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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O RETORNO A DEL / Emily Rodda
O RETORNO A DEL / Emily Rodda

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

Lief, Barda e Jasmine recuperaram as sete pedras perdidas do mágico Cinturão de Deltora. Agora precisam encontrar o herdeiro do trono de Deltora, pois o perverso Senhor das Sombras somente poderá ser derrotado e o reino libertado quando o Cinturão estiver em poder de seu herdeiro legítimo.

Os pais de Lief, aprisionados em Del, haviam contado ao filho que, para ajudarem o rei Endon e a rainha Sharn a escapar da cidade quando o Senhor das Sombras assumiu o poder do reino há mais de dezesseis anos, planejaram esconder o casal real e seu futuro filho. Contudo, os companheiros de Lief descobriram que esse plano havia fracassado quando o povo mágico de Tora quebrou seu antigo juramento de lealdade e se recusou a oferecer-lhes refúgio. Os toranos foram banidos para o Vale dos Perdidos e o paradeiro da família real é ignorado.

Perdição, o sombrio, misterioso líder da Resistência, partiu irado quando os companheiros se recusaram a seguir o conselho de se manterem afastados do Vale dos Perdidos. Dain, um jovem da mesma idade de Lief, integrante da Resistência, acompanhou-o relutante. Agora, o Vale foi libertado de seu encantamento maligno, mas Lief, Barda e Jasmine não sabem para onde ir. Eles precisam encontrar o herdeiro, mas não sabem como. E os servos do Senhor das Sombras — os Guardas Cinzentos, os terríveis Ols, capazes de mudar a aparência, e imensos pássaros semelhantes a abutres chamados Ak-Baba — estão à procura deles.

 

 

 

 

 

 

O Cinturão de Deltora estava completo. Sete pedras preciosas brilhavam outra vez nos reluzentes medalhões de aço. Ele era perfeito. No entanto...

Lief olhou para Barda e Jasmine, que caminhavam a seu lado pela maravilhosa planície iluminada pelo sol, que já fora o Vale dos Perdidos. No céu azul que se estendia sobre eles, Kree planava ao lado de companheiros da mesma espécie. Muitos pássaros haviam retornado ao vale desde que a névoa maligna se dissipara, o povo exilado de Tora fora libertado de seus mortos-vivos e o perverso Guardião havia retornado à sua antiga personalidade, o eremita Fardeep.

Os três companheiros haviam triunfado, mas agora tinham de enfrentar o fato de que, a menos que encontrassem o herdeiro do trono de Deltora, todos os seus esforços teriam sido em vão. Eles tinham acreditado que o Cinturão os conduziria ao herdeiro, mas até aquele momento não havia sinal dele.

Com um suspiro, Lief abriu o pequeno livro azul que levava consigo. Aquela cópia era uma das poucas coisas que haviam sobrevivido à destruição do palácio do Guardião. E por quê? Lief se perguntou. Talvez encerrasse a chave do mistério... Mais uma vez, ele olhou para as palavras que lera tantas vezes.

Cada pedra encerra a própria magia, mas juntas as sete criam um encantamento que é muito mais poderoso do que a soma das partes. Somente o Cinturão de Deltora, completo como quando foi fabricado por Adin e usado por um de seus legítimos herdeiros, tem o poder de derrotar o inimigo.

— Reler as palavras não vai mudá-las, Lief — murmurou Jasmine. — Precisamos encontrar o herdeiro... e depressa!

Ela colheu uma fruta silvestre e a deu a Filli. Muitas outras criaturinhas peludas agora enchiam o vale, mas todas eram maiores do que o pequeno Filli, que timidamente ficava no ombro de Jasmine, espiando ao redor com olhos maravilhados.

— Se ao menos soubéssemos onde procurar! — remexeu-se Barda inquieto. — Não podemos mais ficar aqui, esperando um sinal. A qualquer momento... — ele olhou para o céu e a expressão de seu rosto mudou, exibindo uma repentina preocupação. Lief também olhou para o alto e ficou assustado ao verificar que, onde momentos antes havia um céu azul e límpido, agora se formava uma densa neblina. Os pássaros descreviam círculos, grasnando...

Sem perda de tempo, Jasmine chamou Kree, que se afastou do grupo e desceu como um raio em sua direção. No mesmo momento, Lief viu Fardeep aproximar-se acompanhado por dois toranos: Peel, um homem alto e barbado, e Zeean, a velha senhora de costas eretas que vestia uma túnica escarlate.

— Não temam! — Fardeep avisou. — Os toranos estão tecendo um véu de nuvens para esconder o vale outra vez. O Senhor das Sombras não deve descobrir que estamos livres.

— Mas e os animais? — preocupou-se Jasmine.

— A nossa névoa não irá prejudicá-los, pequena — Zeean a tranqüilizou com um sorriso. — Ela é leve e doce. Agora que a nossa magia retornou, podemos fazer muitas coisas.

— Exceto o que mais desejamos — ajuntou Peel ponderadamente.

— Exceto voltar para Tora.

É verdade. — O olhar de Zeean voltou-se para Lief, Barda e Jasmine. — E, no entanto, tínhamos esperanças...

Lief olhou rapidamente para o eremita.

— Fardeep nada disse, Lief — Zeean informou. — Mas nos lembramos do que vimos exatamente antes de o vale mudar. Você está carregando um objeto precioso, um objeto que pode nos salvar a todos. No entanto, sentimos que você está preocupado. Podemos ajudar?

Lief hesitou. O hábito de manter segredo continuava forte, mas talvez, de fato, os toranos pudessem ajudar. Barda e Jasmine mostravam-se irrequietos, e Lief soube que eles também tinham o desejo de confiar.

— Fique sabendo que contar algo a um torano é o mesmo que contar a todos — Zeean disse com suavidade. — Não temos segredos entre nós. Mas esse é o nosso ponto forte. Acumulamos muito conhecimento e nossas lembranças remontam a muitos anos.

Lief tocou o Cinturão que pesava sob sua camisa. Mas, antes que pudesse responder, os corpos de Zeean e Peel enrijeceram.

— Há estranhos entrando no vale! — sussurrou Peel. — Estão andando depressa junto do córrego.

— Amigos? — indagou Fardeep ansioso.

— Não sabemos. Geralmente conseguimos pressentir a presença daqueles que mudam a forma, os Ols, e também de outros seres malignos. Mas essas mentes estão fechadas para nós.

A claridade diminuiu quando a neblina ficou mais espessa. Lief tomou uma decisão.

— Vamos encontrá-los. E conversaremos no caminho.

E assim, caminhando sobre a relva verde do vale, os companheiros contaram o segredo que haviam guardado por tanto tempo. Era estranho proferir aquelas palavras em voz alta. Mas Lief não teve receio quando os toranos viram o Cinturão.

— A ametista — Zeean sussurrou, tocando levemente a pedra roxa.

— A pedra de Tora, símbolo da verdade.

— A pedra de Tora? Como assim? — exclamou Jasmine.

— Ora, os toranos faziam parte de uma das sete tribos que ofereceram os seus talismãs a Adin quando o Cinturão de Deltora foi criado — Zeean contou.

— Certamente esse é o motivo pelo qual a ametista se encontrava no Labirinto da Besta, tão próximo a Tora — acrescentou Peel. — Uma vez tirada do Cinturão, a pedra desejou voltar a seu lugar de origem. Até onde pôde, influenciou a vontade do Ak-Baba que a carregava. Talvez...

Duas pessoas viraram a curva próxima ao riacho. Um deles gritou e se pôs a correr. Perplexo, Lief constatou que se tratava de Dain e que o homem que o acompanhava era Perdição.

— Dain! — Perdição chamou. O rapaz olhou para trás com uma expressão de culpa, tropeçou e diminuiu o passo.

— Ora, esse garoto é muito parecido com um de nós — Zeean comentou. — Os cabelos, os olhos...

— A mãe de Dain tinha sangue torano — revelou Lief. — Os pais dele foram levados pelos Guardas Cinzentos há um ano. Agora ele trabalha com Perdição, na Resistência.

Ambos os visitantes estavam agora parados, muito quietos. Perdição observou a nuvem que pairava sobre sua cabeça.

— Está tudo bem, Perdição — avisou Fardeep. — Os seus amigos estão em segurança. A névoa serve apenas para a nossa proteção.

Cautelosamente, Perdição se aproximou. Ele sondou o rosto de Fardeep e sua expressão endureceu.

— Você! — rosnou ele, tocando a espada.

— Não ! — exclamou Lief. — Perdição, este é Fardeep. Ele não é mais o Guardião, nosso inimigo.

Pela primeira vez desde que Lief conhecera Perdição, este pareceu desconcertado.

— Você tem muitas explicações a dar — balbuciou ele.

— E você, também — ajuntou Barda bruscamente. — Por que guardou para si mesmo o que sabia sobre este lugar?

— Eu os alertei sobre o Vale dos Perdidos com todos os meus argumentos! — Perdição vociferou, recobrando um pouco da velha atitude. — Teria adiantado contar que eu tinha estado aqui? Não acredito! Vocês teriam concluído que, se eu tinha conseguido escapar, vocês também conseguiriam.

— Talvez — disparou Jasmine. — Mas você leva esse sua fixação pelo segredo longe demais, Perdição! Por que não disse que achava que o Guardião era o rei Endon?

Ignorando o sufocado grito de horror de Dain, Perdição sorriu tristemente.

— Até mesmo eu alimento alguns bons sentimentos. Quando deixei este vale amaldiçoado, jurei que por meus lábios o meu povo nunca saberia em que o seu rei tinha se transformado. Eles já sofreram bastante. Era muito melhor, pensei, deixá-los acreditar que ele estava morto.

— E assim você fez o jogo do Senhor das Sombras — afirmou Lief com calma. — Ele quer que o rei seja esquecido para que o controle sobre Deltora nunca possa ser tomado de suas mãos.

Perdição recuou como se tivesse recebido uma bofetada. Lentamente, ele esfregava a testa com as costas da mão, ocultando os olhos. Dain tinha os olhos parados, o rosto totalmente inexpressivo. Mas a Lief pareceu que por trás da aparente máscara de tranqüilidade havia sentimentos conflitantes.

Após um longo momento, Perdição baixou a mão e olhou diretamente para Lief, Barda e Jasmine.

— Acho que sei por que vieram até aqui. Devo concluir que vocês obtiveram êxito em sua busca?

Os companheiros permaneceram em silêncio.

— Talvez vocês sejam sensatos em não confiar em mim — disse ele com amargura, e uma sombra cruzou-lhe a face. — Talvez, em seu lugar, eu fizesse o mesmo — ele deu meia-volta. — Venha, Dain — ordenou ao rapaz que permanecia imóvel ao lado dele. — Não somos necessários aqui. Ou queridos, pelo que parece.

— Espere! — gritou Zeean, dando um passo à frente. Perdição voltou-se, a expressão séria.

— Não podemos nos dar ao luxo de alimentar suspeitas e rivalidades neste momento — disse a mulher, o corpo muito ereto. — Unidos, na época de Adin, expulsamos o Senhor das Sombras e suas abomináveis hordas de nossas terras. Unidos, podemos fazê-lo agora.

Ela se voltou para Lief, Barda e Jasmine.

— A época de segredos entre amigos ficou no passado — disse com firmeza. — Vocês estão sendo caçados e não sabem qual deve ser o seu próximo passo. Precisamos dos talentos e da experiência de todos que estão envolvidos com nossa causa. Agora, finalmente, é momento de confiarmos uns nos outros.

O grupo retornou à clareira ao lado da cabana de Fardeep. Ali, enquanto abelhas zumbiam entre as flores e o sol mergulhava no céu, a história foi contada mais uma vez. Quando, finalmente, Lief mostrou o Cinturão, Dain abafou uma exclamação e recuou trêmulo.

— Eu sabia que vocês tinham um objetivo poderoso — sussurrou. — Eu sabia!

Lief, porém, observava Perdição. A expressão do homem não mudara. O que ele estaria pensado?

— Parte do que vocês me contaram, eu já imaginava — disse ele por fim. — Ninguém que viajou por essas terras, como eu, poderia ter deixado de ouvir a lenda do Cinturão de Deltora. Cheguei a acreditar que vocês o estavam procurando, mas não tinha idéia se seus motivos eram bons ou maus.

O rosto de Perdição endureceu.

— Lamento ter suspeitado de que vocês estivessem trabalhando contra a nossa causa. Mas... — ele correu as mãos magras e morenas pelos cabelos emaranhados. — Será verdade que essa... essa lenda que se transformou em realidade... pode ajudar Deltora? Talvez, há muito tempo, nos anos que estão ocultos nas sombras de minha memória, eu tivesse aceitado tal história. Mas agora...

— Você deve acreditar! — explodiu Jasmine. — O próprio Senhor das Sombras teme o Cinturão. É por esse motivo que as pedras foram roubadas e escondidas, para começar.

— Quantas pedras o Senhor das Sombras sabe que vocês têm? — indagou Perdição pensativo.

— Temos grandes esperanças de que ele acredite que ainda estamos para chegar à Montanha do Medo, ao Labirinto da Besta e a este vale — respondeu Lief.

— Esperanças não servem como base para um planejamento — Perdição retrucou áspero.

Lief sentiu uma onda de irritação. E não apenas ele.

— Sabemos disso tão bem quanto você, Perdição! — Jasmine exclamou zangada. — Ninguém teria mais prazer em receber certas informações do que nós.

Zeean olhou de um para outro, suspirando, e ergueu-se.

— Vamos descansar, agora — recomendou ela. — Nossas mentes estarão mais aguçadas pela manhã.

Quando ela e Peel deixaram a clareira lentamente, Perdição ergueu os ombros e foi até onde se encontravam os seus pertences. Dain correu atrás dele. Fardeep retornou à cabana para começar a preparar a refeição da noite.

— Perdição é um aliado desagradável — murmurou Barda. — Mas ele está certo em querer fatos em vez de esperanças.

— Então, nós vamos lhe dar fatos! — respondeu Jasmine irritada.

— Lief precisa usar o restante da água da Fonte dos Sonhos.

Lief assentiu devagar. Eles vinham guardando a água para quando fosse realmente necessária, e era evidente que esse momento havia chegado. Se ele visitasse o pai aprisionado novamente, o perverso Fallow poderia ir até a cela e, então, Lief poderia descobrir o que o Senhor das Sombras sabia. Mas e se Fallow não aparecesse?

Lief sentiu o coração confrangido ao constatar o que deveria ser feito. Ele não podia se arriscar a visitar o pai ou a mãe. Em vez disse, deveria usar a água mágica a fim de espiar o próprio Fallow.

 

Muito mais tarde, Lief achava-se imóvel na escuridão. Suas pálpebras estavam pesadas, mas a mente lutava contra o sono. Ele tinha medo do que poderia ver. Quem era Fallow? O que era ele? Lief pensava que sabia. As palavras que o ouvira dizer ao pai ecoavam em sua mente:

...quando uma pessoa morre, há sempre alguém para tomar o seu lugar. O Mestre gosta deste rosto e forma. Ele decidiu repeti-los em mim...

Quando as ouviu pela primeira vez, Lief não soube o que queriam dizer. Agora ele as entendia bem demais.

Fallow era um Ol e talvez, com quase toda a certeza, um dos Ols de Grau Três, dos quais Perdição ouvira falar nas Terras das Sombras. O triunfo da arte perversa do Senhor das Sombras, um Ol de tal modo perfeito, tão controlado, que ninguém poderia dizer que não era humano. Um Ol capaz de imitar objetos inanimados e seres vivos. Um Ol cuja maldade e poder superava tudo o que Lief podia imaginar.

Prandine, o conselheiro-chefe do rei Endon, tinha sido um deles, disso Lief tinha certeza. Fallow, feito à sua imagem, assumira o trabalho do Senhor das Sombras de onde Prandine o havia deixado.

Lief virou-se inquieto. A rainha Sharn havia matado Prandine, jogara-o da janela da torre do palácio para a morte. Isso significava que Ols de Grau Três pagavam um preço por sua perfeição. Eles morriam como seres humanos.

Ele fechou os olhos e obrigou a mente a se esvaziar. Chegara o momento de ceder à Água dos Sonhos, de visitar o mundo de Fallow.

Paredes brancas, duras e reluzentes. Um som gorgolejante e borbulhante. A um canto, um vulto alto e magro, Fallow, trêmulo sob uma chuva de luz esverdeada e nauseante, os braços ossudos estendidos para o alto. A boca abria-se como os maxilares de uma caveira, os cantos cobertos de espuma. Os olhos haviam rolado para trás de modo que somente o branco podia ser visto reluzente, horrível...

Lief abafou um grito de pavor, embora soubesse que não poderia ser ouvido. Ele sentia o estômago revirar, mas não conseguiu desviar o olhar.

Tump! Tump!

Lief teve um violento sobressalto quando ouviu o som, como se o forte pulsar de um coração reverberasse pelo aposento.

A luz verde desapareceu. Os longos braços de Fallow penderam e a cabeça tombou para a frente.

Tump! Tump!

Lief cobriu os ouvidos com as mãos, mas o som ainda vibrava por todo o seu corpo, enchendo-lhe a mente, fazendo seus dentes bater. Contudo, o ruído parecia atraí-lo, chamá-lo. Ansioso, ele examinou o aposento, tentando descobrir de onde vinha.

E então ele a viu. Havia uma pequena mesa no centro do aposento. Uma mesa parecida com tantas outras, exceto pelo fato de que a superfície de vidro era grossa, curva e se movimentava como água agitada. Lief sentiu-se atraído para ela. A necessidade de olhar para a superfície em movimento, de responder ao chamado era irresistível.

Fallow ofegante estava saindo do canto aos tropeços e apanhou um pano de dentro da manga. Enxugou o rosto depressa, cambaleou até a mesa e inclinou-se sobre ela, fitando a sua superfície encrespada.

O som vibrante diminuiu aos poucos. As ondulações ficaram enfumaçadas e foram cercadas por uma borda vermelha. No centro do cinza e do vermelho, havia uma escuridão vazia.

Fallow inclinou-se mais ainda. Uma voz sussurrou da escuridão mortalmente calma.

— Fallow.

— Sim, Mestre. — Fallow tremia, a boca ainda manchada de espuma seca.

— Você está abusando de minha confiança?

— Não, Mestre.

— Você recebeu o Lumin para o seu prazer no exílio. Mas, se negligenciar os seus deveres por causa dele, ele lhe será tirado.

Os olhos de Fallow dispararam para o canto em que a luz verde caíra há pouco e então virou-se novamente para a superfície da mesa.

— Não estou negligenciando meus deveres, Mestre — choramingou.

— Então, que novidades tem para mim? O ferreiro confessou, finalmente?

Com o coração confrangido, Lief juntou as mãos e pressionou-as sobre o peito aterrorizado.

— Não, Mestre — respondeu Fallow. — Acho...

— Há alguém com você, escravo? — a voz sussurrou de repente. Aturdido, Fallow virou-se e examinou o aposento. Seus olhos opacos passaram por Lief, em pé atrás dele, imóvel, sem pestanejar.

— Não, Mestre — ele murmurou. — Como poderia haver? Conforme ordenou, ninguém entra neste quarto além de mim.

— Eu senti... algo. — A escuridão no centro das sombras em movimento se intensificou, como a pupila de um olho gigante.

Lief ficou imóvel como uma estátua, tentando manter a mente livre de pensamentos, prendendo a respiração. O Senhor das Sombras podia sentir a sua presença. Aquela mente perversa estava esquadrinhando a sala, tentando encontrá-lo. Lief podia sentir-lhe a hostilidade.

— Não... não há ninguém aqui. — Era estranho ver Fallow encolhendo-se de medo, os lábios cruéis tremendo.

— Muito bem. Continue.

— Começo a acreditar que o ferreiro realmente não sabe de nada — Fallow balbuciou. — Fome e tortura não o atingiram. Nem mesmo a ameaça de matar ou cegar a mulher o fizeram falar.

— E ela?

— Ela, com certeza, é mais forte do que o marido. Ela profere insultos aos torturadores, mas não diz nada de útil.

Sua mãe. Lief sentiu as lágrimas escorrerem-lhe pelo rosto. Não ousou se mover para secá-las. Ele continuou parado, rígido, tentando conservar mente e coração dissociados.

— Então eles o fizeram de bobo, Fallow — sussurrou a voz vinda da escuridão. — Pois eles são os culpados... culpados de tudo que suspeitávamos. Não há dúvidas de que o filho deles é um dos três.

— O filho está com o rei? — indagou Fallow boquiaberto. — Mas o ferreiro riu quando sugeri isso. Riu! E eu poderia jurar que aquele riso foi real.

— E foi. O homem que está viajando com o rapaz não é Endon, mas um guarda do palácio chamado Barda. Certamente, Jarred divertiu-se com seu erro.

— Ele pagará por isso! — vociferou Fallow, o rosto retorcido pela ira.

— E a mulher também. Eles desejarão nunca ter nascido. Eu vou...

— Você não vai fazer nada! — O sussurro foi gélido, e Fallow ficou rigidamente imóvel.

— Talvez você tenha vivido tempo demais entre os camponeses, Fallow, e começa a pensar como eles. Ou talvez o uso excessivo de Lumin que recebeu de minhas próprias mãos tenha enfraquecido o seu cérebro.

— Não, Mestre, não!

— Então, ouça. Você é minha criação, cujo objetivo é cumprir a minha vontade. Faça exatamente o que lhe digo. Mantenha o ferreiro e a mulher em segurança. Eu preciso deles. Enquanto estiverem vivos, eles podem ser usados contra o rapaz. Se estiverem mortos, não teremos nenhuma influência sobre ele.

— Seres com sua aparência...

— Ele está com o grande topázio. Os espíritos de seus desventurados mortos irão aparecer para ele no momento em que deixarem o mundo. Ols iguais a eles não enganarão o rapaz.

Seguiu-se um silêncio. E então Fallow tornou a falar.

— Posso perguntar onde os três estão agora, Mestre?

— Nós os perdemos de vista. Por ora.

— Mas pensei que o seu...

— Não pense no que não é da sua conta, Fallow! Curiosidade é para humanos, não para seres iguais a você. Está entendido?

— Sim, Mestre. Mas eu não estava perguntando por mim, mas só por causa da preocupação com os seus planos. Os três podem, por algum milagre, restaurar o Cinturão. E isso vai... desagradá-lo.

As palavras foram proferidas com humildade, porém Lief acreditou ter visto uma pequena faísca de rebeldia nos olhos baixos.

É possível que o Senhor das Sombras também a tenha notado, pois a borda vermelha que circundava a massa cinzenta que não parava de girar pareceu alargar-se, e um tom astuto se fez sentir em sua voz.

— Eu tenho muitos planos, Fallow. Se um deles falhar, outro terá êxito. Se você cumprir minhas ordens à risca, cedo ou tarde ficará livre para se divertir à vontade com os pais do rapaz. E, quanto a Endon, se ele ao menos parasse de tremer de medo e rastejasse para fora de seu esconderijo...

Um calafrio percorreu o corpo de Lief.

— E os três? — Fallow perguntou ávido.

Ouviu-se uma gargalhada longa e baixa. As espirais vermelhas escureceram até atingir um tom escarlate.

— Ah, não. Os três, Fallow, serão meus.

Lief despertou, o coração aos saltos, o estômago dolorido. Tinha um gosto amargo na boca, o gosto do medo e do sofrimento.

Ele não sabia ao certo quanto tempo havia dormido. A luz da Lua ainda se insinuava palidamente por entre a nuvem torana, inundando a clareira com seu brilho suave e misterioso. Lief obrigou-se a ficar deitado, quieto até que o martelar de seu coração tivesse se acalmado. Então, em silêncio, a fim de não acordar os demais, ele acordou Barda e Jasmine.

Com a facilidade causada pela longa prática, eles despertaram de imediato, vigilantes e atentos, as mãos nas armas.

— Não! Não há perigo — sussurrou Lief. — Sinto perturbar seu descanso, mas tinha de falar com vocês.

— Descobriu alguma coisa! — Jasmine falou em voz baixa, sentando-se.

Lief assentiu. Olhou para onde Perdição e Dain estavam deitados e, baixando ainda mais a voz, contou o que tinha visto e ouvido. Ele se obrigou a contar tudo, mordendo o lábio para evitar o tremor da voz.

Os seus companheiros ouviram em silêncio até o final.

— Então, ele espera que caiamos em suas mãos — murmurou Barda. — Vamos cuidar disso!

Lief olhou para ele. Os punhos do homenzarrão estavam fechados e a expressão estava tomada pelo sofrimento e pela raiva. Jasmine pousou a mão no braço de Lief.

— Pelo menos, sabemos que, por enquanto, os seus pais estão em segurança — confortou ela com suavidade. — E Perdição pode parar com suas zombarias. Nós estávamos certos. O Senhor das Sombras não tem certeza de onde estamos.

— E é evidente que também não sabe do paradeiro de Endon, Sharn e o filho — completou Barda. — Ele acha que nós o levaremos ao esconderijo do herdeiro.

— E talvez façamos isso mesmo — falou Lief baixinho, sentindo um frio no estômago. — Vocês não percebem o que mais descobrimos?

Os dois amigos o fitaram sem entender. Ele engoliu o mal-estar e prosseguiu.

— O Senhor das Sombras descobriu quem você realmente é, Barda. E ele também sabe o meu nome. Como pode ser? A menos...

— A menos que alguém na fortaleza da Resistência seja um espião! — sussurrou Jasmine de repente se dando conta da verdade. — Pois foi na fortaleza que o nome de Barda foi revelado a todos por aquele acrobata, Jinks. E, com certeza, Dain contou o nome de Lief e o meu enquanto estávamos presos. Ele não deve ter visto nenhum mal nisso.

— E alguém... — continuou Lief, mordendo o lábio — alguém na fortaleza fez contato com o Senhor das Sombras. Dain nos contou que Perdição suspeitava da presença de um espião na Resistência. Eis aí a prova.

— Glock! — Jasmine sussurrou com ódio.

— Ou o próprio Jinks — tornou Barda. — Pode ser qualquer um.

— Sim — Lief concordou, olhando novamente para as figuras adormecidas de Dain e Perdição. — Pode mesmo ser qualquer um.

 

Sem fazer ruído, os companheiros reuniram os seus pertences e esgueiraram-se para fora da clareira. Momentos depois já estavam caminhando ao longo do riacho em direção à saída do vale. Eles sabiam que seria tolice tentar fugir escalando o penhasco. As encostas cobertas de pedras soltas eram íngremes e escorregadias demais.

Estava frio e escuro sob as árvores. Havia toranos adormecidos por todo lado, em abrigos improvisados.

"O que eles pensarão quando acordarem e descobrirem que partimos?", pensou Lief. Contudo, ele e os companheiros não tinham outra escolha senão fugir. Ao seguirem o conselho bem-intencionado de Zeean, eles haviam revelado seu precioso segredo a duas pessoas cuja amizade agora estava longe de ser digna de confiança.

Lief lamentou amargamente não ter sido mais prudente.

"Não sabemos", Zeean havia sussurrado quando Fardeep havia perguntado se os visitantes do vale eram amigos ou inimigos.

Por que os toranos não podiam afirmar se Dain e Perdição eram pessoas de boas ou más intenções? Certamente porque um ou ambos tinham experiência em ocultar o que lhes passava na mente. Esse poderia ser um hábito totalmente inocente ou...

"Eu tenho muitos planos..."

O sussurro maligno girava na mente de Lief como uma névoa nociva.

Ele olhou para a frente e se deu conta de que chegavam à saída do vale. O espaço que os separava dos penhascos rochosos diminuía rapidamente. Eles se aproximavam da passagem estreita pela qual Perdição e Dain tinham chegado.

— Há algo atravessado na entrada do vale — sussurrou Jasmine. — Alguma coisa está bloqueando a passagem.

E, de fato, Lief também pôde ver um objeto enorme caído sobre o riacho. Quando se aproximou devagar, ele viu que se tratava de uma carroça. No banco do condutor, enrolado em um cobertor, estava um homem, roncando suavemente.

— Steven — Barda sussurrou. — Ele deve ter vindo com Dain e Perdição. Sem dúvida, ele vai segui-los até o vale se não retornarem dentro de um determinado prazo.

A carroça agigantava-se diante deles. As portas traseiras estavam pressionadas fortemente contra a parede rochosa. Eles teriam de passar pela outra extremidade, bem diante do nariz de Steven. Mas ele ainda roncava suavemente debaixo do cobertor e dificilmente despertaria.

Eles começaram a avançar. Um passo, dois...

Três passos, quatro...

O ronco cessou. Lief olhou para o vulto deitado sobre o banco. Ele estava em silêncio e absolutamente imóvel. Imóvel demais.

O coração de Lief pareceu congelar. Então, de repente, ouviu-se um terrível rugido, e o cobertor começou a se erguer como se o corpo em seu interior estivesse inchando e dobrando de tamanho.

— Aqui! — Uma voz vinda das árvores cortou o ar. Lief virou-se e viu Perdição acenando para eles.

No banco da carroça, algo rosnou como se fosse um imenso animal. A respiração quente e pesada ficou cada vez mais alta...

— Nevets, volte! — Perdição ordenou. — Sou eu, Perdição! Não há perigo! — Ele empurrou Lief, Barda e Jasmine bruscamente para trás das árvores e ficou em frente deles.

— Não há perigo! — gritou ele novamente.

Lentamente, os rugidos diminuíram. E, quando Lief conseguiu fixar os olhos na carroça outra vez, o vulto sob o cobertor havia retomado o tamanho normal. Enquanto ele olhava, o homem se virou para o lado como se estivesse se ajeitando para dormir novamente.

Perdição começou a empurrar os companheiros de volta pelo caminho por onde tinham vindo.

— Que tipo de jogo vocês acham que estão jogando? — sussurrou ele furioso. — Vocês querem morrer? Se eu não tivesse acordado e descoberto que tinham partido...

— Como iríamos saber que você tinha colocado o seu monstro de estimação para vigiar o vale? — devolveu Jasmine furiosa.

— E não somos livres para fazer o que queremos? — Lief fervia de raiva e medo.

Os olhos de Perdição se apertaram, então, ele se virou e começou a caminhar de volta ao riacho.

— Sugiro que vocês fiquem no vale por enquanto — disse ele sobre o ombro. — Nem mesmo eu me arriscaria a perturbar Steven outra vez durante uma hora ou duas. E Zeean e Peel estão muito ansiosos para vê-los. Parece que eles têm algo a lhes dizer.

O dia estava amanhecendo quando os companheiros voltaram à clareira. Zeean, Peel, Fardeep e Dain estavam reunidos ao redor de uma pequena fogueira e saboreavam um café da manhã composto de bolinhos quentes cobertos com mel das colméias de Fardeep. Todos ergueram o olhar quando os companheiros se aproximaram com Perdição, mas não fizeram perguntas.

"Talvez eles saibam que não receberão nenhuma resposta", pensou

Lief, sentando-se perto do fogo com Barda e Jasmine. Ele sentiu um misto de emoções: ressentimento por ter sido obrigado a voltar, curiosidade por aquilo que os toranos tinham a dizer, frustração diante do pensamento de que tudo o que fosse dito seria ouvido por Perdição e também por Dain. No entanto, Perdição os salvara de Nevets. Isso não significava que...

— Que bom que vocês voltaram — Zeean disse, empurrando o prato de bolinhos na direção dos recém-chegados. — Tivemos uma idéia que queremos discutir com vocês.

Ela fez uma pausa e franziu o cenho ao notar que Barda, Lief e Jasmine olharam para Perdição e Dain.

Lief agarrou o Cinturão que lhe rodeava a cintura. A calma da ametista e a força do diamante o invadiram. E, de repente, ele soube o que tinha de ser feito. Ele e os companheiros deveriam agir como se não alimentassem dúvidas a respeito dos aliados. Porém as informações que haviam obtido por meio do sonho deveriam ser mantidas em segredo a todo custo, pois elas eram o que de mais poderoso possuíam.

Ele sorriu para Zeean e apanhou um bolinho, aparentando despreocupação.

— O seu pai lhe contou que o Cinturão o conduziria até o herdeiro, Lief. Mas o seu pai sabe apenas o que leu. E talvez isso não seja tudo o que vocês precisem saber.

— O que quer dizer com isso? — Lief indagou sério. Ele deu uma mordida no bolinho, que estava quente e doce e se desfez em sua boca.

— O livro 0 Cinturão de Deltora é uma obra de ficção, não de aconselhamento — Peel afirmou ansioso. — O escritor não podia prever que um dia as pedras seriam arrancadas do Cinturão e não poderia saber o que fazer nessa situação.

— O Cinturão é um objeto dotado de grande mistério e magia — Zeean acrescentou. — As pedras foram recuperadas, mas talvez isso não seja o bastante.

Eles ouviram um som abafado vindo da extremidade do grupo. Dain inclinava-se para a frente como se quisesse falar.

— Dain? — Zeean chamou.

O rapaz corou como sempre ocorria quando a atenção se voltava para ele.

— Eu estava pensando... na história de como o Cinturão foi feito — balbuciou. — E no que aconteceu depois.

Ele ficou em silêncio, olhando nervosamente para Perdição, que nada disse.

— E...? — Zeean encorajou. Os olhos dela denotavam o seu interesse. A pele de Lief começou a formigar, pois, de alguma forma, ele sabia que estavam prestes a descobrir algo muito importante.

Lief apanhou sua cópia de O Cinturão de Deltora e folheou-o. Não demorou a encontrar o que procurava... as palavras que contavam como o ferreiro Adin convencera cada uma das sete tribos a permitir que a sua pedra fosse adicionada ao Cinturão.

 

No início, as tribos se mostraram desconfiadas e cautelosas, mas, uma a uma, desesperadas para salvar suas terras, concordaram. Assim que cada pedra era colocada no Cinturão, a tribo ficava mais forte. Mas as pessoas mantiveram essa força em segredo e esperaram pelo momento certo.

 

Quando, finalmente, o Cinturão ficou completo, Adin o prendeu ao redor da cintura, e ele brilhou como o sol. Então, todas as tribos se uniram a Adin para formar um grande exército, e juntos expulsaram o inimigo de suas terras.

 

Lief leu o trecho devagar, em voz alta.

— A vitória dependeu não só do Cinturão, mas da união das sete tribos e da lealdade para com Adin — Peel disse devagar, quando a leitura terminou. — É nisso que você está pensando, Dain?

O rapaz assentiu. Perdição o fitou com curiosidade.

— Ora, você é um estudioso e tanto, Dain — ele comentou zombeteiro. — Como o filho de um fazendeiro aprendeu tanto sobre a história de Deltora?

Dain hesitou, mas não se deixaria intimidar.

— Os meus pais me ensinaram — disse com tranqüilidade. — Eles nunca perderam a esperança de que algum dia Deltora seria libertada. Eles disseram que essa história não deveria ser esquecida.

Perdição deu de ombros e se virou, mas Lief imaginou ter visto um brilho diferente nos olhos escuros. Seria raiva? Arrependimento? Ou alguma outra coisa?

— Seus pais eram pessoas sábias, Dain — Zeean disse. — Sua mãe tinha sangue torano, não é mesmo? Como ela se chamava?

Dain pareceu estremecer.

— Ela se chama Rhans — ele disse tão baixo que Lief mal pôde escutar. — No presente, não no passado. Por que fala como se ela tivesse morrido?

— Eu sinto muito — Zeean se desculpou perturbada. — Não quis...

— Então as sete tribos se uniram a Adin e o Cinturão — rosnou Barda. — Que importância tem isso para nós?

— Quem sabe? — Perdição murmurou. Ele se ergueu e afastou-se um pouco do grupo, voltando-me as costas. Dain olhou para Lief desesperado.

— Você certamente recebeu ajuda em sua jornada, Lief — disse ele em voz baixa. — Em toda Deltora, você conheceu pessoas dispostas a desafiar o Senhor das Sombras. Tenho certeza de que elas o ajudarão novamente. Eles o ajudarão a... — ele olhou de relance para Perdição e, novamente, sua voz pareceu falhar.

— Acho que Dain acredita que a união de Deltora faz parte da magia do Cinturão — comentou Lief, respirando fundo. — Dain acha que devemos reunir as sete tribos mais uma vez.

 

Jasmine foi a primeira a romper o silêncio.

— Mas as sete tribos existiram antigamente, pelo menos, foi isso que me contaram. É provável que elas tenham desaparecido há muito.

— Não, elas não desapareceram — Zeean contou. — Certamente, muitos em Deltora não saberiam dizer de que tribo descendem. A tribo de Del, cuja pedra era o topázio, espalhou-se por todo o reino. O mesmo aconteceu com outras tribos.

— Mas algumas permaneceram unidas — ajuntou Peel. — Os toranos, por exemplo. E os Gnomos do Medo.

— Os Gnomos do Medo eram uma das sete? — O coração de Lief começou a bater forte.

— Isso mesmo — Zeean assentiu. — A grande esmeralda era o talismã dos gnomos.

Lief sacudiu a cabeça atônito. Fa-Glin e Gla-Thon nada disseram a esse respeito. Será que desconheciam o fato? Ou eles simplesmente decidiram manter segredo até que chegasse o momento adequado?

Lief procurou o presente de despedida dos gnomos em seu bolso, apanhou a pequena caixa feita com madeira Boolong e a abriu.

— Se mandarmos este sinal, os gnomos virão — disse ele em voz baixa, enquanto todos fitavam admirados a ponta da flecha dourada.

— Vocês realmente têm amigos poderosos — sussurrou Peel.

— Já temos três tribos — ajuntou Fardeep com satisfação. — E as outras?

— Os Ralads são uma raça antiga! — Barda exclamou. — Será que eles, talvez...

— Sim — Zeean concordou. — Vocês os conhecem?

— Um deles, Manus, nos ajudou a encontrar o rubi no Lago das Lágrimas — contou Barda. — O rubi deve ter sido a pedra dos Ralads.

Lief remexeu o bolso mais uma vez, desta vez à procura de lápis e papel.

— E o povo de D'Or? — Jasmine indagou.

— Seus ancestrais chegaram a Deltora vindos do outro lado do oceano — disse Perdição por sobre o ombro. — Isso foi há muito tempo, mas depois da época de Adin e das sete tribos.

"Então ele está ouvindo, afinal", pensou Lief acrescentando a informação à lista que começara a fazer. "Ele finge mostrar que isso é tolice, mas não consegue se afastar."

— O povo das Planícies fazia parte de outra tribo — contou Zeean. — A pedra deles é a opala. E havia a tribo dos Meres na parte superior do Rio Largo, e além...

— Cujo talismã era o lápis-lazúli! — interrompeu Lief ainda escrevendo.

— A última das sete tribos, os Jalis — Zeean prosseguiu assentindo -vivia nessa região. Eles eram a mais selvagem de todas e eram grandes guerreiros. A pedra deles era o diamante.

Lief mostrou a lista.

 

 

Tribo

Pedra

 

Onde foi encontrada

1. Del

Topázio (lealdade)

 

Florestas do Silêncio

2. Ralads

Rubi (felicidade)

 

Lago das Lágrimas

3. Planícies

Opala (esperança)

 

Cidade dos Ratos

4. Mere

Lápis-lazúli (pedra celestial)

 

Dunas

5. Gnomos do Medo

Esmeralda (honra)

 

Montanha do Medo

6. Tora

Ametista (verdade)

 

Labirinto da Besta

7. Jalis

Diamante (pureza e força)

 

Vale dos Perdidos

 

Eu senti que estávamos sendo guiados em toda nossa busca — contou Lief. — Agora tenho certeza disso. Nós conhecemos membros de todas as tribos.

— Exceto da última: os Jalis — ajuntou Jasmine. — Não vimos ninguém em nossa vinda para cá.

— Não havia ninguém para ser visto -respondeu Perdição, virando-se para eles. — Quando o Senhor das Sombras chegou, os Jalis defenderam as suas terras ferozmente. Mas mesmo eles não tiveram a menor chance contra os Guardas Cinzentos. Eles foram massacrados, nem as crianças foram poupadas. Somente algumas escaparam.

— Então você também sabe um pouco de história, Perdição — comentou Jasmine atrevida.

— O bastante para afirmar que, se vocês pretendem formar um exército com os Jalis, ficarão extremamente desapontados — Perdição retrucou, a expressão sombria.

— Não queremos exércitos — Zeean disse. — Exércitos seriam vistos e destruídos de imediato. Nós só precisamos que sete almas, descendentes genuínas das tribos que permitiram que os seus talismãs fossem reunidos para o bem de todos, coloquem as mãos no Cinturão e renovem o juramento de lealdade para com Deltora.

— Isso! — exclamou Lief, sentindo uma grande onda de esperança.

Dain nada disse, mas os seus olhos brilhavam.

— Temos toranos em abundância — disse Barda. — Lief e eu somos de Del. Conhecemos Ralads e Gnomos do Medo. Mas e quanto ao povo das Planícies? Os Meres? Isso sem falar...

— Eu pertenço à tribo dos Meres — Fardeep anunciou tranqüilo. Ele ergueu o queixo e todos os olhares se voltaram para ele. — Rithmere tem sido o lar de minha família desde antes dos tempos de Adin.

— E o povo das Planícies? — Peel perguntou.

— O povo de Noradz deve descender da tribo das Planícies — Jasmine murmurou. — Temos uma amiga entre eles... Tira.

— Tira certamente seria morta se tentasse escapar de Noradz — afirmou Barda com franqueza. — Dain? É possível que o seu pai descenda do povo das Planícies?

— Não — Dain respondeu com voz rouca. — A nossa fazenda ficava a leste, não muito longe daqui. Os parentes de meu pai eram de Del. Mas... — Ele lançou um olhar suplicante para Perdição. Este suspirou, retornou ao grupo e sentou-se com um gemido cansado.

— Você falou que o destino o guiou — ele disse a Lief. — Acho difícil acreditar nesse tipo de coisa. Mas, por acaso, há um descendente do povo das Planícies aqui perto. A família dele é... incomum, mas faz parte da tribo, com certeza. Sei que ele estaria disposto a ajudar. Ele... e o seu irmão.

— Steven? — perguntou Lief, o desânimo tomando conta dele.

— E Nevets. — O rosto de Perdição se iluminou com um sorriso zombeteiro. — Pois você não pode ter um sem o outro.

— Melhor ainda! — Fardeep exclamou animado.

Barda, Lief e Jasmine se entreolharam, pois não tinham muita certeza disso.

Contudo, Fardeep já falava novamente.

— Agora, só falta encontrarmos um descendente dos Jalis.

— Acho que você pode nos ajudar aqui — Zeean falou, voltando-se para Perdição. — Acho que a história dos Jalis lhe foi contada por alguém que você conhece. Um dos Jalis que escapou. Não é verdade?

— De fato, é, sim. — O sorriso de Perdição se alargou. — E, se vocês o querem, vocês o terão. Não tenho dúvidas de que ele vai animar os acontecimentos, quase tanto quanto Steven.

É mesmo? — Fardeep indagou radiante.

— Ah, sim. Ele é um camarada simpático — Perdição brincou. — Um cara simpático chamado Glock.

Barda, Lief e Jasmine deixaram escapar um grito de horror.

— Não podemos chamar Glock! — Jasmine disparou.

— Então, receio que não possamos ter um membro da tribo dos Jalis

— Perdição retrucou. — Glock é o único que conheci. Acho que os outros que escaparam já morreram. E essa também é a opinião de Glock.

— Então, seja qual for a atitude desse Glock, precisamos pedir-lhe que se junte a nós — Zeean concluiu com calma. — Onde ele está agora?

— Em Withick Mire, uma fortaleza da Resistência perto de Del

— Perdição informou, suspirando. Ele estava causando problemas onde estava antes. Withick Mire é menos... isolado.

— Então, temos sete pessoas — Zeean disse. — Agora, até mesmo você, Perdição, deve admitir que estamos sendo guiados.

As linhas no rosto duro de Perdição se aprofundaram. E ele pareceu chegar a uma decisão.

— Certa vez você falou que nós nos uniríamos para lutar por Deltora quando o momento certo chegasse — ele disse a Barda. — Parece que esse momento é agora. Talvez não da maneira que eu teria escolhido, mas...

— Talvez a gente nem queira a sua ajuda! — Jasmine disparou.

— Você já pensou nisso?

— Não posso dizer que pensei — murmurou Perdição. — Eu não acharia que vocês seriam tão tolos.

— De fato, não seríamos — replicou Barda, lançando a Jasmine um olhar carrancudo que a mandava calar-se.

A boca de Perdição torceu-se num sorriso estranho.

— Então, vamos fazer os nossos planos — disse ele. — Primeiro, precisamos enviar mensagens secretas para Raladin e a Montanha do Medo.

— Como? — Jasmine quis saber.

— Deixe isso comigo — ofereceu Perdição. — A Resistência também tem amigos úteis. Eu sugiro que o local da reunião seja Withick Mire.

Lief sentiu-se invadido pela inquietação. Por que Perdição os queria tão próximos de Del e de seu maior perigo?

"Porque Withick Mire é uma fortaleza da Resistência", a voz da suspeita sussurrou em sua mente. Porque ali, a palavra de Perdição é lei.

— Parece que todos esses esforços serão em vão se não conseguirmos encontrar o herdeiro — Perdição ajuntou, suspirando. — Portanto, quanto mais perto estivermos de seu possível esconderijo, melhor. Endon e Sharn viajaram de Del a Tora, mas eles não poderiam ter se afastado muito antes de receber a mensagem dos toranos recusando refúgio. Imagino que ela tenha sido mandada imediatamente.

Zeean e Peel assentiram, os rostos obscurecidos pela terrível lembrança do juramento quebrado de Tora. Contudo, Perdição não tinha tempo para emoções.

— O reino estava tomado pelo perigo — continuou ele. — A rainha esperava um filho. É muito provável, então, que o casal tivesse procurado refúgio nas redondezas, em algum lugar entre Del e o Vale dos Perdidos.

Um calafrio percorreu o corpo de Lief. A busca os tinha levado a descrever um enorme círculo e os trouxera de volta à área onde provavelmente se encontrava o herdeiro, em algum lugar a oeste de Del. Um local calmo, em que Endon e Sharn pudessem ter criado o filho sem ser notados.

Algo lhe remoía o fundo da memória. A recordação de algo que tinha ouvido, não muito tempo atrás. Mas ele não conseguia se lembrar...

— Certamente é melhor ficarmos aqui — Fardeep argumentava. — Se Lief, Barda e Jasmine saírem do esconderijo, eles chamarão a atenção do Senhor das Sombras.

— Podemos viajar escondidos na carroça de Steven — Jasmine sugeriu ansiosa para entrar em ação. — Além disso, apesar das dúvidas de Perdição, temos certeza de que as buscas do Senhor das Sombras estão concentradas no oeste.

— Talvez possamos nos garantir ainda mais. — Perdição foi até Peel. — Você tem quase a mesma altura e cor de pele de Barda. E entre o seu povo deve haver alguém que se pareça com esses dois jovens — ele disse, apontando para Lief e Jasmine.

Peel assentiu em silêncio, as sobrancelhas erguidas.

— Precisamos de iscas — Perdição explicou. — Que se exibam perto do rio Tor. Uma garota, um rapaz e um homem com um pássaro que voe ao lado deles. Steven pode fornecer roupas que...

— Não! É perigoso demais! — Jasmine exclamou.

— Será que somente vocês devem encarar o perigo? — Peel perguntou com delicadeza. — O plano é inteligente. E cabe aos toranos executá-lo. Se fomos obrigados a viver no exílio, podemos ao menos tentar reparar o grande erro que provocou essa situação.

— Um dia vocês poderão voltar a Tora — Lief gritou, o coração aos pedaços. — O perdão do herdeiro certamente derrubará a maldição.

— Talvez — Zeean disse séria, erguendo a cabeça. — Mas primeiro o herdeiro deve ser encontrado. E nós faremos nossa parte. — Ela olhou para Lief e Jasmine com cautela. — O seu amigo Steven não terá uma capa igual a essa — ela disse a Lief. — Esse tecido é muito raro, digno dos teares de Tora. Como a conseguiu?

— Minha mãe a teceu para mim — Lief tocou o tecido áspero do casaco.

Zeean ergueu as sobrancelhas surpresa, e Lief sentiu um misto de prazer e dor. Orgulho pelo trabalho da mãe. Medo por ela.

O resto do dia passou em meio a uma névoa. Quando Lief pensou nele depois, lembrou-se somente de algumas imagens:

Dain correndo para buscar Steven. Fardeep embalando comida. As faces ansiosas de Kris e Lauran, os jovens toranos escolhidos como iscas. Lauran com os sedosos cabelos sendo cacheados e emaranhados para ficarem parecidos com os de Jasmine. Os longos cabelos negros de Kris cortados do mesmo comprimento dos de Lief. A ponta da flecha dourada na palma da própria mão. Pássaros pretos esperando silenciosamente nas árvores.

E, então, a carroça de Steven rodando pelo vale. Steven assentindo, analisando a mensagem escrita por Barda. Steven sentado sozinho perto das colméias de Fardeep, murmurando e desenhando na terra. As abelhas deslocando-se pela névoa que cobria o topo das árvores e voando rapidamente na direção do Rio Largo...

Fim da tarde. Três pessoas movendo-se na clareira. Um homem grande barbado, um rapaz usando uma longa capa e uma garota de aspecto selvagem com um pássaro preto pousado no braço. Era como olhar no espelho. Perdição assentiu satisfeito. Zeean, muito orgulhosa e ereta, tinha os olhos escurecidos pelo medo. Peel, Kris e Lauran abraçavam os familiares antes de partir e iniciar a perigosa jornada...

Noite. O ar pesado, dificultando a respiração. O adormecer difícil e os sonhos. Sonhos sobre uma busca desesperada. Sobre pernas que não conseguiam correr. Sobre mãos atadas e olhos vendados. Sobre faces veladas e máscaras sorridentes que deslizavam para o lado e revelavam rostos horrivelmente desfigurados. E, estendendo-se sobre tudo, uma massa rastejante escarlate e cinzenta, o centro escuro pulsando perversamente.

Chamando-o.

 

A carroça sacolejava na estrada irregular. O seu interior estava escuro e abafado. Lief, Barda e Jasmine ficaram sentados, horas a fio, ouvindo o tilintar dos arreios, o ranger das rodas e o som de duas vozes que cantavam.

 

Estou espiando um

Ol-io Ol-io, Ol-io?

Olá, Ol-io cambaleante!

Você não me incomoda!

 

O grupo havia decidido que atrairiam muita atenção se viajassem todos juntos. Dain, Perdição, Fardeep e Zeean viajariam pelo interior.

— Steven e Nevets são mais do que capazes de defender vocês, se necessário — Perdição havia dito.

Lief tinha certeza de que era verdade. Ainda assim, sua pele se arrepiava ao pensar nos dois estranhos irmãos cantando juntos no banco do condutor na frente da carroça.

Barda, como soldado treinado que era, aproveitou a oportunidade para dormir. Encostado a uma pilha de tapetes, ele cochilou tão tranqüilamente quanto se estivesse numa cama confortável. Mas Jasmine estava bem desperta. Kree furioso encontrava-se pousado ao seu lado, as penas eriçadas. Filli dormia dentro de seu casaco. Ela fechou a cara quando as vozes se ergueram mais uma vez.

— Não há nada de errado em estar contente — ela murmurou. — Mas eles precisam cantar essas bobagens?

Lief assentiu, concordando. Apesar disso, ele se flagrou cantarolando os versos bobos.

 

Tempo de parar e tomar ar.

Ol-io, Ol-io

Árvores adiante, o céu está claro

Não há mais nenhum Ol-io!

 

Lief sentou-se ereto e arregalou os olhos. De repente, ele se deu conta de que a canção estava longe de não ter sentido. Steven estivera enviando-lhes mensagens o tempo todo!

— Logo poderemos sair e esticar as pernas — ele disse a Jasmine alegremente. — Há árvores adiante e nenhum sinal de Ols ou Ak-Babas.

Jasmine olhou-o fixamente, a expressão carrancuda se acentuando. Evidentemente, ela achou que ele estava endoidecendo.

Longe dali, uma mulher velha e rechonchuda, o rosto tão vermelho e enrugado quanto uma maçã murcha, estava inclinada sobre a água límpida. Ao redor de sua cabeça, fervilhava uma nuvem escura de abelhas.

A mulher ouvia atentamente. Enormes peixes prateados flutuavam na água debaixo dela. Bolhas saíam de suas bocas, formando estranhos desenhos na superfície.

Finalmente, a mulher endireitou o corpo e se virou, ajeitando os muitos xales nos ombros. As abelhas giravam diante dela. Os desenhos que elas formavam no ar imitavam os das bolhas que marcavam a água.

— Então, vocês aprenderam bem a lição — a mulher disse a elas — passada adiante por suas irmãs abelhas do sul aos peixes e agora para vocês. Podem ir, então!

E as abelhas partiram, uma flecha negra zunidora, levando a mensagem adiante.

Jinks saiu da fortaleza da Resistência no oeste e estremeceu sob o vento gelado. O céu estava límpido, exceto por um bando de aves negras, manchas pretas pintando o azul. Jinks protegeu os olhos com as mãos e os observou.

Pássaros? Ou Ols? Normalmente, Ols não voavam tão alto. Mas, por outro lado, o bando se dirigia para a Montanha do Medo. Que pássaro de verdade iria para lá?

De repente, Jinks viu uma pequena faísca no centro do bando, como se o sol tivesse atingido algum objeto de metal. Mas por que um Ol, ou um pássaro, principalmente, estaria carregando tal coisa?

Meus olhos estão me enganando. "Devo estar cansado", Jinks pensou. Bocejando, ele voltou para a caverna.

Tom, o comerciante, servia cerveja a Guardas Cinzentos na pequena taverna que mantinha ao lado da loja.

— Há muitos de vocês por aqui hoje — disse ele como quem não queria nada. — Alguns de seus colegas também passaram por aqui ontem.

Um dos guardas resmungou, apanhando a caneca cheia até a borda.

— Eles têm ordens de ir para o oeste — ele informou. — E muitos outros também. Nós devemos ficar no noroeste, o que é muito pior. Vamos perder toda a ação.

— Ação? — O rosto magro de Tom abriu-se num largo sorriso enquanto ele distribuía as canecas aos demais.

— Você fala demais, Teep 4 — grunhiu um segundo guarda.

— O velho Tom não é uma ameaça! — o comerciante se defendeu, erguendo as sobrancelhas. — Ele não passa de um pobre comerciante.

— E um pobre taverneiro também! — resmungou Teep 4. — Esta cerveja tem gosto de água suja.

Em meio às altas gargalhadas, a campainha da loja soou. Tom se desculpou, atravessou uma porta e fechou-a atrás de si. Um homem e uma mulher aguardavam no interior da loja, bem agasalhados contra o frio.

— Olá! O que posso fazer por vocês?

Sem dizer palavra, a mulher desenhou uma marca na poeira do balcão.

Tom apagou a marca casualmente ao apanhar um pacote debaixo do balcão.

— Acho que esta é a sua encomenda — disse ele. Entregou o pacote à mulher e, então, lançou um olhar rápido para a porta da taverna.

— Tenho novidades — ele murmurou. Os clientes inclinaram-se para a frente e ele começou a falar rapidamente.

No alto da Montanha do Medo, Gla-Thon viu um bando de pássaros pretos se aproximando e ajustou uma flecha em seu arco.

Os gnomos ainda colocavam garrafas de vidro cheias na base da montanha para serem levadas às Terras das Sombras pelos Guardas

Cinzentos. O fato de que o líquido das garrafas agora era água misturada à seiva de árvores Boolong, em vez do veneno mortal, era algo que os guardas só descobririam quando tentassem usar as bolhas fabricadas com ele.

Talvez, esse momento tivesse finalmente chegado. Talvez, os pássaros pretos fossem o primeiro sinal de que o Senhor das Sombras tinha descoberto a traição dos Gnomos do Medo.

"Nesse caso, estamos preparados", Gla-Thon pensou séria. Ela escutou um farfalhar às suas costas e virou-se bruscamente. Mas era somente Prin, a mais jovem dos Kin.

— Pássaros! — Prin se espantou. — Pássaros pretos...

— Eu os vi — Gla-Thon resmungou.

O bando estava se aproximando. A flecha de Gla-Thon retesou a corda do arco. Então um dos pássaros separou-se do grupo e mergulhou em sua direção, levando no bico um objeto que, ao sol, emitia um brilho dourado.

E, mesmo antes de o pássaro aterrissar, Gla-Thon estava gritando. Gritando que o sinal tinha chegado.

Manus ergueu a cabeça da tarefa que realizava nos canteiros de verduras de Raladin para espantar as moscas que se aglomeravam ao seu redor. E, então, algo lhe chamou a atenção.

Os insetos não eram realmente moscas, mas abelhas. O ar parecia tomado por elas. Enquanto Manus observava, estirando as costas doloridas, franziu a testa.

As abelhas estavam agindo de modo estranho. Elas não estavam adejando ao redor das flores, mas zunindo no ar. Elas estavam se agrupando e formando desenhos. E os desenhos...

Manus ficou boquiaberto, e a pá caiu-lhe das mãos. Com seu longo dedo cinza-azulado, ele começou a repetir no chão os desenhos que as abelhas formavam.

Manus sentou-se sobre os calcanhares e leu o que tinha escrito. A mensagem era clara: Uma pessoa — viajar para — amigos — depressa. Pela liberdade!

Muitos dias se passaram. Dias lentos para Lief, Barda e Jasmine amontoados na carroça. Eles sabiam, a partir das canções de Steven, que Ak-Babas os haviam sobrevoado e que Ols de todas as formas os haviam observado enquanto a carroça passava. O veículo, porém, era uma visão conhecida para os Ak-Babas, e os Ols não se mostraram interessados. Eles tinham recebido ordens de ficar atentos, mas não àquilo.

 

A estrada se bifurca adiante

Ol-io, Ol-iol

A noite chega, e estamos livres

De Ol-io, Ol-ios!

 

Steven cantava novamente, informando as novidades.

Alguns minutos mais tarde, a carroça parou, as portas traseiras foram abertas e os companheiros saíram com dificuldade. O sol acabara de se pôr. Uma colina rochosa assomava diante deles e a estrada principal a rodeava e seguia para a direita. Outra trilha se abria para a esquerda. Um sinal havia sido colocado na bifurcação, e os dizeres deixaram o coração de Lief apertado.

 

<<< Rio Largo / Del >>>

 

— Precisamos tomar a estrada para Del, mas será uma jornada para o desconhecido — Steven contou. — Não sei nada sobre ela, e Perdição também não. Ele sempre viaja pelo interior nestas paragens. Ele diz que as colinas que escondem a costa são traiçoeiras, mas ele as prefere.

— Eu também as preferiria — murmurou Jasmine.

— E eu também — Barda ajuntou. — Mas precisamos continuar escondidos. Se formos vistos aqui, as iscas que estão no oeste terão arriscado suas vidas por nada.

Lief olhava para a estrada de Del. Endon e Sharn, sem dúvida, a tinham percorrido ao sair da cidade na noite em que escaparam. Eles não teriam tentado ir pelo interior com Sharn tão perto de ter o bebê.

Ele tentou imaginar como teria sido. A estrada devia estar apinhada de gente, pois muitas pessoas fugiram de Del naquela noite. Ele se lembrou da voz triste do pai contando-lhe o que aconteceu.

— Sua mãe e eu ficamos fechados na ferraria durante todo o tumulto. Quando finalmente abrimos nossas portas, vimos que estávamos sozinhos. Amigos, vizinhos, antigos clientes, todos haviam desaparecido. Haviam sido mortos, capturados ou tinham escapado.

— Esperávamos algo desse tipo — a mãe acrescentou. — Mas a confusão foi pior do que imaginamos. Levou muito tempo para que a vida em Del recomeçasse. E, quando isso aconteceu, estávamos preparados. E muito gratos por estarmos a salvo com você, meu filho, pois você nasceu nessa época e foi uma luz em nossas vidas. Mas... — A sua voz forte tremeu. — Mas temíamos por aqueles que tinham fugido.

Os que tinham fugido.

Não reconhecidos em suas humildes roupas de trabalho, Endon e Sharn devem ter se perdido em meio à multidão em pânico. Eles certamente correram com os demais em direção ao oeste, sofrendo sabe-se lá que horrores. E, quando o pássaro preto que levava a mensagem de Tora os alcançou, eles devem ter percebido que não havia sentido em continuar.

O que teriam feito então? Saído da estrada. Encontrado um esconderijo. Endon sabia que o Cinturão nunca mais brilharia para ele. A única esperança de Deltora estava nas mãos do filho. Ele e Sharn tinham de achar um lugar em que o bebê pudesse nascer em segurança. Onde?

Lief foi despertado pela voz aguda de Jasmine.

— Lief! Precisamos encontrar um lugar para passar a noite.

O rapaz virou-se para a carroça. Entretanto, os seus pensamentos continuaram presos na época que precedeu o seu nascimento e nas duas pessoas desesperadas que procuravam refúgio e que ele nunca conhecera.

 

Ameaçava chover quando o grupo partiu no dia seguinte. O fato não incomodou os companheiros animados pela convicção de Steven de que chegariam a Withick Mire antes do pôr-do-sol. Contudo, ainda não tinham ido muito longe quando a voz dele lhes trouxe más notícias.

 

Estejam preparados para fugir ou lutar.

Ol-io, Ol-io!

Campo de carnívoras à direita,

À frente, Guardas-ios.

 

— O que é um campo de carnívoras? — Jasmine sussurrou, quando a carroça parou com um solavanco.

— Sei lá, mas não pode ser pior do que os Guardas Cinzentos — Barda resmungou. — E parece que eles estão logo adiante.

As portas da carroça foram abertas e Steven olhou para dentro.

— A estrada está bloqueada — ele sussurrou. — Os Guardas devem estar inspecionando todos os veículos que passam. — Steven ergueu um barril do canto enquanto Lief, Barda e Jasmine esgueiraram-se para fora. Eles não podiam ser vistos pelos Guardas porque a carroça parara em meio a uma curva. Mas assim que prosseguisse...

Lief procurou rapidamente um meio de escapar. De um lado, havia uma rocha alta e escarpada. Do outro, um campo cercado de colinas cobertas por densos bosques.

— Vão para as colinas — Steven murmurou. — Se tiverem sorte, os Guardas não vão perceber. Nós nos encontraremos mais adiante. Cuidado. As pedras são difíceis de...

Ele foi interrompido por um grito rouco que veio da estrada à frente. Steven bateu as portas e foi na direção deles, carregando o barril.

— Estou indo, senhores — ele avisou. — Tenho cerveja para vocês. Os companheiros ouviram-no subir ao banco do condutor, e a carroça começou a se mover.

Kree voejou na direção das colinas. Lief, Barda e Jasmine rolaram para a vala que margeava a estrada.

— Não vejo sinais de carnívoras, seja lá o que forem — Barda sussurrou, sondando o campo.

De fato, o campo parecia totalmente vazio. O único fato incomum era o tom verde vivo de uma grande quantidade de ervas daninhas grandes e achatadas. Como esteiras redondas feitas de círculos de folhas largas, elas cresciam muito juntas, quase sufocando a grama.

Lief observou a estrada. A carroça já estava muito perto dos Guardas. Havia dez deles, um grupo considerável. A estrada estava bloqueada por árvores caídas. Pilhas de lixo, barris vazios e caixas espalhavam-se por toda parte. Era evidente que os Guardas estavam de serviço ali há meses.

"Eles devem estar entediados, ansiosos por divertimento", Lief pensou desanimado.

— E o que temos aqui? — um dos Guardas gritou. — Um carrapato grande e feio e um cavalo que combina com ele! — Ouviram-se gargalhadas quando os seus colegas se reuniram ao redor da carroça, os olhares fixos em Steven.

— Agora! — Barda sussurrou.

Juntos, sob a proteção da capa de Lief, os amigos começaram a esgueirar-se em direção às colinas. Mas quase imediatamente Barda parou com um grito abafado de dor. No mesmo instante, Jasmine sufocou uma exclamação e caiu de joelhos.

Lief se virou, agachando-se para ajudá-los, mas ao apoiar a mão esquerda no chão, este cedeu e a mão foi puxada para baixo por algo que mordia e queimava.

A mão de Lief afundou no centro de uma das ervas achatadas que se alargava, sugando o seu braço, puxando-o para baixo...

Desesperado, Lief puxou o braço e se libertou. A mão estava coberta de sangue. O centro da planta abria-se como uma enorme boca de lábios flácidos e com manchas vermelhas. Horrorizado, Lief olhou para as fileiras de dentes cruéis que cobriam a garganta verde que mergulhava fundo na terra.

As plantas! Carnívoras! Steven pensou que sabíamos...

Ao seu lado, Jasmine lutava para livrar a perna presa enquanto Filli guinchava aterrorizado, tentando em vão ajudá-la, e Kree voava para junto dela. Barda se debatia em agonia e afundava atrás deles, ambas as pernas presas.

Lief segurou os braços de Jasmine e a puxou. A perna foi libertada, pingando sangue e, ao seu redor, outras carnívoras abriam suas bocas horrendas e enormes. Gritos animados vieram da estrada e, por um momento, Lief pensou que tinham sido vistos. Mas, quando olhou, viu que os Guardas estavam de costas para o campo reunidos em volta do barril, enchendo suas canecas.

— Barda! — Jasmine gritou com a voz sufocada. Barda estava preso ao chão. Seus braços e pernas estavam aprisionados. Ele esticava o pescoço enquanto lutava para manter o rosto afastado da boca verde, pulsante e ávida aberta bem abaixo dele. E a cada instante ele afundava mais...

"Por que não estou afundando?", Lief se perguntou. Ele olhou para baixo e constatou estar parado sobre um monte de grama clara que cobria uma pedra achatada. Steven começara a dizer algo sobre pedras...

As pedras são difíceis de... de ver!

Com um gemido de frustração, Lief viu manchas claras formando uma linha através do campo, como uma passadeira. Um caminho que seria sempre seguro porque, embora a grama pudesse crescer sobre as pedras, as carnívoras podiam somente crescer para o fundo da terra.

Ele e Jasmine estavam parados sobre pedras naquele momento. Barda, porém, encontrava-se em meio a uma agitada massa de um verde vivo, e a trilha de pedras serpenteava ao lado dele.

— Jasmine! Ande sobre as manchas claras. Elas são seguras! — Lief sussurrou. — Depois que Jasmine obedeceu a ordem de Lief, ele apanhou a corda do cinto e a seguiu.

Quando a alcançou, Jasmine golpeava ferozmente as plantas que prendiam Barda, mas elas apenas estremeciam e recuavam um pouco. Lief ajeitou a ponta da corda sob o peito do amigo e, então, inclinando-se perigosamente, puxou-a do outro lado e fez um nó, amarrando-a com força sob os braços do homenzarrão.

— Barda, me ajude! — disse ele com dificuldade, puxando-o com todas as forças. E Barda, com um esforço final e angustiado, gemeu e arqueou o corpo.

Os braços dele foram libertados. As mangas do casaco estavam rasgadas em tiras e ensopadas de sangue. As bocas ávidas se abriam imensas, debaixo dele.

Com os dentes à mostra, repugnada, Jasmine começou a atacar as folhas ao redor das pernas aprisionadas de Barda. Novamente, Lief puxou a corda, mas desta vez o amigo pouco pôde ajudar. O sangue fluía livremente da carne ferida, e ele estava perto de perder a consciência. Mas, finalmente, com uma lentidão torturante, as suas pernas começaram a se soltar do solo, até finalmente ficarem livres.

Jasmine e Lief rolaram-no sobre as pedras e começaram a levá-lo em direção das colinas, carregando-o em alguns trechos, arrastando-o em outros.

O barulho vindo da estrada transformou-se num rugido animado. Os Guardas pensaram num novo tipo de diversão. Cinco deles mantinham Steven imóvel sob a ponta das adagas, e os outros cinco arrastavam o cavalo na direção do campo das carnívoras. O animal, percebendo o perigo, empinava-se e corcoveava, relinchando apavorado.

Os Guardas estavam animados. Steven gritava para que parassem. O enorme corpo moreno coroado de cabelos louros quase desaparecia em meio à multidão de uniformes cinzentos que não parava de se acotovelar.

— Jasmine! Mais depressa! — Lief pediu, o sangue gelando nas veias. As árvores não estavam longe. Alguns passos mais...

Então, ouviram-se urros assustadores. Lief olhou para trás e viu os Guardas caindo ao chão, as mãos apertando os olhos. Steven cambaleava para trás, enquanto uma luz amarela e ofuscante se desprendia de seu corpo como fumaça. E logo depois outro vulto assomou a sua frente, tomando forma no clarão. Um gigante dourado com uma crina selvagem feita de cabelos castanho-escuros.

— Nevets — Lief sussurrou.

O corpo do gigante estava coberto de pêlos dourados. Os seus olhos amarelos cintilavam com fúria impiedosa. Os dedos enormes exibiam garras marrons cruelmente curvas nas extremidades. Ele investiu na direção do cavalo apavorado e puxou-o para a segurança. E então, rugindo como um animal, ele começou a agarrar os Guardas que gritavam e se retorciam, sacudiu-os como se fossem bonecos e rasgou-os em pedaços.

Lief e Jasmine observavam paralisados de terror. Steven ergueu-se e os viu.

— Corram! — ele vociferou. — Depois que ele começa, não consigo fazê-lo parar. Sumam das vistas dele.

Seguros sob as árvores, Lief e Jasmine envolveram os graves ferimentos de Barda em ataduras, cobriram-no com cobertores e deram-lhe um pouco de mel Abelha Rainha. Mas a hemorragia não cessava e Barda não se movia. A chuva começou a cair intensa, gelada.

Desesperado, Lief procurou um abrigo. E então ele deixou escapar um grito de surpresa. Não muito longe, como uma resposta às suas preces, havia uma velha cabana de pedra, quase escondida pelos arbustos. Claro! Uma trilha de pedras que antes conduzia à casa de alguém.

Enquanto Kree voejava ansioso sobre eles, Lief e Jasmine levaram Barda até a cabana. O interior dela estava envolto na penumbra, pois as pequenas janelas estavam cobertas de sujeira. Do ambiente desprendia-se um desagradável cheiro de mofo, mas era seco, e a lareira estava repleta de gravetos e capim seco.

Eles arrastaram Barda para dentro, e Jasmine correu até a lareira. Momentos depois, o fogo ardia em seu interior. A madeira seca e altamente inflamável crepitava enquanto as chamas subiam e começavam a encher o pequeno aposento com uma luz bruxuleante.

E então Lief viu o que se encontrava a um canto.

Dois esqueletos estavam encostados à parede. Tiras de roupas ainda estavam presas aos ossos e cabelos aos crânios, de modo que Lief pôde constatar que se tratava de um homem e uma mulher que haviam rastejado até ali para morrer. Ele notou que aninhado nos braços da mulher, entre os farrapos de um xale, estava outro pequeno monte de ossos, os ossos de um bebezinho.

A testa de Lief ficou porejada de suor. Ele se obrigou a se aproximar. Havia algo caído aos pés do homem. Uma caixa de estanho achatada.

— Não! — gritou Jasmine, a voz cheia de medo. Mas Lief não parou. Ele apanhou a caixa e a abriu. Dentro dela, havia um pedaço de pergaminho com dizeres em preto. Ele se esforçou para ler, as palavras terríveis dançando-lhe diante dos olhos. Lief inspirou profunda e dolorosamente.

— O que é? — Jasmine sussurrou.

Lief leu o bilhete em voz alta. Sua voz soou fraca, irreconhecível.

 

Tudo está perdido.

Tora me abandonou. Está muito frio. A comida que trouxemos de Del acabou e não há amigos que nos ofereçam mais. Sharn, minha amada esposa, está morta e nosso filho recém-nascido viveu apenas alguns dias a mais. Devo juntar-me a eles em breve, com prazer. A grandiosa linhagem de Adin termina comigo. Deltora deve submeter-se à sua sorte, assim como eu devo me submeter à minha. Endon

O último rei de Deltora

 

O bilhete amassado nas mãos, Lief olhou fixamente para os ossos. Ele não conseguia aceitar o que via.

O herdeiro de Deltora não estava seguro em seu esconderijo, esperando por eles. O herdeiro tinha morrido há muito tempo.

— Esse Endon não merecia ter sido rei — Jasmine disse com amargura. — Um homem fraco e teimoso, cheio de autopiedade. Isso é o que eu sempre temi.

— Você está sendo cruel, Jasmine! — Lief sussurrou com esforço. — Ele tinha perdido tudo que amava quando escreveu este bilhete. Ele estava desesperado.

— Ele foi o responsável por essa perda! — acusou Jasmine. — Se ele tivesse sido corajoso o bastante para depender de si mesmo pelo menos uma vez, eles teriam sobrevivido, como os meus pais fizeram. Há madeira aqui. Ouvi o som de um riacho. Há frutas silvestres e outros alimentos nos arredores.

Zangada, ela sacudiu a cabeça.

— Ah, mas não! Sempre esperando que os outros lhe segurassem a mão e facilitassem a sua vida. Ele nem mesmo tentou ajudar a si mesmo e à família. Assim, acabou nesse lugar ermo, morrendo de fome e frio, provocando a morte da mulher e do pequenino. — Os olhos dela brilharam com as lágrimas que caíam ao olhar o pequeno embrulho esfarrapado que repousava junto do seio da mulher.

— Nunca saberemos o que realmente aconteceu — disse Lief pesaroso. — Mas de uma coisa nós sabemos. Sem o herdeiro para usá-lo, o Cinturão não pode salvar Deltora.

O seu peito estava apertado, o estômago queimava. "Barda está morrendo", ele pensou. "Morrendo por uma causa que estava perdida antes mesmo de começar. E meus pais! Quanto eles não sofreram! E tudo por nada! O plano de meu pai para ajudar o amigo e esconder o herdeiro levou somente à morte e ao sofrimento. Quem lhe contara a mentira de que o Cinturão ficaria intacto somente enquanto o herdeiro vivesse?"

"Estava escrito no livro 0 Cinturão de Deltora?" Lief sondou a memória. Não! Ele tinha certeza absoluta de que o livro nunca mencionara nada parecido. Por que ele pensara nisso, então?

"Simplesmente porque acreditei no que meu pai me disse", pensou Lief desanimado. Como, sem dúvida alguma, o pai acreditara em outra pessoa. Prandine, talvez. Ou no próprio Endon. Ele baixou a cabeça desesperado.

 

A carroça balançava, os sinos nos arreios tilintavam. Mas Steven não cantava. No interior da carroça, Barda encontrava-se deitado entre Lief e Jasmine, que tentavam proteger o amigo ferido dos solavancos mais violentos.

Eles passaram uma hora terrível perto do fogo da cabana antes que Steven viesse procurá-los. Lief tremia, lembrando-se do que acontecera quando o homem vira os esqueletos e lera o bilhete.

A expressão de Steven ficou sombria. O peito dele começou a crescer e, de repente, ele fechou os olhos e pressionou os lábios.

— Não! Não! — Lief ouviu-o balbuciar enquanto se virava, batendo na parede de pedra com os punhos. E Lief sabia que ele estava lutando com Nevets, tentando manter o irmão selvagem sob controle.

Depois de alguns instantes, ele venceu a batalha. Steven voltou-se para eles, o rosto cansado, mas calmo.

— O que não tem remédio remediado está — ele disse sério. — Nosso dever agora é para com os vivos.

— Ah, isto é minha culpa — ele se censurou, inclinando-se sobre Barda. — Eu pensei que vocês soubessem do campo de carnívoras.

— Barda vai sobreviver? -perguntou Lief com dificuldade. Hesitante, Steven mordeu o lábio.

— Em Withick Mire, ele vai ficar aquecido e confortável — disse ele finalmente.

Ele se curvou e ergueu Barda tão facilmente como se o homenzarrão fosse uma criança e saiu da cabana sem olhar para trás. Lief e Jasmine o seguiram, ambos cientes de que ele não respondera a pergunta.

Eles caminharam em silêncio entre as árvores até onde começava a trilha de pedras e iniciaram a travessia entre o campo de carnívoras. A carroça encontrava-se parada mais adiante, o cavalo esperando ao lado. Árvores que haviam bloqueado a estrada haviam sido jogadas para o lado. As fogueiras, os mantimentos e o lixo, tudo tinha sido varrido para longe como que atingido por uma forte ventania.

Dos Guardas não havia sinal, exceto por algumas tiras de tecido cinza manchadas de sangue espalhadas aqui e ali. Com um calafrio, Lief se deu conta de que Nevets escolhera o caminho mais fácil para se livrar dos restos de suas vítimas. As plantas carnívoras mais próximas à estrada tinham sido bem alimentadas.

Horas mais tarde, um odor repulsivo se fez sentir no ar. O cheiro de podridão e deterioração se infiltrou na carroça até que o ar parado e empoeirado ficou dominado por ele. Jasmine franziu o nariz enojada.

— O que é isso? — ela sussurrou.

Lief deu de ombros e então endireitou o corpo enquanto a carroça sacolejava violentamente como se estivesse percorrendo terreno acidentado.

Ele olhou para Barda. As ataduras rudimentares que lhe envolviam as pernas e os braços estavam ensopadas de sangue. Ele tomara um pouco de água e, quando lhe deram um pouco de mel Abelha Rainha, ele o lambeu dos lábios. Mas não abriu os olhos, tampouco falou.

"O mel é tudo o que o está mantendo vivo", pensou Lief. "Mas por quanto tempo? Quanto tempo? Ah, espero que cheguemos logo a Withick Mire."

"Para que Barda possa ser tratado adequadamente. Para que os seus ferimentos possam ser lavados e ser cobertos por ataduras limpas. Para que", Lief se obrigou a pensar no assunto, "se Barda tiver de morrer, que o faça em paz e com conforto, numa cama quente, e não naquela carroça fria, sacolejante e malcheirosa."

Para sua surpresa, naquele exato momento a carroça parou. As portas traseiras foram abertas, e Lief e Jasmine saíram.

A chuva havia parado. O sol se punha, inundando o céu com uma luz opaca e alaranjada que iluminava uma cena estranha e horrível. A carroça se encontrava no alto de um grande monte de lixo. Montes gigantescos e malcheirosos de farrapos, ossos, móveis quebrados e utensílios domésticos, pedaços de metal torcidos e restos de comida em decomposição erguiam-se de todos os lados. Entre os montes, pessoas andrajosas e desafortunadas se curvavam e remexiam, procurando algo aproveitável entre os restos.

Lief virou-se zangado para Steven.

— Por que você nos trouxe para cá? — ele quis saber. — Precisamos levar Barda a Withick Mire!

Sem dizer palavra, Steven apontou para uma placa colocada exatamente ao lado de onde a carroça parara.

 

Bem-vindo à Cidade Fedorenta!

Withick Mire

 

Antes que Lief pudesse dizer qualquer coisa, um dos andrajosos catadores de lixo aproximou-se deles arrastando os pés e apoiando-se numa bengala. Um remendo preto cobria-lhe um dos olhos e um lenço protegia-lhe o nariz e a boca do mau cheiro. Ele se inclinou para eles, olhando de soslaio os recém-chegados com o olho saudável.

— O que vocês procuram, se é que posso perguntar? — ele indagou com uma voz que mais parecia um grasnido. — Aqui, no meio dos restos de Del?

Lief e Jasmine hesitaram sem saber o que dizer.

— Talvez vocês estejam procurando abrigo? — o homem continuou. — Então, venham comigo. Todos são bem-vindos em Withick Mire.

Ele se afastou mancando, abrindo caminho entre os montes de lixo com a facilidade proporcionada pela longa prática. Sem saber o que mais fazer, os companheiros o seguiram, Lief e Jasmine a pé, Steven conduzindo o cavalo com cuidado em meio àquele labirinto.

À medida que caminhavam, eles passaram por vários barracos deploráveis, feitos de pedaços de madeira, lata e tecido. Pessoas agachavam-se do lado de fora dessas moradias, separando as sobras recolhidas no dia ou acendendo fogueiras para cozinhar. Alguns sorriram para os estranhos, outros não se deram ao trabalho de sequer erguer os olhos.

Nos fundos de um dos montes maiores, fora construído um abrigo mais espaçoso. O catador de lixo acenou, e Lief e Jasmine o seguiram para dentro, dando uma olhada para Steven que vinha logo atrás.

Ao entrarem no abrigo, uma surpresa os aguardava. Sob a fina camada de lata e madeira, havia um edifício sólido, muito maior do que aparentava do exterior porque, exceto pela entrada, ele fora construído no interior do monte de lixo. O espaço era não somente grande, mas limpo e bem organizado com muitas maças arranjadas caprichosamente ao longo das paredes, cada qual com seu cobertor dobrado e os pertences do usuário empilhados na parte inferior.

O catador de lixo virou-se para eles, endireitou o corpo e tirou o lenço e o remendo do olho.

— Perdição! — exclamou Jasmine surpresa.

— Vocês não me reconheceram? — Perdição perguntou, sorrindo. — Isso é excelente! É claro que vocês não esperavam que a fortaleza da Resistência ficasse num depósito de lixo. Mas que lugar melhor existe para se esconder? Ninguém vem aqui de boa vontade, nem mesmo os Guardas Cinzentos. E quem se importa com pobres catadores de lixo? Algumas das pessoas que vocês viram aí fora são verdadeiros catadores de lixo, almas sofridas de Del de quem a vida foi roubada. Outros, e são muitos, são gente nossa. Glock, Fardeep e até Zeean estão lá fora, em algum lugar, com todos os demais. Dain saiu para buscar água.

Lief assentiu devagar, assimilando o que via. "Então, nada era o que parecia, nem mesmo ali", pensou.

— Perdição — chamou Jasmine aflita. — Barda está ferido. Ele precisa de cuidados. E... — ela olhou para Lief. — Há outra notícia. Muito desagradável.

Lief remexeu no bolso e tirou o bilhete amassado de Endon.

Os olhos negros de Perdição ficaram ainda mais escuros como se, de alguma forma, ele soubesse o que leria. Mas ele não apanhou o bilhete. Em vez disso, voltou-se rapidamente para a porta.

— Vou ter bastante tempo para isso depois que cuidarmos de Barda — disse ele bruscamente. — Traga-o para dentro. Vamos fazer o possível por ele.

Mais tarde, Lief e Jasmine estavam sentados perto do leito do amigo. As feridas deles também tinham sido lavadas e envolvidas em ataduras e o grande homem finalmente se encontrava deitado tranqüilamente. O sangramento havia parado, graças a um estranho aliado: Glock.

— Isso não vai sarar com ataduras — ele resmungara, agarrando e inspecionando o punho de Lief. — As plantas carnívoras injetam algo que mantém o sangue fluindo.

Ele foi até a própria cama, procurou algo debaixo dela e retornou carregando um jarro sujo cheio de uma pasta cinzenta.

— Passe isso nas mordidas — ordenou.

— O que é isto? — indagou Jasmine, cheirando a pomada, desconfiada.

— Como vou saber? — Glock rosnou. — Quem a fez já morreu há muito tempo. Mas a minha tribo sempre a usou, nos bobos e crianças que caíam nos campos de carnívoras.

Jasmine reprimiu a resposta irada que lhe dançava nos lábios e virou-se para Barda.

— Não a desperdice nele — Glock resmungou. — Ele está acabado. Jasmine não se preocupou em responder. Ela já estava passando a pasta nos ferimentos limpos de Barda. Glock cuspiu enojado e se afastou arrastando os pés. Depois disso, desapareceu.

Lief ergueu os olhos exausto. Zeean, Fardeep e Perdição estavam reunidos não muito longe dele, acompanhados de Steven. As cabeças curvadas, as expressões sérias, eles liam o bilhete de Endon.

— Então — Lief ouviu Perdição dizer com pesar —, esse é o fim da história.

Eles olharam para Lief e Jasmine, que os observavam, e se juntaram a eles. Perdição devolveu o bilhete a Lief.

— Os Gnomos do Medo e o Ralad chegarão e descobrirão que viajaram para nada — ele disse.

— Todas as nossas jornadas foram inúteis — replicou Lief desalentado.

O rosto de Zeean estava tomado pelo sofrimento.

É muito difícil — ela murmurou. — Eu tinha... tantas esperanças.

— Tudo bem, se nossas esperanças vão por água abaixo, quando são falsas. — A velha amargura havia voltado à voz de Perdição. — Logo voltaremos para o lugar de onde viemos. E, a cada passo que dermos, contaremos o que sabemos para que nenhum outro idiota seja tentado a arriscar a vida por uma causa inútil.

Ouviu-se um som ao lado de Lief. Ele baixou os olhos e seu coração acelerou. Barda havia se mexido e tinha os olhos abertos.

— O que... aconteceu? — perguntou ele num fio de voz.

— Não aconteceu nada — respondeu Jasmine tranqüilizadora, acariciando-lhe a testa. — Agora, descanse.

Mas Barda moveu a cabeça com impaciência e seus olhos foram atraídos pelo bilhete nas mãos de Lief.

— O que é isso? Deixe-me ver! — ordenou.

Lief conhecia Barda bem demais para saber que seria impossível recusar. Com relutância, ele estendeu o bilhete para que o amigo pudesse vê-lo e lhe explicou como foi encontrado.

Barda leu incrédulo as palavras terríveis e, então, para surpresa de Lief, ele sorriu.

— E é isso que o preocupa? — ele perguntou.

Lief e Jasmine se entreolharam alarmados. Barda estava delirando, e Jasmine inclinou-se outra vez sobre a cama.

— Durma — ela sussurrou. — Você está muito fraco e precisa descansar, Barda.

— Pode ser — ele retrucou debilmente, mas não tanto que não reconheça uma falsificação quando a vejo.

 

Fatigado, Barda fitou o círculo de rostos atônitos que se formou ao seu redor e sorriu mais uma vez.

— O bilhete é uma boa falsificação, com certeza — ele murmurou. — A letra é muito parecida com a do bilhete que vimos em Tora. Mas não foi o cérebro de Endon que compôs essas frases. Eu...

Barda parou de falar ao ser distraído por um ruído. Lief virou-se depressa e viu Dain correndo na direção deles, os olhos cheios de interrogações. Contudo, antes que o rapaz pudesse falar, Perdição franziu o cenho e colocou o dedo sobre os lábios. Lief voltou-se para a cama.

— Como você pode ter certeza de que o bilhete não foi escrito pelo rei Endon? — Jasmine indagou com suavidade. — Você não o conheceu.

— Talvez não — Barda murmurou —, mas Jarred, sim. Repetidas vezes ele me contou dos terríveis sentimentos de culpa que assaltavam Endon. Ele mesmo não continha as lágrimas quando contava da agonia do rei ao se dar conta de que tinha decepcionado Deltora. No entanto, esta que se supõe ser a última mensagem de Endon, escrita muito tempo depois de ele fugir de Del, não diz nenhuma palavra a respeito.

— Você está certo. — Lief sentiu-se despertar lentamente de um pesadelo. — Nenhuma palavra de desculpas ou pesar por quaisquer pessoas que não ele próprio e a família. E isso não pode ser verdade. O bilhete... os esqueletos... foram plantados ali para nos enganar! É por isso que os Guardas estavam posicionados naquele local. Para obrigar os viajantes a sair da estrada e ir até a cabana. Tudo não passou de um plano do Senhor das Sombras. "Tenho muitos planos..."

— Mas... — como Jasmine, Perdição ainda não estava totalmente convencido.

Barda moveu a cabeça inquieto.

— Vejam o selo no final da mensagem. Ele não deveria estar ali. O bilhete em Tora não tinha o selo real. E por quê? Porque Endon não tinha o sinete em seu poder quando escapou. Ele não poderia tê-lo levado. O sinete ficava guardado com Prandine e era trazido somente quando havia mensagens a serem assinadas.

— Como você sabe disso? — Zeean perguntou curiosa.

— Minha mãe, que Deus a tenha — Barda começou, suspirando —, foi ama-seca de Jarred e Endon. Ela gostava de falar e me contou muitas coisas sobre a vida no palácio. Admito que, muitas vezes, eu mal a escutava, mas parece que aprendi mais do que o Senhor das Sombras imagina.

— E isso foi uma bênção — Fardeep ajuntou agradecido. — Se não fosse por você, teríamos abandonado todas as nossas esperanças.

— Então, isso significa que houve um motivo para que eu ficasse vivo — Barda replicou com um leve sorriso. — Mas agora estou muito cansado. — E fechou os olhos.

Jasmine respirou fundo, colou o ouvido ao peito do amigo e prestou atenção, o rosto muito pálido.

— Ele só está dormindo — sussurrou. — Mas seu coração está muito fraco. Receio que ele esteja nos deixando.

Sem olhar, ela estendeu a mão para Lief que a tomou entre as suas, os olhos marejados de lágrimas. "Como essa jornada nos mudou", pensou ele, atordoado pelo sofrimento. "Jasmine demonstra sentimentos e busca consolo. Eu não tenho vergonha de chorar. Barda acharia isso tudo muito engraçado."

— Não sofra antes do tempo, amigo — Perdição aconselhou com delicadeza. — Barda é forte e um lutador. Ele não vai desistir facilmente. E o mel Abelha Rainha já fez muitos milagres.

Lief sentiu a mão de Jasmine pressionar a sua. Em seguida, houve um movimento repentino ao lado dele. Dain havia se aproximado e se ajoelhava ao lado da cama. Os olhos do rapaz estavam úmidos, mas o rosto mostrava determinação.

— Barda não pode morrer — disse ele. — Se cuidarmos bem dele, tenho certeza de que vai se recuperar.

O rosto de Jasmine parecia brilhar de gratidão ao olhar para Dain. Desta vez, contudo, Lief não ficou enciumado. Se Barda tinha de se salvar, ele precisava de todas as esperanças e ajuda que conseguisse obter.

Aquela noite e o dia seguinte passaram como que em sonho. Lief, Jasmine e Dain, que cuidavam de Barda em turnos, persuadiram-no a tomar mel, água e colheradas de caldo. Às vezes, Barda parecia mais fortalecido, erguendo-se e até falando. Outras, a fraqueza voltava a dominá-lo e não demorava para que ficasse pior do que antes.

Era como se ele se encontrasse numa descida gradativa que não podia ser interrompida. Os momentos de melhora eram cada vez mais raros.

"Barda está morrendo", Lief disse a si mesmo. Preciso enfrentar esse fato. Mas ele ainda não podia perder as esperanças. Jasmine certamente não as tinha perdido e Dain era uma torre de força, assumindo turnos cada vez mais longos ao lado do leito de Barda, poupando os amigos o máximo que podia.

O sol se punha e Lief acabara de se levantar da cabeceira do doente e de ceder o lugar a Dain quando um grito estridente foi ouvido do lado de fora.

— Ak-Baba! Cuidado!

De repente, quando as pessoas começaram a passar pela porta e entrar no abrigo, tudo se transformou em confusão. Lief olhou ao redor assustado. Onde estava Jasmine?

Então, ele se lembrou. Jasmine tinha ido buscar água juntamente com Zeean e Fardeep. Lief abriu caminho entre a multidão que se aglomerava na porta e correu para fora. Não demorou a ver as três pessoas que procurava. Elas estavam paradas, com os baldes transbordantes, observando a sombra escura que se aproximava em meio à luz ofuscante e alaranjada do céu.

— Jasmine! — chamou Lief. — Corra!

Entretanto, para sua surpresa, Jasmine simplesmente se virou e lhe lançou um sorriso fatigado. Ele olhou para cima mais uma vez e percebeu o que a sombra realmente era.

Não era um Ak-Baba, mas sim um Kin! Ailsa, se não estava enganado. Ela estava cercada por uma nuvem flutuante de pássaros pretos. Então, os pássaros se afastaram e Ailsa começou a descer em direção ao solo. Um pequeno vulto em sua bolsa acenava vigorosamente.

Gla-Thon, Lief calculou, observando o céu com olhos semicerrados e devolvendo o aceno. Gla-Thon, de raciocínio rápido e língua afiada. Lief reconheceu-lhe o corpo robusto, os cabelos castanhos ondulados. E quem mais, além de Gla-thon, pensaria em pedir a um Kin que a levasse rapidamente pelo ar até a reunião? O velho Fa-Glin pode ter concordado em fazer as pazes com os Kins, seus vizinhos, mas Lief achou improvável que ele tivesse concordado em voar com um deles.

"Agora seis da sete tribos estão aqui representadas", pensou Lief, ao correr com Jasmine para dar as boas-vindas aos recém-chegados. "Eu deveria estar entusiasmado e cheio de esperanças."

E, de certa forma, estava. Ele sabia que comemorações e muitas conversas se seguiriam a essa chegada e estava ansioso para explicar tudo a Gla-Thon. Lief estava muito feliz em rever Ailsa, mas o medo de perder Barda pairava sobre ele como uma nuvem, toldando todos os demais pensamentos e sentimentos.

Alguns dias depois, Lief encontrava-se sentado ao lado da cabeceira de Barda, dormitando, quando alguém lhe tocou o ombro de leve. Assustado, virou-se de repente e deu com dois olhos pretos como botões e uma enrugada face cinza-azulada.

— Manus! — ele exclamou, erguendo-se de um salto e se abaixando para abraçar o pequeno Ralad. — Ah, Manus! Você veio!

— Mas claro! — retrucou Manus. Ele se virou para o homem que se encontrava parado atrás dele, perto de Jasmine.— Nosso amigo Nanion, chefe de D'Or, foi o responsável por eu chegar tão depressa. Ele sabe lidar com cavalos, habilidade que eu não domino. Para começar, os pés dele alcançam os estribos. Mas devo confessar que foi uma viagem desconfortável. Fiquei aterrorizado e todo dolorido!

— Seguir um bando de abelhas em terreno acidentado não é uma tarefa fácil! — divertiu-se Nanion. — E esse Ralad se queixou do começo ao fim da viagem. Estou aliviado por, finalmente, ter chegado e de ter me livrado de suas queixas. — Entretanto, o olhar dele era caloroso e ficou claro que ele e Manus haviam se tornado bons amigos.

— Como você conseguiu um cavalo? — Jasmine perguntou. — E é dos melhores!

— Um certo comerciante conseguiu-o para mim — ele contou, dando de ombros. — Eu só espero que ele tenha uma boa explicação para os donos quando eles vierem procurar por ele.

— Tenho certeza de que ele vai ter! — Perdição devolveu secamente, ao caminhar atrás deles. — Boas explicações são a especialidade de Tom. Então, ele finalmente decidiu tomar partido?

— Não é bem assim — Manus respondeu. Sorrindo. — Ele advertiu Nanion de que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar. Acho que isso significa que não devemos esperar receber mais favores dele.

— Mas acho que ele esqueceu que já nos foi útil uma vez. — Nanion contou. — Um pouco antes de vê-lo, ele havia passado algumas informações a dois dos meus colegas: Guardas Cinzentos estão sendo enviados para o oeste. Espera-se um confronto.

É mesmo? — Perdição se surpreendeu. Ele puxou Nanion para o lado, deixando Manus sozinho com Barda, Lief e Jasmine.

— Isso é muito triste — o homenzinho comentou, observando Barda deitado imóvel no leito. — Não há nada a fazer?

— Ele não se mexeu desde o nascer do sol — contou Lief, balançando a cabeça, invadido pelo sofrimento. — Acho que não vai demorar...

— Então estou satisfeito por ter chegado agora — Manus disse, curvando a cabeça. — Pois para mim significa muito vê-lo novamente. Ele tem um grande coração.

Manus ergueu os olhos e encontrou o olhar de Lief.

— Ele não deu sua vida em vão. Jasmine me disse por que fui convocado, embora eu já adivinhasse. Vocês três conseguiram um milagre.

— Parte de um milagre — Lief respondeu. — O herdeiro ainda deve ser encontrado.

— E não é por isso que estamos todos aqui? — Manus indagou devagar, erguendo-se. — A Lua está nascendo. Chegou o momento de as sete tribos se unirem mais uma vez, de o herdeiro ser convocado.

 

Velas tremeluzian ao redor das paredes. Rostos sérios, excitados, temerosos formavam um semi-círculo ao redor dos sete. Todos os olhos estavam pousados no Cinturão, que se encontrava na sombra sobre a mesa onde Lief o colocara.

Por insistência de Jasmine, o grupo estava parado ao lado do leito de Barda.

— Não importa em que mundo obscuro ele esteja vagando, ele deve estar nos ouvindo — ela disse. — E, mesmo que não possa nos ouvir, ele tem o direito de estar presente.

Ninguém argumentou com ela, mas estava claro para todos que a longa luta de Barda pela vida estava quase no final. Zeean deu um passo à frente.

— Eu, Zeean de Tora, estou aqui — disse ela com gravidade, pousando a mão sobre a ametista.

Gla-Thon foi a seguinte.

— E eu, Gla-Thon, dos Gnomos do Medo — disse, a cabeça erguida, enquanto afagava a esmeralda.

Lief observava, mantendo-se rígido, enquanto os demais se adiantavam, um por um.

— Fardeep, de Mere. — A voz de Fardeep, normalmente intensa, estava trêmula. Humildemente, ele tocou o lápis-lazúli.

— Steven, de Plains. — Steven erguia-se acima de todos os demais, os cabelos dourados brilhando, quando se curvou sobre a opala.

— Manus, em nome dos Ralads. — Manus roçou os dedos delicadamente no rubi.

Glock adiantou-se com passos pesados. Sua expressão era dura e orgulhosa quando estendeu a mão enorme para o diamante.

— Eu sou Glock, o últimos dos Jalis — grunhiu. E Lief prendeu a respiração ao ver lágrimas saltando dos olhos selvagens.

E então foi a sua vez. Lief apertou a mão de Barda e aproximou-se do Cinturão. Os rostos dos observadores na primeira fila flutuaram diante de seus olhos.

Jasmine, solene, Filli e Kree em seu ombro. Ailsa, as patas unidas perto da boca. Nanion, chefe de D'Or, ansioso. Perdição, vigilante. Dain, pálido e atento.

Lief pousou a mão sobre o topázio dourado. "Por você, Barda", ele pensou. "Por minha mãe e meu pai, e todos em casa."

— Lief, de Del — ele disse com clareza.

Ele olhou para baixo. O Cinturão estava quase coberto pelas mãos que o tocavam. Sete mãos de diversas cores e formas, juntas com um só objetivo.

Zeean falava novamente, proferindo as palavras acordadas.

— Juntos, nós, os representantes das sete tribos, renovamos nossa antiga promessa de nos unirmos sob o poder do Cinturão de Deltora e juramos lealdade ao legítimo herdeiro de Adin.

— Nós juramos — disseram os sete em uníssono.

Lief sentiu em sua mão o calor do Cinturão, e um arrepio percorreu-lhe o corpo. O topázio emitia um brilho dourado entre seus dedos. Sua mente se aclarou. O Cinturão ficou mais cada vez mais quente até que ele se viu obrigado, assim como os companheiros, a retirar a mão. Mas, nesse momento, ele soube.

O herdeiro estava ali, naquele aposento.

Ele ergueu os olhos, que percorreram o rosto das pessoas à sua frente e se fixaram numa delas. Uma cujo corpo tremia e cuja face tremeluzia sob a luz quando deu um passo à frente.

Dain.

"Como eu não percebi?", pensou Lief, olhando maravilhado, enquanto gritos abafados de surpresa se espalharam pelo grupo. "Como não adivinhei?"

Dain, cujo próprio nome era uma pista, um anagrama, já que era formado pelas letras que também formavam o nome Adin. Dain, que crescera numa fazenda isolada não muito longe de onde se encontravam. Que aprendera a antiga arte real de manejar o arco e tudo o que os pais puderam lhe ensinar sobre a história de Deltora. Dain calado, obediente e respeitoso como o pai, moreno e delicado como a mãe torana. O nome que ele dera à mãe, Rhans, era apenas Sharn escrito de outra forma. No entanto, ninguém percebera.

Ele soube muito bem guardar esse imenso segredo. Somente uma vez ele esteve perto de revelá-lo: quando esteve prostrado junto da pedra quebrada no centro de Tora, atônito e vencido pelo choque e pelo desespero.

A tensão na sala pareceu explodir quando Lief apanhou o Cinturão e caminhou lentamente em sua direção.

Dain esperou. O tremor havia cessado e, naquele momento, ele estava de cabeça erguida. Parecia que uma calma dignidade havia pousado em seus ombros como uma fina capa. A pele lisa de seu rosto e de suas mãos brilhava sob a luz.

"Meu pai serviu e protegeu o pai dele", pensou Lief. "Agora eu o servirei e protegerei."

Ele estendeu as mãos. O Cinturão pendeu frouxo entre seus dedos, pela primeira vez atingido pela luz. Lief foi invadido por uma estranha relutância em soltá-lo. Ele fitou Jasmine e ela assentiu, os olhos brilhantes.

"Este foi o objetivo de nossa luta", pensou Lief. "Isto é o que deveria ser." Ele fitou o Cinturão e deu uma última olhada nas pedras que cintilavam nos medalhões de aço. Conquistado com tanta dificuldade, tão maravilhoso...

Mas algo lhe chamou a atenção. O rubi não estava vermelho, mas rosa-claro. A esmeralda estava opaca como uma pedra comum. A ametista assumira o pálido tom da flor de malva. O sangue subiu ao rosto de Lief e seu coração bateu descompassado.

— Perigo! Maldade! — ele conseguiu dizer, abafando um grito. — Aqui...

Um grito estridente capaz de gelar o sangue cortou o ar. Algo enorme irrompeu pela porta. Então, com um som retumbante, uma rajada de vento passou pelo aposento, apagando as velas, jogando Lief para trás na escuridão. Ele rastejou cegamente no chão áspero, agarrando o Cinturão, chamando Jasmine e Dain. O vento atingiu-lhe o rosto. Ele ouviu objetos caindo e se quebrando enquanto as pessoas tropeçavam e os móveis eram atirados para longe, despedaçando-se contra as paredes.

— Lief! O Cinturão! — ele ouviu Dain pedir. — Passe para mim! Depressa...

O seu brado foi calado pelo vento, pelos gritos, por algo que rugia com uma fúria selvagem.

Lief ergueu-se com dificuldade e começou a atravessar a escuridão ruidosa na direção de onde a voz viera. Algo voou pelo ar e atingiu-o no peito com uma força imensa, jogando-o de volta contra o leito de Barda. Ofegante, ele tropeçou na cama, lutando para se erguer.

E então se ouviu um tremendo estrondo e o ventou cessou, tão repentinamente quanto havia começado.

Um silêncio horripilante caiu sobre o abrigo, quebrado apenas pelos gemidos e soluços dos feridos. Com a cabeça girando, Lief forçou-se a se afastar da cama. Ao fazer isso, Barda se mexeu.

— Frio... — Barda sussurrou.

Lief se deu conta de que a sua queda havia arrancado os cobertores da cama. Procurando ansiosamente e às cegas, ele os encontrou e fez o melhor que pôde para cobrir o amigo. E, então, encolhido devido à dor no peito, ele conseguiu se pôr de pé.

— Dain! — ele ouviu Perdição chamando. — Dain! Responda!

Mas não houve resposta.

Alguém acendeu uma tocha com os carvões da fogueira. Glock. Lief entreviu-lhe o rosto selvagem, estranhamente iluminado pela luz tremeluzente. Glock exibia uma grave contusão na testa. Um dos olhos estava inchando e escurecendo, mas ele ainda erguia a tocha para o alto, agitando-a de um lado a outro de modo que grandes sombras saltavam pelas paredes.

Lief viu Ailsa enrodilhada no chão como uma grande pedra; Gla-Thon, erguendo-se com dificuldade por entre os restos da mesa onde estivera pousado o Cinturão; Perdição, o rosto manchado de sangue; Zeean segurando Manus, apoiando-o; Jasmine murmurando palavras de conforto para Filli. A porta tinha sido arrancada das dobradiças. A abertura encontrava-se bloqueada por uma confusão de pedras e madeira quebrada...

E Dain desaparecera. Sua adaga estava no chão onde a deixara cair. Aturdido, Lief caminhou até ela, abaixou-se e apanhou-a. A ponta da lâmina estava manchada de sangue. Dain tentara lutar com seu atacante, mas não tivera a menor chance.

Lief prendeu a adaga no cinto e refletiu sobre o momento em que hesitara ao entregar o Cinturão de Deltora a Dain. Talvez, se ele não tivesse cedido a esse sentimento, se tivesse passado o Cinturão a Dain de imediato, nada disso teria acontecido. Dain estaria seguro. Todos estariam seguros.

Perturbado pela dor e pela culpa, ele observou as próprias mãos e foi invadido pelo pavor ao notar que não estava mais segurando o Cinturão. Lief olhou ao redor angustiado e se deu conta de que muito provavelmente o deixara cair sobre o peito de Barda quando fora atirado contra a cama. O Cinturão estava seguro, oculto sob as cobertas. Ele iria apanhá-lo dentro em pouco, assim que sua cabeça parasse de girar, quando conseguisse respirar com facilidade outra vez, quando a sensação de náusea passasse.

Ele se deixou deslizar para o chão e lá ficou encolhido como um animal ferido.

— Dain foi levado! — Fardeep sussurrava.

— Uma criatura das sombras foi a responsável por esse feito — Glock resmungou. — Eu a vi quando entrou. Um lobo imenso, com uma boca amarela. Então, ele se transformou em um demônio, maior ainda, coberto por um líquido pegajoso e vermelho parecido com sangue.

Um pensamento terrível assomou na mente de Lief. Ele molhou os lábios, com medo de transformá-lo em palavras.

Os olhos de Glock se apertaram. Ele apontou o dedo atarracado para Lief.

— Você sabe de alguma coisa! — grunhiu. — Vejo isso em seu rosto. O que era aquela coisa?

— Parece que é... — Lief começou, as palavras saindo-lhe com dificuldade da boca.

— O último e mais malvado de todos os filhos da feiticeira Thaegan

— Perdição terminou por ele. — O único dos quatro filhos que ainda rondam o nordeste. Ichabod.

— Fomos enganados — Gla-Thon murmurou.

Glock, a expressão enraivecida, olhou ao redor do aposento. Os seus olhos fixaram-se em Manus.

— Você vem do nordeste, Ralad — disparou, fechando os punhos.

— Você guiou o monstro até aqui, confesse!

Balbuciando, assustado e chocado demais para falar, Manus negou com um gesto de cabeça. Nanion, de D'Or, postou-se ao lado dele.

— Se fomos seguidos, não percebemos — ele disse com gravidade.

— Conserve os seus insultos para si mesmo, Jalis.

— Não... não briguem. — As palavras foram balbuciadas com suavidade, mas romperam o silêncio irado como um grito. Pois fora Barda quem falara... Barda, esforçando-se para se sentar, olhar ao redor. Jasmine soltou um grito estridente e correu até ele, os cabelos totalmente emaranhados, o pequeno rosto pálido iluminado pela lanterna que ela conseguira acender.

— Brigas... não vão nos levar a lugar algum! — Barda afirmou, a voz um pouco mais forte.

É um milagre! — Zeean murmurou aturdida.

"É o Cinturão", pensou Lief. "O Cinturão. Só pode ser." Mas Perdição já estava se dirigindo até a porta.

— Precisamos abrir caminho nessa confusão e começar a procurar — disparou. — Cada minuto de demora é um minuto a menos na vida de Dain.

— Ele já está morto — Glock grunhiu. — O monstro já deve tê-lo feito em pedaços.

Perdição ergueu os olhos de repente, como se acabasse de se lembrar de algo.

— Onde está Steven? — indagou ele bruscamente.

No silêncio que se seguiu, ele ouviu um débil som, um raspar que vinha do meio das pedras que bloqueavam a passagem.

— Steven! — Perdição gritou.

— Aqui! — respondeu uma voz fraca. — Estou aqui, preso. O prédio caiu em cima de nós quando tentávamos persegui-los. Nem mesmo Nevets conseguiu nos libertar. Perdição... foi Ichabod. Ichabod apanhou Dain.

— Foi o que pensamos — Barda retrucou sombrio.

— Não pude ver nada, mas eu o escutei rindo quando fugiu correndo — contou, a voz ainda fraca. — Rindo de Dain. Ele dizia... que, se Dain era rei, a melhor coisa a fazer era levá-lo ao lugar ao qual pertencia. A Del.

 

Teria Ichabod seguido ordens para capturar o herdeiro? Ou levar Dain tinha sido idéia dele? Não havia como saber. Mas de uma coisa Lief tinha certeza, ele e os companheiros tinham feito exatamente o que juraram não fazer. Eles permitiram que o Senhor das Sombras chegasse até o herdeiro.

"E outro fato é certo", pensou Lief, enquanto ele e os companheiros cavavam entre os escombros para sair do abrigo que se tornara a sua prisão: "se Dain estiver sendo levado para Del, temos de segui-lo sozinhos, se necessário."

Mas não havia dúvidas na mente de ninguém. As sete tribos permaneceriam unidas. Ao amanhecer, um grupo partiu para Del, e Ailsa despediu-se deles chorosa. Perdição apressara-se em fazer planos.

— Viajaremos em pequenos grupos distantes um do outro para não sermos vistos — instruiu. — Essa é a nossa melhor chance de chegar a Del incógnitos.

— Não chegaremos lá sem sermos percebidos se houver um espião entre nós — Gla-Thon murmurou.

— Ninguém deve ficar sozinho por um momento sequer, exceto Steven, que vai dirigir a carroça — ordenou Perdição, a expressão grave. — Alguém quer questionar a lealdade de Steven?

Ninguém ousou fazê-lo, o que não era surpresa.

A carroça partiu primeiro, levando Barda escondido em seu interior. Ele ainda estava fraco, mas recusara-se a ser deixado para trás. No flanco direito, iam Manus e Nanion. No esquerdo, estavam Gla-Thon e Fardeep. Atrás, vinham Perdição, Zeean e Glock. E no centro caminhavam Lief e Jasmine acompanhados de Filli e Kree.

Lief ainda levava a adaga de Dain. Era uma arma preciosa para o rapaz. Ela lhe seria devolvida, Lief havia jurado a si mesmo. A ponta da adaga estava muito manchada. Não importa o que fizesse, Lief não conseguia limpá-la.

 

Na distância, Del-io,

Del-io, Del-io!

Duas horas de descanso e então continuaremos

Para Del-i, el-io!

 

A voz de Steven soava tão feliz como se ele realmente fosse somente um mascate. Mas a sua mensagem foi clara. Ele podia ver os arredores de Del e ia parar para descansar.

— Por que precisamos parar? — Jasmine murmurou irritada.

— Por que concordamos em parar — Lief sussurrou, fitando-a. — Por que queremos chegar a Del depois do anoitecer. E estamos cansados. Você dorme primeiro.

Eles tinham caminhado ao longo da estrada onde os arbustos espessos proporcionavam proteção suficiente. Lief observou Jasmine ajeitando-se para descansar. Ele sabia que ela cairia no sono em segundos. Ela era assim, não importava o quão desconfortável fosse o local ou perigoso o momento.

Lief sentou-se recostado a uma árvore e tocou o Cinturão, novamente preso ao redor de sua cintura. O Cinturão havia interrompido o lento avanço de Barda em direção à morte. Mas como? Certamente nenhuma das pedras preciosas tinha o poder de curar uma fraqueza provocada por perda de sangue. Talvez o diamante...

Em silêncio, ele apanhou 0 Cinturão de Deltora e encontrou o trecho que discorria sobre os poderes do diamante.

 

Diamantes... proporcionam coragem e força, protegem contra doenças e ajudam causas movidas pelo verdadeiro amor.

 

Lief ainda estava insatisfeito. Inquieto, folheou as páginas, lendo frases aqui e acolá, algumas das quais ele tinha esquecido. A maioria, porém, lhe era familiar.

 

A ametista... acalma e tranqüiliza. Ela muda de cor na presença de doenças, perde a cor quando próxima de alimentos ou bebidas envenenados...

O topázio protege quem o usa dos terrores da noite. Tem o poder de abrir as portas do mundo dos espíritos. Fortalece e clareia a mente...

 

A esmeralda... perde o brilho na presença do mal e quando um voto é quebrado.Atua como remédio para ferimentos e chagas e é um antídoto para venenos.

 

O grande rubi... fica descorado na presença do mal ou quando desgraças ameaçam quem o usa. Afasta maus espíritos e é um antídoto para veneno de serpentes.

 

A opala... possui o poder de oferecer vislumbres do futuro e de ajudar os que não enxergam bem. A opala tem uma relação especial com o lápis-lazúli, a pedra celestial, um poderoso talismã.

 

Repentinamente impaciente, Lief fechou o livro com força. Jasmine mexeu-se e então abriu os olhos bruscamente.

— Desculpe — começou Lief. Mas ela simplesmente sacudiu a cabeça.

— Algo está vindo — sussurrou ela, sentando-se. — Uma carroça puxada por cavalos. Na direção oposta a Del.

Logo o próprio Lief conseguiu ouvir o som dos cascos que avançavam penosamente e das rodas barulhentas. Ele espiou por entre os arbustos e, para sua surpresa, viu a carroça de Steven aproximar-se. Não se ouvia nenhum tilintar, pois os sinos haviam sido tirados dos arreios do cavalo.

Steven cantava, mas muito baixinho. Somente as pessoas muito próximas à estrada poderiam tê-lo escutado. Quando ele se aproximou, Lief percebeu que ele cantava o mesmo verso sem parar.

 

Saiam, Twig e Birdie-o!

Criaturinhas deitadas na escuridão?

Os outros descansam, mas nós precisamos partir,

Twig e Birdie-o!

 

— Pode ser uma armadilha — Jasmine sussurrou. — Ele pode ser um Ol.

— Acho que não — sussurrou Lief em resposta. — Ele está nos chamando pelos nomes falsos que usamos em Rithmere. Barda deve tê-los dado a ele.

— Glock também os conhece! — Jasmine sussurrou. Mas Lief já se arrastava para fora dos arbustos. Ela suspirou e rastejou atrás dele.

Steven os viu, abriu um sorriso largo e parou a carroça.

— Então, vocês estão aí — ele disse em voz baixa, descendo. Depressa, subam aí atrás com Barda.

— Mas não foi esse o plano! — Lief objetou. — Devemos encontrar os demais no bosque do lado de fora dos muros de Del assim que escurecer. Se formos com você, chegaremos antes do pôr-do-sol e sozinhos.

— Isso mesmo — Steven assentiu. — Barda vai explicar tudo a vocês. Ele e eu estivemos conversando. Abri um jarro novo de mel para ele antes de começarmos a viagem e parece que lhe fez muito bem. Vejam só!

Ele abriu as portas da carroça e lá estava Barda, sentado e sorrindo.

— Barda! Você está bem! — exclamou Jasmine.

— Não totalmente. Eu não me arriscaria a enfrentar um Ol — ele brincou, dando um largo sorriso. — Mas bem que poderia dar a um pequeno pirata algo em que pensar. Agora entrem, depressa. Precisamos partir.

— Por quê? — indagou Lief, enquanto ele e Jasmine obedeciam com relutância.

— Se chegarmos a Del antes do pôr-do-sol, Steven pode entrar na cidade. Ele vai parecer mais um mascate com pressa de chegar em casa antes que a lei do toque de recolher entre em vigor — Barda explicou rapidamente. — Os portões estão sempre movimentados a essa hora. Os Guardas não se importarão em inspecionar a carroça. E ninguém vai prestar atenção nela, se ficar estacionada com outras carroças no pátio ao lado da praça do mercado. Quando escurecer, poderemos sair sem ser notados.

— Mas por que mudar o plano? — indagou Lief confuso.

— Primeiro, porque o importante é levar o Cinturão até Dain, não importa onde esteja aprisionado — começou Barda com uma expressão pesarosa. — E acho que nós três podemos fazer isso melhor sozinhos. — Segundo... — ele se interrompeu.

— Segundo — Steven continuou com calma —, nós dois temos certeza de que há um espião em nosso grupo. Esse espião deve ter um meio secreto de se comunicar com o Senhor das Sombras, alguma coisa de que ninguém desconfia. Nesse caso, nosso plano já pode ser conhecido em Del. Poderíamos estar indo direto para uma armadilha. Não podemos nos arriscar a isso, tampouco a perder o Cinturão.

— Por isso, decidimos agir sozinhos — completou Barda. — Sem contar a ninguém.

— Nem mesmo a Perdição? — perguntou Jasmine, arregalando os olhos.

Mais uma vez, Steven e Barda se entreolharam.

— Não — respondeu Steven simplesmente, fechando as portas. — Nem mesmo a Perdição.

 

Mais outra hora abafada e desconfortável. A voz de Steven, cantando suavemente, contando o que via. Minutos aterradores e tensos quando a carroça desacelerou para juntar-se a uma fila de veículos que atravessavam para juntar-se a uma fila de veículos que atravessavam os portões da cidade. O grito dos guardas e os repentinos e dolorosamente familiares sons de Del. Rodas, sinos, pessoas aos gritos empurrando-se umas às outras, chocando-se às laterais da carroça enquanto esta seguia com dificuldade pelas ruas pavimentadas e apinhadas.

E, finalmente... o silêncio. O cheiro de legumes em decomposição. Passos dirigindo-se lentamente para os fundos da carroça.

O clique da fechadura. Uma fresta se abrindo na porta. O rosto tenso de Steven, espiando para dentro, o céu com um brilho alaranjado escurecendo atrás dele. Steven entrou na carroça, fechando as portas atrás de si e segurou-as.

— Parece tudo calmo — sussurrou ele. As ruas estão vazias. Não há Guardas por perto.

— Então, onde estão todos? — sussurrou Jasmine. Ela ergueu a mão até Filli, que choramingava, aconchegando-se em sua gola.

— Del é uma cidade grande — resmungou Barda. — Talvez estejam vigiando os muros. Talvez estejam perto do palácio...

— Ou num bosque, do lado de fora dos muros... esperando por nós!

Lief estremeceu. Isso significaria que realmente havia um espião no grupo. Significaria que os seus amigos estavam se dirigindo para uma armadilha naquele momento. Ele fez menção de falar, mas Barda ergueu a mão.

— Nesse caso — ele disse asperamente —, precisamos ficar satisfeitos por ter o Cinturão aqui, em segurança. Mesmo assim, nossos amigos não ficarão desprotegidos. Se conseguir escapar da cidade, Steven irá agora até o ponto de encontro.

— Vou escapar, de uma forma ou de outra — garantiu Steven —, e vou participar da reunião. Para explicar... ou me desforrar. — Ele apertou a mão de Barda e também a de Lief e de Jasmine. — Boa sorte — desejou com voz rouca. — Espero vê-los de novo em breve.

Os quatro companheiros deixaram a carroça em silêncio. Ratos roíam restos de verduras, guinchavam e se espalhavam ao redor de seus pés. Steven afagou o velho cavalo que mordiscava uma folha verde e murcha.

— Espere — ele murmurou. O cavalo balançou a cabeça, rinchando levemente.

Esgueirando-se por um grupo de carroças velhas, eles se dirigiram ao extremo do pequeno pátio. Antes mesmo, porém, de conseguirem entrar na praça do mercado, houve uma repentina comoção. Uma porta se abriu com estrondo, vozes alteradas e botas pesadas irromperam e se espalharam pela noite. A luz de várias tochas iluminava a escuridão.

Apressados, os companheiros recuaram para as sombras do pátio. O som ficou mais intenso. Houve estrondos, grunhidos e o quebrar de pedras. O que estaria acontecendo? Incapaz de conter a curiosidade por mais tempo, Lief espiou cautelosamente ao redor da esquina.

Havia tochas reluzentes por toda parte. Dez Guardas Cinzentos trabalhavam no meio da praça. Eles estavam erguendo enormes blocos de pedra a fim de formar uma pirâmide com o topo achatado. Em meio à pirâmide, erguia-se um poste alto, fixado no lugar pelos blocos de pedra que o circundavam.

— Onde está o monstro? — um Guarda berrou. — O Ichabod?

— Está no palácio, comendo — grunhiu um outro. — Logo ele vai estar aqui para buscar mais. Dizem que ele prefere carne cozida.

Seguiram-se gargalhadas cruéis, fazendo a pele de Lief se arrepiar.

— Suba até o topo, Bak 6! — bradou outro Guarda. — Vamos ter problemas se não estiver tudo preparado quando trouxerem os outros. Ele caminhou até um local encoberto pelas sombras e voltou carregando o que parecia ser um monte de trapos.

— Então eles foram pegos, Bak 1 ? — perguntou o primeiro Guarda, escalando o topo da pirâmide. Ele carregava um rolo de corda e um jarro de óleo na mão.

— Foi moleza. Já se sabia exatamente onde eles estariam e quando, não é mesmo? — Bak 1 carregava o monte de trapos degraus acima em direção ao posto. — Apanharam a velha primeiro, para que ela não pudesse usar nenhuma de suas feitiçarias. Depois disso, foi fácil. O grandão e feio foi arrastado aos poucos. Dizem que o gnomo causou alguns problemas. Matou três Quills e um Pern sozinho. Mas deram um jeito nele no final.

O coração de Lief pareceu parar. Ele ouviu a respiração difícil dos companheiros atrás dele, mas não se voltou. Paralisado de pavor, ele observou Bak 1 puxar o embrulho por cima do poste e Bak 6 começar a prendê-lo em seu lugar.

Era Dain. Dain, os cabelos sedosos caídos para a frente, o perfil pálido aparecendo e sumindo debaixo das luzes bruxuleantes das tochas. Enquanto Lief observava, ele ergueu a cabeça devagar. Seus olhos se abriram e se arregalaram aterrorizados.

Acompanhado de um movimento brusco, um som pesado e arfante se fez ouvir atrás de Lief.

— Não! — A voz de Steven estava abafada. — Nevets! Não, enquanto os Guardas estiverem tão perto de Dain. Eles têm adagas, bolhas...

Eles vão matá-lo imediatamente se você atacar agora. Espere, eu lhe imploro!

Seguiu-se um momento difícil, mas logo o arfar cessou, e o movimento parou.

— Finalmente acordado, majestade? — Bak 1 zombava. — Isso é bom. — Ele acenou e os colegas começaram a subir depois dele, os braços cheios de ramos secos. Depois que eles formaram uma pilha alta com a madeira ao redor dos pés de Dain, Bak 6 borrifou-a com o óleo.

— Assim ele vai ficar bem aquecido — escarneceu. E então ergueu a cabeça, observando a tocha acesa com os olhos semicerrados.

— Os outros estão vindo com os prisioneiros — ele avisou. — A festa pode começar a qualquer momento. É melhor alguém ir buscar Fallow. Bak 3, vá você.

— Ele não vai vir — queixou-se o Guarda. — Desde que ele ouviu a história de que os três foram vistos no oeste, parou de se preocupar. Trancou-se naquele quarto com a sua luz verde. Dá para vê-la debaixo da porta. E você sabe que ele...

— Ele vai vir para isto — grunhiu Bak 1. — Vai haver problema se ele perder esta exibição. Vá logo!

Enquanto Bak 3 se afastava resmungando, ouviram-se sons farfalhantes e tilintantes do outro lado da praça, perto dos portões da cidade. No momento seguinte, foi possível ver um grupo de vultos cambaleantes. Alguns eram arrastados por Guardas, outros caminhavam sem ajuda, as pernas presas por pesadas correntes.

Lief sondou-lhes os rostos. Lá estava Gla-Thon, os cabelos lisos ensopados de sangue, o braço esquerdo pendendo inútil ao lado do corpo. Manus, tremendo de medo, vinha em seguida. Atrás dele, Fardeep e Nanion sustentavam Zeean, o corpo inerte entre os dois. E, arrastado de bruços, atrás do último Guarda, o corpo batendo sobre as pedras, os pulsos sangrando intensamente enquanto as correntes apertadas lhe cortavam profundamente a carne, estava... Glock.

Apenas uma pessoa não fazia parte do grupo.

— Então agora nós sabemos — murmurou Barda.

Todo o corpanzil de Steven começou a tremer. Lief o fitou assustado.

Os enormes olhos do homem estavam fixos em Dain. Eles mudavam do amarelo para o castanho sucessivamente. A boca se retorcia, a carne estremecia, enquanto ele lutava para controlar Nevets.

— Quando eu mandar, Lief deve correr até o rapaz — ele disse, a voz rouca. — Vocês dois... protejam Lief da melhor forma que puderem. Nós faremos o resto. Mas fiquem longe de nós. Bem longe!

Lief esforçou-se para desviar o olhar do rosto terrível e retorcido e olhou novamente à sua volta. Somente Bak 1 e Bak 6 encontravam-se ao lado de Dain naquele momento. Mas ambos empunhavam adagas.

Os dedos de Lief estavam entorpecidos quando estendeu a mão para apanhar a adaga de Dain. Se ele conseguisse chegar vivo até o herdeiro, ele a usaria para cortar as cordas. Isso seria o ideal. Isso seria...

Mas a adaga tinha sumido. Lief olhou para baixo, piscando incredulamente. A arma com certeza lhe caíra do cinto sem que ele tivesse notado. Provavelmente, quando subiu na carroça, na estrada para Del.

Um nó se formou em sua garganta. De alguma forma, essa pequena perda parecia o símbolo de um fracasso maior. E ele que pensara em si mesmo como o protetor do rei. Que tolice!

Ele olhou de relance para Jasmine rígida ao seu lado. O olhar dela estava atento e aguçado, os lábios firmes. Atrás dela, erguia-se Barda, a espada nas mãos. Seu rosto ainda exibia sinais da doença, mas a expressão estava tomada pela determinação.

Lief afastou os temores, pois não havia lugar para fraqueza naquele momento. Ele se voltou para observar a pirâmide e empunhou a espada. A espada que o pai fizera para ele e que também poderia cortar cordas e libertar o seu rei, o que também era ideal naquelas circunstâncias.

Bak 1 sorriu cruelmente quando o grupo parou em frente à plataforma.

— Há um grande presente esperando por vocês — zombou ele. — Estão prestes a testemunhar um grande acontecimento antes de morrer.

Ele olhou para baixo aborrecido, quando Bak 3 surgiu correndo pela praça.

— Onde está Fallow? — ele indagou irritado.

— Ele não atendeu a porta — informou o outro ofegante. — Eu avisei.

— Então vamos começar sem ele! — Bak 1 disparou. — E ele que enfrente as conseqüências quando o mestre chegar! — Com um movimento súbito, ele se voltou para Bak 6, que saltou para o solo, apanhou uma tocha e a estendeu para o colega.

Os prisioneiros lutavam em vão com as correntes, os rostos transformados em máscaras de terror. Dain recostou-se ao poste e fechou os olhos.

Lief se preparou. Ele estava pronto...

— Agora, traidores — resmungou Bak 1, erguendo a tocha. — Assistam ao seu insignificante rei implorar misericórdia enquanto queima. — Ele encostou a tocha na madeira e saltou para um lugar seguro quando as chamas começaram a se espalhar.

— AGORA! — O rugido ecoou na praça. Não apenas uma voz, mas duas, e ambas com a força de um trovão.

 

Lief correu depressa como o vento, esquivando-se de todas as mãos que tentavam agarrá-lo, de todas as bolhas que eram atiradas em sua direção. Ele não olhou para trás e mal ouviu os gritos. A fúria avassaladora, as ordens bradadas que acabavam em gritos estridentes de terror. jasmine e Barda o acompanhavam, um de cada lado, mas não conseguiram manter o mesmo ritmo. Em segundos, ele atingiu a plataforma. Sozinho, saltou para o topo, cortou as cordas que prendiam Dain e puxou o corpo inerte para longe das chamas.

Os olhos lacrimejantes devido à fumaça, ele empurrou o rapaz plataforma abaixo e o soltou. Dain cambaleou e, então, vacilante pôs-se de pé. Lief lutava com o fecho do Cinturão de Deltora. Finalmente, conseguiu abri-lo e o puxou da cintura...

Ouviu-se um estrondo poderoso, um rugido ensurdecedor. Lief virou-se bruscamente. Jasmine e Barda oscilavam na beira de um imenso buraco que se abrira na praça. Tochas acesas espalhavam-se em volta deles. Nevets, Steven e um grande grupo de Guardas haviam desaparecido. Na noite, os gritos dos Guardas ecoaram horrendamente por um rápido momento para serem abafados em seguida. A terra tremeu quando Nevets golpeou as paredes de sua prisão.

Ratos surgiram do pequeno pátio onde se achava a carroça. À medida que corriam, sua pele mudava de cor sob as luzes tremeluzentes, e eles se transformaram em chamas brancas e flutuantes, com carvões incandescentes no lugar dos olhos e bocas desdentadas muito abertas. No centro de cada um, estava a marca do Senhor das Sombras.

Lief virou-se para Dain, o Cinturão pendendo de sua mão, a mente vazia diante do horror e da confusão. Uma armadilha fora montada para Nevets. Eles haviam sido traídos! Os planos deles eram conhecidos. Mas como? Ninguém sabia do esquema montado por Barda e Steven. Ninguém...

Então, ele viu a adaga no cinto de Dain. Desembainhada, a arma cintilava à luz intensa do fogo. A sua ponta emitia uma brilhante luz prateada. Lief desviou o olhar para os olhos escuros de Dain. E, naqueles olhos, finalmente sem disfarces, ele encontrou a resposta para todas as suas perguntas.

— Você! — disse ele com calma.

— Cometi um erro — disse Dain, sorrindo. — Eu deveria ter deixado a adaga de lado quando retomei esta forma. Tivemos sorte por você não ter notado antes de correr até mim. Isso teria arruinado o meu plano.

A mão dele tomou impulso e atingiu o braço de Lief com um tremendo golpe, jogando o Cinturão no fogo. Com um grito, Lief tentou apanhá-lo, mas Dain agarrou-lhe o pulso com uma força descomunal. Os olhos de Dain se apertaram e, de repente, a espada de Lief queimou-lhe os dedos e caiu de sua mão ferida, chocando-se inútil nos degraus da plataforma.

— Ainda assim, estou satisfeito por você saber a verdade, humano — Dain sussurrou. — Quero que saiba o quanto você tem sido idiota. Mas isso não importa agora. Por ora, o Cinturão de Adin não pode me prejudicar. Em breve, ele não passará de um monte de metal derretido.

Ele apontou os guardas remanescentes. Eles estavam boquiabertos, atônitos diante do que acontecera aos companheiros.

— Levem os prisioneiros para o palácio! — ele gritou com voz estridente. — Eles já não me servem mais.

— Não! Deixe-os ir! — gritou Lief. — Você tem o Cinturão! O que mais você quer?

— Quando eu o chamar, o meu mestre virá — Dain falava entre dentes. Seus olhos grandes e apáticos brilhavam. — Ele verá você, os seus companheiros e todos os outros traidores que encontrei e reuni aqui. Então, eu serei o seu favorito e dominarei este reino para ele, como a criatura fracassada encharcada de Lumin jamais poderia. E você... você morrerá em tormento entre a ruína e as cinzas de todos os que você ama.

A boca de Dain torceu-se numa expressão zombeteira ao notar o olhar de Lief.

— Seu idiota! Você nunca desconfiou que Ichabod cumpria ordens minhas. Que ele não tinha me levado embora, mas corria sozinho no escuro, tagarelando sobre Del! E, quando você encontrou a adaga na qual me transformei, não suspeitou de nada, mesmo sabendo que Ols de Grau Três podem assumir qualquer forma que quiserem. Você a colocou na própria cintura, como eu sabia que faria, choramingando a minha perda, mal sabendo que estava me carregando junto de si. Eu observei todos os seus movimentos, ouvi todos os seus planos. E esperei para ver qual a melhor maneira de destruir o demoníaco Steven e esse maldito Cinturão. Quando descobri o bastante, eu o deixei e vim até aqui para preparar... isto!

Ele acenou para a praça fervilhante, mas Lief se manteve firme e não desviou o olhar. Lief percebera um movimento atrás de Dain, alguém que se arrastava pelos degraus da plataforma em sua direção. Um rosto cujo formato era parecido com o de um gavião. Uma cicatriz recortada e clara. Cabelos negros emaranhados. Devagar, devagar...

— Eu confiei em você, Dain -disse Lief. — Pensei que você fosse o herdeiro.

— Como se esperava que fizesse desde o começo, humano — zombou Dain. Foi para isso que fui criado. Desempenhei o meu papel com perfeição, você não acha? Não cometi erros.

— Cometeu, sim — retrucou Lief. — Você não deveria ter entrado em Tora. Aquilo foi pura vaidade e, por pouco, não representou também a sua morte, não é verdade?

Pela primeira vez, os olhos de Dain mostraram incerteza, e o medo roçou-lhe a face. Mas ele não respondeu.

Mantenha-o falando. Mantenha-o olhando para mim.

— E você não conseguiu matar Barda com o veneno que lhe deu aos poucos — prosseguiu Lief hesitante. — É claro que eu deveria saber por que ele estava enfraquecendo. Eu tinha esquecido. É um sinal de alimento envenenado quando a cor da ametista perde o brilho. Mas você também esqueceu algo. A esmeralda é um antídoto para venenos. Eu o curei.

— Quando se defrontar com o meu mestre, ele vai desejar ter morrido — replicou Dain com um sorriso cínico.

Cada vez mais perto...

— Você tinha medo de Barda — afirmou Lief. — Ele sabia demais sobre o rei e o palácio. Você se deu conta de que ele era perigoso para os seus planos quando ele percebeu com tanta facilidade que o bilhete deixado com os esqueletos era falso. Outro dos planos de seu precioso mestre que caiu por terra!

Naquele momento, Dain já respirava com dificuldade. Seu rosto retorcido estava longe de se parecer com o do rapaz delicado e simples que Lief conhecera tão bem.

— Meu mestre tinha muitos planos, humano — ele retrucou. — E eu fui o mais bem escondido. Quantas vezes desejei poder passar informações a seu respeito ou matá-lo durante o sono! Mas isso era proibido. Meu mestre ordenou que eu mantivesse a paz e o silêncio. Eu fui a sua arma definitiva para ser empregada somente se todos os demais planos falhassem.

— Você o contatou uma vez — concluiu Lief. — Você lhe contou nossos nomes.

Dentro em breve...

Dain agarrou o peito ao relembrar a dor que sentiu.

— Eu fui... castigado por isso — disse ele sombrio. — Então, fiz meus próprios planos. E agora chegou o momento.

Sem aviso, ele atirou a cabeça para trás.

— Mestre! — gritou. — Chegou a hora!

Um trovão ensurdecedor sacudiu a terra. Grandes nuvens vermelhas começaram a rolar no céu, vindas do norte, escondendo as estrelas. Dain olhou para Lief, os olhos brilhantes.

— Os exércitos do Senhor das Sombras se levantaram! — gritou com voz estridente. — Todos, neste reino, que ousaram desafiá-lo serão destruídos. E você fez com que essa ira recaísse sobre suas cabeças. Você e os seus companheiros são os responsáveis, Lief de Del!

Perdição!

Com um grito, Perdição saltou sobre Dain derrubando-o e enterrando a espada em seu coração. Mas Dain retorceu-se como uma serpente, o corpo se dissolvendo e se reerguendo numa coluna esbranquiçada e nauseante. Uma névoa gelada se formou ao seu redor. Ele girava, os dedos estendendo-se na direção da garganta de Perdição. Dedos longos e finos que traziam consigo o gelo da morte.

Lief cambaleou para trás, estremecendo sob uma rajada de vento frio além de qualquer imaginação, que fez o fogo oscilar e se apagar.

Perdição estava de joelhos. O Ol que havia tomado a forma de Dain ria sem parar, apertando seu pescoço cada vez mais forte com o intuito de destruir. Gritos e gemidos vinham da praça enquanto Jasmine e Barda, tochas acesas, continham uma centena de Ols rastejantes, e os prisioneiros eram arrastados para longe. O céu se transformara numa massa escarlate.

Soluçando, Lief rastejou até o fogo. Ele se arrastou entre as brasas que se extinguiam, os dedos alternadamente queimando e congelando. Encontrou o Cinturão e ergueu-se com dificuldade. O objeto estava coberto de cinza branca, mas estava intacto. A cinza se desfez e revelou seu brilho. As pedras cintilaram sob o céu vermelho.

Agora!

Com as forças que lhe restavam, Lief atirou o Cinturão ao redor da cintura do Ol e apertou-o com ambas as mãos.

E o Ol gritou, e atirou os braços para cima, fazendo com que Perdição caísse pesadamente nos degraus de pedra. Fumaça se erguia do lugar que o Cinturão tocava e, debaixo dela, a carne branca e trêmula começou a se desfazer. O Ol se retorceu, tentando se libertar, mas ele já morria. Apenas um rosto surgiu da massa branca em decomposição. O rosto de Dain, sob todas as suas formas: tímido, suplicante, choroso, risonho, brincalhão, digno, corajoso...

Lief se curvou sufocado e com o estômago revirado, mas com toda a determinação segurou o Cinturão, fechando os olhos com força. Quando finalmente os abriu, restara somente uma poça repugnante formada por um líquido branco que escorria degraus abaixo.

Lief prendeu o Cinturão ao redor da própria cintura e saltou para a base da pirâmide onde Perdição se encontrava. O companheiro balbuciava e tremia de frio. Seus lábios estavam azulados e havia fortes marcas vermelhas ao redor de seu pescoço, além de um ferimento inchado em sua testa.

— Lief!

O rapaz ergueu os olhos assustado. Jasmine e Barda corriam em sua direção. Os Ols da praça não os seguiam, eles oscilavam e se juntavam desnorteados, como se estivessem confusos. Era como se a fonte de seu poder tivesse recebido um duro golpe pela destruição do maior dentre todos eles.

Contudo, alguns começavam a se recuperar, e as nuvens vermelhas se agitavam, como que em ebulição, à medida que se precipitavam em direção à cidade.

Freneticamente, levantando Perdição do chão, Lief tentou raciocinar. Para onde poderiam ir? Onde poderiam se esconder?

E então a resposta lhe veio à mente: para onde sempre ia quando estava em dificuldades.

Para casa.

 

A Ferraria estava escura e deserta. A marca do Senhor das Sombras ainda no portão. Mas ali havia abrigo, calor, água, e, naquele momento, havia segurança.

Eles acenderam o fogo e envolveram Perdição em cobertores. Deram-lhe mel Abelha Rainha e banharam-lhe os ferimentos. E, finalmente, ele pareceu começar a se recuperar. As pálpebras tremeram e se abriram. Ele lançou um olhar vazio para as chamas que saltavam na lareira.

— Onde?... balbuciou com voz rouca. Ele levou a mão à garganta e depois ao inchaço da testa.

— Não tente falar — sussurrou Lief. Perdição virou a cabeça para fitá-lo. O olhar dele parecia confuso, como se não o reconhecesse.

— A pancada na cabeça foi muito forte — disse Jasmine, andando pelo aposento inquieta. — Ele precisa de tempo para se recuperar.

— Pois tempo é o que não temos. — Barda foi até a janela e espiou para fora através das cortinas com cuidado. — Quando eles perceberem que escapamos, virão procurar aqui. Com certeza. Precisamos ir para outro lugar depressa.

Mas Lief observava Perdição. O homem contemplava atentamente o aposento, a testa franzida demonstrando perplexidade enquanto os seus olhos se demoravam sobre as mesas, as cadeiras, as almofadas. Era como se o lugar de certa forma lhe parecesse familiar. Então, Perdição viu Jasmine, e o rosto dele se iluminou. Seus lábios se moveram.

— Jasmine! — sussurrou Lief. — Venha, depressa!

Jasmine correu até o fogo e agachou-se ao lado de Perdição. Ele ergueu a mão e tocou-lhe a face. Seus lábios moveram-se novamente. As palavras saíram fracas, tão fracas que mal podiam ser ouvidas.

— Jasmine. Pequenina. Você... cresceu e ficou tão parecida com ela. Tão parecida... com a sua mãe.

Jasmine afastou-se dele com um movimento brusco, sacudindo-lhe a mão como se fosse um inseto venenoso.

— Como poderia saber disso? Minha mãe morreu! — ela gritou zangada.

— Sim. Minha querida amada... morta. — O rosto de Perdição se retorceu de dor, e os olhos dele encheram-se de lágrimas. O coração de Lief passou a bater descompassadamente.

— Jasmine... — ele sussurrou.

Mas Jasmine, tentando interromper os soluços, havia dado as costas.

Os olhos de Perdição fecharam-se mais uma vez. Contudo, ele tornou a falar.

— Eles se recusam a nos dar refúgio, minha querida — ele murmurou, os dedos curvando-se como se estivesse amassando um bilhete. — Precisamos... voltar... ir para leste de Del e não para oeste...

Lief prendeu a respiração, percebendo que Perdição estava revivendo um tempo há muito esquecido. O golpe em sua cabeça destrancara a porta atrás da qual a sua memória estivera escondida.

— Precisamos — Perdição murmurou. — As notícias... Guardas... esperando na estrada para o oeste. Todas as mulheres com bebês... mortas. Nós iremos para o leste... para as Florestas. Eles não vão pensar em nos procurar lá. — Ele fez uma pausa e pareceu ouvir. A sua boca curvou-se num sorriso terno quando a voz amada lhe falou em pensamento.

Jasmine havia se voltado para ele. Lágrimas rolavam por suas faces. Filli emitia leves sons preocupados, e Kree piava tristemente. Distraída, ela ergueu a mão para tranqüilizá-los, mas os olhos dela estavam fixos em Perdição.

— Perigo? — ele suspirou. — Sim, querida. Mas há perigo em toda parte. Seremos cuidadosos. Nós... vamos sobreviver. Nossa filha vai ficar em segurança. Crescer forte, até chegar o momento...

O coração de Lief martelava-lhe no peito. Ele mal conseguia respirar. Ele viu que Barda se afastara da janela e os olhava aturdido. Perdição moveu a cabeça inquieto.

— Pequenina... Jasmine...

— Estou aqui, meu pai — ela respondeu com suavidade, tomando a mão de Perdição entre as dela.

Perdição tentou abrir os olhos mais uma vez, porém suas pálpebras estavam pesadas.

— Pobre garotinha valente — ele murmurou. — Sem amiguinhos para brincar além de pássaros e animais. Sem brinquedos além dos que as Florestas podiam proporcionar. Nada de livros ou de conforto. E medo... sempre o medo. Tantas vezes nos perguntamos se fizéramos a coisa certa. Não nos arrependemos da escolha por nós. Mas por você... — A voz dele foi sumindo. Ele estava deslizando para o mundo do sono mais uma vez.

— Eu era feliz, meu pai — Jasmine esfregou o rosto, tentando furiosamente secar as lágrimas. — Eu tinha você e mamãe. Eu tinha jogos, canções, versos. — Ela puxou a manga de Perdição, tentando acordá-lo. Havia um poema de que eu gostava especialmente porque vinha acompanhado de figuras — tagarelou ela. — Você o deu para mim, pai, lembra?

Perdição não respondeu. Desesperada, Jasmine soltou-lhe a mão e começou a remexer os bolsos do casaco. Os seus tesouros se acumularam no colo: penas e fios, um pente de dentes quebrados, um caco de espelho, moedas, pedras, cascas de árvore, pedaços de papel... Finalmente, ela encontrou o que procurava. O papel mais velho de todos, encardido e várias vezes dobrado.

Ela o desdobrou com cuidado e sacudiu-o em frente ao rosto inconsciente de Perdição.

— Eu ainda o tenho — gritou ela. — Está vendo?

Mal acreditando no que via, Lief ergueu o rosto para encontrar o olhar de Barda. Os versos aprendidos na infância por Endon. Os versos que indicavam o caminho secreto para o palácio. Repetidos naquele mesmo aposento pelo pai de Lief quando a história da fuga de Endon e Sharn foi contada. Ali estava uma prova que não podia ser contestada. E Jasmine a carregara o tempo todo.

Seu pensamento voltou a Withick Mire, ao momento em que as sete tribos juraram sobre o Cinturão. Ele soubera, então, que o herdeiro estava presente.

E ele estava certo.

Com dedos trêmulos, Lief retirou o Cinturão de Deltora da cintura e tocou o braço de Jasmine. Ela se voltou, a expressão angustiada. Lief estendeu-lhe o Cinturão.

Ela arregalou os olhos assustada ao compreender o que ele queria. Ela recuou e sacudiu a cabeça.

— Jasmine, coloque-o! — Barda vociferou. — Perdição é Endon. Você é filha dele. Você é a herdeira de Deltora!

— Não! — Jasmine gritou. Ela balançou a cabeça novamente, afastando-se de Lief, enquanto Kree grasnava, batendo as asas em seu ombro. — Não! Não pode ser! Eu não quero! Eu não posso!

— Você pode! — Lief insistiu. — Você precisa!

Ela o fitou por um instante desafiadora. Então, sua expressão pareceu demonstrar derrota. Ela se ergueu com dificuldade e esperou. Lief se aproximou e, prendendo a respiração, envolveu-lhe a cintura delgada com o Cinturão e fechou-o...

E nada aconteceu. O Cinturão não emitiu faíscas, tampouco um brilho especial. Nada mudou. Com um grande e profundo suspiro, Jasmine abriu o fecho, e o Cinturão caiu no chão a seus pés.

— Pegue-o de volta, Lief — disse ela desanimada. — Eu sabia que isso estava errado.

— Mas... mas não pode estar errado! — balbuciou Lief. — Você é a herdeira!

— E, se eu for — Jasmine replicou com a mesma voz fria —, então tudo o que nos contaram sobre o Cinturão é mentira. Perdição, o meu pai, tinha razão o tempo todo. Arriscamos nossas vidas e nossas esperanças por um mito. Uma velha história criada para pessoas que queriam acreditar em mágica.

Barda deixou-se cair numa cadeira e enterrou o rosto nas mãos.

Lief abaixou-se e apanhou o Cinturão do chão. Ao prendê-lo novamente ao redor da cintura, estava aturdido. Por que o Cinturão não havia brilhado? Seria porque Jasmine não o queria?

Ou haveria algo de errado com o próprio Cinturão? Seria uma das pedras falsa? Não. O Cinturão havia se aquecido à adição de cada uma das pedras. Ele as havia sentido. Ele as conhecia.

Lief se afastou do fogo, do silêncio de Barda e de Jasmine ajoelhada ao lado de Perdição, que dormia. Vagueou para fora do aposento, para a escuridão, foi tateando até seu antigo quarto e deitou-se na cama, atento ao seu ranger familiar.

A última vez em que despertara nesse quarto fora no dia de seu décimo sexto aniversário. O garoto que estivera deitado ali lhe parecia um estranho...

Lief ergueu-se de um salto assustado ao ouvir um estrondo e um grito na frente da casa.

— Eu o peguei! — bradou uma voz rouca. — Agora, a garota! A garota!

Lief caminhou cegamente na direção da porta do quarto e empunhou a espada, escutando com horror o som de vidros quebrados, imprecações e o som de pesadas botas no chão. Kree grasnava desenfreadamente.

— Cuidado com o pássaro! — rugiu outra voz. — Ah! Seu demônio! Desesperado, Lief apoiou-se à parede, tateando na direção do som.

— Afaste-se! — gritou Jasmine. — Afaste-se! Somos apenas três aqui, e vocês são dez! Dez!

Lief ficou paralisado. Jasmine o avisava de que seria inútil tentar interferir. Avisava-o para manter-se afastado e, ao mesmo tempo, fazendo com que os Guardas acreditassem que apenas ela, Perdição e Barda ocupavam a casa.

Ele escutou um grunhido de dor e em seguida o som de uma forte bofetada.

— Isso vai ensinar você a não morder! — vociferou um dos Guardas. — Três de vocês, ora essa! Bem onde Fallow disse que vocês estariam. E um praticamente morto. Foi fácil demais!

Ouviu-se uma explosão de gargalhadas seguida do som de corpos sendo arrastados pelo chão. E então... o silêncio.

Lief aguardou alguns momentos e se esgueirou para a sala de estar. O fogo ainda crepitava intensamente. Uma luz acolhedora tremeluzia sobre uma cena de destruição. Móveis haviam sido atirados para todos os lados durante a luta. Ambas as janelas haviam sido estilhaçadas.

Kree encontrava-se pousado numa cadeira caída. Quando Lief se aproximou dele, ele virou a cabeça e grasnou desconsolado.

Lief segurou com força o punho da espada. De repente, foi invadido por uma fúria cortante.

— Eu também não pude salvá-los, Kree — ele disse. — Mas isso não termina aqui.

Ele estendeu o braço, e Kree voou até ele. Quase ao mesmo tempo, através das janelas quebradas chegou o som estridente de sinos tocando. Lief sentiu-se paralisar, pois sabia o que aquilo significava. Ele já ouvira os sinos antes.

— As pessoas estão sendo convocadas para ir até o palácio, Kree — disse ele sombrio. — E nós também precisamos ir. Mas não para ficar do lado de fora dos muros com os demais. Nós precisamos entrar.

Lief se dirigiu à lareira e apanhou o velho pedaço de papel que Jasmine deixara cair no tapete. Com cuidado, ele o dobrou e guardou no bolso.

Chegara o momento de despertar o urso outra vez.

 

A capela estava fria e vazia quando Lief rastejou do túnel secreto e empurrou de volta para o lugar ladrilho de mármore que o ocultava. Trêmulo, ele abriu a porta da capela e subiu os degraus envoltos na penumbra com Kree firmemente pousado em seu braço.

Lief não dispunha de nenhum plano, mas, de algum modo, parecia certo ele se encontrar naquele lugar. "Aqui essa história começou, aqui vai terminar", pensou ele. "De um jeito ou de outro."

Ele espiou da escuridão dos degraus para o enorme espaço adiante. O andar térreo do palácio parecia deserto, mas pelas longas escadarias que subiam em espiral aos andares superiores ecoava um som distante e murmurante. O som de uma grande multidão.

Lief sabia de onde vinha o som. Ele flutuava pela imensa janela aberta do grande salão no primeiro andar. Os habitantes de Del que abarrotavam a colina atrás dos jardins do palácio olhavam para o Local das Punições, uma plataforma de madeira sustentada por grandes postes e que se estendia das janelas do grande salão até o muro que cercava o jardim. A bandeira das Terras das Sombras, uma mão vermelha sobre um fundo cinzento, pendia de um mastro diretamente acima dela.

O Local havia sido construído quando da chegada do Senhor das Sombras. Vê-lo, mesmo que à distância, assustara Lief desde a infância, pois mesmo as criancinhas proibidas de virar a cabeça eram obrigadas a testemunhar as execuções que ali ocorriam. O Senhor das Sombras queria que todos em Del conhecessem o preço de uma rebelião.

E assim era feito. Uma ou duas vezes ao ano eles assistiam a cenas terríveis no Local das Punições e, nesse meio-tempo, ele ali ficava como um lembrete constante.

O chão debaixo dele estava abarrotado de ossos. O muro estava cravejado de crânios, e da beira da plataforma pendia uma espessa franja oscilante de corpos em decomposição, cada qual exibindo a marca do Senhor das Sombras.

— Povo de Del! Olhe para estes traidores! — Lief agarrou a espada enquanto a voz fina e penetrante ecoava debilmente escadas abaixo. O próprio Fallow se encontrava no Local, dirigindo-se à multidão. Geralmente, um dos Guardas Cinzentos conduzia as execuções, mas essa, naturalmente, era uma ocasião especial.

Correndo pelo caminho secreto, Lief atingira o palácio muito depressa. Movendo-se penosamente pelo longo trajeto que levava ao topo da colina, os Guardas que haviam atacado a ferraria ainda não poderiam ter chegado. Mas Fallow tinha seis outros exemplos para exibir à multidão enquanto esperava notícias sobre a captura dos que ele mais desejava.

Rapidamente, Lief olhou ao redor. Ele sabia que chegar ao Local pelo interior do Palácio seria impossível, já que Guardas e empregados sempre se amontoavam nas janelas que beiravam a plataforma.

Contudo, baseado no que o pai lhe contara, Lief sabia que as cozinhas estavam próximas e que estariam vazias, pois todos os empregados estariam no andar superior. Ele poderia atravessar as cozinhas, sair e atingir a plataforma pelo lado de fora e depois escalar um dos postes que a sustentavam por baixo.

Mas... o Local estava bem iluminado. Os Guardas que se postavam na beira da plataforma o veriam assim que surgisse. Além disso, eles estariam munidos de bolhas, preparadas em suas atiradeiras e de um farto suprimento adicional armazenado em caixas atrás deles. Eles tinham ordens de atirá-las na multidão a qualquer sinal de desobediência.

— Se ao menos eu pudesse voar como você, Kree — murmurou ele, olhando o pássaro pousado rigidamente em seu braço. — Então, eu poderia surpreendê-los de cima.

Kree piscou e empertigou a cabeça. Nesse momento, Lief soube o que deveria fazer.

Em instantes, ele se encontrava do lado de fora. As nuvens vermelho-escuras pendiam pesadas acima de sua cabeça, lançando um rubor sinistro sobre a terra. Ele conseguia ouvir claramente a voz de Fallow.

— ...unidos numa conspiração para derrubar nosso grande líder. Uma conspiração fadada ao fracasso como estão fadados todos os atos malignos como este.

Lief apagou o som de sua mente.

Depressa!

O palácio assomava sobre ele. Escuro, mas com inúmeras janelas, enfeites e outros apoios seguros para os pés.

Lief começou a escalar. Ele subiu, passou as janelas do primeiro andar, esgueirou-se para cima pelo beirai estreito que corria sob as janelas do segundo andar.

Sem dúvida alguma, os empregados que limpavam as janelas sentavam-se no beirai com freqüência, mas Lief encontrava-se de pé e sentiu um frio no estômago quando se virou com cuidado até que as suas costas tocaram a parede. Em seguida, começou a se mover, esgueirando-se pelo beirai até a esquina do prédio e para o outro lado...

Lá embaixo, bem à sua esquerda, o Local das Punições encontrava-se iluminado por uma luz intensa.

Ele chegou mais e mais perto...

O Local estava tomado por Guardas. Tochas ardiam, iluminando a escuridão. Enormes cones vermelhos estavam colocados em cada extremidade da plataforma. Lief nunca os vira antes e não conseguiu atinar com o seu objetivo. De um lado, havia um enorme recipiente de metal cheio de carvões incandescentes. Lief cerrou os dentes. Ele sabia bem demais para que serviam.

Fallow encontrava-se no centro do tablado segurando duas correntes que estavam presas aos pescoços de um par de prisioneiros estatelados aos seus pés. Outros seis vultos acorrentados formavam uma fila maltrapilha atrás dele. Glock, Zeean, Manus, Nanion, Gla-Thon, Fardeep. Todos estavam feridos. Zeean oscilava. Glock mal conseguia manter-se em pé. Fallow fincava neles o dedo ossudo.

— Olhe para eles, povo de Del! — gritava ele com a voz esganiçada. — Estão vendo estes intrusos? Os seus corpos feios? Os seus rostos malignos e retorcidos? Monstros! Invasores de Del! Merecem duas marcas e a morte!

Lief foi invadido por uma onda de intensa vertigem. Ofegante, ele pressionou as costas contra a parede. A garganta apertada mal o deixava respirar.

Seis Guardas se adiantaram e mergulharam ferros de marcar no recipiente de carvão. Eles riram e cuspiram no metal que se aquecia. Chegara a hora de eles se divertirem.

Os Guardas que estavam voltados para a multidão ergueram as atiradeiras ameaçadores.

— Duas marcas e a morte! — repetiam as pessoas.

Lief lançou um olhar desesperado para o mar de rostos que bradavam e olhavam para cima. Ele não viu sorrisos de alegria ou expressões iradas. Os rostos estavam totalmente indiferentes, os rostos de pessoas que haviam ultrapassado a esperança e o desespero.

De repente, Fallow olhou para além dele, para as janelas do grande salão. Guardas moviam-se ali, saindo atabalhoadamente do caminho de outro guarda que chegava correndo. O recém-chegado fez um sinal para Fallow, acenando excitado e apontando para trás. A expressão de Fallow mudou. Um sorriso triunfante espalhou-se em seu rosto e ele ergueu os olhos. Lief prendeu a respiração e colou-se ainda mais contra a parede.

Fallow, porém, não o viu, pois olhava muito mais para cima... para a torre. Sete pássaros imensos encontravam-se pousados em seu telhado, os bicos cruéis e curvos destacando-se contra o céu escarlate. Em seu interior, na caixa de vidro onde antes ficava guardado o Cinturão de Deltora, uma fumaça vermelha formava espirais. E um vulto escondido pelas sombras observava imóvel...

Lief andou mais para o lado na saliência da parede. Agora ele se encontrava exatamente onde queria estar: numa pequena plataforma de pedra diretamente acima do Local das Punições e ao lado do poste de metal que carregava a bandeira das Terras das Sombras. Obrigando as mãos trêmulas a obedecê-lo, tirou o rolo de corda do cinto e amarrou uma das extremidades ao mastro. Lief puxou delicadamente e sentiu que ela suportaria o seu peso.

Fallow voltou-se novamente para a multidão com um movimento brusco. Ele gesticulou, e os Guardas puxaram os seis prisioneiros condenados para trás com brutalidade, posicionando-os de encontro à parede do palácio.

— A punição deles pode esperar! — gritou Fallow sem disfarçar sua alegria. — Agora posso anunciar que, seguindo as minhas ordens, nossos três maiores inimigos foram capturados! Eu sabia que isso ia acontecer!

O rosto carregado de ódio e despeito, ele se inclinou para puxar os vultos encolhidos aos seus pés.

Lief sentiu o coração parar ao constatar que o casal indefeso eram seu pai e sua mãe. Maltrapilhos, macilentos, eles se curvaram sob as mãos cruéis de Fallow.

Ele os sacudia pelas argolas de ferro, assim como um cão sacode um rato e, então, os depôs no chão novamente. Eles ficaram em pé oscilantes.

— Esses dois desgraçados vão rever o filho antes de morrer! — vociferou. — Olhem para eles! O pai e a mãe da traição! Agora eles vão pagar pelo mal que causaram, pelas mentiras que contaram!

Lief sentiu um horrível rugido em seus ouvidos. Ele viu a multidão fitando os prisioneiros. Viu muitos dos rostos inexpressivos se contraírem de dor ao reconhecerem o homem gentil e calado e a mulher doce e alegre da ferraria. Alguns, provavelmente, nem sabiam os seus nomes, mas conheciam-lhes o temperamento. Assim, sofreram impotentes por aquilo que estava para acontecer.

Lentamente, Lief abriu o Cinturão de Deltora e pousou-o aos seus pés. Ele o ajudaria na luta que esperava enfrentar, mas Lief sabia que aquela era uma luta que não poderia vencer. Se tinha de morrer, não o faria usando o Cinturão. Não permitiria que o objeto fizesse parte de sua derrota e dor, tampouco que os pais o vissem arrastado no pó.

Ele olhou para baixo, para o precioso e misterioso objeto que o trouxera até ali. Estava completo, afinal. E ele era poderoso. Poderoso o bastante para matar Dain. Poderoso o bastante para sentir a presença do herdeiro. E, no entanto... de alguma forma, não era perfeito. De algum modo, ele e os companheiros não descobriram o seu segredo mais importante. Lief estava atormentado pela sensação de que a resposta estava diante de seus olhos. Se ao menos pudesse vê-la...

As pedras ali ficaram, reluzindo em seus medalhões de aço. O topázio, o rubi, a opala, o lápis-lazúli, a esmeralda, a ametista, o diamante.

Lief lembrou-se da conquista de cada uma delas, o que sentira ao serem adicionadas ao Cinturão, uma de cada vez.

Adicionadas... uma de cada vez...

Sua pele começou a formigar. Palavras de O Cinturão de Deltora, de que se lembrava muito bem, invadiram-lhe a mente:

 

Cada pedra encerra a própria magia, mas juntas as sete criam um encantamento que é muito mais poderoso do que a soma das partes. Somente o Cinturão de Deltora, completo como quando foi fabricado por Adin e usado por um de seus legítimos herdeiros, tem o poder de derrotar o inimigo.

 

...completo como quando foi fabricado por Adin...

...juntas as sete criam um encantamento... um encantamento... ENCANTAMENTO!

Lief puxou a adaga e agachou-se sobre o Cinturão. As pontas de seus dedos formigavam enquanto ele usava a ponta da adaga para tirar as pedras de seus medalhões, uma a uma. Ele teve a sensação de que elas saíam facilmente como se o ajudassem, e o ajudassem também quando as recolocou, mas dessa vez em uma ordem diferente. A ordem certa.

Diamante. Esmeralda. Lápis-lazúli. Topázio. Opala. Rubi. Ametista.

DELTORA.

Com um profundo suspiro, Lief se ergueu, o Cinturão de Deltora brilhando em suas mãos. Sua respiração havia se acalmado. Suas mãos estavam firmes. Ele sabia, sem sombra de dúvidas, que finalmente o Cinturão estava como deveria ser, como quando foi fabricado por Adin, que usara as iniciais dos talismãs das sete tribos para formar o nome de seu reino unido. Agora ele estava pronto para ser reclamado pelo legítimo herdeiro de Adin.

E Jasmine estava chegando. A qualquer momento, ela seria arrastada para a plataforma. Naquele momento, Lief soube por que tinha sido conduzido para aquele lugar. Agora, ele tinha um plano.

 

Houve uma súbita confusão ruidosa nas janelas abaixo. Os recém-capturados estavam passando. Fallow gritou uma ordem com voz esganiçada. Guardas encostaram tochas nos cones vermelhos. A multidão assustada sufocou um grito quando uma luz branca e ofuscante sibilou e rebentou em chamas. A luz inundou o local, iluminando os rostos dos prisioneiros, expulsando todas as sombras, espalhando-se por todo o palácio quase até o telhado.

Expondo Lief...

Ele recuou, mas não havia onde se esconder. E o povo de Del, olhando para cima, pôde vê-lo claramente. Seu coração acelerou enquanto ele esperava que alguém o denunciasse, apontasse e exclamasse. Esperava que Fallow se voltasse e acompanhasse os dedos que apontavam, visse-o e gritasse para os Guardas...

Mas o que houve foi um silêncio profundo e completo. Lief viu uma criança de olhos arregalados no colo da mãe começar a erguer a mãozinha, mas a mãe a impediu rapidamente, murmurando-lhe algo ao ouvido, fazendo-a aquietar-se.

Lief olhou fixamente e prendeu a respiração. O povo de Del devolveu-lhe o olhar, as faces atentas. Muitos o conheciam bem: os seus amigos, os amigos de seus pais, os que haviam visitado a ferraria quando trabalhava com o pai. Outros o conheciam somente de vista, como um aborrecimento, um garoto selvagem que corria com os amigos pela cidade. Alguns nunca o tinham visto.

Mas eles sabiam que Lief era um deles. O povo viu o que estava em suas mãos. E nenhum deles iria denunciá-lo.

Fallow nada notou. Ele observava Jasmine, Barda e Perdição vendados com capuzes e presos com pesadas correntes, sendo arrastados para onde ele se encontrava.

Lief mediu a distância até Jasmine com os olhos, segurou a corda na mão direita, agarrou o Cinturão firmemente com a esquerda...

As pessoas assistiam a tudo. Em silêncio. Desejando-lhe sorte. Lief sentiu os pensamentos delas com tanta nitidez como se estivessem sendo proferidos em voz alta. Como se estivessem fluindo por seu corpo, dando-lhe forças.

— Agora! — Fallow gritou. — Agora, eu lhes mostro três traidores que quase escaparam, porque uma criatura vaidosa e tola tomada pelo orgulho e que acreditou ser minha rival colocou os próprios planos secretos em ação enquanto eu estava... ocupado com outras tarefas importantes.

Sorrindo, ele arrancou o capuz de Jasmine e depois o de Barda. Contudo, quando viu Perdição, o sorriso desapareceu. Ele deu um passo atrás; na expressão, um misto de temor e ira.

Espere...

Lief viu o pai se virar e olhar para Perdição. Ele viu o olhar do pai se iluminar numa mistura de alegria e sofrimento. Viu-o estender a mão trêmula para o amigo de infância.

Viu Perdição devolver-lhe o olhar, o rosto devastado repentinamente invadido pela consciência, pela memória. Depois, Perdição virou-se e olhou ao redor, procurando com insistência alguém que não conseguia encontrar.

"Procurando por mim."

— Idiotas! — Fallow vociferou ferozmente aos Guardas que haviam trazido os prisioneiros. — Este não é um dos três. Onde está o garoto? Onde está?

Os Guardas balbuciaram confusos e recuaram.

Agora!

Lief saltou, enquanto Kree grasnava sobre sua cabeça. Ele balançou o corpo na direção do pátio, soltou a corda e aterrissou exatamente atrás de Jasmine, cambaleando, mas recuperando o equilíbrio logo em seguida. Saltou para o lado dela, o Cinturão numa das mãos. Lief viu-lhe o rosto, os olhos arregalados pelo susto, escutou Barda gritando, a multidão rugindo, Fallow vociferando para os Guardas. E, da torre, saiu um grito de fúria que pareceu cortar-lhe a carne, derreter-lhe os ossos, fazendo-o cair de joelhos.

Relâmpagos cortaram o céu em fogo e caíram em sua direção. Ele jogou-se para o lado, rolando atônito no chão ao constatar que a descarga elétrica atingira o local onde estivera ajoelhado. Com o estrondo de madeira se partindo, a parte dianteira da plataforma desmoronou como se um gigante a tivesse esmagado com um punho poderoso. Suas duas metades tombaram uma de encontro à outra como avalanches, fazendo com que o Guarda mais próximo caísse, debatendo-se e gritando, para o enorme espaço que se formou, enquanto carvões incandescentes deslizavam atrás dele.

Novos relâmpagos cortaram o céu repetidas vezes. Trovões ribombantes sacudiram a terra trêmula e deles surgiram os sete Ak-Babas emitindo gritos espectrais que mais pareciam lamentos que enregelavam o sangue.

Lief agarrou-se desesperado às tábuas que se inclinavam. A multidão agora gritava, gritava para ele...

Mas... Fallow se apoderara dele. A mão gelada apertava-lhe a garganta e puxava-o para cima. O rosto odiado e retorcido encontrava-se próximo ao dele, os lábios contorcidos num rosnado de triunfo enquanto Lief lutava para empunhar a espada.

Então, bruscamente, o rosto moveu-se subitamente para trás, os olhos saltados. Lief caiu para trás mais uma vez quando a mão gélida o soltou e se precipitou para a própria garganta magra, desesperadamente agarrando as correntes que o estrangulavam e cortavam profundamente a sua carne.

Saberia Fallow quem o capturara? Quem se encontrava atrás dele naquele momento, usando suas últimas forças para erguê-lo, sufocando-o e afastando-o de sua presa?

Aqueles que ele imaginara estarem fracos demais para representar uma ameaça. Cujas correntes ele soltara sem refletir.

— Pai! Mãe! Cuidado! — gritou Lief, lutando para galgar a plataforma inclinada e se aproximar deles. Fallow procurava a adaga e a encontrou. — Lief saltou para frente.

— Não, Lief! — gritou o pai. — O Cinturão! Você...

A voz de Jarred foi silenciada pelo golpe de Fallow. Ele se encolheu e caiu. A mãe de Lief o segurou e juntos desabaram sobre as tábuas que se despedaçavam. Ela estendeu uma das mãos rapidamente e agarrou a ponta da plataforma para evitar a queda de ambos, o seu grito se perdendo no vento enraivecido e nos grasnidos dos Ak-Babas.

Fallow foi arrastado para baixo com eles, pego pelas correntes que lhe rodeavam a garganta. Ele se libertou, contorcendo-se sobre as tábuas que caíam, lutando para respirar e para se erguer. Então, viu o cone vermelho de luz deslizando lentamente em sua direção. A criatura estendeu a mão, agarrou-o pela base e percebeu o perigo que o aguardava.

Tarde demais. Muito lentamente, o cone se inclinou. A luz branca e líquida derramou-se sobre Fallow e cobriu-o, chiando enquanto ele gritava.

Em seguida, ouviu-se um rugido e uma agitação vindos de cima. Lief olhou e notou que uma fumaça vermelha jorrava da torre. Uma fumaça vermelha, espessa e circundada por uma borda cinzenta, pesada e ameaçadora. Uma luz cinza girava e formava espirais em suas profundezas. Em seu centro, um imenso vulto se formava. Mãos que se estendiam, olhos famintos por vingança.

Lief virou-se repentinamente e viu Jasmine e Barda voltados para o outro lado da plataforma, agarrando-se às tábuas numa tentativa de salvar suas vidas enquanto as pranchas se inclinavam cada vez mais. Acima deles, um Ak-Baba esvoaçava, as garras estendidas. Kree disparava na direção da cabeça do monstro, os olhos amarelos faiscando enquanto bicava aqui e ali. O Ak-Baba grasnava furioso, girando o pescoço, tentando livrar-se do atacante.

Lief cerrou os dentes preparado para o salto mais importante de sua vida. Seria capaz disso? Atravessar o espaço que se abria cada vez mais e escalar as tábuas fortemente inclinadas e escorregadias? Com a espada em uma das mãos e o Cinturão de Deltora firmemente preso na outra?

Em outra época, ele não pensaria duas vezes para agir. Agora, estava mais sábio. Firmando os pés, Lief embainhou a espada e prendeu o Cinturão ao redor da cintura...

E... nesse momento o tempo pareceu parar.

O quê...?

Uma onda de calor invadiu o corpo do rapaz quando ele ouviu um som estranho e crepitante, e o Cinturão pareceu explodir em luz.

Um rugido furioso sacudiu o palácio até o seu interior. A fumaça vermelha recuou, sibilando até as nuvens quentes. Mas as pedras do Cinturão de Deltora reluziam como fogo, seu brilho semelhante ao de um arco-íris se espalhando para fora e enchendo o ar, expulsando a noite, dançando nos rostos das pessoas que davam vivas e choravam. E, no centro da luz, estava Lief. Lief, o legítimo herdeiro de Deltora, finalmente revelado.

Emitindo gritos agudos, dominado pelo pânico, o Ak-Baba se afastou e voou para o alto da torre. Mas a torre estava vazia. E as nuvens vermelhas já se afastavam na direção das Terras das Sombras, uma perversidade furiosa rugindo em seu âmago. Uma perversidade que não iria desaparecer, mas que sabia que aquela batalha, ao menos, ela não poderia vencer.

Perplexo, Lief olhou ao redor. Ele viu a mãe sorrindo, soluçando, aconchegando a cabeça do pai no colo, enquanto Perdição ajoelhava-se ao lado deles. Ele viu Jasmine e Barda abraçados, os rostos tomados pela alegria e pelo alívio ao mesmo tempo em que Kree grasnava acima deles e Filli dançava no ombro de Jasmine. Lief olhou para trás e viu Manus, Gla-Thon, Nanion e Fardeep, que não se continham de alegria. Observou Zeean erguendo a cabeça, os olhos brilhantes. E Glock... o rosto tomado por um enorme sorriso.

"Eles estão a salvo", Lief pensou, o coração cheio de alegria. Todos ficariam a salvo.

Os Guardas restantes apanhavam dezenas de bolhas das caixas e as atiravam sobre a multidão que comemorava. Mas as pessoas já haviam descoberto que a água e a seiva de árvores Boolong eram inofensivas. Em breve, os Guardas se dariam conta do perigo que os aguardava.

Eles tinham sido abandonados sem piedade, assim como os Ols que, privados de sua fonte de poder, encontravam-se largados com os corações em pedaços, encarquilhados na praça do mercado para a qual, finalmente, Steven conseguia escalar. Assim como Ichabod, escarrapachado como um saco vazio de pele vermelha sobre os ossos roídos de sua última refeição.

E assim seria dali em diante em todo o reino. À medida que o esplendor do Cinturão tomava conta de Lief, os seus olhos pareciam atravessar a escuridão e a distância. De Raladin a Rithmere, da Montanha do Medo ao Vale dos Perdidos, do Rio Largo a Withick Mire, o medo estava desaparecendo.

Em toda Deltora, o povo testemunhava a queda dos inimigos, as nuvens da maldade se afastando. As pessoas atiravam as armas ao chão alegres, saíam dos esconderijos, abraçavam os seres amados e olhavam para o céu. Elas sabiam que, de repente e de forma surpreendente, um milagre havia acontecido. E que, finalmente, estavam livres.

Lief sabia de tudo isso. Ele sabia e aceitava o fato de ser o herdeiro de Deltora. O Cinturão era uma prova acima de qualquer suspeita. Mas como? Qual a explicação para aquilo?

 

Atordoado, Lief escalou até onde os pais se encontravam. Ao se ajoelhar ao lado deles abraçando a mãe e inclinando-se sobre o pai, ele encontrou o olhar de Perdição. Seus lábios torceram-se numa sombra do que fora o seu velho sorriso zombeteiro. "Você ainda não compreendeu?", o sorriso pareceu perguntar.

Lief sacudiu a cabeça. Vagamente, ele ouvia a multidão ainda gritar animada. Ele sentiu Jasmine e Barda livres das correntes precipitarem-se para ele. Mas ele não conseguia se mover. Ele só conseguia fitar Perdição, o olhar repleto de perguntas.

— O esconderijo perfeito — Perdição murmurou. — Não concorda? Quem iria suspeitar? Quem desconfiaria que o homem e a mulher que haviam fugido de Del naquela noite, há quase dezessete anos, estavam deixando pistas falsas? Que eles não eram o rei e a rainha?

O olhar dele se encheu de emoção ao olhar os pais de Lief.

— Quem suspeitaria de que o rei de Deltora poderia viver como um ferreiro? E que a rainha, uma refinada senhora de sangue torano, poderia cultivar legumes e tecer fios comuns? No entanto, quem era Adin senão um ferreiro?

Então, ele se virou para Lief, lançando-lhe um olhar interrogativo.

— E o que poderia ser melhor do que criar o herdeiro de Deltora como um garoto comum, aprendendo a observar o que acontece no mundo e ao seu povo?

Então, admirado, Lief compreendeu o plano em toda a sua simplicidade. Um plano baseado em sacrifícios e, também, na confusão e no caos em que Deltora havia se transformado quando os vizinhos perderam de vista outros vizinhos, amigos perderam contato com seus amigos e nenhum rosto era conhecido.

O plano de Perdição... Perdição, que não era Endon, mas Jarred. Jarred que, com a amada esposa, havia emprestado sua identidade, seu lar e sua vida ao amigo, pelo bem da terra que amavam. Jarred, que fugira de Del na escuridão da noite com as rimas que o haviam conduzido ao palácio ainda no bolso. Não era de surpreender que Jasmine, com pais como aqueles, tivesse se tornado quem era.

— Então você já teve a idéia de usar iscas antes, Perdição?

— Parece que sim. Embora eu não soubesse disso quando enviei os nossos amigos para o oeste. É bom pensar que eles, também, estão seguros. — Ele olhou para trás, e Lief ouviu o som de luta no palácio.

— A Resistência chegou — informou Perdição despreocupado. — Eles cuidarão dos últimos Guardas. Assim como Barda e Steven, eu também achei sensato elaborar um plano especial desconhecido dos demais. Existe um certo túnel de esgoto em Del que leva às cozinhas do palácio...

— Acho que eu o conheço — murmurou Lief. — Eu o encontrei, certa vez. No dia do meu aniversário...

A mãe apertou-lhe a mão.

Sua mãe. Não Anna da ferraria, prática e experiente no uso de ervas e cultivo de plantas. Mas Sharn, de Tora. A mulher que sabia tecer maravilhosamente. A mulher cuja inteligência e coragem tanto lhe ensinaram.

Lief olhou para o pai, o homem delicado e de poucas palavras cujo nome, agora sabia, não era Jarred, mas sim Endon. Como ele poderia ter adivinhado?

Como podia esse pai gentil ter feito as coisas que se dizia Jarred ter feito? Por que o verdadeiro Jarred tinha sido tão amargo quanto se falava da insensatez de Endon?

O rosto parecia tranqüilo e ameno. A expressão dele estava muito calma, os olhos se mostravam calorosos e serenos, a boca se curvava num sorriso. Lief escutou a respiração pesada de Barda e sentiu as lágrimas queimando-lhe os próprios olhos.

— Não chorem por mim — murmurou o pai. — Estou feliz. Minha vida está completa. Aqui, agora, no momento de minha morte, tenho tudo pelo que ansiei por muito tempo. Saber que o mal causado por meus erros foi desfeito e que, com minha querida mulher, criei um filho que pode governar este povo com sabedoria e conhecer os seus corações.

— Por que não me contou, pai? — Lief balbuciou. — Por que não me contou quem eu era?

— Porque, enquanto não soubesse, estaria a salvo — sussurrou Endon. — E você precisava aprender a amar e a conhecer o povo e ser um deles. Esse foi um juramento que fiz.

— Mas... e Barda? — Lief lançou um olhar para o homenzarrão ajoelhado tão silenciosamente a seu lado.

Sua mãe meneou a cabeça.

— Barda não conhecia a verdade. Ele tinha visto Jarred e Anna partirem. Ele pensou que eles fossem o rei e a rainha, pois foi isso que lhe contamos. No palácio, ele apenas nos vira a distância, vestidos e maquiados de acordo com as normas da época. Nunca lhe contamos o segredo. Juramos que manteríamos o plano entre nós quatro. E quando você saiu em busca do Cinturão... bem, pensamos que, assim que ele estivesse completo, não haveria necessidade de explicações. Pensamos que ele iria brilhar! Não sabíamos...

— Não sabíamos que a ordem das pedras era importante — ajuntou Perdição. — Como poderíamos? O livro nada dizia a respeito.

— Dizia, sim — comentou Lief em voz baixa —, mas somente através de enigmas.

— Era de esperar — disse Endon sorrindo —, pois, durante o tempo todo, Lief, esta tem sido uma história em que nada é o que parece. Sempre gostei desse tipo de história, pois, geralmente, ela tem um final feliz... Assim como esta.

Os seus olhos se fecharam. Lief apertou a mão da mãe e inclinou a cabeça.

Lief, Jasmine e Barda encontravam-se juntos, observando o nascer do sol.

— Estou feliz por ser você, Lief — Jasmine confessou. — Muito feliz.

Lief a fitou. O rosto dela estava sujo de lama, os cabelos emaranhados e a boca formava uma linha determinada e reta.

— Por quê? — ele quis saber.

— Eu não teria nada a oferecer ao povo — ela disse, afastando-se dele. — Como eu poderia ser rainha? Quem sou eu, além de uma garota selvagem, geniosa e impertinente que se sente melhor na floresta do que num jardim cercado de muros? — Ela atirou a cabeça para trás.

— Além disso, não posso ficar aqui. Esta cidade é horrível. E o palácio... é uma prisão.

— Paredes de prisões podem cair — Lief replicou com suavidade.

— Jardins podem se transformar em florestas. Del pode ficar linda outra vez. E, quanto ao que você tem a oferecer, Jasmine... — Por um instante, a voz lhe falhou. Aquilo era importante demais. Ele tinha de escolher as palavras com cuidado e, não importa o que dissesse, tinha de dizer a verdade. Não toda a verdade, talvez, mas pelo menos parte dela.

— E?... — Jasmine intimou, os ombros rígidos.

— Há tanto a ser feito — Lief disse simplesmente. — Tanto a ser feito, Jasmine. Em todo o reino de Deltora. Barda, Perdição e eu não podemos fazer tudo sozinhos. Precisamos de sua coragem e de sua força. Precisamos de você, exatamente como é.

É isso mesmo — ajuntou Barda bruscamente.

Jasmine olhou para eles por sobre o ombro. Filli chilreava em seu ouvido. Kree grasnava em seu braço.

— Então, acho que vou ficar... por uns tempos — ela decidiu após alguns instantes. — Pois parece que vocês precisam mesmo de mim. Assim como o seu pai precisou do meu, para que as coisas fossem feitas.

Lief sorriu e, pela primeira vez, ele não discutiu. Ele estava satisfeito.

 

 

                                                                                                    Emily Rodda

 

 

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