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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O SALUSTIO NOGUEIRA / Teixeira de Queirós
O SALUSTIO NOGUEIRA / Teixeira de Queirós

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

  

A primeira vez que Salústio Nogueira entrou na câmara dos deputados, como eleito do povo, foi sob o patrocínio de uma senhora, D. Josefa Lencastre, que num baile de caridade, no Club, disse ao ministro da guerra:

- Tenho um grande favor a pedir-lhe, general.

O conselheiro da coroa adorava-a. Inclinou-se cheio de respeito, pronunciando em voz comovida:

- Que prazer, minha senhora, que grande prazer! Ainda que fosse preciso vencer uma batalha! A sobrinha da viscondessa de Águas Santas, afectando engraçadamente certo medo, observou:

- Não diga isso! Agora que se fala tanto de guerra, poderão julgar que eu também sou contra os franceses como a minha tia. O meu caso é mais simples...

- Ouvirei - disse o general com a voz séria de um homem ponderado.

- Mas faz-me o que lhe vou pedir?

O ministro da guerra ficou pensativo. Só depois de muita reflexão pronunciou:

 

 

 

 

- É negócio de política interna, ou de política externa?!

A sobrinha da viscondessa de Aguas Santas pareceu um tanto enleada. Passado um silêncio, certificou resolutamente:

- Ah!... é de política interna.

O general, com ar mais penetrante, ainda perguntou:

- Vossa excelência sabe dizer-me se será coisa dependente do ministério a meu cargo?!...

- Ah!... deve ser - disse D. Josefa Lencastre com alguma incerteza.

Em virtude desta resposta o conselheiro de estado afirmou com voz decisiva:

- Seja o que for. Porei sobre esse negócio a minha pasta.

- Então aí vai o meu pedido: eu quero que o senhor me faça um deputado.

Durante um minuto olharam-se muito sérios... O general, porém, rompeu numa gargalhada

 

4   Na versão a que aqui nos reportamos, a primeira e a segunda parte correspondem, respectivamente a cada um dos dois volumes em que a obra se apresentava. (Nota do Editor)

 

expansiva e um tanto grosseira, chacoteando daquele inocente pedido:

- Ora adeus!... Era isso?! Deputados!... faço-lhe dois... faço-lhe vinte de uma vez, se vossa excelência mo pedir.

E num entusiasmo de expressão rematou inconsideradamente:

- Faço-lhe um ministro aqui de pronto. O presidente de conselho não irá contra a minha vontade. Quer vossa excelência que eu lhe faça um ministro?!

Sentia-se loquaz diante da sobrinha da viscondessa, que se ria. Por isso, o general, latejando-lhe de amor os lábios trémulos, concluiu com modo respeitoso e voz de sentimento:

- Que me pedirá que eu lhe não faça!? Por sua causa faria inclusivamente um rei!

- Jesus, como está inconveniente! Olhe que nos podem julgar conspiradores! E com entonação mais circunspecta e bem calculada, acrescentou:

- Olhe, de rei... estamos nós muito bem servidos.

Entrava no salão do baile sua majestade, levando à esquerda o conde de Frazuela, presidente da comissão promotora da festa. O hino real rompeu estrepitoso, caindo em ondas sonoras da varanda, onde estava a orquestra. As senhoras em pé, diante das suas cadeiras, e os homens amontoados, em curva respeitosa, formavam um assentimento unânime! O monarca, homem baixo, de tronco grosso, pescoço curto, vestido de simples casaca preta e a banda de Cristo ensanguentando-lhe a alvura da camisa, caminhava firme. O seu olhar branco de cordialidade espalhava-se indistintamente, sorrindo para todos, não desejando dar preferência a nenhum dos lados. Com a sua aparência reservada, franzindo ligeiramente os grossos beiços bragantinos por baixo do pequeno bigode loiro, desejava significar a maior imparcialidade, a mais bem ponderada consideração por todos os que ali estavam reverentes, representando uma opinião submissa e valiosa. Neste momento o monarca pressentia quanto era acatado pelo seu povo, e como, naquele baile e no país, os sentimentos de fidelidade às instituições, que a sua pessoa resumia, eram profundos, indestrutíveis e antigos! Compenetrado desta grande verdade, o rei caminhou resolutamente para os quatro fauteuils carmesins que estavam ao fundo, por baixo de um grande espelho... O espelho duplicava o salão e os personagens que iam em sentido contrário ao das suas imagens; mas com idênticas expressões faciais!... Grande espanto do infante, irmão do monarca, que apreciou este fenómeno sorrindo-se com inteligência... Considerou que também vinha na outra comitiva, mas enleava-o o caso de ver que os seus movimentos pendulares habituais eram inversos daqueles, que sua alteza supunha dar a si mesmo. El-rei, seu pai, percebendo-lhe no rosto esta ligeira confusão, cofiava lentamente a farta pêra, sorrindo com tranquilidade.

As pessoas reais sentaram-se nas largas cadeiras, afastando burguesmente as abas das suas casacas pretas. A falta de sua majestade a rainha que prometera abrilhantar com a sua elegância fidalga, com a sua magreza distinta, com a sua toilette cara, este baile de caridade em benefício de um asilo, era muito comentada. A explicação correra logo nas salas. Um dos camaristas de el-rei fora-a levar oficialmente ao conde de Frazuela. A esposa do chefe do estado achara-se indisposta antes de jantar. Não saíra, depois, dos seus aposentos, onde lhe foi servido um simples caldo, bocado de peito de galinhola, um pequeno copo de chablis... O médico de serviço dera-lhe o conselho de se conservar, por dois dias, no ar temperado dos seus aposentos, no tépido aconchego das suas martas e receitara-lhe a leitura distractiva de qualquer livro fútil. Apesar disto, a inesperada notícia sobressaltou e todos procuravam solícitos informações directas. Pessoas que mal conheciam as damas do paço e os camaristas, aproveitavam sofregamente esta ocasião para lhes falar, mostrando especial solicitude. As respostas eram afáveis, tranquilizadoras, dadas em voz suave, com singeleza simpática e benevolente. Não fora quase nada. Em breve, sua majestade estaria completamente restabelecida. Era muito sujeita a estes ataques súbitos, em que entravam para muito os seus melindrosíssimos nervos. Qualquer ligeira circunstância a alterava - a vista de uma pessoa desagradável, a narrativa de um caso triste, uma contrariedade independente da vontade dos homens, como o haver chuva quando sua majestade queria sol, ou aparecer o sol quando a rainha desejava chuva... Isto dava-lhe logo a enxaqueca, vinham-lhe alterações de apetite, desejos extravagantes. Era um feixe de nervos, como diziam os médicos do paço. Devia-se lamentar que uma senhora, tão excepcionalmente bondosa, estivesse dependente destes imprevistos casos.

Porém, muitas pessoas que haviam concorrido ao baile para terem o prazer de estar, uma vez, na mesma sala onde se encontrava a rainha, sentiam-se irritadas. Era uma diminuição no seu gozo, olhavam desoladamente para tudo! Algumas senhoras, escassas de meios, tinham mandado fazer vestidos novos; para quê?! Bem sabiam o que aquilo significava - não quisera vir, não estivera para maçadas! A culpa tinham-na elas; mas não tornariam a cair em outra. O próprio Leôncio de Mértola rico negociante de trigos - que aceitara o lugar de membro na comissão promotora, só com o fim de pedir licença à rainha para lhe apresentar sua filha, estava furioso! Com as mãos metidas nos bolsos foi junto de Palmira dizer-lhe:

- Ein PL. Que te parece?! Esta espiga. Peçam-me outra vez que eu lhes darei a resposta! O meu dinheiro gasto para nada! Eu lhes darei a resposta. Peçam-me outra vez!

E apartou-se, num espírito rebelde, desejando fomentar a indignação em toda a sala. Porém   alguns   mais   tímidos,   e principalmente   diante   de indivíduos   e   de   senhoras   que frequentassem a Ajuda, exclamavam:

- Ora sua majestade não vir!...

- Na realidade é uma pena. Esta sala ficou deserta.

- Será de grande cuidado o incómodo de sua majestade?

- Creio que não. Coisa de nervos. - respondiam.

Ao fundo da sala, ainda sentados nos fauteuils carmesins, os membros da família real cavaqueavam, planeando uma caçada a Vila Viçosa. Seria um divertimento pacato, sem o fausto dos antigos duques, sem os monteiros e as grandes matilhas. Simples distracção motivada pelo desejo de sair de Lisboa e com o fim de matar algum gado, que nesse ano abundava, faltando pastagens. Do incómodo da rainha não se lembravam, pois sabiam não ser de consideração. Esse sucesso, que poderia ter causado algum resfriamento na festa, desvaneceu-se consideravelmente na sua importância, quando todos viram na primeira quadrilha o monarca conduzir, com donaire jerárquico, a elegante condessa de Frazuela - uma mulher de distinção, que aprendera nas cortes estrangeiras a arte de dominar. Os ombros nus principiaram a misturar-se com as graves casacas pretas, de entre as quais ressaltavam as verberações das fardas e das condecorações. A maioria dos indivíduos presentes reconhecia-se feliz, por ter na mesma sala, num nivelamento de ocasião, aquele, cujas virtudes, prudência e sagacidade governativa, lhes era um seguro penhor de inexauríveis felicidades. Porém, quem mais funda e energicamente sentia esta verdade, era Salústio Nogueira, o protegido da Josefa Lencastre. O seu desvanecimento, a vaidade que enchia a sua rica organização provinciana, dava-lhe este primeiro impulso para a admiração da grandeza! Inconscientemente, atraído por uma força a que cedia com prazer, aproximava-se de el-rei sentindo um gozo infinito, uma energia vibrante em todos os nervos, quando de perto escutava a pausada voz bragantina do monarca. Este quase contacto de uma pessoa, que para ele resumia o fausto, o brilho, a ostentação dos seus belos sonhos de juventude, dava-lhe audácia, fazia-o sentir que em si tinha um poder, uma vontade temerária. O seu olhar adquiria rapidamente crispações dominadoras, a linha erecta do seu tronco denotava superioridade recôndita! Aspirava a longos tragos este ar embalsamado de opulência, tremia de gozo só ao pensar que um dia poderia ouvir confidências do monarca, como aquelas que ora escutava o representante de Inglaterra, a cujo braço el-rei se apoiava com benévola familiaridade.

A D. Josefinha Lencastre fez notar tudo isto ao general, dizendo-lhe:

- É aquele. Há-de ser um bonito deputado! Minha tia diz que pode dar um ministro.

- Daquela massa se fazem - respondeu sentenciosamente o conselheiro.

- Não vê como está fanatizado com a figura de sua majestade?! Conhece o poder das tradições. Honra a memória de seu pai, que foi um dos que morreu pela Carta, segundo tenho ouvido.

- Nas linhas do Porto?

- A tanto não chega o meu saber.

- É porque, se foi nas linhas do Porto - tornou com penetração o general - eu devo conhecer o pai desse rapaz. Também por lá andei e bastas vezes as ouvi zunir por aqui.

E passou de raspão a mão em gume pela orelha direita, querendo deste modo significar o silvo perigoso das balas. Josefa Lencastre observou-lhe:

- Ora que mania essa de conhecer toda a gente, e de acreditar que estiveram nas tais linhas! O pai do meu protegido era um homem obscuro. Minha tia, que o conheceu, é que diz ter ele morrido pela Carta. Lá onde foi, é que eu não sei, nem se me dá... Mas deixemos o caso triste. Faça-o deputado e ele lhe contará depois tudo.

E mudando rapidamente de tom, perguntou:

- Não dança hoje? Ande, vá dançar, arranje par.

- Eu... - volveu com desdém o ministro da guerra - faço mal essa coisa.

- Talvez queira dizer como Napoleão, que nasceu antes para fazer dançar os outros!

- Não é isso... Não me ajeito com macaquices. Só quando me obrigam.

- Então sou eu que o obrigo. Parece mal um ministro não dançar. Vá arranjar par, ande.

- Então há-de ser vossa excelência...

- Que modo tão simples de convidar uma senhora!...

- Desculpe - pronunciou submissamente. - Eu não sei dizer as coisas como esses... rapazes;

mas tenho um coração...

- Bem sei, um coração leal...

- Mais do que isso, D. Josefa, mais do que isso! - pronunciou o ministro com emoção.

- Bem - cortou a sobrinha da Águas Santas - não me faça declarações. Quer dançar comigo? Pois seja, arranje vis-à-vis.

O general Gonçalo estava rubro e confundido. O seu grande ventre continha-se-lhe a custo no cinto marcial. O farto bigode negro reluzia como o verniz das suas botas, que lhe tiranizavam os joanetes das antigas marchas. Foi por entre os grupos dispersos no salão procurar um dos colegas no ministério. Muitos indivíduos o detinham para terem a honra de o cumprimentar... O general correspondia com apertos de mão, com sorrisos monossilabados. Na sala de fumo parou diante de um fauteuil onde estava, abandonado a certa preguiça, um homem extremamente magro, cujos ossos se sentiam através dos tecidos, sorvendo langorosamente um charuto, seguindo com os olhos vagos o jacto de fumo, que lhe saía da boca e se diluía na atmosfera. Era o ministro da marinha, a quem disse:

- Ouve lá. Tu fazes-me de vis-à-vis num raio duma quadrilha?

- Não - respondeu secamente Evaristo de Melo.

- É que não vejo aí mais ninguém...

- Pois não dances. Faz como eu.

- Mas se estou comprometido.

- Ora que tenho eu com as tuas asneiras? Não te comprometesses.

Neste momento, entrou Albano de Melo, seu sobrinho. Condoendo-se do general, Evaristo disse-lhe apontando o rapaz:

- Olha, entende-te com ele, que é mestre nessas coisas de pernas.

Foi uma redenção para o ministro da guerra. Albano, verdadeira reputação de sala, valsista insigne, director do cottillon em muitos bailes de Lisboa, encarregou-se de arranjar tudo e tranquilizou o general, que lhe confessara entender pouco de danças.

- Deixe estar, fica por minha conta - certificou o brioso empregado da Junta de Crédito Público, rapaz de cabeleira anelada e luzidia.

Bem confiado no sobrinho do seu colega, foi buscar Josefa para darem uma volta pela sala, que atravessaram com imponência, afectando conversa animada!...

O conselheiro de estado andava a passinhos miúdos, muito cerimoniosamente, afastando com decência o seucorpo obeso do franzino talhe do seu par. Os malditos joanetes principiavam em grita; mas ele não os queria sentir. Porém reconhecendo que certos peralvilhos de bigode retorcido se agrupavam para comentar a sua cabeleira postiça, endireitou energicamente o tronco, olhando-os obliquamente... Como percebesse que falavam do seu par com sorrisos de malícia, passou-lhe pela cabeça a ideia de os correr a pontapés. Ah! que se não fossem as conveniências!... Porém a sua respiração alta, o rebolar dos bugalhos nas órbitas, o resfolgar das narinas, a vibração colérica dos seus beiços... chamou a atenção de Josefa, que lhe perguntou!

- Que tem, general?!

- Ainda sou homem para os arrebentar! - desafogou.

- O quê?!...

- Nada, minha senhora!... Cá uma coisa...

E afectou sorrisos de homem amável, procurando na memória todas as expressões banais com que pudesse entreter a sua amada. Porém só lhe ocorriam ideias de combate. Aos seus olhos sombreados por sobrancelhas espessas, refluía o sangue numa temperatura de febre! Se ele quisesse podia ir buscar a espada e correr à pranchada meio mundo, fazendo um estardalhaço de mil demónios! Porém tinha Josefa pelo braço, estava ali dentro a família real e a melhor sociedade de Lisboa!... Tudo quanto fizesse para castigar os sorrisos dos imbecis, seria forte asneira. Dominou-se. Com uma habilidade quase inconcebível no estado violento do seu espírito, entrou na pequena sala azul, onde se encontrava menos gente... Porém o seu olhar faiscante brilhava como as condecorações que lhe cobriam o peito. As narinas resfolgavam-lhe...

- Tem alguma coisa? - indagou de novo Josefa Lencastre.

- Não é nada. Bastante calor...

Veio tirá-lo de uma explicação difícil, que se ia tornando iminente, a chegada de um ajudante de el-rei, que se aproximou em atitude militar, dizendo em voz de timbre claro:

- Sua majestade ordenou-me para dizer a vossa excelência que lhe dava a honra de o ter por seu vis-à-vis nesta quadrilha.

A sobrinha de Águas Santas empalideceu subitamente! O seu vestido az faille cor de rosa, com rendas de pequeno valor, não era para dançar em frente de el-rei, que decerto teria a seu lado alguma senhora rica e altamente colocada, talvez a ministra de Espanha, que à beleza natural da sua raça e aos seus frescos trinta anos aliava um nome histórico e uma grande fortuna. Ver-se-ia assim involuntariamente diminuída e até ridicularizada por muita gente. Não o tolerava a sua vaidade de mulher formosa e obscura. Disse logo ao general que arranjasse outro par. Porém ele com semblante enérgico significou-lhe que sustentaria a preferência, mesmo com o risco de desagradar a el-rei. Pediu licença para ir agradecer a sua majestade a honra que lhe tinha concedido. O monarca conversava com seu pai na sala que lhes era reservada. O ministro curvou-se, dizendo:

- Meu senhor, agradeço a distinção...

- General - interrompeu el-rei com pausa, distanciando as palavras - é formosa aquela senhora com quem atravessou o salão.

- Oh! Meu senhor!... Vossa majestade viu-a?

- Vi. Disseram-me que é sua noiva. É verdade?

- Línguas soltas, meu senhor...

- É seu par nesta quadrilha?

- Não sei se vossa majestade...

- Com muito prazer. Há-de apresentar-ma. A tia, a viscondessa de Águas Santas, já uma vez a vi na Ajuda.

O ministro da guerra saiu do gabinete radioso, vivaz e ligeiro. Atravessou o salão, arqueando as pernas para suportar melhor as malditas botas de polimento, que lhe apertavam cruelmente os joanetes. Com um dos seus ajudantes, que encontrou no caminho, desafogou:

- Tenho estes calos a ferver! Maus raios!

Continuou aos pulinhos, como se tivesse um calcanhar doente. A vista de Josefa Lencastre deulhe nova coragem; aproximando-se dela comunicou-lhe:

- El-rei quer que eu lha apresente. Onde estará sua tia...

Mas ela não respondeu. Sempre tão pronta, tão sagaz, tão viva na réplica, emudeceu perante esta exigência. O ministro da guerra presumira que a sua amada se levantaria contente, orgulhosa por ter de ir à presença do monarca! Mas ela continuava a julgar-se inferior, humilhada pelo que poderia suceder, olhando com desprezo para a sua toilette incapaz! Chegou a odiar severamente este importuno...

- Mas disse-lhe que já tinha par!? - perguntou ao general.

- Pois se ele já o sabia!... Eu não sei quem foi. Não sei quem diabo foi! Sabe tudo!... Então Josefa Lencastre observou, aludindo ao seu vestido:

- Mas eu não estou em termos!...

- E eu?!... - pronunciou o general dando um relance de olhos aos pés oprimidos. - Venha daí... Onde estará sua tia que também devia vir. Demais a mais el-rei conhece-a. Disse-mo.

O ministro da guerra ofereceu o braço a sua noiva que o não aceitou logo. Ele insistiu:

- Venha, ande. Verá que não é de cerimónias... Muito chão. Grande coração! Fica-se encantado.

Porém, como a sobrinha da viscondessa continuasse a conservar-se sentada, oferecendo

resistência passiva, suplicou:

- Não faça esperar. Palpita-me que este convite até foi por sua causa. Não sei quem foi que lhe

disse... Sabe tudo. Um homem assim...

O assombro de Josefa foi completo! Como poderia acreditar que tivesse sido por sua causa que el-rei tivesse convidado o general para seu vis-à-vis?! Sua majestade decerto, apesar de conhecer a tia viscondessa, nunca pensara nela. Era esta a primeira vez que se encontrava num baile, onde compareciam as pessoas reais. Sua mãe falecera quando Josefa ainda estava no ”Bom Sucesso”. Seu pai, com quem passara os últimos anos, era um velho coleccionador de livros e de conchas, que só a deixava ir a algumas ”soirees” de famílias inquestionavelmente pacatas. Depois que ele morrera, havia ano e meio, tinha vindo para casa da tia viscondessa e desde então é que frequentava mais alguma coisa... Porém, baile onde estivesse el-rei era o primeiro. No último que houve no paço, esteve para ser apresentada e ir; porém a morte de um parente próximo obstara. Estas razões eram suficientes para a convencer que o monarca nunca pensara nela.

- Não sei, não sei - volveu o general. - Lá que ele me falou em vossa excelência é uma verdade...

- Mas isso foi por me ver pelo braço do general...

- Seria, não sei. Falou-me e até com muito agrado.

E passado um momento, o ministro da guerra acrescentou:

- Sabe tudo. Pois se até me disse que era minha... noiva - rematou com dificuldade.

- E o general que respondeu? - indagou D. Josefa com interesse.

- Que não era verdade... Que eram as más línguas...

- E ele que disse? - perguntou com vivacidade.

- Não disse nada - concluiu o ministro com secura.

- Ah!... - pronunciou Josefa desdenhosa.

Aceitou o braço do general de má vontade. Se era indispensável ser apresentada a sua majestade sujeitava-se; mas ela preferia que o ministro da guerra fosse tirar outra, para aquela quadrilha. Sentia-se nervosa, inquieta, estava incapaz de dizer duas palavras. Preferia que o general procurasse uma

senhora dessas lá do Paço.

- Está doida! Não sabe o que está dizendo. Vou chamar sua tia. El-rei ordenou.

- Pois sim, mas eu não sei o que hei-de fazer - objectou contrariada e nervosa. Nesse momento sentiram um ligeiro rumor. O general, voltando o pescoço, disse:

- Olhe ele ali está.

Era o monarca que dava a sua volta no salão de baile pelo braço de seu pai, que olhava as pessoas lentamente, passando devagar a sua mão régia na farta pêra.

A aproximação dos monarcas, Josefa sentiu-se perturbada, e o general, curvando-se, pronunciou as solenes palavras de apresentação, às quais el-rei respondeu:

- Estimarei vê-la na Ajuda. Parabéns, general.

Suas majestades passaram, e Josefa, sem dizer uma palavra, com os beiços exangues e o brilho

dos olhos extinto, exclamou:

- Sou uma estúpida! Eu não dizia?!...

- Mas que foi? - consolava-a sua tia, que se aproximara. - El-rei fez-te uma distinção, filha.

- Mas eu não lhe disse nada... Não lhe beijei a mão...

- Ora!... Isso só se faz à rainha - esclareceu o ministro da guerra.

Muitas pessoas disseram o mesmo, que ela tinha andado perfeitamente. Algumas afirmaram-lhe que sua majestade dissera a seu augusto pai:

- É galante, a noiva do general!...

- E formosa - confirmara com a sua voz nasal o outro monarca.

Em todas as salas correu voz deste acontecimento momentoso. Não era distinção que el-rei costumasse fazer a toda a gente, esta de pedir para lhe ser apresentada uma pessoa. Tiravam-se ilações: uns diziam que fora um meio de confirmar o casamento, ao qual a sobrinha da Águas Santas ainda não tinha anuído definitivamente; outros emprestavam intenções reservadas a sua majestade, notando que prodigalizara a Josefa Lencastre palavras amáveis, durante a quadrilha... O caso fizera impressão e dava-se como provável que, por uma graça especial do monarca, suas majestades assistissem pessoalmente ao casamento do seu ministro, na qualidade de padrinhos.

Certo é que, a futura noiva, depois da quadrilha ficara radiante. Ungida das palavras do rei, que deviam ter para ela uma como perpetuidade de gozo, sentia-se maior que as outras, que a invejavam. A

sua vaidade de mulher formosa remexia-se-lhe brandamente dentro do seio, como uma cobra entre

tépida folhagem em dia de primavera criadora. Não podia ocultar o sentimento exuberante de ostentação que a enchia. O seu rosto animado, a vivacidade estranha dos seus olhos eram sinais que a comprometiam... que a denunciavam. Durante as horas memoráveis, que passou no baile, teve alguns espaços em que sentiu necessidade de apaziguar os nervos inquietos, e por isso foi procurar descanso no gabinete reservado às senhoras, para sozinha se entregar a uma meditação agradável... Ali, em frente das criadas anónimas, deixou voar a sua fantasia imaginando loucuras. Enterrada num fauteuil, com a cabeça apoiada na mão esquerda, enquanto que com a direita abria e fechava maquinalmente o leque, soltou os seus pensamentos... Fora, o sussurro ondeante do baile continuava, enquanto Josefa se apartava, cada vez mais de tudo, voando numa atmosfera de gozos desconhecidos e quase incompreensíveis, formada de grandezas humanas! Uma das criadas, vendo-a muito tempo nesta posição fixa, cuidando que estaria incomodada, aproximou-se para lhe perguntar:

- Vossa excelência tem alguma coisa? Quer que lhe traga chá?...

- Não, muito obrigada. Estava cansada, já descansei.

E saiu para o salão, radiante e feliz, indo sentar-se junto da condessa de Frazuela, que nesta noite a considerou com atenções especiais.

Porém, algumas das senhoras das que mais viviam do que se diz no Paço e na atmosfera temperada das conversas maliciosamente discretas, faziam troça do que se passara, sorrindo por detrás dos seus leques. Aquela distinção de el-rei fora um desfrute. Era preciso conhecer bem o monarca, para se apreciar o seu espírito picante e sagaz, naquela aparência de bom homem. E falando animadamente para darem interesse às palavras, encareciam os altos dotes de raça e de elevada cultura, que possuía sua majestade com o seu valioso saber de cinco línguas!

Os que bem conheciam el-rei não ignoravam que às vezes era observador como Luís XI,

noutras conheciam-se-lhe audácias cavalheirosas de Richelieu. Nos factos triviais da vida interior do

Paço, tinha malícias como Talleyrand e como o senhor D. João VI, seu avô, de quem contavam anedotas e frases memoráveis. Ora - rematavam - não era um homem desta têmpera, grandemente letrado e artista, com o espírito eivado de todos os brilhantes defeitos de um céptico, que iria dar consideração a uma lorpa, que não soubera inventar duas palavras de resposta. Algumas senhoras insinuavam que o espírito cáustico de sua majestade a rainha se deliciava com as notas que seu augusto esposo lhe proporcionava, colhidas em flagrante, nos momentos de convivência oficial com alguns dos seus súbditos.

- Os atrevimentos e as tolices desta rapariga, vão-nos dar muito que rir - disse a ostentosa Souzel.

- Então com a mordacidade bondosa de el-rei!. - completou a grande Maria da Soledade. Algumas amigas de Josefa ouviram estas palavras de mofa. Levadas por um forte espírito de

classe foram-se agrupar do outro lado do salão, rindo-se num sentido de desforra. Aquelas beatas de sacristia, aquelas lacaias do paço, que se importavam com as generosas atenções do monarca? Provavelmente só elas eram gente!... Ora não há!... Sua majestade havia de estar farto de caras amarelentas... Teriam só elas o privilégio de conversar com el-rei? Inveja é que era, mas haviam de cegar.

- Se olha mais para nós, é porque gosta mais de nos ver - disse a Palmira Freitas.

- É porque vocências têm formosura e espírito, que el-rei sabe muito bem apreciar - concluiu

Albano de Melo.

- Bravo, bravo! - aplaudiram em uníssono.

A frase teve sucesso. Foi aplaudida com os leques nas palmas das mãos. Muita gente olhou para lá, mas o sussurro do baile absorveu aquele ruído. O ou-ou... das vozes, o roçar das sedas, o multiplicado bater dos tacões no soalho, as risadinhas meticulosas... misturavam-se, interferiam, somavam-se para dar o brrrou-ahí... das conversas misturadas. O calor nas salas era abafante, oprimia o peito, excitava a pele. As damas decotadas expunham os seus ombros nus, os seios fracamente cobertos de tecidos transparentes... Os homens sentiam a excitação que vinha de cada uma delas, exprimindo-a para si em pensamentos pecaminosos... Havia um cheiro complexo e inextrincável de perfumes, de flores, das exalações carbónicas da pele e da respiração, dos arbustos que enchiam as escadas e o átrio, dos festões de verdura que guarneciam o salão de baile, caindo em cachos das ombreiras. A poeira, levantada no redemoinho das valsas, engrossava o ar que era da espessura duma névoa. A atmosfera excitante encandecia, a luz tinha reverberações iriadas de sol poente, a conversa provocava os nervos, os maus vinhos produziam perturbações nos cérebros. O brilho de jóias era intenso nos pescoços das senhoras ricas. Faiscavam os diamantes junto do tom moderado e solene das fardas agaloadas e das casacas pretas. O macio das pérolas e as pequenas manchas escuras das esmeraldas e das ametistas sobressaíam sobre a pele nova e bem tratada de algumas meninas. Ondulavam no espaço aqueles desejos tenebrosos, que saíam gritando do fundo daquelas organizações provocadas, esmorecendo por fim na impotência da ocasião!...

A orquestra, do alto da varanda, fazia ouvir o som ronceiro dos violinos, gastando-se na valsa magnetizadora. Os rabequistas, homens magros, alguns idosos, muitos de luneta na ponta do nariz, barba bem feita, os magros pescoços amparados em colarinhos altos, olhavam por cima dos lentos arcos para os valsistas, que passavam rápidos levando nos braços magníficas mulheres, num ímpeto de loucura e de amor. Alguns conheciam-nos eles perfeitamente e até os tratavam por tu: - era o Fonseca da alfândega, grande parceiro na Perna de Pau, em dias de pândega. Nesta noite de luxo burocrático, misturava-se galhardamente às melhores distinções da corte, da política e da finança; era outro o Torres do ministério do reino, crítico teatral de polpa, que em S. Carlos se sentava perto deles e lhes falava trivialmente da sua especialidade, que era a música. Ambos rapazes levados de mil diabos, gabarolas, namoristas e sedutores, tendo na vida histórias interessantes, ricas em adultérios. Principalmente o Fonseca, que melhor conheciam, era um verdadeiro leão. Estivera para fugir com a filha de um fidalgo morador na Junqueira, rapariga formosa e louca, que depois casou com um brasileiro rico, tornando-se amante de um médico, pelo que o marido a levou para França. A um dos músicos parecia-lhe que o Fonseca se correspondia com esta dama, pois que no último ano esteve para ir a Paris, e não foi por não ter cem libras para despesas. Podia muito bem levar menos dinheiro; - opinava o do violoncelo conversando num intervalo com o da flauta - mas o Fonseca era gastador como mil demónios e queria passar bem, gastar à grande!

Alguns músicos mais obscuros escutavam isto atentamente, sem falarem. Limitavam-se a contemplar com certa amargura aqueles homens felizes, que iam gozando a vida de um modo tão estrondoso. Ah! As desigualdades sociais! Aqueles prazeres não eram para eles, tristes párias no meio deste mundo dissoluto, destinados na enfadonha viagem da vida a moer perpetuamente valsas, através de bailes de máscaras no entrudo. Que terríveis sonhos não sonhavam às vezes, vazios de gozos reais e que se esvaíam ao primeiro acordar da manhã!

Os braços amantes iam-se dando reciprocamente, num assentimento público. O requinta e o trompa, dois músicos da municipal, beirões de sangue escandecido, enviavam para a sala catadupas de ideias sensuais junto com as notas estridentes dos seus instrumentos. Um celibatário adunco e severo, que tocava clarinete, não tirou em toda a noite a vista da Josefa Lencastre. Seguia-a avidamente em todos os momentos e, às vezes, de tal frémito se sentia possuído em todos os seus nervos, que os sons tirados do instrumento se amorteciam num silêncio espasmódico, conservando-se ele com o clarinete pendurado, o olhar embrutecido como um fanático! Não que a conhecia muito bem, era sua vizinha... Ele morava na Rua de S. Bento em frente da casa da viscondessa de Águas Santas e quase todos os dias contemplava Josefa pela fenda da janela calculadamente entreaberta, gozando-a, gozando-a no incompleto resguardo da toilette da manhã! Quantas vezes isto acontecera, quantas vezes procurara surpreendê-la em momentos de descuido! Só ele o sabia! Só ele, Deus e a velha criada, sua confidente!...

 

O casamento da sobrinha da viscondessa de Águas Santas recebeu, como disse o próprio noivo, a régia aprovação no baile do Club e verificou-se meses depois. Estava todo o ministério, um ajudante de el-rei e um camarista da rainha representando suas majestades, amigos da família da noiva e do general. Salústio Nogueira, já então deputado, apareceu com o seu ar imponente, falando com animação a toda a gente: - era um rapaz vivo e de aproximação fácil, e por isso bem depressa se familiarizara com pessoas importantes, depois de ter sido apresentado a vários políticos pela viscondessa. Em seguida à cerimónia do casamento houve lunch na casa da Rua de S. Bento, servido pelo Ferrari, que se esmerou. Cerca das quatro horas da tarde, os noivos, num discreto coupé de cortinas azuis corridas, partiram para Sintra, onde tinham quartos prevenidos. Como ainda não era a estação, o general e sua gentil esposa passaram naquele local quinze dias, quase sozinhos. O seu único companheiro de hotel, durante esse tempo, foi um inglês velho e rijo, que estava em casa o tempo propriamente necessário para comer e dormir. Logo ao amanhecer, com o seu pau ferrado, que trouxera do Monte Branco, e com o guia debaixo do braço, saía a dar um largo passeio, voltando para o almoço. Depois desaparecia até ao jantar, que era à noite, e adormecia profundamente, tendo acabado de ler com paciência alguns dos artigos do Times e da Saturday review.

A notícia do casamento do ministro da guerra foi dada com grande pompa pelos jornais afectos ao governo. Frisava-se a circunstância valiosa de os monarcas serem os padrinhos, fazendo-se representar na cerimónia. Afirmavam ser este um sinal de quanto o ministério tinha a confiança da coroa. Entendiam que um largo futuro de venturas estava reservado ao general Gonçalo e a sua esposa, e faziam votos para que os dois cônjuges tivessem a estrada da vida sempre juncada de flores primaveris. Estas palavras inocentes provocaram fartura de ironias. Largo futuro o de um velho repintado, que poderia morrer, sem surpresa, na primeira semana de noivo. Estrada juncada de flores primaveris a de um homem que devia usar flanela junto à pele e decerto dormia com botija! Que riso! Ele que às vezes estava semanas inteiras preso na cama com fortes ataques de gota, sendo depois dessas crises encontrado no Jardim da Estrela, a passear ao sol pelo braço do camarada, devia ter na realidade um largo futuro e uma linda estrada, juncada de flores primaveris - sublinhavam.

Josefa Lencastre, aquela mulher de sangue quente, aquela formosa doida, havia de ser a botija e o camarada do general!... Ora adeus!... O que ela devia continuar a ser era uma mulher adorável, um encanto, uma provocação aos corações apaixonados... Aquela cabeça leve e aqueles olhos, que quando fitavam sérios tinham a profundeza misteriosa das noites escuras, continuariam a torná-la sedutora,

ferozmente sedutora - concluía o folhetinista Cerveira.

- Tem as suas seduções mefistofélicas de todas as Margaridas! - pronunciou com ênfase José

Torres, o famoso crítico teatral.

- Desconfio-lhes muito da intimidade daquele Salústio Nogueira - alvitrou o sedutor Fonseca, empregado da alfândega. - Ele veio de Coimbra e basta!

Porém o novel deputado pensava somente na política da Nação. Todas as noites sentia ambições ilimitadas de poder. Via-se, em sonhos, rodeado de políticos falando com autoridade; às vezes ia soberbo e bem recostado na carruagem da companhia, seguido de um correio que trotava! Tinham-no feito deputado e não tardaria ser ministro. Esta sumptuosa palavra resumia um mundo de aspirações e desejos. Nela achava condensadas todas as felicidades humanas. Vinha-lhe de longe esta preocupação de predomínio. Em Coimbra entrara, desde caloiro, nos renhidos combates das eleições da Filantrópica e do Club Académico. Aqui fora verdadeiramente a sua iniciação. Nenhum dos seus contemporâneos tinha maior fama de saber viciar esse acto eleitoral inofensivo! As artimanhas de Salústio e os seus engenhosos processos de roubar as votações tiveram celebridade entre os próprios lentes, seus amigos. Impingir listas, substituir urnas, fazer protestos, sofismar a lei, pedir votos prometendo mesadas da Filantrópica, fomentar desordens para anular o acto eleitoral, quando este lhe poderia ser contrário... eram coisas que executava com presteza e com talento. Depois, publicamente, diante dos seus parciais e dos inimigos explicava com clareza o modo como conseguira chegar ao cargo de conselheiro do teatro académico. Tais narrativas eram comentadas à mesa do voltarete, em que Salústio era parceiro de catedráticos, que lhe aplaudiam as habilidades! Foi o seu começo para entrar no âmago da política do país; ali aprendeu coisas muito úteis de homens entendidos, cujas lições aplaudia com estrépito.

Por isso, quando acabou a formatura encontrou-se cheio de ideias valiosas, para o seu grande fim, o fim da sua vida, que era - fazer carreira política. Sempre que o acaso o levava à proximidade de algum homem de graduação nas coisas públicas, procurava logo ser-lhe apresentado. Falava com loquacidade, elogiando, deprimindo, mostrando-se conhecedor de todo o sistema de intriga pública. Assim começou de longe desbravando os densos matagais da estrada pela qual caminharia à candidatura, ao ministério, ao pariato e à familiaridade do chefe de estado.

- Deixem-me lá meter um pé, que o resto é por minha conta - dizia com jactância.

~Lá era no parlamento, nas secretarias do Terreiro do Paço, na Ajuda, nas salas dos homens ricos, que dispõem de influência, e onde poderia encontrar o casamento rico, necessário elemento à sua vida ambiciosa.

Na abertura das cortes, que dessa vez aconteceu em Maio, Salústio foi de véspera alugar uma carruagem ao Largo de S. Jorge. Queria dar a este primeiro acto da sua vida pública uma solenidade positiva, e certa grandeza. Desejava um coupé novo, boa parelha, cocheiro bem vestido e com aparência. No escritório da companhia fez recomendações especificadas, concluindo, depois de dizer onde morava:

- E que esteja à porta à uma hora em ponto, para não chegar tarde à câmara.

Sublinhou esta palavra com imponência, abrindo muito a boca para lhe dar sonoridade ampla.

Enquanto falava ia calçando as luvas devagar, dando pouca importância aos que o escutavam. Desceu depois a rua com passo lento, fumando o seu charuto e olhando para as janelas com fixidez. No Chiado, à porta da Havanesa, um deputado da oposição, homem de linguagem violenta, disse-lhe com rudeza:

- Verá, é uma maioria de cavalgaduras.

E para adoçar a intenção agressiva acrescentou:

- Se ao menos trouxessem mais alguns rapazes de talento, como você!...

Salústio, em voz pouco contraditória, entendeu, dando um jeito de desafogo ao colarinho:

- Não é tanto assim... Vêm rapazes de mérito.

- Quem, diga você?! O Nunes? O José Antas?!... Uns pulhas, uns jumentos... O que querem é comer.

- Pois sim - admitiu Salústio - mas são influentes locais. Eu bem disse ao marquês que se precisava de gente para falar, batalhar... mas ele coitado não podia, estava preso.

No dia seguinte acordou às dez horas. Até às quatro da madrugada andara pelas redacções dos jornais, falara com o Frazuela e estivera em casa da Águas Santas, para se pôr ao facto do que havia. Diante dos adversários advogava ideias conciliadoras de paz. Sentia-se forte com ser do governo e achava bonito mostrar benevolência para com a minoria, dar-lhe mesmo a consideração de parecer que a temia. Desejava tréguas para que o governo e a oposição fizessem alguma coisa útil, em bem do país. O azedume, nas paixões políticas, leva a extremos injustos. Diante de dois ex-ministros do partido contrário, que tinham saído do poder debaixo de uma chuva de impropérios e fama de ladrões, disse com voz sincera:

- Em Portugal todos os políticos são honestos. Já viram algum enriquecer?

Não tinham visto. Em Portugal há uma grande probidade nos homens públicos. Não é assim em toda a parte, nem mesmo na grande república norte-americana, onde frequentemente se verificam

actos de concussão.

- É por isso que não sou republicano na prática, ainda que o seja, um bocado, na teoria. Não gosto de violências. A linguagem dos jornais desse partido extremo não me agrada e não é justa.

Foi aplaudido. O conselheiro Maurício Pontino, que sobre este ponto tinha as mesmas ideias, chegou-se a ele com a mão amplamente aberta e disse-lhe:

- Felicito-o, meu caro, pelas suas opiniões. São raras na mocidade estragada dos tempos que vão correndo. Os tais republicanos... uma peste.

E o conselheiro, depois de meditar alguns segundos, rematou:

- Em todo o caso podem admitir-se verduras na mocidade. Quando se tem o talento dum Sampaio, dum Casal... até a mudança que depois se opera serve para consolidar as instituições, que felizmente nos regem.

Salústio achou belo este pensamento. A respeito dos deputados monárquicos julgava conveniente que fizessem discursos imponentes na câmara, para se atrair gente às galerias. Parecia-lhe necessário travarem-se nos jornais polémicas ardentes para excitar o zelo partidário das províncias. Porém queria ter tudo bem combinado, nos limites da razão e da urbanidade, para se não desprestigiarem homens eminentes, como um Fontes, um José Luciano!

- Senão está tudo perdido! - concluiu.

Esta atitude deu aos juízos de Salústio Nogueira reconhecido valor. Os próprios adversários o estimavam. Convidavam-no para as reuniões da família, para jantares que tivessem significação. Era um óptimo parceiro nos jogos de vasa, frequentava o Grémio e o Club, principalmente o Club, onde se reunia às noites a gema dos homens autorizados, dos homens de valor, aqueles que dirigiam a opinião, dispondo das forças do poder. Por um cálculo bem pensado preferia a companhia de políticos velhos: - queria que os seus trinta anos tivessem notoriedade pela reflexão, que a fama de madureza dos mais práticos distinguisse sobre a sua mocidade. Procurava ocasiões de prestar, àqueles de cuja afeição se queria apoderar, pequenos serviços de carácter íntimo: ao general Gonçalo oferecia o braço para subir o Chiado a pé; ao marquês de Tornai, presidente do conselho, ministro do reino, falava em público com intimidade; galhofava com o Carlos de Mendonça, a inteligência penetrante da situação... Nas ocasiões em que afiava assim as suas armas para futuros combates, analisava as pessoas que o viam, para calcular a consideração que estava adquirindo.

Com todos os que na sociedade de Lisboa possuíam qualquer influência, capitalistas como Leôncio de Mértola, pares do reino como o conde de Frazuela, inteligências reputadas como o ministro da justiça, políticos, senhoras influentes, tinha considerações especiais... Falava-lhes a jeito lisonjeando-os nas predilecções e preferências. Era sagaz, cuidadoso, quando assim procedia.

Com homens sérios fazia-se homem sério, escutando-lhes com humildade os conselhos. Com

os patuscos era patusco a valer, tratando com fácil intimidade velhos obscenos como o visconde da Carregueira, a quem fornecia esclarecimentos acerca de certas casas e de certas mulheres...

- Disto sei eu, meu caro conselheiro - gabava-se. - Decerto ignoro muita coisa do seu código

civil, mas de mulheres!...

- Você é o diabo! Você é uma maravilha.   Então   saiba-me disso - recomendava-lhe o

conselheiro do Supremo.

E não se esquecia. Perguntava, indagava, farejava, para ter nota explícita de tudo. À noite, no vão de qualquer janela do Club, enquanto no chafariz do Largo do Carmo alguns galegos enchiam

barris, ele ia dizendo:

- Não tem nada que saber, conselheiro. Desce a Rua do Alecrim, volta à esquerda para a Rua do Ferregial, e numa portinha pequena entra e toca a campainha. Aqui tem um bilhete meu e nele

escrito o meu número...

- Muito obrigado... A respeito do seu protegido, pode-lhe escrever dando-lhe os parabéns. Falei

ao ministro...

E como estavam tratando matéria vasta, outros indivíduos se foram chegando. Salústio era imensamente apreciado pelas suas intermináveis anedotas, picantes e sádicas, nas quais metia sempre frades, freiras e alguns soldados. Era verboso, inventivo, conhecia o segredo das inflexões para excitar os nervos fatigados e decrépitos dos seus ouvintes, que o tinham em grande preço e o abraçavam pelo tronco com intimidade, repetindo-lhe:

- Você é o diabo, com as suas histórias!... Sabe-as das melhores...

- Prende a gente tempos infinitos! - confessava o Carregueira, babando-se de gozo.

Ao meio-dia em ponto, um coupé da companhia parou à porta de Salústio, na Calçada de S. João Nepomuceno, para o levar à câmara.

Era bonito e lustroso, quase novo, confundindo-se com o dos particulares, como o deputado recomendara. O cocheiro trazia luvas brancas de algodão, e o deputado, antes de descer, chegou-se à janela com o fim de ver se tudo estava bem. Como ficasse satisfeito, voltou-se para dentro, dizendo para a Angelina:

- Anda ver. Parece o carro do Raio de Braga.

- É verdade! - exclamou a boa rapariga, compartilhando mentalmente daquela opulência. Depois Salústio desceu as escadas, devagar, com um longo charuto na boca. Tirava fumaças

piscando os olhos. À porta parou um minuto, calçando as luvas, para dar tempo a que as vizinhas, que estavam pela janela a observar, o contemplassem suficientemente. O cocheiro levantou-se, cortejando-o; ele correspondeu com desdenhoso meneio de cabeça. Abriu com a sua mão enluvada a portinhola; mas arrependeu-se de não ter mandado vir trintanário, o que sempre lhe daria aspecto de maior grandeza. Com o pé no estribo, pronunciou numa voz sonora, que foi ouvida pela interessada vizinhança:

- Ao Hotel Universal primeiro. Depois para a câmara - acentuou.

Estas palavras produziram-lhe nos próprios ouvidos efeito agradável. Durante minutos

ficaram-lhe a ressoar dentro do crânio. Sentia-se cheio delas, o seu cérebro estava entumecido de

ideias grandiosas. O rodar lento da carruagem na calçada imprimiu-lhe aspecto solene e reflectido. Naquele momento era homem de posição, aquele coupé levava-o para o Capitólio, para o lugar onde obteria a consagração do seu merecimento. Respirava bem, a frescura lustrosa e retesa dos colarinhos e dos punhos dava à sua pele ordinária a sensação agradável de uma limpeza faustosa; o fofo coupé incutia-lhe em todo o organismo a presunção de enervantes e macios confortos. No Hotel Universal mandou acima chamar o seu colega Gabriel Besteiros, também deputado da maioria, com quem combinara o aluguer a meias. Gabriel apareceu logo e Salústio desculpou-se, falando guturalmente do fundo da carruagem:

- Não subi, para não nos demorarmos.

- Fizeste bem - disse o outro, deixando que o guarda-portão batesse com estrondo a portinhola

E ordenaram ao cocheiro que fosse pela Rua do Alecrim. Premeditaram dar uma volta maior e apreciar, indo até Santos pelo Aterro, as alas de tropas nas ruas por onde passaria o cortejo real. Na de S. Bento estava o regimento dezasseis. Os oficiais, aos dois e aos três, conversavam olhando para as janelas, matizadas pelas sombrinhas das senhoras, que ali permaneciam para ver... Aos soldados em descanso era-lhes permitido comprar laranjas e comê-las, descascando-as com a unha negra de camponeses. Salústio julgou isto uma falta de disciplina, uma inobservância dos regulamentos militares, e disse para Gabriel:

- Olha que temos muito a reformar.

O outro calou-se, fixando atentamente com ar compreensivo os porta-machados, que de longas barbas de centuriões e com as pesadas barretinas inclinadas para a nuca em sinal de desafogo, bebiam copos de água, comprados aos vendedores ambulantes.

- Há muita coisa a fazer, há - considerou Besteiros, depois de largo silêncio.

Os músicos esperavam conversando, com os instrumentos debaixo do braço. O coronel, um velho magro, sentado comodamente no selim, como numa cadeira, olhava distraído, ora pela rua abaixo, ora pela rua acima, umas vezes para as janelas, outras para o alferes, seu ajudante, a quem mencionava destacadamente nomes de pessoas conhecidas, que via por ali, a algumas das quais cumprimentava com um aceno de espada.

Um sol quente iluminava toda a rua, produzindo nas charlateiras dos oficiais, nas chapas das correias, no ferro polido das espadas e das baionetas, reverberações fortes. Desde perto do Conde Barão até ao largo das Cortes estendia-se o burburinho do povo reunido, sobressaindo os pregões, levantados em vozes desiguais, dos homens e mulheres da água fresca e limonada. Salústio, num silêncio alegre considerava orgulhosamente que este movimento desusado   era em parte motivado pela existência dele próprio - um deputado da nação! E disse interessado para Gabriel:

- Muita gente, não achas?

- Oh! Muita gente!

- Não, que isto tem que ver! - pronunciou com opulência.

Dominado pelo sentimento de orgulho, que tanto lhe custava a conter, mostrou à portinhola a sua cara redonda e sagaz, demorando-se a apreciar tudo, com expressão de satisfeito. Era um aplauso mudo, que ele sentia evolar-se da alma daquela gente ali reunida. Ao voltar da Rua de S. Bento para a Calçada da Estrela, a carruagem parou. Muitas outras que vinham da Rua dos Poiais estavam igualmente paradas. Os polícias encarregados de regularizar o trânsito tinham ordenado uma suspensão geral. Salústio esperou conversando com Gabriel uns cinco minutos, mas depois mostrou-se impaciente e deitando a cabeça pela portinhola perguntou:

- Que é?

- Não deixam passar - respondeu o cocheiro.

O deputado viu naquilo uma irreverência, uma falta de atenção pela sua categoria. E perguntou a um polícia em voz alta e semblante castigador:

- Não se passa!!?...

- Vai já, estão estes primeiro - respondeu o agente da ordem, apontando para a outra fila.

Mas Salústio não se importava com os outros, que podiam não ser deputados e disse imperativamente:

- Por onde é o nosso caminho? Nós não temos um caminho?!

O polícia, compreendendo que tinha de responder a qualquer alto personagem, aproximou-se.

- Tenham vossas excelências paciência por um bocadinho. Apenas alguns minutos.

- Mas nós não temos um caminho especial? - insistiu Salústio.

- Não, senhor - respondeu o polícia.

- Pois devia haver. Aqueles que esperem - rematou, aludindo às carruagens da Rua dos Poiais, que iam passando.

E atirando-se abruptamente para o fundo do seu coupé disse com azedume:

- É pessimamente feita entre nós a polícia!

- É verdade - concordou Besteiros.

Mas estas iras momentâneas apagaram-se. Salústio tudo esqueceu quando a carruagem subiu de um modo impetuoso a Calçada da Estrela, já desembaraçada. O galope dos cavalos deu-lhe uma impressão de força própria: - lembrou-se da alegoria mítica de Neptuno levado através dos mares num carro de cristal, puxado por fogosos animais a expelirem rios pelas ventas! Os esquadrões de lanceiros para o lado de cima, com as bandeirolas flutuando, fizeram-lhe lembrar um acampamento militar: - espectáculo imponente, antigamente só próprio de reis, e hoje, em virtude da civilização, também organizado em homenagem da representação dos povos. Em frente do velho pardieiro das cortes, tem o aspecto desagradável e melancólico de uma casa abandonada, estava a artilharia. Para o alto da Calçada da Estrela a cavalaria e caçadores a pé tingiam com os fardamentos escuros o poeirento muro da cerca das Francesinhas.

Num dado momento, Salústio sentiu ao longo da espinha um estremecimento forte. O sangue agitou-se-lhe alegremente no corpo, ouvindo, todas as músicas, tocar o hino real. Eram suas majestades que chegavam. Vinham já a entrar na Calçada da Estrela. As notas dos clarins levantavam-se estridentes, diluindo-se na amplidão do azul puríssimo do céu!

Salústio disse desoladamente para Gabriel Besteiros:

- Oh! com mil diabos! Já não podemos ir no cortejo!...

Mas, logo que saltaram do coupé, foram-se ambos juntar aos numerosos pares e deputados que aguardavam a chegada das pessoas reais, dentro do portão fradesco. Salústio foi-se colocar na primeira fila, quase encostado às grades. Desejava apreciar a chegada e ser eventualmente visto pelos monarcas.

Adiante vinham os batedores: - homens magros, de cara rapada, cabeleiras de estriga, montados em éguas mansas e com chibatinhas de marmeleiro na mão. As fardas vermelhas não se lhes ajustavam bem aos corpos, porque já tinham servido a outros mais gordos. Seguiam-se as carruagens, puxadas a três parelhas, com fitas de cores constitucionais nas cabeçadas e nas crinas. Nas duas primeiras repousavam os camaristas e as damas. Na terceira, o infante condestável do reino sorria incompreendidamente para os lados com o estoque entre os joelhos. Na última via-se o monarca, vestido de generalíssimo daquelas tropas, que tocavam o hino, e sua majestade a rainha, decotada como as suas damas, numa evidência de gala e com diadema crispando em fulgurações instantâneas e multiplicadas na sua cabeça fulva. Esta aparência de riqueza dava ao povo, que se estendia ociosamente nas ruas, uma ideia magnífica das recatadas alcovas aristocráticas e dos amplos salões dos paços reais. Aqueles que se descobriam submissos, os monarcas correspondiam com ligeiros movimentos de cabeça, e com vagos sorrisos. A rainha reclinava-se de vez em quando para o fundo da sua carruagem com um cansaço nevrótico, com aparente aborrecimento vago, numa espécie de sonho a que os seus olhos sem cor davam subtilidade incompreensível!... O rei, as mãos apoiadas nos copos da sua espada, conservava-se mais atento e olhava cordialmente a multidão, com o seu costumado bamboleio do corpo, que era uma cortesia permanente.

Os sotas torciam-se nas selas para trocarem olhares com os cocheiros. Os criados da tábua, de tricornes sobre cabeleiras brancas, mostravam as suas caras rapadas, por cima dos coches onde iam encarceradas as pessoas reais e a comitiva, suportando a tremura originada nos solavancos das rodas. As músicas regimentais prodigalizavam ao azul transparente as notas do hino real, que nas bocas dos trombones eram soluços asmáticos.

Toda a comitiva se apeou junto da poeirenta grade beneditina, sobre um bocado de tapete usado, expressamente estendido desde a porta da entrada até à sala. A grande comissão de pares e deputados recebeu os soberanos com característicos sinais de respeito. Os monarcas precedidos da sua corte tomaram a dianteira do cortejo. E seguiam todos a direcção determinada pelo velho tapete, passando no claustro e subindo a escada de madeira que dava ingresso no corredor rodeado de celas. A camareira-mor da rainha apanhava nos braços o manto de sua majestade. O rei ia silencioso, sorrindo com os olhos. Ao aparecimento do cortejo algumas rebecas e outros instrumentos que estavam na galeria tocaram por sua vez o hino. Depois, quando o corredor ficou vazio, produziu-se um silêncio lúgubre. Os reis, pares e deputados tinham entrado na sala da representação nacional. Aí suspenderam-se momentaneamente as conversas encetadas. Os monarcas nas cadeiras doiradas que estavam sob o dossel. A rainha caminhava altiva, ao lado do seu esposo, que por seu turno pisava solidamente o tapete azul e branco. As pessoas da corte tomaram nos degraus do trono os seus lugares hierárquicos. Dois destes personagens acalentavam, como extremosas mães, dois rolos de pau, que pareciam objectos de cozinha, próprios para estender massa. O infante-condestável colocou-se ao lado direito de el-rei, seu irmão, com o estoque no ar. As damas da rainha ficaram do lado direito, perto da cadeira do nobre presidente da câmara hereditária, um velho magro, que recostava a cabeça no espaldar azul, como um convalescente. À esquerda tinham-se colocado os camaristas, voltando frequentemente a cabeça para observarem a galeria das senhoras, cuja formosura eles comentavam com leves apreciações. Alguns dos legisladores do reino, homens habituados àquilo, mesmo em frente dos monarcas continuavam a falar de coisas triviais, voltados uns para os outros, numa aparência de intimidade. Somente aqueles que pela primeira vez entravam na câmara, alguns recém-vindos das suas províncias com opiniões especiais acerca do fausto da capital e da corte, é que se conservavam circunspectos, para escutarem a palavra régia, que em breves instantes se levantaria, sonora e autorizada.

As damas das galerias binoculavam sofregamente a toilette da rainha, de cetim azulado com adornos de pequeninas rosas silvestres e brilhantes tremeluzindo nos apanhados. Algumas que não tinham obtido o favor de um bilhete especial invadiram a sala e estavam misturadas com os deputados. Grande número de flores, de plumas e fitas sobressaíam guerreiramente sobre os penteados altos. A tonalidade esmaleitada da pele lisboeta confundia-se, esbatendo-se nas cores pálidas dos vestidos. No entretanto, apesar da pompa que se desejava exibir neste dia solene, havia em todo o ajuntamento uma vaga tristeza, um sentimento fúnebre, certa melancolia subjacente!

Um homem alto, o marquês de Tornai, presidente do conselho de ministros, subiu, no momento oportuno, os degraus do trono, curvando o joelho em frente do monarca, para lhe entregar um papel. Era o discurso da coroa, que o rei leu em voz alta, sempre igual e de uma sonoridade forte. Nesse discurso dizia-se que éramos amigos da Inglaterra, que estávamos em paz com todo o mundo, que o governo continuaria, sob o patrocínio de Deus, a velar pelo bem da nação, cuja prosperidade se ia encetar, desta vez a sério, com medidas legislativas de superior alcance. É o que foi logo depois anunciado ao país pelas repetidas descargas da artilharia do Castelo, dos navios de guerra surtos no Tejo, e pelo estrondo das músicas, cujos galhardos sons produziam uma confusão característica muito semelhante à do discurso lido pelo chefe do estado.

 

Salústio, antes de entrar na carruagem, fez sentir ao seu amigo Gabriel Besteiros que nas tribunas tinha estado grande número de senhoras formosas, e gabou com pompa de gestos e de palavras aquela cerimónia da abertura das cortes, que era na realidade imponentíssima. Depois, afastando o ombro do seu amigo à distância de um braço, interrogou-o:

- E a rainha?!...

- Muito magra... - respondeu desdenhosamente o grosseiro transmontano.

- Mas elegante!... - Todos o confessam, tanto nacionais como estrangeiros.

Gabriel importava-se bem com o que pensavam os estrangeiros acerca de mulheres. Desde a infância, em toda a sua vida provinciana, se habituara a encontrar-lhes abundância de carne e isso era tudo. As raparigas da sua província, àquelas que amara impetuosamente, costumava dar-lhes cada palmada nos ombros nus, que as arrasaria se elas não fossem tão valentes como ele.

- És um materialão - resumiu Salústio, já dentro do coupé, que rodava pela Rua de S. Bento.

- Não é isso. Quando se trata de mulher, quero mulher - afirmou Gabriel repuxando a longa barba.

- Também eu. Mas... não somos da mesma opinião.

Tinham chegado junto da rampa da Calçada de S. João Nepomuceno e mandaram parar. Salústio queria deixar a casaca. Eram somente cinco minutos e Gabriel escusava de sair da carruagem.

- Então não te demores - observou este.

- Cinco minutos. Marca no relógio.

Pouco mais foi. Angelina ainda o quisera demorar para ele lhe referir como tinha sido aquela festa para a qual passara tanta gente e regimentos da tropa; porém o seu amante não tinha tempo, esperava-o um deputado na carruagem e não podia agora... À noite, quando voltasse, teria bastante tempo para lhe contar tudo. A rapariga ficou triste; mas resignou-se, vindo à janela para o ver na calçada, descendo com o seu imponente ar de grande-homem... no futuro.

Angelina era uma boa natureza provinciana, trabalhadeira e saudável. Em Braga, em casa de seu pai, que padecia do fígado, e de sua mãe, sempre doente do reumático, ela era a ordem, a economia, o riso e a felicidade. Aos seus pequenos irmãos prodigalizava carinhos maternais, com o seu precoce instinto de mulher meiga e afável. Pelas cartas que recebia de uma companheira de mestra, as quais costumava ler e reler nas ausências de Salústio, sabia perfeitamente do luto que cobrira toda a sua família, desde o momento em que ela, em nome de uma alucinação incompreensível, tão irreflectidamente os abandonara. Estas notícias entravam-lhe no coração, como frias lâminas que lho rasgassem. Chorava, as suas lágrimas eram copiosas, denotando talvez um arrependimento, ou melhor, uma alma sensível e boa. As lembranças da sua infância tão sossegada e sem perturbações não podiam extinguir-se indiferentemente na sua memória! Depois eram tão tocantes e ingénuos os traços que a sua confidente tomava do natural, narrando a súbita transformação operada na vida do pai de Angelina, um pequeno merceeiro dos Chãos de Cima!... No dia fatal em que a desgraça entrara naquela família, as portas e as janelas fecharam-se, conservando-se assim durante um mês, com mais sentimento e dó do que se Angelina tivesse morrido!... E acrescentava Joaninha Silva numa das cartas: «Parece que teu pai bai acavar com o negócio e biber prá vossa quinta do Bico».

- Para que há-de a gente ralar-se e consumir-se! - dissera na realidade um dia Pedro Alves, à inconsolável esposa, que estava doente de cama, Vale lá a pena meter a alma no inferno, moirejar de manhã à noite no trabalho, para lhes deixar um pedaço de broa?!... Não vale; porque um dia entra-nos pela porta dentro um ladrão e leva-nos a luz dos olhos. O melhor é passar-se o negócio ao Joaquim, que eu desejava fazer um dia meu genro, e abalarmos para fora desta maldita casa! Não quero mais saber disto. Fazemos de conta que ela morreu e está tudo acabado.

- Pois sim, home pois sim! eu tamém quero ir para fora desta terra. Não quero que me ponham

mais a bista em cima.

Pedro Alves, com o seu eterno casaco comprido, passeava com lentidão no quarto, paralelamente à cama onde Juliana sofria o seu reumatismo. Com as mãos cruzadas sobre os rins, apertando na esquerda a caixa de rapé embrulhada no lenço de paninho vermelho, meditava!

As abas pendiam-lhe com o peso das maçãs que sempre trazia nos bolsos para dar às crianças, quando chorassem. Estava velho, estragado pelos trabalhos e pela doença do fígado. O enorme desgosto que lhe dera Angelina, Angelina que era a menina dos seus olhos, arruinara-o para sempre; nunca mais poderia ter alegria, nem gosto pela vida!

- Lá se eles por aí entrarem um dia casados,   então esqueço tudo, perdoo-lhes - pronunciou com simpática bondade. - Se não for assim, antes quero acabar. Tamém se me não dá de morrer! Que faço eu neste mundo?! Ainda noutro dia, quando fui à quinta, o rio levava grande cheia. Deu-me vontade de me atirar da ponte abaixo. Um dia faço-o!... Diabos me levem se o não faço!... Quando houver outra cheia, pincho da ponte abaixo, que é um regalo. Depois vão-me lá salvar, que não hão-de salvar grande coisa!

E tinha uma cólera indignada contra tudo e contra todos, não poupando nem os santos da sua maior amizade. Juliana, mais doente, mais perto da sepultura, moderava-o, repreendendo-o com severidade.

- Não digas isso, home! Olha que podes ser castigado. Deus não perdoa heresias, como diz o senhor padre Martinho.

Ao ouvir o nome do conhecido sacerdote bracarense, o pai de Angelina adquiriu maior vivacidade, gesticulando com o braço estendido, brandindo a caixa de rapé e o lenço vermelho, que tinha na mão.

- Ora bolas para o senhor padre Martinho! Ele era o confessor dessa desgraçada, e vê lá se as confissões lhe valeram. Sabes que mais... mais nada!...

E não pronunciou a blasfémia premeditada, com medo de provocar as dores agudas em Juliana, que as desabafava em gritos. Porém nos seus olhos brilhantes, e na retirada súbita da palavra que lhe viera à ponta da língua, reconhecia-se «que aquele grande desgosto até lhe ia fazendo perder a fé nos padres, que não servem de nada, não servindo para guiar as mulheres no caminho da virtude!» Com o fim de apaziguar a justa cólera que o dominava todo, dirigiu-se aos seus três filhos pequenos, amimando-os com mil carinhos. Considerava ajuizadamente que, afinal de contas, estes inocentes não tinham culpa nenhuma das asneiras dos outros.

Angelina sabia mais ou menos tais coisas. A Joaninha Silva, continuando a frequentar com intimidade a casa de Pedro Alves, referia-as nas repetidas cartas que lhe escrevia. A natureza plebeia, casta e sensível da pobre iludida, pensava de cada vez com mais afinco em cativar por tal modo Salústio que o determinasse a dar-lhe com brevidade o nome de esposa. O seu grande desejo, talvez mesmo superior ao de realizar um sonho de amor, era ir depressa à sua terra, levar a seus pais a intensa consolação de se lhes mostrar remida da sua falta, diante de Deus e diante da gente de Braga! Demais agora (isto também lhe alegrava loucamente o coração) tal casamento devia ser causa de orgulho para a sua modesta família! Salústio era um deputado e Angelina sabia, por algumas ligeiras revelações que ele, em certos momentos, lhe fizera, ter adquirido alta consideração na melhor sociedade! O bom Pedro Alves ficaria contentíssimo ao saber que a sua querida filha, que ele desejara ligar ao lorpa do caixeiro Joaquim, se enobrecia com um nome justificadamente conhecido e considerado! Ela, por si, não ambicionava tanto; cheia de ingenuidade propôs ao seu amante que seria melhor casarem imediatamente, podendo depois ele ir estabelecer-se em Braga, advogando como o doutor Penha Fortuna e como o doutor Rasqueja - homens lá tão considerados! Salústio poderia fazer como eles discursos no tribunal, diante do juiz de beca e dos jurados confundidos!...

Mas o vaidoso deputado recebeu com desprezo estes conselhos e aspirações modestas. Retorquiu com tal azedume e violência que lhe aniquilou a singela alegria:

- Parva, é o que tu és! Sabes lá o que estás a dizer! Olhem que rica coisa, ir-me meter em Braga, naquele aborrecimento, numa permanente cavaqueira de padres debaixo da arcada! Realmente é uma posição de arromba, fazer discursos como o doutor Penha Fortuna ou como o doutor Rasqueja, nas audiências! - pronunciava com ironia. - Bem mostras que és de Braga e que és filha de teu pai, um tendeiro!

Angelina, ouvindo-lhe as palavras grosseiras, ficou humilde e preocupada diante de Salústio, que lhas dissera com deprimente olhar de soberba! A sua organização feminina e delicada revoltou-se com lágrimas:

- Sim, meu pai não será um fidalgo; mas nunca deveu nada a ninguém, graças a Deus! Ser tendeiro não é desprezo nenhum...

Ficou muito tempo a soluçar, com o ventre, onde trazia o primeiro filho, comprimido contra a cama e o rosto apanhado nas mãos. Era aquele o homem de quem dependia a sua sorte, a sua felicidade, a felicidade e a honra da sua família?! Que fim teria tudo isto?! - interrogava-se mentalmente, estúpida, envolvida pela noite do seu futuro.

Salústio saiu, sem dizer uma palavra de reconciliação. Descendo a escada, batia salientemente nos degraus com os tacões das botas. O modo altivo como o deputado lhe respondera deixara-a abatida, inerte, quase aniquilada, e representava-se-lhe na imaginação como de presságio funesto. Nestes momentos lembrava-se com profunda e simpática saudade do seu passado tranquilo, da felicidade serena da casa paterna, da alegria bulhenta de seus irmãos brincando e rindo! Porém, mesmo nestes instantes de abandono, a sua rica organização, forte e resistente, nascida e formada no trabalho doméstico, na luta obscura das dificuldades quotidianas, retemperava-lhe num sentimento de esperança indefinida, vaporosa e intangível... Rezava fervorosamente à Senhora de Guadalupe, e distraía-se o maior do tempo nas mil ocupações da labuta diária, pois ela fazia tudo, por não ter criada. Fora Angelina mesmo que dissera a Salústio, para se passar sem ela. Com o pouco serviço de portas a dentro, podia-se haver perfeitamente, porque estava acostumada. O Bento aguadeiro fazia-lhe as compras e os recados precisos. Tomara-o logo que chegara a Lisboa, e era a única pessoa com quem a princípio falava, com quem se distraía das coisas da sua vida. Uma vez, enquanto despejava o barril, e parecendo escutar o glou-glou da água caindo no fundo da talha, Bento percebera lágrimas em Angelina, o que o sensibilizou! O bom homem compadeceu-se; mas não a quis envergonhar com perguntas. Porém, como o preocupasse a solidão em que sempre encontrava esta formosa rapariga, principiou a demorar-se algum tempo contando-lhe, para a entreter, casos da sua vida trivial, falando dos seus ganhos, dos desejos que tinha de ir à terra, para o que já tinha juntado quase um cento de duros! Se Angelina o escutava, Bento, sempre com a piedosa intenção de a distrair, falava dos seus fregueses, que nem todos eram ricos, que mesmo a maioria era gente pobre, e num ar de confidência tímida, assegurou-lhe com bondade e sem jactância, que já emprestara dinheiro a alguns:

- Baia qu’os fregueces bôs, axim como à xenhora, a xente não se libra de imprestar quando lo tenga - rematou olhando para o tecto.

A filha de Pedro Alves sorriu-lhe agradecida e benévola. Porém com o seu orgulho de mulher nascida na fartura da broa minhota, sentiu-se diminuída . A magnífica saúde de que gozava, a fortaleza que tinha para o trabalho, davam-lhe energia e coragem. Até àquele dia, Salústio ainda lhe não faltara com dinheiro para as despesas da casa, que não eram grandes, porque Angelina era poupadíssima. Porém as longas horas da noite em que esperava acordada que o deputado chegasse, considerou que podiam ser preenchidas por trabalho rendoso e útil, que lhe desse para se vestir. Firmada nesta lembrança, disse um dia ao Bento aguadeiro:

- Como eu tenho tempo, se por aí aparecer alguma costura ou engomado, traga que eu posso fazer.

O homem, suspeitoso de que aquilo revelava alguma falta em Salústio, respondeu coçando a barba:

- Ah! Ixo arranxa-se, querendo a senhora. Mas ele que lo dê!...

E teve uma pronúncia adversa referindo-se ao deputado.

Não fora qualquer precisão de dinheiro que trouxera a Angelina a ideia de trabalhar; mas só encher o vazio da sua existência. Porém se um dia precisasse de ganhar o seu próprio sustento, reconhecia-se forte, capaz de o fazer... No que pensava constantemente era em procurar todos os meios de atrair Salústio, para nunca perder a esperança de uma reabilitação, que a levasse à presença de seus pais. Todos os pensamentos do seu cérebro se cifravam em tornar a Braga, casada com o deputado, para ter a certeza de ser abraçada efusivamente por aquelas pessoas, que a conheceram, que a tinham amado!...

Os domingos eram os seus dias mais infelizes. Esta vida isolada, numa cidade populosa como Lisboa, sentada à janela a ver passar gente que ia para os seus divertimentos, abatia-a. Não tinha a distracção da costura, por ser pecado trabalhar ao dia santificado. Salústio não jantava em casa - umas vezes ia para o general Gonçalo, outras para o conde de Frazuela, outras para a viscondessa de Aguas Santas... Ela ali ficava sozinha a remoer os seus pensamentos! Como era triste e aborrecido e tão diferente dos domingos de Braga, respeitados e alegres, em que toda a gente vestia camisa lavada para ouvir missa, e depois de jantar ia passear para o Bom Jesus, para a Senhora de Guadalupe, para as Carvalheiras, para S. João da Ponte, para a estrada dos Arcos, para os lados da fábrica do gás na estrada do Porto, ou para Frossos!.

Em Lisboa tudo se apresentava diferente. De manhã cedo saía com o fim de ir à missa, na igreja mais perto, que era a de S. Paulo. Quando se encontrava na rua populosa e na igreja cheia de povo, sentia maior isolação do que estando só, em casa! Não conhecia ninguém, andava depressa, encostada à parede como um cão escorraçado, sempre com os olhos no chão, a cara escondida na manta de lã, para que não implicassem com ela. Porém este procedimento cauteloso não a livrava... A rapaziada daquela hora, criados de servir e marçanos, que, mesmo durante a missa, se conservavam à porta da igreja fumando charutos baratos, com ar janota e provocante, dirigiam-lhe cumprimentos, que ela repelia timidamente, passando em silêncio. Este contacto com uma multidão insolente e irreligiosa rebaixava-a, às vezes tinha vontade de dizer a Salústio que, pelo menos para a acompanhar à missa, desejava uma criada. Porém agora não se atrevia... Percebera que o seu amante andava sem dinheiro e não o queria afligir.

Acabada a missa retirava-se logo para casa, principiando então a labuta, o andar e desandar, varrendo, trabalhando na cozinha, examinando a roupa de Salústio, que lhe não faltasse qualquer botão. Pensava em ter todas as coisas para o almoço, ou reparava se lhe seria necessário mandar o Bento à mercearia, quando ele viesse com o primeiro barril de água!... Ao meio dia, o deputado levantava-se, depois de ter lido na cama os jornais. Preocupado sempre com a política, andava pouco falador, pouco expansivo. Almoçava quase em silêncio, não lhe explicando nada da sua vida. Depois vestia-se, tomava a bengala com ar majestoso, saía com modos de quem pensa em coisas graves, dizendo-lhe um ligeiro adeus... Só voltava alta noite, às vezes já com dia. Vinha da política, vinha da ambição, triste ou alegre, consoante o movimento da sua fortuna!...

Estes dias de ociosidade, Angelina imaginou empregá-los em ler os jornais, que Salústio deixava misturados com roupa da cama. Não entendia destas coisas que diziam os papéis, não a interessavam os assuntos em debate; porém ofendiam-na, como se lhe fossem ditas a ela, certas insolências...! A sua ingenuidade provinciana repugnava ver que só falavam de ladroeiras, de badalhismos, de canalhices, de infâmias... e deixava o papel suspirando:

- Estes homens não têm vergonha nenhuma!

Por isso a atenção se lhe fixou nos romances que se publicavam em folhetim. Prendiam-lhe o espírito como acontecimentos de uma ordem serena e alta, passados numa região, sempre de amor e sensibilidade! Com a sua previdência sagaz, guardava os jornais de toda a semana, para nestes dias desocupados, tão longos e tão sós, ter com que se entreter. Interessava-se pelos personagens, tomando partido pelos bons e julgando abomináveis e de uma convivência nefasta os pais que torturavam os filhos, os maridos que não eram amigos de suas mulheres, os homens cruéis e devassos que abandonavam uma pobre rapariga, depois de a terem seduzido com promessas enganadoras!... Ideias como esta, que resumiam de certa maneira a sua situação, algemavam-lhe o pensamento tanto tempo que nem calculava quanto tinha sido, encontrando-se com o jornal caído no regaço, os braços pendentes em grande desalento, o olhar fixo na ampla e espelhada superfície do Tejo, que se estendia até à outra banda!... Os penachos de fumo dos vapores de Cacilhas e de Belém estendiam-se no ar ao sabor do vento, como flâmulas, terminando numa gaze ténue. Os grandes barcos das carreiras da América, ancorados no porto, dormiam o seu sono de horas, dando no repouso a impressão de monstros que tivessem nos formidáveis músculos uma enorme força latente e nos largos ventres uma digestão de cetáceos! Os pequenos botes remados a dois homens perpassavam rapidamente por entre as massas escuras dos navios, como leves corpos de pássaros por entre bojudas penedias, nos montes escalvados da sua província.

Deste divagar Angelina era provocada para coisas mais reais e mais próximas, por outras impressões que anulavam as precedentes. Da sua janela via-se um pedaço da Rua de S. Paulo. Passava muita gente. Reconhecia que em Lisboa havia mais movimento do que em Braga. Muitos desses grupos deviam ser famílias de operários, que tinham trabalhado os seis dias da semana, e no dia santo saíam a passear, para se distraírem, gozando o bom sol e a benéfica natureza. Pareciam contentes, despreocupados, esquecidos do peso que tinham suportado durante a semana. Esta ideia aumentava a tristeza de Angelina, fazendo-lhe repontar as lágrimas aos olhos. Vinham-lhe ardentes saudades da sua terra. Abafava, presa entre as quatro paredes desta pequena casa, num último andar da calçada de S. João Nepomuceno! O seu temperamento sanguíneo, a sua organização forte, precisava, como as grandes carvalheiras, da amplitude infinita, dos largos horizontes, da enérgica e vivificante acção da luz do sol. Há quanto tempo as suas pupilas negras não fixavam as suaves paisagens minhotas, de uma profundidade de vida vegetal, tão salutar e carinhosa! E então revoavam-lhe no cérebro, como um bando de rolas meigas que viessem pelo espaço, os pitorescos e simples quadros do passado, da sua casa de viver patriarcal! Era muitas vezes no Senhor do Monte que iam comer o jantar domingueiro. De manhã, em casa, ainda noite, preparava-se o cabrito, enchendo-o de picado! Como tinham forno na cozinha, acendiam-no, e seus irmãos, com uma grazinada de pequenos demónios, porfiavam em meter-lhe lenha, o que a fazia zangar muito, porque se podiam queimar. Porém na sua memória moça reproduziam-se neste momento as labaredas saindo pela porta do forno, como um líquido candente, iluminando os rostos animados das crianças com tonalidades fortes de escaldar!

Sua mãe, sentada num banco, com a perna doente estendida ao comprido, lardeava o cabrito com toucinho e cosia-lhe o ventre recheado de óptimas coisas. Este trabalho era concluído dentro da longa torteira, onde tinham aprimoradamente estendido este morto distinto, como num sarcófago! Em seguida baptizavam-no em água, ungiam-no com um fio de azeite e golpe de vinagre, cobriam-no de bocados de toucinho, de rodelas de cebola, tudo condimentado com a pimenta e o cravo em grão. O bocado de folha de louro era metido com parcimónia, mas os pés de salsa, passada em água, distribuíam-nos com profusão, como se fossem viçosos ramos de flores sobre ataúde de pessoa querida. Deste modo lá ia o cabrito para o forno no meio de estridente gritaria infantil! Era chamado o Joaquim, o caixeiro da loja para o meter, com os seus braços fortes, impassíveis às labaredas. Aí pelas dez horas estava tudo pronto e marchava-se para o Bom Jesus. A criada adiante com o cesto à cabeça, coberto com uma toalha de estopa sedeira. Angelina, com o guarda-sol aberto, cobria seus irmãos pequenos, o mais novo dos quais usava um vestido de riscado. Atrás, com a nobre sobrecasaca de briche, o lenço vermelho e a caixa do rapé numa das mãos, a bengala de castão de prata na outra e o chapéu de palha dos passeios à quinta do Bico carregado para a testa, caminhava Pedro Alves, ao lado de Juliana apoiada a um pauzito de marmeleiro, por causa da perna doente. O Joaquim levava o garrafão.

No Senhor do Monte, no alto da famosa escadaria, lá estava Longuinhos, montado no seu cavalo de pedra. O pai de Angelina dizia-lhe sempre ao passar, mostrando nas palavras certa acrimónia:

- Anda, maroto, que foi com essa lança que tu abriste o sacratíssimo lado!...

E recomendava aos pequenos que detestassem Longuinhos, e lhe fizessem caretas. Mas logo que subia o último banco do escadório e se encontrava em frente da principal porta do templo, no largo onde estão os evangelistas, em atitudes severas, lendo perpetuamente nos seus livros de pedra os velhos textos que apontam com dedos musgosos, Pedro Alves concentrava-se em meditação, tirava o chapéu e juntamente com os seus ajoelhava, fazendo uma reverência.

- Grandes homens! grandes santos! - exclamava comovido e persignando-se.

Depois escolhiam na mata um lugar apropriado. Estendia-se a toalha enquanto a criada ia buscar a infusa da água, a uma das rumorosas fontes do escadório. Os pequenos acompanhavam a rapariga e aproveitavam a ocasião para repetir as caretas ao Longuinhos e aos judeus que estão nas capelas martirizando Cristo. A criada associava-se às hostilidades, dizendo grosserias e deitando a língua de fora às estátuas que representassem indivíduos antipáticos. Então Pedro Alves, sentindo barulho, aparecia no alto a ralhar, recomendando parcimónia na manifestação de sentimentos de ódio:

- Eh lá! seus rapazes! Já basta! Lembrem-se que os desgraçados estão nesse inferno, e bem grande é a sua infelicidade.

Os pequenos recordavam-lhe:

- O pai é que mandou.

E a Zefa retorquia, incrédula:

- Ah! estão no inferno! O senhor fala bem. Eles estão, mas é a olhar para mim, com caras de escarne!...

- Isso são os corpos representativos, rapariga - instruía o negociante. - Os verdadeiros corpos de carne e osso e as almas lá as guardam na caldeira de Pedro Botelho!... Venham depressa que arrefece de todo, apesar do luminho.

Pouco depois, via-se toda aquela respeitável família sentada em volta da torteira, onde jazia o louro cabrito recheado, e do amplo alguidar de arroz, do meio do qual saía um salpicão e as pernas de uma galinha. Cada qual, incluindo a criada e o Joaquim, que se distinguiam por comerem de pé, estava armado de um pedaço de cabrito, ou tirava arroz com a sua colher. Comiam monotonamente, mas com apetite, mastigando em sossego. A infusa do rascante andava de mão em mão, a água era para Juliana, a quem os médicos tinham proibido o uso do vinho. Angelina, as crianças, o Joaquim e a Zefa sempre rindo e brincando. Depois dormiam noites regaladas de um sono inteiro!...

Que tristeza, que saudades intumesciam o seio da amante de Salústio, ao recordar estes factos do seu passado! Como ela julgava perdida a sua boa alegria de rapariga nova e jovial! As lágrimas vinham-lhe espontâneas. Em Lisboa não encontrara nenhum desses afectos desinteressados e simples que perdera. Havia ruas compridas e de uma grande ostentação, que a tinham deslumbrado nos primeiros dias. Havia grandes palácios, melhores que o do Carvalho, no Campo de Santa Ana. Havia carruagens, onde se recostavam em atitudes soberbas senhoras vestidas de seda - uma riqueza superior à do brasileiro Raio. Mas que benefício lhe vinha de todas essas grandezas!... Ficara mais acompanhada, mais feliz, só porque pudera um dia ver no Aterro sua majestade a rainha num landau a quatro, com batedores que galopavam adiante, chamando a si a curiosidade vulgar dos transeuntes?!... Nos últimos oito dias, é certo que adquirira as relações duma pessoa, uma alma viva com quem podia trocar sentimentos e palavras. Era a vizinha do terceiro andar, a D. Maria Gomes, antiga mestra de piano, que tinha um filho tenente. Pobre mulher, andava com a vida um pouco atrapalhada; mas resignava-se. O ofício estava-lhe rendendo pouco, o dinheiro que o seu Augusto ganhava mal chegava para luvas, para engomadeira e para botas de polimento! Um rapaz muito janota, viam-no sempre em soirees onde era grandemente estimado por causa da magnífica voz de barítono que possuía. Isto trazia despesa, e grande despesa; mas a benévola mãe vivia feliz da glória musical de seu filho tenente. Assim ele fosse bom para ela, e não lhe estivesse sempre a dar desgostos, por causa dum namoro desvantajoso! D. Maria falava frequentemente no grande favor que fizera, em ter dado algumas das suas discípulas a uma rapariguinha magra, a Ermelinda Travassos, que morava na Rua de S. José e principiara, havia poucos anos, a ensinar pelas casas. Logo que seu filho saíra oficial, ela, que já estava muito gasta, tratou de fazer uma selecção na sua freguesia, conservando algumas filhas de negociantes da baixa, que pagavam bem. E confirmou isto diante da Ermelinda, que escutava agradecida:

- Dei-lhe grande porção. Muito boa freguesia para uma principianta. Filhas de empregados públicos, bem sei, não é do melhor, porque os pais andam sempre com a sela na barriga!... Mas tenha a menina cautela. Nunca lhes deixe na mão grande número de lições. Antes do fim do mês principie logo a mostrar-se precisada.   Se não   fizer assim, não recebe vintém. Digo-lho   eu, que tenho experiência!

Ermelinda respondeu com os seus olhos humildes:

- Quanto lhe agradeço, minha senhora! Por morte do papá só nos ficaram duas libras do montepio. Não chega a nada. A minha tia está ceguinha, e mal pode dar uma volta na casa. Custa-me muito se tenho de a meter num asilo, porque foi ela quem me criou. Preciso muito, e creia a senhora que hei-de fazer toda a diligência para gostarem de mim.

- Pois ande, ande - animava a antiga professora. - A menina é nova, tem boas pernas, pode andar...

- Boas pernas! - exclamou compadecida Angelina - ela é tão magrinha!

- Não - retorquiu Ermelinda sorrindo - não sou tão fraca como à senhora lhe parece. Ando bem, graças a Deus. Alguns dias, à quinta-feira principalmente que tenho lições sem descanso até às sete horas da noite, lá me sinto um pouco fatigada. Mas nos outros dias saio às nove da manhã e entro sempre das quatro para as cinco.

- E não come, durante esse tempo? - perguntou a amante de Salústio.

- Não, minha senhora. Algumas discípulas, minhas amigas, oferecem biscoitos e um copo de vinho, uma vez ou outra; mas eu nunca aceito. Considero que também é gente que não é rica.

- Não aceite nunca! - aconselhou a D. Maria Gomes. - Isso é a maneira de lhe não pagarem as lições! Faça como eu no meu princípio. Leve um bocadito de pão com manteiga na sua carteira dos bilhetes. Depois, enquanto se sobe a escada, dão-se duas dentadas e está pronto. Não aceite nada em casa de discípulas! Se cai nessa, não lhe pagam as lições! Tomam confiança... não aceite!

- Ah! minha senhora - esclareceu Ermelinda. - Se isso os obrigasse a pagar!... Mas nem deixando de aceitar...

  1. Maria Gomes, que era muito gorda e estava sempre sentada num velho fauteuil levantou-se impetuosamente, com vivacidade desacostumada:

- Ah! a menina é assim?! Pois faz muito bem! Trabalhará para o prior. Peça-lhes, exija, mostre-se precisada...

- Pois sim; mas é necessário ter génio... Eu não tenho génio... Eles também parecem pobres!...

- Pois não tenham luxo, que não mandem as filhas aprender piano. Quem não pode, faz das filhas cozinheiras, não lhes manda ensinar prendas!

Estava colérica a D. Maria Gomes! Diante deste facto de ver uma pobre rapariga correr as longas ruas da cidade, aturar muita má-criação, para se recolher à noite a casa, cheia de fome e de cansaço, e com a carteira vazia, não se podia conter. Esbravejava, praguejava e enrubescia-se-lhe a face, como na iminência de uma apoplexia! Não era superior, não podia abafar o seu profundo ódio contra os caloteiros, contra os que não pagam o trabalho alheio! E depois de falar e gesticular muito tempo, interrogou Angelina:

- Não lhe parece que tenho razão, minha senhora?! Então quem faz o serviço, não há-de receber o seu dinheiro?!

- Decerto - respondeu a amante de Salústio. - A senhora deve pedir o que tanto lhe custa a ganhar.

- Mas se eles mo não dão?! - insistiu, quase chorosa, Ermelinda.

- Mas que dêem. A senhora peça - aconselhou Angelina com energia, apoiando as opiniões da antiga mestra.

- Ai! eu, pedir, peço; mas é o mesmo que nada!...

  1. Maria Gomes veio ao meio da sala e rematou com gesto largo:

- Então não lhes dê lições às filhas! Quem não tem dinheiro, deixe-se do luxo de meninas

prendadas!... A nossa arte, o nosso talento não se pode trocar por coisa nenhuma!

 

Esta cena deu à filha de Pedro Alves a coragem que vem sempre dos infortúnios alheios. Compreendeu num momento que, na grande cidade que a fascinara a princípio, havia misérias obscuras, sentidas e invencíveis! Como é que uma pobre rapariga de vinte e dois anos pode assim afrontar a vida, correndo Lisboa de um extremo a outro, de botas cambadas chapinhando na lama em dias de chuva, com o fim de ganhar o sustento a ensinar piano! E eram tristes as confidências que lhe fizera Ermelinda. As vezes cansada, os pés húmidos, a tosse sintomática de tuberculose iminente a apoquentá-la, tinha de subir a um terceiro andar, mostrar-se risonha quando sofria dores, tocar sem vontade, mas com perícia, uma valsa para agradar ao pai da sua discípula... Tremenda situação, à qual Angelina se prendia simpaticamente, com a fascinação dos fortes, daqueles que têm em si poder de resistir, lutar, afrontar a existência desventurosa!... Por isso, nas diferentes conversas que teve a sós com a mestra de piano mostrou-lhe grande simpatia, abriu-se em confidências, patenteando-lhe a situação em que se encontrava, as esperanças íntimas num futuro risonho, quando fosse legítima mulher de Salústio! E num a-propósito, contou-lhe a sua vida de província, as circunstâncias do seu namoro: - Tinha sido uma das raparigas mais requestadas da cidade de Braga. Passavam-lhe à porta, para a verem, os primeiros janotas da terra - o Falcão, o António Maria de S. Pedro e muitos estudantes do liceu e do seminário... Alguns destes sabia que já tinham ordens sacras e estavam para dizer missa!... Repelira-os a todos com um desdém honesto, e a um deles, dos tais que já eram quase padres, que numa noite lhe foi tocar violão à porta, o Joaquim, caixeiro da mercearia de seu pai, desancou-o com uma tranca. Fora uma grande desordem! O do violão aliciara amigos, que vieram armados de paus, de navalhas e pistolas com o propósito de arrombar a porta e matarem o caixeiro. Salústio era então administrador do concelho. Chegou com alguns cabos de polícia, prendeu os estudantes desordeiros, desagravando assim os brios de seu velho pai, que tomara abertamente o partido do rapaz, vindo à varanda descompor os malcriados. Por este simpático procedimento de Salústio, Angelina ficara-lhe muito obrigada, e quando o via passar para S. Victor, onde ele morava, correspondia-lhe sempre aos cumprimentos... Foi assim, sem ninguém perceber, que o namoro principiou. Quando recebeu a primeira carta, que o administrador em pessoa lhe meteu na mão ao saírem da missa de S. Vicente, Angelina sentiu grande perturbação. Ficou num estado, que não podia bem explicar, contente e receosa, ao mesmo tempo. Foi para casa pensar no que devia fazer e, depois de muito reflectir, decidiu-se a responder num bilhete, que atirou da janela à rua, numa noite em que Salústio passando, disse para cima: «Muito boa noite, menina».

O que lhe custou mais foi o consentir falar-lhe com mais demora. Angelina não queria, porque tinha medo de Salústio. Resistiu durante muito tempo às repetidas solicitações, que o seu namorado lhe fazia em cartas, para ela aparecer de noite ao muro do quintal, que dava para outro pertencente a uma casa desabitada, cuja chave Salústio arranjara em grande segredo. Isto era muito arriscado, porque ele podia saltar dentro, como realmente mais tarde aconteceu. Angelina opôs-se corajosamente, apresentando razões de todas as ordens: - a impossibilidade de passar perto do quarto de seu pai, sem ser pressentida; o dormir com um irmão pequeno que podia acordar de noite e dar pela sua falta; o ficar para os lados do quintal o caixeiro, que a vigiava aturadamente, porque, para ele, Angelina era a sua prometida noiva; finalmente... o ser um grande pecado e não acreditar que lhe fosse feito aquele pedido para bom fim! Salústio zangou-se e esteve três dias sem lhe passar à porta, indo por outro lado, pelo pé da Senhora de Guadalupe, sair ao Campo de Santa Ana. Que longas horas foram as desses dias! Não comia, não dormia, todos a julgavam doente e viu-se tão desesperada, que esteve capaz de sair de casa para ir ao encontro do seu namorado e dizer-lhe «aqui me tens». Porém não teve coragem. Custa muito fazer uma coisa destas! Mas logo que Salústio lhe tornou a fazer o mesmo pedido, numa carta muito bonita, cheia de juramentos de amor eterno, não teve força para se conter mais tempo e prometeu que sim.

- Ah! a isso, a gente às vezes não pode resistir - pronunciou com sorriso triste Ermelinda Travassos.

- A menina também teve já destas coisas? - indagou Angelina.

- Se tive! - confessou a mestra de piano, consolada por lhe pedirem a declaração.

- Pois comigo foi assim. Nas primeiras noites, Salústio portou-se seriamente. Estava lá no seu quintal, eu estava cá no meu, que era mais alto... Tudo muito bem. Mas uma noite, ao chegar, vi uma escada posta ao muro. Caiu-me logo a alma aos pés! Deu-me um baque o coração, que quase fiquei sem fala e disse comigo: «Tate! aqui há coisa!»

Não foi grande o número de vezes que Salústio subiu aquela fatalíssima escada. Era uma vida ansiada, cheia de dificuldades e de perigos. Ela nem comia, nem dormia sossegada. As horas do dia em que se furtava às vistas de sua mãe, e as da noite em que não estava com Salústio no cabaneiro do quintal, passava-as quase todas ajoelhada diante das imagens da Senhora de Guadalupe e da do Sameiro, pedindo-lhes ardentemente que a não desamparassem. Consumia-se também em orações ao seu Anjo da Guarda, para que a inspirasse e protegesse tanto a ela, como ao seu amante. Receava muito do Joaquim, que era um doido por ela e parecia até bebê-la com os olhos, quando a via! Se pressentisse uma coisa daquelas, era capaz de carregar uma arma, matar Salústio, matá-la a ela e matarse a si mesmo! Era um rapaz de muito génio e não via outra coisa no mundo, mais do que Angelina. Quando aventou este receio diante do seu amante, este disse-lhe:

- Medo, não tenho; mas para nos livrarmos de coisas, o melhor é tu fugires comigo.

- Fugir contigo! - pronunciou sufocada.

- Sim. Olha, eu vou para Lisboa, porque quero ser deputado e tenho lá quem me possa fazer. Se tu não quiseres vir... então deixo-te.

Separarem-se, já não era possível! Agarrou-se-lhe ao pescoço e fez-lhe jurar que nunca a abandonaria, que havia de santificar aqueles amores com o casamento. Salústio jurou-o pela alma de sua mãe. Ela, que o amava e por ele se perdera, acreditou-o firmemente, com todo o poder da sua alma.

A noite em que fugira de casa de seu pai ficou-lhe gravada na imaginação! Chuva, relâmpagos e trovões nunca os vira tão fortes! As iras divinas caíam impiedosamente sobre a terra, para castigar os pecadores. Para ela, esta tempestade chegou a ter significação de mau agouro! Durante algum tempo hesitou em abrir a porta da cozinha a Salústio, que a chamava baixinho do lado de fora. Receou as penas do inferno, receou a ira do Senhor que lhe falava na voz do trovão. Porém a voz do seu amante, aquela voz que ao ouvi-la lhe fazia tremer o corpo como um vime, foi capaz de lhe dar ânimo para não escutar nem o céu, nem Deus. Fugiu abandonando a casa paterna sem pensar no que fazia!...

O vento, zumbindo por entre as árvores, ameaçava levantar os telhados e levar a gente pelo ar. Salústio, depois de ter conseguido que ela descesse para o quintal vizinho e de terem passado rapidamente na casa sem morador, cuja chave obtivera, tomou-a debaixo da ampla capa à espanhola, para a proteger da chuva nas ruas. Assim, ambos unidos, estreitamente abraçados, atravessaram o Campo da Vinha, duma escuridade e largueza infinitas. Ambos se sentiam batidos pelas bátegas da chuva e apupados pelo vento impetuoso, que tinha um gemer irónico como o de demónios subterrâneos. Num certo momento, ouviram duas horas na igreja do Carmo! O relógio, nessa noite de temporal, tivera um som plangente e agoirento que lhe fez ranger os dentes. Já decorrera um ano depois disso; mas ainda lhe retiniam nos ouvidos aquelas duas badaladas sinistras, que se haviam demorado muito tempo quietas no ar, apesar da velocidade do vento. Ao passarem junto do quartel do Pópulo, encostaram-se à parede do lado do seminário, para não serem pressentidos da sentinela.

O seu louco amor continuara, durante alguns dias, numa casa da Rua da Cónega. Não foi muito tempo, porque Salústio tinha tudo arranjado, e partiram pouco depois para o Porto, numa carruagem fechada. Dali vieram em caminho de ferro para Lisboa. Angelina lembrava-se ainda de que, ao passarem de noite em Coimbra, vendo um monte salpicado de luzes mortiças, Salústio lhe dissera apontando: «Que bons tempos ali passei!»

A voz de Angelina era meiga, simples e cativante. Reconhecia-se-lhe um arrependimento misturado de esperança, sorria e ficava triste alternadamente. Ermelinda Travassos, com os seus vinte e dois anos, também já estava desenganada do mundo, sentindo-se perfeitamente descrente em amores.

Homens, nem queria vê-los, nem pensar neles, porque só lhe haviam dado desgostos e maus pagos. Tivera ilusões como todas, mas actualmente considerava-se curada. Tiraria do seu trabalho o sustento de sua tia, o seu e o do seu filho, que estava na ama, sem esperar que o seu primo Anastácio, que a enganara, cumprisse com o seu dever. Parecia-lhe que o inocentinho de quatro meses não teria longa vida!... Nascera numa tremenda crise de doença que ela tivera, quando se viu abandonada daquele que tinha o direito de considerar seu marido; pois também lho prometera, em juramento. Mas o que valem juras de homens!...

- São uns monstros, minha senhora! Quanta mais amizade a gente lhes cria, mais ingratos se mostram! Só o que eu passei por causa dele! A minha vergonha durante o estado em que a menina anda! A morte repentina de meu pai, que foi por causa disso!... Ah! nem me quero lembrar! Passou, está passado. Outro não me torna a iludir.

Angelina ficou triste por ver esta rapariga, mais nova do que ela, já numa hostilidade declarada contra o mundo! Porém qui-la consolar e perguntou-lhe:

- Está em Lisboa, o seu?

- Vejo-o quase todos os dias. Passa por mim e nem me cumprimenta, o malvado! É que me não ficou conhecendo bem! - completou com um sorriso de amargura.

- Esse então é muito mau homem! Salústio há-de casar comigo, creia a menina que há-de casar. Tem-mo dito. Por ora vivo aqui assim retirada; porque diz que sairemos juntos só quando tiver a sua vida direita! O que eu desejo é torná-lo feliz, porque o merece. Poupo quanto posso e trabalho de noite para lhe ter tudo de que ele precisa. Faço-lhe boas camisas de peitilhos de bretanha: por uma que ele trouxe dum camiseiro, engomo-lhas e escovo-lhe o fato... Deve ter visto como ele anda sempre janota! Assim é preciso. Como é deputado, tem de ir muitos dias a esses jantares dos ministros e a bailes!... É verdade: a menina já viu algum ministro? Eu cá nunca vi. Como serão?

Ermelinda Travassos concentrou-se para responder:

- Na minha rua, em frente da casa onde vivo, já morou um homem, que meu pai disse ser ministro. Era assim um magro, usava óculos de oiro, tinha bigode branco e era torto de um lado. Um fraca figura, que vivia numa casinha quase tão pobre como a nossa, com uma criada gorda e um moço galego. Eu às vezes via figurões procurá-lo; mas o criado que estava à porta de fraque preto respondia sempre: «Sua xelência não stá em cassa, xaíu». E esses indivíduos que vinham em carruagens deixavam bilhetes e iam-se embora!

Também lhe parecia, que outro homem que passava muitas vezes na Rua de S. José, num cavalo preto muito gordo, com um municipal atrás, era um ministro. Seu pai, na companhia de quem vivera sempre, poucas vezes lhe explicava estas coisas. Por isso não sabia com certeza e aconselhou Angelina:

- Mas se a senhora quer saber, pergunte à D. Maria. Sabe tudo. É muito boa senhora. Olhe, eu muitas vezes tenho ouvido falar ao filho dela, ao senhor Augusto (ficou um tanto vermelha ao pronunciar tal nome!) no ministro da guerra!...

Angelina exclamou:

- Ah! esse bem eu sei quem é, é o amigo cá do meu! Vai jantar com ele muitas vezes. Salústio está sempre a dizer, quando fala comigo: «porque o ministro da guerra vai, porque o ministro da guerra vem, porque o ministro da guerra chega...» É também a razão por que eu queria saber como eram os ministros.

- Mas pergunte a senhora, à D. Maria, que ela sabe perfeitamente - insistiu Ermelinda. Mostra-lhe logo algum, verá. Eu tenho ouvido falar tanto nesses homens, que em Lisboa por força deve haver muitos...

Angelina foi então mais familiar e íntima:

- Eu lhe digo a razão da pergunta. Ele disse-me que ainda havia de ser ministro. Ora eu queria saber ao certo o que era ministro. Creio que é uma coisa muito grande, por aí além (e fez um gesto largo pela janela fora!...) E por isso que anda metido na política! De modo que a senhora bem vê que, se em casa poupo muito e trabalho de dia e de noite, é para o trazer bem vestido e poder andar nessa roda de senhores, que vêm com ele até à porta.

Por muitas coisas que Salústio lhe dizia, quando estava para lhas contar, ele frequentava bailes onde apareciam mulheres com grande luxo de vestidos, plumas e fitas, como essas magras que Angelina tinha visto de carruagem, olhando para a gente com desprezo! Não se sentia ferida pelo seu amante andar nessas coisas onde ela nunca poderia ir. O seu bom senso plebeu explicava-lhe que Salústio, para chegar aos seus fins ambicionados, devia fazer todas essas coisas de se mostrar em S. Carlos, nas festas do rei, ir para os palanques ver passar a tropa, como ela o vira um dia no Aterro entre tanta gente fidalga. Ainda na terça-feira houvera um baile em casa de um conde, e Salústio fora de casaca, gravata e luva branca, chapéu de molas, sapatos de verniz e meias pretas como as dos padres, mas com uma risca vermelha ao lado. O deputado empregava sempre grande apuro, quando se vestia para essas circunstâncias, perfumando os lenços e a cabeleira... Angelina é que o ajudava a vestir, proporcionando-lhe no momento oportuno a camisa, as meias... tudo que era necessário. Depois examinava se o engomado do colarinho, do peitilho e dos punhos em que ela empregara tanto esmero e cuidado, estava bonito... Percorria-o com olhar interessado e contente, desejando que ele fosse o melhor possível para agradar e parecer bem. E quando Salústio se endireitava para repuxar o bigode ao espelho, Angelina toda nele se revia sentindo-se feliz, esquecendo a sua posição humilde e secundária, julgando-se legitimamente envolvida naquele problema de ambições em que o via enredado! Uma vez, num simulacro de hostilidade, disse-lhe, quando ele se dirigia para porta:

- Anda, que estou aqui a arranjar-te para ires fazer namoro a outras... Ele, voltando a examinar-se diante do espelho, pronunciou meio sério:

- Eu te digo... Se fossem aí uns duzentos contos que eu conheço!... Ah! Palmira, formosa Palmira, o teu amor e duzentos contos!...

Angelina ficou sisuda e censurou-o:

- E eras capaz de casar com ela se te desse corda?!...

- Olha a dúvida! Uma peste de duzentos contos! De - du-zen-tos-con-tos! - repetiu espaçando as sílabas.

A filha de Pedro Alves exclamou com a testa vincada:

- E então eu!? Se casares com ela...

- Não caso contigo, é claro. E havias de ficar melhor, porque duzentos contos é muito bonito dinheiro.

Angelina, ofendida no seu brio e nas suas esperanças, respondeu, já com os olhos rasos de água:

- Foi para isso que me tiraste da casa de meu pai?!

- Não tenhas susto - observou conciliador e sorridente. - Não há anos de fortuna. Anda muito menino bonito atrás dela. Quem a pilhará é que se não sabe!

E rematou examinando-se ao espelho pela terceira vez:

- Bem, agora só falta frisar. Vou ainda à Rua Nova do Carmo, ao Augusto.

Saiu, descendo a escada devagar. Angelina ficou profundamente enleada e triste. A boa rapariga, como forçada consolação, lembrou-se de ir pegar na costura para se entreter; porém a sua imaginação excitada principiou a criar hipóteses infelizes e cruéis que lhe voltaram de noite em sonhos. Salústio seria capaz de casar com outra mulher, só porque era rica, e abandoná-la a ela por ser pobre?! Talvez!... Lembrou-se da história infeliz da Ermelinda Travassos, que esta lhe contara de modo tão simples e compungido, que a sensibilizara! Os homens são uns ingratos e cruéis nos factos do amor! Ignoram os sacrifícios obscuros que uma mulher virtuosa lhes faz, entregando-se-lhes pela primeira vez, confiada e sincera. O pudor, a religião, a família, tudo se quebra num momento, impensadamente, como as crianças quebram a boneca mais estimada!... Mas é que, se Salústio pretendesse casar com outra, Angelina não deixaria. Havia de escrever uma carta a essa senhora fazendo-lhe conhecer os compromissos contraídos, que actualmente tinham um significado mais real, na gravidez. Este facto, que para ela fora uma consagração e uma ventura, parecera-lhe ter desgostado o seu amante. Quando lho comunicou, Salústio exclamara instintivamente:

- Oh! diabo!

Ela, surpreendida, perguntou-lhe incerta:

- Então não gostas!?

O deputado, depois de reflectir, certificou-lhe que também o desejava. Porém o grito supremo da paternidade feliz, no qual Angelina toda a sua vida acreditara, o pai do seu filho não o tivera, dizendo pelo contrário, com expressão de prejudicado: «Oh! diabo!». Porque não casariam antes do nascimento da criança? O seu amante, com modo terno e confidencial, falou-lhe longamente de conveniências... Enquanto não fossem casados, Angelina podia ir vivendo obscuramente e ninguém reparava. Porém, depois desse acontecimento, vinha a ser outra coisa: teria de sair com ele pelo braço, de aparecer em algum teatro, de ir a alguma reunião familiar de amigos, para o que lhe prometia mandá-la ensinar a dançar e a falar francês. Estava à espera desse momento oportuno, quando fosse nomeado para o lugar dum conto e duzentos mil réis, que o ministro lhe tinha prometido. Angelina devia compreender que a vida em Braga era muito diversa da vida de Lisboa, e que antes de entrar legitimamente na convivência social de gente, que ele conhecia, era necessário aprender muita coisa.

Angelina, escutando-o com atenção, observou:

- Aprender o quê? Com quem? Não saio de casa, não vivo com ninguém!...

Salústio, insinuante, esclareceu:

- Não falas muito com a vizinha do andar de baixo e com essa senhora que aí vem? Pois olha, apesar de serem umas pobres que ganham a sua vida, têm melhores maneiras que as senhoras de Braga. Isto de mestras de piano entram em muito boas famílias e sabem apresentar-se. Repara no que elas dizem, pergunta-lhes o que há pelas casas onde entram. Assim é que se vai aprendendo, pouco a pouco.

Mas Angelina não se importava... Desejava casar com Salústio, só para ser sua mulher, para santificar o seu amor aos olhos de Deus, para reparar a sua falta dando a seus velhos pais uma satisfação consoladora. Tudo o mais lhe era indiferente. Até preferia continuar a viver aquela existência obscura e servil, trabalhando para o seu amante como uma criada.

- Mas eu é que não consinto - afirmou o deputado com intimativa. - Quando fores minha mulher, serás minha mulher. Quero-te a meu lado, onde eu aparecer...

Angelina ficou-lhe agradecida, mas continuou afirmando que se não importava que ele continuasse em divertimentos e teatros sem ela. Preferia ser-lhe útil e proveitosa; a sua única recompensa era continuar a ser amada assim obscuramente. Que a deixasse, pedia-lhe que a deixasse em casa, pois se sentia feliz. Ser sua esposa, viver na sua companhia como esposa, era a única coisa que lhe pedia. A sua alma subiria direitinha ao céu, no dia em que Deus a quisesse levar deste mundo, se pudesse dizer que aquele filho que actualmente trazia no ventre era um filho legítimo e não dos outros. Salústio tranquilizou-a:

- Pois sim, isso há-de fazer-se a seu tempo. Mas deixa obter o emprego que me prometeram... Ao menos quero alugar uma casa melhor. Isto assim está uma pulhice - concluía deitando um relance de olhos desdenhoso à sua pobre morada.

E, como estivesse amorável e loquaz, estabeleceu logo ali um plano de realização: iriam casar a Braga, e demorar-se-iam lá uns dois meses. Depois voltavam para Lisboa, onde Angelina tomaria a valer o lugar de sua mulher. Este procedimento claro legitimaria todos os factos anteriores, que ninguém mais havia de recordar.

- Essas senhoras (referia-se à D. Maria Gomes e à Ermelinda Travassos) é provável que depois te não tornem a encontrar, a não ser alguma vez na rua. São relações acidentais, que se devem esquecer, com a mesma facilidade com que foram adquiridas. Por isso, recomendo-te certa reserva no trato com elas, de modo que, quando formos casados, não principiem a bater-nos à porta, com o fim de te visitarem.

Angelina observou com modo condoído:

- Ora... coitadinhas! São pobres, mas é boa gente. Trabalham que é uma cortação d’alma. A tal D. Ermelinda tem uma tia cega em casa. Olha a pobre da rapariga! E então aqui em Lisboa, gasta-se tanto!...

E mudando rapidamente de tom, disse com sorriso ingénuo:

- É verdade, a mim também me chamam D. Angelina. Não sei que me parece. Aqui em Lisboa todos têm dom... Acho que até as pobres da rua são donas. Um costume assim!...

- São usos - esclareceu Salústio. - Vês? É o que eu te disse, é preciso habituares-te. Quando fores minha mulher, até em Braga te hão-de chamar D. Angelina. Pois então!...

A filha de Pedro Alves recusou-se:

- Ora... deixa-te disso! Quero lá que me dêem dom em Braga! Aqui não me importo, que até as cadelas o têm; mas lá, onde toda a gente me chamava Angelininha! Isso não quero, tenho vergonha!

Uma lamparina ardia sobre a mesinha de cabeceira; como estavam na cama, a roupa amoldava-se-lhes aos corpos, pesadamente, como nas estatuetas de granito. O lindo rosto de Angelina, com o seu cabelo negro, marcara-se na brancura do travesseiro. Como estava de costas, o ventre redondo avolumava-a. Não dormia, estava pensativa e enleada!...

Salústio, ao voltar-se para o lado da parede com o fim de adormecer, disse aconchegando-se:

- Vamos a ver que tal me saio amanhã da minha resposta a Jorge Agualonga.

- Deus permita que andes bem - pronunciou a filha de Pedro Alves, numa voz de prece. - Eu, em Braga, os sermões de que mais gostava, eram os do cónego Figueiredo - recordou.

 

Para o deputado, o dia seguinte foi como o de uma batalha para um general.

Eram duas horas e meia, quando o presidente abriu a sessão. As galerias estavam apinhadas, havia muitas senhoras. A voz de Salústio Nogueira era geralmente estimada, pelo seu som cavo e solene. Grande número de pessoas gabavam-lhe o gesto amplo; outras tinham predilecção pela sua estatura de transmontano sadio.

Quando o deputado entrou na sala, das galerias olharam para ele com interesse. Salústio afectou certo ar de indiferença, como o de um domador de leões, quando entra na jaula das suas feras. Parecia quase despreocupado, fingia ignorar que toda aquela gente viera ali por sua causa e de Jorge Agualonga, que replicava nesse dia ao ministro das obras públicas, na questão das ostreiras. Ele estava marcado para responder ao violento orador da oposição. Enquanto corria a leitura da acta, alguns deputados tentaram a sua facúndia em questões insignificantes «antes da ordem do dia». Os dois adversários conservavam-se parolando um com o outro, junto do fogão da esquerda da presidência, aparentando certa naturalidade e abandono, para significar diante do público que se não temiam. Salústio falava com excessiva afabilidade, sorrindo para Jorge, gesticulando com moderação, quando lhe dirigia a palavra. Palmira viera com seu pai para o ouvir e estava na galeria a observá-lo. Porém ele, apresentando-lhe de frente o seu busto de apoteose, fingia não ter intenção de se mostrar, ainda que fora quem lhes escolhera os lugares, para verem tudo à vontade. Encontrara dificuldade em conseguir que Leôncio, em dia de tanto aperto, ficasse na galeria das senhoras, perto de sua filha. Aos homens não eram concedidos aqueles lugares, mas como tivesse ido acompanhado de Salústio e o capitalista se contentasse em permanecer de pé, encostado à parede, perto de Palmira, não houve reclamações.

Permanecerem os dois adversários numa conversação aparentemente íntima, maravilhou alguns espectadores, que reconheceram neste facto um toque simpático, um sinal de elevada cultura e educação. Houve no entanto alguém que aventou estarem eles combinando os argumentos com que deviam brilhar mutuamente; esta opinião, porém, não foi compartilhada. Muitas pessoas disseram «isso não é possível»; alguns amigos dos dois oradores acrescentaram como testemunho: «logo os verão».

Quando o presidente, depois de se anunciar por um cerimonioso toque de campainha, disse que eram horas de entrar na ordem do dia, Salústio e Jorge separaram-se com um aperto de mão afectuoso, indo o segundo para o seu lugar num passo miúdo e trôpego, porque era bastante míope. Salústio dirigiu-se à porta de saída, por baixo da galeria das senhoras, fitando nessa ocasião Palmira, ao mesmo tempo que passava a mão na luzidia cabeleira. À respeitosa inclinação de cabeça do deputado, a filha de Leôncio respondeu com leve sorriso. Não se demorou muito tempo fora da sala. Reentrando pela porta que está à esquerda da presidência, encaminhou-se para o seu lugar solenemente, com o passo cadenciado, mostrando o forro branco do seu chapéu alto! Deixou-se cair na poltrona com desdém, abrindo depois a carteira, de onde tirou papel e um lápis para os apontamentos. Salústio empregava em todos os seus gestos um comedimento premeditado...

Para que o não julgassem presunçoso, estudara certa desprevenção, enterrando-se na cadeira com o ar modesto do indivíduo que pretende furtar-se aos olhares impertinentes, que nesse dia grave o deviam procurar!...

No entretanto, Jorge tinha começado a falar, e à maneira que a sua opinião ganhava intensidade, o deputado do governo saía involuntariamente da reserva preconcebida. Voltado para o orador oposicionista, olhava com energia todos os seus movimentos oratórios, sublinhava-lhe as melhores frases com o avincado de testa, característico de adversário. Aos argumentos que produzia Agualonga, sorria incrédulo e desdenhoso, dando a conhecer aos ouvintes que percebera a argúcia e a rebateria logo que chegasse a sua vez. Isto agitava os ânimos dos partidários nas galerias que, face a face, diziam palavras de ataque recíproco, pronunciando os da oposição a cada boa frase de Jorge «apanha», exclamando os governamentais com azedume «que forte asneira!»

A voz de Agualonga era falhada, desigual, uma voz usada e velha. Tinha guinchos e momentos expectorantes, que davam, pela má impressão que isto produzia nas senhoras, um gozo de vitória antecipada a Salústio. Mas o ser considerado rapaz de talento e de estudo, o ter nome conhecido na polémica jornalística quotidiana, garantia importância aos seus discursos, apesar de terem para os homens, que desejam os negócios resolvidos praticamente, certo fundo teórico e doutrinário que os prejudicava. O deputado governamental temia-o; uma vitória sobre tal adversário dar-lhe-ia considerável importância, diante dos homens da política e diante de Leôncio, que o detestava por causa duns artigos de polémica financeira em que o citara desfavoravelmente.

Agualonga, depois de exórdio demorado e monótono, em que falou do desequilíbrio económico da sociedade portuguesa, das más condições dos operários e das dificuldades da agricultura, por causa dos monopolistas, continuou a referir-se de um modo vago a uma questão, que anunciou como da mais subida importância, como de um real interesse no actual momento e no assunto que se debatia - «a questão dos privilégios de certas classes sociais, doutrina anticientífica, antifilosófica e repugnante em face da compreensão do direito moderno». Era à favorecida classe dos intermediários que Jorge se referia, fazendo disto um preliminar, uma como razão de ordem académica, antes de entrar no âmago do assunto principal. Salústio, já um pouco fora de si diante da avalanche de argumentos, citações e ironias tiradas de abalizados economistas, tomava vigorosamente as suas notas olhando Agualonga com sorriso inimigo e irónico.

«A classe comercial - especificava Jorge com a sua voz agressiva - fundamentalmente parasita e espoliadora, é barreira insurmontável entre o produtor originário e o consumidor! O trabalho nulo dessa potente classe é pago injustamente com um ágio sobre a matéria transmissível, pela numerosa e infeliz classe dos consumidores, que desprotegida pelas nossas leis aguenta quantas albardas lhe querem pôr. Diga-me vossa excelência, senhor presidente, e diga-me a câmara: o que devemos pensar de um homem que enriquece com milhões durante anos de trabalho fictício, pois que com ele nenhuma riqueza foi criada!?...

Ficou a olhar alguns momentos de um modo interrogativo, dominando a assembleia. Depois respondeu a si mesmo:

«Devemos pensar que esses milhões vieram ao seu cofre, atraídos em virtude de especulações cavilosas; devemos pensar que no momento em que esse homem se acha rico, - muitas vezes, assombrosamente rico! - milhares e milhares das suas desgraçadas vítimas estarão sem pão suficiente para matar a fome dos magros filhos e alguns - talvez! - agonizem na avulsa enxerga de um hospital, sem carinhos nem afectos! (apoiado de um oposicionista)».

- Não apoiado - rugiu Salústio, escrevendo com precipitação e raiva no seu papel almaço. Jorge Agualonga parou um momento, dirigindo um olhar severo até ao lugar do deputado governamental. Depois continuou voltado para o presidente, que o escutava com a cabeça encostada à mão esquerda, numa sonolência de convalescente. Retomando a palavra, exclamou com energia:

«Não apoiado, senhor presidente!?... Então como é que se explica que certo negociante, traficando dez anos...»

Salústio levantou-se colérico e interrompeu numa voz poderosa:

- Traficando!... Traficando!... Protesto!...

Houve sussurro nas galerias e na sala. Alguns partidários de Salústio, voltando-se para Jorge, repetiram iracundos o seu protesto, os troncos inclinados numa atitude provocante:

- Protestamos!... Protestamos!... Retire, retire!

Agualonga um tanto pálido explicou:

- Traficar, na acepção etimológica da palavra, quer dizer negociar. Salústio insistiu com mais energia:

- Traficar quer dizer negociar fraudulentamente. Veja os dicionários.

- Um dicionário, um dicionário! - berrava toda a maioria.

Jorge sustentou:

- Tenho visto muitos dicionários. Isto é clássico. «As nossas naus traficavam na índia». Leia Barros - disse desdenhosamente voltado para Salústio. - Isto é clássico.

O deputado governamental, que não era versado em literatura, apesar de ter feito versos, empalideceu e pronunciou com um trejeito deprimente nos lábios:

- Ah! é clássico!...

Mas, depois de ter escutado o que lhe disse ao ouvido um eclesiástico governamental, insistiu com ousadia:

- Não me importo que seja ou não seja clássico. Vem do latim trans, «além», e efficio, «conseguir». Conseguir além quer dizer, negociar fora dos preceitos da honra.

Nas galerias o sussurro aumentava. Leôncio de Mértola, rubro de cólera, pronunciou, aludindo a Agualonga, de modo que se ouviu: «Grandíssima besta! Se o pilhasse aqui a jeito, eu lho diria com este... (e mostrava no ar um punho cerrado). Pagava-mas todas juntas.»

O presidente, depois de ter tocado insistentemente a campainha, pôde dizer:

- Visto que o orador não teve em mente uma insinuação, considera-se que retira a mesma. No entretanto convido-o a modificar o estilo no seguimento do seu discurso.

Jorge, ajeitando nervosamente a luneta, disse «não tenho dúvida», e repetiu: «Então como é que se explica que certo negociante, lidando dez anos, que eu concedo sejam de um labor assíduo, se encontre no fim desse curto espaço de tempo uma ou duas vezes milionário, enquanto que meu pai, homem de uma vida amargurada pelos trabalhos, meu pai que era uma inteligência respeitada e impoluta, tivesse no dia em que morreu uma libra em casa! Terão os dias do negociante aludido mais de vinte e quatro horas?!... trabalharia ele com maior número de braços, com maior número de pernas, com maior número de cabeças do que meu pai!? Onde estará a explicação desta injustíssima, desta... infamíssima desigualdade social?! Digam-me onde está!» - pronunciou voltando-se para Salústio.

- Logo lho direi - obtemperou o deputado governamental.

«Logo mo dirá?! Pois antes de vossa excelência, vou eu dizê-lo. O segredo, a explicação deste monumental escândalo, desta injustiça que terá um dia uma expiação social (pronunciou com um dedo profético suspenso no ar), encontra-se no ágio comercial excessivo e inconsiderado! Isto que se dá com meu pai, que é uma hipótese...»

- Então não é uma realidade - disse uma voz da maioria.

«É sim, senhor. A hipótese tem sempre o seu fundo de realidade. Tem a realidade mental. Isto

- continuou em voz de orador, depois de um momento de pausa - que se dá com meu pai, pode e háde dar-se com os pais de vossas excelências, que decerto não têm milhões, como o negociante a que me reporto».

- Mas quem é esse negociante? - perguntaram.

«Não é ninguém, é imaginário, já disse. É o comércio em geral. Eu só me refiro ao comércio em geral, convidando-o a ser cordato e a não abusar da sua posição, excessivamente favorecida na sociedade. Senhor presidente e meus senhores, a questão social está por resolver e é necessário, impreterível, abordá-la de pronto. Se vos descuidais, senhores deputados, (voltou-se de novo para toda a câmara, abrangendo-a num olhar suplicante!) vós que tendes a força que vem do sufrágio (risos na galeria) e que tendes o saber que vem do estudo, (novos risos) podeis assistir à mais estrondosa revolução de que há memória. A nossa fidalguia acabou: - bem hajam os homens e benditos os factos que para isso concorreram! Morto este privilégio, é preciso que se não conservem outros, encobertos com aparência de justiça. A lei da supressão dos vínculos, vulgarmente conhecida pela lei dos morgados, foi o último e temeroso golpe na existência dessa classe, que significava desigualdade entre irmãos. Benditos sejam para todo o sempre os legisladores que a promulgaram. A história não esquecerá os seus nomes venerandos. Os monopólios do sabão e do tabaco também não existem. Serão conservadas em letras de oiro, no imorredouro templo do porvir, as memoráveis datas destes acontecimentos. E é neste instante, quando vai tão alta a civilização, que se pretende conceder o monopólio das ostreiras! Em que tempos estamos nós, senhor presidente! Vamos entregar a um indivíduo, ou a uma associação formada por um número restrito de indivíduos, o exclusivo de explorarem uma parte importante das nossas costas, com o fim de só eles cultivarem ostras, quando por toda a Europa os privilégios vão acabando! É só uma parte das nossas famosas costas, poderão alegar! Ainda que fosse um palmo. O monopólio é odioso em princípio e tanto basta. Ele tende a excluir todos, menos aquele que fica com o privilégio, ou seja uma sociedade ou seja um só homem. Suponhamos que eu, Jorge Agualonga, deputado e jornalista, desejo ou quero promover a reprodução, a cultura como se diz tecnicamente, do saboroso molusco, no mesmo ponto da costa portuguesa pedido pelo concessionário! Podê-lo-ei fazer? Não, depois de dado este exclusivo, que eu reputo odioso e absurdo. Absurdo e odioso reputo-o eu, senhor presidente, em nome da ciência e da humanidade! Se quereis conservar e engrandecer as instituições - concluiu voltando-se para o banco dos ministros - é necessário não atentar contra as liberdades, que tanto custaram a nossos pais. Se tendes sincera vontade de firmar em bases seguras o trono, desvelo e empenho de todos nós, só o podereis conseguir promulgando leis e praticando actos em que sejam sempre acatados os eternos princípios da justiça, em que seja respeitada esta liberdade que tem fomentado o progresso e a prosperidade da nação, desde que o Imortal Dador nos trouxe a esta aurora divina no gume brilhante da sua espada imorredoura. Ele quebrou as algemas, não deveis vós outros vir-nos ligar os pulsos. De outro modo sereis subvertidos pela tempestade revolucionária que ruge lá fora. Os desvarios dos homens podem trazer a ruína das instituições, que todos amamos, pelas quais eu estou e todos nós estamos resolvidos a dar até a última gota do nosso sangue!»

- Apoiado! Apoiado!... - pronunciou-se sem entusiasmo em diversos pontos da câmara.

Jorge Agualonga sentou-se extenuado. Vieram alguns amigos da oposição apertar-lhe a mão e na galeria popular perpassou um suspiro de carroça rodando. Em baixo, na sala, enquanto Salústio dispunha os seus papéis, como um general e os seus soldados para um combate, conversava-se alto e distraidamente. O presidente, que era obeso, aproveitou as circunstâncias para se remexer na cadeira, e num tom desvalioso deu a palavra ao deputado do governo. Um ligeiro rumor, vindo da tribuna diplomática, chamou as atenções de muitos deputados, que logo se voltaram para lá. Salústio já estava de pé, com o lápis tribunício na mão e as palavras «senhor presidente» à flor dos lábios; mas também levantou os olhos, para averiguar... Entraram naquele instante a condessa de Frazuela, a viscondessa de Águas Santas e sua sobrinha, esposa do general Gonçalo. Isto produziu boa impressão em toda a sala. O deputado reconheceu-o e sentiu-se orgulhoso com este facto, que era uma consagração da sua eloquência. Passou lentamente a mão aberta na cabeleira, depois cofiou o bigode com esmero. Aquelas senhoras, justamente conhecidas na política e na sociedade, vinham para o ouvir. Chegavam num instante especial, para ele bem decisivo e valioso! Só mulheres de uma alta educação, como a condessa de Frazuela, é que podem inventar estes pequenos nadas de alta significação e valor inestimável. A seu parecer o momento da entrada fora calculado para dar maior realce ao aparecimento. Um tímido mas saliente descer da sua cabeça e do seu olhar, foi o meio de que o deputado se serviu para agradecer a distinção que acabava de receber. A condessa correspondeu-lhe através do seu lorgnon, enquanto Josefa Lencastre cumprimentava Palmira que vira noutra galeria.

Salústio principiou o seu discurso em voz pausada e reflectida, considerando o assunto como um dos mais momentosos que se podiam debater naquela sala. Estimava que a discussão seguisse caminho levantado. Tinha grande acatamento por todas as opiniões emitidas franca e lealmente, exigindo que lhe garantissem igual foro. No seu espírito recto e imparcial, de tal modo imperava o respeito dos outros, que era o respeito de si próprio que, mesmo no caso presente, apesar de ter sobejos motivos para ser castigador, evitaria o tom agressivo impróprio do parlamento, para seguir a linha de uma argumentação cerrada, desfazendo todos os sofismas, que outra coisa não eram os de um discurso, brilhante de certo modo pelo esplendor da linguagem e pela cópia de citações, mas pobre em verdadeiros argumentos e deplorável nas ideias expendidas. E interrogou directamente todo o seu público incluindo a oposição parlamentar:

«O que pretende o governo, concedendo uma parte da nossa formosíssima costa oceânica, para que uma companhia possa explorar a cultura do - como muito bem disse o ilustre orador - saboroso molusco que se chama ostra?!... Sim, o que pretende o governo concedendo este privilégio!?... Fomentar a riqueza, abrindo aos capitais caminhos para novos e arrojados cometimentos. Quem fica prejudicado? Ninguém. Quem ganha com a concessão? Todo o mundo. Com este insignificante monopólio (disse com ironia) e pela simples regularidade das leis de procriação, todos nós podemos comer ostras melhores e mais baratas. Ataca-se a liberdade individual por este facto! Como! pois só por se proibir que alguns desgraçados pescadores continuem numa indústria que nunca os livrará da miséria, devemos obstar a que eu, que estimo as ostras, vossa excelência, senhor presidente, que também delas não desgosta, porque lhas tenho visto comer e o mesmo ilustre deputado a quem as ostras não são antipáticas, nem desagradáveis, pela mesma razão que apontei para vossa excelência, deixemos de as ter em razoável abundância e por um preço conveniente?!

Houve uma ligeira galhofa em toda a câmara. O presidente sorrindo confessou com um aceno de cabeça a predilecção que tinha pelo marisco; mas por meio de um movimento de ombros e de um gesto que significava tirar de si alguma coisa, advertiu o orador de que se não tratava da sua pessoa. Salústio, entrando nessa troca mímica de sentimentos, também sorriu mostrando ter compreendido... Porém, com o fim de se desculpar, observou num à-parte «é uma comparação», e retomando a sua atitude de tribuno continuou:

«Isto não se compreende! Se não fosse conhecedor da posição especial do meu sábio contendor, que veio aqui com mandato oposicionista, não acreditava que tal se dissesse a sério (apoiados). Mas a oposição, ainda que combata o governo, dever que lhe não contestamos, entendo que melhor fará à própria causa procurando questões que não sejam tão antipáticas ao público, que, desejando comer ostras boas e baratas, estima que se faça esta concessão (muitos apoiados). É preciso não exorbitar, não fazer política de tudo e por tudo. Falo à razão das pessoas esclarecidas e à consciência dos homens imparciais. As minhas palavras, inspiradas na mais recta inteireza e justiça, levarão ao ânimo dos membros da própria minoria o convencimento de que o governo, nesta como em muitas outras questões, tem procedido sempre com boa vontade de servir o país e os altos interesses públicos que lhe estão confiados. Reconheço a minha insignificância diante dos luminosos astros que nestas cadeiras têm resplandecido, um José Estêvão de gloriosa memória, um Garret, um Rodrigo da Fonseca e um Passos Manuel! Porém, quando a causa é justa como a que actualmente se ventila, não me falecerá o ânimo para impor a mim mesmo o dever de pugnar pelos verdadeiros e únicos princípios em que acredito e que poderei resumir em duas palavras gigantes, que todos nós temos escritas no coração!...

Suspendeu e tomou fôlego, pois desejava que sobre esta afirmação de doutrina caíssem as atenções dos espectadores, muito especialmente a de Leôncio de Mértola a quem se dirigia mentalmente. Depois continuou num tom claro e solene:

«Essas duas palavras são Progresso e Ordem! (muito bem). Ordem mais do que progresso, porque sem ordem não há progresso possível. As instituições que felizmente nos regem, as quais o ilustre deputado não ama... (surpresa de Agualonga e aspecto de reclamante) não adora com mais fervor do que eu (Jorge voltou ao seu aspecto plácido, apaziguado com a rectificação); o sábio monarca que com tanta prudência, quanta sagacidade preside aos destinos do país, devem ser objectos de nosso respeito e de todo o nosso amor (aplausos gerais, Agualonga inclina a cabeça). Os notáveis oradores da oposição podem ter a certeza de que os homens que estão sentados naquelas cadeiras sabem bem as responsabilidades a que se obrigaram. Sabem muito bem, embora a sua modéstia lho não deixe confessar, que a maioria desta casa tudo espera deles, pois não ignoramos quanto empenho, quanto desvelo, quanto talento empregam na resolução das árduas questões que lhes estão confiadas. Sim, senhores! Eles desejam corresponder ao muitíssimo que é legítimo confiar nas suas altas faculdades e pouco viverá quem não verificar como hão-de cumprir a sua nobre missão.

A maioria teve um movimento de entusiasmo e agradecimento, por estas grandiosas palavras, e principiou a vociferar repetidos apoiados. Os ministros trocavam entre si palavras de elogio ao deputado por Guimarães, enviando-lhe sorrisos de afecto.

Depois de alguns instantes de silêncio, Salústio continuou num tom mais calmo:

«Lamento, e lamento profundamente, que as expressões do meu ilustre contendor não correspondam às verdadeiras ideias de Progresso e Ordem, de amor às instituições, à família real e à manutenção dos interesses criados e estabelecidos, princípios que - sempre! - por sua excelência foram compartilhados em numerosos e brilhantíssimos discursos, como os que tem pronunciado em ocasiões de melhor sorte. As suas palavras de hoje não correspondem às suas ideias de ontem, e é o que me punge! Esta inteligência ilustrada e ordeira, este homem sensato alimentado no úbere das melhores doutrinas, depois de ter pronunciado notáveis orações, como aquela magnífica e patriótica acerca do nosso Império Africano e a outra excelente a propósito da urna que ele, como eu, como todos nós, queremos livre e desassombrada de pressões nefastas... vem hoje, inesperadamente, atacar a existência dos intermediários, atacar a nobre, poderosa, inteligente (olhou para Leôncio de Mértola, que com um aceno de cabeça o aprovou da galeria) classe comercial! Que quer isto dizer, meus senhores?! Como se ousa negar a benéfica influência do corpo do comércio, origem de toda a nossa riqueza e de todo o nosso conceito diante do mundo, que nos admira, que está com os olhos no nosso futuro! O comércio, meus senhores, é na actualidade a base de toda a riqueza, do bem-estar do povo e o mais seguro fiador da ordem e da moralidade. Com o comércio e com a religião conquistámos nós mundos desconhecidos. É na classe comercial que se encontra maior número de homens de inteligência e de fecunda iniciativa. Entre eles eu conto alguns valiosos amigos. O comércio, meus senhores, quereis saber o que é? (suspendeu a interrogação, olhando de novo para o pai de Palmira). Quereis saber? É o crédito, é a prosperidade, é a agricultura, é o trabalho, é o capital, são os melhoramentos materiais, é o progresso, é a ordem, é a indústria e é - quase se pode dizer - a própria ciência e inteligência em acção!...

O comendador Leôncio curvou-se ao ouvido de Palmira para dizer:

- Hein? Que te parece? Eu não sabia aquilo. E o outro malandro a dizer um chorrilho de asneiras! (Aludia a Agualonga).

«Não é o descrédito, nem a ruína da agricultura, nem a falta de trabalho, nem a depreciação do capital, nem a tibieza nos melhoramentos materiais, nem a negação do progresso e da ordem, a ruína da indústria, o inimigo da ciência e da inteligência. (Muitos e calorosos apoiados.) Como é, pois, que o ilustre deputado, um dos ornamentos da nossa tribuna oral e jornalística, tem a... coragem, digo bem, a coragem de atacar a benemérita classe comercial, toda trabalho e riqueza?!...

- É porque é um grandíssimo asno! - resmungou Leôncio na galeria. Jorge levantou-se e, curvado sobre a carteira, dirigiu-se ao orador:

- Peço perdão. Eu não ataquei o comércio, onde também conto excelentes amigos.

- Oh! que grandes amigos há-de ter! - exclamou ironicamente o pai de Palmira. Salústio Nogueira perguntou:

- O quê? Vossa excelência não atacou o comércio?!

- Não, senhor, porque era um disparate.

- O valentão recua! - disse alto o comendador.

- Papá!... - observou Palmira, pedindo-lhe silêncio.

- Então que atacou vossa excelência? - perguntou Salústio.

- Não ataquei coisa nenhuma. Disse que sendo postos actualmente em cheque os intermediários, por grandes pensadores como Proudhon, os monopólios, que são uma fórmula fechada de comércio, se se vierem a adoptar em larga escala, poderão provocar uma justificada revolta.

- E isso não vem a ser a mesma coisa? Uma revolta! Quer dizer uma revolução?! Que

revolução?! Aonde?! Como?! Quando?! Contra quem?! É preciso sabermos determinar precisamente as condições de um fenómeno, para que as nossas palavras tenham valor. (Apoiados.) Quando tal se não faz, serão belas utopias, frases sonoras e retumbantes, mas não poderão convencer homens frios e raciocinadores como eu me prezo de ser.

- Nem eu pretendi convencer de coisa nenhuma a vossa excelência - redarguiu Agualonga. O presidente:

- Ordem, meus senhores. O distinto deputado (dirigindo-se a Jorge), se quer a palavra, faça favor de a pedir.

Salústio, com os olhos vermelhos e injectados, pronunciou, voltado hostilmente para o adversário:

- Não me pretendeu convencer a mim?! Então quem pretendeu convencer?! Sim, porque o ilustre deputado falou para alguém, quis convencer alguém. Quem é esse alguém?

Jorge Agualonga:

- O país.

O presidente:

- Meus senhores, peço ordem. Eu acabo com isto, retiro a palavra, se continuam nessa cavaqueira.

O orador, fora de si e sem atender ao presidente, continuou de um modo violento e contra o adversário:

- O país! Foi o país? Quem é o país? O país somos nós todos (apoiados)’, o ilustre deputado, o senhor presidente, eu, todos os que aqui estamos, todos que nos ouvem. O respeitável corpo comercial é o país. O país é todo o homem que pensa e que trabalha. É para ele, para o seu engrandecimento, que devem ser dirigidos os nossos esforços, o emprego de toda a nossa actividade. No dia em que o país - o verdadeiro país a que me refiro - deixar de ser isto, senhor presidente e meus senhores..., então está tudo acabado! E completou a frase abrindo os braços, num gesto desolador.

- Babau!. - disse um anónimo escarnecendo na galeria.

O orador rematou, mostrando-se cansado:

«Tenho dito.»

Foi muito cumprimentado. A condessa de Frazuela, D. Josefa e sua tia enviaram-lhe parabéns, num ligeiro e inteligente sorriso. Palmira confessou ter gostado muito de ouvir Salústio. Porém, Leôncio, que se não satisfazia inteiramente com estes processos de polémica, sentindo profunda indignação contra Jorge, disse limpando o suor da testa:

- Era de outra maneira, que eu lhe responderia ao tal senhor Agualonga, Agua curta, ou que

diabo é! Que bom marmeleiro!

Os deputados da maioria acumularam-se em volta do orador, que se lhes entregava a esmo, sentindo-se agarrado pelo tronco, pelos braços, pelos ombros, pelas pontas dos dedos... O presidente do conselho, marquês de Tornai, aprovou-o de longe com um diplomático e lento aceno de cabeça. Porém o general Gonçalo, que, durante o tempo que levou o discurso, só pensara em se ostentar diante de sua mulher, calculando que ela gostara de ouvir Salústio, subiu os degraus da coxia, para apertar afectuosamente a mão do deputado, dizendo-lhe numa voz de preço: «Boa impressão!»

As senhoras, à saída, encontraram Salústio na escada. Vinha para as acompanhar à carruagem.

A Frazuela, estendendo-lhe aristocraticamente a sua mão branca e fina, certificou-lhe:

- Meu marido gosta muito de si, creia.

A viscondessa de Águas Santas, perfeita conhecedora da história parlamentar portuguesa, por nela ter vivido intimamente, acrescentou, acompanhando-se de um ar saudoso, pondo os olhos em branco:

- Oh! quanto me fez lembrar os homens do meu tempo: o José Estêvão, o Rodrigo, o Costa Cabral!

Palmira não o elogiou, e Salústio, reparando neste silêncio, perguntou-lhe:

- Não é um rapaz de talento, o Jorge Agualonga?

Mas Leôncio é que respondeu furioso num tom que não admitia réplica:

- É um grandíssimo asno! Não me gabe esse mariola.

E bufava por forma que todos entenderam não falar mais da sessão.

Josefa, lembrando-se no meio da escada que podia levar seu marido na carruagem para casa, disse ao deputado com certa naturalidade:

- Olhe, vá dizer ao general se quer que espere por ele.

E, durante o tempo que Salústio Nogueira gastou em levar ao ministro da guerra esta pergunta de sua esposa, as senhoras foram descendo. No átrio, junto do portão beneditino, esperaram a resposta, e então falaram com elogio do deputado por Guimarães, concordando todas em que este rapaz tinha diante de si um esplêndido futuro!...

 

O ministro da guerra acedeu pressuroso ao convite de Josefa, que ele adorava, cada vez mais lascivo. O casamento tinha-lhe feito bem - diziam. Parecia outro homem, caminhava na rua e nas salas com tal ímpeto de juventude que maravilhava... Parecia ter adquirido, no contacto da pele fina de sua mulher, a frescura e o vigor de uma nova mocidade. Tornara-se menos rigoroso e disciplinador para os próprios inferiores, sorrindo-lhe às vezes com delicadeza e condescendência, o que desmentia os seus antecedentes de militar rigoroso e grosseiro. A felicidade amolecera-o. Os primeiros tempos de noivo vivia-os como se estivesse sonhando numa poltrona flácida, depois de longa marcha.

Aquela carne velha tinha adquirido tonicidade e macieza. O bigode repintado e o chinó brilhavam como azeviche... Porém, os maledicentes assinalavam-lhe, quando o viam de braço dado com a encantadora Josefa, enfraquecimentos instantâneos, inconsciências de organização caduca, denúncias de velhos reumatismos, tantas vezes gritados na cama.

A esposa calculava essas ironias pontiagudas, que lhe vinham em sorrisos amáveis. Como mulher altiva, nos primeiros tempos planeou passar sobre elas triunfantemente, esmagando-as como cabeças de serpe. Por isso nunca se esquecia de afirmar, quer publicamente, quer em conversas particulares e íntimas, quanto era feliz no seu novo viver.

- Olha, minha querida - dizia à Frazuela - tu bem sabes o que se ouve dos maridos novos. Todos têm fora de casa mulheres a quem sustentam. Com um marido como este a gente vive mais descansada.

- É verdade, é... Porém eu nunca me importei. Sei que o Paulo tem tido amantes e... até gosto, sabes? Fica a gente mais livre.

- Não digas isso! - retorquiu Josefa. - Se tal me acontecesse, dou-te a minha palavra que me separava.

- Ah! não tenhas medo, não te acontecerá... O general adora-te.

E colhendo uma rosa, pois estavam no jardim, pôs-lha junto da cara dizendo:

- Como te vai bem esta cor! Rosas com rosas, costuma-se dizer.

O comportamento de Josefa era conforme às suas palavras. Mostrava-se infinitamente, quase infantilmente, amorosa do general. D. Cesária, a malévola D. Cesária, esposa do magro ministro da marinha, disse um dia que ela fazia todas estas coisas com medo de que os outros não acreditassem na sua sinceridade amorosa. Pura maledicência. Ao contrário disso, nos primeiros tempos de casada viam-na sempre na intimidade do general, tanto em casa, como na rua. Saíam frequentemente de carruagem e, ao passarem no Chiado, em frente da Havaneza, onde estavam reunidos rapazes que a tinham namorado, Josefa redobrava de atenções com seu marido, falando-lhe junto do rosto, chegando-se-lhe num contacto evidente para dar público testemunho da sua felicidade conjugal...

Se tinha de parar no Godefroy para escolher os seus perfumes, ou na Aline com o fim de falar das suas toilettes, para atravessar o passeio, para ir da carruagem à loja, não prescindia de tomar o braço do marido, apoiando-se-lhe com requebros de juventude. Se casualmente ali encontrava alguma das suas amigas, dessas mais tidas por linguareiras e invejosas, Josefa exibia com audácia o seu bem-estar, fazendo despesas só para apregoar a fortuna do general a quem falava com palavras ternas, chamando-lhe em voz lânguida filho e amor... Ele correspondia-lhe concordando em todas as prodigalidades e propondo ainda outras. Sentia-se vibrar de sensualidade, exprimia-se enternecido como um galã de teatro, procurava demonstrar ser homem para aquela mulher juvenil e louca. Esta exposição de venturas, principalmente do lado de Josefa, repetia-se tão frequentemente, que uma noite, em casa dos Frazuelas, uma senhora disse depois de eles saírem:

- Tem medo que se lhe acabe... Pois se ele é tão velho!...

Moravam à Estrela, numa casa com mobília rica muito doirada, conhecendo-se patentemente a inteligência do estofador, que tivera a recomendação de fazer tudo com brilho. Durante o primeiro mês de noivado, o ministério da guerra esteve a cargo do marquês de Tornai, que o geria com a mesma vantagem com que sobraçava a pasta dos estrangeiros e a do reino. Porém, mesmo depois de reassumir a administração a seu cargo, o general continuou a viver em volta de sua mulher, na intenção de adivinhar todas as exigências daquela organização delicada, os íntimos segredos daqueles nervos, que o tinham enchido de felicidade. E, às vezes, no seu gabinete de ministro, ordenava que o deixassem só, para se deitar a pensar, curvado sobre a larga carteira burocrática, como é que ele, um velho rude, um corpo plebeu, pudera adquirir o direito de gozar aquela estátua de neve, aquele encanto de mulher tão apetecida. Chegava a reconhecer-se indigno de tamanha ventura! Tinha a desconfiança dos seus encantos: tirava do bolso um pequeno espelho, que trazia escondido, e examinava-se com demora, tendo momentos de desalento com lágrimas nos olhos! Quando depois entrava em casa, fartava Josefa de carinhos, de palavras de amor, de pedidos exigentes para que lhe jurasse que o havia de amar sempre... sempre...

- Pois sim, pois sim, - respondia-lhe a galante rapariga, afastando-o benevolamente.

Ao fim de três ou quatro meses de casada, Josefa Lencastre, tão viva e desejada, principiou a reaparecer na sociedade, nos bailes, nas festas públicas, donde certo pudor convencional a tinha afastado transitoriamente. Aquela convivência íntima com um velho principiava a encher-lhe o coração de tédio, um tédio negro que lhe invadia todo o ser! Já lhe evitava os desejos sem o querer ofender... Procurava com delicadeza ocultar a tremenda tristeza, que ela enovelava sozinha nas suas tardes de solidão. Recostada na chaise longue de veludo carmesim, os pequeninos pés calçados em sapatos de mundana, as meias de seda azul aparecendo no meio de espuma de rendas, era adorável neste prelúdio de melancolia... Olhos vagos no tecto, as mãos entrelaças sobre a cabeça, entregava-se ao doloroso trabalho de comentar a sua vida estreita. Neste meditar, tanto se exteriorizava que ouvia risinhos irritantes das suas amigas, no meio de frases irónicas, que lhe feriam o orgulho. Sentia-se nervosa, queria não tolerar o peso daquelas afrontas, e jurava mais uma vez vencê-las, mostrando-se sempre escrava do dever. Nestas lutas de só consigo, readquiria às vezes grande fortaleza; mas também acontecia ficar aniquilada como se tivesse caído num fundo pego. Considerava quanto o general era bom, afável, condescendente e... paternal; porém,se lhe ouvia o ranger das botas, estendia depressa a mão para qualquer dos romances que tinha na étagere e abria-o, fingindo-se absorvida na leitura. Gonçalo queria tirar-lhe o livro e repreendia-a amorosamente:

- Sempre a ler, encontro-a sempre a ler... Até pode estragar esses lindos olhos de amora!... Mas ela pedia-lhe:

- Deixa-me acabar este capítulo...

- Não deixo. Há mais de cinco horas que estou fora de casa, que te não vejo!...

Josefa condescendia. Falavam de coisas fúteis; visitas que tinham vindo... pessoas que ele encontrara... O general estivera no paço e tivera a honra de beijar a mão de sua majestade a rainha... Josefa perguntava como era a toilette da rainha, e vendo que seu marido não a sabia esclarecer, afastava-o com desdém dizendo:

- Não serves para nada!...

Havia, porém, ocasiões em que Josefa se sentia, depois do seu muito cismar, contrariada e nervosa. Então, logo à primeira meiguice do marido, afastava-o de si, pretextando com um lindo amuo:

- Está um calor!... Deixa-me ler. Estou tão entretida!...

Apesar da graça e candura que manava da sua voz flexível, pronunciando a última frase que era uma desculpa, o general saía triste, indo para o jardim passear devagar, como uma sentinela. Mas... como a adorava, reconhecia, ao fim de certo tempo, que sua mulher tinha razão, que aquilo não eram termos num homem da sua idade, e formulava juras mentais para se reprimir, para se conter, para calcar dentro do peito todas as caducas sensualidades!... Por isso voltava a encontrar-se com Josefa, circunspecto e cheio de tacto. Falava em voz natural do último baile do Frazuela, da próxima festa no paço, ou da futura época de S. Carlos, que já se discutia... Foi num destes dias solitários, dum aborrecimento vago, como nuvens escuras errando sobre um mar infinito, que a mulher do ministro da guerra recebeu a seguinte carta de Angélica de Agramente, uma íntima do colégio, que vivia no Porto.

Minha querida Filha:

Bem cuidei que este ano te encontraria em Lisboa! O papá muito o desejava e já tínhamos tudo preparado para nos demorarmos aí três meses, com o fim de ouvirmos música em S. Carlos. Rodolfo iria também, porque os seus negócios lhe facilitavam o estar aí algum tempo. Contava abraçar-te, estar contigo, fazer-te as minhas confidências, a ti que és a minha melhor amiga. Porém, todos os nossos planos se transtornaram de um modo inesperado, e, apesar do muito que te quero, este transtorno foime imensamente agradável. O meu casamento está próximo, para daqui a três semanas somente. O meu noivo tem de partir para Londres, com demora de mais de um ano. Como nos adoramos e ele não pode viver sem mim, quer que eu o acompanhe. E tem imensa razão, porque eu também não posso estar muito tempo distante de Rodolfo...

Escuso dizer-te, meu anjo, que este casamento me dá toda a felicidade que eu pudesse apetecer. Apesar de ser motivo para não gozar da intimidade da minha melhor amiga, não serei tão impostora, que te afirme que me é extraordinariamente penoso deixar-te. Tiranias do amor, que tu tens suportado gostosamente como eu; pois já estás casada e pelas tuas cartas reconheço que amas como deves teu marido, o teu general, o teu ministro, como dizes com tão excessivo orgulho. De modo que, boa Finha, dentro de pouco tempo, a tua Gélica, aquela estouvada do colégio, estará no rol das senhoras sérias e verdadeiramente felizes como tu és. Será isto verdade?! Quase me custa a acreditar, ainda que, se a minha sensibilidade me não engana, tenho a pele da cara afogueada, pelo calor de um beijo, que o atrevido do meu noivo me roubou no vão da janela, enquanto meu pai conversava despreocupadamente na sala. Sempre os homens são muito ousados!... O teu general também te fazia o mesmo, quando noivavas?... Havia de fazer, e tu havias de consentir, porque eles e nós somos sempre a mesma coisa!...

Como são difíceis de passar, estes detestáveis dias, que precedem o casamento! Tratar dos nossos arranjos de enxoval é ao mesmo tempo alegre e fastidioso, não achas? A gente, no meio desse encantador trabalho, esquece-se de muita coisa por causa do amor e fica assim com cara de lorpa, a olhar para o tecto... o que é uma vergonha, por causa de quem nos vê. Em que se pensa nestes momentos?! Ninguém o sabe; contudo muita gente deita mau sentido e ri-se de nós. Ontem por causa de um dito de uma senhora velha, que me perguntou, no meio de uma destas distracções e diante de gente, em que pensava, fiquei tão envergonhada... Que lhe importava a ela, em que é que eu pensava?!

Ora, não há, um atrevimento assim!

Mas a verdade é que eu pensava em qualquer coisa, não sei bem em quê... Este entrar em vida nova, para a qual, é certo, estamos de há muito tempo preparadas, é mais difícil do que muita gente calcula. Tu já casaste e deves saber que uma mistura de contentamento e de receio, um temor íntimo, uma acumulação de desejos contraditórios enchem todo o nosso seio. O que será isto, minha querida Finha? Diz-mo tu, que tens a experiência. Porque será que nos sentimos oprimidas diante do doirado sol da felicidade, que nos deve alegrar os vinte anos?!... Expliquem-mo as senhoras casadas... Tu hás-de por força sabê-lo!...

Será porque eu não ame suficientemente Rodolfo?! Oh! não, não! Risca desta carta uma suposição tão estúpida. Melhor que ninguém sabes quanto o amo e como ele é digno de todo este imenso amor. O simples som da sua voz musical faz-me estremecer! Mesmo que ele esteja distante de mim, falando em assuntos triviais, que me não interessem, a sua voz, o encanto da sua voz, delicia-me e enamora-me extraordinariamente. Rodolfo também me corresponde por modo que vivo uma vida deliciosa. Até os seus ciúmes desnecessários, porque eu só penso nele, me enchem de ventura!... Tu não o conheces; mas hoje, dentro desta mesma carta, vou-te mandar o seu retrato e verás como é um perfeito rapaz. Porém, acredita e não te rias de mim, Rodolfo é mil vezes mais belo do que o retrato diz. É um rapaz alto, muito elegante, desembaraçado como um verdadeiro inglês. A sua barba loira e fina, é a barba mais bonita que tenho visto. O seu cabelo é corredio; mas cai-lhe admiravelmente sobre os lados da testa larga, toda inteligência. Tem uns olhos azuis, de uma penetração lânguida, mas firme, que só dizem amor e poesia. O seu olhar fascina, dá-me íntimas comoções, quando o contemplo; tem sobre os meus nervos tal império, que me subjuga. Nem ele sabe o que poderia fazer de mim em certas ocasiões. Os dedos das suas mãos são finos e compridos, adelgaçados para as pontas, como os lindos dedos da nossa amiga Othilie, que nunca nos fartámos de admirar, naquelas lindas tardes de Maio, na cerca do convento!...

Estou-me tornando ridícula com a pintura do meu futuro marido, não é verdade? As senhoras casadas, em geral, riem-se destas puerilidades; mas as senhoras casadas foram solteiras e fizeram o mesmo que a gente faz!... Demais a mais, tu ainda deves estar muito noiva. Ri-te à vontade. Como vives longe não me podes fazer chorar, causando-me perrices como no colégio, quando víamos, através das grades, passar aquele que montava um cavalo preto, e de quem tu gostavas muito...

Esqueçamos velhos pecados!... Creio que já te disse que Rodolfo é nascido no Porto, de família inglesa. Actualmente é, em Portugal, representante das maiores fábricas de algodões de Manchester. Não vás por isto supor que ele é algum caixeiro. Sim, tu a mulher de um ministro, hás-de ser orgulhosa e fazer suposições, talvez pouco favoráveis ao meu Rodolfo. Pois, senhora conselheira, é educado em Londres; esteve anos em Paris, frequentando as Tulherias; sabe a literatura, a história, as línguas... até o latim, a ponto de deixar embasbacado um bom padre, nosso amigo, que vem aqui todas as noites ao chá. Os que o conhecem têm por ele fanatismo e admiração. Pudera não, se é o homem mais encantador do mundo inteiro! Do mundo inteiro, digo-to eu, incluindo até o teu marido! É um rapaz de vinte e sete anos, somente mais cinco do que eu! Possui todas as grandes qualidades que para a mulher tornam o homem dominante: a mocidade, a inteligência, a bondade e a força. Que mais posso querer?! No colégio, quando rezava a Nossa Senhora, sempre lhe pedi que inspirasse meu pai, em propor-me um marido para o qual sentisse inclinação. Foram ouvidas as minhas rezas; pois não pode existir outro que mais me pudesse encantar. Tu, minha Finha, casaste com um homem de posição brilhante - um ministro!... Bem sabes com que entusiasmo saudei as tuas felicidades. Porém, o meu Rodolfo, ainda que de uma vida mais modesta, é rapaz da melhor sociedade e ficarás encantada quando o conheceres.

Apesar de toda esta ventura, que me dilata a vida, sinto um vago receio, uma longínqua tristeza ao pensar que se aproxima o dia do casamento! Porque será?!... Os homens não podem facilmente calcular os enormes sacrifícios de pudor... as mil resistências indecifráveis, que uma rapariga sente antes de se lhes entregar, ainda que sejamos dominadas pelo amor mais entusiasta! Na minha ignorância e inexperiência imagino que anda nisto muito da educação que levamos. Vive a gente, desde criança, sempre vigiada, sempre afastada de certas liberdades. Vem um dia - dia singular! - em que todas as pessoas que nos punham em tal resguardo são as primeiras a pegarem-nos na mão, para nos entregarem ao inimigo de que nos defendiam. Deve ser um momento único em toda a vida da mulher, esse em que nos encontramos, pela primeira vez, num quarto alumiado por discreta lamparina, sozinha com um homem, para quem foram criados todos os nossos encantos, todos os nossos pensamentos, todos os nossos recatos. Ainda que o amemos louca e perdidamente, a gente não deve estar muito à vontade... Porém, que grande horror se o não amamos, se nos é indiferente, ou mesmo

se nos tem aborrecido!... Antes a morte!...

Quantas doidices terei escrito hoje? Não faças caso e não mostres esta carta a ninguém, pelas benditas almas. Não a mostres a ninguém, nem a teu marido, ouviste?! Eu sou uma cabeça de vento, como dizia aquela velha mestra de francês, que tu costumavas arremedar para nos fazer rir na aula. Lembras-te ainda dela? Arremeda-la como noutro tempo?

Adeus, querida Finha. Escreve-me antes de eu me casar. Quero, como menina solteira, receber uma carta tua, que seja só para mim. Porque as outras hei-de mostrá-las todas a Rodolfo, entendes?

A tua muito amiga Gélica

A mulher do ministro da guerra percorreu as três folhas de papel escritas por Angélica, com diferentes expressões fisionómicas. Depois ficou minutos silenciosa, conservando a carta na mão. Entregava-se a uma corrente de pensamentos incaracterísticos; mas o seu olhar era enérgico e nas linhas do rosto, um tanto apanhadas, denunciava-se luta e aborrecimento... Ainda estava sentindo a impressão de desgosto, que lhe causara um beijo do general!... Os seus beiços moles e salivados de velho amoroso tinham-lhe deixado na pele fresca e bem tratada uma espécie de nódoa viscosa! O ter sido um beijo de marido não destruía o desagradável abalo recebido pelos seus nervos delicados e limpos. Josefa explicava, a si mesma, por doença, este mau humor instintivo que, algumas vezes, a indispunha contra o general. A leitura da carta de Angélica Agramonte aumentara-lhe a irritabilidade em que se encontrava!... Aquela ventura simples e verdadeiramente sentida, comparada com a sua, marcava um ponto de alta injustiça divina! Ela também era formosa como a sua amiga, também tinha fantasia e desejos de amar um homem novo! Apossou-se-lhe da alma um forte sentimento de revolta contra o destino! Apesar da sua poderosa vontade, não podia impedir-se de pensar na felicidade risonha da sua companheira de colégio!... Rodolfo tinha vinte e sete anos, o general Gonçalo mais de sessenta!... Examinava, com um olhar fixo de espírito ausente, o retrato que Gélica lhe enviara. Era bela toda aquela mocidade, toda a fortaleza que ressaltava do aspecto, ao mesmo tempo meigo e forte, de Rodolfo. Que fina barba, que pele lisa e cetinosa! Como devia ser bom tocá-lo, fazer-lhe carícias, receber um beijo dos seus lábios frescos! «Ah! Gélica, Gélica! Como és cruel na tua carta, como serás ditosa na tua vida futura! Como eu te amo e te invejo!» - pronunciou numa prostração dolorida, com os olhos rasos de água.

E por uma natural associação de ideias, lembrou-se de todas as amigas de infância!... As que tinham casado, haviam-no feito com homens novos, que ao mesmo tempo podiam ser maridos e protectores, companheiros e confidentes. Só ela, por uma ambição medíocre e insensata, se encontrava na excepcional conjuntura de queimar o seu sangue, a sua mocidade tão gabada, no contacto de um velho amoroso e ciumento, um trôpego de bigode repintado e chinó. As suas amigas estavam sendo, neste momento, objectos de inveja ilimitada, da raiva cruel que lhe absorvia todas as ideias! As grandezas, a felicidade, que, presumiam, ela teria encontrado, aos vinte e cinco anos, na fortuna e alta posição de seu marido, eram um escárnio e uma mentira. Os que lho diziam, mentiam! Ela não sentira, e perdera para sempre, o receio infantil, vaporoso e encantador, que Angélica manifestava ter do seu amado, naquela pérfida carta que tinha na mão! Em todo o seu ser, bramia, como um latido de cães, a repugnância que lhe inspirava o general com as mãos frias e o chinó!... Toda a sua vida tivera repugnância pelo chinó... Como era, pois, que se encontrava casada com um homem assim?!...

Josefa, olhando sem pestanejar os móveis, as paredes, o tecto do seu boudoir, tinha o aspecto de uma desvairada. Sentia dentro de si um turbilhão de coisas a magoá-la. Crispava os dedos com movimentos de histérica! Afastava-se mentalmente de alguma coisa que a sua imaginação lhe representava como repelente, algum horrendo sapo! Ah! falsas conveniências! Ah! juras sagradas proferidas diante do altar, na presença de tanta gente!... Nenhuma dessas vaidades que a alta posição de seu marido lhe satisfazer fora compensação... Só depois de passar assim meia hora numa espécie de sono confuso, é que readquiriu a compreensão dos seus deveres, assenhoreando-se da vontade. Levantou-se, foi abrir uma janela, porque se sentia abafar! Acalmaram-se-lhe os nervos irritados, voltou-lhe a sua ironia triste, a sua melancolia... Da pequena secretária de charão, tirou papel, escolheu uma pena... Ia responder a Angélica, agora que se sentia raciocinadora e fria!...

Com letra miúda e pausada, principiou:

Minha boa Gélica:

Que feliz me tornou a tua carta! Bem sabes que sempre sofri com as tuas dores, que sempre gozei com os teus prazeres. Isto já vem das nossas intimidades do colégio, quando as outras se riam, por nos verem sempre abraçadas! Espero beijar-te antes de ires para Inglaterra. Teu marido não há-de ser tão mau e tão egoísta, que te queira só para ele, excluindo do teu excelente coração todas as amizades verdadeiras, ternas e afectuosas!... Tu podes vir a Lisboa tomar o vapor e demorar-te aqui, pelo menos, oito dias, antes de embarcarem. Atendendo às preocupações do meu marido, e a esta maldita política, que tão pouco me deixa gozar da sua companhia, não estranhes que eu te faça o pedido de vires despedir-te de mim a Lisboa, quando o razoável seria que eu partisse para o Porto a assistir à tua festa. Mas não posso, crê que não posso. Como tu és ditosa em não escolheres um marido político! Talvez penses que ser mulher de um ministro é coisa invejável! Não; amor, não é. Um marido que seja político, é o pior que se pode encontrar. A gente sente-se um dos atavios do grande homem, uma circunstância conveniente na sua vida complicada! Não digo isto a respeito do meu general, porque dificilmente se encontrará esposo mais assíduo, terno e amante. Até chega a ser demais! Quantas vezes me vejo na necessidade de lhe mostrar mau modo, para que me deixe e me não leia os seus projectos de reformas do exército com que anda entusiasmado! No outro dia era uma coisa em que se tratava de diminuir o peso das barretinas. Ora que tenho eu com isso! Muito ri depois com o barão de Cerdeiral, um nosso amigo, galante rapaz, com imenso espírito, que comentou engraçadamente esta preocupação de meu marido, em me querer envolver nos assuntos do seu ministério!...

No entanto, este esposo é o meu sossego e a minha ventura. Não há nada como ter um marido de quem se não possa ter ciúmes! É a vantagem, - e uma grande vantagem! - dos casamentos com homens de certa idade. São fiéis, submissos, assíduos, não pensam senão em nós, não falam senão nos nossos encantos... Podemos dormir tranquilamente sobre os dois lados, que não teremos esse terrível pesadelo do ciúme que, numa mulher nervosa como eu sou, formaria um verdadeiro inferno. É uma das preocupações que, a teu respeito, me assaltou depois de ler a tua ingénua carta. Não sejas ciumenta, Gélica, por Deus, não sejas ciumenta! Olha que então faltar-te-há toda esta tranquilidade, esta minha paz languescente, que é um benefício incomparável. Mas, poderás tu aceitar o meu conselho, tu que esposas um homem de vinte e sete anos, no ardor da vida, dos entusiasmos e dos desejos?! Pela tua carta, parece-me que não, e se assim suceder lamento-o, porque terás dias verdadeiramente amargurados. Um marido moço deve ser uma infelicidade superior a todas, se um dia imaginamos que ele possa amar outra mulher! Não se pode comer, nem dormir, nem tocar piano com prazer... De todos os lados hão-de surgir motivos, que a imaginação engrandecerá, anunciando infidelidades eminentes. Toda a mulher formosa, cortejada por esse encantador marido, há-de parecer uma inimiga, uma rival. Tu, por causa do teu Rodolfo, podes ainda sofrer muito... O bem-estar, a alegria dos outros, torna-se suspeita e arrelia quando a gente tem ciúmes de seu marido. Deve ser um tormento superior a todos. Por isso, Gélica, recomendo-te grande frieza de ânimo e que imponhas a ti mesma a obrigação de amar pouco teu marido, para o poderes gozar muito e por muito tempo. Estou a sangue frio, como vês. Apoquento-me antecipadamente com a triste perspectiva de ciúmes futuros, pois a tua carta, minha querida, me faz recear que apareçam. O teu Rodolfo, que hoje não vê outra coisa no mundo senão a sua Gélica, que só aspira a viver todos os momentos a seu lado, daqui a um ano poderá aborrecer-se de ti, procurar uma amante com quem despenderá mais dinheiro do que com sua mulher. São assim todos os maridos novos que eu conheço. O teu poderá ser uma excepção, mas é de recear outra coisa. Acautela-te. Tu és ingénua, inexperiente e sobretudo amante. Vê-se que fazes do casamento uma ideia sublime... Imaginas um mar infinito de venturas... Tudo isto devia ser, mas não é! Passado o primeiro fogo, que eu senti como tu, reconhece-se que a vida, depois de nos unirmos a um homem, é mais aborrecida e menos variada do que em solteira. A gente chega a arrepender-se de ter perdido tantas ilusões para nada...

Não quero de modo nenhum dizer que tu não tenhas sobejos motivos para idealizar o futuro, esse futuro que se apresenta à tua imaginação com infinitos encantos. Rodolfo, segundo a pintura entusiasta que dele me fazes, e mesmo pelo retrato com que a tua amizade me galardoou, é muito parecido com o barão de Cerdeiral. O barão também é loiro, entusiasta, galante, primorosamente educado. Entende de música, de pintura, de bailes, de caça, de todas as coisas que tornam a vida alegre. De mulheres diz coisas que ainda não ouvi a ninguém! Que admira!... Teve a grande escola de Paris, onde viveu bastantes anos. Um marido assim como o barão e como há-de ser o teu Rodolfo,

compreendo que se adore, que se deseje, que se sofra por ele um inferno de ciúmes. Compreendo-o; mas não o desejo para mim, que sou muito egoísta e perdi o fogo dos primeiros entusiasmos. Em todo o caso, minha querida, ama com toda a ternura o teu Rodolfo: é necessário que pagues o tributo de todas as raparigas novas e amorosas, gozando o entusiasmo da paixão... Bem basta o que o futuro reserva de desenganos. Mais tarde chegarás a esta paz feliz em que eu já vivo, encontrarás no sossego a verdadeira felicidade e firmeza na vida. É pena que esta só se possa obter à custa da amarga experiência.

Se, como te peço, não puderes vir a Lisboa embarcar, suplico-te que me escrevas depois do teu casamento. Dá-me uma minuciosa conta dos teus primeiros tempos de noiva; verei se são exactas as preocupações que me assaltam agora por tua causa... Estarei no caso de M.me de TEstorade, cuja norma no casamento era: beaucoup de philosophie etpeu d’amour? Talvez. Olha, lê, de Balzac, as Mémoires de deuxjeunes manes, que é o livro célebre, onde vem o precioso conselho que te envio.

Adeus, boa e querida Gélica. Sabes quanto te adoro, e espero que um marido rapaz não terá o poder de furtar uma amiga à sua amiga. Se isto acontecer, mais um motivo para não gostar dos maridos novos, que podem desfazer amizades verdadeiras, como a nossa.

Mil beijos da tua adorada Finha

  1. - Rasga esta carta. Não a deixes ler ao teu noivo. Pode julgar que me sinto namorada do barão de Cerdeiral, o que não é verdade. Além disso, pode também não gostar dos meus gracejos acerca dos maridos rapazes. Tudo o que disse é brincadeira e Rodolfo há-de desmentir o meu pessimismo. Mas não lhe deixes ler a carta. Proíbo-to.

Toda tua Finha Josefa encontrou-se mais tranquila depois que escrevera. Tinha consumido o seu negro humor. Dobrou o papel com todo o vagar, tendo nos olhos visões tristes, melancolias esbatidas num céu cinzento!... Fechou o sobrescrito azul pálido. Chamou com um toque de campainha a sua criada.

- Para o correio - disse simplesmente; e recostou-se de novo na poltrona de seda.

 

Numa quinta-feira de manhã, Salústio Nogueira recebeu um bilhete familiar da condessa de Frazuela, convidando-o para o jantar desse dia, em que reunia alguns dos seus amigos mais íntimos.

- Isto corre às mil maravilhas! - exclamou vaidoso.

Com gesto enfático, apresentou a Angelina o pequeno cartão adornado duma coroa, acrescentando:

-Lê!...

A filha de Pedro Alves olhou confundida! Salústio, a seus olhos, ia tomando proporções de ente superior, do qual se sentia cada vez mais afastada. Principiou quase a temê-lo, contemplava-o mentalmente, como pessoa que vivia fora do seu peito!...

Com a adivinhação natural das almas simples já compreendia que, naquela existência ambiciosa, ela não era mais que um acidente. Lembrou-se da sua filha, que sonhava quietinha num pobre berço de roupa bem lavada. Viria a ter um pai famoso, a pobre inocente! No futuro talvez lhe desse seda para vestidos e brilhantes para as orelhas, porém a ela é que não tocariam tais grandezas... Paciência; contentava-se com que a pobre inocente as gozasse. Tal consideração obrigava-a a não perturbar com gritos plebeus a marcha triunfal do seu amante! Com o instinto próprio da sua boa índole, neste dia em que Salústio foi convidado pela condessa de Frazuela, Angelina mostrou-se mais dedicada e submissa do que nunca, apresentando-se alegre e ajudando-o com palavras de carinho na ascensão da sua vida. Com o desinteresse dos ânimos simples e generosos, escolheu a melhor camisa para ele vestir, procurou-lhe uma gravata bem engomada, escovou-lhe cuidadosamente a casaca, limpou as botas de polimento, repassou o chapéu com a escova fina... tudo para que Salústio se apresentasse o melhor de todos esses fidalgos com quem ia jantar.

O conde de Frazuela estava no seu gabinete, quando lhe anunciaram o deputado. Mandou-o entrar para ali, recebendo-o como amigo entre os seus papéis e livros. Veio recebê-lo ao meio da sala estendendo-lhe a mão.

- Conversemos - disse designando-lhe o sofá.

Num tom familiar, a cara alta, Salústio perguntou:

- A senhora condessa?...

- Bem... Daquela sensaboria do fígado tem passado melhor...

Ofereceu-lhe charutos, puros havanos. Tinha-lhos mandado o cônsul português na ilha de Cuba, o Teotónio Mendanha. Fora ele que lhe obtivera o despacho para aquele rendoso lugar...

- Ah!... O Teotónio Mendanha!...

- Conhece?... - perguntou o conde.

Tenho ouvido. Dizem ser rapaz de altos méritos... Grande escritor.

- Protejo-o há muitos anos. Uma recomendação de minha tia Quadros.

- A senhora marquesa...

- Sim. Lá vive com as suas nevralgias... Sempre alegre e risonha, apesar da idade. Não a conhece? Não o apresentei ainda?

- Não tive essa honra... - respondeu o deputado submisso.

- Aparece muito pouco. Vive numa sociedade de parentes. Em tempo influiu seriamente na política, recebendo todas as semanas o corpo diplomático e aconselhando os homens de Estado portugueses. É uma senhora de rara cultura...

Salústio, acendendo com aparato o charuto, que o conde lhe oferecera, acompanhava o diplomata com expressão de assentimento a tudo quanto ele dizia. Recostou-se, num à-vontade de inexperiente, com o fim de se mostrar habituado a esta vida de comodidades e molezas. O Frazuela levantou-se indo até à janela, donde se via o Tejo. O seu tronco largo recortava-se no ar como num cartão pardacento. De costas para o deputado, que se conservara no gozo da sua grandeza ocasional, disse:

- Sabe? Falámos ontem muito de si.

- Não em mal... penso eu - observou, como gracejo.

- Não havia de quê. Foi em casa do presidente do conselho, que é seu amigo.

- Oh!. - exclamou agradecido.

- O marquês é experimentado. Conhece muito os homens. Sabe-lhes dar o valor... E voltando-se para Salústio, a sua figura tornou-se mais afirmativa:

- A diplomacia é uma grande escola. Nesta vida que o marquês e eu temos levado, trata-se com muito insignificante; mas também se encontram homens de verdadeiro mérito, que nós os velhos temos obrigação e até necessidade de empurrar na estrada que todos percorremos.

- O marquês tem-me distinguido. Sou-lhe obrigado.

- Dos rapazes novos, é você um dos de melhor futuro. Concordámos ambos nisso. Salústio quis duvidar. Desencostou-se, fazendo uma reverência e disse:

- Os bons olhos... - agradeceu.

- Falo-lhe sério, pode crer. Você tem talento e tem chance. Ou eu sou positivamente um tolo, ou não tardará muito em que o veja encarregado de uma pasta.

Esta afirmação fez estremecer de júbilo o deputado. Não a esperava tão cedo e desta boca autorizada. Mas retraiu-se, fingiu que duvidava com o fim de provocar razões...

- Ainda não. Há outros mais antigos...

O Frazuela adiantou-se, acrescentando num tom sentencioso:

- Tenho trinta anos desta coisa da política. Nasceram-me nela os dentes.

Salústio, apesar do esforço que fazia para esconder em si mesmo a vaidade que o enfartava, parecia satisfeito. Brilhavam-lhe os olhos, os beiços tremiam-lhe num contentamento recôndito. Enquanto o diplomata pronunciava a boa nova, que era o eco dos seus pensamentos próprios, conservou-se sereno, mas oprimido. Quantas vezes não dissera coisas iguais a Angelina, que o escutava absorvida na sua ternura da amante que nele presumia um marido!... Agora eram-lhe confirmadas as risonhas esperanças, por um íntimo parente e amigo do presidente do conselho! Já não era uma hipótese longínqua, podia em breve e muito breve tornar-se em realidade deslumbrante, esse carinhoso e opulento sonho!... Não perturbasse ele, com palavras inconsideradas, as combinações dos outros. Era deixar-se ir na murmura corrente, que o levaria ao destino ambicionado.

O conde, depois de passear ao longo da sala, parou junto de Salústio dizendo-lhe com a mão direita apoiada no ombro esquerdo:

- Pois é o caso: você tem talento, mas também tem muita sorte. E nesta vida, nas coisas mais simples, como nas mais complicadas, tudo é uma questão de chance e nada mais.

- Sim, isso de chance não é mau - pronunciou Salústio vagamente, sem atingir por completo o ponto exacto para o qual se dirigia o raciocinar do Frazuela, que acrescentou:

- Ainda não sabe o melhor!

- O melhor!... - repetiu o deputado mais interessado.

- Sim, o melhor. É o que eu digo, a fortuna é caprichosa como mulher bonita. Donde menos se pode esperar é que aparece o auxílio de que se precisa. Tem o meu amigo a seu favor duas das mais valiosas opiniões da nossa terra. A do marquês e a...

- ...d’el-rei?!... - completou avidamente Salústio Nogueira. O par do reino sorriu-se. Que diabo de lembrança!...

- Não, homem. A de Leôncio de Mértola.

- Ah! o pai de Palmira!...

- Sim, o pai de Palmira! Olhem o maganão que pensa em Palmira...

- Não, meu caro conde, não há absolutamente nada - respondeu circunspecto. - Dou-lhe a minha palavra: não há absolutamente nada.

- Creio bem - disse o Frazuela com o seu ar de céptico. - Não haverá nada com ela, mas há alguma coisa com o pai, o que é melhor. Quando se pretende a filha de um homem, como Leôncio, o pai é que se deve namorar. Compreendo. Você tem namorado o pai?

Salústio riu-se com franqueza. Pesava-lhe que a segunda opinião, a seu respeito, não fosse de el-rei, o que o lisonjeava; porém, a de Leôncio, também não era má...

- O caso tem uma explicação natural - disse o deputado, aproximando-se do Frazuela. - Desde que respondia a Agualonga, defendendo o comércio...

- Basta - cortou o par do reino, juntando às razões do deputado, a sua adesão. - Você é novo; mas já é mestre. Percebo. O seu discurso... Lembro-me perfeitamente desse discurso. Minha mulher falou-me nisso.

O pretendente de Palmira sorriu. Estava inteiramente preso. Acreditou que dentro em si havia qualquer coisa de superior e de arguto, para dominar os homens.

- Pois a gente não deve perder as ocasiões que se oferecem. Ele estava na galeria... eu tinha sido apresentado... conheço-lhe as ideias...

- Bem jogada - continuou o diplomata. - É a primeira vez que ouço Leôncio de Mértola fazer o elogio de um rapaz em quem se possa presumir um candidato ao grande dote de sua filha. Evita-os como os lobos evitam as fogueiras; o menos que lhes chama é vadios e pelintras. De si disse ontem à noite, ser homem sério e de futuro. Não precisa mais para conseguir este soberbo casamento. A filha é submissa, excelente rapariga.

Salústio abriu-se. Desejava realmente a mão de Palmira, que lhe daria a independência social e a consideração de toda a gente; mas não sabia como pudesse consegui-la. Nunca falara a ninguém nessa carinhosa ambição, arreceava-se dum mau êxito. Leôncio tinha a soberba dos homens dinheirosos e ele temia-o, apesar de desde muito, lhe parecer que o opulento negociante o tratava com certo favor. Homens como este gostam de cordura e tino e ele tratara de se mostrar cordato e prudente. Além disso, como não era nenhum pedaço de asno, podia servir ao capitalista para as suas empresas ambiciosas no que elas dependessem da política. Era pobre, compreendia a força que lhe daria a riqueza, por isso caminhava com cautela, para não ter algum grande desgosto. E num crescendo de aspirações exclamou num arranque de sinceridade:

- Ah! meu caro conde! Seria oiro sobre azul, este casamento! Deixem-me meter esta mão na burra de Leôncio e não tenham pena de mim! Hei-de ser o que quiser, chegar onde a minha fantasia me levar. O dinheiro é a mola real do mundo! É-o hoje, como o foi sempre - desabafou. - Demais a mais eu gosto dessa encantadora menina, que acho imensamente simpática - concluiu.

O par do reino, sorridente e amável, com as mãos nos bolsos, fixou o deputado e louvou-o:

- Muito bem. Sabe muito da vida, vê-se. Tudo isso é assim, mas ignora certamente que para realizar o seu plano eu lhe posso servir. E servir de muito, creia. Tenho para o caso valor especial...

Encararam-se mutuamente com aspectos complacentes. Salústio queria ouvir o conde, um homem considerado!... Porém, como ele ficasse silencioso coordenando ideias, o deputado, cheio de impaciência, exclamou:

- Oh! se pode!... O que é que Vossa Excelência não poderá!...

O Frazuela concluiu reservado:

Pensarei em si. O princípio da fortuna de Leôncio foi na administração das vastas propriedades de minha tia Quadros, no Alentejo. Enriqueceu sem roubar, dizem. Deve ser um dos homens de mais talento no globo!

E sentando-se na ampla cadeira de espaldar, que estava em frente da secretária, continuou falando e brandindo a faca de marfim, como uma espada de criança:

- Vou colaborar no seu futuro, está dito. Meterei nisto minha tia Quadros, para saber o que pensa de si o velho. Tenho palpite em que é o preferido do pai de Palmira. Conquistou aquela montanha, e decerto não será esta a menor vitória da sua vida.

Esta voz desleixada do conde tinha entoação persuasiva. Era atraente este espírito educado nas finas conversas das sociedades cultas, lá de fora. Modulava as palavras com esmero, tinha inflexões que por si esboçavam pensamentos, que não cabem na construção raciocinada da linguagem comum. O deputado via-se verdadeiramente rendido ao império deste homem, que de peito amplo, apresentando as ideias com desdém, o envolvia numa atmosfera de grandezas, que Salústio apenas presumira. Sentia aproximar-se dele a caprichosa fortuna, entregando-se-lhe, como mundana fácil. A seus olhos, o Frazuela adquiria a grandeza dos personagens de teatro criados por artistas, potentes individualidades, que com um só gesto dominam os factores da existência. Até se admirava que um homem sempre envolvido em mundanidades galantes tão bem conhecesse os enredos simples da vida trivial. O diplomata continuou no mesmo tom indolente:

- Pois, meu caro, faz um óptimo casamento. Dotes como o de Palmira, encontram-se poucos. Tivesse eu hoje a fortuna de Leôncio, que seria neste país quanto quisesse...

E com os olhos fixos no tecto, como quem vai resumindo um assunto, continuou devagar, separando as frases:

- Você... rapaz novo... com talento... metido na política... tem ambições... Pois o dinheiro facilita-lhe tudo, facilita. Conheço muito o país. Apesar de andar vinte anos pelas chancelarias da Europa, ou talvez mesmo por isso, conheço este país como os meus dedos. Se eu tivesse hoje a fortuna e me viesse à cabeça fazer a república, é que a fazia...

E emendou pressuroso:

- De modo nenhum quero dizer que não consiga chegar aos cargos mais eminentes, só pelo valor da sua inteligência! Porém... é muito moroso. É-se deputado dez anos... Durante esse tempo necessita de andar de rastos diante de todos os chefes, para não perder a cadeira. Às vezes é quase indispensável servir-lhes de moço de recados às senhoras... Para conservar o seu nome entre o dos candidatos a ministros, precisa de fazer todas as semanas um discurso, como já lhe tem acontecido, acerca de todos   os   assuntos,   fingindo-se   sempre   competentíssimo.   Isto   é extraordinariamente complicado e homens de verdadeira inteligência têm sido anulados e eliminados das secreções desta política reles. Você está na situação de ser ministro brevemente, porque tem inesperadas simpatias; porém, se quer a coisa resolvida de um salto, faça entrar no problema Leôncio. Verá. É um conselho de amigo. O marquês considera enormemente o negociante, tem dele as naturais dependências dum homem sem fortuna...

Indo em direcção à janela, voltou-se rapidamente para dizer:

- E não deixe de cultivar aquela Josefa Lencastre, que é mulher encantadora! Tem influência pelo marido.

Salústio, com o espírito bem-disposto e benévolo, por causa da fortuna que via sorrir-lhe, não queria considerar as coisas de modo tão descrente. Havia alguma coisa de verdade, mas também havia pessimismo nas palavras do Frazuela. Conhecia muitos homens em Portugal que tinham subido só pela sua inteligência, só pelo seu valor. E citou-os:

- O Fontes, o Ávila, para não falar senão nos mais velhos, foram ministros muito novos.

E levantando-se para falar de pé, a sua palavra adquiriu vivacidade ao pronunciar estes nomes de alta cotação. Os rudes combates da palavra, os brilhantes torneios da tribuna parlamentar, é que lhes tinham dado as pastas. Foi um período memorável esse que teve a sua fase mais brilhante com o advento da regeneração. Salústio conhecia-o bem, lera com interesse os diários das câmaras desse tempo, onde se encontravam os discursos de época tão agitada quanto fecunda em resultados para o progresso. Aquilo era atirarem-se uns contra os outros, como leões! Rodrigo, Garret, José Estêvão, o Saldanha, o conde de Tomar... e tantos outros, eram verdadeiros atletas. Herculano não sabia falar, o

que era uma pena; mas também andou metido na contenda. O primeiro discurso do Fontes, em 1848, quando tinha apenas vinte e nove anos, defendendo a sua eleição por Cabo Verde, deu logo a medida do extraordinário parlamentar que viria a ser. Em 52 fez a sua defesa dos actos da ditadura de que fizera parte, confirmou plenamente o conceito de que já gozava. Tinha então somente trinta e três anos. Ávila fora ministro antes do Fontes, com o conde de Tomar em 49. Conquistou a eminente posição que tinha no país com talento, unicamente com talento. E ao referir, numa verbosidade vibrante, esta página da história constitucional portuguesa, o seu coração transbordava de ambições, tinha gestos imponentes e dominadores.

O par do reino disse-lhe com desdém:

- Conheço essas coisas melhor que o meu amigo. Andei metido nelas. O marechal era um despeitado, e uma ventoinha. A rainha uma orgulhosa intriguista. Fontes foi um mero acidente nessa comédia que se chamou regeneração. As coisas lidas fazem sempre diferença das coisas presenciadas.

Eu presenciei as coisas, meu caro.

- Não... foi uma grande época!

- Sim... foi uma grande trapalhada.

E falou longamente diante de Salústio, que o escutava atento,apontando incidentes desconhecidos dos historiadores. Andaram nisto mulheres e dinheiro. Pouca seriedade. Uns vendiam-se pelas saias, outros compravam-se a poder de contos de réis. Toda a política se resumia nestas palavras: mulheres e dinheiro. Salústio era muito novo e via os acontecimentos a distância. O mundo o desenganaria.

- Isto é tudo uma súcia! Você não imagina - resumiu.

- Os homens não são anjos - defendeu Salústio, para se mostrar já conhecedor de todas as falsidades, apto para todas as corrupções.

- A quem o diz! E até já me parece que são grandes demónios, mas deliciosos e encantadores demónios, quando servem os amigos. Aceitemo-los assim, e vamos vivendo com eles e como eles -disse sorrindo.

Depois, num falar íntimo, referiu-se a coisas da sua vida. O deputado, aceitando esta familiaridade do conde, ouvia-o de pé, frente a frente, como um camarada. Escutava-o sorrindo inteligentemente. Interessava-o esta vida opulenta, gozada em diversas cortes da Europa, entre faustos e dificuldades de dinheiro. Quem lhe dera poder seguir igual carreira!... Falava, porém, muito mal o francês... A não ser isto, sentia-se capaz de ser ministro plenipotenciário, de gastar duas grandes fortunas como Frazuela, contanto que gozasse a vida, como ele a gozara. Afinal reconhecia que o diplomata era um homem bom, franco e amável, revelando nas suas palavras apenas simplicidade de perdulário. Estava convencido de que tinha diante de si um destes indivíduos que são vítimas do próprio temperamento. O par do reino continuou dizendo:

- A nação deve-me muito, creia. Representei-a melhor do que ela merece, em Bruxelas, em Florença, em Viena, Paris e Londres. Não há maior desgraça do que ser, nesse grande mundo lá de fora, ministros de uma nação pequena, desconhecida e pobre como Portugal, não há.

O diplomata nunca tivera o estoicismo e a coragem de fazer má figura, como acontecia a tantos dos nossos representantes. Limitar-se ao que lhe dava o governo, era quase viver na medíocre situação dos criados dos outros ministros. Quisera ombrear com os embaixadores das maiores potências e tivera de o fazer à sua custa. A vida, nas grandes cidades europeias, é cara. Aqui não se imagina: quando em Lisboa pode a gente passar com três ou quatro contos de réis, lá são precisos quinze, vinte e mais. O luxo é caríssimo. Não se faz uma ideia! A palavra luxo entre nós tem um sentido pelintra e acanhado. Ele sempre representara faustosamente o seu país, nunca se deixara humilhar... A um baile respondia com um baile, a um jantar diplomático com outro jantar diplomático melhor. Em Viena fizera época. Em Paris era conhecido por todo o alto mundo, tanto da finança como da política. Em Portugal sabiam-se perfeitamente estas coisas. Obsequiara imenso os nossos homens políticos, quando lá apareciam. De todo este viver resultara grande prestígio para Portugal e muitos dos tratados vantajosos que fizera se deviam aos bailes e jantares em que fora pródigo.

- Por isso -   resumiu - não é muito que o país me indemnize. É mesmo de absoluta justiça. Uma concessão qualquer nesses vastíssimos incultos africanos   que possuímos, para um grupo financeiro que eu organize, é do que preciso. Este problema tenho imperiosa necessidade de o resolver brevemente.

Como Salústio ficasse a olhar para ele, silencioso, com o charuto entre os dentes, o conde interrogou-o:

- Não acha, que o país me deve uma indemnização?

- Decerto! - respondeu o deputado convencido. - Deve e há-de dar-lha - rematou.

- O marquês conhece a situação. Está de acordo. Há mesmo mais Alguém que está de acordo. Salústio olhou para o diplomata, com brilho expressivo na pupila arguciosa. Percebera e sorrira sem vanglória, imitando o Frazuela na sua superioridade de considerar os homens e as coisas. Ter na vida a concordância desse precioso Alguém, era o limite das suas ambições!

- Pois está claro. Se todos estão de acordo... é coisa concluída - acentuou com o propósito de se oferecer...

- Mas necessitamos de estudar o modo... Isto é um país dos diabos. Não se fazendo as coisas com muito jeito saltam-nos em cima, e pronto, tudo gorado...

- Sim, os jornais...

- Não são só os jornais, são todos os invejosos. O que pretendo (ainda não tenho o assunto suficientemente estudado) é uma concessão de linha férrea, ou terrenos no ultramar... qualquer coisa dessas que possa ser considerada serviço público a bem do país. Dourar a pílula é necessário, senão amarga-lhes e não engolem. O meu grupo de banqueiros franceses anda com vistas sobre Moçambique. Há lá riquezas escondidas, e estando escondidas não servem para ninguém...

- Então, aí está... - concordou Salústio.

- Sim, mas é necessário estudar, ver as condições em que me pode convir. E principalmente é indispensável ter no ministério da marinha homem meu, que seja de confiança...

Fabrice apareceu a anunciar que a senhora condessa e seus convidados esperavam monsieur le compte et monsieur. O Frazuela concluiu o que tinha a dizer apressadamente, em substanciais palavras, como as fampost-scriptum, numa carta à pressa:

- Não sei os termos em que estará o marquês com os colegas, mas parece-me iminente uma recomposição ministerial. Precisa-se de gente nova. Na África está a nossa salvação. O presidente devia chamá-lo a si para a marinha. É a pasta dos homens desembaraçados, dos homens de iniciativa.

 

No dia seguinte, uma sexta-feira, apesar de haver partida em casa da Águas Santas, a condessa de Frazuela não saiu à noite. Esperava as suas íntimas, mrs. Cross e madame Trèvan que conhecera em Spa, havia seis anos. Era a segunda vez que madame Trèvan vinha visitar a sua amiga a Lisboa, viajando sempre em companhia de uma velha criada e de um escudeiro alemão. Estava hospedada no Hotel Bragança.

O conde despediu-se das visitas de sua mulher, porque tinha de falar ao ministro da justiça na transferência de um parente, juiz em Évora, que apetecia uma das varas de Lisboa. E como fosse pelo Grémio, para ver os jornais estrangeiros, encontrando-se ali com Salústio Nogueira, perguntou-lhe num relance:

- Onde se poderá encontrar o Carlos de Mendonça?

- Em casa da viscondessa de Águas Santas certamente, meu caro conde.

Foram juntos. Cerca das onze horas, subiam ambos lentamente a Rua de S. Bento, quando se encontraram com o visconde da Carregueira, juiz do Supremo, e com Júlio Clóvis, que levavam idêntico destino. Por isso, entraram os quatro ao mesmo tempo no salão da viscondessa, cuja mobília em damasco carmesim e paredes em papel cinzento com frisos doirados denunciavam pretensões de elegância. Ao fundo, no sofá presidencial, mesmo em frente da porta, sorrindo amavelmente aos que iam chegando, via-se logo a dona da casa, senhora idosa, mas com artifícios de juventude na expressão. O Frazuela, com o seu hábito de homem do mundo, primeiro se dirigiu a ela, curvando-se, beijando-lhe a mão e dizendo:

- A Gabriela manda-me como seu emissário para explicar o motivo porque não pôde vir. A maldita enxaqueca... A viscondessa sabe...

- Tão poucas vezes me vem ver a amável condessa! Nem por isso deixo de a ter sempre no lugar do coração reservado às melhores amigas.

Estendendo a mão aos companheiros do Frazuela acrescentou:

- Já hoje nos vimos, visconde da Carregueira. Com V. Ex.a, senhor conselheiro Júlio Clóvis, é que tenho de falar.

E para Salústio familiarmente:

- E este nosso Benjamin Constant, que não há quem lhe tenha posto a vista em cima, há três dias!...

- Os trabalhos da câmara... - desculpou-se o deputado.

- A propósito: gostei da sua réplica de ontem. Li o extracto na devolução. Tomou-me aquele Agualonga à sua conta! Benjamin Constant teve Napoleão a combater, Salústio um deputado pelo Algarve!... - disse com ironia.

- Mas para termos Benjamin Constant, é indispensável uma de Stael!. - observou o Frazuela.

- Eu já não estou em idade, nem fiz a Corina; mas adoro o livro e a autora, meu caro conde.

- Bem respondido - aplaudiu o juiz do Supremo, revirando os olhos, sempre amoroso. Como vingança, acrescentou a Águas Santas falando para o diplomata:

- E em vez de Talleyrand temos Frazuela, que vale o mesmo.

- Bravo! - aplaudiu o Carregueira, pegando na mão da viscondessa. - É forte em história. Se não fez a Corina é porque não quis.

- Delicioso, ser vencido pelo espírito de uma senhora! São vitórias que enobrecem e distinguem aqueles sobre quem se ganham - pronunciou o diplomata.

Neste momento interferiu Evaristo de Melo, que era brusco e desatencioso:

- O seu afilhado, senhora viscondessa, lá vai para a África no dia 5. O Frazuela observou, fingindo voz admirativa:

- Então mandam-lhe para o degredo um afilhado?!...

A viscondessa esclareceu:

- Não, bem pelo contrário. É um favor do ministro. Empregou-mo em Angola.

Entrou, nesse momento, um rapaz tímido, modestamente vestido de preto, com sobrecasaca comprida de exemplar funcionário público.

- Venha cá - chamou a dona da casa. - O senhor conselheiro Evaristo de Melo acaba de me anunciar o seu despacho. Pode-lhe agradecer, senhor Mendes.

E deixando o empregado ultramarino, curvado diante do ministro, que lhe estendera a mão benevolente, a Águas Santas voltou-se para Salústio, aproximando o busto para dizer em meio segredo:

- Falou ao marquês?!

- Prometeu que antes de oito dias o homem seria transferido. Mas porque o não transferiu imediatamente? Explicou-lhe tudo bem?

- Expliquei tudo perfeitamente.

- Nesse caso não compreendo! - disse levantando os ombros. - Tenho de ir lá amanhã... E vendo passar na sala o ministro das obras públicas, ordenou a Salústio:

- Diga ao Júlio Clóvis que lhe preciso falar.

O ministro veio logo. A viscondessa indicou-lhe um lugar.

- Sente-se aqui.

- Estão os parceiros do whistLà espera...

- Não o demoro...

Agarrou-o com energia pela manga da sobrecasaca, atraindo-o, com a sua voz de confiança perguntou:

- Aquele negócio da igreja, não se resolve?

O ministro não sabia. Eram tantos os pedidos de subsídios para igrejas em ruína, que se tivesse de os satisfazer todos, não chegaria a dotação do seu ministério! Parecia-lhe espantoso que as cóleras divinas estivessem tanto contra os templos católicos portugueses! Decerto não poderia haver mais raios no céu, para escangalhar campanários!...

- Talvez o Ente Supremo - observou espirituosamente Júlio Clóvis - se não encontre à vontade assim fechado. Diderot disse: Élargissez Dieu! É com isto que eu responderei aos que me pedirem, daqui em diante, subsídios para torres e para telhados de igreja.

- Pois responda que eles também sabem como se abandona um governo. Só lhe lembro que é o círculo de seu primo!... Não compreendo tantas hesitações, meu caro. Isso é o que se chama não saber fazer política.

O ministro cruzou energicamente os braços:

- Onde quer a senhora que eu vá buscar o dinheiro? Não há cinco réis em cofre. Toda a verba orçamental foi-se, como um lambedor. Mais que houvera!...

E retirou-se de um modo brusco. À D. Augusta, mulher do ministro da justiça e à D. Cesária, a colega da marinha, que se aproximaram neste momento, disse a viscondessa:

- Estes seus maridos não têm expedientes. Talvez ignorem que o meu único interesse seja ajudá-los! É um tormento! Eu faço por um lado, eles desfazem pelo outro! Ninguém os entende!

- O que me admira, é como a senhora viscondessa tem cabeça para todas estas coisas! observou D. Augusta.

- Que quer, minha querida!... Eu, viúva de ministro e filha de ministro, havia de conservar estes hábitos. Gosto muito de servir; mas, às vezes, vejo-me assaltada de tantas dificuldades, que me chego a aborrecer.

- E eu?!... - disse D. Cesária. - Mas o Evaristo, a mim, não me faz nada, absolutamente nada do que lhe peço.

- O meu, a mesma coisa - esclareceu D. Augusta. - Ando, há um mês, a pedir-lhe para me despachar um escrivão e ainda não pude conseguir coisa nenhuma.

- Ah! isso de escrivão é muito difícil! Há pedidos da rainha! - advertiu a Águas Santas.

- Mas devia-mo fazer, porque é um meu primo...

- Então já compreendo - comentou com malícia a viscondessa. - Um ministro nunca deve despachar os primos de sua mulher, principalmente quando é nova e bonita, como a D. Augusta, a não ser para o Ultramar.

- Ora... não ponha nisto mau sentido, que não vale a pena. É um homem casado.

A viscondessa, então, falou com seriedade:

- A minha querida amiga não soube procurar a ocasião de pedir ao conselheiro...

- Ora... tenho experimentado tudo! - confessou, desconsolada, D. Augusta.

A tia de Josefa agarrando-a pelo braço, atraiu-a para lhe segredar ao ouvido qualquer coisa, que a fez sorrir...

- Ora, é que não o conhece. Não valem essas coisas... - insistiu a mulher do ministro. Neste momento aproximou-se D. Brites acompanhada de seu irmão D. Agostinho.

- Que estará a dizer esta querida viscondessa? Em toda a parte se conhecem os efeitos do seu bom humor - cumprimentou a velha fidalga.

E D. Agostinho inclinando-se:

- É a graça em pessoa. É a ninfa Egéria da situação, como disse ainda há pouco o nosso Salústio Nogueira.

- Que rosário de amabilidades! Todos os meus amigos, que me fazem o favor de vir a esta casa, são tão pródigos de elogios, que se eu fosse vaidosa... O que podem afirmar é que sou dedicada àqueles em quem deposito confiança... Nada mais... E é o meu dever.

Logo depois da meia-noite principiou a retirar-se muita gente. O sinal de levante foi dado pelo conselheiro Maurício Pontino, que, ouvindo no relógio do corredor a sua hora, fez um aceno de cabeça a D. Clementina, para que se preparasse, indo ele envolver num lenço de lã escuro a garganta doente, enquanto um criado o cobria com a capa antiga. Saíram também, ao mesmo tempo, as duas sobrinhas do marquês do Tornai, Lúcia e Florinda, acompanhadas da tia Juliana, viúva do general Trigoso. Palmira Freitas, que era seguida de seu pai, o capitalista Leôncio, segredou na escada a uma destas meninas, aludindo aos que ficavam:

- Que terá esta gente que fazer aqui até de manhã?!

- Ora... divertem-se, é o que é! - respondeu Florinda, desconsoladamente. - E nós aqui vamos para o aborrecimento da cama!...

Imaginavam estas inexperientes que, altas horas da noite, se passariam, em casa da viscondessa de Águas Santas, factos só experimentáveis por gente de vida saciada. Sabiam, por terem ouvido, que dali se saía de manhã, quando o sol brilhava magnificamente sobre Palmela. Que promiscuidade seria esta, a desoras, de tantos homens e senhoras conhecidas, que na vida comum se comportavam de modo circunspecto e comedido?!... Perdiam-se em conjecturas, em conversas íntimas, aventando opiniões extravagantes! Aquilo deviam ser liberdades defesas aos seus verdes anos. Oh! como é desagradável essa época em que, vendo-se considerada uma criança, a mulher começa a sentir desenvolver-se dentro em si uma amálgama de desejos indefinidos!

Na realidade, nessas faladas partidas da viscondessa de Águas Santas, depois da meia-noite só ficavam pessoas responsáveis pelos seus actos... Era Carlos Mendonça e sua esposa; Júlio Clóvis, um solteirão; o ministro da marinha e D. Cesária! O general Gonçalo, Josefa, o barão de Cerdeiral; madame Augustine Lagrant, uma francesa viúva, residente em Lisboa havia anos e a quem na sociedade chamavam madame Joujou por ser muito pequenina. Salústio Nogueira e Gabriel Besteiros eram assíduos nestas noitadas, bem como D. Agostinho, que tinha o hábito de se deitar tarde, e sua irmã D. Brites, que adormecia ao canto de um sofá, conservando-se ali, com a cabeça caída para o encovado seio, até que a chamassem. O Frazuela aparecia muitas vezes e demorava-se; a condessa, porém, procedia como as meninas solteiras, despedia-se à meia-noite. Eram personagens quase infalíveis D. Nicolas, um carlista ferrenho, que se exilara voluntariamente em Portugal; sua sobrinha Mercedes, formosa senhora de trinta e tantos anos, mulher de um indivíduo que negociava no México, uma apaixonada do boston e diziam que também do Dramond, secretário da legação francesa, que lhe preferia madame Augustine.

Nesta noite, findos os jogos de vaza, conservaram-se todos numa certa desocupação, à espera... A viscondessa de Águas Santas, no sofá presidencial, continuava cercada de homens a quem falava animadamente. Salústio Nogueira, que sabia muitas poesias de cor, recitou «O Desterrado» para D. Cesária ouvir!... A mulher do general Gonçalo escutava o barão do Cerdeiral, que lhe continuava a descrever os bailes das Tulherias, encarecendo-lhe Paris, o seu fausto, as grandezas do mundo imperial em que vivera. O conde de Frazuela, rindo-se à gargalhada do que lhe contava, em meio segredo, madame Augustine, exclamou alto, de modo que todos se voltaram:

- Mais, c’est épatant !.

Entraram no salão dois criados com bandejas, onde as taças de chocolate fumegavam. Cada cavalheiro procurou mostrar-se pressuroso e gentil, servindo as senhoras do seu grupo. O Cerdeiral, apresentando a chávena a D. Josefa, preveniu-a:

- Está muito quente.

  1. Agostinho, depois de entregar o chocolate a D. Mercedes, ofereceu-lhe bolos, esforçando-se por falar espanhol.

- Quer usted algo disto”? - perguntou.

No entretanto, um terceiro criado, na sala azul, ia preparando a mesa para o bacará. Cobriu-a com um pano verde, colocando em cada extremidade dois candelabros de seis lumes, que acendeu. A sala era sobre o comprido. Para o fundo havia escuridade e um amplo sofá, que convidava ao sono e à meditação dos desenganos da sorte, quando o dinheiro se acabasse. O criado ia de um lado a outro, trazendo cadeiras, que colocava simetricamente em volta da mesa. As paredes desguarnecidas davam a impressão de casa em mudança. Júlio Clóvis, aparentemente distraído, tinha vindo mais duma vez à porta, observar como o trabalho corria, e disse com bondade familiar ao criado: «Anda, João, avia-te. Já tomaram o chocolate...» O rapaz, magro e tresnoitado, assegurou com um sorriso dependente: «Quase pronto, senhor conselheiro. Em dois minutos pode-se começar a brincadeira!» E interrompeu o serviço para perguntar:

- E o emprego do meu irmão, meu senhor?

- Há-de-se arranjar... Mas anda com isso que é agora o essencial!...

Alguns baralhos de cartas foram colocados depois, sobre o pano verde. As chávenas vazias já estavam acumuladas na bandeja, sobre um bufete, como multidão de gente oprimida. O ministro das obras públicas, homem verdadeiramente perdido pelo jogo, disse em voz interessada e pressurosa ao colega da justiça:

- Vamos a isto?!... Chame essa gente, que são horas...

Sem nenhum esforço, tacitamente todos entenderam que se devia começar o bacará. De um modo natural e simples, as senhoras, conversando com os homens, foram-se encaminhando para aquele lado... Salústio Nogueira, derrubando os baralhos encastelados, pronunciou:

- Vejamos quem principia...

- Olhe, sou eu - disse D. Augusta, toda contente, depois de ter voltado um ás de espadas.

A viscondessa de Águas Santas, vindo tomar assento num sofá perto da mesa, observou desinteressando-se:

- Vão a esse bacará?

- É verdade... - respondeu Evaristo de Melo, fingindo que desejava esclarecê-la.

A dona da casa agarrou-o familiarmente pelos dedos da mão esquerda, recordando-lhe:

- Com estas coisas, não me vá esquecer o negócio de Goa. O homem, já lhe disse, deve estar em Bombaim e o nosso cônsul conhece-o.

- Ah!... - certificou o ministro da marinha. - Não tenha medo. Pela próxima mala, escreverei ao governador.

A este tempo, iam-se sentando em volta da mesa as pessoas que jogavam. O carlista D. Nicolas conservou-se em pé, um tanto afastado, e D. Agostinho perguntou-lhe:

- Não juega usted?

- Yo?! No. - respondeu soberanamente o tio de Mercedes, com as mãos cruzadas sobre os rins. Ambos ficaram observando, por cima das cabeças dos que estavam sentados.

O barão do Cerdeiral ficou no sofá, do lado esquerdo de Josefa Lencastre.

- En voulez-vous? - perguntou-lhe maliciosamente a viva madame Joujou, mostrando-lhe uma carta.

- Pás encore - respondeu contrariado o barão, olhando-a de relance.

Entrava-se num período animado. D. Augusta, mulher do ministro da justiça, depois de ter misturado os baralhos, disse a Salústio Nogueira, que lhe ficara à direita:

- Parta, ande...

Mas Júlio Clóvis interpôs-se exigindo:

- Não, senhor, quero eu partir.

O dinheiro que D. Augusta pôs de banca não chegou senão para os quatro mais próximos parceiros. Júlio Clóvis, que não era destes, disse para os outros, pondo diante de si uma bolsa de prata, recheada de libras:

- Se não chega; joguem.

- Seja cauteloso, conselheiro... - observou-lhe a viscondessa, numa voz de carinho.

- Ora!... tenho perdido muito dinheiro - respondeu o ministro.

- E também o tem ganho! - emendou D. Cesária, que lhe era hostil.

Como todos já estivessem atentos, D. Augusta principiou a dar cartas. Ninguém teve bacará de mão, nem o fez depois de pedir. Esta circunstância, verdadeiramente excepcional numa roda de tanta gente, aumentou o interesse do jogo e pareceu de bom agoiro. D. Agostinho e D. Nicolas aproximaram da mesa os seus bustos. A mulher do ministro da justiça disse voltando-se:

- Seis!...

Tinha um rei e uma sena! Todos ficaram circunspectos e reservados, não desejando cada um pela sua expressão facial deixar perceber o ponto em que se ficara. D. Augusta sorriu com certa amargura. Tinha mais cartas com que perdesse, do que para ganhar! Era uma situação melindrosa... Pensou em mandar dizer, só alguns parceiros. Júlio Clóvis surpreendeu-lhe o estado hesitante do espírito; depois de a fixar, disse resoluto e impaciente:

- Ande, tire carta.

Mas ela ainda se conservou algum tempo inerte, com o maço na mão esquerda, olhando para todos. Sentia-se cada vez mais indecisa e pronunciou com expressão triste, na voz e no rosto:

- Mas, vou passar!...

O ministro das obras públicas observou-lhe:

- Se perder, ainda eu perco mais.

- Vai fazer um lindo bacará - afirmou o conde de Frazuela,com o charuto entre os dentes.

Tenho palpite.

Madame Augustine disse, entre suspirosa e cómica:

- Ah! mon argent chériL.

A mulher do ministro da justiça, tomada subitamente de impetuosa resolução, puxou uma carta bradando com desafogo:

- ...e três nove! bacará!- celebrou com alegria.

- Não lhe disse? - recordou o Frazuela fleumático, aproximando-lhe a parte do dinheiro que lhe tocava e D. Augusta recebeu contentíssima.

Aconselharam-lhe que passasse as cartas. Podiam-lhe levar tudo na vez seguinte. Tinha vontade de aceitar o alvitre; porque não estava para mais sustos. Júlio Clóvis comprava-lhe a mão; porém os outros não consentiram. Carlos de Mendonça, o marido, julgou-se com direito a fazer a banca em lugar de sua mulher, propondo-lhe sociedade; mas ela respondeu desimpedidamente:

- Contigo?!... não quero. És muito ladrão. Já me tens ferrado várias partidas.

Este belo exemplo de confiança conjugal produziu hilaridade e foi celebrado com gracejos. A viscondessa levantou-se do sofá, para dizer a D. Augusta, depois de lhe dar um beijo:

- Deixe as cartas. Ganham-lhe tudo.

Por isso ela as entregou a Salústio Nogueira, que era quem se seguia. O deputado tomou os baralhos, com aquele modo imponente e majestoso com que praticava todos os actos. Alongou os braços, lançou um olhar solene em volta, provocando assim as paradas, apesar de não ter muito dinheiro. E com voz gutural disse «vamos lá», como se fora esta uma resolução filha de meditado cálculo... Perdeu logo a primeira mão, pronunciando com desconsolo:

- Sou um tumba! Sou uma besta!...

- Sou una bestia! - trauteou Júlio Clóvis.

  1. Cesária estava ao lado de Salústio e a ela tocava fazer banca. O seu olhar ambicioso fulgurava-lhe no rosto magro e chupado. Gostava imenso de dinheiro, de o possuir fechado na mão, de perceber o telintar alegre do oiro que lhe inebriava o espírito. «O que eu queria - disse uma vez, gracejando - era ter um monte de libras, para me rebolar sobre elas! Teria imenso prazer em dormir um sono numa cama de libras.» Por isso pôs pouco dinheiro de banca, a maior porção em prata, para não sentir o desgosto de lhe levarem o oiro, que era o seu demónio tentador.
  2. Agostinho comentou com sisudeza observadora ao ouvido de D. Nicolas:

- Esta senhora seria capaz de cometer um roubo metálico, se circunstâncias favoráveis se apresentassem.

- Lo creo yo - concordou o solene espanhol.

  1. Augusta perdeu logo à primeira e atribui tudo ao marido, que a estava encalistando. Madame Joujou seguia-se à mulher do ministro da marinha, mas não aceitou as cartas... Estava ali só para se divertir e gastava o tempo a olhar para Dramond que, colocado na outra extremidade com o cabelo em bandós, era objecto de uma luta tremenda entre ela e a ardente Mercedes. Passou os baralhos ao Frazuela, que afirmou risonho:

- Agora vão ficar todos sem dinheiro... Ganhou o primeiro e o segundo bacará.

- Não lhes disse? Vão perder tudo quanto têm - comentou.

Prosseguiu sorrindo com o seu canto de lábio irónico arregaçado. Comentava mentalmente a ansiedade e a sofreguidão de todos os semblantes! Tomou mais cartas do grande monte delas que estava ao centro da mesa, misturando-as com gesto froixo. Queria-os fazer sofrer docemente, entretinha-se a apreciar as contracções faciais de D. Cesária, que estava com vontade de o estrangular pela demora.

Mercedes, também muito nervosa, remexendo-se na cadeira, indicou a seu tio o dinheiro que

via diante do Frazuela:

- Mira!

  1. Nicolas respondeu com gravidade:

- Estoy mirando!

- Asi si, que me gusta - afirmou a sobrinha numa voz enérgica.

Júlio Clóvis, apesar da fortaleza da banca, como tivesse grande palpite, disse:

- Joguem à vontade. Eu levo o resto.

Pousou em cima da mesa um maço de notas de vinte mil réis. Estava furioso contra o Frazuela, por causa da estupenda sorte que lhe via. O conde, sereno e chasqueador, tirou o charuto da boca para lhe dizer:

- Então é um duelo de morte, que me propõem?...

O ministro conservou-se calado, o queixo assente nas mãos, enquanto o banqueiro, com o vagar de homem habituado àquelas situações, ia dando cartas e dizendo palavras agradáveis a cada pessoa a quem as entregava. Como depois de pedirem ninguém se declarasse,o Frazuela, sempre com os seus modos de saciado, voltou-se com um bacará de cara.

- Não há dúvida - entendeu - saio daqui milionário. Tenha paciência, conselheiro. Júlio Clóvis sorriu com azedume, dizendo:

- É muito feliz!

- Dou a desforra. Não o quero ver assim.

Todos reconheciam no conde o homem para quem o jogo não tinha surpresas, nem comoções novas. Sabia-se que, em Nice, tivera noites de perder dezenas de milhares de francos, sem a menor contracção facial de desgosto, bebendo groselhas e fumando constantemente o seu óptimo havano. Esta nobre insensibilidade perante os rigores ou os beijos da fortuna, só a pode dar o hábito duma vida de largas despesas, e é privilégio dos homens de altivo coração - considerou mentalmente Salústio, que admirava o diplomata.

A porfia, como na ânsia duma febre de desforra, os parceiros apontavam de cada vez mais forte e o banqueiro sorria-lhes de cada vez mais tranquilo, tomando de novo cartas das que estavam em monte ao centro da mesa. D. Nicolas, cedendo a D. Agostinho que lhe puxara pela manga, deu um passo para melhor apreciar, ficando erecto, com a mão na abertura da sobrecasaca, olhar alto, numa insensibilidade despótica.

- Esta agora é d’arromba! - exclamou o deputado Besteiros.

O ministro das obras públicas, com o seu formidável rancor contra o Frazuela, por causa da estupenda sorte que lhe via, tirou grande porção de notas dum bolso e colocando-as sobre a mesa, apregoou:

- Está parado o resto!...

O conde tinha de mão sete, e passou com o cinco de espadas. Todos ganharam e os semblantes abriram-se em sorrisos de satisfeitos. As cartas tocavam a Júlio Clóvis, que apreciou avulsamente:

- Também já era demais...

Foi breve a suspensão no jogo, e houve desafogado ruído de conversa. Algumas cadeiras afastaram-se: era o general Gonçalo, que se retirava e vinha dizer adeus aos colegas, que estavam na banca do bacará, indo depois ter com sua mulher sobre cujo ombro esquerdo o Cerdeiral nesse momento inclinava a cabeça, para lhe dizer qualquer precioso segredo, que os maliciosos comentavam com sorrisos. Porém, o barão, falando ao conselheiro com intimidade de amigo, observou-lhe, mostrando o relógio:

- Olhe que são apenas duas horas, general.

- É que sinto não sei o quê na cabeça, que ma torna pesada - justificou-se o ministro.

- A enxaqueca; não vale nada - insistiu o Cerdeiral. Josefa secundou-o:

- Vai conversar um bocado com D. Agostinho. Pode-te fazer mal sair assim de repente para a rua. Ao entrar na carruagem, sempre se apanha ar.

Mas a tia viscondessa, percebendo que sua sobrinha estava alimentando a maledicência, disse-lhe ao ouvido:

- Vai, menina. Se te arranja alguma doença, estás servida. Não te lembras da última maçada que tiveste, com ele de cama?

Josefa levantou-se, estendendo a mão ao barão, que a aceitou, afirmando em segredo:

- Falei-lhe com a maior sinceridade, creia.

- Pois sim; mas eu não acredito. Tenho este dedo mínimo, que adivinha e me diz outra coisa.

- É muito má - rematou com olhos brilhantes.

Apartaram-se. A sobrinha da viscondessa acenou a um criado para lhe trazer os seus abafos, que se não fizeram demorar. O Cerdeiral, enquanto lhe depositava cautelosamente a capa sobre os belos ombros, foi dizendo como num monólogo:

- Ainda hei-de descobrir porque me quer tanto mal. Alguma intriga; procurarei saber...

- Não procure que não acha - respondeu Josefa graciosamente.

O ministro da guerra e sua mulher despediram-se das pessoas que encontraram no caminho até à porta de saída. A D. Agostinho, de quem o general fora antigo camarada, deu um aperto de mão íntimo, acrescentando como de costume:

- Velho amigo. Nós somos dos que as ouvimos zunir pelas orelhas em Torres Vedras. Lembras-te?

- Se me lembro! - pronunciou D. Agostinho com saudade.

O Cerdeiral, depois de Josefa sair, tomou lugar à mesa do bacará, começando a jogar com fúria, muito calado, o charuto entre os dentes.

- Assim é que eu gosto - aplaudiu-o D. Cesária.

- Talvez estejas feliz... - observou maliciosamente Júlio Clóvis.

- Non accrrredita - disse com malícia madame Legrand.

Realmente a entrada do barão reanimara o jogo, que, pela ausência do Frazuela, ia esmorecendo. A atmosfera cor de opala entorpecia; mas todos se entregavam, sem incómodo, às sensações da caprichosa fortuna.

Os olhos das senhoras, duma vivacidade tresnoitada, sobressaíam na pele amarelenta dos seus rostos. A mulher do ministro da justiça, que era nutrida, disse «abafa-se» e a viscondessa mandou abrir uma janela na sala próxima, para purificar a atmosfera. Depois de fazer algumas recomendações, em voz baixa, ao seu criado, dirigiu-se para o interior da casa, e a mulher do ministro da marinha, que a vira sair do salão, explicou:

- Vai-se deitar... É a sua hora.

  1. Mercedes pediu a seu tio D. Nicolas uma cigarrilha espanhola e madame Legrand aceitou um laferme da mão de Dramond. A esposa de Evaristo de Melo zangou-se; porque o francês, quando, para dar o cigarro, passara o braço por cima da sua cabeça, lhe ia desfazendo o penteado, soltando-lhe os rolos. A mulher do ministro da justiça, depois de perder tudo, implorou um empréstimo do marido,e como este lho negasse pretendeu tirar-lhe dinheiro à força. O conselheiro não consentiu, agarrando-a com força pelo braço e dilacerando-lhe um enfeite de renda.   D. Augusta levantou-se chamando-lhe
  2. Agostinho, vendo sua irmã, D. Brites, a cabecear na poltrona que estava ao canto, resolveu ir para casa. Como justificação, disse, olhando vagamente a calcular as horas:

- Hão-de ser mais de três...

E chegando-se à janela para observar por dentro os vidros, acrescentou:

- Deve estar frio, lá fora.

Por isso se dirigiu ao conde de Frazuela, seu parente, com o fim de lhe pedir emprestada a carruagem.

- Mais por causa de Brites - justificou o velho fidalgo.

- Ó meu querido primo! Usa da minha carruagem e de tudo quanto eu possuo. Essa nossa querida Brites não havia de ir a pé, para tão longe.

E falando-lhe ao ouvido, acrescentou:

- Não vás depois para casa das meninas, meu grande corrupto! És capaz de por lá te esqueceres e deixar-me aqui até de manhã, à espera.

- Qual, filho!... Estás enganado. Olha que já há muito tempo que...

- Te deitas com as galinhas... Malandro! - rematou o Frazuela chasqueador.

O velho sorriu, indo despedir-se individualmente de todas as pessoas presentes. Andou de grupo em grupo neste dever de cerimónia. Quando se dispunha a sair, lembrou-se subitamente que não tinha visto D. Augusta, mulher do ministro da justiça, de quem sempre recebera deferências, que não podia esquecer. Como a não encontrasse no salão, depois de ter levado a todos os cantos o seu olhar indagador, dirigiu-se a Carlos de Mendonça perguntando solícito:

- Sua mulher?... Queria ter a honra de me despedir...

O conselheiro, como estivesse perdendo, respondeu bruscamente, com um saliente encolher de ombros:

- Sei lá!... Deve estar por aí...

  1. Agostinho ficou perplexo, o rosto alto, à procura... Porém, o criado da viscondessa, calculando o motivo do seu enleio, esclareceu-o apontando-lhe o lado para onde a vira passar. D. Augusta, depois do marido lhe haver recusado o empréstimo de dinheiro, dirigira-se para um gabinete, onde um bico de gás ardia com escassa luz. Sentindo-se cansada, sentara-se no sofá e adormecera. O irmão de D. Brites para ali se dirigiu; porém, no limiar da porta suspendeu de súbito os miúdos passos. O magnífico corpo da mulher do ministro expunha-se inerte, numa atitude de abandono, os braços caídos, os opulentos seios numa respiração larga. Por baixo do último folho do vestido via-se-lhe, além de toda a botina, uma nesga de meia de seda escarlate, bem repuxada. O velho fidalgo conservou-se um comprido minuto, de olho sôfrego, num desvairamento de imaginação sádica, indo sorrateiro dar mais vida ao gás... A reflexão pesou-lhe depois na cabeça branca e pensou que seria melhor acordar D. Augusta para que outrem não a viesse surpreender naquele desalinho. Também se lembrou de prevenir Carlos de Mendonça, o marido, do que se passava; mas logo uma ideia de prudência lhe acudiu:

- Para quê?... Para lhe ouvir alguma das suas?!...

De novo abriu, mais largamente, com sentimento pecador, os seus olhos ávidos. No rosto floria-lhe um sentimento de gozo sensual. Veio-lhe à lembrança D. Constança e o seu corpo roliço... D. Constança tinha agora uma casa de hóspedes, onde vivia em escandalosa mancebia com o padre Brito, um mariola com quem ele tivera relações pessoais. Bons tempos, tempos fartos e alegres os da Rua do Alecrim, onde a viúva do Germano morava antes de casar a filha com o Gustavo, que também desaparecera de Lisboa, sem dizer palavra. De Arminda poucas notícias tivera depois que se separara do marido, para ir viver com João Dantas. A mãe é que ainda encontrava, às vezes, sendo a última na quinta feira-mor, no Largo do Loreto, cumprimentando-se ambos de leve, como se fossem apenas conhecidos. «Ah! perversidade das mulheres! São umas víboras ingratas!» - pensou D. Agostinho. Em casa da sogra do Gustavo conhecera ele o Salústio Nogueira, quando viera a concurso para delegado... Que soma de recordações, que amálgama de saudades do tempo em que tinha o seu conchego, os seus chinelos junto do leito, como se fora um marido, em casa da viúva do Germano!

Quase perdido na ressurreição desse passado tão vivo e ainda tão próximo, sentiu forte sacudidela em todo o seu corpo, percebendo a voz forte de Carlos de Mendonça, que dizia ao criado: «Viste para aí a senhora D. Augusta?» D. Agostinho previu que ia ser encontrado em flagrante e imprópria curiosidade!... Prontamente, como exigiam as circunstâncias, com dois passos laterais entrou na sala carmesim, que estava às escuras, reaparecendo no salão, de casaco no braço, chapéu e bengala na mão direita, rosto alto de quem indaga.

Sua irmã D. Brites esperava-o no corredor, a cabeça envolvida em mantas de lã. O ministro da justiça, encontrando-o de frente, ainda teve tempo de lhe perguntar:

- Viu por aí minha mulher?...

- Não,   querido   conselheiro,   procurava-a justamente,   para lhe   apresentarmos   os   nossos respeitos.

 

Salústio Nogueira engrandecia-se a seus próprios olhos: - vivia feliz no engodo das relações que adquirira entre homens de vulto na política e orgulhava-se principalmente da intimidade com que era tratado pelo conde de Frazuela. Quem lhe diria, poucos anos antes, que ele, filho de um obscuro camponês, havia de, com tanta sorte, adquirir importância e ingresso entre políticos e pessoas da corte, íntimos de el-rei!. Bons tempos, os tempos de infância, passados no meio de árvores e penedias, tempos alegres, simples e despreocupados! Não tinha deles a mínima saudade, não apetecia voltar a essa época simpática, cuja memoração amesquinhava o seu engrandecimento actual! Conhecia demais a província, a sua vida farta de coisas pueris e estúpidas. Recordava tudo isso com benévolos sentimentos de afeição; mas, retroceder às caturrices dos políticos cabisbaixos e barbudos, homens tremendos, que por causa de uma mísera questão de junta de paróquia, escangalhavam sólidas mesas a murro - por Deus! - não o apetecia!... O seu espírito tinha-se alargado amplamente na convivência de homens como o marquês de Tornai, o Frazuela e outros. Sentia-se um civilizado. Em Lisboa, numa agitação de ideias e interesses, que lhe enchiam a existência de cuidados pomposos, achava-se bem. Gostava de ver as coisas de alto, com um franzir de lábios desdenhoso, a pálpebra ligeiramente caída. Para ele, o encarar o facto mais grave, sorrindo com ar intencionalmente maquiavélico, era sinal de superioridade intelectual, que imitava para dar de si, a si mesmo, uma ideia alta! Pensava em se mostrar homem de penetração arguta, aproveitava todas as ocasiões, até diante dos mais íntimos, para se arrogar importância de político consultado por outros políticos.

Em casa do Frazuela encontrara, nas próprias mobílias e nas cores dos estofos, um gosto discreto e premeditado que o maravilhara! Concentrou-se em longa reflexão, compreendendo longinquamente, na vida desta sociedade que não conhecia, certo espírito de agudeza e subida educação, que só lhe fora permitido presumir, até ali, na leitura de alguns romances franceses e no teatro de D. Maria, quando via o actor Santos representar dramas de Sardou, ou de Dumas. Nesse meio famoso até os próprios criados, aprumados e atenciosos, tinham magnificência para engrandecer as pessoas a quem serviam. Poderiam lá, os da sua terra transmontana, imaginar sequer um homem como Fabrice, o criado particular do Frazuela, alto, barba escrupulosamente feita como a dum cónego, meia de seda preta, sapato de verniz com fivela de prata, calção de cetim, a oferecer-lhe cerimonioso charutos numa bandeja de prata! Isto, nem em sonhos provincianos da maior opulência! Fabrice acompanhara em viagens príncipes russos, antes de estar ao serviço do fidalgo português. Era um homem por quem Salústio tinha tanta admiração, que até lhe copiava gestos para ornamentar os seus discursos em S. Bento. A delicadeza de Fabrice, quando depois de satisfazer o deputado em qualquer mínimo desejo, que este lhe manifestasse, se retirava dizendo merci, monsieur, até o vexava. Era o requinte da polidez, agradecer a alguém o favor de lhe ter aceitado uma chávena de chá, ou um copo de água! Achava isto delicioso; entendia que as pessoas, mesmo de posições diferentes, devem umas às outras toda a urbanidade. Viver numa sociedade assim, poeirada de pequenos nadas, que são o tudo na existência, é que se chama viver; o resto é vegetar, é andar no mundo por ver andar os outros, é levar o corpo à sepultura com mais ou menos sensaboria.

E a condessa?!... Sublime! A distinção desta mulher, formosa aos quarenta anos, maravilhava-o. As suas palavras tinham ao mesmo tempo condescendência e nobreza, afagavam como um arminho a face da pessoa a quem eram dirigidas. Disto só na alta sociedade se encontra: - é o resultado do conflito de interesses delicados, de sentimentos prevenidos, de ideias herdadas!... Não era uma fidalga de antiga linhagem - ouvira dizer. Quem são, pois, os fidalgos? interrogava-se sobranceiramente, como plebeu orgulhoso! Seriam aqueles com quem vivera na província e que se jactavam de serem de estirpe mais antiga que os próprios reis?!... Ah, esses conhecera-os, eram bem pobres e estúpidos! Ainda um mês antes, ele, Salústio Nogueira, filho de um desconhecido proprietário, arranjara um emprego de guarda de alfândega para um mísero que se chamava Moscoso, homem a quem por força do hábito e tradição costumavam na terra tratar por senhoria dando-lhe dom. Tinham-se mudado os papéis. Agora era o tal Moscoso que se aproximava de chapéu na mão, implorando-lhe o valimento, para que não morressem de fome quatro crianças, que lhe haviam ficado de sua mulher - uma das de antiga linhagem, que morrera tísica.

Fidalguia, a verdadeira fidalguia moderna, era esta da condessa de Frazuela, formada no convívio de inteligências cultas, no meio de uma sociedade rica de ideias grandes, como parecia a sociedade dos estrangeiros! Só isto ainda tinha poder de o entusiasmar, de produzir deslumbramentos no seu espírito. O que o estava horrorizando, provocando-lhe repugnância invencível, era o conservarse mais tempo neste desleixo de estudante ou de militar, em que sempre vivera e ainda se encontrava com Angelina!... Ah! seria um ambicioso?! Era, um ambicioso de consideração pública, de riqueza, dos altos gozos, que ainda não saboreara duma maneira completa. Chamassem-lhe tolo, que se ficaria rindo de quem lho chamasse.

A esta hora matinal, quando o dia começava a romper, Salústio seguia vagarosamente no caminho de casa, agasalhado no sobretudo e construindo mentalmente o maravilhoso edifício do seu futuro! A providencial colaboração que recebia do Frazuela envaidecia-o. Se em breve lhe daria boas esperanças do casamento com Palmira Freitas!... Este problema, a resolver-se favoravelmente, seria o cúmulo da sorte! Como bem disse o conde, seria dar um salto a tudo num momento... Neste imaginar temerário, subia a íngreme e suja escada do prédio onde morava e julgava-se como Rastignac, no alto de Paris, ameaçando a grande cidade das suas ambições com um punho cerrado. Um longo calefrio, porém, lhe subiu pela coluna vertebral, obrigando-o a parar desgostoso. O choro de sua filha, a

Amelinha, que já tinha três meses, era nota bem dissonante para os seus ouvidos!... Que diabo de espiga esta esta ligação com Angelina! Sempre a gente, quando não pensa maduramente as coisas, faz muita tolice!... Mas tal acontecimento não poderia ser um obstáculo à realização dos seus ambiciosos projectos; Angelina e a filha não haviam de ser para ele uma grilheta perpétua. A rapariga compreendê-lo-ia a bem; não o querendo compreender a bem, tanto pior para ela. Se tivesse juízo seria muito feliz, vivendo numa casinha para os lados da Estrela, na companhia da pequerrucha. Salústio não tinha tenção de os abandonar. Mesmo depois de casado poderia proteger Angelina e frequentá-la. Não era o primeiro homem de posição que, sendo casado, tivesse uma amante. Porém, reflectiu - se Palmira fosse ciumenta e o quisesse exclusivamente para ela?! Era o diabo! uma grande espiga! Resignar-se-ia e só lhe restava dispor de algum dinheiro, para fazer um pequeno dote à filha de Pedro Alves e casá-la com qualquer rapaz sério, cujas precisões aconselhassem tal aliança. Esta ideia simples, que tão logicamente lhe veio ao cérebro, sobressaltou-o!... Gostava de Angelina, habituara-se aos seus carinhos, não podia deixá-la com facilidade. Palmira escusava de saber. Havia de, com recato e prudência, conservar a amante num lugar retirado da cidade, para continuar a gozá-la às fartadelas, indo lá de trem algumas noites. O casamento com outro homem talvez a rapariga o repelisse. Era altiva e sensível. Não... não, tal lembrança, partindo dele, tinha mesmo o seu quê de infame. Angelina entregara-se-lhe pura, honesta, confiada, quebrando, num momento de paixão, todos os laços de família, todas as suaves algemas que a prendiam às suas crenças religiosas... Sempre lhe fora fiel, modelo de abnegação e de trabalho, servira-lhe de muito durante esses dois últimos anos difíceis... Não era digna de que lhe dissessem: «Vai-te, já me não serves». Salústio era homem bastante compenetrado dos seus deveres, para nunca praticar acção tão canalha. Sim, porque era uma canalhice, uma coisa verdadeiramente vil... - pensou com integridade.

Insensivelmente, misturando-se-lhe todas estas ideias na cabeça, encontrou-se junto da cancela.

A escada era escuríssima. A esta hora matinal, ele mesmo, não tinha consciência dos limites do seu corpo. Sentia-se anulado na própria individualidade, confundido na massa de treva ilimitada, como se estivesse no fundo de um mar de breu. O charuto apagara-se-lhe, nem esse ponto incandescente avivava aquela negridão! Tomado de certa perplexidade, procurou, tacteando, o cordão da campainha e tocou... Foi Angelina que veio abrir, perguntando do lado de dentro:

- És tu?

- Sou, abre - respondeu.

- O que estiveste a fazer tanto tempo aqui parado à porta?

- Eu? tanto tempo parado!... Ah!... é que me pareceu que falavam lá em baixo e escutei. Tu não te deitaste?

- Não. A menina tem chorado muito...

Dias depois, Salústio Nogueira estava ainda na cama, saboreando, encostado à travesseira, um bem pensado artigo do Jornal do Comércio quando Angelina entrou no quarto para lhe entregar uma carta, trazida por um homem, que, vendo-a assim formosa, cofiara majestosamente a suíça. Logo pelo sobrescrito, o deputado, que nesse dia almoçara na cama, conheceu a letra do conde de Frazuela; mas quando leu, numa folha de papel azul com o brasão no alto, estas simples palavras: «Venha-me falar impreterivelmente às duas horas» sobressaltou-se, exclamando: «Que diabo será?!»

- Aconteceu alguma coisa? - perguntou com interesse a boa rapariga.

- Nada. Traz-me água morna depressa - respondeu Salústio preocupado.

Depois de se lavar pediu as meias de fio de Escócia, uma camisa bem engomada, os sapatos de polimento. Angelina apresentou-lhe todas essas coisas, não ousando interrogá-lo. Como mulher amante e sensível, reconhecia intuitivamente que na vida do pai de sua filha se passava um momento de gozo e não queria minorar-lhe a preocupação que o tornava feliz.

- Luvas, não tenho nenhumas? - inquiriu, enquanto Angelina lhe escovava a sobrecasaca no corpo.

- Não tens nenhumas novas - respondeu sem se distrair.

E ao sair da porta, Salústio, falando de lado, disse sobranceiramente, como quem deixa cair as palavras:

- Se eu não vier à hora de jantar, não esperes por mim.

- Pois sim - concordou Angelina resignando-se.

Continuavam a ser tão frequentes e tão longos os seus dias de isolamento! Cobria-lhe toda a existência um negro véu de tristeza, ao sentir-se em frente de mais doze horas, sem falar a ninguém, a não ser ao Bento aguadeiro e à D. Maria Gomes, que estava doente! Com os olhos rasos de água, escutou atentamente as passadas de Salústio descendo... Ainda foi à janela para o ver na calçada, que subia com lentidão. No alto de Santa Catarina, o deputado deitou de relance um olhar soberbo à larga bacia do Tejo e, antes de ir a casa do Frazuela, dirigiu-se à Rua Nova do Carmo, para fazer a barba.

Quando Fabrice, o invejado Fabrice, com o seu aspecto de embaixador, o anunciou ao conde, abrindo amplamente a porta do gabinete, o diplomata escrevia cartas para o estrangeiro. Pediu-lhe sorrindo que entrasse e ofereceu-lhe a poltrona que estava ao lado da secretária. Salústio reconheceu que era esperado com interesse e isto fez com que nele crescesse a preocupação da sua importância. O Frazuela ameigou com demora e em silêncio o que ia dizer.

- Grandes novidades, meu caro...

- Grandes novidades?! - repetiu o deputado cheio de curiosidade.

- Sim. Nada menos que... u-ma cri-se mi-nis-te-ri-al!

- O ministério cai?! - perguntou assustado, dando um pulo na cadeira.

- Não, homem - volveu o diplomata - recompõe-se. Está combinado com el-rei.

E   ficou-se   sorridente   a   apreciar   o   efeito   desta novidade.   Ela   continha uma   esperança perceptível, e a rápida iluminação do rosto de Salústio mostrou que um sentimento de homem ambicioso enchera rapidamente aquele coração. O Frazuela continuou com o seu falar vagaroso,

acentuando as sílabas:

- A crise, por enquanto, é absoluto segredo. Poucas pessoas o sabem, peço-lhe que o não divulgue, nem aos seus íntimos.

- Oh!. - exclamou Salústio, desejando merecer inteira confiança.

- Creia que nem mesmo todos os ministros presumem esta crise; porque ela ainda não rebentou. Talvez seja no conselho desta noite.

- Mas o motivo? - indagou o deputado sentindo-se feliz, por obter esta confidência, que lhe garantia alto valimento.

- O motivo, não, o pretexto - emendou o Frazuela com riso inteligente. - O pretexto é a reforma na circunscrição diocesana, com a qual o marquês e mais alguém (acentuou intencionalmente) não estão de acordo. Carlos de Mendonça é uma bela cabeça decerto; mas, talvez mesmo por isso, leva as coisas muito longe, pelo menos mais longe do que convém. O presidente do conselho, homem timorato e conservador, não lho pode consentir. El-rei também não gosta muito de arrojos e tem o máximo empenho em que se não bula com o clero... Tal procedimento, nesta ocasião, traria complicações de mil diabos. Eu fui convidado para substituir Evaristo de Melo na pasta da marinha, passando este para a da justiça.

- Muitos parabéns... - disse Salústio Nogueira, com a voz moderada do homem que sofre uma desilusão.

- O conde levantou-se e principiou a passear, em silêncio, ao longo do gabinete. Depois, como quem sai de um raciocínio, falou de modo vago, com as mãos nos bolsos:

- Não aceito, nem podia aceitar, ainda que o meu prazer fosse grande em aplanar as dificuldades a el-rei e ao marquês. Tenho de sair do reino.

- Pois é pena, grande pena - pronunciou Salústio com ênfase - que não possa fazer este serviço ao país...

- O país passa admiravelmente sem mim, cá dentro. Prefiro continuar a representá-lo, lá fora. Ainda que não seja uma posição das melhores, a de ministro português no estrangeiro; porque os nossos ordenados são uma miséria, estou habituado a esta vida vagabunda da diplomacia. Minha mulher também quer sair...

Mas isso poderá colocar o marquês em grandes embaraços! Sua majestade mesmo...

- Qual! tudo se arranjará. A crise foi-me comunicada confidencialmente por uma carta do presidente do conselho, recebida esta manhã, e fazendo-me o convite. Por aqui o meu amigo calcula o absoluto segredo que é. A não ser el-rei, o marquês, a condessa, e nós ambos, ninguém mais o sabe. Carlos de Mendonça nem suspeita da sorte que o espera...

O diplomata recomeçou o passeio em volta do gabinete, demorando-se a combinar ideias em frente da janela, donde abrangia o Tejo, num amplo olhar. Salústio, um sanguíneo, sentia-se abafado por aquele silêncio, o peito enchia-se-lhe de ímpetos de acção, no cérebro batalhavam-lhe os pensamentos. Se lhe fosse permitido, exporia opiniões sobre a crise; a sua palavra impedida na garganta era como um tumor que o estrangulasse. Ergueu-se da cadeira, e num movimento de ombros significou a sua energia recôndita. Para gastar toda essa força perdida no seu espírito inactivo, começou a vaguear em frente das estantes, comentando caldo os títulos escritos nas lombadas dos livros.

O Frazuela retomou a palavra, como na continuação duma conversa não interrompida:

- Porém, visto terem a delicadeza de mas oferecer, não devo abandonar as vantagens que me propõem. Acha que faço mal? - consultou.

- Por forma nenhuma. Até me parece que procede optimamente. Então aceita?... - disse interessado.

- Não, meu caro, não. Ficar aqui, por forma nenhuma. Minha mulher está com a nostalgia de Paris, eu também... Velhos hábitos, antigas amizades que precisamos refrescar. O meu pensamento é escolher pessoa que me substitua. Mas tenho interesses ligados, combinações feitas com empresas coloniais estrangeiras. Não posso abandonar os amigos. O futuro ministro da marinha será pessoa da minha inteira confiança.

Salústio pareceu-lhe compreender o diplomata. Alegrou-se-lhe o coração numa radiosa esperança. Para que é que o mandara chamar? Qual o motivo destas confidências, destes segredos, que só el-rei, o marquês e a condessa sabiam? Era transparente, tudo claro... Teve vontade de se lhe oferecer incondicionalmente: ele seria o homem que o Frazuela procurava. Um rubor de sangue lhe purpureou o rosto, o cérebro ficou-lhe envolvido numa deliciosa e estúpida voluptuosidade. Porém, readquirindo o governo da sua vontade, afectou de indiferente, pois seria ridícula qualquer declaração que da sua boca saísse.

Porém o Frazuela, homem experiente e sagaz, médico entendido nas turbulências da ambição, calculando que aquela alma sofria e precisava de ser arejada, deu maior intimidade às suas palavras, dirigiu-se patentemente a Salústio, tomando-lhe uma das mãos no meio dum sorriso, e disse-lhe no rosto:

- Ora, podendo eu designar pessoa para a pasta que me oferecem, é claro que a escolherei da minha particularíssima confiança e que seja ao mesmo tempo homem inteligente e desembaraçado. O meu amigo por certo já adivinhou...

Conservaram-se passivos durante segundos, o olhar dum no olhar do outro: o Frazuela céptico e cativante, Salústio reservado e medroso, temendo que a bola de gozo, que já se lhe revolvia no peito, rebolasse de modo inconveniente.

- Adivinhar... - disse.

- Sim - insistiu o diplomata decidido - já adivinhou. O meu amigo será o meu substituto... se quiser. Nem eu podia escolher outro...

- Eu, senhor conde!...

- É muitíssimo capaz, deixemo-nos de tolices. A lembrança não é só minha. Gabriela, que toma sempre parte nas minhas resoluções, aprovou-a. Minha mulher vale um homem para estas coisas, creia. É imensamente perspicaz. Além disso, interessa-se muito por si.

- Cativa-me realmente esse parecer da senhora condessa, um espírito superior...

O Frazuela falou mais à vontade:

- É sua amiga e sabe dar o valor a quem o tem. Como lhe disse, convém-me antes voltar para a carreira. Na mudança de pessoal, que se projecta, podem dar-me Paris. Se eu quisesse Londres também o obteria; mas Gabriela tem as suas melhores relações em França, e depois, o clima de Inglaterra não lhe convém. Os meus interesses também me aconselham a França, o meu grupo financeiro é francês. O que pretendemos é de incalculável vantagem para Portugal. O chamamento de capitais estrangeiros para fecundarem os vastos terrenos incultos, que possuímos em África, é obra patriótica, creia. À gente de iniciativa pertence o futuro. Do que o nosso país tem extrema necessidade é de ministros que não sejam tacanhos, que se não prendam com futilidades, com pequenas intrigas de soalheiro.

Salústio conservou-se num silêncio condescendente e aprovativo. O diplomata continuou:

- O que eu desejo, ou melhor, o que pede o grupo de banqueiros a que pertenço (o meu nome não figura em coisa nenhuma, entende-se) é justo, como verá. A estas horas, um engenheiro de grande competência percorre e estuda a nossa riquíssima província de Moçambique. Ele dirá quais os terrenos que se devem pedir. Mr. Trente é homem habilíssimo e muito sério. Trará de África um relatório luminoso sobre o assunto. Nós temos ali coisas espantosas, que não sabemos aproveitar: cultura de borracha, de sementes oleosas, minas sem a menor pesquisa... Um inferno de ignorância, a nossa administração. Precisamos que os estrangeiros nos venham abrir os olhos e nos venham enriquecer. O relatório que submeteremos à sua inteligente apreciação, antes de se falar em nada, elucidá-lo-á. Até o projecto de lei lhe posso mandar fazer por pessoa com grande prática do assunto. O meu amigo só terá o trabalho de o assinar, de o apresentar ao conselho de ministros e ao parlamento. Não precisa de ter nenhum incómodo, verá. Acha que assim não é melhor?

- Decerto... Quanto à matéria de que se trata, estou que nos entenderemos. Precisamos de política nova, certamente, política de negócios, política prática...

O conde, com evidente satisfação, pôs-lhe no ombro a mão de amigo.

- Aí está a palavra justa, política nova, política de negócios, política prática. De estadistas resolutos é que o país anda há muito necessitado - repisou. - Possuímos riquezas em que não temos pensado. Essas nossas ilhas oceânicas, pela posição geográfica, valem um império. A Madeira é um torrão de açúcar, que todos desejariam trincar. A nossa costa oriental africana, aberta ao comércio do mundo, reserva coisas inesperadas. Será um débouché de primeira ordem até para nós. O ministro da marinha que compreenda os seus deveres e responsabilidades perante a civilização pode deixar na história geral e na portuguesa um nome de primeira ordem. O que precisamos é de dinheiro. Não o temos, vamos buscá-lo onde o houver. Uma concessão, como a que lhe indico para o meu grupo, outras que venha a fazer pelo mesmo tipo, enobrecerão a sua gerência. Capitalistas não faltam, eu lhe trarei outros, quando o primeiro pedido for satisfeito. Apresentar-lhe-ei gente da melhor para estas coisas.

- Monsieur le comte...

- Entrez - pronunciou o Frazuela, com o rosto levantado.

O criado abriu amplamente a porta, dizendo com a mão no puxador:

- Monsieur le marquis, est lã, dans le salon.

- Ah! - disse o diplomata para Salústio - É o presidente do conselho. Espere-me aqui um momento. Quando voltar, talvez lhe traga excelentes novidades.

Salústio Nogueira ficou no gabinete, entregue a si mesmo, ao turbilhão das suas ideias! No meio da casa, o olhar fixo na porta por onde saíra o Frazuela, os braços pendentes, raciocinava vaga e confusamente. Uma corrente sanguínea galopante lhe irrigou o cérebro, perturbando-lho pela súbita violência. Passou-lhe diante da vista uma nuvem, como de cegueira repentina. Conservou-se assim alguns minutos, voltando pouco a pouco desse entorpecimento, desse caos, como se a sua personalidade fosse evocada numa ressurreição suave e demorada, depois de morte casual. Esta posse da consciência, a nova conquista da sua vontade, deu-lhe um momento de alegria singular, como se fugisse sufocado do centro duma fogueira, para uma atmosfera refrigerante. Principiou a passear agitado, com o fim de encontrar nos movimentos do corpo, no ruído dos próprios passos, uma ocupação, um sentimento de realidade, enquanto o Frazuela não aparecesse. «Porque não seria admitido agora a intervir nas combinações da crise ministerial latente?!... - pensou desgostoso e irritado. Entrou depois num período de sensatez, explicando tudo pelo natural. «Era exigir demais: ainda o seu nome não estava aceito nem pelo marquês do Tornai, nem por sua majestade. Nesta ordem de coisas costuma haver muitas conferências -pourparlers, como dizia o conde - antes de se chegar a um acordo. Demais a mais o seu negócio não era com o marquês, nem com el-rei - era positivamente com o Frazuela e mais ninguém. Se fosse ministro dentro em algumas horas (subia-lhe a espinha uma quentura de gozo!) somente ao conde o devia. Por isso lhe consagraria toda a sua gratidão, uma gratidão eterna! Ah! podiam estar certos que seria grato, estava resolvido a prová-lo por todas as formas. A combinação do diplomata não era inteiramente desinteressada, nem isenta de cobiças pessoais, bem o sabia. Apesar da seriedade e aparente patriotismo, com que se acabara de exprimir, já, em outro momento de maior franqueza, lhe ouvira falar em indemnizações, que a nação lhe devia, por serviços não recompensados. Conhecia perfeitamente este amor do torrão, que tanto se apregoa!... Afinal, o que todos procuram é os seus interesses. O país, o famoso país de que tanto se orgulham, é a barriga de cada um... E faziam todos muito bem. Tolo é simplesmente aquele que pensa de maneira diferente... Fica logrado e os outros vão-se rindo. Ver as coisas como o Frazuela as via, era não ter peneiras nos olhos.» E exprimiu-se alto, sem temor de ser ouvido, com impudência recôndita:

- Deixemo-nos de puritanismos. Os amigos são para servir os amigos, que os consideram. Mutualidade de serviços, como dizia o mestre Brito na Universidade. O positivo probabilíssimo é eu estar ministro mais cedo do que esperava; o resto... uma santa história.

Como rebentariam de inveja certos figurões da sua terra, que o haviam desprezado na infância, por causa do seu nascimento modesto! Agora ajoelhariam diante dele, pedindo-lhe empregos, acolhendo-se à sua protecção. O principal da sua desforra era aparecer em Chaves, acompanhado dum esquadrão de cavalaria, e ver todas as autoridades a recebê-lo e a pronunciar discursos laudatórios, que ele ouviria circunspecto. Esses medíocres não tinham adivinhado nele o futuro ministro? Tanto pior para eles, que se encontravam assim desmentidos pelos factos. Pagariam em zumbaias os amargos que lhe fizeram suportar com passados desdéns. Salústio Nogueira encontrava-se num instante de íntimo e forte contentamento; ocupava na superfície da terra um espaço maior que muitos outros homens. Colocando o seu magnífico busto diante da ampla janela, pronunciou desvanecido:

- Ora, quem havia de dizer, aqui há meia dúzia de anos, que eu chegaria tão cedo a estas alturas! Sentiu passos na sala contígua: era o Frazuela que voltava. Compôs o rosto no sentido de trivial indiferença, sentou-se rapidamente na poltrona tomando da mesa a Revista dos dois mundos, que abriu para inculcar prendimento na leitura. A perna traçada, o corpo em recosto exagerado, ficava com o livro a cobrir-lhe os olhos. O diplomata entrou com aspecto que não era aquele com que saíra. Vinha simples e natural.

- Está a ler o artigo de Charles de Mazade? Magnífico, não acha? - disse.

- Oh! magnífico! - concordou Salústio, deixando cair nos joelhos o volume.

Mas o Frazuela, que relanceara o olhar sobre a página aberta, observou chalaceador:

- Ah! mas é o romance de Cherbuliez que estava lendo!

- Abri ao acaso - respondeu.

Picado pela ironia do Frazuela, atirou a revista sobre a mesa acrescentando:

- É maçador este homem...

- Não, Cherbuliez, mesmo como erudito, tem grande reputação em França.

- Sim... mas sempre os mesmos amores... - disse desdenhoso pela literatura, pela paixão, por todos os entusiasmos frívolos, que não tenham por fim engrandecer o indivíduo, diante da multidão iludida!...

E principiou a falar de coisas diversas, sempre num sentido de louvar aqueles que encaravam a vida de modo positivo e prático, atendendo só aos resultados. Gabava-se de conhecer muito os homens e de para ele ter passado o tempo dos idealismos. Aprendera à sua custa,porque fora logrado por muitos. Entendia das coisas de Portugal, como poucos. Em Coimbra, a terra onde se vai reunir a mocidade de todos os pontos do país, tratara com rapazes de índoles bem diversas, de génios muito diferentes. Estivera no Porto, magnífica cidade de negociantes, homens de trabalho, muito sensatos e pouco letrados, gente de uma tenacidade e energia heróicas na luta dos interesses individuais. Administrara durante quase dois anos a cidade de Braga e conhecia sobejamente aquele distrito de povo bulhento, principalmente para os lados de Bouro e de Prado. Na sua aldeia transmontana e em Chaves, experimentara toda a ronha do provinciano, minando instante a instante os interesses do vizinho. Finalmente estava em Lisboa, ia em mais de dois anos. Aqui, onde se reúne o que há de melhor no país, aqui onde concorrem diversíssimas ambições, que se entrechocam, para se destruírem mutuamente, aprendera imenso, escutando todos os que podiam dar bons conselhos de vida prática com soluções à vista...

O conde ouvia-o passeando, com distraída atenção, dizendo-lhe de vez em quando: «sim!» «é boa!»   «curioso!»   E como desta forma o aplaudisse, o deputado inflamava-se, falando com mais ímpeto. Quando terminou, o Frazuela parou diante dele gabando-o:

- Gosto de o ouvir discorrer assim. É um homem velho... Conhece o mundo, vê-se que tem experiência das coisas...

- Para mim, as teorias fizeram o seu tempo - certificou Salústio com ênfase.

Quando julgou que o Frazuela fosse narrar o que se passara momentos antes com o marquês do Tornai, entrou inesperadamente a condessa, que vinha perguntar a seu marido se nesse dia escreveria para França. Desejava que fizesse umas recomendações especiais, para que, no próximo vapor do Havre, lhe viessem as toilettes que encomendara. Seria bom avisar o nosso cônsul em Paris, para que mandasse um empregado saber disto com urgência. Realizava-se brevemente um baile no paço e seria um desastre que estas coisas chegassem depois do dia em que deviam servir.

Encontrando ali Salústio, a condessa falou-lhe muito afável, sentando-se alguns instantes no sofá.

O deputado conservou-se de pé, atento ao que dizia aquela mulher radiante, que o cobria benevolamente com o seu olhar meigo. Ela aparecia-lhe inesperadamente na vida, como uma protectora inteligente, e ele queria mostrar-se digno de escutar aquela voz cantante. Esse falar ligeiro como asa voando memorava coisas de Paris, a cidade sonho, donde lhe costumavam vir os seus chapéus, os seus vestidos, coisas frívolas, que lhe assinalavam lugar proeminente nas festas de Lisboa. Oh! Paris! o incomparável Paris, onde o viver corre imperceptível, como a brisa da primavera na ramagem dos plátanos das Tuileries, em cujo faustoso palácio os amáveis imperantes recebem, encantadora e brilhantemente, todos os estrangeiros de distinção. Oh! Paris! o incomparável Paris cujos teatros são os primeiros do mundo!...

- Não faz ideia, não pode fazer ideia, sem a ver, dessa encantadora terra, o paraíso do mundo. Na sociedade poucos da vieille roche. Meteram-se nos seus castelos à espera de retomarem o antigo prestígio, no que me parece se enganam. Não fazem falta; o incomparável charme da Imperatriz tudo substitui. Creio que a vielle roche não fez bem.

- Até fez muito mal - exprimiu o conde com energia. - O passado, que eles querem restaurar, não volta. E incompatível com a civilização moderna, com a democracia triunfante, até no espírito dos reis. Hoje o merecimento pessoal é tudo...

- E assim deve ser - entendeu absolutamente Salústio. - A verdadeira nobreza é aquela que cada um conquista por si - apregoou este ambicioso.

A condessa achou brutal o tom violento e convicto do deputado ao pronunciar estas palavras. Pareceu-lhe inconveniente e plebeu. Reconhecia-se-lhe esse desgosto no ligeiro franzir de lábios e de pálpebras com que o comentara. Ela vinha duma família conhecida em Portugal, em duas gerações de gente rica. Ainda que não pudesse mostrar velhos pergaminhos, entendia-se nobre pela longa prática da gente civilizada. Principalmente o que a melindrava eram os modos altaneiros dos democratas, e o deputado, na sua pronúncia espontânea, manifestara esse mau gosto. Sempre com o seu riso amável, duma doçura que desfazia todas as asperezas da convivência, levantou-se estendendo a Salústio a linda mão, dizendo:

- Estavam certamente a tratar de negócios e não os quero prejudicar na conversa que encetaram. Não te esqueças das toilettes, Paulo. Escreve hoje mesmo, temos pouco tempo.

- Escrevo imediatamente para me não esquecer. Tenho mesmo de tratar outro assunto com a legação. De lá podem mandar à tua modista, que é na rua?...

- De Rivoli - informou a condessa. - Na legação, sabem; e no consulado também sabem.

O Frazuela sentou-se à secretária de pau-santo, abandonando o deputado, que assim se achou desmerecido, pois esperava ansiosamente a narrativa do que se passara com o marquês de Tornai. A espera desse gozo atirou-se para uma poltrona ao lado da janela. O diplomata, terminada a primeira carta, começou outra, sempre em silêncio, silêncio que ia irritando gradualmente Salústio. Acaso já não haveria crise?! acaso já não haveria pasta?!... - pensou tristonho. Houvesse ou não, era desprezador o procedimento daquele homem, que meia hora antes o enchera de confidências e palavras amáveis. Com aspecto de ofendido, levantou-se. Para de novo retomar a leitura da Revista. O conde ergueu a cabeça e, numa palavra breve, disse:

- Desculpe. Tenho urgência de concluir o meu correio. Leia o artigo de Mazade. É o homem que hoje melhor conhece a política da Europa.

Esta lembrança deprimiu-o. Talvez o diplomata adivinhasse que ele não conhecia Mazade.

Na realidade, a ~Revista, só uma ou duas vezes a folheara, para ler uns artigos sobre economia política, quando fora discípulo do Forjas, em Coimbra. Leitor assíduo não era. Aterrava-o o ter de confessar essa falta, no momento em que lhe estava sendo indispensável mostrar-se ao corrente dos grandes interesses internacionais, que se digladiam no mundo. Abriu no lugar indicado pelo diplomata. Tinha apenas lido as primeiras três páginas, quando o Frazuela concluiu a correspondência. Salústio levantando-se disse:

- É um artigo magnífico!

- Um grande crítico, não acha?

- Excelente! Eu leio-o sempre. No grémio há a Revista. Não me escapa um só número.

- Faz bem, muito bem - louvou o conde. - Para quem vive na política, Mazade é o melhor director espiritual!

Novo espaço de silêncio, enquanto o diplomata escolhia papéis numa gaveta, que abrira com uma chave. Este abandono do assunto que ali os reunira era como a morte dum sentimento delicado entre duas pessoas que se amaram.

Salústio, no limite da sua paciência, perguntou:

- Então o presidente do conselho?...

O Frazuela desvalorizou o acontecimento dizendo em voz natural:

- Falámos de si. O marquês estima-o; porém a crise fica adiada por alguns dias. É necessário fazer passar o projecto da divisão de comarcas, uma dessas coisas a que os senhores ligam tanta importância cá na terra - rematou desdenhoso...

Salústio ficou triste, remoendo a sua desilusão. Era quase um roubo, o dessa pasta, que sentira ao alcance da sua mão. O Frazuela compreendeu a amargura espalhada naquele organismo como um veneno, e de novo procurou reconfortá-lo, aproximando-se muito íntimo:

- Nem uma palavra acerca do que se passou. É apenas o adiamento de duas ou três semanas. Aproveite o tempo para estudar um grande discurso acerca de colónias. Faça um discours ministre, entende? É conselho do presidente. Alguns velhos que por aí há, homens sem valor, mas presunçosos, podem reparar que lhe dêem uma pasta a si tão cedo, quando eles ficam de fora. É necessário justificar. O marquês é homem experiente e assim o entende.

Ia sair. Pediu dois minutos de espera a Salústio, enquanto ia falar à condessa. O deputado tornou a ficar só, estúpido e desiludido. Achavam-no ainda novo para ministro? Para que lhe falaram em tal?! Melhor teria sido não lhe terem dito nada. Quando o Frazuela voltou, deu com ele surumbático, passeando meditativamente.

Desceram a escada silenciosos, o par do reino calçando as luvas, o deputado desgostoso da vida.

A porta da rua, o diplomata ainda repetiu num conselho precioso:

- Um discurso em cheio, acerca das vantagens das concessões coloniais. Aproveite qualquer pretexto. É necessário atrair os capitais estrangeiros; rufe-lhe nisto dos capitais estrangeiros. O dinheiro não é indiferente a ninguém, e vir ele de sua vontade da casa dos outros para a nossa casa é sedutor, faz sempre efeito. Trabalhemos ambos para enriquecer o país que alguma coisa nos tocará. E daqui a algumas semanas vê-lo-ei ministro. Olhe que da sua idade, deputado só em duas sessões... Mas um discurso que produza efeito. Não se esqueça dos jornais; convide jornalistas para jantar consigo no dia em que falar. Entre a pêra e o queijo é que estas coisas se combinam. Sem jornais, não se faz nada...

Ao entrar na carruagem forrada de seda branca, apertou a mão do deputado com afecto. Ao mesmo tempo, dizia ao trintanário:

- Para a Ajuda.

Salústio não ficara satisfeito. Principiou a caminhar sozinho, numa ausência das coisas, não sentindo nos pés a dureza do pavimento da rua. Espalhara-se-lhe a bílis no sangue, mordia os beiços de despeitado. Afastavam-no das combinações políticas que dariam a solução da crise?... E que o consideravam apenas um comparsa. O Frazuela ia conferenciar com el-rei e decerto lá se encontraria com o marquês de Tornai. Disporiam dele como dum dependente. Era uma escravatura política esta; mas tinha de se submeter para chegar aos seus fins. No alto da Rua da Emenda pronunciou aborrecido, mas glorioso:

- O mundo é isto! Mais tarde farei o mesmo a outros...

Seguiu indiferente e céptico pela Rua da Horta Seca, o cérebro batido por ideias contraditórias. Em todas as fisionomias reconhecia o estigma da sujeição moral em que ele mesmo se encontrava. Todos mercenários dos gozos materiais, da vaidade, do dinheiro, do mando, da ínfima cobiça humana...

- Se o mundo é isto e eu não posso reformar o mundo... - raciocinou filosoficamente.

 

Porém, de novo fortemente preso do pensamento do que levaria o Frazuela a ir falar com el-rei, sem lhe ter dado palavra de explicação, sentia no cérebro nova onda sanguínea de revoltado, revoltado contra esse mistério que o envolvia. O presidente do conselho, a dois passos dele, conferenciara com o diplomata e não o chamaram; o diplomata em caminho do paço, certamente que se encontraria aí com o presidente do conselho e ambos discutiriam com o chefe do estado a crise política!... Talvez a resolvessem nesse dia, ao menos assentariam as bases da nova combinação ministerial.

E ele desconhecedor até da suma de todas essas conferências, para escutar as quais seria capaz de cometer baixezas! Sentia despeito, amargura dolorosa a adoentar-lhe o coração, já doente, como água lodosa que entrasse na bacia dum pântano para aumentar a turvação. E monologou tristemente ralado:

- Isto é só para eles, para esses grandes magnates!...

Julgavam-no incapaz de entender das artimanhas da política elevada? Seria por desconfiança na sua discrição, ou não lhe atribuiriam inteligência para tais combinações?!... Era então só meterem-lhe debaixo do braço uma pasta, como a um manequim?!... Pois enganavam-se redondamente: para intrigas e planos cavilosos é que se sentia impelido; era a sua verdadeira paixão. Da política o que mais o encantava era poder achar-se envolvido em acontecimentos defesos ao maior número; era guiar com mão firme os homens, como os cocheiros governam cavalos. Dispor em caprichoso alvedrio dos outros, eis toda a sua ambição. A sua vaidade ostentosa gostaria que lhe atribuíssem força e poder dominantes, ainda que fosse mentira. Atraíam-no irresistivelmente as manhas, os raciocínios complicados, o proceder enigmático e labiríntico dos estadistas de nomeada no estrangeiro. A astúcia, o ardil, o engano, eram qualidades que desejava possuir, por serem, no seu entender, as que distinguem os governantes dos governados.

- Tudo o mais pouco vale! - afirmou com jactância.

Sentia-se esvaído no seu entusiasmo, picado no seu orgulho, pelo Frazuela nem a consideração lhe ter dado de lhe revelar para onde ia. Por acaso é que lhe ouvira dizer ao trintanário «Para a Ajuda...» Abandonara-o no meio da rua, com o vulgar aperto de mão, que se dá a toda a gente. Tal procedimento magoava-o e era incompreensível. Tê-lo-ia na conta dum simples verbo de encher, duma criatura de quem podia dispor a seu talante?!...

- Talvez... Mas quem lhe disse que se não engana?! Eu ainda tenho a faculdade de dizer

redondamente: não!

E pronunciando de rijo esta desagradável palavra, cuja sonância lhe gerou calefrios, olhou espavorido! Parecera-lhe que outra pessoa a tivesse proferido... Os cocheiros que cavaqueavam à esquina da Rua da Horta Seca, indiferentes à batalha daquele espírito consigo mesmo, vieram oferecerlhe as carruagens; porém Salústio, respondendo com gesto enfadado, passou carrancudo e severo, entrando no Largo de Camões. Tinha tanto azedume calcado dentro do peito que a sua vontade seria gastá-lo em bengaladas nos indiferentes que passavam. O que lhe faziam não se podia tolerar. Não era nenhuma bola de bilhar ou pedra de xadrez, para inconscientemente entrar no jogo do conde de Frazuela, do marquês de Tornai, ou de el-rei. Veio-lhe à lembrança procurar qualquer dos chefes da oposição para lhes entregar o grande segredo que sabia. Escangalhava tudo, ia a situação pelo ar, não obtinha naquela ocasião a pasta ambicionada; mas ao menos saborearia o prazer da vingança!...

Sentado num banco, roía as unhas com frenesi... O seu olhar era fixo e acintoso!...

- Que borra esta política portuguesa! - considerou desalentado.

Para ele tudo se cifrava num compadrio abjecto de meia dúzia de figurões, que haviam tomado o país à sua conta, corrompendo-o para melhor o poderem explorar em proveito dos seus interesses inconfessáveis. Todos uma súcia, a que seria bem aplicada uma correcção enérgica de justiça social, um segundo 93... As cóleras humanas rugiram então pelas formidáveis gargantas de aço de Vergniaud, o eloquente; de Danton, o forte; de Marat, o homem tremendo, que ainda assombra a história, com os roucos gritos saídos da sua caverna, na rua de L’École de Médedne. A culpa de tudo tinha-a o Povo, que são todos os que trabalham e cujos esforços obscuros se perdem contra a forte barreira formada pela malta dos traficantes!

O originário espírito plebeu de Salústio adquiriu neste momento uma generosidade benévola e inesperada! Deixando-se arrastar na corrente de ideias que lhe inflamavam o cérebro, apresentavam-se à sua imaginação formosos quadros iluminados por um belo ideal, interessantes assuntos de fraternidade e justiça! Sentia-se brando e cheio de sentimento, pensando com sinceridade em que instruir a grande massa dos ignorantes, para lhes dar o instrumento de bem poderem compreender os seus direitos e deveres, seria a política sábia e proveitosa a empregar no futuro. O homem de boa vontade que a pudesse realizar teria as bênçãos da nação. Ele mesmo bateria as palmas diante do inspirado patriota, cujo aparecimento lhe parecia necessário. O que não podia sofrer, o que o revoltava, vibrando-lhe no coração uma força inédita, era ver o monopólio de combinações, que alguns sujeitos reservavam para si: «Com que direito!? - agredia-os mentalmente. - São mais espertos que a outra gente!?»

A tenacidade de Salústio nesta ideia dominante era tal que, a princípio, nem deu pela presença de um andrajoso, com parecer de esfomeado, que se viera sentar na outra extremidade do mesmo banco, onde ele roía os seus despeites. Mas logo que reparou no infeliz, sentiu repelência pelo seu trajar miserável: o vestuário em pedaços, o peito à mostra, e chapéu esburacado a cair-lhe sinistramente para os olhos. Diabo! podia apegar-lhe algum piolho! Tinha aspecto insolente, este esfarrapado, olhava com desagrado para todos que passavam. E bem mal feita a polícia em Lisboa! pensou. São frequentes estes encontros designativos de úlceras morais, que é conveniente esconder, como os doentes do corpo escondem as suas, para não causarem desgosto aos sadios. Tais infelizes são muitas vezes perigosos: - em virtude de necessidades ou de maus instintos tornam-se facínoras e ladrões, pondo em desassossego gente pacífica, que tem vida regular e precisa dormir com pachorra, para continuar na lida dos trabalhos quotidianos! Brilhante assunto, largamente tratado por filósofos, legisladores e romancistas em sentidos muitas vezes diametralmente opostos; mas sempre com sabedoria, eloquência e paixão!

A propósito do caso presente, Salústio era partidário da rigorosa repressão policial. O maior número precisa de garantias, enquanto houver sociedade. Nos outros países, a miséria está melhor regulamentada. A ociosidade é mãe de vícios e produz abortos, como este que ali veio sentar-se, olhando-o agressivamente de soslaio!... Se este homem, em vez de vir adormecer num banco de praça pública, houvesse adoptado qualquer ofício, teria em casa a sua cama, a sua mesa, a sua roupa lavada. O mundo havia de pagar-lhe os serviços recebidos, quisesse-os ele prestar. Tema soberbo o da miséria e do trabalho, digno de ser tratado com elevação em assembleia de gente culta e satisfeita! Salústio não o desprezaria: ficava para quando se lhe deparasse ensejo.

Enquanto pensava nestas coisas, procurando dar ao seu espírito direcção audaz e firme num sentido de progresso social, o andrajoso ergueu lentamente a cabeça, olhando em volta e fixando-o a ele. Levantou-se depois, tirou uma ponta de cigarro de trás da orelha e com voz branda em que se percebia o desejo de se mostrar polido, disse: «O cavalheiro faz-me o obséquio...?» Salústio hesitou alguns momentos, formulou um raciocínio, entregou por fim ao desconhecido o seu charuto meio gasto, levantando-se e dizendo:

- Depois... deite fora.

O homem mal vestido conservou o pedaço de charuto entre os dedos, olhando irónica e tristemente o janota, que seguira para os lados do Chiado. Com o lábio superior arrepanhado num desdém, arremessou-lhe a palavra «asno!» Conservando-se alguns segundos pensativo, guardou no bolso do colete o charuto desprezado e acabou a sua ponta de cigarro espreguiçando-se ao sol.

Passava de uma hora. Salústio Nogueira calculara que o seu amigo Gabriel Besteiros estivesse no hotel e foi procurá-lo com o fim de irem ambos para a câmara. Encontrou-o, colérico e agitado, passeando em volta do quarto, como uma pantera numa jaula! Parecia positivamente furioso! Em menos de quinze minutos estragara um maço de cigarros, atirando-os ao chão, por não poder acender um só! Puxava violentamente pelas barbas, com força de as arrancar... Ao perceber Salústio, estacou no meio do quarto dizendo em voz medonha:

- Esse teu governo é uma corja de patifes! Eu devia ir hoje à câmara, corrê-los a pontapés pela porta fora, quebrar todas as bancadas e acabar com aquilo de uma vez para sempre!

Salústio teve-lhe medo! Nunca o vira com tamanha cólera no rosto! Gabriel decerto herdava aquelas fúrias de sua mãe, senhora tão robusta que amamentava sempre duas crianças ao mesmo tempo, para não lhe encaroçarem os peitos. Devia ser uma segunda Gargamela, mãe do sempre bem namorado Gargantua, que, segundo a crónica do bom Rabelais, lhe tirava, de cada vez que mamava, mil quatrocentas e duas pipas e nove potes de magnífico leite!

Mas Salústio sabia que sempre tivera grande império sobre o testudo e valente Gabriel. Do limiar da porta, falou-lhe com rosto sério, encontrando gozo em deparar com alguém que, como ele, estivesse inimigo da situação.

- Meu governo! Arreda para lá... Mas que diabo te fizeram para estares assim furioso?!

- Uma porcaria, como fazem todos os dias; porque são uns pulhas - respondeu exaltado. Lembras-te daquele padre, que tem em casa filhos de três moças e é meu inimigo declarado?

- O padre Joaquim Cabresto? - lembrou.

- Esse mesmo facínora - rugiu Besteiros. - Pois despacharam-no abade da minha própria freguesia!

- Oh! com mil demónios! - exclamou Salústio.

- Puseram-me na situação, logo que ele me faça a primeira, de lhe despejar no bandulho um bacamarte cheio de zagalotes. E aqui está como um homem se perde, por causa da estupidez de um ministro! - rematou, expondo terrivelmente a sua larga figura de braços cruzados, em frente de Salústio boquiaberto!

Era caso sério, não se podia ocultar. Admirava-se porém do presidente do conselho, homem prudente e conciliador...

- Tu, Gabriel, tens sido sempre um fiel correligionário, um burro de carga nas eleições e em todas as manifestações políticas que eles têm querido organizar... - lamentou.

- Pois é isso que me dana! Eu que faço tudo que eles me pedem; a mim que estou sempre pronto para todas as malandrices, é que pregam uma destas!... - disse com dor na voz.

Salústio, reconhecendo sagazmente que seria conveniente excitar qualquer animadversão contra o ministro da justiça, insinuou:

- Coisas desse Carlos de Mendonça, que não é boa peça...

Besteiros enfureceu-se. Agarrou-lhe violentamente pelas bandas do fraque, como se ele fora o inimigo ao qual se propunha agredir, e declarou exaltado:

- Eu sou pior que ele! Tu conheces-me. Diz-lhe que sou capaz de o arrebentar... E batendo com o pé uma forte pancada no soalho, representou:

- ...diz-lhe que lhe ponho este no bandulho e não lhe deixo nada lá dentro. Há-de deitar tudo pela boca fora! Grandíssimo patife! - concluiu já com os punhos no ar, ameaçando Carlos de Mendonça, cuja fisionomia irónica a imaginação lhe representava a olhá-lo provocador.

Salústio desejou sossegá-lo e ao mesmo tempo fazer-se valer:

- Deixa que eu falarei hoje ao marquês. Carlos de Mendonça é torto; mas no ministério há homens sérios.

Gabriel, a quem os sucessivos agravos já sofridos de há muito traziam a cabeça transtornada, disse caminhando violento para o seu amigo:

- Homens sérios, homens sérios o quê?! Todos uns garotos, uns canalhas, deixa-te de contos. Prometer e faltar é para eles a mesma coisa. Esse tal presidente do conselho acaba de despachar administrador para o meu círculo, sem me consultar. Estes homens querem-me deitar a perder, mas eu faço-lhes uma de dar brado! Um dia, se me chega a mostarda ao nariz, esborracho qualquer deles, como quem esborracha um percevejo e vou para a costa de África.

E como estivesse verdadeiramente desorientado e o desespero lhe desse para chacota acerba e mordente, pronunciou às gargalhadas:

- Olha que não é tão má como dizem, a tal costa de África! Come-se lá pão e há pretas para a gente se regalar. Esses homens estão positivamente iludidos comigo!... Diz-lho tu, desengana-os.

Esbandalho um!

O deputado de Guimarães conhecia bem o seu conterrâneo e acreditou que uma grande sensaboria pudesse acontecer. Tremeu por si, que estava para entrar no ministério, e tremeu pela independência do poder executivo. Havendo na câmara meia dúzia de deputados como Besteiro, adeus opiniões desassombradas!... Os ministros teriam de viver sob um verdadeiro regímen de terror. Por isso, usando de tacto e moderação, qui-lo levar a outra ordem de sentimentos, salvar da responsabilidade o ministério, o marquês do Tornai, ainda que desejasse uma situação desfavorável para Carlos de Mendonça, que, a bem dizer, já estava condenado em mais elevada instância.

- A gente não faz tudo quanto quer, Gabriel. O presidente do conselho se andou assim, é que teve razões poderosas. Um ministro vê questionado um ponto de administração por influências de valor igual e contrário; quando se decide, o que muitas vezes é forçoso fazer-se, há-de desagradar a uma das partes.

Como defendia, por assim dizer, a própria causa, ainda acrescentou:

- A quem está de fora, tudo lhe parecem rosas; mas há verdadeiros espinhos no meio dessas rosas... É bem pesada às vezes uma pasta! - observou suspirando, como se já lhe sentisse os dissabores. - Perdem-se os melhores amigos, os parentes zangam-se, os grandes influentes... esses, então, são implacáveis, terríveis, medonhos!... Ah! Gabriel, Gabriel, não desejes essa cruz ao homem que mais detestes - concluiu suplicante, pondo-lhe a mão no ombro.

Mas o outro era céptico e bruto; ouvia-o sorrindo, abanava a cabeça, produzindo exclamações trocistas, enquanto Salústio se lamentava em voz minguada. E retorquiu-lhe, quase agressivo:

- Não te me ponhas com alanzoados. No meu círculo quero eu mandar. Se não me deixam fazer o que eu quiser, passo-me para a oposição, ou então, vou lá para Trás-os-Montes, pego numa clavina, mando tocar os sinos a rebate e faço-lhes uma bernarda, entendes?

Salústio falou como homem de governo:

- Deixa-te disso! Hás-de receber uma explicação, digo-to eu. Sabes lá as razões que o presidente teve para fazer o que fez! Nas coisas pequenas, como nas grandes, um chefe político não pode dar a todos os momentos conta dos seus actos... Há segredos... há melindres... E terminou num tom que parecia conter um pensamento profundo:

- É coisa muito difícil, dirigir uma política. Tu nunca soubeste como elas mordem...

Gabriel, homem de explosões bombardeiras, entrara no período de cansaço. As palavras de Salústio tinham produzido efeito. Porém continuava num aspecto e num arremedo de oposição, por trás das cortinas da janela, com as costas para o Chiado, roendo as unhas. O futuro ministro continuou a envolvê-lo numa atmosfera de branduras, de considerações nublosas, que enfurnavam o entendimento de Besteiros... «Às vezes não era possível dizer todas as coisas, nem aos mais íntimos, nem aos próprios interessados. As resoluções de um homem de Estado deviam ter um carácter decisivo de prontidão, o qual perderiam se fossem divulgadas. O contrário seria perder força, diminuir desnecessariamente a acção governativa, alienar autoridade.

- Já leste Maquiavel? - perguntou imponente e sobranceiro.

Gabriel, que era bronco e desdenhava todo o saber, olhou-o com estranheza:

- Para quê?... Quem é esse lérias?!...

- Ah! não o conheces e chamas-lhe lérias. É o autor do Príncipe, é o grande florentino, mestre de toda a política moderna, política de subtis combinações para altos entendimentos. Se o tivesses lido saberias quão difícil é governar um império. Pois olha, diz Maquiavel, no seu famoso livro, que o homem de Estado digno deste nome deverá na prática do governo «pôr sempre o interesse acima da justiça». É dum grande filósofo, acredita.

Gabriel sentiu-se quase ofendido com esta declaração. Serenamente, como homem que despreza certas finuras, disse com a testa vincada:

- E tu achas bonita essa teoria, essa marmelada?!

- Não acho bonita, nem feia; mas compreendo que um político se veja, muitas vezes, na conjuntura de a empregar. (E dando duas passadas para Gabriel, como quem tinha tido uma ideia súbita): Digo-te mais: o bem estar geral, que é aquilo a que se mira, lucra sempre com a aplicação deste princípio e tanto basta para que ele se empregue e seja de grande sabedoria e de maior utilidade.

- Sois todos os mesmo! - retorquiu com amarga galhofa Besteiros, voltando-lhe as costas e ficando a olhar para a rua.

Esta frase deu uma viva alegria a Salústio, vendo-se envolvido numa generalidade tão elevada. Por isso continuou a falar com mais loquacidade e entono, mesmo nas costas do conterrâneo. Deviam-se desculpar muitos actos dos homens políticos, mormente quando se não compreendem. As vezes tem de se jogar com elementos diversos e contraditórios, sem que os envolvidos nas melindrosas combinações o possam saber. Os homens, na mão dos estadistas, terão sempre de ser pobres coisas inertes, movidas por uma força superior, a que obedeçam inconscientemente. Peças de xadrez, ou pedras num tabuleiro de damas, nada mais.

- Pensas que o marquês de Pombal teria sido o marquês de Pombal que foi, se deixasse de antemão adivinhar os seus segredos?

- Já te disse - repetiu Gabriel olhando sempre para a rua - tu defende-los, porque és tão bom como eles. Sois da mesma panelinha - resumiu, desprezador.

Era uma espécie de consagração esta que encontrava nas palavras, ingenuamente ofensivas, do seu amigo. Parecia-lhe que, naquele momento, uma enorme multidão o estava apontando, vendo nele um companheiro póstumo, o discípulo amado de Maquiavel! E, como a cobra, que, aquecida pelo sol da primavera, se revolve voluptuosamente na tépida folhagem, com o fim de prolongar sensações agradáveis, o deputado por Guimarães exclamou numa fingida invectiva:

- Da mesma panelinha!... Não sei o que queres dizer com a facécia!... Eu sou um homem que defendo as minhas ideias, que ponho os meus princípios e combato por eles. Se Pedro, Sancho, ou Martinho entrarem no meu modo de pensar, muito bem; se não entrarem, agrido-os!. Da mesma panelinha! da mesma panelinha!... Que diabo queres tu dizer com isso? - interrogou de cara alta, exigindo uma resposta.

Gabriel Besteiros deu-lha clara. Voltou-se e explicou acentuadamente:

- Que tu, o marquês, o ministro da justiça, e todos esses ministros e marqueses, e o próprio rei, vos entendeis perfeitamente, sois os mesmos canalhas e impostores. É o que quero dizer!

Salústio, querendo mostrar-se ofendido e irritado, conservava nas palavras, na expressão do rosto, qualquer coisa de benignidade, de agradecimento...

- Sou porventura membro do gabinete para ter culpa do que te fazem?! - apostrofou.

- Mas quando o fores, praticarás os mesmos actos! Acabas de o confessar!

- Quando o fores!... quando o fores!... - exclamou numa voz moderada e inquiritiva... - Isso é muito distante, muito problemático.

- Talvez não!... - aventou Gabriel.

Este dizer vago surpreendeu Salústio, que o ouvira alterado... Pareceu-lhe encontrar inteligência e reserva nas palavras de Besteiros... Esteve algum tempo calado para calcular o caminho a seguir num inquérito necessário. Seria simples palpite, mero gracejo, ou, na realidade, a notícia da crise ministerial havia transpirado!... E, como Gabriel sorrisse de modo equívoco, Salústio, por decoro pessoal e interesse político, pareceu-lhe conveniente dizer:

- Talvez não?!... Quem diabo te meteria na cabeça que eu havia de ser brevemente ministro! Ora o desfrute!... - e deu uma gargalhada para espalhar.

- Chama-lhe desfrute; mas eu que o digo...

- É porque o sabes! Disse-to el-rei? - chacoteou.

- Mas ouvi-o a pessoa que o sabe tão bem como ele - insistiu Besteiros com rosto sério, indo para a janela.

Houve um espaço de silêncio. Aquela ideia começou a afagar Salústio como se fora mão lasciva. Acendeu o charuto apagado, passeou ao fundo do quarto, fingindo indiferença. Sem mostrar grande empenho, ainda pronunciou avulsamente:

- É boa tolice!...

- Será - insistiu Besteiros ainda a olhar para a rua. - Mas faço uma aposta contigo...

O futuro ministro agarrou-lhe por um braço, trazendo-o para junto do sofá, onde o fez sentar e ele, de pé, em frente do amigo, exorou-o em voz de súplice e cativante:

- Diz para aí, com mil demónios, o que ouviste. Sabes que é assunto que me interessa.

- Não posso - insistiu Besteiros, cofiando a longa barba, querendo também fingir que tinha importância, que se entendia com pessoas lá do alto.

Salústio, vivamente interessado, pálido e nervoso, abandonou Gabriel à sua recusa intolerável, pondo-se a passear, com as mãos nos bolsos, o charuto apagado entre os dentes, a olhar para o chão. Conservou-se assim uns bons minutos, mas de repente veio-lhe uma coisa à cabeça, foi direito à cadeira onde deixara o chapéu, pegou nele, disposto a sair. Desta maneira queria manifestar o seu desgosto. Aquele silêncio não era de um amigo. Que diabo! se sabia alguma coisa, se tinha algum segredo valioso, que o interessasse, era da sua obrigação comunicar-lho. Não são admissíveis mistérios entre velhos camaradas, condiscípulos desde a escola de aldeia e liceu de Braga!...

- Adeus, vai à fava!... - despediu-se furioso, quando Besteiros o chamou:

- Não te zangues, vem cá. Sempre queres saber o nome da pessoa?

- Quero - respondeu decisivamente, já do lado de fora, o chapéu enterrado na cabeça.

- Então entra, fecha a porta.

Salústio entrou, fechou a porta, veio colocar-se em frente de Gabriel, com o rosto mal humorado, continuando a fazer-lhe sentir quanto repreendia aquela falta de franqueza. Besteiros, bonacheirão e sorrindo, explicou:

- Pois é um palpite. Foi realmente coisa da minha cabeça.

Ao futuro ministro subiu-lhe às faces o rubor da vergonha por esta troça da parte dum asno como Besteiros. Altivo e cheio de dignidade, quis desagravar-se e desfechou-lhe:

- Pois adivinhaste. Há uma crise ministerial e entro eu para substituir o Carlos de Mendonça! Saciada a sua vingança, saiu. Então o valente Gabriel, tomado de um pasmo súbito, deu um salto do sofá, agarrou-o no corredor, trazendo-o de novo para dentro:

- Homem, diz para aí tudo, senão estoiro!

Passou-lhe rapidamente pela mente que Salústio, vindo a ser ministro da justiça, ainda poderia obstar a que o padre Cabresto fosse colado na sua freguesia. Por isso o tomou orgulhosamente entre os braços de amigo, levou-o para a janela, e, num sorriso humilde, numa voz dependente, confessoulhe:

- Homem, tu sabes que te julgo digno de tudo! Somos íntimos do tempo de rapazes. Conta o que há, dás-me uma grande alegria, acredita.

Salústio Nogueira, ainda no propósito de desagravo, disse-lhe o que havia, com voz decisiva e triunfante. Era verdade: Carlos de Mendonça sairia por causa da reforma das dioceses, que desagradava a el-rei, por ser combatida pelo alto clero. Estivera, ele, nessa manhã em demorada conferência com o conde de Frazuela, por causa disto. O marquês de Tornai também apareceu, e combinara-se que a crise se manifestasse daí a semanas, para dar tempo a discutir-se primeiro a nova divisão das comarcas.

- É para veres - terminou, ufano de orgulho - que eu tinha algumas razões para desejar conhecer a verdade do que afirmavas. Não eram palavras à toa, as que eu te dizia - concluiu em tom magoado.

- Oh! filho! - disse Gabriel com o braço esquerdo em volta do tronco de Salústio, - o mal que eu te quero, para mim venha. Estimo sinceramente os teus triunfos, que são também meus e da nossa terra! Mas, oh! meu rico menino, rico Salustinho da minha alma, tu ainda poderás fazer com que não vá para a minha freguesia aquele patife do padre Cabresto ?

Com a ponderação de quem já se sentia com as responsabilidades do poder, o deputado observou:

- Para onde queres tu que eu to mande, se o decreto já apareceu?

- Manda-o p’rò inferno, fá-lo bispo; mas tira-me de lá aquele ladrão, senão pode haver uma grande desgraça. Ou eu o mato a ele, ou ele me mata a mim.

Não prometeu nada, mas disse: ”pois sim, veremos, apesar de presumir que a pasta que lhe destinavam seria a da marinha... Queria mostrar-se homem de valimento diante do seu amigo. Porém, de novo sereno e senhor do seu raciocínio, reconheceu que fora de leviana a declaração que fizera a Gabriel. Para lhe apanhar a cumplicidade do silêncio prometeu:

- Isso do padre Cabresto há-de conseguir-se; mas, até por teu próprio interesse, nem uma palavra a respeito do que te revelei da crise. São coisas sérias; estes segredos da política são coisas muito sérias.

- Faz de conta que o disseste àquela cadeira - prometeu Besteiros, apertando-lhe solenemente a mão. - Pela vida de minha mãe!... Bem sei que sou um estúpido, mas honradinho...

- Fio-me em ti - concordou Salústio, fixando-o sisudo.

Foram nesse dia juntos para o parlamento. Gabriel estava contente e gastador. Chamou uma carruagem com um aceno de bengala, fazendo entrar primeiro o futuro ministro. Não falaram mais neste assunto, receando cada um melindrar o outro, se se recordasse a singular atitude em que se tinham encontrado face a face. Porém, Besteiros, com o explosivo ódio ao padre Cabresto, um mariola que lhe roubara uma rapariga de que ele gostava, foi contando, durante o trajecto, episódios dessa inimizade antiga, conservando-se Salústio silencioso, dorso apoiado ao encosto da carruagem, na atitude de quem remói profundas combinações. E como, ao entrarem no Largo das Cortes, Gabriel visse ao longe, junto do largo portão beneditino, o marquês do Tornai apear-se do coupé, disse ao companheiro, na intenção blandiciosa de o lisonjear: «Olha, lá vai o teu presidente do conselho». Porém o deputado, sem alterar o seu rosto pensativo, respondeu apenas: «Deixá-lo ir».

Salústio Nogueira entrou na câmara, com aspecto altivo, atirando um olhar valioso por cima de toda a representação nacional. Alguns segundos lhe bastaram para cumprimentar o grupo de deputados e pares do reino, que estavam junto do fogão, à esquerda. Depois subiu as escadas indo colocar-se no alto, por trás da cadeira presidencial, numa evidência calculada, olhando sobranceiramente. Tinha a mão entre a sobrecasaca e o peito, do lado do coração, o chapéu fincado na ilharga esquerda e assim se conservou solene como um celebrante. Com certo ar interrogativo, em que havia ao mesmo tempo benevolência e majestade, apanhava na sua área visual a câmara e a galeria dos jornalistas. Em seguida, voltando a cabeça para a esquerda, fixou as senhoras, que nesse dia eram numerosas, porque se esperava uma questão irritante acerca de arrozais. Tirando a mão do seio, passou-a duas vezes na fronte e na corredia cabeleira, sentindo nas pontas dos dedos a sensualidade do agiota em contacto com um precioso tesoiro. Ao presidente, um velho calvo e obeso, de olhar sonolento, cumprimentou com aperto de mão igualitário. Desceu para o lado direito, procurando encontrar-se com o ministro da fazenda, visconde de Serrato, de quem obteve uma conversa de aparência interessada, em que Salústio Nogueira falava ao ouvido do conselheiro, olhando para os lados, com grande desejo de ser notado... Acompanhou o visconde até à sua cadeira, cumprimentando nessa ocasião o presidente do conselho, que lhe correspondeu afectuosamente, o que Salústio interpretou em sentido favorável à realização das suas ambições. Bamboleando o corpo com certa vaidade, foi-se sentar no seu lugar, aparentando naturalidade. Determinou escrever algumas cartas; mas, antes de começar a correspondência, susteve a pena entre os dedos, o olhar sorridente e piedoso para Carlos de Mendonça, que nesse momento se defendia com excessivo calor das arguições que lhe faziam por haver transferido, com fundamento disciplinar, um delegado do procurador régio, que desagradara aos influentes duma terriola.

- Tudo política, a maldita política! - rugia um deputado oposicionista, passeando indignado, com as mãos atrás das costas, junto dos bancos dos ministros.

Salústio chacoteava no seu foro íntimo o ministro da justiça, que tão vivaz se mostrava na defesa da pasta, que não lhe estaria por muito tempo nas mãos. «Não te canses, pobre diabo, (dizia mentalmente), não lutes pela vida ministerial, que para ti será breve!...».

110

Na noite desse dia, as pessoas reunidas em casa do Frazuela foram sobressaltadas pelo sinal de fogo dado em grande número de torres da capital! A sensibilidade das senhoras comoveu-se, muitos homens preparavam-se para ir ver se o incêndio seria em suas casas!... Das janelas apreciava-se uma claridade de aurora, para os lados do Aterro. Algumas pessoas raciocinando avulsamente calculavam onde o pavoroso sinistro se localizaria, quando D. Agostinho, que tudo observara por sobre o ombro do general Gonçalo, disse com voz quase indiferente:

- Aquilo pode muito bem ser no Paço da Ajuda!

Empalideceram subitamente, entreolhando-se mudos e estupefactos! Aquela palavra serena e breve teve os ribombos estrondosos da dos antigos profetas anatematistas, quando anunciavam a ruína da santa Jerusalém!... Podiam morrer suas majestades e não se salvarem os príncipes!... Havia cuidados preventivos em volta do palácio real - sabia-se - mas essa incalculável fatalidade seria impossível?!... Salústio pegou comovidamente no chapéu e desapareceu sem se despedir. Muitas pessoas o seguiram e houve tropel na escada. Porém, o deputado, que a todos se adiantara, na rua principiou a andar num passo perturbado. Encontrando uma carruagem que recolhia, precipitou-se dentro e só teve força de dizer sufocado: «Para a Ajuda!» O cocheiro principiou a chicanar o preço, por causa da hora adiantada da noite, e Salústio, atirando-lhe com a desprezível palavra canalha, correu desorientado para o lado abaixo, no propósito de ir a pé e, se tanto fosse necessário, clamando com o fim de acordar o generoso sentimento popular.

No Aterro, um polícia que fumava tranquilo, vendo-o naquele fugir, deteve-o, julgando ter ali um criminoso ou um louco. Porém, depois de se explicarem mutuamente e informado Salústio de que o fogo, que dali se via distintamente, era no populoso bairro de Alcântara, ficou mais tranquilo. Aquele sinistro havia perdido todo o seu alcance de cataclismo social. Voltou à rua da Emenda, com o fim de sossegar os ânimos alterados, tornando a sair imediatamente a pedido da condessa e doutras senhoras, que desejaram saber, antes de se recolherem às suas camas, se nessa catástrofe haveria vítimas a lamentar. D. Agostinho foi muito censurado pelas palavras pronunciadas, de que resultara todo aquele alvoroço!...

- Ora que infeliz ideia havia de ter! Sempre nos pregou um susto! A Aguas Santas acrescentou:

- Eu já não posso dormir bem esta noite. Credo! para longe vá o agouro. O velho fidalgo, magro e erecto, para se justificar considerou:

- Vale mais a pena prevenir do que lamentar... Conhecemos nós todos os desígnios da Providência?!

- Ora a Providência, a Providência!... A providência podia lá fazer uma tolice dessas, de pegar fogo no Paço da Ajuda!? - ainda retorquiu irritada a viscondessa.

Só no dia seguinte se conheceu a extensão da miséria em que ficaram dezenas de famílias pobres por causa do sinistro! Haviam desaparecido seis crianças e três velhos! Pelas ruas estreitas e tortuosas, foram encontradas mulheres em camisa, fugidas da pobre enxerga com tenros filhos apertados contra o seio. O corajoso esforço dos bombeiros, arriscando temerariamente a própria vida para salvar a dos infelizes que pediam socorro, foi justamente louvado. Às duas horas da noite, quando as labaredas eram mais brilhantes, formando uma coroa de fogo sobre o apinhado das casas, apareceu em cima de um dos telhados uma louca cantando o Bendito em voz de timbre claro e entusiasta. A multidão, que presenciava o medonho espectáculo, sentiu-se, ao ver isto, possuída de tremura nervosa e violenta. Aquela aparição tinha o quer que fosse de terrível e grandioso! Era um destes episódios que se encontram pouco na vida corrente. Alguns espíritos mais serenos e requintados, que o conheceram pela leitura dos jornais, o compararam à cena da Hebreia, em S. Carlos, no lance em que a formosa judia, ainda cantando, se lança cheia de fé no seio das chamas!...

Porém, este primeiro abalo (também o diziam os jornais) transformara-se num pasmo mudo e impressionante, quando foi visto um homem no telhado, com o claro propósito de salvar a vida da louca! Aproximava-se sereno e resoluto, apesar do risco de vida que o acompanhava. A velha histérica, julgando-o um companheiro, igualmente possesso do santo entusiasmo do martírio que a absorvia, bateu as palmas, chamando-o com palavras simpáticas de coragem e louvor. Porém, logo que foi agarrada e percebeu que a queriam roubar às chamas purificadoras, principiou berrando num desespero danado, chamava demónio ao seu salvador, fazia esforços complicados para se desgarrar dele e poder precipitar-se na enorme fogueira que a seduzia! O pasmo só desconhecido sustinha-a energicamente pelo magro tronco, apertando-a contra si. Se este homem não fora um valente e se a mulher não estivesse magra e débil como um tísico, teriam ambos caído nas goelas sanguíneas da enorme labareda! Ainda assim, num dado momento de perigo, ele teve de se segurar a um poste telegráfico, para não rolarem ambos pelo declive!...

O andar firme daquele homem à borda dum brasido monumental, tendo por fim poupar uma vida inútil, comoveu toda a cidade. «Quem seria o herói sublime e dedicado?!» - exclamava-se.

Ninguém o soubera na noite do acontecimento, ignorou-se nos dias seguintes. A maníaca encontrada depois vagueando pela rua chamava-lhe satanás, mostrando no semblante desespero, quando a interrogavam a tal respeito. Porém, um jornal, não se conformando com a delicadeza deste heroísmo obscuro, pôs os seus melhores adjectivos a prumo, exigindo do governo que descobrisse o herói temerário para o recompensar publicamente, dando-lhe uma condecoração. Este proceder seria de simpático ensino, podendo provocar outros cometimentos semelhantes.

A sumptuosa narrativa do incêndio, arquitectada em colunas compactas de gazeta, impressionou. No Chiado e nas ruas da baixa, muitos indivíduos de rosto animado mostravam o papel às pessoas que o não tinham lido. Tomava-se no acontecimento interesse mais que literário, comentando-se com viveza a narrativa depois de enriquecida com pormenores de boca em boca. O Fonseca da Alfândega, por exemplo, afirmou categoricamente que sua majestade a rainha também estivera presenciando o incêndio. Este facto ninguém o presumia e causara profunda e lisonjeira impressão. Era estranhável que certo jornal dos bem informados o ignorasse. Porém, o Fonseca, que em tudo que dizia respeito a senhoras da capital, qualquer que fosse a sua categoria, se mostrava sempre sabedor, afirmou ser verdade e que a rainha se conservara sempre dentro do coupé estacionado no largo do calvário, falando interessadamente com a dama de serviço e confrangendo-se de nervosa, quando encarava a montanha de chamas irrompendo da casaria. Albano de Melo confirmou, diante de alguns incrédulos, o facto referido pelo Fonseca. Porém, completava-o num ponto: - sua majestade saíra uma vez da carruagem, para melhor observar o grandioso espectáculo. Envolvida cuidadosamente numa longa capa, a formosa cabeça coberta com mantilha preta de rendas, quem poderia presumir estar ali a esposa do chefe da nação, a rainha de Portugal?!

- Esse pormenor escapou-me - disse o Fonseca. - E admira; porque o considero de suma importância.

Porém, Alberto da Cerveira não admitiu facilmente o que lhe contavam. A ser verdade constituiria uma rica particularidade para o seu folhetim da semana. Infelizmente, a rainha estava doente: nem pudera ir a S. Carlos, na noite do triste acontecimento.

- Ora se ela não apareceu em S. Carlos, o seu mais dilecto divertimento, como poderia ter presenciado o incêndio?... - argumentava com sagacidade o Cerveira.

- Mas se nós a vimos! - afirmou solenemente o Fonseca.

- Podiam enganar-se, confundi-la com outra senhora...

- Ah!... então a nossa rainha confunde-se com outra senhora?!... - chasqueou.

Todos ficaram calados, durante segundos. Algumas pessoas aplaudiram, dizendo: «É verdade, não se confunde». Alberto da Cerveira, um tanto vexado pelo triunfo do seu contraditor, ainda observou, já em retirada da polémica:

- Mas podia acontecer... Enganos dão-se todos os dias.

Que estivera el-rei montado num cavalo castanho, conversando com o presidente do conselho, com o governador civil e com o comandante das guardas municipais a quem oferecera um charuto, sabia-o todo o mundo; porque o jornal que melhor informado se mostrara mencionava o facto com todas as suas valiosas minuciosidades, como, por exemplo, a de ter sua majestade tossido, a ponto de o julgarem constipado! Também pelas revelações da gazeta se sabia que, no dia seguinte de manhã, o senhor infante viera ver as ruínas do incêndio e dissera de modo profundo: «Foi um fogo de mil demónios!» O pai de el-rei, contava-se que perguntara ao seu particular, quando lhe apresentara o pequeno almoço: «Então que tal o incêndio em Alcântara?» À simples narrativa do acontecimento, enfeitada de poucos mas interessantes pormenores, respondera o monarca (englobando na sua a opinião de sua esposa): «Temos sincera pena da pobre gente que com isso tenha sofrido...» E mostrara desejos de que o seu nome aparecesse em qualquer acto público tendente a beneficiar as vítimas de tão impressiva desgraça.

Salústio Nogueira tomou neste acontecimento o papel de propulsor da religião da caridade, que se desenvolvia em ondas de alteroso mar. No Chiado, no Grémio, no Club, nos corredores das câmaras, debaixo da Arcada... em toda a parte se falava do caso pungentíssimo, pondo sempre adiante, com encarecido respeito, o nome de todos os membros da família real. Em S. Carlos especialmente, onde se reúne o que há de melhor em Lisboa, Salústio fomentava, com a sua palavra sonora, o entusiasmo por tudo quanto se fizesse. No camarote da condessa de Frazuela apareceu a ideia de se organizar um grande espectáculo, com preços caros, para gente rica. Como sua majestade a rainha se interessava por tudo quanto se fizesse neste sentido, esse espectáculo podia ser uma coisa linda, ao mesmo tempo artística e rendosa. Esta ligação da grandeza dos opulentos com a miséria dos pobres encerrava, além dum belo exemplo de solidariedade, estímulo para o respeito social das instituições, que se radicam pelo alto prestígio do nascimento e subsidiariamente pela utilidade que produzem. Um capitalista, havia pouco chegado do Brasil, assinante duma cadeira de S. Carlos, onde todas as noites expunha soberbamente o seu largo peitilho engomado, disse a Salústio que para essa representação daria cem mil réis pelo seu lugar! Esse belo oferecimento fora secundado por outras pessoas, com menos generosidade, sim, mas com idêntico fervor. Era um crescer magnífico de sentimentos bons, no meio de agradáveis felicitações e desejos, semelhantes ao do empolar do Atlântico no equinócio da primavera, quando se levanta grandioso à vista da paisagem florida e deslumbrante dos nossos campos e encostas. Poucas vezes, como nesta noite, no teatro de S. Carlos, os olhares de todos tiveram tanta alegria, os lábios tantas palavras cordiais, os sorrisos foram tão espontâneos e cariciosos. E em homenagem comovida, tudo isso evolava para o camarote real, donde desejavam que partisse o impulso necessário, para se organizar a falange dos que tivessem no peito um coração que soubesse sentir as infelicidades das vítimas no incêndio de Alcântara. E como nessa noite se cantou o Trovador, em estado de tão vibrátil sensibilidade se encontrava o público, que no momento em que a sibila é queimada e aparece o clarão da fogueira fingida entre bastidores, houve comoção em olhos bem formosos, nos quais (disseram) tinham aparecido lágrimas com o brilho de diamantes. Salústio avaliando o acontecimento pronunciou entusiasmado:

- Belo espectáculo este! Digam os cépticos que não há sentimentos religiosos!...

Assim aquecida a opinião, muita gente espontaneamente se lançou na febre de inventar modos de socorrer as vítimas do falado acontecimento. De toda a parte surgiam alvitres enfeitados galhardamente de palavras calorosas. Foi lembrada a toirada à antiga portuguesa; um concerto monstro no Passeio Público, formado de todas as bandas regimentais da capital; uma feira em Belém, com entradas pagas em recinto fechado, onde as fidalgas da corte, as próprias damas da rainha venderiam sardinhas fritas e salada, com o fim de dar ao divertimento carácter popular.

- Isso até eu lá iria comer meia dúzia delas - disse o sensual visconde da Carregueira, esfregando as mãos.

- E dois - aplaudiu D. Agostinho.

- E três - secundou com voz forte Gabriel Besteiros.

Muito se esperava da subscrição pública lembrada por Leôncio de Mértola, principalmente recomendando-a o governo para o Brasil e para a África. Daria um rendimento considerável com que até se poderia mandar construir um bairro operário em terrenos que o capitalista possuía a montante de Alcântara e que estava disposto a vender. A câmara municipal, numa brilhante sessão comemorativa, falou vagamente em considerar filhos da cidade os filhos das vítimas, «vítimas eles mesmos» como ponderadamente comentou o conselheiro Maurício Pontino. Esta generosidade dos procuradores da capital produziu excelente impressão.

Salústio Nogueira entrava em todas as combinações, aplaudindo, corrigindo, ampliando os pareceres sugeridos. A sua grande frase era: «Os reis sempre. Se querem um verdadeiro e óptimo resultado não esqueçam o nome da rainha.» O marquês de Tornai é que lhe impusera a ideia num dia em que o teve ao almoço, dizendo-lhe: «A família real em tudo e por tudo. Devem aproveitar-se as ocasiões de a popularizar. A política, meu caro, serve-se de todos os meios para chegar aos seus fins.»

O deputado compreendeu o alcance e valor do conselho avisado. Daí em diante mostrou-se incansável, febril, vigilante para que fosse seguido à risca. Nas subscrições, nos espectáculos, em todas as festas, sempre o nome do chefe do estado e o da sua augusta esposa! Quando o presidente do conselho lhe tornou a perguntar com o seu riso de velho experimentado como iam os trabalhos, Salústio respondeu satisfeito:

- Às mil maravilhas. Eu nunca supus que os soberanos estivessem tanto no coração do povo! Olhe que a gente sente mesmo cá dentro esse penhor de felicidade pública. Cá por mim... faço o que posso... e o que devo...

O marquês aprovou-o com um lento e reflectido meneio da sua cabeça branca.

Para que as projectadas festas tivessem o luzimento desejado, trabalhava-se febrilmente. Na sociedade o número que maior interesse despertou era o da representação, que seria em D. Maria, ou em S. Carlos. O barão de Cerdeiral, um verdadeiro parisiense, lembrou que se devia escolher uma dessas deliciosas peças francesas, obra de alta elegância, que tem feito a reputação da casa de Molière, e se procurassem os intérpretes na entourage da condessa de Frazuela, que logo lhe observou:

- Onde descobrirá você senhoras para representarem uma comédia espirituosa e de intenções? Não é por falta de inteligência; mas são muito prudes...

Seria realmente dificílimo resolver qualquer das que por talento e distinção fossem capazes. Viriam os pais, as mães, os maridos, principalmente os maridos, com observações exageradas de prudente recato. Uma ciumeira antiga, própria doutras eras, doutros costumes...

- Lembra-se, barão, em Viena, da princesa de Metternich, que era deliciosa nos seus papéis de soubrette? Não se esqueceu decerto da própria imperatriz dos franceses representar em Fontainebleau, debaixo da direcção intelectual de Mérimée...

- E que deliciosa veia ela tinha, condessa! - recordou saudoso o Cerdeiral.

Josefa Lencastre, que ouvira atentamente o que diziam, entusiasmada com tão elevados exemplos, disse em voz desejosa:

- Se eu tivesse jeito!...

- Experimenta - encorajou a condessa. - Alguma vez há-de ser a primeira. Mas Josefa, arrependendo-se, tornou:

- Nada, nada... Tenho medo...

- Viu?! - observou a Frazuela para o barão. - Todas querem ser espectadoras.

As pessoas presentes ficaram silenciosas, atravessadas por uma enorme dificuldade. Quando princesas e imperatrizes representavam, não se compreendia o embaraço nas senhoras de Lisboa.

- Por esta falta de senhoras - afirmou a condessa um tanto contrariada - deixam de apreciar um artista de superior merecimento.

- Quem é? - perguntaram.

- O barão. Um dos primeiros galãs amorosos que tenho visto.

- Oh! condessa!... - exorou o Cerdeiral.

- Não é, oh! condessa! Lembra-se do sucesso que obteve em Fontainebleau? E voltando-se para os que a escutavam acrescentou:

- Foi um dos poucos estrangeiros admitidos no elegante teatro imperial.

Esta novidade, que não sabiam, causou assombro! Todas as pessoas: as sobrinhas do marquês, Palmira e Salústio pediram à mulher do general que representasse. Ela recusava-se. Com as pálpebras frouxas, a cabeça encostada ao espaldar da cadeira, dizia que não.

- Estou bem certa de o ver no papel de Philippe d’Anjou - continuou a Frazuela. - O imperador aplaudia-o com o sorriso condescendente e vago de homem entendido. Usando aquele gesto seu particular de passar os dedos no bigode, sua majestade mostrou-se satisfeito. A imperatriz ouvi eu dizer, voltando a linda cabeça para o embaixador da Áustria, que o barão poderia entrar na Comédie, se quisesse. E para lhe provar quanto lhe agradara, mandou-lhe um ramo de violetas, lembra-se?

- Lembro, se lembro! - pronunciou o Cerdeiral com longínqua saudade. - Bons tempos!

O conhecimento deste facto, com suas minudências significativas, foi motivo de verdadeiro gozo! Aos olhos de toda a gente, o parisiense adquiriu rapidamente a importância dum homem que vivera na intimidade da corte imperial, tão faustosa, tão simpaticamente leviana e tão atraente para todas as imaginações desejosas. Florinda, sobrinha do presidente do conselho, fixou-o intensamente, acometida do vivo desejo de o possuir. Porém, Josefa Lencastre, adivinhando-lhe o pensamento, anavalhou-a com um terrível olhar de ciúme, e fixou logo na sua mente o propósito de representar.

- Em que peça entrou, senhor barão? - pergunta-lhe Palmira Freitas com a leviana graciosidade da sua voz inocente.

- No Bijou de La reine - uma deliciosa comédia de Dumas fils - informou o Cerdeiral.

A condessa de Frazuela completou:

- Fez o papel criado por Delaunay, quando essa linda jóia foi pela primeira vez no palácio Castellane. Na reprise de Fontainebleau, que foi a única que houve, muitas pessoas que tinham visto no mesmo papel o grande actor francês, depois de conhecida a opinião da imperatriz, diziam que lê gentil portugais podia sofrer perfeitamente a comparação.

Todos os rostos se voltaram para o barão, admirando-o. Ele, sorridente, passeava um tanto afastado, fingindo-se estranho aos gabos da condessa, mas pronunciou com entono teatral:

- «je ignore, en vente, cê que vous voulez dire.»

- Bravo!... Bravo!... É assim mesmo, lembro-me perfeitamente - aplaudiu a condessa batendo as palmas.

E para as senhoras que sorriam encantadas, acrescentou:

- Uma das suas melhores frases! Um verdadeiro Filipe V, meigo e amante. A imperatriz ao ouvir-lha disse para o imperador: charmante!

Todos se revoltaram contra Josefa, censurando-a pelos proibir de gozar um espectáculo perfeitamente novo em Lisboa. Tal procedimento não era de bom gosto, nem de quem deseja fazer sociedade. Profetizavam-lhe um triunfo. Salústio Nogueira, que tinha presunção de saber de teatro, pois representara numa peça de Ernesto Eiester em Chaves, afirmou-lhe:

- Estou convencido que será uma actriz de primeira ordem!

- E eu também estou convencido disso! - secundou-o D. Agostinho.

Outras pessoas confirmaram, com as suas opiniões, este parecer, animando Josefa, pedindo-lhe, exorando-a...

A mulher do ministro não resistiu por mais tempo. Desde que vira Florinda olhar para o barão de modo tão provocante, impróprio duma menina nova, já se tinha decidido, mas ainda empregou tom duvidoso:

- Eu... por mim... - disse sorrindo.

- Então consentes?! - perguntou-lhe a condessa beijando-a agradecida. - Dás-me um grande prazer.

Consentia - concordaram todos ao mesmo tempo - é claro que consentia. A mulher do ministro da guerra conservou-se calada, sorrindo com fraca resistência. Como nesse instante visse entrar na sala seu marido, que procurava distrair-se um pouco, deixando substituto na mesa do whist, levantou-se ligeira, recomendando:

- Por ora não digam nada...

- É que vai convencer o general - interpretou D. Agostinho. - É um baboso por ela e concordará.

A sobrinha da viscondessa de Águas Santas tomou o braço do marido, com familiaridade conjugal, levando-o para a outra extremidade da sala. Sentaram-se junto de uma console’, separada de toda a gente.

- Tens ganho ao whist? - perguntou.

- Não tenho perdido.

- Venho de estar com a condessa. É encantadora! Compreende-se que os homens gostem mais dela do que de nós. Talvez tu sejas também desses. Quem sabe se a vês com melhores olhos do que a mim...

O conselheiro surpreendeu-se com a abstrusa suspeita! Era uma amabilidade rara em sua mulher, sempre esquiva aos seus carinhos!... Pareceu-lhe que naquele momento se dera inesperada transformação na sua felicidade conjugal. Sentia-se trémulo e bêbado de felicidade...

- Eu gostar da condessa!? - exclamou.

- Que dúvida! Não hás-de ser diferente dos outros...

Estavam bem juntos, e Josefa com malicioso sorrir significou-lhe que o julgava capaz de uma infidelidade. O ministro desejou estar naquele momento longe de vistas estranhas para a amachucar ferozmente nas suas mãos plebeias, reduzindo-a, escangalhando-a, com a braveza omnipotente dum marido louco de amor.

- Eu gosto só de ti! Eu não posso gostar doutra mulher! - rugiu apertando-lhe o braço com força.

- Olha que me magoas... Estão a reparar em nós... - observou Josefa afastando-se. E mudando para voz mais cariciosa, comunicou-lhe:

- Queres saber uma novidade? A condessa vai organizar uma representação em benefício daqueles desgraçados do incêndio de Alcântara.

- Boa lembrança! - aplaudiu o general. - El-rei e a rainha interessam-se muito por todas essas festas a favor dos que perderam o que tinham na grande desgraça! Dizem que são muitos. No conselho de ministros de ontem quase se não conversou em mais nada. Eu tinha o meu projecto de fardamentos, com as barretinas novas e...

Josefa interrompeu-o.

- Deixa os fardamentos e as barretinas... Mas haverá uma representação em que entram senhoras e homens da sociedade...

- Não acho bonito - entendeu o general francamente - que senhoras sérias se ocupem dessas coisas. Tu não entras decerto...

- Pois olha, sem mim, diz a condessa, é que se não pode fazer nada. Obrigou-me a dar-lhe a minha palavra e agora...

- Quê! Tu representares! Tu, a mulher dum ministro, e dum ministro da guerra, fazeres de cómica!

Pode lá ser!...

- Serei diferente das outras? - disse amuada. - Lá por fora, senhoras da mais alta roda fazem o mesmo, disseram-mo ali. Demais a mais, irão outras, as sobrinhas do marquês, a Palmira que tem um pai tão esquisito...

O general cobriu-se de suor frio, considerando:

- Isso, filha, não sei como há-de ser! Poderei eu consentir que tu digas a qualquer desses janotas que o amas, ainda que seja a fingir! Isso nunca, sem que me venha logo vontade de o arrebentar ali mesmo.

- Que grande confiança depositas em mim! Eu não to mereço...

- Ó querida Josefa, não te zangues comigo - pediu em gemida súplica! - Essas modernices lá de fora ainda não vieram para cá, e muito para se desejar é que não venham. Tu fazeres de cómica! Tu, a mulher do ministro da guerra de Portugal, ouvires palavras de amor da boca dum desses bonifrates, que eu posso esmigalhar entre dois dedos! Não tem jeito, filha!

Josefa continuou em voz sentida:

- Olhem que grande disparate! Demais a mais sendo uma coisa por que se interessa a rainha! Eu até desconfio que ela já sabe tudo...

O general sentiu-se estrangulado. O pescoço não lhe cabia no colarinho, que alargava com o dedo.

- Sua majestade não pode exigir de ti uma coisa dessas!

- Exigir não exigirá; mas decerto não há-de ficar muito satisfeita, quando lhe disserem que não representei, por tu não consentires. Se eu não entrar, as outras não entram e a representação não se realiza.

Com voz exaltada o ministro defendeu-se:

- Sou e fui sempre um fiel servidor da monarquia constitucional!... Ajudei a plantar a árvore da liberdade, que reguei com o meu sangue! Sou dos que padeceram fome e cadeia pela Carta. Que mais querem de mim?

- Ora... querem que deixes representar a tua mulherzinha, talvez porque a julgam bonita e graciosa - insistiu Josefa, persuasiva e conciliadora.

Porém, este marido zeloso não podia levar isto à paciência. Repugnava-lhe ver sua mulher num palco!... Julgava isto uma abominação. Sempre considerara as actrizes criaturas desonestas, impudicas, que passam noites vendendo o próprio corpo. Com razão ou sem ela, atribuía-lhes o desvairamento dos rapazes, a perturbação das famílias pela loucura dos maridos. Toda a imoralidade social era gerada na atmosfera pestilenta dos camarins! Havia alguém que ignorasse as famosas histórias da vida dessas criaturas audaciosas, frágeis e esqueléticas como tísicos, mas insaciáveis devoradoras de naturezas preciosas, como verdadeiros vampiros?!...O mundo estava cheio delas: as senhoras virtuosas tremiam de susto, ouvindo o que se contava de coisas passadas por detrás dos bastidores dos teatros. O ministro da guerra continuava já frouxamente na sua negativa, por um certo desfalecimento cerebral que lhe dominava a energia muscular, como um banho morno. Conservou-se amuado durante um minuto, quando Josefa, falando como se se dirigisse a alguém que ali não estivesse, considerou:

- Não sei que mal poderá vir de fazer um papel sério, de tia ou de mãe, com cabelos brancos... O general, já meio vencido pela ideia de desagradar à rainha, sentiu quase uma aleluia do seu magoado coração. Diante desta imagem, de ver sua mulher de cabelos brancos, conservando no corpo todo esse encanto e frescura que faziam a sua felicidade de velho, era um quadro que de repente o deslumbrou. Nunca tinha pensado em tal; mas só a figuração da cena lhe cativava a mente débil. Sorriu com a imbecilidade dum homem feliz, ao considerar Josefa numa caracterização veneranda, em

que não pudesse ser cobiçada pelo Cerdeiral, nem por outros franganotes que a cortejavam. Ia-lhe a dizer um sim agradecido, quando se aproximou Salústio Nogueira a quem perguntou já desanuviado:

- Que lhe parece, isto de minha mulher representar em público?

- Acho de grande tom! - pronunciou majestosamente o deputado.

O conselheiro, pondo as mãos sobre os quartos, com os cotovelos para fora, interrogou-o com maior firmeza:

- Então, parece-lhe bem feito?!

- Parece, general. Dá-se em todos os grandes centros. Ainda agora ali contou a senhora condessa de Frazuela que em Paris vira representar a imperatriz Eugenia e em Viena a princesa de Metternich.

- Bem - concordou submetendo-se. - Faz o que quiseres. Eu cá por mim, sempre me pareceu não ser uma coisa bonita; mas se as outras pessoas o compreendem doutra maneira, é porque eu não o entendo bem. Faz o que quiseres - rematou já consolado por ver que sua mulher entrava na camaradagem de nomes tão célebres. - «A imperatriz dos franceses! Uma princesa austríaca!...» rememorou.

E quando Josefa se ia levantar para dar a resposta à condessa, o marido observou, impondo-lhe como condição:

- Mas ouve lá. Então de mãe, ou tia velha, com cabelos brancos!...

Com a sua formosa e doida cabeça fez um leve sinal de assentimento. Salústio, continuando a falar com o general, certificou-lhe:

- Eu mesmo, se houvesse algum papel de centro, não se me dava de o fazer. Recordaria os meus bons tempos do teatro académico.

O ministro, dando uma gargalhada de homem satisfeito, exclamou:

- Homem, só essa, agora, me faria rir! Então você já foi cómico?!

- Passei por um artista, em Coimbra! - informou com entono. O conselheiro pronunciou como num julgamento:

- Lá isso é verdade. Quando fala na câmara, o amigo parece-me, às vezes, o Tasso, ou o actor Rosa de que ainda gosto mais do que do Tasso.

- O Rosa - confirmou o deputado por Guimarães - ensaiou-me numa peça em Coimbra e disse que eu tinha talento.

O velho militar apreciou desdenhoso:

- Ora essa! Lá para representar não é preciso talento. Talento é preciso para a política e isso tem-no você em barda.

O deputado contrapôs solenemente:

- Talento é necessário para tudo. A vida é um grande drama, em que cada um representa o seu papel! - resumiu.

Apertou a mão do general e retirou-se. O ministro da guerra ficou só, estranho aos diversos grupos, que na sala formavam ruído de conversa animada. Esta isolação tornou-o pensativo. Só com as suas ideias, comentava o caso da representação. Em sua consciência continuou a reprovar o facto. No palco todas as mulheres são excitantes, e os homens apetecem-nas com desejos violentos. Isso já lhe acontecera a ele, quando era novo, com uma actriz de Viseu. Além do mais, por dever de representar o seu papel, uma senhora mesmo casada e honesta terá de ouvir, com aparência de verdade, palavras de paixão incendiária, que muitas vezes convidam ao adultério. Em certos momentos a ficção aparece com tal realidade no palco que os espectadores chegam a convencer-se que todo aquele amor, expresso com eloquência gemedora, é sentido e autêntico, e que a actriz responde com afecto verdadeiro à paixão declarada.

Quem sabe se Josefa se viria a encontrar numa dessas situações equívocas, claramente melindrosas, que os mal intencionados podiam envenenar, dando às palavras que proferisse um sentir que não tinham?!... Quem poderia afirmar que lhe não dariam um papel no qual a obrigassem a adorar, publicamente, um homem moço como o barão do Cerdeiral, que ele odiava, tendo de lhe fazer, com lágrimas na voz, patéticas juras de amor, deixando-se abraçar com ternura, ouvindo-se talvez o ciciar de beijos e suspiros de paixão dominadora?! Esta hipótese aterrava-o! Devia ter mantido inflexível a sua primeira recusa. Levantou-se para ir pensar, noutra sala, acerca deste caso, que, depois que ficara só, lhe continuava a parecer medonho! No caminho encontrou Salústio Nogueira que, tendo-lhe adivinhado a amargura interior, principiou a contar-lhe para o distrair engraçadas e inocentes peripécias de quando representara em récitas particulares em Chaves.

O deputado, falando sempre de peito amplo e com a verbosidade própria do seu temperamento, entendia que este era um meio decentíssimo de se passar o tempo e até de a gente se educar. Aprendiam-se muitas coisas que se não sabem, enriquecia-se a memória com preciosos factos históricos. Mesmo como escola de declamação, não era indiferente a quem seguia a política e tivesse de falar em assembleias públicas... Ouvira dizer que José Estêvão representara, quando rapaz, e acreditava-o. Só assim se poderia compreender a maravilhosa força de sedução dessa palavra

historicamente entusiasta e convincente.

- Se estivesse para essa maçada, meu caro general, eu ainda lhe aconselhava que representasse uma vez...

- Quem, eu! - exclamou abismado.

- Que dúvida! Assim um papel de militar velho, que lhe estivesse a carácter.

- Não, não... Deixe lá Josefa. Ela gosta, deixe-a lá.

Retirou-se desgostoso e até aborrecido desta lembrança, que o magoara. Militar velho sabia que o era; mas não queria que lho lembrassem. Esteve a ponto de dar uma descompostura em Salústio... Reconhecera, porém, que fora uma frase inconsiderada. Não queria pensar mais no caso. Condescendia em tudo, contanto que não o obrigassem a fazer de pai de sua mulher, enquanto que qualquer desses rapazes novos como ela (veio-lhe outra vez à ideia o nome do detestado barão!) a apertavam contra o seio, dizendo-lhe palavras ternas. Isso não, deixá-la a ela que tinha prazer em ir ao palco, deixá-la a ela que era nova e formosa.

Abandonou a sala, pensativo e com a mágoa que lhe despertara o dizer do deputado escondida no seio como uma víbora. De relance olhou para o grupo, onde Josefa conversava animadamente. Era a Frazuela, Palmira, Lúcia e Florinda, o barão de Cerdeiral, monsieur Franza, encarregado de negócios da Áustria, o visconde de Pomarini, adido à legação italiana, Dramond, o secretário de legação de França!... Todos falavam em francês e com entusiasmo. Planeavam o espectáculo que desejavam fosse grandioso.

O jornalista Alberto da Cerveira, aplaudindo o que se passava, dizia num grupo de amigos aludindo a que o corpo diplomático tomasse a melhor parte na projectada récita:

- Não faz gosto a gente ser dum país como o nosso! Os que vêm de fora, é que nos ensinam a compreender a vida!

O conselheiro Maurício Pontino opôs-se-lhe com intimativa:

- Não, meu caro amigo, não! Cá também há coisas grandes. A igreja dos Jerónimos, por exemplo. Encontrou em outra parte do mundo uma igreja dos Jerónimos como a nossa?!... O Tejo, é verdade, o Tejo... Já viu o Tejo grandioso como em frente de Lisboa, em qualquer outra capital?...

 

Toda a sociedade andava contente na perspectiva do espectáculo protegido pela rainha. Porém, a mulher do ministro da guerra, para a qual os ensaios tinham o encanto de uma festa nova, é que se mostrava mais interessada. As sensações inesperadas que daqui lhe vinham, a espécie de independência de que gozava por este facto, recordavam-lhe a liberdade das suas manhãs de cricket, na quinta do marquês de Viana, ou na tapada da Ajuda, quando no mês de Setembro estava fora do colégio.

Num dia, depois do almoço, já a carruagem estava à porta para ela sair, teve grande acesso de alegria, pela simpática novidade que acabava de receber. A sua querida Angélica Agramonte, actualmente Mrs. White, chegara de Inglaterra, achando-se hospedada no hotel Durand. Na carta que Gélica lhe escrevia, perguntava-lhe o modo de se verem, antes de partir para o Porto. Josefa Lencastre, logo depois do ensaio, haviam de ser quatro horas, foi procurá-la. Como o marido de Angélica tivesse saído, as duas amigas recordaram, com intimidade de raparigas, coisas passadas; falaram das antigas companheiras de que não tinham notícia, muitas espalhadas por terras de província; aludiram no meio de risos, que voavam como pássaros, à vida do convento:

- Lembras-te da mother Mary, com os óculos de oiro e a voz fanhosa?... - disse chasqueadora a mulher do ministro.

- É verdade, lembro. E aquela menina Torres, que nós detestávamos, por andar sempre a bajulá-la com o fim de ter melhor sobremesa? Tem-la encontrado?

- Ah!... Casou com um homem pobre e teve de ir para o Brasil com o marido. Disseram-mo, que eu, quando a via em Lisboa, quase não lhe falava... Bem vês, que não era da nossa roda pronunciou com desvaler.

Angélica Agramonte não gostou de lhe ouvir aquilo. Recordava-se perfeitamente de ver aos domingos o pai de Josefa, quando a ia visitar. Era um modesto empregado, de longa sobrecasaca, ar fastiento, mas empertigado. Nunca lhe parecera homem de posição, nem por esse tempo a sua amiga pensava em toleimas. Enfim os tempos mudam e as pessoas também.

- Estás linda - observou Mrs. White, depois de um silêncio. - Vives feliz, pelo que vejo...

- Não tenho nada que me contrarie... - disse com mimo.

- Teu marido adora-te, és a senhora ministra, deves ter grande corte - observou. Josefa Lencastre respondeu:

- Não o nego, tenho-me divertido depois de casada. Esta sociedade tem fogo, imaginação. Meu pai adorava-me, mas a vida em nossa casa era sensabor.

- E filhos?... Não os desejas?

- Pelo amor de Deus, não me fales nisso! Nem vê-los. As que os têm são umas vítimas! Não se pode fazer nada, com eles não há divertimentos, nem prazer em coisa nenhuma. Nada, estou muito bem assim.

Angélica Agramonte repreendeu-a. Em Inglaterra não se julga o casamento completo e feliz sem filhos, e muitos filhos.

- Pelo menos meia dúzia - acrescentou.

- Oh! que horror!

- Mas a vida sem eles é fastidiosa. Cá por mim estou doida com o meu Carlos, que é uma formosura... Queres vê-lo?...

Levou-a junto do berço, onde o pequeno dormia, vigiado por uma criada da Escócia.

Josefa achou encantador o filho da sua amiga. Extasiou-se diante da sua carinha papuda e rosada. Evitou dar-lhe um beijo, para o não acordar. Como era belo! Que pele fina, que bochechinha tão gorda, parecia um balão cheio de gás. A sua cabeça anelada, com os caracolinhos loiros, era de um verdadeiro anjo. E a pequenina boca, com os dois beicinhos grossos e vermelhos, por entre os quais uma respiração suave, como um murmúrio, saía?!...

- É encantador, é um verdadeiro apetite o teu filho. Angélica observou-lhe:

- Ah! mas tu gostas de crianças!...

- Então não havia de gostar do teu Carlos! És tu que o crias?

- Sou.

- Isso faz mal! - repreendeu Josefa. - Tenho ouvido dizer que estraga... As mulheres devem poupar-se. Para ser velha, há sempre tempo.

Depois, quando iam a reentrar na sala, disse Angélica:

- Mas sem filhos, com teu marido nas suas ocupações, deves ter dias aborrecidos.

Não tinha. A vida de sociedade trazia-lhe sempre a imaginação ocupada. De inverno os bailes e S. Carlos; de verão Sintra e Cascais, onde todos se mexiam muito. Em Sintra o tempo passava-se em deliciosos e divertidos piqueniques, nos Capuchos, na Pena, na Praia das Maçãs, ou na Pedra d’Alvidar, donde se vêem vapores passando, com penachos de fumo a desenrolarem-se no ar. As tardes eram animadíssimas nos Sitiais, na estrada de Colares. Havia conversas deliciosas debaixo de frondosas árvores, num conchego íntimo. Davam-se passeios em vistosos ranchos, rapazes misturados com raparigas, numa alegria vitoriosa pelos comentários. Até às dez horas, havendo luar, iam à Estefânia, ou demoravam-se no terraço do Victor, depois o whist em casa da Maria Kruz, ou noutras casas conhecidas. Ali se tocava, cantava, recitava e se faziam leituras no género do que se usa em Inglaterra. Era encantadora a estação de banhos em Cascais, com a corte, o corpo diplomático e tudo quanto se encontra de melhor em Lisboa. Os bailes do Club, um perpétuo gozo. As regatas em que se distribuíam prémios da família real e das senhoras mais distintas, apresentavam grande animação.

- Não fazes ideia, não fazes uma ideia! - exclamou.

Actualmente mesmo, um divertimento inesperado lhe enchia deliciosamente as horas. E referindo o projecto de espectáculo iniciado pela condessa de Frazuela e como os ensaios lhe ocupavam os dias, concluiu:

- Gosto imenso! Parece-me que fico com a paixão do teatro.

Angélica Agramonte conhecia, por ter lido a comédia, Lê bijou de La reine, em que sua amiga entrava. Mostrou, portanto, certo interesse em saber quem faria o papel de Filipe d’Anjou:

- O barão do Cerdeiral, um verdadeiro artista! - esclareceu com súbita espontaneidade a mulher do ministro.

- Ah!... - exclamou Mrs. White, recordando-se. Aquele de quem numa carta me dizias parecer-se com Rodolfo?...

- Esse mesmo - respondeu Josefa com rosto animado, olhos brilhantes.

- Se meu marido não se opuser, ficaremos; porque desejo ver-te no papel de Luísa de Sabóia.

- Monsieur Franza, o encarregado de negócios da Áustria, que é nosso ensaiador, está satisfeito comigo. Eu... não sei... - pronunciou desconsolada.

- Como é um espectáculo protegido pela rainha, teu marido deve andar contente.

- Não se importa - respondeu Josefa, significando pouco apreço.

Josefa Lencastre iludia a sua amiga. O general importava-se e até vivia desgostoso por causa disto. Um dia dissera a sua mulher, com ressentimento: «Não pensas em mais nada!» Ela, porém, muito vermelha, respondera-lhe agastada: «Não quererás que vá fazer má figura...»

Entendia a mulher do general que, a meter-se uma pessoa nas coisas, é para se sair bem delas. Também Florinda e madame Augustine Lagrant, que entravam na outra comédia, L’Ermitage de Feuillet, estudavam ainda com mais interesse do que ela os seus papéis. Josefa não lhes queria ficar atrás... Para que a não vencessem nos ensaios, empregava horas em cada dia a decorar aquele que lhe tinham confiado. De noite pensava nisto, logo que acordasse de manhã, saía da cama precipitadamente... Ajudada pela sua criada, enfiava um roupão de caxemira e ia enterrar-se na poltrona de veludo, a um canto do boudoir, lendo e relendo a sua parte, para não lhe escapar uma só palavra. Porém, como desde o colégio não tornara a decorar nada e a sua memória estivesse preguiçosa pelo desábito, vinham-lhe frenesis e impaciências, chegando a chorar lágrimas verdadeiras, por se persuadir de que seria incapaz de saber o papel! Era realmente para desespero! Versos, que momentos antes dissera facilmente, se procurava repeti-los a declamar, já lhe tinham esquecido! Ficava triste, enleada de pensamentos de abandono; mas readquiria energia nova, levantava-se num ímpeto de esperança e, sozinha, recomeçava a dizer alto as palavras, acentuando energicamente as sílabas. Então o rosto animava-se-lhe com singular vivacidade de sentimento, abria os olhos com fixidez, querendo, pelo duplo meio da vista e do ouvido, conquistar definitivamente algumas frases mais rebeldes e difíceis de reter. O general, no quarto contíguo acordava ao ruído deste batalhar de sua mulher contra a precária memória. Encolerizava-se regougando expressões de azedume sob a roupa da cama, com a qual cobria a cabeça, para se separar daquilo, para não ouvir. Porém, como não conseguisse adormecer, espraiava-se de costas à escuta do que Josefa dizia. E quando percebia, com frequência, as palavras amour, passion ditas com emocionante sentimento, ele, o antigo revoltado contra as violências cabralinas, pronunciava rancoroso e vingativo avolumando a voz:

- Isto só a tiro!...

Com tão decidido empenho, Josefa vencia as suas competidoras. O ensaiador gabou-lhe a magnífica memória e rara compreensão de alguns versos difíceis. Ficou lisonjeada, mas recusava-se a admitir que soubesse bem a sua parte. No dia era capaz de não dizer palavra. Aterrava-a, como um sonho de criança, esta ideia que lhe vinha frequentemente.

Eis a razão porque desejava muitos e repetidos ensaios, e pedia com insistência que não admitissem gente a presenciá-los, além das pessoas que entravam na representação:

- Principalmente Gonçalo, principalmente meu marido, que me faz esquecer tudo.

A condessa de Frazuela cedera para essas reuniões uma sala retirada, da banda do jardim. Ali não seriam perturbados, nem pelas suas visitas de dia, nem pelas que vinham à noite, que era o ensaio mais importante, por ser de repetição do que se estudara de tarde. Para o efeito acendiam-se quatro candelabros, cujas luzes se desdobravam nos espelhos fronteiros nas paredes, dando já antecipadamente uma ilusória multiplicação de salas, como nos cenários de S. Carlos. Todas as pessoas nisto interessadas viviam contentes e animadas na esperança dum bom êxito. Até Josefa por fim acreditou no seu talento de actriz, mostrando-se duma perspicácia admirável, para reproduzir tudo o que lhe ensinavam. O velho actor Rosa, chamado para os ensaios de apuro, sentado no seu fauteuil de mestre, a distância, numa penumbra discreta, interrompia uma vez ou outra o seu silêncio valioso, para aplaudir Josefa com ligeiros bravos e palmas moderadas. Se acontecia levantar-se para marcar qualquer cena ou inflexão, fazia-o com a grandeza do sacerdote na prática da sua religião e era escutado com o respeito que se deve ao revelador dum mistério. No verso de sentido duvidoso, entre irónico e repreensivo: «Oh! vous êtes ce soir en verve poètique», o célebre actor português, depois de combinar com Mr. Franza, dirigiu-se com o seu pausado andar à mulher do ministro da guerra para dizer:

- Isso com mais doçura e majestade, aflorando-lhe aos lábios sorriso de ironia.

E logo que ele se foi colocar na conveniente perspectiva da cena, Josefa repetiu com melhor ênfase o dizer da rainha. Porém o velho actor não achou ainda bem marcado o sentido obscuro e tornou a pedir-lhe de longe:

- Mais doçura e majestade. Meta-lhe um poucochinho de despeito...

Havia na pronúncia certa brevidade imprópria de uma mulher educada na fina convivência dos letrados da corte de Sabóia e da opulente literatura dos vassalos de Luís XIV. O gesto tinha-o por sacudido demais, pouco adequado às maneiras de uma princesa, que o encarregado de negócios da Áustria, um sabedor, afirmava ter sido gentil, entre as mais gentis. O desdém, quando manifestado por uma senhora de elevada educação e cultura, tem muito mais da graciosa tolerância, que se reduz num ligeiro sorriso, num imperceptível olhar ou franzir de lábios, do que do azedume e impertinência, que se encontra nas modernas categorias sociais, ridículas, burguesas e pretensiosas - concordou o visconde de Pomarini, orgulhoso da aristocracia da sua pátria. Este verso, no sentir do actor português e do ensaiador Franza, exprimia a delicada sensibilidade de uma mulher jovem, formosa e rainha, cuja vaidade se vê humilhada pela recusa que o seu rei e seu esposo lhe faz de um colar que valia a bagatela de um milhão.

- Ah! Uma bagatela, um milhão! Quem me dera um milhão - acentuou Florinda. O artista português replica-lhe com o gesto lento da sua autoridade indiscutível:

- Para o rei de Espanha, para Filipe d’Anjou, um milhão ou um cento de milhões era nada! Com o fim de se avaliar a situação com inteligente relevo, Mr. Franza pediu ao barão de Cerdeiral que desse de novo a deixa a Josefa. Assim melhor se poderia compreender como na leveza dum só verso se pode resumir um tratado de psicologia. Na expressão que se lhe desse, a rainha apareceria zombeteira e senhoril; mas sempre com a majestade encantadora duma princesa altiva. Para tudo ser apreciado como devia, os assistentes afastaram-se: as senhoras sentando-se em cadeiras, os homens encostando-se às ombreiras das portas.

Ao centro da sala, ficou Josefa Lencastre, em face do barão, que lhe sorria... Os dois julgadores, Franza e o actor Rosa, um de cada lado, explicavam o sentido do verso difícil comentando-o de diferente maneira, mas com a mesma intenção. Ao Cerdeiral não faziam reflexões, porque todo o seu papel era dito irrepreensivelmente. Tinham-lhe até perguntado se fora o próprio Delaunay que o ensaiara; porém ele, confessando tê-lo consultado em alguns pontos delicados, afirmava ter adivinhado a interpretação do grande artista, a quem não tivera a fortuna de ver no Bijou de La reine. O carácter majestoso e meigo, o fundo nobre de Filipe d’Anjou, era por ele apresentado com surpreendente e maravilhosa interpretação. Todos lhe encareciam o trabalho. E, como na cena de que se tratava, a rainha, sem justificar o seu procedimento, pretende retirar-se aos seus aposentos, fugindo, assim, ao desejado convívio do jovem esposo, este pergunta-lhe com ternura:

«Etes-vous done souffrante? »

Josefa Lencastre, abaixando reservadamente os olhos, num recato de timidez e acinte, responde sem encarar o interlocutor, mostrando-se-lhe por este modo hostil e melindrada:

Un peu .

Teve aplauso unânime a inflexão da rainha. Todos concordaram em que nessas duas palavras dum significado humilde, ditas como Josefa as dissera, se podiam condensar volumes de despeitos femininos; todos reconheceram quanto nelas se indicava que a gentil princesa estava magoada pelo procedimento do seu rei. Mas para conseguir o prodigioso efeito era indispensável acompanhá-las de gesto comedido e nobre, com retraimento delicado, ainda que profundamente sentido, como o fizera a mulher do general!... Só os grandes artistas podiam realizar tão belo efeito, e entre eles já contavam Josefa.

O barão de Cerdeiral deu-lhe então a deixa, brando, amoroso, mas repreensivo. Era o justo melindre de um rei, mal tratado pelo procedimento injustificado de sua esposa. E na voz dolente do barão, repassada dessa meiguice dorida com que o incomparável diseur sabia enfeitar o pensamento do autor, muitos dos ouvintes procuraram sentido oculto e alcance especial... Disse ele gracioso e subtil:

« Quelle nouvelle!

«Jamais, sur mon honneur, je ne vous vis si belle, «Vos yeux brillent en feu sur vos fraiches couleurs; «On dirait deux rayons se jouant dans lês fleurs.»

É então que Luísa de Sabóia, com velada ironia, acentua a sua amargura e despeito, sorridente e esquiva:

«Oh! vous êtes cê soir en verve poètique!

«Phébus de ses accords distrait la politique.

«C’est três bien, monseigneur, gardez ces beaux élans,

«Car je prendais plaisir à ces sonnets galants

«Si je n’etait d’humeur triste et toute contraire,

«Et n’avais fai le voeu de ne m’en poit distraire.

«Bonsoir donc...»

- Muito bem, assim mesmo - aplaudiu com benévola superioridade o actor Rosa, indo lentamente para o fundo da sala sentar-se na sua poltrona de juiz.

- Muito bem, muitíssimo bem - repetiram outras pessoas, batendo cerimoniosas palmas.

- Bonsoir donc... - pronunciou a Frazuela imitando Josefa. - Magnifique!

- Superbe! - acrescentou o visconde de Pomarini.

A mulher do ministro, animada pelos aplausos, sentiu grande calor no rosto! Aquela organização emocional teve, neste momento, forte impulso para as regiões livres da arte. A sua existência monótona, na convivência de um marido sem paixão de coisas sublimes, foi de repente arejada pelos repetidos bravos, que o seu talento provocara. O dia da representação, quando diante de público mais numeroso renascessem os entusiasmos uniformes, devia ser para ele de grande contentamento!... Já sentia que nos ensaios estivesse pouca gente para a aplaudir. Na realidade a condessa, a todos os estranhos que lhe pediram licença, (já porque isto fora convencionado e talvez presumindo que pudesse haver ligeirezas e amabilidades de bastidores, que não desejava sabidas cá fora) respondera inflexivelmente: «Esperem pelo dia. Até lhe encontrarão mais graça.»

Além dela, que assistia como dona da casa e senhora de alto critério, poucas mais pessoas havia. Entre essas poucas estava Salústio Nogueira, que representava o aquecimento do entusiasmo exterior a respeito desta festa galante. Pelos seus amigos dos jornais, fazia aparecer diariamente notícias excitadoras da opinião! Com a sua verbosidade magnífica, nos sítios onde aparecesse, encarecia tudo quanto estava em projecto, dando a factos insignificantes alcance literário, valor determinante de progresso intelectual do país, representado pela iniciativa da melhor sociedade. A quem lhe pedia informações dava-as acrescentadas; porém, como sempre as julgasse incompletas, aditava:

- No dia verão! Ainda se não fez em Lisboa coisa semelhante!

E concluía, condoído e humilde:

- Eu é que não sei como descalçar a minha bota!...

A sua bota era o discurso que prometera pronunciar na abertura do espectáculo. Preocupava-o imenso o delicado trabalho. Era caso novo e sentia-se em dificuldades, por falta de modelo. Deveria ser uma peça oratória, apropriada ao lugar e à intenção daquela festa de caridade: - exigia carácter ao mesmo tempo mundano e religioso. O elogio da sublime virtude que protege os fracos e indefesos, cobrindo os nus, alimentando os esfomeados, consolando os tristes... era tema brilhante, digno da eloquência de um Lacordaire. Porém, atendendo às circunstâncias do lugar e do público a quem era destinada a sua palavra, Salústio premeditava acentuar-lhe o carácter político, elegante e literário, como de conferência sobre tema social e filosófico de altruísmo. Era indispensável calcular tudo, para chegar ao efeito desejado, por isso durante quatro noites sucessivas se recolheu às dez horas, com o propósito de compor o discurso. Que momentos de amargura e desconsolação, se se sentia estúpido, a cabeça vazia de ideias grandiosas e a boca seca para expressões sublimes! Mas lá vinham instantes de melhor felicidade compensá-lo: era quando lhe arquejava dentro do crânio o demónio da inspiração, saindo-lhe da pena, como dum reóforo eléctrico, correntes de períodos vigorosos, amplos e cheios de majestade tribunícia. Então sozinho no quarto ou casualmente na presença de Angelina, batia orgulhosamente na testa com sorriso de triunfador e olhar violento de inspirado, dizendo:

- Que diabo! Tenho talento. As vezes não me parece; mas tenho talento.

Lia Castellar, a eloquência sonora da Península; lia Bossuet, o pomposo ornamento da tribuna católica; lia o padre Vieira, fino e audaz argumentador, de uma fecundidade surpreendente com subtilezas de alcance filosófico e social! A ornamentação pomposa do estilo de Latino Coelho, nos seus elogios académicos, desejava Salústio imitá-la, por lhe parecer perfeitamente adequada às circunstâncias e ao género de oratória que preferia. Era ambicioso de celebridade, tinha desejo de impressionar aquele público,o melhor de Portugal, por isso procurava nos livros e na imaginação comparações e imagens selectas. Estudava frases e gestos especiais: - curvaria ligeiramente a cabeça, baixando as pálpebras de modo respeitoso, quando se dirigisse à rainha; seria com o braço direito estendido e a mão amplamente aberta que havia de designar a comissão de senhoras, «dilectas filhas de S. Vicente de Paula» que organizaram tão simpática quão profícua festa.

A subscrição, aberta por Leôncio de Mértola na classe comercial, dera significativo resultado. O conde de Frazuela aconselhara-o a que se referisse a isto pois seria de grande alcance no ânimo do pai de Palmira. Em virtude da preciosa indicação e depois de muito cogitar, encontrou os seguintes períodos de efeito seguro de que tomou nota: «As nossas antigas glórias, que todos os povos, de norte a sul, de oriente a ocidente, nos têm invejado, são ao mesmo tempo obra religiosa e mercantil. A ideia piedosa de catequese e o fim patriótico e comercial de alargar os nossos domínios por mares nunca dantes navegados, guiou os portugueses nas descobertas. Os nossos famosos Gamas, Pachecos, Albuquerques, o Castro forte, um Cabral, um Sepúlveda... e outros em quem poder não teve a morte, eram ao mesmo tempo guerreiros, sacerdotes e comerciantes: - combatiam, baptizavam e estabeleciam governos e feitorias. Isto é confirmado nas palavras do grande épico, quando narra a troca de artefactos, entre Vasco da Gama e o rei de Melinde.»

Para apreciar o efeito que o discurso produziria, foi lê-lo a Gabriel Besteiros: não era valiosa autoridade, sabia-o, porém tinha nele um admirador sincero e frequentador assíduo de todos os lugares em que a eloquência faustosa abundasse. Salústio recitou-lho de pé, no meio do quarto da hospedaria, voltado para o deputado, que, estendido de costas num sofá de palhinha, o escutava cofiando a longa barba. No final Besteiros disse-lhe:

- Está bom e catita. Faz-me lembrar o doutor Garcia, quando nos ensinava economia política e falava do operariado e das reivindicações sociais. Está mesmo bom e catita.

Salústio queria observações, que o seu amigo lhe notasse defeitos, lhe indicasse emendas.

- Qual - disse Besteiros. - Está de arromba! Essa dos navegadores, eu não a sabia, nunca a ouvi a ninguém.

O êxito diante dos homens estava-lhe assegurado, porém às senhoras é que principalmente queria agradar. São elas que fazem a opinião, que marcam os maiores triunfos aos que têm a missão de falar em público. - Coisa de que as mulheres gostem... - pensou.

A quem, a que espécie de senhoras entregaria ele a apreciação do seu trabalho?... À condessa de Frazuela?... A Josefa Lencastre com a tia viscondessa?... Nada!... Perante essas, justamente, queria Salústio passar como orador de inspiração ocasional e pujante, queria que o tivessem no conceito de improvisador com arrebatamentos e cintilações! Fora da roda escolhida, só lhe lembrou Angelina, a D. Maria Gomes e a Ermelinda Travassos. O bom Molière lera as suas comédias à própria criada, que era sua cozinheira.

Decidindo-se por esta prova, que lhe conservaria a fama de repentista no conceito do público a que destinava o seu discurso, incumbiu a Angelina de convidar as mestras de piano, para o ouvirem. A ingénua rapariga ficou satisfeita, pois atribuía às suas amigas primores de gosto literário e educação, que nela minguavam.

- São pessoas muito bem criadas. Andam por casas boas. A D. Maria agora ensina a filha dum marquês... - informou.

- Dum marquês! - repetiu Salústio. - Quem é esse marquês?! Eu conheço todos os marqueses de Lisboa!

Angelina, coitadita, não soube explicar. Era um nome muito arrevesado. Porém logo lhes perguntaria, visto nesse mesmo dia Ermelinda vir jantar, segundo o costume, com a sua antiga professora e com ela passar um bocado de noite.

- Então pode ser hoje a experiência - entendeu o deputado. - Convida-as para virem à noite cá para cima.

Salústio fingir-se-ia constipado. Elas fariam serão todas três, à luz do candeeiro da casa de jantar. Ele havia de aparecer com um papel na mão, fingindo ser o discurso dum amigo, que lho enviava para ouvir o seu conselho. Angelina achou engraçada a simulação e animou-se para nela colaborar. O seu ditoso peito transbordava de alegria, por ver neste procedimento de Salústio intimidade a que não andava afeita. Esperou ansiosamente pela noite.

Quando eram umas nove horas, a D. Maria Gomes e a Ermelinda Travassos, convidadas a subir, objectaram que Angelina não estivesse só e que elas pouca confiança tinham com o doutor. A amante de Salústio facilitou-lhes o caso, dizendo:

- Ele está para o seu escritório, embrulhado em cobertores. Constipou-se...

A D. Maria, que presumia de delicada e não desejava de modo nenhum ser importuna, insistiu:

- Mas incomodaremos?

- Não, minha senhora. Ele gosta; porque não quer dormir já. Está habituado a deitar-se tarde... Como se constipasse, não pode sair...

- Porém nós é que não sabemos dizer coisas bonitas, como essas que ele está habituado a ouvir às senhoras da alta sociedade (enriqueceu as palavras com a pronúncia), que tiveram educação com viagens no estrangeiro!...

Apesar deste reparo, sempre subiram e até ficaram agradecidas, pela grande consideração. Para fazerem os seus cumprimentos ao deputado, coisa em que a velha insistiu, atravessaram a casa de jantar a passos cerimoniosos, com semblantes bem compostos. A antiga mestra de piano ia adiante, gorda e com ondulações de fragata nos movimentos dos amplos quadris. Ermelinda seguia-a com o seu ar humilde e dependente, sorrindo... Já com a mão no fecho da porta do gabinete de Salústio, Angelina disse para as suas amigas:

- Dêem-me licença de ver se se pode entrar.

Podia. Pouco depois as duas senhoras acharam-se em frente do deputado, sentado em cadeira de braços, os pés embrulhados num cobertor, o pescoço envolvido num lenço de lã roxo, o tronco protegido por um paletó forte. Ele fez menção de se levantar:

- Peço desculpa, minhas senhoras...

- Ora, por quem é, senhor doutor! - exorou a D. Maria Gomes, adiantando-se com a mão aberta.

O gabinete era um quarto pequeno, para as traseiras da casa. O deputado ficava do lado da parede, por de lá da escrivaninha de mogno, sobre a qual um candeeiro de petróleo, com quebra-luz verde iluminava os livros e os papéis misturados a esmo. Uma pequena estante conteria duas dúzias de volumes, mas, por cima das cadeiras, viam-se jornais e mais livros, distinguindo-se as grossas letras do título do Diário do Governo.

- Uma grande constipação? - perguntou a D. Maria.

- É verdade. Não sei como arranjei isto - respondeu tossindo.

- E além da moléstia, ainda tem paciência para aturar maçadoras! - insistiu a velha, no intento de ouvir qualquer palavra amável.

Salústio disse-a: «Oh! minhas senhoras!» e, para completar o quadro do seu padecimento, produziu dois espirros, no intervalo dos quais ficou de boca aberta e com a respiração suspensa, como homem que vai abafar.

- Ih! como ele está! - apreciou a antiga pianista. - Pôs-se bonito! Havia de ser depois de algum discurso.

- Não... foi ar... - esclareceu o simulado doente.

- Foi discurso, senhor doutor, olhe que havia de ser discurso - insistiu D. Maria. - Nós bem temos ouvido dizer que vossa excelência os faz muito bonitos, nas cortes.

Salústio inclinou o tronco pronunciando a meia voz: «Obrigado...»

  1. Maria continuou:

- Eu tive um tio padre - grande pregador! - que, no fim das semanas santas, estava sempre de cama quinze dias. Diziam os cirurgiões que era de puxar pela voz e pelas ideias, e eu acredito; porque ele pregava, no mesmo dia, em duas e três igrejas. O senhor doutor talvez tenha ouvido falar no nome dele. Era o cónego Mendes, confessor das senhoras Infantas.

Ermelinda Travassos, que se conservara calada, em posição secundária, ao lado da D. Maria, observou:

- Isso também aos cantores sucede o mesmo. O primo Anastácio é por causa das saídas da igreja, que anda sempre de lenço de lã ao pescoço.

O deputado, com o delicado desejo de chamar aquela tímida rapariga à animação da conversa encetada, perguntou-lhe:

- A senhora tem um primo Anastácio?

Ermelinda ficou silenciosa e rubra!... Porém D. Maria, simulando olhos de pessoa que faz uma grave revelação e calca dentro de si um sentimento de ódio, disse:

- Tem... e não é boa peça. É o tal...

Suspendeu aqui a palavra, por lhe parecer que não era preciso dizer mais nada, para explicar tudo... Talvez mesmo não dissesse o resto por certa delicadeza para com o deputado, que se podia julgar envolvido na censura dirigida àquele homem perverso... O primo Anastácio era o tirano da pobre Ermelinda, fora ele quem a enganara, sob promessa de casamento... O fruto desta malvadez estava em Loires, numa ama, a quem a mãe pagava quatro mil réis mensais. E como Ermelinda, casualmente, trouxesse uma camisinha de criança, em que trabalhava no momento em que Angelina as convidara a subir, a antiga mestra de piano desdobrou-a indignada e mostrou-a a Salústio rematando, como esclarecimento:

- É o pai desta!...

Ermelinda sensibilizou-se com a recordação pungente! Levou um lenço aos olhos para enxugar as lágrimas, que lhe despontaram. E numa voz um tanto abafada queixou-se:

- Agora dizem que vai casar com outra...

O deputado, para não suportar a comparação que daqui resultava, retomou o assunto cortado, levantando a cabeça e exprimindo-se com autoridade:

- Eu nunca me canso de falar. Posso fazer um discurso de um dia inteiro...

A D. Maria Gomes certificou:

- O meu Augusto, uma vez que esteve de guarda às cortes, ouviu o senhor doutor e ficou gostando muito.

- Tenho pena de não conhecer seu filho. Como sou íntimo do ministro da guerra, se lhe prestar para alguma coisa... - ofereceu.

Aos olhos da D. Maria Gomes vieram repentinamente lágrimas...

- Ah! senhor doutor! Não me fale nesse meu filho! - pronunciou magoada.

- O quê!... Está doente?... Angelina recordou ao seu amante:

- Eu já te disse que não era bom para ela...

Salústio não se recordava... Ermelinda Travassos exclamou com verdadeira e sincera mágoa na expressão:

- E o que ele deve a esta mãe! Não se faz uma ideia!...

O deputado quis acompanhar a pobre senhora na sua justificada dor:

- É triste! Quando uma mãe faz gosto num filho... É triste! A velha mestra de piano, mais desoprimida, acrescentou:

- Ele era o melhor rapaz do mundo, senhor doutor! Quando, há três anos saiu tenente, obrigou-me, à força, a despedir   muitas das minhas discípulas. Queria que eu descansasse. Com o soldo dele e com mais alguma coisa, de umas inscrições que eu tive de meu pai, podíamos viver como Deus com os anjos. Alugámos uma casa à Sé, porque ele é de caçadores 5. Sempre entendi que ia morrer descansada. O meu filho com aquela paixão da música... Tem uma voz muito bonita... Passávamos noites e noites como Deus com os anjos: ele a cantar e eu a fazer o acompanhamento! Não era para mim tamanha felicidade!... Há um ano, principiou a seguir mau caminho...

- O jogo, talvez! - interferiu Salústio, com interesse.

- Não, senhor doutor. As mulheres! Foi uma mulher má que mo perdeu!

- Ah!... as mulheres! - pronunciou o deputado, num sentido vago, mas de pouco favor. Angelina tinha-se levantado   para   arranjar   o   chá,   que   desejava   oferecer às   suas   amigas.

Ermelinda Travassos, aludindo decerto a ela, mas envolvendo-se provavelmente a si mesma, defendeu numa voz clara de desforço:

- Nem todas! Algumas há...

- Sim, decerto - concordou Salústio - nem todas são más.

- Essa que deitou a perder o meu Augusto - continuou D. Maria Gomes - é das piores. Come-lhe tudo. As nossas inscrições estão no Montepio, o soldo que dantes me vinha todo à mão, há um ano que não vejo dele nem uns tristes cinco réis! Tive de me agarrar de novo ao trabalho, para o sustentar a ele e vesti-lo de boa roupa branca. Não há meio de guardar uma libra, para uma doença. Depois, para mim, já não é o mesmo filho. Não o acompanho ao piano, já me não conta dos seus triunfos nas salas, com a sua linda voz de barítono. Até perdeu o gosto à arte! Nem copia músicas como dantes, nem faz gosto em ir às soirees das pessoas delicadas que o convidam!... Todo o tempo é para essa serpente venenosa... Perdoe-me, senhor doutor, que tenho vertido muita lágrima! Desta idade vejo-me coberta de trabalhos e desgostos!...

A infeliz chorava. Salústio, fingindo uma expressão de sensibilidade, disse: «Pobre senhora!» Ermelinda Travassos acrescentou: «Sempre é muito desgraçada!»

- Veja se me dá algum remédio, meu rico senhor doutor! - exorou a mãe de Augusto. – Acuda-me, acuda-me por quem é.

- Acuda-lhe, acuda-lhe, meu senhor! - intercedeu também a discípula.

O deputado sentia-se maçado. Até se esquecera de continuar a fingir a tosse e os espirros sintomáticos da sua doença. O escritório era pequeno e respirava-se mal... Depois, como diacho havia de acudir às desgraças desta mãe!

- Eu não lhe posso fazer nada! - disse.

- Ah!... é porque não quer!

Numa voz menos chorosa, a D. Maria Gomes explicou a ideia que há muito tempo lhe andava na cabeça. Tinha-se lembrado de se ir lançar aos pés de el-rei, para lhe pedir justiça. Sua majestade, querendo podia tirar o seu filho do caminho desgraçado em que se metera. Bastava só chamá-lo à sua presença e dizer-lhe algumas palavras de conselho e repreensão. Os monarcas têm grande império sobre toda a gente. Queria que Salústio lhe desse um parecer a este respeito.

- Se eu for a palácio - perguntou a desditosa - lançar-me aos pés de sua majestade, pedindo-lhe com rogos e muitas lágrimas, ele ouvirá as minhas súplicas?

- Estou que sim - respondeu o deputado, fazendo grande esforço para se mostrar sereno. É pessoa muito amável e carinhosa, el-rei.

No rosto de Ermelinda Travassos irradiou um clarão de alegria. Pareceu-lhe que encontrava inesperadamente um meio de reconquistar toda a felicidade que perdera. Por isso disse:

- Então também poderá fazer com que meu primo seja um homem de bem! Anastácio é cantor da capela real. Ele enganou-me, senhor doutor! - certificou baixando as pálpebras e desfiando a franja do seu vestido de lã.

- Mas então vão-lhe falar - opinou Salústio em voz de forçada benevolência. A D. Maria pôs a questão em termos claros:

- O senhor doutor entende que devemos ir a palácio, apresentar as nossas petições?

- Entendo, minha senhora, entendo - disse Salústio, cheio de fúria recôndita, desembaraçando-se do lenço de lã, que o abafava.

A antiga mestra de piano levantou-se para corrigir este despropósito de um constipado de se descobrir... «São lá coisas que se façam! Estes senhores são todos umas crianças! É preciso um cuidado neles!...» Podia-lhe aparecer moléstia de mais circunstâncias, alguma pneumonia, que o limpasse. De doentes entendia ela muito, porque tratara grande número durante a sua vida! E embrulhando de novo, com as suas próprias mãos, o pescoço do deputado, foi-lhe perguntando:

- E como poderemos chegar à presença de sua majestade?

- Isso, só o presidente do conselho, que é ao mesmo tempo ministro do reino, o poderá dizer respondeu Salústio, resignado a que a D. Maria fizesse dele o que lhe aprouvesse.

Ambas exprimiram um sorriso verdadeiramente infeliz. Como poderiam, umas pobres mulheres desprotegidas, chegar à presença do marquês de Tornai? Decerto eram precisos empenhos, apresentar a recomendação de alguma pessoa de valor.

- Se o meu tio cónego ainda fosse vivo!... - considerou a velha, infinitamente desconsolada. A Ermelinda Travassos aventurou-se a pedir:

- O senhor doutor é que nos podia fazer esse obséquio. Não temos ninguém!...

- é verdade... podia-nos dar uma cartinha - corroborou a mãe de Augusto.

A cólera de Salústio Nogueira enchia-o! Estava mudo de raiva, já não pensava em experimentar o valor do seu discurso! Só tinha vontade de se desembrulhar do cobertor, que lhe prendia as pernas, agarrar a cada uma delas por um braço, pô-las fora da porta da escada e dizer-lhes abruptamente: «Ora vão para o diabo que as leve!» Não há coisa pior do que gente estúpida! Que tinha ele com as histórias do tenente Augusto, ou do primo Anastácio?! Que falta de sorte! - considerava.

Porém a culpa fora dele e só dele! Para que as chamara, para que as tinha mandado convidar?! Podia-se esperar alguma coisa de gente que nunca soube conviver? Devia ter previsto o resultado, e como não o adivinhara alcunhava-se mentalmente de besta, de cavalgadura, de grandíssimo asno! Mordia os beiços de raiva, rugindo no cérebro, enquanto D. Maria Gomes e Ermelinda Travassos lhe contavam a longa história das suas infelicidades. Mas estava resolvido a escutá-las até ao fim, com paciência e coragem. Para melhor as sofrer aceitava benevolamente o rosário de lamentações com que o entretinham, acompanhando-as com as promessas de auxílio em tudo. Porém, como temesse qualquer ataque do seu génio irascível, não se sentindo bem seguro no propósito de ser delicado, deitava-se a pensar em coisas indiferentes, enquanto elas falavam, para que lhe passasse o tempo despercebido.

Com furtivos olhares para a porta de entrada do gabinete esperava em ver Angelina anunciando o chá. Depois não mais o veriam, porque se meteria imediatamente na cama. Mas ia-lhes prometendo a desejada recomendação, para o presidente do conselho conseguir de el-rei que as recebesse e as ouvisse na longa narrativa das suas desventuras.

Angelina entrou e logo, ao encarar o rosto frenético e congestivo do seu amante, adivinhou a recôndita fúria que dentro dele fervia. Conhecia-o sobejamente em todas as suas modalidades. Aquele sorriso externo era contrafeito; aos seus olhos experimentados representava grande mal-estar. Salústio ao vê-la disse, num alívio:

- Ora vão tomar o seu chá, que eu preciso muito de me deitar. Amanhã tenho câmara e quero estar bom. Muito boa noite...

  1. Maria Gomes pretendia à viva força obrigá-lo a tomar uma chávena de qualquer coisa peitoral: chá de casca de limão, vinho quente e mel - coisas óptimas para constipações. O deputado opôs formal recusa, limitando-se a mestra de piano a observar:

- Havia de fazer-lhe muito bem. Um chá de casca de limão, ou um peitoral de alcaçuz e avenca com figos, cosia-lhe essa tosse.

As duas saíram juntamente com Angelina, que lhes ouviu, durante meia hora, uma ladainha de elogios ao seu amante - muito bom senhor, delicado e sem cerimónias. Podia-se lá comparar a alguns tolos que, não sendo nada, morrem de presunção?! Estavam certas de ter encontrado em Salústio um protector valioso. Elogiavam-lhe o modo de falar, as boas maneiras e o coração de pomba, que tanto se sensibilizava com as infelicidades alheias.

- E se ele nos arranja o que nós queremos?!... - disse Ermelinda, com olhos vivos de esperança.

- Ah! filha! - exclamou a antiga mestra com uma torrada suspensa nos dedos - dou-lhe dois beijos. A menina há-de consentir que eu lhe dê dois beijos, se ele faz com que o meu Augusto volte a ser o que era.

 

O espectáculo determinou-se que fosse no salão da Trindade. Seria mais brilhante e mais rendoso se escolhessem o teatro de D. Maria; mas quis-se evitar a comparação ocasional, de senhoras com actrizes de profissão. Bilhetes pessoais a libra, encarregando-se a Frazuela de distribuir os das primeiras filas de cadeiras, às principais famílias de Lisboa, era meio de arranjar público selecto e bom rendimento. Assim se dava à sala aspecto familiar, íntimo e aristocrático, e ao mesmo tempo se conseguia tornar populares os sentimentos de caridade da rainha e da alta sociedade. As cadeiras restantes seriam ocupadas por gente menos que, ainda assim, a libra cada bilhete, deviam ser pessoas de certa cultura mundana e gosto pelas coisas elevadas da arte.

Os jornais, dirigidos nesta campanha por Salústio Nogueira, proclamavam o valor intelectual e o exemplo democrático de tão requintada festa. Em que época se vira a melhor gente da capital, aquela que em si resume o que Lisboa possui de inteligente, rico e bem nascido, dar esta prova de deferência pelo público, expondo-se ao seu julgamento?! Só pelo sagrado impulso de minorarem as mágoas e aflições dos humildes, na vida tão impiedosamente experimentados pela sorte é que tal se concebia! Seria também (ninguém o contestava) um triunfo para as ideias niveladoras do século, e tal facto só podia servir de louvor aos que assim procediam. «Bem hajam (escrevia o jornal a que temos aludido), bem hajam esses nobres e levantados corações, para quem a caridade é uma religião e o amor da arte um decidido enlevo!» Para sustentar bem quente e vibrátil o entusiasmo, que se avolumava dia a dia, o mesmo poderoso órgão da opinião envolvia em palavras da mais requintada cerimónia e respeito todas as nobres damas que, cheias de abnegação, andavam «na bela cruzada em prol dos malaventurados, para os quais a vida é inferno» conglobando nos epítetos mais facetados - a rainha, para quem lembrava o cognome de «consoladora dos aflitos»; a nobre condessa de Frazuela; a virtuosa esposa do general Gonçalo de Moura; a simpática sobrinha do ilustre marquês de Tornai, D. Florinda; e, finalmente, «a distinta estrangeira (madame Augustine Lagrant) que nos faz a grande e nunca esquecida honra de considerar esta a sua verdadeira pátria!»

Mas, apesar do seu grande respeito e mesmo temor da imprensa, o ministro da guerra continuava a nutrir surdas preocupações acerca desta exibição da formosura de Josefa, num palco!... Não tinha mais na sua mão e, ainda que fossem formidáveis os esforços que fazia para se conformar, não lhe era possível... Seria honesto, irrepreensivelmente honesto, o papel que tinham distribuído a Josefa?!... Duvidava, apesar de lhe terem afirmado que sim. Salústio Nogueira é que o poderia certificar explicitamente, e, num dia em que o deputado foi ao seu gabinete no ministério da guerra, o general levou-o para um vão de janela, perguntando-lhe com um sorriso de homem que se deseja mostrar conforme:

- Que tal esse papel que minha mulher representa?...

- Magnífico! É de rainha! - pronunciou Salústio, dando às palavras excessivo valor.

O general ficou a olhar para a rua, construindo mentalmente nova pergunta, que viesse a ter resposta mais explícita:

- Mas essa rainha é pessoa séria?

Salústio Nogueira, fixando-o com dureza, mas compassivo, observou-lhe:

- Oh! general!... Veja o que diz!...

- Tem razão... tem razão... sou um asno - volveu o ministro, caindo em si. - As palavras saem pela boca fora, sem a gente dar por isso...

Sorria automaticamente e para desfazer a parvoíce acrescentou:

- Ora a grande asneira!... É claro que todas as rainhas são pessoas sérias. Esta coisa da gente não tomar tento no que diz... Mas é um papel bonito, já se sabe... - terminou, fingindo-se confiante.

O deputado, vendo-o contrito, esclareceu:

- Soberbo! Representa de luísa de Sabóia, a virtuosa esposa de Filipe V de Espanha! É um papel magnífico, verá.

O tom grandioso com que Salústio falara, a nobreza do facto histórico e o adjectivo castíssimo junto ao nome da personagem... triunfaram mais uma vez das incertezas do general, que neste momento teve íntimo desdém por si mesmo, pela sua falta de cultura... Com o fim de se penitenciar, ele que era rigoroso e disciplinador, mostrou-se benévolo para o pedido ao qual a princípio opusera formal recusa:

- Terá hoje mesmo passagem de corpo o seu capitão... Mas o espectáculo sempre é na quintafeira?

- Sim, general. Não imagina a pena que tenho em que não vá uma peça de força, como o Pedro do Mendes Leal! A senhora D. Josefa poderia então mostrar o seu grande talento.

Esta censura referia-se ao que se passara em casa da Frazuela, quando definitivamente escolheram as peças para o benefício. Salústio pugnara sempre a favor de um verdadeiro drama! Queria situações fortes e empolgantes, que comovessem os espectadores, arrancando-lhes lágrimas. Pleiteou calorosamente, invocando os nomes famosos dos grandes trágicos estrangeiros e das glórias nacionais: - o Rossi, o Salvini, a Pasquali, a Casalini, a Emilia das Neves, o Tasso... artistas que admirara no teatro Académico de Coimbra, e no de S. João do Porto. A grande arte subjugava-lhe a

rica imaginação, que sempre tendia para se exibir em opulento espectáculo, diante de plateias soluçantes. As personagens em atitudes de estátuas, falando com vozes portentosas de tempestade, empregando no desenho dos grandes sentimentos gestos magníficos de deuses, eram o seu fanatismo. A pequena arte moderna, com a naturalidade e a interpretação fina e requintada, detestava-a. O que era digno de se ver, era o Salvini no Otelo, com os seus berros de ciúme, que desafiavam os das vagas do oceano, ou produzindo gestos portentosos no papel de Sansão, os quais faziam tremer de susto os homens mais valentes do auditório e seriam capazes de derruir outra vez o templo de Dagon...

Para mostrar a sua sinceridade, rematou:

- Numa coisa destas, ainda se me não dava de entrar, palavra!...

  1. Agostinho, que tinha sobre o assunto a mesma opinião, aproximou-se de Salústio, pondo-lhe a mão direita no ombro:

- O amigo viu a Ristori na Isabel de Inglaterra?

- Não vi.

- Pois, meu caro!... Isso foi de entupir!...

- Não, D. Agostinho, não: o Rossi no Hamlet, e o Tasso no Pedro de Mendes Leal, foram positivamente extraordinários!

O Cerdeiral, que os escutara silencioso, com a nuca apoiada no espaldar da cadeira, interferiu com ironia, rebatendo estas opiniões caturras:

- Será o que quiserem, mas em festas como a projectada usam-se comédias ligeiras, num ou dois actos. Quer-se espectáculo, que não mace e alegre o espírito.

O Bijou de La reine já estava escolhido e Florinda, como não tivesse ainda peça, perguntou ao barão:

- Lembra-se de alguma outra comédia bonita, neste género?

- Para mademoiselle, há uma magnífica de Feuillet, L’Ermitage. O papel de Helena é um encanto.

- Nós vimos isso em Paris, não é verdade, Cerdeiral? - perguntou a condessa.

- Qui, madame, no Palais Royal. É a história de uma interessante viúva de vinte e dois anos, a quem os revolucionários de 48 mataram o marido, antes de consumado o matrimónio. O pobre rapaz, oficial do exército, é chamado ao chateau no momento em que vai da mairie para a igreja de SaintThomas-d’-Aquin, e é-lhe ordenado levar uma ordem às tropas que estavam na Bastille. Ao passar junto da Porte Saint-Diniz os rouges metem-lhe uma bala no corpo e, três dias depois, a pobre Helena era viúva, sem ter sido propriamente casada.

- É interessante! - disse Lúcia.

- Ah! - pronunciou o barão, com jactância arregaçando o bigode - muito interessante. Mas o que mademoiselle não sabe é que Hélène, que jurara eterna viuvez, veio depois a casar com um tal Paul de Kardic, a quem teve a felicidade de encontrar casualmente, como em todos os casos idênticos, numa floresta da Normandia, durante a saison dês eaux.

Monsieur de Franza conhecia perfeitamente esta comédia e aplaudiu a lembrança do barão. O papel de Paulo cabia perfeitamente ao visconde de Pomarini e o de General du Kardic a Dramond.

M.me Augustine Lagrant ficaria com o de Baronne d’Orthez que representara em casa da viúva Ratazzi, em Paris. Para Florinda reservavam o da encantadora heroína.

O resto do espectáculo, como depois se combinou, seria em português. Julgou-se conveniente dar satisfação ao espírito nacional, que poderia melindrar-se. Os jornais gabaram o delicado pensamento, exaltando-o como favor e gentileza dos nobres estrangeiros, que por tal maneira nos honravam com a sua sempre desejada hospedagem. A gazeta, que tomara a dianteira às outras na propagação dos sentimentos de caridade aliados à monarquia, querendo dar interpretação diplomática a este acontecimento, chamou-lhe «espectáculo internacional» e considerou-o «como uma prova de confraternidade dos povos, nas grandes expressões do pensamento humano».

Atendendo a todas estas considerações «e para se fazer honra ao velho Portugal», é que se assentou em que Salústio abrisse o espectáculo com um discurso em língua pátria. Alberto Cerveira recitaria uma nova poesia, melhor ainda que essa famosa Deusa, que lhe granjeara reputação de inspirado. Albano de Melo, sobrinho do ministro da marinha, habilíssimo e bem conhecido prestímano, fechava o espectáculo com uma sessão. Assim a festa seria variada, com numerosas distracções. Era necessário sentir-se a alta protecção, que patrocinava o espectáculo; era necessário dar-lhe significado de coisa maior que um trivial acto de caridade. Todos assim animados prosseguiam com acurado entusiasmo. A noite de quinta-feira, acreditava-se entre a gente da sociedade e da política, devia ter grande importância para o prestígio das instituições que nos regem.

O exterior do teatro, vistosamente iluminado, com armas de Portugal e Sabóia ao centro, convidava o público vagabundo a reunir-se na Rua da Trindade. Anunciava-se alguma cousa de excepcional, reunia-se ali o que havia de famoso, belo e distinto em Lisboa. Por isso as proximidades estavam cheias de gente curiosa.

As carruagens subiam majestosamente pelo lado do Chiado, parando no alto da rua, em frente do largo da Abegoaria, para depois seguirem conforme os seus destinos. Numerosos polícias regularizavam o trânsito, afastando o povo e mandando oportunamente continuar os trens, de onde tinham saído senhoras novas vestidas de claro, com cintilações de pedras preciosas nos cabelos e no fascinante decote, lábios de vivo carminado, sorrindo alegres como um coração de melancia. Nas velhas o empastamento da pele embranquecida e desenrugada pelo cold cream e água de Ninon fazia lembrar uma parede caiada de pouco. Os indivíduos que as acompanhavam, todos de casaca, gravata e luvas brancas, no braço o paletó forrado de seda, subiam as escadas do salão, os troncos em porte altivo. No cimo trocavam os bilhetes de admissão pelo programa, que os empregados entregavam cerimoniosamente, pronunciando com respeito: «senhor conde... senhor marquês... senhor conselheiro...» Era um pequeno cartão acetinado, com perfume de violeta, e no qual, em letras doiradas, se marcava a matéria e ordem do espectáculo. Em toda a sala se viam numerosos exemplares,

passando de mão em mão, cada pessoa comentando-o diversamente. Esse programa era da seguinte forma:

 

               BENEFÍCIO

A favor das vítimas do fogo de Alcântara, promovido por uma comissão de senhoras, sob a alta protecção de SUA MAJESTADE A RAINHA, e em que tomam parte distintos amadores.

 

               PRIMEIRA PARTE

I - Discurso de abertura, apropriado às circunstâncias, pelo notável orador, o Il.mo e Ex.mo Sr. Salústio Nogueira.

II - Quarteto de violino, violeta, violoncelo e flauta, sobre motivos da ópera Faust de Gounod, executado pelos notáveis amadores MM. Le Vicomte de Mambra, le Baron Test, Grasset e Carlos Afonso.

III - L’ERMITAGE

Comédie en 1 acte par Octave Feuillet

 

               PERSONAGES

La baronne d’Orthez Mme. Augustine Lagrant

Hélène Mile. Florinda Trigoso

General de Kerdic M. Dramond

Paul M. lê K de Pomarini

La scene se passe aux eaux de B... en Normandie

Intervalo de meia hora

 

               SEGUNDA PARTE

I - Luz e Caridade poesia composta e recitada pelo I.mo e Ex.mo Sr Alberto da Cerveira.

II - LE BIJOU DE LA REINE

Comédie en 1 acte par Alexandre Dumas, fils

 

               PERSONAGES

Louise de Savoie Mme. Lencastre de Moura

Philippe V, rói d’Espagne M leBaron do Cerdeiral

La scene se passe en Espagne, vers 1708

 

III - Sessão de prestímano, dada pelo distinto amador, o Il.mo e Ex.mo Sr. Albano de Melo.

O espectáculo principia às nove horas da noite, depois da chegada de SUAS MAJESTADES.

 

Antes desta hora já a sala se sentia cheia do ouou... das conversas animadas. Havia muita gente e a linha movediça de um público inquieto desenhava-se sucessiva e inconstantemente no ar, como acontece às ondulações das vagas, que se repetem sem descanso. A condessa de Frazuela, à maneira de Paris, procurava reunir neste espectáculo, que a rainha se empenhava que fosse brilhante, tudo que se pudesse encontrar com um nome conhecido e estimado em Lisboa, e conseguira-o.

Viam-se na sala homens descobertos, mostrando as largas frontes emolduradas em belas cabeleiras de talento, e que tinham a intenção de se mostrar vaidosamente em público: - eram escritores, jornalistas, actores, músicos, pintores... as reputações intelectuais, mais ou menos consagradas.

A viscondessa de Águas Santas lá estava do lado direito, em frente ao camarote real, sempre de pé para ver quem entrava, animando o público com o seu riso perpétuo, atraente e de boa educação. Até as pessoas que a não conheciam, que lhe não falavam, se sentiam agradadas com a sua presença, que era de uma senhora, que distinguia cordialidade em toda a sala. Mulheres de ministros e de influentes na política, iam-se agrupar em volta dela, por uma convenção tácita, inculcando-se subordinadas e aceitando gostosamente o seu protectorado. D. Cesária, com a sua cara sumida de invejosa, dirigia-se-lhe frequentemente, com o fim de transmitir as suas impressões de pessoa insaciável. O que ela melhor apanhava no binóculo sempre assestado, eram as toilettes caras de algumas senhoras de vida aparentemente normal e bem estabelecida, mas cujos gastos ninguém sabia explicar. Aquele luxo, claramente superior às posses de cada uma delas, tinha decerto origem impudica, que D. Cesária envenenava com palavras ácidas. E como se reconhecesse isenta de todo o pecado, manifestava evidente gozo em ver a Concha (uma espanhola amante de um banqueiro, vestida de cetim branco com pérolas e diamantes no pescoço e no cabelo) entre essas senhoras, os tentando-se soberbamente com riqueza superior à delas. A pecadora era uma censura ali posta, para todo o público honesto apreciar. O acaso faz, às vezes, ofício de castigadora providência.

- Quem não vê as diferenças, não achas? - insistiu a esposa do ministro da marinha, para D. Augusta, a colega da justiça, como lhe costumava chamar familiarmente.

Mas a mulher de Carlos de Mendonça não tinha em si o mesmo acinte e retorquiu-lhe:

- Deixa lá, não tenhas má língua...

  1. Cesária enfureceu-se:

- Desculpa-as se te parece!... A mim custa-me mandar fazer um vestido... elas é aquilo!

O carlista D. Nicolas, com a mão direita metida entre o coração e o colete, levantava a fronte

espaçosa, analisando aquele público. O seu aspecto de patriarca bíblico, a longa barba cobrindo-lhe o peito, davam à sua figura suavidade encantadora, que se impunha. Encostado a uma das colunas que sustentam a galeria, tinha breves respostas às perguntas frequentes da sua sobrinha Mercedes, que binocolava com notada insistência Dramond, apesar de ser público que o secretário de França a trocara definitivamente por M.me Lagrant.

  1. Agostinho andava de cadeira em cadeira, de grupo em grupo, em cumprimentos. Conhecia gente de todas as categorias, e não lhe sofria a índole cordial o faltar aos seus deveres para com ninguém. Depois de ter permanecido algum tempo nas cadeiras da frente, no círculo da viscondessa de Águas Santas, foi ter com Arminda, que obtivera lugar nas últimas filas e aparecia publicamente em companhia de João Dantas! D. Constança estava com eles, e o velho fidalgo vendo-a hesitou em se aproximar... Recordou magoado o que se havia passado na Rua do Príncipe, donde ele saíra por causa do padre Brito, de quem se conservaria inimigo durante o resto dos seus dias... Porém, apesar de D. Constança lhe ter sido infiel e ingrata, a boa educação, a polidez, o nascimento, que designa a superioridade do sangue, primeiro que tudo... D. Agostinho subiu a coxia, atravessou ao fundo para o lado esquerdo, indo dar uma volta para se aproximar dos seus antigos comensais, que estavam sob a galeria num sítio de onde não podiam apreciar, em todo o seu esplendor, o soberbo aspecto da sala.

- Se mo tivessem mandado dizer, poder-lhes-ia ter arranjado coisa melhor. Eu sou sempre o mesmo, querido Dantas - pronunciou sorrindo, com certa amargura.

- Obrigado, meu amigo. Resolvemos à última hora - agradeceu o bacharel.

  1. Constança excluiu-se, talvez no propósito de não desejar serviços de D. Agostinho:

- Se não fora esta senhora, nem cá vínhamos.

Referia-se a Arminda, que D. Agostinho no seu interior considerou estar um pouco mais magra, porém cada vez mais formosa. O pecado não danifica tanto como dizem os partidários da virtude; o mundo da felicidade e do gozo parece ter sido inventado expressamente para os que prevaricam. E, com o fim de dizer alguma coisa que interessasse os seus interlocutores, reatando uma conversa perdida havia anos, observou:

- Vamos ouvir hoje o nosso Salústio...

O nosso Salústio resumia todo um passado íntimo e venturoso. Era uma multidão de factos de sensibilidade e carinho enfeixados numa frase trivial: - era a vida folgazã e alegre desse lindo verão de Benfica, em que João Dantas conseguira amortecer as resistências de Arminda; eram os dias contentes da Rua do Príncipe, naquela fraternidade de camaradas, na casa de hóspedes. Todos sentiram como a recrudescência de alegrias e dores extintas!... Ficaram um momento silenciosos, fazendo cada um o seu inventário mental...

João Dantas, condiscípulo do deputado, notou que Salústio fora bom estudante, sempre com tendências para a política. Já em Coimbra se metia fervorosamente nas eleições do Club Académico e da Filantrópica. Lá ninguém o via senão com homens de posição elevada, com lentes que tivessem sido deputados ou ministros!...

- De todos os rapazes que conheci na Universidade, é o que tem pulado mais - disse.

- Espera-se muito deste discurso de hoje - considerou D. Agostinho.

- Ah! ele é um orador!...

Arminda confessou irreflectidamente:

- Quando o vi, pela primeira vez, em Benfica, não fiz boa ideia dele...

Ficou um tanto vermelha; porque, sem o querer, atraiçoara os seus pensamentos... Aquele mês passado na companhia da Afonsina tinha preparado a sua queda... A cena do moinho, quando João Dantas a agarrara atrevidamente pela cintura... representou-se-lhe na imaginação, com toda a nitidez e com todo o relevo... como se passara. Tivera um instante virtuoso de arrependimento, fugira para Lisboa na companhia de Gustavo, para evitar o perigo...; mas Arminda lembrava-se que, depois que perdera a fala e ficara inerte por instantes entre os braços nervosos de João Dantas, ela mesma considerara a sua perdição inevitável!... Foi uma questão de tempo, como mais tarde se verificou. D. Agostinho tinha sido uma testemunha presencial e um confidente das peripécias desses amores. Por isso não podia olhar para os dois amantes que não reconstruísse tudo quanto se passara. O velho fidalgo despedia-se deixando-os a falar de Salústio... D. Constança considerou:

- Cá por mim, sempre me pareceu que este rapaz iria longe. Era muito atrevido.

  1. Agostinho, ao retirar-se, estendeu-lhe a mão e, num intuito de desculpa, disse: «Preciso dizer uma coisa à prima Frazuela.» À mãe de Arminda, ao contacto daquela pele sua conhecida, perturbou-se-lhe o coração; mas aparentou heróica indiferença. Este diabo de homem ainda exercia grande império sobre a sua carne... Ou predomínio de raça, ou distinção individual, ele era superior ao próprio padre Brito, por quem o trocara e com quem se mantinha... Enfim passou... não queria saber mais disso.

A condessa de Frazuela estava do outro lado, em pé, envolvendo toda a sala num olhar soberano, - benévolo e dominador. Os seus magníficos quarenta anos, a forma desenvolvida, completa e definitiva como pessoa e como mulher de sociedade, aumentavam-lhe a majestade e o prestígio. Ria, falava, gesticulava com sobriedade e arte, conservando em volta de si uma atmosfera vibrante de sensibilidade e espírito. Tornava-se evidente e respeitada, era a personagem marcante da sala não desprezando nenhuma circunstância, espargindo, a todos os momentos e num largo perímetro, cumprimentos, olhares e sorrisos... À viscondessa das Águas Santas, que lhe ficara distante, aprovava o excelente trabalho de colaboração e fez-lhe compreender, com um imperceptível aceno, que o sorriso de sua majestade a rainha, quando viera apreciar o aspecto da sala, fora de contentamento aprovativo.

As senhoras mais distintas pela educação e nascimento tinham-se vindo juntar à condessa, realçando-a, fazendo-lhe corte, que lhe acrescentasse a influência. Eram tudo pessoas a falar línguas estrangeiras, leitoras habituais do Figaro e da Reme des deux mondes, gente de alta proa imperialista, educada na leitura da prosa gutural de Mazade e Feuillet. A mulher do ministro inglês, Mrs. Cross, com a sua fria cara de porcelana, mencionava-lhe, sem gesticular, pequenos incidentes vistos através da sua luneta de oiro, que lançava sobre a plateia, com firme solenidade. M.me Trèvan, outra confidente, mulher de boa presença, alta, magra, perfil enérgico, assestava o binóculo, expondo num destaque magnífico o seu óptimo busto, que, dez anos antes, tivera grande aceitação em Longchamps, nas Tuileries, na Comédie, onde aparecia duas vezes por semana, sendo uma em representações de Molière, de quem se dizia fanática.

A mulher do diplomata português era muito cumprimentada por todos os estrangeiros de nome, que se lhe aproximavam com olhos submissos, falando e gesticulando pouco, em sinal de respeito e vassalagem. Depois de terem estado com o conde, que, numa cadeira da frente, ria alto conforme o seu temperamento de peninsular, vieram apresentar os seus cumprimentos à condessa: o ministro inglês, aspecto ósseo e severo, magnífico caçador na serra de Sintra; le comte Jubkeff, representante do czar, homem letrado e pacífico; Mr. Franza, encarregado dos negócios da Áustria, que mostrava confiança no êxito de Bijou de La reine. Palmira Freitas ficara contrariada, porque seu pai a separara, nesta festa pública, da roda elegante a que andava habituada. Leôncio de Mértola, estimando essas relações com que se inchava a sua vaidade burguesa, tirava-lhes por vezes a filha precavendo-se, como ele dizia, contra a esperteza dos fidalgos pobres e dos intrujões estrangeiros. Por isso, nesta noite de aparato, buscara a companhia menos saliente da família do conselheiro Maurício Pontino.

O visconde da Carregueira, tendo a comenda da Conceição do lado esquerdo, gastava a restante viveza da sua senectude na procura das meninas novas e bonitas, a quem prodigalizava amabilidades de que elas se riam e oferecia bons-bons, dum saquinho cor-de-rosa, que trazia na mão.

Até começar o espectáculo estivera na sala Josefa Lencastre, que só entrava na segunda parte. Seu marido trazia-a pelo braço, garantindo-a contra a maledicência, com o respeito aos seus anos e à sua farda. A condessa saiu da cadeira para a beijar; outras senhoras cercaram-na dando-lhe antecipadamente parabéns. Todos os binóculos a procuravam, querendo muita gente descobrir-lhe a comoção de quem se arreceia do papel. Foi nesse momento que também se aproximou dela uma senhora nova, loira e formosa, acompanhada dum indivíduo que tinha todo o aspecto de inglês. A maioria da gente não os conhecia, conceituando-os, à primeira vista, de estrangeiros, que estivessem acidentalmente em Lisboa; porém vendo que eram conhecidos da Frazuela, de Josefa, da Águas Santas e de mais senhoras, o Fonseca da Alfândega estava intrigado por não saber quem fossem... Como ali passasse ocasionalmente Salústio Nogueira, de gravata e luvas brancas, chapéu de molas sobraçado, o

empregado público deteve-o para lhe dizer:

- Ó doutor, eu conheço aquela inglesa; mas não me posso agora lembrar quem seja!...

- Não é inglesa - esclareceu o deputado. É uma senhora do Porto, casada com aquele sujeito, que se chama White, inglês de sangue, mas nascido em Portugal. Amiga de M.me de Moura. Em solteira chamava-se Angélica Agramonte.

E como se aproximassem o crítico Torres, Albano de Melo e Alberto da Cerveira para ouvirem a explicação, Salústio acrescentou:

- Gente de importância no norte.

O Fonseca, apanhando o lábio inferior entre o indicador e o polegar, ficou ruminando:

- Angélica Agramonte!... Angélica Agramonte!... Não é filha dum general que morreu? Salústio Nogueira não sabia, mas ele afirmou logo, sem hesitação:

- É isso, é ela, a Angélica Agramonte! Conheço muito bem! - exclamou sorrindo, querendo inculcar saudade de amores extintos. Passei com ela bons tempos na Foz, há três anos. É filha do general Agramonte, que morreu.

  1. Agostinho, que ouvira casualmente o Fonseca, a quem detestava, por causa de uma espanhola, que ambos tinham conhecido, comunicou ao visconde da Carregueira:

- Este homem mente como um bêbedo! Aquela senhora nunca foi filha de nenhum general! Nem mesmo nunca existiu general Agramonte.

- Bem sei. O pai dela é meu colega; está na relação do Porto - concluiu o conselheiro do Supremo.

O murmúrio do público, ao aproximarem-se as oito horas, ondeava animado e fremente. Era a amálgama de conversas comprimidas numa sala, o somatório de sorrisos, exclamações, palavras trocadas... Os espectadores das últimas cadeiras, como se não conheciam, mostravam-se menos sociáveis, conservando tácito sentimento de hostilidade contra os que intencionalmente se tinham reunido adiante, numa separação que os desvalorizava a eles. Alguns, por tal feridos na sua dignidade, zombavam de tudo aquilo: - do programa, meio em francês, meio em português; de não terem procurado representar num teatro como o de D. Maria, que entendiam ser mais adequado. «Porém isto - chasqueavam - é ainda a demonstração dos sentimentos caridosos de certa gente, que vive de orgulho e vaidade». Seria para não trilharem um palco, onde actrizes tivessem exibido os seus atractivos? Talvez; mas toda a gente honesta se devia rir de tal meticulosidade em mulheres cuja vida era um tecido de intrigas amorosas e picantes. «Muitas daquelas fidalgas - comentavam ironicamente têm factos na vida, bem públicos e bem conhecidos, que as equiparam àquelas de quem se querem distanciar, as quais só podem perder na comparação!» Regozijavam-se porque a Concha estivesse entre elas, abatendo-as com toda a insolência da sua beleza carnal e do seu rico adereço de pérolas e diamantes, sobre vestido enfeitado de rendas caras. O seu banqueiro, para satisfazer o capricho da rapariga, obtivera um bilhete das primeiras filas, comprando-o por muitas libras - afirmavam gostosamente. Fizera ele muito bem, aplaudiam-no por ter realizado uma ideia que por si só destruía toda esta combinação ridícula, de haver lugares separados, para aquelas tolas, que eram tanto filhas de tendeiros como toda a gente. E o corpo esbelto da Concha, envolvido em cetim branco, tinha toda a soberba majestade de uma estátua. O perfil correcto e a tez morena faziam-na sobressair. As suas jóias de alto valor abatiam as das que as possuíam de menor preço. Por tudo isto, os das últimas cadeiras aprovavam explicitamente a famosa ideia do capitalista, que ali fora colocar a sua amante.

O famoso crítico teatral, José Torres, no meio da sala, cercado de actores portugueses, com quem discutia acaloradamente, vinha disposto a um julgamento severo, se o não satisfizessem. Esqueceram-se de o distinguir com o bilhete de favor, por isso as ouviriam duras...

- Ora imaginem vocês - perorava - o papel de Luísa de Saboia, que só podia ser feito pela Manuela Rey, se fosse viva, representado por uma senhora qualquer, que desta coisa chamada - Arte! só ouviu pronunciar o nome! O Rosa diz bem do desempenho; mas eu não o posso acreditar.

Nesse momento aproximou-se o novel actor Amado, já célebre nas sociedades dramáticas da capital e que, diziam os seus amigos, estava para entrar em D. Maria, onde esperavam que preenchesse o lugar do Tasso recentemente falecido. A sua larga fronte de inspirado, o pequeno bigode em croc, a casaca lustrosa e nova, a larga mancha da camisa sobre o magnífico peito de trágico, tornavam-no evidente. Escutou com seriedade e orgulho a opinião desfavorável de José Torres, dizendo repetidas vezes: «Está claro!». Ao mesmo tempo passava a mão na lustrosa cabeleira de artista, significando com vaidade que, dentro do crânio, presumia ter alguma coisa. E como nesse momento se encontrassem junto do palco D. Josefa Lencastre e o barão de Cerdeiral, que trocavam opiniões acerca do aspecto da sala, o actor Amado destacou-se para ficar isolado e fixou os dois com o seu provocante binóculo. A mulher do ministro da guerra dirigiu casualmente o olhar para aquele lado, e ele, expondo-se-lhe todo vaidoso da sua reputação e óptima figura, disse fixando-a:

- Pode ver, minha senhora, pode ver à vontade que sou eu mesmo!

Parecia-lhe, a este génio, que ocupava toda a sala com a sua fama. O riso vaidoso das senhoras da sociedade, a soberba dos homens conhecidos, o brilho das luzes fulgurando nas jóias, o macio das sedas contendo corpos desejados, os magros rostos diplomáticos confrangendo-se miopemente para olharem com monóculos, a presença das pessoas reais, que já se tinha assinalado no camarote... eram factos que esta organização sumptuosa, semelhante à de Salústio, referia só a si, concentrando-os numa apoteose, de que era ele o único objectivo!...

 

Toda a sala escutou de pé o hino real, como fórmula de vassalagem e respeito. Os monarcas, ao tomarem os seus lugares, exprimiram num sorriso e numa ligeira curvatura quanto se sentiam agradecidos por esta ruidosa atenção. Os espectadores corresponderam sentando-se, sem despregarem os olhos do camarote real. Depois, quando a aparatosa figura de Salústio Nogueira veio colocar-se diante de uma pequena mesa, que estava à boca do palco, estabeleceu-se silêncio precioso, seguido de imponente salva de palmas, restabelecendo-se após digno e interessado sossego. O deputado mostrou-se reconhecido, numa inclinação de cabeça, e mudou o copo de água, coadjutor da eloquência, da esquerda para a direita. A expressão do seu rosto era vivaz, sem deixar de ser modesta!...

A cabeleira abundante e negra, penteada para a nuca, deixava-lhe a fronte espaçosa numa evidência clara. Os seus olhos pardos abraçaram rapidamente a plateia num rasgo de ambição, indo-se amortecer submissos nas augustas pessoas reais. Repuxou os punhos e desafogou o curto pescoço, dando aos largos ombros o movimento de quem sustentasse o peso duma glória imensa! Ia falar: estendeu o braço direito e com a mão aberta indicou hipoteticamente qualquer coisa, que estaria longe, numa região de luz...

Senhor.

Senhora.

Minhas senhoras e meus senhores.

«Na poética e melancólica paisagem da Judeia, apareceu outrora um homem, com a palavra redentora correndo-lhe a flux dos lábios! - «Deixai que os pequeninos se cheguem para mim!» - disse ele, e esta frase de uma simplicidade divina correu o mundo levada na língua dos Apóstolos galileus, que de rudes se tornaram - oh! Maravilha! - rapidamente em sábios, que de humildes pelo nascimento foram depois grandes pela virtude. Singular e extraordinária transformação, que em si resume e por si atesta quanto é celestial esta religião de caridade e de fraternidade, que o Homem-Deus proclamou e estabeleceu! Facto novo e superior às nossas míseras inteligências, que se engrandecem com a verdadeira crença religiosa, se os sublimes preceitos do evangelho as fecundam! (Rumor aprovativo).

«O Mestre divino, que nos trouxe a máxima redentora do - «amai-vos uns aos outros» - sentia derruir em volta de si o velho mundo, materialista e pagão, que bem representado está nos livros santos pela infame Sodoma, cuja punição foi o famoso incêndio! E, na sua previdência infinita, compreendeu o ousado Nazareno, com a rapidez do raio, cuja fraca imagem não pode dar ideia dos clarões da sua inteligência fulgorosa que no momento em que pedia para consentirem «que os pequeninos se chegassem para ele», lançava a base duma nova misericórdia e da definitiva felicidade humana! Desde então nunca mais houve desgraçados; porque ele propôs uma filosofia em que reconhece em todos o direito à ventura, desde o mais inútil até ao cidadão prestante, que com a pena ou com a palavra, com a espada ou com a bigorna conquista impérios para a hodierna civilização, derruindo as cidades do vício, nefastas e prevaricadoras! (Novo rumor de aplausos).

«Quando, segundo Heródoto, Tomiris, rainha dos Citas, meteu a cabeça do famoso rei Ciro num vaso de líquido tirado das veias, exclamando: - Monstro! sacia-te do sangue de que sempre foste sequioso! - esta mulher forte e enérgica pretendeu claramente punir com severidade, numa parte inerte do conquistador da Ásia Menor, as culpas do célebre ambicioso.

«Assim nós hoje, comparando a miséria) que é devastadora, ao génio do mal que se personifica no filho de Cambises, rei da Pérsia, poderemos repetir este símbolo, não afogando em sangue a torva inimiga dos infelizes, mas abafando-a com as flores de que vejo enfeitada esta sala, e dizendo-lhe numa apropriada antítese: «Monstro! sacia-te dos perfumes de que sempre foste inimiga!»

«Porque a miséria, minhas senhoras e meus senhores, é feroz e implacável, como os tiranos da antiguidade: - ela tudo assola e devasta, passando sobre a pobre humanidade, como esses ventos do deserto, que mirram nos campos, de preferência, as ervas mais tenras, não poupando as grandes árvores, ainda que resistentes. A sua voracidade infartável não bastam velhos incapazes, que, indo-lhes a vida no ocaso, dificilmente se furtam às aduncas garras; é-lhe necessário, à proterva, destruir crianças, que são a esperança do futuro, que são os tenros arbustos, de que se formarão os formidáveis robles! Mas não conseguirás - ó infame dos séculos! - (exclamou energicamente Salústio, fixando no ar um ponto indeterminado) - levar-nos os débeis e os infelizes que nós protegemos. Contra o teu abominável nome - miséria - inventou-se outro preciosíssimo, que se chama caridade. Vem a este recinto, desgraçada, cuja missão é gerar lágrimas, e aprenderás como debaixo das mais opulentas e ricas toilettes se ocultam sensíveis corações, e como os risos angélicos, que vejo desabrochar em lábios purpurinos, pertencem a anjos, cuja missão é destruir o teu indigno poder!»

Muitos e prolongados aplausos interromperam o orador, que submisso e curvado abrangia toda a sala no seu reconhecimento. Serenado o estrépito das palmas, Salústio continuou, em tom de voz mais calma:

«Quando a eloquentíssima águia de Meaux, o preceptor do delfim de França, o sapiente Bossuet, fez o elogio da boníssima princesa palatina, Ana de Gonzaga de Cleves, enumerou entre as melhores qualidades, que exornavam esta ilustre dama, a caridade! «Em todos os cataclismos extraordinários - disse ele - a sua caridade fazia novos esforços». Que expressões teria de inventar a voz magistral deste S. Paulo moderno, se hoje lhe fosse dado encontrar-se nesta sala e neste mesmo lugar em que estou, eu o mais humilde e desconhecido dos admiradores desse grande génio?!... Como poderia fazer levantado elogio às virtudes das nobres senhoras, que tomaram a seu cargo apanhar as lágrimas dos que choram nos seus finos lenços de cambraia?! Seria necessária a suave eloquência do cisne de Cambrai, o grande Fénelon, para com ténue delicadeza de estilo, cujo segredo morreu com o sábio arcebispo, podermos enumerar, uma a uma, todas as graças, todos os maravilhosos dons que matizam almas tão bem formadas!...»

Fixou audazmente o auditório, durante alguns momentos de silêncio. Os espectadores sentiam os cérebros comprimidos, misto de admiração e incerteza! Que iria dizer Salústio, das promotoras da festa de caridade, que ali se achavam reunidas?! Os indiferentes procuravam com os olhos a rainha, a condessa de Frazuela e outras senhoras... Todas elas receavam um formal e claro elogio, que poderia ser inconveniente perante um público desconhecido. Porém, o deputado calculara sagazmente esta circunstância, sentindo-se ferido, quando compusera o discurso, de idêntica delicadeza. Por isso, com expressão facial, serena e respeitosa, falou da rainha em perífrases cheias de melindre, servindo-se, para a dar a conhecer, da locução «consoladora dos aflitos», o que provocou claros sinais de assentimento, que obrigaram sua majestade a inclinar a cabeça agradecida. Depois de ter indicado a esposa do monarca, conglobou, em aplauso genérico, a comissão de senhoras da melhor categoria social «que assim prescindiram dos confortos e recreios privativos da sociedade em que vivem, para se dedicarem nobre e devotamente à santa causa de minorar os sofrimentos dos infelizes, que muitas vezes suportam com resignação admirável dores cruciantes de intensidade ignorada!» Mas, referindo-se em especial à condessa de Frazuela, aplaudiu-a pelo brilhante resultado daquela festa memorável, afirmando que era em parte devido «à ilustre dama, presidenta da comissão executiva, senhora que, à mais elevada cultura de espírito, juntava os melhores dotes de coração.» Um bravo saiu do entusiasmo de D. Agostinho, que foi secundado por outras pessoas. A condessa, reparando no rosto de incompreensão de madame Trèvan, que estava a seu lado, disse-lhe rindo-se por trás do seu leque: - Il me flatte...

Mas, a parte do discurso mais aplaudida pelo grosso público, foi aquela em que o orador, com eloquência imitada de Lacordaire ou de Castellar, falou nitidamente da sublime virtude da caridade. Considerou-a no seu aspecto religioso vendo-a proclamada nos divinos preceitos de Jesus, que rememorou segunda vez; praticada nas obras imortais de um S. Francisco de Assis e de um Santo António de Pádua, que fundaram conventos mendicantes; ensinada por Vicente de Paula, que recolhia recém-nascidos abandonados!... Nos tempos modernos, a virtude da caridade, tornando-se social, chamava-se filantropia, e era exercida por todo aquele que tem um peito e dentro desse peito um coração para sentir e amar! Atacou vivamente «certa classe de filósofos doentios, perpétuos inimigos da religião e da humanidade, que dizem a caridade desmoralizadora, humilhante e anti-religiosa, quando exercida com ostentação e orgulho, de modo a saber a mão direita o que faz a esquerda!»

E proclamou, o fogoso orador cheio de emoção:

«Pois quê! Não será, esta maneira brilhante e atractiva de exercer a excelsa virtude, a mais eficaz para chamar ao seu exercício muitos indiferentes, muitos rebeldes às coisas do sentimento!? Não poderemos assim, com mais facilidade conseguir que esses se lancem vigorosamente na simpática estrada aberta pelas distintas damas que organizaram esta festa, tão comovente pelo seu fim, como esplendorosa nos seus meios!? A caridade, porque tem um vestido de cetim, pérolas e diamantes, porque cinge um diadema, não será a mesma virtude que enobreceu o ilustre mestre de Bossuet, que andava de noite recolhendo as desafortunadas criancinhas, guiando-se, para os encontrar, pelo lamentoso som dos seus vagidos?! A história humana menciona fartura de princesas que foram excelsas pela sua caridade. Sem saírmos de casa e referindo-nos ao passado, lembrarei a rainha santa Isabel, cuja memória ainda não se apagou da mente do bom povo português, e também D. Leonor, esposa de D. Duarte - o Eloquente! - senhora que, dois séculos antes de Vicente de Paula, estabeleceu em Portugal a instituição das rodas!»

Houve movimento de aquecido orgulho na plateia. A maioria do público desconhecia o facto.

Salústio continuou:

«Vemos aqui os arminhos ligados à prática da nobre virtude; vemos além o hábito de estamenha exercê-la igualmente!... Ora, só porque era de pobre o vestuário do apóstolo francês, a sua caridade deverá ser considerada de melhor quilate?! O modo actual de praticar o bem não será mais fecundo em resultados?! De um lado a púrpura, do outro o vestir humilde - sempre a caridade. Qual a diferença?! Andai, respondei-me, magníficos Catões da filosofia doentia!... - exclamou ironicamente, ficando com um óptimo sorriso suspenso sobre o público admirado, que lhe mostrou compartilhar aquela opinião, aplaudindo-o. Suas majestades sorriram, batendo palmas. O deputado seguiu falando em tom de quem vinha de um pensar demorado, trazendo placidez no espírito, por ter encontrado na reflexão a verdade:

«O nosso grande século devia distinguir-se dos precedentes, nisto, como em tudo se diferencia. Depois dos grandes inventos, a filantropia devia aparecer, para nos demonstrar que podemos ser homens do mundo, homens de sociedade, homens de elegância, amantes do luxo e, ao mesmo tempo, sentirmos o amor dos outros. Era indispensável proclamar como princípio que o culto da religião se pode casar com o culto da arte; que no teatro se pode trabalhar para a virtude como se estivéssemos num templo; que a tribuna sagrada não difere essencialmente da outra sua irmã, a tribuna profana! O grande século XVI casou o cristianismo com a pintura, em Itália; o nosso alia a caridade com o espectáculo! Haverá nisto alguma coisa de antinómico?! Não, decerto! Eu amo infinitamente mais Lope de Vega, que era um santo, quando fabricava autos religiosos, para divertir o povo e os reis de Espanha, do que o chocarreiro Boccacio, quando fazia contos obscenos, para desmoralizar a Itália e o mundo! (Com grande energia e calor): - Digo, proclamo, afirmo hoje e afirmarei toda a minha vida, que a virtude há-de ser eternamente superior ao vício, que aquela pode ser alegre como a infância e este triste como a decadência!...»

- Bravo! bravo! bravo!... Muitíssimo bem! - ouviu-se em toda a sala.

- Boa cabeça! Boa cabeça! - pronunciou Leôncio de Mértola.

- Uma pérola! - acrescentou o visconde da Carregueira. - Está ali um ministro.

- Tempo virá - disse com azedume o conselheiro Maurício Pontino, que principiava a sentir em Salústio um concorrente à ambicionada pasta.

No trecho em que o orador se referiu à valiosa subscrição obtida entre os membros da classe comercial, envolvendo a pessoa do seu «ilustre iniciador» que era o pai de Palmira, este sentiu-se comovido, por lhe parecer que el-rei olhara para ele! No fim teve para agradecer ao deputado um enérgico aperto de mão e a simples palavra: «Obrigado!»

Salústio terminou, penhorado pela benévola atenção com que o tinham ouvido, e foi aclamado com repetidos bravos e palmas. Ele sorria, inclinava-se com dignidade, agradecia aos monarcas com olhos respeitosamente velados. Assim engrandecido, não encontrava desproporção de tão vivos aplausos para os seus méritos. O bom sangue de montanhês circulava-lhe no mesmo ritmo; estava senhor de si, habituara-se a encarar friamente a glória, de tanto que a ambicionara. Tinha certeza e o orgulho da energia paciente, que empregara no seu trabalho. A força muscular que possuía dava-lhe consciência de que chegaria a dominar. Continuava a sorrir afável e simples aos que vinham para ele, entregando-se aos abraços com certo desprendimento. Procurava lançar na conversa assuntos vulgares, para o não julgarem envaidecido. Porém, quando o Frazuela lhe segredou: «El-rei está contente» sentiu vibrar de gozo todo o seu corpo e, num aperto de mão, agradeceu ao diplomata.

Aquele temperamento exuberante era uma força. A prática dos homens aumentara-lha. Isto, que noutra época o exaltaria, deixava-o agora sereno. Era como o general que dorme sossegado após a vitória. Podia encarar audazmente a vida, sentia-o. «Avante Salústio!» - pensou de si para si, olhando a sala com exterior calmo e natural.

O quarteto de violino, violeta, violoncelo e flauta, sobre motivos da ópera Faust de Gounod, foi muito aplaudido e bisada a última parte. Evolavam-se os sons amorosos de canções ternas no jardim de Margarida! A música ondulava no ar, com a cadente tremura de murmúrio de fonte campestre!... Logo depois, as notas infernais das gargalhadas mefistofélicas assobiavam irrompendo num escárnio, ou então, resumindo a cena à porta da catedral, eram sons profundos e serenos, de uma amplitude cabalística, como os esconjuros das feiticeiras à boca das cavernas, nas lendas escandinavas! A seguir tocaram uma valsa de Strauss: aquela música nervosa, salpicada de notas altas de tom estridente e áspero, a cortar a melodia de efeitos adormecedores, atirava-se para o ar, alegre e espantada, como as asas de um pombo, escorraçado de sobre a seara! Depois o pano abriu-se para os dois lados, como os cortinados de um leito... Um quadro de parque, com antigas árvores comprimidas em espaço restrito, apareceu por baixo da bambinela cor de céu, que ficara a ondular, agitada pelo último repelão das cortinas. Percebia-se ao fundo um vale, em que fortes pinceladas de azul e branco designavam irregularidades da superfície de um lago; em que, ainda mais longe, certas manchas negras, acumuladas num sentido de despenhadeiro, fingiam de penedos suspensos de colinas... Por entre gargantas escuras caíam cataratas de água, cuja corrente era significada em filetes de papel prateado, que reflectiam a luz branca produzida entre bastidores.

É de tarde, no belo país normando, tão poético pelos rios murmurantes orlados de choupos, como pelas suas lendas e pelos velhos fidalgos, de compridas barbas e irreconciliáveis com os modernos tempos... Os raios do sol oblíquo produzem crispações instantâneas nas superfícies das águas e alegram, numa suavidade de despedida, as rijas folhas das carvalheiras. A direita, uma orla de floresta, apontada num belo renque de troncos anosos, dá a impressão tranquila e misteriosa das noites patriarcais, dos poemas campesinos, dos gozos simples e monótonos em vales férteis e amenos. A inclinação do feixe de luz solar torna o ar sereno e calmante... tudo convida ao amor panteísta e vago... A perspectiva da paisagem é habilmente tomada, distanciando-se o horizonte e elevando-se o céu... Inteligentes combinações dos bicos de gás das gambiarras e da ribalta projectam claridades sobre fofos arbustos e pirâmides de verdura do parque, através de vidros corados, que dão à atmosfera artifícios de sombras, bem distribuídas. Deusas!... ninfas!... quimeras!... povoai o espaço, vinde em bando tornar paradisíaco e feliz este pôr-de-sol cheio de poesia!...

Mas não!... Entra em cena a baronesa de Orthez, senhora de cinquenta anos! Toda ofegante e correndo atravessa um tabuleiro de relva, com as botinas ensebadas de lama. A pequena touca bretã, com laços e fitas roxas, por cima de cabelos brancos, vai excelentemente ao rosto oval e menineiro de madame Lagrant. Deram-lhe carinhosas palmas à entrada, o que a perturbou; porque o papel lhe determinava que se encontrasse com um maldito carneiro, que se lhe oporia à paisagem, e não era fácil ao mesmo tempo aceitar as investidas do cornífero e agradecer a delicadeza do público!... Valeu-lhe, porém, o animal não ter, como devia, surgido a tempo da floresta, apesar de vigorosamente empurrado de entre bastidores. O público percebeu que os papéis se tinham invertido: - em vez da baronesa ser amedrontada pelo lanígero, era este que fugia da castelã. Porém, madame Joujou não se perturbou: - fingindo evitar o inimigo, que se conservava teimoso com a focinheira no chão, foi dizendo graciosamente, significando aflição:

- Va-t-en!. je n’aime pas ces animaux, qu’on ne connait pas! Evitava o pobre bruto, que tinha evidente empenho em fugir da cena...

- II me tient! mon Dieu! mon Dieu! Mais c’est qu’il me tient vraiment! Au secours! Au secours!

- gritava a baronesa excessivamente trémula...

Desta situação embaraçosa veio tirá-la um magnífico general burguês de Luís Filipe: calça larga, bota de cano, presilhas, sobrecasaca com anquinhas, pançudo, chapéu alto, grande nariz, bigode recortado à tesoura e dois quadrilongos de barba presos às orelhas. - Eh! que figura! - disseram na plateia. Provocou hilariedade o magnífico abraço dado na baronesa, que, apesar de presumir na pessoa que a vinha livrar do medroso carneiro, que a não perseguia, alguma antiga amizade, continuava a debater-se como se fora o diabo que a tivesse prendido. Dramond desfigurado em general de Kerdic mostrou-se-lhe então claramente e ela, sorrindo com serenidade, disse: «Que le bon dieu vous patafiole, par exemple! e perguntou-lhe pelo seu gamin, ao que o militar respondeu pedindo-lhe informações da sua espiègle. Esta cena prazenteira fez crescer o bom humor de alguns espectadores. Sabiam que M.me Lagrant era amante de Dramond e, apesar da séria e respeitável caracterização, descobriam sensualidade nos abraços trocados, segredando-o de ouvido para ouvido. Porém eles continuavam no seu diálogo simples e natural falando dos filhos: Paulo de Kerdic que andava na floresta à caça do écureuil e Helena, que a baronesa informou encontrar-se para o mesmo lado, talvez a copiar qualquer nesga de paisagem melancólica.

Helena, coitadita, viúva aos vinte e dois anos, sem propriamente ter sido casada! Vivia presa na sua dor singular, considerando a desventura que a enlutara, como aviso do céu predizendo-lhe eterna viuvez... Helena, pobre filha, nunca mais a veria alegre...

Mas como sucedera o caso triste e singular?

A desolada mãe conta-o compungida: No espaço de tempo entre a mairie e o altar católico, Mayram, o malogrado noivo, é chamado ao serviço com estrema urgência. Não se pode recusar, ele um oficial às ordens do rei! Abandona Helena, a sua noiva apetecida, deixa os convidados, que eram todos parentes e amigos do coração.

Como ela não ficaria inquieta, tenebrosamente inquieta e aflita! Como todos se sentiram preocupados no peregrino lance! Mayram vai levar ordens às tropas dispostas na bastilha, para atacar os populares. Era num dos perturbados dias de Fevereiro de 48, em plena fervura de paixões democráticas, aquecidas pela palavra ingénua, mas entusiasta do tribuno Luís Blanc. Os revolucionários, reconhecendo no destemido Mayram um inimigo, matam-no no caminho e é por este motivo que a pobre Helena se encontra viúva, sem nunca ter tido esposo.

«- Ah! Sacredié!» - exclama o general gesticulando largo.

Toca-lhe a vez, a de Kerdic, de informar a baronesa acerca de Paulo. Descreve, desconsolado, o

estado de espírito doentio do seu rapaz. Um triste da pior espécie, fruto das péssimas ideias da época! O velho, homem prático, verbera a actual civilização com algumas sargentices malsoantes para os ouvidos pretensiosos da baronesa. Paulo é um poeta à procura da mulher ideal - ora vejam a maluqueira! Sempre embrenhado em florestas, fugindo do nosso lindo mundo, que só procura gozos continuados. É um poeta, um pateta, um tolo, três vezes tolo - remata em voz de comando o general de Kerdic.

Agora é a baronesa que se mostra desconsolada e rabugenta. A idade já lhe pedia um neto, que lhe enchesse o vazio da existência, que a espairecesse na velhice. As travessuras duma criança trazerlhe-iam alguma coisa de inesperado e novo, que conseguisse espantar-lhe a melancolia. Seria para ela uma imaginação infantil e rebelde a entrar-lhe no coração entristecido e a alegrar-lho, como o sol atravessa o nevoeiro denso e o desfaz em luz. O velho militar sorria-lhe baboso, acompanhando-a com interjeições aprovativas. Por fim explodiu num grito do fundo da alma:

«- Je suis aussi bete que vous!...»

Mas para ele, homem e bravo militar, o que mais convinha era uma neta rosada e linda. Sobre os seus joelhos, ainda desemperrados, havia de obrigá-la a saltar como uma bola. Só as risadas cristalinas que seria capaz de lhe provocar com frequentes momices, ele, oficial das campanhas napoleónicas!... Para o sonhado ente, que a imaginação lhe representava como um querubim, criara com o maior esmero dois lindos carneiros ingleses, dois Diskley, bem conhecidos em toda a Normandia, que haviam de puxar o carrinho da filha de Paulo.

Tão vivo e forte era o desejo de tal descendência nos dois velhos - verdadeiras crianças ao imaginá-la - que o general de Kerdic, apesar de espírito revolucionário e livre de crendices, chega a concordar com a mãe de Helena em irem ambos acender duas velas de cera a Santa Marcela, advogada de casamentos difíceis. A risonha ermida viam-na dali mesmo, ao longe, na orla da floresta. Como espírito forte, de Kerdic, a princípio troça destas capudnades, destas receitas de bonne femme, mas sempre acompanha a baronesa no seu voto à pastora milagrosa, cuja lenda poética afirma ter sido esposada dum príncipe.

- Naquela parvoíce não caía eu! - segreda o general Gonçalo ao seu ajudante.

Talvez caísse, se tivesse um filho como Paulo e possuísse os dois famosos Diskley, a inveja de todas as redondezas, pela formosura da sua lã e corpulência taurina. A hora da tarde adormecedora, o ar inebriante conquistando o homem sentimental para o espírito absoluto e ingénuo da natureza omnipotente, podiam-no convencer. Depois era tão íntima... tão escondida... aquela devoção!... A velha ermida de santa Marcela, que fazia na paisagem uma nódoa parda, atraía pela simplicidade. Os dois pais, desconsolados pela falta de segunda descendência, ligavam as suas aspirações nesta comunhão misteriosa e de vago pressentimento! Paulo e Helena não eram livres? não poderiam casar um com o outro?!... Oh! nada se opunha, como compreenderam sagazmente os espectadores, penetrando a fina subtileza desta comédia repassada de engenhosa candura. A providência, mãe e protectora caroável dos que sofrem, se encarregaria de guiar os passos dos predestinados para se encontrarem no copado bosque e talvez - quem sabe?! - na capela da santa!... As duas personagens retiram-se, parece que na procura de seus filhos. Um pano de fundo levanta-se... Ao longe aparece a espessa floresta, na sua complicação de sombras e clareiras traçadas com mestria. Fora o próprio Cinatti quem pintara o cenário!... A ilusão era completa. Uma nesga da ermida da santa aparece com a sua cruz poeticamente entrançada de hera.

A encantadora Helena triste e devaneadora, vestida de roxo avivado de branco, apresenta-se com ar sentimental. Traz debaixo do braço o seu álbum de apontamentos de paisagem. É saudada com vivíssima salva de palmas. A sua presença dá satisfação à perspicácia da plateia, pois que logo se encontra com Paulo de Kerdic, adormecido de espingarda ao lado, à sombra duma recatada moita. É pela respiração alta que Helena conhece a proximidade de criatura humana!... Afastando ousadamente o maciço de verdura exclama, com uma candidez quase infantil:

«- C’est un homme!»

O visconde de Pomarini sai de entre a ramagem, estremunhado e um tanto confuso. Ao ver uma senhora vestida de escuro, com um álbum sob o braço, espanta-se:

«- Voilà !. Qu’est ce que c’est?!»

- Ora que havia de ser? Algum urso branco! - chasqueou o crítico Torres, que desde o princípio da noite se mostrara em espírito hostil contra a representação.

Mas a parte selecta e valiosa da plateia era doutro entender e saudou vivamente o diplomata. Logo às primeiras palavras a condessa de Frazuela, aplaudindo-o, acrescentava para uma parenta do italiano, que lhe ficava perto:

- Il est adorable, ce diseur!

Helena e Paulo ficam tímidos em frente um do outro! ela arrependida da sua ousadia, ele sem compreender logo a situação. A filha da baronesa pede-lhe desculpas da temeridade, e Leôncio de Mértola, que era pouco entendido em engenhos de comédias, diz por entre dentes:

- Então para que diabo o acordou?

- Papá!... Podem ouvir! - observou Palmira.

- É mesmo assim! - insistiu o capitalista, forte com a verdade da sua observação, aplaudida pelo conselheiro Maurício Pontino, que também encontrara tolice na surpresa da sobrinha do marquês de Tornai.

Os até ali desconhecidos bem depressa se tornam familiares nos seus pensamentos, servindo-se de um magnífico diálogo, tecido de banalidades e coisas lindas! Em discorrer indefinido durante quinze minutos, cada um ostenta o brilho sedutor de uma linguagem culta, chegando Paulo de Kerdic, talvez mesmo sem o querer ou esperar, a ter nos lábios vibráteis de entusiasmo a fatídica palavra amour! - que pronunciou dando-lhe sonoridade de ocasião.

«- Oh! L’amour!...» - exclama a gentil viúva, com simpática reserva, eivada de descrença.

O visconde de Pomarini caminha para Florinda em dois passos verdadeiramente teatrais. Levanta a magnífica cabeça, atirando para a nuca as loiras madeixas, e ostenta-se nas seguintes palavras, pronunciadas com ênfase:

«- Je l’ai nommé!... C’est que l’amour, visible ou cache, alimente seul lês légers commerces du

monde et seul leur donne lê mouvement et la vie! Il forme, entre vous et nous autres, la trame subtile

et inaperçue dês dialogues lês plus irréprochables: supprimez le, tout intérêt s’affaisse et toute conversation tombe. On cause de toute autre chose; on le croit bien loin: il est lá cependent, et si, par exception, il n’y est pás et ne peut y être, on meurt d’ennui.»

- Bravo! bravo! bravo!... - ouviu-se em diversos pontos da sala.

A nervosa plateia mostrou-se entusiasmada significando-o em aplausos! Simpática apoteose do amor, pronunciada com nitidez de mestre! Não a declamaria melhor, nem com mais bravura de coração, qualquer dos primeiros actores da Comédie, diziam-no entendidos. O visconde parecia ter na garganta a suavidade de Romeu e a estridência comovida de Otheles. Florinda ouviu-o nervosa e quase espectadora de tão belo dizer.

- Oh! como é belo, como é belo! - exclamou transportado o visconde da Carregueira, dirigindo-se à filha de Maurício Pontino. - Quando nos julgamos mais distantes do amor, mais presos

estamos em seus braços divinos! Este mundo sem o amor é um aborrecimento!...

Ali bem perto ouviu-se uma voz magnífica dizer de modo que foi ouvida:

- Formoso trecho!... Admiravelmente pronunciado!...

Era o glorioso Salústio que falava gesticulando como se estivera numa tribuna. O diálogo continua agora complexo e sem objecto. Helena, a inconsolável viúva, mais familiar e quase irónica, dá alvitres a Paulo, o sonhador das mulheres impossíveis, para sair da situação. Esposa submissa, que deixe a vida tranquila de ciúmes, só uma velha! «Lês vieilles sont plus communicatives»

- diz aquela jovem, que não tivera marido.

«- Elles sont trop!» responde o austero Paulo de Kerdic em tom «bourru».

Nesse momento aparece a coincidência prevista e esperada desde o começo. Helena descobre a ermida de santa Marcela! Encantada com a nesga da paisagem normanda, principia logo a transportála para o seu álbum. Elogia-lhe, o filho do general, o lápis certo e ligeiro. Porém, como a ideada e gentil viúva de Mayran (5) metesse, por um capricho de sua imaginação, naquela paisagem recatada, um elefante, Paulo fica apreensivo sem a compreender!...

Vai cair a noite, começa a diluir-se a luz na treva. A noite, com os seus mistérios, acarreta

receios, se na mesma clareira dum bosque se encontram, à hora do crepúsculo, duas criaturas novas, capazes de amar. Mesmo que seja a poderosa mão da Providência que os tenha guiado, o perigo não deixa de existir. Helena reconhece-o e quer retirar-se. Paulo mostra-se penalizado por esta resolução, confessando poder estar ali horas infinitas a ouvi-la. Mas obedece-lhe e vai buscar a espingarda, que deixara encostada a uma árvore, com o fim de acompanhar a filha da baronesa de Orthez a sua casa.

Este era o verdadeiro motivo que levara Helena a acordá-lo, ainda que no momento se fingisse surpreendida. Aqui tinha Leôncio de Mértola a explicação. A este tempo já Kerdic estava preso do mal de amor. Sentindo-se louco e enamorado, declara abruptamente que nele tem falado o orgulho, porém que tira a máscara para se declarar. Evoca o nome de Deus, como símbolo do sentimento puro! Ama-a, deseja-a para sua mulher: é esta a primeira vez na vida que crê no casamento.

Helena, digna e sorridente, estende-lhe a mão, como sinal d’adieu - de bon souvenir - d’amitié. Paulo, tímido e receoso, aceita-lha submisso e vai a beijar-lha, quando o general de Kerdic entra, seguido da baronesa de Orthez, e grita numa voz trovejante de comando:

«- Sur la joue, mon garçon! sur lês deux joues, ou tu n’est qu’une poule mouillée!»

Os dois pais casam os dois filhos. A plateia levanta-se transportada de entusiasmo! Ramos, coroas de largas fitas com dedicatórias e pombos brancos são levados a madame Augustine Lagrant e a Florinda, por três das desgraçadas crianças socorridas com este opulento benefício, e que para a circunstância tinham sido vestidas de branco. Os homens e senhoras das primeiras filas de cadeiras aplaudem com os braços estendidos, os rostos animados de riso bom e cordial. Por fim, da parte da rainha, entraram criados de sua libré, com dois ricos bouquets. Pomarini e Dramond entregam as régias flores às suas companheiras. Depois, todos quatro, numa curva respeitosa de vassalagem, colocados diante do camarote real, agradecem a benevolência carinhosa do aplauso de suas majestades, significando cada um, com a mão sobre o peito, visível comoção!

A poesia de Alberto Cerveira, Luz e Caridade, expressamente escrita para esta noite, não recolheu aplausos suficientemente remuneradores do magistral trabalho. Por isso, os seus amigos e camaradas nas lides da imprensa pediram em clamoroso uníssono que ele recitasse A Deusa, que sempre fora a

 

5 Esta palavra aparece grafada, no original, de formas distintas (”Mayran”, ”Mayram”). Não sabendo ao certo se terá sido gralha ou antes alguma intenção do autor, decidimos manter essas variações na presente edição. (Nota do Editor)

 

sua coroa de glória. Queriam ver levantado à altura merecida aquele enorme talento.

A Deusa era uma composição no género lamartiano toda fogo e sonho. Compusera-a num arrebatamento de amores loucos por sua prima Gabriela. Essa entidade sublime, essa deusa abstracta, viera do cinzel de Fídias, tinha estado nas festas impudicas de Roma, ressuscitara-a Rafael na Renascença, e nos clarões da revolução francesa apareceu encarnada nas formosas guilhotinadas. A Deusa era a Mulher, o paganismo, a carne turbulenta, a fatalidade orgânica, a perdição pelo amor. O público distraído e misturado desta noite não lha podia compreender, e por isso ainda Alberto da Cerveira não foi aclamado, como os seus amigos entendiam ser de justiça. Isto irritou o poeta, que exprimiu o seu ressentimento perante o amigo Fonseca, da Alfândega, que o lamentava, dizendo:

- Deixa estar! É uma corja! (referia-se aos das primeiras filas de cadeiras). Hei-de pagar-lhes na mesma moeda. Acinte por acinte. No meu folhetim da semana verás tu. Eu quando quero sei-as dizer - ameaçou de fronte erguida.

 

O mais interessante acontecimento da noite seria, por certo, a representação do Bijou de La Reme, em que entravam Josefa Lencastre e o Cerdeiral. Nos dias antecedentes ao da festa desejada, em palestras e jornais, muito se falou e aludiu a isto. Salústio Nogueira, com a magnificência da sua voz baritonal disse numa reunião de pessoas selectas: «Verão: não se representa melhor em Paris, nem em D. Maria» - opinião que se divulgou em salas e botequins, como vinda de pessoa que tinha autoridade e assistira aos ensaios.

Mas o que verdadeiramente acirrava a curiosidade era saber-se das presumidas relações amorosas entre os dois principais intérpretes. Consideravam o barão homem perigoso e bom táctico em conquistas que a moral proíbe; Josefa, nova, fresca, bonita, era uma provocação, um óptimo morango para aquela boca de guloso. Além disto, cabecinha leve de lavandisca, que em solteira muito doidejara na procura dum marido, novo e elegante, que não encontrara por não ter um dote. O general Gonçalo definiam-no como velha nau em que a viscondessa de Águas Santas embarcara a sobrinha, para viagem incerta. Tudo isto se rememorara no correr do espectáculo, e foram muito binoculados Josefa e o marido, quando no começo estiveram juntos, mesmo em frente de El-rei, onde o ministro se colocara de propósito, para fazer de modo assinalado os cumprimentos à família real. Troçavam-no por entre risadinhas, chalaçavam do seu aspecto de móvel velho envernizado de novo; as malícias atingiam-lhe a honra doméstica. No intervalo que precedeu o abrir do pano, para principiar a representação do Bijou, crescera a malevolência, o sussurro das conversas envenenadas ia pela sala, forte e galhofeiro, como zumbido de milhões de abelhas. O maldoso folhetinista Cerveira certificava a um grupo de amigos aludindo ao general:

- Ele sabe-o perfeitamente, mas não lhe faz conta dar-se por entendido.

- O homem ignora-o - disse circunspecto o crítico Torres.

- Então é burro - rematou Cerveira.

O Fonseca, da Alfândega, sempre no propósito de se mostrar ao corrente do que se passava nas alcovas lisboetas, esclareceu, afirmando de modo a não consentir dúvida, que tudo era verdade: que o general estava bem instruído por cartas anónimas que recebera. E concluiu como esclarecimento:

- Os dois já estiveram para se bater. A coisa apaziguou-se, para não serem desagradáveis àquele.

Designou a pessoa do monarca, que, com olhar atento, mas vago, analisava a composição da plateia incaracterística.

Na roda da mulher do ministro da guerra, a expectativa era ainda mais interessada. Circulavam de novo certos boatos, repetidos e comentados com fantasia. As observações destes maliciosos eram mais certeiras e perfurantes!

Dizia-se, como sabido e bem averiguado que, no ano precedente, em Cascais, o Cerdeiral fizera um verdadeiro cerco a Josefa. Algumas pessoas levavam o facto à conta dessa espécie de galanteio inofensivo, o praticado em todos os grandes centros: assim se entende o flirt em Inglaterra, trocar flores, dar no banho a mão a uma senhora assustadiça, etc... Que diabo! - são, estas, coisas triviais, sem alcance pecador, delicadezas próprias da sociedade, onde se usa e ama passar alegremente as horas, sem mazorrices burguesas de mau gosto. «Havia mais que isso!» - clamavam as línguas farpadas dos censores. Bastava atender ao que se passava nas soirees em Cascais, que era muito, certamente: o Cerdeiral dançava todas as noites com Josefa e só um cego é que não veria como a chegava a si, os segredos que lhe dizia e o modo como lhos dizia. Isto era impudico! Noutros lugares: na praia com o pretexto de mostrar os vapores que passavam, nos passeios, nos pic-nics arranjavam sempre meio de ficarem sós, longe do marido e de toda a gente. Um verdadeiro escândalo, pelas pessoas honestas reprovado. Pareciam noivos, pombinhos a arrulharem no cimo de telhados ao sol... Numa magnífica noite de luar, na Boca do Inferno, afastados do seu grupo, o barão dissera a Josefa: «Eu é que o não posso tolerar!» Isto ouvira-o Albano de Melo, que estava atrás dum penedo, e todas as pessoas a quem ele o repetiu entenderam que se referia ao general. Ainda por cima, depois de o desonrar, lhe tinha ódio! Só uma boa estocada, que lhe atravessasse o coração. Nessa mesma noite no Club, Josefa aceitara três valsas do Cerdeiral, o que completava o escândalo e confirmava as suspeitas.

Podia-se julgar tal procedimento próprio de mulher honesta?- perguntavam. Qual o seu dever depois da declaração de lhe detestar o marido? Nunca mais o consentir ao pé de si, isto até no caso de já serem amantes, como era verosímil.

- Fraquezas desculpáveis - entendeu o sensual visconde da Carregueira. - O caso é que o tratante do barão se lambe com um óptimo bocado.

- Oh! se lambe! - concordou D. Agostinho.

- Aquilo é toicinho do céu, amigo! E que rico toicinhinho! Quem me dera...! - comentou o libidinoso juiz do Supremo, todo tremuras.

Também no entender de Dramond e da viúva Lagrant, estes amores vinham dessa brilhante temporada de Cascais. Costumavam eles ambos tomar banho juntos, como era seu direito, porque eram livres. Dirigiam-se à praia, bras dessus, bras dessus, como dois camaradas, num dia em que a barraca de Josefa ainda estava armada, apesar de passar das onze horas. A criada estava a distância de vigia; quando os reconheceu, deu alarme, e o Cerdeiral surgiu com rosto sobressaltado... Como os não pudesse evitar, passou rápido, dizendo: Allez, allez le bain est superbe. À mulher do general só a viram aparecer muito depois... Isto dera-se numa quinta-feira, dia em que o general partira cedo para Lisboa, com o fim de preparar o despacho para a assinatura real. Pois apesar de terem sido pressentidos nesta aventura, nem por isso à noite deixaram de se apresentar no Club muito chegados e íntimos.

A magra e invejosa D. Cesária, mulher do ministro da marinha, ouvindo tais revelações, corroborou-as, certificando que antes disso já tinha havido coisas bonitas em Sintra. Pessoa de toda a confiança vira sair o barão da casa do general em noite em que ele ficara em Lisboa, por causa do conselho de ministros. Como o caso fora conhecido, ela não podia esconder o que sabia, pois de contrário vinha a envolver-se numa cumplicidade infame. Procurava sacudir a água da sua capa, julgava isto procedimento honesto, atendendo à camaradagem dos dois maridos no ministério! A consciência mandava-a ser explícita, portanto dizia o que era do seu conhecimento. E prosseguiu: Antes de Cascais, já em Sintra se tinham passado coisas muito esquisitas. Todos tinham percebido que os dois se namoravam, não é verdade?... Pois ela, D. Cesária, por si observara, certa noite, um caso que ficava agora explicado pelo subsequente da barraca de banhos e pelo da saída furtiva da casa do general. Fora passear depois do jantar com muitas outras senhoras, para os lados da Estefânia. O luar era claríssimo e ela, pelo braço de Lúcia, sobrinha do marquês do Tornai, alongara-se na estrada de Mafra. Num sítio quase ermo, perto de uma casa isolada, encontraram um trem parado. As lanternas estavam apagadas e o cocheiro assobiava na almofada. Lúcia, talvez receosa, propôs retrocederem; mas ela, como atrás vinham os outros, disse-lhe sem mais explicações:

- Que beleza de luar! Só até ali adiante, minha pomba. É uma pena ir a gente meter-se em casa com uma noite tão linda.

Lúcia acedera sem presumir o seu intento. Deram mais alguns passos. Fora uma inspiração... Adiante passeava Salústio, que, pilhado de surpresa e apertado com perguntas por D. Cesária, titubeou algumas explicações, pretextando que esperava um amigo, cujo nome não revelou:

- Temos mistério, doutor? - dissera a mulher de Evaristo de Melo.

- Não, minha senhora! Uma pessoa que vem da Ericeira.

Não acreditara. Sabia-se da protecção que Josefa dava a Salústio. Fora ela quem o fizera deputado e o apresentara na sociedade. Por isso não custava muito a crer que se prestasse a ser o encobridor de tão criminosos amores!... Bons estômagos, que aturam toda a espécie de comida, sem engulhes!... Mas D. Cesária protestou não ser enganada. Respeitando a inocência e os dezasseis anos de Lúcia, não lhe comunicou as secretas desconfianças, que tinha; mas, logo que chegou a Sintra, o seu primeiro cuidado foi procurar Josefa. Não estava; tinha ido para casa da tia viscondessa – disseram-lhe. Correu lá, sentindo aumentar o interesse por esta peripécia galante. Qual Josefa! Quem é que a tinha visto?!... Julgavam que estivesse para S. Pedro, em casa do ministro inglês. Pouco depois chega a mulher do general, de carruagem. Tinha ido esperar o marido, que devia chegar de Lisboa - disse.

Porém o ministro não viera e ela voltava só! Todos em casa da viscondessa acreditaram esta enorme patranha, que a simulada pespegou com ar de seriedade, só próprio das mulheres que andam acostumadas a tais aventuras! Um descaramento assim!... Se as outras pessoas tivessem o espírito prevenido como ela, não acreditariam com tanta simplicidade as palavras daquela descarada. A situação acabou de se definir e aclarar para eles, quando entraram o Cerdeiral e Salústio, muito íntimos, pelo braço um do outro. O amigo que o deputado esperava da Ericeira também não tinha aparecido. Pudera! Esse amigo e o general eram um e o mesmo, que se reuniam no barão. Ficara verdadeiramente furiosa! Para não fazer o disparate de lhes dizer tudo na cara, retirara-se mais cedo da casa da viscondessa. Tivera toda a noite uma enxaqueca, que a não deixou pregar olho!... E resumiu grosseiramente:

- Aquilo estavam lá ambos, na tal casinha isolada, e o outro a fazer de sentinela.

- Eu jurava-o sobre umas Horas, - disse o visconde da Carregueira, que entrava sempre em todas as maledicências galantes.

Por isso todas as pessoas que sabiam destas minúcias tinham o maior interesse na representação do Bijou de La Reme. Antegostavam o momento de ver os dois dissimular os sentimentos que os ligavam, sob a emprestada capa de personagens de comédia. Não havia de ser mau ouvi-los falar de amor publicamente, diante do general!... Talvez se abraçassem com ternura, talvez dessem beijos fervorosos... E o marido ultrajado, mesmo sabendo da falta de sua mulher, não poderia levantar-se diante do rei e da rainha, a denunciar-lhes a adúltera! Cómica situação! - consideravam. Os infames haviam de impunemente incluir nas palavras decoradas abomináveis desejos! Recordariam, talvez, cenas lascivas da árida charneca de Sintra, à luz da lua amorosa; ou, então, as torpezas escandalosas da barraca de banhos, sobre a branca areia da praia de Cascais! Oh! como o impudor pode tomar aspectos caprichosos e acomodatícios!...

O juiz do Supremo Tribunal considerou filosófica, mas benevolamente:

- Os factos dignos de censura tanto se encobrem sob veludos, como debaixo de pobres andrajos!

- No entanto temos de confessar que tudo isto é muito divertido! - rematou D. Agostinho, que, reparando na Aguas Santas, que estava perto, acrescentou prudente: - Cautela! A tia olhou agora para nós.

Depois da orquestra ter tocado a sinfonia da Semiramis, as cortinas do pano de boca principiaram a afastar-se. O silêncio da parte dos espectadores interessados era comprimido e atraente!...

A cena apareceu vazia: representava sala de aspecto arquitectural, no gosto das de Versailles, ornamentadas sob a direcção de lê Brun. Pilares de carvalho de Holanda, com incrustamentos de bronze, para dividir as paredes, conforme os verdadeiros lavrados pelo inesgotável buril de Lepantre, fingiam-se em diversos painéis; uns rectangulares, outros ovais cercados de simples baguettes. Misolas de pau entalhado, semelhando escuro ébano e madeira violeta das índias, enchiam graciosamente os espaços vazios de quadros, sustentando pequenas jarras do Japão e estatuetas antigas. Sobre a porta principal, ao fundo, sátiros graciosos, copiados das estampas que representam o célebre cabinet d’amour, imaginado por Lesueur, eram sustentados por colunas de mármores de variadas cores. As decorações de Ramanelle, Herman e Patel, tinham sido imitadas em diversos claros das das paredes, em volta das janelas laterais e das portas, a cujas almofadas barrigudas se pegavam as armas de Castela. Ao fundo-esquerda, fingia-se em perspectiva conveniente a chaminé à la royale, encimada de um magnífico espelho. Tudo isto era do pincel do próprio Cinatti.

Um rico e verdadeiro móvel de Boule, em pau rosa e prata, ficava à direita. Em frente da rara preciosidade, pertencente a um opulento estrangeiro residente em Lisboa, via-se uma mesita de ébano, propriedade dum titular português. Aos cantos do fundo dois candeeiros de bronze, luz de azeite quebrada em globos brancos, espalhava claridade leitosa. Cadeiras e poltronas, em seda e veludo antigo, espalhavam-se pela sala.

Pouco depois entraram a rainha pela mão do rei de Espanha, precedidos dos altos dignitários da sua corte faustosa. Todos se curvaram reverentes à sua passagem! A toilette de Josefa, por certo cópia de estampa representativa da grande Pandora, boneca anualmente enfeitada por M.me de Maintenon, para dar ao mundo a lei da moda, deslumbrou. A magnífica saia de seda de Lyon era guarnecida de rendas de oiro e prata, conforme as inventou Langlée, de feiticeira memória no fim do século XVII; o corpo do vestido, direito adiante, terminado em bico, fazia sobressair a amplitude da saia. Na cabeça, não quis suportar os fenomenais penteados do tempo, que o duque de Saint-Simon afirma chegarem aos dois pés de altura: - uma pirâmide de estofo engomado em forma de tubos de órgão, com laços, fitas, plumas, musselina trabalhada a oiro e prata, tudo sustentado pelo arrimo de metal denominado palissade! Preferiu o cómodo laço, que usara mademoiselle de Fontage, para prender no alto os cabelos, deixando-os depois escorrer em caracóis graciosos, que lhe enquadravam o rosto. O diadema de rainha exornava-lhe a fronte airosa, um rico colar de pérolas e diamantes cobria-lhe a garganta magnífica, das orelhas pendiam-lhe brincos luzentes como estrelas! Porém, todas estas jóias, talvez presentes do famoso avô de Filipe de Anjou, que tinha a trabalhar para si os dois Courtois, Laburre, Vincent e Roussel, não podiam suprir o querido bijou que a jovem princesa ambicionava e cuja falta lhe trazia o rosto anuviado.

O rei e os fidalgos da sua corte tinham-se vestido a primor. O tricorne de abas levantadas, presas com botões de diamantes, era ornado de penas vermelhas. A farta cabeleira, frisada como o pêlo dos cães de água, chamada no tempo juba de leão, cobria-o até meio corpo, polvilhada de branco e perfumada de violeta. Quando os grandes de Espanha tiraram solenemente os seus chapéus, para se despedirem dos régios esposos, viu-se que usavam o famoso topete imaginado pelo marquês de Fontange, com o fim de conservar os cabelos graciosamente levantados e repartidos para trás e para os dois lados.

A espada horizontal saía por debaixo do amplo justaucorps do rei, espécie de gibão de abas compridas, no caso presente de veludo, agaloado de arminhos, que tanta majestade garantia, quando se moviam, aos que o usavam. O cordon bleu, insígnia de cavaleiro do Espírito Santo, trazia-o o monarca sobre a sua veste ornada de botões de oiro. A direita via-se-lhe suspenso o regalo de pele de marta. Os sapatos de tacão alto, à la cavaliere, com a comprida pestana, afivelavam-se em prata coberta de brilhantes. A chaconne de cetim azul e rendas de Alençon cobria-lhe o peitilho e estava presa à gravata, por um grosso diamante, que brilhava como um olho de luz. Este rico trajo, em que os cabelos à juba de leão talvez tivessem vindo, como outrora, das camponesas de Flandres, completava-se com a alta bengala de castão coberto de esmeraldas e rubis, tendo pendente o laço franjado de oiro.

Todos os fidalgos, apesar de simples comparsas, que em cena se demorariam segundos, vinham primorosamente vestidos, como o barão. Eram rapazes da melhor sociedade portuguesa e do corpo diplomático. Os seus amigos, que estavam na plateia, desejando perturbar a seriedade de sua natural compostura, fizeram ligeiro sussurro, à sua entrada, o que logo foi reprimido com um psiuh!. de censura. Contiveram-se os provocados no indispensável respeito; depois de saudarem os monarcas, retiraram-se às arrecuas, compassadamente e com os olhos no chão, até desaparecerem. O rei Filipe V, gracioso, mas com altivez real despediu-os:

«Dieu vous garde, messieurs! »

Todos os binóculos da sala, principalmente os interessados binóculos das senhoras, caíram sobre a deslumbrante toilette de Josefa Lencastre! Os homens, esses, apreciando-a na frescura da sua carne, achavam-na deliciosamente formosa, formosa a ponto de lhes criar estremecimentos de gozo pelas imaginações que provocava. Parecia uma verdadeira rainha na doçura e majestade do seu porte! Muita gente, instintivamente, levantou os olhos para o camarote real, fazendo imprópria comparação. E quando Josefa Lencastre, após a saída dos fidalgos, se curvou reverente e disse, imitando a frase de seu esposo: «Dieu vous garde, mon rói!» o general Gonçalo ficou desalentado; porque reconheceu não merecer aquela soberba mulher!

Da pronúncia sentida desta simples frase, a plateia concluiu quanto Josefa estava possuída do seu papel. O rei, surpreendido pela inesperada despedida, pergunta à rainha se o deixa. Ela responde com voz magoada:

« Oui, je rentre, chez mói.»

Filipe de Anjou acha incompreensível que Luísa evite os seus ternos carinhos. Não a quer assim inimiga, neste momento em que tanta formosura o inebria! Aqueles seus olhos são feixes de luz brincando com flores, brilham como o fogo, desse fogo que lhe incendeia os nervos. Aos madrigais do esposo, exprimindo fremente sensualidade, a rainha responde como quem sente no coração a ponta de um espinho e, ao mesmo tempo irónica e repreensiva, pronuncia a célebre frase, cuja interpretação tão discutida fora nos ensaios:

«Oh! vous êtes ce soir, en verve poétique! «Phébus de ses accords distrait la politique.»

E depois mais severa e acentuadamente:

«C’est três bien, monseigneur, gardez, ces beaux élans, «Car je prendrais plaisir à ces sonnets galants, «Si je n’etais d’humeur triste et toute contraire, «Et n’avais fait le voeu de ne m’en point distraire.

«Bonsoir donc...»

Sente-se ofendido o esposo com tal desprendimento. Pede-lhe a mão, que Luísa lhe estende com simpleza conjugal. Conservam-se ambos silenciosos, o barão com o braço de Josefa num contacto, que na plateia se principiou a julgar demorado. Palpá-la-ia ele com sensualidade, deixar-se-ia ela possuir com deleite?!... Josefa com entoação, que parecia conter malícia, pergunta:

«Que voulez vous encore, dites? »

Pareceu pergunta, esta, menos própria de senhora casada. Duvidou-se que fosse correcto, mesmo no teatro, uma esposa honesta dizer a um homem, que não era seu marido, se ele queria mais alguma coisa, do que possuir dela um braço de pele fina, orvalhada de desejos!...

O conselheiro Maurício Pontino perguntou ao visconde de Carregueira, que ficara a seu lado:

- Acha aquilo decente?

O juiz do Supremo, que entretinha toda a sua vista e atenção a binocular a magnífica carnadura de Josefa, não respondeu e o pai de Clara insistiu:

- Ela, mulher do general Gonçalo, já consente que o barão lhe tome um braço, o qual possui muito

à sua vontade, como vê... Não vê?!...

- Vejo, é teatro.

- É teatro, é teatro! Daqui se vai ao mais. Atenda como ele se demora. Acha decente?

- Acho, conselheiro, e peço mais; porque estou a gostar.

- Pois o meu caro amigo é de bom comer! Se um dia tiver mulher, deixe-a com ele, que ficará bem arranjado. Olhe que lha prega...

O severo olhar de Maurício encontrou-se com o do ministro da guerra no momento em que este afastava a vista da cena, que o incomodava.

O barão, enquanto ia ameigando graciosa e demoradamente a cetinosa pele de Josefa, inquiria dos motivos ocultos de tanto agastamento. A rainha, irónica e adversa, censura-lhe a linguagem, os olhares ternos, que mais parecem de estudante amoroso do que dum marido e dum rei! Filipe responde, dando às palavras inflexões de amante surpreendido duma recusa, que tanto lhe está aumentando o apetite da carne:

«Pourquoi donc un mari n’aurait-il pás le droit

«De parler comme il sent, quand il sent comme il doit?»

- É verdade, é verdade! - pensou enrubescendo o general Gonçalo. Em casa recordaria a sua mulher estas sensatíssimas palavras. Castigaria, por esta forma, a má vontade incompreensível de Josefa para com ele, em certas ocasiões...

Mas o rei continuou num crescendo de amor, falando em linguagem caprichosa, repassada de brandura inefável. Com a boca muito chegada ao rosto da princesa, dizia-lhe coisas ternas, em modulação cantada e lúbrica. Porventura, seu avô ter-lhe-ia entregado a coroa para o tornar incapaz do gozo do amor?!... Mocidade, ilusões, esperança... poderiam cair-lhe da fronte, arrancadas pela mão seca do velho rei? Esse que o colocara naquele trono, conceberia a insensata ideia de lhe transformar rapidamente a cor dos cabelos e torná-lo insensível ao fogo dos olhares da sua amada, da sua esposa? Perguntasse antes Luísa a razão pela qual na primavera criadora os bosques se enchem de ninhos; perguntasse antes porque na aurora o céu se incendeia; mas não lhe perguntasse, outra vez, o motivo pelo qual se sentia ébrio, louco, verdadeiramente louco de paixão, quando a tinha junto a si!... E, apertando-a mais contra o seio, na terna liberdade de um marido, olhando-a meigamente na expressão indefinida de quem a ama com elevação e transporte, pronunciou as seguintes palavras, que eram uma evocação formidável do seu fremente sentir:

«Vous avez lês cheveux blonds avec lês yeux noirs, «Toute votre être m’apporte une êxtase supreme, «Je suis jeune, il fait nuit, tout repose... et je t’aime!»

  1. Cesária, triunfante por ver corroboradas as suas denúncias, segredou à mulher do ministro da justiça:

- Pudera! É noite... não ouve ninguém... amam-se... e toca. Ora, a pouca vergonha!...

O general Gonçalo, na galeria, afastara o busto de modo a não ser visto da plateia. Tinha o cérebro batalhado de funestas apreensões! A sua cólera crescia!... Uma nuvem sanguínea lhe passou diante dos olhos, ao ouvir um escandaloso beijo que o barão deu em Josefa! Do seu espírito apoderaram-se com força ideias tremendas de vingança! Tudo tranquilo, assim começado, poderia redundar num verdadeiro ultraje ao seu nome. Tinha a pobre alma repassada de ciúme e vergonha. Considerava-se o verdadeiro culpado de sua mulher receber em público beijos daquele canalha, que lhe estava enodoando a vida austera. Aquele seu ódio era de brasas e escaldava-lhe dolorosamente o coração. Poderiam dizer-lhe: «Isto é fingido, isto é simulação de comédia.» Com tais coisas não se brinca; não se dão em público beijos numa senhora casada! Aquele que o Cerdeiral dera em Josefa fora muito verdadeiro e Josefa aceitara-o com naturalidade e quem sabe se o recebera com gozo! Quantas pessoas o teriam comentado malevolamente! Bem vira que muitos olhares irónicos o procuraram na galeria, quando ele se subtraíra à tremenda flagelação, retirando-se para não ser visto.

Mas lá lhe veio certo alívio e compensação no modesto e recatado retraimento da rainha, recusando ao seu rei e ao seu esposo a continuação da posse da sua carne. Fá-lo constrangida e docemente, mas sempre se livra do malicioso contacto. O general desafogou num suspiro largo, ainda que não gostasse de ouvir Josefa dizer com tristeza atraente:

«Vous m’aimez, n’est-ce pas, dites?...»

Pois deu lugar a que o miserável do Cerdeiral respondesse com transporte, que muito bem poderia não ser fingido:

« Avec delire!»

Para se distrair e patentear que tinha toda aquela cena como dever de representação simulada, perguntou a um dos seus ajudantes:

- Então que lhe parece?

- Admirável! São dois verdadeiros actores!

Também este achava magnífico! Ora não ter a liberdade de lhe dizer que trouxesse para ali a sua mulher, que era igualmente nova e bonita, sujeitando-a a receber publicamente beijos dum mariola como o barão! Havia de saber-lhe a pimenta, se é que a amava como ele amava Josefa. E resumiu com secura o estado da sua alma:

- Muito palavreado. Não acho natural.

- Oh!. - discordaram os dois oficiais. - O mais natural possível...

Ao mesmo tempo, o Fonseca, da Alfândega, à vista das palavras de paixão do simulado Filipe d’Anjou, que metia excessivo calor e sensibilidade nos seus juramentos, dizia para Alberto da Cerveira, ratificando as suspeitas anteriores:

- Então qué-lo mais claro?

- Tudo uma desmoralização! - rugiu o poeta, apanhando num relance as cadeiras de frente. Aquelas são piores do que as que se vendem, porque se entregam por vício e não por necessidade de viver.

Trata-se a seguir do colar tão desejado pela rainha. É uma insignificante jóia, de valor não muito subido. Um capricho dos dezassete anos, juvenis e fogosos, da duquesa de Sabóia. O rei, apesar do seu amor, recusa-se a satisfazer o apetite da esposa, em nome dos interesses da nação! Os seus deveres de príncipe, sentado num trono estrangeiro, impõem-lhe, com maior força do que se nascera espanhol, a necessidade de poupar o seu povo, que sendo de carácter brando e submisso, não deve ser insensatamente expoliado. Luísa não compreende tais motivos, só sabe que, quando era solteira, em casa de seus pais, lhe satisfaziam as vontades. Via que a troca da coroa ducal pela coroa de soberana não era tão vantajosa como lhe tinham feito acreditar!... Que proveito tirava ela de compartilhar as rudes fadigas de um esposo, todo envolvido nas intrigas da diplomacia e nas aventuras da guerra!...

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Deu-se-lhe com todo o amor, não como rainha, mas como namorada. Ele recusa-lhe a única recompensa de tantos carinhos e de tantos gozos, como os que ela prodigalizava. Muito bem, diz a
jovem princesa:

«Chacun a son trésor qu’il garde ou qu’il dépense;

«J’ai le mien

«Bonne nuit, monseigneur »

e fecha-se no quarto de modo brusco e acintoso.

O monarca, contrariado e febril, fica só em cena. Durante um longo minuto, num silêncio de quem se vê injustamente incompreendido, fixa o olhar na porta por onde desaparecera a sua esposa, a sua amada. O Cerdeiral, com expressão melancólica, de realidade flagrante, diz:

«Dans cês discussions la femme est la plus forte! «Elle a le droit du faible, et, lorsque son époux «Veut lui parler amour, elle répond verrous!»

Com ser rei não se julga tão feliz como o mais humilde dos seus vassalos! Àquela hora da noite, quando, até na mais pobre choupana, todos se sentem compelidos a viver para o amor, o jovem monarca, sem a mulher que adora, vai gastar horas, que desejaria empregadas no prazer, folheando papéis de negócios de estado!... Mas ele se vingará encontrando meio de punir aquela estranhável recusa. Quando Luísa perceber que o esposo já não é o amante, o seu orgulho de rainha se abaterá diante das necessidades da mulher! O rei Filipe V recolhe-se, assim mal humorado, aos seus aposentos!

A cena fica vazia por alguns instantes, durante os quais na plateia cresce o sussurro dos comentários. Na roda da Frazuela manifestavam entusiasmo pela superior interpretação da comédia. Salústio disse com entono: «Admirável, admirável!» A condessa acrescentou, aludindo a Josefa: «Parece que nasceu no Louvre!» D. Cesária, apesar dos sinais de assentimento e admiração, que fazia para serem vistos pela viscondessa de Águas Santas, segredou ao Carregueira, indicando o ministro da guerra:

- E aquele grande palerma sem perceber!... Mete-me uma raiva!

- Há-de ser o último! - considerou, todo contente, o juiz do Supremo, esfregando as mãos com íntima satisfação de confesso pecador.

Entra de novo Josefa Lencastre. A sua presença altiva e preocupada conquista o Fonseca, da Alfândega, que exclama entusiasmado para os seus amigos: «Digam vocês o que quiserem, é uma soberba mulher, caramba!» Na mão, traz um pequeno cofre de malaquite, onde a formosa princesa supõe existirem cartas reveladoras de ocultos amores de seu marido! O ciúme torna-a mais atractiva dando-lhe vibratilidade excitante, tornando-a apaixonada e dominadora. O orgulho de rainha e a superioridade de mulher jovem e amante sentem-se amesquinhados pela recusa do colar, o que não pode ter por motivo senão qualquer escondida paixão de Filipe de Anjou! Arreceia-se de o chamar para obter as indispensáveis explicações!... A magnífica frescura dos seus dezassete anos não deve expor-se ao ultraje de uma hipótese impura!... Por isso hesita, pronunciando com voz nervosa, em que se sente a comoção de organismo provocado:

«Non; ne lui donnons pas la satisfaction «De me voir revenir, de peur qu’il ne suppose «Au besoin de vengeance, une tout autre cause»

Josefa sublinhou de tal maneira as últimas palavras, que uma parte da plateia lho conceituou de exagero, e até propósito de dar mau sentido a uma frase inocente. Uma princesa de dezassete anos poderia sentir tanta malícia, como ela inculcara?! - comentavam.

- Mas se aquilo é do papel!... - defendia incendiado o visconde da Carregueira.

Porém, a formosa Luísa, com a ideia fixa de conhecer o conteúdo do cofre, afasta de si todas as

ideias de humilhação e chama em voz alta à porta do quarto do rei: «Sire!... Sire!...» Filipe de Anjou aparece-lhe já em robe-de-chambre, de veludo encarnado, bordado a matiz. Consente benevolamente que a rainha examine aquela caixa, que contém simplesmente um milhão! A princesa diz com ironia mordente, aludindo à desculpa que seu esposo lhe dera, para não comprar o colar:

« Ah! monseigneur, vous êtes

«Bien peu lê petit-fils de votre illustre aieul, «Qui, craignant avant tout qu’on ne lê laissât seul, «Dépensait, sans trouver que la chose fût chère, «Plus de cent millions pour loger la Vallière.»

Então o rei, em tom nobre e altivo, censura, justiceiro, o procedimento de seu avô, de Carlos VII, de Luís XII, que exauriam o povo submisso e bom com tributos, para entreter faustosamente impudicas amantes. E tendo falado, veemente e nervoso, termina com esta frase, que fez com que muita gente olhasse a medo para o camarote real:

«Car un roi doit savoir, c’est mon avis à moi,

«Qu’il appartient au peuple, et non lê peuple au roi.»

O milhão tão previdentemente guardado no precioso cofre tinha como destino pagar a polícia secreta, que andava na pista de uma conspiração. A jovem rainha, estranha a tais suspeitas, diz não acreditar que os queiram expulsar do trono. Aconselha seu esposo que, em vez de gastar dinheiro com espiões, chame antes aos conselhos da coroa homens novos e enérgicos, como Melgar, o irmão de madame de Luys, sua camareira. Porém, Melgar é o chefe dos conspiradores, afirma o rei, o que Luísa de Sabóia não pode acreditar, e propõem uma aposta:

«Bien; que parions-nous?»

Filipe V responde:

« Que parie un mari,

«Amoureux d’une femme incessament rebelle,

«Quand pour parler d’amour il s’enferme avec elle?»

E com tão significativa malícia o barão de Cerdeiral formulou esta delicada questão, que o austero carlista D. Nicolas disse a um seu compatriota:

- Pêro, es una obscenidad!...

A mulher do ministro da guerra, de cada vez mais excitada pela sucessão de frases amorosas, ciumentas, de duplo sentido, que tivera de pronunciar, e também pelos sinais aprovativos, que percebia no público ao escutar-lhas, observou, agora com meiguice encantadora:

«Cela n’est pas très-clair; je parie avec vous...»

O marido preenche a reticência:

«Que vous ferez amant celui qui n’est qu’epoux.»

e deu-lhe outro beijo mais demorado ainda do que o primeiro, o que fez com que o general Gonçalo se tornasse rubro até às orelhas.

- Bravo, bravo! - aplaudiu Albano de Melo com fogo.

- Luísa promete tacitamente satisfazer o pedido do rei. Porém como ainda duvidasse que a sua amiga íntima, madame de Luys, a atraiçoe, quer que o esposo pague caro, se perder. Filipe, seguro das suas informações, promete.

Neste ponto chega o correio de Alemanha, portador de uma pequena caixa de dominó, que Melgar envia a sua irmã. Que lindo cofrezinho em pau-rosa marchetado a oiro! A polícia tinha-o apreendido, cumprindo as severas ordens que recebera. «Aqui está a prova, eis aqui o conspirador Melgar descoberto!» - pensam os espectadores. É aberto o cofre diante da curiosidade de toda a plateia. Dentro encontra-se, acompanhando as pedras, apenas um bilhete anódino! O monarca fora evidentemente enganado! A formosa princesa, triunfante, pensa em se retirar aos seus aposentos. O esposo pede-lhe a desforra numa partida de jogo, o que ela graciosamente concede, talvez com vontade de perder!... Porém a sorte, ainda neste transe decisivo, entretém a deliciosa comédia, que tanto agradava. Luísa ganha. No dia seguinte ela receberia os seus prémios - faculdade de nomear novos ministros e o famoso colar.

O rei fica outra vez só, lamentando de todas as maneiras a má sorte que o persegue! No seu desespero, atira ao chão a caixa apreendida ao correio de Alemanha! Desfaz-se em mil pedaços a preciosidade! É neste instante que se encontra o bilhete de Melgar a sua irmã, falando claramente da conspiração urdida. Não o haviam descoberto, porque vinha cuidadosamente metido num segredo. Filipe de Anjou, transportado de contentamento pela vitória inesperada, chama pela rainha, que não quer aparecer. Porém ele mete-lhe por baixo da porta o bilhete denunciante... Momentos depois, entra Luísa já em traje de noite, entregando-se, como simples amada conquistada:

« Elle est écrite

«De la main de Melgar. Me voici, monseigneur.»

E desculpando-se, talvez, pelo modo como está vestida acrescenta:

«Je viens come je suis! »

Evidentemente era assim mais desejada do que anteriormente, quando trazia o pesado vestido de rainha! Sem diadema, os seus longos cabelos espalhavam-se em caudal de oiro, leves sobre as mimosas espáduas, cobertas de fina cambraia e rendas!... A transparência do tecido deixava perceber a pele criadora de desejos!... Os braços nus, de um rosado carnal, macios e aveludados, viam-se-lhe até acima do cotovelo, pela largura da manga do roupão. O soberbo corpo de Josefa, na sua atitude de deusa, por todos era adivinhado, numa espécie de nudez de estátua grega! A tremura contente daquela carne nova e bem tratada, presumiam-na os que tinham pensamentos lascivos!... Os seus olhos negros, fixando-se amorosamente no barão de Cerdeiral, envolviam-no em magnético fluído, que lhe percorria todas as fibras do corpo. A mulher do general afectava o ondear de serpente tentadora, aumentando assim a sedução e o império do seu amor. Dramond, ao apreciá-la, exclamou:

- Oh! qu’elle est belle!... Charmante !.

- Et vous êtes un imbecile! - retorquiu-lhe a ciumenta viúva Joujou. O Cerdeiral, outra vez de posse de Josefa, disse com dolente meiguice:

« Et cela fait honneur

«A votre probité. D’ailleurs, ma blonde tête,

«On est toujours très-bien, quand on paye un dette.»

E apanha-a com efusão, com ternura copiosa, conservando-a muito tempo contra o seu corpo de mancebo ardente, desejando confundi-la em si mesmo.

«Sire que faites-vous? »

pergunta a esposa.

O rei, depois de a beijar amantissimamente pela terceira vez, responde com graciosa ironia:

« Mais, comme vous voyez,

«Je viens remettre encor mon amour a vos pieds, «Tout en vous rappelant, sans que je m’en effraye, «Qu’une dette de jeu le lendemain se paye.»

Este proceder generoso apaga toda a imoralidade da peça, que as circunstâncias do instante dirigiam para um final claramente obsceno. O próprio general desafogou, recebendo aquelas palavras como indispensável satisfação ao seu pundonor de marido!... Mas a simpática expectativa desvanece-se!... Josefa, com uma candura ideal, embebe a sua linda voz na mais inocente e terna meiguice de mulher apaixonada, passa, agora ela, amoravelmente o braço em volta do tronco do Cerdeiral, oferecendo-se:

«Lorque celui qui perd n’a pas l’enjeu sur lui; «Mais, mói, j’ai mon argent e je paye aujourd’hui.»

E os dois assim enlaçados, como se estivessem longe de vistas interessadas, entram no quarto da rainha, ao mesmo tempo que as cortinas do proscénio se unem para melhor os separar da plateia curiosa.

Os bravos, as palmas e as chamadas ressoaram majestosamente, como alegre fragor de tempestade de glória. As amigas de Josefa Lencastre saudavam-na com sorrisos, com aplausos, agitando lenços. Os homens em pé, braços estendidos, rostos animados palmeavam, clamando arrebatados: «bravo, bravo...» repetidas vezes. El-rei, secundava o vibrante entusiasmo, galardoando os intérpretes da comédia, com expressões faciais de aprovação. A rainha mais recatadamente, com a reserva premeditada da sua alta posição, apenas acompanhava el-rei e o público nos seus testemunhos de apreço. O general Gonçalo, do outro lado, no meio dos seus dois ajudantes, não podendo, por dever, discordar de suas majestades, aparentava de satisfeito!... E o barão de Cerdeiral, carregado de coroas, ramos e pombos enfeitados, que a rainha, a Frazuela e outras pessoas tinham mandado a Josefa, como preito ao seu talento, entregava-lhe tudo sorrindo e apertando-lhe efusivamente as mãos.

- Um enorme sucesso! Nunca se viu coisa igual - apregoava Salústio.

- Ah!... são dois actores! - confirmou com voz indolente o conde de Frazuela.

 

Angelina esperava com ansiedade a notícia do espectáculo, em que tão seriamente vira empenhado Salústio. Ouvira-lhe dizer enquanto se vestia: «Esta noite decide-se a minha sorte»... Logo que ele entrou radiante, interrogou-o com vivo interesse. À pergunta que a sua amante lhe fez, o deputado, de pé no meio da casa de jantar, o rosto expansivo a rebentar de orgulho, chapéu para a nuca, respondeu:

- O rei mandou-me cumprimentar por um dos seus camaristas... Cáspite! Isto sobe!...

Angelina, rapariga simples e natural, não compreendia em todo o seu significado tais palavras, que decerto conteriam grande valor. No entanto arfava de gozo, ao estender a toalha na mesa, para Salústio comer alguma coisa, pois quase não jantara de preocupado com o êxito do discurso que tinha de pronunciar. Agora impando de vaidade, em mangas de camisa, à vontade, comia famelicamente carne fria e ovos, emborcando copos de vinho. Sentia-se feliz e verboso, ia narrando as magnificências dessa festa, como Lisboa não presenciara ainda outra: o brilho das jóias e a sumptuosidade dos vestidos das senhoras; os reis no camarote, olhando para ele com apreço; os ministros e diplomatas tendo nos peitos condecorações! O seu discurso, extraordinariamente aplaudido, toda a gente a festejá-lo com palmas e abraços!... Falou a seguir do interesse, que por ele tomaria o monarca, interesse revelado numa palavra que ao ouvido lhe dissera o conde de Frazuela. Mas voltou a descrever o espectáculo abrindo os braços para significar a grandeza do que vira!... A comédia de Dumas, tão ricamente posta em cena, tivera superior interpretação. O barão de Cerdeiral admirável, verdadeiramente admirável! Josefa Lencastre encantadora, soberba de inteligência e formosura! Mulher divina, os homens na plateia sorviam-na com os olhos! O Cerdeiral, que era seu amante, sentia todas as palavras de amor e paixão que lhe dirigia. Ele, Salústio, não percebera tudo por não estar bem calhado no francês, que falado assim, como ele o ouvira, era uma música, uma deliciosa música... Apesar dessa sua incapacidade de compreender tudo, a perfeição do representar apreciara-a pelo gesto, pelo jogo fisionómico, pela voz comovida, ora apaixonada, ora risonha. Um encanto, uma maravilha, felicíssimo aquele Cerdeiral, gozando uma das mulheres mais encantadoras de Lisboa! Pobre general, pobre amigo! Tinha pena dele; mas evidentemente não merecia Josefa. Casos da vida social... rematou desprendido.

A ornamentação de toda a sala e do palco, com grande quantidade de flores, arbustos e colchas de seda, melhores do que as que se viam nas janelas em Braga, em dia de Corpus Christi, descrevia-a deslumbrado. Só a condessa de Frazuela, mulher superior, de imenso gosto e finamente educada nessa maravilhosa sociedade lá de fora, podia assim reunir tantas coisas belas, para dar forte e inolvidável impressão de grandeza e luxo! Só quem tivesse vivido como ela, e gozado a vida como ela, podia chegar àquela compreensão sumptuosa do luxo! Também para isso gastara uma imensa fortuna e agora andava o marido a ver se arranjava mais dinheiro, para continuar no estrangeiro a vida a que estavam habituados. Ele havia de auxiliá-lo nesse empenho; quem o ajudava, como o Frazuela, no realizar das suas aspirações e lhe proporcionara o gozo dessa noite inolvidável merecia toda a sua colaboração.

- Não imaginas - rematou já saciado de comida - mulheres, ornamentações, fardas e espectáculo, tudo como eu nunca imaginei. Rico! rico! rico! Os do corpo diplomático estavam

embasbacados. Assim!...

E abriu desmesuradamente a boca, para significar assombro!

Levantando-se da mesa, em caminho do quarto, colete desabotoado, a gravata branca num trapo, pesado no andar e já sonolento, acrescentou em voz regougada:

- Os pobres de Alcântara foram o pretexto. Uma léria, a caridade. As senhoras o que quiseram foi divertir-se e nós os políticos fazermos o nosso jogo. O presidente do conselho e o Frazuela aconselharam-me o discurso e julgo com isso ter ganho a partida contra Carlos de Mendonça, ou contra Evaristo de Melo, isso é-me indiferente. Tudo se reduz a que o patrão da Ajuda fique satisfeito; porque afinal ele é quem manda, entendes? O Frazuela, um finório, puxa os cordelinhos e o que quer é dinheiro. Pois dê-se-lhe dinheiro e que o vá gozar em Paris com a condessa. Como não é do meu... E o país não fica mais pobre, nem mais rico, com mais ou menos uma centena de contos...

Angelina não podia alcançar o verdadeiro valor das confidências de Salústio, contidas neste seu parolar de homem bem comido! Eram coisas que se passavam num mundo que desconhecia. Mas a palavra ministro, sempre misturada nas conversas mais íntimas, revelava-lhe qualquer coisa, em que o seu amante resumia todo um imenso sonho de grandezas! Seria ministro mui brevemente e tudo obra do maravilhoso conde, que lhe aparecera na existência, como um desses inapreciáveis génios, que nos contos de fadas são príncipes sob roupagens de pegureiros. A filha de Pedro Alves, com tanta coisa que nesta noite lhe ouvira, deitou-se confusa, a cabeça batalhada por maravilhas, que lhe tiraram o sono. Salústio, a seu lado, de costas na cama, ressonava com majestade! Ela adormeceu tarde e apesar disso, como o dia seguinte fosse santo, levantou-se cedo para ir ouvir missa a S. Paulo, deixando o deputado ainda a dormir. A modesta rapariga trazia agora a sua alma mais agitada e triste do que nunca! Rezou com fervorosa devoção a Nossa Senhora do Sameiro, para que lhe metesse claridade na vida incerta. Ao sair da igreja, com os olhos húmidos de lágrimas, percebeu, ao transpor da porta, que uma voz sua conhecida lhe falava, causando-lhe súbita perturbação. Havia no som dessa voz alguma coisa desse mistério que os corações sentem instantaneamente, como de acusação ou libertação.

- Bons dias, senhora Angelininha, como tem passado, menina?!...

Voltou-se rapidamente, obedecendo a um impulso que lhe viera de dentro. Forte rubor lhe subiu ao rosto, vendo diante de si, risonho e encolhido, Joaquim Neves, o antigo caixeiro de seu pai e seu pretenso noivo. O rapaz, de chapéu na mão, fazendo enorme esforço para a encarar sereno, cumprimentava-a quase recuando de receio. Também a filha de Pedro Alves teve de se encostar, para não cair, dizendo com surpresa...

- Olha quem! O Joaquim!

- É verdade, menina. Sou eu mesmo. Cuidei que já me não conhecia...

- Então não havia de conhecer! - pronunciou mais senhora de si. - A que vieste a Lisboa?!...

- Agora estou cá, na Rua da Prata.

Em frente um do outro, a nenhum ocorria palavras com que destrinçasse as ideias confusas que lhe tumultuavam no cérebro. Teriam por certo muito que dizer, sentiriam necessidade de encher o vazio dos dois anos decorridos depois de Angelina ter fugido da casa paterna, mas a sufocação não lho permitia. Joaquim Neves, num arranque de ânimo, varreu da sua memória tudo quanto fosse triste e pungente e com voz de amigo deu notícias triviais:

- O paizinho, a mãezinha e manos vivem agora na quinta do Bico. Já foram para lá há muito tempo, antes mesmo do outro S. João.

Isto marcava uma época, o tempo alegre e festivo de Braga. Angelina fez potente esforço para represar as lágrimas, mas ainda assim os olhos vidraram-se-lhe e Joaquim Neves afastou os seus, pois ao perceber aquela comoção pensou que iria rebentar num choro copioso e soluçado!... Ambos se mostraram heróicos neste recalco de sentimentos magoados; ambos tornaram a sorrir olhando-se, e agora no propósito de tornarem este encontro perturbador, como encontro festivo. Angelina disse com a sua voz doce e límpida:

- Bem sei... Tenho tido notícias...

Mas de que poderiam eles falar senão do passado?! Como impediriam o coração e a voz de referir coisas que ambos viveram num desprendimento natural e sincero?! Joaquim Neves era bronco e infecundo em expedientes de conversa. Por isso, sem querer voltou às melindrosas referências, referindo coisas que lhe dissera a Joaninha Silva, a amiga dilecta de Angelina... Esta atalhou-o:

- Bem sei, tem-me escrito. Então tu agora cá em Lisboa?...

- É verdade, menina, caixeiro dum homem de lá... Se for prestável...

- Obrigada. Mas que ideia a de vires para cá!...

- Ora... a gente... tem as suas coisas, gosta de ver mundo. Ah! menina, isto aqui, sempre lhe é muito grande!...

Angelina sorriu toda bondosa, já mais senhora de si. Na realidade, Lisboa era superior a Braga; mas lá também se podia ser feliz. A nossa terra é aquela em que estão as coisas de que a gente mais gosta; e ela tinha saudades da província e andava com ideias de lá ir em breve... Talvez no ano seguinte pudesse realizar este ardente desejo. E acrescentou, fazendo menção de se retirar:

- Pois eu moro ali na calçada de S. João Nepomuceno, com meu marido.

O caixeiro tornou-se subitamente branco e ficou estúpido! Não sabia que Angelina tivesse casado! E balbuciou:

- A senhora Joaninha disse-me o número. Se me dá licença, vou-lhe um dia fazer uma visita.

- Vai... Quando quiseres, vai...

E despediu-se estendendo-lhe a mão, o que confundiu bastante o caixeiro, que não estava habituado a tanta delicadeza. Tinha agora uma bela mão de senhora; mais branca e mimosa do que a de muitas fidalgas de Braga!... O contacto daquela pele fina deu ao rapaz sobressaltos nervosos, sensações irradiantes e comovedoras; porque sempre a amara. Todo ele ficou atónito, sentindo pular dentro de si uma multiplicidade de coisas contraditórias, que o podiam arrebentar. Conservou-se algum tempo encostado à esquina da igreja, a ver a sua antiga patroa caminhar pela Rua de S. Paulo: saia cinzenta ondeante; o casaco de pano preto, afeiçoado ao busto airoso; o chapéu simples com laço preto na frente, o véu a cobrir-lhe o rosto... eram modestos atavios agasalhadores do precioso corpo, onde residiam as causas das suas noites de sonho. Para coordenar as complexas impressões desse instante, logo que Angelina desapareceu, foi até ao Aterro, movendo-se num passo vagaroso, as mãos enterradas nos bolsos, o olhar no chão, como homem preocupado!...

Estava casada! Esta simples palavra resumia uma situação bem tremenda: - eram todas as suas esperanças condenadas, Angelina definitivamente perdida para ele! Escusava de pensar mais nela, inútil imaginar um abandono do amante, com o qual ele se resignaria a lutar - tão fundo e sincero fora sempre o seu amor, a sua loucura!... Com quem casaria?!... Com o deputado, já se vê! Afinal confessava-o - Angelina fora bem feliz. Amava aquele homem, que lhe dava na sociedade uma posição... Ele, um bruto, um patego, não a merecia. Seria até um caso triste se ela o preferisse! Quase perdoava a Salústio! Todo o rancor, que fora, dia a dia, juntando dentro de si para ser expelido numa vingança memorável, desfizera-se de repente, sentindo-se agora sossegado e tranquilo. A grande cólera, contra o malvado que seduzira a virtuosa filha de Pedro Alves, sua prometida esposa, estava apaziguada. Se o deputado não tivesse dado esta solução honrada ao seu infame procedimento, ele, Joaquim Neves, seria capaz de o estoirar no meio da rua! Fora até qualquer coisa como isto, uma ideia de castigo, que o trouxera a Lisboa... Ao partir não definira bem o seu confuso sentimento; mas dois anos passados a recalcar no peito uma paixão, que de cada vez era maior, tinham acabado pelo moer, e pelo revoltar. Um dia, à missa, entre o cálice e a hóstia, fez sagrada jura, dizendo que aquilo acabaria de um modo trágico, se o patife não casasse com Angelina!... Casou, que mais desejava?! Nada, absolutamente nada... Sentia-se completamente sereno: sorria, comentava as pragas das peixeiras da Ribeira Nova, enquanto enchiam de sardinha as suas canastras!...

Mas digam-me cá: - reflectiu Joaquim Neves. «Porque é que Joaninha Silva não me falou a mim deste casamento de Angelina com o deputado?» Talvez o não soubesse. Em Braga, todo o mundo parecia ignorar tal acontecimento, que, logo que fosse conhecido, faria barulho. Por sua parte tinha orgulho, em ser ele quem primeiro desse a novidade ao seu antigo patrão. Que grande contentamento, que alegria, que festa, não haveria naquela família envergonhada por causa da fugida de Angelina!... Esse desgosto estava desfeito, o grande pecado remido: a senhora Juliana e o senhor Pedro iam ter um verdadeiro dia de felicidade. Quem lhe dera estar lá, no momento de receberem a carta que lhes ia escrever!...

Porém não atinava muito bem com os motivos que teria tido Angelina, para não participar o extraordinário acontecimento a seu pai, a sua mãe, ou à Joaninha Silva, visto ser esta a única maneira de se reconciliar com todas as afeições perdidas. Talvez fosse a ideia de fazer a seus pais uma surpresa; ou, então, opunha-se a isso o marido, o tal deputado, que sempre fora um cara de burro, muito presunçoso, puxando para o alto, cuidando que ninguém o merecia?!... Pois o seu antigo patrão, conquanto não fosse fidalgo, era homem de muito boas contas, muito respeitado de toda a gente que com ele tratava! Mesário da confraria do Senhor do Monte e de muitas outras, todos o viam nas festas da igreja ombreando com a melhor fidalguia da cidade - os das Carvalheiras, os de Inflas, os Baratas, os Freires da Rua de S. João...

Neste espírito de hostilidade contra Salústio, os seus olhos caíram, naturalmente, sobre a coroa de prédios que se estende das Janelas Verdes a Santa Catarina. Contemplou a magnificência de Lisboa, com as grandes casas e o majestoso rio. «Que diabo! isto é grande!» E pareceu-lhe que Angelina (a única mulher que a sua organização pedia, desde que principiara a despontar num sentido de amor) fizera bem em o desprezar, para se unir a um homem que lhe dava o gozo de tantas maravilhas! Foi bom que assim acontecesse! - tornou a pensar. O que lhe repugnara até ali, era ver aquela que sempre considerara como ente superior a todos os outros, na baixa condição de concubina!...

Quando resolvera, em Braga, vir empregar-se em Lisboa, nos sistemas de forças que o atraíam para a capital entrava o sentimento de obscura dedicação por Angelina.

Podia ser-lhe útil numa terra onde ela pouca gente conhecia. Rapaz simples, saudável e forte, desejava empregar todo o préstimo que tivesse em favor da única criatura que ainda lhe ocupava o coração. Este sentimento protector era desinteressado, tinha muito de pureza e renúncia. A capital, vista lá de longe, aparecia-lhe como um grande forno onde a virtude se consome no meio de gemidos, onde o crime e o vício se engrandecem como empolas.

No seu cismar desocupado, sustentava intensas lutas com seres imaginários, que porfiavam em prejudicar Angelina, essa querida imagem, que se lhe representava sempre num altar, como as pálidas santas, cercada de luzes e flores. Ser inconfundível, alma tão bela, que nem todas as nódoas humanas podiam macular, a sua falta fora devida à influência do demónio, perdição dos próprios anjos. Contra o sedutor iam as suas iras, ficando a sua amada puríssima e incorruptível! Por isso, obedecendo à fatal atracção, o seu ânimo, assim purificado apesar do coração se sentir dolorido, disse um dia: «Não há remédio, não posso mais, vou tornar a vê-la!»

E desde que escutara esse grito formidável, que lhe clamara do mais profundo do seu ser, a mudança para Lisboa ficou resolvida. Por intermédio dum carteiro seu amigo, Joaquim sabia que Angelina sustentava correspondência com a Joaninha Silva. Certificara-lho a letra dum sobrescrito. Já por esse tempo o comércio da loja, depois da retirada de Pedro Alves para o Bico, tinha piorado. O patrão só aparecia uma vez por outra na cidade, montado na égua branca, para tratar das encomendas para o Porto. Fazia mal os fornecimentos e os fregueses abandonavam-lhe a loja. O pai de Angelina, doente e enfraquecido pelo grande desgosto que o enlutara para sempre, pensou em passar-lhe o negócio, se ele arranjasse fiador competente.

Outrora, tal proposta teria enchido de legítimo orgulho o modesto rapaz. Ser um dia dono daquela casa, fora a sua grande aspiração!... Ele a pedir fazendas para o Porto, escrevendo cartas em largas folhas de papel pautado; ele a receber as encomendas pelos almocreves, e a formar as pilhas de sacas de arroz detrás da porta; ele a contar libras aos caixeiros das cobranças, rapazes vaidosos de ar insolente e gastador, cinta vermelha, chapéu de viajante, charuto na boca, falando de cara alta!... Toda a sua vida, toda a sua actividade, se enchera com tal perspectiva. Teria também um caixeiro, mandaria roupinhas novas a suas irmãs, iria de vez em quando à terra, tilintando com a sua corrente do relógio, usando botas de elástico e chapéu fino. Que opulência! Como todos o respeitariam! Como seria benévolo e generoso para com os rapazes da sua criação, que tinham ficado na humidade da lavoura!...

Tanto no seu espírito como no do seu antigo patrão, os dois projectos, do trespasse do negócio e do casamento com Angelina, andaram sempre intimamente ligados. Porém, tendo-se aludido a melhor parte do seu castelo de ilusões, que era o casamento, não podia habitar a outra, e a ideia de vir para Lisboa assentou-se definitivamente, visto ter lá um parente, que o admitia como caixeiro e que, num futuro mais ou menos próximo, lhe poderia dar sociedade. Foi então que procurou na missa da Sé a Joaninha Silva, e lhe perguntou notícias da sua amiga, com quem se correspondia.

- Pouco lhe sei contar, senhor Joaquim. Há muito que não tenho notícias.

- Mas sempre me poderá dizer onde ela mora?...

- Então vai a Lisboa?

Contou-lhe num tom grave os seus projectos. Tinha na capital meio de se arrumar bem; o negócio em Braga estava perdido, não se passava do pé do pessegueiro. Aspirava a vida mais ampla e aventurosa, queria fazer-se homem a valer, opulentar-se num comércio de grossas quantias. A presença de uma pessoa que fosse devotamente amiga de Angelina, não podia ser conveniente à sua felicidade dela?

- Mesmo, com pouco préstimo como eu tenho, quando há vontade...

A Joaninha Silva adivinhou quando de afectuoso e delicado havia naquelas palavras. Deu-lhe os esclarecimentos que podia dar, escrevendo-os ele mesmo com um lápis numa carteira, que comprara na Rua do Souto, e ao despedir-se aconselhou-o:

- Diga-lhe tudo, senhor Joaquim. O pai daquela maneira, a mãe de cama... Que nunca mais houve Natal, nem Páscoa naquela casa... Diga-lhe tudo, fale-lhe ao coração...

- Ah! hei-de dizer, hei-de falar...

A Joaninha teve esta opinião sensata e condoída:

- Que, apesar do que se passou, se ela por aí voltasse, mesmo sem ser casada, o pai não lhe fecharia a porta...

- Fechava, menina, fechava! - afirmou com viveza o caixeiro. - É que não conhece o senhor Pedro Alves. É dos antigos. Morreria dalgum estupor; mas fechava-lhe a porta, se ela viesse para casa sem ter passado pela igreja com o homem que a enganou.

- Tudo uma grande desgraça! - considerou a Joaninha Silva, conformando-se e despedindo-se de Joaquim.

Esta Joaninha era uma rapariga de rosto oval e alegre, muito galhofeira com as pessoas que estimava. No tempo de Angelina, quando ela lá ia por casa, o caixeiro gostava muito de a ver, de se rir com ela, de pensar na fecundidade daquela carne exuberante. Chalaceavam juntos, considerando-a ele capaz de ter muitos filhos se casasse, e ela a responder-lhe com modo sério, que já contava com isso, que o seu casamento havia de ser com o prior de Santa Cruz, um velho latinista de oitenta anos, muito conhecido em Braga. Tudo lhe era levado a bem. Como fiadores da sua castidade tinha, entre outras condições, uns braços valentes, que podiam pegar num homem atrevido, que lhe desagradasse, e atirá-lo por uma janela. Era este, talvez, o segredo do predomínio que ela exercia sobre Angelina, organização mais senhoril, melindrosa e afável. Se Joaninha tivesse adivinhado a loucura premeditada pela sua amiga, a filha de Pedro Alves não a teria feito; ainda que «uma rapariga enamorada seja pior que um burro teimoso» - como disse, a propósito deste caso, um médico bracarense, homem de grandes sentenças. Mas a apaixonada de Salústio escondera até ao fim a gravidade das suas combinações e só de Lisboa é que escrevera à sua amiga, pedindo perdão da falta de confiança; «mas que tudo que acontecera, tinha de acontecer». A resposta de Joaninha Silva, apesar de consoladora e benevolente em parte, era em muitos pontos repreensiva, insistindo em todas as cartas subsequentes, em que forcejasse por tornar a sua posição legal, diante de Deus e do mundo! Enquanto houve risonhas esperanças, a correspondência sustentou-se; porém, logo que estas se foram desvanecendo, Angelina não teve mais coragem de mentir e calou-se. Demais a mais, as últimas cartas de Joaninha Silva, talvez aconselhadas pelo confessor, eram carrancudas e severas, falando sempre das penas do inferno, da implacável justiça divina, das rigorosas contas que tinham de ser dadas no dia de juízo final, nesse vale de Josafat, onde, ao som de trombetas clamorosas, as almas serão reunidas aos corpos e onde ela teria necessariamente de comparecer diante de seu pai, de sua mãe, do senhor padre Martinho e de toda a gente de Braga!... Ainda era tempo, ainda se podia salvar, voltasse a casa como esposa do homem que a desonrara, e só assim Deus e sua família esqueceriam as faltas cometidas.

A pobre rapariga, tão falta de consolações, limitava-se a chorar. Uma das cartas de Joaninha Silva mostrou-a a Ermelinda Travassos, queixando-se de que a sua amiga fosse tão áspera para com ela. A organização sensível e doente da mestra de piano escandalizou-se com aquela linguagem rude, que tinha a majestade desenganadora de uma sentença de morte. Sentia-se envolvida naquelas censuras, parecia-lhe que as ameaças de tantos castigos lhe eram igualmente dirigidas, e perguntou com acrimónia:

- Esta sua amiga nunca amou homem nenhum?!...

E a imagem do primo Anastácio, músico da capela real, sempre com o pescoço envolvido num lenço de lã escura, passou-lhe simpaticamente na imaginação, como um branco froco de nuvem, num céu pálido de outono.

Angelina esclareceu-a, dando às suas palavras uma sensibilidade chorosa:

- Amou... amou um estudante do seminário, que se fez padre...

Ermelinda Travassos, cheia de nobre indignação, ergueu-se como um personagem de tragédia pronunciando altiva:

- E é ela, então, que vem ralhar com a gente?!... Angelina procurou defender Joaninha Silva:

- Mas arrependeu-se... Fez uma confissão geral e arrependeu-se.

- Bem me fio eu nisso!... - retorquiu a mestra de piano, com descrença.

Por ter cessado a correspondência entre as duas amigas, é que Joaquim Neves também explicou o não ser conhecida em Braga a grande novidade do casamento de Angelina.

- É mulher dele!... Foi melhor assim, foi assim muito bom - disse, procurando absolver e estimar Salústio, pelo acto de nobreza que praticara.

Mas, apesar desta aparente conformidade com a sorte, conservava-se macambúzio e enleado. Passava indiferente, junto à muralha do Aterro, olhando para a vastidão do rio. Já se arrependia de ter vindo para Lisboa, visto não servir ali de nada. O casamento de Angelina inutilizava toda a sua dedicação. Até lhe veio a lembrança de regressar a Braga, a terra da sua mocidade, onde um sonho querido lhe engrinaldara a fantasia.

Se voltasse (ideia que principiava a verrumar-lhe o cérebro) levaria consigo uma novidade de preço, que serviria de consolação aos que amassem Angelina. Entre todos esses só ele ficava infeliz; porque perdia toda a esperança. Mas de que servia pensar em si, quando os outros estivessem contentes!...

No entanto continuava a repreender o procedimento da filha de Pedro Alves, por não ter mandado dizer nada a seus pais. Ao menos não lhe parecia bonito. Devia ser coisa do marido, o tal Salústio, sujeito emproado, um basófia, que não dava confiança a ninguém, e só tirava o chapéu por favor. Em Braga, embirravam com ele. Pudera, um presunçoso daqueles!... Contudo, apesar deste secreto ódio, a imagem do antigo administrador de concelho impunha-se-lhe! Via-o em imaginação, passando à porta da loja de todos os dias, quando ia para S. Victor, onde morava!... Botas de polimento, brilhando como espelhos; calça de caxemira clara; andar autoritário, de quem podia mandar prender os outros! As mulheres perdem-se por estas coisas - pensou amargurado Joaquim Neves! Muito grande que fosse o seu amor por Angelina, ainda que o patrão estivesse, como estava, apostado em fazer-lhes o casamento, ele havia necessariamente de ser vencido, logo que aparecesse um concorrente como Salústio, - janota, bem parecido, doutor e autoridade, indo sempre nas procissões atrás do pálio, ao lado do governador civil. Achava natural a preferência, humilhava-se até a reconhecer, ainda que a não pudesse aplaudir, pois que isso lhe repugnava... E dum modo doloroso confessou pensando em Salústio:

- É bem feliz! Tem a mulher mais linda do mundo! E agora uma perfeita senhora... Aquele chapéu, aquela redinha pela cara... davam-lhe uma graça!...

Sentado num banco, o olhar perdia-se-lhe no infinito. A sua alma vagueava por esse mundo de além, como alma penada, que não encontrasse paragem, nem conforto. Sentia vontade de morrer, só a morte lhe daria o desinteresse do mundo, deste mundo onde não tinha valor a sua dedicação imensa!

A expressão do seu rosto era de mortal desalento; irremediável o seu infortúnio! Angelina estava casada e teria por certo algum filho... Esta lembrança deu-lhe um arrepio de desgosto. Aquele corpo ideal, diáfano como o dos anjos, conspurcado pela brutal luxúria de Salústio! Oh! mágoa infinita! O seu puro amor em cinzas!... Não podia permanecer em Lisboa, junto da sepultura do seu coração. Aborrecia esta grandeza que admirara, a turbulência da vida nas ruas da baixa, o luxo provocativo das mulheres, que tanta admiração lhe causavam, quando iam de carruagem. Tudo que o deslumbrara, enfastiava-o agora. Melhor fora ter aceitado o trespasse da mercearia de Pedro Alves! Fornecer-se-ia do Justino José Teixeira de Carvalho, do Porto, seguiria as normas exemplares do seu antigo patrão, viveria uma vida calma, honrado e sem surpresas que lhe trouxessem desassossego. Neste momento doloroso reconhecia o mal que andara, acabando bruscamente com esse passado, em que vivera tão feliz.

Talvez ainda o pudesse reconstituir... Escreveria nesse mesmo dia uma carta para retomar a situação na mercearia dos Chãos, ainda que fosse como caixeiro. Todo o seu empenho era tornar a ser o que fora, viver na intimidade das coisas que presenciaram a sua felicidade, quando tinha esperanças de namorado. Aquela loja escura para onde entrara aos doze anos, as estantes sujas de moscas, o balcão com o rebordo chapeado de pintos e coroas falsas, a talha de azeite, as rimas de sacas de arroz e de açúcar, os costais e bacalhau em pilha... tudo para ele formava agora deleitoso quadro em que lhe brincavam os olhos, como se fora paisagem criadora e florida. E os dias de feira, bulhentos e ocupados, que não davam tempo sequer para comer!... Era um conjunto de coisas e factos saudosos, que lhe provocavam lágrimas. Sentir outra vez tudo isso de perto, ressuscitar o passado carinhoso, seria rejuvenescer o coração. Perdera Angelina, perdera a sua prometida noiva, mas ninguém teria poder para lhe arrancar da mente a sua querida imagem, que conservaria para todo o sempre, enquanto vivo fosse, em lugar escolhido da sua alma, nimbada de luz como uma Nossa Senhora. Seria este seu cismar permanente, as coisas mudas de envolta concorreriam para a realização da quimera, formariam um conjunto, um templo dentro do qual tornaria a residir a sua amada, viva e sorridente, tão real e formosa, como quando vinha à loja ordenar-lhe qualquer serviço. Então, Angelina dizia-lhe palavras equívocas de namorada, fazendo-lhe acreditar na possibilidade de um dia serem ambos donos daquela casa dos Chãos. Que tempo! Que memórias! Que passado!

Novo impulso de reflexão veio entristecê-lo mais. Tudo para ele estava perdido com o casamento de Angelina. As palavras que lhe ouvira à porta da igreja foram desenganadoras, para que não continuasse a pensar nela. Paciência; viveria do trabalho e para o trabalho. Ocupar a existência com o moirejar do corpo, é tirar à imaginação elementos de martírio. Em Braga, de novo metido na loja, estaria sempre entretido. Falaria com a Joaninha Silva acerca da sua amiga, agora casada com um homem de posição. Consolaria os velhos, seus antigos patrões, mostrando-lhes a filha redimida para a honra, para a consideração social e para Deus! Calcaria dentro em si todos os ressentimentos e fiava que, vendo os outros felizes, ele também o havia de ser.

Neste momento ouviu um garoto apregoar o Diário de Notícias. Para se distrair de tantas ideias melancólicas e visões antigas, comprou o jornal.

Ainda tinha mais duma hora de liberdade, antes de se abrir a loja; precisava de enchê-la com o que lhe contassem da vida dos outros, da vida da multidão que passava. Foi percorrendo a primeira página do jornal, lentamente, com a atenção esparsa... Porém ao deparar com o nome de Salústio Nogueira, em parangona a marcar notícia de importância, sobressaltou-se-lhe o coração. Sempre, mais ou menos, a lembrança de tal homem lhe fazia correr o sangue ao cérebro, lhe incendiava as faces... Nas circunstâncias actuais, em que esta pobre alma estava tão cheia de amargura, o interesse e emoção foram mais acentuados. Com olhos sôfregos leu o seguinte:

  1. SALÚSTIO NOGUEIRA

«Diz-se estar tratado o casamento do ilustre parlamentar, o dr. Salústio Nogueira, com a filha dum rico negociante da nossa praça, senhora de rara formosura e muito prendada. Parabéns ao nosso amigo.»

O assombro de Joaquim Neves foi completo!

Se lhe metessem uma faca no peito, não colheriam dele pinga de sangue! Conservou-se sentado com o jornal nos joelhos, pálido, olhos fixos num ponto indeterminado, boca ligeiramente aberta, os músculos faciais em rigidez espasmódica, estúpido e sem atinar com o valor do seu sentir. Nada do que em volta corria o interessava e desentorpecia. Esteve minutos neste estado de ausência, semelhante ao da pessoa que acordasse dum sonho, em que resvalava ao desamparo num abismo!... Depois desse largo instante de estupor, rompeu subitamente numa gargalhada de louco, erguendo-se e falando alto:

- Só isto me faria rir! Ah!... Ah!... Ah!... Só isto me faria rir!...

Três senhoras, as inofensivas manas Vinagres, que passavam muito juntas para a missa de Santos, assustaram-se e olharam-no com pavor; porém, Joaquim Neves, que lhes percebera a desconfiança, repetiu:

- Palavra, que só isto me faria rir! Não fujam que não sou nenhum maluco! Malucos são os outros! Malucos e grandes patifes!...

Num andar desvairado seguiu para o lado do Cais do Sodré, levando numa evidência provocadora o papel em que lera as palavras de fogo, que lhe haviam escaldado os olhos. O esforço gasto no movimento acelerado, a indiferença dos transeuntes pelo seu estado interior, sossegaram-no, dando-lhe sentir mais exacto e real. Já abatido por dolorosa impressão esternal, pronunciou com lágrimas na voz:

- Ora esta! Não está casada, ou casaria com outro homem, arranjado em Lisboa!...

A imaginação apavorada representou-lhe logo a sua idolatrada Angelina vivendo uma vida escandalosa de vergonhas! Talvez pelas suas loucuras a tivesse abandonado Salústio! Quem sabe quantos desconhecidos teriam gozado aquele corpo angelical! Quem sabe como ela teria empregado abjectamente, em afectos mercenários de ocasião, a sua linda alma! Uma existência conspurcada, como a das maiores desgraçadas, que vivem em prostíbulos, é a que ele representava na sua mente.

Casada com Salústio não podia estar; ele devia tê-lo logo adivinhado, ao apreciar a modéstia do seu vestir. Porém ficara tão perturbado quando vira diante dos olhos aquela figura de encanto, sempre viva no seu coração juvenil, que não conservara serenidade para qualquer demorado e justo exame. Agora percebia tudo num relance; compreendia o acervo de falsidades que formavam a alma de Angelina, ao fim de dois anos de ausência, a ponto de lhe dizer que estava casada, quando a verdade seria muito outra!

Horrendo tudo isto!

Até aqui desculpava-a em nome do desvairamento dum primeiro amor; mas agora que a supunha numa convivência de opróbrios, não podia. E era aquela criatura superior e divina, feiticeira da sua mente, que sempre comparara aos anjos que respiram no céu uma atmosfera de inocência e bálsamos; era essa adorável imagem, que sempre comparara à das virgens cobertas de túnicas de pureza; era esse sonho de mulher, que lhe enchera de luar noites escuras de tristeza... que ele vinha encontrar na vida abominável duma...

Suspendeu o amargoso pensamento, ainda mal esboçado... A palavra dura e venenosa gelou-se-lhe nos lábios... Tremenda afronta ao seu passado, ao seu próprio pudor! Amava ainda Angelina e portanto não podia apunhalar-se a si próprio. Porém compreendia tudo... O acabar da correspondência com Joaninha Silva, estava explicado. Ainda era sinal de vergonha, o não querer que fosse lembrado o seu nome entre gente virtuosa e honesta. Se perdera o temor de Deus, restava-lhe ao

menos o temor dos homens...

Que imensa tristeza a sua, vendo aluir-se o transparente edifício formado de visões formosíssimas! Era rude de espírito; mas sentia este desengano com alma sincera e apaixonada.

Quem poderia supor que uma tal infelicidade viria a acontecer! Em Braga, Angelina era tão composta e séria que no seu rosto repousavam todos os olhos e todos os corações!... Linda, como não havia outra; religiosa, como nenhuma! Não passava semana que se não confessasse ao senhor padre Martinho, que dela dizia publicamente com a graça natural do seu rosto galhofeiro: «É a mais linda ovelha do meu rebanho; o homem que a levar, leva um tesouro!» Joaquim Neves, encostado à muralha do Aterro, na extenuação de todo o seu ser, viu diante dos olhos a figura do popular missionário, gordo e vermelho, percorrendo a cidade, dum extremo ao outro, risonho e prazenteiro, barriga saliente de mulher grávida. Toda a vez que passasse nos Chãos, entrava na loja do seu amigo Pedro, pedindo uma pitada com os dois dedos já prontos a recebê-la e sorvia-a com estrondo satisfatório. Santo homem, a bondade e alegria em pessoa, quando dizia: «Dá cá, Pedro, dá cá uma boa!» O honrado negociante, sempre acatador, levantava-se pressuroso, estendia o braço com a caixa aberta, exclamando:

- Oh!. O senhor padre Martinho! Como vai vossa senhoria?!

- Sim... sim, vou bem com a graça de Deus. E a pequena, a minha ovelha?

- Nos arranjos, lá por cima - esclarecia, movendo a cabeça no sentido do primeiro andar.

- É uma santa. Devia chamar-se Maria, para que a cognominássemos beata, pela sua inocência e bondade, sem a podermos comparar à outra, que essa é mãe de Cristo e rainha dos céus! Adeus Pedro, adeus Pedrinho.

E depois de ter sujado a batina com a demasia da abundante pitada, acrescentava:

- Casa-a. Não há conventos, casa-a. Aquele rapaz (aludia a Joaquim) parece-me dos que servem, temente a Deus e respeitador da sua santa religião. Casa-os. E adeusinho, que vou ali ao de Inflas.

Do limiar da porta, voltava o rosto expansivo, concluindo:

- Coisas de eleições... Não me deixam! Desta vez queremos mandar, cá pela Roma Portuguesa, um dos nossos, dos que acreditam na Igreja e na bula.

Desaparecia, andar orgulhoso e medido!

Joaquim, azedo e atormentado pela sua enorme dor, aludindo a estas palavras do sacerdote por ele tantas vezes escutadas com delícia, pronunciou sarcástico e infeliz:

- Que grande espiga, se me casam com ela!...

Mas a sua cabeça era uma tempestade e todo o seu corpo uma paixão! As ideias sobrevinham-lhe incoerentes em catadupas, como águas procelosas, despenhando-se de íngremes montanhas!

Andava agitadamente, parecia-lhe digno de feroz desprezo tudo quanto se passava em volta. Só uma grande dor, um grande desengano, poderiam ter operado tão inesperados efeitos no seu espírito bronco, sem ilustração, sem cultura para exprimir o lado meticuloso das ideias e dos sentimentos! Ia escrever para Braga, nesse mesmo dia; queria-se ir embora, fugir deste inferno que o atormentava. Mas, apesar da resolução de abandonar Lisboa, procuraria saber quem era o marido de Angelina, faria diligências para conhecer a história da vida desregrada da antiga beata, quantos amantes tivera entre Salústio e aquele que a possuía agora legitimamente. Ao menos teria muito que contar aos papa-hóstias da eclesiástica cidade! Havia de levar as coisas ao verdadeiro apuro de a desacreditar de tal maneira que a sua reputação nunca mais pudesse ser restabelecida, nem por um casamento com o rei! Que diria a tudo isto o gordo senhor padre Martinho?!... Ora adeus! Este facto desenganava Joaquim Neves, acerca das coisas da igreja. A final de contas, quem tinha razão era um brasileiro de Braga, chamado Pregúncia, feroz inimigo de Deus e dos santos, que considerava todas as mulheres que andavam em confessos repetidos amásias de padres. Os eclesiásticos detestavam-no, chamando-lhe herege e condenado, faziam projectos de o envenenar, como o próprio Pregúncia afirmava saber. Talvez fosse esta a opinião sensata a respeito dessa coisa chamada religião. Quem sabe até, se Salústio Nogueira fora o primeiro amante de Angelina! Quem sabe?!... - caluniava com acinte e desespero.

O seu rancor contra a mulher que tanto amara crescia como labareda - era uma coluna de fogo que tudo abrasava, que lhe envolvia os pensamentos e desejos. A reputação de Angelina era um cadáver de animal abandonado numa lezíria, e ele negro corvo, que se lhe metera nas entranhas, com o fim de as roer e conspurcar, tornando patente toda a miséria e abjecção daquela mulher, que adorara, como ideal intangível! Seria implacável! O seu ódio levava-o a desejar uma vingança tão estrondosa, que teria coragem de despir numa praça pública aquela que fora a sua amada puríssima e expô-la ao escárnio de um público grosseiro, consentindo que todos lhe cuspissem, no meio de gargalhadas e insultos!...

Estava esvaído de tanto batalhar no inferno da sua dor! Sentou-se de novo num banco do Aterro... Poderia despedir-se naquele mesmo dia do estabelecimento onde estava... Porém, para que o patrão o não julgasse um louco, e mandasse para Braga más informações a seu respeito, faria um poderoso esforço, e entraria na loja com aparência de homem sossegado, mas que acabasse de receber a notícia triste da chegada do Brasil dum seu irmão, que àquela hora se encontrava muito doente numa hospedaria da Ribeira Velha.

Assim procedeu e com este fingimento obteve licença para sair, e logo se foi postar em frente à casa de Angelina, na esperança de que alguém apareceria, para lhe dar esclarecimentos acerca da situação da sua amada. Algumas libras que tinha de seu meteu-as no bolso do colete e uma navalha no do interior do jaquetão. Ia para uma luta sombria; queria preparar-se para morrer ou para matar, se tanto fosse preciso. A sua alma agitava-se em turbilhões de fumo; recalcava-a para exteriormente se mostrar sereno.

Tinham decorrido apenas minutos da sua atalaia, quando apareceu no limiar da Porta Salústio Nogueira, que o não reconheceu, nem nele atentou bastante para isso.

Era o mesmo soberbão majestoso, dentro da sobrecasaca. Calçava as luvas amarelas com vagar, tirava fumaças do charuto ao canto da boca. Cortejou com leve sorriso um sujeito de boné militar, que estava à janela e desceu lentamente a rua com evidente desdém por tudo quanto via. Joaquim ficou estarrecido e perplexo!

A confusão das suas ideias aumentou com o aparecimento do deputado! Procurava no seu crânio uma resposta a instantes interrogações, e não a encontrava. Angelina estaria ou não casada!... E com quem? Não atinava com resposta por mais que a procurasse, e então exclamou, numa indizível candura:

- Quem me podia dizer aqui alguma coisa era a bruxa da Rua das Cónegas!... Quem me dera estar em Braga, ao pé dela!

E permaneceu quieto e estúpido, irresoluto sobre o intrincado problema!...

 

Deveria subir as escadas de Angelina e exigir-lhe explicações da sua vida?! Com que direito e sob que pretexto?!...

Começou a passear em frente à casa, remoendo ideias, a ver se a filha de seu amigo patrão chegaria casualmente à janela. Esperava debalde, pois a amante de Salústio, mal este saiu, tinha descido para falar à D. Maria Gomes, acerca do encontro que tivera nessa manhã com o caixeiro de seu pai! Ao deputado não comunicara coisa nenhuma, apesar de ser uma novidade que os interessava. A familiaridade entre ambos tinha diminuído muito. Angelina apenas lhe respondia, quando ele falava. Havia dias em que não trocavam meia dúzia de palavras; viviam numa separação de casados que se odeiam. Mas a perturbação, que no espírito lhe lançara a presença de Joaquim Neves, precisava comunicá-la a pessoa que lha apreciasse com sagacidade; desejava desabafar com alguém que lhe pudesse dizer se aquele rapaz traria alguma intenção reservada, para intervir na sua vida.

- Porque ele sempre foi um perdido por mim! - afirmou.

A D. Maria Gomes, sentada no seu fauteuil cor de borras de vinho, a cabeça encostada à mão direita, ouviu Angelina com ar de tanta piedade, que esta lhe perguntou:

- Dói-lhe alguma coisa? O seu filho continua a não ser bom para si?

- Não é isso... São outras histórias!...

A amante de Salústio respeitou essa dor, que se concentrava, que não pedia consolações. Entrou de novo no assunto que a enchia e sobre o qual procurava conselhos. Referiu factos da sua vida passada, de como desprezara o caixeiro, preferindo-lhe Salústio; mas, insistindo sempre em que o Joaquim concentrara nela incalculáveis esperanças de felicidade.

- Como já lhe disse, minha senhora, meu pai queria-nos casar - recordou.

- E teria feito bem - opinou D. Maria Gomes com melancolia.

- Mas se eu não gostava dele!... - resumiu a filha de Pedro Alves.

- Não é preciso gostar-se de um homem, para a gente casar com ele. Ponha os olhos aqui designou-se. - No fim da minha vida, sem um amparo, só porque tinha o mesmo modo de pensar... Se eu seguisse os conselhos de meu pai!...

- Sim... mas a gente...

- A gente não tem juízo. Depois o futuro... Ah! minha filha! Olhe que a vida é triste! – exprimiu num desabafo de asmática!...

Ficaram algum tempo caladas. A D. Maria Gomes olhando para o Tejo, com a cabeça encostada à mão, Angelina um pouco na penumbra da janela, com ar abatido, sem saber porquê. Tinha um pressentimento triste, que o silêncio também triste de D. Maria aumentava.

- Ai! Ai! - suspirou a mãe do tenente Augusto, olhando para o Diário de Notícias, que ainda tinha na mão e onde lera a tremenda novidade do próximo casamento de Salústio.

E depois de um silêncio, em que passou mentalmente em revista muitas fórmulas, das que poderiam servir para falar deste caso a Angelina, assentou nesta:

- A menina acredita na sinceridade do amor desse rapaz que a encontrou hoje?

A filha de Pedro Alves ficou hesitante. Não penetrara o alcance da pergunta condoída. Respondeu sem intenção:

- Uma vez, em Braga, ele disse que se não casasse comigo, havia de morrer solteiro.

A expressão de D. Maria Gomes iluminou-se com um clarão de bondade e aconselhou:

- Nesse caso, se ele ainda a quiser, abandone este homem com quem está. Olhe que a anda iludindo.

- Ora qual! Não anda... - sorriu confiada. - Às vezes tem as suas aquelas, que me fazem chorar. Há dias que entra e sai de casa sem me dizer palavra... Coisas lá da sua vida da política... Porém, é meu amigo e se não o fosse era-o por causa da pequena, que ele adora. Como eu não pude acabar a criação, pôs-ma numa ama em Loures e manda-a vir todos os sábados, para a vermos e deixa-ma o dia inteiro. Não anda a enganar-me, não: ele não é mau. Terá génio esquisito, mas não é mau.

  1. Maria Gomes, acentuando a sua convicção, mais preocupada com a lisura do proceder que as circunstâncias impunham, do que com o mal que podia resultar das suas palavras, insistiu:

- É o que lhe digo, anda-a a enganar. Ponha os olhos em mim, que também fui vítima.

E, num acento comovedor, recordou a história simples da sua sedução: Havia bons trinta e cinco anos, fora amada por um, também do comércio, actualmente casado e com filhos, homem tão considerado, que já fora uma vez camarista! Seu pai, prudente e avisado, aconselhou-lhe o casamento, mostrando-lhe as vantagens:   marido   de futuro   certo,   com estabelecimento   afreguesado; rapaz comedido e da melhor índole, perdidamente enamorado dela, que era rapariga bonita e muito requestada.

- Eram aos dois e aos três a passarem-me à porta! Não faz uma ideia! - recordou vaidosa.

Mas ela andava com um alferes encasquetado na cabeça e não atendeu, nem quis saber dos conselhos de seu pai, que só falava para o bem dela. Repeliu, até com actos de má-criação, o caixeiro que lhe propunham. Ao vê-lo passar debaixo da janela, ou a fechava violentamente para o desfeitar, ou escarrava para a rua, com ruído, significando que lhe escarrava na cara - insolente provocação, própria de uma doida e duma criança, como então era. O namorado aparentou sempre a maior cordura, mostrando-se submisso apesar de tais grosserias, e ainda hoje, que é negociante rico na Rua dos Fanqueiros, cumprimenta-a delicadamente, quando a encontra na rua! Foi bem castigada por tudo quanto fez!... Que grande loucura a sua! De arrependida que estava, dava-lhe, às vezes, vontade de se lançar aos pés daquele homem, que tanto a amara e respeitara! Pensava agora deste modo; porque tinha sofrido muito; noutro tempo, o demónio da farda tirara-lhe o juízo a ponto de, por embirração contra o rapaz do comércio, ter tido o atrevimento de dizer a seu pai «que antes iria para o militar sem casamento, do que para o outro como mulher legítima.»

- Meu pai respondeu-me: «Olha que ainda te hás-de arrepender!»   E arrependi. Assim eu o estivesse tanto dos meus pecados!

A sua queda (entendia-o agora) devia servir de exemplo. Por isso lhe contava tudo. Seu pai morrera de um aneurisma, oito dias depois dela ter fugido com o alferes. A vida difícil, cheia de desgostos e de faltas de dinheiro começou em breve. O soldo era insignificante, e apesar de umas inscrições que herdara, viu-se em grandes apuros. Foi por esse tempo que, como tivesse aprendido piano, principiou a dar lições. O militar, natural das Ilhas, quando se aborreceu, arranjou para lá uma transferência, deixando-lhe às costas um filho de seis meses, que era aquele mesmo que Angelina conhecia. Conservara algum tempo a esperança de que o amante a mandasse embarcar, para se unirem matrimonialmente, como lhe prometera; porém o desengano não tardou muito... Um ano depois soube, por terceira pessoa, que o malvado casara rico, com uma prima.

- Ah! aquilo só com mil forcas! - terminou rancorosa.

Estas revelações, em parte já suas conhecidas, entristeceram Angelina, que apesar disso, agarrada à sua esperança, não podia conceber que tal fatalidade lhe sucedesse. Que não fosse por ela, já o admitia; mas seria ao menos por amor desse lindo encanto, que estava em Loures.

- Há-de casar comigo, verá a senhora, que há-de casar comigo.

- Não casa, menina - insistia a mestra de piano. - Se o caixeiro de seu pai ainda a quer, aproveite.

Como era humilhante este modo de se referir aos seus merecimentos! «Se ainda a quer!» Parecia indicar que a considerava uma infeliz sem nenhum préstimo. Esta convicção da mestra de piano ofendia-a e fez-lhe rebentar lágrimas dos olhos. Teve vontade de se levantar e ir-se embora. Achava duro e insultante aquele modo de a considerar, e estranhava-o em D. Maria Gomes, que para ela sempre tivera meiguices maternais, consolando-a nas suas tristezas, fortificando-a nas suas dores. Palavras tão desagradáveis como aquelas, era a primeira vez que lhas ouvia... O choro de Angelina e a sua sufocação indicaram à antiga mestra de piano quanto fora cruel e desumana... Por isso procurou corrigir-se, dizendo:

- Não se aflija. Eu só quero o seu bem. Quem lhe diz que esse homem com quem está não casa consigo, é porque tem a experiência. Também fui vítima!...

- Mas nem todos os homens são iguais. Esse da senhora não a amaria, nem ao seu filho...

A D. Maria Gomes sentiu-se por sua vez melindrada e depreciada; retomou a dureza convicta de quem tinha em sua mão a prova do que afirmava.

- Minha senhora, perca a ideia do doutor; porque ele não casa consigo. Angelina alvoroçou-se perguntando:

- Como é que sabe?

- Olhe - concluiu apontando-lhe a local do Diário de Notícias...

Angelina leu com apressada e perturbada curiosidade o que D. Maria lhe indicara. Depois olhou-a com ar de incompreensão, sentindo-se esvair... A vista enegreceu-se-lhe, abandonaram-na as forças no momento em que um sorriso de loucura lhe ia a despontar nos lábios. Penderam-lhe os braços, todo o corpo se amoleceu numa inércia de morte súbita... O rosto exangue e decomposto, a pupila amaurótica a ver por entre as pálpebras froixas, abandonada da felicidade da vida em marcha, caiu redonda no chão, como ave ferida ou aerólito despenhado do céu!

A mestra de piano não calculara tal desenlace para o seu imprudente desengano! Era pessoa muito nervosa, atreita a desfalecimentos e vadiices da cabeça!... Em que péssimas circunstâncias isto acontecia, sem ter o filho, nem a criada em casa! O seu primeiro impulso foi o de ir à janela chamar socorro; porém querendo levantar-se faltaram-lhe as pernas e para gritar extinguir a-se-lhe a voz, estrangulada por um nó na garganta. O perigo e a sua aflição eram enormes, mas ainda pôde lançar mão dum jarro de água para borrifar o rosto exangue de Angelina e molhar-lhe as fontes com um lenço ensopado em água. Ao mesmo tempo chamava-a com palavras lamentosas, desdizia-se do que afirmara, pedia a Deus que lhe valesse em tamanha dificuldade, percorria a casa com a cabeça perdida, procurando não sabia o quê. Na vizinhança quase um silêncio de charneca. Era domingo, e muitos tinham saído para os seus passeios. Esta persuasão tornara-lhe o rosto mais congestivo e o aspecto mais tumultuoso. Nem sentia o peso do seu corpo obeso; movia-se com a ligeireza flutuante dum papel ao vento. Aparecia na cozinha, na sala, na janela; entrava no seu quarto, sem um propósito declarado, sem intenção firme. Chegava-se ao corpo de Angelina estendido no chão, chamava-a com toda a sua alma, para lhe provocar ligeiro sinal de vida que fosse; pegava-lhe nas mãos, mexia-lhe na cabeça. O corpo da amante de Salústio entregava-se-lhe docilmente, obedecia-lhe aos impulsos; mas sempre inerte, na aparência de passividade suprema.

Apesar de todo o seu carinho de mãe, não conseguiu aquecer-lhe a pele, animar-lhe o rosto, abrir-lhe os lábios num sorriso ou queixume, desunir-lhe as pálpebras numa simples curiosidade ou interrogação. Apossou-se-lhe do ânimo timorato a possibilidade de que estivesse em companhia duma morta, duma criatura que ela própria matara com as palavras desnecessárias e imprudentes que dissera.

Primeiro sentiu assombro, depois medo. Toda a sua vida tivera grande repugnância em estar sozinha junto dum cadáver! Nem mesmo o de seu pai ou o de sua mãe tiveram o poder afectivo de lhe incutirem a dedicação suprema: agenciara a companhia de parentes e vizinhos para as angustiosas noites em que velara os entes queridos. Além de tudo o mais, este caso de Angelina não poderia acarretar-lhe desgostos e responsabilidades?!... Se algum malvado se lembrasse de lhe atribuir culpa numa morte assim repentina e inexplicável?! Pelo menos teria de justificar perante a polícia, de comparecer na Boa-Hora para responder a perguntas suspeitosas dum juiz, que insistentemente lhe vasculharia a alma, para nela encontrar ao menos vestígios de cumplicidade... Não se dera coisa parecida com a sua vizinha da Rua da Bombarda, a quem morreu de repente em casa uma senhora que com ela fora tomar chá?!... Sofrera grandes incómodos, pensou-se na possibilidade dum envenenamento e os jornais falaram...

Os seus olhos espavoridos tornaram a cair sobre o corpo inanimado de Angelina. Estendida no chão, que bela estátua no meio dum vasto campo silencioso! Era linda com a sua comovente palidez de morta!... D. Maria sentia-se atraída, pela piedade, para este grande infortúnio!... Porém, não podia mais; ali sozinha faltava-lhe o ar e o ânimo, num arrancado esforço exclamou:

- Virgem da Penha, Senhor dos Passos da Graça, valei-me!

Dirigiu-se para a porta da escada no propósito de gritar por alguém que estivesse no prédio. Ao abrir a cancela deparou-se-lhe um indivíduo de semblante inquiritivo e suspeito... mas era pessoa viva, que lhe poderia prestar auxílio. Adquiriu fortaleza, sentiu consolação ao encarar esse alguém que a Divina Providência lhe enviava. O desconhecido falou-lhe humilde, de chapéu na mão, voz carinhosa e de respeito:

- A senhora precisará de alguma coisa? Ouvi um grito...

A boa vontade com que este homem se ofereceu não só despertara confiança em D. Maria, mas teve incalculável poder calmante sobre os seus nervos sobressaltados. Pareceu-lhe que estaria ali um generoso coração, o auxílio do céu era-lhe enviado em circunstâncias bem afectivas e extraordinárias...

- Oh! senhor!... Se deseja fazer uma caridade, entre. Uma senhora que estava aqui de visita caiu com uma coisa repentina. Estou só, não tenho sequer quem me chame um cirurgião...

Entraram na sala, apontando D. Maria o corpo exânime... O desconhecido aproximou-se solícito, porém, ao ver o rosto de Angelina, transfigurou-se repentinamente o seu, como se aquele rosto fosse o de sua mãe ou o da sua amada!... Ajoelhou numa ternura convulsiva, agarrou-a pelo tronco e pelos braços chamando numa voz clamorosa:

- Senhora Angelina!... Senhora Angelina!... Que foi isto, que lhe aconteceu!... - perguntava.

O inesperado de tais palavras, de tal reconhecimento, em vez de alarmar D. Maria sossegou-a... Logo viu que estava bem acompanhada... E o seu espírito reflectido interrogou-se:

- Será o tal caixeiro?!... Há-de ser!...

Compreendeu de súbito a razão do inesperado encontro na escada. É que vinha visitar Angelina, como prometera e era natural e simpático. Joaquim Neves, dizendo quem era e ao que vinha, confirmou as suspeitas, acrescentando «que tendo de partir para Braga vinha perguntar à senhora Angelina se queria alguma coisa para a família». Como batesse à porta de cima, sem obter resposta, retirava-se desanimado, quando ouviu um grito que o fizera parar. Tanto ele como a mestra de piano reconheceram a poderosa intervenção de Deus neste caso singular...

Procuravam meios de socorrer o corpo desfalecido: antes de tudo levá-la-iam para a cama - a força dos braços do caixeiro era suficiente para isso. Já sustentava Angelina contra o seu próprio seio, quando ela deu o primeiro sinal de vida, abrindo os olhos, uns olhos grandes de pasmo, que interrogavam vagamente... Joaquim Neves depositou-a no fauteuil que viu ao lado, com a precipitação de quem é encontrado na prática dum acto repreensível. Podia a filha do seu antigo patrão não gostar de que a conservasse naquele contacto carinhoso...

O aspecto da doente era de incompreensão!... Passou a mão na testa e nos olhos, com o fim de varrer de si a nuvem que a cercava. O rapaz amparava-a ajoelhado no chão, para que o seu tronco, ainda frouxo, não resvalasse... Tinha uma atitude e expressão facial de súplica e prece. D. Maria, já de todo senhora da sua fria razão, comentava mentalmente o acontecido e analisava o quadro que tinha diante dos olhos. Não receava nada de mau e com vagar dava-se à comparação de Salústio com Joaquim. Este era claramente inferior ao deputado. Desculpava a preferência de Angelina para se desculpar a si, que praticara idêntico desatino com o alferes das ilhas. «É louca a mocidade – pensou - mas loucura natural nas idades em que o sangue passa com entusiasmo no coração das raparigas...» Caindo, após, em si e na realidade da situação ainda comentou: «Mas destes é que se fazem os bons maridos. Os outros só servem para nos enganar, para nos desfrutar»...

Já tranquila de todo, sentou-se numa cadeira para continuar a sua especulação mental, analisando o acontecido. Vendo Angelina ainda inconsciente, com o olhar à procura de qualquer explicação, perguntou-lhe com o propósito de lhe despertar sentir verdadeiro:

- Acha-se melhorzinha, não é verdade? Diga...

- Acho... melhor... De quê?... Que foi?

- Que havia de ser!... Caiu aí sem sentidos, com uma coisa que lhe deu pela cabeça. Eu estava em casa só... Se não fosse este senhor, que a Virgem da Penha mandou passar ali pela escada na ocasião...

E acrescentou com um suspiro amplo:

- Vi-me e desejei-me!... Foi uma fortuna... Demais a mais são conhecidos... Angelina confirmou em voz débil:

- Sim, é o Joaquim... Foi nosso caixeiro...

- Vinha saber se a menina queria alguma coisa... Volto para Braga... - disse o rapaz.

  1. Maria, com o seu espírito romântico e fatalista, observou duma maneira vaga, só para si:

- Notável coincidência!... Este encontro é um milagre d’Aquele que tudo manda!... Depois, todos três se quedaram mudos, o pensar incerto, a palavra difícil...

O caixeiro perguntou à mestra de piano:

- Então a senhora Angelina caiu?...

- É verdade... Estávamos a conversar em coisas da nossa vida. Num repente... zás... redonda no chão...

Joaquim esclareceu:

- Já teve coisa assim, num sermão do senhor missionário padre António, que prega lá no Pópulo, em Braga... Lembra-se, menina?... - perguntou carinhosamente.

- Lembro, foi do calor...

Angelina desejou um copo de água, que D. Maria foi buscar pressurosa, os amplos quadris trementes. Ofereceu-lho com verdadeiro carinho de mãe, amparando-o para que não caísse das mãos de Angelina, que lhe agradeceu:

- Muito obrigada... Que grande incómodo lhe tenho dado! Há-de-me perdoar...

- Não diga tontices. Senti uma grande aflição, senti... Este senhor é que me valeu. Boa alma, alma de lei. Encontrei-o na escada e veio logo, sem saber para quê...

- A Senhora do Sameiro guiou-me os passos; tive sempre grande devoção com ela - disse o rapaz.

- Não, cá para mim foi a Senhora da Penha, ou o Senhor dos Passos da Graça. Um deles com certeza - pareceu à D. Maria.

O Joaquim para esclarecer a filha do seu antigo patrão informou-a:

- Além de procurar a menina para saber se precisa alguma coisa para Braga, também lhe trago muitas visitas da senhora Joaninha Silva... Era ao que vinha...

- Ah!... - pronunciou a amante de Salústio - Não quero nada. Faz as mesmas da minha parte à Joaninha e que escreverei logo que possa...

Como a memória lhe principiasse a voltar, trazendo grande cópia de coisas tristes, para sair da embaraçada situação, que já compreendera, acrescentou:

- Tenho um peso na cabeça... Preciso de me deitar um pouco...

Fez menção de se erguer. Joaquim amparou-a; porém ela dispensou com gesto delicado este contacto, afastando-o.

- Mas a menina é que não pode subir sozinha a escada. Vamos consigo... - propôs D. Maria.

- Não é necessário, minha senhora. Sinto-me melhor. Adeus - disse estendendo a mão a Joaquim Neves.

- Ao menos vou eu - insistiu a carinhosa vizinha. - Não pode ficar lá só. Pode repetir-se...

- Não repete - certificou Angelina. -Já estou boa...

Joaquim Neves compreendeu que se devia retirar. Reconhecia-o dolorosamente, apesar do coração lhe ditar que ficasse, pois o seu préstimo poderia ser ainda preciso. Porém Angelina com o seco tratamento quase o despedia... Apesar da sua pouca agudeza, adivinhou os motivos. No entanto ainda pediu:

- Queria vir amanhã, saber da sua saúde, se me desse licença...

Angelina condescendeu:

- Olha, bate aqui à porta da senhora D. Maria, que ela te dirá como estou. É pessoa muito minha amiga.

E acrescentou com sorriso magoado:

- Mas não foi nada. Já passou. Do que preciso é de algum descanso... Fico-te muito obrigada por tudo, Joaquim.

Só D. Maria acompanhou Angelina. A mestra de piano ao despedir-se do caixeiro, quando ele se retirava, ofereceu-lhe amavelmente: «Quando quiser venha, que lhe darei notícias...» O rapaz com os olhos rasos de água disse-lhe à porta da escada: «Muito agradecido. Se me faz a esmola, voltarei...» Como procurasse esclarecimentos acerca da verdadeira situação de Angelina (se era casada e com quem) e só esta senhora lhos poderia fornecer, viria pedi-los à sua piedade, para com uma alma atormentada como a dele andava. Em troca, Joaquim dar-lhe-ia conhecimento completo de tudo que se passara em Braga, desse tristíssimo abandono da casa e da família, por uma menina toda religião e virtude. Com tais intimidades satisfaria a natural curiosidade de quem lhe parecia tão boa e caridosa. O pobre rapaz, sem bem saber explicar o facto, reconhecia que o seu amor por Angelina aumentara nos últimos instantes, perante a extraordinária visão da morte da sua amada. Nunca a vira tão formosa, como quando a julgara sem vida e com aquela palidez fidalga das santas dos altares!... O seu rosto sereno e angélico era dum encanto e de uma beleza superior à do rosto das mais lindas mulheres... No meio da sua grande aflição gozara um indefinível momento de ventura, enquanto a tivera nos braços. Este prazer só lho poderia proporcionar a desgraça! Quase bendizia o acontecimento que tanto o atormentara!...

Com a imaginação repleta dum deleite angustioso, consumiu o resto desse dia, vagueando pelas ruas de Lisboa, sem comer, cheio de sentimentos nobres, que o colocavam acima das condições triviais. Assim andou até à noite passando e repassando muitas vezes na Moeda, sítio onde parava sempre, contemplando de longe as janelas de Angelina, sem propósito definido, num gozo de louco dentro da sua loucura.

A D. Maria Gomes acompanhara a amante de Salústio, que subiu a escada sossegada, mas abatida. Avaliando-lhe o parecer de quase indiferença, como de pessoa que vivesse ausente da própria infelicidade, julgou que da memória de Angelina se varrera como um fumo a notícia do jornal. Não seria ela quem lha recordaria; bem lhe bastara a primeira experiência de que tão dificilmente saíra...

Porém, pouco depois, do peito oprimido da amante de Salústio saiu um ai! Denunciativo de que a sua dor se conservava profunda e inolvidável. D. Maria compreendeu imediatamente que se enganara e logo se preparou para novo golpe! Com piedoso intento de valer à pobre rapariga, assentou em não a abandonar enquanto a visse naquele mau estar. Com voz cheia de carinho suspirou:

- Ah! minha rica filha! Este mundo é de aflições e desenganos; todos nascemos para tristezas. Angelina sentara-se com o cotovelo encostado à mesa, a cabeça apoiada na mão. Olhava com funda tristeza o soalho. A voz lamentosa da pianista, despertando-lhe o sofrimento, recomeçou um choro copioso, que enchia de tristeza o ambiente.

- Não seja assim esmorecida - pedia-lhe a mãe de Augusto. - Olhe que me aflige também... Neste mundo há remédio para tudo, menos para a morte. Essa sim, essa é que não tem remédio.

- Pois a morte é que eu queria - pronunciou soluçante Angelina.

- Para isso há sempre ocasião. Não diga coisas sem juízo. Vamos conversar, ouça-me...

Não ouvia. O seu pranto era de cada vez mais sentido, corriam-lhe as lágrimas em bagas como gotas de fonte milagrosa. Dizia-se a mulher mais infeliz do universo, não havia outra que tanto houvesse sofrido.

- Estou condenada por Deus e pelo mundo!

- Não é - contraditava-a a mestra de piano. - Lembre-se da Madalena. A menina conhece a história da Madalena, a quem Nosso Senhor perdoou?... Pois lembre-se dela...

Eram perdidas as consolações, que Angelina não aceitava. A sua culpa era maior que a de todas as Madalenas, que não abandonaram um pai e uma mãe como a sua, que a estimava tal-qual a menina dos próprios olhos. A felicidade quieta, que desprezara nessa tremenda noite de chuva em que fugira de casa, nunca mais a encontraria! Tal loucura só se podia compreender admitindo-se que fora o demónio em pessoa que lhe tomasse o corpo virginal, para a descer do muro e a levar pelo Campo da Vinha, entre lufadas de vento e chuva! Ah! aquelas badaladas fatídicas, que ouvira caindo espaçadas duma torre quando ia a fugir, em toda a sua vida, de séculos que ela fosse, sempre lhe ficariam no ouvido, como dobre de finados!... Que infinita dor lhe despertavam tais lembranças!...

- Minha santa mãe, meu querido pai! Muito vos tenho feito sofrer!... Perdoai-me! - exclamava.

- Isso! Isso! Se a gente escutasse os conselhos dum pai e duma mãe, não haveria tantas desgraçadas. Nós ambas o sabemos por experiência. Mas o que não tem remédio, menina, remediado está...

Nem consolações, nem meiguices, nem conselhos podiam abrandar o estado aflitivo de Angelina. D. Maria abraçava-a, beijava-a, pedia-lhe em nome do Senhor dos Passos da Graça e da Virgem da Penha, sem nada conseguir. Como assim não pudesse amortecer-lhe o sofrimento, lembrou-se de lho diluir em maior caudal de lágrimas. Talvez esta nova táctica desse melhor resultado, já a vira praticar com êxito, em muitas circunstâncias...

- Chore menina, chore. Isso alivia. Deixe sair toda essa aflição que tem lá dentro.

Angelina, com o rosto escondido entre os braços assentes na mesa, dizia palavras incoerentes, frases sem ligação, irracionadas como era a sua dor. Com o incitamento de D. Maria cresciam-lhe os soluços, os gritos e os lamentos...

- Nasci em má hora!... Melhor morresse ao ver a luz do dia... E deixo cá no mundo uma infeliz, que não tem culpa do meu pecado... Rica filha da minha alma!...

- Jure, descarregue, fale na sua filha, que lhe há-de fazer bem.

Passado tempo, veio o natural cansaço, o abandono das forças que davam incremento ao sofrer. A expressão do sentir era mais branda, as queixas já espaçadas, o pranto reduzido. A mestra de piano percebeu a aproximação do período de calma. Quase triunfante, porém em voz que não fosse provocativa, opinou:

- Eu não disse? Chorar faz bem. É remédio muito antigo.

E quando a pobre Angelina só interrompia o seu silêncio com suspiros desligados, a sua amiga acrescentou:

- Bem. Agora diga-me uma coisa: Que tenciona fazer?...

- Nada. Perguntarei a Salústio se essa notícia é verdadeira.

- E se o for?

- Afogo-me.

- Tolice. A mim não me sucedeu o mesmo e afoguei-me?

- Eu afogo-me! - repetiu Angelina.

- Mas a senhora tem uma filha, como eu tenho um filho - repreendeu.

- Afogamo-nos ambas - insistiu a amante de Salústio, mostrando na acentuação das palavras coragem para tamanho acto de desespero...

- Nem a pequena está cá, nem que estivesse a polícia deixava! - ameaçou D. Maria Gomes. Angelina não respondeu; mas que se importava com a polícia? Ninguém a poderia impedir de, ela só, ao menos, abalar de casa, de noite, dirigir-se ao Aterro, procurar sítio onde a água fosse muita e latejasse contra a muralha, para se atirar abaixo e desaparecer no frémito das ondas. Seria a solução simples e lógica da sua vida desastrada. Que fazia neste mundo, tendo perdido a única consolação que desejava, a de ir um dia a Braga, já casada com Salústio, receber as bênçãos e o perdão de seus pais?!... Se o deputado preferia outra para companheira legítima, a vida transformava-se-lhe numa vergonha, numa coisa repelente. Qual a maneira, então, de tudo acabar? Era matar-se, desaparecer para sempre, que ninguém mais a visse!... Afogada ou por outra maneira, o essencial era sair do mundo, terminar este existir, que se lhe tornara intolerável.

  1. Maria Gomes não querendo provocar de Angelina outras respostas desarrazoadas, mudou de assunto, perguntando-lhe:

- Que quer que se diga a esse rapaz, que aí virá saber da menina?!...

- Que me deixe em paz pelo amor de Deus!...

- E se tiver lido a notícia do jornal e falar nisso...

- Tem ele alguma coisa comigo?! É meu parente?!... - pronunciou com altivez.

- Bem... bem... - tornou-lhe a mestra de piano, vendo-a tão falta de cordura.

Mas em tom maternal, prosseguindo num longo ar razoado, de como podia dirigir-se a Salústio para o reconquistar, aconselhou:

- Fale-lhe ao coração. Chore. Mande buscar a pequena e mostre-lha nos braços, lembrando-lhe os juramentos. Quer que a venha ajudar?...

- Muito obrigada... - respondeu com simplicidade. - Falarei só!...

  1. Maria ao achar-se no patamar da escada, depois de sair, exclamou consigo mesma:

- Ah! homens!... Ah! verdugos!... O que vós quereis é desfrutar! Gozo e mais gozo e as escravas que se aguentem. Carrascos!... Algozes!...

A amante de Salústio, logo que ficou só, principiou a sondar a profundidade da sua desgraça. A existência apresentava-se-lhe como confusão inextrincável! Num dos romances do Jornal do Comércio, lera (e este quadro ficara-lhe na memória) que surgiam no alto mar nevoeiros tão densos, que os navios permaneciam quietos durante dias e noites, por não conhecerem o rumo a seguir, nem os perigos mais próximos. Assim se sentia era na vida. Que devia fazer? Interrogar altivamente Salústio?... Procurar abrandar-lhe o coração com rogos e lágrimas? Matar-se na sua presença, no caso de ser verdadeiro e irrevogável o tal casamento?

Tudo escuro, tormentoso e desesperado! O sol do dia seguinte amanheceria para ela triste e sem esperança de novos risos. Só poderia ver aumentados os seus desgostos, já enormes! Assim, por uma espécie de reminiscência inconsciente, própria das pessoas extremamente sensíveis, lançou-se no vago das crenças religiosas, que tinham enchido toda a sua infância e mocidade.

Foi a uma gaveta da cómoda buscar a imagem da virgem do Sameiro, da qual fora sempre excepcionalmente devota. Tinha-a guardada com outras e com o retrato de Salústio numa caixa, cofre das coisas preciosas, estimadas do seu coração: eram veneras de santos e santas, estampas coloridas representando virgens de rostos menineiros, suspensas num céu azul, com flocos de nuvens ao redor. Santa Úrsula e Santa Teresa tinham olhares denunciativos de cilícios ocultos, revelados nas lágrimas de aspiração celestial. Santa Cecília, conceituada mestra de música em toda a cristandade, estava em atitude de êxtase, tocando órgão, ainda que entre os pregadores de Braga corresse que o seu instrumento predilecto era a harpa, a qual se via a um lado, para atestar o valor histórico desta opinião. Santa Cecília tivera sempre, entre as meninas minhotas, apreciáveis cantoras de novenas, considerável reputação musical.

Porém, só as imagens suas familiares prendiam, neste momento doloroso, o coração de Angelina - a da senhora de Guadalupe e a do Sameiro, que lhe sorriam cercadas de anjos. Como todas estas divinas criaturas eram felizes, tendo passado a sua vida de pureza, no santo amor de Deus! Nenhuma das baixas misérias terrenas haviam maculado as suas reputações e os seus corpos. Existir nesse invejável estado virginal, nesse meigo estado de sensibilidade, que gera o sereno equilíbrio de alma, em que se criam as aspirações cândidas e sublimes da ventura eterna, considerava-o a antiga confessada do padre Martinho, como prazer único e sublimado, sempre puro, sempre grande!...

Entre as diversas estampas benzidas, estava o retrato do deputado!... Apesar de todo o mal que este homem lhe estava causando, olhou-o com indizível doçura, conservando-se muito tempo a contemplá-lo. Era a mesma fotografia que ele lhe mandara, quando haviam começado o namoro. Que amálgama de recordações tristes, mas impregnadas de carinho, este cartão resumia!... Então, Angelina era para Salústio... anjo, amor e vida!...

- Agora   não   sou   nada!   -   pronunciou   deixando   cair   a   cabeça,   num   desfalecimento dolorosíssimo.

Veio-lhe pelo peito acima uma onda de fervor e crença viva. Talvez aquelas funestas palavras do jornal incluíssem qualquer mentira insensata. Tinha um veemente desejo de absolver o seu amante, de acreditar o contrário do que lera... Mas não tinha ela a confirmá-lo, a desenganá-la o procedimento dos últimos tempos, em que se via tão desprezada? Passavam-se dias em que Salústio mal lhe dirigia a palavra; outros em que vendo-lhe lágrimas, lágrimas saudosas pela sua terra, pela sua gente, pelo seu amor extinto, pela sua dedicação desapreciada, nem uma leve pergunta de vulgar interesse lhe dirigia... Já a não acarinhava, como nos primeiros tempos de Lisboa... Mas ela era boa, esforçava-se por não reconhecer o desumano procedimento do amante. Ser-lhe útil e proveitosa, era a sua maior consolação. Queria continuar sua escrava, servi-lo humildemente, só para não sair da sua companhia... Estava habituada à vida de sujeição, sem fito em qualquer espécie de recompensa. Fora sempre este o pendor do seu espírito: em casa de seu pai trabalhava dia e noite, como qualquer criada assoldada. A mudança para Salústio não lhe diminuíra a coragem na dura e obscura labuta da existência. Viver para o homem que a seduzira com promessas, que desfolhara a flor de candura do seu corpo, era sacrifício necessário à sua generosa alma. Empregar-se em bem o servir era a mais ardente aspiração da sua alma simples. Só impunha uma condição – era que Salústio a não trocasse por outra. Agarrou-se a esta ideia, salvadora da sua felicidade, com tal força de querer que até os seus lindos olhos vertiam lágrimas contentes. A senhora do Sameiro, à qual nunca deixava de fazer as suas orações e súplicas diárias, havia de ouvi-la, havia de protegê-la. Nela residia todo o poder: Rainha do céu e da terra, nada lhe era impossível; todos os mortais tinham a sua vontade sujeita àquela poderosa influência. Suplicou, pois, à imagem querida, num enlevo de prece, como se a tivesse ali, ao alcance do seu olhar devoto, tal qual a adorara na sua capela:

- Minha rica Senhora, não me abandoneis. Ele prometeu casar comigo e não pode ir agora casar com outra. Inspirai-o para que não desgrace uma pobre rapariga, que não tem hoje nenhum amparo neste mundo, a não ser o dele. Haveis de fazer este milagre, minha rica Senhora do Monte Sameiro!... Haveis de estender a vossa infinita misericórdia sobre esta infeliz, que sempre foi vossa escrava!...

Beijava fervorosamente a estampa, com o retrato de Salústio sobre o coração. As súplicas distribuíam-se pelos únicos grandes poderes, que lhe prometiam ventura eterna - a incomparável força divina e a força do amor, que lhe nobilitava a alma. Achava-se enlevada na confusão destes dois sentimentos. A imagem tinha-lha dado sua mãe por ocasião duma festa; o retrato fora prenda de Salústio, que lhe afirmara que, ao tirá-lo no Campo da Vinha, em Braga, a tivera sempre no pensamento. Como se considerara feliz quando isto lhe ouvira!... Tempos lindos, tempos ditosos os de outrora, em que as promessas do namorado lhe enchiam de magia os sonhos e acordava de manhã com a ideia única de o ver!

- Oh! mas isto não pode acabar! É impossível! Ele não é um monstro!...

 

Depois de tamanha luta, Angelina encontrou-se abatida, num desconsolo marasmático, mas raciocinado. Era indispensável aclarar a situação, pedir explicações a Salústio, logo que ele chegasse. Porém que palavras empregaria para o interrogar?... Todas as que lhe vinham à mente, acariciando-as com esperança de que lhe assegurariam o amor do amante, em breve as rejeitava por inconvenientes ou precipitadas. Podiam-lhe trazer um desengano, que ela mais temia do que o desejava... O seu receio justificava-se pelo abandono em que se encontrava: era só no mundo, Salústio o seu único arrimo, pois coragem não tinha de voltar à família, com o testemunho queridíssimo da sua vergonha nos braços. O deputado entrou alta noite, deitou-se alegre, almoçou risonho no dia seguinte, saiu calçando as luvas, com a bengala debaixo do braço; ela ficou, sem ter tido o valor de soltar um só gemido que conduzisse ao melindroso assunto.

  1. Maria Gomes, essa, no andar de baixo, conservara-se todo o santo dia com o ouvido alerta, numa ansiedade maternal, que lhe oprimia o coração. Calculara que poderia haver altercação violenta, que fosse necessário acudir a alguma desordem, pois julgava aquele malvado capaz de maltratar a pobre rapariga, mesmo de a matar, se a cólera a isso o levasse! Estava-lhe com raiva desde que o deputado não fizera caso do seu pedido, para que ela conseguisse chegar à presença de el-rei!...

Além disto consubstanciara-se com a imensa infelicidade de Angelina, a sua imaginação vivia dentro desse drama obscuro e tremendo, sentindo-o vigorosamente, com tanta força como a desventurada protagonista. Na inquietação de saber os pormenores e de acompanhar a sua desditosa amiga, andou toda a manhã à escuta, aparecendo na janela da cozinha, nas da rua, saindo à escada e subindo até à cancela, numa ansiedade de mãe. O seu olhar era perturbado, apreensivo, nem tempo tivera de almoçar, metendo apenas na boca duas colheradas de açorda. Ao meio-dia, ainda despenteada, o vestido roçado e velho, toda condoída pela tristeza que lhe dominava o ânimo, esperava seu filho que viria da guarda do Paço... Logo que ele chegasse contar-lhe-ia tudo pelo miúdo e havia de convencê-lo a que ficasse em casa, até que Salústio saísse, pois a sua presença poderia ser necessária para intervir em qualquer conflito ou desgraça. O infame poderia espancar a mãe de seu filho, quando esta lhe exigisse a reparação à sua honra, e tal é que ela não podia consentir, ainda que tivesse de chamar socorro da janela, num alarido capaz de alarmar a cidade!...

Por isso, quando sentiu descer o deputado com passadas lentas, cantarolando, ficou mais esperançada; logo que o avistou na rua, subiu ofegante e ainda de fora da cancela perguntou com palavra urgente:

- Então?!... Então?!...

- Nada... Não tive ânimo - respondeu Angelina num deplorável abandono de toda a sua energia.

- Ah! filha! Que manhã e que noite! Não lhe preguei olho...

E gesticulava baralhadamente com as mãos, para significar um estado complicado de espírito.

A noite para ela - disse - talvez tivesse sido mais atormentada do que mesmo para Angelina. Passara-a quase sem dormir, a todo o instante na iminência dum ataque asmático provocado pelo susto. Tinha-se deitado vestida, pronta ao primeiro rumor que sentisse. O apito ficara-lhe à cabeceira com o fim de chamar a polícia, se fosse necessário. Como desse grande valor à coragem dos homens e seu filho não estivesse em casa, chegou, por mais de uma vez, a sair alguns passos fora da porta, para prevenir o vizinho do segundo andar, um de óculos e barba toda... Queria pô-lo ao corrente do que se passava no prédio, inteirá-lo de que em breve se poderia dar uma grande tragédia, em que ele teria de tomar a sua parte. Que sono cheio de sobressaltos com alucinações auditivas, em que chegara a perceber gritos de estrangulamento e o estrebuchar duma vítima no último arranco da morte!... Quantas vezes julgou chegado o momento de acudir àquela rapariga indefesa, atormentada pelo verdugo da sua honra e da sua vida!... Duma vez sentara-se na cama no intento de alarmar a vizinhança, gritando da janela; mas como readquirisse o sentimento da realidade, e auscultando a escuridade da noite ouvisse apenas o tic-tac do seu relógio na casa de jantar, deitou-se outra vez, porém sempre atenta, na generosa ideia de sacrifício e socorro. O coração e o cérebro nutriam-se-lhe de piedade por tamanho infortúnio, o procedimento de Salústio considerava-o de tal modo bárbaro, que poderia arrancar lágrimas a uma fera dos sertões africanos.

Ao apreciar o rosto sereno, ainda que de uma expressão magoada, de Angelina, indagou, sentando-se numa cadeira da casa de jantar:

- Então não lhe disse nada?

- Não, minha senhora.

- Mas a menina está assim a modo de mais alegre...

Esta reflexão ofendeu a amante de Salústio, como se a acusassem de não ter sentimentos, nem

vergonha! Começou de novo a soluçar, com a cara escondida, de bruços sobre a mesa. O seu tronco tinha movimentos de angústia, todo o corpo lhe estava possesso de dolorosa aflição. Abafava os suspiros, queria esconder o choro, sem o conseguir, apesar dos potentes esforços para se calar. D. Maria Gomes mais uma vez se reconheceu responsável daquelas lágrimas, que provocara. Por isso, principiou a dizer-lhe: «Bem, bem!... Não se ponha com essas coisas! Se eu soubera...» Queria tranquilizá-la, recomendar-lhe coragem e fortaleza, era melhor esquecer tudo aquilo. «Mas, porque não tinha falado ao doutor? - repreendia-a docemente - porque se não desenganara? Era necessário cada um saber a lei em que vivia!»

Terminada esta nova explosão de lágrimas, Angelina explicou: Não tivera coragem. Chegara a abrir a boca, mas faltara-lhe a palavra. Vira-o durante o almoço, com um rosto tão alegre!... Estivera comunicativo e contente, inteirando-a de coisas da sua vida de aspirações, afirmando que em breve a colocaria melhor, prometendo-lhe mais vantagens na existência. Salústio parecia feliz e, nesse dia mais do que nos outros, procurara envolvê-la nos variados acidentes da sua ventura.

A antiga mestra de piano, sorrindo com amargura, duvidou. Ela também fora iludida com promessas, que eram tanto mais risonhas quanto mais próximo vinha o momento do desengano. Não devia acreditar tão facilmente no que diziam os homens, que só fazem caso das mulheres quando precisam delas. Provavelmente o riso, o contentamento, a alegria excepcional que lhe encontrara, era antes um sinal de tudo ir bem com a outra, que era rica, do que uma prova de não haver nada.

Angelina rebateu calorosamente a maléfica interpretação. Não acreditava na sua boa estrela, pois em todas as coisas tinha sido infeliz; mas, aquela notícia conforme a dera no jornal, não podia ser verdadeira... Talvez apenas algum simples namoro, destes que todos os homens têm, para passar o tempo!... Nos papéis mente-se muito - ouvira dizer. Salústio, quando lhe falara das suas esperanças, referia-se, decerto, às de ser ministro, que era o que ele principalmente ambicionava, desde que era deputado. Do tal casamento não lhe vira parecer... Salústio nunca fora fingido e, se estivesse para praticar uma acção tão infame, decerto teria cara de crime e de remorso, que lhe não descobrira, pois até a fez sentar junto dele à mesa, o que nem sempre fazia e dera-lhe muitos beijos nessa manhã, perguntando-lhe como estava a pequena.

  1. Maria Gomes mostrou-se pertinaz na incredulidade:

- Ora, minha rica, a senhora anda a ler! Desconfie-me deles: Quando fazem dessas coisas, ou já a pregaram, ou estão para a pregar. O alferes Carvalho não foi o mesmo comigo?! Quando partiu para a ilha, só queria que o visse, chorava que parecia criança! A bordo apresentou-me aos seus amigos, como a sua noiva. Ora, depois, eu soube por um desses, que passados tempos também me namorou, que ele, quando saiu de Lisboa, já tinha o casamento justo com a tal prima, que era rica! A quem a menina vem dizer dessas, a uma mulher desenganada!...

Angelina sofria imenso com tais palavras. Empregava toda a força, para as repelir da sua alma; mas não o conseguia completamente. Os olhos quase lhe rebentavam com lágrimas represadas... E para se defender, defendeu Salústio:

- A senhora não conhece o meu... Gosta muito de mim e não é como os outros...

- Gosta muito de si?... E o meu alferes Carvalho não gostava de mim?... São todos os mesmos

- opinou cepticamente D. Maria Gomes. - Verá se ele lha não prega... Tão certo, como dois e dois

serem quatro...

A amante do deputado não se pôde conter. Por mais enérgica que fosse a vontade com que se opunha às palavras desanimadoras da sua amiga, tinha uma voz interior a gritar-lhe que eram verdadeiras! Os olhos embaciaram-se-lhe. Grossas lágrimas principiaram a rolar pelo seu formoso rosto, de uma serenidade contraditória e artificial... A expressão daquele sofrer silencioso mostrava-se assim mais profunda e grave; pois que Angelina procurava não a deixar sair de si, opondo-se energicamente a desalentos. Era de uma dignidade tocante a intenção desta infeliz, que não aceitava consolações, só para evitar censuras ao procedimento do único homem que amava. D. Maria Gomes reconhecendo-o apiedou-se e mais uma vez se arrependeu de atormentar aquele santo coração. Em virtude disto principiou a desdizer-se:

- Que de modo nenhum lhe quero tirar as esperanças. Esperança até ao fim! Quem sabe?! Talvez o jornal minta, como a menina diz. Mas isso mesmo é necessário saber-se, para seu sossego. Viver assim é um inferno! Mil vezes um desengano! Um desengano é que é necessário. Fale-lhe. Hoje quando ele vier ao jantar fale-lhe claro, diga-lhe que quer saber a quantas anda.

Para minorar a dor de Angelina, cuja erupção ela de novo ocasionara com imprudentes palavras, é que se mostrava resolvida a fazer entrar o problema num caminho mais prático. O seu espírito exigia uma solução pronta. Angelina não devia permanecer nesta incerteza, pior que a verdade; ainda que a verdade fosse má. Chegava a parecer cruel ao dar tais conselhos, numa voz natural e confidente, concluindo com certa parcialidade na pronúncia:

- Esse pobre rapaz, o caixeiro que foi de seu pai, desde ontem que me não deixa a porta. Olhe que a ama lá de dentro, fique certa disso... Eu conheço bem, quando eles são fingidos!...

A amante de Salústio não recebeu de bom agrado estas palavras. Secaram-se-lhe as lágrimas. Que se importava Joaquim com a sua vida? Era, porventura, sua irmã, sua parenta, ou prometera-lhe, ela, algum dia a sério qualquer coisa? Salústio ameigara-a, nessa mesma manhã tinham conversado muito a bem... Que mais podia desejar para ser feliz?! O jornal decerto mentira. Ainda que ela no primeiro momento tivesse sucumbido, dando uma prova de fraqueza acreditando-o, isso já passara e agora poucas dúvidas lhe restavam acerca das boas intenções do deputado.

  1. Maria, continuava a ter um aviso diverso, ainda que falasse com prudência, para lhe não causar outro ataque de choro. Angelina devia ser mais difícil e até mais exigente nas explicações com o deputado, para saber em que pé viviam... Um desengano que lhe viesse mais tarde, seria mil vezes mais doloroso. E de pé, aproximando significativamente o seu busto com certo império na expressão, disse:

- Ora ouça. Isto é para seu bem. Que perde a senhora, se pegar no jornal, que aqui lhe trago (mostrou o Diário de Notícias que tirou de um bolso)   e o puser diante dos olhos do doutor, perguntando-lhe se isto é verdade!? - rematou, indicando com o dedo o ponto do periódico onde estava a funesta notícia.

- Ele pode zangar-se! Às vezes tem tão mau génio... - objectou Angelina.

- Faça como lhe parecer! - disse a antiga mestra de piano com despeito... Eu cá era logo, não tinha paciência... nem papas na língua. Se for mentira, melhor, ficamos todos descansados.

- Nisso tem a senhora razão... - considerou a amante de Salústio, um tanto indecisa.

A D. Maria Gomes, como lhe parecesse o momento azado, insistiu:

- Ele não vem hoje a casa? -Vem...

- Então aí está! No fim do jantar ponha-lhe esta sobremesa diante (estendeu de novo o braço, com o Diário de Notícias na mão). Ou cova, ou dente... Que responda! - aconselhou triunfante, calculando um golpe de efeito.

Angelina não se decidia... Ela ofereceu-se:

- Quer que eu cá venha pô-lo entre a espada e a parede?! Não me custa nada. Entro, mostro o jornal, como quem leu a notícia por acaso e lhe vem dar os parabéns pela rica obra (pronunciou sarcástica e agressiva) e veremos o que ele responde. Sempre há-de responder alguma coisa...

Talvez para não consentir na desarrazoada interferência de D. Maria, Angelina mostrou-se resolvida:

- Quando ele hoje vier da câmara... - prometeu.

- Isso. Mas deixe-o jantar primeiro. No fim pregue-lha. Quer que eu venha? - tornou a prestarse.

- Não, minha senhora, falarei só.

- Bem - rematou satisfeita. - Então espero da sua palavra... E a D. Maria cá está em baixo, p’rò que der e vier, seja o que for... - concluiu enérgica e resoluta.

Quando, depois das seis horas da tarde, Salústio Nogueira subia a escada, com aquelas suas passadas imponentes, que todos os vizinhos já conheciam, a mestra de piano ficou ainda mais inquieta do que estava! A prolongação deste estado indefinido e cheio de mistério excitara-a... Seu filho Augusto, ao corrente dos acontecimentos que se preparavam, permaneceu em casa a seu pedido, para acudir, se fosse necessário. O ruído das botas rangentes do deputado, andando no pavimento superior, era cuidadosamente seguido por D. Maria, pelo tenente e pela criada, todos de ouvido à escuta. Uma catástrofe estava iminente e os três haviam concertado um plano de apropositada intervenção: Ao primeiro barulho, D. Maria subiria a escada só, tocaria a campainha e se a deixassem entrar, apreciaria, por si, como as coisas se passavam. Se considerasse o caso mal parado, principalmente havendo violências contra Angelina, daria alarme. Fora da porta, na escada ficava seu filho, em baixo logo a criada com o apito na mão para chamar a polícia, logo que ele desse duas pancadas fortes, com o tacão no soalho. O tenente Augusto, que se arreceava de complicações com um deputado de tanta influência perante o ministro da guerra, observara: «Mas que diabo temos nós com isto!» Sua mãe, que via uma inqualificável injustiça no procedimento de Salústio, rebateu energicamente este modo egoísta de considerar o facto:

- Que temos nós com isto! Mas é uma pouca vergonha! Teu pai...

Ia vociferar, mais uma vez, contra o seu antigo amante, censurando-lhe o infame procedimento! Porém o filho, com medo de que sobreviesse algum daqueles aparatosos ataques de nervos, que exigiam a procura de médico, e o obrigavam a ficar em casa, não podendo ir ver a sua rapariga, concordou logo, pedindo-lhe silêncio com a mão aberta:

- Pois bem, pois bem... Vamos lá...

O incidente esperado pela mestra de piano, ainda se não produziu nessa noite. Salústio, depois de jantar, desceu as escadas com a lentidão de um ventre farto, sem se ter produzido qualquer barulho!... Em cima um sossego de felicidade. D. Maria ficou mais contente, ainda que bastante desiludida em relação à sua perspicácia. Mas fora melhor assim - pensou. Se se tivesse verificado que a notícia era verdadeira, aquela pobre rapariga morreria de dor e ao desamparo; porque, além do amante, não tinha mais ninguém no mundo, visto os pais a terem abandonado completamente.

- Para que se dizem certas coisas nos jornais, para que se inventam estas mentiras! apostrofava indignada.

- Para fazer sensação - esclareceu o tenente Augusto, ao despedir-se de sua mãe.

A mestra de piano, toda esperança, subiu ao quarto andar para conversar com Angelina e darlhe os parabéns. Esperava encontrá-la alegre, contente e feliz. Foi grande o seu espanto, vendo-a verter copiosas lágrimas, as olheiras afogueadas e rosto de suprema aflição.

- Então que é? - perguntou surpreendida.

E como a amante de Salústio não respondesse logo, acrescentou:

- Sempre é verdade??...

Angelina não sabia ao certo. Salústio entrara em casa com um rosto tão carregado, que ela não se atrevera a dirigir-lhe a palavra. Porém tinha uma voz lá dentro a segredar-lhe que tudo era como o jornal anunciava. O coração agoirava-lhe alguma coisa de funesto... Triste sorte, triste sorte!... Merecia melhor a Deus! Nunca praticara grandes pecados, para que fosse tão duramente castigada pela Providência! A não ser a falta de se entregar dedicadamente àquele homem, desobedecendo aos conselhos do confessor e a seus pais, dando-lhes um grande desgosto, não tinha mais nada de que se arrepender! A sua vontade era matar-se, atirar consigo de uma janela abaixo, espapar-se no pavimento da calçada, antes de vir ao conhecimento positivo e terminante da sua infelicidade! Queria morrer, queria acabar de uma vez, procurando modo de terminar esta vida tão cheia de ralações.

  1. Maria Gomes, neste instante, vendo Angelina triste e apoquentada, entendeu que lhe devia dar coragem. Por isso sorrindo de um modo trivial, para lhe amesquinhar o acontecimento disse-lhe:

- Tolice, grande tolice! Quem é que fala aqui em mortes?!... A senhora tem muito para que viver, tem a sua filha. Demais, acredite em Deus que é grande e bom. Explique-se hoje com o doutor, para saber no que devem ficar. Ponha-lhe a faca aos peitos, logo que ele entre à noite, ou o mais tardar amanhã de manhã... Conforme responder, veremos... - concluiu com modo protector.

Parolou muito tempo diante de Angelina, que, toda entregue à sua aflição, mal a escutava. O que tivesse de ser estava escrito e a gente tem obrigação de pôr o coração à larga. O que não tem remédio, remediado está. Ela não passara pelo mesmo?... Passara, e contudo vivera, trabalhara, organizara a sua vida. Neste momento dizia-lhe as coisas com a maior franqueza: - nunca tinha acreditado nas promessas do deputado. Parecia-lhe fidalgo e soberbo de mais para ligar o seu destino ao de uma rapariga, sem outro merecimento além do muito amor que lhe tinha!... O amor pronunciava irónica - eles importam-se bem com o amor... O que querem, estes senhores, é gozar e o mais adeusinho... Havia exemplos de indivíduos de grande posição, casarem inclusivamente com as suas criadas?!... Havia, ela mesma conhecia alguns desses homens raros, tão raros, que se podiam contar pelos dedos. Era milagre que se dava poucas vezes. Salústio não tinha cara de ser desses!...

- Oh! minha senhora! Não me diga isso que me despedaça o coração! Eu ainda tenho esperanças!...

- Lá esperança, até à última - concordou D. Maria. - Fale-lhe, acuse-o, chore, mande buscar sua filha, suplique-lhe com ela nos braços, se tanto for necessário. Se o monstro já não tiver resquícios de piedade no coração, no céu ainda encontrará remédio. A Providência é grande, minha rica filha, fiemo-nos sempre na Providência, como dizia meu tio cónego, o grande pregador da Sé.

Nesta luta de incertezas e palavras Angelina perdia a força própria para resistir; ficara mais fraca e abatida, entregava-se submissamente a esta vontade que já a dominava. A sua desforra era chorar, e se com lágrimas não pudesse mover Salústio à compaixão, só a morte lhe traria descanso. Quando D. Maria Gomes lhe repetiu, mais uma vez, que Joaquim Neves se lhe não tirava da porta a perguntar notícias dela, a interessar-se e fazer perguntas acerca da sua vida, a amante do deputado ainda teve energia para se revoltar, pois via no procedimento do caixeiro de seu pai qualquer inquérito e talvez uma repreensão à sua falta.

- Que não volte cá; porque Salústio pode encontrá-lo e temos desordem... Eu disse-lhe que tinha casado, o melhor é a senhora fazer o obséquio de lhe dar a entender que meu marido é muito desconfiado e zeloso...

  1. Maria Gomes sorriu:

- Então pensa que ele comeu a patranha?... Pelos jeitos com que me falou, vi que também tinha lido o jornal...

Angelina tornou-se pálida!... Tumultuou-lhe no cérebro o seu passado de cândida pureza, agora transformado em vergonha! Joaquim conhecera-a virtuosa e vinha encontrá-la concubina de um homem que ia casar, e provavelmente lhe fazia a afronta, como todo o mundo, de acreditar que, apesar disso, continuaria a servir-lhe como amante... Se Joaquim Neves lera a notícia, como havia de julgá-la mulher desprezível, pois necessitava mentir para esconder a sua situação abominável! Todo o sangue se lhe recolheu ao coração e ao cérebro. Esteve alguns minutos sem falar, calculando o que faria. Nessa noite, ou quando muito no dia seguinte, havia de explicar-se com o deputado. Se o caixeiro lera a notícia do casamento de Salústio!... Como havia de pensar mal dela, encontrando-a ainda na mesma casa com um homem que a ia trocar por outra... De repente a alma transformou-se-lhe e adquiriu energia bastante para seguir caminho determinado, depois de assentar numa resolução.

- Deixe-me a senhora escrever uma carta a uma amiga, que isto agora vai... - prometeu à mestra de piano.

Pelo tom decidido com que assegurara o intento em que estava, D. Maria acreditou que, desta vez, sempre seria certo. Sentiu-se a mestra de piano aliviada de um grande peso. Apressou-se em sair, encorajando Angelina e repetindo o oferecimento para a ajudar, se necessário fosse. A filha de Pedro Alves agradeceu, mas não aceitou. Os seus olhos enxutos significavam certeza no cumprimento dum determinado propósito! Logo que ficou só, começou atarefadamente nos seus arranjos, como se planeasse longa e demorada ausência. Toda a sua roupa e a de sua filha meteu-a no mesmo baú. As coisas mais estimadas (jóias de insignificante valor, que trouxera da casa paterna, imagens de santos e retratos) guardou-as cuidadosamente em caixas de papelão verde. Principiou a arrumar tudo na casa, preocupada, como sempre, com a boa ordem e o asseio! Não queria que qualquer mulher mercenária, se ali viesse a entrar alguma, tivesse que dizer em seu desabono.

Qual o fim de tais preparativos? Ela mesma o não sabia... Porém a sua ideia era que poderia ter de sair precipitadamente daquela casa maldita, se o amante, nas respostas à pergunta que lhe ia fazer, fosse tão malvado que lhe tirasse toda a esperança. Em certos momentos sentiu necessidade de se sentar numa cadeira, para contemplar alguns desses objectos, que lhe recordavam um passado modesto e feliz... A sua vontade de chorar crescia, as lágrimas vinham-lhe desprevenidamente aos olhos; mas ela secava-as logo, levantando-se com energia a continuar a sua tarefa...

Antes da meia-noite Salústio subiu a escada. Raras vezes vinha tão cedo! Angelina armou-se com expressão facial comum e até prazenteira... O seu fim era esconder os tormentos do espírito, sob falsa aparência de tranquilidade, e conservar ânimo para dizer tudo o que tinha a dizer.

O deputado entrou de rosto alegre e expansivo; parecia que excepcional ventura lhe enchia a existência. Cantarolava a ária do Fausto: salve dimora casta e pura, trecho que nessa noite tivera sucesso em S. Carlos, havendo ele assistido ao espectáculo, do camarote de Leôncio de Mértola. Palmira mostrara-se excepcionalmente afável, compartilhando acerca da ópera as opiniões do deputado, que eram contrárias às do crítico José Torres, publicadas no Jornal do Comércio. Salústio percebia muito pouco de música; porém, a um homem da sua esfera, não era permitido ignorar coisa alguma, diante da mulher a quem desejava agradar. As suas apreciações acerca daquele poema de amor, gerado numa influência misteriosa e sobrenatural, a explanação prolixa que da sua ideia fizera, surpreenderam Leôncio, que sempre considerara o Fausto como uma dessas enormes patranhas teatrais, de propósito inventadas para a gente se não deitar antes da meia-noite! Salústio, dando grande valor às suas palavras, acentuou:

- Não, meu caro comendador, este drama é a interpretação, por assim dizer mitológica, da luta entre a inteligência e o amor, entre o coração e o cérebro. De um lado o saber do velho doutor Fausto, decrépito   e   descorajado,   não   encontrando   consolação   possível   no   seu grande   armazém   de conhecimentos; do outro a juventude e a força, renascendo sob o influxo e poderio extraordinário de Mefistófeles, que representa a natureza nas suas grandes revoltas... Oh! é grande!... E é poético, creia!...

O comendador retorquiu, com o seu largo riso de homem satisfeito:

- Seja como o amigo quiser; mas a verdade é que eu gosto imenso daquele diabo, e das suas gargalhadas, que me fazem cócegas cá por dentro.

A permanência do futuro ministro no camarote do rico negociante de trigos, durante dois actos, fora comentada e tida na conta da confirmação pública da notícia do casamento, que no dia anterior aparecera. Salústio, tendo percebido esta ideia a circular, fez completa exposição de sua pessoa, tomando lugar à frente no camarote, falando a Palmira animadamente, a inculcar pela conversa familiaridade de noivo. Lisonjeava-a com o desmerecimento propositado das senhoras de quem falavam: todas eram menos distintas, nenhuma tinha formosura que se aproximasse da de Palmira.

- Estão-na invejando imenso, acredite - afirmou passeando em redor o binóculo.

- Não diga tolices - repreendeu a filha de Leôncio. - Todas valem mais do que eu.

Angelina, logo que Salústio entrou em casa, de parecer tão prazenteiro, disse-lhe:

- Vens muito contente...

- Pudera! As coisas correm... - retorquiu, atravessando a sala de jantar, com a bengala ao ombro, na inclinação das espadas dos soldados da ópera, quando voltam contentes da guerra.

Depois, parando, explicou:

- O ministério em crise por estes dias... certa a minha entrada para a pasta da marinha... Leôncio de Mértola amigo cá do rapaz!...

Suspendeu rapidamente a informação, como quem se arrependesse... Angelina observou a medo:

- Bem sei... É o pai da tal formosa Palmira...

- Formosa Palmira! Como é que tu a conheces!

- Não conheço, não... Tu é que um dia falaste nela... e ontem, cá em baixo, em casa de D. Maria, também me leram num jornal...

Salústio atalhou:

- Ah! sim, uma coisa que vinha no Diário de Notícias! Acreditaste naquilo?

- Não é verdade?... - perguntou com sorriso de súplica.

- Não sei...

- Se não sabes... é porque o é...

- Talvez seja...

A filha de Pedro Alves, como já tinha o espírito prevenido, suportou corajosamente a declaração... Porém no seu rosto exprimiu-se tamanha tristeza dizendo: «Bem, fico abandonada», que o próprio Salústio, ao ouvir-lhe estas palavras, foi invadido por um sincero sentimento de piedade... Veio para ela meigo e carinhoso, abraçou-a com extremo afecto, prometendo:

- Mas eu serei sempre o mesmo para ti, podes crer! Suceda o que suceder, nunca te deixarei.

A Angelina rebentaram-lhe lágrimas com mais força do que se ele a tivesse injustamente esbofeteado! Deixou-se cair numa cadeira, escondendo o rosto nas mãos, para ocultar a grande aflição que a dominava e não ver o homem cruel, que assim lhe esmagava o coração. A sua dor enchia aquela casa, enchia a terra e o céu com soluços, que eram caudais de choro. Salústio procurava consolá-la; sentou-se junto dela, pegou-lhe na mão, falava-lhe com ternura de namorado... Eram exigências sociais que a isto o levavam; bem sabia que ele não podia amar outra mulher, senão ela! Porém... era pobre, neste mundo não se vive unicamente de palavras, estava farto de andar sempre com precisões de dinheiro a pedir a este, a pedir àquele... Se ia ser ministro em breves dias devia-o ao conde de Frazuela; devia-o a Leôncio de Mértola, que o empurrava com a sua influência de capitalista. O dinheiro pode tudo, pelo dinheiro tudo se move - considerava com certa pronúncia desolada e descontente. Mas nunca a abandonaria, - repetiu - havia de considerá-la sempre como a única mulher a quem amava... Este casamento, que estava tratado e já agora era indubitável, concedia-lhe meios para a poder sustentar com mais abundância do que até ali. No futuro não lhe havia de faltar nada...

- Mas é isso que me prometeste há dois anos? - disse Angelina com palavra nítida no meio do seu desespero.

- Ora adeus, ora adeus! Não te ponhas com essas coisas. A gente não vive de tolices. O que lá vai, lá vai!

- Era melhor não me teres desencaminhado. Eu estava feliz em casa de meu pai – retorquiu áspera e repreensiva.

- Mau! Se principiamos nessa afinação...

E pôs-se de pé, com aspecto de mal humorado. Estava-lhe parecendo que eram suficientes as explicações que tinha dado. Angelina devia considerar-se satisfeita, em o ver humilde e suplicante diante dela. Que mais queria, que mais poderia desejar? Com ar casmurro deu, silenciosamente, uma volta à mesa. Depois perguntou-lhe com voz firme:

- Ora diz-me cá: se tu encontrasses por aí um ricaço, um milionário que quisesse casar contigo, eu teria o direito de me opor para te conservar nesta pelintrice?...

- Mas eu é que não casaria com nenhum outro homem, ainda que ele me oferecesse o mundo inteiro.

- Pois eras bem tola. Não encontrarás duas pessoas da tua opinião - respondeu céptica e friamente.

Angelina, apesar de não poder exprimir com clareza as suas ideias, sentiu que o seu amante apresentava uma hipótese absurda para se defender. Não havia comparação possível, entre os dois, para o caso. Qualquer que fosse a sua formosura, não estava ela depreciada por Salústio? As mulheres não são como os homens, elas têm de morrer agarradas ao seu erro. Não há remissão, não pode haver esquecimento, todos falam disso, todos dizem: «É a amiga de Fulano!»

- Sou uma grande desgraçada! Antes eu morresse no ventre de minha mãe!... – pronunciou quase exausta.

O deputado irritou-se com a nova manifestação de queixa. Não tinha outras razões para a convencer. Se era parva, se não entendia as coisas, tanto pior para ela. Outro no seu lugar faria pior; abandoná-la-ia sem palavras consoladoras. Propunha-lhe compensá-la, tornar-lhe a vida abundante, até com luxo e ostentação... Não queria? Adeus: sua alma, sua palma. Não tinha mais nada a dizer, não achava digno de rebaixar-se mais, estar a pedir-lhe perdão. Talvez ela quisesse vê-lo ajoelhado e de mãos erguidas! Ora adeus!...

- Um casamento como o de Palmira Freitas, não havia homem nas minhas circunstâncias que o recusasse - afirmou com as mãos enterradas acintosamente nos bolsos, passeando junto da parede.

Então, a filha de Pedro Alves levantou a cabeça dignamente e pronunciou com energia:

- Mas eu é que vou ter com essa senhora, e digo-lhe o que tu me deves. Ela há-de ter coração. O deputado irritou-se com a ameaça e com a revolta daquela que sempre fora submissa.

Caminhou dois passos para ela e exclamou em tom irritado:

- O que eu te devo!... O que eu te devo!... O que é que eu te devo?!

- O casamento que me prometeste, que juraste pela alma da tua mãe! - respondeu altiva.

- Ora deixa a alma de minha mãe sossegada lá onde está... - disse sorrindo ironicamente. Porém, depois, tomando alento, cresceu para ela num arranque agressivo, chasqueando:

- Então pensas que um homem como eu vai casar com uma mulher como tu?! Ora, minha rica, outro ofício! É preciso verem-se as coisas como elas são.

E voltou-lhe as costas, encaminhando-se para o quarto, com a luz na mão, empurrando a porta com força...

Angelina ficou só na escuridade imensa! Não se sentia e não se lamentava: era uma pobre coisa esquecida num sítio ermo, só acarinhada pelo olhar inocente das aves do céu. Mas depois, num protesto cheio de lágrimas, começou a evocar baixinho, para não ser pressentida de Salústio, os nomes queridos de seus pais. Agachada, a face coberta com as mãos, conhecia-se perdida, mísero ponto num espaço infinito. O risco de luz marcado na porta do quarto, onde Salústio, estranho àquela dor, lia sossegado o seu jornal, era o único sinal de realidade exterior. Como um fogo que fosse rebentando dum rescaldo, a sua consciência principiou a surgir com um sentir de forte dignidade, e o seu corpo erguia-se, vibrando duma altivez heróica. A sua desgraça era incomparável, o desamparo em que ficavam, ela e sua filha, completo; porém pelo homem que tanto mal lhes estava fazendo, sentia desprezo. Neste momento lúgubre, sem pesar o que ia fazer, cedendo ao impulso gerado num estado cerebral anómalo, encaminhou-se para a porta da escada, agarrando-se às paredes, como guia. Andava cautelosa para não ser pressentida e parou subitamente ouvindo tossir Salústio. Por fim deu com a saída, abrindo a cancela devagarinho. Estava no patamar e ao contacto do corrimão sofreu perturbador abalo, como se tivesse encontrado o começo dessa eternidade pavorosa de trevas, com que a tinham ameaçado em criança!

Fixara a sua ideia numa decisão tremenda e dolorosa!... Abandonava de vez aquela casa, onde tivera tantos contentamentos e desgostos. Nunca mais voltaria, não desejava tornar a ver o verdugo da sua existência, o consumidor luxuriento da sua virtude e castidade. Tinha-o por mais nojento do que um sapo. A sua vontade era possuir um punhal, para lho enterrar no coração! Grande acto de vingança e merecido castigo, como os haviam executado com justiça, muitas heroínas dos romances que lera na Revolução de Setembro e no Jornal do Comércio. Mas não lhe cabiam na índole branda, nem se lhe demoravam no peito generoso, sentimentos de ira e com olhar piedoso assentou em fazer o sacrifício da sua vida, dar morte a si mesma, para que todos sobre a terra continuassem felizes!...

Desceu a escada com o maior cuidado para não ser pressentida... Parecia um criminoso que procurasse evitar um castigo, parecia o gozo humilde a fugir da matilha fidalga... Demorou-se um minuto junto da porta da D. Maria Gomes, reflectindo... Tirou do seio a carta que escrevera, antes da chegada de Salústio. No sobrescrito ia o nome da antiga mestra de piano, que, neste instante supremo, Angelina considerava como segunda mãe, pelos muitos carinhos com que a fortificara em todas as suas amarguras. Lembrou-se de lha meter por debaixo da porta; mas não o fez, considerando que podia ser encontrada, antes de tempo, aquela folha de papel, onde escrevera as suas últimas vontades! Era por assim dizer um testamento. O conteúdo, desejava que fosse conhecido só no dia seguinte, quando já ninguém lhe pudesse valer, quando tudo estivesse acabado. Nessa carta, escrita numa linguagem simples e sentida, Angelina encarregava D. Maria Gomes de participar a seu pai o triste fim que ela tivera. Devia explicar-lho como um acto de desespero pela má sorte que a perseguira, e como sendo a pena com que se castigava a si mesma, por todas as suas faltas e muitos pecados. No seu espírito sempre existira a ideia do casamento com Salústio, e logo que o conseguisse iria lançar-se aos pés de seu pai e de sua mãe, pedir-lhes absolvição do passado. Logo que esta única esperança e consolação lhe era negada, não podia viver por mais tempo. Resolvia acabar com os seus dias, com o fim de não ser motivo de vergonha para a sua família. Pedia humildemente perdão aos que lhe deram a vida, suplicava-lhes, neste último adeus, que lhe mandassem rezar três missas por alma, na igreja dos Congregados de Braga. Queria que fossem para sua filha todas as coisas que possuía e deixava comodamente acomodadas num baú que estava no seu quarto, menos o retrato de Salústio que levava consigo. Não pudera tornar a ver a pobre inocente. Sabia que, se a tivesse mais uma vez nos braços, a abandonaria a coragem de se matar. Em nome da religião, como recompensa dos sofrimentos da sua alma aflita, exorava de seus pais que adoptassem aquela netinha, até como simples acto de caridade. A inocente não era culpada da maldade dos outros; por isso não lhe infligissem o castigo imenso de não ter uma família. Desejava que lhe deitassem a sua benção, pedia perdão diante de Deus a todas as pessoas a quem ofendera. Ela nunca fora, nem má mulher, nem falta de religião; todo o seu crime vinha de ter amado muito.

Na   rua   de   S.   Paulo   deitou   numa   caixa   de   correio   a   carta   que   prevenidamente   trazia estampilhada. Neste momento exclamou, num gemido supremo:

- Como a minha vida tinha de acabar, rica Senhora do Sameiro!.

Encaminhou-se pela rua ocidental da Moeda, para os lados do Tejo. Dois marujos altercavam junto da porta de uma taberna. Ao verem-na, um propôs ao outro, de modo que Angelina ouviu:

- Lá vem uma fadista. Vamos nós agarrá-la?...

Tentaram opondo-se-lhe à passagem; mas ela, numa corrida desesperada, fugiu-lhes, e eles, como estivesse chovendo copiosamente, abandonaram-na, dizendo o menos borracho:

- Pareceu-me velha. Deixá-la ir. Vamos ali a S. Paulo, à Magana, que lhe veio hoje peixe fresco.

 

Angelina com o xaile pela cabeça, ao reconhecer que não era perseguida, parou, entrando depois no pequeno jardim, D. Luís, onde se escondeu entre os arbustos. Já passava da meia-noite, a chuva diminuía; mas o vento continuava a ulular varrendo as ruas, como metralha em campo de combate. O barulho das águas do rio sentia-se como frémito de estertor de milhões de homens. Os lumes da longa fila de candeeiros paralela à muralha do Aterro amorteciam-se à passagem das lufadas. Os pequenos faróis, marcando ancoradouro das embarcações espalhadas no Tejo, eram como os olhos esgaseados de feras a tornarem de maior pavor a escuridade misteriosa da noite. Os raros transeuntes, chapinhando lama, passavam como sombras. O céu caliginoso fazia medo, a terminação em fogo rubro, da alta chaminé da fábrica de gás, semelhava um bólide suspenso no ar, um olho aberto na densa negrura, a qual gerava receios, enfraquecendo o sentir real da própria existência. Espreitavam das suas guaritas os guardas da alfândega, passavam os últimos americanos atulhados de passageiros, o áspero ramalhar das árvores tinha uma estridência de risada cruel.

No meio desta confusão formada de sons que se somavam e de frouxos cambiantes de luzes, permanecia a amante de Salústio, tremendo como se estivesse num cemitério com a visão de mortos a saírem das campas. Dominada pela obsessão do próprio fim da sua vida, escondida entre o arvoredo, todo aquele cortejo de terrores lhe preanunciava a eternidade, em que ia entrar... Por vezes faltava-lhe o ânimo para seguir na via dolorosa, que marcara ao seu destino; tímida e fraca pedia tréguas à dor que a impelia para a morte, com o pensamento de ainda se demorar alguns instantes entre os vivos...

Sentou-se num banco, por lhe fraquejarem as pernas. Lembrou-se com sentir piedoso da sua filha, que a essas horas estaria dormindo tranquila. Que formoso sonhar o da inocente, num céu povoado de pombas brancas e sorrisos de anjos tão formosos como ela! Feliz convivência a desses entes, que moram nas doiradas regiões da ventura perfeita! Angelina, cujo sentimento maternal era forte, vivo e grande para encher a terra vazia de todo o bem, acreditava que sua filha sonhava assim. Seria ainda este amor, se nele continuasse a pensar, que a poderia deter contra a força do demónio, que a atraía para o eterno e insondável abismo... Tornar a ver a sua Amelinha... beijá-la... estremecê-la contra o seio... sorria-lhe à imaginação!... Mas teria depois ânimo de se desapegar daquele frágil corpinho, que era um maravilhoso tesouro?... Afastou com fortaleza a lembrança sedutora. A sua vida, depois do desengano dessa noite, era detestável, uma vida de misérias e vergonhas, que não poderia continuar a viver. Devia arrancar do coração, de uma vez para sempre, tais desfalecimentos... Era indispensável inspirar-se somente em ideias de desespero, de ódio ao mundo, de desprezo pelos seus enganos. O suicídio, que premeditava, era principalmente um acto contra Salústio, que depois de ela morrer assim nunca mais poderia ser feliz, pois sentiria, enquanto vivo, em volta de si o desprezo de toda a gente, e na alma infeliz o desamor do próprio Deus. O remorso morder-lhe-ia o coração como uma serpente; nunca mais poderia gozar contentamento, nem felicidade. A própria noiva, cuja riqueza ambicionava, o desprezaria, quando viesse a conhecer o negro procedimento que com ela tivera. Ficava na cidade de Lisboa D. Maria Gomes, para o apregoar. Mas ainda que viesse a casar, o Deus vingador dos fracos e dos infelizes o flagelaria com todas as desgraças. Não podia ser ditoso, quem no mundo causara tamanho infortúnio como este seu. E visto acreditar em que as almas dos mortos podem voltar à terra, para exercerem as suas vinganças, ao preparar-se para desaparecer da vida, levava em si o ódio, que lhe permitiria ressuscitar em forma de sombra, para o afligir, dia e noite, recordando-lhe a existência desventurosa que lhe causara... Não lhe perdoava, havia de se lhe meter, como uma doença, no corpo dele, ou no corpo da mulher, ou de algum filho, se o viesse a ter, para lhes amargurar toda a felicidade que se propusessem gozar. No outro mundo, estava certa que a cólera divina seria cheia de castigos para o causador da sua morte. Com o fim de o atormentar, os demónios ocupar-se-iam eternamente na invenção perpétua de tormentos, uns mais cruéis que os outros.

Sentia-se prostrada pelo rancor imenso que lhe refervia no seio! Um sorriso triste lhe veio ao rosto, como brisa consoladora, lembrando-se de que ao longe, numa pequena aldeia minhota, existiam seus pais e seus irmãos. Que pensariam eles, quando soubessem do triste fim que tivera?! Haviam de chorá-la e perdoar-lhe. Acreditava-o com toda a força da sua alma; porque sempre foram doidos por ela!... As lágrimas e o luto daqueles que tanto a tinham amado causavam-lhe remorsos!...

Tais lembranças, posto que lastimosas, inundavam-lhe agora o coração de sentimentos ternos e amoráveis. Começou a chorar sufocada. Quem lhe dera, ao menos, que a sua memória fosse abençoada, já que em vida sofrera tanto!... Principiou a considerar no sossego e tranquilidade da casa do Bico, para onde todos os seus tinham fugido!... Era a hora da paz e do sono para eles... Nessa mesma noite, enquanto ela planeava um projecto de suicídio, havia de ter estado toda a família, em volta da lareira farta de lenha, rezando piedosamente o terço e a coroa a Nossa Senhora... Outrora, Angelina era quem dirigia estas orações. Seus irmãos cabeceavam, quase a cair sobre o lume. À sua voz repreensiva, como a de uma mãe, logo se endireitavam, abrindo demasiadamente os olhos e replicando à Avé-Maria e ao Padre Nosso, que ela dissera numa toada monótona de devoção. O brasido crepitava espirrando faúlhas, os pequenos recebiam tais iras do lume com sonoras gargalhadas, que espantavam o cão enroscado aos pés de sua mãe, obrigando-o a levantar a cabeça. Terminada a reza em coro, era Angelina que trazia para junto de seu pai a mesa de pés baixos e ali estendia a toalha de estopa sedeira... A ceia era frugal - um caldo de farinha, o naco de toucinho e a grande broa de mistura, que todos comiam com apetite. No fim davam «graças a Deus» e iam-se deitar, para no dia seguinte se erguerem com o primeiro chilrear dos pássaros.

No tempo das castanhas, apareciam motivos de grande risota, por causa dos magustos regados de água-pé. Seus irmãos andavam todo o santo dia aos ouriços, que depois vinham esbulhar 6 na cozinha, abrindo-os com os calcanhares. Arranjada uma cesta de castanhas, o pai dava licença para meterem algumas no rescaldo. Quando principiava aquilo a que Pedro Alves chamava o bombardeamento (em atenção ao cerco do Porto, onde estivera do lado dos migueis) as crianças fingiam-se assustadas, correndo pela cozinha fora. Estoiro que se ouvisse, era acompanhado duma nuvem de cinza semelhante a fumo de pólvora. O pai de Angelina dizia então a sua frase favorita: «Eh! com mil bombas, que lá se foi um malhado!... Apanhai esse demónio, rapazes!» A este grito, já esperado, seguia-se da parte das crianças grande entusiasmo: «Eh! Malhadol Eh! cão!...» - exclamavam. Procurava-se depois, com todo o afã, a castanha arrebentada, que era entregue triunfantemente ao velho, no meio de gargalhadas infantis.

Talvez que nessa mesma noite, quando Angelina estava perto da morte, lá em casa tivesse havido algum alegre magusto! Nesse caso decerto se reproduziria a ralhação de sua mãe, que estava sempre com susto de que os pequenos se queimassem e chamava ao marido, que consentia tais coisas, «uma criança como os filhos».

Estas recordações tiravam-lhe a necessária força de que precisava para cumprir o seu triste destino. Poder ainda gozar, uma hora que fosse, desta paz feliz, desta quietação e tranquilidade, era suprema ventura, que não merecia a Deus! Sentia-se fatal e indubitavelmente excluída da sua família. Ainda que tivesse a certeza de que todos a receberiam carinhosamente, ela não tinha ânimo de lá voltar! Nunca mais podia voltar a ser aquela Angelina de outrora, tão respeitada e benquista na sua simplicidade. Sentia-se emporcalhada por dois anos de vida de concubina. A sua remissão estava na morte! Que ao menos o Altíssimo lhe aceitasse o arrependimento do último instante, para não ficar sujeita no outro mundo às penas tão aflitivas do inferno! Só pensar nisto a enchia de pavor, e lhe paralisava todo o sangue no corpo. Mas também considerava não haver para ela maior tormento do que este seu de agora! O verdadeiro inferno nunca podia ter maiores castigos! Deus havia de apiedarse da sua alma. Esquecer este mundo, esquecer-se de si mesma, era o maior dos seus desejos.

- Desta maneira acaba tudo cá na terra. Na outra vida, Deus há-de ser misericordioso com os que sofreram como eu tenho sofrido! - monologou.

Levantando os olhos, reconheceu que, a pequena distância, estava um indivíduo parado. Quem seria este homem? Que teria com ela, para assim a espiar com patente insistência?! Viu no desconhecido, sem compreender claramente os motivos, um obstáculo inesperado aos seus desígnios. Isto fez com que lhe voltasse a coragem prestes a abandoná-la, amolecida pelas recordações simpáticas da família. Se era alguém da polícia propunha-se a iludir-lhe a vigilância... Aquele homem não lograria obstar a que ela cumprisse o triste fadário de morrer afogada nas ondas do Tejo. Com a instintiva sagacidade de quem procura esconder um desígnio, Angelina levantou-se do banco onde estava, e, numa certa aparência de sossego, principiou a andar pelo Aterro adiante, como quem procura eximir-se à chuva, que, justamente naquele instante, recomeçava copiosa.

 

6   Esbulhar: o mesmo que debulhar ou desbulhar.

 

Porém uma mulher só, àquela hora da noite, com tal maneira de andar, que denunciava mocidade, provocou maior interesse no indivíduo, que parara perto dela, no Jardim D. Luís. Por isso ele a seguiu de perto, e Angelina, para experimentar se assim era, atravessou a rua e caminhou até junto da muralha quedando-se a ouvir o arquejar das ondas. O desconhecido acompanhou-a com insistência e já se lhe aproximava, quando Angelina, recomeçando a andar com pressa, murmurava fervorosas preces à Senhora do Sameiro e de Guadalupe, para que a protegessem neste lance angustioso. Sentia-se transida de medo, como num ermo suspeito de lobos. O coração apertava-se-lhe em suprema angústia. Repetia a Magnificat e a Salvé-Rainha, caminhando cada vez mais aceleradamente. Porém as saias encharcadas colavam-se-lhe às pernas, os sapatos embebidos de água pesavam-lhe como chumbo e dificultavam-lhe os movimentos, o vento vergava-a como se fosse árvore desamparada... A aflição, dentro do seu peito, crescia numa ânsia tormentosa; alucinações de vista, tinha-as como na proximidade de enorme perigo. Já só procurava meter-se por trás de tudo que a pudesse esconder... Ocultou-se com o kiosque que está perto da rampa de Santos, para ver se iludiria o seu perseguidor... Mas o indivíduo, apesar de ébrio, seguia-a colado ao seu rasto, como a própria sombra. Já estava perto, percebia-lhe o falar entaramelado, a pedir-lhe que parasse...

- «Meu Deus valei-me! Nossa Senhora, acudi-me!» - exclamou, em voz de súplica, fugindo sempre...

Vendo-se quase alcançada, tomou a resolução de retroceder e mudar de novo para o lado dos prédios; porque ali, abrigado sob a ombreira de uma porta, iluminado pela luz de um candeeiro, vira um polícia fumando. Se aquele atrevido se quisesse meter com ela, pediria socorro. O expediente, julgou ter sido de seguro efeito: durante o espaço de dois minutos, não viu ninguém atrás de si. Sentia-se mais tranquila, respirou com muita mais desopressão. Já lhe parecia o ar menos tempestuoso; o rugido do mar, murmúrio de regato. Ainda bem, ainda bem, demónio de bêbedo! Até parecia esquecida do motivo que para ali a guiara. Caminhou depressa, convencida de que o perseguidor a perdera. Mas quando adiante, perto da fábrica do gás, atravessou para o lado do rio, sentiu a distância de quatro metros um vulto, que lhe falou do interior da sombra: «Pára lá, que te quero dizer uma coisa». Era o mesmo. Evidentemente, tinha propósito igual ao dos marujos, que estavam altercando e lhe tinham chamado fadista. Cresceu-lhe o desgosto de si mesma e do mundo! Receou da parte do desconhecido algum atrevimento que a degradasse. O vento soprava mais rijo; a chuva caía com ruído áspero sobre a rua calcetada; todos aqueles sons complexos de forte borrasca vindos dum céu longínquo e negro envolviam-na. Perturbada por tantos e dolorosos acidentes, pressentia, ainda por cima, o seu pudor conspurcado. Teve um momento em que ficou parada, como ausente de si mesma. Porém, depois, ouvindo a mesma voz que se aproximava, resolveu correr em direcção ao cais do Sodré. O vento agora impelia-a, empurrava-a para aquele lado... Mas não tinha os movimentos livres. As saias agarravam-se-lhe às pernas, a lama colava-se-lhe aos sapatos, tudo a entorpecia. Angelina num completo desespero e aflição quis gritar por socorro, mas não tinha força, não tinha voz. O bêbedo falava-lhe já de muito perto: «Anda cá, moça. Tenho dinheiro... Olha, não fujas, ele aqui está.» Chamava-a com voz roufenha, convidando-a. Batia com a mão no bolso das calças, onde tilintavam coroas. Angelina perdera completamente a serenidade, já fugia espavorida, esbracejando sem resguardo, não se importando que a conhecessem. «Queres? Tenho dinheiro... Olha...» - repetia o mesmo homem, continuando a mexer em pratas, quase a deitar-lhe a mão.

O ruído dos passos que a seguiram era cadente e baço. Um tudo nada mais e seria agarrada. Aquela voz repulsiva quase a sentia sobre a nuca. Alguns instantes ainda... e o insulto seria consumado. Ali perto estava o rio mugindo dolorosamente, como uma vaca com saudades do filho que lhe roubaram. Ia-se meter para sempre no esquecimento eterno da morte!... Já caminhava resolutamente em direcção à muralha, aflita, ofegante, impelida por uma enorme dor. Abandonou o xaile que lhe escondia o rosto, no momento em que passava junto de um candeeiro. E, num último esforço para ser ouvida pelo guarda da fiscalização que vira a distância, clamou:

- Jesus! Minha mãe! Nossa Senhora!... Valei-me!

O borracho perturbou-se com aqueles gritos e susteve-se! Conhecera aquela voz cheia de encantos e harmonia, ainda que no auge do desespero, ao mesmo tempo que à luz do gás vira o rosto alvoroçado de Angelina, com os cabelos empastados na testa, exprimindo enorme aflição.

- Angelina! Senhora Angelina!... - gritou-lhe.

E como ela não obedecesse, continuando impetuosamente para o rio, Joaquim Neves, adivinhando-lhe o sinistro intento e vendo daquele lado o mesmo guarda para o qual a sua amada apelara, berrou com mais força:

- Agarra!... Prende!...

Porém ela louca de aflição não deu tempo a nada... Junto do pontão do peixe, atirou-se às vagas, que chocalhavam contra a muralha. Logo a seguir começou uma grande confusão. Aos gritos de Joaquim Neves, polícias, guardas da Alfândega e municipais vieram em tropel, como ruídos dispersos que se concentrassem. Fragatas ribatejanas e botes de pesca estavam acumulados perto do lugar onde a amante de Salústio se lançara. Os homens que estavam dentro, guardando os seus barcos, levantaram-se, chamados pelas vozes de socorro e pelo som da queda de um corpo, que fizera chap na água!... Apareceram lanternas. Alguns catraieiros resolutos lançaram-se ao rio, para salvar a infeliz, que se debatia angustiosamente numa ânsia de morte. Não tardou muito que tirassem para fora um corpo inerme, de uma brancura cadavérica e de uma insensibilidade de morta!...

Transportaram-na para a barraca da fiscalização, depositaram-na sobre as tábuas do soalho; a água, que dela escorria, alastrava em larga nódoa. Assim de costas, com o vestido colado à carne, desenhava-se-lhe o corpo escultural, como estátua de pedra sobre realengo sarcófago...

Os cabelos de azeviche enrodilhavam-se-lhe no pescoço; na mão esquerda crispada, conservava um bocado de madeira, que boiava nas águas inquietas e a que se agarrara no paroxismo da morte iminente. O seu rosto tinha expressão dolorosa, mas enérgica, como de quem sofre por um pensamento, uma ideia nobre. Os guardas da Alfândega desceram o lampião pendente do tecto, para a verem melhor. Lamentavam-na com palavras triviais de comiseração, interessando-se todos pela aflição de Joaquim das Neves, cuja presença não sabiam explicar. O caixeiro, julgando-a morta, cobria-a de lamentações e lágrimas. De joelhos junto do corpo gelado e inerte, tacteava-o, procurando chamá-lo à vida com fervorosas súplicas, com palavras lancinantes e desesperadas.

Metia dó na sua aflição, o pobre rapaz!...

Os polícias e os municipais, que tinham ocorrido, julgaram-no irmão, ou qualquer parente muito chegado de Angelina, talvez seu noivo... Mas porque estava ali e porque se dera este acontecimento? Inquiriram dele a explicação e o caixeiro nada lhes sabia dizer. Um simples acaso é que lhe fizera encontrar aquela senhora, perto daquele sítio. Quando reconhecera quem era, foi justamente no instante em que a vira em direcção à muralha, no claro propósito de se deitar ao rio. Foi então que berrou para ver se a obrigava a parar ou se alguém poderia impedir esta desgraça. Ninguém se lhe opusera e por mais que ele corresse não pudera deter... Conhecia-a muito bem, eram quase da mesma terra. Supunha haver nisto algum grande desgosto; porque ela era muito infeliz na sua vida.

- Questão de namoro, já se entende... - opinou o mais velho dos polícias, com voz de entendido.

Os municipais e os guardas da Alfândega sorriram aprovando-lhe o parecer. Era a história de todos os dias, conheciam dezenas de casos como este. O mar era o lugar preferido das raparigas desiludidas... Esta inclinação dos suicidas não dava pouco trabalho, quer aos catraieiros, quer aos empregados da polícia e fiscais, que se queixavam.

- Não, senhores. Dantes, ainda iam algumas para S. Pedro de Alcântara, atirar-se da muralha! Agora é tudo para aqui! - considerou um em voz de censura.

- É desde que se pôs lá a grade, que todas cá vêm dar... - esclareceu um municipal.

Joaquim Neves nem escutava tais apreciações. O seu empenho único era provocar no corpo de Angelina qualquer expressão facial ou movimento de corpo em resposta aos seus esforços. Suplicava aos polícias que lhe consentissem o levá-la para uma hospedaria, cujo proprietário conhecia, para alia recolher. Que a deixassem à sua guarda e vigilância carinhosa, pois não podiam duvidar dos desvelos que empregaria para de novo chamar à vida aquela que estimava mais do que se fosse sua irmã.

- Fomos criados juntos. É muito bem nascida e muito infeliz - certificou para comover os ouvintes.

Porém os representantes da autoridade não acharam este empenho suficientemente simples e desinteressado. Não eram irmãos... talvez não fossem parentes... isto, podia encobrir coisa de crime!... Os municipais, encostados às espingardas, resmungaram de dentro dos seus amplos capotes de oleado; os guardas da Alfândega e os catraieiros sorriram incrédulos; os polícias não estiveram de acordo, dizendo aquele cujas opiniões pareciam predominar:

- Não, meu homem, a rapariga daqui vai para o hospital. É a nossa obrigação. Depois lá se arranje, como puder. O amigo mesmo, visto conhecê-la, vai connosco, comparecer diante do senhor comissário, para esclarecimentos.

Mandaram buscar a maca da estação da Boa Vista. Todos estavam de acordo que a suicida precisava de socorros imediatos. Só no hospital de S. José se encontrariam prontos. Não tardou que a maca chegasse... Dois catraieiros impedidos pela polícia transportaram o corpo exânime. Acompanhando o lúgubre cortejo, que atravessava, sob chuva continuada, as solitárias ruas da cidade baixa, ia Joaquim Neves gemendo a sua dor. Um polícia repreendeu-o:

- Isso não é de um homem! Só as mulheres é que choram assim!...

Falava bem; mas é que não podia compreender, quanto ele queria àquela senhora. Filha de muito boa família, ninguém podia ter adivinhado a triste sorte que lhe estava reservada. Era dum homem esmigalhar a cabeça numa parede, quando se punha a cismar num caso destes. O polícia, modificado no seu sentir e já condoído, pronunciou: «As desgraças nascem debaixo dos pés, amigo!»

Por desejos de Joaquim Neves, que no hospital se deu como parente de Angelina, foi a doente admitida num quarto particular de oito tostões diários!... O caixeiro horrorizava-se com a ideia de que a filha do seu antigo patrão se encontrasse, ao abrir os olhos, na avulsa cama de uma sala de hospital, cercada de estertorosos agonizantes e servida misericordiosamente por enfermeiras carrancudas e sem piedade, como ele as vira, em S. Marcos de Braga, quando ali fora, uma vez, visitar uma mulher da sua terra! Comprometeu-se a vir, no dia seguinte, fazer o depósito regulamentar, para que Angelina fosse tratada com decência. Porém não se podia despegar dali, sem ter a certeza de que ela estava ainda viva. Toda a aparência era de cadáver: na lividez do rosto, nas pálpebras fechadas, na aparente falta de respiração, parecia-lhe reconhecer funestos sinais de que a sua amada já não existia. Quase com as lágrimas nos olhos, manifestou a sua preocupação ao facultativo de serviço no banco, o qual tacteando o pulso da enferma lhe assegurou:

- Deixa, meu rapaz, que ainda não morreu... Lá o vê-la assim, não te admires. Se te parece, um banho como ela apanhou e com este frio!...

Era urgente despi-la, metê-la na cama, agasalhá-la. Talvez desse acordo de si, sem mais nada, ainda que neste momento ninguém pudesse dizer que alguma coisa de mais grave se não descobriria depois - uma pneumonia, por exemplo.

- Mas é possível que não - disse o médico com jeito dubitativo, estendendo os beiços... Vou mandar cobri-la de sinapismos.

Em seguida, com um aceno de cabeça, ordenou aos catraieiros que seguissem com a maca.

Joaquim Neves, bem como o polícia, acompanharam o corpo exânime de Angelina até ao seu último destino. Adiante ia um criado do hospital ensinando o caminho. Atrás caminhava o facultativo, homem muito magro, um dispéptico de bigode e longa pêra. Subiram uma escada estreita, atravessaram alguns corredores iluminados por candeeiros pendentes do tecto. O rumor dos passos perturbava o silêncio, como uma toada lúgubre. Apareceu a enfermeira de serviço esfregando os olhos, e logo depois uma ajudanta, para ambas meterem no leito a enferma. Recolhida a maca no quarto, a porta fechou-se, o polícia e os catraieiros esperaram para a tornar a receber vazia. Concluído

este serviço, o caixeiro teve de se retirar, assim como todos os outros.

Ia estonteado, cheio de aflição, por causa das incertezas que deixava atrás de si. Disseram-lhe que viesse no dia seguinte saber notícias...

À despedida solicitou da enfermeira que se interessasse pela vida de Angelina. Não havia de perder nada com ele, compensá-la-ia de toda a sua humanidade. Desejava que lha tratassem como se fosse uma fidalga, não queria que lhe faltasse absolutamente nada!...

- Vá descansado. Aqui todo o mundo tem bom tratamento - respondeu a encarregada daqueles quartos particulares.

- Bem, amigo. Aparece amanhã, ao meio-dia: é boa hora. Adeusinho... - aconselhou o facultativo.

- Se o senhor comissário o deixar vir... - resmungou de parte o polícia.

Retrocederam no mesmo tropel em que tinham chegado. Como o médico ficasse junto da doente para fazer as suas prescrições, o criado do hospital, resmungão e coxeando, deu largas à sua língua, falando avulsamente:

- É a pior vida que há, esta de servir num hospital! Mesmo uma vida dos diabos. Aqui não há dia, nem noite, não se dorme um sono a seguir. Lá na terra, quando andava nos campos, puxava pelo corpo durante as horas do sol; mas logo que ele desaparecia, era um regalo a gente estender-se sobre a palha, e só acordar com as badaladas do sino, para a missa do prior. Raio de vida!... Sempre caras aflitas... O que vale é a gente não se importar. Se se curam dá-se-lhes alta; se morrem vão para o cemitério. Tanto se nos dá, como se nos deu. - E desafogou no seu estribilho:

- Ai! da minha vida! Tra-la-ri-ló-ré.

O coração de Joaquim Neves minguava, ouvindo isto. Quis captar a benevolência deste homem, que lhe parecera insensível, transformá-lo de mau que aparentava, numa força de protecção para Angelina. Sempre era uma criatura que ficava ali de dentro e que tinha a possibilidade de a ver alguma vez. Por isso, à saída, chamou-o a si, metendo-lhe na mão duas coroas, e segredou-lhe suplicante:

- Se lhe puder fazer alguma coisa... Recomende à senhora enfermeira, que não há-de perder nada comigo. Eu lho pagarei...

- Deixe que eles cá em casa estão melhor do que na sua própria - respondeu consolador. Tem bons caldos e boa cama que é o mais preciso para doentes. Se eu fosse médico metia-lhes caldos para aquele buxo, até arrebentarem, e haviam de melhorar. A rapariga é sua?... Olhe que me pareceu de truz, apesar do estado em que vinha por causa do tal banho. Adeus, amor; apareça amanhã que talvez a encontre já boa. Aquilo foi friage. O senhor director chega pela volta do meio-dia. Adeus, amor.

Estou-lhe com um sono. Raio de vida!...

O portão de entrada bateu com estrondo ressoando a forte pancada pelo edifício. Joaquim Neves, acompanhando o polícia e os catraieiros, ainda se voltou para contemplar aquela massa compacta, que avolumava no denso ar pluvioso. Os quadrilongos das janelas onde se via luz, aviventando a negrura do edifício, pareciam olhos de um grande monstro de fantasia, dum animal extraordinário, cujo ventre misterioso escondesse, só dores, infelicidades e amarguras!... O peito de Joaquim Neves mais se confrangeu com esta visão de morte, sentia a garganta apertada por mão poderosa e cruel! Como tudo na vida se lhe apresentava escuro e indecifrável! Quem conhecera Angelina, feliz, respeitada e alegre, poderia ter-lhe vaticinado tão desgraçado fim?... Poderia ele ter suposto que a havia de encontrar, numa noite como aquela, em tal situação que a confundisse com as mulheres perdidas?!... Achava-se em estado de embriaguez, que propositadamente procurara para matar a sua dor, para esquecer a sua amada!... E é exactamente essa criatura, que nunca poderia tirar do coração, por maiores esforços que fizesse, que lhe aparecia em circunstâncias e numa apresentação que só pela vontade de Deus poderia ser ordenada, para castigo e punição do grande pecado que ela cometera, fugindo da casa paterna! Situação dolorosíssima!. Recobrando súbito o juízo, ao reconhecer Angelina, teve depois de ajudar a tirá-la da água, onde o seu corpo se debatia nas ânsias da morte. Decerto a Providência, que tudo manda, lhe guiara os passos. À sua casual intervenção se devia ou não se ter ela afogado e estar àquela hora agasalhada numa cama decente e separada dos estertorosos, que morrem a toda a hora com esgares medonhos nas enfermarias comuns. Sentia-se até certo ponto feliz, por ter sido proveitoso àquela a quem, sobre todas as criaturas do mundo, queria!...

Já no governo civil, sobre a dura tábua duma tarima, onde a polícia o encerrara para as averiguações do dia seguinte, ia considerando em todas estas coisas, ora com pálidos sorrisos, ora com funda tristeza. O sentimento das desgraças, que neste momento lhe enchiam o pobre coração, tiravam-lhe a tranquilidade e a vontade de descansar. A sua alma estava mais agitada do que o céu dessa noite de temporal, cujas lufadas ouvia perpassar no terreiro contíguo. E num desafogo de funda mágoa disse:

- Isto é da gente lançar uma corda ao pescoço!... Mas a misericórdia divina é infinita; ela está

viva e amanhã tornarei a vê-la!

 

Joaquim Neves foi interrogado pelo comissário de polícia cerca das onze horas da manhã. A sua situação não era bastante clara. A extraordinária coincidência de se encontrar àquela hora da noite e por um tempo tempestuoso, no lugar onde o acontecimento se dera, punha de sobreaviso a autoridade. O que tinha a simples aparência dum suicídio vulgar podia muito bem encerrar um crime! Quando percebeu esta ideia pavorosa nas perguntas que lhe faziam, rompeu num choro irreprimível. Santo Deus! Poderia alguém considerá-lo assassino de Angelina, da sua querida Angelina, da alma sorridente em cuja fotosfera ele vivia como numa glória!... Quando pôde falar, contou a história singela de tudo quanto sabia, desde os tempos de Braga até àquela noite desgraçada! Logo que apareceu na narrativa o nome de Salústio Nogueira, deputado influente e futuro ministro, o comissário, temendo escândalo e responsabilidades, amansou a palavra despótica e castigadora, abreviou o interrogatório e a breve trecho deixou-o em paz. Joaquim também não desejava outra coisa; porque todo o seu empenho era ir ao hospital saber do estado da sua amada... Sem comer, febril, apressado, o rosto num desejo vivo, chegou junto do edifício dentro do qual residia o maior interesse do seu existir. Como tudo aquilo para ele fosse desconhecido, lugar e pessoas, conservou-se na entrada encolhido, humilde, à espera de lhe darem licença de ver a doente. Passavam pessoas de diferentes aspectos e categorias, todas andando com o desembaraço de quem é conhecedor do edifício, pois nele penetravam sem especial permissão... Invejava-as, eram bem mais ditosas do que ele, poderiam sem obstáculo chegar onde ele queria ir, saber notícias de Angelina, vê-la no quarto onde ficara na noite precedente. Olhava para todos esses felizes com rosto de súplica, desejaria que o levassem consigo, que protegessem a sua imensa dor, a qual ninguém adivinhava, nem presumia... Um empregado que passou e a quem quis deter, pedindo informações, abandonou-o bruscamente dizendo: «Nada sei, meu caro senhor». Porém o criado, que na véspera gratificara com dez tostões e que casualmente ali compareceu, consolou-o, apontando-lhe a porta fechada: «O director, quando chegar, é que lhe pode dar licença» - explicou-lhe.

Meteu-se a um canto, escondido de todos, à espera. Os doentes da consulta diária, sentados em bancos junto à parede, conversavam da sua vida e das suas moléstias, com expressões faciais diferenciadas: alguns gemendo dores em silêncio, outros relativamente saudáveis e tagarelas, dando conselhos de própria experiência. Este, que padecera anos de maleitas, curara-as com uma bebedeira em que tinha vomitado as próprias tripas e achava o vinho bom para tudo; aquele, a quem crescera uma grande nascida nas costas, tendo sido operado por um alveitar seu conterrâneo, que lhe retalhara o tumor em sete pedaços com uma navalha de barba, entendia que os cirurgiões de Lisboa não sabiam nada, ao pé do mestre Groncha. Quase todos manifestavam predilecções por certas ervagens e frutas medicamentosas, um considerando a folha de malva e as cerejas como tendo milagroso poder curativo, outro entendendo que os agriões cozidos na panela saravam todas as queixas de peito. Ao que falava com o maior entono, aconselhando receitas para inúmeras doenças, coisas que os médicos desconheciam, observou um que o escutava:

- Com tanta sabença não sei para que você vem à consulta!

- Eu lhe digo: é que não tenho hoje que fazer. Até os disfruto, dando-lhes o meu quinau, disse desdenhoso, apontando com a ponteira do guarda-chuva a sala das consultas, onde se reuniam os facultativos.

O dia continuava chuvoso, a atmosfera espessa e nevoenta. Clínicos e estudantes entravam com as botas enlameadas. À passagem dos médicos conhecidos, os doentes levantavam-se suspendendo as conversas. Algumas pobres mulheres, com seus filhinhos ao colo, aconchegavam-nos contra os magros seios envoltos em míseros trapos. Todos, mais ou menos, se ressentiam da humidade do lajedo, e os seus rostos de fome denunciavam miséria e dor.

O cirurgião do banco, que Joaquim Neves já conhecia por ser o que recebera Angelina na véspera, apareceu com modo aborrecido de dispéptico, enroscando a longa pêra num dedo. O caixeiro dirigiu-se-lhe com certa confiança:

- Senhor doutor... Eu sou o parente...

O médico informou-o:

- Más novidades, meu rapaz. Parece-me que temos negócio grave. Está convocada uma conferência.

- Então morrerá, meu senhor?

- Vejo-lhe jeitos. Abriu os olhos, mas nada de falar. Obra de compressão cerebral. Mas isso já não é comigo, que saio do serviço. Fala com o colega que me substitui e com o médico das enfermarias particulares.

Não compreendeu senão o que havia de desolador nestas palavras: «Angelina podia morrer!» Principiou a chorar com a cara escondida num lenço. Falava com palavras doloridas, entrecortadas de soluços.

- Ela levou alguma pancada na cabeça? - perguntou ainda o facultativo.

- Não vi, meu senhor. Tirámo-la do rio aonde se deitou... Fazia um escuro como breu. A fortuna foi estarem ali os homens dos barcos, senão, afogava-se.

- Bem, bem... Espera aí fora, para dizeres tudo aos da conferência.

Joaquim Neves foi esconder-se, outra vez, a um canto, para chorar livremente. O sofrimento dilatava-o, parecendo-lhe que enchia o largo espaço daquelas abóbadas. Dava suspiros e ais que podiam ser ouvidos. Os doentes que esperavam a sua vez para serem admitidos à consulta apiedaram-se dele e lamentavam-no dizendo: «Pobre homem! Talvez tenha cá a mãe!» Ele ouvira-os. Ah! quando morrera sua mãe, não sofreu tão extraordinariamente. Era uma criança e apenas sentira a falta de carinhos e pancadas. Agora, era uma dor incomparável, que o invadia avassaladoramente. Estava fora de si e mais de uma vez se conteve, para não procurar em todo o edifício o quarto de Angelina, pois acreditava ter a magia de a reanimar com seus carinhos, com palavras de paixão, transmitindo vida com a enorme potência de amor, que neste momento desafortunado lhe enchia o coração. O médico dissera que Angelina não falava; mas ele tanto clamaria, tanto gritaria, tão forte e apaixonada havia de ser a sua voz, que tinha enorme fé em que lhe arrancaria resposta, uma só palavra que significasse existir, e assim vencer a má opinião de todos aqueles que a achavam morta. Ainda que ela estivesse num esquife, já em caminho da sepultura, a sua profunda crença era que seria capaz de a fazer ressuscitar, como acontecera a Lázaro.

Porém, se a filha de Pedro Alves voltasse a si - considerou - talvez que as primeiras palavras saídas daquela boca adorada fossem para o repreender pelo procedimento da noite anterior, em que o encontrara bêbedo no Aterro, perseguindo-a como perseguiria qualquer mulher perdida. Por este acto equívoco, poderia tê-lo na conta de rapaz mal comportado... Não sentia receio de se justificar. Quem teria o dom de supor, sequer, que fosse Angelina, a criatura que, àquela hora e naquela situação, encontrava entre os arbustos do Jardim D. Luís? O seu estado de embriaguez havia de explicá-lo (não o negaria) pela necessidade de esquecer as dores que sofria, por causa dela. Podia jurar-lho, como se estivesse aos pés do confessor e próximo de receber a sagrada hóstia. O desprezo de Angelina, em circunstâncias tão angustiosas e quando só procurava servi-la desinteressadamente e ser-lhe útil, tinham-no ofendido até à raiz da alma. As palavras que lhe dissera aquela senhora gorda, quando ele procurava saber notícias da sua saúde: «Não vá lá acima; olhe que a aflige com a sua presença...» deram-lhe um desgosto de arrebentar. Que mal lhe fizera, para de tal maneira o tratar? Seria para que não tivesse conhecimento da sua vida, das suas aflições e tristezas? Andava bem mal, pois se então tivesse sido informado do que se passava, a desgraça actual poderia ter sido evitada; ele poderia consolá-la e valer-lhe arrancando-a das mãos do carrasco que a mortificava. Ignorando todo o acontecido, Joaquim Neves, com a intuição dos que muito sofrem, presumia tudo adivinhar. O encontro de Angelina nas extraordinárias circunstâncias em que se dera, significava, para ele, que Salústio a expulsara indignamente de casa, ou então fora ela que fugira ao saber do casamento rico do seu amante. Em qualquer dos casos, a culpa era desse grande malvado, de quem desejaria tirar vingança memorável. Porém tinha um espinho a atravessar-lhe o coração: a resolução de Angelina se atirar à água, seria pelo ter conhecido, quando a perseguia?!... Era possível, pois ele quando gritara o fizera na sua voz natural, que lhe devia ser conhecida, e pronunciara gritando o nome dela... É certo que nesse momento já a desgraçada corria doidamente para a muralha, donde se precipitou, e talvez o não ouvisse... Ouviria?... Não ouviria?... Dúvida pungentíssima esta!... Porém, a Angelina nada lhe poderia fazer compreender melhor o grande amor que ele lhe tinha, como a súbita e quase milagrosa recuperação de juízo, no meio da embriaguez, ao reconhecer quem era a mulher que o acaso lhe deparava no seu caminhar de vagabundo. Quando ela viesse a saber como tudo se passara, havia de perdoar-lhe. Mal podia imaginar a dor horrível que ele sentira ao vê-la naquelas circunstâncias. Ainda se admirava de não ter caído redondamente no chão, numa morte súbita provocada pelo terror que se lhe derramara no peito.

Cismava assim, no canto onde se retirara para não ser visto, com os olhos fixos no lajedo suado, enquanto esperava a licença, já pedida, para ver Angelina, depois de ter regularizado a questão de meios, para tratamento em quarto particular. Fora o mesmo criado da véspera, a quem dera as duas coroas, que o veio acordar desta sua melancolia, falando-lhe em voz trivial e um tanto galhofeira:

- Venha daí, amigo. O senhor director já deu licença. A sua parenta está bem mal, pelo que percebi lá aos doutores. Esta vida é uma espiga; o melhor é a gente não se ralar e pôr o peito à larga. Nada de choro, que faz mal aos olhos.

Subiram primeiro as escadas e depois seguiram por corredores estreitos, iluminados com a luz que caía das bandeiras das portas altas. Um sentimento de opressão apertava a garganta de Joaquim, a sua cabeça não pensava, mas bem lá dentro dele morava um grande pavor, que irradiava para tudo quanto via.

Tiveram de atravessar uma comprida enfermaria, onde, em camas alinhadas, se estendiam corpos exaustos pela doença. Era bem esta a morada do sofrimento humano: rostos cuja palidez apenas se distinguia da alvura dos lençóis, olhos avivados pela febre ou amortecidos pela fraqueza definiam a depauperação daqueles organismos...

O cheiro complexo dos doentes, dos medicamentos e das evacuações caracterizava esta atmosfera especial, que tendo a aparência límpida e saudável dum ar de campina, era formada do produto de múltiplas fermentações. Joaquim sentiu um vagado, que o ia atirando ao chão, se a sua grande dor o não sustentasse; porém ficou branco como a cal da parede, o pavor da morte passou-lhe diante dos olhos, quando atentou num velho magro, que expirava. Era uma figura esquelética, mas forte, de camponês; estava de costas na cama, braços afastados formando cruz com o tronco, o branco da esclerótica a espreitar por entre as pálpebras meio cerradas, a boca retorcida a expelir o último suspiro, uma baba nauseabunda correndo-lhe pelas comissuras labiais...

- Cobre-o - disse com voz natural e indiferente o enfermeiro ao ajudante.

E o rapaz, pegando no lençol por uma ponta, atirou-o bruscamente sobre a face do moribundo, que ficou escondida. Um rouco de estertor soou na comprimida sala, como áspero chiar de nora; no ponto correspondente à boca viu-se uma cova no pano sorvido, um estremecimento em todo o corpo arrepanhou aquela mísera carne. Estava morto! Os doentes das camas próximas cobriram os rostos,

para não verem mais...

Ao fundo da enfermaria, em volta de um homem gordo de aparência risonha e feliz, estavam muitos estudantes, que o escutavam. O criado para lhe designar Joaquim Neves parou dizendo: «O parente da do n° 8...» O facultativo respondeu com negligência:

- Espere, que vou já.

O professor continuou a interrogar um doente, que respondia trejeitando, com momices de que todos riam. Era um exemplar do alcoolismo. A este indivíduo, o que lhe causava grande confusão pelo não saber explicar, era o seu aparecimento na cama do hospital. Como é que entrara para ali, quando se lembrava perfeitamente de ter saído de casa, com a ideia de voltar para junto da mulher e dos filhos?!... Atribuía tudo às prepotências de um polícia seu inimigo.

São uns canalhas estes polícias, que se metem com a gente mais sossegada. O senhor doutor ponha daqui fora, que eu lhes darei uma ensinadela. Provavelmente, foi quando entrei numa loja de bebidas à Mouraria. Estava ali o meu amigo Esteves e fui-o cumprimentar... São muito antigas estas relações com o Esteves. É lá da minha terra... Mas o senhor doutor mande-me embora, sim? Dê-me hoje alta, que eu não tenho moléstia nenhuma.

- Pois sim - disse o facultativo cavilosamente - mas se obtiver uma raçãozinha de aguardente, sempre ficará mais algum dia connosco, não é verdade?...

Ao ouvir a boa nova, o doente principiou a rir num riso contente, posto que desconfiado. Encolhia-se, repuxava o lençol com tremura de gozo em todo o seu corpo.

- Se o senhor doutor me fizesse a esmola... Mas então há-de ser genebra. Gosto mais de genebra, é bebida mais fina, tem um amarguinho... E agora vinha a calhar, sempre lhe estou com uma sede... Tenho a língua pegada ao céu da boca... Ontem o amigo Esteves pagou uns copitos... Fizeram-me um bem...

Humedecia os beiços apreciando uma sensação agradável de gozo, que prolongava imaginariamente com os olhos em alvo. E continuou num falar regougado:

- Vinho, não - reprovou distanciando qualquer coisa com a mão aberta. - É uma peste, grosso como tinta de escrever, traz friage ao estômago. Crach... porcaria... Genebra, sim, rico genebrim da minha alma... - exprimia-se beijocando os próprios dedos.

Como sentisse rir em volta, principiou a perturbar-se num sentido de suspeita e mau humor.

- Porque se riem? Não é esta a pura da verdade? Os taberneiros são uns ladrões. Fazem cada mixórdia!. Tirem-me isso daí, meus senhores!... Nada de brincadeiras.

E pretendia, ora colher, ora afastar um objecto que supunha diante dos olhos... Era uma mosca? Era um besouro? Dava palmadas no ar, fazia trejeitos faciais, como quem atacasse uma realidade.

- Para que me estão a pôr essa barata na ponta do meu nariz! Embirro com as baratas... Nunca pude ver tais bichos!...

Nesse momento apresentaram-lhe um pequeno copo cheio de líquido branco e transparente...

- Ah!... Ah!... é a minha genebrinha?... Ora venha de lá isso. Muito obrigado, meus senhores. Sempre lhe estava com uma gana!...

E agarrou sofregamente o copo, levando-o aos beiços com precipitação. Mas logo se desgostou, escarrando de enjoado, como se lhe tivessem ministrado droga nauseabunda. Entornou o líquido todo na cama. Seria capaz de o atirar à cara das pessoas presentes, se não fora o respeito e consideração que todas lhe mereciam.

- Mas isto não se faz, é uma brincadeira embirrenta!

Haviam-lhe oferecido genebra e enganaram-no dando-lhe essa coisa reles chamada água queixava-se. Levara-a à boca, porque acreditara na seriedade dos cavalheiros que via diante de si. Água! Porcaria! Era uma dor de cólica certa, logo que a bebesse. Sempre lhe fizera mal.

- Uma gota de genebra, uma só gota para matar a sede! - pedia com as mãos erguidas.

- Que lhes parece! - disse o professor para os discípulos. - Acha pouca a que tem bebido lá fora.

Depois de concluído o exame do doente, o facultativo dirigiu-se a Joaquim Neves:

- Foi você que trouxe cá a doente?

- Sim, meu senhor.