em Tarvan. Meu cliente gastaria um bilhão com advogados e peritos e todos aqueles que pudessem protegê-lo. O litígio seria uma guerra porque meu cliente é tão culpado.

 

- Seis vezes quatro são 24 milhões.

 

- Acrescente dez para o advogado.

 

- Dez milhões?

 

- Sim, esse é o trato, Clay. Dez milhões para você.

 

- Deve estar brincando.

 

- Falo muito sério. Trinta e quatro no total. E posso assinar os cheques agora mesmo.

 

- Preciso sair e andar um pouco.

 

- Que tal o almoço?

 

- Não, obrigado.

 

ANDANDO A ESMO AGORA, na frente da Casa Branca. Perdido por um momento no meio de turistas holandeses que tiravam fotos, esperando que o presidente acenasse para eles, depois um passeio no parque Lafayette onde os sem-teto desapareciam durante o dia, depois num banco na praça Farragut onde comeu um sanduíche frio sem sentir-lhe o gosto. Todos os sentidos estavam embotados, todos os pensamentos lentos e confusos. Era mês de maio, mas o ar não estava claro. A umidade não o ajudava a pensar.

 

Via doze rostos negros nos bancos do júri, gente zangada que passara uma semana ouvindo a história chocante do Tarvan. Dirigia-se a eles na sua apresentação final: ”Eles precisavam de cobaias negras, senhoras e senhores, de preferência americanos porque é aqui que está o dinheiro. Então trouxeram seu Tarvan miraculoso para nossa cidade.” Os doze rostos bebiam sedentos cada palavra e concordavam, inclinando as cabeças, ansiosos para sair do tribunal e fazer justiça.

 

Qual era o maior veredicto da história do mundo? O Livro Guinness registrava isso? Fosse qual fosse, facilmente seria o seu. ”Basta preencher o formulário, senhoras e senhores do júri.”

 

O caso jamais iria a julgamento, nenhum júri o ouviria. Quem fez o Tarvan gastaria um bocado mais do que trinta milhões para enterrar a verdade. E contratariam toda espécie de malfeitores para quebrar pernas, roubar documentos, grampear telefones e queimar escritórios, o que fosse preciso para manter seu segredo longe daqueles doze rostos negros zangados.

 

Ele pensou em Rebecca. Como ela ficaria diferente envolta no luxo do seu dinheiro. com que rapidez deixaria de se preocupar com o Congresso e se retiraria para cuidar dos filhos. Casaria com ele em três meses ou logo que Barb tivesse tempo de planejar tudo.

 

Pensou nos Van Horns, mas, estranhamente, não como pessoas que ainda conhecia. Estavam fora de sua vida, ele tentava esquecê-los. Estava livre daquela gente, depois de quatro anos de escravidão. Nunca mais o atormentariam.

 

Estava prestes a se livrar de uma porção de coisas.

 

Uma hora se passou. Então ele estava no círculo DuPont, olhando para as vitrines das pequenas lojas que davam para a avenida Massachusetts, livros raros, pratos raros, roupas raras, gente rara por toda parte. Numa delas havia um espelho e ele olhou nos olhos da própria imagem pensando em voz alta se Max, o bombeiro, era real, uma fraude ou um fantasma. Seguiu pela calçada, nauseado com a ideia de que uma companhia respeitada tivesse escolhido como vítimas as pessoas mais fracas que encontrou, mas logo entusiasmado com a perspectiva de mais dinheiro do que jamais teria sonhado. Precisava do seu pai. Jarrett Cárter saberia exatamente o que fazer.

 

Outra hora se passou. Era esperado no gabinete para a reunião semanal do pessoal. ”Despeça-me”, ele murmurou com um sorriso.

 

Passou algum tempo na Kramerbooks, sua livraria preferida na capital. Talvez muito em breve poderia passar da seção de brochuras para a de capa dura. Poderia encher suas paredes com fileiias de livros.

 

Exatamente às 15 horas, a hora marcada, saiu pelos fundos da Kramer, entrou num café e lá estava Max Pace, sozinho, tomando limonada, à sua espera. Obviamente ficou feliz por ver Clay outra vez.

 

- Você me seguiu? - Clay perguntou, sentando e pondo as mãos nos bolsos da calça.

 

- Claro. Quer tomar alguma coisa?

 

- Não. E se eu der entrada amanhã no processo a favor da família de Ramón Pumphrey? Só esse caso pode valer mais do que você está oferecendo pelos seis.

 

A pergunta evidentemente era esperada. Max tinha a resposta pronta.

 

- Você tem uma longa lista de problemas. Deixe que eu diga os três mais importantes. Primeiro, você não sabe o tipo de processo que vai usar e pode ser que ninguém jamais venha a saber. Segundo, você não tem dinheiro para enfrentar meu cliente. Seriam precisos pelo menos dez milhões de dólares para organizar um ataque sustentável. Terceiro, você perderia a oportunidade de representar todos os queixosos conhecidos. Se você não disser sim rapidamente, estou preparado para procurar outro nome da minha lista de advogados com a mesma oferta. Meu objetivo é liquidar este caso em trinta dias.

 

- Eu poderia ir a uma grande firma de fraudes.

 

- Sim, e isso criaria mais problemas. Primeiro, você teria de dar pelo menos a metade dos seus honorários. Segundo, levaria cinco anos para chegar a um resultado, talvez mais. Terceiro, a maior firma de fraudes no país pode perder esse caso facilmente. A verdade aqui, Clay, talvez nunca seja conhecida.

 

- Deveria ser conhecida.

 

- Talvez, mas para mim tanto faz. Meu trabalho é silenciar essa coisa, compensar adequadamente as vítimas, depois enterrar o caso para sempre. Não seja tolo, meu amigo.

 

- Não somos realmente amigos.

 

- Verdade, mas estamos fazendo progresso.

 

- Você tem uma lista de advogados?

 

- Tenho, tenho mais dois nomes. Ambos muito semelhantes a você.

 

- Em outras palavras, famintos.

 

- Sim, você está faminto. Mas também é brilhante.

 

- Foi o que me disseram. E tenho ombros largos. Os outros dois são daqui da cidade?

 

- São, mas não vamos nos preocupar com eles. Hoje é quinta-feira. Preciso de uma resposta até segunda-feira, ao meio-dia. Do contrário, you procurar o outro cara.

 

- Tarvan foi usado em alguma outra cidade dos Estados Unidos?

 

- Não, só em Washington, D.C.

 

- E quantas pessoas foram tratadas com ele?

 

- Cem, pouco mais ou menos.

 

Clay tomou um gole da água gelada que o garçom tinha posto na sua frente.

 

- Então aqui tem menos assassinos?

 

- E possível. Não preciso dizer que estamos esperando e vigiando com grande ansiedade.

 

- Vocês não podem impedir que eles matem?

 

- Impedir assassinatos de rua na capital? Ninguém poderia prever que Tequila saísse do Campo L e dentro de duas horas matasse uma pessoa. Nem Washad Porter. O Tarvan não dá nenhuma pista sobre quem vai pirar. Há alguma evidência de que depois de dez dias sem a medicação a pessoa volta a ser inofensiva. Mas é tudo especulação.

 

- Então os assassinatos devem parar dentro de mais alguns dias?

 

- Estamos contando com isso. Espero que possamos sobreviver ao fim de semana.

 

- Seu cliente devia ir para a prisão.

 

- Meu cliente é uma corporação.

 

- Corporações podem ser consideradas criminalmente responsáveis.

 

- Não vamos discutir issOr-eerto? Não nos leva a lugar algum. Precisamos focalizar em você e se está ou não disposto a enfrentar o desafio.

 

- Tenho certeza de que você tem um plano.

 

- Sim, e muito detalhado.

 

- Largo meu emprego e, então, o que acontece?

 

Pace empurrou o copo de limonada para o lado, e se inclinou para a frente, pronto para falar sobre o que valia a pena.

 

- Você instala sua firma de advocacia. Aluga um espaço. Põe bons móveis e assim por diante. Você tem de vender esta coisa, Clay, e o único modo de fazer isso é parecer e agir como um advogado criminal bem-sucedido. Seus clientes em potencial serão levados ao seu escritório. Precisam ficar impressionados. Precisa de auxiliares e de outros advogados trabalhando para você. A aparência é tudo, confie em mim. Já fui advogado. Os clientes que-

as cem. Tinha um palpite de que Max sabia todas as respostas.

 

- O que você acha? - Max perguntou.

 

- Não estou pensando muito bem no momento. Tudo parece embaçado.

 

- Não perca esta oportunidade, Clay. Nunca mais vai aparecer. E o relógio está funcionando.

 

- E irreal.

 

- Você pode registrar sua firma on-line, leva mais ou menos uma hora. Escolha um banco, abra a conta. Papel timbrado e coisas assim podem ser feitos de um dia para o outro. O escritório pode estar completo e mobiliado numa questão de dias. Na próxima quarta-feira você pode estar sentado aqui, atrás de uma mesa elegante, dirigindo seu show.

 

- Como contrato os outros casos?

 

- Seus amigos Rodney e Paulette fazem isso. Eles conhecem a cidade e sua gente. Contrate os dois, triplique seus salários, dê belos escritórios no outro lado do corredor. Eles podem falar com as famílias. Nós ajudaremos.

 

- Vocês pensaram em tudo. .

 

- Sim. Absolutamente tudo. Estou dirigindo uma máquina muito eficiente, em compasso quase de pânico. Trabalhamos dia e noite, Clay. Só precisamos de um homem de ponta.

 

Na descida, o elevador parou no terceiro andar. Três homens e uma mulher entraram, todos muito bem-vestidos e arrumados, com pastas caras de couro, além do ar incurável de importância, inato nos advogados de grandes firmas. Max estava tão entretido com seus detalhes que não os viu. Mas Clay os absorveu - os modos, a fala discreta, a seriedade, a arrogância. Eram grandes advogados, importantes, e ignoraram sua existência. E claro, com sua calça velha e mocassins surrados ele não projetava exatamente a imagem de um membro da Ordem dos Advogados da capital.

 

Isso podia mudar da noite para o dia, não podia?

 

Clay despediu-se de Max e saiu para outra longa caminhada, dessa vez na direçáo do seu gabinete. Quando finalmente chegou, não havia nenhuma mensagem urgente na sua mesa. Era evidente que muitos tinham faltado à reunião. Ninguém perguntou onde ele tinha estado. Ninguém pareceu notar que Clay estivera ausente toda a tarde.

 

Seu gabinete de repente parecia muito menor e sombrio e os móveis insuportavelmente vulgares. Havia uma pilha de pastas na sua mesa, casos nos quais não podia pensar agora. Afinal de contas, todos os seus clientes eram criminosos.

 

O GDP exigia aviso prévio de trinta dias para se demitir. Porém a regra não era observada porque não podia ser. As pessoas estavam sempre se demitindo com pouco ou nenhum tempo de aviso prévio. Glenda escreveria uma carta ameaçadora. Ele responderia com uma carta agradável e estava tudo acabado.

 

A melhor secretária do gabinete era a senhorita Glick, uma guerreira experiente que ia pular de contente com a oportunidade de duplicar seu salário e deixar para trás o GDP. Seu escritório seria um lugar divertido para trabalhar, Clay decidiu. Salários, benefícios e férias longas e talvez até mesmo participação nos lucros.

 

Clay passou a hora seguinte com a porta trancada, planejando, roubando empregados, debatendo quais advogados e quais paralegais serviriam.

 

CLAY ENCONTROU-SE com MAX pela terceira vez naquele dia para jantar no Old Ebbitt Grille, na rua Quinze, duas quadras atrás do Willard. Para sua surpresa, Max começou com um martíni e isso o descontraiu consideravelmente. A pressão começou a derreter sob o assalto do gim e ele se tornou uma pessoa real. Max era advogado na Califórnia antes de um infortúnio terminar sua carreira. Por meio de contatos encontrou seu nicho no mercado do litígio, como bombeiro. Um solucionador de problemas. Um agente muito bem pago que chegava discretamente. Limpava a sujeira e saía sem deixar nenhum traço de sua passagem. Enquanto comiam os bifes e depois da primeira garrafa de Bordeaux, Max disse que havia outra coisa à espera de Clay depois do Tarvan.

 

- Uma coisa muito maior - Max disse olhando em volta para ver se algum espião estava ouvindo.

 

- O que é? - Clay disse depois de esperar por um longo tempo.

 

Outro rápido olhar à procura de bisbilhoteiros.

 

- Meu cliente tem um concorrente que lançou um medicamento ruim no mercado. Ninguém sabe ainda. O medicamento está tendo melhores resultados do que o nosso. Mas meu cliente agora tem provas fidedignas de que o medicamento causa tumores. Meu cliente está esperando o momento ideal para atacar.

 

- Atacar?

 

- Sim, como um processo de ação de classe dirigido por um jovem e agressivo advogado que possui as provas certas.

 

- Está me oferecendo outro caso?

 

- Estou. Você aceita o caso do Tarvan, arruma as coisas em trinta dias, então lhe entregaremos um dossiê que vale milhões.

 

- Mais do que o Tarvan?

 

- Muito mais.

 

Até ali Clay tinha conseguido comer metade do seu filé mignon sem sentir nenhum gosto. A outra metade ficaria intocada. Ele estava faminto mas sem apetite.

 

- Por que eu? - ele perguntou mais para si mesmo do que para o novo amigo.

 

- É o que pergunta quem ganha na loteria. Você ganhou na loteria. A loteria dos advogados. Foi bastante inteligente para farejar o Tarvan e ao mesmo tempo estávamos procurando deses-- peradamente um jovem advogado em quem pudéssemos confiar. Nós nos encontramos, Clay, e temos este breve momento no tempo no qual você toma uma decisão que mudará o curso da sua vida. Diga que sim e se tornará um grande advogado. Diga não e perde a loteria.

 

- Mensagem recebida. Preciso de algum tempo para pensar, para clarear minha cabeça.

 

- Tem todo o fim da semana.

 

- Obrigado. Escute, you fazer uma viagem rápida. Saio de manhã e volto sábado à noite. Na verdade não penso que vocês precisem me seguir.

 

- Posso perguntar aonde vai?

 

- Ábaco, nas Bahamas.

 

- Vai ver seu pai?

 

Clay ficou surpreso, mas não devia ter ficado.

 

- Sim - ele disse.

 

- Para quê?

 

- Não é da sua conta. Para pescar.

 

- Desculpe, mas estamos muito nervosos. Espero que cornpreenda.

 

- Na verdade não compreendo. Posso dar os números dos meus voos, apenas não me sigam, está bem?

 

- Tem minha palavra.

 

A GRANDE ILHA ÁBACO é uma longa e estreita faixa de terra na extremidade norte das Bahamas, a cerca de cento e sessenta quilómetros da Flórida. Clay tinha estado na ilha uma vez, há quatro anos quando conseguiu dinheiro suficiente para a passagem de avião. A viagem foi um longo fim de semana, no qual Clay planejara tratar de vários assuntos sérios com o pai e se livrar de alguma bagagem. Não aconteceu. Jarrett Cárter estava ainda muito perto da própria desgraça e especialmente preocupado em beber ponche de rum do meio-dia em diante. Ele estava disposto a falar sobre qualquer coisa, exceto direito e advogados.

 

Esta visita seria diferente.

 

Clay chegou no fim da tarde, num jato muito lotado e muito quente, da Air Coconut. O fiscal na alfândega o mandou passar depois de um rápido olhar para seu passaporte. A viagem de táxi até Marsh Harbor levou cinco minutos, no lado errado da estrada. O taxista gostava de música evangélica a todo yerume e Clay não estava disposto a discutir. Nem estava disposto a dangorjeta. Saiu do carro no porto e foi procurar o pai.

 

JARRETT CÁRTER CERTA VEZ tinha entrado com um processo judicial contra o presidente dos Estados Unidos e, embora tivesse perdido o caso, aprendeu com a experiência que cada acusado subsequente era um alvo fácil. Ele não tinha medo de ninguém, no tribunal ou fora dele. Sua reputação estava assegurada com uma grande vitória - um grande veredicto de imperícia profissional contra o presidente da Associação Médica Americana, um bom médico que cometera um erro cirúrgico. Um júri impiedoso num condado conservador tinha dado o veredicto, e Jarrett Cárter passou a ser um advogado muito procurado. Escolhia os casos mais difíceis, ganhava a maioria deles, e aos quarenta anos era um famoso advogado criminal. Fundou uma firma conhecida por sua ousadia no tribunal. Clay jamais duvidou de que seguiria o pai e faria carreira no tribunal.

 

Tudo desmoronou quando Clay estava na faculdade. Houve um caso tenebroso de divórcio que custou caro a Jarrett. Sua firma começou a se desfazer, tipicamente, os sócios processando uns aos outros. Atordoado, Jarrett passou dois anos sem ganhar um caso e sua reputação sofreu muito com isso. Ele cometeu seu maior erro quando, com seu contador, começou a alterar os livros

- escondendo a renda, superfaturando despesas. Quando foi apanhado, o contador cometeu suicídio mas Jarrett não. Porém ficou arrasado e a prisão parecia provável. Felizmente um velho amigo da faculdade, o procurador geral dos Estados Unidos, foi o encarregado da acusação.

 

Os detalhes do acordo permaneceriam para sempre em segredo. Não houve pronunciamento de culpa pelo Grande Júri, somente um acordo não oficial, e Jarrett fechou seu escritório discretamente, perdeu a licença para advogar e saiu do país. Fugiu sem nada, porém os que estavam mais próximos do caso achavam que ele devia ter alguma coisa guardada fora dos Estados Unidos. Clay jamais viu qualquer indicação disso.

 

Assim o grande Jarrett Cárter se tornou capitão de um barco pesqueiro nas Bahamas, o que, para muitos, parecia uma vida maravilhosa. Clay o encontrou no barco, um Wavedancer de sessenta pés, ancorado numa vaga da marina. Outros barcos de aluguel voltavam de um longo dia no mar. Pescadores queimados de sol admiravam o resultado da sua pesca. Fotos eram tiradas. Os marinheiros do porto descarregavam depósitos de gelo com garoupas e atuns. Carregavam sacolas com garrafas e latas vazias de cerveja.

 

Jarrett estava na proa com uma mangueira numa das mãos e uma esponja na outra. Clay o observou por um momento, pensando em não interromper o trabalho. Seu pai sem dúvida parecia o expatriado em fuga - descalço, a pele da cor do couro curtido, uma barba grisalha à Ia Hemingway, cordões de prata no péscoço, boné de pescador, velha camisa de algodão com as mangas arregaçadas até os bíceps. Se não fosse pela pequena barriga de bebedor de cerveja, Jarrett pareceria em ótima forma.

 

- Ora, ora, vejam só quem está aqui! - ele gritou quando viu o filho.

 

- Belo barco - Clay disse, subindo a bordo. Um firme aperto de mãos e nada mais. Jarrett não era do tipo afetuoso, pelo menos não com o filho. Várias antigas secretárias contavam outra história. Ele cheirava a suor seco, água salgada, cerveja velha - um longo dia no mar. O short e a camisa branca estavam sujos.

 

- E de um médico em Boca. Você está ótimo.

 

- Você também.

 

- Estou com saúde, isso é o que importa. Pegue uma cerveja.

- Jarrett apontou para um depósito de gelo no convés.

 

Abriram as latas e sentaram nas cadeiras de lona enquanto um grupo de pescadores caminhava no píer. O barco balançava suavemente.

 

- Dia movimentado, certo? - Clay disse.

 

- Saímos ao nascer do sol, com um pai e dois filhos grandes e fortes, os três, levantadores de peso. De algum lugar em Nova Jersey. Eu nunca tinha visto tanto músculo num barco. Tiravam um agulhão-bandeira de cinquenta quilos do oceano como se fossem trutas.

 

Duas mulheres quarentonas passaram por eles, com pequenas mochilas e objetos de pesca. Bronzeadas e cansadas como todoros^ pescadores. Uma era um pouco gorda, a outra não, mas Jarrett olhou para as duas até desaparecerem de vista. Seu interesse evidente era quase embaraçoso.

 

- Você ainda tem seu apartamento? - Clay perguntou. Um velho apartamento de dois quartos que ele tinha visto anos atrás, no lado de trás de Marsh Harbor.

 

- Tenho, mas agora moro no barco. O dono não aparece muito e resolvi ficar por aqui. Tem um sofá na cabine para você.

 

- Você mora no barco?

 

- Claro, tem ar-condicionado, bastante espaço. Você sabe, estou sozinho a maior parte do tempo.

 

Tomaram cerveja e viram passar outro grupo de pescadores.

 

- Amanhã tenho outro freguês - Jarrett disse. - Você quer ir?

 

- O que mais posso fazer por aqui?

 

- Uns palhaços de Wall Street que querem sair às sete horas da manhã.

 

- Parece divertido.

 

- Estou com fome - Jarrett disse, levantando-se rapidamente e jogando a lata de cerveja no lixo. - Vamos.

 

No píer passaram por dezenas de barcos de todos os tipos. Pequenos jantares estavam sendo servidos nos veleiros. Os capitães dos barcos pesqueiros bebiam cerveja e descansavam. Todos gritaram alguma coisa para Jarrett que tinha uma resposta rápida para cada um. Ele ainda estava descalço. Clay andava um passo atrás dele, pensando, esse é meu pai, o grande Jarrett Cárter, agora um pescador descalço com short desbotado e camisa desabotoada, o rei de Marsh Harbor. E um homem muito infeliz.

 

O bar Blue Fin estava cheio e barulhento. Jarrett parecia conhecer todo mundo. Antes que encontrasse duas banquetas juntas, o bartender já tinha os copos de ponche de rum prontos para os dois.

 

- Saúde - Jarrett disse, tocando o copo de Clay com o seu e imediatamente tomando a metade. Então começou uma conversa séria sobre pesca com outro capitão e por algum tempo Clay foi ignorado, o que estava bem para ele. Jarrett acabou de beber o primeiro copo de rum e gritou pedindo outro. Depois outro.

 

Um banquete estava sendo organizado numa mesa redonda num canto. Travessas com lagosta, caranguejo e camarão estavam no centro da mesa. Jarrett fez sinal para Clay segui-lo e sentaram à mesa redonda com meia dúzia de outras pessoas. A música tocava alto, a conversa era mais alta ainda. Todos em volta da mesa esforçavam-se para se embriagar, com Jarrett puxando a fila.

 

O marinheiro à direita de Clay era um hippie velho que afirmava ter escapado do Vietnã e queimado seu cartão de recrutamento. Rejeitava todas as ideias de democracia, incluindo emprego e impostos sobre a renda.

 

- Há trinta anos estou indo de uma ilha para outra no Caribe ~ ele se gabou, com a boca cheia de camarão. - Os federais nem sabem que eu existo.

 

Clay suspeitava que os federais pouco se importavam com o fato do homem existir ou não e o mesmo valia para o resto dos desajustados com quem estava jantando. Marinheiros, capitães de barcos, pescadores de tempo integral, todos fugindo de alguma coisa - pagamento de pensão, impostos, acusações formais, negócios excusos. Consideravam-se rebeldes, não conformistas, espíritos livres, piratas dos tempos modernos, por demais independentes para serem limitados pelas regras normais da sociedade.

 

Um furacão assolara Ábaco no verão anterior e o capitão Floyd, que falava mais alto do que todos, estava em guerra com a companhia de seguros. Isso trouxe à baila várias histórias de furacões, que, é claro, exigiam outra rodada de rum. Clay parou de beber, seu pai não. Jarrett começou a falar mais alto, cada vez mais bêbado, como todos os outros em volta da mesa.

 

Depois de duas horas a comida tinha desaparecido mas o ponche de rum continuava a fluir. O garçom servia agora em jarras e Clay resolveu sair discretamente. Levantou da mesa sem ser notado e saiu do Blue Fin.

 

Lá se ia o jantar calmo com seu pai.

 

ELE ACORDOU NO escuro ouvindo seu pai andando na cabine embaixo, assobiando alto, até cantando algo que parecia remotamente uma canção de Bob Marley.

 

- Acorde! - Jarrett gritou. O barco balançava não tanto pelo movimento da água quanto pelo barulhento ataque de Jarrett ao começo do dia.

 

Clay continuou por um momento no sofá curto e estreito, tentando se orientar e lembrar da lenda de Jarrett Cárter. Ele chegava ao escritório todos os dias às 6 horas da manhã, muitas vezes às 5 e outras vezes às 4. Seis dias por semana, às vezes sete. Deixou de assistir a maior parte dos jogos de beisebol e de futebol de Clay, simplesmente porque estava muito ocupado. Nunca estava em casa depois que anoitecia e muitas vezes não voltava durante toda a noite. Quando Clay cresceu e passou a trabalhar na firma de advocacia, Jarrett era famoso por enterrar os advogados sob pilhas de trabalho. com a deterioração do seu casamento, ele passou a dormir no escritório, às vezes sozinho. Independentemente dos seus maus hábitos, Jarrett sempre atendia à campainha e sempre antes de qualquer outra pessoa. Tentou o alcoolismo mas conseguiu parar quando a bebida começou a interferir no seu trabalho. Ele não precisava dormir sobre os dias de glória e evidentemente alguns hábitos nunca morriam. Ele passou pelo sofá, cantando alto e cheirando a um recente banho de chuveiro e a loção de barba barata.

 

- Vamos! - gritou.

 

Desjejum nem foi considerado. Clay conseguiu um banho rápido e frio no pequeno espaço chamado chuveiro. Ele não era claustrófobo mas a ideia de viver nos confins restritos do barco lhe parecia impossível. Lá fora as nuvens eram espessas e o ar já estava quente. Jarrett estava na ponte de cornando, ouvindo o rádio, franzindo a testa para o céu.

 

- Más notícias - ele disse.

- O que é?

 

- Uma grande tempestade vem para cá. A previsão é de chuva grossa o dia inteiro.

 

- Que horas são?

 

- Seis e meia.

 

- A que horas você foi dormir a noite passada?

 

- Você parece sua mãe. O café está ali. - Clay serviu café numa xícara e sentou na frente do leme.

 

O rosto de Jarrett estava coberto por óculos grossos, a barba e a aba comprida do boné. Clay suspeitava que os olhos deviam trair uma ressaca daquelas, mas ninguém jamais saberia. No rádio só se ouvia alertas e avisos dos barcos grandes que estavam no mar sobre a tempestade. Jarrett e os outros capitães de barcos de aluguel gritavam uns para os outros, informando o que ouviam, fazendo predições, balançando a cabeça para as nuvens. Ninguém ia sair do porto.

 

- Droga - Jarrett disse -, um dia desperdiçado.

 

Quatro jovens de Wall Street chegaram todos com shorts de ténis brancos, sapatos novos de corrida e chapéus novos de pescador. Jarrett os viu e foi ao seu encontro na popa. Antes que eles tivessem tempo de subir a bordo, ele disse:

 

- Lamento, pessoal, não tem pescaria hoje. Aviso de tempestade.

 

Os quatro olharam para cima examinando o céu. Uma breve abertura nas nuvens os fez concluir que as previsões estavam erradas.

 

- Está brincando - um deles disse.

 

- Só um pouco de chuva - disse outro.

 

- Vamos tentar - disse outro ainda.

 

- A resposta é não - Jarrett disse. - Ninguém vai pescar hoje.

 

- Mas nós pagamos pelo aluguel do barco.

 

- Seu dinheiro será devolvido.

 

Examinaram outra vez as nuvens que escureciam a cada minuto. A tempestade chegava como canhões distantes.

 

- Lamento, pessoal - Jarrett disse.

 

- E amanhã? - um perguntou.

 

- Amanhã tenho outro grupo. Sinto muito.

 

Eles foram embora, certos de terem sido roubados dos seus trofeus de marlins.

 

Resolvido o problema trabalhista, Jarrett foi até o depósito de gelo e pegou uma cerveja.

 

- Quer uma? - perguntou para Clay.

 

- Que horas são?

 

- Hora para uma cerveja, eu creio.

 

- Ainda não terminei meu café. •’”” Sentaram nas cadeiras de pesca no convés e ouviram aftem-

 

pestade se aproximar. A marina estava movimentada, com capitães e marinheiros prendendo os barcos, e os tristonhos pescadores corriam no píer carregando depósitos de gelo e sacolas cheias de óleo de bronzear e câmeras. O vento aos poucos acelerava sua marcha.

 

- Tem falado com sua mãe? - Jarrett perguntou.

 

- Não.

 

A história da família Cárter era um pesadelo e os dois sabiam que era melhor não falar no assunto.

 

- Você ainda está no GDP? - Jarrett perguntou.

 

- Estou e quero falar sobre isso com você.

 

- Como vai Rebecca?

 

- É passado, eu acho.

 

- Isso é bom ou não?

 

- No momento é apenas doloroso.

 

- Quantos anos você tem agora?

 

- Vinte e quatro menos do que você. Trinta e um.

 

- Certo. Muito moço para casar.

 

- Obrigado, pai.

 

O capitão Floyd parou ao lado do barco.

 

- Gunter está aqui. Pôquer em dez minutos. Vamos! Jarrett se levantou rapidamente, como um menino no dia de

 

Natal.

 

- Você vai nessa? - perguntou para Clay.

 

- Nessa o quê?

 

- Pôquer.

 

- Eu não jogo pôquer. Quem é Gunter? , Jarrett esticou o corpo e apontou.

 

- Está vendo aquele iate ali? Um cem pés. É de Gunter. Um velho alemão com um bilhão de dólares e montes de mulheres. Acredite, é o melhor lugar para esperar a tempestade ir embora.

 

- Vamos! - o capitão Floyd gritou, se afastando. Jarrett estava saindo do barco para o píer.

 

- Você vem? - perguntou para Clay.

 

- Eu passo.

 

- Não seja bobo. Vai ser muito mais divertido do que ficar aqui sentado o dia todo. - Jarrett já estava indo atrás do capitão Floyd.

 

Clay sacudiu a mão no ar.

 

- you ler um livro.

 

- Como quiser.

 

Os dois subiram no caíque com outro homem e atravessaram o porto até desaparecerem atrás dos iates.

 

Era a última vez que Clay veria seu pai por vários meses. Lá se ia o conselho.

 

Estava sozinho.

 

A SUITE ERA NUM hotel diferente. Pace movia-se na capital como se fosse perseguido por espiões. Depois de um breve olá e de oferecer café, sentaram para tratar de negócios. Clay via que a tensão de guardar segredo pressionava Pace. Ele parecia cansado. Seus movimentos eram ansiosos. Falava mais rapidamente. O sorriso tinha desaparecido. Nenhuma pergunta sobre o fim de semana nem sobre a pescaria nas Bahamas. Pace estava prestes a fechar um negócio com Clay Cárter ou com o segundo nome da sua lista. Sentaram a uma mesa, cada um com um bloco de notas e canetas prontos para o ataque.

 

- Acho que cinco milhões por cada morte é uma quantia melhor - Clay começou. - Certo, são garotos de rua e suas vidas têm pouco valor económico, mas o que seu cliente fez vale milhões de punição por danos. Então combinamos o real com o punitivo e chegamos a cinco milhões.

 

- O cara em coma morreu ontem à noite - Pace disse.

 

- Então temos seis vítimas.

 

- Sete. Perdemos outro no sábado de manha. Clay tinha multiplicado cinco milhões por seis tantas vezes que achou difícil modificar a conta.

 

- Quem? Onde?

 

- Dou os detalhes sujos depois, certo? Digamos que foi um fim de semana muito longo. Enquanto você pescava, estávamos monitorando os telefonemas para a emergência da polícia, que, num fim de semana movimentado nesta cidade, exige o trabalho de um pequeno exército.

 

- Tem certeza de que é um caso de Tarvan?

 

- Temos certeza.

 

Clay escreveu alguma coisa sem sentido e tentou ajustar sua estratégia.

 

- Vamos concordar com cinco milhões por morte - ele disse.

 

- Combinado.

 

No voo de volta de Ábaco, Clay tinha se convencido de que era um jogo de zeros. Não pense como se fosse dinheiro de verdade, esqueça o que o dinheiro pode comprar. Esqueça as mudanças dramáticas que o esperam. Esqueça o que um júri poderia fazer com o caso. Jogue apenas com os zeros. Ignore a faca afiada girando no seu estômago. Finja que suas entranhas são forradas de aço. Seu oponente está fraco e assustado, e é muito rico e está muito errado.

 

Clay engoliu em seco e tentou falar normalmente.

 

- Os honorários dos advogados estão muito baixos - ele disse.

 

- É mesmo? - Pace disse e sorriu. - Dez milhões não resolvam ?

 

- Não neste caso. Sua exposição será muito maior se uma grande firma de fraude for envolvida.

 

- Você pega as coisas rapidamente, não é mesmo?

 

- A metade vai para impostos. O custo operacional que você planejou para mim será muito alto. Terei de montar uma firma de advocacia de verdade numa questão de dias e no bairro de aluguéis altos. Além disso quero fazer alguma coisa por Tequila e pelos outros acusados que estão sendo sacrificados nisto tudo.

 

- Diga uma quantia - Pace já estava anotando alguma coisa.

 

- Quinze milhões facilitarão a transição.

 

- Você está jogando dardos?

 

- Não. Só negociando.

 

- Então você quer cinquenta milhões, trinta e cinco para as famílias, quinze para você. É isso?

 

- Isso deve bastar.

 

- Combinado - Pace estendeu a mão e disse: - Meus parabéns. Clay apertou a mão estendida. Não conseguiu lembrar de

 

dizer outra coisa que não fosse:

 

- Obrigado.

 

- Há um contrato com alguns detalhes e estipulações. - Max estendeu a mão para sua pasta.

 

- Que tipo de estipulações?

 

- Para começar, você não pode nunca mencionar Tarvan para Tequila Watson para o novo advogado dele, nem para qualquer outro acusado envolvido nesse caso. Isso comprometeria gravemente tudo. Como já conversamos, o vício da droga não é uma defesa legal para um crime. Pode ser circunstância atenuante durante a decisão da sentença, mas o sr. Watson cometeu assassinato e fosse o que fosse que ele estivesse tomando na ocasião não é relevante para sua defesa.

 

- Eu compreendo isso melhor do que você.

 

- Então esqueça os assassinatos. Você agora representa as famílias das vítimas. Está no outro lado da rua, Clay, portanto aceite isso. Nosso acordo pagará cinco milhões adiantados para você, outros cinco em dez dias e os cinco restantes quando todos os acordos estiverem terminados. Você menciona Tarvan para qualquer pessoa e o negócio está desfeito. Você viola nossa confiança com os acusados e perde um bocado de dinheiro.

 

Clay assentiu com a cabeça olhando para o grosso contrato agora sobre a mesa.

 

- Este é basicamente um acordo sigiloso - Max continuou^ batendo com a mão nos papéis -, é cheio de feios segredos, grande parte dos quais você tem de esconder até da sua secretária. Por exemplo, o nome do meu cliente nunca é mencionado. Há agora uma companhia fictícia instalada nas Bermudas com novas divisões nas Antilhas Holandesas que responde a uma companhia com sede em Luxemburgo. A trilha dos papéis começa e acaba lá e nem eu posso segui-la sem me perder. Seus novos clientes receberão o dinheiro, não devem fazer perguntas. Não pensamos que isso será problema. Para você, você está ganhando uma fortuna. Não esperamos sermões de moral. Apenas pegue seu dinheiro, termine o trabalho, todo mundo ficará mais feliz.

 

- Basta vender a minha alma?

 

- Como eu disse, esqueça o sermão. Você não está fazendo nada fora da ética. Está conseguindo enormes acordos para clientes que não têm a mínima ideia de que alguém deve isso a eles. Isso não é exatamente vender a alma. E daí, se você ficar rico? ]sfão será o primeiro advogado a ter uma maré de sorte.

 

Clay pensava nos primeiros cinco milhões. Adiantados.

 

Max preencheu alguns espaços no meio do contrato, depois o empurrou para Clay sobre a mesa.

 

- Esta é uma preliminar do negócio. Assine e então posso dizer mais alguma coisa sobre meu cliente. you buscar café para nós.

 

Clay segurou o documento, sopesando-o, depois tentou ler o primeiro parágrafo. Max estava ao telefone falando com o serviço de quarto.

 

Ele ia se demitir nesse mesmo dia do GDP e se retirar da defesa de Tequila Watson. A papelada já estava pronta, junto com o contrato. Registraria sua firma imediatamente, contrataria pessoal suficiente, abriria contas nos bancos etc. Uma proposta para registro do Escritório de Advocacia de J. Clay Cárter também estava anexa ao contrato, tudo mastigado. Logo que fosse possível, ele entraria em contato com as sete famílias e começaria o processo de requerer seus casos.

 

O café chegou e Clay continuou a ler. Max estava falando ao celular, no outro lado da suíte, em voz muito baixa e séria, sem dúvida relatando os últimos eventos ao seu superior. Ou talvez estivesse monitorando sua rede de informação para saber se tinha acontecido outro crime do Tarvan. Por sua assinatura na página onze, Clay receberia imediatamente por ordem telegráfica, a soma de 5 milhões de dólares, a quantia claramente escrita por Max. Suas mãos tremiam quando ele assinou, não de medo ou de incerteza moral, mas por choque.

 

Quando o primeiro round de papelada estava completo, eles saíram do hotel e entraram numa camionete dirigida pelo mesmo guarda-costas que recebera Clay no saguão do Willard.

 

- Sugiro que a primeira coisa a fazer é abrir a conta no banco ~ Max disse suavemente mas com firmeza. Clay era Cinderela mdo para o baile, só pelo passeio, porque tudo era um sonho agora.

 

- Claro, uma boa ideia - ele conseguiu dizer.

 

- Algum banco em particular?

 

O banco de Clay ficaria chocado com aquele tipo de ativida-j de. Há tanto tempo sua conta mal conseguia se manter acima do l mínimo permitido que qualquer depósito maior acionaria o alar- j me. Um gerente certa vez telefonara para avisar que o prazo do pagamento de um empréstimo há muito estava vencido. Ele quase podia ouvir a exclamação de espanto de um maioral lá de cima quando visse seu depósito.

 

- Tenho certeza de que você já pensou em algum - Clay disse.

 

- Temos um bom relacionamento com o Chase. As transferências serão feitas com maior facilidade.

 

Então que seja o Chase, Clay pensou com um sorriso. Qualquer coisa para apressar as transferências.

 

- Banco Chase na rua Quinze - Max disse para o motorista que já se dirigia para lá. Max tirou mais papéis da pasta. - Aqui está a locação e sublocação do seu escritório. E espaço nobre, como você sabe, e certamente nada barato. Meu cliente usou uma companhia fictícia para alugar por dois anos a dezoito mil pormês. Podemos sublocar para você por esse mesmo aluguel.

 

- Isso dá quatrocentos mil, é pegar ou largar.

 

Max sorriu e disse:

 

- Você pode pagar. Comece a pensar como um advogado com dinheiro para queimar.

 

Um vice-presidente de alguma importância estava avisado. Max pediu para falar com a pessoa certa e tapetes vermelhos foram estendidos em todos os corredores. Clay entrou em cena e assinou os documentos apropriados.

 

A transferência seria efetuada às 17 horas daquele dia, segundo o vice-presidente.

 

De volta à camionete, Max era agora todo negócios.

 

- Tomamos a liberdade de preparar o registro social da sua firma de advocacia - ele disse, entregando para Clay mais documentos.

 

- Eu já vi isso - Clay disse, ainda pensando na transferência do dinheiro.

 

- É coisa básica, nada especial. Faça on-line. Pague duzentos dólares com cartão de crédito e o negócio está feito. Leva menos de uma hora. Pode fazer da sua mesa no GDP.

 

Clay apanhou os papéis e olhou para fora, pela janela. Um Jaguar XJ cor de vinho parou ao lado deles no sinal vermelho e ele começou a divagar. Tentava se concentrar nos negócios, mas simplesmente não podia.

 

- Por falar no GDP - Max dizia -, o que você quer fazer com aquela gente?

 

- Vamos fazer agora.

 

- M com Dezoito - Max disse para o motorista que não parecia perder nem uma palavra dos dois. - Pensou em Rodney e Paulette?

 

- Sim you falar com eles hoje.

 

- Ótimo.

 

- Fico satisfeito com sua aprovação.

 

- Temos também pessoas que conhecem bem a cidade. Podem ajudar. Trabalham para nós, mas seus clientes não vão saber. - Fez um sinal para o motorista. - Podemos relaxar, Clay, até você ter as sete famílias como clientes.

 

- Parece que terei de contar tudo para Rodney e Paulette.

 

- Quase tudo. Eles serão os únicos da sua firma a saber o que aconteceu. Mas nunca poderá mencionar Tarvan ou a companhia e eles nunca verão os acordos. Prepararemos isso para você.

 

- Mas terão de saber o que estamos oferecendo.

 

- Evidentemente. Eles terão de convencer as famílias a aceitar o dinheiro. Mas nunca saberão de onde ele vem.

 

- Isso será um desafio.

 

- Vamos primeiro contratar os dois.

 

Aparentemente ninguém no GDP deu pela falta de Clay. Até a confiável senhorita Glick estava ocupada com os telefones e não tinha tido tempo para a pergunta habitual: ”Onde você esteve?” Havia uma dezena de mensagens na sua mesa. Glenda estava numa conferência em Nova York e, como sempre, sua ausência significava almoços mais demorados e mais faltas por doença. Clay digitou rapidamente sua carta de demissão e mandou por email para ela. com a porta fechada, encheu duas maletas com seus objetos pessoais e deixou para trás livros antigos e outras coisas que em algum tempo considerara de valor sentimental.

 

Sempre podia voltar, mas estava certo de que não voltaria.

 

A mesa de Rodney ficava num minúsculo espaço compartilhado por dois outros paralegais.

 

- Tem um minuto? - Clay disse.

 

- Na verdade não - Rodney respondeu, mal erguendo os olhos de uma pilha de relatórios.

 

- Há uma novidade no caso de Tequila Watson. Só vai levar um minuto.

 

Com relutância, Rodney pôs a caneta atrás da orelha e acompanhou Clay ao seu gabinete, onde as prateleiras estavam vazias e Clay trancou a porta.

 

- Estou indo embora - Clay começou, quase num murmúrio.

 

Conversaram por quase uma hora, enquanto Max Pace esperava impaciente na camionete estacionada ilegalmente junto ao meio-fio. Quando Clay apareceu com duas maletas cheias, Rodney estava com ele, também carregando uma maleta e uma sacola de papel. Ele foi para seu carro e desapareceu. Clay entp0u^->, na camionete.

 

- Ele está dentro - Clay disse.

 

- Que surpresa.

 

No escritório da avenida Connecticut, encontraram-se com um consultor de decoração contratado por Max. Deixaram a critério de Clay a escolha de móveis caros que estavam no armazém e, portanto, podiam ser entregues dentro de vinte e quatro horas. Ele apontou vários estilos e amostras, todos no topo da escala de preços. Assinou uma ordem de compra.

 

Um sistema de telefones estava sendo instalado. Um consultor de computadores chegou logo depois que o decorador foi embora. Num certo momento, Clay estava gastando dinheiro tão depressa que começou a se perguntar se pedira o bastante para Max.

 

Um pouco antes das 17 horas, Max saiu de um escritório recentemente pintado e guardou o celular no bolso.

 

- A transferência foi feita - ele disse para Clay.

 

- Cinco milhões?

 

- Isso aí. Agora você é um multimilionário.

 

- you dar o fora daqui - Clay disse. - Vejo você amanhã.

 

- Aonde você vai?

 

- Nunca mais faça essa pergunta, está bem? Você não é meu patrão. E pare de me seguir. Nosso negócio está feito.

 

Clay andou por algumas quadras da Connecticut, acotovelando a multidão da hora do rush, sorrindo idiotamente, os pés mal tocando o chão. Seguiu pela rua Dezessete até ver o lago Refletor e o Monumento a Washington, onde bandos de adolescentes se juntavam para tirar fotos. Virou para a direita e caminhou pelos Jardins da Constituição, passando pelo Memorial do Vietnã. Um pouco além, parou num quiosque, comprou dois charutos baratos, acendeu um e continuou para os degraus do Memorial de Lincoln, onde sentou por um longo tempo olhando para baixo, para o Mall, para o Capitólio e para longe.

 

Pensar claramente era impossível. Um bom pensamento era imediatamente sobrepujado e empurrado por outro. Pensou no pai morando num barco pesqueiro emprestado, fingindo que era um boa-vida, mas lutando para ganhar a vida. Cinquenta e cinco anos, sem nenhum futuro, bebendo para escapar daquela infelicidade. Deu uma baforada no charuto e mentalmente foi às cornpras por algum tempo, e só por divertimento fez um cálculo do quanto gastaria se comprasse tudo que desejava - um novo guarda-roupa, um bom carro, um conjunto de som, alguma viagem. O total era apenas uma pequena parte da sua fortuna. A grande questão era que tipo de carro devia comprar. Que refletisse sucesso mas não fosse pretensioso.

 

E é claro, precisava de um novo endereço. Ia procurar em Georgetown uma pequena casa elegante. Ouvira dizer que algumas delas tinham sido vendidas por seis milhões, mas ele não precisava de tanto. Tinha certeza de que encontraria alguma coisa boa na ordem de um milhão de dólares.

 

Um milhão aqui. Um milhão ali.

 

Pensou em Rebecca, embora tentasse não pensar. Nos últirnos quatro anos ela fora a única pessoa amiga com quem Clay tinha compartilhado tudo. Agora não tinha com quem conversar. Há cinco dias tinham terminado o relacionamento e tanta coisa acontecera que ele não teve muito tempo para pensar nela.

 

- Esqueça os Van Horns - ele disse em voz alta, soltando uma espessa nuvem de fumaça.

 

Faria uma grande doação para o Fundo Piedmont, destinado a preservar a beleza natural da Virgínia do Norte. Contrataria um paralegal para não fazer nada a não ser localizar as últimas cornpras de terras do grupo BVH e sempre que possível contrataria advogados para pequenos proprietários de terras que nem desconfiavam que seriam vizinhos do Grande Bennett, a Escavadeira. Sim, ia se divertir muito no front ecológico.

 

Esqueça essa gente.

 

Acendeu o segundo charuto e telefonou para Jonah, que estava na loja de computadores, fazendo horas extras.

 

- Tenho uma mesa no Citronelle, oito horas - Clay disse. Naquele momento era o restaurante francês favorito de todo mundo na capital.

 

- Certo - Jonah disse.

 

- Falo sério. Vamos comemorar. Estou mudando de emprego. Explico depois. Apenas esteja lá.

 

- Posso levar uma amiga?

 

- De jeito nenhum.

 

Jonah não ia a lugar algum sem a namorada-da-semana. Clay agora queria morar sozinho e não sentiria falta do heroísmo do quarto de dormir de Jonah. Telefonou para dois outros colegas da faculdade, mas os dois tinham filhos e obrigações e o convite foi muito em cima da hora.

 

Jantar com Jonah. Sempre uma aventura.

 

No BOLSO DA CAMISA ele tinha os novos cartões da firma, a tinta mal seca ainda, entregues naquela manhã por uma gráfica que funcionava durante vinte e quatro horas, declarando que ele era o paralegal-chefe dos escritórios de advocacia de J. Clay Cárter II, Rodney Albritton, como se a firma tivesse uma divisão inteira de paralegais sob seu controle. Não tinha, mas caminhava rapidamente para ter.

 

Se tivesse tido tempo de comprar um terno novo, provavelmente não o usaria na sua primeira missão. O velho uniforme funcionaria melhor - blazer azul-marinho, gravata frouxa, jeans desbotado, botas pretas do exército, muito gastas. Estava ainda trabalhando nas ruas e precisava mostrar isso. Encontrou Adelfa Pumphrey no seu posto, olhando sem ver para uma parede de monitores de circuito fechado.

 

Seu filho estava morto havia dez dias.

 

Ela olhou para Rodney e apontou para uma prancheta onde todos os convidados deviam assinar. Rodney tirou do bolso um dos cartões e se apresentou.

 

- Trabalho para um advogado no centro da cidade - ele disse.

 

- Isso é ótimo - ela disse mansamente, sem olhar para o cartão.

 

- Gostaria de falar com a senhora por alguns minutos.

 

- Sobre o quê?

 

- Sobre seu filho Ramón.

 

- O que sobre Ramón?

 

- Sei de algumas coisas sobre a morte dele que a senhora não sabe.

 

- No momento não é um dos meus assuntos favoritos.

 

- Eu compreendo e lamento estar falando a respeito. Mas a senhora vai gostar do que tenho para lhe dizer e não demorarei nada.

 

Ela olhou em volta. No fim do corredor outro guarda uniformizado estava quase dormindo na frente de uma porta.

 

- Posso ter um descanso em vinte minutos - ela disse. Encontre-me na cantina no andar de cima.

 

Afastando-se, Rodney pensou, sim, ele de fato valia cada centavo do seu novo salário. Um cara branco que se aproximasse de Adelfa Pumphrey com um assunto tão delicado estaria ainda parado na frente dela, nervoso, tremendo, procurando as palavras certas, porque ela nem ia se mexer. Ela não confiaria nele, não acreditaria em nada do que dissesse, pelo menos não nos primeiros quinze minutos de conversa.

 

Mas Rodney era suave, inteligente e negro, e ela queria falar com ele.

 

O DOSSIÊ DE MAX FACE sobre Ramón Pumphrey era breve, mas completo, não havia muita coisa para verificar. Seu suposto pai não era casado com sua mãe. O nome do homem era Leon Tease e no momento cumpria uma pena de trinta anos, na Pensilvânia, por assalto à mão armada. Evidentemente e|e e Adelfa viveram juntos apenas o tempo necessário para produzir dois filhos, Ramón e um irmão pouco mais novo chamado Michael. Mais tarde Adelfa teve outro filho de um homem com quem casou e depois se divorciou. Atualmente estava solteira e tentando criar, além dos dois filhos que restavam, duas jovens sobrinhas, filhas de uma irmã que estava na prisão por vender crack.

 

Adelfa ganhava 21 mil dólares por ano trabalhando para uma companhia particular contratada para guardar prédios de escritórios de baixo risco, na capital. Todos os dias ia do seu apartamento num conjunto em North East para o centro da cidade, sempre de metro. Não tinha carro e nunca aprendeu a dirigir. Tinha uma pequena conta no banco e dois cartões de crédito, que só criavam problemas e arruinavam sua avaliação para qualquer crediário. Não tinha ficha criminal. Além do trabalho e da família, seu único interesse parecia ser o velho Centro Evangélico Salem, não muito distante da sua casa.

 

COMO OS DOIS TINHAM CRESCIDO na cidade, fizeram o jogo do ”Quem-você-conhece?”, por alguns minutos. Onde você estudou? De onde eram seus pais? Encontraram algumas ténues conexões. Adelfa tomava uma coca diet. Rodney tomava café puro. A cantina estava quase cheia de burocratas conversando sobre tudo, menos sobre o trabalho monótono que deviam estar fazendo.

 

- Você queria falar sobre meu filho - ela disse, depois de alguns minutos de conversa embaraçosa. Sua voz era suave e baixa, tensa, ainda carregada de sofrimento.

 

Rodney, um pouco nervoso, inclinou-se para a frente.

 

- Sim e outra vez lamento ter de falar nele. Eu tenho filhos. Posso imaginar o que você está passando.

 

- Tem razão.

 

- Trabalho para um advogado daqui da cidade, um cara jovem, muito inteligente, e ele descobriu um meio de dar a você muito dinheiro.

 

A ideia de muito dinheiro não pareceu impressionar Adelfa. Rodney continuou:

 

- O garoto que matou Ramón acabava de sair de um tratamento contra o vício de drogas, fechado numa instituição por quatro meses. Era viciado, um garoto da rua, com poucas chances na vida. Tomou alguns medicamentos como parte do tratamento. Achamos que um desses remédios o deixou suficientemente enlouquecido para escolher uma vítima ao acaso e começar a atirar.

 

- Não foi um negócio de drogas que não deu certo?

 

- Não, nada disso.

 

Adelfa olhou para longe, depois as lágrimas apareceram e por um momento Rodney viu uma possibilidade de interesse. Mas então Adelfa olhou para ele e disse:

 

- Muito dinheiro. Quanto?

 

- Mais de um milhão de dólares - ele disse com a maior carade-pau, ensaiada muitas vezes, porque Rodney duvidava seriamente se seria capaz de dizer isso sem parecer maravilhado.

 

Nenhuma reação visível, pelo menos não no começo. Outro olhar vago em volta.

 

- Está me gozando? - ela disse.

 

- Por que eu faria isso? Eu não a conheço. Por que ia entrar aqui e fazer piada? Há dinheiro em jogo, muito dinheiro. Muito dinheiro de uma grande companhia, que alguém quer que você aceite e fique calada.

 

- Qual grande companhia?

 

- Olhe, eu disse tudo que sei. Meu trabalho é falar com você, dizer o que está acontecendo e convidá-la a falar com o dr. Cárter, o advogado para quem trabalho. Ele explicará tudo.

 

- Cara branco?

 

- Isso aí. Um cara legal. Trabalho há cinco anos para ele. Você vai gostar dele e vai gostar do que ele tem a dizer.

 

Os olhos estavam secos. Ela deu de ombros e disse:

 

- Tudo bem.

 

- A que horas você sai? - ele perguntou.

 

- Quatro e meia.

 

- Nosso escritório fica na Connecticut, a quinze minutos daqui. O dr. Cárter estará à sua espera. Você tem meu cartão.

 

Ela olhou outra vez para o cartão.

 

- E uma coisa muito importante - Rodney disse, qjaase num murmúrio. - Isso funciona só se você ficar de boca fechada. É um segredo. Você segue o conselho do dr. Cárter e vai receber mais dinheiro do que jamais imaginou. Mas se alguém souber, então não recebe nada.

 

Adelfa balançava a cabeça afirmativamente.

 

- E tem de começar a pensar em mudar de casa.

 

- Mudar?

 

- Para outra casa, em outra cidade, onde ninguém a conheça e ninguém saiba que recebeu muito dinheiro. Uma casa bonita, numa rua segura onde as crianças podem andar de bicicleta nas calçadas, sem traficantes, sem gangues, sem detectores de metal na escola. Nenhum parente querendo seu dinheiro. Ouça o conselho de quem cresceu como você. Mude de casa. Deixe este lugar. Você leva esse dinheiro para Lincoln Towers e eles comem você viva.

 

A INVESTIDA DE CLAY no GDP até o momento tinha conseguido a senhorita Glick, secretária eficiente, que hesitou muito pouco ante a perspectiva de dobrar o salário, e sua velha amiga Paulette Tullos que, embora mantida pelo marido grego ausente, entusiasmou-se com a chance de ganhar 200 mil dólares por ano, em vez de meros 40 mil e é claro, Rodney. O ataque tinha provocado dois telefonemas urgentes de Glenda, ainda não respondidos e uma série de e-mails também ignorados, pelo menos até o momento. Clay prometeu a si mesmo encontrar-se com Glenda num futuro muito próximo e inventar uma desculpa qualquer por ter roubado seus melhores funcionários.

 

Para compensar os melhores, ele contratou seu companheiro de apartamento, Jonah, que, embora nunca tivesse praticado direito - passara no exame final na quinta tentativa -, era um amigo e confidente, e Clay esperava que ele viesse a desenvolver alguma habilidade para a profissão. Jonah era indiscreto e bebia muito, por isso Clay foi bastante lacónico sobre os detalhes da nova firma. Pretendia ir contando aos poucos para Jonah, mas começou bem devagar. Farejando dinheiro de algum lugar, Jonah negociou um salário inicial de 90 mil dólares por ano, menos do que o do paralegal-chefe, embora ninguém na firma soubesse quanto os outros ganhavam. O novo contador da firma, no terceiro andar, se encarregava dos livros e da folha de pagamento.

 

Clay deu a Paulette e a Jonah a mesma explicação cautelosa que dera para Rodney. O seguinte: tinha descoberto por acaso uma conspiração que envolvia um medicamento imperfeito - o nome do medicamento e o nome da companhia nunca seriam revelados a eles ou a qualquer outra pessoa. Ele fez contato com a companhia. Um rápido acordo foi feito. Muito dinheiro ia mudar de mãos. O segredo era crucial. Apenas façam seu trabalho e não façam muitas perguntas. Vamos formar uma boa pequena firma de advocacia, com a qual ganharemos muito dinheiro e nos divertiremos também.

 

Quem podia dizer não a uma oferta dessas?

 

A srta. Glick recebeu Adelfa Pumphrey como se ela fosse a primeira cliente a entrar na nova firma, o que de fato era. Tudo cheirava a novo - a pintura, o carpete, o papel de parede, os móVeis italianos de couro na sala de espera. A srta. Glick serviu água num copo de cristal nunca usado antes, depois voltou ao trabalho de arrumar a nova mesa de vidro e metal. Então foi a vez de Paulette. Levou Adelfa para seu escritório para a preparação preliminar, que foi mais do que uma conversa fútil de mulheres. Paulette tomou uma porção de notas sobre família e histórico, a mesma informação preparada por Max Pace. Ela disse as palavras certas para a mãe enlutada.

 

Até então todos eram negros, o que deu confiança a Adelfa.

 

- Você talvez já tenha visto o dr. Cárter - Paulette disse, seguindo o script que ela e Clay tinham preparado. - Ele estava no tribunal quando você esteve lá. Foi designado pelo juiz para representar Tequila Watson, mas abandonou o caso. Foi assim que se envolveu neste acordo.

 

Adelfa parecia confusa como eles esperavam que ficasse. Paulette continuou:

 

- Ele e eu trabalhamos juntos há cinco anos no gabinete”do defensor público. Saímos há poucos dias e abrimos esta fi ma. Vai gostar dele. E um homem muito bom e um ótimo advogado. Honesto e leal aos seus clientes.

 

- Vocês acabam de abrir a firma?

 

- Sim. Há muito tempo Clay queria ter a própria firma. Ele me pediu para acompanhá-lo. Está em ótimas mãos, Adelfa.

 

A confusão tornou-se espanto.

 

- Alguma pergunta? - Paulette disse.

 

- Tenho tantas que não sei por onde começar.

 

- Compreendo. Ouça meu conselho. Não faça muitas perguntas. Há uma companhia disposta a pagar muito dinheiro para evitar que você entre com um processo criminal pela morte do seu filho. Se você hesitar e fizer perguntas, pode facilmente acabar sem nada. Apenas pegue o dinheiro, Adelfa. Pegue e vá embora.

 

Quando finalmente chegou a hora de falar com o dr. Cárter, Paulette levou-a pelo corredor a um grande escritório de canto. Clay estivera andando nervosamente de um lado para o outro, mas cumprimentou-a com calma e disse que ela era bem-vinda à sua firma. Sua gravata estava frouxa, as mangas arregaçadas, a mesa coberta de pastas e papéis, como se ele estivesse litigando em várias frentes. Paulette ficou no escritório até o gelo ser completamente quebrado e então, de acordo com o plano, retirou-se.

 

- Eu o estou reconhecendo - Adelfa disse.

 

- Sim, eu estava no tribunal no dia da leitura formal da acusação. O juiz me designou para outro caso, mas eu me livrei dele. Agora estou trabalhando no outro lado da rua.

 

- Estou ouvindo.

 

- Provavelmente você está confusa com tudo isto.

 

- Sim, estou.

 

- Na verdade é muito simples. - Clay sentou na ponta da mesa e olhou para o rosto perplexo de Adelfa. Cruzou os braços e tentou parecer que tinha feito isso antes, muitas vezes. Começou então a narrativa da sua versão da companhia com a grande droga perniciosa e embora fosse um pouco mais explícito do que Rodney e mais animado, contou a mesma história sem revelar muita coisa nova. Adelfa, mergulhada na poltrona de couro, com as mãos cruzadas no colo da calça do uniforme, olhava atentamente para ele, sem piscar, sem saber no que acreditar.

 

Quando terminou a história, ele disse:

 

- Eles querem pagar a você muito dinheiro imediatamente.

 

- Quem exatamente são eles?

 

- A empresa fabricante do medicamento.

 

- Não tem um nome?

 

- Tem vários e vários endereços, e você jamais saberá sua verdadeira identidade. Nós, você e eu, advogado e cliente, devemos concordar em manter tudo em segredo.

 

Finalmente ela piscou os olhos, recruzou as mãos e se ajeitou na poltrona. Olhou para o novo e belo tapete persa que cobria a metade do assoalho. .

 

- Quanto dinheiro? - ela perguntou mansamente.

 

- Cinco milhões de dólares.

 

- Deus do céu - ela conseguiu dizer antes de desmoronar. Cobriu os olhos com a mão e soluçou por um longo tempo, sem fazer nenhum esforço para parar. Clay tirou um lenço de papel da caixa e estendeu para ela.

 

O DINHEIRO DO ACORDO estava no banco Chase, esperando para ser distribuído. A pilha de documentos de Max estava sobre a mesa. Clay mostrou os papéis, explicando que o dinheiro seria transferido na manhã seguinte, assim que o banco abrisse. Folheou rapidamente os papéis, explicando os pontos legais importantes, fazendo Adelfa assinar onde era necessário. Ela estava atordoada demais para falar muito.

 

- Confie em mim - ele disse mais de uma vez -, se quer o dinheiro, assine aqui.

 

- Eu me sinto como se estivesse fazendo alguma coisa errada - ela disse, em certo momento.

 

- Não. O erro foi cometido por outra pessoa. Você é a vítima, Adelfa, a vítima e agora a cliente.

 

- Preciso falar com alguém - ela disse, pondo mais uma assinatura.

 

Mas não havia ninguém com quem falar. Um namorado aparecia e desaparecia, segundo as informações de Max e não era do tipo a quem se pede conselhos. Adelfa tinha irmãos e ipríãs espalhados da capital até a Filadélfia, mas certamente não eram mais sofisticados do que ela. Seus pais estavam mortos.

 

- Isso seria um erro - Clay disse, delicadamente -, este dinheiro vai melhorar sua vida se você ficar calada. Se falar ele a destruirá.

 

- Não sou muito boa para lidar com dinheiro.

 

- Podemos ajudar. Se quiser, Paulette pode monitorar as coisas para você e dar conselhos.

 

- Eu gostaria disso.

 

- Para isso estamos aqui.

 

Paulette levou-a de carro para casa, uma viagem lenta na hora do rush. Mais tarde ela disse para Clay que Adelfa quase não falou e quando chegaram à sua casa ela não queria sair do carro. Então as duas ficaram trinta minutos ali sentadas, falando sobre sua nova vida. Não mais depender da assistência social, não mais tiros na noite. Não mais orações pedindo a Deus proteção para seus filhos. Nunca mais se preocuparia em manter os filhos em segurança, como se preocupara com Ramón.

 

Não mais gangues. Não mais péssimas escolas.

 

Ela estava chorando quando finalmente se despediu.

 

O PORSCHE CARRERA PRETO parou debaixo de uma árvore na rua Dumbarton. Clay desceu e por alguns segundos conseguiu ignorar seu mais recente brinquedo, mas depois de um rápido olhar para os lados, voltou-se e admirou outra vez. Seu há três dias e ele ainda não podia acreditar. Acostume-se com ele, pensava constantemente e podia agir como se estivesse acostumado, como se fosse apenas outro carro, nada especial, mas quando o tornava a ver, depois de uma ausência por mais curta que fosse, seu pulso ainda acelerava. ”Estou dirigindo um Porsche”, ele dizia em voz alta, passando pelo tráfego como um piloto de Fórmula Um.

 

Estava a oito quadras do campus principal da Universidade Georgetown onde passara quatro anos estudando antes de ir para a faculdade de direito perto do Capitol Hill. As casas eram históricas e pitorescas, os pequenos gramados imaculadamente tratados, as ruas cobertas por carvalhos antigos. As lojas e os bares movimentados na rua M, ficavam apenas a duas quadras ao sul, uma pequena distância para percorrer a pé. Clay tinha caminhado por aquelas ruas durante quatro anos e passara muitas longas noites com os amigos indo de bar em bar, na avenida Wisconsin e na rua M.

 

Agora ia morar ali.

 

A casa que chamou sua atenção estava à venda por l ,3 milhão de dólares. Ele a encontrou quando passeava de carro por Georgetown, há dois dias. Havia outra na rua N e outra na rua Volta, uma muito perto da outra. Clay estava resolvido a comprar uma delas antes do fim da semana.

 

A casa na rua Dumbarton, sua primeira escolha, fora construída na década de 1850 e cuidadosamente conservada desde então. A fachada de tijolos tinha sido pintada muitas vezes e era agora de um azul desbotado. Quatro andares, incluindo um subsolo. O corretor de imóveis disse que tinha sido imaculadamente conservada por um casal de aposentados que costumava receber os Kennedys e os Kissingers e pode preencher os espaços em branco com qualquer outro nome importante que puder lembrar. Os corretores de Washington citavam nomes mais depressa do que os de Beverly Hills, especialmente quando vendiam propriedades em Georgetown.

 

Clay chegou quinze minutos adiantado. A casa estava vazia, os donos agora viviam no sistema da previdência, segundo o corretor. Ele passou pelo portão ao lado da casa e admirou o pequeno jardim nos fundos. Não tinha piscina nem espaço para construir uma. Terreno era algo precioso em Georgetown. Havia um pátio com móveis de ferro batido e o mato crescia nos canteiros de flores. Clay arranjaria algumas horas livres para cuidar do jardim, mas não muitas.

 

Talvez apenas contratasse uma companhia de manutenção de jardins.

 

Ele adorou a casa e as outras vizinhas. Adorou a rua, o aconchego da vizinhança, todos morando perto, respeitando a privacidade uns dos outros. Sentado nos degraus da frente, ele resolveu oferecer um milhão, depois negociar vigorosamente, blefar e divertir-se vendo o corretor correr de um lado para o outro, mas no fim Clay estaria perfeitamente disposto a pagar o preço pedido.

 

Olhando para o Porsche, começou outra vez a divagar, fantasiando um mundo onde o dinheiro dava nas árvores e ele podia fazer tudo que quisesse. Ternos italianos, carros esporte alemães, casa em Georgetown, espaço para escritório no centro e o que mais? Tinha pensado num barco para o pai, muito maior, é claro, que desse mais lucro. Podia criar um pequeno negócio de barcos de aluguel nas Bahamas, baratear o barco, eliminar a maior parte dos custos, permitindo assim que seu pai ganhasse a vida decentemente. Jarrett estava morrendo nas Bahamas, bebendo demais, dormindo com o que encontrava, morando num barco emprestado, procurando gorjeta. Clay estava decidido a facilitar a vida dele.

 

Uma porta bateu e interrompeu seus sonhos de gastar dinheiro, por um momento. O corretor tinha chegado.

 

A LISTA DE PACE que relacionava as vítimas acabava no número sete. Sete que ele sabia. Sete que ele e seus assistentes tinham conseguido monitorar. O Tarvan tinha sido recolhido há dezoito dias e pela experiência da companhia sabiam que fosse qual fosse o motivo pelo qual o medicamento levava as pessoas a matar, cessava depois de dez dias. Cronologicamente Ramón Pumphrey era o número seis.

 

O número um era um estudante da George Washington que saíra da lanchonete na avenida Wisconsin, em Bethesda, no momento exato para ser visto por um homem com uma arma. O estudante era de Bluefield, Virgínia Ocidental. Clay fez a viagem de cinco horas em tempo recorde, sem se apressar, mas como um piloto de carro de corrida no vale Shenandoah. Seguindo as instruções precisas de Pace, encontrou a casa dos pais, um pequeno e tristonho bangalô perto do centro da cidade. Sentado no carro, na entrada da casa, ele disse em voz alta:

 

- Não posso acreditar que estou fazendo isso.

 

Duas coisas o motivaram a sair do carro. Primeiro, não tinha escolha. Segundo, a perspectiva dos 15 milhões completos, não apenas um terço ou dois terços. Tudo.

 

Estava vestido casualmente e deixou a pasta de couro no carro. A mãe estava em casa, mas o pai ainda estava no trabalho. Ela o fez entrar relutantemente, mas depois ofereceu biscoitos. Clay esperou num sofá, na sala com retratos do filho morto por toda parte. As cortinas estavam fechadas. A casa estava em desordem.

 

”O que estou fazendo aqui?”

 

Ela falou sobre o filho por um longo tempo e Clay ouviu atento cada palavra.

 

O pai vendia apólices de seguro perto dali e chegou antes do gelo derreter no copo de chá. Clay apresentou seu caso para eles, tanto quanto possível. A princípio eles tentaram algumas perguntas: Quantos mais morreram por causa disso? Por que não podemos procurar as autoridades? Isso não devia ser levado a público? Clay se esquivou como um veterano. Pace o tinha preparado bem.

 

Como todas as vítimas, eles tinham uma escolha. Podiam ficar zangados, fazer perguntas, pedidos, exigir justiça, ou podiam aceitar o dinheiro discretamente. A quantia de cinco milhões de dólares a princípio não foi registrada, ou eles disfarçaram muito bem. Queriam estar zangados e desinteressados do dinheiro, pelo menos inicialmente. Mas com o passar das horas começaram a ver a luz.

 

- Se não pode me dizer o nome verdadeiro da companhia, não posso aceitar o dinheiro - o pai disse, em certo momento.

 

- Eu não sei o nome verdadeiro - Clay disse.

 

Houve lágrimas e ameaças, amor e ódio, perdão e retribuição, quase todas as emoções chegaram e se foram durante a tarde e o começo da noite. Acabaram de enterrar seu filho mais novo e a dor era atordoante e imensurável. Não gostavam de Clay por ele estar ali, mas agradeceram profusamente sua preocupação. Não confiavam nele como um grande advogado da cidade que obviamente mentia sobre o acordo absurdo, mas o convidaram para jantar fosse o que fosse que podiam ter para oferecer.

 

O jantar logo chegou. Quatro senhoras da igreja apareceram com comida suficiente para uma semana. Clay foi apresentado como um amigo de Washington e imediatamente submetido a todo o tipo de interrogatório pelas quatro senhoras. Um advogado criminal não seria mais curioso.

 

Finalmente as senhoras se foram. Depois do jantar, à medida que a noite se adiantava, Clay começou a pressionar o casal. Estava oferecendo o único acordo que eles jamais teriam. Um pouco depois das 22 horas, eles começaram a assinar os papéis.

 

O NÚMERO TRÊS foi evidentemente o mais difícil. Era uma prostituta de dezessete anos que durante quase toda a vida tinha trabalhado nas ruas. A polícia achava que ela e seu assassino tinham tido um relacionamento no passado, mas nada que indicasse a causa do crime. Ele atirou nela no lado de fora de um l banheiro feminino, na frente de três testemunhas.

 

O nome dela era Bandy, sem nenhum sobrenome. A pesquisa de Pace não revelou marido, mãe, pai, irmãos, filhos, endereço, igreja, escolas nem, o que era mais incrível, passagem pela polícia.

 

Não houve funeral. Como dezenas de outros a cada ano, na capital, Bandy foi enterrada como indigente. Quando um dos agentes de Pace perguntou no Instituto Médico Legal, a resposta foi: ”Ela está enterrada no jazigo da prostituta desconhecida.”

 

O assassino era a única pista. Disse para a polícia que Bandy tinha uma tia em Little Beirut, o gueto mais perigoso do sudoeste da capital. Mas depois de duas semanas de procura incansável a tia não fora encontrada.

 

Sem herdeiros conhecidos, era impossível um acordo.

 

Os ÚLTIMOS CLIENTES DO TARVAN a assinar os documentos foram os pais de uma aluna da Universidade Howard, que tinha fechado a matrícula numa semana e na semana seguinte foi assassinada. Moravam em Warrenton, Virgínia, sessenta e cinco quilómetros a oeste da capital. Por uma hora ficaram no escritório de Clay de mãos dadas, como se nenhum deles pudesse funcionar sozinho. Choravam às vezes, externando a dor indizível. Outras vezes eram estóicos, tão rígidos e fortes e aparentemente não impressionados com o dinheiro, que Clay chegava a duvidar que fossem aceitar o acordo.

 

Mas aceitaram, embora de todos os clientes dos quais se aproximara, ele estava certo que seriam os menos afetados pela nova riqueza. Depois de algum tempo, agradeceriam. Por agora, só queriam a filha de volta.

 

Paulette e a senhorita Glick os acompanharam para fora do escritório, até os elevadores, onde todos se abraçaram outra vez. Quando as portas se fecharam, os pais procuravam conter as lágrimas.

 

A pequena equipe de Clay se reuniu na sala de reuniões onde deixaram passar o momento, agradecendo o fato de que não seriam mais visitados por viúvas e pais enlutados, pelo menos não num futuro próximo. Champanhe cara tinha sido gelada para a ocasião e Clay começou a servir. A srta. Glick declinou porque era a única da firma que não bebia álcool. Paulette e Jonah pareciam especialmente sedentos. Rodney preferia cerveja Budweiser, mas tomou champanhe com os outros.

 

Quando estavam na segunda garrafa, Clay levantou-se para falar.

 

- Tenho algumas informações - ele disse, batendo com a mão no copo. - Primeiro, os casos de Tylenol estão completos. Meus parabéns e muito obrigado a todos. - Usara Tylenol como um código para Tarvan, um nome que eles jamais ouviriam. Também jamais saberiam a quantia paga pelos acordos. Nem os seus honorários. Obviamente Clay estava recebendo uma fortuna, mas eles não sabiam quanto.

 

Eles aplaudiram a si mesmos.

 

- Segundo, começamos a comemorar esta noite com um jantar no Citronelle. Oito horas em ponto. Pode ser uma longa noite, porque amanhã ninguém trabalha. O escritório estará fechado.

 

Mais aplausos, mais champanhe.

 

- Terceiro, dentro de duas semanas partimos para Paris. Nós todos e cada um pode levar um amigo, de preferência cônjuge, quem for casado. Todas as despesas pagas. Passagens de primeira classe, hotel luxuoso, tudo do melhor. Passaremos uma semana. Sem exceções. Eu sou o patrão e ordeno que todos vão a Paris.

 

A srta. Glick cobriu a boca com as duas mãos. Estavam todos atónitos. Paulette foi a primeira a falar.

 

- Não é Paris, Tennessee?

 

- Não, querida. Paris de verdade.

 

- E se eu por acaso encontrar meu marido por lá? - ela perguntou com um meio sorriso e todos riram às gargalhadas.

 

- Você pode ir ao Tennessee se quiser - Clay disse.

 

- De jeito nenhum, benzinho.

 

Quando finalmente conseguiu falar, a srta. Glick disse:

 

- Preciso de um passaporte.

 

- Os formulários estão na minha mesa. Eu trato disso. Levará menos de uma semana. Mais alguma coisa?

 

Falaram sobre o tempo, comida e o que deviam vestir. Paulette era a única que já tinha estado em Paris na sua lua-demel, um breve encontro de amor que acabou mal quando o grego r°i chamado para um negócio urgente. Ela voltou sozinha para casa, na segunda classe, embora tivesse ido de primeira.

 

- Meu bem, eles servem champanhe na primeira classe - ela Aplicou. - E as poltronas são verdadeiros sofás.

 

- Posso levar qualquer pessoa? - Jonah perguntou ainda indeciso.

 

- Vamos limitar a escolha a alguém que não seja casado, está bem? - Clay disse.

 

- Isso limita muito o campo.

 

- Quem você vai levar? - Paulette perguntou.

 

- Talvez ninguém - Clay disse, e todos ficaram quietos por um momento. Tinham comentado sobre Rebecca e a separação, Jonah fornecendo a maior parte da história. Queriam seu patrão feliz, mas não tinham bastante intimidade para intervir.

 

- Que torre é aquela em Paris? - Rodney perguntou.

 

- A Torre Eiffel - Paulette disse. - A gente pode subir até lá em cima.

 

- Não, não me parece segura.

 

- Estou vendo que você vai ser mesmo um grande viajante.

 

- Quanto tempo vamos ficar lá? - perguntou a srta. Glick.

 

- Sete noites - Clay disse -, sete noites em Paris. - E todos começaram a devanear, levados pelo champanhe. Há um mês estavam trancados na mesmice do GDP. Todos, menos Jonah, que vendia computadores em meio expediente.

 

MAX PACE QUERIA CONVERSAR e como a firma estava fechada, Clay sugeriu que se encontrassem lá, ao meio-dia, depois que as teias de aranha da noite anterior tivessem desaparecido.

 

Só ficou uma dor de cabeça.

 

- Você está horrível - Pace começou, agradavelmente.

 

- Nós comemoramos.

 

- O que precisamos conversar é muito importante. Está disposto?

 

- Posso acompanhar você. Vá falando.

 

Pace começou a andar pela sala com um copo de café na mão.

 

- A confusão do Tarvan terminou - ele disse, como quem põe um ponto final. Só acabava quando ele dizia que tinha acabado, não antes. - Nós ajeitamos os seis casos. Se aparecer alguém dizendo que é parente da nossa jovem Bandy, então esperamos que você trate do assunto. Mas estou convencido de que ela não tinha família.

 

- Eu também.

 

- Fez um bom trabalho, Clay.

 

- Estou sendo muito bem pago.

 

- Ia transferir a última parcela hoje. Os quinze milhões estarão na sua conta. O que resta deles.

 

- O que espera que eu faça? Que continue com um carro velho, dormindo num apartamento decrépito, usando roupas baratas? Você mesmo disse que eu teria de gastar algum dinheiro para causar a impressão certa.

 

- Estou brincando. E você está fazendo um ótimo trabalho parecendo rico.

 

- Obrigado.

 

- Está se adaptando da pobreza à riqueza com notável facilidade.

 

- É um talento.

 

-Apenas tenha cuidado. Não chame muita atenção.

 

- Vamos falar do próximo caso.

 

Pace sentou-se e empurrou uma pasta sobre a mesa.

 

- O medicamento é Dyloft, manufaturado pelos Laboratórios Ackerman. E um poderoso antiinflamatório usado por portadores de artrite aguda. O Dyloft é novo e os médicos estão apaixonados por ele. Faz maravilhas, os pacientes o adoram. Porém tem dois problemas: primeiro, é feito por um concorrente do meu cliente, e segundo, está sendo ligado à formação de pequenos tumores na bexiga. Meu cliente, o mesmo cliente do Tarvan, fabrica um medicamento similar, muito popular até doze meses atrás, quando o Dyloft foi lançado no mercado. O mercado total é de mais ou menos três bilhões por ano. O Dyloft já está em’segundo lugar e provavelmente atingirá um bilhão este ano. É difícil dizer, porque está crescendo muito depressa. O medicamento do meu cliente está fazendo um bilhão e meio e perdendo terreno rapidamente. Dyloft é o remédio da moda, logo desbancará toda a concorrência. É bom de verdade. Alguns meses atrás meu cliente comprou uma pequena companhia de produtos farmacêuticos na Bélgica. Essa companhia tinha antes uma divisão que mais tarde foi absorvida pelos Laboratórios Ackerman. Alguns pesquisadores foram mandados embora e tratados injustamente. Alguns estudos de laboratório desapareceram e os documentos provaram que os Laboratórios

 

Ackerman sabiam do problema em potencial há pelo menos seis meses. Está me acompanhando?

 

- Sim. Quantas pessoas tomaram o Dyloft?

 

- Realmente é difícil dizer, porque o número está crescendo muito depressa. Provavelmente um milhão.

 

- Qual a porcentagem dos que adquiriram o tumor?

 

- A pesquisa indica cerca de cinco por cento, o suficiente para acabar com o remédio.

 

- Como se sabe se o paciente tem o tumor?

 

- Exame de urina.

 

- Você quer que eu mova um processo contra os Laboratórios Ackerman?

 

- Espere um pouco. A verdade sobre o Dyloft logo será revelada. Até hoje não houve nenhum processo criminal, nenhuma reclamação, nenhum estudo sobre os danos causados pelo medicamento nas revistas especializadas. Nossos espiões nos dizem que Ackerman está muito ocupado contando o dinheiro e guardando para pagar os advogados quando as pedras começarem a ser lançadas. Ackerman pode também estar tentando consertar o defeito do medicamento, mas isso leva tempo e precisa da aprovação da Associação de Alimentos e Medicamentos. Estão realmente numa enrascada porque precisam de dinheiro. Fizeram grandes empréstimos para adquirir outras companhias, a maior parte dos quais não foi pago ainda. Suas ações estão sendo vendidas a mais ou menos quarenta e dois dólares. Há um ano o preço era oitenta.

 

- O que acontecerá com a companhia com a revelação dos danos causados pelo Dyloft?

 

- Uma grande baixa no preço das ações, exatamente o que meu cliente quer. Se o processo for bem conduzido e suponho que você e eu podemos fazer a coisa certa, a notícia assassinará os Laboratórios Ackerman. Uma vez que tenhamos a prova incontestável de que o Dyloft causa danos, a companhia não terá escolha senão fazer um acordo. Não podem arriscar um julgamento, não com um produto tão perigoso.

 

- Qual é o lado negativo da situação?

 

- Noventa e cinco por cento dos tumores são benignos e muito pequenos. Não causam dano real à bexiga.

 

- Então o litígio é usado para abalar o mercado?

 

- Sim e é claro para recompensar as vítimas. Eu não quero tumores na minha bexiga, benignos ou malignos. A maioria dos jurados pensará assim. Aqui está o cenário: você reúne um grupo de cinquenta queixosos, mais ou menos, e dá entrada num grande processo legal a favor dos pacientes do Dyloft. Exatamente ao mesmo tempo, você lança uma série de anúncios na televisão, solicitando mais casos. Você ataca rápida e violentamente, e consegue milhares de casos. Os anúncios vão de costa a costa, breves, mas que deixarão as pessoas morrendo de medo e elas telefonam para seu número de ligação gratuita daqui mesmo da capital, onde você tem um armazém cheio de paralegais atendendo os telefonemas e fazendo o trabalho chato. Vai custar algum dinheiro, mas se você conseguir, digamos, cinco mil casos e fizer um acordo de vinte mil dólares para cada um, isso representa cem milhões de dólares. Sua parte é um terço.

 

- Isso é um escândalo!

 

- Não, Clay, é litígio de fraude em massa na melhor forma. E assim que o sistema funciona nos nossos dias. E se você não fizer, garanto que alguém vai fazer. Muito em breve. É tanto dinheiro em jogo que os advogados especialistas em ações indenizatórias coletivas esperam como aves de rapina por qualquer sugestão de um medicamento prejudicial. E acredite, existem montes desses medicamentos.

 

- Por que eu sou o felizardo?

 

- Uma questão de momento meu amigo. Se meu cliente souber exatamente quando você dará entrada no processo, então ele pode reagir ao mercado.

 

- Onde encontro cinquenta clientes? - Clay perguntou. Max apanhou outra pasta.

 

- Sabemos de pelo menos mil. Nomes, endereços, está tudo aqui.

 

- Você falou num armazém cheio de paralegais?

 

- Uma meia dúzia. Precisa disso para atender o telefone e manter os arquivos organizados. Você pode acabar com cinco mil clientes individuais.

 

- Anúncios na televisão?

 

- Isso mesmo. Tenho o nome de uma agência que pode fazer um anúncio em menos de três dias. Nada sofisticado, uma voz de fundo, imagens de comprimidos caindo numa mesa, o mal em potencial do Dyloft, quinze segundos de terror destinados a fazer com que as pessoas telefonem para os escritórios de advocacia de Clay Cárter II. Esses anúncios funcionam, acredite. Veicule-os em todos os principais mercados durante uma semana e terá mais clientes do que pode contar.

 

- Quanto vai custar?

 

- Uns dois milhões, mas você pode.

 

Foi a vez de Clay começar a andar de um lado para o outro, fazendo o sangue circular. Tinha visto anúncios de comprimidos para dieta que não deram certo, anúncios nos quais advogados invisíveis tentavam assustar as pessoas convencendo-as a fazer a ligação gratuita para um determinado número. Certamente ele não ia cair tão baixo.

 

Mas trinta e três milhões de dólares de honorários! Ele ainda estava atordoado com a primeira fortuna.

 

- Qual é o esquema?

 

Pace tinha uma lista das primeiras coisas que deviam ser feitas.

 

- Você terá de registrar os clientes, o que levará no máximo duas semanas. Três dias para terminar o anúncio. Alguns dias para comprar tempo na televisão. Precisa contratar paralegais e ter um espaço alugado fora do centro. Aqui é muito caro. A ação judicial deve ser preparada. Você tem uma boa equipe. Deve conseguir fazer tudo em menos de trinta dias.

 

- you levar meu pessoal para passar uma semana em Paris, mas faremos.

 

- Meu cliente quer a ação judicial dando entrada em menos de um mês. No dia dois de julho, para ser exato.

 

Clay voltou para a mesa e olhou demoradamente para Pace.

 

- Eu nunca preparei um processo como esse - ele disse. Pace tirou uma coisa da sua pasta.

 

- Vai estar ocupado neste fim de semana? - ele perguntou, olhando para um folheto.

 

- Na verdade não.

 

- Esteve em Nova Orleans ultimamente?

 

- Há mais ou menos dez anos.

 

- Já ouviu falar do Círculo de Causídicos?

 

- Talvez.

 

- É um velho grupo com uma nova vida, um bando de advogados que se especializa em ações indenizatórias em massa. Reúnem-se duas vezes por ano e conversam sobre as últimas tendências do processo judicial. Será um fim de semana muito produtivo. Empurrou a brochura para Clay em cima da mesa. Na capa havia uma foto colorida do Royal Sonesta Hotel, no French Quarter.

 

NOVA ORLEANS ESTAVA QUENTE e úmida como sempre, especialmente no Quarter.

 

Estava sozinho e satisfeito com isso. Mesmo que ainda estivesse com Rebecca, ela não teria feito aquela viagem. Estaria muito ocupada no trabalho, e com as compras que faria no sábado com a mãe. A rotina de sempre. Clay tinha pensado em convidar Jonah, mas o relacionamento dos dois estava tenso no momento. Clay acabava de se mudar do apartamento apertado para o conforto de Georgetown sem se oferecer para levar Jonah, uma afronta, mas que Clay tinha antecipado e estava preparado para enfrentar. A última coisa que ele queria na sua nova casa era um companheiro que entrava e saía a qualquer hora com a primeira mulher que encontrava.

 

O dinheiro começava a isolá-lo. Velhos amigos para quem antes telefonava estavam sendo ignorados porque ele não queria perguntas demais. Velhos lugares não eram mais frequentados porque agora podia ir a lugares melhores. Em menos de um mês tinha mudado de emprego, casa, carro, banco, guarda-roupa, restaurante, academia de ginástica e estava definitivamente no processo de mudar de namorada, embora sem nenhuma substituta em vista. Há vinte e oito dias não falava com Rebecca. Estava certo de que telefonaria no trigésimo dia, como combinado, mas tanta coisa tinha mudado desde então.

 

Quando Clay entrou no saguão do Royal Sonesta sua camisa estava molhada e grudada nas costas. O depósito para o registro era de cinco mil dólares, uma quantia absurda para confraternizar por poucos dias com um bando de advogados. O depósito dizia que ao mundo do direito nem todos eram convidados, só os ricos que levavam a sério o julgamento em massa de fraudes. Seu quarto custava outros 450 dólares por noite e ele pagou com um cartão de crédito platina, ainda não usado.

 

Vários seminários estavam em andamento. Ele entrou em um onde a discussão era sobre delitos civis relacionados a drogas, conduzido por dois advogados que haviam processado uma companhia de produtos químicos por poluir a água potável que podia ou não ter causado câncer, mas a companhia pagou meio bilhão e os dois advogados ficaram ricos. Em outra sala, um advogado que Clay tinha visto na televisão falava entusiasmado sobre como tratar a mídia, mas tinha poucos ouvintes. Na verdade, havia poucos ouvintes na maior parte dos seminários. Mas era a tarde de sextafeira e os pesos pesados chegariam no sábado.

 

Finalmente Clay encontrou muita gente na pequena sala de exibição onde uma companhia aérea mostrava um vídeo do seu futuro jato luxuoso, o mais sofisticado da sua geração. O vídeo era exibido numa tela grande num canto da sala, e advogados se comprimiam, em silêncio, todos encantados com aquele último milagre da aviação. Autonomia de seis mil e quinhentos quilómetros - ”Costa a costa, ou de Nova York a Paris, sem escalas, é claro.” Queimava menos combustível do que os outros quatro jatos dos quais Clay nunca tinha ouvido falar, e era muito veloz. O interior era espaçoso com poltronas e sofás por toda parte e até uma comissária graciosa de minissaia, segurando uma garrafa de champanhe e uma vasilha com cerejas. O couro era bege-claro. Para o prazer ou para o trabalho, porque o Galaxy 9000 tinha um sistema especial de telefones e um receptor de satélite que permitia ao advogado ligar para qualquer lugar do mundo, e fax e copiadoras e, é claro, acesso instantâneo à Internet. O vídeo mostrava um grupo de advogados muito sérios sentados em volta de uma pequena mesa, com as mangas arregaçadas como se estivessem trabalhando num acordo, enquanto a loura atraente de minissaia, com o champanhe, era ignorada.

 

Clay entrou no meio dos espectadores, sentindo-se um intruso Sensatamente o vídeo não dava o preço do Galaxy 9000. Havia negócios melhores que envolviam time-shares, tmde-ins, e leasebacks que podiam ser explicados pelos representantes que estavam ali perto, prontos para fazer negócio. Quando o vídeo terminou, os advogados começaram a falar todos ao mesmo tempo, não sobre medicamentos perniciosos ou processos coletivos, mas sobre jatos e quanto custam os pilotos. Os representantes de vendas foram rodeados pelos compradores ávidos. Em certo momento Clay ouviu alguém dizer: ”Um novo fica na ordem de trinta e cinco.”

 

Certamente não eram trinta e cinco milhões.

 

Outras exibições ofereciam todo tipo de itens luxuosos. Um fabricante de barcos tinha um grupo de advogados interessado em iates. Havia um especialista em imóveis no Caribe. Outro vendia ranchos de gado em Montana. Uma cabine eletrônica, que exibia os mais novos e absurdamente dispendiosos aparelhos estava cheia.

 

E os automóveis. Uma parede inteira exibia carros caros - um Mercedes-Benz cupê conversível, um Bentley castanho que todo advogado respeitável especialista em ações indenizatórias devia possuir. O Porsche revelava sua luxuosa camionete, e um vendedor anotava os pedidos. A maior concentração de advogados estava na frente de um Lamborghini azul-royal. O preço estava quase escondido, como se o fabricante tivesse medo de mostrar. Só 290 mil dólares e um suprimento muito limitado. Vários advogados pareciam prontos a brigar pelo carro.

 

Numa parte quieta do salão, um alfaiate e seu assistente mediam um advogado grande para um terno italiano. Uma tabuleta dizia que eram de Milão, mas Clay ouviu inglês muito americano.

 

Na faculdade de direito, certa vez Clay tomou parte numa mesa-redonda sobre grandes acordos, e o que os advogados deviam fazer para proteger seus clientes da tentação de enriquecer de uma hora para a outra. Vários advogados contaram histórias de horror de famílias de trabalhadores que arruinaram suas vidas com seus acordos, e as histórias eram estudos fascinantes do corn- portamento humano. Num certo momento, um advogado obseryou: ”Nossos clientes gastam o dinheiro quase tão depressa quanto nós.”

 

Olhando para o salão de exibição ele viu advogados gastando dinheiro com a maior rapidez possível. Seria ele também culpado disso?

 

Claro que não. Limitara-se às necessidades básicas, pelo menos até agora. Quem não ia querer um carro novo e uma casa melhor? Não estava comprando iates, aviões e ranchos de gado. Não queria nada disso. E se Dyloft lhe desse outra fortuna, em nenhuma circunstância gastaria seu dinheiro em jatos e em outras casas. Deixaria no banco, ou enterraria no fundo do quintal.

 

A orgia frenética de consumo o deixara nauseado, e Clay saiu do hotel. Queria algumas ostras e cerveja Dixie.

 

A ÚNICA SESSÃO DO SÁBADO, às nove horas, foi uma atualização sobre a legislação de ação coletiva, no momento debatida no Congresso. O tópico atraiu um pequeno grupo de advogados. Dos poucos presentes, ele parecia ser o único sem uma ressaca. Copos grandes de café escaldante eram tomados.

 

O orador, um advogado lobista de Washington começou mal, contando duas piadas sujas, que não provocaram riso algum. Todos eram brancos, todos homens, uma fraternidade, mas não dispostos a piadas de mau gosto. A apresentação rapidamente passou do mau humor ao tédio. Porém, pelo menos para Clay, o material era interessante e levemente informativo. Ele sabia muito pouco sobre ações coletivas, por isso, tudo era novidade.

 

As dez horas teve de escolher entre uma mesa-redonda sobre os últimos eventos do Skinny Ben e a apresentação por um advogado cuja especialidade era tinta com chumbo, um tópico que parecia muito árido, por isso escolheu a primeira opção. A sala estava cheia.

 

Skinny Ben era o apelido de um infame comprimido contra a obesidade receitado para milhões de pacientes. O fabricante tinha ganho bilhões e estava pronto para conquistar o mundo quando começaram a aparecer os problemas em um grande número de usuários. Problemas cardíacos. Facilmente relacionados ao uso do medicamento. O litígio explodiu de um dia para o outro e a companhia não queria ir a julgamento. Seus bolsos eram bem fundos e começou a comprar os reclamantes com grandes acordos. Nos últimos três anos, advogados de ações indenizatórias coletivas dos cinquenta estados lutavam para conseguir casos do Skinny Ben.

 

Quatro advogados e um moderador sentavam-se a uma mesa de frente para o público. A cadeira ao lado de Clay estava vazia até a chegada, no último momento, de um advogado pequeno com ar decidido. Ele tirou da pasta blocos de notas, materiais de seminário, dois celulares e um pager. Quando seu posto de comando estava arrumado e Clay tinha se afastado o mais possível, ele murmurou:

 

- Bom-dia.

 

- ’dia - Clay murmurou, sem nenhuma disposição para conversar. Olhou para os celulares e imaginou para quem exatamente ele ia querer telefonar às 10 horas da manhã de sábado.

 

- Quantos casos você conseguiu? - o advogado murmurou. Uma pergunta interessante que Clay não estava preparado para responder. Acabava de resolver o caso do Tarvan e estava planejando o assalto ao Dyloft, mas, no momento, não tinha caso algum. Mas essa resposta não era suficiente naquele ambiente onde todos os números eram grandes e exagerados.

 

- Uns doze - ele mentiu.

 

O homem franziu a testa como se aquilo fosse totalmente inaceitável e a conversa congelou, pelo menos por alguns minutos. Um dos advogados da mesa-redonda começou a falar e a sala ficou em silêncio. O assunto era o relatório financeiro sobre o laboratório Vida Saudável, fabricante dos Skinny Bens. A companhia tinha várias divisões, a maioria delas lucrativa. O preço das ações não tinha sofrido nada. Na verdade, depois de cada grande acordo o capital era o mesmo, prova de que os investidores sabiam que a companhia tinha muito dinheiro.

 

- Esse é Patton French - o pequeno advogado murmurou.

 

- Quem é ele? - Clay perguntou.

 

- O mais quente advogado de ações indenizatórias coletivas do país. Trezentos milhões de honorários no ano passado.

 

- É ele quem vai discursar no almoço, não é?

 

- Isso mesmo. Não perca.

 

O dr. French explicou com exaustivos detalhes que aproximadamente trezentos mil casos do Skinny Ben tinham feito acordos de cerca de 7,5 bilhões. Ele e outros peritos estimavam que havia ainda mais uns cem mil casos que valiam de dois a três bilhões. A companhia e as seguradoras tinham bastante dinheiro para cobrir esses processos, portanto estava nas mãos dos presentes sair correndo e encontrar esses casos. A sala pegou fogo.

 

Clay não tinha nenhuma vontade de saltar num abismo. Não podia deixar de pensar que o pequeno, gorducho, pomposo idiota com o microfone tinha ganho 300 milhões em honorários no ano anterior e estava ainda motivado para ganhar mais. Passaram a falar então nos modos criativos de atrair novos clientes. Um dos homens da mesa ganhara tanto dinheiro que tinha dois médicos na sua folha de pagamento, em tempo integral, apenas para ir de cidade em cidade procurando pessoas que tinham tomado o Skinny Ben. Outro falou sobre os anúncios da televisão, um assunto que interessou Clay por um momento, mas logo se dissolveu num triste debate sobre se o advogado devia ou não aparecer ou contratar um ator havia muito tempo desempregado.

 

Estranhamente não houve nenhum debate sobre estratégias de tribunal - testemunhas especializadas, informantes, seleção de júri, provas médicas - a informação habitual que os advogados trocavam nos seminários. Clay estava aprendendo que esses casos raramente iam a julgamento. As habilidades do tribunal não eram importantes. Tudo era sobre como apressar os casos. E ganhar enormes honorários. Em vários momentos da discussão, os quatro homens da mesa e vários dos que faziam perguntas sem grande importância, tiveram de revelar que tinham ganho milhões em acordos recentes.

 

Clay queria tomar outro banho de chuveiro.

 

Às onze horas, o vendedor local do Porsche ofereceu uma recepção Bloody-Mary que era muito popular. Ostras cruas, Bloody-Mary e conversas sobre quantos casos cada um tinha tido. E como conseguir mais. Mil aqui. Dois mil ali. Evidentemente, a tática popular era reunir o maior número de casos possível, depois juntar-se a Patton French que de boa vontade os incluiria na sua ação coletiva, no seu território no Mississippi, onde os juizes, os júris e os veredictos sempre eram a favor dele e onde os fabricantes tinha pavor de pôr os pés. French trabalhava a multidão como um chefe de gangue de Chicago.

 

Ele falou outra vez às 13 horas, depois de um almoço de bufe com comida cajun e cerveja Dixie. Seu rosto estava vermelho, sua língua solta e pitoresca. Falando de improviso contou uma breve história do sistema americano de fraude e como era crucial proteger as massas da ganância e da corrupção das grandes companhias que fabricavam produtos perigosos. E, aproveitando a deixa, disse que não gostava de seguradoras e bancos, nem de multinacionais e republicanos. O capitalismo sem controle criava a necessidade de pessoas como as almas valentes do Círculo dos Causídicos, os que estavam nas trincheiras, que não tinham medo de atacar grandes organizações em favor dos trabalhadores, dos pequenos com 300 milhões por ano de honorários, era difícil imaginar Patton French como um desprivilegiado. Mas ele representava para a plateia. Clay olhou em volta e se perguntou, não pela primeira vez, se ele era o único são na sala. Será que toda aquela gente estava tão cega pelo dinheiro que acreditava sinceramente estar defendendo os pobres e os doentes?

 

Muitos deles tinham jatos!

 

As histórias da guerra foram contadas com a maior naturalidade. O acordo de uma ação coletiva de 400 milhões contra um medicamento prejudicial destinado a acabar com o colesterol. Um bilhão para um medicamento para diabéticos que matou pelo menos cem pacientes. Por uma rede elétrica defeituosa instalada em duzentas mil casas particulares que provocou 1.500 incêndios matando dezessete pessoas e queimando outras quarenta, 150 milhões. Os advogados bebiam cada palavra. Aqui e ali havia indicações de para onde tinha ido seu dinheiro. ”Isso custou a eles um novo, Gulfstream”, ele brincou e a plateia aplaudiu. Clay sabia, depois de estar a menos de vinte e quatro horas no Royal Sonesta que um Gulfstream era o mais sofisticado de todos os jatos particulares e um novo custava cerca de 45 milhões.

 

O rival de French era urn advogado que processava fabricantes de cigarro em algum lugar do Mississippi, que ganhou mais ou menos um milhão e comprou um iate de 180 pés. O velho iate de French tinha só 140 pés, por isso ele o trocou por outro de 200 pés. A plateia achou graça também. Sua firma tinha agora trinta advogados e ele precisava de mais trinta. Estava na quarta mulher. A última ficou com o apartamento de Londres.

 

E assim por diante. Uma fortuna ganha, uma fortuna gasta. Não admira que ele tivesse de trabalhar sete dias por semana.

 

Pessoas normais teriam ficado embaraçadas com aquela conversa vulgar sobre riqueza, mas French conhecia sua plateia. No mínimo ele os energizava para ganhar mais, gastar mais, processar mais, correr atrás de mais clientes. Durante uma hora ele foi grosseiro e desavergonhado, mas raramente tedioso.

 

Cinco anos no GDP sem dúvida tinham protegido Clay de muitos aspectos da advocacia dos tempos modernos. Tinha lido sobre ações coletivas, mas não tinha ideia de que os que as praticavam formavam um grupo tão organizado e especializado. Não pareciam excepcionalmente brilhantes. Sua estratégia consistia em arranjar os casos e fazer os acordos, sem um verdadeiro trabalho de tribunal.

 

French poderia falar para sempre, mas depois de uma hora saiu da sala debaixo de uma ovação de pé, embora um tanto constrangida. Voltaria às três horas para um seminário sobre pesquisa do foro - como encontrar a melhor jurisdição para seu caso. A tarde prometia ser uma repetição da manhã e Clay estava farto.

 

Ele passeou pelo Quarter, visitando não os bares e clubes de strip mas as lojas de antiguidades e as galerias, sem comprar nada porque estava dominado pelo impulso de acumular dinheiro. Mais tarde sentou sozinho num café na calçada, na praça Jackson, vendo o povo da rua passar. Bebeu devagar, tentando sentir prazer na chicória quente, mas não estava conseguindo. Embora não tivesse escrito os números, tinha feito a matemática mentalmente. Os honorários do Tarvan menos 45 por cento de impostos e despesas comerciais, menos o que já tinha gasto, o deixava com cerca de 6,5 milhões. Podia enterrar esse dinheiro num banco ganhando 300 mil de juros por ano, cerca de oito vezes o que ganharia no GDP. Trezentos mil por ano eram 25 mil por mês, e ele não podia, ali sentado na sombra de uma tarde quente de Nova Orleans, imaginar como poderia gastar tanto dinheiro.

 

Não era um sonho. Era real. O dinheiro já estava na sua conta. Seria rico pelo resto da vida e não se tornaria um daqueles palhaços do Royal Senesta falando sobre o preço de pilotos ou de capitães de iates.

 

O único problema era significante. Tinha contratado pessoas e feito promessas. Rodney, Paulette, Jonah e a srta. Glick tinham deixado empregos de muito tempo, confiando cegamente nele. Não podia simplesmente desligar a tomada agora, pegar seu dinheiro e fugir.

 

Passou a beber cerveja e tomou uma profunda decisão. Trabalharia arduamente por um curto período nos casos Dyloft, que francamente seria estupidez recusar, uma vez que Max Pace estava dando a ele uma mina de ouro. Quando terminasse o Dyloft daria grandes bónus à sua equipe e fecharia o escritório. Levaria uma vida tranquila em Georgetown, viajando pelo mundo quando tivesse vontade, pescando com seu pai, vendo seu dinheiro crescer e nunca, em circunstância alguma, chegaria outra vez perto do Círculo dos Causídicos.

 

MAL ACABARA DE PEDIR o desjejum para o serviço de quarto quando o telefone tocou. Era Paulette, a única pessoa que sabia onde ele estava.

 

- Você está num bom quarto? - ela perguntou.

 

- Pode apostar.

 

- Tem fax?

 

- Claro que tem.

 

- Dê-me o número. you mandar uma coisa para você.

 

Era a cópia de um recorte da edição de domingo do Post. Uma participação de casamento. Rebecca Allison Van Hom e Jason Shubert Myers IV. ”O sr. e a sra. Bennett Van Hom, de McLean, Virgínia, participam o noivado de sua filha Rebecca com o sr. Jason Shubert Myers IV, filho do sr. e sra. D. Stephem Myers de Falis Church...” A foto, embora copiada e enviada por fax, de mais de dois mil quilómetros de distância era bem nítida - uma jovem muito bonita que ia casar com outra pessoa.

 

  1. Stephens Myers era filho de Dálias Myers, consultor jurídico dos presidentes, começando com Woodrow Wilson e terminando com Dwight Eisenhower. Segundo a participação, Jason Myers tinha estudado em Brown e na Faculdade de Direito de Harvard e já era sócio da firma Myers & O’Malley, talvez a firma de advocacia mais antiga da capital e certamente a mais conservadora. Ele havia criado a divisão da propriedade intelectual e tornou-se o mais jovem sócio da história de Myers & O’Malley. A não ser pelos óculos redondos, não parecia haver nada de intelectual nele, embora Clay soubesse que não podia ser justo nem que quisesse. Não era feio, mas evidentemente não era páreo para Rebecca.

 

O casamento estava planejado para dezembro numa igreja episcopal em McLean, com recepção no Clube de Campo Potomac.

 

Em menos de um mês Rebecca tinha encontrado alguém a quem amava o bastante para casar. Alguém disposto a suportar uma vida com Bennett e Barb. Alguém com bastante dinheiro para impressionar os Van Horns.

 

O telefone tocou outra vez e era Paulette.

 

- Você está legal? - ela perguntou.

 

- Estou ótimo - ele disse, tentando parecer que estava.

 

- Eu lamento muito, Clay.

 

- Tinha acabado, Paulette. Havia um ano vinha acabando. Isto é uma boa coisa. Agora posso esquecer Rebecca completamente.

 

- Se você diz.

 

- Estou bem. Obrigado por telefonar.

 

- Quando você volta?

 

- Hoje. Estarei no escritório amanhã de manhã.

 

O desjejum chegou mas ele tinha esquecido. Tomou um pouco de suco, mas ignorou todo o resto. Talvez aquele pequeno romance estivesse acontecendo há algum tempo. Tudo que ela precisava era se livrar de Clay, o que conseguiu fazer com facilidade. Sua traição crescia à medida que os minutos passavam. Ele podia ver e ouvir a mãe dela puxando os cordões no fundo do palco, manipulando a separação, fazendo a armadilha para Myers, agora planejando cada detalhe do casamento.

 

- Já vão tarde - ele resmungou.

 

Então ele pensou em sexo, em Myers tomando seu lugar e atirou o copo vazio contra a parede fazendo-o em pedaços. Praguejou por estar agindo como um idiota.

 

Quantas pessoas naquele momento estariam vendo a participação e pensando em Clay? Dizendo: ”Ela o colocou para escanteio depressa, não foi?” ”Nossa, foi rápido, não foi mesmo?”

 

Rebecca estaria pensando nele? Quanta satisfação ela teria em admirar a participação do seu casamento e pensar no velho Clay? Provavelmente muita. Provavelmente pouca. Que diferença fazia? O sr. e a sra. Van Hom sem dúvida tinham esquecido dele de um dia para o outro. Por que ele simplesmente não podia retribuir o favor?

 

Ela estava se apressando, disso Clay não tinha dúvida. O romance tinha sido muito longo e muito intenso e o fim era ainda muito recente para que Rebecca pudesse se descartar dele e passar para outro. Tinham dormido juntos por quatro anos; Myers só por um mês, ou menos. Clay esperava que não por mais tempo.

 

Ele voltou a pé para a praça Jackson, onde os artistas, leitores de taro, malabaristas e músicos de rua já estavam agindo. cornprou um sorvete e sentou num banco perto da estátua de Andrew Jackson. Resolveu telefonar para ela e pelo menos desejar tudo de born. Então resolveu procurar uma loura bonita e desfilar com ela na frente de Rebecca. Talvez a levasse ao casamento, é claro que de minissaia com pernas de um quilómetro de comprimento. com seu dinheiro, não seria difícil encontrar esse tipo de mulher. Que diabo, ele alugaria uma se fosse preciso.

 

”Acabou, meu velho”, ele pensou, mais de uma vez. ”Trate de se controlar.”

 

Deixe-a ir.

 

O CÓDIGO DE VESTIMENTA do escritório tinha evoluído rapidamente para o estilo de qualquer-coisaserve. O tom foi determinado pelo patrão que passou a usar jeans e camisetas caras, com um paletó esporte à mão para o caso de sair para almoçar. Tinha ternos de grife para reuniões e para o tribunal, mas no momento eram eventos raros, uma vez que a firma tinha clientes, mas nenhum caso. Para sua satisfação, todos tinham melhorado a qualidade do guarda-roupa.

 

Encontraram-se quase no fim da manhã de segunda-feira na sala de reuniões - Paulette, Rodney e Jonah, de cara fechada. Embora tivesse adquirido considerável influência na curta história da firma, a srta. Glick continuava como secretária recepcionista.

 

- Minha gente, temos muito trabalho - Clay abriu a sessão. Ele apresentou o Dyloft e, seguindo os sumários concisos de Pace, descreveu o medicamento e contou sua história. Sem consultar notas, fez uma rápida revisão dos Laboratórios Ackerman: vendas, lucro, dinheiro, concorrentes, outros problemas legais. Então as coisas boas, os desastrosos efeitos colaterais do Dyloft, os tumores na bexiga e o fato de a companhia saber disso.

 

- Até hoje, nenhum processo deu entrada na justiça. Mas nós vamos mudar isso. No dia dois de julho, começaremos a guerra com uma ação coletiva aqui na capital em favor de todos os pacientes prejudicados pelo medicamento. Isso vai criar um caos e estaremos bem no meio dele.

 

- Já temos alguns desses clientes? - Paulette perguntou.

 

- Ainda não. Mas temos nomes e endereços. Começamos a registrá-los como clientes a partir de hoje. Desenvolveremos um plano para reunir clientes, então você e Rodney ficam encarregados de pôr em prática. - Embora tivesse reservas sobre anúncios na televisão, Clay acabou se convencendo, na viagem de volta de Nova Orleans, de que não havia outra alternativa viável. Uma vez dado entrada ao processo e denunciado o medicamento, aqueles abutres que acabava de conhecer no Círculo dos Causídicos voariam em enxames à procura de clientes. O único meio efetivo de conseguir rapidamente um grande número de pacientes do Dyloft era anunciar na televisão.

 

Clay explicou isso para a firma e disse:

 

- Vai custar no mínimo dois milhões de dólares.

 

- Esta firma tem dois milhões de dólares? - Jonah fez a pergunta que todos estavam fazendo.

 

- Tem. Começamos a trabalhar nos anúncios hoje.

 

- Você não vai aparecer, vai chefe? - Jonah perguntou, quase suplicando. - Por favor.

 

Como todas as cidades, a capital estava inundada de comerciais matutinos e noturnos pedindo aos prejudicados para telefonar para o advogado - citavam o nome - que estava pronto para chutar traseiros e não cobrava nada pela primeira consulta. Muitas vezes os advogados apareciam nos anúncios, geralmente com resultados embaraçosos.

 

Paulette balançava a cabeça devagar, parecendo assustada também.

 

- Claro que não. Será feito por profissionais.

 

- Em quantos clientes estamos pensando? - Rodney perguntou.

 

- Milhares. E difícil dizer.

 

Rodney apontou para cada um deles, contando quatro.

 

- Pelos meus cálculos - ele disse - nós somos quatro.

 

- Teremos mais. Jonah fica encarregado da expansão. Alugaremos algum espaço fora do centro e encheremos de paralegais. Eles atenderão os telefones e organizarão os arquivos.

 

- Onde vamos encontrar paralegais? -Jonah perguntou.

 

- Nas seçÕes de empregos das revistas de direito. Comecem a trabalhar nos anúncios. E vocês têm uma reunião esta tarde com um corretor de imóveis em Manassas. Precisamos de cerca de

1.500 metros quadrados, nada luxuoso, mas bastante fiação para telefones e um sistema completo de computadores, o que, como sabemos é a especialidade de vocês. Aluguem, instalem os fios, arranjem o pessoal, depois organizem tudo. Quanto mais depressa melhor.

 

- Sim, senhor.

 

- Quanto vale um caso de Dyloft? - Paulette perguntou.

 

- Tanto quanto os Laboratórios Ackerman estiverem dispostos a pagar. Pode ir de dez a cinquenta mil, dependendo de vários fatores, o mais importante deles, a extensão do dano produzido na bexiga.

 

Paulette fazia cálculos no bloco de notas.

 

- E quantos casos podemos conseguir?

 

- É impossível dizer.

 

- Que tal um palpite?

 

- Eu não sei. Vários milhares.

 

- Tudo bem, digamos três mil casos. Três mil casos vezes o mínimo de mil dólares são trinta milhões, certo?        

 

- Certo.

 

- E de quanto serão os honorários dos advogados? - ela perguntou. Os outros três olhavam atentamente para Clay.

 

- Um terço - ele disse.

 

- São dez milhões - ela disse devagar. - Tudo para esta firma?

 

- Sim. E vamos compartilhar os honorários.

 

A palavra compartilhar ecoou na sala por alguns segundos. Jonah e Rodney olharam para Paulette como quem diz: ”Vá em frente. Acabe de uma vez.”

 

- Compartilhar? Como? - ela perguntou muito deliberadamente.

 

- Dez por cento para cada um.

 

- Então segundo meu cálculo hipotético, minha parte seria de um milhão?

 

- Exatamente.

 

- E, bem, o mesmo para mini? - Rodney perguntou.

 

- O mesmo para você. O mesmo para Jonah. E devo dizer, acho que seu cálculo está por baixo.

 

Por baixo ou não, eles absorveram os números em silêncio durante o que pareceu um longo tempo, cada um instintivamente gastando parte do dinheiro. Para Rodney significava curso superior para os filhos. Para Paulette, divórcio do grego que ela tinha visto só uma vez no ano anterior. Para Jonah, significava viver num veleiro.

 

- Está falando sério, não está, Clay? - Jonah perguntou.

 

- Muito sério. Se trabalharmos arduamente nos próximos anos, há grande probabilidade de podermos optar por uma aposentadoria precoce.

 

- Quem contou a você essa história do Dyloft - Rodney perguntou.

 

- Não posso responder a essa pergunta, Rodney. Desculpe. Apenas confie em mim. - E naquele momento Clay esperava que sua confiança cega em Max Pace não fosse tolice.

 

- Quase esqueci de Paris - Paulette disse.

 

- Não esqueça. Estaremos lá na próxima semana. Jonah se levantou e pegou seu bloco de notas.

 

- Como é o nome daquele corretor? - ele perguntou.

 

No TERCEIRO ANDAR da sua nova casa, Clay instalou um pequeno escritório, não que pretendesse trabalhar muito em casa, mas precisava de um lugar para seus papéis. A mesa era um velho cepo de açougueiro encontrado numa loja de antiguidades em Fredericksburg, naquela mesma rua. Ocupava toda uma parede e tinha tamanho suficiente para telefone, fax e um laptop.

 

Foi ali que ele fez a primeira tentativa para entrar no mundo da solicitação da fraude em massa. Esperou quase até as 21 horas, uma hora em que muita gente vai dormir, especialmente os mais velhos e talvez os que sofrem de artrite. Um drinque forte para ter coragem e digitou os números.

 

O telefone foi atendido por uma mulher, talvez a sra. Ted Worley, de Upper Marlboro, Maryland. Clay se apresentou gentilmente, identificando-se como advogado, como se eles telefonassem o tempo todo para os Worleys e eles não tivessem nenhum motivo para ficar alarmados.

 

- Ele está assistindo ao jogo dos Orioles - ela disse. Evidentemente Ted não atendia o telefone quando os Orioles estavam jogando.

 

- Sim. Seria possível falar com ele por um momento?

 

- Disse que é advogado?

 

- Sim, senhora, daqui mesmo da capital.

 

- O que ele fez agora?

 

- Oh, nada, nada. Eu gostaria de falar sobre a artrite dele. O primeiro impulso de desligar veio e foi embora. Clay agradeceu a Deus por ninguém estar ouvindo ou vendo. Pense no dinheiro, dizia para si mesmo. Pense nos honorários.

 

- A artrite dele? Pensei que fosse advogado, não médico.

 

- Sim, senhora, sou advogado e tenho motivos para acreditar que ele está tomando um remédio perigoso. Se não se importa, só preciso dele por alguns minutos.

 

Vozes no fundo quando ela gritou alguma coisa para Ted que gritou alguma coisa em resposta. Finalmente ele atendeu o telefone.

 

- Quem está falando? - perguntou, e Clay se apresentou rapidamente.

 

- Como está o jogo? - Clay perguntou.

 

- Três a um para o Red Sox no quinto. Eu o conheço? - o senhor Worley tinha setenta anos.

 

- Não, senhor. Sou advogado aqui da capital, especializado em processos que envolvem medicamentos perigosos. Eu processo companhias farmacêuticas o tempo todo, quando lançam produtos prejudiciais.

 

- Muito bem, o que você quer?

 

- Através de fontes da Internet soubemos que o senhor é um usuário potencial de um medicamento para artrite chamado Dyloft. Pode me dizer se usa esse remédio?

 

- Talvez eu não queira dizer o que estou tomando.

 

Um argumento perfeitamente válido, e Clay pensou que estava preparado para ele.

 

- E claro que não precisa, sr. Worley. Mas o único modo de determinar se o senhor tem direito a um acordo de indenização é me dizer se está usando o Dyloft.

 

- Essa maldita Internet - o sr. Worley resmungou, depois trocou algumas palavras com a mulher que evidentemente estava Perto do telefone.

 

- Que tipo de acordo? - ele perguntou.

 

- Falaremos sobre isso num minuto. Preciso saber se está ou não usando Dyloft. Se não estiver, o senhor é um homem de sorte.

 

- Bem, creio que não é segredo, certo?

 

- Não senhor, não é. - Claro que era um segredo. Por que o histórico médico de uma pessoa não seria confidencial? As pequenas mentiras eram necessárias, Clay dizia a si mesmo. Olhe para o quadro todo. O sr. Worley e milhares como ele podiam jamais vir a saber que estão usando um produto pernicioso, a não ser que alguém dissesse. Os Laboratórios Ackerman certamente nunca diriam. Competia a Clay dizer.

 

- Sim, eu tomo Dyloft.

 

- Há quanto tempo?

 

- Talvez um ano. Funciona maravilhosamente.

 

- Alguns efeitos colaterais?

 

- Como o quê?

 

- Sangue na urina. Uma sensação de ardor quando urina? -> Clay estava resignado ao fato de que ia falar sobre bexigas e urina com muita gente nos próximos meses. Não tinha escapatória.

 

As coisas para as quais a faculdade de direito não prepara.

 

- Não. Por quê?

 

- Temos algumas pesquisas preliminares que os Laboratórios Ackerman, os fabricantes do Dyloft, estão tentando esconder. Foi descoberto que em algumas pessoas o Dyloft causa tumores na bexiga.

 

Assim o sr. Ted Worley, que até poucos momentos atrás cuidava da própria vida e assistia a seus adorados Orioles, passaria o resto daquela noite e grande parte da próxima semana preocupado com a ideia de tumores crescendo desabridamente na sua bexiga. Clay se sentiu péssimo e queria pedir desculpas, mas outra vez disse a si mesmo que tinha de fazer aquilo. Do contrário como o sr. Worley poderia saber a verdade? Se o pobre homem tinha realmente os tumores, não ia querer saber?

 

Com o fone numa das mãos e com a outra massageando o lado do corpo o sr. Worley disse:

 

- Quer saber, pensando bem, lembro de uma sensação de ardor alguns dias atrás.

 

- Do que você está falando? - Clay ouviu a sra. Worley perguntar.

 

- Quer me deixar em paz? - o sr. Worley disse para a mulher. Clay atacou antes que a discussão esquentasse.

 

- Minha firma representa uma porção de usuários do Dyloft. Acho que o senhor devia pensar em fazer uns exames.

 

- Que tipo de exames?

 

- Um exame de urina. Temos um médico que pode fazer isso amanhã. O senhor não vai pagar nada.

 

- E se ele descobrir alguma coisa errada?

 

- Então podemos discutir suas opções. Quando a notícia sobre o Dyloft vier a público, dentro de poucos dias, haverá muitas ações judiciais. Minha firma estará liderando o ataque aos Laboratórios Ackerman. Eu gostaria de ter o senhor como cliente.

 

- Talvez eu deva falar com meu médico.

 

- Certamente que sim, sr. Worley. Mas ele pode ter alguma responsabilidade no caso também. Ele receitou o remédio. Eu achava melhor o senhor ter uma opinião imparcial.

 

- Espere um minuto. - O sr. Worley tapou o bocal do telefone com a mão e teve uma conversa acalorada com a mulher. Quando voltou, disse: - Eu não acredito em processar médicos.

 

- Nem eu. Minha especialidade é atacar as grandes companhias que prejudicam as pessoas.

 

- Acha que eu devo parar de tomar o remédio?

 

- Vamos fazer o exame primeiro. O Dyloft provavelmente será retirado do mercado neste verão.

 

- Onde faço o exame?

 

- O médico é em Chevy Chase. O senhor pode ir amanhã?

 

- Sim, é claro, por que não? Parece tolice esperar, não acha?

 

- Sim, parece - Clay deu o nome e o endereço de um médico, dado por Max Pace. O exame de 80 dólares custaria a Clay 300, mas era apenas o preço de fazer negócio.

 

Combinados os detalhes, Clay pediu desculpas pela intrusão, agradeceu ao sr. Worley seu tempo e o deixou sofrendo enquanto assistia ao resto do jogo. Só quando desligou Clay sentiu as gotas de suor logo acima das sobrancelhas. Solicitando casos por telefone? Que tipo de advogado tinha se tornado?

 

Um advogado rico, repetiu várias vezes para si mesmo.

 

Isso exigia casca grossa, uma coisa que Clay não tinha e não estava certo de poder adquirir.

 

Dois DIAS DEPOIS, CLAY parou o carro na entrada da casa dos Worleys em Upper Marlboro e foi recebido por eles na porta da frente. O exame de urina que incluía um exame citológico, tinha revelado células anormais na urina, um sinal claro, segundo Max Pace e sua extensiva e mal adquirida pesquisa médica, de que havia tumores na bexiga. Foi recomendado um urologista ao sr. Worley ao qual ele foi na semana seguinte. O exame e a remoção dos tumores seriam feitos com cirurgia citoscópica, que consistia em inserir na bexiga um pequeno microscópio e um bisturi num tubo passando pelo pênis e embora fosse considerado um procedimento de rotina, o sr. Worley não via nada de rotineiro no processo. Ele estava morrendo de medo. A sra. Worley disse que o marido não dormia há duas noites e ela também não.

 

Por mais que quisesse, Clay não podia dizer a eles que os tumores eram provavelmente benignos. Era melhor deixar que os médicos dissessem depois da cirurgia.

 

Tomando café instantâneo com creme em pó, Clay explicou o contrato para seus serviços e respondeu às perguntas sobre a ação judicial. Quando Ted Worley assinou no fim da página, tornou-se o primeiro queixoso do país contra o Dyloft.

 

E durante um tempo parecia que seria o único. Usando o telefone continuamente, Clay conseguiu convencer onze pessoas a aparecer para o exame de urina. Os onze resultados foram negativos.

 

- Continue insistindo - Max Pace dizia. Cerca de um terço das pessoas desligava o telefone ou se recusava acreditar que Clay falava sério.

 

Ele, Paulette e Rodney dividiram suas listas entre clientes em perspectiva brancos e negros. Evidentemente os negros não eram tão desconfiados quanto os brancos, porque eram mais facilmente persuadidos a consultar o médico. Ou talvez gostassem da atenção. Ou talvez ainda, como Paulette sugeriu mais de uma vez.

 

No fim da semana, Clay tinha conseguido três chentes com testes positivos de células anormais. Rodney e Paulette, trabalhando como uma equipe, tinham mais sete já contratados. A ação coletiva contra o Dyloft estava pronta para a guerra.

A AVENTURA EM PARIS custou a Clay 95.300 dólarés, segundo os números tão cuidadosamente anotados por Rex Crittle, um homem que cada vez se familiarizava mais com quase todos os aspectos da vida de Clay. Crittle era auditor com uma firma de contabilidade de tamanho médio diretamente debaixo da suíte de Cárter. Não é de surpreender que também tivesse sido recomendado por Max Pace.

 

Pelo menos uma vez por semana, Clay descia ou Crittle subia a escada dos fundos e passavam parte do tempo falando sobre o dinheiro de Clay e o melhor modo de administrá-lo. O sistema contábil para a firma de advocacia era básico e de instalação simples. A srta. Glick anotava os números e simplesmente os mandava para os computadores de Crittle.

 

Na opinião de Crittle, essas fortunas feitas da noite para o dia certamente tinham como resultado uma auditoria do serviço do Imposto de Renda. Apesar das promessas de Pace ao contrário, Clay concordou e insistiu em registros perfeitos, sem nenhuma área duvidosa quando se tratava de write-offs e deduções. Acabava de ganhar mais dinheiro do que jamais sonhara. Não fazia sentido tentar sonegar impostos ao governo. Pague os impostos e durma bem.

 

- O que é este pagamento de um milhão de dólares para East Media? - Crittle perguntou.

 

- Estamos fazendo alguns anúncios na televisão, para litígio. Essa é a primeira prestação.

 

- Prestação? Quantas mais? - Ele olhou por cima dos óculos de leitura com uma expressão que Clay já tinha visto antes, que dizia: ”Filho, você ficou louco?

 

- Um total de dois milhões de dólares. Estamos dando entrada numa grande ação judicial dentro de poucos dias. Será coordenada com uma blitz de anúncios a cargo da East Media.

 

- Muito bem - Crittle disse, obviamente desconfiado de uma despesa tão grande. - E eu suponho que haverá alguns honorários adicionais para cobrir essa despesa.

 

- Espero que sim - Clay riu.

 

- E este novo escritório em Manassas. Um depósito com aluguel de 1.500 dólares?

 

- Sim, estamos expandindo. you contratar seis paralegais para esse escritório. O aluguel é mais barato.

 

- É bom ver que se preocupa com as despesas. Seis paralegais?

 

- Sim, quatro já foram contratados. Tenho os contratos e a informação sobre o pagamento, na minha mesa.

 

Crittle estudou por um momento um impresso de computador, uma dezena de perguntas clicando na calculadora atrás dos seus óculos.

 

- Posso perguntar por que precisa de mais seis paralegais quando tem tão poucos casos?

 

- Pergunta interessante - Clay disse. Explicou rapidamente a ação coletiva sem mencionar o remédio nem o fabricante e se seu rápido sumário respondeu às perguntas de Crittle não dava para perceber. Como contador, ele era naturalmente cético quando se tratava de qualquer esquema que incitasse mais pessoas a mover processos.

 

- Tenho certeza de que sabe o que está fazendo - ele disse, na verdade, suspeitando que Clay estivesse ficando louco.

 

- Confie em mim, Rex. O dinheiro vai jorrar.

 

- Sem dúvida está jorrando para fora.

 

- Você tem de gastar dinheiro para fazer dinheiro.    

 

- É o que dizem.

 

O ASSALTO COMEÇOU LOGO depois do pôr-do-sol, no dia primeiro de julho. Todos, exceto a srta. Glick, na frente da televisão, na sala de reuniões, esperaram até exatamente 20h32 e então ficaram quietos e imóveis. Era um anúncio de quinze segundos que começava com um ator jovem e bonito com paletó branco, segurando um livro grosso e olhando sinceramente para a câmera. ”Atenção sofredores de artrite. Se estão tomando o medicamento Dyloft, podem ter uma reclamação a fazer contra os fabricantes do remédio. Dyloft foi considerado responsável por vários efeitos colaterais, incluindo tumores na bexiga.” Na parte inferior da tela apareceram as palavras em maiúsculas: LINHA QUENTE DYLOFT - TELEFONE PARA 1-800-555-DYLO. O médico continuou: ”Ligue para este número imediatamente. A linha Quente Dyloft pode providenciar um exame médico gratuito para você. Telefone agora!”

 

Ninguém respirou por quinze segundos e ninguém falou quando o anúncio terminou. Para Clay foi um momento especialmente angustiante, porque ele acabava de lançar um ataque inesperado e potencialmente destruidor contra uma firma enorme que, sem dúvida, responderia com violência. E se Max Pace estivesse enganado sobre o medicamento? E se Pace estivesse usando Clay como um peão numa grande partida de xadrez? E se Clay não pudesse provar com o testemunho de peritos que a droga provocava a formação de tumores? Essas perguntas o atormentavam há várias semanas e ele havia procurado interrogar Pace várias vezes. Tinham discutido duas vezes e trocado palavras duras em várias ocasiões. Max finalmente entregou a pesquisa roubada, ou pelo menos mal adquirida, sobre os efeitos do Dyloft. Clay pediu a um companheiro da fraternidade de Georgetown, que era agora médico em Baltimore, para fazer uma revisão. A pesquisa parecia sólida e sinistra.

 

Clay finalmente se convenceu de que a pesquisa estava certa e Ackerman errado. Mas vendo o anúncio e estremecendo com a acusação, sentiu fraqueza nas pernas.

 

- Bastante desagradável - disse Rodney, que tinha visto o vídeo do anúncio uma dezena de vezes. Mas era muito menos agressivo do que na televisão. A East Media tinha prometido que 16 por cento de cada mercado veria a transmissão. Os anúncios seriam transmitidos um dia sim, um dia não, durante dez dias em noventa mercados, de costa a costa. A estimativa de espectadores era de oitenta milhões.

 

- Vai funcionar - Clay disse, sempre o líder.

 

Na primeira hora foi exibido em trinta mercados na costa Leste, então se espalhou por dezoito mercados do fuso horário. Quatro horas depois de ter começado, finalmente chegou à outra costa e atingiu quarenta e quatro mercados. A pequena firma de Clay gastou exatamente 400 mil dólares na primeira noite com o anúncio de costa a costa.

 

O telefone 800 encaminhava os chamados para a Sweatshop,* o novo apelido para a divisão do centro comercial dos escritórios de advocacia de J. Clay Cárter II. Lá os seis novos paralegais atendiam as chamados, preenchiam formulários, faziam todas as perguntas do script, enviavam os interessados para o Web site Linha Quente Dyloft e prometiam que um dos advogados da firma retornaria os telefonemas. Depois de duas horas dos primeiros anúncios, todos os telefones estavam ocupados. Um cornputador registrava os números dos telefones dos que não conseguiam completar a ligação. Uma mensagem computadorizada os ’ enviava para o Web site.

 

Às nove horas da manhã seguinte, Clay recebeu um telefonema urgente do advogado de uma grande firma na mesma rua. Ele representava os Laboratórios Ackerman e insistia para que os anúncios parassem imediatamente. Foi pomposo e condescendente e ameaçou Clay com todo o tipo de ações legais se ele não obedecesse. Trocaram palavras ásperas, mas logo se acalmaram.

 

- Vai estar no seu escritório daqui a alguns minutos? - Clay perguntou.

 

- Sim, é claro. Por quê?

 

- Vou lhe mandar uma coisa. Mandarei por mensageiro. Não demora mais de alguns minutos.

 

Rodney, o mensageiro, saiu apressado com uma cópia da ação judicial de vinte páginas. Clay foi para o tribunal para dar entrada no original. Seguindo as instruções de Pace, cópias foram também enviadas por fax para o Washington Post, The Wall Street Journal e. o New York Times.

 

* Sweatshof: lugar onde os empregados são explorados e ríial pagos. (N. da T.)

 

Pace sugeriu também que seria uma boa manobra de investimento a venda a descoberto das açóes dos Laboratórios Ackerman. Na sexta-feira anterior as ações tinham fechado a 42,50. Quando a bolsa abriu na segunda de manhã, Clay entrou com uma ordem de venda de cem mil ações. Ele as compraria de volta dentro de poucos dias, mais ou menos por 30 dólares esperava, e ganharia outro milhão. Pelo menos esse era o plano.

 

SEU ESCRITÓRIO ESTAVA AGITADO quando ele voltou. Havia seis linhas das chamadas gratuitas para a Sweatshop em Manassas e no horário comercial, quando as seis estavam ocupadas, os chamados eram transferidos para o escritório central na avenida Connecticut. Rodney, Paulette e Jonah, cada um num telefone, falavam com usuários do Dyloft de toda a América.

 

- Você talvez queira ver isto - disse a srta. Glick. O papel corde-rosa das mensagens trazia o nome de um repórter do The Wall Street Journal- e o sr. Pace está no seu escritório.

 

Max estava na frente de uma janela, segurando um copo com café.

 

- Dei entrada - Clay disse. - Mexemos num vespeiro.

 

- Aproveite o momento.

 

- Os advogados deles já telefonaram. Mandei uma cópia da ação judicial para eles.

 

- Ótimo. Eles já estão morrendo. Acabam de cair numa emboscada e sabem que serão massacrados. Isto é o sonho de todo advogado, Clay, aproveite o mais possível.

 

- Sente-se. Tenho uma pergunta.

 

Pace, todo de preto, como sempre, sentou e cruzou as pernas. As botas de caubói pareciam ser de pele de cascavel.

 

- O que você faria se fosse contratado agora pelos Laboratórios Ackerman? - Clay perguntou.

 

- O contra-ataque é crucial. Eu começaria a divulgação pela imprensa, negaria tudo, pondo a culpa nos ambiciosos advogados. Defenderia meu medicamento. O objetivo inicial, depois da explosão da bomba e da poeira acalmar, é proteger o preço das ações. Elas abriram em 42,50, o que é muito baixo. Já estão em trinta e três. Eu mandaria o executivo-chefe ir à televisão e dizer todas as coisas certas. Faria os representantes da imprensa agitar a propaganda. Faria os advogados preparar e organizar a defesa. Mandaria os vendedores garantir aos médicos que o medicamento é born.

 

- Mas não é.

 

- Eu me preocuparia com isso mais tarde. Nos primeiros dias, o contra-ataque é tudo, pelo menos na superfície. Se os investidores acreditarem que há alguma coisa errada com o medicamento, eles abandonam o navio e as ações continuam a baixar. Uma vez organizado o contra-ataque, eu teria uma conversa séria com os maiorais. Uma vez verificado que há problema com o medicamento, chamaria os contadores e calcularia o preço dos acordos. Você nunca vai a julgamento com um medicamento perigoso. Cada júri pode optar por um veredicto e não é possível controlar os custos. Outro júri dá ao queixoso um milhão de dólares. Outro ainda, em outro estado fica zangado e concede vinte milhões de indenização por danos. E um enorme jogo de dados. Então você faz o acordo. Como você está aprendendo depressa, os advogados de ação indenizatória coletiva tiram essa porcentagem do total, portanto é fácil chegar ao acordo.

 

- De quanto dinheiro Ackerman pode dispor?

 

- Os laboratórios estão segurados por pelo menos trezentos milhões. Além disso, têm cerca de meio bilhão em dinheiro, a maior parte originada do Dyloft. Estão quase no limite máximo no banco, mas se dependesse de mim planejaria pagar um bilhão. E faria isso depressa.

 

- Ackerman fará isso depressa?

 

- Eles não me contrataram, portanto não são tão brilhantes. Venho observando a companhia há um longo tempo e eles não são particularmente espertos. Como todos fabricantes de medicamentos, têm horror a litígio. Em vez de usar um bombeiro como eu, fazem a coisa à moda antiga, confiam nos seus advogados que, é claro, não têm interesse em acordos rápidos. A firma principal é Walker-Stearns em Nova York. Muito em breve você terá notícias deles.

 

- Então, nada de um acordo rápido?

 

- Você deu entrada na ação judicial há menos de uma horal Relaxe.

 

- Eu sei, mas estou torrando todo aquele dinheiro que VOCM me deu.

 

- Vá com calma. Dentro de um ano estará ainda mais rico.

 

- Um ano?

 

- É o meu palpite. Os advogados precisam engordar primei-l ro. Walker-Stearns encarregará cinquenta advogados do caso,! com os medidores de tempo e de trabalho a toda a força. A ação l coletiva do sr. Worley vale cem milhões aos advogados dei Ackerman. Não se esqueça disso.

 

- Por que eles simplesmente não me pagam cem milhões para ir embora?

 

- Agora você está pensando como um verdadeiro advogado de ação indenizatória, menino. Eles pagarão muito mais, porém antes precisam pagar seus advogados. É assim que a coisa funciona.      

 

- Mas você não faria isso?

 

- Claro que não. com o Tarvan, o cliente me disse a verdade, o que raramente acontece. Fiz meu dever de casa, encontrei você e resolvi tudo discreta e rapidamente e sem gastar muito. Cinquenta milhões e nem um centavo para os advogados do meu cliente.

 

A srta. Glick apareceu na porta e disse:

 

- O repórter do The Wall Street Journal tstá. ao telefone outra vez.

 

Clay olhou para Pace que disse:

 

- Converse com ele. E lembre, o outro lado tem uma unidade inteira de assessores de imprensa organizando o contra-ataque.

 

O TlMES E O POST publicaram rápidas reportagens sobre a ação coletiva contra o Dyloft na primeira página da seção de negócios na manhã seguinte. Ambos mencionaram o nome de Clay, uma emoção que ele desfrutou discretamente. Mais tinta foi usada para a reação do acusado. O diretor executivo chamou as açóes de ”frívolas” e de apenas ”outro exemplo do abuso do direito litigioso pela profissão”. O vice-presidente da Pesquisa disse: ”O Dyloft foi extensivamente pesquisado sem nenhuma evidência de efeitos colaterais adversos.” Os dois jornais notavam que as açóes dos Laboratórios Ackerman, que tiveram uma baixa de 50 por cento nos três trimestres anteriores, foram atingidas por outro golpe com a surpresa da ação judicial.

 

O The Wall Street Journal entendeu direito, pelo menos na opinião de Clay. Nas preliminares, o repórter perguntara a idade de Clay. ”Só trinta e um?”, ele disse, o que levou a uma série de perguntas sobre a experiência de Clay, sua firma et cetera. David contra Golias é muito mais interessante do que dados financeiros secos ou relatórios de laboratórios, e a história ganhou vida própria. Um fotógrafo apareceu e enquanto Clay posava, sua equipe observava divertida.

 

Na primeira página, coluna da esquerda, a manchete dizia: O NOVATO ENFRENTA OS PODEROSOS LABORATÓRIOS ACKERMAN, ao lado uma caricatura de Clay Cárter sorridente. O primeiro parágrafo dizia: ”Há menos de dois meses, o advogado da capital Clay Cárter trabalhava para o sistema judiciário como um defensor público mal pago e desconhecido. Ontem, como dono de uma firma de advocacia, entrou com uma ação de um bilhão de dólares contra a terceira maior companhia farmacêutica do mundo, afirmando que seu medicamento maravilhoso, Dyloft, não só alivia as dores agudas da artrite, como também provoca a formação de tumores na bexiga dos pacientes.”

 

O artigo estava cheio de perguntas sobre como Clay tinha feito aquela transformação radical em tão pouco tempo. Uma vez que ele não podia mencionar o Tarvan e nada relacionado a ele, Clay se referiu vagamente a alguns rápidos acordos de ações judiciais envolvendo pessoas que o tinham conhecido como defensor público. Os Laboratórios Ackerman mereceram algumas citações da sua posição típica sobre o abuso da ação judicial e referência sobre perseguidores de ambulância que arruinavam a economia, mas o forte da reportagem era sobre Clay e sua incrível escalada para o topo do litígio em massa. Foram ditas coisas agradáveis sobre seu pai, um ”lendário litigante da capital” que se ”aposenta-1 rã” e vivia nas Bahamas.

 

Glenda, do GDP, elogiou Clay descrevendo-o como um! ”diligente defensor dos pobres”, uma observação elegante que aj fez merecer um almoço num restaurante luxuoso. O presidente! da Academia Nacional dos Advogados Criminais admitiu que nunca ouvira falar em Clay Cárter, mas mesmo assim estava! ”muito impressionado com seu trabalho”.

 

Um professor de direito de Yale lamentou ”outro exemplo do j uso errado do litígio por ação coletiva”, enquanto um de Harvard J disse que era ”um exemplo perfeito de como as ações coletivas deviam ser usadas para combater as companhias transgressoras”.

 

- Providencie para que isto esteja no Web site - Clay disse quando entregou o artigo para Jonah. - Nossos clientes vão adorar.

TEQUILA WATSON se declarou culpado do assassinato de Ramón Pumphrey e foi condenado à prisão perpétua. Seria elegível para condicional dentro de vinte anos, mas a reportagem no Post não mencionou isso. Dizia que sua vítima era uma das muitas pessoas mortas a tiro numa série de crimes que pareciam estranhamente aleatórios, mesmo para uma cidade acostumada à violência sem sentido. A polícia não tinha nenhuma explicação. Clay fez uma anotação para lembrar de telefonar para Adelfa e ver como ia sua vida.

 

Ele devia alguma coisa a Tequila, mas não sabia bem o quê. Também não tinha nenhum meio de compensar seu ex-cliente. Procurou racionalizar, dizendo a si mesmo que ele tinha passado a maior parte da vida viciado em drogas e provavelmente passaria o resto atrás das grades, com ou sem o Tarvan, mas isso pouco o ajudou a sentir que estava sendo correto. Tinha abandonado a luta, pura e simplesmente. Pegou o dinheiro e enterrou a verdade.

 

Duas páginas adiante outro artigo chamou sua atenção e o fez esquecer Tequila Watson. O rosto gorducho do sr. Bennett Van Hom aparecia numa foto, sob o capacete com monograma, tirada num local de construção, em algum lugar. Ele olhava atentamente para um conjunto de plantas com outro homem identificado como o engenheiro projetista do grupo BVH. A companhia estava envolvida numa briga feia por causa da construção de um complexo perto do campo de batalha de Chancelíorsville, cerca de uma hora ao sul da capital. Bennett, como sempre, propunha construir uma das suas horrorosas coleções de casas, condomínios, apartamentos, lojas, playgrounds, quadras de ténis e a piscina obrigatória, tudo a um quilómetro e meio do centro do campo de batalha e muito perto do local onde o general Stonewall Jackson fora morto pelas sentinelas dos Confederados. Preservacionistas, advogados, historiadores, ambientalistas e a Sociedade Confederada desembainharam espadas e estavam no processo de massacrar Bennett, a Escavadeira. Não era surpresa o fato do Post elogiar esses grupos e não dizer nada de bom sobre Bennett. Entretanto, as terras em questão pertenciam a um fazendeiro idoso e ele aparentemente era quem mandava no assunto, pelo menos até aquele momento.

 

O artigo era longo e descrevia outros campos de batalha arrasados por construtores. Uma organização chamada Truste da Guerra Civil estava na frente dos que lutavam contra. Seu advogado era descrito como um radical que não temia usar o litígio para preservar a história. ”Mas precisamos de dinheiro para o litígio”, o jornal o citava.

 

Dois telefonemas mais tarde e Clay tinha o homem no outro lado da linha. Conversaram durante meia hora e quando desligou, Clay fez um cheque de 100 mil dólares para o Truste da Guerra Civil, fundos para o processo judicial de Chancellorsville.

 

A SRTA. GLICK DEU A mensagem quando Clay passou por sua mesa. Ele leu o nome duas vezes e estava ainda cético quando sentou na sala de reuniões e digitou o número.

 

- Dr. Patton French - ele disse ao telefone. - A mensagem dizia que era urgente.

 

- Quem quer falar com ele, por favor?

 

- Clay Cárter, da capital.

 

- Oh, sim, ele estava à sua espera.

 

Era difícil imaginar um advogado ocupado e poderoso como Patton French esperando um telefonema de Clay. Em poucos segundos o grande homem estava ao telefone.

 

- Olá Clay, obrigado por retornar meu telefonema - ele disse, tão casualmente que apanhou Clay desprevenido. - Boa reportagem no Journal certo? Nada mal para um novato. Ouça, lamento não ter falado com você quando esteve em Nova Orleans. - Era a voz que Clay tinha ouvido ao microfone, mas muito mais relaxada.

 

- Sem problema - Clay disse. Havia duzentos advogados na reunião do Círculo dos Causídicos. Não havia nenhuma razão para que Clay se encontrasse com Patton French e nenhuma razão para que French soubesse que Clay estava lá. Evidentemente o homem tinha feito suas pesquisas.

 

- Eu gostaria de me encontrar com você, Clay. Acho que podemos fazer alguns negócios juntos. Há dois meses eu estava na pista do Dyloft. Você me venceu por pouco, mas há uma tonelada de dinheiro aí.

 

Clay não tinha nenhuma vontade de ”ir para a cama” com Patton French. Por outro lado, seus métodos para extrair enormes acordos dos fabricantes de medicamentos eram lendários.

 

- Podemos conversar - Clay disse.

 

- Olhe, estou indo para Nova York neste momento. E se eu o apanhar na capital e levar você comigo? Tenho um Gulfstream 5 novo e gostaria de exibi-lo. Ficamos em Manhattan. Um jantar maravilhoso esta noite. Conversamos sobre negócios. Voltamos para casa amanhã no fim do dia. O que você acha?

 

- Bem, estou bastante ocupado. - Clay lembrou sua repulsa em Nova Orleans quando French repetidamente mencionava seus brinquedos no discurso. O novo Gulfstream, o iate, um castelo na Escócia.

 

- Aposto que está. Olhe, estou ocupado também. Que diabo, nós todos estamos. Mas esta pode ser a viagem mais lucrativa da sua vida. Não you aceitar não como resposta. Encontro-me com você no Reagan National dentro de três horas. Combinado?

 

A não ser alguns telefonemas e um jogo de raquetball naquela noite, Clay tinha pouca coisa para fazer. Os telefones do escritório tocavam sem parar com usuários do Dyloft assustados, mas Clay não estava atendendo aos chamados. Há vários anos não ia a Nova York.

 

- Combinado, por que não? - ele disse, tão ansioso para ver o Gulfstream 5 quanto para comer num grande restaurante.

 

- Agora está sendo esperto. Muito esperto.

 

O terminal privado do Reagan National estava repleto de executivos preocupados e burocratas apressados, que iam e vinham. Perto do balcão de recepção uma morena bonitinha de minissaia segurava uma tabuleta com seu nome. Ele se apresentou a ela. A jovem era Julia, sem sobrenome.

 

- Siga-me - ela disse com um sorriso perfeito. Saíram do terminal para uma van de cortesia. Dezenas de Lears, Falcons, Hawkers, Challengers e Citations estavam estacionados ou taxiando, saindo ou chegando. O pessoal das rampas guiava cuidadosamente os jatos, as asas passando a poucos centímetros de distância de uns e de outros. Os motores roncavam no cenário nervoso.

 

- De onde você é? - Clay perguntou.

 

- Nossa base é em Biloxi - Julia disse. - É onde fica o escritório principal do dr. French.

 

- Há algumas semanas eu o ouvi falar em Nova Orleans.

 

- Sim, estivemos lá. Raramente estamos em casa.

 

- Ele trabalha o tempo todo, certo?

 

- Cerca de cem horas por semana. Pararam ao lado do maior jato da rampa.

 

- Aqui estamos nós - Julia disse e desceram da van. Um piloto pegou a maleta de Clay e desapareceu com ela.

 

Patton French, é claro, estava ao telefone. Acenou para Clay subir a bordo, enquanto Julia pegava seu paletó e perguntava o que ele queria beber. Só água, com limão. Sua primeira visão do interior de um jato não podia ser mais espetacular. Os vídeos que tinha visto em Nova Orleans não faziam justiça à realidade.

 

O aroma era de couro, couro muito caro. As poltronas, os sofás, descansos para a cabeça, painéis, até as mesas eram de vários tons de azul e couro bege. As luminárias, maçanetas e instrumentos de controle eram revestidos de ouro. As guarnições de madeira eram escuras e polidas, provavelmente de mogno. Era uma suíte luxuosa num hotel cinco estrelas com asas e motores.

 

Clay tinha um metro e oitenta e cinco de altura e sobrava espaço acima da sua cabeça. A cabine era longa com uma espécie de escritório no fundo, onde French continuava a falar ao telefone. O bar e a cozinha ficavam logo atrás do cockpit. Julia apareceu com a água.

 

- É melhor sentar - ela disse. - Vamos começar a taxiar.

 

Quando o avião começou a se mover, French terminou bruscamente sua conversa ao telefone e caminhou para Clay atacando-o com um violento aperto de mão e um sorriso aberto, pedindo desculpas outra vez por não terem se encontrado em Nova Orleans. Ele era um pouco pesado, cabelo atraentemente grisalho e ondulado, provavelmente uns cinquenta e cinco anos, mas não ainda sessenta. O vigor brotava de cada poro e de cada respiração. Sentaram-se a uma das mesas, de frente um para o outro.

 

- Bela carona, hein? - French disse, indicando a cabine com um gesto.

 

- Muito bonita.

 

- Você já tem um jato?

 

- Não. - E Clay se sentiu inadequado por não ter. Que tipo de advogado era ele?

 

- Não vai demorar, filho. Não pode viver sem um. Julia, traga-me uma vodca. É o número quatro, o jato, não a vodca. São precisos doze pilotos para quatro jatos. E cinco Julias. Ela é bonitinha, não é?

 

- Sim, é.

 

- Uma porção de despesas, mas também uma porção de honorários. Você me ouviu falar em Nova Orleans?

 

- Ouvi. Foi muito agradável. - Clay mentiu um pouco. Por mais irritante que tivesse sido a palestra fora também divertida e informativa.

 

- Detesto falar de dinheiro assim, mas eu estava procurando agradar ao povo. A maior parte daqueles caras me trará um grande caso de fraude. Tenho de estimulá-los, você sabe. Construí a firma mais quente da América de fraude em massa e tudo que fazemos é ir contra os maiorais. Quando você processa uma cornpanhia como os Laboratórios Ackerman e uma daquelas instituições Fortuna 500, precisa ter munição, alguma influência. O dinheiro deles é infindável. Só estou tentando nivelar o campo.

 

Julia levou o drinque, sentou e prendeu o cinto de segurança.

 

- Quer almoçar? - French perguntou. - Ela sabe cozinhar qualquer coisa.

 

- Não obrigado, estou bem.

 

French tomou um longo gole de vodca, então bruscamente recostou na poltrona, fechou os olhos e parecia estar rezando, enquanto o Gulfstream corria pela pista e levantava voo. Clay aproveitou a pausa para admirar o avião. Era quase obsceno tanto luxo e tanta riqueza de detalhes. Quarenta, 45 milhões de dólares por um jato particular! E, de acordo com os comentários no Círculo dos Causídicos, os fabricantes do Gulfstream mal podiam dar conta dos pedidos. Estavam com dois anos de atraso na produção.

 

Depois de alguns minutos, o avião nivelou e Julia desapareceu na cozinha. French saiu da meditação e tomou outro gole de vodca.

 

- Todo aquele negócio do Journal é verdade? - ele perguntou, muito mais calmo. Clay teve a impressão de que French passava de um estado de espírito para outro, rápida e dramaticamente.

 

- Sim, está tudo certo.

 

- Já estive duas vezes na primeira página, nunca com nada de born. Não é de surpreender que eles não gostem de nós, da ação indenizatória de massa. Ninguém gosta, na verdade, o que você logo vai aprender. O dinheiro cria uma imagem negativa. Você acaba se acostumando. Nós todos nos acostumamos. Eu conheci seu pai. - Seus olhos se apertavam e iam de um lugar para o outro quando ele falava, como se estivesse sempre pensando em três frases adiante.

 

- Conheceu? - Clay não sabia se acreditava ou não.

 

- Eu trabalhei para o Departamento de Justiça anos atrás. Estávamos com um processo judicial sobre terras indígenas. Os índios levaram Jarrett Cárter da capital e a guerra acabou. Ele era muito born.

 

- Obrigado - Clay disse, com orgulho imenso.

 

- Tenho de dizer uma coisa, Clay, esta sua armadilha com o Dyloft é uma beleza. E muito fora do comum. Na maioria dos casos, a notícia de um medicamento perigoso se espalha lentamente, à medida que aumenta o número de queixosos. Os médicos demoram uma eternidade para se comunicarem. Estão mancomunados com os fabricantes, por isso não têm incentivo para dar o alarme. Além disso, para começar, na maioria das jurisdições os médicos são processados por terem receitado o medicamento. Os advogados se envolvem aos poucos. O tio Luke de repente apresenta sangue na urina, sem nenhum motivo e depois de olhar para aquilo durante mais ou menos um mês ele vai ao médico em Podunk, Louisiana. E o médico finalmente o faz parar de tomar o remédio milagroso que tinha receitado. Tio Luke pode ou não consultar o advogado da família, geralmente um advogado comum que trata de testamentos e divórcios e na maioria dos casos não reconheceria uma fraude nem que fosse atropelado por ela. Leva tempo para esses medicamentos prejudiciais serem descobertos. O que você fez é um caso único.

 

Clay se limitava a ouvir e balançar a cabeça afirmativamente. Aquilo estava levando a alguma coisa.

 

- O que me diz que você tem alguma informação de dentro.

- Uma pausa, uma breve lacuna dando a Clay a oportunidade de confirmar que realmente tinha. Clay não deu nenhuma pista.

 

- Eu tenho uma vasta rede de advogados e de contatos de costa a costa. Ninguém, mas ninguém mesmo, tinha ouvido falar de problemas com o Dyloft até poucas semanas atrás. Dois advogados da minha firma estavam fazendo o trabalho preliminar sobre o medicamento, mas não estávamos nem perto de dar entrada numa ação judicial. Então, de repente vejo a notícia da sua emboscada e seu rosto sorridente na primeira página do The Wall Street Journal. Eu conheço o jogo, Clay, e sei que você tem alguma informação de dentro.

 

- Eu tenho. E nunca direi a ninguém.

 

- Ótimo. Isso me faz sentir melhor. Eu vi seus anúncios. Monitoramos essas coisas em todos os mercados. Nada mal. Na verdade, o método dos quinze segundos que está usando tem provado que é o mais eficiente. Sabia disso?

 

-Não.

 

- Ataque rapidamente tarde da noite, muito cedo de manhã. Uma breve mensagem para assustá-los, depois um número de telefone com o qual podem pedir socorro. Fiz isso milhares de vezes. Quantos casos você já criou?

 

- E difícil dizer. Eles têm de fazer primeiro o exame de urina. Os telefones não param de tocar.

 

- Meus anúncios começam amanhã. Tenho seis pessoas em tempo integral só para trabalhar nos anúncios, dá para acreditar? Seis pessoas em tempo integral só para isso. E não ganham pouco.

 

Julia apareceu com dois pratos de comida - uma bandeja com camarões e outra coberta com queijos e frios - presunto, salame e outros.

 

- Uma garrafa daquele vinho branco chileno - Patton disse.

- Já deve estar gelado.

 

- Gosta de vinho? - ele perguntou, segurando um camarão pela cauda.

 

- De alguns. Não sou entendido.

 

- Eu adoro vinho. Tenho cem garrafas neste avião. - Outro camarão. - Calculamos que deve haver de cinquenta a cem mil casos de Dyloft. Acha que é um bom cálculo?

 

- Cem mil talvez seja demais - Clay disse cautelosamente.

 

- Estou um pouco preocupado com os Laboratórios Ackerman. Eu já os processei duas vezes, sabia?

 

- Não, eu não sabia disso.

 

- Há dez anos, quando eles tinham muito dinheiro. Mas alguns dos executivos deles fizeram algumas péssimas aquisições. Agora eles têm uma dívida de dez bilhões. Coisa idiota. Típica dos anos 90. Os bancos estavam jogando dinheiro para as bluechips, que tentavam com ele comprar o mundo. Seja como for, Ackerman não corre perigo de falir ou coisa assim. E eles têm seguro. - French estava pescando e Clay resolveu morder a isca.

 

- Eles têm seguro de pelo rnenos trezentos milhões - ele disse. - E talvez meio bilhão para gastar com o Dyloft.

 

French sorriu, quase babando com a informação. Não podia e não tentou esconder sua admiração.

 

- Grande negócio, filho, maravilhoso. Sua informação de dentro é boa?

 

- Excelente. Ternos pessoas lá dentro que contam tudo e temos pesquisas de laboratórios que não devíamos ter. Ackerman não pode sequer chegar perto de um júri com Dyloft.

 

- Espantoso - ele disse, fechando os olhos e absorvendo essas palavras. Um advogado faminto com seu primeiro caso de acidente de carro não estaria mais feliz.

 

Julia voltou com o vinho e serviu em duas pequenas taças de valor inestimável. French cheirou e avaliou lentamente o vinho e quando ficou satisfeito tomou um pequeno gole. Estalou os lábios, balançou afirmativamente a cabeça e se inclinou para a frente para mais fofoca.

 

- A sensação de pegar de surpresa uma companhia grande, rica e orgulhosa é melhor do que sexo. E a maior das sensações que conheço. Você pega os desgraçados cobiçosos lançando no mercado produtos que prejudicam pessoas inocentes e você, o advogado, sai em campo para puni-los. E para isso que eu vivo. Certo, o dinheiro é sensacional, mas vem depois que você os pegar. Eu jamais you parar, independentemente de quanto possa ganhar. Pensam que sou ganancioso porque eu poderia desistir e morar numa praia pelo resto da vida. Uma chatice! Prefiro trabalhar cem horas por semana tentando pegar os grandes ladrões. É a minha vida.

 

Naquele momento, seu entusiasmo era contagioso. Seu rosto cintilava com fanatismo. Ele respirou profundamente e disse:

 

- Você gostou desse vinho?

 

- Não, tem gosto de querosene - Clay disse.

 

- Tem razão. Julia! Jogue isto fora! Traga uma garrafa daquele Meursault que compramos ontem.

 

Porém, antes ela levou um telefone.

 

- É Muriel.

 

French pegou o telefone e disse:

 

-Alo.

 

Julia se inclinou ao lado de Clay e murmurou:

 

- Muriel é a secretária-chefe, a madre superiora. Ela consegue falar com ele quando as mulheres dele não conseguem.

 

French fechou o celular e disse:

 

- Deixe que eu descreva um cenário para você, Clay. Prometo que tem o objetivo de dar a você mais dinheiro num curto período de tempo. Muito mais.

 

- Estou ouvindo.

 

- you acabar com tantos casos de Dyloft quanto você. Agora que você abriu a porta, centenas de advogados vão correr atrás desses casos. Nós, você e eu, podemos controlar o processo judicial se passarmos nossa ação da capital para meu território no Mississippi. Isso vai apavorar os Laboratórios Ackerman mais do que qualquer coisa que se possa imaginar. Eles estão preocupados agora porque você os pegou na capital, mas também estão pensando: ”Bem, ele é apenas um principiante, nunca esteve aqui antes, nunca teve um caso de responsabilidade civil, essa é sua primeira ação coletiva” e assim por diante. Mas se juntarmos seus casos corn os meus, combinando tudo numa ação coletiva, e a passarmos para o Mississippi, então Ackerman vai ter um enfarto enorme e maciço na companhia toda.

 

Clay estava quase tonto corn tanta dúvida e tantas perguntas.

 

- Estou ouvindo - foi tudo que conseguiu dizer.

 

- Você fica corn seus casos. Eu fico corn os meus. Nós os juntamos e à medida que outros casos forem aparecendo e os advogados subirem a bordo, you ao juiz criminal e peço para apontar um Comité de Orientação aos Queixosos. Faço isso sempre. Eu serei o presidente, você estará no comité porque foi o primeiro a dar entrada numa ação. Monitoraremos a ação Dyloft, tentando mante-la organizada, embora lidar corn um bando de advogados decididos seja difícil como o diabo. Já fiz isso dezenas de vezes. O comité nos dará o controle. Começaremos a negociar corn Ackerman logo. Eu conheço os advogados deles. Se sua informação for tão forte quanto você diz, insistiremos num acordo rápido.

 

- Em quanto tempo?

 

- Depende de vários fatores. Quantos casos existem realmente? corn que rapidez podemos contratá-los? Quantos advogados vão entrar na luta? E, muito importante, qual a gravidade dos danos em nossos clientes?

 

- Não muito graves. Praticamente todos os tumores são benignos.

 

French absorveu a informação, primeiro franzindo a testa à má notícia, então rapidamente vendo o que havia de born nela.

 

- Melhor ainda. O tratamento é cirurgia citoscópica.

 

- Correto. Um processo sem internação, que pode custar cerca de mil dólares.

 

- E o prognóstico a longo prazo?

 

- Cura completa. Fique longe do Dyloft e a vida volta ao normal, o que, para alguns daqueles que sofrem de artrite não é nada agradável.

 

French cheirou o vinho, girou a taça e finalmente tomou um pequeno gole.

 

- Muito melhor, não acha?

 

- Acho - Clay disse.

 

- Eu fiz uma excursão na Borgonha para provar vinho. Passei uma semana cheirando e cuspindo. Muito agradável. - Outro pequeno gole enquanto ele avaliava e priorizava os três pensamentos seguintes, sem cuspir.

 

- Isso é melhor ainda - French disse -, melhor para nossos clientes, obviamente, porque não estão tão doentes quanto podiam estar. Melhor para nós porque os acordos serão feitos mais depressa. A chave aqui é conseguir os casos. Quantos mais conseguirmos, maior controle teremos sobre a ação coletiva. Mais casos, mais honorários.

 

- Já entendi.

 

- Quanto você está pagando pelos anúncios?      

 

- Uns dois milhões.

 

- Nada mal, nada mal. - French queria perguntar onde exatamente um novato conseguia dois milhões para pagar anúncios na televisão. Mas se controlou e não perguntou.

 

Houve uma queda de energia quando o avião abaixou o nariz levemente.

 

- Quanto tempo até Nova York? - Clay perguntou.

 

- Da capital, cerca de quarenta minutos. Este passarinho faz novecentos e setenta quilómetros por hora.

 

- Qual aeroporto?

 

- Teterboro, Nova Jersey. Todos os jatos particulares pousam lá.

 

- Então por isso nunca ouvi falar.

 

- Seu jato está a caminho, Clay, vá se preparando para ele. Você pode tirar todos os meus brinquedos, mas deixe um jato. Precisa ter um.

 

- Usarei o seu.

 

- Comece corn um pequeno Lear. Pode ser comprado por uns dois milhões. Precisa de dois pilotos, 75 mil cada um. E só parte da despesa. Tem de ter. Você vai ver.

 

Pela primeira vez na vida, Clay ouvia um conselho sobre jatos.

 

Julia tirou as travessas corn comida e disse que pousariam em cinco minutos. Clay ficou encantado corn a vista de Manhattan a leste. French dormiu.

 

Eles aterrissaram e taxiaram, passando por uma fileira de terminais particulares, onde dezenas de belos jatos estavam estacionados ou em manutenção.

 

- Aqui você vê mais jatos particulares do que em qualquer outro lugar do mundo - French explicou, enquanto os dois olhavam pela janela. - Todos os maiorais de Manhattan estacionam seus aviões aqui. É uma viagem de carro de quarenta e cinco minutos até a cidade. Quem é realmente endinheirado tem seu helicóptero. São só dez minutos.

 

- Nós temos um helicóptero? - Clay perguntou.

 

- Não. Mas se eu morasse aqui, teria.

 

Uma limusine os apanhou na rampa, a poucos metros do avião. Os pilotos e Julia ficaram, fazendo a arrumação e sem dúvida providenciando para que o vinho estivesse gelado para a próxima viagem.

 

- O Península - French disse para o motorista.

 

- Sim, sr. French - ele respondeu. O carro seria alugado ou pertencia a Patton? Certamente o maior advogado do mundo em ações indenizatórias em massa não usaria uma limusine alugada. Clay resolveu não perguntar. Que diferença fazia?

 

- Estou curioso sobre seus anúncios - French disse, quando o carro entrou no tráfego congestionado de Nova Jersey. - Quando começaram?

 

- Domingo à noite, em noventa mercados, costa a costa.

 

- Como estão sendo processados?

 

- Nove pessoas atendem os telefones, sete paralegais, dois advogados. Na segunda-feira recebemos mil telefonemas, ontem três mil. Nosso Web site Dyloft está sendo acessado por oito mil pessoas por dia. Calculando pela média de acesso, são cerca de mil clientes.

 

- E o conjunto de recursos é grande?

 

- Cinquenta a setenta e cinco mil, segundo minha fonte, que até aqui tem sido bastante precisa.

 

- Eu gostaria de conhecer sua fonte.

 

- Esqueça.

 

French estalou as juntas dos dedos tentando aceitar a rejeição.

 

- Temos de ter esses casos, Clay. Meus anúncios começam amanhã. E se dividíssemos o país? Você fica corn o Norte e o Leste e me dá o Sul e o Oeste. E mais fácil para atingir os mercados menores e muito mais fácil tratar dos casos. Dentro de poucos dias, um cara em Miami estará na televisão. E outro na Califórnia que, eu garanto, está copiando seus anúncios neste momento. Somos tubarões, certo, nada mais do que abutres. A corrida para o tribunal começou, Clay. Estamos muito na frente, mas o estouro da boiada está chegando.

 

- Estou fazendo o melhor possível.

 

- Diga o seu orçamento - French disse, como se ele e Clay fizessem negócio juntos há anos.

 

Que diabo, Clay pensou. Sentados lado a lado da limusine, certamente pareciam sócios.

 

- Dois milhões para anúncios, outros dois milhões para o exame de urina.

 

- Vamos fazer uma coisa - French disse, sem a menor pausa na conversa. - Gaste todo seu dinheiro nos anúncios. Pegue os malditos casos, tudo bem! Eu pago todos os exames de urina e faremos os Laboratórios Ackerman nos reembolsar por ocasião dos acordos. É uma parte normal de todos os acordos, fazer a companhia cobrir todas as despesas médicas.

 

- Os exames custam trezentos dólares cada um.

 

- Você está sendo roubado. Reunirei alguns técnicos e faremos muito mais barato. - O que o fez lembrar uma história sobre os primeiros dias da ação judicial do Skinny Ben. Ele tinha convertido quatro ônibus Greyhound em clínicas móveis e percorreu todo o país à procura de clientes em potencial. Clay ouvia corn pouco interesse quando atravessavam a ponte George Washington. Outra história se seguiu.

 

A suíte no Península tinha vista para a Quinta Avenida. Quando estava seguro, corn a porta trancada, longe de Patton French, Clay pegou o telefone e começou a procurar Max Pace.


O TERCEIRO CELULAR encontrou Pace num lugar não identificado. O homem sem lar tinha estado menos vezes na capital nas últimas semanas. Certamente estava apagando outro incêndio, organizando outra partida de desagradáveis ações judiciais para outro cliente, embora não admitisse. Não precisava. Clay agora o conhecia muito bem para saber que ele era um bombeiro muito procurado. Não havia falta de produtos defeituosos no mercado.

 

Clay se surpreendeu corn a sensação reconfortante que teve ao ouvir a voz de Pace. Explicou que estava em Nova York, corn quem estava e por quê. A primeira palavra de Pace fechou o negócio.

 

- Brilhante - ele disse. - Simplesmente brilhante.

 

- Você o conhece?

 

- Todo mundo neste negócio conhece Patton French - Pace disse. - Nunca tivemos oportunidade de fazer negócio, mas ele é uma lenda.

 

Clay disse os termos da oferta de French. Pace entendeu e começou a pensar adiante.

 

- Se você der nova entrada na ação em Biloxi, Mississippi, as ações de Ackerman sofrerão outro golpe - ele disse. - Estão sob tremenda pressão neste momento, pressão dos bancos e dos acionistas. É brilhante, Clay. Faça isso!

 

- Tudo bem. Feito.

 

- E veja o New York Times de manhã. Ótimo artigo sobre o Dyloft. Saiu o primeiro relatório médico. É devastador.

 

- Ótimo.

 

Pegou uma cerveja no minibar: oito dólares, mas quem se importava - e por um longo tempo sentou na frente da janela vendo o movimento frenético da Quinta Avenida. Não era ideal ser obrigado a depender do conselho de Max Pace, mas simplesmente não tinha mais ninguém. Ninguém, nem mesmo seu pai, algum dia teve de fazer essa escolha: ”Vamos trazer seus cinco mil casos para cá e juntá-los corn os meus cinco mil, e faremos não duas, mas uma ação coletiva e eu entro corn um milhão e pouco para os exames médicos, enquanto você duplica seu plano de anúncios e unimos quarenta por cento do total, depois as despesas e faremos uma fortuna. O que você diz, Clay?”

 

No último mês tinha ganho mais dinheiro do que jamais sonhara ganhar. Agora, quando as coisas ameaçavam sair do controle, sentia que estava gastando mais depressa ainda. Seja ousado, dizia para si mesmo, esta é uma oportunidade rara. Seja ousado, ataque depressa, arrisque, role os dados e pode ficar podre de rico. Outra voz o incitava a ir mais devagar, a não jogar fora o dinheiro, a enterrá-lo e assim teria para sempre.

 

Clay tinha transferido um milhão de dólares para uma conta no estrangeiro, não para esconder, mas para proteger. Jamais tocaria nesse dinheiro, em nenhuma circunstância. Se fizesse más escolhas e perdesse tudo, ainda teria dinheiro para a praia. Sairia de mansinho da cidade como seu pai e nunca mais voltaria.

 

O milhão de dólares na conta secreta era seu compromisso.

 

Tentou falar corn seu escritório, mas todas as linhas estavam ocupadas, um born sinal. Conseguiu Jonah ao celular, sentado à sua mesa.

 

- Está uma loucura dos diabos - Jonah disse, muito cansado.

- Caos total.

 

- Ótimo.

 

- Por que você não vem ajudar?

- Amanhã.

 

Às sete e trinta e dois, Clay ligou a televisão e encontrou seu anúncio num canal a cabo. O Dyloft parecia ainda mais sinistro em Nova York.

 

O JANTAR FOI NO MONTRACHET, não pela comida, que era muito boa, mas pela lista dos vinhos, mais grossa do que qualquer outra em Nova York. French queria experimentar vários borgonhas tintos corn sua carne de vitela. Cinco garrafas foram levadas para a mesa, corn um copo para cada vinho. Deixava pouco espaço para o pão e a manteiga.

 

O sommelier e Patton falavam outra língua quando discutiam o que havia em cada garrafa. Clay estava entediado corn o processo. Teria preferido uma cerveja e um hambúrguer, embora pudesse prever uma mudança dramática nos seus gostos num futuro muito próximo.

 

Quando os vinhos respiravam, abertos, French disse:

 

- Telefonei para meu escritório. Aquele advogado de Miami já está no ar corn os anúncios de Dyloft. Ele instalou duas clínicas para exames e as está tocando como gado. Chama-se Carlos Hernández e ele é muito, muito born.

 

- Meu pessoal não consegue atender todos os telefonemas Clay disse.

 

- Estamos juntos nisso? - French perguntou.

 

- Vamos examinar o negócio.

 

Imediatamente French apresentou um documento dobrado.

 

- Aqui está um memorando - ele disse, entregando o documento para Clay, servindo-se da primeira garrafa de vinho. - E um sumário do que conversamos até agora.

 

Clay leu cuidadosamente e assinou. French, entre um gole e outro, assinou também e a sociedade nasceu.

 

- Vamos dar entrada na açao coletiva em Biloxi, amanhã French disse. - Faço isso quando chegar em casa. Tenho dois advogados trabalhando nisso neste momento. Assim que dermos entrada, você pode dispensar a sua na capital. Conheço o advogado particular dos laboratórios Ackerman. Acho que posso falar corn ele. Se a companhia negociar diretamente conosco, deixando de lado seus advogados externos, poderá economizar uma fortuna e dar toda para nós. E apressar bastante as coisas. Se os advogados externos se encarregarem da negociação, podemos perder meio ano nas negociações.

 

- Cerca de cem milhões, certo?

 

- Alguma coisa assim. Esse dinheiro podia ser nosso. - Um telefone tocou e French o tirou do bolso corn a mão esquerda, enquanto corn a direita segurava um copo corn vinho. - corn licença - ele disse para Clay.

 

Era uma conversa Dyloft corn outro advogado no Texas, obviamente um velho amigo, capaz de falar mais depressa do que patton French. A conversa foi cortês, mas French cauteloso. Quando fechou o celular disse:

 

- Droga!

 

- Alguma competição?

 

- Competição séria. O nome é Vic Brennan, grande advogado em Houston, muito inteligente e agressivo. Ele está no Dyloft e quer saber o plano do jogo.

 

- Não conseguiu nada de você.

 

- Ele sabe disso. Está lançando alguns anúncios amanhã, rádio, televisão, jornais. Vai pegar vários milhares de casos. - Por um momento, ele se consolou corn um gole de vinho que o fez sorrir. -A corrida começou, Clay. Temos de conseguir esses casos.

 

- Está cada vez mais louca - Clay disse.

 

French, corn a boca cheia de Pinot Noir não podia falar. Olhou para Clay como quem pergunta: ”O quê?”

 

- Amanhã de manhã, grande reportagem no New York Times. O primeiro relatório contra o Dyloft, segundo minhas fontes.

 

Era a coisa errada para dizer num jantar. French esqueceu a vitela que ainda estava na cozinha. E esqueceu os vinhos caros que cobriam a mesa, embora conseguisse consumi-los nas três horas seguintes. Mas qual o advogado especializado em ação indenizatória coletiva que podia se concentrar em comida e em vinho quando dentro de poucas horas o New York Times ia expor seu próximo acusado e seu medicamento perigoso?

 

O TELEFONE TOCOU e ainda estava escuro lá fora. O relógio, quando ele conseguiu focalizar, marcava cinco horas e quarenta e cinco.

 

- Levante! - French rosnou. - E abra a porta. - Assim que ele abriu, French empurrou a porta e passou por ele corn jornais e uma xícara de café nas mãos. - Incrível! - ele disse, jogando o Times na cama de Clay.

 

- Você pode dormir o dia inteiro, filho. Leia isto! - Estava vestido corn roupa de hotel, o roupão atoalhado e chinelos brancos para chuveiro.

 

- Não são ainda nem seis horas.

 

- Há trinta anos não durmo depois das cinco. Há muitas açóes judiciais lá fora.

 

Clay estava só de cueca. French leu a reportagem outra vez, tomando café, com os óculos de leitura na ponta do nariz.

 

Nem sinal de ressaca. Clay tinha cansado dos vinhos, todos corn o mesmo gosto para ele e terminara a noite corn uma garrafa de água. French continuou a batalha, resolvido a declarar um vencedor entre os cinco borgonhas, mas sem entusiasmo por causa das perspectivas do Dyloft.

 

O Atlantic Journal of Medicine dizia que o dylofed-amint, conhecido como Dyloft era considerado responsável pela formação de tumores na bexiga em cerca de seis por cento dos que o tomaram durante um ano.

 

- Mais de cinco por cento - Clay disse, lendo.

 

- Isso não é maravilhoso? - French perguntou.

 

- Não se você estiver entre os seis por cento.

 

- Eu não estou.

 

Alguns médicos já estavam deixando de receitar o medicamento. Os Laboratórios Ackerman negam fracamente, como sempre jogando a culpa em cima dos cobiçosos advogados, embora a companhia pareça estar caindo rapidamente. Nenhum comentário da Administração de Alimentos e Medicamentos. Um médico em Chicago em meia coluna diz o quanto o Dyloft é maravilhoso e o bem que fez aos pacientes. A boa notícia, se é que pode ser chamada assim, é que os tumores parecem não ser malignos, pelo menos até agora. Lendo a reportagem, Clay teve a impressão de que Max Pace a tinha lido há um mês.

 

Havia só um parágrafo sobre a ação coletiva que tinha dado entrada na capital, na segunda-feira e não mencionava o jovem advogado responsável por ela.

 

As açóes dos Laboratórios Ackerman caíram de 42,50, na manhã de segunda-feira, para 32,50 no fechamento da bolsa, na quarta-feira.

 

- Deviam ter feito a compra a descoberto da maldita coisa French resmungou. Clay mordeu a língua e guardou segredo, um dos poucos que tinha guardado nas últimas vinte e quatro horas.

 

- Podemos ler outra vez no avião - French disse. - Vamos sair daqui-

 

As AÇÓES ESTAVAM a 28 dólares quando Clay entrou no seu escritório e tentou dizer olá ao seu pessoal exausto. Acessou on-line um Web site corn os últimos movimentos da bolsa e o verificava a cada cinco minutos, contando seu lucro. Queimando dinheiro numa frente de batalha, era consolador ver algum lucro na outra.

 

Jonah foi o primeiro a entrar no escritório.

 

- Ficamos aqui até meia-noite ontem - ele disse. - É uma loucura.

 

- Vai ficar pior. Estamos repetindo os anúncios na televisão.

 

- Não podemos dar conta agora.

 

- Contrate alguns paralegais temporários.

 

- Precisamos de pessoal de computador, pelo menos dois. Não podemos calcular os dados corn a rapidez necessária.

 

- Você pode encontrá-los?

 

- Talvez alguns temporários. Conheço um cara, talvez dois, que podem vir à noite e procurar colocar os dados em dia.

 

- Vá buscar.

 

Jonah ia saindo, mas então virou para trás e fechou a porta.

 

- Clay, escute, estamos sozinhos, certo? Clay olhou em volta e não viu mais ninguém.

 

- Qual o problema?

 

- Bem, você é um cara inteligente e tudo o mais. Mas sabe o que está fazendo aqui? Quero dizer, você está queimando dinheiro mais depressa do que jamais foi queimado. E se alguma coisa sair errada?

 

- Você está preocupado?

 

- Nós todos estamos um pouco preocupados, está bem? Esta firma está pronta para um grande começo. Queremos ficar e nos divertir e ganhar dinheiro e tudo isso. Mas e se você estiver errado e levar um tombo? É uma pergunta justa.

 

Clay levantou-se e sentou na ponta da mesa.

 

- you ser muito franco corn você. Acho que sei o que estou fazendo, mas como nunca fiz isso antes não posso ter certeza. É um jogo enorme. Se eu ganhar, nós todos ganhamos muito dinheiro. Se eu perder, continuamos corn a firma. Apenas não ficaremos ricos.

 

- Se tiver oportunidade, diga isso aos outros, está bem?

 

- Vou dizer.

 

O almoço foi um sanduíche de dez minutos na sala de reuniões. Jonah tinha os números mais recentes: nos três primeiros dias, a linha quente tinha atendido a setenta mil e cem telefonemas e o Web site uma média de oito mil consultas por dia. Informações gerais e contratos para prestação de serviço legal foram enviados o mais depressa possível, mas mesmo assim estavam atrasados. Clay autorizou Jonah a contratar dois assistentes de computadores de meio expediente. Paulette ficou corn a tarefa de encontrar três ou quatro paralegais para trabalhar na Sweatshop. E a srta. Glick recebeu a incumbência de contratar tantos auxiliares de escritório quantos fossem necessários para cuidar da correspondência dos clientes.

 

Clay descreveu seu encontro corn Patton French e explicou a nova estratégia legal. Mostrou cópias do artigo do Times que ninguém tinha notado por estarem todos muito ocupados.

 

- A corrida começou, minha gente - ele disse, tentando motivar do melhor modo possível o grupo exausto. - Os tubarões estão atrás dos nossos clientes.

 

- Nós somos os tubarões - Paulette disse.

 

Patton French telefonou no fim da tarde dizendo que fora feita uma emenda na ação coletiva para acrescentar os queixosos do Mississippi e para dar entrada no tribunal do Estado, em Biloxi.

 

- Temos a coisa onde queríamos, amigo.

 

- Amanhã retiro a ação daqui da capital - Clay disse, esperando não estar entregando sua ação judicial.

 

- Você vai informar a imprensa?

 

- Não estava planejando isso - Clay disse. Não tinha ideia de como se informava a imprensa.

 

- Deixe que eu faço.

 

As ações dos Laboratórios Ackerman fecharam o dia em 26,25 dólares, um lucro projetado de 1.625.000, se Clay tivesse comprado agora e coberto sua venda em aberto. Ele resolveu esperar. A notícia da entrada da ação em Biloxi chegaria de manha e só agravaria a situação das ações.

 

À meia-noite ele estava sentado à sua mesa conversando corn um cavalheiro em Seattle que tinha tomado Dyloft por quase um ano e estava agora apavorado, corn medo de provavelmente ter tumores. Clay o aconselhou a procurar um médico o mais depressa possível para o exame de urina. Deu a ele o Web site e prometeu enviar pelo correio o pacote de informações logo cedo no dia seguinte. Quando desligou, o homem estava quase chorando.


NOTÍCIAS CONTINUARAM a perseguir o medicamento milagroso Dyloft. Dois outros estudos médicos foram publicados, um deles afirmando convincentemente que os Laboratórios Ackerman economizaram nas pesquisas e usaram todos os métodos possíveis para que o medicamento fosse aprovado. Finalmente a FDA deu ordem para que o Dyloft fosse retirado do mercado.

 

As más notícias eram, é claro, notícias maravilhosas para os advogados e o frenesi aumentava à medida que mais e mais clientes apareciam. Pacientes que usavam o Dyloft recebiam avisos por escrito dos Laboratórios Ackerman e dos seus médicos, e essas mensagens terríveis eram quase sempre acompanhadas por sinistras solicitações de advogados especializados em ações indenizatórias coletivas. A mala-direta era extremamente eficiente. Anúncios em jornais eram usados em todos os grandes mercados. E linhas quentes estavam em todos os canais da televisão. A ameaça de tumores crescendo descontroladamente fazia corn que praticamente todos os usuários do Dyloft procurassem os advogados. Patton French nunca tinha visto uma ação coletiva em massa tão perfeita. Porque ele e Clay venceram a corrida ao tribunal, em Biloxi, sua coletiva fora confirmada em primeiro lugar. Todos os outros queixosos do Dyloft que queriam dar entrada numa ação coletiva seriam obrigados a se juntar à deles, corn o Comité de Orientação dos Queixosos cobrando honorários adicionais. O juiz amigo de French já tinha apontado os cinco advogados do comité - French, Clay, Carlos Hernández, de Miami, e dois outros de Nova Orleans. Teoricamente o comité trataria do grande e complicado julgamento contra os Laboratórios Ackerman. Na realidade os cinco se descartariam da papelada e cobririam a tarefa administrativa de manter mais ou menos cinco mil clientes e seus advogados organizados de algum modo.

 

Um queixoso Dyloft podia sempre ”optar pela desistência” da coletiva e processar sozinho os Laboratórios Ackerman num julgamento separado. A medida que advogados de todo o país coligiam casos e juntavam suas coalizões, surgiam os inevitáveis conflitos. Alguns desaprovavam a coletiva de Biloxi e queriam a sua, particular. Alguns desprezavam Patton French. Alguns queriam um julgamento na sua jurisdição, corn a chance de um enorme veredicto.

 

Mas French tinha estado nessa batalha muitas vezes antes. Ele vivia no seu Gulfstream, voando a jato de costa a costa, encontrando-se corn os advogados especializados em ações indenizatórias de massa que colecionavam casos às centenas e algumas vezes mantendo a frágil coalizão unida. O acordo seria maior em Biloxi, ele prometia.

 

Ele falava todos os dias corn o advogado particular dos Laboratórios Ackerman, um velho guerreiro que tentara se aposentar duas vezes, mas os diretores executivos não tinham permitido. A mensagem de French era clara e simples - vamos falar de um acordo agora, sem os advogados de fora, porque você sabe que vocês não irão a julgamento corn esse medicamento. Ackerman começava a ouvir.

 

Em meados de agosto, French convocou uma reunião de cúpula dos advogados do Dyloft no seu rancho, perto de Ketchun, Idaho. Explicou para Clay que sua presença era obrigatória, como membro do Comité Orientador dos Queixosos, e, o que era mais importante, a maioria dos rapazes estava ansiosa para conhecer o jovem principiante que abriu o caso Dyloft.

 

- Além disso, corn esses caras, você não pode perder uma única reunião, do contrário eles começarão a apunhalá-lo pelas costas.

 

- Estarei lá - Clay disse.

 

- Mando um jato - French ofereceu.

 

- Não, obrigado. Eu chego lá.

 

Clay alugou um Lear 35. Um belo jatinho mais ou menos corn um terço do tamanho do Gulfstream 5, mas como estava viajando sozinho era bastante adequado. Encontrou-se corn os pilotos no terminal particular do Reagan National, onde se misturou corn os outros maiorais, todos mais velhos do que ele e tentou desesperadamente agir como se não houvesse nada de especial em subir a bordo do próprio jato. O avião pertencia a uma cornpanhia, mas pelos próximos três dias era seu.

 

Levantando voo para o norte, Clay viu o Potomac, depois o Lincoln Memorial e rapidamente os pontos importantes do centro da cidade. Lá estava o prédio do seu escritório e a distância, não muito longe, o gabinete do defensor público. O que Glenda, Jermaine e todos os que ele havia deixado lá iam pensar se o vissem agora?

 

O que Rebecca pensaria?

 

Se ela tivesse esperado pelo menos mais um mês.

 

Clay tinha tão pouco tempo para pensar nela!

 

Entraram nas nuvens e a vista desapareceu. Washington logo ficou quilómetros para trás. Clay Cárter estava indo para uma reunião secreta dos mais ricos advogados da América, os especialistas em fraude em massa, que tinham os cérebros e a força para atacar as mais poderosas corporações.

 

E eles queriam conhecê-lo!

 

SEU JATO ERA O menor no aeroporto de Ketchum-Sun Valley em Friedman, Idaho. Quando ele taxiou, passando pelos Gulfstreams e pelos Challengers, teve um pensamento ridículo. Pensou que seu jato era inadequado, que precisava de um maior. Então riu da bobagem. Ali estava ele na cabine forrada de couro de um Lear de três milhões de dólares, debatendo sobre se devia comprar outro maior. Pelo menos ainda podia rir. O que seria dele quando o riso acabasse?

 

Pararam perto de um avião conhecido, corn o número OOOMT na cauda. Zero, Zero, Zero, Mass Tort, ou responsabilidade civil, o lar longe do lar de Patton French. O Gulfstream fazia o jato de Clay parecer menor ainda e por um segundo ele olhou corn inveja para o melhor jato de luxo do mundo.

 

Uma van esperava, corn o que parecia uma imitação de caubói na direção. Felizmente, o motorista não falava muito e Clay desfrutou corn prazer a viagem de quarenta e cinco minutos em silêncio. Começaram a subir por estradas sinuosas, cada vez mais estreitas. O rancho de Patton, como era de esperar, era um cartãopostal perfeito e muito novo. A casa, corn alas e níveis suficientes para abrigar uma firma de advocacia tamanho grande. Outro caubói levou a mala de Clay.

 

- O dr. French o espera no deque, lá atrás - ele disse, como se Clay tivesse estado ali muitas vezes.

 

O assunto era a Suíça quando Clay os encontrou - qual a isolada estação de esqui que eles preferiam. Aproximando-se ouviu a conversa por um tempo. Os outros quatro membros do Comité de Orientação aos Queixosos estavam recostados nas cadeiras, de frente para as montanhas, fumando charutos negros e tomando drinques. Quando viram Clay, ainda sentados ficaram em posição de sentido, como se um juiz tivesse entrado no tribunal. Nos primeiros três minutos de conversa animada, ele foi chamado de ”brilhante”, ”esperto”, ”corajoso”, e seu favorito, ”visionário”.

 

- Tem de nos contar como descobriu o Dyloft - Carlos Hernández disse.

 

- Ele não quer contar - French disse, preparando uma bebida esquisita para Clay.

 

- Ora, vamos - disse Wes Saulsberry, o mais novo amigo de Clay. Em poucos minutos, Clay ficou sabendo que Wes tinha ganho cerca de meio bilhão corn o acordo do fumo, três anos atrás.

 

-Jurei silêncio - Clay disse.

 

O outro advogado de Nova Orleans era Damon Didier, um dos oradores numa das sessões a que Clay tinha comparecido no seu fim de semana corn o Círculo dos Causídicos. Didier tinha traços duros e olhos de aço e Clay lembrou de ter pensado como aquele cara podia se comunicar corn um júri. Didier, ele logo ficou sabendo, fizera muito dinheiro quando um barco fluvial cheio de garotos de uma fraternidade naufragou no lago Pontchartrain. Uma tragédia.

 

Precisavam de divisas e medalhas, como heróis de guerra. Esta aqui me deram por aquela explosão do navio petroleiro que matou vinte. Ganhei esta por aqueles homens que foram queimados na plataforma marítima. Esta grande aqui foi pela campanha do Skinny Ben. Esta pela guerra contra Big Tobacco. Esta pela batalha contra HMOs.

 

Como não tinha histórias de guerra, Clay só ouvia. Tarvan provocaria uma explosão de entusiasmo, mas ele jamais podia contar.

 

Um mordomo corn camisa estilo Roy Rogers informou ao sr. French que o jantar seria servido dentro de uma hora. Eles desceram para uma sala de recreação corn mesas de bilhar e grandes telas. Uma dezena de homens bebia e conversava, alguns corn tacos de bilhar nas mãos.

 

- O resto da conspiração - Hernández murmurou para Clay. Patton o apresentou ao grupo. Os nomes, rostos e cidades natais logo se tornaram confusos. Seattle, Houston, Topeka, Boston e outros que ele não entendeu. E Effingham, Illinois. Todos prestaram homenagem àquele jovem e ”brilhante” lutador que os deixara chocados corn seu ousado assalto ao Dyloft.

 

- Eu vi o anúncio na primeira noite - disse Bernie alguma coisa, de Boston. - Nunca tinha ouvido falar em Dyloft. Então ligo para sua linha quente, um cara agradável atende. Digo que tomei o medicamento, sigo o programa, você sabe. you para o Web site. Era brilhante. Disse para mim mesmo: ”Estou nessa armadilha.” Três dias depois estou no ar corn minha danada de linha quente Dyloft.

 

Todos riram, provavelmente porque suas histórias eram iguais. Clay nunca tinha pensado que outros advogados podiam ligar para sua linha quente e usar seu Web site para conseguir casos. Mas por que isso o surpreendeu?

 

Quando a admiração finalmente terminou, French disse que precisavam conversar sobre alguma coisa antes do jantar, que, a propósito, incluía uma fabulosa seleçáo de vinhos australianos. Clay já estava atordoado corn o excelente charuto cubano e a primeira dose da bomba de vodca. Ele era o advogado mais jovem do grupo e se sentia como um principiante. Especialmente no que se referia à bebida. Estava na presença de profissionais.

 

O mais jovem advogado. O menor jato. Nenhuma história de guerra. Fígado mais fraco. Clay decidiu que estava na hora de crescer.

 

Eles se reuniram em volta de French, que vivia para momentos como aquele. Ele começou.

 

- Como sabem, passei muito tempo corn Wicks, do departamento jurídico dos Laboratórios Ackerman. O resultado é que eles vão fazer acordo, rapidamente. Estão sendo atacados de todas as direções e querem que isso acabe o mais depressa possível. Suas ações baixaram tanto que temem perder o controle da companhia. Os abutres, incluindo nós, estão se preparando para o golpe de misericórdia. Se souberem quanto o Dyloft vai custar a eles, podem reestruturar algumas dívidas e talvez se aguentar. O que não querem é um litígio demorado em muitas frentes, corn veredictos por toda a parte. Também não querem gastar dezenas de milhões na defesa.

 

- Pobres coitados - alguém disse.

 

- A Business Week mencionou falência - alguém disse. - Eles usaram essa ameaça?

 

- Ainda não. E não espero que usem. Ackerman tem muitos bens. Só agora terminamos a análise financeira final, faremos os cálculos de manhã, e nossos rapazes acham que a companhia tem de dois a três bilhões para o acordo do Dyloft.

 

- Quanta cobertura de seguro está em jogo?

 

- Só três milhões. A divisão de cosméticos está à venda há um ano. Querem um bilhão. O valor real é cerca de três quartos disso. Eles podem vender por meio bilhão e ficar corn dinheiro suficiente para satisfazer nossos clientes.

 

Clay tinha notado que os clientes raramente eram mencionados.

 

Os abutres fecharam o círculo em volta de French que continuou:

 

- Precisamos determinar duas coisas importantes. A primeira, quantos queixosos em potencial existem. Segunda, o valor de cada caso.

 

- Vamos fazer a soma - alguém do Texas disse, corn sua fala arrastada. - Eu tenho mil.

 

- Eu tenho oitocentos - French disse. - Carlos?

 

- Dois mil - Hernández disse, começando a tomar notas. -Wes?

 

- Novecentos.

 

O advogado de Topeka tinha seiscentos, o menor número. Dois mil era o mais alto até French deixar o melhor para o fim.

 

- Clay? - ele disse, e todos ouviram atentamente.

 

- Três mil e duzentos - Clay disse, conseguindo ficar impassível. Sua nova irmandade, entretanto, ficou encantada. Ou pelo menos parecia.

 

- E isso aí, garoto - alguém disse.

 

Clay suspeitava que, sob os sorrisos abertos e os ”é isso aí, garoto”, havia alguma inveja.

 

- Vinte e quatro mil - Carlos disse, fazendo a soma rapidamente.

 

- Podemos duplicar isso facilmente, chegando perto de cinquenta, o número que Ackerman calculou. Cinquenta mil por dois bilhões são quarenta mil dólares por caso. Nada mau para começar.

 

Clay fez um rápido cálculo de cabeça: quarenta mil dólares vezes seus três mil e duzentos casos daria algo superior a cento e vinte milhões. E a terça parte daquilo, bem, seu cérebro congelou e os joelhos bambearam.

 

- A companhia sabe quantos desses casos envolvem tumores malignos? - perguntou Bernie de Boston.

 

- Não, não sabe. Seu melhor palpite é cerca de um por cento.

 

- Isso significa quinhentos casos.

 

-Ao mínimo de um milhão de dólares cada um.

 

- Isso é outro meio bilhão.

 

- Um milhão de dólares é uma piada.

 

- Cinco milhões, um pequeno estalo, em Seattle.

 

- Estamos falando de ação de indenização.

 

Como era de esperar, cada advogado tinha uma opinião e as expressou ao mesmo tempo. Quando French restaurou a ordem, disse:

 

- Senhores, vamos comer.

 

O JANTAR FOI UM FIASCO. A mesa era uma tábua de madeira polida tirada de uma grande e majestosa árvore de bordo que viveu durante séculos até ser necessitada pela rica América. Acomodava pelo menos quarenta pessoas. Os dezoito advogados foram sensatamente espalhados. Do contrário, alguém poderia se desentender. Numa sala cheia de egos resplandecentes, onde cada um era o maior advogado criado por Deus, o falastrão mais irritante era Victor K. Brennan, um texano de Houston, corn voz alta e estridente. No terceiro ou quarto vinho, mais ou menos no meio dos grossos e suculentos bifes, Brennan começou a se queixar das baixas expectativas para cada caso individual. Ele tinha um cliente de quarenta anos que tinha ganho muito dinheiro e agora estava corn tumores malignos, graças ao Dyloft.

 

- Posso conseguir dez milhões do acordo e vinte milhões punitivos de qualquer júri, no Texas - ele se vangloriou.

 

A maioria dos outros concordou. Alguns até afirmaram que podiam ganhar mais dinheiro no seu território. French ficou firme, mantendo a teoria de que se alguns conseguissem milhões então as massas teriam muito pouco. Brennan não aceitou isso, mas foi incapaz de argumentar logicamente contra. Ele tinha uma vaga noção de que os Laboratórios Ackerman tinham muito mais dinheiro do que mostravam.

 

O grupo se dividiu nesse ponto, mas as linhas divisórias mudavam tão rapidamente e as lealdades eram tão temporárias que Clay tinha dificuldade para determinar de que lado cada um estava. French desafiou a opinião de Brennan de que os danos punitivos seriam fáceis de provar.

 

- Você tem os documentos, certo? - Brennan perguntou.

 

- Clay forneceu alguns documentos. Ackerman ainda não sabe. Seu pessoal não os viu. E talvez você não os veja se não ficar na coletiva.

 

As facas e os garfos ficaram imóveis quando os dezessete (menos Clay) começaram a gritar ao mesmo tempo. Os garçons saíram da sala. Clay quase podia vê-los na cozinha, inclinados sobre as mesas. Brennan queria brigar corn alguém. Wes Saulsberry não recuava. A linguagem deteriorou. E no meio da desordem, Clay olhou para a cabeceira da mesa e viu Patton French cheirar um copo corn vinho, tomar um pequeno gole, fechar os olhos e avaliar outro vinho.

 

A quantas daquelas brigas French tinha assistido? Provavelmente umas cem. Clay cortou um pedaço do bife.

 

Quando as coisas se acalmaram, Bernie, de Boston, contou uma piada sobre um padre católico e a sala explodiu em gargalhadas. A comida e o vinho foram degustados corn prazer por cerca de cinco minutos até Albert, de Topeka, sugerir a estratégia de forçar os Laboratórios Ackerman à falência. Ele tinha feito isso duas vezes corn resultados satisfatórios. Nas duas vezes as companhias visadas tinham usado as leis da falência para deixar de pagar os bancos e outros credores, desse modo sobrando mais dinheiro para Albert e seus mil clientes. Os que eram contra se manifestaram, Albert ficou ofendido e logo começou outra briga.

 

Eles brigavam por qualquer coisa - documentos outra vez, se deviam ou não exigir um julgamento, ignorando um acordo rápido, território, falsa propaganda, como conseguir outros casos, despesas, honorários. O estômago de Clay estava cheio de nós e ele não disse uma palavra. O resto parecia saborear imensamente a comida enquanto discutia dois ou três assuntos ao mesmo tempo.

 

Experiência, Clay pensou.

 

Depois do jantar mais longo da vida de Clay, French os levou para baixo, de volta à sala de bilhar onde os esperava o conhaque e mais charutos. Aqueles que tinham brigado e se ofendido durante três horas, agora bebiam e riam como irmãos de uma fraternidade. Na primeira oportunidade, Clay saiu discretamente da sala e, depois de muito esforço encontrou seu quarto.

 

O ”BARRY E HARRY” Show estava marcado para as 10 horas da manhã de sábado, corn tempo para todo mundo curar a ressaca e tomar um reforçado desjejum. French oferecia pescaria de truta e tiro ao prato, mas nenhum advogado se interessou.

 

Barry e Harry tinham uma firma em Nova York especializada em analisar as finanças das companhias alvos. Tinham fontes, contatos e espiões e a fama de tirar a pele e encontrar a verdade. French os trouxera de avião para a apresentação de uma hora.

 

- Isso nos custa duzentos mil - ele murmurou para Clay, corn orgulho - e faremos os Laboratórios Ackerman nos reembolsar. Imagine só.

 

O show era um trabalho de equipe, Barry fazendo os gráficos, Harry corn a ponteira, dois professores na cátedra. Os dois de frente para o pequeno teatro, um nível abaixo da sala de bilhar. Para variar, os advogados estavam em silêncio.

 

Os Laboratórios Ackerman tinham cobertura de seguro de pelo menos 500 milhões de dólares contra prejuízos e perdas em geral e outros 200 milhões de dólares de resseguro. A análise do fluxo de caixa era densa e precisou que Harry e Barry falassem ao mesmo tempo para completar. Números e porcentagens jorraram e logo afogaram todos na sala.

 

Falaram sobre o departamento de cosméticos de Ackerman que podia alcançar 600 milhões numa liquidação. Havia um departamento de plásticos, no México, que os Laboratórios queriam vender por 200 milhões. Levaram quinze minutos explicando a estrutura do débito da companhia.

 

Barry e Harry eram também advogados, desse modo entendidos em avaliar a possível reação de uma companhia ao desastre de uma ação de responsabilidade civil em massa contra algo como o Dyloft. Seria prudente para Ackerman fazer um acordo rapidamente, em estágios.

 

- Um acordo panqueca - Harry disse.

 

Clay tinha certeza de ser a única pessoa na sala que não tinha ideia do que era um acordo panqueca.

 

- O primeiro estágio seria dois bilhões para os queixosos do nível um - Harry continuou, misericordiosamente explicando os elementos desse plano.

 

- Achamos que eles podem fazer isso em noventa dias - Barry acrescentou.

 

- O segundo estágio seria meio bilhão para os queixosos do nível dois, corn tumores malignos, mas que não morreram ainda.

 

- E o terceiro estágio seria deixado em aberto por cinco anos para cobrir os casos de morte.

 

- Achamos que Ackerman pode pagar cerca de 2,5 a três bilhões, durante o próximo ano, depois mais meio bilhão durante cinco anos.

 

- Qualquer coisa além disso e vocês podem estar considerando um capítulo onze.

 

- O que não é aconselhável para essa companhia. Muitos bancos têm muitas hipotecas prioritárias.

 

- E uma falência deteria seriamente o fluxo de dinheiro. Levaria de três a cinco anos para se conseguir um acordo decente.

 

É claro, os advogados queriam conversar sobre o assunto por algum tempo. Vincent, de Pittsburgh, estava determinantemente resolvido a impressionar os outros corn seus conhecimentos de finanças, mas Harry e Barry logo o puseram no seu lugar. Depois de uma hora, eles saíram para pescar.

 

French tomou o lugar deles na frente da sala. Todos os argumentos estavam completos. As brigas tinham cessado. Era hora de concordar corn um plano.

 

O primeiro passo era juntar os outros casos. Cada um por si. Nenhuma barreira. Uma vez que tinham metade do total, havia ainda muitos queixosos Dyloft lá fora. Vamos encontrá-los. Procurem os pequenos advogados só corn vinte ou trinta casos, tragam para o rebanho. Façam o que for preciso para conseguir os casos.

 

O segundo passo será uma conferência corn os Laboratórios Ackerman sobre os acordos, dentro de sessenta dias. O Comité de Orientação dos Queixosos marcará a data e enviará avisos.

 

O terceiro passo será um esforço geral para manter todos na açao coletiva. A força está nos números. Os que preferirem sair da coletiva e quiserem um julgamento particular não terão acesso aos documentos letais. Era simples como isso. Dureza, mas era ação judicial.

 

Cada advogado na sala se opunha a uma parte do plano, mas a aliança não foi desfeita. Dyloft aparentemente seria o acordo mais rápido na história dos casos de ações indenizatórias em massa e os advogados farejavam o dinheiro.


A REORGANIZAÇÃO SEGUINTE da jovem firma ocorreu corn o mesmo caos da primeira e pelas mesmas razões - muitos clientes novos, muita papelada nova, falta de pessoal, uma cadeia de comando pouco clara e um estilo de administração incerto porque ninguém lá de cima jamais tinha administrado, corn exceção talvez da srta. Glick. Três dias depois de Clay voltar de Ketchum, Paulette e Jonah o procuraram no seu escritório corn uma longa lista de problemas urgentes. O motim estava no ar. Os nervos estavam desgastados e a fadiga piorava o que já não era born.

 

Segundo a melhor estimativa, a firma tinha agora 3.320 casos Dyloft e uma vez que esses casos eram novos em folha, todos precisavam de atenção imediata. Sem contar Paulette, que assumia corn relutância o papel de superintendente do escritório e sem contar Jonah, que passava dez horas por dia num sistema de cornputadores para acompanhar os casos, e é claro, sem contar Clay, porque ele era o patrão e tinha de dar entrevistas e viajar para Idaho, a firma tinha contratado dois advogados e agora tinha dez paralegais, nenhum corn mais de três meses de experiência, exceto Rodney.

 

- Não distingo quem é born e quem não é - Paulette disse. É cedo demais.

 

Ela estimava que cada paralegal podia se encarregar de cem a duzentos casos.

 

- Esses clientes estão assustados - ela disse. - Estão assustados porque têm os tumores. Estão assustados porque o Dyloft está em todos os jornais. Que diabo, estão assustados porque nós os deixamos mortos de medo.

 

- Querem que alguém fale corn eles - Jonah disse. - E querem um advogado no outro lado da linha, não um paralegal nervoso numa linha conjunta. Tenho a impressão de que logo estaremos perdendo clientes.

 

- Não vamos perder clientes - Clay disse, pensando em todos aqueles agradáveis tubarões que acabava de conhecer em Idaho e em como eles ficariam felizes se pudessem pegar seus clientes insatisfeitos.

 

- Estamos nos afogando na papelada - Paulette disse, pegando o bastão da corrida da mão de Rodney e ignorando Clay. Cada exame preliminar tem de ser analisado, depois verificado corn um acompanhamento. Neste momento, calculamos que temos cerca de quatrocentas pessoas que precisam de novo exame. Podem ser casos graves, podem estar morrendo, Clay. Mas alguém precisa coordenar corn os médicos os cuidados recebidos. Isso não está sendo feito, certo Clay?

 

- Estou ouvindo - ele disse. - De quantos advogados precisamos?

 

Paulette lançou um olhar cansado para Jonah:

 

- Dez? - ela disse.

 

- No mínimo dez -Jonah disse. - Dez por enquanto, imediatamente, e talvez mais depois.

 

- Estamos aumentando os anúncios - Clay disse.

 

Uma pausa longa e cansada enquanto Jonah e Paulette absorviam a informação. Clay os tinha informado sobre os pontos principais de Ketchum, mas não os detalhes. Garantiu a eles que cada caso que conseguiam logo estaria dando grande lucro, mas não falou nada sobre as estratégias dos acordos. Línguas soltas, ações judiciais soltas, French o tinha avisado e corn um pessoal inexperiente era melhor que não soubessem.

 

Uma firma de advocacia na mesma rua acabava de despedir trinta e cinco contratados. A economia estava fraca, os casos diminuindo, uma fusão corn outra firma estava em andamento; fosse qual fosse o motivo real, a história era notícia na capital porque o mercado de trabalho continuava à prova de bala. Suspensões temporárias. Na profissão do direito? Na capital?

 

Paulette sugeriu que contratassem alguns daqueles advogados despedidos - oferecendo contrato de um ano, sem promessas de nenhuma promoção ou aumento. Clay se ofereceu para dar os telefonemas na manhã seguinte. Ele também se encarregaria de alugar espaço para escritório, e dos móveis.

 

Jonah teve a ideia bastante original de contratar um médico por um ano, alguém para coordenar os exames e a evidência médica.

 

- Podemos procurar um recém-formado por cem mil por ano

- ele disse. - Ele não terá muita experiência, mas quem se importa? Não vai fazer cirurgia, apenas cuidar da papelada.

 

- Faça isso - Clay disse.

 

O item seguinte da lista de Jonah era a questão do Web site. Os anúncios o tinham tornado muito popular, mas eles precisavam de pessoal em tempo integral para as respostas. Além disso precisava ser atualizado quase semanalmente corn o desenvolvimento da ação coletiva e as últimas más notícias sobre o Dyloft.

 

- Todos esses clientes estão desesperados por informação, Clay - ele disse.

 

Para aqueles que não usavam a Internet, e Paulette calculava que pelo menos a metade dos clientes estava nesse grupo, um boletim informativo era crucial.

 

- Precisamos de uma pessoa em tempo integral para editar e enviar o boletim - ela disse.

 

- Você pode achar alguém?

 

- Suponho que sim.

 

- Pois então faça.

 

Ela olhou para Jonah, como se tudo que precisava ser dito devesse vir dele. Jonah jogou um bloco de notas na mesa e estalou as juntas dos dedos.

 

- Clay, estamos gastando muito dinheiro aqui - ele disse. Tem certeza de que sabe o que está fazendo?

 

- Não, mas acho que sim. Apenas confie em mim, está bem? Estamos prestes a ganhar muito dinheiro. Para isso, porém, temos de gastar algum.

 

- E você tem esse algum? - Paulette perguntou.

 

- Tenho.

 

PACE QUERIA TOMAR UM ÚLTIMO drinque num bar em Georgetown. Podiam ir a pé da casa de Clay. Ele ora estava na cidade, ora não estava, continuava muito vago como sempre sobre onde e qual o incêndio estava apagando. Tinha clareado seu guarda-roupa e agora usava marrom - sapatos marrons de bico fino, botas de pele de cobra, paletó marrom de seda. Parte do seu disfarce, Clay pensou. Na metade da primeira cerveja, Pace começou a falar no Dyloft, e ficou evidente que fosse qual fosse seu projeto atual ainda tinha algo a ver corn os Laboratórios Ackerman.

 

Clay, corn o entusiasmo do advogado novato, descreveu sua viagem ao rancho de French, a gangue de ladrões que tinha conhecido lá, o tumultuado jantar de três horas onde todos estavam embriagados e brigando ao mesmo tempo e o ”Show de Barry e Harry”. Não hesitou em contar os detalhes para Pace porque Pace sabia mais do que ninguém.

 

- Já ouvi falar de Barry e Harry - Pace disse, como se fossem personagens do submundo.

 

- Eles parecem conhecer o assunto e por duzentos mil devem conhecer.

 

Clay falou de Carlos Hernández, de Wes Saulsberry e de Damon Didier, seu novo companheiro no Comité de Orientação dos Queixosos. Disse que tinha ouvido falar de todos eles.

 

Na segunda cerveja Pace perguntou:

 

- Você vendeu Ackerman em aberto, certo? - Olhou em volta, mas ninguém estava ouvindo. Era um bar universitário e tinha pouca gente.

 

- Cem mil ações a quarenta e dois e cinquenta - Clay disse, corn orgulho.

 

- Ackerman hoje fechou a vinte e três.

 

- Eu sei. Faço as contas todos os dias.

 

- Está na hora de cobrir o aberto e comprar de volta. Amanhã, o mais cedo possível.

 

- Alguma coisa vai acontecer?

 

- Sim e enquanto está corn a mão na massa, compre todas que puder a vinte e três, depois espere a corrida.

 

- Para onde vai a corrida?

 

- Para o dobro.

 

Seis horas depois, Clay estava no escritório antes do nascer do sol, tentando se preparar para outro dia frenético. E também ansioso para que a bolsa abrisse. Sua lista de coisas para fazer tinha duas páginas, quase tudo relacionado corn a enorme tarefa de empregar imediatamente dez novos advogados e encontrar espaço para acomodar alguns deles. Parecia impossível, mas não tinha escolha. Telefonou para um corretor de imóveis às sete e meia e o tirou do chuveiro. Às oito e meia teve uma entrevista de dez minutos corn um advogado recentemente demitido chamado Oscar Mulrooney. O pobre homem fora um dos melhores alunos em Yale, depois recrutado para uma grande firma, e então perdeu o emprego quando uma megafirma implodiu. Estava também casado há dois meses e desesperado por um trabalho. Clay o empregou imediatamente por 75 mil dólares por ano. Mulrooney tinha quatro amigos, também de Yale, também à procura de emprego. Vá buscá-los.

 

Às 10 horas da manhã, Clay telefonou para seu corretor e cobriu a venda a descoberto das ações Ackerman, corn um lucro de 1,9 milhão de dólares e alguns trocados. No mesmo telefonema, ele retirou todo o lucro e comprou mais cem mil ações a 23 dólares, usando sua margem e algum crédito em conta. On-line ele acompanhou o movimento da bolsa toda a manhã. Nada mudou.

 

Oscar Mulrooney voltou ao meio-dia corn os amigos, todos ávidos como escoteiros. Clay empregou os outros e os encarregou da tarefa de alugar os móveis, ligar os telefones, fazer tudo que fosse preciso para começar as novas carreiras como advogados especializados em ações indenizatórias em massa. Oscar ficou corn a incumbência de contratar mais cinco advogados que teriam de procurar o espaço para seu escritório etc.

 

As 17 HORAS, HORA do Leste, Philo Products anunciou que compraria as ações dos Laboratórios Ackerman por 50 dólares cada uma, uma união de empresas no valor de 14 bilhões. Clay assistiu ao drama na tela grande da sala de reuniões, sozinho, porque todos os outros estavam atendendo aos benditos telefonemas. Os canais permanentes de movimento de dinheiro se alvoroçaram corn a notícia. A CNN mandou repórteres para White Plains, Nova York, para a sede dos Laboratórios Ackerman, onde ficaram na frente dos portões, como se a companhia sitiada fosse sair e chorar na frente das câmeras.

 

Uma fila interminável de peritos e analistas de mercado dava as opiniões mais desencontradas. O Dyloft foi mencionado logo no princípio e depois constantemente. Embora os Laboratórios Ackerman tivessem sido mal administrados durante anos, não havia dúvida de que o Dyloft conseguira jogá-los no abismo.

 

Philo seria o fabricante do Tarvan? O cliente de Pace? Clay teria sido manipulado para provocar a tomada do controle da empresa por 14 bilhões de dólares? E o que o preocupava mais, o que tudo isso significava para o futuro dos Laboratórios Ackerman e do Dyloft? Sem dúvida era emocionante calcular seus novos lucros corn as ações Ackerman, porém tinha de se perguntar se significava o fim do sonho Dyloft?

 

Mas a verdade era que não tinha meios de saber. Ele era um pequeno jogador num grande negócio entre duas empresas enormes. Os Laboratórios Ackerman tinham bens, Clay garantiu a si mesmo. E a empresa tinha fabricado um produto muito prejudicial que causou danos a muita gente. A justiça prevaleceria.

 

Patton French telefonou do avião, sobre algum lugar entre a Flórida e o Texas e pediu a Clay para ficar onde estava por uma hora, mais ou menos. O Comité de Orientação aos Queixosos precisava de uma reunião de emergência. Sua secretária estava organizando.

 

French voltou a telefonar depois de uma hora, já pousado em Beaumont onde, no dia seguinte, ia se encontrar corn advogados que tinham alguns casos de um medicamento contra o colesterol e queriam sua ajuda, casos corn toneladas de dinheiro, mas ele não conseguia encontrar o resto do comité orientador. Já tinha falado corn Barry e Harry em Nova York e eles não estavam preocupados corn a tomada do controle dos Laboratórios Ackerman pela Philo.

 

- Ackerman tem vinte milhões de ações, agora valendo pelo menos cinquenta dólares cada uma, mas talvez mais, antes da poeira assentar. A empresa acabava de captar mais de seiscentos milhões, só de equidade. Além disso, o governo tem de aprovar a fusão e tipicamente vai querer a ação judicial fora do caminho, antes de dizer sim. Philo também é uma empresa famosa por evitar os tribunais. Eles fazem o acordo rápida e silenciosamente.

 

Está parecendo Tarvan, Clay pensou.

 

- De um modo geral é uma boa notícia - Frendi disse, corn uni fax zunindo no fundo. Clay podia vê-lo andando de um lado para o outro no Gulfstream na rampa do Beaumont. - Eu o mantenho informado. - E ele desligou.


CRITTLE QUERIA ESBRAVEJAR, ser tranqíiilizado, fazer sermão, ensinar, mas seu cliente sentado do outro lado da mesa parecia completamente desinteressado dos números.

 

- Sua firma tem seis meses de vida - Crittle disse, olhando por cima dos óculos de leitura corn uma pilha de relatórios na frente dele. A evidência! Crittle tinha prova de que a firma butique dos escritórios de advocacia de J. Clay Cárter II estava de fato sendo dirigida por idiotas.

 

- Sua despesa fixa começou corn um impressionante setenta e cinco mil por mês. Três advogados, um assistente, uma secretária, aluguel alto, belo escritório. Agora é de meio milhão de dólares por mês, e aumentando a cada dia.

 

- Você tem de gastar para ganhar. - Clay disse, tomando café e sentindo prazer corn o desconforto do contador. Era sinal de que Crittle era um born contador, um homem que perdia mais sono pensando nas despesas do que o cliente.

 

- Mas você não está ganhando isso - Crittle disse cautelosamente. - Nenhuma renda nos últimos três meses.

 

- Foi um born ano.

 

- Oh, sim. Quinze milhões em honorários faz um ótimo ano. O problema é que está evaporando. Você gastou catorze mil dólares no mês passado em aluguel de jatos.

 

- Por falar nisso, estou pensando em comprar um. Quero que você faça os cálculos.

 

- Estou calculando agora mesmo. Você não pode justificar um jato.

 

- Não se trata disso. Trata-se de saber se eu posso ou não pagar.

 

- Não, você não pode pagar um jato.

 

- Espere um pouco, Rex. O socorro está vindo.

 

- Suponho que está falando dos casos Dyloft? Quatro milhões de dólares para anúncios. Três mil por mês para um Web site Dyloft. Agora três mil por mês para o boletim Dyloft. Todos aqueles assistentes em Manassas. Todos aqueles novos advogados.

 

- Eu acho que a. pergunta deve ser, devo fazer um leasing por cinco anos ou comprar direto?

 

- O quê?

 

- O Gulfstream.

 

- O que é um Gulfstream?

 

- O mais belo j ato particular do mundo.

 

- O que você vai fazer corn um Gulfstream? -Voar.

 

- Por que exatamente acha que precisa de um?

 

- É o preferido de todos os grandes advogados especializados em ações coletivas.

 

- Oh, isso faz sentido.

 

- Eu achei que você concordaria.

 

- Alguma ideia de quanto pode custar?

 

- Quarenta, quarenta e cinco milhões.

 

- Detesto dar a notícia, Clay, mas você não tem quarenta milhões.

 

- Tem razão. Acho que you só arrendar um.

 

Crittle tirou os óculos de leitura e massageou o nariz longo e fino, como se uma severa dor de cabeça estivesse começando ali.

 

- Escute, Clay, sou apenas seu contador. Mas não tenho certeza se alguém mais está aconselhando você a ir mais devagar. Vá corn calma, amigo. Você ganhou uma fortuna, aproveite. Não precisa de uma firma grande corn tantos advogados. Não precisa de jatos. O que vem depois? Um iate?

 

- Isso mesmo.

 

- Fala sério?

 

- Sim.

 

- Pensei que você detestasse barcos.

 

- Eu detesto. E para o meu pai. Posso barateá-lo?

 

-Não. .        

 

- Aposto que posso.

 

- Como?

 

- Eu o alugo quando não estiver usando.

 

Quando Crittle terminou de massagear o nariz, pôs os óculos e disse:

 

- O dinheiro é seu, amigo.

 

ELES SE ENCONTRARAM na cidade de Nova York, em território neutro, no sombrio salão de baile de um velho hotel perto do Central Park, o último lugar onde qualquer pessoa esperaria que fosse realizada uma reunião tão importante. De um lado da mesa estava o Comité Orientador dos Queixosos Dyloft, cinco homens, incluindo o jovem Clay que se sentia deslocado, e atrás deles vários assistentes, associados e office-boys, empregados do dr. Patton French. No outro lado da mesa estava a equipe Ackerman, liderada por Cal Wicks, um distinto veterano, flanqueado por um número igual de auxiliares.

 

Uma semana antes o governo tinha aprovado a fusão corn Philo Products, a 53 dólares a ação, o que para Clay significava outro lucro, cerca de seis milhões. Ele depositou metade fora do país, para nunca ser tocado. Assim a veneranda empresa fundada há um século pelos irmãos Ackerman estava para ser absorvida pela Philo, uma empresa corn apenas metade da sua renda anual, mas muito menos dívidas e uma administração muito mais brilhante.

 

Quando Clay se sentou, espalhou suas pastas na mesa, tentando se convencer de que, sim, que diabo, ele pertencia àquele grupo, notou alguns olhares severos no outro lado da mesa. Finalmente, o pessoal dos Laboratórios Ackerman estava vendo em pessoa o jovem arrivista da capital que tinha começado seu pesadelo Dyloft.

 

Patton French podia ter um grande grupo de apoio, mas não precisava. Ele se encarregou da primeira sessão e logo todos ficaram de boca fechada, corn exceção de Wicks, que falava só quando era necessário. Passaram a manhã enumerando os casos Dyloft. A coletiva Biloxi tinha 36.700 queixosos. Um grupo de advogados renegados, da Geórgia, tinha 5.200 e ameaçava terminar a corrida corn outra ação coletiva. French tinha certeza de que podia dissuadi-los. Outros advogados tinham se desligado da coletiva e planejavam julgamentos separados, mas French também não se preocupava corn eles. Não tinham os documentos cruciais, e jamais os teriam.

 

Os números jorravam e logo Clay ficou entediado corn tudo aquilo. O único número que importava para ele era 5.380, sua parte do Dyloft. Continuava corn mais do que qualquer advogado sozinho, mas French havia diminuído brilhantemente a distância entre os dois corn mais de 5 mil.

 

Depois de três horas de estatísticas, concordaram em uma hora para almoço. O Comité dos Queixosos subiu para uma suíte, onde comeram sanduíches e tomaram só água. French imediatamente pegou o telefone, falando e gritando ao mesmo tempo. Wes Saulsberry queria um pouco de ar fresco e convidou Clay para uma volta rápida no quarteirão. Andaram pela Quinta Avenida, no outro lado do parque. Estavam em meados de novembro, o ar frio e claro, as folhas levadas pelo vento na rua. Um belo tempo para estar na cidade.

 

- Eu adoro vir para cá e adoro ir embora - Saulsberry disse. No momento, são oito e cinco em Nova Orleans, a umidade ainda em noventa por cento.

 

Clay apenas ouvia. Estava muito preocupado corn a excitação do momento, o acordo que estava para sair dentro de poucas horas, os enormes honorários, a completa liberdade de ser jovem, solteiro e tão rico.

 

- Quantos anos você tem, Clay? - Wes perguntou.

 

- Trinta e um.

 

- Quando eu tinha trinta e três, meu sócio e eu fizemos o acordo da explosão de um navio petroleiro por uma tonelada de dinheiro. Um caso horrível, doze homens queimados. Dividimos igualmente vinte e oito milhões de honorários. Meu sócio pegou seus catorze milhões e se aposentou. Eu investi em mim mesmo. Comprei uma firma de advocacia cheia de dedicados advogados criminais, pessoas realmente talentosas que gostavam do que faziam. Construí um prédio no centro da cidade de Nova Orleans e continuei contratando as melhores pessoas que podia encontrar. Agora somos mais de noventa advogados e nos últimos dez anos ganhamos oitocentos milhões em honorários. Meu antigo sócio? Um caso triste. Você não se aposenta corn trinta e três anos, não é normal. A maior parte do dinheiro desapareceu. Três casamentos errados. Problemas de jogo. Eu o empreguei dois anos atrás como assistente, corn um salário de sessenta mil por ano e ele não vale isso.

 

- Não penso em me aposentar - Clay mentiu.

 

- Não se aposente. Você está para ganhar uma tonelada de dinheiro e merece. Aproveite. Compre um avião, compre um belo barco, um condomínio na praia, um lugar em Aspen, todos os brinquedos. Mas traga dinheiro verdadeiro para sua firma. Ouça o conselho de um cara que esteve lá.

 

- Obrigado, eu acho.

 

Entraram na Setenta e Três e seguiram para o leste. Saulsberry não tinha terminado.

 

- Você sabe alguma coisa dos casos da tinta corn chumbo?

 

- Não realmente.

 

- Não são tão famosos quanto os casos de medicamentos, mas um bocado lucrativos. Lancei a moda há uns dez anos. Nossos clientes são escolas, igrejas, hospitais, prédios comerciais, todos corn camadas de tinta corn chumbo nas paredes. Uma coisa muito perigosa. Processamos os fabricantes da tinta, fizemos acordos corn alguns. Uns dois bilhões até agora. Durante a descoberta contra uma empresa descobri outra bela fraude em massa que talvez o interesse. Não posso tratar do caso por causa de alguns conflitos.

 

- Estou ouvindo.

 

- A empresa é em Reedsburg, Pensilvânia, e fabrica a argamassa usada por pedreiros nas construções de novas casas. Coisa de técnica muito inferior, mas uma mina de ouro em potencial. Parece que eles estão tendo problemas corn a argamassa. Uma remessa ruim. Depois de uns três anos, começa a esfarelar. Quando a argamassa se quebra, os tijolos começam a cair. Os casos estão todos na área de Baltimore, provavelmente umas mil casas. E apenas começam a ser notados.

 

- Qual o valor das indenizações?

 

- Custa aproximadamente quinze mil para consertar cada casa.

 

Quinze mil vezes duas mil casas. Um contrato de um terço e os honorários dos advogados saem por dez milhões; Clay estava ficando rápido nos cálculos.

 

- A prova será fácil - Saulsberry disse. - A empresa sabe que está exposta. Um acordo não deve ser problema.

 

- Eu gostaria de dar uma olhada.

 

- Mando o dossiê para você, mas tem de proteger minha confidência.

 

- Você fica corn uma parte?

 

- Não. É meu pagamento pelo Dyloft. E é claro, se você tiver oportunidade de retribuir o favor algum dia, então ficarei muito agradecido. É assim que alguns de nós trabalhamos, Clay. A irmandade dos advogados especializados em ação indenizatória coletiva está cheia de cortadores de gargantas e egomaníacos, mas alguns de nós tentam cuidar uns dos outros.

 

No FIM DA TARDE, os Laboratórios Ackerman concordaram corn um mínimo de 62 mil dólares para cada um do Grupo dos Queixosos Dyloft, aqueles corn tumores benignos que podiam ser removidos corn uma cirurgia relativamente fácil, que também seria paga pela empresa. Aproximadamente quarenta mil queixosos pertenciam a essa classe e o dinheiro estaria disponível imediatamente. Grande parte da discussão que se seguiu envolvia o método a ser usado na qualificação para o acordo. Uma briga feroz explodiu quando o assunto dos honorários dos advogados foi posto em pauta. Como muitos dos outros advogados, Clay tinha um contrato de contingência que dava a ele um terço de qualquer quantia recuperada, mas em acordos como aquele essa porcentagem era normalmente reduzida. Uma fórmula muito complicada foi usada e discutida, corn French extremamente agressivo. Afinal era seu dinheiro. Ackerman finalmente concordou corn 28 por cento para os honorários do Grupo Um.

 

O Grupo Dois de queixosos consistia nos que tinham tumores malignos e como o tratamento levaria meses ou anos, o açordo ficaria em aberto. Não foi determinada nenhuma quantia para esses danos, evidência de que Philo Products garantia à Ackerman algum dinheiro extra. Os advogados receberiam 25 por cento no Grupo Dois, mas Clay não entendia por que French estava fazendo cálculos corn tanta pressa.

 

Os queixosos do Grupo Três eram os do Grupo Dois que morriam por causa do Dyloft. Uma vez que até então ninguém tinha morrido, essa classe foi deixada em aberto. Os honorários foram calculados em 22 por cento.

 

A reunião terminou às sete horas, corn o plano de continuar no dia seguinte para acertar os detalhes para os Grupos Dois e Três. Quando desciam no elevador, French entregou a Clay um impresso de computador.

 

- Não foi um mau dia de trabalho - ele disse corn um sorriso. Era um sumário dos casos de Clay e dos honorários antecipados, incluindo mais sete por cento por seu desempenho no Comité de Orientação dos Queixosos.

 

Seus honorários previstos, só do Grupo Um, eram de 106 milhões.

 

- Quando finalmente ele ficou sozinho foi para a janela do seu quarto e viu a noite cair sobre o Central Park. Evidentemente o Tarvan não o tinha preparado para o choque da riqueza instantânea. Clay ficou muito tempo na janela, atordoado, sem fala, gelado, enquanto pensamentos desencontrados entravam e saíam rapidamente da sua cabeça severamente sobrecarregada. Tomou duas garrafinhas de uísque do minibar, sem nenhum efeito.

 

Ainda na janela, telefonou para Paulette, que atendeu na metade do primeiro toque.

 

- Fale comigo - ela disse, quando reconheceu a voz dele.

 

- Fim do primeiro round - Clay disse.

 

- Não venha corn rodeios!

 

- Você acaba de ganhar dez milhões de dólares - ele disse, as palavras saindo da sua boca, mas corn uma voz que pertencia a outra pessoa.

 

- Não minta para mim, Clay - foi só o que ela disse.

 

- E verdade. Não estou mentindo.

 

Fez-se uma pausa e ela começou a chorar. Clay recuou, sentou na beirada da cama e por um momento teve vontade de chorar também.

 

- Ó, meu Deus - ela conseguiu dizer duas vezes.

 

- Ligo outra vez daqui a poucos minutos - Clay disse.

 

Jonah ainda estava no escritório. Ele começou a gritar ao telefone, depois o largou e foi buscar Rodney. Clay os ouviu falando. Uma porta bateu. Rodney pegou o telefone e disse:

 

- Estou ouvindo.

 

- Sua parte é de dez milhões - Clay disse, pela terceira vez, bancando Papai Noel como nunca mais bancaria na vida.

 

- Misericórdia, misericórdia, misericórdia - Rodney dizia. Jonah gritava alguma coisa atrás dele.

 

- Difícil de acreditar - Clay disse. Por um momento ele viu Rodney sentado à sua velha mesa no GDP, pastas e papéis por toda parte, fotos da mulher e dos filhos pregadas na parede, um born homem trabalhando duro e ganhando pouco.

 

O que ele ia dizer para a mulher quando telefonasse dentro de alguns minutos?

 

Jonah pegou uma extensão e eles conversaram por algum tempo sobre a conferência do acordo - quem estava lá, onde foi, como foi. Não queriam parar, mas Clay disse que tinha prometido ligar outra vez para Paulette.

 

Quando ele acabou de dar a notícia, sentou na beirada da cama por um longo tempo, triste por não ter mais ninguém para telefonar. Podia ver Rebecca e ouvir sua voz, senti-la e tocá-la. Podiam comprar uma casa na Toscana ou em Maui, ou onde ela quisesse. Podiam viver felizes corn uma dezena de filhos e sem os sogros, corn babás e empregados e cozinheiros e talvez até um mordomo. Ele a mandaria para casa duas vezes ao ano por jato, para que ela pudesse brigar corn os pais.

 

Ou talvez os Van Horns não fossem tão horrorosos corn mais ou menos cem milhões na família, longe do seu alcance, mas suficientemente perto para se vangloriar.

 

corn os músculos tensos, Clay digitou o número. Era quartafeira, uma noite calma no clube de campo. Sem dúvida ela estava no seu apartamento. Depois de três toques, ela disse ”Alo” e ao som da sua voz Clay sentiu seu corpo amolecer.

 

- Oi, é Clay - ele disse, tentando parecer casual. Nem uma palavra em seis meses, mas o gelo foi imediatamente quebrado.

 

- Olá, estranho - ela disse. Cordial.

 

- Como vai você?

 

- Muito bem, ocupada como sempre. Você?

 

- A mesma coisa. Estou em Nova York, tratando de alguns casos.

 

- Ouvi dizer que as coisas vão bem para você. Era dizer pouco.

 

- Nada mal. Não posso me queixar. Como vai seu emprego?

 

- Ainda tenho seis dias.

 

- Vai sair?

 

- you. Vai haver um casamento, você sabe.

 

- Foi o que ouvi. Quando?

 

- Vinte de dezembro.

 

- Não recebi convite.

 

- Bem, eu não mandei. Não achei que ia querer vir.

 

- Provavelmente não. Tem certeza de que quer casar?

 

- Vamos falar de outra coisa.

 

- Na verdade, não há outra coisa.

 

- Está saindo corn alguém?

 

- As mulheres me perseguem por toda a cidade. Onde você conheceu esse cara?

 

- E você comprou uma casa em Georgetown?

 

- Isso já faz tempo. - Mas ficou satisfeito vendo que ela sabia. Talvez ela estivesse curiosa sobre seu novo sucesso. - Esse cara é um verme - ele disse.

 

- Ora, Clay. Vamos manter a coisa calma.

 

- Ele é um verme e você sabe disso, Rebecca.

 

- Vou desligar agora.

 

- Não case corn ele, Rebecca. Dizem por aí que ele é gay.

 

- Ele é um verme. Ele é gay. O que mais? Descarregue tudo, Clay, assim se sentirá melhor.

 

- Não faça isso, Rebecca. Seus pais vão devorá-lo vivo. Além disso, seus filhos serão parecidos corn ele. Um bando de pequenos vermes.

 

A linha estava vazia.

 

Clay deitou na cama e olhou para o teto, ainda ouvindo a voz de Rebecca e de repente compreendeu, atónito, o quanto sentia falta dela. Assustou-se quando o telefone tocou. Era Patton French, no saguão, corn uma limusine esperando. Jantar e vinho nas três horas seguintes. Alguém tinha de fazer aquilo.


TODOS OS PARTICIPANTES JURARAM guardar segredo. Documentos grossos foram assinados pelos

 

advogados, prometendo completo sigilo a respeito das negociações e acordos Dyloft. Antes de deixarem Nova York, Patton French disse ao seu grupo: ”Estará nos jornais dentro de quarenta e oito horas. Philo vai dar a informação e suas ações subirão.”

 

Na manhã seguinte, o The Wall Street Journal publicou a reportagem, é claro, pondo toda a culpa nos advogados. ADVOGADOS DE RESPONSABILIDADE CIVIL FORÇAM RÁPIDO ACORDO DYLOFT, dizia a manchete. Fontes não-identificadas tinham muito a dizer. Os detalhes eram precisos. Um fundo de 2,5 bilhões será instituído para o primeiro round de acordos, corn outro potencial de 1,5 bilhão como reserva para casos mais sérios.

 

As ações de Philo Products abriram em 82 dólares e logo saltaram para 85. Um analista disse que os investidores ficaram aliviados corn a notícia do acordo. A empresa poderia controlar os custos da ação judicial. Nada de longos processos. Nada de ameaça de veredictos absurdos. Os advogados de tribunal foram contidos neste caso e fontes não identificadas na Philo cantavam vitórias. Clay acompanhou o noticiário na televisão do seu escritório.

 

Também se encarregou dos repórteres. Às onze horas, chegou um de The Journal corn um fotógrafo. Durante as preliminares, Clay viu que ele sabia tanto sobre os acordos quanto o próprio Clay.

 

- Essas coisas nunca ficam em segredo - ele disse. - Sabemos em qual hotel vocês se esconderam.

 

corn o gravador desligado, Clay respondeu a todas as perguntas. Então quando estava sendo gravado, ele não fez nenhum comentário sobre o acordo. Ofereceu algumas informações sobre si mesmo, sua rápida subida das profundezas do GDP a zilionário da responsabilidade civil em poucos meses e a firma que estava formando etc. Ele podia ver a história se formando e seria espetacular.

 

Na manhã seguinte ele leu a reportagem on-line, antes do sol nascer. Lá estava seu rosto em um daqueles famosos desenhos horríveis do The Journal e bem em cima a manchete O REI DAS FRAUDES, DE 40 MIL DÓLARES A 100 MILHÕES EM SEIS MESES. E o subtítulo: ”Você tem de adorar a lei!”

 

Era uma reportagem longa e toda sobre Clay. A história da sua vida, crescendo na capital, seu pai, a Faculdade de Direito Georgetown, citações generosas de Glenda e Jermaine sobre seu trabalho no GDP, o comentário de um professor há muito esquecido, um breve resumo do caso Dyloft. A melhor parte era uma longa conversa corn Patton French, na qual o ”famoso advogado especializado em causas indenizatórias coletivas” descrevia Clay como nosso ”brilhante e jovem astro” e ”destemido” e ”uma nova e importante força a ser considerada”. ”As grandes empresas da América deviam tremer ao ouvir seu nome”, continuava o elogio bombástico. E finalmente: ”Sem dúvida, Clay é o mais novo Rei da Fraude.”

 

Ele leu duas vezes, depois enviou por e-mail para Rebecca corn uma nota em cima e embaixo: ”Rebecca, Por Favor Espere, Clay.” Mandou para o apartamento e para o escritório dela e aproveitando o texto, retirou a mensagem pessoal e enviou por fax para os escritórios do grupo BVH. Faltava um mês para o casamento.

 

Quando finalmente Clay chegou ao escritório, a srta. Glick entregou a ele uma pilha de mensagens - cerca de metade, dos amigos da faculdade que, brincando, pediam empréstimos, e metade de jornalistas de todos os tipos. O escritório estava mais caótico que de hábito. Paulette, Jonah e Rodney ainda flutuavam, completamente desligados. Todos os clientes queriam o dinheiro naquele dia.

 

Felizmente, foi a Divisão Yale, orientada pelo brilhantismo emergente do dr. Oscar Mulrooney que se encarregou da tarefa e fez um plano para sobreviver até que o acordo tivesse sido feito. Clay passou Mulrooney para um escritório no fim do corredor, dobrou seu salário e o deixou encarregado do caos. Clay precisava de um descanso.

 

PORQUE O PASSAPORTE DE JARRETT CÁRTER fora discretamente confiscado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, seus movimentos eram de certo modo limitados. Ele nem sabia ao certo se podia voltar ao país, pois durante aqueles seis anos nunca tinha tentado. O ”arranjo” que o fez sair da cidade sem uma acusação formal era um tanto vago. ”Acho melhor ficar nas Bahamas”, ele disse para Clay, ao telefone.

 

Saíram de Ábaco num Cessna Citation V, outro brinquedo da frota que Clay tinha descoberto. Dirigiam-se para Nassau, a trinta minutos de viagem. Jarrett esperou o avião levantar voo para dizer:

 

- Muito bem, comece a falar.

 

Já estava bebendo cerveja, corn um velho short, sandálias e um velho boné de pescador, a imagem perfeita do expatriado banido para as ilhas e levando vida de pirata.

 

Clay abriu uma cerveja, começou corn o Tarvan e acabou corn o Dyloft. Jarrett tinha ouvido rumores do sucesso do filho, mas nunca lia jornais e tentava do melhor modo possível ignorar as notícias de casa. Outra cerveja enquanto tentava digerir a ideia de ter cinco mil clientes de uma vez.

 

Os 100 milhões de dólares o fizeram fechar os olhos, empalidecer, ou pelo menos parecer um pouco menos bronzeado de sol e desenharam uma onda de rugas grossas na testa curtida de sol. Ele balançou a cabeça, tomou alguns goles de cerveja e começou a rir.

 

Clay pressionou, resolvido a terminar antes do avião pousar.

 

- O que você está fazendo corn o dinheiro? - Jarrett perguntou, ainda em choque.

 

- Gastando feito louco.

 

Fora do aeroporto de Nassau encontraram um táxi, um Cadillac 1974, amarelo, corn o taxista fumando maconha. Ele os levou em segurança ao Sunset Hotel and Casino, em Paradise Island, de frente para o porto de Nassau.

 

Jarrett foi para as mesas de vinte e um corn os cinco mil dados pelo filho. Clay foi para a piscina e para o creme de bronzear. Ele queria sol e biquinis.

 

O BARCO ERA UM catamarã de sessenta e três pés feito por um ótimo fabricante de barcos em Fort Lauderdale. O capitão/vendedor era um velho e rabugento britânico chamado Maltbee corn um amigo esquelético das Bahamas como marinheiro. Maltbee ranzinzou e se agitou até saírem do porto de Nassau e entrarem na baía. Rumaram para a ponta sul do canal durante meio dia, no sol brilhante e na água calma, uma longa viagem experimental para um barco corn o qual, segundo Jarrett podia-se ganhar um born dinheiro.

 

Quando os motores foram desligados e as velas içadas, Clay desceu para examinar a cabine. Supostamente podia acomodar oito pessoas, mais um ou dois membros da tripulação. Apertada, mas tudo era em tamanho pequeno. O chuveiro mal dava para virar o corpo. A suíte principal caberia no menor closet. A vida num veleiro.

 

Segundo Jarrett, era impossível ganhar dinheiro corn a pesca. Era um negócio esporádico. Precisaria de um afretamento por dia para ter lucro, mas isso dava muito trabalho. Era impossível manter tarefeiros. As gorjetas nunca eram suficientes. A maioria dos clientes era tolerável, mas havia um grande número de insuportáveis. Há cinco anos ele era capitão de barco alugado e começava a sentir o peso do trabalho.

 

O verdadeiro dinheiro estava no arrendamento de um veleiro particular para pequenos grupos de gente rica que queria trabalhar, não ser servido. Marinheiros amadores compenetrados. Arranje um barco grande, de preferência sem nenhuma hipoteca e veleje no Caribe uma vez por mês. Jarrett tinha um amigo de Freeport corn dois barcos desse tipo há anos e estava ganhando muito dinheiro. Os clientes mapeavam o curso, escolhiam suas equipes e sua rota, os cardápios e as bebidas e saíam corn um capitão e um piloto para um mês de viagem.

 

- Dez mil dólares por semana - Jarrett disse. - Além disso você está velejando, desfrutando o vento, o sol e o mar, indo a lugar algum. Ao contrário da pesca, onde você tem de pegar um grande marlin, do contrário todo mundo fica furioso.

 

Quando Clay saiu da cabine, Jarrett estava no timão, parecendo muito à vontade, como se há anos viesse pilotando iates. Clay foi para o convés e se deitou ao sol.

 

Encontraram algum vento e começaram a cortar a água lisa para o leste, ao longo da baía, corn Nassau desaparecendo a distância. Clay estava só de short, coberto corn creme de bronzear. Estava quase dormindo quando Maltbee apareceu ao seu lado.

 

- Seu pai disse que você é o homem do dinheiro. - Os olhos dele estavam escondidos atrás das grossas lentes dos óculos escuros.

 

- Acho que ele está certo - Clay disse.

 

- Este é um barco de quatro milhões de dólares, praticamente novo, um dos nossos melhores. Construído por um daqueles arrivistas que gastavam seu dinheiro mais depressa do que ganhavam. Um bando de infelizes, se quer minha opinião. De qualquer modo estamos empatados corn ele. O mercado está fraco. Se vendermos por três milhões seremos acusados de roubo. Se incorporarmos o barco às leis das Bahamas numa empresa de arrendamento, há uma porção de truques corn impostos. Não posso explicar quais são, mas temos um advogado em Nassau que se encarrega da papelada. Quando se consegue pegá-lo sóbrio.

 

- Eu sou advogado.

 

- Então por que está sóbrio?

 

Ha, ha, ha. Os dois riram, meio embaraçados.

 

- E o que me diz do barateamento? - Clay perguntou.

 

- Pesado, muito pesado, mas afinal isso é para vocês, advogados. Sou apenas um vendedor. Mas acho que seu velho gosta do barco. Barcos como este estão na moda desde as Bermudas até a América do Sul. Eles dão dinheiro.

 

E o que diz o vendedor e um mau vendedor. Se Clay cornprasse um barco para o pai, seu único sonho era que fosse uma coisa melhor, não que se tornasse um buraco negro. Maltbee desapareceu tão bruscamente quanto tinha aparecido.

 

Três dias depois, Clay assinou um contrato para pagar 2,9 milhões de dólares pelo barco. O advogado que, na verdade, não estava completamente sóbrio durante os dois encontros corn Clay, o registrou na empresa arrendadora das Bahamas, só no nome de Jarrett. O barco era um presente de filho para pai, um bem para ser escondido nas ilhas, como o próprio Jarrett.

 

Durante o jantar na última noite dos dois em Nassau, nos fundos de um bar cheio de traficantes, sonegadores de impostos e de pensões, praticamente todos americanos, Clay descascando pernas de caranguejos, finalmente fez a pergunta que há semanas queria fazer.

 

- Alguma chance de você algum dia voltar aos Estados Unidos?

 

- Para quê?

 

- Para exercer advocacia. Para ser meu sócio. Para processar e chutar traseiros outra vez.

 

Jarrett sorriu. A ideia de pai e filho trabalhando juntos. A ideia de que Clay queria que ele voltasse para um escritório, para uma coisa respeitável. O filho vivera sob uma nuvem negra deixada pelo pai. Porém, dado seu recente sucesso, a nuvem certamente estava desaparecendo.

 

- Eu duvido, Clay. Renunciei à minha licença e prometi ficar longe.

 

- Você gostaria de voltar?

 

- Talvez para limpar meu nome, mas nunca para praticar novamente a advocacia. A bagagem é muito grande, são muitos os velhos inimigos ainda na espreita. Estou corn cinquenta e cinco anos e é um pouco tarde para recomeçar.

 

- Onde você estará daqui a dez anos?

 

- Não penso nisso. Não acredito em calendários e horários e listas de coisas para fazer. Determinar objetivos é um hábito americano completamente idiota. Não serve para mim. Tento viver o dia de hoje, talvez corn um ou dois pensamentos para amanhã, isso é tudo. Planejar o futuro é completamente ridículo.

 

- Desculpe por ter perguntado.

 

- Viva o momento, Clay. O amanhã cuidará de si mesmo. Você tem as mãos cheias agora, suponho.

 

- O dinheiro deve me manter ocupado.

 

- Não jogue fora, filho. Sei que isso parece impossível, mas ficaria surpreso. Novos amigos vão aparecer por toda parte. As mulheres cairão do céu.

 

- Quando?

 

- Espere só. Certa vez li um livro - FooVs Golã [Tolos do ouro] - ou coisa parecida. Uma história depois de outra sobre grandes fortunas perdidas pelos idiotas que as ganharam. Leitura fascinante. Tenho o livro ainda.

 

- Acho que you passar.

 

Jarrett pôs um camarão na boca e mudou de assunto.

 

- Você vai ajudar sua mãe?

 

- Provavelmente não. Ela não precisa de ajuda. O marido dela é rico, está lembrado?

 

- Quando falou corn ela?

 

- Há onze anos, pai. Por que quer saber?

 

- Só por curiosidade. É estranho. Você casa corn uma mulher, vive corn ela durante vinte e cinco anos e às vezes gostaria de saber o que ela está fazendo.

 

- Vamos falar de outra coisa.

 

- Rebecca?

 

- Depois.

 

- Vamos para as mesas de dados. Tenho ainda quatro mil dólares.

 

QUANDO O SR. TED WORLEY de Upper Marlboro, Maryland, recebeu um grosso envelope dos escritórios de advocacia de J. Clay Cárter II, abriu imediatamente. Tinha visto várias reportagens sobre o acordo Dyloft. Acompanhava o Web site Dyloft religiosamente, esperando o sinal de que estava na hora de receber seu dinheiro dos Laboratórios Ackerman.

 

A carta começava: ”Caro Sr. Worley. Parabéns. Sua demanda da açao coletiva contra os Laboratórios Ackerman foi resolvida no Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o distrito Sul do Mississippi. Como Queixoso do Grupo Um, sua parte do acordo é de 62 mil dólares. Segundo o Contrato para Serviços Legais, feito entre o senhor e esta firma de advocacia, 28 por cento de contingência para honorários de advogados é agora aplicável. Além disso, uma dedução de 1.400 dólares para despesas de litígio foi aprovada pelo tribunal. Sua parte líquida é de 43.240 dólares. Por favor, assine o acordo anexo e os formulários e os devolva imediatamente no envelope anexo. Sinceramente, Oscar Mulrooney, advogado.”

 

- Cada vez um advogado diferente - o Sr. Worley disse, folheando as páginas. Havia uma cópia da ordem do tribunal, aprovando o acordo, um aviso a todos os queixosos da ação coletiva e alguns outros papéis que de repente ele não sentiu vontade de ler.

 

43.240 dólares! Essa era a grande quantia que ia receber de uma gigantesca e descuidada empresa farmacêutica que lançara deliberadamente no mercado um medicamento que tinha provocado a formação de quatro tumores na sua bexiga? 43.240 dólares por meses de medo, estresse e incerteza sobre viver ou morrer?

43.240 dólares pela penosa experiência de um bisturi microscópico e um microscópio inseridos através do pênis, na sua bexiga, de onde os quatro tumores foram removidos um a um, também através do pênis? 43.240 dólares por três dias corn caroços e sangue na urina?

 

Ele estremeceu lembrando.

 

Telefonou seis vezes, deixou seis mensagens e esperou seis horas pelo telefonema do dr. Mulrooney.

 

- Quem diabo é você? - O sr. Worley começou, agradavelmente.

 

Oscar Mulrooney, nos últimos dez dias, se tornara um perito em lidar corn aquele tipo de telefonema. Explicou que era o advogado encarregado do caso do sr. Worley.

 

- Esse acordo é uma piada! - o sr. Worley disse. - Quarenta e três mil dólares é um crime!

 

- Seu acordo é de 62 mil dólares, Sr. Worley - Oscar disse.

 

- Estou recebendo quarenta e três, filho.

 

- Não, o senhor está recebendo sessenta e dois mil. O senhor concordou em dar um terço ao seu advogado, sem o qual não estaria recebendo coisa alguma. Foi reduzido a 28 por cento pelo acordo. A maioria dos advogados cobra cinquenta por cento.

 

- Muito bem, não sou um infeliz de sorte? Não you aceitar. Então Oscar ofereceu uma breve e bem ensaiada narrativa sobre como os Laboratórios Ackerman só podiam pagar essa quantia sem ir à falência, o que deixaria o sr. Worley corn menos ainda, se recebesse alguma coisa.

 

- Isso é ótimo - disse o sr. Worley. - Mas não you aceitar o acordo.

 

- O senhor não tem escolha.

 

- Uma ova que não tenho.