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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O REMANESCENTE / Tim LaHaye e Jerry B. Jenkins
O REMANESCENTE / Tim LaHaye e Jerry B. Jenkins

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O REMANESCENTE

 

             Duas bombas e um míssil. Um só alvo. Só um milagre poderá salvá-los!

            A Terra, agora, completamente devastada após 3 anos e meio sob o domínio do anticristo, é apenas uma lembrança de sua beleza original e se arrasta sob o peso dos terríveis julgamentos vindos do céu.

            A fúria de Nicolae Carpathia inflama-se cada vez mais contra todos aqueles que não juraram total lealdade a ele. E chegada a hora de sua vingança. Seus inimigos aglomeram-se no lugar ideal para uma destruição em massa. Ninguém poderá sair vivo dali, a não ser por milagre.

            Todas as máscaras caem por terra, inclusive a do anticristo, enquanto o planeta caminha a passos largos rumo ao Armagedom - a última batalha entre o bem e o mal.

 

 

            Se Rayford não estivesse tão apavorado, ele teria gos­tado de ver que Tsion era a mesma pessoa, tanto no Edifício Strong quanto sob o sol da Jordânia. Somente Abdullah e Rayford, com seus mantos, tinham a aparência de homens do Oriente Médio. Tsion parecia mais um professor enrugado.

            - Quem é o seu piloto? - indagou um guarda da CG. Tsion apontou com a cabeça para Abdullah, e eles foram conduzidos a um helicóptero. Assim que levantaram vôo, Rayford ligou para Chloe [na Grécia].

            - Onde você está? - ele perguntou.

            - Estamos na estrada, papai, mas alguma coisa está errada. Mac teve de fazer uma ligação direta neste veículo.

            - Chang não pediu ao sujeito que deixasse as chaves?

            - Parece que não. E você conhece Mac muito bem. Ele vai descer e pegar uma carona com outro veículo da CG, enquanto nós duas vamos rodar felizes de carro pela cidade, tentando passar por emissárias de Nova Babilônia à procura de judaístas.

            - Você está preparada?

            - Se estou preparada? Por que você não me obrigou a ficar em Chicago com minha família? Que tipo de pai você é?

            Rayford sabia que a filha estava brincando, mas não foi capaz de rir.

            - Não me faça sentir remorso - ele lhe pediu.

            - Não se preocupe, papai. Não vamos sair daqui sem Sebastian.

 

            Quando Abdullah se aproximou de Petra, Chaim estava no lugar alto, com 250 mil pessoas, do lado de dentro, e 750 mil, do lado de fora, acenando para o helicóptero. Um enorme espaço plano havia sido preparado como heliporto. O povo cobriu o rosto quando o helicóptero levantou uma nuvem de poeira ao pousar. Assim que o motor foi desligado e a poeira se dissipou, o povo começou a aplaudir e a gritar, enquanto Tsion descia e acenava timidamente.

            - Dr. Ben-Judá, nosso mestre e mentor, e homem de Deus! - anunciou Chaim.

            Rayford e Abdullah desceram sem ser notados e se senta­ram sobre uma laje. Tsion acalmou a multidão e começou a dizer:

            - Meus queridos irmãos e irmãs em Cristo, nosso Messias e Salvador e Senhor. Antes de tudo, permitam-me cumprir uma promessa feita a amigos: Vou espalhar aqui as cinzas de uma mártir fiel.

            Ele retirou do bolso uma pequenina urna, tirou a tampa e espalhou o conteúdo ao sabor do vento.

            - Ela venceu por causa do sangue do Cordeiro e por causa do testemunho que deu, porque não amou sua vida, mas a entregou em favor dele.

            Abdullah cutucou Rayford e olhou para cima. Ao longe, vinham dois bombardeiros do tipo caça com os motores zunindo. Após alguns segundos, o povo notou a presença deles e começou a murmurar.

 

            Debruçado sobre seu computador em Nova Babilônia, Chang acompanhava as cenas que Carpathia estava vendo, transmitidas da cabina de um dos bombardeiros. Chang fez uma conexão entre o áudio do avião e o aparelho de escuta clandestina que havia no escritório de Carpathia. Tornou-se claro que Leon, Viv, Suhail e a secretária de Carpathia estavam aglomerados em torno do monitor no escritório do potentado.

            - Alvo em mira, preparar! - disse um dos pilotos. O outro repetiu as mesmas palavras.

            - Lá vamos nós! - disse Nicolae com voz aguda. - Lá vamos nós!

 

            Tsion levantou as mãos e recomendou:

            - Não se distraiam, meus amados, porque confiamos nas promessas verdadeiras do Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. Fomos trazidos a este lugar de refúgio, que não pode ser invadido pelo inimigo de seu Filho.

            Ele esperou que o barulho dos roncos dos motores diminuísse enquanto os jatos se distanciavam, fazendo uma curva para voltar.

 

            - Sim! - gritou Nicolae. - Façam uma exibição e destruam tudo quando retornarem.

 

            Enquanto os jatos retornavam, Tsion disse:

            - Vamos nos ajoelhar, curvar a cabeça e harmonizar nossos corações com Deus, confiantes em sua promessa de que "o reino, e o domínio, e a majestade dos reinos debaixo de todo o céu serão dados ao povo dos santos do Altíssimo: o seu reino será um reino eterno, e todos os domínios o ser­virão e lhe obedecerão" (Daniel 7.27).

            Rayford se ajoelhou sem tirar os olhos dos aviões. Quando voltaram com seus motores zunindo, ambos lan­çaram bombas diretamente no lugar alto, o epicentro de um milhão de almas ajoelhadas.

 

            - Ssssim! - gritou Carpathia. - Sim! Sim! Sim! Sim!

 

                        Pelo que alegrai-vos, ó céus, e vós que neles habitais. Ai dos que habitam na terra e no mar; porque o diabo desceu a vós, e tem grande ira, sabendo que já tem pouco tempo.  

                                               Apocalipse 12.12

 

            Rayford Steele já havia escapado da morte por um triz em muitas ocasiões para saber que esta conhecida afirmação era mais que verdadeira: a vida inteira passa por nossa mente em um piscar de olhos, como se fosse um filme, e todos os sentidos entram em estado de alerta máximo ao se enfrentar a morte. Ajoelhado desajeitadamente sobre a inclemente pedra vermelha da cidade de Petra, no antigo Edom, ele estava ciente de tudo, lembrava-se de tudo, pensava em tudo e em todos.

            Apesar dos zunidos dos caças-bombardeiros da Comunidade Global - maiores do que todos os que ele já havia visto ou lido a respeito -, Rayford ouviu seu coração bater violentamente e sentiu os pulmões à procura de ar. Atrapalhado com o manto e as sandálias de seu disfarce egípcio, ele mal conseguia equilibrar-se sobre os joelhos doloridos e os dedos dos pés. Rayford não conseguia curvar a cabeça, não conseguia desgrudar os olhos do céu e do par de ogivas que pareciam cada vez maiores, à medida que caíam.

            Ao lado dele, seu prezado companheiro, Abdullah Smith, estava prostrado, com as mãos cobrindo a cabeça. Para Rayford, Smitty representava todas as pessoas pelas quais ele era responsável - os membros do Comando Tribulação espalhados ao redor do mundo. Alguns estavam em Chicago, alguns na Grécia e outros com ele em Petra. Havia um em Nova Babilônia. Gemendo, Abdullah inclinou o corpo em sua direção, e Rayford percebeu que o jordaniano estava tremendo.

            Rayford também estava apavorado. Não tinha como negar. Onde estava a fé que ele deveria ostentar depois de ver Deus livrá-lo da morte tantas vezes? Ele não duvidava de Deus, mas alguma coisa em seu íntimo - talvez o instinto de sobrevivência - dizia que ele estava prestes a morrer.

            Para a maioria das pessoas, a dúvida deixara de existir... havia poucos céticos. Se alguém, a essa altura, não fosse seguidor de Cristo, provavelmente decidira opor-se a Deus.

            Rayford não tinha medo da morte em si, nem da vida após a morte. Deus, que agora se manifestava milagrosa­mente todos os dias, se regozijaria em proporcionar um lugar no céu a seu povo. O que Rayford mais temia era o momento da morte. Embora Deus o tivesse protegido até agora e pro­metido vida eterna após a morte, Ele não poupara Rayford de ferimentos e de sofrimento. Qual seria a sensação de ser vitimado por ogivas?

            Tudo seria muito rápido, disso ele tinha certeza. Rayford conhecia Nicolae muito bem a ponto de saber que o homem não usaria mais de subterfúgios. Se uma única bomba daquelas seria capaz de destruir facilmente um milhão de pessoas, naquele instante com a cabeça entre os joelhos - aparentemente todas, menos Rayford -, duas fariam a multidão evaporar. Será que os clarões o cegariam? Ele ouviria as explosões? Sentiria o calor? Perceberia seu corpo se desintegrando?

            Fosse como fosse, Carpathia faria daquele evento um jogo político. Ele não exibiria pela TV uma cena mostrando um milhão de pessoas desarmadas, de costas para a Comunidade Global, enquanto as bombas precipitavam-se sobre elas. Porém, mostraria o impacto, as explosões, o fogo, a fumaça, a desolação, para ilustrar a inutilidade de opor-se à nova ordem mundial.

            A mente de Rayford lutava contra seus instintos. O Dr. Ben-Judá acreditava que eles estavam protegidos, que Petra era uma cidade de refúgio, o lugar prometido por Deus. Não obstante, Rayford perdera um companheiro ali alguns dias antes. Por outro lado, o ataque por terra efetuado pela CG foi milagrosamente malogrado no último instante. Por que Rayford não se acalmava diante daquele fato, por que não confiava e não acreditava?

            Porque ele conhecia o poder das ogivas. Assim que foram lançadas, os pára-quedas acoplados a elas se inflaram, retardando-as para que caíssem no mesmo instante e direta­mente em cima da multidão. O coração de Rayford se con­traiu quando ele viu uma haste preta presa na ponta de cada bomba. A CG não havia esquecido nenhum detalhe. Esses dispositivos, com pouco mais de l,20m de comprimento, acionariam os fusíveis assim que tocassem o solo, provo­cando a explosão das bombas acima da superfície.

 

            Chloe Steele Williams estava impressionada com a habi­lidade de Hannah como motorista. Apesar de estar dirigindo um veículo desconhecido em um país desconhecido, aquela norte-americana usando um disfarce estranho que a trans­formara em uma indiana de Nova Délhi dirigia o jipe da CG como se fosse propriedade sua, com mais calma e mais auto­confiança que MacCullum. Ele falou durante todo o percurso de carro através da Grécia.

            - Sei que tudo isso é novidade para vocês, meninas - ele havia dito, forçando Chloe e Hannah a se entreolharem e piscarem uma para a outra.

            Se havia alguém que não conseguia evitar o chauvinismo, mesmo inconscientemente, era aquele piloto experiente e ex-militar, que se referia a todas as mulheres do Comando Tribulação como "senhorinhas", mas que não demonstrava ser condescendente.

            - Eu preciso chegar ao aeroporto - ele lhes contou - por este caminho, e vocês precisam chegar a Ptolemaïs e desco­brir onde fica a cooperativa. - Ele parou o veículo e desceu.

            - Quem vai ser a motorista?

            Hannah pulou do banco traseiro para o dianteiro e assu­miu a direção. Sua farda da CG, branca e engomada, con­tinuava impecável.

            Mac sacudiu a cabeça.

            - Vocês duas parecem um par de soldados do pelotão feminino do exército, mas eles não convocam mais esse tipo de gente.

            Ele olhou para um lado e para o outro da estrada, e Chloe foi compelida a fazer o mesmo. Era meio-dia, o sol estava a pino e quente. Não havia nuvens no céu. Ela não viu outro veículo nem ouviu som de motor funcionando.

            - Não se preocupem comigo - ele complementou. - Alguém vai passar por aqui e me dar uma carona.

            Mac pegou a mochila de lona que estava na parte tra­seira do veículo e atirou-a por cima do ombro. Ele também carregava uma maleta. Gustaf Zuckermandel Jr., a quem todos chamavam de Zeke ou Z, pensara em tudo. O jovem corpulento e pesadão de Chicago havia-se transformado no melhor especialista do mundo em forjar documentos e criar disfarces, e Chloe lembrou-se de que os três ali eram fruto das mãos habilidosas daquele jovem. Era muito estranho ver Mac sem sardas e sem os cabelos ruivos. Agora, ele tinha pele de tonalidade escura, cabelos castanhos e usava óculos apenas como disfarce. Ela só esperava que o trabalho que Z fizera em seu pai e nos outros que foram para Petra tivesse sido tão perfeito assim.

            Mac colocou a mochila e a maleta no chão e apoiou os antebraços em cima da porta do lado do motorista, ficando com o rosto a alguns centímetros do de Hannah.

            - Ei, meninas, vocês já decoraram tudo? - ele perguntou. Hannah olhou para Chloe lutando para conter um sorriso. Quantas vezes ele havia feito a mesma pergunta durante o vôo e na estrada? Ambas assentiram com a cabeça. - Quero ver seus crachás mais uma vez.

            Hannah estava de frente para ele.

            - Indira Jinnah, de Nova Délhi - Mac leu. Chloe inclinou-se para que ele pudesse ver o dela. - Chloe Irene, de Mon­treal. - Ele cobriu o próprio crachá com a mão. - E vocês estão a serviço de quem?

            - Do comandante sênior Howie Johnson, de Winston-Salem - respondeu Chloe. Ela e Hannah já haviam dito isso infinitas vezes. - Agora você faz parte do corpo de oficiais da CG na Grécia, e, se alguém duvidar, poderá checar no palácio.

            - Muito bem - disse Mac. - Pegaram suas pistolas? Esta Kronos aqui, ou pelo menos uma parecida com ela, tem mais poder de fogo.

            Chloe sabia que elas necessitavam de armas mais potentes, principalmente por não saberem quem encontrariam no caminho. Mas aprender a lidar com a Luger e a Uzi – que poderiam ser conseguidas com os gregos clandestinos - havia sido uma incumbência muito pesada para ela antes de partir de Chicago.

            - Continuo achando que o pessoal da cooperativa vai recusar-se a falar quando vir nossas fardas - disse Hannah.

            - Mostre o selo na testa a eles, queridinha - disse Mac.

            O radiotransmissor instalado debaixo do painel foi acio­nado automaticamente. "Atenção, Forças Pacificadoras da CG. Comunicamos que o Serviço de Segurança e Inteligên­cia efetuou um ataque aéreo sobre vários milhões de sub­versivos armados em um local encravado nas montanhas, descoberto por nossa infantaria, a cerca de 80 quilômetros a sudeste de Mizpe Ramon, no deserto do Neguev. Os rebela­dos assassinaram um grande número de soldados da CG e apossaram-se de tanques e caminhões blindados, cuja quan­tidade ainda é desconhecida.

            "O diretor do Serviço de Segurança e Inteligência da Comunidade Global, Suhail Akbar, anunciou que duas ogivas foram atiradas simultaneamente, seguidas de um míssil lançado do Aeroporto da Ressurreição de Amã, com a finalidade de destruir o quartel-general dos rebeldes e todos os seus componentes. Apesar de ainda haver alguns focos de resistência ao redor do mundo, o diretor Akbar acredita que esse ataque destruirá 90% dos judaístas traidores, inclusive Tsion Ben-Judá e todos os seus asseclas."

            Chloe levou a mão à boca, e Hannah segurou a outra mão dela.

            - A única coisa que vocês têm a fazer é orar, meninas - disse Mac. - Todos nós sabíamos que isso ia acontecer. Ou temos fé ou não temos.

            - É fácil falar... - disse Chloe. - Podemos ter perdido quatro pessoas, sem mencionar todos os israelenses que prometemos proteger.

            - Eu não estou levando o assunto na brincadeira, Chloe. Mas temos um trabalho a fazer aqui, e este lugar não é mais seguro do que uma montanha sob um ataque aéreo. Man­tenha a calma, está bem? Preste atenção. Não vamos saber o que aconteceu em Petra enquanto não virmos tudo com nossos olhos e recebermos notícias de nosso pessoal. Você já ouviu as mentiras que a CG disse ao próprio pessoal deles! Sabemos com certeza que existe apenas um milhão de pes­soas em Petra e...

            - Apenas?!

            - É isso mesmo. Apenas um milhão, comparado aos vários milhões que eles disseram. E armados? De jeito nenhum! Você acha que matamos soldados da CG? E que nos apossamos daqueles...

            - Eu sei, Mac - disse Chloe. - É que...

            - É melhor você ir se acostumando a me chamar pelo meu novo nome, Sra. Irene. E lembre-se de tudo o que conversamos em Chicago. Talvez vocês precisem lutar, defender-se e até mesmo matar alguém.

            - Eu estou preparada - disse Hannah.

            Mac empinou a cabeça, surpreso. Chloe também surpreendeu-se. Chloe sabia que Hannah estava tão entusiasmada com essa missão tanto quanto ela, mas não a ponto de querer matar alguém.

            - O desafio está lançado. - Hannah olhou para Chloe e, depois, para Mac. - Não existe mais diplomacia. Se eu tiver de escolher entre matar ou morrer, vou matar alguém.

            Chloe limitou-se a sacudir a cabeça.

            - Só estou dizendo - complementou Hannah - que esta­mos em guerra. Vocês acham que eles não vão matar Sebas­tian? Talvez já tenham feito isso. E não estou acreditando que vamos encontrar viva essa tal de Stavros.

            - Então, por que estamos aqui? - perguntou Chloe.

            - Para o que der e vier - respondeu Hannah, com um sotaque indiano cadenciado, conforme Abdullah lhe ensinara em Chicago.

            - É isso mesmo, para o que der e vier - disse Mac, pegando novamente a mochila e a maleta. - Nossos telefones são seguros. Deixem os receptores de luz solar expostos durante o dia...

            - Ora, Mac - disse Chloe. - Dê um pouco de crédito a nós.

            - Ah, é claro que sim - disse Mac. - Acredito muito na capacidade de vocês. A bem da verdade, estou impressionado com o fato de você ter vindo até aqui, Chloe, para salvar alguém que nunca viu. E Hannah, isto é, Indira, acho que você não chegou a conhecer George o suficiente para... bem, para cuidar dele pessoalmente.

            Hannah movimentou a cabeça negativamente.

            - Mas nós estamos aqui, não é mesmo? - prosseguiu Mac. - Alguém estava aqui trabalhando para nós e, pelo que sabemos, essa pessoa está encrencada. Não sei quanto a vocês, mas eu não vou sair daqui sem ele.

            Mac girou o corpo e olhou para o horizonte. Chloe e Hannah fizeram o mesmo. Um pequeno ponto negro aumen­tava de tamanho à medida que se aproximava deles.

            - É melhor vocês partirem - disse Mac. - E mantenham contato.

           

            A primeira impressão de Rayford foi a de estar no inferno. Será que ele havia se enganado? Teria trabalhado tanto por nada? Estaria morto sem ter ido para o céu apesar de tudo o que havia feito?

            Ele não percebeu o intervalo entre as explosões. As bombas provocaram uma luminosidade tão intensa que, apesar de Rayford estar com os olhos fechados o mais que podia, o clarão parecia tomar conta de todo o seu crânio. A sensação era a de que o brilho se aproximava e se afastava dele. Rayford fez uma careta diante do estrondo e do calor que se seguiram. Certamente, ele seria atirado contra as outras pessoas até ser destruído por completo.

            A ressonância do estrondo o fez estremecer, mas Rayford não se desequilibrou, não ouviu nenhum barulho de pedras despencando, nem de formações montanhosas batendo umas nas outras. Instintivamente, esticou os braços para firmar-se, mas aquele gesto foi desnecessário. Gemidos, lamentos e gritos vinham de todos os lados, mas de sua garganta não saía nenhum som. Mesmo com os olhos fechados, ele viu o clarão ser substituído por tonalidades alaranjadas, vermelhas e pretas, e agora, ah, um cheiro terrível de fogo, metal, óleo e pedra!

            Rayford forçou-se a abrir os olhos. Quando o estrondo ensurdecedor ecoou por toda a cidade de Petra, ele percebeu que estava em chamas. Levantou os braços sob o manto diante do rosto, sem se dar conta do calor abrasador. Ele sabia que seu manto, depois sua carne, e depois seus ossos seriam consumidos em segundos.

            Rayford não conseguia enxergar nada por causa do fogo devastador, mas todos os peregrinos à sua volta também estavam em chamas. Abdullah rolou de lado e ficou em posição fetal, continuando a proteger o rosto e a cabeça com os braços. As labaredas crepitantes - brancas, amarelas, alaranjadas e negras - o envolveram como se ele fosse um pavio humano preparado para um holocausto demoníaco.

            Uma a uma, as pessoas ao redor de Rayford começaram a levantar-se do chão e a erguer os braços. O fogo lambia os capuzes, os cabelos, as barbas, os rostos, os braços, as mãos, os mantos e as roupas, como se estivesse sendo abastecido por um combustível sob os pés daquele povo. Rayford olhou para cima e não conseguiu enxergar o céu azul e límpido.

            Até o sol estava toldado pelas imensas chamas violentas e por um medonho par de nuvens em formato de cogumelo. A montanha, a cidade, a área inteira estava tomada pelo fogo. As colunas de fumaça e as labaredas erguiam-se a centenas e centenas de metros de altura.

            Rayford gostaria de saber o que o mundo pensaria daquela cena, e, de repente, ocorreu-lhe que a multidão estava tão estarrecida quanto ele. Atordoados, os israelenses olhavam uns para os outros, com os braços levantados, e agora estavam se abraçando, sorrindo! Que espécie de pesadelo bizarro era aquele? Apesar de estarem envolvidos pela mais moderna tecnologia de destruição em massa, como eles conseguiam permanecer em pé, perplexos, com os olhos semicerrados, ouvindo tudo com clareza?

            Rayford abriu e fechou a mão direita, a alguns centímetros do rosto, olhando extasiado para as línguas sibilantes de fogo que lambiam cada um de seus dedos. Abdullah conseguiu ficar em pé e rodava em círculo como se estivesse embriagado, levantando os braços como os outros e olhando em direção ao céu.

            Ele virou-se para Rayford, e os dois se abraçaram. As chamas que envolviam seus corpos se misturaram, formando uma só. Abdullah afastou-se para ver o rosto de Rayford.

            - Estamos dentro da fornalha de fogo ardente! - exultou o jordaniano.

            - Amém! - gritou Rayford. - Somos um milhão de Sadraques, Mesaques e Abede-Negos!

 

            Chang Wong reuniu-se aos outros técnicos de seu departamento, e todos foram conduzidos pelo chefe, Auré­lio Figueroa, a um enorme aparelho de TV que mostrava imagens ao vivo da cabina de um dos bombardeiros. Eles voavam em círculo sobre Petra, e as imagens estavam sendo transmitidas ao mundo inteiro por meio da CNNCG. Mais tarde, Chang verificaria a gravação clandestina que estava sendo feita no escritório de Carpathia, para observar as rea­ções de Nicolae, sua nova secretária Krystall, Leon, Suhail e Viv Ivins.

            - Missão cumprida - avisou o piloto, esquadrinhando o alvo e mostrando a extensa área em chamas. - Sugiro que o lançamento do míssil seja abortado. Considero desne­cessário.

            Chang cerrou os dentes com tanta força que suas mandíbulas chegaram a doer. Como alguém poderia sobre­viver àquele ataque? As chamas eram intensas, e a fumaça negra subia tão alto que o piloto teve de desviar-se dela para exibir uma imagem nítida.

            - Negativo - foi a resposta do Comando da CG. - Amã, inicie o lançamento subseqüente.

            - Operação inútil - resmungou o piloto -, mas o dinheiro não é meu. Retornando à base.

            - Repita! - A voz parecia ser a de Akbar.

            - Positivo. Retornando à base.

            - Negativo mais uma vez. Permaneça em posição para captar as imagens.

            - Com um míssil a caminho, senhor?

            - Mantenha distância suficiente. O míssil encontrará o alvo.

            O segundo avião foi liberado para retornar a Nova Babilô­nia, enquanto o primeiro, com a câmera continuando a mostrar ao mundo a cidade de Petra em chamas ao sol do meio-dia, voava em círculos a sudeste da cidade de pedras vermelhas.

            Chang gostaria de estar em seu quarto para poder comu­nicar-se com Chicago. Como o Dr. Ben-Judá poderia ter-se enganado tanto a respeito de Petra? O que seria do Comando Tribulação agora? Quem ajuntaria o que restara dos crentes ao redor do mundo? E para onde Chang fugiria quando che­gasse a hora?

 

            Eram 4 horas da manhã em Chicago, e Buck estava sen­tado diante do aparelho de TV. Leah e Albie reuniram-se a ele. Zeke havia saído para buscar Enoque.

            - Onde está Ming? - Buck perguntou.

            - Tomando conta do bebê - respondeu Leah.

            - O que vocês acham disso? - Albie perguntou, sem desviar os olhos da TV.

            Buck sacudiu a cabeça.

            - Eu gostaria de estar lá.

            - Eu também - disse Albie. - Estou me sentindo um covarde, um traidor.

            - Nós falhamos em alguma coisa - disse Buck. - Todos nós falhamos.

            Ele continuava tentando ligar para Chloe apenas imagi­nando o que ela estaria passando. Ninguém atendeu.

            - Não dá para acreditar no que esse sujeito está fazendo! - disse Leah. - Ele não se contenta em matar um milhão de pessoas e em destruir uma das cidades mais bonitas do mundo. Agora ele vai usar um míssil!

            Buck notou que a voz de Leah estava tensa. E por que não? Ela devia estar pensando o mesmo que ele. Além de perderem seu líder e de terem visto um milhão de pessoas envoltas pelo fogo, tudo o que eles imaginavam saber havia sido atirado pela janela.

            - Vá chamar Ming, por favor - ele pediu a Leah. - Diga a ela para deixar Kenny dormindo.

            Leah saiu apressada, enquanto Zeke retornava com Enoque. Zeke atirou seu corpanzil no chão, mas Enoque continuou em pé, inquieto.

            - Não posso ficar aqui por muito tempo, Buck - ele disse. - Meu pessoal está abalado demais.

            Buck assentiu com a cabeça.

            - Vamos nos reunir quando o dia clarear.

            - E...? - disse Enoque.

            - Não sei para quê. Orar, acho.

            - Temos orado o tempo todo - disse Albie. - É hora de descansarmos um pouco.

 

            Rayford não conseguia parar de rir. As lágrimas mistura­vam-se com as sonoras gargalhadas que vinham de dentro dele quando o povo de Petra passou a gritar, cantar e dançar. Eles formaram, espontaneamente, um círculo enorme e começaram a rodar, com os braços nos ombros uns dos outros, saltando de alegria. Abdullah, ao lado de Rayford, ria e gritava:

            - Louvado seja o Senhor!

            O fogo era tão forte, tão abrasador e tão alto que eles só conseguiam ver um ao outro e as chamas. Não se via o céu, o sol, nada a distância. Eles só sabiam que estavam no meio da maior fogueira da História sem sofrer dano algum.

            - Será que vamos acordar, capitão? - gritou Abdullah, soltando gargalhadas. - Este é o sonho mais fantástico que já tive!

            - Estamos acordados, meu amigo - gritou Rayford, apesar de Abdullah estar a poucos centímetros dele. - Eu me belisquei!

            Aquela observação fez Abdullah rir mais ainda. Enquanto o círculo girava e aumentava de tamanho, Rayford se pergun­tou quando o fogo se extinguiria para que o mundo desco­brisse que Deus triunfara mais uma vez sobre as forças do mal.

            Um casal de idosos bem na frente dele entreolhava-se, enquanto o círculo girava e as pessoas, maravilhadas, estam­pavam largos sorrisos no rosto.

            - Estou em chamas! - gritou a mulher.

            - Eu também! - disse o homem.

            Ele saltou desajeitadamente e quase derrubou a mulher e os outros quando deu um chute no ar para mostrar a ela que o fogo estava tomando conta de sua perna inteira.

            Rayford olhou para os dois convencido de que algo estranho estava acontecendo e imaginando se poderia haver alguma coisa mais estranha do que aquilo. Aqui e ali, dentro de seu ângulo de visão que alcançava apenas uns três metros de distância, ele avistou um amontoado de roupas, sinal de que ainda havia gente no chão.

            Quando Rayford se afastou de Abdullah, um jovem do outro lado dirigiu-se a um dos que estavam no chão. Ele ajoelhou-se e colocou a mão no ombro do homem, tentando fazê-lo levantar-se ou, pelo menos, erguer a cabeça. O homem o repeliu, gemendo, tremendo e chorando:

            - Deus, salva-me!

            - Você está salvo! - disse Rayford. - Olhe! Veja! Estamos em chamas e não sofremos nenhum dano! Deus está conosco!

            O homem sacudiu a cabeça e voltou a enrolar-se em seus braços e pernas.

            - Você está machucado? - perguntou Rayford. - As chamas o queimaram?

            - Estou sem Deus! - choramingou o homem.

            - Não pode ser! Você está salvo! Está vivo! Olhe à sua volta!

            Mas o homem não queria ser consolado. Rayford avistou outras pessoas - homens, mulheres e alguns adolescentes - na mesma condição lastimável.

            - Atenção, pessoal! Atenção, pessoal! - Sem dúvida, a voz era de Tsion Ben-Judá, e Rayford pressentiu que vinha de perto, apesar de não enxergar o rabino. - Haverá tempo para júbilo, celebração, louvor e agradecimento ao Deus de Israel! Por enquanto, prestem atenção ao que eu vou dizer!

            A dança, os gritos e os cânticos pararam, mas as risadas continuavam. O povo, ainda sorrindo e abraçado um ao outro, olhou para o lugar de onde veio a voz. Aparente­mente, eles concluíram que bastava ouvi-la. Os gritos de desespero continuavam.

            - Eu não sei - o Dr. Ben-Judá começou a dizer - quando Deus levantará a cortina de fogo e quando voltaremos a ver o céu azul. Não sei quando ou se o mundo saberá que fomos protegidos. Por enquanto, é suficiente que apenas nós saibamos!

            O povo aplaudiu com gritos, mas antes que ele começasse a cantar e a dançar novamente, Tsion prosseguiu.

            - Quando o demônio e seus conselheiros se reunirem, eles verão que o fogo não teve poder algum sobre os nossos corpos; nossos cabelos não foram chamuscados, nem nossas roupas foram danificadas, e o cheiro do fogo não penetrou em nós. Eles interpretarão da maneira que desejarem, meus irmãos e irmãs. Talvez não permitam que o restante do mundo veja estas cenas. Mas Deus se revelará à sua maneira e em seu tempo certo, como sempre faz.

            - E hoje Ele tem uma palavra para vocês, amigos. Ele diz: "Eis que te acrisolei, mas disso não resultou prata; provei-te na fornalha da aflição. Por amor de mim, por amor de mim é que faço isto; porque como seria profanado o meu nome? A minha glória não a dou a outrem" (Isaías 48.10,11).

            - "Dá-me ouvidos, ó Jacó, e tu, ó Israel", diz o Senhor dos exércitos, "a quem chamei; eu sou o mesmo, sou o primeiro, e também o último. Também a minha mão fundou a terra, e a minha destra estendeu os céus; quando eu os chamar, eles se apresentarão juntos" (Isaías 48.12,13).

            - "Ajuntai-vos, todos vós, e ouvi! Quem, dentre eles, tem anunciado estas coisas? O Senhor o amou, e executará a sua vontade contra Babilônia, e o seu braço será contra os Caldeus. Eu, eu tenho falado" (Isaías 48.14,15).

            - "Assim diz o Senhor, o teu Redentor, o Santo de Israel: Eu sou o Senhor, o teu Deus, que te ensina o que é útil, e te guia pelo caminho em que deves andar. Ah! Se tivesses dado ouvidos aos meus mandamentos! então seria a tua paz como um rio, e a tua justiça como as ondas do mar [...] proclamai-o, e levai-o até ao fim da terra; dizei: O Senhor remiu a seu servo Jacó. Não padeceram sede, quando ele os levava pelos desertos. Fez-lhes correr água da rocha; fendeu a pedra e as águas correram" (Isaías 48.17,18,20,21).

 

            Enquanto o Comando Tribulação observava as cenas em Chicago, o piloto do caça-bombardeiro informou ao Comando da CG que conseguiu avistar o míssil partindo de Amã. No lado direito da tela, apareceu o rastro da fumaça branca e espessa do projétil enquanto ele se aproximava das labaredas e da fumaça que subiam de Petra.

            O míssil mergulhou e desapareceu na escuridão e, segundos depois, ouviu-se outra explosão. O fogo alastrou-se ainda mais, parecendo tomar conta de toda aquela região montanhosa. Em seguida, um jato colossal de água, de mais de mil metros de altura, subiu em direção ao céu.

            - Eu estou... - o piloto começou a dizer - eu estou vendo... não sei o que estou vendo. Água. Sim, água. Ela está espirrando. Está... hã... produzindo algum efeito no fogo e na fumaça. Agora vejo melhor. A água continua a subir e está encharcando a área. Parece que o míssil bateu contra uma fonte de água que, hã... isto é uma loucura, coman­dante. Eu vejo... posso ver... as chamas se apagando, a fumaça desaparecendo. Há pessoas vivas lá embai...

            Buck saltou da cadeira e ajoelhou-se diante da TV. Seus amigos gritavam e aplaudiam. A imagem desapareceu, e a CNNCG já estava se desculpando por problemas técnicos.

            - Vocês viram? - Buck gritou. - Eles estão vivos! Eles estão vivos!

 

            Chang ergueu as sobrancelhas e abriu a boca. Seus colegas praguejavam e apontavam para a tela, resmungando quando a transmissão foi interrompida.

            - Não pode ser! Parecia que... não, não pode ter havido nenhuma chance! Por quanto tempo aquele lugar ficou quei­mando? Duas bombas e um míssil? Não!

            Chang correu até seu computador para ter certeza de que ele continuava a gravar as imagens do escritório de Carpathia. Ele mal podia esperar para ouvir o diálogo entre Akbar e o piloto.

 

            Rayford estava em pé, ao lado de Abdullah, ouvindo as palavras de Tsion quando a terra abriu-se com um estalo ensurdecedor e um jato de água de pelo menos três metros de diâmetro irrompeu do solo subindo velozmente como um foguete, tão alto que levou um minuto para começar a cair em forma de chuva sobre eles.

            As chamas e a fumaça cessaram rapidamente, e a água refrescante parecia agradável demais. Rayford notou que os outros estavam fazendo o mesmo que ele. Todos esten­deram as mãos com as palmas para cima e viraram o rosto em direção ao céu, para que a água os lavasse. Em seguida, Rayford percebeu que estava a uns cem metros de Tsion e de Chaim, ambos em pé na beira do gigantesco abismo que se formou quando a água irrompeu da terra.

            Parecia que Tsion estava tentando novamente chamar a atenção da multidão, mas seu esforço foi em vão. Todos cor­riam, saltavam e abraçavam-se, cantando, dançando, cumprimentando-se, rindo. Em breve, centenas de milhares de pessoas estavam gritando agradecimentos a Deus.

            Apesar disso, Rayford notou que algumas pessoas aqui e ali estavam sofrendo, chorando. Seriam incrédulas? Como sobreviveram? Será que Deus as protegera só por estarem ali? Rayford não encontrava uma explicação. Seria impor­tante saber quem foi protegido e quem não foi, e por quê? Tsion falaria sobre aquele assunto?

            Após alguns minutos, Chaim e Tsion conseguiram chamar a atenção do povo. O milagre de Tsion ser ouvido por um milhão de pessoas sem ajuda de alto-falantes foi maior ainda, porque agora o povo o ouvia apesar do barulho provocado pelos jatos de água, semelhante ao de um vulcão em erup­ção.

            - Concordei em ficar aqui por alguns dias - anunciou Tsion. - Para adorar a Deus com vocês. Para agradecer a Deus com vocês. Para ensinar. Para pregar. Ah, observem que o volume de água está reduzindo.

            O barulho começou a diminuir, e o topo da coluna de água foi sendo visto aos poucos, agora a 300 metros acima deles. De modo lento, mas constante, o jato de água foi diminuindo de altura, mas não na largura. Em seguida, a altura foi reduzida para 30 metros, depois para 15 metros e depois para três metros.

            Finalmente, o volume reduziu-se a um pequeno lago dentro da cratera que se formou quando o jato de água irrompeu do solo. No meio desse lago de três metros de largura e 30 centímetros de altura, uma nascente borbulhava como se estivesse fervendo, mas sua água era fresca e reconfortante e, aparentemente, complementava o milagre que acabara de ocorrer.

            - Alguns de vocês estão chorando e se sentindo enver­gonhados - disse Tsion. - E com razão. Nos próximos dias, vou ministrar a vocês também. Por enquanto, vocês não receberam a marca do demônio, nem assumiram o compro­misso de aceitar o único e verdadeiro Deus. Por ser miseri­cordioso, Ele decidiu, de antemão, protegê-los, dar-lhes mais uma chance de aceitá-lo.

            - Muitos farão isso hoje mesmo, antes de eu começar a lhes falar sobre as riquezas insondáveis do Messias, de seu amor e perdão. Apesar disso, um grande número permanecerá no pecado, correndo o risco de ficar com o coração tão endu­recido a ponto de nunca mais mudar de idéia. Mas vocês jamais se esquecerão deste dia, desta hora, deste milagre, desta prova inequívoca e irrefutável de que o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó continua no controle de tudo. Vocês têm a opção de seguir seu caminho, porém jamais poderão negar que a fé é a vitória que vence o mundo.

 

            Em Chicago, Buck tentou ligar para Chloe, depois para Rayford, depois para Chang. Nada. Ele deixou o telefone de lado, mas não conseguiu ficar sentado.

            - Onde está Ming? - ele perguntou. - Ela sabe o que está acontecendo?

            - Ming não está aqui - disse Leah.

            - Está lá embaixo? Diga a ela para deixar o pessoal de Enoque dormir e subir até aqui.

            - Meu pessoal não está dormindo - disse Enoque.

            - Ela não está lá embaixo - disse Leah. - Deixou um bilhete.

            - O quê?

            - O irmão dela lhe contou alguma coisa sobre...

            - Onde está Kenny?

            - Dormindo, Buck. Ele está bem. Preste atenção. O irmão dela lhe contou alguma coisa sobre seus pais, e ela resolveu ir ao encontro deles.

            - Oh, não! - disse Zeke.

            - Ela lhe disse alguma coisa, Z? - perguntou Buck.

            - Não, mas eu devia ter percebido. Fiz algumas coisas para ela hoje cedo. Cortei seu cabelo, coisas assim. Quanto aos documentos, fiz o melhor que pude. Transformei a moça num rapaz, quero dizer, não foi bem assim. Só mudei o jeito dela... é isso... você sabe.

            Buck sabia muito bem. Para começar, Ming era uma mulher miúda. Não tinha como ficar parecida com um rapaz, mas Zeke cortou seu cabelo, mostrou-lhe como portar-se como um homem, cortou suas unhas, tirou a cor de seu rosto. Pegou a antiga farda dela que pertencia à CG, fez algu­mas alterações em sua fisionomia e a transformou em um jovem soldado das Forças Pacificadoras da CG.

            - Com que nome? - Buck quis saber.

            - Do irmão dela - disse Z. - Chang. Sobrenome Chow. Eu não sabia que ela ia sair daqui tão depressa.

            - A culpa não é sua. Quanto tempo faz que ela foi embora? Talvez a gente possa alcançá-la.

            - Buck! - ralhou Leah. - Ela é uma mulher adulta, viúva. Se ela quiser ir para a China, não podemos impedi-la.

            Buck sacudiu a cabeça.

            - Por quanto tempo você acha que vamos ficar protegi­dos aqui se cada um resolver andar por aí quando lhe der na telha? Chang já nos contou que o pessoal do palácio está começando a ficar desconfiado. Steve Plank já ouviu essa notícia no Colorado, e não vai demorar muito para que alguém comece a bisbilhotar por aqui.

            - Provavelmente ela não lhe contou o que ia fazer porque sabia que você tentaria dissuadi-la.

            - Eu poderia ter ajudado. Encontrado uma carona para ela, alguma coisa.

            - Ah, sim, até parece que você ia arrumar um avião e um piloto para ela.

            O sarcasmo de Leah forçou Buck a olhar firme para ela. Seu sogro havia-se queixado de que aquela mulher era assim mesmo, mas Buck ainda não havia se defrontado com ela.

            - Isso não ajuda em nada, Leah - ele disse.

            - Você poderia ser útil a ela enviando Albie para acom­panhá-la.

            - Eu não sabia que ela estava indo embora!

            - Bem, agora já sabe.

            - E eu estou disponível - disse Albie. - Mas...

            - Não podemos correr riscos com você - disse Buck. - De qualquer forma, sua identificação falsa foi descoberta e ainda não providenciamos uma nova para você.

            - Eu posso resolver isso em 24 horas - disse Zeke.

            - Não! Vamos esperar que ela consiga o que deseja e que nos avise. - Buck chutou uma cadeira. - Não entendo como ela vai se fazer passar por um rapaz. Ela tem uma voz macia c delicada.

            - Não quando grita ordens na prisão - disse Leah.

            - Então, é melhor ela gritar ordens no caminho inteiro até a China - disse Buck. - Imaginem se ela for descoberta. Eles vão saber que ela desertou da PRFB da Bélgica, estabelecer uma ligação com o irmão dela e, bingo!, ele já era. E nós, como ficamos nessa história?

 

            Chloe não imaginou o que encontraria pela frente, mas Ptolemaïs não parecia ter sido devastada por uma guerra. Fazia um bom tempo que a CG deixara a Grécia em paz, em parte porque aquele país pertencia aos Estados Unidos Carpathianos, disso Chloe tinha certeza. Nicolae não haveria de querer atrair a atenção do mundo para os judaístas da região que levava seu nome. Mas o grupo de crentes aumen­tou tanto que agora era difícil demais ocultá-los.

            Assim que a primeira onda da tática de queda-de-braço varreu a região e resultou em um número muito grande de pessoas que preferiram enfrentar a guilhotina a aceitar a marca de leal­dade a Carpathia, a batalha entre a CG e os seguidores de Cristo tornou-se cada vez mais difícil. A aplicação da marca de lealdade começou com os prisioneiros, e os resultados não foram satisfatórios em razão da infiltração de espiões. Dois jovens prisioneiros fugiram. E, tão logo a primeira e a pior fase da decapitação na guilhotina terminou, a vigilância tornou-se mais branda.

            Uma das ramificações mais fortes da Cooperativa Inter­nacional de Mercadorias, idealizada pela própria Chloe, instalou sua sede na cidade e tornou-se um local clandestino para as reuniões dos crentes. Porém, uma emboscada custou à igreja não apenas a vida de Lukas "Laslos" Miklos, mas também a de Kronos, o mais antigo dos membros e muito querido pelos crentes, além da vida do adolescente Marcel Papadopoulos. E se a moça que se fez passar por Georgiana Stavros fosse realmente uma impostora chamada Elena, con­forme Steve Plank tomara conhecimento, Chloe imaginava que Georgiana também estaria morta.

            Havia poucas pessoas na rua durante o dia, e muitas pertenciam à CG. Elas cumprimentaram educadamente as oficiais de alta patente da Índia e do Ocidente, que trajavam fardas e tinham quepes brancos na cabeça enfeitados com cadarços azuis. Albie havia ensinado Hannah e Chloe a fazer continência, que elas logo constataram ser muito diferente das saudações feitas pelos verdadeiros funcionários da CG. Ambas tinham um ar de indiferença no rosto. Não olhavam para ninguém e conversavam entre si em voz baixa para que ninguém pudesse ouvi-las. O olhar sério delas, quase uma carranca, fazia com que parecessem atentas a seus deveres.

            Tinham lugares para ir e pessoas para ver, e a conduta das duas desestimulava gestos de cordialidade e conversas desnecessárias.

            Diretamente do palácio da CG em Nova Babilônia, Chang Wong, por meio da distribuição cuidadosa de memorandos confidenciais emitidos por falsos oficiais graduados das Forças Pacificadoras, havia lançado um boato na Grécia de que a chefia estava enviando um homem de alta patente para começar a pôr ordem na confusão que reinava ali.

            Chloe acreditava que os soldados da CG, que as olhavam duas vezes para confirmar o que estavam vendo, não eram ingênuos. Ela supunha que, pelas fardas dela e de Hannah, eles haviam matado a charada. Deviam estar pensando que elas trabalhavam para o homem de alta patente, fosse ele quem fosse e estivesse onde estivesse.

            Hannah simulava muito bem o modo de andar de uma oficial, e Chloe - se não estivesse tão nervosa - teria rido de "Indira". Elas caminharam apressadas até uma vitrina mal iluminada, cujas trincas no vidro haviam sido coladas com fita adesiva. Havia uma TV empoeirada em cima de uma prateleira, de frente para a rua, e cerca de meia dúzia de soldados da CG estavam ajoelhados ou de cócoras diante da vitrina assistindo à programação. Um deles notou a presença de Chloe e de Hannah pelos reflexos no vidro e pigarreou. Os outros levantaram-se rapidamente e as saudaram com uma continência.

            - Vamos andando, cavalheiros - disse Hannah, nova­mente com o sotaque que aprendera.

            Chloe lutou para controlar-se quando viu Petra em chamas e não entendeu por que a CNNCG interrompeu brus­camente a transmissão. Os homens da CG inclinaram-se para a frente em direção ao aparelho de TV e entreolharam-se.

            - O que é aquilo? - disse um deles. - Sobreviventes? Os outros riram e o cutucaram.

            - Você está maluco, homem.

            - De volta ao trabalho, cavalheiros - ordenou Hannah.

            - Sim, senhor... isto é, senhora - disse um deles, e os outros riram.

            - Você sabe diferenciar um oficial homem de um oficial mulher, filho? - perguntou Chloe, com voz ríspida.

            - Sim, senhora - ele respondeu, perfilando-se.

            - Você achou graça?

            - Não, senhora. Peço-lhe desculpas.

            - Onde fica a taverna mais próxima?

            - Como, senhora?

            - Você tem dificuldade para ouvir, rapaz?

            - Não, senhora. Três quarteirões adiante. Fica do outro lado da rua.

            Ele apontou a direção.

            - Você está de serviço, soldado?

            - Sim, senhora.

            - E onde deveria estar?

            - Na sede do pelotão, senhora.

            - Vá andando.

            Chloe e Hannah haviam deixado os telefones desligados. Elas combinaram com Mac que só os usariam depois do primeiro contato com os crentes ou em caso de emergência. Depois das cenas que viu pela TV, Chloe sabia que seu pai e Buck estavam tentando comunicar-se com ela, mas isso podia esperar.

            Alguns minutos depois, um jovem sentado em uma cadeira na frente da taverna observou-as desviando os olhos do jornal que lia, o Semanário Comunidade Global. Chloe calculou que ele deveria ter 20 e poucos anos. Ela perguntou a si mesma se o jovem acreditaria que seu marido havia sido editor do Semanário. O rapaz pareceu mudar de posição casualmente. Puxou o boné de veludo sobre os olhos e descansou o pé na vitrina que ficava no nível da calçada.

            - Você viu o que eu vi? - Hannah perguntou, quase sem fôlego.

            - Vi. Vamos em frente.

            Chloe e Hannah fizeram de conta que o rapaz era invi­sível e entraram na taverna. O ambiente era sombrio, e elas demoraram um minuto para acostumar-se à escuridão. O local exalava um odor carregado de álcool e de encanamento mal cuidado.

            Dois homens da CG sentados a uma mesa de canto levantaram-se imediatamente e saíram para a rua pela porta dos fundos. Chloe e Hannah fingiram não notar nada. O proprietário cumprimentou-as em grego.

            - Inglês? - sugeriu Chloe.

            Ele negou com um movimento de cabeça.

            Um homem de turbante levantou-se e disse alguma coisa rapidamente a Hannah em um dialeto indiano. Chloe sur­preendeu-se ao ver a reação de Hannah. Ela fitou o homem nos olhos, como se tivesse entendido, e piscou para ele, fazendo um leve movimento negativo com a cabeça. Aquilo pareceu satisfazê-lo, e ele voltou a sentar-se.

            O proprietário apontou para uma fileira de garrafas de bebidas alcoólicas atrás dele. Chloe movimentou a cabeça negativamente.

            - Coca-Cola? - ela perguntou.

            - Coca-Cola! - ele repetiu, sorrindo e esticando o braço para pegar alguma coisa embaixo do balcão. Instintivamente, Chloe encostou o cotovelo no cabo da Luger a seu lado, e ela notou que Hannah colocou a mão na tira de couro que prendia sua Glock nove milímetros.

            O homem atrás do balcão continuou a fitá-las, e agora estava sorrindo, exibindo uma antiga garrafa de vidro de Coca. Ele levantou um dedo, apontou para a garrafa e empurrou dois copos em cima do balcão. Chloe entregou-lhe dois nicks e levou a garrafa e os copos para uma mesa.

            Depois de um gole do líquido, reconfortante para sua garganta ressecada, Chloe virou-se na cadeira e examinou o ambiente. As pessoas, curiosas, desviaram o olhar.

            - Inglês? - ela perguntou. - Alguém fala inglês? Uma cadeira foi arrastada, e um homem corpulento, usando uma roupa por cima da outra e com o rosto transpi­rando, aproximou-se com passos tímidos e curtos. Ele as cumprimentou educadamente, embora não pertencesse à CG.

            - Poco englês - ele disse.

            - Você fala inglês? - ela perguntou. - Entende o que eu falo?

            Ele aproximou o polegar do dedo indicador, deixando um pequeno espaço entre eles.

            - Um pouco? - ela indagou. Ele assentiu com a cabeça.

            - Poco.

            - Subsolo - disse Chloe. - Onde fica o subsolo?

            O homem arregalou os olhos, franzindo o pequeno número 216 tatuado em sua testa.

            - Sub o quê?

            Ela apontou para baixo. - Subsolo. Pavimento inferior. Porão.

            O homem levantou a mão carnuda e sacudiu a cabeça.

            - Limpeza - ele disse. - Lava roupa.

            - Uma lavanderia? - ela disse, percebendo Hannah arre­galar os olhos. Era isso mesmo.

            Ele assentiu com a cabeça.

            - Obrigada - disse Chloe.

            - Obregado - ele disse, sem sair do lugar, com os dedos entrelaçados.

            Chloe pegou uma moeda no bolso e a entregou a ele. O homem curvou o corpo em sinal de agradecimento e dirigiu-se ao balcão.

            - O que será que eles sabem? - disse Hannah em voz baixa. - O restante do lugar parece estar aguardando que a gente faça alguma coisa.

            - Também acho - disse Chloe. - Vamos continuar aqui por alguns instantes e depois sair para dar uma espiada. A lavanderia é uma fachada, mas deve haver alguém que a utilize para lavar roupas.

            Hannah encolheu os ombros.

            - Será que eles precisam entrar aqui para chegar lá? Acho que poucos crentes se arris­cariam a freqüentar este lugar.

            As duas terminaram de tomar a Coca e olharam para seus relógios. Ninguém havia saído desde que elas chegaram, a não ser os dois homens da CG, e ninguém havia entrado. O jovem sentado na cadeira levantou-se e caminhou, com passos lentos, de um lado para o outro, passando duas vezes diante da porta. Duas pessoas que transitavam na calçada viram as mulheres fardadas e preferiram não entrar.

            Chloe e Hannah levantaram-se e caminharam a esmo, procurando a outra entrada que dava acesso ao porão.

            - Inglês? - Chloe perguntou ao jovem na calçada.

            Ele encolheu os ombros e a encarou.

            - Existe outra entrada aqui?

            Ele fez um movimento negativo com a cabeça.

            - Nem pelos fundos? Nem pela viela? Novamente, ele negou com a cabeça.

            - Ouvi dizer que há uma lavanderia aqui - ela disse. - Tenho algumas roupas para lavar.

            Ele a fitou e respondeu com sotaque grego.

            - Não vejo nenhuma roupa suja.

            - Eu não as trouxe comigo - ela disse. - Como posso descer até a lavanderia?

            - Fica depois do toalete - ele disse, com voz áspera.

            - Porta dos fundos, deste lado. - O jovem apontou para a porta por onde os homens da CG haviam saído. Em seguida, inclinou a cadeira para trás até encostar o espaldar na parede. - Mas está fechada.

            - No meio do dia? Por quê?

            Ele encolheu os ombros, puxando a aba do boné e voltando a ler a revista.

            - Ah, está bem - disse Chloe, suspirando e sinalizando para que Hannah a seguisse até a esquina, para que elas ficassem fora da visão do jovem. - Vou dar 30 segundos a ele.

            Um instante depois, Hannah esticou o pescoço para espiar.

            - Como sempre, você estava certa - ela disse. - Ele sumiu.

            As duas retornaram apressadas à taverna, dirigiram-se à porta dos fundos, depois do toalete, e desceram correndo os degraus de madeira. Uma senhora magra, de meia idade, usando uma malha cinza de lã e um lenço grande e colorido que lhe cobria todo o cabelo e grande parte do rosto, olhou para elas aterrorizada sob a claridade que vinha da janela.

            - Lavanderia? - perguntou Chloe.

            A mulher assentiu com a cabeça, com a mão fechada sob o queixo.

            - Podemos trazer roupas para lavar aqui?

            Ela voltou a assentir com a cabeça. Através da abertura de uma cortina grossa, dependurada em um batente atrás da mulher, Chloe avistou o jovem. Ele estava com os olhos arregalados. Ela fez um gesto para que ele se aproximasse.

            - Não! - disse a mulher, em tom de desespero, encostando-se na parede.

            O jovem arriscou-se a aproximar-se dela com uma arma sob a camisa.

            - Uzi? - perguntou Chloe.

            - Sim, e vou usá-la - ele disse.

            - Tire o boné - ela ordenou.

            - Antes eu vou atirar em você - ele disse fazendo um gesto para pegar a arma.

            A mulher gemeu.

            - Não, Costas.

            Quando ele lhes apontou a arma, Chloe e Hannah levan­taram seus quepes. Depois que todos deixaram a testa à mostra, eles disseram em uníssono:

            - Jesus ressuscitou.

            O rapaz fechou os olhos e soltou o ar dos pulmões com força. A mulher foi escorregando na parede até sentar-se no chão.

            - Ele ressuscitou verdadeiramente - ela conseguiu dizer.

            - Eu quase matei você - disse Costas. Em seguida, virou-se para a mulher. - A senhora está bem, mamãe?

            A mãe cobriu o rosto com as mãos.

            - Vocês disfarçadas de CG? - ela disse em inglês, com dificuldade. - O que estão fazendo aqui?

            - Sou Chloe Williams. Esta é minha amiga, Han...         

            - Não posso acreditar! - disse a mulher, passando um lenço no rosto e levantando-se. Ela correu até Chloe e abra­çou-a com força. - Sou Pappas, também conhecida como Sra. P.

            - Esta é minha amiga Hannah Palemoon.

            - Você também é da cooperativa? - perguntou a Sra. P. Hannah negou com a cabeça.

            - É da Índia?

            - Não. Da América.

            - Você com esse disfarce está ótima. Hannah sorriu e olhou para Costas.

            - Este lugar é seguro?

            - Vamos sair daqui - ele disse, conduzindo-as através da cortina até uma despensa de paredes de concreto lotada de mantimentos procedentes de todas as partes do mundo.

            - A cooperativa funciona aqui. Mas estamos sofrendo muito. Sobrou pouca gente.

            - O pessoal lá de cima não incomoda vocês?

            - Damos algumas coisas a eles. Não fazem perguntas. Eles também têm seus segredos. Um dia, quando acharem conveniente, eles vão nos entregar.

            - A chefe da cooperativa em minha casa - murmurou a Sra. P. com a mão no coração. - Ninguém vai acreditar.

            - Vocês não podem ficar muito tempo aqui - disse Costas. - Em que podemos ajudá-las?

 

            Dois jovens soldados das Forças Pacificadoras da CG fizeram um gesto obsceno ao passarem por Mac dentro de uma pequena van. Mac notou a mudança de expressão no rosto de um deles quando o jovem prestou atenção à sua farda. O veículo foi brecado com força no asfalto, atirando cascalho para os lados ao dar marcha a ré em sua direção.

            - Nós acenamos! - gritou o jovem sentado no banco do passageiro assim que a van parou e ele desceu. - Nós acenamos para o senhor! O senhor viu?

            - Vi, e agradeço muito. - disse Mac. O motorista também desceu, e Mac respondeu à continência deles. - Minha equipe de apoio teve de seguir em outra direção, e eu preciso chegar ao aeroporto.

            - Podemos levá-lo até lá. O senhor aceita uma carona?

            - Sim, muito obrigado - disse Mac. Ele atirou a mochila e a maleta no banco traseiro e acomodou-se. - O que está havendo em Petra?

            - Ouvimos as notícias, senhor - disse o motorista ligando o rádio.

            Mac apoiou a testa nas mãos como se estivesse tentando ouvir melhor e orou desesperadamente por seus companhei­ros.

            - Foram todos queimados - prosseguiu o motorista. - Não restou nenhum corpo para ser enterrado.

            - Quero ouvir a notícia, rapazes - disse Mac, e os dois se calaram. Pouco antes de a conexão ser interrompida, Mac conseguiu ouvir algumas palavras do piloto que o deixaram animado.

            - Bem, as notícias são boas, não? O passageiro virou-se para trás.

            - Claro. Não entendi muito bem a última parte, mas nós conseguimos pegar aquela gente, com certeza.

            Quando chegou ao aeroporto, Mac mal pôde acreditar na desordem que viu. O pessoal da CG que restara ali parecia indisciplinado e indolente. Aquilo poderia trabalhar em seu favor.

            - Eu preciso de um veículo - ele disse ao único soldado das Forças Pacificadoras que se levantou e lhe prestou continência no hangar principal. - Preciso das chaves do veículo, preciso guardar minhas coisas e quero ver o Rooster Tail [avião], se ele estiver aqui.

            - Ah, ele está aqui, senhor, e estávamos à sua espera. Vou levar suas coisas até lá.

            - Eu lhe pedi para levar minhas coisas?

            - Não. O senhor disse bem claro que queria guardar suas coisas. - O soldado correu até uma escrivaninha e pegou um molho de chaves de dentro de uma enorme caixa de papelão.

            - O Rooster Tail está no hangar 6. O carro é o primeiro da fila. Posso buscá-lo para o senhor.

            - Faça isso.

            - Ah, eu ia me esquecendo. Preciso digitar seu código no computador e...

            - Só depois de me trazer o carro.

            - Tudo bem.

            O soldado correu até o carro. Mac sabia que os outros estavam olhando para ele, sentados com o corpo ereto, aparentemente atarefados. Mas nada acontecia ali; não havia nenhum avião chegando ou partindo.

            - O senhor está aqui para nos ajudar, comandante?- gritou alguém do outro lado da sala.

            Mac olhou firme para ele.

            - Como, soldado?

            - Eu perguntei se o senhor...

            - Eu ouvi o que você disse! Levante-se já dessa cadeira e dirija-se a mim corretamente!

            O soldado levantou-se rapidamente e enroscou o pé na roda da cadeira, cambaleando antes de endireitar o corpo e aproximar-se. Mac encarou-o. O soldado parou e prestou-lhe continência. Mac continuou imóvel.

            - Você costuma gritar do outro lado da sala para os seus superiores?

            - Eu estava distraído, senhor.

            - Você me fez uma pergunta.

            - Eu só estava querendo saber se íamos receber ajuda aqui. O senhor pode ver que estamos com falta de pessoal.

            Mac percorreu o hangar com o olhar e, em seguida, examinou a pista de decolagem.

            - Vocês estão com muito pessoal e pouco trabalho, e sabem disso.

            - Sim, senhor.

            - Estou errado?

            - Não, senhor. É só que... bem, estávamos acostumados a...

            - Pode ficar à vontade!

            O soldado prestou-lhe continência mais uma vez e afas­tou-se. O outro parou o carro em frente ao hangar e abriu o porta-malas.

            - O senhor precisa de ajuda com o transatlântico, senhor?

            - Só preciso de uma caixa de ferramentas e quero ficar sozinho lá. O que vocês encontraram dentro do avião?

            - Nada, senhor.

            - Você está brincando.

            - Recebemos instruções de entregá-lo à chefia. Ao senhor, acho.

            Mac pressionou os lábios. Haveria alguma coisa que Chang Wong não conseguisse com apenas algumas digitadas no teclado do computador?

            - Arrume uma caixa de ferramentas para mim e me diga quem está cuidando do judaísta capturado.

            - Como, senhor?

            Mac empinou a cabeça e olhou de esguelha para o rapaz.

            - Quer dizer que fizemos uma emboscada bem-sucedida para pegar um indivíduo debaixo do nariz de todos vocês e ninguém sabe nada sobre isso?

            - Ah, aquilo... Sim, nós sabíamos. Nós sabemos. O que o senhor perguntou?

            - Quem está cuidando do assunto? Pegaram um suspeito vivo e quero vê-lo. Tenho ordens para vê-lo.

            - Bem, eu não sei onde ele está preso, senhor. Isto é, eu...

            - Eu não esperava que você soubesse onde ele está preso! Eu lhe fiz esta pergunta?

            - Não, senhor. Sinto muito.

            - Espero que quem cuidou da operação para nós saiba. Entendeu?

            - Claro.

            - Então, quem é?

            - Um sujeito com um nome esquisito. É melhor o senhor verificar no quartel-general de Ptolemaïs.

            - Sei que é um tal de Nelson Stefanich. Você teve contato com ele?

            - Sim, senhor.

            - Pode dizer a esse homem que quero conversar com ele?

            - Sim, senhor.

            - Diga a ele que espero obter toda a cooperação e infor­mações de que necessito assim que eu chegar lá.

            - Sim, senhor. Agora, o senhor poderia me fornecer o código de segurança de seis dígitos para...

            - Zero-nove-um-zero-zero-um - repetiu Mac, como um papagaio.

            Em seguida, ele pegou a caixa de ferramentas e dirigiu-se de carro ao hangar onde o avião de Sebastian estava guar­dado. Ele sabia onde George havia escondido seu arsenal, e, dentro de segundos, conseguiu retirar os painéis do compar­timento de carga e pegar uma arma de energia direcionada e um rifle calibre 50 com suporte bípede, guardando-os no porta-malas do carro. Pela posição da lingüeta de segurança que George colocara na porta do compartimento de carga, Mac constatou que a CG havia vasculhado o local, mas não encontrara os painéis secretos.

            Ele retornou ao hangar principal.

            - Não encontrei nada - ele disse ao rapaz entregando-lhe a caixa de ferramentas. - Ptolemaïs sabe que estou indo para lá?

            - Estão aguardando sua chegada.

 

            George Sebastian fingiu que continuava dormindo. Assim que acordou, ele ouviu mensagens urgentes, cheias de estática, recebidas por seus captores, e as respostas enérgicas e desesperadas, mas em voz tão baixa que ele não conseguiu entender os detalhes.

            Deitado do lado direito, com o corpanzil encostado no chão sujo e repleto de lixo, ele sentia frio e fome. Essa posição deixou seu braço direito amortecido, desde o coto­velo até a ponta dos dedos. Ele estava com as mãos algemadas nas costas. Sua cabeça e seu rosto latejavam, e ele sentiu gosto de sangue na boca.

            George ouviu alguém ressonando atrás dele. Ah, se ao menos ele tivesse as mãos livres. Poderia movimentar-se no lugar para que o sangue voltasse a correr livremente por seu braço direito e posicionar-se, silenciosamente, para o ataque. E, se o guarda dorminhoco fosse a única pessoa ali, ele poderia agarrá-lo, desarmá-lo e silenciá-lo em um segundo. George virou-se com dificuldade. Seu corpo inteiro doía e ansiava por comida e água. Ele esfregou o rosto no chão para afastar um pouco a venda dos olhos - o suficiente para dar uma espiada.

            O guarda estava dormindo sentado, com o braço dependurado e a arma possante no colo. Estranho. Talvez George estivesse enganado, porém ele achou que havia confundido a hierarquia, de seus captores. O grandalhão, que tentava disfarçar um sotaque francês, não era o líder. Ele falava muito, mas era o outro - o grego que não havia sido atingido por George - que parecia dar as cartas. No entanto, a não ser que o homem estivesse fingindo para forçar George a tentar alguma coisa, era ele quem estava dormindo ali, a menos de um metro de seu prisioneiro.

            O braço direito de George formigava, e ele tentou mexer a mão esquerda para sentir a pressão das algemas. Eram fortes e estavam bem apertadas. Ele já havia quebrado algumas algemas convencionais antes, mas nenhuma delas estava tão apertada como aquelas. A porta no topo da escada foi aberta, e a jovem - que era chamada de Elena, embora tivesse fin­gido ser Georgiana - disse:

            - Acho melhor a gente dar uma última chance a ele e, depois, fazer o que tiver de ser feito.

            O grandalhão, parecido fisicamente com George, desceu ruidosamente a escada com a arma em punho. Ela o acom­panhou, desarmada, e gritou da escada:

            - Vamos lá, Sócrates!

            Será que eles tinham um cão?

            O grito de Elena despertou o líder. Ele levantou-se lim­pando a garganta e esfregando os olhos.

            - Alguma novidade? - perguntou o grandalhão.

            - Não. Ele não se mexeu.

            - Continua vivo?

            - Respirando.

            O grandalhão cochichou alguma coisa ao ouvido do com­panheiro.

            - Sério? - perguntou o mais baixo. - A que horas?

            - Ninguém sabe ainda, mas deve ser hoje, durante o dia ou à noite.

            O líder proferiu um palavrão.

            George esperava que eles não notassem que havia um vão na venda em seus olhos. O grandalhão apoiou uma bota pesada em seu ombro esquerdo e o forçou a rolar de costas.

            - Acorde, meninão - ele disse. E o líder complementou:

            - Última chance.

            George queria dizer: "Para quê? Tire estas algemas e esta venda dos meus olhos, seu covarde, e eu vou matá-lo com as minhas mãos." Mas ele estava determinado a ficar calado. Não daria esse tipo de satisfação àqueles amadores.

            Ele ouviu som de passos pesados e desajeitados no pavimento superior, e o guarda com o joelho machucado começou a descer lentamente a escada. O grandalhão entregou sua arma a Elena e posicionou-se com uma perna de cada lado do corpo de George. Passou as mãos sob os braços de George, dobrou-lhe os joelhos e ergueu-o do chão, gemendo com o esforço que fez para encostá-lo na parede. George ficou de cabeça baixa, com o queixo encostado no peito.

            - Muito bem - disse o líder. - Platão, fique ali, e Sócrates, fique aqui.      

            George imaginou estar ouvindo coisas. Ele foi um dos poucos bolsistas do time de futebol de San Diego que havia estudado a história grega, mas seu desempenho medíocre nos exames forçou-o a seguir a carreira militar. Sua mente devia estar lhe pregando uma peça. Seriam Platão e Sócrates os homens que estavam a menos de dois metros dele, um de cada lado, com as armas apontando para sua cabeça? Talvez fosse alucinação por causa da fome, ele concluiu.

            - Se ele tentar alguma coisa, atire, mas tome cuidado para não me atingir.

            O líder - George não podia imaginar qual seria o nome daquele homem - ajoelhou-se na frente dele a arrancou-lhe a venda dos olhos. George piscou e semicerrou os olhos, continuando a fitar o chão. O homem encostou o cano da arma na testa de George e levantou seu rosto.

            - Olhe bem para mim e veja que estou falando sério. George sentiu vontade de cuspir no rosto dele.

            - Você é valente, um prisioneiro de guerra exemplar. Mas perdeu a parada. Esta é sua última chance. Não estou disposto a gastar mais tempo nem energia com você. E você só vai sair vivo daqui e voltar a ver sua esposa e seu filho se nos contar o que precisamos saber. Caso contrário, vou matá-lo com um tiro à queima-roupa que vai atravessar seu cérebro. Você tem dez segundos para me dizer onde fica a casa secreta dos judaístas.

            George não tinha motivos para duvidar do homem. Estava fraco, desgastado, quase sem forças, mas havia logrado êxito. Não abrira a boca antes, e não a abriria agora. Mesmo que delatasse o pessoal de Chicago, ele não seria libertado. Havia uma alternativa, mas ele não teria condições de levá-la adiante.

            Poderia inventar uma história - uma história longa, desconexa, cheia de detalhes, capaz de iludir qualquer um. Poderia dizer que havia um gás venenoso na cabina de seu avião, que esse gás seria acionado se alguém tentasse pilotá-lo sem antes digitar um código no sistema de segurança.

            Aquilo poderia evitar que a CG se apoderasse do Rooster Tail O avião ficaria à disposição do Comando Tribulação se alguém viesse resgatá-lo. Mas ele tinha certeza de que o capitão Steele e o restante do pessoal já deveriam considerá-lo morto; e por que não? E, se ele inventasse uma história para retardar a execução, não conseguiria ser coerente em razão de sua condição atual - talvez até deixasse escapar alguma coisa verdadeira.

            Com o cano da arma encostado na testa, George con­tinuou de boca fechada. Não recuou, não fechou os olhos, não estremeceu. Simplesmente cerrou os dentes aguardando o disparo que o levaria para o céu.

 

            - Nós fazíamos parte do grupo dirigido pelos líderes - explicou Costas Pappas. - O pastor e sua esposa. O casal Miklos. O velho Kronos. O primo dele ainda está conosco. Vocês conhecem essas pessoas?

            - Conhecemos todas - respondeu Chloe. - Mas como você sabe tanta coisa e continua vivo?

            - Marcel nos contou qual era o plano, na noite em que tudo aconteceu - disse a Sra. Pappas. - Ouvimos falar que a moça foi vista pelas pessoas do esconderijo que a conhe­ciam, mas isso não passa de um boato. Tudo parecia que ia dar certo. A ajuda do Comando Tribulação, um militar, um homem da América que estava retornando da missão em Israel.

            - Mas como vocês tomaram conhecimento do que acon­teceu? O que fizeram quando souberam que o Sr. Miklos e o Sr. Kronos não haviam voltado?

            - Começamos as buscas - disse Costas com os lábios trêmulos.

            A princípio, Chloe imaginou que ele fosse apenas um bis­bilhoteiro fanfarrão; depois, um jovem mal-humorado. Mas ele tinha de ser corajoso, ela concluiu, para viver daquela maneira. A emoção em sua voz a sensibilizou.

            - Nós conhecíamos o plano - ele prosseguiu. - Não encontramos as pedras na beira da estrada. Ou rolaram ou foram retiradas. Mas aqueles animais deixaram o carro no lugar em que ele parou, perto de lá, bem visível.

            - Mas devem ter ficado observando de longe - disse Hannah -, aguardando a chegada de vocês.

            - Nós tínhamos certeza disso - explicou o rapaz. - Pas­samos de carro por lá rapidamente tentando aparentar que não estávamos procurando nada. Mas nós conhecíamos o carro de K. Estava a alguns metros de distância da estrada... os faróis com luz fraca, o motor desligado, uma porta aberta. Estávamos desesperados para revistar o carro, descobrir o que tinha acontecido, mas não queríamos cometer uma tolice.

            - E então...?

            - Ficamos aguardando. Não havia outra coisa a fazer. Não havia jeito de saber quando eles iam se cansar de esperar que alguém aparecesse. Depois de alguns dias, não agüentamos mais ficar sem saber o que tinha acontecido. O primo de Kronos nos emprestou um caminhão com tração nas quatro rodas. Pelos mapas topográficos, planejamos um meio de chegar ao carro pelo mato, e não pela estrada. Conseguimos fazer isso depois da meia-noite, seguindo lentamente por pequenas trilhas em meio às árvores até uma clareira cheia de pedras. O primo de Kronos dirigiu o caminhão, e dois outros homens e eu fomos a pé na frente, com roupas escuras, para que ninguém nos visse nem ouvisse. Por volta das três horas da madrugada, conseguimos chegar o mais perto possível do local com o caminhão. Mesmo sem enxergar o carro de Kronos, nós sabíamos onde ele estava. Rastejamos sobre uma elevação do terreno, de onde achamos que poderíamos avistar o carro, mas não vimos nada.

            - Não há mais dinheiro para pagar a iluminação das ruas - prosseguiu Costas -, e a bateria do carro estava completa­mente descarregada. Não havia lua, e não quisemos arriscar a usar lanternas. O carro continuou no escuro. Se a CG estivesse à espreita para nos pegar, não poderia imaginar que vínhamos pelo caminho mais difícil e muito mais longo. Estávamos muito perto do carro quando o vimos no escuro. Ficamos ouvindo e observando, e chegamos até a nos espalhar para ver se havia alguém da CG por ali. Em seguida, tateamos o carro e encontramos os corpos. Mesmo correndo riscos, resolvemos acender as lanternas, alguns segundos por vez, encobrindo a luz com nosso corpo.

            Costas estremeceu ao lembrar-se da cena e começou a chorar. Ele esforçou-se para ser entendido.

            - Todos os três - ele disse. - Baleados. Marcel no rosto. Parte de sua cabeça desapareceu. Tivemos trabalho para tirá-lo de baixo do painel. K levou um tiro no pescoço, vindo de trás. Deve ter sido atingido na coluna. Laslos foi ferido na testa.

            - Nenhum sinal do americano? Costas negou com a cabeça.

            - Arrastamos os corpos, um a um, até o caminhão. Estavam cheirando mal e rígidos. Foi horrível. Um amigo meu, que estudou criminologia, constatou que a pessoa que atirou neles devia estar dentro do carro. Encontramos a mochila de Marcel que lhe demos de presente. Estava embaixo do corpo de Laslos, coberta de sangue. Dentro, havia uma troca de roupa e alimentos. Não sabemos o que aconteceu com o americano.

            Chloe contou a Costas e à mãe dele o que Steve Plank relatara, que a CG estava se vangloriando de ter impedido uma tentativa de fuga.

            - Havia uma impostora para a moça e um impostor para o nosso companheiro. Alguma coisa deu errado, e o resul­tado foi esse.

            - O americano está vivo? - perguntou a Sra. P. Chloe assentiu com a cabeça.

            - Está preso em algum lugar. Devem estar tentando extrair alguma informação dele, mas o rapaz é muito bem treinado. Nossa preocupação é que ele seja morto por não cooperar.

            - Você deve achar que o pessoal da CG é idiota - disse Costas.

            - Como assim?

            - Você vem até aqui disfarçada de oficial da CG e acha que vai ser levada até ele.

            - É um risco, nós sabemos.

            - É suicídio - disse Costas.

            - O que você faria, filho? - perguntou Chloe. De repente, ela se deu conta de que Costas deveria ser apenas um pouco mais novo do que ela.

            Ele encolheu os ombros.

            - A mesma coisa, acho, mas penso que não vai funcionar.

            - Estamos nos arriscando tanto assim porque temos um companheiro dentro do palácio em Nova Babilônia – disse Chloe.

            Em seguida, ela começou a falar dos preparativos e dos planos de Mac.

            - Ah, com licença - disse Hannah. - Um minuto só, por favor.

            Chloe olhou de relance para ela e acompanhou-a até um cinto.

            - Chloe, você acha que eles precisam saber de tudo isso?

            - Podemos confiar nos dois! Eles são da cooperativa.

            - E se eles forem pegos e forçados a falar? Não jogue tanta responsabilidade por cima deles.

            - Pense no que eles têm sofrido, Hannah. Jamais vão dizer alguma coisa.

            - E, se disserem, não será só você quem vai morrer, você sabe disso.

            Elas retornaram para continuar a conversa com a Sra. Pappas e seu filho.

            - Isso funciona? - perguntou Costas. - A CG vai se deixar enganar dessa maneira?

            - Não por muito tempo - Chloe admitiu, lançando um olhar de esguelha a Hannah. - Mas com todas as informações incluídas no banco de dados central de Nova Babilônia, temos conseguido penetrar em lugares extraordinários.

            - Acabamos de conhecer vocês - disse a Sra. Pappas. - E logo vamos fazer o enterro de vocês...

            - Somos pessoas de fé - disse Hannah, deixando de lado o sotaque. - E sabemos que vocês também são. E nós também devemos ser pessoas de ação. Conhecemos os riscos e os aceitamos. Não sabemos mais o que fazer. Vocês deixariam um companheiro morrer sem tentar ajudá-lo?

            Costas continuava emocionado. Ele encolheu os ombros.

            - Não sei. Acho que vocês não têm escolha, mas seria melhor enfrentar essa gente com armas em vez de disfarces. Não vejo como isso pode funcionar.

            - Nós não sabemos onde nosso companheiro está! - disse Chloe. - Como podemos encontrá-lo sem nos infiltrar na CG?

            - E o tal homem do Colorado? Ele parece saber de muita coisa.

            - Ele só nos conta o que ouve. Se ele começar a perguntar detalhes, em breve será pego.

            - Como ele conseguiu ficar na CG sem a marca?

            Chloe falou sobre a nova identidade de Steve e a reconstrução de seu rosto, ciente do longo suspiro dado por Hannah e de seus movimentos negativos com a cabeça.

            - A testa dele é de plástico. A marca de lealdade teria de ser aplicada sob o plástico, e ninguém suportaria olhar para ele e ver o interior de seu crânio.

            - Por favor - disse Hannah, em voz baixa.

            - Quero acompanhar vocês quando forem atrás de seu companheiro - disse Costas.

            - Não posso permitir - disse Chloe. - Nós temos docu­mentos, fardas e cobertura pelo computador, por enquanto. Levaria dias para providenciar tudo isso para você.

            - Eu posso conseguir uma farda da CG, e vocês me dariam cobertura. Eu...

            - Não - disse Chloe. - Agradecemos, mas isso não vai acontecer. Temos um plano e vamos segui-lo, quer funcione quer não.

            - Vocês precisam de mais armas?

            - Precisamos, mas levantaríamos suspeitas se carregássemos armas pesadas que não pertencem à CG. O Sr. McCullum está tentando pegar algumas no avião de nosso companheiro ou no carro dele.

            - Onde está o carro?

            - De acordo com Plank, os captores de Sebastian também estão com o carro que o próprio Sebastian conseguiu no aeroporto.

            - E eles não vasculharam o carro à procura de armas?

            - Não sabemos.

            Costas fez um gesto para que as duas o acompanhassem até um canto, onde havia um enorme baú de madeira escondido embaixo de pilhas de cobertores. Estava lotado de Uzis.

            - Não me façam perguntas - ele disse. Sua mãe providenciou uma sacola grande da lavanderia na qual Costas colocou três armas enroladas em panos e vários pentes de munição.

            - Agora, é melhor vocês partirem.

 

            Alguém contara a George Sebastian que a pessoa não ouve o disparo que a mata, mas como essa afirmação pode-ria ser comprovada? Ele esforçou-se para manter a calma, porque não queria dar a satisfação a seus captores de demonstrar medo antes do disparo fatal. Ele prendeu a respiração pelo tempo que parecia ser seus últimos dez segundos de vida, e não conseguiu evitar um estremecimento quando soltou o ar.

            - Muito bem - disse o líder -, ele precisa ficar apresentável, e rápido. Comida e água em primeiro lugar, depois uma ducha. E façam alguma coisa quanto ao lábio dele. Inventem uma história. Não fomos nós que fizemos isso.

            George abriu os olhos e piscou.

            - Você continua encrencado, Califórnia, mas nenhum de nós vai morrer por sua causa. Vou tirar as algemas, mas há duas armas apontadas para você, e só precisamos de um motivo para atirar.

            Depois de retiradas as algemas, George esfregou as mãos, fazendo Platão estremecer. George sentiu vontade de assustá-lo com um movimento brusco ou um grito.

            - Dê um jeito nos pulsos dele - disse o líder a Elena. - Vamos, temos de sair daqui.

            Eles empurraram George escada acima e lhe deram dois sanduíches com recheio de alguma coisa com gosto de lingüiça. As fatias de pão tinham quase cinco centímetros de espessura e estavam secas. Ele teve de apertá-las para que coubessem na boca. O lábio machucado esticou e sangrou enquanto ele mordia o sanduíche. Em seguida, ele sorveu avidamente a água da garrafa, morna e com gosto de agua velha.

            George queria recostar-se na cadeira e inspirar e expirar o ar com força, mas aquele não era um momento de lazer. Ele engasgou e tossiu, mas forçou-se a comer todo o san­duíche. Sua melhor chance de fugir ou tentar alguma coisa seria enquanto estivesse sem as algemas, e eles o estavam provocando a fazer isso. George não queria gastar energia mental tentando imaginar o que significava tudo aquilo, mas sentiu-se aliviado por estar vivo e ter alcançado seu objetivo até aquele momento: permanecer calado.

            Quando terminou de comer o sanduíche, George pegou um punhado de migalhas de pão de cima da mesa e levou-as à boca. Tomou o último gole de água, virando a garrafa para não sobrar nenhuma gota. Elena tirou a garrafa de suas mãos e apontou para um cubículo onde ele mal caberia embaixo do chuveiro.

            - Deixe as roupas ali - ela disse, apontando para o chão. - É claro que você não vai conseguir passar pela janela, mas saiba que há um homem armado do lado de fora.

            Ela saiu e fechou a porta. Mesmo sabendo que a moça e, provavelmente, os outros poderiam ouvir qualquer ruído ali dentro, ele olhou embaixo de uma cama de lona e só viu poeira. Abriu três gavetas de uma cômoda de madeira franzina. Vazias. Não havia nada ali a não ser uma janela que, pelos seus cálculos, estava de frente para o oeste. Ele entreabriu a persiana, e Sócrates apontou-lhe a arma.

            - Ande logo! - gritou Elena, do outro lado da porta.

            Ele tirou a roupa, deixou-a no chão e entrou embaixo do chuveiro. Quando abriu o registro esquerdo, recebeu um jato de água gelada no corpo. Ele deu um passo atrás e abriu o outro registro. Fria também. Resolveu deixar os dois abertos para permitir que a água escorresse por alguns instantes, Tentou afastar um pouco o bocal do chuveiro, mas não conseguiu por causa da ferrugem que o prendia no lugar.

            - A água não é potável! - alguém gritou do lado de fora.

            George queria perguntar se havia sabonete ou uma toalha, mas decidiu não abrir a boca. Tiritando de frio, ele forçou-se a entrar embaixo do chuveiro. Seu corpo estremeceu, mas ele deixou que a água fria molhasse seus cabelos e, depois, o corpo inteiro. Esfregou o corpo vigorosamente pelo tempo que pôde agüentar. Quando estava prestes a fechar os registros, ele ouviu a porta do cômodo ser fechada. Ao espiar, ele viu, no lugar em que deixou suas roupas, uma pilha de roupas limpas, talvez pertencentes a Platão, o homem com o físico semelhante ao dele.

            Ótimo. Ele não é tão grande quanto parece.

            Em cima da cama, havia uma toalha de rosto. George enxugou-se com ela e vestiu a roupa. Uma camiseta esquisita serviu para proteger seu corpo do contato áspero de uma malha de lã grosseira. As ceroulas, ao estilo militar, eram justas demais. As meias grossas de cor cinza começaram a aquecer seus pés, e a calça cáqui com cinto de lona ficou apertada na cintura e curta - uns dez centímetros acima do tornozelo. As botas da CG eram um número menor que o seu, mas suportáveis.

            George empurrou a porta, e Elena fez um gesto para que ele retornasse à mesa onde havia comido o sanduíche. Platão continuava a encará-lo, empunhando a arma. George se deu conta de que a moça era um alvo fácil para ele. Poderia golpeá-la na cabeça antes que os outros percebessem e matá-la antes que alguém tivesse tempo de atirar.

            Ela passou, desajeitadamente, uma pomada no lábio dele e massageou-lhe as mãos e os pulsos. George analisou o rosto dela tentando encontrar algum sinal de fraqueza. O sangue que havia nas roupas daquela moça, quando ele imaginou que ela fosse uma aliada, não era dela. A moça era uma assassina.

            Elena apertou um inchaço enorme em cima de sua sobrancelha, mas George não estremeceu de dor. Se ele conseguisse suportar um pouco mais, haveria um jeito de sair dali? Parecia difícil encontrar gelo naquele lugar, mas ela pegou algumas pedras, enrolou-as em um lenço e segurou-as contra o inchaço em sua testa. Em seguida, fez o mesmo no "galo" em sua nuca. Por que ela não economizou uma ou duas pedras de gelo para que ele pudesse matar a sede?

            O sanduíche, cujo recheio George não havia identificado, pesou-lhe no estômago, mas ele sentia um pouco de força proveniente do alimento. Ele queria provocar algum estrago, mostrar àqueles caipiras a astúcia de um preso americano. Ah, ele poderia fazer muito mais do que ficar calado. Pelo que sabia, já havia quebrado o joelho de um dos guardas.

            Durante todo o tempo em que Elena lhe aplicou os curativos, George ficou muito perto dela. Poderia cegá-la enfiando dois dedos em seus olhos, quebrar-lhe as mandíbulas com um soco no queixo ou esmagá-la virando a mesa sobre ela e atirando-se por cima.

            Mas isso de nada adiantaria, porque ele seria alvejado. George pensou em deixar essa idéia de lado e atirar-se em cima de Platão para desarmá-lo. Em seguida, o golpearia com a coronha da arma, atiraria em Elena e se arriscaria a passar pelos dois acampados do lado de fora. As probabilidades seriam maiores, mas não valeria a pena.

            Eles estavam melhorando sua aparência. Por quê? Haveria alguém superior a eles querendo extrair informações? E, pelo jeito, esse homem queria que ele recebesse um bom tratamento. George estava se portando de maneira semelhante à de qualquer outra pessoa ligada aos judaístas, e era por isso que continuava vivo.

            Ele gostou da idéia de ser apresentado à chefia da CG. Seu silêncio os deixaria furiosos. Melhor ainda, ele imaginou: quanto mais arrogante um prisioneiro se mostra, menos preparados eles ficam para impedir tentativas criativas de fuga. Em determinado ponto, essa gente perceberia que ele não iria colaborar. De seus lábios não sairia nenhuma informação, fosse de modo voluntário ou forçado. Depois de certo tempo, ele seria descartável. Ou eles o usariam como um exemplo prático, justificando que ele revelou um segredo ao inimigo, ou o executariam. Ou as duas coisas.

            O objetivo de George foi se formando lentamente em sua cabeça. Ele queria permanecer alerta, estar ciente de qualquer detalhe. Queria saber quando o pessoal da CG perderia a paciência e concluiria que ele era um caso sem esperança, um caso perdido. A explicação era simples. Quando eles se cansassem e seu fim estivesse perto, ele queria ter a certeza de levar um ou dois consigo para a eternidade. Pelas marcas na testa que eles ostentavam, George sabia que seus captores não iriam para o mesmo lugar que ele. Mas iriam para o destino que lhes estava reservado muito antes do que imaginavam.

            George teve de conter um sorriso enquanto era conduzido ao jipe. Estava algemado novamente, mas isso só aconteceu depois que eles colocaram um par de luvas grandes em suas mãos. Quanta consideração, ele pensou. Proteger meus pulsos machucados.

 

            Quando Mac se encontrou com Chloe e Hannah em uma clareira na floresta, na região norte de Ptolemaïs, os três já haviam entrado em contato com o pessoal do Comando Tribulação.

            - Mal posso esperar para ver que história o pessoal de Nova Babilônia vai contar sobre Petra - disse Hannah.

            - Como alguém pode continuar incrédulo depois disso tudo?

            - Quando será que papai e Abdullah terão condições de partir? - disse Chloe. - Pelo que sabemos, Tsion vai querer ficar lá, desde que eles tenham tecnologia suficiente para permitir que ele continue a enviar suas pregações virtuais ao mundo inteiro. Acho que a CG vai matar qualquer um que sair de lá.

            Mac contou a Chloe e a Hannah que o pessoal do quartel-general de Ptolemaïs estava aguardando sua chegada, mas ele queria modificar os planos.

            - Por quê? - perguntou Chloe. - Parece que já está tudo providenciado para você.

            - É verdade, mas se eu chegar lá, cheio de empáfia, vai parecer que quero me exibir, que estou tentando impres­sionar. Eu poderia levantar suspeitas sem querer. E tem mais. Se aquele quartel-general for parecido com o resto deste lugar, eles vão desconfiar de mim se eu não começar a tirar o couro de qualquer um que esteja dando as ordens.

            - Explique-se melhor - disse Hannah. - Eu detestava trabalhar no palácio, mas a organização e a decência que vi aqui deixam muito a desejar.

            - Se eu fosse um comandante sênior de verdade, levaria uma semana inteira para informar ao pessoal de Nova Babilônia tudo o que há de errado aqui. Meu plano era chegar lá, pegar o que preciso e ir embora. Não ia nem pedir ajuda dizendo que não seria necessário. Mas agora estou pensando em não aparecer por lá.

            - Não aparecer?

            - Eu não vou aparecer.

            - Nós é que vamos?

            - Uma de vocês.

            - Eu topo - disse Hannah.

            - Ei, espere um pouco - disse Chloe. - Eu...

            - Sinceramente, Hannah, acho que Chloe é quem deve ir. Acho que nenhuma de vocês levantaria suspeitas, mas, se a coisa começar a azedar e eles checarem sua íris ou suas impressões digitais... Você está registrada nos arquivos do palácio.

            - Como morta.

            - É verdade, mas você saberia explicar como uma indiana poderia ter características físicas idênticas às de uma norte-americana morta?

            - Eu não saberia, porque você não acredita em minha capacidade.

            - Você está brincando? Quase todas as vezes que olho para você, esqueço quem você é de verdade. Mas Chang registrou um nome novo para Chloe; portanto, se eles ficarem irritados e pedirem que uma subordinada minha prove sua identidade, ela passará no teste.

            - O que você quer que eu faça, Mac? - Chloe perguntou.

            - Quero que você demonstre impaciência. - Impaciência?

            - E irritação. Você pegou um osso duro de roer. Seu chefe folgado e os outros que vieram com ele estão tirando um cochilo em algum lugar agradável, o que não é da conta de ninguém, e você foi encarregada de conseguir informações para ele. Se houver alguma burocracia, alguma demora, comece a dar bronca. Você acha que pode fazer isso?

            - O que você acha?

            - Você deve dar a entender que este é um caso de vida ou morte. Passe as informações para mim e deixe o resto por minha conta. Dê um jeito de mandar um aviso aos captores que estamos por aqui, para que eles não sejam pegos de surpresa, mas é melhor que eles deixem o prisioneiro apresentável. O chefão não está nem um pouco satisfeito por não ter sido informado antes; portanto, dê um jeito de falar com alguém que saiba o que está fazendo.

            - Entendido.

            - Aquele piloto, amigo de Abdullah, acredita que tudo vai dar certo, que vamos tirar Sebastian de lá, algemado é claro, levá-lo até o avião e sair daqui esta noite.

            - Será que o pessoal daqui imagina que você está plane­jando levar o prisioneiro embora?

            - Não; mas, quando eles descobrirem, é melhor a gente estar bem longe daqui.

            - Não vai ser fácil - disse Hannah. - Mesmo que eles acreditem em tudo o que a gente disser.

            - Nunca é fácil, Indira - disse Mac, sorrindo. - O segredo está em não tentar convencê-los de nada. As pessoas ficam irritadas quando são obrigadas a fazer alguma coisa que não querem. Você está entendendo?

            - Não muito.

            - Por exemplo, se eu lhe disser que Rayford ou Tsion querem que você faça alguma coisa que não deseja fazer, como voltar para Chicago imediatamente, a sua primeira reação será negativa. Você não quer voltar, vai recusar-se, e eu vou concordar, mas não vou contar o resto da história. Você vai insistir, e eu não vou dizer mais nada. Já que você tomou uma decisão, não precisa conhecer os detalhes. Mas, se eu estivesse no seu lugar, faria de tudo para descobrir a história inteira e ficaria em dúvida se tomei a decisão certa.

            - Pode ter certeza disso. Eu ia insistir até você me contar. Você me conhece.

            - Você poderia até insistir. Mas, veja, estaria entrando no meu jogo. Não seria eu quem tentaria convencê-la. Você é que estaria tentando extrair alguma coisa de mim. Aí, eu conto tudo o que for preciso para forçar você a fazer o que lhe pedi antes, mas você só vai perceber isso depois, quando entender que foi manipulada por mim, que você se irritou e que a idéia pareceu ter sido sua.

            - Em outras palavras - disse Hannah -, você vai dar um jeito de forçar esses homens a implorarem que você tire Sebastian das mãos deles.

            - É isso mesmo.

            - E eles vão achar que você está lhes fazendo um favor.

            - Exatamente.

            - Quero ver para crer.

            - Você vai ver.

            - E onde eu vou ficar enquanto Chloe estiver lá dentro?

            - Aguardando no jipe, com os olhos e os ouvidos atentos. Eles vão saber que há duas pessoas cuidando do caso, mas apenas uma que vai obter informações para o chefe.

            - E onde você vai estar? - perguntou Chloe.

            - Ao telefone, falando com Chang, e depois com o rapaz do aeroporto. Quero o Rooster Tail abastecido e pronto para decolar.

            - Você vai dizer a ele que vamos levar o prisioneiro conosco ?

            - Vou agir de acordo com a situação. Se não encontrarmos uma arma no carro de George, já arrumei uma para ele e outra para mim. Vocês têm as suas.

            - Será que vamos precisar delas?

            - Pelo menos para impressionar o pessoal. É normal um oficial trazer subordinados armados para uma visita como esta.

 

            Durante um intervalo no turno da tarde, Chang caminhou apressadamente até seu quarto procurando não chamar a atenção de ninguém. Com os dedos voando pelo teclado do computador, ele tentava descobrir o paradeiro de sua irmã. Ela era mais eficiente nisso do que ele imaginava. Chang gostaria que sua irmã o tivesse informado sobre seus planos para que ele abrisse caminho para ela. Talvez, se ela che­gasse a algum lugar e descobrisse que ele lhe conseguira uma autorização para viajar a serviço da CG, ela saberia que ele estava acompanhando seus passos.

            O "soldado Chow", das Forças Pacificadoras, apareceu no sistema. Aparentemente, "ele" havia saído de Chicago e conseguira uma carona até Long Grove, em Illinois. Chang ficou feliz pelo fato de sua irmã ter evitado o Aeroporto de Kankakee e a Base Aérea Naval de Glenview. Embora hou­vesse falta de funcionários em todos os lugares, o aeroporto e a base aérea haviam sido queimados pelos judaístas e não tinham condições de abrigar um fugitivo. Mas Chang nunca vira nada no sistema que mencionasse uma pista aérea em Long Grove.

            Finalmente, ele encontrou uma pista de decolagem para executivos, que havia sido reaberta recentemente para um número limitado de rotas comerciais. Mesmo sabendo que o intervalo estava terminando, Chang contatou a torre de lá fingindo ser um oficial de alta patente do departamento de aviação da CG, "solicitando confirmação rotineira de um soldado das Forças Pacificadoras, do setor internacional 30, que estava pegando uma carona em um vôo de carga com destino a Pawleys Island, na Carolina do Sul".

            Chang não teve tempo de aguardar a resposta e voltou apressado a seu posto de trabalho. Ali, ele ficou sabendo que Suhail Akbar estava interrogando o primeiro piloto que retornava de Petra. Chang só podia supor que o segundo piloto também estava a caminho da sala de reuniões particular de Suhail. Com alguns toques no teclado, ele ativou a escuta clandestina naquela sala, para gravar as conversas. Mais tarde, ele faria um download do sistema central.

 

            Chloe estava agradecida pelo fato de Hannah ter sensibilidade suficiente para deixá-la a sós com seus pensamentos no caminho de volta a Ptolemaïs.

            - Você concorda que eu assuma essa missão, certo? - ela perguntou.

            - Faz sentido - respondeu Hannah. - Aquele seria o lugar ideal para alguém me checar.

            Chloe tentou acalmar as batidas de seu coração, respirando fundo e tentando cochilar um pouco. Não funcionou, mas ela sabia que sua vida dependia, conforme Mac lhe dissera, de sua habilidade em demonstrar impaciência. Irritação seria melhor, caso fosse necessário. Mas a impaciência seria mais apropriada.

            O quartel-general do pelotão ocupava os três andares superiores de um edifício de quatro andares. O primeiro andar, que estava abandonado, devia ter servido para abrigar algum escritório de negócios.

            Um dos homens que Chloe e Hannah haviam encontrado na rua estava sentado no escuro, perto do elevador no térreo, fumando e lendo sob a luz prateada que vinha da rua. Quando viu Chloe, ele levantou-se e prestou-lhe continência.

            - O elevador está quebrado - ele disse. - A senhora poderá usar a escada ali atrás.

            - Última forma! Sua função é essa?

            - Sim, senhora. Alguém precisa avisar as pessoas, se não elas vão ficar o dia inteiro esperando pelo elevador.

            - Ninguém pensou em colocar um aviso?

            - Ah, sim, mas o oficial de comando quer que o aviso seja dado pessoalmente.

            Ela assentiu com a cabeça.

            - É com ele que eu quero falar. Você poderia dizer-lhe que estou...

            O jovem levantou as duas mãos.

            - Não tenho meios de avisá-lo. Há uma recepcionista lá em cima.

            - Pensei que vocês estivessem com falta de pessoal. Ele encolheu os ombros.

            - Eu apenas cumpro ordens, senhora.

            A escada dava acesso a uma sala suja e ladrilhada, com cerca de meia dúzia de lâmpadas fluorescentes funcionando. Não havia ninguém na recepção, mas outro homem das Forças Pacificadoras fez menção de levantar-se de um sofá surrado. Chloe o deteve com um gesto.

            - Qual é sua função aqui, filho? - ela perguntou.

            - Sou monitor de moral da CG, senhora. E estou encar­regado de avisar que a recepcionista não está aqui.

            - Estou vendo.

            - Bem, eu digo às pessoas que a recepcionista vai voltar logo.

            - O que significa "logo"? Ele olhou para o relógio.

            - Ela saiu há uns dez minutos, portanto já deve estar retornando.

            - Você poderia avisar o comandante Stefanich que a Sra. Irene, do destacamento do comandante sênior Johnson, está aqui e deseja falar com ele?

            - Eu até que poderia, senhora, mas recebi instruções para...

            - Faça o que estou mandando. Eu me entendo com ele. - Sim, senhora. Como é mesmo o seu nome?

            - Deixe estar, eu mesma vou encontrá-lo - disse Chloe, dirigindo-se para a porta.

            - Ah, eu não posso permitir, senhora. Por favor. Sinto muito não ter entendido o seu nome.

            - Você está com a mão na arma, Monitor?

            - Não, senhora, bem... sim, senhora, estou, mas foi sem querer. Eu...

            - Leia meu crachá, filho, e grave meu nome. No momento, tudo o que você precisa saber é comandante sênior Johnson.

            - Entendido. Um momento.

            Chloe sacudiu a cabeça. Seria uma surpresa ver eficiência por parte da CG. A porta foi fechada e, logo em seguida, foi aberta novamente. O monitor de moral fez um gesto afirmativo com a cabeça e apontou para uma sala com paredes de vidro em um dos cantos, onde o comandante estava sentado atrás de uma mesa. Do lado de fora, havia uma mulher sem as insígnias de oficial.

            - Vou ter de falar com ela também? - perguntou Chloe.

            - Sim, senhora. É a secretária do comandante.

            A maioria das outras mesas estava vazia, e havia também poucas lâmpadas acesas. Aparentemente, aquele comandante estava cercado apenas de pessoas que funcionavam como cães de guarda. Chloe caminhou em direção à mulher de meia-idade, fardada. A mulher sorriu, aguardando ser abor­dada, mas Chloe passou reto por ela limitando-se a dizer:

            - Irene, do destacamento de Johnson. Vou falar com Stefanich.

            A mulher não teve tempo para protestar. Nelson Stefanich olhou para ela, com ar de surpresa, e começou a levantar-se.

            - Oi, sinto muito, senhor, mas o comandante sênior John­son não deseja que eu perca tempo falando com tanta gente. O senhor tem alguma informação para ele?

            - Claro, mas...

            Chloe abriu rapidamente uma pasta de couro e retirou seu cartão de identificação da CG.

            - O que o senhor necessita?

            - Bem, eu esperava receber a visita do comandante John­son.

            Stefanich falava com sotaque europeu, talvez polonês, ela imaginou.

            - Ele lamenta muito não poder ter vindo. A chefia da CG deseja que este assunto seja tratado com urgência, e enten­demos que o senhor está preparado para...

            - Sente-se, Sra. Irene, por favor.

            - Eu prefiro...

            - Por favor, eu insisto. Chloe sentou-se.

            - Eu esperava informar seu comandante a respeito do pessoal que escolhemos para esta missão. Estamos muito orgulhosos de...

            - Com licença, senhor, mas entendemos que até agora não foi extraída nenhuma informação do prisioneiro.

            - É apenas uma questão de tempo. Ele é um militar alta­mente treinado, e temos sido pacientes até agora.

            - Estou entendendo que, se seu pessoal for tão bem preparado quanto o senhor diz, o comandante Johnson não precisaria vir até aqui, não é mesmo?

            - Talvez. Mas estou satisfeito com o que eles conseguiram até agora e pretendo recomendar uma promoção...

            - Faça como quiser, senhor, mas, por favor, forneça as informações de que meu superior necessita.

            Stefanich fez menção de tirar uma pasta da gaveta de sua escrivaninha, mas não a entregou a Chloe.

            - A senhora não está a par do que aconteceu hoje? O prisioneiro passou a ser menos importante após o êxito do ataque.

            - Entendo que os resultados não são conclusivos. Se tivessem sido, por que não foram transmitidos ao mundo inteiro?

            - Houve problemas técnicos. A senhora vai saber que milhões de traidores foram mortos, inclusive os líderes deles.

            - Ainda não sabemos onde fica o quartel-general deles disse Chloe -, ou quantos líderes sobraram.

            - Eles estão confinados nos Estados Unidos Carpathianos. Até mesmo o rebelde não contestaria isso.

            - O senhor está se recusando a permitir que um comandante sênior tenha acesso ao prisioneiro?

            - Não, eu...

            - Se o senhor estiver, eu serei a primeira pessoa a desa­gradar ao chefe. Mas o senhor será o próximo. - Chloe levantou-se. - Já estou atrasada, mas, se eu voltar de mãos vazias, bem... eu não me importo de dizer que a culpa vai recair sobre o senhor.

            - Aqui está - ele disse oferecendo-lhe a tal pasta. Chloe começou a caminhar em direção à porta. - O senhor pode recomendar promoções para o pessoal que contratou, mas não vai estar em posição de merecer uma se...

            - Aqui está, por favor - ele disse, sorrindo com ar de quem pede desculpa.

            Chloe parou e olhou para ele com uma expressão de desconfiança no rosto.

            - Uma pasta? Eu não quero pasta nenhuma. Só preciso informar ao comandante onde se encontra o prisioneiro.

            - Está tudo aqui! Veja, aqui!

            Chloe parou, com a mão na maçaneta, sacudindo a cabeça.

            - E seu pessoal vai ficar nos aguardando.

            - Claro!

            Ela mordeu os lábios, olhando de esguelha para Stefanich. Já que havia chegado até aquele ponto, não ia desistir.

            - Está bem, vamos ver.

            Ele sentou-se e esticou o braço, oferecendo-lhe a pasta.

            Ela o encarou até forçá-lo a desviar o olhar. Finalmente, depois de um longo suspiro, ele levantou-se e aproximou-se dela. Chloe agarrou a pasta e saiu.

 

            Chang estava inquieto, sentado em sua cadeira, fingindo trabalhar, mas sem conseguir concentrar-se. Ele deveria estar coordenando os vôos e os transportes de equipamentos, alimentos e suprimentos das fábricas de produção para as áreas mais necessitadas. Chang havia inventado um jeito de deixar transparecer que suas instruções eram lógicas e completas, até mesmo eficientes. Mas os despachos das mercadorias causavam atrasos intermináveis.

            Em razão de um dispositivo de falha introduzido por ele no sistema, os embarques ficavam presos durante dias em localidades muito distantes e, depois, eram enviados para lugares errados. Geralmente, lugar errado, para a CG, significava lugar certo para a cooperativa ou para o Comando Tribulação.

           Chang recebera elogios por seu trabalho, o que servia para que suas pistas não fossem descobertas e para evitar que os problemas fossem rastreados até ele. Contudo, alguma coisa estava atormentando sua mente. Alguma coisa não estava fazendo sentido.

            Ming deixara um bilhete informando ao Comando Tribu­lação, em Chicago, que estava a caminho da China para ver seus pais. Se isso fosse verdade, por que ela seguiu para o leste? A história só faria sentido se ela tivesse procurado um vôo para a costa oeste. A verdade era que as principais cidades da Califórnia estavam em ruínas, e os grandes aero­portos desapareceram, mas ainda havia muitos lugares para decolagem.

            Chang pensou em simular uma doença e afastar-se do trabalho pelo resto da tarde, mas ele não podia arriscar-se a atrair a atenção sobre si. Muitos membros do Comando Tribulação encontravam-se em posições precárias. Chang precisava estar a postos para ajudá-los, sem levantar suspei­tas. Ele consultou seu relógio.

 

            Sentado com Kenny no colo, Buck conversava com Zeke e Leah. Passava um pouco das 8 horas da manhã, e Leah estava folheando pilhas de mensagens e de relatórios do pes­soal da cooperativa do mundo inteiro. Surpreendentemente, a cooperativa estava funcionando, apesar da tragédia ocor­rida com os mares. A coragem daquela gente sem a marca de lealdade, que transportava em seus veículos quantidades gigantescas de mercadorias de um lugar para outro, sem envolver transações com dinheiro, deixava qualquer um admirado.

            - Você sabe do que sua mulher é capaz, Buck? - Leah perguntou.

            Buck ainda não aprendera a entender a maneira de falar de Leah. Ele queria aceitar aquelas palavras como um elogio, um cumprimento a Chloe. Mas teria ele notado uma leve provocação? Será que Leah queria dizer que ele era insen­sível, que ele não conhecia Chloe?

            - Sim, acho que sei - ele respondeu.

            - Acho que o seu papai não sabe, Kenny. Você sabe? Você acha que ele sabe?

            - Sabe! - repetiu Kenny.

            - Você sabe? O bebê riu.

            - Você sabe do que a mamãe é capaz, meu amor? Ela é um gênio. Ela...

            Assim que ouviu a palavra "mamãe", Kenny começou a fazer cara de choro e repetir:

            - Mamã. Mamã.

            - Obrigado, Leah - disse Buck.

            - Sinto muito - disse ela, parecendo ser sincera.

            Se não estivesse sendo sincera, Buck estava preparado para complementar: "Brilhante. Muito esperta." Esse era o efeito que Leah exercia sobre ele. Ela parecia estar tentando mudar de assunto para distrair Kenny, mas devia ter inven­tado algo que fosse do interesse dele, não do de Buck.

            - Estou falando sério - disse Leah. - Você sabe do que acabei de tomar conhecimento? Chloe sabe quantos navios de mil toneladas ou mais havia no mundo antes de as águas dos mares se transformarem em sangue.

            - Não diga.

            - Diga! - repetiu Kenny.

            - Digo sim - insistiu Leah. - Você sabe calcular quantos?

            - Não sei - disse Buck. - Milhares, eu suponho.

            - Posso dar um palpite? - interveio Zeke.

            - Z! - gritou Kenny.

            - Calculo mais de 30 mil.

            - Navios desse porte? - disse Buck. - Parece um número muito alto.       - Ele acertou na mosca - disse Leah, virando-se para Zeke. - O quê? Chloe lhe contou alguma coisa? Como você sabe disso?

            Z não pôde conter um sorriso.

            - Ah, sim, ela me contou. Mas minha memória é muito boa, certo?

            Buck assimilou a informação.

            - O que aconteceu com todos aqueles navios?

            - Estão em ruínas - disse Leah. - Parados na água. Isto é, parados no sangue.

            - E se Deus suspender o julgamento? E se o sangue se transformar em água salgada?

            Ela fez um gesto negativo com a cabeça.

            - Não faço idéia. Não posso imaginar o que significa limpar um navio impregnado de sangue até que ele volte a funcionar.

            - E os peixes morreram - disse Z.

            - Peixes!

            - Quem suportaria o mau cheiro? Os jornais não publi­cam, mas as pessoas que moram no litoral estão tentando sair de lá. Se nada mudar, o mau cheiro vai ficar cada vez pior, as doenças vão começar a aparecer. Que coisa!

            - Coisa!

            Buck colocou Kenny no chão e deixou-o afastar-se dali.

            - Não posso imaginar como Carpathia está lidando com isso. Não há meios de contornar a situação, de dourar a pílula. Milhares de pessoas estão morrendo todos os dias, e pensem nas tripulações presas dentro dos navios. Todos vão morrer. Ei, Leah, alguns anos atrás escrevi um artigo sobre quanto o Panamá dependia de sua indústria naval. O que isso tem a ver com um país como aquele?

            Ela folheou algumas páginas.

            - Panamá é o único país com mais navios que a Grécia. Isso vai levá-los à falência.

            A menção da palavra Grécia fez Buck olhar para o reló­gio.

            - A tarde já está terminando lá - ele disse. - Se o plano estiver funcionando, eles devem partir assim que escurecer.

            - Estão esperando o quê? Buck encolheu os ombros.

            - Mac acha que a espera vai dar a eles uma vantagem. Ele não sabe o que vai encontrar pela frente, mas, se tiverem de escapar de um tiroteio ou fugir, ele calcula que será melhor que isso aconteça no escuro.

            Aparentemente, Leah não estava prestando atenção.

            - Você está pensando em alguma coisa? - Buck pergun­tou.

            - Estou esperando uma ligação ou um e-mail, mas até agora não chegou nada. Chloe me disse que um empresário queria embarcar alguma coisa para Petra. Módulos baratos para construção de casas.

            - Verdade?

            - O homem é muito rico, ganhou muito dinheiro com construção de casas de baixo custo, depois se converteu. Ele entrou no ritmo. Aceita todos os mapas e gráficos de Tsion, calcula que o Glorioso Aparecimento vai acontecer exata­mente sete anos depois do pacto assinado entre Carpathia e Israel.

            - Você não acha a mesma coisa?

            - Claro. Se Tsion me dissesse que hoje é ontem, eu acreditaria - respondeu Leah. Evidentemente, ela estava divagando. - Sinto saudades dele, Buck. Oro por ele constantemente.

            - Todos nós oramos.

            - Não como eu.

            - Sim, eu sei.

            - O quê?

            - Eu sei.

            - Sabe?

            - Claro - disse Buck. - Você pensou nele e se esqueceu do que estávamos falando.

            Ela parecia constrangida.

            - Isso não é verdade!

            - Então, prove.

            - Estávamos falando... hã... de navios. Panamá e Grécia.

            - Estávamos falando de módulos para construção de casas, Leah.

            - Estávamos?

            - Estávamos. Quem é o tal sujeito e o que você tem a dizer sobre ele?

            Leah levantou-se e olhou através de um buraco na janela           pintada de preto.

            - Não sei ao certo - ela disse. - Ele é daqui de Illinois. De um lugar chamado Grove não-sei-o-quê. Ele diz que temos menos de três anos e meio pela frente e que gostaria que o ajudássemos a descobrir um jeito de despachar sua merca­doria para Petra. Diz que o pessoal de lá poderia construir casas por conta própria e em pouco tempo. Você acha que ele sobreviveu, Buck?

            - Sobreviveu a quê?

            - Ao bombardeio.

            - O sujeito estava em Petra?

            - Estou falando de Tsion!

            - Ah, desculpe-me. Voltamos a falar dele. Também estou preocupado com meu sogro, com Chaim e com Abdullah, mas acho que sim.

            - Acha o quê?

            - Que eles estão vivos.

            - Não vamos descobrir isso nos noticiários, não é mesmo?

            - Não vamos. Mas Chang deve saber. Ele sabe tudo.

 

            Chang não havia almoçado; portanto, quando o expedi­ente terminou, ele retornou ao seu quarto, passando antes pelo refeitório central, onde comprou comida para levar para casa. Havia muita coisa que ele queria ouvir, mas a prioridade era encontrar o paradeiro de sua irmã. Ele não sabia se seus pais estavam de partida ou em algum esconderijo, mas, de qualquer forma, estariam vulneráveis sem a marca de lealdade. Ele havia fornecido aos pais o nome de uma pessoa de uma igreja clandestina na província em que moravam, mas não ficou sabendo se eles tentaram ou se conseguiram estabelecer esse contato.

            Como Ming os encontraria se nem mesmo Chang sabia onde eles estavam? E quanto tempo levaria para ela chegar à China pela costa leste dos Estados Unidos Norte-americanos?

            O ambiente estava sombrio no complexo do palácio. Todos pareciam ter pressa em chegar a seus apartamentos. O dia foi muito estranho. Quem não vira o ataque aos rebeldes? teria alguém acreditado naqueles pretensos problemas técnicos que tiraram, de repente, as imagens do ar, justamente quando o piloto disse, com todas as letras, que imaginou ter visto sobreviventes lá embaixo?

            Chang olhou casualmente para os dois lados do corredor, entrou rapidamente em seus aposentos e trancou a porta. Acionou um programa em seu computador para saber se havia grampos" ali. Todos os sistemas instalados por David Hassid e que foram deixados para seu uso e salvaguarda continuavam seguros e rodando normalmente.

            Depois de devorar frutas e biscoitos, Chang verificou seus e-mails. Lá estava a confirmação aguardada, dirigida ao nome falso que ele usara como oficial de alta patente do departamento de aviação da Comunidade Global. "Passageiro, soldado das Forças Pacificadoras da CG, Chang Chow, do setor 30, pegou carona com o piloto Lionel Whalum, em Long Grove, Illinois. Rota do vôo para Pawleys Island, na Carolina do Sul, sem escalas. Vôo de ida e volta de Whalum. Documentos do Sr. Chow em ordem, destino San Diego, Califórnia. Nota: Whalum não tem a marca de lealdade, mas o Sr. Chow assegurou que vai tratar disso quando eles chegarem à Carolina do Sul."

            Chang despachou rapidamente uma resposta de agradecimento. Em seguida, vasculhou o banco de dados à procura de vôos de Pawleys Island para San Diego. O nome do piloto escalado para aquela rota no dia seguinte acionou uma campainha na mente de Chang. Era um piloto da cooperativa. Ming estava usando o pessoal da cooperativa para chegar à China. Será que Whalum também era da cooperativa?

            Chang vasculhou os registros de Chloe. Nada. Se ele fosse da cooperativa, ainda não havia prestado nenhum serviço ou Chloe ainda não havia registrado seu nome. Talvez ele tivesse usado outro nome ou Chloe estivesse atrasada e ainda não tinha dado entrada nos nomes do pessoal.

            Chang verificou o banco de dados internacional da CG. Enquanto o comando de busca procurava por Whalum, ele terminou de comer. Ao retornar ao computador, encontrou uma fotografia e uma página inteira contendo informações sobre Lionel Whalum, de Long Grove, Illinois. Ele era negro, descendente de africanos. Havia se mudado com a esposa e três filhos, de Chicago para a periferia, quando seus negócios começaram a prosperar. Ganhou muitos prêmios como cidadão e como empresário. Sua lealdade à Comunidade Global era mencionada como "desconhecida, mas não sus­peita".

            Chang mudou para outro banco de dados e copiou as informações para um centro de administração de juramento a lealdade, em Statesville, Illinois. Retornando aos registros de Whalum, ele modificou a informação sobre lealdade para "confirmada", fato esse documentado pelo esquadrão da CG de Statesville na data em que Whalum teria recebido a marca. Se ele fosse da cooperativa, aquela informação eliminaria as suspeitas. E Ming ficaria sabendo que Chang estava cuidando dela.

            Um sinal soou no computador de Chang seguido de um aviso comunicando a ele e a todo o pessoal da CG sobre "a desafortunada perda dos dois pilotos que participaram do ataque aos rebeldes hoje. Em razão de falha dos pilotos, as bombas erraram o alvo em mais de um quilômetro e meio, e os revoltosos dispararam mísseis que destruíram os dois aviões. A Comunidade Global envia suas condolências às famílias desses heróis e mártires que se sacrificaram pela paz mundial".

            Chang consultou rapidamente os manifestos do hangar e descobriu que as duas aeronaves, que custaram milhões de nicks, retornaram e foram localizadas. O necrotério infor­mou que ambos os pilotos foram dados como "mortos - seus restos mortais teriam sido encontrados no local do acidente no Neguev". Os registros pessoais dos dois estampavam uma marca em vermelho com a data da morte deles.

            Chang acionou a gravação feita no escritório de Akbar por volta da hora em que o primeiro piloto teria retornado.

            Havia uma conversa clara entre a secretária de Akbar e o piloto que estava sendo conduzido à sala de reuniões. Após alguns minutos de conversa amena, houve um convite para ele sentar-se. Em seguida, a voz de Suhail:

            - Você se empenhou bastante lá hoje, homem.

            - Obrigado, senhor - A voz tinha sotaque britânico. - Execução perfeita. Gostei.

            - Sinto muito. Você não sabe que sua missão fracassou?

            - Como, senhor?

            - Que o desfecho foi negativo?

            - Não estou entendendo, diretor. As duas bombas acer­taram na mosca, e a área inteira foi destruída conforme as ordens recebidas. Quando fiz a manobra para retornar, o míssil já tinha sido lançado, e de acordo com o que ouvi...

            - Então, é verdade que você não sabe que errou o alvo.

            - Senhor, se as coordenadas estavam corretas, nós não erramos.

            - Ninguém morreu, jovem.

            - Impossível. Eu vi o povo lá antes de lançarmos as bombas e avistei fogo por todos os lados durante vários minutos antes de minha partida.

            - Como disse, o empenho foi bom. Infelizmente, um erro humano resultou em fracasso total.

            - Eu não... Eu não estou... Eu estou... completamente confuso, senhor.

            - Você será rebaixado de cargo e, para todos os efeitos, não entende como esse erro tão grave pode ter ocorrido.

            - Com sua licença, senhor, mas estou certo de que não ocorreu nenhum erro!

            - Eu estou dizendo que ocorreu, e é isso o que você vai dizer a qualquer um que quiser saber.

            - Não vou dizer isso! Ou o senhor me prova que erramos o alvo ou vou dizer a todo mundo que essa missão transcor­reu sem nenhum transtorno.

            - Você vai ver, no momento certo, pelas fotos de reconhe­cimento, que não houve morte alguma em Petra.

            - O senhor viu essas fotos?

            - Claro que vi.

            - E o senhor não duvida da veracidade delas?

            - Não, filho.

            Uma longa pausa. A voz do jovem parecia chorosa.

            - Se houve algum sobrevivente naquela montanha, foi um milagre. O senhor sabe o que atiramos lá. As ordens foram suas! Não há explicação, e não vou ser punido por isso.

            - Você já foi punido. Você e seu colega serão transferidos, e você sabe como responder a...

            - Eu não vou afirmar uma coisa em que não acredito, senhor.

            - Vamos, vamos, rapaz. Vejo o número 2 em sua mão e a imagem de nosso líder. Você é um cidadão leal. Você contribui para a causa, você...

            - O potentado vai querer que eu diga que cometi um erro que não cometi?          

            - Você cometeu.

            - Não cometi.

            - Sua Excelência está muito decepcionado com você, filho.

            - Eu não vou fazer isso, diretor Akbar.

            - Não vai fazer o quê?

            - Não vou mentir. Tenho muito orgulho de meu trabalho. Eu não questionei a ordem. Acredito que aquela gente era perigosa e uma ameaça à Comunidade Global. Cumpri as ordens direitinho. Ninguém pode me dizer que erramos o alvo principal ou que nossos 82 não destruíram aquela área inteira e todas aquelas pessoas. Se o senhor não tiver provas concretas de que eles estão vivos, não vou inventar menti­ras. Não aceito ser rebaixado e não vou repetir coisas feito um papagaio. Se aquelas pessoas continuam vivas, elas são superiores a nós. Se continuam vivas, elas venceram. Não podemos competir com elas.

            - Você me deixou sem opção.

            - Como assim, senhor?

            - Não podemos permitir que nosso pessoal se exima de responsabilidade por seus erros.

            - O senhor não será capaz de me fazer calar.

            Akbar riu e foi interrompido por uma chamada pelo interfone.

            - O piloto principal está aguardando, senhor.

            - Mande-o entrar.

            Assim que Chang ouviu o som da porta ser aberta, o britânico voltou a falar.

            - Diga a ele, Uri. Diga a ele que nós não erramos.

            - O quê?

            E a conversa recomeçou, com Akbar culpando o fracasso dos pilotos, o britânico protestando, Uri em silêncio por alguns instantes.

            - Com licença, um momento, cavalheiros - disse Suhail. A porta foi aberta e fechada.

            - Kerry - disse Uri - preste atenção. Ele está certo. O...

            - Certo coisa nenhuma! Tenho certeza do que vi e nunca...

            - Silêncio! Preste atenção! Você e eu sabemos que o lan­çamento foi perfeito. Mas eu fiquei lá depois que você partiu. Você ouviu minha transmissão. Aquela gente sobreviveu aos Blues e ao Lance, não sofreu nenhum arranhão.

            - Impossível!

            - Impossível, mas é verdade.

            - Um milagre.

            - Só pode ter sido.

            - Então, vamos ter de conviver com isso, Uri. A CG e o mundo precisam enfrentar o fato. Eles são inimigos mais que terríveis, e temos de admitir que jamais teremos chance de derrotá-los.

            - Concordo. Você me ouviu tentar dizer isso.

            - Eles tiraram você do ar! Agora querem nos fazer de bodes expiatórios. Vão nos rebaixar. Vão nos forçar a dizer que falhamos.

            - Eu não vou ser forçado a nada - disse Uri.

            - É assim que se fala - disse o britânico. Os dois animaram-se mutuamente.

            - Seja firme.

            - Não ceda.

            - Vamos lutar juntos.

            Chang verificou o telefone de Akbar. Suhail havia ligado para o setor médico e pedido para falar com a Dra. Consuela Conchita. No dia anterior, Chang havia lido uma notícia no boletim interno sobre a promoção dela ao cargo de cirurgiã-geral da Comunidade Global.

            - Connie - disse Akbar -, preciso de duas doses fortes de sedativo, daqueles de efeito bem rápido. Em minha sala de reuniões, assim que possível. Tenho seguranças aqui, caso os pacientes resistam. E traga padiolas do necrotério.

            - Do necrotério?

            - Quero que os dois sejam cremados.

            - Você está me pedindo doses letais?

            - Não, não. Só quero que fiquem fora do ar antes de saírem daqui, cobertos com lençóis. A cremação fará o resto, não é mesmo?

            - Matar os dois? É claro que sim. Você está pedindo que a gente execute duas pessoas?

            - A ordem partiu de cima, Consuela.

            Uma pausa.

            - Entendo.

            Chang fez uma careta enquanto ouvia a gravação de Akbar tentando convencer os pilotos de que havia pedido injeções para acalmá-los. Ambos começaram a espernear e a gritar, e Chang entendeu que eles haviam sido dominados e recebido as doses de sedativo. Os dois não existiam mais. Qualquer pessoa que os tivesse visto aterrissar em Nova Babilônia e dirigir-se do hangar ao palácio seguindo, depois, até o escritório de Akbar, jamais admitiria nem mencionaria isso. Eles tinham sido alvejados pelo inimigo e ponto final.

            Chang verificou os aviões novamente. Os números de série já haviam sido mudados. E os números originais estavam assinalados como perdidos em ação. Por mais estra­nho que parecesse, a quantidade de caças-bombardeiros da CG em Nova Babilônia continuava a mesma.

           O comunicado que aparecera na tela do computador de Chang seria transmitido ao mundo inteiro naquela noite. Sem dúvida, o próprio Carpathia manifestaria suas desprezíveis condolências pelas perdas.

           Chang verificou os registros na Grécia e descobriu que Nelson Stefanich havia expedido as coordenadas do local à equipe de "Howie Johnson". Ainda faltavam duas horas para anoitecer, quando Mac resolveu fazer sua visita. Chang teve tempo de confirmar as instruções de Mac ao pessoal do aero­porto de Ptolemaïs para reabastecer o Rooster Tail. Também incluiu no computador um aviso de que o comandante sênior Johnson estava autorizado pelo alto escalão a levá-lo para Nova Babilônia.

            Feito isso, Chang encontrou o número do celular de Ste­fanich e transmitiu-o, por telefone, a Mac.

            - Recebeu todas as informações de que necessita? - Chang perguntou.

            - Eu ainda não sei o que aconteceu com a garota Stavros.

            - Não há nenhuma informação aqui. O senhor ainda tem alguma esperança?

            - Sempre tenho, Chang. É assim que eu sou. - Pergunte a Stefanich. - Ah, boa idéia. Ei, Chang?

            - Senhor?

            - Existe alguém melhor do que você?

            - Obrigado, senhor.

            Finalmente, Chang conseguiu verificar as outras gravações feitas ao longo do dia. Ele localizou uma vinda do escritório de Carpathia e retrocedeu até o ponto em que Nicolae, sua secretária Krystall, Leon Fortunato, Suhail Akbar e Viv Ivins aguardavam para assistir à transmissão da cabina do bombardeiro.

            Suhail tinha acabado de contar ao potentado que diligenciara para que ele assistisse ao vivo. Carpathia manifestou grande euforia. Chang avançou a fita vários minutos, enquanto tudo estava sendo preparado e Nicolae recebia várias pessoas na sala.

            Em seguida, animação. Akbar informou a Carpathia que os bombardeiros estavam programados para decolar de Amã e que as imagens poderiam ser vistas no monitor, "se o senhor quiser".

            - Se eu quiser? Por favor!

            - Palácio chamando o comando de Amã - disse Suhail.

            - Amã falando. Prossiga, palácio.

            - Inicie cobertura visual da decolagem.

            - Entendido.

            Vários segundos de silêncio. Em seguida, a voz de Carpathia.

            - Suhail, esses aviões são caças-bombardeiros? Não é uma ilusão de ótica? Parecem imensos.

            - Ah, são sim, Eminência. Faz apenas algumas semanas que eles começaram a operar. O senhor viu a altura deles? O motor é maior do que o de qualquer outro caça. Precisa ser grande para acomodar os artefatos explosivos.

            - O que é aquilo ali embaixo? Uma bomba?

            - Sim, senhor.

            - Ela é enorme! E maciça!

            - É grande demais para ser transportada dentro do avião, senhor. Mede l,50m de diâmetro e 3,40m de comprimento. Essa coisa pesa sete toneladas.

            - Não diga!

            - É verdade, senhor. Ela é transportada embaixo da aero­nave, presa a um eixo.

            - E o que é aquilo, Suhail? O que vamos servir ao inimigo hoje?

            - Os norte-americanos costumavam chamá-las de Big Blue 82. São bombas de concussão. Oito por cento do peso delas consistem de um gel feito de poliestireno, nitrato de amônia e alumínio em pó.

            - Essa bomba é tão poderosa quanto grande?

            - Excelência - disse Suhail -, só uma arma nuclear é mais poderosa do que ela. Essas foram projetadas para detonar a mais ou menos um metro do solo e geram quase 500 quilos de pressão por polegada quadrada. Matam tudo, até mesmo criaturas minúsculas que vivem debaixo da terra, numa área equivalente a 8000km2. A fumaça em formato de cogumelo sobe a mais de um quilômetro e meio. E vamos lançar duas bombas.

            - Mais um míssil.

            - Sim, senhor.

            - Fogo?

            - Ah, Divindade, essa é a melhor parte. Cada bomba de concussão produz uma bola de fogo de quase dois quilômetros de diâmetro.

            Chang teve um sobressalto ao ouvir um assobio alto, e ele imaginou que Carpathia estivesse inalando profundamente o ar pelo nariz e exalando-o através dos dentes cerrados.

            Posteriormente, quando os pilotos soltaram as bombas, Nicolae disse:

            - Suhail! Podemos assistir pela TV?

            - Só é necessário apertar alguns botões, Excelên...

            - Faça isso! Já!

            Alguém saiu da sala.

            A gravação foi interrompida apenas por algumas explosões de alegria de Carpathia.

            - Ahh! Vejam! Ohh! Perfeito! No alvo! As duas! O êxito é a melhor desforra.

            - Certamente.

            - E a vitória também.

            - Sim, senhor.

            - Total e completa - disse Nicolae.

            Vários resmungos.

            O suspiro assobiado terminou numa espécie de sopro. Chang lembrou-se de um leão que vira no zoológico em Beijing. O animal devorou vários quilos de carne crua, rugiu, bocejou, espreguiçou-se, apoiou o imenso queixo nas patas e deu um longo suspiro seguido de um ruído surdo e pro­longado vindo do fundo do peito.

            Enquanto todos permaneciam com os olhos fixos na tela, alguém cumprimentou Nicolae.

            - Finalmente, meu senhor.

            Era Viv Ivins. Carpathia não disse nada, fazendo Chang imaginar se ela continuava na lista negra de Nicolae.

            Para todos os outros cumprimentos, ele limitou-se a dizer:

            - Obrigado. Obrigado.

            A sugestão do piloto principal de abortar o lançamento do míssil foi imediatamente rejeitada por Suhail.

            - Isso mesmo, Suhail - disse Nicolae.

            Sua voz parecia vir do fundo da sala.

            - Muito bem. Vamos lançar o último dardo.

            Quando o piloto se mostrou insubordinado, Suhail contra-argumentou imediatamente. Em seguida, silêncio, que foi quebrado por Carpathia.

            - Eu estava ouvindo coisas ou ele se atreveu a desafiá-lo?

            - Ele quase chegou a me desafiar, Excelência.

            - Repreenda-o! - disse Leon, com voz esganiçada.

            - Não acredito que ele queria que eu o ouvisse. Ele está vendo pessoalmente o que estamos assistindo na tela. É claro que, para ele, parece desnecessário.

            - Mas eu ainda.... - disse Leon. Alguém pediu-lhe silêncio.

            Quando o míssil atingiu o alvo e o piloto começou a fazer comentários de dúvida e de descrença, Chang ouviu uma cadeira ser arrastada, como se alguém tivesse se levantado de repente.

            - O quê?! - A voz era de Nicolae.

            - Impossível! - disse Fortunato.

            - Cortem a transmissão! - disse Carpathia, e Akbar repe­tiu a ordem em voz alta.

            Som de passos afastando-se da mesa e, presumivelmente, dirigindo-se ao monitor. A porta foi aberta. Som de pessoas saindo. Aparentemente, só ficaram Nicolae e Suhail.

            - Duas de nossas maiores bombas incendiárias? - disse Carpathia entre os dentes. - Você disse que uma seria mais do que suficiente.

            - E deveria ter sido.

            - Vimos as labaredas e as pessoas envoltas em chamas por quanto tempo?

            - Tempo suficiente.

            Vários minutos de relativo silêncio durante o qual Chang pensou ter ouvido a respiração ofegante de Carpathia. E, quando o potentado finalmente resolveu falar, parecia deses­perado e com falta de ar.

            - Preste atenção ao que vou dizer, Suhail.

            - Sim, senhor.

            - Você está prestando atenção?

            - Estou, senhor.

            - Cuide daqueles pilotos. Eles erraram o alvo. Falharam. Os olhos deles os enganaram. Não permita que essa vitória seja atribuída aos judaístas. De jeito nenhum.

            - Eu entendi, senhor.

            - Entre em contato com os outros nove potentados regionais pessoalmente em meu nome. Diga-lhes que os judaístas levantaram armas contra nós e que tivemos de enfrentar um ataque terrível. Vamos retaliar. Eu disse isso a eles recentemente.

            - O senhor disse.

            - Este é o momento certo. A verba é ilimitada. Vou san­cionar, justificar, apoiar e recompensar a morte de qualquer judeu em qualquer parte do mundo. Quero que esse assunto seja tratado com prioridade máxima, não me interessam os meios. Quero ver todos presos. Torturados. Humilhados. Envergonhados. Quero que blasfemem contra o deus deles. Tirem tudo o que é deles. Nada é mais importante para o potentado. Você entendeu?

            - Entendi.

            - Vá rápido. Faça isso agora.

            - Sim, senhor.

            - Suhail?

            - Senhor?

            - Mande o reverendo Fortunato entrar.

            Após alguns segundos, Leon entrou apressadamente.

            - Oh, meu senhor, não sei o que dizer. Não consigo entender. O que...

            - Meu caro reverendíssimo Fortunato. Beije minha mão.

            - Em que posso servi-lo, potentado? Eu me ajoelho diante do senhor.

            - Continue ajoelhado e ouça-me. Você continua a ser meu servo mais confiável...?

            - Ah, sim, Supre...

            - Silêncio. Continua a ser o Reverendíssimo Pai do Car­pathianismo?

            - Sim, sinceramente.

            - Leon, você me ama?

            - O senhor sabe que eu o amo.

            - Você me estima?

            - De todo o meu...

            - Você me adora?

            - Ah, meu senhor amado...

            - Levante-se, Leon, e ouça-me. Meus inimigos estão me ridicularizando. Eles realizam milagres. Eles envenenam meu povo, invocam feridas dos céus, transformam as águas dos mares em sangue. E agora! Agora eles sobrevivem a bombas e fogo! Mas eu também tenho poder. Você sabe disso. E o transferi a você, Leon. Vi você usá-lo. Vi você invocar fogo do céu para matar aqueles que se opunham a mim. Leon, quero atacar fogo com fogo. Quero muitos cristos. Você está me ouvindo?           

            - Senhor?

            - Quero muitos messias.

            - Messias?

            - Quero salvadores em meu nome.

            - Prossiga, Excelência.

            - Descubra essa gente. Quero milhares deles. Treine-os, ensine-os, transfira a eles o poder que transferi a você. Quero que eles curem enfermos, transformem água em sangue e sangue em água. Quero que façam milagres em meu nome, que atraiam os indecisos, sim, até mesmo os inimigos que estão afastados de seu deus e de mim.

            - Vou fazer isso, Excelência.

            - Vai mesmo?

            - Vou fazer se o senhor me der poder.

            - Ajoelhe-se diante de mim novamente, Leon.

            - Imponha suas mãos sobre mim, meu senhor ressurreto.

            - Eu lhe confiro todo o poder do qual fui revestido, que veio de cima e debaixo da Terra! Eu lhe concedo poder para fazer coisas grandes e poderosas, maravilhosas e terríveis, atos tão esplêndidos e assombrosos que convencerão a qualquer homem que os veja que sou o seu deus.

            Leon estava chorando.

            - Obrigado, meu senhor. Obrigado, Excelência.

            - Vá, Leon - disse Carpathia. - Vá rápido e faça imediatamente o que lhe pedi.

 

            George sentia-se bem, apesar das circunstâncias. Quanto tempo fazia que o haviam colocado no banco traseiro do jipe? Ele estava sentado no lado direito, tendo Elena à sua frente e Platão a seu lado. O líder acomodou-se ao volante e pediu a Platão que colocasse a venda nos olhos de George novamente. George gostou de estar com as mãos algemadas para trás, porque o movimento do jipe lhe permitiria tombar o corpo de um lado para o outro e cair em cima de Platão.

            Se calculasse bem, teria condições de bater com sua cabeça na dele.

            O líder deu marcha a ré e parou sem desligar o motor.

            - Onde o sujeito está? - ele perguntou, irritado.

            - Ali, na estrada.

            - O que ele está fazendo ali? - Um suspiro alto.

            - Sócrates! Venha aqui! - George ouviu som de passos mancos.

            - Você já deu um jeito no carro?

            - Está escondido, Aristóteles.

            - Dê-me as chaves.      

            - Por quê? E se eu precisar delas?

            - Vai pôr tudo a perder! Dê-me as chaves.

            George ouviu o barulho de chaves quando Aristóteles as pegou.

            - Pense, homem! - ele disse. - Assim, você não vai ser obrigado a entregar as chaves a ninguém, aconteça o que acontecer. E afaste-se da estrada! Você não tem motivos para aparecer. Fique esperando aí. - Aristóteles abaixou a voz, como se achasse que Sebastian não conseguiria ouvi-lo por estar com os olhos vendados. - Lembre-se, quanto mais você se descontrolar, mais alguém vai acreditar em você.

            - Você sabe que posso fazer isso.

            - Eu sei que sim! Você também é capaz de derramar lágrimas quando quer? Finja até onde for possível. Tem de parecer que você fez de tudo antes de entregar os pontos. Sinto muito por você estar machucado, mas sua missão é tão importante quanto a nossa.

 

            Chloe entendia, agora, por que seu pai admirava tanto Mac. Ele era rude e firme, mas também meticuloso. Havia espalhado as folhas da pasta da CG, com as informações sobre Sebastian, em cima do painel do carro emprestado. Na floresta ao norte de Ptolemaïs, depois de terem escon­dido o outro veículo - o jipe no qual havia sido feita uma ligação direta - embaixo de um arbusto, eles estudavam as informações. Chloe, sentada no banco dianteiro direito, tinha o corpo inclinado para a frente; Hannah, sentada no banco traseiro, espiava por cima do ombro de Chloe. Os três usavam fardas com camuflagem da CG e tinham os rostos manchados de graxa.

            - Eles pensaram muito bem quando escolheram aquela moça parecida com a garota Stavros.

            - Georgiana - disse Hannah.

            - Certo. O nome verdadeiro dela é Elena. O sobrenome começa com a letra A. Hummm, é a única pessoa que usa nome verdadeiro. Pelo jeito, eles não fazem muita questão de protegê-la. Estou vendo aqui dois lugares insignificantes. Aparentemente, não estão sob a jurisdição das Forças Paci­ficadoras, mas estão sendo cuidados por este pelotão daqui. Ah, estou vendo um monte de apelidos.

            - Um deles é o do líder, Mac - disse Hannah.

            Mac sacudiu a cabeça, concordando.

            - Aristóteles. O outro é Sócrates. Que criatividade! Diante disso, será que Elena não seria Helena? Helena de Tróia, entenderam? E o grandalhão, aquele que se fez passar por George. Platão? Ah, pelo amor de tudo o que é mais sagrado! Bem, seja lá o que acontecer, tomem conta uma da outra. Ele é francês. Foi trazido apenas para esta missão. Sebastian se sentiria insultado. O tal sujeito é pesado, mas tem menos de l,90m. É menor que George.

            Mac olhava para o relógio o tempo todo. Enquanto a noite caía, eles continuaram lendo e memorizando as infor­mações. Finalmente, tiveram de recorrer à luz do teto do carro e a três lanternas pequeninas.

            - O plano original não foi mau - disse Chloe. - Só que alguém não colaborou.

            - Eu não conheço o rapaz nem o outro cara mais velho, o motorista - disse Mac. - Mas, pelo que me contaram sobre Miklos, aposto minhas fichas nele. De qualquer forma, alguém suspeitou de alguma coisa. O plano deles era pegar a garota oito quilômetros ao norte do aeroporto e mandar Platão, o tal que se passou por Sebastian, ficar na beira da estrada.

            - Mas Sebastian estava esperando encontrar-se com nosso pessoal mais perto do aeroporto - disse Hannah.

            - Talvez eles quisessem ter certeza de que estava tudo em ordem antes de Sebastian aparecer - disse Mac. - Eles estão orgulhosos porque mudaram os planos. Parece que a idéia original era pegar todos eles, inclusive George, e ameaçar matar os outros se George não abrisse a boca. E, mesmo que abrisse, eles executariam todos juntos, se não aceitassem receber a marca.

            Chloe havia virado a página.

            - Ninguém notou isso?

            - Isso o quê? - perguntou Mac.

            - Os tiros. Os três tiros foram disparados pela moça. Uma sensação de expectativa começou a tomar conta de Chloe à medida que a hora H se aproximava. Mac havia estu­dado as coordenadas e concluído que eles estavam a cerca de 40 minutos do cativeiro de George. Às 21h30, ele ligou para o celular particular de Stefanich discando o número que Chang lhe fornecera.

 

            No início da tarde, em Chicago, Buck e Enoque reuniram todo o pessoal.

            - Uma rápida atualização dos fatos - disse Buck. - Chang tem uma pista sobre Ming. Parece que ela está a caminho de San Diego. Depois, segue para a China. O problema é que ele não sabe onde seus pais estão, portanto ela também não deve saber.

            - Como seguiu ela para San Diego? - perguntou Albie.

            - Pelo caminho mais longo. Acho que pegou uma carona num avião particular, de Long Grove à Carolina do Sul, e depois conseguiu...

            - Alto lá! - disse Leah. - Espere um pouco. Long Grove?

            - Sim. Depois ela...

            - Buck! Será que o piloto é esse tal de Whalum?

            - Não sei. O fato é que ela...

            - O fato é que, se for Whalum, ele é o homem que deseja despachar os módulos para Petra.

            Buck parou ao ouvir aquela informação.

            - Não estou entendendo.

            - Ela pode estar indo para Petra.

            - Ela nunca vai conseguir. A segurança está rígida demais.

            - Então, me diga o que você acha.

            - Talvez ela tenha pegado uma carona com um sujeito que está indo para Petra, mas não vai com ele.

            - É melhor começarmos a orar - disse Leah.

            - É por isso que estamos aqui.

            - Quer dizer que Ming usou um contato da cooperativa para...

            - Podemos deixar esse assunto para depois, Leah?

            - Claro, mas nós ainda não sabemos ao certo quem ele é. Não sabemos se é realmente um dos nossos. Quando vi Ming lendo todas essas informações, pensei que ela estivesse apenas querendo ajudar.

            Buck ergueu a cabeça e olhou para Leah.

            - Não foi você quem disse que Ming é uma mulher adulta e livre para fazer o que quiser?

 

            Mac surpreendeu-se depois de ouvir o celular de Ste­fanich tocar quatro vezes. A política da CG dizia que os oficiais de comando sempre deviam estar disponíveis para falar com a chefia.

            - Nelson Stefanich falando - ele ouviu, finalmente -, e só estou atendendo uma ligação de um número ignorado porque temos uma operação em andamento; portanto, diga logo o que quer.

            - Oi, Nelsinho "boa praça" Stefanich, como é que você vai?

            - Quem...?

            - Sinto muito ter faltado ao nosso encontro hoje. Aqui fala Howie Johnson.

            - Sim, senhor comandante. Já nos conhecemos pessoal­mente?

            - Não, mas depois que fiquei sabendo muitas coisas boas sobre você, parece que você é meu velho conhecido, entende o que eu quero dizer?

            - Obrigado, senhor.

            - Gostei das informações que você passou à minha assis­tente hoje.

            - Tudo bem.

            - Estamos prontos para arregaçar as mangas, Nel, e eu só queria lhe passar as coordenadas para que você possa infor­mar a Aristóteles que estamos a caminho de nossa missão. Espero que seu telefone seja seguro.

            - Claro, comandante.

            - Ótimo, ótimo. Mas eu não quero que eles fiquem assustados. Eles devem esperar por nós sem começar a atirar assim que ouvirem a gente chegando. Queremos protegê-los também, portanto não vamos de carro até a porta. Vamos chegar a pé, e, quando estivermos perto, eu vou dar dois assobios altos. Eles devem responder com um assobio. Assim, a gente vai saber que está tudo certo para ir em frente.

            - Entendido. O senhor assobia duas vezes; eles assobiam uma.

            - E eles devem entender que, assim que eu entrar em cena, quem dá as ordens sou eu.

            - Ah, sim, senhor. Não há dúvida.

            - A propósito, achei os codinomes muito criativos.

            - Obrigado. Eu...

            - Mais uma coisa: esquecemos de perguntar sobre o alvo original, uma tal de G. Stavros, fugitiva de uma penitenciária daí. O que aconteceu com ela?

            - Bem, o senhor sabe que ela nos passou grande parte das informações que sabemos sobre o esconderijo dos judaís­tas aqui.

            - Ah, então ela é uma mercadoria valiosa.

            - Era.

            - Passado?

            - Positivo. Morta.

            - Verdade?

            - Sim, senhor. Continuou a recusar a marca mesmo depois de ter fornecido muitas informações.

            - Guilhotina?

            - A bem da verdade, não, senhor.

            - Você entende que a lâmina faz parte do protocolo, não, comandante Stefanich?

            - Em circunstâncias normais, sim, senhor.

            - E a diferença aqui foi...?

            - Ela, ah, bem... ela começou a nos fornecer informações falsas.

            - Por exemplo?

            - Bem, nunca conseguimos uma resposta direta sobre a localização do atual esconderijo. Ela foi uma das pessoas pegas nas invasões dos primeiros esconderijos; portanto, quando voltou, devia conhecer pelo menos um dos novos locais.

            - Faz sentido. Ela resolveu não colaborar, certo?

            - Certo, senhor. Depois da terceira tentativa infrutífera é que ela foi...

            - Executada?

            - Sim, senhor.

            - Como?

            - Alvejada pelo pelotão.

            - Foi necessário um pelotão para acertar uma adoles­cente?

            - Pelotão é um eufemismo que usamos aqui, senhor.

            - Continue.

            - Qualquer pessoa acima de determinada patente está autorizada a atacar o inimigo pra valer.

            - Atirar para matar?

            - Exatamente.

            - E essa tal pessoa que faz o serviço reparte os méritos com o resto da equipe? Com o pelotão?

            - Correto.

            - Foi você que atirou nela, não, comandante?

            - Sim, senhor, fui eu.

            - Bem, foi um ato extraordinário, quase indescritível. Senti firmeza, Nelson.

            - Obrigado, senhor.

            - Sei que você fez isso em nome da Comunidade Global, e todos nós estamos muito agradecidos, a começar pelo pes­soal de cima.

            - Muito obrigado.

            - Não me agradeça, comandante Stefanich. O fato é que eu gostaria de poder premiá-lo pessoalmente por aquele ato...

            - Simplesmente cumpri meu dever, senhor...

            - De qualquer forma, você será recompensado pelo ser­viço que prestou à causa.

            - Eu não sei o que dizer. Isso seria apenas...

            - Tudo bem, Nel, estamos gastando muito tempo com esta conversa. Você informa aos filósofos gregos e à amiguinha deles que daqui a pouco estaremos chegando lá, entendeu?

            - Está bem. Senhor?

            - Estou ouvindo - disse Mac.

            - Esperamos contar com sua ajuda, é claro, mas o senhor precisa saber que estamos muito felizes com esta operação.

            - Ah, sim, eu entendo.

            - Bem, talvez seja só impressão minha, mas sua assis­tente me deu a entender que o senhor está um pouco irritado com a equipe porque o prisioneiro ainda não abriu a boca. Estamos planejando homenageá-los pela façanha deles.

            - Eu entendi, comandante. Não se preocupe com isso. Acho justo dizer que também temos a intenção de reagir positivamente à atuação deles.

 

            - Nós também estamos aqui, é claro, para agradecer o milagre ocorrido em Petra hoje - disse Buck. - Os dois pilotos experientes não foram capazes de acertar o alvo a uma distância tão próxima, mesmo atirando aquelas duas bombas gigantescas, bem... louvado seja o Senhor.

            Os outros riram.

            - É verdade - disse Albie. - E depois que eles viram que todo o povo ficou em chamas, bem... aí é que ficaram espantados mesmo.

            - Deixando as brincadeiras de lado - disse Buck -, Deus está agindo de maneiras indescritíveis, e nunca devemos deixar de reconhecer seu poder e soberania, seu cuidado para conosco, sua proteção a nossos familiares.

            Após ele ter dito isso, várias pessoas ajoelharam-se na casa secreta e começaram a orar espontaneamente e a louvar ao Senhor. Enoque dirigiu uma oração pedindo proteção "a nossos novos amigos, nosso irmão Mac, e nossas irmãs Chloe e Hannah, neste momento em que estão enfrentando uma missão perigosa. Protege-os, vai adiante deles, envia anjos para os guardarem, e que eles tragam nosso irmão da Califórnia são e salvo, para que possamos agradecer a ele e congratularmo-nos com todos."

 

            Chloe ficou agradecida quando Mac virou-se no banco e estendeu a mão aberta para ela e Hannah. Os três deram-se as mãos, e ele orou. Não foi uma oração longa, nem elo­qüente. Mas partiu de Mac, e ele parecia saber com quem estava falando. Aquilo acalmou Chloe. Um pouco. Tempo­rariamente.

            Quando Mac parou no acostamento, num ponto em que ele calculava estar a uns 800 metros do destino, Chloe ficou feliz por poder descer do veículo. O solo era desnivelado, mas sem buracos, e ela sabia que uma curta caminhada seria benéfica para seus nervos. Os três desligaram os celulares e os colocaram nos bolsos traseiros esquerdos. Os minúsculos walkie-talkies foram ajustados a uma freqüência exclusiva, volume baixo, e colocados nos bolsos traseiros direitos.

            Chloe destravou a antiga Luger que estava ao seu lado direito, na altura do quadril, e Hannah desafivelou a tira de couro acima do cabo de sua Glock. Os três transportavam Uzis carregadas, presas por correia no ombro direito e dependuradas no peito.

            Mac retirou a DEW [arma de energia direcionada] do porta-malas e entregou-a a Chloe. Ela colocou-a inclinada no ombro esquerdo. A Hannah, ele entregou um saco de lona, pequeno e pesado, com pentes extras para a Uzi e munição para o rifle calibre 50, que Mac carregava desajeitadamente na vertical, com os pés do suporte bípede apontados para a frente. Ele apoiava a coronha da arma de 1,20m de comprimento, pesando 15 quilos, na palma da mão direita, com o braço esquerdo passado ao redor do cano.

            - Ainda bem que estou razoavelmente em forma para minha idade - ele disse. - Chegando aos 60 e ainda consigo ganhar de vocês numa corrida, desde que o percurso não seja longo.

            - Não carregando essa coisa - disse Hannah.

            Chloe notou um leve tremor na voz dela. Era reconfortante saber que não era a única que estava morrendo de medo.           

            - Não tenha muita certeza disso - desafiou Mac com o pé esquerdo à frente e o tronco aprumado. Ele colocou a bússola diante da lanterna de Hannah e iniciou a marcha.

            - Sigam-me, senhoras.

            As botas de Mac batiam no chão com ritmo cadenciado. Em breve, Chloe começou a transpirar e a respirar com dificuldade. Mas ela se sentia bem, e Hannah também parecia estar em boa forma. Contudo, a caminhada não afastou a sensação de perigo da mente de Chloe. Os blefes tinham dado certo até ali. Talvez certo demais. Se fosse tão fácil assim, não haveria necessidade de estarem carregando armamento tão pesado.

 

            Chang rastreou os passos de Ming até San Diego e notou que ela só partiria de lá no início da noite. Horário da costa oeste. Ele ligou para o celular da irmã.

            - Oi, Chang - ela disse. - Onde você está?

            - É um teste? Você acha que vou tentar convencê-lo de que estou na casa secreta em Chicago?

            - Quero que você saiba que conversei com eles.

            - Claro. E vejo que não demorou muito para você me localizar.

            - Onde você está exatamente, Ming, e o que está fazendo? Ela suspirou.

            - Estou num pequeno terminal de aviões fretados, no sul de San Diego. Meus documentos e minha aparência estão funcionando perfeitamente. Ninguém pede para ver minha marca porque estou fardada, e, quando os pilotos vêem o selo em minha testa, passam a proteger-me.

            - Você não contou a eles quem é, contou?

            - Contei, Chang. Sou uma idiota. Não! Claro que não. Por que sobrecarregá-los com algo que pode lhes trazer problemas? Eles não podem ser responsabilizados pelo que não sabem. O disfarce é perfeito. Eles estão ajudando a Comunidade Global transportando um funcionário. Sabem secretamente que sou crente, mas não sabem que sou mulher, que trabalhei antes para a CG, nem que sou desertora.

            - Ming, você sabe que nossos pais não estão em casa.

            - Foi o que imaginei.

            - Então, como você vai fazer para encontrá-los?

            - Vou indagar. Posso fazer isso como oficial. Talvez eu prenda os dois.

            - Não acredito que você tenha pensado nessa possibili­dade.

            - Pensei, Chang. Mais do que você imagina. Eles vão entrar em contato com você antes que eu chegue lá. Diga a eles que estou a caminho e que podemos marcar um local de encontro.

            - Por que não providenciamos tudo isso antes de você partir?

            - Porque você não concordaria. Você acha que sabe muito. Bem, você sabe. Mas não sabe tudo, caso contrário saberia que não posso ficar sentada numa casa secreta enquanto meus pais estão fugindo para não morrer. Será que eles são crentes verdadeiros ou foram convencidos por nós a não receber a marca de lealdade? Eu preciso saber. Preciso aproximá-los dos crentes. Sei que não posso salvar a vida deles, nem mesmo a minha. Mas preciso fazer alguma coisa.

            Chang estava comovido. Então, ela havia pensado muito no assunto. Talvez não em todos os detalhes. Talvez não em estratégias. Mas quem seria capaz disso?

            - Você precisa me avisar onde está assim que chegar lá - ele disse.

            - Você me ama, não, Chang?

            - Claro.

            - Nunca dissemos isso um ao outro. Nunca.

            - Eu sei - ele disse. - Mas nós sabemos.

            - Você não é capaz de dizer que me ama.

            - Sou, sim, mas fico emocionado só em pensar nisso, e não devo me deixar levar por essas coisas. Não neste momento.

            - Você, emocionado? Impossível.

            - Não fale assim, Ming. Acho que você não me conhece.

            - Sinto muito, Chang. Eu estava brincando com você.

            - A verdade, irmã, é que eu amo você. - Chang comoveu-se mais ainda e sentiu um nó na garganta. - Eu a amo muito, me preocupo com você e oro por você.

            - Obrigada, Chang. Não se emocione agora. Está tudo bem. Eu não tinha a intenção de deixá-lo em situação desconfortável. De qualquer maneira, eu sei. Eu sei, está bem? Eu também o amo e oro sempre por você. Você precisa continuar a ser racional e prático; portanto, não se preocupe comigo.

            - Como posso não me preocupar?

            - Porque Deus vai me acompanhar. Ele vai me proteger. E, se Ele decidir que meu tempo terminou, não vai demorar muito para eu voltar a ver você.

            - Não diga isso!

            - Vamos, vamos, Chang. Está tudo bem. Você sabe que é verdade. Não existem mais garantias. Só temos certeza do lugar para onde vamos. Vou ligar para você da China. Espero lhe dar boas notícias sobre nossos pais.

 

            Após dez minutos de caminhada, Chloe parou para que Hannah ficasse atrás de Mac. Sob a fraca iluminação, Hannah lançou-lhe um olhar firme, como que perguntando se havia algum problema.

            - Eu estou bem - disse Chloe. - Vou caminhar atrás de você.

            Chloe teve um pouco de dificuldade para acompanhar os passos de Mac e achou que se sentiria mais motivada se ficasse atrás de Hannah. Se Hannah fosse capaz de agüentar o ritmo de Mac, ela também seria.

            Chloe estava certa quanto a Hannah, mas não queria que nenhum dos dois percebesse que ela estava exausta. Na verdade, ela achava que não estava exausta. Agora, havia muitos pedregulhos na estrada, e ela caminhava com passos ritmados. Sua respiração era firme e profunda, e ela transpirava muito. Mac e Hannah também deviam estar transpirando.

            De repente, Mac levantou a mão direita e voltou a colocá-la rapidamente debaixo da arma calibre 50. Ele reduziu os passos e parou, dirigindo-se para o lado da estrada a fim de ficar de frente para as duas.

            - Tudo bem com vocês? Ambas assentiram com a cabeça.

            - Querem tomar um pouco de fôlego?

            Embora ofegantes, as duas fizeram um movimento nega­tivo com a cabeça.

            - Estamos bem perto - ele disse.

            Os três começaram a subir uma colina. Quando chega­ram ao topo, Mac ajoelhou-se e pousou a arma calibre 50 no chão. Ele fez um V com os dedos embaixo dos olhos e, depois, apontou para um pequeno barracão de tábuas, logo adiante de uma clareira. Uma luz fraca brilhava através de uma fenda na janela da frente. Mac pegou a arma de energia direcionada da mão de Chloe e apoiou-a no tronco de uma árvore.

            Ele fez um gesto para que as duas o seguissem até os fundos do barracão. Chloe surpreendeu-se ao ver como ele conseguia permanecer nas sombras e caminhar de modo tão silencioso que ela mal podia ouvir o som das botas de Mac tocando o solo. A Uzi que ela carregava bateu no cabo da Luger e produziu um ruído de atrito, fazendo-a prender a respiração. Mac parou e olhou para trás. Chloe teve de resistir ao impulso de levantar a mão para desculpar-se. Ela endireitou o corpo, e os três rastejaram para chegar ao fundo do barracão, onde as árvores bloqueavam totalmente a luz das estrelas. O barracão estava em completa escuridão.

            Mac agachou-se a uns 12 metros do local.

            - Não estou gostando - ele sussurrou. - Só um veículo, parecido com o meu. Deve ser aquele que Sebastian tomou emprestado da CG no aeroporto. E vocês acham que este lugar tem espaço para cinco pessoas lá dentro? Eu sei que eles estão escondidos, mas...

            - Não estou entendendo nada - disse Hannah entre uma respiração e outra. - Não vejo nenhum veículo.

            Mac colocou a mão no ombro dela e a fez virar-se em direção à lateral do barracão, onde havia um pequeno carro branco, quase totalmente escondido no meio do mato. Hannah fez um movimento afirmativo com a cabeça. Chloe também só avistou o veículo naquele momento.

            - Acho que os olhos de vocês ainda não se acostumaram à claridade - disse Mac como se estivesse falando sério.

            Chloe quase riu alto. Os três estavam andando juntos no escuro.

            Mac tirou a Uzi do ombro e pousou-a no chão. Em seguida, tirou do bolso do colete uma ferramenta do tipo "faz tudo".

            - Sei que isso vai parecer filme de cowboy - ele disse -, mas quero que vocês me dêem cobertura.

            Antes que Chloe pudesse perguntar aonde ele ia, Mac dirigiu-se rapidamente até o carro e começou a tentar abrir o porta-malas. Todas as vezes que fazia um ruído alto o suficiente para que as duas ouvissem, ele ficava imóvel por alguns segundos. Decorrido certo tempo, a tampa do porta-malas foi destravada. Mac segurou-a para que ela não abrisse completamente.

            Com a outra mão, ele tateou o interior do porta-malas até onde pôde alcançar. Foi necessário abrir um pouco mais a tampa. Com isso, a luz interna foi acesa, e ele teve de abaixar a tampa novamente. Mac colocou a ferramenta no pára-choque traseiro, segurou a tampa com a mão esquerda, enfiou a mão direita na abertura e apalpou o interior do porta-malas. Assim que encontrou o que procurava, ele retirou a mão, pegou a ferramenta, voltou a colocar a mão dentro do porta-malas, deixando uma abertura suficiente para poder trabalhar. Assim que a luz acendeu, ele quebrou a lâmpada com o auxílio da ferramenta.

            Agora, com a tampa completamente aberta, ele tateou o interior do porta-malas. De onde Chloe estava, parecia que metade do corpo de Mac estava lá dentro.

            De repente, ele parou o que estava fazendo, fechou o porta-malas e retornou de costas para perto delas.

            - Exatamente como pensei - ele disse. - Podem exami­nar.

            - Calibre 12 - disse Hannah. - Aprendi a usar essa arma quando eu era criança.

            - Esses recrutas adoram suas espingardas - disse Mac. - O cara deixa uma DEW e uma calibre 50 no avião e traz esta espingarda dele, de cano duplo, para fazer o serviço. Esse bando tão inteligente de seqüestradores não deve ter se lembrado de revistar o carro dele.

            - Nós vamos entrar? - Hannah perguntou.

            - Vamos, mas continuo não gostando nada disso. Metade deles foi embora quando ficou sabendo que a gente estava chegando, ou o quê?

            Evidentemente, Mac não esperava uma resposta. Ele entregou a espingarda a Hannah.

            - Esta arma dá uns estalos quando é engatilhada. Quero que você faça isso quando eu assobiar.

            Ele pegou a Uzi, e as duas o acompanharam de volta à frente do barracão, caminhando pela parte mais escura do local. Quando estavam a uns seis metros da porta, Mac apontou com a cabeça para Hannah e cochichou:

            - No três.

            Ele contou com os dedos e deu dois assobios agudos enquanto Hannah engatilhava a arma com muita habilidade.

            Eles perceberam uma movimentação dentro do barracão, som de passos pesados, um mais forte que o outro, como se alguém estivesse mancando. A porta rangeu e foi aberta alguns centímetros, e alguém assobiou. Ou tentou assobiar. Foi mais um sopro. Em seguida, houve uma segunda tenta­tiva.

            - Tudo certo! - gritou Mac, tão alto que Chloe deu um salto. - Você sabe quem está aqui. Apareça e deixe a gente entrar.

            A porta foi aberta para o lado de dentro e bateu no homem, ou em sua arma, quando ele tentou sair do caminho.

            - Por aqui - ele disse, com sotaque acentuado.

            Mac atravessou a porta, e Chloe notou que ele tinha um dedo no gatilho da Uzi.

            - Comandante sênior Howie Johnson acompanhado das oficiais Irene e Jinnah. Saia da frente, soldado.

            O homem, apoiando-se quase totalmente em uma perna só, encostou-se na parede olhando assustado para eles e cumprimentando-os com um movimento de cabeça.

            - Quem é você? - Mac perguntou. - Hércules? Constanti­nopla? Quem?

            - Sócrates, senhor.

            - É claro. Muito bem, onde está o resto do pessoal, princi­palmente meu prisioneiro?

            - Não estão aqui, senhor.

            Mac olhou para ele como se estivesse a ponto de explodir de raiva. Tombou a cabeça para trás, ficando com o queixo apontado para o teto.

            - Não estão aqui, senhor - ele arremedou. Em seguida, olhou firme para Sócrates. - É só isso o que você tem a me dizer? Onde eles estão?

            - Eles me pediram para dizer que o senhor deve ler as letras miúdas.

            Chloe levou um segundo para entender aquilo e, pela expressão de Mac, aconteceu o mesmo com ele.

            Mac fez uma encenação ao passar por Sócrates, empurrando-o contra a parede. Caminhou até a porta da frente e chutou-a com tanta força que a vidraça tremeu, provocando um eco vindo das árvores. Mac virou-se para o homem.

            - Letras miúdas do quê? Você achou que eu ia trazer a pasta de Sebastian comigo?

            - Eu só estou dizendo o que eles...

            - Por que você não me diz o que está escrito em letras miúdas?

            - Eles me deram esta incumbência porque eu não tinha condição de acompanhá-los. Fui agredido pelo prisioneiro e ele me deu um chute no...

            - Eu pedi para você me dizer o que está escrito em letras miúdas, homem! O que eu preciso saber? Qual é o recado?

            - Que eles têm o direito de transferir o prisioneiro para outro lugar, a qualquer momento, sem informar à CG...

            - Onde eles estão, soldado? Para onde foram?

            - Eles não precisam informar seus superiores enquanto não chegarem ao desti...

            - Você sabe onde eles estão?

            - Eles ouviram alguma coisa, bem antes da chegada do senhor, e...

            - Você entende inglês, Sócrates. Tenho certeza. Você... sabe... onde... eles... estão?

            - Acho que eles não me contaram, porque...

            - Você quer que eu acredite que eles deixaram você aqui só para me cumprimentar e não disseram para onde iam?

            - Eu não precisava saber. Assim, não poderia abrir a boca para a pessoa errada.

            - Espero que você esteja mentindo.

            - Como, senhor?

            - Espero que você esteja mentindo, porque pode mudar de idéia e me contar tudo antes de morrer.

            - Eu não sei de nada, comandante!

            - Oficial Jinnah, mostre a Sócrates o estrago que uma calibre 12 pode fazer na porta da frente.

            Chloe gostaria de saber se Mac estava falando sério. Aparentemente, Hannah não teve dúvida. Levantou a espingarda e apontou-a para a porta com uma das mãos. Assim que o cano ficou paralelo ao chão, ela atirou. O estrondo foi semelhante ao de uma bomba. Chloe ficou surda momentaneamente, mas viu tudo o que aconteceu. O projétil fez um rombo na porta; ela se soltou das dobradiças e voou longe, caindo a alguns metros do barracão.

            - O seguinte vai atingir sua cara, Sócrates.

            - Mas, senhor! - ele disse, choramingando. - Eu...

            - Então, pegue o megafone, ou outra coisa qualquer, e diga a seu pessoal que quero saber onde meu prisioneiro está, e quero saber já!

            - Mas eles...

            - Atire nele, Jinnah.

            Hannah levantou a espingarda da mesma forma que fez antes, e Sócrates jogou-se imediatamente no chão, chorando.

            - Espere! Espere! - Ele tirou um walkie-talkie do bolso deixando a arma cair no chão, sem querer. - Sócrates para Platão, fale comigo, fale comigo. Alô! Platão? Sei que você está me ouvindo! Por favor! Eu preciso de ajuda!

            Mac sacudiu a cabeça, como se não tivesse escolha.

            - Jinnah! - ele disse.

            - Não! Por favor! Espere! Elena! Elena, você está aí? Fale comigo, por favor. Eu não estou brincando! Atenda! Aristóteles! Aristóteles, eles vão me matar! Eu sei que não deveria ligar para você, mas agora tanto faz! Por favor, fale comigo, se não eu vou morrer!

            Nada. Chorando, ele curvou os ombros e abaixou a cabeça.

            Mac ajoelhou-se e segurou o braço de Sócrates.

            - Eles não estão longe, estão?

            Sócrates fez um movimento negativo com a cabeça, soluçando.

            - Estão aqui por perto, não? Ele assentiu com a cabeça.

            - O senhor pode me matar, porque, de qualquer maneira, ou vou morrer.

            - Como assim?

            - Disseram-me que não ligasse para eles, de jeito nenhum. Disseram-me que eu não abrisse a boca de jeito nenhum.

            - Mas eles não estavam se referindo a mim, certo? Claro que não. Eles queriam ter certeza de que estavam certos quanto aos sons. Tinham medo de que aparecesse uma pessoa errada. Eles não estão com medo da CG, estão?

O homem encolheu os ombros.

            - Não sei. Talvez eu não tenha entendido. Mas sou um homem morto.

            - Então, que diferença faz se você me contar? Sócrates parecia estar refletindo. Encostou-se novamente na parede, enxugou os olhos e guardou o walkie-talkie no bolso. Quando ele esticou o braço para pegar sua arma, Mac disse:

            - Deixe a arma onde está.

            Sócrates tentava recuperar o fôlego. Mac perguntou:

            - Do lugar em que estão, eles conseguiram ouvir o tiro?

            - Não. Talvez.

            - Qual é a distância?

            - Quinhentos metros a leste. Numa garagem improvisada. Mac sentou-se em uma antiga cadeira estofada.

            - Então, ouviram quando você chamou por eles. Sócrates assentiu com a cabeça.

            - E deixaram você aqui, sabendo que ia morrer.

SEIS

            As celebrações, os cânticos e as danças em Petra continuaram noite adentro. Milhares de pessoas mergulharam no lago recém-formado e bebiam da água que jorrava da enorme fonte no meio dele. O maná que cobria o chão deixou Rayford inebriado com seu sabor refrescante.

            - Comer alimentos vindos diretamente da mesa de Deus - ele disse a Abdullah - foi uma experiência que nunca tive na vida.

            Abdullah parecia vibrar de alegria.

            - Por que tudo isso, capitão? Como podemos ser tão abençoados?

            Rayford não tinha palavras para expressar-se, mas sabia o que seu amigo queria dizer.

            Uma jovenzinha, aparentando menos de 20 anos, aproxi­mou-se dele.

            - Rayford Steele? - ela disse timidamente. Rayford levantou-se.

            - Sim, querida.

            - Duas coisas, se possível - ela disse muito lentamente, levantando dois dedos. - O senhor entende?

            - Sim, o que é?

            - É verdade que o senhor só fala inglês?

            - Sim, e considero isso uma vergonha. Bem, tenho um conhecimento superficial de espanhol, mas não o suficiente para manter conversação.

            - Não se envergonhe, senhor. Eu só falo hebraico.

            - Mas seu inglês é muito bom, senhorita.

            - O senhor não está entendendo.

            - Estou entendendo perfeitamente. Você fala inglês muito bem.

            Ela riu.

            - O senhor não entendeu.

            Abdullah intrometeu-se na conversa, dando uma risadinha.

            - E você tem senso de humor, jovem. Falando em árabe e diz que conhece apenas o hebraico. E você, Rayford, onde aprendeu a falar árabe?

            A moça jogou a cabeça para trás e riu.

            - Cada um de nós está falando no próprio idioma, e esta­mos nos entendendo perfeitamente.

            - O.quê? - disse Rayford. - Espere um pouco!

            - Senhor! Eu só falo hebraico.

            - E árabe - corrigiu Abdullah.

            - Não. Fui proibida de aprender árabe.

            - Acho que estou precisando dormir um pouco - disse Abdullah.

            - Você me disse que havia duas coisas - disse Rayford.

            - Sim - ela disse voltando a levantar dois dedos. - Duas.           

            Rayford pôs a mão sobre os dedos dela.

            - Não há neces­sidade disso. Eu entendo muito bem o que você diz.

            Ela riu.

            - A segunda coisa - e agora ela falava com mais rapidez - é que o Dr. Rosenzweig e o Dr. Ben-Judá querem ter uma audiência com o senhor.

            - Comigo? Eu é que deveria pedir uma audiência com eles! Tenho certeza de que ambos estão muito ocupados.

            - Eles me pediram que o encontrasse, senhor.

            Rayford acompanhou a moça passando por pilhas de estilhaços de rocha produzidos pelas bombas. Chaim e Tsion estavam sentados dentro de uma caverna iluminada por uma tocha presa à parede, em companhia de vários homens idosos. Tsion apresentou Rayford a todos e disse:

            - É dele que nós estávamos falando.

            Os homens assentiram com a cabeça e sorriram.

            - Louvado seja o Senhor - disse Tsion para Rayford.

            - Para sempre seja louvado - disse Rayford. - Mas me perdoe por estar preocupado.

            Tsion concordou com a cabeça.

            - Eu também estou aguardando notícias de nossos compatriotas na Grécia, e até mesmo neste momento o Senhor me acalma, dando-me paz e confiança.

            - Talvez Ele esteja tentando fazer o mesmo comigo, irmão - disse Rayford -, mas o fato de minha filha ser um deles está afetando minha fé.

            Tsion concordou novamente com a cabeça e sorriu.

            - Possivelmente. Mas, depois de ter sobrevivido aqui hoje, não lhe parece justo dizer que qualquer falha na comunicação entre você e o Senhor é culpa sua?

            - É evidente que sim.

            - Ah, a propósito, estou falando em hebraico, e você está...

            - Eu sei, irmão. Aconteceu o mesmo entre nós e aquela jovem.

            Os outros riram, e um deles disse:

            - Minha filha!

            - Encantadora!

            - Obrigado!

            - Chaim e eu estávamos conversando com estes irmãos sobre alguns planos - disse Tsion. - Vamos orar pelos mem­bros do Comando Tribulação espalhados no mundo inteiro, e estamos ansiosos por ver como Deus vai libertá-los. Mas cada um precisa prestar contas de seus atos. Como Chaim e eu estamos sob sua responsabilidade, nós...

            - Ah, Tsion, não! Essa época já passou! Já faz algum tempo que você é o líder espiritual do Comando Tribulação e da igreja de Cristo ao redor do mundo.

            - Não. Ouça-me, Rayford.

            - Com todo o respeito que lhe devo, sinto-me sempre lisonjeado quando você se refere a mim como o líder titular do Comando Tribulação, mas por favor...

            - Estes homens, Rayford, são um bom começo para nós aqui. Eles formam o núcleo de um grupo de anciãos que se levantarão para ajudar Chaim nas decisões diárias, assim espero. Mas, evidentemente, são novatos na fé.

            - Eu também sou, Tsion. Tenho certeza de que você não está sugerindo...

            - Desculpe-me, Rayford, mas você se esquece de uma coisa. Nenhum de nós é completamente maduro na fé ou em idade. Não vou ofender sua inteligência dizendo que vou precisar de sua orientação a respeito da Bíblia, embora eu não possa negar que aprendi com você. Mas Deus o colocou em um lugar estratégico para mim durante um período muito triste de minha vida. Se você não se importar, eu gostaria de lhe contar algumas idéias a respeito do futuro imediato e pedir seus conselhos.           

            - Se você insiste, mas pelo menos reconheça que não fui eu que fiquei em pé no meio de um milhão de pessoas e vi Deus salvá-las milagrosamente do fogo do inferno.

            Tsion olhou para ele e deu uma piscadela, virando-se, em seguida, para os outros homens. Eles deram uma sonora gargalhada.

            Chaim apontou para Rayford e deu uma risadinha.

            - Não foi você? Então, meus olhos me enganaram! - Ele virou-se para Ben-Judá. - Tsion! Eu não vi este homem aqui em pé no meio de nós? Será que ele não viu o que Deus fez?

            - Está bem - disse Rayford. - Concordo. Mas o inimigo não atacou por minha causa, Tsion. Foi por sua causa e de Chaim. Eu não estava pregando, não estava orando, não estava imbuído de fé, quando as bombas caíram. A verdade deve ser dita. Minha fé é mais forte agora do que no meio do fogo.

            O semblante de Tsion tornou-se sério, e ele passou a mão pela barba, analisando Rayford.

            - Você daria um bom israelense - ele disse. Rayford encolheu os ombros.

            - Zeke optou por uma aparência egípcia, mas quem sabe.

            - Não, estou dizendo que você argumenta como meus compatriotas. Poderíamos debater a noite inteira. E, mesmo quando está errado, você tem argumentos!

            Aquele comentário provocou mais gargalhadas entre o grupo.

            - Muito bem, Tsion. Não sei por que você insiste em ficar sob as ordens de alguém que acha tão fácil ridicularizar...

            - Tudo não passa de uma boa brincadeira, meu caro irmão. Você sabe disso.

            - Claro. Diga o que deseja. Estou ouvindo.

 

            Mac tirou seu telefone do bolso e o ligou.

            - O que eles estão fazendo, Sócrates, os seus companhei­ros? Controlando a gente?

            Sócrates encolheu os ombros.

            - Vamos, você não vai me ofender. Eles estão tentando saber se somos autênticos, que não vamos pular em cima deles, nem deixá-los em situação embaraçosa, ou o quê?

            Mac digitou o número de Chang.

            - Não há telefones celulares por aqui - disse Sócrates. - O senhor não vai conseguir ligar para ninguém.

            - Bem, eu não conseguiria se tivesse uma droga de apa­relho. Mas e se eu tivesse um telefone movido a luz solar e ligado a satélites? Aí, eu não ia me importar se não houvesse telefone celular por aqui, não é mesmo?

            - O senhor não vai conseguir falar com o comandante, a não ser...

            - Oi, Mac. Aqui é Chang. Você está bem?

            - Estou ótimo, senhor supremo comandante. Apenas verificando se meu telefone funciona para falar com alguém de Nova Babilônia.

            - Já entendi tudo, Mac. Pode falar. O que está havendo? Você está encrencado? O que eu posso fazer?

            - Muito bem, senhor. Como está o tempo aí? Chang disse:

            - Deixei minha tela aberta para o GPS [sistema de rastreamento por satélite], e estou rastreando você, ah... Jinnah e Irene até o lugar em que vocês devem estar.

            - Aguarde um instante, chefe. Só um segundo.

            Mac fingiu cobrir o bocal do telefone com a mão, mas segurou-o de modo que Chang pudesse ouvir.

            - O que você disse mesmo, Sócrates? Que eu não podia usar meu celular no meio do mato?

            - Sim, bem, é claro que o senhor pode, com o satélite e essas coisas. Eu só disse que o senhor não pode falar com ninguém, a não ser que essa pessoa tenha um telefone igual ao seu.

            - E quem aqui tem um telefone igual ao meu para eu poder falar com ele?

            Sócrates empalideceu.

            - Sei lá, eu não tenho.

            - Quem tem?

            - Meus companheiros também não têm. Temos telefones comuns.

            - Você achou que eu ia ligar para um dos seus companheiros, não?

            - Não.

            - Claro que não. A não ser que o chefe deles tivesse for­necido o número para mim, certo?

            - Certo.

            - Mas, mesmo assim, eu não poderia ligar para nenhum deles daqui, poderia?

            - Não. Foi só isso o que eu disse.

            - Você ia dizer algo mais, não, Sócrates?

            - Não. Só falei por falar.

            - Você achou que eu estava ligando para o comandante Stefanich, não?

            - Não, eu...

            - Não mesmo?

            - Sim.

            - E você achou que eu não ia conseguir falar com ele.

            Sócrates assentiu com a cabeça, sentindo-se miserável.

            - Mas como você poderia saber disso?

            - Foi só um palpite.

            - Eu não posso falar com ele em Ptolemaïs, onde há tantos celulares?

            - Acho que pode.

            - Mas ele não está lá, está?

            - Como eu posso saber?

            - Ele está aqui no mato, não está? - Silêncio. - Não está, Sócrates?

            Ele encolheu os ombros.

            - Então, como ele avisou a você e seu grupo que eu estava chegando? Ele não podia ligar para cá, não?

            - Eu sou um completo idiota.

            - Tenho certeza que sim, Sócrates. Você não está à altura de seu nome, não é mesmo? - Mac voltou a falar ao telefone. - Desculpe a demora, chefe.

            - Daqui eu tenho mais condições que você, Mac. Posso enviar um sinal ao telefone de Stefanich que vai deixá-lo em polvorosa, mesmo que eu não consiga falar com ele. Ele vai receber uma mensagem dizendo que o subcomandante Konrad, que se reporta direto ao diretor Akbar, do Serviço de Segurança e Inteligência, quer falar com ele imediatamente.

            - Parece uma boa idéia, chefe. Volto a falar com o senhor depois. Tudo está correndo bem aqui.

            - Quando ele ligar, vou usar um modulador de voz que vai me fazer falar como um alemão idoso. Vou dizer a ele que Akbar o responsabiliza pessoalmente para que Howie Johnson tenha acesso a Sebastian.

            - Perfeito.

            - E, se ele não ligar, vou deixar a mensagem no telefone dele para ajudar você a sair dessa. Eu vou lhe dar cobertura, Mac.

            - Não pode ser verdade, comandante! - Mac fechou o telefone com força. - Dê-me esse walkie-talkie, amigo.

            - O senhor vai querer me matar.

            - Quem, eu? Não. De qualquer forma, você é um homem morto. Foi você mesmo que disse.

            - É o senhor que vai me matar? Ou ela? Mac sacudiu a cabeça.

            - Vou deixar essa tarefa para seus companheiros. Pense no lado bom das coisas. Se eles forem tão eficientes quanto você, amanhã cedo você estará tomando café normalmente.

            Sócrates o encarou.

            - Você toma café de manhã, não, Sócrates? O homem assentiu com a cabeça.

            - Com licença - disse Mac fingindo apertar o botão do walkie-talkie. - Platão, Aristóteles e Elena, prestem muita atenção. Eu não quero falar com nenhum de vocês. Quero falar com Nelsinho Stefanich. Nelsinho, sei que você está aí e admiro sua criatividade. Você fez tudo direitinho. Não estou ofendido por você estar me checando. Vamos fazer um trato. Quando você receber a confirmação de que eu e minhas oficiais somos quem dizemos ser, quero que você próprio me traga Sebastian. Já sabe onde estou. E mande aquele bando de filósofos sair da toca para que eu possa vê-los. Se você fizer isso, Nelsinho, prometo que não vou tirar você do posto. Ah, mais uma coisa, Nelson. Isso é uma ordem! Você tem 30 minutos para executá-la.

            Mac virou-se e olhou para Chloe e Hannah.

            - Agora, Sócrates, você está livre para sair daqui.

            - O que o senhor disse?

            - Você ouviu. Vá. Saia daqui.

            Sócrates levantou-se com dificuldade e curvou o corpo para pegar sua arma.

            - Ela fica - disse Mac.

            - E meu rádio? - ele perguntou esticando o braço.

            - Fica também.

            - Para onde eu vou? Mac encolheu os ombros.

            - Problema seu.

            Sócrates sentou-se na beira de uma mesa frágil e esfregou o joelho.

            - Eu não tenho para onde ir - ele disse.

            - Você vai querer estar aqui quando...?

            O homem levantou-se rapidamente, cambaleando.

            - Não. Não. Mas a cidade fica muito longe daqui. E sem nenhuma proteção, sem rádio...

            - Eu não posso ajudá-lo, amigo. Você faz parte de uma operação que não obedeceu ordens. Você tem sorte por estar sendo solto. Se quiser ficar aqui até que o resto do...

            - Droga! - Sócrates caminhou mancando até a porta da frente.

            Mac fez um gesto para que Chloe o vigiasse. Ele passou com dificuldade por cima de madeira quebrada e cavacos e distanciou-se.

            - Vá atrás dele - disse Mac - até ter certeza de que ele está indo para a cidade. Hannah, vigie a área. Vou vasculhar este lugar e nos encontraremos perto das armas lá fora.

 

            Rayford sentia-se um tolo, sentado na caverna, extasiado por ter vivido pessoalmente um milagre do Antigo Testa­mento, preocupado com Chloe e aguardando a possibilidade de que Tsion Ben-Judá lhe pedisse orientações.

            Ele sabia que voltaria a ver sua filha de qualquer maneira, mas seria errado pedir que ela fosse poupada de uma morte dolorosa e violenta?

            - Você e Abdullah precisam decidir o que vão fazer, Rayford - disse Tsion. - Podem ficar, é claro, mas não sei se é conveniente você supervisionar o Comando Tribulação daqui. Os técnicos de informática me disseram que David Hassid e Chang Wong instalaram aqui uma base para um excelente centro tecnológico e que as bombas não tiveram efeito algum sobre o hardware e o software.

            - Você está falando sério? - perguntou Rayford. - O pulso eletromagnético do míssil poderia ter destruído tudo.

            - Está tudo em ordem. Louvado seja o Senhor. Daqui, você poderia controlar as coisas, mas a decisão é sua.

            - Eu vou partir - disse Rayford. - Só não sei quando. Estou preocupado com o seu retorno a Chicago, Tsion.

            - Era exatamente isso que estávamos discutindo, Rayford. Não sei se faz sentido que qualquer um de nós tente retornar para lá. E você e Abdullah não são tão visados quanto eu? Sem outro milagre, como poderemos retornar à casa secreta sem revelar seu local?

            O pensamento de encontrar uma nova casa secreta, de mudar-se, deixou Rayford aborrecido.

            - Deixe que a gente se preocupe com isso, Tsion. Quais são seus planos? Você poderia transmitir suas mensagens diárias daqui.

            Chaim interrompeu.

            - Este é o meu desejo e o dos anciãos daqui. E, por que não dizer, do resto do povo.

            - Eu não sei - disse Tsion. - Vou seguir a orientação do Senhor, mas acredito que Chaim possa ser o homem de Deus aqui.

            - Meu trabalho terminou, Tsion - disse Chaim. - Deus ajudou-me, apesar de minhas fraquezas, e aqui estamos. Vou passar o bastão para você, meu ex-aluno.

            - Continuo a ser seu aluno, doutor - disse Tsion.

            - Cavalheiros - disse Rayford -, a admiração mútua de vocês é inspiradora, mas não é muito útil agora. Este lugar necessita de liderança, organização, mediação. Se você ficar, Tsion, precisa se resguardar de responsabilidades que inter­firam em seus ensinamentos para o povo daqui e para sua audiência ao redor do mundo, via Internet.

            Os anciãos concordaram com a cabeça.

            - Talvez - disse Chaim - possamos descobrir algumas pessoas mais jovens com esses dons. Estou disposto a auxiliar, coordenar um pouco, mas não sou jovem. Esta é uma cidade, um país. Necessitamos de um governo. Deus prove comida, água e roupas que não se desgastam com o uso, mas creio que Ele espera que administremos o local. Devemos organizar e construir... é claro que apenas por pouco tempo, mas mesmo assim...

            - É possível - disse Rayford - que esse trabalho seja a maneira de Deus ocupar o tempo de vocês aqui. Viver juntos, confraternizar-se, atuar em harmonia... talvez esse seja um trabalho de tempo integral. Imaginem o tédio de um milhão de pessoas aguardando sentadas o Glorioso Apareci­mento.

            Tsion animou-se ao ouvir essas palavras.

            - Ah, é por isso que acredito que precisamos motivar o povo daqui a ajudar o restante do mundo. Não estamos cegos às profecias, às maquinações do demônio. Tentar nos fazer explodir é apenas o começo. Ele imagina que vai nos matar de fome se cortar nossas linhas de suprimento. Ele não sabe, ou não acredita, que Deus nos alimenta. Mas nós sabemos que estamos protegidos. Devemos apenas nos res­guardar contra os esquemas do demônio que visam a afastar os indecisos deste lugar. Fora daqui eles estarão vulneráveis, não apenas do ponto de vista emocional e psicológico, mas também do ponto de vista físico. Sinto-me no dever de mantê-los aqui e de convencê-los.

            - Eu não entendo - disse Rayford - como alguém pode continuar indeciso depois do que aconteceu hoje.

            - Está além da compreensão humana - disse Tsion -, mas Deus predisse isso. Meu sonho para os fiéis que aqui se encontram é que eles sejam úteis para ajudar nossos irmãos e irmãs do mundo inteiro. Pedro nos admoesta a ser sóbrios e vigilantes "porque o diabo, vosso adversário, anda em der-redor, como leão que ruge procurando alguém para devorar; resisti-lhe firmes na fé, certos de que sofrimentos iguais aos vossos estão-se cumprindo na vossa irmandade espalhada pelo mundo" (1 Pedro 5.8-9).

            - O demônio vai tornar-se cada vez mais irado, mais determinado, mais malvado, e muitos morrerão em suas mãos. Poderia haver tarefa melhor e mais nobre para esta multidão do que ajudar a cooperativa comandada por sua filha e equipar os santos para lutar contra o anticristo?

            - Eu antevejo milhares de especialistas em tecnologia criando uma rede de recursos para os crentes, informando-os a respeito de lugares seguros, pondo um em contato com o outro. Sabemos que perderemos muitos irmãos e irmãs, mas devemos fazer o que for possível para que o evangelho continue a ser divulgado, mesmo agora.

            Rayford aprumou o corpo.

            - Não posso contestar suas palavras. E a idéia é boa, Tsion, de transferir sua base de operações para cá. Vamos sentir sua falta, é claro, mas não faz sentido nos arriscarmos a perdê-lo, porque sua presença é muito necessária aqui.

            - Eu estive pensando - disse Chaim - e, Rayford, me cor­rija, por favor, se achar necessário, porque sou leigo nesse assunto. Mas acho que o tempo de manter uma casa secreta para abrigar o Comando Tribulação já acabou. Sabemos que Nova Babilônia está farejando todos os lugares e, mais cedo ou mais tarde, a casa secreta em Chicago será descoberta. Sim, talvez seja necessário encontrar um local central para coordenar as atividades da cooperativa, mas, se eu estivesse em seu lugar, me preocuparia se minha filha precisasse ficar mudando de um lugar para outro. Deixo os detalhes com você e seus compatriotas. Mas eu lhe faço uma pergunta. Não é verdade que todo mundo a quem foi solicitado per­manecer na casa secreta em pouco tempo fica com fobia de ficar preso em casa?

            - O jovem de lá, Zeke, que transforma nossa aparência com tanta maestria para nos aventurarmos a sair, talvez con­sidere a mudança um transtorno. E vai ser difícil transferir os registros e os computadores. Mas talvez a casa secreta do futuro seja instalada em milhares de lugares. Talvez tenha chegado a hora de vocês passarem a morar nos esconderijos dos crentes espalhados pelo mundo inteiro.

            Rayford receava que Chaim estivesse certo, e seus argu­mentos provavam isso.

            - Não estou dizendo que será fácil - prosseguiu Chaim -, mas eu lhe peço que tome a iniciativa. Tome a decisão difícil. Abandone a casa secreta e disperse seu pessoal antes que seja tarde demais, caso contrário perderá todos de uma só vez. Vocês sabem que estão naquela casa há muito tempo.

            - Eu sei disso, Chaim - disse Rayford. - Na verdade, não faz muito tempo que nos mudamos para o Edifício Strong. Pode ser um tempo razoável, porém é mais ou menos igual ao que ficamos na casa secreta anterior.

            Tsion levantou-se e esticou o corpo.

            - Devemos deixar esse assunto a seu critério. Deus o guiará. Eu tencionava pedir conselhos a você, mas agora estamos tentando aconselhá-lo.

            - Eu agradeço muito.

            - Mas, por favor, Rayford, preciso de uma opinião sua. Vou lhe contar o que acredito que Deus está incutindo em mim e quero saber se faz sentido para você. Sei que isso vai ferir a sensibilidade de muitos dos que me ouvem. Mesmo assim, eu não quero deixar o assunto para depois. Veja, em razão do que tem acontecido desde o Arrebatamento da igreja, creio que existe ampla evidência de uma parte da natureza e do caráter de Deus. Sabemos que este é um tempo de julgamento, até mesmo de ira. Estamos no meio dos sete últimos julgamentos de Deus, que totalizam 21, e chegamos a enfrentar um que Ele próprio menciona na Bíblia como a ira do Cordeiro.

            - Seria fácil para um pregador explicar e provar a impaciência de Deus, o julgamento dele derramado sobre seus inimigos, seu clamor de justiça pelo sangue dos pro­fetas. Mas cheguei à conclusão de que tudo isso está muito evidente. Sim, esta é a última chance. Tudo isso ocorreu nos últimos sete anos, e já estamos na segunda metade desse período. Deus fará cumprir seus planos, mas sinto-me no dever de proteger a reputação dele.

            - Ah, sei que Deus não necessita de mim, nem solicita minha assistência. No fundo de minha alma, aceito com grande humildade o fato de Ele ter me permitido exercer a função de pregar a todas as nações. Mas uma mensagem pro­funda, e aparentemente contraditória, oprime meu coração. Creio que essa mensagem provém de Deus, mas nela existe tal paradoxo, tal dicotomia, que não me atrevo a prosseguir sem o conselho e a sabedoria de minha família espiritual.

Tsion massageou as têmporas e pôs-se a andar de um lado para o outro.

            - Cavalheiros - ele disse -, vamos caminhar um pouco. Acompanhem-me.

            - Se o senhor sair daqui, a multidão vai cercá-lo - disse alguém.

            - Todos verão que estamos ocupados, tenho certeza - disse Tsion. - Não vamos fazer disso um espetáculo. Quero que os senhores caminhem ao meu redor. Vamos nos afastar das massas.

            A maioria do povo continuava a divertir-se na fonte, enquanto outras pessoas recolhiam água e maná. Rayford fez companhia aos anciãos e a Chaim e, juntos, chegaram ao topo de uma elevação e desceram uma rampa rochosa.

            Quando se afastaram dos olhares da multidão, Tsion voltou a falar enquanto caminhava.

            - Estou consciente de que fui agraciado com um grande privilégio. Tenho uma congregação de um milhão de almas, só aqui. Tenho a oportunidade de doutrinar os bebês na fé, oferecendo-lhes o leite da Palavra de Deus. Também alegro-me por poder partir o pão e destrinchar a carne das coisas mais profundas para as pessoas mais maduras na fé. E sou abençoado por pregar o evangelho, porque até mesmo aqui existem pessoas indecisas. Não vamos ganhar todas elas, e essa verdade causa-me espanto, principalmente após o esplendor de um evento como aquele que experimentamos poucas horas atrás. Mas a questão principal é a seguinte: Deus refrigera minha alma diariamente e espera que eu exer­cite, com sua permissão, todos os dons que Ele me concedeu como pastor/professor.

            Quando Tsion parou, o restante do grupo fez o mesmo. Ele sentou-se em uma rocha, e eles fizeram um círculo em volta dele.

            - Isso pode parecer estranho aos senhores, porque tenho dito reiteradas vezes que estes são os sete piores anos da história da humanidade, porém eu considero, de muitas maneiras, um benefício quase ilimitado o fato de estar vivo neste momento. A tecnologia permitiu-me ter uma con­gregação de mais de um bilhão de pessoas via Internet, um número inacreditável. Um dia, no céu, vou pedir a Deus que permita que meu cérebro finito compreenda essa cifra. Por enquanto, trata-se de algo grandioso demais para minha compreensão. Não posso imaginar o que isso significa, não posso dizer quantos estádios de cem mil lugares seriam necessários para acomodar toda essa gente. Bem, é claro que sei que dez mil desses estádios acomodariam um bilhão de pessoas, mas os senhores conseguem ter idéia do que isso significa? Eu não.

            - Agora, permitam-me dizer-lhes o que pesa sobre mim quando penso nas responsabilidades que tenho diante dessa imensa congregação. Creio que é chegado o momento de parar de falar sobre o julgamento de Deus. Não há como negá-lo. Não há como fingir que sua ira não está sendo der­ramada. Mas cheguei à conclusão de que a mensagem de Deus, ao longo dos séculos, é uma antífona à sua misericór­dia.

            - A maioria dos senhores sabe que essas palavras vêm de um homem que presenciou o assassinato de sua esposa e filhos muito amados. Será que estou dizendo que a santidade de Deus é menos importante que o amor de Deus? Como eu seria capaz disso, se a Bíblia diz que Ele é amor, mas que também é santo, santo, santo?

            - Estou simplesmente dizendo que vou deixar que a justiça, o julgamento e a ira de Deus falem por si, e passarei o resto de meus dias aqui advogando ardorosamente sua misericórdia.

            Pareceu a Rayford que Tsion fez uma pausa para fitar demoradamente todos os que o ouviam. Ele poderia ter prosseguido, defendido a si mesmo e defendido sua recente opinião. Mas simplesmente encerrou sua fala, dizendo:

            - Os senhores têm até o meio-dia de amanhã para corri­gir-me, se acreditarem que sou um irmão intempestivo. Caso contrário, meus ensinamentos vão começar, e os senhores sabem qual será o tema.

 

            Buck estava solidário com Albie. O homenzinho do Ori­ente Médio parecia inquieto, incapaz de ficar parado.

            - Eu não posso viver assim, Cameron - ele disse. - Vou conversar com Zeke esta noite para examinar os arquivos dele. Você viu o material que ele tem?

            - Claro.

            - Ele deve ter uma identidade para mim. Acho que não posso mais me fazer passar por funcionário da CG, mas aceito qualquer coisa. Qualquer coisa que não seja ficar sen­tado aqui. Você acha que ele poderia me deixar alto e loiro?

            Buck não pôde conter o riso. Uma dessas duas coisas até que poderia dar certo.

            - Acho que vou com você - ele disse. - Zeke é um artista, e essa história de ficar parado aqui vai me matar.

            - Mas você tem o que fazer. Escreve. Faz download do material que Chang envia e transmite tudo pela internet. Eu gosto muito de seu filho, Cameron, mas vou enlouquecer se ficar aqui ajudando a cuidar dele, lendo, olhando pela janela e aguardando a chegada do resto do pessoal.

            - Eu sei...

            - Você já passou bastante tempo em companhia de Mac? - Albie perguntou.

            - Claro.

            - Grande homem. Muito inteligente. Mas não pensamos da mesma maneira. Fico imaginando tudo o que ele deve estar fazendo na Grécia num momento como este, que poderia ser... oh, sinto muito. Eu sempre me esqueço de que Chloe está lá com ele.

            - E daí? Você acha que Mac não está cuidando de Chloe? Pois eu acho que ela é que está cuidando dele.

            - Eu só quis dizer que deveria estar lá.

 

            - Subcomandante Konrad?

            - Exatamente - disse Chang, com a voz modificada eletronicamente -, e espero estar falando com Nelson Stefanich.

            - Sou eu mesmo, senhor, e...

            - Comandante, exijo saber o que está se passando aí.

            - Sim, senhor, nós...

            - Enviei meu comandante sênior daqui de Nova Babilônia com a missão de conversar diretamente com seu prisioneiro.

            - Ele vai conversar, senhor. Eu...

            - Não gosto da maneira como ele está sendo jogado de um lado para o outro. Você foi avisado com antecedência e teve tempo de sobra para preparar tudo.

            - Eu sei. Nós...

            - Aguardo a transmissão de um relatório completo para meu escritório até o meio-dia de amanhã.

            - Vou fazer isso, senhor, porque posso explicar tudo.

            - Johnson já se encontrou com Sebastian?

            - Ainda não...

            - Como não? Se não se encontrou com ele até este momento, exijo saber por quê.

            - Houve um mal-entendido entre a equipe daqui, senhor. Eles imaginaram ter ouvido...

            - Vou examinar esses detalhes amanhã, comandante, mas, enquanto isso, quero crer que você vai providenciar esse encontro.

            - Sim, senhor.

            - E não convoque Johnson para ir até onde você está.

            - Como, senhor?

            - Ele já foi até onde eu acho que deveria ir. E, esteja onde estiver, o lugar em que ele se encontra é seguro; portanto, ordene que seu pessoal leve o prisioneiro até ele.

            - Sim, senhor. Subcomandante, será que eu poderia transmitir-lhe uma boa notícia?

            - Nenhuma notícia será boa enquanto Johnson não tiver acesso a Sebastian.

            - Eu só queria que o senhor soubesse que localizamos a sede do esconderijo em Ptolemaïs e planejamos invadi-la à meia-noite.

SETE

            De dentro do barracão, Chloe acompanhou os passos de Sócrates até o momento em que ele desapareceu, mancando, em direção à estrada. Em seguida, ela caminhou, pé ante pé, em ângulo de 90°, até o meio das árvores e cruzou depressa o local onde estavam a Calibre 50 e a DEW.

            O homem que ela vigiava havia passado perto das armas, que estavam a uns 12 metros à sua esquerda, mas ele não as viu. Não seria difícil acompanhar os passos de Sócrates, que mancava.

            Chloe segurava firme o cabo da Uzi, puxando a tira para mantê-la afastada do corpo e impedir que batesse na Luger. Ela olhou para os dois lados e desceu a rampa, com passos miúdos, tomando cuidado ao atravessar a estrada coberta de pedregulhos. Ao chegar ao outro lado, ela percebeu uma movimentação no meio da vegetação, alguém seguindo apressado para a esquerda, a leste, sem preocupar-se por estar andando entre galhos secos e pisando em entulhos. Chloe agachou-se e controlou a respiração, calculando a direção e a distância, para não aproximar-se muito do homem e pôr tudo a perder.

            Não havia necessidade de andar no meio da vegetação alta. Ela poderia facilmente manter o ritmo das passadas caminhando pelo acostamento da estrada, sobre a terra fofa, sem fazer barulho. O único perigo era alcançar sua presa e ser vista. Provavelmente era Sócrates. Ele parou assim que chegou perto do barracão, aparentemente para prestar atenção a algum ruído. O fato de não ouvir nada serviu para encorajá-lo, porque ele voltou a ficar exposto, talvez a uns 15 metros de Chloe, também preferindo andar pelo caminho menos acidentado ao lado da estrada.

            Chloe ficou imóvel, com a mão no cabo da arma, para não ser pega de surpresa, caso ele decidisse virar-se para o outro lado. Ela acreditava que não seria vista na escuridão, mas quem poderia saber que tipo de visão teria aquele homem manco e desarmado? Algumas pessoas eram capazes de ver ou perceber sombras no escuro. Mac havia com­provado isso. Talvez, por conhecer a área, aquele sujeito notasse uma silhueta entre as árvores.

            Chloe aguardou até que ele fizesse a curva. Em seguida, caminhou rapidamente até onde poderia voltar a ouvir os passos mancos e pesados do homem. Ela firmou bem os olhos e conseguiu ver - ou pelo menos imaginou ter visto - que ele estava mexendo o joelho e tentando andar com o corpo mais ereto, mais normal, porém sem sucesso. Vez por outra, ouvia um resmungo ou um gemido. Ele estava sentindo dor e, certamente, seguindo pelo caminho mais longo até a cidade.

            Não, Sócrates ia levá-la ao local onde George Sebastian se encontrava. Chloe sabia disso. Será que ela poderia tentar fazer uma transmissão silenciosa apenas para avisar Mac que o homem estava seguindo na direção contrária? Se a conversa durasse 30 segundos, quantos metros o homem se distanciaria dela? Mac e Hannah poderiam alcançá-la rapida­mente, e os três o dominariam sem demora.

            Mac, porém, estava vasculhando o barracão, e Hannah ficara do lado de fora sozinha, para prevenir emboscadas. Chloe jamais perdoaria a si mesma se uma transmissão desnecessária deixasse alguém em perigo. Se Sócrates a conduzisse à tal garagem ou coisa parecida, ela não correria nenhum risco, a menos que fosse vista. Se os outros três estivessem lá - até mesmo Stefanich -, ela ainda teria tempo suficiente para avisar os companheiros.

 

            Mac estava ajoelhado no porão úmido e atulhado. A única lâmpada dependurada no teto deixava entrever marcas irregulares no chão de terra. Com o auxílio da lanterna, ele tentou averiguar se George havia sofrido maus-tratos. Era impossível enxergar se havia traços de sangue entre as pega­das e as marcas indecifráveis. Aquele seria o lugar ideal para aterrorizar um seqüestrado, ele pensou.

            Depois de iluminar todos os cantos com a lanterna, des­ligou a lâmpada do porão. Quando estava caminhando em direção à escada, seu celular vibrou. Ansioso por sair dali, mas hesitando falar ao telefone ao ar livre, ele parou no meio da escada e abriu o aparelho. Seria imaginação sua ou teria ouvido uma voz vinda dos fundos? Ele supôs que Hannah já tivesse vasculhado a área. Agora, ela deveria estar aguar­dando, em companhia de Chloe, perto da árvore diante do barracão.

            Mac não se atreveu a dizer nada ao telefone; apenas ficou ouvindo.

            - Mac?

            Era Chang, mas Mac não quis confirmar. Ele apertou uma tecla no aparelho.

            - Mac? É você?

            Ele apertou a tecla por um pouco mais de tempo.

            - Está bem, você não pode falar, nem eu posso, enquanto não tiver certeza de que é você. Um bip se for verdadeiro; dois bips se for falso: depois do primeiro livro do Novo Tes­tamento, os próximos quatro livros têm exatamente, em seus títulos, o mesmo número de letras [na Bíblia em inglês].

            Agora Mac tinha certeza de ter ouvido uma voz vinda dos fundos. Voz de homem. A afirmação de Chang era verda­deira, mas agora ele estava em dúvida: um bip para verda­deiro e dois para falso ou o contrário? Ele hesitou, tentando ouvir alguma coisa enquanto rastejava até o topo da escada.

            - Mac saberia responder - disse Chang. - Um para verda­deiro, dois para...

Mac apertou a tecla uma vez, rapidamente.

            - Pode ter sido um palpite que deu certo - disse Chang. Mac fechou os olhos. Ora, vamos, Chang!

            - Você tem um contato num lugar muito estratégico. Dê um bip para cada número de letras do sobrenome de solteira da irmã dele.

            O quê? Chang faria sucesso numa festa. Ótimo, o contato é Chang. A irmã dele é Ming Toy. Três bips. Alto lá! Sobre­nome de solteira. O mesmo de Chang. Wong. Quatro. Mac deu quatro bips rápidos. Agora, ele estava espiando o lado de fora do barracão em direção aos fundos. Não via nada.

            - Entendido, Mac. Agora, preste atenção. Falei com Stefanich como se eu fosse Konrad. Ele está mandando seus homens levarem Sebastian até você. Fique alerta, mas não perca tempo. Ele disse que descobriram uma sede clandes­tina e que vão atacá-la à meia-noite. Eu não sei o número do telefone do pessoal da cooperativa daí. Você sabe? Um para sim, dois para não.

            Mac apertou a tecla duas vezes.

            -Eu nem sei se eles têm telefone. Você pode enviar alguém para ajudar? Um para... Mac apertou uma vez.

            - Você está correndo perigo imediato? Mac apertou duas vezes.

            - Entendi, você não pode falar. O GPS mostra que você continua no mesmo lugar desde a última vez que conversamos. Há alguém com você aí?

            Duas vezes.

            - Do lado de fora?

            Uma vez.

            - Consegue ver quem é?           

            Duas vezes.

            - Está bem, você consegue ouvir. Você mandou seu pessoal para fora?

            Uma vez.

            - Duas pessoas?

            Uma vez.

            - Ligue para mim quando puder. Quero saber se vamos fazer alguma coisa pelo pessoal da cooperativa daí.

            Mac guardou seu celular e rastejou até o lado de fora Havia meia dúzia de soldados das Forças Pacificadoras, armados, em volta do carro.

            - Eu digo que devemos levar o carro.. A caminhada durou horas.

            - Não temos chave.

            - Faça uma ligação direta.

            - Ora vamos! Acho que só falta meio quilômetro. Os soldados dirigiram-se para o leste. Mac contornou o barracão até a frente. Então, Stefanich tinha enviado reforço. Será que o reforço era só esse?

            Nem Hannah nem Chloe estavam ao lado da árvore. Mac deu um leve assobio para saber se elas estavam por perto. Nada. Ele ajoelhou-se na escuridão. A Calibre 50 estava no lugar. A DEW havia sumido.

 

            Para George, parecia que Aristóteles havia virado à esquerda na estrada e seguido na direção leste durante 20 minutos antes de parar no acostamento e aguardar. George tinha aprendido a calcular mentalmente a passagem do tempo, mas agora precisava lutar contra o sono. Segundo seus cálculos, eles estavam sentados ali, parados, por mais de uma hora. Mas não seria surpresa se fossem duas horas. Finalmente, Aristóteles disse:

            - O que vocês acham?

            - Já devíamos ter saído daqui há muito tempo - disse Elena. - Vai clarear logo, e, de qualquer forma, não há muitas pessoas lá.

            - Platão?

            - Sim, vamos! Temos de voltar logo para cá. George entendeu que eles saíram da estrada de pedregulhos e dirigiram-se para a estrada principal rumo ao sul. Depois, seguiram para o leste. De acordo com o ambiente e os sons, George achou que eles estavam em uma área povoada, talvez uma cidade.

            - Não deixem que ninguém veja esse cara! - disse Aris­tóteles alguns minutos depois.

            Platão agarrou George pelo ombro direito e o puxou até ele ficar com a cabeça em seu colo.

            Aristóteles reduziu a velocidade e parecia estar estacionando o veículo.

            - Não, não! - disse Platão. - Dê a volta pelos fundos.

            Assim que eles pararam e estacionaram, Elena disse:

            - Vou ver se está tudo em ordem.

            George sentia cãibras na parte inferior das costas, mas não podia fazer nada para aliviá-las. Elena retornou e subiu no jipe, fechando a porta.

            - Mais ou menos 20 minutos - ela disse.

            - Você encontrou o que precisávamos? - perguntou Aristóteles. - Deixe-me ver.

            - E o lugar?

            - Mais ou menos 30 centímetros abaixo do alto da porta direita.

            - Eu não notei isso antes.

            - Ele pode ficar sentado? - perguntou Platão.

            - É melhor esperar.

 

            Chloe parou a uns 15 metros atrás de Sócrates e calculou que faltava meio quilômetro para eles chegarem ao barracão.

            Sócrates estava curvado, com as mãos nas coxas, respirando com dificuldade. Seus passos ficaram mais lentos nos últimos cem metros; talvez ele estivesse tentando inventar uma história para seus companheiros, a fim de conquistar a simpatia deles.

            Ela observava o homem atentamente e, de repente, assustou-se ao ouvir som de passos no pedregulho. De várias pessoas. E não estavam com pressa. Nem furtivos. Apenas aproximando-se. Ela se escondeu atrás de um arbusto a cerca de três metros da estrada e ajoelhou-se, sentindo a calça da farda de camuflagem empapada de suor frio. Lutava contra a tentação de prender a respiração, temendo exalar o ar justamente no momento em que as pessoas estivessem se aproximando. Não podiam ser Mac e Hannah. Havia várias pessoas.

            Ela havia perdido Sócrates de vista e não ficou sabendo se ele continuou a caminhar. Se tivesse continuado, encon­traria seus companheiros, e ela ficaria sem saber para onde seguiram. De repente, avistou meia dúzia de soldados das Forças Pacificadoras empunhando armas. Eles caminhavam sem pressa, conversando. Dois fumavam. Chloe tentou entender o que se passava. Eles pareciam saber para onde iam. Para o mesmo lugar? Ela poderia acompanhá-los, e talvez fosse mais fácil, em razão do barulho que faziam.

            Eles passaram a três metros de Chloe, e ela aguardaria 30 segundos antes de aventurar-se a sair dali. Seu walkie-talkie deu dois estalos rápidos, cheios de estática, assustando-a.

            Os soldados continuavam caminhando e conversando, mas ela entrou em pânico. Apesar de não terem ouvido os sons, poderiam ouvir vozes, caso alguém começasse a falar com ela.

            Chloe enfiou a mão no bolso para desligar o rádio, mas errou o botão e aumentou o volume. Aflita e tentando encon­trar o botão para desligar, ela perdeu o equilíbrio e caiu sentada.

            "Johnson ou Irene, fale, por favor."

            Alto demais!

            Chloe levantou-se rapidamente, tirou o rádio do bolso, apertou o botão de transmissão duas vezes, desligou-o e endireitou-se, preparando a Uzi. Os soldados das Forças Paci­ficadoras haviam parado e estavam vindo em sua direção.

 

            Mac pegou seu rádio e cochichou:

            - Aqui é Johnson, Jinnah. Qual é a sua posição?

            - Cem metros a nordeste do ponto de encontro.

            - Você está bem?

            - Positivo. Tropas da CG na mata, senhor.

            - Irene com você?

            - Negativo.

            - E a DEW?

            - Positivo.

            - Estou a caminho. Quantos?

            - Calculo duas dúzias, senhor.

            - Repita!

            - No mínimo 24.

            - Entendido. Tome cuidado, desligue transmissão via rádio e retorne ao ponto de encontro.

            - Entendido.

            Fácil demais enganar Stefanich. Ou ele não estava acredi­tando ou era um verdadeiro idiota.

            - Johnson chamando Irene... Johnson chamando Irene... Johnson chamando Irene. Está me ouvindo?

            Mac olhou para seu relógio, chutou o chão, apertou os lábios e aguardou a chegada de Hannah.

 

            Chloe estava no meio de um arbusto espinhoso, com o dedo no gatilho e os pés afastados sobre a terra fofa. Os soldados das Forças Pacificadoras pararam na estrada, de frente para o local onde Chloe se encontrava, tão perto que ela podia ouvir a respiração deles. Os seis engatilharam as armas ao mesmo tempo. Ela mal conseguia enxergá-los e supôs que eles não pudessem vê-la. Ela prendeu a respiração e ficou imóvel.

            - CG! - um deles gritou. - Quem está aí?

            Chloe tinha esperança de que os seis chegassem à con­clusão de que não ouviram nada.

            - Apresente-se ou vamos cercar a área!

            - Sou aliada! - ela gritou. - Também da CG. Irmã em missão. Tenham calma.

            - Armada?

            - Segurando a arma acima da cabeça. Tenho certeza de que minha patente é superior à de vocês, portanto não tomem nenhuma atitude precipitada.

            Uma enorme lanterna forçou-a a semicerrar os olhos. Continuando a segurar a Uzi acima da cabeça, ela disse:

            - Apague essa coisa! Estamos todos aqui trabalhando na mesma missão.

A lanterna foi apagada.

            - Entregue a arma, senhora, e depois vamos resolver esse caso.

            - Não, primeiro vamos resolver esse caso. Estou colo­cando a arma embaixo do braço para poder mostrar meus documentos a vocês. Relaxem. Até agora vocês seguiram estritamente as instruções e não posso culpá-los.

            - Obrigado. Vou precisar acender a lanterna para ver seus documentos, senhora.

            - Um momento, eu tenho uma lanterna pequena. Está no meu bolso.

            Com a arma embaixo do braço e apontando a lanterna pequena para seus documentos, Chloe sentia o coração bater como um tambor dentro do peito.

            - Ela é oficial, companheiros - disse o líder. - Sentido!

            - Não há necessidade - disse Chloe. - Bom trabalho. Apenas um pequeno deslize, mas pelo menos vocês chega­ram no horário.

            - O que a senhora estava fazendo no meio do mato?

            - Cumprindo ordens. Quero que vocês aguardem a chegada de meu comandante e de outro oficial, para seguir­mos juntos.

            - Essa Uzi não é oficial, é?

            - Ela é muito cobiçada. De uso restrito.

            - Verdade?

            - Como oficial, eu posso usá-la.

            - Puxa!

            - Continuamos no horário? - ela perguntou.

            - Ainda faltam cerca de 20 minutos, senhora.

            - Esperem um pouco, cavalheiros. - Chloe tirou o rádio do bolso e o ligou.

            - Oficial Irene para o comandante sênior Johnson.

            - Johnson? Oh, não!

            - Comandante sênior!

            Chloe virou-se para os homens das Forças Pacificadoras.

            - Um pouco mais de respeito, por favor.

            - Aqui fala Johnson, prossiga.

            - Senhor, encontrei seis soldados das Forças Pacificadoras que vão trabalhar conosco na missão. Estamos aguardando pelo senhor a cerca de 480 metros a leste de sua posição.

            - Seis?

            - Positivo.

            - Está tudo em ordem, Irene?

            - Positivo.

 

            - Pelo que estou entendendo, devíamos estar cercados - disse Mac a Hannah. - Você tem certeza de que não foi vista?

            - Absoluta. Mac ligou para Chang e o inteirou da situação.

            - O que está havendo? - ele perguntou a Chang. - O que você acha que Stefanich está aprontando?

            - Entrei no mainframe dele, Mac, e não existe nada lá. Pode ser que eles estejam atrás de você ou Stefanich esteja apenas tentando se proteger.

            - Mas por que ele mandou toda aquela gente para o meio do mato? Será que estão se reunindo aqui para a invasão da meia-noite?

            - Parece que pegaram o caminho errado.

            - É claro que sim, a não ser que eles não saibam ao certo onde fica a sede clandestina. Não estamos muito longe do local onde o pastor escondeu Rayford. Você acha que eles descobriram o esconderijo?  

            - Você está a uns 50 quilômetros de lá, Mac. Vou con­tinuar investigando, mas não sei o que lhe dizer.

 

            - Muito bem, vamos - disse Aristóteles.

            Platão empurrou George, forçando-o a ficar com o corpo ereto. Alguém abriu a porta a seu lado e, aparentemente, Platão e Aristóteles o seguraram pelo braço, um de cada lado, enquanto Elena abria as portas. Sempre conduzido pelos dois, ele andou uns quatro metros, subiu três degraus de concreto e entrou em algum lugar. Em seguida, deu mais uns 20 passos ao longo de um corredor que, pelo eco dos passos, parecia estreito. Finalmente, entrou em uma sala espaçosa.

            Aristóteles soltou George e afastou-se um pouco.

            - Droga! - ele disse. - Não consigo. Platão?

            - Dê-me isso aí.

            George ouviu um som de metal sendo inserido em outra peça de metal e, em seguida, dois cliques altos.

            - Qual é o segredo disto aqui? - Platão resmungou.

            - Vou tentar pelo outro lado - disse Aristóteles.

            Elena ocupou o lugar de Aristóteles, ao lado de George.

            Se ao menos eu não estivesse algemado, pensou George. Ele poderia aproveitar a oportunidade. Derrubaria a moça com um golpe, arrancaria as vendas dos olhos, correria pelo cor­redor até a saída e contaria com a sorte para ajudá-lo. Mas não com as mãos algemadas para trás. Se fizesse qualquer movimento, ela certamente atiraria nele.

            Platão e Aristóteles continuavam a resmungar.

            - Empurre o homem para dentro, Elena - disse Aris­tóteles.

            Elena conduziu George para a frente, virou-o de lado e tentou forçá-lo a passar por uma abertura que, aparente­mente, era mantida aberta por Platão e Aristóteles, um segurando de cada lado. A abertura era muito pequena para George passar.

            - Deixem um pouco mais de espaço - disse Elena.

            Os dois resmungaram alto. Com um empurrão, ela fez George passar pela abertura.

            - Esperem um pouco - disse Aristóteles. - Não quero que ele seja encontrado algemado e com os olhos vendados.

            Alguém abriu as algemas.

            - Tire a venda dos olhos e jogue-a para mim - disse Elena.

            Assim que a arrancou, George viu que estava dentro de um elevador escuro. Elena tinha uma arma apontada para ele. Seria uma boa oportunidade, George pensou, porque Platão e Aristóteles estavam totalmente ocupados, segurando as portas para que elas não se fechassem. Elena pegou a venda, colocou-a no bolso e tirou uma garrafa de água do outro bolso. Ela atirou a garrafa dentro do elevador e gritou:

            - Divirta-se!

            As portas se fecharam.

            George deixou que a garrafa rolasse no chão e tentou enfiar os dedos entre as portas. No exato momento em que encontrou um ponto de apoio, ele ouviu barulho de chave trancando a fechadura. O ruído seguinte foi o de água sendo derramada, e ele tateou no escuro até encontrar a garrafa. Colocou-a em pé, decidido a economizar o que restara, pelo tempo que fosse possível.

            Com os braços abertos, George conseguiu tocar as pare­des dos lados, e, quando virou um pouco o corpo, ele se deu conta de que o local era quadrado. Não lhe causaria surpresa se os botões do painel estivessem desativados, mas, pelos seus cálculos, ele se encontrava dentro de um prédio de quatro andares. O teto do elevador estava a menos de 30 centímetros de sua cabeça.

            Ele tateou o painel, à procura de algum botão solto, desparafusado, qualquer coisa. Tudo estava muito bem preso. O painel fino, de plástico, que ele encontrou devia estar protegendo a lâmpada. Ele removeu o painel e, tate­ando, percebeu que era um pequeno tubo de luz fluores­cente, duplo e circular. Ao lado, havia outro painel cobrindo um emaranhado de fios. Ele o empurrou para o lado e o que­brou. Agora, podia sentir as lâminas do ventilador, empoeiradas e sujas de óleo.

            A temperatura do corpo de George começou a aumentar, e sua respiração ficou ofegante. Será que aquela gente era maluca? Um elevador sem funcionar serviria perfeitamente como cela de prisão, mas será que eles queriam sufocá-lo? George tirou a malha, as botas e as meias e sentou-se, encostado na porta. Pegou uma bota e começou a bater na porta com ela, por cima do ombro.

            - Pare de bater ou eu acabo com você! - gritou Elena. Então, eles haviam deixado a moça sozinha para tomar conta dele. George queria dizer que, se eles não quisessem apresentar um homem morto à chefia, seria melhor ela ligar o ventilador. Mas estava decidido a não falar. Nem uma só palavra. Por isso, continuou a bater na porta.

 

            Chang teve um mau pressentimento. Desde o dia em que passou a ser o único espião no palácio da CG, ele nunca se sentira tão desanimado. Será que Stefanich estava blefando? Ele parecia ter ficado intimidado, ansioso por agradar ao chefe. Mesmo que o homem tivesse checado a legitimidade de Mac, não haveria problema; Chang tinha providenciado tudo para que Howie Johnson parecesse autêntico. Ele estava certo de que Stefanich tinha ficado constrangido por ter duvi­dado de Johnson, e agora devia estar tentando apagar essa impressão.

            Desesperado, Chang queria saber até que ponto Mac, Chloe e Hannah estavam vulneráveis. Estariam sendo con­duzidos a uma emboscada? O tempo trabalhava contra ele, mas talvez não fosse conveniente aconselhar Mac a abortar a operação. Talvez eles pudessem fazer uma ligação direta no carro encontrado perto do barracão e seguir para o aero­porto, mas Chang sabia que Mac não abandonaria Sebastian à própria sorte. E se Sebastian já estivesse morto? Se a iden­tidade de Mac tivesse sido descoberta, não haveria motivos para a CG manter o rapaz vivo.

            De repente, Chang deu um tapa na testa com as duas mãos. Raciocine! Se eles estão tentando descobrir alguma pista sobre Mac, deve haver um motivo. Se eu encontrar a conexão, talvez possa descobrir o que eles pretendem fazer.

            Chang começou a fazer uma pesquisa global pedindo ao supercomputador de David Hassid que encontrasse alguém nos altos escalões do palácio que tivesse conexão com a CG em Ptolemaïs. Ele chegou até a digitar alguns códigos, caso o contato dentro do palácio desconfiasse de que estava sendo monitorado por alguém. Enquanto o computador pesquisava, com uma velocidade espantosa, os milhares de arquivos de centenas de localidades, Chang ajoelhou-se no chão.

            - Deus, nunca te pedi que interferisses em uma só peça deste equipamento. Mas tu sabes que foi um servo teu que projetou este computador, e quero servir-te também. Ajuda-me a raciocinar. Acelera o processo. Permite que eu proteja esses irmãos e irmãs. Depois do que presenciei hoje em Petra, sei que nada está fora do alcance de tuas mãos. Perdemos muitos companheiros para o inimigo, e sei que perderemos outro tanto antes de tua derradeira vitória. Mas não permitas que os cren­tes gregos sofram mais ainda. Não esta noite. Protege a coopera­tiva. E ajuda-me a tirar Mac, Chloe, Hannah e George de lá

 

            Mac gostava de missões claras, com incumbências espe­cíficas. O objetivo daquela era infiltrar-se, atravessar os portões, libertar o homem e chegar à estrada. Agora, havia também o problema do esconderijo clandestino. Ele certa­mente não partiria da Grécia sem Sebastian, tampouco pode­ria ir embora sem defender os crentes dali.

            O plano original não previa mais gente, além dele e de seu pessoal. Havia quatro seqüestradores. Assim, Mac, as duas mulheres e George formavam uma equipe de quatro pessoas, o suficiente para lidar com aquela situação. Mas seguir com Hannah pela estrada para encontrar-se com Chloe e seis homens da CG, ainda mais sabendo que haveria, pelo menos, outros 24 na área... bem, aquilo não fazia sentido.

            - Um momento - ele disse a Hannah. - Você sabe fazer ligação direta num carro?

            - Devo dizer que sim ou que não?

            - Responda à minha pergunta. O tempo não está a nosso favor.

            - Sim.

            - Então, faça.

            Enquanto ela caminhava apressada até o carro de Sebas­tian, Mac chamou Chloe pelo rádio.

            - Johnson para Irene.

            - Aqui é Irene, prossiga.

            - Atraso imprevisto aqui. Necessito de sua colaboração.

            - Entendido. Devo levar ajuda?

            - Negativo. Dispense os homens. Nós os alcançaremos.

 

            - Vocês ouviram o chefe, cavalheiros - disse Chloe. - Vamos nos encontrar com vocês no destino.

            - Nós gostaríamos muito de ajudar o comandante sênior, senhora,

            - Não, obrigada.

            - Podemos nos encontrar com ele depois?

            - Vou providenciar. - Assim que disse isso, Chloe teve uma forte intuição e não pôde deixar de expressá-la. - Vocês me fariam um favor?

            - Pode pedir, senhora.

            - A presença do comandante sênior Johnson esta noite é uma surpresa para o comandante Stefanich. Ele vai ser recompensado por algumas ações recentes. Portanto... - Não devemos dizer que ele está chegando? - Exatamente.

            - Tudo bem, senhora. E sabe de uma coisa? Nós nem sabíamos que o comandante Stefanich viria para cá. A verdade é que não sabemos o que ele está fazendo aqui.

            Chloe empalideceu. E se Stefanich não estivesse lá?

            - Tudo faz parte da surpresa, rapazes.

 

            Chang sabia que Deus o havia protegido, provavelmente mais vezes do que ele imaginava. Mas ele não tinha moti­vos para pensar que Deus lhe devesse algum favor nem que fosse obrigado a agir no presente momento só por causa de um pedido seu. Sem acreditar que suas súplicas tivessem produzido algum efeito, Chang tornou a sentar-se, abatido, em sua cadeira diante do computador.

Luzes vermelhas piscavam na tela.

            O mecanismo de busca havia acessado os arquivos secretos dos altos escalões e estava comparando, combinando, traduzindo idiomas, transformando palavras faladas em escritas. Uma pequena caixa no canto direito superior mostrava seis combinações feitas entre alguns elementos da CG em Ptolemaïs e a chefia no palácio.

            Chang temia que a multitarefa retardasse a busca, mas ele tinha de correr o risco. Mac e as duas mulheres corriam perigo, estavam em desvantagem numérica e não sabiam o que encontrariam pela frente.

            Ele verificou as três primeiras combinações e descobriu que eram interações rotineiras da administração de Ptolemaïs reportando estatísticas ao comando da CG. A quarta, porém, era diferente. Tratava-se de uma interação de segurança máxima, de uma série de e-mails entre TB e OT, além de várias ligações telefônicas, também entre essas duas pessoas, que estavam sendo transformadas em palavras escritas.

            Chang digitou: "Lógica da combinação?" A resposta foi imediata. "Atende a critérios simples, amplos: iniciais de pessoas-chaves da CG na Grécia e da CG no palácio representadas com as letras posteriores do alfa­beto."

            Chang semicerrou os olhos. Era o que ele havia pedido: uma conexão qualquer baseada em seqüências e códigos de uma busca padrão. TB significava SA. OT significava NS. Assustado, Chang levantou-se da cadeira, debruçou-se sobre o teclado e digitou: "Mostre interação", e, enquanto os arquivos apareciam em forma de cascata na tela, ele ligou para Mac.

 

            Mac ouviu o carro funcionando e passos correndo em sua direção vindos do norte e do leste.

            - Senhoras? - ele disse.

            - Sim.

            - Sim.

            Seu celular vibrou.

            - Aguardem. Ei, Chang.

            - Mac! Vou dizer uma vez só e volto a falar com você sobre os detalhes o mais rápido que puder. Pronto?

            - Diga.

            - Akbar e Stefanich comunicaram-se pessoalmente várias vozes hoje.

            Clique.

            - Emboscada - disse Mac. - Prestem atenção. Não há tempo para perguntas. Hannah, você dirige. Chloe,sente-se no banco do carona. Pegue a DEW, a Uzi e uma pistola. Telefones e rádios ligados. Dirijam-se para a cooperativa imediatamente. Tirem o pessoal de lá e não deixem nada que possa ser encontrado na invasão da meia-noite. Depois, sigam direto para o aeroporto. Fiquem escondidas e aguardem minha chegada com Sebastian, prontas para fugir no avião dele. Se não aparecermos, significa que estamos mortos e vocês terão de se virar sozinhas.

            Mac curvou-se e ergueu a Calibre 50, segurando-a contra o peito.

            - Está na hora de trabalhar, garotão - ele murmurou.

            Hannah e Chloe contornaram, correndo, o barracão em direção ao carro com o motor funcionando.

 

            Obrigado, Senhor, disse Chang ainda em pé e já digitando freneticamente o teclado do computador. Em segundos, ele conseguira abrir a transcrição de quatro conversas telefôni­cas em uma linha tão segura que nem mesmo Carpathia tinha acesso a ela, conforme ele próprio dissera uma vez.

            Mas David Hassid conseguiu, Nicky. Ele conseguiu.

            Chang também tinha cópias dos e-mails que não constavam do computador do palácio nem do mainframe de Ptolemaïs. Esses e-mails tinham a suposta garantia de que desapareceriam de cada registro assim que fossem lidos. O disco principal de Hassid devia ter as únicas cópias existentes, inclusive as dos remetentes dos e-mails.

            Apesar de sua curiosidade, Chang sabia que seria irrelevante, no momento, tentar entender como alguém do nível de Stefanich tinha acesso pessoal ao diretor do Serviço de Segurança e Inteligência. A ligação entre eles evidenciava a existência de alguma história por trás daquilo, mas a caixa no canto superior da tela não havia começado a piscar novamente, portanto Chang não perderia tempo tentando descobrir alguma coisa enquanto seu problema não fosse resolvido. Ele clicou rapidamente na caixa e leu: "Combinação primária 100%, não há necessidade de decodificação."

            Ele abriu o manifesto e leu: "Correlação direta da Lista A com a Lista B: Suhail Akbar e Nelson Stefanich, registrados na Escola Militar de Madri, ocuparam as mesmas posições em épocas alternadas."

            Pelos anos relacionados, Chang calculou que eles freqüentaram aquela escola na mesma época, quando eram adolescentes, havia mais de 25 anos. Aquele seria o motivo da troca de telefonemas.

            Os olhos de Chang corriam pela cópia querendo saber como se deu a artimanha.

            Stefanich havia perguntado se Howie Johnson era "um homem confiável."

            Akbar respondeu que o nome não lhe dizia nada.

            Stefanich informou: "Comandante sênior subordinado a Konrad."

            "Vou verificar."

            Akbar encontrou o nome nos arquivos: "Ficha excelente, mas nossos caminhos nunca se cruzaram. Fato raro para alguém desse nível, mas acontece."

            Stefanich insistiu: "Não quero ser inoportuno, mas Konrad garante a integridade dele? Quero ter certeza antes de levar o prisioneiro a ele."

            "Que prisioneiro? E quem é Konrad?"

            "O judaísta, George Sebastian."

            "Ainda não extraiu nada dele?"

            "Vamos quebrar os ossos dele ou matá-lo."

            "Quebre os ossos dele. Eu sei que você é capaz disso."

            "Você não é o superior imediato de Konrad?"

            "Não. Será que preciso verificar também quem é esse sujeito?"

            "É melhor. Ele me disse que é seu subordinado imediato, que é subcomandante, que trabalha em seu andar."

            "Envie documentação."

            Mais tarde, Akbar contou a Stefanich: "Você está sendo enganado. Johnson e Konrad estão no sistema, as informa­ções conferem, só que eles não existem."

            "Tenho permissão para me vingar deles?"

            "Desejo-lhe toda a sorte do mundo. Pegue os dois, mortos ou vivos, e providenciarei sua transferência para o palácio."

À medida que as ligações e os e-mails prosseguiam, ficou claro que eles já sabiam que as identidades das mulheres também eram falsas.

            "A de Montreal esteve em minha sala."

            No início da tarde, Akbar havia tomado uma decisão: "Se Sebastian está merecendo todo esse trabalho, é porque eles têm ligações estreitas com os clandestinos. Anuncie uma invasão para ver se eles revelam o local."

            Chang ligou para Mac.

            - A invasão é falsa. Se você avisar os crentes, vai pôr tudo a perder.

            - Ligue para Chloe ou Hannah. Estou ocupado.

            - O local onde você está também é uma armadilha, Mac.

            - Tudo bem. Ouça, Chang. Você salvou a nossa vida. Agora, faça o possível para encontrar Sebastian. Ou eu tiro esse cara daqui ou vou morrer tentando.

 

            Chloe atendeu o telefone. Era Chang.

            - A invasão foi uma encenação para que você levasse a CG até o esconderijo. Aborte a operação.

            - Hannah, você tinha razão.

            - O quê?

            - Hannah tinha razão, Chang. Ela desconfiou que estáva­mos sendo seguidas. Eu não percebi nada e achei que fosse paranóia dela.

            - Eu bem que falei!

            - Livre-se deles ou leve essa gente a lugar nenhum - disse Chang. - Pelo que sei, a CG não tem nenhuma pista de onde fica a cooperativa, nem que é lá que os crentes se reúnem. Preciso desligar. Mac está na linha.

 

            - Prossiga, Mac.

            - Pergunta. Se for uma armadilha, por que os homens das Forças Pacificadoras retornaram com Chloe e queriam encon­trar-se comigo depois?

            - Não estou entendendo.

            Mac lhe contou sobre o encontro de Chloe com a meia dúzia de soldados.

            - Você me deixou confuso. Ainda estou tentando deci­frar a conversa entre Akbar e Stefanich. É possível que nem todos saibam.

            - Pode ser.

            - Isso lhe dá uma vantagem.

            - Confirme se puder.

            - Claro.

 

            Mac caminhou um bom trecho na direção leste para tentar avistar a garagem improvisada, se é que havia alguma. Não viu nada. Hannah e Chloe também não. Isso significava que o local de reunião das tropas localizava-se um pouco mais adiante. Se Chang estivesse certo, Sebastian devia estar a poucos quilômetros dali.

            Excelente raciocínio militar, Mac. Ficar sozinho num lugar deserto e em número menor que o inimigo.

            Mac refletiu sobre suas opções. As vantagens eram poucas. Seria difícil alguém vê-lo. Ele não cairia no engodo de dirigir-se ao lugar em que Sebastian supostamente estava. Tinha uma Calibre 50. Poderia caminhar ou correr até o carro, mas o veículo já devia estar sob vigilância. Devia estar cercado, e, se ele fosse idiota o suficiente para tentar chegar até lá, seria facilmente capturado.

            Senhor, ele disse em voz baixa, eu vou te agradecer se me mantiveres motivado a permanecer em forma, e vou te pedir que me dês mais força do que já tive até hoje. Tudo o que estou tentando fazer é tirar vivos daqui teu servo e as minhas duas parceiras. Estou agradecendo tua ajuda desde já, porque vou estar muito ocupado por uns tempos. E, se tu decidires não me ajudar, é porque desejas o melhor para mim, e nos veremos dentro em breve.

            Mac retornou pelo caminho que levava ao barracão e parou a uns cem metros acima dele. Tirou a jaqueta, ficando apenas com três projéteis da Calibre 50 e dois pentes da Uzi. Em seguida, enrolou a tira da Uzi duas vezes em volta do corpo para que a arma ficasse bem junto dele.

            Ele não conseguia correr carregando a Calibre 50, mas trotou o melhor que pôde, permanecendo sempre no lugar mais alto da colina, a uns 200 metros acima da estrada, acompanhando o terreno. A princípio, ele sentiu o ar fresco batendo-lhe nos braços, pescoço e rosto, mas, em seguida, seu corpo inteiro transpirava. Isso, ele sabia, era apenas o começo.

            Os músculos de Mac doíam pelo esforço e pelas cãibras, mas ele não queria parar; nem sequer diminuiu o ritmo das passadas. Continuou a caminhar cada vez mais na direção oeste, tentando calcular a distância do local onde ele havia deixado o carro. Depois de atravessar uma faixa de terra acidentada com pedras soltas que quase o fizeram perder o equilíbrio várias vezes, finalmente ele decidiu localizar o veículo.

            Mac deitou-se no chão, no alto da colina, e olhou para a estrada embaixo. Com os braços trêmulos em razão do esforço e da fadiga, ele colocou o suporte bípede no chão, abriu o telescópio e ajustou o foco para poder esquadrinhar a área, em vez de tentar movimentar a arma pesada.

            Demorou um pouco de tempo para seus olhos se acos­tumarem à escuridão. A estrada de pedregulhos era apenas uma faixa cinza em comparação com a negritude da mata, mas ele sabia para onde deveria olhar. À direita de seu campo de visão - a uma distância tão grande que seria necessário fazer um movimento de quase 30 metros com a arma -, ele avistou alguma coisa que captava o reflexo das estrelas. Só poderia ser o carro branco.

            Mac respirou um pouco de ar fresco e forçou-se a levan­tar o corpo até o ponto de conseguir alinhar a Calibre 50 com o carro. Ele estava impaciente. Enquanto apertava os olhos para enxergar melhor e fazia cálculos mentais, ele teve certeza de ter visto algum movimento no lado norte da estrada. Se estivesse certo, a CG o aguardava ali - e, com toda a certeza, do outro lado da estrada também.

            Ele se lembrou, por experiência anterior, de rasgar uma tira da camiseta para tapar os dois ouvidos. Depois de colocar munição extra perto da arma, fincou os pés no chão. Contava com a grande vantagem de apontar para baixo, porque o coice o atiraria para cima e para trás. Precisava lembrar-se de manter os joelhos dobrados.

            O plano de Mac era alvejar o carro com dois disparos seguidos, sabendo que teria de dar tudo de si para ir até o fim, porque ninguém que usou aquela arma violenta - inclu­sive ele - haveria de querer atirar com ela mais de uma vez, muito menos logo em seguida.

            Mac esticou o braço e posicionou-se, com o dedo afastado do gatilho, até apoiar a base do rifle no ombro. Ele procurou acomodá-la em um local macio, e não diretamente em cima do osso, porque sabia o estrago que aquela coisa poderia provocar em seu corpo todo.

            Ele se lembrou das lições que aprendera. Firmar-se no lugar. Relaxar. Apoiar o rifle bem firme no ombro. Não retesar o dedo que faria o disparo. Proteger os ouvidos. Pés firmes no lugar. Cotovelos levemente dobrados. Joelhos flexionados. Mirar o teto do carro, um pouco para a esquerda, por causa do vento. Manter uma distância de pouco menos de 200 metros. Mesmo levando um coice tremendo, recarregar a arma e atirar novamente, da segunda vez sem preocupação com precisão na mira.

            Enquanto fazia a contagem regressiva a partir do número três, Mac ficou satisfeito ao observar movimento através da lente. A menos que alguém fosse tão infeliz a ponto de colo­car-se na linha de fogo, ninguém seria atingido pela primeira seqüência de disparos. Na segunda, ele esperava que a CG já estivesse a meio caminho do barracão.

            Ao chegar ao número um, Mac parou. Ele teve uma idéia melhor. Arriscar tudo de uma só vez. Mirar um pouco à esquerda, na esperança de atingir o tanque de combustível. Mesmo que ele errasse, aqueles homens pensariam que estavam enfrentando um tanque de guerra ou, no mínimo, uma bazuca. Mas, se ele tivesse sorte, eles pensariam que estavam enfrentando a eternidade.

            Mac mudou apenas um pouco de posição. Tudo pronto. Três, dois, um, zero, oh, mamãe!

            Ele pensou que estivesse preparado. Foi como se não tivesse colocado nada para proteger os ouvidos. O barulho foi tão violento que parecia senti-lo de modo palpável. Os galhos e troncos das árvores tinham explodido, e, sim, a explosão do tanque de combustível e o barulho do carro se espatifando sobre os pedregulhos provocaram um estrondo que qualquer um poderia ouvir, mesmo não estando por perto. O ruído ficou retinindo em seus ouvidos por mais tempo do que a bola alaranjada que ele via, mesmo com os olhos fechados.

            A violência do disparo atirou-o para trás, fazendo-o cair do lado esquerdo. Enquanto lutava para recuperar o senso de direção, ele rolou de bruços e voltou a ficar na mesma posição. Com os dedos trêmulos, Mac colocou mais munição na câmara, tomando o cuidado de deixar a arma apontada para a frente. E, mesmo contra todos os seus instintos, ele acionou novamente o gatilho.

            Ele esqueceu-se das lições que aprendera. Um dos pés não ficou firme no lugar. Ele também não estava firme. A base do rifle não foi apoiada no ombro. O coice da arma atirou-o para trás, aparentemente à velocidade da luz, e pro­vocou um afundamento na parte superior de seu ombro.

O ruído foi menor, porque o primeiro disparo já havia feito um estrago em seus tímpanos. Os ouvidos zuniam e res­soavam. Atordoado, levantou a cabeça e viu árvores caindo, duas de um lado da estrada, uma do outro. Ele havia mirado três metros à esquerda do carro, que agora estava achatado no chão e em chamas, que iluminavam o estrago feito na lataria e na fauna - tudo devastado por dois simples movi­mentos em um gatilho de metal.

            Mac queria ter podido ouvir os gritos dos jovens das Forças Pacificadoras correndo para escapar da morte. Ele forçou-se, desajeitadamente, a ficar de quatro no chão, como se fosse uma criança, e lutou para não escorregar ladeira abaixo.

            Quando, finalmente, conseguiu ficar em pé, com os braços abertos para manter o equilíbrio até as árvores pararem de girar, ele aguardou... e aguardou. Depois que seu organismo fez os ajustes necessários, Mac recuperou o fôlego, sacudiu a cabeça, esticou os braços e as pernas e começou a correr.

            Sua intenção era cobrir a pé todo o percurso que ele levara mais de meia hora para percorrer de carro. Encon­traria o caminho para o local onde ele, Chloe e Hannah haviam se reunido no fim da tarde, que agora parecia tão distante. Lá, Mac encontraria o jipe escondido, faria uma ligação direta e partiria para a missão que ele esperava fosse a última brincadeira do dia. Certamente, quando chegasse lá, Chang já lhe teria informado o local do cativeiro de George Sebastian.

            E, depois de tudo isso, que Deus tivesse misericórdia - ou não - de quem ousasse intrometer-se entre eles e a liber­dade.

 

            Chloe não conhecia com detalhes a arma de energia dire­cionada que levava no banco traseiro do carro, mas ouvira falar do efeito que ela causou em um alvo. Estava curiosa, levantou a arma cuidadosamente e colocou-a no colo, fazendo com que Hannah desviasse os olhos da estrada para a DEW.

            - Não aponte essa coisa para mim, Chloe.

            - Ela não está ligada!

            - É o mesmo que dizer que uma arma não está carregada, Já morreram muitas pessoas com armas que as pessoas juravam estar descarregadas.

            - Parece bem simples. Você sabe lidar com ela, certo?

            - Sei - disse Hannah. - Mas, por favor, Chloe...

            - Parece que basta ligá-la, deixá-la aquecer, ou coisa parecida e disparar. Não é letal.

            - Ah, eu sei. Mas o efeito do calor de 55°C sobre a pele humana sensível fará qualquer pessoa desejar estar morta.

            - Aposto que esses caras iam parar de nos seguir.

            - Nem pense nisso. Se você errar, eles vão começar a atirar e não vamos ajudar ninguém.

            - De qualquer forma, não estamos ajudando ninguém - disse Chloe. - Estamos sentadas aqui com Uzis, pistolas, uma espingarda e uma DEW e deixamos Mac lá em cima, sozinho, com toda aquela gente da CG.

            - E quanto tempo vai levar para que esses sujeitos perce­bam que estamos brincando com eles?

            - Precisamos acabar com eles antes de seguir para o aero­porto, Hannah. Eles não vão permitir que a gente entre lá.

            - Acabar com eles? Chloe, o pelotão deles pode até ser dizimado, mas eles têm mais gente, mais carros, mais rádios. Não vamos acabar com eles.

            - Estou ligando para Chang.

            - Para quê?

            - Quero saber quantas pessoas estão atrás de nós.

            - Por quê?

            - Espere um pouco.

 

            Seria muito mais fácil correr sem aquela Calibre 50 desajeitada, mas Mac não fazia esse tipo de exercício desde... desde quando? Desde nunca. Nem mesmo os trechos das corridas nos tempos de ginásio eram tão longos assim. E essa corrida era mais longa que uma maratona, com certeza. Ouvindo o som ritmado de seus passos, ele repetia continuamente para si mesmo: Deus, eu sou teu. Deus, eu sou teu. Deus, eu sou teu.

            Se ele conseguisse chegar até o jipe, seria pela misericór­dia de Deus. Essa corrida ultrapassava os limites da capaci­dade humana de Mac.

 

            Chang lia, freneticamente, cada palavra da comunicação entre Akbar e Stefanich na esperança de encontrar alguma coisa, qualquer coisa, para ajudar Mac. Seu celular vibrou, e, pelo visor, ele sabia quem estava ligando.

            - Você está bem, Chloe? - ele perguntou.

            - Por enquanto - ela respondeu. - Existe alguma maneira de saber quantas pessoas estão nos seguindo?

            - Posso tentar descobrir. No que você está pensando?

            - Se for um bando, estamos mortas. Vamos fazer essa gente rodar pela cidade atrás de nós e, depois, tentar fugir ou trocar tiros com eles, mas você sabe que temos poucas chances. Se for só um carro, e eles estiverem incumbidos apenas de contar à chefia onde fica o esconderijo, eu tenho uma idéia.

            - Diga-me qual é a idéia antes que eu comece a tentar acessar o computador de Ptolemaïs novamente.

            - Por quê? Se você não gostar da idéia, não vai procurar? É?

            - Chloe, deixe disso. Mac está em perigo, e não temos idéia do paradeiro de Sebastian. Tenho de cuidar das priori­dades.

            - Desculpe-me. Vou falar rápido. Se eles estiverem atrás de nós só para saber onde fica o esconderijo, vamos levá-los até um. Só que não vai ser o verdadeiro. Alguns cidadãos infelizes vão ser atacados hoje.

            - Gostei.

            - Que alívio!

            - Estou falando sério. E acho que vocês são peixes peque­nos para eles. Não estou dizendo que eles não suspeitam de vocês. Sair do aeroporto esta noite vai ser quase impossível, mas eles poderão pensar que vocês não têm para onde ir e vão prendê-las quando tentarem partir. Eles querem o pes­soal daí.

            - E vamos levá-los até lá, só que não até o pessoal verda­deiro.

            - Ligo para você assim que puder.

 

            - Pare de bater, se não eu mato você! - gritou Elena.

            George não ouvia a voz de mais ninguém. Continuou a bater na porta. Como ela faria para alcançar a fechadura? para destrancá-la? para abrir as portas?

            Ela praguejou, e ele ouviu movimentos. A moça estava arrastando alguma coisa para perto do elevador. Ele ouviu o barulho de uma chave sendo enfiada na fechadura e, depois, girando. Parecia que ela havia descido de uma cadeira, ou coisa parecida, que tinha usado para subir e pegar algo num lugar mais alto. Agora, ela tentava abrir as portas. Nem mesmo Platão tinha sido capaz de fazer isso sozinho. George continuou a bater na porta.

            - Estou tentando chegar aí! - ela disse. - Mas, quando eu chegar, vai se arrepender!

            Bam! Bam! Bam!

            - Eu vou atirar na porta!

            Bam! Bam! Bam!

            - É melhor você parar com isso! Eu não estou brincando! George percebeu que ela continuava lutando com as portas. Não havia como abri-las. Se pelo menos pudesse fazê-la esquecer de trancar de novo as portas... Ele parou de bater.

            - Assim é melhor!

            Ele ouviu quando ela subiu em alguma coisa novamente. A chave estava sendo colocada na fechadura.

            Bam! Bam! Bam!

            - Não! Não adianta insistir! Estou trancando você de novo, e por mim pode bater a noite inteira!

            Ela trancou as portas.

            George levantou-se e encontrou a outra bota. Calçou uma em cada mão. Agora, ele estava inclinado para a frente, com as mãos acima da cabeça e as botas encostadas nas portas. Ele arrastou as botas pela porta enquanto escorregava lentamente em direção ao chão. George encenou um tombo. Primeiro, os joelhos bateram com força no chão, depois o lado do corpo, depois as botas, depois as mãos. Ele ficou imóvel.

            - Você acabou com a brincadeira aí?... Hein?... Vai con­tinuar?... Vai levar um tiro!... Você está bem?... Ei?

            Ela praguejou novamente, e ele a ouviu falando ao tele­fone.

            -...batendo na porta do lado de dentro. Ameacei atirar, e ele parou, mas acho que está morto... pelo som que ouvi... parece que ele desabou no chão. Você sabe que não há ar lá dentro. Não há ventilação. Onde? Vou procurar. Ela bateu nas portas duas vezes.

            - Agüente um pouco aí. Vou dar um jeito para que você receba um pouco de ar.

 

            Chang encontrou a fita das conversas, via rádio, entre o pessoal das Forças Pacificadoras da CG em Ptolemaïs, mas a qualidade era tão precária que o dispositivo de conversão não conseguiu transformar as falas em palavras legíveis. Ele fez um download de tudo para seu computador e tentou captar as palavras por meio de fones de ouvido.

            - Chloe - ele relatou -, é apenas um palpite, portanto deixo a decisão a seu critério. Acredito que existe apenas um carro seguindo vocês, e não pertence à CG. Eles mandaram dois Monitores de Moral vigiar vocês. Ambos estão armados, é claro, mas a tarefa deles é saber quem vocês vão avisar sobre a invasão.

            - Você disse que é um palpite.

            - Tenho de ser honesto, Chloe. Estou quase certo de que foi isso o que eu ouvi.

            - Certo até que ponto?

            - Cinqüenta e cinco por cento. Ela riu.

            - Você achou graça?

            - Não. É que eu esperava que fosse pelo menos 60%. Se você chegar a 60, compro esse carro hoje mesmo.

            - O quê?

            - Nada. Pode ser 64?

            - No máximo.

            - Vamos fazer uma tentativa.

 

            Elena continuava a falar ao telefone, mas George teve de encostar o ouvido na porta do elevador para ouvir. Ela devia estar gritando, mas ele mal conseguia entender.

            - Na parede perto do elevador? - ela parecia estar dizendo. - Sim. Porta cinza. Entendi. Há dezenas dessas coisas aqui, homem... Bem, alguma coisa como caldeira, ventilação, aquecedor de água... ah, sim, parecem bugigan­gas do andar térreo... Como eu posso saber? Há umas 20 coisas desse tipo. Está bem, 21 e mais... está bem, talvez este seja o primeiro andar... Sistema de alarme, luzes de emergência, luzes externas, luzes da escada, elevador... Você diz que há um diferente para ventilador ou luz? Não estou vendo... Ah, sim, está tudo num lugar só... Mas eu preciso. Ele vai morrer sufocado lá dentro... Não! Abra essa coisa, nem que seja um pouco, e eu vou vigiar o homem o tempo todo... E se eu ligar e deixar as portas fechadas?... Cada andar? Então, vou trancar as portas de cada andar. Aí, ele não vai poder ir a lugar nenhum, certo?... Ligo para você depois.

            George ouviu quando ela saiu do saguão e começou a subir a escada. Ele continuava com o ouvido encostado na porta e percebeu que ela estava trancando as portas externas do elevador nos três andares acima. Ah, ela ia ligar a chave para fazer funcionar o ventilador do elevador, a fim de que George recebesse um pouco de ar. Aquilo não adiantaria. Ele tinha de forçá-la a abrir as portas.

            Elena prestava atenção para saber se o ventilador havia sido ligado e se George estava consciente. Ele levantou-se e apalpou o ventilador e as luzes, apoiando-se com firmeza nas paredes laterais. Os painéis tinham sido muito bem para­fusados, mas a fiação elétrica no teto do elevador era coberta por outros tipos de painéis, talvez um pouco mais frágeis. Ele calçou as luvas e empurrou os painéis com força. O metal era muito resistente e afiado em alguns lugares, mesmo sendo manuseado com luvas. Elena já devia estar voltando.

            George calçou as meias e as botas, curvou o corpo, ficou de cabeça para baixo, apoiou-se nas mãos e começou a levantar as pernas, para que as solas das botas encostas­sem no teto do elevador. Com os pés, ele foi tateando até ter certeza de que havia alcançado a luz e o ventilador. Em seguida, esticou as pernas e arremessou-as para cima com toda a força.

            As lâmpadas fluorescentes estouraram e caíram; as pás do ventilador entortaram e começaram a despencar. Os bíceps de George tremiam e seu peito doía, mas ele continuou a fazer força, como se sua vida dependesse daquilo. Os painéis romperam-se, soltando-se dos fios. O teto do elevador devia estar completamente devastado.

            George tentou controlar a respiração forte causada pelo esforço. Não queria fazer nenhum barulho. Aos poucos, ele voltou à posição normal e deitou-se no chão, ofegando e empurrando cuidadosamente o entulho para um canto.

            Em seguida, ouviu Elena caminhando com passos rápidos, aproximando-se da caixa de força e ligando a chave. As luzes dos botões do painel acenderam-se, e ele ouviu um zumbido no teto, no local onde a lâmpada e o ventilador haviam sido instalados.

            Continuando a controlar a respiração, George girou o corpo, amarrou os cordões das botas e, com movimentos de um gato, ajeitou-se no lugar.

            - Você está recebendo um pouco mais de ar aí? - gritou Elena. Ela esmurrou a porta. - Ei! Melhorou?

            George ficou de quatro no chão, arrastou-se para trás, encostou os pés na parede e foi se afastando, apoiado de cócoras. Em seguida, ele inclinou-se para a frente, colocou as palmas das mãos no chão, virou o rosto para a direita e deitou-se com a face e o ouvido esquerdo encostados no piso do elevador. Esforçando-se para inspirar o ar de maneira profunda, porém lenta, ele preparou-se para prender a respi­ração e fingir-se de morto.

            Mais duas batidas na porta.

            - Vamos! O ventilador deve estar funcionando, não é? Se estiver recebendo um pouco de ar, dê uma batida na porta!

            George continuou deitado, com o corpo curvado e encostado na parede. Qualquer pessoa que o visse, imagi­naria que ele estava morto, com o rosto encostado no chão.

            - Muito bem! Estou abrindo as portas, mas, se você tentar alguma coisa, vai morrer.

            Agora, ela estava em cima da cadeira. Objeto de metal sendo encaixado em metal... Um estalido... George sentiu-se tentado a apertar o botão "Abrir Porta", mas sabia que Elena estava em pé ali, com a arma apontada para ele. Ele piscou várias vezes para umedecer os olhos. Depois, continuou deitado, com os olhos abertos, sem piscar, na esperança de poder enxergar alguma coisa pela visão periférica para saber o momento exato de agir.

            - Estou abrindo as portas! Não se mexa! É melhor que a chefia encontre você baleado do que morto por acidente.

            George ouviu quando Elena apertou o botão e sentiu o elevador vibrar. As portas começaram a abrir. Ele queria sorver o ar puro e fresco, mas não se atreveu. Sob a luz fraca das placas indicando a saída e da lâmpada do corredor, ele viu a silhueta da moça diante de si, com os pés afastados um do outro, segurando a arma possante com as duas mãos.

            Ela praguejou. Aproximou-se um pouco mais. Tirou a mão esquerda da arma e fez um movimento para sentir a carótida dele. Assim que seus dedos tocassem a pele de George, ela saberia que ele estava vivo. Aquele toque seria o momento certo para ele dar o bote.

 

            - Vou fazer o que você quiser, Chloe - disse Hannah -, mas tenho outra prioridade além de sair viva daqui.

            - Mac?

            - Claro.

            - A minha também. E George.

            - Não posso imaginar que ele ainda esteja vivo, Chloe. Por que eles haveriam de querer mantê-lo com vida aqui?

            - Não pense assim.

            - Ora, vamos! Não somos mais crianças. O fato de não pensar assim não vai mudar nada, caso já tenha acontecido.

            - Só espero que eles acreditem que ainda podem extrair alguma coisa dele.

            - Tive pouco contato com ele, Chloe, mas vou lhe dizer uma coisa. Ele parece o tipo do sujeito durão, e ninguém vai fazê-lo mudar de idéia. Aposto que ele enganou toda aquela gente.

            - Pare ali adiante.

            - Você tem certeza de que isso vai dar certo?

            - Certeza? Eu preciso ter certeza?

            - Não devemos dar muito na vista.

            - É por isso que você vai parar aqui e não na frente da porta, Hannah. Quando eu me dirigir para a loja, você sairá do carro e permanecerá como se estivesse vigiando gente xereta.

            - Gente xereta?

            - Isso mesmo, gente da CG ou Monitores de Moral bisbilhotando por aí.

            - Xereta?

            - Pensei que você conhecesse esse termo. Esqueci que você foi criada numa reserva indígena.

            - Bem, enfim, eu devo ficar prestando atenção para ver se aparece alguém da CG ou algum MM. E o que faço se eles aparecerem?

            - Eles não vão aparecer. Só querem saber quem estamos avisando para eles poderem invadir o local.

            - Há pelo menos 55% de chance de isso acontecer.

            - Sessenta.

            - Se for 40%, eles vão nos prender ou coisa pior.

            - Você está portando uma Uzi. Vi o que você sabe fazer com uma espingarda, e só posso imaginar o que faria com uma DEW.

            - Vou lhe dizer uma coisa, Chloe. Se aparecer alguém, entro correndo no carro, aperto a buzina e venho buscar você.

            - Bem, espero que sim.

 

            No exato momento em que sentiu o contato de pele com pele, George Sebastian evocou todos os seus anos de treinamento militar, de futebol e de levantamento de peso. Quando ergueu o corpo do chão, apoiando-se nas palmas das mãos, os fortes músculos e tendões de suas pernas o atira­ram de encontro a Elena. Ela nunca mais mataria nenhum cristão.

            Os quase 110 quilos de George atingiram-na tão depressa e com tal violência que, quando ele passou os braços ao redor da cintura da moça, sentiu o topo da cabeça afundando no estômago dela. Elena vomitou em cima de George, bateu o rosto com toda a força nas costas dele e atingiu-o nos joelhos com as botas.

            Ele deu um salto de um metro e projetou-se uns três metros na direção do saguão, levando consigo o corpo dela dobrado em dois. Quando ele caiu, seu peito comprimiu as pernas de Elena, e a parte posterior da cabeça dela estate­lou-se no piso de mármore.

            George levantou-se, arrancou a arma da mão dela e guardou o telefone e o rádio nos bolsos. Em seguida, agarrou-a pela cintura e atirou o corpo sem vida dentro do elevador. Depois de trancar as portas, ele deixou a chave em cima da cadeira que ela usara para alcançar a fechadura.

            George pegou o tapete da porta de entrada e cobriu o sangue que sobrou no local em que a moça morreu. Usou as luvas para limpar o rastro de sangue até o elevador. Quando estava prestes a dirigir-se à porta dos fundos para ver se conseguia encontrar um carro e fazer uma ligação direta, ele ouviu barulho de chaves na porta da frente. Ao olhar, viu um senhor idoso sorrindo e acenando para ele.

            O homem usava um uniforme de segurança do prédio, com a calça destoando da camisa, e carregava duas vassou­ras. Assim que entrou, ele disse alguma coisa em grego.

            - Inglês? - perguntou George, ciente de que estava com o rosto afogueado, parecendo um seqüestrado em fuga que acabara de matar seu captor.

            - Eu querer saber se elevador ainda sem funcionar.

            - Sim.

            - Funcionar?

            - Não.

            - Não funcionar.

            - Certo.

            - O.k. E daí, inglês, como vai você?

            - Bem. Até logo, senhor.

            - Até logo.

           

            Chloe preparou a Uzi, segurando-a com a mão direita, e abriu a porta com a esquerda. Assim que parou o carro três quarteirões adiante, nas sombras de uma viela, Hannah desceu e começou a andar de um lado para o outro.

            Apesar de sentir-se tentada a olhar para trás ou de lado para ver se havia soldados das Forças Pacificadoras por perto, Chloe manteve os olhos fixos na vitrina da loja, onde pouco antes, naquele mesmo dia, ela assistira ao bombardeio em Petra pela TV. O local estava escuro, mas nos fundos havia pelo menos dois apartamentos com as luzes acesas.

            Ela esmurrou a porta de vidro, com a mão fechada. Talvez os moradores daquele local não dessem atenção a essas batidas, imaginando que fosse um bêbado perambulando pela rua àquela hora da noite. Portanto, ela insistiu até ouvir alguém gritar lá de dentro:

            - Fechado!

            Ela esmurrou a porta com mais força ainda. Finalmente, uma luz foi acesa e um homem, de roupão e chinelos, com rosto marcado por rugas profundas, aventurou-se a aparecer.

            - O que é? Quem é você?

            - CG! - ela disse em tom de segredo, mas para que qualquer um pudesse ouvir. - Abra. Só por alguns instantes. Por favor.

            Ele aproximou-se, resmungando, mas não abriu a porta.

            - O que você quer?

            - Tenho um recado urgente para o senhor, mas não posso dizer em voz alta. Ele sacudiu a cabeça e abriu um pouco a porta.

            - O que pode ser tão urgente?

            - Quero avisar ao senhor que vai haver uma blitz na vizinhança esta noite.

            - O quê? Uma blitz?

            - Uma batida policial.

            - O que eles estão procurando? - ele disse, apontando para o número 216 em sua testa.

            - É por isso que estou aqui - ela disse. - O senhor é um cidadão leal, e quisemos avisá-lo com antecedência para que não fique assustado.

            - Mas você me assustou!

            - Eu lhe peço desculpas. Boa-noite.

            Ele bateu a porta e trancou-a, sem dizer nada, e Chloe dirigiu-se apressada para o carro.

            - Deu certo - ela disse.

            - Você derreteu alguém?

            Hannah assustou-se.

            - O quê?

            - Com aquela arma.

            - É assim que você disfarça seu medo? Fazendo gracinhas?

            - Talvez. Estou com o corpo todo adormecido.

            - Não vi ninguém, Chloe. Não sei o que isso significa. Ou eles são eficientes demais, ou nós somos paranóicas.

            - Talvez as duas coisas. Nós poderíamos ficar rodando por aqui e ver se aparece alguém da CG para bisbilhotar o esconderijo.

            - Espero que você não esteja falando sério.

            - Claro que não, mas você tem de admitir que seria engraçado. Principalmente quando perguntarem àquele velho se ele foi avisado da invasão.

            - Para onde vamos agora, Mulher Maravilha?

            - Parece que estamos na corda bamba, Hannah. Não podemos ligar para Mac, a não ser que a gente saiba que ele se encontre em algum lugar onde possa falar. Chang vai nos dizer o que pode fazer e quando. Acho que devemos procu­rar um lugar para ficar, sem que ninguém nos veja, e aguar­dar por Mac e George.

            - Você está sonhando.

 

            Rayford estava prestes a acomodar-se na barraca que lhe fora destinada em Petra. Ele imaginava que não conseguiria dormir depois da experiência pela qual passara. Enquanto contemplava as estrelas, seu celular tocou. Ele virou de lado e pegou-o na mochila. O número exibido no visor não lhe dizia nada.

            Ao tentar imitar um sotaque do Oriente Médio, ele perce­beu que não teve sucesso.

            - Aqui é Atef Naguib - ele disse.

            - Ray?

            - Por favor, quem é?

            - Memorizei dois números - disse a voz. - O seu e o de Chang. Mas este telefone aqui não é seguro, e eu não quero prejudicar Chang.

            - Sebastian? - disse Rayford, sentando-se. - Eles o encon­traram?

            - Eles quem? Acabei de fugir do cativeiro. Existe alguma casa segura por aqui? Algum local onde eu possa ficar até encontrar um meio de sair deste lugar?

            Rayford ficou em pé, sem perceber. Explicou, resumida­mente, a George qual era a missão do grupo do Comando Tribulação na Grécia e como ele poderia chegar à coopera­tiva de lá.

            - Vou ligar para Chang e pedir que informe nosso pessoal que está na Grécia.

 

            Deitado na grama úmida de orvalho, ao lado do jipe, Mac sentia uma profunda gratidão, apesar de saber que nem ele nem seus amigos estavam fora de perigo até aquele momento. Com o corpo superaquecido e arqueado, aspirava o ar noturno, agradecendo a Deus, infinitas vezes, a força que Ele lhe dera para correr até ali.

            Ele mal conseguiu falar quando Chang lhe contou tudo o que acontecera, mas entendeu rapidamente que, das quatro pessoas que estavam na Grécia, Chloe e Hannah eram as que se encontravam, agora, em maior perigo. Elas tinham sido seguidas, estavam dentro de um veículo da CG, em Ptolemaïs, e não se atreveriam a chegar perto da cooperativa, nem mesmo a pé. Apesar de estarem forte­mente armadas, eram inexperientes. George Sebastian havia passado de uma situação extremamente precária para uma temporariamente mais segura, se é que conseguira encontrar a cooperativa.

            Sentindo o corpo todo dolorido, Mac sentou-se e encostou no veículo. Apesar de ter almejado essa operação, houve momentos em que se sentiu apavorado. Sua intenção sempre foi a de libertar George, mas as circunstâncias não foram nada favoráveis. No início da operação, ele ficou animado ao ver como parecia fácil ludibriar o pessoal da Grécia. Logo depois, a situação complicou-se, chegando a ficar desespera­dora. Agora, apesar da pouca ajuda de Mac, todo aquele tra­balho, que envolveu tantas aventuras, voltou a ter um único objetivo. Mac tinha uma tarefa: reunir-se com os outros três e fugir dali.

            Chang estava inconsolável por não ter descoberto a conexão entre Akbar e Stefanich antes do início da operação. Mac tentou confortá-lo, dizendo que a hierarquia da Comuni­dade Global era tão recente e tão diversificada que ninguém poderia supor que aqueles dois se conhecessem. Chang havia se redimido por ter violado a segurança e todos aqueles códi­gos ostensivamente indecifráveis.

            Agora, ele e Mac sabiam mais sobre Stefanich e sobre os planos dos seqüestradores do que os próprios idealizadores. Por exemplo, Mac sabia que Sebastian havia fugido. Do grupo da CG - Stefanich, Aris­tóteles, Platão, Sócrates e Elena -, a única pessoa que tinha conhecimento disso estava morta.

            Por meio de um exame rápido, porém minucioso, das conversas entre Akbar e Stefanich, Chang descobriu que eles haviam montado um esquema para atrair Mac, Chloe e Hannah para o interior da mata. Lá, eles os obrigariam a seguir até um lugar onde os três ficariam em desvantagem numérica perante o contingente da CG, sendo que a maioria desse pessoal não fazia idéia do que estava se passando. Mesmo que a situação se revertesse e que Mac e seu grupo tivessem sido capazes de dominar os homens das Forças Pacificadoras, poucos teriam informações suficientes para revelar o segredo do plano articulado para enganá-los.

            A CG esperava que o pessoal de Mac a levasse até o esconderijo dos judaístas e que eles finalmente fossem presos ali. Johnson, Sebastian, Jinnah e Irene seriam conduzidos à sede local da CG e enviados para Nova Babilônia como troféus de Stefanich, o mais recente morador do palácio e membro da equipe de Akbar.

            - Stefanich está louco para pegar você - Chang dissera a Mac. - Eles ficaram preocupados quando não conseguiram falar com Elena, mas, assim que restabeleceram o contato, foram informados de que tudo está em ordem na sede.

            - O que você acha disso, Chang?

            - Não estou preocupado. Sebastian confirmou a morte de Elena e está com o telefone dela. Quem pode saber como ele ludibriou aquela gente? Eu confio plenamente nele. Minha preocupação é com Chloe e com Hannah. Os Monitores de Moral perderam as duas de vista logo depois que elas os levaram a um local que eles imaginaram ser a cooperativa. Eles só vão perceber seu erro no momento da invasão. Mas Stefanich mandou tanta gente para o meio do mato captu­rar vocês três que a sede de Ptolemaïs ficou desfalcada. A situação mudou completamente. O pessoal está retornando para lá.

            Enquanto fazia uma ligação direta no jipe, Mac deu-se conta de que poderia ligar para Chloe e Hannah, mas não teria condições de entrar em contato com o pessoal da cooperativa nem com Sebastian, a não ser pessoalmente. Mac tinha uma idéia de como eles todos poderiam fugir, mas, por enquanto, as duas mulheres precisavam ser protegidas.

 

            - Que situação bizarra! - disse Chloe. - Devíamos estar muito perto de George quando ele saiu pela porta dos fundos da sede da CG. Poderíamos tê-lo levado à cooperativa.

            - E complicar a vida de todo mundo.

            - Bem, é mesmo, mas é o que eu penso. Temos de aban­donar este carro e chegar a um lugar onde Mac possa nos encontrar.

            - Quanto mais cedo, melhor - disse Hannah. - Não avis­tei ninguém nestes últimos minutos. Vamos fazer isso agora.

            - Vamos, pelo menos, rodar até a periferia da cidade.

            - É muito arriscado.

            - Menos arriscado do que estacionar na cidade e andar a pé pelas ruas.

 

            Mac detestava a idéia de ter de caminhar alguns quarteirões, mas não podia arriscar-se a estacionar perto da cooperativa. Ele deixou o jipe a cerca de um quilômetro e meio ao norte e seguiu a pé. O problema era entrar sem ser alvejado, porque o pessoal da cooperativa estava de olho na CG.

            Ele pensou em entrar na taberna como se fosse um cliente habitual, mas Sócrates já devia ter feito uma descrição dele à chefia, e a cidade inteira o estava vigiando. Ele ainda usava a farda de camuflagem e portava uma Uzi - um habitante comum de Ptolemaïs não sairia vestido daquela maneira à noite para tomar alguns tragos.

            Mac lembrou-se do que Chloe e Hannah lhe contaram a respeito do lugar e caminhou o tempo todo nas sombras. Depois de contornar o local, esgueirou-se pela porta dos fundos e entrou no minúsculo banheiro. A taberna estava lotada e barulhenta, o que lhe dava uma vantagem. Ele tran­cou a porta, tentou controlar a respiração e limpou a graxa do rosto. Pelo espelho sujo, notou que seu rosto não ficou totalmente limpo e assustou-se ao ver marcas profundas de cansaço ao redor dos olhos. Faz algum tempo que escureceu, ele pensou, e estamos apenas começando:

            Mac estudou o sistema de encanamento. Os canos atravessavam o piso e, provavelmente, desciam até um metro ou pouco mais do local em que George e os outros crentes estavam reunidos no fundo da lavanderia. Ele sentou-se no chão e usou o pente da Uzi para bater no cano em forma de código Morse. "Procurando amigo de S.D."

            Ele repetiu a mensagem mais duas vezes.

            Finalmente, alguém respondeu. Mac não tinha nenhum papel para escrever, e teve de lembrar-se de cada letra que ouviu: "Necessito comprovação."

            Mac respondeu: "Maravilhosa Graça."

            A resposta: "Mais."

            Ele bateu: "Vamos para casa."

            A resposta: "Anjo favorito?"

            Essa era fácil. E só um compatriota saberia. "Miguel."

            "Seja bem-vindo. Rápido."

            Mac apagou a luz antes de abrir a porta. Ao ver que não atraíra olhares curiosos, ele desceu correndo a escada. Assim que ouviu um "Psiu" vindo do cômodo dos fundos, atraves­sou a cortina e viu os canos de duas Uzis sob a fraca ilumi­nação.

            Um jovem, de cabelos escuros, parecia pronto para atirar.

            - Deixe-me ver suas mãos - ele disse.

            Mac levantou as mãos deixando a Uzi - carregada com munição daquele próprio cômodo - pendurada no braço.

            - É ele? - perguntou o jovem.

            - Deve ser - respondeu George.

            - Se não sou - disse Mac -, como eu poderia saber que seu nome é Costas?

            Foi, então, que ele entendeu qual era o motivo da dúvida de George e tirou os óculos.

            - Eu fingi estar trabalhando para Carpathia, homem! - ele disse. - Minhas sardas foram disfarçadas e mudei a cor dos cabelos.

            - É ele! - disse George, aproximando-se de Mac para abraçá-lo.

            Várias outras pessoas - a maioria homens, de todas as idades e armados -, escondidas sob pilhas de roupas, apa­receram. Havia apenas três mulheres ali - uma de meia-idade, uma idosa e uma com pouco menos de 20 anos. A primeira apresentou-se como Sra. R, a mãe de Costas. A mais velha disse:

            - Meu marido é primo de K.

            Um homem franzino e magro, que parecia estar beirando os 80 anos, disse:

            - O marido dela sou eu. George apontou para a moça.

            - O telefone de Elena tocou, não faz muito tempo, e esta jovem aqui atendeu. Apesar de a ligação estar péssima e da estática, ela confirmou ao bando de Elena que eu continuava trancado a sete chaves.

            - Prazer em conhecê-lo - disse a moça imitando alguns ruídos de estática, o que provocou risos no pessoal.

            - Excelente trabalho - disse Mac. – Mas, irmãos e irmãs, não temos tempo a perder. Existe uma verdadeira caçada humana atrás de mim, e não vai demorar muito tempo para eles descobrirem que Elena está morta e que o prisioneiro fugiu. Tenho duas companheiras que estão a pé. Primo de K, o seu sobrenome também é Kronos?

            -Sim.

            - Foi o senhor que emprestou seu caminhão para a causa?

            Ele fez um movimento afirmativo com a cabeça, de modo solene.

            - Esse caminhão está disponível?

            - A dois quarteirões daqui.

            - Quero comprá-lo. - Mac tirou um volumoso maço de nicks do bolso da calça, abaixo do joelho.

            - Não, não, não é necessário.   

            - É, sim, porque no fim da noite esse caminhão ficará conhecido da CG e o senhor não poderá vê-lo novamente.

            - Eu não preciso de dinheiro.

            - E a cooperativa? E o pessoal do esconderijo?

            - Sim - disse a Sra. Pappas dando um passo à frente para pegar o dinheiro.

            - Como é o caminhão? Tem tração nas quatro rodas?

            - Sim. Mas não é novo nem rápido. Câmbio manual de cinco marchas, muito pesado e bem possante.

            - Assim que eu conseguir falar com as outras duas com­panheiras, George e eu vamos pegar o caminhão para buscá-las. A CG acha que vamos seguir direto para o aeroporto de Ptolemaïs, mas seria um ato suicida. Temos um avião numa pista abandonada, a uns 130 quilômetros a oeste daqui. Se pudermos seguir naquela direção sem chamar a atenção de ninguém, será lá que o senhor vai encontrar seu caminhão amanhã. Se deixarmos rastro, finja que nunca viu aquele caminhão.

            - Eu quero ir junto - disse Costas.

            - Não, sinto muito. Não há meios de você nos ajudar a fugir, a menos que queira nos acompanhar até a América.

            - Mas eu...

            - Vamos aceitar toda a munição que você puder nos for­necer. E eu diria que, se partirmos agora, nossas chances são de apenas 50%. Concorda, George?

            - Não. Acho otimista demais. Mas concordo que não temos outra opção e precisamos partir já.

            A Sra. P. levantou a mão.

            - Não há nada errado em orar enquanto alguém trabalha. Alguém coloca munição extra numa sacola enquanto eu oro,

            - Nosso Deus, nós te agradecemos a vida de nossos irmãos e irmãs em Cristo e te pedimos que coloques um círculo resistente como aço ao redor deles para protegê-los. Que eles façam uma boa viagem, nós te suplicamos, em nome de Jesus. Amém.

            George pegou a sacola e as chaves do caminhão, enquanto Mac, encolhido em um canto, tentava falar com Hannah e Chloe pelo walkie-talkie.

 

            Chloe estava conversando com Chang pelo telefone quando ouviu Hannah receber uma mensagem de Mac, via rádio, e informar a localização delas: fora da estrada, atrás de um arbusto, ao norte da cidade.

            - Isto é urgente - Chang estava dizendo. - Não tenho tempo de ligar para cada um de vocês, portanto prestem atenção. Todos os Monitores de Moral e todos os homens das Forças Pacificadoras da CG estão em alerta máximo. Eles saíram da mata e estão começando a vasculhar a cidade inteira. Estou falando de centenas de pessoas e de todos os veículos em operação.

            - Eles encontraram o corpo de Elena - prosseguiu Chang -, sabem que alguém atendeu o telefone dela e estão rastre­ando aquele aparelho pelo GPS. Se George estiver de posse do telefone, eles saberão onde ele está. Se abandoná-lo, vai ter de ser bem longe da cooperativa.

            - O aeroporto está fervilhando de gente da CG. O Rooster Tail está na pista e pronto para decolar, mas não tem com­bustível. Se vocês puderem voltar para pegar o avião de Mac, o melhor que posso fazer é tentar falar com o piloto amigo de Abdullah e pedir que ele vá para Larnaca, em Chipre, amanhã.

            - Obrigada, Chang - disse Chloe. - Hannah está me contando que Mac e George estão a caminho. Esqueça Lar­naca. Nunca vamos conseguir chegar lá. Parece que o cerco está se fechando à nossa volta. Diga a todos que os amamos e que estamos fazendo o melhor que podemos para voltar para casa.

 

            Mac estava dirigindo o caminhão rumo ao norte, com George sentado a seu lado, quando recebeu a ligação de Chloe contando sobre o telefone de Elena.

            - Isso é fácil - ele disse parando no meio da estrada. George, coloque o telefone de Elena debaixo da roda da frente.

            O caminhão esmagou o telefone.

            Enquanto eles seguiam na direção norte, Mac avistou um mar de luzes azuis piscando a distância.

            - Estamos fritos - ele disse.

            - Eles não estão procurando este caminhão - disse George. - Não faça nada suspeito.

            - Como, por exemplo, pegar duas mulheres armadas?

            - Siga em frente. As duas vão ver a CG e saberão que teremos de voltar mais tarde.

            - Quando vamos ter tempo de fazer isso?

            - O que você vai fazer, Mac?

            - Eles estão bloqueando a estrada. Ponha as armas e a munição debaixo dos bancos e coloque o boné. A sua descrição é mais conhecida aqui do que a minha. Você não vai poder esconder muita coisa, mas pode esconder o cabelo loiro.

 

            Deitadas de braços, Chloe e Hannah observavam a longa fila de carros da CG, com as luzes piscando.

            - Lá está o caminhão - disse Hannah.

            - Há muitas viaturas da CG rodando por ali. Acho que eles não precisavam de tantas para bloquear a estrada.

            Duas viaturas da CG pararam de cada lado da estrada, e um homem das Forças Pacificadoras levantou a mão para impedir a passagem do caminhão acenando para o restante das viaturas.

            - Hannah, se você estiver me ouvindo, dê um clique.

            Chloe olhou para ela.

            - É o George?

            Hannah assentiu com a cabeça e deu um clique no walkie-talkie.

            - Muito bem, peguei o rádio de Mac aqui no banco. Vou ficar olhando para a frente fingindo que não estou falando, portanto vai ser difícil você me ouvir. Preste muita atenção. Se tiver uma DEW aí e puder ligá-la, dê um clique.

            Hannah ligou a arma e deu outro clique.

            - Esses caras vão nos revistar. Vou deixar o rádio aberto. Se vocês acharem que eles estão se aproximando demais, destruam os dois. Entendido?

            Clique.

            - Eles estão vindo. Preparem-se. Se algum deles se aproximar muito de mim, ficando do meu lado, cuidado com a pontaria!

            Clique.

 

            Chang estava exausto e gostaria de encerrar o expediente como todos fizeram no palácio, com exceção de Suhail Akbar e o incansável Carpathia, que não necessitava mais de sono. No entanto, Chang não conseguiria dormir enquanto Mac, Chloe, Hannah e George não estivessem seguros, dentro do avião, voando de volta para casa. Ele continuou diante do computador, pronto para colaborar. Nesse meio tempo, ligou a escuta clandestina no escritório de Carpathia.

            - Eu preciso acompanhar de perto o que está acontecendo na Grécia - Akbar estava dizendo. - Volto a falar com o senhor assim que puder.

            - Esse assunto não pode ser resolvido daqui, Akbar? As noites são muito longas, e há muitas informações que neces­sitamos saber das regiões onde o dia já amanheceu.

            - Perdoe-me, potentado, mas tivemos uma falha grave na segurança. Estou me comunicando com Ptolemaïs por meio de telefonemas e e-mails seguros. A situação está prestes a ser resolvida, e voltarei a falar com o senhor o mais rápido possível.

            - E temos condições de saber como anda o trabalho dos Monitores de Moral na Região -6 e na Região 0?

            - Claro.

            - Deveria haver transmissões em áudio e em vídeo para que eu pudesse ver os últimos renitentes recebendo a marca de lealdade, adorando minha imagem três vezes por dia ou sofrendo as conseqüências. Eles estão sofrendo, não?

            - Claro que estão, Excelência. O senhor e eu temos rece­bido notícias atualizadas a respeito disso.

            - E os judeus? Existem muitos judeus nessas duas regiões que devem estar apreciando o brilho do sol neste momento, mas eles não sabem que é pela última vez. Estou certo?

            - O senhor está sempre certo, Excelência. No entanto, poucas pessoas estão apreciando a beleza da natureza, em razão da condição em que os mares se encontram. Não sei como o planeta poderá sobreviver a uma tragédia de tais proporções.

            - Isso é obra dos judaístas, Suhail! Essa gente acha que os judeus são o povo escolhido de Deus e diz isso a eles. Bem, agora eles são meus escolhidos. E o que reservei para esse povo deixará um gosto amargo na boca deles. Eu quero saber de tudo, Suhail. Quero ver se meus editos estão sendo postos em prática.

            - Vou providenciar, meu senhor. Quando voltarmos a conversar, alguém já terá conectado o monitor com as emis­soras de noticiários daquelas regiões, de modo que o senhor possa receber todas as informações que desejar.

            - E esse caso de falha na segurança, Suhail? Partiu daqui, de dentro do palácio?

            - Tudo nos leva a crer que sim, senhor. Se toda essa trama, todas essas informações falsas foram plantadas em nosso principal banco de dados, de um lugar distante, esta­mos muito mais vulneráveis do que imaginamos. Por pior que seja, temos quase certeza de que está partindo daqui de dentro, e não vamos demorar muito para descobrir.

            - Você se lembra, Suhail, de minhas ordens quanto ao tipo de tratamento que deveria ser dado aos judeus e, prin­cipalmente, aos judaístas? Pois esse seria um castigo muito suave para alguém que ousou enganar-me dessa maneira aqui, debaixo de meu teto.

            - Eu entendo, senhor.

            - O responsável deve ser morto diante dos olhos do mundo.

            - Claro.

            - Suhail, não fizemos uma operação pente-fino em todo o pessoal daqui?

            - Fizemos.

            - E existe algum funcionário da Comunidade Global, aqui ou em qualquer outro lugar do mundo, que ainda não recebeu a marca?

            - Menos de um milésimo de 1 %, Excelência. Provavel­mente menos de dez. Todos eles são cidadãos leais e apre­sentaram motivos válidos. Pelo que sabemos, têm planos de corrigir a situação imediatamente.

            - Eles não deveriam ser os principais suspeitos?

            - Estão sob vigilância cerrada, senhor. E não existe nenhum funcionário dentro do palácio, nem em Nova Babilô­nia, sem a marca.

            Depois que Suhail conseguiu, finalmente, desculpar-se e retornar à situação em Ptolemaïs, Chang continuou a ouvir o que se passava no escritório de Carpathia. Nicolae estava resmungando alguma coisa, mas Chang não con­seguia entender. De vez em quando, ele ouvia uma batida forte, como se Carpathia estivesse esmurrando uma mesa ou uma escrivaninha. Finalmente, ele ouviu uma seqüência de ruídos, como se Carpathia tivesse chutado o cesto de lixo, derrubando todo o conteúdo no chão.

            Após alguns instantes, Chang ouviu uma batida leve na porta.

            - Entre! - gritou Carpathia.

            - Ah, com licença, potentado, senhor. Vou ligar seu monitor às emissoras dos Estados Unidos Norte-americanos e dos Estados Unidos Sul-americanos.

            Carpathia não lhe deu atenção. Quando o homem estava de saída, ele disse:

            - Limpe esta bagunça aqui.

 

            Mac decidiu tomar a iniciativa com o soldado das Forças Pacificadoras da CG encarregado do bloqueio da estrada, em vez de esperar que ele lhe pedisse os documentos. George estava sentado, com o corpo relaxado, no banco do passageiro.

            - Puxa, o que está havendo aqui esta noite, chefe? Não vejo um contingente tão grande nas ruas desde que comecei a trabalhar na manutenção das estradas. Todos esses homens trabalham duro em nossas zonas de construção, e você está cumprindo seu dever. O que está procurando? Posso ajudar em alguma coisa?

            - Assunto confidencial. Caçando alguém de alto nível. O dia foi longo para vocês, não?

            - O que está havendo? Nós não costumamos passar por aqui tão tarde assim. Tivemos de pegar o caminho mais longo do aeroporto até aqui. Aquele trecho também está sendo vigiado? O cerco está grande lá. Passamos pelo blo­queio de lá. Eles nos deram permissão para passar, apesar de estarmos sem documentos, porque tivemos de trabalhar até tarde transportando asfalto, essas coisas. Estamos voltando para o depósito.

            - Isso não é desculpa para andar sem documentos. Todos devem portar documentos. Sempre.

            - Nós sabemos, e estamos muito aborrecidos por isso. Mas vamos pegá-los no depósito antes de voltar para casa.

            - Permitiram que vocês passassem pela estrada do aero­porto?

            - Permitiram, sim. Os caras foram legais. Bem, nós não pertencemos às Forças Pacificadoras, mas todos trabalhamos para o bem-estar do povo, certo?

            - Isso é contra o regulamento.

            - É verdade. Eu pensei a mesma coisa e fiquei muito feliz, porque eles não agiram como esses sujeitos durões que tratam mal operários como nós.

            - Bem, eu também não quero atrapalhar a vida de vocês, portanto vou facilitar as coisas. Vocês me mostram a marca de lealdade e podem ir embora.

 

            Chloe achou que Mac tinha quase resolvido a situação com aquela conversa. Mas, se ele não representava nenhuma ameaça, não haveria motivos para mostrar a marca.

            - Não hesite, Hannah - disse Chloe.

            - Eu gostaria que o outro sujeito saísse do carro. Elas ouviram o diálogo pelo walkie-talkie:

            - Você quer ver as nossas marcas?

            - Sim. Na mão ou na testa?

            - A minha está aqui na testa, debaixo do quepe. A do meu companheiro está... hã... onde mesmo, cara?

            - Na mão - disse George.

            - Quero ver - disse o soldado.

            - E a sua, onde está? - perguntou Mac. - Você também tem a imagem do potentado?

            - Não. Só o número. Como militar, não sou obrigado. Chloe olhou para Hannah e, depois, para o caminhão.

            Mac estava desatando o cinto lentamente e tirando o quepe. Ele inclinou-se para a frente.

            - Não estou vendo nada.

            - O quê? Olhe direito!

            Pelo walkie-talkie, elas ouviram George resmungar:

            - Este seria o momento perfeito.

            O soldado deu meia-volta, bateu com as costas na cabina do caminhão e caiu no chão, gritando. Quando ele começou a levantar-se, Mac disse:

            - Diga aí, companheiro. O que aconteceu?

            - Não sei... acho que foram formigas-lava-pés ou coisa parecida.

            Agora o soldado estava em pé coçando as costas com força. Ele fez um gesto para o oficial na outra viatura da CG, que desceu rapidamente.

            - Qual é o problema?

            - Uma dor nas costas, como se eu tivesse encostado num cano quente. Acho que está levantando bolhas.

            Ele inclinou-se na direção de Mac, mas, no mesmo instante, com a mão na parte de trás da perna, caiu no chão Contorcendo-se de dor. O oficial sacou a arma.

            - O que vocês estão fazendo? - ele perguntou.

            - Não estamos fazendo nada! - respondeu Mac. - Qual é o problema dele?

            A luz interna do caminhão foi acesa. George desceu e caminhou até a frente do caminhão, com as mãos erguidas. O walkie-talkie devia estar dentro de seu bolso, porque Chloe ainda conseguia ouvir sua voz pelo rádio de Hannah.

            - Posso ajudar em alguma coisa? - ele perguntou.

            - Fique onde está - disse o oficial pouco antes de desabar na estrada, deixando cair a arma e tentando cobrir o rosto.

 

            Mac saltou do caminhão para ajudar George.

            - Arranque os rádios das viaturas deles. Vou pegar esses dois, com farda e tudo.

            Agora, os homens estavam delirando, com os olhos vítreos e gemendo.

            - Senhoras - George disse pelo rádio -, venham nos ajudar com estas viaturas.

            Mac desarmou os homens da CG e atirou suas armas na carroceria do caminhão. Pegou os rádios e colocou-os no banco da frente.

            - Assim que você desligar os fios nas viaturas - ele disse a George -, abra os porta-malas.

            Chloe e Hannah vieram correndo.

            - Chloe - disse Mac -, vocês duas vão nos escoltar. Assim que eu colocar este cara no porta-malas da viatura, vou encostar o caminhão atrás de você. Hannah, você se posiciona atrás de mim assim que colocarmos o outro sujeito no porta-malas da outra viatura.

            Os homens da CG estavam gemendo.

            - Quietinhos, rapazes - disse Mac. - Vocês vão sofrer um pouco, mas não vão morrer, a não ser que nos obriguem a atirar em vocês. Vamos dar um pequeno passeio.

            Depois de esconder os homens da CG nos porta-malas das viaturas, Mac manobrou cuidadosamente o caminhão e pediu a George que entregasse às mulheres a munição extra colocada na sacola pelo pessoal da cooperativa. Com o caminhão e as duas viaturas da CG voltados para o oeste, eles ouviram um dos rádios da CG sendo acionado.

            - Bloqueio da estrada norte; confirme, por favor.

            - Bloqueio da estrada norte - disse Mac sem apertar completamente o botão de transmissão.

            - Repita!

            - Aqui bloqueio da estrada norte - ele disse tomando o cuidado de ser ouvido, mas não perfeitamente.

            - Posição?

            - Em atividade.

            - Continue.

            George entrou no caminhão. Enquanto Chloe rodava seguida por Mac, George disse:

            - Veja só o que tem aqui dentro. Não sei dizer por que, mas gostei muito daquela senhora. - A Sra. P. havia man­dado alguém colocar pão, queijo e frutas na sacola, no meio das munições. - Chloe e Hannah já pegaram quase tudo. E eu vou comer o resto, se você não pegar logo sua parte.

            Mac serviu-se de uma parte do lanche, enquanto o comboio inusitado rodava na escuridão, na direção oeste, começando a viagem de volta para casa. Quanto tempo conseguiriam enganar a CG era um mistério. Por ora, Mac saboreava a comida e a situação de vantagem do momento.

 

            As notícias transmitidas por Mac permitiram que Chang respirasse mais aliviado pela primeira vez depois de horas. Ele voltou a ligar a escuta clandestina no escritório de Car­pathia, onde Akbar relatava os últimos acontecimentos ao chefão.

            - Tivemos um contratempo, mas não é possível que esse bando tenha sido capaz...

            - Um contratempo?

            - Resumindo a história, senhor, o prisioneiro matou um dos nossos... uma mulher, para ser mais exato... e fugiu. Achamos que ele está fugindo com os três que...

            - Ele matou um dos captores?

            - Sim, Excelência. Achamos que...

            - Esse é o tipo de homem durão. Por que ele não está do nosso lado?

            - Achamos, senhor, que ele se encontrou com os três que foram resgatá-lo e esperamos que eles cometam a tolice de tentar voltar ao aeroporto. A vigilância lá está cerrada.

            - Sim, bem... - Carpathia parecia distraído, como se o resto da história não lhe interessasse. - Suhail, será que con­seguimos abafar o fiasco de hoje?

            - Ainda é cedo para dizer, senhor.

            - Ora, vamos. Sei que você não é daqueles que tentam poupar-me de más notícias. Eles escutaram o relatório do piloto e me ouviram dizer que ele cometeu um erro, que as bombas atingiram o alvo. Bem, o que o povo anda dizendo?

            - Sinceramente, não sei, Excelência. Passei o dia inteiro entre o seu escritório e o meu, tentando resolver esse problema na Grécia.

            - Vou lhe dizer uma coisa, Suhail: o videodisco do avião mostra claramente o alvo sendo atingido e aqueles traidores ardendo em chamas! Seja qual for a mágica que fez aquele povo sobreviver, não pode surtir efeito fora daquela área.

            - Com todo o respeito que lhe devo, senhor, não faz muito tempo que perdemos tropas terrestres do lado de fora...

            - Eu sei disso, Suhail! Você acha que não tomei conheci­mento?

            - Peço-lhe desculpas, potentado.

            - Precisamos descobrir um lugar seguro próximo àquela área, onde nossas armas de guerra não sejam engolidas pela terra. Desse lugar, poderemos controlar tudo o que entra e sai de lá. Eles vão necessitar de mantimentos, e vamos impe­dir que recebam.

            - Nossas forças armadas estão muito reduzidas, senhor...

            - Você está me dizendo que não temos pilotos nem aviões que possam impedir a entrada de mantimentos em Petra?

            - Não é bem isso, senhor. Estou certo de que temos. Ah, mudando de assunto, senhor, nossos especialistas em textos antigos dizem que a próxima praga vai fazer com que os lagos e rios do mundo tenham o mesmo destino dos mares.

            - Todas as fontes de água doce serão transformadas em sangue?

            - Sim, senhor.

            - Impossível! Todo mundo vai morrer! Até nossos inimi­gos.

            - Há os que acreditam que os judaístas não sofrerão nada, da mesma forma que foram protegidos contra nossos exércitos recentemente.

            - Onde eles vão conseguir água?

            - No mesmo lugar em que receberam proteção. Talvez fosse prudente negociar com o líder deles para que as pragas sejam suspensas.

            - Nunca!

            - Não quero contrariá-lo, senhor, mas não podemos conviver muito tempo com essa devastação. E se os rios e os lagos também se transformarem...

            - Você não está a par de tudo, Suhail. Eu também tenho poder sobrenatural.

            - Eu já vi, senhor.

            - E vai ver mais. O reverendo Fortunato está preparado para usar os mesmos artifícios para revidar essa magia dos judaístas, e ele tem gente especializada para fazer isso no mundo inteiro.

            - Bem, aquele...

            - Agora me mostre o que eu quero ver, Suhail.

 

            - Bloqueio da estrada norte, aqui é a Central.

            - Bloqueio da estrada norte - disse Mac. - Prossiga, Central.

            - Destino do caminhão suspeito?

            - Repita?

            - Uma de nossas viaturas informou que, assim que ela passou, você deteve um caminhão.

            - Positivo. Caminhão em ordem.

            - Seguindo de oeste para leste?

            - Positivo.

            - Rastreamos um celular no lado oeste da cidade e, depois, no lado leste, mas o aparelho desapareceu da tela.

            Mac olhou para George.

            - O que será que eles querem que eu diga?

            - Não sabemos nada sobre isso - disse George.

            Mac voltou a falar.

            - Não podemos ajudá-lo daqui.

            - Caminhão seguiu para leste?

            - Positivo.

            - Você informou tráfego intenso.

            - Positivo.

            - Congestionado?

            - Positivo.

            - Os homens nas viaturas não viram mais nada quando passaram, a não ser o caminhão.

            - Congestionado agora.

            - Qual é a sua posição?

            Mac olhou para George novamente.

            - Eles estão atrás de nós.

            George pegou as armas de debaixo do banco e tirou o walkie-talkie do bolso.

            - Atenção, Jinnah e Irene - ele disse. - Em breve vamos ter companhia.

            . Mac clicou o botão do rádio da CG algumas vezes.

            - Repita - ele disse.

            - Qual é sua posição? Sua localização?

 

            O sangue de Chang gelou nas veias. Nos últimos minutos, ele chegou a cochilar ouvindo o diálogo entre Carpathia e Akbar, enquanto eles assistiam aos noticiários dos Estados unidos Norte-americanos e dos Estados Unidos Sul-americanos. Em conseqüência disso, deixou de acompanhar os acontecimentos mais recentes da operação em Ptolemaïs.

            A CG de lá havia rastreado o celular de Elena até o lado neste da cidade, e o aparelho continuou no mesmo lugar por mais de uma hora. O comandante Nelson Stefanich e os sobreviventes do grupo de filósofos estavam comandando pessoalmente a invasão de uma taberna naquela área.

            Chang ligou para Mac.

            - Fale rápido, Chang. Estamos num beco sem saída.

            - A que distância vocês estão do oeste da cidade?

            - Não sei ao certo. Estou pisando fundo no acelerador deste ferro-velho, mas ele não passa dos 80. Estão atrás de nós?

            - Vocês estão muito longe da cooperativa? Não dá para ajudar o pessoal de lá?

            - Depende. O que está havendo?

            - A CG está invadindo a taberna neste momento. Você sabe que o próximo lugar vai ser a cooperativa.

            - Alguma chance de nossos companheiros saírem de lá?

            - Acho que não. Não consegui avisá-los.

            - Pelos meus cálculos, estamos a menos de 30 minutos de nosso avião. Podemos voltar, se você achar que é necessário.

            - Aguarde um instante. Está chegando um relatório. Esconderijo dos judaístas descoberto embaixo da taberna.

            Houve tiroteio. Dezesseis homens da CG mortos e uma dúzia de feridos. Local destruído por granada e incendiado. Vários prédios vizinhos destruídos. Não há inimigos sobreviventes.

 

            Enquanto Mac inteirava George da situação, a CG con­tinuava tentando falar com ele pelo rádio pedindo algum tipo de código.

            - Bloqueamos as duas extremidades da estrada norte por causa da invasão, portanto não se desviem do caminho - eles disseram. - Ainda não recebemos seu código de iden­tificação.

            George estava arrasado e tentou pegar o rádio da CG da mão de Mac.

            - Vou fornecer um código a eles.

            - Tenha calma, amigo.

            - A culpa foi minha, Mac! Onde eu estava com a cabeça quando fiquei andando por aí com aquele celular?

            - Eu gostaria de ter conseguido voltar - disse Mac. - Gos­taria de ter tirado alguns deles de lá. Mas nossos irmãos e irmãs estão no céu, e parece que eles lutaram um bocado antes.

            - Então, é isso? - disse George. - Você acha que devo ficar tranqüilo depois de ter sido culpado da morte de um grupo de pessoas que agora estão no céu?

            - Necessito do código de identificação imediatamente - disse a voz pelo rádio.

            - Eu devia recitar o Salmo 94.1 para eles - disse Mac.

            - Eu sei muito bem o que gostaria de dizer a eles. Peça às mulheres que parem e que perguntem aos dois caras da CG qual é o código.

            - É provável que eles revelem o local onde estamos.

            - Não, se tiverem uma DEW apontada para eles. Deixe-me fazer isso, Mac. Por favor. Eu preciso.

            - Chloe, pare no acostamento - disse Mac.

            - Agora?

            - Agora.

            - Está tudo bem?

            - Por enquanto.

            O telefone de Mac vibrou. Era Chang.

            - Stefanich, Platão e um pelotão da CG estão à procura do caminhão e de duas viaturas. Estão seguindo na direção oeste.

            - Precisamos agir rápido - disse Mac saltando do caminhão, enquanto Chloe descia da viatura e Hannah estacionava atrás.

            - Abra o porta-malas, Chloe - disse George. - Hannah, dê-me a DEW.

            Chloe abriu o porta-malas, e Mac focalizou a lanterna no rosto abatido do soldado da CG. George arrancou-o do porta-malas com uma das mãos, e o homem ficou deitado no chão, gemendo.

            - Ai minhas bolhas - ele disse, chorando. - Tome cuidado, por favor. Ou me mate.

            - Você bem que gostaria que eu o matasse, não? - disse George, empunhando a DEW. - Está vendo isto aqui?

            O homem abriu um olho e assentiu com a cabeça, com ar desolado.

            - É o que está cozinhando sua carne, e pode cozinhar muito mais ainda.

            - Não, por favor.

            George ligou a arma, e ela zumbiu, pronta para ser acionada.

            - Por favor!

            Ele mirou o tornozelo do soldado, e o homem enrijeceu o corpo, choramingando.

            - Quero saber qual é o seu código.

            - O quê?

            - Você ouviu. Quero saber qual é o seu código ou...

            - Está no porta-luvas! No meu manual!

            Chloe foi até lá e trouxe uma pasta de couro, preta e pequena, com folhas presas por argolas.

            - Está cheia de anotações - ela disse.

            George pegou a pasta e jogou-a em cima do homem.

            - Precisamos ir embora - disse Mac. - De qualquer forma, eles não vão acreditar no código que fornecermos. Estão vindo atrás de nós.

            - Esses caras são pesos mortos - disse George. - Se forem deixados aqui na estrada, poderão servir para retardar os outros.

            O homem folheava as páginas rapidamente segurando a pasta diante do farol do caminhão.

            - É um-um-seis-quatro-oito! - ele disse.

            George o arrastou pela estrada, enquanto Mac tirava o outro da outra viatura. Os homens contorciam-se de dor.

            - É melhor vocês nos matarem - implorou o segundo.

            - Você não sabe o que está pedindo - disse George.

            - Mas, do jeito que as coisas estão ruins, com certeza a morte seria melhor para você.

            - Vamos deixar uma das viaturas aqui - disse Mac.

            - Bloqueiem a estrada com ela e com o caminhão. Não vai demorar muito para que a CG encontre os dois veículos, mas qualquer empecilho no caminho será vantajoso para nós.

            Chloe manobrou a viatura de frente para o caminhão; ambos ficaram atravessados na estrada. Em seguida, Mac e George tiraram a tampa do distribuidor dos dois veículos e pegaram as chaves.

            - Última chamada para fornecer o código - soou a voz pelo rádio.

            Mac gritou o código no microfone. Em seguida, disse:

            - Chloe, você dirige. E pise fundo no acelerador. A espin­garda fica comigo. Acho que eles não vão nos pegar já, mas devemos estar armados e preparados.

George colocou a DEW no porta-malas e sentou-se no banco traseiro, ao lado de Hannah. A viatura era pequena demais para os quatro e parecia gemer com o peso, mas Chloe acelerou com força e, em breve, eles estavam rodando a mais de 110 quilômetros por hora.

            George perguntou:

            - E, então, Mac, o que diz o Salmo 94.1? Mac virou-se para trás, o mais que pôde.

            - "Ó Senhor, Deus das vinganças, ó Deus das vinganças, resplandece."

            O rádio da CG voltou a ser acionado.

            - Necessitamos de sua posição. Pelotão ao norte da estrada acaba de relatar que não há tráfego lá, nem sinal de vocês.

            - Dê-me isso aí - disse George, pegando o microfone da mão de Mac e apertando o botão.

            - Muito bem, vocês nos encontrarão no Salmo 94.1.

 

            Chang preparou um chá fazendo uma mistura esquisita, que incluía café instantâneo com alto teor de cafeína para mantê-lo acordado. Ele desabaria na cama assim que tudo terminasse, mas, no momento, não podia cochilar. Ficou claro que a CG da Grécia estava de olho em seus companheiros, e não demoraria muito para que eles descobrissem que Mac devia ter um avião numa pista abandonada, a menos de 20 minutos da estrada. Mac, por certo, não ia fugir pela Albânia. Quanto tempo ainda faltava para que ele e sua equipe subissem a bordo do avião e por quanto tempo voariam antes de precisar abastecer a aeronave?

            Nesse ínterim, pelo que Chang pôde ouvir, Carpathia estava entretido - para não dizer absorto - com as transmissões das regiões onde ainda era dia claro. O potentado da Região 0, os Estados Unidos Sul-americanos, anunciou um evento do qual sua esposa, a "primeira-dama", estava participando pessoalmente.

            - E onde você está enquanto ela faz seu trabalho? - perguntou Carpathia.

            - Ah, meu amado ressurreto, o senhor pode ficar tran­qüilo, porque estou me dedicando a um trabalho muito mais nobre. Estamos seguindo à risca suas determinações para descobrir os infiéis daqui, e estou trabalhando em conjunto com os Monitores de Moral, com os soldados das Forças Pacificadoras e com grupos de homens disfarçados de civis. Esperamos ver mais algumas dezenas de pessoas enfrentando a guilhotina ou recebendo sua marca dentro de 24 horas.

            - Dezenas? Meu caro amigo, soubemos, por meio de seus compatriotas do mundo inteiro, que em algumas regiões existem centenas, talvez milhares, que sofrerão por terem sido desleais. Há gente trabalhando contra nós na calada da noite, até mesmo aqui, nesta parte do mundo.

            O sul-americano deu um longo suspiro.

            - Senhor, infelizmente nossas forças foram dramatica­mente reduzidas em razão do que ocorreu com os mares.

            - Mas tenho certeza de que existem dissidentes aí, não?

            - É verdade. Mas, por favor, eu gostaria de mostrar-lhe uma transmissão ao vivo do Uruguai, onde minha esposa está participando de uma cerimônia pública que culminará com a imposição à lealdade.

            Chang mudou rapidamente para Mac e sua equipe. Não havia nenhuma novidade. Ele voltou a ouvir a conversa entre Carpathia e o potentado dos Estados Unidos Sul-americanos. A primeira-dama estava recebendo aplausos entusiásticos. Ela havia passado o braço ao redor de um homem tímido, de meia-idade.

            - Este cavalheiro está finalmente recebendo a marca de lealdade a nosso potentado ressurreto!

            Mais aplausos.

            - Diga-me uma coisa, Andrés, por que você demorou tanto tempo?

            - Eu estava com medo - ele disse, sorrindo.

            - Medo do quê?

            - Da agulha.

            Muitas pessoas riram e bateram palmas.

            - E você vai aceitar receber a marca hoje?

            - Sim, desde que seja um 0 bem pequeno - ele disse.

            - Você não está mais com medo da agulha?

            - Ainda estou. Mas tenho mais medo da guilhotina.

            O povo gritou e continuou a aplaudir quando Andrés se sentou, com o corpo ereto, pronto para receber a marca. Sua testa foi esterilizada com um cotonete. Alguém segurou-lhe a mão, a máquina foi acionada, e ele pareceu sinceramente aliviado e feliz.

            A primeira-dama disse:

            - Você pode retornar ao que estava fazendo quando foi descoberto sem a marca.

            A câmera acompanhou Andrés enquanto ele corria até a imagem de Carpathia e ajoelhava-se diante dela. A primeira-dama dirigiu-se ao povo:

            - Andrés demorou para ser descoberto sem a marca porque seguiu à risca o decreto de adorar a imagem, e ninguém desconfiou dele.

            Aparentemente, Carpathia não se impressionou com a cena.

            - Ele me adora, mas tem medo de uma pequenina picada. Droga!

            - Mas o senhor ficará satisfeito com a novidade, Excelência - disse o potentado sul-americano. - Seguindo as pistas de vários cidadãos leais, descobrimos um antro de oposição Seis foram mortos por terem resistido à prisão, mas con­seguimos trazer 13 para este centro de adoração e de aplicação da marca.

            - Quantos vão receber a marca agora? - perguntou Car­pathia. - Quantos mudaram de idéia diante do instrumento de imposição à lealdade?

            - Bem... ah... até agora nenhum, senhor. Chang ouviu um murro na mesa.

            - Gente teimosa! - disse Carpathia. - Teimosa demais. Por que são tão obstinados? Tão idiotas? Tão sem visão?

            - Eles vão pagar por isso hoje, Excelência.

            - Neste momento, enquanto conversamos?

            A voz de Carpathia estava eufórica.

            - Sim, agora.

            - Que música é essa?

            - Os condenados estão cantarolando alguma coisa, meu senhor. Isso é bem comum.

            - Mande-os calar a boca!

            - Um momento. Com licença, senhor. - Ele chamou alguém. - Jorge! Avise os funcionários do centro que o supremo potentado não permite nenhum tipo de música. Sim, já! Excelência, a música já vai parar.

            - Eles preferiram mesmo a guilhotina?

            - Preferiram, senhor. Estão em fila.

            - O que estamos esperando, então?

            - Que obedeçam à sua ordem e parem de cantar, senhor.

            - Vá em frente! A lâmina os silenciará.

            Chang teve um sobressalto quando viu um guarda por­tando enorme rifle com baioneta empurrar a primeira pessoa da fila, uma mulher aparentando ter pouco menos de 30 anos. Ela estava cantando, com o rosto erguido em direção ao céu. O guarda gritou com ela, mas a mulher não lhe deu atenção.

            Ele a empurrou, e ela tropeçou, continuando a cantar, com os olhos fitos no céu. Ele a cutucou nas costelas com o rifle, e ela caiu de joelhos no chão. Em seguida, levantou-se e continuou a cantar.

            O guarda posicionou-se ao lado da mulher, firmou pés no chão e desferiu-lhe um golpe com a baioneta, que atravessou o braço dela, chegando a perfurar-lhe o lado do corpo. Ela deu um grito quando a baioneta foi retirada e cobriu o local do ferimento com a outra mão. A mulher soluçava, agora, ao entoar seu cântico, e as pessoas a seu lado ajoelhavam-se no chão.

            - O que ela está cantando? - Carpathia quis saber.

            O som foi melhorado, e Chang prendeu a respiração enquanto ouvia o cântico comovente entoado com dificuldade. Ela não conseguia mais manter a cabeça erguida, mas continuou em pé, cambaleando, visivelmente zonza, esforçando-se para cantar: "... quão espinhosa foi a coroa que Jesus suportou por amor de nós".

            Outros guardas juntaram-se ao primeiro, todos golpeando a cabeça dos que estavam ajoelhados com as coronhas dos rifles.

            - Diga aos guardas que parem de fazer disso um espetá­culo! - disse Carpathia, irado. - Eles estão entrando no jogo dessa gente. O povo precisa ver que a cabeça desses infelizes ainda nos pertence. Para mim, tanto faz que eles cantem, falem ou façam qualquer outra coisa!

            A guilhotina estava pronta, e a mulher continuava a esfor­çar-se para cantar, agora de maneira desafinada. Quando foi agarrada por um guarda de cada lado e colocada no lugar, ela gritou: "... tua é minha alma, minha vida, meu tudo!"

            A lâmina foi solta, e o povo vibrou.

            - Aah! - suspirou Carpathia. - Posso ver do outro lado?

            - Do outro lado, senhor? - repetiu o potentado sul-americano.

            - Da lâmina! Da lâmina! Coloque a câmera do outro lado! O corpo não cai! Ele simplesmente desaba. Quero ver a cabeça despencar!

            As próximas pessoas da fila aproximaram-se da máquina mortal com as palmas das mãos erguidas. Os guardas con­tinuavam a agarrá-las pelos cotovelos e a cutucá-las com as armas, mas ninguém abaixou as mãos. Quando os guardas as golpearam com as baionetas, elas recuaram instintiva­mente para não serem feridas.

            Em seguida, os guardas posicionaram-se atrás delas, cutucando-as na parte inferior das costas com a ponta das baionetas. Agora, a câmera estava atrás de um homem que segurava uma alavanca com uma das mãos e, com a outra, agarrava a vítima pelos cabelos para colocar a cabeça no local apropriado.

            O homem posicionou a barra de retenção no pescoço da vítima, soltou a alavanca e fez um gesto afir­mativo com a cabeça em direção a uma mulher corpulenta. Ela puxou a corda para liberar a lâmina.

            A lâmina começou a descer rangendo pelas guias laterais e despencou de vez. A cabeça desapareceu da vista de todos, deixando à mostra apenas o sangue esguichando do pescoço.

            - Sensacional! - murmurou Carpathia.

 

            - O caminho para casa está livre, não? - Hannah pergun­tou.

            Mac virou-se e olhou para ela.

            - Meu avião tem combustível suficiente para chegarmos a Roma. Lá, existe uma pequena pista de pouso ao sul, controlada pelo pessoal da cooperativa que estoca combustível. Eu só vou me sentir seguro quando decolarmos de lá.

            - Mas eu estou falando dessa gente aqui - ela disse. Eles não vão chegar ao aeroporto antes de nós, vão?

            - De carro, não.

            O que você está querendo dizer? - perguntou George.

            - Não vai demorar muito até descobrirem para onde estamos indo. Com certeza sabem que não pretendemos fugir deles indo de carro até a fronteira.     

            - Seu avião está escondido?

            - Da estrada, sim, tenho certeza. De outros aviões? Não.

            - Quanto tempo eles vão levar para chegar lá de avião?

            - Saindo de Kozani, num caça? Eles vão chegar muito antes de nós.

            - Eles têm condições de destruir seu avião?

            - Só se chegarem antes de nós.

            - Quantas pessoas eles podem levar?

            - Pouca gente, se usarem uma aeronave pequena, rápida.

            George parecia irritado.

            - Já corremos muitos riscos para deixar a coisa dar errado agora, Mac. Vamos pôr tudo em pratos limpos. Você acha que vamos chegar lá, subir a bordo e decolar?

            - É o único plano que eu tenho - disse Mac.

            - Temos de levar em conta que eles poderão chegar antes de nós - disse George -, e vamos ter de decidir o que fazer nessa situação.

            - Você quer pensar no pior?

            - Claro! Precisamos. Você acha que, para me livrar daqueles idiotas, eu fiquei esperando que eles fossem me soltar? Fale mais sobre a pista de decolagem.

            - Ela corre de leste para oeste. Meu avião está na extremidade leste, de frente para o oeste.

            - Se eles conseguirem descer com um avião lá antes de decolarmos, vão interceptar nosso caminho.

            - Nós é que vamos interceptar o caminho deles - disse Mac. - Eu largo vocês ao lado do avião. Você liga os motores, enquanto eu rodo com a viatura pela pista e paro bem em frente ao nosso avião. Eles vão ter de ser muito hábeis e ter jogo de cintura para não colidir comigo no momento do pouso. Nós fazemos uma decolagem em ângulo, para não bater na viatura e neles, e desaparecemos de vista.

            George sacudiu a cabeça, em dúvida.

            - E quando vai subir a bordo? Não sei, não, está deixando muita coisa por conta do acaso.

            - Deixando por conta de Deus, George. Não sei mais o que fazer.

            O telefone de Mac vibrou.

            - Diga, Chang.

            - Eles estão dentro de um jato, a dez minutos da ater­rissagem. Stefanich, os três filósofos e um piloto. Pelo jeito, a aeronave não está equipada para atacar, mas eles estão fortemente armados.

            - Estamos a menos de dez minutos de lá - disse Mac. - Vamos chegar antes deles, só isso.

            Mac perguntou a Chloe se ela podia acelerar um pouco mais, mas a viatura já estava gemendo por ter de rodar, em alta velocidade, numa estrada tão acidentada.

            - Quando chegarmos lá, saia da estrada e entre na pista pela extremidade leste.

            Mac estava instruindo Sebastian acerca da aeronave, quando ouviu o zumbido de motores de jato a distância. Ele e George abriram os vidros da viatura para ouvir melhor.

            - Essa é a nossa chance, Chloe! - ele gritou. - Cuidado!

            Ela fez uma manobra rápida para sair da estrada, desceu um barranco e subiu outro. A viatura sacolejava, e Mac bateu com a cabeça no teto.

            - Acenda o farol alto! Não sei o que vamos encontrar pela frente! - gritou ele.

            - Você acha que vou ser capaz de passar pelo meio daquelas árvores? - Chloe perguntou.

            - Dê um jeito. Vamos ter de chegar lá.

            A viatura bateu numa pedra e foi atirada para cima. Assim que pousou no chão, o pneu esquerdo traseiro estourou.

            - Que ótimo! - ela exclamou.

            - Pelo menos, a roda continua no lugar - disse George. - Agüente firme!

 

            Mesmo com os faróis altos acesos, Chloe enxergava apenas um terreno acidentado e rochoso e, logo adiante, uma espécie de bosque. Ela não imaginava como poderia atravessar as árvores, mas agora não dava mais para recuar. O lado traseiro esquerdo estava arrastando no chão por causa do pneu furado. E, para agravar o problema, George Sebastian, o grandalhão do grupo, estava sentado daquele lado.

            Com o jato se aproximando, Chloe queria apagar todas as luzes da viatura e passar por entre as árvores, mas agora tudo se resumia ao fator tempo... e determinação. Aquela gente havia matado seus companheiros e, naquele instante, tentava exterminar o pequeno grupo de membros do Comando Tribulação sem qualquer piedade.

            Chloe sempre quis mais ação, mais envolvimento na luta. E, apesar de agora dar qualquer coisa para voltar ao convívio de Buck e Kenny, não tinha alternativa, no momento, a não ser enfrentar o perigo. Cautela, diplomacia, esperteza - tudo isso voara pela janela. Ela precisava chegar àquele avião para que todos decolassem, ou nenhum deles voltaria a ver a luz do sol.

            Ela avançou pelo meio das árvores, tirando o pé do acelerador apenas de vez em quando. A viatura tinha tração nas rodas dianteiras, uma pequena vantagem no meio de tantos problemas. Enquanto Chloe abria o caminho, a viatura colidiu de um lado e do outro com uma árvore, mas continuou rodando.

            Agora, ela já podia avistar o avião de Mac, mas havia uma cerca de três fileiras de arame impedindo a passagem. Se Chloe tirasse o pé do acelerador, mesmo que de leve, a viatura poderia enroscar-se na cerca. Ela olhou para Mac, que se segurava como podia com a palma da mão no teto. Ele fez um movimento com a cabeça em direção à cerca, indicando que não havia mesmo outra alternativa.

            Chloe pisou fundo no acelerador. A fileira mais baixa de arame enroscou-se no pára-choque dianteiro, e as outras duas caíram por cima do capô, levando junto uma estaca de madeira fincada no chão, mas a viatura conseguiu chegar à beira da pista, parando a uns 12 metros do avião.

            O jato da CG aproximava-se pela outra extremidade da pista, inclinado lateralmente e com os faróis acesos, ilumi­nando todo o caminho até a viatura.

 

            Pela primeira vez, desde que passara a ser o espião do Comando Tribulação dentro do palácio, Chang desconfiou que havia sido descoberto. De repente, na tela de seu com­putador apareceu um círculo com uma borda vermelha, sinal de que alguém de fora estava testando seu firewall (sistema de monitoração de tráfego nas intranets).

            Imediatamente, ele substituiu a proteção de tela por outra que exibia a data, a hora e a temperatura, apagou todas as luzes de seu apartamento, trocou de roupa e deitou-se na cama - preparado para fingir que estava dormindo, caso Figueroa ou um de seus funcionários batesse em sua porta. Não havia meios de saber o que aquele aviso significava, mas David Hassid lhe contara que havia instalado um dispositivo de segurança apenas para avisar o operador que havia gente bisbilhotando.

            Talvez alguém estivesse verificando todos os computado­res ligados. E se aquela busca acessasse seus dados secretos e acabassem descobrindo quem era o espião?

            A última hipótese parecia impossível, de acordo com o que David lhe dissera. Ele havia montado um sistema tão intricado que, aparentemente, não haveria tempo suficiente até o dia do Glorioso Aparecimento para que alguém pudesse decodificá-lo. A mente de Chang começou a divagar. Talvez Akbar tivesse instruído Figueroa a testar todos os computa­dores em funcionamento, eliminar o mainframe que rodava todos os programas do palácio, isolar os laptops e computa­dores pessoais e fazer uma varredura para saber se havia alguma trama.

            O computador pessoal de Chang não mostraria nenhum registro do que ele esteve fazendo desde que retornara do trabalho. Por esse motivo, ele achava que alguém bateria à sua porta para interrogá-lo.

            Deitado no escuro, com o coração aos pulos, Chang sentia-se frustrado por ter deixado de acompanhar os últi­mos acontecimentos na Grécia. Que ironia!, ele pensava. Com toda a tecnologia que Deus lhe concedera para lutar pela causa de Cristo ao redor do mundo, de repente ele se deu conta de que não poderia fazer nada para ajudar, a não ser recorrer ao tradicional recurso da oração. Chang gos­taria de verificar mais uma vez os "grampos" instalados nos escritórios de Carpathia e de Akbar, para ver se a gravação feita no computador mostraria alguma desconfiança da parte dos dois. Não demoraria muito para que alguém do alto escalão perdesse a paciência com toda aquela espionagem.

            Chang desceu da cama e ajoelhou-se no chão frio para orar por Mac, Chloe, Hannah e George.

            - Senhor, não vejo como eles poderão fugir, a não ser por meio de tua interferência direta. Não sei se chegou a hora de eles irem ao teu encontro. Nunca achei que os nossos pensamentos são os teus pensamentos. Tudo acontece em teu tempo determinado e para tua glória, mas eu oro por eles e pelas pessoas que os amam. Seja o que for que tu fizeres, sei que isso provará a tua grandeza, e eu te peço que me mostres, em breve, quais são os teus planos. Suplico-te também que estejas com Ming enquanto ela procura nossos pais, e que eles possam comunicar-se comigo de alguma maneira.

            Chang sentiu o impulso de contar a Rayford o que estava se passando. Ele olhou para seu relógio. Já passava da meia-noite, mas será que o povo em Petra conseguiria dormir depois de tudo o que acontecera naquele dia? Nada indicava que seu telefone deixara de ser seguro, portanto ele discou para Rayford.

 

            - Desçam! Desçam! - gritou Mac assim que as portas da viatura foram abertas.

            - Eu dirijo, Chloe. Preciso dar um jeito de interceptar aquele jato.

            - Eu posso decolar com seu avião - disse Sebastian a Mac -, mas não vou partir sem você.

            - Preste atenção, George. Faça o que precisa ser feito. Enquanto eles estiverem preocupados comigo, você terá tempo suficiente para decolar. Se tiver de ser assim, nós nos veremos na Porta do Oriente.

            - Não diga isso!

            - Não fique emotivo agora. Vocês devem ir para casa! Mac aguardou um instante até que George se afastasse da viatura. Em seguida, pisou fundo no acelerador e seguiu pela pista alinhado com o jato que estava prestes a tocar o solo.

 

            Rayford não estava dormindo, mas, finalmente, con­seguira acalmar-se e controlar a respiração, enquanto contemplava as estrelas através de uma pequena abertura na barraca. Seu telefone tocou indicando no visor que a chamada era de Chang.

            - Quero ouvir boas notícias - disse Rayford.

            - Eu bem que gostaria de lhe dar boas notícias - disse Chang -, mas acho que Deus deseja que eu lhe conte o que está acontecendo para que o senhor possa orar.

            Rayford não estava tão animado quanto parecia, mas, depois de ouvir a história, disse:

            - Deus protegeu um milhão de pessoas dentro de uma fornalha de fogo ardente. Ele pode tirar os quatro da Grécia.

            Rayford calçou as sandálias e dirigiu-se apressado ao local onde Tsion e Chaim deveriam estar dormindo. Se estivessem adormecidos, ele não os despertaria. Rayford não se sur­preendeu ao encontrá-los acordados e aglomerados ao redor de um computador, na companhia de alguns anciãos. Diante do teclado, estava sentada uma jovem chamada Naomi, que o interpelara pouco antes.

            - Tsion, quero trocar algumas palavras com você - disse Rayford.

            O Dr. Ben-Judá virou-se, surpreso.

            - Pensei que você estivesse dormindo, conforme todos nós deveríamos estar. Amanhã será um grande dia.

            Rayford inteirou-o da situação.

            - Vamos orar, é claro, imediatamente. Mas ligue de volta para Chang e diga-lhe que o aviso no computador foi um alarme falso. Naomi está entusiasmada com as centenas de páginas de instruções que David instalou neste sistema aqui, inclusive uma que nos permite checar os computadores do palácio. É o que ela tem feito ultimamente, e foi isso que enviou uma mensagem de advertência ao computador de Chang.

            Tsion dirigiu-se apressado aos anciãos e pediu-lhes que orassem pela segurança do contingente do Comando Tribulação na Grécia. Rayford sentiu-se animado ao ver uma dúzia e meia de pessoas ajoelhadas orando por seus companheiros.

            Ele mal podia esperar para contar a novidade a Chang.

           

            Assim que colocou o pé no primeiro degrau da escada do avião, George Sebastian ouviu o som estridente dos motores sendo ligados. Ele não imaginava que uma daquelas mulheres soubesse pilotar uma aeronave. Tanto melhor. Ele se agachou para empurrar a porta atrás de si, mas, quando se virou para dirigir-se à cabina, viu Chloe e Hannah atando os cintos de segurança nos dois assentos traseiros. Elas pareciam tão surpresas quanto ele.

            George pegou sua Uzi e a colocou encostada no anteparo que separava a cabina de passageiros da cabina de comando. Em seguida, aproximou-se lentamente do lugar de onde poderia ver quem estava ali. O desconhecido, trajando manto bege do tipo usado pelos beduínos, estava sentado no banco do co-piloto. Sem virar-se, o homem levantou a mão e fez um gesto para que George se sentasse no banco do piloto.

            George voltou-se para as mulheres e encarou-as.

            - Quem é?

            - Pensamos que fosse você - disse Chloe.

            - Vamos ter de tirá-lo daqui, caso contrário não haverá lugar para Mac. Preciso de cobertura.

            Chloe desatou o cinto e ajoelhou-se atrás de George, preparada para atirar com a Uzi. Hannah pegou sua arma e subiu no braço da poltrona para poder enxergar a cabina de comando por cima da cabeça de George.

            Sebastian virou-se rapidamente e olhou para o banco do co-piloto.

            Vazio.

            - Muito bem - ele disse respirando fundo e saltando por cima do encosto do banco para assumir o controle da aeronave. Colocou os fones de ouvido.

            - Por que Deus não permite que esses sujeitos pilotem o avião?

            - Eu também posso fazer isso - disse uma voz.

            George deu um salto e viu o reflexo do homem no pára-brisa. Mas, quando olhou para sua direita, o banco do co-piloto continuava vazio.

            - Pare com isso! - disse George, com o pulso acelerado.

            - Sinto muito.

            - Seu nome é Miguel, eu suponho.

            - Roger [N.T.: Linguagem usada em comunicações via rádio, que significa "Positivo" ou "Entendido".]

            George avistou Mac dirigindo a viatura da CG, que, apesar do péssimo estado em que se encontrava, corria pela pista, indo de encontro ao jato. Ele pensou em perguntar se Miguel não seria mais útil se estivesse sentado ao lado de Mac.

            - Acenda as luzes de pouso - ele ouviu a voz dizer.

            - Para decolagem?

            - Roger.

            Sebastian não quis contestar. Acendeu as luzes de pouso, que incidiram no vidro traseiro da viatura conduzida por Mac.

            - Devo começar a taxiar fazendo a decolagem em ângulo para desviar de Mac, conforme ele disse?

            - Aguarde.

            - Não?

            - Espere um pouco.

 

            Por um instante, Mac pensou que o jato da CG não conseguira vê-lo. Ele freou com força e ficou alinhado entre as duas aeronaves. Quando o jato finalmente parou, cerca de 15 metros de Mac, ele percebeu que poderia contorná-lo facilmente. Por que Sebastian continuava parado? Com uma decolagem no ângulo certo, ele poderia passar por Mac e pela CG e ganhar altitude em questão de segundos.

            Não querendo dar à CG a chance de interceptar George, Mac acelerou e parou a cerca de três metros do jato. Ele imaginou que alguém poderia abrir a porta e alvejá-lo com um tiro, mas pelo menos a CG não teria condição de preju­dicar seu avião, caso ele interceptasse o jato. Sem dar tempo para a CG pensar, Mac pisou fundo no acelerador e arremes­sou a viatura em direção ao bico do jato, colidindo de frente com o trem de pouso. O jato levantou um pouco do chão, mas Mac não ficou sabendo se havia provocado algum dano mais grave.

            Mac abriu o vidro, colocou o tronco para fora o mais que pôde e atirou com a Uzi nos pneus do jato. Ele surpreendeu-se diante da resistência dos pneus e ouviu balas ricocheteando e batendo na fuselagem do jato, atingindo a viatura.

            Avançando um pouco mais para tentar um novo ângulo, ele finalmente conseguiu acertar um dos pneus. Mas onde estava George? Por que ele não fazia nada? Haveria alguma coisa errada com seu avião? Ele continuava parado na extremidade da pista, com as luzes acesas.

            Mac esperava que a CG revidasse a qualquer momento disparando suas armas. Será que eles não perceberam que ele estava sozinho na viatura? Do que estavam com medo? Ele era um ser indefeso, alojado embaixo do jato deles.

Ao tentar abrir a porta, Mac percebeu que ela estava totalmente emperrada e tentou descer pelo outro lado. Aquela porta também não abriu, mas ele sentiu que cedeu um pouco. Deitou-se no banco da frente e forçou a porta do lado do motorista com as mãos e a do passageiro com os pés. Finalmente, conseguiu desemperrá-la e saiu do carro.

            Agachado debaixo do jato e com a Uzi apontada para a porta, ele tinha condições de atirar em quem descesse do jato, se é que alguém se atreveria a fazer isso. Talvez estivessem aguardando que ele corresse até seu avião ou que Sebastian viesse apanhá-lo. Mas George perderia tempo se tivesse de abrir a porta, e todos eles estariam em perigo.

            Enquanto aguardava em uma estranha posição de ataque, Mac não sabia o que fazer. Deveria tentar atirar na fusela­gem do jato para atraí-los para fora? Se ela fosse blindada, o que seria muito provável, ele gastaria munição à toa. Por que a CG não atirava nele? E por que George continuava parado?

            Os motores do jato da CG foram desligados. E agora? Nada. Nenhum movimento, nem dentro nem fora.

            Frustrado, Mac pegou seu walkie-talkie.

            - Chloe ou Hannah - ele sussurrou, desesperado -, alguém responda, por favor.

            - Aqui é Chloe, Mac.

            - O que está acontecendo?

            - Não me pergunte. George está no comando.

            - Fazendo o quê?

            - Quer falar com ele? Pode falar.

            - Estou ocupado, Mac. Qual é o problema?

            - Você está vendo qual é o problema! O que você está fazendo?

            - Aguardando autorização para decolar.

            - Você tem autorização! Vá! Vá imediatamente! Desvie para sua direita! Esses sujeitos estão vacilando, e eu estourei um dos pneus do jato. Eles desligaram os motores.

            - Estou aguardando por você, companheiro.

            - Não seja tolo. Se eu sair daqui, vou ficar na linha de tiro deles. Vá para a outra extremidade da pista. Eu me encontro com você lá. Mas, se eles vierem atrás de mim, não pare.

            - Ah, sim, eu sei, e você me verá no céu.

            - Exatamente. Agora, deixe de ser idiota e vá!

            - Eu não estou sendo idiota, Mac. Estou obedecendo ordens.

            - Você deve me obedecer, portanto faça o que estou dizendo.

            - Sinto muito. Você foi destituído do cargo.

            - O quê?

            - Você precisa colocar a arma no chão e caminhar até aqui.

            - Você acertou o pessoal da CG dentro do jato !?

            - Negativo. Venha desarmado e estará seguro.

            - Você perdeu o juízo?

            - Deus está dizendo que você deve vir.

            Mac sacudiu a cabeça.

            - Ah, espere um pouco.

            - Venha imediatamente.

            Mac suspirou fundo, com um olho na porta do jato e o outro em seu avião. Ele apertou o botão de transmissão:

            - Senhor, se fores tu, ordena que eu me dirija para lá.

            - Vem.

            A voz não era a de George.

            - Desarmado?

            - Vem.

            Mac aguardou um instante. Em seguida, desvencilhou-se da Uzi e deitou-a no chão. Ele desligou o walkie-talkie e colocou-o no bolso. Passou pela viatura e ficou diretamente embaixo da cabina de comando. Ele se sentia exposto, vul­nerável, indefeso. Se a porta do jato se abrisse, ele seria um homem morto.

            Sem ouvir nenhum som vindo de cima e sem ver nada a seu lado, Mac saiu de debaixo do jato e seguiu em frente. Ele continuava a imaginar que estava ouvindo movimentos atrás de si - motores voltando a funcionar, passos da cabina até a porta, a porta se abrindo, armas disparando.               

            Enquanto caminhava, ele orava: - Senhor, salva-me!

            Imediatamente, Mac teve a sensação de que as mãos de Deus estavam sobre ele, e mal ouvia seus passos no chão.

            - Ó homem de pequena fé, por que duvidas?

            A voz era clara como cristal, mas o walkie-talkie estava desligado e George já havia ligado os motores. Mac começou a andar apressado; em seguida, correu. Cada passo parecia soar como um estampido. Quando Mac chegou, Hannah já estava descendo a escada. Ele saltou para dentro do avião.

            - Você vai pilotar ou ficar sentado aí? - perguntou George desatando o cinto e pronto para acomodar-se no banco do co-piloto.

            - Aqui está ótimo - respondeu Mac. - No momento, eu não conseguiria pilotar nem mesmo uma bicicleta.

 

            Chang ficou aliviado ao ouvir a boa notícia dada por Ray­ford e estava ansioso por conhecer Naomi, mesmo que fosse on-line. Ele se sentiu tentado a repreendê-la pelo susto que levou, mas decidiu aguardar até o dia seguinte para fazer contato. Nesse ínterim, ligou para Mac e seu grupo, temendo o pior, a despeito de todas as suas orações.

            Mac atendeu o telefone parecendo exausto.

            - Eu preciso conhecer Miguel um dia - disse Chang depois de ouvir a história. - A parte melhor fica sempre com vocês.

            - Francamente, eu não sei se há parte melhor nesta história - disse Mac. - E fique sabendo que Sebastian já não o chama mais de Miguel. Ele o chama de Roger.

            - Roger?

            - Quando Sebastian perguntou se ele era Miguel, o sujeito disse: "Roger".

            - Quer dizer que Stefanich e seu bando estão parados na pista com um avião danificado?

            - É isso mesmo, e eles vão precisar de alguém para con­sertá-lo antes de decolar novamente.

            - Por que eles não atiraram em você?

            - Pensei que você soubesse. O que aconteceu naquela cabina de comando enquanto eu saía de lá, desarmado, caminhando na frente deles?

            - Eu vou lhe contar.

            Em questão de meia hora, todo o pessoal do Comando Tribulação já havia recebido as boas notícias da Grécia. Chang providenciou para que George pousasse ao sul de Roma, para reabastecer. Eles estavam a caminho da casa secreta, sem passar por Kankakee, em Illinois, e sem levan­tar mais suspeitas. Aquela seria a parte mais fácil de toda a aventura.

            Quando, finalmente, Chang conseguiu entrar no sistema da CG em Ptolemaïs e descobrir as transmissões entre o jato e a torre de Kozani, tudo o que ele fez foi sacudir a cabeça. O piloto disse ter visto o avião parado na extremidade da pista e uma viatura se aproximando. Mas, ao mesmo tempo, Chang imaginou que Miguel havia instruído George a acender as luzes de pouso, porque o piloto relatou ter visto uma luz tão forte que "perdemos o contato visual com o avião e com a viatura".

            Alguns minutos depois, o piloto relatou que ficou estar­recido - diante do que, ele não sabia. O jato foi abalroado, e a frente dele levantou-se, mas ninguém a bordo pôde tirar as mãos dos olhos, por causa de uma luz intensa diante deles. Eles ouviram tiros e temeram morrer, perceberam o estouro de um dos pneus e desligaram os motores. Em resumo, ficaram sentados, apavorados, incapazes de olhar para fora por alguns minutos, até que ouviram o avião passar zunindo por eles e levantar vôo.

            Chang estava na escuta no momento em que eles, final­mente, resolveram sair, com rádios a tiracolo ligados e armas preparadas. Mas tudo o que viram foi o jato danificado, o trem de pouso sem condições de funcionamento, o pneu furado, a viatura em péssimo estado e uma Uzi na pista. Só agora eles estavam sendo resgatados por uma frota de carros da CG. No caminho, eles pegaram os dois oficiais feridos, deitados na beira da estrada. Eles estavam recebendo trata­mento em razão de graves queimaduras que, conforme dis­seram foram provocadas por uma arma que disparava raios.

            Faltavam ainda duas horas para que Ming partisse de San Diego rumo ao Extremo Oriente. Depois de ter terminado seu trabalho noturno, Chang desabou na cama, exausto. Que estranho, ele pensou, sentir-se a peça principal e indis­pensável de toda uma operação e, depois, descobrir que o sucesso da missão tinha ficado completamente fora de suas mãos. Na verdade, ele nem estava em seu posto quando Deus operou os milagres.

            Havia vítimas cujas mortes ele lamentava, mártires para serem exaltados e muito trabalho pela frente. Chang não sabia até quando conseguiria evitar ser descoberto. Dispôs-se a trabalhar no escritório durante o dia e fazer seu verdadeiro trabalho à noite, pelo tempo que Deus quisesse protegê-lo.

           

            Rayford acordou quando os primeiros raios de sol despontaram no horizonte, surpreso por ter conseguido dormir tanto. Petra já estava em atividade, com as famílias recolhendo o maná da manhã e enchendo todas as vasilhas que encontravam com a água pura da fonte proporcionada por Deus.

            Milhares de pessoas trabalhavam nas cavernas, outras milhares levantavam mais barracas. Nos lábios de cada uma havia histórias sobre o milagre do dia anterior e a promessa de vida que o Dr. Tsion Ben-Judá havia explicado, pouco depois, naquele mesmo dia.

            Da boca dos anciãos e dos organizadores partiu a notí­cia de que os materiais de construção estavam a caminho, e pediram ao povo para orar pela segurança dos pilotos e motoristas que começariam a entregá-los. Havia necessi­dade de voluntários com especialidade em várias profissões. Rayford sabia que o atual clima de euforia não duraria para sempre. Inevitavelmente, a lembrança do milagre passaria para segundo plano, embora ele não pudesse imaginar tal coisa. E o povo, independentemente da fé que compartilhava, em breve não suportaria viver acotovelado daquela maneira. Mas, por ora, ele se deliciava com isso.

            Rayford teria de retornar ao Comando Tribulação a qualquer momento, mas o pessoal de Carpathia atiraria em qualquer um que entrasse ou saísse de Petra. Se os materi­ais de construção conseguissem entrar, talvez isso fosse um sinal de que valeria a pena tentar sair dali.

            Naomi e seu grupo de gurus da informática haviam comunicado que Buck Williams lhes transmitira a revista virtual A Verdade, contando histórias ocorridas no mundo inteiro. O episódio completo do que acontecera na Grécia no dia anterior foi descrito em detalhes, da mesma forma que o milagre ocorrido em Petra.

            Um grupo de Israel, especializado em informática, disse que conhecia a tecnologia para projetar A Verdade em um telão, desde que fosse possível montar um. Em meio aos vários suprimentos que já estavam no acampamento, havia lona branca suficiente para ser esticada a uma altura correspondente a vários andares. Milhares de pessoas se reuniram para ler os artigos da revista.

            Rayford ficou feliz ao saber que não eram apenas os crentes e os chamados judaístas que liam A Verdade. Muitos indecisos e até mesmo alguns que receberam a marca do anticristo arriscavam a vida para fazer um download da revista de Buck publicada no site do Comando Tribulação. Os crentes que moravam em esconderijos e o pessoal da cooperativa do mundo inteiro traduziam, imprimiam e distribuíam a revista. Carpathia não podia fazer nada quanto a isso.

            Rayford sabia que, infelizmente, havia centenas - talvez milhares - de pessoas indecisas ali mesmo em Petra. Tsion prometera dirigir-se particularmente a elas, chegando a dizer que muitas continuariam a ser enganadas e, com o tempo, cairiam na lábia de mentirosos e de charlatães. Era difícil compreender ou acreditar que isso ainda pudesse acontecer. Como uma pessoa que passou pela mesma experiência de Rayford poderia duvidar da existência do único e verdadeiro Deus do universo? A explicação estava além de seus limites de compreensão.

            No fim da manhã, quase 24 horas após o lançamento das bombas, o povo começou a reunir-se. Espalhou-se a notícia de que o Dr. Ben-Judá iniciaria seus ensinamentos sobre a misericórdia de Deus. E continuavam a ser divulgadas histórias, vindas do mundo inteiro, de que a perseguição se intensificara contra os crentes e, principalmente, contra os judeus.

            Chang havia gravado as conversas nos escritórios de Akbar, Fortunato e Carpathia e instalara um dispositivo para enviar ao computador de Buck Williams os relatórios dos subpotentados do mundo inteiro. À medida que o sol despontava em vários países, as notícias de violência e de derramamento de sangue cometidos na noite anterior, bem como as implacáveis invasões diurnas, eram transmitidas não apenas para Nova Babilônia, mas também do computa­dor de Chang para o de Buck, e do computador de Buck para o mundo, por meio de A Verdade.

            Quando as multidões se reuniram para ouvir o Dr. Ben-Judá, foram atraídas para uma tela gigantesca, instalada em um muro afastado da luz do sol, para melhor visualização. Buck havia transmitido as cenas dos acontecimentos nos Estados Unidos Sul-americanos, enviadas por Chang, e o povo assobiou e vaiou quando o homem tímido e medroso aceitou receber a marca de lealdade. O povo aplaudiu, chorou, cantou e louvou a Deus pelo testemunho dos valen­tes mártires que enfrentaram a guilhotina com tanta paz e coragem.

            Os remanescentes em Petra ficaram indignados diante das notícias vindas da Grécia sobre uma invasão no meio da noite, que havia destruído o que restara do pequeno con­tingente de crentes que viviam naquele esconderijo. Buck havia incluído som ao relatório em vídeo, relembrando a seus leitores, ouvintes e espectadores que os gregos foram os primeiros que preferiram morrer a aceitar a marca da besta.

            Agora, parecia que os Monitores de Moral e os homens das Forças Pacificadoras de todos os continentes haviam sido revitalizados, financiados, equipados e motivados para atacar sem piedade. De todos os lugares do mundo, chegavam notí­cias de que a Comunidade Global não seria mais condescen­dente com os dissidentes e indecisos. Ou eles aceitavam a marca imediatamente ou enfrentariam as conseqüências. Até mesmo aqueles que já haviam recebido a marca de Carpathia estavam sendo punidos por não se curvarem diante de sua imagem três vezes por dia para adorá-la.

            Leon Fortunato apareceu em cena - com seus trajes pom­posos e sendo apresentado com todos os títulos e honrarias a que tinha direito - para advertir que "os descendentes de judeus, tão teimosos quanto os judaístas e que insistem em adorar um Deus que não seja nosso pai e senhor ressurreto, Nicolae Carpathia, receberão uma justa recompensa. Sim, a morte é boa demais para eles. Oh, eles certamente mor­rerão, mas estou emitindo um decreto neste momento de que nenhum judeu receberá a misericórdia de uma morte rápida pela lâmina da guilhotina. Por mais visível que seja esse cas­tigo, e por mais que condene comportamento reprovável, não causa dor alguma. Não, essas pessoas sofrerão dia e noite em seus covis de iniqüidade e, no momento em que expirarem em razão de causas naturais - ocasionadas pela rejeição ao Car­pathianismo -, elas estarão orando, clamando por uma morte tão rápida como no instrumento de imposição à lealdade".       

            Para Rayford, o povo de Petra estava chocado diante do avanço das maldades cometidas por Nova Babilônia, vingando-se daquela maneira de seus inimigos e humilhando os judeus. Mas a ira e o escárnio daquele povo foram ameniza­dos pelas notícias fornecidas pela CNNCG sobre o que acon­tecera na véspera, ali mesmo na cidade de pedras vermelhas.

            Um âncora proferia palavras repetitivas, dizendo que o ataque a Petra - duas bombas incendiárias e um míssil lan­çado por terra - errou o alvo e que o inimigo acampado ali havia revidado prontamente, abatendo os dois caças-bombar­deiros e matando os pilotos. A notícia provocou gargalhadas entre o povo, e todos levantaram as mãos fechadas, vaiando e assobiando, quando Carpathia apareceu para lamentar a morte dos pilotos mártires.

            - Embora não se possa negar que foi um erro do piloto, toda a Comunidade Global, creio eu, une-se a mim para apresentar nossas mais sinceras condolências às famílias enlutadas. Decidimos não tentar destruir essa fortaleza do inimigo, para não pôr em risco a vida de mais pessoas, mas esse povo vai morrer de fome, porque vamos cortar suas linhas de suprimento. Daqui a alguns dias, esse será o maior campo de concentração de judeus da História, e sua obstinação idiota lhes dará o destino que eles merecem.

            - Companheiros cidadãos da nova ordem mundial, meus compatriotas da Comunidade Global, devemos responsabili­zar esse povo e seus líderes pela tragédia que atingiu nossos mares e oceanos. Tenho insistido com meus conselheiros diretos a negociar com esses terroristas internacionais, esses mestres de magia negra que têm usado suas manobras per­versas para causar uma devastação dessa magnitude.

            - Tenho certeza de que vocês concordam comigo em que não existe diplomacia em casos como esse. Não tenho nada a oferecer em troca da perda de milhões de vidas humanas, sem mencionar a beleza e a riqueza da flora e da fauna.

- Eu lhes garanto que meu pessoal da alta cúpula está trabalhando para descobrir uma solução para essa tragédia, mas ela não incluirá acordos, concessões nem qualquer reconhecimento de que essas pessoas têm o direito de impin­gir ao mundo um castigo tão indescritível.

            No meio daquela transmissão de Chang por intermédio de Buck, apareceu a reprodução da conversa entre Suhail Akbar e os dois pilotos que atiraram as bombas em Petra. Embora a CG tentasse falar mais alto para abafar as palavras, dizendo que se tratava de uma mentira, de um embuste, todos ouvi­ram os pilotos se defendendo perante Akbar e sua ordem para que fossem executados.

            Rayford não podia imaginar como Carpathia ainda teria o apoio do mundo depois de tudo aquilo, mas a Bíblia afirmava que era justamente o que aconteceria. Em Petra, a multidão começou a ficar inquieta e a conversar entre si sobre aquela exposição das mentiras e das verdades que eles tinham acabado de presenciar. Então, começou a correr a notícia de que Miquéias, o homem que os conduzira de Israel a esse lugar seguro, estava prestes a aparecer e a apresentar o Dr. Ben-Judá.

            Espontaneamente, toda a multidão mergulhou em pro­fundo silêncio.

 

            Chaim Rosenweig levantou as duas mãos e dirigiu-se à multidão com voz tão forte que podia ser ouvido em todos os lugares.           

            - Tenho o imenso prazer e a satisfação pessoal de, mais uma vez, apresentar a vocês meu ex-aluno, meu amigo pessoal e agora meu mentor, o Dr. Tsion Ben-Judá, rabino, pastor e mestre de todos vocês!

            Rayford só não aplaudiu com entusiasmo porque sabia que Tsion detestava adulações. Mesmo assim, Rayford esperava que o rabino entendesse que aquele povo estava simplesmente expressando seu amor por ele.

            Quando, finalmente, conseguiu acalmar a multidão, o Dr. Ben-Judá disse:

            - Obrigado pela calorosa recepção, mas peço que, no futuro, quando eu for apresentado, vocês me homenageiem em silêncio, manifestando agradecimentos a Deus por seu amor e misericórdia. É principalmente sobre isso que vou falar. A adoração de vocês estará sendo corretamente dirigida, quer vocês orem, quer levantem as mãos ou apon­tem para o céu em gratidão a Ele.

            - No capítulo 14 do Evangelho de João, nosso Senhor Jesus, o Messias, faz uma promessa que podemos guardar por toda a eternidade. Ele diz: "Não se turbe o vosso cora­ção; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E quando eu for, e vos pre­parar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que onde eu estou estejais vós também" [v.1-3].

            - Observem a urgência. Essa foi a garantia de Jesus de que, embora estivesse deixando seus discípulos, Ele voltaria um dia. O mundo não viu o último retorno de Jesus Cristo e, conforme sabemos continua insistindo em não ver.

            - Agora, reflitam comigo sobre os cinco eventos mais importantes e fundamentais da História. Desde o Éden até o presente momento, Deus nos apresenta, por intermédio da Bíblia, a história correta do mundo, e grande parte dela foi escrita por antecipação. Essa é a única história verdadeira que já foi escrita.

            - O primeiro evento fundamental foi a criação do mundo por meio de um ato direto de Deus.

            - A seguir, vem o dilúvio universal. Esse dilúvio teve um efeito catastrófico sobre o mundo e ainda confunde a mente dos cientistas que encontram esqueletos de peixes em alti­tudes de até 4.500 metros.

            - O terceiro evento fundamental da História foi a primeira vinda de Jesus, o Messias. Esse evento possibilitou a reden­ção de nossos pecados. Jesus teve uma vida perfeita e morreu para redimir os nossos pecados. Ele morreu pelos pecados do mundo, por todos aqueles que invocassem o seu nome.

            - Mas sabemos que esse não foi o fim da história, porque todos nós aqui invocamos seu nome para perdoar nossos pecados somente depois do quarto evento fundamental da História, ou seja, a volta de Jesus.

            - Muitos de nós corrigimos o erro de não tê-lo aceitado antes, e isso é bom. Tanto o Antigo como o Novo Testa­mento da Bíblia mencionam que Ele retornará pela última vez: o quinto evento fundamental da história do mundo. Esse glorioso aparecimento sinalizará o início do reino milenar, a verdadeira utopia.

            - Imaginem o paraíso na Terra com o Messias no controle de tudo. Muitos acreditam que durante esse reino de mil anos, que começará daqui a menos de três anos e meio, a população será maior que o número de todas as pessoas que já viveram e já morreram. Como pode ser? Porque haverá um mundo sem guerra. Imaginem este planeta com um governo que não seja responsável pela matança de quase 200 milhões de pessoas, como registrado até hoje.

            - A humanidade nunca serviu a Deus por opção, mas, quando o Messias retornar, Ele estabelecerá seu reino e o povo viverá em paz. Viveremos em justiça. Teremos abundância de justiça. É difícil descrever essa época incrível. Cada um terá o suficiente.

            - Deus deseja esse tipo de mundo, e Ele o deseja para nós por uma única razão: Ele é bom. Na Bíblia, Joel 2.13 diz que Ele é misericordioso, tardio em irar-se e grande em benignidade. Ele não deseja nos prejudicar. Jonas, 125 anos depois de Joel ter nascido, descreveu Deus com as mesmas palavras. E Moisés, que viveu 1.500 anos antes desses homens, disse que o Senhor é misericordioso e compassivo, longânimo e grande em misericórdia e fidelidade.

            - Essas são as opiniões dos profetas acerca de Deus. E qual é a opinião de vocês acerca de Deus? Que melhor prova poderíamos ter além daquela que vivemos ontem? Quando vocês se ajoelharem para orar, lembrem-se daquele evento e do que os profetas disseram. Sim, temos um Deus majes­toso, o único potentado supremo e onipotente. E a Bíblia nos ensina uma coisa a respeito de Deus: que Ele é por nós. Ele não é contra nós. Ele deseja abençoar nossa vida, e a chave para abrir a porta da bênção é entregar sua vida a Ele e pedir que Ele a use à sua maneira. Como alguém pode deixar de amar o Deus que os profetas descrevem? Como alguém pode deixar de amar o Deus ao qual Jesus, o Messias, se refere como nosso Pai que está no céu?

            - Quão maravilhoso é saber que, como filhos, podemos nos aproximar da presença de Deus, o Criador de tudo, e chamá-lo de Pai.

            - Estamos atravessando o período mais terrível da história da humanidade. Dezesseis dos julgamentos pro­fetizados por Deus já foram derramados sobre a Terra, um pior que o outro, e ainda faltam cinco. O anticristo foi revelado, da mesma forma que o falso profeta. É por isso que o Messias deu a este período o nome de Tribulação, e à segunda metade, na qual nos encontramos, de Grande Tribulação.

            - Como eu posso dizer que esse Deus julgador e vinga­tivo é um Deus amoroso e misericordioso? Lembrem-se de que, durante este período, Ele está trabalhando para que o povo tome uma decisão. Por quê? O milênio está próximo. Quando Jesus fizer sua derradeira aparição gloriosa, Ele virá em poder e grande glória. Ele estabelecerá seu reino exclu­sivamente para aqueles que tomaram a decisão certa. Que decisão? Invocar o nome do Senhor.

            - Isso lhes parece exclusivismo? Compreendam uma coisa: A Bíblia deixa claro que a vontade de Deus é que todos os homens sejam salvos. Em 2 Pedro 3.9, lemos: "Não retarda o Senhor a sua promessa [...] pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento."

            - Deus prometeu, em Joel 2, que faria "prodígios no céu e na terra; sangue, fogo e colunas de fumo. O sol se converterá em trevas, e a lua em sangue, antes que venha o grande e terrível dia do Senhor. E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo; porque no monte Sião e em Jerusalém estarão os que forem salvos, assim como o Senhor prometeu, e entre os sobreviventes aqueles que o Senhor chamar" [v.30-32].

            - Meus queridos, vocês são os sobreviventes! Vocês entendem o que Deus está dizendo? Ele continua a chamar os homens para que sigam a Cristo. Ele levantou 144.000 evangelistas, das 12 tribos, para suplicarem aos homens e às mulheres do mundo inteiro que decidam aceitar a Cristo. Quem, a não ser um Deus amoroso, compassivo, misericor­dioso e longânimo, poderia planejar com tanta antecedên­cia que, durante esse período de caos, Ele enviaria tantos homens com poder para pregar sua mensagem?

            - Vocês se lembram das duas testemunhas, com poderes sobrenaturais, que pregaram a Palavra de Deus em Jerusalém e ao planeta inteiro por meio da TV? Após três anos e meio, elas foram assassinadas diante dos olhos do mundo. Depois que seus corpos permaneceram na rua por três dias, Deus os chamou para o céu. Por quê? Porque, por ser um Deus amo­roso e misericordioso, Ele desejava manifestar seu poder e glória para que a humanidade pudesse compreender e tomar a decisão certa.

            - Aqui temos o Deus sobrenatural do céu cumprindo suas promessas de eras passadas, preservando os filhos de Israel enquanto o anticristo tenta persegui-los.

            - A quem vocês servirão? Vocês obedecerão ao rei deste mundo ou invocarão o nome do Senhor?

            - Deus tem feito todas essas coisas grandiosas e podero­sas porque deseja salvar a humanidade. Muitos continuarão rebeldes, até mesmo aqui, depois de tudo o que viram e experimentaram. Não queira estar entre essas pessoas, meu amigo e minha amiga. O nosso Deus é misericordioso. O nosso Deus é compassivo. Ele é longânimo e deseja que todos sejam salvos.

            - Se vocês concordam que Deus está usando este período em que vivemos para preparar o povo para o reino milenar e para a eternidade, o que vão fazer com sua vida? Dediquem-na ao Messias. Adorem a Jesus, o Cristo. Recebam-no como o único Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo. Recebam-no em sua vida e vivam em obediência a Ele. Ele quer recebê-los. E um Deus que não se detém diante de nenhum obstáculo para salvar qualquer pessoa que invoque seu nome é um Deus digno de toda a nossa confiança. Você confia em um Deus assim? Pode amar um Deus assim?

            - O Messias veio ao mundo em forma humana. E Ele voltou. E virá mais uma vez. Quero que vocês estejam pre­parados. Fomos deixados para trás no Arrebatamento. Agora, devemos estar preparados para o Glorioso Aparecimento. O Santo Espírito de Deus está tocando nas pessoas do mundo inteiro. Jesus está edificando sua igreja durante este período negro da História, porque Ele é compassivo, amoroso, longânimo e misericordioso.

            Todo o povo ao redor de Rayford curvou a cabeça, e muitos começaram a orar. Eles oravam pelos amigos e familiares em Petra e em outros lugares do mundo. Deviam ter ouvido, como Rayford ouviu, a emoção na voz de Tsion quando ele fez um novo apelo para que todos tomassem a decisão de seguir a Cristo.

            - O tempo é curto - gritou Tsion -, e a salvação é uma decisão pessoal. Reconheça perante Deus que você é um pecador. Admita que não pode ser salvo sem Ele. Entregue-se à misericórdia de Deus e receba a dádiva de seu Filho, que morreu na cruz pelo pecado que você cometeu. Receba-o e agradeça a Ele a dádiva da salvação.

 

            - Problema grave, problema grave - disse Aurélio Figueroa, recostado em sua cadeira, com os dedos da mão esquerda apoiados nos da direita e apontados para cima. Sentado à sua frente, do outro lado da mesa, Chang orava silenciosamente, enquanto Figueroa prosseguia:

            - Houve acessos ilegais ao banco de dados do palácio, pessoas com identidades falsas de funcionários e intromissões no sistema que permitiram aos inimigos da CG enganar líderes locais. Agora temos provas de que existem "grampos" nos escritórios do palácio, até mesmo no do diretor de Segurança e Inteligência. Você sabia que hoje de manhã, quando o potentado estava tentando lamentar a morte de nossos pilotos, alguém se intrometeu na trans­missão e colocou no ar uma conversa fictícia entre o diretor Akbar e os pilotos?

            - Ainda bem que a conversa era fictícia. O senhor deve estar satisfeito com isso.

            - Não estou entendendo, Wong.

            - Se fosse verdadeira, teria sido uma catástrofe. Todos nós ouvimos essa conversa, senhor. Akbar passou um sermão nos pilotos, os dois não concordaram e o diretor mandou executá-los.

            O mexicano alto e ossudo analisava Chang.

            - Onde alguém pode ter conseguido esse tipo de grava­ção?

            - O senhor está perguntando a mim?

            - Não há mais ninguém aqui.

            - Sinto muito. Eu deveria ter dito: "Por que o senhor está perguntando a mim?"

            Aquele era o momento mais crítico. Se Figueroa o acusasse, Chang teria de sair de Nova Babilônia dentro de poucas horas, para não ser executado.

            - Estou fazendo essa pergunta a todos, é claro. Não leve para o lado pessoal. Você não faz idéia do que está sendo implantado no principal banco de dados.

            - Eu gostaria de saber.

            Figueroa levantou-se.

            - Não estou revelando isso a mais ninguém, mas o próprio Akbar começou a suspeitar de que existe alguma coisa estranha em Chicago. Você sabe que o local foi atingido mais de uma vez durante a guerra. A cidade foi evacuada e interditada, e ninguém se lembrou dela durante meses. Anos.

            Chang assentiu com a cabeça.

            - Não fizemos sobrevôos de reconhecimento, não tiramos fotos, não verificamos os sensores de calor, nada.

            - E por quê?

            - Porque alguém incluiu uma informação no computador dizendo que o local estava contaminado e que a radioativi­dade duraria anos. Akbar não se recorda disso. Ele achava que a cidade havia sido completamente destruída, mas não por elementos radioativos. Todas as vezes que ele man­dava fazer uma investigação, o pessoal acessava o banco de dados, checava os níveis de radioatividade e dizia: "Tudo certo. Continua radioativo". Mas, recentemente, alguém verificou os arquivos oficiais para saber se as informações estavam corretas. É claro que não estavam. O local está em perfeitas condições.

            - O quê?!

            - É isso mesmo. Você sabe tanto quanto eu que existe Um só motivo para alguém ter incluído esse tipo de infor­mação: tomar posse da cidade. Conseguimos passar por cima das informações falsas e tentamos descobrir o que está acontecendo lá. Não encontramos muita coisa, porque todos estavam recebendo as mesmas informações que nós. Mas existe atividade no local. Consumo de água e de ener­gia elétrica. Aviões e helicópteros chegando e saindo. Jatos decolando de uma pista no lago. Deve ser o lago Michigan.

            - Sério?

            - Sim. Há evidências de trânsito de veículos e de pedes­tres. Poucas, é claro, mas deve haver perto de 40 pessoas morando lá.

            - Pouca gente para causar tanta preocupação - disse Chang.

            - Pelo contrário - disse Figueroa. - Essa gente vai preferir não ter nascido.

            Chang estava morrendo de curiosidade para perguntar e, ao mesmo tempo, desesperado para demonstrar indiferença. Ele aguardou que Figueroa prosseguisse.

            - Você deve estar pensando que mandamos um pelotão de homens das Forças Pacificadoras para fazer uma ronda lá, não?

            Chang encolheu os ombros.

            - Mais ou menos isso.

            - Akbar tem uma idéia melhor. Ele diz que, se alguém deseja que o lugar pareça radioativo, vamos fazer isso.

            - O senhor não está falando sério.

            - Claro que estou.

            - Gastar tanto dinheiro em tecnologia numa época como esta?

            - É uma idéia brilhante, Chang.

            - É uma solução, eu acho. Mas ele pensou na água doce que corre por lá?

            - Estamos armazenando a água do lago Michigan desde o norte de Wisconsin. Não temos de nos preocupar com o rio Chicago.

            - O povo que mora às margens do rio se preocupa.

            - Bem, de qualquer forma, dizem que o chefão está ado­rando a idéia.

            - Será?

            - Você está brincando? Carpat... hã, o potentado adora coisas desse tipo.

            - E temos uma bomba atômica sobrando para jogar lá?

            - Ora, vamos, Wong! Quem mora lá não deve ser boa coisa. Se fossem cidadãos leais, por que não disseram: "Ei, não sabíamos que este lugar estava interditado e nos instala­mos aqui, mas, já que isso aconteceu, podemos ficar?"

            Chang encolheu os ombros. Ele queria saber quanto tempo isso levaria para acontecer, assim teria como avisar o Comando Tribulação, mas não se atreveu a perguntar.

            - Acho que está certo.

            - Você acha? Não há registro de centro de aplicação da marca de lealdade lá. E não há ninguém registrado aqui que moraria lá sem nos avisar.

            - O senhor está certo.

            - Claro que estou. Ei, Chang, você não está com uma aparência muito boa.

            Chang havia prendido a respiração de propósito, ficando com os olhos arregalados, sem piscar. Seu rosto estava ver­melho e seus olhos lacrimejavam.

            - É o cansaço - ele disse, exalando o ar. - Estou sentindo um mal-estar.

            - Você está bem?

            Chang tossiu, fingindo que não podia parar. Ele levantou a mão para desculpar-se e dar a entender que estava bem.

            - Dormi mal a noite passada - ele conseguiu dizer. - Vou melhorar. Pretendo dormir cedo esta noite.

            - Quer tirar um cochilo?

            - Não. Tenho muito serviço para fazer.

            - Não há problema. Descanse um pouco.

            - Não posso.

            - Por quê?

            - Quero fazer a minha parte, esforçar-me ao máximo, só isso.

            Em seguida, simulou outro acesso de tosse.

            - Vá para casa mais cedo. Você não usou todo o tempo a que tinha direito para tratamento de saúde, não é mesmo?

            - Usei só uma parte, o senhor sabe, durante a época da praga.

            - Das úlceras? Ah, sim, todos nós fomos atacados. Des­canse o restante do dia. Se você não aparecer aqui amanhã, vou entender.

            - Não, por favor, Sr. Figueroa. Eu estou bem. O senhor não vê? Já estou me sentindo melhor.

            - O que está havendo com você, Wong? Bem, eu não quero assustá-lo, mas...

            - Eu não quero parecer um fracote.

            - Você pode ser tudo, menos isso.

            - Obrigado - disse Chang cobrindo a boca com a mão e tossindo mais que antes.

            - Passe no Departamento Médico e tome algum remédio. Chang fez um gesto de negação e disse com voz ofegante.

            - Vou voltar ao meu trabalho.

            - Não, não vai. Isso é uma ordem.

            - O senhor está me obrigando a sair mais cedo?

            - Ora, vamos! Você acha que estou pensando só em você? É melhor sarar logo. Não quero um departamento cheio de gente tossindo, e acho que você já contaminou minha sala. Agora vá.

            -Eu...

            - Chang! Vá!

           

            O dia começava a amanhecer no Colorado, e Steve Plank, conhecido pelo nome de Pinkerton Stephens, estava dor­mindo em seus aposentos. Ele ficara acordado até a meia-noite enviando e-mails a seus amigos do Comando Tribulação, advertindo-os de que alguma coisa grave estava prestes a acontecer em Chicago e que, se eles achassem conveniente, deveriam fugir dali, e rápido. Ele também tinha conversado, por telefone, com Rayford Steele, em Petra, e insistido para que continuasse lá e não permitisse que Abdullah Smith ou qualquer outra pessoa voltasse para Chicago.

            Batidas insistentes na porta o despertaram, e seu primeiro pensamento foi que, na pressa, não havia usado o telefone seguro ou que seu computador estava "grampeado". Se ele tivesse sido descoberto, paciência. Avisar o Comando Tribulação foi a ação mais produtiva que ele fez desde sua conversão ou pelo menos desde que ajudou Hattie Durham a sair de debaixo de sua custódia para ir ao lugar onde ela se converteu.

            Plank tentou gritar para saber quem estava ali e o que desejava, mas sua prótese facial estava ao lado da cama e, sem ela, ninguém poderia ouvi-lo. O melhor que conseguiu foi resmungar, enquanto tateava no escuro à procura da peça de plástico.

            - Sr. Stephens, não há necessidade de abrir a porta. - A voz era de Vasily Medvedev, o subordinado imediato de Steve. - Eu só queria lhe dar um recado. Nova Babilônia está fechando o cerco ao redor dos funcionários do mundo inteiro que ainda não receberam a marca de lealdade. O senhor vai receber a sua ao meio-dia. No Aeroporto da Ressurreição Carpathia. Eu só preciso que o senhor confirme que ouviu o recado.

            Steve escorregou o corpo para sentar-se em sua cadeira de rodas motorizada, rodou-a até a porta e deu dois toques nela.

            - Obrigado, senhor. Estou constrangido por ter de fazer isso, mas recebi ordens para acompanhá-lo e comprovar que o senhor recebeu a marca.

            Steve voltou para perto da cama e pegou a prótese na mesinha de cabeceira.

            - Espere um instante, Vasily!

            Depois de colocá-la no lugar, ele abriu a porta e fez um gesto para que o homem entrasse.

            - Sinto muito, senhor - disse o russo. - O que devo fazer ou dizer?

            - Diga a eles que já tenho a marca.

            - Não existe registro disso.

            - Você sabe que ela não pode ser aplicada em material sintético. Quer ver? - perguntou Steve, começando a arran­car a parte da testa.

            - Não! Por favor! Sinto muito, senhor, mas tentei ver uma vez e foi mais que suficiente. Perdoe-me.

            - Bem, vamos ver se a pessoa que aplica a marca vai querer dar uma olhada - disse Steve.

            - Ora, vamos, senhor, deveria haver um registro, não?

            - Eu deveria estar isento. Você pode imaginar a dor de ter uma marca aplicada à membrana...

            - Por favor! Eu só recebi ordens de informar ao senhor e de...

            - Comprovar se recebi a marca, eu sei.

            - Por que o senhor não pede que ela seja aplicada em sua mão?

            - Minha mão? Você está dizendo minha mão? Esqueceu que minha mão também foi doada à causa?

            Steve levantou o coto, e Vasily estremeceu.

            - Eu sou um idiota - ele disse. - Como pude esquecer...

            Steve fez um gesto de pouco caso.

            - Não se preocupe com isso.

            - Quando o senhor pretende sair? Eles abrem às 8 horas e estamos a cerca de uma hora de distância.

            - Eu sei disso, Vasily,

            - Claro.

            - Eu o informo mais tarde.

            Quando Medvedev saiu, Steve curvou a cabeça e chorou.

            Senhor, o que devo fazer? Enganá-los? Pôr o meu cargo à disposição? É isso? Está tudo terminado? Será que não sirvo mais para ajudar os crentes ao redor do mundo?

            Steve passou a manhã comunicando-se com Chang em Nova Babilônia, onde a tarde já estava terminando. Eles trabalharam freneticamente a fim de encontrar um local para abrigar a sede do Comando Tribulação. Ninguém, em qualquer lugar do mundo, poderia acolhê-los. O Edifício Strong havia sido perfeito, só que por pouco tempo.

            Nem Chang nem Steve sabiam ao certo quando o bom­bardeio sobre Chicago teria início, mas ficou claro que seria o mais rápido possível. Somente depois que eles avisaram a todos e fizeram as recomendações necessárias foi que Steve contou a Chang o problema que o atormentava.

            - Eu sabia que eles estavam fechando o cerco - disse Chang -, mas não tinha idéia de que seria tão já. Vou incluir uma informação no banco de dados mencionando que você já tem a marca. Posso tirar uma cópia para você.

            - Não posso permitir que você faça isso, irmão.

            - Por quê? Um dia desses, eu fiz a mesma coisa com um piloto da cooperativa. Ele só ficou sabendo depois que provi­denciei tudo.

            - Com toda essa vigilância aí no palácio? Eu não tenho nenhuma documentação e, de um dia para o outro, passo a ter?

            - Não é necessário dizer que ela foi expedida no Aero­porto da Ressurreição. Posso fazer registros mencionando que veio de outro lugar.

Steve fez uma pausa. A coisa era intrigante, até mesmo instigante. Mas não tinha consistência.

            - Eu até concordaria - ele disse. - Se tivéssemos pen­sado nisso antes, poderíamos ter dado um jeito, como se a documentação tivesse aparecido por acaso, conforme você fez com o outro sujeito. Mas, agora, seria uma prova de que concordei em receber a marca. Não posso fazer isso.

            - Então, você vai sair daí, certo? Para onde vai e como vai chegar a esse lugar? Devo enviar alguém para ajudá-lo? Algum meio de transporte?

            - Não vai funcionar, Chang. Isso vai deixar você vul­nerável. E você sabe que eles estão me vigiando.

            - Ninguém está me vigiando ainda - disse Chang. - Acho que eles não desconfiam de mim.

            - Você precisa continuar firme aí.

            - Você quer ir para Petra? Há um vôo da cooperativa partindo de Montana hoje. Posso falar com o piloto...

            - Ligo para você depois, Chang. Agradeço muito, mas acho que chegou a minha hora de tomar uma atitude.

            - O que você está dizendo?

            - Você sabe.

            - Ora, Steve, pelo menos obrigue esse pessoal a correr atrás de você. Precisamos de você, cara!

            - Vivendo como um fugitivo? Que utilidade eu teria?

            - Precisamos de todo mundo que puder nos ajudar.

 

            Buck considerou a hipótese de acordar o contingente vindo da Grécia, mas decidiu que não faria isso, embora houvesse muito trabalho pela frente. Chloe, Mac, Hannah e Sebastian haviam chegado de madrugada.

            Kenny estava fascinado com toda aquela atividade. As pessoas corriam de um lado para o outro, tomando decisões importantes e empacotando caixas pequenas, deixando de lado impressos, anotações ou qualquer coisa que já estivesse no computador. A única pessoa com permissão para levar mais bagagem que os outros era Zeke. Havia coisas das quais ele não podia abrir mão: arquivos, roupas para disfarces, fer­ramentas de trabalho.

            Leah passou a maior parte do tempo falando, por meio de um telefone seguro, com o pessoal da cooperativa do mundo inteiro. Ela disse a Buck:

            - Todos se conformaram que terão de acolher algumas pessoas e disseram que seria uma honra, mas ninguém está eufórico com a idéia. O espaço que cada um tem é muito limitado para atender a todas as necessidades.

            - Não temos escolha, Leah. É tempo de cada um fazer sua parte. Detesto dizer isso, mas muitas dessas pessoas nos devem favores. Daqui, nós dirigimos a cooperativa e provi­denciamos gêneros de primeira necessidade para que elas

sobrevivessem.

            Albie parecia taciturno. E por que não estaria? Buck ficou pensando na situação dele: o único lugar para onde ele pode­ria ir - para onde queria ir - era Al Basrah.

            - Mas eu não quero usar um avião só para mim - ele disse. - Há muita gente que precisa ser deslocada para vários lugares.

            - Faça o que tem de ser feito, Albie - disse Buck. - Veja se Leah pode lhe conseguir uma carona com alguém que esteja levando materiais para Petra. Vamos precisar de você com freqüência.

            - Espero mesmo que me chamem.

            O pessoal de Enoque estava no subsolo do edifício veri­ficando os veículos para saber quantos tinham condições de rodar. Ele negociara o privilégio de escolher os carros e os veículos utilitários como compensação por não poder colocar as 30 pessoas pertencentes a O Lugar num só avião para par­tirem juntas. Leah já havia encontrado vários esconderijos para abrigá-los a uma distância que poderia ser percorrida de carro. Enoque ficaria em Palos Hills, Illinois.

            - Vocês sabem o risco que vão correr saindo daqui em caravana em plena luz do dia - disse Buck.

            - Claro que sabemos. Mas o risco será maior se estiver­mos aqui quando a CG bombardear o local.

           

            Steve Plank avisou Vasily de que queria sair da sede da CG às 11 horas. Ele passou o restante da manhã trancado em seu quarto, orando em desespero.

            Finalmente, ligou para Buck. Que reviravolta!, ele pensou. Buscar conforto e conselho com um jovem que um dia foi seu melhor - e mais polêmico - funcionário. Os dias de glória do Semanário Global haviam se perdido no tempo.

            A história de Steve foi ouvida em silêncio. Em seguida, Buck disse, com voz branda:

            - Steve, não faça isso. Por favor.

            - Você acha que eu quero? Ora, vamos, homem! Não pre­cisa ficar emocionado agora, Buck. Eu só queria dizer adeus.           

            - Mas eu não quero, está bem? Já disse adeus demais em minha vida. E tem mais. Nós precisamos de você. Este não é o momento de desistir.

            - Você está me ofendendo.

            - Vou fazer o que puder, Steve, para impedir que você cometa essa loucura.

            - Eu esperava ouvir alguma coisa a mais de você.

            - Eu também digo o mesmo.

            - Você acha que estou tentando a saída mais fácil? Não pense isso de mim.

            - O que você está dizendo, Steve? Que devo apoiar sua idéia, desejar-lhe felicidades e ver você lá no céu?

            - Até que ajudaria. Diga que confia em meu julgamento.

            - Como posso confiar, se acho que você ficou maluco? Steve deu um longo suspiro.

            - Buck, eu não tenho ninguém mais para ligar. Se eu disser que você não vai conseguir tirar essa idéia de minha cabeça e que é por isso que estou ligando, você vai ficar do meu lado?

            - É claro que sempre estarei a seu lado, mas...

            - Eu não sou covarde, Buck. Você me conhece. Sabe que eu devia ter morrido. Fiquei enterrado sob escombros por quase uma semana. Sinto dores o tempo todo, mas tenho enganado, tenho conspirado, tenho trapaceado, tenho iludido o inimigo de todas as maneiras que sei. Bem, existe uma coisa que não vou fazer. Não vou fugir como uma criança e não vou negar a Cristo.

            - Eu sei disso.

            - Bem, já é alguma coisa. Não foi tão difícil de entender, não é?

            - Não venha me dizer que tenho de concordar com você, Steve.

            - Você vai orar por mim?

            - Claro, mas vou orar para que você recupere o juízo normal.

            - Vou ter de passar por isso, Buck. E não vou fingir que não estou morrendo de medo. A CG considera que ainda não recebi a marca por um descuido, por questão de tempo, alguma coisa relacionada com minhas limitações. Mas quando a coisa se tornar oficial, quando eles me obrigarem a tomar uma decisão, não vou desapontar Deus.

            - Eu sei que não vai. Ele promete misericórdia infinita e uma paz que excede todo entendimento.

            - Eu preciso lhe contar uma coisa, Buck. Não estou sentindo nada disso.

            - Deus - Buck começou a dizer, e Steve percebeu que ele teve de respirar fundo para prosseguir -, fica ao lado desse teu filho. Dá-lhe a tua graça, a tua paz. Confesso que não quero que ele faça isso. Detesto essa idéia. Estou cansado de perder pessoas que amo. Mas, se esta for a tua vontade, dá-lhe coragem, dá-lhe as palavras certas, dá-lhe poder sobre o inimigo. Oro para que as pessoas que presenciarem isso se comovam a ponto de tomarem a mesma decisão.

 

            Buck estava tão comovido que seus companheiros se reuniram à sua volta espontaneamente. Quando ficaram sabendo o que estava se passando, eles se ajoelharam e oraram por Steve. Buck ligou para Chang.

            - Ele está indo para o centro de aplicação no Aeroporto da Ressurreição, ao sul de Springs - disse Buck. - Existe alguma possibilidade de serem transmitidas imagens da cena?

            - Eles costumam fazer isso.

            - E ela pode ser retransmitida para cá?

            - Posso dar um jeito.

            - Não sei por que quero assistir, mas vou me sentir como se estivesse ao lado dele.

           

            Steve estava ciente do olhar crítico de Vasily quando ele apareceu no estacionamento, de cadeira de rodas, trajando roupas informais. Na verdade, roupas muito informais. Ele usava sapatos sem cadarços, calça cáqui e camiseta branca.

            - Você está preocupado com o protocolo - disse Steve enquanto Vasily o colocava no carro.

            Vasily assentiu com a cabeça.

            - Aprendi a não fazer perguntas, chefe.

            - Você está armado, meu amigo?

            - Claro.

            - Eu não.

            - Estou vendo.

            Steve estendeu o braço a Vasily, que olhou assustado.

            - Aperte minha mão - ele disse. - Lamento que ela não esteja mais aqui.

            Vasily tocou o local rapidamente.

            - Meu nome é Steve Plank.

            - Como, senhor?

            - Você ouviu.

            - Steve Plank?

            - Então, você estava ouvindo, como sempre. Conhece o Semanário Global?

            Vasily parecia estar com problemas para concentrar-se.

            - O quê? A revista? Claro. Nós a recebemos de Nova Babilônia.

            - Você se lembra de quando ela era independente, antes dos desaparecimentos?

            - Claro.

            - Meu nome aparecia nos créditos.

            - Nos...?

            - Créditos. A lista dos diretores e redatores. Eu era o chefe, ou melhor, o editor-chefe.

            E Steve contou sua história a Vasily, terminando quando eles estavam a 15 minutos do destino. Medvedev sacudiu a cabeça.

            - O que devo fazer agora?

            - Bem, você não precisa me prender. Já me tem em custódia e está cumprindo ordens. Está me levando ao centro.

            - E o senhor vai receber a marca, continuar a viver como inimigo secreto da Comunidade Global, e eu devo fingir que não sei de nada, só porque somos amigos?

            - Somos, Vasily?

            - Eu achava que sim, mas o senhor demorou até agora para me contar a verdade.

            - Se somos amigos, você poderia me fazer um favor.

            - Deixá-lo ir embora? Permitir que fuja? Para onde o senhor vai?

            - Não é nada disso. Eu estava pensando que você poderia atirar em mim.

            - O senhor está brincando.

            - Não estou. Seria bom para sua carreira. Conte a história que quiser. Você descobriu quem eu era, preocupou-se imaginando que eu poderia fugir, essas coisas.

            - Não posso fazer isso.

            - Eu também não poderia. Quero dizer, não poderia me matar, embora já tenha pensado um pouco nesse assunto.

            - O que o senhor está querendo que eu faça, desde que não seja matá-lo? Que eu assista à sua morte?

            - Você foi encarregado de "comprovar", não é verdade? Não é essa a sua obrigação?

            Vasily deu um suspiro entrecortado e assentiu com a

            - O senhor não vai levar essa história até o fim, vai?

            - Vou. Fugir serviria apenas para protelar o inevitável. E você tem de admitir que é mais ou menos fácil de as pessoas me reconhecerem.

            - Não achei graça.

            - Nem eu. Vasily, eu só lamento que já fosse tarde demais quando você passou a trabalhar comigo. Você já havia recebido a marca, com muito orgulho.

            - Já não sinto tanto orgulho assim.

            - Essa é a grande tragédia em que nos encontramos.

            - Eu sei.

            - Sabe?

            - O senhor acha que eu não dou uma espiada no site do Dr. Ben-Judá de vez em quando? Eu sei que minha decisão é irreversível.

            - Você gostaria que não fosse?

            - Não sei. Não sou cego, nem surdo. Vejo o que está acontecendo. Neste momento, eu diria que sinto inveja do senhor.

 

            Finalmente, era chegada a hora de acordar Chloe. E assim que ela se levantou, os outros fizeram o mesmo.

            Chang havia ligado. O Comando Tribulação necessitava fazer as malas e preparar-se para mudar dali a qualquer momento.

            Chloe trabalhava rapidamente, apesar de estar com os olhos turvos de sono, com Kenny dependurado em seu pescoço quase o tempo todo. George e Mac pegaram grandes quantidades de alimentos acondicionados em caixas e latas, e começaram a levá-los para os carros. Hannah, que ajudou Leah a atualizar os dados da cooperativa, tinha a aparência de quem precisava de mais algumas horas de sono.

            George contou a Buck que conseguira que alguém viesse buscá-lo em Chicago, mas ele aconselhou a pessoa a modifi­car a rota, possivelmente passando por Long Grove, onde foi marcado um local de encontro.

            - Temos acomodações para você, Chloe e o bebê lá em casa, em San Diego, e eu adoraria ser seu piloto.

            Buck precisava pensar um pouco antes de tomar uma decisão. O cenário podia ser pior. Leah conseguira que ele e sua família se mudassem para a casa de Lionel Whalum e sua esposa. Buck não conhecia aquele homem, mas também não conhecia pessoalmente nenhuma outra pessoa que pudesse abrigá-los. Whalum concordara com a idéia, contando a Leah que possuía uma casa grande em um bairro afastado da cidade, mas estava planejando fazer várias via­gens de ida e volta a Petra.

            - Leah - disse Buck -, quem sabe você e Hannah poderiam morar na casa dos Whalum. Eu e minha família aceitaríamos a oportunidade que George está nos oferecendo. Assim, vocês teriam um piloto, e nós também.

            - Por que você não toma conta desta minha tarefa, Buck, já que está pondo todo o meu trabalho a perder?

            - Chloe está pronta para reassumir o posto, Leah. Seria melhor você começar a arrumar suas coisas.

            Ela parecia abalada e levantou-se rapidamente para sair dali. Buck a interceptou.

            - Ouça, vamos perdoar um ao outro. As circunstâncias exigem. Pense um pouco: Whalum está transportando mate­riais para Petra o tempo todo.

            - Eu sei, Buck. Chloe e eu coordenamos tudo isso.

            - Você está raciocinando bem?

            - Você está me insultando? - ela perguntou.

            - Você não está raciocinando.

            - O quê?!

            - Pegue uma carona com ele um dia desses, Leah. Não há alguém em Petra que você gostaria de ver?

            Aquela pergunta a fez parar por alguns instantes.

            - Ora, Buck, você não está falando sério. Não posso negar que estou encantada com Tsion. Quem não está? Mas ele não vai ter tempo para uma amiga. Há muita coisa que ele precisa fazer lá.

            - Será, então, que você está com medo de morar em Long Grove, porque o local fica muito perto de Chicago, onde as bombas vão cair? É bem provável.

            - Não. Eu...

            - Você quer ir com George para San Diego? Eles vão pre­cisar de serviço médico lá. E têm quartos individuais. Nin­guém vai ficar morando junto. Eles estão em abrigos subter­râneos, uma espécie de casas pré-fabricadas.

            - Não, esse lugar parece perfeito para você e sua família. Vou conversar com Hannah a respeito de Long Grove.

            - Eu ouvi meu nome? - disse Hannah. - Prefiro a região sudoeste.

            - Você conseguiu falar com alguém? - perguntou Leah.

            - Precisa de companhia?

            Poucos minutos depois, Hannah já havia concordado em ir com Leah. Zeke e Mac eram os únicos que ainda não tinham onde ficar.

            - Eu preciso ir para um lugar onde as pessoas necessitem de meus serviços - disse Zeke. - Algum lugar seguro, mas central.

            - Estou verificando - gritou Chloe, de longe.

            - Eu quero ficar num lugar onde possa fazer viagens de ida e volta a Petra - disse Mac à procura de mais caixas.

            - Talvez eu consiga tirar Rayford de lá.

            - Rayford precisa ficar lá - disse Buck. - Ele vai ficar irritado por uns tempos, mas tem tudo o que precisa para manter um controle seguro do pessoal.

Depois que todos estavam prontos, apenas aguardando a ordem de partir, Albie convidou Mac para acompanhá-lo a Al Basrah. Zeke ficaria instalado em uma unidade clandestina na região oeste de Wisconsin, na cidade de Avery, perto do limite com o Estado de Minnesota. Buck ligou para Chang.

            - Vamos chamar a atenção quando sairmos daqui, mas acho que não temos escolha.

            - Saiam de madrugada - disse Chang -, poucas pessoas por vez nos próximos dias. Vou ter condições de avisar se existe alguém atrás de vocês. É um risco, mas você sabe o que vai acontecer se esperar mais tempo.

            O grupo inteiro - 40 pessoas, incluindo as 31 de O Lugar - reuniu-se, formando um grande círculo. Cada um passou os braços ao redor do companheiro ao lado, oraram uns pelos outros e choraram. Todos. Até George e Mac. Ao ver tantas lágrimas, Kenny começou a chorar, o que provocou risos no pessoal.

            - Parece que acabamos de chegar aqui - comentou Buck.

            - E agora não sabemos quando nos veremos novamente. Tenho uma lista da ordem em que vamos sair daqui. Minha família e eu seremos os últimos.

            O Edifício Strong já não era mais seguro. E agora aquelas pessoas seriam despejadas, um pouco por vez, num mundo hostil, que pertencia ao anticristo, ao falso profeta, à Comu­nidade Global e a milhões de olhos inquisidores que exigiam o sinal de lealdade que nenhuma delas possuía.

 

            - Eu posso dizer a eles que perdi o senhor de vista - disse Vasily. - Que negligenciei. O que mais posso dizer? O senhor fugiu.

            Steve estava sentado ao lado dele no estacionamento do Aeroporto da Ressurreição.

            - O quê? Dizer que eu fugi numa cadeira de rodas e que você não me alcançou? Tarde demais. Vamos.

            Não era fácil, e Steve não ia fingir que não estava apre­ensivo. Quando lia um livro ou assistia a um filme sobre um homem condenado, ele se perguntava qual seria a sensação de dar uma longa e última caminhada antes da morte. Essa não seria suficientemente longa, ele imaginava, principal­mente em uma cadeira de rodas.

            Quando eles se aproximavam do centro de aplicação da marca de lealdade na asa norte do aeroporto, Steve notou que a fila era a mais longa que ele já vira. O cerco, o rigor - ou qualquer outro nome que Nova Babilônia desse - estava dando certo. Centenas de pessoas passavam pela estátua de Carpathia, curvando-se, orando, cantando, adorando. Por enquanto, a guilhotina estava silenciosa. Na verdade, Steve não sabia se ela havia sido usada naquela região do Estado. Alguns foram mortos como mártires perto de Denver. Outros em Boulder. Talvez ele fosse o primeiro a ser morto ali. Talvez não houvesse gente treinada para manipular o instru­mento de imposição à lealdade - a guilhotina. Mas lá estava ela, reluzente e ameaçadora. As pessoas na fila para receber a marca riam com nervosismo, sem tirar os olhos dela.

            Steve ainda estava na parte da fila que caminhava em direção ao ponto da tomada de decisão. Não se esperava que ninguém tomasse a decisão "errada", é claro. A mulher diante do teclado do computador - ruiva, robusta e apa­rentando 60 anos -, que tomava conta dos documentos e arquivos, mal erguia a cabeça enquanto as pessoas se iden­tificavam e escolhiam o tipo de marca e onde seria aplicada.

            Assim que a recebiam, elas levantavam as mãos fechadas ou gritavam com entusiasmo. Em seguida, caminhavam em direção à imagem, para adorá-la.

            Steve continuava vivo graças aos ensinamentos e incentivos diários de Tsion Ben-Judá. Essa tinha sido a única igreja que ele conheceu. Conversava às vezes com Rayford, com Chang e, de vez em quando, com Buck ou outra pessoa do Comando Tribulação, mas estava ansioso por um contato pessoal com outros crentes. Aquele problema seria rapidamente solucionado. Steve se questionava se deveria usar seu nome verdadeiro e, finalmente, contar à CG que se manteve na clandestini­dade por todo esse tempo, mas seu nome seria facilmente ligado ao de Buck Williams, em razão da época em que tra­balharam juntos no Semanário. E quanto tempo levaria para que descobrissem uma relação com Rayford, com Chloe, com a cooperativa e - quem sabe? - com Chang?

            Ele não poderia correr esse tipo de risco, principalmente expondo pessoas que nem sabiam o que iria acontecer com ele ali. Quando, finalmente, chegou a vez de Steve, a mulher avistou Vasily trajando uniforme e disse com voz animada:

            - Estávamos aguardando a chegada de vocês dois. Esse deve ser Pinkerton Stephens.

            - Em carne e osso, Ginger - disse Steve após ter lido o nome dela no crachá.

            - Que tal um belo -6 e uma charmosa imagem do supremo potentado? - ela perguntou olhando-o de cima a baixo, visivelmente perplexa diante de seus trajes.

            - E onde você a aplicaria? - perguntou Steve.

            - A escolha é sua.

            - Bem, na mão não vai dar - ele disse mostrando o coto. O sorriso de Ginger gelou, e ela o encarou. Não havia achado graça e demonstrou isso com o olhar. Ele a colocara em uma situação desconfortável, e ela não gostou. - E acho que não vai pegar no plástico.

            - É verdade - disse Ginger um pouco mais aliviada.

            - Também não podemos aplicá-la aqui, certo? - ele per­guntou batendo na prótese da testa.

            Puxa daqui, puxa de lá. Ele arrancou a prótese do nariz e da testa, deixando à mostra os globos oculares e a cavidade do cérebro.

            - Acho que a única opção é aqui, Ginger - ele disse, com voz nasalada por ter tirado a prótese do nariz.

            - Oh! Oh, meu...! Sr. Stephens, eu...

            - Quem vai querer aplicar a marca aqui? - perguntou Steve. - Quem se apresenta como voluntário para fazer essa tarefa? E, quando eu quiser mostrá-la, deverei arrancar a prótese do rosto?

            A mulher virou-se para o outro lado.

            - Estou certa de que vai funcionar. É totalmente higiênica e não vai causar nenhum problema.

            - Posso tirar também a prótese da boca, Ginger, se você desejar um efeito total.

            - Não, por favor.

            - Bem, de qualquer forma, eu estou na fila errada.

            - Como assim?

            - Não aceito receber a marca de lealdade.

            - Não aceita? Bem, não existe opção.

            - Ah, claro que existe, Ginger. A outra fila é bem menor. Na verdade, serei o único. Mas trata-se definitivamente de uma opção, não?

            - Você está optando pelo... hã... instrumento de aplica...

            - Estou optando pela guilhotina, Ginger. Estou preferindo morrer a fingir que Nicolae Carpathia é divino ou rei de qualquer coisa.

            Ela olhou para Vasily.

            - Ele está brincando comigo?

            - Infelizmente não, senhora.

            Ginger analisou o rosto de Steve. Em seguida, pegou seu walkie-talkie.

            - Ferdinand, precisamos de alguém para acionar o instru­mento.

            - Acionar o quê?

            - Você sabe! - ela cochichou. - O instrumento.

            - A guilhotina? Você está falando sério?

            - Sim, senhor.

            - Já estou indo. - Um homem calvo, alto e de bochechas vermelhas chegou correndo. - Você não vai receber a marca?

            - Vou - disse Steve -, mas antes quero tentar a guilhotina. Por favor, não podemos andar logo com isso? Será que vou ter de passar por outra penitência?

            - Isso aqui não é brincadeira.

            - Também totalmente desnecessário, portanto faça o que deve ser feito. Apronte a papelada.

            - Não há papelada. Você simplesmente assina confir­mando que fez a escolha por livre e espontânea vontade, e nós... ah... você...

            - Morre.

            - Sim.

            - Tenho o direito de dizer minhas últimas palavras?

            - Você é quem sabe.

            O homem entregou-lhe um formulário, no qual Steve assinou "Pinkerton Stephens".

            - Você deve saber que esta é sua última chance de mudar de idéia - disse o homem.

            - Sobre Carpathia ser o anticristo, o demônio personifi­cado? Sobre Leon Fortunato ser o falso profeta? Sim, eu sei. Não vou mudar de idéia.

            - Esta é sua decisão final?

            - Digamos que pensei muito no assunto.

            - Claro.

            Steve olhou de relance para Vasily, que estava pálido e com a mão na boca. As outras pessoas na fila murmuravam e apontavam, agora com os olhos fixos naquele homem de aparência estranha, usando camiseta.

            Ferdinand passou por entre duas cadeiras e foi inspecio­nar a guilhotina.

            - Dizem que pode ser acionada por uma só pessoa - ele mencionou. Em seguida, levantou a cabeça. - Por aqui, Sr. Stephens.

            Steve rodou a cadeira até uma marca no chão a 1,20m da guilhotina. Seu ventre começou a contrair-se e a respiração ficou ofegante.

            Deus fica comigo, ele orou silenciosamente. Dá-me tua graça. Dá-me coragem.

            A graça veio. A coragem, ele não tinha certeza. Gostaria de ter mais experiência para estar diante daquele instru­mento. Ferdinand havia levantado completamente a lâmina, mas, enquanto manipulava os elementos na extremidade da haste, ele continuava olhando para cima e examinando o aparelho, afastando os dedos da lâmina.

            - Acho que se a alavanca de segurança estiver no lugar, está tudo pronto - disse Steve.

            - Ah, claro. Obrigado.

            - De nada. Pode ficar me devendo esta.

            Ferdinand demorou um instante antes de dar um sorriso contorcido. Ele colocou a barra de retenção no lugar, com um pouco de dificuldade. Em seguida, segurou a corda de liberação e inspecionou a coisa toda mais uma vez.

 

            Kenny estava dormindo, e Buck sentado com os ombros caídos diante da TV, à qual ele havia conectado seu telefone. Chang engendrara uma maravilha digital para transmitir as imagens do Colorado. Uma câmera de TV instalada em um canto mostrava a área inteira, e Chloe apontou.

            - É ele, Buck. Ele está ali.

            O peito de Buck arfava pesadamente, e ele respirava com dificuldade. Steve era a única pessoa diante da guilhotina, e havia um homem que parecia tentar acioná-la.

 

            - Você tem um cesto ou coisa parecida? - perguntou Steve.

            - Não entendi - disse Ferdinand.

            - Uma vasilha? A não ser que queira correr atrás de minha...

            - Sim! Obrigado. Um momento. Steve gostaria de dizer.

            - Estou feliz por poder ajudar.

            Ferdinand encontrou uma caixa de papelão amassada que, por algum motivo, havia sido forrada com papel lami­nado. Steve não queria saber por quê.

            - Agora - disse o homem, olhando para cima -, aproxime-se daqui.

            Steve rodou a cadeira para perto da guilhotina.

            - Você consegue abaixar-se ou...

            - Eu posso fazer isso sozinho - disse Steve -, mas o ser­viço de assistência ao cliente está sendo precário se eu tiver de...

            - Vou buscar ajuda.

            - Não! Eu me posiciono sozinho, assim que disser minhas últimas palavras.

            - Ah, sim, suas últimas palavras. Chegou a hora. À von­tade.

            - Elas serão gravadas?

            O homem assentiu com a cabeça.

            - Bem, então...

            Steve virou um pouco o corpo para encarar os que estavam na fila para receber a marca de lealdade. Todos desviaram os olhos, mas ele notou um ar de expectativa em seus rostos, como se estivessem aguardando o privilégio de presenciar a cena.