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O SALÃO DOURADO / Irving Wallace
O SALÃO DOURADO / Irving Wallace

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O SALÃO DOURADO

 

COMO TUDO PRINCIPIOU

O Clube Everleigh existiu de facto. bem como as jovens madames que o exploravam, duas irmãs chamadas Minna e Aida Everleígh, nascidas e criadas no Kentucky, que viriam a abrir as portas do estabelecimento em Chicago.

Conheci-as muito bem.

Fui sargento do Corpo Fotográfico e de Sinaleiros do Exército dos Estados Unidos. colocado em Los Angeles no decorrer da Segunda Grande Guerra e, nos meus tempos livres, li o que podia sobre as irmãs Everleigh, ocorrendo-me assim a ideia de escrever uma peça sobre elas e o seu Clube, uma comédia musical. Soube que, tendo sido expulsas de Chicago, se haviam mudado para Nova Iorque, levando consigo um milhão de dólares (isto numa época em que se podia pagar um almoço por menos de cinco cêntimos) e que estavam a viver no Central Park. como proprietárias de um clube e animadoras da vida social de Manhattan.

Em Abril de 1944, fui transferido para Long Island. Nova Iorque, e achei que era uma oportunidade para descobrir se as Everleigh ainda eram vivas e, no caso de serem, para Lhes perguntar se me davam autorização para escrever a tal peça sobre elas. Tinha conhecimento, por intermédio de um artigo de Edgar Lee Masters, que ainda estavam vivas vários anos antes: Mas precisava de confirmar. Um publicista meu amigo era-o igualmente de Jack Lait, editor do Daily Mirror, de Nova Iorque, tendo este sido, por sua vez, amigo das Everleigh". De certeza que Lait me informaria se ainda estavam em acção.

Fui falar com ele ao chegar a Nova Iorque. Garantiu-me que as senhoras ainda se encontravam bem vivas, usando os nomes de Minna e Aida Lester e habitando o número 20 da Rua Setenta e Um Oeste. Sugeríu-me que Lhes escrevesse, referindo o seu nome.

Enderecei-Lhes uma carta amistosa e, uma semana mais tarde, recebi resposta de Minna Everleigh, uma missiva de vinte páginas escrita pela sua própria mão. A sua carta, dizia ela, revela cultura, cortesia, intelecto, génio literário e dramático.

Foi isso que iniciou o nosso relacionamento. Passei a escrever e telefonar com regularidade a Minna e, após isso, mantivemo-nos em estreito contacto durante vários anos: Fiquei a saber tudo sobre o passado e origem sulista das irmãs. os seus esforços para entrarem para o teatro: a bem sucedida abertura do seu primeiro bordel em Omaha e, finalmente, a sua mudança para níveis mais elevados, quando fundaram, em Chicago, o Clube Everleigh. Converteram a sua casa de três andares e cinquenta quartos num paraíso maometano do Médio Oeste. Tinha doze exóticos salões de recepção; que íncluíam o Salão Dourado [com o seu piano de ouro de quínze mil dólares e as suas escarradeiras de dezoito quilates, o Salão Mourisco, o Salão Japonês, o Salão Azul e assim sucessivamente. Os nínhos de amor situavam-se nos andares superiores. cada um deles dotado de um leito de latão com íncrustações de mármore. coberto por uma colcha de caxemira branca, tectos espeLhados, projectores de perfume automáticos e banheiras de ouro.

O jantar era ao preço mínimo de cinquenta dólares, mas, se se levasse amigos, a conta poderia atingir os mil e quinhentos. Uma visita a uma das meninas, nos andares de cima: custava o mínimo de cinquenta dólares. enquanto que as outras casas de prostituição cobravam cinco: Entre os visitantes famosos do Clube Everleigh contava-se Ring Lardner; Jack Johnson. George Ade, Percy Hammond. James J. Corbett. John Barrymore. John Aposto-Um-Milhão Gates. Um advogado local passou no Clube as suas férias de duas semanas. Uma Comissão do Congresso. com sede em Chicago, serviu-se do Clube Everleigh em lugar de um hotel.

A despeito de todas as informações que obtive sobre as Everleigh, faltava-me uma coisa: a sua autorização para escrever a peça acerca delas. Posteriormente, desencorajado quanto a isso, optei pela sua biografia factual. Foi o início de um livro de memórias, que escrevi, chamado O Cavalheiro do Domingo. cujo capítulo de abertura se intitulava As Duas Simpáticas Senhoras de Idade.

Minna faleceu em 1948, aos setenta anos. e Aída em 1960, aos noventa e três. ambas minhas amigas à data da sua morte. mas sem me terem concedido ainda autorização para a tal peça, situação que abordei e lamentei em O Cavalheiro do Domingo.

Foi então que sucedeu algo de inesperado, uma coisa excitante que voltou a trazer à luz do dia a peça sobre as Everleigh.

Um amigo meu de Nova Iorque que, por acaso. era também amigo de Irving Berlin. esse grande compositor de canções, leu o meu relato factual sobre a vida delas no Cavalheiro do Domingo e incitou Irving Beriin a lê-lo também. Este foi comprar o livro e ficou muito entusiasmado. Disse que queria falar comigo sobre o capítulo Everleigh e o nosso mútuo amigo pôs-nos em contacto telefónico, na noite de 12 de Dezembro de 1965.

Eis as notas pessoais que tomei sobre essa conversa:

Irving Berlin disse-me ao telefone, que tanto ele como a sua mulher, não só tinham lido O Cavalheiro do Domingo como todos os meus livros, e eram grandes admiradores da minha obra, ao que eu, por meu turno, repliquei que sempre havia sido grande admirador dele e. tendo ultrapassado a fase da nossa conversa dedicada ao mútuo apreço, Irving Berlin declarou que já há muitos anos sabia bastante sobre as irmãs Everleigh. Mas. acrescentou. nunca tanto como o que lera no meu livro. Depois, disse-me que havia algo que tinha de me contar sobre o assunto e passou a narrar- me uma pequena aventura que Lhe sucedera, relacionada com as irmãs Everleigh.

Disse-me que, em 1934, ele e o falecido Moss Hart haviam decidido escrever uma grande comédia musical para a Broadway, tencionando tomar como base as irmãs Everleigh. Nesse sentido, lançaram mãos à obra para definirem o esqueleto do espectáculo musical. Moss Hart tinha diversas ideias sobre o tema e Irving Berlin, com grande deleite, começou em 1934 a compor a música e as letras para alguns dos números. Perguntou-me então, ali mesmo ao telefone: Gostaria de ouvir o número de abertura que compus? E, a seguir, numa voz de cana rachada, meio a recitar, meio a cantar, debitou a canção. Quando nessa altura a escutei, fui incapaz, no meu entusiasmo, de pôr no papel todo o poema. Verifico agora que anotei um verso de abertura que dizia assim: Passei uma noite maravilhosa no Clube. E encontro mais outro verso. no final de uma estrofe: Vivemos com as irmãs. com as Everleigh.

Assim que Berlin terminou. eu disse-Lhe que aquilo era simplesmente uma maravilha. Ao que ele respondeu: Oh, na época, tinha outra canção que se enquadrava nesse género de peça nostálgica, datada do final do século; chamava-se Parada da Páscoa. Em qualquer dos casos, contou-me que, quando ele e Moss Hart já dispunham de material suficiente, decidiram expor a sua idei a a um dos amigos de Irving Berlin, o famoso George M. Cohan, com quem foram ter, falando-Lhe no plano de montarem um espectáculo musical muito romântico, baseado nas duas famosas " madames " e tendo-Lhe cantado algumas das canções. Cohan. verificaram, mostrou-se bastante chocado com aquela ideia. De acordo com Irving Berlin: Ele era um presumido. Mas a sua opinião tornava-se importante e o facto de se haver mostrado chocado levou-nos a pôr de parte aquela abordagem do tema. Após terem abandonado o projecto Everleigh, Hart e Berlin escreveram Milhares de Aplausos, onde incorporaram Parada de Páscoa.

Disse-me então Irving Berlin: Ao ler o seu livro O Cavalheiro do Domingo e ao dar com a parte onde reproduz notas sobre a peça, que tinha esperanças de vir a escrever sobre as Everleigh, lembrei-me de reviver a velha ideia que tive: juntament com o Moss Hart, de montar uma comédia musical baseada nas irmãs. O meu plano é o seguinte: Abrir o espectáculo com o falecimento de Minna, em 1948. Depois do funeral, Aida, os parentes, os amigos e alguns dos antigos clientes, reunem-se e começam a recordar e, à medida que se desenrolam as suas reminiscências de há meio século atrás, nós recuamos até ao duplo casamento no Kentucky, tal como você o reláta. Avançamos a seguir com a história das irmãs, até elas virem dar a Chicago, fundando o seu belo bordel. Faremos uma comédia nostálgica e musicalmente tocante. nada de libertinagem de espécie alguma, à excepção de uma cena de quarto romântica. Um pai severo do inicio de 1900 leva o seu filho, adolescente e ainda virgem, a tornar-se um homem. na real acepção da palavra. E. por puro acaso. esse rapaz ainda virgem é conduzido ao quarto onde as Everleigh têm alojada a sua inocente sobrinha, escondida das actividades em curso no Clube. Desenrolar-se-á assim uma cena de quarto. como você já sugeriu, durante a qual um rapaz e uma rapariga, ambos virginais, ambos inocentes, ambos embaraçados, se vêem diante um do outro; cena essa que se poderá revelar, penso eu, extremamente comovente.

-Disse-me então que aquilo que ele e Moss Hart não haviam conseguido fazer, gostaria de o realizar comigo. Respondi que me sentia muito honrado e satisfeito em escrever com ele a peça sobre as Everleigh. Irving Berlin informou-me que viria a Los Angeles dentro de três meses, porque Arthur Freed estava a produzir um filme musical para a MGM, baseado em todas as suas canções e pretendia permanecer na cidade, no intuito de supervísionar as filmagens. Enquanto estivesse em Los Angeles, disse-me, desejava encontrar-se comigo, para discutirmos em conjunto o desenvolvimento du nosso espectáculo musical. O meu entusiasmo não teve limites.

Bom, Irving Berlin ão chegou a deslocar-se a Los Angeles e nós nunca mais falámos nessa ideia. Ele caiu doente e ficou em Nova Iorque, onde ainda vive com a idade de cem anos, tendo a nossa segunda tentativa de um espectáculo musical sobre as irmãs Everleigh sido guardada na prateleira.

Há uns cinco anos atrás, alguém me sugeriu que o procurasse novamente, para lhe dizer que gostaria de escrever sozinho a peça e lhe perguntar se me autorizava a servir-me das canções há tanto tempo compostas. O meu advogado consultou o de Berlin. O Autor respondeu que, por mais que lhe agradasse a ideia das Everleigh como tema de uma peça musical para a Broadway, estava excessivamente velho para a supervisionar e não podia permitir que as suas canções fossem nela usadas sem a sua supervisão. Portanto, o projecto voltou a ser posto de parte.

Mas não em absoluto.

Um dia, mais recentemente, disse para mim mesmo: por que motivo terão as Everleigh de servir de tema a uma peça? Eu sou um romancista. Por que não pegar nas mínhas ideias para uma peça sobre elas e incorporá-las num romance escrito só por mim?

Foí isso que fiz.

E dessa forma é que surgiu O Salão Dourado.

É este o meu livro, meio factual. meio ficção, sobre Minna e Aida Everleigh e o seu fabuloso Clube.

 

 

FOLEY ficou atónito com aquilo que estava a ver e ouvir.

Estava-se numa gelada tarde de Primavera da última semana de Março de 1903 e, ainda que já tivesse passado a sua primeira semana em Chicago, era por aquele momento que estivera à espera.

Percorriam o passeio empedrado da Rua Dearborn Sul, o jovem e esquelético Foley mantendo-se a par do seu companheiro mais velho e mais corpulento, Thomas Ostrow, veterano repórter da cidade do Chicago Tribune. Ostrow fora indicado pelo chefe de Redacção para mostrar a cidade ao novo redactor.

Foley alisou o casaco enquanto prosseguiam. Tinha vestido o seu melhor fato. Uma bela indumentária de lã inglesa cinzenta e negra, muito bem cortada. Pusera uma gravata vermelha e os seus sapatos mais reful gentes. Tratava-se de um traje que somente usava em encontros especiais com jovens senhoras e trazia-o agora na esperança de impressionar as encantadoras raparigas que iria conhecer nesse dia.

- Estamos quase lá - disse Ostrow, menos preocupado com o seu fato azul, mal talhado e poído, que exibia duas queimadelas de cigarro na amarrotada lapela.

Foley acenou, expectante.

- Este é o famoso Bairro do Levee [') - prosseguiu o outro. - Claro que já ouviste falar nele.

-Sim, senhor, já ouvi.

- Recebeu esse nome antes da Guerra Civil - continuou Ostrow a dizer - quando os barcos a vapor vinham até próximo daqui, para desembarcarem sulistas que queriam ir às casas de jogo e disfrutar espectáculos de sexo e orgias em casas de má fama. A zona não se modificou no decorrer de todos os anos que se passaram desde então, apenas se tornou mais selvagem. Não tem uma área muito grande. Apenas quatro ou cinco quarteirões, mas existem mais de duzentas casas de prostituição aglomeradas nesse espaço. No entanto, só te interessa visitar uma delas.

-Sim. só uma.

Percorreram em silêncio mais uns trinta pés e depois Ostrow deteve-se abruptamente.

Indicou, com um aceno de mão, o prédio de três andares que lhes ficava à esquerda.

-Cá estamos, Chet. É este. O 2131 da Rua Dearborn Sul. Aqui mesmo.

Foley observou a casa, uma ampla mansão de pedra, com as suas lajes lisas, linhas sólidas, grandes janelas e larga escadaria que dava para a entrada.

- O autêntico Clube Everleigh - anunciou Ostrow.

-Na realidade, a mais famosa e elegante casa de meninas do mundo inteiro.

-Ouvi muitas vezes falar dela, em teoria.

-Praticamente toda a gente em Nova Iorque, Londres, Paris. Berlim. sabe da sua existência. Que te parece?

Foley engoliu em seco.

(') O nome do bairro significa, em português: o género de local onde, com frequência, se situavam as zonas de casas de prostituição. (N. do T.)

- Eu. eu gostava de saber como é por dentro.

-Em breve o saberás. Telefonei à Minna e à Aida Everleigh, dizendo-lhes que te trazia comigo para te apresentar a elas. Expliquei-lhes que és o nosso repórter mais recente no Tribune. Elas adoram a Imprensa e estão ansiosas por te conhecer. - Tomou o braço do jovem repórter e voltou-o para as escadas. -Toca a entrar, para conheceres as senhoras. Aquilo que têm para te mostrar é algo que nunca esquecerás.

No interior do Clube Everleigh, por trás da exageradamente grande escrivaninha de pau-rosa do estúdio ricamente decorado que lhe servia de escritório, Minna Everleigh estava a tomar o seu habitual pequeno-almoço tardio, enquanto aguardava os seus visitantes. A irmã, Aida, encontrava- se sentada do outro lado da escrivaninha, a ler em voz alta o Chicago Examiner.

Mastigando o seu esturjão com trufas, Minna pôs-se em pé, para se servir de mais uma taça de champanhe Mumm's Extra Seco, da garrafa alojada no balde para gelo com monograma.

Mesmo assim erecta, Minna era minúscula. Tinha cinco pés e duas polegadas e era esguia, ao contrário do que estava na moda [não necessitava de corpete), pesando 106 libras e exibindo o cabelo ruivo escovado e ondulado para o alto e adornado com cintilantes crescentes em imitação de diamante. Os seus olhos azuis baços eram pequenos e intensos. Usava uma blusa de tafetá cor-de-rosa desmaiado, com um decote perigosamente baixo, o seu alfinete favorito, em formato de borboleta rodeada de diamantes, uma saia de cintura alta de cheviote escuro e um cinto elástico acastanhado. A saia mal lhe chegava às pontas dos sapatos bicudos.

Do outro lado da escrivaninha, Aida, mais alta e mais pesada com as suas 124 libras, envergara um corpete, obviamente destinado a acentuar-lhe a figura de ampulheta. Usava, de um mod mais conservador, um vestido castanho- havana, debruado por alamares de seda. Estava a ler em voz alta o artigo do jornal sobre o último discurso do Mayor['), na sua campanha para a reeleição.

Enquanto a escutava, Minna observava o estúdio, verificando se se encontrava em ordem para os visi tantes que esperava. Sabia que o compartimento constituía uma mistura ecléctica e assim estava propositadamente decorado. O mobiliário era basicamente estilo Luís XIII, o qual ela considerava o mais opulento dos estilos revivalistas franceses. O tecto elevado era dourado, apainelado com desenhos de elaboradas folhas serpenteantes. Pendiam das paredes tapeçarias importadas, cheias de colorido e dispendiosas. O candelabro fora recentemente reconvertido da luz de velas para a luz eléctrica.

Ao perscrutar o estúdio, Minna achou-o genuinamente elegante. Havia uma lareira do lado oposto, que tinha, na respectiva prateleira de mármore com veios brancos, uma estátua miniatural de Minerva, um vaso transbordante de narcisos amarelos e um alto relógio alemão do mais escuro e rico carvalho. Do outro lado, janelas avarandadas. Desciam sanefas bordadas com borlas de cada cornija de ébano, por trás das quais pendiam reposteiros de damasco. cortinas interiores rendadas e sombras de correr de musselina. Sobre o tapete estilo Aubusson, viam-se dois confortáveis cadeirões de espaldar de mogno [um torrado de couro cor-de-rosa, o outro com costas entrançadas) e um sofá também de mogno com braços em espiral e pés em forma de garras de leão. Entre a escrivaninha e o sofá, havia uma mesinha dobrável entalhada.

(') O cargo de Meyor equivale, sensível mas não exactamente, ao nosso presidente da câmara. (N. do T. )

Tendo concluído que a saleta estava na devida ordem, Minna retomou a sua segunda taça de champanhe e recomeçou a viver. Como era seu costume (e igualmente hábito das trinta meninas que havia na casa) tanto ela como Aida haviam dormido toda a manhã, tendo terminado o pequeno-almoço às duas da tarde.

Ouviu-se uma pancada seca na porta do escritório e Edmund, o criado mulato, meteu a cabeça no compartimento. Possuía cabelo curto, espetado e grisalho, nariz direito e alongado, a pele luzidia e castanha, enquadrada por um uniforme azul de criado que lhe ficava na perfeição.

- Miss Everleigh - disse, dirigindo-se a Minna - dois cavalheiros da Imprensa desejam visitar a senhora. Mr. Ostrow e Mr. Foley. O primeiro informou-me que os aguardava.

-É verdade-respondeu Minna. -Manda-os entrar. Segundos mais tarde, Edmund abriu de novo a porta, segurando-a para Ostrow e Foley entrarem.

Beijando rapidamente Minna e Aida na face, Ostrow fez avançar o seu companheiro.

-Minhas senhoras, quero apresentar-lhes o nosso novo repórter do Tribune. Este é o Chet Folèy. Acaba de vir de Peoria. O seu mais caro desejo era visitar o vosso clube.

Minna estendeu a mão a Foley.

- Como vai o meu menino? - disse-lhe. Momentaneamente aturdido, o rapaz apertou-lhe a mão e depois a de Aida. Engoliu em seco.

-Sinto-me muito honrado. Minna virou-se para a irmã.

-Aida, dá-lhe uma cadeira. Porque é que tu e o Tom não se vão sentar lá atrás, no sofá?

Com um gesto autoritário, fez sinal a Foley para se instalar defronte da escrivaninha.

- Primeiro, tratemos de o lubrificar, a si e ao Tom - disse, servindo champanhe para os dois. Entregou uma taça a Foley e foi levar a outra a Ostrow.

Regressando para a escrivaninha, Minna sentou-se e sorriu abertamente ao rapaz.

-Com que então, deseja saber mais coisas sobre o Clube Everleigh. - Disse-lhe. - Tenho a certeza que me quer fazer a pergunta que todos os recém-chegados fazem em primeiro lugar: Como é que a Aida e eu nos metemos nisto? Como é que duas irmãs de bom nível social se tornaram madames? Terei razão, meu rapaz?

Sentindo-se mais à vontade, Foley não conseguiu resistir a esboçar um débil sorriso.

-Tem toda a razão, Miss Everleigh...

-Trate-me por Minna.

- Sim, Minna - anuiu ele, com nervosismo na voz. - Mas, se está farta dessa velha pergunta, eu posso esperar.

- Nunca me farto de ouvir perguntar isso - cortou Minna. - A minha irmã é mais reticente, mas eu adoro falar do nosso passado. Como é que nós acabámos por fundar o Clube Everleigh? É uma longa história, mas procurarei torná-la curta e suave.

A Aida e eu fomos criadas na região do capim, no Kentucky - principiou Minna a dizer baixinho. Ainda temos por lá parentes, aristocráticos, corteses e empreendedores. O nosso irmão Charles e os seus dois filhos são os nossos principais familiares. Charles foi em tempos um advogado bem sucedido, tal como o nosso pai, e ainda o seria, se não tivesse tido um ataque cardíaco. Viu- se forçado a deixar de praticar a advocacia e vem experimentando dificuldades em manter a casa e a quinta da família. Temos tentado auxiliá-lo, mas ele não gosta de aceitar dinheiro de nós. - Serviu mais champanhe e continuou depois a falar. num tom mais animado. - Seja como for, a sua filha vai casar num meio rico. O Charles escreveu-nos recentemente, dizendo-nos que a nossa sobrinha Cathleen, que já não víamos desde criança, está noiva do filho de Harold T. Armbruster, o rei da carne enlatada de Chicago. Voltemos porém à Aida e a mim. O nosso pai era um delegado do Ministério Público bem conceituado. Enviaram-nos às duas para um colégio sulista. Mais tarde, ambas nos apaixonámos por dois belos irmãos e ficámos noivas deles. Tudo muito elegante. Mas os nossos maridos revelaram-se afinal uns fedelhos mimados, não se furtando a tratarem-nos com violência. Não concordas, Aida?

Do outro lado da saleta, a irmã pipilou, numa vozinha fina:

-Sabes muito bem que eram ainda piores do que isso, Minna. Algumas das minhas pisaduras nunca chegaram a desaparecer.

A irmã voltou a dirigir-se a Chet Foley:

-Quando me vier a conhecer melhor, Chet, compreenderá que eu não suporto uma coisa dessas por muito tempo. Portanto, revoltei-me, deixei o meu marido. divorciei-me dele e parti para Washington D. C. Pouco tempo depois, a Aida fez o mesmo e seguiu-me àquela cidade. Quando no colégio, tínhamos ambas estudado elocução e arte de representar e assim, à falta de outra coisa melhor para fazermos, decidimos tornar-nos actrizes. Devo confessar que foi uma vantagem sermos razoavelmente bonitas.

- E ainda são, Minna - interpôs Ostrow, das traseiras do estúdio.

- Também concordo - apoiou Foley, com entusiasmo.

- Bem, muito obrigado, rapazes - agradeceu Minna.

-Pouco depois de termos entrado para o teatro, a Aida e eu arranjámos trabalho numa companhia itinerante e viajámos por todo o país. O nosso pai morreu quando andávamos em tournée e herdámos trínta e cinco mil dólares. Soubemos disso ao chegarmos a Omaha, onde estava a decorrer a Exposição Internacional Trans- Mississipi. Desejando abandonar a companhia itinerante, que era um trabalho miserável, perguntámos a nós próprias se não poderíamos investir o nosso dinheiro em qualquer coisa mais lucrativa e agradável.

-E foi esta a primeira ideia que lhes ocorreu?

- indagou Foley.

Minna reflectiu antes de falar.

- Não, na verdade não foi - respondeu. - Pensámos em montar uma chapelaria, ou uma casa de chá. Mas foi então que sucedeu uma coisa. Ouvimos, um día, outra actriz dizer que a mãe dela achava que ser-se do teatro não era melhor do que ser-se prostituta. A Aida e eu olhamos uma para a outra, como que a perguntarmos: Hem, e porque não? Não chegámos a tornar-nos prostitutas, mas agradou-nos a ideia de sermos madames. Mulheres de negócios, para ser exacta. Eu sempre fora boa a lidar com pessoas e a Aida era eficiente em termos de finanças e pormenores.

-E então, assim do pé para a mão, tornaram-se madams - comentou o rapaz.

- Ali mesmo e nesse preciso instante - afirmou Minna. - Recordas-te, Aida?

A irmã estava de facto a recordar-se.

-Foi uma decisão memorável.

Dirigindo-se mais uma vez a Foley, Minna prosseguiu:

-Adquirimos uma casa antiga, redecorámo-la com o nosso dinheiro e abrimo-la aos homens que formigavam pela cidade, gastando à larga. Na altura em que a feira terminou, os nossos trinta e cinco mil dólares haviam sido duplicados para setenta mil. Sem o certame, tínhamos consciência de que Omaha não poderia fazer grande coisa por nós. Necessitávamos de uma cidade maior. E também, o que era ígualmente importante, precisávamos da casa mais elegante e inesquecível dos Estados Unidos. Foi então que ambas tivemos a mesma ideia, ao mesmo tempo: Fazer uma viagem. Darmos uma volta, para observarmos os melhores bordéis da Europa e dos Estados Unidos, a fim de colhermos ideias. E foi o que fizemos. Passámos um ano a visitar as mais luxuosas casas e a conhecer as mais bem sucedidas madames. Aprendemos tudo o que pudemos, antes de lançarmos de novo o nosso próprio negócio. Ao regressarmos das nossas viagens, a Aida e eu tínhamos uma noção bastante exacta daquilo que deveria ser um bordel perfeito.

- Só nos faltava saber onde devíamos abri-lo - interpôs a irmã.

- Isso mesmo - confirmou Minna. - Portanto, voltei a escrever à Cleo Maitland, de Washington D. C. dizendo que gostaríamos de a visitar para lhe pedir conselho. E fizemo-lo. Registámo-nos no Hotel Willard e encontrámo-nos com a Cleo no... como era?... sim, no número 1233 da Rua D, um prédio de tijolos. Ela desempenhava o papel de senhoria e as seis raparigas que lá viviam eram as suas pensionistas femininas. Cleo mostrou-se extremamente cordial. Contei-lhe que tínhamos terminado as nossas pesquisas e precisávamos agora de descobrir uma cidade, uma grande cidade com muitos homens ricos, uma terra que não tivesse casas de luxo. Imediatamente a Cleo surgiu com a resposta: Chicago, lllinois, foi o que nos aconselhou, uma cidade rica, com milionários, um bairro da luz vermelha bem protegido e sem qualquer bordel de alto nível. Disse- nos assim: Até sei da casa perfeita para vocês, lá em Chicago. Trata-se de facto de duas mansões de três andares anexas, no número 2131 da Rua Dearborn Sul. Foi mandada construir por uma madame, a Lizzie Allen, para a Exposição Mundial Columbiana, pelo preço de cento e vinte e cinco mil dólares. Depois da feira, a Lizzie decidiu reformar-se. Alugou a casa e vendeu as mobilias à Effie Hankins, outra madame. Esta escreveu-me recentemente, dizendo que também queria reformar-se e pedindo-me que estivesse atenta a um possível comprador. Pois bem, minhas senhoras, aí têm o vosso serralho de Chicago: cinquenta e cinco mil pelas mobilias, com raparigas já instaladas na casa, boa vontade e um aluguer mensal de quinhentos dólares, com contrato a longo prazo. Trato-lhes imediatamente do assunto. Desta forma, a Aida e eu corremos para Chicago, a fim de darmos uma vista de olhos à casa. Não podia ser mais perfeita. Tratámos logo de a alugar.

-Tudo pronto... assim, sem mais nem menos...

- espantou-se Foley.

Minna abanou a cabeça.

-Não, começámos a fazer umas alterações. A primeira coisa que mudámos foi de nome. Nós chamávamo-nos Minna e Aida Lester, mas a nossa avó terminava sempre as cartas que nos escrevia, assinando Vossa Para Sempre['). Bem, isso soava melhor. Transformámo-nos nas irmãs Everly, com a grafia Everleigh. A seguir, livrámo-nos de todas as prostitutas sujas, grosseiras e batidas. Rebuscámos toda a região, à procura das moças mais atraentes, mais dotadas do ponto de vista sexual e mais senhoris que conseguimos encontrar, principiando por jovens actrizes, que conhecíamos da nossa anterior carreira. Oferecemos a todas vestidos de noite e ensinámos-lhes boas maneiras. Despedimos os arrogantes empregados brancos, substituindo-os por decentes, mais respeitosos e mais eficientes criados e criadas negros. Havia também a questão das tarifas.

[') O Autor serve-se aqui de um trocadilho irreproduzível: no original, a expressão usada é Everly Yours. A palavra inglesa everly soa como o nome de guerra das irmãs: Everleigh. lN. do T. )

Tomou mais um gole de champanhe e continuou a falar:

- Em média, as madames do Levee cobram aos clientes de cinquenta cêntimos a um dólar, por uma cambalhota na cama. Uma vez que nós oferecemos mais, resolvemos pedir mais. Uma sessão com uma das nossas meninas custa cinquenta dólares aos nossos visitantes. Montámos um serviço de restaurante, com um consumo mínimo de cinquenta dólares por jantar e doze por uma garrafa de vinho. Dividimos os nossos lucros com o pessoal.

- E ninguém pôs objecções aos vossos preços mais elevados? - quis saber Foley.

Minna sacudiu vigorosamente a cabeça.

-Ninguém se opôs. Até agradecem, por pagarem aquilo que lhes damos. A nossa lista de clientes inclui Ring Lardner, Edgar Lee Masters, Marshall Field Jr. Stanley Ketchel, Percy Hammond, George Ade, James J. Corbett, John Barrymore, John aAposto-Um-Milhão=, Gates e Jack Johnson, que já antes referi, bem como certos senadores dos Estados Unidos, que passam frequentemente as suas férias aqui.

Levantou-se e pousou a taça vazia.

-Agora, Chet, vou conduzi-lo pessoalmente numa visita guiada ao Clube Everleigh. Verá o que aprendemos durante as nossas viagens... Aida, fica cá em baixo, a fazer companhia ao Tom Ostrow. Ele já teve a sua visita. Vou levar este rapaz a dar uma volta pela casa. Venha daí, Chet.

No vestíbulo, Minna tomou-lhe o braço e conduziu-o à biblioteca do Clube Everleigh, que continha livros em todas as paredes, a maioria encadernados a couro. Foley passou um dedo pelos conjuntos de volumes, um deles das obras completas de Honoré de Balzac, outro com os poemas completos de Percy Bysshe Shelley. Minna soltou uma risadinha.

-Sabe o que disse o "Aposto-Um- Milhão", ao ver esta biblioteca? Minna, isso é estar a educar a extremidade errada de uma prostituta.

A galeria de arte ficava na sala ao lado, onde eram exibidos óleos e polidas esculturas de mármore, entre os quais uma cópia do Apollo e Daphne de Bernini.

Ao entrar na sala de jantar, deparou-se a Foley um elegante restaurante, com refulgente louça de prata posta sobre toalhas de damasco. No centro de cada mesa, via-se uma torrente de flores frescas.

-Houve um milionário que trouxe cá a jantar os seus associados de negócios - disse Minna com satisfação - e a conta atingiu os mil e quinhentos dólares. Não lhe cobrámos nada pela orquestra. - Percorreu o restaurante. - Chegue agora aqui mais perto, Chet. Que vê ali ao fundo?

- Uma carruagem-restaurante dos caminhos-de-ferro

-respondeu ele, espantado.

-Isso mesmo. Na verdade, trata- se de uma réplica, com interior revestido de mogno. Cá estamos. Olhe para o interior. Ali tem o bufete. O convidado pode escolher a comida que desejar e levá-la consigo para uma das mesas mais pequenas da carruagem, ou então ir para a sala de jantar propriamente dita. Vou agora mostrar-lhe a minha sala favorita, usada para conversar e, por vezes, para orgias.

Foley seguiu-a para uma saleta que refulgia como se fosse o El Dorado. Ficou sem respiração e a gaguejar, perante aquilo que lá viu.

- O Salão Dourado - anunciou Minna, toda feliz.

- Pode verificar que a mobília é toda dourada, os aquários com rebordos de ouro. Esses escarradores têm dezoito carates e custaram-me seiscentos e cinquenta dólares cada um. A fonte que está no centro da sala tem um repuxo de perfume. O meu objecto favorito está ali: o piano de ouro, do verdadeiro, que me custou quinze mil dólares. Tem dois terços de cauda e, à excepção do teclado, cada polegada dele é de ouro puro, incluindo os pedais. É uma saleta maravilhosa para um cliente cavaquear com os outros convidados do sexo masculino, ou divertir-se descontraidamente com uma das nossas jovens belezas.

Ao saírem do Salão Dourado, Foley fez-lhe uma pergunta:

- Minna, como é que escolhe as jovens que quer que trabalhem para si?

- É fácil - retorquiu ela. - Vê-se uma moça bonita e bem feita, com não mais de vinte e um anos, por trás de um balcão, nos Mandel Brothers ou na Carson Pirie Scott. Ela trabalha todos os dias horas intermináveis, a troco de seis dólares por semana. Averigua-se se já teve alguma experiência sexual, as probabilidades apontam para que a tenha tido, e pergunta-se-lhe se não gostaria de ganhar trezentos dólares por semana, por pouco trabalho a sério e vivendo num berço luxuoso. As hipóteses são de que ela se agarre à proposta. Tem de ter mais de dezoito anos, não tomar drogas nem álcool, nem usar uma linguagem grosseira. Nunca aceitamos jovens inexperientes, nem viúvas, por terem mais tendência a quererem ir-se embora, no instante em que alguém as pedir em casamento. Todas as moças devem ser saudáveis, bem educadas e possuírem o dom de se mostrarem divertidas. Têm de estar dispostas a aprender como pôr maquilhagem, como vestir-se bem, como usar maneiras sulistas e como manter-se bem informadas. Acima de tudo, recomendo a cada uma que dê sexo, mas que o faça de forma interessante e sem complicações. Continuemos. Tenho mais coisas para lhe mostrar neste andar, antes de o levar lá acima.

Penetraram naquilo que Minna designou como sendo o Salão Japonês. Tinha o soalho recoberto por esteiras de palha finamente entretecidas e havia um bengaleiro de bambu do lado de dentro da porta. Dominando o salão, via-se um cadeirão oriental esculpido, colocado sobre um estrado, por cima do qual havia uma canópia de seda. O candelabro suspenso do elevado tecto azul possuía pequenas sombrinhas de Osaka em lugar de quebra-luzes. As paredes exibiam flores japonesas, pintadas nas respectivas cores naturais. Tinham no alto um friso de cegonhas em voo, com painéis de bronze representando dragões mitológicos sagrados. Havia artefactos decorativos espalhados por todo o lado, que iam de chaleiras de ferro, oriundas de Kyoto, a leques japoneses pendurados.

O compartimento seguinte era o Salão Chinês. O candelabro era uma lanterna de templo, guarnecida com cenas da vida de Pequim. Por toda a parte, mobiliário de ébano esculpido e, numa das paredes, em moldura de teca, um pavão bordado. No recanto mais obscuro do salão, Foley distinguiu armários cheios de artefactos exóticos: caixas de rapé. porcelanas e diminutas figuras de bronze.

Deslumbrado, seguiu Minna até um vasto salão de baile, dotado de estrado para a orquestra. divãs, almofadões e estatuária, dispostos no soalho de tacos de madeira. Anexo ao Salão de Baile, ficava o Salão de Cobre, com paredes de latão martelado e, para além desse, o Salão de Prata, ornamentado com rendilhados e filigrana de prata e no qual se exibia a estátua de um cavaleiro, igualmente de prata, junto de um cadeirão revestido de brocado de pelúcia.

Veio a seguir o Salão Mourisco, com peles de raposa no chão e turíbulos para queimar incenso em cada canto. O mobiliário consistia num sofá circular, com costas redondas tufadas, uma palmeira envasada ao lado, numerosas mesinhas octogonais e cadeiras de espaldar alto, cobertas por ricos brocados de fio de ouro entretecido, que chegavam até ao chão. Sobre a prateleira da lareira, via-se um cachimbo turco, incrustado de sedimentos de haxixe.

- Não há quadros nas paredes - esclareceu Minna

-porque as imagens figurativas são proibidas pelas leis muçulmanas.

Com Foley a seu lado, passou ao Salão Egípcio. Num friso em volta da sala e pelo tecto, viam-se desenhos de antigas cenas egípcias. Uma grande lareira de pedra ostentava cabeças de esfinge gravadas na pra teleira.

A seguir, como se fosse uma lufada de ar fresco, vinha o Salão Azul. Tinha uma atmosfera juvenil, muito americana, com profundos divãs azuis e almofadões de couro, impressos com gravuras de colegiais. Cada parede estava decorada com vivos galhardetes académicos a condizer.

Minna mostrou-se particularmente orgulhosa da sua Sala de Música. Continha um enorme piano a um canto, não de ouro, não de fantasia, mas muito grande. Espelhos, encaixilhados em arcadas mouriscas, forravam as paredes e viam-se peças de mobiliário turco acolchoado espalhadas por todo o lado.

Foley sentia-se cada vez mais atordoado, à medida que passavam pelo Salão Grego, pelo Salão Rosado e pelo Salão Vermelho.

- Finalmente, o Salão dos Espelhos - anunciou Minna, puxando-o para o interior. - Que é que o impressiona mais nele?

-O chão - arquejou Foley. - Todo ele é um espelho!

- Cada polegada - disse orgulhosamente Minna. - Frequentes vezes, é para onde trazemos os nossos hóspedes, quando não são capazes de decidir qual das meninas querem escolher. É de longe mais eficaz do que a Casa de Todas as Nações, em Budapeste. Lá, os homens observam um painel de fotografias de mulheres nuas, para seleccionarem as suas favoritas. O visitante escolhe a rapariga que lhe agrada mais e depois toca a campainha que há por baixo da fotografia dela. Esta é imediatamente coberta, para que o cliente que se segue saiba que a jovem está comprometida e opte por outra. Este Salão dos Espelhos é muito melhor para se fazer uma escolha. Muitas das coisas que viu foram criadas pela Aida e por mim. Mas a ideia deste compartimento pertenceu à Babe Connors, a gorda negra de St. Louis, que tinha diamantes incrustados nos dentes. Ela mandou construir um Salão de Espelhos e eu instalei imediatamente a mesma coisa nesta casa.

- Mas por que motivo um espelho no chão? indagou o rapaz.

Minna fitou-o com impaciência.

-É onde damos alguns dos nossos melhores espectáculos - disse-lhe. - As nossas jovens entram aqui a dançar para os hóspedes. Usam vestidos de noite, mas absolutamente mais nada por baixo. Esses vestidos são compridos, mas não tanto nem tão justos que não se possa ver nada. O chão espelhado reflecte o que as meninas têm para oferecer. o que equivale a dizer que se encontram completamente nuas por baixo e é o que se vê no chão. Um deleite, não lhe parece?

Foley corou e fixou o chão.

- Sim, minha senhora - concordou.

Ainda atónito, seguiu-a para fora do Salão dos Espelhos, até chegarem à escadaria que conduzia aos boudoirs dos andares superiores. Havia palmeiras envasadas e estatuária grega de cada lado das escadas e dois lanços de degraus espessamente atapetados elevavam-se à frente deles.

- Normalmente - disse Minna - apenas proporcionamos aos membros da Imprensa local a visita às instalações do andar de baixo. As suites dos andares superiores estão fora de causa. No entanto, uma vez que a sua visita é de iniciação, vou mostrar-lhe um boudoir típico e apresentá-lo à respectiva ocupante.

Subiu agilmente as escadas, com Foley logo atrás de si. Percorreu alguns pés no patamar. fez uma pausa diante de uma porta que parecia idêntica às outras e bateu nela uma firme pancada. A seguir abriu-a prontamente e entrou, fazendo sinal a Foley para a seguir.

A primeira coisa que ele viu foi uma majestosa jovem loira, languidamente estendida num leito de latão com incrustações de mármore. Ela pousou o livro que estava a ler e ergueu a cabeça, quando Minna levou Foley para o interior do quarto.

-Chet. esta é a Virgínia. E, Virgínia, este é o Chester Foley, do Chicago Tribune. Já te tinha dito que ele viria cá. - Com um amplo gesto, Minna continuou a dizer: -A Virgínia está deitada sobre uma colcha de caxemira branca. Repare no tecto espelhado e no divã com o holofote de prata branca dirigido para ele. A outra porta dá para a casa de banho, que tem uma banheira de ouro. As rosas que estão junto da cama são frescas. Existe um botão oculto na cabeceira, para se poder pedir mais uma garrafa de champanhe. Os quadros a óleo que há nas paredes são todos originais e importados de Itália. Mas a mais vistosa obra de arte que aqui existe é a própria Virgínia.

Ao ouvir a referência ao seu nome, a rapariga levantou-se da cama e colocou-se diante de Foley. Este ficou sem fala perante o seu esplendor. Era tão alta como ele e usava somente um vaporoso penteador branco. Tinha seios firmes, cujos bicos apontavam directamente para o rapaz. Podia ver-lhe nitidamente a linha curva da cintura e as ancas estreitas.

- Meu rapaz - disse-lhe Minna - ela é toda sua, como oferta de iniciação das Everleigh.

- Minna - arquejou ele - eu não poderia permitir-me nada como...

- Não me ouviu, meu rapaz? - perguntou a mulher, encaminhando-se para a porta. - Eu disse-lhe que esta é por conta da casa.

Ao abrir a porta, Minna viu Virgínia deixar cair o penteador. Apresentava-se requintadamente despida ao dirigir-se para Foley.

Minna sorriu, fechou silenciosamente a porta e desceu as escadas até ao rés-do-chão. Encaminhou-se para a biblioteca, pegou num volume de Balzac, tirou do bolso um maço de Sweet Caporals, acendeu um cigarro e enterrou-se num sofá.

Leu calmamente e, passados vinte minutos, ergueu o olhar, vendo o jovem Foley a descer o último lanço de escadas. parecendo corado e algo mais velho.

Minna levantou-se.

-Bem, como correu, meu rapaz?

Ele dava a sensação de estar sem fôlego.

-Incrível. Foi incrível! Não sei como algum dia lhe retribuir - Parou para respirar. - Mas acho que posso. Sei que sim. Tão depressa regresse ao jornal, vou escrever um maravilhoso artigo sobre o Clube Everleigh. Há meses que não sai nenhum e eu vou escrever um grande artigo.

- Não, isso é que não vai - replicou Minna.

-Que quer dizer?

- Não haverá artigo nenhum - reiterou enfaticamente ela - pelo menos neste momento. Normalmente, agradecemos a publicidade. Auxilia-nos. Nesta altura, qualquer artigo nos prejudicaria gravemente. Você sabe que o Mayor Harrison vai concorrer a uma reeleição, na base de um programa eleitoral reformista. A publi cidade a nosso respeito ajudaria a elegê-lo. Prometeu que, se for eleito, o seu primeiro acto será encerrar o Clube Everleigh. E eu não tenciono colaborar na nossa própria morte.

-Mas vocês são tão importantes em Chicago... não poderão evitar que ele seja eleito?

- É o que tenciono fazer. A Minna Everleigh guarda sempre alguma coisa na manga. - Piscou o olho a Foley e pegou-lhe no cotovelo. - Deixe isso comigo. Quanto a si, parece-me um pouco embuchado. Creio que mais uma taça de champanhe não lhe faria mal nenhum.

Harold T. Armbruster era um dos três motivos para Chicago ser chamada a Porcópolis deste mundo. Os outros dois eram também reis dos enlatados: Philip Armour e Gustavus Switt. Entre os três, possuíam quase todos os armazéns e matadouros da cidade. E, igualmente entre os três, Armbruster era o terceiro mais rico, tendo arrecadado dois milhões de dólares limpos na última meia dúzia de anos. Mas não fora o seu desejo de se tornar o mais rico que o levara a sair naquela noite, para ouvir um discurso... a uma hora em que estaria, normalmente, a preparar-se para se deitar.

Armbruster viera ao Turner's Hall com o intuito de escutar o discurso da campanha para a eleição, que o Mayor Carter Harrison deveria fazer perante os membros da Liga Municipal de Eleitores. Espremeu-se com dificuldade num lugar vago da décima fila. Tinha grande excesso de peso. com a barriga e a cintura a projectarem-se-lhe por cima do cinto. Coçava com impaciência o nariz abatatado e cofiava o bigode de morsa, enquanto esperava que surgisse o orador.

Habitualmente, Armbruster não se interessava especialmente pela política. Estava perfeitamente consciente de que o Mayor Carter Harrison, um democrata, concorria à reeleição contra um popular republicano de nome Graeme Stewart. Apenas uma faceta da campanha interessava Armbruster, a promessa feita por Harrison de alargar os armazéns e gastar mais dinheiro com comboios de mercadorias, a fim de transportar mais porcos, ovelhas e novilhos para Chicago. O seu rival, Stewart, era contra semelhante dispêndio público.

A presença de Armbruster na reunião, apesar do desconforto sentido, destinava-se a proporcionar-lhe uma garantia em primeira mão de que o Mayor Harrison era homem merecedor do seu apoio e contribuições.

Após haver aguardado, com impaciência, durante dez minutos, viu surgir na plataforma um vereador que conhecia de vista, para apresentar o orador principal.

-Chicago tem a felicidade de possuir um Mayor que só mete as mãos nos seus próprios bolsos - ironizou o vereador. A sua frase provocou uma vaga de risos e depois o homem anunciou: -Senhoras e cavalheiros, é uma honra e um privilégio apresentar-lhes o Mayor Carter H. Harrison.

A maior parte da assistência explodiu em calorosos aplausos.

De imediato o Mayor Harrison saiu dos bastidores e encaminhou-se para o pódio. No decorrer dos anos, Armbruster vira-o muitas vezes, mas sempre à distância, em reuniões sociais, ou então reparara na sua fotografía publicada em jornais. Nunca o observara tão perto e, enquanto o olhava, sentia-se contente com aquilo que estava a ver: um homem robusto e discretamente elegante, com o cabelo negro muito bem penteado para o lado, olhos faiscantes e um bigode semelhante ao seu, mas mais bem cuidado. Harrison apresentava-se imaculadamente ataviado, com colarinho de celulóide e laço, camisa branca, casaco azul-marinho por cima de um colete com corrente de relógio e calças cinzento-escuras bem vincadas.

Assim que começou a falar, a atenção de Armbruster derivou. O magnate dos enlatados viera ali para ouvi-lo discursar sobre os seus próprios interesses mas, em vez disso, Harrison estava a referir-se apaixonadamente à sua determinação de limpar Chicago e encerrar o Levee, com as suas casas de jogo e massagens. Armsbruster não estava interessado nesses disparates. Varreu o Mayor da mente, que passou a divagar sobre assuntos comerciais. Só já mesmo no final do discurso é que lhe prestou de novo atenção.

Para além do seu desejo de limpar a cidade, o Mayor estava a proferir algumas palavras acerca de tornar Chicago mais próspera, dando-lhe comboios aéreos e ampliando os transportes de carga para os armazéns.

Depois de terminado o apelo de Harrison, a assistência foi convidada a fazer fila e, cada um por sua vez, ir apertar a mão ao Mayor. Formou- se de imediato uma longa bicha.

Armsbruster continuou espremido no seu lugar, perguntando-se como proceder. Deu-se depois conta de que tinha muita vontade de ver Harrison eleito e sabia o que havia de fazer.

Aguardou, impaciente, que a fila de cumprimentadores encolhesse e ergueu-se por fim do lugar, para se integrar nela. Demorou meia hora a alcançar o palco. Abriu caminho com dificuldade, até conseguir apertar a mão ao Mayor.

Diante dele, tomou-lhe a mão e proferiu:

-Estava com vontade de o conhecer. Chamo-me Harold T. Armbruster e sou comerciante de carne enlatada.

A mão de Harrison apertou a sua. O Mayor sorriu.

- Até que enfim - disse - Armour. Swift, Armbruster. Também sempre o quis conhecer e sinto-me muito honrado por ter vindo ouvir o meu discurso.

- A honra é toda minha - replicou o outro.

Fiquei muito bem impressionado com o que disse. Estou do seu lado e quero apoiá-lo.

- Apoiar-me?

-Quero fazer tudo o que esteja ao meu alcance para o ver eleito de novo. Qual será a forma mais eficaz de o apoiar, Mayor?

Harrison fitou o comerciante de carne enlatada.

-Bem. acho que tenho de ser sincero com o senhor.

- Seja.

-Tal como todos os políticos. necessito de contribuições, donativos em dinheiro. para serem usados na informação do eleitorado sobre a minha plataforrna política.

- É só dizer-me quanto - retorquiu Armbruster. Estou pronto para o ajudar.

O outro tossiu.

-Eu... na realidade não sou eu quem trata directamente das contribuições para a campanha. Tenho dois vereadores a dirigi-la. Um deles é o John Coughlin. Soltou uma risada de embaraço. - Ele é mais conhecido, na intimidade, por John Casa-de- Banhos, por ter sido dono de um estabelecimento de banhos turcos. antes de se meter na política. O seu parceiro é o Michael Kenna, igualmente vereador e mais conhecido por Roda Baixa, por causa da sua reduzida estatura. É com eles que deve falar. Sabem o que faz falta e como deve ser gasto.

- E onde os posso contactar? - inquiriu Armbruster.

-Dê-me o seu cartão. Direi a um dos dois para lhe telefonar. Marcará uma data para se encontrar consigo, no local que melhor lhe convier.

O outro entregou-lhe o seu cartão de visita.

-Ficarei à espera. Estarei disponível toda a tarde de amanhã.

Harrison voltou a apertar-lhe a mão.

-O senhor é muito generoso, Mr. Armbruster. Nem sabe o alívio que me deu. Vai haver uma eleição renhida na semana que vem e necessito de cada pedacinho de apoio que consiga obter.

- Terá o meu - prometeu-lhe Armbruster.

- Com certeza, se algum dia houver qualquer coisa que eu possa fazer pelo senhor, Mr. Armbruster.

-Veremos... -disse o outro.

-Nada em política pode ser garantido, Mr. Armbruster. Mas faremos o melhor que pudermos.

- De quanto precisam? - indagou o outro. Coughlin inclinou-se no sofá, onde estava sentado juntamente com Kenna.

-Deixe que lhe explique a realidade da situação

- disse. - O Mayor pode impor-se por si só em toda a cidade. Onde é menos popular é no Primeiro Bairro. que o Roda Baixa e eu representamos. Essa zona corresponde ao Levee, onde actualmente florescem as casas de prostituição. Com o tratamento adequado, ainda poderemos dar-lhe a volta e isso assegurava a eleição do Mayor.

- E qual é esse tratamento adequado? - inquiriu Armbruster.

- Vou ser franco com o senhor - retorquiu Coughlin. - O Primeiro Bairro está cheio de proxenetas, meretrizes, desempregados e bêbedos. Até agora, temo-nos aguentado a distribuir bebidas gratuitas: uísque, cerveja e também charutos. Se acrescentássemos a ìsso a oferta de um dólar de prata por cada voto, poderíamos ir mais longe.

-E eles votarão mesmo pelo Harrison?

- Não restam dúvidas - pipilou Kenna. – Todos nos devem favores e estão à espera de mais coisas dessas no futuro. Votarão realmente pelo Harrison.

Armbruster desembrulhou e cortou a ponta a um charuto Upmann e Coughlin inclinou-se para lho acen der. O comerciante inalou e expirou uma nuvem de fumo.

- Quanto? - perguntou.

Coughlin olhou para Kenna, que igualmente se inclinara para diante.

-Devem bastar quinze mil em dinheiro.

- É uma quantidade de dinheiro! - comentou Armbruster.

-E também representa uma quantidade de votos

- retorquiu Kenna.

- Quando é que precisam do dinheiro? - indagou o comerciante.

- Hoje - respondeu Coughlin. - As eleições são na semana que vem.

- Contem com ele - decidiu Armbruster, puxando pelo livro de cheques. - Mãos à obra.

Minutos depois de os ter deixado, os dois homens receberam uma chamada telefónica de Minna Everleigh.

- Casa-de-Banhos- disse ela - a Aida e eu gostávamos de falar consigo e com o Roda Baixa, o mais urgentemente possível. Temos um assunto para díscutir convosco.

- Quando? - perguntou Coughlin.

- Imediatamente - respondeu Minna.

- Vá tirando a rolha ao champanhe - replicou o homem. - Já vamos a caminho.

Meia hora depois, ele e Kenna encontravam-se sentados no divã do bem amado Salão Dourado, com Minna e Aida instaladas em outro divã diante deles.

-Sabe muito bem por que razão quisemos falar convosco, Casa-de-Banhos - principiou Minna a dizer.

- Não faço a menor ideia - retorquiu Coughlin. com ar inocente: Mas, se lhe pudermos ser úteis de algum modo...

-Pode crer que sim.

Necessitamos da vossa ajuda - trinou Aida. A minha irmã explica-lhe.

Minna pôs-se em pé e serviu champanhe aos dois homens e depois a Aida e a si própria.

Conservou-se de pé, a beber da taça de cristal, enquanto fitava os dois vereadores. Finalmente, falou:

- Casa-de-Banhos. Roda Baixa. ambos sabem o que esse vosso amigo mayor está a querer fazer-nos.

- Refere-se ao movimento reformista dele? - indagou Kenna. - Anda em cima de todo o Levee, não é só de vocês.

-Disparates - rosnou Minna. - Devem existir dois mil bordéis nesta zona, mas vocês sabem, e eu também, que o Harrison só quer dar cabo de um. Tem-se mostrado muito franco a esse respeito em todos os seus discursos. Pretende encerrar o Clube Everleigh, por ser a casa de diversões mais conhecida da cidade, do país, do mundo inteiro. Quer transformar-nos num exemplo. E nós não tencionamos permitir uma coisa dessas. Pretendemos derrotá-lo nestas eleições. Desejamos que o Stewart o vença. - Ergueu a voz. - Estão a ouvir-me? A Aida e eu não podemos permitir que o Harrison seja eleito.

- E que esperam que nós façamos? - quis saber Coughlin.

- Oh, vá lá! - exclamou ela, exasperada. - Temos conhecimento de que vocês os dois têm o Primeiro Bairro na palma da mão. Se convencerem a vossa malta daqui a votar contra o Harrison, ele ficará de rastos.

- Repito - insistiu o homem - que querem que nós façamos?

Minna pousou a taça.

- Aquilo que vêm fazendo desde há anos. - Comprem os votos. Comprem votos contra o Harrison.

- Isso custa uma quantidade de dinheiro - disse

Coughlin.

- Quanto? - indagou ela,    dirigindo a pergunta a

Kenna: Quanto é que nos custará mantermo-nos em

actividade?

- Quinze mil em dinheiro, ainda hoje - respondeu ele.

Minna soltou um assobio.

- É muita massa.

- Vocês também estão a pedir-nos muito - ripostou o homem, em voz suave.

Os olhos de Minna mudaram de Coughlin para

Kenna. Finalmente, disse:

-Não. Estão a espremer demasiado para vós próprios. A Aida e eu oferecemos dez mil.

Coughlin encolheu os ombros e replicou:

- Não sei... - Piscou o olho ao parceiro. - Que

pensas, Roda Baixa?

Kenna baixou o olhar para a carpeta. Depois murmurou:

- Bom, claro, a Minna e a Aida são velhas amigas

nossas.

-Okay - anuiu o outro,         fitando directamente

Minna. -Também me parece que dez mil hão-de chegar.

Minna esboçou um sorriso e pegou na taça.

- Está combinado. - Engoliu o seu champanhe. Vamos até ao estúdio, para lhes entregarmos o dinheiro.

John Coughlin e Michael Kenna não falaram sobre

o acordo mais recente que tinham feito. senão quando

se viram em segurança, confinados no seu gabinete da

câmara.

Sentando-se, alargaram ambos os colarinhos e

Kenna serviu uísque para os dois.

- Um belo dia! - comentou.

- Produtivo - concordou Coughlin.

Kenna voltou a sentar-se, com o uísque na mão e bebeu um gole.

-Okay, Casa-de-Banhos, como é que vamos fazer?

- Fazer o quê?

-Como é que vamos gastar o dinheiro do Armbruster para eleger o Harrison e o das Everleigh para ele não ser eleito?

- É fácil - respondeu Coughlin, engolindo a sua bebida.

- Sim? Como?

O outro levantou-se.

-Optamos pela aposta mais elevada. Elegemos o Harrison.

-Mas as Everleigh são velhas amigas nossas, Casa-de-Banhos.

- Deixa-as lá - disse expansivamente o parceiro.

-Compensaremos a Minna e a Aida depois de o Harrison ter vencido. Elegeremos o Mayor, o que vai fazer feliz o nosso enlatador de carnes. Mas não deixaremos que ele encerre o Clube Everleigh. Dessa forma. ambas as partes obterão o que desejam.

Kenna estremeceu.

- Parece-me impossível.

Coughlin terminou o seu uísque.

- Não sei bem. Vai andar o diabo à solta, mas creio que podemos fazê-lo. Tenho umas quantas ideias. Confia em mim, Roda Baixa. Toda a gente vai ficar numa boa... acho eu.

 

MINNA EVERLEIGH encontrava-se de pé, ao lado da escrivaninha do seu estúdio. a reler, encolerizada, a primeira página do Chicago Times. Olhava carrancuda os cabeçalhos:

CARTER HARRISON GANHA CORRIDA PARA MAYOR

O VENCEDOR DERROTA STEWART

POR 14G 208 CONTRA 138 548

MAGRA MARGEM DEVIDA À REVIRAVOLTA

SURPRESA NO PRIMEIRO BAIRRO

CANDIDATO REFORMISTA HARRISON PROMETE

IMEDIATA LIMPEZA DO VÍCIO NA CIDADE

Minna ergueu os olhos, quando Aida voltou de fazer um telefonema.

- Então? - perguntou-lhe.

-Liguei para o Casa-de-Banhos e disse-lhe que querias falar com ele - anunciou a irmã. - Já estava à espera da chamada. Já vem a caminho, com o Roda Baixa.

Ainda a ferver, Minna atirou com o jornal para cima da escrivaninha.

- Esses traidores!

Aida pegou no periódico. Passou os olhos pelos cabeçalhos.

- Seja como for, já está perto.

- Estar perto só conta na cama - rosnou Minna. A irmã continuou a dar uma vista de olhos à primeira página.

-Minna, ouve isto. O príncipe Henrique da Prússia, irmão do Kaiser da Alemanha.

-Que é que ele fez?

-Virá dentro em breve a Chicago. Minna, ele vai atrair aqui uma quantidade de gente. Isso pode significar mais negócio para nós.

-Qual negócio? Nessa altura já estaremos fora do negócio. O Harrison encarregar-se-á disso.

-Por que não vermos primeiro o que o Casa-de-Banhos e o Roda Baixa têm para nos dizer? - suplicou Aida. - Vá, deixa-me servir-te um uísque.

- Duplo!

Quinze minutos mais tarde, estando Minna e Aida ali sentadas a cismar, Edmund, o criado, bateu à porta, abriu-a e introduziu John Coughlin e Michael Kenna no escritório.

Minna pegou com brusquidão no jornal e acenou com a primeira página na direcção de Coughlin.

-Depois de terem aceite o nosso pagamento por fora, como é que explicam isto? O vosso próprio bairro virou a casaca a favor do Harrison. Como é que isto aconteceu?

- Distribuímos o vosso dinheiro - retorquiu Coughlin com sinceridade. - Dá a impressão de que não foi o bastante. Deve ter havido outra pessoa que nos ultrapassou nos gastos.

- Não acredito em vocês - afirmou ela rispidamente. - Aposto que o embolsaram todo.

-Minna, eu juro-lhe... - principiou Coughlin a dizer.

-Gastámo-lo todo - corroborou Kenna. - Mas houve algum partidário do Mayor que nos passou a perna.

-Isso não faz sentido - insistiu a mulher. O voto do Levee foi suicida. Todos votaram contra si próprios. Vão ser completamente varridos e as primeiras serão as irmãs Everleigh.

- Não. isso não é verdade - afirmou Coughlin. Era o que lhe vinha aqui dizer.

- Que é isso de não ser verdade? - vociferou ela.

-Por favor. sente-se, Minna. Você também, Aida, e deixem-me explicar-lhes o que de facto sucedeu. Aguardou que as duas írmãs se tivessem acomodado e pegou depois no jornal. - Diz aqui que vocês perderam. mas posso garantir-lhes que, na realidade, ganharam.

-Essa é confusa, Casa-de- Banhos - interveio Minna em tom amargo. - Nós perdemos... mas ganhámos!

Coughlin continuou a falar:

-Ao menos escutem-me. O Roda Baixa e eu estivemos esta manhã a falar com o Mayor. Para o felici tarmos. Eu dísse-lhe: O senhor pode fazer o que lhe cumpre com as outras casas do Levee. Mas não pode fechar o Clube Everleigh. Ele exaltou-se ao ouvir isso. Quem é que disse que não posso fechar o Clube Everleigh? É precisamente a casa de prostituição que tenciono encerrar primeiro e bem depressa. Falou a seguir o Roda Baixa e dísse-lhe: Mayor, nós averiguámos de fonte limpa que não se trata de uma casa de prostitui ção. É verdade que em tempos o foi. Mas já não o é actualmente. O Clube Everleigh é um restaurante e as raparigas estão lá como bailarinas e artistas de variedades. Ele enfureceu-se e afirmou: Sei muito bem que é uma casa de prostituição. Portanto, eu repliquei: Mayor,

será melhor que prove a sua afirmação sem margem para dúvidas, antes que o venha a encerrar. Isso. para já, calou-lhe a boca. - Coughlin sorriu para Minna. Desta forma o vosso estabelecimento está salvo.

- Qual estabelecimento salvo? - bradou ela. - Se eu não tiver a nossa casa e as nossas meninas a funcionar, que é que me resta?

-Um restaurante dispendioso, com preços especiais pela actuação das jovens. seja qual for o espectáculo que dêem. Talvez se arranje uma saída para algumas delas se exibirem nos andares de cima, se vocês tiverem o cuidado de filtrar com cuidado todos os vossos visitantes.

-Só que, na realidade, nós deixaremos de ter uma casa de prostituição- insistiu Minna.

-Não precisamente. Podem continuar a ganhar o suficiente com o restaurante para se aguentarem e deixar que as meninas apresentem espectáculos de variedades, ao jeito de diversão.

-Sabe muito bem que o dinheiro a sério nos vem lá de cima.

-Quer isso apenas dizer que perderão algum. durante um curto período de tempo - disse Coughlin, com um sorriso. - Gradualmente, os apertos abrandarão. O Mayor terá outros assuntos mais prementes na cabeça. Poderá afirmar que vos reconverteu e esquecer o assunto. Assim que o fizer, retomarão o negócio da forma habitual... sem terem mais problemas. Portanto, pode ser que pensem que perderam. mas o Roda Baixa e eu afirmamos que ganharam; a longo prazo, venceram.

- Isso é um esquema terrível. mas vou alinhar com ele por algum tempo, desde que vocês cumpram a vossa parte.

-Quer isso dizer?

-Que terão de providenciar no sentido de que nenhum dos homens do Harrison aqui entre. Não quero espiões, a tentarem provar que ainda exploramos uma casa de prostituição.

-O Roda Baixa e eu faremos o melhor que pudermos. E vocês também terão que desempenhar o vosso papel.

- Qual?

-Terão de obrigar as vossas raparigas a jurar que não dirão palavra sobre quaisquer subidas aos andares de cima. Isso aplica-se também aos criados.

-Não se preocupe com as meninas e com os empregados. Eles não querem ver a casa fechada. Desejam conservar os seus empregos.

Kenna colocou-se ao lado de Coughlin.

-Um pormenor, Minna. Têm alguém de fora a trabalhar aqui?

-De fora? Só um. O Dr. Myers, do Loop. Vem cá todas as semanas examinar as meninas.

- E podem confiar nele? - indagou Kenna.

-Como é que hei-de saber?

- Isso assim não serve - retorquiu Coughlin. Despeça-o. Nós temos uma pessoa que o pode substi tuir. - Olhou para Kenna, que acenou o seu assentimento. - Conhecemos um tal Dr. Herman H. Holmes, especialista em doenças de senhoras, que tem consultório em Englewood, o que não fica muito longe daqui. Temos ouvido dizer que é o médico mais calado e digno de confiança das redondezas. Podemos falar-lhe no que se está a passar e tenho a certeza de que poderão confiar nele. Mandá-lo-emos cá no sábado. O Mayor Harrison nunca virá a saber de nada. Depois, poderão servir-se do restaurante como cobertura e continuar calmamente com o vosso negócio.

- Parece-me razoável - concedeu Minna. Olhou de relance para a irmã. - Aida, partamos do princípio de que isto vai dar bom resultado e bebamos uma garrafa de champanhe em honra do Clube Everleigh reconvertido.

Quando Harold T. Armbruster recebeu a chamada da secretária do Mayor Harrison, convidando-o a visitar este nessa mesma tarde, a fim de receber agradecimentos pelo auxílio prestado na campanha eleitoral, hesitou por um momento. Era um homem muito ocupado e, normalmente, teria sugerido que bastaria o Mayor agradecer-lhe pèlo telefone. Mas, por outro lado, recordou-se de qualquer coisa que lera no jornal da manhã, alheia aos resultados das eleições. Tinha o assunto bem presente na mente.

Decidiu que talvez fosse afinal boa ideia falar pessoalmente com o Mayor.

- Muito bem, de acordo - anuiu. - Diga ao Mayor Harrison que terei muito prazer em aparecer esta tarde, às três horas.

Agora, aos cinco minutos para as três, Armbruster encontrava-se confortavelmente sentado num cadeirão acolchoado de couro, diante da escrivaninha de carvalho de tampo ondulado pertencente ao autarca.

- As minhas felicitações - voltou a dizer. - Foi uma vitória maravilhosa que o senhor conseguiu ontem.

O outro recostou-se na sua própria cadeira giratória de couro, nitidamente agradado com o triunfo.

- Agradeço-lhe as suas palavras amáveis - retorquiu - e, mais que isso. estou-lhe grato pela contribuição que me deu. Foi provavelmente ela que tornou tudo possível. Deixe que lhe repita, Mr. Armbruster, se houver qualquer coisa que possa fazer por si...

Armbruster interrompeu-o.

-Na verdade, há uma coisa.

-Ah, óptimo. Basta dizer-me o que é.

-Vinha um artigo no jornal que li esta manhã...

- E qual era?

-Acerca do príncipe Henrique da Prússia, comandante da Marinha Alemã e irmão do Kaiser Guilherme. Diz-se que irá aos Estados Unidos buscar o iate novo do Kaiser, tencionando fazer uma viagem aqui a Chicago, presumivelmente devido à nossa grande população de origem alemã. Poderei perguntar-lhe, Mayor Harrison, se isso corresponde à verdade?

-Em absoluto. Ainda não sei a data, mas creio que o príncipe Henrique visitará a nossa bela cidade dentro de cerca de três semanas.

Armbruster inclinou-se vivamente para diante.

- Mr. Mayor, o facto é que eu gostaria de conhecer o príncipe Henrique.

-Tenho a certeza que isso se poderá conseguir.

-Não me refiro a dar-lhe um simples aperto de mão. Gostava de ter com ele uma conversa informal. Estará demasiado ocupado para isso?

O outro reflectiu.

-Bem. a visita do príncipe Henrique ainda se encontra na fase de planeamento. Esperámos que ele vá colocar uma coroa de flores no monumento a Abraham Lincoln. Tencionamos acompanhá-lo a seguir numa rápida volta pela cidade. Quanto a essa conversa que pretende ter com ele, é importante?

- Para mim, é muito importante - asseverou Armbruster em tom de urgência. - Quero pedir-lhe que me auxilie a tornar-me embaixador na Alemanha. - Deteve-se por um curto instante. - Vou fazer-lhe uma confidência, Mayor Harrison. Nesta fase da minha vida, tenho quase tudo que um homem possa ambicionar. Um negócio próspero. Uma bela mansão para habitar. Uma família dedicada e bons amigos. Tenho tanta saúde quanta sempre desejei. Possuo tudo que o Armour, o Swift e os meus competidores possuem, excepto uma coisa: posição social. Os outros têm-na. Eu não. Para bem da minha esposa, dos meus filhos e de mim próprio, gostava de ter igualmente uma posição na sociedade. Tornar-me embaixador na Alemanha proporcionar-me-ia precisamente isso.

O Mayor Harrison mostrava-se confundido.

- Mas os embaixadores não são nomeados por. bem, não teria essa iniciativa de partir do nosso secretário de Estado, ou do Presidente Roosevelt?

-Claro que sim, Mr. Mayor. Mas eles poderiam ser influenciados. Se tivesse uma oportunidade de cair nas graças do príncipe Henrique, ele poderia soprar o meu nome ao Kaiser e este, por sua vez, sugerir ao Presidente Roosevelt que me nomeasse embaixador. Tenho a certeza de que isso bastaria. Posso não ter um currículo diplomático, mas sou de origem alemã e falo perfeitamente o alemão. Seria uma opção lógica.

- Estou certo que sim - disse Harrison. - O problema reside em se arranjar tempo, para o senhor falar em privado com o príncipe Henrique. Ele vai ter de cumprir um horário apertado.

-Que está a planear para a noite que ele vai passar aqui?

-Bom, um banquete formal, é claro. Ainda não tratei desse pormenor, mas.

- É isso! - exclamou Armbruster. - Permita-me ser eu o anfitrião do banquete, em conjunto consigo. Por uma feliz coincidência, estou a organizar um grande banquete. O meu filho Alan está noivo de uma encantadora beleza sulista, oriunda do Kentucky... Cathleen Lester, sobrinha de duas senhoras de Chicago. Casarão em minha casa, mais ou menos na altura da chegada do Príncipe. Gostaria que ele assistisse ao casamento e ao banquete com baile que se seguirá. Creio que se mostraria sensível a uma ocasião tão sentimental. E eu poderia puxá-lo para o lado e abordar o assunto da nomeação como embaixador. Que acha disto, Mr. Mayor?

Harrison pôs-se em pé, sorrindo amplamente.

-Agrada-me muito a ideia. Tira-me um grande fardo de cima dos ombros. Tenho a certeza que tudo se poderá arranjar desse modo, sujeito apenas à aprovação do Príncipe Henrique. Que tal?

- Excelente! Esplêndido!

Pouco depois do almoço, o Mayor Harrison convocou os seus colaboradores mais próximos para uma reunião crucial no seu gabinete.

Recostou-se na alta cadeira por trás da escrivaninha, de frente para um semicírculo de assistentes. A única mulher presente na sala era a sua atraente jovem secretária, Karen Grant, que contratara diversos meses antes das eleições.

-Trata-se da minha mais importante promessa eleitoral - principiou Harrison a dizer. - Fiz muitas outras promessas secundárias ao público. as quais serão eventualmente cumpridas. Mas a coisa mais importante que prometi ao eleitorado, como todos sabem, foi a introdução de reformas morais nesta cidade. Todas as casas de má fama do Levee têm de ser eliminadas. Dessas casas, concentrei-me em particular numa. Refiro-me ao Clube Everleigh. Decidi que tem de ser o meu primeiro alvo. Trata-se de um bordel conhecido por todos os Estados Unidos e Europa. Quero ocupar-me imediatamente dele, encerrá-lo e provar aos eleitores que falava a sério, quando disse isso na minha campanha. Só que existe um problema.

Fez uma pausa, abriu o cofre do tabaco e extraiu dele um charuto. Cortou-lhe uma das pontas. meteu o charuto na boca e aguardou que um dos seus assistentes se pusesse em pé de um salto, para lho acender.

- Muito obrigado, Evans - agradeceu. Dirigiu-se mais uma vez a todo o grupo: -Fui informado de que o Clube Everleigh tem sido um bordel de porta aberta.

Contudo, as irmãs Everleigh afirmam que já o não é actualmente. Esta informação foi-me dada hoje de manhã. Miss Grant encontrava-se comigo neste gabinete, quando os dois vereadores do Primeiro Bairro ma transmitíram.

- Virou-se para a secretária. - Miss Grant, tem aí à mão as suas notas?

-Tenho sim, Mr. Mayor.

Karen Grant poisou o seu bloco de notas no rebordo da escrivaninha, apanhou uma pasta do chão e tirou dela uma folha de papel.

- Leia em voz alta o que tiver escrito - instruiu-a Harrison.

Karen curvou a cabeça para o papel.

-O Mayor Harrison recebeu o Vereador John Coughlin e o Vereador Michael Kenne, tendo-lhe estes declarado que, ao mesmo tempo que apoiantes dele, eram igualmente amigos de longa data de Minna e Aida Everleigh. Cumpre-nos informá-lo, Mayor. disse o Vereador Coughlin, que o Clube Everleigh se modificou. Desistiram da prostituição. Isto em resultado directo da sua campanha reformista. A casa converteu-se num restaurante elegante. e nada mais que isso. O Mayor retorquiu: Sei, por acaso, que há trinta mulheres no clube. Que é que estão lá a fazer? O Vereador Coughlin replicou: Não são prostitutas. Podem tê-lo sido em tempos, mas já não o são agora. Não passam de meras artistas, bailarinas, cantoras, actrizes que, todas as noites, tomam parte num espectáculo de variedades destinado às pessoas que jantam no restaurante. Garantiu que as Everleigh obtêm os seus ganhos do dispendioso restaurante, com o seu espectáculo de pista e as suas duas orquestras. Uma vez que se trata de um restaurante legal, não fará sentido encerrá-lo, afirmou Coughlin. O Vereador Kenna e eu aconselhamos-lhe o abandono dessa sua iniciativa. O Mayor agradeceu aos vereadores e dispensou a sua presença.

Harrison chupou o charuto e voltou depois as suas atenções para os assistentes.

- Meus senhores - recomeçou a dizer - estive a reflectir nesta informação e acredito que seja falsa. Não me parece que o Clube Everleigh seja meramente um restaurante. Acho que continua a ser uma casa de prostituição, a maior, a mais rica, a mais importante da nossa cidade e é minha intenção provar que tenho razão e encerrar o bordel. O único problema que se me depara é obter uma prova. Como é que poderei provar que o Clube Everleigh continua a ser uma casa de má fama? Necessito de dispor de provas concretas, antes que lhe possa fechar permanentemente as portas e mostrar ao público votante que o Mayor Harrison cumpre as suas promessas eleitorais. Por esse motivo é que os reuni a todos aqui, para lhes solicitar sugestões quanto ao processo de obter as necessárias provas.

Os olhos dele passearam pela sala.

-Alguma sugestão, meus senhores?

Jim Evans levantou a mão.

-Porque não interrogarmos as raparigas? Oferecer-lhes até qualquer coisa? Seguramente uma delas haverá de falar.

Harrison abanou negativamente a cabeça.

-Inútil. Nenhuma delas falará contra as Everleigh. São pagas cinco ou dez vezes mais do que as outras prostitutas recebem. Não se arriscariam a perder os seus proventos.

- E que tal os empregados? - indagou Jim Evans. De novo o Mayor abanou a cabeça.

-Também esses são bem pagos.

-E porque não interrogarmos alguns dos clientes habituais? - perguntou alguém em voz alta.

- Não serviria para nada - replicou Harrison. Seria de certeza uma má jogada. Os clientes gostam do Clube Everleigh. Querem que ele permaneça aberto.

Ainda que um deles falasse, não poderia dar-se ao luxo de testemunhar perante a polícia. Teria aborrecimentos com o facto de a esposa, a namorada ou a família descobrirem que frequenta um bordel. Não temos hipóteses. Esqueça isso.

- E se procurássemos localizar uma antiga rapariga das Everleigh e convencê-la a falar? - indagou o Adjunto Gus Varney.

- Não serve - contrapôs Harrison. - Mesmo que as conseguíssemos encontrar, elas apenas poderiam referir-se ao passado, não ao que está a ocorrer hoje em dia. - Reflectiu brevemente. - Acaba de me ocorrer uma outra coisa. Uma ideia melhor, se puder ser posta em prática.

- Qual é? - inquiriu Gus Varney.

-O velho truque do Cavalo de Tróia.

Varney pareceu intrigado.

-O truque do Cavalo de Tróia?

- Infiltrar alguém do nosso lado no Clube Everleigh. Deixar que essa pessoa determine, em primeira mão, que as raparigas ainda levam clientes para a cama a troco de pagamento. Isso constituiria uma prova sólida.

- É verdade - concordou Evans. - Mas como é que conseguiria meter essa pessoa lá dentro sem despertar suspeitas? Suponho que as Everleigh redobrarão de cautelas quanto aos clientes.

Harrison acenou afirmativamente.

-Sempre foram cautelosas. Admitiam somente pessoas que conheciam bem, ou então clientes recomendados por amigos de confiança, ou que pudessem comprovar a sua posição social e respeitabilidade.

-E como é que um homem aparenta óbvia respeitabilidade? - inquiriu Jim Evans.

-De muitas maneiras. Pode ser pela sua forma de vestir, por meio de uma dicção fina, até com qualquer coisa tão simples como um cartão de visita elegante.

- Harrison pousou o charuto apagado e frio. - Com toda a certeza por meio de um cartão de negóciosacrescentou, com segurança. - Basta mandar imprimir um cartão em relevo, com o nome de uma fábrica realmente existente, digamos... em St. Louis. Quem poderá afirmar que se trata de uma falsificação? Tenho a impressão de que as Everleigh o aceitariam de imediato.

Diversos assistentes vocalizaram a sua concordância.

-Um de vocês, com um traje de noite adequado, poderia apresentar semelhante cartão para ser lá admitido. Em primeiro lugar, pediria uma rapariga e comeriam juntos um jantar verdadeiramente dispendioso, para provar a sua simpatia pessoal. A seguir, poderiam ir os dois para o andar de cima tratarem de se divertir. Após isso, prestaria depoimento perante o chefe de polícia O'Neill.

-E isso não seria considerado uma armadilha?

- perguntou alguém.

-Penso que os tribunais nossos amigos poderão fechar os olhos a tal pormenor. Claro que seria preferível, uma vez tudo terminado, dizer à rapariga o que se estava a fazer. Já que ela iria, de qualquer das formas, ficar sem trabalho durante algum tempo, poder-se-lhe-ia sugerir que se dispusesse a testemunhar em nosso apoio. a troco de um considerável suborno. Seria uma perfeição.

- E quem é o felizardo? - quis saber Gus Varney.

-Quem vai fazer a visita?

Harrison examinou atentamente cada um dos seus assistentes, procurando imaginar qual deles seria capaz de levar melhor a cabo a tarefa de infiltração. A maior parte estava ao seu serviço há demasiado tempo e poderia ser reconhecida por um ou outro cliente do Clube Everleigh. Finalmente, o seu olhar fixou-se em Gus Varney.

- Tu - decidiu. - Serás o felizardo, Gus. Não por causa de seres tão belo e sexualmente atraente... Varney era, na realidade, uma estaca de feijões e quase não possuía queixo. - És tu quem pertence ao meu pessoal há menos tempo. Vieste de Detroit e há muito não estavas em Chicago. Não deve haver muita gente familiarizada com a tua cara. És o que tem menos probabilidades de ser reconhecido. Sim. diria que deves servir. Queres aceitar a missão?

Varney sorriu-se.

-Se está na disposição de pagar as despesas da noitada, teria muito prazer em jantar, tomar uns copos e dar uma cambalhota com uma bela rapariga.

- Então a missão é tua - disse-lhe Harrison. Veste-te melhor do que neste momento. manda imprimir esse tal cartão comercial e averigua, junto do Coughlin e do Kenna, como é que se fazem as coisas no Clube Everleigh. Deixa-me pensar na quantia que poderemos pagar como suborno, partindo do princípio de que é possível subornarmos alguém. Tens a certeza de que és capaz de cumprir a tua obrigação na cama?

- Até hoje ainda não falhei - retorquiu Varney.

Depois de se ter ralado, durante vinte e quatro horas, sobre se deveria abordar abertamente o assunto, Minna Everleigh chegou à conclusão de que não tinha outra hipótese. Mandou Edmund percorrer o clube, no intuito de informar os seus colegas criados, os músicos e as meninas, de que ela pretendia ter uma reunião com todos, às três horas da tarde.

Encontrava-se no Salão Turco, a arrumar os almofadões e divãs e a desligar o repuxo da fonte que havia no meio da sala, quando as moças e os criados principiaram a surgir.

Primeiro apareceram os empregados, a maior parte deles vindos das suas confortáveis instalações situadas na cave. A seguir, os cinco membros da orquestra do Clube Everleigh. Postando-se no perímetro do Salão Turco, observaram a entrada das jovens, poucas delas completamente vestidas. a maioria apenas com penteadores, num deslumbrante desfile de jovens morenas. loiras e ruivas. À medida que chegavam e tomavam os seus lugares, Minna, postada na extremidade do salão, cumprimentava-as pelos nomes.

-Olá, Virgínia... Avis... Margo... Fanny... Belle... Phyllis. Cindy - e assim sucessivamente, até as haver saudado a todas.

Depois que o grupo se reuniu e com os olhos de todos postos em si, começou a falar na sua voz grave:

-A Aida está a ocupar-se da porta da frente. pelo que conduzirei sozinha esta reunião - principiou a dizer.

-É de grande importância e achei melhor pô-los ao corrente do nosso problema o mais depressa possível.

Perscrutou os rostos ainda intrigados que tinha diante de si e depois recomeçou a falar:

-Como todos ficaram a saber pelos jornais de ontem, o Mayor Carter Harrison é nosso inimigo jurado. Não será necessário recordar-lhes que ele venceu as eleições com base num programa eleitoral reformista. Afirmou ir limpar o Levee e a sua principal prioridade era e é o Clube Everleigh. Poderá ele encerrar-nos o estabelecimento? A resposta é um sim peremptório, se conseguir provar que o nosso clube é uma casa de prostituição. Vocês e eu sabemos que isso é um absurdo.

Soou uma onda de gargalhadas no Salão Turco. portanto. ainda bem que toda a gente sabe

o que isto é - prosseguiu Minna, também a rir-se. A partir deste momento, o Clube Everleigh passa a ser um restaurante muito fino e muito privado e todas vocês, dirijo-me agora às meninas, tomam parte no espectáculo de variedades. Tal facto foi comunicado ao Mayor pelos nossos dois amigos, os Vereadores Coughlin e Kenna. Agora, ele terá de tentar provar que somos mais que um restaurante. Necessitará de depoimentos, se é que tem esperanças de nos encerrar. E nós precisaremos de nos assegurar de que nenhuma investigação revelará que somos outra coisa que não o cúmulo da pureza e da inocência.

Phyllis, uma loira alta, pôs-se em pé.

-Minna, que vai acontecer aos nossos ganhos, se não pudermos levar homens lá para cima?

A madame soltou uma risada.

-Quem disse que não podem? Eu apenas afirmei que ninguém deve ficar a saber disso.

Procurou o seu maço de Sweet Caporals, tirou dele um cigarro e acendeu-o.

- Haverá trabalho como é normal - continuou a dizer - mas talvez. não exactamente como é costume. Embora possamos confiar nos nossos clientes habituais, teremos de estar bem atentas a estranhos. A menos que exibam referências fiáveis, ou adequada identificação, teremos de os recusar. Isso pode levar a uma ligeira diminuição dos vossos rendimentos, mas continuarão, mesmo assim, a sair-se bastante bem, seguramente melhor do que as outras mulheres do Levee. A Aida e eu poderemos filtrar os clientes. Isso ficará a nosso cargo. O que não podemos controlar é o vosso comportamento fora do clube, quando vão passear à tarde, ou quando têm o vosso dia de folga para irem às compras, ao teatro, ou seja lá o que for. Se qualquer de vós deixar escapar um indício de que o Clube Everleigh continua a funcionar como bordel e se uma testemunha das vossas palavras for ter com o Harrison ou com a polícia, então estaremos perdidas. E se o palavreado descuidado nos levar ao encerramento, teremos que acabar com o negócio. Isso significará que todos vocês ficarão sem trabalho. Terão de labutar para obterem qualquer posição mal paga e degradante, em qualquer baiuca do Levee.

Levantou-se Avis, uma pequena e curvilínea morena.

-Minna, quanto tempo vamos ter de viver nessas condições? Quero dizer, a preocuparmo-nos com toda a gente que cá entrar e de boca calada em relação a todas as pessoas lá de fora. Quanto tempo?

-Não muito - asseverou Minna. - Só o suficiente para permitir que o Mayor convença os seus eleitores de que está a cumprir as promessas feitas durante a campanha. Nessa altura, ele há-de relaxar-se e dedicar-se a assuntos de maior importância. Não vai demorar muito.

- Mas quanto tempo? - insistiu a rapariga.

- Digamos que umas duas semanas - aventou Minna. - Acham que podem aguentar isso?

Soou um coro de assentimentos.

Minna ficou satisfeita.

- Muito bem - disse - a nossa política de cautelas entra imediatamente em efeito... hoje... esta noite. Amanhã, tenciono contratar um médico novo, que receberá instruções para observar o mesmo procedimento cauteloso. Se todos vocês fizerem como lhes disse, não terão que se preocupar com a situação. Poderemos continuar a ter uma boa vida.

Depois de decidir dispensar o cavalo e a carruagem, Minna Everleigh comprara um dos cada vez mais populares veículos sem cavalos, ou automóveis. Tinha gostado do Peerless, mas achara-o excessivamente caro por quatro mil dólares. Acabara por reduzir a sua gama de opções ao Haynes-Apperson, um carro da Columbia Electric, ou ao Ford Modelo-A. O primeiro era também um tanto dispendioso. Sentira-se atraída pelo silencioso e senhoril coupé da Columbia, com as suas janelas de vidraça encurvada, cortinas de seda, estofos de tecido amplo e compartimentos para produtos de beleza, mas decidira-se em contrário, por causa de ele andar apenas cinco milhas antes de exigir nova carga de bateria. Optara pelo Ford Modelo-A, por ser um veículo extremamente prático. Apesar do facto de se tratar de um carro lento, dotado de uma velocidade que não atingia bem as dez milhas por hora, não necessitando, por conseguinte, de pára-brisas, buzina nem faróis, Minna comprara um dos duzentos produzidos em 1903. Custara-lhe novecentos dólares e adorava-o. Embora ela própria nunca o houvesse conduzido, permitia que Edmundo a levasse onde quer que se deslocasse.

Instalada agora, naquela manhã, no assento à direita de Edmund, com os seus óculos postos, e levando desocupado o assento móvel da retaguarda, disfrutava o passeio até Englewood, para a sua entrevista com o Dr. Herman H. Holmes. Apreciava igualmente as atenções que o seu Ford atraía, com a carroçaria vermelha às riscas douradas, o vaso de flores junto do volante e os refulgentes pára-choques negros.

Consultando a anotação do endereço, que levava na mão, Minna viu os números das casas passarem por si, até que puxou pela manga de Edmund.

- Lá está - berrou - na esquina sudoeste da Rua Wallace com a Rua Sessenta e Três. Estás a ver? O prédio de tijolo de três andares, com aquelas ameias e torres no topo. Não admira que o Casa-de-Banhos me tenha dito que lhe chamam o Castelo. Pára diante dele, Edmund, e estaciona. Eu não me demoro.

Após ter descido do seu Ford, Minna encaminhou-se para a porta principal do estranho edifício e tocou à campainha. Instantes mais tarde, a porta abriu-se e ela viu-se perante um surpreendentemente atraente homem de meia idade, vestido com um elegante fato e colete.

- Chamo-me Minna Everleigh - anunciou. - Tenho entrevista marcada com o Dr. Herman Holmes.

- Sou o próprio - respondeu o homem, recuando um passo para lhe permitir entrar.

Era uma pessoa bastante pequena, reparou Minna. talvez com uns cinco pés e oito polegadas, pesando 150 libras. Tinha uma aparência muito elegante. possuidor de testa alta. hipnóticos olhos azuis e espesso bigode, voltado para cima nas pontas. Quando falou, a sua voz revelou-se calma e melodiosa. Tudo nele era graça e encanto.

-Faça o favor de entrar e pôr- se à vontade, Miss Everleigh - acrescentou. esboçando um gesto para ela passar por entre as duas colunas estriadas, erguidas do lado de dentro da porta. Assim que penetrou no vestíbulo, o homem continuou a dizer: - Se a minha modesta residência lhe parecer exagerada, já que tem de facto noventa quartos, mais ou menos trinta, em cada piso. não se admire. Eu próprio a construí como hotel, para a Exposição Colombiana. Depois de terminado o certame. decidi ficar por cá e regressar à prática da Medicina. Não a cansarei a mostrar-lha. Porque não vem para o meu consultório, onde poderemos ter a nossa conversinha em sossego.

Ao entrar no gabinete dele, Minna ficou espantada com a existêncía de diversas escadas, que pareciam não ir dar a lado nenhum.

-Nunca consegui terminá-las - esclareceu o Dr. Holmes. - Ora faça o favor de entrar.

À excepção de uma secretária de carvalho com oito gavetas, uma marquesa coberta por um lençol branco, situada próximo dela. uma elaborada lareira com um pesado vaso amarelo em formato de Vénus de Milo em cima, cheio de flores mirradas, tendo por trás um alto espelho e colgaduras azuis de ambos os lados. bem como uma mesa quadrada, ajoujada de livros sobre Medicina e pastas, o compartimento era relativamente austero. Havia duas cadeiras de madeira diante da secretária. O Dr. Holmes puxou uma delas para mais perto, fez sinal a Minna para se sentar e acomodou-se na outra.

-O Vereador Coughlin telefonou para cá. dizendo-me que a deveria aguardar - disse ele.

- Conhece-o?

-Na realidade. não. Ligou para aqui e apresentou-se, claro que tinha já ouvido falar nele, dizendo-me que havia sido informado da minha reputação como médico com especial interesse em problemas femininos e que a senhora iria dispensar um colega meu e procurava quem o substituísse.

- Disse-lhe com que finalidade procuro um médico? O Dr. Holmes sorriu calorosamente.

- O vereador lembrou-me, ainda que isso não fosse de facto necessário, que a senhora e a sua irmã são proprietárias do mais elegante bordel da América.

-Sim, o Clube Everleigh, em Dearborn. Temos trinta meninas. muito bonitas e com muita classe, nas nossas instalações. Necessito de um médico para elas. A ideia de trabalhar para um bordel choca-o?

- Chocar-me? - replicou o Dr. Holmes. - Considero isso um privilégio. Tratar das queixas de trinta jovens seria uma delícia e um desafio.

-Óptimo - disse Minna - sabe alguma coisa sobre a minha actual situação?

- Na verdade, não sei muito. Apenas que precisam de um clínico que seja discreto.

-Alguém disposto a não falar sobre o que se passa no clube.

-É regra básica da minha profissão considerarmos confidenciais os historiais dos pacientes.

- Mas há mais do que isso - disse ela. - O Mayor Harrison venceu as eleições com base num programa reformista. A sua promessa mais importante foi encerrar o Clube Everleigh. Foi-lhe comunicado que já não se trata de um bordel, mas simplesmente de um restaurante, que exibe um espectáculo de variedades. - Fez uma pausa. - A verdade, Dr. Holmes, é que continuará a ser um bordel, desde que o Mayor não possua provas disso. De hoje em diante, filtraremos os nossos clientes. Os meus empregados, bem como as meninas. prometeram não falar das respectivas actividades. O único furo a ser tapado é encontrarmos um médico que se disponha a ser igualmente discreto.

O Dr. Holmes exibiu mais uma vez o seu jovial sorriso.

-Miss Everleigh, pode ficar tranquila, que encontrou em mim esse médico.

-Bom, isso é o principal.

-Verá que nunca discuto as senhoras a quem estou ligado.

Minna acenou em aprovação.

-Óptimo. Os seus deveres consistirão em ir lá ao clube dois dias por semana, durante as manhãs e as tardes, as meninas têm outras ocupações à noite, para as examinar e me informar, no caso de haver algo de errado.

-Quer dizer, se alguma delas tiver uma doença venérea?

- É essa a minha única preocupação - anuiu ela.

-As minhas meninas são as melhores e mais caras e têm de se conservar limpas.

-Presumo, Miss Everleigh, que a sua autêntica preocupação seja a sífilis.

-Exactamente. O senhor está familiarizado com os tratamentos mais recentes para essa doença?

- Claro que é uma das minhas especialidades - asseverou ele.

- Eu conheço-lhe os sintomas - afirmou Minna mas não sou médica. Não sei como efectuar os exames, nem conheço os mais avançados métodos de cura. Poderá elucidar-me?

O Dr. Holmes pareceu à vontade e perfeitamente franco, ao responder:

-O maior problema que se põe, no exame da mulhér média que possa estar contaminada, é a prevalecente sensação de falsa modéstia. Essa doença infecciosa é, regra geral, resultante das chamadas relações impuras. O veneno masculino penetra numa mulher através de uma diminuta ferida ou lesão. A sífilis raramente é fatal, mas os efeitos que exerce sobre uma mulher são extremamente debilitantes. Ela sofre com a doença e transmite-a a outros parceiros. Confrontado com falsas modéstias, verifico ser, com frequência, impossível examinar os órgãos genitais da paciente. Deveria ser-me mais facilitado o toque na área inflamada, a fim de localizar os cancros sifilíticos, mas o pudor feminino dificulta uma genuína eficácia.

-Só que não vai ter o mesmo problema de resistência por questão de modéstia, ao examinar uma prostituta, não lhe parece?

-Diria que não. Isso não facilitaria nada a vida, nem à paciente nem a mim próprio. Limito-me a observar a vagina servindo-me de um espéculo. Se descobrir um cancro, receito a medicação normal: mercúrio. em comprimidos ou unguento. Não terei dificuldades.

Minna pôs-se em pé.

-Dr. Holmes, o senhor parece-me uma pessoa capaz e de confiança. O lugar é seu, se o desejar.

Ele levantou-se também.

-Será uma honra e um prazer servir a senhora e as suas meninas. Nitidamente uma grande oportunidade.

-Há ainda a questão dos seus honorários. Se for ao Clube Everleigh, amanhã de manhã, às onze horas, poderá falar com a minha irmã Aida, que estabelecerá com o senhor um acordo satisfatório. Depois, levá-lo-ei a visitar a casa e apresentar-lhe-ei as nossas jovens. Convém-lhe?

- Com todo o prazer, Miss Everleigh.

Minna permitiu que o Dr. Holmes a acompanhasse à porta e encaminhou-se depois para o seu Ford Modelo-A, onde Edmund a aguardava para a auxiliar a tomar o seu lugar.

Ia satisfeita ao partirem do Castelo do Dr. Holmes. Este revelara-se um bom profissional e um cavalheiro e os instintos dela indicavam-lhe que merecia confiança quanto a proteger o clube contra as incursões do Mayor.

À medida que se afastavam do prédio, olhou de relance para trás. O terceiro andar ainda era visível a meia milha de distância. A chaminé também se via e achou estranho que estivesse a emitir fumo.

Que coisa esquisita, pensou Minna, ter a fornalha acesa na Primavera! No entanto, tinha de reconhecer que a atmosfera estava fria e o que quer que estivesse a fazer para se aquecer, seguramente o Dr. Holmes sabia o que era melhor para a sua própria saúde. tão bem como para a delas.

No instante em que o Dr. Herman Holmes teve a certeza de que Minna Everleigh havia abandonado a zona, correu para o seu gabinete, mexeu por baixo de um cortinado ao lado da lareira e baixou uma alavanca escondida num painel, destinada a libertar gás às ocultas. Passado um instante, dirigiu-se para o corredor. até junto de uma parede metálica, com acabamento semelhante a grão de madeira, meteu a mão por trás de uma planta da borracha de espessas folhas, carregou num botão e viu deslizar e abrir-se uma porta, que dava para a sua câmara secreta à prova de som, situada nas traseiras. Entrou no mal iluminado e lúgubre compartimento,

cheirou, para se certificar de que o gás fora libertado e foi encontrar a sua sexta esposa. Georgianne. ainda estendida no chão. tal como a deixara.

Decidira ao meio-dia. após ter sabido que vinha aí Minna Everleigh, que Georgianne deixaria de lhe ser útil. assim que assegurasse o lugar. Meter-se-ia no seu caminho quando Minna aparecesse e levantaria demasiados problemas. quando ele tivesse acesso ao Clube Everleigh e às suas fantásticas raparigas. Assim que vira Georgianne inclinar para o almoço a sua farta cabeleira. Holmes aproximara-se por trás dela e batera-lhe na nuca com um pé-de-cabra. Segurara-a antes que tombasse no chão. arrastara-a para a câmara de gás. tirara-lhe as roupas e selara depois o compartimento sem janelas. revestido a folha de ferro. Ligara o gás a partir do seu consultório.

Minna tinha sido pontual e, tal como esperara, obtivera o lugar no Clube Everleigh. o que o deixara todo contente. Ia ser um festim. Teria todas aquelas jovens perfeitas à sua disposição e escolhê-las-ia. umas por amor. outras por dinheiro. dispondo também delas sempre que isso se tornasse necessário.

Agora, baixando o olhar para o cadáver de Georgianne, Holmes sentia remorsos. Ela servira os seus propósitos. dera-lhe dinheiro e muitas noites de sexo acrobático. Em vida. ter-se-ia metido no seu caminho. Por isso. não passava agora de mais um cadáver. Houvera tantos antes dela. alguns de homens. mas sobretudo de mulheres, que expoliara das suas economias, ou usara para os seus prazeres corporais. Um ser humano a mais ou a menos nada significava para Holmes. Auferia prazer em se aproveitar dos estúpidos seres humanos. usá-los e livrar-se deles quando se fartava. Lera, num tratado de Medicina, que todos os assassinos em série eram loucos. Holmes tinha a certeza de ser. ele próprio, perfeitamente são. Pura e simplesmente, obtinha felicidade com o que fazia. Era, possivelmente, uma estranha mas maravilhosa forma de luxúria.

Sem perder mais tempo, ergueu do chão o corpo morto de Georgianne, transportou-a ao ombro até ao primeiro alçapão, abriu-o com a mão livre e deixou-a cair. através de um túnel gorduroso, para a cave.

Fechado esse alçapão, abriu a portinhola de outro, que dava para uma estreita escada, conduzindo igualmente à cave.

Uma vez na cave com sete pés de altura, Holmes trabalhou com eficiência. Transportou Georgianne para um tanque de madeira de cedro forrado de zinco, com catorze pés e cheio de cal viva. Deixou cair o corpo no líquido, que lhe começou de imediato a dissolver a carne.

Após um curto lapso de tempo, esvaziou o tanque, enfiou as luvas de borracha, retirou de lá o que restava de Georgianne e pousou os restos dela sobre a sua mesa operatória. Foi buscar o escalpelo, a lanceta e outras facas. Orgulhava- se da sua destreza com aquel e instrumento, adquirida logo na juventude, na escola da Universidade do Michigan. Com mãos de perito, principiou a dissecar os restos mortais de Georgianne. Brotou um pouco de sangue, não muito, e assim que teve a esposa dividida em sete partes, em cima da mesa, Holmes dirigiu-se para o enorme forno, avivou o fogo, pegou metodicamente nos sete pedaços de Georgianne e lançou-os às chamas. Dentro de meia hora, nada restava dela a não ser a fumaça que saía pela chaminé e alguns ossos mascarrados no meio das cinzas.

Tudo terminado, Holmes lavou as mãos, voltando de novo a subir para a asfixiante câmara, a fim de repor tudo em ordem.

Com todas as coisas já limpas e nos seus lugares, deixou a câmara secreta, fechou-a e regressou ao consultório.

Passou os olhos pelo gabinete, com uma expressão tão inocente como quando a ladina mas, mesmo assim, crédula Minna Everleigh ali se sentara para o interrogar.

Sentou-se à secretária e disfrutou o prazer de uma cachimbada de tabaco holandês. Era agora, mais uma vez. um homem disponível, livre para apreciar e lucrar com o harém e prazer do Clube Everleigh.

 

ESTAVA-SE ao princípio da noite quando Gus Varney E entrou no vestíbulo do Clube Everleigh. Ainda que bem vestido, desde o laço e colete às calças de riscas, sentia-se contraído e esquisito. Procurou não dar mostras de nervosismo ao tirar o chapéu de coco. Tocou nos bolsos, para se certificar de que não levava neles qualquer identificação, à excepção de uma carteira cheia de dinheiro que o Mayor lhe tinha dado, bem como os seus cartões de visita, com o nome belamente impresso em relevo, ainda que falsos.

Acercou-se dele uma mulher bastante roliça e de cabelo castanho. Estendeu-lhe a mão.

- Chamo-me Aida Everleigh - apresentou-se. - Não me consigo recordar de o ter visto antes. Já alguma vez cá esteve?

-Não, não estive, mas muitos dos meus amigos de St. Louis estiveram e insistiram em que eu não deveria partir de Chicago sem vir jantar ao Clube Everleigh.

- Que simpático! - retorquiu Aida. - Posso perguntar-lhe o seu nome?

Varney tirou a carteira do bolso interior do casaco. Fez questão de exibir as notas de cinquenta dólares que lá tinha, enquanto procurava os cartões de visita. Tirou um e estendeu-o a Aida Everleigh.

-O meu nome é Jack Simon e sou Presidente da Quality Beer Company.

Ela estudou o cartão, examinou atentamente Varney da cabeça aos pés, sorrindo-lhe depois e guardando o cartão no bolso.

-Temos muito prazer em recebê-lo, Mr. Simon. Que tem em mente para esta noite? Já ceou?

-Na verdade, não comi absolutamente nada em todo o dia. Saber-me- ia muito bem uma boa refeição, regada por vinho.

aida voltou-se, a fim de o introduzir no clube.

-Estava a pensar em mais alguma coisa?

-Eu... eu ouvi dizer que tinham por cá diversas moças bastante atraentes. Gostaria de ter a companhia de uma delas para o jantar.

-Isso pode ser imediatamente arranjado. Há três ou quatro jovens senhoras no nosso Salão Azul. É cedo e as outras meninas só descerão mais tarde. Mas tenho a certeza de que encontrará disponível alguém que lhe agrade. Venha comigo. Vou apresentá-lo.

Ao entrarem no Salão Azul, o que Varney viu foi inteiramente inesperado. A sala estava mobilada com três divãs azuis, ornamentados por almofadas de couro, nas quais se viam belas imagens de raparigas de Gibson. A toda a volta nas paredes havia galhardetes escolares pendurados [Yale, Harvard, Dartmouth. Princeton), conferindo ao salão um aspecto nitidamente jovem e vivo. Três jovens, elegantemente vestidas com diferentes estilos de blusas de musselina e saias de tecido fino, estavam sentadas no divã mais próximo. Pararam com a sua tagarelice assim que Aida trouxe Varney pela mão e se acercou delas.

- Meninas - anunciou ela - quero apresentar-lhes Mr. Jack Simon, que dirige uma das mais famosas fábricas de cerveja de St. Louis. Missourì. Jack, apresento-lhe três das nossas mais divertidas anfitriãs. Esta é a Fanny. a Avis. a Margo Varney retribuiu as calorosas saudações delas.

- O Jack vem cá jantar e divertir-se um pouco, meninas. Disse-me que está cheio de apetite e gostaria de ter companhia para o jantar. - Virou-se para Varney.

- Elas também estão com muito apetite. Pode escolher. Os olhos dele semicerraram-se, fitando a primeira do trio, que lhe fora apresentada como sendo Fanny. Era uma loira dotada de grande peito, cintura fina e coxas obviamente voluptuosas.

Antes que pudesse pronunciar- se, foi Aida quem falou:

-Estou a ver que não consegue tirar os olhos da Fanny. Não o censuro. É uma das nossas moças mais populares. Gostaria que jantasse consigo?

Varney conseguiu arranjar voz para responder. O seu olhar aprazia-se com aquela sensual criatura.

-Isso... isso seria maravilhoso.

- Nesse caso, é toda sua - concedeu Aida. Fanny pôs-se alegremente em pé de um salto, quando ela lhe disse: - Mínha querida, leva o Jack ao restaurante e põe-no ao corrente do que lhe podemos proporcionar. Apertou de novo a mão a Varney. - Divirta-se no Clube Everleigh. Vê-lo-ei outra vez mais tarde.

Fanny meteu o braço no de Varney e conduziu-o jovialmente para fora da sala.

Ele sentiu-se momentaneamente intimidado à entrada no enorme restaurante, com os seus candelabros de prata, refulgentes taças de cristal e arranjos florais nos centros das mesas. Comera uma vez na Palmer House, com o pessoal do Mayor. mas o restaurante do Everleigh era muito mais esplendoroso. Fanny levava-o pelo braço ao introduzi-lo na sala. Passando por diversos homens que estavam a jantar, acenou com familiaridade a um indivíduo obeso e idoso, acompanhado por dois companheiros masculinos.

A rapariga fê-lo sentar a uma mesa isolada situada a um canto e, em lugar de ocupar a cadeira diante dele, aproximou a sua e instalou-se a seu lado. Materializou-se um empregado. com o menu na mão, mas a rapariga ignorou-o.

-Acho que seria óptimo principiarmos por uma garrafa de champanhe Mumm's. Agrada-Lhe a ideia?

- Muito.

-Agora, a menos que tenha algum prato preferido, poderia fazer-lhe algumas sugestões?

- Confiarei em si - disse Varney. - Comerei o que você comer.

Fanny mostrou-se satisfeita.

-Sugiro que comecemos por caviar Romanov-Beluga. A seguir, rosbife de primeira. Como quer o seu?

- Mal passado.

-Eu também. Adoro carne. Dá-me energia. Depois, talvez uns Crêpes Suzette. Que tal?

-Perfeito, minha senhora.

-Jack, o meu nome é Fanny. Não precisa de ser tão cerimonioso comigo. Espero que venhamos a conhecer-nos muito melhor.

-Também espero que sim, Fanny.

Quando surgiu o balde de prata com o Mumm's e a garrafa foi desarrolhada para a bebida ser servida, Varney procurou concentrar-se na sua missão. Estava ali porque o Mayor Harrison desejava provar que aquilo continuava a ser uma casa de prostituição. A sua tarefa consistia em ir para a cama com uma prostituta. Como é que deveria abordar o assunto? Fanny parecia-lhe excessivamente senhoril, ainda que já tivesse avançado com vários subentendidos. Decidiu descontrair-se e tocar a música de ouvido.

- Sei que é um dos reis da cerveja - dizia a rapariga, enquanto bebiam. - Espero que não se importe por eu ter mandado vir champanhe. Foi só por me parecer mais apropriado para passarmos um bom bocado.

- E é, e é - concordou ele.

Ela tinha dito um bom bocado. Perguntou a si mesmo se se atreveria a interpretar aquelas palavras como gostaria de as entender.

À medida que a ceia ia sendo servida, Varney procurava responder às perguntas de Fanny em relação a St. Louis. Nunca lá tinha estado, mas ela também não, pelo que se sentia seguro. Falaram depois sobre diversões em Chicago.

-Gosta de peças de teatro? - perguntou-lhe Fanny.

- Muito - respondeu ele. - Gostei especialmente de Trelawny of the Wells, com a Ethel Barrymore. E vi Peter Pan, com a Maude Adams.

- Na verdade, eu prefiro o vaudeville - confidenciou-lhe a jovem. - A última peça a que assisti foi a Cabana do Pai Tomás, com genuínos cães de caça em palco.

-Está a falar a sério?

-Podem dar-me vaudeville todos os dias. Harrigan, o prestidigitador vagabundo, ou esse mágico, Herrmann-o-Grande, ou a Princesa Rajah, que dança com uma pitão enrolada em volta do corpo. Acho que o melhor número é A Séria Sue. Não Se Consegue Fazê-la Rir. Oferecem um prémio de mil dólares a quem o conseguir. Todos os comediantes tentam e falham. Consta que ela tem paralisia nos músculos do rosto. Sabe qual é o meu divertimento preferido?

-Não, qual é?

- Essa nova invenção... o cinematógrafo - respondeu Fanny. - Vi O Grande Roubo do Comboio, na Chicago Opera House. com o Bronco Bill Anclerson como actor principal. Foi o meu primeiro filme, mas era demasiado curto. Só quinze minutos. Desde então, já vi a Cinderella, que tem uns efeitos de câmara maravilhosos. Há uma cena em que a abóbora se transforma em carruagem. O melhor foi A Peça da Paixão, que é dez vezes mais longa do que a média dos filmes. Devia experimentar ir ver um filme de vez em quando.

- Vou fazer isso - prometeu Varney. - Ouvi dizer que iam chegar a St. Louis.

Tinham esgotado o tópico divertimento e engoliram em silêncio o resto dos crêpes. Fanny levou o guardanapo à boca e murmurou:

-Hum... foi bom!

- Muito bom - concordou Varney.

-Devia agradecer-lhe por uma refeição tão maravilhosa - disse ela. - E quero mesmo agradecer-lhe.

Inclinou-se sobre ele, os peitos cheios a comprimirem-se como almofadas gémeas contra os seus braços, e depositou-lhe um delicioso beijo nos lábios abertos. A sua língua dardejou ao encontro da dele, com a qual se pôs a brincar.

Varney teve uma erecção imediata.

Fanny estendeu a mão para baixo e deu-lhe uma palmadinha no estômago.

-Que tal? Já tem tudo o que queria?

Antes que ele pudesse responder, a palma da mão dela deslizou-lhe pela barriga, alcançando-lhe o baixo ventre e enroscando-se-lhe em torno do pénis erecto.

Retirando devagarinho a mão, a rapariga dirigiu-lhe um sorriso sedutor.

-Ou gostava de mais qualquer coisa?

- Mais - respondeu ele, engasgado, mas aliviado por não ter de lhe pedir para irem para a cama. Ela estava claramente a convidá-lo. A sua confiança aumentou, em proporção com o crescimento do pénis e acrescentou com firmeza. - Muito mais. Quero-a a si, Fanny.

- E vai ter-me - respondeu a rapariga com simplicidade, tomando-o pela mão. - Só temos de andar um bocadinho.

Subiram a escadaria de mogno espessamente atapetada, por entre as palmeiras envasadas e as estátuas de deusas gregas nuas, até ao corredor do andar superior. Aí, Fanny conduziu Varney ao longo de uma fileira de portas. até alcançar a sua.

Abriu-a, ligou a luz e fez-lhe sinal para entrar no quarto. A magnificência do aposento fê-lo estacar. O que lhe chamou primeiro a atenção foi a cabeceira da cama em latão, de estilo turco, com mármore incrustado. Tinha perto uma janela, coberta do chão ao tecto por cortinados de veludo vermelho debruados de seda. Numa das paredes, erguia-se uma prateleira de madeira esculpida. pintada de dourado. Viam-se sobre ela rosas frescas. em duas urnas de ferro.

Isto, pensou Varney, é o paraíso.

Fanny estava a desabotoar a blusa. Quando avançou para a ajudar, ela disse-lhe:

- Levar-lhe-ia demasiado a desabotoar-me, Jack. Primeiro estes botões, depois os colchetes e, a seguir, a blusa. a saia. os saiotes, os folhos e o espartilho de barbas de baleia. Depois, os sapatos para desabotoar e as meias para enrolar. Demorar-lhe-ia meia hora e, por essa altura, já teria perdido a sua erecção.

- Pode crer que não - afirmou ele peremptoriamente.

- Acredite que sim - insistiu Fanny. - Mas eu posso ir à casa de banho e vir de lá despida em cinco minutos. Sei o que hei-de fazer. Portanto, fique aqui e tire as suas roupas. Estarei junto de si num instante.

Depois que desapareceu, Varney despiu-se imediatamente. Logo que se viu nu, reparou que começava a perder erecção. Olhou para a porta da casa de banho, imaginando como seria ela e de imediato o pénis recomeçou a levantar-se- lhe.

Ela surgiu momentos mais tarde, vestindo apenas um penteador cor- de-rosa transparente. Examinou-lhe a nudez, acenou em aprovação e encaminhou-se directamente para a cama. Arrancou o penteador e deixou-se cair de costas sobre o leito. No instante em que o olhar de Varney se deslocou do cabelo loiro e belo rosto da rapariga para as altas colinas dos seus seios, o liso abdómen rosado. a grande mancha púbica, quando ela ergueu as coxas carnudas e as abriu, o pénis endureceu-lhe por completo, pondo-se direito.

- Venha daí, jovem - chamou-o Fanny. - Deixe-me gozar isso que aí tem.

Varney lançou-se imediatamente sobre a cama, por cima dela e entre as suas pernas.

A rapariga fechou os olhos, gemeu de delícia, pondo os braços em volta do seu corpo para o puxar mais para si.

Ele iniciou logo um movimento de vaivém e, enquanto o fazia, Fanny ondulava o traseiro por baixo de si, até o fazer sentir que ia enlouquecer.

Durante todo esse tempo, Varney teve um único pensamento fugidio para a sua real missão.

Lá se ia a reputação de casto restaurante do Clube Everleigh.

Em breve o Mayor Harrison se iria sentir tão feliz com o mundo como ele próprio, naquele preciso instante, com a amostra que estava a ter.

Continuou a ocupar-se da jovem por uns... sabia lá... talvez por uns dez minutos. Era a melhor e mais experiente rapariga com quem algum dia tinha tido relações. Sabia tocar-lhe nos pontos certos. até o pôr num frenesim. Quando teve o seu orgasmo, soltou sons indicativos de que também estava a ter um prolongado orgasmo... mas, ao recuperar o domínio de si próprio, apercebeu-se de que isso não correspondia à realidade. Ela era uma prostituta, uma doce e licenciosa rapariga mas, fosse como fosse, uma meretriz... e essas nunca gozavam a troco de dinheiro.

Quando se meteram debaixo da coberta, a recuperar, Fanny dispôs-se a escutá-lo e a falar com ele. Nada de pressas. As Everleigh proporcionavam espectáculos de classe.

- És a melhor rapariga que já tive - confessou-lhe Varney. - O que quer que recebas, devias cobrar ainda mais.

- Também penso - concordou habilmente Fanny.

-Tu pagas cinquenta dólares e eu recebo metade. Normalmente, considero isso justo. Mas agora vou ter de ganhar menos. devido... devido a determinados motivos... a Minna e a Aida estão a filtrar os clientes com mais cuidado e recusá-los-ão em maior número. Não me agrada isso. É a primeira vez que a Minna procede de forma injusta.

- E porque é que não largas as Everleigh? - perguntou ele.

-E vou para onde? Esta é a casa mais bem paga de Chicago. Se tivesse outro sítio para onde ir, que pagasse melhor, podes crer que ia imediatamente. É assim que penso.

Varney tinha finalmente perfeito domínio dos seus sentidos. Estava concentrado na sua missão. Podia agora testemunhar que o Clube Everleigh era uma casa de meninas. Mas Harrison dissera-lhe que, se fosse capaz de convencer uma das raparigas a prestar depoimento, o processo para o encerramento seria perfeito, uma certeza absoluta.

Tornar-se-ia arriscado confessar qual era a sua missão, dava-se conta, mas devia ser seguro, tendo em conta o estado de espírito daquela rapariga.

-Talvez eu possa arranjar forma de seres mais

bem paga - proferiu abruptamente.

Ela fitou-o atentamente.

-Como? Vivendo contigo?

-Não. Trata-se de outra coisa. E se te dissesse que posso pagar três mil dólares em dinheiro, para me prestares um serviço?

- Qual serviço? - indagou a rapariga, em tom de suspeita.

-Contares ao Mayor aquilo que acabas de fazer comigo e depois testemunhares a mesma coisa perante o chefe da polícia.

Fanny pestanejou.

-Fechariam o clube. Desagrada-me ser responsável por isso. Bom. pelo  menos a troco de três mil dólares.

Perante a sua última frase. Varney ficou ciente de que a tinha apanhado no anzol. Apoiou-se sobre um cotovelo e preparou-se para negociar.

O Dr. Herman Holmes percorria os corredores do Clube Everleigh com a maleta de médico na mão, prestes a concluir o seu primeiro dia de trabalho, e ia já atrasado. Tinha sido um dia agradável e sensual. Examinara de perto. intima e demoradamente, catorze raparigas das mais saudáveis e impressionantes que algum dia vira.

Aquele trabalho era um filão, com as mais excitantes perspectivas do mundo e, a julgar pelas maneiras descontraídas das pequenas, nenhuma lhe iria resistir.

Ainda lhe faltava examinar mais uma vagina naquela tarde. a décima quinta. Consultou a sua lista. Esta chamava-se Fanny. Chegou à porta dela. Prestes a bater, lembrou-se de que a rapariga poderia ter um parceiro lá dentro e não desejava perturbá-la enquanto não terminasse. Portanto, experimentou o puxador da porta.

Esta não se encontrava trancada e ele abriu-a somente umas polegadas, a fim de espreitar para o interior.

- Sim, cinco mil dólares - ouviu uma voz de homem dizer.

Ia para fechar a porta, mas ouviu Fanny falar:

-São mesmo cinco mil? Em dinheiro? Estás a falar a sério? Só para eu testemunhar contra as Everleigh? Bom, mesmo que encerrem o clube, quero lá saber. Com cinco mil dólares. poderia montar a minha própria loja de vestidos no Loop e nunca mais teria de aturar clientes. Diz-me mais uma vez, Jack, para eu ouvir bem.

O Dr. Holmes não fechou a porta. Deixou-a aberta uma polegada, a fim de conseguir ouvir o resto.

- Já te disse - voltou a proferir a voz masculina.

-Trabalho para o Mayor Harrison. Ele prometeu-me que, se eu fizesse amor com uma das raparigas das Everleigh, poderia oferecer-lhe cinco mil dólares, para ela prestar depoimento em como o clube continua a ser um bordel. Tiveste sorte em me trazer cá para cima.

- E que fazemos a seguir? - ínquiriu Fanny.

-Vestimo-nos. Eu saio primeiro do quarto e vou procurar a Aida, para lhe pagar pela noitada. Vou-me depois embora e procuro um telefone público, a fim de ligar para o gabinete do Mayor. A seguir, fico à tua espera à esquina da rua. Tens algum problema em sair?

- Claro que não - respondeu ela. - Isto não é nenhuma escravatura. Estou autorizada a sair, para ir apanhar ar.

-Então; vamos a isso.

Sorridente, o Dr. Holmes fechou suavemente a porta. O coração batia-lhe depressa. Aquela estúpida rapariga, ali dentro, estava prestes a atraiçoar as Everleigh. Holmes não se ralava com elas, mas preocupava-se com o clube e com conservá-lo aberto para sempre, na qualidade de seu fornecedor de carne.

A sua primeira reacção foi correr pelas escadas abaixo e ir informar Minna Everleigh, mas pensou duas vezes a tal respeito. Ela não saberia a melhor forma de tratar do espião do Mayor. Não a estava a ver matar o homem, ou a contratar alguém para o fazer. Não era desse género. Tentaria convencê-lo, ou suborná-lo. Holmes tinha medo de que o homem se escapasse, contactasse o Mayor e encerrassem mesmo o clube. Tinha noção de que, para seu próprio bem, não se poderia arriscar a deixar o indivíduo sair em liberdade, ou permitir que aquela traidora da Fanny ficasse à solta.

Sabia o que havia de fazer. Apenas ele poderia resolver o assunto.

Bateu com firmeza na porta e depois empurrou-a ligeiramente.

- Fanny? - chamou. - Sou o Dr. Holmes, o seu novo médico. Venho fazer-lhe um exame de rotina, gostava de entrar.

- Não pode esperar? - bradou a rapariga em resposta. - Ainda estou com um cliente.

- Ele não me incomoda - retorquiu Holmes. só fazer-lhe um breve exame e vou-me logo embora.

Empurrou a porta e abriu-a por completo. Puseram-se os dois a olhar para ele. O homem magro tinha uma das pernas enfiadas nas calças e Fanny, inteiramente nua, ia a dirigir-se para a casa de banho.

- Não vê que estamos ocupados? - vociferou ela, irritada.

Calmamente, Holmes avançou para a rapariga.

-Dá-me a impressão de que já terminou o que tinha a fazer. Infelizmente, eu é que não terminei. Prometi à Minna que examinaria quinze raparigas ainda hoje e só me ocupei de catorze. Você é a última, Fanny. Por favor, colabore. Só demorará uns minutos.

Que é que tenho de fazer? - indagou ela, ainda irritada.

- Aquilo que fazia com o médico anterior. O exame será semelhante. - Virou-se para o homem. - Assim que estiver vestido, caro senhor, sugiro-lhe que espere, só para a hipótese de haver algo de mau que, eventualmente, tenha contraído... Muito bem, Fanny, vamos dar uma vista de olhos.

Mal humorada, ela regressou para a cama e estendeu-se. de pernas abertas.

O Dr. Holmes ajoelhou-se-lhe entre as pernas. O que viu era autenticamente de despedaçar o coração.

Uma pena fazer o que tinha a fazer, disse para si próprio, mas tratava-se de pura necessidade.

Servíndo-se do seu espéculo, procurou espreitar para o interior. Inseriu depois dois dedos na vagina da rapariga.

- Hem - protestou Fanny - que é que está a fazer? O outro médico nunca fazia isso!

-Tem de ser. porque receio bem que você tenha qualquer coisa. Preciso de me certificar.

Retirou os dedos passados alguns minutos.

- Tal como suspeitava - disse. - Dê-me só um momento para eu lavar as mãos. Pode levantar-se.

Quando regressou ao quarto de dormir, Fanny estava sentada muito direita, de olhos fixos nele.

- Que é que há? - indagou. - Descobriu algo de errado?

- Sim, definitivamente - respondeu o Dr. Holmes.

- Há uma infecção. chagas, uma perturbação febril que indica sífilis secundária.

- Isso não pode ser - protestou de novo Fanny. Eu estou limpa, sempre estive e toda a gente cá da casa também está.

- Como é que pode ter a certeza? - perguntou-lhe o médico, arrumando o espéculo. Ergueu o olhar para o jovem sentado na cadeira, que o observava com nervosismo. - Quanto a si, caro senhor, pode ser que tenha contraído a sífilis da Fanny. Rapidamente o descobriremos e eu farei o que puder para os auxiliar a ambos.

- Não vai dizer à Minna, pois não? - gemeu Fanny.

-Não, não o farei. Mas terei de lhes pedir, a si

e ao seu amigo... não percebi o seu nome...

- Jack Simon - rouquejou Varney.

-Terei de lhe pedir, a si e à Fanny, que venham ao meu consultório. onde a poderei tratar a ela... e examiná-lo a si.

- Isso não pode esperar? - indagou Varney. – Nós tínhamos outro encontro.       

O Dr. Holmes escreveu o seu endereço e entregou-o a Fanny.

-Vão lá ter comigo dentro de meia hora. Não, Mr. Simon, não pode esperar. Permitir que a infecção continue por tratar, apenas poderá colocá-los aos dois em perigo. Tão depressa tenha cuidado dela e, possivelmente. de si com mercúrio, ficarão livres para comparecerem ao vosso encontro. - Dirigiu-se para a porta.

-Daqui a meia hora, no meu consultório.

Assim que ficaram sozinhos, Varney disse para Fanny:

- Porque é que não te vestes? Tenho de ir pagar a conta e fazer um telefonema. Esperarei por ti à esquina e iremos depois visitar juntos o médico.

Ao descer a escadaria de mogno para o rés-do-chão do Clube Everleigh. Varney encontrou à sua espera uma mulher minúscula, delgada e bonita.

- Suponho que é Mr. Simon - disse-lhe ela.

-Sim.

-Eu sou a Minna Everleigh - apresentou-se a mulher. - O senhor já conheceu a minha irmã. Divertiu-se?

- Imenso-asseverou ele. -A ceia estava soberba.

- Ainda bem - disse Minna. - Nesse caso, não se importará de liquidar a conta do restaurante e das diversões no andar de cima.

Meteu a mão no bolso, de onde tirou uma factura que entregou a Varney.

Ele olhou para o total, puxou da carteira, tirou dela cento e cinquenta dólares e deu-os a Minna.

- Suponho que se impõe uma gratificação - disse e tirou mais cinco dólares.

-óptimo, Mr. Simon. Espero que se lembre de nós, da próxima vez que vier a Chicago.

Varney sorriu-se.

-A minha primeira visita será ao Clube Everleigh. Viu Minna entrar num compartimento que devia ser o seu escritório e dirigiu-se depois para o vestíbulo. Localizou o telefone e olhou em volta. Não havia ninguém à vista. Estava a pensar na hipótese de se arriscar a fazer uma chamada a partir dali, quando surgiu o criado para lhe indicar a saída.

Encaminhando-se para a saída, Varney hesitou, ao ver Edmund abrir-lhe a porta.

- Necessito de encontrar um telefone público - disse-lhe. - Tenho certo número de chamadas para fazer. Haverá alguma cabina nas vizinhanças?

- Apenas a meio bloco de distância - informou Edmund. - Vire à direita ao sair. Da esquina. verá um pequeno hotel do outro lado da rua. Existe um telefone público no átrio.

Uma vez no exterior, Varney virou à direita e enca minhou-se para a esquina da rua. Avistou o Hotel Zion, atravessou na direcção dele e entrou.

De início, não viu nenhuma cabina, mas depois, na extremidade do estreito átrio, distinguiu um quadro telefónico, com uma jovem por trás.

Dirigiu-se a ela.

-Este telefone é público?

- sim, senhor. - Estendeu-lhe o aparelho. Diga-me o número que deseja que eu ligo-lhe. São dez cêntimos.

Enquanto procurava as moedas, Varney espantava-se com o custo da chamada. O total do almoço que tomara ao meio-dia atingira três cêntimos. dois pelo cachorro quente e um pelo café. Não obstante, deu a moeda à rapariga e indicou-lhe o número de telefone do gabinete do Mayor. Enquanto esperava, sentia a influência oculta da genuína excitação por aquilo que realizara. Sabia que o Mayor, ou quem quer que se encontrasse no gabinete à espera da sua chamada, ficaria igualmente entusiasmado.

- Estão em linha - anunciou a operadora, entregando-lhe o aparelho.

Ouviu uma voz feminina:

- Estou, estou.

Compreendeu que se tratava de Karen Grant. Ciente de que a telefonista o podia escutar, decidiu falar na voz mais inaudível que podia e servir- se de palavras crípticas.

- É o Gus - disse.

Karen replicou:

-O Mayor pediu-me para ficar à espera da sua chamada e ligar imediatamente para ele, no caso de ter boas notícias para lhe dar. Virá ter consigo.

- Boas notícias - disse baixinho Varney. - Mesmo muito boas.

-Oh, é maravilhoso! Vou comunicar com o Mayor, para ele vir aqui ter consigo.

-Diga-lhe que não se apresse. Demorar-me-ia meia hora a chegar aí ao gabinete, mas preciso primeiro de passar por outro sítio. Não lhe posso explicar agora. Isso vai tomar-me mais meia hora.

-Direi ao Mayor Harrison.

-Faça isso. Até depois.

- Até depois - disse Karen Grant. Varney desligou e devolveu o aparelho à telefonista. Saiu rapidamente do átrio do Hotel Zion, para atravessar a rua na direcção da esquina oposta, onde se dispôs a esperar por Fanny, no intuito de fazerem depois um desvio pelo consultório do Dr. Holmes e dirigirem-se

então ao gabinete do Mayor Harrison.

Sentia-se triunfante quando a porta do hotel se fechou atrás de si.

Só esperava não ter contraído também a sífilis.

O Dr. Herman Holmes mal tinha envergado a sua bata branca de médico, quando a campainha da porta da rua soou.

Foi do gabinete para a entrada e abriu a porta.

Fanny, qualquer que fosse o seu último nome, estava ali, usando um grande chapéu com plumas. Trazia com ela o homem que se chamava Simon, ou como quer que fosse que se chamasse na realidade. Ambos se mostravam incapazes de ocultar o nervosismo.

Fez-lhes sinal para entrarem, conduziu-os ao seu austero gabinete e mandou-os sentar.

Deixou-se cair numa cadeira por trás da secretária.

- Não vai demorar muito tempo - declarou - mas permitam-me que lhes explique primeiro os procedimentos. Vou examiná-la mais uma vez, Fanny, com melhor iluminação, só para ter a certeza absoluta do meu diagnóstico. Depois, se necessário, examiná- lo-ei a si, Mr. Simon, a fim de averiguar se apresenta sinais de ter apanhado a doença.

- Espero bem que não - disse Varney.

- Existe uma possibilidade de cinquenta por cento. Se não exibir indícios da doença, não terá absolutamente nada com que se preocupar. Se tiver sinais de sífilis, tratá-lo-ei, tal como a Fanny.

- Nunca a tive - interveio esta. - Que é que vai fazer para me curar?

-Se a sífilis já tiver sido absorvida pelo seu sangue, receitar-lhe-ei um tratamento à base de mercúrio - explicou o Dr. Holmes. - Ministrar-lho-ei na forma de comprimidos e necessitará depois, e o seu amigo também, de um banho de vapor de mercúrio.

- Não vai demorar muito tempo, pois não? - perguntou Varney.

- Não mais que o exame propriamente dito. Garantiu ele, pondo-se em pé. - Sigam-me agora pelo corredor, para a minha sala de observações.

- Pensei que nos ia observar aqui - disse Fanny, levantando-se.

-Prefiro efectuar os exames deste género numa sala isolada - declarou o Dr. Holmes. - Por favor, venham comigo.

Encaminhou-os a ambos para as traseiras e carregou num botão, que fez abrir a porta para o compartimento vedado.

- Entrem - ordenou.

Penetrou ele próprio na câmara, seguido por uns espantados Fanny e Varney.

O médico conduziu-os para junto de uma enorme sala de observações, no centro do compartimento, e indicou-lhes, com um aceno de mão, as características da sala que os rodeava.

-As janelas cobertas por panos destinam-se a dar uma absoluta garantia de privacidade. Sugiro que se dispam os dois e se sentem, lado a lado, na marquesa.

- Juntos? - estranhou Fanny. - Os dois ao mesmo tempo?

- Façam isso - insistiu rispidamente o Dr. Holmes. Virando-lhes as costas, saiu do compartimento. Uma vez no exterior, trancou a pesada porta.

Encaminhou-se preguiçosamente para o seu gabinete.

Sentando-se à secretária, pegou num cachimbo.

acendeu-o e pôs-se a fumar, demorando o suficiente

para que eles se despissem. A nudez dos dois poupar-lhe-ia mais tarde uma quantidade de tempo.

Passados três ou quatro minutos, pousou o cachimbo num cinzeiro de cobre e dirigiu-se para as alavancas ocultas.

Com frieza, baixou a alavanca que iria fazer penetrar o gás no quarto. onde Fanny e Varney aguardavam a sua reaparição. O produto venenoso começaria a penetrar, em quatro jactos. no compartimento vedado. Em questão de segundos, Fanny e o companheiro teriam dele consciência. Num minuto, perceberiam que lhes faltava qualquer coisa. E, em mais alguns minutos. principiariam a engasgar-se. a sufocar, a gritar por socorro.

Só que ninguém escutaria as suas súplicas.

O Dr. Holmes sorriu-se abertamente. Puxou do relógio. Dentro de cinco minutos. estariam asfixiados.

Primeiro um, a seguir o outro. tombariam no chão.

Consultou o relógio.

Mais um minuto e estariam mortos.

O Clube Everleigh ficaria a salvo, para benefício do Dr. Herman Holmes.

O relógio que tinha na mão continuou a fazer tiquetaque. Passou-se um minuto inteiro.

Estavam os dois mortos. Os traidores haviam sido silenciados para todo o sempre.

O Dr. Holmes desligou o gás. Ergueu depois uma segunda alavanca, para abrir as estreitas janelas no alto do compartimento secreto.

O processo de limpeza demorava normalmente cerca de dez minutos.

Dentro de quinze, a câmara seria segura para lá regressar.

Enquanto aguardava, Holmes passou os olhos por diversas revistas médicas, mas sem se sentir com paciência para as ler. Tinha comprado recentemente dois romances de E. PHoe e George Barr McCutcheon. Pegou no livro de Poe e tentou começar a lê-lo, mas a excitação que sentia tornou-lhe difícíl prosseguir. Consultou duas vezes o relógio e. doze minutos decorridos, pôs o romance de parte, saiu do gabinete e dirigiu-se para a câmara de morte.

Fazendo deslizar as portas, entrou no quarto. Um vago aroma a gás persistia no ar. Inalando-o, Holmes certificou-se de que o compartimento estava suficientemente seguro. Os seus olhos abarcaram os dois corpos, enroscados no chão diante da marquesa. Fanny estava nua mas, curiosamente, o homem que se chamava Simon não se havia despído.

Dirigiu-se para junto deles, ajoelhou-se e tomou-lhes o pulso.

Nenhum dos dois tinha pulsação cardíaca. Mortos. Ambos mortos.

Satisfeito, Holmes pegou em Fanny pelos sovacos e arrastou-a para o alçapão que dava para a cave. Pousou-a no chão e abriu a portinhola. Sem cerimónias, ergueu o cadáver, enfiou-o no túnel e largou-o. Deslizou para baixo e desapareceu de vista. Atirou a seguir as roupas da rapariga.

Decidiu ocupar-se primeiro de Fanny, antes de voltar, para se livrar de Simon. Encaminhou-se para o segundo alçapão. abriu-o e desceu cautelosamente as escadas.

Uma vez lá em baixo. abriu a fornalha e acendeu-a. Virou-lhe as costas para pegar no corpo de Fanny e transportou-o para o tanque de cal viva. onde o meteu. Após curto intervalo, esvaziou o tanque e, enfiando longas luvas de borracha, pegou no cadáver da rapariga e levou-o para a mesa de dissecação. Dispôs os restos mortais sobre ela, tirou as luvas. pegou num escalpelo e começou a trabalhar.

Com lentidão e considerável precisão, Holmes desmembrou o corpo. pedaço a pedaço, até ter na sua frente sete secções dele.

Abrindo a fornalha, tomou cada uma dessas partes e atirou-as para o braseiro. Lançou depois para lá as roupas.

Fechou a fornalha. Enquanto os restos mortais estavam a ser cremados, lavou e enxugou minuciosamente a mesa. Assim que ficou satisfeito, subiu as escadas para a câmara secreta.

Ainda tinha que tratar do homem. Encaminhou-se para aquele segundo cadáver, preparado para o lançar através do túnel, mas depois hesitou.

O completo desaparecimento de Simon poderia não travar a investigação do Mayor Harrison, lembrou-se.

Reflectiu mais um pouco naquilo. Se o corpo de Simon pudesse ser encontrado e identificado, o Mayor seria de algum modo informado. Isso chocá-lo-ia e far-lhe-ia saber que os seus esforços para infiltrar alguém no Clube Everleigh não tinham servido de nada. Tal ocorrência poderia impedi-lo de arriscar mais outro agente seu no clube.

Baixou os olhos para o corpo indefeso. Por fim, ajoelhou-se e principiou a revistar-lhe as calças e casaco. Continham apenas uma carteira recheada de dinheiro e um pacote de cartões de visita ricamente impressos, que identificavam claramente o homem como sendo Jack Simon, Presidente da Quality Beer Company, de St. Louis. Obviamente uma falsificação, mas bastara para garantir a entrada de Simon no Clube Everleigh e serviria igualmente para, mais tarde ou mais cedo, chamar a atenção do Mayor para o cadáver.

Instantaneamente, Holmes tomou uma decisão. Não haveria túnel, cal viva, desmembramento, nem cremação para Jack Simon.

O seu cadáver seria encontrado inteiro, vítima de homicídio, mas completo e identificável.

Isso daria seguramente a Harrison motivos para parar e desistir das suas investigações.

O Dr. Herman Holmes ficaria então com o Clube Everleigh só para si.

Dedicou a sua atenção ao problema de dispor do corpo.

Às três e vinte da madrugada, o Dr. Holmes conduziu o seu novo Packard de um cilindro para junto da porta da frente do Castelo. Ainda que o carro fosse um tanto conspícuo, apresentava a vantagem de não ser descapotável e possuir assentos móveis na retaguarda.           

Deixando ali o automóvel, Holmes saiu para a rua e observou as vizinhanças. Não existia um único ser humano à vista. Estava-se nas horas do sono, o período

de silêncio da noite... perfeito para os seus propósitos.

Entretanto no Castelo, passou além do seu gabinete até a porta de correr da câmara de morte, carregou no botão e entrou. O cadáver jazia estendido no chão. Era um corpo magro, mas constituía um peso morto. Com esforço. Holmes transportou-o para fora do compartimento e pelo corredor adiante, até à porta da frente.        

Acomodou-o, meio sentado, contra o pilar interior da entrada, abriu a porta e saiu.

Olhou em volta.      

Nenhum movimento. Ninguém por ali.

O risco seria mínimo.        

Içou o corpo com crescente confiança, conservando-o direito (caso alguém reparasse, afirmaria que o seu companheiro estava bêbado) e puxou-o para o exterior, na direcção da retaguarda do Packard. O carro tinha uma entrada de portinhola, que dava para o assento traseiro. Depois de ter levantado essa porta extra, Holmes esforçou-se por erguer o cadáver e, com dificuldade, conseguiu enfiá-lo no automóvel. Fechou silenciosamente a porta.

Enxugando a testa, lançou mais uma olhadela pelas vizinhanças. a fím de verificar se haveria alguma testemunha. Ficou tranquilo ao ver que não havia nenhuma.

Foi fechar a porta de entrada do Castelo. Correu de volta ao Packard e entrou nele, instalando-se ao volante. Pôs o veículo em marcha e acelerou para a zona do centro conhecida por Loop.

Ao aproximar-se do coração da cidade, depararam-se-lhe alguns noctívagos isolados, aqui e ali, mas não os suficientes para lhe causarem preocupações.

Meia hora depois, Holmes deu- se conta de que se estava a aproximar do edifício cinzento onde estava instalada a Câmara e, simultaneamente, o quartel- general da polícia. Recordou-se do frondoso parque que havia diante dele, com a sua densa folhagem e árvores. Era o lugar que procurava.

Surgiu-lhe à vista o recinto, às escuras excepto quanto a alguns candeeiros de arco voltaico dispersos. Procurou uma das sujas áleas do parque, descrevendo uma curva apertada à esquerda, ao avistar a primeira que conseguiu localizar. Os faróis do carro iluminaram-lhe o caminho, ao internar-se na vegetação. Acabou por avistar uma clareira e virou de novo à direita por curta distância. Manobrando o automóvel para o meio das árvores e arbustos, parou-o aí. Saiu do lugar do condutor e correu para a retaguarda. Abriu a portinhola auxiliar, agarrou no corpo con firmeza e principiou a arrastá-lo para fora.

Ouviu um som de risos ali perto. De coração a bater de surpresa e medo, voltou a arremessar o corpo para dentro do carro. Agachando-se por trás de uma árvore próxima do caminho, esforçou-se por ver e acabou por distinguir um elegante jovem, de fato e chapéu de coco, com o braço em volta de uma rapariga. Iam a passear ao longo dos limites do parque.

Aguardou. sem respirar, até eles estarem fora de vista. Escutou mais uma vez as gargalhadas da mulher, mas já distantes. Em breve mais nenhum som se ouvia.

Rapidamente, regressou à retaguarda do Packard, abriu o fecho da portinhola traseira e. sem perder mais tempo. arrastou o cadáver para o relvado. Depois, segurando-o por baixo dos braços, puxou-o para mais longe. para o meio dos arbustos.

Deixou-o, por fim, cair diante de um maciço de vegetação.

Era um excelente lugar, decidiu. O corpo ficaria fora de vista mas, mais cedo ou mais tarde [e era muito provável que fosse mais cedo). algum passeante que vagueasse pela vereda tropeçaria no morto.

Encaminhou-se apressadamente para o Packard, aconchegando o casaco, no intuito de se assegurar de que não se prendia em nenhum espinho. deixando um pedaço atrás de si.

Uma vez no automóvel. fez uma pausa para recuperar o fôlego. Não deixaria pistas de género algum, à excepção das marcas dos pneus do carro e das suas próprias pegadas, que apagou à pressa com o rebordo do sapato.

Entrou no Packard e fê-lo sair para o caminho em marcha atrás, satisfeito por saber que deixara um aviso anónimo ao metediço Mayor Carter Harrison... e que o Clube Everleigh sobreviveria. para as suas sensuais habitantes serem disfrutadas em permanência pelo Dr. Herman Holmes.

Fora uma péssima noite e uma confusa manhã para Carter Harrison, Mayor de Chicago.

Na noite anterior, quando estava a preparar-se para se ir deitar, recebera um excitado telefonema de Karen Grant. que se encontrava no seu gabinete. na Câmara.

-Acabo de ser informada pelo Gus Varney de que tem boas notícias - bradara a rapariga. - Telefonou para aqui, de um sítio qualquer, a anunciar. foram estas as suas palavras. tanto quanto me possa lembrar: Muito boas noticias. informe o Mayor. Até depois. Quando lhe prometi que o avisaria, ele pediu: Diga- lhe para não se apressar. Declarou que demoraria pelo menos mais uma hora. porque tinha de parar noutro sítio antes de vir para aqui e não me podia explicar de que se tratava.

- Porquê essa demora? - quisera saber Harrison.

- Que é que o está a reter?

- Ele não me pôde explicar - repetira Karen. Mas tornou bem claro que estaria aqui dentro de uma hora. para lhe relatar o que descobriu acerca das Everleigh. Insistiu que aquilo que averiguou era o que o senhor pretendia.

- Perfeito! - exclamou o Mayor, inteiramente desperto e com crescente entusiasmo. - Vou vestir-me e estarei aí em menos de uma hora.

Reunira-se a Karen Grant no seu gabinete e esperaram juntos pela chegada de Gus Varney. Passara-se uma hora. depois duas. A meia-noite acabou por ser ultrapassada e nada do assistente.

Pela uma hora da madrugada. o Mayor sentiu-se desencorajado.

-Não sei o que lhe possa ter sucedido. Karen procurou acalmá-lo.

-Tenho a certeza que é por causa dessa tal para gem que precisava de fazer. O que quer que fosse. deve- o ter atrasado. Porque não vai para casa tentar dormir um pouco? Ficarei aqui mais uma hora. Não se preocupe. Mayor, estou certa de que o Gus há- de aparecer.

Fora para casa. Passada mais outra hora. Karen telefonara a dizer que ia desistir e regressar também à sua.

Agora, já era quase meio-dia da manhã seguinte e Gus Varney não surgira com as suas boas notícias.

Harrison e Karen aguardaram no gabinete, das oito e meia até às doze horas. Varney não viera e não tinham ouvido nem mais uma palavra dele.

Finalmente. o Mayor ergueu os braços, desesperado.

- Isto não me agrada - disse para Karen. - Receio que lhe tenha acontecido algo. qualquer coisa em que não quero nem pensar.

- Mas que lhe poderia acontecer? - interrogou-se a rapariga em voz alta.

- Havemos de averiguar. Vou começar a investigar. Ligue-me para o chefe da polícia, Karen.

-Refere-se ao Francis O'Neill?

- Esse mesmo. Chame-o imediatamente ao telefone. Karen dirigiu-se para o aparelho, deu à operadora o número da sede da polícia, instalada no andar inferior da Câmara, e ficou à espera. Quando uma pessoa atendeu, disse que estava a telefonar do gabinete do Mayor Carter Harrison, o qual desejava falar imediatamente com o chefe da polícia.

Após curto período de espera, a rapariga indagou para o aparelho:

- Chefe O'Neill?

-Sim?

-Falo do gabinete do Mayor Harrison. É da parte dele. Deseja conversar com o senhor sobre um assunto urgente.

- Ponha-o em linha - respondeu o chefe O'Neill. Karen entregou o aparelho ao seu superior, que estava agora sentado à secretária.

- Chefe - disse ele - há uma coisa esquisita que quero discutir consigo.

-Estou a ouvi-lo.

-Nomeei ontem um dos meus assistentes, o Gus Varney, para proceder a uma investigação. Depois de a ter efectuado, telefonou à minha secretária, cerca das dez horas, dizendo que tinha boas notícias para mim. Anunciou-lhe que vinha a caminho da Câmara, para me fazer o seu relatório. Oh, sim, ainda precisaria de parar em mais um sítio, a seguir a essa chamada, e viria depois directamente para cá. para falar comigo. Bom, não chegou a vir. Aguardei três horas a noite passada. Não apareceu. Agora, já estou aqui à espera desde pela manhã. Não se mostrou. - Harrison fez uma pausa. Chefe, isto não me agrada nada.

-Mr. Varney costumava geralmente merecer confiança?

-Total. O membro mais pontual do meu pessoal.

- Bom - respondeu o chefe - pode ter sofrido um ataque de amnésia. São coisas que sucedem, sabe?

- Mas não com frequência, chefe. - Harrison acabou por dizer o que tinha em mente. - Suspeito de uma coisa pior, chefe. - Hesitou. - Ocorreram quaisquer acidentes suspeitos ou fatais esta madrugada?

-Não fui informado de nenhum pelas nossas esquadras de polícia dos outros bairros. Nesta área, apenas tivemos um caso. Possuía identificação, mas não se trata do Varney. O cadáver tinha um cartão de vísita no bolso. De um homem chamado Jack Simon, presídente de uma fábrica de cerveja de St. Louis.

Harrison arquejou.

- Chefe, fui eu quem mandou imprimir esse cartão, para servir de cobertura ao Varney.

Houve um breve silêncio.

-Nesse caso, é o seu Mr. Varney que temos na morgue.

-Tem a certeza?

-Absoluta. Será melhor deslocar-se ao hospital da zona, para fazer uma identificação positiva.

Harrison estremeceu.

- Vou já para lá - prometeu.

Saíram da morgue e, depois de a porta se ter fechado. o Mayor Harrison e o chefe ONeill ficaram parados no corredor. de olhos nos olhos.

- Tem a certeza? - perguntou mais uma vez o chefe.

A cara do Mayor pusera-se cor de cinza.

-É de facto o Varney que está ali dentro. Mas parece praticamente vivo. Não exibe ferimentos. Que foi que o médico legista nos disse? Sufocação?

-Sim, asfixia. Lamento a perda que o senhor sofreu, lamento sinceramente.

- Como pode ter acontecido uma coisa destas?

-De muitas formas. De todas, desde terem-lhe comprimido uma almofada sobre a cara. até administrarem-Lhe gás.

- Incrível!

- Mayor - disse o chefe - se deseja que lhe sejamos úteis, será melhor que nos forneça alguns factos mais. Mandou o Varney levar a cabo uma investigação: Ele completou-a com sucesso e estava prestes a apresentar-lhe o seu relatório, quando foi interceptado e assassinado. Quererá explicar-me de que se tratava?

-Teria de ficar estrictamente entre nós.

-O senhor bem sabe que pode confiar em mim, Mayor- asseverou ele.

Perdido em pensamentos, deu alguns passos curtos pelo corredor adiante, parou depois e virou-se, para encarar o chefe da polícia.

- Muito bem. - Disse. - Não posso permitir que ninguém se safe. Vou contar-lhe tudo. Você sabe que eu concorri às eleições com um programa reformista.

Garanti que pretendía fechar todas as casas de prostituição do Primeiro Bairro. O meu alvo prioritário era o Clube Everleigh, por ser o mais conhecido. Mas eles têm andado a afirmar que já não são um bordel. Sim plesmente um restaurante.

- Isso é que era bom! - comentou o chefe. num rosnido.

-Exactamente. No entanto, eu precisava de dispor de provas em como aquilo ainda é uma casa de menínas. antes de lhe poder pedir a si que a encerrasse.

- Receio bem que sim - anuiu o outro.

-Fiz o que podia. Optei por operar a partir do interior. na busca de provas. O Varney apresenttou-se como voluntário para se infiltrar no Clube Everleigh; fazendo de conta que era presidente de uma fábrica de cerveja de St. Louis. Deveria cear lá com uma das raparigas e levá-la depois para a cama. Ora ele telefonou à minha secretária, anunciando que tinha sido bem sucedido. Vinha a caminho, trazendo-me uma prova. quando. quando desapareceu.

O chefe acenou em compreensão.

-Nesse caso, já dispomos de uma pista. Iremos ter com as Everleigh e exerceremos pressão. Dizemos-lhes a verdade e obtemos delas uma confissão.

-De que elas próprias assassinaram o Varney; ou alguém o fez em seu benefício?

- Porque não?

- Isso não faz sentido - afirmou Harrison. - Sou um estudioso razoavelmente sagaz da natureza humana: É verdade que nunca me encontrei com essas mulheres; mas sei bastante sobre elas. Trata-se de duas jovens senhoras, naturais do Sul. Nunca houve indícios de violência relacionados com a sua actividade.

-Bom. mas se o senhor algum dia soubesse que lhe iam encerrar as portas, acabando-lhe com o negócio, podia ser que se mostrasse um pouco violento. Continuo a dizer que é por onde devemos principiar.

- Não. chefe - obstou Harrison com firmeza - não desejo alertá-las quanto à minha iniciativa. Elas não devem tomar conhecimento e qualquer medida que adoptássemos as poria de guarda. Não desejo uma coisa dessas. Ainda pretendo investigá-las por outros meios

e não quero que estejam preparadas para isso.

-Então, não conseguiremos descobrir nada em relação ao Varney.

- Conseguiremos, sim. Acredito que ele caiu numa cilada, quando fez esse tal desvio. Devem existir outras pistas. - O Mayor Harrison pôs o chapéu. - O problema é que o Varney não tinha família. Era novo no meu pessoal. Um solitário. Não há ninguém para ser notificado, ninguém a quem fazer perguntas. Você terá de pensar em qualquer coisa para dizer aos rapazes do seu departamento. Mas nem uma só palavra acerca das Everleigh... pelo menos por enquanto.

-Se insiste nisso...

-Tenho de insistir. Muito obrigado, chefe, e um bom dia.

O Mayor Harrison convocara para as três horas em ponto a reunião marcada para o seu gabinete.

Agora, às três e quinze, terminara já de relatar aos membros do pessoal restante e a Karen Grant o desaparecimento de Gus Varny.

- E aí têm tudo - concluiu.

-Quer o senhor dizer que o caso do Varney foi considerado encerrado, - indagou Jim Evans.

- Receio bem que sim - replicou o Mayor. - Pelo menos por enquanto. Repito que não vamos acusar as Everleigh de nada, se persistir a possibilidade de as desmascararmos. E isso ainda é o que tenciono fazer. Arranjar provas contra elas. Aparentemente, o Varney descobriu a verdade. Afirmou que tinha boas notícias. Isso só podia significar que tinha averiguado que o Clube Everleigh continua a ser aquilo que sempre foi: um bordel. É minha intenção pôr, mais uma vez, a verdade a nu, prová-la e encerrar a casa para sempre.

- Mas como? - quis Evans saber.

-Ainda não faço a menor ideia. Por isso é que vos reuni. Para saber se alguém tem sugestões a apresentar.

-Podia enviar um de nós ao clube, da mesma forma que enviou o Varney - disse Evans.

O Mayor sacudiu lentamente a cabeça:

-Não, não posso correr esse risco. Mesmo que um de vós lá penetrasse e averiguasse a verdade, poderia não regressar com vida. Vejam o que aconteceu ao Gus Varney. Não, não me posso arriscar a enviar mais outro homem.

Karen Grant estava a levantar uma das mãos.

- Mas, Mayor Harrison, o senhor podia mandar uma mulher. Enviar-me a mim ao Clube Everleigh.

Ele foi completamente apanhado de surpresa. Você?

- Sim - repetiu Karen. pondo- se em pé. - Eu seria capaz de me infiltrar no clube, no papel de menina com falta de sorte e que necessita de trabalho. Talvez conseguisse obter esse lugar.

- Como prostituta? - estranhou o Mayor, parecendo um tanto chocado. -Nunca. Você... você é fina de mais.

- Serei? - inquiriu Karen, afagando o cabelo e adoptando ma voz quente. Executou uma lenta pirueta entre os colegas e o Mayor, pondo claramente em evidência a sua figura. - Reflita nisso.

Ele não tinha pensado muito em Karen desde que a contratara, alguns meses antes das eleições. Conhecera a mãe dela, Naomi, muito antes do seu próprio

casamento conhecera-a mesmo muito bem... e gostara dela, uma inflexível e combativa mulher, uma autêntica sufragista, que advogara a causa da independência feminina. Naomi casara com um artista e Karen fora a única fílha deles. O marido tinha falecido quando a rapariga era ainda muito nova e, no ano anterior, a      própria Naomi morrera de tuberculose. Karen crescera, estudara estenografia e, ao ouvir dizer que o Major Harrison necessitava de uma nova secretária, candidatara-se, invocando o nome da sua mãe. Harrison tencionava contratar um secretário, como fazia a maior parte dos executivos, embora as jovens mulheres estivessem a começar a disfrutar de novas liberdades e a ganharem posição no mercado do trabalho.        

Contratara Karen, não só por causa de não ser capaz           de resistir à recordação da mãe dela, como também         por a rapariga lhe ter parecido tão segura e competente.      

Não, não lhe dispensara grande atenção depois de a ter contratado e não tivera seguramente tempo para a observar com cuidado.

Agora olhava-a realmente com atenção, ali de pé na sua frente, no centro do seu próprio gabinete. Examinando-a da cabeça aos pés. ficou bastante espantado com aquilo que viu. Karen Grant era alta, tendo uns cinco pés e sete polegadas. O seu cabelo sedoso de morena era longo, os olhos amplamente espaçados verdes-azeitona, as narinas delicadamente delineadas, lábio inferior generoso, rosado, atraente e saliente. De algum modo, tudo aquilo compunha um aspecto geral não de refinamento, mas sim algo dissoluto. Com as roupas que as mulheres usavam, as suas formas não         eram muito reveladas, embora a blusa de Karen fosse

um tanto diáfana, denunciando-lhe os jovens peitos cheios. A saia de pregas colava-se-lhe aos contornos das ancas e coxas carnudas, adornando-lhe as esguias barrigas das pernas.

Franziu as sobrancelhas e ponderou no que tinha diante de si.

Uma rapariga ao jeito das Everleigh. Sem dúvida que poderia passar. Mas, mesmo assim...

- Muito bem, Karen - anuiu. - Retiro o que disse. Tenho a certeza de que a considerariam qualificada para o Clube Everleigh. Poderia revelar-se uma das mais atraentes meninas da casa e reunir uma quantidade de informações para mim. Mas faz alguma ideia daquilo em que se iria meter?

-Claro que faço.

- Não iria actuar como secretária. Estaria a desempenhar o papel de uma prostituta.

- Estou ciente disso - afirmou ela. - Não teria qualquer problema com o que quer que me pudesse suceder. O senhor apenas necessita de uma testemunha para fazer prova. E eu acho que conseguirei resolver a situação. Depois de ser destinada a um dos clientes, estou certa de que poderia obter provas suficientes quanto às actividades das Everleigh. Se não o conseguir fazer, pois bem, c'est la guerre... [') Continuarei a sentir-me pura, quando voltar com as provas.

- Provas - ecoou o Mayor, saboreando a possibilidade que se lhe deparava. Endireitou-se na cadeira. Não sei... Podia até deixá-la avançar com isso, se pensasse que você era capaz de lá arranjar lugar.

-Gostava de experimentar.

-E como é que iria arranjar o emprego? Entrava por ali dentro?

-Sou esperta de mais para isso, Mayor. Há um repórter do Tribune com quem travei amizade. Está a fazer a cobertura da Câmara. Chama-se Thomas Ostrow.

() Em francês no original: "é a guerra". (N. do T)

-Oh, sim. Uma óptima pessoa.

-Ouvi-o falar da Aida e da Minna Everleigh. Parece conhecê-las bem e frequenta o clube. Vou pedir-lhe ajuda.

O Mayor Harrison sorriu.

-Mr. Ostrow é capaz de ficar surpreendido com

o que lhe vai propor.

-Dar-lhe-ei a entender que, no fundo, sou uma rapariga desse género. E que quero ganhar dinheiro do bom, custe isso o que custar. Deixe-me tentar, Mayor.

Que diz?

- Que é que posso dizer. excepto que vá em

frente e tenha boa sorte!

 

QUANDO Thomas Ostrow chegou ao Clube Everleigh com Karen Grant, deixou-a confortavelmente sentada no átrio e foi encontrar-se a sós com Minna Everleigh.

Uma vez diante dela. o repórter político do Chicago Tribune perguntou:

-Quer saber por que motivo vim visitá-la?

-Você não precisa de nenhum motivo para o fazer. Tom.

- Mas tenho um - retorquiu ele. - Está lá fora. Trago uma rapariga sensacional para si, Minna.

-Isso é o mesmo que exportar carvão para Newcastle. (') Apesar de tudo, estou sempre interessada em qualquer coisa nova. Que tal é ela?

- Chama-se Karen Grant. Trabalhou, durante pouco tempo, numa casa de Nova Orleães. Depois decidiu mudar de vida e veio para Chicago. Trazia uma carta de apresentação para mim, de um velho amigo jornalista lá do sul.

- E já esteve em alguma casa de Chicago? - quis saber Minna.

-Não. Tentou endireitar-se. Foi trabalhar de

 

() Na época em que a acção decorre, Newcastle era dos principais centros mundiais da extracção de carvão. (N. do T)

 

empregada de escritório, numa chapelaria de cá. Você sabe o que pagam nesses estabelecimentos.

-Salários de fome.

-Portanto, ela foi ter comigo. Optou por voltar a andar na vida. Só não quer é trabalhar num lado qualquer. Apenas está na disposição de vir para o Clube Everleigh. Perguntou-me se eu vos conhecia. Respondi-Lhe que se tinha dirigido à pessoa certa e que a apresentaria a si. Mas não é isso o mais importante, Minna. Como sabe, eu tenho olho para as raparigas. Esta Karen Grant é a jovem com melhor pinta que vejo desde há anos. Pensei que quisesse dar-lhe uma olhadela.

- Claro que quero - anuiu Minna. - Mas. neste momento, não tenho lugar para a rapariga. O meu limite são trinta meninas. Porém no outro dia, uma das nossas moças... a Fanny, lembra-se dela?... foi dar um passeio e não regressou. Ora pode ser que volte e estarei então novamente completa. Se não voltar, talvez se abra uma vaga.

-Bem, Minna. veja por si própria.

Ela pôs-se em pé.

-É o que vou fazer. dentro de poucos minutos. Digo-lhe uma coisa, leve a Karen para o quarto sete lá de cima. É o da Fanny. Diga-lhe para esperar por mim. E você pode voltar cá para baixo e tomar um copo.

- Obrigado, Minna.

-Talvez seja eu que venha a agradecer-lhe, Tom-disse ela.

Ostrow deixou-a no seu escritório e dirigiu-se ao átrio, para ir buscar Karen Grant e levá-la para o andar de cima, a fim de aí aguardar Minna Everleigh.

Karen Grant estava sentada na cama de latão do quarto, experimentando crescente apreensão. Abriu-se a porta do aposento e entrou uma pequena e atraente mulher de cabelo arruivado.

De imediato a rapariga se levantou, algo nervosa, quando a mulher se aproximou dela de mão estendida.

-Sou a Minna Everleigh.

Karen aceitou a mão.

-E eu sou a Karen Grant.

Minna avalíou-a brevemente. Karen trazia um vestido de passeio em cheviote cinzento, com uma blusa, colete branco com botões de madrepérola e um largo cinto de pele de camurça.

- Nada mal - comentou. - Apesar de todo esse almofadado que tem no corpo, acho que o Tom Ostrow tem razão. uma jovem jeitosa. Faça o favor de se sentar. Conversemos um bocado.

- Muito bem. - Karen sentou-se num cadeirão de braços, enquanto Minna se deixava cair numa cadeira, na frente dela.

- Ora bem - principiou esta a dizer. - Raramente aceito uma rapariga com mais de vinte e três anos. Os meus clientes gostam de moças novas. Costumo achar que estão equivocados, mas é disso que gostam. portanto satisfaço-lhes os desejos. Que idade tem, Karen?

-Vinte e um.

-O Tom disse-me que já tinha experiência. As amadoras não se dão bem por cá. Os nossos clíentes são, regra geral, homens vividos. Reconhecem uma rapariga boa na cama quando a encontram. Por isso é que deixam sozinhas as esposas e vêm até cá.

Aquela conversa, a realidade daquilo em que se poderia estar a meter, era preocupante. mas Karen esforçou-se bastante por dísfarçar o nervosismo que sentia.

- Tenho suficiente experiência, Miss Everleigh - afirmou. - Tive bastante actividade em Nova Orleães. Eu. eu não me recordo de nenhum homem que não ficasse satisfeito comigo.

Minna soltou uma gargalhada.

- Bom, acho que tem obrigação de o saber. Diga-me lá, Karen, é viúva?

-Viúva? Oh, não. Sou solteira.

-Fiz-lhe essa pergunta, porque as viúvas, normalmente, não resultam. Estão sempre na mira de arranjar novo marido e, quando o encontram, largam-me de mão. Agrada-me mais aceitar uma pessoa que tencione ser permanente.

-Estou plenamente decidida a trabalhar para a senhora e continuar a fazê-lo enquanto me quiser por cá.

Minna abanou a cabeça.

-Você tem umas maneiras bastante decentes. Parece uma senhora. Tem conhecimentos de... bem, qual

é o seu curriculo?

-Está a querer saber se tenho estudos? Tenho.

Andei num colégio particular, em Bóston.

- E como vai de leituras?

-Estou actualizada. Livros... em especial de poesia... e jornais.

-Óptimo. Quanto à sua atitude em relação ao

sexo. Tem algum problema especial?

-Que quer dizer com isso, Miss Everleigh?

-Quero dizer que, entre os nossos clientes mais idosos, o sexo oral é muito popular. Já o tem praticado?

- Já.

-E causa-lhe alguma relutância?

-Até gosto. Agrada-me ver um homem feliz, independentemente daquilo que prefere. Não precisa de se preocupar. eu faço praticamente tudo para satisfazer um cliente.

-Bom, no que me diz respeito, só falta verificar uma coisa. - Fez uma pausa. - Gostava que tirasse as

roupas, Karen. A rapariga teve um sobressalto momentâneo.

-Quer que eu me dispa?

- Sim.

-Que tire tudo?

Minna acenou afirmativamente.

-Quero vê-la completamente nua. Pretendo examiná-la sem qualquer camuflagem. Quero observar aquilo que um homem poderá contemplar, quando estiver a sós consigo.

Com alguma relutância. Karen abandonou a cadeira.

-Terei muito gosto em me despir.

-Vá para a casa de banho e tire tudo. Mandarei uma criada auxiliá-la. Assim que estiver nua. venha para aqui e deixe-me observá-la de novo.

Karen viu-a tocar a chamar uma criada e pegar depois num revista. Após um instante de hesitação, a rapariga foi para a casa de banho.

Lá dentro, em breve se lhe juntou uma jovem criada. Com a sua ajuda, o vestido de Karen foi desapertado nas costas. Dispensando a empregada, principiou a tirar lentamente a roupa: primeiro a saia, depois o colete de musselina branca e renda irlandesa, a seguir o porta-seios pregueado, ligado a um corpete justo, e a combinação de seda, sem mangas. que lhe chegava aos joelhos. Desapertou o saiote de seda e depois as cuecas de algodão, presas abaixo dos joelhos. Tirou a seguir os sapatos, de salto alto e com correias. Finalmente, enrolou as meias de seda negras, ornamentadas com rosas vermelhas bordadas.

Mirou-se nua no espelho de corpo inteiro. Achou-se com um aspecto bastante bom. Pelo menos esperava que sim. O seu primeiro instinto, antes de sair da casa de banho, foi cobrir os cabelos púbicos com uma das mãos. Mas deu-se conta de que uma rapariga experiente nunca faria uma coisa dessas. Com certo esforço, deixou pender as mãos aos lados do corpo, reteve a respiração e saiu para o quarto de cama.

Minna continuava sentada, absorta na revista. Ao ouvir Karen entrar no aposento. parou de ler e pousou a revista a seu lado.

Com pernas que pesavam como chumbo, Karen avançou para o centro do quarto, onde se deteve aos pés da cama.

Minna conservou-se sentada, sem se mover; escrutinando-a.

Finalmente, pôs-se em pé. Acercou-se da rapariga e examinou-a mais de perto, desde a face aos seios. Ao abdómen, à púbis, às coxas e pernas.

-Volte-se, Karen. Deixe-me ver qual é o seu aspecto por trás.

Karen descreveu uma pirueta, o mais graciosamente que póde, e ouviu Minna atrás de si, a cacarejar baixinho:

- Belos ombros e costas - dizia ela. - Um traseiro muito bonito. Pronto, pode virar-se outra vez para mim.

-Sim, Miss Everleigh. Hum... está satisfeita?

-No mínimo, poderei dizer que você serve. No

entanto, persiste um problema.

- Qual é?

-Tenho cá trinta quartos e encontravam-se todos ocupados. até uma das meninas ter desaparecido, há poucos dias. Não faço a menor ideia para onde foi. Tenciono dar-lhe até amanhã para regressar. Se o fizer,

ficaremos com a casa cheia e terei de a manter a si de reserva, para outra oportunidade. Se não voltar.

haverá uma vaga, lugar que será para si.

-E como é que poderei ser informada?

-Telefonar-lhe-ei ao meio-dia. Está em casa a essa hora?

-Sim. tenho um quarto não muito longe daqui. Vou deixar-lhe o número do telefone no átrio.

-Se lhe disser para vir, isso significa que o lugar é seu, sujeito apenas a mais uma formalidade.

-E qual é?

-O nosso médico da casa examina as minhas raparigas todas as semanas, durante um período de dois dias. Creio que o poderei fazer cá vir para uma terceira visita. Se a contratar, terá de passar pelo exame do Dr. Holmes.

-Exame? Para quê?

-Doenças venéreas, Karen.

- Oh, eu não tenho nada disso.

- Como é que sabe? Deixe o Dr. Holmes averiguar. no caso de eu a chamar. Agora vista-se e venha ao meu escritório. para me dar o número do seu telefone. Sorriu para Karen. - Você é uma bela jovem, não restam dúvidas. Gostava de a contratar. Teremos de aguardar, para ver o que nos traz o dia de amanhã.

O Dr. Holmes estava entusiasmado com a sua próxima sessão de exames no Clube Everleigh.

Ia observar Avis, a moreninha que examinara pela primeira vez há uma semana atrás.

O que vira nela de instantaneamente erótico fora o tamanho dos seus seios, enormes, ainda que agradáveis à vista e perfeitamente erectos. As suas ancas carnudas afunilavam-se em suaves e bem modeladas coxas.

Tendo visto o que vira em Avis e considerando o que dela ouvira dizer, sabia que teria de a tornar sua. de mais que uma forma.

Também pressentia que se tratava de uma rapariga que poderia ser pressionada. Com uma atitude suficien temente agressiva e uma boa dose de encanto da parte do médico, ela viria a deixar-se possuir.

Bateu-lhe à porta.

-É o Dr. Holmes.

Abafada pela madeira, ouviu a voz dela proferir:

- Entre. doutor, entre.

Penetrou no quarto com a sua maleta, na esperança de que a rapariga apresentasse um aspecto tão sedutor como uma semana antes.

Constatou, de imediato, que lhe parecia ainda melhor.

Estava deitada de costas na cama, usando apenas um quimono japonês largo. Tinha os joelhos erguidos e a peça de roupa descaíra para o lado. revelando-lhe as amplas coxas e um pedaço do traseiro. Estivera a ler um romance de capa lasciva, que agora pusera de parte.

- Não tenho nenhuma doença venérea, doutor - trinou - mas não me importo que remexa aí dentro. Tem boas mãos. Vou confessar-lhe uma coisa: considero isso bastante estimulante. Acha mal?

-Acho uma reacção bem feminina e agrada-me que assim seja.

Avis usava o cabelo firmemente preso em rolo na nuca, tinha olhos acinzentados em formato de amêndoa, nariz atrevido, boca vermelha em fenda. Quando o Dr. Holmes se aproximou, ela endireitou-se e arrancou o quimono. Os grandes seios de pele leitosa apontaram para ele. Pousou a maleta.

- Como tem passado, Avis?

- Não muito ocupada, doutor. As irmãs puseram cadeado nesta casa. Tenho tido metade dos clientes de antes: É umta maçada estar aqui estendida. sem fazer nada. e também não me agrada o que isso me está a custar. Se a situação não se alterar muito em breve. estou a pensar em ir para outro lado.

O Dr. Holmes procurou e encontrou o seu espéculo.

- Não arranjará uma casa que seja nem metade tão generosa como esta, seja em que sítio for do Levee.

-Bem sei. Estava a pensar em fazer aquilo que algumas das outras moças fizeram. Arranjar um quarto de hotel e procurar mais acção.

- É uma ideia - comentou ele em tom casual. Importa-se de se pôr em posição? Tratemos do exame.

Avis rolou para fora da cama. postando-se diante do médico e tocando nos seios de forma provocadora.

Estendeu-se na beira do leito, os pés mal tocando na carpeta.

- Abra mais as pernas, minha querida – mandou o Dr. Holmes.

Depois que a rapariga, obedeceu, ele ajoelhou-se.

Tocou-lhe os macios lábios vaginais com a mão livre, esfregando-os ao de leve.

- Hem! - bradou a rapariga - é melhor parar com isso. Está a excitar-me.

- Desculpe. Eu vou ter cuidado.

-Bem, também não é preciso exagerar. Não me importo que se mostre amável comigo.

Por meio dos dedos. moveu o espéculo primeiro para baixo e depois para os lados, a fim de determinar que ela era saudável.

Prolongou o exame para além do que era necessário. por estar ele próprio a gostar daquilo.

Finalmente. ergueu a cabeça.

-Está óptima, Avis.

Ela sentou-se na cama, ergueu os joelhos e envolveu-os com os braços.

-Já sabia que estava. Não se vai já embora, pois não?

- Ainda não - respondeu o Dr. Holmes, sentando-se ao lado dela e limpando cuidadosamente o espéculo, com um lenço que molhara em álcool.

-Dá a impressão que tem qualquer coisa em mente.

-E tenho mesmo, Avis, se lhe apetecer conversar comigo.

-Falar consigo é divertido, doutor. Você é um tipo giro.

-Obrigado, Avis. Retribuo-lhe o elogio. Também você é uma moça gira; na verdade, a mais gira cá da casa.

- Ora bem.

-Há uma coisa sobre a qual gostava de trocar impressões consigo. Da primeira vez que a vi, há uma semana e pouco, mantifestou-se descontente com a Aida e a Minna. Referiu-se a trabalhar por conta própria num hotel. Estava realmente a falar a sério?

Avis encolheu os ombros nus.

-Não sei. Foi só uma ideia que tive.

- E seria capaz de a pôr em prática? - indagou Holmes, guardando o espéculo.

-Provavelmente não. Bem gostava, mas não me parece que tenha suficiente espírito de iniciativa. Não consigo ver-me sozinha.

Suavemente, o Dr. Holmes fez-lhe uma pergunta:

-E se não fosse dessa forma? Refiro-me a ver-se sozinha.

-Seria bom mas. mesmo assim, apesar de todas as maçadas; estou aqui mais confortável, tendo alguém qe cuide de mim.

-E se se fosse embora com o auxílio de uma pessoa que também tomasse conta de si?

Ela fitou-o com curiosidade.

-Que quer dizer com isso?

-Tive uma ideia - continuou a dizer o Dr. Holmes.

-Deduzi, por qualquer coisa que me disse a semana passada, que não tem problemas de dinheiro. É verdade?

-É. Sou natural de uma pequena cidade. Poupo todos os meus tostões. Já vi o que acontece às outras raparigas do Levee, quando gastam tudo em vestuário,        bebidas e drogas. Eu cá trato de fazer as minhas economias.

- Lembrei-me de uma coisa - disse-lhe o Dr. Holmes: Importa-se que lhe faça uma pergunta? Quanto é que conseguiu poupar?

-Uma quantia jeitosa. Cerca de dois mil dólares. segundo o último extracto bancário.

- Exactamente o bastante para o que eu estava a pensar, Avis - continuou ele. - Tenho uma sugestão a fazer-lhe. Na realidade. trata- se de uma proposta.

Actualmente, você fica com metade daquilo que ganha em cada noite. Não é assim?

-É.

-Que me diria a ficar com mais que isso, muito mais?

-Claro que gostava. Mas como...

O Dr. Holmes prosseguiu, mais confiante:

-Deixando-me instalá-la na sua própria casa, talvez mais pequena do que esta, mas igualmente luxuosa.

Podíamos ser sócios. Competiria com as Everleigh, mas seria independente, a sua própria patroa. ficando com a maior parte do que ganhasse. Se entrar com as suas economias e eu com uma soma igual, poderemos alugar e mobilar uma casa de autêntica classe. Você não receberá metade dos seus ganhos, mas sim três quartos e eu ficarei com um, como compensação pelo meu investimento. Que lhe parece?

-Bom de mais para ser verdade.

- Mas há mais que isso - acrescentou o médico.

-Também não estará sozinha. Poderá ir morar comigo e fazer-me companhia depois do trabalho. Eu cuidarei de si.          

- Cuidará?

- Gostaria de o fazer- Você é um género de rapariga muito especial. Vamos dar-nos bem. Claro que só se lhe agradar viver comigo. Acha que sim?

-E como! Já lhe tinha dado a entender... o senhor é atraente e alguém que me agradaria ver deitado a meu lado, na cama.

- Bom. aí tem - retorquiu, risonho. o Dr. Holmes. - O nosso negócio e o nosso próprio lar. juntos. Está disposta a isso?

-É só dizer-me quando!

-Esta noite, Avis. Esta noite. Vou regressar ao meu consultório e preparar o contrato da nossa sociedade. Você faz as malas e vai ter comigo lá a casa. Aqui tem o meu cartão. Apareça pelas seis da tarde. E leve todos os seus pertences. Pode fazer isso?

- Hei-de conseguir.

- Iremos depois comemorar. Vou levá-la a jantar à Palmer House.

-Oh. meu Deus, eu nunca lá fui!

-E isto é só o princípio. Poderá dar depois uma vista de olhos ao nosso contrato e assiná-lo-emos ambos. Dentro de uma semana, pagar-lhe-ei o aluguer de uma casa e trataremos os dois de a mobilar, para fazermos uma fortuna.

- Estou tão arrepiada!

-E nunca se verá sozinha. Estaremos juntos. Levantou-se. Ela pôs- se imediatamente em pé na frente dele, nua e tremendamente excitada. Abraçou-o com força e beijou-o.

- Nunca se arrependerá - sussurrou-lhe.

- Nem você. Avis - garantiu ele perversamente.

-Vamos ter um encontro memorável, esta noite.

- Lá estarei - prometeu a rapariga. - Mal posso esperar!

Era ao princípio da noite e estavam sentados na grande sala de jantar da Palmer House. Avis (decorosamente vestida com uma blusa cor-de-rosa, um casaco Eton de lapelas largas e uma saia a condizer) e o Dr. Holmes estavam de mãos dadas por cima da mesa, quando um criado uniformizado lhes serviu a sopa de uma terrina de prata.

Depois de o empregado se ter retirado discretamente, Holmes sentiu-se divertido, ao reparar no deslumbramento que ela exibia no rosto, enquanto perscrutava com insistência o rico mobiliário da sala.

-Está mobilada precisamente ao estilo da sala de jantar do Palácio de Potsdam, na Alemanha.

- Esse candelabro é um espanto - comentou Avis.

- É um candelabro egípcio- explicou-lhe Holmes.

-Os espelhos em volta da sala são venezianos e essa escadaria é de mármore italiano de Carrara. Não há nada bom de mais para ti, minha querida. Queres que mande vir mais uma garrafa de Veuve Clicquot?

-Prefiro concentrar-me na sopa. Que é que pedimos? Já me esqueci.

-Tartaruga à Maryland como prato principal, para ti. Mandei vir rosbife de primeira para mim.

Comeram a sopa em transitório silêncio. Depois, Avis voltou a falar:

-Deves ter reparado que levei duas malas para tua casa. Mudei-me de vez do Clube Everleigh. Não me viram partir. - Hesitou. - Espero que fosse verdade tudo o que me disseste... quanto a isso de ir viver contigo. E quanto à nossa sociedade.

-Não poderia ter falado mais a sério. Podes acreditar em tudo o que te disse.

- Ainda bem - disse ela - porque eu levei tudo muito a sério. - Tocou na bolsa que tinha sobre a mesa. - Trouxe a minha parte do investimento. Levantei dois mil dólares do banco.

- Excelente - aprovou Holmes. - Como prometi, entrarei com uma quantia igual. - Pousou a colher. Já redigi o contrato, para tua aprovação. - Procurou no bolso, de onde tirou uma folha de papel, que desdobrou:

-Aqui o tens. Precisamente de acordo com o esboço que te fiz do nosso acordo. Dá uma vista de olhos.

Ela olhou o papel de relance.

- Podes ver - prosseguiu Holmes - é exactamente como te disse. Os teus dois mil, mais os meus. Tu dirigirás a casa que alugarmos e ficarás com setenta e cinco por cento dos lucros. Eu receberei vinte e cinco por cento, como compensação pela minha parte do investimento. Estás a ver?

-Não sou boa a ler contratos. Tenho a certeza de poder confiar em ti. - Devolveu o papel. - Por que não o guardas; até estarmos prontos para o assinar?

Ele voltou a enfiar o contrato no bolso.

-Podemos fazê-lo logo após o jantar, quando chegarmos a minha casa. Que achas?

- Estou ansiosa - respondeu Avis, observando o criado, que lhe retirava da frente o prato da sopa, substituindo-o por uma Tartaruga à Maryland apresentada com requinte.

Depois de jantar, Avis aguardou que o Dr. Holmes pedisse a capa e o chapéu e acompanhou-o até à esquina das Ruas Monroe e State. Assim que o Packard lhes foi trazido, o médico ajudou-a a entrar para o assento dianteiro e instalou-se ele próprio ao volante.

Avis acariciou o assento.

-Assim é que é viver de facto em grande estilo. Holmes sorriu-se.

-Há mais, muito mais, no sítio onde isto veio. Nenhum dos dois falou muito, durante o longo percurso de regresso ao Castelo. Uma coisa que Avis disse, da qual Holmes ficou a lembrar-se, foi:

-é tão bom abandonar o Clube Everleigh. Quer dizer, as irmãs eram simpáticas comigo e a cása era confortável, mas torna-se cansativo isso de se ir para a cama com tantos homens e não ter nenhum em especial. Vai ser uma maravilha dormir com alguém que se importa comigo. - Lançou-lhe um longo olhar de lado.

-Tu importas-te comigo, não importas?

-Mais do que possas compreender.

Assim que entraram no Castelo, Holmes pegou no casaco dela e foi pendurá-lo. Levou-a a seguir para o seu gabinete e voltou a exibir o contrato.

- Vamos já assinar isto e tratar dos nossos assuntos. Vou pôr-lhe a minha assinatura e depois farás tu o mesmo.

Assinou e esperou que ela o imitasse. Ao ser-lhe devolvido o papel, Holmes disse:

-Por que não me passas um cheque de dois mil dólares, para verificares que eu também vou entrar com um igual ao teu.

- Não é necessário - retorquiu Avis, abrindo a bolsa. - Podes receber imediatamente a minha parte, se assim o desejares. Na verdade, até nem me agrada andar com tanto dinheiro. Poderás entrar com a tua quota, assim que encontrarmos a casa para alugar e a mobília adequada.

Ele aceitou o maço de notas.

- De acordo. - Meteu o dinheiro numa gaveta da secretária e pôs-se em pé. - Basta de negócios por hoje. Está na hora de um pouco de prazer e celebração.

Quando ela se levantou, o médico pôs-lhe um braço em torno da cintura e guiou-a para fora do gabinete, dirigindo-se para as escadas que conduziam ao principal quarto de dormir.

Um tremeluzente candeeiro mantinha-o romanticamente na penumbra.

Holmes virou-se para Avis.

-Devíamos tratar de nos conhecer intimamente.

-Voto a favor disso.

Ele estendeu a mão.

- Deixa-me despir-te.

-Não é necessário. Sou capaz de o fazer mais depressa. Despe-te a ti. Já me viste nua, mas eu nunca te vi. Estou ansiosa por isso.

Despiu-se com agilidade, mais depressa do que ele, e virou-se para Holmes toda nua, enquanto este ainda estava a tirar a última peça de roupa.

Inspeccionou-lhe o corpo musculoso.

- Nada mal, mesmo nada mal - comentou baixinho.

-Nesse caso, vamos fazer qualquer coisa a esse respeito - sugeriu ele. - Não percamos mais tempo.

A rapariga deixou-se cair em cima da cama e, em poucos segundos, ele encontrava-se a seu lado.

Avis observou-o a todo o comprimento do corpo.

-Que grande erecção! Não me vais magoar, pois não?

-Vou ser muito suave e gentil.

-Herman, deixa-me apalpá-lo, agarrá-lo.

-O prazer é todo meu.

Ela estendeu-se para baixo e, tomando-lhe o pénis numa das mãos, acariciou-o com arte.

-Herman - acaboua rapariga por dizer. - vamos... Largou-o, deitou-se de costas, ergueu os joelhos e abriu as pernas. Embora agora se encontrasse parcialmente na sombra, ele recordava o seu aspecto, na última vez que a examinara; no Clube Everleigh. Tal ideia estimulou-o ainda mais e, sem hesitação, penetrou-a. A rapariga soltou um gemido de dor e tentou retrair-se, mas esse seria o seu único movimento durante a cena que se seguiu. Ele penetrava-a com vigor, mas Avis conservava-se inerte, sem reagir. Limitava-se a manter- se ali de costas, deixando que fosse o homem a movimentar-se. Holmes procurou levá-la a rodar o macio traseiro. mas ela continuou sem se mover, passiva. As Everleigh deviam ter recebido queixas em relação àquela mulher, concluiu Holmes. Esperara mais, muito mais, de alguém tão experiente; mas a rapariga pura e simplesmente não prestava para nada, contentando-se em ser um objecto, uma passiva aceitante, que nada dava em troca.

Continuou a surpreender-se e a desapontar-se, à medida que prosseguia o seu movimento de vaivém: Devido ao aspecto sensual dela e às suas sedutoras maneiras, previra uma prolongada relação com a rapariga. Talvez alguns meses, pelo menos. Já estava de posse do seu dinheiro e possuí-la-ia todas as noites. Mas agora

já a não queria. O dinheiro bastava-lhe. Pôs de parte a ideia de um relacionamento prolongado. Livrar-se-ia dela o mais depressa possível.

O pensamento de assim proceder foi o primeiro auge de prazer de que disfrutou, naquele acasalamento unilateral.

Atacou-a progressivamente com mais força, até estar prestes a explodir. Então, com um poderoso im pulso, explodiu mesmo.

Ela soltou um suspiro e abriu os olhos passado um   instante, ao senti-lo rolar para o lado.

- Hem, foi bom! - disse.

-Espero que tenha sido, para mim foi.    Sabia que teria de aturar uns dez ou quinze minutos de conversa de travesseiro e dispôs-se pacientemente a isso. A seguir, saindo da cama, fingiu exami nar-se a si próprio e disse, por cima do ombro:

-Avis, tenho aqui um pouquinho de sangue. És capaz de estar a sangrar aí de baixo.

-Nunca me sucedeu, excepto quando tenho o período e... não está na altura.

-Parece-me que te aconteceu agora. É melhor dar-te uma vista de olhos.

-Oh. é preciso levantar-me? Estou tão bem aqui! Sinto-me óptima. Um pouco sonolenta, talvez, mas isso.

Holmes enfiara as calças.

- Não demora mais que um ou dois minutos. Tenho de verificar de onde te vem esse sangue. Anda, vamos à minha sala de observações.   

Avis sentou-se e espreguiçou-se.           

- Já que insistes...   

- Insisto mesmo.

-Achas que vista a camisa de noite?     

-Não. Posso muito bem observar-te como estás.        

Terás oportunidade de dormir depois. Vem daí, Avis.           

Obedientemente, ela saiu da cama e seguiu-o até uma porta de correr. Holmes carregou num botão para            a abrir e penetrou na sua câmara secreta, fazendo-lhe sinal para o acompanhar.

A rapariga imitou-o e pôs-se a observar o compartimento.

-Que sala mais assustadora!

-Sou de opinião que os pacientes preferem uma privacidade absoluta, quando estão a ser examinados por um médico.

-Sim, faz sentido.

Holmes apontou-lhe a marquesa, colocada no centro da sala.

-Deita-te ali de costas. Vou buscar os meus instrumentos.

Ela já estava a trepar para a marquesa quando o médico saiu da sala. Sem demorar nem um segundo, ele trancou a porta de correr. Apressou-se depois a ir para o seu gabinete, dirigiu-se rapidamente ao painel de controlo e accionou      

a alavanca.

O gás deveria estar agora a penetrar na câmara.       

Sentou-se à secretária e pôs-se a folhear umas revistas. Finalmente, ergueu-se, desligou o gás e accionou uma segunda alavanca, a fim de libertar o que restara na sala. Voltou às suas revistas e, fumando preguiçosamente o cachimbo, começou a sentir-se satisfeito.   

Livrara-se da sorna da puta. Possuía dois mil dólares em dinheiro fresco. Se as outras raparigas do Clube Everleigh fossem tão parvas como aquela, faria fortuna em poucos meses.

Consultou o relógio. Já era tempo de dar conta do cadáver.

Dirigiu-se rapidamente à porta de correr, destrancoua e puxou-a para o lado.

Penetrando na câmara, cheirou o ar. Detectava nele um vaguíssimo odor a gás.

Foi direito à mesa de observações. O monte de carne ainda ali estava. deitada de costas. Anteriormente, considerara-a bela. Agora, de olhos fechados e boca aberta. parecia-lhe repelente. Tomou-Lhe o pulso e escutou-Lhe depois o coração.

Estava o mais morta possível.

Aproximou-se do primeiro alçapão e abriu-lhe a portinhola. Voltou à mesa, meteu mãos e braços por baixo dela e ergueu-a em peso.

Era pequena e fácil de transportar. Posicionou o corpo por cima do alçapão, enfiou-o no túnel gorduroso e largou-o. Aos sacões, o cadáver desapareceu de vista.

Escancarando a portinhola ao lado, Holmes meteu pelas escadas e desceu até à cave.

Sem se deter para reflectir, continuou com os pro cedimentos que tantas vezes praticara no decorrer dos últimos anos.

Levantou Avis do chão, levou-a para a tina de cal viva e deixou-a cair lá dentro. Depois de a maior parte da sua carne se ter dissolvido, esvaziou o recipiente na pia e, ainda com as luvas de borracha calçadas, transportou os desagradáveis restos mortais para a mesa. Arrancando as luvas, foi buscar o escalpelo e regressou ao corpo que fora um dia a confiante Avis. Cortou-o com mãos de perito.

Demorou-lhe vinte minutos a desmembrá-la por completo.

Havia fogo na fornalha, a arder baixinho, que Holmes espevitou e alimentou com carvão e lenha; até que aumentasse de intensidade. Tirou depois os sete pedaços de Avis de cima da mesa, metendo-os no meio das chamas, um a um.

Após haver terminado, pôs-se a limpar a cave.

Assim que ficou impecável, voltou a subir as escadas para a câmara de gás. Fechou as duas portinholas dos alçapões.          

Satisfeito por ter tudo em ordem e limpo, o Dr. Holmes saiu do compartimento, trancou-o bem e atravessou o vestíbulo na direcção do seu gabinete.

Instalando-se à secretária, procurou na gaveta e tirou dela os dois mil dólares em notas que auferira nessa noite.

Principiou a contá-las uma por uma. para se certificar de que a rapariga não o enganara.

Minna Everleigh estava sentada no seu escritório, profundamente desapontada.

- Primeiro a Fanny - dizia para Aida - e agora a Avis. Ambas saíram e desapareceram. Porquê? Terão recebido melhores propostas de trabalho?

- Não nesta cidade - opinou a irmã. - Ninguém em Chicago paga melhor do que nós.

-Então que se passou? Bem, seja lá o que for, precisamos de as substituir. Pelo menos uma delas, para principiar. Teremos uma grande enchente esta noite e não podemos desapontar os nossos clientes.

-Há uma enorme lista de candidatas...

- Só que não possuem classe suficiente - retorquiu Minna. Manteve- se pensativa por um instante. Mas sei de uma rapariga que a possui. Fresca e uma autêntica beleza. A Karen Grant, a que trabalhou em Nova Orleães. Falei-te dela a noite passada.

-Aquela alta e sem defeitos?

-Exactamente. Acho que a vou chamar imediatamente. Tenho o número de telefone da pensão onde está.

Minna rebuscou em cima da escrivaninha, até encontrar o número de telefone de Karen.

- Cá está - disse. - Vou anunciar-lhe que está contratada, sujeita ao exame do Dr. Holmes, é claro. Dir-lhe-ei que venha já para aqui e traga umas coisas consigo.

Tirou o auscultador do gancho e deu à telefonista o número da rapariga.

Após alguns toques, teve o prazer de escutar uma voz feminina a atender.

- Estou.

-Gostava de falar com a Karen Grant.

-É a própria.

- Daqui fala a Minna Everleigh.

-Sim? Espero que tenha boas notícias a dar-me.

- Claro que tenho, Karen - respondeu a outra. A rapariga, que eu esperava que regressasse antes do meio-dia. não apareceu. Vamos poder contratá-la, para a substituir permanentemente, a começar esta noite. Ainda está interessada?

- Muito interessada.

-Maravilhoso. Mas devo recordar-lhe que terá de ser primeiro examinada pelo médico do Clube Everleigh, o Dr. Herman Holmes. Poderá comparecer aqui às cinco da tarde? Vou chamá-lo e, se estiver de boa saúde; poderá começar logo a trabalhar, no quarto que era da Fanny. Oh, sim, traga uma mala com as suas coisas.

Dois vestidos para mudar, roupa interior, o seu próprio roupão de seda, se tiver algum.

-Tenho, sim, Miss Everleigh.

- Nesse caso, ficamos à sua espera, Karen.

-Até me custa esperar por começar.

Mina desligou e dirigiu-se a Aida:

-Pareceu-me ansiosa. Disse que até lhe custava esperar por começar. Creio que é uma dessas raparigas que adora o seu trabalho. Será um sossego para nós.

- E quanto ao Dr. Holmes? - lembrou Aida.

- Tenciono telefonar-Lhe imediatamente.

Um minuto mais tarde, Minna tínha o médico em linha.

-Dr. Holmes? Daqui fala a Minna Everleigh.

-Muito gosto em ouvi-la. Em que lhe posso ser útil?

O tom de voz da mulher foi firme e persuasivo:

-Na verdade pode ser-me útil numa coisa, doutor, algo importante. Bem sei que já veio dar a sua consulta semanal. Mas gostava que se deslocasse aqui mais uma vez; ainda hoje. É importante. Vamos contratar uma moça nova. Parece-me em perfeitas condições, mas necessito de ter a certeza. Gostava que a observasse. Seguramente poderá fazê-lo em menos de um quarto de hora. Detesto incomodá-lo terceira vez de seguida, mas nós queríamos que esta rapariga começasse imediatamente a trabalhar.

-Não há problema. A que horas gostaria que eu fosse aí ao clube?

-Cerca das cinco. Espero bem que, por essas horas. já tenha terminado de atender os seus clientes.

Fez-se silêncio, enquanto Holmes obviamente consultava a sua agenda de marcações.

- Na verdade - disse ele -tenho dois clientes marcados, entre as quatro e meia e as cinco horas. Mas nenhum deles tem problema que não possa aguardar.

Vou telefonar-lhes a adiar. Chegarei aí muito perto das cinco.

-A Aida e eu agradecemos-lhe. Dr. Holmes. Até daqui a algumas horas.

Com o aproximar das quatro e meia da tarde. Karen viu-se à beira de um ataque de nervos.

Tinha enchido uma mala. Vestira as suas roupas mais apropriadas às circunstâncias. Estava preparada para tomar os transportes públicos, a fim de se dirigir ao Clube Everleigh.

E, contudo, ainda não se sentia pronta para o fazer. Não que estivesse preocupada com o exame médico. A sua única preocupação relacionava-se com aquilo que se seguiria, após a partida do doutor. Haveria um homem estranho com quem teria de ir para a cama. Um desconhecido que faria amor com ela... sem lhe ter amor. Lamentava ter-se oferecido ousadamente para desempenhar aquele papel. E interrogava-se sobre o que a teria motivado. Queria auxiliar o Mayor Carter Harrison, disso tinha a certeza. Ele fora, em tempos, bom para a sua mãe e pretendia recompensá-lo por isso. Igualmente. uma vez que nenhum dos membros mas culinos do seu pessoal estava em condições de ser útil ao Mayor, desejava mostrar àqueles homens e ao seu superior que uma mulher era capaz de fazer o que o seu colega, Gus Varney, claramente não conseguira. O Mayor advertira-a de que poderia vir a ser inca paz de levar a cabo a desagradável tarefa. Garantira-lhe írreflectidamente que estava em condições de se sair bem de qualquer situação, antes que algo realmente mau lhe sucedesse.

Agora, já tinha menos certeza disso. Estava com medo de que aquilo que a esperava se revelasse horroroso, repulsivo, e que a sua própria falta de experiência a pudesse conduzir a um episódio de terror.

Mesmo assim, tinha um motivo para se sentir triunfante: conseguira penetrar no principal bordel do mundo inteiro, servindo-se apenas do seu bom aspecto e inteligência.

Parando à entrada da sua pensão, pensou que deveria informar o Mayor Harrison desse seu sucesso inicial.

Falara com ele no dia anterior, após o breve encontro com Minna Everleigh. Pudera então informá-lo de que a entrevista correra bem. mas que não estava certa de vir a ser contratada. Apesar da apreensão que revelara na voz, o Mayor não conseguira esconder o seu prazer com os progressos dela e a possibilidade de ter uma informadora no interior do Clube Everleigh.

Agora, ainda que brevemente, ele devia ficar a saber que Minna a aceitara para entrada imediata.

Ligou para a Câmara e, pouco depois, tinha Harrison em linha.

-Mayor, daqui fala a Karen Grant.

-Olá, Karen. Está bem?

-Melhor que bem. Telefono-lhe da minha pensão, mas estou prestes a mudar-me para o Clube Everleigh. Vou subalugar o meu apartamento, por curto período. a uma amiga. Dependendo de uma confirmação de sanidade por parte do médico delas. fui contratada como menina do Everleigh.

-Não quero que se meta em sarilhos, Karen.

-Não se preocupe, Mayor, eu sou bem capaz de cuidar de mim própria.

-Tenha cautela. Tenha muita cautela.

Quando chegou ao clube com a sua maleta. Karen foi calorosamente recebida por Minna Everleigh.

-Estou tão contente por ter decidido fazer parte da nossa feliz família, Karen - disse-lhe ela. O Dr. Holmes ainda não chegou. Deverá estar aqui a todo o momento. Entretanto, poderá ir lá acima, ao quarto número sete, o que a Fanny deixou vago, e despir-se completamente, para ser examinada.

Karen hesitou.

-Tenho de me despir mesmo toda? Já antes me submeti a exames íntimos, mas os médicos sempre me deixaram ficar com a blusa vestida. Não poderia fazer isso e tirar só a saia?

Minna franziu o sobrolho.

-Não, eu preferia que tirasse tudo. O Dr. Holmes pode querer observar-lhe os peitos. Porquê esse súbito ataque de timidez? Você disse-me que tinha experiência. Ainda ontem se despiu toda diante de mim.

-Isso foi diferente. A senhora é mulher e eu já há algum tempo que não estou com um homem.

Minna pegou-Lhe no braço e deu-lhe um pequeno apertão, para a tranquilizar.

-Karen, nesta casa vai ter que se despir toda em cada noite e só diante de homens. Portanto, trate de se acostumar de novo a isso.

-Tem razão. Peço-lhe desculpa, Miss Everleigh...

-Minna. Nós aqui formamos um grupo unido.

-Nesse caso, Minna...

-Não é como se nunca tivesse sido já vista nua por dúzias de homens - continuou a outra a dizer. Disse-me que tinha experiência adquirida em Nova Orleãs.

Karen soltou uma curta gargalhada, consciente de que a outra a observava atentamente.

- Estava a ser palerma - disse. - Deve ser por causa da mudança de cenário. por ser um lugar novo: Não se preocupe; Minna. Não haverá problemes.

Quarto Sete, no andar de cima. - Esse mesmo. Depois de ter tirado as roupas poderá vestir o seu roupão. Levarei o doutor lá acima assim que ele chegue.

Karen subiu as escadas e, já no patamar, meteu pelo corredor, até descobrir o quarto.

Lá dentro, pousou a maleta numa cadeira, abriu-lhe o fecho e tirou dela o seu roupão de seda púrpura.

Devagarinho e com relutância, principiou a despir a roupa, perguntando-se como é que iria conseguir sair daquela casa sem se sujar. Uma vez nua, enfiou o roupão e pôs-se então a passear nervosamente pelo aposento, observando todo o elegante mobiliário e acessórios.

Mais cinco minutos se passaram, até ouvir uma pancada na porta.

Rodou sobre si mesma, precisamente no instante em que Minna entrava, seguida por um impressionante homem de barba, que trazia na mão uma maleta de médico.

- Karen - disse-lhe Minna - este é o Dr. erman Holmes. Vai observá- la imediatamente. Tenho a certeza de que não demorará.

Os olhos de Holmes estavam fixos em Karen, quando interrompeu a outra mulher:

-Quinze minutos, não mais que isso.

- Muito bem, vou deixá-los a sós - dísse Minna.

- Regressarei para ouvir o seu relatório; Dr. Holmes. E, Karen, disporá de um bocadinho de tempo para descansar, antes de lhe trazer o seu primeiro cliente. Na verdade. assim que o doutor se for embora, quero dar-lhe a minha aula habitual.

- A sua aula? - estranhou a rapariga.

-Sobre a forma como se deve comportar com os homens que a visitarão no Clube Everleigh.

Com essas palavras, Minna saiu do quarto e a rapariga foi deixada sozinha com o Dr. Holmes.

Ele afastou os olhos e ocupou-se com a sua maleta de médico. Depois, pediu:

-Tire o roupão, Karen. Sente-se na beira da cama. Vou examinar-lhe primeiro os seios. A seguir, vai estender-se na cama de joelhos dobrados e as pernas todas abertas. Precisamos de ficar com a certeza de que não tem sinais de nenhuma doença venérea.

- E não tenho, doutor.

- Deixe-me ser eu a decidir isso, menina. Soltando um suspiro, Karen arrancou o roupão do corpo, encaminhou-se para a cama de latão e sentou-se-lhe na borda.

Apercebeu-se de que o Dr. Holmes, de espéculo na mão, virara as costas à sua maleta e a estava a observar.

Avançou para ela, deteve-se na sua frente e depois inclinou-se, os olhos azuis-escuros hipnoticamente fixos no seu corpo.

- Uma coisa lhe devo dizer, Karen - principiou ele. - Você é seguramente um belo espécime. Tenho de me lembrar de dar os parabéns à Minna Everleigh, pelo muito bom gosto que teve.

- Muito obrigada.

-Já observei todas as raparigas deste estabelecimento e confesso-lhe que é, de longe. a mais bonita.

- Eu. eu nem sei o que dizer.

- Basta-lhe a satisfação de saber como os homens a vão apreciar. Deve sair-se muito bem nesta casa. -Eu... eu espero que sim.

- Posso garantir-lho. - Pousando o espéculo em cima da cama, o Dr. Holmes estendeu-lhe a mão para o peito. - Vá, deixe-me apalpar-lhe os seios, a ver se têm qualquer coisa fora do normal.

Com esforço, Karen projectou os peitos cheios para diante, enquanto o médico lhe punha a mão em conecha num deles e depois no outro, apertando ligeiramente.

A seguir, serviu-se de ambas as mãos para brincar com eles. Os seus dedos roçaram-lhe repetidas vezes pelos mamilos.

- Precisa de continuar com isso? - indagou Karen. O Dr. Holmes ignorou-a, continuando a mover os dedos sobre a firme superfície de cada seio.

-Perfeitamente macios, suaves, rechonchudos. Posso garantir-lhe, a si e à Minna, que nada têm com que se preocupar. Agora, faça o favor de se deitar para trás sobre a cama, abrir as pernas... mais, minha querida... para eu dar uma vista de olhos.

Corada de vergonha. a rapariga deixou-se cair de costas, cedendo depois à pressão das mãos dele, que lhe afastou as pernas por completo.

Pegou no espéculo e ajoelhou-se-lhe entre as coxas. Ela podia sentir-lhe a respiração morna naquele sítio.

O médico deu um estalo com a língua.

- Perfeito, perfeito - proferiu, baixinho. - Tão saudável como qualquer mulher em que algum dia eu tenha posto a vista. Deixe-me chegar mais fundo.

Ela sentia o toque do espéculo. Aquele exame era interminável.

- Não poderá apressar isso um bocadinho? - protestou.

- Tenho de ter a certeza.

Por fim, pareceu haver terminado.

- Já pode vestir-se - disse-Lhe.

Quando ela se endireitou. o médico pôs-se em pé e a rapariga sentiu algo duro tocar-lhe num joelho. Baixoú os olhos para ver o que era e reparou que uma secção das calças dele estava dilatada, cobrindo uma erecção gigantesca. Amedrontada, desviou o olhar e Holmes voltou-lhe as costas, para guardar o espéculo na maleta.

- Então? - quís ela saber. - Seguramente não há nada de errado.

Ele respondeu, em voz baixa:

-De certa forma, há qualquer coisa, Karen.

-Que quer dizer com isso?

-É do meu conhecimento que, para arranjar trabalho junto das irmãs Everleigh, é preciso ter-se experiência.

-Sim, é verdade.

O Dr. Holmes encarou-a, com um sorriso maldoso.

-Você não a tem, minha cara jovem. Nunca teve relações com um homem. Está vírgem.

- É mentira!

- De acordo com o meu exame, não é. O seu hímen ainda se encontra intacto.

Deve estar enganado... -replicou Karen, gaguejante.

- Não há engano de espécie alguma - insistiu ele em tom suave. - Mentiu acerca da experiência que tinha, para arranjar este trabalho. No entanto, o primeiro homem que a penetrar, se se tratar de um cliente, pod custar-lhe o lugar. Há-de reparar nas manchas de sangue nos lençóis e ficará atrapalhado, indo provavelment informar a Minna ou a Aida. E você perderá o emprego dentro de um minuto. Ora bem, talvez seja possível evitarmos isso.

- Como?

- Posso informar a Minna que desejo que me acompanhe ao meu consultório e alterar aí a sua situação.

- Cirurgicamente?

-Não. Só existe uma maneira apropriada de perder um hímen. Será um prazer para ambos... e você passará a ter experiência. Eu poderia...

- Se ia dizer aquilo que penso - interrompeu Karen acaloradamente - a resposta é não! Nunca permitiria que se aproximasse de mim. O senhor deve comportar-se como um médico, não como um...

-Sou médico e penso apenas no seu bem.

- O senhor é um devasso. - Levantou-se e enfiou o roupão de seda. - Aceito-o como médico, não como outra coisa qualquer. Correrei o risco da... da minha falta de experiência.

-Como queira, Karen. Pode crer que não tenho intenções de a fazer perder o emprego. Mas receio bem que seja você mesma a causa de o perder. Seja como for, desejo que saiba que não sou nenhum devasso, ou algo de ainda pior, apenas um profissional, com quem pode contar como amigo.

Karen manteve-se em silêncio, até que soou uma leve pancada na porta.

- Entre! - disse o Dr. Holmes em voz alta. Minna Everleigh assim fez, olhou de relance para Karen e fixou depois o olhar no Dr. Holmes.

- Completou a sua observação? - inquiriu.

- Chegou mesmo na hora - respondeu Holmes, pegando na maleta. - Fiz um exame cuidadoso à Karen. Está em perfeitas condições. Saudável e em bom estado, Não precisa de se preocupar com ela.

Minna descontraiu os ombros.

-É um alívio. Muito obrigado, doutor.

- Foi um prazer - retorquiu ele. Piscou um olho à rapariga. - Gostei de estar consigo. Ainda bem que está em boas condições.

- Obrigado - murmurou Karen em voz débil. Ficaram as duas a ver sair um jovial Dr. Holmes. Uma vez fechada a porta do quarto, Minna fez sinal a Karen para se sentar numa cadeira, diante dela.

-Dispõe de cerca de uma hora até chegar o seu primeiro cliente - disse Minna. - Antes que isso aconteça, desejo trocar impressões consigo sobre o comportamento nesta casa. A chave de tudo é lembrar-se que é uma jovem apetecível, não meramente uma vadia das ruas. Se quiser continuar a ser uma menina do Everleigh, deverá, quando estiver na companhia de um visitante, mostrar-se sempre bem educada, paciente e esquecer-se da razão por que se encontra aqui.

Puxou por um cigarro e acendeu-o.

- Os cavalheiros que vêm cá são-no somente quando devidamente apresentados - recomeçou. - Nós tomaremos providências para que cada moça seja apresentada à cada convidado. No Clube Everleigh, não há filas para escolha, como é costume em outros bordéis. Nem a Aida, nem eu, gritaremos: Meninas, à sala! quando os clientes chegarem. Acompanharei pessoalmente cada um até cá acima, aos seus aposentos, para lho apresentar normalmente. Depois disso, ficará entregue a si própria. Em outras ocasiões, quando houver menos trabalho, pedir-lhe-ei que vista as suas roupas mais finas e desça lá abaixo, para divertir os nossos convidados, numa das saletas ou ao jantar. Aquilo que exijo acima de tudo é que tome em atenção as necessidades dos nossos visitantes. Lembre-se de uma coisa. O Clube Everleigh não dispõe de tempo para elementos grosseiros, para os empregados de escritório em dia de folga, ou pessoas sem livro de cheques. Apenas estamos abertas a cavalheiros.

O cigarro dela estava apagado e Minna voltou a a acendê-lo.

-A princípio vai ser-lhe difícil, bem sei, por mais experiência anterior que tenha. Não apresse ninguém e não pense sequer em enrolá-los. Nós não permitiremos macacadas, gotas para os pôr a dormir, roubos; ordinarices de género algum. A nossa tarefa será fornecer-lhe clientes. A sua será diverti-los, de uma forma que nunca anteriormente o tenham sido. Dê, mas faça de maneira interessante e sem mistérios. Quero que se sinta orgulhosa por fazer parte do Clube Everleigh.

Karen. Daqui a uma hora, depois de a ter apresentado ao seu primeiro cliente, sentirá que faz parte desta casa.

Durante este discurso e, em especial, quando Minna lhe recordou que em breve seria deixada a sós com um homem estranho, a rapariga estivera a tremer de medo. Dentro de pouco tempo, seria encurralada por um cliente, esperando-se que actuasse como uma prostituta. A avaliar pelas palavras de Minna, dispunha de muitos indícios verbais confirmativos de que o Clube Everleigh continuava a ser um bordel, mas não possuía a prova sólida que permitiria ao Mayor encerrar a casa.

A autêntica confirmação surgiria quando o convidado pagante tirasse as suas roupas e se metesse na cama com ela. Tal ideia parecia-lhe horripilante.

Mal ouvia Minna continuar a falar.                      

- Para além daquilo que já lhe disse. há mais uns pequenos pormenores que deverá conhecer, quanto à            sua conduta no clube. Um deles é...

Foi interrompida por           uma viva pancada na porta.         

Esta abriu-se e Aida entrou, trazendo um bilhete e exibindo o rosto pálido.

-Minna, preciso de   falar contigo imediatamente - principiou ela a dizer. - É urgente.                

-E não pode esperar uns minutos?                    

- Não - retorquiu a   outra com firmeza. – Sabes quem acaba de entrar, com a sua        bagagem, e está lá            em baixo à espera? Cathleen e o irmão.          

- Quem? - perguntou a irmã, desorientada.                  

-A Cathleen e o Bruce Lester, a nossa sobrinha e sobrinho do Kentucky. Os filhos do Charlie.

Minna ficou mais perturbada do que nunca.                

-Que estão eles a fazer aqui?                  

-Vieram viver connosco     duas semanas. Até a Cathleen estar casada com o Alan, filho do Harold T. Armbruster.

A irmã ficou horrorizada.              

- Mas eles não podem ficar aqui. - Bem sei que não. mas vão ficar. Já sabíamos disso há algum tempo. Que os Armbruster tinham estado lá em baixo, no Kentucky, que o filho deles tinha conhecido a Cathleen e se apaixonara por ela e que eles se iam casar. O pai perguntou se poderíamos cuidar dos miúdos...

- Lembro-me disso - confirmou Minna. - Escrevi ao Charles um bilhete curto, a dizer: Manda-os para cá. Mas só era minha intenção acompanhar a Cathleen no dia do casamento. Meu Deus, eu não queria dizer com isso que poderiam ficar aqui connosco!

Aida acenou com a carta que trazia na mão.

-O pai deles mandou isto pela Cathleen. Quer que a filha e o filho vivam com as ricas tias da alta sociedade. em Chicago, até ao casamento. Um hotel não lhe serve. Mesmo que os seus familiares do Kentucky sejam uns pobres ratos de sacristia, precisam de aparentar que estão bem de vida e são respeitáveis. Costumávamos, durante todos estes anos, dizer ao nosso irmão que éramos ricas, tínhamos uma elevada posição social e vivíamos numa enorme mansão. O Charlie acreditou na nossa palavra e está agora a mandar-nos os filhos, para se hospedarem na mansão das tias. Já cá estão, Minna, e não podem ser mandados embora. Teremos de viver duas semanas nesse fingimento, até depois do casamento, altura em que a Cathleen e o Bruce nos sairão de cima das costas. Que devemos fazer?

inna deteve-se entre a irmã e Karen, perdida em pensamentos.

- Estamos presas à nossa própria mentira - disse.

-Teremos de desempenhar o papel de suas tias, ricas e respeitáveis, e conceder-lhes a hospitalidade da nossa mansão. Deixa-me reflectir. - E continuou a pensar. Depois acrescentou para Aida: -O que está primeiro tem prioridade. Manda imediatamente o Edmund afixar um letreiro na porta da frente, anunciando que o nosso   restaurante se encontra em actividade. Haverá um espectáculo de variedades à hora do jantar, mas estão           cancelados   quaisquer outros serviços. até posterior informação. Os salões serão fechados, durante duas semanas, para remodelação. Nenhum homem será autorizado a subir ao andar superior, enquanto durar a estadia da Catheleen e do Bruce.                              

-E as nossas meninas?                            

Poderão ficar e tomar parte no espectáculo de variedades. Manda duas delas de férias e dá os seus quartos à Cathleen e ao Bruce. Reúne imediatamente as pequnas, Aida, e explica-lhes a situação.

Quero ter a certeza de que nem uma só palavra é dita, aludindo àquilo que realmente aqui faziam. Elas são bailarinas e cantoras, que entretêm os clientes durante o jantar...

-Teremos de lhes pagar os seus rendimentos habituais – respondeu Minna – sejam quais forem as perdas financeiras   que venhamos a suportar. O que            importa é fazer com que a Cathleen e o Bruce acreditem que somos de facto figuras respeitáveis da sociedade    e que este é o nosso elegante lar. Dir-lhes-emos que exploramos um restaurante de alto nível, muito na moda, só para nos mantermos ocupadas. Põe-te já a mexer.                             

Reúne as pequenas, conta-lhes a verdade e diz-lhes o que esperamos delas. Eu vou lá abaixo, dar as boas-vindas aos nossos sobrinhos.                               

Aida mandou-se porta fora e afastou-se a correr.                               

Prestes a segui-la para fora do quarto, Minna deteve-se, subitamente consciente de que Karen se encontrava presente nos aposentos.

- Ouviu tudo, Karen, portanto já sabe o que se está a passar. Sei muito bem que esperava ter o seu primeiro cliente dentro em pouco. Lamento. mas não haverá nenhum homem, nem esta noite, nem durante as próximas duas semanas. Vista-se e venha lá para baixo, juntar-se às outras raparigas, para a Aida vos organizar num simulacro de espectáculo de variedades.

- Pôs a mão na maçaneta da porta. - Desculpe-me por esta reviravolta no curso dos acontecimentos. Karen. Embora seja uma novata, pagar-lhe-emos bem. E ainda será mais bem paga, depois. Mas, por agora, mantenha-se de queixo erguido... e com as cuecas vestidas.

QUANDO Minna desceu a escadaria para o átrio, avistou os dois parentes à espera, de malas a seu lado. Já não os via desde crianças, mas

percebeu imediatamente que aqueles jovens crescidos eram a sua sobrinha e sobrinho, Cathleen e Bruce Lester.

Aproximando-se deles, notou que Cathleen se parecia com ela própria, tal como fora há não muitos anos atrás. A rapariga não era mais alta, querendo isso dizer que era de baixa estatura, com cabelo loiro, olhos luminosos e nariz arredondado, bem implantado num rosto inocente e suave. Possuía seios pequenos, era esguia, serena e não tinha mais de dezanove anos de idade. O rapaz era mais velho, provavelmente com vinte e dois, senhor de uma cabeleira cor de avelã, olhos castanhos, nariz achatado e queixo quadrado. Era bastante alto, tendo talvez uns seis pés, e elegante, ainda que obviamente bem musculado.

- Cathleen! - exclamou Minna.

A rapariga sorriu com nervosismo. A tia foi direita a éla e abraçou-a.

-Sou a tua tia Mínna. Que maravilha ver-te finalmente e ter-te na nossa casa!

Largando a rapariga, voltou-se para o sobrinho e abraçou-o igualmente.

-Bruce, como tu cresceste... sei lá quantos pés...

desde a última vez que te vi, em Louisville! Bem-vindos à Casa Lester.

- É uma simpatia da sua parte receber-nos - disse o rapaz.

-E uma alegria para nós. Agora, venham os dois comigo - replicou Minna, tomando cada um deles pela mão. -Não se preocupem com as malas. Mandarei um criado levá-las aos vossos quartos, mas primeiro vamos conversar um bocadinho na sala. Quero ficar a conhecer-vos nelhor aos dois.

Conduziu-os ao Salão Dourado, que lhes descreveu como sendo a sua sala preferida, que ela mesma decorara.

Ao entrar no deslumbrante compartimento, Cathleen deteve-se por um instante, assombrada pelo respectivo esplendor.

- É. majestoso - sussurrou. - Esse piano de ouro... Nunca vi outro igual.

- Mandei-o fazer em Paris, há alguns anos. esclareceu Minna.

Bruce entrou no salão com mais descontracção, mostrando-se menos espantado do que curioso.

-Desculpe-me, tia Minna. O pai disse-nos que viviam bem, mas eu é que não esperava nada disto.

-Gostava que o vosso pai pudesse vir ver pessoalmente a nossa casa - disse Minna - mas nunca se deslocou a Chicago, em todo o tempo que aqui temos vivido.

-A tia bem sabe que ele não pode viajar, desde que teve o ataque - disse Bruce. - Além disso, não poderia permitir-se a viagem.

-Bem, tenciono rectificar essa situação num futuro próximo: Sentem-se e deixem-me acomodar em sítio onde vos possa olhar a ambos.

Depois de se terem sentado os dois, Minna instalou-se diante deles e recomeçou a falar:

- Temos estado à vossa espera - disse-lhes - porque o Charles escreveu-me há algum tempo, a dizer que a Cathleen vinha a Chicago para se casar e que tu, bruce, lhe farias companhia. Sei que vosso pai gostaria que olhássemos por vocês e estivéssemos ao lado           

da tua irmã durante a cerimónia. Francamente, o que           

eu ignorava era que ele preferisse que ficassem        

connosco, em vez de se instalarem num hotel. Claro

que a Aida e eu estamos encantadas... mas não fomos       

informadas.  

- Se lhes causa algum transtorno... - principiou

a dizer Cathleen.    

- não, absolutamente nenhum - interrompeu Mina. - Teremos que explicar melhor a nossa situação - disse Bruss. - A prática da advocacia já praticamente terminou para o meu pai. Está em estado dmasiado doente para se ocupar dela como deve ser. Desde que a mãe morreu e depois do ataqe que teve, parece ter perdido todo o ânimo. Ainda temos a mesma casa, mas talvez tenhamos que a vender em breve. Na verdade, o pai está quase sem tostão. Eu trabalho num banco, para ajudar. O mais que efe conseguiu foi arranjar dinheiro suficiente para nos deslocarmos até cá, para o casamento. Mas a Pearl e o Harold T. Armbruster ignoram essa situação. Fiam-se muito nas aparências. Para os convencer de que somos uma boa família e os impressionar, é que o pai lhe escreveu essa carta, pedindo que nos recebesse. Minna abanou a cabeça.

-A Aida falou-me nisso.

-O pai achou que, se pudéssemos ficar em casa das suas irmãs e penetrar nos mais elevados círculos sociais... e se as tias tivessem um padrão de vida aceitável pelos Armbruster, eles não teriam dúvidas quanto ao facto de a Cathleen reunir condições para se casar com o filho. Na realidade, o Alan está muito apaixonado por ela. Esse não poria restrições de qualquer ordem. Contudo, os seus pais podem pensar de maneira diferente. Os Armbruster mostraram-se bem impressionados com os atractivos e graciosidade da minha irmã. O pai mandou-a para um colégio particular.

-Precisamente como eu fui educada - cortou Minna. - Só Deus sabe como as boas maneiras contam. ainda mais que o dinheiro, lá no sul.

- Mas não necessariamente a pobreza - observou o rapaz, sem disfarçar. - Lamento ter de dizer isto, mas é importante para os Armbruster que a Cathleen seja oriunda de boas famílias... querendo com isso dizer de uma família fina.

- Compreendo - anuiu Minna. Uma ruga cruzou-lhe a fronte, enquanto reflectia na situação. Começava a pensar como havia de providenciar para que a sobrinha e o sobrinho causassem a devida impressão aos Armbruster. - Diz-me uma coisa, como é que os conheceste?

O rosto de Cathleen iluminou-se e perdeu, por breves instantes, a sua timidez.

-Mr. Armbruster é um homem muito rico. Dedica-se à embalagem de carnes.

- Foi o que ouvi dizer - interpôs Minna.

-Está ansioso por obter uma boa posição social em Chicago, do género da que já têm esse tal Armour e o Swift. Uma vez que possuir uma coudelaria com cavalos de corrida é símbolo de prestígio, ele pensou em montar os seus próprios estábulos. Por isso é que foi a Louisville com a esposa, Pearl, e os dois filhos, o Alan e a Judith. Tencionava comprar os melhores cavalos do Kentucky. Alguém o mandou ter com o Bruce, por estar ao corrente dos melhores animais disponíveis.

O meu irmão até tem, ele próprio, três cavalos.

-Não são grande coisa - confessou Bruce. - Mr. Armbruster não se mostrou interessado neles, mas eu estava em posição de lhe indicar outros criadores.

-Tenho a certeza de que se mostrou agradecido - interrompeu-o Minna.  

-Na verdade, um dos meus potros é excepcional.      

Tem três anos e chama-se Frontier. Gastei boa parte do que ganhei como funcionário bancário, para o inscrever no American Derby de Chicago.       

-E porquê trazeres o Frontier todo o caminho até cá acima, para correr no American Derby? - quis saber a tia. - Porque não inscrevê-lo no Kentucky Derby, no teu próprio estado?  

- Por uma boa razão: dinheiro - respondeu Bruce.      

-O Kentucky Derby tem um prémio de menos de cinco mil dólares para o vencedor. O American Derby paga vinte e cinco mil, cinco vezes o da outra corrida. Ganhar um grande prémio ajudaria a família. Posteriormente,      

fui informado de que o Frontier não tem, pura e simplesmente, tamanho e força bastantes para correr o American     

Derby. Já tinha tomado providências para o despachar para aqui. Tenho agora esperanças de o vender, para fazer algum dinheiro.           

-Esperemos que sejas bem sucedido - disse  

Minna. Dirigiu-se a Cathleen. - Que forma mais romântica de conheceres o homem certo!     

-Sim, tia Minna. Vai adorá-lo. É quase tão altocomo o meu irmão. Quando nos conhecemos. foí amor à primeira vista para ambas as partes.     

- Encontraram-se muitas vezes em Louisville? - perguntou Minna.

-Quase todas as noites, durante um més, mas sempre na presença dos pais dele - respondeu Cathleen.            

-Simpatizaram comigo o suficiente para autorizarem que o Alan me pedisse em casamento. Quando souberam da existência das minhas tias ricas de Chicago, ficaram muito satisfeitos. O casamento está marcado para daqui a duas semanas, em casa deles. O Bruce e eu acabamos de chegar, esta manhã. Fomos primeiro arranjar um estábulo para o cavalo dele e depois viemos direitos aqui.

- Fizeram bem - disse Minna. - Terão toda a casa à vossa disposição, excepto um valoroso restaurante particular, que mantemos a funcionar para os nossos amigos.

- Foi com ele que ganharam o vosso dinheiro? - indagou Bruce.

-Deus do céu! Não. Depois de termos partido do Kentucky, herdámos uma soma bastante decente. Aconselhámo-nos bem no sentido de investirmos e obtermos bons lucros.

- Os Harmbroster estão ansiosos por a conhecerem a si e à tia Aida. ainda antes do casamento. Espero que disponha de tempo para se encontrarem.

- Hei-de arranjá-lo - anuiu Minna.

-Estão a contar que vamos todos almoçar a casa deles, depois de amanhã.

-A Aida e eu teremos muito prazer em vos acompanhar - concordou Minna, pondo-se em pé. Fez sinal a Cathleen e a Bruce para se deixarem ficar onde estavam.

144

- Esperem só um pouco, até eu tomar disposições para vos instalar. Teremos mais tarde uma ceia tranquila, no meu estúdio. De momento, há uns pormenores que exígem a minha atenção.

Depois de ter saído do Salão Dourado, Minna fez parar um dos criados no vestíbulo, para lhe perguntar se ele vira Edmund. Foi-lhe respondido que estava a limpar o pó à biblioteca e ela foi lá procurá-lo.

- Edmund - disse-lhe. - Sabes onde está a minha irmã?

-Sim, Miss Everleigh...

- Não se fala mais no nome Everleigh – cortou ela, com rispidez. -Pelo menos enquanto cá estiverem os meus familiares. No decorrer das próximas duas semanas, passaremos a ser Aida e Minna Lester. Estás ao corrente da situação, não estás?

-Miss Aida disse-me que afixasse um letreiro, que ela depois explicaria tudo.

-óptimo. Onde está a Aida neste momento?

-No Salão Japonês, com as meninas todas, Miss Lester. A dar-lhes as mesmas instruções que me deu a mim.  

-Obrigado, Edmund. Será melhor ir já para lá, a correr.

Ao chegar ao Salão Japonés, fez uma pausa para recuperar o fôlego e depois abriu de repente a porta, espreitando para o interior. Aida foi a primeira pessoa que os seus olhos viram. Estava sentada no cadeirão de teca esculpida, perante um amplo semicírculo, no       qual as meninas do Clube Everleigh, instaladas em divãs, cadeiras e almofadas, escutavam com atenção o que lhes dizia. A fonte de perfume do centro da sala encontrava-se desligada.

Após ter dirigido um aceno de boas-vindas a Minna a irmã recomeçou a falar.

- Agora que já sabem o que se está a passar e como iremos proceder, deixem que lhes resuma a situação, para que não haja enganos.

Minna decidiu intervir. Deu um passo para o interior do Salão Japonês e inquiriu:

-Aida. posso acrescentar umas palavrinhas?

- Com certeza.

Atravessou a sala e subiu ao estrado, para se colocar ao lado da outra. Dirigiu-se à irmã mais velha:

-O que combinámos tão à pressa apresenta algumas falhas. Agora que já falei com a Cathleen e o Bruce, pensei melhor e gostaria de rever os nossos planos.

- Como quiseres - concordou sìmpaticamente a outra. Minna virou-se para a pequena assembleia.

-Tenho a certeza que a Aida já lhes disse qual era o nosso plano inicial para esta crise. Bom, não me parece que dê resultado. Com tantas raparigas cá na casa, nós e os nossos familiares correríamos grande risco de uma escorregadela de língua da parte de uma de vós. Para além do mais, ser-nos-ia difícil fingir que todas pertencem ao espectáculo de variedades, uma vez que a maioria não sabe cantar nem dançar. Mas eu tenho uma solução de compromisso em mente.

Olhou de relance para Aida, cujo rosto exibia apenas a habitual expressão, graciosa e inescrutável. Voltou a dirigir-se às raparigas:

- Manteremos a sala de jantar em funcionamento. Disse aos nossos sobrinhos que se trata de uma sala reservada aos amigos mais ricos, um empreendimento lucrativo, que nos possibilita pagar uma parte das nossas despesas de manutenção. A Cathleen e o Bruce sabem que essa sala lhes está vedada. Não me agradaria tê-los a vaguear por lá, para ouvirem dizer a algum conviva embriagado que se trata, na realidade, de um bordel.

Quanto a vocês, meninas, creio que seis bastarão para dar espectáculo na sala de jantar. Nada de disparates para além disso. As outras poderão tirar férias na cidade. Receberão a importância correspondente aos vossos ganhos semanais médios. Terão possibilidades de se alojar em hotéis, ainda que lhes recomende que se abstenham de quaisquer actividades sexuais, por conta própria ou em outros bordéis, fazendo tudo o mais que vos apetecer. Procurem informar-nos, à Aida e a mim, do sítio onde se encontram, para que, se houver

necessidade, vos possamos localizar. Ora bem, têm alguma pergunta a fazer-me?

Uma ruiva chamada Cindy ergueu a mão.

-Quem fica aqui e quem são as que vão de férias?

-Muito bem - disse Minna. - Vou indicar os nomes das seis de vós que ficarão a receber os convidados na sala de jantar. As restantes ir-se-ão embora ainda esta noite. A Aida e eu, com o auxílio do Edmund, arranjar-vos-emos quartos de hotel. As seis que cá permanecerem são: tu, Cindy, a Margo, a Belle, a Phyllis, a Pagmar e a nova moça que acabo de contratar para substituir a Fanny... tu, Karen. As outras que aproveitem bem o período de folga e regressem aqui dentro de duas semanas a contar de hoje. Boa sorte.

No dia seguinte, uma vez que tivera a tarde livre, Karen Grant telefonou ao Mayor Carter Harrison, pedindo-lhe para a receber.

Uma hora mais tarde, estava sentada diante dele, no gabinete da Câmara.

- Espero que tenha boas notícias - disse Harrison.

-Ainda não. mas tê-las-ei em breve. Vai haver um ligeiro atraso, até que lhe consiga obter quaisquer provas em concreto.

-Que quer dizer com isso?

Karen prosseguiu:

-Acabara de me ser dito que aguardasse um visitante masculino, quando se verificou uma intromissão inesperada. Chegaram do Kentucky dois jovens familiáres das irmãs Everleigh, um dos quais, uma sobrinha, se vai casar com o filho de um proeminente homem de negócios.

- Continue.

-Bom, mandaram-os a ambos ficar em casa das tias. Disseram-lhes que as irmãs Everleigh são figuras da sociedade altamente colocadas. No intuito de impedir que o sobrinho e a sobrinha venham a saber o que as tias realmente fazem, todos os serviços sexuais do Clube foram cancelados. Durante duas semanas, a casa não será mais que um legítimo lar e restaurante.

-Duas semanas! Quer dizer que, até essa altura, não conseguirei dispor de provas de que se trata de um bordel?

-De nenhuma espécie, Mayor. Deixe-me explicar-lhe a situação...

Cautelosamente, Karen rememorou o que ouvira dizer a Aida e Minna, esforçando-se por repetir aquilo de que se recordava.

- E aí tem - disse, recostando-se na cadeira. Um hiato.

-De momento, um hiato.

-Sim, até ao dia a seguir à boda. Os parentes ir-se-ão embora e o Clube Everleigh recomeçará a funcionar como bordel. Por isso, o tempo joga a meu favor.

Quer que volte a dedicar-me parcialmente ao meu trabalho de secretária?

-Não, meu Deus - respondeu prontamente o Mayor. - Nem quero que a vejam por perto do meu

gabinete. Deverá manter-se no Clube, passando as noites no papel de empregada de restaurante e conservando-se alerta. Assim que chegar a altura e obtiver as

provas, informe-me imediatamente e eu encerrarei o Clube Everleigh para todo o sempre. Karen, eu tenciono ganhar esta batalha.

-E há-de ganhar, garanto-lhe.

- Não procure contactar-me, nem corra riscos.

Limite-se a aguardar, importa-se?                     

-De maneira nenhuma. O Clube  Everleigh, seja qual for a vergonha que oculta, é, tenho de confessar, um lugar fascinante para se estar. O mais faustoso lugar      que o senhor já viu na sua vida. Não me importo nada de lá ficar a descansar. E a própria Minna Everleigh é uma pessoa com interesse. A propósito, o seu verdadeiro nome é Minna Lester. A sobrinha e o sobrinho chamam-se Cathleen e Bruce Lester. - Pegou        na sua malinha. - Manter-me-ei de olho em todos eles. Da próxima vez que nos encontrarmos, espero ser portadora de boas notícias.

Saiu do gabinete do Mayor e desceu as escadas para o átrio. Ia a encaminhar-se para as portas de saída, quando um jovem, um rapaz alto e elegante, a interceptou. - Desculpe, minha senhora - disse ele, com modos corteses. - Será por acaso Miss Karen Grant?                       

Sobressaltada, respondeu:

- Sou, porquê?                    

- O meu nome é Bruce Lester – esclareceu o rapaz, apresentando-se. - Sou sobrinho da Minna Lester.             Karen sentiu-se momentaneamente abalada.

- Minna Lester? Pois claro - proferiu titubeante.

-Vi-a ontem de passagem e de novo esta manhã, em casa da minha tia.            

- Eu... eu recordo-me de o ter visto.

-Você trabalha para a minha tia Minna, fazendo parte do pessoal do restaurante.

- Sou recepcionista - corrigiu-o ela. - Conduzo os clientes aos seus lugares e ajudo-os a escolherem no menu. E o senhor. o senhor está em Chicago para

escoltar a sua irmã até ao dia do casamento, não é?

-Sim. O meu pai, lá no Kentucky, disse-nos que viéssemos para casa das suas irmãs, aqui em Chicago, portanto foi isso que fizemos. Na verdade, escoltar a minha irmã não é a única razão para cá ter vindo.

- Ah, não?

-Tenho uma modesta coudelaria, com três cavalos

de corrida, e estou aqui com o intuito de, eventualmente,

vender un.

-Um destes dias, gostava de saber mais sobre esse assunto -, retorquiu ela. - Sinto-me fascinada por cavalos de corrida.

Bruce ficou extasiado.

- É maravilhoso - disse. – Também gostaria de lhe contar mais coisas, não um destes dias, mas agora mesmo. Já almoçou?

- Ainda não.

-Nem eu. Importar-se-ia de me fazer companhia?

O olhar dela encontrou o de Bruce.

-Teria muito prazer.

-A caminho da Câmara, passei por uma casa chamada Casa das Costeletas do Bill Boyle. Uma tabuleta dizia que as costeletas de cordeiro são a trinta e cinco cêntimos, portanto deve ser uma          óptima casa.

Conheçe-a?

- Conheço. - Já lá tinha ido diversas vezes. Era um dos lugares favoritos para os vereadores do Mayor Harrison almoçarem. - Vamos ao Boyle. - Ao saírem do átrio, semivoltou-se para Bruce. - A propósito, que é que veio fazer à Câmara Municipal?

-Ver o edifício. É a minha primeira visita a Chicago. E você, que estava aqui a fazer?

Pensou com rapidez.        

-Só entro de serviço no restaurante à hora da jantar. Por isso, decidi visitar uma rapariga minha amiga, que acaba de arranjar um emprego como secretária.

- Anida bem que viemos cá ao mesmo tempo disse Bruce, tocando-lhe no cotovelo e conduzindo-a para a saída.

A Casa das Costeletas do Boyle ficava a curta distância mas, para Bruce Lester, foi sobretudo um passeio em silêncio, tão subjugado estava pela sua formosa companheira.       

Uma vez lá dentro e sentado diante de Karen, esforçou-se por recuperar a fala, ao dar as suas ordens ao empregado de mesa. Mandou vir costeletas de cordeiro para ambos e, quando Karen disse que queria um fino, pediu outro para si próprio.

Depois de o empregado se ter afastado, dirigíu-se à rapariga:

-Adoro a casa das minhas tias, o que dela vi, mas acho o restaurante uma coisa bastante esquisita. Qual a razão para funcionar um restaurante naquela casa?

- Que eu saiba - respondeu ela - as suas tias são duas senhoras solteiras. Consideram embaraçoso convidar cavalheiros, portanto o restaurante torna-lhes mais fácil receber amigos em sua casa. Por outro lado, ainda que a Minna e a Aida sejam senhoras de posses, aquela mansão é dispendiosa de manter, dia após dia, e o restaurante proporciona-lhes certos rendimentos que lhes são úteis.

Bruce abanou a cabeça.

-Continuo a achar bizarro misturarem negócios           com prazer. Como é que arranjou lá emprego?

-Vi um anúncio a pedir uma recepcionista para um restaurante. Tive receio que se tratasse de qualquer coisa... bem, menos decente...    

- Quer dizer, como uma cobertura para escravatura?

-Nada de tão terrível. Mas, mesmo assim, candidatei-me ao lugar. Quando a Minna Lester me entre vistou, apercebi-me de que ela era uma senhora, sendo genuíno o seu desejo de contratar uma recepcionista.

Acabei por começar a trabalhar há alguns dias.

- E quais são as suas funções?

- Tal como já lhe disse - respondeu Karen - é só sorrir com simpatia à chegada dos convivas, conduzi-los a uma das saletas para tomarem bebidas, levá-los a seguir às respectivas mesas, entregar-lhes os menus, fazer sugestões, talvez tagarelar um pouco, para os fazer sentirem-se em casa.

-Só isso? Alguma vez um deles se mostrou atrevido?

-Não muito. A Minna nunca mais os voltaria a receber. É muito severa quanto a isso.

- Mas você só trabalha à noite - observou o rapaz. -O que lhe deixa as manhãs e as tardes livres. Espero que não se importe de gastar algum do seu tempo a mostrar- me Chicago. Ou também é nova na cidade?

Ela sorriu-se.

-Já sou veterana. E terei muito prazer em lhe mostrar a terra.

Aguardaram em silêncio, até lhes serem servidas as cervejas.

Depois de cada um deles ter bebido um gole, Karen recomeçou a falar:

-Primeiro, terá você de me mostrar uma coisa: o cavalo que trouxe consigo.

- Terei muito gosto em o fazer - concedeu Bruce.

- O Frontier é o que há de mais bonito e veloz. Vai adorá-lo. Só há um problema. Antes de sair da Kentucky, inscrevi-o no American Derby. Acho que estava a querer enriquecer com rapidez. Mas quando ontem o levei ao Parque Washington para lhe alugar um estábulo, descobri que o Frontier é pequeno de mais para fazer

alguma coisa de jeito no Derby. Portanto, suponho que terei mesmo de o vender.

- Não faça isso enquanto eu não o vir.

-Não farei, não farei. Na verdade, até a convidaria para ir amanhã vê-lo ao Parque Washington, mas não posso, porque tenho outro compromisso, e importante, ao que me parece.

Karen franziu brevemente o sobrolho.

- Um compromisso?

- Não se trata daquilo que possa pensar - disse ele apressadamente. - Eu não estou interessado em nenhuma outra mulher, agora que a conheci.

-Mas que lisonjeiro!

-Falo a sério, Karen. Nunca conheci uma mulher como você.

-Muito obrigada. Fale-me do seu compromisso.

- É na casa dos futuros sogros da minha irmã, para almoçar. As tias Minna e Aida e eu devemos acompanhar a minha irmã Cathleen, para discutirmos o casamento, após o almoço. Os Armbruster querem estabelecer planos para a cerimónia, que é dentro de duas semanas.

- Já os conhece? - quis ela saber.

-Conheci-os no Kentucky, quando estavam a pensar meter-se no negócio da criação de cavalos.

-E que acha deles?

Bruce Lester franziu o nariz.

-O Alan é bom moço. Os restantes, Harold T. o pai, Pearl, a mãe, e a filha de ambos, Judith, são horrorosos.

-Espero que consiga sobreviver a esse almoço.

- Terei de conseguir - disse ele com simplicidade.

-Porque quero voltar a vê-la.

As costeletas de cordeiro foram servidas, mas eles ignoravam os seus pratos.

- Acha que vejo? - acrescentou Bruce.

- Tantas vezes quantas desejar, Bruce.

- Nesse caso, marquemos encontro para depois de amanhã.

Nessa noite; Minna levou o Dr. Herman Holmes para o Salão Azul do Clube Everleigh.

Já familiarizado com a juvenil e académica sala, Holmes acomodou-se em cima das almofadas de um sofá de couro azul, enquanto ela puxava uma cadeira para perto do médico.

Minna telefonara antes ao clínico, insistindo em que ele se deslocasse ao clube, a fim de falarem sobre um assunto de carácter pessoal.

- Nunca vi esta casa tão deserta - comentou Holmes, após ela se ter sentado na sua frente.

- Existe uma razão para estar assim – respondeu Minna - e foi por isso que o convoquei esta noite, para lhe falar no assunto. Contratei-o, por me terem assegurado que era uma pessoa merecedora de confiança. Terei agora de confiar ao máximo em si.

-Avisou-me de que se tratava de um caso pessoal e é assim que continuará a ser.

- Muito bem - disse ela. - O que aconteceu foi o seguinte: tenho uma adorável sobrinha, a Cathleen, filha do meu irmão do Kentucky. É uma perfeita inocente.

Conheceu há pouco tempo, em Louisville, o filho de um proeminente negociante de carne enlatada de Chicago.

O nome do rapaz é Alan Armbruster, único filho varão de Harold T. Armbruster.

-Refere-se ao milionário das carnes enlatadas? indagou Holmes.

- Esse mesmo. Seja como for, o Alan apaixonou-se pela minha sobrinha, ficaram noivos e vão casar dentro de duas semanas. Fui informada do casamento, mas não percebi que o meu irmão esperava que a Cathleen, bem como o filho dele, o Bruce, ficassem com a Aida e comigo.

- Estão aqui? - exclamou Holmes, surpreendido.

Como é que a senhora se poderá arranjar?

- Não posso e... posso - respondeu ela. - O meu irmão, Charlie, nunca esteve em Chicago. Não tem a            menor ideia daquilo a que Aida e eu realmente nos dedicámos. Acredita; como o levámos a crer desde o inicio, que a minha irmã e eu fizemos fortuna por meio de investimentos, comprámos esta mansão e pertencemos à melhor sociedade de Chicago. Por conseguinte, pareceu-lhe razoável mandar a sua filha e o seu filho para nossa casa, até ao casamento.

Holmes estava genuinamente espantado.

- Mas eles vão descobrir num instante o que aqui se passa!

- Não tenciono permitir que descubram – replicou Minna. - Limpei praticamente o clube. Dei férias à maioria das meninas e conservei seis delas por cá, a fim de servirem de recepcionistas na sala de jantar. Avisei toda a gente do meu problema, incluindo os criados.            

Agora, achei que também era necessário telefonar-lhe a si. Não pode haver buracos.

-Conte com o meu silêncio, Minna. Sabe bem que pode contar.     

- Durante as próximas duas semanas, eu chamo-me Minna Lester e a minha irmã é a Aida Lester. São os nossos nomes de solteiras.

- Com certeza. - Holmes contorceu-se no sofá.           

- Que devo fazer entretanto?        

-Não pôr os pés no Clube Everleigh, até ser cá           chamado. Continuará a receber os seus honorários, para ver as minhas raparigas que foram mandadas de férias.         

Dar-lhe-ei uma lista dos hotéis onde se vão esconder.

Continuará a examiná-las. Quero ter a certeza de que           não estão a trabalhar por conta própria e a contaminarem- se.

Holmes ficou satisfeito.

-Parece-me bastante justo.

Minna ergueu-se.

-Venha comigo. Vamos tomar uma bebida no meu estúdio.

Às onze e trinta da manhã seguinte, os quatro Lester, metidos no novo Ford de Minna, subiram a Avenida da Margem Norte ao longo das águas tranquilas do Lago Michigan, viraram para a Avenida do Parque do Lago e atravessaram portões de metal. A vereda semicircular, que se estendia à frente deles. conduzia à entrada da mansão de tijolo que era o lar de Harold T. Armbruster.

Tinham passado a manhã a vestir-se para aquela ocasião crucial.

Como habitualmente, Minna era a que ia mais vis tosamente arranjada. Levava uma gargantilha de diamantes, uma faixa revestida de esmeraldas na cintura, um vestido comprido de rica seda azul, quatro pulseiras de diamantes a tilintarem-lhe num dos pulsos. Aida ia vestida de forma semelhante, mas usava apenas um colar de pérolas que pertencera a sua mãe. Cathleen, como convinha à sua idade e condição virginal, era a que se vestira com mais simplicidade. com uma blusa de linho branco plissado e uma saia castanha. Bruce ia elegantemente vestido, com um chapéu de palha, colarinho de celulóide, um novo laço de pescoço negro, que lhe custara vinte e cinco cêntimos. e uma dispendiosa camisa de setenta e cinco cêntimos, que adquirira nos Mandel Brothers.

Tinham-se comprimido no automóvel, já que necessitavam de deixar espaço para Edmund, que o conduzia. Ao descerem do Ford, Minna abriu caminho pela escadaria de mármore acima.

Introduzidos por um mordomo no vestíbulo, os convidados foram recebidos, na pomposa sala de estar, por Harold T. Armbruster em pessoa. Estava flanqueado pela pesada e atarracada esposa, Pearl, e pelos seus dois rebentos. Judith Armbruster parecia-se um tanto com Abe Lincoln, achou Minna, o que não era nada mau para Lincoln, mas nada bom para uma rapariga casadoira na casa dos vinte. Alan, por outro lado, embora acima da altura média e com aparência de bastante forte, possuía uma vaga característica etérea, que o assemelhava Keats. Minna simpatizou de imediato com o rapaz.

Cathleen foi saudada por Armbruster e pela esposa com apertos de mão. Alan cumprimentou-a mais calorosamente, com um casto beijo na face. Depois, a rapariga apresentou as tias, Minna e Aida Lester, em casa de quem ela e Bruce ficariam, enquanto permanecessem em Chicago.          

- Muito bem, muito bem - ribombou Armbruster           - somos um belo grupo. - Depois, dirigindo-se a Minna, disse: -A Cathleen contou-nos que a senhora e a sua irmã são figuras proeminentes nos círculos sociais locais. Não consigo recordar-me de as ter já encontrado.   

- Porque não aparecemos muito - respondeu ela.      

-Dedicamo-nos a empreendimentos artísticos e obras           de caridade. Seria correcto dizer-se que vivemos como reclusas, duas viúvas solitárias.

- É pena - replicou Armbruster. - As senhoras são ambas demasiado atraentes para estarem retiradas da sociedade. Para as fazer sentirem-se mais em vossa

casa. talvez queiram ver a nossa, não?            

Caminhou vagarosamente à frente dos outros, conduzindo o seu grupo numa visita aos compartimentos do andar inferior. Compreendiam um salão de baile. Que poderia muito bem ser convertido em teatro. Várias saletas. Visitaram a sala de música, que continha um piano de pau-rosa. Bastante grande, pensou Minna, mas de forma alguma comparável ao seu próprio piano de ouro. que tinha no clube. Chegaram finalmente a uma enorme biblioteca, mobilada com mesas de leitura em ébano, importadas, dotadas de incrustações de ouro.

Viam-se alguns livros pela sala. As paredes estavam cobertas, na sua maioria, por tapeçarias Gobelin e. De modo incongruente, achou Minna. um enorme quadro, representando uma cena dos cercados para gado pertencentes ao próprio Armbruster.

Insistindo para que todos repousassem nos sofás Império Francês da biblioteca. o dono da casa tocou uma campainha. Surgiram de imediato uma criada e um mordomo. a primeira para oferecer pâté de foie gras, o segundo para servir Veuve Clicquot.

Sorvendo a sua bebida, Armbruster disse:

-Pensei que poderíamos conversar um pouco antes de almoçarmos. para nos ficarmos a conhecer melhor.

- Por onde devemos principiar? - indagou insolentemente Minna.

- Pelo casamento da vossa sobrinha com o nosso filho Alan, parece-me a mim - retorquiu ele. - O salão de baile que acabaram de visitar é onde deverá ter lugar a cerimónia. Já garanti os serviços de um ministro luterano, se for do agrado da Cathleen.

- Eu sou Baptista - afirmou a rapariga.

-Não importa - contrapôs decididamente Armbruster. - Todos rezamos ao mesmo Deus. não é assim?

- Acho que é - anuiu Cathleen em voz débil.

-Receberemos duzentos convidados, as pessoas mais importantes de Chicago. Presumo que tenha trazido o seu vestido de noiva. Cathleen?

Minna encarregou-se de responder:

-Tem um vestido amoroso, de renda branca e cetim, que a Aida e eu lhe escolhemos no Marsh Field's. Falta-lhe apenas ser ajustado.

- Isso é capital - exclamou Armbruster. - O casamento será formal, é claro, por se tratar de uma ocasião especial para além da cerimónia em si. O Príncipe Henrique da Prússia estará nessa data em Chicago e eu vou desenvolver todos os esforços, no sentido de o levar a comparecer ao casamento, na qualidade de convidado de honra.    

- Ele já aceitou? - inquiriu Minna.           

-Creio que o Mayor Harrison acaba de apresentar o programa do príncipe de Chicago aos seus ajudantes, que se encontram em Washington. Devo ter a confirmação ainda antes de o príncipe e o seu grupo chegarem aqui de comboio, vindos de Nova Iorque. Restam-me poucas dúvidas de que ele vai ter muito prazer

em ser o convidado de honra no banquete que haverá em nossa casa.

- O senhor vai meter uma lança em África – disse Aida, erguendo a voz.

- Mais do que isso, mesmo muito mais - declarou Armbruster, esfregando as mãos secas. – Vou falar-lhes de outra coisa que o será: na verdade, sê-lo-á para todos nós. - Virou-se, para se dirigir a Bruce. -            A minha filha Judith, Bruce, tem insistido comigo para o trazer para a minha firma, após o casamento da sua irmã. quando já for da família.       

O rapaz pestanejou, apanhado desprevenido.

-O senhor... o senhor é muito generoso, Mr. Armbruster - balbuciou. - Eu... eu não tenho a certeza do que quer dizer com isso... com isso de após o casamento da minha irmã com o seu filho.

O outro soltou uma gargalhada.

- Mais que isso, muito mais - disse-lhe. – Pude verificar, lá no Kentucky, que a Judith simpatizou bastante consigo. quase não se passou um dia, desde o nosso regresso a Chicago, em que ela não tenha referido o seu nome.

Judith corou e soltou uma rísadinha.

-Oh, Pai...

Armbruster ignorou-a, continuando a falar para o rapaz:

- Eu também estive de olhos postos em si, Bruce, quando se encontrava na companhia da Judith, e reparei que se mostrava bastante atencioso com ela.

-Tinha obrigação disso - interveio apressadamente Minna. - É um cavalheiro sulista.

-Bem, penso que não terá dificuldade em tomar uma decisão, Bruce. Quanto a mim, gostaria que o Príncipe Henrique disfrutasse de uma rara experiência, um belo casamento duplo. Após isso, estou certo de que o poderia meter na firma. Torná-lo-ia um homem rico, meu jovem.

- Na sua companhia de carne enlatada? - conseguiu perguntar o rapaz.

-Na posição de meu vice-presidente.

- O senhor é muito generoso - disse Bruce. – Só tenho uma objecção a fazer.

- E qual é? - quis saber Armbruster.

- Estou a pensar em tornar-me vegetariano.

O outro mostrou-se intrigado.

- Vegetariano? Não sei bem se...

-Quer dizer abstenção completa de alimentos de origem animal - interpôs Minna.

Bruce continuou a dizer:

-Na noite passada, descobri novos artigos sobre A Selva, de Upton Sinclair, na biblioteca da tia Minna,

Li-os. - Principiou a citar a parte que se referia à indústria de enlatados de carne. Iniciada de imediato a sua jornada, o porco não voltou mais atrás; chegado ao alto

da roda, foi desviado para cima de uma vagoneta e lá se foi, a navegar pelo espaço adiante... depois, preso por uma das patas, a pontapear com firmeza eguinchar. Ouviram-se gritos agudos e graves, grunhidos e latidos de agonia. quando o animal foi brutalmente abatido. para ser convertido em costeletas de porco e em bacon. Isso, Mr. Armbruster, incomodou-me tremendamente.

O rosto do dono da casa pôs-se vermelho. Quase apoplético.

- Upton Sinclair! - rugiu. - Esse anarquista. empenhado em destruir o sistema de livre competição, afirmando que alguns dos meus operários caem na máquina e saem de lá transformados em fiadas de salsichas.

Não passa de um anarquista!

Minna procurou acalmá-lo.

-Mr. Armbruster, olhe que me parece que o Upton Sinclair não está sozinho. Existem vegetarianos que vão do Emanuel Swedenborg ao Percy Bysshe Shelley e ao Conde Leon Tolstoy.       

- São todos uns anarquistas! - sibilou Armbruster. - Eu não poderia conceber um vegetariano metido na minha companhia. - Fitou Bruce. encolerizado. Você não pode estar a falar a sério. Talvez isso não passe de uma manifestação imatura de excentricidade.

- Pode muito bem ser que sim - admitiu vagamente Bruce.

- Tenho a certeza que é - insistiu o outro. - Depois de jantar, terá ocasião para uma conversinha com a Judith. Talvez ela o convença. com mais facilidade do que eu: Pode ser que o ajude a rectificar os seus pontos de vista. O que me faz lembrar... - pôs-se em pé com dificuldade. - O almoço está servido. - Piscou o olho a Bruce. - Sei que a Pearl preparou bife à cervejaria e salada. Acha que se poderá haver com isso?

Bruce levantou-se.

- Direi que sim em relação à salada - replicou. - Decidir-me-ei quanto ao bife, assim que o tiver na minha frente.

Erguendo-se, Minna disse para si mesma que precisava de pôr travões ao sobrinho. Uma vice-presidência da Companhia Armbruster não era coisa para se recusar de ânimo leve. em especial quando o seu irmão estava perante a hipótese de falência, lá no Kentucky. Claro que o preço a pagar pela sinecura não consistia apenas em renunciar ao vegetarianismo. mas também em desposar Judith. Concluiu que teria de dedicar ao assunto um mais dilatado período de reflexão.

Enquanto Armbruster lhe tomava o braço, para a conduzir à sala de jantar, teve o pressentimento de que todo o serviço que ia ver seria de prata de lei.

Já lá dentro, soltou um suspiro. Cada peça era mesmo daquele metal.

Nessa noite, no Clube Everleigh, Bruce Lester e Karen Grant sentaram-se juntos num sofá.

Ele ousara tomar-lhe a mão e a rapariga não tinha oposto resistência. Bruce continuou a narrar-lhe a sua aventura em casa de Armbruster.

- E comeu o bife? - quis saber ela.

-Mordisquei-o, para não o ofender.

- Mas abordar o tema do vegetarianismo em casa de um negociante de carnes enlatadas... – observou Karen. - Falava mesmo a sério quando disse aquilo?

Bruce encolheu os ombros.

- Quanto a tornar-me vegetariano, na verdade não sei, Karen. O que sei é que tive vontade de ofender o armbruster. É um homem tão grosseiro!

- E como é que conseguiu resistir à oferta de uma vice-presidência, estando o seù pai com tantos problemas e você a necessitar de dinheiro?

Bruce coçou a testa.

- Não foi fácil - admitiu. - Mas também ainda não lhe falei no preço que teria de pagar para me tornar vice-presidente do Armbruster.

E qual era?

-Teria de entrar para a família. Casar com a filha dele, a Judith.

Karen estudou o homem que tinha a seu lado.

-Bem, e por que não?

- Para começar, porque não a amo. Além disso, por quem estou interessado é por você. E aí tem porquê, Karen. Tenho a certeza do que estou a dizer. Quero-a a si.

Ela apertou-lhe com força a mão.           

- E eu, Bruce, também o quero.

Ele inclinou-se e beijou-a nos lábios. A rapariga abraçou-o, retribuindo-lhe o beijo.

Depois de se terem separado brevemente, ela disse-lhe:

-Foi delicioso. Mas, Bruce, tens de ser prático.

Que vais fazer em relação ao dinheiro?            

-Vou amanhã ao Parque Washington,    vender o Frontier. Isso deve proporcionar-me o suficiente para me conservar à tona de água.

-Espero bem que sim.

- Vem comigo e veremos o que acontece.       

 

Tendo alcançado a porta principal da Câmara, que dava para a Rua Washington. Harold T. Armbruster consultou o relógio e constatou que chegara a tempo. Penetrou no átrio de mármore e dirigiu-se para os recentemente instalados elevadores, dizendo ao ascen sorista que lá prestava serviço que desejava ir às insta lações do Mayor Carter Harrison, situadas no terceiro piso. Após a lenta ascensão, saiu para o corredor e encaminhou-se para o gabinete.

Foi recebido na antecâmara por um jovem que o deixou ali. para ir informar o Mayor de que tinha chegado. Regressou momentos mais tarde, para o guiar através dos escritórios vazios e introduzir no impressionante santuário do Mayor.

Este encontrava-se já de pé e com a mão estendida. Armbruster apertou-lha com impaciência.

- O senhor queria falar comigo. - disse.

-Sim, sim, faça o favor de se sentar. Armbruster sentou-se no rebordo de uma cadeira, diante da secretária, enquanto Harrison se instalava no seu cadeirão de couro de costas altas. A convocatória dele já era esperada e o negociante sentia-se ferver de curiosidade.

O Mayor remexeu nuns papéis e ergueu a cabeça.

-É sobre esse assunto da visita do príncipe Henrique a Chicago.

-Eu já esperava que o senhor tivesse novidades para me dar - retorquiu o outro: - Ele não mudou de itinerário. pois não?

-Não, virá aqui, exactamente como estava previsto. Uma manhã, uma tarde e uma noite. antes de regressar a Nova Iorque e à Alemanha no dia a seguir.

-Bom, informou-o do casamento e do banquete em minha casa?

O Mayor acenou afirmativamente.

-Até certo ponto.

-Que quer dizer com isso?

- Tive de me sujeitar ao protocolo - respondeu Harrison. - Esbocei um programa, com a colaboração do meu pessoal, cobrindo todas as horas da estadia do príncipe em Chicago. Inclui as bodas do seu filho e o banquete que se lhes seguirá. Depois. ainda observando o protocolo, como me aconselharam, enviei esse plano para o Embaixador da Alemanha em Washington D. C. Quero que o veja, para que saiba que cumpri fielmente as promessas que lhe fiz a si.

Semi-ergueu-se e entregou uma folha de papel ao outro homem.

O negociante de carnes enlatadas estudou o papel.

Dizia assim:

PROGRAMA OFICIAL DA VISITA DO PRiNCIPE HENRIQUE

  1. 30 Chegada à Union Station.
  2. 30 Visita ao Parque Lincoln.
  3. 00 Festival de Música Coral, no Primeiro Regimento de Abastecimentos.
  4. 30 Almoço no Clube GermÂnia.
  5. 00 Recepção na Câmara, com o Mayor Harrison e a Vereação.
  6. 00 Banquete de Cerimónia. na residência de Mr. e Mrs. Harold T. Armbruster, para comemorar a visita do príncipe, bem como o casamento de Mr. Alan Armbruster com Miss Cathleen Lester.

Satisfeito, Armbrustèr pousou o programa em cima da secretária do Mayor.

- Tratou de tudo como deve ser - comentou. Mas ainda não me disse qual foi a reacção do príncipe.

-Precisamente por essa razão é que quis falar consigo - respondeu o outro. - Obtive uma espécie de reacção. mas da parte do Embaixador da Alemanha e não do príncipe Henrique. Quero que a leia.

Passou-lhe outra folha por cima da secretária. Armbruster pegou-lhe. O papel, mais consistente, apresentava uma suave superfície algodoada e era mais espesso do que aquele onde constava o programa. osten tando em relevo no cabeçalho o endereço da Embaixada Alemã. Leu-o com toda a atenção:

Caro Mayor Carter Harrison:

Tenho o maior prazer em acusar a recepção do programa, que esboçou. para a visita de dois dias do principe Henrique da Prússia à sua famosa metrópole.

Naturalmente, Sua Alteza desejará ir colocar uma coroa de flores junto do Monumento do Parque Lincoln. Encarará seguramente com agrado o almoço no Clube Germânia, ciente como está de que a cidade de Chicago possui a sexta maior população alemã de todo o mundo.

Quanto ao resto do programa, incluindo a sua recepção no edifício da Câmara e o banquete do qual serão anfitriões os distintos Mr. e Mrs. Armbruster, apenas posso presumir que o príncipe se sentirá muito honrado e agradado. Contudo. ainda não conheço a sua reacção oficial a tais planos, já que é ainda muito cedo para ter recebido notícias suas.

Enviei o seu programa a Berlim; por correio diplomático, e espero ter, muito em breve, a resposta do principe Henrique, certamente ainda antes da sua chegada a Chicago.

Mantê-lo-ei ao corrente de posteriores novidades.

Com os meus melhores cumprimentos me subscrevo,

De V. Ex.

Atentamente, Hans Schulter (Embaixador)

Armbruster releu a carta e depois, sacudindo a cabeça, atirou-a para cima da secretária do Mayor.

-Acusa a recepção. mas não nos diz o que quer que seja.

- Por enquanto aínda não - anuiu Harrison. procurando acalmar o outro-mas dá-nos a indicação de que o embaixador espera que o príncipe Henrique aprove todo o nosso programa, incluindo as suas festividades.

- Pode ser que tenha razão - concordou Armbruster, algo tranquilizado. - Mesmo assim, o próprio príncipe ainda não deu a sua aprovação. Terá de me informar imediatamente, no momento em que tiver notícias dele. Ao fim e ao cabo, Mrs. Armbruster e eu precisaremos de tomar providências especiais e mais elaboradas. no caso de termos um convidado real.

O Mayor Harrison ergueu as mãos.

-Que lhe posso dizer, Mr. Armbruster? Sei apenas aquilo que o senhor leu na carta do embaixador, isto é. que ele aguarda notícias do príncipe Henrique. antes da sua chegada a Chicago.

-As quais poderão ser no sentido de cortar tudo.

-Não me parece. para falar com franqueza, que o senhor tenha motivos para recear, Mr. Armbruster. O príncipe só pode ter ficado satisfeito com o seu con vite. Pressinto que poderá avançar e agir conforme o planeado.

- Óptimo - replicou o outro, pondo-se em pé. Aceitarei a sua opinião a tal respeito e vou proceder de acordo com ela.

O Mayor levantou-se igualmente.

-Ainda tenciona apresentar a sua solicitação ao príncipe?

-A minha solicitação? Ah. refere-se a manifestar-lhe o meu desejo de ser o próximo Embaixador na Alemanha?

- Precisamente.

-Vou ser inteiramente franco consigo, tal como fui da primeira vez que abordei esse assunto -respon deu Armbruster. - Ainda que a presença do príncipe em minha casa venha a melhorar nitidamente a minha posição social em Chicago, é igualmente importante para mim que ele se sinta agradecido à minha pessoa, na qualidade de seu anfitrião, e que arranje ocasião para conversar comigo a sós.

- Estou a compreender - disse Harrison em tom amistoso.

- Quero chamá-lo à parte. Para lhe meter na cabeça a ideia de que tenho qualificações para embaixador e fazer-lhe saber como estou desejoso dessa posição. Obviamente, ele não poderá desempenhar nenhum papel decisivo nisso, excepto influenciar o Kaiser, que estará então em posição de fazer saber à Casa Branca que eu seria bem acolhido em Berlim. Estarei errado ao partir desse princípio?

- De maneira nenhuma, nem um pedacinho - respondeu o Mayor, conduzindo-o à porta. O senhor dispensa atenções para com as pessoas e espera depois que elas lhas retribuam. O mundo é assim.

- Fico aliviado por o ouvir dizer isso. Agradeço-lhe muito e peço-lhe que se mantenha em contacto comigo.

- Fez uma pausa. - Entretanto, desejo-lhe sorte na sua campanha reformista. Concordo que é necessário ter Chicago limpa como um brinco, no dia em que o príncipe Henrique cá chegar.

Encontravam-se na zona dos estábulos da velha pista de corridas do Parque Washington, alguma distância atrás da tribuna de madeira de duas bancadas. Bruce

Lester e Karen Grant conduziram um proprietário de cavalos, de nome Robert Clifford, até ao compartimento mais afastado. onde o potro do rapaz, Frontier, estava      a ser alimentado.

Clifford era o quinto (e último) potencial comprador a quem Bruce mostrava o animal. Dos quatro primeiros, três não se haviam mostrado interessados e um oferecera uns magros trezentos dólares.

- Aqui o tem, Mr. Clifford - disse o rapaz, introduzindo o homem no estábulo. - Uma beleza, não acha?

Clifford manteve-se afastado. a observar o cavalo.

-Bastante pequeno para três anos de idade. Está subalimentado?

-Alimentei-o bem - rugiu Bruce. - E olhe que é forte.

O homem contornou o simpático potro castanho, acariciando-lhe o lombo. detendo-se depois para lhe examinar as patas.

- Pequeno - voltou a dizer. - E delicado. ao que me parece.

- Forte - insistiu Bruce.

O outro extraiu do bolso um cartão. que se pôs a estudar.

-O registo de criação não promete grande coisa.

-A mãe fez figura no Futurity. (')

- Um pobre terceiro lugar - comentou Clifford. - Sei lá. Não creio que ele venha a ser grande cavalo de corrida: Poderia usá-lo para reprodução. Acho que posso fazer-lhe uma oferta de quinhentos dólares.

- Só isSo?

-Nem mais um cêntimo.

Karen chamou Bruce à parte.

- Não aceites, Bruce. Há-de aparecer outra pessoa.   O rapaz regressou junto de Clifford.

Não sei. Gostava de reflectir mais um pouco,   antes de tomar uma decisão.

- Então decida-se, jovem - disse-lhe o outro. - Partirei de Chicago três dias depois do Derby.

- Dar-lhe-ei uma resposta por essa altura - prometeu Bruce.

Quando Cliford se foi embora, Bruce e Karen ficaram para trás, no estábulo.

Enquanto observava o seu cavalo a mastigar feno, o rapaz disse:

-Ainda que o vendesse, o preço de compra não poderia subir muito mais. Não é o suficiente para recomeçar a criação por conta própria. lá no Kentucky.

Karen fitou-o.

-Queres dizer que terás de aceitar o lugar junto do Armbruster. e o mais que se lhe seguirá?

- Ainda não estou a afirmar uma coisa dessas - protestou ele. - Apenas te digo que tenho um pai invá lido, o qual está prestes a perder a sua casa e soú eu a única pessoa em posição de o auxiliar. Estou a tentar manter a perspectiva da realidade. Karen.

- E a tua irmã? - indagou ela. - Vai casar na família Armbruster.

() Nome de uma corrida de cavalos, reservada a principiantes. (N. do T. )

- Impossível - contrapôs Bruce. - Ela nunca poderia pedir dinheiro aos Armbruster. Passamos por ser uma família sulista com meios. Por isso mesmo é que estamos alojados em casa das nossas tias, no intuito de parecermos mais do que somos. Não, a mim é que compete solucionar o problema.

-Bem e que vais fazer? - Karen teve uma hesitação. - Para além de casares com a judith Armbruster.

Bruce ignorou-lhe o remoque.

-De momento, tenho duas possibilidades. Uma delas é vender o Frontier por aquilo que o Clifford ofereceu. Se o fizer, ficarei sem cavalo e quase não terei dinheiro. A segunda hipótese é deixar que ele corra. no American Derby. para o prémio de vinte e cinco mil dólares. Já o inscrevi, mas enfrentará grandes favoritos. como o Picket. não tendo quaisquer possibilidades. Falta-lhe energia. E nem sequer tem Jockey.

- Arranja um - insistiu Karen. - Não vejo outra solução.

Bruce soltou um suspiro.

-Já tentei. Os melhores jockeys estão comprometidos com outros concorrentes. Os que restam não querem entrar numa corrida, sem pagamento garantido e auferindo apenas uma percentagem dos ganhos.

Com ar infeliz. Karen virou as costas ao estábulo, disposta á ir-se embora.

- Acho que a tua melhor aposta será na Judith Armbruster.

Bruce seguira-a para fora das instalações, prestes a protestar, quando a sua atenção foi desviada por um Ford vermelho. que se aproximava ruidosamente deles. Edmund vinha ao volante, com Minna Everleigh a seu lado, de rosto coberto por um véu. e o Dr. Holmes no assento traseiro.

Ela acenava-lhes. Quando o carro chegou junto deles e travou, ergueu a voz. perguntando:

- Bruce, que estás aqui a fazer? Andávamos a dar uma vista de olhos por aí, antes do Derby. Este é o nosso médico de família, o Dr. Holmes. -Virando-se para o clínico. acrescentou: - Dr. Holmes. esta é a Karen Grant.

A rapariga corou e balbuciou um breve cumprimento. O médico levou a mão ao chapéu de coco, todo sorridente.

-Já conhecia Miss Grant. Muito prazer, Mr. Lester. Minna estava a falar para Bruce:

-Ainda não me disseste o que estavas aqui a fazer.

- Lembra-se de eu lhe ter contado que tinha trazido do Kentucky o meu melhor cavalo. um animal de três anos chamado Frontier? Tenho-o aqui nos estábulos. Inscrevi-o no American Derby.

- Maravilhoso - comentou a tia.

- Nada disso - contrariou-a Bruce. - Eu inscrevi-o. mas não consegui arranjar um jockey. quer dizer. um que se disponha a correr apenas a troco de uma percentagem do prémio.

Minna fitou-o.

-Estás à procura de um jockey para montar o Frontier?

- Exactamente.

-Já ouviste falar num. final à Garrison.

-Claro. É quando um cavalo vem de trás para ganhar.

-E sabes como é que surgiu a expressão final à Garrison.

- Não.

- Há cerca de dez anos - explicou Minna - havia um jockey chamado Ed Mordedor Garrison. No Suburban Handicap do Parque Belmont, o Garrison estava em último na curva para a recta final. Depois, começou a chicotear por ali fora o animal. vindo de último até primeiro e vencendo por uma cabeça. Isso foi um típico final à Garrison. - Fez uma pausa. - Pois bem, o Ed Mordedor Garrison está cá hoje. no Parque Washington. Já tentaste?

- Tentar?

Convidá-lo para teu jockey - disse ela. levantando-se. - Edmund. importas-te de me ajudar a descer?

Já no solo. junto do sobrinho, Minna ajustou o véu e disse-lhe:

- Vou apresentar-to. - Tomou o braço de Bruce.

-Vem daí. Acabo de o ver a jogar xadrez com um dos moços, alguns estábulos ali para trás. Trata-se de um velho amigo meu. Quero que o conheças.

Afastou-se em passo vivo. com o sobrinho ao lado, seguidos por Karen.

Ao aproximarem-se dos dois homens que jogavam xadrez. Minna chamou e o Mordedor Garrison pôs-se em pé de um salto. abandonando o tabuleiro.

- Espera aí um instante - disse Minna para Bruce. Correu em frente ao encontro do jockey. O homem perscrutou-a intrigado. até ela erguer o véu.

-Ora esta, és tu, Minna...

- Chut! - murmurou ela. - Escuta-me. Quero apresentar-te o meu sobrinho do Kentucky. Ele não sabe o que é realmente o Clube Everleigh, nem eu quero que venha a saber. Não fales em nada. E olha. Mordedor, ele conhece-me pelo nome de Minna Lester.

-Como quiseres, Minna.

- Vou trazer-to.

Voltou para junto de Bruce e Karen, conduzindo-os na direcção do jockey. Bruce viu-se perante um minúsculo homenzinho de meia idade, com o rosto de feiticeiro de um pequeno macaco. Ele cumprimentou Karen com um sorriso.

mostrando-se cortês, ainda que com modos bruscos.

- Mordedor, tens alguma montada para o Derby? inquiriu Minna.

- Sabes muito bem que não tenho – respondeu Garrison. - Já deixei de montar, excepto para desbastar cavalos. Segundo me dizem. ultrapassei a idade. Estou

velho de mais.

- A mim pareces-me numa forma bastante boa comentou ela.

- Oh, e estou - garantiu o homem. - Nunca estive melhor. Mas ninguém mais pensa do mesmo modo.

-Gostarias de ter uma montada para entrar no Derby? - perguntou Minna.

- Aqui o Bruce trouxe um puro-sangue de três anos da região do capim. Tem-no inscrito no Amrican Derby.

Infelizmente, não conseguiu arranjar Jockey que queira montar a troco de uma percentagem. Que me dizes?

O Mordedor Garrison voltou a sorrir-se.

-Talvez seja melhor do que aquilo que estou actualmente a ganhar. No entanto, não quero fazer figura de parvo. - Dirigiu-se a Bruce: - Quer mostrar-me esse seu potro? Como é que se chama?

- Frontier - informou o rapaz.

- Muito bem. deixe-me dar-lhe uma vista de olhos - pediu Garrison.

Bruce seguiu à frente dele, de Minna e de Karen, até ao estábulo de Frontier, fazendo sinal ao homem para entrar.

Este passou cinco minutos a examinar o cavalo; antes de voltar a sair.

-Um belo animal, bem sólido - comentou. O sorriso reapareceu-lhe no rosto. - Mas eu também sou.

- Vai montá-lo? - perguntou Bruce. entusiasmado:

- Pode crer que sim - respondeu o Mordedor

Garrison. - Monto-o. mas uma coisa lhe digo: a menos que o tempo esteja quente no dia do Derby; o mais quente possível para um mês de Maio. ele não terá hipóteses.

- E se o dia for de facto quente?

- Terá algumas possibilidades - afirmou enigmaticamente o homenzinho. - Na semana passada, estive a dar uma espreitadela ao meu Almanaque dos Agricultores. Diz lá que o dia do Derby vai ser de calor. Esperemos. para ver.

O Mayor Carter Harrison estava sentado muito direito à sua secretária. no gabinete da Câmara, ainda a recuperar da desagradável reunião que tivera, duas

horas antes.

A pressão para a execução de reformas tornara-se intolerável.

Enquanto aguardava o seu próximo visitante, revia mentalmente os pontos altos da sua confrontação daquela manhã.

Tinha-a travado com o austero reverendo John Stonehill, homem de lábios tensos. que era presidente da Liga Municipal de Eleitores.

-O senhor já sabe porque é que vim aqui. Mayor - começara ele por dizer. quase ainda antes de se haver sentado.

Harrison suspeitava das razões que poderiam estar por trás do pedido de entrevista do reverendo, mas não estava na disposição de o confessar.

- Para falar verdade, não tenho a certeza dos motivos da sua visita.

- Reformas - rosnara Stonehill. - A promessa-chave da sua campanha foi a de eliminar o vício nesta cidade, em especial no Levee. e declarou especificamente que iria encerrar o Clube Everleigh. o qual simboliza. por toda a nação e através do mundo, o que há de pior em Chicago. Com base na sua promessa 175 de promover reformas, toda a Liga Municipal de Eleitores se pôs do seu lado e o elegeu. Pois bem, Mr. Mayor, já esperámos com toda a paciência. mas continuamos a não ver um único sinal de que a limpeza já foi iniciada.

Harrison pigarreara. para aclarar a garganta.

- Reverendo Stonehill, garanto-Lhe que tenho andado bastante ocupado no campo das reformas. principalmente nos meus esforços para encerrar o Clube Everleigh, como exemplo e advertência a todas as outras casas de má fama com menor importância.

-Não vejo provas dessa actividade. Tenho informações de que o Clube Everleigh continua tão aberto como sempre.

- Não precisamente - insistira o Mayor - não precisamente. Vão lá menos homens e as Everleigh afirmam estar a operar apenas como restaurante. Não obstante eu também suspeito de um certo grau de actividades sexuais ilegais ainda continuar a ocorrer por lá. Até à data, ainda não consegui provar isso e necessito de dispor de provas. Contudo, confidencio-lhe que, neste preciso momento, tenho um observador secreto lá dentro. que me trará provas irrefutáveis dos actos sexuais ilegais. Uma vez que as tenha em meu poder, o chefe de polícia estará em posição de encerrar o clube. Os restantes verão então o que lhes pode tocar.

Também fecharão e mudar-se-ão para outras cidades.

Confie em mim. reverendo Stonehill.

- Confio na sua sinceridade - dissera o eclesiástico. - Mas não na sua competência nesta matéria.

-Apenas lhe posso afirmar que tenho estado a tratar do assunto de maneira competente.

Stonehill pusera-se em pé.

-Veremos. Aguardaremos mais algumas semanas por resultados positivos. Se ainda não tiver conseguido cumprir as suas promessas eleitorais. eu assinarei.

Toda a Liga assinará... uma petição a apelar para a sua demissão.

Com essa ameaça, o reverendo partira, deixando o Mayor a remoer o assunto.

Vira-se obrigado a agir. Receando que a sua voz fosse reconhecida, ordenara a um colaborador que ligasse para Calumet 412, o famoso número de telefone do Clube Everleigh. Figurava ostensivamente na lista telefónica. sob o nome de Aida Everleigh. O adjunto recebera instruções para falar pessoalmente com Karen Grant e lhe dizer que viesse, o mais depressa possível, ao gabinete do Mayor. Ela prometera lá estar dentro de uma hora.

Aquilo fora uma hora antes e o Mayor Harrison estava a ficar cada vez mais inquieto. quando Karen Grant entrou na sala.

Ele não perdeu tempo.

-Sente-se, Karen. Temos de falar claramente. Ela obedeceu. mas Harrison permaneceu em pé.

-Se deseja falar sobre o Clube Everleigh, nada tenho a relatar-lhe.

-Na verdade. era disso mesmo que pretendia falar-Lhe. Antes do almoço, recebi a visita do reverendo Stonehill, da Liga Municipal de Eleitores. Vinha exigir que eu cumprisse as minhas promessas eleitorais de reformas. Se o não fizer, írá induzir a Liga a exercer pressão no sentido de me levarem a pedir a demissão.

- O senhor não pode fazer uma coisa dessas.

- E não terei de o fazer - disse ele - se conseguir obter de si resultados mais rápidos.

-Estou a dar o meu melhor, Mayor.

- Não basta. - Começou a percorrer agitadamente o gabinete. - Presenciou ou tem conhecimento de quaisquer actividades sexuais dentro do Clube Everleigh? É essa a questão.

-Pura e simplesmente, ainda não disponho de uma resposta - afirmou Karen. - As irmãs apenas têm o restaurante aberto. Sou uma das seis recepcionistas.

As outras raparigas foram hospedadas em hotéis das vizinhanças. O clube manter-se-á encerrado esta semana e a próxima, até a sobrinha das Everleigh estar casada e ter partido em lua-de-mel. Assim que reabrir, poderei obter as provas de que está à espera.

-É tempo de mais. Não está lá também um sobrinho?

-Sim, está. Chama-se Bruce Lester.

- E então ele? - quis saber o Mayor. - Talvez lhe consiga fornecer algumas provas de que as suas tias são, na realidade, madames.

- Oh, esse... Meu Deus, não. O Bruce pensa que elas são figuras da sociedade, possuidoras de uma casa enorme. Ponha-o de parte.

O Mayor fitou-a com argúcia.

- Estou a ver que já o trata por Bruce. Deduzo daí que travaram amizade.

- Naturalmente. Só há uma mão cheia de pessoas no interior do clube.

-Não se envolva excessivamente com esse tal Bruce - advertiu-a o Mayor. - Não se deixe distrair por ninguém. Concentre-se nas outras raparigas da casa.

Pode ser que andem a prestar uns servicinhos por fora às Everleigh.

- Tenho dúvidas - afirmou Karen. - Eu daria por isso.

-Procure certificar-se, Karen. Está lá para desempenhar uma missão. E ela consiste em obter provas que as Everleigh ainda estão a explorar uma cása de má fama. Se temporariamente não estão, nesse caso você deverá ser fiel à sua palavra e informar-me, mesmo no minuto em que elas déem luz verde para avançar.

-Eu... eu prometo-lhe que o farei.

-O mais importante é que necessito de mais fechar esse bordel, antes que a Liga Municipal de Eleitores tente forçar-me a pedir a demissão... e, bem entendido, antes que o príncipe da Prússia apareça na nossa bela cidade. Na verdade, quando ele visitar Chicago, quero ter a certeza de que vê a mais bonita cidade da América. O caso está nas suas mãos, Karen.

No dia seguinte, logo após terminada a refeição do meio-dia, Karen conduziu Cathleen e Bruce para o Ford vermelho de Minna. Subindo para o lugar do condutor e instalando-se atrás do volante, aguardou que o rapaz ajudasse a irmã a instalar-se no assento dianteiro e tomasse. ele próprio, o lugar da retaguarda.

Enquanto esperava, Karen recordava como surgira a ideia de formarem aquele grupo.

De manhã cedo. Edmund fora ao seu quarto.

- Miss Grant - dissera-lhe o criado - se estiver livre neste momento. Miss Minna gostaria de a receber no seu gabinete.

Perguntando a si própria o que seria aquilo, Karen respondera:

-Estou absolutamente livre.

Seguira Edmund para fora do quarto até ao andar inferior, onde se dirigira ao escritório de Minna.

Uma vez lá dentro, deparara-se-lhe a patroa de pé, ao lado da escrivaninha, com ar pensativo.

- Gostava que me fizesses um favor. Karen - principiara ela a dizer. sem quaisquer preliminares.

-Tudo o que quiser, Minna.

-Relaciona-se com o meu sobrinho e a minha sobrinha - explicara a outra.

Karen animara-se de imediato. Agradara-lhe estar na véspera na companhia de Bruce, na pista de corridas, e acolheria favoravelmente qualquer oportunidade de o ter de novo na sua companhie.

- Terei muito gosto em fazer o que me pedir - anuiu.

-O meu sobrinho Bruce tem estado a insistir comigo para o levar. a ele e à Cathleen, a dar uma volta por Chicago. Deseja ver um pouco da cidade, antes de regressar ao Kentucky. Tenho-lhe prometido mostrar-lha mas, para falar sinceramente, receio fazê-lo. Alguém pode reconhecer-me e sair-se com a verdade daquilo que realmente sou. Arrisquei-me a ir ontem ao Parque Washington, mas fui forçada a usar um véu para evitar ser reconhecida e terei de o voltar a fazer de novo quando for o Derby. Não posso correr mais riscos. Seja como for, o Bruce contou-me que a tinha encontrado num sítio qualquer e que você se oferecera para o levar a dar uma volta. Pensei portanto em si, ainda que seja relativamente nova na casa. Pelo menos a sua cara não parecerá tão familiar como a de uma das outras moças.

Se mostrar ao Bruce e à Cathleen os melhores locais da cidade durante umas horas, isso evitará que continuem a insistir comigo. Importar-se-ia?

- Importar-me? - retorquiu ela com ardor. – Até vou adorar.

- Então, marque o passeio para esta tarde e esteja à vontade para se servir do meu carro. Ficar-lhe-ei agradecida.

Tinha sido assim que o passeio se tornara uma realidade, com Bruce e Cathleen no Ford de Minna, levando Karen como guia.

Pensando no melhor percurso para a excursão, Karen decidiu mostrar-lhes primeiro a mais dispendiosa área residencial e levá-los a seguir às avenidas e parques mais importantes. Após isso, internar-se-iam na zona do Loop, situada no centro da cidade.

Conduziu o Ford da Rua Dearborn até à Avenida Michigan, percorrendo lentamente a verde e tranquila zona de mansões de pedra, propriedade de milionários.

- Esta é a área residencial rica de Chicago - explicou-lhes, recordando o que tinha visto na companhia do Mayor. - Existem por cá muitos pobres. Mas também temos estas pessoas ricas. Aquele edifício de arenito que estão a ver, o das torres, minaretes e varandas, pertence a Potter Palmer, o magnata da hotelaria.

Os quartos são todos em estilo francês, com Corots e Monets nas paredes. Tem um salão de baile para o qual ele uma vez contratou o Ballet Russo, a fim de

actuar no decorrer de uma festa. A casa de Palmer possui dois elevadores privativos e vinte e sete criados.

Olhem para acolá. Esse prédio de estilo gótico, aí à esquina, custou sessenta mil dólares e pertence a Charles T. Yerkes, dono dos comboios EI, os de via aérea, e dos carros eléctricos. Disseram-me que ele dorme numa cama que foi em tempos do Rei da Bélgica.

Depois de lhes ter apontado mansões de duzentos mil dólares, pertencentes às famílias de Marshall Field, Philip Armour e George Pullman, Karen fartou-se de todo aquele esplendor e virou para a Avenida Drexel.          

Abrandando novamente, mostrou a Cathleen e Bruce a principal característica daquela artéria. Tratava-se de um majestoso parque, com duzentos pés de largura, que se estendia paralelo à avenida, abundantemente dotado de veredas, serpenteando por entre as árvores, os arbustos, as plantas e os canteiros de narcisos amarelos.

- Isto vai dar ao Parque Washington - disse, por cima do ombro, para Bruce - onde ontem fomos ver o Frontier. Estou contente por o ir deixar correr no American Derby.

- Sorte de pobre - murmurou ele.

-Talvez - retorquiu Karen. - Deixem-me agora mostrar-lhes alguns dos maiores edifícios, que as vossas tias gostarão que vejam, marcos dos tempos modernos

dos quais Chicago se orgulha.

Circulando pelas ruas, parando por breves instantes aqui e ali, mostrou-lhes o Hotel Palmer House, os dezasseis andares do Edifício Monadnock, os quais ocupavam um quarteirão inteiro, o Edifício Home Insu rance, o Edifício das Belas-Artes. situado no espaçoso Parque Jackson, um recinto com mil e quinhentos acres de tamanho onde havia campos de ténis e ovelhas a pastar.

-Vejamos agora uma coisa ainda mais interessante: o nosso bairro do centro da cidade, conhecido pelos nativos como Loop. Pararemos o carro ao chegarmos lá e passearemos a pé.

Ao alcançarem o Loop, deparou-se-lhes uma colmeia de gente e veículos em movimento. Acima deles, como se fossem um cinturão de aço, os carris dos comboios aéreos que circulavam na área, despejando diariamente nas ruas quase trés quartas de milhão de pessoas que iam às compras. O Loop fervilhava de gente que conduzia automóveis, carroças puxadas por cavalos, autocarros e eléctricos. O barulho das pessoas que falavam e caminhavam e das máquinas que zumbiam e matraqueavam revelava-se quase ensurdecedor.

Karen fez avançar lentamente o Ford, procurando e tornando a procurar, por entre os veículos, uma vaga que lhe permitisse estacionar o carro. Finalmente, descobriu uma, onde introduziu o automóvel.

Tendo-o deixado em segurança, convidou Cathleen e Bruce a descerem para o tumulto da rua. Disse-lhes que a seguissem. Dava a impressão de ter algum destino em mente. Enquanto empurravam e acotovelavam para passar, indicou-lhes o ruidoso comboio aéreo; que bloqueava o céu por cima deles.

-Foi a terceira linha aérea a ser instalada no país - explicou-lhes. - Nova Iorque e Brooklyn tiveram-na primeiro. Nós seguimos-lhes o exemplo, a tempo de criarmos um transporte colectivo para a Exposição Mundial Colombiana. Um ano antes da Feira, o comboio aéreo consistia numa pequena locomotiva a vapor, que puxava quatro carruagens de madeira. Cada viatura verde-oliva tinha quarenta e seis pés de comprimento. Eventualmente, os veículos foram reconvertidos em comboios eléctricos, na sua essência aquilo que hoje véem lá no alto, ao nível de um segundo andar.

Bruce esboçou o gesto de fingir tapar os ouvidos.

-Na minha qualidade de cavaleiro rural, não sei se conseguiria aguentar todo este estrondo e confusão no meu dia-a-dia.

-Bem, vou provar-lhes que temos outras formas de diversão - disse Karen. Detivera-se diante de um teatro. Um letreiro identificava-o como sendo o American Music Hall. - Alguma vez assistiram a um espectáculo de revista? - perguntou ela.

-Muitas vezes, lá em Louisville – respondeu Cathleen.

- Óptimo - disse Karen - mas hoje quero que passem quinze minutos a ver o que há de melhor. Já ouviram falar no Joe Cook?

Nem Cathleen nem Bruce tinham ouvido.

- Eu procurei regular a nossa hora de chegada aqui, de modo que pudéssemos assistir hoje ao seu número.

- E quem é o Joe Cook? - quis Bruce saber.

- Um actor - esclareceu ela, comprando três bilhetes. - Faz aquilo a que se chama um número de chalados, Satiriza o próprio teatro de revista. É maravilhoso!

Entraram os três no teatro às escuras, que estava dois terços cheio para a matinée.

Enquanto desciam a coxia à procura dos seus lugares, um mágico que estava no palco concluía seu número sob aplausos.

Karen murmurou para Cathleen e Bruce:

-Vem agora o Joe Cook. Vai fazer o seu número das Quatro Havaianas.

Viram o artista, de bandolim na mão, percorrer vagarosamente a coxia lateral. Uma simples cadeira de madeira havia sido colocada no centro do palco, onde ele se sentou, de instrumento musical no regaço. Piscou os olhos para o público e principiou a falar:

- Vou imitar quatro havaianas. Aqui vai uma.

Cook assobiou. - Mais outra. - Tangeu o bandolim.     E esta é a terceira. - Pôs-se a bater o pé. Depois, recomeçou o seu discurso. - Podia imitar a quarta havaiana com a mesma facilidade, mas vou dizer-lhes por que motivo não o faço. Sabem, é que eu comprei um cavalo por cinquenta dólares, que verifiquei ser um cavalo de corrida. Ofereceram-me quinze mil dólares por ele e eu aceitei. Construí uma casa com esses quinze mil e. depois de terminada, um vizinho ofereceu-me cem mil dólares por ela. Disse que a minha casa estava precisamente no sítio onde ele desejava escavar um poço. Portanto, aceitei os cem mil dólares para lhe ser agradável. Investi-os em amendoins e, nesse ano, houve falta deles; por conseguinte. vendi-os por trezentos e cinquenta mil dólares. Ora bem, por que

razão é que um homem que tem trezentos e cinquenta mil dólares se há-de dar ao trabalho de imitar quatro havaianas?

Com toda a calma, Cook pegou na sua cadeira e abandonou o palco, enquanto o público rebentava a rir e Cathleen, Bruce e Karen se lhe juntavam alegremente.

Acabaram por sair os três do teatro, após mais outro número, abrindo caminho por entre a multidão agitada, na direcção do automóvel estacionado.

Bruce sacudiu a cabeça.

-O Joe Cook foi uma maravilha.

Karen lançou-lhe um longo olhar de lado, toda contente.

-Queria que ficassem a saber que as pessoas também se podem divertir bastante em Chicago.

- E a seguir? - indagou o rapaz.

- A tarde está praticamente terminada - respondeu Karen. -Parece-me que as vossas tias vos aguardam.

Estavam de novo instalados no Ford, a procurarem sair do Loop.

-Acho que já viram quase tudo o que tem alguma importância - disse Karen.

- Tudo, não - contrapôs Bruce.

- Que queres dizer com isso? - replicou a rapariga, com surpresa. - Se te referes ao facto de não termos visitado os cercados da União dos Talhantes, excluí-os de propósito. Não me pareceu que um potencial vegetariano os quisesse ver.

- Não era isso - retorquiu Bruce. - Mas há uma outra coisa que gostava de ver... só mais uma.

- Qual? - inquiriu ela.

- Uma zona a que chamam o Levee - respondeu o rapaz. - Disseram-me que não ficava muito longe da casa das minhas tias.

- O Levee? - estranhou Karen. de sobrolho franzido. - Tens a certeza? É um sítio miserável. Dizem que é a zona mais ordinária da cidade.

- Bem sei - concordou ele. - Já ouvi falar nisso. Mas esperava poder ver Chicago por completo, o melhor e o pior.

- Já que insistes. - concedeu Karen, ainda incomodada.

Bruce mostrou-se inflexível.

-Insisto, sim.

Ela soltou um suspiro.

- Nesse caso, vamos regressar a casa das vossas tias, deixar o automóvel diante da porta e dar um curto passeio através do Levee.

Após haverem regressado ao Clube Everleigh e estacionado o carro de Minna, a rapariga conduziu com relutância os dois jovens a seu cargo para o coração do Levee.

- Não há nada de especial para se ver – disse ela a Bruce. Mas depois vieram-lhe à ideia as estatísticas reformistas do Mayor. - O Levee propriamente dito está de uma forma geral. contido num espaço de quatro blocos por quatro, tendo mais de duzentos bordéis, alguns tão pequenos como um armário, mas trinta e sete deles de grandes dimensões. Habitam a zona cerca de três mil pessoas. A maior parte delas são vadios, bêbados, jogadores, vendedores de ópio, criminosos de todas as espécies. Num só dia, normalmente à noite, verifica-se aqui uma média de cinco homicídios, sete suicídios. dez mortes por ataques à bomba. As violações de mulheres que se atrevam a passar por cá constituem uma rotina. A maioria desses casos não chegam à Imprensa. mas disseram-me que foi encontrada. Num monte de lixo, uma figura da alta sociedade, Mrs. Frank C. Hollister. Tinha sido violada, estrangulada com um arame de cobre e depois espancada até ficar feita em polpa. Esse caso alcançou os jornais e deu origem a alguma protecção por parte da polícia, mas somente durante um breve período.

Cathleen estremeceu.

- E como é que as nossas tias podem viver numa zona tão horrorosa?

Karen não sabia bem o que havia de responder.

Disse-lhe o que podia:

- Suponho que lhes agradava a ideia de se instalarem numa mansão, mas não se podiam permitir arranjá-la numa área mais respeitável.

Juntos, passaram os três por um bordel, onde jovens muito pintadas e semivestidas se exibiam nas montras. fazendo sinais a Bruce.

Karen apontou-lhes outro bordel.

-Chamam a este O Califórnia. Tem lá dentro dúzias de prostitutas, vestidas apenas com camisas transparentes e sapatos de saltos altos coloridos. Os dois homens que estão à porta são angariadores, procurando convencer os clientes a entrar.

-Angariadores, é como lhes chamam vocês... troçou Bruce. - Mas nós sabemos que se trata de chulos.

- Procuro evitar esse género de linguagem - retorquiu ela.

Enquanto continuavam o seu passeio, Karen esboçou um gesto, tentando abarcar todo o quarteirão.

- Aqui só se encontram tabernas onde, em algumas delas, tocam ragtime de Scott Joplin (') durante toda a noite. em pianolas mecânicas, bares inundados de uísque, penhoristas, casas de jogo e, acima de tudo, a principal fonte de receita da zona: casas de prostituição. Este bairro da luz vermelha está cheio delas.

- Bairro da luz vermelha? - estranhou Cathleen. Que quer isso dizer?

- Mulheres à venda - esclareceu Karen. - A luz vermelha vem do facto de os bordéis terem lanternas no exterior. - Voltou a apontar. - Ali adiante, podem ver a casa que é explorada por Julia e Maurice van Bever, considerados culpados da prática de escravatura branca e de induzirem raparigas inocentes a tornarem-se prostitutas.

-Escravatura branca? - Cathleen mostrava-se assombrada. - Mas isso não é já história antiga?

() O ragtime é uma forma muito sincopada de música popular. antecessora do jazz. tal como é actualmente concebido. a qual surgiu quando os músicos começaram a ter acesso a casas de diversões e bares. Scott Joplin foi um emérito praticante deste género musical. (N. do T. )

- Ainda continua a verificar-se, aqui e ali - afirmou Caren. - Mais para a vossa esquerda, vêem esse tugúrio com as janelas todas pintadas? É conhecido por casa de dobragem. Um homem elegante trava conhecimento com uma rapariga que deseja divertir-se, tomar uns copos, ouvir um pouco de música e fazer amor. Leva-a para uma casa como essa e enche-a de bebida. Mete-a depois num quarto das traseiras, onde há um bando de homens à espera. Revezam-se todos a violar a rapariga, fazendo até bicha para isso. Dão-lhe a seguir cocaína ou morfina, para a tornarem ainda mais passiva. E assim a dobram, ficando pronta para se tornar prostituta.

- Que horror! - arfou Cathleen.

- Isso não é uma regra geral - assegurou-lhe a outra. - A escravatura branca não é vulgar. Semelhantes tácticas tornaram-se, hoje em dia, desnecessárias.

As madames afirmam que a maioria das suas meninas vêm até cá de sua livre vontade, ou por necessidade, para se prostituir. Uma vez, o jornalista britânico Willíam

  1. Stead fez um estudo do Levee e escreveu um livro sobre o bairro, a que chamou Se Cristo Viesse a Chicago. Já o li. Afirma ele que o Levee não sofre a influência da civilização. Não encontrou cá um único salão de música. um eclesiástico residente, um educador. Mas deparou-se-lhe uma igreja alemã e escreveu, a respeito

dela: Trata-se de úm oásis, implantado no meio de todo o vício, esqualidez e bebedeira do bairro. " Cathleen olhou em volta, chocada.

-Pobres raparigas. que pena tenho delas! Bruce apertou-lhe a mão.

-Como a Caren te disse, a maior parte está aqui por sua livre vontade. As madames dos bordéis é que me chocam. São elas quem contrata as raparigas. Gos taria de saber que desculpas arranjam para o fazer?

- Não pode haver desculpa para uma coisa dessas-proferiu a irmã, com firmeza.

Karen começava a sentir-se extremamente desconfortável. Ao chegarem ao final do bloco, anunciou:

-Parece-me que já nos basta deste lugar lamentável. Vamos dar a volta e regressar à casa das vossas tias, antes que a Minna e a Aida principiem a preocupar-se com o que eu vos possa ter feito.

Voltaram a percorrer o caminho para o Clube Everleigh. Depois de ver Cathleen e Bruce subirem as escadas com destino aos seus quartos. Karen voltou-se.

deparando-se-lhe Minna à porta do seu estúdio, a fazer-lhe sinal para se aproximar.

- Foi um grande passeio - comentou a mulher. Como é que correu?

A rapariga contou-Lhe onde tinham ido e o que tinham visto, omitindo a visita ao Levee.

-O Bruce e a Câthleen divertiram-se.

-Então tudo correu na perfeição.

Karen hesitou. mas depois decidiu abrir-se:

-Não precisamente, Minna. Já no final, quando nos dirigíamos para cá, o Bruce quis ir ver um lugar de que ouvira falar, chamado Levee.

- O Levee! - repetiu Minna, sem querer acreditar.

-Ele quis ver isso?

- E viu-o.

-Mas, por amor de Deus, porque é que o levaste lá... aqui... a estas redondezas?

-Porque ele ínsistiu, Minna. Desejava visitar o pior de Chicago. tanto quanto o melhor.

-E viu os bordéis?

- Ambos viram - admitiu ela.

Minna manteve-se em silêncio por algum tempo, de olhos fixos na rapariga. Por fim, indagou:

-O que... o que é que disseram? Podes falar com franqueza, Karen.

-Mostraram-se perturbados com tudo aquilo, de uma forma geral - respondeu ela. - Pareceram entender e desculpabilizar as raparigas que lá trabalham. Fez uma pausa. - Quem culparam foi, sobretudo, as madames dos bordéis.

- Oh, meu Deus! - arquejou a outra. - E se algum dia descobrem o que a Aida e eu estamos realmente a fazer aqui? - Como Karen não fizesse comentários, concluiu resolutamente: - Pois bem, isso não sucederá. Nunca o hão-de descobrir. Não permitirei que isso aconteça. A partir deste momento. a Aida e eu estaremos duplamente atentas. Obrigado, Karen, por me teres dito a verdade e me teres avisado. Mil agradecimentos.

Muitas das meninas das Everleigh haviam sido alojadas no Hotel Tremont House, durante as suas férias forçadas.

O Dr. Holmes concordara em examiná-las a todas uma vez por semana e estivera a fazê-lo, no decorrer das duas últimas horas.

Agora, próximo do final do seu dia de trabalho, já só tinha uma rapariga à espera para ser observada.

Tratava-se de Greta, uma beleza sueca com cerca de vinte anos, que era a mais azougada de todas e a mais receptiva aos avanços do médico.

Greta e Holmes encontravam-se sozinhos, nos aposentos dela do quarto andar, e o clínico, enquanto tirava o casaco, via-a despir-se de jeito provocador.

Tinha-lhe ocorrido logo ao chegar, enquanto esperava por Greta, que poderia possuí-la mesmo ali, no quarto dela. Nunca tomara a iniciativa de quaisquer avanços sexuais no Clube Everleigh propriamente dito, por haver demasiada gente e persistir a possibilidade de Minna ou Aida entrarem durante um dos seus exames.

Mas ali, no Hotel Tremont House, a confortável distância das duas irmãs, sentia-se em segurança para fazer o que lhe apetecesse.

Greta sentou-se na beira da cama e abriu as pernas.

Pegando no seu espéculo, o Dr. Holmes aproximou-se dela.

Ajoelhou-se e examinou-a perfunctoriamente, à procura de quaisquer indícios de actividades sexuais recentes.

Não encontrou nenhum. A rapariga estava limpa.

Conservou-se de joelhos.

- Não há nenhum problema sério - declarou.

- Também era o que eu supunha - confirmou ela.

-Não tive nenhum homem desde que saí do clube.   

Sinto-me como uma virgem.

Enquanto lhe espreitava para a vagina, Holmes principiou a sentir-se endurecer entre as pernas.

- Se é que existe algum problema - disse - é o de você estar muito tensa aqui em baixo. Precisa de lúbrificação.

- E como é que conseguirei obtê-la? – indagou Greta.

- Permitindo que o doutor a auxilie.

- Se acha que é capaz, trate disso – concedeu languidamente Greta.

Holmes pousou o espéculo e voltou as suas atenções para a vagina.      

- Deite-se ao comprido - pediu em voz rouca. -            Abra mais as pernas. Muito bem.

Com a cabeça entre as coxas, a sua lingua começou a circular-lhe pelos lábios vaginais. Depois, principiou a beijá-la.

O corpo da rapariga teve um sobressalto e ela semi-ergueu-se.

-Hem. doutor, não sabia que fazia isso.

- Nunca o faço. Mas você é um caso especial. Não consigo resistir-lhe. Importa-se?

-Não em particular, só que a Minna me recomendou que não tivesse nada com nenhum homem, enquanto permanecesse fora do clube.

-E não lhe disse que podia receber a minha visita? - perguntou ele, erguendo o olhar para a rapariga.

-Sim, com certeza.

-Não lhe disse que eu a podia tratar?

- Sim. mas...

-É o que estou a fazer, Greta. Estenda-se de costas e colabore.

Ela exalou um suspiro. Deitou-se e desistiu de qualquer resistência.

- Seja como... como o senhor disser, doutor.

-Pois o que eu digo é que tratemos de nos divertir.

Inclinou-se de novo, enfiando-lhe a cabeça entre as coxas, até lhe conseguir beijar outra vez os lábios, para depois esticar a língua e lha meter no interior da vagina.

Estava humedecida e as nádegas principiavam a movimentar-se-lhe.

Após alguns minutos, teve a impressão de que ela estava a ter um orgasmo, mas não ficou certo disso, nem lhe importava nada.

Recuou ligeiramente, pôs-se em pé de um salto e colocou-se-lhe entre as pernas, desabotoando as calças.

- Senta-te, Greta - ordenou. - Vá lá.

Agarrou-a pela nuca e puxou-lhe a cabeça para baixo, até ao pénis distendido.

- Está na hora da relação, querida.

- O quê?

-Na hora de fazeres ao teu próximo aquilo que já te fizeram a ti. Na hora de chupares, Greta.

A boca da rapariga cerrou-se sobre ele, a sua língua e lábios deslizaram-lhe habilmente sobre o pénis. Holmes estremeceu, num frenesim. Era boa, muito boa, muito, muito boa. Baixando o olhar para o alto da cabeça de Greta, para a parte exposta do seu pescoço, perguntava-se a quantos outros homens não deveria ela já ter feito aquilo e sentia-se excitado por um motivo: o desejo de lhe separar a cabeça do corpo, de a desmembrar, de forma que nunca mais o pudesse voltar a fazer a ninguém.

Sentiu que estava a perder o controlo e depois perdeu-o mesmo, entrando em erupção, a gemer e a grunhir.

Mais tarde, afagou-lhe a face.

-Foste magnífica, Greta, melhor do que qualquer outra mulher que eu já tenha conhecido.

-De verdade? Bem, tu também não foste nada mau.

Holmes deixou cair o espéculo na maleta.

-Então talvez pertençamos um ao outro.

-Que estás a dizer?

-Que parecemos talhados um para o outro. Por que não fazes as malas e sais daqui? Vem viver comigo.

Greta hesitou.

-Bem gostava, mas que haviam de dizer a Minna e a Aida?

-Nunca o saberiam. Muda-te amanhã para minha casa. Poderemos viver juntos e, se der resultado como eu penso que dará, talvez até nos casemos. Acaba-se para ti a escravidão junto das Everleigh. Queres?

- Se quero! - exclamou Greta, atirando-se a Holmes num abraço e beijando-o repetidas vezes: Irei ter contigo.

Ele escrevinhou qualquer coisa num pedaço de papel.

-Aqui tens o meu endereço. A qualquer hora, a partir do meio-dia de amanhã.

-Lá estarei. Sinto-me tão feliz.

-Não o hás-de lamentar, querida. Vou reservar-te uma surpresa a sério. Uma coisa te garanto: vais encontrar a paz, pela primeira vez na tua vida.

Só pouco antes do meio-día é que Minna Everleigh soube que mais uma das suas meninas tinha desaparecido.

A informação veio-lhe de Edmund, que fora verificar, por uma questão de rotina, o paradeiro das raparigas dispersas e viera relatar-lhe o que conseguira averiguar sobre a respectiva segurança e comportamento.

Naquela manhã, informara-a de que Greta tinha desaparecido do Hotel Tremont House. Averiguara que, menos de uma hora antes do seu inquérito telefónico,

Greta havia abandonado o quarto, levando as suas malas e sem deixar indicação do endereço para onde ia.

As notícias daquela deserção intrigaram Minna e abalaram-na bastante.

O que mais a incomodou foi a sucessão de desaparecimentos. Primeiro Fanny. Depois Avis. Agora Greta.

Havia dois factores a perturbarem-na. O primeiro era o número de deserções, dentro de um período de tempo tão curto. Acostumara-se a perder uma das raparigas por ano: no máximo duas. Mas deixarem-na três; sem uma só palavra, no espaço de duas semanas... era caso inaudito! O segundo facto que preocupava Minna era a forma como cada uma delas tinha desaparecido.

Até agora, sempre que uma rapariga quisera abandonar o Clube Everleigh, mostrara-se normalmente franca com ela, explicando-lhe os seus motivos e dizendo-lhe que era o seu destino. Um homem que lhe propusera casamento e com quem pretendia assentar na vida: Tnha saudades de casa e da família, lá em Denver. e decidira regressar. Ou então, pura e simplesmente, estava farta de permanecer fechada no Clube Everleigh, passando a vida deitada de costas, a fingir gozar. Anteriormente, a partida de cada rapariga, ainda que poucas e espaçadamente, sempre fora cortês e franca.

Agora, Fanny, Avis e Greta haviam-se desfeito no meio do ar, sem qualquer explicação.

Minna cismou sobre o caso durante longos minutos e acabou por telefonar ao jovem repórter, Chet Foley do Chicago Tribune-Chet, daqui fala a Minna Everleigh, do clube.

-Ainda bem que telefonou. Tencionava passar por aí um dia destes, para tomar uma bebida consigo.

Minna assumiu o seu tom de voz mais simpático.

-É sempre bem-vindo, excepto esta semana e na próxima. Estamos a renovar a casa. Na verdade, estou a telefonar- lhe para lhe fazer uma pergunta. Se alguém muito ligado a si desaparecesse e você quisesse encontrar a pessoa, como procederia?

Foley respondeu de imediato:

-Contratava uma agência de detectives particulares, para lhe seguir a pista.

- Faz sentido - admitiu ela. - Uma agência de detectives. Porque não? Qual acha que é a maior de Chicago?

-De longe a Agência Nacional de Detectives Pinkerton.

-Sabe alguma coisa sobre eles, Chet?

-Não pessoalmente. Mas devemos ter algo, aqui nos arquivos do jornal.

(') A Agência Pinkerton, fundada em 1850, era sobretudo famosa, na época em que decorre o romance [princípios do séc. XX) pelas acções de protecção e investigação nas zonas de implantação dos caminhos-de-ferro nos Estados Unidos. Continua sendo, hoje em dia e no mundo inteiro, uma grande e prestigiosa organização de vigilância, segurança e imvestigação. (N. do T. )

-Muito bem - retorquiu Minna - mudei agora mesmo de ideias quanto a isso de você não poder aparecer por cá. Pode vir. desde que me traga elementos sobre a Agência Pinkerton. Ser-lhe-á possível?

-Certamente. Tem pressa em que a vá visitar?

-Imediatamente. Assim que tenha informações, venha logo para aqui.

Meia hora mais tarde, Foley encontrava-se sentado com Minna, no gabinete desta.

Entregou-lhe uma pasta.

- É tudo o que temos sobre os Pinkertons. Alguns recortes do Tribune. Um do Observer. Uma brochura publicitária sobre a firma. Os recortes são repetitivos. O impresso deve dizer-lhe a maior parte do que pretende saber.

Minna ficou sentada em silêncio, a folhear os documentos.

A brochura era, na verdade, impressionante. Tinha o seguinte título: AGÊNCIA NACIONAL DE DETEGTIVES PINKERTON. Ostentava um olho arregalado como marca comercial e a divisa: Nós nunca dormimos. O supervisor dos escritórios em Chicago era William A. Pinkerton.

Estudando o artigo do Observer, Minna reparou que apenas tecia louvores a William Pinkerton: É o principal detective da América, o homem por cujo intermédio você poderá averiguar o montante exacto das riquezass de L1 Hung-Chang, quanto é que o seu empregado de escritório apostou nas eleições, ou em que selva africana se esconde o funcionário que levou à falência o Banco de Timbuktu. Os seus métodos, ainda que eficazes, são dolorosamente factuais.

Ergueu os olhos da pasta de arquivo.

-Os casos deles parecem estar sobretudo relacionados com as caminhos-de-ferro - comentou.

- O negócio deles é o crime - garantiu-lhe Foley - de qualquer género.

- Suponho que tem razão - concedeu Minna, devolvendo-lhe a pasta. - Gostaria de os contratar, para investigarem os desaparecimentos de várias das minhas moças. Se anda alguém a tentar arruinar-nos, será melhor que eu esteja ao corrente. Olhe, Chet, espere só um bocadinho, enquanto eu telefono ao Pinkerton a marcar entrevista. Depois, tomaremos uma taça de champanhe juntos.

Após ter falado com William Pinkerton e assegurado uma entrevista imediata, Minna mandou Edmund conduzi-la ao centro da cidade, à Agência Nacional Pinkerton, situada no número 193 da Quinta Avenida.

Uma vez no interior do edifício, foi escoltada ao desarrumado gabinete de William Pinkerton. Ele era um homem grande como um urso, com o cabelo empastado e bigode farto. Conduziu Minna para uma cadeira forrada de couro, colocada ao lado da secretária.

- Chamo-me Minna Everleigh - principiou ela a dizer. - Não sei se não terá já ouvido falar de mim.

Pinkerton soltou uma curta risada.

- E quem não ouviu? - replicou.

-Deparou-se-me uma situação que me está a incomodar. Penso que me serão úteis os serviços dos seus detectives.

- Nós não temos detectives- retorquiu o homem.

-Temos investigadores treinados, a que chamamos operacionais.

-Chamem-lhes o que lhes chamarem, eles são detectives, não são?

Pinkerton pareceu ter ficado magoado.

- Muito bem, já que insiste. - Puxou para diante de si aquilo que parecia um livro de contabilidade, abriu-o e molhou a caneta no tinteiro. - Primeiro, forneça-me alguns factos, sem omitir nada. Falou-me, pelo telefone, num problema relacionado com o desaparecimento de algumas das suas colaboradoras. Quer dar-me mais pormenores?

-Temos trinta raparigas no Clube Everleigh, con tratadas para divertirem os nossos hóspedes. Num ano normal. posso perder uma delas, no máximo duas, por motivos de casamento, saudades de casa, vontade de mudar de actividade. Neste momento, acabo de perder de seguida três das minhas melhores meninas, todas dentro de um período de duas semanas. Cada uma delas se limitou a desandar e desvanecer-se no meio do ar. Isso gerou em mim o pressentimento desagradável de que alguém me levou a Fanny, a Avis e a Greta, no intuito de destruir o nosso clube.

-Pode dar-me os nomes completos das raparigas? Minna disse-lhos: Fanny Spencer, Avis Kaufman e Greta Ryan.

-Têm todas menos de vinte e dois anos e são bonitas.

-Por favor, descreva-me cada uma delas pormenorizadamente - pediu Pinkerton, tomando nota dos nomes no seu livro.

Minna assim fez, o melhor que pôde.

Pinkerton continuou a tomar notas. Ergueu o olhar e perguntou:

-Alguém que a senhora conheça terá tido contacto com essas três moças, alguém que possa fazer uma ideia dos seus planos, ou do que tinham em mente?

-As outras raparigas, naturalmente. Tenho neste momento o meu criado, o Edmund. a interrogá-las.

Receio que isso não dê quaisquer frutos. As moças costumam calar a boca quanto ao que sabem umas das outras. E calar-se-ão particularmente em relação a um

caso como este: três delas que nos abandonaram.

- Estou a ver - disse Pinkerton. - Tem ideia de qualquer outra pessoa que possa ter estado, mais recentemente, em contacto com essas raparigas?

-Na verdade, não, excepto... bem, há o nosso médico, que as examina a todas uma vez por semana e fala, intimamente e regularmente, com elas: Pode ser que tenha alguma pista.

-E o nome dele é?

-Dr. Herman H. Holmes. Conhecia-as a todas. Talvez seja útil.

- Como é que o posso localizar?

Minna deu a Pinkerton o endereço de Holmes.

- Quer o número de telefone dele?

-Não. Acho que vou aparecer por lá sem marcar entrevista. Veremos se sabe o que a Fanny. a Avis e a Greta tinham em mente.

- E quando é que vai visitar o Dr. Holmes?

-Imediatamente. Hoje mesmo. Fá-lo-ei pessoalmente. Este mistério é fascinante. Ocupar-me-ei dele assim que a senhora se for embora, Miss Everleigh. e apresentar-lhe-ei depois o meu relatório. Talvez consigamos chegar ao fundo da questão, ou talvez não. Mas tentaremos.

O Dr. Herman Holmes ansiava por aquela rapariga. Já não do ponto de vista sexual. mas estava ávido por lhe retalhar o amplo corpo.

Greta-mudara-se para lá umas horas antes. Levara-a a dar uma volta pelo consultório e residência, distribuídos por três andares. Ela ficara assombrada pelo seu conforto e dimensões.

Quando a deixou no quarto de dormir, a rapariga perguntou-lhe, confundida:

- E também vai ser esta a minha casa?

- A tua e a minha, a partir de hoje - prometeu-lhe Holmes.

-E falavas a sério, quando disseste que talvez casasses comigo?

Ele esboçou um sorriso.

-Eu sou um solteirão. Evitei deliberadamente o matrimónio, até ter a certeza de haver encontrado a mulher certa. - Os seus olhos fixaram-se nos dela. -Acho que finalmente, a encontrei.

- Sinto-me tão feliz! - exclamou Greta, derretendo-se-lhe nos braços.

Apertou-a brevemente contra si, sussurrando-lhe:

-Vou esforçar-me para que te sintas sempre feliz.

- Separando-se dela, acrescentou: - Mal posso esperar para fazer de novo amor contigo. Vai para o teu quarto e despe-te. Toma um longo banho. Depois, veste o roupão de seda que lá encontrarás e vem ter comigo cá abaixo. Estarei à tua espera.

Meia hora mais tarde, ao ouvi-la descer as escadas, Holmes saiu do gabinete ao encontro da rapariga.

Ela soltou uma risadinha, ao vê-lo só com a roupa interior.

Apertando o cinto do roupão de seda púrpura, disse-lhe:

-Parece que tens algo de especial em mente, Herman.

-E tenho mesmo, minha bonequinha.

-Onde é que vamos?

-A um sítio onde poderemos dispor de perfeita privacidade. - Tomou-a pelo braço. - Vem daí.

Conduziu-a até à entrada fechada da sua câmara à prova de ar. Carregou num botão. A porta deslizou e abriu-se.

-Que curioso! - exclamou ela. - Nunca tinha visto uma coisa destas.

Ele esboçou um aceno de cabeça.

-Tal como já te disse. quero assegurar a nossa completa privacidade. Na verdade, isto é a minha sala de observações.

A rapariga entrou no compartimento, pondo-se a observá-lo.

-Bastante aconchegado, mas sem uma única janela.

- Ninguém poderá espreitar cá para dentro - disse Holmes. - Tira o roupão e sobe para a mesa de exames.

Ela obedeceu. O médico contemplou-a, hipnotizado pela luxúria do seu corpo de alabastro.

- Que é que vamos fazer? - perguntou a rapariga.

-Vamos repetir o que fizemos esta manhã?

-Se tu não te importares.

- Importar-me? Adoro isso.

Abriu as pernas, enquanto ele ajoelhava num dos degraus que permitiam subir à mesa. Ela agarrou-lhe a cabeça e aproximou-se mais de si.

Fechou os olhos e arqueou-se para trás. Quando ele lhe lambeu a vulva. A princípio. começou a gemer. À medida que ele prosseguia, teve vontade de gritar, mas reprimiu esse impulso.

-Poderá... poderá alguém ouvir-me?

Holmes ergueu ligeiramente a cabeça.

- Estamos sozinhos.

Agachou-se, para a satisfazer de novo e ela gritava agora de gozo.

Isso excitou-o. A sua boca carregou mais, a sua língua sondou mais fundo.

De repente, ela estremeceu, erguendo-se com tanta força que quase o atirou ao chão. Dessa vez, Holmes teve a certeza do orgasmo da rapariga, que foi ruidoso e prolongado.

Depois de terminado, ela deixou-se descair, abrindo progressivamente os olhos, para o fitar.

- Foi um espanto - disse. - E tu. Herman?

- Quando estiveres pronta - respondeu ele.

Levantou-se e arrancou a roupa interior. -Tinha o pénis duro como um cacete.

Greta tomou-o habilidosamente nas mãos, puxou-o para a boca e depois cerrou os lábios em torno do membro.

Pestanejando para a parte do pescoço que tinha à vista, Holmes confirmou que a rapariga era uma maravilha. mas o que tinha de mais maravilhoso era a nuca. Sentia-se contente por ela ter gozado tanto antes de perder a cabeça.

Pensar na cabeça, na nuca de Greta, excitou-o ainda mais. Enquanto ela prosseguia, procurou desesperadamente conter-se. Foi-lhe impossível. Aquela feiticeira era infatigável.

Veio-se e tornou a vir-se.

Quando já se sentia esgotado, Greta pôs-se a brincar com ele, rindo-se.

-Gozaste muito, não gozaste, Herman?

- Nunca me hei-de esquecer.

- Nem eu - afirmou ela.

Holmes libertou-se da rapariga e tornou a vestir a roupa interior.

-Já venho.

-Onde é que vais, Herman?

-Quero só refrescar-me. Venho já. Tens uma toalha na ponta da mesa. Poderás limpár-te também.

Saiu pela porta de correr aberta e carregou no botão, para a fechar.

Antes que o fizesse, ouviu a voz de Greta a gritar:

- Hem. por que é que vais fechar a porta?

- Deixa lá - respondeu. - Voltarei para junto de tí dentro de momentos.

A porta deslizou e cerrou-se.

Satisfeito, Holmes dirigiu-se ao seu gabinete, envergou a camisola, camisa e calças, calçando depois os sapatos e meias. Fez o nó à gravata. A seguir, encaminhou-se para a fileira de alavancas, no intuito de ligar o gás.

Ia a meio caminho, quando escutou um toque de campainha na porta principal. Deteve-se, escutou de novo e ouviu-a mais distintamente.

Saiu do gabinete e dirigiu-se ao vestíbulo, perguntando-se quem seria o visitante inesperado àquelas horas. Ainda tinha muito que fazer depois de ligar o gás. Cortar o corpo rechonchudo de Greta seria um grande prazer. Decididamente um gozo orgásmico.

Pôs a mão no puxador da porta e abriu-a.

O limiar estava ocupado por um enorme indivíduo de meia-idade, que usava o cabelo empastado, vasto bigode, fato dispendioso e que trazia na mão uma bengala.

Exibia um cartão     de visita na mão livre, o qual estendeu a Holmes.

-Chamo-me William A. Pinkerton e sou o supervisor da filial de Chicago da Agência Nacional de Detectives Pinkerton - anunciou  o homem. - Vim aqui a pedido de Miss Minna Everleigh. sua cliente. a qual pensa que o senhor poderá dar-me alguma ajuda num caso que estou a investigar.

Olhando de relance o cartão de visita, Holmes respondeu, com delicadeza:

- No que puder. Faça o favor de entrar.

Ao conduzir Pinkerton para o seu gabinete, lançou um olhar de lado à porta de correr. Estava firmemente cerrada e, se Greta ainda  continuava a vociferar em confusão, não se fazia ouvir.

Tendo feito sentar Pinkerton no gabinete, tomou o seu lugar à secretária.

A sua postura era de hospitalidade e descontracção.

-Em que lhe posso ser útil. Mr. Pinkerton?       

O homem não perdeu tempo a explicar-se:

-Miss Everleigh        está perturbada, por lhe terem desaparecido três raparigas nas duas últimas semanas.

É algo que nunca havia sucedido anteriormente no clube.

-Lamento-o por ela. E em que é que lhe posso ser útil?

-Ela pensou que valeria a pena pedir-lhe se me poderia fornecer alguma pista quanto ao paradeiro das moças.

-Quem eram essas raparigas?

Pinkerton tirou uma agenda do bolso e folheou-lhe as páginas.

-Miss Fanny Spenser, Miss Avis Kaufman e Miss Greta Ryan. Todas jovens prostitutas, a quem as irmãs davam trabalho. Reconhece-lhes os nomes?

Holmes balançou a cabeça.

-Acho que sim. Ainda que nunca tenha sabido os nomes de família delas. Fanny, Avis e Greta. Sim, fiz-lhes exames médicos. -Pareceu recordar-se de qualquer coisa. - Na realidade, lembro-me agora. Não observei a Fanny e a Avis, nas minhas últimas visitas ao clube. Tencionava perguntar à Minna onde elas se encontravam, mas passou-me.

-Então, quanto à Greta. Era uma das meninas que Miss Everleigh alojou no Hotel Tremont House, o qual ela abandonou ao fim desta manhã. O que é invulgar é que nem ela, nem as outras duas, informaram Miss Everleigh de que se iam embora. Limitaram-se a partir, sem uma única palavra em relação ao seu destino. Desvaneceram-se. pura e simplesmente, no meio do ar.

Holmes abanou a cabeça, para mostrar a sua com preensão.

-Lamento muito. Contudo. por que razão é que a Minna o mandou cá vir interrogar-me?

- Por o senhor ser a única pessoa que as visitava, regularmente e em condições de intimidade, e ela ter esperanças de que pudesse ter sabido, por intermédio de uma ou de todas, dos planos que possam ter tido em mente.

- Estou a ver, estou a ver - disse Holmes. - Bom. conversa-se sempre um bocado, enquanto estou a examinar as raparigas, mas raramente sobre algo de significativo. Deixe-me concentrar nas últimas vezes em que vi essas raparigas. Fanny, diz o senhor?

- Fanny Spenser.

-A última ocasião em que a vi foi há algumas semanas. Não me consigo lembrar de nada digno de nota, que tenha dito nesse dia. Oh, houve qualquer coisa sobre estar aborrecida, por os seus ganhos irem ser reduzidos durante algum tempo. Dir-se-ia que ela se estava a queixar disso e deu a entender que ouvira falar numas casas de Nashville e S. Francisco, onde pagam tão bem como no Clube Everleigh e lhe poderiam garantir trabalho regular.

- Nashville e S. Francisco - repetiu Pinkerton, tomando nota. - Verificaremos isso.

- Quanto à Avis - prosseguiu o médico - recordo-me, de facto, de ela ter mencionado estar farta de ser prostituta e planear desistir, um destes dias, para se dedicar a outro género de actividade.

- E disse de que género se tratava? Ou onde poderia ir desempenhar esse tipo de funções?

-Receio não me lembrar. A minha memória para nomes já não é o que era.

Pinkerton consultou as suas anotações.

- Greta Ryan.

-O senhor deve estar informado de que a observei esta manhã, no hotel - respondeu francamente Holmes.

- Estou sim - anuiu o outro homem.

O médico e encolheu os ombros.

-Pareceu-me bastante satisfeita com o ambiente. Fiquei até com a impressão de que lhe estavam a saber bem as férias. Falou em pôr as suas compras em dia. Penso que se referiu a ter visto, no Carson Pirie Scott, um adorno qualquer que desejava comprar.        É só isso que consigo recordar, receio bem.

-No entanto, não foi hoje às compras,    porque fez as malas e saiu do hotel.

- Estou francamente surpreendido - disse Holmes.

Pinkerton içou da cadeira o corpo enorme.

-Agradeço a colaboração que me deu, Dr. Holmes.

Se conseguir forçar a sua memória a recordar mais alguma coisa, gostava que me telefonasse, para me transmitir qualquer informação que possua. Por mais insignificante que ela lhe possa parecer. Tem o meu número de telefone no cartão de visita. Ligue para mim, no caso de lhe surgir alguma coisa em mente.

Holmes levantou-se.

-Assim farei, pode ter a certeza. Temos de ajudar a Minna a recuperar as suas moças.

Precedeu o outro no caminho para a porta principal, que segurou para o visitante passar.

Ia a rir-se, quando regressou ao seu gabinete.

Representara muito bem e aquele parvalhão do detective tinha engolido tudo. Ninguém, em parte alguma, era mais esperto, inteligente ou dissimulado do que Herman Holmes.

Ainda às gargalhadas, atravessou o compartimento, dirigindo-se às alavancas. das quais ergueu a de cima para libertar o gás.

Adeus, querida Greta. Quando empunhasse o escalpelo. teria outro orgasmo à custa dela... o mais excitante de todos. Quase lhe parecia ouvir o sibilar do gás a penetrar no compartimento à prova de ar. Tinha sido um dia maravilhoso. maravilhoso.

Uma vez de volta ao seu próprio gabinete e já comodamente sentado por trás da sua secretária em desordem. William Pinkerton tirou do bolso o bloco de notas e pôs-se a folheá-lo, à procura das páginas onde havia escrevinhado, no decorrer da entrevista com o Dr. Holmes.

A caminho do escritório, tinha pensado em telefonar a Minna Everleigh, a fim de a informar de que nada surgira da reunião com o médico. Mas agora. tendo acabado de ler as anotações, mudou de ideias.

Ligou para o Clube Everleigh e aguardou pacientemente, até Minna atender.

-Miss Everleigh. Daqui fala outra vez William Pinkerton.

-Sim?

A voz dela denotava ansiedade.

-Acabo de ter uma conversa com o Dr. Herman Holmes. Ainda que se houvesse mostrado na disposição de cooperar. não estou certo de que a entrevista tivesse sido produtiva. Disponho de umas quantas pistas relativamente às suas meninas, desaparecidas. mas são vagas. Segui-las-ei mas, se nada resultar daí, gostava de tomar outro rumo.

- Qual?

-Um que rejeita a veracidade das palavras do Dr. Holmes.

-Pensa que ele o está a induzir em erro relativamente à Fanny, à Avis e à Greta?

-Possivelmente. Seja como for, importa-se que eu avance mais um passo nessa linha de investigação?

-E sair-me-á caro?

-Não lhe custará um centavo, a não ser que eu obtenha resultados. Está de acordo?

-Não poderia pedir melhor.

- Nesse caso, vou prosseguir - retorquiu Pinkerton. - Vejamos o que acontece.

 

MINNA EVERLEIGH chamou Karen Grant ao seu escritório. Conservando-se sentada, apontou uma cadeira à rapariga.

- Gostava que me fizesse um favor - principiou a dizer.

-Se estiver ao meu alcance, terei todo o prazer. Minna mudou de posição na cadeira.

-Alguma vez foste aos armazéns Marshall Field, no centro da cidade?

Karen sorriu-se.

-Anunciam-se como sendo A Loja Para Toda a Gente, por isso tenho a certeza de que já toda a gente lá esteve. Sim, foi um dos primeiros sítios que visitei, ao chegar a Chicago.

- Muito bem. Nesse caso, queria que me fizesses um favor. Era minha intenção acompanhar lá a Cathleen, para escolher o vestido de noiva. Eu mesma já despendi nessa casa bastante tempo e dinheiro. Os empregados e os gerentes conhecem-me bem, tal como o próprio Mr. Marshall Field. Já o viste lá, de pé junto da porta?

- Não, não vi.

- Bom, pode ser que ele se aproxime de ti e meta conversa, por seres uma cliente nova. Se quiseres evitar essa situação, será melhor que saibas qual é o aspecto

do homem. Tem cabelo grisalho, anda pelo final da casa dos sessenta, possui bochechas rosadas e tem cerca de seis pés de altura. É um pouco corcunda, com as pernas algo arqueadas. Costuma conservar o dedo indicador da mão direita metido no bolso do colete, por o ter ligeiramente deformado. Seja como for, mete-se sempre comigo por também eu dirigir um grande negócio, o nosso Clube Everleigh. Pois bem, lembrei-me que, se lá levasse a Cathleen por causa do vestido de noiva. o Marshall Field poderia ver-me e aproximar-se, dizendo alguma gracinha sobre o clube. Não posso permitir que isso suceda diante da minha sobrinha. Compreendes?

- Compreendo, sim.

-O que te peço é que acompanhes a Cathleen ao estabelecimento, em meu lugar, para escolher o vestido de noiva. Prometi ao Harold T. Armbruster, quando almoçámos com ele, que ofereceria um vestido de cetim branco e rendas à minha sobrinha. Gostaria que a ajudasses a escolher algo dentro desse género. O preço não está em causa. Importavas-te de lá ir esta tarde?

- Com todo o gosto - anuiu ela, entusiasmada.

Acolhera bem aquela oportunidade de sair do clube, onde começava a sentir remorsos pela sua actuação como espia do Mayor Harrison. Inicialmente, tudo lhe parecera muito bem, quando havia apenas que ser agradável ao seu chefe, mas tinha agora mais alguém a quem agradar... o sobrinho de Minna, Bruce. Sentia-se cada vez menos contente com a responsabilidade de ser ela a denunciar Minna e Aida aos seus familiares.

Além disso, havia outra razão para ficar satisfeita com a possibilidade de ir às compras com Cathleen. Seria uma ocasião para falar de Bruce Lester com a irmã. Desejava saber tudo o que lhe fosse possível acerca dele.

Porque se sentia apaixonada pelo rapaz.

E porque pretendia descobrir, por intermédio de Cathleen, se também ele estava sinceramente apaixonado por si.

Levando uma efervescente e palradora Cathleen à trela, Karen desceu do eléctrico à esquina das Ruas State e Washington.

A seu lado na rua empedrada, podia ouvir o entusiasmo da outra rapariga, à medida que se aproximavam da gigantesca loja de departamentos. O Marshall Field tinha doze pisos de altura e ocupava todo o quarteirão, entre a esquina da Rua State com a Avenida Wabash, e a esquina entre as Ruas Washington e Randolph.

Atravessaram a entrada que dava para a Rua Washington, sendo cumprimentadas pelo porteiro de libré como se fossem membros da realeza. Lá dentro, percorreram o chão de mármore negro muito polido. Seguranças da casa, empregadas de escritório muito bem vestidos e vendedores de cravos na lapela misturavam-se com as multidões de clientes. Karen levou Cathleen numa breve volta pelos expositores, insistindo com ela para ver as exposições de luvas, caixinhas de pó-de-arroz e joalharias. iluminadas pelos globos de iluminação cor-de-rosa. dotados de lâmpadas eléctricas. Indicou-lhe a livraria do estabelecimento, mobilada com cadeirões verdes de couro e tapetes orientais. Fizeram uma pausa, a fim de irem ao elegante toucador, uma espaçosa divisão ostentando paredes pintadas de verde-claro, espelhos de molduras prateadas e cadeiras de baloiço verdes, em madeira de salgueiro.

Tomaram um elevador para o último piso, onde um vendedor as informou orgulhosamente de que havia uma câmara de frio, contendo vinte e cinco mil casacos de peles. Desceram depois ao andar onde eram vendidos regalos e chapéus e, a seguir, dirigiram-se ao balcão das rendas, onde apreciaram guarda-sóis franzidos, brancos, negros e em tecido lavrado. Finalmente, deambularam pela secção de tecidos a metro, através de intermináveis alas de sedas, algodões, lãs e chiffons, com ornatos costurados à mão.

Ao alcançarem a bem fornecida exposição de vestidos de noiva, apresentou-se-lhes uma vendedora alta e sumptuosa. com o cabelo grisalho preso em cocuruto no alto da cabeça.

-Eu sou a Madame Judith. Poderei ser-lhes útil? Karen acenou afirmativamente.

-Chamo-me Karen Grant e esta é a Cathleen Lester, que está para se casar.

-As minhas felicitações, Miss Lester-disse a mulher. - Permite-me que lhe traga os nossos modelos mais recentes?

- Oh, não será necessário - exclamou Cathleen.

- Eu já vi o que quero.

Estendeu a mão, tocando no vestido exibido por um manequim de cera. Era feito de espesso cetim branco e debruado de renda ponto-de-rosa. Uma cauda de cetim e renda estendia-se a partir da tiara de botões de laranjeira, posta na cabeça do manequim.

- Tem óptimo gosto - declarou Madame Judith. É o nosso mais elegante modelo, directamente importado de Paris.

- Só espero que o Alan goste - disse a rapariga.

- Vai adorar - garantiu-lhe Karen.

Madame Judith estava a tirar o vestido ao manequim.

- Creio que é da sua medida, minha menina - disse ela. - Porque não o prova?

Levou o vestido para o gabinete de provas. com Cathleen e Karen a segui-la. A primeira tirou as roupas, de olhos fixos no vestido.

-É belo. Estava a pensar como também te ficaria bem a ti.

- A mim? - retorquiu Karen. - Eu não tenho ninguém para casar comigo.

Enquanto ela a ajudava a enfiar o vestido, Cathleen disse-lhe:

-Sei de alguém que bem gostaria de casar contigo.

- Quem?

-O meu irmão Bruce.

-Ainda não mostrou o menor interesse em mim.

- Oh, mas está interessado - replicou a outra. Passa o tempo a falar em ti, quando nos encontramos os dois sozinhos.

- E porque é que não me diz nada a mim? - perguntou Karen.

Cathleen estava a endireitar o vestido.

-Talvez por achar que não o pode fazer. Possivelmente, por se dar conta de que tem grandes problemas financeiros.

-Referes-te à necessidade de arranjar dinheiro para o vosso pai?

-Sim, isso em primeiro lugar. E depois também porque deve interrogar-se sobre a forma como conseguiria sustentar uma esposa e a si próprio.

- Estás a querer dizer-me que ele é capaz de pensar em casar com a Judith Armbruster... no intuito de resolver tudo.

- Bem, a menos que surja qualquer outra solução...

-E que solução poderá surgir?

-A sua esperança a longo prazo é a corrida - respondeu Cathleen.

- A quê?

-O American Derby, que se realiza depois de amanhã.

Karen abanou a cabeça.

-Todos acham que o cavalo dele não pode ganhar.

-O Bruce tem esperanças de que ganhe, e eu também tenho, ele acredita que o animal é um investimento a longo prazo.

-Apostaria que quem irá vencer é quem tem maiores probabilidades: a Judith Armbruster.

- Veremos - retorquiu a outra rapariga. Pavoneou-se diante de um espelho.

- Que achas?

- Uma maravilha! - comentou Karen. - Sinto-me feliz por ti.

Mas aquilo fazia-a sentir-se pior que nunca... por si própria.

A manhã do dia em que se realizaria o American Derby esteve morna, mas o sol mantinha-se alto e o céu límpido, com a temperatura a subir constantemente. Pela tarde, já fazia calor. Precisamente aquilo que o Garrison Mordedor anteriormente desejara e até predissera. recordava Bruce Lester a si mesmo, ao penetrar na zona dos estábulos, acompanhado por Karen e pela sua tia Minna, esta com véu no rosto.

Frontier encontrava-se diante do seu estábulo, a mastigar cubos de açúcar, que Garrison permanentemente lhe dava, enquanto vigiava atentamente o moço que selava o potro. Observou a sela a ser colocada numa manta, sobre a cernelha, sendo a seguir presa por uma cilha de couro. Depois de afivelado e apertado o arreio, Garrison virou-se para Bruce, Karen e Minna, a fim de os cumprimentar.

- Sejam bem-vindos - disse-lhes. Enxugou a testa.

-O dia está perfeito. Não se podia pedir melhor.

- Você queria-o quente - comentou Bruce. - Por que motivo?

O sorriso do homem foi enigmático.

- Verá, patrão.

- Como é que ele está a correr? - indagou o rapaz.

-Você é que o tem estado a trabalhar.

Garrison deu uma palmada no flanco do cavalo.

- É rápido... demasiado rápido à partida - respondeu. - Quando atinge a milha, principia a mostrar-se cansado. - Sorriu. - Espero modificar tudo isso durante o Derby.

Bruce não se mostrava muito optimista.

-Aparentemente, ninguém mais pensa que ele tenha quaisquer hipóteses. As apostas no Frontier estão a quinze contra um. As do Picket são de trés contra cinco. É ele o favorito em toda a línha.

- Tem obrigação disso - concordou Garrison. É um cavalo grande e poderoso.

Soou um clarim na pista, situada no meio das tri bunas de madeira do Parque Washington.

Garrison Mordedor escutou-a e apoiou logo o pé no estribo.

- Continua a pensar que temos possibilidades? resmoneou Bruce. - Mesmo a quinze contra um?

O jockey impeliu a sua frágil estrutura para cima da sela.

-Nunca ouvi falar de nenhum calculador de pro babilidades que tivesse ganho uma taça de prata.

Minna deu um passo em frente, aproximando-se mais do sobrinho. Remexeu na bolsa e tirou dela um maço de talões.

- Pois eu acho que o Frontier merece uma aposta. A Aida e eu levantámos do banco mil dólares. Apostei-os todos na vitória dele. Toma, fica com estes talões, Bruce. É um presente das tuas tias.

Com relutância, o rapaz aceitou os papéís.

-Era melhor que não o tivesse feito, tia Minna. Mas claro que agradeço a sua confiança.

-Estou a apostar contra a Judith Armbruster - disse ela asperamente. Abrigando os olhos velados do sol, pestanejou para o alto, na direcção de Garrison. Fiz asneira, Mordedor?

O jockey dirigiu-lhe um sorriso.

-Talvez ambos a tenhamos feito. Eu não dispunha de mil dólares, mas tinha quinhentos. Apostei-os todos na vitória do Frontier. Se perder, deixarei de ter um telhado sobre a cabeça. Terás de me sustentar, Minna.

Quando fez avançar o cavalo na direcção do local da apresentação, Bruce bradou-lhe:

- Boa sorte!

-Arranjem lugares para os três perto da meta - retorquiu Garrison. - Olhem bem para as cores verde e branco.

Tinha-se aglomerado na bancada do Parque Washington, e apinhado no campo, uma enorme multidão de 45000 pessoas. A maioria viera em carruagens, coches, carros e no último grito da moda que eram os seus automóveis. Muitos menos espectadores ali tinham chegado a pé e em transportes públicos, aguardando todos com ansiedade, sob o calor, a partida para o American Derby, dotado com os seus 25 000 de prémio.

Bruce, colocando-se na dianteira, abria caminho através daquele mar de gente, seguido de perto por Karen e Minna.

Acabaram por conseguir aproximar-se da meta, encostando-se ao gradeamento e fixando o olhar a uma distância de um quarto de milha, na linha de partida.

Bruce apresentou dois pares de binóculos baratos, um para Karen e outro para ele, enquanto Minna limpava as lentes dos seus binóculos de ópera.

A dúzia de cavalos de corrida havia desfilado para além do local de partida. voltando a trote até à grelha, a fim de serem aí alinhados pelo juiz de partida.

O rapaz assestou os binóculos na linha. Como habitualmente, os puros-sangues deslocavam-se em círculos, embatendo sem cessar uns nos outros, entrando e saindo da grelha e sendo pacientemente trazidos de volta aos seus lugares. O rapaz focalizou Frontier, qu se conservava calmamente na posição de largada, junto do gradeamento interior. Os cavalos em competição potros e poldras continuavam a deambular sob o sol ardente.

Gradualmente, os animais foram alinhados na perfeição e via-se o juiz de partida, prestes a fazer levantar a grelha, quando Bruce reparou que Garrison Mordedor estava a erguer ambas as mãos, em sinal de protesto.

Viu-o apontar para baixo. na direcção das botas. Aparentemente. tinham-se partido os atacadores de uma delas.

Novos cordões teriam que lhe ser trazidos. O assistente do juiz de partida correu a buscá-los.

Bruce viu um contrariado (ou fingidor) Garrison

Mordedor desmontar e pôr-se a passar casualmente por trás dos irrequietos cavalos, enquanto os vários jockeys se esforçavam por sossegar as nervosas montadas.

Passaram-se cinco minutos, depois dez, a seguir quinze até que, finalmente, o assistente do juiz de partida regressou com novos atacadores para Garrison. Aceitando-os, este demorou o seu tempo a apertá-los na bota esquerda.

Finalmente. declarou-se preparado. Pôs um pé no estribo de Frontier e projectou-se para cima da sela.

Agora, já os outros puros-sangues se encontravam novamente alinhados, a contorcerem-se, a virarem-se, a embaterem uns nos outros, sob o impiedoso sol do meio da tarde.

Através dos binóculos, Bruce pôde distinguir um movimento de Garrison Mordedor. Na sua posição de número um, ele tinha tirado o pé esquerdo do estribo e apoiara-o na vedação da parte interior do campo, aliviando praticamente todo o peso de cima de Frontier, enquanto as outras irascíveis montadas transpiravam sob o peso dos seus cavaleiros.

Com milhares de espectadores a contraírem-se em expectativa, aguardando a largada para o American Derby, o juiz de partida continuava a não poder autorizá-la. Bruce consultou o relógio. Mais de hora e meia se tinha passado desde que os cavalos haviam sido levados para a grelha. Ali de pé, a observá-los, dava-se conta de sentir como chumbo as suas próprias pernas e tentava imaginar como não estariam agora as dos animais.

Mais uma vez o juiz de partida conseguira alinhar os puros-sangues, quando Bruce viu Garrison pôr-se em pé em cima do Frontier, acenando desesperadamente e gritando para o juiz.

Desmontou de novo e, a avaliar pelos seus gestos, o rapaz pôde ver que apontava para a cilha da sela. Tinha-se partido e ele estava, obviamente, a exigir uma nova. Mais uma vez se encontrava no solo, fora do lombo do cavalo. enquanto os outros jockeys permaneciam em cima das suas exaustas montadas.

Bruce viu, pelos binóculos. o juiz de partida dirigir-se a Garrison, enfrentando-o e agitando iradamente o punho diante dele. Baixou os binóculos e reparou que Minna também fizera o mesmo e estava a sorrir abertamente.

-Tia Minna, dá-me a impressão que sabe qualquer coisa que eu ignoro - disse o rapaz. - Que é que se está a passar? Nunca ouvi falar de uma corrida que tivesse demorado tanto tempo a começar.

Minna continuava a sorrir gostosamente.

-Deixa-me explicar-te. Quando a Aida e eu apostámos no Frontier, não o fizemos de facto no teu cavalo que, na realidade, não conhecíamos bem. Apostámos no Garrison Mordedor. Porque a esse conhecemos nós. Lembras-te de ele ter formulado votos de um dia quente, quando tu o contrataste? Não percebeste porquê. Mas eu percebi. O problema do Mordedor era superar a força dos cavalos rivais, enfraquecê-los, o que colocaria o Frontier em pé de igualdade com eles. ou em melhores condições ainda. E é isso que tem estado a fazer. Primeiro, o atacador da bota. A seguir, o repouso apoiado no gradeamento. Agora, a cilha da sela partida. Tudo isso antecipadamente preparado, tenho a certeza. O Mordedor forçou os outros cavalos e seus cavaleiros a conservarem-se nas posições de partida durante cerca de duas horas. Sim, já passaram duas horas e todos os animais se mantêm ainda na grelha. Estou certa de que, neste momento. ele já se encontra preparado para a partida. Vejamos.

Levou os binóculos de ópera aos olhos e o sobrino ergueu então os seus mais uma vez, focando-os na linha de partida.

Nova cilha fora trazida para a sela de Garrison e ele trocara prontamente a que se partira.

Finalmente satisfeito, saltou para cima do Frontier e montou-o com segurança. Bruce acompanhou o olhar dele, que estudava os seus rivais. Os outros cavalos pareciam sem energias. até mesmo cansados. O rapaz concentrou-se no seu próprio potro. Pôde verificar que Frontier permanecia fresco. calmo, repousado e... sim, preparado.

Deslocou os binóculos na direcção do juiz de partida, que tinha conseguido alinhar as montadas.

E, nesse momento, a grelha foi erguida e os cavalos partiram.

Bruce inclinou-se sobre a vedação, procurando distinguir como fora a partida. Alguns animais desconhecidos haviam tomado a vanguarda. O favorito. Picket, seguia em segundo lugar por meio comprimento. Escrutínou o pelotão, que se dirigia para a primeira curva, mas não conseguiu ver as cores verde e branco. Avistou-as depois: o Frontier encontrava-se no décimo segundo lugar, o último, e galopava preguiçosamente. O chicote de Garrison continuava enfiado na bota, enquanto avançavam para a marca do meio do percurso.

Os cavalos entraram na recta oposta à meta. O desconhecido que estivera em primeiro lugar tinha descido para o meio do pelotão. As duas horas na linha de partida, com um jockey em cima, haviam começado a cobrar o seu tributo. Picket tomara a dianteira por um comprimento, a seguir por dois comprimentos. Frontier já não seguia em último lugar. As cores verde e branco começavam a ganhar terreno. Bruce pôs-se a contar. Frontier devia ir em oitavo. não. em sétimo, não... em sexto.

Os cavalos galoparam pela recta oposta à meta e viraram para a da chegada.

Bruce soltou um resmungo. Picket estava a atingir um avanço de três comprimentos. Frontier alcançara o quarto lugar, mas o tempo passava. O rapaz fechou os olhos. O seu, bebé não iria conseguir.

Quando os reabriu, os cavalos já galopavam na recta da chegada. A princípio, não foi capaz de avistar Frontier, porque ele já não seguia em quarto lugar, nem mesmo em terceiro. Estava em segundo e Garrison acabara por tirar o chicote da bota e castigava, sem parar, com o cabo a sua montada.

Ao aproximar-se da linha de chegada, Frontier apresentava-se cheio de ânimo. pleno de força compacta e poupada, mal espumando pela boca. Fazía o seu jogo. Movendo-se como um redemoinho de vento, encurtava rapidamente a brecha existente entre ele e Picket. O Mordedor montando deitado e com dureza, preparava-se para mais um final à Garrison.

O barulho produzido pela multidão que se estendia atrás de Bruce era estrondoso. Os cavalos que se aproximavam pareciam nuvens de poeira rodopiante com cascos a martelar no terreno.

O rapaz já não necessitava dos binóculos. O que se estava a passar era claramente visível a olho nu. Frontier cobrira a distância que o separava do comandante. Estava pescoço a pescoço, garupa a garupa com Picket ao acercarem-se da linha.

De repente, outros espectadores se acumularam diante de Bruce, empurrando-o para a retaguarda.

Perdeu momentaneamente de vista a meta.

Saltando para cima de uma cadeira desocupada, avistou de relance um cavalo a cortar a linha de chegada, comandando por um comprimento. A poeira ofuscou-lhe a visão e, durante um instante, não soube dizer quais haviam sido as cores do vencedor.

Distinguiu-as depois.

Verde-e-branco!

Frontier, com o Garrison Mordedor na sela, tinha vencido o American Derby de 1903. Eram os quinze contra um atribuídos ao seu cavalo. Eram os vinte e cinco mil dólares do primeiro lugar.

Bruce viu uma ofegante Karen Grant a dirigir-se para si, para o abraçar e beijar.

Depois, a rapariga ergueu o olhar para ele. Foi incapaz de lhe ler a mente, mas adivinhou o que nela se continha.

Karen estava a dizer a si mesma que podia não ter sido ela a vencedora... mas de certeza absoluta que Judith Armbruster havia perdido.

O telefone estava a tocar em cima da escrivaninha de Minna Everleigh.

Ela atravessou a sala a correr para o atender.

- Estou.

Reconheceu imediatamente a voz do homem que falava.

-Daqui é Harold T. Armbruster - disse ele. É com Miss Minna Lester que estou a falar?

Devido ao longo hábito, ela quase o corrigiu, dizendo que era Minna Everleigh. Mas conteve-se a tempo.

-Sim, daqui é Minna Lester.

-Como vai? Na verdade, liguei para falar com o seu sobrinho. O Bruce está em casa? Queria felicitá-lo pela magnífica vitória do cavalo dele no American Derby.

Minna estava a gostar daquilo.

-Saiu, para ir ao Parque Washington, decidido a dizer que não a todos os pretendentes ao Frontier.

- Compreendo-o bem - disse Armbruster. - Tinha esperanças de que me tratasse como um licitador muito especial. Claro que me agradaria comprar o cavalo, fazê-lo correr um pouco e reservá-lo para reprodução. Importa-se de dizer ao Bruce que estou interessado?

- Com todo o prazer - anuiu Minna. - Mas receio que isso não faça qualquer diferença para ele, Mr. Armbruster.

-Tem a certeza?

- Absoluta - asseverou ela.

-Um prémio de vinte e cinco mil dólares pode parecer-lhe uma fortuna, agora que ainda é jovem mas, mais tarde, há-de precisar de todo o dinheiro que consiga reunir.

-Ganhou quinze mil em apostas.

- Até isso pode esgotar-se - insistiu Armbruster.

-O que lhe quero dizer é que continuará a necessitar, para o futuro, de uma posição de executivo, estável e bem remunerada. A proposta que lhe fiz mantém-se em aberto.

-Desde que ele case com a sua filha Judith.

-Bem, sim, nhaturalmente. Ficaria tudo em família, passaria a ser um dos nossos. E eu saberia então que podia confiar inteiramente nele, mesmo em relação aos mais sensíveis assuntos de carácter financeiro.

-Parece-me que posso responder pelo meu sobrinho - disse Minna. - Por mais bonita moça que a sua filha possa ser, não creio qe o Bruce esteja a pensar em casar com ela. Ou, na realidade. em qualquer outra coisa que não seja a criação de cavalos no Kentucky.

-É pena. Tornar-se vice-presidente de uma das maiores companhias de carne enlatada do país não é nada para deitar fora.

-Mr. Armbruster, em relação a isso, lembro-lhe que o Bruce continua a ser vegetariano. Poderá conversar pessoalmente com ele durante a boda, na próxima semana. Mas devo dizer-lhe que vai ser uma só boda... e não duas.

Após essa chamada fora do comum para si e tendo-se concentrado, durante a tarde, nos trabalhos da sua fábrica, a mente de Armbruster voltou a dedicar-se a uma preocupação mais imediata, nessa noite, depois de jantar.

A recordação do seu próprio casamento, em Mil waukee, ainda se Lhe mantinha viva no espírito. Ou antes, para falar com mais exactidão, o acontecimento que o precedera, há tantos anos atrás. O pai dele tinha-o chamado à parte, dizendo-lhe que qualquer jovem, não versado em assuntos de sexo, devia ganhar alguma experiência antes da sua noite de núpcias. Um encontro sexual com uma profissional aliviar-lhe-ia a tensão em relação ao que o aguardava junto de Pearl. Por conseguinte, como presente pré-nupcial, o pai levara-o a um famoso bordel do Milwaukee, para a sua iniciação em sexo com uma mulher.

Armbruster recordava-se de se ter sentido aterrorizado, mes sem poder contrariar o pai e desejando, além disso, satisfazer a sua curiosidade e acabar com aquilo.

Já no bordel, a jovem fora antecipadamente avisada de que o seu cliente era virgem e instruída no sentido de o tratar com consideração.

Correra tudo bem, melhor do que esperara e, quando ele e Pearl se tinham despido para a noite de núpcias, encontrava-se já preparado. Sentia-se experiente, sem medo de fazer amor com a sua noiva.

Agora, com Alan prestes a casar, Armbruster achava que o seu próprio filho deveria disfrutar das vantagens da mesma iniciação nos mistérios do sexo que ele próprio tivera na juventude.

Decidido a proporcionar um encontro sexual a Alan na noite seguinte, fizera inquéritos na fábrica quanto à melhor casa de prostituição onde poderia levar o filho. Pessoalmente, Armbruster sabia muito pouco acerca de bordéis, excepto aquilo de que ouvira os seus amigos gabarem-se. Nunca entrara em nenhum durante a sua vida com Pearl; na realidade, nunca lhe tinha sido infiel uma única vez. Lia eventualmente artigos na Imprensa sobre os mais notórios bordéis da cidade, mas sempre os ignorara, como não passando de lixo pornográfico. Na verdade, não conhecia o nome de uma única casa de prostitutas de Chicago, mas não se sentia acima de fazer perguntas, no sentido de descobrir qual era a melhor.

No decorrer do dia seguinte, falou separadamente com dois dos directores da sua fábrica e com o seu encarregado mais antigo.

Contou francamente a cada um deles o plano que tinha em mente relativamente a Alan. Depois de o ter feito, pediu-lhes conselho quanto ao bordel que lhe recomendariam, para aquela primeira experiência séria de um noivo.

Unanimemente, todos os seus conselheiros lhe sugeriram a mesma casa. Como um só homem, disseram-lhe:

-Leve o seu rapaz ao Clube Everleigh, que fica na Rua Dearborn.

Achou que esse nome lhe fazia soar um sino na mente. Dava-lhe a impressão de ser familiar. Contudo, não sabia nada sobre a casa. Partiu do princípio de que aquela sensação de já visto se devia ao facto de, à semelhança de uma avestruz que houvesse enterrado a cabeça na areia, ele sempre ter conservado olhos e ouvidos focalizados no seu negócio. Não prestara atenção a nada alheio a ele.

Lembrava-se de lhe terem dito como tratar dessa iniciação no Clube Everleigh. Seria conveniente reservar uma mesa, para Alan e para ele próprio, no dispendioso restaurante do Clube. Ele e o filho deveriam gastar prodigamente dinheiro numa óptima refeição, acompanhada de bom champanhe. Após isso, exigiria diversões para o rapaz, ao andar de cima.

Depois de cear em casa, Armbruster disse ao filho que gostaria de ter uma conversa particular com ele, na biblioteca.

Uma vez confortavelmente instalados por trás de portas fechadas, apresentou a Alan a sua proposta. Não precisamente uma proposta, mas antes uma ordem.

- Alan - principiou - dentro de poucos dias irás ver-te casado com uma encantadora virgem sulista. Até aí tudo bem. Mas o que complica a situação é tu seres igualmente virgem. Não é nada bom que te apresentes tão completamente inexperiente na tua noite de núpcias.

-E porque não? -retorquiu ele. - Depois da noite de núpcias, já passarei a ter experiência e a Cathleen também.

- Escuta-me, meu filho, tal como eu fiz com o meu pai, antes de me casar. A noite de núpcias pode transformar-se numa provação horrível, a menos que saibas o que estás a fazer. Podes andar às apalpadelas, fazer as coisas de modo errado. Um mau início poderá conduzir-te a um péssimo casamento.

-Que está a tentar dizer-me?

-Que necessitas de alguma experiência sexual, antes de passares pela mais significativa de todas, com a Cathleen. Necessitas de ter antecipadamente outra mulher, uma profissional.

Alan protestou:

-Não preciso de ninguém e não quero ter ninguém antes da minha esposa. Papá, eu não vou ter problema nenhum com ela, garanto-lhe. Conheço a anatomia feminina, do meu curso de biologia no colégio. E sei de algo mais importante. De cada vez que ponho os olhos na Cathleen, o meu pénis endireita-se. Acho que é tudo o que necessito de saber.

- Precisas de possuir primeiro outra mulher - insistiu Armbruster. - Vamos fazer as coisas à minha maneira. Averiguei que o bordel mais luxuoso de Chicago é o Clube Everleigh, da Rua Dearborn. Industriais e celebridades vão lá regularmente, para disfrutarem das amenidades que oferece. Até já fiz uma reserva para cearmos lá, amanhã à noite. É assim que se faz. Cearemos no Clube Everleigh e tomaremos umas quantas bebidas, para te descontrair. Depois. eu provi denciarei para tu seres levado ao andar de cima, a fim de teres a tua experiência com uma das bonitas jovens da casa. Esperarei por ti no andar de baixo. Quando desceres, serás um homem, meu rapaz, um homem a sério e estar-me-ás agradecido pelos conhecimentos que te proporcionei. Conta ires comigo ao Clube Everleigh, às oito horas da noite de amanhã.

Havia consternação. nessa noite, no Clube Everleigh.

Edmund fora falar com Minna e Aida, informando-as de que Harold T. Armbruster reservara mesa para a ceia da noite seguinte, para si e para o seu filho.

- Eu aceitei a reserva - disse o criado - mas sei que Mr. Armbruster é a última pessoa que as senhoras desejam ver aqui.

Aida entrou de imediato em pânico.

-Vai anulá-la. Inventa uma razão qualquer de que te lembres. Se ele nos vir aqui e perceber o que fazemos, é capaz de cancelar a boda. Terás de tomar medidas para que ele não seja cá admitido, porque...

- Não - interrompeu-a Minna. - Isso seria excessivamente suspeito. - Dirigiu-se a Edmund. - Vêm cá

só para jantar?

Edmund pigarreou.

-Não precisamente, Miss Minna. Para jantar, é claro, mas ele disse-me que, após a refeição, gostaria que o filho se divertisse lá em cima. Explicou-me que o filho se ia casar dentro de dias e é virgem, pelo que desejava que ele tivesse pelo menos uma experiência pré-matri monial.

- Não podemos permitir uma coisa dessas – disse receosamente Aida para a irmã. - A verdade pode transpirar.

-Não transpirará-contrariou a outra, em tom inflexível. - Permanecerá entre pai e filho. garanto-te.

Não ponho quaisquer objecções a que o Alan vá lá acima e se divirta um pouco com uma das meninas. Se é isso que o seu pai deseja, devrá ser-lhe permitido fazê-lo. A Cathleen e o Bruce nunca virão a descobrir.

Procura ser sensata. Aida. várias das raparigas cá da casa têm levado clientes de confiança lá para cima. Não há motivos para uma delas não ter também um encontro com o Alan Armbruster: Expôs o que tinha na ideia. O importante é que isso ocorra no Clube Everleigh, mas sem os deixar saber que as tias considerades

figuras da sociedade, é que exploram a casa. Além disso, tu e eu teremos simplesmente que nos enfiar no escritório e mantermo-nos fora de vista, quando os Armbroster chegarem. ficando lá escondidas até eles se irem embora. Poderemos fazê-lo sem dificuldade.

- Queres dizer que vamos ficar fechadas à chave toda a noite de amanhã?

- Não toda - disse Minna. - Poderemos dedicar-nos às nossas actividades normais. Mas, no instante em que o Edmund receber os Armbruster no vestíbulo, poderá deixá-los aí por um momento e correr para o Professor Vanderpool, que estará ao piano. Lembras-te de todos esses indicativos musicais, esses códigos que combinámos com ele, para nos avisar se houver perigo? Pois bem, assim que os Armbruster chegarem, ele que toque Mais Trabalho para o Cangalheiro. Será essa canção a indicar-nos que já se encontram cá em casa. Onde quer que estejamos, ouvi-lo-emos tocar e correremos para o estúdio. Assim que a costa estiver livre, o Professor Vanderpool voltará a tocar a mesma coisa. Que te parece?

Aida mostrou-se aliviada.

- Parece-me um plano à prova de falhas.

- E é-o - asseverou a irmã. - Portanto, não te preocupes. Deixa os Armbruster chegarem e partirem. A reputação de Cathleen e Bruce Lester não será prejudicada. Dou-te a minha palavra de honra.

A meio do dia seguinte, Bruce Lester tinha ido em busca de Karen. Foi encontrá-la a pôr as mesas, no restaurante.

Aproximou-se dela.

-Karen, dispões de um momento livre?

-Tenho todo o tempo do mundo por minha conta - respondeu. - Não tenho trabalho a sério até à hora do jantar desta noite.

-Óptimo. Posso dar-te uma palavrinha lá fora?

Intrigada, a rapariga acompanhou-o para fora do restaurante. Uma vez no vestíbulo, ele disse-lhe:

-Podemos falar aqui.

-Não é nada de fazer tremer o mundo, só uma coisa para satisfazer a minha curiosidade.

- Acerca de quê?

- Aqui do lar das minhas tias - disse Bruce. Nunca o vi de ponta a ponta. Sempre que peço à tia Minna para mo mostrar todo. ela responde que está muito ocupada e a tia Aida a mesma coisa. Pode ser que se trate de coincidência. ou talvez não. Em qualquer dos casos, gostava de ver a casa. Uma vez que a Minna e a Aida ainda estão a dormir, pensei que tu me pudesses guiar pela mansão toda.

Karen mostrou de imediato a sua relutância.

-Esta casa não me pertence. Não tenho bem a certeza de o poder fazer.

Bruce insistiu.

-Estou convencido de que não têm nada para esconder. A menos que saibas de alguma coisa.

Dividida entre a lealdade a Minna e Aida e o desejo de agradar a Bruce. Karen cedeu. com hesitação:

-Claro que não conheço a casa tão bem como elas. Mas já a percorri toda uma quantidade de vezes e poderia mostrar-te tudo o que vi.

- Basta-me isso - disse Bruce. - Trata-se de um lugar tão esquisito para duas pequenas senhoras. que gostava de ver o que fizeram com ele. Importas-te?

- Bem, suponho que não fará mal - anuiu a rapariga, tomando-o pela mão. - Poderemos principiar pela biblioteca. da qual a Minna tanto se orgulha.

Levou-o para além do restaurante, fazendo-o penetrar na biblioteca.

Bruce pôs-se a contemplá-la.

-Toda esta intelectualidade me intimida - confessou.

A Minna possui aqui mais de três mil livros: Olha a colecção completa das obras de Shelley. Ali adiante há dezanove volumes de poesia chinesa. A seguir, Guy de Maupassant. Uma colecção completa de Edgar Allan Poe.

A Minna disse-me que ele era vosso parente, do lado da mãe dela.

- Nunca tinha ouvido falar nisso.

- E sabiam que a tua tia Minna está a escrever um livro de sua autoria? - indagou Karen. - Até o discute comigo. Tem por título: Poetas, Profetas e Deuses.

Bruce abanou a cabeça, maravilhado.

-O irmão dela, meu pai... sempre pensei que era ele o cérebro da família. Acho que posso agora dizer que a minha tia é, pelo menos. sua igual.

Ao saírem da biblioteca, Karen sugeriu que pusessem de parte a galeria de arte.

- Não é o meu forte - disse. - Apenas conheço a reprodução do Apolo e Daphne, de Bernini. Não percebo absolutamente nada de pintura. Queres ir ao retiro preferido da Minna, o Salão Dourado?

- Referes-te àquele que tem o piano de ouro puro e as escarradeiras do mesmo metal? - indagou Bruce.

-Já o vi. Não consigo imaginar coisa alguma de mais faustoso.

A rapariga soltou uma gargalhada.

- Bem, pergunto a mim mesma se já viste o Salão de Cobre? - inquiriu, ultrapassando o Salão Dourado.

- Não, mas gostava de ver.

Conduziu-o para lá. As paredes eram apaineladas de cobre e latão martelado. O mobilíário fora fabricado em latão arábico. No centro, via-se uma mesa de mogno, com tampo de mármore italiano. A toda a volta do salão havia gaiolas com canários amarelos, que cantavam a plenos pulmões.

Entraram no Salão Rosado, com os seus ornatos de parede rococó. pintados de cor-de-rosa. os cadeirões de braços, espalhados por todo o lado, e os divãs forrados de seda cor-de-damasco claro.

Veio depois o grande Salão de Baile. dominado por um maciço candelabro de contas de vidro, projectando a sua luz sobre um soalho de madeiras raras, dispostas em padrões de mosaico.

- Ainda há mais? - perguntou Bruce com espanto. enquanto recomeçavam a visita.

- Há o Salão Chinês - respondeu Karen. O rapaz contemplou os ornatos e tapeçarias orientais. No meio do salão, viu uma mesa de teca, tendo em cima uma taça de latão de tamanho gigante, cheia de volumes embrulhados em tecido vermelho.

-Que é isto?

Karen ia para explicar que aquilo era usado pelas raparigas, mas depois corrigiu-se:

-Esses embrulhos são fogo-de-artifício chinês. Quando os convivas vêm para aqui tomar champanhe, a tua tia Minna solta algumas peças. Se eles fizerem mais barulho do que uma rolha da garrafa de champanhe a saltar, ela oferece o jantar gratuitamente, bem como um. um beijo de amizade na face.

- Uma brincadeira invulgar- comentou Bruce.

Prosseguiram para o Salão Mourisco. Estava mobilado com fundos sofás africanos e a fonte que lá havia projectava um perfume almiscarado e intoxicante.

-A tua tia Minna gosta de abrir aqui caixas de borboletas vivas.

Involuntariamente, Bruce sacudiu a cabeça. Apon tou para as portas de dobrar que davam para outro compartimento.

- Que é aquilo? - perguntou.

- Para te ser inteiramente franca, não sei - respondeu Karen. - Nunca estive lá dentro. Queres ir dar uma espreitadela?

- Porque não?

A rapariga abriu as portas, desvendando o interior.

- Oh, céus! - arfou. - Todo o chão coberto por espelhos - Espantoso.

- Já tinha ouvido falar do Salão dos Espelhos - disse Karen. -Deve ser este.

Passou por Bruce. penetrando no compartimento e percorrendo cautelosamente o chão espelhado, para acabar por se deter, fascinada com aquilo que tinha debaixo dos pés.

Bruce estava a fitá-la. Os olhos dele baixaram para a fimbria da saia da rapariga e para os bicos dos sapatos.

- Karen - disse. - Consigo ver o que usas por baixo da saia.

-Que queres dizer com isso?

- Tu tens... tens uma camisa debruada de renda por baixo do corpete. - Engoliu em seco. - Separa-se, mas cobre- te por entre as pernas.

- Meu Deus! - exclamou ela.

Saiu do soalho espelhado o mais depressa que foi capaz. como se estivesse a caminhar descalça sobre carvões em brasa. Junto da porta. levou a mão à boca.

-Para que servirá um soalho destes. na casa das tuas tias?

-Ou, já agora, para que existirá aquí um restaurante?

Bruce tomou-a pelo braço, enquanto se afastavam dali. Ia perdido em pensamentos.

-Sabes. Karen, não tenho a certeza que isto seja o lar da tia Minna e da tía Aida - acabou por dizer. É mais como se fosse uma casa.

- Uma casa? - repetiu ela. - Que queres dizer com isso?

-Uma vez, em Louisville. fui levado a uma casa dessas - respondeu o rapaz. - Não tinha tanta classe nem o tamanho desta. mas o luxo era praticamente o mesmo. Tratava-se de uma casa de má fama, Karen. Esta parece-se com ela. Sabes muito bem que uma casa nem sempre é um lar.

-Bruce! Sabes o que estás a dizer?

- Não tenho bem a certeza - admitiu ele.

- Bem, não o digas, por favor, não o digas!

Às nove horas dessa noite, no Clube Everleigh, os Armbruster pai e filho, sentindo-se este último desconfortável no seu fato de lã castanho e lacinho, tinham já acabado de cear.

Harold Armbruster sentia-se relaxado. expansivo, enquanto continuava a encher Alan de champanhe.

Aconselhara o filho a comer pouco e a beber bas tante, para superar o nervosismo. Ambos haviam preferido frango assado e agora o pai recostara-se na cadeira. saboreando um charuto, enquanto via Alan a beberricar constantemente champanhe.

- Um belo lugar, este Clube Everleigh - admitiu o pai.

-Sim.

-Nunca ninguém me tinha dito que uma casa de meninas, podia ter este aspecto. Aposto que as raparigas são bonitas a condizer.

Alan fez um derradeiro esforço para resistir.

-Pai, eu não preciso disto. Saberei muito bem como proceder com a Cathleen. Vamos embora para casa!

Armbruster abanou a cabeça com vigor.

- É agora, ou nunca. Se eu permitir que seja nunca, estarás metido em muito maus lençóis. na próxima semana. quando chegar a hora. Vou obrigar-te a passar por isto, Alan. Nunca conseguirás contar as vezes que, mais tarde, me hás-de agradecer.

- Já que insiste - resmoneou o rapaz.

- Nunca insísti contigo em relação a mais nada. Esboçou um aceno de mão para Edmund. que acorreu de imediato. Armbruster disse-lhe: -Terminámos de comer. Esperarei cá em baixo e tomarei mais umas bebidas, até o meu filho estar disposto a ir-se embora. Importa-se de providenciar para que seja levado lá acima, a fim de se divertir?

- Com certeza. senhor. - Edmund fez sinal à raparíga mais próxima. Era Karen. - Deixarei ao cuidado da nossa recepcionista escoltá-lo até ao andar superior. - Quando ela se colocou a seu lado, inclinou-se e sussurrou-lhe ao ouvido: -Leva o rapaz para o quarto da Margo. Tu sabes qual é. Ela está lá à espera.

Karen estendeu a mão a Alan, que se pôs em pé com relutância. Lançou um derradeiro olhar contrariado a seu pai e seguiu depois a rapariga para fora do restaurante.

Enquanto se encaminhavam devagar para a escadaria, Karen inquiriu:

-Está com ar de quem vai para a guilhotina. É a sua primeira vez?

- Sim - respondeu ele em voz trémula.

- Pode revelar-se uma provação - comentou a rapariga - mas também pode ser divertido, desde que se descontraia. Não creio que se vá arrepender. A Margo é muito boa.

- Eu. eu espero que tenha razão.

Alcançaram o topo da escadaria e Karen guiou-o para além de numerosas portas.

- Margo. Margo - murmurava para si mesma. - Ou está no oito. ou no nove. Tenho a certeza que é no oito.

Abriu parcialmente a porta e espreitou para o interior.

- Deve ter ido à casa de banho. Na verdade, parece-me ouvir água a correr. Muito bem, Alan, entre sozinho. Tire a roupa e meta-se na cama. Ela vem já e dir-lhe-á o que tem a fazer.

- Okay - concordou ele.

Karen fechou bem a porta e dirigiu-se para as escadas. rezando para que tudo corresse bem ao pobre moço.

E para que Bruce nunca viesse a saber daquilo. No quarto, Alan detivera-se, impotente, olhando em volta sem ver nada. a não ser a cama de latão, com o seu espesso colchão, coberto por uma colcha de caxemira branca.

Quando cessaram os sons provenientes da casa de banho, compreendeu que não podia continuar ali. inteiramente vestido. Com dedos entorpecidos, principiou a tirar a roupa. deixando-a cair num monte; primeiro o casaco, depois o laço, a seguir a camisa, os sapatos e meias e, finalmente. as calças. Fícou ali de pé. vestido apenas com a roupa interior. de uma só peça e sem mangas, tendo o fecho parcialmente desapertado.

Embaraçado por estar despido. movimentou-se na direcção do leito e estava prestes a enfiar-se por baixo da colcha. quando escutou o puxador da porta da casa de banho a rodar.

Com o coração a bater como um tambor. virou-se para lá, enquanto a porta se abria e surgia por ela uma rapariga baixa e atraente. disfarçada pela iluminação mortiça. Vinha envolta num penteador solto e alvo, através do qual ele lhe pôde distinguir a encantadora figura. até mesmo a sombra escura entre as pernas. Momentaneamente sem fôlego. o olhar subiu-lhe até aos seios, plenamente em evidência por baixo do fino vestuário e, a seguir, até ao rosto.

Ao vê-lo, arquejou de forma audível.

Aquela não era nenhuma prostituta chamada Margo. Era Cathleen. a sua Cathleen Lester, a virgem de quem estava noivo e com quem iria casar dentro de dias.

Pôs-se em pé de um salto, enquanto ela se dava conta de que havia um rapaz dentro do quarto, quase nu. e arquejava por seu turno.

- Alan! - exclamou em voz estrangulada. Momentaneamente atónito, ele recuperou a voz.

- Cathleen! Que estás aqui a fazer?

-Que queres dizer com isso? Eu vivo aqui, na casa das minhas tias, até ao nosso casamento. - Fítou nele o olhar. - A questão é o que estás tu a fazer aqui. no meu quarto?

-Cathleen, isto não é o lar das tuas tias. É uma famosa casa de prostituição: o Clube Everleigh.

-Deves estar louco. Não é nada. Não pode ser. Onde foste buscar a ideia de que isto é uma...

Alan cortou-lhe a palavra.

-É mesmo. Um bordel, uma casa de prostituição. Conhecida por todo o lado. O que quer que as tuas tias te tenham dito. elas é que são as donas deste lugar. As madames.

- Não te atrevas a afirmar que.

-Afirmo-to, porque corresponde à verdade. Escuta-me, Cathleen. Pelo amor de Deus, escuta-me. O meu pai decidiu que eu devia adquirir alguma experiência em matéria de sexo. antes da nossa noite de núpcias. São ideias à moda antiga. Levar o filho a uma casa de prazer e fazê-lo aprender para que servem as mulheres. O maior bordel de Chicago é uma casa com o nome de Clube Everleigh. dirigida por duas irmãs, que se chamam Minna e Aida Everleigh... não Lester, mas sim Everleigh. Trouxe-me aqui contra minha vontade. Eu não quero possuir nenhuma mulher, a não seres tu. Mas o meu pai insistiu. Arrastou-me esta noite até aqui, para jantarmos e tomarmos umas bebidas... Afinal. para que serve um restaurante numa casa particular?. E depois mandou-me cá para cima, a fim de ter relações com uma prostituta chamada Margo. A pessoa que me trouxe, introduziu-me no quarto errado. Compreendes agora?

A rapariga estava pálida. sacudindo a cabeça.

-Não posso acreditar numa coisa dessas. Pura e simplesmente não posso acreditar. Estás a afirmar-me que as tias Minna e Aida são, na realidade Madams e que o têm sido durante todos estes anos? O meu pai enviou-nos para aqui de boa fé, no intuito de nos alojarmos em casa das nossas tias antes do casamento. Ele não sabe...

-Nem o meu pai sabe do que se passa com a Minna e a Aida. Nunca deverá descobrir que a sua futura nora tem estado a viver numa casa de prostituição.

De pés descalços, Cathleen aproximara-se dele. Em voz baixa. disse-lhe:

-Alan, o que o teu pai possa pensar não ìnteressa.

Para mim. o que é importante é o que tu pensas. - Hesitou. - Lá por eu estar aqui. não pensas que sou uma prostituta, pois não?

-Claro que não! -Sacudiu vigorosamente a cabeça.

- Eu sei quem tu és. Sei que não trabalhas nesta casa.

- Mas podes não ter a certeza absoluta. - A rapariga estendeu a mão e tocou-lhe no peito. - Querido, terás de a ter, antes que vamos mais longe. Tens de estar convencido de que eu não sou uma dessas raparigas. Tudo o que te contei corresponde à verdade. Sou virgem, Alan. e posso provar-to.

Com essas palavras, desapertou o penteador e deixou-o tombar a seus pés. Enfrentou-o, inteiramente nua.

- Deixa-me provar-to, Alan - disse e depois voltou-se, encaminhou-se para a cama. puxou a colcha para trás e deitou-se.

Assombrado ao vê-la, Alan cambaleou. sufocado. Os seus olhos regalaram-se com o corpo da rapariga estendido no leito. Sentiu uma dureza a crescer-lhe no baixo ventre. De repente, o seu túrgido pénis endireitou-se e saiu-lhe da roupa interior.

Pôde ver os olhos de Cathleen arregalarem-se.

Para ele, já não se punha a hipótese de esconder o que quer que fosse ou de recuar, deixara de haver necessidade de modéstias.

Arrancou a roupa interior e atirou-a para o lado. Tremendo de excitação, procurou conter-se enquanto se aproximava dela.

Deixou-se cair no leito, ao lado de Cathleen, tão pherto que as ancas e coxas nuas dos dois se tocavam.

Erguendo-se, os lábios do rapaz foram ao encontro dos firmes mamilos da rapariga. Beijou-os e lambeu-os, começando depois a beijá-la na boca. As línguas de ambos encontraram-se e, gradualmente, a respiração de Cathleen acelerou-se.

Ele principiou a levantar-se, para se lhe instalar entre as pernas, que subiram para o rodear.

Penetrou-a devagar, entrou nela com lentidão, enquanto a rapariga gemia:

-Oh, Alan, como te amo!

- E eu a ti! - sussurrou ele.

No decorrer dos ditosos minutos que se seguiram o matrimónio dos dois foi consumado, sem chegar a haver uma boda.

No andar inferior, a um canto do restaurante, Edmund aproximou-se de Karen Grant.

- Então - inquiriu - tomaste conta do jovem Armbruster?

-Queres saber se o levei aos aposentos da Margo? Levei. Introduzi-o no quarto número nove e deixei-o à vontade com ela. Por esta altura, já ele deve conhecer os factos da vida.

Edmund pestanejou na direcção de Karen.

- Que é que disseste? Que o introduziste no quarto número nove?

- Isso mesmo. Foi para onde me mandaste levá-lo. O criado mostrou-se abalado.

-Não, não mandei. O que eu te disse foi para o levares ao número seis. É esse o quarto da Margo.

- Oh, não!...

- Deixa lá - proferiu o homem, com rispidez. Sabes quem está no quarto número nove? Fica aqui. Tenho de ir imediatamente chamar Miss Minna!

Rodou sobre si mesmo, atravessou a correr o restaurante e dirigiu-se à pressa para o escritório das Everleigh.

Entrou pela porta dentro sem sequer bater. Minna e Aida encontravam-se sentadas num sofá. a conversar. A primeira ergueu a cabeça.

-Que é isso? O velho Armbruster ainda não se foi embora? Não ouvi o professor tocar a canção.

Ignorando a interrogação, Edmund entrou no com partimento, que atravessou a correr para se deter diante das irmãs Everleigh.

- Miss Minna - arquejou - tenho notícias horríveis. Houve um terrível engano. Acabei agora mesmo de saber.

- Qual foi? - perguntou Minna. preocupada, levantando-se.

-Alguém conduziu o Alan Armbruster lá para cima. a fim de se encontrar com a Margo. no quarto número seis. Mas enganou-se. Ele foi introduzido no número nove!

- No nove! - exclamou ela aterrorizada. - Mas é o quarto particular da Cathleen. Não acredito. Tens a certeza?

-Absoluta, Miss Minna.

As mãos dela agarraram-se à cabeça.

-Oh, meu Deus, que desastre! Por estas horas. já ele sabe que as tias Minna e Aida da Cathleen são donas de uma casa de prostituição e deve estar convencido de que ela também se prostitui nesta casa. Foi o pior que nos podia ter sucedido. Tenho de pôr um ponto final nisso... preciso de explicar...

Aida pôs-se em pé.

-Minna. não saias daqui... o Armbruster está lá fora.

Mas o aviso da irmã soou demasiado tarde. ela tinha já disparado para fora do escritório.

No intuito de alcançar rapidamente o vestíbulo e subir as escadas, Minna cortou através do restaurante. Percorreu uma das coxias entre as mesas, esquecida dos diferentes clientes, que tentaram cumprimentá-la quando passou a correr.

Estava a acercar-se da extremidade da sala, quando se lhe deparou um comensal solitário, um homem corpulento. que soprava o fumo de um charuto enquanto a observava. Ele estreitou os olhos e depois encarou-a.

Atirou fora o charuto e pôs-se em pé de um salto. avançando para a coxia a fim de lhe cortar o passo.

- Miss Lester! - exclamou. - Poderá ser mesmo Miss Lester? Que diabo está a senhora a fazer, nesta casa de pouca permanência? Que está aqui a fazer?

Ela estacou, confrontada com o corpo volumoso de Armbruster. Durante segundos. ficou sem fala. Finalmente. acabou por responder:

-Sou dona desta casa.

Pura e simplesmente. não havia mais nada que pudesse dizer-lhe.

- É dona disto? - berrou o homem. - Dona desta casa de prostituição?

- Sou, eu e a minha irmã - repetiu Minna. E procurou explicar-se: - O meu irmão, que vive no Kentucky. não sabe nada a este respeito. Por isso é que achou que podia mandar para cá a Cathleen e o Bruce, a fim de se alojarem, antes da boda. Nunca consegui contar-lhe. E a Cathleen também não sabe. Modificámos tudo, quase tudo, para que ela não se apercebesse. Portanto, faça-me o favor.

-Isso é impensável! - rugiu Armbruster, agarrando-a pelo braço. - Venha comigo, quero tirar o meu filho desta infame Gomorra!

Arrastou Minna para fora da sala do restaurante, atravessando o vestíbulo na direcção da escadaria.

Pararam os dois nesse sítio, a tempo de verem Alan a descê-la, completamente vestido e com um ar de felicidade no rosto.

Ao vê-los ao fundo das escadas, o rapaz sorriu para o pai.

-Obrigado, papá. O senhor tinha razão. Possuí uma rapariga e tenho agora experiência para o casamento. Armbruster largou Minna e pegou no braço do filho. - Casamento, dizes tu? Qual casamento? Não vou permitir que o meu filho case com a sobrinha de duas       madames de casa de prostituição. Isso destruir-me-ia permanentemente em Chicago, arruinaria tudo aquilo que procurei construir. Vamos para casa! -Girou sobre si mesmo, para enfrentar Minna. - Quanto a si, não se atreva sequer a aproximar-se de nenhum de nós. Não voltará a pôr os pés na minha casa. Nem haverá casamento nenhum! A boda está cancelada! Com essas palavras, empurrou Alan para longe.             Minna viu-os partir e depois explodiu em choro.

O Mayor Carter Harrison costumava chegar sempre ao seu gabinete às nove da manhã, em ponto.

Ficou surpreendido quando, à sua chegada naquela manhã, viu que tinha lá um visitante. Tratava-se de Harold T. Armbruster, ali introduzido meia hora antes pelo assistente administrativo do Mayor.

- Não o esperava - disse Harrison, tirando o chapéu, apertando-lhe a mão e sentando-se diante do negociante de carne enlatada. - Que é que o trouxe aqui?

- Uma coisa que lhe poderá vir a ser útil - respondeu Armbruster.

-Faça favor de dizer.

-Pensei esta manhã na sua campanha eleitoral. Foi por essa ocasião que nos conhecemos.

-Recordo-me muito bem.

-Do que eu me lembrei foi de outra coisa, totalmente diferente. O meu interesse em si teve como base o seu desejo de expandir o nosso sistema ferroviário. Mas recordo-me de não ter falado muito nisso quando o ouvi discursar. Referiu-se antes a reformas, a livrar-se das casas de prostituição desta cidade.

- Correcto - assentiu o Mayor. - E tenho-me dedicado a procurar cumprir essa promessa.

Armbruster acenou afirmativamente.

-Até há dois dias atrás, eu sabia apenas vagamente da existência do Clube Everleigh. Sei agora bastante mais. Por que motivo é que ainda não encerrou essa casa, Mayor?

O outro suspirou.

-Mr. Armbruster. o facto legal é que não posso fazer nada contra ela, enquanto não dispuser de provas, em primeira mão, em como funciona na qualidade de casa de prostituição. As irmãs têm-se mostrado mais cautelosas nas suas actividades. Até à presente data. tem-me sido impossível provar que o clube é actualmente algo mais que um restaurante.

Armbruster pôs-se em pé.

-Mr. Mayor, posso garantir-lhe que as Everleigh continuam no negócio da prostituição.

-Tem a certeza?

- Absoluta - asseverou o outro. - Continuam no negócio e posso prová-lo. Como sabe, o meu filho devia casar-se esta semana. Pensei, por mais que isso me repugnasse, que valeria a pena ele adquirir alguma experiêncía com uma mulher. antes de se casar. Toda a gente me disse para o levar ao Clube Everleigh. Foi o que fiz, ontem à noite.

O Mayor ficou fascinado.

-Levou o seu rapaz ao Clube Everleigh?

-Para que possuísse uma mulher.

-E ele fê-lo nessa casa? Pagou por isso?

-Possuiu, segundo ele próprio admite. uma rapariga. Não me quis dar pormenores, excepto para me garantir que tiveram relações sexuais. E sim, eu paguei por isso. Foi acrescentado à minha conta do jantar, que tenho aqui no bolso.

O Mayor pôs-se em pé. Contornando a secretária, agarrou o outro homem por um ombro.

-Tê-lo-ei ouvido bem. Mr. Armbruster? Estará a declarar que dispõe de uma prova em primeira mão

em como o Clube Everleigh está. neste preciso momento.

a funcionar como casa de prostituição?

-Como casa de meninas, uma autêntica e operacional casa de "meninas.

A excitação do Mayor crescia.

-Pode provar isso, prestar depoimento?

-Absolutamente. Foi por esse motivo que cá vim.

Para me colocar a seu lado no seu movimento reformista. Ontem à noite. depois de o meu filho ter sido levado ao andar superior, no intuito de acasalar com uma dessas profissionais da ordinarice. soube, por puro acaso, que aquela casa pertence a Minna e Aida Everleigh, as quais me tinham sido ilusoriamente apresentadas como figuras distintas da nossa sociedade. Elas é que deveriam acompanhar a noiva... sua sobrinha.

Fiquei chocado. Cancelei de imediato o casamento.

Nenhum filho meu irá desposar um membro da família dessas madames de casa de meninas. A boda foi cancelada.

- Entristece-me ouvi-lo dizer isso, mas o banquete... continua a querer dar o banquete em honra do príncipe da Prússia?

-O banquete mantém-se. O casamento é que não.

E não ficarei descansado enquanto não vir as Everleigh metidas na cadeia e o estabelecimento delas encerrado para sempre.

O Mayor abriu-se num sorriso.

-Apenas necessito do seu depoimento. Prestado sob juramento perante o meu chefe de polícia, Francis O, Neill. para poder fazer isso.

Armbruster ergueu a mão direita.

-Tem a minha palavra em como testemunharei imediatamente contra as Everleigh e contra o clube delas.

O Mayor deu-lhe o braço.

-Vamos lá abaixo, ao gabinete do chefe da polícia, o senhor prestará juramento e deporá. A seguir, eu terei liberdade para realizar aquilo que tenho estado a tentar todas estas semanas... pôr um fim às carreiras da Minna e da Aida Everleigh.

Minna estivera sentada no Salão Dourado, desde pela manhãzinha, procurando afastar do pensamento a visita inesperada de Harold T. Armbruster. Dedicava-se à leitura de uma colectânea de poemas       de Shelley, quando Edmund apareceu no limiar da porta.

- Até que enfim a encontro, Miss Minna – disse ele. - Tenho andado à sua procura por todo o lado.

Está aí uma pessoa para falar com a senhora.

- Sem marcar entrevista? - perguntou     ela, surpreendida. - E quem é?

-O chefe da polícia Francis O, Neill.

Minna pôs de lado o seu livro de poesia.

-Isso não me parece nada promissor. Muito bem, manda-o entrar.

Edmund desapareceu e reapareceu um minuto mais tarde, para introduzir o corpulento chefe de polícia no Salão Dourado.

Minna estendeu-lhe a mão, quando O, Neill se aproximou, bamboleante, dela.

-Há quanto tempo, chefe!... -disse, apertando a mão do homem. Deu uma palmadinha no sofá          a seu lado. - Faça o favor de se sentar.

Soprando, ele tomou lugar junto da mulher.

- Desculpe aparecer assim tão abruptamente, Minna - proferiu. - Mas teve de ser.

- Por que motivo? - perguntou calmamente ela.

-Não estou aqui por minha livre vontade, isso posso garantir-lhe. Palpita-me que saiba quem é que me enviou.

- Mr. Armbruster, suponho. O'Neill assentiu, com um aceno de cabeça.

-E o Mayor. Tecnicamente. foi Carter Harrison quem me mandou cá, sob instigação de Armbruster. O chefe mexia nos botões do seu uniforme. - Minna, ouvi dizer que o casamento da sua sobrinha foi. cancelado. Lamento muito.

- Não foi grande perda - retorquiu ela - embora sintamos pena do Alan. que é a melhor pessoa daquela família. A Cathleen passará muito bem sem os Armbruster. Regressará ao Kentucky e há-de encontrar por lá muitos homens que lhe convenham.

-Tenho a certeza que sim, Minna.

- Mas não está aqui para falarmos da minha sobrinha - deduziu. - Tem outra coisa qualquer em mente.

- É verdade, Minna.

-E são más notícias.

Nitidamente contrariado, o chefe da polícia movimentou a cabeça para cima e para baixo.

- É verdade.

Minna conhecia aquele chefe, e outros antes dele. desde há longo tempo. Habitualmente. quando apareciam com más notícias, tratava-se de coisas simples de definir. Significavam suborno adicional, ou mais elevado, para manter aberto o Clube Everleigh. Mas esta visita. apercebia-se, era algo de mais sério.

- Continue - instou. - Comunique-me essas más notícias. Têm alguma coisa que ver com a campanha reformista do Mayor?

O chefe de polícia ONeill soltou um débil suspiro.

- Ele ordenou-me que encerrasse o Clube Everleigh.

- Isso não me surpreende. para sempre, Minna.

A expressão dela manteve-se impassível. Não se tratava de uma notícia inesperada mas, ainda assim. o seu carácter definitivo era-o. Estava constantemente a livrar-se de sarilhos semelhantes. Mas pressentia que não se conseguiria safar deste.

-Com base em provas apresentadas por Armbruster?

-Sim.

Começou a abanar a cabeça. E assim continuou. Não de indignação, mas ao jeito de comentário quanto à injustiça daquela reviravolta nos acontecimentos.

-Não é justo, sabe-o muito bem. O próprio Arm bruster trouxe aqui o filho. Reconhecemo-lo, pelos retratos nos jornais e por uma visita que fizemos a sua casa em determinada ocasião, e decidimos prestar-lhe um favor. Ora não foi isso que o pôs contra mim. Foi antes eu tê-lo levado a crer que sou uma figura proeminente da sociedade. Ao descobrir que o não era, não foi capaz de aguentar a ideia de o casamento do filho me introduzir na sua família. Com a posição que ele tem... Não é mesmo justo. Eu sou mais limpa no meu negócio do que ele no seu.

O chefe de polícia O'Neill abanou tristemente a cabeça.

-Não poderia concordar mais consigo, Minna. No entanto, as coisas são como são. Tenho de cumprir as ordens recebidas.

- Não o estou a culpar a si, chefe.

- Mas há pior que isso, Minna, vou ter de a pren der, a si e à Aida.

Dessa vez, ela ficou genuinamente surpreendida.

- Ignorava que o podia fazer.

- Está nos livros da Lei - asseverou O'Neill. Sempre lá esteve, a acumular poeira, mas o Harrison resolveu limpá-la. Você e a Aida vão constituir uma lição para todo o Levee.

-E que sucederá depois de nos terem prendido?

-Levá-las-emos para a cadeia. Metemo-las numa cela, até o vosso advogado pagar a caução que for fixada, a qual poderá atingir uma soma considerável. Depois disso, aguardarão em liberdade a data do julgamento.

Minna soltou um suspiro.

- Que sarilho!

-Aí tem, Minna. Não está nas minhas mãos...

- E que é que está? Fechar-me a casa?

- Primeiro fechá-la. A seguir ordenar a sua detenção. O Mayor insiste em que esteja fora de actividade quando o príncipe da Prússia cá chegar.

-E quando vai ser isso?

-Não amanhã pela manhã, mas no dia seguinte. Isso dá-lhe o dia de hoje e a maior parte do de amanhã, para fazer os seus preparativos e pôr a sua gente a mexer daqui para fora. Assim que o tiver feito, colaremos um aviso lá fora e dois dos meus homens conduzi-las-ão, a si e à Aida, para a cadeia local.

- Não me deixa muito tempo para agir - observou Minna.

- É o máximo que lhe posso conceder - retorquiu o chefe, pondo-se em pé. - Faz parte das minhas funções providenciar no sentido de que o Clube Everleigh e as irmãs Everleigh não estejam visíveis, quando o príncipe da Prússia puser o pé nesta cidade de pureza. Repito-lhe que lamento muito, Minna. Desculpe-me, mas ordens são ordens. Agora, será melhor que se prepare para partir.

Minna não informou a irmã do futuro sombrio de ambas, senão ao princípio da tarde seguinte. Queria que Aida tivesse uma noite descansada, antes de serem obrigadas a enfrentar o que as aguardava.

De manhã, enquanto limpava a secretária, procurou pensar em tudo aquilo que era necessário fazer.

Em primeiro lugar, teria que avisar Edmund, no sentido de ele convocar todas as raparigas que estavam a viver fora da casa. para uma reunião a realizar às três dessa tarde, no Salão Mourisco.

Em segundo lugar, precisava de arranjar um hotel decente. onde Cathleen e Bruce se pudessem alojar, antes de regressarem ao Kentucky.

Em terceiro lugar, necessitava de mandar chamar o Dr. Holmes e informá-lo da sorte que a esperava, do destino do clube e do fim do termo das suas funções.

Depois, teria de alugar uma suite de hotel adequada para si e para Aida, até poderem fazer planos mais permanentes.

Ver-se-ia igualmente na necessidade de contratar os serviços de uma companhia de armazenagem, para se encarregar de guardar toda a mobília e objectos preciosos do clube. Isso poderia ficar para o final, quando ela e Aida estivessem encarceradas, a aguardar fixação de fiança.

Enquanto organizava os seus movimentos, Minna deu-se conta de se ter esquecido de tomar providências no sentido de terem uma reunião, a qual se tornava de facto necessária antes de tudo o mais.

Era indispensável ter uma conversa em particular com os seus sobrinhos, que já não via desde a véspera. Precisava de averiguar o que sucedera a Cathleen, depois de Alan lhe ter aparecido no quarto. Tinha de ficar a saber se ela e Bruce sabiam a verdade a respeito das suas tias e, se por um golpe de sorte a desconhecessem, ver-se-ia obrigada a contar-lha de uma vez por todas.

Saindo do estúdio. foi à procura de Edmund, que não se encontrava longe.

- Vamos ser metidos dentro, não vamos? - perguntou ele.

-Contigo não há problema, Edmund. Não te preocupes com o teu futuro. Nós ocupar-nos-emos dele. Para já, temos muito que fazer. Quero que vás convocar as meninas todas, onde quer que se encontrem, para uma reunião com a Aida e comigo, pelo meio da tarde, no Salão Mourisco. Antes disso, quero falar com a Cathleen e o Bruce. Não os consegui encontrar quando os procurei.

- Voltaram tarde para casa ontem à noite - informou Edmund. - Tornaram a sair esta manhã, bem cedo. Dão a impressão de terem qualquer coisa em mente. Neste momento, já regressaram.

- Manda-os ao Salão Dourado - ordenou Minna. Já conversaram o suficiente um com o outro. Agora, é a minha vez de falar com eles.

Aguardou no Salão Dourado, até Cathlen e Bruce lá serem introduzidos por Edmund.

-Há uns assuntos que desejo discutir com vocês-disse-lhes Minna, depois de estarem todos sentados.

-Por onde têm andado?

-A passear, a conversar, a ver outros aspectos de Chicago - respondeu o rapaz. - Sobretudo, a trocar impressões quanto ao nosso futuro.

-Nesse caso. já sabem que o casamento foi cancelado - observou a tia.

Cathleen acenou afirmativamente, com ar infeliz.

-A Karen disse ao Bruce e ele contou-me a mim. O Armbruster cancelou-o, assim que soube o que se passa consigo e com a tia Aida.

-Quer isso dizer que estão ao corrente de tudo - constatou Minna.

-Somente que isto não é simplesmente o vosso lar - replicou Bruce. - Que é uma casa de prostituição. Sabemos que a tia e a sua irmã não são figuras de relevo na sociedade, mas sim madames de bordel. Nunca tive grande simpatia por essas pessoas mas, conhecendo-vos como vos conheço, mudei de opinião.

Minna abanou a cabeça.

-É pena que o tenham sabido desta forma, ou mesmo que o tenham chegado a saber. Não era minha intenção que tomassem conhecimento. Receio bem ter posto de parte os meus cuidados, assim que me apercebi de que o Alan tinha sido conduzido por engano ao teu quarto, Cathleen. Acho que perdi a cabeça. O Armbruster reconheceu-me e ficou como doido. Na posição dele, não poderia permitir que o filho casasse com a sobrinha de duas madames. Foi um acidente estúpido, que eu lamento muito.

Cathleen esboçou um sorriso contrafeito.

-Eu, para já. não lamento nada. A Karen tentou pedir desculpa ao Bruce e depois a mim. Não há nada para desculparmos. Limitei-me a ter a minha noite de núpcias sem casamento. E foi maravilhosa!

- Já voltaste a falar com o Alan depois disso? quis a tia saber.

- Não pessoalmente, é claro - respondeu Cathleen.

-Ele encontra-se virtualmente aprisionado em casa. Mas telefonou-me duas vezes. Procurou convencer o pai a mudar de ideias. Não foi bem sucedido. Agora, quer fugir de casa para nos casarmos. Mas eu sei que isso é impossível. Iria arruinar-lhe o futuro.

Minna pôs-se em pé e começou a percorrer, inquieta, a sala.

-Tudo se desmanchou por eu, logo à partida, ter mentido ao vosso pai. No entanto, tive de o fazer. Não podia contar ao meu irmão que as suas irmãs tinham aberto uma casa de prostituição. No estado dele, não podia fazer uma coisa dessas. Teria tido outro ataque cardíaco, em especial por se ter sempre sentido responsável por nós. Portanto, inventei essa história de sermos figuras da alta sociedade, quando nos mudámos para Chicago. O vosso pai acreditou em mim. Quando a filha ia casar-se em Chicago, nada mais natural do que ele ter-vos colocado aos dois ao meu cuidado. Procurei disfarçar a verdadeira natureza daquilo que aqui fazíamos. Quase o consegui. - Abriu os braços, como que a implorar-lhes perdão. - Acabei por falhar.

- Não a estou a culpar por nada, tia Minna - insistiu a sobrinha.

-Muito obrigada, Cathleen. Basta-me que não culpes também a Aida pela actividade que temos. É uma velha profissão e tão honrosa como a do Armbruster. Temos aqui um estabelecimento respeitável. Damos honestamente, em troca de tudo o que recebemos. Encolheu os ombros. - Mas agora está terminado.

Bruce pôs-se em pé, intrigado.

-Está terminado? O que é que está terminado?

-O Clube Everleigh vai ser encerrado esta noite. A Aida e eu vamos para a cadeia, pelo menos temporariamente. O Armbruster foi falar com o Mayor, que chamou o chefe da polícia. Este procurou-me ontem à noite. com a ordem de encerramento.

-Mas não lhes podem fazer uma coisa dessas!-exclamou o rapaz.

-Vão fazê-la mesmo, Bruce. Legalmente, não existe processo de o impedir. Ficaremos fora do negócio. Mas vocês não se preocupem com a Aida e comigo. Havemos de nos arranjar. Economizámos o bastante para nos aguentarmos. Ou nos reformamos e vamos viajar, ou então mudamo-nos para outro lado e reabrimos as portas. O que é mais importante é o que vos vai suceder aos dois? - Olhou para a sobrinha e acrescentou: -Que te vai acontecer a ti, Cathleen?

-O Bruce e eu regressaremos ao Kentucky. Inventarei uma história qualquer, para contar ao papá, como explicação de o casamento ter sido cancelado. Ele vai acreditar-me.

- E tu hás-de encontrar outra pessoa - garantíu-lhe a tia. -Há muitos homens no Kentucky...

- Não quero mais nenhum senão o Alan - afirmou Cathleen. - Se não puder tê-lo, prefiro ficar solteirona.

Minna não fez mais esforços para animar a sobrinha. Virou-se para o rapaz.

-E quanto a ti. Bruce?

- Tenho um pouco mais de sorte do que a Cahtleen - respondeu ele. - Com aquilo que ganhei no Derby. poderei regressar ao Kentucky e montar uma pequena coudelaria.

-Não tens planos matrimoniais? - perguntou Minna.

- Não. Eu...

- Isso não é verdade - cortou a irmã. Fixou nele o olhar. - Porque é que não contas à tia Minna que estás apaixonado pela Karen Grant.

- Por uma prostituta? - indagou a tia. franzindo o sobrolho.

- Ela não é nenhuma prostituta - objectou Bruce.

-A Karen Grant é secretária do Mayor Harrison. Foi mandada para o Clube Everleigh, no intuito de obter provas de actividades ilegais. Depois de me ter conhecido, mudou de ideias quanto a ser espia do Mayor.

- Estou a ver - disse lentamente Minna. - E estás a pensar em te casares com ela?

Bruce reflectiu.

-Gostava de me casar. Sim, gostava muito. No entanto, quero vir a ser rico. E ignoro como é que a Karen iria aceitar a vida numa quinta do Kentucky.

- Averigua - sugeriu a tia. - Pergunta-lhe.

-Talvez o faça.

Minna fixou oolhar nos dois irmãos.

-Quando é que partem para Louisville?

- Dentro de poucos dias - respondeu Bruce. Tenho de arranjar transporte para levar o Frontier, do Parque Washington até ao Kentucky.

-Nesse caso, vão necessitar de um sítio onde ficar depois de termos fechado - disse Minna. - Vou ver se não perco isso de ideia. Primeiro, tenho uns quantos assuntos a regularizar. Voltaremos a falar esta tarde. Entretanto, será melhor irem fazendo as malas.

Pelas três e quinze dessa mesma tarde. todas as meninas do Everleigh estavam reunidas no Salão Mourisco. em volta de Minna e Aida.

A primeira contou vinte e sete das suas raparigas. Quando os seus olhos se fixaram em Karen Grant. resolveu mandá-la embora.

- Tu não pertences aqui - disse-lhe. - Já sei da verdade. Apenas te posso dizer que apreciei o facto de teres recuado e não seres a responsável por aquilo que vou anunciar a seguir. Vai lá para cima, fazer companhia à Cathleen e ao Bruce. Irei ter contigo mais tarde.

Depois de a rapariga haver saído. Minna dirigiu as suas atenções para o resto do grupo.

-Vou contar-vos tudo, em poucas palavras e num estilo amargo-doce - principiou a dizer. - Falando em meu nome e no da Aida, cumpre-me informar-vos de que o Clube Everleigh já não existe. Vai ser encerrado esta noite, ao que suponho com carácter de permanência, por ordem do Mayor Harrison e do chefe de polícia O, Neill. Este lugar encantador vai ser fechado e todas vocês ficarão sem trabalho.

Soaram gritinhos de angústia da parte das raparigas e várias delas romperam em lágrimas.

- Bem sei. bem sei - continuou Minna. - São notícias terríveis. Tivemos bons momentos, não tivemos? Todas vocês foram umas queridas.

Sentindo-se tão mal como as raparigas, puxou por um cigarro perfumado de ponta dourada, acendeu-o e pôs-se a fumar com nervosismo.

-Se o Mayor diz que temos de fechar, está o assunto arrumado - recomeçou. - Mandou cá, ontem à noite, o chefe da polícia. com o objectivo de me informar. A ordem de encerramento será afixada às seis horas. Depois, a Aida e eu iremos para a prisão, espero que apenas por breve período. No que me diz respeito, aquilo que o Mayor e o chefe da polícia dizem faz lei. E também não vou ficar zangada. Nunca fui pessoa de me lamentar e nada que os políticos e a polícia desta cidade me possam fazer modificará a minha maneira de ser. Vou encerrar a casa e sair daqui de sorriso nos lábios.

Uma das raparigas ergueu a voz:

-E nós. Minna?

-Há muitas outras casas.

- Mas não como esta - voltou a dizer a moça.

-Não. não como esta - concordou Minna. Receio bem que nunca haverá nenhuma como o Clube Everleigh- Todas vocês têm algum dinheiro a receber. o bastante para um ou dois meses. Depois disso, sugiro-vos que desapareçam por completo do Levee. Não contém nada de substancial para vos oferecer. Os reformistas encerraram-nos e, dentro de poucos meses. hão-de atirar-se às outras casas. Vocês são jovens. Arranjem emprego, um marido. qualquer coisa, mas não considerem esta vída como uma carreira. A sala esvaziou-se. como costumamos dizer no teatro. Está tudo definitivamente terminado. Todas nos veremos obrigadas a arranjar outros modos de vida.

Observou a sala por uma derradeira vez.

-Voltem para os vossos hotéis, ou para onde quer que se encontravam. Uma vez que está tudo pago até ao final da semana, deixem-se ficar onde estão, até o Edmund poder lá ir e acertar contas convosco. - A voz falhou-lhe. - Vou ter saudades vossas. de cada uma de vocês, e vou sentir a falta desta casa confortável- Gosto muito de todas. Boa sorte e um adeus. da Minna e da Aida Everleigh.

Ao fim da tarde. Minna sentou-se sozinha no seu estúdio, atrás da escrivaninha vazia. e principiou a telefonar para hotéis da área. procurando arranjar dois quartos. um para Bruce e outro para Cathleen e Karen Grant. cujo apartamento continuava subalugado.

Durante esses procedimentos. abriu-se a porta do escritório. entrando o Dr. Herman Holmes. com ar de assombro. Pegou numa cadeira e aproximou-se mais de Minna.

Depois de ela ter pousado o auscultador do telefone. o médico disse-lhe:

-A senhora queria falar comigo. Que se está aqui a passar? Só vejo montes de mobiliário e caixotes a serem enchidos cá no clube. Vão mudar-se?

-Mudar-nos-emos para outro lado. ainda não sei para onde - respondeu Minna. - Dr. Holmes. vamos ser encerradas dentro de menos de uma hora. por ordem do chefe da polícia.

Ele mostrou-se absolutamente espantado.

- Vão o quê?

- Ser encerradas - repetiu ela. - A Aida e eu estamos fora do negócio. As raparigas encontram-se sem trabalho. E o senhor. Dr. Holmes. também... pelo menos no que diz respeito ao Clube Everleigh.

O médico ficou sem fala.

-Que foi que aconteceu?

Minna contou-lhe os pormenores do encontro que, na noite anterior. tivera com o chefe da polícia O'Neill.

- E está o assunto arrumado. receio bem - concluiu ela. - O senhor foi-nos útil e lamento perdê-lo. Desejava dizer-lho pessoalmente.

- Obrigado. Minna.

Ela pegou no telefone.

-Agora. será melhor voltar aos meus telefonemas para os hotéis. Estão completamente cheios. Apenas consegui arranjar um quarto individual para o meu sobrinho Bruce. Mas não consigo encontrar um duplo para a minha sobrinha Cathleen e para a sua amiga Karen. Vou continuar a.

O Dr. Holmes estava de pé. preparado para sair, quando se deteve e rodou sobre si próprio.

-Minna, se necessita de alojar a Cathleen, terei todo o prazer em lhe oferecer a minha casa. Disponho de diversos quartos vagos. Poderá ter junto de mim, tanto tempo quanto precisar, um sítio para encostar a cabeça. e a Karen Grant também poderá ir com ela, para lhe fazer companhia. Que acha?

Minna pôs-se em pé de um salto, deliciada.

-É uma maravilha, Dr. Holmes, e fico-lhe muito grata pela sua oferta. Só vai ser preciso tê-las em sua casa durante alguns dias. até a Cathleen regressar ao Kentucky. Nem sei como lhe hei-de agradecer.

- Terei muito prazer em as receber - respondeu o médico, com um sorriso. - Se estão cá em casa. levo-as já. para irem jantar comigo. Depois, poderão mudar-se esta noite para lá.

Pelas seis e quinze da manhã seguinte, a Comissão Oficial de Recepção, nomeada pelo Mayor Carter Harrison, juntara-se na plataforma da Union Station, no intuito de saudar o príncipe Henrique da Prússia à sua chegada de Nova Iorque.

À frente dos doze distintos cidadãos ali reunidos para receber Sua Alteza, via-se o próprio Mayor, flanqueado pelo ex-Mayor C. P. Walbridge, Presidente da Liga dos Homens de Negócios, e por Potter Palmer, director do Palmer House, o principal hotel de Chicago. Imediatamente atrás e aguardando com nervosismo, via-se Harold T. Armbruster. Para um dos lados, uma dúzia de jornalistas e fotógrafos. o mais ansioso dos quais era Chet Foley, do Chicago Tribune. Tratava-se da sua maior missão até ao momento.

Faltavam quinze minutos para a chegada do príncipe e Foley decidiu tirar proveito desse lapso de tempo, obtendo a melhor história do dia. Rompendo os limites da área reservada à Imprensa, separou-se atrevidamente do grupo e acercou-se do Mayor Harrison.

-Excelência - disse - chamo-me Chet Foley e pertenço ao Tribune, tendo sido nomeado para cobrir a chegada do príncipe Henrique. Quero escrever um artigo de fundo e tinha esperanças de que pudesse dispensar-me alguns minutos, a fim de me fornecer pormenores.

O Mayor Harrison fazia questão de nunca dar a impressão óbvia de procurar publicidade, ainda que não desdenhasse consegui-la, em especial em ocasião tão momentosa como aquela. Com modos simpáticos, respondeu:

-Ignoro se lhe posso ser de grande utilidade, Mr. Foley, mas terei muito prazer em colaborar.

-Consegui saber pouca coisa sobre o príncipe Henrique - disse Foley - excepto que é o único irmão do Kaiser Guilherme e o chefe nominal da poderosa Marinha Alemã.

- Absolutamente verdadeiro - confirmou o Mayor.

-Na realidade, disseram-me que ele foi treinado em navegação desde a mais tenra juventude. O seu pai mandou construir-lhe um ginásio náutico. nos jardins do Palácio de Potsdam. Foram plantados mastros na areia, armados com todo o cordame de um navio real. Quando rapaz, era-lhe possível subir todos os dias a eles e aprender a sensação de estar a bordo de uma embarcação.

- Fascinante - comentou Foley. - Segundo me foi dado saber, o príncipe Henrique veio no Kronprinz Wllhlm até Nova Iorque. para tratar de assuntos náuticos.

-De certo modo, sim. Veio supervisionar o lançamento de um iate, o Meteor III, que o seu irmão. o Kaiser. mandou construir.

-E esteve presente na cerimónia?

-Com certeza. Após uma breve estadia em Nova Iorque, onde visitou o Metropolitan Opera House, foi a Washington D. C. apresentar os seus cumprimentos ao Presidente Theodore Roosevelt, na Casa Branca, e garantir-lhe que a Alemanha não tem quaisquer reivin dicações a fazer na América do Sul. Ele e o presidente assistiram ao lançamento e a filha deste. Alice, foi a madrinha oficial da embarcação.

-E vai estar por curto período em Chicago?

- Sentimo-nos muito honrados em o ter cá - disse o Mayor. - Da sua estadía de doze dias nos Estados Unidos, poucos deles estará fora de Nova Iorque. Dedicar-nos-á um dia inteiro. passando cá a noite, para depois regressar ao Leste, a fim de embarcar no Deutschland, com destino ao seu país natal. - Fez uma pausa e espetou a cabeça. - Estou agora a ouvir o comboio a aproximar-se. Será melhor ir ocupar o meu lugar.

- Muito obrigado. Mayor - disse Foley. retirando-se para o grupo da Imprensa.

Gradualmente, o comboio vindo de Nova Iorque surgiu à vista. soltando vapor à medida que corria para a plataforma e travando lentamente, até parar por com pleto junto dela.

Rapidamente. dois bagageiros desenrolaram uma passadeira vermelha até à saída da carruagem particular, atrelada logo a seguir à máquina. O Mayor Harrison avançou para a extremidade da passadeira. onde ficou a aguardar.

Um revisor abriu o fecho da porta da carruagem Pullman a partir do interior e colocou um banquinho na frente dela. Meia dúzia de membros da comitiva do príncipe começou a sair, um por um. todos de uniforme de cerimónia.

A última figura a emergir da porta era a mais alta e imponente, usando cabelo alisado de risca ao meio, bigode completo, uma barba espessa mas em ponta e envolta numa capa, por cima de um uniforme cheio de medalhas e fitas. Tratava- se obviamente do príncipe Henrique da Prússia.

O Mayor Harrison avançou, para lhe apresentar calorosas boas-vindas. Depois de um aperto de mão, caminharam juntos pela passadeira vermelha, indo deter-se diante dos membros da Imprensa.

Pescando do bolso o seu breve discurso, o Mayor declarou em voz alta:

-Sentimo-nos orgulhosos por dar as boas-vindas a Chicago a Sua Alteza Real o Príncipe Henrique da Prússia, na qualidade de hóspede de honra da nossa cidade. A sua visita dissipa claramente todos os estúpidos e maliciosos boatos de antagonismo político entre a Alemanha e os Estados Unidos e da existência de planos alemães para efectuar incursões na esfera de influência americana, reforçando e marcando, muito pelo contrário, sentimentos de mútuo reconhecimento e igualdade. Damos as boas-vindas a Vossa Alteza, na qualidade de príncipe da paz!

O príncipe manifestou o seu apreço e agradecimentos. Feito isso, o Mayor puxou-o de lado, a fim de o apresentar à Comissão Oficial de Recepção.

Sua Alteza apertou a mão a todos com graciosidade. Ao ser concluída a cerimónia, antes que o Mayor tivesse tido oportunidade de o apresentar ao ansioso Harold T. Armbruster, o príncipe tirou uma folha de papel do interior do seu uniforme.

Desdobrando-a, disse:

-Quanto a este programa que me preparou para a estadia em Chicago...

O Mayor acenou afirmativamente.

- Sim, tenho estado à espera da aprovação de Vossa Alteza.

Ele aclarou a garganta.

-Se me é permitido sugerir algumas alterações...

- Com certeza, com certeza, senhor - concordou apressadamente o Mayor, afastando-o para fora do alcance dos ouvidos da Imprensa. - Tudo poderá ser feito de acordo com os seus desejos.

-Para começar, cancelaria todas as actividades diurnas. Sinto-me exausto e gostava de descansar, para o banquete desta noite.

- Esplêndido! - exclamou o Mayor. - Apresentarei desculpas aos seus outros anfitriões. Agora, se me autoriza, queria apresentar-lhe o cavalheiro que será o anfitrião no banquete. Alteza, permita que Lhe apresente

Mr. Harold T. Armbruster.

Apertando a mão do índustrial de carnes enlatadas, o príncipe proferiu:

-É uma gentileza convidar-me para sua casa. Mas, por mais que aprecie o seu convite, tenho outra coisa em mente e outro lugar onde gostaria que decorresse o banquete.

Armbruster ficou abatido e o Mayor atónito.

- E que tem Vossa Alteza em mente? - indagou o segundo.

- Existe um único lugar que desejo ver em Chicago

- declarou o príncipe Henrique. - Ouvi falar dele na Europa e pelo mundo inteiro.

- E qual é? - quis saber o Mayor.

- O Clube Everleigh - anunciou ele. - É o único lugar que desejo ver e disfrutar esta noite!

 

DESDE o instante da assombrosa declaração do príncipe Henrique na plataforma da Union Station, o Mayor Harrison e Harold Armbruster não haviam podido dispor de oportunidade para discutirem o assunto.

Após terem-no escoltado à sua suite no Palmer House, haviam ido ambos para a Câmara, acompanhados pelos outros membros da Comissão de Recepção. Mesmo no elevador, não tinham disfrutado de privacidade.

Agora, já no interior do gabinete do Mayor, Harrison e Armbruster encontravam-se finalmente sozinhos.

O primeiro dera instruções ao seu recepcionista de que não desejava ser interrompido na sua conversa com o outro. Deixara-se imediatamente cair no seu cadeirão, quando Armbruster se instalara no sofá.

Os dois homens fitaram-se um ao outro em silêncio. Foi Armbruster quem o interrompeu.

-Que havemos de fazer, Mayor?

- Não sei.

O único sítio onde pretende passar a noite é no Clube Everleigh. Como é que lhe poderemos fazer a vontade, quando já não existe nenhum Clube Everleigh onde o levar?

O Mayor manteve-se silencioso.

-Talvez o consigamos persuadir a aceitar o banquete

em minha casa, apesar de tudo - continuou a dizer Armbruster.

- Não, não iria resultar - objectou o Mayor. O senhor viu como ele se mostrou categórico acerca disso. Como é que lhe posso dizer que encerrei a casa à pressa... por causa dele?

Armbruster soltou um suspiro.

-Não me importo de cancelar o banquete em minha casa. Até o darei no Clube Everleigh, se isso conservar o príncipe de boa disposição.

- Eu também não me importaria - concordou o Mayor Harrison. - Mas como?

-Bom, o clube ainda está no mesmo sítio.

-Claro que está, com um grande cartaz, a dizer que foi encerrado por ordem do Mayor. Todo o mobiliário se encontra provavelmente embalado para armazenagem e deixe-me lembrar-lhe que as próprias Everleigh estão metidas na cadeia.

-Que tenciona fazer, Mayor?

O Mayor Harrison preparou pensativamente um charuto e acendeu-o.

- Só nos resta uma única coisa a fazer - respon deu. Puxou algumas fumaças do charuto, fitou-o e olhou depois para Armbruster. - Abrír a casa antes desta noite.

-Não podemos fazê-lo nós os dois.

O outro ergueu-se.

-Mas podem elas as duas.

-Refere-se à Minna e à Aida?

- Sim, podem fazê-lo, com a ajuda dos seus criados. É-lhes possível repor as mobílias nos respectivos lugares, levar as raparigas e os músicos de volta. E apresen tar o banquete no seu próprio restaurante.

Armbruster franziu o sobrolho.

- E se não o quiserem fazer? Se se recusarem, por uma questão de despeito?

-Nesse caso, cumpre-nos a nós convencê-las a reabrir o Clube Everleigh. A primeira coisa que precisamos de fazer - pôs-se em pé de um salto, dirigiu-se à sua secretária e pegou no telefone - é tirá-las da cadeia.

- E depois?

O Mayor não deu resposta. Estava a fornecer à telefonista o número da principal esquadra de polícia. Dentro de poucos segundos, tinha em linha o chefe Francis O'Neill.

- Chefe, daqui fala o Mayor - disse-lhe. - Há uma coisa urgente que necessito que me faça imediatamente.

-O que quiser-retorquiu O'Neill.

-Quero que a Minna e a Aida Everleigh sejam tiradas da cela. Leve-as para o seu gabinete e espere lá por mim. Irei aí abaixo falar com elas. O Harold Armbruster acompanhar-me-á.

- Mas acabámos de as meter lá! E quer agora que as libertemos?

-Instantaneamente - disse o Mayor. - Toda a operação constituiu um erro. Desejo rectificá-lo neste mesmo momento. Explicar-lhe-ei mais tarde. - Fez uma pausa. - A propósito, com que disposição estão elas, após uma noite passada na prisão?

- Não muito contentes - respondeu o chefe. Hum... para dizer o mínimo.

- Era o que eu pensava - retorquiu o interlocutor.

-Armbruster e eu vamos já para aí.

Desligou e foi buscar o chapéu.

- Que é que lhes vai dizer? - quis saber o outro.

- Que lamentamos muito - esclareceu o Mayor. Apresentar-lhes humildes desculpas. E tratar depois de negociar com elas.

Armbruster juntou-se-lhe.

-Não creio que necessitemos de negociar muito.

Ao fim e ao cabo, elas voltarão a ter o seu Clube aberto. Isso deverá agradar-lhes.

O Mayor conduziu-o para a porta. Após tê-la aberto, fitou o negociante de carnes enlatadas.

-Pois a mim parece-me que vai ser necessário mais do que aplacá-las. Muito mais. Você verá...

O Mayor Harrison e Armbruster foram recebidos pelo chefe O'Neill à entrada do seu gabinete, deparando-se-lhes Minna e Aida Everleigh rigidamente sentadas num sofá, algo desarranjadas por terem passado a noite na cadeia, e a fitarem-nos sombriamente.

Sem perder tempo, o Mayor Harrison deu um passo para elas, detendo-se frente a Minna.

- Miss Everleigh - disse-lhe. - Em primeiro lugar, quero apresentar-lhe desculpas, do fundo do coração, pelo contratempo que lhe causei, a si e à sua irmã. Cometi um erro e estou aqui para lhe dizer quanto o lamento.

A pose de Minna não era de perdão. Era antes de desafio.

-O senhor andou a perseguir-nos longo tempo, Mayor. Acabou por nos encerrar a casa e meter na cadeia. Quer agora que o desculpemos. Não vai ser fácil.

- Eu sei que não.

-Agora que nos veio dizer que estamos livres...

- Pessoalmente - cortou ele - e livres para abrirem, mais uma vez, o vosso Clube.

Minna não abrandou.

-Não estou a perceber. Que está por trás disso? O Mayor Harrison procurou conter-se. Finalmente, aclarou a garganta antes de falar.

-Vou ser franco consigo, Miss Everleigh. Nada de evasões: Nada de subterfúgios. Apenas a verdade, por mais que isso me custe: - Voltou a pigarrear. - Isto relaciona-se com o Príncipe Henrique da Prússía. Já ouviu falar nele, não ouviu?

- Não sou nenhuma parva - rosnou ela. - Eu leio os jornais. Claro que já ouvi falar nele: Vem de visita a Chicago.

- Já cá se encontra - corrÍgiu-a o Mayor. - Chegou hoje de manhã. Mr. Armbruster e eu estivemos entre as pessoas que lhe foram apresentar saudações oficiais. Revimos o programa que tínhamos estabelecido para ele. Recusou tudo o que estava marcado para esta tarde. Quanto ao banquete da noite, bem, sinto-me embaraçado por ter de lho dizer. Ele deseja que se realize no Clube Everleigh.

- Ele o quê? - exclamaram Minna e Aida em uníssono.

-O único sítio que concorda visitar em Chicago é o vosso Clube Everleigh.

- Meu Deus! - exclamou Minna; dando uma palmada na testa. - Não posso acreditar. - Desatou a rir, acotovelando a irmã, que a imitou.

O Mayor Harrison engoliu em seco.

-Bem sei que tem piada. Trabalhei incansavelmente para vos encerrar o Clube. Tive receio de que o Príncipe ouvisse falar nele e se mostrasse desagradado. Isto agora fez-me encarar sob nova perspectiva aquilo que vocês estavam a fazer pela nossa cidade. Miss Everleigh, terá suficiente bondade no seu coração, para me desculpar e reabrir esta noite o Clube? Será isto o bastante para a persuadir a retomar o seu negócio?

Ela encarou-o.

- Não basta - disse devagarinho - não basta. Já é bom começo, mas não basta. Para eu reabrir o Clube, terá de me oferecer mais qualquer coisa.

- O quê? - indagou- apressadamente o Mayor Harrison. - Tudo o que quiser. É só dizer.

Minna desviou o olhar dele para Armbruster.

-Trata-se de algo que Mr. Armbruster deverá fazer por mim. De outro modo, o clube permanecerá fechado.

- Faço grande questão em vê-lo reabrir para o Prín cipe - disse este. - Que é que posso fazer por si?

O olhar dela conservou-se fixo no homem.

-Pode retirar aquilo que disse, da última vez que me viu. O senhor anulou o casamento do seu filho com a minha sobrinha. Anunciou que estava cancelado. A Aida e eu queremos que se realize e que seja no Clube Everleigh. São essas as nossas condições. Que me diz a isto?

Armbruster corou, mas pareceu aliviado.

-São essas as vossas condições para a reabertura do Clube?

-Sim, a realização do casamento.

-Nesse caso, podem reabri-lo. O casamento terá lugar esta noite, na vossa casa. - Teve uma hesitação.

- Em troca disso, tenho um pedido a fazer-lhe. A minha mais forte ambição é tornar-me embaixador na Alemanha. Estava com esperanças de dizer algo nesse sentido ao Príncipe Henrique. Posso agora verificar que uma palavra sua, Miss Everleigh, terá consideravelmente mais peso junto dele. Importava-se de tomar o meu pedido em consideração?

Minna riu-se gostosamente. Pôs-se em pé, atravessou o gabinete do chefe de Polícia e foi plantar-se diante de Armbruster.

- Porque não? - respondeu, curvando-se inesperadamente e depositando um beijo na bochecha do atónito Armbruster. - Sempre ambicionei que a minha sobrinha se casasse com o filho de um embaixador!

Ao regressar ao Clube Everleigh, Minna achou que, à excepção do esplendor das paredes e fontes, que continuavam a borbulhar, ele se parecia muito com um armazém.

Restavam-lhe agora uma só manhã e uma tarde para o devolver ao seu estado normal.

A sua primeira acção foi mandar Aida ir a correr contactar os criados. Iriam ser necessários para desembalar a mobília, pendurar as tapeçarias e objectos de arte e arrumar os livros nas prateleiras da biblioteca. Uma vez encontrados e postos a trabalhar, a missão seguinte da irmã foi a de localizar os músicos e mandá-los preparar para actuar, nessa mesma noite.

A seguir, Minna ordenou a Edmund que fosse de hotel em hotel, procurar as raparigas e dizer-lhes que o Clube Everleigh seria afinal reaberto nessa noite.

Telefonou então a Bruce, tendo-o apanhado ao acordar e despertando-o por completo, com a notícía de que iam abrir nessa noite, para darem um banquete em honra do Príncipe Henrique da Prússía, ao qual compareceria um eclesiástico, a fim de casar Cathleen com Alan Armbruster.

- Líga para o Alan e diz-lhe que o casamento terá lugar hoje à noite - ordenou ela. - Informa-o de que o pai mudou de ideias e estará presente nas festividades. Meu Deus, a Cathleen ainda não sabe que vai ser a noiva. Mandei-a, juntamente com a Karen Grant, passar a noite em casa do Dr. Holmes. Ele teve a amabilidade de as receber, até eu poder arranjar-lhes aposentos num hotel. Por que não vais fazer-lhes uma surpresa, dando-lhes a boa nova? Depois de as teres ido buscar, venham para aqui. Diz ao Alan que te acompanhe. Façamos o seguinte: venham cá os dois e levem o meu carro até a casa do Dr. Holmes. Vou dar-te o endereço.

Enquanto aguardava que a redecoração se iniciasse, dedícou-se a arrumar apressadamente o seu estúdio.

A medida que os dois criados começaram gradualmente a aparecer, o mobiliário passou a ser desencaixotado, sob a supervisão de Minna, para o colocarem de novo nos faustosos aposentos. No restaurante, as mesas foram alinhadas, formando uma longa mesa de banquete.

Depois, os músicos trouxeram os seus instrumentos e instalaram-nos nas posições habituais. Após isso, as belas raparigas do Everleigh, pastoreadas por Edmund, regressaram jubilosamente ao clube. principiando a mudar os seus pertences para o andar de cima.

Ao observar toda essa actividade, Minna sentia-se plena de confiança em como a casa voltaria à antiga forma dentro de poucas horas e, pelo cair da noite, estaria preparada para receber um príncipe e para a reali zação de um casamento.

Foi interrompida por Edmund, enquanto supervisio nava aquela ressurreição.

-Que foi, Edmund?

-Um cavalheiro, para falar com a senhora, Miss Everleigh. Insistiu que se trata de um assunto urgente. Não me quis dar o nome, mas entregou-me este cartão:

Intrigada. Minna pegou no cartão. Dizia assim:

AGÊNCIA NACIONAL DE DETECTIVES PINKERTON

Por baixo do olho que servía de marca comercial, tinha impresso:

Nós nunCa dormImOs

WILLIAM A. PINKERTON

(Supervisor da Filial de Chicago)

Pestanejou perante o cartão. William Pinkerton! Quase se esquecera de que o tínha contratado para localizar as três raparígas desaparecidas. O homem nada conseguira averiguar de início e ela recordava-se vagamente de ele lhe ter dito que continuaria a trabalhar no caso, sem mais encargos, a não ser que descobrisse novas informações.

Apresentava-se agora ali para falar com ela, dando a impressão de que averiguara qualquer coisa. Estava, de momento, tremendamente ocupada, mas Pinkerton viera pessoalmente visítá-la por causa de um assunto urgente.

Sabia que não podia evitá-lo. Precisava de poupar tempo.

Assim, ordenou a Edmund:

-Díz ao cavalheiro que terei muito prazer em o receber, na privacidade do meu estúdio. Leva-o para lá. Estarei à sua espera.

Poucos minutos mais tarde. encontrava-se instalada à escrivaninha, contente por a sala estar de novo em ordem, quando Edmund bateu à porta, anunciou William Pinkerton e o introduziu.

Já quase se esquecera do aspecto do homem mas, assim que o viu entrar pesadamente no compartimento, reconheceu-o de imediato. Era aquele indivíduo volumoso, com cabelo liso bem penteado e um abundante bigode. Trazia uma grossa pasta. Sem perder tempo. pegou numa cadeira e colocou-a diante de Minna.

Abrindo a pasta no regaço. ergueu a cabeça.

-Deve recordar-se, Miss Everleigh, de que a adverti. após a nossa última conversa telefónica, de que continuaria a trabalhar para si sem quaisquer encargos, a não ser que descobrisse alguma coisa.

-Sim.

-Pois descori, Miss Everleigh.

-Sobre as três raparigas desaparecidas?

-Não. Sobre o Dr. Herman Holmes, o médico da casa. Lembre-se que a informei de que o iria investigar.

-Recordo-me de ter mencionado isso. Mas porquê ele?

-A veracidade das suas afirmações, ou a ausência dela - esclareceu Pinkerton. - Sou muito experiente em avaliar se as pessoas estão ou não a falar verdade.

E fiquei imediatamente com suspeitas do Dr. Holmes. Indaguei quanto à veracidade do que ele dizia.

-Em relação a quê?

-Ao facto de insistir que desconhecia o que teria sucedido às três raparigas desaparecidas. Comecei por investigar o passado do Dr. Herman Holmes. Não foi

fácil mas, com a ajuda das nossas filiais, consegui.

-Conseguiu o quê, Mr. Pinkerton?

-Receio que aquilo que descobri a vá aterrorizar. O coração de Minna descontrolou-se.

-Diga-me... diga-me o que descobriu. Rebuscando nas suas notas, Pinkerton não ergueu o olhar.

-Para principiar, ele não se chama Herman H. Holmes. O seu verdadeiro nome é Herman Webster Mudgett. Possui um dos mais desagradáveis currículos que já se me depararam. Existem provas de que foi falsificador, bígamo, ladrão de cavalos, cientista louco, vigarista e, possivelmente, muito possivelmente, extremamente provável ainda que não provado, uma espécie de Barba-Azul, um homicida compulsivo.

Minna estremeceu.

-Não posso acreditar. Ele é delicado, suave e, na qualidade de médico, muito profissional. Está seguro dos dados que possui, Mr. Pinkerton?

- Avalie por si mesma. - Começou a ler as suas notas, na verdade a passar por elas os olhos e a trans mitir a Minna as suas descobertas de forma abreviada.

-Aos dezoito anos de idade, Holmes fugiu com a filha de um fazendeiro muito conhecido no New Hampshire. A esposa foi quem pagou as propinas para ele estudar Medicina numa pequena universidade. Transferiu-se depois para a Escola Médica da Universidade do Michigan. Em breve desapareceu uma colega, que tinha um seguro de vida no valor de doze mil e quinhentos dólares e trabalhava com Holmes, tendo-o nomeado seu beneficiário. Abandonou então a esposa e mudou-se para o Estado de Nova Iorque. Alojou-se em casa de um agricultor, seduziu-lhe a mulher, deixou-a grávida e desapareceu de vista. Surgiu a seguir em Chicago, onde desposou, em bigamia. uma tal Myrtle Belknap, tendo tentado, por duas vezes, envenenar o pai dela e fugindo depois para St. Louis. Fez aí amizade com Benjamim Pietzel, um burlão. Regressou a Chicago. mudou o nome para Holmes e passou a apresentar-se como inventor. Abandonou a sua oficina, deixando nove mil dólares de dívidas. Comprou o prédio onde actualmente vive. à esquina da Rua Wallace com a Rua Sessenta e Três e remodelou-o, como hotel, para a Feira Mundial. Muitos dos seus hóspedes nunca mais voltaram a ser vistos. Uma era Julia Connor, que estava na companhia da sua filha de oito anos de idade. Mrs. Connor deixou o marido, para se tornar amante de Holmes... antes de também desaparecer. Viajando para o Texas. ele conheceu Minnie Williams a qual, com a sua irmã Nannie, possuía propriedades no valor de setenta e cinco mil dólares. Holmes desfez-se delas e fugiu. levando o dinheiro. Houve a seguir outras mulheres na sua vida, incluindo Emily Van Tassel e Emeline Cigrarfd. Todas acabaram por desaparecer. Holmes mandou vir de St. Louis o seu amigo Pietzel, para se ocupar da casa. Este foi. eventualmente, encontrado morto. Talvez tenha cometido o erro de fazer um seguro de vida, tendo o amigo como beneficiário. De visita a Denver, Holmes casou-se com Georgianne Yoke, embora tivesse ainda duas esposas. Depois, vieram outras.

Agitada, Minna ergueu uma das mãos.

-Não me conte mais nada. Pensa que ele assassinou toda essa gente que desapareceu?

-E que pensa a senhora, Miss Everleigh? Minna mostrava-se mais agitada que nunca. A voz tremeu-lhe ao dizer:

- Eu. eu penso que cometi um erro terrível. Permiti que a minha sobrinha Cathleen e a sua amiga Karen Grant fossem ontem para casa do Dr. Holmes, para lá ficarem até lhes arranjar instalações adequadas num hotel.

O sobrolho de Pinkerton franziu-se ainda mais.

-A sua sobrinha e Miss Grant estão alojadas em casa do Dr. Holmes?

-Sim. O Clube Everleigh foi temporariamente encerrado e eu estava a ter dificuldades em lhes con seguir arranjar aposentos. O Dr. Holmes ofereceu-se para as receber. Como é que eu podia saber que... que ele talvez seja um monstro, um...

- A senhora não o podia adivinhar - cortou o hom em. - Precisamos agora de as tirar de lá, se não for já demasiado tarde.

-Enviei o noivo da Cathleen e o meu sobrinho à residência dele, para as trazerem.

Pinkerton sacudiu a cabeça.

-Tenho a certeza de que os mandará para trás. Dir- lhes-á que as senhoras já se foram embora e que ignora para onde. Os rapazes não conseguirão chegar a lado nenhum. Miss Everleigh, isto é caso para a Polícia. Autorize que me sirva ímediatamente do seu telefone.

Minna concordou, atordoada, com um aceno de cabeça e Pinkertan estendeu a mão para o aparelho pedindo à telefonista para o pôr em comunicação com a principal esquadra de Polícia.

Uma vez estabelecida a ligação, Pinkerton disse ao capitão Zubukovic, que foi quem atendeu, que necessitava de falar imediatamente com o chefe de polícia Francis O'Neill.

- Lamento, senhor. O chefe estará ausente durante as próximas horas. Poderei ser-lhe útil?

- Trata-se de uma emergência - disse Pinkerton.

-Tenho a certeza que me pode ser mesmo útil.

-Que se passa?

Rapidamente e após se ter apresentado, Pinkerton comunicou ao capitão Zubukovic o que averiguara sobre o Dr. Herman Holmes e as duas mulheres cujas vidas poderiam estar em perigo.

-Acho que o senhor deveria mandar rapidamente uma patrulha à residência do Dr. Holmes. ele pode estar a preparar-se para cometer algum homícídio.

-Tem provas de que se trata de um assassino?

-Circunstanciais, mas bastante convincentes.

-Não é o suficiente para eu actuar apenas com base num telefonema - respondeu o capitão. - Sugiro-lhe que venha já para aqui e me mostre as provas. Terei de as ver pessoalmente, antes de poder ordenar uma diligência.

-O atraso pode revelar-se excessivo.

- Mr. Pinkerton, eu não posso fazer mais nada sem instruções do chefe. Sugiro que venha imediatamente aqui, trazendo o seu dossier.

- Já vou a caminho - disse ele, desligando. Pôs-se em pé com surpreendente agilidade. - Miss Everleigh, não há um minuto a perder. Apenas posso rezar para que o seu Alan e o seu Bruce tenham sorte em relação ao Dr. Holmes. De outro modo, não dou nada pelas vidas da Cathleen e da Karen.

Com essas palavras, Pinkerton correu para fora do compartimento.

Minna permaneceu imobilizada na sua cadeira, para lisada de medo.

O Dr. Holmes acordou ao fim da manhã, no seu quarto de dormir, no Castelo.

O relógio da mesinha-de-cabeceira indicou-lhe que passava um pouco das onze horas. Estendido na cama, perguntou-se se as suas hóspedes estariam já acordadas.

Na noite anterior, após tê-las trazido do Clube Everleigh. levara-as, no seu Packard, ao Restaurante e Marisqueira Saratoga, para comerem um abundante jantar.

E fora um jantar generoso, porque as pretendia sua vizar, engordar para o dia seguinte.

Agora que esse dia já chegara, sentia-se eufórico, regozijando-se com as possibilidades que se lhe ofereciam.

Ao abandonar o leito, reflectia nas alegrias que, de imediato. o esperavam. Faria amor com cada uma delas em separado, duas virgens, tinha a certeza. Seria uma ocasião memorável. Se o rejeitassem, dar-lhes-ia gás e matá-las-ia, para as desmembrar depois. o que, só por si, já constituía uma excitante experiência sexual.

Tendo terminado de se vestir e arranjar, abriu a gaveta da mesinha-de-cabeceira, onde mantinha sempre carregado o seu Colt. 45. Não lhe parecia que precisasse dele mas, só para o caso de uma das mulheres entrar em pânico ou resistir, seria bom ter a arma à mão.

Enfiou a pistola num dos bolsos do casaco e saiu do quarto de dormir, dirigindo-se para o de Cathleen, que ficava no segundo andar. Decidira que seria ela a primeira. Palpitava-lhe que era a mais dócil e que rapidamente cederia.

Na noite anterior, fechara-lhe a porta do lado de fora. só para se assegurar de que a rapariga não se punha a deambular pela casa e a levantar problemas.

Abriu agora a porta e entrou.

Cathleen estava a abotoar a cintura da saia.

- Oh! - exclamou. - Não esperava que entrasse dessa maneira.

-Tinha a certeza de que já devia estar acordada e a pé - disse ele, puxando por uma cadeira.

Pôs-se a observá-la. Era pequena, delicada, gentil. Estava perfeitamente convencido de que se revelaria uma deliciosa companheira de cama.

-Cathleen - disse-lhe. - Não necessita de se incomodar a terminar de se vestir.

Ela pareceu sobressaltar-se e fez uma pausa.

-Que quer dizer com isso?

-Que você sabe muito bem que o seu casamento foi cancelado. Já não tem homem. Mas devia arranjar um, para seu prazer. É agora uma mulher livre e pode fazer o que lhe apetecer. Pensei que me quisesse a mim.

As mãos dela caíram aos lados do corpo e fitou-o. mal-humorada.

-Que está para aí a dizer?

-Vai ter que se despir e meter-se na cama, onde virei juntar-me a si. Um homem com a minha experiência poderá fazê-la muito feliz.

- Como se atreve a uma coisa dessas! - explodiu a rapariga.

- Ia dar-se a esse jovem Armbruster.

-Ele ia casar comigo.

-Também eu estou na disposição de a desposar - afirmou Holmes.

-Está louco? Não me quero casar consigo. Nem sequer o conheço. Apenas sei aquilo que a tia Minna me disse que o senhor era um cavalheiro. Estou a ver que ela se enganou.

-Bem; não precisa de casar. Basta-lhe ir para a cama comigo.

-Não, nunca! Nem daqui a um milhão de anos! Espere só até a tia Minna ouvir contar isto!

Calmamente, Holmes pôs-se em pé.

-A sua tia Minna nunca o virá a saber. Se me rejeitar, vai morrer.

- Morrer? - sussurrou Cathleen em voz cava. De certeza que está a brincar comigo.

- Morrer - repetiu ele - a menos que colabore. Vou dar- lhe alguns minutos para pensar no assunto. Visitarei a seguir a Karen. Seguramente se mostrará mais sensata.

Voltando-lhe as costas, saiu do quarto e fechou cuidadosamente a porta à chave.

Desceu o corredor até outro quarto de cama. Abriu a respectiva porta e entrou.

Karen estava sentada num cadeirão, completamente vestida, de pernas cruzadas e com um dos pés a bater irritadamente no chão.

- Então aí está o senhor - disse. - Que diabo quer dizer isso de me fechar à chave neste quarto? Tive vontade de sair para tomar ar. Pensava que fosse o nosso anfitrião, não o nosso carcereiro.

Holmes sorriu-se.

- E sou o vosso anfitrião, pense a Minna Everleigh o que pensar.

-Diga-me só o que deseja e deixe-me ir embora daqui.

- A si, quero-a a si - replicou Holmes. - É o que eu quero. Já é virgem há tempo de mais. Desejo fazer de si mulher.

Karen pôs-se de pé.

-Teria de me violar para o conseguir.

O Dr. Holmes proferiu com lentidão, claramente ofendido:

-Nunca me passou pela cabeça uma violação, nunca. Não consigo imaginar-me a forçar uma mulher. Nunca na vida o fiz.

-Então, deixe-me sair imediatamente daqui!

-Também não posso fazer uma coisa dessas - respondeu ele em tom suave. - Desejo-a. Se não a puder ter, ninguém mais a terá. Aquilo que lhe estou a oferecer, Karen, é uma afirmação de vida. Caso contrário, somente lhe oferecerei a morte.

Os olhos da rapariga encontraram os olhos ardentes do médico.

-Acho que o senhor está mesmo a falar a sério.

-Já antes tinha falado.

-Está absolutamente louco: Vou-me embora desta casa!

Quando tentou passar por ele. o Dr. Holmes agarrou-a com rudeza e fê-la girar sobre si mesma, com um violento impulso.

Ela fitou-o, assustada.

Holmes meteu a mão no bolso e tirou o Colt. 45.

-Não vai a nenhum sítio, a não ser onde eu a mandar ir. Neste preciso instante, iremos ao quarto da Cathleen, juntarmo-nos a ela. Está à minha espera. Saia para o corredor e vire à esquerda.

Acenando com a arma para Karen, forçou-a a sair do quarto. Depois, empurrando-a com o cano de metal, obrigou-a a marchar pelo corredor, na direcção da porta do quarto de Cathleen. Aí, de arma apontada para a rapariga, abriu a fechadura e empurrou a porta.

Cathleen estava sentada na beira da cama, muito quieta, assustada. A visão da arma encostada às costas de Karen fê-la encolher-se.

Holmes gesticulou para Karen entrar no quarto de dormir e ordenou-lhe que se fosse sentar ao lado de Cathleen.

- Muito bem, vocês as duas - disse-lhes em voz baixa - é esta a vossa derradeira oportunidade.

- Por que é que está a fazer isto? - perguntou Karen em voz débil.

- Porque lhes apresentei uma proposta às duas - respondeu ele-e, se as libertasse agora... bem, poderiam testemunhar contra mim e arruinar-me.

- E se nós tivéssemos cedido? - indagou a rapariga- - Como é que isso nos protegeria?

- Eu teria encontrado uma saída - disse ele mis teriosamente. - Podia fazê-las felizes, uma de cada vez, depois de ter amarrado a outra. Que me dizem?

Cathleen olhou de relance para Karen.

- Eu não seria capaz disso - declarou.

- Nem eu - proferiu enfaticamente.

O Dr. Holmes rugiu:

- Estúpidas! Mas a escolha é vossa. - Apontou a arma primeiro a uma, depois à outra. - Ponham-se ambas de pé!

Recuou para fora do quarto de dormir, fazendo-lhes sinal para cruzarem a porta para além dele.

- Onde é que vamos? - quis saber Karen.

-Pelo corredor abaixo, nesse sentido. Desçam depois as escadas. Irei logo atrás de vocês. Se tentarem alguma coisa, serão mortas. Virem à direita, ao fundo, e dirijam-se para a parede vazia.

Atravessaram o vestíbulo em fila indiana e desceram as escadas, com Holmes de arma apontada para as cabeças delas.

Viraram à direita e continuaram, até junto da parede desocupada. Pararam e aguardaram pela ordem seguinte.

Holmes, ainda de arma assestada nelas, encaminhou-se para a extremidade mais afastada da parede e carregou num botão.

Uma parte da parede deslizou e abriu-se. As mulheres arregalaram os olhos para o compartimento sinistro e parcialmente iluminado, deserto à excepção da mesa de observações.

- Entrem - ordenou-lhes Holmes. - Vão para junto da mesa e esperem. Não tentem escapar. Não há fuga possível.

- O que. o que é que vai acontecer? - indagou Karen.

- Verão. - respondeu o médico.

Carregou no botão e a parede voltou a fechar-se sobre o compartimento à prova de ar.

Contente e às gargalhadas, o Dr. Holmes meteu o Colt no bolso. rodou sobre si mesmo e dirigiu-se para o seu gabinete. Uma vez lá dentro. encaminhava-se para o painel das alavancas, quando soou o toque da campainha da porta principal.

Aquilo era inesperado e Holmes deteve-se. Espreitou por cima do ombro na direcção da entrada, quando a campainha voltou a soar, uma e outra vez, com mais insistência.

Deveria atender?

Ou continuar antes a dirigir-se para a alavanca, a fim de ligar o gás?

Permaneceu onde estava. incapaz de se decidir.

 

AINDA hesitante, o Dr. Holmes procurou decidir se devia continuar a dirigir-se para a alavanca, ou

voltar-se, para ir averiguar quem estava a tocar com tanta insistência à campainha da porta. Disse para si mesmo que não podia ser ninguém importante. Não esperava pessoa alguma. Quando muito, poderia tratar-se de um doente sem marcação de consulta ou, possivelmente, alguém com um problema de somenos importância.

A ser esse o caso, achava que poderia libertar-se rapidamente da pessoa. Por outro lado, se se tratasse realmente de uma emergência, quem estava a tocar à campainha talvez não parasse, numa insistência para lhe ser facultada a entrada.

Desejoso de ficar a sós e sem ser apressado, para saborear a eliminação de Cathleen e Karen, decidiu ir atender à porta. Seria preferível afastar do seu caminho quem o chamava, antes de se dedicar aos prazeres que o aguardavam.

Saiu do gabinete, regressou ao vestíbulo, que atravessou até à porta principal, cujo puxador agarrou com firmeza para a abrir.

Ficou surpreendido ao ver-se perante dois rapazes. ambos bem vestidos e, aparentemente, na melhor das saúdes. Um deles era alto e corpulento, enquanto o outro era ligeiramente mais baixo, mas vigoroso.

O jovem corpulento foi quem falou primeiro.

-Dr. Herman Holmes?

- Sim, sou eu o Dr. Holmes - anuiu o médico. interrogando-se sobre quem seriam eles.

- Chamo-me Bruce Lester - disse o rapaz, com um leve sotaque sulista. - E este é o Alan Armbruster. Holmes não reconheceu nenhum dos dois e, devido

ao estado de tensão em que se encontrava, os nomes deles apenas lhe pareceram vagamente familiares.

- Em que lhes posso ser útil? - perguntou, com impaciência.

-Fomos cá mandados pela Minna Everleigh...

-Pela Minna Everleigh?

-Sim. O Mayor levantou o embargo ao Clube Everleigh. Vai ser reaberto hoje. A Minna, a minha tia Minna. está a tentar freneticamente pôr a casa em ordem. Vai dar esta noite um banquete, em honra do Príncipe da Prússia. Todos os criados, músicos e meninas, estão de volta. Sinto-me muito grato ao senhor, por se ter ocupado da Cathleen e da Karen. A tia Minna disse-nos que podíamos trazer o carro dela para as levarmos de volta ao Clube o mais depressa possível, em especial porque aqui o meu amigo Alan vai casar com a Cathleen. hoje mesmo. Desculpe virmos incomodá-lo, mas cá estamos, para lhe tirarmos das mãos as suas hóspedes.

O Dr. Holmes ficou momentaneamente confuso.

-Bem, não sei... quero dizer, receio que tenham chegado demasiado tarde - acabou por dizer. -A Cathleen e a Karen passaram de facto a noite na minha casa, mas já cá não estão. - Indicou, com um gesto, o espaço atrás de si. - Como podem ver. encontro-me completamente sozinho.

Subitamente suspeitoso das maneiras do médico. Bruce atravessou o limiar da porta. para ver por si próprio. Foi de imediato seguido por Alan.

Quando os dois viraram na direcção da porta do gabinete. o médico colocou-se-lhes ao lado.

Varreu o compartimento com um gesto de mão.

-Podem verificar que está vazio. Elas foram-se embora há uma hora. É estranho que não informassem a Minna de que o iam fazer.

Alan sacudiu a cabeça.

-Saíram assim, sem mais nem menos? Não faz sentido.

Os seus olhos continuaram a perscrutar o gabinete. Holmes, tendo recuperado a pose e sentindo-se mais descontraído em relação àquela invasão, tomou Alan pelo braço e conduziu-o para junto da secretária.

-Sentem-se os dois por um momento e permitam que me explique.

Alan instalou-se ao lado da secretária e Bruce imitou-o com relutância, acomodando-se diante do médico, que ocupara a sua cadeira rotativa.

Observou com um golpe de vista o gabinete. Superficialmente, dava a impressão de corresponder à média: a secretária de madeira de carvalho. a mesa de observações, a lareira, a mesa quadrada cheia de revistas médicas. No entanto, a sua intuição dizia-lhe que aquilo não dava a sensação de ser um consultório a sério. Parecia-se um tanto com um palco de teatro. Havia qualquer coisa indefinivelmente distorcida no compartimento. tal como no Dr. Holmes propriamente dito.

Os seus olhos encontraram os de Alan, concluindo que este tinha a mesma sensação.

Não obstante, ali estava o Dr. Holmes no seu consultório, sem que nada de errado se lhe pudesse apontar.

Bruce concentrou-se mais uma vez no médico.

- Disse que saíram há uma hora atrás? - repetiu.

- Mais ou menos uns minutos - anuiu Holmes.

- Deveriam permanecer aqui - insistiu Bruce à espera que a Minna entrasse em contacto com elas. Por que é que se foram embora?

- Suponho que acharam a casa desconfortável - respondeu o médico, perfeitamente recomposto. - Talvez desejassem mais privacidade. Disseram-me simplesmente que se iam embora. Insisti para que ficassem, até terem notícias de Miss Everleigh. Mas não, elas recusaram. Hum... pode ser que as vão lá encontrar, quando voltarem ao Clube Everleigh. Talvez tivessem a intenção de auxiliar as suas tias a desembalar as coisas.

Alan voltou a sacudir a cabeça. com mais vigor.

-Isso é absolutamente impossível. Dr. Holmes. O senhor recebeu-as em sua casa porque o Clube Everleigh tinha sido encerrado. Elas não tinham forma de saber que a respectiva reabertura fora decidida esta manhã.

O Dr. Holmes encolheu os ombros.

-Nesse caso, não faço a menor ideia para onde possam ter ido. A menos que fossem à sua procura, Mr. Armbruster. por causa da boda.

- Nem em cem anos o fariam - retorquiu Alan. Que soubessem, o casamento estava cancelado.

-Bem, então o caso ultrapassa-me - disse Holmes.

-E a mim também - admitiu Bruce. pondo-se em pé.

Alan também se ergueu e, juntos, dirigiram-se para o corredor, aínda a olharem, mortificados, para a parede vazia.

Holmes apressou-se a segui-los.

-Podem ver e ouvir que estou completamente só. Não faço a menor ideia para onde foram Miss Lester e Miss Grant. Lamento que se tenham dado a todo este trabalho. Terão de procurar as jovens senhoras noutro lado qualquer.

- Pode crer que o faremos - disse Bruce, com determinação. - Não sei por onde principiar, mas havemos de as encontrar.

Holmes começou a encaminhar os dois jovens para a porta.

-Talvez Miss Everleigh tenha fornecido às duas jovens senhoras meios para a contactarem, antes de as ter mandado para aqui comigo. Pelo menos eu espero que sim. Seja como for, nenhuma das duas me disse para onde iam. - Abriu a maciça porta. - Se eu souber do seu paradeiro, telefonarei imediatamente para Miss Everleigh.

Bruce esboçou um aceno de cabeça.

- Desculpe o incómodo que lhe demos, Dr. Holmes.

- Bons dias e boa sorte - murmurou o médico.

Fechou a porta tão depressa eles se foram embora.

No exterior do Castelo, Bruce e Alan pararam no passeio, diante do carro de Minna.

-E agora? - indagou o primeiro. - Para onde vamos a partir daqui?

- Para lado nenhum - respondeu enigmaticamente Alan.

Fazendo sinal ao outro no sentido de se acercar mais, ergueu um punho cerrado diante de si. Abrindo lentamente os dedos, exibiu uma argola com chaves na palma da mão.

Intrigado. Bruce perguntou:

-Que é isso?

-As chaves do Dr. Holmes, espero bem. Dei com elas penduradas num gancho, por baixo da secretária. Enquanto estávamos a falar, dei com o joelho nelas. Assim que ele virou a cabeça, enfiei a mão por baixo do móvel e meti-as no bolso. Palpita-me que esteja entre elas a da porta da frente.

- A chave da porta da frente? - repetiu o outro. intrigado.

-Para nós voltarmos à casa e lhe darmos uma vista de olhos.

-Mas para quê? Alan baixou a voz.

-Bruce, aquilo não me agradou. Não acredito que a Cathleen e a Karen se fossem embora para outro lado. Não faz sentido. Não tinham lugar para onde ir, nenhuma das duas. Ignoravam que o Clube Everleigh ia abrir de novo. A Karen tinha o seu apartamento subalugado. Na noite passada não havia quartos de hotel disponíveis e elas não faziam ideia onde poderiam encontrar-se a Minna e a Aida. Por que haveriam de partir sem destino?

-Que estás a tentar dizer-me? Alan aproximou-se mais de Bruce.

-Penso que aínda estão aí.

- E por que motivo não havia o doutor de nos dizer uma coisa dessas?

- Pode ser que as pretenda reter aqui contra vontade, por uma razão qualquer.

- Tal como?

- Sexo, com escravidão, não sei. Apenas tenho consciência de que não gosto do homem, nem confio nele. Sou de opinião que devemos entrar na casa, para darmos outra vista de olhos.

- E se ele nos apanhar?

Alan fez saltar as chaves na palma da mão.

-Eu poderia dizer que a argola me caiu no bolso e só agora dei por isso, desejando devolvê-la.

-Ele nunca acreditaria nisso.

- Nesse caso, poderia acusar-nos à Polícia de penetrarmos em propriedade alheia.

- Duvido que o fizesse - disse Bruce.

O outro rapaz fitou-o directamente.

-Queres vir comigo?

Bruce sorriu. tirou as chaves da mão dele e dirigiu-se para a porta principal da casa de Holmes, com o outro a seu lado.

-Terá de ser uma operação muito silenciosa - murmurou.

Começou a seleccionar as chaves e enfiou a primeira no buraco da fechadura. Não funcionou. Experimentou a segunda. O mesmo resultado.

A terceira abriu.

Suavemente, Bruce escancarou a porta, rezando para não fazer barulho. Bem oleada, a maciça porta deslizou sem ruído.

Ao esgueirarem-se para o interior, a cabeça de Alan movimentou-se para diante. indicando qualquer coisa à sua frente.

O Dr. Herman Holmes estava visível no vestíbulo, de costas para eles, como que a meditar.

Silenciosamente, Bruce e Alan entraram no sombrio átrio e fecharam a porta. O primeiro fez sinal ao outro para se agachar com ele, no recanto escuro formado por trás de uma coluna, a fim de se esconderem.

Após curto intervalo de tempo, embora desesperado por se manter fora de vista, Bruce arriscou-se a espreitar do seu esconderijo.

Viu o Dr. Holmes ainda de pé. em contemplação, no mesmo sítio onde estivera quando haviam entrado de novo. Mas agora já não estava voltado na direcção do gabinete. Em vez disso, fixava o olhar na parede vazia.

Agora que já se livrara dos intrusos e detinha novamente o completo controlo da situação, o Dr. Holmes tomara uma decisão diferente quanto ao que se seguiria.

Estivera prestes a erguer a alavanca do gás, que exterminaria as duas mulheres aprisionadas. No entanto, confrontado com a visita daqueles dois jovens intrometidos, verificara-se um atraso. Holmes imaginava como esse lapso de tempo teria afectado Cathleen e Karen. Elas haviam esperado morrer imediatamente. De certeza que aquela espera, ali encurraladas, as devia ter torturado, enfraquecido a sua determinação em lhe resistirem. Talvez se mostrassem menos dispostas a morrer. Tinham, provavelmente. disposto de tempo suficiente para reconsidrar em relação à exigência dele e. muito provavelmente, estariam agora a avaliar qual era o menor dos dois males.

Fantasiando como seria ter Karen nua diante de si, aquele macio e fresco corpo, ao qual se seguiria o de Cathleen, Holmes mudou de direcção.

Dar-lhes-ia mais uma oportunidade.

Lentamente. encaminhou-se para a parede vazia, meteu a mão por trás da planta de borracha de largas folhas, alcançando o botão de abertura da porta de correr. Quando a parede começou a abrir-se, Holmes tirou do bolso o Colt. 45 e apontou-o para o interior do compartimento.

Avistou Karen, desviada para a sua esquerda. a qual se apoiara sobre as mãos e joelhos a explorar o chão do quarto, como que a procurar uma via de fuga. Viu Cathleen sentada na mesa de observações. a chorar baixinho.

Ambas as mulheres se endireitaram ao ouvirem o som da porta a abrir e, ao darem conta de que Holmes voltara, fitaram-no com pavor e nojo.

- Karen! - bradou ele. - Vá para cima da mesa, que é onde deve estar, ao lado da Cathleen! Obedientemente. a rapariga pôs-se em pé e encaminhou-se para a mesa, colocando-se junto de Cathleen.

- Muito bem. escutem-me agora - disse-lhes Holmes. - Vou dar a ambas uma segunda oportunidade.

É a última e farão bem em aproveitá-la. Você. Cathleen, quero que venha lá acima comigo, ao meu quarto de dormir.

Verificou-se um longo intervalo silencioso, antes que a rapariga principiasse a soluçar alto.

- Não. não, eu não posso. não posso fazer isso. Holmes voltou a falar:

- Muito bem, foi a sua sentença de morte. E você. Karen? Deseja um adiamento da sua sentença?

-Saia da minha vista, escumalha nojenta, e deixe-me morrer em paz! -vociferou ela.

O médico grunhiu:

-Vão agora ser satisfeitos os desejos das duas. Fechá-las- ei à chave, ligarei o gás venenoso e deixá-lo-ei aberto até morrerem sufocadas. Adeus, suas parvas!

Com essas palavras, Holmes saiu do quarto e carregou no botão, ficando a aguardar enquanto a parede deslizava. encerrando as suas vítimas.

Satisfeito, meteu a arma no bolso e, em passos medidos, dirigiu-se ao seu gabinete.

Bruce recuou para as sombras por trás da coluna.

- Ouviste aquilo? - sussurrou. - Temos de agir com rapidez, imediatamente.

- Ele tem uma arma - murmurou Alan em resposta. - Se nos ouvir, matar-nos-á a tiro e matará igualmente as raparigas.

Bruce estava já a tirar as botas.

-Tira os teus sapatos, Alan. Ele não nos há-de ouvir.

Dentro de segundos, estavam ambos de meias.

- Vamos a isto - sussurrou Bruce, em tom de urgência.

Percorreram o vestíbulo, esgueirando-se em silêncio pelo corredor central.

Fizeram então uma pausa.

Sob a fraca iluminação à sua esquerda, puderam ver que o Dr. Holmes havia penetrado no gabinete. Estava a esfregar as mãos, enquanto se aproximava daquilo que palpitou a Bruce ser um painel de controlo.

Sem mais uma palavra, fez sinal a Alan para o seguir, enquanto corria em palmilhas pelo corredor fora, penetrando no gabinete de Holmes.

Estava a estender a mão para uma alavanca. Abruptamente, Bruce gesticulou para que Alan o cercasse do outro lado. O rapaz obedeceu, ao mesmo tempo que ele se aproximava de Holmes directamente pela retaguarda.

O dedo do médico tocava já na alavanca. Bruce apontou com a cabeça para Alan. Com um grito agudo, este saltou sobre Holmes, martelando-lhe o braço com o punho fechado e afastando-lhe violentamente a mão da alavanca.

Surpreendido e de olhos em fúria, o médico desfechou um murro no rapaz, enquanto a sua mão livre se insinuava no interior do casaco, à procura da pistola.

Por trás dele, Bruce viu a arma na sua mão. Instantaneamente, agarrou-o pelo pulso, torcendo-lhe com força. O Colt. 45 soltou-se da mão de Holmes, voando para o chão.

O médico girou sobre si próprio para enfrentar Bruce. esquivou-se a um murro e desferiu um gancho de direita e outro de esquerda ao queixo do rapaz. A força dos golpes fez oscilar Bruce, paralisando-o momentaneamente, antes de tombar pesadamente de costas.

Holmes ajoelhou como um relâmpago, agarrando mais uma vez a pistola e rodando, para disparar sobre Alan, que avançava contra ele.

Cambaleando, Bruce pôs-se em pé e escrutinou, frenético, a sala, à procura de um objecto pesado. Viu um vaso de Vénus de Milo de aspecto sólido pousado em cima da prateleira da lareira, com as suas flores já secas: Pegou-lhe com ambas as mãos e virou-se, a tempo de ver Holmes a apontar para Alan, que recuava.

Ergueu o vaso acima da cabeça e. com toda a força de que era capaz; baixou-o, com um som abafado, sobre o alto do crânio do médico.

A pancada despedaçou o vaso.

E, nitidamente, despedaçou também uma parte da cabeça do Dr. Holmes.

Este dobrou-se sobre si mesmo e depois desmoronou-se no chão do gabinete. Ficou estendido, de braços abertos, entre os dois rapazes.

Sem perder tempo, Bruce deixou-se tombar sobre os joelhos. libertou o Colt 45 dos dedos lassos do médico e enfiou-o no seu próprio bolso. Voltando o corpo de Holmes, pôde verificar que ele se encontrava totalmente inconsciente e que sangue fresco e brilhante lhe manchava o cabelo.

- Perdeu os sentidos - arquejou.

- Graças a Deus - disse Alan, sem fôlego. Bruce pôs-se em pé com dificuldade.

-As raparigas... - rouquejou. - Vamos tirá-las dali, antes que lhes suceda algo de mau... antes que morram de medo.

Alan ia já a correr, saindo do gabinete e dirigindo- se para a parede vazia. Procurou desesperadamente o botão da porta de correr. Encontrou-o finalmente e carregou com força:

A porção de parede deslizou e abriu-se. Alan espreitou para o interior do quarto. Cathleen e Karen estavam de pé diante da mesa de observações, agarradas uma à outra, à espera da morte. Ao escutarem o som da porta a correr, ergueram ambas o olhar para a abertura, incrédulas, como se estivessem a presenciar uma aparição.

- Oh . Alan. Alan. és tu - gemeu Cathleen. Libertou-se de Karen e cambaleou na direcção do rapaz, quando este penetrava na câmara da morte. Lançou-lhe os braços em volta do pescoço e ele abraçou-a e beijou-a.

Bruce já entrara no quarto, avançando para a trémula Karen. Os seus braços apertaram-na com força e a sua boca procurou-lhe os lábios. Beijou-a repetidas vezes, até a rapariga já dificilmente conseguir respirar.

- Como. como é que chegaram aqui - quis ela saber.

- A tia Minna mandou-nos cá buscá-las - replicou Bruce. - O Dr. Hòlmes tentou induzir-nos a acreditar que vocês já cá não estavam, que se tinham ido embora, mas nós suspeitámos. Conseguimos esconder-nos e descobrir que tencionava matar-vos. Depois, dominámo-lo.

Cathleen libertou-se dos braços de Alan.

- Onde está ele? - perguntou. ainda com medo na voz. - Onde se encontra esse maníaco?

- Vem comigo - disse Bruce.

Saíram os quatro da câmara da morte.

Atravessaram o corredor central. na direcção do gabinete do médico. Estendido no chão, Holmes jazia ainda inconsciente.

Bruce olhou para Alan.

- Temos de o fechar à chave - disse. - Ajuda-me, Alan. Vamos transportá-lo para a câmara de gás. Corremos depois a porta e chamamos a polícia.

Dobraram-se os dois, Bruce pegando no Dr. Holmes pelos sovacos e Alan segurando-lhe nas pernas, e carregaram com ele. enquanto as duas mulheres, com ódio no olhar, viam o seu corpo ser levado.

Minutos mais tarde, estavam outra vez todos quatro reunidos no gabinete do médico.

O olhar de Bruce encontrou o de Alan.

- Sabes o qe eu gostava de fazer? - perguntou.

- Dar a provar a esse bastardo o gosto do seu próprio remédio. Mas não podemos fazer tal coisa.

- Não podemos porquê? - indagou o outro, em voz irada.

-Porque não. É-nos impossível proceder como o Holmes tencionava... cometer um homicídio. Dispomos de provas suficientes para permitir que seja feita justiça ao abrigo da Lei. Vou já chamar a polícia.

Rapidamente, Bruce fez a sua chamada telefónica para a esquadra. explicou o que se passara e. quando o capitão prometeu enviar imediatamente alguém ali, desligou e voltou-se para as duas mulheres.

- Sentem-se melhor?

Karen e Cathleen confirmaram. com um aceno inseguro.

- Será melhor que se sentem as duas - mandou Bruce. - Muitas coisas aconteceram desde que vocês saíram do clube. Alan, começa tu a contar.

Este passou, deliciado, os olhos por Cathleen.

-Querida, vamos casar-nos esta noite. O meu pai deu- nos a sua bênção.

-O quê? - exclamou ela, semi-erguendo-se da cadeira.

O rapaz aproximou-se e beijou-a, fazendo-a sentar-se de novo.

-Foi o preço exigido pela tua tia Minna para reabrir o Clube Everleigh.

Karen mostrou-se moderadamente espantada.

-A Minna, fez-se rogada para abrir outra vez o clube? Depois de todos os trabalhos a que se deu o Mayor... para o encerrar? Como pôde ser isso?

Alan gesticulou para o outro.

-Encarrega-te tu da história, a partir deste ponto. Bruce.

Sorridente. o rapaz narrou os assombrosos eventos das últimas horas.

-O príncipe da Prússia chegou a Chicago esta manhã. O Mayor, Mr. Armbruster e toda uma comissão de recepção foram cumprimentá-lo. O que ele fez foi deitar o programa inteiro pela janela fora. Não quis nada daquilo. Foi muito directo. Disse a toda a gente o que de facto pretendia. O único lugar que desejava visitar em Chicago era o Clube Everleigh.

Karen percebeu pela primeira vez.

- Oh, não! - exclamou ela, rebentando de riso. E o clube estava fora de acção, encerrado, fechado.

-Exactamente - corroborou Bruce. - Bom, o Mayor encontrava-se presente, bem como o pai do Alan, que quer ser Embaixador na Alemanha. Ambos sabiam que não o podiam desapontar. Pura e simplesmente não lhes era possível recusar-lhe a realização do único desejo manifestado. Portanto, concordaram os dois. unanimemente, que o Clube Everleigh deveria ser reaberto.

Mas apenas havia duas pessoas que o poderiam fazer.

- A tia Minna e a tia Aida - interpôs Cathleen:

- Sim... e ambas se encontravam na prisão - confirmou Bruce. - Podes crer que foram imediatamente libertadas. Foi então que a Minna se meteu a negociar.

Ela e a Aida poriam o clube em condições e reabri-lo-iam para o príncipe, no caso de lhes ser permitido darem lá o banquete de boas-vindas e se a Cathleen e o Alan tivessem autorização para casar durante as festividades.

- O rapaz sorriu-se para a irmã. - O Mayor Harrison e Mr. Armbruster não ofereceram resistência. O Clube Everleigh está, neste momento, a ser aprontado e vocês.

Cathleen e Alan. vão dar o nó esta noite.

Nesse instante, tocou a campainha e continuou a tocar, enquanto se ouvia alguém martelar na porta.

- Não pode ser a polícia. assim tão depressa - observou Bruce. - Quem diabo será?

Abrindo cautelosamente uma frincha da porta e escancarando-a logo a seguir, Bruce viu-se perante um homem com uniforme de oficial superior da polícia, outro indivíduo corpulento vestido à paisana e mais cinco agentes de uniformes azuis simples.

- Quem é você? - indagou o homem das roupas à civil.

Apanhado de surpresa, Bruce declarou:

-Chamo-me Bruce Lester. Que estão os senhores aqui a fazer?

-Eu sou William Pinkerton, investigador particular a trabalhar para Miss Minna Everleigh. Você deve ser o sobrinho dela. Este é o chefe da polícia Francis O, Neill. Os outros homens são subordinados dele - debitou Pinkerton. - Viemos por causa das senhoras. Cathleen Lester e Karen Grant. Elas encontram-se bem?

- Agora já estão a salvo - respondeu Bruce. Entrem e verifíquem pessoalmente.

Conduziu os sete homens para o gabinete. Apresentou-os a todos, com a colaboração do chefe.

Este olhou em volta, como se notasse a falta de alguém.

- Onde está o Dr. Herman Holmes? – inquiriu

- Inconsciente, na sala ao lado - respondeu Bruce.

-O Alan e eu saltámos-lhe em cima, precisamente quando ele estava prestes a matar as mulheres por meio de gás. Tinha uma arma. Disparou sobre o Alan, falhou e ia para disparar de novo, quando eu lhe esmaguei um vaso pesado na cabeça e o pus sem sentidos. Fechámo-lo no compartimento ao lado.

- Espere aí - interveio o chefe. - Tem a certeza de que não está morto?

-Que eu saiba. pode muito bem estar. Quer averiguar?

- Imediatamente - disse o chefe.

- Vamos a isso - anuiu o rapaz. - Eu abro-lhe a porta.

Com Alan, o chefe e Pinkerton a seguirem-no para fora do gabinete, Brúce foi direito à planta de borracha, existente na extremidade da parede vazia.

-O Holmes tem um botão aqui escondido. Carrega-se nele e abre automaticamente uma parte da parede, que dá para um quarto à prova de ar, onde ele tencionava matar a Karen e a Cathleen por meio de gás. Veja.

Estendeu o braço por trás da espessa folhagem verde, encontrou o botão e carregou nele.

Com um mínimo de ruído, uma parte da parede deslizou suavemente para o lado.

Bruce apontou para o interior do quarto.

-Aí têm o Dr. Holmes em cima da mesa, na mesma posição em que o deixámos. Creio que está inconsciente.

O chefe soltou um resmungo.

-Esperemos que não esteja morto. Deixe-me dar uma vista de olhos.

Bruce e os outros afastaram-se para o lado, enquanto o chefe O'Neill entrava sozinho no compartimento.

Encaminhou-se directamente para o corpo inerte do médico, observou-o, viu-lhe os olhos fechados, a cara quase sem sangue. Depois tomou-lhe o pulso, à procura de batimentos cardíacos.

Passado um bocado, deixou cair o braço de Holmes, virou-se e saiu do compartimento, para se juntar novamente a Bruce, Alan e Pinkerton.

- Está vivo, mas muito mal - disse. - Tem o pulso muito fraco: Não sei se se aguentará. Será melhor levá-lo imediatamente para o hospital do condado.

Nesse momento, soou a campainha da porta e Alan foi atender. Os polícias chamados por Bruce entraram de roldão.

O chefe, apressando-se a regressar ao gabinete, bradou:

-Sorensen, Prescott, Nadler. Que estão aqui a fazer?

-Um tal Mr. Lester telefonou sobre um certo Dr. Holmes. Ele...

- Isso já nós sabemos - cortou o chefe. - Ainda bem que vieram. Vocês os três vão transportar o Dr. Holmes no vosso carro. Está mal. Não queremos perdê-lo, por isso tenham cautela, mas não percam um só minuto. Fiquem lá, para me darem notícias do estado dele. No mesmo instante em que saibam se sobrevive ou se morre, telefonem a informar-me. Anotem este número.

Um dos homens copiou o número e apressou-se depois a auxiliar os colegas a remover o corpo de Holmes da câmara.

O chefe da polícia virou-se para Bruce.

-Conte-me agora outra vez o que se passou. Por que motivo bateu daquela maneira na cabeça do doutor?

-Tinha de o abater, antes que matasse o Alan.

O chefe franziu o sobrolho.

-É melhor recuar um bocado e contar-me como é que, para principiar, se viu envolvido com o Dr. Holmes.

Bruce esforçou-se por dominar a sua impaciência.

-A minha tia, Minna Everleigh, procurava um lugar para a Karen e Cathleen ficarem e ele ofereceu-lhes a sua casa. Assim que o clube foi reaberto, o Alan e eu fomos mandados aqui buscar as senhoras. O Dr. Holmes estava cá, mas disse-nos que elas já se tinham ido embora. As suas explicações foram tão evasivas, que o Alan teve suspeitas. Conseguiu deitar mão a um molho de chaves do doutor. Depois de termos saído, voltámos a entrar, para dar mais uma espreitadela. Escondemo-nos à entrada e vimos o Holmes dizer à Karen e à Cathleen que teriam de dormir com ele, senão matava-as. Ambas recusaram. Ele fechou-as nesse quarto de loucura e ia para ligar o gás. Foi então que o Alan e eu saímos do nosso esconderijo e o dominámos. E foi assim que lhe esmaguei a cabeça.

- Não devia ter feito isso - comentou. severo, o chefe da polícia. - Podia tê-lo morto.

- Ele é que estava a procurar matá-las a elas! protestou Bruce.

- Não pode ter a certeza disso - contrapôs o outro. - Ele é capaz de o ter afirmado, mas sem tencionar fazê-lo.

- Que quer dizer com isso? - explodiu o rapaz: Eu vi-o a estender a mão para a alavanca do gás.

-Poderia não chegar a accioná-la.

-Nem quero acreditar no que estou a ouvir! vociferou Bruce.

- Espere aí - interrompeu-o Pinkerton. Encarou o chefe da polícia. - Quando me dirigi à esquadra e lhe mostrei as provas que tinha reunido contra o Holmes, o senhor concordou em vir aqui comigo, para verificar se as senhoras se encontravam a salvo.

O outro abanou a cabeça.

-Concordei com isso, porque você suspeitava de que o Dr. Holmes podia ter más intenções. Contudo, não dispunha de provas sólidas de que ele fosse um assassino. Mr. Pinkerton. Um burlão, isso sim, mas nada de provas concretas em como era um homicida.

- Você ouviu o Bruce afirmar que testemunhou isso

- argumentou Pinkerton. - E eu garanto-lhe que existem provas mais que suficientes em como ele é um assassino.

Bruce interveio.

-Se o Holmes sobreviver, jurarei em tribunal que ele tencionava matar a Karen e a Cathleen. Até então, chefe. gostaríamos todos de regressar imediatamente ao Clube Everleigh.

O chefe de polícia abanou negativamente a cabeça.

-Receio bem que o não possa fazer, Mr. Lester

- retorquiu. - O senhor tomou a Lei nas suas próprias mãos, ao atacar o Dr. Holmes. Continua a não haver nem um pedacinho de prova concreta em como ele alguma vez cometeu um homicídio, ou sequer planeou fazê-lo. A menos que consigamos encontrar semelhantes provas, poderá ver-se implicado num crime, meu caro jovem. O seu amigo também. Isto se o Dr. Holmes morrer.

- Tudo isso não passa de um absurdo - ripostou

Bruce.

- Será tudo, menos um absurdo – contrariou o chefe. - Se conseguirmos provar que o Dr. Holmes é de facto um assassino, você não terá quaisquer problemas. - Passou os olhos pela sala. - Mas não vejo nenhuns cadáveres por aqui.

Karen adiantou-se.

-Quando a Cathleen e eu estávamos fechadas aqui, procurei uma via de fuga. Não havia nenhuma mas ali dentro, no soalho. encontrei    aquilo que me parece serem dois alçapões. Será melhor ir averiguar onde é que eles vão dar.

O chefe de polícia O'Neill fez sinal aos seus três agentes.

-Capitão Zubukovic. deixe que     a senhora lhe mostre onde pensa ter visto os tais alçapões. Se é que existem. abra-os e descubra para onde dão. - Enquanto

Karen se encaminhava para a câmara, juntamente com os polícias. o chefe virou-se para Bruce. - A não ser que os alçapões forneçam provas genuínas de que o Dr. Holmes é um assassino, você está metido em maus lençóis.

Ficaram todos sentados no gabinete do médico, aguardando o resultado da busca nos alçapões.

Pinkerton instalou-se junto do chefe O'Neill, passando os olhos por uma pasta, que continha notas sobre a sua investigação relacionada com o Dr. Holmes.

Bruce e Alan juntaram-se a Karen e Cathleen, esforçando-se por conversar sobre o casamento, sobre Minna e Aida e o restaurado Clube Everleigh. A conversa foi,

na sua maior parte, intermitente. Os dois rapazes mostravam-se nitidamente frustrados pela reviravolta ocorrida nos acontecimentos e pela injusta interpretação da Lei por parte do chefe.

A determinada altura, Bruce dirigiu-se a ele e a Pinkerton:

- Gostava       de saber o que se está a passar - declarou.

- Talvez nada - retorquiu o chefe - ou talvez qualquer coisa. Saberemos a todo o momento.

Voltou a prestar atenção a Pinkerton. Bruce e Alan continuaram a conversa com Karen e Cathleen, esforçando-se o mais que podiam por reafirmar às abaladas raparigas que se encontravam realmente a salvo e podiam finalmente descontrair-se.

Passou-se     mais de uma hora antes que os três polícias, algo empoeirados e sujos. acabassem por reaparecer. Saíram os três da câmara à prova de ar, atravessaram o corredor central e entraram no gabinete.

Toda a gente se calou de imediato. Todos os olhos se fixaram nos policias.

Quem falou primeiro foi o chefe O, Neill:

-Que descobriu, capitão Zubukovic?

- Miss Grant tinha razão - respondeu o homem.

-Havia dois alçapões no chão. Um deles dava para uma escada estreita, que o Dr. Holmes usava obviamente para descer à cave. O outro dava para úm vão, uma espécie de escorrega, pelo qual os corpos humanos eram deixados cair para essa mesma cave.

- Corpos        humanos? - repetiu o chefe O, Neill. Que é que o levou a ter essa ideia? - E acrescentou com ênfase: - Eu quero factos, não fantasias.

- Eu possuo factos, chefe - afirmou ele. – Quer saber o que descobrimos na cave?

- Diga lá.

-Descobrimos uma mesa de operações. Foi lavada do sangue, mas continua a ter algumas manchas. Trata-se de uma mesa sobre a qual o Dr. Holmes aparentemente desmembrava as suas vítimas. mortas por meio de gás. Existe lá em baixo uma tina, com vestígios de cal viva. Dá a impressão de que ele mergulhava nela as vítimas, após terem sido desmembradas.

O chefe de polícia O'Neill interrompeu-o, enfadado:

-Tudo especulações, capitão. Já lhe disse que quero factos.

- Depois - recomeçou a dizer teimosamente Zubukovic - encontrámos uma grande fornalha. Enorme. Com tamanho suficiente para eu caber de pé lá dentro. Contei nela vinte e sete caveiras e a pior mistura de costelas chamuscadas. ossos pélvicos, fémures, maxilares e outros restos humanos... é excessivamente horrendo para continuar a descrever.

O chefe de polícia O'Neill pôs-se em pé.

- Vinte e sete caveiras humanas? - repetiu. descrente. - Vinte e sete?

- Precisamente - confirmou Zubukovic. - As que separei e contei. A maior parte pertencente a mulheres, ao que me pareceu. Esse tal médico convencia-as provávelmente a vir aqui e procurava depois aproveitar-se delas. Suponho que lhes administrava gás. quer as coisas lhe corressem bem quer não, dissolvendo-lhes a seguir os corpos. cortando-os e cremando os pedaços. É esta a verdade, chefe. Veja por si próprio. Miss Lester e Miss Grant têm sorte em estarem vivas.

O chefe manteve-se imóvel, em silêncio, a reflectir naquilo que ouvira.

Inesperadamente, o telefone da secretária tocoú. O'Neill pareceu emergir de um estado de choque. Deu um passo para o móvel, a fim de pegar no aparelho.

- Agente Sorensen, do hospital do condado - anunciou uma voz.

- Daqui fala O'Neill. - Disse o chefe. - Que há quanto ao Dr. Holmes? Continua vivo, ou já morreu?

-Está vivo, senhor. Com fractura craniana. Vão conseguir curá-lo.

- Será bom que o consigam - disse o chefe. Quero-o de boa saúde, quando for julgado e condenado à forca.

Os seus olhos semicerrados fixaram-se em Cathleen e Karen. Depois, mudaram de direcção, para Bruce e Alan.

De olhar fixo nos dois jovens, disse, em voz alta e distintamente:

- Levaremos o Holmes a julgamento, tão depressa esteja em condições. Vou mandar cá vir os nossos peritos forenses, a fim de identificarem os restos. - Fez uma pausa e depois sorriu-se. - Está livre, Bruce, para regressar ao Clube Everleigh. Na realidade, todos vocês estão livres. A Minna e a Aida ficarão aliviadas ao vê-los. E, com os meus agradecimentos, eu também.

Bruce conduziu o Ford de Minna até ao número 2131 da Rua Dearborn Sul e estacionou-o no espaço            reservado, diante do Clube Everleigh.

Enquanto Alan ajudava Cathleen a sair do carro, Bruce fez o mesmo em relação a Karen. Juntos, correram pelos degraus acima, penetrando no prédio.

Ao cruzarem a entrada do clube, viram arcos-íris de flores reflectidos pelos refulgentes espelhos. Cathleen, Karen, Alan e Bruce foram recebidos por Minna e Aida, que se tinham conservado no vestíbulo à espera deles.

No momento em que a primeira pôs os olhos nos recém-chegados. o seu rosto iluminou-se, com    alívio e alegria.

Correu para abraçar Cathleen e depois Karen.

- Vocês estão vivas! Estão a salvo! - exclamou.

-A Aida e eu ficámos desesperadas. quando Mr. Pinkerton nos falou no passado do Dr. Holmes. Estivemos sobre brasas. à espera de notícias de que vocês se encontravam vivas. Graças aos céus, o Bruce telefonou.

-Escaparam, mas por muito, muito pouco, posso garantir- lhe - disse Bruce.

- Que se passou? - quis Aida saber. - O Dr. Holmes atreveu-se convosco?

- Sim, fez-nos propostas, à Karen e a mim - respondeu Cathleen - e, quando o rejeitámos, mostrou-se disposto a matar-nos. Fomos salvas, no último instante. pelo Alan e pelo Bruce. Conta tudo às minhas tias, Alan.

Este gesticulou para o outro rapaz.

-Ainda me sinto demasiado abalado para falar com muita coerência. Acho que o Bruce poderá fazê-lo melhor do que eu.

-Foí horrível e as vidas delas estiveram por um fio. Vou ser breve. Foi isto que aconteceu.

Resumidamente, contou o que ocorrera no Castelo de Holmes, desde o momento em que ele e Alan lá haviam aparecido, até aos terríveis instantes em que tinham impedido o médico de matar Cathleen e Karen por meio de gás.

- Pusemo-lo inconsciente - concluiu - e, depois de as termos tirado da câmara da morte, transportámo-lo para lá, fechámo-lo e aí o deixámos guardado até o chefe da polícia O, Neill chegar, com Pinkerton. O chefe mostrou-se preocupado quanto ao facto de o Alan e eu termos feito justiça por nossas próprias mãos sem dispormos de provas, provas concludentes, em como o Dr. Holmes tinha feito mal a quem quer que fosse.

- Mas foi então que a polícia descobriu provas. na cave, comprovativas de que ele era um homicida lunático - acrescentou Alan.

Bruce acenou em confirmação.

-Tia Minna, tia Aida, a polícia encontrou nessa cave os restos mortais de vinte e sete corpos.

Aida cobriu o rosto.

- Vinte e sete corpos! - proferiu. estremecendo. Minna mostrava-se horrorizada e entristecida.

-E as nossas três meninas que desapareceram, as nossas raparigas do Clube Everleigh, a Fanny. a Avis, a Greta, deviam estar entre essas vítimas!

Bruce soltou um suspiro.

-Receio bem que sim, tia Minna.

- Que coisa mais horrível! - disse ela. - Esperem aqui. - E desapareceu no corredor, por breves instantes, para regressar com o seu chefe dos criados. Edmund, vai lá dentro chamar o Chet Foley, aquele repórter do Chicago Tribune. Depois, vai ao meu carro e traz cá para dentro a bagagem das senhoras, leva-a lá para cima, para os quartos delas e desfaz as malas. Verifica se o vestido de noiva da Cathleen está preparado. Mas chama primeiro Mr. Foley. - Depois de Edmund ter partido, Minna voltou-se para Bruce. - Devo uma história a esse rapaz. Não o autorizei a escrever um artigo sobre o Clube Everleigh, da primeira vez que apareceu por cá. Nessa altura, estávamos com problemas. Acho que tenho agora de o compensar. Bruce, quero que lhe repitas o que nos contaste sobre o Dr. Holmes. Aquilo que viste e o que soubeste por

intermédio de Mr. Pinkerton.

Quando Edmund reapareceu, conduzindo um intrigado Foley, Minna apresentou-o aos circunstantes e dirigiu-o depois para junto de Bruce.

-O meu sobrinho tem uma história para si, Chet. uma caixa autêntica. Ele vai contar-lhe tudo.

Cheio de entusiasmo, Foley tirou do bolso o seu omnipresente bloco de notas, puxou por um lápis e dispôs-se a aguardar.

Concisamente, mas sem omitir nenhum pormenor.

Bruce voltou a narrar a aventura deles com o Dr. Holmes e aquilo que Pinkerton e a polícia tinham averiguado sobre o médico.

- Vinte e sete corpos - escreveu Foley na página do bloco, abanando a cabeça. - É a coisa mais horrenda de que ouvi falar. Mas que belo artigo. Obrigado, Bruce. Vou tratar de telefonar, para inclusão na nossa próxima edição. Minna, importa-se que me sirva do seu telefone?

- Faça de conta que está em sua casa - anuiu ela, fazendo sinal aos outros para seguirem Aida para o interior do clube.

Deixando-se ficar para trás, pôde escutar Foley a ditar o seu artigo pelo telefone. Deteve-se momentaneamente, para o ouvir a tentar explicar o psiquismo do Dr. Holmes: A frieza, o calculismo e a audácia desse homem não têm paralelo. ouviu-o dizer. O assassinio era a sua vocação natural. Matava, por vezes, por pura avidez de ganho; mais frequentemente, para saciar uma desumana sede de sangue. Nem um único dos seus crimes, tanto quanto saibamos, resultou de um súbito ataque de fúria. Foram todos a sangue quente como dizem os códigos. Todos decididos. planeados e concluidos com consumada perícia. Para o Dr. Holmes. o homicidio incluia-se na área das belas artes e ele regozijava-se no lúgubre encanto projectado sobre si pelo seu génio anormal. O campo de escolha das vitimas estava-lhe aberto, uma vez que exercia funções de médico do Clube Everleigh, ao serviço das suas trinta beldades. Tendo sido capturado, irá ser submetido a julgamento e Minna não quís escutar mais.

Apressou-se a alcançar Aida e os outros. que estavam a entrar no seu adorado Salão Dourado.

Uma vez lá, Minna assumiu o comando, como era seu hábito.

A sala estava apinhada. Em volta do príncipe da Prússia, que chegara uma hora mais cedo, viam-se membros da sua comitiva [galões e medalhas por todo o lado) e pelo menos uma dúzia das mais atraentes raparigas do Clube Everleigh. A maioria rodeava o príncipe Henrique, o qual, resplandecente no seu uniforme, com elegante jaqueta de colarinho alto, repousava num sofá dourado, tendo mulheres de ambos os lados e a seus pés. As divertidas lisonjas sussurradas pelas raparigas misturavam-se com os sons de brindes e música, excutada pela orquestra de cinco músicos, que tocava num canto afastado.

Com destreza, Minna guiou o seu grupo pela sala, apresentando Cathleen, Karen, Alan e Bruce aos membros da comitiva alemã.

Ao chegar junto do príncipe Henrique, aguardou que este lhe desse atenção e fez depois avançar Cathleen.

-Vossa Alteza Real... -principiou a dizer. O príncipe pôs-se imediatamente em pé.

gostaria de lhe apresentar mais uma convidada de honra desta noite - continuou Minna. - Esta é Miss Cathleen Lester, cuja cerimónia de casamento com Alan Armbruster terá aqui lugar, na sua presença, dentro de pouco tempo.

- Sinto-me honrado, extremamente honrado - disse o príncipe Henrique, fazendo uma ligeira vénia, para beijar as costas da mão que Cathleen lhe estendera.

-A minha sobrinha terá a sua festa antes de Vossa Alteza. - Prosseguiu prontamente Minna. - As senhoras primeiro, sabe como é. Depois disso, celebrar-se-á o banquete em sua onra.

- Estou perfeitamente encantado - asseverou ele.

-Esta visita há muito desejada ao Clube Everleigh... que requintado é, que magníficas as suas ocupantes... constitui o clímax da minha estadia no vosso país.

Minna apresentou-lhe os outros e depois insistiu para que ele retomasse o seu confortável lugar no sofá.

Voltando-se, tomou Cathleen pelo braço e puxou-a para o lado.

- Está na hora de pores o teu vestido de noiva - sussurrou-lhe - o mais depressa possível.

A rapariga abraçou-a, beijou-a e afastou-se a correr.

Agora, após a perturbadora visita ao Castelo de Holmes, Bruce Lester desejava, mais que nunca, um intervalo de privacidade com Karen Grant.

Tomando-a pela mão, levou-a primeiro para o Salão Japonês e depois para o Salão Azul, mas ambos se encontravam cheios de convidados masculinos, a tagarelarem com as raparigas do Everleigh.

Por fim, ao chegar ao Salão Mourisco. viu que se encontrava desocupado e puxou a rapariga lá para dentro.

- Quero falar contigo - disse-lhe.

Conduziu-a através da esplendorosa carpeta oriental e por entre fumegantes queimadores de incenso, até um pequeno sofá. Fê-la sentar e instalou-se depois a seu lado.

- Karen - disse-lhe - tu sabes que, desde que nos conhecemos, e eu não fiz segredo disso, estou apaixonado por ti.

- Oh, Bruce - respondeu ela em voz contida, pondo os braços em volta dele e beijando-o. - E tu bem sabes que também te amo.

Separando-se dela, o rapaz continuou a dizer:

-Desde o princípio que estou apaixonado por ti. mas não compreendi até que ponto, senão quando quase te perdi, em casa do Holmes. Agora, quero... falar contigo sobre isso.

- Estou pronta - replicou Karen.

-Queria pedir-te que casasses comigo. Desejo-te mais do que qualquer outra coisa...

-Bruce, meu querido...

-Não. escuta-me, Karen. Existem problemas. Tu és uma rapariga da cidade. Eu sou um rapaz do campo. És uma mulher habituada a trabalhar, a viver razoavelmente bem por tua conta e risco, segundo depreendi. Eu sou um tipo que explora uma pequena quinta no Kentucky... e governa o lar de um pai semi-paralisado. Tudo o que possuo de meu é uma pequena coudelaria e os meus ganhos no Derby. Eventualmente, aplicarei esse dinheiro em garanhões e éguas de criação. Tenho esperanças de vir a criar mais vencedores do Derby, mas a longo prazo. Se casares comigo, levar-te-ei para uma velha mansão do Kentucky. Viveremos com o meu pai, um homem muito carinhoso, mas que necessita de atenções. Estarás isolada desta vida da cidade. Não sei se tenho o direito de te pedir que partilhes comigo esse género de existência.

Karen emitiu um suspiro.

-Bruce, como é que podes ser tão esperto em tantas coisas e tão parvinho nisto? Eu amo-te. Quantas vezes não to disse já? Quero viver contigo onde quer que estejas, como quer que vivas, porque desejo permanecer junto a ti, agora e sempre. Bruce, deixa de ser palerma e diz-me tu se te queres casar comigo, quanto mais depressa melhor, neste preciso instante, aqui e agora.

Nesse mesmo segundo, todas as reservas dele se evaporaram.

-Estás a falar a sério?

-Vou provar-to. Casemos esta noite. Assim que o ministro terminar de casar a tua irmã com o Alan, agarramos nele e obrigamo-lo a casar-nos a nós.

-Karen, isso é perfeito!

Pôs-se em pé, puxando-a para si, abraçando-a e enchendo- lhe o cabelo de beijos.

-Vem daí, vamos procurar o ministro.

Tentou puxá-la pela mão para fora do Salão Mourisco, mas a rapariga manteve-se firmemente imóvel, recusando ir com ele.

- Não tão depressa - retorquiu - ainda não. Ele parou diante de Karen.

- Porque não? Que se passa?

Karen sorriu com doçura.

-Não acho que devas casar com uma virgem. Sou de opinião de que, na tua noite de núpcias, deves disfrutar uma mulher experiente. Não te parece?

Confuso, Bruce hesitou.

-Bem, na verdade... não sei.

- Mas sei eu - replicou ela. - Acredita em mim, Bruce, vai ser melhor. Nada de hesitações, nada de tensões, se formos ambos experientes. Depois isso, da nossa noite de núpcias em diante, vai ser cada vez melhor.

-Estás a falar a sério, não estás?

-Estou. Considero-me preparada. Continuo a ter o meu quarto de dormir. Não quererás fazer feliz uma virgem?

Ele beijou-a.

- Podes apostar que quero. - Tomou-a pela mão.

- Imediatamente.

Escapando-se sorrateiramente aos convivas do banquete, que enchiam lentamente o Clube Everleigh, Karen e Bruce dirigiram-se para o quarto.

Uma vez lá dentro, ela fechou a porta à chave. Um único candeeiro brilhava debilmente. O resto do compartimento encontrava-se às escuras.

Sem uma palavra, principiaram a despir-se. Ele foi o primeiro a arrancar todas as roupas e a ficar nu. Afastando-se de Bruce, ela deixou cair o resto das suas.

Os olhos do rapaz abriram-se muito ao vê-la.

-Meu Deus, nunca vi nada de tão belo! Ela fitou-o.

- Eu. eu nunca tinha visto um homem despido. Bruce aproximou-se da rapariga e, de corpo encostado ao dela. pôde sentir-lhe o coração a bater com força.

Tomando-a pela mão, levou-a para a cama.

- Sabes como hás-de fazer? - perguntou-lhe.

- Acho que sim.

Subiu para o leito e estendeu-se de costas, assustada e excitada.

Deitando-se junto dela. Bruce beijou-a na boca, cobrindo-lhe de beijos as faces e o pescoço, até os seus lábios lhe encontrarem os seios.

Os mamilos de Karen endureceram e a língua dele principiou a excitá-la. Enquanto lhe percorria o corpo, a mão da rapariga agarrou-o pela nuca.

- Por favor. por favor. oh, por favor, não demores - arquejou. - Não consigo aguentar mais. Por favor. Agora.

Ele guiou o seu pénis erecto para baixo e, com muita lentidão, penetrou-a.

- Ahhh! - exclamou a rapariga. Ahhh. mais fundo, mais fundo...

Devagarinho, Bruce enterrou-o todo.

Quando terminou, recuou e olhou de relance o lençol.

- Querida. já não és virgem - disse e acrescentou depois: -Passaste a ser uma mulher experiente.

- Torna-me mais experiente ainda - pediú ela baixinho.

E assim continuaram.

Meia hora mais tarde, compostos e inteiramente vestidos, deram amorosamente as mãos e saíram do quarto.

O vestíbulo ao fundo da escadaria estava deserto e silencioso. Pelos sons de conversa e risos, algures no Clube, aperceberam-se de que praticamente toda a gente se reunira no Salão Dourado.

Karen e Bruce dirigiram-se para a entrada e viram Cathleen, com o seu vestido de noiva de cetim e rendas, de pé ao lado de Alan, ambos perante um ministro luterano de elevada estatura, enquanto os convidados (incluindo o Príncipe Henrique da Prússia) presenciavam a conclusão do casamento. Minna e Aida sorriam para a noiva e Armbruster mantinha-se atrás do noivo, com a esposa a seu lado.

- Alan Armbruster - entoou o ministro - queres tomar esta mulher por tua legítima esposa, para viverem juntos conforme os preceitos divinos, no sagrado estado do matrimónio? Prometes amá-la, confortá-la, honrá-la e apoiá-la, na doença como na saúde e, esquecendo todas as outras, reservares-te apenas para ela, enquanto ambos viverem?

- Sim - respondeu Alan.

-Cathleen Lester, queres aceitar este homem por teu legítimo marido. para viverem juntos. conforme os preceitos divinos, no sagrado estado do matrimónio? Prometes amá-lo, confortá-lo, honrá-lo e apoiá-lo, na doença como na saúde e, esquecendo todos os outros, reservares-te apenas para ele. enquanto ambos viverem?

-Sim - respondeu Cathleen, em voz séria e firme.

O ministro curvou-se para eles e murmurou qualquer coisa.

Alan pegou na mão direita de Cathleen e disse:

-Eu, Alan Armbruster, tomo-te por esposa, Cathleen Lester, e prometo-te fidelidade até que a morte nos separe.

O oficiante lembrou:

-A aliança, se faz favor.

Harold Armbruster tirou do bolso um estojo de veludo azul, abriu-o, retirou a aliança e entregou-a ao seu filho.

Alan enfiou-a no quarto dedo da mão esquerda de Cathleen e disse:

-Recebe esta aliança como penhor de amor e fidelidade matrimonial.

O ministro ordenou:

-Dêem as mãos.

Cathleen e Alan pegaram na mão direita um do outro, enquanto o oficiante as cobria com a sua e anunciava:

- Uma vez que Alan Armbruster e Cathleen Lester consentiram ambos em se unir pelos sagrados laços do matrimónio e isso mesmo declararam perante Deus e na presença dos circunstantes, declaro-os marido e mulher. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Cathleen ergueu o véu e acolheu-se aos braços de Alan, que lhe deu um prolongado beijo.

Ouviu-se música, vinda de algures no Salão Dourado, e os convidados reuniram-se em pequenos grupos, em aplausos e vivas.

Atenta, Karen puxou pela manga de Bruce.

-A seguir somos nós.

- É para já - disse ele.

-No Salão Mourisco, onde possamos estar a sós com o ministro, tendo Minna e a Aida por testemunhas, se ele concordar com isso.

- Há-de concordar - garantiu Bruce.

Dirigiu-se para o centro do Salão Dourado, chamou a atenção do eclesiástico e murmurou-lhe qualquer coisa em voz baixa.

O ministro escutou, olhou para ele, depois para Karen e manifestou o seu assentimento com um vigoroso aceno de cabeça.

Eram onze e meia da noite quando todos terminaram de tomar os seus lugares à longa mesa do Clube Everleigh.

No centro exacto da mesa do banquete, muito direito e sorrindo de prazer, sentava-se o Príncipe Henrique em pessoa. À sua direita, estavam Minna. com um belo penteado, Armbruster, Cathleen e Alan. Do lado esquerdo, sentavam-se Aida, o Mayor Harrison, Karen e Bruce.

Do fundo do salão, os músicos tinham começado a tocar as músicas favoritas da época: Nas Margens do Wabash, Uma Bicicleta para Dois e Tenho Medo de Ir para Casa no Escuro.

Entraram criados, trazendo o primeiro prato: Truta à Bodensee Guarnecida.

O Mayor Harrison empurrou a cadeira para trás e levantou-se, desenrolando uma folha de papel. Leu um breve discurso, dando as boas-vindas ao Príncipe Henrique à cidade de Chicago, a gema das pradarias do Médio Oeste.

Ninguém o escutou. O balbuciar de vozes prosseguiu, alegre e alto, enquanto as meninas" Everleigh entrechocavam as suas taças de champanhe e travavam conhecimento com os convivas masculinos sentados a seu lado.

- Uma maravilha, uma maravilha! - disse o Príncipe Henrique para Minna. - Uma noite perfeitamente notável e memorável. Estou feliz por me ter podido proporcionar esta ocasião.

- Faria qualquer coisa por Vossa Alteza – respondeu ela. - É um genuíno cavalheiro e sempre me sentirei deliciada em fazer tudo o que me pedir.

- A senhora é muito graciosa - retribuiu o          Príncipe...

Consciente da presença de Armbruster a seu lado, Minna voltou-se por completo para o lado do Príncipe Henrique.

- Vossa Alteza - principiou a dizer - disse-me da sua satisfação por eu lhe ter podido proporcionar esta ocasião.

- Com certeza - confirmou ele. - E pode crer que falava a sério.

-Nesse caso. gostaria de   lhe solicitar um favor -disse Minna.

-Tudo o que quiser - anuiu o Príncipe Henrique.

- O que desejar.

- Muito bem, vou atrever-me – aproveitou Minna.

-Nós temos um embaixador americano na Alemanha.

Qual é actualmente a sua situação?

O Príncipe Henrique pareceu assombrado.

-Não tenho a certeza de estar a entender a sua pergunta. Que quer dizer com isso?

-Pergunto: quanto tempo se manterá o embaixador no seu cargo?

-Infelizmente. muito pouco tempo. Normalmente, conservar-se-ia como chefe da missão diplomática junto da Corte Real, por tanto tempo quanto o vosso governo

desejasse. Mas o embaixador não se encontra bem de saúde. Sei que ele tenciona enviar um pedido de demissão ao vosso presidente, dentro de curto lapso de tempo... possivelmente alguns meses.

-Nesse caso, vai ser preciso novo embaixador americano na Alemanha?

-Com certeza. Estou certo de que o Presidente Roosevelt nomeará um membro do corpo diplomático, tão depressa receba o pedido de demissão.

-E o Kaiser não poderia recomendar-lhe um americano que gostasse de ver a representar-nos?

O Príncipe Henrique reflectiu por um instante.

-Normalmente, Miss Everleigh, não se procede desse modo. O vosso presidente escolhe alguém que ache merecedor do posto e para ele qualificado. Depois, a sua escolha tem de ser aprovada, não só aqui como igualmente na Alemanha. Após recebida a aprovação do Kaiser, o novo embaixador segue para Berlim.

- Estou a compreender - asseverou Minna. - E se fizer ao contrário? Suponha que o Kaiser conhece alguém, nos Estados Unidos, que gostasse de receber como embaixador americano? Não poderia ele recomendar essa pessoa, de modo informal. ao Presidente Roosevelt?

O Príncipe Henrique franziu a testa, reflectindo em semelhante procedimento.

-Hum! Seria um caso invulgar. Não estou a ver quaisquer normas impeditivas. Mas, por outro lado, o meu irmão, o Kaiser, não saberia que americano sugerir.

De forma provocadora, Minna aproximou-se mais do Príncipe e disse-lhe, galante:

-Sei eu, senhor. Talvez conheça alguém para sugerir.

- A senhora?

- Porque não? Quem neste mundo conhece melhor os homens e os seus caracteres do que a Minna Everleigh? Sim, eu. Tenho alguém para lhe sugerir.

O Príncipe Henrique soltou uma gargalhada.

- E porque não a senhora? Concordo que está altamente qualificada para sugerir alguém que represente os Estados Unidos.

-A minha ideia é sugerir-lhe um nome a si, o qual transmitiria ao Kaiser. Ele, por sua vez, poderia apresentar a sugestão ao Presidente Roosevelt. Seguramente isso causaria profunda impressão no Presidente. Desejaria agradar ao Kaiser e, de certeza, pensaria em escolher tal homem para o posto.

- Sim, isso é possível - admitiu o Príncipe Henrique. - É óbvio que tem em mente determinado homem.

-Tenho, sim.

-Muito bem, diga-me quem é.

Minna estendeu a mão para o lado, puxou pelo braço de Armbruster e chamou-o para a conversa.

-Vossa Alteza, este senhor é Harold T. Armbruster, famoso industrial de carne enlatada de Chicago o qual, muito provavelmente, teria bastante prazer em vir a ser o nosso próximo embaixador na Alemanha. É de origem alemã, de religião luterana e conhece, na perfeição, as exigências do lugar. Não é assim, Mr. Armbruster?

Este engoliu em seco.

-É sim, é.

-O que é mais importante, Mr. Armbruster é o sogro da minha sobrinha. O que o torna uma espécie de parente meu.

O Príncipe Henrique sorriu para ela e depois para Armbruster.

- Uma óptima ideia - admitiu. Ficou por um momento em silêncio, como que a dar voltas na cabeça à ideia e depois proferiu, em tom grave: -Terei muito prazer em apresentar essa recomendação ao Kaiser. mas com uma condição.

Minna franziu o sobrolho.

- E qual é essa condição, senhor?

-Que o Clube Everleigh permaneça aberto, para a minha próxima visita aos Estados Unidos. Sabendo que ele ainda existe, seguramente essa visita será efectuada muito em breve. Informaram-me de que esteve encerrado e só reabriu esta noite devido à minha presença. Gostaria de ter a certeza de que continuará a florescer em anos vindouros. Poderá dar-me a sua palavra a tal respeito, Miss Everleigh?

- Posso, sim - retorquiu Minna - só que a minha palavra não basta. Isso compete, na realidade, ao Mayor.

- Inclinou-se para o outro lado do Príncipe. - Aida, importas-te de chamar a atenção do Mayor Harrison?

A irmã acotovelou gentilmente o Mayor, que se voltou de imediato, olhou para ela de relance e reparando depois que Minna tinha algo para lhe dizer.

- Que deseja, Miss Everleigh? - indagou ele.

-É sobre a possibilidade de o Harold Armbruster vir a ser o próximo embaixador na Alemanha - respondeu ela. - Acabo de abordar o assunto, junto do Príncipe Henrique. Ele concorda em dar uma ajuda, com uma condição: que o senhor autorize o Clube Everleigh a continuar em funcionamento. não apenas por esta noite, mas também pelos meses e anos que se seguirão.

- Só isso? - perguntou o Mayor Harrison, todo afável. Os seus olhos encontraram os do Príncipe. Pigarreou para aclarar a garganta e disse, com sinceridade:

-Vossa Alteza tem o meu solene compromisso em como o Clube Everleigh se manterá aberto e florescente, enquanto eu ocupar o meu gabinete. Conseguirei haver-me com os reformistas.

O Príncipe Henrique sorriu abertamente para Minna.

-Miss Everleigh... como vocês, os americanos. costumam dizer: negócio feito.

Já passava das duas da madrugada quando o banquete terminou por fim. Alguém se pôs em pé, ergueu uma das mãos, fez sinal à orquestra e começou a cantar.

Era o vereador John Coughlin.

Minna inclinou-se na direcção do Príncípe Henrique, fez uma careta e explicou-lhe:

-O vereador está a cantar uma melodia que compôs e que canta em todas as cerimónias públicas. Chama-se Querida Meia-Noite de Amor. Apresento-lhe as minhas desculpas por isto, senhor...

O Príncipe Henrique pôs-se a escutar, pedindo a Minna para se calar:

-Vamos dar uma oportunidade ao homem. Prestaram todos atenção a Coughlin, que cantava:

Querida Meia-Noite de Amor, porque nos encontramos.

Querida Meia-Noite de Amor, o teu rosto é tão doce.

Pura como os anjos lá no alto, de certeza nos falaremos outra vez;

Adorável como só as pombas, Querida Meia-Noite de Amor.

Quando os corações amantes estão serenos, poderá o seu próprio palpitar perturbá-los Era meianoite mas de sono, noite, não de adeus. Estrelas! Que me querem elas dizer?

Que tu deves despertar. Olha, mãe, neste cenário, para ti falará o meu amor. A tua promessa, amor, redime; as tuas gentis palavras emocionam; Vivo como o ribeiro ondulante, sempre teu amigo serei. Tenho agora de te dizer um cruel adeus; por que é que nos encontrámos? Escuta! Como vamos fazer? Por favor quando vamos comer?

- Desculpe, Alteza, a temeridade deste homem - disse Minna.

O Príncipe Henrique desatou a rir.

-Tem razão, Miss Everleigh. Aceito as suas desculpas.

Terminada a canção, estendeu a mão ao longo da perna de Minna e pediu-lhe o seu sapato.

-O meu sapato?

-Sim, tenha a amabilidade de o tirar e de mo entregar - pediu ele.

Com o sapato de Minna na mão, o Príncipe pôs-se em pé e verteu nele champanhe.

- Um brinde! - anunciou. - À saúde e longevidade do Clube Everleigh e ao enriquecimento das suas proprietárias! À saúde de A. ida e Minna Everleigh, que me proporcionaram a minha melhor noite na América!

Todos se levantaram, erguendo as suas taças de champanhe.

Os convivas conservaram-se de pé, preparando-se para partir assim que o Príncipe abandonasse a mesa.

Mas ele voltou a sentar-se, mais uma vez, ao lado de Minna. Inclinou-se para ela.

- Só falta uma coisa esta noite - disse-lhe.

- Qual? - quis ela saber.

-A maioria dos homens presentes já provaram as alegrias do Clube Everleigh. Eu também gostaría de ter esse prazer.

Minna indicou com a mão as raparigas à volta da mesa.

-Faça o favor de escolher, Alteza. Pode optar por qualquer rapariga que desejar.

- Apenas uma eu poderia querer - respondeu o Príncipe Henrique, fitando-a. - A si.

Minna retribuiu-lhe o olhar.

- Deseja-me realmente?

-Apenas a si, Miss Everleigh - confirmou o Príncipe.

Ela pôs-se em pé.

-Nesse caso, será melhor tratar-me por Minna e eu chamar-lhe-ei Frank.

Meteu o braço no do Príncipe Henrique. E ficou satisfeita, ao ver que o Mayor Harrison oferecia o seu a Aida.

Saíram os quatro do restaurante e atravessaram o vestíbulo na direcção da escadaria.

A seguir, subiram-na...

 

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